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Crítica aos

Integracionistas Atuais

D a v i d Po w l i s o n 1
O aconselhamento bíblico alicerça-se são consideradas como substancialmente
na confiança de que Deus falou de modo deficientes para promover entendimento a
abrangente sobre o homem e ao homem. Sua respeito dos problemas do homem e pos-
Palavra ensina a verdade. O Espírito Santo sibilitar sua mudança. A igreja, portanto,
capacita para o ministério efetivo e amo- necessita absorver de forma sistemática
roso. Nossa vocação, em sentido positivo, elementos fundamentais das ciências sociais
constitui-se em buscar e promover a verdade para conhecer a verdade e estar capacitada
e os métodos bíblicos no aconselhamento. para um ministério efetivo e amoroso na
Como aplicação desta vocação, em dimensão área de aconselhamento. Integracionistas
secundária, os conselheiros bíblicos têm feito pretendem trazer para a igreja o conteúdo
uma oposição consistente ao movimento intelectual e as práticas psicoterapêuticas
“integracionista”. da psicologia, guardando uma consistência
Os integracionistas tentam casar a com a fé bíblica.
psicologia secular com o cristianismo con- Por outro lado, os conselheiros bíblicos
servador porque acreditam que as Escritu- têm reivindicado que o produto importado
ras não são abrangentes o suficiente. Elas da psicologia prejudica consistentemente a fé

1
Tradução e adaptação de Critiquing Moder n muito; certamente devemos aprender. A resposta
Integrationists. Publicado originalmente em The Journal o surpreende, não é? Se for assim, você tem sido
of Biblical Counseling. Glenside, Pa., v. 11, n. 3, Spring levado a acreditar, sem dúvida, que os conselheiros
1993. p. 24-34. bíblicos são obscurantistas que nada vêem de bom
Sobre o relacionamento com a psicologia, veja Jay na psicologia.” Adams prossegue esclarecendo
Adams em What About Nouthetical Counseling? Grand aquilo a que ele se opõem, o que aceita, e o porquê.
Rapids, Mich.: Backer, 1976. p. 31. À pergunta: “Você Veja também as páginas finais do artigo de Adams
não acha que podemos aprender alguma coisa com os Counseling and the Sovereignty of God em The Journal of
psicólogos?”, ele responde: “Sim, podemos aprender Biblical Counseling, v. 11, n. 2, Winter 1993, p. 4-9.

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1 89


bíblica e o ministério2. Não queremos dizer da Christian Association for Psychological
com isso que se deve ignorar ou descartar Studies (CAPS). A fundação da Fuller Gra-
as várias psicologias seculares. Mas quando duate School of Psychology, na metade da
olhamos para a psicologia, não podemos década de 60, foi o ponto culminante desta
deixar de considerar seriamente a capacidade fase inicial.
de infiltração das pressuposições seculares e a
nocividade de seus conceitos. Por esta razão, 2. Fase profissional
a possível utilidade da psicologia secular deve Durante os 25 anos seguintes, em
ser avaliada com cuidado. Integracionistas, parte como reação à crítica de Jay Adams,
no entanto, não são suficientemente cuida- o movimento integracionista consolidou-se
dosos, e importam da psicologia enganos intelectual e institucionalmente. Seus líde-
fundamentais, cooperando para tornar ainda res alcançaram posições de influência por
mais intensa a “psicologização” da vida hu- meio de textos publicados e de afiliações
mana, em lugar de curá-la. institucionais.
A intenção deste artigo é criticar o As instituições de destaque que de-
estado atual do pensamento e da prática senvolveram e divulgaram o pensamento
integracionistas. Antes porém, daremos e as práticas integracionistas foram: Fuller
um breve pano de fundo histórico. O mo- Graduate School of Psychology; Rosemead
vimento integracionista desenvolveu-se em School of Professional Psychology e The Jour-
três fases3. nal of Psychology and Theology; CAPS e The
Journal of Christianity and Psychology; Ame-
1. Fase preliminar rican Association of Christian Counselors e
O surgimento do movimento “inte- The Christian Journal of Psychology and Coun-
gracionista” entre os cristãos que declaram seling; departamentos integracionistas em se-
sua fé na Bíblia data da década de 50 com minários e faculdades cristãs como Wheaton
destaque para Clyde Narramore e a fundação College, Dallas Seminary, Trinity Evangelical
Divinity School e Liberty U­niversity; insti-
2
Esta parte do artigo é um resumo do capítulo tuições como Minirth Meier Clinics, Rapha
Integração ou Inundação, publicado no livro de Michael e Focus on the Family.
Horton (ed.) Religião de Poder (São Paulo: Cultura Destacaram-se como líderes do movi-
Cristã, 1999). Para ampliar o conhecimento a respeito mento integracionista: Clyde Narramore,
do relacionamento entre o aconselhamento bíblico e
H. Newton Maloney, Paul Tournier, Bruce
os psicólogos cristãos integracionistas, veja o artigo de
Jay Adams Reflections on the History of Biblical Counseling Narramore, John Carter, Harold Hellens,
em Practical Theology and the Ministry of the Church, 1952- Gary Collins, Larry Crabb, Frank M­inirth
1984: Essays in Honor of Edmund P. Clowney, editado e Paul Meier, James Dobson, Vernon
por Harvie Conn (Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Grounds, David Seamands, Robert Schuller
Reformed, 1990). Como leitura complementar veja E.
Brook Holifield. A History of Pastoral Care in America: e Robert McGee.
from Salvation to Self-Realization (Nashville: Abington,
1983). O subtítulo de Holifield já fala por si. Ele 3. Fase popular
termina sua narrativa por volta de 1960; o movimento Em meados da década de 80, o pensa-
integracionista nas igrejas conservadoras de lá para
mento integracionista ultrapassou os limites
cá é uma ilustração adicional da tese de Holifield. O
aconselhamento bíblico é um movimento que rema das instituições educacionais e da psicotera-
contra a maré. pia profissional. A psicologia popular entrou

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nas igrejas evangélicas por meio dos movi- 1. “O Mercado das Pulgas”: o
mentos de cura interior (“co-dependentes, integracionismo caótico
famílias disfuncionais, 12 passos de recupe- Esse é o integracionismo vendido nas
ração de Alcoólatras Anônimos, grupos de ruas, que salta das prateleiras das livrarias
apoio”) e cura de memórias, bem como pela para as mãos e o coração de crentes que
contribuição de vários autores populares. estão à procura de algo que possa ajudá-los
Com frequência crescente, o púlpito e os a solucionar os problemas da vida. Entre os
membros das igrejas, bem como as editoras muitos que poderiam ser citados, damos
evangélicas, começaram a falar uma mesma alguns exemplos:
linguagem psicológica para explicar a expe- ŠŠFrank Minirth, Paul Meier e Robert
riência humana e solucionar os problemas Hemfelt - Love is a Choise: Recovery
da vida. A intenção declarada dos integra- for Codependent Relationships (Amor
cionistas assumidos é tomar emprestado da É uma Escolha: Recuperação para Co-
psicologia teorias e práticas para serem en- dependentes)
tretecidas com a fé cristã. Os integracionistas
disfarçados ou despercebidos não declaram ŠŠDavid Seamands - Cura para os Trau-
esta intenção, simplesmente efetuam o em- mas Emocionais
préstimo. O resultado é que o erro secular ŠŠRobert Schuller - Self-Esteem: The
anula a verdade bíblica, gerando sistemas de New Reformation (Auto-estima: a
aconselhamento controlados por conceitos Nova Reforma)
falsos sobre a natureza humana, a obra de
Cristo e o processo de mudança. ŠŠWilliam Backus e Marie Chapian - Fale
a Verdade Consigo Mesmo.3

Integracionistas a­tuais O que está no centro do coração


Qual o estado atual do integracionis- do homem?
mo? O movimento integracionista não está Aqui está uma amostra das respostas
estático nem monolítico. Embora haja temas oferecidas no Mercado das Pulgas:
recorrentes, temos visto com frequência ên-
fases e correntes divergentes e conflitantes. É ŠŠMinirth, Meier e Hemfelt: necessidade
possível identificar três correntes principais. legítima de ser amado, fome de amor, e
Dentro de cada uma delas, podem-se desta-
car duas questões cruciais ao redor das quais
os temas gravitam. Em primeiro lugar está MINIRTH, Frank, MEIER, Paul, HEMFELT,
3

Robert. Love is a choise: recovery for codependent relationships.


a pergunta: o que está no centro do coração Nashville: Thomas Nelson, 1989.
do homem? ou qual a natureza do homem
SEAMANDS, Davi A. Cura para os traumas emocionais.
(antropologia)? E em segundo lugar, como Venda Nova, MG: Betânia, 1984.
sabemos o que de fato é verdadeiro? ou qual SCHULLER, Robert. Self-esteem: the new reformation.
o conceito de conhecimento (epistemolo- Waco, Tex.: Word, 1982.
gia), especialmente no que diz respeito à BACKUS, William, CHAPIAN, Marie. Fale a verdade
psicologia secular? consigo mesmo. Venda Nova, MG: Betânia, 1989.

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um recipiente vazio de amor, resultante critério para estabelecer a verdade é uma
do fracasso de outros em nos amar (p. versão descuidada de “cada um faz o que
ex. p. 33-40); parece certo aos próprios olhos”. Não há
uma tentativa de pensar sistematicamente a
ŠŠSeamands: a necessidade de sentir-se
respeito do ser humano, com uma exegese
bem consigo mesmo, o coração como
cuidadosa, de modo a extrair a verdade das
um depósito de feridas reprimidas e
Escrituras (exegese), em lugar de acrescentar
privações (p. ex. p. 48-54, 60, 138).
às Escrituras (eisegese).
ŠŠSchuller: uma necessidade não preen-
chida de autoestima é base para todo 2. O “Grande Guarda-Chuva”:
o comportamento humano; amor pró- o integracionismo sofisticado
prio, dignidade, valor pessoal e auto- Esse é o integracionismo altamente
estima constituem a mais profunda refinado, que articula a perspicácia inte-
necessidade do ser humano; o pecado lectual da filosofia integracionista. Vamos
principal é a falta de autoestima; em descrevê-lo, portanto, em maiores detalhes.
seu nível mais profundo, pecado é a É o integracionismo das faculdades cristãs
rejeição de si mesmo e o abuso psico- de psicologia. Ele busca apropriar-se das
lógico auto-imposto, que resulta em teorias da psicologia secular e avaliá-las de
pecados exteriorizados (p. ex. p. 15, maneira eclética sob a orientação de “crenças
33ss, 98ss.). reguladoras” cristãs. O Grande Guarda-
Chuva integra tudo - de Freud a Skinner,
ŠŠBackus e Chapian: a necessidade de
do exorcismo à cura de memórias, de Carl
sentir-se bem consigo mesmo, de ser
Rogers a Jay Adams, da criança interior ao
feliz, de sentir-se amado e importante
arrependimento do pecado.
(p. ex. p. 9ss, 40, 51, 109, 111).
O integracionismo sofisticado tende
Em cada um dos casos, alguma va- a ser um crítico da psicologia popular do
riante do “coração necessitado e/ou ferido” Mercado das Pulgas. Por exemplo, Stanton
é base para a teoria. A necessidade de amor Jones e Richard Butman escrevem: “Muito
e de autoestima predomina na literatura do do que se passa por integração nos dias de
Mercado das Pulgas. Pecado e tristeza são hoje é anêmico bíblica ou teologicamente
consequências secundárias de necessidades e tende a ser pouco mais que uma versão
profundas não satisfeitas. espiritualizada do pensamento típico da
área da saúde mental” e “o integracionis-
Como conhecemos a verdade? mo cristão tem merecido muito da crítica
Cada um dos livros acima menciona- recebida por parte daqueles que apedrejam
dos constitui-se em uma mistura eclética de a psicologia”.4
experiências pessoais, elementos colhidos Um desdobramento impressionante
em várias psicologias, e versículos bíblicos dentro do integracionismo moderno e
tomados ao acaso (quase que invariavel- sofisticado é que ele procura abraçar Jay
mente usados de forma não correta). O Adams debaixo do Grande Guarda-Chuva.
4
JONES, Stanton, BUTMAN, Richard. Modern
psychoterapies: a comprehensive Christian appraisal. Downers
Grove, Ill.: InterVarsity, 1991. p. 411 e 29ss.

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O integracionismo acadêmico não tem para psicólogos e filósofos com frequência
com Adams a hostilidade que caracterizou chamam de self” (p. 46).
o integracionismo da década de 70. Ele
ŠŠTan: anseios psicológicos e espirituais
acredita ter domesticado a mensagem “radi-
ou necessidade de significado, amor e
calmente bíblica”, assimilando Adams como
esperança (p. 34-37, 50ss).
uma contribuição a mais em sua mistura
eclética. Por exemplo, o sistema de aconse- Uma variedade de teorias da necessida-
lhamento para leigos de Siang-Yang Tan é de está na base de seu entendimento sobre a
um sincretismo de Jay Adams, Larry Crabb motivação humana, embora o egocentrismo
e Gary Collins. Dois exemplos de literatura não seja proclamado de modo descarado
recente do Grande Guarda-Chuva são: como no Mercado das Pulgas.
ŠŠStanton Jones & Richard Butman - Há diferenças entre Tan e Jones &
Modern Psychoterapies: A Comprehen- Butman. Tan tem uma afinidade declarada
sive Christian Appraisal (Psicoterapias com a visão de coração desenvolvida por
Atuais: uma Avaliação Cristã Abran- Larry Crabb. Quanto a Jones & Butman,
gente). destacamos aqui dois aspectos esclarecedores
de seu conceito de motivação humana.
ŠŠSiang-Yang Tan - Lay Counseling: Equi-
Em primeiro lugar, o comentário “A
pping Christian for a Helping Ministry.
Bíblia não fala muito a respeito da motivação
(Aconselhamento Leigo: Equipando os
humana” surpreende. Como alguém pode
Crentes para um Ministério de Ajuda)5
dizer isso? A Bíblia que temos em mãos trata
da motivação humana de modo fundamental
O que está no centro do coração e amplo. Como é possível Jones & Butman
do homem? não verem nas Escrituras nada que diga
Esta é a maneira como os autores acima respeito à questão da motivação humana?
citados apresentam as questões essenciais da O que eles procuram - e não encontram na
natureza humana: Bíblia - é a espécie de definição de motivação
ŠŠJones & Butman: “a Bíblia não diz que a psicologia secular adota, definindo
muito a respeito da motivação huma- listas de impulsos, necessidades ou desejos
na”, mas podemos ver em Gênesis 2 centrais motivadores sem levar em conta o
que o homem tem necessidades fun- relacionamento do homem com Deus. O que
damentais de exercer uma atividade se procura é definir a natureza humana com
com propósito e de relacionar-se de relação ao próprio homem e não a Deus;
modo amoroso com outros (p. 47- analisar o coração em si mesmo e não com
49). “Biblicamente, coração é o que os relação a Deus. Exemplos de abordagens a
respeito da motivação humana que poderiam
preencher os critérios de Jones & Butman
quanto a “falar mais” seriam a hierarquia de
5
JONES, Stanton, BUTMAN, Richard. Modern necessidades de Maslow, a distinção com-
psychoterapies: a comprehensive Christian appraisal. Downers
Grove, Ill.: InterVarsity, 1991.
portamental entre estímulos primários e
TAN, Siang-Yang. Lay counseling: equipping Christian
secundários, as definições freudianas de Eros
for a helping ministry. Grand Rapids, Mich.: e Tanatos e os conflitos entre ego e superego.
Zondervan, 1991. A Bíblia não fala muito sobre motivação hu-

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mana conforme Jones & Butman imaginam, Cada uma destas esferas da atividade
pois Deus define as questões do coração à luz humana encontra ilustrações abundantes
do relacionamento do homem com Ele. na Bíblia. Todavia, listá-las ou priorizá-las
Jones & Butman definem “a ação” da torna-se relativamente incoerente para o
motivação humana como uma necessidade entendimento da motivação humana. As
de exercer atividade que confira propósito Escrituras subordinam tudo a uma cate-
e de manter relacionamento amoroso com goria principal de motivação: o homem
outros. Cremos que estas coisas são melhor é uma criatura religiosa que adora, serve,
entendidas quando consideradas como esfe- ama, espera em, busca, confia em, teme...
ras autoevidentes da atividade humana. Cer- alguma coisa - seja Deus ou um substituto
tamente os seres humanos operam dentro de para Deus. Desta forma, há um divisor no
relacionamentos interpessoais e realizações que diz respeito à natureza social do homem:
produtivas. Isso é um truísmo, não uma as pessoas estão comprometidas com serem
verdade significativa para dar direção a um amadas ou com amar. Há um divisor no que
sistema. Jones & Butman não percebem a diz respeito à natureza econômica do ho-
questão de motivação, ou de relacionamento mem: as pessoas estão comprometidas com
com Deus, envolvida nesta e em todas as tirar vantagem financeira ou com praticar
demais esferas do funcionamento humano. gratidão, contentamento e generosidade. Há
Se esferas de atividade são tão importantes, um divisor básico, um divisor religioso, em
por que limitar a lista àquelas que dizem cada esfera. Jones & Butman, à semelhança
respeito ao homem como ser social (que dos psicólogos seculares que modelam para
deseja ser amado) e ser produtivo (que deseja eles a ideia de como deve ser uma teoria da
realizar alguma coisa)? Poderíamos facil- motivação, dão muita atenção ao mosquito
mente adicionar outras esferas de atividade e ignoram o camelo. Para eles, as Escrituras
humana, todas significativas e instintivas. são deficientes no que concerne à motivação
O homem é obviamente um ser somático, humana porque Deus não se preocupou em
continuamente voltado a experimentar a providenciar um catálogo sistemático de
sensação de conforto ou desconforto, dor ou mosquitos!
prazer. O homem é um ser que produz algo Em segundo lugar, como deveríamos
com sentido, que está sempre ordenando e entender o comentário de Jones & Butman
interpretando a vida. O homem é um ser sobre a equivalência do coração mencio-
econômico, orientado para dinheiro e bens nado na Bíblia com o conceito secular
materiais. O homem é um ser político, que de self? Este ponto ilustra bem a fraqueza
se envolve instintivamente com questões de essencial da antropologia e da epistemolo-
poder, autoridade e submissão. O homem é gia integracionistas. Integracionistas vêem
um ser moral, que sempre avalia de acordo sinônimos onde um olhar mais cuidadoso
com critérios de certo ou errado, bom ou revela antônimos. Na antropologia bíblica,
mau. O homem é um ser preocupado com o coração tem a ver como o relacionamento
glória, alerta para questões de status e suces- do homem com Deus ou com falsos deuses
so. O homem é um ser estético, criativo e do mundo, a carne e Satanás. A questão
sensível à beleza, metáforas, ritmo e ordem. essencial do coração é a pergunta: “Quem
O homem é... São muitas as facetas. ou o que me governa? A que vozes eu dou

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ouvido?” Contrariamente ao que Jones & às vezes de teorias e sistemas que seriam caso
Butman afirmam, nem mesmo um só dos contrário incompatíveis, bem como esforçar-
psicólogos ou filósofos aos quais eles se re- se para encontrar elementos válidos em todas
portam entendem “o homem com respeito as doutrinas e teorias e combiná-los em um
a Deus” quando falam do self como o centro todo harmonioso.”6 A integridade daquele
da identidade do homem. Eles entendem o que executa a integração é a principal garan-
homem com relação a si mesmo - uma ideia tia da verdade; a mente e a prática daquele
absolutamente estranha à Bíblia, a não ser que executa a integração é o principal centro
quando se leva em consideração a descrição onde a verdade é forjada. Procedendo desta
que pecadores gostariam de poder dar a seu forma, o Grande Guarda-Chuva nega que
respeito. Devido à própria natureza secular as Escrituras fornecem o “todo harmonioso”
de seu pensamento, os pensadores seculares sobre os seres humanos do ponto de vista de
preferem interpretar o homem como self e Deus - a Verdade.
não como um coração perante Deus. Para Jones & Butman, a exegese não
O conceito de self na filosofia e psi- desempenha papel algum nas trincheiras
cologia seculares não é equivalente ao con- da teoria e da prática do aconselhamento.
ceito bíblico de coração. É um equivalente Aquilo que identificam como crenças cris-
funcional, ou seja, uma falsificação e um tãs reguladoras são generalidades teológicas
substituto. Dizer “O coração de que a Bíblia superficiais e abertas a uma aplicação espe-
fala é o que psicólogos e filósofos frequen- culativa e idiossincrática. Após afirmar o fato
temente chamam de self” equivale a dizer óbvio de que a Bíblia não é uma enciclopédia
“Quimicamente, açúcar é o que as pessoas exaustiva (ela não contém todos os fatos),
em dieta chamam de sacarina”. Não faz sen- eles concluem que a Bíblia é útil apenas de
tido. Trata-se de coisas diferentes. O segundo modo geral:
funciona como substituto e falsificador do Embora a Bíblia nos forneça as res-
primeiro. Por outro lado, faz perfeito sen- postas principais e mais importantes,
tido que nenhum pensador secular veja o bem como o ponto de partida para
arrependimento em Cristo, o novo coração conhecer a condição do ser humano,
e o poder do Espírito Santo como central ela não é um guia suficiente para
para uma mudança significativa, visto que a disciplina do aconselhamento.
sua antropologia proíbe tais respostas e pres- A Bíblia é inspirada e preciosa,
creve outras. Jones & Butman subestimam mas é também uma revelação com
seriamente o efeito noético do pecado nos propósito limitado, cuja principal
sistemas seculares elaborados para descrever, preocupação é religiosa no que diz
explicar e mudar os seres humanos. respeito à apresentação do plano
redentor de Deus para seu povo e
Como conhecemos a verdade? às grandes doutrinas da fé.7
Jones & Butman (capítulo 15) ensinam Palavras bonitas para dizer que a Bíblia
um ecletismo franco, mas declaradamente é deficiente. Eles entendem mal a natureza
“responsável”, que Tan exemplifica (capí-
tulos 3 e 4). “Faz pleno sentido selecionar e 6
JONES, Stanton, BUTMAN, Richard. Op. Cit. p.
combinar de maneira ordeira características 382.
compatíveis provindas de diferentes fontes, 7
Idem, p. 27

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da Palavra de Deus. Enquanto a teologia o que nos impressiona é exatamente a
de Jones & Butman está cheia de amplas amplitude de propósito das Escrituras e a
generalizações, a teologia bíblica prendenos relevância dos seus detalhes. A vida humana
ao exame do detalhes das lutas que caracteri- é essencialmente religiosa nos detalhes de
zam a vida real dos seres humanos. Jones & comportamento, pensamento, emoção e
Butman ignoram aquilo para que a Bíblia é motivação, e as Escrituras são perfeitamen-
verdadeiramente útil quando tratam do su- te aplicáveis a cada um destes aspectos. As
posto ensino de 2 Timóteo 3.16 ss e afirmam grandes doutrinas da fé - e a multidão de
que a Bíblia é apenas um recurso “útil” entre pequenos detalhes também - incluem todas
vários recursos.8 as categorias para o entendimento dos seres
Certamente os conselheiros bíblicos humanos e todas as práticas pastorais que
concordam que a Bíblia não é uma enci- Deus usa para transformar pessoas. Em
clopédia exaustiva. Usamos e buscamos última análise, o “ecletismo responsável” de
informações extrabíblicas continuamente. Jones & Butman é simplesmente uma versão
Colhemos dados de um casal em confli- sofisticada de “cada um faz o que lhe parece
to, por exemplo, buscando ansiosamente reto aos próprios olhos”.
aqueles detalhes extrabíblicos que podem O integracionismo sofisticado procura
acionar o uso da verdade bíblica! Podemos distanciar-se das mercadorias grotescas mas-
comentar: “Guilherme, quando você disse cateadas no Mercado das Pulgas. Mas com
aquelas coisas para Susana em tom irado...”. frequência, um forasteiro “ingênuo” percebe
Não precisamos pedir desculpas por estar com maior clareza as roupas do imperador. É
enfileirando quatro dados não bíblicos (Gui- o caso do sociólogo James Hunter, que anali-
lherme, as coisas ditas, Susana e o tom irado). sa em American Evangelicalism a acomodação
Mas nosso entendimento é diametralmente do evangelicalismo contemporâneo à cultura
oposto ao de Jones & Butman quando dize- moderna.9 Ele compara em seu livro as dife-
mos que as Escrituras não são um catálogo renças entre a psicologização grosseira da fé
exaustivo de fatos sobre todas as pessoas, em evangélica e a psicologização sofisticada:
todo tempo e em todo lugar. Eles diferem no grau de sofisticação.
Nós sabemos - e eles não acreditam - Em certo nível está a psicologização grosseira
que a Bíblia é suficiente em seu conteúdo da linguagem e das ilustrações bíblicas...
como guia para a disciplina do aconselha- Num nível mais elevado, está a síntese do
mento. As Escrituras orientam as perguntas biblicismo com o secularismo ou a psico-
feitas na coleta de dados; elas explicam e logia freudiana... Ainda assim, a diferença
expõem os motivos da ira de Guilherme; elas substancial é superficial, pois o que eles
dão o mapa detalhado para o caminho da todos compartilham é um Cristocentrismo
pacificação. Por exemplo, Tiago 3 e 4, Efésios psicológico...”10
4, Mateus 7 e 18, e Gálatas 5 e 6 falam do
que está acontecendo no relacionamento de 9
HUNTER, James Davison. American evangelicalism:
Guilherme e Susana, e no relacionamento conservative religion and the quandary of modernity.
de cada um deles com Deus. Na verdade, New Brunswick, N.J.: Rutgers University, 1983. Em
especial o capítulo Accommodation: The Domestication of
Belief e, em particular, às p. 91-99.
Idem, p. 26
8 10
Idem, p. 95.

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Ele descreve esta fé psicologizada como gicos Para Desenvolver Relacionamentos
subjetiva, preocupada com o self e a “saúde Saudáveis.13
mental”, hedonista, narcisista e voltada para
as “necessidades” e os sentimentos do ho-
O que está no centro do coração
mem moderno11. A fé psicologizada ensina
do homem?
um tipo de autoexame que se afasta de como
Crabb tem a seu favor o fato de ser
os protestantes tradicionalmente sondavam
muito crítico para com o integracionis-
suas vidas motivados por uma preocupação
mo descuidado do Mercado das Pulgas e
primordial com “o domínio do pecado na
também o integracionismo cuidadoso do
vida do homem e o processo de mortificação
Grande Guarda-Chuva. Mas é difícil ignorar
e santificação”12. Apesar de todas as dife-
a existência de um paralelo entre Crabb e os
renças declaradas entre o integracionismo
demais integracionistas.
caótico e o sofisticado, eles possuem em
A explicação que Crabb oferece para a
comum alguns pontos essenciais: (1) uma
motivação humana pressupõe necessidades
visão antropocêntrica daquilo que constitui
ou anseios por amor e por realizações signi-
o âmago do ser humano, e (2) um abraçar
ficativas. Exigências idólatras e estratégias de
sistemático das “riquezas” da psicologia secu-
vida pecaminosas são reações secundárias e
lar devido à inadequação das Escrituras para
compensações, maneiras erradas de buscar o
promover auto-entendimento e mudança
suprimento destas necessidades.
significativos. Logicamente, eles também
A teoria de Crabb sobre necessidades
compartilham um terceiro ponto básico:
não é portadora do egocentrismo declarado
uma versão revisada do evangelho que faz de
do Mercado das Pulgas. Mas seu sistema
Cristo um servo das necessidades emocionais
ainda gira ao redor da experiência humana
e psicológicas do ser humano.
de anseios ou sofrimento. O coração neces-
sitado, ferido, cheio de anseios do “círculo
3. “Boas intenções, apesar de pessoal” de Crabb tem prioridade sobre o
tudo”: o integracionismo pecado. A perspectiva bíblica a respeito do
encoberto coração caminha em direção oposta: a vida
Este é um integracionismo aparente- gira em torno do nosso relacionamento
mente involuntário - ele reivindica opor- com Deus ou com falsos deuses, não ao
se à psicologia e trabalhar em categorias redor de necessidades idólatras sentidas por
bíblicas. Mas as categorias da psicologia pecadores.
acabam escorregando para os fundamentos
do modelo de aconselhamento bíblico. O Como conhecemos a verdade?
exemplo principal é: Para Crabb, a exegese das Escrituras é
reconhecidamente o ponto de partida.14
ŠŠLarry Crabb - Como Compreender as As categorias bíblicas são suficientes
Pessoas: Fundamentos Bíblicos e Psicoló- para responder às perguntas do conselheiro...

13
CRABB, Lawrence Jr. Como compreender as pessoas:
fundamentos bíblicos e psicológicos para desenvolver
Idem, p. 99.
11
relacionamentos saudáveis. São Paulo: Vida, 1998.
Idem, p. 94
12 14
Idem, p. 65ss.

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1 97


[Nossa tarefa] é pensar sobre a vida dentro da natureza humana e uma epistemologia
das categorias que as Escrituras fornecem. A funcional defeituosa. Para os integracionis-
autoridade para nosso pensamento depende tas, o pecado nunca é a questão específica
de em que grau ele brota das categorias bíbli- que está na base dos problemas da vida.
cas claramente ensinadas.15 Essas afirmações E as categorias que emergem da exegese
podem ser assinadas por qualquer conse- cuidadosa das Escrituras nunca são as cate-
lheiro bíblico. gorias significativas para entender e ajudar
Na verdade, de onde Crabb extrai as as pessoas.
categorias que moldam o seu sistema? As
Escrituras não trazem o conceito de Crabb 1. “O que está no centro do
sobre “anseios profundos/necessidade de coração do homem?”: a questão
relacionamento e impacto”, nem o Jesus que da antropologia
Crabb apresenta como vindo ao nosso en- Biblicamente, o coração do homem é
contro em primeiro lugar como um supridor o cadinho onde o Primeiro Grande Manda-
de necessidades, nem sua análise reducionista mento é testado: você ama, teme, serve, ouve
da psique em quatro círculos - emocional, e confia em Deus? Ou você ama, teme, serve,
volitivo, racional e pessoal, nem mesmo sua ouve e confia em ídolos, em si mesmo, em
distinção entre anseios casuais, críticos e cru- outras pessoas, no desempenho, nas riquezas,
ciais, ou ainda sua definição de feminilidade em Satanás e em desejos descontrolados (de
e masculinidade ontológicas. Essas ideias são amor, importância, autoestima, controle,
o carro-chefe e a característica distintiva do entre uma multidão de outras coisas)? Em
sistema de Crabb. Ao mesmo tempo são uma outras palavras, a lei de Deus atinge as ques-
negação explícita dos alvos estabelecidos por tões mais profundas da vida do homem, e
Crabb. Elas são exegética e teologicamente não com teorias que voam nas alturas, mas
insustentáveis. “Cada um fazia o que achava com os pés no chão do cotidiano: compor-
mais reto”. Boas intenções não são cercas de tamento, pensamento, emoções, prioridades,
proteção contra os efeitos noéticos do pecado relacionamentos, atitudes, consciência,
nos sistemas de pensamento. desejos e tudo mais.
J. C. Ryle comenta com perspicácia:
A crítica fundamental: Há muito poucos erros e doutrinas
o que une estas formas falsas cujo início não se reporta a
aparentemente diferentes de uma visão incorreta da corrupção da
integracionismo? natureza humana. Perspectivas er-
Tanto o Grande Guarda-Chuva como radas quanto a uma doença sempre
Boas Intenções Apesar de Tudo odeiam os trazem consigo perspectivas erradas
excessos do Mercado das Pulgas e procuram quanto ao remédio. Perspectivas
manter distância tanto de uma teologia erradas quanto à corrupção da natu-
visivelmente ruim como do uso descuidado reza humana sempre trazem consigo
da psicologia. Mas em última análise, todo perspectivas erradas quanto ao antí-
integracionismo revela uma visão defeituosa doto e cura de tal corrupção.
É impressionante como as três formas
de integracionismo - caótico, sofisticado e
Idem, p. 78. Ênfase do autor.
15
encoberto - unem-se no definir sua visão do

98 Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1


âmago do homem. Apesar de suas diferen- mentos errados. Os conselheiros bíblicos têm
ças, todas elas estão centradas no homem. muitas falhas. Mas creio que pela graça de
Os integracionistas sistematicamente fazem Deus costumamos estar fundamentalmente
das necessidades e desejos do homem algo certos e ocasionalmente errados, loucos ou
fundamental. Eles nomeiam certas formas de cegos. Que Deus possa dispor nosso cora-
cobiça da carne como “necessidades”. Desta ção para avaliar o que temos feito, e para ir
forma, apresentam teorias sobre necessidades adiante, arrependendo-nos de nosso pecado
em lugar de teorias sobre o pecado, e focali- e crescendo em sabedoria. Por outro lado,
zam a atenção em supostas necessidades bá- os integracionistas costumam estar funda-
sicas de receber amor, sentir-se bem consigo mentalmente errados e, pela graça de Deus,
mesmo ou realizar algo de valor. Segundo a ocasionalmente certos, sábios e percepti-
lógica de cada uma dessas teorias, o coração vos. Esta diferença é tremenda. Que Deus
humano é fundamentalmente bom, mas possa lhes conceder um coração disposto a
devido ao caminho árduo no mundo caído, deixar-se dissuadir de um erro fundamental
os corações tornam-se vazios, necessitados, e destrutivo.
cheios de anseios e feridos.
Em sua profissão de fé cristã, todos os 2. “Como conhecermos a verda-
integracionistas concordam que o pecado de?”: a questão da epistemologia
é um fato. Todos professam acreditar na As Escrituras são amplamente sufi-
responsabilidade humana. Ao longo do cientes para entender os aspectos da natureza
caminho, acidentalmente, alguns fazem humana e os processos de mudança que são
comentários que são sábios e perceptivos. essenciais para um aconselhamento sábio e
(Naturalmente, estas “felizes inconsistências” efetivo.
são mais frequentes em alguns do que em É impressionante como as três formas
outros). de integracionismo - caótico, sofisticado e
Todos professam crer em Marcos encoberto - unem-se também na maneira
7.21-23: “ Porque de dentro, do coração dos como constroem suas ideias básicas. Apesar
homens, é que procedem...”, mas a lógica de de suas diferenças, cada um dos modelos
um sistema psicologizado define esse coração integracionistas é fundamentalmente eclé-
de tal modo que “de dentro de um coração tico e obstinado no erro, em lugar de ser
ferido, necessitado, legitimamente cheio de exegética e sistematicamente submisso à
anseios é que procedem...”. A RAZÃO FI- Palavra de Deus. Todos são receptivos à
NAL de nossos problemas está logicamente má interpretação do ser humano oferecida
naquelas pessoas que nos prejudicaram, pela psicologia secular. Todos falham em
que não supriram nossas necessidades, que construir um sistema consistentemente
deixaram nossos anseios insatisfeitos. bíblico, e firme exegética e teologicamente.
Nossa ênfase aqui está na lógica do As grandes doutrinas da fé são ignoradas de
ensino integracionista. As “felizes inconsis- modo variável, transigidas, amalgamadas
tências” que encontramos nos trabalhos dos com ideias estranhas a elas. A tendência
escritores integracionistas são questões pela eclética da mente integracionista não anseia
quais Deus pode ser louvado. Mas é difícil por alimento sólido para o corpo de Cristo.
aplaudir autores que tentam com tanta per- Os integracionistas não trabalham na exegese
sistência construir seus sistemas sobre funda- da Palavra; eles impõem suas ideias à Palavra

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1 99


e buscam textos para prová-las, algumas vezes (“Você está sobretudo ofendendo a MIM”)
temerariamente. e as implicações estabelecidas (“Eu tenho o
direito de estar irada com você”) refletem o
Como os conselheiros pecado dela mesma contra Deus. Ela não
bíblicos devem encarar tem ideia de como o evangelho pode mudar a
a psicologia e usá-la? ambos. Ela não tem ideia de como ganhar ou
Depois de criticar o uso da psicologia confrontar o marido de modo piedoso. Seu
pelos integracionistas, o que pode ser dito a esquema de interpretação não inclui Deus -
respeito de como os cristãos fiéis à Palavra ou melhor, coloca o intérprete no lugar de
devem encarar a psicologia? Esta é uma ques- Deus. As implicações de “aconselhamento”
tão crucial, pois a crítica ao integracionismo que ela estabelece servem aos interesses de
emerge de um entendimento positivo de sua autonomia com respeito a Deus. Os
como a Bíblia nos chama a interagir com conselheiros bíblicos viram pelo avesso suas
o erro. Também é uma questão ampla, e observações e preocupações, e as devolvem
desenvolveremos aqui apenas os contornos de ponta-cabeça. A partir daquilo que ela
gerais de uma resposta. disse, aprendemos várias coisas úteis e provo-
As assim chamadas “verdades” da psi- cativas a respeito dela e possivelmente de seu
cologia são análogas à “verdade” que uma marido (pois precisamos verificar). Mas não
esposa descrente irada pode dizer ao amal- aceitamos o seu esquema interpretativo nem
diçoar seu marido crente pecador: “Você se mesmo por um minuto, porque as Escrituras
casou com seu trabalho, não comigo, você é nos dão um conjunto diferente de lentes.
um *%*#! Cada palavra que sai da sua boca À medida que fazem observações,
é cortante e mesquinha. Eu queria que você formulam teorias e as aplicam na prática, os
fosse apenas um pouco amável e compre- psicólogos assemelham-se a esta aconselhada
ensivo comigo e com as crianças.” Será que irada. Eles percebem muitas coisas, mas as
ela disse a “verdade”? Como conselheiros torcem para evitar relacionar com Deus aqui-
bíblicos, respondemos “sim” e “não”, e vamos lo que vêem. A pedra angular da interação
cuidadosamente explicar o que queremos bíblica com a psicologia é o reconhecimento
dizer. da antítese entre a verdade bíblica e a psico-
Essa mulher pode estar tremendamente logia. E contrário ao que se pensa, não foram
certa a respeito de seu marido em determi- os conselheiros bíblicos que deram início a
nados aspectos. Ela vê o cisco que está no esta hostilidade! Os psicólogos opõem-se à
olho (análogo à precisão descritiva de muitas verdade de Deus à medida que expressaram
observações feitas pela psicologia). Mas ela de maneira sistemática o efeito noético de
ignora muitos outros elementos relevantes seu pecado. A priori, a pressuposição de
a respeito da situação (assim como fazem os que eles podem dar explicações corretas a
psicólogos). E suas conclusões são atiradas respeito das pessoas, sem fazer referência a
com erro mortal e necessitam de uma rein- Deus, prendeos ao erro.
terpretação drástica feita por um conselheiro Qual o papel - se é que há algum - que
sábio. Ela nem imagina que aquilo que des- a psicologia deve ter em nosso modelo de
creveu de modo perceptivo é em primeiro aconselhamento? Ela não deve ter papel em
lugar o pecado de seu marido contra Deus. nosso modelo de aconselhamento. Mas as
Muito menos ela sabe que sua explicação observações seculares podem ter um papel

100 Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1


ilustrativo, quando radicalmente reinter- as lentes das Escrituras nos equipam para
pretadas, fornecendo exemplos e detalhes utilizar reinterpretando construtivamente:
que ilustram o modelo bíblico e completam ŠŠas observações daquela aconselhada
nosso conhecimento. Elas podem também irada ou qualquer outro aconselhado
ter um papel provocativo, desafiando-nos a que não esteja pensando biblicamente.
desenvolver nosso modelo em áreas sobre Os conselheiros bíblicos reinterpretam
as quais não temos pensado ou que esta- continuamente os dados que ouvem,
mos negligenciando. Jay Adams faz esta classificando em categorias bíblicas
consideração de modo sucinto em seu livro os detalhes colhidos. Esse trabalho
Conselheiro Capaz. A psicologia pode ser reinterpretativo está no centro tanto da
um “acessório útil” de duas maneiras: (1) tarefa de aconselhar como do processo
“para ilustração, para preencher com dados de crescimento e amadurecimento
específicos as generalizações”; e (2) “para ministerial do conselheiro;
desafiar as interpretações errôneas das Escri-
ŠŠromances em que cobiça, orgulho,
turas, forçando assim o estudioso a reestudar
medo luxúria e muitos outros temas
a Bíblia”.16
são retratados em ação. A ficção de
Fazendo uma retrospectiva dos últi-
qualquer tipo não deve ser lida como
mos quinze anos de The Journal of Pastoral
se tivesse autoridade epistemológica.
Practice, ficamos admirados em ver como os
Mas se as categorias bíblicas estão no
escritores foram consistentes em destacar a
controle, esse material amplia o sorti-
antítese fundamental entre as pressuposições
mento de nossas aplicações bíblicas e
bíblicas e seculares, e em utilizar a psicologia
nos força a pensar sobre coisas em que
e outras fontes seculares atribuindo-lhes
talvez não havíamos pensado antes ou
papel ilustrativo e provocativo.18
a perceber coisas que talvez não havía-
Os papéis ilustrativo e provocativo da
mos percebido;
psicologia não são diferentes dos papéis que
os conselheiros bíblicos sábios atribuem a ŠŠo jornal diário, impregnado de adora-
qualquer outra fonte de conhecimento ex- ção à riqueza, poder político e mentiras
trabíblico. Damos aqui alguns exemplos de sobre o pecado. Os pregadores bíblicos
conhecimento extrabíblico distorcido que podem citar o jornal não porque ele

ADAMS, Jay E. Conselheiro capaz. 4. ed. São Paulo:


16
as crítica de Szasz e Mowrer à psiquiatria— serve
Fiel, 1984. P.18. como adjunto à crítica normativa das pressuposições
Compare com outros escritos de Adams: O Manual seculares a partir das Escrituras. O fato de que algumas
do conselheiro cristão. São Paulo: Fiel, 1982. p. 76-101; pessoas no mundo secular percebem que certas
Counseling and the sovereignty of God, e Integration em teorias seculares não são verdadeiras e que certas
The Journal of Pastoral Practice, v. 1, n.1, 1983, p. 3-7, práticas seculares não são de ajuda ilustra e fortalece
inseridos em How to help people change. Grand Rapids, nossa crítica. Entre os críticos da psicologia, Martin e
Mich.: Zondervan, 1986. p. 33-40. Deidre Bobgans são aqueles que com maior frequência
usam as críticas da própria psicologia como aliadas
18
Adams e outros conselheiros bíblicos também ilustrativas. Eles frequentemente coletam dados de
usaram a psicologia de uma terceira maneira: como pesquisa feita por psicólogos seculares e os usam
aliada na batalha. A crítica que um psicólogo faz ao como prova para desmascarar as psicologias que os
outro, dentro do próprio campo profissional—p. ex. cristãos estão bebendo.

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1 101


tenha autoridade, mas porque ilustra a “Aqui está um aspecto da ira que eu nunca
verdade bíblica e pode nos fazer parar havia visto antes.” Cada uma delas pode nos
para pensar em coisas que nunca haví- provocar a pensar biblicamente a respeito
amos considerado antes; de algo que não havíamos considerado com
atenção: “Como encarar este problema ou
ŠŠa pesquisa médica a respeito das doen-
ajudar esta pessoa?”. Uma vez desmascara-
ças psicossomáticas e sua ocorrência.
dos em suas pretensões de conhecimento
Não compramos suas categorias, mas
especializado ou “ciência”, os psicólogos
podemos considerar - e reinterpretar
têm a mesma percepção distorcida e irreal
- suas observações como ilustrações
de qualquer outro grupo de pecadores. Eles
do relacionamento “fisiológico-espi-
podem talvez fazer um trabalho empírico de
ritual”;
observação que não precisamos repetir, mas
ŠŠsociologia, história, arqueologia, antro- que devemos reinterpretar radicalmente de
pologia comparada etc. Assim como faz acordo com a verdade bíblica. Esse trabalho
com a psicologia, o cristão bíblico não reinterpretativo - seja ele feito no escritório
aceita que estas disciplinas estabeleçam de aconselhamento, a sós ou durante a leitura
normas. Esses estudos sobre a vida do - é uma extensão lógica do ato de perceber as
ser humano - quando explicitamente antíteses entre a verdade bíblica e as teorias
baseados em pressuposições bíblicas ou seculares. O que psicólogos - e aconselha-
quando consistentemente reinterpreta- dos, romancistas, médicos e outros - estão
dos pelas lentes de pressuposições bíbli- realmente enxergando?19
cas - podem ser usados para descrever Vamos dar um último exemplo. A
determinadas pessoas em determinada utilidade das observações da psicologia não
época.18 é diferente da possível “utilidade” da leitura
de um romance como Fogueira das Vaidades
ŠŠauto-conhecimento de meus pecados
de Thomas Wolfe. Wolfe retrata em ação
e tentações. Minha aplicação pessoal
alguns pecados e idolatrias próprios do ser
de 1 Coríntios 10.12,13 não cria uma
humano (coisas que conheço pela Bíblia),
verdade, mas ilustra, explica em por-
dando-lhes uma cor e detalhes típicos de
menores, e personaliza a verdade.
“Nova Iorque dos anos 80” (coisas que eu
Nenhuma dessas fontes acrescenta algo não conhecia previamente, por não viver em
ao modelo bíblico da natureza humana e
ao aconselhamento. Cada uma delas ilustra
em detalhes exuberantes, intencionalmente 19
Para um retrato mais completo de como as
ou não, o modelo bíblico do ser humano: pressuposições bíblicas nos constrangem a ver
as antíteses e capacitam para um trabalho de
reinterpretação, consulte Jay E. Adams em O manual
do conselheiro cristão. São Paulo: Fiel, 1982. P. 76-101.
18
Para uma discussão da utilidade descritiva da Para exemplos específicos de reinterpretação de
sociologia quando subordinada às pressuposições observações seculares, veja os seguintes artigos de
bíblicas, consulte os livros de Jay Adams More than David Powlison: Human defensiveness: the third way em
redemption: a theology of Christian counseling. Phillipsburg, The Journal of Pastoral Practice, v. 8, n.1, 1985, p. 40-55;
NJ Presbyterian & Reformed, 1979. p. 101; Consulte também o livro de David Powlison Ídolos do
Communicating with 20th century man. Phillipsburg, NJ: coração e Feira das Vaidades. Brasília: Refúgio, 1996, e o
Presbyterian & Reformed, 1979. p. 33. artigo nesta coletânea Como você se sente? .

102 Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1


Nova Iorque). Será que Fogueira das Vaidades estilos de vida e como eles se desenvolvem.
“ajuda-me” a aconselhar alguém da sociedade Com frequência, no aconselhamento ou
nova-iorquina? Pessoalmente, já me ajudou. durante a leitura - e até no aconselhar a nós
Não porque aceitei o esquema interpretativo mesmos! - precisamos dar passos reinterpre-
de Thomas Wolfe ou saboreei aquilo que tativos que viram todos os dados pelo avesso
ele descreveu, mas porque o modelo bíblico e os devolvem de ponta-cabeça21.
prontamente explicou as observações que ele Os conselheiros bíblicos que falham
fez a respeito das pessoas. na compreensão cuidadosa da natureza da
Os conselheiros bíblicos enfrentam um epistemologia bíblica correm o risco de atuar
desafio duplo: reter fielmente as categorias como se as Escrituras fossem exaustivas,
da verdade bíblica e crescer na perspicácia e não abrangentes; como se as Escrituras
aplicativa aos diferentes seres humanos. Jay fossem um catálogo enciclopédico de todos
Adams fala disso da seguinte maneira: os fatos significativos, e não a revelação di-
Por conseguinte, o pecado, em todas as vina de fatos cruciais, ricamente ilustrados,
suas dimensões, é evidentemente o problema que produzem uma cosmovisão suficiente
com que o conselheiro cristão se vê a braços. para interpretar quaisquer outros fatos que
As dimensões secundárias - as variações do encontramos; como se as Escrituras fossem
tema comum - é que tornam o aconse- um conjunto de elementos isolados, e não
lhamento algo tão difícil. Apesar de todos a lente pela qual interpretamos todos os
os homens terem nascido pecadores e se elementos. Os integracionistas vêem as
ocuparem das mesmas práticas pecaminosas Escrituras como um pequeno conjunto de
evasivas, cada qual desenvolve o seu próprio elementos e a psicologia como um grande
estilo de pecado. Os estilos (combinações de conjunto de elementos.
pecados e evasões) são peculiaridades de indi- A lógica da epistemologia integracio-
víduo para indivíduo; porém, abaixo desses nista é essa: una os dois conjuntos, elimine
estilos ficam os temas comuns. O trabalho os elementos obviamente ruins da psicologia,
do conselheiro consiste em descobrir esses e você terá um conjunto maior. E esta é a
temas abaixo das individualidades.20 lógica também de pretensos conselheiros bí-
Só a Bíblia nos torna sistematicamente blicos, que acabam vendo as Escrituras como
sábios nos temas comuns da vida humana. um simples conjunto de dados. Na verdade,
Esta sabedoria amadurece e se expressa na sua epistemologia difere da epistemologia
aplicação prática à nossa própria vida, à integracionista apenas em quantidade, não
vida dos aconselhados e àquilo que lemos. em qualidade, e ela conduz a formas absurdas
Cada conselheiro bíblico sábio está engaja- de uso de textos bíblicos para provar ideias
do de modo informal, quando não formal, próprias (“Deve haver aqui um versículo
em uma pesquisa empírica ao longo de sua sobre anorexia em algum lugar”), à substi-
vida. Nesse processo, psicólogos, sociólogos, tuição da sabedoria pastoral por respostas
historiadores, aconselhados, os vizinhos des-
crentes, o jornal e Agatha Christie podem
contribuir para que percebamos os diferentes
21
Se considerarmos desde o início as categorias
bíblicas, não precisaremos usar sempre esse passo
reinterpretativo. O ideal é colhermos dados a respeito
ADAMS, Jay E. O manual do conselheiro cristão. São
20
das pessoas operando desde o início dentro de
Paulo: Fiel, 1982, p. 123. categorias bíblicas.

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1 103


que oferecem encorajamento superficial (“O A suficiência não nos permite descansar
texto de 1 Timóteo 4.3-5 diz para comer na mentalidade de “enciclopédia” ou “con-
com ação de graças; arrependa-se, portanto, cordância”. Tenho encontrado conselheiros
por ter deixado de comer, e siga este plano bíblicos que agem como se um problema
de alimentação”), ou ainda a uma rendição não mencionado na Bíblia não fosse de fato
ao integracionismo diante do fracasso do um problema. Eles falham no apreciar o
aconselhamento (“Talvez a Bíblia não conte- âmbito da suficiência bíblica. Eles falham
nha mesmo todos os elementos; ela é apenas em perceber que tais problemas estão listados
um recurso útil, entre muitos outros, para implicitamente - dentro de “coisas seme-
adquirir alguns elementos”).22 lhantes a estas” e “toda obra do mal”. Eles
As Escrituras nos dão tanto as lentes falham no trabalho de pensar arduamente
(categorias interpretativas verdadeiras) como para demonstrar como os temas comuns da
um amplo número de exemplos concretos. verdade bíblica estão na raiz da complexi-
Mas a Bíblia em nenhum momento preten- dade idiossincrática do pecado humano, da
de fornecer todos os exemplos. Deus quer tristeza, do caos e da confusão.
que nos apropriemos de nossas lentes e nos Também tenho encontrado várias
dediquemos ao trabalho de pensar correta pessoas que no passado foram “conselhei-
e biblicamente a respeito das pessoas. Por ros bíblicos”, mas ficaram desiludidas e se
exemplo, pondere as implicações de Gálatas voltaram para o integracionismo e para as
5.19-21. Paulo lista 15 exemplos representa- “riquezas” da psicologia secular. São pessoas
tivos das obras que a carne quer produzir. Ele cuja epistemologia contém erros graves. A
insere esta lista entre dois comentários que sua epistemologia de “conjunto de fatos”
nos lembram que devemos usar nossas lentes faz a Bíblia prometer mais do que promete
bíblicas, olhar ao redor e reparar em outros (ser uma enciclopédia exaustiva) e também
115 (ou 1015!) exemplos: “Ora, as obras da prometer menos do que promete (ser apenas
carne são conhecidas e são... e coisas seme- uma enciclopédia exaustiva!). Quando seu
lhantes a estas, a respeito das quais eu vos entendimento da Bíblia se mostra insufi-
declaro”. Considere 1 Timóteo 6.10: quais ciente diante do pecado e do sofrimento
as formas específicas e incontáveis de pecado humano, a psicologia penetra na brecha,
que o amor ao dinheiro produz? Considere e a abundância de fatos que ela oferece faz
Tiago 3.16: quais são as variações incontáveis com que teorias e técnicas seculares - seme-
de caos e pecado que surgem quando as pes- lhantes a lentes distorcidas ou a uma “casa
soas estão absorvidas em si, mergulhadas em dos espelhos” - pareçam maravilhosamente
orgulho e exigências pessoais? A suficiência persuasivas.
das Escrituras nos desafia a pensar a fundo Devemos lembrar que a maioria dos
e a observar de perto tanto os indivíduos integracionistas eram anteriormente cristãos
como a cultura. bíblicos conservadores. Durante os anos de
estudo superior, diante de problemas pes-
soais ou deparando-se com os problemas
dos aconselhados, a Bíblia tornou-se repen-
Para uma abordagem que investiga o problema da
22

anorexia usando as lentes bíblicas, veja o artigo de tinamente insuficiente, e rendeu-se diante
Elyse Fitzpatrick Como ajudar mulheres com bulimia em de uma “sabedoria” secular aparentemente
Coletâneas de Aconselhamento Bíblico, v2. melhor. Essa mesma dinâmica continuará

104 Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1


a acontecer entre conselheiros bíblicos construir uma estratégia apropriada para
a menos que definamos precisamente o lidar com seu ouvinte:23
significado da suficiência das Escrituras. A 1. A Bíblia nunca ensina que “baixa
Bíblia é um conjunto de fatos ou é a lente auto-estima” é a questão crucial. Ganhar um
da verdade - incluindo inúmeros fatos autoconhecimento e um conhecimento de
ilustrativos - pela qual Deus corrige nossa Deus biblicamente precisos é crucial.
visão tingida pelo pecado? A habilidade dos 2. A Bíblia nunca ensina que precisa-
conselheiros bíblicos para lidar sabiamente mos amar a nós mesmos. Ela presume que
com seu pecado, aconselhar sabiamente e amamos a nós mesmos desmedidamente e
defender sua posição com firmeza depende estamos absorvidos em nós mesmos (mesmo
desta resposta. quando “odiamos” a nós mesmos). Nossa
necessidade é aprender a amar a Deus e ao
Ministrando a pessoas próximo.24
psicologizadas 3. As categorias usadas por pessoas
Como você pode convencer um inte- psicologizadas são uma miscelânea eclética
gracionista de que há uma maneira melhor absorvida de fontes que ignoram a Deus:
de entender as pessoas e ajudá-las? Normal- Alcoólatras Anônimos, movimento de
mente você vai encontrar dois tipos de inte- recuperação, psicologia psicodinâmica e
gracionistas em sua igreja ou escola: cristãos humanista25.
com problemas e cristãos que querem ajudar Como usar estas três convicções fun-
pessoas com problemas. Em geral, trata-se damentais? Poucas pessoas psicologizadas
mais de integracionistas ingênuos (do tipo ficam convencidas ao receber estas verdades
caótico ou “boas intenções, apesar de tudo”), servidas cruas. Como você pode cozinhá-las,
que de integracionistas filosoficamente com- ornamentar e servir, para aplicar a verdade
prometidos. São cristãos que não pararam em um ministério efetivo?
para pensar sistematicamente a respeito do
que acreditam, e então acumularam um mis-
tura eclética de ideias contraditórias sobre a 23
Consulte o artigo de Jay E. Adams Adaptation through
vida, os problemas e as soluções. Muitos se audience analysis em The Journal of Biblical Counseling v.
11, n. 3, Spring 1993, p. 35-37. Este artigo, juntamente
mostrarão abertos à verdade bíblica. com o livro de Adams Studies in Preaching: Audience
Como você pode ministrar a Palavra adaptation in the sermons and speeches of Paul, apresenta
a essas pessoas? Vamos dar um exemplo. ao ministro da Palavra o desafio de trabalhar e adaptar
Uma pessoa em sua igreja vem ao seu en- a verdade sem acomodá-la.
contro e diz: “Sou codependente, tenho 24
A respeito desses dois primeiros pontos, veja o livro
de Jay E. Adams The biblical view of self-esteem, self-love,
baixa autoestima e preciso aprender a amar
self-image. Eugene, Ore: Harvest, 1986. Veja também
a mim mesmo de verdade devido às profun- os artigos de John Bettler Gaining an accurate self-image,
das feridas que minha família disfuncional partes 1 a 6 em The Journal of Pastoral Practice,
provocou em minha criança interior.” Ou 25
Veja o artigo de Edward Welch Codependency and
então um suposto conselheiro em sua igreja the cult of self no livro de Michael Horton (ed.) Power
expressase a respeito de outra pessoa: “Ele ou religion. Chicago: Moody , 1992. p. 219-243. Consulte
também os livros de William Playfair The useful lie.
ela é codependente...”. Convicções bíblicas Wheaton, Ill. Crossway, 1991, e Martin e Deidre
e alguns fatos históricos lançam um funda- Bobgan 12 Steps for Destruction. Santa Barbara, Calif.:
mento importante sobre o qual você pode East Gate: 1991.

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1 105


Em primeiro lugar, orientado pela cados específicos (Tiago 1.14ss, 3.16): ira,
verdade que você conhece, colha fatos. Você murmuração, medo, ansiedade, autopieda-
não está participando de um debate onde as de, culpar outros, escapismo, manipulação,
ideias são lançadas de modo abstrato. Você bajulação, comportamento tipo “camaleão”,
está conversando com uma pessoa compro- imoralidade... Somente quando o “temor do
metida, pelo menos temporariamente, com Senhor” penetrar é que a sabedoria começará
ideias falsas. Você precisa alcançá-la. Por a se manifestar.
exemplo, “Diga-me o que você entende por O arrependimento inteligente e a hu-
estas palavras com que você acaba de descre- milhação diante de Deus serão possíveis, e a
ver a si mesma. Que experiências específicas, luz penetrará na escuridão. Você encontrará
emoções e pensamentos você tem em mente? uma pessoa que tem absorvido explicações
Quando você se sente “deprimida”? Em que falsas da cultura que a tem enganado e
circunstâncias você “odeia a si mesma?” mantida presa (implicação da convicção
O que você diz a si mesma? O que você 3). A verdade virá como luz e meio de li-
faz ou deixa de fazer porque você se sente bertação: “Agora vejo uma maneira muito
tão “insegura”? Como você se envolve em melhor de entender a mim mesma. Essa
“relacionamentos prejudiciais”? Quando, realidade faz sentido, lá onde aqueles outros
onde e com quem esses relacionamentos rótulos apenas me faziam sentir presa e sem
acontecem? Como é sua família, quais são esperança”.
seus erros, suas crenças e valores, quais os O conselheiro que trabalha sabiamente
modelos?” À medida que você, conselheiro, está capacitado para ajudar uma pessoa con-
mergulhar em meio aos rótulos distorcidos, fusa e indecisa a renovar sua mente, arrepen-
encontrará realidades concretas que podem der-se, e encontrar a luz da verdade, o amor
ser reinterpretadas biblicamente. e a vida. À medida que ele passa a conhecer
Você encontrará, com frequência, uma melhor a pessoa, ganha a habilidade de afiar
pessoa que não sabe que está vivendo peca- as setas da verdade e alvejá-las com precisão
minosamente, que está buscando a aprova- naquela vida, atingindo seus pensamentos
ção humana, seguindo os próprios padrões e abrindo a porta para que o evangelho de
de realização como forma de justiça própria, Cristo possa penetrar. As verdades básicas
tentando controlar as circunstâncias da vida gerais são trabalhadas e aplicadas para expor
para tirar o máximo de vantagem pessoal e à luz convicções falsas específicas, manifesta-
conforto (uma implicação da convicção 1 ções de cobiça e pecados cometidos.
mencionada acima). Terá início, então, um O alvo de uma reinterpretação bíblica
autoconhecimento preciso. A ignorância da experiência humana é o ministério da Pa-
dominante - no sentido bíblico - pode ceder lavra que converte o coração. Podemos dizer
ao verdadeiro conhecimento. algo além de “a psicologia e a psicoterapia
Você encontrará uma pessoa que ama estão sistematicamente erradas”. Podemos
estas coisas que acabamos de descrever, que mostrar exatamente em que elas estão er-
as ama “de todo coração, alma e entendi- radas, e mostrar em detalhes a alternativa
mento”, ou seja, mais que a Deus, além bíblica que desafia e converte.
de amar a si mesma mais que ao próximo Por um lado, os integracionistas não
(uma implicação da convicção 2). Estas enxergam que a recompensa de uma inte-
atitudes e desejos dão origem a vários pe- ração bíblica válida com a psicologia deve

106 Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1


ser a conversão do psicologizado. De outro psicologia popular cristianizada. Algumas
lado, os conselheiros bíblicos que não se formas são mais polidas, acadêmicas e mesmo
dão ao trabalho árduo de reinterpretar o dizem algumas coisas agradáveis sobre seus
erro, atingindo-o em cheio, perdem uma críticos—o Grande Guarda-Chuva do integra-
oportunidade de ministério efetivo. A psi- cionismo teórico. Algumas formas parecem
cologia é para a nossa sociedade o que o harmonizar com a autoridade e suficiência
islamismo é para a sociedade de Marrocos. bíblica—aqueles que com Boas Intenções,
Devemos empunhar a espada evangelística Apesar De Tudo, ainda constroem sistemas
com eficácia. com molde secular. Mas em cada uma de suas
formas, o paradigma integracionista é um
Uma palavra final paradigma não bíblico, tanto para a prática do
Os integracionistas atuais dão con- aconselhamento como para a interação com o
tinuidade ao integracionismo que os mundo da psicologia secular. Os conselheiros
precedeu. Algumas formas são mais bíblicos devem viver a alternativa bíblica e
grotescas—o Mercado das Pulgas da ensiná-la à igreja.

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 1 107