Título: Estrela Errante. Autor: J. M. G. Lê Clézio. Dados da Edição: Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1994, 1ª Edição.

Colecção: "Ficção Universal", Nº 147. Título original: Étoile Errante. Género: Romance. Digitalização: Fernando Jorge Alves correia. Correcção: Ana Medeiros. Estado da Obra: Corrigida. Numeração de Página: Rodapé. Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente à leitura de pessoas portadoras de deficiência visual. Por força da lei de direitos de autor, este ficheiro não pode ser distribuído para outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente. Texto da Contracapa: Esther descobre o que pode significar ser judia em tempo de guerra: após uma adolescência serena, vai conhecer o medo, a humilhação, a fuga pelas montanhas e a morte do pai. Terminada a guerra, Esther parte para o jovem estado de Israel. Mas a Terra Prometida não lhe vai proporcionar a paz: à chegada, terá um encontro com Nedjma, que deixa o seu país com as colunas de palestinianos, rumo aos campos de refugiados. Ester e Nedjma, a judia e a palestiniana, nunca mais deixarão de pensar uma na outra. Estrela Errante é a descrição de uma viagem rumoà consciência de si mesmo. Lê Clézio glorifica as mulheres e denuncia o absurdo da guerra. PUBLICAÇÕES DOM QUIXOTE ISBN 972-20-1188-X J. M. G. LE Clézio ESTRELA ERRANTE O AUTOR J. M. G. Lê Clézio, nascido em Nice no ano de 1940, é considerado um dos mais importantes ficcionistas da nova literatura francesa, tendo até à data publicado cerca de doze livros, entre os quais avultam, além do presente, Lê Procès Verbal, Prêmio Renaudot de 1963, Géants, Lê Ckercheur d'Or e Deserto, este último já editado pelas Publicações Dom Quixote nesta mesma colecção. J. M. G. LÊ CLÉZIO ESTRELA ERRANTE Tradução de Maria do Carmo Abreu PUBLICAÇÕES DOM QUixOTE LISBOA 1994 Biblioteca Nacional Catalogação na Publicação Lê Clézio, Jean-Marie G. 1940 Estrela errante (Ficção Universal; 147) ISBN 972-20-1188-X CDU 821. 133. 1-31 ESTRELA ERRANTE Publicações Dom Quixote, Lda. Rua Luciano Cordeiro, 116-2.

1098 Lisboa Codex - Portugal Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor (c) Éditions Gallimard, 1992 Título original: Étoile Errante 1a edição: Agosto de 1994 Depósito legal n.o 78905/94 Fotocomposição: Espaço 2 Gráfico Impressão e acabamento: Printer Portuguesa ISBN: 972-20-1188-X ÍNDICE Hélène 13 Esther 117 Nejma 179 O filho do sol 239 Elizabeth 269 Às crianças capturadas Estrella errante Amor pasajero Sigue tu camino Por mares tierras Quebra tus cadenas (Canção peruana) HÉLÈNE Saint-Martin-Vésubie, Verão de 1943 Sabia que o Inverno tinha acabado quando ouvia o ruído da água. Durante o Inverno, a neve cobria a aldeia e os telhados das casas e os prados ficavam todos brancos. O gelo formava estalactites nos beirais dos telhados. Depois, o sol começava a brilhar, a neve derretia e a água ia pingando gota a gota de todos os rebordos, de todas as traves, dos ramos das árvores; as gotas juntavam-se e formavam fios de água, os fios de água formavam regatos e a água corria alegremente por todas as ruas da aldeia. Talvez esse som da água fosse a sua mais antiga recordação. Lembrava-se do primeiro Inverno na montanha e da música da água na Primavera. Fora há quanto tempo? Seguia no meio do pai e da mãe pela rua da aldeia, dando-lhes a mão. Um dos braços ia mais esticado do que o outro porque o pai era mais alto. E a água escorria de todos os lados, fazendo aquela música, aquele tilintar, aquele chiar, aquele tamborilar. Sempre que se lembrava disso dava-lhe vontade de rir porque era um som doce e alegre como uma carícia. Nessa altura, ria entre o pai e a mãe e a água das goteiras e do regato respondia-lhe, escorria, saltitava... Agora, com o calor do Verão e o céu de um azul intenso, sentia uma felicidade que lhe inundava o corpo e quase a fazia sentir medo. Adorava particularmente a grande encosta coberta de erva que subia em direcção ao céu logo acima da aldeia. Não ia até lá cima porque diziam que havia víboras. Caminhava uns momentos pela orla do campo apenas para sentir a frescura da terra, encostando os lábios às 15 eles não eram maus como os alemães. Um dia, numa reunião na cozinha da casa de Esther, alguém tinha dito mal dos italianos e o pai zangara-se: "Calem-se! Foram eles que nos salvaram a vida quando o prefeito Ribière deu ordem para nos entregarem aos alemães." Mas quase nunca falava da

guerra nem de todas essas coisas e era raro dizer "os judeus" porque não acreditava na religião e era comunista. Quando o Sr. Seligman tinha querido inscrever Esther na instrução religiosa que as crianças judias freqüentavam todas as tardes na vivenda no cimo da aldeia, o pai tinha recusado. As outras crianças tinham feito troça dela, exclamando mesmo: goi, que quer dizer "paga". Também a tinham chamado "comunista!" Esther tinha andado à bulha com elas. Mas o pai não tinha cedido. Contentarase em comentar: "Não faças caso. Vão-se cansar mais depressa do que tu." Na verdade, os pequenos da aula do Sr. Seligman tinham esquecido e nunca mais a tinham chamado nem "paga" nem "comunista". Aliás, havia outras crianças que não iam à instrução religiosa, como Gasparini ou Tristan, que era meio inglês e cuja mãe era italiana, uma bela morena que usava uns chapéus enormes. Esther gostava muito do Sr. Heinrich Ferne por causa do piano. Vivia no rés-do-chão de uma velha vivenda um pouco escalavrada, do lado de baixo da praça, na rua que descia para o cemitério. Não era propriamente uma casa bonita, podia até considerar-se um tanto sinistra, com o jardim abandonado e invadido pelos acantos e as persianas sempre fechadas. Quando o Sr. Ferne não dava aulas na escola, fechava-se na sua cozinha e tocava piano. Era o único piano da aldeia e talvez não houvesse mesmo outro em nenhuma das aldeias da montanha até Nice e Monte-Carlo. Contava-se que quando os italianos se tinham instalado no hotel, o capitão dos carabineiros, que se chamava Mondoloni e gostava de música, tinha pretendido trazer o piano para a sala de jantar. Mas o Sr. Ferne tinha dito: "Pode levar o piano, com certeza, são vocês os vencedores, mas fique a saber que nunca tocarei lá para vocês." Não tocava para ninguém. Vivia sozinho na sua vivenda a cair de velha e às vezes, à tarde, quando passava, Esther ouvia a música que 18 saía pela porta da cozinha. Era como o ruído dos regatos na Primavera, um som doce, leve, fugidio, que parecia brotar de todos os lados ao mesmo tempo. Esther parava na rua, junto do gradeamento, e ficava a ouvir. Quando acabava, ia-se embora rapidamente para ele não a ver. Um dia tinha falado do piano à mãe e esta contara-lhe que outrora, antes da guerra, o Sr. Ferne tinha sido um pianista célebre em Viena. Dava concertos em salas cheias de senhoras com vestidos de noite e senhores de preto. A quando da sua entrada na Áustria, os alemães tinham metido todos os judeus na prisão; levaram a mulher do Sr. Ferne mas ele conseguira escapar. A partir desse dia, nunca mais tinha querido tocar para ninguém. Quando se tinha instalado na aldeia não havia lá nenhum piano. Conseguira comprar um na costa, mandara-o vir numa camioneta, coberto com toldos e instalara-o na sua cozinha. Agora que sabia tudo aquilo, Esther mal ousava aproximar-se do gradeamento. Ouvia as notas de música, o doce esvoaçar das notas, e parecia-lhe que havia nelas algo de triste que lhe fazia vir as lágrimas aos olhos. Naquela tarde estava calor e tudo parecia adormecido na aldeia. Esther foi até casa do Sr. Ferne. Havia no jardim uma grande amoreira e, oculta por ela, Esther tinha trepado ao muro, agarrando-se às grades. Pela janela da cozinha via a silhueta do Sr. Ferne inclinada sobre o piano. As teclas de marfim brilhavam na penumbra. As notas deslizavam, hesitavam, recomeçavam, como se se tratasse de uma linguagem e o Sr. Ferne não soubesse muito bem por onde começar. Esther olhava com toda a atenção para dentro da cozinha, a ponto de os olhos lhe doerem. Então a música começou realmente, brotou do piano e encheu toda a casa, o jardim e a rua, encheu tudo com a sua força, com a sua ordem, e depois tornou-se suave, misteriosa. Agora saltitava, corria como a água nos

Nunca nada lhe parecera tão importante. As longas mãos do velho corriam sobre as teclas. para sua grande surpresa.Como te chamas? . excepto talvez quando a mãe cantava uma canção ou o pai lhe lia passagens dos seus livros preferidos. A. às nuvens. Tenta. Ferne parou e o silêncio tornou-se pesado. Perguntou: . . De vez em quando o Sr. no entanto. II. Como se fosse natural. Esther tentou imitá-lo e. Pickwick na prisão de Londres ou o encontro de Nicolas Nickleby com o tio. entra. O homem encolheu os ombros. tinha a força da ribeira. como um animal magro e nervoso. misturava-se com a luz. também era triste e a música tornava-se dolente. Depois recomeçou a tocar sem se importar com ela. estava iluminado pela luz. afastava-lhe os dedos. se quebrava. Agora a outra mão. .Muito bem. Nessas histórias as pessoas eram livres.respondeu Esther. par Moszkowski 20 Liszt Klavierwerke. Band IV Bach Englische Suiten. A música nunca lhe tinha parecido tão bela.Gostavas de tocar? Esther fitou-o. E depois.Isso não interessa. A música recomeçava e Esther ouvia atentamente todas as palavras que brotavam. nada que pudesse 19 causar medo ou acabar com a vida. . vol. detinham-se. Seguia-lhe os movimentos com um ar impaciente. ameaçador.Bem. como se conhecesse a pequena. como a entrada do Sr.Eu não sei tocar. Na penumbra. Por momentos tudo se rasgava. Contava histórias engraçadas de que ela não se conseguia recordar. Mozart Czerny Études depetite vélocité. O seu rosto pálido.Estás a ver? É fácil. com as mãos crispadas no gradeamento enferrujado. Sem fazer barulho. 4-6 Voltou-se para Esther: . com uma barbicha de cabra. conseguiu. o piano escuro ofuscava tudo. Tenta os acordes. espantada. Subia a todas as montanhas. Mas tens que trabalhar. entrou na cozinha e aproximou-se do piano. o silêncio. 636 Beethoven Sonaten. vê o que fazem os meus dedos. Esther empurrou o portão e atravessou o jardim. Ferne voltou-se para ela.Hélène . ao lado do piano. o Sr. E.regatos. não havia alemães nem italianos. Talvez possas vir a tocar. Tinha uma maneira estranha de correr com os dedos sobre o teclado. histórias como as dos sonhos. parecia interrogar. Ferne. op. recomeçavam. Esther começou a recuar mas o Sr. Esther ouvia-o de pé. vou ter que te dar lições. Ele . Ferne procurava numa pilha de cadernos papéis com misteriosos nomes escritos. . De repente. ia direita ao céu. Sentou-a no banco a seu lado. Via as teclas de marfim baixarem com precisão sob os dedos nervosos do velho e escutava atentamente cada palavra. Corrigia a posição das mãos de Esther. Esther ouvia a linguagem do Sr. não havia guerra. sem ousar respirar. chegava às nascentes dos dois cursos de água. Sonaten für Pianoforte von W. Agora não falava como professor. .

algures na montanha. As pessoas aproximavam-se para o cumprimentar mas ele falava de tudo menos de música. Tinha escrito as notas num papel branco e queria que ela as cantasse ao mesmo tempo que as tocava. no meio de jardins com frondosos castanheiros. O Sr. trocava algumas palavras com cada um e depois voltava para a sua casa semi-arruinada. A partir desse dia. Vinham pessoas de todas as ruas de Saint-Martin. sem voltar a cabeça. deixa-me em paz!" Mas depois segurava-a por um braço e tocava para ela uma sonata de Mozart. Quando as souberes. Depois.Tens de aprender a ler as notas. Ferne na praça da aldeia. de regresso dos seus encontros. sempre que lhe era possível. os camponeses que tinham voltado da guerra. falando todas aquelas línguas. Esther voltava à tarde. a praça animava-se. Eram pessoas ricas que habitavam em vivendas do outro lado da ribeira. Ouvia o som das vozes. ele sabia que ela ali estava. as mulheres da região. Aquilo demorava tanto tempo que a pequena esquecia tudo. os negociantes de jóias. Ferne mostrava-lhe como devia deixar deslizar os dedos sobre as teclas. o Sr. o sol ocultava-se por trás da montanha e uma espécie de bruma leitosa envolvia a aldeia. as ricas das vivendas e as pobres que viviam em quartos alugados. Via os velhos judeus vestindo longos casacões negros. as raparigas que passeavam em grupos de três sob o olhar dos carabineiros e dos soldados italianos. tricotando com bocados de lã para iludir a inquietação. Ao fim da tarde. Esperava em casa. as aldeãs de avental. A dado momento. vindos de todas as partes do mundo para aquela praça. Elizabeth nunca vinha até à praça. Esther não conseguia compreender o que significava tudo aquilo. o seu preferido. Os gritos das crianças ecoavam agudos como um clamor de pássaros. Ferne procurou febrilmente na pilha de folhas em instável equilíbrio sobre o piano e tirou uma que estendeu a Esther: . Vai-te embora. Esther sentava-se a seu lado no banco e observava as longas mãos que corriam sobre o teclado como se fossem elas que fabricassem as 21 notas. com veias salientes. Os sons dos acordes brotavam. "Por hoje acabou. Quando a lição acabou. divertindo-se a empurrar as raparigas ou a jogar às escondidas atrás das árvores. não mãos de velho mas sim mãos jovens. Esther pensava no pai. Empurrava o portão do gradeamento e entrava sem fazer barulho na cozinha enquanto o Sr. enfurecia-se. Tudo parecia 22 estranho." Quando ela se enganava. mágicos. mas não sei se serás realmente capaz de tocar piano. Ferne cumprimentava todos cerimoniosamente. Quando Esther voltava para a rua sentia-se ofuscada pelo sol e pelo silêncio e precisava de alguns instantes até poder seguir o seu caminho. Os olhos brilhavam-lhe e a barbicha de cabra estremecia. os chamamentos. com os fatos usados do trabalho do campo e as raparigas que passeavam em redor da fonte com os seus vestidos . vibrando sob os dedos da pequena e chegando-lhe ao coração.Entra e senta-te. Dizia: . fortes. Esther ficava sentada no murinho que rodeava a praça e observava toda a gente. A sombra invadia a praça. longínquo.próprio tinha mãos longas e esguias. Ao anoitecer. aqueles homens e aquelas mulheres tão diferentes. Esther via o Sr. podes voltar cá. Ferne tocava. até o lugar onde se encontrava. O pai de Esther não as apreciava muito mas não admitia que dissessem mal delas à sua frente porque ajudavam os pobres que vinham da Rússia ou da Polónia. "Tens uma linda voz. que andava pelo meio das ervas. As crianças corriam pela praça. os alfaiates e os peleiros vindos do norte da Europa. O Sr.

O som do piano crescia. parado em frente da porta do hotel vendo passar as crianças que iam para a escola. tinham vivido no círculo fechado dos ingleses em férias. o som da água na fonte. Eram principalmente as raparigas que contavam essas histórias em voz baixa. Tentava então regressar a essa vida. Os cabelos louros e lisos estavam cortados "à taça" em redor da cabeça e usava 25 estranhas roupas inglesas: calções de flanela cinzenta demasiado compridos. Havia muitas vezes convidados no salão e ele ouvia as vozes e os risos das amigas da mãe. O'Rourke tinha chegado a Saint-Martin de autocarro. a praça esvaziava-se lentamente. O'Rourke era muito bonita. Não sabia quando é que ela lhe tinha dito o nome daquela melodia . Falava um francês muito correcto. Quando chegaram à montanha. Pegava na mão de Esther e juntas regressavam ao pequeno e escuro apartamento. noutro tempo.A Catedral submersa . enchia o pequeno quarto de hotel. Andavam com o mesmo ritmo e os seus passos ressoavam em uníssono na rua.claros. às vezes. saía do sonho. Tudo nele era estrangeiro. Tristan sentia o coração palpitar ao ritmo da música e. com as costas alagadas de suor. Viviam no primeiro andar do Hotel Victoria. a Sra. A primeira recordação que Esther guardava dele era da sua silhueta. sem pronúncia. No princípio. Em Cannes. Afirmavam que era uma espia ao serviço dos carabineiros ou uma criminosa escondida. como num sonho. Fora em Cannes. ia para os campos e descia o declive que conduzia à ribeira. O'Rourke também não quisera matricular o filho na escola do Sr. Fora há já muito tempo. quando tudo em redor parecia dormir. tocando no piano negro ao princípio da tarde. Ouviase o glouglou da fonte e os gritos das crianças que corriam umas atrás das outras pelas ruas. o pai de Tristan. Tristan era um solitário e tímido garoto de doze anos. Tristan tinha deixado de ir à escola e era a mãe que lhe dava aulas. A Sra. com aquela bizarra indumentária. para ter a certeza de que ninguém mais tinha ouvido a música. Quando estavam lá outros . vagueava pelos corredores. Ouvia a respiração calma da mãe adormecida e. o hotel fervilhava como uma colmeia. e diziam que era realmente italiana. Elizabeth chegava então à praça. 23 Tristan lembrava-se sempre das mãos da mãe. Via apenas o movimento das mãos sobre as teclas do piano e ouvia a música que se evolava. que era comerciante na África Equatorial. Os vestidos compridos e os grandes chapéus contrastavam com a seriedade do rosto e a expressão melancólica do olhar. como quando falavam de Rachel. Quando fora declarada a guerra. Quando a luz desaparecia. nunca mais tinham sabido nada dele. chegava a todos os andares. Quando a Sra. que a guerra tornara ainda mais restrito. de repente. Tristan não queria misturar-se com as outras crianças. que visitava o capitão dos carabineiros às escondidas. Tristan já não se lembrava dos seus nomes. Esther gostava daqueles momentos. erguia-se na cama para escutar. Passeava sozinho pela aldeia ou então. num pequeno quarto com varanda dando para a praça. Apertava com força a mão da mãe e era como se ambas tivessem treze anos e toda a vida à sua frente.com o som dos sinos ressoando no fundo do mar. Desde então. Ressoava distintamente no silêncio da noite. Seligman. durante o dia. noutro mundo. meias de lã e uns casacos de malha esquisitos. As pessoas voltavam para casa e as vozes iam-se extinguindo pouco a pouco. assustado. do lado de fora das persianas. alistara-se nas forças armadas coloniais. Os andares estavam todos ocupados por famílias pobres ali instaladas pelos italianos e era tanta a gente que.

Fora aqui. Ninguém falava. Caminhavam lado a lado sob os plátanos." O rapazito estacara: "De quem estás a falar? Que rapariga?" Ela limitara-se a repetir: "Ela não é para ti. As crianças permaneciam a seu lado. fazendo crer aos outros que Tristan tinha cedido. das mimosas à luz do meio-dia. Não era judia. dissera com uma voz estranha: "Essa rapariga não é para ti. porque procurara os negociantes de jóias para lhes pedir dinheiro em troca das suas. tornava a subir sem se voltar para trás. Tristan via a mãe como nunca a tinha visto. O'Rourke. uns colares de marfim e bugigangas. Os carabineiros estavam de pé. Na sombra dos plátanos. Já não conseguia estar no quarto do hotel. Tristan estava na praça da aldeia quando os judeus faziam bicha em frente da porta do Hotel Terminus. Os homens e as mulheres esperavam pela sua vez para entrarem. essa música ora violenta ora triste. Gasparini era mais velho e mais forte. Queria mostrar que não precisava de ninguém. Queria lembrar-se dos tempos da casa de Cannes. mas ela trocava algumas palavras com o velho Heinrich Ferne por ele ter sido músico. A mãe não dizia nada mas adivinhara. marcarem os seus nomes nos registos e receberem os seus cartões de racionamento. Tristan via Esther e os pais à espera. na estrada. na praça. Semi-oculto por trás das árvores. Só voltava à hora de almoço. Um dia. junto das janelas." E nunca mais tinham falado no caso. Gasparini largara-o. do canto dos pássaros lá fora. Era uma visão que se ia esbatendo. que Esther tinha olhado para ele pela primeira vez. quando ele ia a sair. Nunca ia com as outras pessoas marcar o nome na lista.miúdos. Tinha a cabeça descoberta e brilhavam gotas de chuva nos seus cabelos negros. À tarde. Dizia-se que já não tinha 26 quase nada para empenhar a não ser alguns medalhões. tinha andado à bulha com Gasparini porque este namoriscava Esther. Depois regressavam em sentido inverso. As mulheres embrulhavam-se nos seus xailes e abriam os grandes guardachuvas pretos. Esther via-o passear na praça dando cerimoniosamente o braço à mãe. em pé frente à porta do restaurante. A roupa estava estragada e suja pelas correrias no meio do mato. Sentia uma certa vergonha porque ele e a mãe não tinham que ir para a bicha. onde se encontravam os carabineiros. Agora era Verão e os dias tinham-se tornado compridos. Sentado a uma . Por fim. nem mesmo os carabineiros. Agora já todos sabiam que a Sra. no Hotel Terminus. Não falava. tinha preso Tristan pelo pescoço e com o rosto contraído pela raiva dizia: "Repete que és um estupor! Repete!" Tristan tinha resistido até desmaiar. As pessoas falavam pouco à Sra. De cada vez que se abria a porta. O sol tinha-lhe queimado o rosto e as mãos e tornado quase brancos os cabelos demasiado compridos. e fumavam. Tristan saía todas as manhãs do hotel enquanto a mãe ainda dormia no acanhado quarto. Talvez tivesse medo deles. Um dia. Tristan. não eram como os outros. Dizia-se mesmo que já não tinha dinheiro nenhum. Dava o braço à mãe e o pai parecia muito alto a seu lado. esfomeado e com as pernas arranhadas pelos silvados. seguindo até ao extremo da praça. Tudo mudara a partir desse dia. O'Rourke não era rica. Tristan. Chovia com intermitência. sem correrias nem gritos. afastando. O tempo tinha passado e aproximava-se o Verão. Tristan conseguia ver um bocado da grande sala iluminada pelas portas-janelas que davam para o jardim. à saída da aldeia. De manhã. Tristan olhava para 27 Esther no meio da fila de espera. da voz da mãe e das mãos que tocavam sempre A Catedral submersa.

Os carabineiros escreviam o nome dela. Esther ia muitas vezes para a ribeira. vamos ver o meu primo ceifar lá em baixo. Depois Esther saiu. com um registo aberto à sua frente. quando voltávamos a cabeça. A praça ficava às escuras. 28 Era como se nunca tivesse havido outro Verão antes daquele. de misterioso para Tristan. mas não tinha muito bem a certeza de se lembrar como era o trigo. Quando passou em frente das árvores. Recuou. Já não se viam casas mas apenas os prados e a ribeira que brilhava ao sol. O caminho estava em mau estado. como o ruído da chuva. Havia mulheres com lenços na cabeça e crianças. Avançou pela praça. Gasparini tinha vindo com Esther até à ribeira. Acabara por subir para a charrete. amo-te. as janelas do hotel estavam fechadas e as cortinas corridas. Os campos de trigo são além". Pela manhã. à tarde. no fundo do vale. na seqüência dos outros nomes. O círculo das montanhas parecia ainda mais longínquo. Tristan fugia a correr. uma chama violenta que fez bater com força o coração do rapazinho. por cima dos cumes. Era o avô Gasparini que conduzia o cavalo. de avançar com ela até à mesa. dissera Gasparini. Depois. sonhando com música e jardins. O sol subia no céu e a luz brilhava por entre as nuvens. as nuvens faziam o seu aparecimento a norte e a este. O caminho foi dar à estrada e Esther vira de repente . Gasparini insistiu: "Não é longe. Antes de 29 ver. Tinha abandonado o quarto aconchegado onde a mãe respirava suavemente. inchando as suas estranhas volutas. um deles. para vir ver Esther no meio dos vultos escuros que esperavam na praça. Ali. viu Tristan e nos seus olhos negros brilhou uma chama como se fosse de cólera ou de desdém. vozes de mulheres. não podia dormir no seu quarto do Hotel Victoria enquanto aquilo se passava. ia marcando os nomes. Esther tinha ouvido: gritos. o vale alargava-se. Do lado da praça. Era o silêncio que atraía Tristan em frente do hotel. de pólen e de moscas. um pouco afastada do pai e da mãe. Entrava com o pai e a mãe e o homem do registo marcava o seu nome no caderno. Havia naquilo qualquer coisa de terrível. A charrete tinha seguido o caminho em ziguezagues que descia até ao vale. Um pouco antes de Roquebillière o vale era bastante largo. os italianos fechavam as persianas e barricavam-se no hotel. Como o sol estava no centro do céu. Queria dizer: "És tão bonita. onde se uniam os dois cursos de água. fundia-se com o som da água e o cantar dos grilos. Quando anoitecia. só penso em ti. O sol queimava os prados e as pedras da torrente e as montanhas pareciam mais distantes. O ar estava cheio de aromas. A vibração espalhava-se por todo o lado e.mesa. Ninguém tinha o direito de sair. Esther começara a subir a encosta para regressar a casa quando Gasparini lhe segurou na mão: "Anda. O silêncio da praça era demasiado intenso. a charrete saltava e as mulheres riam." Esther já tinha visto a ceifa com o pai. o ar estava límpido e frio e o céu absolutamente azul. A luz vibrava sobre a água da ribeira. risos estridentes que chegavam trazidos pelo vento quente. como se as pessoas que entravam na sala não fossem tornar a sair. em Roquebillière. e um rumor surdo. vamos na charrete do meu avô. Um dia." Esther hesitava. "Estamos a chegar. fica ali logo em baixo." Mas já os vultos se perdiam nas ruelas. recortadas no céu azul forte. desabitada. regular. as ervas cortavam e os silvados fustigavam as pernas. descendo até ao regato gelado. Tristan gostaria de estar com ela na bicha. Nos campos. Apenas se ouvia o ruído da água na taça da fonte ou um cão que ladrava ao longe.

imobilizavam-se por um instante. com os rostos semi-ocultos por lenços esfarrapados." Esther observava com curiosidade as mulheres andrajosas. "Então. Um cheiro acre de poeira e suor. com uma regularidade mecânica. Os homens mais novos trabalhavam no fundo do campo. espetavamse nas suas alpercatas de corda e esfolavam-lhes os tornozelos." Depois. apanhavam as espigas caídas das medas e metiam-nas em sacos de pano. A seu lado. "Olha. A poucos passos uns dos outros. charretes paradas com os cavalos tasquinhando a erva das bermas. como ele: "O meu pai também pertence ao maquis. Junto das charretes. Gasparini encolhera os ombros e dirigira-se com Esther para o outro extremo do campo onde se sentaram num talude. O pai e a mãe tinham-lhe recomendado que não falasse nunca da . crianças a brincar. um cheiro misto de homem e de planta. as longas lâminas brilhavam ao sol. As mais velhas procuravam pelo campo." E Gasparini: "O que é que ele faz?" Esther respondera: "Acompanha os judeus que atravessam a montanha e ajuda-os a esconderem-se. de Santa Anna (ele pronunciava Santana). Dali apenas se ouvia o assobio das foices no trigo e o sopro rouco dos homens: ran! ran! Gasparini tinha dito: "O meu pai diz que os italianos vão perder a guerra porque já não têm nada para comer. O meu pai diz que os alemães e os italianos vão ser derrotados em breve. E o teu?" Esther tinha reflectido. os ingleses e os americanos vão ganhar a guerra. "Vêm de Valdieri. nunca tinha imaginado que os italianos pudessem ser como aquelas mulheres e aquelas crianças. Pertencer ao maquis não é isso. Mas Gasparini arrastava-a para a linha dos ceifeiros. não me apresentas a tua namorada?" Desatara a rir e os outros homens tinham parado também para olhar para eles. os homens mais velhos iam carregando o trigo com a ajuda de forquilhas de madeira. Não tinha muito bem a certeza do que devia responder. crianças brincavam com as espigas caídas no chão. "Aqueles são italianos". parará de manejar a foice. manejando as foices. as mãos." Gasparini respondera sem hesitar: "Nós não os deixamos. ao fundo do vale. baixara um pouco a voz: "O meu pai pertence ao maquis. A maior parte dos campos já estava ceifada e as mulheres com a cabeça protegida por lenços inclinavam-se para os molhos que iam atando antes de os empurrarem para a estrada. mas Gasparini puxara-a pela mão e obrigara-a a avançar pelo meio do campo. com uma espécie de febril actividade." Esther: "Então talvez venham instalar-se aqui. expulsamo-los.aquelas pessoas todas a trabalhar. vêm ver se apanham algum aqui. rosto e braços avermelhados pelo sol. o rosto. dissera Gasparini com uma entoação condescendente na voz. Atravessaram a montanha a pé porque lá têm fome. ao chegar. Havia muita gente. Aliás. rangendo ao cortar o trigo e os homens faziam um ruído surdo com a garganta e o peito." Esther estava admirada. As pontas do restolho eram duras e cortantes. havia mulheres e crianças pobremente vestidas que Esther nunca vira antes. e depois caíam todas ao mesmo tempo. aquele é meu primo. Pairava sobre tudo aquilo um cheiro que Esther nunca tinha aspirado antes e fora talvez por causa dele que sentira medo ao chegar. formavam uma linha como os soldados e avançavam lentamente pelo trigal. junto das charretes. no campo. "De onde vêm?" Gasparini 30 apontara as montanhas." Gasparini parecia um pouco irritado: "Não é a mesma coisa. queimava as pálpebras. À sua volta." Esther lamentava já ter falado daquilo. Esther tinha-se escondido atrás das charretes porque não queria que a vissem. Repetira. "Como não têm trigo lá. O sol cegava." Um rapaz de camisola interior. metendo as espigas em sacos de juta. um ran! que ressoava pelo vale. as foices vinham atrás. Eram eles que Esther tinha ouvido de longe.

continuavam a andar. Durante muito tempo ficara na boca com o sabor acre dos grãos de trigo. Disse: "O meu pai diz que se os alemães vierem aqui matam os judeus todos. sem dizer nada. Atrás dela. depois do calor dos campos de trigo. uma manhã muito cedo. um dia mostro-ta. Se quiseres. No meio do restolho havia grandes formigas pretas que avançavam. o que fazia ele antes da guerra?" Esther tinha dito: "Era professor. Talvez Gasparini fosse repetir tudo aquilo ao capitão Mondoloni. repetindo: "Eu? De maneira nenhuma!" O medo ou a dor transbordavam dos seus olhos." Gasparini não disse mais nada. e o sangue entumescerlhe as artérias do pescoço e bater nas têmporas e nos ouvidos. Depois. "É verdade? És judia?" repetira o garoto. era como água. as mulheres e as crianças andrajosas continuavam a procurar avidamente no meio do restolho e os dedos feridos sangravam. com o rosto fechado. Aproximou-se um camião guiado por carabineiros e envolto numa nuvem de fumo azulado. "É verdade que és judia?" tinha perguntado Gasparini. História e Geografia. Está sempre escondida em nossa casa. tinha os olhos rasos de lágrimas. sentou-se na beira da estrada e o silêncio era aterrador. Ouvia a voz lenta e insistente do rapazito e a sua própria voz que ressoava. dolorosamente. Esther levantara-se e partira. cujos espetos lhe penetravam nas alpercatas. andando pelo meio do restolho. Esther apeava-se na praça da aldeia." Tinham ficado ambos mais um bocado sem falar. A notícia espalhara-se sem se saber como.guerra nem das pessoas que vinham a sua casa fosse a quem fosse. O ar fresco do vale deslizando por ela. ." De repente. zangada: "Eu? De maneira nenhuma!" O rosto de Gasparini não se tinha desanuviado. Esther tinha-o olhado como se não compreendesse. paravam. Ferne. Esther pensava na forma como ainda há momentos ele 31 tinha dito. ouvindo o ruído das foices e da respiração dos homens. desatou a correr com todas as suas forças em direcção à aldeia. Subitamente. pensando que vinha um cão enraivecido atrás dela para conseguir correr ainda mais depressa. debaixo de chuva. Os italianos tinham acabado por levar o piano do Sr." Gasparini estava com um ar interessado: "Professor de quê?" Esther: "Professor de História no liceu. Era o resultado da mentira. Por cima dos campos o céu estava de um azul quase negro e a luz brilhava nas foices e nas pedras das montanhas. poucos instantes mais tarde. sem perder um instante. O seu rosto exprimia subitamente um tal receio que Esther respondera muito depressa. Corria sem se voltar. Não contara à mãe o que se tinha passado lá em baixo onde andavam a ceifar. Tinham dito que os soldados italianos davam dinheiro aos que denunciassem alguém. O sol permanecia imóvel no centro do céu e não se viam as sombras projectadas na terra. ouvia a voz um pouco rouca do rapaz. 32 Correu até se sentir mal e quase não conseguir respirar. espera por mim! Onde vais?" Quando chegou à estrada onde as charretes esperavam o seu carregamento de medas. olhando as crianças que apanhavam as espigas caídas: "Eles lá têm fome. semelhantes a incansáveis formigas." Daí a bocado. Olhava em frente. O sol queimava-lhe as costas e os ombros através do vestido. mastigando grãos de trigo que iam tirando um a um das suas capas transparentes. Também elas procuravam os grãos de trigo que tinham caído das espigas. no celeiro. Gasparini acabara por dizer: "O que faz o teu pai? Quero dizer. Gasparini dissera: "O meu pai tem uma espingarda. Os italianos fizeram-na subir lá para trás e. gritando: "Hélène! Hélène. Esther sentiu o coração bater com toda a força. Durante um longo momento ficaram os dois silenciosos. Sem compreender porquê. no meio do campo. Lá ao longe.

Gotas de água molhavam a sua linda cabeleira vermelha e escorriam-lhe pelo rosto como lágrimas. Ferne adorar esse piano mais do que qualquer outra coisa no mundo e ser tudo o que lhe restava na vida. transportado por quatro soldados italianos uniformizados.Juntaram-se todas as crianças da aldeia. com os seus castiçais de cobre em forma de diabos. Ferne de casa dele para o levarem para a sala de jantar do Hotel Terminus. bem como algumas velhas de avental e judeus com as suas casacas de Inverno vestidas por causa da chuva. Ferne passara à frente delas sem as ver. As raparigas contavam coisas menos extraordinárias mas mais venenosas. direito ao Hotel Terminus. Mas já o piano tinha desaparecido ao cimo da rua. Ferne. sem que ela se apercebesse. Ao chegarem à praça. Esther adorava os seus cabelos ruivos. O grande móvel mágico. pelas ruas da aldeia. Era simultaneamente cómico e triste e Esther sentia a garganta apertada porque compreendia subitamente o que era a guerra. os homens. Diziam que Rachel andava com o capitão Mondoloni. passeava na praça com o pai e a mãe. porque havia já muito tempo que queria falar com Rachel sem se atrever. Seguira o cortejo de longe e depois descobrira o vulto do Sr. Esther tinha a certeza que elas diziam aquilo porque tinham ciúmes. Esther tinha-se escondido num portal. abrigaram-se debaixo de um plátano e ficaram a olhar a chuva que caía. Mas era tão bela que Esther achava que não tinha importância não proceder como os outros. quando ia fazer compras ou quando. como a todos os agentes da Gestapo e do exército italiano. As pessoas falavam dela e os rapazes diziam que saía à noite apesar do recolher obrigatório e ia tomar banho nua na ribeira. Quando a chuva parou. os polícias e os soldados 33 com estranhos chapéus de plumas podiam tirar o piano do Sr. cortar-lhe-iam os belos cabelos e fuzilá-la-iam. Os soldados tinham tido que parar diversas vezes para retomar o fôlego e. A barbicha cinzenta agitava-se como se fosse a falar sozinho e talvez estivesse a lançar maldições aos soldados italianos na sua língua. à espera. O Sr. Quando Rachel falava formava-se uma pequena nuvem de vapor em torno dos seus lábios. aquele piano que oscilava e dançava como uma enorme uma e as plumas negras dos chapéus militares que se agitavam a cada balanço. que também subia a rua à chuva. tanto as mulheres dali como os religiosos judeus. os judeus com os seus casacões e . Fora nesse dia que Esther tinha falado com Rachel pela primeira vez. apesar do Sr. Aquilo chocava muitas pessoas da aldeia. tinha começado a subir a rua. e Rachel detivera-se a seu lado. à tarde. Então Rachel subiu a rua na direcção da praça e Esther caminhou a seu lado. de cada vez que poisavam o piano no chão. as cordas ressoavam com uma longa vibração semelhante a um queixume. Ferne. Quando havia guerra. com o rosto pálido estranhamente contorcido numa careta por causa da ansiedade ou da chuva. Esther tinha visto passar aquele cortejo bizarro. compridos e caindo livremente sobre os ombros. de um negro brilhante. Esther e Rachel ficaram juntas durante um longo bocado. as pessoas vieram para a praça como todas as manhãs. Esther sentia-se contente por estar ali. as mulheres da região de avental e galochas. apesar do piano do Sr. Tinha-a seguido muitas vezes. porque Rachel deixara de assistir às cerimónias e falava muitas vezes com os carabineiros italianos em frente do hotel. Naquele dia. que ia visitá-lo ao Hotel Terminus e que passeava com ele pelas estradas no automóvel blindado. Talvez fosse por causa disso que Esther sentira desejo de ser sua amiga. falando e olhando a chuva que picotava as poças de água. Quando a guerra acabasse e os italianos tivessem sido derrotados.

são diamantes. com uma pedra azul escura que brilhava no meio de outras pedras pequeninas. tinha simultaneamente qualquer coisa de risível e de miserável que envergonhava Esther. Tinha um brilho estranho que fazia um certo medo. luminosa. para se virem esconder em França. . não havia mais nada no mundo e não era possível falar. E antes que Esther tivesse tempo para reflectir. mas Esther adorava aquilo. tocar piano. Rachel começou a falar dos pais com uma voz estranha. seguindo até à estrada. Olhava na 34 direcção do hotel como se pudesse ver o seu piano.perguntou Rachel. Ferne. Tornaram depois a subir o talude porque estavam com frio e sentaram-se no murinho. Um caminho levava até à confluência. formando turbilhões. O ruído das torrentes era ensurdecedor. como o Sr. .lenços e os velhos com as compridas casacas pretas e os chapéus. Não disse nada. na Polónia. mas o fumo fê-la tossir e Rachel riu. Não gostava deles porque estavam sempre com medo e tinham fugido de sua casa. Talvez por causa do fumo do cigarro ou do sol. Quando Esther falou da música do Sr. Queria tocar música. Ali. Rachel puxou dos cigarros. Não falava dos italianos. os braços. como o piano que os carabineiros tinham tirado de casa do Sr. Ferne. Berlim.Olha o que me deram. Começou a fumar e o fumo agri-doce do cigarro envolveu-a e atraiu as vespas. mas Rachel compreendeu e guardou imediatamente o anel no bolso. muito brancas. Agarrou na mão de Rachel e arrastou-a para a rua do regato. Ferne. Era um anel antigo muito bonito. esticando o pescoço para tentar ver o interior do hotel. Também as crianças recomeçaram a correr. Esther nunca tinha visto nada assim. . Acendeu outro cigarro e enquanto ela falava de tudo aquilo Esther observava o seu perfil aureolado pela cabeleira vermelha. a Paris. . escondido do outro lado do fontanário. continuou: . enquanto os carabineiros fumavam em frente da porta. Esther achava 35 que era como a guerra. Rachel encolerizou-se imediatamente. mas de repente procurou no bolso do vestido e mostrou um anel na palma da mão aberta. .O que vais fazer quando a guerra acabar? . onde havia uma estreita praia de seixos. dura e quase maldosa. Esther sentia a cabeça um pouco à roda. um vagabundo. Rachel falava dos espectáculos em Paris. em volta.É uma safira . As nuvens tinham-se afastado e o sol brilhava sobre as pedras e fazia cintilar a água que corria rápida. escrito em inglês. dizendo que era um velho imbecil. Mas não gostava daquela pedra sombria. Depois Rachel chamou-lhe a atenção para o Sr. Avançaram juntas até à ponte pela estrada ainda brilhante de chuva sem dizerem uma palavra. cantar.É . passou o cigarro a Esther para ela experimentar. a todo o lado. ao sol. à América. que se esgueirava de uma árvore para outra. Ir às grandes cidades. por cima da ribeira. em Varsóvia. nem de Mondoloni. A sua silhueta magra. como se realmente tivesse conhecido tudo aquilo.Eu sei o que gostava de fazer. Esther e Rachel ficaram um bocado sentadas nas pedras molhadas vendo a água em turbilhão. Esther não . em Roma. com o piano na cozinha.Não é lindo? .disse Rachel. as mãos de longas unhas longas. Ferne.E as mais pequenas. Estava também na praça. a Viena.concordou Esther. a maior parte delas andrajosas e descalças. A dado momento. Por baixo reuniam-se os dois cursos de água. um maço estranho.

Já lá estava fora quando ouvia a voz da mãe dizer: "Hélène! Vais já sair?" A mãe nunca lhe chamava Esther quando alguém de fora podia ouvi-la. atirou a beata para o fundo do vale e levantou-se. as ravinas. essas palavras tinham-lhe ficado na cabeça: os últimos dias. Esther observava com ansiedade o seu rosto tenso e sombrio.. a mesma que usava antigamente para ir dar aulas de 36 História e Geografia no liceu de Nice. que assumiam formas fantásticas.. Esther não conseguia estar um segundo quieta no apartamento. na imagem que vinha constantemente à cabeça de Esther do pai andando por imensos campos cobertos de mato. apesar da beleza do céu azul. no fundo do vale. Desatava então a correr pelo grande prado acima da ribeira sem se preocupar com as víboras e atingia o ponto em que o caminho começava a subir para a montanha. com o regatozinho correndo pelo meio das lajes. as montanhas e os prados tão atraentes. na morte. com os olhos encandeados pela claridade matinal. os gritos agudos dos andorinhões que a convidariam a sair. Lado a lado. Era isso que tornava o céu tão azul. aguardava os sons breves dos pássaros que a chamariam. talvez sejam os últimos dias. na cama. Mas era triste ouvi-la falar assim e pensar no piano do Sr. ouvira a mãe queixar-se que ela passava o tempo a vagabundear e o pai responder apenas: "Deixaa lá. Podia ir até às últimas casas da aldeia. Estrellita. Era isso que a atraía irresistivelmente para fora de casa. ver toda a extensão do vale. todas as noites o céu se cobria de espessas nuvens brancas ou cinzentas. logo que acabava de beber a sua taça de leite quente do pequeno almoço. tentava descortinar os cumes mais altos. Agora. sem falar. Era isso que fazia com que o Verão parecesse aterrador. e voltava-se para dar um beijo à filha. o pipilar dos pardais.. às escuras. que ficava a um nível inferior à rua ainda escura.protestou para não destruir a imagem de Rachel. apesar do canto dos grilos e do cantar da água nas pedras das torrentes. e esquecia as palavras do pai. Desde madrugada que Esther espreitava a luz pelos interstícios do cartão que tapava a janela do respiradouro. Abria a porta do apartamento. o sol tão deslumbrante. no seu silêncio o peso da espera. Ferne sozinho na grande sala de jantar cheia de fumo do Hotel Terminus. ouvia as . uma felicidade sem limites. mas não perguntou mais nada. sentia uma extraordinária sensação de liberdade. Um dia. Fazia pensar na guerra." Desde então. o seu perfil fino e a auréola de cabelos ruivos. imenso sob a bruma da manhã. Não deves falar disto nunca. Esther perguntou-lhe: "Onde vais?" Respondeu quase secamente: "Vou ver umas pessoas. tão enfeitiçadores. vestindo o seu fato completo de flanela cinzenta e levando na mão uma pequena pasta de estudante. Era já Agosto. rumo ao desconhecido. para continuar a seu lado o máximo de tempo possível e sentir o aroma do seu cigarro.. muito longe da aldeia. Quando finalmente podia abrir a porta e sair para o ar fresco da rua. Quando Rachel acabou o cigarro inglês. Portanto. abria a porta do apartamento e subia a escada para a rua. Era por ali que o pai ia todas as manhãs. Lia no rosto da mãe a sua própria inquietação. apesar dos prados com ervas tão altas. Há já vários dias que o pai de Esther saía de manhã cedo. regressaram à aldeia onde as chaminés fumegavam para a refeição do meio-dia. 37 os desfiladeiros perigosos. e desaparecendo como se não fosse mais voltar. Uma noite. com os carabineiros a beberem e a jogarem às cartas. limpando o rabo com as mãos. a floresta de larícios. Lá em baixo." E acrescentou: "Não faças perguntas. percebes?" Esther sabia que ele ia ajudar judeus a atravessarem as montanhas.

o grito breve de um andorinhão e a vibração das ervas. apesar disso. soerguendo-se . Os campos estavam agora quase completamente ceifados. Quando os amigos passavam na estrada. para os lados de Roquebillière. Tinha então a certeza de que não era ainda o último dia. O sol já queimava nos prados e Esther sentia o suor escorrer-lhe pelo rosto e debaixo dos braços.. tudo aquilo havia de permanecer. gostava muito dele. Esther ouvia distintamente os risos das raparigas e os seus chamamentos estridentes: "Maryse! Maryse!. O que a assustava eram as ceifas. com faces que coravam facilmente como as das raparigas. Felizmente. Um dia. ao abrigo de alguns blocos de rocha. Gasparini sentara-se a seu lado. provavelmente para mostrar que não tinha medo. o céu em que as nuvens começavam a acumularse e os imensos campos onde as moscas e as abelhas pareciam suspensas na luz. continuar. tudo isso podia continuar. de continuar. lançavam-lhe graçolas e ele fitava-os irritado." Continuava a avançar pelo prado até as vozes e os risos se irem desvanecendo e desaparecerem. nem um ruído. Sentia-se simplesmente admirada por ter compreendido a razão que levara o rapaz a partir tão apressadamente: ele não sentia necessidade de saber que tudo aquilo permaneceria imutável. Os campos de trigo eram como as 38 árvores que perdem as folhas. sabia apenas que se sentia bem. ele não tinha falado das víboras. as muralhas sombrias das montanhas e das florestas. Gasparini tinha uma mancheia de espigas e ia trincando os grãos de trigo. Era um rapazote de quinze ou dezasseis anos mas já grande e forte como um homem. Não sabia o que a levava a desejar tanto esse silêncio. o medo desaparecia. Ouvia o seu coração batendo compassadamente e até o som do ar saindo das narinas. que tudo aquilo continuaria dia após dia. Era esse silêncio que Esther procurava. Não falavam. então sentia-se bem.. Levara Gasparini através dos campos até aos blocos de rocha. vou descer. Então. de vez em quando. ao longo dos campos. saboreando demoradamente o seu sabor agri-doce. Não eram os prados com víboras que metiam medo a Esther. As crianças atavam as últimas medas e as mulheres e garotos pobres vagueavam por entre o restolho mas os seus sacos permaneciam vazios. nada iria interferir. que lhe era necessário. Mas Esther não tinha ficado zangada. Viam os ceifeiros avançar ao longo dos socalcos. Mas quando chegaram perto das pedras amontoadas dissera muito depressa: "Não gosto de estar aqui. Divertiam-se a pescar lagostins-do-rio com água fria pelo meio das coxas. Esther tinha querido mostrar esse local. Gasparini nunca mais tinha falado da guerra nem dos judeus e tinha um ar tenso. Esther sentara-se no talude olhando os campos nus. quando o céu estava tão azul e o sol brilhava sobre os campos ceifados." E partira correndo. Mais adiante. A linha dos homens empunhando as grandes lâminas brilhantes desfizera-se e apenas restavam alguns grupos isolados que ceifavam na parte alta.vozes das crianças na ribeira. não havia vento. na encosta da colina. Não compreendia porque sentia aquela tristeza. Esther sentia-se muito diferente do rapaz mas. em socalcos estreitos. enfiadas nos fundões arenosos da torrente. Quando não se ouvia um único som humano mas apenas o canto agudo dos insectos e. Do outro lado do vale ficava a encosta sombria da montanha. no fundo do vale. Esther tinha voltado uma vez aos campos ceifados onde fora com Gasparini. pouco a pouco. esse segredo a alguém. durante anos e séculos. aquela raiva. nem um sopro. continuar. A luz do sol. e que ninguém o poderia alterar. os amontoados de pedras avermelhadas misturados com maciços de espinheiros. inquieto.

" A cerimónia realizou-se na sexta. "Na sexta feira é a festa de Nossa Senhora" explicou Gasparini. Quando Esther pedira autorização ao pai. com uma voz um pouco rouca: "Queria pedir autorização para acompanhar a Hélène à igreja na sexta-feira. Foi a mãe de Esther que abriu. O padre entrou na capela. Lá dentro. Quando o sino começou a tocar." Esther reconheceu o rapaz que ceifava trigo no campo perto de Roquebillière. Era a primeira vez que punha uma gravata. Os carabineiros tinham dado autorização e logo desde manhã as pessoas começaram a chegar à pequena praça em frente da igreja. este tinha respondido sem hesitar: "Sim. sem meias. as crianças acenderam velas e puseram flores. Um dia. O silêncio que pairava na cozinha fazia com que o tempo parecesse ainda mais longo. como se ela pudesse vir em seu auxílio." Elizabeth voltou-se para a filha: "Então? Tu é que tens de decidir. as caçarolas poisadas numa prateleira.como se lhes quisesse bater." Elizabeth respondeu: "Por mim. de um vermelho cor de vinho. com calças de golfe. As raparigas vieram com os seus vestidos de Verão decolados. Desceu os degraus abaixo do nível da rua e bateu à porta. ao ver a igreja tão cheia. Era a primeira vez que entrava em casa de Esther. Olhou-o por momentos sem compreender mas depois reconheceu-o e mandou-o entrar para a cozinha. em pé à sua frente. 40 Começou cerca das dez horas. Gasparini foi buscar Esther. "A Nossa Senhora tem de voltar para a montanha e vai deixar a igreja. Acabou por decidir-se a falar. em frente do Hotel Terminus com a bandeira italiana hasteada. Olhou em redor o compartimento escuro e estreito. Gasparini murmurou ao ouvido de Esther: "Estás a ver aquele? É o meu primo. muito séria: "Se os pais concordarem. mas Esther lançou-lhe um olhar de reprovação. que só o usara no dia da comunhão solene. Ficaram no adro. "Quando a guerra acabar. Elizabeth trouxe a garrafa de sumo de cereja que tinha preparado na Primavera. Gasparini veio buscar Esther a casa logo de manhã. A mãe de Esther esboçou um sorriso um tanto trocista ao ver o jovem aldeão endomingado. sim. O pai de Esther apertou a mão a Gasparini e dirigiu-Lhe algumas palavras amáveis. os carabineiros e os soldados viam passar a multidão." A igreja estava cheia e eles já não conseguiram entrar." Dissera aquilo com um ar tão sério que a pequena ficara intrigada. iam três homens com fato azul escuro. ao sol. mas tens de pedir também ao teu pai. Agora. a panela de ferro fundido. seguido por parte da multidão. ele é que vai levar a Nossa Senhora até lá cima. a mesa de madeira e os bancos. O rapaz estava muito impressionado com a sua elevada estatura e com o facto de ele ser professor. esperando. . As pessoas tinham vindo de todos os lados. "Que festa?" perguntou Elizabeth. Vestia um fato completo cinzento claro. Gasparini bebeu o copo de sumo e depois tirou um lenço 39 do bolso para enxugar a boca. De vez em quando enxotava as moscas com as costas da mão. só com um lenço na cabeça. com o olhar fixo na toalha de oleado. de alpergatas. como estava previsto. à montanha. É importante que vás a essa festa. mesmo das quintas mais isoladas da montanha ou dos currais de ovelhas de Oréon ou Mollières. pertencente ao irmão mais velho. porque a maior parte dos homens novos estavam prisioneiros e não tinham regressado da guerra. eu vou. dou-te autorização. No meio." Esther disse. à festa. compreendia por que era tão importante. a multidão agitou-se e os três homens surgiram. Na praça grande. Quando Esther chegou quase deu uma gargalhada ao vê-lo tão atrapalhado em frente da mesa." Fitava Esther. A quase totalidade das pessoas eram mulheres e homens de idade.

As crianças judias não se misturavam com a multidão endomingada. Libertou-se da mão de Gasparini e avançou para Tristan. Longe da praça. avançava em direcção ao hotel com o coração a bater. Ave Mari-i-ia. sentiu-se aliviada . como um zumbido. os chapéus. acariciando as barbas. Distinguiam-se bem de longe. Começou a descer a rua do regato. A multidão afastara-se para deixar passar a imagem que oscilava acima das cabeças e os três homens voltaram para dentro da igreja. com os rostos afogueados brilhando ao sol. Espreitava para a grande sala e. Esther via a imagem de Nossa Senhora pela primeira vez. Esther passava em frente delas. não és meu irmão!" Esther ouviu a voz de Gasparini chamando: "Hélène! Anda cá.. Os seus uniformes cinzentos formavam uma mancha estranha à sombra das tílias. Talvez fosse por causa do que o pai dissera. com as crianças judias. Esther tentou ver os soldados italianos. e aproximava-se da porta do hotel. Mas quem Esther queria ver era Rachel. No meio da praça. ficando ao pé dos pais. Agora. acima de tudo. que segurava nos braços um bebê com um estranho olhar de adulto. onde vais tu?" O olhar de Tristan exprimia uma tal angústia que ela se deteve por momentos e adoçou a voz para dizer: "Desculpa. Esther viu Tristan. Esther procurava Rachel. Pondo-se na ponta dos pés. havia mulheres que dançavam umas com as outras ou com rapazitos muito novos que mal lhes chegavam aos ombros. Não se mexia." Gasparini repetia aquilo com uma espécie de impaciência. Ao aproximar-se. sem responder a Gasparini. O sol estava baixo no céu e iluminava completamente a grande sala. De súbito. os velhos judeus também observavam. sem se mexerem. Os olhos azuis escuros brilhavam. Também os cabelos. A maior parte das pessoas já tinham ido embora mas do lado das tílias havia um grupo de rapazes e raparigas.transportando a imagem. provocava-lhe vertigens.. os lenços das mulheres e a palidez da sua pele. os chamamentos e. deixa-me. mas não respondeu. o meu primo irá com os outros levar a imagem ao santuário que fica na montanha. "Vai-te embora! Vai brincar. junto da fonte. eu volto já. Era uma mulher pequena. em frente do hotel. a voz do padre que cantava na igreja Ave." Atravessou a multidão de cabeça baixa. Quando entrou na sala. olhava apenas e o seu rosto tinha uma expressão estranha. com os seus fatos pretos. Esther sentiu o sangue afluir-lhe ao rosto. com o rosto cor de cera. A imagem envergava um grande manto de cetim azul que brilhava ao sol. que tudo tinha que acabar. Lentamente. pela porta aberta. Um pouco afastados. entrando pelas janelas abertas para o jardim. Quando a cerimónia terminou. via os soldados e os carabineiros. Ferne estava um gramofone a tocar uma espécie de mazurca lenta e roufenha. uma careta que o sol imobilizara. agora deserta. as mulheres rodopiavam. Esther voltou à praça. em frente dos carabineiros. Os soldados italianos estavam de pé. fumando e ouvindo a música. Lá fora. ouvia o ruído das vozes humanas. brilhavam. os risos. toda a gente veio para a praça. O coração batia-lhe com força e ela estava convencida que era de raiva: "Por que estás sempre a olhar para 41 mim? Por que é que me vigias?" O pequeno recuou ligeiramente. "Quando a guerra acabar. Olhavam sem falar. No meio do brouhaha distinguia-se o som da Ave Maria. Ao fim da tarde. negros e fortes como a crina de um cavalo. Em cima do piano do Sr. Não sei por que te disse aquilo. A luz incomodava Esther. Mas não queria voltar para casa. As raparigas afastavam-se para deixá-la passar. ouviu o som da música de um acordeão. Ave. em frente dos rapazes. Estava na orla da praça. os velhos não tinham tirado as suas casacas. Apesar do calor do sol intermitente. não queria ter de responder às perguntas da mãe.

os jovens permaneciam à parte. a voz estrangulada do clarinete que se enrolava no ar.mas o coração continuava a bater com toda a força no peito. gritando: "Estuporzeco duma figa! Se continuas parto-te a cabeça!" Esther desatou a correr rua abaixo o mais rapidamente que pôde e desceu pelo meio dos campos até à torrente. Tinha o rosto afogueado de calor. "Anda. com o vestido esvoaçando e deixando ver as pernas esguias e o braço nu levemente poisado no ombro do soldado. De vez em quando. Apenas se mantinha demasiado hirta enquanto girava e girava ao som da mazurca e a longa cabeleira de um vermelho escuro varria-lhe as costas. Esther tentava em vão captar-lhe o olhar. mais ainda do que aos soldados italianos. 44 As noites eram escuras por causa do recolher obrigatório. Rachel nunca lhe tinha parecido tão bela. e dançava com Mondoloni. Nessa altura. mas julgava perceber de vez em quando uma exclamação. Ferne. Gasparini estacou à frente dela com os olhos chispantes de cólera. Gasparini ficou especado no meio da rua. A música não parava. Os soldados e os carabineiros estavam todos voltados para ela e observavam-na enquanto iam fumando e bebendo. deixa-me!" e depois debateu-se com raiva e esbofeteou-o. Inclinou-se para 43 Esther e tentou beijá-la. Ela sentiu o seu cheiro. um cheiro forte. um cheiro de homem. Em frente da porta. que a amedrontava e atraía simultaneamente. os garotos paravam para tentar ver e as mulheres esticavam-se para distinguir a silhueta clara que dançava na enorme sala. odiavam-na do fundo dos seus corações. Começou a empurrá-lo. Mesmo ali. Era isso que fazia bater o coração de Esther: sentia que aquilo não era normal. Tristan saltou-lhe ao pescoço procurando imobilizá-lo. com o seu som roufenho. segurando-a pela cintura como se quisesse dançar. do outro lado da fonte. na praça. mas era daquelas pessoas que controlam bem a bebedeira. faziam gestos e toda a gente se afastava. mas era muito pequeno e ficou pendurado. Estava com os soldados emplumados. Ninguém parecia prestar atenção. que havia algures uma espécie de mentira. com os pés no ar. As pessoas fingiam não ver nada mas estavam a pensar em Rachel. Quando Esther saiu do hotel. o clarinete repetindo incansavelmente a mesma frase no disco enquanto Rachel rodopiava nos braços de Mondoloni com o rosto pálido impassível e distante como o de um cego. transportada pela música e pela dança. mas Rachel era a única que dançava. Parou e sentiu o coração a bater no peito e na garganta. uma gargalhada. Gasparini agarrou-lhe no pulso e puxou-a para si desajeitadamente. as polcas ritmadas em cima do piano do Sr. Não conseguia distinguir-lhe a voz por causa do barulho da música. ainda ouvia a música triste e lamurienta da festa. Devia ter bebido já bastante. para um outro mundo." Esther abanou a cabeça e desceu a ruela até ao ponto em que se podia ver o vale. vamos passear. O rosto mate estava inclinado para trás. A dado momento. Era preciso . Lá fora. a gravata sufocava-o. As outras viam-na revolutear. no meio da sala 42 cujas mesas e cadeiras tinham sido afastadas para junto da parede. Então os carabineiros voltavam-se para eles. Viu Rachel. Gasparini libertou-se com um empurrão e atirou-o ao chão. repetindo a princípio "deixa-me em paz. Havia mais mulheres na sala. junto da ribeira. sem perceber. Queria estar só e não ouvir mais nem a música nem as vozes. tinha partido para algures. Esther julgou ouvi-los rir. os carabineiros e os soldados paravam à sua frente e Esther tinha de pôr-se na ponta dos pés para a ver. Os garotos riam em volta deles.

Esther gostava particularmente de um. De repente. Assemelhava-se a uma corda grossa. esforçando-se por falar em voz muito baixa. histórias que ia pontuando com grandes gargalhadas. Horrorizada. que brilhava ao sol como se acabasse de sair da água. Continuavam a rastejar." Esther olhou então ainda com mais atenção as víboras unidas que deslizavam na praia. as cabeças separaram-se revelando o focinho curto. suaves e agudos. Dizia que era capaz de as domesticar e mesmo de as agarrar. formada por dois cordões curtos e retorcidos. Esther aproximou-se dele por trás. Andaram durante muito tempo pelo meio das ervas. apesar do barulho da ribeira. formando lentamente anéis. As víboras permaneciam ligadas uma à outra. "Estão a lutar?" perguntou. Voltou-se para Esther e disse: "Não. uma música que nunca ouvira. Havia mesmo alguns que vinham dos maquis italianos. os olhos de pupilas verticais. os enviados de Ignace Finck. Esther conhecia-os bem mas não sabia o nome da maior parte deles. Entravam juntos pelo meio das ervas altas. e havia os que vinham de longe. ouvindo Mario modular os seus estranhos assobios. levou-a através dos campos ainda até mais longe. Mario voltou-se para ela. Havia os da aldeia e dos arredores. Entre eles. ligados um ao outro por nós que deslizavam de cima a baixo e se desfaziam quando as caudas se agitavam como chicotes. sem fazer barulho. por entre os seixos. onde os camponeses e os pastores italianos lutavam contra os fascistas. Era um rapaz com os cabelos tão ruivos como os de Rachel a quem chamavam Mario. Quando chegava. cor de folhas mortas. por vezes. Num sussurro. viu qualquer coisa que não compreendeu o que era. pensava Esther. De repente. O calor do sol já se fazia sentir na vegetação e as montanhas em redor do vale pareciam gigantescas muralhas de onde nasciam as nuvens.correr as cortinas nas janelas e tapar todos os interstícios com trapos e papéis. metade em francês e metade em italiano. Tinha uns olhinhos pequenos de um verde estranho. a enrolar-se e. Aquilo demorou muito . que abalavam antes de anoitecer. A dado momento. nos seus olhos estreitos e fendidos como os das serpentes. na praia de areia e seixos. Não falava muito com os outros do maquis. Preferia brincar com Esther. estão a amar-se. Wister ou Appel. Contava-lhe histórias engraçadas. assobiando como quem assobia aos cães. rastejando por entre os seixos. com Esther a seguir o caminho que ele abria na vegetação. disse: "Olha!" Através das ervas. Todo o seu rosto se concentrava no olhar. olhos de serpente. as bocas entreabertas. Os homens do maquis chegavam à tarde. em cima de almofadas. Esther avançava atrás dele com o coração a bater. sentando-se nos bancos em redor da mesa coberta com o oleado. com os assobios doces de Mario parecendo vir de todos os lados ao mesmo tempo e provocando uma sensação de vertigem. Mas não tinha 45 medo delas. Mario olhava as víboras. Parecia tão estranho que não conseguia afastar os olhos. Depois os corpos recomeçaram a torcer-se na praia. estava tão cansado que ficava a dormir no chão da cozinha. sem se aperceberem da presença deles. Iam até aos prados por cima da ribeira. Instalavamse na cozinha acanhada. Gutman. Esther julgava ouvir o raspar das escamas umas de encontro às outras. olhava através das ervas as duas víboras enlaçadas que deslizavam e se contorciam na praia. Vinha do lado de lá da montanha. Uma manhã. para além da confluência dos dois cursos de água. Esther estremeceu: a corda mexiase. Fora a primeira pessoa a falar-lhe das víboras. ia de madrugada passear com ela em redor da aldeia. Os olhos verdes cintilavam. Às vezes. à beira da ribeira. sem se preocupar com os soldados do Hotel Terminus. quando passava a noite na cozinha. com o olhar fixo como se estivessem em transe. o rapaz estacou levantando a mão. de Nice ou de Cannes.

nascida a 3 de Fevereiro de 1912 em Pontivy (Morbihan). leve. base: média. Mas os fascistas tinham morto todas as suas ovelhas e o cão e Mario juntara-se ao maquis. os . forma geral do rosto: oval. desaparecendo pelo meio das ervas na margem da ribeira. Não falaram durante todo o caminho através das ervas altas. para a mãe e também para Mario. os dois corpos acalmaram e as cabeças tombaram cada uma para seu lado. outras vezes trêmulas e chicoteando o solo. sinalética: nariz: rectilíneo. os homens tinham vindo com Mario até à sua cozinha e posto em cima da mesa bilhetes de identidade para todos: para Esther. Um dia. cabelos: pretos. "Também as sei matar. Por fim o seu: JAUFRET. semelhantes a uma seteira. atentos apenas ao que estava sob os seus pés. tão estreitamente ligadas que nem se distinguiam as cabeças." Era por isso que Esther adorava Mario. relatara-lhe um pouco da sua vida. no meio das ervas. com os rostos iluminados de forma fantasmagórica pela luz do candeeiro de petróleo. Muito lentamente. Quando chegaram à estrada. Não tinha querido ir para a guerra e escondera-se na montanha. a larga cabeça formando um ângulo recto com o corpo erguido. Hélène. desapareceu por sua vez no meio da vegetação. Depois. num abrir e fechar de olhos. um assobio fininho. Esther tentava ouvir o que diziam. por entre os dentes. sem profissão. "Não. em nome de LEROY. as serpentes ficavam por vezes imóveis e frias como ramos de 46 árvores. olhos: verdes. A pequena sentiu o coração estremecer sob aquele olhar. dando uma pancada seca no pescoço de serpente. como se fossem ladrões preparando um assalto. quase inaudível. Esther tinha agora documentos falsos. casada com JAUFRET. Quando a outra começou a rastejar. para o pai. Fitava o rosto largo de Mario. nascida a 22 de Fevereiro de 1931 em Nice (Alpes-Marítimos). Os homens conversaram durante muito tempo em redor da mesa. e a respiração que lhes dilatava os corpos fazia brilhar as escamas. sem compreender. A pequena tinha olhado durante muito tempo o cartão amarelo com a fotografia do pai e lera o que lá estava escrito: 47 Apelido: JAUFRET. Mario assobiou daquela forma estranha. Nome: Pierre Michel Nascido a: 10 de Abril de 1910 Local: Marselha (Bouches-du-Rhône) Profissão: Comerciante Sinalética: Nariz: rectilíneo Base: média Dimensão: média Forma geral do rosto: longo Pele: clara Olhos: verdes Cabelos: castanhos Olhara depois para o da mãe. Esther perguntou ainda: "E podias tê-las morto lá?" Uma expressão estranha surgiu no seu rosto. uma das víboras desfez o nó e deslizou para longe.tempo. dimensão: média. pele: clara. em vez de lhe contar histórias. Antes da guerra era Pastor para as bandas de Valdieri. Seria muito mal feito matá-las. A serpente ergueu a cabeça e olhou fixamente para Mario e para Esther em pé à sua frente. Por fim. quase sem abrir os lábios. Esther perguntou: "Nunca as matas?" Mario desatou a rir." Pegou num pauzinho da beira do caminho e mostrou-lhe como se deve fazer. Esther via as pupilas fixas. nome: Madeleine. lá não podia. alguns pedaços. Mario e Esther voltaram para a aldeia. A víbora hesitou um instante. sem profissão. Uma tarde. junto à cabeça.

O barco atravessaria o mar e levaria os judeus até Jerusalém. que não se atreviam a tirar a combinação. Esther pensava que devia ser assim. Nunca fales de Ângelo Donati a ninguém. longe dos alemães. Esther tomava banho de cuecas. Então Elizabeth levantava-se. Esther ouvia tudo aquilo deitada no chão em cima das almofadas 48 que serviam de cama a Mario e ficava semi-adormecida sonhando com o barco de Ângelo Donati e com a longa viagem por mar até Jerusalém. agarrando-se aos rochedos. deixar a água escorrer ao longo do corpo. e todos os homens aprovavam. Quando saía da água e ficava de pé. Despiam-se nas moitas. um nome que não conseguia esquecer porque soava bem. junto à fonte. Quando os homens conversavam com o pai havia sempre um nome que era pronunciado. com a chuva ao fim da tarde e o som da água escorrendo nos telhados e em todas as valetas. Como a maior parte das raparigas. uma ribeira transparente e fria que escorria sobre nós e lavava tudo. os olhos estreitos e oblíquos e pensava que ele talvez estivesse a sonhar com as víboras no campo. O que era bom era entrar na torrente no ponto em que ela era mais forte e. ou com as lebres que apanhava nas suas armadilhas em noites de lua cheia. Esther perguntava: "Quando vamos no barco do Ângelo Donati? Quando vamos para Jerusalém?" A mãe beijava-a e dizia alegremente mas em voz baixa. a amiga de Esther (não era verdadeiramente uma amiga. . Judith. como Judith. desciam para onde estavam os rapazes. libertava-as de tudo o que as pudesse perturbar. Ângelo Donati tinha dito isto. percebes? É um segredo. A água caía. adormecia. que os salvaria. batia-lhes nos ombros e no peito. Depois.seus cabelos ruivos. tinha a impressão de ser uma pessoa nova e que todo o mal e toda a raiva tinham 51 desaparecido. alterada pelas chuvas. deslizava pelas ancas e ao longo das pernas fazendo um ruído contínuo. Depois. Ângelo Donati tinha feito aquilo. era como o nome de um herói dos livros de História do pai: Ângelo Donati. Antes de adormecer. esperava por Tristan e desciam correndo com os outros miúdos a rua do regato até à ribeira. não era assim como Rachel. rodeava Esther com os braços e iam juntas para o pequeno quarto de alcova onde se encontrava a cama da pequena. era fria e violenta. Quando o pai e a mãe vinham deitar-se na cama grande ao lado da sua e ouvia o ruído da sua respiração. para se vingarem de não terem pescado nada. 49 Estava-se já no fim do Verão. os passos afastavam-se na rua." Esther ficava de olhos abertos no escuro e ouvia o som das vozes que ressoava surdamente na pequena cozinha. cambaleando sobre a rocha plana. um grande barco à vela e a motor que transportaria todos os fugitivos. que em vão tinham escarafunchado em todos os buracos da torrente procurando lagostins-do-rio e. mas estavam sentadas uma ao lado da outra nas aulas de Sr. queimar interiormente." Esther insistia: "Mas é verdade que esse barco vai levar toda a gente para Jerusalém?" Elizabeth respondia: "É verdade e talvez nós vamos também até Jerusalém. a porta fechava-se. Ângelo Donati tinha arranjado um barco em Livorno. Os rapazes ficavam lá em baixo e Esther subia com as outras pequenas até ao ponto em que a torrente cai em cascata sobre grandes blocos de pedra. Então esqueciam tudo e a água fria lavava-as até ao mais profundo de si mesmas. A água do Boréon. o sol brilhava sobre as montanhas e Esther bebia a sua taça de leite o mais depressa que conseguia para vir cá para fora. velada com um tom de inquietação "Dorme. Seligman) falara do baptismo que apaga os pecados. o riso de Mario. Na praça. mas havia algumas. ao sol. Pela manhã.

as risadas das raparigas. Quem poderia compreender? Quando Tristan já estava rouco de tanto gritar. Era um jogo. acima dos silvados. Tristan não era como os outros. Quando tinha subido já até muito acima na torrente. Esther estava tão longe que se julgava perdida. Mas talvez fosse o vento de chuva que fazia estremecer Esther. a cada sombra. descia a torrente e Esther podia então sair do seu esconderijo. Era o final. mas não falava dele a ninguém. A seguir. de ficar aninhada ao abrigo da rocha. De repente. escolher a passagem numa fracção de segundo. Desciam até à torrente e ela arrastava-o para o desfiladeiro saltando de pedra em pedra. os estalidos. Mario contara-lhe dos lobos que no Inverno. era desajeitado e tinha um olhar muito doce. Agora. e os outros. Gasparini com o seu rosto vermelhusco. Judith. o momento mais ardente do Verão. ouvia os cães ladrar muito ao longe e depois a voz de Tristan gritando o seu nome: "Hélène! Hé-lè-ne!. Mas às vezes voltava sozinha para a aldeia. Estremecia por causa das histórias de lobos. e depois detinha-se para ouvir a respiração ofegante do rapaz que não conseguia segui-la." Gostava de não responder.. as pedras. Esther estava atenta a cada pormenor. as nuvens apareceram ocultando a luz como se uma gigantesca mão se tivesse aberto no céu. olhando a água. via as nuvens cinzentas que cobriam os . os abrigos de pedra nua sem janelas. Subia a encosta até ao carreiro e seguia na direcção do cemitério. os buracos abobadados como grutas. a vibração dos insectos que se misturava com o barulho da corrente. atirava-se para cima da cama e chorava com o rosto enfiado na almofada. no interior sombrio da montanha. A floresta de bétulas e castanheiros iluminava-se. descalça. parava à borda de água oculta por uma rocha e escutava todos os ruídos. muito magros nas suas roupas molhadas. Saltava sem pensar. Bernard. sentavam-se todos numa grande pedra lisa sobre a torrente e esperavam. a linha de crista dos Caíres de encontro ao céu. quando os prados ficavam amarelos e o restolho fermentava nos campos com um calor acre. Brincavam aos namorados. Tristan queria segui-la mas Esther era demasiado rápida para ele. gesticulava exageradamente e gritava para que Tristan a visse. porque era como se fosse dona da sua vida e pudesse decidir 52 sobre tudo o que viria a acontecer-lhe. eram estranhos. Em pé sobre uma rocha. os cabelos cortados muito curto e os largos ombros de homem. Quando lá chegava. saltar com leveza calculando o impulso a dar. Vespas irritadas voavam à sua volta. ultrapassando o lugar onde os pastores guardavam o gado durante o Inverno. Olhava com uma atenção quase dolorosa tudo o que estava perto ou longe. atraídas pelas gotas de água presas nos cabelos e na pele nua. Anne. Esther segurava-lhe na mão. avançavam na neve uns atrás dos outros e que desciam aos vales para roubar cordeiros e cabritinhos.atiravam água às raparigas. Não era verdadeiramente aterradora aquela sensação de estar perdida à entrada dos desfiladeiros. Os gritos das crianças. como nos sonhos. Achava que era o que melhor sabia fazer na vida: correr pelos rochedos. cada palavra ressoava estranhamente dentro dela duas ou três vezes. quando iam passear nos arredores da aldeia. com as alpergatas na mão. os mosquitos suspensos na luz. os pinheiros recortados no cimo das colinas. sozinha. em Itália. ia para casa. Esther fora mais longe do que nunca. incompreensíveis. quando o pai desaparecia nos campos de altas ervas.. Maryse. O sol elevava-se no céu ainda sem nuvens. os arbustos espinhosos. como os latidos dos cães. Saltava tão depressa que ninguém a podia acompanhar. Nunca soube porquê. com o olhar oculto na sombra das órbitas e as silhuetas simultaneamente frágeis e distantes.

quando iam pescar ou tomar banho na torrente. tens que te esconder. mandaram-na embora empurrando-a: "Vai-te embora! És muito pequena!" Mas Anne sabia do que eles falavam porque o irmão mais velho pertencia ao grupo. os dias seriam cada vez mais curtos e a neve cairia nas montanhas. Em breve o Sr. O curral era imenso. Esther correu pela estrada até à ponte e depois através dos campos até ao celeiro. e também raparigas. Seligman ia reabrir as portas da escola. Formavam uma cortina que engolia as paredes rochosas. perto da ribeira. É um nome judeu. em vez de ir almoçar. formando um longo túnel no interior da montanha. Os rapazes subiram o talude e fugiram pela estrada. Mas já gotas geladas. Esther debatia-se com os olhos cheios de lágrimas mas sem gritar." Na praça. a porta do celeiro abriu-se e através da nuvem . Havia morcegos no tecto escuro. Quando Esther chegou. Sentia-se 53 mais calma. porque era isso que o tempo trazia. Esther desceu até lá pelo talude sem fazer barulho. ouviu os gritos dos corvos no silêncio e pensou que os rapazes tinham inventado uma história. O vento começou a soprar com força e um frio cortante sobrepôs-se ao calor das ervas fermentadas. os blocos de pedra. quando corriam na praça. O celeiro fora construído encavalitado sobre duas plataformas que ficavam num nível inferior ao da rua. Esther começou a correr." Disse aquilo como uma certeza e Esther sentiu a garganta apertar-se uma vez mais. agora que a chuva caía. Procurou agarrar o pescoço do que a segurava e este recuou." Esther disse então sem gritar. formando grandes regatos vermelhos.flancos das montanhas e subiam o estreito vale. Por fim. Disse: "Então também me vão levar a mim." Pela primeira vez." Gasparini comentou: "Se os alemães vierem. Esther acocorouse na entrada semi-protegida por um silvado." E acrescentou: "Hélène não é um nome judeu. Eram sobretudo as crianças que tinham mudado. Gasparim disse outra vez: "Os alemães vão vir qualquer dia e levar todos os judeus. Estavam impacientes e irritadiças quando brincavam. Era meio-dia mas." Gasparini fitou-a atentamente: "Se tiveres papéis falsos não te levam. os últimos dias. caiu no chão com os olhos velados por uma nuvem de sangue. e que ela queria impedir. Corria e o coração batia-lhe com toda a força no peito. Ouvira-os dizer que tinham descoberto onde o capitão Mondoloni se encontrava com Rachel. Tinham uma espécie de pressa quando falavam. viu-os emboscados atrás dos arbustos. Ao chegar. A água começou a correr pela colina abaixo. que recuperava o tempo que Esther tinha roubado nos seus esconderijos. tinha um ar perturbado. espreitando 54 para dentro do celeiro por uma frincha no cimo da parede. fustigavam o chão. Estavam três rapazes deitados no chão. Quando Esther se aproximou. enquanto os outros lhe batiam nas costas para a obrigarem a largar a presa. vacilante. Esther pensava nisso vendo a chuva cair e os regatos escorrerem por ali abaixo. as pessoas não eram as mesmas. um velho celeiro do outro lado da ponte. quando se moviam. uma espécie de gruta. Naqueles dias. enormes. Pensava que caminhava para outra coisa. O rapaz recuava com Esther agarrada ao pescoço com todas as suas forças. Havia vários rapazes. mesmo por baixo do tecto. Era a vida que se vingava. friamente: "Eu não me chamo Hélène. chamo-me Esther. Depois. Mas quando se aproximou da velha construção. levantaram-se e começaram a bater-lhe sem dizer uma palavra. Acrescentou: "Se os alemães vierem. os rapazes falavam de Rachel. mas não sabia o quê. Brilhavam clarões nas nuvens. escondo-te no celeiro. tentando regressar antes da chuva aos abrigos dos pastores. Deram-lhe murros e pontapés enquanto um deles a segurava. dos grandes. as florestas.

Rachel em pé. compondo a farda. veio até junto dela e apertou-a nos braços como se lamentasse ter-lhe gritado. ou seja. Mas Rachel voltou. espreitando os homens que sussurravam em redor da mesa como se falassem com a lamparina de azeite. ouviramse umas leves pancadas na porta e o pai deixou entrar os homens: um judeu chamado Gutman e outros dois que vinham de Lantosque.. Desceram depois até à torrente e Rachel ajudou-a a lavar cuidadosamente o rosto onde o sangue tinha coagulado. sentou-se na erva a seu lado. Elizabeth aproximou-se. ao sol. Na escuridão. para Esther. Já passou. para acabar com a vergonha e o medo. quase com dureza: "Que estás tu a fazer aí? Volta para a cama!" Depois. Escalava a inclinação do talude com a cabeleira a refulgir e apanhava pedras que atirava desajeitadamente na direcção dos rapazes que fugiam. Gostaria que chovesse agora. Rachel começou a gritar com uma estranha voz esganiçada e vulgar que Esther não reconhecia. mergulhando de novo na noite." O pai contou então o que acontecera. onde os alemães acabavam de instalar o seu quartel-general. desatou a rir e disse qualquer coisa em italiano. para se juntar ao grupo que ia fazer explodir a instalação eléctrica de Berthemont. tão vivos. Tinha o seu lindo vestido claro e o sol fazia os cabelos brilharem como se fossem de cobre. como nos sonhos. Esther estava tão fatigada que teve que se apoiar a Rachel para subir a encosta até à aldeia.. Deixou-se ficar ali à porta. como era costume.vermelha Esther viu Rachel a olhar para ela. enquanto Esther descia em direcção ao celeiro abandonado onde Rachel se encontrava com o capitão Mondoloni. tinha ficado escarlate. Mario avançava sozinho pelos campos na base da montanha e com certeza que ia assobiando suavemente às víboras. ao mesmo tempo. Esther compreendeu imediatamente que algo de grave se passava. que a chuva nunca mais deixasse de cair até ao Inverno. dizendo com uma voz enrouquecida por ter gritado tanto: "Não é nada. Elizabeth estava sentada com eles e também fitava a chama da lamparina sem dizer nada. As dores impediam Esther de se levantar e ela começou a subir o talude rastejando. pareciam nunca mais acabar. Mario tinha os cabelos tão ruivos como os de Rachel. era uma história que recomeçava constantemente. 55 Foi à noite que Esther soube da morte de Mario. Eram apenas palavras mas no entanto. Quando os três homens se foram embora. A seguir saiu o capitão atrás dela. e disse: "O Mario morreu. Quando viu Esther no talude e os rapazes a fugir. O sol brilhava sobre as ervas 57 por entre as quais Esther se dirigia ao celeiro abandonado e. procurando desesperadamente um buraco para se esconder. tão atraentes. Nessa altura. Naquela tarde. ao sol. e a pequena desatara a rir por causa da cor da sua cara. sem conseguir atingi-los. Mario seguia pela montanha com a mochila cheia de plástico. Trazia o revolver na mão. e olhava o mesmo céu que ela. com o vestido claro desabotoado atrás e os ombros brancos brilhando ao sol. A pequena esgueirou-se da cama e entreabriu a porta do quarto com os olhos franzidos por causa da luz da cozinha. com as lágrimas correndo pela cara abaixo. acaricioulhe os cabelos e o rosto. minha querida. o pai de Esther viu-a. Tinha dito que quando a guerra acabasse havia . Mario gostava muito de Rachel. de pé em camisa de noite na frincha da porta e disse primeiro." Acabaram por ficar sozinhas no declive coberto de erva. fora ele próprio que dissera um dia a Esther. Esther tremia de frio e cansaço enquanto olhava a luz nos cabelos vermelhos de Rachel e sentia o cheiro do seu corpo. e quando o confessara tinha corado. ouvia os mesmos gritos dos corvos. detonadores de acção retardada e cartuchos de tolamite.

ao sol. a praça onde iam dar todos os caminhos do mundo. da sua coragem. Fora nesse momento que ouvira o ruído da explosão lá em baixo. estar noutro lugar qualquer." Sentou-se na cama ao lado de Esther. das nuvens escuras que se acumulavam todas as tardes e da chuva que caía com gotas frias. agora dorme. "Fala-me de Jerusalém. de bordos queimados e que cheirava a pólvora. Sentia as lágrimas transbordarem dos seus olhos e correrem pelas faces. pingando do nariz e do queixo para a camisa do pai. apenas viram um grande buraco no chão. ser outra pessoa. . E o capitão desatara a rir e partira pela estrada enquanto Rachel se sentava no chão para acariciar os cabelos da pequena. perguntara: "Quando parte o barco do Ângelo Donati? Quando é que ele nos leva para Jerusalém?" Elizabeth murmurava como se entoasse uma canção: "Não sei. frente ao celeiro. No celeiro quente e húmido. A testa ardia e tremia como se tivesse febre. Este dizia coisas a respeito de Mario. fugiram correndo até à estrada e desapareceram e ela arrastouse sobre a erva. Quando os três homens tinham batido à porta fora por isso que ela se tinha levantado. com aquela nuvem vermelha em frente dos olhos. porque também ele ouvira a explosão. Esther avançava pelo meio das ervas duras em direcção ao celeiro em ruínas. acariciando-lhe os cabelos como quando era pequena. Talvez fosse por todos esses dias passados a correr pelo meio das ervas. por favor. Foi a mãe que lhe pegou ao colo e a levou lentamente para a alcôva escura onde se encontrava a cama. Ferne. Procurando nas ervas em redor. minha vida. Fora 58 uma explosão única. as fontes. tão terrível que Esther ainda sentia os tímpanos a vibrar. os suspiros. estar com outras pessoas. Mas Esther não prestara atenção porque na mesma altura estava Rachel em pé. Apenas uma madeixa de cabelos ruivos. muito ao longe. sentando-se depois ao lado dela. mas não tinham visto nada porque o celeiro era demasiado escuro. com a cabeleira vermelha brilhando como uma juba e gritando insultos aos rapazes. o nome mágico que aprendera sem o entender. no talude." No silêncio da noite. que preferia os oficiais italianos. com outro nome. mas Esther não chorava verdadeiramente por causa disso. Era tudo o que restava dele. Eretzraèl. a cidade de luz. a voz de Elizabeth murmurava. por todas essas canseiras e também por causa da música do Sr. dando origem aos regatos vermelhos e cavando ravinas na montanha. encontraram uma madeixa de cabelos ruivos e fora assim que tinham ficado a saber que Mario morrera. Quando os homens do maquis chegaram. no pescoço. Apenas tinham ouvido os ruídos. meu amor.de convidar Rachel para ir dançar um sábado e Esther não tivera coragem para lhe dizer a verdade: que Rachel não gostava dos rapazes como ele. Eram as raparigas que contavam aquelas coisas. quando os rapazes pararam de bater em Esther. Estava tão cansada! Queria dormir. Mario ia levar o saco de explosivos aos homens do maquis da zona de Berthemont e caminhava rapidamente pelo campo para chegar antes da noite porque queria ir dormir a Saint-Martin. repetia a mesma história. no fundo do vale. Eretzraél. Esther soluçava agora nos braços do pai. Ou talvez por causa do Verão que terminava. Não sabia por que chorava. Rachel estava deitada com o capitão e ele beijava-a na boca. a que Esther ouvia desde que era capaz de compreender as palavras. das ceifas e do restolho que apodrecia. Depois. de tudo o que ele tinha feito. um buraco escancarado. esquecer tudo. pensando que era Mario. por todo o lado. um nome verdadeiro e não um nome inventado num bilhete de identidade. Fora por isso que o capitão saíra do celeiro com o revólver na mão. que dançava com o capitão Mondoloni e que as pessoas diziam que ela era uma puta e que lhe haviam de cortar os cabelos quando a guerra acabasse. o amarrotar das roupas. ridícula. com uma voz enrouquecida.

não de pés. nem mesmo ao ouvir a mãe ler-lhe livros como "A Quinta Viagem de Sindbad. À sua frente." como faziam os outros rapazes. gritar o seu nome: "Hélène!. mas não era capaz. novo e inquietante. sem dizer nada. Também a floresta era sombria. Tristan nunca tinha sentido aquilo antes. Tristan ouviu os seus gritos. No interior do desfiladeiro a sombra era fria e quando Tristan respirava o ar parecia rasgar-lhe o corpo interiormente e assobiava como por uma janela. os rochedos tornavam-se cada vez maiores. Tristan seguiu Esther pelo desfiladeiro sem a chamar. As folhas mortas apodreciam entre os rochedos e havia sob os seus pés poças em que fervilhava uma água negra. sombrios. No fundo da ravina. desaparecia nas cavidades. Depois de uma hesitação. Tudo era selvagem. mais escuros. por uma brecha na montanha. o 61 Marinheiro". Tristan seguiu Esther ainda até mais longe. Pareciam gigantescos animais petrificados em torno dos quais a água turbilhonava. semelhantes a animais. tão misterioso e inquietante. como fazem normalmente as raparigas. prepassava a silhueta ligeira de Esther. Durante algum tempo. Tristan queria chamá-la. Quando chegou à outra margem. O grupo de rapazes e raparigas tinha ficado à entrada do desfiladeiro. mas depois as vozes foram abafadas pelo ruído da água caindo em cascata por entre os rochedos. sentia o coração bater mais depressa. os seus chamamentos. Era um jogo: ele tinha que saltar pelo meio dos rochedos com o coração a bater e o olhar atento. Era como se a luz do sol ali não penetrasse. as paredes do desfiladeiro estavam recobertas por uma floresta densa e escura. gastos pela água. À medida que subia ao longo da torrente. amontoados caoticamente como se um gigante os tivesse lançado do alto das montanhas. A luz brilhando sobre o seu corpo muito branco fez estremecer Tristan. no entanto. tirou o vestido e mergulhou. Tinha uma forma muito particular de nadar. Os blocos de pedra eram enormes. Era uma brincadeira e. reaparecia mais adiante. A torrente atravessava . sem se mexer. que dificultavam a passagem. de uma cor dura e tensa que feria a vista.. atirando um braço por cima da cabeça e desaparecendo na água.. Estava agachada na beira da água e lavava os braços. espiando Esther enquanto nadava. Saltava de rocha em rocha. ergueu a cabeça e fez sinal a Tristan para ir ter com ela. tapando o nariz. Alcançou Esther no centro do círculo de rochedos escuros onde a água da torrente formava um lago. quando ele se aproxima da ilha deserta onde vivem os rocs. a sombra era fria e Tristan sentia o estranho odor da terra. Sentia no seu íntimo uma dor. com um movimento rápido. lavado pela água da torrente. Naquela manhã. Talvez fosse por causa do céu excessivamente azul. vinha quase até à água e nos intervalos das pedras brotavam fetos e silvas misturados. Era um lugar como ele nunca imaginara. Ficavam apenas aquelas pedras. aquele som da água e aquele céu cruel. prescrutando cada recanto sombrio. Por cima do vale o céu era de um azul total. Sentia a pressão do sangue nas artérias do pescoço e nos ouvidos. provocando um tremor bizarro que ressoava na terra e se juntava à vibração da água da torrente. adivinhando-lhe o rasto. como se fosse verdade. Para cima. era arrastado. Depois. À medida que subiam a torrente os desfiladeiros tornavam-se mais apertados. Ficou no cimo do rochedo. ou das árvores escuras debruçadas sobre o vale. como se se tratasse de uma aventura. do ruído da torrente que engolia todos os outros sons. Tristan despiu-se desajeitadamente entre os rochedos e entrou por sua vez na água gelada. Era por causa disso que tudo ali era tão novo. uma vertigem que não compreendia bem. mas de cabeça.59 No fundo do desfiladeiro era tudo misterioso. Tudo desaparecia. por instantes.

quase provocando náuseas. O som da água a correr enchia o estreito vale até ao céu. não havia mais ninguém além deles. Tristan agarrou na mão de Esther e de repente. uma palpitação. Subiu lentamente até ao cimo do rochedo para se sentar ao lado de Esther. subitamente. sentia a pele a arder. neste desfiladeiro. A água fria e a luz embriagavam. como se o medo que sentia pudesse desaparecer com aquele beijo. o contacto das línguas. ao sol. Pairavam num turbilhão de luz. as palavras maldizentes das raparigas na praça. Sentia o coração bater com muita força no peito. de repente. "Ouve o meu coração. com uma incrível violência. Tristan sentia na sua orelha a pele doce e escaldante de Esther. "Agora é como se fosse tua irmã. Era a primeira vez que fazia aquilo. apenas aquela sensação simultaneamente doce e ardente. Tristan não pensava na praça em que os vultos escuros esperavam à chuva antes de entrarem no Hotel Terminus. uma ligeira sombra. Esther saiu da água e Tristan observou uma vez mais o esplendor da luz sobre a pele branca. como se. Esther estava sentada bem no cimo. Meteu-lhe a mão nos cabelos e puxou-lhe a cabeça para cima do seu peito. com as costas sobre o rochedo e os olhos fechados sob a luz do sol. Tinha um corpo esguio e musculado como o de um rapaz mas notava-se já a doçura dos seios. 64 . com agilidade. Não vais contar a ninguém?" Tristan não compreendia. da sua pele pálida. cerrava os olhos e beijava-o como se quisesse absorver a sua respiração e aniquilar as palavras. com os olhos fechados. Sacudia a negra cabeleira espalhando pequenas gotas em redor. via o céu muito azul e ouvia também o barulho da água em torno da sua ilha. Esther desviou primeiro o rosto mas depois. poisou os lábios sobre os da pequena. quando falavam de Rachel. Na outra margem havia um grande rochedo que dominava o desfiladeiro. beijou-o 63 na boca." Permanecia imóvel. sem compreender como ousava. Depois de ter nadado para atravessar o lago. Esther estava recostada para trás sobre o rochedo liso. carne e batatas. Esther afastou o rosto de Tristan com as mãos e estendeu-se na rocha com os olhos fechados. a respiração suspensa e o bater do coração. Tristan nadou com toda a sua energia para o outro extremo. toda aquela luz do sol que penetrara nos rochedos negros e irradiava os seus corpos. sentia a irradiação do calor do seu sangue. como se não houvesse mais nada antes nem depois. e ouvia o ruído surdo do coração a bater. sem ousar poisar os lábios sobre os ombros que brilhavam para saborear a água das gotas que ainda restavam sobre a sua pele. Murmurou: "Nunca me abandonarás?" A voz estava rouca e cheia de sofrimento. "Nunca te hei-de abandonar. o resto do mundo tivesse desaparecido e apenas restasse aquele rochedo escuro. engolindo muita água. Tristan tinha vergonha do seu corpo nu. o que fazia vibrar todo o seu corpo. Nem sequer pensava na mãe. uma espécie de ilha acima da violência da torrente. no seu rosto triste e contraído quando ia tentar vender os colares de pechisbeque aos negociantes de jóias para comprar leite." Dissera aquilo com tal gravidade que Esther riu. o som dos dentes chocando. Tristan olhava-a sem ousar aproximar-se. as costas e as pernas magras. Tristan saboreava a liberdade pela primeira vez na vida. Esquecia o olhar duro dos rapazes. como se ela estivesse com febre. era como se estivessem sozinhos no mundo.62 lentamente o lago com um ruído de catarata. o sabor das salivas que se misturavam. escalou o rochedo e instalou-se lá em cima. com as pernas penduradas no vácuo e olhava-o como se tudo aquilo fosse muito natural. Aqui.

onde os alemães encerravam os judeus em prisões. quando ninguém podia ver. para o jardim. Esther viera com a mãe e permaneciam imóveis. as crianças corriam como habitualmente em redor da praça e talvez corressem mesmo propositadamente mais depressa e dessem gritos mais estridentes para disfarçar o seu medo. em frente do hotel. Esther tinha-se aproximado e ouvira o som das vozes. Mas não era o que as pessoas diziam que interessava Esther. Gasparini dizia que os italianos tinham medo. tinham chegado 65 outros militares. Faziam de conta que não tinham notado nada. Queria ver Rachel. junto da parede. Naquela tarde. perguntando: "Viram a Rachel? Sabem onde está a Rachel?" mas todos voltavam a cabeça com um ar incomodado. Fora o pai que dissera. fingindo não saber de nada. Os soldados permaneciam lá dentro. Dizia que os italianos tinham perdido a guerra e que se iam render e que os alemães ocupariam então todas as aldeias. que ela continuava a ser sempre sua amiga e que acreditava nela. excepto as que davam para o outro lado. apenas montes de ervas que tinham servido de cama para o gado e o odor acre da urina e do bafio. no dia seguinte. do outro lado das montanhas ou. Esther foi-se dirigindo a uns a seguir aos outros. toda a gente se tinha reunido na praça. Mas ninguém a tinha visto entrar ou sair. que não fora para espiar que tinha vindo até ao celeiro.Os alemães já estavam muito perto agora. mas ninguém se preocupava com Rachel. que tinha lutado para a defender. Esther estava imóvel. o Sr. fumando e bebendo. mas não havia nada para ver. ela ficara. e por isso nunca mais se atreveriam a sair da aldeia. que não fazia troça como eles. Enquanto as pessoas falavam de coisas dramáticas. sentada no muro. não conseguia falar nem andar. Falavam uns com os outros. nem que fosse por um instante. com o seu vestido comprido e o chapéu extravagante. porque tinha tantas dores que nem podia manter-se de pé. Os rapazes e as raparigas contavam que Rachel se tinha zangado com os pais e que vivia agora no hotel com o capitão Mondoloni. vindos da zona inferior do vale em camiões. que nada daquilo tinha importância. Gasparini afirmava ter visto balas tracejantes uma noite. ouvindo as pessoas falar. tentando ver Rachel. as pessoas andavam de um lado para outro nervosamente. depois do que acontecera a Mario. para os lados de Berthemont. para o Norte. na grande sala. na praça. que não queria saber do que diziam os outros. não apenas os homens e as mulheres da aldeia mas também os judeus. Mostrar-lhe-ia as marcas das pancadas que apanhara. à noite. Esperara que os olhos se habituassem à obscuridade. não compreender. Tinha mentalmente preparado o que lhe ia dizer: que estava enganada. Nem o Sr. para qualquer lugar algures em Itália. as persianas verdes do hotel estavam todas fechadas. Naquela tarde. as nódoas negras nos lados e nas costas e que fora por isso que. os judeus ricos das vivendas. pior ainda. Pela manhã. Onde estava a Rachel? Talvez eles já a tivessem levado num carro. Há dias que procurava Rachel. observando a fachada do hotel porque queria ver Rachel. sentada na sombra. Olhava fixamente o Hotel Terminus. Heinrich Ferne e até a mãe de Tristan. . os velhos envergando as casacas e os grandes chapéus. Tinha mesmo chegado a ir ao celeiro abandonado e entrara no edifício arruinado com o coração a bater e as pernas trêmulas como se estivesse a fazer qualquer coisa proibida. toda a montanha. falavam em todas as suas línguas. à tarde. Diria: "Não é verdade! Não é verdade!" com todas as suas forças para que Rachel soubesse que ela a acreditava. Quando a mãe tinha regressado a casa.

enchiam toda a rua. Ferne tinha regressado. no seu lugar oculto pela árvore. Foi na sexta-feira que Esther entrou pela primeira vez na sinagoga. . estavam já paradas algumas mulheres e crianças. em frente do seu piano negro. Tinha uma expressão estranha. Talvez Rachel estivesse fechada num deles e olhasse pelas frinchas para as pessoas que iam e vinham na praça. obrigado meus amigos. limitando-se a abanar a cabeça em silêncio. inclinando um pouco a cabeça. ler a música que ele lhe arranjasse. As notas voavam pela porta da cozinha escura. primeiro alguns homens e mulheres dos que ali estavam e depois toda a gente. Ferne. como se fosse chorar. Agarrada às grades. Esther. de onde se via o vale ainda iluminado por uma espécie de bruma e as altas silhuetas das montanhas. subiam no ar leve. gritando para o aclamar.Ferne disse qualquer coisa. A música evolava-se. ia de casa em casa. Esther desceu até à zona baixa da aldeia. como se dissesse: Obrigado. Pensava que nada acabaria. brilhava. Ferne sentado na cozinha. Esther também aplaudiu. tocava para cavalheiros de fraque e senhoras de vestido de noite. Ferne apareceu no limiar da porta da cozinha. Poderia sentar-se de novo ao lado do Sr. Rachel voltaria a andar na rua para fazer as compras aos pais. "Trouxeram-no! Devolveram o piano ao Sr. em frente do gradeamento. na sua juventude. Era por haver tanta maldade e ciúme que Esther tinha medo e se sentia mal. em Berlim. Ferne!" Esther queria voltar-se para as pessoas e gritar-lhes isso. que se escondia no meio das ervas para espiar e troçar. as pessoas foram-se reunindo na rua para ouvirem o Sr. Ferne e aprender a deslizar com as mãos sobre as teclas. onde se realizava a cerimónia do shabbat. Pensava que agora tudo iria voltar a ser como dantes. batendo às portas onde sabia que viviam judeus. No dia seguinte de manhã. Sentia vertigens só de pensar nisso. A música do Sr. agarrada à grade. mas não era necessário: tinham todos a mesma expressão no rosto. voava. Deu um ou dois passos pelo jardim na direcção das pessoas paradas na rua e abriu os braços. na parte alta da aldeia. Quando começou a escurecer. Havia de contar o que queria fazer mais tarde. o assistente do idoso Rabi E"izik Salanter. Tudo se tornaria simples. Sucedia o mesmo todas as sextas: o Sr. quando o Sr. quando a guerra acabasse e ela fosse cantora em Viena. Yacov. Esther correu o mais depressa que pôde. Pela manhã. E as pessoas começaram a aplaudir. O piano. que tinha ficado durante demasiado tempo silencioso. Talvez a visse e não quisesse sair por julgar que ela era como os outros. e viu o Sr. à sombra da amoreira. toda a aldeia. E a verdade é que ele nunca tinha tocado assim. em Roma. pensando que era como outrora em Viena. As persianas do hotel continuavam fechadas 66 e Esther não era capaz de imaginar o que se passava nos quartos tristes e sombrios como cavernas. Esther trepou ao muro. quando acabou de tocar. Pouco a pouco. ouvia quase sem respirar. Ferne era assim: fazia parar o tempo 67 e era mesmo capaz de o forçar a andar para trás. visto que o piano do Sr. as pessoas deixariam de ter medo e não pensariam mais em vingar-se. mesmo as crianças. Depois. conversando. o peito. Na rua inclinada. da vivenda da amoreira. ouviu-se uma música vinda do lado de baixo da praça. Fitou todos com os olhos a piscar por causa da luz do sol e a barbicha agitou-se. de tal forma as notas do piano soavam rapidamente e lhe enchiam o corpo. o Sr. esperaria por Esther junto da fonte e iriam sentar-se à sombra dos plátanos para conversar. parecia tocar sozinho. Ferne. iria à praça e a sua cabeleira brilharia como cobre vermelho ao sol.

balançando o corpo para a frente e para trás. voltando o rosto para as luzes. . Não ousava mexerse mas no entanto. devido ao cair da noite. em frente da porta aberta. Mulheres vestidas de negro passavam junto dela sem a olharem e entravam na sala." Pegou-lhe pela mão e levou-a para o centro do compartimento. homens e mulheres no meio dos quais vinha o velho Rabi Eizik Salanter. No interior da sala. onde estavam as outras raparigas. sentia a mesma apreensão. Sentia-se melhor desde que o lenço lhe ocultava os cabelos e o rosto. Yacov preparando o altar. lançando raios em redor. com uma vela na mão. vira brilhar luzes e ouvira o murmúrio das orações." Achava que a religião era uma questão de liberdade Por várias vezes fora até junto da vivenda no momento em que as mulheres e as raparigas entravam para preparar o shabbat. olhando a porta aberta. O cheiro das velas misturava-se com o do suor e com o cântico ritmado. o pai respondera simplesmente: "Se quiseres lá ir. as raparigas e as miúdas. Seligman. A vertigem ia crescendo dentro 69 dela. estava escuro como numa gruta. ouvia-se um murmúrio de vozes semelhante a um cântico subterrâneo e Esther viu pessoas a entrar na vivenda. ao shabbat. De repente. e a luz aumentava. As vozes subiam. fazendo tremer as chamas das velas. em frente das luzes. Cantavam agora e as mulheres de negro respondiam com as suas vozes mais doces. Tinha um lenço preto na cabeça e quando entrou com a mãe voltou-se para Esther e fez-lhe um sinal. Quando Esther um dia tinha perguntado por que não iam lá a cima. nunca tinha ouvido um cântico semelhante. Em seu redor. como se quisesse esconder-se. que ia diminuindo e depois se elevava de novo e ressoava com força na sala demasiado pequena. começou a fazer oscilar o busto para a frente e para trás. primeiro trêmulas. Esther ficou durante muito tempo parada do outro lado da rua. Ao mesmo tempo. a luz aumentava e as vozes tornavam-se mais fortes. seguindo o movimento das mulheres à sua volta. as mulheres permaneciam de pé. As mulheres agitavam-se em redor do Sr. Esther observava admirada os xailes brancos que lhes caíam dos lados do rosto. repetiam as palavras misteriosas. Lá dentro. provocando uma espécie de vertigem. Reconheceu Judith. avançou para a porta e entrou na vivenda.Batia sempre à porta da casa de Esther. à medida que olhava as chamas das velas que pareciam estrelas na penumbra. que se chamava Cécile e também andava na escola do Sr. sem compreender porquê. quase a extinguir-se. À sua frente. sem se aperceber. mas ninguém ia ao shabbat porque nem o pai nem a mãe da pequena eram religiosos. Subitamente. Nunca tinha visto uma luz assim. Algumas mulheres iam de candelabro em candelabro. as vozes alternadas faziam um som semelhante ao do vento ou da chuva. dizendo: "Tens de pôr isto na cabeça. podes ir. veio ter com ela e deu-lhe um lenço. Avançaram até ao meio da sala. Pela porta aberta. Depois. Esther dirigiu-se para a parede 68 mais próxima. uma das pequenas. naquela gruta cheia de mistério. Os olhos negros das crianças brilhavam intensamente na penumbra. falando na sua língua estranha. a luz brilhou algures na sala e todos os olhares se voltaram nessa direcção. que estava sentada a seu lado na escola. trazendo a água. Hoje. até que as chamas se fixavam. Procurava ler-lhes nos lábios as palavras estrangeiras. envoltas nos seus xailes pretos e não lhe prestaram atenção. colocando os candelabros dourados. excepto uma ou duas garotitas que se voltaram. naquela língua tão bela que ressoava no seu íntimo como se as sílabas despertassem recordações. À medida que entravam. Umas após outras iam surgindo estrelas de luz.

Todos têm de partir. Atou na cabeça o lenço preto que pertencia à sua mãe. grave. as estrelas das velas. como o pássaro negro que o pai lhe mostrara. nem mesmo o vulto alto do pai que ia para a montanha. ." Esther agarrou-se com força à mãe. Foi o seu olhar que fez estremecer Esther: um olhar cheio de inquietação e que correspondia ao som vindo do exterior. Mas Esther ouvia agora um outro ribombar mais definido: era o barulho dos camiões italianos rolando no fundo do vale. até Eretzraèl. nada mais podia ter importância. Temos de partir.ecoavam. mas era algo de concreto: era o murmúrio surdo das vozes onde explodia de repente o sortilégio da linguagem. Esther sabia o que era a oração. Às vezes havia uma voz que se fazia ouvir sozinha. O teu pai irá lá ter connosco. com os braços ligeiramente afastados e o rosto voltado para as chamas. subindo para a aldeia. Pela primeira vez. entrava em todas as casas. Levantouse e. de madrugada. ouvia-se o murmúrio da assistência dizendo em surdina: amen. Elizabeth continuou: "São os aviões dos americanos que vão para Genes. O ruído.. parecia irreal. "A guerra ainda não acabou". nada mais podia ser ameaçador." Movia-se com uma pressa febril. disse Elizabeth lentamente. tornando mais lenta a sua respiração. iniciavam a última curva antes de entrarem na aldeia. na penumbra da alcova." Emendou: "Todos os judeus têm de partir o mais depressa possível. e ir até ao outro lado do mar. nem os alemães prestes a subirem o vale com os seus carros blindados. Aqui. a voz límpida de uma mulher que cantava uma longa frase. com os olhos fixos nas luzes. ressoava ao longe como o som de uma trovoada. Era o turbilhão da palavra. ressoava nas ruas da aldeia. Quando acabava. nem a morte de Mario. conseguia ultrapassar o tempo e as montanhas. 70 No sábado 8 de Setembro Esther foi despertada por um ruído. Depois uma voz de homem respondia noutro ponto. para a frente e para trás. fazia ressoar as palavras estranhas. à procura de qualquer coisa útil que pudesse ter esquecido. e no seu íntimo a voz dos homens e das mulheres chamava e respondia. e Esther via o seu corpo velado balançando mais fortemente. Antes que Esther tivesse tempo para perguntar qualquer coisa. Esther vestiu-se rapidamente. aguda. voltava. "Vai-te vestir. "Agora vão vir os alemães. de pé em frente da porta aberta. viu que a cama dos pais estava vazia. Põe roupa quente e sapatos fortes. enchia o vale. palavras semelhantes a música. Elizabeth disse: "O teu pai partiu esta noite mas não te quis acordar. dizendo todas aquelas palavras na linguagem do mistério. amen. "Então os italianos vão-se embora?" A inquietação dominava-a por sua vez." O ruído dos camiões era agora muito forte.. Não compreendia como aquilo tinha entrado nela. diminuíam. fugindo do exército alemão. depois brotavam de novo noutro ponto. neste compartimento. um ribombar que parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo. lentamente. que desaparecia por entre as ervas como alguém que mergulha na morte. afastando as cadeiras. colocada ao 71 lado da porta." O ribombar afastava-se. a sombra quente e plena de odores. O ruído dos aviões afastava-se. Sobre a camisola colocou a pele de carneiro que Mario tinha deixado nas costas de uma cadeira no dia em que morrera. A mãe estava na cozinha já vestida. Os italianos perderam a guerra. assinaram o armistício. até onde nascia a luz. Esther balançava o corpo. Elizabeth agarrou numa mala pronta. antes que os alemães cheguem. o balanço regular dos corpos. Vamos atravessar a montanha. a velha mala de cabedal na qual guardava todos os seus objectos preciosos. percorria-lhe as mãos e as pernas como um fluxo gelado. o seu raciocínio.

sentia a garganta apertada. Depois chegou a Sra. com o rosto tenso e pálido e Esther pensava que talvez nunca mais revissem tudo aquilo. Também ele fora acordado pelo ruído que enchia todo o vale e se vestira à pressa. esboçou um movimento para correr para ela mas deteve-se. Havia muita gente e as mulheres tinham um olhar angustiado. sob as arcadas da Câmara. Quando ia sair do quarto do hotel. na praça. mesmo as crianças. Os soldados do IV Batalhão italiano estavam em frente do hotel. a fonte. Muitos deles não deviam ter dormido 72 naquela noite. Também os judeus ricos iam chegando. Não conseguia falar. das caves onde tinham vivido durante todos aqueles anos. na espectativa da notícia que confirmaria a derrota e a assinatura do armistício. aquela praça. com um ar perplexo. O ruído dos motores dos camiões ecoava na praça e. é perigoso. aguardando o sinal de partida. Quando a viu. Os judeus pobres saíam das ruelas. Também ela tinha um rosto tenso e olhos cansados. Esta voltou para junto da mãe. não sabia o que havia de dizer. Tinha o rosto pálido. Esperavam de pé. tinha-se vestido à pressa. tinham vestido as pesadas casacas de Inverno e enfiado os gorros de astracã. a mãe perguntara: "Onde vais?" E como ele não respondesse. Havia no céu duas nuvens muito brancas. Esther olhava em seu redor com uma dolorosa atenção. com um ar desnorteado e olhar ausente. como o Rabi Eizik Salanter. As pessoas aglomeravam-se em redor da fonte. deu-lhe um beijo na cara e disse algumas palavras. aquelas casas. Parecia enregelado e distante com o seu fato inglês gasto pelas deambulações do Verão. sentadas nas trouxas de roupa. Os judeus iam e vinham em torno da fonte." Mas ele já estava fora. Os soldados não olhavam para ninguém. um em cima do outro. em frente do hotel. Esther aproximou-se deles e ficou impressionada pela expressão do seu rosto. mudando as bagagens de um lado para outro. os camponeses. Procurou Esther no meio das pessoas que esperavam. Alguns chegavam de taxi. vindos da costa. No momento . O campanário da igreja refulgia. dissera com uma voz estranhamente velada pela inquietação: "Fica aí! Não deves ir para a praça. impediria quem quer que fosse de falar. com grandes olheiras sombreando os olhos. Tristan estava imóvel à sombra das arcadas. Foi Esther que atravessou a praça e se dirigiu a Tristan. Os motores roncavam e havia uma nuvem azulada flutuando ao nível da calçada. habitualmente tão elegante.Lá fora. enfiando apenas um impermeável por cima do vestido e nem trazia chapéu. as provisões metidas em sacos de algodão. Os mais velhos. ao longo da rua até ao parque dos castanheiros. Chegavam à praça pessoas vindas de todos os lados. sem correr como era seu hábito. O'Rourke. olhando os judeus que se amontoavam junto da fonte. Beijou Tristan ligeiramente e apertou a mão à Sra. semi-oculto. Os longos cabelos louros caíam-lhe pelos ombros. Os camiões estavam parados uns atrás dos outros. as montanhas azuis ao longe. lá estavam mas à parte. Yacov e os polacos. mas muitos nem sequer traziam bagagens porque não tinham tido tempo para se preparar. de qualquer forma. Também as pessoas da aldeia. Estavam pobremente vestidas e permaneciam junto das mães. com malas melhores e fatos novos. O'Rourke. enquanto os camiões faziam roncar os motores do outro lado da praça. Algumas mulheres traziam dois casacos. talvez "boa sorte!" Tinha uma voz grave e era a primeira vez que falava com Esther. A mãe de Tristan sorriu-lhe. como se procurassem o melhor lugar para esperar. as trouxas de pano. o sol brilhava desenhando no chão as sombras da folhagem. trazendo as suas bagagens. abraçou-a. e todas se embrulhavam em xailes pretos. Ela. as velhas malas de cartão forte.

Esther reconheceu alguns daqueles que costumavam visitar por vezes o pai. Tristan e a Sra. o professor. à noite. Era tudo tão cinzento e triste que Esther gostaria de ver pelo menos uma última vez a cabeleira de cobre de Rachel. como quando lia livros às crianças. De vez em quando. de Cannes ou de mais longe ainda. antes das dez horas. O'Rourke tinham desaparecido. coberta por um toldo. Afirmavam que era perigoso seguir atrás dos italianos. De repente. com a minúscula praça e a multidão negra que devia assemelhar-se a formigas. mesmo nos 73 cumes. Esther aproximou-se do hotel. seguindo pelo vale do Boréon. Ouçam!" O brouhaha da partida cessou e algumas pessoas que tinham começado a andar poisaram as malas para o ouvir. Partiam acompanhados pelo barulho dos motores. Talvez descesse ao fundo do vale ainda mergulhado na sombra. Esther pensava que estava um lindo dia para partir em viagem. mas Rachel não estava com eles. em torno do Sr. As pessoas na praça diziam que os oficiais tinham partido muito cedo. Pronunciou primeiro algumas palavras em francês: "Meus amigos! Meus amigos. sem comunicarem uns com os outros. Discutiram 74 durante um bocado. na cozinha. mas a sua voz ressoava com clareza. não suportando mais tempo de espera. Então Rachel estava já na montanha e atravessava a fronteira no desfiladeiro de Ciriega. O coração da pequena batia com toda a força e sentia a garganta apertada vendo os últimos soldados italianos apressando-se em redor dos veículos e saltando com eles já em andamento para a parte de trás. quando olhou outra vez para as arcadas. Imaginava o pai caminhando pela montanha. Seligman. pelo desfiladeiro de Fenestre. ressoou na praça um roncar de motores e os italianos começaram a partir. Enquanto os soldados se movimentavam. Talvez que de lá conseguisse ver a aldeia. a maior parte deles a pé. olhando a imensidade dos vales ainda sombrios. fugindo do avanço dos soldados alemães. com impermeáveis e chapéus de feltro. Havia homens à paisana. atravessando os campos de ervas amarelecidas. Depois. para os lados de Nantelle ou de Châtaigniers. Um grupo de homens tinha-se reunido no centro da praça. o Sr. As pessoas começavam agora a partir também. recitou uns versos que ficaram gravados para sempre na memória de Esther. O sol agora brilhava com intensidade. pois era com certeza o caminho escolhido pelos alemães para os bombardearem. quando ela saísse com o capitão Mondoloni. Partiram uns a seguir aos outros. As lindas nuvens brancas erguiamse a Este e deslizavam lentamente no céu. numa tal confusão. onde marcara encontro com os judeus que chegavam de Nice.seguinte. a sua sombra fria passava sobre a praça e apagava os desenhos da folhagem no chão. Pronunciou-os . Deviam ter recebido o sinal que aguardavam desde madrugada ou então tinham-se impacientado. com a mesma voz clara e forte com que lia às crianças "Os animais com peste" ou extractos de "Nana". e também algumas mulheres. repercutia-se no fundo do vale. Era tudo tão rápido. Os camiões punham-se em marcha e começavam a subir a estrada na direcção das montanhas. sem falar. O som dos motores ampliava-se.. que talvez ela tivesse passado sem Esther ver. porque uns queriam seguir a mesma estrada que os camiões dos italianos e passar o desfiladeiro de Ciriega e outros preferiam ir pelo caminho mais curto. Talvez conseguisse ver Rachel por um instante. em grupos. junto da fonte. Seligman subiu para o rebordo da fonte.. talvez tivesse subido para um dos camiões com outras pessoas. Então. Parecia inquieto e comovido. regressava como o eco de uma tempestade.

à tarde. Restavam apenas algumas pessoas em pé. Lembrou-se como ele se escondera quando os soldados italianos subiam a rua fazendo oscilar o piano. uma única vez e rapidamente. que caminhava ao lado do velho Eizik Salanter transportando nas mãos as pesadas malas. As pessoas já se encaminhavam para o fim da praça. Seligman os olhava. sob o sol escaldante. Havia os velhos. um som de rio correndo sobre os seixos. com as pernas arqueadas.lentamente. e muito tempo mais tarde Esther soube que tinham sido escritos por um homem chamado Hayyim Nahman Bialik: No meu caminho tortuoso não encontrei a felicidade. na direcção da zona alta da aldeia. Observavam o grupo de fugitivos desaparecendo no cimo da aldeia. no mercado ou na praça. adeus. A minha eternidade perdi. Quando passaram em frente do hotel. Ferne. Ao lado de Esther." Falava docemente. com os seus grandes casacões de gola de pele e os chapéus pretos de onde saíam as tranças de cabelos grisalhos. pelos velhos e pelas crianças. "Não. no ponto em que começam os prados e as matas de castanheiros. Elizabeth chorava silenciosamente. sob as arcadas da Câmara: as pessoas da aldeia. e eram tantos que Esther não conseguia distinguir o princípio nem o fim do grupo. "Mas vêm aí os alemães. Ferne. Agora seguiam pela estrada. O velho olhou-a como se não a reconhecesse. o que provocava um estranho rumor. Talvez já tivesse voltado para junto do seu piano. O que é que eles iam fazer de um velho como eu?" Depois beijou Esther. Quando se voltou. como se fossem as palavras de uma oração. como se faz com as crianças. Conhecia a maior parte. seguidos pelas mulheres. sob o sol do meio-dia. o Sr. sombra furtiva semi-oculta atrás de um plátano. não. quase em voz baixa. da 76 . Esther ia andando e observando as pessoas em seu redor. Yacov. Yacov. Eram os judeus mais pobres. Esther não sabia os dos outros. na cozinha escura da vivenda. conversando em pequenos grupos enquanto as crianças corriam dando os seus gritos estridentes. já não viu o Sr. Para onde ia eu. Adeus. Abraçou a mãe com toda a força para tentar abafar os soluços." O Sr. Havia o que designavam por hazan. Era um longo bando preto e cinzento. na montanha?" Esther apertava-lhe a mão com toda a sua força e sentia as lágrimas embaciarem-lhe a vista. Além dos nomes do Rabi Eizik e do Sr. parecia um guarda de cemitério assistindo de longe a uma cerimónia que não lhe dizia respeito. Os soluços sacudiam-lhe os ombros e o rosto estava contraído. os que tinham vindo da Alemanha. "Agora. Tem de vir connosco. e recuou. eu não posso. Abanava a cabeça e a sua barbicha ridícula agitavase ao mesmo tempo que repetia: "Não. Já não se ouvia o ronco dos motores no vale e o único ruído era o do arrastar dos pés no caminho pedregoso. Esther viu o vulto do Sr. Ferne continuava a olhar para as pessoas que passavam na praça. fazendo lembrar um enterro. Apesar da tristeza da 75 mãe e da angústia que lhe apertava a garganta. Esther achou aquilo mais horrível do que todos os sons e todos os gritos do mundo. Esther sentiu vontade de rir quando viu a silhueta do Sr. partam todos. partam. o gorro e a barbicha. passando em frente da fonte em que o Sr. Os homens iam à frente. Eram pessoas que tinha visto nas ruas da aldeia." A garota voltou correndo para junto da mãe e começaram a avançar com os outros. o longo casacão acinzentado de bolsos deformados. mulheres com vestidos floridos e aventais. "Não. Ferne. eu tenho que ficar aqui. Correu para ele e agarrou-lhe na mão.

Pensava em Tristan. Lucie. Pauline. algumas até riam. Eliane Salanter. Gelibter.. Mas tinha dificuldade em recordar os nomes porque já não eram os rapazes e as raparigas que conhecia. sem olharem para ninguém. com as cabeças cobertas pelos grandes xailes brancos. Agora. de pé em frente das portas ou debruçados das janelas. Amélie Sprecher. tinha-os ouvido recitar as palavras do livro na língua misteriosa e bela que penetrava no nosso íntimo mesmo sem a compreendermos. O'Rourke e na mão que apertara a sua por instantes e o seu coração palpitara porque fora a primeira vez que lhe tinha falado e com certeza nunca mais a veria. Sarah e Michel Lubliner. Pela primeira vez. como ela. enfiadas em pesados casacos. Lazare. Fizas. Rivkelé. vestidos com fatos demasiado grandes. as raparigas com os cabelos tapados com lenços. Na frescura da face da Sra. à mesma água. Simon Choulevitch. Sentia a garganta contraída pela cólera e pela inquietação e o coração batia com toda a força no peito. no seu rosto pálido e nos seus olhos febris. já não tinham direito ao mesmo céu. na vivenda da parte alta da aldeia. fruta e garrafas de água. Meyerl. Tal. Léa. vestida com a sua roupa escura e a pele de carneiro de Mario. Permaneciam em frente das suas portas ou olhavam pela janela enquanto ela passava à sua frente. Conversavam umas com as outras. tendo a cabeça coberta com o lenço preto e os pés apertados nos sapatos de Inverno. já não corriam depressa nem falavam. Robert David. calçados com os sapatos de Inverno. que corriam e gritavam pelas ruas da aldeia. Quando passavam. na estrada pedregosa. sob aquele céu. silenciosos como os que desfilavam à sua frente. Observava especialmente as mulheres e as crianças. fazia-Lhe bater com mais força o coração como se estivesse para acontecer algo de doloroso e de inevitável. com os rostos muito brancos contraídos por causa do sol.. que tomavam banho nus na torrente e que brincavam às guerras nas moitas. avançavam pela estrada sem uma palavra. curvados para a frente. Ela tinha que seguir com os que. tristes. e isso era doloroso. como se fosse o mundo inteiro que avançasse por aquela estrada rumo ao desconhecido. Agora. os rapazes com gorros ou chapéus. puxando as malas. Yachet. Eles podiam ficar nas suas casas. Havia velhas mulheres que entrevira por vezes nas cozinhas e que nunca saíam excepto para as festas ou para os casamentos. Também elas transportavam embrulhos e sacos com pão. Marc. passando em frente da escola fechada e do posto da guarda. que via na escola. demasiado pesados. tinha-os visto de pé em redor da mesa onde estavam acesas as luzes. O grupo atravessava a parte alta da aldeia. enfiadas em camisolas demasiado quentes. nunca mais ninguém a . As crianças corriam à sua frente. Jacques Mann. Quando tinha ido ao templo. André. O vento devia entrar pelas janelas abertas e redemoinhar na grande sala. com pesados sapatos de cabedal que só calçavam para as grandes ocasiões. sobrecarregados com os pesados casacões. já não tinham casa. podiam continuar a viver naquele vale. Pensava em Rachel e no hotel agora vazio. Vê-los agora. O pai nunca mais poderia chamar-lhe Estrellita. Esther compreendia que não era como as pessoas da aldeia. a beber a água das torrentes. avançando devagar. Havia mulheres mais novas. ainda elegantes apesar dos casacos e dos embrulhos de todas as espécies de que iam carregadas. como se fossem para um piquenique. os aldeões ficavam a olhá-los por momentos. ao sol. com as cabeças protegidas por xailes pretos. Rebecca. cansados.Polónia e da Rússia e que tinham perdido tudo na guerra. MarieAntoinette. Esther procurava lembrar-se dos seus nomes: Cécile Grinberg. Enquanto ia andando com elas. Pareciam órfãos que tinham saído a passeio. Compreendera pela primeira vez que se tinha transformado noutra pessoa.

De nada servia olhar para trás. e a pequena vira-a pouco depois limpar os olhos e . a leste. Também aquilo lhe contraía a garganta de raiva. A pequena apertava a mão da mãe com toda a força enquanto avançavam pela estrada com o mesmo passo. Lá em baixo. Hoje. indo até ao mar. misturadas na multidão. o ar envelhecido por causa do lenço preto que lhe cobria os cabelos e que pusera para fazer como as outras mulheres. o curso de água cintilando ao sol. Ouvia-se o som dos sapatos nas pedras e os gritos dos bebês que ecoavam de forma estranha. sentados nas pedras ou em cima das malas. como se fossem picos nevados ou castelos. Caminharam juntas em direcção à praça e Esther não se atrevera a fazer a pergunta. agarrara na mala e saíra de casa subindo os seis degraus estreitos que davam para a rua. Lembrava-se de querer partir com as nuvens porque elas deslizavam livremente ao vento e passavam sem dificuldade de um lado para o outro da montanha. Mas a mãe tinha compreendido. um tumultuar de água que ressoava nos flancos da montanha. no meio dos prados onde Esther dantes costumava esconder-se à espera do pai. porque se lembrava dos dias de Verão em que Elizabeth punha o seu lindo vestido azul decotado e as sandálias e escovava demoradamente o cabelo negro e sedoso para agradar ao marido e acompanhá-lo até à praça da aldeia. As nuvens brancas amontoavam-se no céu. com certeza que agora nada disso se repetiria. eram as mesmas nuvens e. um tanto abafados pelas árvores. subindo com dificuldade a íngreme vereda. pois será possível reencontrar o que se deixa para trás ao partir? "Voltaremos aqui com o papá ou partimos para sempre?" Esther não tinha sido capaz de perguntar isto quando. Imaginava tudo o que elas viam. formando fantásticas arquitecturas ao fundo do vale. e a luz que irradiavam os seus ombros nus. depois de se ter vestido à pressa. Mostrara-lhe um corvo no céu e dissera: "Se pudesses voar como aquele pássaro. O grupo abrandara a marcha. Esther recordava as esguias pernas bronzeadas da mãe. Tudo isso desaparecera. o grupo espantava gralhas que levantavam vôo à sua frente com grande alarido. sentindo as gotinhas frias que se iam evaporando sobre a pele das coxas e ouvindo a música da água e o zumbido das vespas. ainda molhada da água da torrente. Esther lembrava-se de as ver chegar deitada sobre as pedras lisas.trataria por Hélène. ainda esta noite lá chegavas. 79 Apenas apercebiam por momentos. 78 O grupo avançava pela estrada de pedras. ouvia-se o ruído da torrente. Já os velhos e as mulheres que transportavam crianças ao colo começavam a parar na beira do caminho para descansar. Esther olhava para os negros pássaros e lembrava-se do que o pai tinha dito um dia. Esther nunca se tinha aventurado até tão longe no vale da torrente. entre as árvores. os vales. A floresta já se tornara mais densa e os castanheiros e carvalhos tinham sido substituídos por grandes pinheiros de folhagem quase negra. a boca de lábios apertados. Ficara com uma expressão estranha. as cidades semelhantes a formigueiros e as grandes baías onde o mar brilha. Formavam uma espécie de barragem no fim do vale. tinham qualquer coisa de ameaçador. no entanto. as ribeiras. encolhendo os ombros. com a pele muito lisa." Não se atrevia a perguntar a Elizabeth: "Quando é que o papá vem ter connosco?" Mas apertava-lhe a mão com força enquanto avançavam e olhava furtivamente o rosto esguio e pálido da mãe. Ao atravessar a floresta. Ninguém falava. Agora já não viam o fim do vale nem a muralha de nuvens. erguiam uma enorme parede branca e ameaçadora que não era possível ultrapassar. referindo-se a Itália. semelhantes a gritos de animais. engoliam os cumes das montanhas.

com efeito. para que não soubessem que também ela se semtia 80 da mesma forma. ajoelhando-se na pequenina praia. O sol estava muito próximo da linha das montanhas. O céu adquirira um tom pálido. A mãe de Esther tinha trazido um bocado de queijo seco que lhe fora dado pela proprietária do apartamento em que tinham vivido e que era delicioso. houve um momento em que Esther e a mãe seguiam completamente sós. até fazer sangue. Esther abrandava para os ajudar. noutra clareira. Os mais novos. Embora não andassem depressa por causa do peso das malas que lhes queimava as mãos. Esther nunca tinha visto lugar tão bonito. as pessoas tinham-se ido distanciando umas das outras. O musgo formava um tapete entre as massas arredondadas das rochas e mais acima. construíram um abrigo com ramos de pinheiro cujas agulhas muito densas formavam uma . incerteza e fadigas. Correu a estender-se no musgo. Quando se aproximavam. levantando 81 o vestido. Então. fazendo com que deixasse de as sentir. "A água está muito fresca e depois vão com certeza parar aqui outras pessoas também para passar a noite. entre os blocos de pedra. aquele lugar pareceu a Esther uma imagem do paraíso. Muitas tinham parado mais abaixo. Todos sabiam que não era possível acender lume para não chamar a atenção do exército alemão e portanto preparavam a refeição da noite como podiam. "És tão bonita". e fechou os olhos. mulheres com crianças ao colo. Elizabeth tinha lavado os braços e o rosto na água da torrente e a luz difusa da tarde formava uma auréola em torno dos seus cabelos soltos. os homens e os garotos iam lá à frente. Quando tornou a abri-los. à esquerda. A água molhava a parte inferior do vestido e as mangas da camisola e formava gotinhas na pele de carneiro. Bebeu água no côncavo da mão e molhou o rosto para atenuar a queimadura do sol. À medida que avançavam iam-se tornando mais raras as mulheres sentadas na borda do caminho. Elizabeth. Para trás. Pouco depois. Nunca mais tinha olhado para ninguém para não ter de enfrentar a angústia nos olhares. mas a mãe puxava-a pelo braço quase com violência e a rapariguinha ficava perturbada por ver a dureza do seu rosto quando ultrapassavam os retardatários. por trás delas. e pesadas nuvens amontoavam-se à sua frente. chegaram outras pessoas. já nem as vozes se ouviam quando falavam. e Esther ouvia as vozes das crianças e os chamamentos das mulheres. viase uma praiazinha de areia onde vinham bater as pequenas ondas da torrente. murmurara Esther. Depois. sem ouvirem outro som que não fosse o dos seus próprios passos e o doce murmúrio das águas. Depois da dureza do caminho de pedras e da ardência do sol. descobriu de repente uma espécie de clareira numa plataforma sobranceira à torrente. Antes de anoitecer. quase cinzento. estendia-se a longa procissão. Esther e a mãe iam passando à frente de outras pessoas: velhas que tropeçavam nas pedras. depois de tanta perturbação. idosos judeus enfiados nas suas casacas demasiado pesadas e apoiando-se a bengalas. As mulheres tinham pegado no pão e cortavam fatias que as crianças comiam sentadas junto do curso de água. viu à sua frente o rosto da mãe. como quando pretendia anular qualquer coisa que tivesse feito mal." Esther tirou o xaile e os sapatos e entrou na água gelada até quase aos joelhos. A água fria deslizava ao longo das pernas. Ao longo do carreiro pedregoso que subia através da floresta. "Vamos passar aqui a noite".o nariz porque estava a chorar. disse. "Também te devias ir lavar" disse Elizabeth. tinha mordido o lábio com toda a força. até aos rochedos que ficavam logo por sobre a água. mais abaixo. que já há algum tempo olhava em redor com atenção. Desceu um pouco. Também comeram figos e depois foram beber água à torrente.

à beira da torrente. Apesar da roupa. A noite aproximava-se docemente. Cortou então uma fatia de pão escuro e deu-a a Esther. que devia ter dez ou onze anos. Uma das mulheres. porque já tinha comido queijo e figos sem partilhar nada. sem dizer nada. por favor! Fica connosco!" O pai estava doente e Rachel não saiu. tinha os cabelos e os olhos muito claros. Até ser já noite ainda as pessoas subiam a ruela. ressoavam vozes humanas com mais intensidade. para as montanhas onde as nuvens se amontoavam e. às escuras. Rachel ficou acordada toda a noite. A dado momento. viram Esther. Caía a noite. Eram polacas que tinham chegado à aldeia com os pais no início do Verão e que apenas falavam a sua língua. Na floresta. Esta não foi capaz de dizer que não mas sentiu uma espécie de vergonha. Juntas. no entanto. Desceu para jusante da torrente. e dos soldados alemães terem incendiado as casas e expulso todos os judeus. com os vestidos compridos que rodopiavam à sua volta como se dançassem. o choro de crianças. estranha e cantante. naquela floresta densa. Esther não tinha sono. no entanto. Agarrou no pão e. Havia também um homem de idade com uma grande barba grisalha. Às vezes. Houve depois um ruído de passos e talvez esse ruído abafado. Esther reconheceu-as. como os da pequena. um pouco por toda a parte. A garota agarrou Esther pela mão e levou-a até junto da árvore. Esther penetrou na clareira para as observar. Atrás de si ouvia ainda as vozes e os risos das garotas. Perto de um pinheiro estavam os pais. correu até ao caminho de pedras e dirigiu-se para a clareira onde a mãe a esperava. guiada pelas vozes infantis. fez-lhe perguntas. apesar da escuridão da noite. onde até as crianças tinham que trabalhar até à morte. 83 Começou a chover. novamente escorraçadas. fosse ainda mais assustador. Esther lembrava-se de o pai lhe ter falado uma noite de uma cidade com nome tão estranho como a língua das garotas. aproximaram-se e pronunciaram algumas palavras na sua língua. A mais velha. 82 correndo de uma árvore para outra. metendo-os em vagões de gado para os enviarem para acampamentos nas florestas. Imobilizaram-se. enquanto que os das outras eram escuros. seguindo para o desconhecido. Tinha um lindo rosto de feições regulares e os olhos de um verde muito claro. cautelosamente. provocando no telhado um ruído doce e deslizante. Ouviam-se vozes. Durante todo o dia o ruído dos camiões se fez ouvir no vale e nas montanhas. afastando-se. rindo. Rzeszow. Lembrava-se disso enquanto olhava para as garotas. As outras recomeçaram a brincar. Esther sabia que devia voltar para junto da mãe e. embrulhada no grande xaile preto da mãe. Rachel sai para a rua. sorrindo. Agora elas estavam ali. mas sempre naquela língua estranha. Quando o ruído dos camiões italianos começou a ressoar no vale quis correr para a praça. Cerca de cem metros mais abaixo viu um grupo de garotas que brincavam à beira da água. não conseguia desviar o olhar dos olhos claros da garota. na vivenda. pareciam tão descontraídas como se não fosse mais do que um passeio. galopante. que Esther tinha visto à entrada do templo. Apesar do cansaço. suave e tranqüilo depois do roncar dos motores dos camiões e do barulho dos passos. mas a mãe disse: "Não vás! Não vás.espécie de tecto. Brincavam agora ao agarrar. o som era tão próximo que tinha a impressão que os camiões iam derrubar as paredes da casa. estavam metidas na água até meio das coxas e salpicavam-se umas às outras. chamamentos surdos. sentada numa . mulheres vestidas de preto e homens envergando casacas. A noite envolvia já as árvores criando por todo o lado sombras inquietantes.

Quando a guerra acabar. junto da vivenda da amoreira onde vive o Sr. o cheiro do tabaco. a Nápoles. Supôs por momentos que estava no quarto do hotel. baixando a voz. Diz que são como animais. de Roma. faremos uma grande viagem. com 85 Mondoloni. Os soldados italianos partiram rumo à montanha. do apartamento gelado onde o pai tosse. quando se penteava em frente do espelho. mas Rachel tem a certeza que o velho está em casa. e ouvirá a sua voz ressoar-lhe no peito. cinemas. baterá na persiana. Na outra cama do pequeno quarto ouvia a respiração acelerada do pai e a sua tosse seca e asmática. A luz cria sombras fantásticas. para longe destas pessoas que espiam e murmuram. Sentirá o seu cheiro. Todos os soldados italianos partiram e o silêncio regressou à montanha. e ele virá abrir. pensa que talvez seja hoje. colando-lhe o lenço preto aos cabelos. pronuncia coisas em italiano. as árvores 86 estão deslumbrantes de luz. Todas as persianas estão fechadas. Pensa numa coisa que lhe faz palpitar o coração. com a água a escorrer sobre a cabeça. Quando chegar em frente do hotel. no hotel. Está na rua que sobe para a praça. Agora. ele aproximou-se e fitou-a com uma expressão estranha. Sai do hotel uma luz intensa que ilumina as árvores e as casas como se fossem um cenário teatral. Gosta de o ouvir falar de Itália. Quando a mãe se levantou para se arranjar e cozinhar." Foi nesse dia que lhe deu aquele anel com a pedra azul. Rachel hesita à entrada da praça. Quando acordou. que os italianos iam assinar o armistício.era domingo reinava uma grande calma. Os carabineiros dispararam contra o marido da Julie Roussel na noite em que ele ia buscar o médico para o parto. Não gosta dos alemães. levo-te a Itália. Rachel avança pelas ruas silenciosas. diz "bruti" com desprezo. Quando Mondoloni fala dos soldados. Rachel deitou-se na cama ainda morna e adormeceu. a chuva cai docemente sobre os telhados da aldeia. Mondoloni dissera que era o fim. não há barulho e a noite está muito escura. como uma pessoa muito cansada. Pela manhã . Havia cantos de pássaros no ar. como no Verão.cadeira ao lado da cama onde dormia a mãe. Rachel dirige-se para a praça. Estava tão cansada que sentia uma dor no coração. o cheiro do seu corpo. no quarto. Havemos de ir a Roma. Quando os americanos bombardearam Genes. Um dia. que talvez a guerra tenha acabado. como se ela pudesse compreender. Talvez imaginasse que o carabineiro tinha ficado sozinho no hotel e ouvia também a chuva cair. como é costume. e a aldeia adormeceu silenciosamente. Imagina-o a fazer as perguntas e a dar as respostas e dá-lhe vontade de rir. que anoiteceu outra vez. nem sequer abrir as persianas. Por que haverá tanta luz? Terá acabado o recolher obrigatório? Rachel pensa nas sentinelas. a Veneza. Ferne. O sol brilhava lá fora através das frinchas das janelas. Aguçando o ouvido. de Veneza. mas depois lembrou-se do que se tinha passado. regressaram a casa. para longe da casa em ruínas. Na praça. Mas Rachel ouve o som da água caindo na fonte . parece-lhe ouvi-lo falar sozinho com a sua voz trêmula. Rachel não compreendeu bem onde estava. Fala das cidades. cafés. Depois disse: "Quando a guerra acabar. Mas Rachel não quis sair. lentamente. de Florença. Agora ouve a água que cai na bacia da fonte. dos garotos que lhe atiram pedras. Rachel poderá ir-se embora para longe desta aldeia. irá viajar por essas cidades onde há música nas ruas. grandes armazéns. Não se vê qualquer luz pelas frinchas das janelas. Deseja tão intensamente que isso se concretize de imediato que as pernas lhe tremem e tem de parar no vão de uma porta.

que tamborilava docemente nas agulhas dos pinheiros por cima delas e se fundia com o ruído da torrente. pingos gelados que lhes caíam no rosto. sentir o seu cheiro. Elizabeth bem tentou arranjar os ramos. desce correndo as ruelas até à velha casa. Da floresta iam surgindo outros vultos que pareciam fantasmas. A luz que ilumina a praça é fria e faz brilhar os pingos de chuva. Quereria poder correr pelas montanhas até Itália. Em redor. com os pés feridos pelas arestas das pedras. Rachel aproxima-se do hotel. A luz incomoda-a e atrai-a contra vontade. Esther e Elizabeth 89 ultrapassavam fugitivos que tinham partido antes do amanhecer e que já estavam cansados. Havia mulheres idosas sentadas em cima dos embrulhos. Tudo é silêncio e vazio. foge. abraçá-lo pela cintura. Pela primeira vez na vida. embrulhadas nos seus xailes. muito lentamente. Repara então nos camiões parados e no carro preto da Gestapo. Está imóvel. apesar do coração bater com toda a força e as pernas tremerem. Não se ouve um ruído. Vê a fachada por entre os troncos das árvores. Procura as palavras que vai dizer ao pai e à mãe para os serenar. na berma do caminho. Esther esperava ver aparecer as garotas polacas. Talvez os carabineiros e os soldados tenham decidido festejar o fim da guerra. Esther tinha os pés a doer tanto que avançava tropegamente pelo caminho pedregoso. vê o soldado de pé em frente da porta. agarrar nas malas e partir. É um soldado alemão. Apenas. olhando a direito como se quisesse furar a noite com toda aquela luz. Mas está em frente da porta de casa e sabe que é demasiado tarde. Era como se avançassem sem rumo.e sente-se calma. Depois. recua para se esconder. tropeçando. Tiveram de pôr-se em pé. com a espingarda na mão. chamando. Rachel permanece imóvel. para os levarem para muito longe. até aos acampamentos nocturnos dos soldados. queria ouvir a voz de Mondoloni. a floresta parecia não ter fim. assim como ao pai e à mãe. Ama-os a ponto de ser capaz de morrer por eles e não sabia. outra vez. uma voz. Nunca viu tanta luz. sem coragem para se mexerem. na sombra. mas só conseguiu que entrasse ainda mais água. O coração bate com tanta força que sente uma dor no meio do peito. embrulharem-se bem na roupa húmida. uma espécie de queimadura. Mas agora Rachel sabe que não é nada disso. inclinados para a frente. Vozes de homens ecoaram na floresta. as persianas e a porta estão escancaradas e a luz é ofuscante. Envolta na bruma. a noite parece ainda mais densa e silenciosa. e os seus passos ressoam no silêncio como o galope de um cavalo. o ruído dos sapatos nas pedras do caminho e o som constante da torrente que corria na direcção inversa. ainda sem compreender. Não se via o cume das árvores nem as montanhas. A luz do dia começava a revelar a forma das árvores e uma névoa branca descia o vale. Rachel aproxima-se do hotel seguindo junto à balaustrada. para que não saibam logo. tremendo. Agarraram então nas malas e. aninharam-se ao pé de um larício. Sabe que os alemães virão buscá-la. mas não se ouviam quaisquer vozes ou risos de criança. Os pingos começavam a atravessar o tecto do abrigo. e a bruma fazia com que os seus rostos parecessem . Lentamente. Todas as janelas estão iluminadas. Recua até às árvores. 88 A chuva acordou-as de madrugada. Estava tanto frio que Esther e Elizabeth permaneciam abraçadas junto ao tronco da árvore. sente medo de morrer. Detém-se um instante para o coração se acalmar e a respiração 87 voltar a ser normal. Era uma chuvinha fina. Ao chegar perto do hotel. sobrecarregados com o peso das malas. olhando a silhueta da mãe à sua frente.

oculta no meio das árvores e rodeada de flores. com um ar cansado. a caserna parecia até luxuosa. sentados no chão e com as costas apoiadas à parede. Esther apertou a mão de Elizabeth: "É aqui que o papá vem ter connosco?" Mas Elizabeth não respondeu. os rapazes. as crianças e até os velhos. Arranjaram-lhes cobertores para as camas e até trouxeram café quente. Exclamavam: "Acabou a guerra!" E riam. Isso deu coragem a Elizabeth. coberta de larícios sombrios. Também ali estavam os soldados italianos do IV Exército." Mas Esther compreendeu que ela não tinha a certeza. Aquilo parecia-lhe já tão distante que não compreendia que tinha lá chegado. Não havia camas suficientes para todos. o vale alargava-se e viram os edifícios militares e a capela numa plataforma que dominava a torrente. quase umas crianças. A pequena ouviu-os falar do caminho de Berthemont e de Passe. Esther lembrava-se de Gasparini falar da Nossa Senhora cuja imagem levavam no Verão lá para cima. Depois da noite passada à chuva. A praça em frente da capela estava apinhada de gente. Mas. Os soldados italianos abriram a porta de um dos edifícios e ajudaram as mulheres a transportar as malas. de forma que Esther e a mãe tiveram que partilhar a mesma cama. Mas eles não sabiam nada. decidiram passar o desfiladeiro antes do anoitecer. O vento tinha dispersado as . Elizabeth voltou. e o céu de um azul desbotado. pelo desfiladeiro de Ciriega. enfiados nas suas casacas. cujas portas tinham sido arrombadas. Olhava sem compreender aqueles grandes e feios edifícios que se assemelhavam a casernas. para a alta montanha já envolta em sombras. porque queriam dizer: "Estamos aqui! Estamos aqui com vocês!" Esther e Elizabeth chegaram ao santuário antes do meio-dia. Estavam instalados num dos edifícios. Disse apenas: "Vamos esperar aqui até amanhã de manhã. Seligman à frente. mas não estava ali. Esther ouviu de novo os gritos das gralhas. Não se queixavam. Mais acima. Iam chegando outros fugitivos e instalavam-se no dormitório como podiam. Os fugitivos instalaram-se para a noite. foram instalar-se na capela. Pensava que ia ver a imagem numa gruta. Encontravam-se ali todos os fugitivos que tinham partido ainda de noite. cansada. à direita. Esperavam apenas na berma do caminho. em vez de a perturbarem.ainda mais pálidos. Apontavam para o outro lado do vale. as mulheres. Esther procurou com os olhos o capitão Mondoloni. e traziam para baixo no Inverno. Quando já não havia lugar no edifício militar. Ao terminar a floresta. Poisou as bagagens junto da parede de um dos edifícios. com o Sr. Ele vem ter connosco aqui. também pareciam fugitivos. Seligman. deixando ver a encosta da frente. Rachel também não se encontrava lá. pediu a Esther para tomar conta delas e foi falar com uns homens que estavam com o Sr. Os homens mais corajosos. Devia ter seguido por outro caminho. com um casacão vestido. muitas vezes sozinhas. Esther não conhecia aqueles soldados. O nevoeiro abria-se. esses gritos deram-lhe alegria. que atravessou a torrente dando a mão a Esther e começaram a subir a montanha sem se deterem. havia um edifício de pedra onde deviam ter passado a noite alguns fugitivos porque a erva estava pisada em redor. Alguns eram muito novos. para o santuário. e apesar dos uniformes. Atravessamos amanhã. estavam na praça. para não ter frio. 90 talvez até já tivesse chegado a Itália. Tinha uma voz surda. O caminho desembocava na torrente e agora era preciso passar a vau. Sentavam-se cá fora. com um ar resignado. Os homens. Continuando a andar. Esther e a mãe chegaram à plataforma.

Os fugitivos estavam deitados no chão. O ribombar dos 92 trovões fazia vibrar o chão e os sons eram tão nítidos e compassados que alguns fugitivos julgaram que se tratava de um bombardeamento e puseram-se a gritar com medo. Estava tão escuro que não conseguia distinguir nada e ia tropeçando nos corpos. compreendes? É por isso que temos que continuar sem parar. gritando também. Esther repetiu teimosamente: "Ela não foi com os italianos. "E Rachel?" perguntou Esther de repente. eu sei." Elizabeth encolheu os ombros. A mãe de Esther veio sentar-se a seu lado. ele conhece-os todos. Os alemães perseguem os judeus por toda a parte." "Tudo bem" disse Elizabeth friamente. tal como momentos antes. passou-lhe o braço à volta dos ombros e apertou-a a si com força. ao fundo do vale. Esther achava que o pai devia vir daquele lado. Esther sabia que a mãe estava a mentir. talvez já não esperassem nada. Ficou com os pais. Deve vir por outro caminho. Via-os partir e sentia vontade de ir com eles. junto à orla da floresta." Mas. no fundo do vale. como se tivessem algo a dizer aos homens. tinham acendido velas à direita do altar . perto do celeiro abandonado.nuvens e as altas montanhas. ele disse que não devíamos esperar por ele. os gritos estridentes dos garotos ecoavam de novo e ela seguia-os com os olhos. tudo. Esther ficava a olhá-los e quando dava conta que por causa deles se tinha esquecido de vigiar a chegada do pai ao fundo do vale sentia apertar-se-lhe o coração. Mas a mãe estava demasiado cansada para continuar e talvez esperasse realmente que o pai aparecesse naquela noite. que devíamos seguir sem parar. vamos aqui ficar à espera dele amanhã?" Elizabeth respondeu bruscamente: "Não. Imaginava-o a descer a montanha. "Os alemães também a perseguem?" A mãe sobressaltou-se como se a pequena tivesse dito uma blasfêmia." Esther irritou-se e quase gritou: "Não! Não é verdade! Ela não partiu com os italianos! Ficou na aldeia com os pais. embrulhados em cobertores. Ao fim da tarde. Havia outros em pé. Também tinha prescrutado o fundo do vale e a encosta árida e escura da montanha durante toda a tarde. Esther correu a abrigar-se na capela. os pais." Ficaram em silêncio fitando ambas o mesmo ponto. brilhavam cobertas de neve. Depois. As gralhas esvoaçavam no céu sobre o santuário. vem ter connosco. que inventava aquilo tudo para a acalmar. Partiu com os italianos. Isso magoava-a bem no íntimo." "Então ele vai ter connosco a Itália?" "Claro. Na parte de baixo da encosta havia um estábulo abandonado. "Suponho que saberá desenvencilhar-se. no meio de grandes prados atravessados por braços da torrente. as nuvens escureceram os cumes. querida. 91 Os filhos dos fugitivos já tinham esquecido a fadiga. Começavam a brincar na praça do santuário ou a descer a encosta rindo e gritando. encostados às paredes. A chuva começou a cair com grandes gotas. Mas algo se quebrara. "Por que te lembraste de Rachel?" Esther respondeu: "Porque ela também é judia. Permanecia em silêncio. os amigos. Talvez até já tenha passado por Berthemont com os amigos. porque ainda aquela noite chegariam a Itália. como o soco que os rapazes lhe tinham dado da outra vez. "Essa abandonou tudo. Esther perguntou: "Se o papá não vier esta noite. a andar pelo meio das pastagens com erva pela cintura e a saltar de uma rocha para outra para atravessar a torrente." "Como sabes?" perguntou a mãe. Apesar da proibição dos italianos. A parte esquerda do tecto tinha sido atingida por um obus e a chuva caía em cascata no interior. Esther estava na praça quando o grupo começou a subir pelo caminho acima do santuário.

e a luz vacilante revelou a Esther os vultos e os rostos dos fugitivos. Eram na sua maior parte pessoas idosas, velhos e velhas vestidos à maneira dos russos ou dos polacos, parecidos com os que vira durante o shabbat, na vivenda. A fadiga e a angústia tinham-lhes vincado os rostos. Perto das velas, junto ao altar, os velhos, agasalhados nas suas casacas, voltavam-se para o Rabi Eizik Salanter que lia em voz alta num livro, de costas para a luz das velas para ver melhor. Encostada à parede fria da capela, Esther ouvia de novo as palavras incompreensíveis naquela língua doce e sincopada, sem tirar os olhos do velho iluminado pelas velas. Uma vez mais sentiu um arrepio, como se aquela voz desconhecida soasse apenas para ela, no seu íntimo. A voz baixa, ciciante, lia o livro e aquilo apagava nela a fadiga, o medo, a raiva. Deixava de pensar na encosta escura por onde o pai devia vir como numa ravina aterrorizadora e mortal, para a ver como um caminho muito longo, muito distante, cujo fim era um mistério. Aqui, tudo se transformava: as montanhas onde ribombava a trovoada, o caminho que atravessava os desfiladeiros, tudo isso se tornara semelhante a uma lenda em que os elementos se misturavam para se voltarem a reu[1 nir por uma nova ordem. Lá fora, a chuva caía torrencialmente e a água entrava em cascata dentro da capela pelo tecto esburacado. As crianças estavam agarradas às mães que oscilavam suavemente todo o corpo, ao ritmo sereno da voz de Eizik Salanter que lia as palavras do livro. A seguir, o velho manteve o livro aberto durante muito tempo em frente do rosto e começou a cantar com uma voz grave e doce que não tremia. Então, os homens, as mulheres e mesmo as crianças cantaram 93 com ele, acompanhando-o sem palavras, repetindo apenas o mesmo som: Ai'e, ai'e, ai'e, ai'e!... Uma das garotas polacas, a que tinha os olhos muito claros e que tinha levado Esther até junto da sua família, aproximou-se dela e deu-lhe a mão. Tinha-a reconhecido apesar da penumbra. À luz dos relâmpagos, Esther viu-lhe o rosto como que iluminado por uma alegria interior enquanto cantava com os outros, oscilando lentamente o corpo. Esther começou também a cantar. O canto ressoava no interior da capela, sobrepondo-se ao ruído da água e da trovoada. Parecia que aquelas poucas velas acesas nos castiçais junto ao altar difundiam a mesma luz que no templo, na noite do shabbat. Iam agora chegando pessoas vindas dos dormitórios das casernas. Esther viu a mãe em pé, junto da porta. Sem largar a mão da jovem polaca, aproximou-se dela e levou-a para junto da parede onde estavam encostadas. Lá fora, a noite era escura e atravessada por clarões. Pouco a pouco o canto foi terminando. Ficaram todos em silêncio, ouvindo o ruído da chuva e os trovões que se iam afastando no vale. As chamas das velas começavam a tremer e extinguiam-se uma a uma. Já ninguém sabia onde estava. Pouco depois, Esther atravessou a praça fustigada pelo vento frio e foi deitar-se na cama de Elizabeth, agarrando-se uma à outra para não caírem. De madrugada, os soldados italianos puseram-se a caminho seguidos pelos fugitivos. O céu por cima das altas montanhas cobertas de neve era de um azul profundo. Acima da aldeia, o caminho de pedras subia em ziguezague. Lentamente, atrasado pelas crianças e pelos velhos, o grupo ia seguindo o caminho, minúsculas silhuetas pretas recortando-se na faixa pedregosa. Esther e Elizabeth atravessavam agora uma imensa extensão pedregosa. Esther nunca imaginara paisagem semelhante. Acima delas estendia-se um caos de pedras sem uma árvore, sem uma erva. Os blocos de rocha tinham

parado em equilíbrio instável na borda do precipício. O carreiro era tão íngreme que as pedras saltavam sob os seus pés e rolavam até ao fundo do vale. Ninguém dizia uma palavra, por causa do perigo ou por causa do frio. Até as crianças avançavam pela estreita vereda sem uma palavra. Apenas se ouvia o ruído da torrente, invisível no fundo do vale, o rebolar das pedras e o arfar das respirações. 94 A dada altura, Esther quis poisar a mala e sentar-se, mas logo a mãe a agarrou pela mão com uma espécie de dureza desesperada e a obrigou a continuar a andar. Os grupos de fugitivos iam-se espaçando. Os velhos e as mulheres embrulhadas nos seus xailes negros, que tinham partido por último da capela, iam ficando para trás, distanciados, e as anfratuosidades da montanha já os ocultavam. As outras, as mulheres com filhos, avançavam lentamente mas sem parar. O caminho bordejava um precipício onde algumas árvores tinham conseguido fixar-se. Esther via em baixo um grande larício fulminado por um raio, escurecido, semelhante a um esqueleto. Do outro lado do vale, a montanha ameaçadora e eriçada de picos recortava-se no céu. Reinava o medo mas havia também a beleza da pedra brilhando ao sol e o céu impenetrável. O que metia medo principalmente era ver ao fundo do vale, na direcção em que avançavam já há dois dias, a muralha sombria e azulada, cintilante de gelo, envolta numa grande nuvem branca, que se erguia contra o céu. Parecia tão distante, tão inacessível que Esther sentia vertigens. Como conseguiria chegar até lá? Será que alguém conseguiria? Ou tinham-Lhes mentido e iam perder-se todos no meio do gelo e das nuvens, ser engolidos pelos desfiladeiros? Mais adiante, quando o carreiro fez uma curva no flanco da montanha, Esther viu de novo pássaros negros que descreviam círculos no céu, mas desta vez eram gaviões silenciosos. Ao longo do caminho, junto dos taludes, havia fugitivos parados. Esther reconheceu algumas das mulheres que vira na capela. Estavam exaustas de fadiga e fome e deixavam-se ficar sentadas nas pedras, à beira do caminho, prostradas, com o olhar perdido. As crianças permaneciam de pé a seu lado, imóveis, silenciosas. As raparigas olhavam Esther quando ela passava. Havia no seu olhar uma expressão estranha, sombria e suplicante, como se desejassem agarrar-se a ela com os olhos. Quando Esther e Elizabeth chegaram ao lago, no sopé da montanha, já as nuvens tapavam o sol e a luz diminuía. A água do lago era brilhante, iluminada por um bloco de neve endurecida que a dividia como um espelho. A maior parte dos fugitivos estava sentada à beira do lago, nas rochas amontoadas, procurando descansar. Mas já os 95 homens e as mulheres mais válidas partiam de novo, começando a ascensão para o desfiladeiro, enquanto grupos de mulheres e de velhos exaustos iam chegando ao lago uns atrás dos outros. Sentada junto de um rochedo, ao abrigo das rajadas de vento, Esther observava os que chegavam. Por mais do que uma vez Elizabeth se pôs em pé: "Vá, temos de ir, é preciso passar antes que anoiteça." Mas Esther olhava o caminho como na véspera, quando esperava o pai. No entanto, hoje não era ele que ansiava ver chegar. Era o velho Rabi Eizik Salanter que tinha cantado e lido o livro na capela. Não queria partir sem ele. Quando a mãe se impacientou uma vez mais, disse: "Por favor! Espera mais um bocadinho." Sobre a parede rochosa à sua frente, a nuvem entreabriu-se mostrando por momentos a linha escura do caminho, que se confundia com uma ravina entre dois cumes agudos. Depois, fechou-se de novo. A trovoada ribombava no fundo das cavernas. Elizabeth estava pálida e

nervosa. Andava de um lado para outro à beira do lago. Os fugitivos iam partindo uns a seguir aos outros. Apenas restavam as mulheres mais velhas e algumas com bebês. Ao aproximar-se de uma delas, uma jovem polaca de cabelos ruivos envoltos num xaile preto, Esther reparou que chorava silenciosamente, encostada a uma rocha. Tocou-lhe no ombro. Gostaria de poder falar com ela, de a encorajar, mas não sabia dizer nada na sua língua. Então, tirou um bocado de pão e de queijo do saco das provisões e estendeu-lhos. A mulher olhou-a sem um sorriso e começou imediatamente a comer, sempre curvada sobre a rocha. Por fim, chegou junto do lago um novo grupo de fugitivos. Esther reconheceu Eizik Salanter e a família. Apoiado à bengala, o velho avançava com dificuldade pelo caminho de pedras. As rajadas de vento enfunavam-lhe a casaca e faziam esvoaçar a barba e os cabelos grisalhos. Ao vê-lo, a pequena compreendeu que atingira o limite das suas forças. Sentou-se na beira do lago e as mulheres e homens que o acompanhavam ajudaram-no a estender-se no chão. O rosto voltado para o céu estava muito pálido e transtornado pela angústia. Aproximando-se, Esther ouviu-lhe a respiração arquejante. Não conseguiu suportar vê-lo assim e afastou-se, indo refugiar-se nos braços da mãe. "Quero ir embora já", disse em voz baixa. Mas agora era 96 Elizabeth que não conseguia desviar o olhar do velho deitado no chão. A claridade do céu transformava-se, adquirindo um bizarro tom avermelhado. A trovoada aproximava-se. A tempestade formava turbilhões e grandes nuvens escuras desfaziam-se de encontro à montanha para tornarem a reunir-se mais adiante, deslizando como fumo por entre os cumes nevados. O homem que acompanhava o Rabi Eizik Salanter ergueu-se subitamente e voltou-se para Esther e Elizabeth, dizendo simplesmente, quase sem elevar a voz, como se se tratasse apenas de uma fórmula de cortesia: "O rabi não pode andar, tem de ficar a descansar. Vão-se embora." Disse o mesmo na sua língua, dirigindo-se às mulheres que tinham vindo com ele. Então, docemente, todas agarraram nos seus embrulhos e malas e começaram a subir para o desfiladeiro. Antes de entrar na ravina que penetrava na montanha e de desaparecer entre as nuvens, Esther deteve-se para olhar uma última vez para Eizik e o seu companheiro, imóveis à beira do lago gelado. Não eram mais do que duas manchas escuras no meio dos rochedos. O caminho subia em ziguezague por entre os cumes, sem que se distinguisse o fim. As nuvens negras, iluminadas por relâmpagos, estavam mesmo por cima de Esther e da mãe. Metia medo, mas era tão belo que a pequena queria continuar a subir para ficar mais perto delas. Farrapos de nevoeiro adquiriam um tom avermelhado, deslizavam, rasgavam-se nas agulhas de pedra, escorriam pelas ravinas como regatos imateriais. Abaixo de Esther e Elizabeth tinha desaparecido tudo. As mulheres e os restantes fugitivos eram invisíveis. Flutuavam entre o céu e a terra e, pela primeira vez, a pequena pôde imaginar o que sentem os pássaros. Mas aqui não havia pássaros, não havia ninguém. Estavam num mundo onde apenas viviam as nuvens, amontoados de nuvens, e os raios. Mario tinha falado algumas vezes do raio que mata os pastores por baixo das árvores ou nas suas cabanas de pedra. Contava a Esther que os que entram na zona de morte, precisamente no instante em que vão ser fulminados pelo raio, ouvem um ruído estranho, uma espécie de zumbido de abelhas, vindo de todos os lados simultaneamente, que lhes enche a cabeça, enlouquecendo-os. Agora, com o coração a bater, 97 Esther procurava detectar esse ruído enquanto ia subindo pelo carreiro

descansando. O sol desapareceu. Trabalhavam ambas na Pensão Passagieri em troca de alimentação e de um quarto no primeiro andar. começou a cair uma chuvinha fina. com uma porta-janela que dava para o terraço. seguindo a mesma ordem pela qual tinham subido até à garganta. já mergulhado na noite. Lavava o chão da cozinha com . tinham conseguido passar a parede. Olhavam sobretudo para o outro lado. curvados por causa do vento. sobre o peito de Esther. pendurava os lençóis e a restante roupa. Embrulhados em abafos. a luz brilhava sobre a neve fresca.pedregoso. extenuadas. que flutuava pelas ruelas. Era aqui essa janela através da qual se podia ver o outro lado do mundo. o relógio parado marcava interminavelmente dez para as quatro. o céu fechou-se e a chuva recomeçou a cair. homens e rapazes à frente. Em breve tudo ficaria escuro. as aldeias esquecidas da Stura onde esperavam encontrar salvação. as ravinas enevoadas e o grande vale já mergulhado na sombra da noite. de onde subiam fumos brancos. de pé no terraço. o nevoeiro e a trovoada. que apagava os jardins. Ali se tinham refugiado homens e mulheres esmagados pela fadiga e transidos de frio. caminhava pelas ruelas desertas. À direita." Continuaram a andar. para a encosta com grandes manchas de neve. mulheres. Abaixo deles. Homens. O vento era gelado mas Esther já não o sentia. O nevoeiro envolvia-as de tal maneira que podiam acreditar ser as únicas a terem avançado até tão longe. Tinham passado. Esther lembrava-se agora do que diziam as crianças na aldeia. o céu abriu-se e revelou um grande pedaço de azul. Permanecera só com Elizabeth em Festiona durante todo o Inverno. 1944 Era o longo período do Inverno. encastrado no flanco da montanha. Havia sempre cães a ladrar. À tarde fazia frio. Os outros fugitivos tinham-se erguido e. picava o rosto e as mãos e as suas gotas ficavam presas na pele de carneiro. os fugitivos estavam sentados nas rochas. dessa janela que se abrira no céu quando a imagem da Virgem fugira pela montanha. mulheres. do lado da igreja. velhos e crianças a seguir. aquele fumo que saía dos tectos. Colocara uma camisola por cima da bata caseira e tinha as mãos e as faces vermelhas como as de uma camponesa. Em Festiona. O sol escondia-se cedo por trás das montanhas e o vale da Stura era um lago de sombra. Viam-selhe os vultos à entrada do sinistro abrigo. De repente. No campanário. tinham vencido os perigos. mas por agora isso não tinha importância. 99 Festiona. Tinham chegado à garganta. os véus de fumo arrastavam-se por sobre as lousas dos tectos. em pequenos 98 grupos silenciosos. que rodeava a Pensão Passagieri. Esther adorava aquela sombra. sem pensarem em nada. precisamente no local de onde vinham. deslumbradas. Mais acima. Mas Elizabeth disse: "Não podemos parar aqui. ouvindo o som dos seus tamancos que mal perturbava o silêncio algodoado. No caos de rochedos que se estendia entre os cumes. clarões avermelhados refulgiam no interior das nuvens e os trovões ressoavam como se fosse um bombardeamento. Pegou na mala e Elizabeth pôs o saco de pano ao ombro. o obstáculo que lhes causava tanto medo. Elizabeth. Por isso. havia um abrigo de pedras. iniciaram a descida para o fundo do vale. crianças. aquele fumo que afogava as árvores. Era uma chuva rápida e fria. temos de estar do outro lado da fronteira antes que seja noite. Sem saber porquê. olhavam em seu redor os altos cumes que pareciam deslizar por baixo das nuvens. Esther e Elizabeth detiveram-se. para Itália. por baixo do telhado.

Tinha uma ferida ulcerada. com os cotovelos apoiados na toalha de oleado. Era Angela. sem fôlego. chamavam-na "ragazza" com uma estranha forma de pronunciar os "r". que albergava uma dezena de órfãos de guerra e alguns casos difíceis lá colocados pelos pais. fica comigo senão morro!" Naquele momento. Falavam na sua língua cantante. achara que aquilo condizia com uma assassina de coelhos." O asilo era uma grande casa sombria de um só piso. Passagieri). O ladrar dos cães que respondiam uns aos outros. Elizabeth tinha pensado em matricular Esther na escola. não havia movimento. sem lágrimas. para um passeio em fila até à ribeira. Nunca saíam do asilo a não ser para ir à igreja de manhã e à noite e. "Não te vás embora. meu amor. Chamava a Esther "figlia mia" e tinha um olhar azul muito vivo. dava de comer aos coelhos que constituíam a base da ementa do restaurante. a gerente da casa (diziam que era também a amante do Sr. era Esther que a acompanhava. invadindo o grande vale. Não sorriam. os legumes. Esther prestava atenção aos ruídos enquanto esperava que Elizabeth voltasse do trabalho. na tal do asilo. Esther odiava-a como se tudo aquilo fosse culpa dela. Quando Angela ia comprar as provisões. às vezes um coelho vivo que levava pendurado pelas orelhas. com os joelhos arranhados pelas silvas. A primeira vez que vira aquilo. Esperava à entrada da quinta que lhe trouxessem o leite. Angela escondia muita ternura e generosidade. À noite. Havia alguns caixeiros viajantes a caminho de Vinadio. apenas havia as casas cinzentas com tectos de lousa por onde se escapava o fumo. Estremecia. Em Festiona não havia tempo. a sopa. queimava o lixo no pátio. manquejava e não podia usar meias. com as persianas fechadas a partir das quatro horas. aqui ele nunca mais nos encontra!" Elizabeth tinha corrido atrás dela pelo mato e alcançara-a na beira do rio. minha estrela. era a primeira vez que lhe batia. Angela falava pouco. No seu pequeno quarto. a bruma da manhã que o sol desfazia e que voltava à tarde. com um ar doentio e olhares fugidios. enquadrados pelas freiras e por um homem corpulento e vestido de preto que servia de porteiro. o corpo sangrento pendurado pelas patas traseiras. que colocara aquelas montanhas geladas entre ela e o pai para a destruir. Tanto os rapazes como as raparigas vestiam bibes cinzentos e eram pálidos. mas Esther gostava deles por serem elegantes e discretos. viúvos ou demasiado velhos para ficarem sozinhos nas suas cozinhas.sabão e escova. Esther olhava com receio a chaga que atraía as moscas. No princípio. 101 Esther fugira a correr pelo meio das ervas até junto do rio. descascava os legumes. Esther trazia os pratos. Era a guerra. no quarto iluminado por uma lâmpada de azeite. herdado de uma avó que nunca conhecera. e três ou quatro camponeses da aldeia de baixo. "Nunca lá hei-de pôr os pés. a polenta e o vinho. A Pensão Passagieri não tinha muitos hóspedes. sob aquela aparência rebarbativa. os ovos frescos. Esther tinha tanto medo deles que se escondia logo que ouvia o som dos seus passos ressoar na praça e nas ruelas. os jardins silenciosos. a pele voltada ao contrário. Mas. Esbofeteara-a primeiro para depois a apertar a si. ao domingo. Mas a pequena recusara. Conversavam na sala do restaurante. Mas nunca os quisera matar. como se fossem ingleses. O barulho dos tamancos dos pensionistas do asilo de crianças que iam e regressavam da 102 igreja. meio perdidos. sem gritos. que se encarregava da tarefa e fazia as coisas sem problemas: uma pancada na nuca. Elizabeth . de madrugada. não quero ficar aqui. Por vezes. "Quero voltar para Saint-Martin. um rumor de orações. Para ajudar.

quando a neve fundia. Exprimia-se um pouco em francês e muito por sinais. Era tão magro e franzino que parecia não ter mais de doze anos. doce e forte como uma carícia. Dizia que Brao era um vadio. na Costa dell'Arp ou na Pissoussa. atordoava. para os lados de Rua. Sentia-o como se estivesse perto. Eram os partisans. de onde se podiam espreitar as garças e os patos selvagens. As mãos de Elizabeth estavam frias. arrastando tudo consigo. O barulho. troncos e torrões com erva arrancados às margens. Havia até lagos serenos." Às vezes. Não queria que Esther falasse com qualquer pessoa. lá muito alto: um ruído agudo vindo de todos os lados ao mesmo tempo. gretadas pela água das lavagens. Vãose embora. o bater das águas nas praias de seixos e até mesmo com os gritos dos corvos. que fazia acelerar o coração. sobretudo. de noite. Brao conhecia todos os caminhos e todos os atalhos. em Saint-Martin. Esther lembrava-se de Mario e da forma como ele andava pelos grandes prados. Brao era um rapaz de quinze anos que tinha sido colocado como pensionista no asilo das crianças e era um dos tais casos difíceis. Estava-se bem lá em baixo. no local em que a ponte atravessa o desfiladeiro na direcção de Borgo San Dalmazzo. Elizabeth não gostava desses encontros. como num outro país. "Não é nada. e Esther não conseguia compreender como era possível aquela água viajar até tão longe sem se perder. ocultava-se . Não podia descer. mamã." Esther estava com ele em Saint-Martin. Por vezes ouvia-se o som dos aviões. A ribeira separava-se em vários braços. Podia vê-la lá de cima. A toalha de água descia. e também os trilhos dos animais. Tudo isso lhe parecia agora muito distante. para além das montanhas. numa outra vida. Brao dizia que se chamavam Giustizia e Liberta e desciam da montanha para atacar os alemães. mesmo dos que eram simpáticos. mas viaa. penínsulas. 103 Pela manhã. cheia até às margens. Brao afirmava que se se deixassem levar pela ribeira iriam até Veneza. "Se pudesses voar como um pássaro. Apontava para Este. Ia com Brao vaguear pelo leito da ribeira. causava vertigens. no meio dos canaviais. até ao outro lado do mundo. O vale brilhava ao sol. Havia toda a espécie de esconderijos. Na Primavera. Brao escapava-se e vagueavam juntos pelos campos. Esther agarrava-se à mãe. Esther sentia o seu olhar poisado nela. como os coelhos bravos. cabos. porque não chegara ainda o momento. branca de espuma. de noite.obrigava Esther a estudar. soltando gritos ásperos que faziam arrepios. As árvores tinham crescido e as ervas eram altas. Esther podia por lá ficar horas enquanto Brao procurava lagostins-do-rio. transportando lama. para os lados de Demonte ou descendo a Stura. algures na montanha. um sopro que se misturava com o vento nas árvores. segurava a sua mão. no leito da ribeira. Esther gostava muito de passear com ele pelos arredores da aldeia. Os corvos caminhavam pesadamente pelas margens e levantavam vôo quando alguém se aproximava. tinha medo de todos. caçando víboras. Esther sonhava descer a ribeira numa jangada feita de ramos e ervas e ir até ao mar ou ainda mais longe. apoiando a cabeça contra o seu peito. a Stura transformava-se numa ribeira enorme. Era lá que Esther pensava no pai. também se ouviam tiros ressoando por todo o vale. Os vidros da porta-janela estavam cobertos com papel azul por causa dos bombardeamentos. formava baías. Havia ilhas no leito da Stura. os esconderijos dos faisões e os lugares. mas Esther achava-o engraçado. Fugira diversas vezes de casa e roubava nas quintas. ainda esta noite lá chegavas. Fugia na hora de ir à igreja e vinha ter com ela ao pátio da pensão.

Os cães ladravam à sua passagem e seguiam-nos correndo ao longo dos taludes. camponesas. que a guerra tinha acabado. O vale brilhava com o ar da manhã e notavam-se já as cores do Outono. As palavras eram lentas e calmas. Pensavam que tinham chegado. Tanto o Inverno como a Primavera eram lentos. passando de largo e seguindo a ribeira Gesso. Eram na sua maior parte pessoas de idade. com a cabeça baixa e as gotas de orvalho poisandolhes no rosto. O grupo tinha descido o vale até Valdieri. algumas mulheres aproximavam-se e davam-Lhes pão. até os velhos. Ouvia-se um som de sinos ao longe. Sentia-se sufocar e os olhos estavam cheios de lágrimas. Elizabeth apertava Esther a si e seguiam lentamente. as mulheres e as crianças. As crianças olhavam espantadas as fachadas altas iluminadas pelo sol. Elizabeth apertara-a a si e estava gelada. 105 Esperaram nos edifícios da estação. os tamancos e um lenço preto tapando os cabelos. de fome e de sono. As crianças agarravam-se às mães. cheia de braços e de ilhas. Elizabeth sabia mas nunca falava disso. Ao descerem o vale estreito. que não tinham mais nada a temer. dizendo palavras na sua língua." Depois disso. a cúpula da igreja. não queria sequer pensar nessa palavra. Meteram-nos no comboio e nunca mais voltarão. Enquanto iam passando. quero ir embora daqui! Aqui nunca nos vai encontrar!" Não queria dizer "papá". ao cair da noite. queijo fresco e figos. com os olhos franzidos por causa do sol. como uma camponesa. Era por causa do que acontecera em Borgo San Dalmazzo. Mas não revelavam hostilidade nem receio. e quase não se vê a montanha. "Por que é que não me deixas fazer o que quero? Estou farta. Via-se brilhar o vôo dos pombos sobre os telhados. agitando o som 107 . um som que chegava em revoadas. subia do leito da ribeira com a noite. viram primeiro a igreja de Entracque e os telhados da aldeia e detiveram-se com o coração a bater. igualmente geladas. com a bata de flores. Estavam exaustos de fadiga. Foi a primeira vez que Esther se apercebeu de que a mãe era tão frágil. Como era estranho! O nevoeiro corria sobre os campos. Olhavam sem dizer nada. os aldeões viam-nos passar. Elizabeth fora à sua procura. Compreendes?" Elizabeth falava lentamente e era por isso que as suas mãos estavam geladas. um Outono triunfante. acreditar nesse nome. Esther tinha-a encontrado em Rua. em que Esther tinha saído com Brao seguindo pela estrada para o lado em que a ribeira é mais larga. como se tivesse envelhecido de repente. Os soldados alemães tinham-nos capturado facilmente à entrada de Borgo San Dalmazzo. Tinham recomeçado a andar e atravessado a aldeia. Há dias que andavam por caminhos pedregosos e agrestes. Também aqui os pombos voavam. Na soleira das portas. Era uma festa. os rostos e os corpos. "Apanharam-nos todos na estrada. sempre que Esther ouvia o nome de Borgo San Dalmazzo pensava no nevoeiro subindo da ribeira e apagando tudo. velhas vestidas de preto. afogando os nomes. Apenas uma vez. maravilhadas. Sentia-se envergonhada e estava zangada. como quando se está muito no fundo de uma gruta e se vê a luz lá longe. Vão morrer todos. Levaram todos.104 na sua sombra: o pai era tão grande que servia de protecção contra a luz do sol de Verão. prendia-se nas ruelas. As crianças olhavam. quase embriagador. o campanário erguendo-se como um farol. demorados. em Borgo San Dalmazzo. "Levaram todas aquelas pessoas. Hélène.

pelo soprar das locomotivas. Iam para o comboio. um murmúrio doce que falava de futuro. correndo ao longo da margem e fazendo barquinhos com pedaços de madeira. Partiriam para Gênova. As mais pequenas acabaram por adormecer. Talvez sonhassem ter já chegado e que as cúpulas e torres de Valdieri estavam às portas de Jerusalém. Ouviam-se choros de crianças. cintilante. empurrando-os como se fossem um rebanho. O frio da noite entrou nas grandes salas pelos vidros partidos. Podiam ir para todo o lado. fumando e conversando. De madrugada. no extremo da longa rua estreita e fria. através dos caixilhos. junto dos seus embrulhos. Já não havia guerra. Tudo se passara muito rapidamente. Tornaram a partir pouco depois porque a noite já se adivinhava ao fundo do vale. apesar das malas e dos embrulhos. sem que compreendessem na realidade o que lhes estava a acontecer. Falavam da sua terra. Já não tinham noção de onde estavam. As mulheres sentaram-se no chão. 108 Entraram todos. Ressoavam vozes em redor da gare. apesar das feridas nos pés. à direita. Estava frio e o vapor das locomotivas espalhava-se em nuvens fosforescentes. As crianças tinham começado a brincar. Apanhariam o barco de Ângelo Donati. Saboreavam a música de liberdade da ribeira. As mulheres dividiram as provisões: o pão duro de Saint-Martin e o pão fresco. de um simples piquenique no campo. e as crianças agarraram-se a elas. Cerca da meia-noite. estavam os soldados vestindo capotes verdes. até as grandes salas estarem apinhadas. de um vale. Erguiam-se fumos trazendo o aroma da comida e de queimadas de ervas secas nos campos. Os homens estavam sentados. Falavam da cidade de luz. Ouvia-se o ruído da água correndo sobre os seixos do leito da ribeira. As crianças agarravam-se às mães . com as suas cúpulas e minaretes. Atrás deles. de Trieste e do mar que iam atravessar até chegarem a Eretz Israel. onde se encontrava o berço do povo judeu. Falavam do que iriam fazer lá. apenas aqueles sons de máquinas. Não havia móveis nem camas. Pararam na margem da ribeira para repousar quando o sol estava no zénite. Ao fundo da sala maior as latrinas entupidas cheiravam mal. talvez até para Roma. Chegaram assim à gare. Tinham-se sentado nas praias de seixos para comer. murmúrios. Não havia qualquer luz além da dos faróis dos camiões. no caminho para a estação. À sua frente. As crianças tentavam ver o que se passava e as mais pequenas recomeçaram a choramingar. os soldados abriram as portas do lado das vias férreas e empurraram os homens e as mulheres para os vagões sem janelas.dos sinos no céu. pela chiadeira e os choques dos vagões. onde os soldados os fizeram entrar para um grande edifício. uns atrás dos outros. em redor das cúpulas. Agora tudo aquilo parecia ter o ar de um passeio. os soldados da Wehrmacht tinham-nos capturado. Era noite. foram acordados pelo barulho das manobras dos comboios que chegavam. A ribeira brilhava ao sol. do sofrimento e da febre que ardia nos olhos das crianças. Alguns falavam mesmo de Veneza. de uma quinta. o queijo e os figos que os aldeões lhes tinham dado ao passarem em Entracque e em Valdieri. Ouviram-se apitos. em Gênova ou em Livorno. pintados com tons de camuflagem. soluços. do outro lado das montanhas. À entrada de Borgo San Dalmazzo. recomeçar uma vida nova. Os alemães fecharam as portas. Mas não se ouviam vozes de homens. havia mosquitos suspensos no ar e pássaros poisados nas árvores. O vento da noite passava sobre as crianças aterrorizadas. para Livorno. rodavam lentamente os camiões com os faróis acesos.

de espaço a espaço. Parecia uma gruta muito escura. Lá. Brao puxou-a por um braço. sentia a força do olhar dos homens. o bater dos eixos. e as chamas furassem a sombra. as crianças agarradas às mães. bastaria esquecer as mulheres e as crianças e correr ao longo das vias. Avignon. antes da barreira das montanhas. em frente das imagens. ouvia o som grave das suas vozes e sentia o lento movimento de . Era como se eles ali estivessem todos por mais um momento. Brao permanecia de pé junto da entrada olhando sem dizer nada. detestava ouvir o ruído de passos das crianças e o murmúrio maquinal das orações. queria ver a luz brilhar. "Anda!" disse. eram os olhos das pessoas que viam. Cécile com o lenço cobrindo os lindos cabelos negros. sob o vapor dos comboios. um momento apenas. Lião. saltar os taludes e desaparecer nos campos. Cheirava a madeira encerada e a velas. Esther aproximou-se das luzes como se não conseguisse desviar delas o olhar. Esther não queria. Gênova. apenas com o resfolegar das locomotivas e o barulho dos atrelados. Dijon. Marselha. Vintimille. uma pequenina estrela tremeluzia ao frio. Deixava que o calor a penetrasse. provocando um calor intenso. ao cair da noite. Sentia-se inquieto. As velas bruxuleavam. Era a mesma luz. as perguntas das crianças. com todas aquelas chamas palpitantes. o amor que as mulheres davam. Uma vez. em pé. quando entrara na vivenda do alto da aldeia. e o silêncio subsequente à 109 paragem do comboio. dos lados do altar. sem gritos nem vozes. Ao fundo. umas a seguir às outras. ia fazendo nascer estrelas de luz e agora a igreja refulgia como se houvesse festa. Brao escapou-se e encontrou Esther na praça. As vozes dos homens cresciam. sem pássaros nem ladrar de cães. olhando-os. Não sabia muito bem porque fazia aquilo. Existiam apenas as figuras fantasmáticas dos soldados vestidos com os longos capotes.e talvez perguntassem: "Para onde vamos? Para onde nos levam?" Os cais. Esther dava a volta à igreja. A madrugada era interminável e silenciosa. 111 com uma lamparina na mão. Passado um instante. não compreendia. e a nova noite fria. sentia a força dos seus olhares. vendo todas aquelas luzes a brilhar. todos aqueles nomes e todos aqueles rostos que se esfumavam como se tivessem sido irmãs e irmãos arrancados da memória de Esther. a meio da igreja. a espera. a imobilidade que atordoava. Esther ficou de pé. Então Esther pegou numa das lamparinas e começou a acender as velas. como naquela noite. Turim. em Saint-Martin. A pequena andava de um lado para outro febrilmente. o choro das crianças. Ao lado da porta havia aquele quadro estranho da Virgem pisando um dragão. seguidos do chiar agudo das rodas quando começaram a patinar nos carris e o comboio partiu para aquela viagem sem destino. a voz abafada das mulheres. o som das rodas. acendendo todas as velas que encontrava: nos cantos. as crianças. Melun. Brao agarrou Esther pela mão e levou-a para dentro da igreja. Drancy. como se o tempo não passasse e estivessem ainda do outro lado. os edifícios da gare e a cidade em redor estavam vazios. as mulheres. o fumo que entrava nos vagões escuros e a luz da madrugada através das frinchas das portas. de cada lado do altar. murmurando as palavras do livro naquela língua misteriosa que penetrava cá dentro mesmo sem ser compreendida. o cheiro acre do suor e da urina. Talvez os homens sonhassem fugir. 110 Os órfãos iam à igreja de Festiona todas as tardes. Toulon. quase mágico. mas os seus olhos também brilhavam. ressoavam como uma tempestade para depois se tornarem muito suaves. apontando a igreja.

Há já um ano. Não se ouvia qualquer ruído na floresta. "Vamos regressar em breve. Esther pensava na liberdade. apanhar o comboio para Paris. Hélène." Mas Esther fitava-a com dureza. com os velhos bibes cinzentos gastos nos cotovelos. entravam na gruta sombria. Haveria também as crianças. O coração batialhe com força no peito e sentia as gotas de suor ensopando o vestido nas costas e fazendo impressão nas axilas." Fingia não compreender. mesmo aí. estariam Tristan. partindo para o Norte. no restaurante da Pensão Passagieri. . Esther cortava os ziguezagues por atalhos no meio do mato. Seguiu pela estrada de terra. não é já. Quando chegou à pensão foi fechar-se no quarto mas. e Brao estava no meio deles. lá em baixo. com o ombro ainda dorido da pancada que apanhara. Brao dizia que eles estavam lá em cima.balanço dos corpos enquanto cantavam. no alto daquela montanha. A montanha era bela e solitária. acima de Festiona. tinha a voz alterada e não conseguia explicar-se bem. A montanha erguia-se à sua frente. Esther soltou-se-lhe dos braços. de tempos a tempos. Como todas as tardes. o crocitar dos corvos invisíveis. Talvez pudesse partir com eles. A estrada esboroava-se. as raparigas à esquerda e os rapazes de cabeça rapada à direita. porque de repente a porta da igreja se abriu e a voz do porteiro ressoou. sentavam-se nos bancos rangentes. mas teve medo e fugiu a correr. Judith e todas as pessoas da aldeia. Elizabeth apertara Esther com muita força de encontro ao peito. Doía-lhe o coração e sentia um nervo a palpitar no seu peito. passar as montanhas e. no entanto. apenas. 112 Chegava o fim do Verão e sabia-se que os alemães tinham iniciado a retirada. coberta de larícios coloridos pelo Outono. Falavam dos homens de Giustizia e Liberta. "Então vamos embora amanhã?" Elizabeth fazia-lhe sinal que se calasse. No dia seguinte de manhã. Não tinha chovido desde o princípio do Verão. vamos voltar para França. desceu para o pátio e afastou-se na direcção dos campos. as pedras rolavam e havia muita erva seca nos 113 taludes. Nem sequer queria pronunciar "Esther". "Não. que se tinham reunido em Madone du Coletto. talvez soubessem qualquer coisa. Fora já há tanto tempo e. acabou-se tudo. parecia-lhe ouvir Brao a gritar pelo seu nome e o ruído dos tamancos dos malditos órfãos avançando a passo para a igreja. enquanto toda a igreja vibrava e oscilava como um navio. que se reuniam junto da capela. Giustizia e Liberta. todas as crianças. saiu do pequeno quarto. Rachel. Mas não queria pensar mais em tudo aquilo. partiu para Coletto. Subia sem olhar para trás. os velhos envergando as suas casacas e as mulheres com os vestidos compridos e os cabelos ocultos pelos lenços. Logo a seguir às últimas casas de Festiona a estrada começava a subir em ziguezague. Talvez lhes conseguisse falar. Queria ir mais longe. talvez tivessem notícias de Saint-Martin. correndo pela praça em redor da fonte ou cavalgando pela rua do regato até aos prados à beira da ribeira. ir até ao mar. como se tudo estivesse normal. agarrando-se aos arbustos. O sol da manhã fazia brilhar as agulhas dos larícios e intensificava o aroma das sebes. como se nada se tivesse passado. O homem vestido de preto segurava Brao pelo colarinho do bibe e Brao gritava: "Elena! Elena!" Esther sentia vergonha. temos de esperar. Brao falava disso e as outras pessoas também. era um nome que lhe metia medo. Esther e Elizabeth tinham descido por aquela mesma estrada ao chegarem a Valdieri. Esther tinha a impressão de poisar os pés exactamente sobre o rasto que deixara. bem cedo. Devia ter ficado ajudado Brao. Mas tudo aquilo não durou mais do que um instante.

No alpendre havia vestígios de fogueiras. O vale de Valdieri estava iluminado pelo sol. e o sol queimava. Há um ano. em Festiona. Aquilo provocava um buraco dentro de si. quando se aproximara da montanha. como que passado numa outra vida. Era por isso que ela estava a escalar aquela montanha: para ser livre. Bem ao fundo. pouco a pouco. A capela estava abandonada. o canto distante de uma ave por entre as árvores. não pôde esperar mais. leve como uma nuvem. o repicar dos sinos. Correu pela estrada de Valdieri até à grande curva da qual se vê o vale e aí deteve-se. Agora Esther ouvia os sons da vida. Devia ter vestido o casaco de malha por cima da bata de trabalho. Fora isso que ela vira.talvez até à Bretanha. quando Gasparini a tinha levado a ver a ceifa do trigo e ela sentira dentro de si um grande vazio. Conhecia todas as casas e todos os carreiros até à aldeia de Entracque pela qual chegara com Elizabeth. lembrava-se bem. Ali tinham comido pessoas. Lá em baixo era um dia como qualquer outro. por causa do frio da noite que já começava a chegar. a porta fechada e as janelas tinham vidros partidos. na estrada de Roquebillière. Quando estivesse com os de Giustizia e Liberta já não precisaria de pensar em nada. A pequena subiu até à fonte que ficava acima do santuário e bebeu a água muito fria. falava muito da Bretanha com o pai e ele prometera-lhe que havia de a levar lá. Esther recordava cada instante embora isso lhe parecesse muito distante. e ficou a olhar para longe. o que estava do outro lado da montanha tornara-se inacessível. Os cumes eram agudos e arranhavam o céu. Podia ver tudo à sua frente. Começou a correr como daquela outra vez. o ladrar dos cães. O céu estava muito azul. talvez dormido. Tudo tinha mudado. O coração batia com força. Tudo estava silencioso e apenas se ouvia o ligeiro ruído do vento nos larícios. Tinha medo. afogava as aldeias. Lá ao fundo havia justamente essa montanha a que as pessoas davam o nome de Treva. Viam-se bocados de cartão e palhas secas. mergulhando-as no esquecimento em Festiona. a passagem momentânea de um insecto. até os gritos das crianças. para não pensar mais. precisamente antes de as nuvens se fecharem sobre Elizabeth e sobre ela própria. Pensava em Elizabeth. Depois. o cume do Gelas parecia cada vez mais afastado e flutuava acima da bruma. ninguém se liberta das sombras. à beira da estrada. tudo seria diferente. Esther começou a aperceber-se de outros sons: estalidos das pedras. Ninguém pensava na guerra. Esther via o sol aproximar-se inexoravelmente das montanhas. recobria o vale. como se fosse um pássaro. para o lado das montanhas. 115 Ao longe. da passagem pelo meio dos gelos. Antigamente. Agora. 114 De repente. Então os combatentes de Giustizia e Liberta nada podiam fazer. a neve brilhava como uma jóia. mas. Mas talvez tivesse sonhado. Esther e Elizabeth tinham passado aquelas montanhas com todas as outras pessoas que fugiam dos alemães. o medo da morte. A sombra ia-se estendendo lentamente. restolhadas nas moitas. antes de passar a garganta: uma janela irreal onde o céu brilhava. Esther esforçava-se por não desviar o olhar do fundo do vale. sem fôlego. O sol descia para as altas montanhas e ela sentia no rosto o avanço das trevas. Esther chegou ao santuário um pouco antes do meio-dia. Sentou-se então no chão. O cheiro a fumo era trazido pelo vento. a sua sombra estendia-se pelas encostas até ao vale. Brao . sem nuvens. lá em baixo. Era uma grande brecha por onde soprava o vento. Talvez não restasse nada. sentou-se à espera. uma janela por onde passava o vazio.

Até a mim. Simon Ruben é amigo da mamã e meu. Sei que vou deixar este país para sempre. mas vamos partir em breve. quando viemos para Paris sem o meu pai. Avançámos ouvindo o som do vento na floresta. Quantas horas andámos sem falar. desde a gare de Saint-Cyr. Estamos embrulhadas no cobertor militar que nos deu o tio Simon Ruben antes da nossa partida. d'Aleu. ao abrigo de uma cabana em ruínas. Dorme enquanto eu espero. que era isso que ele dizia. pois era a hora em que as crianças do asilo se preparavam para ir à igreja. quando compreendeu que tinha acabado realmente. na areia. o vento que nos empurrava para o mar. Julgo que ela chorava. Esther ficou a olhar o vale de Valdieri e as arestas agudas dos glaciarrés. estava inclinado sobre a mesa. cedeu-nos metade de um apartamento que tinha na Rua dês Gravilliers. Segurava as mãos da mamã. tinha o seu rosto muito próximo do dela e dizia e repetia: "É preciso partir para esquecer! É preciso esquecer!" Não compreendia o que ele 119 queria dizer. pálida e frágil. descer das alturas e avançar até às aldeias fumarentas. Simon Ruben recolheu-nos. Perguntou: "Não deveremos esquecer o que a terra já cobriu?" Ele disse aquilo e lembro-me muito bem que não compreendi o que queria dizer. Ainda por mais alguns minutos. Foi ele que tratou de tudo para a nossa viagem. 116 ESTHER Port d'Alon. O caminho lamacento serpenteava pelas colinas e descia até ao fundo dos vales. um vento . Lembro-me do seu rosto sombreado pelos grandes olhos de pestanas muito escuras. Na outra metade vivia uma velhinha cega que se chamava Sra. como se estivesse alguém para chegar. conhecia-o muito bem e foi por isso que nos acolheu. Dezembro de 1947 Tenho dezassete anos. de que ele gostava muito. encharcadas pela água fria? Havia momentos em que a chuva parava e não se ouvia o vento. que já não havia motivo para ninguém se esconder. Depois da guerra. Não sei se conseguirei chegar ao outro. Mas agora já não há mais dinheiro e não sabemos para onde ir. A mamã sentou-se no chão. Ao aproximar do dia entrámos na floresta de pinheiros marítimos gigantes. um homem muito alto que atravessaria as torrentes e os prados de costas para o sol e ela sentiria finalmente o seu ombro junto dela. às cegas. o que era preciso esquecer. A mamã está sentada a meu lado. Não há lugar para nós em parte nenhuma. que era sua filha. Simon Ruben disse à mamã que não era por causa do dinheiro mas sim pela nossa vida. Os troncos das árvores recortavam-se na vaga luminosidade do mar. Era amigo do meu pai. Chegámos aqui na penumbra da madrugada depois de termos caminhado de noite. Depois. guiadas pela fraca luz da lanterna eléctrica. tão linda. sobre a areia. Instalou-nos primeiro na garagem. para podermos esquecer. Esperamos na penumbra da madrugada. Lembro-me do tio Simon Ruben. tão jovem. que o meu pai estava coberto pela terra e era preciso esquecer. duro e impermeável. o que tinha a terra já coberto. o som do ar a passar. O homem que nos guiava instalou-nos todos junto das ruínas de uma cabana e foi-se embora. no fundo de um vale. O vento sopra em rajadas. Agora sei que se referia ao meu pai. Foi aí que vivemos. o que nos fazia bater o coração como se fôssemos a entrar num país desconhecido. à chuva. queixando-se das pernas e choramingando um pouco. parecia jovem e frágil como uma rapariguinha. porque não tinha a certeza de a guerra ter acabado e os alemães não voltarem.devia estar à espreita na praça. do seu rosto velho e gordo muito próximo do da mamã. É um cobertor do exército americano.

120 São os livros que prefiro. não tenho muita roupa. As pessoas deitam-se no chão. Viemos de Paris de comboio. depois do jantar: Nicolas Nickleby e As aventuras do Sr. Estava . e eu fiquei de pé o melhor que pude para vigiar as nossas malas. volta para trás e vai procurar outro. que nem sequer tinha acordado. da porta do WC que bate mesmo junto da sua cabeça e do cheiro. um dormir cheio de ruídos e de solavancos que me provocava náuseas. mas não consegui suportar aquele brutamontes sem piedade que ia acordar a mamã para ir calmamente à casa de banho. Há muita gente nos cais. basta-me agarrar num deles. Trouxe o vestido de Verão de percal branco. Estou tão cansada. os livros. encostadas às malas. A mamã deitou-se no chão do corredor. as fotografias.. Quanto a mim. num mundo onde já não há tempo. Eu e a mamã não somos as únicas.frio que tenta atravessar a couraça molhada do cobertor. sentados em cima das bagagens. As carruagens estavam apinhadas e não havia nenhum lugar sentado. esgotadas pelo cansaço. sem um grito. Esperamos toda a noite. Talvez tivéssemos de passar toda a noite nos cais à espera. ao longo do cais. algumas embrulhadas em cobertores da Cruz Vermelha. A mamã trouxe dois quilos de açúcar porque diz que lá deve haver falta. os livros que o meu pai lia às vezes. Vi-o então por baixo do relógio que parece uma lua triste. Mas houve um que quis mesmo entrar. Falam e fumam. as coisas de toilette. empurrou-me e começou a gritar com uma esquisita voz esganiçada. o tio Simon Ruben deu-lhe o Livro da Criação. Adormeceu quase imediatamente. Esperamos durante horas no cais imenso. A mamã está encostada a mim. Judeus vestidos de preto conversam interminavelmente na sua língua. Quando me apetece rir ou chorar ou pensar noutra coisa. Atirei-me a ele e comecei a dar-lhe socos e bofetadas sem uma palavra. Há crianças que choramingam e depois adormecem de repente. Pickwick. um rumor de que não haveria comboio na direcção de Toulon antes das três ou quatro horas da manhã. é como se chama. pouco antes da meia-noite. vibrante de cólera e medo: "Hão-de ter notícias minhas! Vão ver!" E foi-se embora. O fulano recuou como se um gato assanhado se tivesse atirado a ele. abri-lo ao acaso e encontro logo a passagem que me convém. Pespegou-se à frente dela e disse: "Dá-me licença?" pensando talvez que a mamã ia acordar de repente e levantar-se. Quando desembarcámos em Marselha. alguém precisa de utilizar o WC e vem até ao fundo do corredor. Como ela continuasse a dormir. mas que importância tinha? O tempo deixou de existir para nós. A mamã adormeceu no chão porco do corredor do comboio. e as suas vozes ressoam estranhamente na vastidão da gare. abracei-me a ela e dormi um bocado. Andamos há muito tempo por fora. Deitei-me então no chão ao lado da mamã. apesar das sacudidelas dos freios. Têm dentro todos os nossos tesouros: os vestidos. A mamã trouxe apenas um livro. com certeza. Sefer Berasith. em frente da porta do WC. à noite. Antes de partirmos. As duas malas estão reforçadas com cordel.. Quando vê a mamã ali adormecida em cima do cartão. Não me mexo para não a acordar. 121 ninguém nos disse nada mas propagou-se de uns para os outros. cada vez mais alto: "Dáme licença? Dá-me licença? Dá-me licença?" Depois. com os maxilares cerrados e os olhos cheios de lágrimas. Não sei o que me deu. Chove em Marselha. gritou várias vezes. sobre um cartão. as recordações. curvou-se para a empurrar para o lado. De vez em quando. luvas. Sopra um vento frio e a chuva forma uma névoa em redor das lâmpadas eléctricas. a viajar. uns sapatos para mudar e sobretudo os livros de que mais gosto. amontoada pelo meio das bagagens.

em Nice. com a parte de cima do corpo apoiada nas malas. é certo. Acho que resmunguei qualquer coisa desagradável para poder desandar mais depressa e ir-me instalar com o busto apoiado nas malas e as pernas dobradas de lado. da T. mas o comboio. Não sei o que respondi. (N. que não devíamos pronunciá-los mais. Foi nessa altura que compreendi que nunca poderia deixar de viajar. um parente. Quando irá acabar isto tudo? Hoje parece-me que andei sempre a viajar desde que nasci. os halos em torno dos candeeiros. d'Aleu. Furava pelo meio da multidão procurando com o olhar qualquer coisa ou alguém. um amigo. de autocarro. a senhora de idade que . Tinha-o esquecido. com a cabeça baixa. As noites são longas quando está frio e se espera um comboio. A mamã disse um dia que esses nomes eram malditos. sentado na mala no meio das pessoas deitadas. até acabar a guerra. com o silvo do vapor que se espalhava e o chiar dos freios. sonhando. porque me sentia muito cansada. desesperadamente exausta. 1 Berger: pastor. O "pastor" falou-me há bocado. Apesar da distância. Dei-lhe portanto o apelido do Pastor.também no cais da gare de Paris. o barulho do rodado. estou aqui. Era alto e magro. Disse-me: "bom dia. curvei-me para a mala como se procurasse qualquer coisa. Odeio viagens! Como é possível andar de comboio ou de barco por prazer? Gostava de ficar toda a vida no mesmo lugar. que nunca teria repouso. Deitei as duas malas e a mamã sentou-se no chão. distingo-lhe o olhar na sombra das órbitas. Não tem frio?" com uma pronúncia que me pareceu parisiense. para que ele não me visse corar. com uma voz um pouco grave. e pensava: Ora bem. Quando chegou a meu lado. os solavancos. no outro extremo do cais. Paris. nem sequer pensar neles. Estou em Marselha e é a última vez na minha vida que vejo isto. Observava tudo aquilo. em Saint-Martin. o seu olhar deteve-se em mim tão demoradamente que tive que desviar o meu e.) 122 pelos caminhos da montanha. de comboio. Continuou: "É aborrecido estar à espera num cais. a gare imensa com os vitrais por onde escorria a chuva. os cais cujo fim se perdia na noite. o mais perto possível da mamã. Digo isto porque agora sei que é assim que ele se chama: Jacques Berger1. talvez tenha passado sem responder. como se esperasse alguém. um amigo. o Pastor em questão está de pé. outra vez em Nice. mesmo se viver até ser tão velha como a Sra. Não devo esquecer nunca. Gostaria de não poder pensar mais em Saint-Martin ou em Berthemont. quando eu voltava dos toilettes da gare. apesar do cansaço. Tenho tenções de a imitar daqui a bocado. depois Orléans. que tudo continuava a ser real. D. Vi que tinha uma pequena cicatriz junto do lábio e pensei no meu pai. passar as nuvens e as aves. Acho que nunca até então tinha pensado que ela poderia morrer. Não consegui dormir um momento. Já que talvez tenhamos de passar toda a noite neste cais é melhor instalarmo-nos. vendo passar os dias. tudo isso me impedia de pensar fosse no que fosse. como se me quisesse assegurar que nada tinha mudado.. Tal como em Paris. conversando e fumando. não por completo. antes do comboio partir. Eu ia a passar por baixo do relógio e ele estava lá. a mamã a dormir como uma criança doente deitada no chão junto à porta do WC. apesar do vazio que havia em meu redor. com cabelos e barba dourados que lhe davam o ar de um pastor. em Festiona.. menina". e depois saltando de uma casa para outra. um parente. há tanto tempo que já me parece ter sido há semanas. A seu lado estava o grupo dos judeus vestidos de preto. Olhava constantemente em volta. Furava pelo meio da multidão no momento em que o comboio entrava na gare.

lembro-me que me ergueu do chão enquanto eu me debatia e me apertou de encontro ao peito. embrulhadas nos seus cobertores: pareciam despejos. a sua cara de lua onde as horas avançavam tão lentamente: uma hora. no rosto meigo. sob o céu azul. em tudo o que iria acontecer. Adiante. como nós hoje.partilhava o nosso apartamento do número 26 da Rua dês Gravilliers. Fomos na charrete puxada por um cavalo e o meu pai ajudou os camponeses a ceifar e a atar as medas de trigo. Pensava quando o meu pai tinha partido. e olhava os corpos estendidos no cais. gemia. lentamente. O meu pai correu atrás de mim. os músculos tensos como cordas de cada lado das suas costas. fugi o mais depressa que pude. e eu acariciava-lhe o cabelo como se faz a uma criança para ela não acordar. quando fugimos de Nice para Saint-Martin. e que de repente me desabou em cima. No momento seguinte. duas horas. num fato caído. nos cabelos muito negros e encaracolados. acariciando-me os cabelos e a nuca. ao longo do nariz. com uma rapidez que não permitiu ver nada. no seu olhar que parecia sempre desculpar-se como se tivesse feito um disparate. que também tinha sentido a passagem daquela sombra . talvez ao mesmo lugar a que voltei três anos depois com o Gasparini. empurrando-o um pouco. atrás dele. encostados às paredes. roupa atirada para o chão. Tinha tirado a camisa e eu via. forte. duas horas e meia. a única coisa que conseguia fazer era correr o mais depressa que podia. É como a corrente que passa do íman para uma pluma de ferro. pensava em tudo o que acontecera." Mas vi nos seus olhos que tinha compreendido. Eu mantinha-me perto dele. Não conseguia gritar nem chorar. apoiando-me nas velhas malas. me apertou o coração nas suas garras e não pude ignorá-la. profundo. Não devo esquecer nunca mais nada disto. beijava-me. mas tinha desaparecido. o relógio mostrava a sua cara pálida. apesar dos berros das pessoas e do cheiro do trigo cortado. alto. e as pessoas que dormitavam sentadas nos bancos. pingar na mala. É difícil de explicar. Recordo-me que tinha dez anos. partira enquanto eu dormia. deixando apenas a recordação daquele rosto sério. apertava-me a si com tanta força que eu ficava sufocada e ria. Também ele se tinha transformado num despojo. Nesse Verão o meu pai tinha-me levado até ao vale para ver a ceifa. por baixo do relógio. sob a pele branca. como quando escrevemos uma carta. Depois. Às vezes finjo acreditar que vamos encontrá-lo quando a viagem terminar. Lembrome que a ideia surgiu 124 devagarinho. ao acaso. estremece. Tinha os olhos a arder. Às pessoas que perguntavam o que tinha acontecido. com a cara encostada à mala. corri pelo caminho que atravessava a seara. apesar do sol. sem compreender por que é que saíam dos meus olhos. Nunca me fez qualquer pergunta ou qualquer censura a respeito daquilo. Erguia-me então um pouco. respirando o cheiro da sua transpiração. Por momentos a pluma agita-se. pesado. De repente. A mamã mexiase ligeiramente no sono. que me sufocava. Há já muito tempo que treino esta mentira até acreditar nela. a pluma está pegada ao íman. tive a sensação muito forte que o meu pai se iria embora para sempre. 123 sentia vertigens. Tentei ver o "pastor" no extremo do cais. procurando acalmar os meus soluços sem lágrimas. Há instantes ele estava ali. compreendi que aquilo ia terminar. no princípio da guerra. daqueles olhos que queriam fazer-se perdoar. ouvia o som das respirações. Horrorizada. na última imagem que guardava dele. mal dando sinal de si. agarrou-me já na estrada. sentindo aquele aperto que me esmagava o coração. Penso nele. nada. disse apenas: "Nada. assustou-se. e sentia as lágrimas escorrer pelas faces.

Houvera uma troca de bilhetes que ele lia à pressa e queimava imediatamente e a mamã tinha-se vestido a correr. sabia que bastava voltar-me para os ver. até ao hotel abandonado. ao crepúsculo. seguindo a corrente sulfurosa acima do hotel em ruínas. para ver o seu rosto. Tive dificuldade em reconhecê-lo 125 porque a barba crescera e o rosto estava queimado pelo sol. primeiro por uma escadinha e depois por um carreiro estreito. por mais que tentasse afastá-la. aparando-as com as costas da mão. atirei-me ao chão mordendo a mão para não gritar. Nunca tinha ido ainda até tão alto nem tão longe e tinha o coração a bater com força de fadiga e inquietação. ouvia a sua voz. a sua camisa e a silhueta da mamã deitada a seu lado.gélida. cintilante. que ele tinha que morrer. por uma encosta coberta de imensa erva e o céu rodeava-nos por todos os lados. De repente. com a testa encostada ao vidro frio e abanada pela trepidação e pelas curvas. com o cobertor duro do Simon Ruben puxado até aos olhos. e não conseguia deixar de pensar que ele ia morrer. desenhavam volutas deslumbrantes no azul e eu ouvia os risos e as vozes do meu pai e da minha mãe ali ao lado. chegámos ao alto da encosta e ali. tudo parece tão distante como se se tivesse passado com uma outra pessoa. para não chorar e. e eu tinha dificuldade em seguila mas não me atrevia a dizer nada porque era a primeira vez que ia com ela. um vazio. A ideia surgiu-me na cabeça e. E foi nesse momento. precisamente. Ainda me parece ouvir as suas vozes e os seus risos naquela tarde. Lembro-me que jogava às pedrinhas. e conversaram. Todo o corpo me dói e os olhos estão a arder. Seguíamos agora já muito alto. Tinha a roupa rasgada e suja e trazia uma espingarda ao ombro. apesar da esplendorosa luz do meio dia e do ouro das cearas. O vento norte sopra com força durante a noite e eu estou agarrada à mamã. havia uma grande planície verdejante salpicada de cabanas de pastores feitas de pedras soltas e escuras. Vi-o pela janela da carruagem. sem se cansar. na baía de Alon. O barulho do mar. na encosta coberta de erva. levantou-me e apertou-me a si com força. é preciso partir para esquecer!" Aqui. Toda a gente tinha vindo para o mesmo lado da carruagem para ver o mar. Depois. apesar disso. perto dos cumes. Por fim. tentei vê-lo no comboio que seguia para Bandol. acalma-me. Depois. voltava sempre. Mas 126 . As nuvens passavam. perto da cabana de pedras. que se abria à minha volta. A mamã tinha avançado até às primeiras cabanas e quando chegámos apareceu o meu pai. Estava de pé. Tinha uma expressão de impaciência que hoje já não lhe vejo e os olhos brilhavam. em pé no corredor ao lado da mamã. um frio. e parecia um caçador. Começámos a subir a montanha. sentia as lágrimas que brotavam de dentro de mim e o vazio que se formava no meu estômago. Como habitualmente. enrugado pelo vento. É a primeira vez na minha vida que durmo à beira-mar. Ouvia-os falar e rir mas mantinha-me um pouco à parte. mesmo tempestuoso. Há muito tempo que não durmo. que compreendi que o meu pai ia morrer. na erva. o seu riso. febris. os seus cabelos e a sua barba brilhando ao sol. Agarrara-me pela mão e tínhamos seguido muito depressa pela estrada deserta. no meio da erva alta. É isso que preciso esquecer nesta viagem. antes de chegarmos a Marselha. rodeados pelo céu. estendeu-se com a mamã na erva. Lembro-me também de um dia em que fui passear com a mamã para o lado de Berthemont. Já o meu pai tinha partido para se juntar aos do maquis e tudo era misterioso. num outro mundo. ao longo da ribeira. como dizia o tio Simon Ruben: "É preciso esquecer. A mamã andava depressa.

Eretz Israel. procuram distinguir na escuridão a luz do barco. era uma porta. mas não o vi. nem goleiras furadas. Reuniu todos os que tinham que partir e seguimos pela estrada. Também eles irão para Jerusalém? Ou vão para o Canadá? Mas não é possível saber. homens e mulheres embrulhados nos seus abafos. olham em frente.. Acho que nessa altura não sabia muito bem o que queria dizer orar. tentando ver se o "pastor" tinha descido como eles. Não perguntem nada a ninguém. guiados pela luz da sua lanterna eléctrica. Quando se fala em Paris. antes de mergulharmos no sono. clarões breves e luzes distantes que dançavam como se pertencessem a navios. abrigados numa cabana em ruínas. uma cidade onde não havia nada banal. Isto é. nem esgotos onde corriam bandos de ratos. Estamos agora na praia. vivia apenas para essa palavra: Jerusalém. Não falava realmente da cidade nem do país. Uma cidade onde se passava o tempo a orar e a sonhar. Eu achava que devia ser a mais bela e a maior cidade do mundo. segundo dizia. Como seria? Não conseguia imaginar uma cidade como uma nuvem. nada sujo. em Paris. ladeira Crotti. Chegámos depois a Saint-Cyr e todos saíram.apenas via a escuridão. prescrutam o ruído do mar tentando ouvir vozes de marinheiros chamando." Meteu no Livro da Criação um papel com o nome e a direcção do irmão em Nice: Móveis Edouard Ruben. Também a mamã tinha falado muitas vezes disso. Chama-se Sette Fratelli. Foi o que disse Simon Ruben quando nos acompanhou ao cais da gare: "Não falem com ninguém. Nem ele nem a mamã eram crentes. O comboio parou na gare de Cassis e muita gente desceu. Nos últimos tempos. . pois com certeza lá não havia ruas escuras nem edifícios vetustos. pareciam pássaros cansados. há pessoas que acham que temos sorte. Talvez outros tentem ver. não se pode perguntar. Talvez pensasse que era como nos sonhos. o que mais desejamos e o que mais amamos no mundo. campanários e minaretes (o meu pai dizia que havia lá muitos minaretes). Pareceme que com aquele nome nada nos pode acontecer. acreditavam em D. Era triste e simultaneamente engraçado. quando à noite. como eu. rodeada por colinas em volta cobertas de laranjeiras e oliveiras. pessoas que gostariam de saber para nos impedirem de partir. contava coisas extraordinárias. nada perigoso. desnorteados pelo vento. contava o que era aquela cidade como se fosse uma história. Lembro-me quando o meu pai falava de Jerusalém. que quer dizer Sete Irmãos. com cúpulas. Há ouvidos à escuta. Soerguem-se. alguns com grandes guardachuvas como se fossem passear pelas avenidas. Os pinheiros gigantescos rangem e estalam ao vento e as suas agulhas fazem o barulho das vagas batendo na proa. nem escadas mal cheirosas. Depois o comboio arrancou lentamente e as pessoas ficaram de pé no cais. O barco que deve vir é italiano como Ângelo Donati. e esperamos pela madrugada. quando deslizam em nossa volta coisas secretas.. Quando pela primeira vez ouvi aquele nome em Paris pensei nos sete meninos perdidos na floresta da história do Polegarzinho. Olhei para fora. Há pessoas que escutam. até ao porto de Alon. antes de eu adormecer. mas não acreditavam na religião dos judeus nem em nenhuma outra religião. uma cidade tão bonita! Mas Jerusalém era certamente diferente. em nada semelhante a Paris. distanciando-se como fantasmas. É para lá que devemos dizer que vamos se a polícia nos detiver. Para ela. uma cidade que flutuava sobre o deserto como uma miragem. de tudo o que ia recomeçar. Um homem esperava-nos no cais da gare. mas de tudo o que outrora lá existira. Mas quando o meu pai falava de Jerusalém 127 no tempo do Rei David.

deslizam ao contrário como a paisagem na janela de um comboio. Afastam-se. apenas o vento que trazia o som das forjas das aldeias e os gritos imprecisos das crianças. Ter-me-á ouvido? Gostaria de falar-lhe de tudo aquilo. já não tinha medo . também ela se lembrava de como ele desaparecera no meio das ervas altas para não voltar. desviam os olhos porque têm medo que isso se veja no seu olhar. Lembro-me que antigamente. Quando as pessoas crescidas não dizem a verdade. dizer-lhe que é realmente difícil e demorado franquear essa porta. na Rua dês 128 Gravilliers. Mas nessa altura já eu estava curada do vazio. Pensara 129 também imediatamente no meu pai e dissera: "Os que matam os outros roubam-lhes a vida. Começa a clarear e consigo distinguir os troncos muito altos e o céu por entre os ramos. que aumentava o vazio no meu íntimo. Apertei-a com mais força a mim. deixando o corpo frio e branco na cama e o tio Simon Ruben viera ajudar a mamã a preparar a morta para o enterro. Parece-me que é ela a filha e eu a mãe. não comia senão se a mamã me desse à colher. os caminhos vazios. Tinha experimentado a oração. A viagem começou há já muito tempo. Lembro-me de cada etapa desde o início. no apartamento de Simon Ruben. no Inverno. E o vale aberto até à janela de gelo. tinha chamado o rabino e um médico para me tratarem daquele vazio." Também ela se lembrava de quando o meu pai partia para a montanha com a espingarda. como se fosse culpa sua. tinha dito que não era nada disso. O tio Simon Ruben tinha tentado tudo. Transformara-me realmente num bebê e fazia chichi na cama todas as noites. que era durante a noite que a morte roubava as pessoas. Fora assim que morrera a Sra. atravessa-me. que assobia por entre as árvores enormes. A mamã punha-me fraldas que fazia com panos velhos de todas as cores. como se adormecessem. antes de Saint-Martin. Foram anos terríveis que deixei para trás de mim. Adormecíamos vivos e. murmurando palavras para a tranqüilizar. A única coisa que não tentara fora o hospital porque a mamã não teria concordado. como a um bebê. "E quando matam alguém?" Eu tinha perguntado isso. nos corredores e nas escadas da Rua dês Gravilliers. como os farrapos de nevoeiro sobre os telhados da aldeia e a noite a subir pelo vale. Havia um vácuo depois de Saint-Martin. e o vento. que era apenas o corpo e o espírito que estavam cansados e paravam de viver. Escondida no quarto da Pensão Passagieri. nem mesmo se tivesse pedido o auxílio da Assistência Pública. ouvia o ruído dos passos dos órfãos que todas as tardes se dirigiam para a igreja sombria. que a morte não roubava ninguém. É um vento que não vem do mar mas que sopra do Norte. Eu tinha perguntado isso quase a gritar e a mamã desviara o olhar como se tivesse vergonha de ter mentido. da longa caminhada até Festiona. Mas ainda não se vê o mar. quando a noite se dissipava. com a senhora cega. não têm piedade. depois da travessia da montanha até Itália. A mamã tinha-me acalmado. o vento que soprava até ao mais profundo de mim mesma. ouvia os cães ladrar. desde que fomos viver para Paris. por sobre as colinas. As recordações surgiam desgarradas. Nessa altura eu não falava. tínhamos desaparecido. para a acalmar. são como animais ferozes. da porta.O vento frio penetra pouco a pouco em mim. A mamã acordou por causa do frio da madrugada. Aleu uma noite. as longas encostas escuras que tanto prescrutara. ouvia a voz de Brao gritando: "Elena!" enquanto o vigilante o empurrava pelo ombro. aguardava a noite com inquietação porque achava que era nessa altura que se podia morrer. Sinto o seu corpo tremendo junto do meu. Nunca uma noite me pareceu tão comprida. na sombra fria.

o escuro da água que corre.referia-se à religião - . com certeza que é possível esquecer nessa cidade. apertando-me a si para me aquecer porque a vida fugia de dentro de mim. o silêncio das tardes. milhares de outros que esperam os barcos que vão 130 partir para nunca mais voltar. no meio deles.. São apenas rostos pouco visíveis na penumbra. excepto o do "pastor".. É nessas noites que penso agora. perto de Saint-Martin. à mamã e a mim. O barco deve chegar em breve para nos levar para Jerusalém. no cinzento da madrugada. o som da torrente e a face de Tristan poisada no meu peito. onde talvez os esperem. o aroma do trigo no vale. o vazio e o frio. Aqui. nesta praia e noutros lugares. O tio Simon Ruben tinha perguntado um dia à mamã se não seria altura de começar a pensar no ensino . pode-se encontrar o que existia antes. Ele não queria que falássemos disso. estava o "pastor". dizia o tio Simon Ruben rindo. Não sei quem são. Para não desesperar. Odeio as viagens. não devemos saber nada. formas. As noites colaram-se umas às outras e taparam os dias. Mas aos que estão aqui connosco na praia de Alon. aqui. será como uma nova porta. Não somos portanto as únicas a franquear essa porta. onde poderão recomeçar outra vida. Pode-se viver de novo. com o meu pai. nem a multidão que nos empurra nas ruas. Será possível encontrar isso. os carreiros que se metem por entre as ervas altas. os sons das oficinas do pátio. só e sem forças. ainda com um ar de adolescente. fugia cá para fora. com os mesmos cobertores da Cruz Vermelha ou do exército americano. sob os altos pinheiros que nos abrigam das rajadas de vento. mesmo atravessando o mar no Sette Fratelli? Amanhece. o vento vai empurrar-nos até à porta do deserto. Mas não devemos falar uns com os outros. Vão para outros mundos. Em breve o barco estará ali. para África. deitados na areia encostados à parede da cabana em ruínas. Nessa cidade não há o escuro das paredes. a cidade dos minaretes e das cúpulas brilhando ao sol. só os anjos vos esperam. isso deixou de ter importância. ouvindo o ruído da sua respiração que geme como a de uma criança. para os lençóis. Tinha uma maneira de olhar. na praia. Algures. o céu de Verão. com o corpo da mamã abraçado ao meu e a tremer. para a América do Sul. não sei os seus nomes. Quantas portas iremos franquear? De cada vez que atravessarmos o horizonte. deu-nos algum dinheiro e a sua benção. velhos abrigados sob os grandes guarda-chuvas. no porto de Alon que começo a distinguir. mulheres embrulhadas nos seus casacos. muito directa e firme. Beijou-nos demoradamente. sozinho. para o ar. Pela primeira vez penso no que se vai passar. as vozes que ecoavam e a mamã deitada a meu lado no quarto estreito e frio. Escuto e parece-me poder ouvir em meu redor todos os que estão à espera do barco. O mar vai levar-nos até aquela cidade santa. para o Canadá. que impedia que se fizessem perguntas. Parece-me já sentir o movimento do mar. lembro-me das noites quando entrámos no número 26 da Rua dês Gravilliers. odeio o tempo! Jerusalém é a vida antes da destruição. Depois. a cidade de sonho e de orações suspensa sobre o deserto. para as paredes. o barulho da água nas goteiras. deixaram o meu corpo frio. ouvindo o som do mar de encontro aos rochedos da baía de Alon. é preciso pensar na cidade que parece uma miragem.da verdade. As noites entraram dentro de mim em Saint-Martin. Nunca falei de D. Foi o que disse Simon Ruben no cais da gare. Estão ali. a água dos regatos quando a neve derrete. quando já lá não estava. para resistir ao vento frio e à fadiga. quem os espera? Em Jerusalém. mas isso foi o apelido que eu lhe pus. Todos com as mesmas malas atadas com cordéis. Há outros. o frio.

Desde que acordei. Também ela pensava que a religião é uma questão de escolha. Talvez a fome e a fadiga tenham também um pouco a ver com isso. Nunca teria imaginado que era tão grande. nunca teria pensado que tinha de transpor uma porta assim. Mas eu chamava-me a mim mesma pelo meu verdadeiro nome. A fadiga e o frio impedem-me de pensar noutra coisa. ouvindo o som incessante das vagas na praia de areia. na ponta. Apenas posso pensar nessa noite interminável que agora termina na madrugada cinzenta. O sol queima-me o rosto. Achava que isso viria a seu tempo. avançando na nossa direcção. A mamã recusou sempre.para recuperar o tempo perdido. mas dizia que não se devia pronunciar o nome de D. Como gostaria que o meu pai estivesse a meu lado neste 133 momento! Pensar nele. no mar que faz o seu barulho entre as pontas dos rochedos. acelera o bater do meu coração e sinto invadir-me uma espécie de vertigem que me perturba a vista. o mar é de um azul deslumbrante que me fere. que também era o meu 131 nome. imaginá-lo sentado a meu lado nos rochedos. Esther. não nos veria e continuaria rumo a Marselha. junto da grande árvore mona. que ficou na praia. Um dia o meu pai tinhame contado a história de Esther.. que não como verdadeiramente! Parece-me que vou cair para a frente. Não disse nada à mamã. não queria outro nome. face à entrada da baía de Alon. Já não penso em nada. e isso levava-me a pensar que era um nome semelhante ao mar. prescrutando o mar varrido pelo vento e o céu limpo. O mar não pode estar tão deslumbrante nem o céu tão limpo de nuvens se não houver uma razão. porque não era essa a vontade do meu pai. 132 Estou sentada numa anfratuosidade das rochas. até Eretz Israel e Jerusalém. Quero ver chegar o barco italiano. ouvindo o vento fazer bater o cobertor como se fosse uma vela. Adormeço naquele instante abraçada com força à mamã. esta manhã. o nome que ela me dera. Sou eu a vigia. Por cima de mim passam as rajadas de vento. um nome imenso e impossível de conhecer completamente. com a lenta vaga que vem do outro lado do mundo. nem escrevê-lo. ainda embrulhada no seu cobertor americano. Olho e os meus olhos percorrem incansavelmente a linha nítida do horizonte. Sinto que deve estar a chegar. Se desviasse um instante o olhar. Agora sei que é verdade. Nem sequer queria que me chamassem pelo meu nome judeu. prescrutando o mar cintilante. As ondas batem na costa com um som de água profunda. no vento batendo nas gigantescas árvores. Há já tanto tempo que não durmo. que se chamava Hadassa e não tinha pai nem mãe e como tinha casado com o rei Assuérus e ousado entrar na grande sala onde ele se encontrava para pedir que poupassem o seu povo. chamava-me Hélène. E Simon Ruben tinha-me também falado dela. no mar cintilante. é preciso que encontre essa força. quero ser a primeira quando a sua proa fender o mar. Oiço-as chegar nas folhas dos arbustos e nos ramos dos pinheiros. Lembro-me que olhei .. que vá até ao outro lado. tenho o olhar tão firme e aguçado como o dos índios nos romances de Gustave Aymard. Talvez sonhe que quando abrir os olhos o barco estará ali. queima-me os olhos. sem dizer que não mas declarando apenas: "Mais tarde vê-se". Ninguém veio comigo. fazendo um ruído líquido que se mistura com o som das vagas de encontro aos rochedos brancos. Como é belo o mar. É necessário que atravesse o mar. Acho que o barco não viria se eu não ficasse aqui. corri para o extremo do porto de Alon para ver melhor o mar. À minha frente. no mar sombrio e fascinante. quando eu tivesse idade para escolher. Quero ser a primeira a gritar quando o barco chegar. Vigio.

torna-se cinzento. no limite. As cidades escuras. Durante todo o dia vagueei pelos rochedos da ponta. de onde podia ver todo o vale e toda a montanha. o medo. entre as duas pontas do rochedo. Sou levada pelo vento e pelas vagas. Ardem-me os olhos e tenho a cara em fogo. debaixo de chuva. Era por isso que tudo se revelava tão duro e fatigante: a floresta de pinheiros gigantescos. inclina os troncos das árvores e agita os arbustos. Abro os olhos. estende-se na areia. Quando as nuvens surgem de novo no céu. É mágica e graças a ela nada nos acontecerá. Sentome por momentos ao lado da mamã sem deixar de olhar a linha que separa o céu e o mar. que o Sette Fratelli não é um barco . guiados pela luz da lanterna eléctrica. pórfiro em fusão. mas isso agrada-me. sinto-me livre. Agora tenho frio. O sol. um pedaço de queijo e uma maçã. Se o barco agora não viesse. Quando caminhámos esta noite pelas colinas. Mas não posso distrair-me. a guerra.assim para a montanha enevoada de onde o meu pai devia surgir. O aroma dos pinheiros é trazido pelo vento. para o meu ponto de vigia junto da árvore morta. quando vim para aqui. Quero ver o barco italiano. olhava durante tanto tempo e tão intensamente que tinha a impressão que o meu olhar ia abrir um buraco na parede rochosa. As poderosas ondas vêm do outro lado do mundo. Os aromas. Os insectos correm sobre o tronco gasto pelo mar e entre as suas raízes. O vento passa. o vento frio. Os outros estão sentados à espera no abrigo da baía de Alon. que já surgira. Acho que estamos no fim do mundo. Mais próximo do mar há urze. Sorriu-me. de onde já não é possível voltar para trás. Os meus lábios têm o gosto do sal. com as pequenas flores rosadas marcadas com um olho preto. O vento forte arranca a espuma da crista das vagas e atira-a para trás. O mar é imenso e fervilhante de luz. formando remoinhos. O vento continua a soprar. acentuado pelo calor do sol. orlado de espuma. muito branco. a embocadura do caminho. batem nos rochedos brancos. sombrio. por fim. aquela 134 parede em ruínas junto da qual nos abrigámos como animais perdidos na tempestade. Parece que sempre a conheci. Os emigrantes estão sentados na praia do porto de Alon e comem. os comboios. O mar e a luz queimam-me até ao mais profundo do meu corpo. Quero que chegue. Que farão os outros? Esperarão ainda? Se deixarmos de acreditar. Esta manhã. Como à pressa as provisões que a mamã tirou da mala: uma fatia de pão americano. Adoro esta árvore. Respiro. Na zona abrigada há azevinho e salsaparrilha. Em Festiona. A água azul turbilhona no interior da baía. chocam umas com as outras na entrada estreita do porto de Alon. O mar sempre a meu lado e a linha do horizonte na cabeça. ao fundo da baía de Alon. O mar está violento. creio que morreríamos todos. a mamã apertou-me a mão sem dizer nada. Depois volto para os rochedos. saía todos os dias do quarto da pensão e ia até à parte alta da aldeia. a chuva e. deixe de lutar contra o vento e regresse a Itália. É branco e liso como um osso. violeta. Bebo grandes golos directamente da garrafa de limonada. Sou a vigia. tudo ficou para trás de nós. franqueávamos a última porta. O tronco da árvore morta está ao meu lado. Depois. a luz e o vento provocam vertigens. tinha-lhe dado forças. mudando constantemente de cor. A viagem começou. o mar gira. O coração bate-me acelerado e com força e tenho a garganta seca porque sei que neste momento se joga a nossa vida. o barulho do vento que fazia estalar os ramos. O mar vai batendo. Aninho-me ao abrigo do rochedo. talvez o barco faça meia volta. e olhava.

para lá do mar. nem pensar. Os pinheiros gigantes recomeçaram a ranger. vejo a luz que faz brilhar de forma estranha os pelos da sua barba. não oiço o que ele diz. longos . O "pastor" veio ter comigo ao meu esconderijo. dos estudos que gostaria de fazer. O "pastor" pensa que estou a chorar de 135 desânimo. embrulhados nos seus cobertores e casacos. Nesse momento. dizendo qualquer coisa. senta-se ao meu lado e passa-me o braço em torno dos ombros. abre-se no céu um rasgão que brilha entre as nuvens e a luz da madrugada ilumina de repente a baía de Alon. os anos horríveis na Rua dês Gravilliers. os anos em que nem me atrevia a vir até ao pátio para ver a cor do céu. no meu coração. contra minha vontade. E tudo o que agora vejo tem um significado. O mar cintila aqui e além. Olham o mar e os seus lábios movem-se também como se rezassem. Está frio e a chuva cai em bátegas. Uns a seguir aos outros. senta-se no tronco da árvore e fala. o pai e a mãe levados para Drancy pelos alemães e que nunca mais voltaram. Como poderá o barco encontrar-nos se agora já não há vigia? O "pastor" acorda-me. Tudo o que vivi. fala do que fará em Jerusalém. até à cabana de pedras onde as pessoas esperam. que parece misturada com cinzas. os anos sufocantes e terríveis. É ele que traz o nosso destino. no cheiro do seu corpo depois da água da ribeira. Estamos embrulhadas no cobertor do tio Simon Ruben. a marcha pelas montanhas. Não podemos falar. Rezam ou choram. envergando os seus pesados casacões pretos. Por uma abertura nas nuvens o sol projecta uma luz violenta. e olham o mar. É uma recordação muito antiga. púrpura. As velas do barco parecem imensas. leva-me no vento por sobre o mar. homens.qualquer. os velhos judeus permaneceram de pé. Também a mamã se levantou. para ser médico. alguns apoiados aos guarda-chuvas como se fossem bengalas. conta a sua vida. nada. Também 136 estou de joelhos na areia molhada e olhamos o barco que vem imobilizarse no meio da baía. Penso em Tristan. Ninguém grita. As nuvens encobriram as estrelas. A mamã ajoelhou na areia da praia e outras mulheres fazem como ela. Está inclinado para mim e toca-me no ombro. Tenho os olhos a arder e deles e do nariz escorre água. ninguém diz nada. transportame. Diz-me o seu nome. Sinto-o no fundo de mim. estou demasiado cansada para conversar. É a primeira vez que faz aquilo e sinto o calor do seu corpo. De início. mulheres e crianças puseram-se de pé na praia. Pela primeira vez na minha vida também eu rezo. quase irreais. em frente da embocadura do porto de Alon. Sinto o vazio dentro de mim e deixo-me cair. os rochedos brancos. brancas. Quando me sento outra vez ao lado da mamã é quase de noite. Dá-me a mão e vamos juntos até ao porto. como se estivesse fora de mim e visse para lá do horizonte. O rapaz mostra-me ao longe um vulto que avança no mar. O barco entra lentamente na baía com as velas batendo ao vento. É tão belo que nos arrepiamos. as copas dos grandes pinheiros. Por trás delas. tênue como o arrepio que me percorre a pele. Sinto-o nos meus olhos. Nunca sentira aquilo. Já é fim de tarde. Limitamo-nos a olhar. É o Sette Fratelli. O "pastor" fala. O "pastor" vem até junto de mim. todas as canseiras. com as costas apoiadas na parede em ruínas. talvez na América. Devo ter um ar tão ensonado que me obriga a pôr de pé. A tempestade recomeçou aos poucos. Todas as mulheres estão de joelhos na praia. de uma outra vida. pouco visível à luz cinzenta da madrugada. ouço-lhes as vozes monótonas trazidas pelas rajadas de vento. Vira e balança com as vagas que lhe batem de lado. seguidas pelos homens.

Desliza sobre a água calma do porto e chega à praia..como uma doença. o barco que esperávamos e que nos vai conduzir até ao outro lado do mar. receando a cada momento que solte as amarras e desapareça ao longe sobre o mar. agito os braços e grito para o barco: "Ohé! Zabulon!" As crianças compreenderam também e gritam comigo: "Zabulon! Zabulon! Ohé. o lobo devorador. como se tivéssemos dormido mil anos aqui. Deixámos de ter passado. De repente. Lembro-me agora por que razão gostei do nome do barco da primeira vez que Simon Ruben o pronunciou. os velhos judeus com os seus casacões pretos e os guarda-chuvas. Digo-o em voz alta porque me surgiu assim. O marinheiro olhanos por instantes: as mulheres ainda de joelhos. E o milagre acontece: do Sette Fratelli destaca-se uma canoa a remos com dois marinheiros. com tanta intensidade que o coração bate desordenadamente. este vazio em forma de barco. abandonando-nos nesta praia deserta. num relâmpago. mas paciência! Tenho de correr. Agarrou-me a mão por momentos. sinto encostado ao meu o seu corpo que se curva para a frente como se lhe tivessem batido.. os "Sete Irmãos". mas havia dois de cujos nomes eu gostava muito porque estavam imbuídos de mistério. entorpecidos de frio e de sono. e que o mar o tinha levado para outro mundo. Um dos marinheiros salta para terra. Um dia. O outro era Zabulon. a corça. depois de tanto e durante tantos séculos ter vagueado pelo mar." com vozes estridentes semelhantes a gritos de aves encolerizadas. As crianças calaram-se. de joelhos ou em pé. Talvez chore por causa do meu pai que não chegou pelo caminho por onde o esperávamos. Preciso de gritar também. Já não me lembro dos nomes de todos eles." As suas vozes agudas arrancam-me ao meu sonho. as crianças começaram a correr na areia. Zabulon!. Tem um rosto 138 avermelhado e cabelos ruivos colados pelo sal. no meio de uma tempestade. talvez de fadiga ou de contentamento. esquecendo a fadiga. Grito não importa o quê. e isso é mais do que ela pode suportar. É realmente o Sette Fratelli. A mamã chora em silêncio. até Jerusalém. O vento frio faz-me chorar e agita-me os cabelos.. na praia. sob a luz que ilumina a baía de Alon. tudo vai apagar-se aqui. Correm até à ponta rochosa. de repente. Tem os olhos brilhantes e a garganta de tal forma apertada pela emoção que não consegue falar. solto-me e começo a correr pela praia com as crianças. Pensava que tinha desaparecido um dia no seu barco. Também havia Nephtali. e eu achava que a minha mãe devia ser parecida com ele por causa dos olhos muito negros e doces (e eu também. mesmo quando compreendeu que nunca mais viria. . com os meus olhos amendoados e sempre atentos). sem uma palavra.. com o Sette Fratelli rodando lentamente em torno da âncora e as grandes velas brancas e pandas que estalam com a borrasca. a fome e o frio. eu e o meu pai tínhamos falado dos filhos de Jacob. Os sete irmãos não são filhos de Jacob. nesta praia. O "pastor" está ao meu lado. o marinheiro. Sei que a mamã não vai gostar disto. ainda embrulhados nos nossos cobertores. Mas. imóvel no meio da baía. levado pelo vento. Nessa altura não chorou. construído pelos homens? Olhamo-lo com tanto medo como desejo. Estamos todos imóveis. Será um barco real. saudada pelos gritos infantis. agitando os braços e gritando: "He! Ohé!. E agora há este vazio. Talvez fosse então Zabulon que voltasse hoje no seu barco para nos transportar até à terra dos nossos antepassados. Somos novos como se tivéssemos acabado de nascer. não consigo ficar mais tempo imóvel. um pouco assustadas. gritando e agitando os braços. um rapaz belo como uma rapariga. os que se espalharam pelo mundo. Um era Benjamim.

Deito-me no chão ao lado da mamã. que não quero. Uma ilha. por cima dos trincanizes. agarrado às protecções. Ouvem-se também sons de vozes. O motor parou. goteja das velas pendentes das vergas. simultaneamente fraca e aguda. Estende-se depois. "Como se chama esta ilha? Já estamos em Itália?" O rapaz responde apenas: "É a ilha de Port-Cros. a menos de duzentos metros. 139 À luz da tempestade vejo o mar correndo na direcção do barco e explodindo em trombas de espuma. de tal forma que toda a gente tem que se agarrar à armação para não cair. Acho que neste momento todos lamentam terem-se deixado apanhar na armadilha deste barco. exaustos. A água escorre pelo convés. e já protege o barco: o vento deixa de baloiçar os mastros. todo inclinado para um dos lados. Aperto com muita força a sua mão na minha. Empurra-me delicadamente para a escotilha. As velas cinzentas (vistas de perto já não parecem brancas) batem ao vento. É um rapaz de cabelos muito negros que nos instalou no porão quando subimos para bordo. está encharcado da cabeça aos pés. Turbilhona. como ela dantes costumava fazer quando eu estava doente. Olha-me fixamente: "É maluca? Desça imediatamente ou vou dizer ao capitão. o Sette Fratelli avança com dificuldade. Um marinheiro faz-me sinal para voltar lá para baixo. desta casca de noz arrastada pelo mar. Os que conseguem arrastar-se até lá. desça para o porão!" A ilha está à nossa frente. corre em torrentes pelas bordas. que se mistura com os estalidos do casco e o assobio do vento. Na penumbra do porão distingo-lhes os vultos estendidos no chão e os rostos transtornados. como o meu pai. esboça um vago sorriso mas tem o rosto cor de terra..A tempestade recomeça quando estamos já todos no bojo do barco. não vamos morrer?" Disse isto com um tal ar que o jovem marinheiro desatou a rir. que me sinto mal lá em baixo. agarra nos dois mastros e abana o barco. gelada. Na coberta. Quando olho para ela. à frente do barco. Fala francês. Tenta falar. faz-me chorar os olhos. mas não me apercebo disso logo. tão belo e aterrador. invocações. queixumes. O vento transformou-se num monstro visível que bate nas velas e as sacode. Ficam pandas e vibrantes para logo a seguir penderem. lutando e debatendo-se como se o barco fosse um cavalo louco. no meio da tempestade. os marinheiros correm de um lado para outro descalços. Vejo pelas escotilhas o céu modificar-se e as nuvens começarem a escurecer. contra o vento e contra o barulho do mar: "Deixe-me em paz! Vamos morrer todos! Não quero descer!" O rapaz aponta-me uma mancha escura no mar." Grito-lhe. sufoca-me. Há crianças a chorar com uma vozinha estranha. inclinam-se para o fundo do porão. Apesar do motor que ronca nas profundezas. Os outros marinheiros vão aparecendo. Apesar das proibições e das rajadas de vento e de chuva. "Vamos para ali esperar que a tempestade passe! Não vamos morrer! Vá. A maior parte dos passageiros já estão enjoados. como se fossem rasgar-se. Aproxima-se. Grita: "Desça! Desça! É perigoso!" Faço-lhe sinal que não. Não consigo suportar ficar enclausurada nesta situação. antigamente. em . e vomitam. Digo-lhe que com certeza vamos morrer e que quero ver a morte cara a cara.. com o barulho do mar a ressoar ainda nos nossos ouvidos. dizendo-me: "Estrela. com grandes estalos. Subitamente faz-se silêncio. O navio oscila e baloiça de forma assustadora e penso subitamente que vamos naufragar. Por cima de nós o céu é cor de incêndio. A mamã não se queixa. O "pastor" também deve estar a sentirse mal porque desapareceu. Mas no momento seguinte tenho que a ajudar a chegar até aos trincanizes. estrelinha". murmúrios. gritando e praguejando em italiano. "Então é verdade. empurro a escotilha e ponho a cabeça de fora. que prefiro ficar no convés. Tento resistir para ver o mar. com os pés entalando as malas.

Tentei fumar. Tacteando na penumbra. uma luz cinzenta que incomoda. em Saint-Martin.França. Fala-me ora em francês. A mamã está ao meu lado e poisa-me a palma da mão na testa. das florestas. É a nossa primeira escala. Ouve-se um brouhaha de vozes." Silvio parece reflectir e depois diz: "O comandante não quer. creio que passo por rapaz. Sinto o odor abafado. O navio gira lentamente em torno das amarras. ora em inglês. Fecho os olhos. O porão ressoa com o barulho das ferramentas consertando o motor. Talvez esteja demasiado cansada para pensar num país que não existe. e diz: "Se os fiscais da alfândega vierem. "Porque não deixam as pessoas' subir ao convés?" Faço a pergunta lentamente. Vemos passar as nuvens. sem um sorriso." Respondo: "Mas nós não fazemos nada de mal. os marinheiros pararam de trabalhar." Durante todo o dia vemos a luz que entra pela escotilha." Mergulho de novo no bojo do barco. está escuro e quente. Estou cansada. Na baía de Port-Man a água é lisa e transparente. É proibido. Aqui é a baía de Port-Man. Há já um dia e uma noite que estamos em frente de Port-Man sem fazer nada." Atira o cigarro ao mar e levanta-se. a angústia. apreendem o barco e já não poderemos ir embora. Sentimo-nos sufocar e não há luz. cortinas que ocultam o céu como se caísse a noite. Sonho que estamos longe. Antigamente. O marinheiro italiano vem sentar-se a meu lado. Ouve-se a chuva tamborilar no casco do barco. Lá dentro. Não quer que vejam que há pessoas a bordo. e que vamos ambas para o Canadá." A mamã curvase para mim e beija-me sem dizer nada. com algumas palavras italianas pelo meio. Lembro-me no Inverno. era para lá que ela queria ir." Chamo as crianças e voltamos para o interior do barco. menina. Sou magra e. A mamã aperta-me o braço com olhos febris. Lá em cima. As vagas devem passar por cima da ponta . tirou do bolso do casaco uma tablette de chocolate e partiu uma barra para me dar. no quartinho em que eu ficava de olhos abertos no escuro. Há cólera ou medo nas suas vozes. apesar do céu de chuva e das rajadas de vento. no convés. subo constantemente ao convés com as outras crianças. Depois. mas tem um sabor acre e adocicado que me provoca tonturas. "Fala-me do Canadá. ao largo. É desumano. Apesar da proibição do capitão (um homem gordo e calvo que tem o ar de tudo menos de um homem do mar). sob o céu de tempestade. A mamã murmura: "Dizem que não vamos continuar. Talvez o tenha esquecido. com os cabelos curtos. Disse-me que se chamava Silvio e ofereceu-me um cigarro americano. Pouco a pouco. vigiando a escada por onde pode aparecer o comandante. no meio do Atlântico. que fomos enganados e nos vão desembarcar aqui. "Acabou. A margem está tão próxima que facilmente a atingiria a nado. Vamos até à popa. as vozes dos 141 homens vão-se calando." Digo aquilo como se fossemos num cruzeiro. da neve. O rapaz faz tudo aquilo muito sério. Vamos para a nossa terra. À noite a tempestade recomeça. Sento-me e fico a olhar para a costa negra da ilha. Chegámos a Port-Man. "Está-se muito mal lá em baixo." Fuma nervosamente. "O que estavas a fazer? com quem falavas?" Os homens falam ruidosamente do outro lado do porão. procuro o corpo da mamã. o medo. das casas de madeira na margem dos rios sem fim. fitando-o. O chocolate é doce e amargo ao mesmo tempo e acho que nunca comi nada assim. "Agora tem que descer para o porão. Deito-me também no chão. Era isso que eu gostaria de ouvir agora. de a ouvir falar do Canadá. do vôo dos patos selvagens. primeiro 140 ESTRELA ERRANTE num sentido e depois no outro. olhando na direcção da ilha para a floresta sombria e a praia branca. junto dos cordames.

Antes que o medo se instale. doces que me fazem lembrar as vozes que cantavam no templo dentro de casa. No convés não se ouve uma voz. a pequena caixa de cabedal preto brilha estranhamente. com lindos cabelos e uma barba negra. Não estou de fora. a chuva e a noite. abraçadas às mães. Os homens e as mulheres oscilam lentamente. As palavras do rabino são fortes e afastam o medo da morte. palavras suaves e poderosas. Agora. os homens acendem uma lanterna de tempestade. a mais antiga recordação da terra. em Saint-Martin. que oiço as palavras da oração. como se as palavras viessem dela. Ao lado do rabino. a uma outra vida. As palavras transportam-me a um outro mundo. O barco tinha voltado a utilizar o motor e. e a mamã também oscila. As vozes dos homens e das mulheres acompanham as palavras de Joêl e tento ler nos lábios para compreender. corria para o largo. Ao sair de Port-Man. Mergulho na minha recordação." 142 Observo o seu rosto quando me diz isto. as mulheres e as crianças do outro. Pronuncia lentamente palavras que ecoam. Todos acordam. "Ouve. De repente. Estava no convés com algumas 143 crianças e olhava o mar profundo que se abria à nossa frente. longas. a vedeta . O que estão a dizer? Gostaria de perguntar ao Jacques Berger mas não me atrevo a ir sentar-me a seu lado. palavras de esperança e de morte. uma espécie de frêmito na garganta como se fosse uma recordação. agora é esta a nossa língua. São palavras que acompanham o movimento do barco. acompanham o balanço das vagas. O mar estava calmo. as malas e outros objectos invisíveis deslizam e vão bater nas paredes. como se tivesse uma força incompreensível.rochosa que abriga Port-Man e vêm bater no barco. não sou estrangeira. os homens de um lado. "Que diz ele?" pergunto à mamã em voz baixa. oiço a sua voz repetindo perto do meu ouvido as palavras ásperas e doces da oração. São as palavras de Joêl que nos vão levar até lá. As crianças tornaram a adormecer. os olhos brilhantes. As palavras do Rabi Joèl soam no barco também para mim. acompanhando o movimento do navio baloiçado pela tempestade. sem que ninguém tivesse tempo de compreender como. Sinto-me embalada e adormeço. estamos sós a bordo do barco. Está sentado em frente da lanterna e tem a seu lado uma pequena caixa preta atada com uma correia. agora compreendo. a pequena caixa preta brilha estranhamente. Recita palavras estranhas naquela língua que não compreendo. compreendi o significado da oração. Quando de madrugada o barco chegou à baía de Alon. a sua linguagem envolve-me. Os embrulhos. mesmo se formos abandonados. As vozes graves ou límpidas respondem às palavras de Joèl. palavras que ressoam e rolam. palavras ásperas. um som humano. É um homem alto e magro. Um dos homens vem da Polónia e chama-se Rabi Joél. Nenhumas outras palavras me causaram semelhante efeito. com as velas desfraldadas. palavras maiores do que o mundo. Observo os rostos iluminados de forma fantástica. No chão. muito liso depois da tempestade. Já não tenho medo. Mesmo havendo tempestade. Talvez comandem o vento. O rumor espalha-se: fomos abandonados pela tripulação. o Sette Fratelli foi mandado parar pela vedeta da alfândega. posso quebrar o encanto e o medo voltaria a instalar-se entre nós. Agarramo-nos ao cavername para não sermos atirados contra o casco. Tornei a deitar-me no chão. Agora sei. até Jerusalém. fazendo-o baloiçar e gemer. mais fortes do que a morte. havemos de chegar a Jerusalém com as palavras da oração. A mão da mamã acariciame os cabelos como antigamente. A chama da lanterna vacila e faz brilhar os olhos. Estão todos em torno da lanterna. olhando a chama da lanterna poisada no chão. pela madrugada.

sem uma única nuvem. As outras desceram do convés. Sem parar de correr. e tudo brilha no 145 ar frio. A maior parte das crianças dorme ainda com a cabeça poisada nos joelhos das mães. Continuei a correr ao ar livre. três fuzileiros. O ar frio queima-me a garganta e o nariz e faz-me chorar os olhos. Pelas grandes janelas com grades vemos um pátio de cimento rachado deserto. sem saber se haverá uma sentinela na guarita. ainda sombria. Não disse nada a ninguém porque a mamã iria ficar aflita e eu não teria coragem de partir. Corri assim com todas as minhas forças e era tão leve e rápida que ninguém me conseguia apanhar. Por momentos. Há tanto tempo já que não vejo a luz do sol que ela me provoca vertigens e sinto o coração bater no pescoço e nos ouvidos. mas ninguém parecia seguir-me. a lanterna de tempestade está apagada. no extremo das oficinas do Arsenal. e salto de rocha em rocha. com certeza porque não nos podiam pôr em celas com os prisioneiros vulgares. onde há um forte e rochedos sobre o mar. Os homens estão sentados no mesmo lugar de ontem. o dinheiro e tudo o que pudesse ser utilizado como arma.surgiu. No bojo do navio ninguém pronuncia uma palavra. De súbito. pela porta do fundo. rumo ao largo. surge à minha frente uma grande porta aberta e a avenida que vai dar ao mar. Dois distribuem as rações. Depois. Vamos para o grande porto de Toulon. Se não fosse essa parede poderíamos ver o mar Mediterrâneo e sonhar que íamos partir de novo. As palavras da oração já não nos conduzem. o comandante fingiu não compreender e o Sette Fratelli. Deram-nos camas de campanha e cobertores. O comandante deu ordens e os marinheiros italianos arriaram as velas e pararam o motor. Era a hora da refeição e todos os marinheiros deviam estar no refeitório. Meto-me pelo meio do matagal. Corri até à parede de pedra. onde seremos metidos na cadeia. Parei por instantes para olhar para trás. atirei-lha aos pés e fuji a correr pelo corredor fora. Tiraram-nos todos os nossos papéis. Não vamos para Jerusalém. sem parar para tomar fôlego. Não havia hipótese de dúvidas. Atravesso a porta como uma flecha. sem fazer caso dos gritos atrás de mim. arranhando as mãos e as pernas. No fim do corredor há a porta que dá para o pátio. O céu é de um azul intenso. voltámos as costas ao mar largo e regressámos para a costa. Então os fiscais da alfândega gritaram qualquer coisa pelo altifalante. continuou a cortar as ondas. À hora da refeição do meio-dia. Ainda não esqueci como fazia em . enquanto o terceiro vigia. semelhantes a fantasmas. O nosso navio ficou a flutuar à deriva. entram na nossa sala. com os cabelos todos despenteados pelo vento. 144 Meteram-nos todos numa grande sala vazia. Corro. junto às bagagens. O meu coração começou a bater descompassadamente e não conseguia desviar os olhos das figuras uniformizadas. onde o vento agita alguns tufos de erva. Quando um dos marinheiros me deu o prato cheio de sopa. procurando uma saída. Dois dias depois de termos sido fechados no Arsenal sentia um tal desejo de ver o mar que arquitectei um plano para fugir. até ao fim da avenida. segui ao longo da parede. Vi a vedeta aproximar-se de nós. fendendo o mar com a proa possante e aproximando-se da nossa borda. O pátio estava vazio e a parede resplandecia. sem parar. em resposta a uma ordem. No fundo do pátio há uma parede de pedra. A linha de terra estava à nossa frente. inclinado para um dos lados. apoiado à espingarda. até as agulhas de tricotar das mulheres e as pequenas tesouras de aparar a barba dos homens. No canto do porão. Consegui aproximar-me da porta sem despertar atenção.

não penso no 146 barco nem nos fuzileiros que andam à minha procura. Corro à sua frente apesar de me tremerem as pernas. o som do vento no matagal. com o mar exactamente por baixo de mim. empurra-me de encontro aos rochedos e assobia no matagal. Quando chego perto do mar. É a primeira vez. tendo ao fundo as massas escuras dos cabos e das falsas ilhas. Penso na montanha. suspensa no meu esconderijo de rochas. É uma espécie de embriaguês. os fumos das aldeias que subiam no ar transparente. no vale imenso. Os rochedos tornam-se abruptos e tenho que abrandar. liso. deslizei rente à água. nem mesmo na minha mãe. vejo para onde vou saltar. Dá vertigens e provoca calafrios. Numa fracção de segundo. Guardei isso sempre comigo. O silêncio. Agarro-me às plantas e desço até ao fundo das falésias. seguindo o vento. Nunca tinha pensado nisso antes. com os cumes da montanha emergindo como ilhas. ouvindo a sua estranha voz que vibra quando me grita: "Foge! Foge!" . na janela de gelo. Ainda me lembro: o meu pai avançando à minha frente pelo meio das ervas e as cabanas de pedra onde eu e a mamã fomos ter. imenso. Eu conservava na cabeça essa montanha. Há tanto tempo que desejo estar verdadeiramente só. Lá em baixo. Mas procurar-me-ão mesmo? Não terei desaparecido para sempre por sobre o mar. vendo o sol descer serenamente para o mar. no meu ninho de pássaro. anda! Foge! Foge!" E arrasta-me para a base da montanha velozmente. e o fundo do vale. Aqui só existe o vento e o mar. quando sentia necessidade de solidão. com o pensamento. para toda a parte onde fosse. Avanço como num sonho e a mamã aperta-me o braço e grita: "Anda. ao subir a torrente. já não sinto fome. no apartamento da Rua dês Gravilliers de onde nunca saíamos. desaparecido no meio das ervas altas acima de Berthemont. Era essa a imagem que levava comigo. ultrapassei o vento e o mar. Fito a linha do horizonte como se o nosso barco fosse chegar pelo caminho incendiado que o sol traça no mar. nem em Jacques Berger. nem sequer no meu pai. sem ninguém a falar ao meu lado. o céu sem nuvens. aboli o tempo e a distância e cheguei ao outro lado. Nunca tinha experimentado uma tal sensação de liberdade. na luz e na poalha do sal. era ela que se projectava no papel pintado da parede. É disso que me quero lembrar e não dos ruídos terríveis. onde a terra e os homens são livres. o silêncio. nem sede. sólido. Era a imagem que via quando ficava fechada no quarto sombrio da Rua dês Gravilliers. apenas o som do vento na erva. tenho dentro de mim a liberdade do vento e da luz. Sou livre. nem o peso do amanhã. É tão bonito como na baía de Alon: um lençol de fogo.Saint-Martin. Tal como aqui. onde tudo é realmente novo. As suas gargalhadas enquanto se beijavam. deixei para trás os cabos e as ilhas onde vivem os homens. quando espreitava o regresso do meu pai. enevoado. Parei numa anfratuosidade da rocha. ao crepúsculo. porque naquele momento não penso em Simon Ruben. dos tiros. o lugar onde posso passar e os buracos a evitar. essa encosta coberta de erva que parecia subir até ao céu e o vale afogado em bruma. nunca mais. mesmo quando Simon Ruben afirmava que os alemães não voltariam nunca. com o olhar fixo nas águas? O meu coração bate serenamente. O vento faz turbilhão à entrada do meu esconderijo. onde nos prenderam. Não se vê ninguém. o vento sopra com tanta força que tenho dificuldade em respirar. pelo meio das ervas que me cortam os lábios. minha querida. Fiquei no meu esconderijo todo o dia. na garagem de Simon Ruben. Como um pássaro. estou do outro lado do mundo. rosna e lamenta-se como um animal. a espuma salta entre os rochedos e espalha-se ao vento. Já não sinto medo. na minha cabeça.

Auscultou-me por cima da combinação. O Sr. podiam-me prender para sempre. porque ouvia a mamã e o tio Simon Ruben repetir o seu estranho nome: "O Sr. Quando entrei na enorme sala. sentados no chão junto das altas janelas. Agora. O médico que me veio ver chamava-se Rose. o sol e o mar entraram em mim e lavaram tudo. O Rabi Joél vinha também ter connosco e contava coisas de Jerusalém e da história do nosso povo. sem que os brônquios chiem. aos casamentos. do outro lado da baía. O "pastor" veio sentar-se ao meu lado. Veio com a noite. quando entrou no nosso apartamento miserável. Tenho a impressão que nunca mais parei de andar e de correr desde o dia em que descemos da montanha pelo meio das ervas altas que me cortavam os lábios e as pernas. de escoicear no meu peito como um animal assustado. porque o vento. neste esconderijo. nunca mais tornei a ver o Sr. Sabia que nunca mais teria um dia e uma noite como aquelas. Talvez fosse também por causa da fome. às festas. e que desde esse dia o meu coração nunca mais deixou de bater muito depressa e com muita força. não me esqueci do seu nome. Rose acha que. Rose foi. Receitou pastilhas de eucalipto para a bronquite e disse à mamã que eu precisava de comer carne. veio ter comigo e beijou-me. Carne! Calcularia ele que apenas comíamos legumes estragados que a mamã ia apanhar do chão nos mercados e. olhando-me de lado e a mamã permanecia de pé.. pela primeira vez parei de andar e de correr. coisas sem mistério. Franzia as sobrancelhas.Aqui. Rose. como se se sentisse culpada. às cerimónias. o vento e o céu. passaram a falar comigo amavelmente. não fiquei grandemente decepcionada quando vi que o Sr. No entanto. Mas para ele isso eram coisas normais que não metiam medo. Rose disse.. Agora ficávamos a conversar todo o dia. Depois. essas palavras. Parecia-me que tinham passado anos enquanto estava no meu esconderijo da rocha... no meu esconderijo no meio dos rochedos. de repente. Os marinheiros 148 descobriram-me na minha gruta e levaram-me de regresso ao Arsenal. até o sol estar muito perto do horizonte e tocar o cume das árvores naquela espécie de ilha. que nunca mais verei essas imagens tantas vezes sonhadas. Foram os cães que me acordaram antes do amanhecer. parece-me pela primeira vez que nunca 147 mais poderei ouvir esses sons.. às vezes. hábitos. Tinham ficado dentro de mim. só cascas? Mas a partir dessa altura passei a ter caldo feito com pescoços e patas que a mamã ia comprar duas vezes por semana. julguei que tudo se iria iluminar e brilhar. Rose era um homenzinho gorducho e careca.. É porque o meu pai . Não disse nada. no meu esconderijo. Penso nisso enquanto a noite cai sobre a baía porque me parece que aqui. O tio Simon Ruben referia-se às vezes à religião. senti frio. embora apenas o tivesse visto uma vez. Eu também não lhe podia dizer nada. da sede e da fadiga." Quando veio. Gostava principalmente quando ele falava de religião. nem perdão. Ninguém disse nada. com o mar. Fiquei ali. apalpou-me o pescoço e os braços e disse que eu tinha bronquite e estava magra demais. Mas as pessoas que até então me ignoravam. com uns grossos óculos de míope. O coração começou finalmente a bater tranqüilamente no meu peito e consigo respirar sem dificuldade. a mamã levantou-se da cama. Até no apartamento escuro da Rua dês Gravilliers eu não parava de andar e de correr e sentia-me sem fôlego. O meu pai e a minha mãe nunca tinham falado de religião. E se eu lhe fazia qualquer pergunta sobre religião irritava-se. nem porquê. O Sr. dirigindo-se-me com uma espécie de deferência que eu achava estranha. Então.

"Porque dizes isso?" Falava lentamente mas os seus olhos brilhavam de impaciência. Vais ver que nós duas não precisaremos de . o lugar onde a luz brilhou pela primeira vez e onde começaram as primeiras sombras." Não era apenas por partir que ele dizia aquilo. eu não tinha plano nenhum e depois da minha fuga os fuzileiros tinham-me debaixo de olho. Respondi: "Talvez exista. "Nunca chegaremos a Jerusalém. Quando via a mamã abatida e triste. Queria voltar para o meu esconderijo nos rochedos. sobre o mar. sentada na cama." Não fazia a mínima ideia dos países que seria preciso atravessar para chegar a Eretz Israel. iremos a pé. "Talvez nem sequer exista Jerusalém." Estávamos sentados junto da janela de grades e eu olhava o céu muito azul. Ver a luz nos seus olhos fazia-me bater o coração mais depressa. e acabaremos por chegar a Jerusalém. nascemos dele. onde fora escrito o primeiro livro. A polícia não nos deixará partir. "Vais 150 ver. Eretz Israel é o lugar onde nascemos. os cabelos negros e o vulto esguio. vamos fugir. nós é que estamos na sombra. como Mario. Tenho um plano. mas tinha ouvido o "pastor" falar da Itália e da Grécia.. embrulhada no cobertor americano por causa do frio. sentia apertar-seme o coração. e eu achava que era ele o verdadeiro "pastor". O meu pai nunca me falara daquelas coisas. porque era comunista. Se nos quiserem meter no comboio de regresso a Paris." Falava muitas vezes da sombra. segundo dizem. O seu rosto doce estava contraído pela cólera. vamos trabalhando pelo caminho. tudo o que constróem de grande e magnífico não são mais do que sombras. mãezinha. As pessoas diziam que nos iam levantar um processo e reenviar a todos para Paris. Eu fazia perguntas que deviam ser estúpidas porque não sabia nada. "Criança! E onde arranjamos dinheiro para a viagem?" Eu respondia: "Dinheiro? Não importa. Mas quando o "pastor" falava de religião com o Rabi Joèl transformavase." O "pastor" disse: "Mesmo que não nos deixem partir hoje. tenho um plano. Depois vamos à Itália. Ou depois de amanhã. Afirmava: "Aquele que tudo fez é o nosso pai.não era crente. todos os seus actos. fugimos. O Rabi Joél abanava a cabeça e dizia: "Não é invisível nem oculto. Teremos de voltar para Paris. Perguntava por que 149 razão não se podia nomear D. Seguimos ao longo da costa e vamos até Nice. para casa do irmão do tio Simon. à Grécia. Nós é que somos invisíveis e ocultos. Então o tio Simon Ruben não se atrevia a trazer o rabino e falava de religião zangado. Gostava de os ouvir e observava-os disfarçadamente.. como se fôssemos partir e a voz aterradora fosse ressoar no céu e nas montanhas e a luz brilhar no deserto. com o olhar fixo no chão. o "pastor" com a sua barba e os seus cabelos de ouro e Joèl com o seu rosto muito branco. longos e esquecidos. mas porque queria ver o país onde tinha nascido a religião. Os dias iam-se passando assim. Tinha os olhos de um verde muito pálido. por que é que ele era invisível e oculto se fez tudo à superfície da terra. A mamã sorria. Dizia que a religião é a luz e que toda a vida dos homens. E se não nos deixarem ir de barco. partiremos amanhã. Já que ele queria tanto chegar a Jerusalém. "E para onde iríamos? Apanhavam-nos fosse onde fosse. talvez realmente lá chegássemos um dia." Disse aquilo porque estava cansada de pensar nisso. mas não chegaremos lá." Apertava-lhe as mãos com força. Era estranho falar assim de religião naquela grande sala onde estávamos prisioneiros." O "pastor" fitou-me irado." Não era verdade. mesmo que tenhamos de andar durante um ano. Vais ver. Dizia-lhe: "Não estejas triste. O "pastor" e Joél falavam em voz baixa para não incomodar os outros e era como se ainda estivéssemos prisioneiros no Egipto.

os velhos. abandonar o seu povo nas mãos dos inimigos que nos mantinham prisioneiros. Joèl falava apenas para mim e para Jacques Berger. Aliás. até termos passado a fronteira italiana. todos os que estavam prisioneiros. em Saint-Martin. Aquilo de que mais gostava na grande sala em que estávamos prisioneiros eram as longas tardes. principalmente as mulheres e as raparigas. permaneciam ao fundo da sala e falavam em voz baixa. pontuado por vozes mais elevadas e risos. Imaginava todas as manhas para escapar aos marinheiros e à polícia. Pronunciava primeiro . sentados nas camas de campanha. Mas a mamã não sabia nadar e eu não tinha a certeza se o "pastor" saberia e se o Rabi Joél aceitaria lançar-se à água com o seu belo fato preto e o seu livro. Depois. também lentamente. ou numa jangada. Abria o seu livro negro e lia lentamente. assim como o rabi Joèl. primeiro naquela língua tão bela. ajudado às vezes pelo "pastor" pois não dominava muito bem essa língua. Talvez pudéssemos deitar-nos ao mar e nadar com uma espécie de bóias.ninguém. como uma camponesa. com o seu fato preto e a sua caixa de orações. com a mamã sempre a vigiar. quando o sol iluminava 151 as altas janelas e dissipava um pouco o frio húmido. com a cara pintada de preto e luvas brancas. O melhor de tudo era a história do começo do mundo. ficavam a ouvir. Havia igualmente uma rapariga chamada Judith. fumando e bebendo café. sem elevar a voz para não incomodar os outros. Depois a mamã começou a aproximarse também. Falaria da religião e de Jerusalém às pessoas. Explicava simplesmente o que era a alma falando da nossa sombra e o que era a justiça falando da luz do sol e da beleza das crianças. estendendo os cobertores no chão como tapetes. Falava da lei e da religião como se fossem as coisas mais simples do mundo. rapazes e raparigas estrangeiros que não falavam a nossa língua mas que. Esperávamos que o Rabi Joèl começasse a falar e quando começava era como se fosse uma voz interior que dizia aquilo que estávamos a ouvir. e conversavam enquanto as crianças brincavam a seu lado. ele não aceitaria deixar a família. sempre com um lenço de flores na cabeça. por causa do "pastor" e dos seus lindos cabelos de ouro. A princípio. e os seus cabelos e fato negros brilhavam como seda. As mulheres instalavam-se nos rectângulos de luz recortados nas lages de pedra cinzenta. Nem o próprio Moisés abandonaria os outros para fugir sozinho para Eretz Israel. O barulho das suas conversas formava um estranho zumbido de colmeia. Quanto aos homens. porque o mundo está cheio de pessoas más. falava em francês. assim como outras crianças. Vinha sentar-se no chão com as crianças. o que o tio Simon Ruben tinha dado à mamã antes de partirmos. procurando as palavras. como os menestréis nas ruas de Londres. Gostava muito de ouvir as histórias que o Rabi Joèl contava. Passava as noites a remoer aquilo na cabeça. depois da refeição. A seguir. E estas sentar-se-iam em seu redor para o ouvir e dar-nos-iam de comer e algum dinheiro. Era isso que tornava tudo tão difícil." De tanto falar nisto quase acabava por acreditar. e o som das suas conversas fazia um rumor mais grave. Tínhamos de partir todos. Se não arranjássemos trabalho. à luz de uma das janelas. cantaria nas ruas e nos pátios. as mulheres. e explicava o que lá estava escrito. as crianças. Tinha que arranjar um plano para nos escaparmos. simultaneamente áspera e doce. porque também eles mereciam chegar a Jerusalém. pegava no Livro da Criação. que eu ouvira no templo. ou então aprenderia a andar no arame. Imaginava mesmo que o "pastor" iria connosco para Itália. pobremente vestida. apesar disso. vestiria um collant coberto de lantejoulas e as pessoas que passassem deitariam moedas num chapéu velho.

o único no meio dos outros." Ouvíamos esses nomes. o que é único e senhor de si mesmo. o maior. por sobre o frio da água. as que deixara 152 suspensas no espaço antes de fazer o mundo. separadas e impossibilitadas de serem guardadas juntas. Lia: "Ele. o maior. as primeiras criaturas. disse faça-se luz." Falava do sol e da lua como se contasse histórias. E fez-se luz. enchendo tudo. com o rectângulo das janelas deslocando-se lentamente no chão. o vazio é o cimento da terra. as águas de cima. sentados nas camas de campanha. da existência. Eram as palavras de D." Eu perguntava: "Pessoas? O céu e a terra eram pessoas?" "Eram. o maior dos seres.os nomes na língua divina. disse que as águas de baixo seriam levadas para um único ponto de encontro e ver-se-ia a terra. Ele.." Falava dos primeiros dias.." Pensava no mar que tínhamos que atravessar.. o maior dos seres.. E assim foi feito." Acrescentava: "A luz era o que nós podíamos ver e as trevas eram o cimento da terra. deu à luz o nome de IO e às trevas o de LAYLA. Judith e até as crianças mais pequenas. De um lado. fez essa separação entre as águas de baixo e as águas de cima. em primeiro lugar. sentíamos um arrepio: o primeiro dia. separou a luz das trevas. passava e semeava sobre a superfície das águas. A terra sem água começaria do outro lado." Acrescentava: "Elohim utilizava o vazio. Elohim. É que nessa altura paravam todas as conversas e discussões e até os velhos ficavam a ouvir. o primeiro movimento da vida." "O que são as águas de baixo?" perguntava eu. eram pessoas. aqui. semelhantes a Elohim" E continuava a ler: "Porque a terra estava prestes a nascer e as trevas encontravam-se no vazio.. Joél continuava a ler e depois traduzia: "E ele. Joèl fitava-me sem responder e depois dizia: "Espera." "Então ele. Todos nós. LAYLA era o vazio. o que pode fazer. 153 "Então o maior dos seres disse: haverá uma abertura no centro das águas. dando tudo. IO SHENI. o livro não fala sem razão. o maior dos seres. Deixávamos de pensar na sala sombria e no passar do tempo que fazia deslocar o desenho das janelas no chão. do outro. ERETZ. sem limites. compreendíamos imediatamente o que queriam dizer essas palavras." Esperava um instante e recomeçava: "E ele. a inteligência.. Ouve a continuação: e ele." Quando Joèl dizia: Dia Um. viu que isso era bom. Joél pronunciava lentamente os nomes num sopro: "Elohim." Explicava: "O sopro. lentamente. e às vezes parecia-nos ter compreendido tudo apenas por ouvirmos as palavras daquela língua ressoando no silêncio da nossa prisão. "IOM era como o mar. o maior. o mundo. o maior dos seres. E ele. deu nome à terra." Ouvia as palavras daquela língua divina ressoando na prisão. o hálito. os céus. Ele. destacando cada nome e cada sílaba. Elohim. deu a esse espaço o nome de SHAMAÍN. E assim foi feito. "Então foi o fim do dia a Oeste e a madrugada a Este. o maior dos seres. nesta grande sala. e houve a noite a Oeste e a madrugada a Este. e à água que se . Era extraordinário." Prosseguia: KE o sopro do maior dos seres. "Assim. Elohim fez a pessoa do céu e a pessoa da terra. o momento do nascimento. o cimento do mundo. Então uma e outras foram-nos dadas para sempre. IOM EHED." "Por que existia primeiro a água?" "Era o movimento depois da imobilidade. os nomes mais belos que alguma vez tínhamos ouvido. o maior dos seres.

" 154 A voz mexe dentro de mim. para medir a passagem do tempo. Fora assim que ele inventara o meu nome. o único. IOM SEHLISHI. a água sem fim. o maior dos seres. a água. "Quando soubermos tudo o que há no livro. Era a inteligência. há semanas. e a mais pequena." Gostava de perguntar à mamã . ao sol. disse que na terra cresceriam as plantas verdes com sementes. cada planta com a sua semente. o poder de compreender.. "Agora sei que chegaremos a Jerusalém. que deslizavam como gotas na superfície da noite. o sinal do dia." Dizia aquilo para dar coragem à mamã mas também porque 155 acreditava.. no ventre. A religião é assim. E todas as que se chamavam Chochabim.. "E ele. o único. Tudo isso já existia. para ir ver o mar. viu que isso era bom.. Sinto-me tão perturbada que me afasto um pouco e escondo a cara no xaile da mamã. O silêncio penetrava na sala como um frio. estrela. viu que isso era bom. Estava tudo preparado para que a mecânica do mundo pudesse funcionar. As estrelas fixas e as estrelas cadentes. E assim foi feito. E ele. O que diz o livro tem muito mais importância do que aquilo que há lá fora. A ciência era a claridade das estrelas. estrelinha. Agora já não tenho vontade de fugir. o maior dos seres. Íamo-nos levantando uns a seguir aos outros. toca-me no coração. voltando cada um para o seu canto. e ouvimos os ensinamentos.. chegaremos. o dia." "O tempo era isso?" Mas Joél olhava-me sem responder." Joél fechava o Livro da Criação porque caía a noite. no Verão da sua morte." E lia as palavras do livro: "E a terra fez crescer uma planta viva." Interrompia-se: "Já pensaram nessa semente?" Acrescentava: "O movimento que liga o calor e o frio. para medir a transformação dos seres vivos. as estrelas. oiço a voz do mestre todos os dias. E assim foi feito." Continuava: "Ele.. "Como a imaginas?" Joèl voltava-se para mim. o maior dos seres. o sinal da noite. E ele.. a noite. está na minha garganta e nos meus olhos." "Como era Eretz?" Tentava imaginar as primeiras terras saídas do mar como as ilhas escuras que vira do convés do Sette Fratelli durante a tempestade. Joèl dizia: "Ele. E como ninguém respondesse: "Como vês.movia deu o nome I AM MI M. o mar. Aquilo que hoje se chama a ciência. E continuava a ler. de correr lá fora. junto da parede." A mamã sorria: "É uma boa razão para o ler." Voltava-se depois para mim e respondia: "Não era o tempo que Elohim nos dava. depois para o "pastor" e para cada um de nós. cada uma com uma semente para semear a terra. segundo a sua espécie. Naquela prisão.. ao centro. "E serão como luzes brilhando no vazio do céu para iluminar a vida na terra. não se pode explicar. E fez-se noite a Oeste e madrugada a Este. que une a inteligência e o mundo. as sementes." Nunca mais ninguém me tinha falado das estrelas desde que o meu pai mas mostrara uma noite. Cada palavra entra dentro de mim para quebrar qualquer coisa. as mulheres e os homens. Sentome no chão com as outras crianças. Ia-me sentar com a mamã em cima da cama.. diz que haverá uma.. coisas que impediam essa voz de circular. fez as grandes luzes irmãs: a maior. luz no vazia do céu para separar o dia da noite e outras luzes para representar o futuro. cada planta com o seu fruto com a sua semente. Quebra as coisas dentro de nós.

com as mulheres falando todas ao mesmo tempo. tudo se tornava fácil de compreender. e ficou na enorme sala durante uma boa parte do dia. Fez algumas perguntas para saber de onde vinha. 156 O advogado veio ver-nos à prisão." Vivemos as horas seguintes numa espécie de exaltação." Quando o advogado saiu era quase noite. Eram sobretudo os que vinham da Polónia que mais insistiam." À sua volta. Quanto a mim. Parecia-me agora que a distância que nos separava da cidade santa já não existia. não tenham medo.por que razão o meu pai nunca me tinha lido o livro. quem era e por que tínhamos decidido partir para Jerusalém. meus amigos. Tudo se vai arranjar e em breve estarão livres. Talvez fosse por causa do vento seco que soprava naquele dia. Disse que não podíamos continuar aqui. escreveu tudo cuidadosamente no caderno. Tudo o que ele me tinha explicado e tudo o que me tinham ensinado na escola até agora se tornava claro e verdadeiro. As pessoas rodearam-no e ele apertou a mão a todos. Tudo se vai resolver. as crianças não queriam dormir. que estava connosco. O advogado também veio falar com a mamã. Nada têm a recear. O "pastor" dizia que o importante era viver para termos a força de sermos livres e irmos até Jerusalém. Chegou esta manhã bem cedo. mas as mulheres e as crianças devoraram-na sem lhes dar ouvidos. com uma pasta cheia de papéis. Os homens e as mulheres aglomeravam-se à sua volta fazendo-lhe perguntas. Na sala. os homens falavam em voz baixa e os velhos religiosos oravam. pois tinham-lhos entregue no quartel general antes de vir. querendo saber quando iriam ser 157 libertados e se os mandariam de volta para Paris.. e via a lua deslizar por entre as grades e descer para a parede no fundo do pátio. como se aquela mesma lua que deslizava no céu iluminasse . E ia repetindo: "Tenham confiança. quando os fuzileiros trouxeram a refeição: batatas cozidas e carne. As mulheres falavam e riam e. Era um homem já não muito novo. Tomou também nota dos nomes do Jacques Berger e da mãe da Judith e examinou todos os papéis cuidadosamente. Os velhos judeus não queriam comer a carne porque diziam que não estava boa. O barco está pronto para partir. O céu estava tão límpido que se via mesmo à noite. Tornara-se real. nesta prisão. Talvez ele quisesse que eu o descobrisse por mim mesma. com Jacques Berger e com a mãe da Judith. embrulhada no meu cobertor. Sou eu que vos garanto. para que todos pudessem ouvir e que os que não falavam francês pedissem para que lhes traduzissem o que ele dizia: "Meus amigos. Devolveu depois a cada um o bilhete de identidade ou o passaporte. no dia em que tivesse realmente necessidade. meus caros amigos. conversando com as pessoas. de fato cinzento. as vozes interrogavam: "E o barco? Poderemos apanhar o barco outra vez?" Havia um brouhaha em que se destacava a palavra barco e o advogado teve que falar ainda mais alto: "Sim. cabelos bem penteados e um bigodinho.. fiquei sentada junto de uma janela. Tomava nota dos nomes e das respostas num caderno de escola e quando soube que o meu pai tinha morrido durante a guerra por causa dos alemães e que pertencia ao maquis. mesmo às crianças mais pequenas. Tornou a apertar a mão a toda a gente. à noite. O advogado pediu silêncio e disse em voz forte. Tinha uma voz muito suave e olhos meigos e a mamã estava muito satisfeita por poder conversar com ele. por que é que ele preferia ler-me os romances de Dickens. meus caros amigos. Até comeu connosco. vão poder continuar a vossa viagem. O comandante Frullo mandou instalar os escaleres que faltavam e prometo. prometo que poderão continuar a viagem dentro de um ou dois dias.

a meu lado. pela madrugada. na parte alta da aldeia. Disse que a mamã e eu também poderíamos trabalhar num kibutz. mas o advogado apertou-lhe a mão e disse: "Escrevam-me quando chegarem. Pensava nos campos de trigo. pegou-me pelo braço. Agora temos o direito de subir ao convés desde que não perturbemos as manobras. fechar os olhos e. os jardins de oliveiras. e veria a luz brilhar sobre os telhados e minaretes. Sem uma palavra. Perguntou-lhe timidamente o que poderíamos fazer para lhe pagar. no cais. Também ele não conseguia dormir. do trabalho. com os olhos fixos na parede rochosa onde se abria o caminho do desfiladeiro por onde o meu pai nunca surgira. quando Moisés esperava na casa de Pharaon ou quando Abraão sonhava como tinham sido feitos o sol e a lua. Conversámos em voz baixa. O advogado continuava no cais.Jerusalém. no campo. Disse que iria trabalhar para uma quinta e que. Aqui. Adormeci enquanto ela ainda tinha os olhos abertos na escuridão e me olhava. em Port d'Alon. com a sua pasta de estudante na mão. Depois. deitou-se também e ouvi a sua respiração regular abafando a respiração e o ressonar dos outros. A mamã deitou-me e embrulhou-me bem no cobertor para não ter frio. O "pastor" compreendeu. Era o mesmo céu de outrora. Afastou-se. Estava tão cansada! Nunca gostara tanto da mamã. Beijou-me junto à orelha. O "pastor" falava-me de Jerusalém. a água. a terra e todos os animais do mundo. Estava tão cansada! Parecia que nunca mais deixara de estar à espera. dessa cidade onde poderíamos finalmente ser nós mesmos. escuro. as casas. e ouvia ranger o cata-vento no telhado de chapa. nesta prisão do Arsenal. o "pastor" veio sentar-se junto da janela. Aconchegou-me bem o cobertor como quando eu era pequena. como quando ouvia as palavras do livro. já muito pálida . do lado dos homens. quando os tornasse a abrir. dizendo: "Adeus. ternamente. A mamã apareceu. ajudou-me a levantar e levou-me para a cama. Poisei então a cabeça no ombro do Jacques Berger e ele passou-me o braço nos ombros. as pessoas foram-se deitando e as crianças 158 adormeceram. em Festiona. O advogado acompanhou-nos 159 até à escada do portaló. em Roquebillière. Boa sorte!" O Rabi Joêl. Apertou a mão a todos. cheio de gaivotas. O Sette Fratelli partiu esta manhã. em Nice." Ficou em pé. A mamã está embrulhada no cobertor e no xaile preto. disse boa noite com uma voz rouca e voltou para a sua cama. quando tivesse economizado o suficiente. foi o último a subir para bordo. O motor do barco começou a vibrar com mais força e começámos a afastar-nos. O coração batia e eu sentia o calor do sol no rosto. nos homens que avançavam manejando as foices e nas crianças que apanhavam as espigas. na mansarda. porque ela não dizia nada. Nessa noite. do futuro. junto à parede. estaria no meio das oliveiras. as cúpulas e os minaretes. As mulheres e as crianças agitaram os lenços e o cais foi-se tornando cada vez mais pequeno e a sua silhueta cada vez menos visível à luz da madrugada. O capitão Frullo deu ordem para soltarem as amarras. Sentia o cheiro do seu corpo e dos seus cabelos. como quando esperava nos rochedos a chegada do barco. com o seu fato preto. Era a primeira vez que ouvia falar daquelas coisas. não tinha parentes nem amigos. à nossa volta. nas colinas de Jerusalém. as estrelas. talvez em França ou no Canadá. Não conhecia ninguém em Jerusalém. como eu gostava. Apetecia-me dormir finalmente. fustigado pelo vento. Pouco a pouco. continuaria os seus estudos. meus amigos. O tempo também deixara de existir. O mar está liso. Ouvíamos o som regular das respirações e o ressonar dos velhos. sabia que éramos parte desse tempo e isso fazia-me tremer de medo e acelerava-me o coração.

o Sette Fratelli tinha passado ao largo de Chipre com todas as luzes apagadas. em surdina. orado. falado e cantado tanto! Na escuridão. como um monstro fúnebre. Esther apertava com força a mão da mãe. Mas esta noite ainda parecia mais longa porque o fim da viagem estava próximo. Onde estavam os ingleses? Esther tinha a impressão que eles estavam em todos os lados ao mesmo tempo. para Itália. açoitado pelas vagas. Em dado momento. e que as vedetas inglesas patrulhavam as águas. como em Festiona. Houve um ruído de passos no convés e a escotilha abriu-se. O mar estava de um azul violento. quando os alemães procuravam os fugitivos na montanha. finalmente em francês: "Meia-noite. Em Chipre. Era uma noite em que cada instante contava. Metê-los-iam num campo e depois em navios para os mandarem para França. os golfinhos começaram a acompanhar o barco. Depois surgiu o sol e os golfinhos desapareceram. saltando à frente da proa. No porão ninguém dormia a não ser as crianças muito pequenas. descrevendo círculos no mar à procura da presa que adivinhavam na sombra. oscilando com a ondulação. girando sobre si mesmo sob a acção do vento. muito perto. homens. nem sequer um isqueiro para um cigarro.. No porão do Sette Fratelli estava escuro como dentro de um forno." Tinham ouvido ordens no convés e depois o som mole da vela a ser arreada. apenas à velocidade do vento que fazia bater as velas. onde os passageiros se tinham reunido. O barco deslizava silenciosamente no mar agitado. em La Spezia. para a Alemanha ou para a Polónia. a bombordo. apanhando com as vagas ora de um lado. Esther observava o convés do barco. os ingleses tinham preso milhares de pessoas. Depois. Silvio. o barco endireitara-se. depois daqueles vinte dias no mar. as nuvens cinzentas tinham desaparecido e o sol resplandecia. baloiçando e inclinando-se por causa da força do vento sobre a vela mestra. o jovem italiano amigo de Esther. ouviam-se risos. desceu alguns degraus: "Silêncio! Nada de barulho! Os barcos ingleses andam perto. Não se ouvia um ruído no convés. capturadas no mar a caminho de Eretz Israel. Não se podia acender uma lanterna. as patrulhas dos ingleses os pudessem ouvir. A noite tinha sido muito longa. É meia-noite." Como podiam saber? Esther tentava imaginar a ilha e as suas altas montanhas ficando para trás do barco. Os marinheiros italianos ter-se-iam ido embora? Talvez tivessem . as máquinas paradas. na ponte. apesar da distância e do barulho das vagas. Todos tinham esperado. ora do outro. que não tinham consciência do perigo. naquela língua desconhecida. Já passámos Chipre. 160 Esther não dormira naquela noite. Ao largo. em yiddish. em alemão. O comandante Frullo não queria ninguém no convés. algures no mar. Pela primeira vez depois de muitos dias. ouvindo o roçar da água no casco e os estalos da vela. tinham parado bruscamente como se. Os passageiros recomeçavam a falar. Em pé. Desceu para se deitar no porão. magnífico. Estava um tempo maravilhoso. as vozes tinham cantado por instantes.. Ainda esta noite estaremos em Itália. Todos sabiam que a ilha estava ali. Todos reencontraram os lugares que ocupavam no início da viagem. ou como aquela noite em que os americanos tinham bombardeado Gênova. alguém tinha acendido um isqueiro para ver as horas e a informação tinha circulado de um para outro. O "pastor" dizia que se os ingleses os apanhassem com certeza que os repatriariam. Naquela noite. mulheres e crianças. Sem vento.por causa do balanço. apesar da proibição. Viu a costa afastar-se e as falsas ilhas abriremse. que Esther não se cansava de contemplar. O barco ficou imóvel durante muito tempo.

. Abanava a cabeça e as lágrimas corriam-lhe pelas faces. o vento cortara-lhe a respiração. fina e transparente como uma nuvem e. A claridade surgira pouco a pouco no horizonte. Foi dali que viu o dia nascer sobre o mar. o céu tornara-se cinzento. Esther adormecera sem largar a mão de Elizabeth. Tinham ouvido os mastros estalar e o chiar dos aprestos. Tinham sido o vento e a luz do sol que tinham provocado as lágrimas. ouviu-se de novo um ruído de passos no convés e a voz do comandante gritou: "Alza Ia vela! Alza Ia vela!" O vento tornou a enfunar a vela. mesmo à sua frente. a sentir o cheiro do medo e da espera. Ficara assim durante horas. cantando. O barco começara a avançar contra as vagas. "O comandante não quer. Apoiando-se na amurada. A princípio havia apenas a escuridão azul. cada bater do coração era separado do seguinte por uma dolorosa espera." Todos tinham gritado e aplaudido. sem se conseguir mexer. Passado um intervalo muito longo. Depois avançara com precaução até à parte da frente do barco e tinha-se instalado lá. Silvio ajudara-a a chegar ao tombadilho. parecia-lhe formar um corpo único com a proa e ser ela a rasgar o mar. O silêncio era tal que as crianças tinham acordado e começado a chorar.abandonado o barco. com o triângulo da vela enfunado à sua frente. Pouco depois. tentando ver a primeira linha da costa." Olhara-o sem compreender. Esther 162 tinha fixado o olhar na fina linha do horizonte sem pestanejar. Tinham-se deitado no chão. O barco ia avançando regularmente. Ao abrir a escotilha." Tinha dito "pezigoso" mas Esther não conseguia rir. Silvio descera com uma lanterna de tempestade e dissera: "Já passámos. Quando a luz finalmente chegara.. rindo. incendiando o mar. como um pássaro em vôo planado. gritando. Não era capaz de tornar a descer para o fundo do porão. com o vento enfunando as velas e a vibração monótona dos motores." Mas ao chegar junto do buraco negro da escotilha Esther tinha-se recusado a entrar. e . depois cada vez com mais força. a deslizar sobre o seu próprio desejo. mas de repente sentira os soluços brotarem-lhe da garganta. Tinha o rosto petrificado pelo vento e pela dor do olhar. Estava há tanto tempo fechada no porão que ficara por momentos petrificada. as estrelas que baloiçavam e a luz vaga da galáxia.. real. Se descesse. o mar revelara-se com as suas cristas brilhantes e o horizonte riscado sobre o mundo era como uma fractura. inclinado para um lado. todas ao mesmo tempo. Por momentos. vamos dar-lhe café. O roncar das máquinas assemelhavase à mais doce das músicas. perplexo.. Na escuridão. A escotilha abrira-se. sem o desviar. É perigoso. faça favor. Os marinheiros ainda dormiam. ia direita ao horizonte. com a cabeça apoiada nos embrulhos prontos para a chegada. Os minutos e os segundos eram longos. "Venha. primeiro em voz baixa. no entanto. Silvio tinha-a fitado. uma mancha que ia apagando as estrelas. Depois Silvio tinha-lhe tocado no ombro. prescrutava o mar até se sentir mal. sentindo a vibração regular dos motores no soalho e com os olhos fitos na estrela luminosa que era a lanterna de tempestade. Esther continuava a apertar a mão da 161 mãe. a costa de Eretz Israel nunca apareceria no mar. as pessoas tinham recomeçado a falar. "Menina. vencendo as vagas sem dificuldade. O sol ia agora alto no céu. Antes do nascer do sol tinha subido ao convés. os motores recomeçavam a funcionar. enquanto as mães tentavam abafar-lhes o choro de encontro ao peito. Nunca nada parecera nunca bonito a Esther.

depois passara-lhe um braço pelos ombros e forçara-a a sentar-se no convés, abrigada pela escada do tombadilho. Voltara momentos depois com uma chávena de loiça: "Café." Molhara os lábios no líquido fervente. Tinha os cabelos colados às faces pelas lágrimas e a boca não conseguia sorrir. "Obrigada." Gostaria de falar com ele, de lhe fazer perguntas, mas as palavras não passavam na garganta. O rapaz compreendera o seu olhar e apontara-lhe o horizonte, à proa: "Mezzodi." Depois fora ter com os outros marinheiros. Esther ouvira as vozes deles fazendo troça de Silvio. Os passageiros tinham saído do porão uns atrás dos outros. O sol estava no zénite, brilhando sobre o mar, e as mulheres e crianças protegiam os olhos com as mãos quando chegavam ao convés. Estavam todos pálidos, cansados, encandeados como se tivessem passado anos no fundo do porão. Os homens tinham o rosto sombreado pela barba e os fatos amarrotados. Usavam chapéus ou bonés para se protegerem do sol e do vento. As mulheres estavam embrulhadas nos xailes e algumas tinham vestido os casacos com gola de pele. Os velhos envergavam 163 as longas casacas. Iam-se amontoando encostados uns aos outros no convés de trás do barco, olhando em silêncio o horizonte a leste. Também o Rabi Joél lá estava, com o seu fato preto. Os marinheiros tinham ligado o rádio na cabina do timoneiro e a música ia e vinha, era a mesma voz estranha e rouca que Esther ouvira uma noite no desfiladeiro de Messina, a voz de Billie Holiday cantando blues. Elizabeth também apareceu. Jacques Berger trazia-a pela mão. O seu rosto parecia muito pálido, em contraste com a roupa preta. Esther queria ir ter com ela, mas a multidão de passageiros não a deixava passar. Trepou à escada do tombadilho para ver melhor. O olhar de Elizabeth, tal como o dos outros, estava fixo no horizonte. O sol começara a descer do outro lado do barco. O vento tinha parado. De repente, sem perceberem como, a costa estava ali, na frente do barco. Ninguém disse uma palavra, como se tivessem medo de se enganar. Todos fitavam a linha cinzenta que surgira no mar como uma espécie de névoa. Amontoavam-se sobre ela grandes nuvens. Então, as vozes dos homens e das mulheres começaram a fazer ecoar as mesmas palavras: "Eretz Israel! Eretz Israel!" Até os marinheiros italianos pararam, olhando também a linha da costa. O sol fazia brilhar as ondas. As velas do barco pareciam mais brancas. Viram então as primeiras aves voando em redor do barco. Os seus gritos ecoavam no silêncio do mar por sobre as vozes das pessoas e o roncar dos motores, por cima da voz de Billie Holiday. Todos pararam de falar para os ouvir. Esther lembrou-se do pássaro negro que passava as montanhas antigamente, o pássaro que o pai lhe tinha mostrado. Também eles chegariam antes que fosse noite e poisariam livremente nas praias. O Rabi Joèl veio até à escada do tombadilho. Tinha penteado cuidadosamente a barba e os cabelos e o fato preto brilhava ao sol como uma armadura. O seu rosto exprimia fadiga e inquietação mas também energia e os olhos brilhavam como quando lia o Livro da Criação em França, no cárcere. Atravessou a multidão, cumprimentando todos como se os reencontrasse depois de uma longa ausência. Apesar do cansaço do seu rosto, a silhueta esguia parecia a de um rapaz. Parou em frente da escada e abriu o livro. Agora todos estavam 164 voltados para ele, sem olharem para a linha de terra que se estendia à frente da proa do barco. O comandante Frullo também se aproximou e os marinheiros apagaram o rádio. A voz de Joèl elevou-se no silêncio do

mar. Lia lentamente, naquela língua estranha e doce, a língua que Adão e Eva tinham falado no Paraíso, a língua que Moisés tinha falado no deserto de Sinai. Esther não compreendia, mas as palavras penetravam dentro dela como já acontecera antes, misturavam-se com a sua respiração. As palavras resplandeciam sobre o mar intensamente azul, iluminavam cada recanto do barco, até os mais conspurcados e deteriorados pela viagem, até as manchas do convés ou os rasgões da vela. Iluminavam também todos os rostos. As mulheres vestidas de preto, as raparigas com lenços de flores, os homens, as crianças, todos escutavam. Entre cada palavra do livro, Joèl parava e ouvia-se o barulho da roda da proa e o roncar do motor. As palavras do livro eram belas como o mar, impeliam o barco para a frente, para a linha enevoada de Eretz Israel. Sentada nos degraus da escada, Esther ouvia a voz e olhava a costa que ia crescendo. As palavras nunca se apagariam. Eram as mesmas palavras que Joèl ensinara na prisão, que falavam do bem e do mal, da luz e da justiça, do aparecimento do homem no mundo. E hoje era isso mesmo, era o princípio. O mar era novo, a terra acabava de surgir sobre as ondas, a luz do sol brilhava pela primeira vez e, no céu, as aves voavam sobre o navio para mostrar o caminho da praia onde tinham nascido. Depois tudo se passou muito depressa, como num sonho. O Sette Fratelli fundeou ao largo de uma grande praia, em frente da linha das montanhas de um verde sombrio. As lanchas vieram até junto do barco e desembarcaram as pessoas em pequenos grupos. Quando chegou a vez de Elizabeth e Esther, a pequena viu na praia os homens que esperavam, as malas e os embrulhos, as mulheres que apertavam as crianças a si. De repente, teve medo. Voltou para o seu lugar junto da escada do tombadilho como se quisesse tornar a partir com o barco, continuar a viagem. Elizabeth estava à espera e Jacques Berger fazia-Lhe sinal para ir, mas ela não se movia, com as mãos agarradas ao corrimão da escada. Por fim, Elizabeth veio buscá-la, levou-a até à amurada e desceram juntas a escada de corda até à lancha. 165 Instantes depois estavam na praia. O "pastor" estava de pé ao lado das malas, com o rosto corado tenso de inquietação e os olhos deslumbrados pela luz. Sem querer, Esther desatou a rir e logo de seguida sentiu as lágrimas nos olhos. Tinha o rosto a arder de febre. Deixou-se cair na areia e encostou-se à mala da mãe. Não olhava para mais nada. "Acabouse, vai correr tudo bem, Estrellita." A voz de Elizabeth era agora calma. Esther sentia os dedos esguios acariciarem-lhe os cabelos emaranhados pelo sal. A mãe nunca lhe chamara "estrelinha", era a primeira vez. O barco estremecia ao largo. As correntes das âncoras subiam aos solavancos. No convés, os marinheiros italianos olhavam a praia. A vela mestra subiu, estalando ao vento, e depois ficou panda de repente. O Sette Fratelli afastou-se. Pouco depois, nada mais havia do que o mar deslumbrante ao pôr-do-sol e as lanchas que eram puxadas para a praia. Esther e Elizabeth avançaram lentamente pela areia, acompanhadas por Jacques Berger que transportava as malas. Junto às dunas, as pessoas esperavam, deitadas. Algumas tinham estendido os cobertores. Caía a noite. O vento era suave e o ar doce, cheirando a pólen. Embriagava ligeiramente. 166 Omais belo era a luz, a luz e as pedras. Como se nunca tivesse visto nada antes, como se até então só tivesse existido sombra. A luz era o nome da cidade que ouvia desde muito pequena, o nome que o pai

pronunciava à noite para que adormecesse com ele. O nome estava à sua frente, à frente de Elizabeth, quando avançavam pelo caminho pedregoso, através da floresta, dirigindo-se a Itália. Era o nome que queria ouvir, que esperava todas as tardes, em Festiona, escondida entre as ervas, no caminho por onde o pai devia chegar. Era o nome que existia no apartamento do número 26 da Rua dês Gravilliers, na passagem escura, nas escadas onde caía a água do telhado esburacado como um trapo velho. Era ainda ele no barco que corria sobre o mar de Inverno, era ele que brilhava quando ela subia ao convés e que a deslumbrava. Esther corria pelas ruas da nova cidade onde os emigrantes se tinham instalado. Ia até ao alto da colina e perdia-se pelos pinhais. Ia até tão longe que deixava de ouvir qualquer som humano, apenas o assobiar do vento nas agulhas dos pinheiros, o esvoaçar leve de um pássaro. O azul do céu provocava vertigens. As rochas ardiam com uma chama branca. A luz era tão violenta que as lágrimas lhe corriam dos olhos. Sentava-se no chão com a cabeça poisada nos joelhos e a gola do casaco levantada até às orelhas. Fora assim que Jacques Berger a fora encontrar uma manhã e, depois disso, ia com ela todos os dias. Talvez lhe tivesse seguido o rasto 167 ou a espiasse de longe, quando ela corria pelas ruas até aos montes. Chamara-a pelo nome, gritando com toda a força, e ela tinha-se escondido atrás de uns arbustos. Depois dele ter passado, descera outra vez até um velho muro e fora aí que ele a apanhara. Tinham andado pelo meio dos pinheiros de mãos dadas. Quando ele a beijara, Esther consentira, voltando a cabeça para o lado de forma a fugir ao seu olhar. Jacques falava dos perigos que havia por todo o lado devido à guerra. Dizia que ia lutar contra os inimigos de Israel, contra os árabes, contra os ingleses. Um dia falara da notícia da morte de Gandhi e estava pálido e perturbado como se aquilo tivesse ocorrido ali. Esther ouvia-o e via a morte brilhar no céu, nas pedras, nos pinheiros e nos ciprestes. A morte brilhava sob os seus passos como uma luz, como o sal, em cada pedaço de terra. "Andamos em cima de mortos", dizia Esther. Pensava em todos os que tinham morrido em qualquer parte, esquecidos, abandonados, todos os que os soldados da Wehrmacht perseguiam nas montanhas e no vale do Stura, os que tinham encerrado no campo de Borgo San Dalmazzo e que nunca tinham regressado. Pensava na encosta abaixo de Coletto onde esperara ver surgir o vulto do pai durante tanto tempo que a vista se lhe turvava e ela perdia o conhecimento. As pedras brancas que brilhavam aqui eram os ossos dos que tinham desaparecido. Jacques lia o livro preto da Criação e Esther ouvia os nomes dos que tinham morrido naquela terra, aqueles cujas ossadas se tinham transformado em pedras. Pedia: "Lê-me o que o Rabi Joêl leu no convés do barco quando chegámos." Ele lia lentamente e a sua voz doce tornavase forte, violenta, fazendo Esther estremecer. "O Eterno falou a Moisés e disse: sou o Eterno, apareci a Abraão, a Isaac e a Jacob. Era IAOH, o soberano, não me mostrei a eles como um espírito. Fiz com eles uma aliança dando-lhes a terra de Canaan, esta terra por onde tinham errado, vivendo como estrangeiros. Ouvi por fim os lamentos dos filhos de Israel dominados pelos egípcios e lembrei-me da aliança. Fala com os filhos de Israel e diz-lhes que eu sou o Eterno e quero livrá-los das infelicidades do Egipto, libertá-los da escravidão. E libertá-los-ei estendendo um braço e enviando castigos terríveis. Adoptar-vos-ei como o meu povo e serei o vosso rei. E 168 reconhecerão que sou IAOH, o Eterno, porque vos terei salvo da desgraça

do Egipto. Levar-vos-ei então para a terra que prometi a Abraão, a Isaac e a Jacob e ela vos será entregue como possessão hereditária." As palavras ressoavam no silêncio da montanha. Jacques debruçava-se para Esther e rodeava-a com o braço. "O que tens? Sentes frio?" Ela abanava a cabeça mas tinha a garganta apertada. "Por que é que há-de haver guerra? Não é possível viver em paz?" Jacques respondia: "Esta tem que ser a última guerra. Nunca mais haverá outras. Então as palavras do livro ter-se-ão cumprido e poderemos ficar na terra que Deus nos concedeu." Mas a montanha acima da cidade de Haifa estava branca de ossadas. A luz não era suave; queimava os olhos, era violenta e feroz, e o medo estava no vento, no céu azul, no mar. "Estou tão cansada!" dizia Esther. "Como queria poder descansar!" Jacques olhava-a sem compreender. Sobre ele, sobre os seus cabelos e a sua barba loura, nos seus olhos azuis pálidos, a luz era mais doce. A pequena conseguia sorrir. Olhava a grande mão branca entre as suas, tão morenas, tão pequenas, mãos de cigana. Permaneciam estendidos na encosta pedregosa, aspiravam o aroma da murta e dos pinheiros, ouviam a música furtiva do vento. Quando o sol descia na direcção do mar, Jacques agarrava na mão de Esther e seguiam pelo meio das oliveiras, de terraço em terraço, até às casas da cidade nova. A planície estava à sua frente, com algumas leves colunas de fumo. Os pombos voavam sobre os telhados. No porto havia novos barcos que tinham conseguido furar o bloqueio dos ingleses. Esther e Jacques entravam nas ruas da cidade sem largarem as mãos. Foi assim que ficaram noivos. 169 No dia 14 de Maio, pela manhã, as pessoas começaram a chegar à praça de Jaffa, em frente da Grande Mesquita e ao longo da praia. Alguns tinham vindo das quintas dos arredores apenas por algumas horas. Muitos, como Esther, Elizabeth e Jacques Berger, tinham vindo com as malas para iniciar a viagem. Os rapazes e as raparigas formavam grupos ruidosos. Algumas mulheres pobres, acompanhadas pelos filhos, tinham-se abrigado no pinhal porque o sol já brilhava com intensidade. Elizabeth e Esther tinham-se instalado na praia, como os pobres, próximo da cidade velha. Todos esperavam em silêncio, sem saberem o que se iria passar. Dizia-se que era hoje o dia em que tudo começava. Os camiões iam levar as pessoas a Jerusalém. Iam chegando mais famílias à praia. Eram na sua maioria pessoas vindas da Europa Central, vestidas de negro. Instalavam-se nas dunas ao lado da estrada e esperavam olhando o mar, sem demonstrarem impaciência. Apenas as crianças e os jovens não conseguiam ficar quietos no mesmo sítio, correndo pela praia e conversando uns com os outros. Alguns tinham trazido instrumentos musicais: um acordeão, uma guitarra, uma harmônica. De vez em quando ouviam-se canções. Ninguém pensava no que se ia passar naquele dia. Era como se estivessem separados do tempo, flutuando sobre a terra. Aquele dia era assim: sem princípio nem fim. Quando os camiões tinham chegado ao campo de emigrantes, em Haifa, ainda era de noite. Esther e 171 Elizabeth dormiram vestidas, com as malas prontas ao lado. Rapidamente tinham subido para o camião. Jacques fora num outro camião só com homens, todos armados para o caso de serem atacados na estrada. O sol brilhava quando os camiões entraram em Tel-Aviv. Era por isso que aquele dia parecia não ter tido princípio. Quando os camiões entraram, cruzaram-se com um comboio de blindados que seguiam em sentido inverso, na direcção de Haifa. Todos os homens desceram das viaturas para os verem passar, gritando e aplaudindo.

Jacques veio até junto de Esther, com os olhos brilhantes de emoção, e disse: "São os ingleses que se vão embora. Estamos livres!" Os blindados ingleses rolavam lentamente pela estrada poeirenta e no meio do comboio seguia o automóvel do Alto Comissário Cunningham. Passaram em frente dos homens e das mulheres e desapareceram numa nuvem de poeira rumo ao cruzador Ettryalus que os esperava. As pessoas na praia começaram a comer pão, azeitonas e fruta. Os jovens tinham assado dois carneiros em fogueiras feitas com madeiras velhas e distribuíam por todos bocados de carne assada. Um dos rapazes veio ter com Esther e estendeu-lhe o prato onde estavam os bocados de carne. Esther serviu-se, assim como Elizabeth, e Jacques também tirou um bocado. O rapaz devia ter uns doze ou treze anos. Possuía um lindo rosto tisnado, cabelos encaracolados e imensos olhos negros, brilhantes como jaspe. Esther perguntou-lhe em francês: "Como te chamas?" Mas ele não compreendia. Jacques traduziu. "Yohanan. Diz que vem da Hungria e também vai para Jerusalém." Afastou-se para distribuir os bocados de carne às famílias que esperavam na praia. Quando acabaram de comer, lavaram as mãos com areia e água do mar. Jacques Berger pegou no Livro da Criação e começou a ler lentamente, traduzindo, Beha'alote'ha, a passagem que fala da luz suspensa no céu como um meteoro até de manhã e da nuvem que cobria a tenda do tabernáculo e que guiou o povo de Moisés no deserto. Esther ouvia as palavras misteriosas e distantes que ressoavam estranhamente aqui, nesta praia, face ao mar tão azul, sob aquele céu, com os emigrantes que esperavam dispersos, as crianças que brincavam na areia, a música da harmônica vinda sem se saber de onde e o cheiro do fumo. Pensava nas luzes que vira em Saint-Martin da primeira vez 172 que entrara na vivenda, nas velas acesas na penumbra e no velho Eizik Salanter, envolto no seu xaile branco, lendo as palavras daquela língua doce e áspera que não compreendia. Um pouco antes das quatro horas, Esther e Jacques foram até ao museu da cidade velha. Seguiam com a multidão, os jovens e as crianças. Em redor do museu havia soldados armados e milicianos com braçadeiras. A grande avenida estava apinhada de gente e tudo se mantinha silencioso. Os que iam chegando paravam e esperavam sem fazer barulho, sem falar. Saíram de um automóvel homens e mulheres que entraram no museu. Por cima das cabeças, pondo-se na ponta dos pés, Esther viu um homenzinho vestido de preto, com rosto de velho Pastor e uma farta cabeleira branca. Depois, um alto-falante colocado no jardim da velha casa começou a difundir a voz um pouco rouca e velada, e todas as pessoas retiveram a respiração para a ouvirem, mesmo os que não compreendiam o hebreu. Inclinado para Esther, Jacques ia traduzindo as palavras: "Israel é o local onde nasceu o povo judeu; aí nasceram a sua religião, a sua independência, a sua civilização... Para ele e para o Universo, aí foi escrito o Livro, para que fosse dado ao mundo..." Parou de traduzir porque não conseguia falar. Quando a voz se calou repentinamente, fez-se silêncio e depois começou a ecoar um cântico, primeiro longínquo e depois cada vez mais próximo, enchendo toda a rua, as ruas vizinhas, até tão longe que o mundo inteiro devia ouvi-lo. Esther não cantava porque nunca tinha aprendido as palavras, mas tinha a garganta apertada e os olhos rasos de lágrimas. Fez-se de novo silêncio e o alto-falante transmitiu a voz frágil e lenta do velho rabino Maimon que dava a benção. Jacques curvou-se para Esther e disse: "Israel existe, Israel acaba de ser proclamado." Sobre o museu subiu no mastro, flutuando no céu, a bandeira com a estrela azul. Os jovens corriam pelas ruas, cantando. As mãos davam-se e formavam-se

era uma vertigem. Ouvia também o som dos outros pares. E no entanto a guerra estava ali. cruzando-se com Esther. Só falavam yiddish. Antes de partirem de Tel-Aviv. já sem fôlego. Os quatro camiões de trás transportavam as mulheres e as crianças. por ruas desconhecidas. tropeçando na areia. Esther fora agarrada e também corria. Levantou-se: "Anda. Jacques também corria por ruas deslumbrantes. serpenteando. Quando chegaram. Estava um pouco embriagado. Esther agarrou na mão de Jacques e foram a correr até ao extremo da praia." O exército árabe. distinguia as colinas. Sentia encostado a si o corpo de Jacques e ouvia-lhe a respiração. tinha bombardeado a estrada entre Tel-Aviv e Haifa. uma loucura. Beberam. O comboio. como uma jangada transportada pela corrente. Os rapazes apanharam ramos e agulhas de pinheiro e fizeram uma fogueira no meio das pedras para verem a luz brilhar. voltaram para a praia. 174 Dois dias mais tarde. berço eterno do nosso povo eterno. por toda a parte em seu redor. formado por seis camiões e um jeep americano. David. estenderam-se no meio das árvores. Quando caiu a noite. Os egípcios tinham passado a fronteira e avançavam para se juntarem às tropas da margem oeste do Mar Morto. comandado por John Bagot Glubb e pelo rei Abdallah. Quando a poeira às vezes diminuia. O nosso destino será a vitória ou o extermínio. Havia notícia de que uns agricultores judeus tinham sido assassinados na colónia de Ataroth. Lutaremos até ao último homem pela nossa sobrevivência e pela nossa capital. temos de voltar para junto da mamã. os jovens continuavam a dançar e a tocar. Encontraram Elizabeth embrulhada no seu velho cobertor. onde os pinheiros cresciam na terra argilosa. afastando-se de novo. Recomeçaram a errar pelas ruas. Depois de tantas canseiras. O vento era frio e o céu de um azul imutável. Esther e Elizabeth seguiam na plataforma traseira de um camião que se dirigia a Jerusalém. 173 Sentaram-se num café perto da praia para descansar e beber café e cerveja. com o vento soprando do mar. A música e os cantares estavam por toda a parte. disse apenas: "São horas de dormir. Nada disso tinha importância. Sentia o seu corpo tremer. a leste de Ramla. Os rapazes disseram também os nomes: Samuel. com as costas apoiadas nas malas. A rapariga da camisola riscada chamava-se Myriam e uma outra Alexia. Nos camiões da frente seguiam homens armados e Jacques Berger ia com eles. Será uma batalha selvagem. Ivan. Jacques apertava Esther a si e acariciava-lhe os cabelos. Depois.cordões que dançavam. fumaram e riram. Esther só conseguia ver a poeira e os faróis acesos do camião seguinte." Andaram durante um bocado sem falar. . Quando afastava o encerado. alemão e um pouco de inglês. Nunca tinham visto uma luz tão bela na noite. ouvindo o crepitar das chamas e atirando de vez em quando ramos para as alimentar. avançava lentamente pela estrada quase intransitável através das colinas áridas. Esther sentia a terra girar lentamente debaixo dela. procurando falar uns com os outros como podiam. sobre a caruma dos pinheiros. os barrancos e algumas casas. Quase em silêncio." E deitou-se na areia. os corpos que esmagavam as agulhas dos pinheiros e quebravam pequenos ramos. Jacques tinha lido a Esther a declaração do general Shealtiel afixada nas paredes: "O inimigo volta o olhar para Jerusalém. de mão dada com uma rapariga que envergava uma camisola riscada de marinheiro. Quando a fogueira se apagou. Os lábios do "pastor" procuravam os seus. no meio de rochas que avançavam até ao mar. sem piedade e sem recuo. Apesar dos preparativos para o shabbat. permaneciam sentados em redor da fogueira.

nos camiões ninguém tinha medo. sem compreender. descalças. o vestido cheio de pó e um grande lenço no cabelo. Uma velha transportava mesmo um carrinho de bebê desengonçado carregado de objectos heteróclitos. a estrada atravessava desfiladeiros cheios de rochedos onde a noite já se instalara. O comboio deteve-se na aldeia de Latrun e os soldados e emigrantes desceram para se refrescarem. Enquanto as mulheres e as crianças bebiam. Esther lembrava-se do dia em que tinha chegado com Elizabeth à praça. Eram uma centena. a agradável noite na praia. no meio dos pinheiros. ao lado dos camiões. os homens permaneceram em pé. as mulheres com o rosto envolto num lenço. atravessada por riachos claros. Esther fitava o seu rosto regular emoldurado pelo lenço negro e achava-a jovem e muito bonita. Vivia-se ainda a embriaguês da proclamação de Israel. silenciosas. Zumbiam abelhas no ar. A pequena aproximou-se dela até lhe tocar. O silêncio era estranho. Tinha o rosto pálido e fatigado. Tinha os olhos brilhantes. tudo se iria resolver. nas montanhas. Outros diziam que esta guerra ainda mal tinha começado e que iria ser a terceira guerra mundial. as canções. Os refugiados seguiam na borda da estrada. Os seus olhos brilhavam com uma luz estranha. As ruas da aldeia estavam desertas. Durante todas aquelas horas em que tinham esperado pela partida. Havia um silêncio pesado. rindo. um silêncio mortal sobre aqueles rostos semelhantes a máscaras de poeira e de pedra. das cúpulas brilhantes. Outras tinham malas ou caixas de cartão atadas com cordas. desviando o rosto e com o olhar ausente. Esther bebeu a água fresca longamente. Falava de tudo aquilo como se já o tivesse visto. destacou-se do grupo uma rapariguinha muito jovem. com o medo nos olhos. e talvez tivesse visto em sonhos. Também ela sentira a embriaguês e a alegria. Só as crianças olhavam. Esther desceu e aproximou-se. tentando compreender. mas não falava. As mulheres lavaram a cara e os braços. As mulheres desviavam-se e algumas gritavam-lhe palavras duras na sua língua. Apenas se ouvia o ribombar. Esther viu que as tiras das suas sandálias estavam rebentadas. e o silêncio era o mesmo. as crianças correndo. "Árabes". De repente. Havia uma fonte e um lavadouro e a água corria com um murmúrio tranqüilo. talvez mais. . ameaçador. agora que a meta estava tão próxima. A cidade era o lugar mais belo do mundo. deliciada. fora ela que falara de Jerusalém. agora que os ingleses tinham ido embora. Uma 176 mulher debruçou-se ao lado dela. Esther afastou o encerado e viu uma coluna de refugiados. a correria pelas ruas soalheiras. Mas Elizabeth não queria ouvir dizer isto. falava e até ria como há muito tempo não fazia. onde se realizavam todos os desejos. com a cabeça envolta em trapos. as mulheres desviavam a vista. Mais adiante. O comboio tornou a pôr-se em marcha. onde não podia haver guerra porque todos os que tinham sido expulsos e espoliados no mundo e que tinham errado sem pátria podiam finalmente viver em paz. à entrada das ruas. em Saint-Martin. com as espingardas na mão. foi tudo o que disse. dos jardins e das fontes. os velhos com os casacões pretos. quando as pessoas se juntavam para partir. Por vezes ouvia-se uma espécie de ribombar de trovoada ao longe. Ao passarem envoltas na nuvem de pó. Dirigiu-se a Esther. Algumas traziam embrulhos à cabeça. Os camiões tinham parado e os refugiados passavam lentamente. apenas mulheres e crianças. não pedia nada. das mesquitas. por causa da poeira.Apesar disso. dos templos. andrajosas. como se houvesse trovoada. A caravana de camiões penetrou numa floresta de pinheiros e cedros. e as crianças molhavam-se umas às outras. 175 As pessoas afirmavam que.

Jacques Berger já tinha seguido para o centro da cidade. o seu olhar. Foram os filhos que abriram a terra à força de enxada. em letras maiúsculas: NEJMA. Esther deu um passo na sua direcção para a chamar. as silhuetas fabulosas das mesquitas e dos templos. 178 NEJMA Campo de Nour Cbams. e da nossa tia Aamma Houriya. como antes. as colinas cobertas de casas com janelas estreitas e. a sua mão poisada no braço. Foi outra mulher. A mulher que tinha afastado o encerado fitou-a sem dizer nada. o medo nos olhos das crianças. o Baddawi. subia no céu cor de cobre uma grande fumarada negra que se espalhava. Vinda do centro. Esther e Elizabeth desceram com as malas. Não sabiam para onde ir. A estrada estava esburacada pela guerra e a poeira formava uma poalha amarelada sob o encerado do camião.Durante um longo momento permaneceu imóvel. Quem há mais de um ano a fez está agora morto. "Para onde vão?" Fez a pergunta a Elizabeth." Disse aquilo com dureza e Esther não se atreveu a perguntar mais nada. resolvi escrevê-la. Mas Esther não conseguia afastar da lembrança o rosto de Nejma. Estendeu o caderno e o lápis a Esther para que ela escrevesse também o seu. que não conheci. Teve que tornar a subir para o camião. ao cimo. e do meu pai." Esther retorquiu: "Mas as crianças?" Os olhos dilatados pelo medo permaneciam na sua memória e sabia que nada poderia apagar o olhar delas. Em frente das duas erguiam-se as muralhas da cidade. Também em memória da minha mãe. Ahmad. em memória de Saadi Abou Talib. Foi enterrado no cimo da colina que domina o campo. À tarde o comboio chegou em frente de Jerusalém. mas era tarde demais. "Para onde vão?" repetiu Esther. na sombra dos barrancos. talvez. Não havia soldados nem gente armada. talvez por não compreender. tal como eu. no meio de uma nuvem de poeira. formando uma nuvem ameaçadora onde a noite começava. Os camiões pararam numa grande praça. 177 em redor da fonte. O sol não brilha para todos? Oiço esta interrogação a todo o momento. como se fosse dizer qualquer coisa. os olhares desviados. de rosto muito pálido. voltou para o grupo dos refugiados que se afastava. apenas mulheres e crianças que esperavam junto de outros camiões. A mulher encolheu os ombros. vestida de preto. Nejma. tirou do bolso do casaco um caderno em branco com capa de cartão preto e na primeira página. para a reter. Ficou ainda um momento. O sol já desaparecia mas a cidade ainda brilhava. Elizabeth mantinha a mão de Esther apertada na sua. Depois. escreveu assim o seu nome. Não conseguia esquecer os rostos das mulheres. à direita. São as mães e as mulheres dos que nos matam. com o caderno preto apertado ao peito como se fosse a coisa mais importante do mundo. atirando as pedras para dois montes iguais de cada um dos lados. a lentidão solene dos gestos com que lhe estendera o caderno onde tinha escrito o seu nome. Por fim. A mulher disse ainda. com a mão poisada no braço de Esther. sem pronunciar uma palavra. no caminho de Festiona. nem aquele silêncio que pesava sobre a terra. enterraram-no embrulhado num velho lençol que eles próprios coseram mas que era curto demais e tornava-se estranho ver o corpo . cada deflagração fazia tremer o chão e via-se o clarão dos incêndios. Verão de 1948 Esta é a recordação dos dias que vivemos em Nour Chams. olhando para Esther como se tentasse ler-lhe os pensamentos: "Não há inocentes. que respondeu: "Para o Iraque. O ribombar da trovoada estava muito próximo. O comboio retomou a marcha. Fatma.

Mas quando enterraram no cimo da colina pedregosa o pai embrulhado no lençol. desde essa altura. Depois.. fazendo tanto barulho que os velhos os amaldiçoam e todos os cães vadios se põem a ladrar. O leite!. 181 o velho perguntou-lhes aquilo e. são fortes e viris. Começam então as crianças a gritar e a cantar. talvez rissem: "O sol não brilha para todos?" Sol a mais tinha o nosso campo naquele Verão. em Fariaa. Mas lá em baixo. não nos vão dar mais comida nem medicamentos e vamos morrer todos. uma espécie de mendigos pedindo comida às portas das cidades. as velhas. Ficarão como arbustos ressequidos pelo vento do deserto e morrerão. A seguir vão morrer os jovens. o boato. nesses lobisomens.hirto do velho a descer para a cova envolto nesse lençol de onde saíam os pés nus.. Morreu dia após dia. na colina pedregosa acima do campo. Aamma Houriya gostava de contar histórias de terror quando o céu estava sombrio. leite e carne seca. Gritam e cantam interminavelmente as mesmas palavras: "A farinha!.. porque é o lugar de onde se vê melhor a estrada de Tulkarm." Depois. de forma a que desapareçamos para sempre da face da terra. óleo. o barulho vinha de todos os lados. Talvez não tivesse morrido se subisse com as crianças ao cimo da colina de pedras. nesses lobos esfomeados que devoravam os mortos. mesmo os rapazes mais fortes e corajosos. colocaram por cima as pedras maiores para que os cães vadios não reabrissem a campa. Talvez os odeiem. o barulho das vozes das pessoas que desesperam e foi isso que ele ouviu e que lhe foi roendo o coração e foi por isso que ele não quis continuar a viver. O campo de Nour Chams começa pouco a pouco a mergulhar no desânimo. de elevada 182 estatura.. E se tivessem compreendido. O velho Nas morreu no fim do Verão. na voz de Aamma Houriya contando coisas ao som da chuva. do lado de Zeita.. Os filhos tornaram a colocar a terra com as enxadas e os miúdos mais pequenos ajudaram-nos com os pés. O boato surgiu primeiro em Jenim e espalhou-se depois por todos os campos. Talvez sintam vergonha daquilo em que se transformaram. os dois filhos de Nas. descem a correr pela colina abaixo até à entrada do campo e batem com paus nos bidões de combustível vazios ou em velhas caixas de conserva. penetrou dentro deles. . Morrerão primeiro os velhos. Agora já nem sequer esperam a chegada dos camiões dos estrangeiros. antes mesmo de sentir o desgosto era precisamente nisso que eu pensava. quando as rações começaram a tornar-se mais escassas. as crianças recém-desmamadas. nas ruas do campo. o que se dizia.. Assim decidiram os estrangeiros. em Askar: as Nações Unidas abandonam-nos. em Balata. pernas musculosas. Eu pensava nas histórias que a nossa tia nos contava nos dias de chuva. como uma planta que vai definhando. as parturientes e os que sofrem de febres. rosto tisnado pelos trabalhos do campo e olhar ardente de entusiasmo. quando a terra abria fendas e os poços secavam uns a seguir aos outros. histórias de diabos e de almas do outro mundo. sabemos muito tempo antes porque do alto daquela colina se vê perfeitamente a nuvem de pó a oeste.. não cessava de repetir a interrogação. porque são os mais fracos. Quando chega o camião. A farinha!. O velho Nas pode agora ouvi-los do cimo da sua colina e é o primeiro a ser avisado da chegada dos camiões que trazem farinha. As pessoas esperavam a chegada do camião das Nações Unidas durante horas.. com certeza que os soldados não compreenderam. Quando os soldados vieram a casa dele para o levarem para o campo. Hassan e Said. A farinha!. Quando o velho Nas morreu.

parecem avançar como vagas. chegaram junto das muralhas. gosto de imaginar os telhados de Akka. Quando parassem os bombardeamentos e os combates nas cidades. porque diziam na cidade que havia bandidos misturados com os fugitivos e que violavam as raparigas. as ferramentas. Olho o campo do alto da colina pedregosa. que não fazia parte do comboio das pessoas deslocadas. que se estendia até ao horizonte. Fora a última imagem que tinham trazido da sua casa natal. desarmados. Tinham pedido ao pastor vizinho. que era estéril e já não dava leite. envergando um vestido muito comprido e embrulhada em véus. o tempo de se organizarem as coisas. das crianças. que olhasse pela casa durante a sua ausência. dos desgraçados. com o rosto cavado pela fome e pela sede. As pessoas tinham-se então dirigido para Akka. Quando subiram para o camião.Quando chegámos no camião das Nações Unidas coberto com um encerado não sabíamos que este lugar ia ser a nossa nova vida. a diversidade dos telhados planos. todas aquelas pessoas estendidas no chão. limitada a este pelo leito do oued seco. e a multidão das mulheres. Como paga. até chegarem às muralhas da nossa cidade. Agora compreendo que nada daquilo nos voltará a pertencer. Lembro-me que nessa noite vagueei sozinha. em que desemboca a estrada poeirenta. não ousando franquear as portas e estendendo-se no chão dos olivais enquanto esperavam que lhes déssemos água e pão e um pouco de leite coalhado. os estrangeiros dariam a cada um de nós um terreno. tinham-lhe dado a cabra mais velha do rebanho. durante todo o dia. das altas torres e das antigas muralhas sobrepostas ao mar. os animais. o velho pastor beduíno ficou a vê-los partir com os olhos semelhantes a duas fendas rasgadas no rosto. curvada e com um pau na mão para fingir que era uma velha procurando alguma comida. a luz do sol é tão forte que as outras colinas. como se fossem milhares de mendigos. . do lado de Yaabad e de Jenin. sentada numa rocha não muito afastada do lugar onde foi enterrado o velho Nas. uma horta para cultivar. Pensávamos todos que seria por um dia ou dois. cor de ferrugem e lama. pela imensa praia de areia. até mesmo as reservas de cereais e de azeite. no alto da colina. o campo de Nour Chams forma uma grande mancha escura. avançando à beira-mar. Tornou-se a nossa prisão dia-a-dia e sabe-se lá se não será também o nosso cemitério. não deixasse roubar as galinhas e desse de beber às cabras e às vacas. Os filhos do velho Nas tinham uma quinta em Tulkarm. o camião. Pensaria ele nesta colina quando perguntava: o sol não brilha para todos? Aqui. Akka. Cá em cima. de cabeças ensangüentadas e pernas embrulhadas em panos à guisa de ligaduras. 183 As ruas recticulares do campo estendem-se abaixo de mim. queimadas pelo sol e pelo vento. ocultara tudo numa nuvem de pó. às portas da cidade. Abandonaram tudo. uma casa onde pudéssemos recomeçar a viver como dantes. Vi. a luz queima permanentemente a vastidão do deserto. Era então Primavera e contavam o que se tinha passado em Haifa. das cúpulas. segurando por uma corda a velha cabra poeirenta que tentava mastigar um jornal caído na estrada. contavam os combates nas ruas estreitas e dentro do mercado coberto da cidade velha e os inúmeros corpos que jaziam de borco. Na planície coberta de pedras. alguns ainda crianças mas já transformados em homens pelo cansaço e pela guerra. onde se vêem as gaivotas planando no vento e as velas esguias dos barcos de pesca. antes de seguirmos viagem. ao partir. entre os arbustos e as oliveiras. e as mulheres deixaram também os utensílios de cozinha e as roupas porque também julgavam que partiam por um ou dois dias. no silêncio do princípio da tarde. quando os soldados árabes esfarrapados.

onde os filhos tinham . Há três poços em Nour Chams. vou com os baldes buscar água. A princípio. Sentia-me envergonhada com tudo o que tinha visto. perguntando com rudeza: "Onde vais?" Disse o meu nome e onde era a casa do meu pai. invisível e impalpável. inventavam histórias como se estivessem apenas em viagem e brevemente fossem voltar para casa. em Amman. por momentos. Tinham os olhos dilatados pela febre e pela sede. estavam essas pessoas. num local sem guerra e sem prisões. Também ele acreditou que em breve estaria de volta. antes do Verão. O campo de Nour Chams é com certeza o fim da terra porque não me parece que possa haver mais alguma coisa para além. os cabelos e até a pele. onde tinham casado. deu-me a sua benção e partiu. Os homens válidos partiram para a guerra e Ahmad. Perguntavam: "De onde és?" E as vozes claras pronunciavam os nomes dos lugares onde tinham nascido. os tectos das tendas. seguindo em todas as direcções: para Kantara. Os soldados chegaram. de repente. três buracos abertos no leito seco do rio. E o som do mar na praia. Andei por momentos no meio daqueles corpos e sentia uma tal sensação de piedade que me esqueci de imitar o andar de uma velha. a sul. na penumbra do crepúsculo. As mulheres contavam as novidades umas às outras. na praia e nas dunas. Oiço depois as armas crepitar em torno da cidade e os tiros de canhão que fazem tremer a terra. que se mistura na água que bebo. Não se queixavam. não diziam nada. sob o olhar dos que ficavam. o choramingar de um bebê que logo se calava. Os dias parecem ter-se amalgamado. 185 mas que cobre tudo: a roupa. Velhos. ou para Tulkarm. havia ainda o som das vozes e dos risos como em qualquer outra parte do mundo.Estavam esgotadas mas não dormiam. E esse silêncio era ainda mais terrível do que gritos e lamentos. Havia apenas. Vieram a seguir os camiões cobertos com encerados para transportarem os habitantes civis até um lugar seguro. mas nunca mais voltou. como se as tivessem espalhado 184 pelo chão. faltou-me a coragem. mulheres. Tão longe quanto se conseguia distinguir. alguns iam mesmo até à cidade de Salt. a água da noite. Depois. quando acordo de manhã. Começa a fila ininterrupta de mulheres e crianças na direcção dos poços. iluminando-lhes as faces de vencidos. Os comboios de camiões cobertos atravessavam as portas de Akka. as longas vagas que se estendiam e vinham aflorar os barcos encalhados. Soube mais tarde que tinha sido morto durante o bombardeamento de Nahariyya. Jenin. na outra margem do rio Jordão. perguntando o que fazia uma rapariga da minha idade sozinha fora de casa. cujo gosto sinto nos alimentos e na língua. faziam mexericos. quando o sol ainda está oculto por trás das colinas e o céu é imenso e puro. o meu pai. Segui o meu caminho sem lhe responder. também seguiu com eles para o norte. Pela manhã. Confiou-me a casa. Iluminou-me o rosto com uma lâmpada eléctrica e a seguir fez troça de mim. Segundo se dizia. um homem armado barrou-me a passagem. quando os drusos travaram batalha com a Haganah. ainda fresca e límpida porque ninguém a remexeu. À entrada. de madrugada. instalaramse na nossa casa e eu subi para um camião. quando chegámos ao campo. Voltei para a cidade. crianças. Assemelham-se àquela fina poeira que vem de todos os lados. Aamma Houriya e eu não sabíamos para onde íamos. rodeados por cercaduras de pedras achatadas e cobertos com tábuas velhas. dia e noite. Não sabíamos que íamos juntar-nos aos corpos estendidos no chão que vira uma noite perto das muralhas. Alguns tinham conseguido fazer fogueiras que brilhavam na praia de longe em longe. para Nabatieh. ou então para Gaza. Ramallah. Uma poeira que pesa sobre mim. que se possa esperar mais nada.

que fixava porque não queria ver a expressão que não compreendia. mais vermelha. excepto a velha Leyla. com o corpo flutuando em vestidos demasiado grandes para elas. de Nablus. e ficara só no mundo. ao acaso. perto da cidadela onde Glubb Pacha instalara os canhões. os nomes das pessoas que tinham conhecido. Agora. à sombra. . Ramleh. estranho. Tantourah. e Aicha. ficavam em torno dos abrigos. eram esses rostos de criança que via por todo o lado. Eram sobretudo os rostos que eu olhava. Yajour. Qaqun. sem dinheiro e sem provisões. 186 Isto foi no princípio. Kafr Sabá. porque depois.. Kaisariyeh. seguindo as filas de casas. Tabariya. Djitt. como se pertencessem já a um outro mundo. Pela manhã. famélicas e semelhantes a cães. Pouco a pouco. todos ficavam a ver o sol surgir por trás das colinas. Gazza. o seu olhar vazio. Ficava sentada numa grande pedra em frente da sua gruta. Shafa Amr. sentadas no pó. Jaffa. todos aqueles nomes que ressoavam estranhamente no ar frio. depois da oração. as tendas rasgadas e os abrigos improvisados com encerados de carros. o vale do oued seco e as casas de tábuas e cartão. esperando que alguém lhe trouxesse qualquer coisa para beber e para comer e todos sabíamos que morreria no dia em que nos esquecessemos dela. onde a chama da 187 febre brilhava. Observava-as então e eram um espelho da minha própria fraqueza. Aamma Houriya estava demasiado cansada para poder vir ouvir os nomes junto do poço. o som das vozes diminuiu à medida que a água dos poços se foi tornando mais rara e lamacenta. Rapariguinhas magras. Ludd. Eu tinha uma memória excepcional. em redor dos poços. Hamza que vivia perto da gruta de Makpela. as tábuas velhas. poisava-os em frente da porta da nossa cabana e contava-lhe tudo o que tinha ouvido. a mãe do sapateiro que tinha a loja próximo da sinagoga do Rabi Yokhanan. de ombros curvados. da minha própria degradação. Malika. com a pele de um cinzento escuro. as velhas ruas de Akka. Djaara. O sol erguia-se todas as manhãs sobre uma terra cada vez mais ressequida. Rãs al-Ain. que tinha três filhas e vivia ao lado da grande igreja dos cristãos. de gritar e de se baterem nos arredores do campo. era preciso deixar a água repousar nos baldes durante uma ou duas horas antes de a deitarmos nas bilhas. quando eu voltava com os baldes cheios de água. inclinando cuidadosamente o balde para a lama ficar no fundo. Ouvia aqueles nomes. As feições infantis pareciam já vincadas por uma incompreensível velhice em muitas delas. Nazira. Os filhos tinham sido todos mortos na guerra. até as crianças tinham deixado de correr. com o sol no zénite. bidões de petróleo e pedaços de pneus presos uns aos outros com arames de ferro à laia de tecto. as paredes de cartão alcatroado. distante. até mesmo os nomes que não conhecia. Escutava tudo abanando com a cabeça como se aquilo tivesse um significado profundo que eu não podia compreender.nascido também: Qalqiliya. Moukhalid. de Al-Quds. cor de cinza. com esquálidos arbustos espinhosos e acácias que não davam sombra. Quando deambulava pelas ruas de Nour Chams sem destino. Assim. Asqalan. pois era cega e os seus olhos brancos não podiam distinguir o sol. sobretudo nas pobres. A excepção era quando se aproximava a hora da distribuição de alimentos. murmurando orações ou insultos. nos órfãos de pai e mãe e naquelas que tinham fugido das aldeias costeiras sob os bombardeamentos. deslocando-se com o movimento do sol. de pernas arqueadas e joelhos excessivamente volumosos. rapazinhos semi-nus. calcinada. Araara. Jebaa.. Agora. pouco a pouco. durante a tomada de Haifa. o couro cabeludo atacado de tinha e os olhos cobertos de moscas. Roumaneh. que tinha o destino escrito no nome.

Fiquei a seu lado até ao fim. com a seca estival. descrevi a . o Baddawi. como num espelho. via o meu próprio rosto. E eu ouvi-o e foi por isso que. aquela força implacável da luz sobre uma terra onde a vida se desfaz e foge. os olhos vítreos. o corpo percorrido por arrepios. mas não me reconheceu. lá estava ela. para que isso se saiba e ninguém ouse esquecê-lo. E. enquanto a luz do sol se ia tornando mais intensa. quando soube que eu tinha andado na escola em al-Jazzar me pediu para escrever tudo o que sofremos aqui. magra. aquela espécie de maldição. à luz do sol nascente.esses olhares vazios e distantes que me assediavam. Mas a água tinha-se tornado preciosa e quando a encontrei. como um refrão: "O sol não brilha para todos?" Agora. Agora. queimava a terra sem esperança. que veio a ser mais tarde meu marido e que não sabia ler nem escrever. mas seguia o velho para todo o lado onde ele ia. na poeira. que eu conhecia bem porque o velho se lhe tinha afeiçoado no fim da vida e a cadela ficava muitas vezes ao lado dele deitada. pelo caminho. queimava o rosto das crianças. onde cada dia que começa rouba qualquer coisa ao dia anterior. sem dizerem nada mas com uma espécie de muda loucura. vi pela primeira vez um animal morrer de sede. Aproximei-me até quase lhe tocar. Os outros desviavam os olhos ou então fitavam-me sem pestanejar na sombra do seu tarh. Partilhávamos nessa altura a casa com uma velha camponesa do litoral (de Zarqa). escurecida pela infelicidade. enrolada num pano velho. No meio das sebes espinhosas. uma manhã. com as patas da frente bem esticadas no chão e a cabeça erguida. Era esse o rosto que eu via por todo o lado do campo. até ao túmulo do velho Nas. até nos poços as mulheres tinham deixado de falar. mas o de uma velha enrugada. com as veias salientes. a água descera ainda mais no fundo dos poços e o balde baloiçando na extremidade da corda raspava um fundo lamacento. Já não se queixavam nem diziam os nomes das cidades e das pessoas desaparecidas. Os fatos das crianças estavam sujos de excrementos. impossível de compreender como os resmungos da velha Leyla na sua gruta. Arquejava com tanta força que comecei a ouvi-la logo desde cá de baixo. Pensava no que dizia o velho Nas. não o de uma rapariga de dezasseis anos. subia até lá cima e descia ao cair da noite. semelhante a uma mancha. a língua negra e inchada saindo da boca. sentada no chão. Acho que não tinha nome. Quando morreu. no topo da colina. cego. Um dia. e a silhueta do meu corpo frágil e fugidio como uma sombra. dia-a-dia. As velhas. O cheiro da velha tornara-se-me tão insuportável que adquirira o hábito de dormir fora. Nunca sentira aquilo antes. Depois. como do fundo de uma gruta. semelhantes a cascas. no campo de Nour Chams. estava a morrer. trepava ao alto da colina pedregosa. naquela interrogação que repetia constantemente. Era a cadela branca de Said. e só desceu no dia seguinte. todas as manhãs. de comida e de terra e os vestidos das mulheres tinham-se tornado rígidos de tanta sujidade. Estava já do lado da morte. tinham um cheiro a cadáver que me dava a volta ao estômago. o sol ia bem alto no céu. Logo pela manhã. sem forças. a 188 cadela seguiu-o até ao túmulo. onde o sofrimento é imóvel. Só me sentia bem quando me podia afastar do campo. quase negro. beleza velada que os olhos impacientes dos jovens querem desvendar. ressequida pela aproximação da morte. brilhava intensamente sobre o pelo da cadela moribunda. o filho mais novo de Nas. com o rosto escuro e os cabelos emaranhados. A água tinha-se tornado tão rara que já não nos podíamos lavar nem lavar a roupa. murcha. Foi por isso que Saadi Abou Talib. o meu rosto e as minhas mãos emagrecidas.

atravessando as colinas. com árvores espinhosas espalhadas. os olhos vítreos. Por que estávamos ali? Porque não partíamos rumo a oeste. Teria ele pensado que um dia eu me serviria da escrita para encher estes cadernos com as minhas memórias? Acho que aprovaria e foi por isso que dei ouvidos ao que me dizia Saadi. as colinas de Jenin. O próprio Nas. Agora. Mas a cadela branca tinha morrido realmente. ou então junto às paredes da fortaleza dos franceses. na esperança de que um dia leia isto e venha ter comigo. que quis mandar-me aprender a ler e a escrever como se eu fosse um rapaz para poder conhecer as suras do Livro e calcular e resolver problemas de geometria como sabe fazer qualquer deles. Estivemos juntas um breve 189 instante. antes de partir para o norte de onde nunca mais regressou. Tinham vivido nesses vales vermelhos. um pouco desajeitados na morte como se ainda não estivessem habituados. o meu pai. fora lá que crescera. de Tulkarm. tinha ouvido o esforço da sua respiração que não queria parar. frios. Por exemplo.nossa vida nos cadernos de escola que tinha trazido comigo. Não conheciam mais nada e nunca tinham visto o mar. prescrutando as velas esguias dos pescadores para ser a . na estrada da fonte de Latrun. a mancha escura do oued seco. na direcção do mar que nos podia salvar? 190 A maior parte dos habitantes do campo de Nour Chams vinha das montanhas. ao sul da cidade. para aquela que escreveu o seu nome no alto do caderno. como uma chama que se apaga e dele apenas vira aquela forma embrulhada no velho lençol demasiado curto e os dois pés descalços que se inclinavam para o fundo da terra. Corri pelo meio dos arbustos até ao alto da colina. apesar da solidão e da loucura que me rodeiam. do fim do seu sofrimento enquanto o sol subia impiedosamente no céu por cima da colina de pedras. o primeiro. É por isso que tenho força para escrever. porque era a primeira vez que via a morte. Mas eu tinha nascido em Akka. tinha partido sem mistério. eu vira o terror espavorido do seu olhar. Esther Greve. tinha sentido sob a minha mão o estremecimento longo e doloroso e depois o frio silêncio do seu corpo. Falei da morte da cadela branca. Soube então que a morte tinha entrado no nosso campo. Nem Aamma Houriya pensava nisso. mergulhando nas ondas que vinham até às muralhas. deitados nas suas esteiras em quartos muito limpos. de onde se via a estrada de Attil. enquanto o sol iluminava. o trabalho dos coveiros e os gritos estridentes das carpideiras profissionais. muito brancos. tudo o que se transformara no nosso mundo e nos mantinha prisioneiros. Já tinha visto em Akka homens e mulheres mortos. os caixões que eram metidos nos túmulos com a cabeça voltada para o sul. impiedoso. onde quer que ela esteja. vou dá-los a um soldado das Nações Unidas para que ele lhos entregue. Depois. a minha tia Raissa e o meu avô Mohamad. E também escrevi para ela. Nesse dia ela veio e eu li o meu destino no seu rosto. o Baddawi. por onde avançam lentamente os rebanhos de cabras guiados por uma criança. perto da fortaleza dos ingleses. imóveis. na praia. Foi Ahmad. ia levar os outros animais e os homens e as mulheres e as crianças uns a seguir aos outros. o pelo cheio de pó. como se desde sempre devêssemos encontrar-nos. Quando tiver acabado de escrever estes cadernos. com uma zona sombria rodeando os olhos de pálpebras descidas e os lábios que eram mantidos fechados por um estreito fio que passava por baixo dos maxilares e se perdia nos cabelos. mortos que pareciam dormir no lençol muito branco e muito limpo que iam coser sobre eles.

compreendi que nunca mais reveria aquilo que amava. Parecia-me que se pudesse ver o mar uma vez mais a morte deixaria de ter importância. vi a minha própria velhice. envolto numa nuvem de pó. Actualmente. escolheume talvez por eu ser a mais velha. Receavam por eles? Ou temiam que os utilizássemos contra nós próprios? Nunca tinha pensado nos espelhos antes. como se fosse por ela que eu esperava. Quando os soldados estrangeiros nos fizeram subir para os camiões para nos trazerem para aqui. minha filha. os pés com sandálias incrustadas de cobre. a longa galabieh de tecido claro. rodeadas de gaivotas e pelicanos? No olhar das crianças aninhadas na sombra das suas cabanas. devorado pelos piolhos. tudo isso me era proibido. para o fim da terra. Talvez os soldados que os tiraram soubessem disso. a descobrir o barco do meu pai. Disse: "Indica-me o caminho. minha filha. Talvez adivinhassem como olharíamos 191 com inquietação o rosto dos outros." Disse-me aquilo. imóveis. a cabeleira. cada semana que passava em Nour Chams trazia mais homens. Há já muito tempo que ninguém em Nour Chams tem espelho. tia. onde as veias são salientes como nas mãos e nos pés das mulheres idosas.primeira. na cabana. para este lugar de onde não se pode ir mais longe. Ela permanecia imóvel. muito direita no chão poeirento. Quando os soldados nos revistaram as bagagens levaram tudo o que pudesse servir de arma: as facas. Foi do seu rosto que primeiro gostei. Então o sol deixaria de ser tão implacável. os dias não roubariam o alento aos dias precedentes. e o corpo tão leve. Quando foi a última a descer do camião. a pele sem viço. de pé ao lado da máquina de costura. pronunciou a palavra benti. Onde estão as velas dos barcos que deslizam pela manhã. Chegou a Nour Chams como eu. no meio das crianças que a olhavam. O camião dos estrangeiros tinha partido já para Tulkarm. não teria mais domínio sobre mim. cheio de poeira e espinhos. o shirwal preto. o rosto velado de branco. pois tinha chegado alguns dias depois de mim. cobrindo-me as costas até aos rins como uma capa de seda. com os refugiados vindos de al-Quds. muito digna e com um ar altivo no meio de todos nós já cansados das provações: uma figura serena. num camião coberto das Nações Unidas. uma habitação. Embora não me fosse nada. e creio que foi por isso que a chamei Aamma. A sua única bagagem era uma máquina de costura. no meio de todas as crianças. Como não tinha casa. agora transformada neste emaranhado sujo. como se esperasse outro camião que a levasse para mais longe. as tesouras e também os espelhos. Os recém-chegados tinham reunido as suas bagagens e começado a avançar para o centro do campo. compreendi que sem um espelho somos diferentes. mais mulheres. semelhantes a cães vadios com que ninguém se preocupa. Lembro-me agora como chegou a minha tia Houriya. Depois. levei-a para a cabana de tábuas em que vivia só. tentando encontrar um abrigo contra o sol. nem sobre Aamma Houriya. na parte do campo encostada à colina pedregosa. deixamos de ser a mesma pessoa. as mãos e os pés enegrecidos. o meu próprio fim: o corpo magro e enrugado. mais crianças. vi-a tal como a veria até ao fim. quando ela tirou o véu. A pele tinha uma cor de cobre escuro e os olhos garços . Trazia vestido o fato tradicional. como tentaríamos adivinhar neles aquilo em que nos tínhamos tornado para tentarmos recordar-nos de nós mesmos como do nosso próprio nome. Agora. Era natural poder ver o meu rosto. chamava-lhe tia porque gostava dela como se fosse minha verdadeira parente. Cada dia. dantes tão bonita. como se ela me tivesse vindo visitar a Nour Chams.

De dia não era possível vê-los nunca. Dormia no chão. Sabia. ou mortos que saíam dos túmulos para respirar. encostados à parede de tábuas. com o crescente da lua erguido como um sabre. uma voz nova. a cólera. ou lamentosas. Sentava-se em frente da porta da nossa cabana. ora graves e surdas. estendia-me no chão. fazendo cantar as pulseiras de cobre. Mas às vezes não tinham mais nada para dar senão agradecimentos e isso bastava. Avisavam-se mutuamente e sentavam-se em frente da casa. comida ou cigarros mas nunca dinheiro. Mimava também as vozes. como se neles houvesse uma luz especial quando me olhava. estridentes. Mimava as expressões. Não era a sua voz de todos os dias mas uma voz mais abafada. Mas à noite apareciam. As mãos gesticulavam como se dançassem. enquanto a luz do sol se ia adoçando e o peso do dia diminuía. usava de vez em quando a máquina de costura para consertar roupa das pessoas que lhe pagavam com o que podiam. Também o rosto de Aamma Houriya se modificava pouco a pouco. Eram histórias maravilhosas que Aamma Houriya nos contava. Só ela sabia onde eram essas cidades e tinha mesmo prometido levar-me lá quando a guerra acabasse. Às vezes. Os olhos brilhavam mais. quando o sol declina e desaparece nas brumas para o lado do mar. que nos obrigava a ficar em silêncio 193 para melhor a ouvirmos. A sua voz era como um murmúrio mas conseguíamos ouvir todas as palavras e nunca mais esquecíamos. Mas o resto do corpo permanecia imóvel. Quando Aamma Houriya começava a contar uma história de Djinn tinha uma voz diferente. vou-te contar uma história de Djinn. Talvez soubesse ver para além das coisas e das pessoas. de improviso. Aamma começava a contar uma história de Djinn. Foi fazendo isso pelo menos enquanto teve linhas. o seu rosto exprimia o medo. no pó. o dinheiro já não servia para nada. Histórias que nos aterrorizavam. ou então ficavam de pé.brilhavam estranhamente. Iam chegando as crianças da vizinhança. sem véu. cidades com lagos e jardins. como alguns cegos. despediam fulgores. por causa das histórias. com o rosto voltado para fora. sentada de pernas cruzadas à entrada da porta. no nosso campo. Durante o dia. mais grave. e via o seu rosto animar-se. Belas eram as noites. sentada no pó em frente da cabana. Eu ficava sentada dentro de casa. As mulheres traziam-lhe pão. Histórias de almas do outro mundo. Viviam em cidades. sentia que era o momento de contar. como os humanos. porque não era apenas para mim que contava. em frente da porta. porque aqui. quando acabava de preparar a comida. em cima de um lençol que dobrava sobre si mesma de forma a desaparecer por completo. embrulhada em panos por causa da poeira. muito perto dela para lhe ouvir a voz." Conhecia os Djenoune. chá ou azeitonas. Começava então a contar uma história. de cidades de mortos perdidas algures no deserto e de onde nunca mais saía o viajante extraviado que nelas se aventurasse. Histórias do Djinn que . umas a seguir às outras. açúcar. ao fim da tarde. À tarde não havia um ruído no campo. Instalou a máquina de costura. sem se saber porquê. com homens que se transformavam em lobos ao atravessar uma ribeira. ocultavam-se na claridade da luz. tinha-os visto. na sombra. o ciúme. ora agudas. ou então quando o vento arrasta as nuvens e o céu resplandece. Para a ouvir melhor. Sentava-se à minha frente e os seus olhos tinham um fulgor estranho quando me dizia: "Ouve. Escolheu a parte da casa que ficava mais próxima da porta. simultaneamente calmante e perturbadora. 192 Aamma instalou-se na cabana em que eu vivia sozinha. semelhantes a labaredas vermelhas que dançassem à noite no deserto. com torres e muralhas.

Nem sempre o que Aamma Houriya contava era para nos meter medo. dizia: "Hoje é dia para uma história de água. os calcanhares gretados. Mostrava-nos então como resistir ao mau olhado. que comia o coração das crianças para permanecer imortal. as mulheres e as crianças viviam no jardim em redor do palácio. Mas nesse lugar era eternamente Primavera. os Djenoune eram bons e não faziam mal a ninguém. as barracas miseráveis onde os homens e as mulheres se estendiam no chão esperando a noite." A voz era mais doce e os olhos brilhavam com uma luz mais alegre quando começava a sua história: "Antigamente. no berço. a imortal!" Esquecia quem era e onde estava. pois desconheciam o gosto da carne. o paraíso. subir aos telhados das casas como se fossem pássaros ou saltar para o fundo de poços como se fossem sapos. e às vezes apenas uma. ia para o poente e do outro para o nascente. fora a eles 195 que Deus a confiara. Quando Aamma Houriya me agarrava na mão. Contava-nos também histórias de mau olhado. Depois. de mel e de ervas. esquecia as crianças esfomeadas que espreitavam no cimo da colina pedregosa a chegada dos camiões das Nações Unidas e que. Segundo me disseram. amargo. no cimo das montanhas. os cabelos que caíam às mãos cheias. E esse lugar era tão belo que o chamavam Firdous. uma grande pedra envolta em panos. Se é verdade ou mentira não vos sei dizer. a terra não era o que é hoje. Também contava histórias de Aicha.. O ar era tão suave e o sol tão clemente que não . a Africana. Quando via que estávamos desanimadas. os jardins estavam sempre cheios de flores e de frutos.se torna marido de uma mulher. sabiam? Ficava à beira-mar. gritavam: "O pão! A farinha! O leite! A farinha!" E esse pão que se distribuía. há um Djinn mau que entra no corpo das crianças e as faz enlouquecer.. as fontes nunca secavam e nunca faltava comida aos seus habitantes. a conjuntivite que queimava as pálpebras. enfeitiça a mãe de um bebê e a convence de que é sua tia. quando Bayrut. Mostrava-nos como podíamos assustar as feiticeiras soprando na mão aberta um pouco de areia. De um lado. a feiticeira. que as crianças estavam cansadas e com o rosto marcado pela fome e que o ardor do sol era insuportável. duro. quando viam a nuvem de pó na estrada. colocando a mão em frente da cara e escrevendo na testa o nome de Deus com água misturada com cinzas. Nesse tempo. Quando sopra o vento deserto. uma história de cidade com fontes que cantam e jardins cheios de aves. pois eram eles os donos daquela terra. esperando o desconhecido. esquecia os três poços secos. A mulher ausenta-se por um instante e Bayrut apodera-se do bebê. Viviam de frutos. ou de uma Djenna que se apodera de um homem e o leva até sua casa. cruel e negra. Esquecia as chagas que cobriam os corpos das crianças. próximo da cidade de Akka. não era muito longe daqui. à razão de duas fatias por dia e por pessoa. coze a criança e dá-a a comer à própria mãe. Era habitada ao mesmo tempo pelos Djenoune e pelos homens e assemelhava-se a um grande jardim rodeado por um rio mágico que podia correr nos dois sentidos. disfarçada de escrava. Ainda hoje há uma aldeiazinha com esse nome de paraíso e diz-se que todos os seus habitantes são descendentes dos Djenoune. me fazia sentar a seu lado em frente da casa 194 e perguntava: "O que é que te vou contar esta tarde?" eu respondia imediatamente: "Uma história da velha Aícha. uma história de jardim. da cor das nuvens. Os homens. as mordidelas dos piolhos e das pulgas. No meio desse grande jardim havia um palácio magnífico. como sabem. colocando no seu lugar. e nesse palácio viviam os Djenoune.

Era uma água como vocês nunca viram. os ruídos ligeiros que precedem o anoitecer vindos das outras casas. o paraíso. agora com espadas e espingardas. Algumas não tinham nada para cozer mas acendiam o lume por hábito. nesse jardim cheio de flores e de árvores onde cantavam permanentemente as fontes e os pássaros. Víamos o céu escurecer lentamente. como as almas-penadas das histórias que Aamma Houriya nos contava. Dessa vez. continuavam a rir e faziam troça deles. Os dois homens eram igualmente fortes e manhosos. sem uma flor. de repente." Houriya parava mais uns momentos. nesse jardim onde os homens viviam em paz comendo apenas frutos e mel. Sentou-se sobre os calcanhares. nem sonharam. o mais belo era a água. do alto das muralhas do seu palácio. para que pudéssemos ouvir o bater do nosso coração. porque é que destruíram esse jardim onde deveríamos viver numa eterna Primavera? Há quem diga que foi por causa de uma mulher que quis entrar no palácio dos Djenoune e. não envelheciam. nascidos do mesmo pai e de duas mães diferentes e que se odiavam por causa disso. a terra áspera e nua. ouvindo a música das fontes e o canto das aves. Saadi Abou Talib. do poente para o nascente e do nascente para o poente. visto que eram mais numerosos. chegou pela primeira vez ao campo. esse jardim. se batiam a soco e os Djenoune riam por verem os seus esforços. Firdous. amargo e sem fim. Continuou: "Nesse jardim. agora é a terra sem água. muito perto das nuvens. Aqui e além erguiam-se fumos dos telhados das barracas. para ouvir o que dizia a nossa tia. para isso. como se fossem alimentar-se com o fumo. Mas tornaram-se adultos e a luta continuava. Outros dizem que foi por causa de dois irmãos. "Como é que os Djenoune se zangaram com os homens. um chamado Souad e o outro Safi. Porque nesse lugar onde outrora se encontrava o jardim de tão doce nome. o choro dos bebês. Ficávamos imóveis." Aamma Houriya parava de falar. Continuava a contar e. Assim eram as coisas nesse tempo. E assim teriam continuado sempre e neste momento em que vos falo estaríamos hoje nesse jardim. esse paraíso que tínhamos perdido quando a cólera dos gênios caíra sobre nós. Aamma Houriya fez um longo silêncio. querendo cada um guardar para si a parte de jardim do outro.precisavam de casa para se protegerem e nunca havia Inverno nem frio. Conhecia o valor do silêncio. tão fresca e pura que os que dela bebiam tinham em si a eterna juventude. Feriam- . o ladrar dos cães. à sombra das árvores. se os Djenoune. o meu coração começava a bater mais depressa porque eu compreendera que era a nossa própria história que ela estava a contar. Lembro-me que foi enquanto ela contava esta história que o jovem Baddawi. Contam que. meus filhos. na expectativa do que se seguiria. E agora. mas não tinham mais nada para deitar 196 dentro a não ser algumas ervas e raízes encontradas nas colinas. uma água tão límpida. um pouco afastado. comparando-os a macacos. nunca morriam. Os regatos corriam pelo meio do jardim e iam dar ao grande rio que o rodeava e que corria nos dois sentidos. nem provaram. Depois cresceram e bateram-se com paus e com pedras e os Djenoune. vou contar-vos como tudo se perdeu. secando todas as fontes e deitando sal no grande rio que se tornou no que é hoje. como dois carneiros jovens que se enfrentam no meio da poeira. os donos do jardim. e os homens tornaramse tão maus que travam uma guerra cruel e impiedosa sem que os Djenoune os ajudem. As velhas tinham acendido o lume para ferver água. se não tivessem enfurecido contra os homens. convenceu os homens de que eram tão fortes como os Djenoune e que facilmente os poderiam expulsar do seu palácio. sem uma árvore. mas sabíamos que eram ilusórios e enganadores. ainda muito pequenos.

Sentia o odor do fumo no céu. Mas então interveio uma velha. Agora. Exclamaram: "Que a maldição de Deus caia sobre todos vocês. as árvores. de rosto escuro. e as crianças voltavam cada uma para sua casa. no seu palácio envolto em fumo negro. abriu o saco de pele e do saco saiu o vento que soprou o fogo e o transformou num incêndio gigantesco que devorou todo o jardim. meus filhos. Aamma Houriya levantava-se e dirigia-se aos poços para fazer a sua oração. atiraram um ao outro os seus presentes envenenados. a mãe e os sogros.. homens. assim como o pai. Trouxera-a até nossa casa e aí a instalara.. cada um de sua vez. o seu sangue corria sobre a terra. Souad. excepto alguns que se refugiaram no grande rio. O marido tinha morrido lá. talvez Roumiya se tivesse tornado . as aves e os homens que estavam nesse jardim. talvez até já fosse Aicha. O outro irmão. com o rosto pálido marcado pela fadiga mas que tinha guardado qualquer coisa de infantil. quase uma rapariga. porque era muito velha e conhecia todos os segredos dos Djenoune. Os dois irmãos foram consultá-la." E abandonaram para sempre o jardim devastado. Quando chegou já estava grávida de mais de seis meses. no cúmulo da raiva. o odor da fome. regular como a sua respiração. que oferece armas e morte aos que dão ouvidos às suas palavras. acentuado pela cabeleira loura. A velha escrava procurou nas suas bagagens e deu um presente a cada um. para que depois possam tornar-se amigos. Aliás. no meu lugar junto da porta. Que Deus nos defenda de a encontrarmos no nosso caminho. Aamma Houriya tomara-a imediatamente sob a sua protecção. As chamas vermelhas queimaram tudo. e sobre os vossos descendentes. que se chamava Safi. Quando o que tinha a gaiola a abriu. sem reflectirem. mas nenhum dos dois queria dar-se por vencido. por sua vez. coberta de farrapos. Roumiya era uma das sobreviventes de Deir Yassin. não existia o fogo nem o vento. Os Djenoune continuavam a observá-los do alto do seu palácio e diziam: que se batam e esgotem as forças. Então os dois irmãos. Nesse tempo. Ao segundo rapaz. Antes de partir. Pensava então durante quanto tempo ainda os Djenoune abandonariam os homens. e sobre esta terra continua a vaguear a velha Aicha. o animal selvagem de focinho vermelho saltou cá para fora e apoderou-se imediatamente das árvores e das outras plantas e tornou-se muito grande. penteada em duas tranças iguais. como alguns animais. deu um grande saco de pele que continha uma nuvem invisível e poderosa. Aqui termina a minha história. nesse jardim. os Djenoune já não riam. no lugar da velha que arranjara um abrigo noutro sítio. leve. deu uma pequena gaiola com um animal selvagem de focinho vermelho que brilhava estranhamente no escuro e nunca ninguém vira 197 nada parecido naquele jardim. a escrava imortal. Foi assim que o jardim de Firdous se transformou neste deserto sem água e que o grande rio circular se tornou amargo e deixou de correr nos dois sentidos. Deitada no chão. Era uma 198 mulher muito jovem. os Djenoune deixaram de gostar dos homens. Desde esse tempo. ouvia ainda a voz de Aamma Houriya. Ao mais velho.se cruelmente. dizem que uma feiticeira." Tinha caído a noite. e pelos olhos cor de água que nos olhavam com uma espécie de inocência amedrontada. para terem a certeza que nada voltaria a crescer naquela terra. Roumiya veio para o campo de Nour Chams no fim do Verão. fecharam todas as nascentes e todas as fontes. ainda não lhes perdoaram. Os soldados estrangeiros tinham-na encontrado vagueando pela estrada e tinham-na trazido para um hospital militar porque julgaram que era louca. e prometeram-Lhe muito ouro para que lhes desse a vitória. e depois atiraram uma grande montanha de sal que se quebrou e espalhou no rio.

como se fosse chuva. mas ninguém mais sabia. do rosto muito branco que brilhava à luz. Mouaskar. depois Tulkarm. Ficava lá com as outras crianças. mas quando as compreendíamos tudo parecia mais claro e verdadeiro. Falavam dela cochichando e diziam "habla. Quando o sol subia no céu e as paredes da nossa casa aqueciam como as de um forno. Para todos nós ela permaneceu um pouco assim. Ficava sentada ao lado da porta. esperando a água que pingava . porque os olhos eram fixos e dilatados como os de um animal assustado. provocando uma sombra azulada. onde agora vivia o Baddawi numa cabana que fizera com ramos e pedras. Aamma Houriya tinha ideias tão estranhas como as suas histórias. sobretudo. ao nosso campo. como se estivesse à espreita dos camiões de reabastecimento. e passava-lhe o dedo humedecido de saliva sobre os seus lábios secos para que ela começasse a comer. As crianças da vizinhança diziam que ela era louca e quando passavam em frente da porta ou quando se cruzavam com ela no caminho. trazia-lhe uma tigela de caldo de farinha com leite Klim. sem pronunciar uma palavra. Fora assim que acabara por chegar ao fim da sua estrada.louca a partir desse dia. com o calor envolvendo as barracas de tábuas e de cartão alcatroado como as chamas envolvem um forno. da cabeleira longa. com o grande véu sujo de pó que a envolvia até aos joelhos. sem um sorriso. e também "khayfi". acariciava-a. Jalazoun. absolutamente imóvel. Ia todas as manhãs buscar água aos poços porque a água era escassa e cor de lama e tínhamos que a deixar repousar durante muito tempo. do seu olhar vazio. porque tinha o hábito de ficar sentada num canto durante horas. Nunca tinha visto nenhuma tão bela e percebia agora porque lhe tinham dado aquele nome. khayfi. e ia para o alto da colina de pedras. a sua beleza silenciosa. tem medo. Talvez fosse a beleza de Roumiya que me afastava. não queria tirar o véu mesmo dentro de casa. de repente. Às vezes fartava-me dela. Aamma Houriya molhava o corpo de Roumiya com uma toalha encharcada. Era a sua ração para beber e cozinhar e Aamma Houriya usava-a para lavar a barriga da mulher. Aamma Houriya dizia que a criança que ia nascer não podia ter falta de água porque já vivia e ouvia o som da água a escorrer na pele e sentia a frescura. A princípio. Lembro-me da primeira vez que tirou o véu. Mas Aamma Houriya soube encontrar o caminho. Os soldados tinham-na levado para os campos perto de Jerusalém. forte. Aamma Houriya pendurava o seu véu em frente da porta. Docemente. Deir Ammar. Foi domesticando Roumiya um pouco cada dia. apenas algumas palavras para pedir água ou pão ou. Por momentos. para Aamma Houriya e para mim. uma frase que recitava sem compreender e que para nós também não tinha qualquer significado. o seu olhar que parecia atravessar tudo e esvaziá-lo de qualquer sentido. mas a verdade é que quem tinha medo eram as crianças. enlouqueceu. sem se mexer. 199 das tatuagens azuis nas faces e no queixo e. Roumiya deixava-se despir completamente. e pouco a pouco Roumiya acordou e recomeçou a viver. à entrada do campo. Balata. onde tinha sido enterrado o velho Nas. da boca infantil. porque não era da nossa raça. Falava-lhe docemente. e olhava em frente com olhos vazios. Era ela que lhe dava de comer: a princípio. Quase nunca falava. sopravam pó no côncavo da mão para afastar a má sorte. do nariz fino. Roumiya. quando chegou a nossa casa. com reflexos de cobre e de ouro. como para uma criança. mas sem nada dizer. Quando o sol atingia o ponto mais alto do céu e nada mais se mexia no campo. o seu olhar cessara de reflectir medo e ela tinha olhado para nós. habla".

em casacos sujos. aquelas casas escuras. Estamos abandonados. Logo que o sol desaparece por trás das colinas sente-se o frio que vem da terra.da toalha. sem oração. as noites são frias. Agora. sobre o ventre dilatado. e sentia o suor escorrer na testa. 201 Estamos há tanto tempo prisioneiros neste campo que tenho dificuldade em recordar como era dantes. revoluteando. torna-se avermelhado e depois a noite ergue-se do fundo das ravinas. Os barcos deslizando na baía. branco marmorizado de rosa por causa da penumbra azul. ia lá para fora para não ver aquilo. As colinas pedregosas irradiavam o calor do sol até ao coração da noite. Talvez tivesse deixado de ver o campo com os mesmos olhos. como se acabasse de chegar e não soubesse ainda o que eram aquelas pedras. o cantar inquieto dos melros. os seios. apenas um murmúrio. tanto tempo que quando Aamma Houriya acabava de lavar Roumiya esta tinha adormecido sob os véus que ficavam manchados na barriga. com a chegada da noite. Aqui. os desenhos das estrelas me pareciam familiares. os dedos ágeis de Aamma Houriya lavavam-lhe o corpo. uma oração. cruzando o céu lado a lado. surgem no céu as estrelas formando os seus desenhos magníficos. dando a volta. Rapidamente. junto às muralhas. ouvia apenas o som da água que escorria sobre a pele de Roumiya. com os ouvidos cheios do som da água e do zumbido da voz da velha Aamma. na luz difusa. Roumiya deitava-se de costas e Aamma fazia 200 escorrer água sobre os seios. os rins. Observava a rapariga. A madeira tornou-se tão rara que já se não acendem fogueiras por causa da noite. que é Outono. sem aves. um zumbido prolongado que interrompia de cada vez que mergulhava a toalha no balde. Quando cheguei. em lençóis. a nuca. O mar. como um segredo no meio do calor e da secura lá de fora. Nunca tinha sentido isto antes. nas costas. silencioso e gelado. quase contra vontade. Lembro-me que outrora. de incompreensível e de verdadeiro nos gestos da velha. de madrugada. as longas tranças retorciam-se como serpentes molhadas. o rosto inclinado com os olhos fechados. e a voz de Aamma Houriya que entoava uma canção de embalar sem palavras. As mãos de Aamrna eram fortes. O ventre enorme de Roumiya surgia sob o vestido preto arregaçado até ao pescoço como uma lua. Ponto por ponto. Ouvia-se nos jardins. via-lhe o ventre. na Primavera. Eram como as luzes de cidades desconhecidas . quando passeava com o meu pai na praia. Antes de anoitecer ia até ao cimo da colina. as noites eram quentes. Tudo permanece negro. Na nossa casa. Depois. Era como se tudo tivesse mudado. Lá fora o sol ainda encandeava. longe da vida. tornando a partir em sentido inverso. aquele vale seco semeado de árvores queimadas onde nunca chega o mar. o horizonte fechado pelas colinas. quando eu vagueava pelos olivais. Depois comecei a ficar. cambaleava sob a luz demasiado forte. o cheiro do mar. O chamamento para a oração ao crepúsculo. sem chamamentos. Levantavam vôo as rolas indolentes e os pombos de asas prateadas. o silêncio. uma espécie de lento ritual. a sua respiração lenta. os ombros. em Akka. A princípio eu saía. torciam a toalha sobre a pele e a água caía fazendo ecoar o seu som secreto na casa que se assemelhava a uma gruta. porque havia qualquer coisa de poderoso. os gritos das gaivotas. O céu vazio muda de cor. longe do mundo. colar-me os cabelos à cara. Sobre o campo pesava o peso da poeira. Nas costas. As pessoas embrulham-se como podem nos cobertores que as Nações Unidas distribuíram. Foi tudo isso que eu perdi. a noite surge de repente. Aquilo durava infinitamente.

Saadi aproxima-se. Ia todas as manhãs ao cimo da colina para ver chegar o camião das Nações Unidas. Aproximou-se de mim e falou. Também as crianças choram de noite. com ramos secos e um pedaço de encerado. Mas são tudo invenções. Aamma Houriya diz que ele está só no mundo. as árvores que vêm dar à . mas a verdade é que ia também para ver o Baddawi sentado na sua pedra. É o que as crianças contam e quando Aamma Houriya ouviu disse que ele era um inocente e que isso protegia o nosso campo. Conhecia apenas o granda lago salgado e o imenso vale de Ghor e al-Moujib. onde afirmava que os Djenoune tinham os seus palácios.suspensas no céu. olhou-me e vi a cor dos seus olhos. Mas ele não desce quando o camião chega. Fitava-me com os seus olhos amarelados. Tem os cabelos compridos e emaranhados. os homens atiram para longe os cadáveres dos cães que morreram durante a noite. Os olhos dos cães que vagueiam pelas colinas em redor do campo são da mesma cor. Só desce da colina para 204 ir beber aos poços. O seu olhar fita-me com um misto de timidez e dureza que me fazem bater o coração. perguntando-me quem era. perto do lugar onde foi enterrado o velho Nas há já mais de um ano. Aamma Houriya diz que ele fala como os do deserto. as ondas regulares que morrem de encontro às muralhas da cidade. a Nour Chams. com um rebanho de cabras. como a nossa casa é a primeira que encontra. As raparigas fazem troça dele mas têm também um certo medo. mais abandonado. apenas com uma leve sombra de bigode. com um sotaque que nunca tinha ouvido antes. de onde era. Eu contava-lhe o que tinha visto. em frente da cabana de ramos. Fala com eles lá em cima. Pela manhã. os cães vadios ladram. Dizem que tentou agarrar uma rapariga e que esta lhe mordeu. o que se chama Saadi. ali fica de pé. As crianças vão ter com ele todas as manhãs e em conjunto vigiam a estrada por onde há-de chegar o camião do reabastecimento. Fica um pouco afastado. "É a morte que passa". ele vem ouvir. ao fim da estrada. Será preciso. Isso era o que eu dizia. Mas ninguém sabe de onde vem nem como chegou até aqui. como um Baddawi. como se aquilo não lhe dissesse respeito. e quando os animais morreram. Talvez tenha nascido aqui. Fica sentado junto do seu abrigo. que não tem família. Quando lhe falei de Akka e do mar. idêntica à dos cães vadios. É por isso que lhe chamamos assim. Às vezes. Nas noites de lua cheia. diz Aamma Houriya. tira a água do balde com a mão e não torna a beber até à noite. recolher os corpos das crianças mortas durante a noite? O Baddawi. como não tinha para onde ir. Quando me aproximei. quando Aamma Houriya conta uma história de Djinn. quis saber como era o mar. quando chega a sua vez. 203 a sua luz pálida e fria faz com que o nosso campo pareça ainda mais escuro. Às vezes tem tanta fome que desce até meio da colina e. pousa-os numa pedra e volta para casa. um pouco afastado. Ali fica todo o dia e toda a noite quase sem se mexer. Espera na fila e. na colina. Aamma Houriya agarra num bocado de pão ou num bolo de grão-de-bico feito por ela. Não se senta com as crianças. mas o rosto é o de rapaz ainda imberbe. Tinha uma voz doce. ficou. Sinto um arrepio percorrer-me o corpo. embrulhado na sua túnica de lã. O Baddawi é o único que não tem medo dos cães. Talvez aqui estivesse antes de todos. com a cabeça inclinada para o chão de modo a escutar melhor. instalou-se na colina de pedras. pela manhã. Dizem que ele se esconde nos arbustos para as espiar quando vão urinar. Nunca o tinha visto. Agora. Construiu um abrigo não longe do túmulo. olhando a estrada de Tulkarm. Nunca vai buscar a sua parte.

com outros rebanhos. dos braços cruzados sobre a túnica. estranho. falava do que sabia. a água. das montanhas onde guardava os rebanhos. Eu ficava a ouvir Saadi. os irmãos vindos de outras paragens. comendo ervas e arbustos. para o vale da sua infância. as crianças brincavam com pedaços de madeira. quando o crepúsculo atenuava a ardência do dia.. Mas nós éramos semelhantes a eles. nem inquietação. Os acampamentos dos 205 nômadas. quando começou a morrer. o Baddawi. Nos olhos dos homens há uma espécie de fumo. Diz que quando tudo terminar irá para o sul. Surge assim este véu. tínhamos o mesmo olhar de cão vadio.praia e. quando esperava o regresso dos barcos de pesca e tentava ser a primeira a ver o do meu pai. e ouvia os gritos das crianças excitadas que recitavam: "A farinha!. dos tios e das tias. Ele não perdeu a água do olhar. sentada ao lado de Saadi.. a doçura. que se encontravam e voltavam a partir. por sua vez.. e ele. tornando-o difuso. O leite!. dos irmãos. tentando lembrar-me melhor ainda como era dantes. Esqueceram. as vozes das mulheres. eu. No alto da colina. 206 É por isso que gosto dos olhos de Saadi. Agora também eu já não ia esperar o camião de reabastecimento. na estrada de Tulkarm. Já não existe ódio ou cólera. já não há lágrimas.. Conseguíamos evadir-nos. Talvez seja por haver tanta falta de água. Eu não falava como Aamma Houriya porque não sabia histórias. Também perguntavam: "Porque não vamos embora? Porque não voltamos para casa?" Agora esqueceram. andando todos os dias ao longo dos cursos de água que correm por baixo da areia. Só sabia contar o que tinha visto. fitando as delgadas colunas de fumo que subiam do campo. Gostava da sua maneira de ouvir. o cheiro das fogueiras. a rapariga da cidade marítima. como nos olhos da cadela branca. Ri mas dentro de si mesmo. perto do grande lago salgado. nomes tão distantes como os . Ele. dos pés descalços bem assentes na terra. Quando eu falava com ele ou ele comigo. os barcos à vela cortando o nevoeiro por entre os vôos dos pelicanos. sem mover os lábios. via a nuvem de poeira ao longe. de madrugada. Nunca acontece nada. No princípio. Os pais e as mães desviam os olhos. o vento. apenas com os olhos. o cheiro do mar. do seu olhar brilhante. Irá à procura do pai. Conversávamos todas as tardes. Acha que vai reencontrá-los e que poderá recomeçar a andar com o seu gado ao longo das invisíveis ribeiras. voltávamos a ser livres. As íris amareladas brilham como as dos cães que vagueiam pelas colinas em redor do campo. brilha uma luz nos seus olhos. o sol que mergulha na água todas as noites até que se extinga o último fulgor. A guerra está tão longe. para junto do lago salgado. uma nuvem que lhes nubla o olhar. ou atiravam pedras umas às outras como se fossem granadas. Tinham os olhos dilatados pela febre. o gosto do sal. Fala-me de nomes que nunca ouvi antes. A farinha!. tendo como únicos companheiros os cães que corriam à sua frente. Quando o venho ver. e tudo deixava de parecer desesperado. Vê-se muito bem.. na praia de Akka." Era Aamma Houriya que tinha que ir buscar as rações. imitando o som das espingardas. nada nos distinguia. as crianças vinham ouvir. os cabelos emaranhados e a pele escura brilhava por entre os farrapos da roupa. Agora já não fazem isso.. nem desejo. Aamma ralhava: "O Baddawi enfeitiçou-te! Vou-lhe bater com um pau!" Troçava de mim. deixando-se cair no chão. Às vezes fala da guerra.

depois outro. Tinha os olhos abertos. Em breve os cães começaram a ladrar. até essas cidades de ouro e nácar onde Aamma Houriya diz que outrora viviam os reis que governavam mesmo os Djenoune: Bagdad. tudo começou a brilhar intensamente. Kamak e Wadi al-Sirr. Suweili. Caí no chão. ouvia nitidamente a sua respiração. a voz não conseguia passar-me na garganta e saía apenas um grito rouco que me rasgava interiormente. todos. Quando o vento abranda. as suas palavras. a terra é tão dura e o vento tão forte que os homens são arrastados como o pó. sentia o fogo do sol sobre o rosto. ora mais para baixo. os animais vão até ao Jordão e às vezes mesmo até mais longe. Aama Houriya dormia embrulhada no seu lençol junto da porta mas Roumiya estava acordada. com uma luz crua que me magoava. comecei a correr pelas ruas do campo sem saber para onde ia e gritava: "Acordem!. Pode partir quando quiser. Pouco a pouco. os animais regressam ao deserto. Sentia como se tivesse uma pedra poisada sobre o peito.. os homens e as mulheres envoltas nos seus véus apesar do calor. atravessar as colinas.. Vi o rosto de Aamma muito perto. a mesma coisa que tinham dito quando Roumiya chegara: "Está louca. Saí. para todos os abrigos de cartão: "Acordem! Acordem!" As pessoas começavam a sair de casa. Lá. para todas as casas de tábuas e de encerados. Não está prisioneiro no campo de Nour Chams. as crianças. um grito de loucura que ressoava estranhamente no campo adormecido. sobre o peito.. a água escorreu-me para a boca e para a cara como se fosse sangue. as outras choravam às escuras. o rio do segredo onde cada um acaba por chegar sempre. Gritava para. Gritava com uma voz que não era a minha: "Acordem!. Cá fora tudo estava calmo. descalça no pó. Não sei por que agi assim: tinha medo. para todas as tendas. ouvia as pancadas do meu coração.. Não havia ninguém cá fora. ardia por dentro da pele. Ispahan.." A princípio. as chapas de metal que dançavam com o vento.nomes das estrelas: Suweima.. ir até al-Quds ou mesmo mais longe. Acordem!. Madasa. Continuava a correr pelo acampamento. faltou-me o fôlego. as mais velhas corriam a meu lado. . Mas eu não podia parar. com aquele ardor no rosto e no corpo. mas não disse nada quando passei à sua frente. Não conseguia mexer-me nem falar. Corria e ouvia distintamente o que diziam. Ouvia o ruído dos seus passos. Notava a respiração que lhe fazia erguer o peito. ao outro lado do rio. na direcção dos poços e ao longo do arame farpado que os estrangeiros tinham colocado à sua volta e ouvia a minha própria respiração assobiando-me nos pulmões. à grande cidade de alQuds que os hebreus chamam Jerusalém. depois todos os cães em redor do campo. Alguém trouxe água num recipiente de ferro. Até os cães estavam escondidos." Depois. Safut. Preparem-se!. Então. Uma noite senti-me mal. Murmurei o seu nome. repentinamente. Quando o vento começa. segundo ele diz. ora para o lado da colina. Saadi diz como o velho Nas: A terra não é de todos? O sol não brilha para todos? Tem um rosto jovem mas um olhar cheio de sabedoria. até mesmo os das colinas invisíveis. aquela dor que não abrandava. Bassora. sentiame demasiado mal por causa daquele peso no peito e da febre que me queimava até aos ossos. passando e voltando a passar pelas mesmas ruas. enlouqueceu!" As crianças acordavam. as pessoas aproximaram-se. na noite. 207 Observei os armamentos rectilíneos do campo. Era como se todos estivessem mortos. As mulheres. como se tudo tivesse desaparecido para sempre. primeiro um. os telhados cobertos de alcatrão das casas. Vi as estrelas. Eu continuava a correr pelas ruas. junto ao arame farpado. O ar estava quente e o vento que soprava parecia o bafo de um forno. Basha. repentinamente...

a Akka. Sentia o coração bater com força no peito porque tinha o desejo de partir. mas estava triste e senti lágrimas nos olhos e o meu coração começou a bater porque eu queria partir. pela manhã. com as pessoas que iam e vinham pelas ruas como formigas." Fomos para junto do túmulo do velho Nas. que se amontoavam em torno dos poços. Pronunciava palavras que eu não compreendia. o apelo que Deus te enviou esta noite. Lá há muitas fontes e não . e os olhos brilhavam de novo. 209 Quando. no sopé da colina. ouvi a tua voz esta noite. o sol começava a sua ascensão. Não posso partir contigo. até ao vale em que nasci. Disse: "Julguei que tinha compreendido o teu apelo. Nejma." Quis tirar a minha mão e fugir. De repente. Saadi. Depois percebi 208 que eram orações e senti os Djenoune afastarem-se de mim. Continuou: "Quero que venhas comigo. Estás zangado comigo?" Olhou-me. mas ele segurava-me com tanta força que não conseguia. em nossa casa. Lá em baixo. quero falar contigo. com uma espécie de alegria que lhe iluminava o olhar. abandonaremme. havia o campo semelhante a uma mancha escura de onde subiam algumas colunas de fumo. Sentia o sangue pulsar nas suas mãos. O céu estava limpo. Compreendi que fora Deus que te mandara fazer aquilo. Largou-me a mão e sentou-se numa rocha." Falava sem pressa." Respondi: "Não pode ser. Basta que digas que sim e partiremos ainda hoje. com a mão suave poisada na minha testa. fitando a extensão do vale. A colina estava deserta. embora rasgada. Disse: "Nejma. Levaremos pão e alguma água e atravessaremos as montanhas. fiquei vazia e dominada por uma extrema fraqueza. Ouvia-me sem responder. Distinguíamos as formas das 211 mulheres junto dos poços e as crianças que corriam no meio da poeira.Ela ali estava. Sentei-me perto dele. subi à colina pedregosa. Mas agora não posso ir. Ainda não estava a dormir quando começaste a chamar-nos. Segurei-lhe por minha vez nas mãos de dedos longos e esguios." O olhar ensombrou-se-lhe. e a roupa. Era isso que me atraía e assustava ao mesmo tempo." Apontava na direcção do levante as colinas ainda sombrias. Ninguém te compreendeu. Ninguém nos pode reter. levar-te-ei a minha casa. de Roumiya e da criança que ia nascer. Quando chegámos à frente do seu abrigo. "Se quiseres partiremos hoje mesmo. o campo semelhante a uma prisão. Tinha lavado a cara e as mãos quando fora aos poços. estava limpa. Falei da minha cidade de Akka. sorrindo. Iremos até ao outro lado do rio. "Quando a guerra acabar. Vi que Saadi tinha mudado. silenciosa. Tinha medo. Falei para não ouvir o coração. Serás a minha mulher e teremos filhos se Deus consentir. Saadi veio ter comigo e disse: "Anda. Apertou com muita força a minha mão na sua e o seu olhar tinha um brilho que eu nunca vira. à hora da oração. Consegui andar apoiada pelos braços de Aamma. Falei de Aamma Houriya. vi que tinha feito um embrulho para a viagem: comida embrulhada num pano e uma garrafa de água atada com um fio." Andámos um bocado pela colina. a al-Moujib. ouvi diminuir o som das vozes. o campo estava muito longe. "Talvez parta um dia. Deitada na esteira. para onde devia voltar. mas eu ouvi o teu apelo e por isso me preparei. e o medo misturava-se com uma emoção que não compreendia por causa do brilho do seu olhar. Os cães ainda ladraram durante muito tempo e adormeci antes deles. Saadi. Ainda era cedo e não havia crianças." Disse aquilo com uma voz monótona. "Fala. em que as unhas formavam manchas claras na pele escura. "Foi então essa a mensagem que Deus te enviou? Eu fico também.

enquanto os pobres faziam bicha para receber as rações de farinha. comerciantes. Desatámos ambos a rir. O camião trazia refugiados. Quando ia aos poços. as rações tornaram-se cada vez mais escassas por causa de todo aquele afluxo de pessoas ao campo. Por causa deles. cantante. com os bons fatos já sujos de suor. Diziam que em al-Quds a cidade velha tinha ardido e que os combatentes árabes lançavam pneus incendiados para dentro das caves e dos estabelecimentos. como no princípio. homens. Ouvia a sua voz titubeante. A luz do sol ia dissipando a frescura da manhã. em frente da porta de Damasco? E a minha loja de loiças. Tinha poisado a cabeça no ombro de Saadi. Agora a morte atacava por todo o lado. Houve mesmo o rápido vôo de um pássaro. Mas não sabiam onde se haviam de instalar no campo. Eram pessoas mais ricas de Haiffa e de Jaffa. importunando-os até que lhes dessem algumas moedas. até um dentista. perto da estação dos caminhos de ferro? É verdade que foi bombardeado pelos ingleses?" Eles lá iam avançando no meio de todas aquelas perguntas. piscando os olhos por causa do pó. as crianças esfarrapadas rodeavam-nos lamuriando: "Foulous! Foulous!" Seguiam os recém-chegados. Havia boatos de guerra e contavam coisas terríveis. de leite Klim e de carne seca. chá e bolachas Maria. Isto foi quando chegaram os primeiros habitantes das cidades. no fim da estrada. Eram os motoristas que lhas vendiam às escondidas. mulheres e crianças de rosto devastado. nos ombros curvados. O seu dinheiro aqui não servia para nada. O camião de reabastecimento vinha cada vez menos freqüentemente: duas vezes por semana ou até mesmo uma só. da estrada de Am Karim? Viste o meu irmão? Vive na 213 casa maior de Suleiman. Já não eram camponeses pobres. Pouparam a minha loja de tecidos. onde há um estabelecimento de móveis. Ouvíamos o barulho do campo e as crianças que chegavam. pelo direito de poderem ficar mais algum tempo na sua casa. Não se passava uma semana sem que o camião de transporte viesse ao campo. Há quase dois anos que estávamos no campo. uma linda casa branca com duas palmeiras em frente da porta. Quando desciam do camião. estonteados da viagem. a passagem entre os arames farpados estava juncada de cadáveres e de cães que disputavam os . 212 Depois chegou o Inverno e a vida tornou-se difícil em Nour Chams. próximo da mesquita de Ornar? E a minha casa de al-Aksa. pelo preço de um lugar no camião coberto com um encerado que os tinha trazido até ao campo. no rosto das crianças onde o medo brilhava como um suor maléfico. com as malas amontoadas aos pés e embrulhados nos cobertores que tinham. o velho Serays. Depois. As pessoas do campo afastavam-se à frente deles. advogados. porque há já muito tempo que não víamos uma ave. soltando gritos agudos. o camião tinha trazido cigarros. Alguns dormiam ao ar livre. e pouco a pouco as interrogações iam cessando e o silêncio voltava a reinar. Quando os recém-chegados saíam do camião eram logo rodeados pelas pessoas que perguntavam: "De onde são? Que novidades há? É verdade que Jerusalém está a arder? Alguém conhece o meu pai. tentando ainda ler qualquer resposta às suas perguntas nos olhos vazios. a casa de Mehdi Abou Tarash? Sabem alguma coisa do meu bairro. Em vão o tinham distribuído às mãos cheias ao longo do caminho: por um salvo-conduto." Desmanchou o embrulho e sentámo-nos no chão para comer um bocado de pão.precisaremos de levar água. ao longo da ribeira subterrânea de al-Moujib. pela manhã. que falava do vale onde ele e os irmãos andavam com o gado. expulsos pelas bombas.

Chamavam-lhes os aidoune. para o Líbano. Vi pela primeira vez uma expressão perturbada nos seus 215 olhos. acariciando-a e falando-lhe. Murmurou: "Quero ficar aqui. Vi-a logo que entrei no barranco. gemendo com uma intensidade crescente e parando como que para retomar fôlego. O barranco ainda estava mergulhado na sombra. sentindo o . à frente dela. Quando entrei em nossa casa vi os lençóis atirados para o lado. incapaz de me mexer. com as pernas dobradas. porque voltariam um dia. iluminando a terra por entre a bruma. Já não podia dar banho a Roumiya." Depois recomeçou os seus queixumes ritmados pelas contracções do útero. era ainda de manhã cedo e o sol estava muito baixo. tentando adivinhar de onde tinha vindo. Roumiya já quase só saía de casa para fazer as suas necessidades no barranco. Aamma Houriya ergueu a cabeça. um grito que trespassou o silêncio da madrugada. O rosto infantil estava deformado pela dor e pela angústia e os cabelos molhados de suor. os retornados. Só lá ia comigo ou então acompanhada por Aamma Houriya. Havia uma frescura nocturna que atenuava um pouco o cheiro da urina e dos excrementos. Ouvi um grito agudo. os rapazitos de dez ou onze anos e até as mulheres partiam uns a seguir aos outros. incapaz de pensar. os sacrificados. Sentia o coração a bater porque o grito tinha penetrado dentro de mim e compreendera que tinha chegado o momento: Roumiya ia ter a criança. mas Roumiya afastou o véu e soergueu-se. Mas eu já não me demorava muito tempo." Ia afastar-me em busca de ajuda. Aamma Houriya estava cansada. Saadi não queria ir para a guerra. Estava deitada no chão. para o lado do Jordão. Ouvi-lhe de novo a voz. Aamma Houriya dirigiu-se-me com dureza: "Vai buscar água e lençóis!" E como eu continuasse sem me mover: "Despachate! Ela está quase a ter a criança!" Parti então a correr. Instintivamente. Os últimos a tirar só encontravam lama. cambaleando pelo caminho e segurando a barriga com as mãos. Ela já não pode andar. Iam para o norte. Queria continuar ali. Dizia-se que iam juntar-se aos feddaine. A bilha de água que eu tinha enchido de madrugada estava ainda intacta. embrulhada no seu véu azul e com a cabeça descoberta. As crianças não podiam aventurar-se longe de casa com medo de serem devoradas pelos cães. Foi no barranco que as dores começaram. Agora os poços estavam quase secos. Aamma Houriya estava sentada ao lado dela. que estavam rasos de lágrimas. como Aamma Houriya tinha visto antes de chegarem os ingleses. ou para leste. apesar das chuvas. Ajudem-me. Eu estacara de pé. Encontrava-me no cimo da colina. do outro lado do grande lago salgado. Ele não tinha medo. Deixei Saadi e comecei a descer a colina a correr. rosnando como animais selvagens. dirigi-me para o barranco. "Temos de a levar. Corri pelo meio dos arbustos. O seu olhar mantinha-se brilhante e agarrava-me na mão para me falar com a sua voz tão doce. Agora não gritava. esfolando os pés descalços nas pedras aguçadas. em al-Moujib. Era preciso esperar toda a noite para que tornasse a haver água no fundo dos poços.sobreviventes. hora para ver as chamas vermelhas dançando junto ao poço de Zikhron Yaacov. fora do campo. queixava-se. Era hora para os Djenoune. Quando subia à colina de pedras para ir ter com Saadi tinha que levar um pau na mão para os afastar. O único alimento eram as papas de aveia desfeita em leite Klim. Roumiya chegara à altura de parir e eu não queria estar longe quando isso acontecesse. O grito tinha soado uma única vez e eu estava na expectativa. não queria ser um retornado. 214 Os homens válidos. Esperava que eu partisse com ele para ir até ao vale da sua infância.

Roumiya arqueavase sobre os calcanhares. Olhava para Roumiya estendida. com a pressa. tinha o rosto transtornado. de onde o leite já escorria. Arqueava o corpo para trás. Roumiya. A roupa estava molhada pelas águas e sobre o seu ventre branco. Nunca tinha visto semelhante coisa. As velhas. agarrei nos lençóis. Atireilhes pedras. apertava os lábios como se quisesse impedir a voz de sair. mostrando-me o bebê minúsculo. com um cordão vivo em volta do corpo. Roumiya não era a mesma. expulsou a criança do seu corpo e deixou-se cair lentamente no chão. de repente. com os ombros apoiados nas pedras do barranco e o rosto voltado para o sol. Poisou-o docemente sobre o peito da mãe. A onda subia no ventre. como se fosse uma princesa. engelhado: "É uma rapariga! Uma linda menina!" Pronunciou aquilo com uma voz descontraída. 216 De repente. Olhou-me pela primeira vez com um rosto sereno. na bilha de água e. Recuaram mas voltaram de novo. Agora havia aquela forma. Aamma Houriya pareceu aperceber-se de repente do cheiro horrível. parecia uma máscara. As moscas enxameavam. deu o seu primeiro grito. tapou-as com um lençol limpo e sentou-se ao lado. Arquejava de boca aberta. cantarolando. depois quebrava e passava a uma respiração arquejante. Atrevi-me a aproximar-me. Ajudei Aamma a erguê-la para a embrulharmos no lençol. fraldas limpas. transformava-se em grito. aquele ser envolto no sangue e na placenta. Subiam-lhe por momentos da garganta gemidos de uma voz que não era a sua. como se outra pessoa a habitasse. Murmurou: "Dói! Dói!" Torci-lhe o pano sobre os lábios para que pudesse beber. com a roupa enrolada sobre o ventre martirizado pelas mãos de Aamma e os seios tumefactos de bicos arroxeados.sangue bater nos ouvidos e a respiração assobiar na garganta. Quando cheguei a casa. Depois. cortou o cordão com uma pedra e atou a ponta sobre a barriga da criança. um pouco de leite em pó que tinham retirado das suas rações. Via assustada o rosto contraído da velha que espremia a barriga de Roumiya e parecia-me que estava a assistir a um crime. Todas as manhãs vinham à nossa porta trazer um presente: açúcar. sofria muito. dilatado. mas a onda crescia mais e mais e o lamento escapava-se. O sol erguia-se agora no céu. a onda começou a mover-se mais depressa. Apesar da falta de comida e de água. como se na realidade nada se tivesse passado. nos declives. com tanta força como se quisesse fazer sair a sujidade de um pano na beira do lavadouro. 217 Agora que havia o bebê lá em casa a vida tinha mudado. . As crianças seguiramme. Deitado para trás. com um grito sobrenatural. Sentia náuseas e uma vertigem incontrolável." As mulheres trouxeram um cobertor e cinco levantaram Roumiya com o seu bebê apertado ao peito e transportaram-na lentamente. Aamma Houriya tinha colocado as mãos sobre o ventre e apoiava todo o seu peso. que Aamma Houriya tinha agarrado e começava a lavar e que. voltado para o céu luminoso. "Temos de voltar para casa. Os homens e as crianças ficavam à distância. Quando cheguei à entrada do barranco mandei-as embora. Até os vizinhos o sentiam. Abriu os olhos e olhou-me como se não me reconhecesse. Era simultaneamente belo e assustador. Passei-lhe água no rosto com um pano molhado. mas elas ficaram e treparam pelos lados do barranco para poderem ver. As mulheres começavam a chegar ao barranco. deitada no chão. a água saltava da bilha e molhava-me o vestido. surgira uma nova esperança para nós. que não tinham nada para oferecer. Quando Aamma Houriya acabou de lavar o bebê. as contracções pareciam formar ondas como à superfície do mar. como se tivesse encontrado o bebê num cestinho. subia até ao rosto.

no nosso campo miserável para onde o mundo nos tinha atirado. queimava as pálpebras e entorpecia os membros. sem sequer o coserem. Agora havia um coração no campo. para darem uma vista de olhos àquela maravilha: Roumiya sentada amamentando Loula. Ouvia a chuva tamborilar em todos os recipientes e sentia a mesma alegria de outrora. aquilo parecia-me tão bom como se estivéssemos numa casa com paredes bem secas e um lago no pátio onde a chuva fizesse soar a sua música. Mas queríamos convencer-nos que tudo isso se passava muito longe e que. havia um centro e era em nossa casa. À noite. . Aamma tinha colocado por baixo das goteiras todos os recipientes que conseguira arranjar: caçarolas. E Deus quis que a criança nascesse naquele barranco. Algo ia realmente começar: era a primeira vez. nem o meu pai. As crianças e os velhos morriam por causa das febres e das doenças provocadas pela água dos poços. Saadi. e eu encostava-me a ela mas sem fazer muita força porque 220 estava muito enfraquecida devido às privações. nem os meus vizinhos. e cavavam à pressa um buraco no flanco da colina. segurando no véu. Tinha chamado Loula à filha. nem nada do que conhecera. Uma noite. do alto da colina. longe de tudo. brincara: "Agora a velha planta vai reverdecer. os longos cabelos loiros caindo-lhe pelos ombros e a criança chupando o seio. Era a única criança que tinha nascido aqui. Al-marra al-loula. me dizia que nada voltaria a ser como dantes e que não tornaria a encontrar a minha casa. a fome e o abandono. Era um som que também me fazia sentir vontade de chorar porque me falava. Aamma Houriya não se cansava de contar o parto a todas as mulheres que a vinham visitar. Fora nesse Inverno que o nosso campo tinha conhecido o desespero. como se quisesse mostrar que a coisa mais bela pode aparecer no lugar mais nojento. Aamma Houriya vinha sentar-se a meu lado como se adivinhasse a minha tristeza. Para aproveitar a chuva. envolviam os cadáveres num lençol velho. Isso sucedia principalmente na zona mais baixa do campo. nada nos podia acontecer. As visitantes metiam a cabeça dentro de casa. raízes e ervas aromáticas. onde se tinham instalado os recém-chegados. Apesar da nossa miséria. Já não tinha aquele olhar estranho nem se ocultava por trás do véu. Estava muito magra e pálida e não parava de tossir. às vezes contava-me uma história de Djinn. em minha casa. Contava: "Imaginem que levei Roumiya ao barranco para fazer as suas necessidades antes do nascer do sol. Por vezes chovia e eu ouvia o som da água escorrendo sobre as tábuas e sobre o telhado de cartão alcatroado. latas de leite em pó vazias e até um velho capot de automóvel que os miúdos tinham encontrado no leito da ribeira. porque era a primeira vez. quando a chuva tinha começado a cair. como se tivesse sido um milagre. bilhas. no meio do lixo. Roumiya também mudara depois do nascimento do bebê. via as pessoas enterrando os mortos. Era realmente a primeira vez. Estava frio. graças a Loula. E eu achava que era verdade. Como não havia caixões. colocando em cima algumas pedras grandes para os cães vadios não os desenterrarem. o vento soprava sobre as pedras. Aqui. quando ouvia a água bater no telhado e no lajeado do pátio e regar as laranjeiras que o meu pai tinha plantado em vasos.traziam pedaços de madeira para o lume." Divagava incansavelmente sobre este tema que se ia tornando uma lenda que as mulheres contavam umas às outras. com o vestido branco muito limpo. Falava suavemente. E a verdade 219 é que a história inventada por Aamma Houriya a envolvia numa luz especial." Mas eu sabia muito bem que a chuva não lhe devolveria as forças.

mas continuava a espreitar. impalpável. à proa. Também trazia bagas selvagens e medronhos que ia colher muito longe. chegou ao nosso campo um estrangeiro acompanhado por soldados. Roumiya que amamentava o bebê ou que preparava a refeição com farinha e óleo. Aamma embalava o bebê embrulhado nos panos e ela cantava-lhe canções de embalar. troçava: "Vejam lá se trincam os dedos! Não comam as pedras!" Havia agora qualquer coisa estranha entre o Baddawi e Roumiya. os homens começaram a sair das cabanas e. envolta no seu véu azul. atrás deles. Podia imaginar que estava à beira-mar. Desci a colina a correr. Continuava a dirigir-se-me com a mesma voz doce e cantante mas eu adivinhava que já não era a mim que olhava. Ao longe. Os camiões e as outras viaturas tinham parado à entrada do campo e deles tinham saído homens e mulheres." Disse aquilo para a acalmar. que dantes desviava os olhos quando Saadi se aproximava da casa. pequenas aves e roedores que assava e partilhava connosco. Saadi sentavase do outro lado da porta e falavam e riam. com o meu pau na mão para afugentar os cães. as mulheres e as crianças. quando voltava dos poços. de folhas e de frutos de mirtilho. Roumiya sentava-se no limiar da porta. Não falava com ninguém e mantinha-se um pouco afastado como se esperasse qualquer coisa. Quando o comboio de viaturas penetrou no campo. precipitávamo-nos sobre os frutos para os comermos e chuparmos avidamente e ele. Sabia apanhar animais. azul. "Que dizem eles? Que dizem eles?" perguntava-me uma mulher com inquietação. Às vezes conversavam. porque julguei que eram os soldados que vinham para nos matar. ao crepúsculo. Alguns tiravam fotografias ou conversavam com os homens e distribuíam bombons às crianças. Os homens de branco falavam em inglês e eu não conseguia apanhar senão uma palavra ou outra pelo ar. sentado na pedra ao lado da casa. A luz do sol era deslumbrante e o vento levantava a poeira no fundo dos vales. Uma manhã. Então eu subia ao alto da colina. Pela manhã. Há já muito tempo que o camião das Nações Unidas não vinha. Ela. o horizonte era cinzento. a estrela verde do meu nome que o meu pai levava sempre consigo. Estava no alto da colina a vigiar quando a grande nuvem de pó se levantou na estrada de Zeita e compreendi que não eram os camiões com alimentos. semi-oculta no seu . Depois. era a silhueta de Roumiya oculta na penumbra da casa. Saadi conhecia bem o deserto. Quando trazia a sua colheita envolta num pano que poisava cerimoniosamente sobre a pedra lisa em frente da nossa porta. médicos e enfermeiras. As crianças andavam pelas colinas em busca de raízes para comer. Tinha ao colo uma criança de rosto emaciado e cabeça coberta de tinha. para além das colinas. Nunca poderia pensar que comer aqueles bichinhos tão pequenos me desse tanto prazer. na praia. Agora eu já não podia segurar a sua mão na minha nem poisar-lhe a cabeça no ombro para o ouvir. Já ali não havia crianças e era a única a vigiar a chegada 221 do camião de reabastecimento. O meu coração começou a bater aterrorizado. e que esperava a chegada dos barcos de pesca para ser a primeira a ver aquele que eu conhecia tão bem. Aproximei-me no meio da multidão para ouvir o que diziam. soldados. puxava agora o véu sobre o rosto como para se ocultar mas os seus olhos claros fitavam o rapaz.Agora era Roumiya que tomava conta dela. não precisava de ir ao alto da colina ter com Saadi porque ele estava já ali. com uma voz inalterável. "São médicos e vêm para nos tratar. deixaram-se ficar todos escondidos porque tinham medo. Roumiya a quem Aamma Houriya penteava a longa cabeleira. com a sua vela vermelha e.

as crianças brincavam com os ratos mortos e as mulheres atiravam-nos para longe com o auxílio de um pau. Notei como estava pálida e magra. apesar do vestido rasgado. um pouco avermelhado e inclinava a cabeça para o lado. Ele. as crianças que morriam todas as noites e que 222 enterrávamos todas as manhãs no sopé da colina. com medo que alguém os quisesse atacar. Tinha um rosto doce. Falei também dos médicos. ouvíamo-los correr sobre os telhados das casas. Durante a noite. Voltei para junto das outras mulheres e crianças.. viu-me e parou com os olhos fixos em mim. disse que o camião tinha trazido tudo: pão. o homem alto de fato claro. Os ratos tinham saído de todos os lados. leite. à luz do dia. mas não havia gasolina nem madeira para fazer uma fogueira. voltou-se para mim. Já não se tratava da morte furtiva que levava as crianças mais pequenas e os 223 velhos durante a noite. falar-lhe. Era da morte que eles fugiam. Estava tão cansada pelo que tinha feito que nem sequer sentia a dor dos braços nem o desespero de não ter conseguido dizer nada.véu. avermelhado pelo sol e os seus cabelos prateados. contar-lhe o que sofríamos. quando ainda madrugada ia . com um fato cinzento." Gritava aquilo com toda a força e queria que ele compreendesse apenas com aquelas palavras tudo o que eu tinha para lhe dizer. Corri para eles sem vergonha. olhou-me sorrindo e disse qualquer coisa que não compreendi mas que julgo que era apenas: "Good morning. Ainda bem. ouvindo o que lhe diziam os médicos. apertando-me os braços com tal força que me magoavam. Quando começaram a andar pelas ruas com os soldados o meu coração começou a bater com toda a força. Os soldados agarraram-me. A doença chegou ao campo apesar da visita dos médicos. como se me interrogasse. Pensei que devia ser o chefe dos estrangeiros e aproximei-me para o ver melhor.. carne seca. mesmo entre os homens mais válidos. Pela manhã. detiveram-me. ele estava de cabeça descoberta. Aamma Houriya dizia que era preciso queimá-los. óleo. o choro das mulheres que ressoava de um extremo ao outro do campo e que me obrigava a tapar os ouvidos e correr até à colina para não as ouvir. esse frio que penetrava no corpo dos mais fracos e apagava o calor da vida. elegante. Tudo tinha começado com os ratos que víamos morrer nas ruas do campo. Perguntou-me se os camiões com alimentos tinham chegado finalmente e. Mas ele. Compreendi que não conseguiria chegar até junto do chefe. com as unhas arranhando nos encerados e nas tábuas. Vi afastar-se pelo campo a sua alta silhueta clara com a cabeça um pouco inclinada para o lado. das enfermeiras e dos medicamentos. para a confortar. repetindo: "Que dizem eles?" No meio dos soldados havia um estrangeiro muito alto e magro. Agora era uma peste que percorria as ruas do campo e espalhava a morte em pleno dia. Os soldados não me viram logo porque estavam a vigiar os lados. Mas os soldados afastaram-me e o grupo dos homens de branco e das enfermeiras passou. que não lhe conseguiria falar. o chefe. Enquanto todos os outros traziam capacetes. Aamma Houriya estava deitada com o cobertor por cima. como se tivessem sido expulsos do fundo dos barrancos. e portanto gritei o que sabia em inglês e que era: "Good morning sir! Good morning sir!." Continuou deitada no chão com o cobertor por cima e a cabeça apoiada sobre uma pedra. Voltei para casa. Aamma Houriya murmurou: "Ainda bem. A princípio. dos cabelos emaranhados e do rosto sujo." E todas as pessoas avançaram com ele. Via perfeitamente o seu rosto doce. Queria ir ter com ele. a qualquer momento.

de Jaffa e de Haifa fugidos à guerra.. esperando ver o vulto de um homem ou de uma criança. Talvez tivesse mesmo assolado a terra inteira. flagelo enviado pelos Djenoune aos homens por ordem de Deus para que acabassem com a guerra. aliás. Fora ele que recebera no campo os médicos e o chefe dos estrangeiros. irmãos ou amigos dos mortos. Estava em pé. em Bedus. trepei o declive de pedras até ao cimo da colina. Nem sequer os cães selvagens lhes tocavam. Mas desde que vivia ao lado da nossa casa já não vinha até ao túmulo. No extremo norte. Lembro-me de ter vagueado lentamente pelas ruas. como nomes de demônios: "Habouba!.. As suas vozes agudas faziam ecoar palavras tremendas. Não havia por ali crianças e o Baddawi não estava no seu abrigo de ramos. Não havia vivalma. incríveis. como se o mundo inteiro tivesse sido tocado pela morte. A seu lado. talvez nunca mais viesse. A peste ia aniquilar todos os vivos de Nour Chams. Já ninguém espreitava a chegada do camião com alimentos e. Tinha-o visto com os soldados. que elas próprias não compreendiam. Não podia voltar para casa. Pensava em Aamma Houriya e tinha a certeza que as marcas fatais já tinham aparecido no seu corpo. quando todos tivessem morrido e a areia do deserto recoberto os seus ossos. Durante todo o dia vigiei do alto da colina. as mulheres choravam com o véu cobrindo a boca e o nariz. até ao túmulo do velho Nas. as redondezas dos poços estavam juncadas de ratos mortos.. com um lenço sobre o rosto. A notícia espalhou-se pelo campo porque as crianças. onde dizia que existiam as ruínas de um palácio dos Djenoune tal como no vale da sua infância. ouvindo os ruídos que vinham das casas. Kahoula!. mulheres e homens que a peste tinha atacado e que ardiam de febre e gemiam por causa da dor provocada pelos gânglios inchados e duros debaixo dos braços. amarfanhadas. Na sombra da casa estava estendido no chão o corpo de um rapazito. os ricaços de al-Quds. não era Aama que estava doente mas sim Roumiya.. Primeiro morreram as crianças que tinham brincado com os ratos. Desci antes do pôr-do-sol por causa dos cães selvagens que se aproximavam com a noite. Quando se ausentava era por vários dias. Ouvia o bater do meu coração e estava rodeada pelo silêncio. para caçar lebres ou perdizes nas montanhas de leste ou no norte. Olhara para mim quando eu correra para a frente deles. Fiquei durante todo o dia à sombra dos arbustos calcinados esperando não sei o quê. Deitada no chão sobre o lençol." Os gritos das crianças ressoavam no ar imóvel do princípio da tarde como gritos de pássaros sinistros. à frente da casa. no entanto. Saí sob o sol ardente e deambulei pelas ruas do campo. As pessoas escondiam-se na sombra das casas. fora já atacada . Apesar do calor. Era o dentista de Haifa. a morte estava em todo o lado. Talvez esperando que Saadi chegasse. os Djenoune regressariam e reinariam de novo sobre o jardim do paraíso nos seus palácios. Na casa sombria. onde tinham ficado os recém-chegados. Sentia-me angustiada. Não se ouviam as suas vozes mas eu sabia que aqui ou além havia outras crianças. O sol brilhava intensamente no céu sem nuvens e o calor fazia tremer as colinas de pedras em redor do campo. tentando falar ao homem de fato claro. descalça no pó. Tinha a pele do tronco e do ventre com placas de um 224 azul escuro e tanto no rosto como até nas palmas das mãos tinha manchas terríveis. ouvindo as vozes longínquas das mulheres. Tudo parecia adormecido e.buscar a água do dia. depois. no pescoço e nas virilhas. corriam pelas ruas gritando. sob aquela luz ofuscante. as pessoas estavam amontoadas em frente de uma casa onde havia um homem vestido como um inglês mas com as roupas sujas e rasgadas.

Aamma tinha-o confiado a uma vizinha. fósforos. sal e várias latas de leite Klim para a Loula. muito tempo. O rosto de Roumiya não fora afectado pela doença. voltei-me para olhar o campo. não dizia nada. Do outro lado. Aamma Houriya continuava sentada no mesmo lugar. com fundas olheiras negras em torno dos olhos. A sua respiração era acelerada. Quando o leite Klim acabou. Era tudo o que levava do campo. Tinha o rosto tenso e duro. farinha. Tinha um olhar tão agudo que conseguia distinguir o arame farpado que cercava a cidade e os postos de metralhadoras escondidos com pedras. caminhando do nascer do sol até ao meio-dia. como eu tinha feito no barranco enquanto Roumiya estava a ter a criança. Trazia perdizes e tâmaras selvagens. Como permanecesse imóvel. Lembrei-me quando ela chegara ao campo. deu alguns passos e sentou-se próximo da porta. De vez em quando. com o pano na mão. rasando as colinas. mais longe ainda. O seu rosto escuro brilhava como se fosse de metal. Era o silêncio da morte e eu não sentia uma lágrima sequer a humedecer-me os olhos. magnífica. imóvel. aqueles em que descrevera a minha vida dia-a-dia. Já não ouvia. junto da porta. parecia ter sido já há muito. Beijei-lhe a cabeça e saí. parecia muito alto e magro. Nunca esqueceria aquele rosto. Os olhos de Roumiya já não viam. sozinha no meio de um céu azul-negro. olhava-a sem se mexer. de pé. As aves mortas e as tâmaras espalharam-se no pó. como fazia nas ruas do campo. O seu olhar era duro. O bebê Loula não estava ali. Aamma Houriya estava silenciosa a seu lado. Era como se estivesse a dormir. os olhos fechados. próximo do túmulo do velho Nas. Saadi. O sol estava ainda baixo. 226 Em casa da vizinha arranjei um embrulho com pão. agarrei no embrulho e saí do campo pela estrada por onde vinham os camiões de reabastecimento. Lá fora a lua estava cheia. os cabelos louros molhados caídos nos ombros. Era uma morte como a da guerra. os . havia a fita negra da via férrea que atravessava os campos férteis e. A dado momento. A febre tinha-lhe tornado o rosto tumefacto e os olhos estavam injectados. por entre as colinas ressequidas. Saadi chegou de madrugada. esgotado. 227 Avançaram para sul. que gelava tudo em redor. Saadi tinha a garrafa de água pronta. e fechou também os olhos como se fosse dormir. ao lado de Roumiya. apoiado a um pau. Durante a noite. Aamma Houriya não saiu de junto de Rouniya. Aamma Houriya olhou para mim. Entrou em casa e fiquei atenta ao silêncio. Nejma disse que tinham que arranjar leite ou a criança morreria. Vamos morrer todos. Do topo de um promontório Saadi vigiou durante todo o dia. quase de ódio. Para não ouvir o som da respiração dormi cá fora. o seu rosto alterado. Entrei em casa por minha vez. Estava muito pálida. já nem sequer sentia a água que escorria sobre os lábios rebentados. como costumava fazer no alto da colina pedregosa. disse: "Vai-te embora! Parte! Agarra no bebê e parte. Juntei-lhes também os meus cadernos. a meu lado. em frente da porta da casa. mas o horizonte já tremia. Aamma molhava um pano na bilha da água e torcia-o lentamente sobre o rosto da rapariga. Na penumbra conseguia ver o corpo de Roumiya." Deitou-se no chão. Poisou-me a mão no ombro e fez-me avançar.225 pelo mal. com uma voz que nunca lhe ouvira. provocando um ruído doloroso e vagas de arrepios percorriam-lhe o corpo. embrulhada no meu cobertor e com a cabeça apoiada na pedra da soleira. Atei o bebê às costas com um véu. Embrulhada no seu véu azul. Tulkarm estava ocupada pelos soldados. Saiu. A água escorria-lhe pelos lábios e molhava o pescoço e os cabelos. De pé.

Ainda havia leite. durante o resto do dia. Caiu a noite e deitaram-se no chão com Loula entre os dois. O desejo cresceu no corpo do rapaz e ele desapertou a roupa. Nejma cantou-lhe as canções da sua infância. para si própria. preparando-se para morrer. Nejma sentia a vibração da sua vida. as estrelas brilhantes . que se assustaram. rodando com a sombra da árvore. durante a noite gélida e durante o dia seguinte ainda. aromático. O bebê bebeu sem tomar fôlego e a seguir adormeceu. o seu cheiro. Não pensava. Chegou até junto da árvore sem fazer ruído e disse a Nejma: "Vem ver. "Despacha-te. Estendeu-se à sombra de uma árvore para dar de beber a Loula. Nejma poisou o bebê no chão e aproximou-se da cabra com uma das últimas bolachas na palma da mão. Sentiu uma violenta alegria. com o olhar perdido no vácuo. tentou ordenhá-la mas as suas mãos não tinham força. Nejma deitou-a junto da árvore. "Agora já não morreremos. O leite morno e salgado escorria-lhe pela garganta e espalhava o seu calor por todo o corpo. docemente. Viu por várias vezes passarem sombras e o coração batia-lhe com força por julgar que era Saadi que voltava. Nejma sentiu uma vertigem e começou a tremer: "Tens medo?" perguntou Saadi sem ironia. Apesar dos panos que o envolviam. passando por cima do corpo do bebê adormecido. Não eram as mesmas que brilhavam sobre o campo. Ficaram durante um longo momento sem se mexerem. junto da árvore. tinha a pele queimada pelo sol e os lábios gretados." A voz era impaciente. Tinha a respiração acelerada como se tivesse corrido. Para o acalmar. havia apenas a noite fria lá fora." Um pouco abaixo. debatendo-se. Quando o animal se acalmou. pelo mesmo prato. sem ouvirem Loula choramingar no escuro. Correu para os animais. Há muito que Nejma não as olhava. como não sentia desde a infância. Nejma agarrou na mão do Baddawi e ele veio para junto dela. Saadi partiu de novo. Se Saadi não voltasse. Estava suspensa. foi isso sobretudo o que Nejma ouviu: o mar. A rapariga agarrou-se a ele. Saadi bebeu primeiro e Nejma a seguir. Já só havia um pouco de água açucarada para Loula e algumas bolachas Maria. envolvendo-o com os braços e as pernas e comprimindo o seu peito de encontro ao dele. Nejma ouvia na escuridão o cabritinho tropeçando nas pedras e depois as cabeçadas quando mamava na mãe. quase sem se mexer. excepto para fazer as suas necessidades. morreriam. Ajudou Nejma a andar.fumos do porto de Moukhalid e a vastidão do mar sombrio e irreal. a criança recomeçou a gemer. "Que bom!" Pela primeira vez. com a 230 cabeça apoiada no seu peito. Nejma voltava a ter esperança. inacessível. distante. O bebê sofria com sede e calor. Na segunda tarde. Saadi fitava-a sem falar. mas já não se lembrava 229 muito bem das palavras. com os olhos abertos no escuro. depois de Nejma ter feito a sua oração passando a mão pelo seu rosto e pelo da criança. As estrelas brilhavam no céu escuro. A cabra esticou a corda. Chegou o frio." Disse aquilo em voz baixa. Quando voltou. e o cabritinho desatou a correr pelo meio do mato. Ficou ali à espera. Saadi regressou. com o biberão em que desfizera as últimas colheres de leite em pó. Depois de beber. Nejma viu dois vultos claros atados a um arbusto: uma cabra e o seu cabritinho. Eram lindas ali no sul. As tetas túrgidas deitavam um leite espesso. Nejma deitou logo o leite quente no biberão e levou-o a Loula. Passaram sem se aperceberem da presença de Nejma. escutando a respiração de Loula. que também se dirigiam para o sul. Foi o Baddawi que mungiu a cabra para um prato de metal. Mas eram pessoas que fugiam de Tulkarm. um som estranho no silêncio das colinas.

ouviram no céu um ruído aterrador. Quando Nejma saiu já Saadi tinha ordenhado a cabra. entrou na água e nadou durante momentos contra a corrente. À luz das estrelas a ribeira cintilava entre as margens escuras. apertando a si a criança que chorava. entrou na ribeira. mas não viam combates. A água fria envolvia-a e formava turbilhões nas suas costas. embrulhada no véu de Nejma. nas montanhas. Deu o biberão morno a Loula e depois. A cabra e o cabritinho seguiamnos. A guerra espalhava-se por todo o lado. o vento murmurava nas folhas e havia morcegos no céu. como para caçar uma lebre. depois de Loula estar saciada. Saadi tinha ensinado a Nejma a forma de apertar as tetas tumefactas e fazer esguichar o leite. A rapariga sentiu o calor do seu hálito embriagando-a.e o corpo ardente de Saadi. para leste. despiu-se completamente. sob as acácias. Avançaram depois na direcção de Haouarah. Ficou com o sherwal e. bebiam o leite morno que lhes dava forças. "Não tem importância". com a água da ribeira a correr suavemente." Mas nunca tinha visto aviões tão de perto. Ouviam o som do vento nas folhas das acácias e o constante deslizar da água no vale. O troar dos canhões ressoava ao longe como uma trovoada. Aqui. a guerra. Entretanto." Saadi foi lavar-se na ribeira antes da oração. Envolveu-lhe o corpo com as pernas e os braços . comiam as mesmas raízes. al-Moujib. segurando o bebê contra o peito. cantando nas folhas das acácias. Em certos sítios deparavam com casas destruídas. carcassas de cavalos e de burros e buracos de obus no solo. Não entravam nas cidades com medo dos soldados. Quando ele a penetrou não sentiu dor. Um dia. mas Nejma falou-lhe docemente e a água acabou por fazê-la rir. alternadamente. bebiam da mesma água dos poços. disse Saadi. o seu sexo que a penetrava. Saadi inclinou-se sobre o rosto de Nejma e aflorou-o com os lábios. a doença que fazia manchas no corpo e no rosto dos adolescentes e que consumira o corpo de Roumiya. a sede. Voltou-se para o vale da sua infância. Comeram bagas de murta. Para conseguir agarrar na corda teve 231 que ser manhoso e colocar-se contra o vento. A criança dormia já numa cavidade da areia. para Jerusalém. e tocou a areia da margem com a testa. Nejma queria acender uma fogueira para se aquecer mas Saadi receava atrair a atenção dos soldados. Nejma ouvia a voz de Aamma Houriya repetindo: "Vai-te embora! Parte! Vamos morrer todos. durante toda a tarde. a cabra e o cabritinho fugiram pelo meio das moitas. O tempo estava fresco. Saadi e Nejma ficaram petrificados enquanto os aviões avançavam e a sua sombra corria sobre a terra. Nejma veio ter com ele. Quando estava já noite cerrada. rasgando-a. "Vão para o sul. tudo o que matava as mulheres e as crianças e expulsava as pessoas de suas casas. Os Constellations cruzaram lentamente o céu. Nejma tremia tanto que teve que sentar-se no chão. beberam pelo prato de metal. Correu para apanhar a cabra. Ao cair da noite chegaram ao vale de Azzoun. pelo meio das colinas. Instalaram-se na margem da ribeira. um olival abandonado desprendia um aroma sereno. o cheiro das árvores e o som do vento nas acácias e nas palmeiras anãs. Loula chorou. Quando os aviões desapareceram no horizonte. distinguindo de vez em quando a linha escura do mar. esqueciam a fome. Um pouco recuado. Subiram depois o curso das ribeiras secas até Djemmal. figos selvagens e algumas azeitonas amargas. traçando um semi-círculo de que Nejma e Saadi pareciam ser o centro. Todos os dias avançavam um pouco mais para sul. quando se aproximavam de Azzoun. O vento soprava em rajadas. Comiam bagas de murta e medronhos. Todas as manhãs e todas as tardes. Saadi e Nejma deitaram-se sobre a roupa.

Nejma não quis entrar. quando já estava realmente frio. Nejma pensava que talvez a guerra já tivesse acabado e estivessem todos mortos nos campos. 232 cada vez mais forte. cada vez mais aceleradas. Neste vale os dias eram longos e belos. A água brilhava como um caminho de pedrarias entre as margens ainda escuras. apenas com o som monótono da ribeira. Pela manhã. molhando alternadamente os lábios no prato de metal. em Tulkram. Nejma via a luz do sol que nascia no intervalo das colinas sobre a água da ribeira.e as mãos rodearam-lhe a nuca. O céu clareava e as colinas rochosas saíam da noite. quebrando a colmeia para tirar os favos. Saadi chamava Nejma "minha mulher" e ela ria. na margem da ribeira. e as palpitações do seu coração. O incêndio tinha queimado tudo em redor da quinta. onde a ribeira formava uma bacia de água profunda. quando os seus corpos se uniam. era o mesmo. Descalço. Um dia tinha descoberto uma colmeia pendurada nos ramos de uma acácia. azul como o mar. Instalaram-se para ficar no fundo do vale. Lavava o corpo. sob o abrigo. cenouras bravas e outras raízes que Nejma não conhecia. e o vento frio da noite começava a fazer barulho nas folhas das tamargueiras. Nejma tinha saboreado. Ouvia o som da respiração. quando tudo acabava. Disse que era uma casa de mortos. Saadi guardou as cabras no curral e construiu um abrigo de ramos mais abaixo. Saadi e Nejma bebiam o leite de cabra ainda morno. ásperas e amargas. Os dias passavam-se assim. até o curral. Conversavam. os gritos e os choros de Loula e os balidos doces da cabra e do cabritinho. Via a água correr na bacia profunda: há muito que não sentia uma tal paz. quando o seu hálito e o seu . que os pássaros roçavam de passagem. com os olhos semicerrados. no intervalo entre as colinas. acendia o lume com os ramos secos que Saadi trazia. Gostava particularmente do fim da tarde. do nascer ao pôr-do-sol. Só acendiam o lume de madrugada porque Saadi garantia que os aviões não os podiam ver por causa do nevoeiro. como se fossem os primeiros ou os últimos. tamargueiras e oliveiras bravas. com a túnica de lã e o rosto e os cabelos ocultos pelo longo véu branco. Nejma ficava sentada com ela à sombra das tamargueiras. Era como se não vivesse mais ninguém no mundo. Nejma ia até à água. Os morcegos surgiam no céu cinzento e passavam rasando a bacia de água profunda à caça de mosquitos. Quando Loula acabava de beber o seu biberão. o rosto e os cabelos voltada para o sol. Saadi voltava-se para a noite invocando o nome de Deus e depois vinha sentarse ao lado de Nejma. Nas margens havia acácias. deliciada. em Nour Chams. Saadi procurava comida. Cozia na marmita cercefis. como um fruto do 233 sol. percorria as colinas pedregosas em busca de raízes e bagas de murta. As estrelas brilhavam à sua frente. enquanto Loula adormecia. Era um momento tão ardente que lhe parecia sempre ter vivido apenas para ele. aquele mel espesso que embebia os favos e até Loula tinha chupado algum. Talvez os soldados tivessem voltado para casa. Saadi inclinava-se docemente sobre os lábios de Nejma e ela bebia o seu hálito de vida. Mais tarde. Depois de fazer a oração. podia sonhar com o bater do mar nos rochedos e com os gritos das gaivotas quando os barcos dos pescadores regressavam ao molhe. deixando Loula a dormir embrulhada nos seus véus. Acendera uma fogueira com folhas secas até que o fumo fizesse sair as abelhas e trepara então à árvore. Numa colina acima do vale Saadi descobriu as ruínas de uma quinta: paredes de pedra e adobe e os restos de um telhado calcinado.

sem compreender. Chegaram ao grande rio antes da noite. A água lodosa corria no vale por entre grandes árvores. Saadi estava atento. ao chegarem ao cimo de uma montanha não longe de Houarah. Algumas interpelaram Saadi: "E tu? Por que não estás a combater? Por que foges com as mulheres em vez de agarrares na tua espingarda?" Saadi não respondeu. invocando os nomes dos filhos mortos. Saadi abriu uma cova na terra e enterrou-o. levando à sua frente a cabra e o cabritinho. Ouviram então o choro de crianças. A conjuntivite nublava-lhe a vista. do pai. Eram fugitivos como eles. "É teu filho?" Afastaram o véu e viram que era uma menina. junto ao seu ouvido. ao lago salgado. queimadas. Tulkarm e Kalansaoueh. calmamente. subindo o vale até a ribeira se transformar numa torrente de água límpida correndo por entre os rochedos. havia por todo o lado . Uma manhã. Nejma mentiu: "É a minha primeira filha. Era o primeiro lugar onde tinha podido viver sem pensar na guerra. até Mejdel. que caminhavam de noite e se escondiam durante o dia." As mulheres desataram a rir. embrulhado na sua tú-i nica.suor se misturavam e tudo desaparecia em redor deles. Era como antigamente. atrás dos rebanhos. "Então tiveste esta criança da primeira vez que te deitaste com ele!" Saadi queria ir-se embora. "Os soldados já lá estão. Saadi mostrou a Nejma uma sombra verde no horizonte: "É o Ghor. Estava tão cansada que adormecia no chão. dos rebanhos que conduziam para o vale onde corria o grande rio. Saadi recitava em voz baixa. Mas Nejma olhou em redor com tristeza. homens prisioneiros ou em fuga para a montanha. o grande rio. Entoava-o para ela e para si próprio e depois deitava-se também. pronto para se defender. Junto às margens. Chama-se Loula. mas as tetas gretadas davam pouco leite. mulheres e crianças nas estradas com pacotes de comida à cabeça. As velhas salmodiavam. misturado com sangue. Para os cães vadios não o desenterrarem. Havia soldados por todo o lado. Quando as mulheres viram que Nejma segurava uma criança deixaram de o invectivar. dirigiam-se a alQuds ou mais longe ainda. As mulheres contavam coisas terríveis: aldeias destruídas. ao acordar. Para ele partir era normal. De madrugada. um cântico que falava do seu vale natal." Para contornarem as falésias dirigiram-se para sul. Caminhavam sombras pela beira do rio e detinham-se junto à bacia. antes de descerem para o rio. Partiram ao romper do dia. foram acordados por pessoas que se aproximavam. Percorriam as estradas nos blindados. animais mortos. em Akka. Loublan e Djidjiliah. na direcção de Yassouf. da mãe dos irmãos. Disse-o. Subiam nuvens de poeira no ar. um poema. Depois mugiu a cabra. Depois. Nejma foi à ribeira levando 234 Loula embrulhada no véu e viu os recém-chegados: eram apenas mulheres e crianças vindas dos campos de Attil. ou das cidades da costa Jaffa. sem ouvir o choro da criança. quando Nejma sentia o sono entorpecer-lhe os sentidos. Os que tinham tido sorte tinham-se metido em camiões para irem até ao Iraque. junto às muralhas. a primeira vez. e depois novamente para levante. De manhã. ÍVloukhalid e Tantourah. A cabra permanecia a seu lado e empurrava-o com os chifres. Desde criança sempre agarrara nas suas coisas e caminhara pelo deserto. Saadi tinha visto que o cabritinho estava morto. Uma noite. colocou sobre o seu túmulo pedras da ruína romana. quando olhava o mar e não precisava do futuro. Saadi olhava o grande vale com inquietação." Mas Nejma não conseguia vêlos. 235 Dormiram nas ruínas de Samra. Dizia que agora iam vir mais pessoas e que os soldados os apanhariam.

De vez em quando. sob o véu branco. para o Líbano. Saadi e Nejma atravessaram o rio antes do anoitecer. como se houvesse um fogo ardendo nas profundezas. A estrada não tinha fim. o rapaz que na praia nos tinha dado borrego para comer quando chegámos pela primeira vez. Seguiram para o sul. Ao crepúsculo encontraram outros fugitivos. o rosto estava ressequido e escuro. Dava uma grande volta e regressava para junto de mim. Quando entrámos no kibutz foi ele que nos mostrou as casas. Estavam magros. desenhando linhas sobre as faces e molhando a borda do véu poeirento." Disse tudo aquilo com a sua voz serena. para os campos de Amman. uma espuma amarela formava uma barreira que tremia ao vento. onde a água do rio transbordava. 237 O FILHO DO SOL Ramat Yohanan. do outro lado da planície. para al-Riha. pela ponte guardada pelos soldados do rei Abdallah. saía com o rebanho de cabras e ovelhas. Nejma viu pela primeira vez o mar de Lot. Era o pastor. a torre e os reservatórios. queijo . Alguns estavam descalços. mantém os mesmos olhos risonhos e os cabelos são negros e encaracolados como os dos ciganos. era Yohanan. mas as lágrimas corriam-lhe dos olhos. O sol brilhava bem alto no céu. Quando o dia nasceu. os estábulos. brilhava para todos. O sol ainda não se erguia no céu mas o sopro do vento já era quente.vestígios dos homens: marcas de lagartas dos tanques. de Wadi al-Sirr. de Madaba. 236 As mulheres e as crianças começavam a atravessar a ponte. a fronteira. os camiões com toldo dos soldados passavam na estrada com os faróis acesos. excrementos. Talvez também eles tenham partido. Começaram juntos a seguir pela estrada de Amman." Tinha a roupa em farrapos. rastos de botas. 1950 Tinha encontrado o meu irmão. as montanhas que a bruma esbatia: "É al-Moujib. Mas isso não tinha importância. poisando os pés nas pegadas dos que os tinham precedido. Os que ainda tinham forças partiam para o norte. Levava num saco a tiracolo pão. Nunca veremos os palácios dos Djenoune. agora. Yohanan continuava a falar apenas húngaro e. fruta. o grande lago salgado. Tem um rosto muito doce. de madrugada. pneus furados. As crianças morriam em tão grande número que tinham que deitar os corpos nos canais secos. procurando um seio para chupar. Levava os animais a pastar do outro lado da planície. distingui as casas dos drusos. de Djebel Hussein. Sobre a água havia estranhas nuvens azuladas e brancas que corriam para as falésias. para o país branco. Saadi mostroulhe. Junto à margem. O calor era subterrâneo. Vi brilhar o lago por entre as macieiras e na colina. "Nunca chegaremos a al-Moujib. Desta vez eram homens que vinham de Amman. Era vivo e ligeiro e corria pelo meio do mato sempre acompanhado pelo cão. o vale da minha infância. rumo a Salt. para sul. algumas palavras de inglês. Os fugitivos seguiam pela estrada na direcção de levante. a poeira formava uma nuvem cinzenta que o vento erguia em turbilhões. para Damasco. Nejma fitou o mar com os olhos ardentes. os pés descalços feridos pelas pedras e. Sob os seus pés. Todos os dias. Saadi atou a corda da cabra ao pulso e passou o braço sobre os ombros da mulher. Fui com ele até à orla dos campos. queimados. Ria por qualquer coisa. nas colinas. arquejante. Ficaram durante toda a noite à beira do rio. Contaram dos campos onde as pessoas morriam de fome e de febre. Não sei se ele nos tinha reconhecido. Fitou Nejma e Loula que gemia com a boca colada ao véu. esfarrapados. Falávamos com as mãos e eu lia nos seus olhos.

Iríamos para o Canadá. pássaros levantavam vôo. as árvores brilhavam suavemente e havia morcegos em redor das lâmpadas. Seria na Primavera. Jacques combatia na fronteira síria. em silêncio. ouvíamos música. tão distantes. Depois o sol erguia-se no horizonte e o céu tornava-se de um azul muito intenso. sentado num tamborete no meio da sala. para os lados do Tiberíades. com o pára-brisas estalado. A noite estava clara. voltava a partir no carro com os amigos. num velho Packard verde todo esmurrado. a música. Terminada a licença. o sono que flutuava à nossa volta. discos de jazz. danças estranhas que embriagavam. Dançava com Jacques. Às vezes conversávamos. vestidos com as mesmas calças e blusões de tecido grosseiro e calçados com sapatos de grossas solas. O vinho dava-nos a volta à cabeça. vinha comigo até ao campo. Depois íamos passear ao ar livre. O sol brilhava sobre o mar. Nunca o esquecerei. quando ele voltasse da tropa. à nossa frente. íamos casar. Jacques queria estudar medicina. fumando. para lavar e arranjar as roupas de trabalho. Depois do amor. Às vezes era eu que lhe levava uma refeição quente. como crianças apaixonadas. Não queria que a minha mãe soubesse. As noites eram suaves. cor de veludo. Achava que tudo aquilo era eterno: a noite azul. Ela não me perguntava nada mas creio que desconfiava. Imaginava que éramos crianças. em direcção à fronteira. íamos juntos até 241 ao mar. De manhã os campos estavam congelados pelo frio da noite. Os rapazes e as raparigas trabalhavam juntos. Tinha sido colocada na lavandaria. Avançávamos agachados para colher os tenros caules das beterrabas. bebia do seu copo de vinho branco e poisava-lhe a cabeça no ombro. íamos de mãos dadas.e qualquer coisa para beber. andávamos pelas ruas de Haifa e víamos as montras. Havia uma névoa leitosa agarrada às árvores e às colinas. tão sonhadores. Sentia o seu calor e o cheiro do seu corpo. Sentia-se demasiado velha para . Ficava várias semanas sem o ver. Recordava o cheiro do seu corpo. Partiríamos quando Jacques tivesse terminado o serviço militar. o zumbido dos insectos. Casar-nos-íamos e partiríamos. Era Nora que nos emprestava o quarto para fazermos amor. Atravessava os pomares de macieiras e quando chegava à orla da planície escutava o barulho das ovelhas para saber onde estava o rebanho. Ou então íamos para o Monte Carmel e ficávamos sentados no pinhal. Nas noites de shabbat a música do acordeão chegava em lufadas. Dizia que era demasiado perigoso. À tarde. poisava o ouvido sobre o peito de Jacques e ouvia bater o seu coração. O trabalho consistia em arrancar as pequenas plantas de beterraba de forma a que ficasse apenas uma de vinte e cinco em vinte e cinco centímetros. Entrámos no kibutz de Ramat Yohanan no princípio do Inverno. As mulheres dançavam. 242 OS campos eram imensos. o vento fazia barulho entre as agulhas e havia um odor a seiva. Jacques dizia que isso não tinha importância porque era apenas um ritual para fazer a vontade à minha mãe. o calor dos nossos corpos unidos sobre a estreita cama de campanha. Elizabeth ficava no campo. Yohanan tocava acordeão no refeitório. Sempre que tinha uma licença vinha com os amigos. como uma respiração. Ouvíamos o zumbido dos insectos por todo o lado. Os regos dos campos estavam cheios de trabalhadores que faziam um barulho de aves. para Montreal ou para Vancouver. De tempos a tempos. A luz da lâmpada eléctrica fazia brilhar os seus cabelos negros. Não queria que eu lá fosse.

koul! As crianças riam. as crianças desciam logo que o rebanho chegava perto da colina. onde o lago brilhava por entre os arbustos. na direcção das brumas marítimas. as mesmas que costumava tocar no acordeão. Esther molhou os lábios: o vinho era fresco.andar lá fora todo o dia. como se o pai fosse aparecer e caminhar também sobre as rochas. Às vezes deitava-se no chão. agarravam nas coisas sem dizer nada e recuavam para os rochedos. envergava um vestido comprido azul celeste e os cabelos estavam entrançados com fios de ouro. maçãs. Quando viam Esther e Nora sentiamse mais seguras e desciam mais. paravam para repousar. A princípio. Nora também sofria desse ardor quase até à loucura. tinha mais ou menos a idade de Esther. o olhar das crianças. Trabalhava com Nora. fumando um cigarro a meias. Não se cansava de sentir o sol queimando-lhe o rosto. bananas. com as silhuetas recortando-se contra o céu como se fossem aves. Desceu uma mulher com elas. as mãos e os ombros através do tecido da camisa. Entregou os alimentos e voltou a descer para junto de Nora e Yohanan. trepando pelas pedras até onde estavam. descendo pela colina pedregosa. Esther tirava a comida do saco: pão. vindo sentar-se nas pedras para ouvir Yohanan tocar a harmônica. Esther e Nora iam levar comida ao pastor. Avançavam ao mesmo ritmo ao longo dos regos. . Depois a jovem pegou de novo na bilha e tornou a subir pelas rochas até ao cimo da colina. era já manhã e um novo dia de trabalho começava. Pelas quatro horas. Yohanan agarrava na harmônica e começava a tocar danças húngaras. Restava apenas aquele silêncio. mas para Esther era simultaneamente duro e magnífico. o gosto do vinho na boca e o brilho do sol. lá nas colinas. na linha das colinas. Era silencioso e assustador. As pernas entorpecidas já não as seguravam. mais audaciosos. As crianças da aldeia aproximavam-se timidamente. Yohanan parava de tocar e fazia sinal para que se aproximassem. "Não faças isso senão adoeces. Esther aproximava-se das miúdas. leve e um pouco ácido. Dava-lhes a fruta e partilhava o pão. como se nunca tivesse havido nada antes. sentadas na lama. Depois vieram os homens. Tinha em si o ardor do sol. Um dia. conversavam e riam por andarem como patos. Eram tão pobres que lhes víamos a pele escura através dos buracos da roupa. no alto da colina. Ficavam no alto. Era por todos aqueles anos perdidos. por aqueles anos anulados. e tentava falar com elas. De vez em quando. agarrava no cajado e as ovelhas e as cabras começavam a dirigir-se para o centro da planície. Nos dias seguintes. Quando acordava. Quando o sol se aproximava do horizonte. enchendo os sacos de juta com os rebentos arrancados. Esther atreveu-se a trepar até junto deles pelo meio das rochas. durante tanto tempo que Esther tinha que a abanar para a obrigar a levantar-se. Logo que as via chegar. Yohanan bebeu a seguir e Nora 244 também. Usavam a longa túnica branca dos drusos e cobriam a cabeça com um grande lenço branco que dançava sobre a nuca. Mas os homens não se aproximavam. Yohanan reunia os animais. Acabavam o trabalho arrastando-se sobre os fundilhos." Quando não havia trabalho nos campos. Ofereceu-lhes uma bilha de vinho. Esther voltava para o seu quarto e 243 estendia-se na cama enquanto a mãe ia jantar. Esther sentia que tudo era imutável. Os rapazes. aatani. repetindo as palavras como se fossem de uma língua estrangeira. Mas no fim do dia estavam tão cansadas que mal conseguiam andar. utilizando algumas palavras de árabe que tinha aprendido no campo: houbs. Levava pão e fruta que deu às mulheres. com os braços abertos em cruz e os olhos fechados. Assobiava ao cão.

Quando trabalhava nos campos de beterrabas com Esther. exclamações e apelos que traduzia para Esther. Não havia qualquer som a não ser o da água que corria nos canos e gotas que caíam regularmente. Mostrava a Esther os anéis da cauda que mostravam a força do seu veneno. ou então Esther adormecia com a cabeça apoiada na anca de Nora. por vezes. do chão ao tecto. era o seu único público. vestia-se de negro como uma siciliana. a mãe e a irmãzinha tinham desaparecido. Nora encontrara a chave que abria a porta por baixo do reservatório. chorava porque as tinham destruído. Andava de um lado para outro na grande sala recitando poemas em voz alta. a fronteira onde Jacques combatia. sacos de juta velhos. Só lá havia caixas. Mas não tinha importância. mas Esther não o deixara: "Não podes fazer isso. Nora era italiana. Esther. O pai. procurando outro abrigo." . Dizia poemas de Garcia Lorca e de Maiakovski. Nora agarrava neles com dois pauzinhos sem lhes fazer mal e observava a glândula de veneno tumefacta e o dardo em riste. Fora Nora que o descobrira e refugiavam-se lá à tarde quando estava demasiado calor. "Olha. A primeira vez que Jacques entrara no quarto tivera um movimento de repulsa. Depois dizia versos em italiano. Era estranho e inquietante. Desde que lhe tinham pintado o quarto de branco dizia que era ali que vivia. A sombra da folhagem era fresca e ficavam ali um bocado. No dia em que os milicianos apareceram estava em casa de uma amiga e sobrevivera durante a guerra escondida numa cave." Um dia. "Vês o sangue a brilhar sobre as pedras?" Levantava as pedras lisas e divertia-se a fazer aparecer os escorpiões que fugiam sobre a terra poeirenta. Nora descobria escorpiões brancos. tinham pintado o quarto e tudo ficara de um branco gelatinoso. insultando os que tinham feito aquilo. detectava imediatamente as aranhas aninhadas sob os caules. à tarde. Esther e Nora iam sentar-se nas plantações de abacateiros. A plantação ficava numa elevação e via-se dali todo o vale. Tinha um olhar vago e um vinco amargo de cada lado da boca. Era uma grande sala vazia iluminada por duas seteiras. Quando não estava com a roupa de trabalho. Era escuro e frio como uma gruta. passagens de Dante e de Petrarca. "De qualquer forma. por entre os abacateiros. Ao longe. deixava as aranhas fazerem as suas teias no tecto. Esther ouviaa. No seu quarto. veementes e trágicos. conversando e fumando. Por baixo das pedras. vagueava pelo campo gritando. Eram poemas parecidos com ela. Era por causa das aranhas. Nora ficara furiosa. Também ele achava que Nora era um pouco louca. é preciso ser-se um pouco louco para fazer o que aqui fazemos. e outros muito pretos. Levantava-as 247 suavemente com uma ervinha e colocava-as mais longe para que não lhes fizessem mal. textos de Pavese: Virá a morte e possuirá os teus olhos. Nora dizia: "Sabes o que era bom? Trazer as crianças para aqui e ouvi-las cantar e brincar. levados pelos fascistas. Queria fazer teatro. algures." Jacques tinha-se habituado. há sangue por todo o lado." Dizia coisas estranhas. Mais longe ainda. Esther e Nora tinham um esconderijo no fim dos edifícios. o que dava origem a estranhas estrelas cinzentas que estremeciam com as correntes de ar. Dizia que podia domesticá-los e ensiná-los a fazer habilidades. À noite. de Livorno. Tinha querido varrer as teias. viam-se os clarões dos morteiros como relâmpagos de tempestade. viam-se as colinas escuras para os lados do Tiberíades e as manchas claras das aldeias árabes. enquanto Nora estava nos campos. cabos e bidões vazios.245 ÀS vezes. por baixo do reservatório da água. são as amigas dela. quando o sol declinava. mas nunca se ouviam os trovões. quase transparentes.

Era o primeiro dia. Jacques dissera com simplicidade: "Vou daqui a bocado. pintadas com o mesmo branco gelatinoso. quando. com a frase de hebreu suspensa no quadro preto. Jacques e Esther trabalhavam lado a lado. Lia: "Irmão. como se tudo fosse ser novo. que não houvesse 248 lugar para o vazio da memória. um caderno igual àquele em que Nejma escrevera o seu nome a caminho do exílio. permanecendo deitados com os corpos colados um ao outro e as respirações misturadas. A amiga tinha desaparecido no fundo da sua memória. tudo era lavado pela luz do Inverno. cobria-a de beijos. Tinha começado a colheita das pamplumossas. O rosto pálido parecia iluminado como uma máscara acima do vestido preto. abraçava-a. Mas Esther não queria ouvir falar disso. 249 Houve a Festa das Luzes que todos esperavam. À tarde tinham ido para o quarto de Nora. Sentava-se na cama a seu lado. como uma irmã. fitando a parede demasiado branca. Errava como uma louca. A sala do refeitório . Nora ajoelhava em frente de uma garotinha. Nessa altura ainda Jacques estava com ela. Tinha copiado os poemas de Hayyim Nahman Bialik no seu caderno preto. porque partilhamos a tua dor. Era a primeira vez. Cruzava-se com Esther sem a reconhecer. Esther também se lembrava das palavras do Livro da Criação. Quando se acendiam as hanoukkas. quero ver a Vera já!" Ia até à casa das crianças. Estava em Livorno e os homens da milícia tinham levado a sua irmã Vera. porque estamos fatigados. Caminhava ao ar livre. Nora olhava em frente. pelo meio das ervas altas que cresciam em redor do reservatório. Procurava serpentes. as prisões. e depois adormecia de repente. Esther agarrava-a por um braço e levava-a até ao quarto. a terra devastada. Não encontrei a minha luz nas lições da liberdade nem a recebi do meu pai. as ruínas. apesar do ar frio. Era aquela noite que não conseguia esquecer. Esther lembravase que o pai costumava dizer que era preciso recomeçar tudo desde o princípio. os campos malditos onde os homens morriam. entrava na sala de aulas e o professor estacava. Funcionava nas salas do refeitório. Esther queria que tudo se mantivesse preenchido. ficava envergonhada e pedia desculpa em francês e em italiano pois não sabia mais nenhuma língua. o frio da manhã e o fogo novo como um nascimento. lembrava-se das chamas das velas na igreja de Festiona. deitando-a na cama com muita doçura. Tinham mesas e cadeiras para o seu tamanho. Era mais forte do que ela: havia momentos em que Nora não suportava ficar sozinha no reservatório. Então.Pairava um silêncio denso como uma expectativa. começasse a chorar. Nora compreendia onde estava. irmão. assustada. gritando esse nome: "Vera. Mordi-a na minha própria carne. Devia partir imediatamente a seguir à festa. O pomar enchia-se com o barulho de todas aquelas mãos que apanhavam os frutos. de repente. tem piedade dos olhos negros abaixo de nós. sem dizer nada. Vera. que também serviam de escola. as estrelas se tinham iluminado. A casa das crianças era no centro do kibutz. O sol estava quente. ao terceiro dia." Esther sentira as lágrimas inundarem-lhe os olhos. quando tinha sido acesa a primeira hanoukka. com o barulho da água e aquela luz deslumbrante lá fora. como se tudo fosse recomeçar. talhei-a no meu próprio coração. falava-lhe em italiano até que a criança. mas as paredes esTavam despidas. Tinha acabado. Era uma manhã magnífica.

foi a vez do cow-boy abrir a porta do curral e levar as vacas a beber ao lago. Adormeceu. no caderno igual ao que ela tinha exibido no pó do caminho e onde tinham ambas escrito os seus nomes. De longe em longe. as vozes das mulheres e das crianças. em Roquebillière. Tudo era cinzento. Estava com um vestido leve e os pés nus calçavam sandálias beduínas compradas com Jacques no mercado de Haifa. Os cabelos e a barba de Jacques brilhavam como se fossem de ouro. Era tão cedo que não havia qualquer movimento no campo e apenas alguns pardais esvoaçavam entre as árvores. uma alegria como nunca antes sentira. Já existiam quando estava 253 em Nice ou na montanha. Esther recomeçou a caminhar pelos campos. Nora não queria ficar só. Elizabeth foi-se deitar. Já havia sombras e as silhuetas das árvores destacavam-se no alto das colinas. O canto dos pássaros. Achava que cada um deles lhe era dirigido. A dado momento. sentiu esse peso. Ou talvez a escrevesse para Nejma. A terra estalava sob os seus passos. Elizabeth molhou um pano e colocou-lho na testa para a acalmar. qualquer coisa que acontecera e que não podia compreender. à luz da lamparina. À medida que avançava o dia ia clareando. Sentia um vazio muito grande dentro de si e não sabia porquê. na escuridão. iluminando o cume das árvores e provocando . a voz rouca de um galo. Esther ia reconhecendo uns a seguir aos outros. silenciosamente.estava cheia de pessoas. Esther dirigiu-se ao reservatório e depois continuou a andar na direcção da plantação de abacateiros. Antes mesmo de ter a prova física. a vibração dos tubos e dos aerodínamos. As raparigas vinham ter com Esther e perguntavam-lhe em inglês: "Quando te casas?" Esther estava com Nora e embriagara-se pela primeira vez. sem o ver. 251 Bebiam ambas vinho branco pela mesma garrafa. de repente. Esther começou a escrever uma carta. Na cama. desatou a chorar sem razão. Os pássaros levantavam vôo à sua frente. ao lado de Nora. bandos de estorninhos prontos para a pilhagem que pairavam sobre os campos e deslizavam até ao lago. Não era a primeira vez que Jacques partia para a fronteira. Seguraram-na as duas enquanto vomitava e depois ajudaram-na a seguir até ao seu quarto. Os ruídos começavam pouco a pouco. Falava de Itália. em Saint-Martin. Tinha medo. era isso. Esther acompanhou-a até cá fora. Elizabeth dormia ainda. havia música e vinho para beber. Uma alegria. estático. Conhecia-os. o zumbido da bomba da água. Sentia-se agoniada com todo aquele vinho e o fumo dos cigarros. A seguir. vinda do outro lado das casas. 252 Foi de manhã que Esther soube pela primeira vez que esperava um filho. Dançou sem saber com quem. os chamamentos das ovelhas e das cabras no estábulo. de Livorno. com a ajuda de Elizabeth. Era de madrugada e dormira com a porta aberta para deixar entrar a frescura da noite ou talvez por causa do cheiro a vinho e a tabaco que impregnava o quarto e os lençóis. mas Esther não queria voltar para a festa. Não sabia muito bem a quem era dirigida. essa perturbação no centro de si própria. que estavam dentro dela como as palavras de uma frase que se desenrolava da frente para trás. O sol tinha aparecido por cima das colinas pedregosas. talvez a Jacques ou então ao pai. soube. ouviu o rebanho de Yohanan afastando-se na direcção das pastagens. dos homens que levavam a irmã Vera. para o lado da aldeia dos drusos. Talvez fosse por causa de todo aquele sol que lhes queimara os rostos no pomar. Nora ria e depois. mergulhando as raízes nas recordações mais longínquas. sempre os ouvira.

Seguia pelos campos ainda desertos. Estava longe do kibutz. longe. e as cabras tinham mesmo começado a trepar ao talude e a comer os rebentos tenros de beterraba. naquela terra.reflexos vermelhos no lago. sem que pudesse saber. Algo crescia. Tão longe já que não ouvia os sons das pessoas nem os chamamentos do gado. viu os homens e as mulheres reunidos em frente das casas. Lembrava-se do momento em que ela e Elizabeth tinham tocado pela primeira vez aquele solo. à luz do sol. Não conseguia continuar a andar. Não queria que nada mudasse. Tinha saído das plantações e avançava pelo meio do mato. aumentava dentro de Esther. . Mais adiante. parecia estar apenas adormecido no calor da tarde. Sentou-se numa pedra. Esther não via com os seus olhos mas com os olhos de todos aqueles que tinham sonhado com aquilo. espalhados pelos campos. o Carmelo. Não havia pássaros no céu. Era terrível. de repente. Era tudo tão vasto. tinham poisado o corpo de Yohanan. respirando lentamente. voltou a sentir o medo. aquele ponto vermelho e ardente cujo nome ela desconhecia. Os braços estavam ao longo do corpo e as mãos abertas. sobre o cimento do pátio. Era tão forte que a fazia tremer. Esther viu-lhe o rosto muito pálido inclinado para trás. Estava tudo estranhamente vazio. que lhe enchiam todo o corpo. As crianças tinham saído da escola. a areia da praia. na prisão. a linha escura das colinas tal como Esther e Elizabeth tinham visto surgir no horizonte em frente da proa do Sette Fratelli há já muito tempo. os olhos das crianças perdidas no vale da Stura. Quando regressou ao kibutz. Portanto Esther não queria falar de outra coisa. A baía de Haifa. ao mesmo tempo. a sul. Esther começou a correr. tão antigo. longe. quando sentira a morte poisada sobre o pai. levadas nos vagões sem janelas. Antes de partir para a fronteira Jacques dissera que se casariam quando estivessem no Canadá e que iria estudar na Universidade. Trepava pelo meio das plantações de abacateiros. Recomeçou a andar. Lembrava-se das palavras de Joèl em Toulon. Muito ao longe. o som do coração. A luz que batia na parede fazia brilhar os seus olhos e os cabelos negros. ao desembarcarem com a roupa suja e húmida do sal do mar e os embrulhos de pano velho. Akko. Não queria que houvesse mais ninguém. Os animais tinham parado no fundo de um barranco. tão desgastado. Havia uma grande mancha escura sobre a camisa no ponto em que o assassino ferira. havia a forma curvada do Monte Carmelo por sobre a bruma marítima. à sombra de uma árvore. Era como antigamente. tão puro e. Gostaria de reencontrar todos agora. Não queria pensar demasiado no futuro. O sol já ia alto agora e iluminava o lago e os canais de irrigação. E dentro dela havia aquele sol. algo vivia dentro dela sem que o soubesse. O som dos passos ecoava na colina. Paisagem nenhuma proporcionara aquela sensação a Esther. o vácuo se abrira à sua frente e correra até perder o fôlego. Não lhe diria nada por enquanto. nem a Jacques nem a ninguém. E. todos aqueles cujos olhos se tinham apagado com essa esperança. na estrada de Roquebillière. os regos regulares brilhavam cruamente à luz do sol como vestígios de um mundo desaparecido. A sensação vinha de 254 muito longe e sentia-se atravessada por ela. Esther encontrou o rebanho de cabras e ovelhas. Pensou em Jacques. chamando com as suas vozes de cana rachada. no domínio dos escorpiões e das serpentes. Dirigia-se para as colinas. À sombra do edifício central. as palavras na língua do mistério que se lhe formavam na garganta. Os campos pareciam abandonados. o som do sangue batendo nas têmporas.

Esther soube da morte de Jacques. como quando as crianças eram pequenas. Agora o apartamento está vazio e há apenas alguns pedaços de cartão. Quando os soldados vieram trazer a notícia não disse nada. no dia em que iniciámos a nossa marcha pelas montanhas. Os carros estão parados ao longo dos passeios atapetados de neve. um número de telefone garatujado numa caixa de fósforos. Tinha os olhos secos. houve uma espécie de festa. para o céu pálido. Michel e Zoé estavam com um ar um tanto envergonhado e desandaram rapidamente para ir jogar bowling com os amigos. dar.No mesmo dia. Foi preciso empacotar. como se bastasse apanhar um autocarro qualquer para ir até lá. em frente da casa de Lola. A rua é ilimitada. Ao fundo da rua. íamos de VW até Longueil ou ao cemitério do MontRoyal ver os esquilos que viviam nos túmulos. no momento de partir. Foi nesse bocadinho de jardim que Michel deu os primeiros passos. ainda infantil. Desce para o infinito das árvores despidas e dos edifícios de tijolos. Fito a rua com uma atenção dolorosa para fixar na memória cada pormenor. em Saint-Martin. 255 Pela janela da varanda fechada olho a rua estática. Andava num curso de teatro. o seu rosto muito doce. Philip falava um pouco alto demais. Alguns não saíram dali há dias e têm os tejadilhos e os vidros cobertos de neve congelada. Lola quis que voltássemos juntas ao cemitério. Foi Philip que transportou tudo. o desenho dos passos. não compreendi muito bem. Estava muito frio e por mais que procurássemos não vimos os esquilos que vivem nos túmulos. também esperava um filho e foi por isso que começámos a falar. Vejo as marcas sinuosas dos pneus. Tenho o rosto tão perto do vidro que sinto o frio na testa e a minha respiração forma dois círculos embaciados. Pensei nisso por momentos. os brinquedos velhos. apenas com pegadas dos corvos. Parece um destroço preso no gelo. Os taludes ainda estão muito brancos. não vai ver o filho. Parece que trabalha em Toronto. É difícil partir. é o rosto de Tristan que recordo. Os autocarros laranja e brancos contornam a praça e descem a rua na direcção do cruzamento. os discos. no momento de partir. ajudado por Michel e por Zoé. Não me tinha apercebido de ter armazenado tanta 257 coisa ao longo de todos estes anos. Ontem houve aquela venda no pátio. morto na fronteira junto do lago Tiberíades. Era domingo e nevava. Apenas pensou: não vai voltar nunca mais. vender. Em frente do meu prédio há um jardim de árvores nuas erguidas de encontro ao céu pálido. Depois da venda. a pilha dos National Geographic. A rua está manchada de neve. mas depois perdi o número e esqueci. livros velhos e garrafas. revejo o seu rosto mas é do outro lado da minha vida. O céu é tão distante e tão branco que é como se estivéssemos nas mais elevadas regiões da atmosfera. bebemos cerveja e dançámos. da minha mãe. Não é o homem de . numa fábrica ou na hotelaria. É difícil regressar. Agora. De cada lado da rua há grandes candeeiros curvos que à noite formam charcos de luz amarela. até junto de Elizabeth. neste país. Ao domingo. Alguém falou dele a Philip. a filha de Lola: a loiça. Agora. cuja bateria falhou no princípio do Inverno. como o vi na penumbra dos castanheiros. Tudo isso está já tão longe que parece um pouco irreal. até ao outro lado do oceano. Vejo o VW de Lola. acendem-se as luzes de trás dos automóveis obrigados a travar no cruzamento. é o adolescente que me irritava porque o encontrava por todo o lado e a quem acusava de me andar a espiar. os electrodomésticos. Foi lá que encontrei Lola pela primeira vez. É ali que apanho o autocarro para Mac Gill. Há pouco mais de um ano soube que Tristan está aqui.

Sonhei que o caderno tinha chegado à minha mão pelo correio ou que tinha sido deixado à porta do meu apartamento em Montreal por um misterioso mensageiro. Philip fazia troça de mim: "Estás a escrever as tuas memórias?" Talvez julgasse que era apenas um diário de adolescente retardada. quando ainda julgávamos que tudo era possível. e Tristan apertava-lhe a mão compenetradamente. Tenho procurado Nejma até agora. na soleira da porta. já não sabia. É a única certeza que tenho em relação a ela depois de todos estes anos. quando os camiões nos levavam para a cidade santa. perto de Jerusalém. desaparecida noutra nuvem de pó. o amor de Philip. com o avião. Via-o durante a noite. Às vezes parece-me sentir ainda o peso leve da sua mão poisada no meu braço. Apercebo-me de repente que ele tem exactamente a idade que eu tinha quando subi para bordo do Sette Fratelli. para que esteja finalmente em casa. a luz do Mediterrâneo. mesmo havendo guerra à nossa volta. com os seus negócios em Toronto. quase inacessível. Ou então. no final de uma viagem longa e dolorosa como a morte. O meu pai estava ali. barrigudo e grisalho. Sonhei que sabia decifrar aquela escrita e que tinha lido o que ela contava apenas para mim. . por acaso. 258 Tristan apoia o ouvido sobre o meu peito nu e ouve o bater do meu coração como se fosse a coisa mais importante do mundo. Do outro lado dos semáforos. quando nada tinha mudado ainda no mundo. a expectativa do 261 regresso. Como pôde desaparecer tudo isso? Dói-me cá dentro. como essas crianças abandonadas no tempo de Dickens. Espreitava-a pela janela nesta rua coberta de neve. Michel. o seu olhar interrogador. o encontro com Berenice Einberg. Pensava que fosse precisa toda a minha vida para o conseguir e afinal está ali. amanhã. É a criança de Saint-Martin. Regresso por causa de Michel. Sonhei com esse caderno. um bocadinho todos os dias. do outro lado do tempo. que encontrei apenas uma vez. Olho esta rua e sinto vertigens. o cheiro da terra. 259 É nela que penso agora. Então comprei também um caderno preto no qual escrevi o seu nome na primeira página: Nejma. na estrada de Siloé. para apagar os sofrimentos e a queimadura dos mortos. era eu. Mas era a minha vida que ali punha. uma história de amor e de errância que podia ter sido a minha. para que reencontre finalmente a sua terra e o seu céu. bastarão algumas horas para ultrapassarmos o abismo que nos separa da nossa terra. Procurava-a com os olhos nos corredores do hospital. através da nuvem de pó que a cobriu: esse caderno preto em que eu também escrevi o meu nome como para uma misteriosa aliança. a minha irmã com perfil de índia de olhos claros. onde os autocarros laranja e brancos viram e desaparecem entre as falésias vermelhas dos prédios. Mesmo no fim desta rua. em Nejma. Um dia hei-de voltar à estrada de Siloé e a nuvem de pó abrir-se-á e Nejma caminhará na minha direcção. daqueles onde contam os seus amores e as suas confidencias. não consigo esquecer. surgida de uma nuvem de pó. E também as cartas de Elizabeth. É mais difícil regressar do que partir. no fundo do desfiladeiro onde ressoa a água da torrente. observo-a enquanto escreve lentamente o nome em caracteres latinos na primeira página do caderno preto. a amizade com Lola. os meus estudos na Universidade. Era ela. Trocaremos os cadernos para abolir o tempo.quarenta anos que quero ver. A diferença é que hoje. Pensava que estava tudo tão longe. coberto com uma caligrafia fina desenhada com o mesmo lápis preto que tínhamos utilizado alternadamente. as colinas tão belas.

Vagueei pelas ruas até à praia onde tínhamos desembarcado há já muito tempo. sozinha. O sol queimava e eu sentia o peso da luz sobre os meus ombros. as outras mulheres e as crianças que caminhavam a seu lado tinham desaparecido. Durante o dia andava pelas ruas sem destino. deixei de sonhar. E havia sobretudo as suas mãos. Era Inverno e o sol queimava as colinas da Galileia e as estradas. apenas para andar na terra em que Jacques Berger tinha morrido. A dado momento vi um tanque parado na beira da estrada. Caminhei ao longo delas e depois sentei-me na borda e olhei na direcção do lago de Tiberíades durante muito tempo. Depois sentes-te melhor. abrigada do sol. o mesmo casaco cinzento de pó e o mesmo lenço que semi-ocultava o seu rosto. Estava como Nora. Afastei-me. uma mão esquálida de velha com veias salientes como cordas. que ia à frente visitar o meu noivo. Mais adiante cheguei às chicanas. uma silhueta sem rosto. aquela bola de fogo. Nos meus sonhos ela surgia em pé à minha frente. Trepei pelos socalcos com oliveiras. Fui até Tiberíades e aí comecei a andar pelas colinas sem saber para onde ia. por mim apenas. À noite não conseguia dormir. Não podia compreender. Elizabeth ouvia e acariciava-me os cabelos. das terras da seca e do esquecimento. que avançava em grandes passadas ao longo dos regatos com ar demente. via sangue e morte por toda a parte. dominada por uma vertigem 262 e a mendiga de olhar intenso cuspiu na minha direcção e desapareceu na sombra das ruelas. . O silêncio e o vento faziam-me bater o coração. indiferente ao movimento dos automóveis e dos camiões. Eram trincheiras reforçadas com toros que ziguezagueavam pelo flanco da colina como se fossem fragmentos de estrela invadidos pelas silvas. "Chora. Julgava que era tristeza. Tinha o mesmo andar da louca que pedia esmola perto do mercado. Nada nela tinha mudado desde o dia em que a encontrara. Usava o mesmo vestido. ainda umas crianças. conseguindo convencer os dois soldados tão jovens. Tinha no ventre aquele peso. Nos seus olhos claros havia a mesma interrogação. Depois fiz uma coisa insensata: meti-me num dos camiões militares que transportavam o material e os víveres. passei por quintas abandonadas com paredes crivadas de balas. com as lagartas imobilizadas pela terra. Olhava-me e eu sentia no meu braço o toque leve da sua mão. Encontrava sempre a mesma mulher no meio da multidão. a correr por aquelas colinas silenciosas. Quando Jacques morreu fiquei arrasada. quando ia espreitar a montanha de onde devia vir o meu pai. Quando cheguei a seu lado estendeu a mão. Era como se estivesse ligada a Jacques para além da morte por aquela vida que ele colocara dentro de mim. Tinha-se instalado em Haifa num edifício de onde se via o mar." Não queria falar-lhe da criança. Não passava de uma carcaça semi-calcinada. como se acabasse de abrir a porta. e eu sentia a mesma atracção e o mesmo ódio. com o rosto coberto com um véu sujo de pó. reconhecer a luz de Nejma. Vinha do exílio. as suas mãos longas e morenas como as de uma camponesa. mas senti muito medo e não me atrevi a avançar. Um dia aproximei-me: queria ler nos seus olhos. Elizabeth levara-me para sua casa. Às vezes via-a sentada junto de uma parede. Não havia qualquer ruído. Estava sempre só. perseguida por crianças que lhe atiravam pedras. vestida de farrapos. as pálpebras abriam-se como se tivesse sal nos olhos. a luz do sol encadeava-me mas eu continuava a avançar. nas minhas costas. Não sabia onde me encontrava. Falava com ele como se estivesse ali e pudesse ouvir. Era como na estrada de Festiona.por entre as mulheres pobres que vinham à consulta. Estrellita.

O namorado tinha desaparecido sem deixar direcção. Os seus ossos seriam as pedras brancas do Monte Carmelo e os rochedos de Gelas e a sua carne a terra vermelha das colinas da Galileia. No fim de Março embarquei no Providence. "E se for uma rapariga?" "Então és tu que lhe escolhes o nome. para a Universidade Mac Gill estudar medicina. Depois um camião reconduziu-me a Haifa. Lola era engraçada. 264 O meu sol nasceu no fim de Setembro. sobretudo se se parecesse com a mãe. Era o que Jacques Berger teria querido. Carlotta. da minha terra e do meu céu. Apoiávamo-nos uma à outra. um homem que me tivesse abandonado. Era o meu segredo. Eu partiria para o Canadá. o de Patologia. a água lamacenta da Stura e a água do poço de Naplouse que a mulher da Samaria dera a beber a Jesus. Os professores eram indiferentes excepto Salvadori. feito da minha carne e do meu sangue. tínhamos dado à costa em Montreal como madeira à deriva e um dia a onda levarnos-ia outra vez e sabíamos que não tornaríamos a ver-nos. essa presença. Seria o filho do sol. Lola ensinava-me yoga. Os últimos meses da gravidez tinham sido difíceis. o seu sangue seria a água das nascentes. Tinha sonhado que nasceria na minha terra. Era Lola que tratava de mim como se fosse uma irmã. fechar os olhos e meditar. do outro lado do oceano. . Seria trazido pelas ondas do mar até à praia de areia onde tínhamos desembarcado. na praia onde Elizabeth e eu primeiro tínhamos chegado. Zoé. mudando todos os dias a ordem: Leonora. Elizabeth organizou tudo. "E o 265 teu filho?" Eu decidira que seria um filho. um pequeno navio que trazia os víveres e os medicamentos das Nações Unidas para os refugiados árabes e que levava viajantes até Marselha. lá longe. alta e nervosa. quando o Sette Fratelli nos desembarcou. iria para Montreal. Acrescentava sempre Hélène por minha causa. Estava em mim desde sempre. quando tiver acabado. contávamos histórias e ela troçava do meu ar de bibendum. Tinha-me dito: "Voltará depois. Queria que nascesse muito longe e que Elizabeth não soubesse. Em Marselha embarquei no Nea Hellas que transportava os emigrantes para o Novo Mundo. cruzar as pernas em meio-lotus. onde nascemos. cabelos frisados e pele de boneca holandesa. na terra poeirenta das plantações de abacateiros. mas fingia não pensar nisso. Chamava-se van Walsum e nunca compreendi porque os pais lhe tinham dado aquele nome mexicano. já sentia isso. Sonya. Não me atrevia a dizer-lhe que seria o meu sol. Talvez julgasse que era um caso idêntico ao dela. Christina." Lola nunca tinha feito perguntas a respeito do pai do meu filho. Maryse. Tinha medo do destino." Mantivera-me a bolsa sem me obrigar a fazer os exames. Também estava grávida mas o bebê não devia nascer antes do Natal. olhos azuis. contrair o ventre. Dissera-lhe apenas que se fosse um rapaz teria o mesmo nome que o meu pai: Michel. Quando vagueava pelas colinas em Ramat Yohanan. um velho de bigode e oculinhos redondos como Gandhi. Albertine. Aceitei por causa da criança. deixei de ir às aulas e foi um semestre perdido. Vivíamos quase sempre sós. Romaine. Achava que Zoé lhe ficaria bem. Birgit. Também ela estava só. decidiu tudo. Dizia que era bom para nós: respirar. com um rosto infantil. Sylvia. Levaram-me ao Quartel General para me interrogarem porque julgavam que fosse uma espia dos sírios. Marik ou Marit. No seu corpo haveria a força e a agilidade dos pastores e nos seus olhos brilharia a luz de Jerusalém. o meu sol.263 Foi ali que os soldados me encontraram. a água da torrente de Saint-Martin. Éramos muito semelhantes. Discutíamos nomes. essa força. Ela queria uma rapariga e enumerava os nomes.

via o seu rosto tão puro. Eu apenas tinha esta bola no ventre que havia de aparecer. 266 Já não sabia onde estava: a sala de trabalho do hospital. já começou. as maças rolantes nas quais as mulheres estavam deitadas. o tecto com as suas seis lâmpadas de néon que crepitavam. e chamou-a Ayicha porque tinha sido rasgada e feita segundo a sua vontade. Sonhei que o sol ia aparecer do outro lado do mundo sobre a grande praia onde Elizabeth e eu tínhamos chegado há já tanto tempo. estendida na areia. para um sonho. Tinha dores mas sentia o barulho das ondas na areia transportando-me.como uma parcela de sol. fechando os olhos. fazendo-me deslizar sobre o mar que se abria. com a minha mãe a meu lado para me ajudar e acariciar os cabelos. de madrugada. desencorajada. uma abertura para um outro mundo. o maior dos Seres. Sentia o cheiro do mar e o sal nos meus lábios. Era a noite mais longa que tinha vivido. Era de novo a travessia do porto de Alon para Eretz Israel e. ouvia uma voz rouca que cantava blues. Lembrava-me das palavras do Rabi Joél na prisão de Toulon quando contava na sua língua misteriosa a criação de Ayicha. sentia o baloiçar suave das 267 ondas. apenas quebrado pelos queixumes das mulheres e o som dos passos apressados no corredor. por causa da cor dos seus cabelos. Ouvia a sua voz traduzindo para mim as palavras do Livro da Criação: E deixou cair. "Quando vai começar?" perguntei à parteira. quando a proa do barco se aproximava da margem. teria a sua força e a força da minha terra. um local de nascimento. as grandes janelas gradeadas que davam para a noite. sobre as lajes de granito. deu-lhe a sua forma e a sua beleza e deu toda a sua vontade a essa membrana que tinha tirado de Adão e fez Ayicha e levou-a até junto de Adão. entre as contracções. Ele. com as paredes pintadas de um amarelo brilhante. Como podiam os outros compreender? Tinham uma família. Através das pestanas via a luz muito clara do amanhecer. Agora eu sentia essa mesma força em mim. a luz que vem primeiro do mar e que escorre docemente até à praia. via a superfície muito lisa da água ao amanhecer. E depois o bebê começou a nascer e as vagas levavam-me até à praia onde eu tinha adormecido enquanto Elizabeth velava junto das bagagens. Era extraordinário. Fechava os olhos e estava lá. Sonhei que estava lá. a força e a beleza do mar que adoro. sentia a sua mão na minha. A praia estava toda iluminada pelo sol prestes a . no meio da noite. Jacques estava comigo. As frases passavam. a luz doirada nos seus cabelos e na sua barba. o céu de um cinzento róseo. tinham recordações. Era por isso que o meu filho era o filho do sol. Estava tão cansada que. era seu filho. o sono misterioso sobre Adão que adormeceu e. As palavras faziam-me estremecer e eu apertava a mão de Jacques para ele traduzir mais depressa. adormecia na sala de trabalho." Eu sabia que o meu filho nasceria ao nascer do sol. rasgando uma das suas membranas. Era por isso que eu tinha vertigens. forma da minha forma. esta é agora substância da minha substância. um luar de neve e o silêncio das estepes. Era muito belo. Ela beijou-me: "Minha querida. E disse: Adão. que sentia náuseas virem-me à boca e um grande vazio formando-se dentro de mim. acompanham os barcos de pesca. os gritos das gaivotas e dos pelicanos que. um cemitério onde podiam ver os nomes dos seus avós. eram ondas que avançavam como as marcas do vento na água. e ouvia o barulho doce das vagas deslizando sobre a praia. tão ardente e tão pesada de transportar. aquela terrível porta castanha que batia nos dois sentidos quando a parteira levava uma parturiente. passava pelo meu corpo como se as palavras se tivessem realizado.

de Philip. Alexandre Mari. Dormi muito tempo deitada na grande praia lisa onde tinha chegado por fim. Havia banhistas holandeses de um vermelho vivo. espalharei as suas cinzas no mar que ela ama esta tarde. "Respire. F. de acordo com a sua vontade. gigolos e chulos. italianos. 268 ELIZABETH Nice. há já tanto tempo. que foi minha mãe. As pessoas falavam alto. Os incêndios devoraram as colinas e o céu estava estranho. quando já não houver ninguém nas praias e apenas restarem alguns pescadores imóveis no molhe. sem tentar adivinhar." A voz da parteira ressoava estranhamente na solidão daquela praia. durante a guerra do deserto de Sinai. Hotel da Solidão Elizabeth. os homens têm um olhar duro. significando que não valia a pena exagerar. Verdi. no aeroporto. Parto para sempre. Todos os fins de tarde caía uma chuva de cinzas sobre o mar. Foi aqui que viveram o . faça força. de Michel que precisava dela. Falei-lhe da minha profissão. Fá-lo-ei sem lágrimas. que sofria sem dizer nada. trabalhadores cabildas. antigos combatentes. Já não o reconhecia. semelhante a um reflexo. fará a viagem para me ir visitar. e foi nesse ano que casei com Philip e abri um consultório de pediatria numa rua barulhenta de Tel-Aviv. Metidos nas suas conchas herméticas. próximo do Teatro Habima. cabeleireiros. Há-de gostar. Depois vaguearei pelas ruas paralelas ao mar e que têm nomes em i. esta multidão que se escoava como uma borra espessa através de uma ranhura. Havia sobretudo esse ruído de passos. paravam. esse ruído de vozes apesar dos rugidos dos motores. E Michel nasceu. Havia vagabundos germano-pratins. ministros. se ultrapassavam. Sorriu e fez um gesto com a mão. C. disse com uma calma cruel que me fez bater o coração: "Compreendeste com certeza que não vou para voltar. Não sei quem me levou. faça força." Quando subiu para o avião. metade azul e metade escurecido pelo fumo. Havia casais de homossexuais tímidos. faça força. americanos. Elizabeth partiu em 1973. e as mulheres estavam muito perfumadas. conversavam e se tocavam." Sei agora por que dizia isso. muito alto. distante. O sol esteve ardente durante todas estas semanas. Elizabeth partiu vestida de preto. raparigas de ar ausente e cabelos pintados e adolescentes drogados até à morte. sem hesitar. O cancro devorava-lhe o ventre e eu queria viver. Macarani. com a sua mala pequena." Acrescentou. enfermeiras e marinheiros gregos. morreu ontem. todos estes meses. Disse: "Não sou eu que lhe vou fazer falta. cipriotas. ao crepúsculo. a mesma que tinha quando chegara de barco. argentinos ou árabes. garagistas. sei lá! Via este mundo e não o conhecia. o cheiro que ela sempre adorou. Caminho pelas ruas desta cidade que não conheço. reformados da S. depressa e intensamente. não sei o que se passou. Havia cambistas. como Ribotti. vendedores de pizzas. N. ele é que me vai fazer falta a mim. Não reconhecia 271 estas pessoas que iam e vinham. Estava cega por toda aquela luz. Tinha lágrimas nos olhos e as vagas passavam no meu ventre. quase sem sentir nada. Como pude deixála partir? Devia ter compreendido que já estava doente. sentirei lufadas do vento do mar. entorpecidos pela temperatura demasiado elevada da tarde. com uma alegria fingida: "Quando ele quiser. Nos cruzamentos. faça força. Nas esplanadas dos cafés havia turistas alemães.nascer. e. Verão de 1982. Tentei retê-la mas sabia de antemão que era inútil. tunisinos e soviéticos. embaixadores. michelobulevardianos. Respirava sem gritar.

todos os dias vendo aproximar-se o seu fim. os promontórios avançando no crepúsculo. Oiço a sua voz fraca. contava interminavelmente a mesma história. Amantea. das férias em Itália. Andava à noite pelas ruas sufocantes procurando as sombras. em Amantea. Pisa. com o meu pai. de Antibes. perante o corpo exangue e magro da minha mãe. como se tivesse sido o único lugar no mundo onde a guerra nunca chegara. no maciço de Tanneron. ameias e grades encimadas por bicos. o mar tão azul. em Draguígnan. desses dias de Verão a seguir ao seu casamento. Parece-me estar não sei onde. nas colinas do Var. Fala-me de antigamente. no ardor dos incêndios! Todos os dias traziam rumores da guerra no Líbano e notícia dos focos que surgiam entre os mouros. com torreões. fala de Nice. Não longe dali.. Nos últimos dias. já crescida. em Siena. como se eu também lá tivesse estado e tivesse visto os seus rostos iluminados pela juventude. esses farrapos de recordação. a sua voz estava tão fraca que tinha que me inclinar até quase tocar os seus lábios.. no Esterel. em Fayence. um vago som de rádio e gritos de crianças. 272 Aluguei ali um pequeno quarto. A voz de Elizabeth tornava-se mais fraca de dia para dia. Todos os dias. Amantea. as recordações. em todo o lado ou em lugar nenhum. ouvindo esse nome que se 273 repetia indefinidamente até se tornar obcessivo. o seu desaparecimento. ouvido a música das vagas e os gritos das gaivotas. Tinha lá estado com ela. partilha um instante a sua felicidade. ouvido as suas vozes. no pequeno quarto do hospital. sinto a sua mão na minha. Quando estou estendida na cama estreita oiço o arruinar dos pombos. Vi a oliveira enfezada que plantaram no relvado como símbolo da paz. do meu pai. Mas agora a ribeira está ocupada por parques de estacionamento e pretensiosas construções de betão armado. Falava e a sua mão apertava a minha com muita força. uma rapariga que um casal encontra por acaso num hotel à beira de um lago e que. Procurei o prédio onde o meu pai e a minha mãe viveram. Vi o liceu onde ele ensinava História e Geografia. como um roubo. tinha comido aquelas melancias frescas. há um hotel com um nome que me agrada: Hotel Soledad. com a varanda sobre a ribeira. Roma. O restaurante de Amantea. as suas risadas cúmplices. uma magnífica prisão de pedra cinzenta. distante. as . algures. Quantos dias passados nesta cidade desconhecida. em Roma. Vi o relógio de sol com a sua máxima em latim que me fez pensar nas fórmulas do Pickwick Club. Nápoles. Fala-me de tudo isso como se eu lá tivesse estado. as mesmas cidades. num edifício antigo. E a mão de Elizabeth apertava a minha mão e a sua voz murmurava palavras incompreensíveis. bebido aquele vinho. e sempre esse nome de Amantea. como então devia apertar a do meu pai quando se meteram nessa embarcação. Todos os dias saía do hospital ao crepúsculo e vagueava ao acaso pelas ruas com a cabeça cheia de vertigens. Lia no jornal as notícias dos incêndios que ardiam em todas as montanhas.meu pai e a minha mãe durante toda a juventude. Tudo o resto se apagava quando ela me falava de Amantea. uma amiga. sentir o sopro que arrastava essas palavras. e chama-o Michel. Os incêndios que iluminavam Beirute à beira da morte. as palavras de amor que pronunciava na praia. repetia os mesmos nomes. deslizando sobre o mar cintilante da noite. do lado do pátio por causa do barulho do trânsito. uma irmã. em Florença. dos passeios à beira-mar. encostada ao corpo do meu pai. dos dias felizes. que devoravam as florestas de carvalhos verdes e pinheiros em Toulon. Hotel da Solidão. rodeados pelos gritos embriagadores das gaivotas.

As palavras. Olhava o mar. Florença. o vôo dos pássaros. respirando. o vinho borbulhante nos copos. Via as mulheres e as crianças movendo-se como sombras nas ruelas destruídas. iam para o outro lado do mundo. com a cabeça apoiada na mesma almofada. o mar. Eram os últimos dias de Agosto e as montanhas estavam em chamas acima de Sainte-Maxime. esses nomes. para ouvir mais uma vez as palavras da vida. Amantea. vivendo. como se fosse vê-lo aparecer na penumbra. Na cidade sitiada já não havia água nem pão. avançava pelo mar liso com o vento quente do crepúsculo. Seguia para o norte. Apertava-lhe a mão e falava-lhe olhando o seu rosto. Falava-lhe longamente. muito lentamente. estava lá com o meu pai e com a minha mãe. para ganhar tempo.. nos becos dos campos de refugiados em Sabra. mais uma vez. gota a gota. Elizabeth estava tão fraca que os seus olhos já não me podiam ver. No Var estavam sete mil hectares em chamas e havia um sabor a cinzas no ar. ouvindo a música das ondas. Alkion. como se tivesse sido eu a segurar a mão do meu pai na praia. cheio de emulações luminosas. talvez para Itália. era alto e branco como um edifício. Os seus nomes estavam gravados em mim. Partiam para Chipre. porque eram as palavras que conseguiam ainda entrar nela e misturar-se com o seu sangue. Nápoles. a sombra azulada das persianas fechadas. Os cargueiros afastavam-se da cidade em ruínas levando carregamentos de homens. de repente. o sol. no seu turbilhão de gaivotas. de novo. olhando os vôos inconseqüentes das gaivotas no céu da tarde. As enfermeiras tinham tentado afastar-me mas eu permanecia agarrada às barras da cama. sentindo nos meus lábios as madeixas dos seus cabelos cinzentos. Amantea. vendo a luz extinguir-se para além do horizonte. esperando. as injecções. e o mar parecia ainda mais belo. o troar dos canhões e os vultos das crianças que erravam pelo meio dos escombros. imperceptíveis. Também eu conhecera aquilo. na água. deslizando no seu rasto. o seu peito que mal erguia o lençol. e eu inclinava-me para as captar com a respiração. Avançavam pelo mar liso e as ondas dos seus rastos iam-se alargando até virem morrer nas margens. Sol Phryne. para o outro extremo do mar. era eu que falava porque ela já o não podia fazer. para Aden. À noite. para ficar mais um pouco. nas praias. em Chatila. vinham umas a seguir às outras. de Siena. mantendo a mão apertada para lhe dar um pouco da minha força. os tratamentos violentos. como se lá tivesse estado. com as luzes acesas. quando vagueava pela colina ao sair do hospital. O soro corria para as suas veias pelo tubo. até no mar. de Nápoles. e a mão de Elizabeth que. apenas a claridade vacilante dos incêndios. até os edifícios da costa se 274 transformarem em minúsculas manchas brancas. aquele mar cinzento de cinzas. com as ondas avançando eternamente para a praia. era eu que falava de tudo aquilo. Nos dédalos das ruas os rostos interrogavam-me. de Roma. a cidade de Amantea adormecendo no calor da tarde. com a sua respiração.. para Tunis. chamavam-se 5o/ Georgios. O sol. para não partir. muito baixinho. Tentava dizer palavras que ela amava. perto da orelha. estava .palavras que ele lhe dizia como um segredo. se crispava na minha com a força do sofrimento. os olhos fitavam-me. Nos últimos dias já nem sequer podia falar mas as palavras ainda estavam nela. As gaivotas acompanhavam-nos durante muito tempo no céu claro do crepúsculo. a frescura dos lençóis sob a pele nua. O Atlantis deslizava lentamente ao longo do molhe. via no céu aquele clarão semelhante a um crepúsculo. de Amantea. Os barcos afastavam-se. Nereus. a silhueta esguia das tartanas. os frutos. e as minhas palavras eram como essas gotas. as rochas negras. para a Grécia. Os medicamentos. para Port-Soudan. Então. chegavam-lhe aos lábios. Amantea. terríveis.

pelas ruas calmas brilhando ao sol. com o aroma dos ciprestes e dos pitósporos. Talvez as sombras perseguidas nesta cidade pelos agentes da Gestapo. O forno aquecido a oitocentos graus transformou em poucos minutos a que fora minha mãe num montão de cinzas. do outro lado do mar. que atravessaram a gare de Nice durante a noite. com o saco ao ombro. os dois homens que amo. as pessoas andam de um lado para outro nas ruas. estar no tempo presente. nesta cidade. O cheiro do incêndio tinha desaparecido e o céu já não tinha nuvens. todos os que tinham sido condenados à morte e se escondiam nas caves e nas águas-furtadas. presas nos bicos dos candeeiros como em ganchos de açougue. e que partiram nos vagões blindados. Nunca houvera guerra. para Dachau. queria ver o mal. encerrado no campo de Borgo San Dalmazzo. com um sorriso sereno que não parecia real. esquecer. entregaram-me um cilindro de ferro com a tampa enroscada que meti no meu saco de pôr ao ombro. Preenchi os papéis que era preciso e um táxi levou-me até ao centro de cremação para o sinistro ritual. que continuaram a sua viagem para norte. sob o calor metálico dos incêndios que rodeavam a cidade. recomeçar a minha vida com Michel e Philip. parecia-me que nunca mais dali poderia partir. Quando entrei no quarto vi o seu corpo deitado na maça. para Auschwitz. Depois. Tenho pouco tempo. Continuarei a ser errante. em frente das montras cheias de luz. e o rosto muito pálido. Nos dias que se seguiram. Jovens riam e seguiam abraçados pela cintura. distantes. Era como 276 se tivesse uma ferida no coração. Era esta casa que eu queria ver.naquela sombra. As rolas saltitavam nos telhados das vivendas. naquela frescura. muito magro. No dia seguinte ao desaparecimento de Elizabeth no crematório andei pela colina de Cimiez. para Drancy e mais longe ainda. são indiferentes. bela e sinistra como um palácio real. enquanto a cidade parece imobilizada na sua destruição. pelo meio dos jardins em frente dos prédios de luxo face ao mar. Como . rodeada pelo seu jardim à francesa. próximo da gare. Numa praia. Poderia viajar de novo. em troca do dinheiro. Não sabia o que procurava. na polpa dos frutos. falar. envolto no lençol. iluminado pelos últimos raios do sol. descobrir paisagens e rostos. Elizabeth morreu durante a noite. Passam nas esquinas em que as crianças mártires foram penduradas pelo pescoço. Olhei-a por momentos e saí. Estava há anos naquela cidade. nada perturbara nunca a imensidade do mar tão liso. Homens inclinavam-se para mim e murmuravamme frases ao ouvido. com o lago de água tranqüila onde os pombos e os melros vinham beber. Caminhava pelas ruas desta cidade com os rostos flutuando à minha frente. o que queria ver. Se não descobrir onde está o mal. Não sabia o que procurava. O sofrimento 275 nas suas vísceras extinguira-se com a vida. Os que o Perfeito Ribière tinha condenado à morte ao lançar a sua ordem de expulsão contra os judeus. E aqui. Depois encontrei-me perante um grande edifício branco. o que me atirara para um outro mundo. Os que o exército alemão tinha capturado no vale da Stura. Parecia-me que se encontrasse o rasto desse mal poderia finalmente ir-me embora. Havia gatos correndo por entre os carros e melros insolentes. 277 Vagueei durante todos estes dias. iluminados pelo clarão dos candeeiros. vagueei pelas ruas com o saco. compreender o que me escapara. as crianças e as mulheres dos campos de refugiados olham os grandes navios que se afastam no mar tão liso. muito belo e muito calmo. terei perdido a minha vida e a minha verdade.

. Mas reconheci a velha amoreira. 279 em Saint-Martin. no parque regular. é o silêncio da morte que reina. para marcarmos os nossos nomes no registo dos carabineiros. na sua grande entrada enfeitada com anjinhos de gesso diante dos quais deviam passar os judeus antes do interrogatório. esses gritos agudos que não é possível confundir com os dos melros e que talvez obrigassem a tapar os ouvidos os que não queriam compreender. sob as alamedas arborizadas. destas caves ocultas sob o edifício sumptuoso onde ecoam à noite os gritos das mulheres espancadas. Ermitage. como se a morte e o sofrimento ainda ali estivessem. não passa de um fiozinho transportando alguns papéis. tocava para si mesmo as valsas húngaras. nos apartamentos luxuosos. olhando a fachada janela a janela e as bocas sombrias dos respiradouros por onde saía a voz dos torturados. a ouvi-lo falar destas caves onde todos os dias torturam e matam. essas janelas de onde se debruçavam os oficiais nazis para vigiar com binóculos as ruas da cidade. onde ele. No extremo das ruas. eterna. na sua fachada barroca. como se o tempo não tivesse passado. Mas aqui. outrora forte e perigoso como um rio. duas estrelas. no silêncio daquele espaço. sinto uma espécie de frio no fundo de mim. Na rua do regato procurei a porta da nossa casa. onde Rachel tinha dançado com o oficial italiano. As caves. por trás de cada estátua de gesso. pizzarias. Acabei por compreender que era aquele hotel modesto. oiço o cascalho estalar sob as solas das minhas sandálias e isso. vendedores de gelados e de recordações. com precaução. Penso no Hotel Excelsior. anônimo. oiço-o dizer esse nome quase todos os dias no escuro da cozinha. Avanço devagar pelo parque. todas as manhãs. é um som que parece ecoar com uma dureza seca. que vi ontem perto da gare. na calma e no luxo do grande parque. num nível mais baixo. quase ameaçadora. Hoje não há ninguém e apesar da luz do sol e do mar que brilha ao longe. por sobre a agitação dos automóveis e das pessoas. se transformou agora numa vivenda de férias. E esse nome tinha ficado dentro de mim durante todo este tempo como um segredo odiado. são agora restaurantes. a vivenda da amoreira. nos seus jardins. Mas tudo se me tornou estranho ou sou eu que sou estranha a tudo isto. Oiço o meu pai pronunciar o nome da casa. os gritos dos supliciados que são abafados nas sebes e nos lagos. Passo em frente da casa. com os guarda-sóis com anúncios e as estranhas cortinas antiquadas nas janelas. sob as janelas da casa branca. Ferne. 280 No domingo seguinte à morte de Elizabeth tomei o autocarro até à aldeia de Saint-Martin. por entre as palmeiras. havia aquela casa branca. não significa senão o luxo dos grandes apartamentos sobre o mar. Até a casa do Sr. esse nome que para os outros não quer dizer nada. Aproximei-me lentamente. Na praça há um edifício novo. onde os carabineiros tinham instalado o piano do pobre Sr. Ferne. majestosa. tão estranha e abandonada. O regato que saltita pelo meio da ruela. Avanço e continuo a ouvir a voz do meu pai na cozinha da nossa casa. no negro piano. o parque tranqüilo onde os pombos se amontoam.era possível ainda não a ter visto? Era visível de todos os pontos da cidade. quando as janelas estão calafetadas com papel de jornal por causa do recolher obrigatório. as antigas escudadas. apesar dos arrulhos das rolas e dos gritos dos melros. com os três ou quatro degraus de pedra que lhe davam acesso. Procurei em vão o hotel misterioso e inquietante onde fazia bicha com o meu pai e a minha mãe. que fazia permanentemente face ao sol e seguia o seu percurso de um lado a outro do mar. Avanço sob as altas janelas do palácio. Ermitage.

Dantes era menos difícil! Como já era tarde. aliás. dormir ali. Foi para lá. Olhei sem emoção o caminho por onde Elizabeth e eu tínhamos seguido. ceifou-os uma rajada de metralhadora e caíram uns sobre os outros. No edifício em que tínhamos dormido. e olhei a montanha exactamente onde a tinha olhado até me arderem os olhos e sentir vertigens. Tudo foi com certeza esquecido. ouvi o zumbido das vespas e senti sobre o peito a face macia de Tristan escutando o bater do meu coração. Na velha casa em que as mulheres acendiam as luzes do shabbat há agora uma garagem. quando esperava pelo meu pai que devia vir ter connosco. que os jovens levaram os seus sacos para passarem a noite. as vozes que chamavam. Pareceu-me ouvir os risos das crianças. sobre o círculo de montanhas. Sentei-me no talude. Foram surpreendidos pelos alemães cerca do meio dia. o meu pai acompanhava um grupo de fugitivos em direcção à fronteira. o acampamento dos soldados italianos. Lá dentro ia também um rapaz moreno. de pé sobre o parapeito. deitando água pelas suas quatro bocas para as crianças que vêm beber. Em poucos minutos o automóvel subiu a estrada através da floresta de larícios até ao santuário. Os edifícios onde tínhamos dormido. e outra rapariga muito morena e com uns lindos olhos negros. Ao fundo da estrada. acima de Berthemont. Segui para a parte de baixo da aldeia. "Corram! Fujam!" gritou o homem da Gestapo. crianças. Foi uma rapariga que se escondeu nas moitas e depois num curral abandonado que . Os jovens do carro tentavam conversar comigo. de um lindo verde escuro." O guarda da pousada disse-me isto com um ar indiferente. Mas quando tentaram fugir pelo meio das ervas altas. até à curva de onde se pode ver a torrente e o desfiladeiro sombrio em que íamos tomar banho como se fosse o fundo de um vale secreto. mas era impossível. não era a primeira vez. Aliás. mulheres. em frente da caserna dos soldados. os velhos morreram e os jovens partiram. e senti ainda os pêlos eriçarem-se-me 281 na pele por causa da água gelada e da força do sol. O rapaz disse qualquer coisa como: "É a primeira vez que aqui vem?" Disse que não. com ar de italiano. abrigada do vento por um muro de pedras. tentei em vão descobrir a clareira onde dormimos. Como não havia outro processo. como se já não tivessem o mesmo significado. Parou um carro guiado por uma rapariga loura. finamente recortada. Na praça onde os judeus se tinham reunido antes da sua partida para as montanhas.Esticando-me na ponta dos pés apanhei uma folha grande. velhos. os turistas que tiravam fotos e um vendedor de gelados belga. tudo lá estava mas era como se tivessem tirado qualquer coisa. os carros parados. enquanto as tropas do IV Batalhão italiano subiam o vale e abandonavam a aldeia aos alemães. No próprio dia em que a minha mãe e eu partimos a caminho de Itália. os gritos estridentes das raparigas salpicadas pelos rapazes. "Mesmo nesta estação é preciso reservar cama pelo menos 282 com uma semana de antecedência. homens. não tive coragem de seguir pelo carreiro de pedras de onde voltavam os turistas. Os turistas passeiam pelas ruelas com as suas crianças e os seus cães. vi os jogadores de malha. como outrora: "Maryse! Sónia!" Senti apertar-se-me o coração e voltei rapidamente para a aldeia. pedi boleia na estrada de Notre-Damedes-Fenestres. Apenas a fonte continuava a correr para a bacia como antigamente. há agora uma pousada do Clube Alpino. a capela. Não me atrevi a falar com ninguém. perto da torrente. tinha cá vindo há muito tempo. Mas agora sei que ele não poderá vir. as nuvens já ocultavam os cumes. não longe dos edifícios. Por instantes apeteceu-me fazer-lhes companhia.

nos castelos de nuvens. que não saboreava esta paz. tomei o autocarro até ao cruzamento da estrada e segui até ao fundo do vale. a luz da manhã brilhando nas 283 encostas cobertas de vegetação e nos rochedos. até ao velho hotel abandonado onde antigamente eram as Termas. lembro-me muito bem: o céu imenso. O sol desceu na direcção das montanhas azuis. Escreveu-o numa única e longa carta. na outra vertente. como há quarenta anos. Michel Greve. o som estridente dos grilos. continuei a subir pelo meio das ervas altas. numa velha casa que não conhecia. talvez os camponeses da aldeia a tenham ceifado e começasse a fermentar. o olhar vazio. No dia seguinte de manhã. não esqueci. Tenho o coração a bater porque caminho para a verdade. O vale mergulhava ainda na sombra enevoada da manhã. ao infinito. com as malas. Pensei que Philip e Michel também teriam gostado de ver aquilo. Apesar da estação. pelas costas. em folhas de caderno de escola. Estou tão alto que já nem vejo o fundo do vale. no meio da erva. Continuei pela escada acima do curso de água sulfurosa e depois pelo carreiro que sobe para a montanha. Imaginei o meu pai nesse barco. o meu pai à frente. como de uma nuvem ou de uma miragem sobre a nova terra. consegui arranjar um quartinho num hotel ao fundo da Rua Central. os sacos com víveres e os cobertores de lã. Ouvi o som tranqüilo da torrente e os rugidos da trovoada atrás de mim.contou isto e Elizabeth voltou para França por isso. nenhum ruído. como o tinha visto uma manhã ao deitar a cabeça de fora do porão do Sette Fratelli. as crianças chorosas ou despreocupadas. O suor corre-me pelo rosto. no ponto em que começam os grandes campos cobertos de erva onde Mario procurava as víboras. há tanto tempo que já parecia uma lenda. Onde está essa cidade? Existirá realmente? Parei à beira da montanha. Quis ver o lugar em que o meu pai tinha sido morto. os milhafres voando em círculos e soltando gemidos. no instante em que o sol aflora o bordo do mundo e ilumina as cristas das ondas. brilhava no centro do céu e reduzia as sombras ao mínimo. As nuvens estão . A única marca era o caminho. era ontem que a minha mãe e eu seguíamos pelo caminho de pedras aguçadas na direcção do fundo do vale. azul. rumo a Itália. com o coração a bater. Aqui a erva inebria como um perfume capitoso. Foram turistas ingleses que me trouxeram no seu carro até à aldeia. Não havia nenhuma forma humana. em fila indiana. fixo. para estar na terra em que o marido fora morto. como se pudéssemos ver o fundo do espaço. as mulheres embrulhadas nos seus xailes. O cheiro das ervas queimadas. em Berthemont. Há tanto tempo que não ouvia este silêncio. bem cedo. A encosta coberta de ervas subia em direcção ao céu. os fugitivos atrás. Compreendi que fora ali que eles tinham passado. com a sua letra fina e elegante. escreveu o nome do meu pai. Agora também ela morreu na mesma terra e o seu corpo está encerrado num cilindro de aço que trago comigo. onde sonhei ver o meu pai avançar. Era o fim do Verão. Do outro lado do vale da Vésubie as altas montanhas azuis pareciam leves como nuvens. Pensei no mar. nenhuma casa. da cidade luz. acima de Berthemont. Por sobre os vales sombrios. Avancei um pouco pela estrada na direcção de Saint-Martin. Estou agora num imenso prado que chega até aos rochedos dos 284 cumes. O céu estava magnífico. Tudo está ainda ali. As mulheres estavam sentadas na beira do caminho com os embrulhos poisados a seu lado. enquanto vou seguindo pelo carreiro na direcção do topo da encosta coberta de vegetação. por entre nuvens de tempestade. e os homens atrás. Era assim que ele falava de Jerusalém. e os nomes de todas e de todos os que morreram com ele. O sol estava forte.

Há vários dias que vem a este lugar quando o sol declina para olhar o mar. tenho a certeza: é aqui! Estavam escondidos aqui. E penso ainda em Nejma. Alguns ainda estão vivos. os assassinos saíram com as metralhadoras na anca e algum deles gritou em francês: "Fujam! Depressa. Parece-me agora que a cidade de luz. Olha em frente quase sem pestanejar. Soube o que vim procurar. Os embrulhos. As cabanas dos pastores erguem-se à minha frente. A sombra no vale estava tépida. no alto desta encosta coberta de ervas. De repente sei. seguindo o carreiro pelo qual subiram. as velhas e os homens. há roupa e sapatos espalhados como para um jogo. À medida que me aproximo das cabanas sinto uma espécie de arrepio bem no fundo de mim que cresce apesar do calor do sol e do aroma embriagador das ervas altas que fermentam. assobiando por entre os dentes? Tudo gira em meu redor como se eu fosse o único ser vivo. 286 O mar é belo ao pôr-do-sol. sem idade. Tudo está calmo no molhe onde Esther se senta. era lá em cima. Continuará a haver víboras enlaçadas no seu combate amoroso? Haverá ainda alguém que saiba chamá-las como 285 Mario. Amanhã chegam Philip e Michel e juntos tomarão o comboio para Paris. As mulheres e as crianças.túrgidas. São abrigos de pedra solta. no fim do Verão. Então os SS carregaram no gatilho e as metralhadoras varreram o campo de ervas fazendo cair os corpos uns sobre os outros e os gritos agudos de pavor afogavam-se no sangue. e que eu tenho de reencontrar. apesar dos passos das pessoas. A chuva deslizava sobre a estrada com um ruído doce. É sobretudo nos olhos das crianças que ela brilha. Esta tarde é a última vez. Os soldados deixaram as bagagens. no meio das altas ervas. Foi um camião conduzido por um italiano que me trouxe de volta a Nice. Talvez. oiço algures o ribombar da trovoada. as malas. Já ninguém aqui vem. apesar do movimento dos automóveis. Há uma brisa que se espalha oculta imperceptivelmente o horizonte. nos seus olhos de que quero afastar o sofrimento. pelo carreiro escorregadio. suavemente. os seus templos e as suas cidadelas. quando as folhas cortantes ficavam à altura dos meus lábios. depressa. Amo-os. a última mulher escapada às guerras. a terra e o céu misturam-se. É noite e a chuva começou a cair sobre o campo e sobre as cabanas de pedra. começaram a correr pelo meio das ervas altas como animais assustados. A água. vestia um fato cinzento muito elegante e usava chapéu de feltro. há homens que tentam fugir para a parte de baixo da encosta. Desci a montanha quase a correr. para o meu país onde a luz é tão bela. para Londres. O carreiro desce pelo meio das ervas em direcção ao vale cheio de sombras como outrora. Partirei com eles para o outro lado do mar. E o silêncio. nas cabanas de pedra. Quando os fugitivos chegaram ao planalto. Sei que vai recomeçar tudo. os sacos de farinha caíram no meio das ervas. Daqui a dois dias chegarão Philip e Michel. e eu já não sabia onde estava. Talvez já aqui estivessem antes dos homens construírem as suas cidades. magníficas. fujam! Vão-se embora que não lhes fazemos mal!" Foi um homem da Gestapo que gritou aquilo. a minha irmã perdida há tanto tempo na nuvem de pó do caminho. os rebanhos de ovelhas conduzidos por um velho surdo que fala com o seu cão assobiando e que se senta numa pedra para ver as nuvens deslizar. com as suas cúpulas celestes e os minaretes que ligam o mundo terrestre às nuvens. a Jerusalém que o meu pai queria ver. Puxaram os corpos pelas pernas até às cabanas dos pastores e ali os abandonaram à luz do sol. mas as balas apanham-nos pelas costas. É .

desaparece na bruma. Reencontrara tudo isso no Canadá. Jack Dupree. de delírio. sob o vento frio. voltava. os dedos de Little Jones no piano. têm a idade do filho. Alguns são ainda muito jovens. as linhas que lançam agora ao mar. É a hora em que tudo oscila. Jealous Heart. saído pela escotilha entreaberta e rastejado pela ponte. E Esther pensa que a realidade é isso. os chumbos que assobiam e fustigam as ondas suaves e a fulguração da luz quando o sol. e o ruído dos parasitas por causa das trovoadas nas montanhas. dizem coisas em dialecto local e Esther desconfia que falam dela. um tal abandono! Lembra-se da ponte do barco à noite. à mesma hora. com ar italiano e camisas cor-de-rosa de mangas curtas. cantava-a em 288 voz baixa quando ia pela rua. Os pescadores ligam um rádio no quebra-mar. rindo. esses pescadores na luz do crepúsculo. Fora Jacques Berger que lhe ensinara aqueles nomes mais tarde. Foi depois de Livorno. Esther gosta de os observar. Há tanto tempo que não sente uma tal paz. lembra-se do ruído doce da proa. com os cabelos curtos já grisalhos. em Ramat Yohanan. a sua música vulgar e os seus risos. Esther estremece. os carretos. Ada Brown. como hoje.preciso partir para esquecer. talvez mais ao sul. a música de jazz atravessava a noite em lufadas. as canas. perto da passagem do Estreito de Messina. da Sicília ou de Tanger. em que tudo se transforma. íamos sem saber para onde. Apesar da proibição do capitão. sente-se contente por ouvir as suas vozes. A música chega em lufadas. Todas as tardes. com os fulgores da luz refractada. são muito morenos. aumentado. Sente-se invadir pela leveza do ar. tão cuidadosos. Esther lembra-se da música. da vibração dos motores por baixo da ponte. Esther tinha trepado a escada. aquela vela que avança na bruma. como se não a tivesse visto. O rádio estava aceso no castelo da proa e os marinheiros ouviam uma música roufenha e estralejante como aquela que os pescadores ouvem naquele momento. a música que ajudava a viver com a . a voz poderosa. É ainda o fim do Verão. olham-na com um ar brincalhão. quando não havia terra nem tempo. da imaginação de um louco divagando sozinho no corredor do seu manicômio. Billie Holiday cantando Solitude e Sophisticated Lady. Afastava-se. O mar entrou nela com a sua agitação. Esther lembra-se como o navio deslizava sobre o mar liso. invisível na noite. O olhar de Esther perde-se na imensidade azul-cinza à sua frente e depois fixa-se num barquinho. Estão tão concentrados. Era Silvio que estava de quarto e tinha-a deixado aproximarse sem lhe dizer nada. Não vão desaparecer. como se tudo o resto não passasse de sonhos. no quarto de Nora. Era a rádio dos americanos. aqueles blocos de cimento. vestida como uma vagabunda. Que poderão dizer a respeito dela? Tem dificuldade em imaginar. têm gestos precisos e seguros. de certa maneira. que tudo aquilo existe. uma única vela esguia e triangular que atravessa lentamente a bruma. Os dias são mais curtos e a noite cai bruscamente. pela névoa luminosa. trazida pelo vento. apesar da suavidade do ar. os pescadores vêm instalar-se sobre as lajes de cimento dos quebra-mares e preparam cuidadosamente as iscas. Os pescadores voltam-se de vez em quando. dir-se-ia 287 quase em falso. perdidos no espaço. uma voz de mulher que canta com intensidade. rouca. É a prova de que são reais. aquele mar lento. até chegar ao posto da frente com precauções de ladrão. Mas. o rosto ainda infantil tisnado pelos dias que passou ao sol na montanha. no apartamento da Avenida Notre-Dame. como está. quando ouviam discos num velho gramofone.

Há morcegos dançando em redor dos candeeiros. uma grande paz." Disse-o em voz alta. trazendo o som da música roufenha. Agora que já está noite. Esther entrou no quarto e viu o rosto pálido tombado na almofada e a sombra escura sobre as pálpebras. como se pedissem desculpa: "Jacques Berger morreu a 10 de Janeiro e foi enterrado. dois homens e uma mulher. no exílio. sente as lágrimas chegarem como se fosse o mar que subisse aos seus olhos. É terrível sentir as vozes afastarem-se. só na sua cama de campanha. Agora. Recordase como era então seguir rumo ao desconhecido. Ferne. Agora. Não sabe por que chora.solidão e o frio. quando Elizabeth deixou de respirar. As lágrimas transbordam dos olhos e correm pelas faces. desde que deixou a infância. Quando a caixa fica vazia. Morreu durante a noite. a voz de Jacques Berger quando traduzia as palavras do Rabi Joèl na prisão de Toulon. Mas sente apertar-se-lhe o coração porque pensa que isso já não existe para Elizabeth. O vento que sopra sobre os blocos de cimento é morno e chega até ela em rajadas. a voz de Lola. Sente uma grande fadiga. Talvez nesse momento não houvesse lágrimas no seu corpo por causa da guerra. Esther atira-a para longe e o seu ruído ao cair no mar faz os pescadores voltarem a cabeça. por causa do silêncio e do brilho do sol. as vozes das crianças que gritavam na praça. no molhe. a voz de Rachel. No saco que transportou consigo todos aqueles dias. seguindo depois pelo cais. que para ela não haverá mais viagem alguma. O vento da noite leva as cinzas que saem da caixa metálica e dispersa-as na direcção do mar. sobre as plantações. pelas ruas da cidade ou até ao cimo da montanha. um mundo em que a luz era diferente. O barco deixou de deslizar sobre o mar liso. É como se fosse um outro mundo. transportado pela música de Billie Holiday. Quando Jacques morreu. Faz girar a tampa com toda a sua força. A voz do pai que dizia assim o seu nome. Esther leva o cilindro de metal onde estão encerradas as cinzas. sem ninguém para lhe segurar na mão. para o outro lado do mar. divaga com a música que vem do rádio dos pescadores. frente ao mar que escurece. onde as vozes diziam outras coisas. parece a voz de Billie Holiday cantando Solitude para os lados do Estreito de Messina. espalha-as nos seus cabelos. onde os olhos tinham uma outra forma de olhar. da luz que 289 dançava nos cabelos negros de Yohanan. Esther não chorou nessa altura. vieram três soldados ao kibutz dar a notícia. Inclinou-se para o corpo frio e hirto e disse: "Não agora. outro sabor. onde tudo tinha outra cor. pela encosta coberta de vegetação onde o pai morreu. A voz de Nora. pela primeira vez desde há muitos anos. estrelinha. 290 Fim . A enfermeira entrou e ficou em pé junto da porta. em Saint-Martin. Tudo aquilo se afasta agora. nas colinas de Tiberíades. Ou talvez fosse por causa da luz do sol sobre os campos. por favor! Fica um pouco mais! Quero falar-te de Itália. Estrellita. cega-a. a voz de Tristan. a voz do Sr. Mas com certeza é outra coisa." Partiram imediatamente. apertando nas suas a mão fria para fazer entrar um pouco de calor nos dedos mortos. Fecha o saco e salta de bloco em bloco ao longo do quebra-mar. Disseram. sem dizer nada. Tinham expressões muito doces. Esther sente que as lágrimas podem vir. de Amantea. Às vezes um turbilhão torna a trazer as cinzas para cima de Esther.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful