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I O rei da carne, Pierpoint Mauler, recebe uma carta de seus amigos de Nova Iorque CHICAGO. OS MATADOUROS
MAULER,

lendo uma carta. – “Parece-nos evidente, caro Pierpoint, que já há alguns dias o mercado da carne está saturado. E, no sul, as barreiras alfandegárias resistem a todas as nossas ofensivas. Acreditamos, portanto, ser prudente, querido Pierpoint, não mais envolver-se com este negócio...” Acabo de receber essas indicações de meus bons amigos de Nova Iorque. Lá vem meu sócio. Ele esconde a carta. CRIDLE – Por que esse ar tão sombrio, querido Pierpoint? MAULER: Lembra-te, Cridle, daquela caminhada Que fizemos uma vez, pelos abatedouros? Era noite. Diante de nossa máquina nova, Cridle, lembra-te, nós vimos um touro Claro e nobre, dirigindo aos céus seus grandes olhos vazios. Ele recebeu diante de nós o golpe que o abatia: E tal golpe me atingiu até o fundo do coração! Há sangue demais, Cridle, em nosso negócio! CRIDLE: Amigo, vens outra vez com tua antiga fraqueza. Quem acreditaria, Pierpoint? Tu, o maior de todos, O rei dos abatedouros, dos açougueiros o terror, A morte de um touro louro te enche de dor! Não conte, eu te rogo, tal segredo a ninguém A não ser a mim! MAULER: Oh, meu fiel amigo, Por que me levaste a visitar o abatedouro! Durante os sete anos em que estou no negócio

Eu evitei fazê-lo. Eu não posso suportar Um comércio tão sangrento, não tenho mais forças: Eu me retiro de imediato... Cridle, queres a minha parte? A terias por muito pouco; a ti, a preferência: Ninguém conhece o negócio como tu. CRIDLE: Muito pouco? Quanto? MAULER: Velhos amigos como nós dois Não podem disputar muito por valores. Dez milhões! CRIDLE: Não seria caro, se não houvesse Lennox Que, pela carne em conserva, lata a lata se bate, E estraga o mercado com seus preços baixos. Tirará nossa pele, se não tirarmos a dele. Enquanto ele estiver em pé, e só tu podes abatê-lo, Não posso aceitar tua proposta. Deverás, até lá, com tua mente fértil, Encontrar uma saída. MAULER: Não, Cridle, Esse coração treme ainda com o grito do touro! É preciso então que Lennox caia rápido, Pois quero, doravante, viver como homem de bem E não mais como açougueiro. Saiamos, Cridle, e eu te direi A forma de abater Lennox. Mas tu deverás então tirar esse peso do meu coração E tomar a frente de nosso negócio CRIDLE: Quando Lennox for derrubado Eles saem. II

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O desmoronamento das grandes indústrias da carne A - DIANTE DA FÁBRICA DE ENLATADOS DE LENNOX
OS OPERÁRIOS

Nós somos setenta mil Nessas fábricas de conservas E nossos salários são tão baixos que não podemos mais [sobreviver. Ainda ontem, de surpresa, reduziram nosso pagamento E hoje, um novo aviso: “Os que não estão satisfeitos, sempre podem deixar a fábrica!” Saiamos então, e todos juntos. Ao diabo esse salário que diminui todos os dias. Silêncio Há muito tempo já esse trabalho nos nauseia: Esta fábrica é para nós um verdadeiro inferno E só pode nos manter aqui o medo, O medo duplo, de Chicago e do inverno. Mas agora, doze horas de trabalho Já não garantem nem um pão seco Nem dão para comprar um trapo velho. Melhor partir E morrer de uma vez. Silêncio Pelo que nos tomam eles? Acreditam então Que nós somos gado, dispostos a tudo? Tomam-nos por jumentos? Melhor morrer! Deixemos a fábrica Agora mesmo. Silêncio O que houve? São seis horas! Por que não abrem, corja de esfoladores? Seus bois estão aqui, bando de açougueiros! Abram! Batem no portão.

Terão eles nos esquecido? Risos. Abram! Queremos entrar Em suas imundas pocilgas E suas cozinhas infectas Para preparar guisados indigestos Para os que ainda podem pagar. Silêncio No mínimo exigimos, O salário anterior, que já não dá para nada. No mínimo A jornada de dez horas e, no mínimo... UM HOMEM QUE PASSA: O que vocês estão esperando? Não sabem que Lennox fechou? Gazeteiros de jornal aparecem na cena GAZETEIRO – Lennox, o rei da carne, forçado a fechar suas fábricas! Setenta mil operários na rua. Lennox vítima da concorrência feroz imposta por Pierpoint Mauler, rei da carne e da responsabilidade social!
OS OPERÁRIOS

Desgraça! O próprio inferno Diante de nós fecha suas portas! Nós estamos perdidos. O impiedoso Mauler Aperta a garganta de nosso explorador E somos nós que sufocamos! B - UMA RUA – A Tribuna de Chicago, edição do meio-dia! O rei da carne e da responsabilidade social, Pierpoint Mauler vai inaugurar os Hospitais Pierpoint Mauler, os maiores e mais caros do mundo! Dois transeuntes olham para o fundo do palco, “vendo” Mauler. UM TRANSEUNTE, ao outro – Aquele é o Pierpoint Mauler. Mas quem são os dois que o acompanham?
GAZETEIRO

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– Seguranças. Só anda escoltado, com medo de apanhar de alguém.
O OUTRO

Para levar Deus ao coração de um mundo que desaba E nele restaurá-Lo, pela ação dos mais humildes. Os Chapéus Negros andam. Toque de tambores. Durante todo o dia os Chapéus Negros pregaram nos matadouros, mas, quando a noite chegou, os resultados eram quase nulos. DIANTE DA FÁBRICA DE CONSERVAS LENNOX – Dizem que eles estão preparando um grande golpe sobre o mercado de carne. Para nós isso que dizer esperar e passar fome. OUTRO OPERÁRIO – A luz está acesa nos escritórios. Estão lá, calculando os lucros. Chegam os chapéus Negros. Fixam no chão uma placa na qual se lê: “Hospedagem: 20 centavos por noite. Com café: 30 centavos.” CHAPÉUS NEGROS cantando Escutem todos, escutem bem! Tu que te afundas, nós te vemos, Teu apelo por ajuda, nós o escutamos, Teu sinal, nós o percebemos. Parem os carros, detenham o trânsito Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Tu que te escondes, tu que duvidas, Olha para nós! Olha, Meu irmão, antes que sucumbas! Nós te damos o que comer E nós não esquecemos Que tu não tens abrigo. E, sobretudo, não digas que tudo está perdido: Tudo será diferente, a injustiça nesse mundo Não poderá durar se todos se juntarem a nós, Marchando ao nosso lado Com o único objetivo de ajudar o próximo. Nós faremos avançar os tanques e os canhões
UM OPERÁRIO

Para levar consolo aos miseráveis dos matadouros, os Chapéus Negros deixam a sua sede. Joana empreende sua primeira descida às profundezas. C - EM FRENTE AO TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS
JOANA,

à frente de um comando dos Chapéus Negros: Nesta noite de sangue e confusão, Nesse tempo de desordem organizada, De arbitrariedade consentida, E de humanidade desumanizada, Nesse tempo em que em nossas cidades Os problemas não têm fim; Nesse mundo, imenso matadouro, Em que nos chegam rumores de violência iminente; Para impedir que, em sua brutalidade, O povo, ofuscado, quebre suas ferramentas E destrua assim seu ganha-pão, Nós queremos reintegrar Deus Pois aos lugares onde realmente vivem os homens Ele não mais tem acesso: Sua glória anda pouca, Seu nome, já quase suspeito. Dos mais humildes, entretanto, ele é a única salvação! Então nós resolvemos Por ele bater nossos tambores nesses bairros; Para que ele penetre no coração da miséria E que sua voz retumbe pelos matadouros. Aos Chapéus Negros: O que faremos agora é uma última tentativa. Pela derradeira vez, nos esforçaremos

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Nós lançaremos ao mar os navios de guerra, E nos ares, os aviões Para conquistar teu pão, meu irmão. Porque vós, os pobres, formais Nesse mundo um imenso exército. Vós que nos escutais Não esperai o amanhã! Desde hoje ajudai, Ajudai ao próximo! Avante! Ao assalto! Empunhai vossos fuzis! Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Cantando, os Chapéus Negros começam a distribuir seu jornal: Apelo às Armas, bem como colheres, pratos e sopa. Os operários agradecem e põem-se a escutar o discurso de Joana. JOANA – Nós somos os soldados do bom Deus. Por causa dos chapéus que usamos, somos também conhecidos como os Chapéus Negros. Nós dizemos que somos soldados, porque formamos um exército e porque, em todos os lugares em que vamos, precisamos lutar contra o crime e a miséria, contra as forças que tendem a nos aviltar. (Ela mesma começa a distribuir sopa) Bem, agora comam esta sopa quente e constatarão que depois vocês verão as coisas com um olhar diferente. Pensem agora qual esperança se pode fundar sobre a felicidade terrena. Nenhuma, absolutamente nenhuma. A desgraça vem como a chuva: ninguém a provoca, mas, entretanto, ela vem... Suas desgraças, digam-me de onde vem? UM DOS QUE COMEM – De Lennox & Cia. JOANA – O senhor Lennox tem talvez mais preocupações do que vocês! O que vocês estão perdendo? Ele, suas perdas se contam por milhões. UM OPERÁRIO – Carne não há nesta sopa, só uma aguinha clara, isso sim. Mas quente, pelo menos, está. OUTRO OPERÁRIO – Fiquem quietos, bando de glutões! Escutem a palavra de Deus! Senão vão tomar o prato de água quente de vocês.

– Silêncio! Queridos amigos, digam-me: por que vocês são pobres? UM OPERÁRIO – Sei lá! Explique você! JOANA – Eu lhes direi. Não é porque vocês não estão cheios de bens materiais – que não chegam para todos – mas porque vocês não têm idéia dos valores mais elevados. É por isso que vocês são pobres. Esses gozos vulgares aos quais vocês aspiram, comer um pouco, ter um bom lugar para morar e ir ao cinema, não são mais do que prazeres frívolos, grosseiros. Enquanto que a palavra de Deus é um prazer mais delicado, mais profundo e muito mais refinado; talvez vocês não possam nem imaginar algo mais doce do que o chantili, mas a palavra de Deus é ainda mais doce. Homens de pouca fé, os pássaros no céu não têm carteira de trabalho, as açucenas do campo não têm emprego e, entretanto, como eles cantam Sua glória, Deus lhes dá alimento. Nós, os Chapéus Negros, fazemos então a vocês uma pergunta muito prática: de que um homem precisa para crescer na vida? UM OPERÁRIO – Um colarinho engomado. JOANA – Nada disso. Para progredir na terra talvez seja necessário um bom colarinho, mas diante de Deus é preciso muito mais que isso, outras glórias. Vocês aos olhos Dele, nem mesmo um colarinho puído têm, pois deixaram suas almas no abandono. Mas então como vocês querem elevar-se, chegar ao que vocês, em sua ignorância, chamam de uma “situação melhor”? Pela força bruta, pela violência? Como se algum dia a violência tivesse trazido alguma coisa além da destruição. Vocês acham que mostrando os dentes conquistarão o paraíso na terra. Mas eu lhes digo, agindo dessa maneira o que se cria não é o paraíso, mas o caos! Um operário chega correndo. O OPERÁRIO: Uma vaga, agora mesmo, acaba de abrir! Um trabalho, um salário, esperam por vocês, Na fábrica número cinco! Que mais parece uma latrina. Corram, rápido. Um operário larga seu prato cheio e sai correndo.
JOANA

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– Ei, você, onde é que você vai? Quando se ocupará de Deus? Vocês não querem nem ouvir falar, não é? UMA MOÇA DOS CHAPÉUS NEGROS – Acabou a sopa. OS OPERÁRIOS: Acabou a sopa; Era só um caldinho ralo Mas era melhor do que nada. Todos se viram e se levantam. JOANA – Fiquem sentados; acabou, mas que importa, uma vez que a grande sopa celeste não se esgota nunca. OS OPERÁRIOS: Quando, afinal, vocês Abrirão as portas de seus porões, Carniceiros, mercadores de carne humana? UM OPERÁRIOS: Com o quê, agora, pagarei A casa pequena e úmida, onde vivemos doze? Eu já paguei dezessete prestações, Mas a última, não conseguirei Seremos jogados na rua. E o chão de terra batida E nosso pedaço de grama amarela, Nunca mais os veremos, nunca mais, Nem tampouco respiraremos seu pestilento ar familiar. UM OUTRO OPERÁRIOS: Aqui estamos, em pé, nossas mãos como pás, E nossos pescoços fortes como tratores. Nossas mãos e nossos pescoços, queremos vendê-los Mas não há quem os compre. OS OPERÁRIOS: E nossas ferramentas - Gigantesca montanha de prensas e gruas – Estão trancadas, detrás desses muros! JOANA – E então, o que se passa? Quer dizer que já se vão? É porque já terminaram de comer? Adeus e obrigado. Mas por que então vocês escutaram até agora?
JOANA

– Pela sopa. JOANA – Continuemos. Cantem! CHAPÉUS NEGROS cantando Avante, entrai nessa luta! No coração da batalha lutai! Cantai com louvor, que cante todo o mundo. Ainda é noite, mas logo virá o dia, Raiando com todo o esplendor, E junto virá Jesus Nosso Senhor. UMA VOZ, do fundo do palco – Estão contratando nas fábricas de Mauler! Os operários saem. Fica apenas uma mulher. JOANA, com ar sombrio: Parem a música! Acabou a sopa, lá se vão eles! Seus olhos são incapazes de elevar-se Mais alto do que a borda do prato. Eles não crêem em nada além do que está Entre suas mãos. Acreditarão em suas mãos? Vivendo cada dia, cada minuto mesmo, Na insegurança, eles não são capazes De se esquecer das preocupações mais básicas. Nada, a não ser a fome, tem sobre eles qualquer influência. Nenhuma canção os toca mais. Nenhuma palavra pode Descer até eles e penetrar seus corações. Aos que a cercam: Parece que nós, os Chapéus Negros, temos por tarefa alimentar todo um continente com nossos poucos talheres. Os trabalhadores voltam. Ao longe, ouvem-se gritos. OS OPERÁRIOS, na frente do palco – Que gritos são esses? Um imenso caudal humano emerge dos abatedouros. UMA VOZ, do fundo: Mauler e Cridle também fecharam. As indústrias Mauler optam pelo lock-out! OS OPERÁRIOS, refluindo:
UM OPERÁRIO

Em um grande edifício: A Bolsa de Carnes JOANA: Eu vou até lá: Eu preciso saber. para ele. derrubou-te. Enquanto corríamos atrás de trabalho. . Uma multidão enorme e desesperada. São reles glutões Preguiçosos. JOANA – Não! Eu quero saber (aos trabalhadores) Digam-me. por que correm de um lado a outro e não encontram trabalho? OS OPERÁRIOS: O sanguessuga Mauler e o muquirana Lennox brigam entre si. que fogem do trabalho. torna-se. UM OPERÁRIO. já que ele é a causa de tamanha miséria. Ao fundo. JOANA – Quero saber. eu quero vê-lo. desce cada vez mais baixo. a Joana – Vamos agora. Eles têm apenas idéias vulgares na cabeça. Todos haviam perdido o emprego E perguntavam onde achar trabalho. E o frio supremo Rouba de seu coração todo o calor. Quem abandona o lar protetor. Jamais seus corações. Eles encherão tuas orelhas com seus gritos. ruídos da Bolsa. desde o dia em que nasceram. – Não. Sua bondade perde rápido. OS CHAPÉUS NEGROS – Então teu destino nos parece bem negro. O selvagem Mauler! De um tal monstro a investida É inexorável! A natureza. antes. Oh Joana! Não te metas nas querelas terrestres! Pois quem nelas se envolve. meu velho Lennox. ele te revenderia. Lennox está branco como algodão. quem é o responsável por tudo isso. Degrau após degrau. Recebemos mil respostas. por favor. OS CHAPÉUS NEGROS – Pare! Não te metas com essas questões. presa. mora aonde? OS OPERÁRIOS: Lá. dos Chapéus Negros: Não vá te meter com estes problemas. Ele venderia o próprio ar. Na insana esperança de obter uma resposta Que jamais chegará. os fabricantes de conservas Lennox e Graham discutem. O que comeste. Ao fazer mil perguntas.6 No meio do caminho encontramos. Joana e Marta esperam. MARTA. E vê esvanecer-se sua pureza original. JOANA III Pierpoint Mauler é tocado pelo sopro de um outro mundo EM FRENTE À BOLSA DE CARNES Em baixo. Torna-se mercadoria. GRAHAM: E então. onde se compram e vendem animais. pronto. Estamos gelados e molhados e precisamos comer. esse Mauler. No alto. Os Chapéus Negros se afastam. JOANA – Esse Mauler. Resultado para nós: barrigas vazias. na frente do palco: Desgraça! De todos os lados chegam ainda Torrentes infindáveis de homens! OS CHAPÉUS NEGROS. Abrigaram sentimentos nobres. Tu desaparecerás na lama! Pois a lama entope as bocas Que fazem perguntas sem prudência JOANA: Eu quero saber.

Tira esta mão que me aperta e me estrangula. este homem não é duro E nem ama o dinheiro. OS FABRICANTES DE CONSERVAS : Trata-se de saber quem agüentará mais tempo. nele. o porco se precipita. Cridle. Ele não pode suportar A visão da miséria. como vais reconhecê-lo? JOANA – Saberei bem reconhecê-lo.. Diga-lhe: Mauler. Quando ele não podia absorver mais nada. Batendo-se por sua conquista. cruzei a última fronteira. época maldita! Um comércio estrangulado por montanhas de conservas. Tão natural. De carne podre.7 De barracos miseráveis. A nova técnica é muito engenhosa: O porco é colocado em uma esteira rolante Até o alto da fábrica. O que fazer com ela? Ah. Fizeram desabar os preços e destruíram seu negócio. O faro para o dinheiro é nele tão potente. eu também te recomendei prudência. Em dinheiro ele as transformará. olhe para mim e de meu pescoço. Mauler.. Agora vou limpar a minha fábrica. Lubrificar meus cutelos. ele extrai rendas. E pensa nos velhos tempos. E assim. não é verdade? GRAHAM : Muito bela! Mas e a lata. Que ele não saberia jamais trair seu instinto. Marta. surge de um grupo de fabricantes de conserva. Destroem com seus cascos o pasto que disputam. ficarás com a fábrica Conforme está previsto nos termos do contrato: “No dia em que Lennox for eliminado. Pois caindo. Todos me abandonaram. Começa então o seu retalhamento. à Marta: Tu somente. A Lennox: Estás perdido. E agora. JOANA – Mas tu vieste comigo. com sua escalada. Nas facas. Bela invenção. confessa. Um mercado aviltado. ele faz ouro. esta arte contrária à natureza. Por si mesmo. JOANA. lutando. Vocês mesmos. moídos como farinha. Cridle sai da Bolsa e desce até o palco. que vira couro. Espero que o mercado recobre a saúde. não achas? Ele se degola e logo. Primeiro perde a pele. CRIDLE: Muito bem. para economizar Uma agradável soma em salários. no entanto..” CRIDLE : . eu garanto. E se lhe jogas pedras na cabeça. Até chegar aos ossos. MARTA – Joana. Fecho minhas fábricas... a cada fase. Slift. que. Ele terá medo. com voz suave. Bem pensado. ainda ontem florescente!. acompanhado de seu corretor. que viram escovas. E talvez chore. Vá. Tal qual dois grandes búfalos. MAULER : Lennox está de joelhos. sozinho. chega Na lata que o espera lá embaixo. Depois seus pelos. Instalar duas ou três dessas máquinas novas. Gritaram-me prudência: Para eles. Saibas. até ele e. até aqui me acompanhastes. no último andar.. então.Joana. MARTA . e dorme mal à noite. Estranho conselho! Eu te agradeço. Lennox! Acabou a guerra de preços! Foste eliminado. por conta de seu próprio peso. em salsicha se transforma.

E eu. é que meu coração se aperta Quando ouço mugir a criatura CRAHAM : Agora eu compreendo a grandeza de teus atos. Mas com ele acabaram Os bons dias do mercado. Mauler.. Ele sai. Lennox acabou. LENNOX – Não. as ações estavam a 390. Mauler. então. Freddy! Quer dizer que tu me socas. Tu me ofereceste a 320. Lennox. A exigir meu dinheiro. É preciso então. e onde eu conseguiria dinheiro para pagar tua parte? Eu estaria arruinado! MAULER : Já que me dizes isso. Mas. de examinar Contigo. Estou tão temeroso que chego a suar frio: seis dias. CRAHAM : Toque-lhe o coração. : Pepê! Isso não é um jogo! Não podes misturar Questões pessoais aos negócios! CRIDLE – Pois não. Cridle. sem mais delongas. o coração torturado! Cridle se afasta. MAULER : O quê? A soma está inscrita Claramente no contrato Tome. nosso contrato não é mais viável. então.. Pepê! Como quiseres. tenho dois mil empregados! CRIDLE – Mande-os ao cinema! Mas Pepê. veja Lennox. elas cairão a 70. MAULER . (faz contas em uma caderneta) Quando combinamos que tu sairias do negócio. olhe para mim. Repensar os dez milhões de dólares Que queres por tuas ações. isto é. Cridle. se eu fizer isso. e tu tinhas um terço.8 Sim. mergulhado em meus negócios. CRAHAM .. Antes que quebres de uma vez! Creia-me. Pois eu proibirei Cridle De comprar-te uma única lata. como eu. Nada além. as ações caíram para 100. tu me forças. até teu coração sabe ver longe! LENNOX : Eu gostaria ainda. um contrato dos tempos de prosperidade! Mas e a crise? Ela não existe? Que posso fazer eu com um grande matadouro Se ninguém mais compra carne em conserva? Agora sei bem porque não podias Mais suportar a visão do gado morrendo: sua carne Não vende mais! MAULER : Não. sensível! Ele soca Mauler no coração. Veja se esse contrato diz uma só palavra sobre a crise. Não pude imaginar seu fado. Para pagar o que te devo. eu precisaria jogar essas ações no mercado. GRAHAM — Mauler. MAULER – Leia.. Não estava caro. Lennox! Toque-o! É uma lata de lixo. nada. mas.. Joana fez um sinal a um segurança e lhe diz algumas palavras. Isso não é um contrato? Com um preço fixado? CRIDLE : Sim. se tu estás Realmente onde dizes. LENNOX – Mauler. seguindo-o com os olhos: Tive a ligeira impressão de que algo o atormentava. É o máximo que posso fazer. Ah! Pudesse eu estar liberado De um comércio tão bestial! Tenho. Mauler. Seis dias? Não. MAULER – Ai! GRAHAM — Viu? Ele tem um coração! MAULER : Então. Hoje. cinco. devido à saturação do mercado..

Mais uma coisa: não diga. Que não é acusada de nada E que não espera o impossível de mim. MAULER .. – É o senhor. a Slift: Que eles trabalhem por nada. Porcos. na verdade. há algumas pessoas que querem lhe falar. não é homem de bem. além da comida e do uniforme. Mas que nome curioso! Soldados do Bom Deus. MAULER : A escória em farrapos. sobre outra questão. Senhor Mauler. Mas. que o sangrento Mauler. JOANA: Por que joga. em absoluto. cá entre nós. diga que não estou. (aponta para Slift) É ele! JOANA. MAULER – Como me reconheceste? JOANA: De todos. Dizem. o tecido não é grosso Nem é grossa a sopa. O SEGURANÇA — São membros da Organização dos Chapéus Negros. Durante esta cena. eu sei. Para Joana:) Quanto recebes por dia? JOANA. MAULER: O tecido é bem fininho e. O melhor para eles É causar em mim a impressão de gente honesta. 59. O SEGURANÇA: Ele vai vê-los. seus trabalhadores na rua? MAULER. São chamados de soldados do Bom Deus. MAULER : Já ouvi falar dessa gente. mas vocês não devem Perguntar nada. suponho. A Joana: Vós sois. Chapéus Negros. JOANA. . adoraria vossa opinião. dirigindo-se direto a Mauler – O senhor é o Mauler! – Não sou eu. JOANA. Slift. apontando para Mauler – O senhor é o Mauler! MAULER – Não. Pretendo renunciar a esse negócio sangrento Logo que eu possa: renunciar sem retorno. Slift? (Enquanto isso. Pouco me importa o que esperam de mim. Slift ri. Ouve-se: Bois. 43. sem dúvida? Prontos para a violência. Com ar invejoso. gente estranha. O segurança vai ao encontro de Joana no outro lado do palco. são numerosos e gozam de grande consideração nas camadas inferiores da população. é ele. nem desses versos sentimentais Que eles adoram cantar. Mas o que eles querem comigo? O SEGURANÇA — Afirmam que têm algo a dizer ao senhor. respondam apenas Quando ele lhes perguntar. que eu sou Mauler. – Vinte centavos. MAULER : Está bem. Graham sai. é o que tem a cara mais ensangüentada.É assim. Nada de choros. Creiam-me: esses são assuntos profissionais Que não vos interessam. Sim. que a escória me chama – Despojou Lennox.9 O SEGURANÇA — Senhor Mauler. não é notável? Já viste algo igual? Que trabalhem por nada e sem se lamentar? Não vejo em seus olhos nem medo da miséria Nem de dormir sob as pontes alguma noite. Diga-lhes que eu os receberei Mas que eles limitem-se a responder minhas perguntas. MAULER – Rindo.. que a sopa seja rala. Vitelos. hein? Não. o rumor da Bolsa continua. MAULER : O que é esta organização? O SEGURANÇA — Eles têm muitas ramificações. etc. 55. e pôs em apuros Cridle que.

. JOANA – Isso é uma gota no oceano. O senhor não poderia realmente ajudá-los? MAULER: Repita por toda a parte: eu aprovo vossa ação. Eu sei. Talvez por isso te ajude. Marta sai. JOANA: Senhor Mauler. Nenhum é inocente. tu também. Cedi por dez ao homem que vêem aqui. Tamanha inocência!. Eu os verei chorar um dia. ele é mau. MAULER: Eu tenho grande piedade pelos bois: o homem. Dirigindo-se aos outros: Parece-me que fui tocado pelo sopro de um outro mundo. não me comove. Mas. dêem! Corja de carniceiros! Ele continua mexendo nos bolsos deles para dar dinheiro à Joana.10 Pois eu vi – e isso vos interessará – Morrer. Não. Senhor Mauler. no lugar do pobre animal. para o que pretendes fazer. confesso. sem nenhuma obrigação: Eu não sofro de insônia. São todos carniceiros. Embora já tenhas vivido mais de vinte anos. não creias que seja de boa fé. MAULER: É que adquiri o maldito hábito De disfarçar a voz. MARTA. que com tal decisão As pessoas sofreram. a Joana: Joana. Ele se aproxima dos industriais. Ele fala com Slift em voz baixa. nos matadouros dizem que o senhor é o responsável pela miséria deles. Eles não têm mais trabalho.. MAULER: Poderia eu ir mais longe? Porque ele é sangrento É que eu tirei as minhas mãos deste imenso negócio. um boi e fiquei tão comovido Que quis largar tudo. Seu rosto me agrada. Seu riso não me atinge. Dêem o dinheiro. minha filha. O mundo não poderá mudar se antes não mudarem os homens. diga. mas não digas nada. Deverias. Abandonar esta empreitada. Tome para os pobres. de resto. não é? JOANA: Não sei se o senhor fala sério.. aliás. A parte – doze milhões – que eu tinha na usina. MAULER: Riam todos. não me digas nada. É bom. A canalha. Diga-me que está certo E que isso te agrada. dêem o dinheiro. Desculpe-me.. Ele não é maduro ainda. Isso não é bom? E conforme vosso espírito? SLIFT : Vendo morrer o boi. Eu sei. eu sinto Que tu não gostas de mim. vamos. Mas é uma gentileza. Melhor para ti que não os veja. Mas tendes consideração demais pelo destino dos pobres: Eles são maus. por que fechou os matadouros? Eu preciso saber. Deixai disso. isso de se retirar do negócio. O homem.. Um instante. Isso não é bom? Os fabricantes de conservas explodem em gargalhadas. E desejaria que fossem mais numerosos. ele decidiu abater O rico Cridle. Mas este mal era inevitável. JOANA – Senhor Mauler. São. tomando-lhes o dinheiro que trazem consigo e dando-o a Joana. Eu também vou embora. por favor. pessoas extremamente más. há pouco.

já que agora ele está em embalado. senhor Smith. perderei meu emprego. e ele entrou na faca e virou toicinho. Aqui estão seu casaco e seu boné: pegue-os e façaos desaparecer. Responsáveis. ele cairá bem.. se quiser. Veja então o que ela compra. vacilando: Estou me sentindo mal. e enrola o seu.11 Chame ela de lado. na caldeira. Estão ocupando inutilmente um cabide no vestiário. enfim. Ele sai. SLIFT: Em teu lugar não gostaria. É o primeiro que nossos tambores desalojaram Das trevas da vilania. Slift e Joana contornam o muro de uma fábrica. dê dinheiro a ela. vendo Mauler se afastar: Este homem não é mau. este homem será mandado para os quatro cantos do mundo sob a forma de toicinho. ele te fará ver algumas coisas. Entrego a você porque sei que é de confiança: se alguém encontrá-los em algum lugar. e para mim. caiu. IV O corretor Sullivan Slift mostra à Joana Dark como os pobres são maus: Joana desce às profundezas pela segunda vez BAIRRO DOS MATADOUROS SLIFT: Joana. A Slift: Mal posso suportar a existência de seres Semelhantes a esta moça. peguei para mim. E que não têm nenhum medo. ela poderá Aceitar sem pudor. Slift e Joana escutam. é a escória. Isso pode funcionar. é claro.) É uma pena. Azar. JOANA. por suas vidas miseráveis. que nada têm Além de seus vinte centavos por dia e seu chapéu negro. cheios de traições. faz quatro dias. JOANA — Eu quero vê-los. agora eu vou te mostrar Como eles são maus Essa gente da qual tens piedade. saindo – Um conselho: não te metas com as gentes dos matadouros. A Joana: Aqui está meu corretor. Luckerniddle. . É preciso queimá-los. SLIFT. é o lixo do mundo. Quando a fábrica reabrir você.. Mas seu casaco ainda está bom e isso também é uma pena. em um jornal. ficará com a vaga de Luckerniddle. o que causa má impressão. assim como o seu boné. Sullivan Slift. o quanto antes melhor. Dois homens saem por uma portinhola. JOANA. Mas volte aqui amanhã. Semelhantes a bestas. mas não pudemos parar as máquinas a tempo. em uma palavra. Ele ouviu nosso chamado. sobre o qual se lê: “Fábrica de Conservas de Carne Mauler e Cridle”: O nome de Mauler aparece riscado.E eu adoraria que não desse certo – Leve-a aos matadouros. (O contramestre volta para a fábrica pela portinhola. Se quiseres mesmo saber. O JOVEM OPERÁRIO – O senhor pode confiar em mim. a um jovem operário – Um de nossos homens. e mostre a ela Como os pobres são maus e covardes. vestido com uma lata. Ele veste o casaco. é pavoroso. Se isso falhar . Diga “para seus pobres”. UM CONTRAMESTRE. E verás que tua piedade é descabida. O amigo Pedaço-de-Toicinho não precisa mais dele. e depois a siga. De saber o que queres saber.

GLOOMB – O feitor está bem ali. todo o tempo. Amanhã. ao meio-dia.. (Ele vai em direção a Gloomb). Antes eu gostaria de fazer-lhe uma proposição interessante. ele não foi para São Francisco. além dele. Tenho a impressão de que você está prestes a cometer um ato impensado. em nossa cantina durante três semanas. SLIFT – Se é esta a sua opinião. é capaz de o meu quebrar já no primeiro golpe. passe-me logo teu cassetete. Vamos cuidar para que essa seja a última vez. Você poderá comer e lhe darei um dólar se disser à mulher de Luckerniddle onde conseguiu o casaco e o boné. O JOVEM OPERÁRIO – Pode confiar em mim. na fábrica. Quando ele se aproximar. legalmente. e vocês não querem que se saiba disso. Precisará nos processar. Verás então o que é essa gente. Por causa dele deixei minha mão na máquina de cortar chapas. Eu. Eu estou em uma situação muito ruim. Slift volta para junto de Joana. SLIFT: Guarde essas coisas. Joana e Slift seguem seu caminho.. para nós. que fizeram dele? Há quatro dias que estou aqui. No ano passado me deixei seduzir pelos vinte centavos a mais que se ganha na fábrica de adubo. SLIFT – Estamos dizendo que ele partiu para São Francisco. (Ele pára o jovem operário. seu marido está viajando. Não tenho outro esteio. Eu ficarei aqui. me encontrará na cantina. O JOVEM OPERÁRIO – Mas senhor. Eu tiro agora mesmo. esperando por ele Mas ninguém diz nada. Aconteceu alguma coisa com ele aí. e meu marido não sai da fábrica. Não procure mais saber o que se passou com seu marido e a senhora poderá almoçar. nós não somos. ele me dizia: “Espere-me à noite com uma sopa quente!” Desde então não [voltou.12 SLIFT: Aí está a vida como ela é. SLIFT. senhor. à cantina número 7. lamentando-se: Faz já quatro dias que. Mas reflita bem. Senhora Luckerniddle: ele está viajando e. não diga mais isso. de forma alguma. é muito desagradável vê-la sentada aí. lhes digo. Vamos. Esse salafrário se empanturra às nossas custas. senhor. SLIFT: Senhora Luckerniddle. Eles chegam a uma cantina da usina e vêem diante de uma janela dois homens que olham para o interior. dizendo tolices. isso não lhe parece muito brutal? SLIFT: Bem. a Joana – Fique aqui. DONA LUCKERNIDDLE – Não. No frio. DONA LUCKERNIDDLE: Eu quero que me devolvam meu marido. diga-lhe que procura trabalho. JOANA: Ela nunca aceitará. senhora Luckerniddle. se você não está precisando disso!. DONA LUCKERNIDDLE: Agora inventam que ele viajou! SLIFT – Deixe-me dizer uma coisa. É por isso que lhe fazemos uma proposta: note bem que. então a senhora não pode aceitar a refeição que a fábrica lhe oferece. Joana e Slift prosseguem seu caminho. DONA LUCKERNIDDLE – Quero saber o que aconteceu ao meu marido. se quiser me ver. Mas existem coisas Que importam mais para ela. enquanto não o vir. E malditos sejam vocês Se lhe fizeram qualquer coisa! Slift caminha até ela. gratuitamente. . mesmo à noite. Vinte refeições são muita coisa Para aquele que tem fome. saindo para o trabalho. vou falar com ele. fui trabalhar no moinho de ossos e adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. obrigados a fazê-la. Venha. pronto para encher a pança. Bando de açougueiros. aquele que se acidentou? O JOVEM OPERÁRIO – Por favor. Já não posso mais trabalhar como antes e só consegui emprego duas vezes desde fevereiro. de qualquer modo. DONA LUCKERNIDDLE está sentada em frente ao portão da fábrica.) Onde você conseguiu este casaco e este boné? Estes são os pertences de Luckerniddle.

calculando – Vinte refeições. A GARÇONETE – Se a senhora não for comer. SLIFT – Gostaria de propor um meio de tirar-lhe dessa jogada. Ali adiante. GLOOMB – Aquela moça ali? . tem que se retirar. No ano passado fui trabalhar na fábrica de adubo. meu senhor. e então eu poderia..13 – Não tenho tempo. JOANA – A senhora já está aqui.. SLIFT – Que pena. JOANA – Mas a senhora nem sabia que nós viríamos hoje. no moinho de ossos. GLOOMB . Uma jogada dessas é melhor de se fazer à noite. pode ser que mude de idéia.. E é um trabalho que pode ser feito mesmo por pessoas como você.. justamente porque você contou todas essas histórias a respeito de seus dedos. já faz dois dias que eu não como nada. Os movimentos ficam menos firmes e pode-se prender as mãos nas serras.. Ela senta-se em uma mesa. DONA LUCKERNIDDLE – Espero uma pessoa que deve vir hoje ou amanhã. desde hoje? DONA LUCKERNIDDLE – Não como nada há dois dias. (Ele vai em direção a Joana. e lhe daríamos até um trabalho mais fácil e melhor remunerado do que o antigo. depois do que eu iria. há uma moça que está procurando trabalho. GLOOMB – Posso confiar no que você está me dizendo? SLIFT – Sim. encontrasse alguém. GLOOMB – Rápido então. Se você. por exemplo. GLOOMB – Nada disso é verdade. Tchau. E eis que ela nos precedeu. DONA LUCKERNIDDLE – O que? Vocês pensaram melhor e estão retirando a oferta? Então eu não terei mais as minhas vinte refeições? JOANA – Me pareceu que a senhora se dava bem com seu marido.. faremos isso amanhã à noite. É um bom posto? GLOOMB – É um ótimo posto. JOANA – Quase tenho medo de continuar. A senhora Luckerniddle está falando com a garçonete. Eu sou inspetor nesta fábrica. Talvez a vaga deste contramestre. A maior parte dos trabalhadores a considera muito perigosa. Eu imaginava que ela iria resistir. Seria vantajoso para você.. Ela correu até aqui e já nos espera. DONA LUCKERNIDDLE – É verdade. não sabia. estaríamos dispostos a reempregá-lo imediatamente. Joana procura um prato e leva à senhora Luckerniddle. JOANA: Ela sentou-se ali.. Vai se perguntar como alguém pode contar histórias tão ridículas sobre esta máquina. Você se surpreenderá ao ver como o trabalho é agradável. JOANA – Vindo para cá ouvi dizer que aconteceu alguma coisa com o seu marido e que a fábrica é responsável. O posto não é feito para gente fraca. Disseram-me que não tinha ninguém além dele. GLOOMB – Você enxerga bem? JOANA – Não. O posto que você ocupava na sua máquina continua vago e isto é muito chato. não muito fortes. Adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. Desde fevereiro estou sem emprego. SLIFT – Leve você mesmo a comida a ela.) Você está procurando trabalho? JOANA – Sim.. O que mais verei? Eles entram na cantina.. JOANA – Não há realmente como me arranjar outro posto? Ouvi dizer que o trabalho nesta máquina era perigoso para quem não resistisse ao trabalho muito pesado. É preciso que ele pague hoje mesmo por esse sistema desumano do qual ele é o feitor. temi que amanhã ela viesse. DONA LUCKERNIDDLE. O que há para comer hoje? A GARÇONETE – Ervilhas. DONA LUCKERNIDDLE – Sim. Não podemos perder esse safado. (Ao seu companheiro:) Pensei melhor. Apesar de tudo. Naturalmente você precisaria manter os ritmos de trabalho mesmo os dispositivos de segurança não sendo perfeitos. e então eu teria. Slift cai na gargalhada e arrasta Joana. Naturalmente seria muito bom se nós encontrássemos alguém para esse posto. Ela não parece muito forte. por acaso.

Eu virei todos os dias. Ele foi obrigado a vender sua cólera. e comerá sem levantar os olhos do prato. ninguém mais perguntará o que foi feito dele. e que já apodrece. verdadeira manteiga! Banha fresca do Kentucky! OS COMPRADORES: OS FABRICANTES DE CONSERVAS . Mas vinte refeições. Era seu único esteio. Ela sai. mas não em uma loja. eu volto.14 – A senhora não quer esperar até amanhã? Se a senhora desistir de procurar o seu marido. então? O JOVEM OPERÁRIO – De um homem que caiu dentro de uma caldeira. Tão cara a ele. Fatias de toicinho Cridle-Mauler! Carne de filé Graham. SLIFT – E onde você comprou? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. A senhora Luckerniddle sente náuseas. como manda o costume. O JOVEM OPERÁRIO – Bom dia. e por mais justa que fosse. Desejas mostrar-me a sua imoralidade. com que habilidade torna-te mestre dela! Esta imoralidade. (Ele senta-se. Mercadoria invendável. o preço era muito alto. para colocar Ao abrigo da chuva. como um animal. Ela se levanta e sai. preferido. certamente teria me prevenido Não fosse o preço a pagar por seu pequeno escrúpulo. Pois não há mais compradores! Do fundo do palco chega o jovem operário com seu casaco e seu boné. Que sua miséria. como muitas. Dona Luckerniddle arranca o prato das mãos dela e começa a comer avidamente. Mostrar-te-ei. posso comer aqui? SLIFT – Você só precisa sentar-se ali. Sua imoralidade é sem limites. Você só precisa perguntar a esse senhor. saindo. Continuar fiel à memória de seu marido. DONA LUCKERNIDDLE – Ele foi para São Francisco. JOANA E procurar por ele. (Dona Luckerniddle permanece em silêncio) Não pegue. Você a viu. a imoralidade deles? Ela teria. O que tu me mostraste Não é a imoralidade Dos pobres: é a pobreza deles. E este jovem – em quem botaria fé Qualquer malandro -. Joana? A imoralidade dela não tem limites! JOANA: E tu. JOANA: Porões e armazéns abarrotados de carne. a vossos olhos contradiga Esta depravação que injustamente se lhes imputa. como vós a explorais! Não vês que nem teto eles têm. ao garçom – Deixe meu prato. comprem nossas latas! Carne fresca e suculenta. SLIFT – E onde você conseguiu. eu. ao lado daquela mulher. esta mulher. acreditas que ele teria mostrado À mulher do morto a roupa que usava Se tivesse tido a chance de escolher? O maneta. Atrás dele:) Você tem um belo boné. Um certo tempo ainda. os sofrimentos que suportam Esses pobres sem moralidade. estamos vendendo carne! Compradores. tu me dizes? Sua pobreza também é incomensurável. SLIFT – Durante três semanas ela virá. DONA LUCKERNIDDLE. (O jovem operário o esconde) De onde ele vem? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. V Joana apresenta os pobres à Bolsa de Carnes A BOLSA DE CARNES : Nós todos.

Saturado de carne em conserva. E graças aos perspicazes planos dos industriais da carne Nós conseguimos reduzir em um terço O preço do toicinho Cridle-Mauler. Nós queremos vender a carne em conserva E ninguém a quer! E todos os nossos clientes. nenhum tinha dinheiro. . comprem nossas latas! OS COMPRADORES: E sobre as montanhas fez-se um grande silêncio E as cozinhas dos hotéis escondem a face E as lojas se desviam com horror Os atacadistas mudam de cor. Nas estações e nos pátios. dia e noite nossas máquinas Ligadas no máximo: salgadeiras. a visão da carne enlatada Causa náuseas. Eu teria sobre as costas toda a carne! Idiotas. cozinhas e lojas Estão cheios até as bordas. E abrissem assim o Sul aos nossos produtos. Do filé Graham. em Nova Iorque. O estômago do país. Nós iríamos perder o bonde! MAULER: E quando isso ocorresse! Terias a imprudência De tirar tua parte de tamanha miséria. Mas ninguém quer comprar carne enlatada. cubas. os criadores.15 E sobre as águas fez-se um grande silêncio De todos os compradores. Esperando até ninguém poder Mexer nem o mindinho! E eu. A dar-se-lhes ouvidos Seria necessário agora deitar por terra Todo o cartel da carne E deixá-lo estagnado durante muitas semanas. SLIFT: Eu riria se. com nossos matadouros? Nossas fábricas estão cheias de bois. E da banha de Kentucky. Temos diante de nós montanhas de latas. compradores. Comprem. ao trabalho de nossos [engenheiros. Nós estamos perdidos! OS CRIADORES: E nós. Engolindo nosso ouro junto com nosso grão. OS COMPRADORES: Nós compradores. Quem comprará agora nosso gado? Os estábulos estão cheios De porcos e bois devoradores de milho Que eles devoram ainda nos trens que os transportam. Aproveitem então. SLIFT: E teus amigos de Nova Iorque. fabricantes. o que te escrevem? MAULER: Teorias. verdadeira manteiga. O que provocaria um movimento de alta. Clamamos aos berros por um consumidor que não existe. A nós. quase de graça. A morte Despreza esse gado e fecha-lhe a porta. MAULER: E mesmo a faca os recusa. caldeirões Convertem sem parar em latas de conserva As manadas mugidouras que pastam nos prados. Quando todos te seguem com olhos de lince Para ver o que fazes? Eu não teria cara. Não a agüenta mais. OS FABRICANTES: Graças aos avanços da técnica. Frigoríficos entupidos de carne congelada. Nós não compramos mais nada! OS FABRICANTES: E nós. eles conseguissem Fazer cair de uma vez as taxas de importação. compradores.

eu acabo de saber. já vinham caindo. É bom que ele seja nosso adversário. Veio a baixa. CRIDLE – dirigindo-se aos que o cercam:. Carrega em sua queda as cotações de todo o cartel!. é que me levem a sério. Isso representava um terço do total das ações. Cala-se e aponta para o dedo para ti. antigamente Mauler. Pois tu liquidaste. quem de vocês continuaria a me levar a sério nos negócios? Ora. Hoje os papéis de Mauler não valem mais dez.apontando para Mauler: Falem com ele! CRAHAM – colocando-se diante de Cridle: Não é Cridle. Ele poderia exigir seu dinheiro quando quisesse. o que desejo. Tumulto entre os fabricantes.. e o conjunto das fábricas vale dez.16 . nós somos os peixes! O que querem arruinar. que se lançam sobre Cridle. provoca muitas outras! Lixo! Assassino! CRIDLE . ave de agouro. de toda a maneira. Foste tu mesmo quem provocou o marasmo! Nossas latas agora não saem mais caro Que a areia dos mares.investindo contra Mauler que lê o jornal: Traidor. eu quero o meu dinheiro. Tu te desfazes de tuas ações? UM CORRETOR: A cento e quinze! OS FABRICANTES: Ficaste louco? Tua morte. a preço vil. estava acordado. E vós soluçais nas saias de vossas mães. então! OS FABRICANTES – a Mauler: Corre o boato que teu capital. antes de qualquer coisa. que estavam valorizadas. ele vem realizando secretamente vultosas vendas de gado a preços baixos e provocou a queda das cotações que. e ficando com as outras. OS FABRICANTES: Quando ages assim com Cridle. tu o retiras Do negócio e Cridle. por dez milhões de dólares. E exiges dele o pagamento sem demora. OS FABRICANTES: O que significa isso. Para acabar com Lennox. Quero apenas meu dinheiro e a paz de minh’alma UM CORRETOR – urrando. todo teu estoque. MAULER: Açougueiros insolentes é o que sois! O animal torturado parou de mugir. ao fundo. Falai que um dentre os vossos Não pode mais suportar o grito dos bois morrendo E aos mugidos deles. ao invés de trinta. Não é de hoje que fazes tais manobras. que conspurca nosso ninho! Nós sabemos bem quem fez os preços caírem sem cessar Vendendo gado por baixo do pano. Voltai para casa. MAULER – O próprio Cridle me confessou que está insolvente: se eu deixasse meu dinheiro com ele. pálido como algodão. . Desde aquele dia. OS FABRICANTES Essa gente não faz as coisas pela metade. Ele queria me vender a sua parte. Eu me propunha pagar-lhe vendendo uma parte das ações dele mesmo.Há quatro semanas apenas eu assinei um contrato com Mauler. Cridle. Mas somos atingidos pelo que lhe acontece. Mauler! Fala. olha para nós! Assim. é o cartel da carne. MAULER: E por que matastes tanto gado? Açougueiros alucinados sois vós! Agora. Cridle. preferiu o vosso. na entrada da bolsa: Queda gigantesca das cotações na Bolsa! Venda maciça de ações. nem que fosse por mais uma hora. que já se arrasta.. Esses dez milhões são exatamente a soma que devo a Mauler – e ele a exige em vinte e quatro horas. mas três milhões. Cridle? Levanta os olhos. nesta conjuntura. mas um outro Quem joga a rede.

pois preciso partir. E ninguém se preocupa. OS CRIADORES: Impossível vender um boi em Chicago. Nesse mundo sempre reinará a injustiça. olhos para ver? Ele é vosso irmão. Meu chapéu. Uma explosão de gargalhadas toma a frente da cena. seja quem for! Levantai o nariz de vosso prato. Os que nos escutam. Não esperem o amanhã! Cada um deve nos ajudar. seu cão. Mauler. Uma mulher nos faz sinais de aflição. Mauler. És tu. com nossos bois Que hoje ninguém mais quer. Parem os carros. Com o único objetivo de ajudar o próximo. JOANA . MAULER: Por hoje basta. Durante esse período a batalha na bolsa continua. E. nós estamos perdidos! JOANA – Onde está Mauler? MAULER: Slift. fiquem diante de mim. Eu não quero que me vejam aqui. não saia! Graham. mas rápido! OS COMPRADORES . o responsável Por esta catástrofe. detenham todo o tráfego Em torno de vós os seres naufragam. ele retira o seu dinheiro! OS FABRICANTES: Oitenta mil latas a cinqüenta. pois tenho outros projetos. mas rápido! OS COMPRADORES .Nenhuma sequer! OS FABRICANTES – Então. Ei. cem dólares pelo meu chapéu. Ei-nos aqui. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Escutem todos.Pierpoint Mauler! Onde está Mauler? MAULER: O que é esse barulho de tambores que de súbito me envolve? E quem chama pelo meu nome Nesse lugar. E nós dizemos: é preciso ir sempre adiante. Fazer avançar os tanques e os canhões. então. onde cada um revela Sua boca desnuda. OS FABRICANTES: Oitenta e sete mil latas pela metade do preço. suja de sangue? Joana e Marta avançam e cantam o seu hino de guerra. Ouvem-se os tambores dos Chapéus Negros e a voz de Joana. Pois os bons nesse mundo Não formam um grande exército. Eu quero meu dinheiro. Não falemos mais de negócios.Nenhuma sequer! Silêncio. Estimularam-nos a criar bois. os aviões Para conquistar o pão dos pobres. Haveis então esquecido Os que esperam diante da porta E que esperam. Lançar ao mar os navios de guerra E nos ares. Avante! Ao assalto! Empunhem os fuzis! Diante de nossos olhos os homens naufragam. Para Illinois esse dia é um desastre! Vocês fizeram os preços subirem. Graham.17 Mesmo que tivésseis todos que mendigar. para comer? Pensai convosco mesmo: sempre será assim. com isso. OS CRIADORES: Lennox já caiu! E Cridle balança! E Mauler. Meyers. meu chapéu. E ninguém se preocupa Não tendes. escutem bem! Um homem afunda sob os nossos olhos! Escutamos lá no fundo seu apelo por salvação. acompanhada de exclamações. .

destinos inelutáveis. JOANA – Mas os senhores. OS POBRES – Ele é o responsável por tudo! Os fabricantes de conservas correm para socorrer Mauler. Nos baixios. Senhores. a quem os senhores transformaram no que são. aí pelo mundo. replicando: Imbecis são vocês! Ninguém pode nada contra as crises! Bem acima de nós. é lá que mora a imoralidade no estado puro e. e escute o que eu tenho a lhe dizer. as leis econômicas. buscando desculpas. tereis a moralidade. que os pobres não têm muita moral. atrás de mauler – Fique senhor Mauler. avancem à luz do dia. JOANA – Um homem de negócios também pode ser um bandido – dependendo do ponto de vista. gritando: Por vossa especulação desenfreada. que se dobram sob o fardo de suas penas. nesses lugares sombrios e secretos onde os senhores tratam de seu comércio. ver surgir a nós. que sentam nesse palácio. engodos e combinações para aumentar o preço da carne. Cujo ciclo pavoroso sempre recomeça. Mas nós lhes dissemos que é um imbecil. e diante de Deus TodoPoderoso. OS FABRICANTES: Água para Pierpoint Mauler! . Silêncio! Não lhes agrada muito. Causais vossa própria queda! Bando de imbecis! OS FABRICANTES. a Revolução. o salário. os senhores se enganaram. Se continuarem a agir assim. JOANA – E qual a causa desta imoralidade no mundo? Poderia ser diferente? Se cada um é obrigado a rachar com um machado a cabeça de seu próximo para fazê-lo ceder seu pequeno pedaço de presunto e sua migalha de pão. ao fundo – Pierpoint Mauler passou mal. Já me disseram o que os senhores fazem: manobras. pois os que estão lá fora já não têm como comprar. seus mugidos serão testemunhos. Se os senhores continuarem tergiversando. UMA VOZ. Inverno e verão nós dependemos do tempo: nós também estamos mais próximos do Deus de nossos pais do que os senhores. As crises são catástrofes naturais. como fazem em seus jornais. vocês. E os senhores. que fazem subir o preço do pão e que fazem da vida um inferno onde os homens viram demônios. Aumentem-no. Reparem então nestas gentes. e a quem não querem reconhecer como irmãos. e é verdade. em tom de reprovação Aqui estamos com nossos bois Que hoje em dia ninguém quer. MAULER. tanto hoje quanto no dia do juízo final. imaginando que não virão à tona suas manobras. Vossa imunda cobiça. nas favelas. nada além disso. em conseqüência. nada querem saber da miséria que existe fora deste recinto. Traçam essas desconhecidas. então em suas costas os bois começarão a mugir contra os senhores. eles que nada têm? Senhores. JOANA. acabarão tendo de comer sozinhos a carne que produzem. os Chapéus Negros. Risos OS CRIADORES – Nós criadores não encontramos nestas palavras motivo para o riso. OS CRIADORES. Joana mostra aos negociantes os pobres (Luckerniddle e Gloomb) que ela trouxe. gritando – Afastem-nos! Ele desmaia. pobres e deploráveis imbecis. todo-poderosos. Mas se os senhores acreditaram que seus procedimentos permaneceriam ignorados. CRIDLE OS CRIADORES: Como? Somos asfixiados e ninguém pode fazer nada? A causa de nossos males é a imoralidade De vossas armações escusas.18 – Maldito sejas! Cridle sai. COMPRADOR. Não tenham vergonha. Mas então eu lhes pergunto: de onde tirariam eles alguma moralidade. como não seriam os valores mais elevados esmagados em seu coração? Sempre ouço dizer. eu bem sei. são todos uns imbecis. existe também um poder de compra moral: o dinheiro.

E vós. a contar de hoje. ao instinto animal. ao preço do dia. CRAHAM: Então! Não podes vê-los? No entanto foste tu. Eles parecem bem piores. Os que estão atrás. OS FABRICANTES – Quem? Os Chapéus Negros? Quer que eles saiam? MAULER – Não. levantai-me. Mauler.19 Um médico para Mauler! JOANA: Mauler. Invisíveis para vós. ao fundo. por favor. então Para querer fechar a boca do Bom Deus? Não se deve calar a boca de ninguém. assume compromisso sobre a produção de dois meses. eu. Aos pobres: Segunda-feira vocês terão novamente trabalho. OS FABRICANTES – Ele comprou! Mauler comprou! MAULER – Ao preço do dia! CRAHAM. deitado no chão – Eu compro. nós conhecemos. E não basta que cerres as pálpebras Para que eles desapareçam. No seio de Deus não há frio. cantemos: “Nunca faltará o pão. Mas os dois que estavam ao lado dele.. O cartel entregará a Pierpoint Mauler. Nem mesmo do boi que esmaga espigas com seu casco! Em todo o caso. voltando a si – Eles ainda estão aí? Eu suplico que os afastem.” OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Nunca faltará o pão Ao que dedica a Deus sua alma. em 15 de novembro. MAULER – Agora. meus amigos. nós nunca tínhamos visto.. e por vós mantidos Nesta pobreza. antes de partirmos. eu vou falar. que mantendes longe de vós. também ao preço de cinqüenta. eu compro! Escutai todos: Pierpoint Mauler compra! Que estas gentes tenham trabalho e que se afastem. Mas quem sois vós. Eu vos mostro agora a pobreza dos pobres. Além disso. SLIFT – Ele não abrirá os olhos enquanto não os fizerem sair. E lá. como eles sim. cumprimos nosso trabalho de [missionários. Que viver assim pode mesmo afastá-los Da necessidade de um ideal. Eles. de todos os estoques do cartel. o que fazeis? Vós me ordenastes não dizer uma palavra. JOANA: É isso. Eles o levantam. vos rogo. MAULER. aí em cima. OS POBRES – Gente como essa. pelo menos cinqüenta mil toneladas de conservas. gritando em um megafone – Pierpoint Mauler reanima o mercado da carne. CRAHAM – A cinqüenta? MAULER – A cinqüenta! CRAHAM: Ele comprou tudo! Vocês ouviram: Comprou tudo! CORRETOR. e reduzi-los À voracidade. JOANA – E agora. E fome nunca se passa. para eles inacessíveis. qual burros de carga. levantando-lhe a cabeça – E os estoques? MAULER. eles não. MAULER: Afastem-nos. Quem em seu seio habita Jamais será infeliz. Torna-se comprador. Compro. . Nós. vós me mostrastes a imoralidade deles. A tal ponto dependentes de alguma comida E de um pouco de calor. Tu quem os reduziu à tamanha miséria. tudo o que em oito semanas conseguirdes [fabricar. levai-o agora. estão tão enfraquecidos. afastados dos bens indispensáveis.

Os patrões vão reabrir. Podem esquecer seu nome. Mauler. Venham comigo procurá-lo Para que ele os tire do embaraço. PEQUENO IMÓVEL COM DUAS SAÍDAS MAULER. É preciso. nenhum. na Rua Lincoln. JOANA: Saibam todos: estou de olhos em Mauler. OS FABRICANTES: Podem guardar sua carniça podre! Não estamos interessados em comprar. Que carecem tanto uns como os outros? CRIADOR. Pois o contrato que acabam de ver firmado É apenas um pedaço de papel. Pois ele pode vir em auxílio. O estômago do país. Joana e os Chapéus Negros saem. Contra a desrazão. não é. Os fabricantes de conserva saem. Sábia decisão. VI A Captura dos grilos NA CIDADE CASA DO CORRETOR SULLIVAN SLIFT. Música a partir das 3 horas. sabiamente acatada. SLIFT. Ele cumpre. Muitos criadores se transtornaram. os operários entrarão. Nesse momento o mercado recobra a saúde. dirigindo-se à Joana Aquilo que disseste e tua intervenção Causou-nos forte impressão. ele não encontrará Um centavo. enfim do ponto morto! Confiança e concórdia estavam fortemente abaladas. Sua consciência já despertou.20 OS COMPRADORES: Este homem está ruim da cabeça. pois nós também. OS CRIADORES: Agora os preços subirão. Escutem: saímos. liga as luzes e agora repara em mim. e diga se realmente todos podem ler em meu rosto? SLIFT – Ler o quê? MAULER – Ora! A minha profissão! SLIFT – Teu ofício de açougueiro? Diga-me. E ele faz meter carne em latas Que ninguém comprará. Se estiverem muito necessitados. O homem que o assinou não estava em seu juízo. Não o deixaremos descansar Enquanto um homem precisar de ajuda. às duas horas. E vocês precisam dela. por que te impressionas com os discursos dela? MAULER: . Agora os senhores podem respirar. seguidos dos criadores. Slift. de São Francisco a Nova Iorque. a sabedoria triunfa. saturado de conservas. dentro da casa. então. entrada gratuita. ao criador: O que Mauler promete. cutucá-lo. Para tal negócio. aqueles que o recebem. Nós estamos sob uma miséria atroz. JOANA – Todos aqueles que se interessam realmente pela palavra de Deus e que querem saber o que ele diz e não apenas a cotação da Bolsa podem vir domingo à tarde assistir nosso ofício. As fábricas reabrem e as chaminés fumegam! Pois efetivamente é de trabalho. açougueiros infames! Enquanto vocês não dobrarem o preço do gado Não entregaremos um só grama de carne. Recusa-se a engolir mais. Aqueles que dão o pão. discute com Slift – Fecha a porta.

um após o outro. Slift.. retorna. meu caro Slift. MAULER: Tu crês que eu deveria? Eu poderia. urrando. Onde o fogo arde embaixo Enquanto congela-se em cima. Não há mais consolo. por mais externa e sem importância que ela seja. Tudo isso são ainda meras desculpas O que temo não é Deus. Esfolarmos uns aos outros friamente. SLIFT: Em cidades como as nossas. E pense em tua situação: ela não é muito boa. pois desde essa manhã tu nada tens a ver com a morte dos bois. Então creio sentir Como um peixe aprisionado entre duas águas Pauladas na espinha. Sob a chuva e de barriga vazia. lançar-nos-ão Ao chão como um peixe podre. Tagarelice vazia e fácil.. Nós que aqui estamos. Eu deveria podê-lo de novo. SLIFT – O discurso deles te perturbou. no entanto. Sabias que tu compraste hoje tudo aquilo que pode ser colocado dentro de uma lata de alumínio? Meu caro Mauler. (À parte:) Farei com que ele coma um filé muito mal passado. Agora. Certamente porque essa gente trabalha a troco de nada. vejo-te mergulhado na contemplação de teu ser grandioso. . irei confessar-te Minha verdadeira opinião sobre nossos negócios: Comprar. SLIFT – Não queres comer um pouco de carne. de onde se eleva uma cólera Que nos varrerá a todos. qual onda. E dezoito horas por dia. Fórmulas tomadas ao coração. vender e lutar sem parar.. Para estes que caem em nossos porões sangrentos. É sua antiga fraqueza que retorna.. Ele se afasta e começa a grelhar um bife no fogão. que mais não vi. Não conheceremos a morte em nossas camas. Tão forte. SLIFT – E o que é.. Levantar-se-ão com a aurora e por-se-ão em marcha.21 O que ela disse? Eu não ouvi nada. E quando da onda emana uma voz Que nada tem de bestial. talvez. Há sempre boquirrotos que acham Que as coisas não andam como deveriam. Por trás havia rostos selvagens. mas permita que eu te exponha simplesmente a situação. A urrar de aflição. por mais louca que seja. Talvez depois de comer carne crua ele retome seus instintos. eles são muito numerosos. Para limpar esse mundo. Seu número aumenta a cada dia. Esquecer todo o resto. É outra coisa. Se nos apanharem um dia. MAULER: Sempre me pergunto por que essas tolices me afetam: Discursos plenos de utopias. Que não sabem como passarão a noite mas. a humanidade. Seremos colados ao muro.. então? MAULER: O que vive abaixo e não acima De mim! Esses seres reunidos nos matadouros. Máscaras da aflição. Nós e nossa corja. não é? SLIFT – Come. Não. caro Pierpoint? Pense que agora podes fazê-lo sem peso na consciência. Isso não pode mais perdurar. MAULER: Mas que dizem eles? Essas cidades São um braseiro jamais extinto Onde.

eu me escutei dizer: “Eu compro tudo”. essas teorias de gabinete. SLIFT – E o que escreveram. MAULER: Tu compreenderás. eu não agi por razões vis. Mas ainda há a carne Que no mercado liquidarão cem criadores Muito ávidos. escapando bem. MAULER: Oh! Slift. Slift. Aqui está: “Caro Pierpoint. Realmente eu não vejo sentido nesta carta. então. a não ser que golpeie Y Se ele golpear. Parece. MAULER: Corromper assim. muitos de meus concorrentes balançavam. mais notícias. Nas semanas vindouras. Ah. Ou desencadear guerras. Então pode ser que. eu tenho a impressão De que nada de bom sairá daí. indicado. Não é qualquer um que pode.“Estamos em condições. Os preços baixarão novamente. esmagado. ou a vinte e cinco. sim! Eu comprei carne. Receberás. eu estou perdido. Corromper ou abolir as tarifas.. Não. dizer-lhes Que ninguém era louco o suficiente Para comprar carne em conserva. SLIFT: Tudo depende de quem escreve a carta.” SLIFT. de anunciar-te que nosso dinheiro começa a render seus frutos: muitos são aqueles que. hoje. deverás escoá-lo em um mercado que já não consegue absorver uma única lata. o Cartel te entregará mais cinqüenta mil toneladas a cinqüenta. safa-se. O ladrão está perdido. os preços Subam? E nós acabaríamos. quando os preços estiverem em trinta. de resto. Ainda pela manhã.. Sim. então? Mauler sorri. SLIFT – Quem são. amanhã. é verdade. Sob o fardo de toneladas de latas de alumínio. eu comprei. É coisa que também não se deveria fazer. teus amigos de Nova Iorque? MAULER – Que eu devo comprar carne. Na carta que recebi de Nova Iorque essa manhã. eu te juro. apesar de tudo. mas Y o surpreende. continuando a leitura . Estão erradas.. sob os arcos de alguma ponte. votarão contra as tarifas aduaneiras. caro Pierpoint. E uma vez lá. .. Mas esta mulher comoveu-me a tal ponto Que mal lancei os olhos. acredito. Ah! Meu caro Slift. Facilmente nascem guerras À custa de tais atitudes. eu estou perdido! Esse é o meu fim. na melhor hipótese. SLIFT – E por que reclamas de ter comprado? MAULER – Sim. Essa seria uma saída. Eu fui vê-los cair. Essas pessoas são gente de bem? MAULER – É gente com liquidez. comprar carne. Escuta: X comete um roubo. Cairei. SLIFT – Tu deves fazer o que? MAULER – Comprar carne. na Câmara. eu comprei! O que eu fiz! Coloquei sobre minhas costas toda a carne desse mundo! Trôpego. Em quinze de novembro. Tu as compraste a cinqüenta mas.22 Primeiro compraste ao Cartel um estoque de vinte mil toneladas de conservas. eles me escrevem para comprar. Mas não foi por causa da carta. qual Atlas. os preços cairão a trinta. Milhares de homens sangram Por causa deste imundo dinheiro. rir-me deles. SLIFT – E tu compraste! MAULER: Oh. assim.

mais de dez mil criadores que não sabem mais a qual santo rezar. Eu fiz “A”. MAULER – A outra saída onde é. todo esse gado? SLIFT – Vejo apenas Graham. que precisa bastante. eu estou comprando e compro ao preço do dia. Slift volta. tiver cem dólares no bolso. eu não comprarei! Eu que já carrego toda a carne desse mundo. SLIFT – Qual crime? MAULER: Um crime que eu não poderia cometer. para evitar me encontrar. Slift tragame tudo o que se pareça. Slift. Slift. nem chapéu nem sapatos. ele se dirige à porta da direita. minha decisão está tomada. Ele não gosta muito de me ver. (Os criadores colocam-se diante da porta da direita. Slift. E nós somos. dobrando-se sob o peso da terra: Saturno também precisa de apoio. E por agora também não penso em reabrir a fábrica. Lembrá-los de Lennox. não sairemos daqui! MAULER – Tu dizes Graham? É verdade que ele precisa de gado? Saia. quero paz em minh’alma. Os enganados serão os criadores. aos criadores – Pierpoint Mauler está examinando vosso pedido. Toda a carne posta em conserva até hoje. de perto ou de longe. é verdade. SLIFT. grandes lucros! É verdade que o ganho seria apreciável. eu compro. com um porco ou com um boi. A operação é simples: seria preciso comprar Todo o gado que se encontrasse em pé. depois. a partir de hoje. Vão para lá. (Ele calcula. eu não quero meter o dedo neste negócio. Vais comprar todo o gado de Illinois. e diga-lhes que quero refletir dois minutos. a cinqüenta. de seus delitos. Quem me comprará. Isto é o principal: Sumir com o gado.. Também trouxe alguns trabalhadores que adorariam perguntar-lhe quando o senhor reabrirá a sua fábrica. Não. então. diante da porta da direita – Sai. Nem a mim nem aos que me acompanham.23 Da mesma maneira a carta – que está errada – Requer – para acertar – um crime desta ordem. para o outro lado. Tu és o responsável por nossa desgraça. JOANA – Nós o faremos sair de sua toca. Senhor Mauler. Persuadir os criadores da oferta excessiva. Pierpoint! MAULER: Ah! É verdade. tentará sair pela outra porta.) Saia. MAULER: É verdade.) Slift. MAULER – Eu não compro. Devo comprar ainda todo o gado de Sírius? É como se alguém viesse dizer a Atlas Que não mais agüenta. Slift sai. E comprar-lhes tudo. Joana diante da porta da esquerda. àquela gente que está com ela. Ele desenha um “A” na porta de um armário. Slift? Não quero reencontrá-la e.. Agora. Retumbar de tambores. Feliz se. é preciso que eu lhe fale da miséria dos criadores de Illinois. não foi bom. (Ela ri. em todo o Illinois. . Joana entra acompanhada dos criadores. Traga-me até a menor mancha de gordura. eu vou comprar. diante da porta da esquerda – Enquanto os criadores não forem ajudados. Antes de ter saído dessa. OS CRIADORES. Mas então. Ele pede-vos dois minutos de reflexão. Slift. SLIFT Tu que não querias mais comprar um chapéu. Eu não compro mais nada. Quando ele me ouvir cantar aqui. Compra então o nosso gado! MAULER: Fecha a porta. e tudo o que cheire à banha eu compro também. das fábricas paradas. SLIFT – Não deverias ter comprado. SLIFT – Por aqui. no fim.). No interior da casa. Pois. sobretudo. JOANA. Mauler. Que eles tirem. como quem captura um grilo.

ao fundo. (Os Chapéus Negros saem. Suas misérias são grandes. pois eles sabem que as fábricas receberam encomendas. Comandante dos Chapéus Negros. sobretudo. Pierpoint Mauler resolveu comprar todo o gado que se encontrar no mercado. sobretudo nas camadas inferiores da população. dona Mulberry. que eles nos ajudem a desferir. acabamos constatando que esses segmentos demonstraram. o aluguel que ela tão gentilmente tem adiado. Faça entrar os fazendeiros. GLOOMB – Muitos já dizem que se não empregarem a violência não haverá trabalho para todos tão cedo. proprietária do imóvel. para vocês também haverá pão novamente. caros ouvintes! Para resolver o delicado problema do financiamento nós até agora apelamos aos pobres e aos mais pobres. sábado próximo. SLIFT. OS CRIADORES – Viva Pierpoint Mauler. não é preciso que as vendas sejam feitas em seu nome. se levantando – Que mixaria! Que mixaria! (Dirigindo-se a alguns pobres. Trabalham duro e vestem-se decentemente. sai e se dirige aos criadores – Para salvar Illinois e impedir a ruína dos fazendeiros e criadores. minha cara dona Mulberry. BISPA SNYDER – Agora. JOANA. Entra dona Mulberry. Infelizmente.24 Dominado por seus sentimentos. tão errado quanto “A”. Aos pobres:) Digam-me. mas por enquanto não se preocupem. Que dão medo de olhar. Eles não têm teto. em nome de Deus. convidar em vosso nome as pessoas ricas e bem colocadas de Chicago. frente a Deus. DONA MULBERRY – O que me agradaria muito. Eles não têm pão. um grande golpe no ateísmo e no materialismo que reinam nesta cidade. Eles não são como os outros. O dinheiro nos permitirá também pagar à nossa querida proprietária. que cada um volte alegremente às suas funções. Mas seu nome não deve ser mencionado. que são gente de bem. uma avareza completamente inexplicável. Mas Deus todo poderoso Achará os meios de alimentá-los! BISPA SNYDER. mas não fizeram nada. salvador do comércio! Eles entram na casa. pelo que acaba de fazer. Ela sai. BISPA SNYDER – Não se aproximem muito da caixa! Ele fez sinal para que eles recuem até o fundo. VII Os mercadores são expulsos do templo TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS Sentados em uma longa mesa. Assim eu decidi. não se esqueçam de varrer a escada. os dispensados esperam ainda pacientemente na porta dos matadouros ou já começam a dar discursos revolucionários? DONA LUCKERNIDDLE – Desde ontem gritam bastante. GLOOMB – No começo falaram em reabri-los. Alguém se equivoca: “A” é um erro. e. Talvez isso tenha a ver com o fato de que eles não possuem nada. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Recolham cantando Os trocados dos órfãos E os trocados das viúvas. Em seguida comete “B”. entre os quais dona Luckerniddle e Gloomb:) Vocês de novo? Vocês passam a vida aqui? O trabalho voltou nos matadouros! DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. E eis que “A” e “B” tomados juntos. DONA MULBERRY – E meu aluguel. dão certo. grita a eles – Digam ao senhor Mauler que os Chapéus Negros lhe agradecem. . os Chapéus Negros esvaziam suas latas de ferro e contam ao óbolos das viúvas e dos órfãos. (Aos operários:) Quando os que compram gado e os que o vendem se acertarem. o que foi feito dele? BISPA SNYDER – Meus caros Chapéus Negros.

após a sua morte. Que tal. Graham. senhora bispa. os Chapéus Negros. E já citam vossos nomes. BISPA SNYDER – Podemos dar um jeito com setecentos e cinqüenta. BISPA SNYDER. Graham. na frente do palco – Então. OS FABRICANTES – Por que falar em pagamento? BISPA SNYDER – O pagamento do qual falamos é feito após a morte. portanto. mais então.... Se vierem para cá tocados a pedradas. SLIFT – Quem poderia ser? GRAHAM. mas que serão. onde poderia estar todo o gado! GRAHAM – É o que eu me pergunto também: onde poderia estar? SLIFT – Eu me coloco a mesma questão. MEYERS – O que não será fácil. GRAHAM – Até tu? E Mauler também. sem dúvida? SLIFT – Sem dúvida. Nós também prometeremos a eles que os ricos serão punidos. a Snyder – Quinhentos dólares? Isto é muito dinheiro! Quem vai pagar? SLIFT – Ah. o Pepê está com o gado. E que alguns entre eles começam a resmungar e a dizer: devemos nós mesmos cuidar do negócio. OS FABRICANTES – E quanto querem pelo serviço? BISPA SNYDER – Oitocentos dólares por mês. são vocês que estão com o gado. . Slift. BISPA SNYDER MEYERS Há um cretino que razia o gado E que sabe bem que estamos comprometidos A entregar carne enlatada E que. Porque já começam a dizer por todos os lados que a desgraça não cai do céu como a chuva. a Snyder – Desembuche! Eles se sentam no banco dos fiéis. GRAHAM. Senhor Slift. tomar as fábricas em nossas mãos para que todos possam trabalhar e comer. precisamos de sopa quente e música animada. a Snyder – Todos pobretões. minha cara. (Aos outros) Eles carecem desta quantia. os Chapéus Negros. no púlpito – Nós. menos Snyder. SLIFT – O essencial. afirmando que sois vós os responsáveis pelo desemprego! Em breve eles dirão: queremos fazer como os bolcheviques. (Aos pobres:) Vocês não poderiam ao menos cortar lenha para nós? OS POBRES – Não há mais lenha. e vá dizer ao Pepê Que afrouxe o laço. um dia. os reis da carne nos escutarão mais facilmente. Nós. GRAHAM – Confesse. MEYERS. recompensados por suas penas. Slift! MEYERS.25 – Isso nos é favorável. (Os fabricantes de conserva caem na gargalhada) E tudo isso por apenas oitocentos dólares por mês! GRAHAM – Não precisas de tanto. vocês certamente precisam. precisamos do gado. Slift? (Slift simula um ar astucioso e exagera na mímica do ato de dar dinheiro). portanto. Na mosca. Meyers.. Entram os fabricantes de conservas: Cridle. quinhentos? GRAHAM – Quinhentos sim. sim! Vocês agora terão que achar alguém que faça a doação. Quinhentos dólares. Deus é testemunha. sem que ninguém saiba como. MEYERS – Eu me pergunto. confesse Slift. dando-lhe um soco na boca do estômago: Velho cão imundo! Vamos. novo soco – Que tu achas que eles querem.. não gosto disso. SLIFT. a Snyder – O que querem de nós? GRAHAM. é saber de que lado vocês estão! Desse lado da barricada ou do outro? BISPA SNYDER – Os Chapéus Negros. MEYERS. mas que ela é provocada por aqueles que dela tiram vantagem. Do lado de cá. estão acima da querela. não enrole. que eles estão destinados ao sofrimento. tão certo quanto eu estou aqui. a Meyers – Essa senhora não tem senso de humor. Bispa Snyder! Todos riem. bispa. ouvimos dizer que há nos matadouros cinqüenta mil pessoas sem trabalho. É nosso nervo vital! SLIFT.. SLIFT – Mauler e eu não compramos um centavo sequer de gado. então. diremos a eles que a desgraça vem como a chuva. Já é melhor. MEYERS – Setecentos e cinqüenta.

GLOOMB. ajudo também aos de baixo. (Joana sai atrás deles com o mastro de uma bandeira. Mas agora. Os Chapéus negros aparecem na porta. e a religião vos parecerá de novo algo de muito bom. GLOOMB . Haveis perdido então todo o respeito pelo que se parece humano? E ousais anda vir à casa de Deus porque possuem o vil metal? Sabe-se bem de onde haveis tirado esse ouro e como o haveis adquirido. JOANA – Por que não trabalham? Não arranjei trabalho para vocês? DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. sem pena também Esqueci o que todos se apressam em esquecer Para rapidamente estar em paz com suas consciências. mas não fizeram nada. pois. Sois indignos e eu vos expulso! Apesar de vosso dinheiro! . Saí.) Saí! Quereis transformar a casa de Deus em um estábulo! Saí! Nada tendes a fazer aqui! Cabeças como as vossas. eu sei o que faço. empunharem um porrete para bater em vossas cabeça. ela está espantada – O que fazem vocês aqui? DONA LUCKERNIDDLE. Se fizeres isso por nós.26 Entra Joana SLIFT – Aí está a nossa Santa Joana da Bolsa de Carnes! OS TRÊS. se os consumidores não têm com o que pagar? JOANA – Em vossas gigantescas instalações e vossas fábricas detendes as ferramentas dessa gente: deveríeis ao menos permitir que eles as usassem. da tua vista sairia. senão lançar-me-ei sobre vós e golpeá-los-ei a cabeça. hoje. e nessa atitude há alguma coisa que parece exploração. avançando: As vinte refeições foram comidas! Não te irrites. e eu. De bom grado. gritando alto a Joana – Ah. mal tendo sido saciada. Basta que alguém diga: está acertado. Nós queremos reabrir nossas fábricas. É preciso que ele libere o gado. ao me veres aqui. Não me detenham. e que os operários poderiam comprar a carne. JOANA. Dizem que ele come na tua mão. olhando os pobres. aos fabricantes: Esses pobres continuam a esperar trabalho? Silêncio dos fabricantes Eu que pensava que eles estavam arranjados! Faz já oito dias que neva nas costas deles.No começo falaram em reabri-los. mas também os esconde De todos os olhares. vós então vos borrareis todos. e rápido. supúnhamos que iriam retomar o trabalho. para fazer pior. Esta neve os mata. E eu. É o seguinte: alguém sumiu com o gado do mercado de uma maneira que somos obrigados a ficar de olho em Mauler. comprou-vos conservas Por minha solicitação! E não reabristes ainda? OS TRÊS – Está correto. É preciso ser muito tonta! Na verdade. pagaremos o aluguel dos Chapéus Negros por quatro anos. SLIFT – Mas querem antes estrangular os agricultores! OS TRÊS – Como abater gado que não existe? SLIFT – Quando Mauler e eu compramos a carne de vocês. própria para jogar água na fervura. senão ficam imobilizados. Dirigindo-se aos fabricantes: Mauler. que ela usa como se fosse um porrete. Mas o Bom Deus tem uma opinião muito elevada de Si mesmo para ser sempre a vossa babá para todo o serviço e para vir limpar vossas cavalariças. Mas cruel é a fome: Renasce sempre. Parece que podes fazê-lo agir ao teu gosto. aí estás! Nós não estamos muito contentes contigo! Tu não poderias dizer uma palavrinha de nossa parte à Mauler? Parece que tens sobre ele alguma influência. Estou pronto. perdi demasiado tempo até sabêlo. avançando: Eu te conheço: tentei te convencer A trabalhar nas serras que me cortaram o braço. dizendo-me: ajudando aos de cima. que haveis atormentado ao extremo. Se essas pobres criaturas. Para que ninguém mais vá olhar de perto. indo de um lado a outro. nós não queremos mais ver. qualquer um que queira ajudar aos pobres deve ajudá-los a protegerem-se de vós. quem comerá a carne que nós compramos? E para que nós a compramos. entretanto. JOANA.

JOANA. JOANA Irei ver o rico Mauler. aos Chapéus Negros – O que acabo de fazer certamente foi pouco habilidoso. Mas se ele não paga. na ponta dos pés. Tu que planas mais alto que as questões terrenas! Parta sob a chuva. no coração da tormenta. comê-lo também! Vá-te então. vão-se irrevogavelmente quarenta meses de aluguel. entrando — Vocês já arranjaram o dinheiro? BISPA SNYDER – Deus encontrará logo o meio de pagar o abrigo bastante modesto – eu disse modesto. não se vão. modestamente. DONA MULBERRY. tudo mal. Homem de boa fé e destemido. ela não representa ninguém. não temos mais um centavo. esses pobres. dona Mulberry – que ele encontrou sobre a terra. Ela carrega uma mala pequena. Grupos inimigos irreconciliáveis. Nem outra vez cruzar o limiar dessa querida casa. Mediadora inútil e que cava a própria cova. oferece teus bons préstimos. está bem. eu lhes trarei a sopa. Vá sob a neve e continue intransigente! JOANA – Quer dizer que devo tirar meu uniforme? BISPA SNYDER – Tira o uniforme e arruma tua bagagem! Sai desta casa e livra-nos da escória que arrebanhaste. . Fazes-te de difícil e és muito curiosa Para saber como é feito. Eu não desejo Colocar novamente o chapéu e o uniforme negro. Mas como deixar-se levar por isso? (À dona Luckerniddle e a Gloomb:) Sentem-se lá no fundo. bispa Snyder? Ela sai. pois esses que te seguem não são mais do que escória e refugo. ah. entretanto.27 – Está bem! Mas conosco. BISPA SNYDER. Queres. prisioneiros Em uma torre de marfim. Doravante farás parte dela. Mesmo que ele os torne surdos. onde não escutam mais Os pedidos de salvação do resto dos humanos. De qualquer maneira. Serve-lhes água de chuva e belas palavras Pois do céu não lhes vem mais do que neve E não misericórdia! A humildade. Mesmo que o dinheiro os carcoma como um câncer Devorando o que seu resto tem de humano. Por causa do aluguel. Trazendo-vos totalmente convertido. Nós iremos viver dias terríveis. agora. Povoada de cânticos e palavras que despertam. é muito justo que pague. de volta Convida a tua casa. BISPA SNYDER: Infeliz ignorante! Como não vês que operários e patrões. Enquanto não tiver feito de Mauler um dos nossos. como jamais viu antes o mercado do gado! Saída dos fabricantes de conservas. OS TRÊS Joana sai. terá de se mudar. Eu pedirei sua ajuda. tu a ignoras E cedes a teus impulsos! É mesmo muito fácil Caçar esses impuros com um gesto cheio de orgulho. fracos. é bem disso que se trata! Falaste a palavra exata! Se o Bom Deus paga. É mister que haja um Justo entre eles! Ela sai. Anda cuidar de tua vida. Quanto ao pão que precisamos comer. de um ao outro. então. ela retorna vestida como uma jovem camponesa. correndo sai atrás deles – Fiquem senhores. e a partir de sábado à noite. tudo bem. BISPA SNYDER. não tem nenhum mandato! É apenas uma mulher que perdeu a razão! Ela está despedida! Ela fará pelos senhores tudo o que desejarem. Se o Bom Deus não paga o seu aluguel. Enfrentam-se como gigantes? Vá. DONA MULBERRY — Sim.

e de que. que tu tenhas superado Teus recentes acessos de fraqueza. Vou ver como eles compram. Serão obrigados a comprar a carne Que devem nos entregar. de perto ou de longe. Deixar que gritem: “É um crime!” Entra Joana. Graham e companhia ficarão então parecidos À lama. Faça subir. mas por que o lençol em cima. Gostei muito de vê-la expulsá-los do Templo. e que nem mesmo está dobrado direito? Diga-me: o senhor dorme aqui mesmo. É que eu não estou mais com os Chapéus Negros. Eles precisam comprar de nós. Ela não tem medo de nada. dá rédea solta a teus corretores! Deixa-os correr o mercado. A mim também Teria expulsado. Não se fala mais dela. E na nossa mão é mais caro. desta vez. Dir-se-ia Que Chicago a engoliu Em sua negra e ruidosa bruma. em sua casa. Senhor . e cada porco Que eles precisam nos entregar. Não é fácil encontrá-lo. MAULER: Agora. os preços a oitenta. Agora que não tenho mais o trabalho fatigante da missão. Não se possa aceitar gente da minha laia. Mas o senhor tem razão. Então eu disse a mim mesma: vá dar uma olhada no que se passa com o senhor Mauler. queriam esperar Que o preço do gado caísse o mais baixo possível. Terão de pagar mais caro. onde enfiaremos o pé Unicamente para ver a marca que deixa. SLIFT: E tua Joana? Algo de novo? Um boato corre na bolsa: dizem Que te deitaste com ela. JOANA – Bom dia. senhor Mauler. Mauler. senhor Mauler. Deixo minhas coisas nesse canto. por um momento. Desde Que ela nos expulsou do Templo. mesmo nas pequenas coisa. se eu estivesse lá. Em busca de animais que. Gosto nela deste traço. Mas o senhor. no seu escritório? Sempre achei que o senhor devia possuir um dos grandes palácios de Chicago (Mauler se cala). Assemelhem-se a bois ou porcos. E os preços Subirão ainda mais. Houve discrepâncias entre nós. Slift. É um belo sofá que o senhor tem aqui. carregando uma mala.28 VIII Discurso de Pierpoint Mauler sobre a absoluta necessidade do capitalismo e da religião ESCRITÓRIO DE MAULER MAULER: MAULER: Chegou enfim o dia em que nosso caro Graham. Slift. Neste mercado de Chicago Todos os bois que se escutam mugir São nossos bois. posso me interessar mais por cada homem em particular. MAULER: Seria preciso esfolar esta cidade maldita E ensinar-lhes o seu ofício A essa gente. realmente. Ele sai. SLIFT: Estou feliz. Eu desmenti. de ser cuidadoso. SLIFT. meu caro Slift. E todos aqueles que como ele. Não pretendo soltar um só grama de carne A fim de arrancar-lhes mesmo a pele desta vez: É a minha natureza quem exige.

Mas contigo não será assim. Mas nesse negócio. a coisa não andou. nos deu prazo só até o próximo domingo. É por ti que o faço. Eis o desafio. Mesmo que deva cortar na carne. é claro. Nesta história dos cinqüenta mil trabalhadores. que vive do aluguel. e que agi bem. Há quanto tempo não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Oito dias. Estás de acordo? JOANA – Sim. E como eu sei que sois pobres E que querem privar-vos Do teto que vos abriga. o que me agradou muito e me pareceu justo. MAULER – .. Ele traz comida a ela em uma bandeja. Mas eu o encontrarei. Toma. MAULER – Não te inquietes. sim. Eu confesso cruamente. senhor Mauler. ser ou não ser. na minha vez.. Daqui até sábado. Eu não conheço.. Mauler vai até o fundo do palco e chora. JOANA – Sim. Vou agora mesmo à Bolsa para procurar o dinheiro. Trata-se de saber Se eu serei o melhor de minha classe Ou se tomarei eu mesmo. quando nós expulsamos os ricos de nosso templo. Confirme que foi por teus conselhos Que eu. vá dizer-lhes isso. JOANA – Senhor Mauler. aos fabricantes. JOANA – . Joana pára de comer. JOANA – Os operários continuam esperando nos matadouros? MAULER Por que és contra o dinheiro? E por que então. tenho boas esperanças de que sua consciência esteja em paz nesse momento! MAULER – Então não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Não. MAULER: Tão mudada! Apenas oito dias! Onde ela esteve? O que ela viu? E por que essas rugas em torno dos lábios? Esta cidade de onde ela saiu. Assim como aos criadores.. senhor Mauler! MAULER Tome. é lógico. Teria adorado ouvir-te dizer Que o que eu faço está bem. Corra. eu buscarei o dinheiro a qualquer preço. E que. mesmo à noite. Quando não o tens. O escuro caminho que leva aos matadouros. de pé. eu lamento Que o trabalho ainda demore nos matadouros. Ela começa a comer avidamente.. Eles são cinqüenta mil Que permanecem lá. não faço mais parte. e aos Chapéus Negros é preciso auxiliar. É Mauler quem vai dá-lo. MAULER – Ah! E agora os Chapéus Negros estão em uma situação financeira difícil? JOANA – Sim. eu não comerei. encomendei a carne. arrancar a pele desta cidade.29 Mauler. Aqui está por escrito.. E foi por isso que eu me disse: irei ver o senhor Mauler. muda logo a tua cara? . MAULER – E do que tens vivido? (Silêncio de Joana) De nada. ainda por cima. senhor Mauler. Eu também. Que meu comércio não é antinatural. Uma vez mais. O dinheiro. naqueles pátios imensos.. está caro. não como eu queria.. Eu te encontro bastante mudada. Um trabalho ruim. não querem partir. Queres? Joana observa a comida. Eu quero dar-vos alguma coisa Para provar-vos a bondade de meu coração. Eu irei à Bolsa encontrar o dinheiro que lhes falta. a proprietária. o dinheiro para vocês eu terei. Não pude dar-lhes trabalho rapidamente. MAULER – Vá dizer-lhes que o dinheiro está chegando.

Fazendo Dele a única salvação. Olha também como o mundo é feito! Que edifício! Obra dos homens. destruído na mesma hora. Ela se levanta. Por Ele batendo os tambores. Isso que o senhor falou. Daqueles a quem ninguém oferece nada. E que. Mas mesmo assim verdade: Sobre a terra nada há de sólido. nem nós tampouco: Não seríamos necessários. Esse sistema é o único que permite arrancar O que pode ser arrancado dos rigores desse mundo. veja bem. E se vós não precisais se expor aos sacrifícios. Que seria suprimido por falta de utilidade. Como esses bobos para os quais o dinheiro Tem não sei qual problema. Pouco agradável. Mas saiba com qual objetivo foi dado! Tome isso! Saiba que representa O aluguel de quatro anos. isso será suficiente.O que nós não vos exigiremos de nenhuma forma – Devem dizer ao menos que eles são justificados. Seria como um mosquito Tentando se opor a derrubada de uma montanha. Ainda que dia após dia se precise reconstruir O que dia após dia é destruído. sem dúvida. malgrado os sacrifícios. Mas eu faço parte daqueles Para quem essa não é uma ajuda. sob gemidos. As coisas não deixariam de seguir o seu curso de antes. Eu seria varrido. Quero saber. Por isso vós deveis nos ajudar em nossa obra. Mas pensa na realidade. Eis porque esta obra é sempre defendida Pelos melhores entre os homens. nem Deus. Na banal verdade. Modificar por inteiro o plano do edifício. Não enchas a cabeça de falsas idéias. Assim. sob chuva e frio. eu deveria estar feliz De ver que alguém vem em ajuda a Deus. E incessantemente construída. Ou então seria preciso mudar tudo. aliás. Ele alcança o papel a Joana. Desde que existem sobre a terra. durmo mal à noite. eu concordo. Em uma palavra é preciso que vós Restabeleçam Deus em sua glória.30 O que pensas tu do dinheiro. Obra imensa. Pouco ou muito segundo o caso. Sim. Se eu quisesse me retirar. Que o gênero humano está entregue. Para que Ele finque pé nas favelas E para que Sua voz retumbe nos matadouros. O dinheiro é um meio De melhorar um pouco a vida. eu que nutro Poucas simpatias pela ordem do mundo. Não desejais. JOANA Senhor Mauler. de cima a baixo. MAULER . ou quase. É à sorte. Tão penosa de construir. . Eu não compreendo E nem quero compreender. Atribuir ao homem um lugar totalmente diferente. Apanhe o que te dão. Concepção inaudita à qual vós mesmos. Eu sei. Ao menos a vida de alguns. diga-me.

BAIRRO DOS MATADOUROS Joana. Perto dela Gloomb e dona Luckerniddle. Eu também não tenho dinheiro E nem uma maneira de ganhá-lo de outro modo. com aqueles que esperam. Quantos eram eles? Eu não sei. Mas eu me sentarei Em frente aos matadouros. e então eu me vi: À vossa frente. Jovem e velha. Sem poder suportar a visão dos pobres Que os julga sem conhecê-los. E então uma palavra. JOANA Terceira descida de Joana às profundezas. em todo o caso. se o senhor quiser me ver Me verá nos matadouros. Há sete dias: Diante de mim. Eles formavam uma massa tão densa. desfilando. Pois esta vida sem eira nem beira não te serve. 1. marchava à sua frente. e outras familiares. Se for um punhado de neve o que lhes dão. Eu serei como eles sem trabalho. com passos guerreiros. Eu comerei esta neve. Cercado de todos os lados por enormes edifícios E tão pequeno que a sombra de um arbusto O teria encoberto totalmente. Depois eu gritei palavras em tom belicoso Em uma língua para mim mesma desconhecida. do que os pardais Que se poderia colocar em tal lugar. creia-me. Sobre ela que tu conheces. E eu. pulsando vida. Pelo menos não honestamente. afluíam inúmeros cortejos. Ao mesmo tempo. Mais numerosos. Jogados aos matadouros e de tudo ignorantes. Mauler. E o senhor. Que o aceitem. levanta-te. E se nevar. E o trabalho deles também. E se não houver trabalho. Vai à janela e repara se neva.31 Leva aos Chapéus Negros este dinheiro E poderás ficar com eles. Ela sai. E isso é muito bom. Chicago! Vós também Lá estavam. Notei uma massa humana. JOANA Se os Chapéus Negros quiserem o seu dinheiro. A tempestade de neve. Que alguém gritou em algum lugar. No futuro. por toda a parte. sem uma palavra. soluçando e jurando Logo fora de mim! Virtude e terror confundidos! . E nada comerei além do que eles comem. Vi depois cortejos E ruas desconhecidas. A cada hora. uma palavra sem importância. Fez esta massa começar a fluir. que vive da pobreza. em um pequeno campo. eu quero fazê-lo. MAULER Esta noite. Que o campo inflou-se e uma cascata humana Inteira ficou pendurada em suas elevadas bordas. IX Escutai o que eu sonhei. Ela permaneceu suspensa por um instante. a fronte ensangüentada. silhueta múltipla. Eles fazem muita questão do dinheiro. Saberás que neva sobre ela. Arranjando para não ver esses condenados. Eu marchava. Ficarei lá até que as portas sejam reabertas.

Para aí mostrar a todos. nas praças públicas. Assim foi o meu sonho.. Faremos um chamado a todo o ser que pareça humano. Ocasionando imensas destruições. transparentes. ao abrigo dos ataques inimigos. DONA LUCKERNIDDLE – Se ela tivesse calado um pouco a boca lá nos Chapéus Negros. Oitenta mil toneladas. OS FABRICANTES: Mas como nós poderemos Comprar gado com preços em alta? Alguém promoveu uma razia. Rendidos pela fome. a preço vil. não nos podiam alvejar. a preço vil. Precisamos comprar e os preços aumentam! . se eu me lembro direito Daquela hora em que perdi um pouco o juízo. GRAHAM: Ao preço antigo? MAULER: Como combinado. Eu exijo que me entreguem. que eu saiba. Senhores.. Envolvida pela neve. A exata extensão de nossa miséria. O que acontecerá. nós agora estaríamos comendo a nossa sopa. GLOOMB – Dona Luckerniddle. Eu andava no mesmo passo que o cortejo. estávamos fora de alcance. Mauler. bem e aquecidos! 2. mas preciso das conservas. Há muito gado. Habituados ao sofrimento. E também perturbando o aspecto familiar de ruas bem próximas. Hoje eu compreendo o seu sentido: Nós deixaremos os matadouros antes do raiar do dia. e pior. UM PEQUENO BAR NO BAIRRO DOS MATADOUROS Desgraça! As tarifas caíram! E nós não temos mais carne para vender! Ela já está vendida. sem mais delongas. Influenciando o curso dos planetas distantes. Todas as conservas Previstas no contrato. Um pouco caro. Ninguém sabe quem foi.32 Tudo o que eu pisava. Graham. Habitando em lugar algum. é verdade. E com a aurora chegaremos a Chicago. E assim andava o cortejo. mas existe. éramos inatingíveis. BOLSA DE CARNES MAULER. OS CRIADORES aos fabricantes de conservas: Meus amigos de Nova Iorque me escreveram Que as tarifas aduaneiras no Sul Acabam de ser derrubadas. a senhora entendeu esta história? Eu não. e pior. eu ignoro. OS FABRICANTES Desgraça! As tarifas caíram E nós não temos mais bois para vender! Eles já estão vendidos. MAULER: Sendo grande a demanda De conserva e de vianda E sendo os preços aceitáveis. Comprem-no! OS FABRICANTES: Comprar gado nestes dias! Que horror! 3. abandonando este lugar insuportável Por qualquer outro. modificava. a cidade deles. libere-nos de nossos compromissos! MAULER: Estou desolado.

vinde logo! Aleluia! Uma jovem dos Chapéus Negros dirige-se aos trabalhadores. (É tudo absolutamente inútil!) Eu lhes digo: ajudem-nos a manter a marmita fervendo! OS CHAPÉUS NEGROS . DONA LUCKERNIDDLE – Eles são boas pessoas. eu esperava que eles fossem ao menos nos dar um prato de sopa. e o velho Adão dentro de mim não tinha outro desejo do que comer e beber. Nosso Senhor. mas ninguém contribui) Aleluia! JOANA – Deixe-os. UMA MULHER Por que vir aqui fazer escândalo Com tamanho frio! E se pudessem ao menos se calar! Com muito custo eu consigo agora Suportar as palavras que há pouco amava E que me soavam agradáveis. BOLSA DE CARNES OS FABRICANTES: Nós compramos qualquer gado! Bezerros! Gado gordo! Vitelos! Bois! Porcos! Façam as suas ofertas. MARTHA. Pois nós encontramos Jesus. Joana se levanta e. Um destacamento dos Chapéus Negros chega. triste. JOANA – Mas não são os tais que ficam incitando ao crime? O TRABALHADOR – Não. tu também. Bem que eu gostaria de estar com eles! DONA LUCKERNIDDLE – A música era bonitinha! GLOOMB – Bonita e curta. à margem do caminho. não a violência. Intercala sua pregação com observações aos companheiros. que nos salvou na dor. JOANA – Então não há ninguém que tente fazer alguma coisa? O TRABALHADOR – Sim. Discursos. e eu não tenho mais fome e nem sede. que alguma voz. GLOOMB – Bondade curta. depois de entoar um cântico apressadamente: Por que não provar. reina a paz. por favor! OS CRIADORES: Não sobrou mais nada! Tudo o que podia ser vendido . surpreendendo-se pela ingenuidade – É sério? A senhora acreditou nisso? DONA LUCKERNIDDLE – Eu também. os comunistas. hoje (eles não estão escutando nada!) basta que eu pense muito em Jesus. mas então eu encontrei Nosso Senhor Jesus e fez-se em meu coração uma grande luz e provei uma grande alegria. minhas irmãs. tenente dos Chapéus Negros. soldado dos Chapéus Negros: . Eles precisam fazer isso para conseguir um pouco de calor e de comida. A MULHER – Por que não nos procuram para tentar nos converter? GLOOMB. durante a cena. já ouvi demais. eu prefiro os atos. à dona. estava um dia sentada. dona Swingburn? A MULHER – A sua música era bonita.33 Trabalhadores e trabalhadoras. Nosso Senhor. como vocês. meus irmão. fazendo o gesto de contar dinheiro – A senhora consegue manter a marmita fervendo. Luckerniddle – De onde a senhora os conhece? DONA LUCKERNIDDLE – No tempo em que eu não me fiava em gente como você eu ia bastante até eles. mas eles traziam uma panela.(Vocês acham que isso serve para alguma coisa?) Eu também. ente os quais Joana. (Isso não serve para nada!). não o ódio. JOANA – Onde eles estão? GLOOMB – A dona Luckerniddle pode lhe dizer. Vinde a ele. tenho apenas sede da palavra de Jesus. meu irmão. UM TRABALHADOR. Ah. por causa do meu marido. do pão de Deus? Grande é nossa alegria. JACKELINE. Se algumas pessoas soubessem calar a boca eu saberia onde procurar abrigo esta noite. Silêncio. curta bondade. JOANA. faz desesperadamente sinais para que saiam. grande o nosso regozijo. o amor. que um resto de pudor lhes diga: Aqui reinam a neve e o vento: calem-se! 4. apesar de todas as nossas más ações. Onde está Jesus.Aleluia! (Jackeline faz circular a cuia de esmolas.

Qualquer vitelo. Deixe-os totalmente à míngua. UM CRIADOR: Oitocentos bois de Kentucky a quatrocentos. dois homens da direção dos sindicatos discutem com um grupo de operários. Se alguém vier perturbar a reunião. Ele vai falar com Slift. para começar Quinhentos bois a cinqüenta e seis. UM DIRIGENTE OPERÁRIO – Escutem todos: até agora os magnatas da carne não manifestaram a menor intenção de reabrir as suas fábricas. Em frente a um galpão. precipitando-se sobre Mauler: É preciso liquidá-lo. Chegada de Joana. OS CRIADORES – Vendido. o apetite desperta! GRAHAM. OS FABRICANTES: Mais nada? E nas estações? Estão abarrotadas de gado. mesmo nos grandes. Não havendo ninguém que precise de carne. Terá de ser comprado de mim. Mesmo que tenhas que te enfiar nelas! Eu vos ensinarei como se faz esse comércio! Doravante. Na minha opinião é preciso fazer alguma coisa imediatamente. Os senhores devem me entregar a carne. OUTRO LUGAR NOS MATADOUROS Nos cartazes se lê: “Solidariedade com os trabalhadores sob lockout!” “Desencadeiem a Greve Geral”. de Chicago a Illinois. Mauler. uma parte de nós perderá seu emprego nos matadouros e os outros nunca recuperarão o salário anterior. eu tenho propostas a fazer. OS FABRICANTES: Nem pensar! Vocês estão loucos? Quatrocentos! SLIFT – Eu compro. Agora eu quero sessenta! E tenham o cuidado De não esquecer as minhas latas! 5. precisamos de um prazo. JOANA – São vocês os que defendem a causa dos desempregados? Eu posso ajudá-los. mesmo só uma pata.34 Foi vendido. De hoje até amanhã é certo que os patrões vão lançar todo o tipo de falsas notícias: eles dirão que . É claro que é! Era o que dizíamos! O cão! Ele nos obriga a entregar-lhe as latas E é ele quem compra o gado! Somos então obrigados a comprar de Mauler A carne que deveremos colocar em suas latas! Carniceiro sujo! Tome então a nossa carne. eu acertarei as contas com ele! MAULER: Ah! É assim. se são os senhores os bois. OS FABRICANTES: É Mauler. sabemos agora de uma coisa: se tudo andar como querem os industriais da carne. no mais tardar depois de amanhã. Além disso. Silêncio .. Já que não há demanda. Graham! As latas que me deves. Os trabalhadores das grandes empresas da cidade nos prometeram declarar. OS CRIADORES: Oitocentos bois a quatrocentos para Sullivan Slift. É impossível encontrar um boi em Chicago. OS FABRICANTES – Vendido a quem? Entra Mauler.. Quatrocentos. eu as quero agora. a greve geral. Os fabricantes se precipitam sobre ele. Corte você mesmo! MAULER: Por que se surpreendem. Vendo-os. eu não tenho medo. Aprendi a falar em lugares públicos e em auditórios. Nós. e caro! Ofereço. os operários. se ela for justa. MAULER: Atenham-se à nossa combinação. e acho que sou capaz de defender bem uma causa.

A carta é para eles. pois o endereço dado pelos camaradas das usinas Cridle para o encontro está muito vigiado. pergunte-lhes se são das usinas Cridle. MAULER: Os senhores não respeitaram. O contrato assinado há pouco entre nós: Eu queria. dando a carta à Joana – Vá até a fábrica Graham. eu sei quem ela é. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua vinte e seis. os preços estão a mais de setenta! OS CORRETORES – Os cabeçudos não compram. Essas cartas anunciam que a usina de gás. dona Luckerniddle? (Dona Luckerniddle faz sinal que sim). É do Exército da Salvação e os policiais a conhecem bem. Eu não sou uma espiã.. com tal medida. Ela é honesta. O DIRIGENTE OPERÁRIO. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua Três. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Pela nossa causa? Diga-me: ela não é também a sua? JOANA – Não é no interesse geral que os industriais jogam. E poderíamos até dizer que esta pobreza seja obra deles. e vá esperar os responsáveis defronte à cantina da senhora Schmittens. estou vendo. (os operários riem alto) Mas é desumano! E dizendo isso eu penso também em gente como Mauler! (os operários caem na gargalhada) Por que se riem? Acho que vocês estão errados em zombar e em acreditar sem provas que alguém como Mauler não é um ser humano. na esquina do Parque Michigan. aos responsáveis que esperam nossa orientação. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E em que trabalhava? JOANA – Eu vendia um jornal.. galpão número cinco. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – E quem te garante que ela vai levar a carta que lhe entregarmos? O DIRIGENTE OPERÁRIO – Ninguém. assegurar o trabalho . UM OUTRO OPERÁRIO – Dê-me a carta para as usinas Graham. JOANA 6. Eu luto de todo o coração pela causa de vocês. essa noite. dessa maneira.35 tudo está arranjado e que a greve geral não acontecerá. UM OPERÁRIO – Pode ser uma espiã. as centrais elétricas e o serviço de águas entrarão em greve em solidariedade a nós.” OS FABRICANTES – Nós não podemos mais agüentar. Esconda essa em seu casaco. Meyers e Cia. – Eu já vendi jornais na rua Vinte e Quatro. a Mauler. O operário apanha a carta e sai. encostado em uma coluna – Faça subir. Ninguém suspeitaria que ela trabalha para nós. Tudo acontece como se a miséria dos pobres fosse útil aos ricos. Quando você vir chegarem três operários com cara de quem procura alguém. Jack. em frente ao edifício da Westinghouse! (À Joana) Quem é você? JOANA – Fui mandada embora do emprego. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E para quem trabalhava? JOANA – Eu era ambulante. Nós não temos ninguém para passar despercebido como ela. Um operário apanha a carta e sai. Você pode tranqüilamente entregar-lhe a carta. pau neles! OS FABRICANTES – Queremos dois mil bois a setenta. Como se rede já não houvesse: De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. Isso é bom. Ela é sua conhecida. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Não é sem provas. Elas devem ser entregues às dez horas. tanta gente na rua. BOLSA DE CARNES Durante toda esta cena. etc. À Joana: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. eu conheço o pessoal. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Não. ouve-se gritar ao fundo o nome das empresas que suspenderam seus pagamentos: “Encerram os pagamentos. SLIFT.. em diversos pontos dos matadouros. não é? DONA LUCKERNIDDLE – Honesta ela é. Por este buraco fogem todos os peixes.

Ele repara no segundo segurança. se apresentariam dez ou talvez cem. Ele pode ir longe demais. não me diverte mais. Mil a setenta e sete. de achá-la? E atiram? Encontra o Jim. Acima disso. Slift.36 Aos operários e agora me dizem Que eles ainda esperam em frente aos matadouros. O estranho é que aqui não se ouve nada. As conservas que comprei. Mauler. É preciso que a cidade Possa voltar a respirar. O primeiro segurança sai. MEYERS – Mil e quinhentos a oitenta. é claro. senhor. Além disso. tudo a oitenta. O SEGURANÇA – As multidões. mas que não rebentem. Que sangrem. MAULER: Atiram? Contra quem? Mas eu sei bem. Sem contar que a polícia está evacuando os matadouros e que começa a atirar. No canto em que trabalham os sindicatos reina uma grande efervescência! MAULER – Quem trabalha? Os sindicatos? E a polícia os deixa incitar os operários? Meu Deus! Liga imediatamente para a polícia. só quinhentos. por telefone. O segundo segurança sai. o vento abafa as palavras. A carne sumiu de vez do mercado! Quinhentos bois a setenta e cinco! MAULER: Não seria conveniente. eu não vi ninguém com o uniforme dos Chapéus Negros. perdido por perdido. GRAHAM: Que seja. Mas os senhores se lamentarão por isso. Eles já não agüentam. Pois a queda deles Será a nossa. Slift. MAULER. eu não me sinto muito bem. Diga-lhe para que não me procure. Ceda. nós não podemos pagar oitenta a Mauler pelo gado. a Slift – Onde está o pessoal que eu mandei para os matadouros? SLIFT – Ali está um. Mas para nós. entreguem-me! GRAHAM: Nada poderíamos ter feito. Se perguntasse por uma Joana. OS FABRICANTES – Mauler paga cinqüenta pelas conservas. . dizes. Isso basta. São centenas de milhares nos matadouros. esperando. à procura de um parente que não encontram. é o fim! SLIFT: Quinhentos a setenta e sete para Graham. MAULER. Slift. SLIFT: Faça subir. Ainda por cima está escuro. MEYERS – Cinco mil a oitenta! Assassino! MAULER. são incontáveis. Eles ainda agüentam! Quinhentos bois a setenta e sete. Ponha os pingos nos “is”. voltando ao grupo: Este negócio. Quando se grita qualquer coisa. A encontraste? O SEGURANÇA – Não. pois. que voltou para perto da coluna – Slift. A multidão anônima e sem rosto continua sentada lá. Senão pensarão ainda Que fomos nós que exigimos que atirassem. MAULER – Então. E tenho outras preocupações! Veja bem. eu me pego esgoelando-os E não tenho tanto prazer quanto esperava. sim. é impossível ouvir uma voz isolada: há muita gente correndo de todos os lados. Vou soltar a carne e deixá-los partir. subir muito mais. Impossível. SLIFT – A oitenta. Vá só até oitenta e depois abaixe o preço. desembucha! O primeiro segurança faz seu relatório. Fala em meu nome. Pergunta para que nós pagamos impostos! Manda arrebentar a cabeça dos líderes.

Saindo ele encontra jornalistas. Tu me conheces. Não vão embora. ALGUÉM – Porque estás aqui? JOANA – Tenho que entregar uma carta. Nós publicamos isso com manchete de oito colunas. Queria vender a oitenta e cinco. a não ser nós mesmos E a ninguém podemos apelar OS JORNALISTAS . Então agora existe gado. Mas quando a aflição for tremenda. OS JORNALISTAS – Veja bem. Joana Dark. Eu não posso mais. Aja conforme o meu espírito.” JOANA – Eu não falei nada disso. esperem a resposta! CORO OPOSTO. nós ouvimos. Um homem os guia. Eles ainda agüentam. no fundo. Nesse dia sim. Aja conforme o meu espírito. Eles não abrirão as fábricas! Eles esperarão os lucros aumentarem! E a sua resposta sairá Dos canhões e das metralhadoras! Ninguém poderá nos ajudar. Joana. JOANA – Eu não faço mais parte dos Chapéus Negros. Veja. Eles não abrirão as fábricas. NOS MATADOUROS Muita gente esperando. declara: Deus está solidário com os operários das fábricas de conservas. a jovem pregadora dos Chapéus Negros? JOANA – Não. Para nós a senhorita faz parte. isso não é possível. Slift. toda a Chicago comparte seus sentimentos. OS JORNALISTAS – Podemos lhe assegurar. SLIFT: Mentirosos! Agora serei eu que vos ensinarei A vender carne enlatada Sem ter nem mesmo um quilo! E cinco mil bois a noventa e cinco! Urros. De outra forma isso terminaria em violência. É um enorme sucesso para os Chapéus Negros. Eles se sentam. OS TRABALHADORES. (a Joana) Esses são jornalistas. em segundo plano. senhorita Dark. serei eu quem fará subir. Slift não tem ordem para isso. E se quiseres abrandar. Mauler? MAULER. JORNALISTAS – O que há de novo. não mais. SLIFT – Quinhentos bois a noventa! OS FABRICANTES: Mauler. Entre eles. a alguma distância. Mas nós não queremos incomodá-la e iremos ficar ali. pode ler. OS JORNALISTAS – No escritório do senhor Mauler nos disseram que a senhorita jurou não sair dos matadouros enquanto as fábricas não fossem reabertas. Eles terão de nos responder. apontando para Joana – Aqui está.37 – Nem pensar. Os jornalistas lêem em voz alta) “A Madona dos matadouros. eles abrirão. JOANA – Eu queria que vocês fossem embora. que a opinião pública está do seu lado. Prefiro abandonar tudo Do que ser a causa de uma desgraça! Oitenta e cinco. nos matadouros Enquanto a miséria não chegar ao máximo. – Olá! A senhorita é Joana Dark. (Joana vira-lhes as costas. SLIFT MAULER Eu preciso de ar fresco. Virão três pessoas. Continue então com o negócio. também em segundo plano: É mentira: por maior que seja a miséria. 7. O HOMEM. Fora uns poucos especuladores sem escrúpulos. Chega um grupo de jornalistas. afastando-se – É preciso que façam chegar aos operários que eu acabo de ceder gado às fábricas.

. Quando eu cheguei aqui. A qual logo se nota claramente Que serve de gangorra Todo o sistema é como uma balança Na qual os dois lados dependem um do outro. guardam-me a sopa.. A mim me esperam. tenho frio. ao qual estava acostumada. a qualquer momento. E os do alto gritam: Subam. Enfim. Ir para um quarto quente. um emprego que me assegurava O pão de cada dia. imbecil!. Apesar de tudo. chega! Você é boa mesmo de copo. Vós. que de resto Já é a muito conhecido. que acabaram de receber uma informação. ignorar aonde te leva a vida. UMA MULHER – Que audácia! JOANA – A senhora falou alguma coisa? A MULHER – Sim. Empunhar a bandeira e bater o tambor. E falar Daquele que mora lá em cima. com um vasto plano. Mas é apenas uma tábua. levantam-se e dirigem-se ao fundo. a Joana – Você está totalmente gelada. eu não tenho o direito de ir. é claro! É o cúmulo! Eles me roubaram até o chale! Quem foi o mão leve que pegou o meu chale? Devolvam-me imediatamente.. a Joana – O que fazias com aquela gente? JOANA – Nada. isso é normal. Entre os que estão em cima e os que estão embaixo.38 Que não seja um nosso igual. (Ela arranca de sua vizinha o pano com o qual ela cobre a cabeça) Sim. Tenho fome e isso é banal. A MULHER – Socorro. Ficar aqui sem necessidade absoluta Parece-me um jogo indigno. o que haveis deixado? Eu. Que audácia! Emborcar assim o whisky desse velho! JOANA – Segure a língua. Encorajada por um sonho que confirmava minhas idéias. dona Luckerniddle? DONA LUCKERNIDDLE – Sim é verdade. Já basta. o medo me aperta a garganta: Não comer. um teto e o sustento. . Eu não tinha sonhado que pudesse fazer tanto frio! Se eu tivesse pelo menos o meu agasalho! Ah! É fácil para vós passar fome. Mas.. Não fazia tanto frio em meu sonho. UM HOMEM – Silêncio! Alguém atira um trapo para Joana. E uns se sentam lá em cima Só porque os outros estão embaixo. dê-me meu pano. Alguns – pouco numerosos – estão sentados lá em cima E um grande número aqui embaixo. E um ambiente. ela vai me matar. UM TRABALHADOR. Algo de obscuro. Vós todos. desde fora. foi você! Não adianta mentir. Mas eu posso. Os jornalistas. Quer um gole de whisky? (Joana bebe) Ei. Mas. Para que estejamos todos no alto! Mas olhando mais de perto descobre-se. confesso. JOANA: Eu compreendo esse sistema. o que deixei foi uma vocação. JOANA Se dependesse só de vós Eu poderia congelar nua em pleno vento. não dormir. dir-se-ia que é um caminho. não é? JOANA – A senhora também acha. Quase uma comédia. mais do que tudo. O TRABALHADOR – Mas falaste com eles! JOANA – Eles me confundiram com outra pessoa. eu quero ir embora. E para vós é fácil passar frio. UM VELHO HOMEM. Onde está o meu chale? Eles me roubaram. que nada tendes para comer. Mas a estrutura interna continua ignorada.

ainda que os preços continuem a subir. OS JORNALISTAS – Olá. se esses senhores estão dizendo? Sobre um assunto como esse não se brinca. Que tem a fome por mestre e onde a miséria Fala implacavelmente da necessidade! E sois cem mil alunos. Os tanques deles vos esmagarão. E sobretudo entendam bem Que nada se faz sem luta E sem a sua própria ação. Então a bondade existe. Não ficaste tempo suficiente aqui. JOANA: Escutem todos! Há trabalho. JOANA: Tanto assim? Oh! Escola desconhecida. de jeito nenhum. Felizmente temos a carta para mostrar a verdade. A não ser a proposta Que leve a mudanças verdadeiras. acaba de cedê-lo aos fabricantes. o milionário que dispõe de muito gado. no frio. Ao longe as metralhadoras crepitam. espera. JOANA – Quanta gente há aqui? OS JORNALISTAS – Uns cem mil. E nós vos dizemos: ficai agrupados. JOANA: Parai! Chega de aprender essas lições! JOANA . Esse combate será perdido E talvez perdido Ainda o próximo combate Mas vós ireis aprender a combater E aprendereis pela experiência Que nada se faz sem luta E sem a vossa própria ação. O coração deles não é de gelo. E nós vos dizemos: combatei. com a carta. Não se separem! É apenas ficando todos juntos Que poderão ajudar uns aos outros. JOANA – Mas estão atirando! UM OPERÁRIO – Pode ficar sentada tranqüilamente. É preciso fazer com que se calem os agitadores que incitam à violência. O que aprendeis? OS TRABALHADORES. no fundo do palco: Se ficardes agrupados Eles vos rebentarão. Agora as fábricas reabrirão. JOANA – Oh! A boa nova! DONA LUCKERNIDDLE – Vejam as mentiras sobre as quais nos alertaram. Não te movas! Entendeu? Ela sai. Havia entre eles pelo menos um homem honesto E ele não falhou em seu dever. Classe cheia de neve e que as leis ignoram. Os matadouros são tão grandes que a tropa levará horas até aqui. Não creiam em nada e não escutem ninguém. mocinha. Os jornalistas retornam. UMA MULHER – Devemos voltar para casa agora? UM TRABALHADOR – Quem nos garante que é verdade? Que haverá trabalho de novo? – E por que não seria verdade. Mas tu. A tropa foi encarregada de evacuar os matadouros. Nessas condições o trabalho voltará muito em breve aos matadouros. aconteça o que acontecer. o seu sucesso foi formidável: nós ouvimos que Pierpoint Mauler. Tu não compreendes nada de nada. Se combaterdes. Quando se falou com ele como a um ser humano Ele deu uma resposta humana.39 OS TRABALHADORES: Fiquem. Que barulho é esse? UM JORNALISTA – São as metralhadoras. (Ela se levanta) Eu vou avisar aos nossos que os boatos já começaram a circular. DONA LUCKERNIDDLE – Não digas tais tolices.

Eu assim não poderia viver. DONA LUCKERNIDDLE. Perseguidor perseguido E não mais sabendo ver sem desconfiar. No terceiro dia sucumbiu. voltando – Nada além de mentiras! Onde foi a moça que estava sentada ao meu lado? UMA MULHER – Partiu! UM OPERÁRIO – Desde o começo eu disse que ela iria embora quando começasse a nevar de verdade. Os operários se levantam. Isso seria desleal para com os outros homens. Por três dias viram Joana em Packingtown. Ou que engendrasse a violência. Violar as regras em uso. Enquanto a noite cai. Vós. Há muito tempo que já está tudo arranjado. No lodaçal dos matadouros. Para este homem. algemados. William. Direis que fazia muito frio. que eles ainda poderão ter uma surpresa. Enquanto o fraco ao fraco se alia. No final o lodo a engoliu. UM OPERÁRIO. Viram-na descer de degrau em degrau Para em água límpida a lama transformar e aos humildes Aparecer. esta carta? Eu não saberia fazer nada Que requeresse violência. Quem agisse assim se sentiria perdido. eu seria como eles e não faria perguntas. para um dos dirigentes presos – Não liga não. é imensa! Mais uma noite como esta. Se desde a infância o peso da miséria e da fome me tivessem ensinado a violência. ao longo dos anos. Ela continua sentada. . Dia após dia ela desceu. as palavras teriam outro sentido. OS OPERÁRIOS – Estão trazendo os sindicalistas. Eles procuram alguém que não encontram e vão embora. Quem o comerá? Eu vou embora. Ela se vê com roupas de criminosa. Toda inocência tê-lo-ia abandonado.40 Que gélidas elas são! Não é pela violência Que se combatem a desordem e a confusão. Nada de bom pode surgir da violência. Seu sucesso foi grande. conduzidos por policiais. eu digo. longe do mundo que lhe é familiar. Sobre sua cabeça. Eu não sou um deles. vós estivestes juntos Longas noites. Mas o prato que se prepara aqui. Ela se levanta e sai. os astros sem harmonia Já não seguiriam sua órbitas. Eu digo: na escuridão se acumulam As violências e as questões nunca resolvidas. UM OUTRO OPERÁRIO grita para o grupo que se afasta – Assassinos! OS OPERÁRIOS – Se eles acham que assim irão parar as coisas. Chegam três operários. Do fundo ouve-se gritos que se aproximam. mas agora a coisa está terminada. Por que foram presos? O que ela contém. E é por isso que parto. Eles saem. Começa a nevar. eu preciso ir. aparece uma inscrição: A neve começa a cair. E aprendestes A alimentar friamente terríveis pensamentos. estão muito enganados. Os dois dirigentes operários passam. JOANA: Os que me entregaram a carta. OS JORNALISTAS – Nós a aconselhamos a sair dos matadouros. Joana tem uma visão. Mas assim. A tentação. Apartado em um mundo Tornado para ele estrangeiro. Com seu silêncio opressor. e ninguém Poderá manter a sua calma.

Vejam. Sou conhecido nos matadouros. Está dito. Até o reino do espírito. Aquela que eu procurava terá tido o bom senso De sair das profundezas onde o inferno se instala. UM LUGAR DESERTO NO BAIRRO DOS MATADOUROS Neva. preto no branco: O gado está a trinta e ninguém compra.. UM DOS SEGURANÇAS. impresso. MAULER: Se a desgraça abate ao homem sem caráter. Ter construído a maior cloaca do mundo Constituirá a sua única glória. Só porque duas ou três vezes eu dei meia volta. OS DOIS SEGURANÇAS – Então podemos ir? MAULER: Podem E eu também posso ir aonde queira. Doravante Não há mais ninguém que me queira matar. Assim espero. modificam tudo. preto no branco. E ninguém quis. seja por economia. o que foi? Riste. Pierpoint Mauler cruza a fronteira da pobreza 8. UMA ESQUINA EM CHICAGO MAULER. Slift. nada mais posso fazer por eles. . não lhes parece? Ah! Eu repito Não fiquem enchendo a cabeça com idéias. Que nós construímos em nossas grandes cidades Sem importar o custo. Vejam o que leio. mais de vocês.41 Pergunta feita: quem ficará? Como nos outros dias. É o que está escrito. a um de seus seguranças Parem. Sem que eu tenha procurado. dele se diria Um prédio construído com grandes despesas. aqui sob meus olhos. O mais prático também. Há resistência. Essas notícias. Mas vejo que estão pensando. então. façamos meia volta. Seja por aberração. Cedi meu gado a qualquer um que o quisesse. A mim ela vai elevar às mais altas esferas. Perto dos matadouros. Agora eu estou livre. 9. Aquele que sai de tal imóvel. Quanto a este edifício. saindo – Bom. Sem nenhuma exigência. Basta. Parece-me Que contratei dois idiotas. Eu disse: meia volta E tu riste. o mais vasto. Eu tenho as minhas razões. Assim foi conseguido. ainda atiram. em suor e em dinheiro. são os mais atingidos. meia volta. um objetivo que eu saúdo E que muito me alivia. De agora em diante. confessa. Mauler e seu amigo. a dona Luckerniddle reencontra Joana. Este homem está perdido. Na borrasca. em cima. os pobres. Escolhido como material. Em todo o caso. Tem certa razão de estar alegre. que todos os fabricantes Quebraram juntos e saíram do mercado.. hoje restarão No chão as pedras. Não preciso. Pensar não serve para nada. Até mesmo aos matadouros. mas o arquiteto teria. Passa um vendedor de jornais Ei! Jornal! Vejamos o que se passa na Bolsa de Carnes. E a vocês eu despeço Pois da pobreza eu cruzei a fronteira. Ele lê e empalidece. cocô de cachorro: Que torna a permanência difícil. Não é para pensar que eu vos pago.

O SEGUNDO OPERÁRIO – Os comunistas é que tinham razão. Pierpoint Mauler as arruinou. Tu não a entregaste. Nós não sabíamos quem eras. ela procura se livrar das vozes que ouve de todos os lados. JOANA – Não. A VOZ DA DONA LUCKERNIDDLE: Eu fui a tua fiadora. Uma parte dos operários saiu dos matadouros. UMA VOZ: Não há desculpa Para quem não chega. Sem récitas inoportunas dos seus infortúnios. DONA LUCKERNIDDLE – Eu devia ter duvidado. Nós te encarregamos. de uma missão. De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. Eles teriam ficado apesar da violência da polícia. Nela estava nosso destino. Muitos operários teriam ficado se soubessem da notícia. oh verdade! Que a neve em tempestade Inoportunamente mascarou com sua noite. Por este buraco fogem todos os peixes. A pedra não perdoa. Que sentimentos em nós deixareis sobreviver? . O SEGUNDO OPERÁRIO – Isso é grave: sem dúvida uma parte das ligações não funcionou. podias dar conta. Mas também podias nos trair. precisas chegar! Joana olha ao redor. Joana cruza com dois operários de quem ouve a conversa: O PRIMEIRO OPERÁRIO – Primeiro eles fizeram correr o boato que as fábricas reabririam a todo o vapor. para poder se apresentar amanhã bem cedo ao trabalho e de repente eles falam que as fábricas nunca mais abrirão. OUTRA VOZ: Joana pára. isso é o que tu és! Dê-me a carta que te confiaram.42 – Ah. E aquele que chega a bom porto. Que nada diga. Cumpriste a missão? Joana volta a andar e uma nova voz a detém. Mas tu és uma traidora e teu lugar é com eles. Dê a carta aqui imediatamente. Joana ouve vozes. Tudo está voltando ao normal agora. De tua missão. AS VOZES: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. Joana. UMA VOZ – Lá onde te esperam. DONA LUCKERNIDDLE – Ora essa! Para ti está tudo normal! E eu que disse que tu eras honesta! Sem isso não teriam te confiado a carta. UM OUTRO LUGAR Correndo em direção ao centro da cidade. O PRIMEIRO OPERÁRIO – E aqui nós não ficamos sabendo. Eu vou embora. Um lixo. É inútil tentar pegar. Como se rede já não houvesse. Joana pára. (Joana desaparece na tempestade de neve) Hei! Venha! Ela foi embora! DONA LUCKERNIDDLE 10. Ao que tropeça e cai. Lá dentro só se fala em violência. mas a senhora quer continuar. Aquilo que lhe foi confiado. Anda em outra direção. Mas a carta que trazia a verdade. As massas não deveriam ter se dispersado. caindo de joelhos: Luz. Claridade que então eu deixei de ver! Oh! Quem conhecerá o poder da neve! Oh. Errando pelos matadouros. eu não a darei. JOANA. Ainda mais que amanhã todas as empresas de Chicago iriam declarar a greve geral. fraqueza do corpo! Oh fome. mas entregue. estás aí! Onde tinhas te metido? Entregaste direitinho a carta? JOANA – Não.

X Humilhação e assunção de Pierpoint Mauler TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS MARTA. Um homem começa a levar os móveis para a rua. à chuva. UM HOMEM. que já se afunda! Mas o rico Mauler virá. OS CHAPÉUS NEGROS: Estão levando. veio nos dizer que Mauler em pessoa estava disposto a assumir o nosso aluguel e a organizar conosco uma grande campanha em favor dos pobres. O reino de Deus está pronto na minha cabeça. BISPA SNYDER. A massa espera. que prometeu nos ajudar. O HOMEM – Os fabricantes de conservas querem falar com ele e os criadores o chamam aos gritos. quem vos pode resistir? Eu preciso dar meia volta! Ela retorna sobre seus passos correndo. E as ondas de lama do materialismo Ameaçam a casa de Deus. Salvar-nos com o seu dinheiro! BISPA SNYDER Há exatos oito dias Que nos matadouros onde as máquinas enferrujam. na frente do palco : Ouvi alguém procurando um certo Mauler. minha cara Mulberry. Uma boa orquestra à mão e sopa Bem grossinha: terminam para Deus todas as preocupações. É Mauler. Sob um plúmbeo zênite de destinos desconhecidos. E nós gritamos à plena garganta: Ah. Ah. a qualquer momento. MAULER – Eis aqui um homen marchando até o seu Deus. ele possuía dez milhões. Mas nós o estamos esperando. DONA MULBERRY – Meu caro Dick. Buscam-no por toda a parte. Pediram-lhe cem dólares. BISPA SNYDER – Sente lá atrás e fique quieto! Ele se senta. com certeza! Ele já está a caminho com os seus milhões! UM CHAPÉU NEGRO – Bispa. BISPA SNYDER – Dona Mulberry. nossa boa cidade. Para nos salvar neste instante. afastada do trabalho.43 Frio da noite. . Ele sai. o banco dos penitentes! E já suas mãos avidamente se dirigem Ao órgão a vapor e ao púlpito. posto que sem abrigo. com sopa quente E um pouco de música. o suntuoso Mauler. OS CHAPÉUS NEGROS: Romperam-se os diques da fé Em Chicago. coloque os móveis na rua. De um só golpe o bolchevismo também é enterrado. Conheci bem um homem. DONA MULBERRY – Bispa Snyder. Ele se levanta e avança até os Chapéus Negros. a outro Chapéu Negro – Há três dias um emissário de Pierpoint Mauler. o senhor Pierpoint Mauler. Eu o conheci: era um imbecil. que aliás é muito barato. no céu e no inferno. Liberada. Este homem que foi em sua vida Mais estúpido do que um vagabundo bêbado e repugnante. Vejam que já balança. o rei da carne. entrando – Pierpoint Mauler está aqui? BISPA SNYDER – Não. MAULER. se ele pudesse vir. investindo contra ele – A sopa. onde iremos acomodar o nosso público? Chega um pobre. estamos aguardando. é tudo o que eles querem! Aqui não tem mais sopa! Aqui só tem a palavra de Deus! Ouvindo isso eles vão logo embora. Exposta outra vez à neve. ou que deixe o imóvel. que triste. agora os pegamos. Quero que a senhora pague o meu aluguel. é sábado a noite.

gritando – E sem dinheiro? (Aos Chapéus Negros:) Façam as malas. Abusado da força e espoliado todo o mundo Em nome da propriedade. Os Chapéus Negros cantam. mas arrependido. e dilacerado de remorsos. Jogou no mar seus milhões. Os músicos tocam um hino. E sobre nós a neve envia suas tempestades Em um inverno no qual crescem os rigores. OS CHAPÉUS NEGROS: Não perca a confiança! Homem de pouca fé! Ele virá. CORO DOS CHAPÉUS NEGROS. devolva-me os meus quarenta aluguéis! MAULER: Vós desejais. DOIS MÚSICOS: Um pedacinho só. Tiremos de nossas paredes as máximas. meus amigos. Passar bem. Sentados sobre as margens do lago Michigan. OS MÚSICOS: É deste aí então que vocês esperavam O dinheiro para nos pagar? Então nós vamos embora. BISPA SNYDER. seguindo a letra por sobre o ombro de um dos Chapéus Negros. Culpado. sim. Envolvamos em nossas bandeiras derrotadas Os livros de cânticos. olhos voltados para a porta. deu cabo de si mesmo. que tenha caído tão baixo. dirigindo-se aos músicos que vão embora: Nossas orações eram pelo rico Mauler E foi Mauler o arrependido que entrou. Silêncio! Tragam-me o livro das faturas e contas por pagar: estou nessa parte. já. OS CHAPÉUS NEGROS – Ele já chegou? MAULER: Um hino. Eles cantam ainda “Entrai na batalha”. Não podemos mais pagar as nossas contas. construir vossa casa . BISPA SNYDER. inclinado sobre os livros de contabilidade – Não direi o que estou calculando. é certo. BISPA SNYDER – Tu és Mauler? MAULER – Sim. Mauler canta com eles. ar ausente. eu vos rogo! Pois eu sinto O coração ao mesmo tempo leve e pesado. eu vejo. Aqui estou agora. Ele trazia o seu coração. BISPA SNYDER Silêncio! Fora. Joana. Mas quebrou a nossa cara De uma vez por todas. Ele pega dois Chapéus Negros pelo braço e senta-se com eles no banco dos penitentes. todos para fora! A Mauler: E tu primeiro! Onde estão os quarenta meses de aluguel Desses não-convertidos que Joana enxotou? E vejam só o que ela me trás em troca! Devolva-me. Diante de vós.44 No fim. MAULER: Eu me acuso de ter explorado o meu próximo. UM CHAPÉU NEGRO – É ele. E esse gesto tocou os nossos corações. Se aproxima já Com os seus milhões. Apenas nos resta chorar. Mauler! MAULER: Mas quero acrescentar que no sétimo dia Fui despojado de tudo. sem nada. Sentados sobre seus últimos bancos e suas últimas cadeiras os Chapéus Negros cantam desordenadamente seus últimos hinos. Por sete dias apertei a garganta Desta cidade até sufocá-la. Ouçam então a minha confissão: Aqui jamais se ajoelhou Ninguém. Todos os pagamentos estão suspensos. recusou-se a dar o dinheiro. não o seu dinheiro.

como um bêbado sedento Que ao mar esvaziou sem se satisfazer E lambe avidamente cada gota que encontra. Os complexos pensamentos de vosso imenso espírito.45 Sobre o que há de pior em mim. Mas nós estamos perdidos: Em torno de nós. Relatarei o combate memorável Que. E tudo o que de longe parecesse um boi. Era vosso todo o gado. Lançou. durante sete horas. Um zênite ameaçador de pensamentos desconhecidos. tomando a frente : Mauler. Não terias a necessidade de aliviar aqui A tua consciência. E hipotecando até o último lápis Para trazer de Quebec. O Banco Nacional gritou: “Alto”. Mauler. Pelos contratos que nos obrigavam A entregar de imediato as conservas prometidas. desde a aurora. Ninguém jamais pode fugir da lei. gado canadense. Mauler. Por vós fomos forçados. os reis da carne vêm ao seu encontro. O ancião venerável. OS CRIADORES: Maldito Mauler. Na porta. Prometiam até o gado por nascer. Loew e Lévi. Que não ficou só por muito tempo. Este espetáculo atroz apavorou o ancião. Concluo eu o seguinte: o Mauler que sou Não é aquele do qual precisais. Que vos pertencia. Mauler. é aqui então que te escondes? Paga nossos bois ao invés de fazer penitência. agigantou-se E a todos nos precipitou no abismo! MAULER: Oh! Eternos combates! Em nada são diferentes Desde os tempos antigos onde os homens Com uma barra de ferro rachavam-se as cabeças! GRAHAM: Recordai que estávamos à vossa mercê. em poucas palavras. Ele tenta sair. No ciclo dos astros ou das mercadorias. Mas Slift. Bispa. OS REIS DA CARNE: Perdoai-nos. E Wallox e Brigham. Eu sei muito bem. comprometendo suas casas. o caos. com voz dura. Quando. eles iriam trazer. a comprar gado. Eles também estão muito pálidos. Mal viu esses bois vindo ao longe. o que existisse de gado. partistes. Subiu os preços a noventa e cinco. Que a constatação vos enche de amargura. Viram-se os preços Oscilarem. Estão pálidos como o linho. Que projeto tendes agora. salva tua alma. quem nos derrubou. O que pretendeis fazer de nós? Foste vós. por ter vindo Atrapalhar neste lugar as tuas meditações. No mercado perturbado. e sobre nossas cabeças. . Vossa função seria apenas a de brincar na relva. Um vitelo ou um porco. firmas de grande renome. Ah! Se não tivesses aliviado tanto os nossos bolsos. tomado de loucura. assumindo seus deveres. da Argentina. e a noventa e cinco Comprou-os todos. Mas se chamássemos de homem àquele a quem se ajuda Daria no mesmo: necessitaríeis sempre De gente a ponto de afogar-se. Em três dias. Dais o nome de homem a quem vos vem ajudar. hesitantes. Para mim o humano era aquele a quem eu podia explorar. paga-nos o gado! GRAHAM. ao meio-dia. Slift apertou Ainda mais forte a nossa garganta. Dá o dinheiro. E sobre eles atirou-se. que fareis? Entram os criadores em grande agitação. Acorreram todos em ajuda. nobre Mauler. chorando.

paravam de viver. Aí está o que tornou o contrato sem valor Apertastes muito forte.. E nós comprávamos sempre: Nós precisávamos comprar. Com esse gado que ninguém é obrigado a comprar? OS CRIADORES: Sem querer perder a paciência. Naquele instante. em um suspiro. na batalha. fomos estrangulados E de que adianta estrangular um cadáver? MAULER: Foi assim então. de imediato. bancos. Os corretores. Inúteis portanto. entrego por cinco. Eu quero para hoje”. E como contratos nulos não impõem compras. E que não foi ainda acertado. O sapato. E em silêncio também os bancos desmoronaram. Vertiginosamente. mudos. Lutavam a dentadas.. o velho Lévi disse então em voz baixa. Slift então gritou: “Cem”! Poderia ouvir-se um alfinete cair. em um espasmo.46 Mas Slift gritou: “Três dias não. Como definha uma esponja espremida.E a voz ainda nos alcançava Mesmo com a balbúrdia dos trens que partiam: . Com esse chapéu e este sapato: Dez milhões o chapéu. Rangerem os dentes. é sabido. comprar. por sua indiferença. Mas alto o bastante para que todos ouvissem: Para pagar-lhes tomem então nossas fábricas. os vívidos vitelos. Casas até então sólidas e poderosas. Institutos de crédito. agora. Lançaram-se um a um nesta última batalha. Slift. baixou. Estão satisfeitos? OS CRIADORES: Há pouco tempo. os cavalos inimigos. de rocha em rocha E somente em trinta a queda parou. Que nos píncaros se encontrava. a carne de boi. Parando de pagar. E viu-se. Lévi. Eles precisavam entregar. tomados de desespero. Ouviu-se nesse dia os jovens estagiários. Toda a família nos gritava de longe Com a voz embargada pelo trabalho duro . e os preços subiram. Célebres. Sob nossos olhos. se por um acaso Um elefante se arriscasse pelo interior da Bolsa. Porque não mais podemos honrar os contratos. um a um. que travaste a batalha Que deixei a teus cuidados! SLIFT: Corte-me a cabeça! MAULER: E de que me serve tua cabeça? Dá-me o chapéu. E Brigham arranca a barba aos gritos: “Noventa e seis”. com olhos marejados. Lévi. E os jovens bois de pêlos reluzentes Engordados com tanto cuidado. quando e com que dinheiro Nos pagarás o gado comprado. Nós queremos que nos digas Como. e então se retirarem. obstinados. Até os simples contínuos. ele ao menos vale vinte e cinco centavos. O que fazer. quando levamos às estações De nosso longínquo Missouri Com muito sacrifício. Como a água que cai na cascata. os agentes fechando suas escrivaninhas. Do outro eu preciso. Seria esmagado como um morango no chão. diga-me. golpeia um corretor na barriga. Em tudo semelhantes aos antigos corcéis Mordendo. Só um. os fabricantes apáticos Depositarem a vossos pés suas fábricas fechadas. isto é. De cotação em cotação Os preços caíram e rolaram até os negros abismos. MAULER: Agora mesmo.

Caro Pierpoint. sozinho. não bebam todo o dinheiro. GRAHAM – Mas então é Wall Street? Um murmúrio percorre o ambiente. Compreendido como sendo de interesse geral. isso não é possível. de Nova Iorque. para que os preços voltem a subir. neste estado.. vocês estariam dispostos. Seus amigos de Nova Iorque. elas vão mal. Deixando as sublimes esferas onde meditais. pelo que dizem. De máximas sagradas e escolhidas com grande cuidado. Julguem vocês mesmos. Mas nossa pobreza não é. mas são numerosas. Estariam vocês dispostos a repetir aos quatro ventos . O negócio só é possível. entendei. Mas para mim. Alguma chance de sucesso. Não ter fartura de bens terrestres. Jogai sobre vossos ombros o jugo.. mostrando o lombo vazio E nossos bolsos também? Como. rapazes. Se assim fosse concebido. entrando – Mauler está? Uma correspondência para ele. Abandonai.(Ele abre a carta e lê de canto) “Escrevemos a você recentemente. a quem mandavam cartas desse tipo. Rockfeller. MAULER – Eu costumava ser esse Mauler. é impraticável. OS FABRICANTES E OS CRIADORES: Desejarias. condescender. Seus bens. E voltar até nós? Pensai. MEYERS – Quem são esses amigos de Nova Iorque? MAULER – Morgan. MAULER: Se o faço. Não quero. O projeto teria talvez.. o que faremos. nós aconselhamos a fazer um acordo com os criadores para reduzir o rebanho. caro Pierpoint. pensai no caos Que ameaça a tudo engolir. Não. MAULER: Ou seja. Mauler. E o barulho das metralhadoras. Como voltar para nossa terra? E que diremos a eles. Outra vez responsável. GRAHAM – O que não é possível? MAULER – Tenho amigos em Nova Iorque que. é muito a contragosto. Mas se fizéssemos uma grande promoção De sua instituição. De um asilo necessário para os casos mais graves. E dado que de vós necessitamos. conhecem um meio de sair desta. ao contrário. Cuja voz está a tal ponto asfixiada. Ele estende-lhes a carta. Nem todos aqui em baixo poderiam ser ricos. esta caça fatigante. assumir a empreitada. Pois os preços do gado vão subir.47 “Ei. Nossa pobreza é termos perdido O sentido dos valores mais elevados. Pois ainda creio ouvir O rumor dos matadouros.. Neste caso. nós estaremos de bom grado à sua disposição. compreendei. Como tudo de agora em diante Me parece diferente. MAULER: Em nós a consciência. Agora.” Não. para que comprasse carne. amigos. estão para sempre perdidos. A Snyder: Existem muitas dessas lojinhas Onde se vende a Bíblia? BISPA SNYDER – Sim? MAULER – E como elas vão? BISPA SNYDER – Mal. esperamos” E agora. Providos de sopa quente e de boa música. voltar para casa? O HOMEM DE ANTES. nós lhe forneceremos amanhã mais detalhes. Sancionado pelas instâncias superiores. nobre Mauler.

Então. Meter um freio à anarquia da criação. desordem e violência. Digamos: a maior parte. mais ainda. mas olhando bem Quem vê além das aparências das coisas. . Eliminar o estoque excedente atual. Elas impedirão que em sua brutalidade Um povo. Elas trarão a calma e a ordem. Limitar o rebanho oferecido no mercado. aos criadores : Escutem. queimar um terço do gado existente. tem seus defeitos. Miséria e fome. TODOS – Não há outra saída! MAULER – E também precisaremos reduzir os salários! TODOS – É o ovo de Colombo! MAULER: Qual o objetivo dessas medidas? Nesta noite de sangue e confusão. é claro Que entre vocês estivesse Joana. Nós o faremos. Será preciso demitir um terço dos operários: Também de mão de obra o mercado está saturado. para puxar os preços.Pois eis Chicago outra vez agitada A greve geral. OS FABRICANTES – Que cérebro! MAULER. que nós subvencionaremos Fartamente a sua missão que contribui Com a manutenção da ordem. criadores e industriais. Enfim. Eu fico com a metade das ações. Seria muito importante. É por isso. dizem. Eu compreendo o senhor. Vê que são eles os compradores! Seja como for. E mesmo que muitos não compreendam. O mercado foi saturado este ano. TODOS – Que solução simples! BISPA SNYDER. Eles podem nos parecer inferiores. meus amigos! Eles cochicham. MAULER. é eminente -. aos fabricantes: Faremos uma fusão de suas indústrias Em um só monopólio. não poderíamos Doá-lo àqueles que esperam lá fora E quem sabe utilizá-lo melhor? MAULER. E que. Chapéus Negros. mas se o gado tem tão pouco valor Que pensam em queimá-lo. ou melhor: quase todos Mas é o único meio de salvar o sistema De vendas e compras no qual vivemos. Em que em nossas cidades os problemas não têm fim. Toda essa gente aí fora: Eles são os nossos compradores! Dirigindo-se aos outros: É incrível. . supérfluos. Esta dificuldade pela qual estamos passando Está a ponto de ser superada. Nesse tempo de humanidade desumanizada. que deseja Fazer o bem. você não compreendeu A questão de fundo. quebre suas ferramentas E destrua assim seu próprio ganha-pão. sorrindo: Minha cara bispa. Não tem outra causa a não ser Que há carne demais. E é por isso que os preços caíram a zero. nós decidimos. nesses tempos de desgraça? Pois serão necessárias medidas draconianas Que poderão parecer duras porque irão Derrubar alguns e. é lógico. Em conjunto.48 Que nós somos uma gente valorosa. BISPA SNYDER – Quase todos. E às vezes inoportunos. Todos sorriem longamente. pedindo a palavra: Perdão. É preciso limitá-la. ofuscado.

penteados e carecas. Quando perdem o trabalho. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Tranquem as saídas. UM DELES – E por que foram presos? . Passam então os dois dirigentes operários escoltados por soldados. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Vamos. eles chegam até nós. UM CORRETOR. Quando estão cegos e surdos. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Todo aquele que aqui entrar. OS CHAPÉUS NEGROS. Toquem a música e nós mesmos Seremos os primeiros a nos sentar Para elevar nossos corações a Deus.49 Cuja face por si só já inspira confiança. Joana segue com o olhar os prisioneiros. Sejam bem-vindos. Foram presos os sacrílegos que perturbavam a paz e a ordem! SLIFT: Podem respirar. o mercado vai ser curado! Outra vez saímos do ponto morto E realizamos uma obra difícil. Música de órgão. Nossos planos outra vez se impõem. De sopa encham os pratos. Os que aqui chegarem. Imóvel. joguem as grandes redes! Eles saíram agora de sua última casa! Deus lançou sobre eles o frio! Deus lançou sobre eles a chuva! Eles terão de vir. Nenhum deles tem chapéu. JOANA. joguem as grandes redes! Sejam bem-vindos. para que nenhum escape! Eles estão a caminho. olhar fixo na porta: Eles terão de vir. Eles combateram Pelo pão dos outros. UM DELES – Quem são eles? O OUTRO Nenhum deles Pensou só em si mesmo. Eles vêm até nós para chorar. entrando precipitadamente – Escutem a boa nova! A greve que nos ameaçava foi sufocada. As coisas retomaram o rumo que nos agrada. Passam apenas alguns grupos de operários. a seu lado. Ela então ouve. Perseguidos sem trégua. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! XI NOS MATADOUROS EM FRENTE AO ARMAZÉM DAS FÁBRICAS GRAHAM Os matadouros estão quase vazios. não deixaremos! Sejam bem-vindos. SNYDER – Abram as portas! A porta principal é aberta. Ninguém pode escapar: tranquem as saídas. chega e pergunta – Vocês viram passar três homens que vinham buscar uma carta? Ao fundo ouve-se gritos que se aproximam. estamos prontos! Já estão chegando! A miséria os traz aqui como um rebanho! São obrigados a vir. apanhem-no! Lazarentos e descalços. estão chegando! Daqui eles não escapam. apanhem-nos! Sejam bem-vindos. Até nós. MAULER: Abram agora a porta principal Aos homens cansados e cheios de preocupação. dois homens conversando. cantam.

Quando os soldados vierem a recolherão. não é ela. Divididos em grupos estão os Chapéus Negros. esticando o braço com a carta na mão. Recolhida doente Nos matadouros. entretanto. à sua frente. UM DELES – Sempre será assim? O OUTRO – Não. Nenhum come seu pão tranqüilamente. foi reduzido em um terço. Joana. Um grupo de pobres entra. não é a nossa Madona dos matadouros? Hei. Deixem ela aí no chão. Nós soubemos ser sublimes E vulgares quando necessário. e a esta a polícia dispersou com o uso de força. UM DELES – O que farão com eles? O OUTRO: O salário deles é baixo e seu trabalho útil à maioria. Joana cai desmaiada. – Ela deve estar aqui. A decisão sobre a greve geral só chegou a uma parte deles. Nenhum morre de barriga cheia. mas apenas para dois terços dos operários. Um deles a derrubou com uma coronhada. XIII MORTE E CANONIZAÇÃO DE SANTA JOANA DOS MATADOUROS Agora o templo dos Chapéus Negros está ricamente mobiliado. Nem é enterrado com decência. As fábricas reabrem. você aí! As coisas deram errado. Ela veio daquele lado e aqui ela gritou para os nossos que as empresas municipais iriam decretar OPERÁRIOS Sim. UM DELES – Por que não se ouve falar deles? O OUTRO O OUTRO greve. JOANA – Os operários concordaram? OS JORNALISTAS – É claro. Joana se vira. chega ao termo de sua vida. amparada por um policial. que seguram bandeiras novas. Enfim o sucesso chegou E tudo acabou bem. saiba que são eles.50 – O homem injusto atravessa a rua à luz do dia. Nos vales e nos cimos. mas o justo se esconde. carregando lanternas. Durante alguns segundos eu a vi distintamente. Não. SNYDER: Quando nos jornais falarem de criminosos abatidos. As rajadas de neve a impediram de ver os soldados. Esta aqui não é das nossas. pisoteados. o salário também. OS JORNALISTAS – Vejam só. os jornalistas a interpelam. Era uma velha operária. Seu último endereço Teria sido aqui. como se ainda quisesse entregá-la: . Ou de malfeitores postos na cadeia. E a carne vai subir. A greve geral fez água. Nenhum. Deus outra vez se impôs. Todos perecem antes do tempo. JOANA. XII EM FRENTE AO ARMAZÉM DA FÁBRICAS GRAHAM Um grupo de operários entra. O POLICIAL: Eis aqui uma sem-teto. os açougueiros (fabricantes de conservas) os criadores e os compradores. Aqui está! Seriam necessárias muitas como ela. Em nós podem por fé. a sorte nos sorriu. Golpeados. Lançados em terra profana.

a quem não se pode mais explorar! Comei a sopa! Ah. empregando todos os meios. Que Joana exorcize o mal E que por nós ela interceda. OS CHAPÉUS NEGROS: No final. SLIFT – Esta é nossa Joana. Matéria a sua altura . eu poderia levar. A vida tranqüila de um cordeiro. enquanto as moças dos Chapéus Negros a vestem novamente com o uniforme: Ouve-se outra vez o rugir das fábricas: Outra vez se desperdiçou a chance De colocar um freio a esses excessos. Mostrá-la entre nós provará o quanto nos importam os sentimentos de humanidade. um serviço tão pequeno Foi só o que em toda a minha vida Me pediram para fazer. Quando o meu esforço. marchava para a luz! Seus atos eram os de um ser humano. Quando se poderia ter alterado o curso das coisas. E outra vez o mundo Percorre o antigo ciclo. Chegou na hora certa. sua térrea natureza. Pelo contrário. E em sua marcha altaneira Para evadir-se ao mundano. E tinha sonhos para milhares. Eu faltei. Consoladora dos baixios! JOANA: Que vento sopra nesses baixios? Neve. Por uma boa causa. também humanos! JOANA. dirigindo-se a Joana: Como ela ainda está perturbada. O ideal. e ultrapassa o objetivo. E só servi aos perseguidores. toda a obra Onde o espírito não encontra. E seus erros. infelizmente. pois ela nos ajudou a atravessar a tormenta dessas semanas difíceis. quais os gritos que abafas? Comei vossa sopa! E não desperdiceis esse resto de calor. o infinito. Vós. MAULER: Uma alma que exala sublimes impulsos Suporta mal. Slift discute com Snyder e com os fabricantes. Ela que. JOANA: Eu falei em todos os lugares. Foi necessário. por menor que fosse. Ela vai muito adiante. Intercessora dos pobres. intercedendo pelos pobres e mesmo proferindo discursos contra nós. BISPA SNYDER: Levanta-te. E eu não fiz! Enquanto os pobres tomam assento nos bancos para comer a sopa. MAULER: Que tome posição em nossas fileiras Esta alma inocente e cândida E que sua bela e pura voz Misture-se aos cânticos de nosso coro.51 Jamais receberá a carta Aquele que agora está morto. Joana dos Matadouros. Eu falhei com os perseguidos. Nós faremos dela uma santa e não economizaremos em homenagens. na noite. dando provas de humanidade nos matadouros. Ela será a nossa Santa Joana dos Matadouros. Vamos colocá-la em destaque. Eu o neguei. Se eu apenas tivesse entregue A carta que me confiaram! OS CHAPÉUS NEGROS. Desta vida intolerável E atingir o inconcebível.

Contrário à razão. Mas nada mudará se eles melhorarem. Quaisquer que sejam as aparências. Maldito aquele que apelar A essas massas essenciais Mas sempre insaciáveis. Se não for uma ajuda real. No topo e no chão. JOANA: Pois entre os de cima e os de baixo O abismo é mais profundo Que entre o Himalaia e o fundo do mar. A essas tropas indispensáveis. Mas que não sabem o quanto. Sistema bestial. para os exploradores. Eu. Porque o sistema é construído assim: É apenas exploração e desordem. Que ninguém seja tido como honrado. Que cada um. falando alto. Precisa-se do chão. E o que se passa no alto. Nunca se sabe em baixo. OS FABRICANTES: O resultado. Pois se dele esquecer Perturbará nossa harmonia. qualquer que seja. então. JOANA: É uma grande verdade Que aprendi e que vale para todos E morrendo eu vos digo: Vossos bons sentimentos. Que nada seja considerado como boa ação. Deixando sem medo um mundo por onde passei muito rápido. Eu vos digo: Quando chegar a vossa vez de deixar esse mundo. ignora-se o que se passa em baixo.Isso não basta – Deixai um mundo bom. A esses elementos dos baixios! JOANA: Mas os que estão por baixo são assim mantidos Para que os de cima lá continuem. de maneira a encobrir a voz de Joana: Para que até o céu se levante o edifício. Não esqueçamos que ela esteve nos matadouros. Não tenhais a preocupação de terem sido bons . Mas também no alto. O que está em cima está em seu justo lugar. dois pesos e duas medidas. Entre os do alto a baixeza é sem limites. Exceto aquele que muda o mundo Definitivamente: isso é o que é realmente necessário. E dois idiomas diferentes Os homens têm a mesma face E não se reconhecem mais. E sem descanso nem folga Realize seu dever.52 Resta fragmentada Sem alma e sem vida. a Joana: Seja boa e se cale! . que significam Se não se manifestam em nenhum lugar? De que serve vosso saber Se o que sabeis não tem conseqüência? Eu mesma. é magnífico Sempre que espírito e negócios se aliam. como do topo. O que está em baixo tem grande importância. fique no lugar Que lhe é atribuído. OS CHAPÉUS NEGROS. caí do céu! Infelizmente! Bondade sem conseqüência! Sentimentos Que não fizeram a menor diferença! Não. GRAHAM – Ela não pode proferir discursos que não sejam razoáveis. o que foi que eu fiz? Nada. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES. eu não transformei nada.

de século em século. é preciso fazer algo para tirar a atenção do que ela fala. para abafar o discurso de Joana. Não. Sempre necessário . Não esqueças: tua consciência está lá! Atenção. A palavra de Deus. Denegrindo a ti mesmo. é verdade. comerciantes.53 É preciso. sobretudo.Sobretudo se forem compras especulativas – Esse Verbo que. os alto-falantes começam a transmitir notícias que espalham o medo: “Bank of America e Citibank estão de pires na mão” “Revolta contra os cupins financeiros conflagra Londres” “Múltis drenam do país US$ 3. JOANA: Se alguém um dia vos disser Que existe um Deus. vinte e cinco anos. Todos. Precisarás deles sempre! OS CHAPÉUS NEGROS: Olha para cima. infelizmente. distingam com um sinal! Hosana! Enquanto eles cantam os versos. Chegar ao topo implica Pisar na cabeça daqueles que estão por baixo. digam qualquer coisa. É preciso também golpear-lhes o crânio com uma pedra. mas que seja bem alto. Do qual podeis esperar ajuda. invisível. O Verbo magnífico. ou seja. a eles concedei! Hosana! A quem tudo possui. OS AÇOUGUEIROS: Podes fazer qualquer coisa! OS CHAPÉUS NEGROS: Mas faça-o Sempre com muito escrúpulo! Espírito contemplador. Que podeis elevar-vos moralmente Mesmo com os pés enfiados na lama. quando vos disserem. ferir! OS CHAPÉUS NEGROS: Nunca esqueças do sangue que mancha teus sapatos. JOANA: E do mesmo modo. Sempre se metamorfoseia. tudo concedei! Hosana! Concedei-lhe a cidade e o Estado! Hosana! Aos vencedores. SLIFT – Escutem. de esquecer os remorsos. Em suas compras. MAULER: Deves agir. Onde vivem os homens. contraiu a serviço de Deus uma pneumonia nos matadouros de Chicago. Mas evita. Batei com uma pedra em seu crânio Até que arrebente. Só dos homens pode vir ajuda. Falem. OS AÇOUGUEIROS: E nem pensa em tirá-los. BISPA SNYDER – Joana Dark. sempre mais alto. obedeça! OS AÇOUGUEIROS: Quem se mover no espaço Nunca poderá subir: Subir é subir sobre alguém. Onde reina a violência Não há outro recurso senão a violência. Não esqueçam.266 bilhões só em dez dias de março” “BC assalta U$ 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street” “Montadoras almoçam os R$ 8 bi do crédito e mantêm ameaça de demitir trabalhadores” “Deficit dos EUA deve chegar a US$ 9 tri entre 2010 e 2019” . Combatente e mártir. Aos ricos concedei a riqueza! Hosana! Também a virtude. cantam a primeira estrofe do hino.

até cobri-la totalmente. Hosana! Que seus crimes terminam bem. Hosana! Ajudai a quem tudo possui. Pelo espírito. colocam-se suavemente todas as bandeiras sobre Joana. diz governo ” “EUA mudam socorro para bancos. se não tivessem degolado tantos porcos!” “Criadores miseráveis. que manipulam o dinheiro a rodo. até o fundo cravado. mudos de emoção. MAULER – Dêem uma bandeira a ela. na terceira vez ela o pega. O palco é iluminado com uma luz rosada. Um desejo vive no coração do homem. Colocam a bandeira em suas mãos.” “Foram os especuladores de grãos que encareceram o gado. que vos ajuda também. A carne para a terra o arrasta! MAULER: Ai! Um duplo desejo dilacera meu pobre coração. Hosana! Durante esta estrofe. ao firmamento Um impulso múltiplo o atira. vinte e cinco anos. a serviço de Deus.7%” “Crise já eliminou 6 mi de empregos nos EUA” “Incertezas rondam fábricas da GM à beira do fechamento” Sob o efeito dessa terríveis notícias os personagens trocam entre si acusações e diversos insultos como esses: “Açougueiros sujos. Todos ficam muito tempo de pé. Hosana! Esmagai o ódio. Snyder e Mauler vão até ela. morta de pneumonia nos matadouros. A um sinal da bispa. Aos astros. por que não empregaram mais gente e pagaram melhores salários? Quem esperam que compre a nossa carne?” “Foram os intermediários que fizeram subir tanto a carne de gado. levanta e vira. Não dá mais sinais de vida. as mulheres tentaram oferecer a Joana um prato de sopa. Hosana! Notam que Joana para de falar. MAULER: Como a pureza De um ser inocente. BISPA SNYDER – Joana Dark. Hosana! Juntai vosso riso aos que riem. A generosidade De uma alma sem mácula. por que criaram tanto gado?” “Alucinados. para sua grande pena. mas ela cai. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES: Desde que o mundo é mundo. Infelizmente. Comove-nos profundamente. tocada pela morte.54 “Empresas dão calote recorde para remunerar seus acionistas” “Recessão ainda irá se agravar no Japão. foram vocês que se recusaram a reduzir também!” “Vocês são os únicos culpados!” “Enquanto não acabarem com vocês não vai melhorar!” “Faz tempo que o destino de vocês está selado!” “O que estão esperando para prender vocês?” Todos cantam a segunda e a terceira estrofes do hino. A voz de Joana já não se ouve: Concedei aos ricos misericórdia. Em seguida cai nos braços delas. Nós que temos a alma comum! E então desperta a boa alma Que temos no fundo de nosso coração.” “Os bancos nos arruínam com os juros que exigem!” “Quem pode pagar tanto dinheiro para estocar o gado e pelos silos de grãos?” “Por que vocês não começaram a reduzir a produção?” “Nós começamos. Ajudai vossa classe. Por um nobre ideal.” “Foram as tarifas das estradas de ferro que nos esfolaram. Hosana! Piedade com aqueles que ignoram a fome. Bolsa de NY cai 4. Qual um punhal. combatente e mártir. Hosana! Nesses braços que vos estendem. sinto-me atraído: . Hosana! Oferecei a vossa graça. sempre ele aspira Às esferas mais elevadas. Hosana! Com mãos cheias. Em duas tentativas ela recusa o prato.

como de tua alma grosseira. Longe de querer escolher uma delas. Homem! Luta sempre contigo mesmo! Sigas sendo este ser uno e sempre dividido! Cuida de tua alma boa.55 Desejo a abnegação. não consigo resistir Inexplicavelmente! TODOS: Em cada homem habitam Duas almas opostas. como de tua alma vil. Cuida de tua alma terna. Ele precisa cuidar de ambas. Cuida bem das duas! . desejo o altruísmo Mas à atração pelo lucro.