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I O rei da carne, Pierpoint Mauler, recebe uma carta de seus amigos de Nova Iorque CHICAGO. OS MATADOUROS
MAULER,

lendo uma carta. – “Parece-nos evidente, caro Pierpoint, que já há alguns dias o mercado da carne está saturado. E, no sul, as barreiras alfandegárias resistem a todas as nossas ofensivas. Acreditamos, portanto, ser prudente, querido Pierpoint, não mais envolver-se com este negócio...” Acabo de receber essas indicações de meus bons amigos de Nova Iorque. Lá vem meu sócio. Ele esconde a carta. CRIDLE – Por que esse ar tão sombrio, querido Pierpoint? MAULER: Lembra-te, Cridle, daquela caminhada Que fizemos uma vez, pelos abatedouros? Era noite. Diante de nossa máquina nova, Cridle, lembra-te, nós vimos um touro Claro e nobre, dirigindo aos céus seus grandes olhos vazios. Ele recebeu diante de nós o golpe que o abatia: E tal golpe me atingiu até o fundo do coração! Há sangue demais, Cridle, em nosso negócio! CRIDLE: Amigo, vens outra vez com tua antiga fraqueza. Quem acreditaria, Pierpoint? Tu, o maior de todos, O rei dos abatedouros, dos açougueiros o terror, A morte de um touro louro te enche de dor! Não conte, eu te rogo, tal segredo a ninguém A não ser a mim! MAULER: Oh, meu fiel amigo, Por que me levaste a visitar o abatedouro! Durante os sete anos em que estou no negócio

Eu evitei fazê-lo. Eu não posso suportar Um comércio tão sangrento, não tenho mais forças: Eu me retiro de imediato... Cridle, queres a minha parte? A terias por muito pouco; a ti, a preferência: Ninguém conhece o negócio como tu. CRIDLE: Muito pouco? Quanto? MAULER: Velhos amigos como nós dois Não podem disputar muito por valores. Dez milhões! CRIDLE: Não seria caro, se não houvesse Lennox Que, pela carne em conserva, lata a lata se bate, E estraga o mercado com seus preços baixos. Tirará nossa pele, se não tirarmos a dele. Enquanto ele estiver em pé, e só tu podes abatê-lo, Não posso aceitar tua proposta. Deverás, até lá, com tua mente fértil, Encontrar uma saída. MAULER: Não, Cridle, Esse coração treme ainda com o grito do touro! É preciso então que Lennox caia rápido, Pois quero, doravante, viver como homem de bem E não mais como açougueiro. Saiamos, Cridle, e eu te direi A forma de abater Lennox. Mas tu deverás então tirar esse peso do meu coração E tomar a frente de nosso negócio CRIDLE: Quando Lennox for derrubado Eles saem. II

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O desmoronamento das grandes indústrias da carne A - DIANTE DA FÁBRICA DE ENLATADOS DE LENNOX
OS OPERÁRIOS

Nós somos setenta mil Nessas fábricas de conservas E nossos salários são tão baixos que não podemos mais [sobreviver. Ainda ontem, de surpresa, reduziram nosso pagamento E hoje, um novo aviso: “Os que não estão satisfeitos, sempre podem deixar a fábrica!” Saiamos então, e todos juntos. Ao diabo esse salário que diminui todos os dias. Silêncio Há muito tempo já esse trabalho nos nauseia: Esta fábrica é para nós um verdadeiro inferno E só pode nos manter aqui o medo, O medo duplo, de Chicago e do inverno. Mas agora, doze horas de trabalho Já não garantem nem um pão seco Nem dão para comprar um trapo velho. Melhor partir E morrer de uma vez. Silêncio Pelo que nos tomam eles? Acreditam então Que nós somos gado, dispostos a tudo? Tomam-nos por jumentos? Melhor morrer! Deixemos a fábrica Agora mesmo. Silêncio O que houve? São seis horas! Por que não abrem, corja de esfoladores? Seus bois estão aqui, bando de açougueiros! Abram! Batem no portão.

Terão eles nos esquecido? Risos. Abram! Queremos entrar Em suas imundas pocilgas E suas cozinhas infectas Para preparar guisados indigestos Para os que ainda podem pagar. Silêncio No mínimo exigimos, O salário anterior, que já não dá para nada. No mínimo A jornada de dez horas e, no mínimo... UM HOMEM QUE PASSA: O que vocês estão esperando? Não sabem que Lennox fechou? Gazeteiros de jornal aparecem na cena GAZETEIRO – Lennox, o rei da carne, forçado a fechar suas fábricas! Setenta mil operários na rua. Lennox vítima da concorrência feroz imposta por Pierpoint Mauler, rei da carne e da responsabilidade social!
OS OPERÁRIOS

Desgraça! O próprio inferno Diante de nós fecha suas portas! Nós estamos perdidos. O impiedoso Mauler Aperta a garganta de nosso explorador E somos nós que sufocamos! B - UMA RUA – A Tribuna de Chicago, edição do meio-dia! O rei da carne e da responsabilidade social, Pierpoint Mauler vai inaugurar os Hospitais Pierpoint Mauler, os maiores e mais caros do mundo! Dois transeuntes olham para o fundo do palco, “vendo” Mauler. UM TRANSEUNTE, ao outro – Aquele é o Pierpoint Mauler. Mas quem são os dois que o acompanham?
GAZETEIRO

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– Seguranças. Só anda escoltado, com medo de apanhar de alguém.
O OUTRO

Para levar Deus ao coração de um mundo que desaba E nele restaurá-Lo, pela ação dos mais humildes. Os Chapéus Negros andam. Toque de tambores. Durante todo o dia os Chapéus Negros pregaram nos matadouros, mas, quando a noite chegou, os resultados eram quase nulos. DIANTE DA FÁBRICA DE CONSERVAS LENNOX – Dizem que eles estão preparando um grande golpe sobre o mercado de carne. Para nós isso que dizer esperar e passar fome. OUTRO OPERÁRIO – A luz está acesa nos escritórios. Estão lá, calculando os lucros. Chegam os chapéus Negros. Fixam no chão uma placa na qual se lê: “Hospedagem: 20 centavos por noite. Com café: 30 centavos.” CHAPÉUS NEGROS cantando Escutem todos, escutem bem! Tu que te afundas, nós te vemos, Teu apelo por ajuda, nós o escutamos, Teu sinal, nós o percebemos. Parem os carros, detenham o trânsito Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Tu que te escondes, tu que duvidas, Olha para nós! Olha, Meu irmão, antes que sucumbas! Nós te damos o que comer E nós não esquecemos Que tu não tens abrigo. E, sobretudo, não digas que tudo está perdido: Tudo será diferente, a injustiça nesse mundo Não poderá durar se todos se juntarem a nós, Marchando ao nosso lado Com o único objetivo de ajudar o próximo. Nós faremos avançar os tanques e os canhões
UM OPERÁRIO

Para levar consolo aos miseráveis dos matadouros, os Chapéus Negros deixam a sua sede. Joana empreende sua primeira descida às profundezas. C - EM FRENTE AO TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS
JOANA,

à frente de um comando dos Chapéus Negros: Nesta noite de sangue e confusão, Nesse tempo de desordem organizada, De arbitrariedade consentida, E de humanidade desumanizada, Nesse tempo em que em nossas cidades Os problemas não têm fim; Nesse mundo, imenso matadouro, Em que nos chegam rumores de violência iminente; Para impedir que, em sua brutalidade, O povo, ofuscado, quebre suas ferramentas E destrua assim seu ganha-pão, Nós queremos reintegrar Deus Pois aos lugares onde realmente vivem os homens Ele não mais tem acesso: Sua glória anda pouca, Seu nome, já quase suspeito. Dos mais humildes, entretanto, ele é a única salvação! Então nós resolvemos Por ele bater nossos tambores nesses bairros; Para que ele penetre no coração da miséria E que sua voz retumbe pelos matadouros. Aos Chapéus Negros: O que faremos agora é uma última tentativa. Pela derradeira vez, nos esforçaremos

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Nós lançaremos ao mar os navios de guerra, E nos ares, os aviões Para conquistar teu pão, meu irmão. Porque vós, os pobres, formais Nesse mundo um imenso exército. Vós que nos escutais Não esperai o amanhã! Desde hoje ajudai, Ajudai ao próximo! Avante! Ao assalto! Empunhai vossos fuzis! Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Cantando, os Chapéus Negros começam a distribuir seu jornal: Apelo às Armas, bem como colheres, pratos e sopa. Os operários agradecem e põem-se a escutar o discurso de Joana. JOANA – Nós somos os soldados do bom Deus. Por causa dos chapéus que usamos, somos também conhecidos como os Chapéus Negros. Nós dizemos que somos soldados, porque formamos um exército e porque, em todos os lugares em que vamos, precisamos lutar contra o crime e a miséria, contra as forças que tendem a nos aviltar. (Ela mesma começa a distribuir sopa) Bem, agora comam esta sopa quente e constatarão que depois vocês verão as coisas com um olhar diferente. Pensem agora qual esperança se pode fundar sobre a felicidade terrena. Nenhuma, absolutamente nenhuma. A desgraça vem como a chuva: ninguém a provoca, mas, entretanto, ela vem... Suas desgraças, digam-me de onde vem? UM DOS QUE COMEM – De Lennox & Cia. JOANA – O senhor Lennox tem talvez mais preocupações do que vocês! O que vocês estão perdendo? Ele, suas perdas se contam por milhões. UM OPERÁRIO – Carne não há nesta sopa, só uma aguinha clara, isso sim. Mas quente, pelo menos, está. OUTRO OPERÁRIO – Fiquem quietos, bando de glutões! Escutem a palavra de Deus! Senão vão tomar o prato de água quente de vocês.

– Silêncio! Queridos amigos, digam-me: por que vocês são pobres? UM OPERÁRIO – Sei lá! Explique você! JOANA – Eu lhes direi. Não é porque vocês não estão cheios de bens materiais – que não chegam para todos – mas porque vocês não têm idéia dos valores mais elevados. É por isso que vocês são pobres. Esses gozos vulgares aos quais vocês aspiram, comer um pouco, ter um bom lugar para morar e ir ao cinema, não são mais do que prazeres frívolos, grosseiros. Enquanto que a palavra de Deus é um prazer mais delicado, mais profundo e muito mais refinado; talvez vocês não possam nem imaginar algo mais doce do que o chantili, mas a palavra de Deus é ainda mais doce. Homens de pouca fé, os pássaros no céu não têm carteira de trabalho, as açucenas do campo não têm emprego e, entretanto, como eles cantam Sua glória, Deus lhes dá alimento. Nós, os Chapéus Negros, fazemos então a vocês uma pergunta muito prática: de que um homem precisa para crescer na vida? UM OPERÁRIO – Um colarinho engomado. JOANA – Nada disso. Para progredir na terra talvez seja necessário um bom colarinho, mas diante de Deus é preciso muito mais que isso, outras glórias. Vocês aos olhos Dele, nem mesmo um colarinho puído têm, pois deixaram suas almas no abandono. Mas então como vocês querem elevar-se, chegar ao que vocês, em sua ignorância, chamam de uma “situação melhor”? Pela força bruta, pela violência? Como se algum dia a violência tivesse trazido alguma coisa além da destruição. Vocês acham que mostrando os dentes conquistarão o paraíso na terra. Mas eu lhes digo, agindo dessa maneira o que se cria não é o paraíso, mas o caos! Um operário chega correndo. O OPERÁRIO: Uma vaga, agora mesmo, acaba de abrir! Um trabalho, um salário, esperam por vocês, Na fábrica número cinco! Que mais parece uma latrina. Corram, rápido. Um operário larga seu prato cheio e sai correndo.
JOANA

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– Ei, você, onde é que você vai? Quando se ocupará de Deus? Vocês não querem nem ouvir falar, não é? UMA MOÇA DOS CHAPÉUS NEGROS – Acabou a sopa. OS OPERÁRIOS: Acabou a sopa; Era só um caldinho ralo Mas era melhor do que nada. Todos se viram e se levantam. JOANA – Fiquem sentados; acabou, mas que importa, uma vez que a grande sopa celeste não se esgota nunca. OS OPERÁRIOS: Quando, afinal, vocês Abrirão as portas de seus porões, Carniceiros, mercadores de carne humana? UM OPERÁRIOS: Com o quê, agora, pagarei A casa pequena e úmida, onde vivemos doze? Eu já paguei dezessete prestações, Mas a última, não conseguirei Seremos jogados na rua. E o chão de terra batida E nosso pedaço de grama amarela, Nunca mais os veremos, nunca mais, Nem tampouco respiraremos seu pestilento ar familiar. UM OUTRO OPERÁRIOS: Aqui estamos, em pé, nossas mãos como pás, E nossos pescoços fortes como tratores. Nossas mãos e nossos pescoços, queremos vendê-los Mas não há quem os compre. OS OPERÁRIOS: E nossas ferramentas - Gigantesca montanha de prensas e gruas – Estão trancadas, detrás desses muros! JOANA – E então, o que se passa? Quer dizer que já se vão? É porque já terminaram de comer? Adeus e obrigado. Mas por que então vocês escutaram até agora?
JOANA

– Pela sopa. JOANA – Continuemos. Cantem! CHAPÉUS NEGROS cantando Avante, entrai nessa luta! No coração da batalha lutai! Cantai com louvor, que cante todo o mundo. Ainda é noite, mas logo virá o dia, Raiando com todo o esplendor, E junto virá Jesus Nosso Senhor. UMA VOZ, do fundo do palco – Estão contratando nas fábricas de Mauler! Os operários saem. Fica apenas uma mulher. JOANA, com ar sombrio: Parem a música! Acabou a sopa, lá se vão eles! Seus olhos são incapazes de elevar-se Mais alto do que a borda do prato. Eles não crêem em nada além do que está Entre suas mãos. Acreditarão em suas mãos? Vivendo cada dia, cada minuto mesmo, Na insegurança, eles não são capazes De se esquecer das preocupações mais básicas. Nada, a não ser a fome, tem sobre eles qualquer influência. Nenhuma canção os toca mais. Nenhuma palavra pode Descer até eles e penetrar seus corações. Aos que a cercam: Parece que nós, os Chapéus Negros, temos por tarefa alimentar todo um continente com nossos poucos talheres. Os trabalhadores voltam. Ao longe, ouvem-se gritos. OS OPERÁRIOS, na frente do palco – Que gritos são esses? Um imenso caudal humano emerge dos abatedouros. UMA VOZ, do fundo: Mauler e Cridle também fecharam. As indústrias Mauler optam pelo lock-out! OS OPERÁRIOS, refluindo:
UM OPERÁRIO

para ele. Eles encherão tuas orelhas com seus gritos. que fogem do trabalho. antes. Lennox está branco como algodão. meu velho Lennox. E vê esvanecer-se sua pureza original. ruídos da Bolsa. derrubou-te. GRAHAM: E então. JOANA – Não! Eu quero saber (aos trabalhadores) Digam-me. desce cada vez mais baixo. Oh Joana! Não te metas nas querelas terrestres! Pois quem nelas se envolve. O selvagem Mauler! De um tal monstro a investida É inexorável! A natureza. Sua bondade perde rápido. quem é o responsável por tudo isso. JOANA – Esse Mauler. Recebemos mil respostas. mora aonde? OS OPERÁRIOS: Lá. onde se compram e vendem animais. na frente do palco: Desgraça! De todos os lados chegam ainda Torrentes infindáveis de homens! OS CHAPÉUS NEGROS. Ele venderia o próprio ar. Eles têm apenas idéias vulgares na cabeça. Enquanto corríamos atrás de trabalho. Jamais seus corações. os fabricantes de conservas Lennox e Graham discutem. Tu desaparecerás na lama! Pois a lama entope as bocas Que fazem perguntas sem prudência JOANA: Eu quero saber. No alto. já que ele é a causa de tamanha miséria. Os Chapéus Negros se afastam. torna-se. Quem abandona o lar protetor. Resultado para nós: barrigas vazias. por que correm de um lado a outro e não encontram trabalho? OS OPERÁRIOS: O sanguessuga Mauler e o muquirana Lennox brigam entre si. O que comeste. Abrigaram sentimentos nobres. presa. – Não. a Joana – Vamos agora. Torna-se mercadoria. Estamos gelados e molhados e precisamos comer. ele te revenderia. esse Mauler. Todos haviam perdido o emprego E perguntavam onde achar trabalho. Degrau após degrau. por favor. pronto. Joana e Marta esperam. Em um grande edifício: A Bolsa de Carnes JOANA: Eu vou até lá: Eu preciso saber. OS CHAPÉUS NEGROS – Então teu destino nos parece bem negro. desde o dia em que nasceram. Ao fundo. Na insana esperança de obter uma resposta Que jamais chegará. . OS CHAPÉUS NEGROS – Pare! Não te metas com essas questões. UM OPERÁRIO. eu quero vê-lo. dos Chapéus Negros: Não vá te meter com estes problemas. Uma multidão enorme e desesperada. JOANA – Quero saber. MARTA.6 No meio do caminho encontramos. E o frio supremo Rouba de seu coração todo o calor. São reles glutões Preguiçosos. JOANA III Pierpoint Mauler é tocado pelo sopro de um outro mundo EM FRENTE À BOLSA DE CARNES Em baixo. Ao fazer mil perguntas.

que vira couro.Joana. até ele e.. OS FABRICANTES DE CONSERVAS : Trata-se de saber quem agüentará mais tempo. eu também te recomendei prudência. acompanhado de seu corretor. sozinho. em salsicha se transforma. esta arte contrária à natureza. Até chegar aos ossos. Saibas. E talvez chore. o porco se precipita.. para economizar Uma agradável soma em salários. olhe para mim e de meu pescoço.7 De barracos miseráveis. Vá. E pensa nos velhos tempos.” CRIDLE : . Slift. confessa. Mauler. Que ele não saberia jamais trair seu instinto. com sua escalada. MARTA – Joana. Fecho minhas fábricas. Cridle. nele. Por si mesmo. Quando ele não podia absorver mais nada. lutando. não achas? Ele se degola e logo. Instalar duas ou três dessas máquinas novas. ele extrai rendas. Cridle sai da Bolsa e desce até o palco. não é verdade? GRAHAM : Muito bela! Mas e a lata. Diga-lhe: Mauler. a cada fase. cruzei a última fronteira. Bela invenção. E assim. Nas facas. A nova técnica é muito engenhosa: O porco é colocado em uma esteira rolante Até o alto da fábrica. no entanto. Estranho conselho! Eu te agradeço. E agora. Marta. ficarás com a fábrica Conforme está previsto nos termos do contrato: “No dia em que Lennox for eliminado. Todos me abandonaram... eu garanto. Ele terá medo. Batendo-se por sua conquista. no último andar. Tira esta mão que me aperta e me estrangula. Ele não pode suportar A visão da miséria. O que fazer com ela? Ah. surge de um grupo de fabricantes de conserva. Primeiro perde a pele. época maldita! Um comércio estrangulado por montanhas de conservas. este homem não é duro E nem ama o dinheiro. A Lennox: Estás perdido. Lubrificar meus cutelos. MAULER : Lennox está de joelhos. até aqui me acompanhastes.. por conta de seu próprio peso. então. com voz suave. Lennox! Acabou a guerra de preços! Foste eliminado. Espero que o mercado recobre a saúde. que viram escovas. Um mercado aviltado. Tal qual dois grandes búfalos. Pois caindo. Em dinheiro ele as transformará. JOANA – Mas tu vieste comigo. De carne podre. Fizeram desabar os preços e destruíram seu negócio. chega Na lata que o espera lá embaixo. Agora vou limpar a minha fábrica. Gritaram-me prudência: Para eles. ainda ontem florescente!. CRIDLE: Muito bem. Começa então o seu retalhamento. Bem pensado. Tão natural. Depois seus pelos. JOANA. à Marta: Tu somente. e dorme mal à noite.. MARTA . Destroem com seus cascos o pasto que disputam. Vocês mesmos. E se lhe jogas pedras na cabeça. O faro para o dinheiro é nele tão potente. ele faz ouro. como vais reconhecê-lo? JOANA – Saberei bem reconhecê-lo. que. moídos como farinha.

Mauler.. e tu tinhas um terço.. Seis dias? Não. mas.. mergulhado em meus negócios. até teu coração sabe ver longe! LENNOX : Eu gostaria ainda. Mauler. Tu me ofereceste a 320. MAULER – Leia. tu me forças. as ações estavam a 390. CRAHAM . Estou tão temeroso que chego a suar frio: seis dias. Ah! Pudesse eu estar liberado De um comércio tão bestial! Tenho. Não estava caro. (faz contas em uma caderneta) Quando combinamos que tu sairias do negócio. é que meu coração se aperta Quando ouço mugir a criatura CRAHAM : Agora eu compreendo a grandeza de teus atos. Cridle. Lennox acabou. Freddy! Quer dizer que tu me socas.8 Sim. : Pepê! Isso não é um jogo! Não podes misturar Questões pessoais aos negócios! CRIDLE – Pois não. Antes que quebres de uma vez! Creia-me. Veja se esse contrato diz uma só palavra sobre a crise. Nada além. então. então. LENNOX – Mauler. Ele sai. Pepê! Como quiseres. sensível! Ele soca Mauler no coração. o coração torturado! Cridle se afasta. Isso não é um contrato? Com um preço fixado? CRIDLE : Sim. um contrato dos tempos de prosperidade! Mas e a crise? Ela não existe? Que posso fazer eu com um grande matadouro Se ninguém mais compra carne em conserva? Agora sei bem porque não podias Mais suportar a visão do gado morrendo: sua carne Não vende mais! MAULER : Não. isto é. Mauler. Cridle. Lennox! Toque-o! É uma lata de lixo. Lennox. Para pagar o que te devo. Mas com ele acabaram Os bons dias do mercado.. GRAHAM — Mauler. MAULER . se eu fizer isso. Não pude imaginar seu fado. É o máximo que posso fazer. Joana fez um sinal a um segurança e lhe diz algumas palavras. se tu estás Realmente onde dizes. seguindo-o com os olhos: Tive a ligeira impressão de que algo o atormentava.. Mas. CRAHAM : Toque-lhe o coração. Pois eu proibirei Cridle De comprar-te uma única lata. sem mais delongas. nosso contrato não é mais viável. veja Lennox. Repensar os dez milhões de dólares Que queres por tuas ações. as ações caíram para 100. LENNOX – Não. tenho dois mil empregados! CRIDLE – Mande-os ao cinema! Mas Pepê. olhe para mim. A exigir meu dinheiro. eu precisaria jogar essas ações no mercado. É preciso então. E eu. de examinar Contigo.. MAULER : O quê? A soma está inscrita Claramente no contrato Tome. elas cairão a 70. e onde eu conseguiria dinheiro para pagar tua parte? Eu estaria arruinado! MAULER : Já que me dizes isso. nada. cinco. como eu. Hoje. MAULER – Ai! GRAHAM — Viu? Ele tem um coração! MAULER : Então. devido à saturação do mercado.

MAULER: O tecido é bem fininho e. Mas que nome curioso! Soldados do Bom Deus. O SEGURANÇA — São membros da Organização dos Chapéus Negros. Pouco me importa o que esperam de mim. MAULER : A escória em farrapos. a Slift: Que eles trabalhem por nada. – Vinte centavos. gente estranha. O segurança vai ao encontro de Joana no outro lado do palco. O melhor para eles É causar em mim a impressão de gente honesta. na verdade. – É o senhor. que eu sou Mauler. Ouve-se: Bois. Slift ri. diga que não estou..9 O SEGURANÇA — Senhor Mauler. Pretendo renunciar a esse negócio sangrento Logo que eu possa: renunciar sem retorno. cá entre nós. sem dúvida? Prontos para a violência. Nada de choros. 43. Creiam-me: esses são assuntos profissionais Que não vos interessam. JOANA. além da comida e do uniforme. suponho. MAULER . Com ar invejoso. em absoluto. é o que tem a cara mais ensangüentada. O SEGURANÇA: Ele vai vê-los. é ele. Mas o que eles querem comigo? O SEGURANÇA — Afirmam que têm algo a dizer ao senhor. São chamados de soldados do Bom Deus. MAULER : Já ouvi falar dessa gente.. o tecido não é grosso Nem é grossa a sopa. seus trabalhadores na rua? MAULER. que a escória me chama – Despojou Lennox. respondam apenas Quando ele lhes perguntar. MAULER : O que é esta organização? O SEGURANÇA — Eles têm muitas ramificações. MAULER : Está bem. eu sei. mas vocês não devem Perguntar nada. JOANA: Por que joga. JOANA. dirigindo-se direto a Mauler – O senhor é o Mauler! – Não sou eu. apontando para Mauler – O senhor é o Mauler! MAULER – Não. não é homem de bem. o rumor da Bolsa continua. etc. e pôs em apuros Cridle que. Para Joana:) Quanto recebes por dia? JOANA. Vitelos. que o sangrento Mauler. Slift? (Enquanto isso. 55. adoraria vossa opinião. Mais uma coisa: não diga.É assim. 59. hein? Não. . Senhor Mauler. há algumas pessoas que querem lhe falar. Mas. Graham sai. que a sopa seja rala. Que não é acusada de nada E que não espera o impossível de mim. Slift. Diga-lhes que eu os receberei Mas que eles limitem-se a responder minhas perguntas. Dizem. nem desses versos sentimentais Que eles adoram cantar. (aponta para Slift) É ele! JOANA. MAULER – Rindo. sobre outra questão. Porcos. Sim. são numerosos e gozam de grande consideração nas camadas inferiores da população. A Joana: Vós sois. Durante esta cena. não é notável? Já viste algo igual? Que trabalhem por nada e sem se lamentar? Não vejo em seus olhos nem medo da miséria Nem de dormir sob as pontes alguma noite. MAULER – Como me reconheceste? JOANA: De todos. Chapéus Negros.

Cedi por dez ao homem que vêem aqui. há pouco. Eu sei. Eles não têm mais trabalho. São. mas não digas nada. isso de se retirar do negócio. JOANA – Isso é uma gota no oceano. Mas. Nenhum é inocente. não é? JOANA: Não sei se o senhor fala sério. JOANA: Senhor Mauler. MAULER: É que adquiri o maldito hábito De disfarçar a voz. sem nenhuma obrigação: Eu não sofro de insônia. MAULER: Poderia eu ir mais longe? Porque ele é sangrento É que eu tirei as minhas mãos deste imenso negócio. O senhor não poderia realmente ajudá-los? MAULER: Repita por toda a parte: eu aprovo vossa ação. Seu riso não me atinge. Embora já tenhas vivido mais de vinte anos. Ele fala com Slift em voz baixa. MARTA. não me digas nada. Não. Ele se aproxima dos industriais. A parte – doze milhões – que eu tinha na usina. Marta sai. de resto. Mas este mal era inevitável. Eu também vou embora. tu também. vamos. Deverias. E desejaria que fossem mais numerosos. ele é mau. O mundo não poderá mudar se antes não mudarem os homens. dêem o dinheiro. Eu sei. minha filha. Tamanha inocência!. Talvez por isso te ajude.. JOANA – Senhor Mauler. Abandonar esta empreitada. por favor. . MAULER: Riam todos. Mas é uma gentileza. diga. nos matadouros dizem que o senhor é o responsável pela miséria deles. Um instante. Dêem o dinheiro. Desculpe-me. MAULER: Eu tenho grande piedade pelos bois: o homem. Senhor Mauler. Tome para os pobres.. Ele não é maduro ainda. dêem! Corja de carniceiros! Ele continua mexendo nos bolsos deles para dar dinheiro à Joana. Eu os verei chorar um dia. eu sinto Que tu não gostas de mim. É bom. Dirigindo-se aos outros: Parece-me que fui tocado pelo sopro de um outro mundo. Isso não é bom? Os fabricantes de conservas explodem em gargalhadas. que com tal decisão As pessoas sofreram. confesso. no lugar do pobre animal. não creias que seja de boa fé. A canalha.10 Pois eu vi – e isso vos interessará – Morrer. O homem. um boi e fiquei tão comovido Que quis largar tudo. não me comove. Mas tendes consideração demais pelo destino dos pobres: Eles são maus. ele decidiu abater O rico Cridle. tomando-lhes o dinheiro que trazem consigo e dando-o a Joana. aliás.. São todos carniceiros. Melhor para ti que não os veja. Isso não é bom? E conforme vosso espírito? SLIFT : Vendo morrer o boi. Deixai disso. Diga-me que está certo E que isso te agrada.. por que fechou os matadouros? Eu preciso saber. pessoas extremamente más. a Joana: Joana. Seu rosto me agrada. para o que pretendes fazer.

SLIFT: Em teu lugar não gostaria. Mas volte aqui amanhã. cheios de traições. A Joana: Aqui está meu corretor. Isso pode funcionar. na caldeira. Quando a fábrica reabrir você. Se quiseres mesmo saber. UM CONTRAMESTRE. É o primeiro que nossos tambores desalojaram Das trevas da vilania. JOANA — Eu quero vê-los. Ele ouviu nosso chamado. Semelhantes a bestas. ficará com a vaga de Luckerniddle. em uma palavra.) É uma pena. vendo Mauler se afastar: Este homem não é mau. Mas seu casaco ainda está bom e isso também é uma pena. (O contramestre volta para a fábrica pela portinhola. que nada têm Além de seus vinte centavos por dia e seu chapéu negro. Slift e Joana escutam.11 Chame ela de lado. Veja então o que ela compra. O JOVEM OPERÁRIO – O senhor pode confiar em mim. em um jornal. é o lixo do mundo. Dois homens saem por uma portinhola.. e depois a siga. senhor Smith. Ele sai. Responsáveis. assim como o seu boné. IV O corretor Sullivan Slift mostra à Joana Dark como os pobres são maus: Joana desce às profundezas pela segunda vez BAIRRO DOS MATADOUROS SLIFT: Joana. mas não pudemos parar as máquinas a tempo. dê dinheiro a ela. Slift e Joana contornam o muro de uma fábrica. É preciso queimá-los. Azar. por suas vidas miseráveis. Diga “para seus pobres”. Luckerniddle. Estão ocupando inutilmente um cabide no vestiário. E que não têm nenhum medo. Se isso falhar . saindo – Um conselho: não te metas com as gentes dos matadouros.. JOANA. De saber o que queres saber. Entrego a você porque sei que é de confiança: se alguém encontrá-los em algum lugar. sobre o qual se lê: “Fábrica de Conservas de Carne Mauler e Cridle”: O nome de Mauler aparece riscado. caiu. e mostre a ela Como os pobres são maus e covardes. enfim. o quanto antes melhor. é pavoroso. perderei meu emprego. Sullivan Slift. ele te fará ver algumas coisas. JOANA. já que agora ele está em embalado. ele cairá bem. se quiser. O amigo Pedaço-de-Toicinho não precisa mais dele. o que causa má impressão. e para mim. a um jovem operário – Um de nossos homens.E eu adoraria que não desse certo – Leve-a aos matadouros. faz quatro dias. peguei para mim. E verás que tua piedade é descabida. vacilando: Estou me sentindo mal. este homem será mandado para os quatro cantos do mundo sob a forma de toicinho. Aqui estão seu casaco e seu boné: pegue-os e façaos desaparecer. é claro. . e ele entrou na faca e virou toicinho. é a escória. agora eu vou te mostrar Como eles são maus Essa gente da qual tens piedade. Ele veste o casaco. ela poderá Aceitar sem pudor. e enrola o seu. SLIFT. vestido com uma lata. A Slift: Mal posso suportar a existência de seres Semelhantes a esta moça.

Joana e Slift seguem seu caminho. DONA LUCKERNIDDLE – Quero saber o que aconteceu ao meu marido. Slift volta para junto de Joana. SLIFT: Guarde essas coisas. isso não lhe parece muito brutal? SLIFT: Bem. DONA LUCKERNIDDLE – Não. (Ele pára o jovem operário. é capaz de o meu quebrar já no primeiro golpe. ele me dizia: “Espere-me à noite com uma sopa quente!” Desde então não [voltou. GLOOMB – O feitor está bem ali. Mas existem coisas Que importam mais para ela. Eu tiro agora mesmo. Vamos. SLIFT: Senhora Luckerniddle. O JOVEM OPERÁRIO – Pode confiar em mim. senhora Luckerniddle. dizendo tolices. todo o tempo. Senhora Luckerniddle: ele está viajando e. saindo para o trabalho.. SLIFT – Estamos dizendo que ele partiu para São Francisco. seu marido está viajando. Antes eu gostaria de fazer-lhe uma proposição interessante. esperando por ele Mas ninguém diz nada. Vamos cuidar para que essa seja a última vez. de forma alguma. é muito desagradável vê-la sentada aí. lamentando-se: Faz já quatro dias que. lhes digo. mesmo à noite. JOANA: Ela nunca aceitará.12 SLIFT: Aí está a vida como ela é. se quiser me ver. vou falar com ele.. Mas reflita bem. e vocês não querem que se saiba disso. Não procure mais saber o que se passou com seu marido e a senhora poderá almoçar.) Onde você conseguiu este casaco e este boné? Estes são os pertences de Luckerniddle. Aconteceu alguma coisa com ele aí. enquanto não o vir. Eles chegam a uma cantina da usina e vêem diante de uma janela dois homens que olham para o interior. se você não está precisando disso!. na fábrica. senhor. . Amanhã. O JOVEM OPERÁRIO – Mas senhor. além dele. Verás então o que é essa gente. Eu estou em uma situação muito ruim. para nós. SLIFT. Quando ele se aproximar. me encontrará na cantina. então a senhora não pode aceitar a refeição que a fábrica lhe oferece. de qualquer modo. a Joana – Fique aqui. fui trabalhar no moinho de ossos e adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. gratuitamente. nós não somos. Esse salafrário se empanturra às nossas custas. Você poderá comer e lhe darei um dólar se disser à mulher de Luckerniddle onde conseguiu o casaco e o boné. SLIFT – Se é esta a sua opinião. No ano passado me deixei seduzir pelos vinte centavos a mais que se ganha na fábrica de adubo. obrigados a fazê-la. diga-lhe que procura trabalho. que fizeram dele? Há quatro dias que estou aqui. (Ele vai em direção a Gloomb). No frio. aquele que se acidentou? O JOVEM OPERÁRIO – Por favor. pronto para encher a pança. Eu ficarei aqui. não diga mais isso. DONA LUCKERNIDDLE: Eu quero que me devolvam meu marido. Vinte refeições são muita coisa Para aquele que tem fome. e meu marido não sai da fábrica. Por causa dele deixei minha mão na máquina de cortar chapas. ele não foi para São Francisco. Bando de açougueiros. em nossa cantina durante três semanas. Tenho a impressão de que você está prestes a cometer um ato impensado. DONA LUCKERNIDDLE: Agora inventam que ele viajou! SLIFT – Deixe-me dizer uma coisa. à cantina número 7. É por isso que lhe fazemos uma proposta: note bem que. Já não posso mais trabalhar como antes e só consegui emprego duas vezes desde fevereiro. Eu. senhor. Não tenho outro esteio. Venha. legalmente. E malditos sejam vocês Se lhe fizeram qualquer coisa! Slift caminha até ela. ao meio-dia. DONA LUCKERNIDDLE está sentada em frente ao portão da fábrica. Precisará nos processar. passe-me logo teu cassetete. Joana e Slift prosseguem seu caminho.

por exemplo. O posto que você ocupava na sua máquina continua vago e isto é muito chato. e então eu poderia. faremos isso amanhã à noite. Adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. Ali adiante. temi que amanhã ela viesse. JOANA – Vindo para cá ouvi dizer que aconteceu alguma coisa com o seu marido e que a fábrica é responsável. Desde fevereiro estou sem emprego.. JOANA – Quase tenho medo de continuar. tem que se retirar. pode ser que mude de idéia. SLIFT – Leve você mesmo a comida a ela.. e então eu teria.) Você está procurando trabalho? JOANA – Sim. SLIFT – Gostaria de propor um meio de tirar-lhe dessa jogada. não muito fortes. Slift cai na gargalhada e arrasta Joana.. estaríamos dispostos a reempregá-lo imediatamente. calculando – Vinte refeições. O que mais verei? Eles entram na cantina. DONA LUCKERNIDDLE – O que? Vocês pensaram melhor e estão retirando a oferta? Então eu não terei mais as minhas vinte refeições? JOANA – Me pareceu que a senhora se dava bem com seu marido.. DONA LUCKERNIDDLE – Espero uma pessoa que deve vir hoje ou amanhã. Talvez a vaga deste contramestre.. Se você. GLOOMB – Posso confiar no que você está me dizendo? SLIFT – Sim. desde hoje? DONA LUCKERNIDDLE – Não como nada há dois dias. não sabia. DONA LUCKERNIDDLE – Sim.13 – Não tenho tempo. GLOOMB . O que há para comer hoje? A GARÇONETE – Ervilhas. Vai se perguntar como alguém pode contar histórias tão ridículas sobre esta máquina. e lhe daríamos até um trabalho mais fácil e melhor remunerado do que o antigo.. JOANA: Ela sentou-se ali. Uma jogada dessas é melhor de se fazer à noite. depois do que eu iria. DONA LUCKERNIDDLE. JOANA – Mas a senhora nem sabia que nós viríamos hoje. JOANA – A senhora já está aqui. justamente porque você contou todas essas histórias a respeito de seus dedos. Seria vantajoso para você. DONA LUCKERNIDDLE – É verdade. já faz dois dias que eu não como nada. Você se surpreenderá ao ver como o trabalho é agradável.. Joana procura um prato e leva à senhora Luckerniddle. No ano passado fui trabalhar na fábrica de adubo.. Naturalmente seria muito bom se nós encontrássemos alguém para esse posto. no moinho de ossos. E eis que ela nos precedeu. E é um trabalho que pode ser feito mesmo por pessoas como você. Ela não parece muito forte. encontrasse alguém. Eu imaginava que ela iria resistir. Apesar de tudo. GLOOMB – Aquela moça ali? . É um bom posto? GLOOMB – É um ótimo posto. A GARÇONETE – Se a senhora não for comer. Os movimentos ficam menos firmes e pode-se prender as mãos nas serras. Ela senta-se em uma mesa. Não podemos perder esse safado. (Ele vai em direção a Joana. Ela correu até aqui e já nos espera. (Ao seu companheiro:) Pensei melhor. GLOOMB – Rápido então. JOANA – Não há realmente como me arranjar outro posto? Ouvi dizer que o trabalho nesta máquina era perigoso para quem não resistisse ao trabalho muito pesado. há uma moça que está procurando trabalho. Tchau. O posto não é feito para gente fraca. Naturalmente você precisaria manter os ritmos de trabalho mesmo os dispositivos de segurança não sendo perfeitos. meu senhor. GLOOMB – Você enxerga bem? JOANA – Não. Disseram-me que não tinha ninguém além dele.. SLIFT – Que pena. por acaso. GLOOMB – Nada disso é verdade. Eu sou inspetor nesta fábrica. A senhora Luckerniddle está falando com a garçonete. A maior parte dos trabalhadores a considera muito perigosa. É preciso que ele pague hoje mesmo por esse sistema desumano do qual ele é o feitor..

Ela se levanta e sai. a vossos olhos contradiga Esta depravação que injustamente se lhes imputa. SLIFT – E onde você conseguiu. mas não em uma loja. e comerá sem levantar os olhos do prato. eu. O JOVEM OPERÁRIO – Bom dia. acreditas que ele teria mostrado À mulher do morto a roupa que usava Se tivesse tido a chance de escolher? O maneta. a imoralidade deles? Ela teria. como manda o costume. posso comer aqui? SLIFT – Você só precisa sentar-se ali. verdadeira manteiga! Banha fresca do Kentucky! OS COMPRADORES: OS FABRICANTES DE CONSERVAS . Ela sai. Era seu único esteio. eu volto. tu me dizes? Sua pobreza também é incomensurável. como vós a explorais! Não vês que nem teto eles têm. Você a viu. A senhora Luckerniddle sente náuseas. certamente teria me prevenido Não fosse o preço a pagar por seu pequeno escrúpulo. Pois não há mais compradores! Do fundo do palco chega o jovem operário com seu casaco e seu boné. Mas vinte refeições. Que sua miséria. V Joana apresenta os pobres à Bolsa de Carnes A BOLSA DE CARNES : Nós todos. e por mais justa que fosse. o preço era muito alto. Um certo tempo ainda. os sofrimentos que suportam Esses pobres sem moralidade. estamos vendendo carne! Compradores. (Dona Luckerniddle permanece em silêncio) Não pegue. Tão cara a ele. ninguém mais perguntará o que foi feito dele.14 – A senhora não quer esperar até amanhã? Se a senhora desistir de procurar o seu marido. como um animal. JOANA: Porões e armazéns abarrotados de carne. JOANA E procurar por ele. (O jovem operário o esconde) De onde ele vem? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. Desejas mostrar-me a sua imoralidade. esta mulher. ao garçom – Deixe meu prato. Fatias de toicinho Cridle-Mauler! Carne de filé Graham. SLIFT – Durante três semanas ela virá. Continuar fiel à memória de seu marido. então? O JOVEM OPERÁRIO – De um homem que caiu dentro de uma caldeira. como muitas. Atrás dele:) Você tem um belo boné. DONA LUCKERNIDDLE – Ele foi para São Francisco. comprem nossas latas! Carne fresca e suculenta. Mostrar-te-ei. E este jovem – em quem botaria fé Qualquer malandro -. Você só precisa perguntar a esse senhor. ao lado daquela mulher. Ele foi obrigado a vender sua cólera. preferido. Dona Luckerniddle arranca o prato das mãos dela e começa a comer avidamente. Mercadoria invendável. DONA LUCKERNIDDLE. (Ele senta-se. e que já apodrece. saindo. O que tu me mostraste Não é a imoralidade Dos pobres: é a pobreza deles. Joana? A imoralidade dela não tem limites! JOANA: E tu. Eu virei todos os dias. SLIFT – E onde você comprou? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. Sua imoralidade é sem limites. para colocar Ao abrigo da chuva. com que habilidade torna-te mestre dela! Esta imoralidade.

E abrissem assim o Sul aos nossos produtos. Do filé Graham. com nossos matadouros? Nossas fábricas estão cheias de bois. Temos diante de nós montanhas de latas. Aproveitem então. E graças aos perspicazes planos dos industriais da carne Nós conseguimos reduzir em um terço O preço do toicinho Cridle-Mauler. E da banha de Kentucky. quase de graça. Esperando até ninguém poder Mexer nem o mindinho! E eu. OS FABRICANTES: Graças aos avanços da técnica. compradores. Frigoríficos entupidos de carne congelada. SLIFT: Eu riria se. A morte Despreza esse gado e fecha-lhe a porta. Saturado de carne em conserva. comprem nossas latas! OS COMPRADORES: E sobre as montanhas fez-se um grande silêncio E as cozinhas dos hotéis escondem a face E as lojas se desviam com horror Os atacadistas mudam de cor. Nós iríamos perder o bonde! MAULER: E quando isso ocorresse! Terias a imprudência De tirar tua parte de tamanha miséria. MAULER: E mesmo a faca os recusa. Comprem. os criadores. eles conseguissem Fazer cair de uma vez as taxas de importação. A dar-se-lhes ouvidos Seria necessário agora deitar por terra Todo o cartel da carne E deixá-lo estagnado durante muitas semanas. a visão da carne enlatada Causa náuseas. Quando todos te seguem com olhos de lince Para ver o que fazes? Eu não teria cara. o que te escrevem? MAULER: Teorias. Nas estações e nos pátios. SLIFT: E teus amigos de Nova Iorque. caldeirões Convertem sem parar em latas de conserva As manadas mugidouras que pastam nos prados. Mas ninguém quer comprar carne enlatada. Não a agüenta mais. Quem comprará agora nosso gado? Os estábulos estão cheios De porcos e bois devoradores de milho Que eles devoram ainda nos trens que os transportam. cozinhas e lojas Estão cheios até as bordas. ao trabalho de nossos [engenheiros. cubas. . Nós não compramos mais nada! OS FABRICANTES: E nós. Engolindo nosso ouro junto com nosso grão. nenhum tinha dinheiro. Nós estamos perdidos! OS CRIADORES: E nós. O que provocaria um movimento de alta. O estômago do país. fabricantes. OS COMPRADORES: Nós compradores. Clamamos aos berros por um consumidor que não existe. em Nova Iorque. A nós. Nós queremos vender a carne em conserva E ninguém a quer! E todos os nossos clientes. verdadeira manteiga.15 E sobre as águas fez-se um grande silêncio De todos os compradores. dia e noite nossas máquinas Ligadas no máximo: salgadeiras. compradores. Eu teria sobre as costas toda a carne! Idiotas.

Voltai para casa. Isso representava um terço do total das ações. que se lançam sobre Cridle. de toda a maneira. Pois tu liquidaste. OS FABRICANTES: Quando ages assim com Cridle. E exiges dele o pagamento sem demora. Carrega em sua queda as cotações de todo o cartel!. CRIDLE – dirigindo-se aos que o cercam:. mas um outro Quem joga a rede. MAULER – O próprio Cridle me confessou que está insolvente: se eu deixasse meu dinheiro com ele. ao fundo. nesta conjuntura. tu o retiras Do negócio e Cridle. Para acabar com Lennox.Há quatro semanas apenas eu assinei um contrato com Mauler. Tumulto entre os fabricantes. então! OS FABRICANTES – a Mauler: Corre o boato que teu capital. mas três milhões. Quero apenas meu dinheiro e a paz de minh’alma UM CORRETOR – urrando. nem que fosse por mais uma hora. Não é de hoje que fazes tais manobras.. por dez milhões de dólares. Cridle. que já se arrasta. estava acordado. na entrada da bolsa: Queda gigantesca das cotações na Bolsa! Venda maciça de ações. Cala-se e aponta para o dedo para ti. olha para nós! Assim.16 . MAULER: E por que matastes tanto gado? Açougueiros alucinados sois vós! Agora.apontando para Mauler: Falem com ele! CRAHAM – colocando-se diante de Cridle: Não é Cridle. Cridle. é que me levem a sério. quem de vocês continuaria a me levar a sério nos negócios? Ora. É bom que ele seja nosso adversário. que conspurca nosso ninho! Nós sabemos bem quem fez os preços caírem sem cessar Vendendo gado por baixo do pano. e o conjunto das fábricas vale dez. Veio a baixa. todo teu estoque. Ele queria me vender a sua parte. o que desejo. que estavam valorizadas. Mas somos atingidos pelo que lhe acontece. eu acabo de saber. .investindo contra Mauler que lê o jornal: Traidor. Ele poderia exigir seu dinheiro quando quisesse.. já vinham caindo. Tu te desfazes de tuas ações? UM CORRETOR: A cento e quinze! OS FABRICANTES: Ficaste louco? Tua morte. OS FABRICANTES: O que significa isso. antes de qualquer coisa. Hoje os papéis de Mauler não valem mais dez. ao invés de trinta. Desde aquele dia. nós somos os peixes! O que querem arruinar. E vós soluçais nas saias de vossas mães. ele vem realizando secretamente vultosas vendas de gado a preços baixos e provocou a queda das cotações que. é o cartel da carne. eu quero o meu dinheiro. MAULER: Açougueiros insolentes é o que sois! O animal torturado parou de mugir. preferiu o vosso. Esses dez milhões são exatamente a soma que devo a Mauler – e ele a exige em vinte e quatro horas. e ficando com as outras. Falai que um dentre os vossos Não pode mais suportar o grito dos bois morrendo E aos mugidos deles. OS FABRICANTES Essa gente não faz as coisas pela metade. Cridle? Levanta os olhos. a preço vil. Eu me propunha pagar-lhe vendendo uma parte das ações dele mesmo. provoca muitas outras! Lixo! Assassino! CRIDLE . Foste tu mesmo quem provocou o marasmo! Nossas latas agora não saem mais caro Que a areia dos mares. pálido como algodão. ave de agouro. Mauler! Fala. antigamente Mauler.

pois tenho outros projetos. E ninguém se preocupa Não tendes. onde cada um revela Sua boca desnuda.Pierpoint Mauler! Onde está Mauler? MAULER: O que é esse barulho de tambores que de súbito me envolve? E quem chama pelo meu nome Nesse lugar. para comer? Pensai convosco mesmo: sempre será assim. . E nós dizemos: é preciso ir sempre adiante. mas rápido! OS COMPRADORES . Uma explosão de gargalhadas toma a frente da cena. não saia! Graham. os aviões Para conquistar o pão dos pobres. Avante! Ao assalto! Empunhem os fuzis! Diante de nossos olhos os homens naufragam. com isso.17 Mesmo que tivésseis todos que mendigar. Uma mulher nos faz sinais de aflição. E ninguém se preocupa. Graham. Ei-nos aqui. E. mas rápido! OS COMPRADORES . Para Illinois esse dia é um desastre! Vocês fizeram os preços subirem. Ei. fiquem diante de mim. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Escutem todos. Haveis então esquecido Os que esperam diante da porta E que esperam. cem dólares pelo meu chapéu. Com o único objetivo de ajudar o próximo. Lançar ao mar os navios de guerra E nos ares. ele retira o seu dinheiro! OS FABRICANTES: Oitenta mil latas a cinqüenta. Durante esse período a batalha na bolsa continua. seu cão. Nesse mundo sempre reinará a injustiça. Eu quero meu dinheiro. Meu chapéu. JOANA . Ouvem-se os tambores dos Chapéus Negros e a voz de Joana. Mauler.Nenhuma sequer! Silêncio. OS FABRICANTES: Oitenta e sete mil latas pela metade do preço. Pois os bons nesse mundo Não formam um grande exército. OS CRIADORES: Lennox já caiu! E Cridle balança! E Mauler. Não falemos mais de negócios. Estimularam-nos a criar bois. então. OS CRIADORES: Impossível vender um boi em Chicago. Fazer avançar os tanques e os canhões. Eu não quero que me vejam aqui.Nenhuma sequer! OS FABRICANTES – Então. detenham todo o tráfego Em torno de vós os seres naufragam. pois preciso partir. acompanhada de exclamações. És tu. suja de sangue? Joana e Marta avançam e cantam o seu hino de guerra. Parem os carros. Meyers. Não esperem o amanhã! Cada um deve nos ajudar. seja quem for! Levantai o nariz de vosso prato. nós estamos perdidos! JOANA – Onde está Mauler? MAULER: Slift. Os que nos escutam. olhos para ver? Ele é vosso irmão. escutem bem! Um homem afunda sob os nossos olhos! Escutamos lá no fundo seu apelo por salvação. meu chapéu. com nossos bois Que hoje ninguém mais quer. o responsável Por esta catástrofe. Mauler. MAULER: Por hoje basta.

COMPRADOR. e escute o que eu tenho a lhe dizer. buscando desculpas. em tom de reprovação Aqui estamos com nossos bois Que hoje em dia ninguém quer. Inverno e verão nós dependemos do tempo: nós também estamos mais próximos do Deus de nossos pais do que os senhores. E os senhores. acabarão tendo de comer sozinhos a carne que produzem. engodos e combinações para aumentar o preço da carne. os senhores se enganaram. pois os que estão lá fora já não têm como comprar. os Chapéus Negros. a quem os senhores transformaram no que são. avancem à luz do dia. JOANA – E qual a causa desta imoralidade no mundo? Poderia ser diferente? Se cada um é obrigado a rachar com um machado a cabeça de seu próximo para fazê-lo ceder seu pequeno pedaço de presunto e sua migalha de pão. o salário. pobres e deploráveis imbecis. é lá que mora a imoralidade no estado puro e. ao fundo – Pierpoint Mauler passou mal. tanto hoje quanto no dia do juízo final. que os pobres não têm muita moral. em conseqüência. As crises são catástrofes naturais. todo-poderosos. atrás de mauler – Fique senhor Mauler. destinos inelutáveis. replicando: Imbecis são vocês! Ninguém pode nada contra as crises! Bem acima de nós. Cujo ciclo pavoroso sempre recomeça. gritando – Afastem-nos! Ele desmaia. tereis a moralidade. OS FABRICANTES: Água para Pierpoint Mauler! . eles que nada têm? Senhores. JOANA. Reparem então nestas gentes. Já me disseram o que os senhores fazem: manobras. UMA VOZ. e a quem não querem reconhecer como irmãos. JOANA – Um homem de negócios também pode ser um bandido – dependendo do ponto de vista. Se os senhores continuarem tergiversando. Se continuarem a agir assim. nada querem saber da miséria que existe fora deste recinto. Senhores. Mas nós lhes dissemos que é um imbecil.18 – Maldito sejas! Cridle sai. gritando: Por vossa especulação desenfreada. a Revolução. Causais vossa própria queda! Bando de imbecis! OS FABRICANTES. OS POBRES – Ele é o responsável por tudo! Os fabricantes de conservas correm para socorrer Mauler. Aumentem-no. são todos uns imbecis. nada além disso. Nos baixios. JOANA – Mas os senhores. imaginando que não virão à tona suas manobras. MAULER. que fazem subir o preço do pão e que fazem da vida um inferno onde os homens viram demônios. como não seriam os valores mais elevados esmagados em seu coração? Sempre ouço dizer. Joana mostra aos negociantes os pobres (Luckerniddle e Gloomb) que ela trouxe. Traçam essas desconhecidas. vocês. as leis econômicas. existe também um poder de compra moral: o dinheiro. que se dobram sob o fardo de suas penas. Não tenham vergonha. Mas então eu lhes pergunto: de onde tirariam eles alguma moralidade. Risos OS CRIADORES – Nós criadores não encontramos nestas palavras motivo para o riso. seus mugidos serão testemunhos. como fazem em seus jornais. CRIDLE OS CRIADORES: Como? Somos asfixiados e ninguém pode fazer nada? A causa de nossos males é a imoralidade De vossas armações escusas. nas favelas. OS CRIADORES. que sentam nesse palácio. então em suas costas os bois começarão a mugir contra os senhores. Mas se os senhores acreditaram que seus procedimentos permaneceriam ignorados. nesses lugares sombrios e secretos onde os senhores tratam de seu comércio. e é verdade. Vossa imunda cobiça. eu bem sei. ver surgir a nós. e diante de Deus TodoPoderoso. Silêncio! Não lhes agrada muito. aí pelo mundo.

cumprimos nosso trabalho de [missionários. eu. eu compro! Escutai todos: Pierpoint Mauler compra! Que estas gentes tenham trabalho e que se afastem. o que fazeis? Vós me ordenastes não dizer uma palavra. Além disso. CRAHAM: Então! Não podes vê-los? No entanto foste tu. por favor.19 Um médico para Mauler! JOANA: Mauler. E lá. pelo menos cinqüenta mil toneladas de conservas. nós nunca tínhamos visto. ao fundo. antes de partirmos. e reduzi-los À voracidade. Aos pobres: Segunda-feira vocês terão novamente trabalho. eu vou falar. voltando a si – Eles ainda estão aí? Eu suplico que os afastem. para eles inacessíveis. nós conhecemos. OS FABRICANTES – Ele comprou! Mauler comprou! MAULER – Ao preço do dia! CRAHAM.” OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Nunca faltará o pão Ao que dedica a Deus sua alma. cantemos: “Nunca faltará o pão. a contar de hoje. deitado no chão – Eu compro. Os que estão atrás. também ao preço de cinqüenta. Invisíveis para vós. Mauler. vós me mostrastes a imoralidade deles. assume compromisso sobre a produção de dois meses. . de todos os estoques do cartel.. levantando-lhe a cabeça – E os estoques? MAULER. ao instinto animal. Quem em seu seio habita Jamais será infeliz. Eles parecem bem piores. Nem mesmo do boi que esmaga espigas com seu casco! Em todo o caso. OS POBRES – Gente como essa. afastados dos bens indispensáveis. E vós. levai-o agora. então Para querer fechar a boca do Bom Deus? Não se deve calar a boca de ninguém. O cartel entregará a Pierpoint Mauler. aí em cima. OS FABRICANTES – Quem? Os Chapéus Negros? Quer que eles saiam? MAULER – Não. estão tão enfraquecidos. E fome nunca se passa. MAULER – Agora. Nós. JOANA – E agora. gritando em um megafone – Pierpoint Mauler reanima o mercado da carne. Eles. No seio de Deus não há frio. qual burros de carga. Tu quem os reduziu à tamanha miséria. MAULER: Afastem-nos. levantai-me. meus amigos. Torna-se comprador. vos rogo. JOANA: É isso. Mas os dois que estavam ao lado dele. CRAHAM – A cinqüenta? MAULER – A cinqüenta! CRAHAM: Ele comprou tudo! Vocês ouviram: Comprou tudo! CORRETOR. E não basta que cerres as pálpebras Para que eles desapareçam. Que viver assim pode mesmo afastá-los Da necessidade de um ideal. Mas quem sois vós. MAULER. eles não. Eu vos mostro agora a pobreza dos pobres. Eles o levantam. Compro. e por vós mantidos Nesta pobreza. que mantendes longe de vós.. SLIFT – Ele não abrirá os olhos enquanto não os fizerem sair. em 15 de novembro. ao preço do dia. tudo o que em oito semanas conseguirdes [fabricar. como eles sim. A tal ponto dependentes de alguma comida E de um pouco de calor.

Pois o contrato que acabam de ver firmado É apenas um pedaço de papel. Podem esquecer seu nome. seguidos dos criadores. ao criador: O que Mauler promete. cutucá-lo. a sabedoria triunfa. aqueles que o recebem. Ele cumpre. O homem que o assinou não estava em seu juízo. E ele faz meter carne em latas Que ninguém comprará. Não o deixaremos descansar Enquanto um homem precisar de ajuda. OS FABRICANTES: Podem guardar sua carniça podre! Não estamos interessados em comprar. na Rua Lincoln. JOANA: Saibam todos: estou de olhos em Mauler. PEQUENO IMÓVEL COM DUAS SAÍDAS MAULER. entrada gratuita. Pois ele pode vir em auxílio. É preciso. então. discute com Slift – Fecha a porta. Slift. JOANA – Todos aqueles que se interessam realmente pela palavra de Deus e que querem saber o que ele diz e não apenas a cotação da Bolsa podem vir domingo à tarde assistir nosso ofício. VI A Captura dos grilos NA CIDADE CASA DO CORRETOR SULLIVAN SLIFT. Mauler. OS CRIADORES: Agora os preços subirão. Os patrões vão reabrir. O estômago do país. As fábricas reabrem e as chaminés fumegam! Pois efetivamente é de trabalho. Agora os senhores podem respirar. Para tal negócio. açougueiros infames! Enquanto vocês não dobrarem o preço do gado Não entregaremos um só grama de carne. Recusa-se a engolir mais. Contra a desrazão. sabiamente acatada.20 OS COMPRADORES: Este homem está ruim da cabeça. nenhum. Escutem: saímos. Joana e os Chapéus Negros saem. e diga se realmente todos podem ler em meu rosto? SLIFT – Ler o quê? MAULER – Ora! A minha profissão! SLIFT – Teu ofício de açougueiro? Diga-me. liga as luzes e agora repara em mim. às duas horas. os operários entrarão. pois nós também. SLIFT. de São Francisco a Nova Iorque. enfim do ponto morto! Confiança e concórdia estavam fortemente abaladas. Os fabricantes de conserva saem. Nesse momento o mercado recobra a saúde. Aqueles que dão o pão. ele não encontrará Um centavo. dentro da casa. Que carecem tanto uns como os outros? CRIADOR. Sua consciência já despertou. Nós estamos sob uma miséria atroz. Muitos criadores se transtornaram. E vocês precisam dela. Música a partir das 3 horas. Venham comigo procurá-lo Para que ele os tire do embaraço. saturado de conservas. Se estiverem muito necessitados. por que te impressionas com os discursos dela? MAULER: . Sábia decisão. dirigindo-se à Joana Aquilo que disseste e tua intervenção Causou-nos forte impressão. não é.

de onde se eleva uma cólera Que nos varrerá a todos. Agora... Não há mais consolo. Por trás havia rostos selvagens. MAULER: Mas que dizem eles? Essas cidades São um braseiro jamais extinto Onde. Esquecer todo o resto.. Eu deveria podê-lo de novo. Fórmulas tomadas ao coração.. urrando. um após o outro. Sob a chuva e de barriga vazia. a humanidade. Seremos colados ao muro. Nós que aqui estamos. talvez.. MAULER: Tu crês que eu deveria? Eu poderia. eles são muito numerosos. Nós e nossa corja. E quando da onda emana uma voz Que nada tem de bestial. É sua antiga fraqueza que retorna. Esfolarmos uns aos outros friamente. então? MAULER: O que vive abaixo e não acima De mim! Esses seres reunidos nos matadouros. no entanto. irei confessar-te Minha verdadeira opinião sobre nossos negócios: Comprar. É outra coisa. mas permita que eu te exponha simplesmente a situação.. SLIFT – E o que é. . meu caro Slift. Não conheceremos a morte em nossas camas. Tão forte. Certamente porque essa gente trabalha a troco de nada. Não. não é? SLIFT – Come. Tudo isso são ainda meras desculpas O que temo não é Deus. Máscaras da aflição.21 O que ela disse? Eu não ouvi nada. Ele se afasta e começa a grelhar um bife no fogão. SLIFT: Em cidades como as nossas. E pense em tua situação: ela não é muito boa. por mais externa e sem importância que ela seja. Que não sabem como passarão a noite mas. vender e lutar sem parar. Para limpar esse mundo. que mais não vi. Levantar-se-ão com a aurora e por-se-ão em marcha. lançar-nos-ão Ao chão como um peixe podre. Sabias que tu compraste hoje tudo aquilo que pode ser colocado dentro de uma lata de alumínio? Meu caro Mauler. SLIFT – Não queres comer um pouco de carne. por mais louca que seja. Seu número aumenta a cada dia. Onde o fogo arde embaixo Enquanto congela-se em cima. Então creio sentir Como um peixe aprisionado entre duas águas Pauladas na espinha. vejo-te mergulhado na contemplação de teu ser grandioso. qual onda. Se nos apanharem um dia. A urrar de aflição. Há sempre boquirrotos que acham Que as coisas não andam como deveriam. Isso não pode mais perdurar. Talvez depois de comer carne crua ele retome seus instintos. retorna. Slift. caro Pierpoint? Pense que agora podes fazê-lo sem peso na consciência. MAULER: Sempre me pergunto por que essas tolices me afetam: Discursos plenos de utopias. Para estes que caem em nossos porões sangrentos. E dezoito horas por dia. pois desde essa manhã tu nada tens a ver com a morte dos bois. SLIFT – O discurso deles te perturbou. (À parte:) Farei com que ele coma um filé muito mal passado. Tagarelice vazia e fácil.

SLIFT – E o que escreveram. Na carta que recebi de Nova Iorque essa manhã. escapando bem. deverás escoá-lo em um mercado que já não consegue absorver uma única lata. Ou desencadear guerras. Mas não foi por causa da carta. rir-me deles. esmagado. sim! Eu comprei carne. na melhor hipótese. Não é qualquer um que pode. ou a vinte e cinco. É coisa que também não se deveria fazer. eu não agi por razões vis. Ah! Meu caro Slift. qual Atlas. então. Mas esta mulher comoveu-me a tal ponto Que mal lancei os olhos. Cairei..22 Primeiro compraste ao Cartel um estoque de vinte mil toneladas de conservas. SLIFT: Tudo depende de quem escreve a carta. eu tenho a impressão De que nada de bom sairá daí. safa-se. eu comprei. Corromper ou abolir as tarifas.” SLIFT. mais notícias.“Estamos em condições. Eu fui vê-los cair. caro Pierpoint. O ladrão está perdido. eu estou perdido! Esse é o meu fim. eu estou perdido. hoje. na Câmara. os preços cairão a trinta. Realmente eu não vejo sentido nesta carta. Ainda pela manhã. Sob o fardo de toneladas de latas de alumínio. eu comprei! O que eu fiz! Coloquei sobre minhas costas toda a carne desse mundo! Trôpego. apesar de tudo. eu te juro. SLIFT – E tu compraste! MAULER: Oh. dizer-lhes Que ninguém era louco o suficiente Para comprar carne em conserva. quando os preços estiverem em trinta. . Tu as compraste a cinqüenta mas. Milhares de homens sangram Por causa deste imundo dinheiro.. de resto. MAULER: Oh! Slift. MAULER: Corromper assim. Nas semanas vindouras. SLIFT – Quem são. Não. os preços Subam? E nós acabaríamos. é verdade. SLIFT – Tu deves fazer o que? MAULER – Comprar carne. assim. muitos de meus concorrentes balançavam. Escuta: X comete um roubo. amanhã. de anunciar-te que nosso dinheiro começa a render seus frutos: muitos são aqueles que. mas Y o surpreende. Em quinze de novembro. Essas pessoas são gente de bem? MAULER – É gente com liquidez. SLIFT – E por que reclamas de ter comprado? MAULER – Sim. Sim. a não ser que golpeie Y Se ele golpear.. comprar carne. Mas ainda há a carne Que no mercado liquidarão cem criadores Muito ávidos. Ah. Parece.. indicado. Então pode ser que. Facilmente nascem guerras À custa de tais atitudes. E uma vez lá. então? Mauler sorri. Os preços baixarão novamente. MAULER: Tu compreenderás. Essa seria uma saída. Aqui está: “Caro Pierpoint. eles me escrevem para comprar. sob os arcos de alguma ponte. acredito. Slift. essas teorias de gabinete. Receberás. o Cartel te entregará mais cinqüenta mil toneladas a cinqüenta. Estão erradas. votarão contra as tarifas aduaneiras. continuando a leitura . eu me escutei dizer: “Eu compro tudo”. teus amigos de Nova Iorque? MAULER – Que eu devo comprar carne.

no fim. Traga-me até a menor mancha de gordura. Slift? Não quero reencontrá-la e. tentará sair pela outra porta. Slift tragame tudo o que se pareça. então. Vão para lá. com um porco ou com um boi. a cinqüenta. SLIFT Tu que não querias mais comprar um chapéu. (Os criadores colocam-se diante da porta da direita. . ele se dirige à porta da direita. mais de dez mil criadores que não sabem mais a qual santo rezar. Slift. grandes lucros! É verdade que o ganho seria apreciável. todo esse gado? SLIFT – Vejo apenas Graham. e tudo o que cheire à banha eu compro também. Ele desenha um “A” na porta de um armário. eu estou comprando e compro ao preço do dia. Devo comprar ainda todo o gado de Sírius? É como se alguém viesse dizer a Atlas Que não mais agüenta. (Ela ri. Ele não gosta muito de me ver.23 Da mesma maneira a carta – que está errada – Requer – para acertar – um crime desta ordem. MAULER – Eu não compro. eu vou comprar. depois. Nem a mim nem aos que me acompanham.) Saia. E por agora também não penso em reabrir a fábrica. diante da porta da esquerda – Enquanto os criadores não forem ajudados. que precisa bastante. OS CRIADORES. Joana entra acompanhada dos criadores. Tu és o responsável por nossa desgraça. MAULER – A outra saída onde é. eu não quero meter o dedo neste negócio. Quem me comprará. dobrando-se sob o peso da terra: Saturno também precisa de apoio.. àquela gente que está com ela. eu não comprarei! Eu que já carrego toda a carne desse mundo.). como quem captura um grilo. e diga-lhes que quero refletir dois minutos. para evitar me encontrar. Senhor Mauler. SLIFT – Por aqui. Que eles tirem. Os enganados serão os criadores. é verdade. de seus delitos. Também trouxe alguns trabalhadores que adorariam perguntar-lhe quando o senhor reabrirá a sua fábrica. Slift. para o outro lado. Lembrá-los de Lennox. Eu fiz “A”. E comprar-lhes tudo. A operação é simples: seria preciso comprar Todo o gado que se encontrasse em pé. Persuadir os criadores da oferta excessiva. Retumbar de tambores. eu compro. Pois. minha decisão está tomada. Slift. Isto é o principal: Sumir com o gado.) Slift. E nós somos. de perto ou de longe.. não foi bom. No interior da casa. é preciso que eu lhe fale da miséria dos criadores de Illinois. Pierpoint! MAULER: Ah! É verdade. tiver cem dólares no bolso. não sairemos daqui! MAULER – Tu dizes Graham? É verdade que ele precisa de gado? Saia. Eu não compro mais nada. Vais comprar todo o gado de Illinois. em todo o Illinois. Antes de ter saído dessa. Agora. Ele pede-vos dois minutos de reflexão. SLIFT – Não deverias ter comprado. JOANA. diante da porta da direita – Sai. Toda a carne posta em conserva até hoje. MAULER: É verdade. JOANA – Nós o faremos sair de sua toca. nem chapéu nem sapatos. Mauler. Não. Quando ele me ouvir cantar aqui. Joana diante da porta da esquerda. aos criadores – Pierpoint Mauler está examinando vosso pedido. das fábricas paradas. Feliz se. quero paz em minh’alma. (Ele calcula. Slift sai. Slift volta. Compra então o nosso gado! MAULER: Fecha a porta. SLIFT – Qual crime? MAULER: Um crime que eu não poderia cometer. a partir de hoje. SLIFT. Mas então. Slift. sobretudo.

tão errado quanto “A”. (Aos operários:) Quando os que compram gado e os que o vendem se acertarem.24 Dominado por seus sentimentos. em nome de Deus. dona Mulberry. Em seguida comete “B”. que são gente de bem. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Recolham cantando Os trocados dos órfãos E os trocados das viúvas. uma avareza completamente inexplicável. os Chapéus Negros esvaziam suas latas de ferro e contam ao óbolos das viúvas e dos órfãos. não é preciso que as vendas sejam feitas em seu nome. para vocês também haverá pão novamente. entre os quais dona Luckerniddle e Gloomb:) Vocês de novo? Vocês passam a vida aqui? O trabalho voltou nos matadouros! DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. frente a Deus. Aos pobres:) Digam-me. Mas seu nome não deve ser mencionado. acabamos constatando que esses segmentos demonstraram. Eles não têm pão. Suas misérias são grandes. Eles não são como os outros. o aluguel que ela tão gentilmente tem adiado. não se esqueçam de varrer a escada. sobretudo nas camadas inferiores da população. DONA MULBERRY – O que me agradaria muito. os dispensados esperam ainda pacientemente na porta dos matadouros ou já começam a dar discursos revolucionários? DONA LUCKERNIDDLE – Desde ontem gritam bastante. Mas Deus todo poderoso Achará os meios de alimentá-los! BISPA SNYDER. salvador do comércio! Eles entram na casa. O dinheiro nos permitirá também pagar à nossa querida proprietária. Faça entrar os fazendeiros. BISPA SNYDER – Não se aproximem muito da caixa! Ele fez sinal para que eles recuem até o fundo. ao fundo. . DONA MULBERRY – E meu aluguel. E eis que “A” e “B” tomados juntos. (Os Chapéus Negros saem. Assim eu decidi. convidar em vosso nome as pessoas ricas e bem colocadas de Chicago. BISPA SNYDER – Agora. Pierpoint Mauler resolveu comprar todo o gado que se encontrar no mercado. o que foi feito dele? BISPA SNYDER – Meus caros Chapéus Negros. OS CRIADORES – Viva Pierpoint Mauler. Entra dona Mulberry. mas por enquanto não se preocupem. SLIFT. e. sábado próximo. Infelizmente. Comandante dos Chapéus Negros. Ela sai. minha cara dona Mulberry. GLOOMB – Muitos já dizem que se não empregarem a violência não haverá trabalho para todos tão cedo. proprietária do imóvel. grita a eles – Digam ao senhor Mauler que os Chapéus Negros lhe agradecem. que cada um volte alegremente às suas funções. sai e se dirige aos criadores – Para salvar Illinois e impedir a ruína dos fazendeiros e criadores. sobretudo. JOANA. que eles nos ajudem a desferir. Talvez isso tenha a ver com o fato de que eles não possuem nada. um grande golpe no ateísmo e no materialismo que reinam nesta cidade. VII Os mercadores são expulsos do templo TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS Sentados em uma longa mesa. se levantando – Que mixaria! Que mixaria! (Dirigindo-se a alguns pobres. Alguém se equivoca: “A” é um erro. GLOOMB – No começo falaram em reabri-los. Que dão medo de olhar. caros ouvintes! Para resolver o delicado problema do financiamento nós até agora apelamos aos pobres e aos mais pobres. pois eles sabem que as fábricas receberam encomendas. Trabalham duro e vestem-se decentemente. Eles não têm teto. pelo que acaba de fazer. mas não fizeram nada. dão certo.

MEYERS – O que não será fácil. menos Snyder. que eles estão destinados ao sofrimento. .... GRAHAM. precisamos do gado. tão certo quanto eu estou aqui. Se vierem para cá tocados a pedradas. os reis da carne nos escutarão mais facilmente. MEYERS. (Os fabricantes de conserva caem na gargalhada) E tudo isso por apenas oitocentos dólares por mês! GRAHAM – Não precisas de tanto. um dia. MEYERS – Eu me pergunto. MEYERS – Setecentos e cinqüenta. quinhentos? GRAHAM – Quinhentos sim. Meyers. afirmando que sois vós os responsáveis pelo desemprego! Em breve eles dirão: queremos fazer como os bolcheviques. Já é melhor. a Snyder – Todos pobretões. no púlpito – Nós. E que alguns entre eles começam a resmungar e a dizer: devemos nós mesmos cuidar do negócio. (Aos pobres:) Vocês não poderiam ao menos cortar lenha para nós? OS POBRES – Não há mais lenha. Slift? (Slift simula um ar astucioso e exagera na mímica do ato de dar dinheiro). Graham. GRAHAM – Até tu? E Mauler também. MEYERS. Nós. diremos a eles que a desgraça vem como a chuva. e vá dizer ao Pepê Que afrouxe o laço. bispa. Bispa Snyder! Todos riem. É nosso nervo vital! SLIFT. após a sua morte. OS FABRICANTES – Por que falar em pagamento? BISPA SNYDER – O pagamento do qual falamos é feito após a morte. estão acima da querela. SLIFT – O essencial.25 – Isso nos é favorável. minha cara. ouvimos dizer que há nos matadouros cinqüenta mil pessoas sem trabalho. OS FABRICANTES – E quanto querem pelo serviço? BISPA SNYDER – Oitocentos dólares por mês. precisamos de sopa quente e música animada. a Snyder – Desembuche! Eles se sentam no banco dos fiéis. BISPA SNYDER. E já citam vossos nomes. Quinhentos dólares. mas que ela é provocada por aqueles que dela tiram vantagem. os Chapéus Negros. a Snyder – Quinhentos dólares? Isto é muito dinheiro! Quem vai pagar? SLIFT – Ah. SLIFT. na frente do palco – Então. GRAHAM – Confesse. confesse Slift. mas que serão. a Meyers – Essa senhora não tem senso de humor. dando-lhe um soco na boca do estômago: Velho cão imundo! Vamos.. novo soco – Que tu achas que eles querem. Slift. Slift! MEYERS. os Chapéus Negros. onde poderia estar todo o gado! GRAHAM – É o que eu me pergunto também: onde poderia estar? SLIFT – Eu me coloco a mesma questão. Entram os fabricantes de conservas: Cridle. SLIFT – Quem poderia ser? GRAHAM. não gosto disso. Porque já começam a dizer por todos os lados que a desgraça não cai do céu como a chuva. Do lado de cá.. senhora bispa. portanto. Senhor Slift. sem dúvida? SLIFT – Sem dúvida. é saber de que lado vocês estão! Desse lado da barricada ou do outro? BISPA SNYDER – Os Chapéus Negros. não enrole. BISPA SNYDER MEYERS Há um cretino que razia o gado E que sabe bem que estamos comprometidos A entregar carne enlatada E que. recompensados por suas penas. sim! Vocês agora terão que achar alguém que faça a doação. a Snyder – O que querem de nós? GRAHAM. sem que ninguém saiba como. mais então. vocês certamente precisam. Nós também prometeremos a eles que os ricos serão punidos. Graham.. tomar as fábricas em nossas mãos para que todos possam trabalhar e comer. o Pepê está com o gado. Na mosca. (Aos outros) Eles carecem desta quantia. BISPA SNYDER – Podemos dar um jeito com setecentos e cinqüenta. portanto. Deus é testemunha. Que tal. SLIFT – Mauler e eu não compramos um centavo sequer de gado. então. são vocês que estão com o gado.

26 Entra Joana SLIFT – Aí está a nossa Santa Joana da Bolsa de Carnes! OS TRÊS. vós então vos borrareis todos. Para que ninguém mais vá olhar de perto.) Saí! Quereis transformar a casa de Deus em um estábulo! Saí! Nada tendes a fazer aqui! Cabeças como as vossas. olhando os pobres. GLOOMB . Basta que alguém diga: está acertado. ajudo também aos de baixo. Mas o Bom Deus tem uma opinião muito elevada de Si mesmo para ser sempre a vossa babá para todo o serviço e para vir limpar vossas cavalariças. nós não queremos mais ver. e nessa atitude há alguma coisa que parece exploração. hoje. aos fabricantes: Esses pobres continuam a esperar trabalho? Silêncio dos fabricantes Eu que pensava que eles estavam arranjados! Faz já oito dias que neva nas costas deles. comprou-vos conservas Por minha solicitação! E não reabristes ainda? OS TRÊS – Está correto. e eu. Esta neve os mata. SLIFT – Mas querem antes estrangular os agricultores! OS TRÊS – Como abater gado que não existe? SLIFT – Quando Mauler e eu compramos a carne de vocês. De bom grado. Mas agora. sem pena também Esqueci o que todos se apressam em esquecer Para rapidamente estar em paz com suas consciências. qualquer um que queira ajudar aos pobres deve ajudá-los a protegerem-se de vós. indo de um lado a outro.No começo falaram em reabri-los. Estou pronto. e a religião vos parecerá de novo algo de muito bom. avançando: As vinte refeições foram comidas! Não te irrites. É preciso que ele libere o gado. Dizem que ele come na tua mão. perdi demasiado tempo até sabêlo. gritando alto a Joana – Ah. própria para jogar água na fervura. mal tendo sido saciada. JOANA – Por que não trabalham? Não arranjei trabalho para vocês? DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. e que os operários poderiam comprar a carne. E eu. Mas cruel é a fome: Renasce sempre. Não me detenham. pois. que haveis atormentado ao extremo. quem comerá a carne que nós compramos? E para que nós a compramos. entretanto. da tua vista sairia. que ela usa como se fosse um porrete. para fazer pior. Parece que podes fazê-lo agir ao teu gosto. JOANA. Saí. mas também os esconde De todos os olhares. Dirigindo-se aos fabricantes: Mauler. dizendo-me: ajudando aos de cima. GLOOMB. É o seguinte: alguém sumiu com o gado do mercado de uma maneira que somos obrigados a ficar de olho em Mauler. Sois indignos e eu vos expulso! Apesar de vosso dinheiro! . (Joana sai atrás deles com o mastro de uma bandeira. supúnhamos que iriam retomar o trabalho. Haveis perdido então todo o respeito pelo que se parece humano? E ousais anda vir à casa de Deus porque possuem o vil metal? Sabe-se bem de onde haveis tirado esse ouro e como o haveis adquirido. JOANA. se os consumidores não têm com o que pagar? JOANA – Em vossas gigantescas instalações e vossas fábricas detendes as ferramentas dessa gente: deveríeis ao menos permitir que eles as usassem. Se fizeres isso por nós. empunharem um porrete para bater em vossas cabeça. ao me veres aqui. senão lançar-me-ei sobre vós e golpeá-los-ei a cabeça. Os Chapéus negros aparecem na porta. eu sei o que faço. ela está espantada – O que fazem vocês aqui? DONA LUCKERNIDDLE. senão ficam imobilizados. mas não fizeram nada. e rápido. É preciso ser muito tonta! Na verdade. Se essas pobres criaturas. avançando: Eu te conheço: tentei te convencer A trabalhar nas serras que me cortaram o braço. Nós queremos reabrir nossas fábricas. aí estás! Nós não estamos muito contentes contigo! Tu não poderias dizer uma palavrinha de nossa parte à Mauler? Parece que tens sobre ele alguma influência. pagaremos o aluguel dos Chapéus Negros por quatro anos.

dona Mulberry – que ele encontrou sobre a terra. JOANA. Tu que planas mais alto que as questões terrenas! Parta sob a chuva. na ponta dos pés. está bem. ela retorna vestida como uma jovem camponesa. Mediadora inútil e que cava a própria cova. oferece teus bons préstimos. Enfrentam-se como gigantes? Vá. DONA MULBERRY. vão-se irrevogavelmente quarenta meses de aluguel. Mas como deixar-se levar por isso? (À dona Luckerniddle e a Gloomb:) Sentem-se lá no fundo. Povoada de cânticos e palavras que despertam. fracos. aos Chapéus Negros – O que acabo de fazer certamente foi pouco habilidoso. é bem disso que se trata! Falaste a palavra exata! Se o Bom Deus paga. não tem nenhum mandato! É apenas uma mulher que perdeu a razão! Ela está despedida! Ela fará pelos senhores tudo o que desejarem. Se o Bom Deus não paga o seu aluguel. Anda cuidar de tua vida. então. correndo sai atrás deles – Fiquem senhores. Eu não desejo Colocar novamente o chapéu e o uniforme negro. ela não representa ninguém. Doravante farás parte dela. Enquanto não tiver feito de Mauler um dos nossos. Quanto ao pão que precisamos comer. pois esses que te seguem não são mais do que escória e refugo. Nem outra vez cruzar o limiar dessa querida casa. onde não escutam mais Os pedidos de salvação do resto dos humanos. ah. Mesmo que o dinheiro os carcoma como um câncer Devorando o que seu resto tem de humano. de volta Convida a tua casa. Vá sob a neve e continue intransigente! JOANA – Quer dizer que devo tirar meu uniforme? BISPA SNYDER – Tira o uniforme e arruma tua bagagem! Sai desta casa e livra-nos da escória que arrebanhaste. Nós iremos viver dias terríveis. comê-lo também! Vá-te então. tudo mal.27 – Está bem! Mas conosco. DONA MULBERRY — Sim. . BISPA SNYDER. Serve-lhes água de chuva e belas palavras Pois do céu não lhes vem mais do que neve E não misericórdia! A humildade. de um ao outro. tudo bem. agora. Queres. e a partir de sábado à noite. Homem de boa fé e destemido. no coração da tormenta. eu lhes trarei a sopa. JOANA Irei ver o rico Mauler. terá de se mudar. não temos mais um centavo. tu a ignoras E cedes a teus impulsos! É mesmo muito fácil Caçar esses impuros com um gesto cheio de orgulho. Ela carrega uma mala pequena. entretanto. Trazendo-vos totalmente convertido. BISPA SNYDER: Infeliz ignorante! Como não vês que operários e patrões. Eu pedirei sua ajuda. prisioneiros Em uma torre de marfim. De qualquer maneira. BISPA SNYDER. OS TRÊS Joana sai. modestamente. esses pobres. Mas se ele não paga. Mesmo que ele os torne surdos. Por causa do aluguel. É mister que haja um Justo entre eles! Ela sai. entrando — Vocês já arranjaram o dinheiro? BISPA SNYDER – Deus encontrará logo o meio de pagar o abrigo bastante modesto – eu disse modesto. como jamais viu antes o mercado do gado! Saída dos fabricantes de conservas. Grupos inimigos irreconciliáveis. não se vão. Fazes-te de difícil e és muito curiosa Para saber como é feito. é muito justo que pague. bispa Snyder? Ela sai.

em sua casa. desta vez. Em busca de animais que. carregando uma mala. JOANA – Bom dia. no seu escritório? Sempre achei que o senhor devia possuir um dos grandes palácios de Chicago (Mauler se cala). SLIFT. Slift. SLIFT: Estou feliz. Graham e companhia ficarão então parecidos À lama. Houve discrepâncias entre nós. Deixo minhas coisas nesse canto. Não é fácil encontrá-lo. se eu estivesse lá. Eles precisam comprar de nós. e de que. meu caro Slift. Serão obrigados a comprar a carne Que devem nos entregar. Gostei muito de vê-la expulsá-los do Templo. Deixar que gritem: “É um crime!” Entra Joana. senhor Mauler. dá rédea solta a teus corretores! Deixa-os correr o mercado. É um belo sofá que o senhor tem aqui. Slift. E os preços Subirão ainda mais. Senhor . mesmo nas pequenas coisa. mas por que o lençol em cima. por um momento. Não pretendo soltar um só grama de carne A fim de arrancar-lhes mesmo a pele desta vez: É a minha natureza quem exige. de perto ou de longe. Mas o senhor tem razão. Ele sai. É que eu não estou mais com os Chapéus Negros. Vou ver como eles compram. Dir-se-ia Que Chicago a engoliu Em sua negra e ruidosa bruma. Mauler. MAULER: Seria preciso esfolar esta cidade maldita E ensinar-lhes o seu ofício A essa gente. Não se fala mais dela. MAULER: Agora. Neste mercado de Chicago Todos os bois que se escutam mugir São nossos bois. Gosto nela deste traço. E todos aqueles que como ele. de ser cuidadoso. Desde Que ela nos expulsou do Templo. Então eu disse a mim mesma: vá dar uma olhada no que se passa com o senhor Mauler. SLIFT: E tua Joana? Algo de novo? Um boato corre na bolsa: dizem Que te deitaste com ela. Faça subir. Não se possa aceitar gente da minha laia. que tu tenhas superado Teus recentes acessos de fraqueza. Assemelhem-se a bois ou porcos. A mim também Teria expulsado. posso me interessar mais por cada homem em particular. Eu desmenti. Agora que não tenho mais o trabalho fatigante da missão. Ela não tem medo de nada. e cada porco Que eles precisam nos entregar. E na nossa mão é mais caro. os preços a oitenta. Mas o senhor. onde enfiaremos o pé Unicamente para ver a marca que deixa. queriam esperar Que o preço do gado caísse o mais baixo possível. realmente. Terão de pagar mais caro. e que nem mesmo está dobrado direito? Diga-me: o senhor dorme aqui mesmo.28 VIII Discurso de Pierpoint Mauler sobre a absoluta necessidade do capitalismo e da religião ESCRITÓRIO DE MAULER MAULER: MAULER: Chegou enfim o dia em que nosso caro Graham. senhor Mauler.

e que agi bem.. Mas eu o encontrarei. não como eu queria. JOANA – Sim. é claro. Eu te encontro bastante mudada. Estás de acordo? JOANA – Sim. eu buscarei o dinheiro a qualquer preço. Eu não conheço. mesmo à noite. Trata-se de saber Se eu serei o melhor de minha classe Ou se tomarei eu mesmo. E como eu sei que sois pobres E que querem privar-vos Do teto que vos abriga.. MAULER – Vá dizer-lhes que o dinheiro está chegando.. não querem partir. na minha vez. JOANA – Senhor Mauler. JOANA – Os operários continuam esperando nos matadouros? MAULER Por que és contra o dinheiro? E por que então. Corra. nos deu prazo só até o próximo domingo.. O escuro caminho que leva aos matadouros. MAULER – . de pé. Queres? Joana observa a comida. Ele traz comida a ela em uma bandeja. Eles são cinqüenta mil Que permanecem lá. arrancar a pele desta cidade. senhor Mauler. Aqui está por escrito. tenho boas esperanças de que sua consciência esteja em paz nesse momento! MAULER – Então não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Não. sim.. O dinheiro. Vou agora mesmo à Bolsa para procurar o dinheiro. Assim como aos criadores. É por ti que o faço. Mesmo que deva cortar na carne. Mauler vai até o fundo do palco e chora. a coisa não andou. Eu irei à Bolsa encontrar o dinheiro que lhes falta. MAULER – Ah! E agora os Chapéus Negros estão em uma situação financeira difícil? JOANA – Sim. Uma vez mais. senhor Mauler.29 Mauler. está caro. MAULER: Tão mudada! Apenas oito dias! Onde ela esteve? O que ela viu? E por que essas rugas em torno dos lábios? Esta cidade de onde ela saiu. Teria adorado ouvir-te dizer Que o que eu faço está bem. Um trabalho ruim. Eis o desafio. encomendei a carne. o dinheiro para vocês eu terei. Mas contigo não será assim. E que. E foi por isso que eu me disse: irei ver o senhor Mauler. eu lamento Que o trabalho ainda demore nos matadouros. vá dizer-lhes isso.. Joana pára de comer. ainda por cima. Toma. aos fabricantes. JOANA – . o que me agradou muito e me pareceu justo. É Mauler quem vai dá-lo. Não pude dar-lhes trabalho rapidamente. Há quanto tempo não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Oito dias. quando nós expulsamos os ricos de nosso templo.. MAULER – E do que tens vivido? (Silêncio de Joana) De nada. Daqui até sábado. Mas nesse negócio. Eu confesso cruamente. Confirme que foi por teus conselhos Que eu. a proprietária. Que meu comércio não é antinatural. Eu também. muda logo a tua cara? . Eu quero dar-vos alguma coisa Para provar-vos a bondade de meu coração. Quando não o tens. Ela começa a comer avidamente. eu não comerei.. senhor Mauler! MAULER Tome. ser ou não ser. é lógico. que vive do aluguel. naqueles pátios imensos. MAULER – Não te inquietes. Nesta história dos cinqüenta mil trabalhadores. não faço mais parte. e aos Chapéus Negros é preciso auxiliar.

Desde que existem sobre a terra. As coisas não deixariam de seguir o seu curso de antes. eu que nutro Poucas simpatias pela ordem do mundo. malgrado os sacrifícios. Eu sei. destruído na mesma hora. eu concordo. Sim. Quero saber. Modificar por inteiro o plano do edifício. diga-me. Não desejais.30 O que pensas tu do dinheiro. Como esses bobos para os quais o dinheiro Tem não sei qual problema. Por isso vós deveis nos ajudar em nossa obra. . aliás. Pouco agradável. Eu não compreendo E nem quero compreender. Assim. Mas pensa na realidade. sob chuva e frio. Esse sistema é o único que permite arrancar O que pode ser arrancado dos rigores desse mundo. E incessantemente construída. sem dúvida. Concepção inaudita à qual vós mesmos. E que. Eis porque esta obra é sempre defendida Pelos melhores entre os homens. nem Deus. Ele alcança o papel a Joana. Seria como um mosquito Tentando se opor a derrubada de uma montanha. Não enchas a cabeça de falsas idéias. Por Ele batendo os tambores. nem nós tampouco: Não seríamos necessários. Ou então seria preciso mudar tudo. eu deveria estar feliz De ver que alguém vem em ajuda a Deus. Ainda que dia após dia se precise reconstruir O que dia após dia é destruído. de cima a baixo. Tão penosa de construir. JOANA Senhor Mauler. É à sorte. Na banal verdade. Pouco ou muito segundo o caso. Obra imensa. Atribuir ao homem um lugar totalmente diferente. Que seria suprimido por falta de utilidade. E se vós não precisais se expor aos sacrifícios. Mas eu faço parte daqueles Para quem essa não é uma ajuda. Em uma palavra é preciso que vós Restabeleçam Deus em sua glória. isso será suficiente. MAULER . Apanhe o que te dão. Ao menos a vida de alguns. ou quase. Eu seria varrido. durmo mal à noite. Mas mesmo assim verdade: Sobre a terra nada há de sólido. Ela se levanta. Daqueles a quem ninguém oferece nada. Isso que o senhor falou. veja bem. O dinheiro é um meio De melhorar um pouco a vida. Para que Ele finque pé nas favelas E para que Sua voz retumbe nos matadouros. Fazendo Dele a única salvação. Que o gênero humano está entregue. Se eu quisesse me retirar. Mas saiba com qual objetivo foi dado! Tome isso! Saiba que representa O aluguel de quatro anos.O que nós não vos exigiremos de nenhuma forma – Devem dizer ao menos que eles são justificados. Olha também como o mundo é feito! Que edifício! Obra dos homens. sob gemidos.

Vi depois cortejos E ruas desconhecidas. Pelo menos não honestamente. No futuro. Que o campo inflou-se e uma cascata humana Inteira ficou pendurada em suas elevadas bordas. e outras familiares. Saberás que neva sobre ela. Eu também não tenho dinheiro E nem uma maneira de ganhá-lo de outro modo. silhueta múltipla. soluçando e jurando Logo fora de mim! Virtude e terror confundidos! . Chicago! Vós também Lá estavam. com aqueles que esperam. Sem poder suportar a visão dos pobres Que os julga sem conhecê-los. BAIRRO DOS MATADOUROS Joana. a fronte ensangüentada. MAULER Esta noite. Jovem e velha. Jogados aos matadouros e de tudo ignorantes. uma palavra sem importância. Ficarei lá até que as portas sejam reabertas. A tempestade de neve. e então eu me vi: À vossa frente. Cercado de todos os lados por enormes edifícios E tão pequeno que a sombra de um arbusto O teria encoberto totalmente.31 Leva aos Chapéus Negros este dinheiro E poderás ficar com eles. Pois esta vida sem eira nem beira não te serve. Eles formavam uma massa tão densa. Ela sai. levanta-te. JOANA Se os Chapéus Negros quiserem o seu dinheiro. IX Escutai o que eu sonhei. E se não houver trabalho. Eles fazem muita questão do dinheiro. 1. em todo o caso. Arranjando para não ver esses condenados. Eu comerei esta neve. do que os pardais Que se poderia colocar em tal lugar. Perto dela Gloomb e dona Luckerniddle. afluíam inúmeros cortejos. Notei uma massa humana. E eu. Eu marchava. Vai à janela e repara se neva. Fez esta massa começar a fluir. Mas eu me sentarei Em frente aos matadouros. desfilando. Que alguém gritou em algum lugar. em um pequeno campo. Mais numerosos. se o senhor quiser me ver Me verá nos matadouros. A cada hora. que vive da pobreza. Se for um punhado de neve o que lhes dão. Quantos eram eles? Eu não sei. E o senhor. por toda a parte. E então uma palavra. pulsando vida. E nada comerei além do que eles comem. Que o aceitem. Ela permaneceu suspensa por um instante. Depois eu gritei palavras em tom belicoso Em uma língua para mim mesma desconhecida. com passos guerreiros. Sobre ela que tu conheces. Ao mesmo tempo. eu quero fazê-lo. Há sete dias: Diante de mim. E isso é muito bom. marchava à sua frente. Mauler. E se nevar. JOANA Terceira descida de Joana às profundezas. creia-me. sem uma palavra. E o trabalho deles também. Eu serei como eles sem trabalho.

BOLSA DE CARNES MAULER. MAULER: Sendo grande a demanda De conserva e de vianda E sendo os preços aceitáveis. Oitenta mil toneladas. Influenciando o curso dos planetas distantes. GLOOMB – Dona Luckerniddle. E assim andava o cortejo. Um pouco caro. Envolvida pela neve.. a cidade deles. Eu exijo que me entreguem. modificava. libere-nos de nossos compromissos! MAULER: Estou desolado. eu ignoro. transparentes. Rendidos pela fome. OS CRIADORES aos fabricantes de conservas: Meus amigos de Nova Iorque me escreveram Que as tarifas aduaneiras no Sul Acabam de ser derrubadas. mas preciso das conservas. a preço vil. éramos inatingíveis. se eu me lembro direito Daquela hora em que perdi um pouco o juízo. Eu andava no mesmo passo que o cortejo. Habituados ao sofrimento. abandonando este lugar insuportável Por qualquer outro. Senhores. estávamos fora de alcance. Há muito gado. OS FABRICANTES: Mas como nós poderemos Comprar gado com preços em alta? Alguém promoveu uma razia. ao abrigo dos ataques inimigos. UM PEQUENO BAR NO BAIRRO DOS MATADOUROS Desgraça! As tarifas caíram! E nós não temos mais carne para vender! Ela já está vendida. a preço vil. Assim foi o meu sonho. não nos podiam alvejar. A exata extensão de nossa miséria. e pior. Mauler. Habitando em lugar algum. Graham. que eu saiba. Faremos um chamado a todo o ser que pareça humano. nós agora estaríamos comendo a nossa sopa. Hoje eu compreendo o seu sentido: Nós deixaremos os matadouros antes do raiar do dia. Precisamos comprar e os preços aumentam! . é verdade. Todas as conservas Previstas no contrato. bem e aquecidos! 2. nas praças públicas. e pior. Comprem-no! OS FABRICANTES: Comprar gado nestes dias! Que horror! 3. Ocasionando imensas destruições. OS FABRICANTES Desgraça! As tarifas caíram E nós não temos mais bois para vender! Eles já estão vendidos. mas existe. E também perturbando o aspecto familiar de ruas bem próximas. Ninguém sabe quem foi. E com a aurora chegaremos a Chicago. sem mais delongas. GRAHAM: Ao preço antigo? MAULER: Como combinado. Para aí mostrar a todos.32 Tudo o que eu pisava. O que acontecerá. DONA LUCKERNIDDLE – Se ela tivesse calado um pouco a boca lá nos Chapéus Negros. a senhora entendeu esta história? Eu não..

vinde logo! Aleluia! Uma jovem dos Chapéus Negros dirige-se aos trabalhadores. Onde está Jesus. reina a paz. que nos salvou na dor. Joana se levanta e. JOANA. os comunistas. Pois nós encontramos Jesus. estava um dia sentada. soldado dos Chapéus Negros: . mas ninguém contribui) Aleluia! JOANA – Deixe-os. grande o nosso regozijo. Luckerniddle – De onde a senhora os conhece? DONA LUCKERNIDDLE – No tempo em que eu não me fiava em gente como você eu ia bastante até eles. surpreendendo-se pela ingenuidade – É sério? A senhora acreditou nisso? DONA LUCKERNIDDLE – Eu também. mas então eu encontrei Nosso Senhor Jesus e fez-se em meu coração uma grande luz e provei uma grande alegria. hoje (eles não estão escutando nada!) basta que eu pense muito em Jesus. Ah. do pão de Deus? Grande é nossa alegria.Aleluia! (Jackeline faz circular a cuia de esmolas. Nosso Senhor. Um destacamento dos Chapéus Negros chega. Bem que eu gostaria de estar com eles! DONA LUCKERNIDDLE – A música era bonitinha! GLOOMB – Bonita e curta. faz desesperadamente sinais para que saiam. JOANA – Então não há ninguém que tente fazer alguma coisa? O TRABALHADOR – Sim. apesar de todas as nossas más ações. triste. Vinde a ele. (É tudo absolutamente inútil!) Eu lhes digo: ajudem-nos a manter a marmita fervendo! OS CHAPÉUS NEGROS . e o velho Adão dentro de mim não tinha outro desejo do que comer e beber. JOANA – Onde eles estão? GLOOMB – A dona Luckerniddle pode lhe dizer. meu irmão. Se algumas pessoas soubessem calar a boca eu saberia onde procurar abrigo esta noite. eu esperava que eles fossem ao menos nos dar um prato de sopa. à margem do caminho. por favor! OS CRIADORES: Não sobrou mais nada! Tudo o que podia ser vendido . não o ódio. (Isso não serve para nada!).(Vocês acham que isso serve para alguma coisa?) Eu também. Intercala sua pregação com observações aos companheiros. curta bondade. Silêncio. Nosso Senhor.33 Trabalhadores e trabalhadoras. fazendo o gesto de contar dinheiro – A senhora consegue manter a marmita fervendo. mas eles traziam uma panela. BOLSA DE CARNES OS FABRICANTES: Nós compramos qualquer gado! Bezerros! Gado gordo! Vitelos! Bois! Porcos! Façam as suas ofertas. dona Swingburn? A MULHER – A sua música era bonita. durante a cena. à dona. não a violência. tu também. que alguma voz. e eu não tenho mais fome e nem sede. DONA LUCKERNIDDLE – Eles são boas pessoas. Eles precisam fazer isso para conseguir um pouco de calor e de comida. por causa do meu marido. tenente dos Chapéus Negros. como vocês. já ouvi demais. Discursos. tenho apenas sede da palavra de Jesus. eu prefiro os atos. depois de entoar um cântico apressadamente: Por que não provar. JACKELINE. MARTHA. UMA MULHER Por que vir aqui fazer escândalo Com tamanho frio! E se pudessem ao menos se calar! Com muito custo eu consigo agora Suportar as palavras que há pouco amava E que me soavam agradáveis. meus irmão. o amor. UM TRABALHADOR. que um resto de pudor lhes diga: Aqui reinam a neve e o vento: calem-se! 4. minhas irmãs. GLOOMB – Bondade curta. JOANA – Mas não são os tais que ficam incitando ao crime? O TRABALHADOR – Não. A MULHER – Por que não nos procuram para tentar nos converter? GLOOMB. ente os quais Joana.

e acho que sou capaz de defender bem uma causa. OS FABRICANTES: Mais nada? E nas estações? Estão abarrotadas de gado.. OUTRO LUGAR NOS MATADOUROS Nos cartazes se lê: “Solidariedade com os trabalhadores sob lockout!” “Desencadeiem a Greve Geral”. eu acertarei as contas com ele! MAULER: Ah! É assim. de Chicago a Illinois. Qualquer vitelo. Terá de ser comprado de mim. Se alguém vier perturbar a reunião. Chegada de Joana. De hoje até amanhã é certo que os patrões vão lançar todo o tipo de falsas notícias: eles dirão que . Já que não há demanda. os operários. para começar Quinhentos bois a cinqüenta e seis.34 Foi vendido. OS FABRICANTES: É Mauler. eu as quero agora. JOANA – São vocês os que defendem a causa dos desempregados? Eu posso ajudá-los. dois homens da direção dos sindicatos discutem com um grupo de operários. mesmo nos grandes. precipitando-se sobre Mauler: É preciso liquidá-lo. Vendo-os. Além disso. Em frente a um galpão. Graham! As latas que me deves. Deixe-os totalmente à míngua. precisamos de um prazo. OS FABRICANTES – Vendido a quem? Entra Mauler. Mesmo que tenhas que te enfiar nelas! Eu vos ensinarei como se faz esse comércio! Doravante. a greve geral. Agora eu quero sessenta! E tenham o cuidado De não esquecer as minhas latas! 5. e caro! Ofereço. É impossível encontrar um boi em Chicago. OS CRIADORES: Oitocentos bois a quatrocentos para Sullivan Slift. Quatrocentos. Os fabricantes se precipitam sobre ele. Mauler. Corte você mesmo! MAULER: Por que se surpreendem. Aprendi a falar em lugares públicos e em auditórios. Nós. uma parte de nós perderá seu emprego nos matadouros e os outros nunca recuperarão o salário anterior. Silêncio . mesmo só uma pata. Os senhores devem me entregar a carne. Os trabalhadores das grandes empresas da cidade nos prometeram declarar. no mais tardar depois de amanhã. OS FABRICANTES: Nem pensar! Vocês estão loucos? Quatrocentos! SLIFT – Eu compro. se ela for justa. UM CRIADOR: Oitocentos bois de Kentucky a quatrocentos. É claro que é! Era o que dizíamos! O cão! Ele nos obriga a entregar-lhe as latas E é ele quem compra o gado! Somos então obrigados a comprar de Mauler A carne que deveremos colocar em suas latas! Carniceiro sujo! Tome então a nossa carne. Na minha opinião é preciso fazer alguma coisa imediatamente. o apetite desperta! GRAHAM. eu não tenho medo. se são os senhores os bois. MAULER: Atenham-se à nossa combinação. sabemos agora de uma coisa: se tudo andar como querem os industriais da carne. Ele vai falar com Slift. eu tenho propostas a fazer.. Não havendo ninguém que precise de carne. OS CRIADORES – Vendido. UM DIRIGENTE OPERÁRIO – Escutem todos: até agora os magnatas da carne não manifestaram a menor intenção de reabrir as suas fábricas.

Ela é sua conhecida. Como se rede já não houvesse: De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. galpão número cinco. em frente ao edifício da Westinghouse! (À Joana) Quem é você? JOANA – Fui mandada embora do emprego. O operário apanha a carta e sai. UM OPERÁRIO – Pode ser uma espiã. a Mauler. – Eu já vendi jornais na rua Vinte e Quatro. É do Exército da Salvação e os policiais a conhecem bem. dando a carta à Joana – Vá até a fábrica Graham. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Não. Você pode tranqüilamente entregar-lhe a carta. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua vinte e seis. Jack. Isso é bom. E poderíamos até dizer que esta pobreza seja obra deles. Eu luto de todo o coração pela causa de vocês. eu sei quem ela é. na esquina do Parque Michigan. Tudo acontece como se a miséria dos pobres fosse útil aos ricos. pau neles! OS FABRICANTES – Queremos dois mil bois a setenta. JOANA 6. Meyers e Cia. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E para quem trabalhava? JOANA – Eu era ambulante. Por este buraco fogem todos os peixes. Esconda essa em seu casaco. UM OUTRO OPERÁRIO – Dê-me a carta para as usinas Graham. pergunte-lhes se são das usinas Cridle. ouve-se gritar ao fundo o nome das empresas que suspenderam seus pagamentos: “Encerram os pagamentos.. estou vendo. dona Luckerniddle? (Dona Luckerniddle faz sinal que sim). O DIRIGENTE OPERÁRIO. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – E quem te garante que ela vai levar a carta que lhe entregarmos? O DIRIGENTE OPERÁRIO – Ninguém. Ninguém suspeitaria que ela trabalha para nós. em diversos pontos dos matadouros. eu conheço o pessoal. Nós não temos ninguém para passar despercebido como ela. assegurar o trabalho . Ela é honesta. pois o endereço dado pelos camaradas das usinas Cridle para o encontro está muito vigiado. MAULER: Os senhores não respeitaram. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Não é sem provas. essa noite. dessa maneira. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Pela nossa causa? Diga-me: ela não é também a sua? JOANA – Não é no interesse geral que os industriais jogam. O contrato assinado há pouco entre nós: Eu queria. etc.. e vá esperar os responsáveis defronte à cantina da senhora Schmittens. Essas cartas anunciam que a usina de gás. Um operário apanha a carta e sai. com tal medida. Eu não sou uma espiã. (os operários riem alto) Mas é desumano! E dizendo isso eu penso também em gente como Mauler! (os operários caem na gargalhada) Por que se riem? Acho que vocês estão errados em zombar e em acreditar sem provas que alguém como Mauler não é um ser humano. as centrais elétricas e o serviço de águas entrarão em greve em solidariedade a nós. aos responsáveis que esperam nossa orientação.35 tudo está arranjado e que a greve geral não acontecerá. SLIFT. Elas devem ser entregues às dez horas. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E em que trabalhava? JOANA – Eu vendia um jornal. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua Três. não é? DONA LUCKERNIDDLE – Honesta ela é. os preços estão a mais de setenta! OS CORRETORES – Os cabeçudos não compram. A carta é para eles. encostado em uma coluna – Faça subir.” OS FABRICANTES – Nós não podemos mais agüentar. À Joana: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. BOLSA DE CARNES Durante toda esta cena.. tanta gente na rua. Quando você vir chegarem três operários com cara de quem procura alguém.

Ele pode ir longe demais. Pergunta para que nós pagamos impostos! Manda arrebentar a cabeça dos líderes. esperando. eu não vi ninguém com o uniforme dos Chapéus Negros. são incontáveis. As conservas que comprei. Que sangrem. O SEGURANÇA – As multidões. Pois a queda deles Será a nossa. São centenas de milhares nos matadouros. por telefone. A multidão anônima e sem rosto continua sentada lá. que voltou para perto da coluna – Slift. MAULER: Atiram? Contra quem? Mas eu sei bem. não me diverte mais. o vento abafa as palavras. GRAHAM: Que seja. E tenho outras preocupações! Veja bem. senhor. Sem contar que a polícia está evacuando os matadouros e que começa a atirar. Slift. a Slift – Onde está o pessoal que eu mandei para os matadouros? SLIFT – Ali está um. à procura de um parente que não encontram. dizes. É preciso que a cidade Possa voltar a respirar.36 Aos operários e agora me dizem Que eles ainda esperam em frente aos matadouros. MAULER. desembucha! O primeiro segurança faz seu relatório. só quinhentos. de achá-la? E atiram? Encontra o Jim. Quando se grita qualquer coisa. No canto em que trabalham os sindicatos reina uma grande efervescência! MAULER – Quem trabalha? Os sindicatos? E a polícia os deixa incitar os operários? Meu Deus! Liga imediatamente para a polícia. MEYERS – Cinco mil a oitenta! Assassino! MAULER. eu me pego esgoelando-os E não tenho tanto prazer quanto esperava. . Isso basta. MAULER. Além disso. MEYERS – Mil e quinhentos a oitenta. Ceda. Senão pensarão ainda Que fomos nós que exigimos que atirassem. Eles já não agüentam. Ainda por cima está escuro. Ele repara no segundo segurança. Se perguntasse por uma Joana. pois. Diga-lhe para que não me procure. Acima disso. SLIFT: Faça subir. Ponha os pingos nos “is”. se apresentariam dez ou talvez cem. subir muito mais. O primeiro segurança sai. MAULER – Então. A encontraste? O SEGURANÇA – Não. Eles ainda agüentam! Quinhentos bois a setenta e sete. tudo a oitenta. Impossível. A carne sumiu de vez do mercado! Quinhentos bois a setenta e cinco! MAULER: Não seria conveniente. Vou soltar a carne e deixá-los partir. OS FABRICANTES – Mauler paga cinqüenta pelas conservas. Mauler. perdido por perdido. SLIFT – A oitenta. voltando ao grupo: Este negócio. é impossível ouvir uma voz isolada: há muita gente correndo de todos os lados. Mas para nós. nós não podemos pagar oitenta a Mauler pelo gado. Mil a setenta e sete. Slift. Slift. eu não me sinto muito bem. sim. é o fim! SLIFT: Quinhentos a setenta e sete para Graham. Vá só até oitenta e depois abaixe o preço. Mas os senhores se lamentarão por isso. é claro. O estranho é que aqui não se ouve nada. mas que não rebentem. O segundo segurança sai. Fala em meu nome. entreguem-me! GRAHAM: Nada poderíamos ter feito.

Eles ainda agüentam. em segundo plano. 7. Fora uns poucos especuladores sem escrúpulos. Eu não posso mais. no fundo. apontando para Joana – Aqui está. (a Joana) Esses são jornalistas. Aja conforme o meu espírito. toda a Chicago comparte seus sentimentos. Chega um grupo de jornalistas. nos matadouros Enquanto a miséria não chegar ao máximo. Mas quando a aflição for tremenda. Então agora existe gado. Eles terão de nos responder. Entre eles. esperem a resposta! CORO OPOSTO. Nesse dia sim. Queria vender a oitenta e cinco. Joana Dark. nós ouvimos. SLIFT: Mentirosos! Agora serei eu que vos ensinarei A vender carne enlatada Sem ter nem mesmo um quilo! E cinco mil bois a noventa e cinco! Urros. Eles não abrirão as fábricas! Eles esperarão os lucros aumentarem! E a sua resposta sairá Dos canhões e das metralhadoras! Ninguém poderá nos ajudar. Para nós a senhorita faz parte. OS JORNALISTAS – Veja bem. também em segundo plano: É mentira: por maior que seja a miséria. a jovem pregadora dos Chapéus Negros? JOANA – Não. Slift não tem ordem para isso. Mauler? MAULER. Aja conforme o meu espírito. afastando-se – É preciso que façam chegar aos operários que eu acabo de ceder gado às fábricas. Prefiro abandonar tudo Do que ser a causa de uma desgraça! Oitenta e cinco. Virão três pessoas. De outra forma isso terminaria em violência. Continue então com o negócio. Slift. senhorita Dark. OS JORNALISTAS – Podemos lhe assegurar.” JOANA – Eu não falei nada disso. NOS MATADOUROS Muita gente esperando. pode ler. a alguma distância. Tu me conheces. ALGUÉM – Porque estás aqui? JOANA – Tenho que entregar uma carta. Nós publicamos isso com manchete de oito colunas. SLIFT – Quinhentos bois a noventa! OS FABRICANTES: Mauler. Veja. que a opinião pública está do seu lado. (Joana vira-lhes as costas. não mais. SLIFT MAULER Eu preciso de ar fresco.37 – Nem pensar. O HOMEM. Mas nós não queremos incomodá-la e iremos ficar ali. Um homem os guia. eles abrirão. É um enorme sucesso para os Chapéus Negros. Os jornalistas lêem em voz alta) “A Madona dos matadouros. isso não é possível. – Olá! A senhorita é Joana Dark. OS TRABALHADORES. declara: Deus está solidário com os operários das fábricas de conservas. Não vão embora. a não ser nós mesmos E a ninguém podemos apelar OS JORNALISTAS . Eles se sentam. E se quiseres abrandar. JOANA – Eu queria que vocês fossem embora. OS JORNALISTAS – No escritório do senhor Mauler nos disseram que a senhorita jurou não sair dos matadouros enquanto as fábricas não fossem reabertas. Saindo ele encontra jornalistas. Joana. JOANA – Eu não faço mais parte dos Chapéus Negros. JORNALISTAS – O que há de novo. Eles não abrirão as fábricas. serei eu quem fará subir.

Empunhar a bandeira e bater o tambor. Quer um gole de whisky? (Joana bebe) Ei. confesso. Alguns – pouco numerosos – estão sentados lá em cima E um grande número aqui embaixo. Que audácia! Emborcar assim o whisky desse velho! JOANA – Segure a língua. Vós todos. . Quando eu cheguei aqui. E os do alto gritam: Subam. ignorar aonde te leva a vida.. um emprego que me assegurava O pão de cada dia.. eu não tenho o direito de ir. E falar Daquele que mora lá em cima. Enfim. guardam-me a sopa. A qual logo se nota claramente Que serve de gangorra Todo o sistema é como uma balança Na qual os dois lados dependem um do outro. eu quero ir embora. a qualquer momento. que nada tendes para comer. Tenho fome e isso é banal. O TRABALHADOR – Mas falaste com eles! JOANA – Eles me confundiram com outra pessoa. UM VELHO HOMEM. a Joana – Você está totalmente gelada. Mas eu posso. UM HOMEM – Silêncio! Alguém atira um trapo para Joana. Ir para um quarto quente. é claro! É o cúmulo! Eles me roubaram até o chale! Quem foi o mão leve que pegou o meu chale? Devolvam-me imediatamente. (Ela arranca de sua vizinha o pano com o qual ela cobre a cabeça) Sim. Quase uma comédia. imbecil!. que acabaram de receber uma informação.. A mim me esperam. Vós. ela vai me matar. o que haveis deixado? Eu. JOANA: Eu compreendo esse sistema. UMA MULHER – Que audácia! JOANA – A senhora falou alguma coisa? A MULHER – Sim. Onde está o meu chale? Eles me roubaram. a Joana – O que fazias com aquela gente? JOANA – Nada. mais do que tudo. o que deixei foi uma vocação. E para vós é fácil passar frio. Para que estejamos todos no alto! Mas olhando mais de perto descobre-se. que de resto Já é a muito conhecido.. desde fora. Mas. Entre os que estão em cima e os que estão embaixo. dona Luckerniddle? DONA LUCKERNIDDLE – Sim é verdade. E uns se sentam lá em cima Só porque os outros estão embaixo. levantam-se e dirigem-se ao fundo. com um vasto plano. Encorajada por um sonho que confirmava minhas idéias. não é? JOANA – A senhora também acha. Algo de obscuro. Mas. dir-se-ia que é um caminho. dê-me meu pano. A MULHER – Socorro. Já basta. não dormir. ao qual estava acostumada. Não fazia tanto frio em meu sonho. Eu não tinha sonhado que pudesse fazer tanto frio! Se eu tivesse pelo menos o meu agasalho! Ah! É fácil para vós passar fome. Apesar de tudo. E um ambiente. UM TRABALHADOR. Ficar aqui sem necessidade absoluta Parece-me um jogo indigno. um teto e o sustento. Mas é apenas uma tábua. Os jornalistas. foi você! Não adianta mentir. chega! Você é boa mesmo de copo. tenho frio. JOANA Se dependesse só de vós Eu poderia congelar nua em pleno vento.38 Que não seja um nosso igual. isso é normal. Mas a estrutura interna continua ignorada. o medo me aperta a garganta: Não comer.

JOANA – Quanta gente há aqui? OS JORNALISTAS – Uns cem mil. Então a bondade existe. Os matadouros são tão grandes que a tropa levará horas até aqui. acaba de cedê-lo aos fabricantes. ainda que os preços continuem a subir. o seu sucesso foi formidável: nós ouvimos que Pierpoint Mauler. com a carta. JOANA: Tanto assim? Oh! Escola desconhecida. É preciso fazer com que se calem os agitadores que incitam à violência. aconteça o que acontecer. A não ser a proposta Que leve a mudanças verdadeiras. O coração deles não é de gelo. E nós vos dizemos: ficai agrupados. Que tem a fome por mestre e onde a miséria Fala implacavelmente da necessidade! E sois cem mil alunos. mocinha. E sobretudo entendam bem Que nada se faz sem luta E sem a sua própria ação. DONA LUCKERNIDDLE – Não digas tais tolices.39 OS TRABALHADORES: Fiquem. Tu não compreendes nada de nada. JOANA – Oh! A boa nova! DONA LUCKERNIDDLE – Vejam as mentiras sobre as quais nos alertaram. (Ela se levanta) Eu vou avisar aos nossos que os boatos já começaram a circular. JOANA: Parai! Chega de aprender essas lições! JOANA . JOANA – Mas estão atirando! UM OPERÁRIO – Pode ficar sentada tranqüilamente. Nessas condições o trabalho voltará muito em breve aos matadouros. Os jornalistas retornam. OS JORNALISTAS – Olá. Esse combate será perdido E talvez perdido Ainda o próximo combate Mas vós ireis aprender a combater E aprendereis pela experiência Que nada se faz sem luta E sem a vossa própria ação. Que barulho é esse? UM JORNALISTA – São as metralhadoras. Os tanques deles vos esmagarão. Não se separem! É apenas ficando todos juntos Que poderão ajudar uns aos outros. de jeito nenhum. Classe cheia de neve e que as leis ignoram. Não ficaste tempo suficiente aqui. Havia entre eles pelo menos um homem honesto E ele não falhou em seu dever. O que aprendeis? OS TRABALHADORES. se esses senhores estão dizendo? Sobre um assunto como esse não se brinca. no frio. espera. Se combaterdes. Quando se falou com ele como a um ser humano Ele deu uma resposta humana. Ao longe as metralhadoras crepitam. A tropa foi encarregada de evacuar os matadouros. E nós vos dizemos: combatei. Não te movas! Entendeu? Ela sai. no fundo do palco: Se ficardes agrupados Eles vos rebentarão. Agora as fábricas reabrirão. JOANA: Escutem todos! Há trabalho. Mas tu. Não creiam em nada e não escutem ninguém. UMA MULHER – Devemos voltar para casa agora? UM TRABALHADOR – Quem nos garante que é verdade? Que haverá trabalho de novo? – E por que não seria verdade. Felizmente temos a carta para mostrar a verdade. o milionário que dispõe de muito gado.

Apartado em um mundo Tornado para ele estrangeiro. No lodaçal dos matadouros. Eu assim não poderia viver. Começa a nevar. Há muito tempo que já está tudo arranjado. Por que foram presos? O que ela contém. e ninguém Poderá manter a sua calma. JOANA: Os que me entregaram a carta. Direis que fazia muito frio. A tentação. conduzidos por policiais. DONA LUCKERNIDDLE. eu digo. Enquanto o fraco ao fraco se alia. voltando – Nada além de mentiras! Onde foi a moça que estava sentada ao meu lado? UMA MULHER – Partiu! UM OPERÁRIO – Desde o começo eu disse que ela iria embora quando começasse a nevar de verdade. para um dos dirigentes presos – Não liga não. . eu preciso ir. E aprendestes A alimentar friamente terríveis pensamentos. No terceiro dia sucumbiu. Quem o comerá? Eu vou embora. Ela continua sentada. Violar as regras em uso. Perseguidor perseguido E não mais sabendo ver sem desconfiar. estão muito enganados. esta carta? Eu não saberia fazer nada Que requeresse violência. Ela se levanta e sai. Chegam três operários. Por três dias viram Joana em Packingtown. Isso seria desleal para com os outros homens. No final o lodo a engoliu. Ou que engendrasse a violência. UM OPERÁRIO. Do fundo ouve-se gritos que se aproximam. Joana tem uma visão. é imensa! Mais uma noite como esta. OS OPERÁRIOS – Estão trazendo os sindicalistas. Viram-na descer de degrau em degrau Para em água límpida a lama transformar e aos humildes Aparecer. Mas assim. Dia após dia ela desceu. aparece uma inscrição: A neve começa a cair. E é por isso que parto. Sobre sua cabeça. ao longo dos anos. Mas o prato que se prepara aqui. OS JORNALISTAS – Nós a aconselhamos a sair dos matadouros. Eu não sou um deles. as palavras teriam outro sentido. Para este homem. Seu sucesso foi grande. mas agora a coisa está terminada. William. UM OUTRO OPERÁRIO grita para o grupo que se afasta – Assassinos! OS OPERÁRIOS – Se eles acham que assim irão parar as coisas. Os operários se levantam. eu seria como eles e não faria perguntas.40 Que gélidas elas são! Não é pela violência Que se combatem a desordem e a confusão. Eu digo: na escuridão se acumulam As violências e as questões nunca resolvidas. Nada de bom pode surgir da violência. os astros sem harmonia Já não seguiriam sua órbitas. Enquanto a noite cai. Vós. vós estivestes juntos Longas noites. Os dois dirigentes operários passam. algemados. Quem agisse assim se sentiria perdido. Ela se vê com roupas de criminosa. Eles procuram alguém que não encontram e vão embora. longe do mundo que lhe é familiar. Eles saem. Com seu silêncio opressor. que eles ainda poderão ter uma surpresa. Se desde a infância o peso da miséria e da fome me tivessem ensinado a violência. Toda inocência tê-lo-ia abandonado.

MAULER: Se a desgraça abate ao homem sem caráter. Cedi meu gado a qualquer um que o quisesse. Doravante Não há mais ninguém que me queira matar. que todos os fabricantes Quebraram juntos e saíram do mercado. Pierpoint Mauler cruza a fronteira da pobreza 8. Assim espero. o que foi? Riste. Eu disse: meia volta E tu riste. Vejam o que leio. Não preciso. seja por economia. Quanto a este edifício. preto no branco: O gado está a trinta e ninguém compra. os pobres. Não é para pensar que eu vos pago. Sem que eu tenha procurado. UM LUGAR DESERTO NO BAIRRO DOS MATADOUROS Neva. a dona Luckerniddle reencontra Joana. a um de seus seguranças Parem. em suor e em dinheiro. Está dito. Em todo o caso. saindo – Bom. ainda atiram. então. são os mais atingidos. Mauler e seu amigo. façamos meia volta. aqui sob meus olhos. Perto dos matadouros. Até o reino do espírito. mas o arquiteto teria. Escolhido como material. Eu tenho as minhas razões. Parece-me Que contratei dois idiotas. O mais prático também. Na borrasca. Vejam. Até mesmo aos matadouros. hoje restarão No chão as pedras. Tem certa razão de estar alegre. Seja por aberração. E a vocês eu despeço Pois da pobreza eu cruzei a fronteira. É o que está escrito. um objetivo que eu saúdo E que muito me alivia. não lhes parece? Ah! Eu repito Não fiquem enchendo a cabeça com idéias. cocô de cachorro: Que torna a permanência difícil. A mim ela vai elevar às mais altas esferas. Pensar não serve para nada. nada mais posso fazer por eles. Passa um vendedor de jornais Ei! Jornal! Vejamos o que se passa na Bolsa de Carnes.. Aquela que eu procurava terá tido o bom senso De sair das profundezas onde o inferno se instala. . mais de vocês. E ninguém quis. Slift. Que nós construímos em nossas grandes cidades Sem importar o custo. Aquele que sai de tal imóvel. OS DOIS SEGURANÇAS – Então podemos ir? MAULER: Podem E eu também posso ir aonde queira. Mas vejo que estão pensando. Este homem está perdido. o mais vasto. em cima. Essas notícias. Assim foi conseguido. impresso. Basta. Ele lê e empalidece. Sou conhecido nos matadouros. De agora em diante. meia volta. Agora eu estou livre.41 Pergunta feita: quem ficará? Como nos outros dias. Só porque duas ou três vezes eu dei meia volta. UM DOS SEGURANÇAS. Sem nenhuma exigência. Ter construído a maior cloaca do mundo Constituirá a sua única glória. modificam tudo. UMA ESQUINA EM CHICAGO MAULER.. Há resistência. 9. preto no branco. dele se diria Um prédio construído com grandes despesas. confessa.

precisas chegar! Joana olha ao redor. As massas não deveriam ter se dispersado. Eu vou embora. UMA VOZ – Lá onde te esperam. Mas a carta que trazia a verdade. Errando pelos matadouros. AS VOZES: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. Uma parte dos operários saiu dos matadouros. Mas também podias nos trair. Nós te encarregamos. UM OUTRO LUGAR Correndo em direção ao centro da cidade. Aquilo que lhe foi confiado. É inútil tentar pegar. Ao que tropeça e cai. isso é o que tu és! Dê-me a carta que te confiaram. Joana cruza com dois operários de quem ouve a conversa: O PRIMEIRO OPERÁRIO – Primeiro eles fizeram correr o boato que as fábricas reabririam a todo o vapor. Joana pára. Anda em outra direção. O SEGUNDO OPERÁRIO – Isso é grave: sem dúvida uma parte das ligações não funcionou. DONA LUCKERNIDDLE – Ora essa! Para ti está tudo normal! E eu que disse que tu eras honesta! Sem isso não teriam te confiado a carta. A pedra não perdoa. JOANA – Não. A VOZ DA DONA LUCKERNIDDLE: Eu fui a tua fiadora. Um lixo. DONA LUCKERNIDDLE – Eu devia ter duvidado. Sem récitas inoportunas dos seus infortúnios.42 – Ah. ela procura se livrar das vozes que ouve de todos os lados. Muitos operários teriam ficado se soubessem da notícia. Como se rede já não houvesse. Nós não sabíamos quem eras. UMA VOZ: Não há desculpa Para quem não chega. Tudo está voltando ao normal agora. Claridade que então eu deixei de ver! Oh! Quem conhecerá o poder da neve! Oh. Ainda mais que amanhã todas as empresas de Chicago iriam declarar a greve geral. Por este buraco fogem todos os peixes. caindo de joelhos: Luz. de uma missão. De tua missão. Mas tu és uma traidora e teu lugar é com eles. Joana. Tu não a entregaste. O SEGUNDO OPERÁRIO – Os comunistas é que tinham razão. JOANA. O PRIMEIRO OPERÁRIO – E aqui nós não ficamos sabendo. mas a senhora quer continuar. oh verdade! Que a neve em tempestade Inoportunamente mascarou com sua noite. Eles teriam ficado apesar da violência da polícia. estás aí! Onde tinhas te metido? Entregaste direitinho a carta? JOANA – Não. E aquele que chega a bom porto. Nela estava nosso destino. Lá dentro só se fala em violência. (Joana desaparece na tempestade de neve) Hei! Venha! Ela foi embora! DONA LUCKERNIDDLE 10. mas entregue. fraqueza do corpo! Oh fome. Joana ouve vozes. Cumpriste a missão? Joana volta a andar e uma nova voz a detém. OUTRA VOZ: Joana pára. eu não a darei. Dê a carta aqui imediatamente. Que nada diga. Que sentimentos em nós deixareis sobreviver? . podias dar conta. De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. Pierpoint Mauler as arruinou. para poder se apresentar amanhã bem cedo ao trabalho e de repente eles falam que as fábricas nunca mais abrirão.

BISPA SNYDER – Dona Mulberry. a outro Chapéu Negro – Há três dias um emissário de Pierpoint Mauler. à chuva. Conheci bem um homem. X Humilhação e assunção de Pierpoint Mauler TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS MARTA. é sábado a noite. o suntuoso Mauler. ele possuía dez milhões. Sob um plúmbeo zênite de destinos desconhecidos. Ah. o senhor Pierpoint Mauler. BISPA SNYDER. onde iremos acomodar o nosso público? Chega um pobre. MAULER – Eis aqui um homen marchando até o seu Deus. Um homem começa a levar os móveis para a rua. o banco dos penitentes! E já suas mãos avidamente se dirigem Ao órgão a vapor e ao púlpito. que triste. estamos aguardando. entrando – Pierpoint Mauler está aqui? BISPA SNYDER – Não. na frente do palco : Ouvi alguém procurando um certo Mauler. Ele se levanta e avança até os Chapéus Negros. E as ondas de lama do materialismo Ameaçam a casa de Deus. Quero que a senhora pague o meu aluguel. Exposta outra vez à neve. OS CHAPÉUS NEGROS: Romperam-se os diques da fé Em Chicago. investindo contra ele – A sopa. a qualquer momento. afastada do trabalho. quem vos pode resistir? Eu preciso dar meia volta! Ela retorna sobre seus passos correndo. DONA MULBERRY – Bispa Snyder. O reino de Deus está pronto na minha cabeça. no céu e no inferno. Este homem que foi em sua vida Mais estúpido do que um vagabundo bêbado e repugnante. Mas nós o estamos esperando. . que já se afunda! Mas o rico Mauler virá. Pediram-lhe cem dólares. É Mauler. com certeza! Ele já está a caminho com os seus milhões! UM CHAPÉU NEGRO – Bispa. minha cara Mulberry. O HOMEM – Os fabricantes de conservas querem falar com ele e os criadores o chamam aos gritos. E nós gritamos à plena garganta: Ah. com sopa quente E um pouco de música. De um só golpe o bolchevismo também é enterrado. A massa espera. Vejam que já balança. é tudo o que eles querem! Aqui não tem mais sopa! Aqui só tem a palavra de Deus! Ouvindo isso eles vão logo embora. Eu o conheci: era um imbecil. Ele sai.43 Frio da noite. Salvar-nos com o seu dinheiro! BISPA SNYDER Há exatos oito dias Que nos matadouros onde as máquinas enferrujam. que prometeu nos ajudar. se ele pudesse vir. nossa boa cidade. MAULER. UM HOMEM. coloque os móveis na rua. OS CHAPÉUS NEGROS: Estão levando. BISPA SNYDER – Sente lá atrás e fique quieto! Ele se senta. DONA MULBERRY – Meu caro Dick. Liberada. ou que deixe o imóvel. que aliás é muito barato. posto que sem abrigo. veio nos dizer que Mauler em pessoa estava disposto a assumir o nosso aluguel e a organizar conosco uma grande campanha em favor dos pobres. o rei da carne. agora os pegamos. Uma boa orquestra à mão e sopa Bem grossinha: terminam para Deus todas as preocupações. Para nos salvar neste instante. Buscam-no por toda a parte.

Tiremos de nossas paredes as máximas. OS MÚSICOS: É deste aí então que vocês esperavam O dinheiro para nos pagar? Então nós vamos embora. BISPA SNYDER – Tu és Mauler? MAULER – Sim. Aqui estou agora. devolva-me os meus quarenta aluguéis! MAULER: Vós desejais. gritando – E sem dinheiro? (Aos Chapéus Negros:) Façam as malas. não o seu dinheiro. Sentados sobre as margens do lago Michigan. BISPA SNYDER. inclinado sobre os livros de contabilidade – Não direi o que estou calculando. Mauler canta com eles. meus amigos. Eles cantam ainda “Entrai na batalha”. Se aproxima já Com os seus milhões. construir vossa casa . deu cabo de si mesmo. Ele trazia o seu coração. já. eu vejo. que tenha caído tão baixo. sem nada. E sobre nós a neve envia suas tempestades Em um inverno no qual crescem os rigores. OS CHAPÉUS NEGROS – Ele já chegou? MAULER: Um hino. Silêncio! Tragam-me o livro das faturas e contas por pagar: estou nessa parte. é certo. DOIS MÚSICOS: Um pedacinho só. Culpado. MAULER: Eu me acuso de ter explorado o meu próximo. Joana. e dilacerado de remorsos. OS CHAPÉUS NEGROS: Não perca a confiança! Homem de pouca fé! Ele virá. Ouçam então a minha confissão: Aqui jamais se ajoelhou Ninguém. BISPA SNYDER. Por sete dias apertei a garganta Desta cidade até sufocá-la. mas arrependido. Os músicos tocam um hino. Abusado da força e espoliado todo o mundo Em nome da propriedade. recusou-se a dar o dinheiro. Não podemos mais pagar as nossas contas. Mauler! MAULER: Mas quero acrescentar que no sétimo dia Fui despojado de tudo. Diante de vós.44 No fim. Mas quebrou a nossa cara De uma vez por todas. Ele pega dois Chapéus Negros pelo braço e senta-se com eles no banco dos penitentes. Todos os pagamentos estão suspensos. seguindo a letra por sobre o ombro de um dos Chapéus Negros. BISPA SNYDER Silêncio! Fora. dirigindo-se aos músicos que vão embora: Nossas orações eram pelo rico Mauler E foi Mauler o arrependido que entrou. ar ausente. UM CHAPÉU NEGRO – É ele. E esse gesto tocou os nossos corações. Sentados sobre seus últimos bancos e suas últimas cadeiras os Chapéus Negros cantam desordenadamente seus últimos hinos. CORO DOS CHAPÉUS NEGROS. sim. Os Chapéus Negros cantam. Jogou no mar seus milhões. olhos voltados para a porta. todos para fora! A Mauler: E tu primeiro! Onde estão os quarenta meses de aluguel Desses não-convertidos que Joana enxotou? E vejam só o que ela me trás em troca! Devolva-me. eu vos rogo! Pois eu sinto O coração ao mesmo tempo leve e pesado. Apenas nos resta chorar. Passar bem. Envolvamos em nossas bandeiras derrotadas Os livros de cânticos.

salva tua alma. E hipotecando até o último lápis Para trazer de Quebec. Um vitelo ou um porco. o que existisse de gado. é aqui então que te escondes? Paga nossos bois ao invés de fazer penitência. Que projeto tendes agora. Eles também estão muito pálidos. comprometendo suas casas. Um zênite ameaçador de pensamentos desconhecidos. No mercado perturbado. firmas de grande renome. e a noventa e cinco Comprou-os todos. No ciclo dos astros ou das mercadorias. Ninguém jamais pode fugir da lei. paga-nos o gado! GRAHAM. partistes. durante sete horas. que fareis? Entram os criadores em grande agitação. assumindo seus deveres. Prometiam até o gado por nascer. Para mim o humano era aquele a quem eu podia explorar. Em três dias. Na porta. Mal viu esses bois vindo ao longe. Vossa função seria apenas a de brincar na relva. desde a aurora. E Wallox e Brigham. tomado de loucura. agigantou-se E a todos nos precipitou no abismo! MAULER: Oh! Eternos combates! Em nada são diferentes Desde os tempos antigos onde os homens Com uma barra de ferro rachavam-se as cabeças! GRAHAM: Recordai que estávamos à vossa mercê. os reis da carne vêm ao seu encontro. Viram-se os preços Oscilarem.45 Sobre o que há de pior em mim. Concluo eu o seguinte: o Mauler que sou Não é aquele do qual precisais. OS REIS DA CARNE: Perdoai-nos. da Argentina. Este espetáculo atroz apavorou o ancião. Ah! Se não tivesses aliviado tanto os nossos bolsos. Mas nós estamos perdidos: Em torno de nós. Mauler. Bispa. quem nos derrubou. Mas se chamássemos de homem àquele a quem se ajuda Daria no mesmo: necessitaríeis sempre De gente a ponto de afogar-se. Dá o dinheiro. Mas Slift. Não terias a necessidade de aliviar aqui A tua consciência. Que não ficou só por muito tempo. Acorreram todos em ajuda. Os complexos pensamentos de vosso imenso espírito. Relatarei o combate memorável Que. E sobre eles atirou-se. Mauler. nobre Mauler. Estão pálidos como o linho. O Banco Nacional gritou: “Alto”. Mauler. Lançou. E tudo o que de longe parecesse um boi. e sobre nossas cabeças. Era vosso todo o gado. como um bêbado sedento Que ao mar esvaziou sem se satisfazer E lambe avidamente cada gota que encontra. Que vos pertencia. Slift apertou Ainda mais forte a nossa garganta. tomando a frente : Mauler. em poucas palavras. OS CRIADORES: Maldito Mauler. Ele tenta sair. eles iriam trazer. O ancião venerável. Loew e Lévi. ao meio-dia. com voz dura. Pelos contratos que nos obrigavam A entregar de imediato as conservas prometidas. Por vós fomos forçados. o caos. Quando. Dais o nome de homem a quem vos vem ajudar. hesitantes. por ter vindo Atrapalhar neste lugar as tuas meditações. . a comprar gado. gado canadense. Eu sei muito bem. chorando. Que a constatação vos enche de amargura. Subiu os preços a noventa e cinco. O que pretendeis fazer de nós? Foste vós.

Só um. Slift então gritou: “Cem”! Poderia ouvir-se um alfinete cair. ele ao menos vale vinte e cinco centavos. Com esse gado que ninguém é obrigado a comprar? OS CRIADORES: Sem querer perder a paciência. de rocha em rocha E somente em trinta a queda parou. em um suspiro. um a um. Inúteis portanto. entrego por cinco.E a voz ainda nos alcançava Mesmo com a balbúrdia dos trens que partiam: . quando e com que dinheiro Nos pagarás o gado comprado. O que fazer. de imediato. paravam de viver. E que não foi ainda acertado. Em tudo semelhantes aos antigos corcéis Mordendo. em um espasmo. E nós comprávamos sempre: Nós precisávamos comprar. bancos. Ouviu-se nesse dia os jovens estagiários. obstinados. isto é. Aí está o que tornou o contrato sem valor Apertastes muito forte. Que nos píncaros se encontrava. E os jovens bois de pêlos reluzentes Engordados com tanto cuidado. MAULER: Agora mesmo. os fabricantes apáticos Depositarem a vossos pés suas fábricas fechadas. com olhos marejados. os vívidos vitelos. Como a água que cai na cascata. Vertiginosamente. Nós queremos que nos digas Como. Até os simples contínuos. Rangerem os dentes. os agentes fechando suas escrivaninhas. comprar. os cavalos inimigos. Eu quero para hoje”.. é sabido.. a carne de boi.46 Mas Slift gritou: “Três dias não. e então se retirarem. que travaste a batalha Que deixei a teus cuidados! SLIFT: Corte-me a cabeça! MAULER: E de que me serve tua cabeça? Dá-me o chapéu. Slift. Como definha uma esponja espremida. E como contratos nulos não impõem compras. agora. E Brigham arranca a barba aos gritos: “Noventa e seis”. quando levamos às estações De nosso longínquo Missouri Com muito sacrifício. Eles precisavam entregar. Naquele instante. Do outro eu preciso. Os corretores. o velho Lévi disse então em voz baixa. golpeia um corretor na barriga. Parando de pagar. diga-me. Lutavam a dentadas. por sua indiferença. Institutos de crédito. De cotação em cotação Os preços caíram e rolaram até os negros abismos. Estão satisfeitos? OS CRIADORES: Há pouco tempo. Seria esmagado como um morango no chão. O sapato. Toda a família nos gritava de longe Com a voz embargada pelo trabalho duro . Casas até então sólidas e poderosas. se por um acaso Um elefante se arriscasse pelo interior da Bolsa. tomados de desespero. na batalha. E viu-se. E em silêncio também os bancos desmoronaram. mudos. Célebres. Lançaram-se um a um nesta última batalha. Porque não mais podemos honrar os contratos. Sob nossos olhos. Mas alto o bastante para que todos ouvissem: Para pagar-lhes tomem então nossas fábricas. Com esse chapéu e este sapato: Dez milhões o chapéu. fomos estrangulados E de que adianta estrangular um cadáver? MAULER: Foi assim então. e os preços subiram. Lévi. baixou. Lévi.

Como voltar para nossa terra? E que diremos a eles. O negócio só é possível.. Outra vez responsável. a quem mandavam cartas desse tipo. Não quero. ao contrário. Mauler. GRAHAM – O que não é possível? MAULER – Tenho amigos em Nova Iorque que. esperamos” E agora. Nem todos aqui em baixo poderiam ser ricos. Ele estende-lhes a carta. amigos. condescender. Não. nós aconselhamos a fazer um acordo com os criadores para reduzir o rebanho. Agora. de Nova Iorque. para que comprasse carne. vocês estariam dispostos. GRAHAM – Mas então é Wall Street? Um murmúrio percorre o ambiente. é muito a contragosto. Não ter fartura de bens terrestres.(Ele abre a carta e lê de canto) “Escrevemos a você recentemente. mostrando o lombo vazio E nossos bolsos também? Como. Abandonai.. Compreendido como sendo de interesse geral. rapazes. assumir a empreitada. OS FABRICANTES E OS CRIADORES: Desejarias. Rockfeller. O projeto teria talvez. Neste caso. MAULER: Em nós a consciência. para que os preços voltem a subir. compreendei.47 “Ei.” Não. E voltar até nós? Pensai. Estariam vocês dispostos a repetir aos quatro ventos . entendei. Pois ainda creio ouvir O rumor dos matadouros. A Snyder: Existem muitas dessas lojinhas Onde se vende a Bíblia? BISPA SNYDER – Sim? MAULER – E como elas vão? BISPA SNYDER – Mal. MEYERS – Quem são esses amigos de Nova Iorque? MAULER – Morgan. Seus amigos de Nova Iorque. MAULER: Ou seja. Pois os preços do gado vão subir. Providos de sopa quente e de boa música.. esta caça fatigante. nobre Mauler. Mas nossa pobreza não é. elas vão mal. não bebam todo o dinheiro. Julguem vocês mesmos. voltar para casa? O HOMEM DE ANTES. mas são numerosas. Mas se fizéssemos uma grande promoção De sua instituição. Nossa pobreza é termos perdido O sentido dos valores mais elevados.. Seus bens. Sancionado pelas instâncias superiores. neste estado. Alguma chance de sucesso. De um asilo necessário para os casos mais graves. o que faremos. De máximas sagradas e escolhidas com grande cuidado. Deixando as sublimes esferas onde meditais. Mas para mim. nós estaremos de bom grado à sua disposição. Jogai sobre vossos ombros o jugo. pensai no caos Que ameaça a tudo engolir. E o barulho das metralhadoras. MAULER – Eu costumava ser esse Mauler. sozinho. Como tudo de agora em diante Me parece diferente. pelo que dizem. Se assim fosse concebido. Cuja voz está a tal ponto asfixiada. caro Pierpoint. nós lhe forneceremos amanhã mais detalhes. é impraticável. entrando – Mauler está? Uma correspondência para ele. conhecem um meio de sair desta. estão para sempre perdidos. MAULER: Se o faço. Caro Pierpoint. E dado que de vós necessitamos. isso não é possível.

Digamos: a maior parte.Pois eis Chicago outra vez agitada A greve geral. Miséria e fome. Vê que são eles os compradores! Seja como for. nós decidimos. não poderíamos Doá-lo àqueles que esperam lá fora E quem sabe utilizá-lo melhor? MAULER. Não tem outra causa a não ser Que há carne demais. dizem. supérfluos. Elas trarão a calma e a ordem. MAULER. mas se o gado tem tão pouco valor Que pensam em queimá-lo. OS FABRICANTES – Que cérebro! MAULER.48 Que nós somos uma gente valorosa. queimar um terço do gado existente. O mercado foi saturado este ano. Toda essa gente aí fora: Eles são os nossos compradores! Dirigindo-se aos outros: É incrível. Eu compreendo o senhor. mas olhando bem Quem vê além das aparências das coisas. Seria muito importante. Então. Eu fico com a metade das ações. pedindo a palavra: Perdão. E que. você não compreendeu A questão de fundo. Chapéus Negros. meus amigos! Eles cochicham. tem seus defeitos. Em que em nossas cidades os problemas não têm fim. Em conjunto. Será preciso demitir um terço dos operários: Também de mão de obra o mercado está saturado. ou melhor: quase todos Mas é o único meio de salvar o sistema De vendas e compras no qual vivemos. Eles podem nos parecer inferiores. é eminente -. desordem e violência. Limitar o rebanho oferecido no mercado. que deseja Fazer o bem. Eliminar o estoque excedente atual. . Enfim. Elas impedirão que em sua brutalidade Um povo. quebre suas ferramentas E destrua assim seu próprio ganha-pão. . E é por isso que os preços caíram a zero. é lógico. TODOS – Não há outra saída! MAULER – E também precisaremos reduzir os salários! TODOS – É o ovo de Colombo! MAULER: Qual o objetivo dessas medidas? Nesta noite de sangue e confusão. para puxar os preços. aos criadores : Escutem. sorrindo: Minha cara bispa. Meter um freio à anarquia da criação. que nós subvencionaremos Fartamente a sua missão que contribui Com a manutenção da ordem. ofuscado. mais ainda. Nós o faremos. É preciso limitá-la. criadores e industriais. é claro Que entre vocês estivesse Joana. É por isso. nesses tempos de desgraça? Pois serão necessárias medidas draconianas Que poderão parecer duras porque irão Derrubar alguns e. E mesmo que muitos não compreendam. Esta dificuldade pela qual estamos passando Está a ponto de ser superada. Todos sorriem longamente. E às vezes inoportunos. Nesse tempo de humanidade desumanizada. BISPA SNYDER – Quase todos. TODOS – Que solução simples! BISPA SNYDER. aos fabricantes: Faremos uma fusão de suas indústrias Em um só monopólio.

o mercado vai ser curado! Outra vez saímos do ponto morto E realizamos uma obra difícil. Toquem a música e nós mesmos Seremos os primeiros a nos sentar Para elevar nossos corações a Deus. De sopa encham os pratos. Os que aqui chegarem. SNYDER – Abram as portas! A porta principal é aberta. As coisas retomaram o rumo que nos agrada.49 Cuja face por si só já inspira confiança. a seu lado. Imóvel. Música de órgão. Nossos planos outra vez se impõem. MAULER: Abram agora a porta principal Aos homens cansados e cheios de preocupação. Passam apenas alguns grupos de operários. penteados e carecas. UM DELES – Quem são eles? O OUTRO Nenhum deles Pensou só em si mesmo. UM CORRETOR. UM DELES – E por que foram presos? . para que nenhum escape! Eles estão a caminho. entrando precipitadamente – Escutem a boa nova! A greve que nos ameaçava foi sufocada. cantam. eles chegam até nós. estamos prontos! Já estão chegando! A miséria os traz aqui como um rebanho! São obrigados a vir. apanhem-no! Lazarentos e descalços. Eles combateram Pelo pão dos outros. JOANA. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Todo aquele que aqui entrar. não deixaremos! Sejam bem-vindos. Joana segue com o olhar os prisioneiros. olhar fixo na porta: Eles terão de vir. OS CHAPÉUS NEGROS. estão chegando! Daqui eles não escapam. Ninguém pode escapar: tranquem as saídas. Ela então ouve. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Vamos. dois homens conversando. apanhem-nos! Sejam bem-vindos. joguem as grandes redes! Sejam bem-vindos. Sejam bem-vindos. Quando estão cegos e surdos. Eles vêm até nós para chorar. Foram presos os sacrílegos que perturbavam a paz e a ordem! SLIFT: Podem respirar. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! XI NOS MATADOUROS EM FRENTE AO ARMAZÉM DAS FÁBRICAS GRAHAM Os matadouros estão quase vazios. Passam então os dois dirigentes operários escoltados por soldados. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Tranquem as saídas. Quando perdem o trabalho. chega e pergunta – Vocês viram passar três homens que vinham buscar uma carta? Ao fundo ouve-se gritos que se aproximam. Nenhum deles tem chapéu. Até nós. joguem as grandes redes! Eles saíram agora de sua última casa! Deus lançou sobre eles o frio! Deus lançou sobre eles a chuva! Eles terão de vir. Perseguidos sem trégua.

Nenhum morre de barriga cheia. foi reduzido em um terço. Deixem ela aí no chão. Em nós podem por fé. mas apenas para dois terços dos operários. chega ao termo de sua vida. SNYDER: Quando nos jornais falarem de criminosos abatidos. não é ela. amparada por um policial. não é a nossa Madona dos matadouros? Hei. Golpeados. o salário também. Durante alguns segundos eu a vi distintamente. Nenhum come seu pão tranqüilamente. esticando o braço com a carta na mão. OS JORNALISTAS – Vejam só. Um grupo de pobres entra. Joana se vira. As rajadas de neve a impediram de ver os soldados. Esta aqui não é das nossas. Aqui está! Seriam necessárias muitas como ela. Nem é enterrado com decência. O POLICIAL: Eis aqui uma sem-teto. Enfim o sucesso chegou E tudo acabou bem. Todos perecem antes do tempo. pisoteados. você aí! As coisas deram errado. carregando lanternas. Ou de malfeitores postos na cadeia. Joana cai desmaiada. – Ela deve estar aqui. XIII MORTE E CANONIZAÇÃO DE SANTA JOANA DOS MATADOUROS Agora o templo dos Chapéus Negros está ricamente mobiliado. UM DELES – Por que não se ouve falar deles? O OUTRO O OUTRO greve. entretanto. Divididos em grupos estão os Chapéus Negros. XII EM FRENTE AO ARMAZÉM DA FÁBRICAS GRAHAM Um grupo de operários entra. JOANA – Os operários concordaram? OS JORNALISTAS – É claro. As fábricas reabrem. a sorte nos sorriu. Nenhum. saiba que são eles. UM DELES – Sempre será assim? O OUTRO – Não. A greve geral fez água. que seguram bandeiras novas. os açougueiros (fabricantes de conservas) os criadores e os compradores. Seu último endereço Teria sido aqui. como se ainda quisesse entregá-la: . Era uma velha operária.50 – O homem injusto atravessa a rua à luz do dia. UM DELES – O que farão com eles? O OUTRO: O salário deles é baixo e seu trabalho útil à maioria. JOANA. Joana. E a carne vai subir. Quando os soldados vierem a recolherão. Lançados em terra profana. A decisão sobre a greve geral só chegou a uma parte deles. Não. à sua frente. Um deles a derrubou com uma coronhada. os jornalistas a interpelam. mas o justo se esconde. Recolhida doente Nos matadouros. Nos vales e nos cimos. Nós soubemos ser sublimes E vulgares quando necessário. e a esta a polícia dispersou com o uso de força. Ela veio daquele lado e aqui ela gritou para os nossos que as empresas municipais iriam decretar OPERÁRIOS Sim. Deus outra vez se impôs.

Joana dos Matadouros. intercedendo pelos pobres e mesmo proferindo discursos contra nós. Matéria a sua altura . um serviço tão pequeno Foi só o que em toda a minha vida Me pediram para fazer. Chegou na hora certa. A vida tranqüila de um cordeiro. a quem não se pode mais explorar! Comei a sopa! Ah. Desta vida intolerável E atingir o inconcebível. E em sua marcha altaneira Para evadir-se ao mundano. Que Joana exorcize o mal E que por nós ela interceda. E eu não fiz! Enquanto os pobres tomam assento nos bancos para comer a sopa. Foi necessário. pois ela nos ajudou a atravessar a tormenta dessas semanas difíceis. Quando se poderia ter alterado o curso das coisas. dando provas de humanidade nos matadouros. Eu falhei com os perseguidos. dirigindo-se a Joana: Como ela ainda está perturbada. empregando todos os meios. Ela vai muito adiante. MAULER: Uma alma que exala sublimes impulsos Suporta mal. SLIFT – Esta é nossa Joana. E tinha sonhos para milhares. Mostrá-la entre nós provará o quanto nos importam os sentimentos de humanidade. também humanos! JOANA. Quando o meu esforço. E só servi aos perseguidores. Intercessora dos pobres. MAULER: Que tome posição em nossas fileiras Esta alma inocente e cândida E que sua bela e pura voz Misture-se aos cânticos de nosso coro. Nós faremos dela uma santa e não economizaremos em homenagens.51 Jamais receberá a carta Aquele que agora está morto. por menor que fosse. Vamos colocá-la em destaque. E outra vez o mundo Percorre o antigo ciclo. Pelo contrário. sua térrea natureza. E seus erros. Slift discute com Snyder e com os fabricantes. Eu faltei. marchava para a luz! Seus atos eram os de um ser humano. OS CHAPÉUS NEGROS: No final. O ideal. eu poderia levar. e ultrapassa o objetivo. infelizmente. Consoladora dos baixios! JOANA: Que vento sopra nesses baixios? Neve. o infinito. Se eu apenas tivesse entregue A carta que me confiaram! OS CHAPÉUS NEGROS. Por uma boa causa. toda a obra Onde o espírito não encontra. Ela que. na noite. JOANA: Eu falei em todos os lugares. Vós. enquanto as moças dos Chapéus Negros a vestem novamente com o uniforme: Ouve-se outra vez o rugir das fábricas: Outra vez se desperdiçou a chance De colocar um freio a esses excessos. BISPA SNYDER: Levanta-te. Eu o neguei. quais os gritos que abafas? Comei vossa sopa! E não desperdiceis esse resto de calor. Ela será a nossa Santa Joana dos Matadouros.

Exceto aquele que muda o mundo Definitivamente: isso é o que é realmente necessário. O que está em cima está em seu justo lugar. qualquer que seja. Porque o sistema é construído assim: É apenas exploração e desordem. Contrário à razão. Sistema bestial. Precisa-se do chão. No topo e no chão. caí do céu! Infelizmente! Bondade sem conseqüência! Sentimentos Que não fizeram a menor diferença! Não. Mas também no alto. A esses elementos dos baixios! JOANA: Mas os que estão por baixo são assim mantidos Para que os de cima lá continuem. Que cada um. JOANA: É uma grande verdade Que aprendi e que vale para todos E morrendo eu vos digo: Vossos bons sentimentos. Deixando sem medo um mundo por onde passei muito rápido. OS FABRICANTES: O resultado. como do topo. o que foi que eu fiz? Nada. OS CHAPÉUS NEGROS. eu não transformei nada. Entre os do alto a baixeza é sem limites. ignora-se o que se passa em baixo. Não esqueçamos que ela esteve nos matadouros. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES. O que está em baixo tem grande importância.Isso não basta – Deixai um mundo bom. de maneira a encobrir a voz de Joana: Para que até o céu se levante o edifício. JOANA: Pois entre os de cima e os de baixo O abismo é mais profundo Que entre o Himalaia e o fundo do mar. Nunca se sabe em baixo. Se não for uma ajuda real. Maldito aquele que apelar A essas massas essenciais Mas sempre insaciáveis. Quaisquer que sejam as aparências. Que nada seja considerado como boa ação. E sem descanso nem folga Realize seu dever. que significam Se não se manifestam em nenhum lugar? De que serve vosso saber Se o que sabeis não tem conseqüência? Eu mesma. Eu vos digo: Quando chegar a vossa vez de deixar esse mundo. Não tenhais a preocupação de terem sido bons . Mas que não sabem o quanto. fique no lugar Que lhe é atribuído. falando alto. Eu.52 Resta fragmentada Sem alma e sem vida. Que ninguém seja tido como honrado. E dois idiomas diferentes Os homens têm a mesma face E não se reconhecem mais. é magnífico Sempre que espírito e negócios se aliam. dois pesos e duas medidas. a Joana: Seja boa e se cale! . GRAHAM – Ela não pode proferir discursos que não sejam razoáveis. Pois se dele esquecer Perturbará nossa harmonia. então. A essas tropas indispensáveis. Mas nada mudará se eles melhorarem. para os exploradores. E o que se passa no alto.

contraiu a serviço de Deus uma pneumonia nos matadouros de Chicago. os alto-falantes começam a transmitir notícias que espalham o medo: “Bank of America e Citibank estão de pires na mão” “Revolta contra os cupins financeiros conflagra Londres” “Múltis drenam do país US$ 3. BISPA SNYDER – Joana Dark. Combatente e mártir. Em suas compras. tudo concedei! Hosana! Concedei-lhe a cidade e o Estado! Hosana! Aos vencedores. Não. JOANA: E do mesmo modo. quando vos disserem. infelizmente. Sempre necessário . é verdade. Denegrindo a ti mesmo. Onde reina a violência Não há outro recurso senão a violência. para abafar o discurso de Joana. Só dos homens pode vir ajuda. Chegar ao topo implica Pisar na cabeça daqueles que estão por baixo. sobretudo. SLIFT – Escutem. A palavra de Deus. OS AÇOUGUEIROS: E nem pensa em tirá-los. invisível. de esquecer os remorsos. Precisarás deles sempre! OS CHAPÉUS NEGROS: Olha para cima. Não esqueçam. JOANA: Se alguém um dia vos disser Que existe um Deus. Não esqueças: tua consciência está lá! Atenção. Aos ricos concedei a riqueza! Hosana! Também a virtude. Batei com uma pedra em seu crânio Até que arrebente. obedeça! OS AÇOUGUEIROS: Quem se mover no espaço Nunca poderá subir: Subir é subir sobre alguém. Mas evita. a eles concedei! Hosana! A quem tudo possui. de século em século.Sobretudo se forem compras especulativas – Esse Verbo que. Sempre se metamorfoseia. Todos. Onde vivem os homens. É preciso também golpear-lhes o crânio com uma pedra.266 bilhões só em dez dias de março” “BC assalta U$ 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street” “Montadoras almoçam os R$ 8 bi do crédito e mantêm ameaça de demitir trabalhadores” “Deficit dos EUA deve chegar a US$ 9 tri entre 2010 e 2019” . distingam com um sinal! Hosana! Enquanto eles cantam os versos. OS AÇOUGUEIROS: Podes fazer qualquer coisa! OS CHAPÉUS NEGROS: Mas faça-o Sempre com muito escrúpulo! Espírito contemplador. Que podeis elevar-vos moralmente Mesmo com os pés enfiados na lama.53 É preciso. ou seja. é preciso fazer algo para tirar a atenção do que ela fala. digam qualquer coisa. Do qual podeis esperar ajuda. mas que seja bem alto. sempre mais alto. Falem. comerciantes. vinte e cinco anos. MAULER: Deves agir. cantam a primeira estrofe do hino. ferir! OS CHAPÉUS NEGROS: Nunca esqueças do sangue que mancha teus sapatos. O Verbo magnífico.

Não dá mais sinais de vida. Por um nobre ideal. tocada pela morte. A voz de Joana já não se ouve: Concedei aos ricos misericórdia. por que criaram tanto gado?” “Alucinados. Snyder e Mauler vão até ela. MAULER – Dêem uma bandeira a ela. Hosana! Ajudai a quem tudo possui. mas ela cai. levanta e vira. O palco é iluminado com uma luz rosada. Comove-nos profundamente. foram vocês que se recusaram a reduzir também!” “Vocês são os únicos culpados!” “Enquanto não acabarem com vocês não vai melhorar!” “Faz tempo que o destino de vocês está selado!” “O que estão esperando para prender vocês?” Todos cantam a segunda e a terceira estrofes do hino.54 “Empresas dão calote recorde para remunerar seus acionistas” “Recessão ainda irá se agravar no Japão.” “Foram as tarifas das estradas de ferro que nos esfolaram. que manipulam o dinheiro a rodo. Hosana! Juntai vosso riso aos que riem. Hosana! Piedade com aqueles que ignoram a fome. Em seguida cai nos braços delas. Hosana! Durante esta estrofe. A generosidade De uma alma sem mácula. vinte e cinco anos. A um sinal da bispa. Colocam a bandeira em suas mãos. Em duas tentativas ela recusa o prato. Bolsa de NY cai 4. sempre ele aspira Às esferas mais elevadas. até cobri-la totalmente. Nós que temos a alma comum! E então desperta a boa alma Que temos no fundo de nosso coração. morta de pneumonia nos matadouros. Todos ficam muito tempo de pé. A carne para a terra o arrasta! MAULER: Ai! Um duplo desejo dilacera meu pobre coração. Um desejo vive no coração do homem. Hosana! Esmagai o ódio. que vos ajuda também. MAULER: Como a pureza De um ser inocente.” “Foram os especuladores de grãos que encareceram o gado. Qual um punhal. Hosana! Notam que Joana para de falar. Ajudai vossa classe. Hosana! Com mãos cheias. se não tivessem degolado tantos porcos!” “Criadores miseráveis. para sua grande pena. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES: Desde que o mundo é mundo. sinto-me atraído: . Hosana! Nesses braços que vos estendem. Aos astros. mudos de emoção. BISPA SNYDER – Joana Dark. combatente e mártir. Hosana! Que seus crimes terminam bem. colocam-se suavemente todas as bandeiras sobre Joana.7%” “Crise já eliminou 6 mi de empregos nos EUA” “Incertezas rondam fábricas da GM à beira do fechamento” Sob o efeito dessa terríveis notícias os personagens trocam entre si acusações e diversos insultos como esses: “Açougueiros sujos. por que não empregaram mais gente e pagaram melhores salários? Quem esperam que compre a nossa carne?” “Foram os intermediários que fizeram subir tanto a carne de gado. até o fundo cravado. Hosana! Oferecei a vossa graça. diz governo ” “EUA mudam socorro para bancos.” “Os bancos nos arruínam com os juros que exigem!” “Quem pode pagar tanto dinheiro para estocar o gado e pelos silos de grãos?” “Por que vocês não começaram a reduzir a produção?” “Nós começamos. as mulheres tentaram oferecer a Joana um prato de sopa. Pelo espírito. Infelizmente. a serviço de Deus. ao firmamento Um impulso múltiplo o atira. na terceira vez ela o pega.

Homem! Luta sempre contigo mesmo! Sigas sendo este ser uno e sempre dividido! Cuida de tua alma boa.55 Desejo a abnegação. como de tua alma vil. não consigo resistir Inexplicavelmente! TODOS: Em cada homem habitam Duas almas opostas. Ele precisa cuidar de ambas. Cuida bem das duas! . Longe de querer escolher uma delas. Cuida de tua alma terna. como de tua alma grosseira. desejo o altruísmo Mas à atração pelo lucro.