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I O rei da carne, Pierpoint Mauler, recebe uma carta de seus amigos de Nova Iorque CHICAGO. OS MATADOUROS
MAULER,

lendo uma carta. – “Parece-nos evidente, caro Pierpoint, que já há alguns dias o mercado da carne está saturado. E, no sul, as barreiras alfandegárias resistem a todas as nossas ofensivas. Acreditamos, portanto, ser prudente, querido Pierpoint, não mais envolver-se com este negócio...” Acabo de receber essas indicações de meus bons amigos de Nova Iorque. Lá vem meu sócio. Ele esconde a carta. CRIDLE – Por que esse ar tão sombrio, querido Pierpoint? MAULER: Lembra-te, Cridle, daquela caminhada Que fizemos uma vez, pelos abatedouros? Era noite. Diante de nossa máquina nova, Cridle, lembra-te, nós vimos um touro Claro e nobre, dirigindo aos céus seus grandes olhos vazios. Ele recebeu diante de nós o golpe que o abatia: E tal golpe me atingiu até o fundo do coração! Há sangue demais, Cridle, em nosso negócio! CRIDLE: Amigo, vens outra vez com tua antiga fraqueza. Quem acreditaria, Pierpoint? Tu, o maior de todos, O rei dos abatedouros, dos açougueiros o terror, A morte de um touro louro te enche de dor! Não conte, eu te rogo, tal segredo a ninguém A não ser a mim! MAULER: Oh, meu fiel amigo, Por que me levaste a visitar o abatedouro! Durante os sete anos em que estou no negócio

Eu evitei fazê-lo. Eu não posso suportar Um comércio tão sangrento, não tenho mais forças: Eu me retiro de imediato... Cridle, queres a minha parte? A terias por muito pouco; a ti, a preferência: Ninguém conhece o negócio como tu. CRIDLE: Muito pouco? Quanto? MAULER: Velhos amigos como nós dois Não podem disputar muito por valores. Dez milhões! CRIDLE: Não seria caro, se não houvesse Lennox Que, pela carne em conserva, lata a lata se bate, E estraga o mercado com seus preços baixos. Tirará nossa pele, se não tirarmos a dele. Enquanto ele estiver em pé, e só tu podes abatê-lo, Não posso aceitar tua proposta. Deverás, até lá, com tua mente fértil, Encontrar uma saída. MAULER: Não, Cridle, Esse coração treme ainda com o grito do touro! É preciso então que Lennox caia rápido, Pois quero, doravante, viver como homem de bem E não mais como açougueiro. Saiamos, Cridle, e eu te direi A forma de abater Lennox. Mas tu deverás então tirar esse peso do meu coração E tomar a frente de nosso negócio CRIDLE: Quando Lennox for derrubado Eles saem. II

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O desmoronamento das grandes indústrias da carne A - DIANTE DA FÁBRICA DE ENLATADOS DE LENNOX
OS OPERÁRIOS

Nós somos setenta mil Nessas fábricas de conservas E nossos salários são tão baixos que não podemos mais [sobreviver. Ainda ontem, de surpresa, reduziram nosso pagamento E hoje, um novo aviso: “Os que não estão satisfeitos, sempre podem deixar a fábrica!” Saiamos então, e todos juntos. Ao diabo esse salário que diminui todos os dias. Silêncio Há muito tempo já esse trabalho nos nauseia: Esta fábrica é para nós um verdadeiro inferno E só pode nos manter aqui o medo, O medo duplo, de Chicago e do inverno. Mas agora, doze horas de trabalho Já não garantem nem um pão seco Nem dão para comprar um trapo velho. Melhor partir E morrer de uma vez. Silêncio Pelo que nos tomam eles? Acreditam então Que nós somos gado, dispostos a tudo? Tomam-nos por jumentos? Melhor morrer! Deixemos a fábrica Agora mesmo. Silêncio O que houve? São seis horas! Por que não abrem, corja de esfoladores? Seus bois estão aqui, bando de açougueiros! Abram! Batem no portão.

Terão eles nos esquecido? Risos. Abram! Queremos entrar Em suas imundas pocilgas E suas cozinhas infectas Para preparar guisados indigestos Para os que ainda podem pagar. Silêncio No mínimo exigimos, O salário anterior, que já não dá para nada. No mínimo A jornada de dez horas e, no mínimo... UM HOMEM QUE PASSA: O que vocês estão esperando? Não sabem que Lennox fechou? Gazeteiros de jornal aparecem na cena GAZETEIRO – Lennox, o rei da carne, forçado a fechar suas fábricas! Setenta mil operários na rua. Lennox vítima da concorrência feroz imposta por Pierpoint Mauler, rei da carne e da responsabilidade social!
OS OPERÁRIOS

Desgraça! O próprio inferno Diante de nós fecha suas portas! Nós estamos perdidos. O impiedoso Mauler Aperta a garganta de nosso explorador E somos nós que sufocamos! B - UMA RUA – A Tribuna de Chicago, edição do meio-dia! O rei da carne e da responsabilidade social, Pierpoint Mauler vai inaugurar os Hospitais Pierpoint Mauler, os maiores e mais caros do mundo! Dois transeuntes olham para o fundo do palco, “vendo” Mauler. UM TRANSEUNTE, ao outro – Aquele é o Pierpoint Mauler. Mas quem são os dois que o acompanham?
GAZETEIRO

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– Seguranças. Só anda escoltado, com medo de apanhar de alguém.
O OUTRO

Para levar Deus ao coração de um mundo que desaba E nele restaurá-Lo, pela ação dos mais humildes. Os Chapéus Negros andam. Toque de tambores. Durante todo o dia os Chapéus Negros pregaram nos matadouros, mas, quando a noite chegou, os resultados eram quase nulos. DIANTE DA FÁBRICA DE CONSERVAS LENNOX – Dizem que eles estão preparando um grande golpe sobre o mercado de carne. Para nós isso que dizer esperar e passar fome. OUTRO OPERÁRIO – A luz está acesa nos escritórios. Estão lá, calculando os lucros. Chegam os chapéus Negros. Fixam no chão uma placa na qual se lê: “Hospedagem: 20 centavos por noite. Com café: 30 centavos.” CHAPÉUS NEGROS cantando Escutem todos, escutem bem! Tu que te afundas, nós te vemos, Teu apelo por ajuda, nós o escutamos, Teu sinal, nós o percebemos. Parem os carros, detenham o trânsito Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Tu que te escondes, tu que duvidas, Olha para nós! Olha, Meu irmão, antes que sucumbas! Nós te damos o que comer E nós não esquecemos Que tu não tens abrigo. E, sobretudo, não digas que tudo está perdido: Tudo será diferente, a injustiça nesse mundo Não poderá durar se todos se juntarem a nós, Marchando ao nosso lado Com o único objetivo de ajudar o próximo. Nós faremos avançar os tanques e os canhões
UM OPERÁRIO

Para levar consolo aos miseráveis dos matadouros, os Chapéus Negros deixam a sua sede. Joana empreende sua primeira descida às profundezas. C - EM FRENTE AO TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS
JOANA,

à frente de um comando dos Chapéus Negros: Nesta noite de sangue e confusão, Nesse tempo de desordem organizada, De arbitrariedade consentida, E de humanidade desumanizada, Nesse tempo em que em nossas cidades Os problemas não têm fim; Nesse mundo, imenso matadouro, Em que nos chegam rumores de violência iminente; Para impedir que, em sua brutalidade, O povo, ofuscado, quebre suas ferramentas E destrua assim seu ganha-pão, Nós queremos reintegrar Deus Pois aos lugares onde realmente vivem os homens Ele não mais tem acesso: Sua glória anda pouca, Seu nome, já quase suspeito. Dos mais humildes, entretanto, ele é a única salvação! Então nós resolvemos Por ele bater nossos tambores nesses bairros; Para que ele penetre no coração da miséria E que sua voz retumbe pelos matadouros. Aos Chapéus Negros: O que faremos agora é uma última tentativa. Pela derradeira vez, nos esforçaremos

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Nós lançaremos ao mar os navios de guerra, E nos ares, os aviões Para conquistar teu pão, meu irmão. Porque vós, os pobres, formais Nesse mundo um imenso exército. Vós que nos escutais Não esperai o amanhã! Desde hoje ajudai, Ajudai ao próximo! Avante! Ao assalto! Empunhai vossos fuzis! Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Cantando, os Chapéus Negros começam a distribuir seu jornal: Apelo às Armas, bem como colheres, pratos e sopa. Os operários agradecem e põem-se a escutar o discurso de Joana. JOANA – Nós somos os soldados do bom Deus. Por causa dos chapéus que usamos, somos também conhecidos como os Chapéus Negros. Nós dizemos que somos soldados, porque formamos um exército e porque, em todos os lugares em que vamos, precisamos lutar contra o crime e a miséria, contra as forças que tendem a nos aviltar. (Ela mesma começa a distribuir sopa) Bem, agora comam esta sopa quente e constatarão que depois vocês verão as coisas com um olhar diferente. Pensem agora qual esperança se pode fundar sobre a felicidade terrena. Nenhuma, absolutamente nenhuma. A desgraça vem como a chuva: ninguém a provoca, mas, entretanto, ela vem... Suas desgraças, digam-me de onde vem? UM DOS QUE COMEM – De Lennox & Cia. JOANA – O senhor Lennox tem talvez mais preocupações do que vocês! O que vocês estão perdendo? Ele, suas perdas se contam por milhões. UM OPERÁRIO – Carne não há nesta sopa, só uma aguinha clara, isso sim. Mas quente, pelo menos, está. OUTRO OPERÁRIO – Fiquem quietos, bando de glutões! Escutem a palavra de Deus! Senão vão tomar o prato de água quente de vocês.

– Silêncio! Queridos amigos, digam-me: por que vocês são pobres? UM OPERÁRIO – Sei lá! Explique você! JOANA – Eu lhes direi. Não é porque vocês não estão cheios de bens materiais – que não chegam para todos – mas porque vocês não têm idéia dos valores mais elevados. É por isso que vocês são pobres. Esses gozos vulgares aos quais vocês aspiram, comer um pouco, ter um bom lugar para morar e ir ao cinema, não são mais do que prazeres frívolos, grosseiros. Enquanto que a palavra de Deus é um prazer mais delicado, mais profundo e muito mais refinado; talvez vocês não possam nem imaginar algo mais doce do que o chantili, mas a palavra de Deus é ainda mais doce. Homens de pouca fé, os pássaros no céu não têm carteira de trabalho, as açucenas do campo não têm emprego e, entretanto, como eles cantam Sua glória, Deus lhes dá alimento. Nós, os Chapéus Negros, fazemos então a vocês uma pergunta muito prática: de que um homem precisa para crescer na vida? UM OPERÁRIO – Um colarinho engomado. JOANA – Nada disso. Para progredir na terra talvez seja necessário um bom colarinho, mas diante de Deus é preciso muito mais que isso, outras glórias. Vocês aos olhos Dele, nem mesmo um colarinho puído têm, pois deixaram suas almas no abandono. Mas então como vocês querem elevar-se, chegar ao que vocês, em sua ignorância, chamam de uma “situação melhor”? Pela força bruta, pela violência? Como se algum dia a violência tivesse trazido alguma coisa além da destruição. Vocês acham que mostrando os dentes conquistarão o paraíso na terra. Mas eu lhes digo, agindo dessa maneira o que se cria não é o paraíso, mas o caos! Um operário chega correndo. O OPERÁRIO: Uma vaga, agora mesmo, acaba de abrir! Um trabalho, um salário, esperam por vocês, Na fábrica número cinco! Que mais parece uma latrina. Corram, rápido. Um operário larga seu prato cheio e sai correndo.
JOANA

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– Ei, você, onde é que você vai? Quando se ocupará de Deus? Vocês não querem nem ouvir falar, não é? UMA MOÇA DOS CHAPÉUS NEGROS – Acabou a sopa. OS OPERÁRIOS: Acabou a sopa; Era só um caldinho ralo Mas era melhor do que nada. Todos se viram e se levantam. JOANA – Fiquem sentados; acabou, mas que importa, uma vez que a grande sopa celeste não se esgota nunca. OS OPERÁRIOS: Quando, afinal, vocês Abrirão as portas de seus porões, Carniceiros, mercadores de carne humana? UM OPERÁRIOS: Com o quê, agora, pagarei A casa pequena e úmida, onde vivemos doze? Eu já paguei dezessete prestações, Mas a última, não conseguirei Seremos jogados na rua. E o chão de terra batida E nosso pedaço de grama amarela, Nunca mais os veremos, nunca mais, Nem tampouco respiraremos seu pestilento ar familiar. UM OUTRO OPERÁRIOS: Aqui estamos, em pé, nossas mãos como pás, E nossos pescoços fortes como tratores. Nossas mãos e nossos pescoços, queremos vendê-los Mas não há quem os compre. OS OPERÁRIOS: E nossas ferramentas - Gigantesca montanha de prensas e gruas – Estão trancadas, detrás desses muros! JOANA – E então, o que se passa? Quer dizer que já se vão? É porque já terminaram de comer? Adeus e obrigado. Mas por que então vocês escutaram até agora?
JOANA

– Pela sopa. JOANA – Continuemos. Cantem! CHAPÉUS NEGROS cantando Avante, entrai nessa luta! No coração da batalha lutai! Cantai com louvor, que cante todo o mundo. Ainda é noite, mas logo virá o dia, Raiando com todo o esplendor, E junto virá Jesus Nosso Senhor. UMA VOZ, do fundo do palco – Estão contratando nas fábricas de Mauler! Os operários saem. Fica apenas uma mulher. JOANA, com ar sombrio: Parem a música! Acabou a sopa, lá se vão eles! Seus olhos são incapazes de elevar-se Mais alto do que a borda do prato. Eles não crêem em nada além do que está Entre suas mãos. Acreditarão em suas mãos? Vivendo cada dia, cada minuto mesmo, Na insegurança, eles não são capazes De se esquecer das preocupações mais básicas. Nada, a não ser a fome, tem sobre eles qualquer influência. Nenhuma canção os toca mais. Nenhuma palavra pode Descer até eles e penetrar seus corações. Aos que a cercam: Parece que nós, os Chapéus Negros, temos por tarefa alimentar todo um continente com nossos poucos talheres. Os trabalhadores voltam. Ao longe, ouvem-se gritos. OS OPERÁRIOS, na frente do palco – Que gritos são esses? Um imenso caudal humano emerge dos abatedouros. UMA VOZ, do fundo: Mauler e Cridle também fecharam. As indústrias Mauler optam pelo lock-out! OS OPERÁRIOS, refluindo:
UM OPERÁRIO

mora aonde? OS OPERÁRIOS: Lá. onde se compram e vendem animais. esse Mauler. que fogem do trabalho. os fabricantes de conservas Lennox e Graham discutem. Ele venderia o próprio ar. Eles encherão tuas orelhas com seus gritos. eu quero vê-lo. Estamos gelados e molhados e precisamos comer. O selvagem Mauler! De um tal monstro a investida É inexorável! A natureza. GRAHAM: E então. Ao fazer mil perguntas. desce cada vez mais baixo. Em um grande edifício: A Bolsa de Carnes JOANA: Eu vou até lá: Eu preciso saber. na frente do palco: Desgraça! De todos os lados chegam ainda Torrentes infindáveis de homens! OS CHAPÉUS NEGROS. pronto. UM OPERÁRIO. OS CHAPÉUS NEGROS – Pare! Não te metas com essas questões. JOANA – Esse Mauler. JOANA – Quero saber. derrubou-te. E vê esvanecer-se sua pureza original. Resultado para nós: barrigas vazias. Eles têm apenas idéias vulgares na cabeça. E o frio supremo Rouba de seu coração todo o calor. JOANA III Pierpoint Mauler é tocado pelo sopro de um outro mundo EM FRENTE À BOLSA DE CARNES Em baixo. Ao fundo. para ele. O que comeste. Na insana esperança de obter uma resposta Que jamais chegará. São reles glutões Preguiçosos. Uma multidão enorme e desesperada. Abrigaram sentimentos nobres. . presa. Tu desaparecerás na lama! Pois a lama entope as bocas Que fazem perguntas sem prudência JOANA: Eu quero saber. Quem abandona o lar protetor. Joana e Marta esperam. Enquanto corríamos atrás de trabalho. torna-se. Torna-se mercadoria. Recebemos mil respostas. Lennox está branco como algodão. No alto. – Não. Todos haviam perdido o emprego E perguntavam onde achar trabalho. OS CHAPÉUS NEGROS – Então teu destino nos parece bem negro. por favor. Oh Joana! Não te metas nas querelas terrestres! Pois quem nelas se envolve. JOANA – Não! Eu quero saber (aos trabalhadores) Digam-me. meu velho Lennox. MARTA. quem é o responsável por tudo isso. já que ele é a causa de tamanha miséria. dos Chapéus Negros: Não vá te meter com estes problemas. antes. Degrau após degrau. ele te revenderia. desde o dia em que nasceram. ruídos da Bolsa.6 No meio do caminho encontramos. Os Chapéus Negros se afastam. Sua bondade perde rápido. a Joana – Vamos agora. Jamais seus corações. por que correm de um lado a outro e não encontram trabalho? OS OPERÁRIOS: O sanguessuga Mauler e o muquirana Lennox brigam entre si.

Depois seus pelos. que.7 De barracos miseráveis. Gritaram-me prudência: Para eles. Bela invenção. o porco se precipita.. até ele e. moídos como farinha. Lennox! Acabou a guerra de preços! Foste eliminado. ainda ontem florescente!. Batendo-se por sua conquista. no último andar. então. Pois caindo. acompanhado de seu corretor. Destroem com seus cascos o pasto que disputam.Joana. Tão natural. Espero que o mercado recobre a saúde. Tal qual dois grandes búfalos. Fizeram desabar os preços e destruíram seu negócio. que viram escovas. Quando ele não podia absorver mais nada.. E pensa nos velhos tempos. ele faz ouro. com voz suave. como vais reconhecê-lo? JOANA – Saberei bem reconhecê-lo. época maldita! Um comércio estrangulado por montanhas de conservas. Até chegar aos ossos. Em dinheiro ele as transformará. ele extrai rendas. não é verdade? GRAHAM : Muito bela! Mas e a lata.. Lubrificar meus cutelos. e dorme mal à noite. lutando. E se lhe jogas pedras na cabeça. Nas facas. MARTA . O faro para o dinheiro é nele tão potente. chega Na lata que o espera lá embaixo. no entanto. Cridle sai da Bolsa e desce até o palco. Começa então o seu retalhamento. confessa. eu garanto. Marta. ficarás com a fábrica Conforme está previsto nos termos do contrato: “No dia em que Lennox for eliminado. OS FABRICANTES DE CONSERVAS : Trata-se de saber quem agüentará mais tempo. A nova técnica é muito engenhosa: O porco é colocado em uma esteira rolante Até o alto da fábrica. Mauler. à Marta: Tu somente. nele. olhe para mim e de meu pescoço. para economizar Uma agradável soma em salários.. JOANA.. com sua escalada. MARTA – Joana. Fecho minhas fábricas. eu também te recomendei prudência. por conta de seu próprio peso. Slift. Todos me abandonaram. Ele terá medo. Saibas.” CRIDLE : . em salsicha se transforma.. a cada fase. CRIDLE: Muito bem. E assim. surge de um grupo de fabricantes de conserva. Diga-lhe: Mauler. Vá. E agora. sozinho. Ele não pode suportar A visão da miséria. O que fazer com ela? Ah. até aqui me acompanhastes. que vira couro. Cridle. Que ele não saberia jamais trair seu instinto. Instalar duas ou três dessas máquinas novas. Primeiro perde a pele. Tira esta mão que me aperta e me estrangula. JOANA – Mas tu vieste comigo. Um mercado aviltado. esta arte contrária à natureza. Vocês mesmos. não achas? Ele se degola e logo. E talvez chore. Estranho conselho! Eu te agradeço. Por si mesmo. Bem pensado. Agora vou limpar a minha fábrica. este homem não é duro E nem ama o dinheiro. De carne podre. MAULER : Lennox está de joelhos. cruzei a última fronteira. A Lennox: Estás perdido.

Freddy! Quer dizer que tu me socas. o coração torturado! Cridle se afasta. então. tu me forças. MAULER . Mas. GRAHAM — Mauler. E eu. É preciso então. sensível! Ele soca Mauler no coração. seguindo-o com os olhos: Tive a ligeira impressão de que algo o atormentava. mergulhado em meus negócios. elas cairão a 70. Pepê! Como quiseres. Repensar os dez milhões de dólares Que queres por tuas ações.8 Sim. as ações caíram para 100.. Mauler. de examinar Contigo. (faz contas em uma caderneta) Quando combinamos que tu sairias do negócio. MAULER – Leia. é que meu coração se aperta Quando ouço mugir a criatura CRAHAM : Agora eu compreendo a grandeza de teus atos. nada. CRAHAM : Toque-lhe o coração. A exigir meu dinheiro. Lennox! Toque-o! É uma lata de lixo. Joana fez um sinal a um segurança e lhe diz algumas palavras. Cridle. LENNOX – Mauler. Nada além. nosso contrato não é mais viável... MAULER – Ai! GRAHAM — Viu? Ele tem um coração! MAULER : Então. CRAHAM . Hoje. então. mas. sem mais delongas. se tu estás Realmente onde dizes. se eu fizer isso.. Veja se esse contrato diz uma só palavra sobre a crise. e tu tinhas um terço. Não pude imaginar seu fado. Mauler. Mas com ele acabaram Os bons dias do mercado. Para pagar o que te devo. Pois eu proibirei Cridle De comprar-te uma única lata. Ah! Pudesse eu estar liberado De um comércio tão bestial! Tenho. Tu me ofereceste a 320. É o máximo que posso fazer. Antes que quebres de uma vez! Creia-me. as ações estavam a 390. e onde eu conseguiria dinheiro para pagar tua parte? Eu estaria arruinado! MAULER : Já que me dizes isso. um contrato dos tempos de prosperidade! Mas e a crise? Ela não existe? Que posso fazer eu com um grande matadouro Se ninguém mais compra carne em conserva? Agora sei bem porque não podias Mais suportar a visão do gado morrendo: sua carne Não vende mais! MAULER : Não. : Pepê! Isso não é um jogo! Não podes misturar Questões pessoais aos negócios! CRIDLE – Pois não. MAULER : O quê? A soma está inscrita Claramente no contrato Tome. Mauler. Não estava caro. Lennox acabou. cinco. tenho dois mil empregados! CRIDLE – Mande-os ao cinema! Mas Pepê. LENNOX – Não. veja Lennox. Isso não é um contrato? Com um preço fixado? CRIDLE : Sim. olhe para mim. Cridle. eu precisaria jogar essas ações no mercado. isto é. Estou tão temeroso que chego a suar frio: seis dias. até teu coração sabe ver longe! LENNOX : Eu gostaria ainda.. Lennox. Seis dias? Não. como eu. devido à saturação do mercado. Ele sai..

O SEGURANÇA — São membros da Organização dos Chapéus Negros. (aponta para Slift) É ele! JOANA. Nada de choros. MAULER : Já ouvi falar dessa gente. além da comida e do uniforme. sem dúvida? Prontos para a violência. etc. Vitelos. que o sangrento Mauler. é o que tem a cara mais ensangüentada. Slift.9 O SEGURANÇA — Senhor Mauler. A Joana: Vós sois. Pouco me importa o que esperam de mim. JOANA: Por que joga. O melhor para eles É causar em mim a impressão de gente honesta. O SEGURANÇA: Ele vai vê-los. Diga-lhes que eu os receberei Mas que eles limitem-se a responder minhas perguntas. eu sei. o rumor da Bolsa continua. MAULER : O que é esta organização? O SEGURANÇA — Eles têm muitas ramificações. sobre outra questão. dirigindo-se direto a Mauler – O senhor é o Mauler! – Não sou eu. respondam apenas Quando ele lhes perguntar. 59. Mas que nome curioso! Soldados do Bom Deus. em absoluto. a Slift: Que eles trabalhem por nada. MAULER : Está bem. – É o senhor. Sim. na verdade. Slift? (Enquanto isso. mas vocês não devem Perguntar nada. que eu sou Mauler. JOANA. gente estranha. Para Joana:) Quanto recebes por dia? JOANA. adoraria vossa opinião. Que não é acusada de nada E que não espera o impossível de mim. MAULER: O tecido é bem fininho e. nem desses versos sentimentais Que eles adoram cantar. seus trabalhadores na rua? MAULER. Porcos. Mas o que eles querem comigo? O SEGURANÇA — Afirmam que têm algo a dizer ao senhor. Ouve-se: Bois. Mais uma coisa: não diga. – Vinte centavos.É assim. Durante esta cena. é ele. Senhor Mauler. Mas. hein? Não. Dizem. O segurança vai ao encontro de Joana no outro lado do palco. . 43. São chamados de soldados do Bom Deus. apontando para Mauler – O senhor é o Mauler! MAULER – Não. Chapéus Negros. não é notável? Já viste algo igual? Que trabalhem por nada e sem se lamentar? Não vejo em seus olhos nem medo da miséria Nem de dormir sob as pontes alguma noite. que a escória me chama – Despojou Lennox. não é homem de bem. JOANA. Graham sai. MAULER : A escória em farrapos. Com ar invejoso. cá entre nós.. e pôs em apuros Cridle que. Slift ri. Creiam-me: esses são assuntos profissionais Que não vos interessam. MAULER . Pretendo renunciar a esse negócio sangrento Logo que eu possa: renunciar sem retorno. há algumas pessoas que querem lhe falar.. diga que não estou. 55. MAULER – Como me reconheceste? JOANA: De todos. são numerosos e gozam de grande consideração nas camadas inferiores da população. MAULER – Rindo. que a sopa seja rala. o tecido não é grosso Nem é grossa a sopa. suponho.

. mas não digas nada. Isso não é bom? E conforme vosso espírito? SLIFT : Vendo morrer o boi. Tamanha inocência!. Deixai disso. dêem o dinheiro. não me digas nada. diga. A canalha. há pouco. Cedi por dez ao homem que vêem aqui. O senhor não poderia realmente ajudá-los? MAULER: Repita por toda a parte: eu aprovo vossa ação. não me comove. O mundo não poderá mudar se antes não mudarem os homens. sem nenhuma obrigação: Eu não sofro de insônia.. E desejaria que fossem mais numerosos. Ele fala com Slift em voz baixa. Abandonar esta empreitada. São. confesso.. Mas. A parte – doze milhões – que eu tinha na usina. Tome para os pobres. Desculpe-me. de resto. Deverias. tomando-lhes o dinheiro que trazem consigo e dando-o a Joana. ele decidiu abater O rico Cridle. O homem. no lugar do pobre animal. dêem! Corja de carniceiros! Ele continua mexendo nos bolsos deles para dar dinheiro à Joana. vamos. Marta sai. Dirigindo-se aos outros: Parece-me que fui tocado pelo sopro de um outro mundo.10 Pois eu vi – e isso vos interessará – Morrer. JOANA – Senhor Mauler. Melhor para ti que não os veja. por que fechou os matadouros? Eu preciso saber. Dêem o dinheiro. São todos carniceiros. aliás. para o que pretendes fazer. a Joana: Joana. minha filha. Seu rosto me agrada. Seu riso não me atinge. Ele não é maduro ainda. . não é? JOANA: Não sei se o senhor fala sério. por favor. Talvez por isso te ajude. que com tal decisão As pessoas sofreram. Mas é uma gentileza. Diga-me que está certo E que isso te agrada.. Um instante. Eu também vou embora. um boi e fiquei tão comovido Que quis largar tudo. Mas este mal era inevitável. MAULER: Riam todos. Eles não têm mais trabalho. Eu sei. Ele se aproxima dos industriais. eu sinto Que tu não gostas de mim. Embora já tenhas vivido mais de vinte anos. MAULER: É que adquiri o maldito hábito De disfarçar a voz. MARTA. nos matadouros dizem que o senhor é o responsável pela miséria deles. É bom. Não. tu também. Eu sei. JOANA – Isso é uma gota no oceano. MAULER: Eu tenho grande piedade pelos bois: o homem. Isso não é bom? Os fabricantes de conservas explodem em gargalhadas. pessoas extremamente más. Senhor Mauler. isso de se retirar do negócio. JOANA: Senhor Mauler. Nenhum é inocente. ele é mau. Eu os verei chorar um dia. não creias que seja de boa fé. Mas tendes consideração demais pelo destino dos pobres: Eles são maus. MAULER: Poderia eu ir mais longe? Porque ele é sangrento É que eu tirei as minhas mãos deste imenso negócio.

. . De saber o que queres saber. Aqui estão seu casaco e seu boné: pegue-os e façaos desaparecer. caiu. Veja então o que ela compra. é claro. faz quatro dias. Dois homens saem por uma portinhola. JOANA — Eu quero vê-los. o quanto antes melhor. E verás que tua piedade é descabida. Mas seu casaco ainda está bom e isso também é uma pena. IV O corretor Sullivan Slift mostra à Joana Dark como os pobres são maus: Joana desce às profundezas pela segunda vez BAIRRO DOS MATADOUROS SLIFT: Joana. Semelhantes a bestas. Estão ocupando inutilmente um cabide no vestiário. e mostre a ela Como os pobres são maus e covardes.. em uma palavra. UM CONTRAMESTRE. é pavoroso. SLIFT: Em teu lugar não gostaria. Se isso falhar . saindo – Um conselho: não te metas com as gentes dos matadouros. ele te fará ver algumas coisas. este homem será mandado para os quatro cantos do mundo sob a forma de toicinho. em um jornal. mas não pudemos parar as máquinas a tempo. cheios de traições. sobre o qual se lê: “Fábrica de Conservas de Carne Mauler e Cridle”: O nome de Mauler aparece riscado. ele cairá bem. É preciso queimá-los. Diga “para seus pobres”. Ele veste o casaco. assim como o seu boné. vendo Mauler se afastar: Este homem não é mau. E que não têm nenhum medo. e ele entrou na faca e virou toicinho. a um jovem operário – Um de nossos homens. agora eu vou te mostrar Como eles são maus Essa gente da qual tens piedade. Luckerniddle. ficará com a vaga de Luckerniddle. é o lixo do mundo. JOANA. SLIFT. enfim. e enrola o seu. Slift e Joana escutam. O JOVEM OPERÁRIO – O senhor pode confiar em mim.E eu adoraria que não desse certo – Leve-a aos matadouros. e para mim. Responsáveis. senhor Smith. Azar. por suas vidas miseráveis. O amigo Pedaço-de-Toicinho não precisa mais dele. dê dinheiro a ela. A Joana: Aqui está meu corretor.) É uma pena. vestido com uma lata. já que agora ele está em embalado. e depois a siga. Entrego a você porque sei que é de confiança: se alguém encontrá-los em algum lugar. A Slift: Mal posso suportar a existência de seres Semelhantes a esta moça. Ele sai. ela poderá Aceitar sem pudor. (O contramestre volta para a fábrica pela portinhola. na caldeira. JOANA. Sullivan Slift. peguei para mim. É o primeiro que nossos tambores desalojaram Das trevas da vilania. vacilando: Estou me sentindo mal. é a escória. que nada têm Além de seus vinte centavos por dia e seu chapéu negro. Quando a fábrica reabrir você.11 Chame ela de lado. perderei meu emprego. Slift e Joana contornam o muro de uma fábrica. o que causa má impressão. Se quiseres mesmo saber. Isso pode funcionar. Mas volte aqui amanhã. se quiser. Ele ouviu nosso chamado.

Antes eu gostaria de fazer-lhe uma proposição interessante. Eles chegam a uma cantina da usina e vêem diante de uma janela dois homens que olham para o interior. Vamos. Por causa dele deixei minha mão na máquina de cortar chapas. GLOOMB – O feitor está bem ali. senhor. Senhora Luckerniddle: ele está viajando e. Vinte refeições são muita coisa Para aquele que tem fome. fui trabalhar no moinho de ossos e adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. Vamos cuidar para que essa seja a última vez. No frio. SLIFT – Estamos dizendo que ele partiu para São Francisco. Eu ficarei aqui. para nós. Não procure mais saber o que se passou com seu marido e a senhora poderá almoçar. Joana e Slift seguem seu caminho. todo o tempo. ele me dizia: “Espere-me à noite com uma sopa quente!” Desde então não [voltou. Bando de açougueiros. além dele. saindo para o trabalho. lamentando-se: Faz já quatro dias que. não diga mais isso. Amanhã. Verás então o que é essa gente.12 SLIFT: Aí está a vida como ela é. E malditos sejam vocês Se lhe fizeram qualquer coisa! Slift caminha até ela. Slift volta para junto de Joana. obrigados a fazê-la. Precisará nos processar. No ano passado me deixei seduzir pelos vinte centavos a mais que se ganha na fábrica de adubo. Aconteceu alguma coisa com ele aí. me encontrará na cantina. legalmente. senhora Luckerniddle. O JOVEM OPERÁRIO – Pode confiar em mim. Eu estou em uma situação muito ruim. mesmo à noite. e meu marido não sai da fábrica. ele não foi para São Francisco. DONA LUCKERNIDDLE: Agora inventam que ele viajou! SLIFT – Deixe-me dizer uma coisa. e vocês não querem que se saiba disso. Esse salafrário se empanturra às nossas custas. JOANA: Ela nunca aceitará. em nossa cantina durante três semanas. se quiser me ver. enquanto não o vir. isso não lhe parece muito brutal? SLIFT: Bem. pronto para encher a pança. (Ele pára o jovem operário. ao meio-dia.. Eu tiro agora mesmo. seu marido está viajando. Mas existem coisas Que importam mais para ela. gratuitamente. Você poderá comer e lhe darei um dólar se disser à mulher de Luckerniddle onde conseguiu o casaco e o boné. SLIFT. se você não está precisando disso!.. Já não posso mais trabalhar como antes e só consegui emprego duas vezes desde fevereiro. Eu. aquele que se acidentou? O JOVEM OPERÁRIO – Por favor. Venha. É por isso que lhe fazemos uma proposta: note bem que. DONA LUCKERNIDDLE está sentada em frente ao portão da fábrica. a Joana – Fique aqui. de forma alguma. diga-lhe que procura trabalho. SLIFT: Guarde essas coisas. é muito desagradável vê-la sentada aí. Quando ele se aproximar. DONA LUCKERNIDDLE – Quero saber o que aconteceu ao meu marido. Joana e Slift prosseguem seu caminho. Tenho a impressão de que você está prestes a cometer um ato impensado. (Ele vai em direção a Gloomb). de qualquer modo. O JOVEM OPERÁRIO – Mas senhor.) Onde você conseguiu este casaco e este boné? Estes são os pertences de Luckerniddle. esperando por ele Mas ninguém diz nada. passe-me logo teu cassetete. Mas reflita bem. DONA LUCKERNIDDLE – Não. na fábrica. dizendo tolices. . SLIFT – Se é esta a sua opinião. é capaz de o meu quebrar já no primeiro golpe. à cantina número 7. nós não somos. senhor. lhes digo. então a senhora não pode aceitar a refeição que a fábrica lhe oferece. Não tenho outro esteio. SLIFT: Senhora Luckerniddle. vou falar com ele. que fizeram dele? Há quatro dias que estou aqui. DONA LUCKERNIDDLE: Eu quero que me devolvam meu marido.

DONA LUCKERNIDDLE.. Eu imaginava que ela iria resistir. Ela correu até aqui e já nos espera. E eis que ela nos precedeu. Ali adiante. GLOOMB – Você enxerga bem? JOANA – Não. JOANA – Não há realmente como me arranjar outro posto? Ouvi dizer que o trabalho nesta máquina era perigoso para quem não resistisse ao trabalho muito pesado. não muito fortes. justamente porque você contou todas essas histórias a respeito de seus dedos... Ela senta-se em uma mesa. desde hoje? DONA LUCKERNIDDLE – Não como nada há dois dias.. Slift cai na gargalhada e arrasta Joana. Naturalmente você precisaria manter os ritmos de trabalho mesmo os dispositivos de segurança não sendo perfeitos. DONA LUCKERNIDDLE – É verdade. O posto que você ocupava na sua máquina continua vago e isto é muito chato.. e então eu poderia. JOANA – Vindo para cá ouvi dizer que aconteceu alguma coisa com o seu marido e que a fábrica é responsável. O que mais verei? Eles entram na cantina. JOANA – Quase tenho medo de continuar. No ano passado fui trabalhar na fábrica de adubo. Desde fevereiro estou sem emprego. no moinho de ossos.. por acaso. Eu sou inspetor nesta fábrica. não sabia. estaríamos dispostos a reempregá-lo imediatamente.. Talvez a vaga deste contramestre. Os movimentos ficam menos firmes e pode-se prender as mãos nas serras. SLIFT – Leve você mesmo a comida a ela. pode ser que mude de idéia. Disseram-me que não tinha ninguém além dele. (Ao seu companheiro:) Pensei melhor. A GARÇONETE – Se a senhora não for comer. GLOOMB – Aquela moça ali? . Seria vantajoso para você. SLIFT – Que pena. A maior parte dos trabalhadores a considera muito perigosa. Você se surpreenderá ao ver como o trabalho é agradável.13 – Não tenho tempo. JOANA – Mas a senhora nem sabia que nós viríamos hoje. temi que amanhã ela viesse. tem que se retirar.. Não podemos perder esse safado. Ela não parece muito forte. há uma moça que está procurando trabalho. faremos isso amanhã à noite. GLOOMB . calculando – Vinte refeições. depois do que eu iria. SLIFT – Gostaria de propor um meio de tirar-lhe dessa jogada. já faz dois dias que eu não como nada. JOANA – A senhora já está aqui. por exemplo. GLOOMB – Posso confiar no que você está me dizendo? SLIFT – Sim. É um bom posto? GLOOMB – É um ótimo posto. DONA LUCKERNIDDLE – Sim. meu senhor. e lhe daríamos até um trabalho mais fácil e melhor remunerado do que o antigo. Vai se perguntar como alguém pode contar histórias tão ridículas sobre esta máquina. A senhora Luckerniddle está falando com a garçonete. DONA LUCKERNIDDLE – O que? Vocês pensaram melhor e estão retirando a oferta? Então eu não terei mais as minhas vinte refeições? JOANA – Me pareceu que a senhora se dava bem com seu marido. O posto não é feito para gente fraca. Joana procura um prato e leva à senhora Luckerniddle.. (Ele vai em direção a Joana.) Você está procurando trabalho? JOANA – Sim. Se você. Naturalmente seria muito bom se nós encontrássemos alguém para esse posto.. DONA LUCKERNIDDLE – Espero uma pessoa que deve vir hoje ou amanhã. e então eu teria. Uma jogada dessas é melhor de se fazer à noite. O que há para comer hoje? A GARÇONETE – Ervilhas. Adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. Tchau. encontrasse alguém. JOANA: Ela sentou-se ali. Apesar de tudo. E é um trabalho que pode ser feito mesmo por pessoas como você. GLOOMB – Rápido então. GLOOMB – Nada disso é verdade. É preciso que ele pague hoje mesmo por esse sistema desumano do qual ele é o feitor.

Você a viu. como vós a explorais! Não vês que nem teto eles têm. O que tu me mostraste Não é a imoralidade Dos pobres: é a pobreza deles. Dona Luckerniddle arranca o prato das mãos dela e começa a comer avidamente. Sua imoralidade é sem limites. tu me dizes? Sua pobreza também é incomensurável. SLIFT – E onde você conseguiu. Tão cara a ele. verdadeira manteiga! Banha fresca do Kentucky! OS COMPRADORES: OS FABRICANTES DE CONSERVAS . comprem nossas latas! Carne fresca e suculenta. como manda o costume. saindo. o preço era muito alto. Mercadoria invendável. JOANA: Porões e armazéns abarrotados de carne. (Ele senta-se. SLIFT – E onde você comprou? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. DONA LUCKERNIDDLE. (O jovem operário o esconde) De onde ele vem? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. Um certo tempo ainda. como um animal. ao lado daquela mulher. os sofrimentos que suportam Esses pobres sem moralidade. mas não em uma loja. O JOVEM OPERÁRIO – Bom dia. Que sua miséria. JOANA E procurar por ele. DONA LUCKERNIDDLE – Ele foi para São Francisco. e que já apodrece. e por mais justa que fosse. V Joana apresenta os pobres à Bolsa de Carnes A BOLSA DE CARNES : Nós todos. acreditas que ele teria mostrado À mulher do morto a roupa que usava Se tivesse tido a chance de escolher? O maneta. Atrás dele:) Você tem um belo boné. Ela sai. certamente teria me prevenido Não fosse o preço a pagar por seu pequeno escrúpulo. e comerá sem levantar os olhos do prato. SLIFT – Durante três semanas ela virá. Ele foi obrigado a vender sua cólera. ao garçom – Deixe meu prato. Desejas mostrar-me a sua imoralidade. Mostrar-te-ei. a vossos olhos contradiga Esta depravação que injustamente se lhes imputa. (Dona Luckerniddle permanece em silêncio) Não pegue. Eu virei todos os dias. posso comer aqui? SLIFT – Você só precisa sentar-se ali. Fatias de toicinho Cridle-Mauler! Carne de filé Graham. estamos vendendo carne! Compradores. Você só precisa perguntar a esse senhor. como muitas. Era seu único esteio. preferido. Mas vinte refeições. Joana? A imoralidade dela não tem limites! JOANA: E tu. para colocar Ao abrigo da chuva. a imoralidade deles? Ela teria. Continuar fiel à memória de seu marido. eu. E este jovem – em quem botaria fé Qualquer malandro -.14 – A senhora não quer esperar até amanhã? Se a senhora desistir de procurar o seu marido. Pois não há mais compradores! Do fundo do palco chega o jovem operário com seu casaco e seu boné. Ela se levanta e sai. esta mulher. então? O JOVEM OPERÁRIO – De um homem que caiu dentro de uma caldeira. A senhora Luckerniddle sente náuseas. eu volto. com que habilidade torna-te mestre dela! Esta imoralidade. ninguém mais perguntará o que foi feito dele.

cozinhas e lojas Estão cheios até as bordas. O estômago do país. comprem nossas latas! OS COMPRADORES: E sobre as montanhas fez-se um grande silêncio E as cozinhas dos hotéis escondem a face E as lojas se desviam com horror Os atacadistas mudam de cor. o que te escrevem? MAULER: Teorias. E abrissem assim o Sul aos nossos produtos. E graças aos perspicazes planos dos industriais da carne Nós conseguimos reduzir em um terço O preço do toicinho Cridle-Mauler. Aproveitem então. MAULER: E mesmo a faca os recusa. verdadeira manteiga. eles conseguissem Fazer cair de uma vez as taxas de importação. fabricantes. O que provocaria um movimento de alta. em Nova Iorque. ao trabalho de nossos [engenheiros. dia e noite nossas máquinas Ligadas no máximo: salgadeiras. Clamamos aos berros por um consumidor que não existe. Do filé Graham. . a visão da carne enlatada Causa náuseas. Frigoríficos entupidos de carne congelada. Temos diante de nós montanhas de latas. Nós iríamos perder o bonde! MAULER: E quando isso ocorresse! Terias a imprudência De tirar tua parte de tamanha miséria. A dar-se-lhes ouvidos Seria necessário agora deitar por terra Todo o cartel da carne E deixá-lo estagnado durante muitas semanas. Nas estações e nos pátios. Nós queremos vender a carne em conserva E ninguém a quer! E todos os nossos clientes. caldeirões Convertem sem parar em latas de conserva As manadas mugidouras que pastam nos prados. quase de graça. cubas. A nós. Saturado de carne em conserva. SLIFT: E teus amigos de Nova Iorque. compradores. Esperando até ninguém poder Mexer nem o mindinho! E eu. com nossos matadouros? Nossas fábricas estão cheias de bois. Nós estamos perdidos! OS CRIADORES: E nós. Comprem. SLIFT: Eu riria se. Engolindo nosso ouro junto com nosso grão. Não a agüenta mais. compradores. Mas ninguém quer comprar carne enlatada. os criadores. Quem comprará agora nosso gado? Os estábulos estão cheios De porcos e bois devoradores de milho Que eles devoram ainda nos trens que os transportam. OS COMPRADORES: Nós compradores. nenhum tinha dinheiro. A morte Despreza esse gado e fecha-lhe a porta. Nós não compramos mais nada! OS FABRICANTES: E nós. E da banha de Kentucky. Quando todos te seguem com olhos de lince Para ver o que fazes? Eu não teria cara. OS FABRICANTES: Graças aos avanços da técnica.15 E sobre as águas fez-se um grande silêncio De todos os compradores. Eu teria sobre as costas toda a carne! Idiotas.

apontando para Mauler: Falem com ele! CRAHAM – colocando-se diante de Cridle: Não é Cridle. Falai que um dentre os vossos Não pode mais suportar o grito dos bois morrendo E aos mugidos deles. que já se arrasta. Para acabar com Lennox. eu acabo de saber. antes de qualquer coisa. Quero apenas meu dinheiro e a paz de minh’alma UM CORRETOR – urrando. Cridle. tu o retiras Do negócio e Cridle. a preço vil. Tumulto entre os fabricantes. preferiu o vosso. eu quero o meu dinheiro. OS FABRICANTES: Quando ages assim com Cridle. ao invés de trinta. o que desejo. OS FABRICANTES: O que significa isso. Cala-se e aponta para o dedo para ti. E exiges dele o pagamento sem demora.16 . Pois tu liquidaste. Ele queria me vender a sua parte. Mas somos atingidos pelo que lhe acontece. na entrada da bolsa: Queda gigantesca das cotações na Bolsa! Venda maciça de ações. pálido como algodão. Não é de hoje que fazes tais manobras. então! OS FABRICANTES – a Mauler: Corre o boato que teu capital.. Ele poderia exigir seu dinheiro quando quisesse. MAULER – O próprio Cridle me confessou que está insolvente: se eu deixasse meu dinheiro com ele. Eu me propunha pagar-lhe vendendo uma parte das ações dele mesmo. todo teu estoque. que estavam valorizadas. É bom que ele seja nosso adversário. Mauler! Fala. nesta conjuntura. é o cartel da carne. e o conjunto das fábricas vale dez. estava acordado. Foste tu mesmo quem provocou o marasmo! Nossas latas agora não saem mais caro Que a areia dos mares.Há quatro semanas apenas eu assinei um contrato com Mauler. que conspurca nosso ninho! Nós sabemos bem quem fez os preços caírem sem cessar Vendendo gado por baixo do pano. . MAULER: Açougueiros insolentes é o que sois! O animal torturado parou de mugir. olha para nós! Assim. Tu te desfazes de tuas ações? UM CORRETOR: A cento e quinze! OS FABRICANTES: Ficaste louco? Tua morte. Hoje os papéis de Mauler não valem mais dez. já vinham caindo. OS FABRICANTES Essa gente não faz as coisas pela metade. MAULER: E por que matastes tanto gado? Açougueiros alucinados sois vós! Agora. Cridle? Levanta os olhos. é que me levem a sério. nem que fosse por mais uma hora. que se lançam sobre Cridle. provoca muitas outras! Lixo! Assassino! CRIDLE . mas três milhões. ave de agouro.investindo contra Mauler que lê o jornal: Traidor. Veio a baixa. Desde aquele dia. quem de vocês continuaria a me levar a sério nos negócios? Ora. de toda a maneira. antigamente Mauler. CRIDLE – dirigindo-se aos que o cercam:. e ficando com as outras. Esses dez milhões são exatamente a soma que devo a Mauler – e ele a exige em vinte e quatro horas. E vós soluçais nas saias de vossas mães. nós somos os peixes! O que querem arruinar. por dez milhões de dólares. ao fundo. Isso representava um terço do total das ações. Voltai para casa. ele vem realizando secretamente vultosas vendas de gado a preços baixos e provocou a queda das cotações que. Carrega em sua queda as cotações de todo o cartel!.. mas um outro Quem joga a rede. Cridle.

Meu chapéu. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Escutem todos.Nenhuma sequer! OS FABRICANTES – Então. com isso. Meyers. Mauler. Os que nos escutam. seja quem for! Levantai o nariz de vosso prato. JOANA . Nesse mundo sempre reinará a injustiça. Graham. Haveis então esquecido Os que esperam diante da porta E que esperam. seu cão. E. meu chapéu. Fazer avançar os tanques e os canhões. não saia! Graham. Pois os bons nesse mundo Não formam um grande exército. o responsável Por esta catástrofe. OS FABRICANTES: Oitenta e sete mil latas pela metade do preço. fiquem diante de mim. Estimularam-nos a criar bois. E ninguém se preocupa. então. mas rápido! OS COMPRADORES . ele retira o seu dinheiro! OS FABRICANTES: Oitenta mil latas a cinqüenta. acompanhada de exclamações. mas rápido! OS COMPRADORES . para comer? Pensai convosco mesmo: sempre será assim.17 Mesmo que tivésseis todos que mendigar. pois tenho outros projetos. OS CRIADORES: Impossível vender um boi em Chicago.Nenhuma sequer! Silêncio. MAULER: Por hoje basta. pois preciso partir. Uma mulher nos faz sinais de aflição. Eu não quero que me vejam aqui. És tu.Pierpoint Mauler! Onde está Mauler? MAULER: O que é esse barulho de tambores que de súbito me envolve? E quem chama pelo meu nome Nesse lugar. com nossos bois Que hoje ninguém mais quer. suja de sangue? Joana e Marta avançam e cantam o seu hino de guerra. olhos para ver? Ele é vosso irmão. Eu quero meu dinheiro. detenham todo o tráfego Em torno de vós os seres naufragam. . os aviões Para conquistar o pão dos pobres. Com o único objetivo de ajudar o próximo. Ei. OS CRIADORES: Lennox já caiu! E Cridle balança! E Mauler. Parem os carros. Ei-nos aqui. Ouvem-se os tambores dos Chapéus Negros e a voz de Joana. E nós dizemos: é preciso ir sempre adiante. Mauler. Durante esse período a batalha na bolsa continua. nós estamos perdidos! JOANA – Onde está Mauler? MAULER: Slift. Lançar ao mar os navios de guerra E nos ares. escutem bem! Um homem afunda sob os nossos olhos! Escutamos lá no fundo seu apelo por salvação. Para Illinois esse dia é um desastre! Vocês fizeram os preços subirem. Uma explosão de gargalhadas toma a frente da cena. Avante! Ao assalto! Empunhem os fuzis! Diante de nossos olhos os homens naufragam. cem dólares pelo meu chapéu. Não esperem o amanhã! Cada um deve nos ajudar. Não falemos mais de negócios. E ninguém se preocupa Não tendes. onde cada um revela Sua boca desnuda.

imaginando que não virão à tona suas manobras. como não seriam os valores mais elevados esmagados em seu coração? Sempre ouço dizer. OS POBRES – Ele é o responsável por tudo! Os fabricantes de conservas correm para socorrer Mauler. destinos inelutáveis. Reparem então nestas gentes. buscando desculpas. que se dobram sob o fardo de suas penas. e é verdade. engodos e combinações para aumentar o preço da carne. eu bem sei. tereis a moralidade. Causais vossa própria queda! Bando de imbecis! OS FABRICANTES. pobres e deploráveis imbecis. seus mugidos serão testemunhos. Não tenham vergonha. CRIDLE OS CRIADORES: Como? Somos asfixiados e ninguém pode fazer nada? A causa de nossos males é a imoralidade De vossas armações escusas. e a quem não querem reconhecer como irmãos. nesses lugares sombrios e secretos onde os senhores tratam de seu comércio. Se continuarem a agir assim. Silêncio! Não lhes agrada muito. é lá que mora a imoralidade no estado puro e. Joana mostra aos negociantes os pobres (Luckerniddle e Gloomb) que ela trouxe. avancem à luz do dia. Traçam essas desconhecidas. são todos uns imbecis. existe também um poder de compra moral: o dinheiro. COMPRADOR. JOANA. vocês. atrás de mauler – Fique senhor Mauler. UMA VOZ. Se os senhores continuarem tergiversando.18 – Maldito sejas! Cridle sai. em conseqüência. então em suas costas os bois começarão a mugir contra os senhores. Senhores. o salário. os senhores se enganaram. como fazem em seus jornais. todo-poderosos. OS CRIADORES. aí pelo mundo. Inverno e verão nós dependemos do tempo: nós também estamos mais próximos do Deus de nossos pais do que os senhores. gritando – Afastem-nos! Ele desmaia. OS FABRICANTES: Água para Pierpoint Mauler! . tanto hoje quanto no dia do juízo final. JOANA – E qual a causa desta imoralidade no mundo? Poderia ser diferente? Se cada um é obrigado a rachar com um machado a cabeça de seu próximo para fazê-lo ceder seu pequeno pedaço de presunto e sua migalha de pão. a Revolução. Risos OS CRIADORES – Nós criadores não encontramos nestas palavras motivo para o riso. eles que nada têm? Senhores. JOANA – Um homem de negócios também pode ser um bandido – dependendo do ponto de vista. nas favelas. que sentam nesse palácio. que os pobres não têm muita moral. Nos baixios. gritando: Por vossa especulação desenfreada. a quem os senhores transformaram no que são. Já me disseram o que os senhores fazem: manobras. acabarão tendo de comer sozinhos a carne que produzem. Cujo ciclo pavoroso sempre recomeça. replicando: Imbecis são vocês! Ninguém pode nada contra as crises! Bem acima de nós. E os senhores. em tom de reprovação Aqui estamos com nossos bois Que hoje em dia ninguém quer. Vossa imunda cobiça. as leis econômicas. ao fundo – Pierpoint Mauler passou mal. Aumentem-no. ver surgir a nós. nada querem saber da miséria que existe fora deste recinto. Mas então eu lhes pergunto: de onde tirariam eles alguma moralidade. MAULER. e escute o que eu tenho a lhe dizer. que fazem subir o preço do pão e que fazem da vida um inferno onde os homens viram demônios. os Chapéus Negros. e diante de Deus TodoPoderoso. nada além disso. JOANA – Mas os senhores. As crises são catástrofes naturais. Mas se os senhores acreditaram que seus procedimentos permaneceriam ignorados. pois os que estão lá fora já não têm como comprar. Mas nós lhes dissemos que é um imbecil.

ao instinto animal. estão tão enfraquecidos. para eles inacessíveis. CRAHAM: Então! Não podes vê-los? No entanto foste tu. Mas os dois que estavam ao lado dele. que mantendes longe de vós. eu. O cartel entregará a Pierpoint Mauler. Torna-se comprador. por favor. e por vós mantidos Nesta pobreza. levai-o agora. levantai-me. JOANA – E agora. OS FABRICANTES – Ele comprou! Mauler comprou! MAULER – Ao preço do dia! CRAHAM. MAULER: Afastem-nos. a contar de hoje. vós me mostrastes a imoralidade deles. SLIFT – Ele não abrirá os olhos enquanto não os fizerem sair. eles não. em 15 de novembro. Além disso. eu compro! Escutai todos: Pierpoint Mauler compra! Que estas gentes tenham trabalho e que se afastem. Tu quem os reduziu à tamanha miséria. Mauler. de todos os estoques do cartel. eu vou falar. Eles parecem bem piores. MAULER – Agora. vos rogo. como eles sim.. deitado no chão – Eu compro. No seio de Deus não há frio. então Para querer fechar a boca do Bom Deus? Não se deve calar a boca de ninguém. Nem mesmo do boi que esmaga espigas com seu casco! Em todo o caso. gritando em um megafone – Pierpoint Mauler reanima o mercado da carne. A tal ponto dependentes de alguma comida E de um pouco de calor. Os que estão atrás. voltando a si – Eles ainda estão aí? Eu suplico que os afastem. também ao preço de cinqüenta. JOANA: É isso. Eles. aí em cima. tudo o que em oito semanas conseguirdes [fabricar. Invisíveis para vós. e reduzi-los À voracidade. assume compromisso sobre a produção de dois meses. Compro. ao preço do dia. E fome nunca se passa.” OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Nunca faltará o pão Ao que dedica a Deus sua alma. CRAHAM – A cinqüenta? MAULER – A cinqüenta! CRAHAM: Ele comprou tudo! Vocês ouviram: Comprou tudo! CORRETOR. OS POBRES – Gente como essa.19 Um médico para Mauler! JOANA: Mauler. levantando-lhe a cabeça – E os estoques? MAULER. . Eles o levantam. Eu vos mostro agora a pobreza dos pobres. MAULER. nós nunca tínhamos visto. Aos pobres: Segunda-feira vocês terão novamente trabalho. antes de partirmos. Mas quem sois vós.. meus amigos. o que fazeis? Vós me ordenastes não dizer uma palavra. nós conhecemos. OS FABRICANTES – Quem? Os Chapéus Negros? Quer que eles saiam? MAULER – Não. pelo menos cinqüenta mil toneladas de conservas. E lá. E não basta que cerres as pálpebras Para que eles desapareçam. Nós. qual burros de carga. afastados dos bens indispensáveis. Que viver assim pode mesmo afastá-los Da necessidade de um ideal. ao fundo. Quem em seu seio habita Jamais será infeliz. cumprimos nosso trabalho de [missionários. cantemos: “Nunca faltará o pão. E vós.

cutucá-lo. Pois ele pode vir em auxílio. Escutem: saímos. PEQUENO IMÓVEL COM DUAS SAÍDAS MAULER. às duas horas. Os patrões vão reabrir. a sabedoria triunfa. enfim do ponto morto! Confiança e concórdia estavam fortemente abaladas. E vocês precisam dela. Sua consciência já despertou. JOANA: Saibam todos: estou de olhos em Mauler. ao criador: O que Mauler promete. Recusa-se a engolir mais. dentro da casa. Mauler. Pois o contrato que acabam de ver firmado É apenas um pedaço de papel. Música a partir das 3 horas. OS CRIADORES: Agora os preços subirão. SLIFT. As fábricas reabrem e as chaminés fumegam! Pois efetivamente é de trabalho. aqueles que o recebem. O estômago do país. Ele cumpre. OS FABRICANTES: Podem guardar sua carniça podre! Não estamos interessados em comprar. VI A Captura dos grilos NA CIDADE CASA DO CORRETOR SULLIVAN SLIFT. saturado de conservas. Agora os senhores podem respirar. por que te impressionas com os discursos dela? MAULER: . Joana e os Chapéus Negros saem. pois nós também. Os fabricantes de conserva saem. Se estiverem muito necessitados. então. entrada gratuita. Que carecem tanto uns como os outros? CRIADOR. Aqueles que dão o pão. JOANA – Todos aqueles que se interessam realmente pela palavra de Deus e que querem saber o que ele diz e não apenas a cotação da Bolsa podem vir domingo à tarde assistir nosso ofício. Não o deixaremos descansar Enquanto um homem precisar de ajuda. Sábia decisão. É preciso. os operários entrarão. de São Francisco a Nova Iorque. ele não encontrará Um centavo. seguidos dos criadores. Slift. sabiamente acatada. não é. Nós estamos sob uma miséria atroz. dirigindo-se à Joana Aquilo que disseste e tua intervenção Causou-nos forte impressão. O homem que o assinou não estava em seu juízo. discute com Slift – Fecha a porta. na Rua Lincoln. E ele faz meter carne em latas Que ninguém comprará. Para tal negócio. açougueiros infames! Enquanto vocês não dobrarem o preço do gado Não entregaremos um só grama de carne. nenhum. Muitos criadores se transtornaram.20 OS COMPRADORES: Este homem está ruim da cabeça. Contra a desrazão. Nesse momento o mercado recobra a saúde. liga as luzes e agora repara em mim. e diga se realmente todos podem ler em meu rosto? SLIFT – Ler o quê? MAULER – Ora! A minha profissão! SLIFT – Teu ofício de açougueiro? Diga-me. Podem esquecer seu nome. Venham comigo procurá-lo Para que ele os tire do embaraço.

Se nos apanharem um dia. caro Pierpoint? Pense que agora podes fazê-lo sem peso na consciência. Tagarelice vazia e fácil. . meu caro Slift.. mas permita que eu te exponha simplesmente a situação. Nós que aqui estamos. Que não sabem como passarão a noite mas. Fórmulas tomadas ao coração. Não conheceremos a morte em nossas camas.. Agora. Máscaras da aflição. então? MAULER: O que vive abaixo e não acima De mim! Esses seres reunidos nos matadouros. Não. vejo-te mergulhado na contemplação de teu ser grandioso. É sua antiga fraqueza que retorna. Certamente porque essa gente trabalha a troco de nada. Sabias que tu compraste hoje tudo aquilo que pode ser colocado dentro de uma lata de alumínio? Meu caro Mauler. no entanto. MAULER: Sempre me pergunto por que essas tolices me afetam: Discursos plenos de utopias. Eu deveria podê-lo de novo. irei confessar-te Minha verdadeira opinião sobre nossos negócios: Comprar. Para limpar esse mundo. não é? SLIFT – Come. vender e lutar sem parar. Tão forte. Seremos colados ao muro. SLIFT – E o que é. talvez. Não há mais consolo. Onde o fogo arde embaixo Enquanto congela-se em cima. Slift. pois desde essa manhã tu nada tens a ver com a morte dos bois. E dezoito horas por dia. Talvez depois de comer carne crua ele retome seus instintos. SLIFT – Não queres comer um pouco de carne. um após o outro. MAULER: Tu crês que eu deveria? Eu poderia. por mais louca que seja. de onde se eleva uma cólera Que nos varrerá a todos. eles são muito numerosos. Para estes que caem em nossos porões sangrentos. urrando. Seu número aumenta a cada dia. MAULER: Mas que dizem eles? Essas cidades São um braseiro jamais extinto Onde. a humanidade. Nós e nossa corja. Esfolarmos uns aos outros friamente. É outra coisa. Por trás havia rostos selvagens. SLIFT – O discurso deles te perturbou. Ele se afasta e começa a grelhar um bife no fogão. Então creio sentir Como um peixe aprisionado entre duas águas Pauladas na espinha. E quando da onda emana uma voz Que nada tem de bestial. Tudo isso são ainda meras desculpas O que temo não é Deus.21 O que ela disse? Eu não ouvi nada. Esquecer todo o resto... Sob a chuva e de barriga vazia. retorna. (À parte:) Farei com que ele coma um filé muito mal passado. E pense em tua situação: ela não é muito boa. Isso não pode mais perdurar. lançar-nos-ão Ao chão como um peixe podre. que mais não vi. qual onda. por mais externa e sem importância que ela seja. A urrar de aflição. Há sempre boquirrotos que acham Que as coisas não andam como deveriam... Levantar-se-ão com a aurora e por-se-ão em marcha. SLIFT: Em cidades como as nossas.

Slift. os preços Subam? E nós acabaríamos. Mas ainda há a carne Que no mercado liquidarão cem criadores Muito ávidos. Aqui está: “Caro Pierpoint. acredito. Mas não foi por causa da carta. SLIFT: Tudo depende de quem escreve a carta. assim. Parece. esmagado. essas teorias de gabinete. Corromper ou abolir as tarifas. Eu fui vê-los cair. eu comprei. os preços cairão a trinta. Não. Então pode ser que. escapando bem. Não é qualquer um que pode.. caro Pierpoint. Ah! Meu caro Slift. Sim. Escuta: X comete um roubo. Em quinze de novembro. indicado. então. na melhor hipótese. Realmente eu não vejo sentido nesta carta. MAULER: Corromper assim. eu não agi por razões vis. sob os arcos de alguma ponte. eu tenho a impressão De que nada de bom sairá daí. Essa seria uma saída. Tu as compraste a cinqüenta mas. Ainda pela manhã. a não ser que golpeie Y Se ele golpear.. votarão contra as tarifas aduaneiras. então? Mauler sorri. continuando a leitura . Mas esta mulher comoveu-me a tal ponto Que mal lancei os olhos. SLIFT – Tu deves fazer o que? MAULER – Comprar carne. dizer-lhes Que ninguém era louco o suficiente Para comprar carne em conserva. ou a vinte e cinco.. de anunciar-te que nosso dinheiro começa a render seus frutos: muitos são aqueles que. hoje. MAULER: Oh! Slift. comprar carne. é verdade. deverás escoá-lo em um mercado que já não consegue absorver uma única lata. rir-me deles. eu me escutei dizer: “Eu compro tudo”. teus amigos de Nova Iorque? MAULER – Que eu devo comprar carne. mais notícias.. quando os preços estiverem em trinta. SLIFT – E tu compraste! MAULER: Oh. Facilmente nascem guerras À custa de tais atitudes. de resto. eu comprei! O que eu fiz! Coloquei sobre minhas costas toda a carne desse mundo! Trôpego.22 Primeiro compraste ao Cartel um estoque de vinte mil toneladas de conservas. mas Y o surpreende. Estão erradas. E uma vez lá. muitos de meus concorrentes balançavam. eu estou perdido! Esse é o meu fim. amanhã. É coisa que também não se deveria fazer. Sob o fardo de toneladas de latas de alumínio. Ah. eles me escrevem para comprar. Essas pessoas são gente de bem? MAULER – É gente com liquidez. Os preços baixarão novamente. Receberás. Nas semanas vindouras. Milhares de homens sangram Por causa deste imundo dinheiro. o Cartel te entregará mais cinqüenta mil toneladas a cinqüenta. MAULER: Tu compreenderás. Na carta que recebi de Nova Iorque essa manhã. eu te juro.“Estamos em condições. SLIFT – E o que escreveram. safa-se. . eu estou perdido. SLIFT – Quem são. O ladrão está perdido. na Câmara. sim! Eu comprei carne. qual Atlas. SLIFT – E por que reclamas de ter comprado? MAULER – Sim. apesar de tudo. Cairei.” SLIFT. Ou desencadear guerras.

MAULER – Eu não compro. eu compro. sobretudo. Persuadir os criadores da oferta excessiva. (Os criadores colocam-se diante da porta da direita. mais de dez mil criadores que não sabem mais a qual santo rezar. E por agora também não penso em reabrir a fábrica. é verdade. não foi bom.) Saia. Traga-me até a menor mancha de gordura. Os enganados serão os criadores. todo esse gado? SLIFT – Vejo apenas Graham. Slift tragame tudo o que se pareça. Isto é o principal: Sumir com o gado. Eu fiz “A”. então. Slift volta. Nem a mim nem aos que me acompanham. e diga-lhes que quero refletir dois minutos. Pois. Vão para lá. àquela gente que está com ela. Slift. Joana entra acompanhada dos criadores. Toda a carne posta em conserva até hoje. (Ele calcula. MAULER: É verdade..23 Da mesma maneira a carta – que está errada – Requer – para acertar – um crime desta ordem. E comprar-lhes tudo. OS CRIADORES. Tu és o responsável por nossa desgraça. Ele desenha um “A” na porta de um armário. para o outro lado. para evitar me encontrar. Retumbar de tambores. E nós somos. minha decisão está tomada. depois. eu não comprarei! Eu que já carrego toda a carne desse mundo. SLIFT. a partir de hoje. de perto ou de longe. de seus delitos. SLIFT Tu que não querias mais comprar um chapéu. Ele pede-vos dois minutos de reflexão. Joana diante da porta da esquerda. JOANA – Nós o faremos sair de sua toca. no fim. Não. Slift. (Ela ri. Agora. SLIFT – Qual crime? MAULER: Um crime que eu não poderia cometer.). Pierpoint! MAULER: Ah! É verdade. das fábricas paradas. Feliz se. tentará sair pela outra porta. Vais comprar todo o gado de Illinois.) Slift. diante da porta da esquerda – Enquanto os criadores não forem ajudados. SLIFT – Por aqui. que precisa bastante. SLIFT – Não deverias ter comprado. Senhor Mauler. Slift sai. é preciso que eu lhe fale da miséria dos criadores de Illinois. eu vou comprar. Devo comprar ainda todo o gado de Sírius? É como se alguém viesse dizer a Atlas Que não mais agüenta. em todo o Illinois. como quem captura um grilo. eu estou comprando e compro ao preço do dia. Slift? Não quero reencontrá-la e. não sairemos daqui! MAULER – Tu dizes Graham? É verdade que ele precisa de gado? Saia. Compra então o nosso gado! MAULER: Fecha a porta. Ele não gosta muito de me ver. quero paz em minh’alma. nem chapéu nem sapatos. Quando ele me ouvir cantar aqui. e tudo o que cheire à banha eu compro também. MAULER – A outra saída onde é. aos criadores – Pierpoint Mauler está examinando vosso pedido. Eu não compro mais nada. . Quem me comprará. com um porco ou com um boi. ele se dirige à porta da direita. tiver cem dólares no bolso. Que eles tirem. JOANA. Slift. Também trouxe alguns trabalhadores que adorariam perguntar-lhe quando o senhor reabrirá a sua fábrica. Mauler. diante da porta da direita – Sai. Slift. Mas então. Antes de ter saído dessa. A operação é simples: seria preciso comprar Todo o gado que se encontrasse em pé. eu não quero meter o dedo neste negócio. Lembrá-los de Lennox. No interior da casa. a cinqüenta.. dobrando-se sob o peso da terra: Saturno também precisa de apoio. grandes lucros! É verdade que o ganho seria apreciável.

Entra dona Mulberry. tão errado quanto “A”. DONA MULBERRY – E meu aluguel. SLIFT. dona Mulberry. mas por enquanto não se preocupem. JOANA. . e. DONA MULBERRY – O que me agradaria muito. VII Os mercadores são expulsos do templo TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS Sentados em uma longa mesa. Eles não têm pão. Infelizmente. sábado próximo. que são gente de bem. O dinheiro nos permitirá também pagar à nossa querida proprietária. o aluguel que ela tão gentilmente tem adiado. Mas seu nome não deve ser mencionado.24 Dominado por seus sentimentos. Trabalham duro e vestem-se decentemente. grita a eles – Digam ao senhor Mauler que os Chapéus Negros lhe agradecem. GLOOMB – No começo falaram em reabri-los. sai e se dirige aos criadores – Para salvar Illinois e impedir a ruína dos fazendeiros e criadores. BISPA SNYDER – Não se aproximem muito da caixa! Ele fez sinal para que eles recuem até o fundo. em nome de Deus. os Chapéus Negros esvaziam suas latas de ferro e contam ao óbolos das viúvas e dos órfãos. (Os Chapéus Negros saem. pois eles sabem que as fábricas receberam encomendas. Assim eu decidi. minha cara dona Mulberry. (Aos operários:) Quando os que compram gado e os que o vendem se acertarem. OS CRIADORES – Viva Pierpoint Mauler. os dispensados esperam ainda pacientemente na porta dos matadouros ou já começam a dar discursos revolucionários? DONA LUCKERNIDDLE – Desde ontem gritam bastante. Ela sai. convidar em vosso nome as pessoas ricas e bem colocadas de Chicago. Pierpoint Mauler resolveu comprar todo o gado que se encontrar no mercado. dão certo. Faça entrar os fazendeiros. Comandante dos Chapéus Negros. Talvez isso tenha a ver com o fato de que eles não possuem nada. ao fundo. entre os quais dona Luckerniddle e Gloomb:) Vocês de novo? Vocês passam a vida aqui? O trabalho voltou nos matadouros! DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. sobretudo nas camadas inferiores da população. acabamos constatando que esses segmentos demonstraram. não é preciso que as vendas sejam feitas em seu nome. mas não fizeram nada. uma avareza completamente inexplicável. Suas misérias são grandes. GLOOMB – Muitos já dizem que se não empregarem a violência não haverá trabalho para todos tão cedo. Mas Deus todo poderoso Achará os meios de alimentá-los! BISPA SNYDER. Aos pobres:) Digam-me. que cada um volte alegremente às suas funções. para vocês também haverá pão novamente. E eis que “A” e “B” tomados juntos. que eles nos ajudem a desferir. se levantando – Que mixaria! Que mixaria! (Dirigindo-se a alguns pobres. Eles não têm teto. Eles não são como os outros. o que foi feito dele? BISPA SNYDER – Meus caros Chapéus Negros. Alguém se equivoca: “A” é um erro. não se esqueçam de varrer a escada. BISPA SNYDER – Agora. sobretudo. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Recolham cantando Os trocados dos órfãos E os trocados das viúvas. proprietária do imóvel. Que dão medo de olhar. salvador do comércio! Eles entram na casa. pelo que acaba de fazer. frente a Deus. um grande golpe no ateísmo e no materialismo que reinam nesta cidade. Em seguida comete “B”. caros ouvintes! Para resolver o delicado problema do financiamento nós até agora apelamos aos pobres e aos mais pobres.

precisamos de sopa quente e música animada. senhora bispa. recompensados por suas penas. novo soco – Que tu achas que eles querem. OS FABRICANTES – E quanto querem pelo serviço? BISPA SNYDER – Oitocentos dólares por mês. Porque já começam a dizer por todos os lados que a desgraça não cai do céu como a chuva.25 – Isso nos é favorável.. Graham. (Os fabricantes de conserva caem na gargalhada) E tudo isso por apenas oitocentos dólares por mês! GRAHAM – Não precisas de tanto.. SLIFT – Mauler e eu não compramos um centavo sequer de gado. diremos a eles que a desgraça vem como a chuva. SLIFT – Quem poderia ser? GRAHAM. a Snyder – Todos pobretões. MEYERS – Eu me pergunto. BISPA SNYDER.. GRAHAM – Confesse. sim! Vocês agora terão que achar alguém que faça a doação. dando-lhe um soco na boca do estômago: Velho cão imundo! Vamos. estão acima da querela. minha cara. é saber de que lado vocês estão! Desse lado da barricada ou do outro? BISPA SNYDER – Os Chapéus Negros. mas que serão. após a sua morte. SLIFT. Nós também prometeremos a eles que os ricos serão punidos. MEYERS – Setecentos e cinqüenta. Deus é testemunha. quinhentos? GRAHAM – Quinhentos sim. Bispa Snyder! Todos riem. Já é melhor. os Chapéus Negros. Slift? (Slift simula um ar astucioso e exagera na mímica do ato de dar dinheiro). MEYERS – O que não será fácil. tomar as fábricas em nossas mãos para que todos possam trabalhar e comer. menos Snyder. a Meyers – Essa senhora não tem senso de humor. precisamos do gado. portanto. os Chapéus Negros. os reis da carne nos escutarão mais facilmente. então. que eles estão destinados ao sofrimento. vocês certamente precisam. mas que ela é provocada por aqueles que dela tiram vantagem. Na mosca. e vá dizer ao Pepê Que afrouxe o laço. ouvimos dizer que há nos matadouros cinqüenta mil pessoas sem trabalho. um dia. a Snyder – Desembuche! Eles se sentam no banco dos fiéis. Slift. Do lado de cá. bispa. GRAHAM – Até tu? E Mauler também. sem que ninguém saiba como. MEYERS. MEYERS.. mais então. sem dúvida? SLIFT – Sem dúvida. a Snyder – O que querem de nós? GRAHAM. SLIFT – O essencial. E que alguns entre eles começam a resmungar e a dizer: devemos nós mesmos cuidar do negócio. É nosso nervo vital! SLIFT. na frente do palco – Então. E já citam vossos nomes. GRAHAM. Meyers. Senhor Slift. são vocês que estão com o gado. Graham. o Pepê está com o gado.. OS FABRICANTES – Por que falar em pagamento? BISPA SNYDER – O pagamento do qual falamos é feito após a morte. portanto. BISPA SNYDER MEYERS Há um cretino que razia o gado E que sabe bem que estamos comprometidos A entregar carne enlatada E que. BISPA SNYDER – Podemos dar um jeito com setecentos e cinqüenta. confesse Slift. Quinhentos dólares. não gosto disso. a Snyder – Quinhentos dólares? Isto é muito dinheiro! Quem vai pagar? SLIFT – Ah. Que tal. afirmando que sois vós os responsáveis pelo desemprego! Em breve eles dirão: queremos fazer como os bolcheviques. no púlpito – Nós. tão certo quanto eu estou aqui. Nós. Se vierem para cá tocados a pedradas. onde poderia estar todo o gado! GRAHAM – É o que eu me pergunto também: onde poderia estar? SLIFT – Eu me coloco a mesma questão. (Aos pobres:) Vocês não poderiam ao menos cortar lenha para nós? OS POBRES – Não há mais lenha. Entram os fabricantes de conservas: Cridle. . (Aos outros) Eles carecem desta quantia. não enrole. Slift! MEYERS..

JOANA. É preciso ser muito tonta! Na verdade. Os Chapéus negros aparecem na porta. avançando: Eu te conheço: tentei te convencer A trabalhar nas serras que me cortaram o braço. (Joana sai atrás deles com o mastro de uma bandeira. pois. indo de um lado a outro. e que os operários poderiam comprar a carne. e rápido. senão ficam imobilizados. mas também os esconde De todos os olhares. É o seguinte: alguém sumiu com o gado do mercado de uma maneira que somos obrigados a ficar de olho em Mauler. ao me veres aqui. De bom grado.No começo falaram em reabri-los. aos fabricantes: Esses pobres continuam a esperar trabalho? Silêncio dos fabricantes Eu que pensava que eles estavam arranjados! Faz já oito dias que neva nas costas deles. que ela usa como se fosse um porrete. Basta que alguém diga: está acertado. Dirigindo-se aos fabricantes: Mauler. ajudo também aos de baixo. Esta neve os mata. dizendo-me: ajudando aos de cima. e eu. Se essas pobres criaturas. Saí.) Saí! Quereis transformar a casa de Deus em um estábulo! Saí! Nada tendes a fazer aqui! Cabeças como as vossas. Parece que podes fazê-lo agir ao teu gosto. avançando: As vinte refeições foram comidas! Não te irrites. entretanto. olhando os pobres. Se fizeres isso por nós. própria para jogar água na fervura. vós então vos borrareis todos. e nessa atitude há alguma coisa que parece exploração. comprou-vos conservas Por minha solicitação! E não reabristes ainda? OS TRÊS – Está correto. Para que ninguém mais vá olhar de perto. senão lançar-me-ei sobre vós e golpeá-los-ei a cabeça. perdi demasiado tempo até sabêlo. gritando alto a Joana – Ah. mas não fizeram nada. eu sei o que faço. Mas cruel é a fome: Renasce sempre. Dizem que ele come na tua mão. nós não queremos mais ver. JOANA. Nós queremos reabrir nossas fábricas. Não me detenham. Mas o Bom Deus tem uma opinião muito elevada de Si mesmo para ser sempre a vossa babá para todo o serviço e para vir limpar vossas cavalariças. Mas agora. da tua vista sairia. Sois indignos e eu vos expulso! Apesar de vosso dinheiro! . qualquer um que queira ajudar aos pobres deve ajudá-los a protegerem-se de vós. pagaremos o aluguel dos Chapéus Negros por quatro anos. JOANA – Por que não trabalham? Não arranjei trabalho para vocês? DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. quem comerá a carne que nós compramos? E para que nós a compramos.26 Entra Joana SLIFT – Aí está a nossa Santa Joana da Bolsa de Carnes! OS TRÊS. empunharem um porrete para bater em vossas cabeça. e a religião vos parecerá de novo algo de muito bom. Estou pronto. se os consumidores não têm com o que pagar? JOANA – Em vossas gigantescas instalações e vossas fábricas detendes as ferramentas dessa gente: deveríeis ao menos permitir que eles as usassem. mal tendo sido saciada. GLOOMB . Haveis perdido então todo o respeito pelo que se parece humano? E ousais anda vir à casa de Deus porque possuem o vil metal? Sabe-se bem de onde haveis tirado esse ouro e como o haveis adquirido. sem pena também Esqueci o que todos se apressam em esquecer Para rapidamente estar em paz com suas consciências. GLOOMB. para fazer pior. que haveis atormentado ao extremo. aí estás! Nós não estamos muito contentes contigo! Tu não poderias dizer uma palavrinha de nossa parte à Mauler? Parece que tens sobre ele alguma influência. supúnhamos que iriam retomar o trabalho. hoje. É preciso que ele libere o gado. SLIFT – Mas querem antes estrangular os agricultores! OS TRÊS – Como abater gado que não existe? SLIFT – Quando Mauler e eu compramos a carne de vocês. E eu. ela está espantada – O que fazem vocês aqui? DONA LUCKERNIDDLE.

JOANA. oferece teus bons préstimos. pois esses que te seguem não são mais do que escória e refugo. Quanto ao pão que precisamos comer. Eu pedirei sua ajuda. agora. comê-lo também! Vá-te então. ah. ela retorna vestida como uma jovem camponesa. não tem nenhum mandato! É apenas uma mulher que perdeu a razão! Ela está despedida! Ela fará pelos senhores tudo o que desejarem.27 – Está bem! Mas conosco. Serve-lhes água de chuva e belas palavras Pois do céu não lhes vem mais do que neve E não misericórdia! A humildade. não temos mais um centavo. Vá sob a neve e continue intransigente! JOANA – Quer dizer que devo tirar meu uniforme? BISPA SNYDER – Tira o uniforme e arruma tua bagagem! Sai desta casa e livra-nos da escória que arrebanhaste. então. Tu que planas mais alto que as questões terrenas! Parta sob a chuva. de um ao outro. Por causa do aluguel. entrando — Vocês já arranjaram o dinheiro? BISPA SNYDER – Deus encontrará logo o meio de pagar o abrigo bastante modesto – eu disse modesto. correndo sai atrás deles – Fiquem senhores. modestamente. eu lhes trarei a sopa. ela não representa ninguém. terá de se mudar. Doravante farás parte dela. é bem disso que se trata! Falaste a palavra exata! Se o Bom Deus paga. onde não escutam mais Os pedidos de salvação do resto dos humanos. vão-se irrevogavelmente quarenta meses de aluguel. BISPA SNYDER. está bem. não se vão. Ela carrega uma mala pequena. Enquanto não tiver feito de Mauler um dos nossos. como jamais viu antes o mercado do gado! Saída dos fabricantes de conservas. Anda cuidar de tua vida. Trazendo-vos totalmente convertido. entretanto. DONA MULBERRY — Sim. . BISPA SNYDER. BISPA SNYDER: Infeliz ignorante! Como não vês que operários e patrões. É mister que haja um Justo entre eles! Ela sai. De qualquer maneira. Mediadora inútil e que cava a própria cova. é muito justo que pague. de volta Convida a tua casa. OS TRÊS Joana sai. dona Mulberry – que ele encontrou sobre a terra. Enfrentam-se como gigantes? Vá. Mesmo que o dinheiro os carcoma como um câncer Devorando o que seu resto tem de humano. Mas se ele não paga. Mas como deixar-se levar por isso? (À dona Luckerniddle e a Gloomb:) Sentem-se lá no fundo. bispa Snyder? Ela sai. Se o Bom Deus não paga o seu aluguel. na ponta dos pés. e a partir de sábado à noite. tudo bem. tu a ignoras E cedes a teus impulsos! É mesmo muito fácil Caçar esses impuros com um gesto cheio de orgulho. Povoada de cânticos e palavras que despertam. esses pobres. Eu não desejo Colocar novamente o chapéu e o uniforme negro. prisioneiros Em uma torre de marfim. Nós iremos viver dias terríveis. no coração da tormenta. Nem outra vez cruzar o limiar dessa querida casa. Mesmo que ele os torne surdos. JOANA Irei ver o rico Mauler. fracos. Queres. aos Chapéus Negros – O que acabo de fazer certamente foi pouco habilidoso. tudo mal. DONA MULBERRY. Homem de boa fé e destemido. Grupos inimigos irreconciliáveis. Fazes-te de difícil e és muito curiosa Para saber como é feito.

Houve discrepâncias entre nós. MAULER: Seria preciso esfolar esta cidade maldita E ensinar-lhes o seu ofício A essa gente. por um momento. meu caro Slift. Então eu disse a mim mesma: vá dar uma olhada no que se passa com o senhor Mauler. mesmo nas pequenas coisa. SLIFT: E tua Joana? Algo de novo? Um boato corre na bolsa: dizem Que te deitaste com ela. Desde Que ela nos expulsou do Templo. E na nossa mão é mais caro. desta vez. os preços a oitenta. Mauler. Agora que não tenho mais o trabalho fatigante da missão. Deixo minhas coisas nesse canto. se eu estivesse lá. Neste mercado de Chicago Todos os bois que se escutam mugir São nossos bois. É que eu não estou mais com os Chapéus Negros. carregando uma mala.28 VIII Discurso de Pierpoint Mauler sobre a absoluta necessidade do capitalismo e da religião ESCRITÓRIO DE MAULER MAULER: MAULER: Chegou enfim o dia em que nosso caro Graham. no seu escritório? Sempre achei que o senhor devia possuir um dos grandes palácios de Chicago (Mauler se cala). Não se possa aceitar gente da minha laia. de perto ou de longe. Não se fala mais dela. que tu tenhas superado Teus recentes acessos de fraqueza. realmente. Dir-se-ia Que Chicago a engoliu Em sua negra e ruidosa bruma. senhor Mauler. Terão de pagar mais caro. onde enfiaremos o pé Unicamente para ver a marca que deixa. Mas o senhor tem razão. Slift. mas por que o lençol em cima. E os preços Subirão ainda mais. de ser cuidadoso. Faça subir. Graham e companhia ficarão então parecidos À lama. Mas o senhor. e cada porco Que eles precisam nos entregar. SLIFT: Estou feliz. Assemelhem-se a bois ou porcos. e que nem mesmo está dobrado direito? Diga-me: o senhor dorme aqui mesmo. Ele sai. queriam esperar Que o preço do gado caísse o mais baixo possível. É um belo sofá que o senhor tem aqui. E todos aqueles que como ele. MAULER: Agora. Gostei muito de vê-la expulsá-los do Templo. Não é fácil encontrá-lo. Ela não tem medo de nada. Não pretendo soltar um só grama de carne A fim de arrancar-lhes mesmo a pele desta vez: É a minha natureza quem exige. Em busca de animais que. Slift. senhor Mauler. JOANA – Bom dia. Eu desmenti. e de que. Senhor . Deixar que gritem: “É um crime!” Entra Joana. dá rédea solta a teus corretores! Deixa-os correr o mercado. A mim também Teria expulsado. posso me interessar mais por cada homem em particular. Serão obrigados a comprar a carne Que devem nos entregar. Eles precisam comprar de nós. Vou ver como eles compram. Gosto nela deste traço. SLIFT. em sua casa.

não querem partir. vá dizer-lhes isso. Ela começa a comer avidamente. encomendei a carne. senhor Mauler. Que meu comércio não é antinatural. Há quanto tempo não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Oito dias. na minha vez. de pé... Eu não conheço.. e aos Chapéus Negros é preciso auxiliar.. nos deu prazo só até o próximo domingo. Mesmo que deva cortar na carne. que vive do aluguel.29 Mauler. Assim como aos criadores. Nesta história dos cinqüenta mil trabalhadores. aos fabricantes. Não pude dar-lhes trabalho rapidamente.. Toma. MAULER – E do que tens vivido? (Silêncio de Joana) De nada. não faço mais parte. MAULER – . a proprietária. Trata-se de saber Se eu serei o melhor de minha classe Ou se tomarei eu mesmo. Confirme que foi por teus conselhos Que eu. E como eu sei que sois pobres E que querem privar-vos Do teto que vos abriga. Teria adorado ouvir-te dizer Que o que eu faço está bem. o que me agradou muito e me pareceu justo. Quando não o tens. Eis o desafio. JOANA – Sim. é claro. ser ou não ser. naqueles pátios imensos. MAULER – Ah! E agora os Chapéus Negros estão em uma situação financeira difícil? JOANA – Sim. Queres? Joana observa a comida. arrancar a pele desta cidade. a coisa não andou. está caro. ainda por cima. O escuro caminho que leva aos matadouros. Estás de acordo? JOANA – Sim. eu não comerei. quando nós expulsamos os ricos de nosso templo. tenho boas esperanças de que sua consciência esteja em paz nesse momento! MAULER – Então não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Não.. Vou agora mesmo à Bolsa para procurar o dinheiro. Joana pára de comer. eu lamento Que o trabalho ainda demore nos matadouros. e que agi bem. Eu confesso cruamente. eu buscarei o dinheiro a qualquer preço. JOANA – Senhor Mauler. senhor Mauler. Mas eu o encontrarei. mesmo à noite. Mauler vai até o fundo do palco e chora. Daqui até sábado. O dinheiro. Um trabalho ruim. É por ti que o faço.. Aqui está por escrito. MAULER – Vá dizer-lhes que o dinheiro está chegando. Eu quero dar-vos alguma coisa Para provar-vos a bondade de meu coração. o dinheiro para vocês eu terei. sim. JOANA – Os operários continuam esperando nos matadouros? MAULER Por que és contra o dinheiro? E por que então. Eu também. é lógico. É Mauler quem vai dá-lo. Ele traz comida a ela em uma bandeja. não como eu queria. Eles são cinqüenta mil Que permanecem lá. muda logo a tua cara? . E que. Uma vez mais. senhor Mauler! MAULER Tome. Mas nesse negócio. Corra.. MAULER: Tão mudada! Apenas oito dias! Onde ela esteve? O que ela viu? E por que essas rugas em torno dos lábios? Esta cidade de onde ela saiu. Mas contigo não será assim. MAULER – Não te inquietes. Eu te encontro bastante mudada. Eu irei à Bolsa encontrar o dinheiro que lhes falta. E foi por isso que eu me disse: irei ver o senhor Mauler. JOANA – .

Que seria suprimido por falta de utilidade. nem Deus. Modificar por inteiro o plano do edifício. Atribuir ao homem um lugar totalmente diferente. Daqueles a quem ninguém oferece nada. Pouco ou muito segundo o caso. Fazendo Dele a única salvação. ou quase. Eu não compreendo E nem quero compreender. O dinheiro é um meio De melhorar um pouco a vida. Ao menos a vida de alguns. Não desejais. Ele alcança o papel a Joana. de cima a baixo. MAULER . Por Ele batendo os tambores. durmo mal à noite. eu deveria estar feliz De ver que alguém vem em ajuda a Deus. Eis porque esta obra é sempre defendida Pelos melhores entre os homens. sob gemidos. aliás. Em uma palavra é preciso que vós Restabeleçam Deus em sua glória. Eu sei. E que. Mas mesmo assim verdade: Sobre a terra nada há de sólido. Para que Ele finque pé nas favelas E para que Sua voz retumbe nos matadouros. Concepção inaudita à qual vós mesmos. Na banal verdade. Como esses bobos para os quais o dinheiro Tem não sei qual problema. Mas saiba com qual objetivo foi dado! Tome isso! Saiba que representa O aluguel de quatro anos. Quero saber. Pouco agradável. Mas eu faço parte daqueles Para quem essa não é uma ajuda. E se vós não precisais se expor aos sacrifícios. Obra imensa. JOANA Senhor Mauler. Olha também como o mundo é feito! Que edifício! Obra dos homens. Esse sistema é o único que permite arrancar O que pode ser arrancado dos rigores desse mundo. Sim. Isso que o senhor falou. Por isso vós deveis nos ajudar em nossa obra. sob chuva e frio. Que o gênero humano está entregue. Ainda que dia após dia se precise reconstruir O que dia após dia é destruído. Apanhe o que te dão. Seria como um mosquito Tentando se opor a derrubada de uma montanha. nem nós tampouco: Não seríamos necessários. eu concordo. veja bem. As coisas não deixariam de seguir o seu curso de antes. E incessantemente construída. Desde que existem sobre a terra. isso será suficiente. Ela se levanta. sem dúvida. Tão penosa de construir. É à sorte. Ou então seria preciso mudar tudo.30 O que pensas tu do dinheiro. malgrado os sacrifícios. diga-me.O que nós não vos exigiremos de nenhuma forma – Devem dizer ao menos que eles são justificados. . Não enchas a cabeça de falsas idéias. destruído na mesma hora. Mas pensa na realidade. eu que nutro Poucas simpatias pela ordem do mundo. Se eu quisesse me retirar. Assim. Eu seria varrido.

Vai à janela e repara se neva. Mauler. MAULER Esta noite. sem uma palavra. Saberás que neva sobre ela. se o senhor quiser me ver Me verá nos matadouros. Notei uma massa humana. Depois eu gritei palavras em tom belicoso Em uma língua para mim mesma desconhecida. Se for um punhado de neve o que lhes dão. levanta-te. E se nevar. e outras familiares. Quantos eram eles? Eu não sei. JOANA Terceira descida de Joana às profundezas. Arranjando para não ver esses condenados. Perto dela Gloomb e dona Luckerniddle. Há sete dias: Diante de mim. Fez esta massa começar a fluir. Eles formavam uma massa tão densa. que vive da pobreza. IX Escutai o que eu sonhei. Eu comerei esta neve. desfilando. Ela sai. Cercado de todos os lados por enormes edifícios E tão pequeno que a sombra de um arbusto O teria encoberto totalmente. soluçando e jurando Logo fora de mim! Virtude e terror confundidos! . Que alguém gritou em algum lugar. E o senhor. BAIRRO DOS MATADOUROS Joana. Eu marchava. do que os pardais Que se poderia colocar em tal lugar. E se não houver trabalho. Mais numerosos. com passos guerreiros. A cada hora. Mas eu me sentarei Em frente aos matadouros. E então uma palavra. em um pequeno campo. Chicago! Vós também Lá estavam. Que o campo inflou-se e uma cascata humana Inteira ficou pendurada em suas elevadas bordas. Que o aceitem. No futuro. Sem poder suportar a visão dos pobres Que os julga sem conhecê-los. E o trabalho deles também. creia-me. Eles fazem muita questão do dinheiro. com aqueles que esperam. por toda a parte. pulsando vida. e então eu me vi: À vossa frente. E eu. JOANA Se os Chapéus Negros quiserem o seu dinheiro. Vi depois cortejos E ruas desconhecidas. Pelo menos não honestamente. 1. a fronte ensangüentada. E isso é muito bom. em todo o caso.31 Leva aos Chapéus Negros este dinheiro E poderás ficar com eles. Eu serei como eles sem trabalho. Pois esta vida sem eira nem beira não te serve. Jogados aos matadouros e de tudo ignorantes. afluíam inúmeros cortejos. Ao mesmo tempo. eu quero fazê-lo. Ficarei lá até que as portas sejam reabertas. Sobre ela que tu conheces. silhueta múltipla. marchava à sua frente. uma palavra sem importância. Ela permaneceu suspensa por um instante. Jovem e velha. E nada comerei além do que eles comem. A tempestade de neve. Eu também não tenho dinheiro E nem uma maneira de ganhá-lo de outro modo.

Habituados ao sofrimento. Mauler. Precisamos comprar e os preços aumentam! . transparentes. Influenciando o curso dos planetas distantes. Hoje eu compreendo o seu sentido: Nós deixaremos os matadouros antes do raiar do dia. E com a aurora chegaremos a Chicago. GRAHAM: Ao preço antigo? MAULER: Como combinado. Assim foi o meu sonho. a cidade deles. Ocasionando imensas destruições. abandonando este lugar insuportável Por qualquer outro. ao abrigo dos ataques inimigos. Senhores. Para aí mostrar a todos. E assim andava o cortejo. Todas as conservas Previstas no contrato. Graham. não nos podiam alvejar. a preço vil. nas praças públicas. OS CRIADORES aos fabricantes de conservas: Meus amigos de Nova Iorque me escreveram Que as tarifas aduaneiras no Sul Acabam de ser derrubadas. estávamos fora de alcance. DONA LUCKERNIDDLE – Se ela tivesse calado um pouco a boca lá nos Chapéus Negros. libere-nos de nossos compromissos! MAULER: Estou desolado. sem mais delongas. que eu saiba. OS FABRICANTES: Mas como nós poderemos Comprar gado com preços em alta? Alguém promoveu uma razia. E também perturbando o aspecto familiar de ruas bem próximas. éramos inatingíveis.32 Tudo o que eu pisava. Eu andava no mesmo passo que o cortejo. O que acontecerá. bem e aquecidos! 2. eu ignoro. OS FABRICANTES Desgraça! As tarifas caíram E nós não temos mais bois para vender! Eles já estão vendidos. e pior. Rendidos pela fome. A exata extensão de nossa miséria. Um pouco caro. MAULER: Sendo grande a demanda De conserva e de vianda E sendo os preços aceitáveis. modificava. GLOOMB – Dona Luckerniddle. mas preciso das conservas. e pior. Ninguém sabe quem foi. é verdade. Habitando em lugar algum. UM PEQUENO BAR NO BAIRRO DOS MATADOUROS Desgraça! As tarifas caíram! E nós não temos mais carne para vender! Ela já está vendida. Comprem-no! OS FABRICANTES: Comprar gado nestes dias! Que horror! 3. Há muito gado. BOLSA DE CARNES MAULER. Envolvida pela neve. a senhora entendeu esta história? Eu não. Eu exijo que me entreguem. Faremos um chamado a todo o ser que pareça humano. Oitenta mil toneladas. nós agora estaríamos comendo a nossa sopa.. a preço vil. se eu me lembro direito Daquela hora em que perdi um pouco o juízo.. mas existe.

por favor! OS CRIADORES: Não sobrou mais nada! Tudo o que podia ser vendido . não o ódio. Eles precisam fazer isso para conseguir um pouco de calor e de comida. hoje (eles não estão escutando nada!) basta que eu pense muito em Jesus. eu prefiro os atos. já ouvi demais. à dona. BOLSA DE CARNES OS FABRICANTES: Nós compramos qualquer gado! Bezerros! Gado gordo! Vitelos! Bois! Porcos! Façam as suas ofertas. não a violência. Joana se levanta e. JOANA. e o velho Adão dentro de mim não tinha outro desejo do que comer e beber. grande o nosso regozijo. por causa do meu marido. faz desesperadamente sinais para que saiam. Intercala sua pregação com observações aos companheiros. tu também. dona Swingburn? A MULHER – A sua música era bonita. como vocês. minhas irmãs. UM TRABALHADOR. apesar de todas as nossas más ações. meus irmão. Vinde a ele. o amor. JOANA – Então não há ninguém que tente fazer alguma coisa? O TRABALHADOR – Sim. surpreendendo-se pela ingenuidade – É sério? A senhora acreditou nisso? DONA LUCKERNIDDLE – Eu também. soldado dos Chapéus Negros: . Nosso Senhor. que alguma voz. Se algumas pessoas soubessem calar a boca eu saberia onde procurar abrigo esta noite. Nosso Senhor. mas eles traziam uma panela. (É tudo absolutamente inútil!) Eu lhes digo: ajudem-nos a manter a marmita fervendo! OS CHAPÉUS NEGROS .Aleluia! (Jackeline faz circular a cuia de esmolas. GLOOMB – Bondade curta. fazendo o gesto de contar dinheiro – A senhora consegue manter a marmita fervendo. Ah. DONA LUCKERNIDDLE – Eles são boas pessoas. tenho apenas sede da palavra de Jesus. que nos salvou na dor. do pão de Deus? Grande é nossa alegria. reina a paz. eu esperava que eles fossem ao menos nos dar um prato de sopa. Bem que eu gostaria de estar com eles! DONA LUCKERNIDDLE – A música era bonitinha! GLOOMB – Bonita e curta. depois de entoar um cântico apressadamente: Por que não provar. JOANA – Onde eles estão? GLOOMB – A dona Luckerniddle pode lhe dizer. Discursos. UMA MULHER Por que vir aqui fazer escândalo Com tamanho frio! E se pudessem ao menos se calar! Com muito custo eu consigo agora Suportar as palavras que há pouco amava E que me soavam agradáveis. durante a cena. A MULHER – Por que não nos procuram para tentar nos converter? GLOOMB. e eu não tenho mais fome e nem sede. vinde logo! Aleluia! Uma jovem dos Chapéus Negros dirige-se aos trabalhadores. à margem do caminho. JACKELINE. MARTHA. Onde está Jesus. (Isso não serve para nada!). mas então eu encontrei Nosso Senhor Jesus e fez-se em meu coração uma grande luz e provei uma grande alegria. Pois nós encontramos Jesus. ente os quais Joana. Luckerniddle – De onde a senhora os conhece? DONA LUCKERNIDDLE – No tempo em que eu não me fiava em gente como você eu ia bastante até eles. estava um dia sentada. Um destacamento dos Chapéus Negros chega. Silêncio. JOANA – Mas não são os tais que ficam incitando ao crime? O TRABALHADOR – Não.(Vocês acham que isso serve para alguma coisa?) Eu também. curta bondade. triste. que um resto de pudor lhes diga: Aqui reinam a neve e o vento: calem-se! 4. tenente dos Chapéus Negros. os comunistas. mas ninguém contribui) Aleluia! JOANA – Deixe-os. meu irmão.33 Trabalhadores e trabalhadoras.

Se alguém vier perturbar a reunião. É claro que é! Era o que dizíamos! O cão! Ele nos obriga a entregar-lhe as latas E é ele quem compra o gado! Somos então obrigados a comprar de Mauler A carne que deveremos colocar em suas latas! Carniceiro sujo! Tome então a nossa carne. e caro! Ofereço. Corte você mesmo! MAULER: Por que se surpreendem. Silêncio . OS FABRICANTES – Vendido a quem? Entra Mauler. Mauler.34 Foi vendido. Quatrocentos. no mais tardar depois de amanhã. Além disso. Agora eu quero sessenta! E tenham o cuidado De não esquecer as minhas latas! 5. de Chicago a Illinois. OUTRO LUGAR NOS MATADOUROS Nos cartazes se lê: “Solidariedade com os trabalhadores sob lockout!” “Desencadeiem a Greve Geral”. se são os senhores os bois.. precisamos de um prazo. Graham! As latas que me deves. Os fabricantes se precipitam sobre ele. Aprendi a falar em lugares públicos e em auditórios. mesmo nos grandes. eu tenho propostas a fazer. o apetite desperta! GRAHAM. Em frente a um galpão. De hoje até amanhã é certo que os patrões vão lançar todo o tipo de falsas notícias: eles dirão que . JOANA – São vocês os que defendem a causa dos desempregados? Eu posso ajudá-los. eu não tenho medo. eu acertarei as contas com ele! MAULER: Ah! É assim. e acho que sou capaz de defender bem uma causa. Já que não há demanda. os operários. OS CRIADORES: Oitocentos bois a quatrocentos para Sullivan Slift. Os senhores devem me entregar a carne. UM CRIADOR: Oitocentos bois de Kentucky a quatrocentos. OS FABRICANTES: Mais nada? E nas estações? Estão abarrotadas de gado. Na minha opinião é preciso fazer alguma coisa imediatamente. uma parte de nós perderá seu emprego nos matadouros e os outros nunca recuperarão o salário anterior. mesmo só uma pata. precipitando-se sobre Mauler: É preciso liquidá-lo. Chegada de Joana. Não havendo ninguém que precise de carne. para começar Quinhentos bois a cinqüenta e seis. dois homens da direção dos sindicatos discutem com um grupo de operários. Ele vai falar com Slift. Deixe-os totalmente à míngua. OS FABRICANTES: Nem pensar! Vocês estão loucos? Quatrocentos! SLIFT – Eu compro. se ela for justa. sabemos agora de uma coisa: se tudo andar como querem os industriais da carne. eu as quero agora. Os trabalhadores das grandes empresas da cidade nos prometeram declarar.. a greve geral. OS CRIADORES – Vendido. Nós. MAULER: Atenham-se à nossa combinação. É impossível encontrar um boi em Chicago. Qualquer vitelo. Terá de ser comprado de mim. UM DIRIGENTE OPERÁRIO – Escutem todos: até agora os magnatas da carne não manifestaram a menor intenção de reabrir as suas fábricas. OS FABRICANTES: É Mauler. Vendo-os. Mesmo que tenhas que te enfiar nelas! Eu vos ensinarei como se faz esse comércio! Doravante.

galpão número cinco. os preços estão a mais de setenta! OS CORRETORES – Os cabeçudos não compram. pois o endereço dado pelos camaradas das usinas Cridle para o encontro está muito vigiado. em frente ao edifício da Westinghouse! (À Joana) Quem é você? JOANA – Fui mandada embora do emprego. dona Luckerniddle? (Dona Luckerniddle faz sinal que sim). essa noite. Nós não temos ninguém para passar despercebido como ela. Eu não sou uma espiã. Tudo acontece como se a miséria dos pobres fosse útil aos ricos.35 tudo está arranjado e que a greve geral não acontecerá.. dando a carta à Joana – Vá até a fábrica Graham. MAULER: Os senhores não respeitaram. na esquina do Parque Michigan. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua vinte e seis. À Joana: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. Meyers e Cia. a Mauler. as centrais elétricas e o serviço de águas entrarão em greve em solidariedade a nós. O contrato assinado há pouco entre nós: Eu queria. (os operários riem alto) Mas é desumano! E dizendo isso eu penso também em gente como Mauler! (os operários caem na gargalhada) Por que se riem? Acho que vocês estão errados em zombar e em acreditar sem provas que alguém como Mauler não é um ser humano. pergunte-lhes se são das usinas Cridle. Por este buraco fogem todos os peixes. Você pode tranqüilamente entregar-lhe a carta. Ninguém suspeitaria que ela trabalha para nós. tanta gente na rua... Isso é bom. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E para quem trabalhava? JOANA – Eu era ambulante. UM OPERÁRIO – Pode ser uma espiã. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E em que trabalhava? JOANA – Eu vendia um jornal. com tal medida. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Não é sem provas. Esconda essa em seu casaco. e vá esperar os responsáveis defronte à cantina da senhora Schmittens. dessa maneira. Elas devem ser entregues às dez horas. encostado em uma coluna – Faça subir. UM OUTRO OPERÁRIO – Dê-me a carta para as usinas Graham. em diversos pontos dos matadouros. ouve-se gritar ao fundo o nome das empresas que suspenderam seus pagamentos: “Encerram os pagamentos. A carta é para eles. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Não. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua Três. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – E quem te garante que ela vai levar a carta que lhe entregarmos? O DIRIGENTE OPERÁRIO – Ninguém. E poderíamos até dizer que esta pobreza seja obra deles. Ela é sua conhecida. BOLSA DE CARNES Durante toda esta cena.” OS FABRICANTES – Nós não podemos mais agüentar. O operário apanha a carta e sai. estou vendo. eu sei quem ela é. Ela é honesta. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Pela nossa causa? Diga-me: ela não é também a sua? JOANA – Não é no interesse geral que os industriais jogam. Eu luto de todo o coração pela causa de vocês. – Eu já vendi jornais na rua Vinte e Quatro. JOANA 6. Quando você vir chegarem três operários com cara de quem procura alguém. etc. não é? DONA LUCKERNIDDLE – Honesta ela é. pau neles! OS FABRICANTES – Queremos dois mil bois a setenta. É do Exército da Salvação e os policiais a conhecem bem. Jack. assegurar o trabalho . Como se rede já não houvesse: De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. aos responsáveis que esperam nossa orientação. SLIFT. eu conheço o pessoal. Um operário apanha a carta e sai. Essas cartas anunciam que a usina de gás. O DIRIGENTE OPERÁRIO.

esperando. SLIFT: Faça subir. Mauler. Que sangrem. MEYERS – Cinco mil a oitenta! Assassino! MAULER. Sem contar que a polícia está evacuando os matadouros e que começa a atirar. Fala em meu nome. Impossível. mas que não rebentem. subir muito mais. por telefone. O segundo segurança sai. Ele repara no segundo segurança. Mas os senhores se lamentarão por isso. MAULER. As conservas que comprei. MAULER – Então. Vou soltar a carne e deixá-los partir. Ele pode ir longe demais. Ainda por cima está escuro. Eles já não agüentam. A encontraste? O SEGURANÇA – Não. Ceda. o vento abafa as palavras.36 Aos operários e agora me dizem Que eles ainda esperam em frente aos matadouros. Acima disso. Slift. GRAHAM: Que seja. é o fim! SLIFT: Quinhentos a setenta e sete para Graham. à procura de um parente que não encontram. Slift. não me diverte mais. Além disso. Slift. que voltou para perto da coluna – Slift. O estranho é que aqui não se ouve nada. entreguem-me! GRAHAM: Nada poderíamos ter feito. dizes. sim. O SEGURANÇA – As multidões. MEYERS – Mil e quinhentos a oitenta. voltando ao grupo: Este negócio. tudo a oitenta. eu me pego esgoelando-os E não tenho tanto prazer quanto esperava. MAULER: Atiram? Contra quem? Mas eu sei bem. de achá-la? E atiram? Encontra o Jim. A carne sumiu de vez do mercado! Quinhentos bois a setenta e cinco! MAULER: Não seria conveniente. . OS FABRICANTES – Mauler paga cinqüenta pelas conservas. Pergunta para que nós pagamos impostos! Manda arrebentar a cabeça dos líderes. MAULER. eu não me sinto muito bem. Pois a queda deles Será a nossa. Ponha os pingos nos “is”. Isso basta. No canto em que trabalham os sindicatos reina uma grande efervescência! MAULER – Quem trabalha? Os sindicatos? E a polícia os deixa incitar os operários? Meu Deus! Liga imediatamente para a polícia. é claro. desembucha! O primeiro segurança faz seu relatório. se apresentariam dez ou talvez cem. perdido por perdido. pois. A multidão anônima e sem rosto continua sentada lá. E tenho outras preocupações! Veja bem. só quinhentos. nós não podemos pagar oitenta a Mauler pelo gado. Se perguntasse por uma Joana. Senão pensarão ainda Que fomos nós que exigimos que atirassem. Mas para nós. É preciso que a cidade Possa voltar a respirar. são incontáveis. Quando se grita qualquer coisa. Vá só até oitenta e depois abaixe o preço. Eles ainda agüentam! Quinhentos bois a setenta e sete. a Slift – Onde está o pessoal que eu mandei para os matadouros? SLIFT – Ali está um. Mil a setenta e sete. Diga-lhe para que não me procure. eu não vi ninguém com o uniforme dos Chapéus Negros. O primeiro segurança sai. São centenas de milhares nos matadouros. senhor. SLIFT – A oitenta. é impossível ouvir uma voz isolada: há muita gente correndo de todos os lados.

Eles ainda agüentam. ALGUÉM – Porque estás aqui? JOANA – Tenho que entregar uma carta. esperem a resposta! CORO OPOSTO. Eles se sentam. Não vão embora. Os jornalistas lêem em voz alta) “A Madona dos matadouros. declara: Deus está solidário com os operários das fábricas de conservas. Joana. Veja. Aja conforme o meu espírito. Slift. Saindo ele encontra jornalistas. JOANA – Eu queria que vocês fossem embora. serei eu quem fará subir. não mais. SLIFT: Mentirosos! Agora serei eu que vos ensinarei A vender carne enlatada Sem ter nem mesmo um quilo! E cinco mil bois a noventa e cinco! Urros. Mas nós não queremos incomodá-la e iremos ficar ali. também em segundo plano: É mentira: por maior que seja a miséria. senhorita Dark. afastando-se – É preciso que façam chegar aos operários que eu acabo de ceder gado às fábricas. Eles não abrirão as fábricas! Eles esperarão os lucros aumentarem! E a sua resposta sairá Dos canhões e das metralhadoras! Ninguém poderá nos ajudar. a jovem pregadora dos Chapéus Negros? JOANA – Não. Então agora existe gado. JORNALISTAS – O que há de novo. NOS MATADOUROS Muita gente esperando. OS JORNALISTAS – Podemos lhe assegurar. Tu me conheces. Um homem os guia.37 – Nem pensar. a não ser nós mesmos E a ninguém podemos apelar OS JORNALISTAS . Eles não abrirão as fábricas. nos matadouros Enquanto a miséria não chegar ao máximo. Aja conforme o meu espírito. Chega um grupo de jornalistas. SLIFT MAULER Eu preciso de ar fresco. OS TRABALHADORES. Virão três pessoas. E se quiseres abrandar. Prefiro abandonar tudo Do que ser a causa de uma desgraça! Oitenta e cinco. Nós publicamos isso com manchete de oito colunas. (Joana vira-lhes as costas. OS JORNALISTAS – Veja bem. em segundo plano. Eles terão de nos responder. Continue então com o negócio. pode ler. O HOMEM. Entre eles. Para nós a senhorita faz parte. Nesse dia sim. JOANA – Eu não faço mais parte dos Chapéus Negros. (a Joana) Esses são jornalistas. eles abrirão. Slift não tem ordem para isso. nós ouvimos. Eu não posso mais. que a opinião pública está do seu lado. É um enorme sucesso para os Chapéus Negros. SLIFT – Quinhentos bois a noventa! OS FABRICANTES: Mauler.” JOANA – Eu não falei nada disso. Joana Dark. – Olá! A senhorita é Joana Dark. Queria vender a oitenta e cinco. Mas quando a aflição for tremenda. a alguma distância. Mauler? MAULER. apontando para Joana – Aqui está. toda a Chicago comparte seus sentimentos. OS JORNALISTAS – No escritório do senhor Mauler nos disseram que a senhorita jurou não sair dos matadouros enquanto as fábricas não fossem reabertas. isso não é possível. 7. Fora uns poucos especuladores sem escrúpulos. De outra forma isso terminaria em violência. no fundo.

JOANA: Eu compreendo esse sistema. Alguns – pouco numerosos – estão sentados lá em cima E um grande número aqui embaixo. JOANA Se dependesse só de vós Eu poderia congelar nua em pleno vento. (Ela arranca de sua vizinha o pano com o qual ela cobre a cabeça) Sim. isso é normal. Já basta. é claro! É o cúmulo! Eles me roubaram até o chale! Quem foi o mão leve que pegou o meu chale? Devolvam-me imediatamente. . E para vós é fácil passar frio. A mim me esperam. que acabaram de receber uma informação. com um vasto plano. tenho frio. UM HOMEM – Silêncio! Alguém atira um trapo para Joana. E uns se sentam lá em cima Só porque os outros estão embaixo. Os jornalistas. desde fora. eu quero ir embora. O TRABALHADOR – Mas falaste com eles! JOANA – Eles me confundiram com outra pessoa.38 Que não seja um nosso igual. eu não tenho o direito de ir. o medo me aperta a garganta: Não comer. Não fazia tanto frio em meu sonho. Tenho fome e isso é banal. o que haveis deixado? Eu. não dormir. ignorar aonde te leva a vida. imbecil!. um emprego que me assegurava O pão de cada dia. foi você! Não adianta mentir. Apesar de tudo.. chega! Você é boa mesmo de copo. que de resto Já é a muito conhecido. Mas é apenas uma tábua.. Vós. E os do alto gritam: Subam. E falar Daquele que mora lá em cima. a Joana – Você está totalmente gelada. dona Luckerniddle? DONA LUCKERNIDDLE – Sim é verdade. E um ambiente. um teto e o sustento. Ficar aqui sem necessidade absoluta Parece-me um jogo indigno. dir-se-ia que é um caminho. Que audácia! Emborcar assim o whisky desse velho! JOANA – Segure a língua.. ao qual estava acostumada. Encorajada por um sonho que confirmava minhas idéias. A MULHER – Socorro. dê-me meu pano. Entre os que estão em cima e os que estão embaixo. Quando eu cheguei aqui. Enfim. Quase uma comédia. Quer um gole de whisky? (Joana bebe) Ei. Vós todos. Ir para um quarto quente. que nada tendes para comer. Onde está o meu chale? Eles me roubaram. a Joana – O que fazias com aquela gente? JOANA – Nada. confesso. Algo de obscuro. Eu não tinha sonhado que pudesse fazer tanto frio! Se eu tivesse pelo menos o meu agasalho! Ah! É fácil para vós passar fome. UMA MULHER – Que audácia! JOANA – A senhora falou alguma coisa? A MULHER – Sim. guardam-me a sopa. A qual logo se nota claramente Que serve de gangorra Todo o sistema é como uma balança Na qual os dois lados dependem um do outro. não é? JOANA – A senhora também acha. UM TRABALHADOR. a qualquer momento. levantam-se e dirigem-se ao fundo. Mas. mais do que tudo. o que deixei foi uma vocação. Empunhar a bandeira e bater o tambor. Mas eu posso. Mas. Mas a estrutura interna continua ignorada. Para que estejamos todos no alto! Mas olhando mais de perto descobre-se. ela vai me matar. UM VELHO HOMEM..

É preciso fazer com que se calem os agitadores que incitam à violência. Que barulho é esse? UM JORNALISTA – São as metralhadoras. Então a bondade existe. com a carta. se esses senhores estão dizendo? Sobre um assunto como esse não se brinca. no frio. (Ela se levanta) Eu vou avisar aos nossos que os boatos já começaram a circular. aconteça o que acontecer. JOANA: Escutem todos! Há trabalho. Os matadouros são tão grandes que a tropa levará horas até aqui. O coração deles não é de gelo. E nós vos dizemos: ficai agrupados. o seu sucesso foi formidável: nós ouvimos que Pierpoint Mauler. acaba de cedê-lo aos fabricantes. Quando se falou com ele como a um ser humano Ele deu uma resposta humana. JOANA – Oh! A boa nova! DONA LUCKERNIDDLE – Vejam as mentiras sobre as quais nos alertaram. DONA LUCKERNIDDLE – Não digas tais tolices. Classe cheia de neve e que as leis ignoram. Tu não compreendes nada de nada. Que tem a fome por mestre e onde a miséria Fala implacavelmente da necessidade! E sois cem mil alunos. JOANA: Parai! Chega de aprender essas lições! JOANA . ainda que os preços continuem a subir. no fundo do palco: Se ficardes agrupados Eles vos rebentarão. Havia entre eles pelo menos um homem honesto E ele não falhou em seu dever. E nós vos dizemos: combatei. JOANA – Mas estão atirando! UM OPERÁRIO – Pode ficar sentada tranqüilamente. E sobretudo entendam bem Que nada se faz sem luta E sem a sua própria ação. mocinha. Esse combate será perdido E talvez perdido Ainda o próximo combate Mas vós ireis aprender a combater E aprendereis pela experiência Que nada se faz sem luta E sem a vossa própria ação. Não ficaste tempo suficiente aqui.39 OS TRABALHADORES: Fiquem. JOANA – Quanta gente há aqui? OS JORNALISTAS – Uns cem mil. Não creiam em nada e não escutem ninguém. Nessas condições o trabalho voltará muito em breve aos matadouros. o milionário que dispõe de muito gado. Agora as fábricas reabrirão. Felizmente temos a carta para mostrar a verdade. UMA MULHER – Devemos voltar para casa agora? UM TRABALHADOR – Quem nos garante que é verdade? Que haverá trabalho de novo? – E por que não seria verdade. Os tanques deles vos esmagarão. Os jornalistas retornam. Mas tu. Ao longe as metralhadoras crepitam. de jeito nenhum. espera. Se combaterdes. A tropa foi encarregada de evacuar os matadouros. A não ser a proposta Que leve a mudanças verdadeiras. OS JORNALISTAS – Olá. O que aprendeis? OS TRABALHADORES. JOANA: Tanto assim? Oh! Escola desconhecida. Não te movas! Entendeu? Ela sai. Não se separem! É apenas ficando todos juntos Que poderão ajudar uns aos outros.

Por que foram presos? O que ela contém. OS JORNALISTAS – Nós a aconselhamos a sair dos matadouros. Nada de bom pode surgir da violência. Mas assim. ao longo dos anos. mas agora a coisa está terminada. e ninguém Poderá manter a sua calma. estão muito enganados. OS OPERÁRIOS – Estão trazendo os sindicalistas. eu preciso ir. Os operários se levantam. os astros sem harmonia Já não seguiriam sua órbitas. Por três dias viram Joana em Packingtown. Enquanto o fraco ao fraco se alia. Ou que engendrasse a violência. Com seu silêncio opressor. Ela se levanta e sai. Eles saem. JOANA: Os que me entregaram a carta. Sobre sua cabeça. é imensa! Mais uma noite como esta. No lodaçal dos matadouros. esta carta? Eu não saberia fazer nada Que requeresse violência. No final o lodo a engoliu. Vós. Seu sucesso foi grande. Se desde a infância o peso da miséria e da fome me tivessem ensinado a violência. No terceiro dia sucumbiu. Quem agisse assim se sentiria perdido. para um dos dirigentes presos – Não liga não. eu digo. Toda inocência tê-lo-ia abandonado. Começa a nevar. voltando – Nada além de mentiras! Onde foi a moça que estava sentada ao meu lado? UMA MULHER – Partiu! UM OPERÁRIO – Desde o começo eu disse que ela iria embora quando começasse a nevar de verdade. algemados. vós estivestes juntos Longas noites. Chegam três operários. Eu não sou um deles. A tentação. Mas o prato que se prepara aqui. Perseguidor perseguido E não mais sabendo ver sem desconfiar. eu seria como eles e não faria perguntas. Quem o comerá? Eu vou embora. Apartado em um mundo Tornado para ele estrangeiro. E aprendestes A alimentar friamente terríveis pensamentos. Os dois dirigentes operários passam. Isso seria desleal para com os outros homens. Ela se vê com roupas de criminosa. Do fundo ouve-se gritos que se aproximam. as palavras teriam outro sentido. Há muito tempo que já está tudo arranjado. Para este homem. Eu assim não poderia viver. Viram-na descer de degrau em degrau Para em água límpida a lama transformar e aos humildes Aparecer. Violar as regras em uso. que eles ainda poderão ter uma surpresa. Joana tem uma visão. Eles procuram alguém que não encontram e vão embora. UM OUTRO OPERÁRIO grita para o grupo que se afasta – Assassinos! OS OPERÁRIOS – Se eles acham que assim irão parar as coisas. aparece uma inscrição: A neve começa a cair. Ela continua sentada. conduzidos por policiais. E é por isso que parto. Enquanto a noite cai. UM OPERÁRIO. longe do mundo que lhe é familiar. Dia após dia ela desceu. . Eu digo: na escuridão se acumulam As violências e as questões nunca resolvidas. DONA LUCKERNIDDLE. Direis que fazia muito frio.40 Que gélidas elas são! Não é pela violência Que se combatem a desordem e a confusão. William.

Não preciso. Slift. Na borrasca. Basta. Eu disse: meia volta E tu riste. ainda atiram. Ele lê e empalidece. Sou conhecido nos matadouros. OS DOIS SEGURANÇAS – Então podemos ir? MAULER: Podem E eu também posso ir aonde queira. Em todo o caso. não lhes parece? Ah! Eu repito Não fiquem enchendo a cabeça com idéias. modificam tudo. o que foi? Riste.. E a vocês eu despeço Pois da pobreza eu cruzei a fronteira. UM LUGAR DESERTO NO BAIRRO DOS MATADOUROS Neva. É o que está escrito. saindo – Bom. Quanto a este edifício. Está dito. cocô de cachorro: Que torna a permanência difícil. um objetivo que eu saúdo E que muito me alivia. seja por economia. UMA ESQUINA EM CHICAGO MAULER. Tem certa razão de estar alegre. Não é para pensar que eu vos pago. Só porque duas ou três vezes eu dei meia volta. Vejam. preto no branco: O gado está a trinta e ninguém compra. Até o reino do espírito. mais de vocês. Até mesmo aos matadouros. O mais prático também. Pierpoint Mauler cruza a fronteira da pobreza 8. . a um de seus seguranças Parem. 9. hoje restarão No chão as pedras. Escolhido como material. impresso. Ter construído a maior cloaca do mundo Constituirá a sua única glória. Vejam o que leio. Este homem está perdido. Sem nenhuma exigência.. Há resistência. meia volta. os pobres.41 Pergunta feita: quem ficará? Como nos outros dias. De agora em diante. em suor e em dinheiro. em cima. Mauler e seu amigo. dele se diria Um prédio construído com grandes despesas. MAULER: Se a desgraça abate ao homem sem caráter. mas o arquiteto teria. Aquele que sai de tal imóvel. Doravante Não há mais ninguém que me queira matar. Agora eu estou livre. A mim ela vai elevar às mais altas esferas. a dona Luckerniddle reencontra Joana. Assim espero. o mais vasto. Aquela que eu procurava terá tido o bom senso De sair das profundezas onde o inferno se instala. Mas vejo que estão pensando. Passa um vendedor de jornais Ei! Jornal! Vejamos o que se passa na Bolsa de Carnes. Pensar não serve para nada. Assim foi conseguido. Parece-me Que contratei dois idiotas. preto no branco. então. façamos meia volta. Seja por aberração. UM DOS SEGURANÇAS. são os mais atingidos. que todos os fabricantes Quebraram juntos e saíram do mercado. Que nós construímos em nossas grandes cidades Sem importar o custo. Cedi meu gado a qualquer um que o quisesse. nada mais posso fazer por eles. E ninguém quis. Eu tenho as minhas razões. Perto dos matadouros. aqui sob meus olhos. Essas notícias. Sem que eu tenha procurado. confessa.

Joana ouve vozes. Uma parte dos operários saiu dos matadouros. oh verdade! Que a neve em tempestade Inoportunamente mascarou com sua noite. Errando pelos matadouros. OUTRA VOZ: Joana pára. Sem récitas inoportunas dos seus infortúnios. precisas chegar! Joana olha ao redor. O SEGUNDO OPERÁRIO – Isso é grave: sem dúvida uma parte das ligações não funcionou. Que nada diga. Nela estava nosso destino. Ao que tropeça e cai. Joana cruza com dois operários de quem ouve a conversa: O PRIMEIRO OPERÁRIO – Primeiro eles fizeram correr o boato que as fábricas reabririam a todo o vapor. JOANA – Não. E aquele que chega a bom porto. Como se rede já não houvesse. Muitos operários teriam ficado se soubessem da notícia. podias dar conta. de uma missão. UMA VOZ – Lá onde te esperam. De tua missão. Anda em outra direção. AS VOZES: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. É inútil tentar pegar. Por este buraco fogem todos os peixes. caindo de joelhos: Luz. Um lixo. mas a senhora quer continuar. Joana. eu não a darei. JOANA. De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. Lá dentro só se fala em violência. Dê a carta aqui imediatamente. Mas tu és uma traidora e teu lugar é com eles. isso é o que tu és! Dê-me a carta que te confiaram. Pierpoint Mauler as arruinou. UM OUTRO LUGAR Correndo em direção ao centro da cidade. fraqueza do corpo! Oh fome. Aquilo que lhe foi confiado. ela procura se livrar das vozes que ouve de todos os lados. Tu não a entregaste. Cumpriste a missão? Joana volta a andar e uma nova voz a detém. O SEGUNDO OPERÁRIO – Os comunistas é que tinham razão. Mas a carta que trazia a verdade. Nós não sabíamos quem eras. O PRIMEIRO OPERÁRIO – E aqui nós não ficamos sabendo. A pedra não perdoa. Ainda mais que amanhã todas as empresas de Chicago iriam declarar a greve geral. mas entregue. Nós te encarregamos. Tudo está voltando ao normal agora. DONA LUCKERNIDDLE – Ora essa! Para ti está tudo normal! E eu que disse que tu eras honesta! Sem isso não teriam te confiado a carta. Claridade que então eu deixei de ver! Oh! Quem conhecerá o poder da neve! Oh. Mas também podias nos trair. UMA VOZ: Não há desculpa Para quem não chega. DONA LUCKERNIDDLE – Eu devia ter duvidado.42 – Ah. Eu vou embora. Joana pára. estás aí! Onde tinhas te metido? Entregaste direitinho a carta? JOANA – Não. para poder se apresentar amanhã bem cedo ao trabalho e de repente eles falam que as fábricas nunca mais abrirão. Que sentimentos em nós deixareis sobreviver? . As massas não deveriam ter se dispersado. A VOZ DA DONA LUCKERNIDDLE: Eu fui a tua fiadora. Eles teriam ficado apesar da violência da polícia. (Joana desaparece na tempestade de neve) Hei! Venha! Ela foi embora! DONA LUCKERNIDDLE 10.

agora os pegamos. . posto que sem abrigo. coloque os móveis na rua. DONA MULBERRY – Meu caro Dick. Liberada. Sob um plúmbeo zênite de destinos desconhecidos. ou que deixe o imóvel.43 Frio da noite. nossa boa cidade. o rei da carne. entrando – Pierpoint Mauler está aqui? BISPA SNYDER – Não. Um homem começa a levar os móveis para a rua. O HOMEM – Os fabricantes de conservas querem falar com ele e os criadores o chamam aos gritos. Ah. DONA MULBERRY – Bispa Snyder. minha cara Mulberry. Mas nós o estamos esperando. é sábado a noite. que já se afunda! Mas o rico Mauler virá. que triste. Quero que a senhora pague o meu aluguel. afastada do trabalho. Pediram-lhe cem dólares. Para nos salvar neste instante. a outro Chapéu Negro – Há três dias um emissário de Pierpoint Mauler. no céu e no inferno. Ele sai. a qualquer momento. MAULER. UM HOMEM. Eu o conheci: era um imbecil. que aliás é muito barato. Uma boa orquestra à mão e sopa Bem grossinha: terminam para Deus todas as preocupações. veio nos dizer que Mauler em pessoa estava disposto a assumir o nosso aluguel e a organizar conosco uma grande campanha em favor dos pobres. o senhor Pierpoint Mauler. com certeza! Ele já está a caminho com os seus milhões! UM CHAPÉU NEGRO – Bispa. Este homem que foi em sua vida Mais estúpido do que um vagabundo bêbado e repugnante. é tudo o que eles querem! Aqui não tem mais sopa! Aqui só tem a palavra de Deus! Ouvindo isso eles vão logo embora. Buscam-no por toda a parte. estamos aguardando. quem vos pode resistir? Eu preciso dar meia volta! Ela retorna sobre seus passos correndo. onde iremos acomodar o nosso público? Chega um pobre. Vejam que já balança. E nós gritamos à plena garganta: Ah. Salvar-nos com o seu dinheiro! BISPA SNYDER Há exatos oito dias Que nos matadouros onde as máquinas enferrujam. Exposta outra vez à neve. OS CHAPÉUS NEGROS: Estão levando. BISPA SNYDER. ele possuía dez milhões. É Mauler. MAULER – Eis aqui um homen marchando até o seu Deus. O reino de Deus está pronto na minha cabeça. o suntuoso Mauler. investindo contra ele – A sopa. Ele se levanta e avança até os Chapéus Negros. BISPA SNYDER – Sente lá atrás e fique quieto! Ele se senta. à chuva. A massa espera. na frente do palco : Ouvi alguém procurando um certo Mauler. o banco dos penitentes! E já suas mãos avidamente se dirigem Ao órgão a vapor e ao púlpito. De um só golpe o bolchevismo também é enterrado. com sopa quente E um pouco de música. E as ondas de lama do materialismo Ameaçam a casa de Deus. que prometeu nos ajudar. se ele pudesse vir. BISPA SNYDER – Dona Mulberry. X Humilhação e assunção de Pierpoint Mauler TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS MARTA. Conheci bem um homem. OS CHAPÉUS NEGROS: Romperam-se os diques da fé Em Chicago.

eu vos rogo! Pois eu sinto O coração ao mesmo tempo leve e pesado. Culpado. Mas quebrou a nossa cara De uma vez por todas. e dilacerado de remorsos. Se aproxima já Com os seus milhões. BISPA SNYDER Silêncio! Fora. Ele trazia o seu coração. Por sete dias apertei a garganta Desta cidade até sufocá-la. MAULER: Eu me acuso de ter explorado o meu próximo. Joana. Os músicos tocam um hino.44 No fim. OS MÚSICOS: É deste aí então que vocês esperavam O dinheiro para nos pagar? Então nós vamos embora. meus amigos. Passar bem. BISPA SNYDER. seguindo a letra por sobre o ombro de um dos Chapéus Negros. Aqui estou agora. inclinado sobre os livros de contabilidade – Não direi o que estou calculando. é certo. Todos os pagamentos estão suspensos. Envolvamos em nossas bandeiras derrotadas Os livros de cânticos. Jogou no mar seus milhões. já. Os Chapéus Negros cantam. BISPA SNYDER – Tu és Mauler? MAULER – Sim. mas arrependido. E sobre nós a neve envia suas tempestades Em um inverno no qual crescem os rigores. OS CHAPÉUS NEGROS – Ele já chegou? MAULER: Um hino. gritando – E sem dinheiro? (Aos Chapéus Negros:) Façam as malas. Sentados sobre seus últimos bancos e suas últimas cadeiras os Chapéus Negros cantam desordenadamente seus últimos hinos. Ouçam então a minha confissão: Aqui jamais se ajoelhou Ninguém. Ele pega dois Chapéus Negros pelo braço e senta-se com eles no banco dos penitentes. ar ausente. DOIS MÚSICOS: Um pedacinho só. olhos voltados para a porta. UM CHAPÉU NEGRO – É ele. OS CHAPÉUS NEGROS: Não perca a confiança! Homem de pouca fé! Ele virá. deu cabo de si mesmo. Apenas nos resta chorar. sem nada. Mauler canta com eles. sim. BISPA SNYDER. Diante de vós. devolva-me os meus quarenta aluguéis! MAULER: Vós desejais. Não podemos mais pagar as nossas contas. E esse gesto tocou os nossos corações. Eles cantam ainda “Entrai na batalha”. não o seu dinheiro. CORO DOS CHAPÉUS NEGROS. que tenha caído tão baixo. Sentados sobre as margens do lago Michigan. recusou-se a dar o dinheiro. Silêncio! Tragam-me o livro das faturas e contas por pagar: estou nessa parte. Mauler! MAULER: Mas quero acrescentar que no sétimo dia Fui despojado de tudo. construir vossa casa . eu vejo. Tiremos de nossas paredes as máximas. todos para fora! A Mauler: E tu primeiro! Onde estão os quarenta meses de aluguel Desses não-convertidos que Joana enxotou? E vejam só o que ela me trás em troca! Devolva-me. Abusado da força e espoliado todo o mundo Em nome da propriedade. dirigindo-se aos músicos que vão embora: Nossas orações eram pelo rico Mauler E foi Mauler o arrependido que entrou.

nobre Mauler. Bispa. E hipotecando até o último lápis Para trazer de Quebec. agigantou-se E a todos nos precipitou no abismo! MAULER: Oh! Eternos combates! Em nada são diferentes Desde os tempos antigos onde os homens Com uma barra de ferro rachavam-se as cabeças! GRAHAM: Recordai que estávamos à vossa mercê. é aqui então que te escondes? Paga nossos bois ao invés de fazer penitência. Um zênite ameaçador de pensamentos desconhecidos. Ele tenta sair. Em três dias. O que pretendeis fazer de nós? Foste vós. firmas de grande renome. Vossa função seria apenas a de brincar na relva. Eu sei muito bem. Dais o nome de homem a quem vos vem ajudar. Viram-se os preços Oscilarem. OS REIS DA CARNE: Perdoai-nos. Na porta. o que existisse de gado. Não terias a necessidade de aliviar aqui A tua consciência. assumindo seus deveres. Subiu os preços a noventa e cinco. partistes. OS CRIADORES: Maldito Mauler. que fareis? Entram os criadores em grande agitação. Concluo eu o seguinte: o Mauler que sou Não é aquele do qual precisais. Mal viu esses bois vindo ao longe. Ah! Se não tivesses aliviado tanto os nossos bolsos. Eles também estão muito pálidos. a comprar gado. paga-nos o gado! GRAHAM. Estão pálidos como o linho. com voz dura. quem nos derrubou. Os complexos pensamentos de vosso imenso espírito. O Banco Nacional gritou: “Alto”. Por vós fomos forçados. e sobre nossas cabeças. Mauler. tomado de loucura. Acorreram todos em ajuda. No ciclo dos astros ou das mercadorias. desde a aurora.45 Sobre o que há de pior em mim. salva tua alma. O ancião venerável. Mauler. comprometendo suas casas. chorando. hesitantes. Para mim o humano era aquele a quem eu podia explorar. Loew e Lévi. os reis da carne vêm ao seu encontro. Quando. gado canadense. Pelos contratos que nos obrigavam A entregar de imediato as conservas prometidas. Mas Slift. E Wallox e Brigham. da Argentina. eles iriam trazer. Lançou. Que vos pertencia. Relatarei o combate memorável Que. No mercado perturbado. Que projeto tendes agora. por ter vindo Atrapalhar neste lugar as tuas meditações. Que não ficou só por muito tempo. Um vitelo ou um porco. Dá o dinheiro. . Que a constatação vos enche de amargura. Mas se chamássemos de homem àquele a quem se ajuda Daria no mesmo: necessitaríeis sempre De gente a ponto de afogar-se. Mauler. Mas nós estamos perdidos: Em torno de nós. como um bêbado sedento Que ao mar esvaziou sem se satisfazer E lambe avidamente cada gota que encontra. e a noventa e cinco Comprou-os todos. em poucas palavras. Este espetáculo atroz apavorou o ancião. Era vosso todo o gado. tomando a frente : Mauler. E sobre eles atirou-se. E tudo o que de longe parecesse um boi. Prometiam até o gado por nascer. durante sete horas. ao meio-dia. o caos. Ninguém jamais pode fugir da lei. Slift apertou Ainda mais forte a nossa garganta.

Sob nossos olhos. E os jovens bois de pêlos reluzentes Engordados com tanto cuidado. a carne de boi. isto é. um a um. por sua indiferença. em um suspiro. Slift então gritou: “Cem”! Poderia ouvir-se um alfinete cair. Mas alto o bastante para que todos ouvissem: Para pagar-lhes tomem então nossas fábricas. MAULER: Agora mesmo. E nós comprávamos sempre: Nós precisávamos comprar.. Lançaram-se um a um nesta última batalha. Lutavam a dentadas. E viu-se. E que não foi ainda acertado. mudos. Lévi. Seria esmagado como um morango no chão. Em tudo semelhantes aos antigos corcéis Mordendo. Que nos píncaros se encontrava. em um espasmo. Toda a família nos gritava de longe Com a voz embargada pelo trabalho duro . comprar. Slift. Como definha uma esponja espremida. os fabricantes apáticos Depositarem a vossos pés suas fábricas fechadas. Eles precisavam entregar.E a voz ainda nos alcançava Mesmo com a balbúrdia dos trens que partiam: . de imediato. E como contratos nulos não impõem compras. O que fazer.. Com esse gado que ninguém é obrigado a comprar? OS CRIADORES: Sem querer perder a paciência. ele ao menos vale vinte e cinco centavos. na batalha. Inúteis portanto. é sabido. Do outro eu preciso. Porque não mais podemos honrar os contratos. Com esse chapéu e este sapato: Dez milhões o chapéu. Como a água que cai na cascata. baixou. Ouviu-se nesse dia os jovens estagiários. O sapato. e então se retirarem. de rocha em rocha E somente em trinta a queda parou.46 Mas Slift gritou: “Três dias não. o velho Lévi disse então em voz baixa. Naquele instante. Eu quero para hoje”. Parando de pagar. De cotação em cotação Os preços caíram e rolaram até os negros abismos. Só um. e os preços subiram. com olhos marejados. Até os simples contínuos. tomados de desespero. Vertiginosamente. se por um acaso Um elefante se arriscasse pelo interior da Bolsa. os cavalos inimigos. Lévi. Os corretores. golpeia um corretor na barriga. diga-me. quando e com que dinheiro Nos pagarás o gado comprado. paravam de viver. Rangerem os dentes. obstinados. E em silêncio também os bancos desmoronaram. os vívidos vitelos. agora. bancos. E Brigham arranca a barba aos gritos: “Noventa e seis”. Institutos de crédito. Célebres. fomos estrangulados E de que adianta estrangular um cadáver? MAULER: Foi assim então. entrego por cinco. quando levamos às estações De nosso longínquo Missouri Com muito sacrifício. que travaste a batalha Que deixei a teus cuidados! SLIFT: Corte-me a cabeça! MAULER: E de que me serve tua cabeça? Dá-me o chapéu. os agentes fechando suas escrivaninhas. Aí está o que tornou o contrato sem valor Apertastes muito forte. Estão satisfeitos? OS CRIADORES: Há pouco tempo. Nós queremos que nos digas Como. Casas até então sólidas e poderosas.

nobre Mauler. MEYERS – Quem são esses amigos de Nova Iorque? MAULER – Morgan... Não quero. De máximas sagradas e escolhidas com grande cuidado. Julguem vocês mesmos.47 “Ei. pelo que dizem. neste estado. isso não é possível. não bebam todo o dinheiro. Seus amigos de Nova Iorque. condescender. Mas nossa pobreza não é. ao contrário. de Nova Iorque. MAULER: Em nós a consciência. Como voltar para nossa terra? E que diremos a eles. Nossa pobreza é termos perdido O sentido dos valores mais elevados. Mas se fizéssemos uma grande promoção De sua instituição. sozinho. GRAHAM – Mas então é Wall Street? Um murmúrio percorre o ambiente. o que faremos. rapazes.. Mas para mim. esperamos” E agora. Se assim fosse concebido. para que os preços voltem a subir. O projeto teria talvez. assumir a empreitada. Nem todos aqui em baixo poderiam ser ricos. nós estaremos de bom grado à sua disposição. elas vão mal. Não ter fartura de bens terrestres. Sancionado pelas instâncias superiores.(Ele abre a carta e lê de canto) “Escrevemos a você recentemente. para que comprasse carne. Cuja voz está a tal ponto asfixiada. entendei. vocês estariam dispostos. OS FABRICANTES E OS CRIADORES: Desejarias. pensai no caos Que ameaça a tudo engolir. Rockfeller. nós aconselhamos a fazer um acordo com os criadores para reduzir o rebanho. Caro Pierpoint. Seus bens. mostrando o lombo vazio E nossos bolsos também? Como. Jogai sobre vossos ombros o jugo. MAULER: Se o faço. Estariam vocês dispostos a repetir aos quatro ventos . Ele estende-lhes a carta. E o barulho das metralhadoras. GRAHAM – O que não é possível? MAULER – Tenho amigos em Nova Iorque que. Pois os preços do gado vão subir. estão para sempre perdidos. Neste caso. O negócio só é possível. MAULER: Ou seja. De um asilo necessário para os casos mais graves. nós lhe forneceremos amanhã mais detalhes.. Deixando as sublimes esferas onde meditais. Compreendido como sendo de interesse geral. Não. Outra vez responsável. MAULER – Eu costumava ser esse Mauler.” Não. A Snyder: Existem muitas dessas lojinhas Onde se vende a Bíblia? BISPA SNYDER – Sim? MAULER – E como elas vão? BISPA SNYDER – Mal. E dado que de vós necessitamos. conhecem um meio de sair desta. entrando – Mauler está? Uma correspondência para ele. Pois ainda creio ouvir O rumor dos matadouros. Como tudo de agora em diante Me parece diferente. Mauler. é muito a contragosto. Alguma chance de sucesso. voltar para casa? O HOMEM DE ANTES. é impraticável. mas são numerosas. Agora. a quem mandavam cartas desse tipo. Providos de sopa quente e de boa música. compreendei. amigos. Abandonai. E voltar até nós? Pensai. caro Pierpoint. esta caça fatigante.

para puxar os preços. aos criadores : Escutem. E mesmo que muitos não compreendam. É por isso. dizem. é claro Que entre vocês estivesse Joana. E às vezes inoportunos. você não compreendeu A questão de fundo. Nesse tempo de humanidade desumanizada. Em conjunto. . aos fabricantes: Faremos uma fusão de suas indústrias Em um só monopólio. E que. Eles podem nos parecer inferiores. E é por isso que os preços caíram a zero. Não tem outra causa a não ser Que há carne demais. Vê que são eles os compradores! Seja como for. Elas impedirão que em sua brutalidade Um povo. Elas trarão a calma e a ordem. é lógico. O mercado foi saturado este ano. Então. criadores e industriais. Miséria e fome. Enfim. sorrindo: Minha cara bispa. Será preciso demitir um terço dos operários: Também de mão de obra o mercado está saturado. Eu compreendo o senhor. nesses tempos de desgraça? Pois serão necessárias medidas draconianas Que poderão parecer duras porque irão Derrubar alguns e. não poderíamos Doá-lo àqueles que esperam lá fora E quem sabe utilizá-lo melhor? MAULER. nós decidimos. BISPA SNYDER – Quase todos. mas se o gado tem tão pouco valor Que pensam em queimá-lo. Todos sorriem longamente. meus amigos! Eles cochicham.48 Que nós somos uma gente valorosa. Eliminar o estoque excedente atual. É preciso limitá-la.Pois eis Chicago outra vez agitada A greve geral. Eu fico com a metade das ações. que deseja Fazer o bem. Limitar o rebanho oferecido no mercado. TODOS – Que solução simples! BISPA SNYDER. . mas olhando bem Quem vê além das aparências das coisas. MAULER. Seria muito importante. Meter um freio à anarquia da criação. pedindo a palavra: Perdão. que nós subvencionaremos Fartamente a sua missão que contribui Com a manutenção da ordem. Nós o faremos. tem seus defeitos. Chapéus Negros. Esta dificuldade pela qual estamos passando Está a ponto de ser superada. ofuscado. queimar um terço do gado existente. mais ainda. desordem e violência. TODOS – Não há outra saída! MAULER – E também precisaremos reduzir os salários! TODOS – É o ovo de Colombo! MAULER: Qual o objetivo dessas medidas? Nesta noite de sangue e confusão. Digamos: a maior parte. quebre suas ferramentas E destrua assim seu próprio ganha-pão. Em que em nossas cidades os problemas não têm fim. Toda essa gente aí fora: Eles são os nossos compradores! Dirigindo-se aos outros: É incrível. ou melhor: quase todos Mas é o único meio de salvar o sistema De vendas e compras no qual vivemos. é eminente -. supérfluos. OS FABRICANTES – Que cérebro! MAULER.

eles chegam até nós. não deixaremos! Sejam bem-vindos. Nossos planos outra vez se impõem. MAULER: Abram agora a porta principal Aos homens cansados e cheios de preocupação. entrando precipitadamente – Escutem a boa nova! A greve que nos ameaçava foi sufocada. a seu lado. Nenhum deles tem chapéu. olhar fixo na porta: Eles terão de vir. Até nós. joguem as grandes redes! Eles saíram agora de sua última casa! Deus lançou sobre eles o frio! Deus lançou sobre eles a chuva! Eles terão de vir. Passam apenas alguns grupos de operários. o mercado vai ser curado! Outra vez saímos do ponto morto E realizamos uma obra difícil. Ninguém pode escapar: tranquem as saídas. chega e pergunta – Vocês viram passar três homens que vinham buscar uma carta? Ao fundo ouve-se gritos que se aproximam. Quando perdem o trabalho. JOANA. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Tranquem as saídas. UM DELES – E por que foram presos? . UM DELES – Quem são eles? O OUTRO Nenhum deles Pensou só em si mesmo. Foram presos os sacrílegos que perturbavam a paz e a ordem! SLIFT: Podem respirar. cantam.49 Cuja face por si só já inspira confiança. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Vamos. As coisas retomaram o rumo que nos agrada. penteados e carecas. Os que aqui chegarem. SNYDER – Abram as portas! A porta principal é aberta. Ela então ouve. Joana segue com o olhar os prisioneiros. estamos prontos! Já estão chegando! A miséria os traz aqui como um rebanho! São obrigados a vir. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! XI NOS MATADOUROS EM FRENTE AO ARMAZÉM DAS FÁBRICAS GRAHAM Os matadouros estão quase vazios. Eles vêm até nós para chorar. OS CHAPÉUS NEGROS. Eles combateram Pelo pão dos outros. Quando estão cegos e surdos. Música de órgão. De sopa encham os pratos. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Todo aquele que aqui entrar. apanhem-no! Lazarentos e descalços. UM CORRETOR. Toquem a música e nós mesmos Seremos os primeiros a nos sentar Para elevar nossos corações a Deus. para que nenhum escape! Eles estão a caminho. Imóvel. apanhem-nos! Sejam bem-vindos. joguem as grandes redes! Sejam bem-vindos. dois homens conversando. Passam então os dois dirigentes operários escoltados por soldados. Perseguidos sem trégua. estão chegando! Daqui eles não escapam. Sejam bem-vindos.

entretanto. a sorte nos sorriu. o salário também. Todos perecem antes do tempo. os jornalistas a interpelam. Durante alguns segundos eu a vi distintamente. Nenhum. Esta aqui não é das nossas. pisoteados. Golpeados. XII EM FRENTE AO ARMAZÉM DA FÁBRICAS GRAHAM Um grupo de operários entra. JOANA – Os operários concordaram? OS JORNALISTAS – É claro. Aqui está! Seriam necessárias muitas como ela. carregando lanternas. amparada por um policial. e a esta a polícia dispersou com o uso de força. Um grupo de pobres entra. UM DELES – Sempre será assim? O OUTRO – Não. Quando os soldados vierem a recolherão. O POLICIAL: Eis aqui uma sem-teto. OS JORNALISTAS – Vejam só. Era uma velha operária. As fábricas reabrem. Joana cai desmaiada. Joana. não é ela. Divididos em grupos estão os Chapéus Negros. Um deles a derrubou com uma coronhada. XIII MORTE E CANONIZAÇÃO DE SANTA JOANA DOS MATADOUROS Agora o templo dos Chapéus Negros está ricamente mobiliado. JOANA. Joana se vira. mas o justo se esconde. não é a nossa Madona dos matadouros? Hei. Ela veio daquele lado e aqui ela gritou para os nossos que as empresas municipais iriam decretar OPERÁRIOS Sim. A decisão sobre a greve geral só chegou a uma parte deles. saiba que são eles. esticando o braço com a carta na mão. os açougueiros (fabricantes de conservas) os criadores e os compradores. E a carne vai subir. Nós soubemos ser sublimes E vulgares quando necessário. Recolhida doente Nos matadouros. Enfim o sucesso chegou E tudo acabou bem. à sua frente. você aí! As coisas deram errado. Nos vales e nos cimos. Em nós podem por fé. Nenhum morre de barriga cheia. A greve geral fez água. UM DELES – O que farão com eles? O OUTRO: O salário deles é baixo e seu trabalho útil à maioria. Ou de malfeitores postos na cadeia. UM DELES – Por que não se ouve falar deles? O OUTRO O OUTRO greve. Nenhum come seu pão tranqüilamente. foi reduzido em um terço. – Ela deve estar aqui.50 – O homem injusto atravessa a rua à luz do dia. chega ao termo de sua vida. Não. mas apenas para dois terços dos operários. Deixem ela aí no chão. Seu último endereço Teria sido aqui. As rajadas de neve a impediram de ver os soldados. Deus outra vez se impôs. Lançados em terra profana. Nem é enterrado com decência. que seguram bandeiras novas. como se ainda quisesse entregá-la: . SNYDER: Quando nos jornais falarem de criminosos abatidos.

Eu falhei com os perseguidos. E seus erros. Foi necessário. Que Joana exorcize o mal E que por nós ela interceda. Vamos colocá-la em destaque. Consoladora dos baixios! JOANA: Que vento sopra nesses baixios? Neve. por menor que fosse. Vós. Quando se poderia ter alterado o curso das coisas. E só servi aos perseguidores.51 Jamais receberá a carta Aquele que agora está morto. empregando todos os meios. na noite. pois ela nos ajudou a atravessar a tormenta dessas semanas difíceis. BISPA SNYDER: Levanta-te. toda a obra Onde o espírito não encontra. Joana dos Matadouros. intercedendo pelos pobres e mesmo proferindo discursos contra nós. Por uma boa causa. E tinha sonhos para milhares. Se eu apenas tivesse entregue A carta que me confiaram! OS CHAPÉUS NEGROS. Intercessora dos pobres. Matéria a sua altura . Mostrá-la entre nós provará o quanto nos importam os sentimentos de humanidade. E em sua marcha altaneira Para evadir-se ao mundano. e ultrapassa o objetivo. marchava para a luz! Seus atos eram os de um ser humano. Chegou na hora certa. E outra vez o mundo Percorre o antigo ciclo. quais os gritos que abafas? Comei vossa sopa! E não desperdiceis esse resto de calor. JOANA: Eu falei em todos os lugares. enquanto as moças dos Chapéus Negros a vestem novamente com o uniforme: Ouve-se outra vez o rugir das fábricas: Outra vez se desperdiçou a chance De colocar um freio a esses excessos. SLIFT – Esta é nossa Joana. Ela que. O ideal. Desta vida intolerável E atingir o inconcebível. Pelo contrário. sua térrea natureza. Ela vai muito adiante. Eu o neguei. Quando o meu esforço. a quem não se pode mais explorar! Comei a sopa! Ah. um serviço tão pequeno Foi só o que em toda a minha vida Me pediram para fazer. o infinito. dirigindo-se a Joana: Como ela ainda está perturbada. E eu não fiz! Enquanto os pobres tomam assento nos bancos para comer a sopa. dando provas de humanidade nos matadouros. Nós faremos dela uma santa e não economizaremos em homenagens. Slift discute com Snyder e com os fabricantes. MAULER: Uma alma que exala sublimes impulsos Suporta mal. Eu faltei. eu poderia levar. Ela será a nossa Santa Joana dos Matadouros. A vida tranqüila de um cordeiro. OS CHAPÉUS NEGROS: No final. também humanos! JOANA. infelizmente. MAULER: Que tome posição em nossas fileiras Esta alma inocente e cândida E que sua bela e pura voz Misture-se aos cânticos de nosso coro.

OS FABRICANTES: O resultado. Deixando sem medo um mundo por onde passei muito rápido. Pois se dele esquecer Perturbará nossa harmonia. é magnífico Sempre que espírito e negócios se aliam. Eu.Isso não basta – Deixai um mundo bom. Quaisquer que sejam as aparências. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES. Que nada seja considerado como boa ação. então. Se não for uma ajuda real. Não esqueçamos que ela esteve nos matadouros. como do topo. Maldito aquele que apelar A essas massas essenciais Mas sempre insaciáveis. que significam Se não se manifestam em nenhum lugar? De que serve vosso saber Se o que sabeis não tem conseqüência? Eu mesma. ignora-se o que se passa em baixo. E dois idiomas diferentes Os homens têm a mesma face E não se reconhecem mais. Entre os do alto a baixeza é sem limites. Mas também no alto. Eu vos digo: Quando chegar a vossa vez de deixar esse mundo. o que foi que eu fiz? Nada. JOANA: É uma grande verdade Que aprendi e que vale para todos E morrendo eu vos digo: Vossos bons sentimentos. GRAHAM – Ela não pode proferir discursos que não sejam razoáveis. eu não transformei nada. Contrário à razão. Exceto aquele que muda o mundo Definitivamente: isso é o que é realmente necessário. OS CHAPÉUS NEGROS. falando alto. a Joana: Seja boa e se cale! . Porque o sistema é construído assim: É apenas exploração e desordem. No topo e no chão. caí do céu! Infelizmente! Bondade sem conseqüência! Sentimentos Que não fizeram a menor diferença! Não. dois pesos e duas medidas. qualquer que seja. fique no lugar Que lhe é atribuído. A essas tropas indispensáveis. de maneira a encobrir a voz de Joana: Para que até o céu se levante o edifício. E sem descanso nem folga Realize seu dever. Mas que não sabem o quanto. Sistema bestial. para os exploradores. O que está em baixo tem grande importância. Mas nada mudará se eles melhorarem. Não tenhais a preocupação de terem sido bons . Que cada um. A esses elementos dos baixios! JOANA: Mas os que estão por baixo são assim mantidos Para que os de cima lá continuem. E o que se passa no alto. Precisa-se do chão. O que está em cima está em seu justo lugar. Que ninguém seja tido como honrado.52 Resta fragmentada Sem alma e sem vida. JOANA: Pois entre os de cima e os de baixo O abismo é mais profundo Que entre o Himalaia e o fundo do mar. Nunca se sabe em baixo.

de esquecer os remorsos. vinte e cinco anos. comerciantes. é preciso fazer algo para tirar a atenção do que ela fala. Todos. de século em século. Não esqueças: tua consciência está lá! Atenção. os alto-falantes começam a transmitir notícias que espalham o medo: “Bank of America e Citibank estão de pires na mão” “Revolta contra os cupins financeiros conflagra Londres” “Múltis drenam do país US$ 3.266 bilhões só em dez dias de março” “BC assalta U$ 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street” “Montadoras almoçam os R$ 8 bi do crédito e mantêm ameaça de demitir trabalhadores” “Deficit dos EUA deve chegar a US$ 9 tri entre 2010 e 2019” . Mas evita. Só dos homens pode vir ajuda. Que podeis elevar-vos moralmente Mesmo com os pés enfiados na lama. sempre mais alto. JOANA: Se alguém um dia vos disser Que existe um Deus. é verdade. Sempre necessário . Denegrindo a ti mesmo. para abafar o discurso de Joana. MAULER: Deves agir. infelizmente. JOANA: E do mesmo modo. Onde reina a violência Não há outro recurso senão a violência. sobretudo. Não esqueçam. É preciso também golpear-lhes o crânio com uma pedra. quando vos disserem. contraiu a serviço de Deus uma pneumonia nos matadouros de Chicago. Aos ricos concedei a riqueza! Hosana! Também a virtude. tudo concedei! Hosana! Concedei-lhe a cidade e o Estado! Hosana! Aos vencedores. Batei com uma pedra em seu crânio Até que arrebente. Onde vivem os homens. Chegar ao topo implica Pisar na cabeça daqueles que estão por baixo. Em suas compras. Sempre se metamorfoseia. A palavra de Deus. ferir! OS CHAPÉUS NEGROS: Nunca esqueças do sangue que mancha teus sapatos. Precisarás deles sempre! OS CHAPÉUS NEGROS: Olha para cima. distingam com um sinal! Hosana! Enquanto eles cantam os versos. SLIFT – Escutem. Do qual podeis esperar ajuda. Não. O Verbo magnífico. ou seja. BISPA SNYDER – Joana Dark. mas que seja bem alto. OS AÇOUGUEIROS: E nem pensa em tirá-los. obedeça! OS AÇOUGUEIROS: Quem se mover no espaço Nunca poderá subir: Subir é subir sobre alguém. a eles concedei! Hosana! A quem tudo possui.Sobretudo se forem compras especulativas – Esse Verbo que.53 É preciso. invisível. cantam a primeira estrofe do hino. digam qualquer coisa. OS AÇOUGUEIROS: Podes fazer qualquer coisa! OS CHAPÉUS NEGROS: Mas faça-o Sempre com muito escrúpulo! Espírito contemplador. Falem. Combatente e mártir.

Todos ficam muito tempo de pé. A um sinal da bispa. sinto-me atraído: .54 “Empresas dão calote recorde para remunerar seus acionistas” “Recessão ainda irá se agravar no Japão. tocada pela morte. O palco é iluminado com uma luz rosada. Qual um punhal. A carne para a terra o arrasta! MAULER: Ai! Um duplo desejo dilacera meu pobre coração.” “Foram as tarifas das estradas de ferro que nos esfolaram. Hosana! Juntai vosso riso aos que riem. Hosana! Oferecei a vossa graça. Por um nobre ideal. Hosana! Ajudai a quem tudo possui. Nós que temos a alma comum! E então desperta a boa alma Que temos no fundo de nosso coração. diz governo ” “EUA mudam socorro para bancos.7%” “Crise já eliminou 6 mi de empregos nos EUA” “Incertezas rondam fábricas da GM à beira do fechamento” Sob o efeito dessa terríveis notícias os personagens trocam entre si acusações e diversos insultos como esses: “Açougueiros sujos. Hosana! Que seus crimes terminam bem. morta de pneumonia nos matadouros. Bolsa de NY cai 4. Aos astros. Hosana! Nesses braços que vos estendem. até o fundo cravado. colocam-se suavemente todas as bandeiras sobre Joana. por que criaram tanto gado?” “Alucinados. Hosana! Piedade com aqueles que ignoram a fome. Snyder e Mauler vão até ela. mudos de emoção. Comove-nos profundamente. a serviço de Deus. que manipulam o dinheiro a rodo. por que não empregaram mais gente e pagaram melhores salários? Quem esperam que compre a nossa carne?” “Foram os intermediários que fizeram subir tanto a carne de gado. Hosana! Com mãos cheias. Hosana! Esmagai o ódio. Infelizmente. combatente e mártir. BISPA SNYDER – Joana Dark. Hosana! Notam que Joana para de falar. sempre ele aspira Às esferas mais elevadas. na terceira vez ela o pega. levanta e vira. Ajudai vossa classe. MAULER – Dêem uma bandeira a ela. A generosidade De uma alma sem mácula. A voz de Joana já não se ouve: Concedei aos ricos misericórdia. Em seguida cai nos braços delas. ao firmamento Um impulso múltiplo o atira. se não tivessem degolado tantos porcos!” “Criadores miseráveis. Hosana! Durante esta estrofe. MAULER: Como a pureza De um ser inocente.” “Os bancos nos arruínam com os juros que exigem!” “Quem pode pagar tanto dinheiro para estocar o gado e pelos silos de grãos?” “Por que vocês não começaram a reduzir a produção?” “Nós começamos. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES: Desde que o mundo é mundo. Pelo espírito. Não dá mais sinais de vida. foram vocês que se recusaram a reduzir também!” “Vocês são os únicos culpados!” “Enquanto não acabarem com vocês não vai melhorar!” “Faz tempo que o destino de vocês está selado!” “O que estão esperando para prender vocês?” Todos cantam a segunda e a terceira estrofes do hino. Colocam a bandeira em suas mãos. até cobri-la totalmente. que vos ajuda também.” “Foram os especuladores de grãos que encareceram o gado. as mulheres tentaram oferecer a Joana um prato de sopa. Em duas tentativas ela recusa o prato. para sua grande pena. vinte e cinco anos. mas ela cai. Um desejo vive no coração do homem.

Ele precisa cuidar de ambas. Homem! Luta sempre contigo mesmo! Sigas sendo este ser uno e sempre dividido! Cuida de tua alma boa.55 Desejo a abnegação. como de tua alma vil. Longe de querer escolher uma delas. Cuida bem das duas! . não consigo resistir Inexplicavelmente! TODOS: Em cada homem habitam Duas almas opostas. desejo o altruísmo Mas à atração pelo lucro. Cuida de tua alma terna. como de tua alma grosseira.