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I O rei da carne, Pierpoint Mauler, recebe uma carta de seus amigos de Nova Iorque CHICAGO. OS MATADOUROS
MAULER,

lendo uma carta. – “Parece-nos evidente, caro Pierpoint, que já há alguns dias o mercado da carne está saturado. E, no sul, as barreiras alfandegárias resistem a todas as nossas ofensivas. Acreditamos, portanto, ser prudente, querido Pierpoint, não mais envolver-se com este negócio...” Acabo de receber essas indicações de meus bons amigos de Nova Iorque. Lá vem meu sócio. Ele esconde a carta. CRIDLE – Por que esse ar tão sombrio, querido Pierpoint? MAULER: Lembra-te, Cridle, daquela caminhada Que fizemos uma vez, pelos abatedouros? Era noite. Diante de nossa máquina nova, Cridle, lembra-te, nós vimos um touro Claro e nobre, dirigindo aos céus seus grandes olhos vazios. Ele recebeu diante de nós o golpe que o abatia: E tal golpe me atingiu até o fundo do coração! Há sangue demais, Cridle, em nosso negócio! CRIDLE: Amigo, vens outra vez com tua antiga fraqueza. Quem acreditaria, Pierpoint? Tu, o maior de todos, O rei dos abatedouros, dos açougueiros o terror, A morte de um touro louro te enche de dor! Não conte, eu te rogo, tal segredo a ninguém A não ser a mim! MAULER: Oh, meu fiel amigo, Por que me levaste a visitar o abatedouro! Durante os sete anos em que estou no negócio

Eu evitei fazê-lo. Eu não posso suportar Um comércio tão sangrento, não tenho mais forças: Eu me retiro de imediato... Cridle, queres a minha parte? A terias por muito pouco; a ti, a preferência: Ninguém conhece o negócio como tu. CRIDLE: Muito pouco? Quanto? MAULER: Velhos amigos como nós dois Não podem disputar muito por valores. Dez milhões! CRIDLE: Não seria caro, se não houvesse Lennox Que, pela carne em conserva, lata a lata se bate, E estraga o mercado com seus preços baixos. Tirará nossa pele, se não tirarmos a dele. Enquanto ele estiver em pé, e só tu podes abatê-lo, Não posso aceitar tua proposta. Deverás, até lá, com tua mente fértil, Encontrar uma saída. MAULER: Não, Cridle, Esse coração treme ainda com o grito do touro! É preciso então que Lennox caia rápido, Pois quero, doravante, viver como homem de bem E não mais como açougueiro. Saiamos, Cridle, e eu te direi A forma de abater Lennox. Mas tu deverás então tirar esse peso do meu coração E tomar a frente de nosso negócio CRIDLE: Quando Lennox for derrubado Eles saem. II

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O desmoronamento das grandes indústrias da carne A - DIANTE DA FÁBRICA DE ENLATADOS DE LENNOX
OS OPERÁRIOS

Nós somos setenta mil Nessas fábricas de conservas E nossos salários são tão baixos que não podemos mais [sobreviver. Ainda ontem, de surpresa, reduziram nosso pagamento E hoje, um novo aviso: “Os que não estão satisfeitos, sempre podem deixar a fábrica!” Saiamos então, e todos juntos. Ao diabo esse salário que diminui todos os dias. Silêncio Há muito tempo já esse trabalho nos nauseia: Esta fábrica é para nós um verdadeiro inferno E só pode nos manter aqui o medo, O medo duplo, de Chicago e do inverno. Mas agora, doze horas de trabalho Já não garantem nem um pão seco Nem dão para comprar um trapo velho. Melhor partir E morrer de uma vez. Silêncio Pelo que nos tomam eles? Acreditam então Que nós somos gado, dispostos a tudo? Tomam-nos por jumentos? Melhor morrer! Deixemos a fábrica Agora mesmo. Silêncio O que houve? São seis horas! Por que não abrem, corja de esfoladores? Seus bois estão aqui, bando de açougueiros! Abram! Batem no portão.

Terão eles nos esquecido? Risos. Abram! Queremos entrar Em suas imundas pocilgas E suas cozinhas infectas Para preparar guisados indigestos Para os que ainda podem pagar. Silêncio No mínimo exigimos, O salário anterior, que já não dá para nada. No mínimo A jornada de dez horas e, no mínimo... UM HOMEM QUE PASSA: O que vocês estão esperando? Não sabem que Lennox fechou? Gazeteiros de jornal aparecem na cena GAZETEIRO – Lennox, o rei da carne, forçado a fechar suas fábricas! Setenta mil operários na rua. Lennox vítima da concorrência feroz imposta por Pierpoint Mauler, rei da carne e da responsabilidade social!
OS OPERÁRIOS

Desgraça! O próprio inferno Diante de nós fecha suas portas! Nós estamos perdidos. O impiedoso Mauler Aperta a garganta de nosso explorador E somos nós que sufocamos! B - UMA RUA – A Tribuna de Chicago, edição do meio-dia! O rei da carne e da responsabilidade social, Pierpoint Mauler vai inaugurar os Hospitais Pierpoint Mauler, os maiores e mais caros do mundo! Dois transeuntes olham para o fundo do palco, “vendo” Mauler. UM TRANSEUNTE, ao outro – Aquele é o Pierpoint Mauler. Mas quem são os dois que o acompanham?
GAZETEIRO

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– Seguranças. Só anda escoltado, com medo de apanhar de alguém.
O OUTRO

Para levar Deus ao coração de um mundo que desaba E nele restaurá-Lo, pela ação dos mais humildes. Os Chapéus Negros andam. Toque de tambores. Durante todo o dia os Chapéus Negros pregaram nos matadouros, mas, quando a noite chegou, os resultados eram quase nulos. DIANTE DA FÁBRICA DE CONSERVAS LENNOX – Dizem que eles estão preparando um grande golpe sobre o mercado de carne. Para nós isso que dizer esperar e passar fome. OUTRO OPERÁRIO – A luz está acesa nos escritórios. Estão lá, calculando os lucros. Chegam os chapéus Negros. Fixam no chão uma placa na qual se lê: “Hospedagem: 20 centavos por noite. Com café: 30 centavos.” CHAPÉUS NEGROS cantando Escutem todos, escutem bem! Tu que te afundas, nós te vemos, Teu apelo por ajuda, nós o escutamos, Teu sinal, nós o percebemos. Parem os carros, detenham o trânsito Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Tu que te escondes, tu que duvidas, Olha para nós! Olha, Meu irmão, antes que sucumbas! Nós te damos o que comer E nós não esquecemos Que tu não tens abrigo. E, sobretudo, não digas que tudo está perdido: Tudo será diferente, a injustiça nesse mundo Não poderá durar se todos se juntarem a nós, Marchando ao nosso lado Com o único objetivo de ajudar o próximo. Nós faremos avançar os tanques e os canhões
UM OPERÁRIO

Para levar consolo aos miseráveis dos matadouros, os Chapéus Negros deixam a sua sede. Joana empreende sua primeira descida às profundezas. C - EM FRENTE AO TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS
JOANA,

à frente de um comando dos Chapéus Negros: Nesta noite de sangue e confusão, Nesse tempo de desordem organizada, De arbitrariedade consentida, E de humanidade desumanizada, Nesse tempo em que em nossas cidades Os problemas não têm fim; Nesse mundo, imenso matadouro, Em que nos chegam rumores de violência iminente; Para impedir que, em sua brutalidade, O povo, ofuscado, quebre suas ferramentas E destrua assim seu ganha-pão, Nós queremos reintegrar Deus Pois aos lugares onde realmente vivem os homens Ele não mais tem acesso: Sua glória anda pouca, Seu nome, já quase suspeito. Dos mais humildes, entretanto, ele é a única salvação! Então nós resolvemos Por ele bater nossos tambores nesses bairros; Para que ele penetre no coração da miséria E que sua voz retumbe pelos matadouros. Aos Chapéus Negros: O que faremos agora é uma última tentativa. Pela derradeira vez, nos esforçaremos

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Nós lançaremos ao mar os navios de guerra, E nos ares, os aviões Para conquistar teu pão, meu irmão. Porque vós, os pobres, formais Nesse mundo um imenso exército. Vós que nos escutais Não esperai o amanhã! Desde hoje ajudai, Ajudai ao próximo! Avante! Ao assalto! Empunhai vossos fuzis! Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Cantando, os Chapéus Negros começam a distribuir seu jornal: Apelo às Armas, bem como colheres, pratos e sopa. Os operários agradecem e põem-se a escutar o discurso de Joana. JOANA – Nós somos os soldados do bom Deus. Por causa dos chapéus que usamos, somos também conhecidos como os Chapéus Negros. Nós dizemos que somos soldados, porque formamos um exército e porque, em todos os lugares em que vamos, precisamos lutar contra o crime e a miséria, contra as forças que tendem a nos aviltar. (Ela mesma começa a distribuir sopa) Bem, agora comam esta sopa quente e constatarão que depois vocês verão as coisas com um olhar diferente. Pensem agora qual esperança se pode fundar sobre a felicidade terrena. Nenhuma, absolutamente nenhuma. A desgraça vem como a chuva: ninguém a provoca, mas, entretanto, ela vem... Suas desgraças, digam-me de onde vem? UM DOS QUE COMEM – De Lennox & Cia. JOANA – O senhor Lennox tem talvez mais preocupações do que vocês! O que vocês estão perdendo? Ele, suas perdas se contam por milhões. UM OPERÁRIO – Carne não há nesta sopa, só uma aguinha clara, isso sim. Mas quente, pelo menos, está. OUTRO OPERÁRIO – Fiquem quietos, bando de glutões! Escutem a palavra de Deus! Senão vão tomar o prato de água quente de vocês.

– Silêncio! Queridos amigos, digam-me: por que vocês são pobres? UM OPERÁRIO – Sei lá! Explique você! JOANA – Eu lhes direi. Não é porque vocês não estão cheios de bens materiais – que não chegam para todos – mas porque vocês não têm idéia dos valores mais elevados. É por isso que vocês são pobres. Esses gozos vulgares aos quais vocês aspiram, comer um pouco, ter um bom lugar para morar e ir ao cinema, não são mais do que prazeres frívolos, grosseiros. Enquanto que a palavra de Deus é um prazer mais delicado, mais profundo e muito mais refinado; talvez vocês não possam nem imaginar algo mais doce do que o chantili, mas a palavra de Deus é ainda mais doce. Homens de pouca fé, os pássaros no céu não têm carteira de trabalho, as açucenas do campo não têm emprego e, entretanto, como eles cantam Sua glória, Deus lhes dá alimento. Nós, os Chapéus Negros, fazemos então a vocês uma pergunta muito prática: de que um homem precisa para crescer na vida? UM OPERÁRIO – Um colarinho engomado. JOANA – Nada disso. Para progredir na terra talvez seja necessário um bom colarinho, mas diante de Deus é preciso muito mais que isso, outras glórias. Vocês aos olhos Dele, nem mesmo um colarinho puído têm, pois deixaram suas almas no abandono. Mas então como vocês querem elevar-se, chegar ao que vocês, em sua ignorância, chamam de uma “situação melhor”? Pela força bruta, pela violência? Como se algum dia a violência tivesse trazido alguma coisa além da destruição. Vocês acham que mostrando os dentes conquistarão o paraíso na terra. Mas eu lhes digo, agindo dessa maneira o que se cria não é o paraíso, mas o caos! Um operário chega correndo. O OPERÁRIO: Uma vaga, agora mesmo, acaba de abrir! Um trabalho, um salário, esperam por vocês, Na fábrica número cinco! Que mais parece uma latrina. Corram, rápido. Um operário larga seu prato cheio e sai correndo.
JOANA

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– Ei, você, onde é que você vai? Quando se ocupará de Deus? Vocês não querem nem ouvir falar, não é? UMA MOÇA DOS CHAPÉUS NEGROS – Acabou a sopa. OS OPERÁRIOS: Acabou a sopa; Era só um caldinho ralo Mas era melhor do que nada. Todos se viram e se levantam. JOANA – Fiquem sentados; acabou, mas que importa, uma vez que a grande sopa celeste não se esgota nunca. OS OPERÁRIOS: Quando, afinal, vocês Abrirão as portas de seus porões, Carniceiros, mercadores de carne humana? UM OPERÁRIOS: Com o quê, agora, pagarei A casa pequena e úmida, onde vivemos doze? Eu já paguei dezessete prestações, Mas a última, não conseguirei Seremos jogados na rua. E o chão de terra batida E nosso pedaço de grama amarela, Nunca mais os veremos, nunca mais, Nem tampouco respiraremos seu pestilento ar familiar. UM OUTRO OPERÁRIOS: Aqui estamos, em pé, nossas mãos como pás, E nossos pescoços fortes como tratores. Nossas mãos e nossos pescoços, queremos vendê-los Mas não há quem os compre. OS OPERÁRIOS: E nossas ferramentas - Gigantesca montanha de prensas e gruas – Estão trancadas, detrás desses muros! JOANA – E então, o que se passa? Quer dizer que já se vão? É porque já terminaram de comer? Adeus e obrigado. Mas por que então vocês escutaram até agora?
JOANA

– Pela sopa. JOANA – Continuemos. Cantem! CHAPÉUS NEGROS cantando Avante, entrai nessa luta! No coração da batalha lutai! Cantai com louvor, que cante todo o mundo. Ainda é noite, mas logo virá o dia, Raiando com todo o esplendor, E junto virá Jesus Nosso Senhor. UMA VOZ, do fundo do palco – Estão contratando nas fábricas de Mauler! Os operários saem. Fica apenas uma mulher. JOANA, com ar sombrio: Parem a música! Acabou a sopa, lá se vão eles! Seus olhos são incapazes de elevar-se Mais alto do que a borda do prato. Eles não crêem em nada além do que está Entre suas mãos. Acreditarão em suas mãos? Vivendo cada dia, cada minuto mesmo, Na insegurança, eles não são capazes De se esquecer das preocupações mais básicas. Nada, a não ser a fome, tem sobre eles qualquer influência. Nenhuma canção os toca mais. Nenhuma palavra pode Descer até eles e penetrar seus corações. Aos que a cercam: Parece que nós, os Chapéus Negros, temos por tarefa alimentar todo um continente com nossos poucos talheres. Os trabalhadores voltam. Ao longe, ouvem-se gritos. OS OPERÁRIOS, na frente do palco – Que gritos são esses? Um imenso caudal humano emerge dos abatedouros. UMA VOZ, do fundo: Mauler e Cridle também fecharam. As indústrias Mauler optam pelo lock-out! OS OPERÁRIOS, refluindo:
UM OPERÁRIO

Ele venderia o próprio ar. Enquanto corríamos atrás de trabalho. Ao fazer mil perguntas. que fogem do trabalho. dos Chapéus Negros: Não vá te meter com estes problemas. meu velho Lennox. na frente do palco: Desgraça! De todos os lados chegam ainda Torrentes infindáveis de homens! OS CHAPÉUS NEGROS. derrubou-te. Oh Joana! Não te metas nas querelas terrestres! Pois quem nelas se envolve. presa. os fabricantes de conservas Lennox e Graham discutem. São reles glutões Preguiçosos. Degrau após degrau. Em um grande edifício: A Bolsa de Carnes JOANA: Eu vou até lá: Eu preciso saber. JOANA – Não! Eu quero saber (aos trabalhadores) Digam-me. a Joana – Vamos agora. onde se compram e vendem animais. ele te revenderia. Joana e Marta esperam. Na insana esperança de obter uma resposta Que jamais chegará. pronto. antes. JOANA III Pierpoint Mauler é tocado pelo sopro de um outro mundo EM FRENTE À BOLSA DE CARNES Em baixo. UM OPERÁRIO. Jamais seus corações. Ao fundo. mora aonde? OS OPERÁRIOS: Lá. ruídos da Bolsa. O selvagem Mauler! De um tal monstro a investida É inexorável! A natureza. No alto. Estamos gelados e molhados e precisamos comer. . Sua bondade perde rápido. para ele. – Não. Eles encherão tuas orelhas com seus gritos. JOANA – Quero saber. Resultado para nós: barrigas vazias. Os Chapéus Negros se afastam. E o frio supremo Rouba de seu coração todo o calor. MARTA. Todos haviam perdido o emprego E perguntavam onde achar trabalho. desce cada vez mais baixo. E vê esvanecer-se sua pureza original. Eles têm apenas idéias vulgares na cabeça. O que comeste. Quem abandona o lar protetor. Uma multidão enorme e desesperada. Lennox está branco como algodão. GRAHAM: E então. Torna-se mercadoria.6 No meio do caminho encontramos. já que ele é a causa de tamanha miséria. eu quero vê-lo. desde o dia em que nasceram. JOANA – Esse Mauler. Tu desaparecerás na lama! Pois a lama entope as bocas Que fazem perguntas sem prudência JOANA: Eu quero saber. OS CHAPÉUS NEGROS – Pare! Não te metas com essas questões. por que correm de um lado a outro e não encontram trabalho? OS OPERÁRIOS: O sanguessuga Mauler e o muquirana Lennox brigam entre si. OS CHAPÉUS NEGROS – Então teu destino nos parece bem negro. por favor. Recebemos mil respostas. esse Mauler. quem é o responsável por tudo isso. Abrigaram sentimentos nobres. torna-se.

Ele terá medo. Bem pensado. surge de um grupo de fabricantes de conserva. ficarás com a fábrica Conforme está previsto nos termos do contrato: “No dia em que Lennox for eliminado. no último andar. Quando ele não podia absorver mais nada.Joana. olhe para mim e de meu pescoço. MAULER : Lennox está de joelhos. CRIDLE: Muito bem.. MARTA – Joana. E se lhe jogas pedras na cabeça. Destroem com seus cascos o pasto que disputam.. Instalar duas ou três dessas máquinas novas. Fecho minhas fábricas. Lennox! Acabou a guerra de preços! Foste eliminado. este homem não é duro E nem ama o dinheiro. eu garanto. esta arte contrária à natureza. JOANA – Mas tu vieste comigo. até aqui me acompanhastes. não é verdade? GRAHAM : Muito bela! Mas e a lata. que vira couro. lutando. Vocês mesmos. Primeiro perde a pele.” CRIDLE : . Fizeram desabar os preços e destruíram seu negócio. Vá. acompanhado de seu corretor.. Batendo-se por sua conquista. Ele não pode suportar A visão da miséria. e dorme mal à noite. A nova técnica é muito engenhosa: O porco é colocado em uma esteira rolante Até o alto da fábrica. E agora. Começa então o seu retalhamento. Saibas. Cridle sai da Bolsa e desce até o palco. por conta de seu próprio peso. chega Na lata que o espera lá embaixo. Cridle. moídos como farinha. ainda ontem florescente!. Diga-lhe: Mauler. com voz suave. à Marta: Tu somente. A Lennox: Estás perdido. Até chegar aos ossos. cruzei a última fronteira. Nas facas. Todos me abandonaram. Pois caindo. nele. O faro para o dinheiro é nele tão potente. até ele e. ele faz ouro. sozinho. Bela invenção. JOANA.7 De barracos miseráveis. Slift. não achas? Ele se degola e logo. em salsicha se transforma. Mauler. confessa. OS FABRICANTES DE CONSERVAS : Trata-se de saber quem agüentará mais tempo. no entanto. Que ele não saberia jamais trair seu instinto. De carne podre. Tira esta mão que me aperta e me estrangula. Marta. que viram escovas. Um mercado aviltado. Por si mesmo.. Estranho conselho! Eu te agradeço. Tão natural. Tal qual dois grandes búfalos. E pensa nos velhos tempos. E talvez chore. Depois seus pelos. época maldita! Um comércio estrangulado por montanhas de conservas. Gritaram-me prudência: Para eles. eu também te recomendei prudência. então. a cada fase.. Espero que o mercado recobre a saúde. E assim. como vais reconhecê-lo? JOANA – Saberei bem reconhecê-lo.. Agora vou limpar a minha fábrica. para economizar Uma agradável soma em salários. que. Lubrificar meus cutelos. o porco se precipita. com sua escalada. Em dinheiro ele as transformará. O que fazer com ela? Ah. ele extrai rendas. MARTA .

e onde eu conseguiria dinheiro para pagar tua parte? Eu estaria arruinado! MAULER : Já que me dizes isso. um contrato dos tempos de prosperidade! Mas e a crise? Ela não existe? Que posso fazer eu com um grande matadouro Se ninguém mais compra carne em conserva? Agora sei bem porque não podias Mais suportar a visão do gado morrendo: sua carne Não vende mais! MAULER : Não. Hoje. Para pagar o que te devo. Não pude imaginar seu fado. MAULER – Ai! GRAHAM — Viu? Ele tem um coração! MAULER : Então. devido à saturação do mercado. Estou tão temeroso que chego a suar frio: seis dias. elas cairão a 70. Veja se esse contrato diz uma só palavra sobre a crise. MAULER : O quê? A soma está inscrita Claramente no contrato Tome. cinco. Seis dias? Não. Mauler. de examinar Contigo.. eu precisaria jogar essas ações no mercado. Mauler. Antes que quebres de uma vez! Creia-me. então. MAULER – Leia. até teu coração sabe ver longe! LENNOX : Eu gostaria ainda. olhe para mim. LENNOX – Mauler. as ações estavam a 390. Mas com ele acabaram Os bons dias do mercado. e tu tinhas um terço. se tu estás Realmente onde dizes. LENNOX – Não. CRAHAM : Toque-lhe o coração. nosso contrato não é mais viável. sensível! Ele soca Mauler no coração.8 Sim. tenho dois mil empregados! CRIDLE – Mande-os ao cinema! Mas Pepê. isto é. veja Lennox. sem mais delongas. Isso não é um contrato? Com um preço fixado? CRIDLE : Sim. Ah! Pudesse eu estar liberado De um comércio tão bestial! Tenho. seguindo-o com os olhos: Tive a ligeira impressão de que algo o atormentava. mergulhado em meus negócios. Ele sai. Nada além. Cridle. É preciso então. É o máximo que posso fazer. MAULER ... E eu. Mauler. CRAHAM . se eu fizer isso. Pois eu proibirei Cridle De comprar-te uma única lata.. o coração torturado! Cridle se afasta.. Pepê! Como quiseres. GRAHAM — Mauler. então. Lennox. como eu. Lennox! Toque-o! É uma lata de lixo. A exigir meu dinheiro. (faz contas em uma caderneta) Quando combinamos que tu sairias do negócio. Não estava caro. Mas. Joana fez um sinal a um segurança e lhe diz algumas palavras. é que meu coração se aperta Quando ouço mugir a criatura CRAHAM : Agora eu compreendo a grandeza de teus atos. mas. nada. Repensar os dez milhões de dólares Que queres por tuas ações. tu me forças. Freddy! Quer dizer que tu me socas. : Pepê! Isso não é um jogo! Não podes misturar Questões pessoais aos negócios! CRIDLE – Pois não. as ações caíram para 100. Lennox acabou. Tu me ofereceste a 320.. Cridle.

Diga-lhes que eu os receberei Mas que eles limitem-se a responder minhas perguntas. Dizem. o rumor da Bolsa continua. apontando para Mauler – O senhor é o Mauler! MAULER – Não. 43. não é homem de bem. A Joana: Vós sois. Pretendo renunciar a esse negócio sangrento Logo que eu possa: renunciar sem retorno. suponho. Slift. Chapéus Negros. MAULER . JOANA. diga que não estou. Creiam-me: esses são assuntos profissionais Que não vos interessam. cá entre nós. (aponta para Slift) É ele! JOANA. Para Joana:) Quanto recebes por dia? JOANA. São chamados de soldados do Bom Deus. Vitelos. Com ar invejoso. MAULER: O tecido é bem fininho e. O SEGURANÇA: Ele vai vê-los. respondam apenas Quando ele lhes perguntar.9 O SEGURANÇA — Senhor Mauler. MAULER – Como me reconheceste? JOANA: De todos. O melhor para eles É causar em mim a impressão de gente honesta. dirigindo-se direto a Mauler – O senhor é o Mauler! – Não sou eu. a Slift: Que eles trabalhem por nada. Durante esta cena. Ouve-se: Bois. MAULER : A escória em farrapos. MAULER : O que é esta organização? O SEGURANÇA — Eles têm muitas ramificações. O segurança vai ao encontro de Joana no outro lado do palco. é ele. Graham sai. . Mas o que eles querem comigo? O SEGURANÇA — Afirmam que têm algo a dizer ao senhor. há algumas pessoas que querem lhe falar. em absoluto. MAULER : Está bem. etc. Slift ri. o tecido não é grosso Nem é grossa a sopa. seus trabalhadores na rua? MAULER.É assim. JOANA: Por que joga. gente estranha. eu sei. hein? Não. – Vinte centavos. Sim. Mas que nome curioso! Soldados do Bom Deus. mas vocês não devem Perguntar nada. e pôs em apuros Cridle que. sem dúvida? Prontos para a violência. MAULER : Já ouvi falar dessa gente. que o sangrento Mauler. Porcos. MAULER – Rindo. 59. Senhor Mauler.. Que não é acusada de nada E que não espera o impossível de mim. Slift? (Enquanto isso. que eu sou Mauler. que a sopa seja rala. 55. é o que tem a cara mais ensangüentada. Pouco me importa o que esperam de mim. adoraria vossa opinião. Mas. – É o senhor. além da comida e do uniforme. O SEGURANÇA — São membros da Organização dos Chapéus Negros. sobre outra questão. na verdade. Nada de choros.. são numerosos e gozam de grande consideração nas camadas inferiores da população. não é notável? Já viste algo igual? Que trabalhem por nada e sem se lamentar? Não vejo em seus olhos nem medo da miséria Nem de dormir sob as pontes alguma noite. que a escória me chama – Despojou Lennox. Mais uma coisa: não diga. JOANA. nem desses versos sentimentais Que eles adoram cantar.

. MAULER: Poderia eu ir mais longe? Porque ele é sangrento É que eu tirei as minhas mãos deste imenso negócio.. a Joana: Joana. MAULER: É que adquiri o maldito hábito De disfarçar a voz. Não. Eu sei. eu sinto Que tu não gostas de mim. que com tal decisão As pessoas sofreram. Mas tendes consideração demais pelo destino dos pobres: Eles são maus. confesso. Deixai disso. Seu rosto me agrada.. Eu sei. ele é mau. diga. isso de se retirar do negócio. É bom. MAULER: Eu tenho grande piedade pelos bois: o homem. Tome para os pobres. Nenhum é inocente. O homem. Marta sai. no lugar do pobre animal. tu também. Tamanha inocência!. tomando-lhes o dinheiro que trazem consigo e dando-o a Joana. Deverias. A parte – doze milhões – que eu tinha na usina. dêem o dinheiro. A canalha. aliás. Embora já tenhas vivido mais de vinte anos. Isso não é bom? Os fabricantes de conservas explodem em gargalhadas. MARTA. Cedi por dez ao homem que vêem aqui. São. MAULER: Riam todos. por favor. Mas é uma gentileza. um boi e fiquei tão comovido Que quis largar tudo. Melhor para ti que não os veja. Senhor Mauler. São todos carniceiros.. Ele se aproxima dos industriais. sem nenhuma obrigação: Eu não sofro de insônia. JOANA – Senhor Mauler. para o que pretendes fazer. não é? JOANA: Não sei se o senhor fala sério. . Ele fala com Slift em voz baixa. não me comove. minha filha. há pouco. Eu também vou embora. O senhor não poderia realmente ajudá-los? MAULER: Repita por toda a parte: eu aprovo vossa ação. por que fechou os matadouros? Eu preciso saber. nos matadouros dizem que o senhor é o responsável pela miséria deles. Eles não têm mais trabalho. E desejaria que fossem mais numerosos. Ele não é maduro ainda. mas não digas nada. JOANA – Isso é uma gota no oceano. Seu riso não me atinge. não me digas nada. Eu os verei chorar um dia. Isso não é bom? E conforme vosso espírito? SLIFT : Vendo morrer o boi. Dirigindo-se aos outros: Parece-me que fui tocado pelo sopro de um outro mundo. não creias que seja de boa fé. Abandonar esta empreitada. Desculpe-me. Mas. Diga-me que está certo E que isso te agrada. ele decidiu abater O rico Cridle. pessoas extremamente más. Talvez por isso te ajude. de resto. dêem! Corja de carniceiros! Ele continua mexendo nos bolsos deles para dar dinheiro à Joana.10 Pois eu vi – e isso vos interessará – Morrer. vamos. Um instante. Dêem o dinheiro. Mas este mal era inevitável. JOANA: Senhor Mauler. O mundo não poderá mudar se antes não mudarem os homens.

é o lixo do mundo. Mas seu casaco ainda está bom e isso também é uma pena. agora eu vou te mostrar Como eles são maus Essa gente da qual tens piedade. UM CONTRAMESTRE. peguei para mim. enfim. e ele entrou na faca e virou toicinho. Dois homens saem por uma portinhola. O JOVEM OPERÁRIO – O senhor pode confiar em mim. SLIFT: Em teu lugar não gostaria. Sullivan Slift. e mostre a ela Como os pobres são maus e covardes. Responsáveis. A Slift: Mal posso suportar a existência de seres Semelhantes a esta moça. Diga “para seus pobres”. É o primeiro que nossos tambores desalojaram Das trevas da vilania..11 Chame ela de lado. dê dinheiro a ela. Veja então o que ela compra. A Joana: Aqui está meu corretor.E eu adoraria que não desse certo – Leve-a aos matadouros. é claro. mas não pudemos parar as máquinas a tempo. e para mim. JOANA — Eu quero vê-los. cheios de traições. vendo Mauler se afastar: Este homem não é mau. ele cairá bem. saindo – Um conselho: não te metas com as gentes dos matadouros. por suas vidas miseráveis. Se isso falhar . Entrego a você porque sei que é de confiança: se alguém encontrá-los em algum lugar.) É uma pena. e enrola o seu. IV O corretor Sullivan Slift mostra à Joana Dark como os pobres são maus: Joana desce às profundezas pela segunda vez BAIRRO DOS MATADOUROS SLIFT: Joana. vestido com uma lata. já que agora ele está em embalado. E que não têm nenhum medo. que nada têm Além de seus vinte centavos por dia e seu chapéu negro. ficará com a vaga de Luckerniddle. se quiser. Semelhantes a bestas. é pavoroso. em um jornal. Ele ouviu nosso chamado. Luckerniddle. . senhor Smith. Mas volte aqui amanhã. Azar. o quanto antes melhor. vacilando: Estou me sentindo mal. Aqui estão seu casaco e seu boné: pegue-os e façaos desaparecer. O amigo Pedaço-de-Toicinho não precisa mais dele. faz quatro dias. Quando a fábrica reabrir você. é a escória. e depois a siga. Estão ocupando inutilmente um cabide no vestiário.. ela poderá Aceitar sem pudor. Se quiseres mesmo saber. sobre o qual se lê: “Fábrica de Conservas de Carne Mauler e Cridle”: O nome de Mauler aparece riscado. (O contramestre volta para a fábrica pela portinhola. a um jovem operário – Um de nossos homens. caiu. ele te fará ver algumas coisas. Ele veste o casaco. este homem será mandado para os quatro cantos do mundo sob a forma de toicinho. Ele sai. o que causa má impressão. Isso pode funcionar. assim como o seu boné. perderei meu emprego. JOANA. E verás que tua piedade é descabida. Slift e Joana escutam. na caldeira. SLIFT. É preciso queimá-los. em uma palavra. JOANA. Slift e Joana contornam o muro de uma fábrica. De saber o que queres saber.

E malditos sejam vocês Se lhe fizeram qualquer coisa! Slift caminha até ela.12 SLIFT: Aí está a vida como ela é. Você poderá comer e lhe darei um dólar se disser à mulher de Luckerniddle onde conseguiu o casaco e o boné. Eu estou em uma situação muito ruim. é capaz de o meu quebrar já no primeiro golpe. saindo para o trabalho.. para nós. Bando de açougueiros. de forma alguma. ele não foi para São Francisco. SLIFT – Estamos dizendo que ele partiu para São Francisco. SLIFT: Senhora Luckerniddle. à cantina número 7. Não tenho outro esteio. ele me dizia: “Espere-me à noite com uma sopa quente!” Desde então não [voltou. Precisará nos processar. DONA LUCKERNIDDLE: Agora inventam que ele viajou! SLIFT – Deixe-me dizer uma coisa. aquele que se acidentou? O JOVEM OPERÁRIO – Por favor. Slift volta para junto de Joana. Eu. dizendo tolices. em nossa cantina durante três semanas. DONA LUCKERNIDDLE – Não. diga-lhe que procura trabalho. senhora Luckerniddle. Eu tiro agora mesmo. Não procure mais saber o que se passou com seu marido e a senhora poderá almoçar. JOANA: Ela nunca aceitará. fui trabalhar no moinho de ossos e adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. No ano passado me deixei seduzir pelos vinte centavos a mais que se ganha na fábrica de adubo. Mas reflita bem. DONA LUCKERNIDDLE: Eu quero que me devolvam meu marido. senhor. No frio.) Onde você conseguiu este casaco e este boné? Estes são os pertences de Luckerniddle. DONA LUCKERNIDDLE – Quero saber o que aconteceu ao meu marido. Venha. não diga mais isso. Verás então o que é essa gente. Vinte refeições são muita coisa Para aquele que tem fome. Antes eu gostaria de fazer-lhe uma proposição interessante. que fizeram dele? Há quatro dias que estou aqui. na fábrica. seu marido está viajando. Já não posso mais trabalhar como antes e só consegui emprego duas vezes desde fevereiro. enquanto não o vir. passe-me logo teu cassetete. e vocês não querem que se saiba disso. lamentando-se: Faz já quatro dias que. obrigados a fazê-la. Aconteceu alguma coisa com ele aí. Joana e Slift prosseguem seu caminho. ao meio-dia. Amanhã. Esse salafrário se empanturra às nossas custas. esperando por ele Mas ninguém diz nada. (Ele vai em direção a Gloomb). então a senhora não pode aceitar a refeição que a fábrica lhe oferece. vou falar com ele. Eles chegam a uma cantina da usina e vêem diante de uma janela dois homens que olham para o interior. me encontrará na cantina. Quando ele se aproximar. Eu ficarei aqui. de qualquer modo. Senhora Luckerniddle: ele está viajando e. pronto para encher a pança. . é muito desagradável vê-la sentada aí. É por isso que lhe fazemos uma proposta: note bem que. lhes digo. a Joana – Fique aqui. Vamos. (Ele pára o jovem operário. SLIFT: Guarde essas coisas. Por causa dele deixei minha mão na máquina de cortar chapas. legalmente. DONA LUCKERNIDDLE está sentada em frente ao portão da fábrica. se quiser me ver. Vamos cuidar para que essa seja a última vez. O JOVEM OPERÁRIO – Mas senhor.. Joana e Slift seguem seu caminho. Mas existem coisas Que importam mais para ela. todo o tempo. senhor. GLOOMB – O feitor está bem ali. SLIFT. mesmo à noite. SLIFT – Se é esta a sua opinião. e meu marido não sai da fábrica. se você não está precisando disso!. isso não lhe parece muito brutal? SLIFT: Bem. além dele. gratuitamente. nós não somos. O JOVEM OPERÁRIO – Pode confiar em mim. Tenho a impressão de que você está prestes a cometer um ato impensado.

Eu imaginava que ela iria resistir. tem que se retirar. desde hoje? DONA LUCKERNIDDLE – Não como nada há dois dias. Talvez a vaga deste contramestre. justamente porque você contou todas essas histórias a respeito de seus dedos. por acaso. GLOOMB – Posso confiar no que você está me dizendo? SLIFT – Sim. JOANA – Mas a senhora nem sabia que nós viríamos hoje. faremos isso amanhã à noite. não sabia. (Ele vai em direção a Joana. Não podemos perder esse safado. Adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. meu senhor. estaríamos dispostos a reempregá-lo imediatamente. No ano passado fui trabalhar na fábrica de adubo. Vai se perguntar como alguém pode contar histórias tão ridículas sobre esta máquina. calculando – Vinte refeições. SLIFT – Que pena. É um bom posto? GLOOMB – É um ótimo posto. Disseram-me que não tinha ninguém além dele. Você se surpreenderá ao ver como o trabalho é agradável.. e então eu teria. Ela senta-se em uma mesa. A GARÇONETE – Se a senhora não for comer. GLOOMB – Rápido então. JOANA – Quase tenho medo de continuar. JOANA: Ela sentou-se ali. Ali adiante. Slift cai na gargalhada e arrasta Joana. por exemplo.. SLIFT – Leve você mesmo a comida a ela.. O que mais verei? Eles entram na cantina. É preciso que ele pague hoje mesmo por esse sistema desumano do qual ele é o feitor. GLOOMB . DONA LUCKERNIDDLE. temi que amanhã ela viesse.. Eu sou inspetor nesta fábrica. Naturalmente seria muito bom se nós encontrássemos alguém para esse posto. O posto que você ocupava na sua máquina continua vago e isto é muito chato. DONA LUCKERNIDDLE – Espero uma pessoa que deve vir hoje ou amanhã.) Você está procurando trabalho? JOANA – Sim. JOANA – Vindo para cá ouvi dizer que aconteceu alguma coisa com o seu marido e que a fábrica é responsável. DONA LUCKERNIDDLE – Sim.. O que há para comer hoje? A GARÇONETE – Ervilhas. Os movimentos ficam menos firmes e pode-se prender as mãos nas serras. SLIFT – Gostaria de propor um meio de tirar-lhe dessa jogada.. DONA LUCKERNIDDLE – É verdade. Uma jogada dessas é melhor de se fazer à noite. JOANA – A senhora já está aqui. encontrasse alguém. e então eu poderia. E é um trabalho que pode ser feito mesmo por pessoas como você.13 – Não tenho tempo. depois do que eu iria. há uma moça que está procurando trabalho. Ela correu até aqui e já nos espera. Seria vantajoso para você. Naturalmente você precisaria manter os ritmos de trabalho mesmo os dispositivos de segurança não sendo perfeitos... A maior parte dos trabalhadores a considera muito perigosa. O posto não é feito para gente fraca. e lhe daríamos até um trabalho mais fácil e melhor remunerado do que o antigo. Tchau. Desde fevereiro estou sem emprego. Joana procura um prato e leva à senhora Luckerniddle. JOANA – Não há realmente como me arranjar outro posto? Ouvi dizer que o trabalho nesta máquina era perigoso para quem não resistisse ao trabalho muito pesado. já faz dois dias que eu não como nada. DONA LUCKERNIDDLE – O que? Vocês pensaram melhor e estão retirando a oferta? Então eu não terei mais as minhas vinte refeições? JOANA – Me pareceu que a senhora se dava bem com seu marido. não muito fortes. Apesar de tudo. Ela não parece muito forte. (Ao seu companheiro:) Pensei melhor. GLOOMB – Você enxerga bem? JOANA – Não. GLOOMB – Nada disso é verdade. Se você. A senhora Luckerniddle está falando com a garçonete.. no moinho de ossos. GLOOMB – Aquela moça ali? .. pode ser que mude de idéia. E eis que ela nos precedeu.

Era seu único esteio. Desejas mostrar-me a sua imoralidade. DONA LUCKERNIDDLE – Ele foi para São Francisco. SLIFT – Durante três semanas ela virá. Que sua miséria. a imoralidade deles? Ela teria. DONA LUCKERNIDDLE. verdadeira manteiga! Banha fresca do Kentucky! OS COMPRADORES: OS FABRICANTES DE CONSERVAS . tu me dizes? Sua pobreza também é incomensurável. Mercadoria invendável. Você a viu.14 – A senhora não quer esperar até amanhã? Se a senhora desistir de procurar o seu marido. ao lado daquela mulher. saindo. JOANA: Porões e armazéns abarrotados de carne. Dona Luckerniddle arranca o prato das mãos dela e começa a comer avidamente. Um certo tempo ainda. a vossos olhos contradiga Esta depravação que injustamente se lhes imputa. e por mais justa que fosse. ao garçom – Deixe meu prato. Atrás dele:) Você tem um belo boné. os sofrimentos que suportam Esses pobres sem moralidade. esta mulher. V Joana apresenta os pobres à Bolsa de Carnes A BOLSA DE CARNES : Nós todos. Joana? A imoralidade dela não tem limites! JOANA: E tu. preferido. Eu virei todos os dias. como um animal. comprem nossas latas! Carne fresca e suculenta. (Dona Luckerniddle permanece em silêncio) Não pegue. como manda o costume. Tão cara a ele. o preço era muito alto. mas não em uma loja. Mostrar-te-ei. com que habilidade torna-te mestre dela! Esta imoralidade. Fatias de toicinho Cridle-Mauler! Carne de filé Graham. Ela sai. posso comer aqui? SLIFT – Você só precisa sentar-se ali. Você só precisa perguntar a esse senhor. (Ele senta-se. JOANA E procurar por ele. como muitas. SLIFT – E onde você comprou? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. e comerá sem levantar os olhos do prato. como vós a explorais! Não vês que nem teto eles têm. ninguém mais perguntará o que foi feito dele. Sua imoralidade é sem limites. estamos vendendo carne! Compradores. Ele foi obrigado a vender sua cólera. A senhora Luckerniddle sente náuseas. O que tu me mostraste Não é a imoralidade Dos pobres: é a pobreza deles. Mas vinte refeições. Pois não há mais compradores! Do fundo do palco chega o jovem operário com seu casaco e seu boné. então? O JOVEM OPERÁRIO – De um homem que caiu dentro de uma caldeira. eu. (O jovem operário o esconde) De onde ele vem? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. eu volto. O JOVEM OPERÁRIO – Bom dia. Ela se levanta e sai. para colocar Ao abrigo da chuva. e que já apodrece. acreditas que ele teria mostrado À mulher do morto a roupa que usava Se tivesse tido a chance de escolher? O maneta. SLIFT – E onde você conseguiu. Continuar fiel à memória de seu marido. E este jovem – em quem botaria fé Qualquer malandro -. certamente teria me prevenido Não fosse o preço a pagar por seu pequeno escrúpulo.

Nós iríamos perder o bonde! MAULER: E quando isso ocorresse! Terias a imprudência De tirar tua parte de tamanha miséria. SLIFT: Eu riria se. . A morte Despreza esse gado e fecha-lhe a porta. Mas ninguém quer comprar carne enlatada. A dar-se-lhes ouvidos Seria necessário agora deitar por terra Todo o cartel da carne E deixá-lo estagnado durante muitas semanas.15 E sobre as águas fez-se um grande silêncio De todos os compradores. Do filé Graham. dia e noite nossas máquinas Ligadas no máximo: salgadeiras. Engolindo nosso ouro junto com nosso grão. O estômago do país. Nós não compramos mais nada! OS FABRICANTES: E nós. Nós estamos perdidos! OS CRIADORES: E nós. com nossos matadouros? Nossas fábricas estão cheias de bois. cubas. quase de graça. cozinhas e lojas Estão cheios até as bordas. Aproveitem então. Nós queremos vender a carne em conserva E ninguém a quer! E todos os nossos clientes. OS FABRICANTES: Graças aos avanços da técnica. SLIFT: E teus amigos de Nova Iorque. A nós. compradores. nenhum tinha dinheiro. E graças aos perspicazes planos dos industriais da carne Nós conseguimos reduzir em um terço O preço do toicinho Cridle-Mauler. Temos diante de nós montanhas de latas. Clamamos aos berros por um consumidor que não existe. verdadeira manteiga. Quem comprará agora nosso gado? Os estábulos estão cheios De porcos e bois devoradores de milho Que eles devoram ainda nos trens que os transportam. eles conseguissem Fazer cair de uma vez as taxas de importação. caldeirões Convertem sem parar em latas de conserva As manadas mugidouras que pastam nos prados. Frigoríficos entupidos de carne congelada. E da banha de Kentucky. em Nova Iorque. fabricantes. Comprem. Quando todos te seguem com olhos de lince Para ver o que fazes? Eu não teria cara. ao trabalho de nossos [engenheiros. O que provocaria um movimento de alta. Não a agüenta mais. Eu teria sobre as costas toda a carne! Idiotas. E abrissem assim o Sul aos nossos produtos. comprem nossas latas! OS COMPRADORES: E sobre as montanhas fez-se um grande silêncio E as cozinhas dos hotéis escondem a face E as lojas se desviam com horror Os atacadistas mudam de cor. Nas estações e nos pátios. o que te escrevem? MAULER: Teorias. MAULER: E mesmo a faca os recusa. Saturado de carne em conserva. OS COMPRADORES: Nós compradores. Esperando até ninguém poder Mexer nem o mindinho! E eu. os criadores. compradores. a visão da carne enlatada Causa náuseas.

Ele queria me vender a sua parte. ave de agouro. a preço vil. Quero apenas meu dinheiro e a paz de minh’alma UM CORRETOR – urrando. antes de qualquer coisa. quem de vocês continuaria a me levar a sério nos negócios? Ora.investindo contra Mauler que lê o jornal: Traidor. Voltai para casa. Cridle. nem que fosse por mais uma hora. Mauler! Fala. OS FABRICANTES Essa gente não faz as coisas pela metade.. e ficando com as outras. pálido como algodão. e o conjunto das fábricas vale dez. Pois tu liquidaste. Cridle. Carrega em sua queda as cotações de todo o cartel!. olha para nós! Assim. Hoje os papéis de Mauler não valem mais dez. preferiu o vosso. já vinham caindo. Cala-se e aponta para o dedo para ti. Tu te desfazes de tuas ações? UM CORRETOR: A cento e quinze! OS FABRICANTES: Ficaste louco? Tua morte. que estavam valorizadas. que conspurca nosso ninho! Nós sabemos bem quem fez os preços caírem sem cessar Vendendo gado por baixo do pano. Mas somos atingidos pelo que lhe acontece. de toda a maneira. antigamente Mauler. Eu me propunha pagar-lhe vendendo uma parte das ações dele mesmo. ao fundo. Ele poderia exigir seu dinheiro quando quisesse.Há quatro semanas apenas eu assinei um contrato com Mauler. Isso representava um terço do total das ações. é que me levem a sério. E vós soluçais nas saias de vossas mães. nesta conjuntura. tu o retiras Do negócio e Cridle. que já se arrasta. então! OS FABRICANTES – a Mauler: Corre o boato que teu capital.. OS FABRICANTES: O que significa isso. eu quero o meu dinheiro. é o cartel da carne. provoca muitas outras! Lixo! Assassino! CRIDLE . o que desejo. ele vem realizando secretamente vultosas vendas de gado a preços baixos e provocou a queda das cotações que. eu acabo de saber. na entrada da bolsa: Queda gigantesca das cotações na Bolsa! Venda maciça de ações. Não é de hoje que fazes tais manobras. É bom que ele seja nosso adversário. por dez milhões de dólares.16 . Tumulto entre os fabricantes. Foste tu mesmo quem provocou o marasmo! Nossas latas agora não saem mais caro Que a areia dos mares. . mas um outro Quem joga a rede. Desde aquele dia. Para acabar com Lennox. todo teu estoque. OS FABRICANTES: Quando ages assim com Cridle. Esses dez milhões são exatamente a soma que devo a Mauler – e ele a exige em vinte e quatro horas. Cridle? Levanta os olhos. Falai que um dentre os vossos Não pode mais suportar o grito dos bois morrendo E aos mugidos deles. mas três milhões. que se lançam sobre Cridle. nós somos os peixes! O que querem arruinar. MAULER: Açougueiros insolentes é o que sois! O animal torturado parou de mugir.apontando para Mauler: Falem com ele! CRAHAM – colocando-se diante de Cridle: Não é Cridle. Veio a baixa. MAULER: E por que matastes tanto gado? Açougueiros alucinados sois vós! Agora. E exiges dele o pagamento sem demora. MAULER – O próprio Cridle me confessou que está insolvente: se eu deixasse meu dinheiro com ele. CRIDLE – dirigindo-se aos que o cercam:. estava acordado. ao invés de trinta.

Uma mulher nos faz sinais de aflição. para comer? Pensai convosco mesmo: sempre será assim. Fazer avançar os tanques e os canhões. mas rápido! OS COMPRADORES . suja de sangue? Joana e Marta avançam e cantam o seu hino de guerra. És tu. meu chapéu. Ouvem-se os tambores dos Chapéus Negros e a voz de Joana. pois preciso partir. os aviões Para conquistar o pão dos pobres. Pois os bons nesse mundo Não formam um grande exército. E nós dizemos: é preciso ir sempre adiante. Mauler. Não esperem o amanhã! Cada um deve nos ajudar. Ei. fiquem diante de mim. seu cão. . nós estamos perdidos! JOANA – Onde está Mauler? MAULER: Slift. não saia! Graham. MAULER: Por hoje basta. Os que nos escutam. Graham. pois tenho outros projetos. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Escutem todos.Pierpoint Mauler! Onde está Mauler? MAULER: O que é esse barulho de tambores que de súbito me envolve? E quem chama pelo meu nome Nesse lugar. detenham todo o tráfego Em torno de vós os seres naufragam. Com o único objetivo de ajudar o próximo. Uma explosão de gargalhadas toma a frente da cena. o responsável Por esta catástrofe. olhos para ver? Ele é vosso irmão. mas rápido! OS COMPRADORES . Não falemos mais de negócios. com nossos bois Que hoje ninguém mais quer. Para Illinois esse dia é um desastre! Vocês fizeram os preços subirem. OS FABRICANTES: Oitenta e sete mil latas pela metade do preço. Parem os carros. Meyers. E ninguém se preocupa. Lançar ao mar os navios de guerra E nos ares. então. Haveis então esquecido Os que esperam diante da porta E que esperam. Durante esse período a batalha na bolsa continua. OS CRIADORES: Lennox já caiu! E Cridle balança! E Mauler. JOANA .Nenhuma sequer! Silêncio. OS CRIADORES: Impossível vender um boi em Chicago. cem dólares pelo meu chapéu. onde cada um revela Sua boca desnuda. acompanhada de exclamações.Nenhuma sequer! OS FABRICANTES – Então. E ninguém se preocupa Não tendes. Estimularam-nos a criar bois. escutem bem! Um homem afunda sob os nossos olhos! Escutamos lá no fundo seu apelo por salvação.17 Mesmo que tivésseis todos que mendigar. Nesse mundo sempre reinará a injustiça. Meu chapéu. Eu não quero que me vejam aqui. ele retira o seu dinheiro! OS FABRICANTES: Oitenta mil latas a cinqüenta. Ei-nos aqui. E. Avante! Ao assalto! Empunhem os fuzis! Diante de nossos olhos os homens naufragam. Mauler. com isso. seja quem for! Levantai o nariz de vosso prato. Eu quero meu dinheiro.

tanto hoje quanto no dia do juízo final. e a quem não querem reconhecer como irmãos. OS POBRES – Ele é o responsável por tudo! Os fabricantes de conservas correm para socorrer Mauler. Se continuarem a agir assim. acabarão tendo de comer sozinhos a carne que produzem. Inverno e verão nós dependemos do tempo: nós também estamos mais próximos do Deus de nossos pais do que os senhores. tereis a moralidade. aí pelo mundo. e é verdade. OS FABRICANTES: Água para Pierpoint Mauler! . nada além disso. as leis econômicas. Traçam essas desconhecidas. pois os que estão lá fora já não têm como comprar. Cujo ciclo pavoroso sempre recomeça. destinos inelutáveis.18 – Maldito sejas! Cridle sai. Joana mostra aos negociantes os pobres (Luckerniddle e Gloomb) que ela trouxe. todo-poderosos. engodos e combinações para aumentar o preço da carne. existe também um poder de compra moral: o dinheiro. a quem os senhores transformaram no que são. gritando: Por vossa especulação desenfreada. Mas nós lhes dissemos que é um imbecil. Mas então eu lhes pergunto: de onde tirariam eles alguma moralidade. replicando: Imbecis são vocês! Ninguém pode nada contra as crises! Bem acima de nós. Aumentem-no. nas favelas. a Revolução. UMA VOZ. JOANA – Um homem de negócios também pode ser um bandido – dependendo do ponto de vista. Já me disseram o que os senhores fazem: manobras. Se os senhores continuarem tergiversando. Não tenham vergonha. como fazem em seus jornais. avancem à luz do dia. é lá que mora a imoralidade no estado puro e. em conseqüência. ao fundo – Pierpoint Mauler passou mal. JOANA – E qual a causa desta imoralidade no mundo? Poderia ser diferente? Se cada um é obrigado a rachar com um machado a cabeça de seu próximo para fazê-lo ceder seu pequeno pedaço de presunto e sua migalha de pão. que sentam nesse palácio. seus mugidos serão testemunhos. como não seriam os valores mais elevados esmagados em seu coração? Sempre ouço dizer. que se dobram sob o fardo de suas penas. Senhores. e escute o que eu tenho a lhe dizer. Causais vossa própria queda! Bando de imbecis! OS FABRICANTES. em tom de reprovação Aqui estamos com nossos bois Que hoje em dia ninguém quer. são todos uns imbecis. Reparem então nestas gentes. JOANA. os Chapéus Negros. gritando – Afastem-nos! Ele desmaia. que os pobres não têm muita moral. e diante de Deus TodoPoderoso. COMPRADOR. o salário. Mas se os senhores acreditaram que seus procedimentos permaneceriam ignorados. os senhores se enganaram. atrás de mauler – Fique senhor Mauler. Silêncio! Não lhes agrada muito. MAULER. que fazem subir o preço do pão e que fazem da vida um inferno onde os homens viram demônios. buscando desculpas. E os senhores. As crises são catástrofes naturais. eu bem sei. nesses lugares sombrios e secretos onde os senhores tratam de seu comércio. vocês. Risos OS CRIADORES – Nós criadores não encontramos nestas palavras motivo para o riso. CRIDLE OS CRIADORES: Como? Somos asfixiados e ninguém pode fazer nada? A causa de nossos males é a imoralidade De vossas armações escusas. nada querem saber da miséria que existe fora deste recinto. JOANA – Mas os senhores. então em suas costas os bois começarão a mugir contra os senhores. pobres e deploráveis imbecis. Vossa imunda cobiça. Nos baixios. ver surgir a nós. OS CRIADORES. imaginando que não virão à tona suas manobras. eles que nada têm? Senhores.

JOANA – E agora. para eles inacessíveis. E fome nunca se passa. afastados dos bens indispensáveis. então Para querer fechar a boca do Bom Deus? Não se deve calar a boca de ninguém. de todos os estoques do cartel. OS FABRICANTES – Quem? Os Chapéus Negros? Quer que eles saiam? MAULER – Não. nós nunca tínhamos visto. também ao preço de cinqüenta.19 Um médico para Mauler! JOANA: Mauler. ao fundo. levantai-me. OS POBRES – Gente como essa. cantemos: “Nunca faltará o pão. Nós. Eles. cumprimos nosso trabalho de [missionários. Invisíveis para vós. vós me mostrastes a imoralidade deles. JOANA: É isso. ao preço do dia. em 15 de novembro. Torna-se comprador. Além disso. E vós. O cartel entregará a Pierpoint Mauler. Tu quem os reduziu à tamanha miséria. Nem mesmo do boi que esmaga espigas com seu casco! Em todo o caso.. como eles sim. Os que estão atrás. aí em cima. CRAHAM – A cinqüenta? MAULER – A cinqüenta! CRAHAM: Ele comprou tudo! Vocês ouviram: Comprou tudo! CORRETOR. pelo menos cinqüenta mil toneladas de conservas. que mantendes longe de vós. levantando-lhe a cabeça – E os estoques? MAULER. SLIFT – Ele não abrirá os olhos enquanto não os fizerem sair. tudo o que em oito semanas conseguirdes [fabricar. Aos pobres: Segunda-feira vocês terão novamente trabalho. meus amigos. Mas quem sois vós. o que fazeis? Vós me ordenastes não dizer uma palavra. e reduzi-los À voracidade. Eu vos mostro agora a pobreza dos pobres. MAULER: Afastem-nos. gritando em um megafone – Pierpoint Mauler reanima o mercado da carne. qual burros de carga. Compro. OS FABRICANTES – Ele comprou! Mauler comprou! MAULER – Ao preço do dia! CRAHAM. eu vou falar. Mauler. antes de partirmos. assume compromisso sobre a produção de dois meses. Que viver assim pode mesmo afastá-los Da necessidade de um ideal. voltando a si – Eles ainda estão aí? Eu suplico que os afastem. a contar de hoje. levai-o agora. estão tão enfraquecidos. Eles parecem bem piores. . Quem em seu seio habita Jamais será infeliz. por favor. MAULER.” OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Nunca faltará o pão Ao que dedica a Deus sua alma. A tal ponto dependentes de alguma comida E de um pouco de calor. CRAHAM: Então! Não podes vê-los? No entanto foste tu. deitado no chão – Eu compro. eu.. ao instinto animal. Mas os dois que estavam ao lado dele. E não basta que cerres as pálpebras Para que eles desapareçam. eles não. Eles o levantam. MAULER – Agora. e por vós mantidos Nesta pobreza. nós conhecemos. E lá. vos rogo. eu compro! Escutai todos: Pierpoint Mauler compra! Que estas gentes tenham trabalho e que se afastem. No seio de Deus não há frio.

ao criador: O que Mauler promete. Não o deixaremos descansar Enquanto um homem precisar de ajuda. OS CRIADORES: Agora os preços subirão. Slift. discute com Slift – Fecha a porta. Pois o contrato que acabam de ver firmado É apenas um pedaço de papel. Contra a desrazão. Sua consciência já despertou. dirigindo-se à Joana Aquilo que disseste e tua intervenção Causou-nos forte impressão. Nós estamos sob uma miséria atroz. enfim do ponto morto! Confiança e concórdia estavam fortemente abaladas. Sábia decisão. nenhum.20 OS COMPRADORES: Este homem está ruim da cabeça. Pois ele pode vir em auxílio. cutucá-lo. Nesse momento o mercado recobra a saúde. E ele faz meter carne em latas Que ninguém comprará. O estômago do país. Se estiverem muito necessitados. Podem esquecer seu nome. Música a partir das 3 horas. na Rua Lincoln. então. seguidos dos criadores. Ele cumpre. por que te impressionas com os discursos dela? MAULER: . de São Francisco a Nova Iorque. JOANA – Todos aqueles que se interessam realmente pela palavra de Deus e que querem saber o que ele diz e não apenas a cotação da Bolsa podem vir domingo à tarde assistir nosso ofício. os operários entrarão. SLIFT. Aqueles que dão o pão. As fábricas reabrem e as chaminés fumegam! Pois efetivamente é de trabalho. Joana e os Chapéus Negros saem. VI A Captura dos grilos NA CIDADE CASA DO CORRETOR SULLIVAN SLIFT. entrada gratuita. Que carecem tanto uns como os outros? CRIADOR. É preciso. aqueles que o recebem. a sabedoria triunfa. Escutem: saímos. Muitos criadores se transtornaram. Agora os senhores podem respirar. saturado de conservas. OS FABRICANTES: Podem guardar sua carniça podre! Não estamos interessados em comprar. ele não encontrará Um centavo. não é. Os fabricantes de conserva saem. açougueiros infames! Enquanto vocês não dobrarem o preço do gado Não entregaremos um só grama de carne. E vocês precisam dela. dentro da casa. Para tal negócio. Mauler. pois nós também. às duas horas. PEQUENO IMÓVEL COM DUAS SAÍDAS MAULER. Os patrões vão reabrir. liga as luzes e agora repara em mim. e diga se realmente todos podem ler em meu rosto? SLIFT – Ler o quê? MAULER – Ora! A minha profissão! SLIFT – Teu ofício de açougueiro? Diga-me. O homem que o assinou não estava em seu juízo. Recusa-se a engolir mais. sabiamente acatada. Venham comigo procurá-lo Para que ele os tire do embaraço. JOANA: Saibam todos: estou de olhos em Mauler.

talvez. Por trás havia rostos selvagens. Que não sabem como passarão a noite mas.. um após o outro. caro Pierpoint? Pense que agora podes fazê-lo sem peso na consciência. MAULER: Sempre me pergunto por que essas tolices me afetam: Discursos plenos de utopias. por mais louca que seja. Talvez depois de comer carne crua ele retome seus instintos. retorna. SLIFT: Em cidades como as nossas. É sua antiga fraqueza que retorna. E dezoito horas por dia. eles são muito numerosos. Seu número aumenta a cada dia. Há sempre boquirrotos que acham Que as coisas não andam como deveriam. pois desde essa manhã tu nada tens a ver com a morte dos bois. que mais não vi. no entanto.. meu caro Slift. a humanidade. Se nos apanharem um dia. Esquecer todo o resto. MAULER: Tu crês que eu deveria? Eu poderia. de onde se eleva uma cólera Que nos varrerá a todos. Isso não pode mais perdurar. vejo-te mergulhado na contemplação de teu ser grandioso.. Certamente porque essa gente trabalha a troco de nada. Fórmulas tomadas ao coração. qual onda. Não conheceremos a morte em nossas camas. Esfolarmos uns aos outros friamente. não é? SLIFT – Come. É outra coisa. Sabias que tu compraste hoje tudo aquilo que pode ser colocado dentro de uma lata de alumínio? Meu caro Mauler. Ele se afasta e começa a grelhar um bife no fogão. E pense em tua situação: ela não é muito boa. Nós que aqui estamos. SLIFT – Não queres comer um pouco de carne. Então creio sentir Como um peixe aprisionado entre duas águas Pauladas na espinha.21 O que ela disse? Eu não ouvi nada. urrando.. SLIFT – E o que é. E quando da onda emana uma voz Que nada tem de bestial. Tudo isso são ainda meras desculpas O que temo não é Deus. Sob a chuva e de barriga vazia. Máscaras da aflição. então? MAULER: O que vive abaixo e não acima De mim! Esses seres reunidos nos matadouros. Onde o fogo arde embaixo Enquanto congela-se em cima. (À parte:) Farei com que ele coma um filé muito mal passado. mas permita que eu te exponha simplesmente a situação. MAULER: Mas que dizem eles? Essas cidades São um braseiro jamais extinto Onde. . Seremos colados ao muro. Para estes que caem em nossos porões sangrentos. irei confessar-te Minha verdadeira opinião sobre nossos negócios: Comprar. Levantar-se-ão com a aurora e por-se-ão em marcha. por mais externa e sem importância que ela seja. Para limpar esse mundo. Não... Não há mais consolo. Slift. Agora. Tagarelice vazia e fácil. A urrar de aflição. SLIFT – O discurso deles te perturbou. Nós e nossa corja. Tão forte. Eu deveria podê-lo de novo. vender e lutar sem parar. lançar-nos-ão Ao chão como um peixe podre.

Sim. Essas pessoas são gente de bem? MAULER – É gente com liquidez. teus amigos de Nova Iorque? MAULER – Que eu devo comprar carne. a não ser que golpeie Y Se ele golpear. comprar carne. continuando a leitura . deverás escoá-lo em um mercado que já não consegue absorver uma única lata. SLIFT – E tu compraste! MAULER: Oh. eu estou perdido. eu tenho a impressão De que nada de bom sairá daí. Facilmente nascem guerras À custa de tais atitudes. rir-me deles. caro Pierpoint. qual Atlas. Slift. MAULER: Tu compreenderás. eu estou perdido! Esse é o meu fim. Realmente eu não vejo sentido nesta carta. Aqui está: “Caro Pierpoint. os preços Subam? E nós acabaríamos. essas teorias de gabinete. sim! Eu comprei carne. Os preços baixarão novamente. hoje. escapando bem. safa-se. Na carta que recebi de Nova Iorque essa manhã. eu comprei. Mas ainda há a carne Que no mercado liquidarão cem criadores Muito ávidos. eles me escrevem para comprar. SLIFT – E o que escreveram. então? Mauler sorri. Ainda pela manhã. Ou desencadear guerras. Não. Eu fui vê-los cair. Cairei. então.“Estamos em condições. Ah! Meu caro Slift. É coisa que também não se deveria fazer. amanhã. Tu as compraste a cinqüenta mas. acredito. Ah. mas Y o surpreende. Então pode ser que. SLIFT: Tudo depende de quem escreve a carta.” SLIFT. os preços cairão a trinta.22 Primeiro compraste ao Cartel um estoque de vinte mil toneladas de conservas. Receberás. E uma vez lá. O ladrão está perdido. Parece. de resto. sob os arcos de alguma ponte. eu não agi por razões vis. na Câmara. Nas semanas vindouras. eu te juro. Em quinze de novembro. dizer-lhes Que ninguém era louco o suficiente Para comprar carne em conserva. Sob o fardo de toneladas de latas de alumínio. MAULER: Oh! Slift. Corromper ou abolir as tarifas. . Milhares de homens sangram Por causa deste imundo dinheiro. o Cartel te entregará mais cinqüenta mil toneladas a cinqüenta. Essa seria uma saída. eu me escutei dizer: “Eu compro tudo”. SLIFT – E por que reclamas de ter comprado? MAULER – Sim.. quando os preços estiverem em trinta. Mas não foi por causa da carta. Estão erradas. Não é qualquer um que pode. ou a vinte e cinco. muitos de meus concorrentes balançavam. SLIFT – Tu deves fazer o que? MAULER – Comprar carne.. esmagado. votarão contra as tarifas aduaneiras. SLIFT – Quem são. é verdade.. de anunciar-te que nosso dinheiro começa a render seus frutos: muitos são aqueles que. eu comprei! O que eu fiz! Coloquei sobre minhas costas toda a carne desse mundo! Trôpego.. na melhor hipótese. Mas esta mulher comoveu-me a tal ponto Que mal lancei os olhos. indicado. Escuta: X comete um roubo. mais notícias. assim. apesar de tudo. MAULER: Corromper assim.

No interior da casa. Toda a carne posta em conserva até hoje. SLIFT – Não deverias ter comprado. depois.23 Da mesma maneira a carta – que está errada – Requer – para acertar – um crime desta ordem. Ele pede-vos dois minutos de reflexão. das fábricas paradas.) Slift. Devo comprar ainda todo o gado de Sírius? É como se alguém viesse dizer a Atlas Que não mais agüenta. MAULER – A outra saída onde é. tiver cem dólares no bolso. mais de dez mil criadores que não sabem mais a qual santo rezar. diante da porta da esquerda – Enquanto os criadores não forem ajudados. Lembrá-los de Lennox. SLIFT – Por aqui. Ele desenha um “A” na porta de um armário. para o outro lado. Pierpoint! MAULER: Ah! É verdade. Agora. E nós somos. não foi bom. como quem captura um grilo. aos criadores – Pierpoint Mauler está examinando vosso pedido. ele se dirige à porta da direita. eu estou comprando e compro ao preço do dia. Quem me comprará. Joana entra acompanhada dos criadores. Slift tragame tudo o que se pareça. Vão para lá. Também trouxe alguns trabalhadores que adorariam perguntar-lhe quando o senhor reabrirá a sua fábrica. (Ela ri. eu não quero meter o dedo neste negócio. Mas então. JOANA. nem chapéu nem sapatos. eu não comprarei! Eu que já carrego toda a carne desse mundo. Compra então o nosso gado! MAULER: Fecha a porta. OS CRIADORES.. Slift volta. grandes lucros! É verdade que o ganho seria apreciável. minha decisão está tomada. tentará sair pela outra porta. para evitar me encontrar. Tu és o responsável por nossa desgraça. é verdade. Eu fiz “A”. não sairemos daqui! MAULER – Tu dizes Graham? É verdade que ele precisa de gado? Saia. Slift. Vais comprar todo o gado de Illinois. . com um porco ou com um boi. Mauler. Não. MAULER – Eu não compro. Persuadir os criadores da oferta excessiva. todo esse gado? SLIFT – Vejo apenas Graham. Eu não compro mais nada. SLIFT Tu que não querias mais comprar um chapéu. (Os criadores colocam-se diante da porta da direita. então. quero paz em minh’alma. que precisa bastante. de perto ou de longe. (Ele calcula. de seus delitos.) Saia. Quando ele me ouvir cantar aqui. E por agora também não penso em reabrir a fábrica. no fim. Slift? Não quero reencontrá-la e. Os enganados serão os criadores. E comprar-lhes tudo. Joana diante da porta da esquerda. Senhor Mauler.. eu compro. e tudo o que cheire à banha eu compro também. Slift. diante da porta da direita – Sai. em todo o Illinois. SLIFT. Slift. Slift sai. a cinqüenta. MAULER: É verdade. Ele não gosta muito de me ver. JOANA – Nós o faremos sair de sua toca. Que eles tirem. é preciso que eu lhe fale da miséria dos criadores de Illinois. Antes de ter saído dessa. a partir de hoje. Feliz se.). sobretudo. Slift. dobrando-se sob o peso da terra: Saturno também precisa de apoio. Pois. àquela gente que está com ela. Isto é o principal: Sumir com o gado. eu vou comprar. A operação é simples: seria preciso comprar Todo o gado que se encontrasse em pé. SLIFT – Qual crime? MAULER: Um crime que eu não poderia cometer. e diga-lhes que quero refletir dois minutos. Traga-me até a menor mancha de gordura. Retumbar de tambores. Nem a mim nem aos que me acompanham.

Faça entrar os fazendeiros. proprietária do imóvel. Eles não têm teto. ao fundo. salvador do comércio! Eles entram na casa. não se esqueçam de varrer a escada. que eles nos ajudem a desferir. Pierpoint Mauler resolveu comprar todo o gado que se encontrar no mercado. que cada um volte alegremente às suas funções. SLIFT. para vocês também haverá pão novamente. DONA MULBERRY – O que me agradaria muito. os dispensados esperam ainda pacientemente na porta dos matadouros ou já começam a dar discursos revolucionários? DONA LUCKERNIDDLE – Desde ontem gritam bastante. O dinheiro nos permitirá também pagar à nossa querida proprietária. uma avareza completamente inexplicável. e. Talvez isso tenha a ver com o fato de que eles não possuem nada.24 Dominado por seus sentimentos. caros ouvintes! Para resolver o delicado problema do financiamento nós até agora apelamos aos pobres e aos mais pobres. Trabalham duro e vestem-se decentemente. Entra dona Mulberry. mas não fizeram nada. Em seguida comete “B”. entre os quais dona Luckerniddle e Gloomb:) Vocês de novo? Vocês passam a vida aqui? O trabalho voltou nos matadouros! DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. Comandante dos Chapéus Negros. em nome de Deus. GLOOMB – No começo falaram em reabri-los. (Aos operários:) Quando os que compram gado e os que o vendem se acertarem. DONA MULBERRY – E meu aluguel. frente a Deus. mas por enquanto não se preocupem. Eles não têm pão. Suas misérias são grandes. BISPA SNYDER – Não se aproximem muito da caixa! Ele fez sinal para que eles recuem até o fundo. Mas Deus todo poderoso Achará os meios de alimentá-los! BISPA SNYDER. Aos pobres:) Digam-me. acabamos constatando que esses segmentos demonstraram. tão errado quanto “A”. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Recolham cantando Os trocados dos órfãos E os trocados das viúvas. sobretudo nas camadas inferiores da população. Que dão medo de olhar. VII Os mercadores são expulsos do templo TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS Sentados em uma longa mesa. se levantando – Que mixaria! Que mixaria! (Dirigindo-se a alguns pobres. dão certo. sábado próximo. GLOOMB – Muitos já dizem que se não empregarem a violência não haverá trabalho para todos tão cedo. convidar em vosso nome as pessoas ricas e bem colocadas de Chicago. (Os Chapéus Negros saem. pelo que acaba de fazer. os Chapéus Negros esvaziam suas latas de ferro e contam ao óbolos das viúvas e dos órfãos. Assim eu decidi. JOANA. minha cara dona Mulberry. que são gente de bem. . pois eles sabem que as fábricas receberam encomendas. dona Mulberry. Ela sai. o que foi feito dele? BISPA SNYDER – Meus caros Chapéus Negros. Infelizmente. grita a eles – Digam ao senhor Mauler que os Chapéus Negros lhe agradecem. não é preciso que as vendas sejam feitas em seu nome. sobretudo. OS CRIADORES – Viva Pierpoint Mauler. Alguém se equivoca: “A” é um erro. sai e se dirige aos criadores – Para salvar Illinois e impedir a ruína dos fazendeiros e criadores. Mas seu nome não deve ser mencionado. o aluguel que ela tão gentilmente tem adiado. BISPA SNYDER – Agora. um grande golpe no ateísmo e no materialismo que reinam nesta cidade. Eles não são como os outros. E eis que “A” e “B” tomados juntos.

Bispa Snyder! Todos riem. (Os fabricantes de conserva caem na gargalhada) E tudo isso por apenas oitocentos dólares por mês! GRAHAM – Não precisas de tanto. a Snyder – Todos pobretões. MEYERS. BISPA SNYDER MEYERS Há um cretino que razia o gado E que sabe bem que estamos comprometidos A entregar carne enlatada E que. . a Meyers – Essa senhora não tem senso de humor. mais então. são vocês que estão com o gado. Senhor Slift. (Aos pobres:) Vocês não poderiam ao menos cortar lenha para nós? OS POBRES – Não há mais lenha. não gosto disso. precisamos de sopa quente e música animada. dando-lhe um soco na boca do estômago: Velho cão imundo! Vamos. Graham. OS FABRICANTES – Por que falar em pagamento? BISPA SNYDER – O pagamento do qual falamos é feito após a morte. BISPA SNYDER. afirmando que sois vós os responsáveis pelo desemprego! Em breve eles dirão: queremos fazer como os bolcheviques. Slift! MEYERS. minha cara. a Snyder – Quinhentos dólares? Isto é muito dinheiro! Quem vai pagar? SLIFT – Ah. É nosso nervo vital! SLIFT. portanto. MEYERS. SLIFT – Quem poderia ser? GRAHAM.. sem que ninguém saiba como. os reis da carne nos escutarão mais facilmente. após a sua morte. GRAHAM – Confesse. Na mosca. portanto. no púlpito – Nós. E já citam vossos nomes. os Chapéus Negros. sem dúvida? SLIFT – Sem dúvida. BISPA SNYDER – Podemos dar um jeito com setecentos e cinqüenta. Graham. Deus é testemunha.. GRAHAM – Até tu? E Mauler também. Entram os fabricantes de conservas: Cridle. a Snyder – Desembuche! Eles se sentam no banco dos fiéis. que eles estão destinados ao sofrimento. SLIFT – Mauler e eu não compramos um centavo sequer de gado.25 – Isso nos é favorável. sim! Vocês agora terão que achar alguém que faça a doação. Nós também prometeremos a eles que os ricos serão punidos. a Snyder – O que querem de nós? GRAHAM. novo soco – Que tu achas que eles querem. MEYERS – O que não será fácil. não enrole. OS FABRICANTES – E quanto querem pelo serviço? BISPA SNYDER – Oitocentos dólares por mês. Slift? (Slift simula um ar astucioso e exagera na mímica do ato de dar dinheiro)... é saber de que lado vocês estão! Desse lado da barricada ou do outro? BISPA SNYDER – Os Chapéus Negros. MEYERS – Setecentos e cinqüenta. Do lado de cá. mas que serão. quinhentos? GRAHAM – Quinhentos sim. Se vierem para cá tocados a pedradas. Quinhentos dólares. mas que ela é provocada por aqueles que dela tiram vantagem. o Pepê está com o gado. diremos a eles que a desgraça vem como a chuva. vocês certamente precisam. ouvimos dizer que há nos matadouros cinqüenta mil pessoas sem trabalho.. MEYERS – Eu me pergunto. um dia. tomar as fábricas em nossas mãos para que todos possam trabalhar e comer. senhora bispa. bispa. E que alguns entre eles começam a resmungar e a dizer: devemos nós mesmos cuidar do negócio. precisamos do gado. Meyers. Já é melhor. Slift. SLIFT. recompensados por suas penas. então. tão certo quanto eu estou aqui. confesse Slift. estão acima da querela. SLIFT – O essencial. Nós. menos Snyder.. Que tal. Porque já começam a dizer por todos os lados que a desgraça não cai do céu como a chuva. e vá dizer ao Pepê Que afrouxe o laço. na frente do palco – Então. GRAHAM. onde poderia estar todo o gado! GRAHAM – É o que eu me pergunto também: onde poderia estar? SLIFT – Eu me coloco a mesma questão. os Chapéus Negros. (Aos outros) Eles carecem desta quantia.

JOANA. É preciso ser muito tonta! Na verdade. supúnhamos que iriam retomar o trabalho. (Joana sai atrás deles com o mastro de uma bandeira. senão lançar-me-ei sobre vós e golpeá-los-ei a cabeça. GLOOMB. mas não fizeram nada. quem comerá a carne que nós compramos? E para que nós a compramos. SLIFT – Mas querem antes estrangular os agricultores! OS TRÊS – Como abater gado que não existe? SLIFT – Quando Mauler e eu compramos a carne de vocês. que ela usa como se fosse um porrete. Sois indignos e eu vos expulso! Apesar de vosso dinheiro! . Se fizeres isso por nós. e nessa atitude há alguma coisa que parece exploração. dizendo-me: ajudando aos de cima. É preciso que ele libere o gado. própria para jogar água na fervura. da tua vista sairia. Mas cruel é a fome: Renasce sempre. que haveis atormentado ao extremo. indo de um lado a outro. perdi demasiado tempo até sabêlo. pagaremos o aluguel dos Chapéus Negros por quatro anos. É o seguinte: alguém sumiu com o gado do mercado de uma maneira que somos obrigados a ficar de olho em Mauler. Mas agora. avançando: Eu te conheço: tentei te convencer A trabalhar nas serras que me cortaram o braço. ela está espantada – O que fazem vocês aqui? DONA LUCKERNIDDLE. qualquer um que queira ajudar aos pobres deve ajudá-los a protegerem-se de vós. senão ficam imobilizados. entretanto. ajudo também aos de baixo. e que os operários poderiam comprar a carne.) Saí! Quereis transformar a casa de Deus em um estábulo! Saí! Nada tendes a fazer aqui! Cabeças como as vossas.26 Entra Joana SLIFT – Aí está a nossa Santa Joana da Bolsa de Carnes! OS TRÊS. se os consumidores não têm com o que pagar? JOANA – Em vossas gigantescas instalações e vossas fábricas detendes as ferramentas dessa gente: deveríeis ao menos permitir que eles as usassem.No começo falaram em reabri-los. empunharem um porrete para bater em vossas cabeça. Não me detenham. eu sei o que faço. Dirigindo-se aos fabricantes: Mauler. olhando os pobres. comprou-vos conservas Por minha solicitação! E não reabristes ainda? OS TRÊS – Está correto. Esta neve os mata. Nós queremos reabrir nossas fábricas. vós então vos borrareis todos. pois. Haveis perdido então todo o respeito pelo que se parece humano? E ousais anda vir à casa de Deus porque possuem o vil metal? Sabe-se bem de onde haveis tirado esse ouro e como o haveis adquirido. e rápido. aos fabricantes: Esses pobres continuam a esperar trabalho? Silêncio dos fabricantes Eu que pensava que eles estavam arranjados! Faz já oito dias que neva nas costas deles. De bom grado. Mas o Bom Deus tem uma opinião muito elevada de Si mesmo para ser sempre a vossa babá para todo o serviço e para vir limpar vossas cavalariças. E eu. nós não queremos mais ver. mas também os esconde De todos os olhares. e a religião vos parecerá de novo algo de muito bom. para fazer pior. Estou pronto. Saí. gritando alto a Joana – Ah. Basta que alguém diga: está acertado. aí estás! Nós não estamos muito contentes contigo! Tu não poderias dizer uma palavrinha de nossa parte à Mauler? Parece que tens sobre ele alguma influência. JOANA – Por que não trabalham? Não arranjei trabalho para vocês? DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. Dizem que ele come na tua mão. Os Chapéus negros aparecem na porta. sem pena também Esqueci o que todos se apressam em esquecer Para rapidamente estar em paz com suas consciências. mal tendo sido saciada. hoje. GLOOMB . avançando: As vinte refeições foram comidas! Não te irrites. e eu. Para que ninguém mais vá olhar de perto. JOANA. Parece que podes fazê-lo agir ao teu gosto. ao me veres aqui. Se essas pobres criaturas.

modestamente. Nós iremos viver dias terríveis. Homem de boa fé e destemido. Ela carrega uma mala pequena. fracos. dona Mulberry – que ele encontrou sobre a terra. agora. Mas se ele não paga. de volta Convida a tua casa. Vá sob a neve e continue intransigente! JOANA – Quer dizer que devo tirar meu uniforme? BISPA SNYDER – Tira o uniforme e arruma tua bagagem! Sai desta casa e livra-nos da escória que arrebanhaste. BISPA SNYDER. ah. Eu pedirei sua ajuda. eu lhes trarei a sopa. entretanto. BISPA SNYDER: Infeliz ignorante! Como não vês que operários e patrões. OS TRÊS Joana sai.27 – Está bem! Mas conosco. DONA MULBERRY — Sim. onde não escutam mais Os pedidos de salvação do resto dos humanos. Eu não desejo Colocar novamente o chapéu e o uniforme negro. Mediadora inútil e que cava a própria cova. pois esses que te seguem não são mais do que escória e refugo. De qualquer maneira. Mesmo que ele os torne surdos. correndo sai atrás deles – Fiquem senhores. Mas como deixar-se levar por isso? (À dona Luckerniddle e a Gloomb:) Sentem-se lá no fundo. JOANA Irei ver o rico Mauler. DONA MULBERRY. É mister que haja um Justo entre eles! Ela sai. então. Enquanto não tiver feito de Mauler um dos nossos. Anda cuidar de tua vida. Trazendo-vos totalmente convertido. Por causa do aluguel. Se o Bom Deus não paga o seu aluguel. de um ao outro. entrando — Vocês já arranjaram o dinheiro? BISPA SNYDER – Deus encontrará logo o meio de pagar o abrigo bastante modesto – eu disse modesto. esses pobres. ela não representa ninguém. oferece teus bons préstimos. como jamais viu antes o mercado do gado! Saída dos fabricantes de conservas. não tem nenhum mandato! É apenas uma mulher que perdeu a razão! Ela está despedida! Ela fará pelos senhores tudo o que desejarem. no coração da tormenta. vão-se irrevogavelmente quarenta meses de aluguel. Enfrentam-se como gigantes? Vá. Grupos inimigos irreconciliáveis. aos Chapéus Negros – O que acabo de fazer certamente foi pouco habilidoso. não temos mais um centavo. ela retorna vestida como uma jovem camponesa. Nem outra vez cruzar o limiar dessa querida casa. tudo bem. Doravante farás parte dela. tudo mal. é bem disso que se trata! Falaste a palavra exata! Se o Bom Deus paga. na ponta dos pés. e a partir de sábado à noite. JOANA. Quanto ao pão que precisamos comer. Queres. é muito justo que pague. Serve-lhes água de chuva e belas palavras Pois do céu não lhes vem mais do que neve E não misericórdia! A humildade. Mesmo que o dinheiro os carcoma como um câncer Devorando o que seu resto tem de humano. Fazes-te de difícil e és muito curiosa Para saber como é feito. está bem. Povoada de cânticos e palavras que despertam. bispa Snyder? Ela sai. comê-lo também! Vá-te então. Tu que planas mais alto que as questões terrenas! Parta sob a chuva. tu a ignoras E cedes a teus impulsos! É mesmo muito fácil Caçar esses impuros com um gesto cheio de orgulho. prisioneiros Em uma torre de marfim. não se vão. terá de se mudar. . BISPA SNYDER.

Não se fala mais dela. SLIFT: Estou feliz. É que eu não estou mais com os Chapéus Negros. e cada porco Que eles precisam nos entregar. em sua casa. Faça subir. Mas o senhor tem razão. de ser cuidadoso. Deixar que gritem: “É um crime!” Entra Joana. JOANA – Bom dia. senhor Mauler. Eu desmenti.28 VIII Discurso de Pierpoint Mauler sobre a absoluta necessidade do capitalismo e da religião ESCRITÓRIO DE MAULER MAULER: MAULER: Chegou enfim o dia em que nosso caro Graham. Ela não tem medo de nada. mas por que o lençol em cima. no seu escritório? Sempre achei que o senhor devia possuir um dos grandes palácios de Chicago (Mauler se cala). Então eu disse a mim mesma: vá dar uma olhada no que se passa com o senhor Mauler. Desde Que ela nos expulsou do Templo. Terão de pagar mais caro. os preços a oitenta. Agora que não tenho mais o trabalho fatigante da missão. Houve discrepâncias entre nós. Gosto nela deste traço. Senhor . Slift. onde enfiaremos o pé Unicamente para ver a marca que deixa. queriam esperar Que o preço do gado caísse o mais baixo possível. Eles precisam comprar de nós. Não pretendo soltar um só grama de carne A fim de arrancar-lhes mesmo a pele desta vez: É a minha natureza quem exige. MAULER: Agora. de perto ou de longe. Assemelhem-se a bois ou porcos. realmente. por um momento. SLIFT. posso me interessar mais por cada homem em particular. E na nossa mão é mais caro. Vou ver como eles compram. mesmo nas pequenas coisa. Slift. dá rédea solta a teus corretores! Deixa-os correr o mercado. Dir-se-ia Que Chicago a engoliu Em sua negra e ruidosa bruma. E todos aqueles que como ele. Não é fácil encontrá-lo. carregando uma mala. Deixo minhas coisas nesse canto. Mauler. meu caro Slift. desta vez. SLIFT: E tua Joana? Algo de novo? Um boato corre na bolsa: dizem Que te deitaste com ela. MAULER: Seria preciso esfolar esta cidade maldita E ensinar-lhes o seu ofício A essa gente. se eu estivesse lá. que tu tenhas superado Teus recentes acessos de fraqueza. Serão obrigados a comprar a carne Que devem nos entregar. Gostei muito de vê-la expulsá-los do Templo. A mim também Teria expulsado. Em busca de animais que. Ele sai. Mas o senhor. Não se possa aceitar gente da minha laia. Neste mercado de Chicago Todos os bois que se escutam mugir São nossos bois. e que nem mesmo está dobrado direito? Diga-me: o senhor dorme aqui mesmo. senhor Mauler. E os preços Subirão ainda mais. É um belo sofá que o senhor tem aqui. Graham e companhia ficarão então parecidos À lama. e de que.

Eu também. O escuro caminho que leva aos matadouros. eu não comerei. JOANA – Sim. Queres? Joana observa a comida. O dinheiro. eu lamento Que o trabalho ainda demore nos matadouros. MAULER – E do que tens vivido? (Silêncio de Joana) De nada. naqueles pátios imensos. não faço mais parte. a proprietária. Mas eu o encontrarei. Estás de acordo? JOANA – Sim. o que me agradou muito e me pareceu justo. vá dizer-lhes isso.. senhor Mauler! MAULER Tome. na minha vez. É Mauler quem vai dá-lo.. JOANA – Os operários continuam esperando nos matadouros? MAULER Por que és contra o dinheiro? E por que então. nos deu prazo só até o próximo domingo. muda logo a tua cara? . É por ti que o faço. MAULER – Vá dizer-lhes que o dinheiro está chegando. que vive do aluguel. aos fabricantes.. Mas contigo não será assim. Não pude dar-lhes trabalho rapidamente.. é claro. o dinheiro para vocês eu terei. senhor Mauler. E que. sim. e aos Chapéus Negros é preciso auxiliar. Quando não o tens. Ela começa a comer avidamente. Eu quero dar-vos alguma coisa Para provar-vos a bondade de meu coração. Mauler vai até o fundo do palco e chora.. Aqui está por escrito. Toma. Eis o desafio. MAULER: Tão mudada! Apenas oito dias! Onde ela esteve? O que ela viu? E por que essas rugas em torno dos lábios? Esta cidade de onde ela saiu. Teria adorado ouvir-te dizer Que o que eu faço está bem. Que meu comércio não é antinatural. não como eu queria. Joana pára de comer. MAULER – Não te inquietes.. JOANA – Senhor Mauler. de pé. Eu confesso cruamente. Há quanto tempo não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Oito dias. Eu te encontro bastante mudada. não querem partir. Eles são cinqüenta mil Que permanecem lá.. ser ou não ser. a coisa não andou. encomendei a carne. Corra. é lógico. Ele traz comida a ela em uma bandeja. mesmo à noite. Assim como aos criadores. quando nós expulsamos os ricos de nosso templo. Daqui até sábado. JOANA – . Trata-se de saber Se eu serei o melhor de minha classe Ou se tomarei eu mesmo. MAULER – Ah! E agora os Chapéus Negros estão em uma situação financeira difícil? JOANA – Sim. Um trabalho ruim. Vou agora mesmo à Bolsa para procurar o dinheiro. arrancar a pele desta cidade. eu buscarei o dinheiro a qualquer preço. senhor Mauler. E foi por isso que eu me disse: irei ver o senhor Mauler.29 Mauler. Mas nesse negócio.. E como eu sei que sois pobres E que querem privar-vos Do teto que vos abriga. Uma vez mais. Confirme que foi por teus conselhos Que eu. está caro. ainda por cima. Eu irei à Bolsa encontrar o dinheiro que lhes falta. MAULER – . e que agi bem. Nesta história dos cinqüenta mil trabalhadores. Mesmo que deva cortar na carne. Eu não conheço. tenho boas esperanças de que sua consciência esteja em paz nesse momento! MAULER – Então não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Não.

Tão penosa de construir. Se eu quisesse me retirar. nem nós tampouco: Não seríamos necessários. Seria como um mosquito Tentando se opor a derrubada de uma montanha. Modificar por inteiro o plano do edifício. Ou então seria preciso mudar tudo. Eis porque esta obra é sempre defendida Pelos melhores entre os homens. O dinheiro é um meio De melhorar um pouco a vida. Por Ele batendo os tambores. Que seria suprimido por falta de utilidade. sem dúvida. Mas mesmo assim verdade: Sobre a terra nada há de sólido. ou quase. Eu sei. Pouco agradável. Atribuir ao homem um lugar totalmente diferente. E se vós não precisais se expor aos sacrifícios. Sim. malgrado os sacrifícios. Em uma palavra é preciso que vós Restabeleçam Deus em sua glória. eu deveria estar feliz De ver que alguém vem em ajuda a Deus. sob gemidos. durmo mal à noite. JOANA Senhor Mauler. Na banal verdade.O que nós não vos exigiremos de nenhuma forma – Devem dizer ao menos que eles são justificados. É à sorte. Isso que o senhor falou. Para que Ele finque pé nas favelas E para que Sua voz retumbe nos matadouros. As coisas não deixariam de seguir o seu curso de antes. Não enchas a cabeça de falsas idéias. diga-me. isso será suficiente.30 O que pensas tu do dinheiro. E incessantemente construída. Eu seria varrido. Mas eu faço parte daqueles Para quem essa não é uma ajuda. Pouco ou muito segundo o caso. E que. eu que nutro Poucas simpatias pela ordem do mundo. Olha também como o mundo é feito! Que edifício! Obra dos homens. aliás. Daqueles a quem ninguém oferece nada. sob chuva e frio. Ainda que dia após dia se precise reconstruir O que dia após dia é destruído. Por isso vós deveis nos ajudar em nossa obra. Desde que existem sobre a terra. destruído na mesma hora. Como esses bobos para os quais o dinheiro Tem não sei qual problema. Ele alcança o papel a Joana. Assim. . MAULER . Concepção inaudita à qual vós mesmos. Esse sistema é o único que permite arrancar O que pode ser arrancado dos rigores desse mundo. Mas pensa na realidade. Eu não compreendo E nem quero compreender. nem Deus. Fazendo Dele a única salvação. Obra imensa. Não desejais. de cima a baixo. Quero saber. veja bem. Ao menos a vida de alguns. eu concordo. Que o gênero humano está entregue. Ela se levanta. Apanhe o que te dão. Mas saiba com qual objetivo foi dado! Tome isso! Saiba que representa O aluguel de quatro anos.

em todo o caso. Vai à janela e repara se neva. Ao mesmo tempo. E se não houver trabalho. Eu também não tenho dinheiro E nem uma maneira de ganhá-lo de outro modo. Fez esta massa começar a fluir. Jogados aos matadouros e de tudo ignorantes. em um pequeno campo. E nada comerei além do que eles comem. E se nevar. Eu comerei esta neve. do que os pardais Que se poderia colocar em tal lugar. Perto dela Gloomb e dona Luckerniddle. Sobre ela que tu conheces.31 Leva aos Chapéus Negros este dinheiro E poderás ficar com eles. Sem poder suportar a visão dos pobres Que os julga sem conhecê-los. sem uma palavra. Que o aceitem. desfilando. Mais numerosos. levanta-te. por toda a parte. Eles formavam uma massa tão densa. A cada hora. MAULER Esta noite. silhueta múltipla. E eu. Quantos eram eles? Eu não sei. e outras familiares. A tempestade de neve. Mas eu me sentarei Em frente aos matadouros. E o senhor. Cercado de todos os lados por enormes edifícios E tão pequeno que a sombra de um arbusto O teria encoberto totalmente. Pelo menos não honestamente. marchava à sua frente. Saberás que neva sobre ela. Arranjando para não ver esses condenados. Mauler. Chicago! Vós também Lá estavam. com aqueles que esperam. pulsando vida. afluíam inúmeros cortejos. Se for um punhado de neve o que lhes dão. Eu serei como eles sem trabalho. E então uma palavra. Ela sai. JOANA Se os Chapéus Negros quiserem o seu dinheiro. Depois eu gritei palavras em tom belicoso Em uma língua para mim mesma desconhecida. uma palavra sem importância. se o senhor quiser me ver Me verá nos matadouros. JOANA Terceira descida de Joana às profundezas. Notei uma massa humana. No futuro. Que o campo inflou-se e uma cascata humana Inteira ficou pendurada em suas elevadas bordas. com passos guerreiros. Vi depois cortejos E ruas desconhecidas. IX Escutai o que eu sonhei. Eles fazem muita questão do dinheiro. Ela permaneceu suspensa por um instante. E o trabalho deles também. Jovem e velha. Há sete dias: Diante de mim. eu quero fazê-lo. Eu marchava. Pois esta vida sem eira nem beira não te serve. 1. que vive da pobreza. Que alguém gritou em algum lugar. e então eu me vi: À vossa frente. a fronte ensangüentada. soluçando e jurando Logo fora de mim! Virtude e terror confundidos! . Ficarei lá até que as portas sejam reabertas. BAIRRO DOS MATADOUROS Joana. E isso é muito bom. creia-me.

Para aí mostrar a todos. que eu saiba. OS FABRICANTES Desgraça! As tarifas caíram E nós não temos mais bois para vender! Eles já estão vendidos. sem mais delongas. Comprem-no! OS FABRICANTES: Comprar gado nestes dias! Que horror! 3. Influenciando o curso dos planetas distantes. Faremos um chamado a todo o ser que pareça humano. E também perturbando o aspecto familiar de ruas bem próximas. mas preciso das conservas. Precisamos comprar e os preços aumentam! . GLOOMB – Dona Luckerniddle. Habituados ao sofrimento.. eu ignoro. DONA LUCKERNIDDLE – Se ela tivesse calado um pouco a boca lá nos Chapéus Negros.. nós agora estaríamos comendo a nossa sopa. Todas as conservas Previstas no contrato.32 Tudo o que eu pisava. bem e aquecidos! 2. E com a aurora chegaremos a Chicago. OS FABRICANTES: Mas como nós poderemos Comprar gado com preços em alta? Alguém promoveu uma razia. e pior. Envolvida pela neve. A exata extensão de nossa miséria. O que acontecerá. E assim andava o cortejo. Ninguém sabe quem foi. Ocasionando imensas destruições. Um pouco caro. transparentes. Graham. a preço vil. e pior. abandonando este lugar insuportável Por qualquer outro. éramos inatingíveis. Assim foi o meu sonho. OS CRIADORES aos fabricantes de conservas: Meus amigos de Nova Iorque me escreveram Que as tarifas aduaneiras no Sul Acabam de ser derrubadas. Rendidos pela fome. se eu me lembro direito Daquela hora em que perdi um pouco o juízo. Eu andava no mesmo passo que o cortejo. é verdade. não nos podiam alvejar. ao abrigo dos ataques inimigos. GRAHAM: Ao preço antigo? MAULER: Como combinado. Hoje eu compreendo o seu sentido: Nós deixaremos os matadouros antes do raiar do dia. Há muito gado. Senhores. mas existe. nas praças públicas. UM PEQUENO BAR NO BAIRRO DOS MATADOUROS Desgraça! As tarifas caíram! E nós não temos mais carne para vender! Ela já está vendida. modificava. a senhora entendeu esta história? Eu não. Oitenta mil toneladas. Habitando em lugar algum. estávamos fora de alcance. a preço vil. Eu exijo que me entreguem. MAULER: Sendo grande a demanda De conserva e de vianda E sendo os preços aceitáveis. BOLSA DE CARNES MAULER. libere-nos de nossos compromissos! MAULER: Estou desolado. Mauler. a cidade deles.

A MULHER – Por que não nos procuram para tentar nos converter? GLOOMB. Vinde a ele.(Vocês acham que isso serve para alguma coisa?) Eu também. UMA MULHER Por que vir aqui fazer escândalo Com tamanho frio! E se pudessem ao menos se calar! Com muito custo eu consigo agora Suportar as palavras que há pouco amava E que me soavam agradáveis. minhas irmãs. Um destacamento dos Chapéus Negros chega. meus irmão. vinde logo! Aleluia! Uma jovem dos Chapéus Negros dirige-se aos trabalhadores. Se algumas pessoas soubessem calar a boca eu saberia onde procurar abrigo esta noite. apesar de todas as nossas más ações. dona Swingburn? A MULHER – A sua música era bonita. mas então eu encontrei Nosso Senhor Jesus e fez-se em meu coração uma grande luz e provei uma grande alegria. grande o nosso regozijo. Nosso Senhor. MARTHA. que um resto de pudor lhes diga: Aqui reinam a neve e o vento: calem-se! 4. como vocês. o amor. Onde está Jesus. mas eles traziam uma panela. Joana se levanta e. e o velho Adão dentro de mim não tinha outro desejo do que comer e beber. Eles precisam fazer isso para conseguir um pouco de calor e de comida. reina a paz. Pois nós encontramos Jesus. eu esperava que eles fossem ao menos nos dar um prato de sopa. GLOOMB – Bondade curta. estava um dia sentada. ente os quais Joana. Bem que eu gostaria de estar com eles! DONA LUCKERNIDDLE – A música era bonitinha! GLOOMB – Bonita e curta. curta bondade. JACKELINE. fazendo o gesto de contar dinheiro – A senhora consegue manter a marmita fervendo. hoje (eles não estão escutando nada!) basta que eu pense muito em Jesus. do pão de Deus? Grande é nossa alegria. Intercala sua pregação com observações aos companheiros. tu também. JOANA – Onde eles estão? GLOOMB – A dona Luckerniddle pode lhe dizer. Nosso Senhor.Aleluia! (Jackeline faz circular a cuia de esmolas. já ouvi demais.33 Trabalhadores e trabalhadoras. por favor! OS CRIADORES: Não sobrou mais nada! Tudo o que podia ser vendido . (Isso não serve para nada!). e eu não tenho mais fome e nem sede. DONA LUCKERNIDDLE – Eles são boas pessoas. Discursos. JOANA. surpreendendo-se pela ingenuidade – É sério? A senhora acreditou nisso? DONA LUCKERNIDDLE – Eu também. Silêncio. JOANA – Então não há ninguém que tente fazer alguma coisa? O TRABALHADOR – Sim. por causa do meu marido. que nos salvou na dor. não a violência. Luckerniddle – De onde a senhora os conhece? DONA LUCKERNIDDLE – No tempo em que eu não me fiava em gente como você eu ia bastante até eles. JOANA – Mas não são os tais que ficam incitando ao crime? O TRABALHADOR – Não. soldado dos Chapéus Negros: . mas ninguém contribui) Aleluia! JOANA – Deixe-os. tenho apenas sede da palavra de Jesus. durante a cena. tenente dos Chapéus Negros. não o ódio. Ah. (É tudo absolutamente inútil!) Eu lhes digo: ajudem-nos a manter a marmita fervendo! OS CHAPÉUS NEGROS . depois de entoar um cântico apressadamente: Por que não provar. triste. os comunistas. meu irmão. BOLSA DE CARNES OS FABRICANTES: Nós compramos qualquer gado! Bezerros! Gado gordo! Vitelos! Bois! Porcos! Façam as suas ofertas. faz desesperadamente sinais para que saiam. que alguma voz. à margem do caminho. UM TRABALHADOR. à dona. eu prefiro os atos.

Os trabalhadores das grandes empresas da cidade nos prometeram declarar. o apetite desperta! GRAHAM. Mesmo que tenhas que te enfiar nelas! Eu vos ensinarei como se faz esse comércio! Doravante. Agora eu quero sessenta! E tenham o cuidado De não esquecer as minhas latas! 5. no mais tardar depois de amanhã. UM CRIADOR: Oitocentos bois de Kentucky a quatrocentos. Aprendi a falar em lugares públicos e em auditórios. Nós. precipitando-se sobre Mauler: É preciso liquidá-lo. Qualquer vitelo. Vendo-os. os operários. Graham! As latas que me deves. uma parte de nós perderá seu emprego nos matadouros e os outros nunca recuperarão o salário anterior.34 Foi vendido. UM DIRIGENTE OPERÁRIO – Escutem todos: até agora os magnatas da carne não manifestaram a menor intenção de reabrir as suas fábricas. eu as quero agora. Os fabricantes se precipitam sobre ele. OS FABRICANTES: Nem pensar! Vocês estão loucos? Quatrocentos! SLIFT – Eu compro. OS FABRICANTES – Vendido a quem? Entra Mauler. precisamos de um prazo. Quatrocentos. OS CRIADORES – Vendido. Ele vai falar com Slift. Terá de ser comprado de mim. e acho que sou capaz de defender bem uma causa. MAULER: Atenham-se à nossa combinação. eu acertarei as contas com ele! MAULER: Ah! É assim. OS FABRICANTES: Mais nada? E nas estações? Estão abarrotadas de gado. Silêncio . Mauler. se são os senhores os bois. Não havendo ninguém que precise de carne. Em frente a um galpão.. Corte você mesmo! MAULER: Por que se surpreendem. OS CRIADORES: Oitocentos bois a quatrocentos para Sullivan Slift. mesmo só uma pata. Na minha opinião é preciso fazer alguma coisa imediatamente. JOANA – São vocês os que defendem a causa dos desempregados? Eu posso ajudá-los. Os senhores devem me entregar a carne. eu não tenho medo. É claro que é! Era o que dizíamos! O cão! Ele nos obriga a entregar-lhe as latas E é ele quem compra o gado! Somos então obrigados a comprar de Mauler A carne que deveremos colocar em suas latas! Carniceiro sujo! Tome então a nossa carne. Já que não há demanda. mesmo nos grandes. para começar Quinhentos bois a cinqüenta e seis. sabemos agora de uma coisa: se tudo andar como querem os industriais da carne.. a greve geral. se ela for justa. e caro! Ofereço. de Chicago a Illinois. OUTRO LUGAR NOS MATADOUROS Nos cartazes se lê: “Solidariedade com os trabalhadores sob lockout!” “Desencadeiem a Greve Geral”. É impossível encontrar um boi em Chicago. Deixe-os totalmente à míngua. dois homens da direção dos sindicatos discutem com um grupo de operários. De hoje até amanhã é certo que os patrões vão lançar todo o tipo de falsas notícias: eles dirão que . OS FABRICANTES: É Mauler. eu tenho propostas a fazer. Além disso. Se alguém vier perturbar a reunião. Chegada de Joana.

Eu não sou uma espiã. E poderíamos até dizer que esta pobreza seja obra deles. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – E quem te garante que ela vai levar a carta que lhe entregarmos? O DIRIGENTE OPERÁRIO – Ninguém. dessa maneira. BOLSA DE CARNES Durante toda esta cena. na esquina do Parque Michigan. MAULER: Os senhores não respeitaram. Eu luto de todo o coração pela causa de vocês. eu sei quem ela é. O contrato assinado há pouco entre nós: Eu queria. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E para quem trabalhava? JOANA – Eu era ambulante. pois o endereço dado pelos camaradas das usinas Cridle para o encontro está muito vigiado. UM OPERÁRIO – Pode ser uma espiã. em diversos pontos dos matadouros. Nós não temos ninguém para passar despercebido como ela. Quando você vir chegarem três operários com cara de quem procura alguém. Isso é bom. e vá esperar os responsáveis defronte à cantina da senhora Schmittens. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Pela nossa causa? Diga-me: ela não é também a sua? JOANA – Não é no interesse geral que os industriais jogam. a Mauler. em frente ao edifício da Westinghouse! (À Joana) Quem é você? JOANA – Fui mandada embora do emprego.35 tudo está arranjado e que a greve geral não acontecerá. galpão número cinco. Ela é honesta. assegurar o trabalho . eu conheço o pessoal. Elas devem ser entregues às dez horas. estou vendo. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Não. as centrais elétricas e o serviço de águas entrarão em greve em solidariedade a nós.. Essas cartas anunciam que a usina de gás. pergunte-lhes se são das usinas Cridle. não é? DONA LUCKERNIDDLE – Honesta ela é. Como se rede já não houvesse: De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. É do Exército da Salvação e os policiais a conhecem bem. pau neles! OS FABRICANTES – Queremos dois mil bois a setenta. Por este buraco fogem todos os peixes. ouve-se gritar ao fundo o nome das empresas que suspenderam seus pagamentos: “Encerram os pagamentos. Meyers e Cia. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua vinte e seis. dona Luckerniddle? (Dona Luckerniddle faz sinal que sim). JOANA 6.” OS FABRICANTES – Nós não podemos mais agüentar. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua Três. (os operários riem alto) Mas é desumano! E dizendo isso eu penso também em gente como Mauler! (os operários caem na gargalhada) Por que se riem? Acho que vocês estão errados em zombar e em acreditar sem provas que alguém como Mauler não é um ser humano. Tudo acontece como se a miséria dos pobres fosse útil aos ricos.. tanta gente na rua.. A carta é para eles. Ninguém suspeitaria que ela trabalha para nós. Jack. UM OUTRO OPERÁRIO – Dê-me a carta para as usinas Graham. dando a carta à Joana – Vá até a fábrica Graham. encostado em uma coluna – Faça subir. aos responsáveis que esperam nossa orientação. Um operário apanha a carta e sai. O DIRIGENTE OPERÁRIO. os preços estão a mais de setenta! OS CORRETORES – Os cabeçudos não compram. O operário apanha a carta e sai. essa noite. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E em que trabalhava? JOANA – Eu vendia um jornal. Ela é sua conhecida. – Eu já vendi jornais na rua Vinte e Quatro. SLIFT. etc. Você pode tranqüilamente entregar-lhe a carta. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Não é sem provas. À Joana: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. com tal medida. Esconda essa em seu casaco.

GRAHAM: Que seja. São centenas de milhares nos matadouros. MAULER: Atiram? Contra quem? Mas eu sei bem. Acima disso. Se perguntasse por uma Joana. não me diverte mais. de achá-la? E atiram? Encontra o Jim. Diga-lhe para que não me procure. se apresentariam dez ou talvez cem. MAULER. MAULER – Então. que voltou para perto da coluna – Slift. esperando. Slift. A multidão anônima e sem rosto continua sentada lá. Ceda. Impossível. tudo a oitenta. é claro. por telefone. eu me pego esgoelando-os E não tenho tanto prazer quanto esperava. O primeiro segurança sai. Mas para nós. Isso basta. O SEGURANÇA – As multidões. a Slift – Onde está o pessoal que eu mandei para os matadouros? SLIFT – Ali está um. A encontraste? O SEGURANÇA – Não. à procura de um parente que não encontram. Além disso. É preciso que a cidade Possa voltar a respirar. Ele pode ir longe demais. E tenho outras preocupações! Veja bem. só quinhentos. nós não podemos pagar oitenta a Mauler pelo gado. Pois a queda deles Será a nossa.36 Aos operários e agora me dizem Que eles ainda esperam em frente aos matadouros. . pois. voltando ao grupo: Este negócio. Ainda por cima está escuro. Vou soltar a carne e deixá-los partir. são incontáveis. Ponha os pingos nos “is”. Slift. Ele repara no segundo segurança. dizes. Eles ainda agüentam! Quinhentos bois a setenta e sete. SLIFT: Faça subir. Vá só até oitenta e depois abaixe o preço. é impossível ouvir uma voz isolada: há muita gente correndo de todos os lados. o vento abafa as palavras. Pergunta para que nós pagamos impostos! Manda arrebentar a cabeça dos líderes. MAULER. Mil a setenta e sete. eu não me sinto muito bem. Slift. desembucha! O primeiro segurança faz seu relatório. mas que não rebentem. perdido por perdido. No canto em que trabalham os sindicatos reina uma grande efervescência! MAULER – Quem trabalha? Os sindicatos? E a polícia os deixa incitar os operários? Meu Deus! Liga imediatamente para a polícia. Fala em meu nome. As conservas que comprei. MEYERS – Cinco mil a oitenta! Assassino! MAULER. MEYERS – Mil e quinhentos a oitenta. Que sangrem. sim. SLIFT – A oitenta. Quando se grita qualquer coisa. subir muito mais. Eles já não agüentam. entreguem-me! GRAHAM: Nada poderíamos ter feito. senhor. Mauler. é o fim! SLIFT: Quinhentos a setenta e sete para Graham. O segundo segurança sai. Senão pensarão ainda Que fomos nós que exigimos que atirassem. eu não vi ninguém com o uniforme dos Chapéus Negros. A carne sumiu de vez do mercado! Quinhentos bois a setenta e cinco! MAULER: Não seria conveniente. O estranho é que aqui não se ouve nada. Mas os senhores se lamentarão por isso. Sem contar que a polícia está evacuando os matadouros e que começa a atirar. OS FABRICANTES – Mauler paga cinqüenta pelas conservas.

eles abrirão. Eles não abrirão as fábricas! Eles esperarão os lucros aumentarem! E a sua resposta sairá Dos canhões e das metralhadoras! Ninguém poderá nos ajudar. toda a Chicago comparte seus sentimentos. Slift não tem ordem para isso. Eles terão de nos responder. a alguma distância. afastando-se – É preciso que façam chegar aos operários que eu acabo de ceder gado às fábricas. ALGUÉM – Porque estás aqui? JOANA – Tenho que entregar uma carta. pode ler. Não vão embora. serei eu quem fará subir. no fundo. Continue então com o negócio. JOANA – Eu queria que vocês fossem embora. SLIFT – Quinhentos bois a noventa! OS FABRICANTES: Mauler. a jovem pregadora dos Chapéus Negros? JOANA – Não. Slift. declara: Deus está solidário com os operários das fábricas de conservas. Queria vender a oitenta e cinco. senhorita Dark. Nós publicamos isso com manchete de oito colunas. Nesse dia sim. que a opinião pública está do seu lado. Para nós a senhorita faz parte. Prefiro abandonar tudo Do que ser a causa de uma desgraça! Oitenta e cinco. Virão três pessoas. Eles não abrirão as fábricas. JORNALISTAS – O que há de novo. 7. a não ser nós mesmos E a ninguém podemos apelar OS JORNALISTAS . É um enorme sucesso para os Chapéus Negros. De outra forma isso terminaria em violência.37 – Nem pensar. isso não é possível. (Joana vira-lhes as costas. não mais. (a Joana) Esses são jornalistas. Um homem os guia. O HOMEM. OS JORNALISTAS – No escritório do senhor Mauler nos disseram que a senhorita jurou não sair dos matadouros enquanto as fábricas não fossem reabertas. Tu me conheces. Fora uns poucos especuladores sem escrúpulos. Aja conforme o meu espírito. Entre eles. Os jornalistas lêem em voz alta) “A Madona dos matadouros. Eles ainda agüentam. apontando para Joana – Aqui está. Joana. Mas quando a aflição for tremenda. Mauler? MAULER. SLIFT: Mentirosos! Agora serei eu que vos ensinarei A vender carne enlatada Sem ter nem mesmo um quilo! E cinco mil bois a noventa e cinco! Urros. nos matadouros Enquanto a miséria não chegar ao máximo. Mas nós não queremos incomodá-la e iremos ficar ali. OS JORNALISTAS – Veja bem. OS JORNALISTAS – Podemos lhe assegurar. – Olá! A senhorita é Joana Dark. esperem a resposta! CORO OPOSTO. Veja. em segundo plano. E se quiseres abrandar. nós ouvimos. OS TRABALHADORES. Saindo ele encontra jornalistas. Aja conforme o meu espírito. Eu não posso mais. Joana Dark.” JOANA – Eu não falei nada disso. Chega um grupo de jornalistas. JOANA – Eu não faço mais parte dos Chapéus Negros. Eles se sentam. Então agora existe gado. também em segundo plano: É mentira: por maior que seja a miséria. NOS MATADOUROS Muita gente esperando. SLIFT MAULER Eu preciso de ar fresco.

JOANA: Eu compreendo esse sistema. o que deixei foi uma vocação. tenho frio. Empunhar a bandeira e bater o tambor. Algo de obscuro. Quase uma comédia. Vós. (Ela arranca de sua vizinha o pano com o qual ela cobre a cabeça) Sim.. Quer um gole de whisky? (Joana bebe) Ei. um teto e o sustento.. Para que estejamos todos no alto! Mas olhando mais de perto descobre-se. levantam-se e dirigem-se ao fundo. A mim me esperam. guardam-me a sopa. eu quero ir embora. . Não fazia tanto frio em meu sonho. UM HOMEM – Silêncio! Alguém atira um trapo para Joana. E uns se sentam lá em cima Só porque os outros estão embaixo. Alguns – pouco numerosos – estão sentados lá em cima E um grande número aqui embaixo. E falar Daquele que mora lá em cima. imbecil!. Onde está o meu chale? Eles me roubaram. chega! Você é boa mesmo de copo. Mas a estrutura interna continua ignorada. Enfim. O TRABALHADOR – Mas falaste com eles! JOANA – Eles me confundiram com outra pessoa. desde fora. Que audácia! Emborcar assim o whisky desse velho! JOANA – Segure a língua. E os do alto gritam: Subam. um emprego que me assegurava O pão de cada dia. Os jornalistas. foi você! Não adianta mentir. A MULHER – Socorro. UM TRABALHADOR. é claro! É o cúmulo! Eles me roubaram até o chale! Quem foi o mão leve que pegou o meu chale? Devolvam-me imediatamente. a qualquer momento. Entre os que estão em cima e os que estão embaixo. não é? JOANA – A senhora também acha. UMA MULHER – Que audácia! JOANA – A senhora falou alguma coisa? A MULHER – Sim. Apesar de tudo. Quando eu cheguei aqui. a Joana – O que fazias com aquela gente? JOANA – Nada. Já basta. que nada tendes para comer. Tenho fome e isso é banal. Ir para um quarto quente. Mas é apenas uma tábua. ignorar aonde te leva a vida. o que haveis deixado? Eu. Mas eu posso. JOANA Se dependesse só de vós Eu poderia congelar nua em pleno vento. dir-se-ia que é um caminho.. com um vasto plano. E um ambiente. ao qual estava acostumada. não dormir. Mas. que de resto Já é a muito conhecido. ela vai me matar. mais do que tudo. Eu não tinha sonhado que pudesse fazer tanto frio! Se eu tivesse pelo menos o meu agasalho! Ah! É fácil para vós passar fome. o medo me aperta a garganta: Não comer. Mas. isso é normal. eu não tenho o direito de ir. a Joana – Você está totalmente gelada. E para vós é fácil passar frio. dê-me meu pano. Encorajada por um sonho que confirmava minhas idéias. confesso. Vós todos. Ficar aqui sem necessidade absoluta Parece-me um jogo indigno.38 Que não seja um nosso igual. dona Luckerniddle? DONA LUCKERNIDDLE – Sim é verdade.. UM VELHO HOMEM. que acabaram de receber uma informação. A qual logo se nota claramente Que serve de gangorra Todo o sistema é como uma balança Na qual os dois lados dependem um do outro.

OS JORNALISTAS – Olá. acaba de cedê-lo aos fabricantes. Nessas condições o trabalho voltará muito em breve aos matadouros. A tropa foi encarregada de evacuar os matadouros. Mas tu. Agora as fábricas reabrirão. com a carta. Os matadouros são tão grandes que a tropa levará horas até aqui. JOANA: Tanto assim? Oh! Escola desconhecida. Não ficaste tempo suficiente aqui. Se combaterdes. Felizmente temos a carta para mostrar a verdade. Que barulho é esse? UM JORNALISTA – São as metralhadoras. E nós vos dizemos: combatei. JOANA: Escutem todos! Há trabalho. O que aprendeis? OS TRABALHADORES. espera. Ao longe as metralhadoras crepitam. no fundo do palco: Se ficardes agrupados Eles vos rebentarão. Então a bondade existe. Esse combate será perdido E talvez perdido Ainda o próximo combate Mas vós ireis aprender a combater E aprendereis pela experiência Que nada se faz sem luta E sem a vossa própria ação. Tu não compreendes nada de nada. E sobretudo entendam bem Que nada se faz sem luta E sem a sua própria ação. mocinha. Não creiam em nada e não escutem ninguém. o milionário que dispõe de muito gado.39 OS TRABALHADORES: Fiquem. no frio. DONA LUCKERNIDDLE – Não digas tais tolices. Que tem a fome por mestre e onde a miséria Fala implacavelmente da necessidade! E sois cem mil alunos. Os tanques deles vos esmagarão. E nós vos dizemos: ficai agrupados. de jeito nenhum. JOANA – Quanta gente há aqui? OS JORNALISTAS – Uns cem mil. Havia entre eles pelo menos um homem honesto E ele não falhou em seu dever. Quando se falou com ele como a um ser humano Ele deu uma resposta humana. ainda que os preços continuem a subir. Não se separem! É apenas ficando todos juntos Que poderão ajudar uns aos outros. UMA MULHER – Devemos voltar para casa agora? UM TRABALHADOR – Quem nos garante que é verdade? Que haverá trabalho de novo? – E por que não seria verdade. se esses senhores estão dizendo? Sobre um assunto como esse não se brinca. Classe cheia de neve e que as leis ignoram. JOANA: Parai! Chega de aprender essas lições! JOANA . JOANA – Mas estão atirando! UM OPERÁRIO – Pode ficar sentada tranqüilamente. JOANA – Oh! A boa nova! DONA LUCKERNIDDLE – Vejam as mentiras sobre as quais nos alertaram. A não ser a proposta Que leve a mudanças verdadeiras. aconteça o que acontecer. O coração deles não é de gelo. o seu sucesso foi formidável: nós ouvimos que Pierpoint Mauler. Os jornalistas retornam. Não te movas! Entendeu? Ela sai. É preciso fazer com que se calem os agitadores que incitam à violência. (Ela se levanta) Eu vou avisar aos nossos que os boatos já começaram a circular.

que eles ainda poderão ter uma surpresa. longe do mundo que lhe é familiar. Violar as regras em uso. eu preciso ir. Enquanto o fraco ao fraco se alia. conduzidos por policiais. William. OS OPERÁRIOS – Estão trazendo os sindicalistas. Eu assim não poderia viver. . Dia após dia ela desceu. No lodaçal dos matadouros. Eles saem. No final o lodo a engoliu. voltando – Nada além de mentiras! Onde foi a moça que estava sentada ao meu lado? UMA MULHER – Partiu! UM OPERÁRIO – Desde o começo eu disse que ela iria embora quando começasse a nevar de verdade. eu seria como eles e não faria perguntas. e ninguém Poderá manter a sua calma. Ela se vê com roupas de criminosa. Quem o comerá? Eu vou embora. UM OUTRO OPERÁRIO grita para o grupo que se afasta – Assassinos! OS OPERÁRIOS – Se eles acham que assim irão parar as coisas. mas agora a coisa está terminada.40 Que gélidas elas são! Não é pela violência Que se combatem a desordem e a confusão. é imensa! Mais uma noite como esta. Se desde a infância o peso da miséria e da fome me tivessem ensinado a violência. DONA LUCKERNIDDLE. Direis que fazia muito frio. JOANA: Os que me entregaram a carta. Apartado em um mundo Tornado para ele estrangeiro. Nada de bom pode surgir da violência. Começa a nevar. Mas assim. Viram-na descer de degrau em degrau Para em água límpida a lama transformar e aos humildes Aparecer. estão muito enganados. esta carta? Eu não saberia fazer nada Que requeresse violência. Do fundo ouve-se gritos que se aproximam. Eles procuram alguém que não encontram e vão embora. Para este homem. A tentação. Vós. algemados. Toda inocência tê-lo-ia abandonado. Com seu silêncio opressor. UM OPERÁRIO. OS JORNALISTAS – Nós a aconselhamos a sair dos matadouros. Joana tem uma visão. ao longo dos anos. No terceiro dia sucumbiu. Ou que engendrasse a violência. E é por isso que parto. Chegam três operários. Ela continua sentada. Os dois dirigentes operários passam. Por que foram presos? O que ela contém. as palavras teriam outro sentido. Os operários se levantam. vós estivestes juntos Longas noites. Seu sucesso foi grande. aparece uma inscrição: A neve começa a cair. Há muito tempo que já está tudo arranjado. Ela se levanta e sai. Sobre sua cabeça. Por três dias viram Joana em Packingtown. Enquanto a noite cai. Eu não sou um deles. Mas o prato que se prepara aqui. eu digo. Quem agisse assim se sentiria perdido. os astros sem harmonia Já não seguiriam sua órbitas. Perseguidor perseguido E não mais sabendo ver sem desconfiar. Isso seria desleal para com os outros homens. E aprendestes A alimentar friamente terríveis pensamentos. para um dos dirigentes presos – Não liga não. Eu digo: na escuridão se acumulam As violências e as questões nunca resolvidas.

nada mais posso fazer por eles.. Pierpoint Mauler cruza a fronteira da pobreza 8. Basta. mais de vocês. Até mesmo aos matadouros. De agora em diante. não lhes parece? Ah! Eu repito Não fiquem enchendo a cabeça com idéias. UM LUGAR DESERTO NO BAIRRO DOS MATADOUROS Neva. . hoje restarão No chão as pedras. Cedi meu gado a qualquer um que o quisesse. em suor e em dinheiro. Aquele que sai de tal imóvel. Assim espero. são os mais atingidos. saindo – Bom. Este homem está perdido. dele se diria Um prédio construído com grandes despesas. Eu tenho as minhas razões. preto no branco. É o que está escrito. Seja por aberração. Vejam o que leio. Mas vejo que estão pensando. Que nós construímos em nossas grandes cidades Sem importar o custo. o mais vasto. em cima. Vejam. UM DOS SEGURANÇAS. 9. aqui sob meus olhos. Ter construído a maior cloaca do mundo Constituirá a sua única glória.. Aquela que eu procurava terá tido o bom senso De sair das profundezas onde o inferno se instala. Mauler e seu amigo. Sem que eu tenha procurado. Há resistência. O mais prático também. Na borrasca. meia volta. Assim foi conseguido. Escolhido como material. que todos os fabricantes Quebraram juntos e saíram do mercado. Sou conhecido nos matadouros. a um de seus seguranças Parem. Até o reino do espírito. Perto dos matadouros. Só porque duas ou três vezes eu dei meia volta. confessa. Não preciso. E a vocês eu despeço Pois da pobreza eu cruzei a fronteira. modificam tudo. o que foi? Riste. Passa um vendedor de jornais Ei! Jornal! Vejamos o que se passa na Bolsa de Carnes. Ele lê e empalidece. Agora eu estou livre. OS DOIS SEGURANÇAS – Então podemos ir? MAULER: Podem E eu também posso ir aonde queira. Slift. Sem nenhuma exigência. Doravante Não há mais ninguém que me queira matar. façamos meia volta. Quanto a este edifício.41 Pergunta feita: quem ficará? Como nos outros dias. os pobres. A mim ela vai elevar às mais altas esferas. Pensar não serve para nada. ainda atiram. Está dito. preto no branco: O gado está a trinta e ninguém compra. mas o arquiteto teria. MAULER: Se a desgraça abate ao homem sem caráter. E ninguém quis. um objetivo que eu saúdo E que muito me alivia. impresso. seja por economia. então. cocô de cachorro: Que torna a permanência difícil. Parece-me Que contratei dois idiotas. a dona Luckerniddle reencontra Joana. Não é para pensar que eu vos pago. Eu disse: meia volta E tu riste. UMA ESQUINA EM CHICAGO MAULER. Tem certa razão de estar alegre. Essas notícias. Em todo o caso.

Anda em outra direção. de uma missão. isso é o que tu és! Dê-me a carta que te confiaram. Nela estava nosso destino. Eles teriam ficado apesar da violência da polícia. eu não a darei.42 – Ah. Pierpoint Mauler as arruinou. DONA LUCKERNIDDLE – Eu devia ter duvidado. Mas tu és uma traidora e teu lugar é com eles. Joana ouve vozes. Por este buraco fogem todos os peixes. A VOZ DA DONA LUCKERNIDDLE: Eu fui a tua fiadora. Ao que tropeça e cai. Joana. AS VOZES: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. estás aí! Onde tinhas te metido? Entregaste direitinho a carta? JOANA – Não. Mas a carta que trazia a verdade. Um lixo. mas a senhora quer continuar. mas entregue. UMA VOZ – Lá onde te esperam. Nós não sabíamos quem eras. UM OUTRO LUGAR Correndo em direção ao centro da cidade. Joana pára. DONA LUCKERNIDDLE – Ora essa! Para ti está tudo normal! E eu que disse que tu eras honesta! Sem isso não teriam te confiado a carta. Tudo está voltando ao normal agora. UMA VOZ: Não há desculpa Para quem não chega. O SEGUNDO OPERÁRIO – Isso é grave: sem dúvida uma parte das ligações não funcionou. O PRIMEIRO OPERÁRIO – E aqui nós não ficamos sabendo. OUTRA VOZ: Joana pára. Tu não a entregaste. caindo de joelhos: Luz. JOANA – Não. Cumpriste a missão? Joana volta a andar e uma nova voz a detém. ela procura se livrar das vozes que ouve de todos os lados. As massas não deveriam ter se dispersado. JOANA. Ainda mais que amanhã todas as empresas de Chicago iriam declarar a greve geral. Que sentimentos em nós deixareis sobreviver? . Dê a carta aqui imediatamente. E aquele que chega a bom porto. Aquilo que lhe foi confiado. Errando pelos matadouros. Joana cruza com dois operários de quem ouve a conversa: O PRIMEIRO OPERÁRIO – Primeiro eles fizeram correr o boato que as fábricas reabririam a todo o vapor. precisas chegar! Joana olha ao redor. De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. Sem récitas inoportunas dos seus infortúnios. oh verdade! Que a neve em tempestade Inoportunamente mascarou com sua noite. Que nada diga. O SEGUNDO OPERÁRIO – Os comunistas é que tinham razão. É inútil tentar pegar. Nós te encarregamos. (Joana desaparece na tempestade de neve) Hei! Venha! Ela foi embora! DONA LUCKERNIDDLE 10. Mas também podias nos trair. A pedra não perdoa. para poder se apresentar amanhã bem cedo ao trabalho e de repente eles falam que as fábricas nunca mais abrirão. Muitos operários teriam ficado se soubessem da notícia. Lá dentro só se fala em violência. Claridade que então eu deixei de ver! Oh! Quem conhecerá o poder da neve! Oh. Uma parte dos operários saiu dos matadouros. fraqueza do corpo! Oh fome. Como se rede já não houvesse. De tua missão. podias dar conta. Eu vou embora.

Quero que a senhora pague o meu aluguel. ou que deixe o imóvel. Ah. a outro Chapéu Negro – Há três dias um emissário de Pierpoint Mauler. Sob um plúmbeo zênite de destinos desconhecidos. estamos aguardando. O reino de Deus está pronto na minha cabeça. onde iremos acomodar o nosso público? Chega um pobre. Vejam que já balança. De um só golpe o bolchevismo também é enterrado. com certeza! Ele já está a caminho com os seus milhões! UM CHAPÉU NEGRO – Bispa. que triste. E as ondas de lama do materialismo Ameaçam a casa de Deus. Mas nós o estamos esperando. que aliás é muito barato. quem vos pode resistir? Eu preciso dar meia volta! Ela retorna sobre seus passos correndo. se ele pudesse vir. o senhor Pierpoint Mauler. X Humilhação e assunção de Pierpoint Mauler TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS MARTA. coloque os móveis na rua. à chuva. o rei da carne. no céu e no inferno. O HOMEM – Os fabricantes de conservas querem falar com ele e os criadores o chamam aos gritos. Liberada. nossa boa cidade. veio nos dizer que Mauler em pessoa estava disposto a assumir o nosso aluguel e a organizar conosco uma grande campanha em favor dos pobres. Um homem começa a levar os móveis para a rua. Uma boa orquestra à mão e sopa Bem grossinha: terminam para Deus todas as preocupações. Conheci bem um homem. Eu o conheci: era um imbecil. investindo contra ele – A sopa. a qualquer momento. . E nós gritamos à plena garganta: Ah. ele possuía dez milhões. BISPA SNYDER – Sente lá atrás e fique quieto! Ele se senta. o banco dos penitentes! E já suas mãos avidamente se dirigem Ao órgão a vapor e ao púlpito. Ele se levanta e avança até os Chapéus Negros. Ele sai. DONA MULBERRY – Meu caro Dick. BISPA SNYDER. MAULER. MAULER – Eis aqui um homen marchando até o seu Deus. afastada do trabalho. entrando – Pierpoint Mauler está aqui? BISPA SNYDER – Não. É Mauler. OS CHAPÉUS NEGROS: Romperam-se os diques da fé Em Chicago. agora os pegamos. que prometeu nos ajudar. Pediram-lhe cem dólares. UM HOMEM. que já se afunda! Mas o rico Mauler virá. posto que sem abrigo. BISPA SNYDER – Dona Mulberry. Este homem que foi em sua vida Mais estúpido do que um vagabundo bêbado e repugnante. Exposta outra vez à neve. o suntuoso Mauler. Salvar-nos com o seu dinheiro! BISPA SNYDER Há exatos oito dias Que nos matadouros onde as máquinas enferrujam. Buscam-no por toda a parte. Para nos salvar neste instante. minha cara Mulberry. DONA MULBERRY – Bispa Snyder. A massa espera. com sopa quente E um pouco de música. OS CHAPÉUS NEGROS: Estão levando.43 Frio da noite. na frente do palco : Ouvi alguém procurando um certo Mauler. é sábado a noite. é tudo o que eles querem! Aqui não tem mais sopa! Aqui só tem a palavra de Deus! Ouvindo isso eles vão logo embora.

gritando – E sem dinheiro? (Aos Chapéus Negros:) Façam as malas. construir vossa casa . Mauler! MAULER: Mas quero acrescentar que no sétimo dia Fui despojado de tudo. CORO DOS CHAPÉUS NEGROS. Envolvamos em nossas bandeiras derrotadas Os livros de cânticos. Passar bem. meus amigos. Aqui estou agora. Não podemos mais pagar as nossas contas. Eles cantam ainda “Entrai na batalha”. Jogou no mar seus milhões. OS CHAPÉUS NEGROS – Ele já chegou? MAULER: Um hino. recusou-se a dar o dinheiro. todos para fora! A Mauler: E tu primeiro! Onde estão os quarenta meses de aluguel Desses não-convertidos que Joana enxotou? E vejam só o que ela me trás em troca! Devolva-me. Tiremos de nossas paredes as máximas. e dilacerado de remorsos. OS MÚSICOS: É deste aí então que vocês esperavam O dinheiro para nos pagar? Então nós vamos embora. Diante de vós. é certo. eu vejo. ar ausente. E sobre nós a neve envia suas tempestades Em um inverno no qual crescem os rigores. Ouçam então a minha confissão: Aqui jamais se ajoelhou Ninguém. Todos os pagamentos estão suspensos. Os Chapéus Negros cantam. DOIS MÚSICOS: Um pedacinho só. olhos voltados para a porta. OS CHAPÉUS NEGROS: Não perca a confiança! Homem de pouca fé! Ele virá. eu vos rogo! Pois eu sinto O coração ao mesmo tempo leve e pesado. Silêncio! Tragam-me o livro das faturas e contas por pagar: estou nessa parte. UM CHAPÉU NEGRO – É ele. BISPA SNYDER. Joana. já. seguindo a letra por sobre o ombro de um dos Chapéus Negros. Por sete dias apertei a garganta Desta cidade até sufocá-la. BISPA SNYDER Silêncio! Fora. Mas quebrou a nossa cara De uma vez por todas. Ele pega dois Chapéus Negros pelo braço e senta-se com eles no banco dos penitentes. mas arrependido. Culpado. Ele trazia o seu coração. inclinado sobre os livros de contabilidade – Não direi o que estou calculando. Apenas nos resta chorar. Abusado da força e espoliado todo o mundo Em nome da propriedade. não o seu dinheiro. Mauler canta com eles. sim. Sentados sobre seus últimos bancos e suas últimas cadeiras os Chapéus Negros cantam desordenadamente seus últimos hinos. deu cabo de si mesmo. MAULER: Eu me acuso de ter explorado o meu próximo. Se aproxima já Com os seus milhões. sem nada. Os músicos tocam um hino. BISPA SNYDER.44 No fim. E esse gesto tocou os nossos corações. dirigindo-se aos músicos que vão embora: Nossas orações eram pelo rico Mauler E foi Mauler o arrependido que entrou. Sentados sobre as margens do lago Michigan. BISPA SNYDER – Tu és Mauler? MAULER – Sim. devolva-me os meus quarenta aluguéis! MAULER: Vós desejais. que tenha caído tão baixo.

Mal viu esses bois vindo ao longe. Um zênite ameaçador de pensamentos desconhecidos. O ancião venerável. Mauler. Vossa função seria apenas a de brincar na relva. Na porta. Prometiam até o gado por nascer.45 Sobre o que há de pior em mim. Ah! Se não tivesses aliviado tanto os nossos bolsos. quem nos derrubou. Em três dias. partistes. da Argentina. E hipotecando até o último lápis Para trazer de Quebec. hesitantes. Mauler. como um bêbado sedento Que ao mar esvaziou sem se satisfazer E lambe avidamente cada gota que encontra. Mas se chamássemos de homem àquele a quem se ajuda Daria no mesmo: necessitaríeis sempre De gente a ponto de afogar-se. Para mim o humano era aquele a quem eu podia explorar. Um vitelo ou um porco. o que existisse de gado. paga-nos o gado! GRAHAM. E sobre eles atirou-se. Por vós fomos forçados. Quando. Que vos pertencia. Lançou. Dá o dinheiro. e a noventa e cinco Comprou-os todos. Que não ficou só por muito tempo. chorando. No mercado perturbado. O Banco Nacional gritou: “Alto”. a comprar gado. tomado de loucura. Concluo eu o seguinte: o Mauler que sou Não é aquele do qual precisais. que fareis? Entram os criadores em grande agitação. e sobre nossas cabeças. tomando a frente : Mauler. em poucas palavras. Mas nós estamos perdidos: Em torno de nós. Não terias a necessidade de aliviar aqui A tua consciência. Acorreram todos em ajuda. . Ninguém jamais pode fugir da lei. Eles também estão muito pálidos. No ciclo dos astros ou das mercadorias. Subiu os preços a noventa e cinco. desde a aurora. salva tua alma. por ter vindo Atrapalhar neste lugar as tuas meditações. E tudo o que de longe parecesse um boi. E Wallox e Brigham. Era vosso todo o gado. OS REIS DA CARNE: Perdoai-nos. Que projeto tendes agora. Loew e Lévi. Este espetáculo atroz apavorou o ancião. Dais o nome de homem a quem vos vem ajudar. Eu sei muito bem. ao meio-dia. Bispa. Que a constatação vos enche de amargura. o caos. eles iriam trazer. com voz dura. OS CRIADORES: Maldito Mauler. durante sete horas. Slift apertou Ainda mais forte a nossa garganta. os reis da carne vêm ao seu encontro. assumindo seus deveres. firmas de grande renome. Viram-se os preços Oscilarem. comprometendo suas casas. nobre Mauler. gado canadense. é aqui então que te escondes? Paga nossos bois ao invés de fazer penitência. Mas Slift. Os complexos pensamentos de vosso imenso espírito. Mauler. Ele tenta sair. Pelos contratos que nos obrigavam A entregar de imediato as conservas prometidas. O que pretendeis fazer de nós? Foste vós. Estão pálidos como o linho. Relatarei o combate memorável Que. agigantou-se E a todos nos precipitou no abismo! MAULER: Oh! Eternos combates! Em nada são diferentes Desde os tempos antigos onde os homens Com uma barra de ferro rachavam-se as cabeças! GRAHAM: Recordai que estávamos à vossa mercê.

bancos. Como definha uma esponja espremida. isto é. é sabido.E a voz ainda nos alcançava Mesmo com a balbúrdia dos trens que partiam: . E como contratos nulos não impõem compras. Que nos píncaros se encontrava. entrego por cinco. E viu-se. com olhos marejados. Eu quero para hoje”. Seria esmagado como um morango no chão. Em tudo semelhantes aos antigos corcéis Mordendo. os vívidos vitelos. diga-me. Mas alto o bastante para que todos ouvissem: Para pagar-lhes tomem então nossas fábricas. Toda a família nos gritava de longe Com a voz embargada pelo trabalho duro . a carne de boi.46 Mas Slift gritou: “Três dias não. Slift. ele ao menos vale vinte e cinco centavos. O sapato. Lutavam a dentadas. quando levamos às estações De nosso longínquo Missouri Com muito sacrifício... Até os simples contínuos. Célebres. MAULER: Agora mesmo. paravam de viver. Os corretores. golpeia um corretor na barriga. de rocha em rocha E somente em trinta a queda parou. tomados de desespero. o velho Lévi disse então em voz baixa. Sob nossos olhos. Rangerem os dentes. e os preços subiram. Nós queremos que nos digas Como. Porque não mais podemos honrar os contratos. Do outro eu preciso. obstinados. Institutos de crédito. Com esse gado que ninguém é obrigado a comprar? OS CRIADORES: Sem querer perder a paciência. Aí está o que tornou o contrato sem valor Apertastes muito forte. O que fazer. na batalha. em um espasmo. um a um. baixou. E em silêncio também os bancos desmoronaram. Lévi. os agentes fechando suas escrivaninhas. Lévi. Inúteis portanto. se por um acaso Um elefante se arriscasse pelo interior da Bolsa. E Brigham arranca a barba aos gritos: “Noventa e seis”. Vertiginosamente. e então se retirarem. os fabricantes apáticos Depositarem a vossos pés suas fábricas fechadas. Parando de pagar. E que não foi ainda acertado. Eles precisavam entregar. E nós comprávamos sempre: Nós precisávamos comprar. que travaste a batalha Que deixei a teus cuidados! SLIFT: Corte-me a cabeça! MAULER: E de que me serve tua cabeça? Dá-me o chapéu. mudos. E os jovens bois de pêlos reluzentes Engordados com tanto cuidado. Naquele instante. Como a água que cai na cascata. de imediato. quando e com que dinheiro Nos pagarás o gado comprado. fomos estrangulados E de que adianta estrangular um cadáver? MAULER: Foi assim então. agora. comprar. Slift então gritou: “Cem”! Poderia ouvir-se um alfinete cair. Ouviu-se nesse dia os jovens estagiários. Casas até então sólidas e poderosas. Estão satisfeitos? OS CRIADORES: Há pouco tempo. em um suspiro. Só um. Lançaram-se um a um nesta última batalha. os cavalos inimigos. De cotação em cotação Os preços caíram e rolaram até os negros abismos. Com esse chapéu e este sapato: Dez milhões o chapéu. por sua indiferença.

conhecem um meio de sair desta. Rockfeller. Como voltar para nossa terra? E que diremos a eles. vocês estariam dispostos.. é impraticável. Estariam vocês dispostos a repetir aos quatro ventos . MAULER – Eu costumava ser esse Mauler. caro Pierpoint. Não. Pois ainda creio ouvir O rumor dos matadouros. Sancionado pelas instâncias superiores. Seus bens. amigos. MAULER: Se o faço.47 “Ei. O projeto teria talvez. Mas para mim. nobre Mauler. Jogai sobre vossos ombros o jugo. Nossa pobreza é termos perdido O sentido dos valores mais elevados. De um asilo necessário para os casos mais graves. Abandonai.. não bebam todo o dinheiro. condescender. Julguem vocês mesmos. De máximas sagradas e escolhidas com grande cuidado. Pois os preços do gado vão subir. MAULER: Ou seja. mas são numerosas. entendei. neste estado. isso não é possível. Nem todos aqui em baixo poderiam ser ricos. ao contrário.. voltar para casa? O HOMEM DE ANTES. Ele estende-lhes a carta. Mas se fizéssemos uma grande promoção De sua instituição. Outra vez responsável. OS FABRICANTES E OS CRIADORES: Desejarias. Como tudo de agora em diante Me parece diferente. nós aconselhamos a fazer um acordo com os criadores para reduzir o rebanho. Cuja voz está a tal ponto asfixiada. esta caça fatigante. elas vão mal. Mas nossa pobreza não é. pelo que dizem. E voltar até nós? Pensai.(Ele abre a carta e lê de canto) “Escrevemos a você recentemente. MAULER: Em nós a consciência. Mauler. GRAHAM – Mas então é Wall Street? Um murmúrio percorre o ambiente. o que faremos. Seus amigos de Nova Iorque. nós lhe forneceremos amanhã mais detalhes. pensai no caos Que ameaça a tudo engolir. assumir a empreitada. Deixando as sublimes esferas onde meditais. para que os preços voltem a subir. Agora. sozinho. Providos de sopa quente e de boa música. Neste caso. esperamos” E agora. E o barulho das metralhadoras. Caro Pierpoint. Se assim fosse concebido. Não ter fartura de bens terrestres.” Não. E dado que de vós necessitamos. GRAHAM – O que não é possível? MAULER – Tenho amigos em Nova Iorque que. para que comprasse carne. é muito a contragosto. a quem mandavam cartas desse tipo. A Snyder: Existem muitas dessas lojinhas Onde se vende a Bíblia? BISPA SNYDER – Sim? MAULER – E como elas vão? BISPA SNYDER – Mal. estão para sempre perdidos. mostrando o lombo vazio E nossos bolsos também? Como. entrando – Mauler está? Uma correspondência para ele. nós estaremos de bom grado à sua disposição. rapazes. de Nova Iorque.. MEYERS – Quem são esses amigos de Nova Iorque? MAULER – Morgan. Não quero. O negócio só é possível. Alguma chance de sucesso. compreendei. Compreendido como sendo de interesse geral.

. Não tem outra causa a não ser Que há carne demais. O mercado foi saturado este ano. mas olhando bem Quem vê além das aparências das coisas. não poderíamos Doá-lo àqueles que esperam lá fora E quem sabe utilizá-lo melhor? MAULER. E às vezes inoportunos. Seria muito importante. Nesse tempo de humanidade desumanizada. TODOS – Que solução simples! BISPA SNYDER. nós decidimos. aos fabricantes: Faremos uma fusão de suas indústrias Em um só monopólio. é claro Que entre vocês estivesse Joana. Digamos: a maior parte. Será preciso demitir um terço dos operários: Também de mão de obra o mercado está saturado. que deseja Fazer o bem. Eles podem nos parecer inferiores. nesses tempos de desgraça? Pois serão necessárias medidas draconianas Que poderão parecer duras porque irão Derrubar alguns e. TODOS – Não há outra saída! MAULER – E também precisaremos reduzir os salários! TODOS – É o ovo de Colombo! MAULER: Qual o objetivo dessas medidas? Nesta noite de sangue e confusão. quebre suas ferramentas E destrua assim seu próprio ganha-pão. Nós o faremos. é eminente -. Limitar o rebanho oferecido no mercado. ofuscado. É preciso limitá-la. você não compreendeu A questão de fundo. Todos sorriem longamente. Esta dificuldade pela qual estamos passando Está a ponto de ser superada. OS FABRICANTES – Que cérebro! MAULER.Pois eis Chicago outra vez agitada A greve geral. Eu compreendo o senhor. Meter um freio à anarquia da criação. meus amigos! Eles cochicham. Elas impedirão que em sua brutalidade Um povo. Miséria e fome. queimar um terço do gado existente. ou melhor: quase todos Mas é o único meio de salvar o sistema De vendas e compras no qual vivemos. supérfluos. aos criadores : Escutem. pedindo a palavra: Perdão. Eliminar o estoque excedente atual. para puxar os preços. Em conjunto. é lógico. criadores e industriais. desordem e violência. dizem. Então. BISPA SNYDER – Quase todos. sorrindo: Minha cara bispa. Eu fico com a metade das ações. E que. . que nós subvencionaremos Fartamente a sua missão que contribui Com a manutenção da ordem. MAULER. E mesmo que muitos não compreendam. mais ainda. Chapéus Negros. Em que em nossas cidades os problemas não têm fim.48 Que nós somos uma gente valorosa. É por isso. Elas trarão a calma e a ordem. Enfim. mas se o gado tem tão pouco valor Que pensam em queimá-lo. E é por isso que os preços caíram a zero. tem seus defeitos. Toda essa gente aí fora: Eles são os nossos compradores! Dirigindo-se aos outros: É incrível. Vê que são eles os compradores! Seja como for.

sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Vamos. joguem as grandes redes! Eles saíram agora de sua última casa! Deus lançou sobre eles o frio! Deus lançou sobre eles a chuva! Eles terão de vir. eles chegam até nós. Imóvel. Passam então os dois dirigentes operários escoltados por soldados. Toquem a música e nós mesmos Seremos os primeiros a nos sentar Para elevar nossos corações a Deus. Passam apenas alguns grupos de operários. penteados e carecas. UM CORRETOR. olhar fixo na porta: Eles terão de vir. Eles vêm até nós para chorar. Perseguidos sem trégua. Quando perdem o trabalho. Eles combateram Pelo pão dos outros. não deixaremos! Sejam bem-vindos. SNYDER – Abram as portas! A porta principal é aberta. estamos prontos! Já estão chegando! A miséria os traz aqui como um rebanho! São obrigados a vir. a seu lado. Foram presos os sacrílegos que perturbavam a paz e a ordem! SLIFT: Podem respirar. JOANA. entrando precipitadamente – Escutem a boa nova! A greve que nos ameaçava foi sufocada. estão chegando! Daqui eles não escapam. joguem as grandes redes! Sejam bem-vindos. o mercado vai ser curado! Outra vez saímos do ponto morto E realizamos uma obra difícil. Até nós. As coisas retomaram o rumo que nos agrada. chega e pergunta – Vocês viram passar três homens que vinham buscar uma carta? Ao fundo ouve-se gritos que se aproximam. UM DELES – E por que foram presos? .49 Cuja face por si só já inspira confiança. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Todo aquele que aqui entrar. UM DELES – Quem são eles? O OUTRO Nenhum deles Pensou só em si mesmo. MAULER: Abram agora a porta principal Aos homens cansados e cheios de preocupação. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Tranquem as saídas. Os que aqui chegarem. apanhem-no! Lazarentos e descalços. Ninguém pode escapar: tranquem as saídas. cantam. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! XI NOS MATADOUROS EM FRENTE AO ARMAZÉM DAS FÁBRICAS GRAHAM Os matadouros estão quase vazios. OS CHAPÉUS NEGROS. De sopa encham os pratos. Música de órgão. para que nenhum escape! Eles estão a caminho. Joana segue com o olhar os prisioneiros. Nossos planos outra vez se impõem. Ela então ouve. dois homens conversando. Quando estão cegos e surdos. Nenhum deles tem chapéu. Sejam bem-vindos. apanhem-nos! Sejam bem-vindos.

entretanto. A decisão sobre a greve geral só chegou a uma parte deles. Quando os soldados vierem a recolherão. E a carne vai subir. O POLICIAL: Eis aqui uma sem-teto. Um deles a derrubou com uma coronhada. UM DELES – Sempre será assim? O OUTRO – Não. Era uma velha operária. Não. Joana. XII EM FRENTE AO ARMAZÉM DA FÁBRICAS GRAHAM Um grupo de operários entra. Golpeados. SNYDER: Quando nos jornais falarem de criminosos abatidos. Ela veio daquele lado e aqui ela gritou para os nossos que as empresas municipais iriam decretar OPERÁRIOS Sim.50 – O homem injusto atravessa a rua à luz do dia. JOANA – Os operários concordaram? OS JORNALISTAS – É claro. Todos perecem antes do tempo. foi reduzido em um terço. que seguram bandeiras novas. UM DELES – O que farão com eles? O OUTRO: O salário deles é baixo e seu trabalho útil à maioria. Nós soubemos ser sublimes E vulgares quando necessário. esticando o braço com a carta na mão. Enfim o sucesso chegou E tudo acabou bem. UM DELES – Por que não se ouve falar deles? O OUTRO O OUTRO greve. amparada por um policial. JOANA. mas o justo se esconde. Em nós podem por fé. a sorte nos sorriu. Deus outra vez se impôs. Aqui está! Seriam necessárias muitas como ela. Um grupo de pobres entra. você aí! As coisas deram errado. Deixem ela aí no chão. Lançados em terra profana. os açougueiros (fabricantes de conservas) os criadores e os compradores. A greve geral fez água. não é a nossa Madona dos matadouros? Hei. e a esta a polícia dispersou com o uso de força. As rajadas de neve a impediram de ver os soldados. Nem é enterrado com decência. mas apenas para dois terços dos operários. As fábricas reabrem. Recolhida doente Nos matadouros. Nenhum come seu pão tranqüilamente. os jornalistas a interpelam. carregando lanternas. o salário também. chega ao termo de sua vida. Divididos em grupos estão os Chapéus Negros. – Ela deve estar aqui. Durante alguns segundos eu a vi distintamente. OS JORNALISTAS – Vejam só. Nenhum. Esta aqui não é das nossas. como se ainda quisesse entregá-la: . Nos vales e nos cimos. XIII MORTE E CANONIZAÇÃO DE SANTA JOANA DOS MATADOUROS Agora o templo dos Chapéus Negros está ricamente mobiliado. Seu último endereço Teria sido aqui. Joana cai desmaiada. Joana se vira. à sua frente. não é ela. Ou de malfeitores postos na cadeia. pisoteados. Nenhum morre de barriga cheia. saiba que são eles.

e ultrapassa o objetivo. SLIFT – Esta é nossa Joana. Ela que. E tinha sonhos para milhares. na noite. intercedendo pelos pobres e mesmo proferindo discursos contra nós. Foi necessário. Eu o neguei. JOANA: Eu falei em todos os lugares. a quem não se pode mais explorar! Comei a sopa! Ah. Nós faremos dela uma santa e não economizaremos em homenagens. infelizmente. Vamos colocá-la em destaque. dando provas de humanidade nos matadouros. toda a obra Onde o espírito não encontra. Intercessora dos pobres. E seus erros. Consoladora dos baixios! JOANA: Que vento sopra nesses baixios? Neve. Quando o meu esforço. Ela será a nossa Santa Joana dos Matadouros. OS CHAPÉUS NEGROS: No final.51 Jamais receberá a carta Aquele que agora está morto. Mostrá-la entre nós provará o quanto nos importam os sentimentos de humanidade. eu poderia levar. Slift discute com Snyder e com os fabricantes. pois ela nos ajudou a atravessar a tormenta dessas semanas difíceis. Quando se poderia ter alterado o curso das coisas. E só servi aos perseguidores. sua térrea natureza. Vós. empregando todos os meios. Que Joana exorcize o mal E que por nós ela interceda. A vida tranqüila de um cordeiro. Por uma boa causa. MAULER: Uma alma que exala sublimes impulsos Suporta mal. Pelo contrário. um serviço tão pequeno Foi só o que em toda a minha vida Me pediram para fazer. Eu faltei. por menor que fosse. Eu falhei com os perseguidos. dirigindo-se a Joana: Como ela ainda está perturbada. E eu não fiz! Enquanto os pobres tomam assento nos bancos para comer a sopa. E em sua marcha altaneira Para evadir-se ao mundano. Ela vai muito adiante. Se eu apenas tivesse entregue A carta que me confiaram! OS CHAPÉUS NEGROS. Joana dos Matadouros. Desta vida intolerável E atingir o inconcebível. E outra vez o mundo Percorre o antigo ciclo. enquanto as moças dos Chapéus Negros a vestem novamente com o uniforme: Ouve-se outra vez o rugir das fábricas: Outra vez se desperdiçou a chance De colocar um freio a esses excessos. o infinito. O ideal. também humanos! JOANA. Chegou na hora certa. BISPA SNYDER: Levanta-te. quais os gritos que abafas? Comei vossa sopa! E não desperdiceis esse resto de calor. Matéria a sua altura . marchava para a luz! Seus atos eram os de um ser humano. MAULER: Que tome posição em nossas fileiras Esta alma inocente e cândida E que sua bela e pura voz Misture-se aos cânticos de nosso coro.

O que está em cima está em seu justo lugar. Que ninguém seja tido como honrado. Deixando sem medo um mundo por onde passei muito rápido. Mas que não sabem o quanto. Pois se dele esquecer Perturbará nossa harmonia. No topo e no chão.Isso não basta – Deixai um mundo bom. E o que se passa no alto. A essas tropas indispensáveis. Mas nada mudará se eles melhorarem. Nunca se sabe em baixo. para os exploradores. caí do céu! Infelizmente! Bondade sem conseqüência! Sentimentos Que não fizeram a menor diferença! Não. Eu vos digo: Quando chegar a vossa vez de deixar esse mundo. E dois idiomas diferentes Os homens têm a mesma face E não se reconhecem mais. O que está em baixo tem grande importância. Eu. Sistema bestial. qualquer que seja. JOANA: Pois entre os de cima e os de baixo O abismo é mais profundo Que entre o Himalaia e o fundo do mar. o que foi que eu fiz? Nada.52 Resta fragmentada Sem alma e sem vida. dois pesos e duas medidas. Maldito aquele que apelar A essas massas essenciais Mas sempre insaciáveis. Quaisquer que sejam as aparências. ignora-se o que se passa em baixo. OS CHAPÉUS NEGROS. Porque o sistema é construído assim: É apenas exploração e desordem. JOANA: É uma grande verdade Que aprendi e que vale para todos E morrendo eu vos digo: Vossos bons sentimentos. de maneira a encobrir a voz de Joana: Para que até o céu se levante o edifício. que significam Se não se manifestam em nenhum lugar? De que serve vosso saber Se o que sabeis não tem conseqüência? Eu mesma. eu não transformei nada. Que nada seja considerado como boa ação. falando alto. como do topo. GRAHAM – Ela não pode proferir discursos que não sejam razoáveis. Mas também no alto. então. Entre os do alto a baixeza é sem limites. Que cada um. Não esqueçamos que ela esteve nos matadouros. Precisa-se do chão. fique no lugar Que lhe é atribuído. Contrário à razão. OS FABRICANTES: O resultado. Não tenhais a preocupação de terem sido bons . Exceto aquele que muda o mundo Definitivamente: isso é o que é realmente necessário. Se não for uma ajuda real. a Joana: Seja boa e se cale! . E sem descanso nem folga Realize seu dever. é magnífico Sempre que espírito e negócios se aliam. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES. A esses elementos dos baixios! JOANA: Mas os que estão por baixo são assim mantidos Para que os de cima lá continuem.

A palavra de Deus. OS AÇOUGUEIROS: Podes fazer qualquer coisa! OS CHAPÉUS NEGROS: Mas faça-o Sempre com muito escrúpulo! Espírito contemplador. digam qualquer coisa. é verdade. para abafar o discurso de Joana. BISPA SNYDER – Joana Dark. Aos ricos concedei a riqueza! Hosana! Também a virtude. sobretudo. de esquecer os remorsos. Batei com uma pedra em seu crânio Até que arrebente. Só dos homens pode vir ajuda. tudo concedei! Hosana! Concedei-lhe a cidade e o Estado! Hosana! Aos vencedores. mas que seja bem alto. Onde reina a violência Não há outro recurso senão a violência. Precisarás deles sempre! OS CHAPÉUS NEGROS: Olha para cima. Sempre se metamorfoseia. ou seja. vinte e cinco anos. comerciantes. cantam a primeira estrofe do hino. Em suas compras. os alto-falantes começam a transmitir notícias que espalham o medo: “Bank of America e Citibank estão de pires na mão” “Revolta contra os cupins financeiros conflagra Londres” “Múltis drenam do país US$ 3. obedeça! OS AÇOUGUEIROS: Quem se mover no espaço Nunca poderá subir: Subir é subir sobre alguém. Não esqueçam.Sobretudo se forem compras especulativas – Esse Verbo que. JOANA: E do mesmo modo. ferir! OS CHAPÉUS NEGROS: Nunca esqueças do sangue que mancha teus sapatos. É preciso também golpear-lhes o crânio com uma pedra. Sempre necessário . quando vos disserem. MAULER: Deves agir. sempre mais alto. a eles concedei! Hosana! A quem tudo possui. JOANA: Se alguém um dia vos disser Que existe um Deus.266 bilhões só em dez dias de março” “BC assalta U$ 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street” “Montadoras almoçam os R$ 8 bi do crédito e mantêm ameaça de demitir trabalhadores” “Deficit dos EUA deve chegar a US$ 9 tri entre 2010 e 2019” . Não. Do qual podeis esperar ajuda. distingam com um sinal! Hosana! Enquanto eles cantam os versos. infelizmente. Mas evita. Denegrindo a ti mesmo. Combatente e mártir. OS AÇOUGUEIROS: E nem pensa em tirá-los. contraiu a serviço de Deus uma pneumonia nos matadouros de Chicago. de século em século. O Verbo magnífico. é preciso fazer algo para tirar a atenção do que ela fala. Onde vivem os homens. Não esqueças: tua consciência está lá! Atenção. invisível. SLIFT – Escutem. Que podeis elevar-vos moralmente Mesmo com os pés enfiados na lama. Todos. Chegar ao topo implica Pisar na cabeça daqueles que estão por baixo.53 É preciso. Falem.

que manipulam o dinheiro a rodo. na terceira vez ela o pega. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES: Desde que o mundo é mundo. Hosana! Nesses braços que vos estendem.7%” “Crise já eliminou 6 mi de empregos nos EUA” “Incertezas rondam fábricas da GM à beira do fechamento” Sob o efeito dessa terríveis notícias os personagens trocam entre si acusações e diversos insultos como esses: “Açougueiros sujos. Aos astros. sinto-me atraído: . Hosana! Que seus crimes terminam bem. ao firmamento Um impulso múltiplo o atira. por que não empregaram mais gente e pagaram melhores salários? Quem esperam que compre a nossa carne?” “Foram os intermediários que fizeram subir tanto a carne de gado. morta de pneumonia nos matadouros. se não tivessem degolado tantos porcos!” “Criadores miseráveis.54 “Empresas dão calote recorde para remunerar seus acionistas” “Recessão ainda irá se agravar no Japão. A carne para a terra o arrasta! MAULER: Ai! Um duplo desejo dilacera meu pobre coração. colocam-se suavemente todas as bandeiras sobre Joana. Ajudai vossa classe. levanta e vira. até o fundo cravado. mas ela cai.” “Foram as tarifas das estradas de ferro que nos esfolaram. a serviço de Deus. tocada pela morte.” “Os bancos nos arruínam com os juros que exigem!” “Quem pode pagar tanto dinheiro para estocar o gado e pelos silos de grãos?” “Por que vocês não começaram a reduzir a produção?” “Nós começamos. Infelizmente. por que criaram tanto gado?” “Alucinados. Nós que temos a alma comum! E então desperta a boa alma Que temos no fundo de nosso coração. Um desejo vive no coração do homem. Comove-nos profundamente.” “Foram os especuladores de grãos que encareceram o gado. Hosana! Notam que Joana para de falar. Não dá mais sinais de vida. Por um nobre ideal. vinte e cinco anos. BISPA SNYDER – Joana Dark. A um sinal da bispa. que vos ajuda também. A generosidade De uma alma sem mácula. MAULER – Dêem uma bandeira a ela. Pelo espírito. A voz de Joana já não se ouve: Concedei aos ricos misericórdia. Hosana! Durante esta estrofe. O palco é iluminado com uma luz rosada. Snyder e Mauler vão até ela. combatente e mártir. Hosana! Juntai vosso riso aos que riem. Bolsa de NY cai 4. MAULER: Como a pureza De um ser inocente. Hosana! Com mãos cheias. Colocam a bandeira em suas mãos. Hosana! Ajudai a quem tudo possui. Hosana! Piedade com aqueles que ignoram a fome. até cobri-la totalmente. Hosana! Esmagai o ódio. sempre ele aspira Às esferas mais elevadas. para sua grande pena. Todos ficam muito tempo de pé. diz governo ” “EUA mudam socorro para bancos. foram vocês que se recusaram a reduzir também!” “Vocês são os únicos culpados!” “Enquanto não acabarem com vocês não vai melhorar!” “Faz tempo que o destino de vocês está selado!” “O que estão esperando para prender vocês?” Todos cantam a segunda e a terceira estrofes do hino. Em seguida cai nos braços delas. mudos de emoção. as mulheres tentaram oferecer a Joana um prato de sopa. Hosana! Oferecei a vossa graça. Qual um punhal. Em duas tentativas ela recusa o prato.

Homem! Luta sempre contigo mesmo! Sigas sendo este ser uno e sempre dividido! Cuida de tua alma boa. Ele precisa cuidar de ambas. como de tua alma grosseira. como de tua alma vil. desejo o altruísmo Mas à atração pelo lucro. Longe de querer escolher uma delas. Cuida de tua alma terna. Cuida bem das duas! .55 Desejo a abnegação. não consigo resistir Inexplicavelmente! TODOS: Em cada homem habitam Duas almas opostas.

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