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I O rei da carne, Pierpoint Mauler, recebe uma carta de seus amigos de Nova Iorque CHICAGO. OS MATADOUROS
MAULER,

lendo uma carta. – “Parece-nos evidente, caro Pierpoint, que já há alguns dias o mercado da carne está saturado. E, no sul, as barreiras alfandegárias resistem a todas as nossas ofensivas. Acreditamos, portanto, ser prudente, querido Pierpoint, não mais envolver-se com este negócio...” Acabo de receber essas indicações de meus bons amigos de Nova Iorque. Lá vem meu sócio. Ele esconde a carta. CRIDLE – Por que esse ar tão sombrio, querido Pierpoint? MAULER: Lembra-te, Cridle, daquela caminhada Que fizemos uma vez, pelos abatedouros? Era noite. Diante de nossa máquina nova, Cridle, lembra-te, nós vimos um touro Claro e nobre, dirigindo aos céus seus grandes olhos vazios. Ele recebeu diante de nós o golpe que o abatia: E tal golpe me atingiu até o fundo do coração! Há sangue demais, Cridle, em nosso negócio! CRIDLE: Amigo, vens outra vez com tua antiga fraqueza. Quem acreditaria, Pierpoint? Tu, o maior de todos, O rei dos abatedouros, dos açougueiros o terror, A morte de um touro louro te enche de dor! Não conte, eu te rogo, tal segredo a ninguém A não ser a mim! MAULER: Oh, meu fiel amigo, Por que me levaste a visitar o abatedouro! Durante os sete anos em que estou no negócio

Eu evitei fazê-lo. Eu não posso suportar Um comércio tão sangrento, não tenho mais forças: Eu me retiro de imediato... Cridle, queres a minha parte? A terias por muito pouco; a ti, a preferência: Ninguém conhece o negócio como tu. CRIDLE: Muito pouco? Quanto? MAULER: Velhos amigos como nós dois Não podem disputar muito por valores. Dez milhões! CRIDLE: Não seria caro, se não houvesse Lennox Que, pela carne em conserva, lata a lata se bate, E estraga o mercado com seus preços baixos. Tirará nossa pele, se não tirarmos a dele. Enquanto ele estiver em pé, e só tu podes abatê-lo, Não posso aceitar tua proposta. Deverás, até lá, com tua mente fértil, Encontrar uma saída. MAULER: Não, Cridle, Esse coração treme ainda com o grito do touro! É preciso então que Lennox caia rápido, Pois quero, doravante, viver como homem de bem E não mais como açougueiro. Saiamos, Cridle, e eu te direi A forma de abater Lennox. Mas tu deverás então tirar esse peso do meu coração E tomar a frente de nosso negócio CRIDLE: Quando Lennox for derrubado Eles saem. II

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O desmoronamento das grandes indústrias da carne A - DIANTE DA FÁBRICA DE ENLATADOS DE LENNOX
OS OPERÁRIOS

Nós somos setenta mil Nessas fábricas de conservas E nossos salários são tão baixos que não podemos mais [sobreviver. Ainda ontem, de surpresa, reduziram nosso pagamento E hoje, um novo aviso: “Os que não estão satisfeitos, sempre podem deixar a fábrica!” Saiamos então, e todos juntos. Ao diabo esse salário que diminui todos os dias. Silêncio Há muito tempo já esse trabalho nos nauseia: Esta fábrica é para nós um verdadeiro inferno E só pode nos manter aqui o medo, O medo duplo, de Chicago e do inverno. Mas agora, doze horas de trabalho Já não garantem nem um pão seco Nem dão para comprar um trapo velho. Melhor partir E morrer de uma vez. Silêncio Pelo que nos tomam eles? Acreditam então Que nós somos gado, dispostos a tudo? Tomam-nos por jumentos? Melhor morrer! Deixemos a fábrica Agora mesmo. Silêncio O que houve? São seis horas! Por que não abrem, corja de esfoladores? Seus bois estão aqui, bando de açougueiros! Abram! Batem no portão.

Terão eles nos esquecido? Risos. Abram! Queremos entrar Em suas imundas pocilgas E suas cozinhas infectas Para preparar guisados indigestos Para os que ainda podem pagar. Silêncio No mínimo exigimos, O salário anterior, que já não dá para nada. No mínimo A jornada de dez horas e, no mínimo... UM HOMEM QUE PASSA: O que vocês estão esperando? Não sabem que Lennox fechou? Gazeteiros de jornal aparecem na cena GAZETEIRO – Lennox, o rei da carne, forçado a fechar suas fábricas! Setenta mil operários na rua. Lennox vítima da concorrência feroz imposta por Pierpoint Mauler, rei da carne e da responsabilidade social!
OS OPERÁRIOS

Desgraça! O próprio inferno Diante de nós fecha suas portas! Nós estamos perdidos. O impiedoso Mauler Aperta a garganta de nosso explorador E somos nós que sufocamos! B - UMA RUA – A Tribuna de Chicago, edição do meio-dia! O rei da carne e da responsabilidade social, Pierpoint Mauler vai inaugurar os Hospitais Pierpoint Mauler, os maiores e mais caros do mundo! Dois transeuntes olham para o fundo do palco, “vendo” Mauler. UM TRANSEUNTE, ao outro – Aquele é o Pierpoint Mauler. Mas quem são os dois que o acompanham?
GAZETEIRO

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– Seguranças. Só anda escoltado, com medo de apanhar de alguém.
O OUTRO

Para levar Deus ao coração de um mundo que desaba E nele restaurá-Lo, pela ação dos mais humildes. Os Chapéus Negros andam. Toque de tambores. Durante todo o dia os Chapéus Negros pregaram nos matadouros, mas, quando a noite chegou, os resultados eram quase nulos. DIANTE DA FÁBRICA DE CONSERVAS LENNOX – Dizem que eles estão preparando um grande golpe sobre o mercado de carne. Para nós isso que dizer esperar e passar fome. OUTRO OPERÁRIO – A luz está acesa nos escritórios. Estão lá, calculando os lucros. Chegam os chapéus Negros. Fixam no chão uma placa na qual se lê: “Hospedagem: 20 centavos por noite. Com café: 30 centavos.” CHAPÉUS NEGROS cantando Escutem todos, escutem bem! Tu que te afundas, nós te vemos, Teu apelo por ajuda, nós o escutamos, Teu sinal, nós o percebemos. Parem os carros, detenham o trânsito Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Tu que te escondes, tu que duvidas, Olha para nós! Olha, Meu irmão, antes que sucumbas! Nós te damos o que comer E nós não esquecemos Que tu não tens abrigo. E, sobretudo, não digas que tudo está perdido: Tudo será diferente, a injustiça nesse mundo Não poderá durar se todos se juntarem a nós, Marchando ao nosso lado Com o único objetivo de ajudar o próximo. Nós faremos avançar os tanques e os canhões
UM OPERÁRIO

Para levar consolo aos miseráveis dos matadouros, os Chapéus Negros deixam a sua sede. Joana empreende sua primeira descida às profundezas. C - EM FRENTE AO TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS
JOANA,

à frente de um comando dos Chapéus Negros: Nesta noite de sangue e confusão, Nesse tempo de desordem organizada, De arbitrariedade consentida, E de humanidade desumanizada, Nesse tempo em que em nossas cidades Os problemas não têm fim; Nesse mundo, imenso matadouro, Em que nos chegam rumores de violência iminente; Para impedir que, em sua brutalidade, O povo, ofuscado, quebre suas ferramentas E destrua assim seu ganha-pão, Nós queremos reintegrar Deus Pois aos lugares onde realmente vivem os homens Ele não mais tem acesso: Sua glória anda pouca, Seu nome, já quase suspeito. Dos mais humildes, entretanto, ele é a única salvação! Então nós resolvemos Por ele bater nossos tambores nesses bairros; Para que ele penetre no coração da miséria E que sua voz retumbe pelos matadouros. Aos Chapéus Negros: O que faremos agora é uma última tentativa. Pela derradeira vez, nos esforçaremos

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Nós lançaremos ao mar os navios de guerra, E nos ares, os aviões Para conquistar teu pão, meu irmão. Porque vós, os pobres, formais Nesse mundo um imenso exército. Vós que nos escutais Não esperai o amanhã! Desde hoje ajudai, Ajudai ao próximo! Avante! Ao assalto! Empunhai vossos fuzis! Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Cantando, os Chapéus Negros começam a distribuir seu jornal: Apelo às Armas, bem como colheres, pratos e sopa. Os operários agradecem e põem-se a escutar o discurso de Joana. JOANA – Nós somos os soldados do bom Deus. Por causa dos chapéus que usamos, somos também conhecidos como os Chapéus Negros. Nós dizemos que somos soldados, porque formamos um exército e porque, em todos os lugares em que vamos, precisamos lutar contra o crime e a miséria, contra as forças que tendem a nos aviltar. (Ela mesma começa a distribuir sopa) Bem, agora comam esta sopa quente e constatarão que depois vocês verão as coisas com um olhar diferente. Pensem agora qual esperança se pode fundar sobre a felicidade terrena. Nenhuma, absolutamente nenhuma. A desgraça vem como a chuva: ninguém a provoca, mas, entretanto, ela vem... Suas desgraças, digam-me de onde vem? UM DOS QUE COMEM – De Lennox & Cia. JOANA – O senhor Lennox tem talvez mais preocupações do que vocês! O que vocês estão perdendo? Ele, suas perdas se contam por milhões. UM OPERÁRIO – Carne não há nesta sopa, só uma aguinha clara, isso sim. Mas quente, pelo menos, está. OUTRO OPERÁRIO – Fiquem quietos, bando de glutões! Escutem a palavra de Deus! Senão vão tomar o prato de água quente de vocês.

– Silêncio! Queridos amigos, digam-me: por que vocês são pobres? UM OPERÁRIO – Sei lá! Explique você! JOANA – Eu lhes direi. Não é porque vocês não estão cheios de bens materiais – que não chegam para todos – mas porque vocês não têm idéia dos valores mais elevados. É por isso que vocês são pobres. Esses gozos vulgares aos quais vocês aspiram, comer um pouco, ter um bom lugar para morar e ir ao cinema, não são mais do que prazeres frívolos, grosseiros. Enquanto que a palavra de Deus é um prazer mais delicado, mais profundo e muito mais refinado; talvez vocês não possam nem imaginar algo mais doce do que o chantili, mas a palavra de Deus é ainda mais doce. Homens de pouca fé, os pássaros no céu não têm carteira de trabalho, as açucenas do campo não têm emprego e, entretanto, como eles cantam Sua glória, Deus lhes dá alimento. Nós, os Chapéus Negros, fazemos então a vocês uma pergunta muito prática: de que um homem precisa para crescer na vida? UM OPERÁRIO – Um colarinho engomado. JOANA – Nada disso. Para progredir na terra talvez seja necessário um bom colarinho, mas diante de Deus é preciso muito mais que isso, outras glórias. Vocês aos olhos Dele, nem mesmo um colarinho puído têm, pois deixaram suas almas no abandono. Mas então como vocês querem elevar-se, chegar ao que vocês, em sua ignorância, chamam de uma “situação melhor”? Pela força bruta, pela violência? Como se algum dia a violência tivesse trazido alguma coisa além da destruição. Vocês acham que mostrando os dentes conquistarão o paraíso na terra. Mas eu lhes digo, agindo dessa maneira o que se cria não é o paraíso, mas o caos! Um operário chega correndo. O OPERÁRIO: Uma vaga, agora mesmo, acaba de abrir! Um trabalho, um salário, esperam por vocês, Na fábrica número cinco! Que mais parece uma latrina. Corram, rápido. Um operário larga seu prato cheio e sai correndo.
JOANA

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– Ei, você, onde é que você vai? Quando se ocupará de Deus? Vocês não querem nem ouvir falar, não é? UMA MOÇA DOS CHAPÉUS NEGROS – Acabou a sopa. OS OPERÁRIOS: Acabou a sopa; Era só um caldinho ralo Mas era melhor do que nada. Todos se viram e se levantam. JOANA – Fiquem sentados; acabou, mas que importa, uma vez que a grande sopa celeste não se esgota nunca. OS OPERÁRIOS: Quando, afinal, vocês Abrirão as portas de seus porões, Carniceiros, mercadores de carne humana? UM OPERÁRIOS: Com o quê, agora, pagarei A casa pequena e úmida, onde vivemos doze? Eu já paguei dezessete prestações, Mas a última, não conseguirei Seremos jogados na rua. E o chão de terra batida E nosso pedaço de grama amarela, Nunca mais os veremos, nunca mais, Nem tampouco respiraremos seu pestilento ar familiar. UM OUTRO OPERÁRIOS: Aqui estamos, em pé, nossas mãos como pás, E nossos pescoços fortes como tratores. Nossas mãos e nossos pescoços, queremos vendê-los Mas não há quem os compre. OS OPERÁRIOS: E nossas ferramentas - Gigantesca montanha de prensas e gruas – Estão trancadas, detrás desses muros! JOANA – E então, o que se passa? Quer dizer que já se vão? É porque já terminaram de comer? Adeus e obrigado. Mas por que então vocês escutaram até agora?
JOANA

– Pela sopa. JOANA – Continuemos. Cantem! CHAPÉUS NEGROS cantando Avante, entrai nessa luta! No coração da batalha lutai! Cantai com louvor, que cante todo o mundo. Ainda é noite, mas logo virá o dia, Raiando com todo o esplendor, E junto virá Jesus Nosso Senhor. UMA VOZ, do fundo do palco – Estão contratando nas fábricas de Mauler! Os operários saem. Fica apenas uma mulher. JOANA, com ar sombrio: Parem a música! Acabou a sopa, lá se vão eles! Seus olhos são incapazes de elevar-se Mais alto do que a borda do prato. Eles não crêem em nada além do que está Entre suas mãos. Acreditarão em suas mãos? Vivendo cada dia, cada minuto mesmo, Na insegurança, eles não são capazes De se esquecer das preocupações mais básicas. Nada, a não ser a fome, tem sobre eles qualquer influência. Nenhuma canção os toca mais. Nenhuma palavra pode Descer até eles e penetrar seus corações. Aos que a cercam: Parece que nós, os Chapéus Negros, temos por tarefa alimentar todo um continente com nossos poucos talheres. Os trabalhadores voltam. Ao longe, ouvem-se gritos. OS OPERÁRIOS, na frente do palco – Que gritos são esses? Um imenso caudal humano emerge dos abatedouros. UMA VOZ, do fundo: Mauler e Cridle também fecharam. As indústrias Mauler optam pelo lock-out! OS OPERÁRIOS, refluindo:
UM OPERÁRIO

JOANA – Não! Eu quero saber (aos trabalhadores) Digam-me. Abrigaram sentimentos nobres. derrubou-te. Enquanto corríamos atrás de trabalho. eu quero vê-lo. Quem abandona o lar protetor. Recebemos mil respostas. presa. que fogem do trabalho. Ele venderia o próprio ar. Jamais seus corações. Estamos gelados e molhados e precisamos comer. por favor. No alto. GRAHAM: E então. Ao fazer mil perguntas. UM OPERÁRIO. na frente do palco: Desgraça! De todos os lados chegam ainda Torrentes infindáveis de homens! OS CHAPÉUS NEGROS. desce cada vez mais baixo. já que ele é a causa de tamanha miséria. mora aonde? OS OPERÁRIOS: Lá. JOANA III Pierpoint Mauler é tocado pelo sopro de um outro mundo EM FRENTE À BOLSA DE CARNES Em baixo. JOANA – Esse Mauler. OS CHAPÉUS NEGROS – Pare! Não te metas com essas questões. Eles encherão tuas orelhas com seus gritos. Tu desaparecerás na lama! Pois a lama entope as bocas Que fazem perguntas sem prudência JOANA: Eu quero saber. São reles glutões Preguiçosos. torna-se. O que comeste. Oh Joana! Não te metas nas querelas terrestres! Pois quem nelas se envolve. O selvagem Mauler! De um tal monstro a investida É inexorável! A natureza. OS CHAPÉUS NEGROS – Então teu destino nos parece bem negro. E o frio supremo Rouba de seu coração todo o calor. Todos haviam perdido o emprego E perguntavam onde achar trabalho. para ele. os fabricantes de conservas Lennox e Graham discutem. meu velho Lennox. por que correm de um lado a outro e não encontram trabalho? OS OPERÁRIOS: O sanguessuga Mauler e o muquirana Lennox brigam entre si. Torna-se mercadoria. Sua bondade perde rápido. ele te revenderia. . Uma multidão enorme e desesperada. Joana e Marta esperam. dos Chapéus Negros: Não vá te meter com estes problemas. antes. a Joana – Vamos agora. E vê esvanecer-se sua pureza original.6 No meio do caminho encontramos. Lennox está branco como algodão. – Não. JOANA – Quero saber. desde o dia em que nasceram. Ao fundo. Resultado para nós: barrigas vazias. Em um grande edifício: A Bolsa de Carnes JOANA: Eu vou até lá: Eu preciso saber. pronto. Eles têm apenas idéias vulgares na cabeça. esse Mauler. MARTA. Os Chapéus Negros se afastam. Na insana esperança de obter uma resposta Que jamais chegará. Degrau após degrau. onde se compram e vendem animais. quem é o responsável por tudo isso. ruídos da Bolsa.

CRIDLE: Muito bem. Bem pensado. época maldita! Um comércio estrangulado por montanhas de conservas. à Marta: Tu somente. Vá. que. sozinho. que viram escovas. esta arte contrária à natureza. Espero que o mercado recobre a saúde. chega Na lata que o espera lá embaixo. eu também te recomendei prudência. confessa. Agora vou limpar a minha fábrica.” CRIDLE : . não é verdade? GRAHAM : Muito bela! Mas e a lata. olhe para mim e de meu pescoço. Lubrificar meus cutelos. o porco se precipita. E agora. Destroem com seus cascos o pasto que disputam. OS FABRICANTES DE CONSERVAS : Trata-se de saber quem agüentará mais tempo. Lennox! Acabou a guerra de preços! Foste eliminado. no entanto. Saibas. Mauler.. não achas? Ele se degola e logo. E assim. por conta de seu próprio peso. Tal qual dois grandes búfalos. Diga-lhe: Mauler. Nas facas. em salsicha se transforma. Gritaram-me prudência: Para eles. para economizar Uma agradável soma em salários. até aqui me acompanhastes. Fizeram desabar os preços e destruíram seu negócio. Pois caindo.. ele extrai rendas. como vais reconhecê-lo? JOANA – Saberei bem reconhecê-lo. Instalar duas ou três dessas máquinas novas. com voz suave.. E talvez chore. acompanhado de seu corretor. Marta. este homem não é duro E nem ama o dinheiro. ele faz ouro. Tão natural. Vocês mesmos. Cridle sai da Bolsa e desce até o palco. Um mercado aviltado. MARTA . Ele terá medo. MAULER : Lennox está de joelhos. até ele e. que vira couro. Tira esta mão que me aperta e me estrangula.Joana. O faro para o dinheiro é nele tão potente. Quando ele não podia absorver mais nada. Bela invenção. A nova técnica é muito engenhosa: O porco é colocado em uma esteira rolante Até o alto da fábrica. JOANA. ainda ontem florescente!. Começa então o seu retalhamento. Batendo-se por sua conquista. E pensa nos velhos tempos.7 De barracos miseráveis. Todos me abandonaram. Depois seus pelos. nele. moídos como farinha. lutando.. A Lennox: Estás perdido. Estranho conselho! Eu te agradeço. com sua escalada. e dorme mal à noite. Até chegar aos ossos. Por si mesmo. Cridle. surge de um grupo de fabricantes de conserva. então. Primeiro perde a pele.. MARTA – Joana. Slift. cruzei a última fronteira.. De carne podre. a cada fase. ficarás com a fábrica Conforme está previsto nos termos do contrato: “No dia em que Lennox for eliminado. JOANA – Mas tu vieste comigo. O que fazer com ela? Ah. eu garanto. Em dinheiro ele as transformará. no último andar. Ele não pode suportar A visão da miséria. Que ele não saberia jamais trair seu instinto. Fecho minhas fábricas. E se lhe jogas pedras na cabeça.

então. Cridle. o coração torturado! Cridle se afasta. GRAHAM — Mauler. Não estava caro. : Pepê! Isso não é um jogo! Não podes misturar Questões pessoais aos negócios! CRIDLE – Pois não. MAULER – Ai! GRAHAM — Viu? Ele tem um coração! MAULER : Então. tu me forças. então. Mauler.. Veja se esse contrato diz uma só palavra sobre a crise. se eu fizer isso. Mas com ele acabaram Os bons dias do mercado. Mauler. MAULER . Antes que quebres de uma vez! Creia-me. e onde eu conseguiria dinheiro para pagar tua parte? Eu estaria arruinado! MAULER : Já que me dizes isso. É preciso então. Tu me ofereceste a 320. LENNOX – Não. seguindo-o com os olhos: Tive a ligeira impressão de que algo o atormentava. sem mais delongas. cinco. Lennox! Toque-o! É uma lata de lixo. Lennox. se tu estás Realmente onde dizes. Não pude imaginar seu fado. A exigir meu dinheiro.8 Sim. Isso não é um contrato? Com um preço fixado? CRIDLE : Sim. Freddy! Quer dizer que tu me socas. mas. veja Lennox. Nada além. um contrato dos tempos de prosperidade! Mas e a crise? Ela não existe? Que posso fazer eu com um grande matadouro Se ninguém mais compra carne em conserva? Agora sei bem porque não podias Mais suportar a visão do gado morrendo: sua carne Não vende mais! MAULER : Não.. e tu tinhas um terço. olhe para mim. é que meu coração se aperta Quando ouço mugir a criatura CRAHAM : Agora eu compreendo a grandeza de teus atos. nada. até teu coração sabe ver longe! LENNOX : Eu gostaria ainda. devido à saturação do mercado. E eu. MAULER : O quê? A soma está inscrita Claramente no contrato Tome. Pepê! Como quiseres. sensível! Ele soca Mauler no coração. de examinar Contigo. Repensar os dez milhões de dólares Que queres por tuas ações... LENNOX – Mauler. Joana fez um sinal a um segurança e lhe diz algumas palavras. Mas. as ações caíram para 100. eu precisaria jogar essas ações no mercado. Seis dias? Não. como eu. elas cairão a 70. tenho dois mil empregados! CRIDLE – Mande-os ao cinema! Mas Pepê. Estou tão temeroso que chego a suar frio: seis dias. CRAHAM : Toque-lhe o coração. isto é. Ah! Pudesse eu estar liberado De um comércio tão bestial! Tenho. as ações estavam a 390. Ele sai. É o máximo que posso fazer. Para pagar o que te devo.. Cridle. CRAHAM . Hoje.. Mauler. Pois eu proibirei Cridle De comprar-te uma única lata. Lennox acabou. (faz contas em uma caderneta) Quando combinamos que tu sairias do negócio. mergulhado em meus negócios. MAULER – Leia. nosso contrato não é mais viável.

Que não é acusada de nada E que não espera o impossível de mim. e pôs em apuros Cridle que. é o que tem a cara mais ensangüentada. além da comida e do uniforme. MAULER : A escória em farrapos. Mas que nome curioso! Soldados do Bom Deus. Chapéus Negros. MAULER – Como me reconheceste? JOANA: De todos. 59. Graham sai. sobre outra questão. Vitelos. JOANA: Por que joga. não é notável? Já viste algo igual? Que trabalhem por nada e sem se lamentar? Não vejo em seus olhos nem medo da miséria Nem de dormir sob as pontes alguma noite. dirigindo-se direto a Mauler – O senhor é o Mauler! – Não sou eu. Mais uma coisa: não diga. MAULER : Já ouvi falar dessa gente. São chamados de soldados do Bom Deus. que eu sou Mauler. 43. gente estranha. Durante esta cena. Diga-lhes que eu os receberei Mas que eles limitem-se a responder minhas perguntas. Nada de choros. Com ar invejoso. o rumor da Bolsa continua. . MAULER . 55. sem dúvida? Prontos para a violência.. nem desses versos sentimentais Que eles adoram cantar. (aponta para Slift) É ele! JOANA. que a escória me chama – Despojou Lennox. O SEGURANÇA: Ele vai vê-los. adoraria vossa opinião.. Slift ri. Creiam-me: esses são assuntos profissionais Que não vos interessam. cá entre nós. seus trabalhadores na rua? MAULER. Pouco me importa o que esperam de mim. A Joana: Vós sois. Mas o que eles querem comigo? O SEGURANÇA — Afirmam que têm algo a dizer ao senhor. não é homem de bem. – É o senhor. mas vocês não devem Perguntar nada. a Slift: Que eles trabalhem por nada. que o sangrento Mauler. O melhor para eles É causar em mim a impressão de gente honesta. Dizem. JOANA. são numerosos e gozam de grande consideração nas camadas inferiores da população. há algumas pessoas que querem lhe falar. O segurança vai ao encontro de Joana no outro lado do palco. é ele. Sim. Slift.É assim. na verdade. que a sopa seja rala. Pretendo renunciar a esse negócio sangrento Logo que eu possa: renunciar sem retorno.9 O SEGURANÇA — Senhor Mauler. o tecido não é grosso Nem é grossa a sopa. em absoluto. MAULER: O tecido é bem fininho e. suponho. Ouve-se: Bois. respondam apenas Quando ele lhes perguntar. Para Joana:) Quanto recebes por dia? JOANA. JOANA. eu sei. – Vinte centavos. diga que não estou. Mas. Slift? (Enquanto isso. MAULER – Rindo. apontando para Mauler – O senhor é o Mauler! MAULER – Não. etc. Senhor Mauler. MAULER : Está bem. hein? Não. Porcos. O SEGURANÇA — São membros da Organização dos Chapéus Negros. MAULER : O que é esta organização? O SEGURANÇA — Eles têm muitas ramificações.

Dêem o dinheiro. Eu sei. Eu também vou embora. Marta sai. não creias que seja de boa fé. O senhor não poderia realmente ajudá-los? MAULER: Repita por toda a parte: eu aprovo vossa ação. diga. MAULER: Riam todos. Mas este mal era inevitável. Dirigindo-se aos outros: Parece-me que fui tocado pelo sopro de um outro mundo. um boi e fiquei tão comovido Que quis largar tudo. que com tal decisão As pessoas sofreram. tu também. Não. minha filha. mas não digas nada.. sem nenhuma obrigação: Eu não sofro de insônia. tomando-lhes o dinheiro que trazem consigo e dando-o a Joana. Deverias. São todos carniceiros.. há pouco. Deixai disso. por favor. Isso não é bom? E conforme vosso espírito? SLIFT : Vendo morrer o boi. não é? JOANA: Não sei se o senhor fala sério. Eles não têm mais trabalho. vamos. MARTA. O mundo não poderá mudar se antes não mudarem os homens. isso de se retirar do negócio. MAULER: Eu tenho grande piedade pelos bois: o homem. ele decidiu abater O rico Cridle. Mas. Cedi por dez ao homem que vêem aqui. Um instante. Talvez por isso te ajude. Senhor Mauler. a Joana: Joana. MAULER: É que adquiri o maldito hábito De disfarçar a voz. Ele fala com Slift em voz baixa. Seu riso não me atinge. É bom. ele é mau. O homem. Embora já tenhas vivido mais de vinte anos. Diga-me que está certo E que isso te agrada. não me digas nada. Isso não é bom? Os fabricantes de conservas explodem em gargalhadas. Ele não é maduro ainda. Mas é uma gentileza. de resto. Ele se aproxima dos industriais. dêem o dinheiro. Melhor para ti que não os veja. Seu rosto me agrada. no lugar do pobre animal. JOANA – Isso é uma gota no oceano.. Tamanha inocência!. A canalha. A parte – doze milhões – que eu tinha na usina. por que fechou os matadouros? Eu preciso saber. nos matadouros dizem que o senhor é o responsável pela miséria deles. para o que pretendes fazer. aliás. E desejaria que fossem mais numerosos. Nenhum é inocente. JOANA: Senhor Mauler.10 Pois eu vi – e isso vos interessará – Morrer. dêem! Corja de carniceiros! Ele continua mexendo nos bolsos deles para dar dinheiro à Joana. Tome para os pobres. confesso. não me comove. São. Mas tendes consideração demais pelo destino dos pobres: Eles são maus. MAULER: Poderia eu ir mais longe? Porque ele é sangrento É que eu tirei as minhas mãos deste imenso negócio. Eu sei. JOANA – Senhor Mauler. pessoas extremamente más. eu sinto Que tu não gostas de mim. Desculpe-me. Abandonar esta empreitada. . Eu os verei chorar um dia..

Mas volte aqui amanhã. De saber o que queres saber. Azar. o quanto antes melhor. e enrola o seu.. e depois a siga. O JOVEM OPERÁRIO – O senhor pode confiar em mim. mas não pudemos parar as máquinas a tempo. e mostre a ela Como os pobres são maus e covardes.11 Chame ela de lado. SLIFT. que nada têm Além de seus vinte centavos por dia e seu chapéu negro. e ele entrou na faca e virou toicinho. senhor Smith. este homem será mandado para os quatro cantos do mundo sob a forma de toicinho. por suas vidas miseráveis. SLIFT: Em teu lugar não gostaria. ele te fará ver algumas coisas. Diga “para seus pobres”. E que não têm nenhum medo. UM CONTRAMESTRE. a um jovem operário – Um de nossos homens. É o primeiro que nossos tambores desalojaram Das trevas da vilania. é pavoroso. Aqui estão seu casaco e seu boné: pegue-os e façaos desaparecer. Ele sai. Quando a fábrica reabrir você. é o lixo do mundo. dê dinheiro a ela. Slift e Joana contornam o muro de uma fábrica. (O contramestre volta para a fábrica pela portinhola. Semelhantes a bestas. É preciso queimá-los. Luckerniddle. Entrego a você porque sei que é de confiança: se alguém encontrá-los em algum lugar. faz quatro dias. Isso pode funcionar. Estão ocupando inutilmente um cabide no vestiário. sobre o qual se lê: “Fábrica de Conservas de Carne Mauler e Cridle”: O nome de Mauler aparece riscado. e para mim. Sullivan Slift. ficará com a vaga de Luckerniddle. assim como o seu boné. E verás que tua piedade é descabida. IV O corretor Sullivan Slift mostra à Joana Dark como os pobres são maus: Joana desce às profundezas pela segunda vez BAIRRO DOS MATADOUROS SLIFT: Joana. Se isso falhar . JOANA. Ele ouviu nosso chamado. A Slift: Mal posso suportar a existência de seres Semelhantes a esta moça. Veja então o que ela compra. se quiser. é claro. caiu.E eu adoraria que não desse certo – Leve-a aos matadouros. cheios de traições.. vendo Mauler se afastar: Este homem não é mau. . em um jornal. agora eu vou te mostrar Como eles são maus Essa gente da qual tens piedade. Responsáveis. Dois homens saem por uma portinhola. é a escória. O amigo Pedaço-de-Toicinho não precisa mais dele. vestido com uma lata. JOANA. saindo – Um conselho: não te metas com as gentes dos matadouros. peguei para mim. Slift e Joana escutam. Se quiseres mesmo saber. o que causa má impressão.) É uma pena. perderei meu emprego. Ele veste o casaco. na caldeira. ela poderá Aceitar sem pudor. Mas seu casaco ainda está bom e isso também é uma pena. em uma palavra. enfim. vacilando: Estou me sentindo mal. JOANA — Eu quero vê-los. A Joana: Aqui está meu corretor. ele cairá bem. já que agora ele está em embalado.

Vamos. vou falar com ele. JOANA: Ela nunca aceitará. . GLOOMB – O feitor está bem ali. diga-lhe que procura trabalho. todo o tempo. SLIFT – Estamos dizendo que ele partiu para São Francisco. saindo para o trabalho.) Onde você conseguiu este casaco e este boné? Estes são os pertences de Luckerniddle. Eles chegam a uma cantina da usina e vêem diante de uma janela dois homens que olham para o interior. Eu ficarei aqui. Slift volta para junto de Joana. esperando por ele Mas ninguém diz nada. Eu tiro agora mesmo. No frio. que fizeram dele? Há quatro dias que estou aqui. é capaz de o meu quebrar já no primeiro golpe. E malditos sejam vocês Se lhe fizeram qualquer coisa! Slift caminha até ela. No ano passado me deixei seduzir pelos vinte centavos a mais que se ganha na fábrica de adubo. não diga mais isso. isso não lhe parece muito brutal? SLIFT: Bem. fui trabalhar no moinho de ossos e adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. dizendo tolices. ao meio-dia. senhor. Mas existem coisas Que importam mais para ela. Tenho a impressão de que você está prestes a cometer um ato impensado. obrigados a fazê-la. (Ele vai em direção a Gloomb). e vocês não querem que se saiba disso. Verás então o que é essa gente. nós não somos. aquele que se acidentou? O JOVEM OPERÁRIO – Por favor. Eu estou em uma situação muito ruim. Não procure mais saber o que se passou com seu marido e a senhora poderá almoçar. em nossa cantina durante três semanas.. DONA LUCKERNIDDLE está sentada em frente ao portão da fábrica. se quiser me ver. (Ele pára o jovem operário. gratuitamente. Antes eu gostaria de fazer-lhe uma proposição interessante. Joana e Slift seguem seu caminho. à cantina número 7. ele não foi para São Francisco. Por causa dele deixei minha mão na máquina de cortar chapas. SLIFT. pronto para encher a pança. na fábrica. de qualquer modo. senhora Luckerniddle. Já não posso mais trabalhar como antes e só consegui emprego duas vezes desde fevereiro. DONA LUCKERNIDDLE – Quero saber o que aconteceu ao meu marido. de forma alguma. Vamos cuidar para que essa seja a última vez. SLIFT: Guarde essas coisas. além dele. SLIFT – Se é esta a sua opinião. para nós. legalmente. Aconteceu alguma coisa com ele aí. então a senhora não pode aceitar a refeição que a fábrica lhe oferece. Venha. lamentando-se: Faz já quatro dias que. Amanhã. a Joana – Fique aqui. passe-me logo teu cassetete. é muito desagradável vê-la sentada aí. Mas reflita bem. se você não está precisando disso!. DONA LUCKERNIDDLE: Agora inventam que ele viajou! SLIFT – Deixe-me dizer uma coisa. e meu marido não sai da fábrica. Eu. senhor. O JOVEM OPERÁRIO – Mas senhor. Bando de açougueiros. Joana e Slift prosseguem seu caminho..12 SLIFT: Aí está a vida como ela é. enquanto não o vir. O JOVEM OPERÁRIO – Pode confiar em mim. SLIFT: Senhora Luckerniddle. DONA LUCKERNIDDLE: Eu quero que me devolvam meu marido. lhes digo. me encontrará na cantina. Vinte refeições são muita coisa Para aquele que tem fome. Esse salafrário se empanturra às nossas custas. Quando ele se aproximar. DONA LUCKERNIDDLE – Não. Senhora Luckerniddle: ele está viajando e. Não tenho outro esteio. seu marido está viajando. Você poderá comer e lhe darei um dólar se disser à mulher de Luckerniddle onde conseguiu o casaco e o boné. É por isso que lhe fazemos uma proposta: note bem que. ele me dizia: “Espere-me à noite com uma sopa quente!” Desde então não [voltou. mesmo à noite. Precisará nos processar.

desde hoje? DONA LUCKERNIDDLE – Não como nada há dois dias. Talvez a vaga deste contramestre. JOANA – Mas a senhora nem sabia que nós viríamos hoje. e então eu teria. não sabia.. O posto não é feito para gente fraca.. GLOOMB – Aquela moça ali? . E é um trabalho que pode ser feito mesmo por pessoas como você. GLOOMB – Rápido então. Apesar de tudo.. O que há para comer hoje? A GARÇONETE – Ervilhas. Ali adiante. calculando – Vinte refeições. Você se surpreenderá ao ver como o trabalho é agradável. Uma jogada dessas é melhor de se fazer à noite. Naturalmente você precisaria manter os ritmos de trabalho mesmo os dispositivos de segurança não sendo perfeitos. (Ao seu companheiro:) Pensei melhor. A maior parte dos trabalhadores a considera muito perigosa. por exemplo.) Você está procurando trabalho? JOANA – Sim. Disseram-me que não tinha ninguém além dele. por acaso. não muito fortes. no moinho de ossos. DONA LUCKERNIDDLE. Desde fevereiro estou sem emprego.. há uma moça que está procurando trabalho. estaríamos dispostos a reempregá-lo imediatamente. pode ser que mude de idéia..13 – Não tenho tempo.. e então eu poderia. Ela correu até aqui e já nos espera. JOANA – Não há realmente como me arranjar outro posto? Ouvi dizer que o trabalho nesta máquina era perigoso para quem não resistisse ao trabalho muito pesado. É preciso que ele pague hoje mesmo por esse sistema desumano do qual ele é o feitor. Naturalmente seria muito bom se nós encontrássemos alguém para esse posto. Adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. Se você. JOANA: Ela sentou-se ali.. O que mais verei? Eles entram na cantina. A GARÇONETE – Se a senhora não for comer. SLIFT – Que pena. temi que amanhã ela viesse. E eis que ela nos precedeu. GLOOMB – Você enxerga bem? JOANA – Não. já faz dois dias que eu não como nada. Eu imaginava que ela iria resistir. (Ele vai em direção a Joana. SLIFT – Gostaria de propor um meio de tirar-lhe dessa jogada. Eu sou inspetor nesta fábrica. DONA LUCKERNIDDLE – O que? Vocês pensaram melhor e estão retirando a oferta? Então eu não terei mais as minhas vinte refeições? JOANA – Me pareceu que a senhora se dava bem com seu marido. Ela não parece muito forte. encontrasse alguém. Os movimentos ficam menos firmes e pode-se prender as mãos nas serras. JOANA – A senhora já está aqui. JOANA – Vindo para cá ouvi dizer que aconteceu alguma coisa com o seu marido e que a fábrica é responsável. Slift cai na gargalhada e arrasta Joana. GLOOMB – Nada disso é verdade. Seria vantajoso para você. DONA LUCKERNIDDLE – É verdade. GLOOMB . SLIFT – Leve você mesmo a comida a ela. No ano passado fui trabalhar na fábrica de adubo. Ela senta-se em uma mesa. O posto que você ocupava na sua máquina continua vago e isto é muito chato. Não podemos perder esse safado. justamente porque você contou todas essas histórias a respeito de seus dedos. Joana procura um prato e leva à senhora Luckerniddle. A senhora Luckerniddle está falando com a garçonete.. depois do que eu iria. DONA LUCKERNIDDLE – Sim. tem que se retirar.. DONA LUCKERNIDDLE – Espero uma pessoa que deve vir hoje ou amanhã. e lhe daríamos até um trabalho mais fácil e melhor remunerado do que o antigo.. Tchau. Vai se perguntar como alguém pode contar histórias tão ridículas sobre esta máquina. GLOOMB – Posso confiar no que você está me dizendo? SLIFT – Sim. faremos isso amanhã à noite. meu senhor. É um bom posto? GLOOMB – É um ótimo posto. JOANA – Quase tenho medo de continuar.

os sofrimentos que suportam Esses pobres sem moralidade. SLIFT – E onde você conseguiu. DONA LUCKERNIDDLE. Desejas mostrar-me a sua imoralidade. E este jovem – em quem botaria fé Qualquer malandro -. SLIFT – Durante três semanas ela virá. SLIFT – E onde você comprou? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. certamente teria me prevenido Não fosse o preço a pagar por seu pequeno escrúpulo. Mostrar-te-ei. a vossos olhos contradiga Esta depravação que injustamente se lhes imputa. ao lado daquela mulher. o preço era muito alto. e que já apodrece. Mercadoria invendável. O que tu me mostraste Não é a imoralidade Dos pobres: é a pobreza deles. Ele foi obrigado a vender sua cólera. Que sua miséria. como vós a explorais! Não vês que nem teto eles têm. Tão cara a ele. preferido. e por mais justa que fosse. JOANA: Porões e armazéns abarrotados de carne. Mas vinte refeições. tu me dizes? Sua pobreza também é incomensurável. Continuar fiel à memória de seu marido. JOANA E procurar por ele. ao garçom – Deixe meu prato. Eu virei todos os dias. saindo. verdadeira manteiga! Banha fresca do Kentucky! OS COMPRADORES: OS FABRICANTES DE CONSERVAS . a imoralidade deles? Ela teria. Você a viu. esta mulher. (Dona Luckerniddle permanece em silêncio) Não pegue. V Joana apresenta os pobres à Bolsa de Carnes A BOLSA DE CARNES : Nós todos. como um animal. Joana? A imoralidade dela não tem limites! JOANA: E tu. Dona Luckerniddle arranca o prato das mãos dela e começa a comer avidamente. Fatias de toicinho Cridle-Mauler! Carne de filé Graham. Pois não há mais compradores! Do fundo do palco chega o jovem operário com seu casaco e seu boné. Ela se levanta e sai. eu. Um certo tempo ainda. Atrás dele:) Você tem um belo boné. comprem nossas latas! Carne fresca e suculenta. para colocar Ao abrigo da chuva. O JOVEM OPERÁRIO – Bom dia. Era seu único esteio. A senhora Luckerniddle sente náuseas. acreditas que ele teria mostrado À mulher do morto a roupa que usava Se tivesse tido a chance de escolher? O maneta. ninguém mais perguntará o que foi feito dele. (Ele senta-se. mas não em uma loja. e comerá sem levantar os olhos do prato. eu volto. então? O JOVEM OPERÁRIO – De um homem que caiu dentro de uma caldeira. com que habilidade torna-te mestre dela! Esta imoralidade. Sua imoralidade é sem limites. como muitas.14 – A senhora não quer esperar até amanhã? Se a senhora desistir de procurar o seu marido. estamos vendendo carne! Compradores. Você só precisa perguntar a esse senhor. (O jovem operário o esconde) De onde ele vem? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. posso comer aqui? SLIFT – Você só precisa sentar-se ali. Ela sai. como manda o costume. DONA LUCKERNIDDLE – Ele foi para São Francisco.

cozinhas e lojas Estão cheios até as bordas. Quando todos te seguem com olhos de lince Para ver o que fazes? Eu não teria cara. compradores. O que provocaria um movimento de alta. quase de graça. cubas. o que te escrevem? MAULER: Teorias. OS COMPRADORES: Nós compradores. os criadores. a visão da carne enlatada Causa náuseas. Frigoríficos entupidos de carne congelada. SLIFT: E teus amigos de Nova Iorque. Aproveitem então. E da banha de Kentucky. Mas ninguém quer comprar carne enlatada. Nas estações e nos pátios. SLIFT: Eu riria se. nenhum tinha dinheiro. O estômago do país. em Nova Iorque. MAULER: E mesmo a faca os recusa. ao trabalho de nossos [engenheiros. eles conseguissem Fazer cair de uma vez as taxas de importação. verdadeira manteiga. E abrissem assim o Sul aos nossos produtos. Não a agüenta mais. Clamamos aos berros por um consumidor que não existe. Saturado de carne em conserva. E graças aos perspicazes planos dos industriais da carne Nós conseguimos reduzir em um terço O preço do toicinho Cridle-Mauler. fabricantes. com nossos matadouros? Nossas fábricas estão cheias de bois. Esperando até ninguém poder Mexer nem o mindinho! E eu. Quem comprará agora nosso gado? Os estábulos estão cheios De porcos e bois devoradores de milho Que eles devoram ainda nos trens que os transportam. compradores. Nós não compramos mais nada! OS FABRICANTES: E nós. Comprem. Nós estamos perdidos! OS CRIADORES: E nós. comprem nossas latas! OS COMPRADORES: E sobre as montanhas fez-se um grande silêncio E as cozinhas dos hotéis escondem a face E as lojas se desviam com horror Os atacadistas mudam de cor. A morte Despreza esse gado e fecha-lhe a porta. OS FABRICANTES: Graças aos avanços da técnica. Do filé Graham.15 E sobre as águas fez-se um grande silêncio De todos os compradores. A dar-se-lhes ouvidos Seria necessário agora deitar por terra Todo o cartel da carne E deixá-lo estagnado durante muitas semanas. Engolindo nosso ouro junto com nosso grão. A nós. Temos diante de nós montanhas de latas. Nós iríamos perder o bonde! MAULER: E quando isso ocorresse! Terias a imprudência De tirar tua parte de tamanha miséria. . Nós queremos vender a carne em conserva E ninguém a quer! E todos os nossos clientes. caldeirões Convertem sem parar em latas de conserva As manadas mugidouras que pastam nos prados. dia e noite nossas máquinas Ligadas no máximo: salgadeiras. Eu teria sobre as costas toda a carne! Idiotas.

eu acabo de saber.apontando para Mauler: Falem com ele! CRAHAM – colocando-se diante de Cridle: Não é Cridle. Ele poderia exigir seu dinheiro quando quisesse. o que desejo. antes de qualquer coisa. Quero apenas meu dinheiro e a paz de minh’alma UM CORRETOR – urrando. Tumulto entre os fabricantes. MAULER – O próprio Cridle me confessou que está insolvente: se eu deixasse meu dinheiro com ele. Cridle. Voltai para casa. Não é de hoje que fazes tais manobras. Desde aquele dia. mas três milhões. CRIDLE – dirigindo-se aos que o cercam:. que já se arrasta. e o conjunto das fábricas vale dez. Cala-se e aponta para o dedo para ti. então! OS FABRICANTES – a Mauler: Corre o boato que teu capital. OS FABRICANTES: O que significa isso. Pois tu liquidaste. por dez milhões de dólares. Esses dez milhões são exatamente a soma que devo a Mauler – e ele a exige em vinte e quatro horas. Cridle? Levanta os olhos. Carrega em sua queda as cotações de todo o cartel!. eu quero o meu dinheiro. tu o retiras Do negócio e Cridle. nesta conjuntura.investindo contra Mauler que lê o jornal: Traidor. Cridle. E exiges dele o pagamento sem demora. antigamente Mauler. Tu te desfazes de tuas ações? UM CORRETOR: A cento e quinze! OS FABRICANTES: Ficaste louco? Tua morte. provoca muitas outras! Lixo! Assassino! CRIDLE . ave de agouro. já vinham caindo. Mauler! Fala. ao fundo. e ficando com as outras. nós somos os peixes! O que querem arruinar. Mas somos atingidos pelo que lhe acontece. que se lançam sobre Cridle. Eu me propunha pagar-lhe vendendo uma parte das ações dele mesmo. Hoje os papéis de Mauler não valem mais dez. OS FABRICANTES: Quando ages assim com Cridle. que conspurca nosso ninho! Nós sabemos bem quem fez os preços caírem sem cessar Vendendo gado por baixo do pano. ele vem realizando secretamente vultosas vendas de gado a preços baixos e provocou a queda das cotações que. olha para nós! Assim. estava acordado. Falai que um dentre os vossos Não pode mais suportar o grito dos bois morrendo E aos mugidos deles.16 . ao invés de trinta. quem de vocês continuaria a me levar a sério nos negócios? Ora. de toda a maneira. É bom que ele seja nosso adversário. na entrada da bolsa: Queda gigantesca das cotações na Bolsa! Venda maciça de ações. OS FABRICANTES Essa gente não faz as coisas pela metade. MAULER: Açougueiros insolentes é o que sois! O animal torturado parou de mugir. mas um outro Quem joga a rede. . é o cartel da carne.. Isso representava um terço do total das ações.Há quatro semanas apenas eu assinei um contrato com Mauler. pálido como algodão. preferiu o vosso. nem que fosse por mais uma hora. é que me levem a sério. Veio a baixa. todo teu estoque. Ele queria me vender a sua parte.. MAULER: E por que matastes tanto gado? Açougueiros alucinados sois vós! Agora. que estavam valorizadas. Para acabar com Lennox. Foste tu mesmo quem provocou o marasmo! Nossas latas agora não saem mais caro Que a areia dos mares. a preço vil. E vós soluçais nas saias de vossas mães.

com isso. E nós dizemos: é preciso ir sempre adiante. Com o único objetivo de ajudar o próximo. . Pois os bons nesse mundo Não formam um grande exército. Graham. onde cada um revela Sua boca desnuda. pois preciso partir. olhos para ver? Ele é vosso irmão. então. detenham todo o tráfego Em torno de vós os seres naufragam. JOANA . Mauler. o responsável Por esta catástrofe. Eu não quero que me vejam aqui. fiquem diante de mim. Ouvem-se os tambores dos Chapéus Negros e a voz de Joana.Pierpoint Mauler! Onde está Mauler? MAULER: O que é esse barulho de tambores que de súbito me envolve? E quem chama pelo meu nome Nesse lugar. cem dólares pelo meu chapéu. com nossos bois Que hoje ninguém mais quer. Durante esse período a batalha na bolsa continua.Nenhuma sequer! OS FABRICANTES – Então. Estimularam-nos a criar bois. Eu quero meu dinheiro. OS CRIADORES: Impossível vender um boi em Chicago. Para Illinois esse dia é um desastre! Vocês fizeram os preços subirem. OS CRIADORES: Lennox já caiu! E Cridle balança! E Mauler. seu cão. Fazer avançar os tanques e os canhões. seja quem for! Levantai o nariz de vosso prato. mas rápido! OS COMPRADORES . para comer? Pensai convosco mesmo: sempre será assim. E. E ninguém se preocupa. Os que nos escutam. nós estamos perdidos! JOANA – Onde está Mauler? MAULER: Slift. OS FABRICANTES: Oitenta e sete mil latas pela metade do preço. Meyers. pois tenho outros projetos.17 Mesmo que tivésseis todos que mendigar. Uma mulher nos faz sinais de aflição. acompanhada de exclamações. Uma explosão de gargalhadas toma a frente da cena. Lançar ao mar os navios de guerra E nos ares. Ei. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Escutem todos. Não esperem o amanhã! Cada um deve nos ajudar. Haveis então esquecido Os que esperam diante da porta E que esperam. Nesse mundo sempre reinará a injustiça. não saia! Graham. mas rápido! OS COMPRADORES . suja de sangue? Joana e Marta avançam e cantam o seu hino de guerra. Meu chapéu. És tu. E ninguém se preocupa Não tendes. meu chapéu. ele retira o seu dinheiro! OS FABRICANTES: Oitenta mil latas a cinqüenta. Mauler. Avante! Ao assalto! Empunhem os fuzis! Diante de nossos olhos os homens naufragam. Não falemos mais de negócios.Nenhuma sequer! Silêncio. Ei-nos aqui. MAULER: Por hoje basta. escutem bem! Um homem afunda sob os nossos olhos! Escutamos lá no fundo seu apelo por salvação. os aviões Para conquistar o pão dos pobres. Parem os carros.

replicando: Imbecis são vocês! Ninguém pode nada contra as crises! Bem acima de nós. Nos baixios. vocês. Se os senhores continuarem tergiversando. JOANA – Um homem de negócios também pode ser um bandido – dependendo do ponto de vista. a quem os senhores transformaram no que são. engodos e combinações para aumentar o preço da carne. Cujo ciclo pavoroso sempre recomeça. as leis econômicas. Mas então eu lhes pergunto: de onde tirariam eles alguma moralidade. eles que nada têm? Senhores. e escute o que eu tenho a lhe dizer. a Revolução. Causais vossa própria queda! Bando de imbecis! OS FABRICANTES. os senhores se enganaram. imaginando que não virão à tona suas manobras. tanto hoje quanto no dia do juízo final. nas favelas. OS POBRES – Ele é o responsável por tudo! Os fabricantes de conservas correm para socorrer Mauler. Inverno e verão nós dependemos do tempo: nós também estamos mais próximos do Deus de nossos pais do que os senhores. que sentam nesse palácio. pobres e deploráveis imbecis. Mas nós lhes dissemos que é um imbecil. seus mugidos serão testemunhos. acabarão tendo de comer sozinhos a carne que produzem. buscando desculpas. CRIDLE OS CRIADORES: Como? Somos asfixiados e ninguém pode fazer nada? A causa de nossos males é a imoralidade De vossas armações escusas. são todos uns imbecis. COMPRADOR. que os pobres não têm muita moral. gritando – Afastem-nos! Ele desmaia. JOANA – E qual a causa desta imoralidade no mundo? Poderia ser diferente? Se cada um é obrigado a rachar com um machado a cabeça de seu próximo para fazê-lo ceder seu pequeno pedaço de presunto e sua migalha de pão. todo-poderosos. E os senhores. é lá que mora a imoralidade no estado puro e. em tom de reprovação Aqui estamos com nossos bois Que hoje em dia ninguém quer. Já me disseram o que os senhores fazem: manobras. Aumentem-no. OS FABRICANTES: Água para Pierpoint Mauler! . e diante de Deus TodoPoderoso. Joana mostra aos negociantes os pobres (Luckerniddle e Gloomb) que ela trouxe. o salário. nesses lugares sombrios e secretos onde os senhores tratam de seu comércio. e é verdade. ao fundo – Pierpoint Mauler passou mal. existe também um poder de compra moral: o dinheiro. Silêncio! Não lhes agrada muito. então em suas costas os bois começarão a mugir contra os senhores. Se continuarem a agir assim. Traçam essas desconhecidas. ver surgir a nós. atrás de mauler – Fique senhor Mauler. Reparem então nestas gentes. Senhores. JOANA – Mas os senhores. em conseqüência. como fazem em seus jornais.18 – Maldito sejas! Cridle sai. que se dobram sob o fardo de suas penas. nada além disso. e a quem não querem reconhecer como irmãos. tereis a moralidade. Não tenham vergonha. eu bem sei. gritando: Por vossa especulação desenfreada. que fazem subir o preço do pão e que fazem da vida um inferno onde os homens viram demônios. nada querem saber da miséria que existe fora deste recinto. pois os que estão lá fora já não têm como comprar. Mas se os senhores acreditaram que seus procedimentos permaneceriam ignorados. os Chapéus Negros. como não seriam os valores mais elevados esmagados em seu coração? Sempre ouço dizer. aí pelo mundo. Risos OS CRIADORES – Nós criadores não encontramos nestas palavras motivo para o riso. UMA VOZ. As crises são catástrofes naturais. JOANA. MAULER. avancem à luz do dia. destinos inelutáveis. Vossa imunda cobiça. OS CRIADORES.

E lá. Torna-se comprador. Eles. Compro. então Para querer fechar a boca do Bom Deus? Não se deve calar a boca de ninguém.. Eu vos mostro agora a pobreza dos pobres.19 Um médico para Mauler! JOANA: Mauler. Quem em seu seio habita Jamais será infeliz. cantemos: “Nunca faltará o pão. Invisíveis para vós. voltando a si – Eles ainda estão aí? Eu suplico que os afastem. E fome nunca se passa. nós nunca tínhamos visto. Os que estão atrás. e por vós mantidos Nesta pobreza. como eles sim. OS FABRICANTES – Quem? Os Chapéus Negros? Quer que eles saiam? MAULER – Não. E vós. Eles parecem bem piores. vos rogo. para eles inacessíveis. estão tão enfraquecidos. nós conhecemos. deitado no chão – Eu compro. A tal ponto dependentes de alguma comida E de um pouco de calor. a contar de hoje. JOANA: É isso. SLIFT – Ele não abrirá os olhos enquanto não os fizerem sair. levantando-lhe a cabeça – E os estoques? MAULER. aí em cima. também ao preço de cinqüenta. MAULER – Agora. MAULER. em 15 de novembro. MAULER: Afastem-nos. afastados dos bens indispensáveis. eu.. o que fazeis? Vós me ordenastes não dizer uma palavra. eu vou falar.” OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Nunca faltará o pão Ao que dedica a Deus sua alma. CRAHAM – A cinqüenta? MAULER – A cinqüenta! CRAHAM: Ele comprou tudo! Vocês ouviram: Comprou tudo! CORRETOR. vós me mostrastes a imoralidade deles. meus amigos. Mas os dois que estavam ao lado dele. Mauler. Mas quem sois vós. ao preço do dia. assume compromisso sobre a produção de dois meses. que mantendes longe de vós. OS POBRES – Gente como essa. OS FABRICANTES – Ele comprou! Mauler comprou! MAULER – Ao preço do dia! CRAHAM. Nem mesmo do boi que esmaga espigas com seu casco! Em todo o caso. antes de partirmos. pelo menos cinqüenta mil toneladas de conservas. Eles o levantam. E não basta que cerres as pálpebras Para que eles desapareçam. por favor. eu compro! Escutai todos: Pierpoint Mauler compra! Que estas gentes tenham trabalho e que se afastem. cumprimos nosso trabalho de [missionários. eles não. Tu quem os reduziu à tamanha miséria. levai-o agora. . O cartel entregará a Pierpoint Mauler. No seio de Deus não há frio. levantai-me. JOANA – E agora. Nós. Que viver assim pode mesmo afastá-los Da necessidade de um ideal. CRAHAM: Então! Não podes vê-los? No entanto foste tu. Aos pobres: Segunda-feira vocês terão novamente trabalho. Além disso. tudo o que em oito semanas conseguirdes [fabricar. de todos os estoques do cartel. e reduzi-los À voracidade. ao fundo. gritando em um megafone – Pierpoint Mauler reanima o mercado da carne. ao instinto animal. qual burros de carga.

então. Pois o contrato que acabam de ver firmado É apenas um pedaço de papel. seguidos dos criadores. É preciso. Não o deixaremos descansar Enquanto um homem precisar de ajuda. na Rua Lincoln. aqueles que o recebem. cutucá-lo. dirigindo-se à Joana Aquilo que disseste e tua intervenção Causou-nos forte impressão. Pois ele pode vir em auxílio. E vocês precisam dela. Os patrões vão reabrir.20 OS COMPRADORES: Este homem está ruim da cabeça. VI A Captura dos grilos NA CIDADE CASA DO CORRETOR SULLIVAN SLIFT. OS FABRICANTES: Podem guardar sua carniça podre! Não estamos interessados em comprar. Agora os senhores podem respirar. Nós estamos sob uma miséria atroz. nenhum. Joana e os Chapéus Negros saem. a sabedoria triunfa. e diga se realmente todos podem ler em meu rosto? SLIFT – Ler o quê? MAULER – Ora! A minha profissão! SLIFT – Teu ofício de açougueiro? Diga-me. saturado de conservas. dentro da casa. JOANA: Saibam todos: estou de olhos em Mauler. Slift. Contra a desrazão. Nesse momento o mercado recobra a saúde. Para tal negócio. Recusa-se a engolir mais. por que te impressionas com os discursos dela? MAULER: . os operários entrarão. ao criador: O que Mauler promete. Ele cumpre. Sábia decisão. de São Francisco a Nova Iorque. Aqueles que dão o pão. O estômago do país. Se estiverem muito necessitados. E ele faz meter carne em latas Que ninguém comprará. não é. As fábricas reabrem e as chaminés fumegam! Pois efetivamente é de trabalho. pois nós também. PEQUENO IMÓVEL COM DUAS SAÍDAS MAULER. às duas horas. açougueiros infames! Enquanto vocês não dobrarem o preço do gado Não entregaremos um só grama de carne. Música a partir das 3 horas. OS CRIADORES: Agora os preços subirão. Mauler. Podem esquecer seu nome. Os fabricantes de conserva saem. Sua consciência já despertou. sabiamente acatada. ele não encontrará Um centavo. discute com Slift – Fecha a porta. Muitos criadores se transtornaram. JOANA – Todos aqueles que se interessam realmente pela palavra de Deus e que querem saber o que ele diz e não apenas a cotação da Bolsa podem vir domingo à tarde assistir nosso ofício. liga as luzes e agora repara em mim. enfim do ponto morto! Confiança e concórdia estavam fortemente abaladas. entrada gratuita. O homem que o assinou não estava em seu juízo. SLIFT. Venham comigo procurá-lo Para que ele os tire do embaraço. Escutem: saímos. Que carecem tanto uns como os outros? CRIADOR.

talvez. Isso não pode mais perdurar. (À parte:) Farei com que ele coma um filé muito mal passado. Se nos apanharem um dia. que mais não vi. Seremos colados ao muro. Onde o fogo arde embaixo Enquanto congela-se em cima. Para limpar esse mundo. Há sempre boquirrotos que acham Que as coisas não andam como deveriam. de onde se eleva uma cólera Que nos varrerá a todos. por mais externa e sem importância que ela seja.. Por trás havia rostos selvagens. retorna. Tudo isso são ainda meras desculpas O que temo não é Deus. A urrar de aflição. Não. vejo-te mergulhado na contemplação de teu ser grandioso. Para estes que caem em nossos porões sangrentos.. Sob a chuva e de barriga vazia.. Slift.21 O que ela disse? Eu não ouvi nada. Esquecer todo o resto. então? MAULER: O que vive abaixo e não acima De mim! Esses seres reunidos nos matadouros. . irei confessar-te Minha verdadeira opinião sobre nossos negócios: Comprar. Certamente porque essa gente trabalha a troco de nada. Não há mais consolo.. Nós e nossa corja. caro Pierpoint? Pense que agora podes fazê-lo sem peso na consciência. lançar-nos-ão Ao chão como um peixe podre. Que não sabem como passarão a noite mas. no entanto. Máscaras da aflição. Tão forte.. vender e lutar sem parar. SLIFT – E o que é. Esfolarmos uns aos outros friamente. Talvez depois de comer carne crua ele retome seus instintos. mas permita que eu te exponha simplesmente a situação. Então creio sentir Como um peixe aprisionado entre duas águas Pauladas na espinha. pois desde essa manhã tu nada tens a ver com a morte dos bois. Nós que aqui estamos. Agora. É sua antiga fraqueza que retorna. meu caro Slift. a humanidade. SLIFT – Não queres comer um pouco de carne. Levantar-se-ão com a aurora e por-se-ão em marcha. Não conheceremos a morte em nossas camas. E dezoito horas por dia. Seu número aumenta a cada dia. E pense em tua situação: ela não é muito boa. E quando da onda emana uma voz Que nada tem de bestial. urrando. por mais louca que seja. eles são muito numerosos. Eu deveria podê-lo de novo. SLIFT: Em cidades como as nossas. Fórmulas tomadas ao coração.. MAULER: Sempre me pergunto por que essas tolices me afetam: Discursos plenos de utopias. É outra coisa. MAULER: Mas que dizem eles? Essas cidades São um braseiro jamais extinto Onde. MAULER: Tu crês que eu deveria? Eu poderia. Sabias que tu compraste hoje tudo aquilo que pode ser colocado dentro de uma lata de alumínio? Meu caro Mauler. SLIFT – O discurso deles te perturbou. Ele se afasta e começa a grelhar um bife no fogão. um após o outro. Tagarelice vazia e fácil. qual onda. não é? SLIFT – Come.

Facilmente nascem guerras À custa de tais atitudes. Slift. a não ser que golpeie Y Se ele golpear. Sob o fardo de toneladas de latas de alumínio. sim! Eu comprei carne. ou a vinte e cinco. Mas não foi por causa da carta. Estão erradas. eu estou perdido! Esse é o meu fim. continuando a leitura . Na carta que recebi de Nova Iorque essa manhã. Ainda pela manhã. Mas esta mulher comoveu-me a tal ponto Que mal lancei os olhos. eu me escutei dizer: “Eu compro tudo”. MAULER: Oh! Slift. eu comprei! O que eu fiz! Coloquei sobre minhas costas toda a carne desse mundo! Trôpego. de anunciar-te que nosso dinheiro começa a render seus frutos: muitos são aqueles que. de resto. muitos de meus concorrentes balançavam. assim.” SLIFT. É coisa que também não se deveria fazer. MAULER: Tu compreenderás. Os preços baixarão novamente..22 Primeiro compraste ao Cartel um estoque de vinte mil toneladas de conservas. Parece. SLIFT – Tu deves fazer o que? MAULER – Comprar carne. Corromper ou abolir as tarifas. Ah! Meu caro Slift. eu tenho a impressão De que nada de bom sairá daí. SLIFT – E o que escreveram. Tu as compraste a cinqüenta mas. Em quinze de novembro. Sim. amanhã. caro Pierpoint. eu não agi por razões vis. E uma vez lá. os preços Subam? E nós acabaríamos. hoje. SLIFT: Tudo depende de quem escreve a carta. eu comprei.“Estamos em condições. Mas ainda há a carne Que no mercado liquidarão cem criadores Muito ávidos. Escuta: X comete um roubo. então? Mauler sorri. Não. SLIFT – E por que reclamas de ter comprado? MAULER – Sim. Ah. teus amigos de Nova Iorque? MAULER – Que eu devo comprar carne.. Aqui está: “Caro Pierpoint. Eu fui vê-los cair. os preços cairão a trinta. então. Essas pessoas são gente de bem? MAULER – É gente com liquidez. na melhor hipótese. na Câmara. Realmente eu não vejo sentido nesta carta. Então pode ser que. O ladrão está perdido. rir-me deles. safa-se. escapando bem.. qual Atlas. comprar carne. eu estou perdido. quando os preços estiverem em trinta. indicado. Milhares de homens sangram Por causa deste imundo dinheiro. dizer-lhes Que ninguém era louco o suficiente Para comprar carne em conserva. mas Y o surpreende. eu te juro. Nas semanas vindouras. Não é qualquer um que pode. mais notícias. Ou desencadear guerras. MAULER: Corromper assim. Receberás. Essa seria uma saída. sob os arcos de alguma ponte. deverás escoá-lo em um mercado que já não consegue absorver uma única lata. SLIFT – Quem são. apesar de tudo. é verdade. . SLIFT – E tu compraste! MAULER: Oh. essas teorias de gabinete. Cairei. o Cartel te entregará mais cinqüenta mil toneladas a cinqüenta. acredito. esmagado. eles me escrevem para comprar.. votarão contra as tarifas aduaneiras.

Mas então. nem chapéu nem sapatos. àquela gente que está com ela. eu estou comprando e compro ao preço do dia. Senhor Mauler. OS CRIADORES. tentará sair pela outra porta. Compra então o nosso gado! MAULER: Fecha a porta. A operação é simples: seria preciso comprar Todo o gado que se encontrasse em pé. MAULER: É verdade. Slift. no fim. eu não quero meter o dedo neste negócio. das fábricas paradas. Slift. Slift tragame tudo o que se pareça. SLIFT – Qual crime? MAULER: Um crime que eu não poderia cometer. Devo comprar ainda todo o gado de Sírius? É como se alguém viesse dizer a Atlas Que não mais agüenta. E nós somos. grandes lucros! É verdade que o ganho seria apreciável. então. sobretudo. diante da porta da esquerda – Enquanto os criadores não forem ajudados. Ele não gosta muito de me ver. Ele desenha um “A” na porta de um armário. Ele pede-vos dois minutos de reflexão. Lembrá-los de Lennox. Os enganados serão os criadores. Slift volta. SLIFT. aos criadores – Pierpoint Mauler está examinando vosso pedido. E comprar-lhes tudo.) Slift. (Os criadores colocam-se diante da porta da direita. Agora. Mauler. é preciso que eu lhe fale da miséria dos criadores de Illinois. a cinqüenta. Joana diante da porta da esquerda. MAULER – Eu não compro. Persuadir os criadores da oferta excessiva. Vais comprar todo o gado de Illinois. não sairemos daqui! MAULER – Tu dizes Graham? É verdade que ele precisa de gado? Saia. Que eles tirem. Eu fiz “A”. mais de dez mil criadores que não sabem mais a qual santo rezar. JOANA.. SLIFT – Não deverias ter comprado. Joana entra acompanhada dos criadores. Slift. em todo o Illinois. Pierpoint! MAULER: Ah! É verdade.23 Da mesma maneira a carta – que está errada – Requer – para acertar – um crime desta ordem. de perto ou de longe. com um porco ou com um boi.).) Saia. Quando ele me ouvir cantar aqui. de seus delitos. No interior da casa. Nem a mim nem aos que me acompanham. Também trouxe alguns trabalhadores que adorariam perguntar-lhe quando o senhor reabrirá a sua fábrica. minha decisão está tomada. eu não comprarei! Eu que já carrego toda a carne desse mundo. (Ele calcula. Não. depois. SLIFT Tu que não querias mais comprar um chapéu. a partir de hoje. como quem captura um grilo. Vão para lá. e diga-lhes que quero refletir dois minutos. dobrando-se sob o peso da terra: Saturno também precisa de apoio. (Ela ri. Traga-me até a menor mancha de gordura. quero paz em minh’alma. Slift. Pois. Retumbar de tambores. SLIFT – Por aqui. para o outro lado. para evitar me encontrar. Slift? Não quero reencontrá-la e. E por agora também não penso em reabrir a fábrica. JOANA – Nós o faremos sair de sua toca. Tu és o responsável por nossa desgraça. Isto é o principal: Sumir com o gado. Quem me comprará. não foi bom. eu vou comprar.. Slift sai. todo esse gado? SLIFT – Vejo apenas Graham. Feliz se. que precisa bastante. Eu não compro mais nada. Antes de ter saído dessa. e tudo o que cheire à banha eu compro também. MAULER – A outra saída onde é. eu compro. diante da porta da direita – Sai. Toda a carne posta em conserva até hoje. ele se dirige à porta da direita. é verdade. tiver cem dólares no bolso. .

O dinheiro nos permitirá também pagar à nossa querida proprietária. pois eles sabem que as fábricas receberam encomendas. Pierpoint Mauler resolveu comprar todo o gado que se encontrar no mercado. acabamos constatando que esses segmentos demonstraram. Comandante dos Chapéus Negros. grita a eles – Digam ao senhor Mauler que os Chapéus Negros lhe agradecem. dona Mulberry. Ela sai. sai e se dirige aos criadores – Para salvar Illinois e impedir a ruína dos fazendeiros e criadores. JOANA. BISPA SNYDER – Agora. Talvez isso tenha a ver com o fato de que eles não possuem nada. BISPA SNYDER – Não se aproximem muito da caixa! Ele fez sinal para que eles recuem até o fundo. em nome de Deus. caros ouvintes! Para resolver o delicado problema do financiamento nós até agora apelamos aos pobres e aos mais pobres. pelo que acaba de fazer. e. entre os quais dona Luckerniddle e Gloomb:) Vocês de novo? Vocês passam a vida aqui? O trabalho voltou nos matadouros! DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. Que dão medo de olhar. Faça entrar os fazendeiros. proprietária do imóvel. o que foi feito dele? BISPA SNYDER – Meus caros Chapéus Negros. sobretudo. Em seguida comete “B”. mas não fizeram nada. um grande golpe no ateísmo e no materialismo que reinam nesta cidade. OS CRIADORES – Viva Pierpoint Mauler. sábado próximo. Infelizmente.24 Dominado por seus sentimentos. para vocês também haverá pão novamente. Eles não são como os outros. Eles não têm teto. não se esqueçam de varrer a escada. Aos pobres:) Digam-me. Alguém se equivoca: “A” é um erro. não é preciso que as vendas sejam feitas em seu nome. Entra dona Mulberry. (Aos operários:) Quando os que compram gado e os que o vendem se acertarem. Mas Deus todo poderoso Achará os meios de alimentá-los! BISPA SNYDER. Eles não têm pão. que são gente de bem. sobretudo nas camadas inferiores da população. salvador do comércio! Eles entram na casa. GLOOMB – Muitos já dizem que se não empregarem a violência não haverá trabalho para todos tão cedo. Assim eu decidi. ao fundo. VII Os mercadores são expulsos do templo TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS Sentados em uma longa mesa. dão certo. minha cara dona Mulberry. convidar em vosso nome as pessoas ricas e bem colocadas de Chicago. GLOOMB – No começo falaram em reabri-los. DONA MULBERRY – E meu aluguel. (Os Chapéus Negros saem. E eis que “A” e “B” tomados juntos. se levantando – Que mixaria! Que mixaria! (Dirigindo-se a alguns pobres. uma avareza completamente inexplicável. Suas misérias são grandes. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Recolham cantando Os trocados dos órfãos E os trocados das viúvas. os dispensados esperam ainda pacientemente na porta dos matadouros ou já começam a dar discursos revolucionários? DONA LUCKERNIDDLE – Desde ontem gritam bastante. Trabalham duro e vestem-se decentemente. mas por enquanto não se preocupem. frente a Deus. Mas seu nome não deve ser mencionado. o aluguel que ela tão gentilmente tem adiado. DONA MULBERRY – O que me agradaria muito. os Chapéus Negros esvaziam suas latas de ferro e contam ao óbolos das viúvas e dos órfãos. SLIFT. que cada um volte alegremente às suas funções. . que eles nos ajudem a desferir. tão errado quanto “A”.

Graham. Do lado de cá. a Snyder – Desembuche! Eles se sentam no banco dos fiéis. MEYERS. senhora bispa. confesse Slift.. mais então. a Snyder – Todos pobretões. Graham. BISPA SNYDER MEYERS Há um cretino que razia o gado E que sabe bem que estamos comprometidos A entregar carne enlatada E que. Bispa Snyder! Todos riem. recompensados por suas penas. Já é melhor. tomar as fábricas em nossas mãos para que todos possam trabalhar e comer. bispa. no púlpito – Nós. BISPA SNYDER. E que alguns entre eles começam a resmungar e a dizer: devemos nós mesmos cuidar do negócio. Se vierem para cá tocados a pedradas. MEYERS – O que não será fácil.. sem que ninguém saiba como. é saber de que lado vocês estão! Desse lado da barricada ou do outro? BISPA SNYDER – Os Chapéus Negros. mas que serão. os reis da carne nos escutarão mais facilmente. SLIFT – Quem poderia ser? GRAHAM. sim! Vocês agora terão que achar alguém que faça a doação.. Deus é testemunha. Porque já começam a dizer por todos os lados que a desgraça não cai do céu como a chuva. GRAHAM – Confesse. (Aos pobres:) Vocês não poderiam ao menos cortar lenha para nós? OS POBRES – Não há mais lenha. quinhentos? GRAHAM – Quinhentos sim. MEYERS – Setecentos e cinqüenta. Slift? (Slift simula um ar astucioso e exagera na mímica do ato de dar dinheiro). que eles estão destinados ao sofrimento. SLIFT – O essencial. diremos a eles que a desgraça vem como a chuva. e vá dizer ao Pepê Que afrouxe o laço. na frente do palco – Então. portanto. Que tal. MEYERS. onde poderia estar todo o gado! GRAHAM – É o que eu me pergunto também: onde poderia estar? SLIFT – Eu me coloco a mesma questão. Quinhentos dólares. OS FABRICANTES – Por que falar em pagamento? BISPA SNYDER – O pagamento do qual falamos é feito após a morte. tão certo quanto eu estou aqui.25 – Isso nos é favorável. portanto. Na mosca. sem dúvida? SLIFT – Sem dúvida. precisamos do gado. SLIFT – Mauler e eu não compramos um centavo sequer de gado. o Pepê está com o gado. após a sua morte. estão acima da querela. são vocês que estão com o gado. Senhor Slift. SLIFT. não gosto disso.. ouvimos dizer que há nos matadouros cinqüenta mil pessoas sem trabalho. não enrole. OS FABRICANTES – E quanto querem pelo serviço? BISPA SNYDER – Oitocentos dólares por mês. um dia. precisamos de sopa quente e música animada.. vocês certamente precisam. (Os fabricantes de conserva caem na gargalhada) E tudo isso por apenas oitocentos dólares por mês! GRAHAM – Não precisas de tanto. os Chapéus Negros. (Aos outros) Eles carecem desta quantia. a Snyder – Quinhentos dólares? Isto é muito dinheiro! Quem vai pagar? SLIFT – Ah. os Chapéus Negros. dando-lhe um soco na boca do estômago: Velho cão imundo! Vamos. minha cara. MEYERS – Eu me pergunto. então. GRAHAM. novo soco – Que tu achas que eles querem. Entram os fabricantes de conservas: Cridle. E já citam vossos nomes. . afirmando que sois vós os responsáveis pelo desemprego! Em breve eles dirão: queremos fazer como os bolcheviques. Nós. a Snyder – O que querem de nós? GRAHAM. É nosso nervo vital! SLIFT.. Meyers. a Meyers – Essa senhora não tem senso de humor. Slift. Slift! MEYERS. menos Snyder. BISPA SNYDER – Podemos dar um jeito com setecentos e cinqüenta. mas que ela é provocada por aqueles que dela tiram vantagem. GRAHAM – Até tu? E Mauler também. Nós também prometeremos a eles que os ricos serão punidos.

Haveis perdido então todo o respeito pelo que se parece humano? E ousais anda vir à casa de Deus porque possuem o vil metal? Sabe-se bem de onde haveis tirado esse ouro e como o haveis adquirido. avançando: As vinte refeições foram comidas! Não te irrites. Nós queremos reabrir nossas fábricas. e nessa atitude há alguma coisa que parece exploração. Parece que podes fazê-lo agir ao teu gosto. ela está espantada – O que fazem vocês aqui? DONA LUCKERNIDDLE. mas não fizeram nada.) Saí! Quereis transformar a casa de Deus em um estábulo! Saí! Nada tendes a fazer aqui! Cabeças como as vossas. da tua vista sairia. e a religião vos parecerá de novo algo de muito bom. JOANA. JOANA – Por que não trabalham? Não arranjei trabalho para vocês? DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. comprou-vos conservas Por minha solicitação! E não reabristes ainda? OS TRÊS – Está correto. ajudo também aos de baixo. entretanto. vós então vos borrareis todos. empunharem um porrete para bater em vossas cabeça. É preciso ser muito tonta! Na verdade. SLIFT – Mas querem antes estrangular os agricultores! OS TRÊS – Como abater gado que não existe? SLIFT – Quando Mauler e eu compramos a carne de vocês. Mas agora. indo de um lado a outro. E eu. olhando os pobres. Não me detenham.No começo falaram em reabri-los. Saí. Se fizeres isso por nós. Para que ninguém mais vá olhar de perto. se os consumidores não têm com o que pagar? JOANA – Em vossas gigantescas instalações e vossas fábricas detendes as ferramentas dessa gente: deveríeis ao menos permitir que eles as usassem. Estou pronto. sem pena também Esqueci o que todos se apressam em esquecer Para rapidamente estar em paz com suas consciências. e rápido. senão ficam imobilizados. Mas o Bom Deus tem uma opinião muito elevada de Si mesmo para ser sempre a vossa babá para todo o serviço e para vir limpar vossas cavalariças. e eu. (Joana sai atrás deles com o mastro de uma bandeira. mal tendo sido saciada. ao me veres aqui. senão lançar-me-ei sobre vós e golpeá-los-ei a cabeça. aos fabricantes: Esses pobres continuam a esperar trabalho? Silêncio dos fabricantes Eu que pensava que eles estavam arranjados! Faz já oito dias que neva nas costas deles. Basta que alguém diga: está acertado. GLOOMB. avançando: Eu te conheço: tentei te convencer A trabalhar nas serras que me cortaram o braço. JOANA. eu sei o que faço. que ela usa como se fosse um porrete. Dirigindo-se aos fabricantes: Mauler. Se essas pobres criaturas. É o seguinte: alguém sumiu com o gado do mercado de uma maneira que somos obrigados a ficar de olho em Mauler. pois. perdi demasiado tempo até sabêlo. própria para jogar água na fervura. Esta neve os mata. qualquer um que queira ajudar aos pobres deve ajudá-los a protegerem-se de vós. hoje. que haveis atormentado ao extremo. É preciso que ele libere o gado. Os Chapéus negros aparecem na porta. GLOOMB . gritando alto a Joana – Ah. nós não queremos mais ver. Dizem que ele come na tua mão. e que os operários poderiam comprar a carne. para fazer pior. mas também os esconde De todos os olhares. supúnhamos que iriam retomar o trabalho. Mas cruel é a fome: Renasce sempre. pagaremos o aluguel dos Chapéus Negros por quatro anos. aí estás! Nós não estamos muito contentes contigo! Tu não poderias dizer uma palavrinha de nossa parte à Mauler? Parece que tens sobre ele alguma influência.26 Entra Joana SLIFT – Aí está a nossa Santa Joana da Bolsa de Carnes! OS TRÊS. De bom grado. quem comerá a carne que nós compramos? E para que nós a compramos. dizendo-me: ajudando aos de cima. Sois indignos e eu vos expulso! Apesar de vosso dinheiro! .

Mesmo que o dinheiro os carcoma como um câncer Devorando o que seu resto tem de humano. Nós iremos viver dias terríveis. JOANA. ah. Trazendo-vos totalmente convertido. bispa Snyder? Ela sai. Mediadora inútil e que cava a própria cova. é bem disso que se trata! Falaste a palavra exata! Se o Bom Deus paga. Enfrentam-se como gigantes? Vá. Quanto ao pão que precisamos comer. na ponta dos pés. Grupos inimigos irreconciliáveis. Mas como deixar-se levar por isso? (À dona Luckerniddle e a Gloomb:) Sentem-se lá no fundo. modestamente. pois esses que te seguem não são mais do que escória e refugo. está bem. Por causa do aluguel. Nem outra vez cruzar o limiar dessa querida casa. tudo bem. dona Mulberry – que ele encontrou sobre a terra. de volta Convida a tua casa. Serve-lhes água de chuva e belas palavras Pois do céu não lhes vem mais do que neve E não misericórdia! A humildade. Vá sob a neve e continue intransigente! JOANA – Quer dizer que devo tirar meu uniforme? BISPA SNYDER – Tira o uniforme e arruma tua bagagem! Sai desta casa e livra-nos da escória que arrebanhaste. tudo mal. Anda cuidar de tua vida. oferece teus bons préstimos. comê-lo também! Vá-te então. no coração da tormenta. ela não representa ninguém. esses pobres. Queres. não temos mais um centavo. DONA MULBERRY — Sim. entrando — Vocês já arranjaram o dinheiro? BISPA SNYDER – Deus encontrará logo o meio de pagar o abrigo bastante modesto – eu disse modesto. não tem nenhum mandato! É apenas uma mulher que perdeu a razão! Ela está despedida! Ela fará pelos senhores tudo o que desejarem. ela retorna vestida como uma jovem camponesa. Homem de boa fé e destemido. OS TRÊS Joana sai. . Enquanto não tiver feito de Mauler um dos nossos. BISPA SNYDER. então. eu lhes trarei a sopa. Ela carrega uma mala pequena. entretanto. tu a ignoras E cedes a teus impulsos! É mesmo muito fácil Caçar esses impuros com um gesto cheio de orgulho. Eu pedirei sua ajuda. vão-se irrevogavelmente quarenta meses de aluguel. BISPA SNYDER: Infeliz ignorante! Como não vês que operários e patrões. terá de se mudar. Doravante farás parte dela. fracos. e a partir de sábado à noite. Mas se ele não paga. agora. BISPA SNYDER. DONA MULBERRY. não se vão. onde não escutam mais Os pedidos de salvação do resto dos humanos. JOANA Irei ver o rico Mauler.27 – Está bem! Mas conosco. Povoada de cânticos e palavras que despertam. De qualquer maneira. É mister que haja um Justo entre eles! Ela sai. Se o Bom Deus não paga o seu aluguel. aos Chapéus Negros – O que acabo de fazer certamente foi pouco habilidoso. Tu que planas mais alto que as questões terrenas! Parta sob a chuva. correndo sai atrás deles – Fiquem senhores. de um ao outro. Fazes-te de difícil e és muito curiosa Para saber como é feito. como jamais viu antes o mercado do gado! Saída dos fabricantes de conservas. é muito justo que pague. Mesmo que ele os torne surdos. Eu não desejo Colocar novamente o chapéu e o uniforme negro. prisioneiros Em uma torre de marfim.

Senhor . MAULER: Agora. SLIFT. queriam esperar Que o preço do gado caísse o mais baixo possível. Eu desmenti. e cada porco Que eles precisam nos entregar. que tu tenhas superado Teus recentes acessos de fraqueza. Slift. Agora que não tenho mais o trabalho fatigante da missão. Vou ver como eles compram. em sua casa. Gosto nela deste traço. Houve discrepâncias entre nós. Gostei muito de vê-la expulsá-los do Templo. de ser cuidadoso. senhor Mauler. mas por que o lençol em cima. Terão de pagar mais caro. Faça subir. Deixar que gritem: “É um crime!” Entra Joana. dá rédea solta a teus corretores! Deixa-os correr o mercado. carregando uma mala. JOANA – Bom dia. Em busca de animais que. Não se fala mais dela. posso me interessar mais por cada homem em particular. Ela não tem medo de nada. E todos aqueles que como ele. no seu escritório? Sempre achei que o senhor devia possuir um dos grandes palácios de Chicago (Mauler se cala).28 VIII Discurso de Pierpoint Mauler sobre a absoluta necessidade do capitalismo e da religião ESCRITÓRIO DE MAULER MAULER: MAULER: Chegou enfim o dia em que nosso caro Graham. Eles precisam comprar de nós. É que eu não estou mais com os Chapéus Negros. Não se possa aceitar gente da minha laia. SLIFT: Estou feliz. E os preços Subirão ainda mais. mesmo nas pequenas coisa. Mas o senhor. Não pretendo soltar um só grama de carne A fim de arrancar-lhes mesmo a pele desta vez: É a minha natureza quem exige. Neste mercado de Chicago Todos os bois que se escutam mugir São nossos bois. Então eu disse a mim mesma: vá dar uma olhada no que se passa com o senhor Mauler. se eu estivesse lá. Slift. Deixo minhas coisas nesse canto. onde enfiaremos o pé Unicamente para ver a marca que deixa. Graham e companhia ficarão então parecidos À lama. Dir-se-ia Que Chicago a engoliu Em sua negra e ruidosa bruma. E na nossa mão é mais caro. senhor Mauler. A mim também Teria expulsado. de perto ou de longe. e que nem mesmo está dobrado direito? Diga-me: o senhor dorme aqui mesmo. Serão obrigados a comprar a carne Que devem nos entregar. SLIFT: E tua Joana? Algo de novo? Um boato corre na bolsa: dizem Que te deitaste com ela. Assemelhem-se a bois ou porcos. os preços a oitenta. Mas o senhor tem razão. MAULER: Seria preciso esfolar esta cidade maldita E ensinar-lhes o seu ofício A essa gente. e de que. Não é fácil encontrá-lo. Mauler. realmente. É um belo sofá que o senhor tem aqui. Desde Que ela nos expulsou do Templo. desta vez. Ele sai. meu caro Slift. por um momento.

eu não comerei. E como eu sei que sois pobres E que querem privar-vos Do teto que vos abriga. Que meu comércio não é antinatural. não querem partir. Mauler vai até o fundo do palco e chora. vá dizer-lhes isso. Mas contigo não será assim. nos deu prazo só até o próximo domingo. O dinheiro. Eles são cinqüenta mil Que permanecem lá. MAULER: Tão mudada! Apenas oito dias! Onde ela esteve? O que ela viu? E por que essas rugas em torno dos lábios? Esta cidade de onde ela saiu. MAULER – Não te inquietes. eu lamento Que o trabalho ainda demore nos matadouros. Eu não conheço. Eu irei à Bolsa encontrar o dinheiro que lhes falta. ser ou não ser. Teria adorado ouvir-te dizer Que o que eu faço está bem. Um trabalho ruim. naqueles pátios imensos.. Assim como aos criadores. não como eu queria. O escuro caminho que leva aos matadouros. senhor Mauler! MAULER Tome. Joana pára de comer. a coisa não andou. o dinheiro para vocês eu terei. Trata-se de saber Se eu serei o melhor de minha classe Ou se tomarei eu mesmo. está caro.. JOANA – Os operários continuam esperando nos matadouros? MAULER Por que és contra o dinheiro? E por que então. MAULER – Vá dizer-lhes que o dinheiro está chegando. Queres? Joana observa a comida. Ela começa a comer avidamente. E que. Não pude dar-lhes trabalho rapidamente. e que agi bem. na minha vez. JOANA – Senhor Mauler. é claro. Eu confesso cruamente. MAULER – E do que tens vivido? (Silêncio de Joana) De nada. Quando não o tens. aos fabricantes. Nesta história dos cinqüenta mil trabalhadores. Eu te encontro bastante mudada. JOANA – . Vou agora mesmo à Bolsa para procurar o dinheiro. eu buscarei o dinheiro a qualquer preço. a proprietária. é lógico. e aos Chapéus Negros é preciso auxiliar. Daqui até sábado. Estás de acordo? JOANA – Sim.. Há quanto tempo não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Oito dias..29 Mauler.. Aqui está por escrito. não faço mais parte. muda logo a tua cara? . Mas eu o encontrarei. de pé. que vive do aluguel. encomendei a carne. quando nós expulsamos os ricos de nosso templo. MAULER – . Ele traz comida a ela em uma bandeja.. JOANA – Sim. Mesmo que deva cortar na carne. MAULER – Ah! E agora os Chapéus Negros estão em uma situação financeira difícil? JOANA – Sim. Eu quero dar-vos alguma coisa Para provar-vos a bondade de meu coração. arrancar a pele desta cidade. ainda por cima. senhor Mauler. E foi por isso que eu me disse: irei ver o senhor Mauler. Corra. Confirme que foi por teus conselhos Que eu. o que me agradou muito e me pareceu justo... mesmo à noite. senhor Mauler. sim. Eis o desafio. Toma. É Mauler quem vai dá-lo. Uma vez mais. Eu também. Mas nesse negócio. É por ti que o faço. tenho boas esperanças de que sua consciência esteja em paz nesse momento! MAULER – Então não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Não.

Não desejais. Modificar por inteiro o plano do edifício.30 O que pensas tu do dinheiro. . E se vós não precisais se expor aos sacrifícios. Ainda que dia após dia se precise reconstruir O que dia após dia é destruído. Ela se levanta. Como esses bobos para os quais o dinheiro Tem não sei qual problema. Pouco agradável. Sim. Não enchas a cabeça de falsas idéias. Para que Ele finque pé nas favelas E para que Sua voz retumbe nos matadouros. de cima a baixo. eu que nutro Poucas simpatias pela ordem do mundo. aliás. Ou então seria preciso mudar tudo. Quero saber. Olha também como o mundo é feito! Que edifício! Obra dos homens. Eu sei. Pouco ou muito segundo o caso. Assim. O dinheiro é um meio De melhorar um pouco a vida. E incessantemente construída. Atribuir ao homem um lugar totalmente diferente. Desde que existem sobre a terra. JOANA Senhor Mauler. sob chuva e frio. eu concordo. durmo mal à noite. Se eu quisesse me retirar. ou quase. Concepção inaudita à qual vós mesmos. Na banal verdade. nem nós tampouco: Não seríamos necessários. Isso que o senhor falou. malgrado os sacrifícios. Mas saiba com qual objetivo foi dado! Tome isso! Saiba que representa O aluguel de quatro anos. Mas pensa na realidade. Em uma palavra é preciso que vós Restabeleçam Deus em sua glória. MAULER . Esse sistema é o único que permite arrancar O que pode ser arrancado dos rigores desse mundo. Daqueles a quem ninguém oferece nada. diga-me. Fazendo Dele a única salvação. veja bem. Eu seria varrido. É à sorte. Seria como um mosquito Tentando se opor a derrubada de uma montanha. Por Ele batendo os tambores. sem dúvida. E que. As coisas não deixariam de seguir o seu curso de antes. Eis porque esta obra é sempre defendida Pelos melhores entre os homens. Ao menos a vida de alguns. Que seria suprimido por falta de utilidade. eu deveria estar feliz De ver que alguém vem em ajuda a Deus. destruído na mesma hora. Mas eu faço parte daqueles Para quem essa não é uma ajuda. Obra imensa. sob gemidos. Eu não compreendo E nem quero compreender. Apanhe o que te dão. Ele alcança o papel a Joana. isso será suficiente.O que nós não vos exigiremos de nenhuma forma – Devem dizer ao menos que eles são justificados. Que o gênero humano está entregue. Tão penosa de construir. Mas mesmo assim verdade: Sobre a terra nada há de sólido. nem Deus. Por isso vós deveis nos ajudar em nossa obra.

E se nevar. Ficarei lá até que as portas sejam reabertas. A cada hora. A tempestade de neve. do que os pardais Que se poderia colocar em tal lugar. em todo o caso. Sem poder suportar a visão dos pobres Que os julga sem conhecê-los. Mauler. Jogados aos matadouros e de tudo ignorantes. Pelo menos não honestamente. E então uma palavra. Ela sai. Jovem e velha. Quantos eram eles? Eu não sei. Pois esta vida sem eira nem beira não te serve. Vi depois cortejos E ruas desconhecidas. Notei uma massa humana. Ao mesmo tempo. Ela permaneceu suspensa por um instante. eu quero fazê-lo. Fez esta massa começar a fluir. Que alguém gritou em algum lugar. se o senhor quiser me ver Me verá nos matadouros. BAIRRO DOS MATADOUROS Joana. sem uma palavra. No futuro. Eu comerei esta neve. Eles fazem muita questão do dinheiro. Eu também não tenho dinheiro E nem uma maneira de ganhá-lo de outro modo. E o senhor. Depois eu gritei palavras em tom belicoso Em uma língua para mim mesma desconhecida. E se não houver trabalho. que vive da pobreza. Sobre ela que tu conheces. a fronte ensangüentada. uma palavra sem importância. silhueta múltipla. desfilando. Arranjando para não ver esses condenados. Vai à janela e repara se neva. e então eu me vi: À vossa frente. afluíam inúmeros cortejos. pulsando vida. Eu marchava. Eu serei como eles sem trabalho. por toda a parte. Mais numerosos. e outras familiares. JOANA Se os Chapéus Negros quiserem o seu dinheiro. 1. MAULER Esta noite. Saberás que neva sobre ela. JOANA Terceira descida de Joana às profundezas. marchava à sua frente. soluçando e jurando Logo fora de mim! Virtude e terror confundidos! . IX Escutai o que eu sonhei. em um pequeno campo. E isso é muito bom. E eu. Se for um punhado de neve o que lhes dão. Que o campo inflou-se e uma cascata humana Inteira ficou pendurada em suas elevadas bordas. creia-me. Perto dela Gloomb e dona Luckerniddle.31 Leva aos Chapéus Negros este dinheiro E poderás ficar com eles. E o trabalho deles também. Há sete dias: Diante de mim. Que o aceitem. levanta-te. Eles formavam uma massa tão densa. E nada comerei além do que eles comem. Mas eu me sentarei Em frente aos matadouros. Cercado de todos os lados por enormes edifícios E tão pequeno que a sombra de um arbusto O teria encoberto totalmente. com aqueles que esperam. Chicago! Vós também Lá estavam. com passos guerreiros.

DONA LUCKERNIDDLE – Se ela tivesse calado um pouco a boca lá nos Chapéus Negros. Faremos um chamado a todo o ser que pareça humano. estávamos fora de alcance. libere-nos de nossos compromissos! MAULER: Estou desolado. e pior. E assim andava o cortejo. Mauler. A exata extensão de nossa miséria. Envolvida pela neve. nas praças públicas. a preço vil.32 Tudo o que eu pisava. bem e aquecidos! 2. Eu exijo que me entreguem. E também perturbando o aspecto familiar de ruas bem próximas. Habitando em lugar algum. UM PEQUENO BAR NO BAIRRO DOS MATADOUROS Desgraça! As tarifas caíram! E nós não temos mais carne para vender! Ela já está vendida. Habituados ao sofrimento. BOLSA DE CARNES MAULER. GRAHAM: Ao preço antigo? MAULER: Como combinado. GLOOMB – Dona Luckerniddle. mas preciso das conservas.. Hoje eu compreendo o seu sentido: Nós deixaremos os matadouros antes do raiar do dia. Para aí mostrar a todos. éramos inatingíveis. OS FABRICANTES: Mas como nós poderemos Comprar gado com preços em alta? Alguém promoveu uma razia. Assim foi o meu sonho. Comprem-no! OS FABRICANTES: Comprar gado nestes dias! Que horror! 3. Há muito gado. Precisamos comprar e os preços aumentam! . nós agora estaríamos comendo a nossa sopa. transparentes. a preço vil. O que acontecerá. Todas as conservas Previstas no contrato. mas existe. Rendidos pela fome. Ocasionando imensas destruições. abandonando este lugar insuportável Por qualquer outro. OS CRIADORES aos fabricantes de conservas: Meus amigos de Nova Iorque me escreveram Que as tarifas aduaneiras no Sul Acabam de ser derrubadas. Graham. Senhores. a cidade deles. e pior. Eu andava no mesmo passo que o cortejo. a senhora entendeu esta história? Eu não. é verdade. eu ignoro. Um pouco caro. Ninguém sabe quem foi. OS FABRICANTES Desgraça! As tarifas caíram E nós não temos mais bois para vender! Eles já estão vendidos. E com a aurora chegaremos a Chicago. ao abrigo dos ataques inimigos. modificava. não nos podiam alvejar. MAULER: Sendo grande a demanda De conserva e de vianda E sendo os preços aceitáveis. Influenciando o curso dos planetas distantes. que eu saiba. se eu me lembro direito Daquela hora em que perdi um pouco o juízo. Oitenta mil toneladas. sem mais delongas..

Nosso Senhor. que alguma voz. GLOOMB – Bondade curta. os comunistas. (É tudo absolutamente inútil!) Eu lhes digo: ajudem-nos a manter a marmita fervendo! OS CHAPÉUS NEGROS . UM TRABALHADOR. ente os quais Joana. Bem que eu gostaria de estar com eles! DONA LUCKERNIDDLE – A música era bonitinha! GLOOMB – Bonita e curta. mas ninguém contribui) Aleluia! JOANA – Deixe-os. não o ódio. e o velho Adão dentro de mim não tinha outro desejo do que comer e beber. Vinde a ele. Eles precisam fazer isso para conseguir um pouco de calor e de comida. do pão de Deus? Grande é nossa alegria. tenente dos Chapéus Negros. surpreendendo-se pela ingenuidade – É sério? A senhora acreditou nisso? DONA LUCKERNIDDLE – Eu também. JOANA. à margem do caminho. tenho apenas sede da palavra de Jesus. Intercala sua pregação com observações aos companheiros. mas então eu encontrei Nosso Senhor Jesus e fez-se em meu coração uma grande luz e provei uma grande alegria. eu prefiro os atos. Discursos. que nos salvou na dor. vinde logo! Aleluia! Uma jovem dos Chapéus Negros dirige-se aos trabalhadores. minhas irmãs. não a violência. JOANA – Então não há ninguém que tente fazer alguma coisa? O TRABALHADOR – Sim. triste. DONA LUCKERNIDDLE – Eles são boas pessoas. estava um dia sentada. curta bondade. Ah. o amor. tu também. JOANA – Mas não são os tais que ficam incitando ao crime? O TRABALHADOR – Não. à dona. meus irmão. Nosso Senhor. Se algumas pessoas soubessem calar a boca eu saberia onde procurar abrigo esta noite. Luckerniddle – De onde a senhora os conhece? DONA LUCKERNIDDLE – No tempo em que eu não me fiava em gente como você eu ia bastante até eles. grande o nosso regozijo. meu irmão. reina a paz. dona Swingburn? A MULHER – A sua música era bonita. mas eles traziam uma panela. hoje (eles não estão escutando nada!) basta que eu pense muito em Jesus.(Vocês acham que isso serve para alguma coisa?) Eu também. faz desesperadamente sinais para que saiam. e eu não tenho mais fome e nem sede. Um destacamento dos Chapéus Negros chega. depois de entoar um cântico apressadamente: Por que não provar. Silêncio. JACKELINE. já ouvi demais. que um resto de pudor lhes diga: Aqui reinam a neve e o vento: calem-se! 4. JOANA – Onde eles estão? GLOOMB – A dona Luckerniddle pode lhe dizer. Onde está Jesus. UMA MULHER Por que vir aqui fazer escândalo Com tamanho frio! E se pudessem ao menos se calar! Com muito custo eu consigo agora Suportar as palavras que há pouco amava E que me soavam agradáveis. eu esperava que eles fossem ao menos nos dar um prato de sopa. por favor! OS CRIADORES: Não sobrou mais nada! Tudo o que podia ser vendido . A MULHER – Por que não nos procuram para tentar nos converter? GLOOMB. Pois nós encontramos Jesus. durante a cena. soldado dos Chapéus Negros: . Joana se levanta e.Aleluia! (Jackeline faz circular a cuia de esmolas.33 Trabalhadores e trabalhadoras. (Isso não serve para nada!). apesar de todas as nossas más ações. por causa do meu marido. MARTHA. fazendo o gesto de contar dinheiro – A senhora consegue manter a marmita fervendo. como vocês. BOLSA DE CARNES OS FABRICANTES: Nós compramos qualquer gado! Bezerros! Gado gordo! Vitelos! Bois! Porcos! Façam as suas ofertas.

Os senhores devem me entregar a carne. para começar Quinhentos bois a cinqüenta e seis. Silêncio . Nós. OS FABRICANTES: Mais nada? E nas estações? Estão abarrotadas de gado. eu não tenho medo. mesmo nos grandes. Aprendi a falar em lugares públicos e em auditórios. Qualquer vitelo. no mais tardar depois de amanhã.. OS FABRICANTES – Vendido a quem? Entra Mauler. Se alguém vier perturbar a reunião. Corte você mesmo! MAULER: Por que se surpreendem. eu acertarei as contas com ele! MAULER: Ah! É assim. Mesmo que tenhas que te enfiar nelas! Eu vos ensinarei como se faz esse comércio! Doravante. Já que não há demanda. UM DIRIGENTE OPERÁRIO – Escutem todos: até agora os magnatas da carne não manifestaram a menor intenção de reabrir as suas fábricas. Na minha opinião é preciso fazer alguma coisa imediatamente. Mauler. Agora eu quero sessenta! E tenham o cuidado De não esquecer as minhas latas! 5. mesmo só uma pata. Deixe-os totalmente à míngua. É impossível encontrar um boi em Chicago. uma parte de nós perderá seu emprego nos matadouros e os outros nunca recuperarão o salário anterior. OUTRO LUGAR NOS MATADOUROS Nos cartazes se lê: “Solidariedade com os trabalhadores sob lockout!” “Desencadeiem a Greve Geral”.34 Foi vendido. É claro que é! Era o que dizíamos! O cão! Ele nos obriga a entregar-lhe as latas E é ele quem compra o gado! Somos então obrigados a comprar de Mauler A carne que deveremos colocar em suas latas! Carniceiro sujo! Tome então a nossa carne. e caro! Ofereço. precisamos de um prazo. MAULER: Atenham-se à nossa combinação. e acho que sou capaz de defender bem uma causa.. Além disso. OS FABRICANTES: Nem pensar! Vocês estão loucos? Quatrocentos! SLIFT – Eu compro. Ele vai falar com Slift. o apetite desperta! GRAHAM. Quatrocentos. se são os senhores os bois. Não havendo ninguém que precise de carne. dois homens da direção dos sindicatos discutem com um grupo de operários. Chegada de Joana. a greve geral. Graham! As latas que me deves. JOANA – São vocês os que defendem a causa dos desempregados? Eu posso ajudá-los. Os fabricantes se precipitam sobre ele. sabemos agora de uma coisa: se tudo andar como querem os industriais da carne. Terá de ser comprado de mim. UM CRIADOR: Oitocentos bois de Kentucky a quatrocentos. OS CRIADORES – Vendido. OS FABRICANTES: É Mauler. Vendo-os. De hoje até amanhã é certo que os patrões vão lançar todo o tipo de falsas notícias: eles dirão que . Em frente a um galpão. eu tenho propostas a fazer. eu as quero agora. Os trabalhadores das grandes empresas da cidade nos prometeram declarar. os operários. OS CRIADORES: Oitocentos bois a quatrocentos para Sullivan Slift. precipitando-se sobre Mauler: É preciso liquidá-lo. se ela for justa. de Chicago a Illinois.

. Ela é sua conhecida. encostado em uma coluna – Faça subir. estou vendo. SLIFT. dona Luckerniddle? (Dona Luckerniddle faz sinal que sim). Eu luto de todo o coração pela causa de vocês. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Pela nossa causa? Diga-me: ela não é também a sua? JOANA – Não é no interesse geral que os industriais jogam.” OS FABRICANTES – Nós não podemos mais agüentar. eu conheço o pessoal. Isso é bom. JOANA 6. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua vinte e seis. Um operário apanha a carta e sai. na esquina do Parque Michigan. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Não. Você pode tranqüilamente entregar-lhe a carta. Essas cartas anunciam que a usina de gás. À Joana: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua Três. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – E quem te garante que ela vai levar a carta que lhe entregarmos? O DIRIGENTE OPERÁRIO – Ninguém. A carta é para eles. BOLSA DE CARNES Durante toda esta cena. UM OPERÁRIO – Pode ser uma espiã. Como se rede já não houvesse: De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. a Mauler.. em diversos pontos dos matadouros. MAULER: Os senhores não respeitaram. Elas devem ser entregues às dez horas. – Eu já vendi jornais na rua Vinte e Quatro. Por este buraco fogem todos os peixes. Ninguém suspeitaria que ela trabalha para nós. pois o endereço dado pelos camaradas das usinas Cridle para o encontro está muito vigiado. pau neles! OS FABRICANTES – Queremos dois mil bois a setenta.35 tudo está arranjado e que a greve geral não acontecerá. Nós não temos ninguém para passar despercebido como ela.. O operário apanha a carta e sai. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E para quem trabalhava? JOANA – Eu era ambulante. eu sei quem ela é. dessa maneira. não é? DONA LUCKERNIDDLE – Honesta ela é. ouve-se gritar ao fundo o nome das empresas que suspenderam seus pagamentos: “Encerram os pagamentos. pergunte-lhes se são das usinas Cridle. e vá esperar os responsáveis defronte à cantina da senhora Schmittens. galpão número cinco. em frente ao edifício da Westinghouse! (À Joana) Quem é você? JOANA – Fui mandada embora do emprego. aos responsáveis que esperam nossa orientação. Jack. etc. as centrais elétricas e o serviço de águas entrarão em greve em solidariedade a nós. Ela é honesta. os preços estão a mais de setenta! OS CORRETORES – Os cabeçudos não compram. E poderíamos até dizer que esta pobreza seja obra deles. Esconda essa em seu casaco. assegurar o trabalho . dando a carta à Joana – Vá até a fábrica Graham. Meyers e Cia. Tudo acontece como se a miséria dos pobres fosse útil aos ricos. O DIRIGENTE OPERÁRIO. essa noite. com tal medida. (os operários riem alto) Mas é desumano! E dizendo isso eu penso também em gente como Mauler! (os operários caem na gargalhada) Por que se riem? Acho que vocês estão errados em zombar e em acreditar sem provas que alguém como Mauler não é um ser humano. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Não é sem provas. UM OUTRO OPERÁRIO – Dê-me a carta para as usinas Graham. Eu não sou uma espiã. tanta gente na rua. O contrato assinado há pouco entre nós: Eu queria. Quando você vir chegarem três operários com cara de quem procura alguém. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E em que trabalhava? JOANA – Eu vendia um jornal. É do Exército da Salvação e os policiais a conhecem bem.

. A multidão anônima e sem rosto continua sentada lá. Vá só até oitenta e depois abaixe o preço. OS FABRICANTES – Mauler paga cinqüenta pelas conservas. SLIFT – A oitenta. Diga-lhe para que não me procure.36 Aos operários e agora me dizem Que eles ainda esperam em frente aos matadouros. Mil a setenta e sete. MAULER. Pergunta para que nós pagamos impostos! Manda arrebentar a cabeça dos líderes. é o fim! SLIFT: Quinhentos a setenta e sete para Graham. voltando ao grupo: Este negócio. MEYERS – Mil e quinhentos a oitenta. Vou soltar a carne e deixá-los partir. tudo a oitenta. Se perguntasse por uma Joana. não me diverte mais. Além disso. se apresentariam dez ou talvez cem. O primeiro segurança sai. Eles ainda agüentam! Quinhentos bois a setenta e sete. pois. a Slift – Onde está o pessoal que eu mandei para os matadouros? SLIFT – Ali está um. só quinhentos. O SEGURANÇA – As multidões. Quando se grita qualquer coisa. Ele pode ir longe demais. dizes. que voltou para perto da coluna – Slift. à procura de um parente que não encontram. esperando. eu não me sinto muito bem. No canto em que trabalham os sindicatos reina uma grande efervescência! MAULER – Quem trabalha? Os sindicatos? E a polícia os deixa incitar os operários? Meu Deus! Liga imediatamente para a polícia. Slift. MAULER. desembucha! O primeiro segurança faz seu relatório. MEYERS – Cinco mil a oitenta! Assassino! MAULER. O estranho é que aqui não se ouve nada. É preciso que a cidade Possa voltar a respirar. Ainda por cima está escuro. SLIFT: Faça subir. Eles já não agüentam. O segundo segurança sai. Sem contar que a polícia está evacuando os matadouros e que começa a atirar. Slift. subir muito mais. são incontáveis. Senão pensarão ainda Que fomos nós que exigimos que atirassem. senhor. mas que não rebentem. A encontraste? O SEGURANÇA – Não. nós não podemos pagar oitenta a Mauler pelo gado. E tenho outras preocupações! Veja bem. Slift. Que sangrem. o vento abafa as palavras. A carne sumiu de vez do mercado! Quinhentos bois a setenta e cinco! MAULER: Não seria conveniente. Pois a queda deles Será a nossa. entreguem-me! GRAHAM: Nada poderíamos ter feito. é claro. MAULER – Então. Isso basta. São centenas de milhares nos matadouros. Acima disso. As conservas que comprei. Ele repara no segundo segurança. Mas para nós. MAULER: Atiram? Contra quem? Mas eu sei bem. eu não vi ninguém com o uniforme dos Chapéus Negros. Fala em meu nome. de achá-la? E atiram? Encontra o Jim. Mauler. Ceda. é impossível ouvir uma voz isolada: há muita gente correndo de todos os lados. perdido por perdido. Mas os senhores se lamentarão por isso. eu me pego esgoelando-os E não tenho tanto prazer quanto esperava. Ponha os pingos nos “is”. por telefone. GRAHAM: Que seja. Impossível. sim.

nos matadouros Enquanto a miséria não chegar ao máximo. Slift não tem ordem para isso. Para nós a senhorita faz parte.” JOANA – Eu não falei nada disso. SLIFT: Mentirosos! Agora serei eu que vos ensinarei A vender carne enlatada Sem ter nem mesmo um quilo! E cinco mil bois a noventa e cinco! Urros. Eles não abrirão as fábricas. OS JORNALISTAS – Veja bem. a não ser nós mesmos E a ninguém podemos apelar OS JORNALISTAS . Eu não posso mais. Nesse dia sim. Então agora existe gado. De outra forma isso terminaria em violência. JOANA – Eu não faço mais parte dos Chapéus Negros. Saindo ele encontra jornalistas. Fora uns poucos especuladores sem escrúpulos. 7. eles abrirão. (a Joana) Esses são jornalistas. SLIFT MAULER Eu preciso de ar fresco. Chega um grupo de jornalistas. toda a Chicago comparte seus sentimentos. Virão três pessoas. Slift. nós ouvimos. a jovem pregadora dos Chapéus Negros? JOANA – Não. não mais. – Olá! A senhorita é Joana Dark. OS JORNALISTAS – Podemos lhe assegurar. JOANA – Eu queria que vocês fossem embora. (Joana vira-lhes as costas. ALGUÉM – Porque estás aqui? JOANA – Tenho que entregar uma carta. apontando para Joana – Aqui está. em segundo plano. SLIFT – Quinhentos bois a noventa! OS FABRICANTES: Mauler. Eles não abrirão as fábricas! Eles esperarão os lucros aumentarem! E a sua resposta sairá Dos canhões e das metralhadoras! Ninguém poderá nos ajudar. Não vão embora. Mauler? MAULER. OS TRABALHADORES. Veja. Joana. Um homem os guia. Aja conforme o meu espírito. afastando-se – É preciso que façam chegar aos operários que eu acabo de ceder gado às fábricas. Mas quando a aflição for tremenda. OS JORNALISTAS – No escritório do senhor Mauler nos disseram que a senhorita jurou não sair dos matadouros enquanto as fábricas não fossem reabertas. JORNALISTAS – O que há de novo. É um enorme sucesso para os Chapéus Negros. serei eu quem fará subir. a alguma distância. Queria vender a oitenta e cinco. Entre eles. Os jornalistas lêem em voz alta) “A Madona dos matadouros. Mas nós não queremos incomodá-la e iremos ficar ali. esperem a resposta! CORO OPOSTO. Eles se sentam. Joana Dark. senhorita Dark. O HOMEM. que a opinião pública está do seu lado. isso não é possível. NOS MATADOUROS Muita gente esperando. Eles ainda agüentam. E se quiseres abrandar. também em segundo plano: É mentira: por maior que seja a miséria. no fundo. Continue então com o negócio. Prefiro abandonar tudo Do que ser a causa de uma desgraça! Oitenta e cinco.37 – Nem pensar. Tu me conheces. Eles terão de nos responder. pode ler. declara: Deus está solidário com os operários das fábricas de conservas. Aja conforme o meu espírito. Nós publicamos isso com manchete de oito colunas.

Ficar aqui sem necessidade absoluta Parece-me um jogo indigno. o que deixei foi uma vocação. A MULHER – Socorro. JOANA Se dependesse só de vós Eu poderia congelar nua em pleno vento. confesso. E um ambiente. dir-se-ia que é um caminho. Algo de obscuro. UM HOMEM – Silêncio! Alguém atira um trapo para Joana. Eu não tinha sonhado que pudesse fazer tanto frio! Se eu tivesse pelo menos o meu agasalho! Ah! É fácil para vós passar fome. dona Luckerniddle? DONA LUCKERNIDDLE – Sim é verdade.38 Que não seja um nosso igual. imbecil!. E uns se sentam lá em cima Só porque os outros estão embaixo. Quer um gole de whisky? (Joana bebe) Ei.. Onde está o meu chale? Eles me roubaram. Mas a estrutura interna continua ignorada. Já basta. UM TRABALHADOR. Alguns – pouco numerosos – estão sentados lá em cima E um grande número aqui embaixo. Não fazia tanto frio em meu sonho. desde fora. ela vai me matar. Quase uma comédia. UM VELHO HOMEM. eu quero ir embora. a qualquer momento. Os jornalistas. O TRABALHADOR – Mas falaste com eles! JOANA – Eles me confundiram com outra pessoa. é claro! É o cúmulo! Eles me roubaram até o chale! Quem foi o mão leve que pegou o meu chale? Devolvam-me imediatamente. não é? JOANA – A senhora também acha. E falar Daquele que mora lá em cima. Encorajada por um sonho que confirmava minhas idéias. dê-me meu pano. A mim me esperam. ao qual estava acostumada. Mas é apenas uma tábua. eu não tenho o direito de ir. a Joana – Você está totalmente gelada. Empunhar a bandeira e bater o tambor.. . E os do alto gritam: Subam. UMA MULHER – Que audácia! JOANA – A senhora falou alguma coisa? A MULHER – Sim. Tenho fome e isso é banal. Mas. Mas eu posso. mais do que tudo. E para vós é fácil passar frio. um emprego que me assegurava O pão de cada dia. isso é normal. JOANA: Eu compreendo esse sistema. um teto e o sustento.. Vós todos. chega! Você é boa mesmo de copo. Mas. ignorar aonde te leva a vida. a Joana – O que fazias com aquela gente? JOANA – Nada. tenho frio. foi você! Não adianta mentir. o que haveis deixado? Eu. que de resto Já é a muito conhecido. que acabaram de receber uma informação. o medo me aperta a garganta: Não comer. não dormir. com um vasto plano. Apesar de tudo. guardam-me a sopa. Que audácia! Emborcar assim o whisky desse velho! JOANA – Segure a língua.. Enfim. A qual logo se nota claramente Que serve de gangorra Todo o sistema é como uma balança Na qual os dois lados dependem um do outro. Ir para um quarto quente. Entre os que estão em cima e os que estão embaixo. levantam-se e dirigem-se ao fundo. (Ela arranca de sua vizinha o pano com o qual ela cobre a cabeça) Sim. Para que estejamos todos no alto! Mas olhando mais de perto descobre-se. que nada tendes para comer. Vós. Quando eu cheguei aqui.

ainda que os preços continuem a subir. Felizmente temos a carta para mostrar a verdade. Classe cheia de neve e que as leis ignoram. JOANA: Parai! Chega de aprender essas lições! JOANA . se esses senhores estão dizendo? Sobre um assunto como esse não se brinca. Não ficaste tempo suficiente aqui. O que aprendeis? OS TRABALHADORES. OS JORNALISTAS – Olá. JOANA – Oh! A boa nova! DONA LUCKERNIDDLE – Vejam as mentiras sobre as quais nos alertaram. Ao longe as metralhadoras crepitam. Que tem a fome por mestre e onde a miséria Fala implacavelmente da necessidade! E sois cem mil alunos. aconteça o que acontecer. Os tanques deles vos esmagarão. Havia entre eles pelo menos um homem honesto E ele não falhou em seu dever. JOANA – Quanta gente há aqui? OS JORNALISTAS – Uns cem mil. Se combaterdes. Tu não compreendes nada de nada. no fundo do palco: Se ficardes agrupados Eles vos rebentarão. E nós vos dizemos: combatei. E nós vos dizemos: ficai agrupados. Esse combate será perdido E talvez perdido Ainda o próximo combate Mas vós ireis aprender a combater E aprendereis pela experiência Que nada se faz sem luta E sem a vossa própria ação. Não te movas! Entendeu? Ela sai. Nessas condições o trabalho voltará muito em breve aos matadouros. Agora as fábricas reabrirão. JOANA: Escutem todos! Há trabalho. Não se separem! É apenas ficando todos juntos Que poderão ajudar uns aos outros. mocinha. Não creiam em nada e não escutem ninguém. Os jornalistas retornam. espera. O coração deles não é de gelo. DONA LUCKERNIDDLE – Não digas tais tolices. Quando se falou com ele como a um ser humano Ele deu uma resposta humana. acaba de cedê-lo aos fabricantes. (Ela se levanta) Eu vou avisar aos nossos que os boatos já começaram a circular. Então a bondade existe.39 OS TRABALHADORES: Fiquem. de jeito nenhum. Que barulho é esse? UM JORNALISTA – São as metralhadoras. UMA MULHER – Devemos voltar para casa agora? UM TRABALHADOR – Quem nos garante que é verdade? Que haverá trabalho de novo? – E por que não seria verdade. JOANA: Tanto assim? Oh! Escola desconhecida. o milionário que dispõe de muito gado. Os matadouros são tão grandes que a tropa levará horas até aqui. A tropa foi encarregada de evacuar os matadouros. É preciso fazer com que se calem os agitadores que incitam à violência. o seu sucesso foi formidável: nós ouvimos que Pierpoint Mauler. JOANA – Mas estão atirando! UM OPERÁRIO – Pode ficar sentada tranqüilamente. E sobretudo entendam bem Que nada se faz sem luta E sem a sua própria ação. no frio. A não ser a proposta Que leve a mudanças verdadeiras. com a carta. Mas tu.

esta carta? Eu não saberia fazer nada Que requeresse violência. eu seria como eles e não faria perguntas. vós estivestes juntos Longas noites. Isso seria desleal para com os outros homens. Eu digo: na escuridão se acumulam As violências e as questões nunca resolvidas. Do fundo ouve-se gritos que se aproximam. Chegam três operários. Eles procuram alguém que não encontram e vão embora. A tentação. UM OPERÁRIO. UM OUTRO OPERÁRIO grita para o grupo que se afasta – Assassinos! OS OPERÁRIOS – Se eles acham que assim irão parar as coisas. Toda inocência tê-lo-ia abandonado. Ou que engendrasse a violência. E aprendestes A alimentar friamente terríveis pensamentos. Por que foram presos? O que ela contém. Com seu silêncio opressor. No lodaçal dos matadouros. Ela se vê com roupas de criminosa. longe do mundo que lhe é familiar. ao longo dos anos. Se desde a infância o peso da miséria e da fome me tivessem ensinado a violência. Os dois dirigentes operários passam. E é por isso que parto. Por três dias viram Joana em Packingtown. Eu não sou um deles. eu preciso ir. Há muito tempo que já está tudo arranjado. Vós. William. Quem o comerá? Eu vou embora. Mas o prato que se prepara aqui. . os astros sem harmonia Já não seguiriam sua órbitas. as palavras teriam outro sentido. conduzidos por policiais. voltando – Nada além de mentiras! Onde foi a moça que estava sentada ao meu lado? UMA MULHER – Partiu! UM OPERÁRIO – Desde o começo eu disse que ela iria embora quando começasse a nevar de verdade. eu digo.40 Que gélidas elas são! Não é pela violência Que se combatem a desordem e a confusão. Direis que fazia muito frio. DONA LUCKERNIDDLE. Enquanto o fraco ao fraco se alia. OS JORNALISTAS – Nós a aconselhamos a sair dos matadouros. Ela se levanta e sai. Dia após dia ela desceu. Para este homem. que eles ainda poderão ter uma surpresa. Viram-na descer de degrau em degrau Para em água límpida a lama transformar e aos humildes Aparecer. No terceiro dia sucumbiu. Eu assim não poderia viver. Sobre sua cabeça. Violar as regras em uso. Nada de bom pode surgir da violência. aparece uma inscrição: A neve começa a cair. mas agora a coisa está terminada. Enquanto a noite cai. Seu sucesso foi grande. JOANA: Os que me entregaram a carta. para um dos dirigentes presos – Não liga não. Os operários se levantam. Mas assim. estão muito enganados. Apartado em um mundo Tornado para ele estrangeiro. Quem agisse assim se sentiria perdido. algemados. Começa a nevar. Eles saem. é imensa! Mais uma noite como esta. Ela continua sentada. Perseguidor perseguido E não mais sabendo ver sem desconfiar. OS OPERÁRIOS – Estão trazendo os sindicalistas. Joana tem uma visão. e ninguém Poderá manter a sua calma. No final o lodo a engoliu.

nada mais posso fazer por eles. OS DOIS SEGURANÇAS – Então podemos ir? MAULER: Podem E eu também posso ir aonde queira. Há resistência. Aquele que sai de tal imóvel. O mais prático também. Quanto a este edifício. Mauler e seu amigo. Sem nenhuma exigência. não lhes parece? Ah! Eu repito Não fiquem enchendo a cabeça com idéias. Assim foi conseguido. Seja por aberração. Escolhido como material. Essas notícias. 9. Passa um vendedor de jornais Ei! Jornal! Vejamos o que se passa na Bolsa de Carnes. façamos meia volta. hoje restarão No chão as pedras. Parece-me Que contratei dois idiotas. E ninguém quis. que todos os fabricantes Quebraram juntos e saíram do mercado. Este homem está perdido. em suor e em dinheiro. Mas vejo que estão pensando. Ele lê e empalidece.. Até o reino do espírito.41 Pergunta feita: quem ficará? Como nos outros dias. Eu disse: meia volta E tu riste. então. meia volta. Slift. Pierpoint Mauler cruza a fronteira da pobreza 8. Em todo o caso. A mim ela vai elevar às mais altas esferas. Só porque duas ou três vezes eu dei meia volta. UMA ESQUINA EM CHICAGO MAULER. . Até mesmo aos matadouros. E a vocês eu despeço Pois da pobreza eu cruzei a fronteira. Vejam. Aquela que eu procurava terá tido o bom senso De sair das profundezas onde o inferno se instala. modificam tudo. É o que está escrito. Está dito. um objetivo que eu saúdo E que muito me alivia. UM LUGAR DESERTO NO BAIRRO DOS MATADOUROS Neva. Doravante Não há mais ninguém que me queira matar.. Não é para pensar que eu vos pago. dele se diria Um prédio construído com grandes despesas. são os mais atingidos. UM DOS SEGURANÇAS. Não preciso. aqui sob meus olhos. Sou conhecido nos matadouros. o mais vasto. Basta. a dona Luckerniddle reencontra Joana. Sem que eu tenha procurado. mais de vocês. os pobres. Que nós construímos em nossas grandes cidades Sem importar o custo. seja por economia. Cedi meu gado a qualquer um que o quisesse. cocô de cachorro: Que torna a permanência difícil. impresso. a um de seus seguranças Parem. Vejam o que leio. Eu tenho as minhas razões. preto no branco. Agora eu estou livre. Assim espero. saindo – Bom. Na borrasca. o que foi? Riste. em cima. Ter construído a maior cloaca do mundo Constituirá a sua única glória. MAULER: Se a desgraça abate ao homem sem caráter. Tem certa razão de estar alegre. preto no branco: O gado está a trinta e ninguém compra. De agora em diante. Perto dos matadouros. Pensar não serve para nada. mas o arquiteto teria. confessa. ainda atiram.

Ao que tropeça e cai. Mas também podias nos trair. Mas tu és uma traidora e teu lugar é com eles. Joana ouve vozes.42 – Ah. DONA LUCKERNIDDLE – Ora essa! Para ti está tudo normal! E eu que disse que tu eras honesta! Sem isso não teriam te confiado a carta. para poder se apresentar amanhã bem cedo ao trabalho e de repente eles falam que as fábricas nunca mais abrirão. O SEGUNDO OPERÁRIO – Os comunistas é que tinham razão. Uma parte dos operários saiu dos matadouros. É inútil tentar pegar. Aquilo que lhe foi confiado. isso é o que tu és! Dê-me a carta que te confiaram. ela procura se livrar das vozes que ouve de todos os lados. mas a senhora quer continuar. AS VOZES: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. oh verdade! Que a neve em tempestade Inoportunamente mascarou com sua noite. Pierpoint Mauler as arruinou. Joana. Dê a carta aqui imediatamente. Tudo está voltando ao normal agora. Joana pára. Errando pelos matadouros. Lá dentro só se fala em violência. Ainda mais que amanhã todas as empresas de Chicago iriam declarar a greve geral. Como se rede já não houvesse. JOANA – Não. Nela estava nosso destino. UMA VOZ: Não há desculpa Para quem não chega. Por este buraco fogem todos os peixes. Eu vou embora. Anda em outra direção. E aquele que chega a bom porto. mas entregue. Nós não sabíamos quem eras. fraqueza do corpo! Oh fome. Que sentimentos em nós deixareis sobreviver? . DONA LUCKERNIDDLE – Eu devia ter duvidado. Um lixo. de uma missão. De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. podias dar conta. A VOZ DA DONA LUCKERNIDDLE: Eu fui a tua fiadora. O SEGUNDO OPERÁRIO – Isso é grave: sem dúvida uma parte das ligações não funcionou. O PRIMEIRO OPERÁRIO – E aqui nós não ficamos sabendo. eu não a darei. De tua missão. Eles teriam ficado apesar da violência da polícia. Cumpriste a missão? Joana volta a andar e uma nova voz a detém. Mas a carta que trazia a verdade. As massas não deveriam ter se dispersado. Sem récitas inoportunas dos seus infortúnios. UM OUTRO LUGAR Correndo em direção ao centro da cidade. caindo de joelhos: Luz. UMA VOZ – Lá onde te esperam. JOANA. OUTRA VOZ: Joana pára. (Joana desaparece na tempestade de neve) Hei! Venha! Ela foi embora! DONA LUCKERNIDDLE 10. A pedra não perdoa. Joana cruza com dois operários de quem ouve a conversa: O PRIMEIRO OPERÁRIO – Primeiro eles fizeram correr o boato que as fábricas reabririam a todo o vapor. precisas chegar! Joana olha ao redor. estás aí! Onde tinhas te metido? Entregaste direitinho a carta? JOANA – Não. Que nada diga. Tu não a entregaste. Nós te encarregamos. Muitos operários teriam ficado se soubessem da notícia. Claridade que então eu deixei de ver! Oh! Quem conhecerá o poder da neve! Oh.

MAULER. ou que deixe o imóvel. que prometeu nos ajudar. veio nos dizer que Mauler em pessoa estava disposto a assumir o nosso aluguel e a organizar conosco uma grande campanha em favor dos pobres. investindo contra ele – A sopa. Exposta outra vez à neve. o suntuoso Mauler. a qualquer momento. à chuva. A massa espera. minha cara Mulberry. DONA MULBERRY – Bispa Snyder. Sob um plúmbeo zênite de destinos desconhecidos. Um homem começa a levar os móveis para a rua. Ah. É Mauler. Para nos salvar neste instante. na frente do palco : Ouvi alguém procurando um certo Mauler. E nós gritamos à plena garganta: Ah. quem vos pode resistir? Eu preciso dar meia volta! Ela retorna sobre seus passos correndo. Buscam-no por toda a parte. Quero que a senhora pague o meu aluguel. X Humilhação e assunção de Pierpoint Mauler TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS MARTA. De um só golpe o bolchevismo também é enterrado. com certeza! Ele já está a caminho com os seus milhões! UM CHAPÉU NEGRO – Bispa. OS CHAPÉUS NEGROS: Romperam-se os diques da fé Em Chicago. Salvar-nos com o seu dinheiro! BISPA SNYDER Há exatos oito dias Que nos matadouros onde as máquinas enferrujam. OS CHAPÉUS NEGROS: Estão levando. entrando – Pierpoint Mauler está aqui? BISPA SNYDER – Não. é sábado a noite. BISPA SNYDER – Dona Mulberry. Eu o conheci: era um imbecil. a outro Chapéu Negro – Há três dias um emissário de Pierpoint Mauler. ele possuía dez milhões. o senhor Pierpoint Mauler. que triste. Este homem que foi em sua vida Mais estúpido do que um vagabundo bêbado e repugnante. é tudo o que eles querem! Aqui não tem mais sopa! Aqui só tem a palavra de Deus! Ouvindo isso eles vão logo embora. Liberada.43 Frio da noite. no céu e no inferno. BISPA SNYDER – Sente lá atrás e fique quieto! Ele se senta. O HOMEM – Os fabricantes de conservas querem falar com ele e os criadores o chamam aos gritos. Vejam que já balança. O reino de Deus está pronto na minha cabeça. DONA MULBERRY – Meu caro Dick. BISPA SNYDER. o rei da carne. . Ele se levanta e avança até os Chapéus Negros. E as ondas de lama do materialismo Ameaçam a casa de Deus. se ele pudesse vir. nossa boa cidade. UM HOMEM. estamos aguardando. o banco dos penitentes! E já suas mãos avidamente se dirigem Ao órgão a vapor e ao púlpito. Conheci bem um homem. Pediram-lhe cem dólares. Ele sai. agora os pegamos. afastada do trabalho. coloque os móveis na rua. Uma boa orquestra à mão e sopa Bem grossinha: terminam para Deus todas as preocupações. onde iremos acomodar o nosso público? Chega um pobre. com sopa quente E um pouco de música. Mas nós o estamos esperando. que já se afunda! Mas o rico Mauler virá. que aliás é muito barato. posto que sem abrigo. MAULER – Eis aqui um homen marchando até o seu Deus.

todos para fora! A Mauler: E tu primeiro! Onde estão os quarenta meses de aluguel Desses não-convertidos que Joana enxotou? E vejam só o que ela me trás em troca! Devolva-me. Sentados sobre as margens do lago Michigan. E sobre nós a neve envia suas tempestades Em um inverno no qual crescem os rigores. ar ausente. Se aproxima já Com os seus milhões.44 No fim. Não podemos mais pagar as nossas contas. recusou-se a dar o dinheiro. Ele trazia o seu coração. Todos os pagamentos estão suspensos. devolva-me os meus quarenta aluguéis! MAULER: Vós desejais. UM CHAPÉU NEGRO – É ele. Eles cantam ainda “Entrai na batalha”. construir vossa casa . Jogou no mar seus milhões. mas arrependido. Silêncio! Tragam-me o livro das faturas e contas por pagar: estou nessa parte. Joana. dirigindo-se aos músicos que vão embora: Nossas orações eram pelo rico Mauler E foi Mauler o arrependido que entrou. seguindo a letra por sobre o ombro de um dos Chapéus Negros. MAULER: Eu me acuso de ter explorado o meu próximo. meus amigos. Mauler! MAULER: Mas quero acrescentar que no sétimo dia Fui despojado de tudo. Passar bem. sem nada. DOIS MÚSICOS: Um pedacinho só. CORO DOS CHAPÉUS NEGROS. deu cabo de si mesmo. Mas quebrou a nossa cara De uma vez por todas. BISPA SNYDER – Tu és Mauler? MAULER – Sim. BISPA SNYDER. OS CHAPÉUS NEGROS: Não perca a confiança! Homem de pouca fé! Ele virá. BISPA SNYDER. Diante de vós. sim. eu vejo. Ouçam então a minha confissão: Aqui jamais se ajoelhou Ninguém. Culpado. Os músicos tocam um hino. Tiremos de nossas paredes as máximas. Apenas nos resta chorar. OS MÚSICOS: É deste aí então que vocês esperavam O dinheiro para nos pagar? Então nós vamos embora. Abusado da força e espoliado todo o mundo Em nome da propriedade. Por sete dias apertei a garganta Desta cidade até sufocá-la. não o seu dinheiro. Os Chapéus Negros cantam. Envolvamos em nossas bandeiras derrotadas Os livros de cânticos. Aqui estou agora. inclinado sobre os livros de contabilidade – Não direi o que estou calculando. Sentados sobre seus últimos bancos e suas últimas cadeiras os Chapéus Negros cantam desordenadamente seus últimos hinos. Mauler canta com eles. gritando – E sem dinheiro? (Aos Chapéus Negros:) Façam as malas. OS CHAPÉUS NEGROS – Ele já chegou? MAULER: Um hino. é certo. BISPA SNYDER Silêncio! Fora. Ele pega dois Chapéus Negros pelo braço e senta-se com eles no banco dos penitentes. que tenha caído tão baixo. olhos voltados para a porta. E esse gesto tocou os nossos corações. já. eu vos rogo! Pois eu sinto O coração ao mesmo tempo leve e pesado. e dilacerado de remorsos.

Subiu os preços a noventa e cinco. Mas nós estamos perdidos: Em torno de nós. Que a constatação vos enche de amargura. No mercado perturbado. Concluo eu o seguinte: o Mauler que sou Não é aquele do qual precisais. quem nos derrubou. da Argentina. Que projeto tendes agora. Bispa. Vossa função seria apenas a de brincar na relva. e sobre nossas cabeças. Loew e Lévi. E hipotecando até o último lápis Para trazer de Quebec. gado canadense. Que vos pertencia. hesitantes. Eu sei muito bem. Relatarei o combate memorável Que. eles iriam trazer. Lançou. chorando. com voz dura. Viram-se os preços Oscilarem. firmas de grande renome. Pelos contratos que nos obrigavam A entregar de imediato as conservas prometidas. Acorreram todos em ajuda. E tudo o que de longe parecesse um boi. OS CRIADORES: Maldito Mauler. Não terias a necessidade de aliviar aqui A tua consciência. assumindo seus deveres. os reis da carne vêm ao seu encontro. Ele tenta sair. nobre Mauler. a comprar gado. Mas Slift. o caos. O ancião venerável. Para mim o humano era aquele a quem eu podia explorar. Slift apertou Ainda mais forte a nossa garganta. Mal viu esses bois vindo ao longe. O Banco Nacional gritou: “Alto”. tomando a frente : Mauler. em poucas palavras. OS REIS DA CARNE: Perdoai-nos. Um zênite ameaçador de pensamentos desconhecidos. paga-nos o gado! GRAHAM. agigantou-se E a todos nos precipitou no abismo! MAULER: Oh! Eternos combates! Em nada são diferentes Desde os tempos antigos onde os homens Com uma barra de ferro rachavam-se as cabeças! GRAHAM: Recordai que estávamos à vossa mercê. E sobre eles atirou-se. Este espetáculo atroz apavorou o ancião. Ah! Se não tivesses aliviado tanto os nossos bolsos. Os complexos pensamentos de vosso imenso espírito. Mauler. salva tua alma. O que pretendeis fazer de nós? Foste vós. é aqui então que te escondes? Paga nossos bois ao invés de fazer penitência. como um bêbado sedento Que ao mar esvaziou sem se satisfazer E lambe avidamente cada gota que encontra. por ter vindo Atrapalhar neste lugar as tuas meditações. comprometendo suas casas. ao meio-dia. Na porta. Mas se chamássemos de homem àquele a quem se ajuda Daria no mesmo: necessitaríeis sempre De gente a ponto de afogar-se. Que não ficou só por muito tempo. Era vosso todo o gado. . Quando. Mauler. Ninguém jamais pode fugir da lei. E Wallox e Brigham.45 Sobre o que há de pior em mim. Por vós fomos forçados. No ciclo dos astros ou das mercadorias. Em três dias. Mauler. que fareis? Entram os criadores em grande agitação. e a noventa e cinco Comprou-os todos. tomado de loucura. durante sete horas. Dá o dinheiro. Um vitelo ou um porco. Dais o nome de homem a quem vos vem ajudar. Estão pálidos como o linho. desde a aurora. Eles também estão muito pálidos. o que existisse de gado. partistes. Prometiam até o gado por nascer.

Lutavam a dentadas. Com esse chapéu e este sapato: Dez milhões o chapéu. na batalha. um a um. agora. Vertiginosamente. tomados de desespero. Porque não mais podemos honrar os contratos. E que não foi ainda acertado. Célebres.. O que fazer. com olhos marejados. Casas até então sólidas e poderosas. os cavalos inimigos. baixou. Mas alto o bastante para que todos ouvissem: Para pagar-lhes tomem então nossas fábricas.. bancos. Lançaram-se um a um nesta última batalha.E a voz ainda nos alcançava Mesmo com a balbúrdia dos trens que partiam: . é sabido. o velho Lévi disse então em voz baixa. quando levamos às estações De nosso longínquo Missouri Com muito sacrifício. os vívidos vitelos. golpeia um corretor na barriga. Aí está o que tornou o contrato sem valor Apertastes muito forte. Estão satisfeitos? OS CRIADORES: Há pouco tempo. Institutos de crédito. Slift então gritou: “Cem”! Poderia ouvir-se um alfinete cair. e os preços subiram. De cotação em cotação Os preços caíram e rolaram até os negros abismos. Eu quero para hoje”. ele ao menos vale vinte e cinco centavos. Que nos píncaros se encontrava.46 Mas Slift gritou: “Três dias não. isto é. Naquele instante. de rocha em rocha E somente em trinta a queda parou. Slift. diga-me. Como definha uma esponja espremida. mudos. comprar. Inúteis portanto. em um suspiro. Até os simples contínuos. de imediato. E os jovens bois de pêlos reluzentes Engordados com tanto cuidado. Com esse gado que ninguém é obrigado a comprar? OS CRIADORES: Sem querer perder a paciência. Seria esmagado como um morango no chão. O sapato. E nós comprávamos sempre: Nós precisávamos comprar. E viu-se. Lévi. Sob nossos olhos. fomos estrangulados E de que adianta estrangular um cadáver? MAULER: Foi assim então. E em silêncio também os bancos desmoronaram. paravam de viver. Do outro eu preciso. Toda a família nos gritava de longe Com a voz embargada pelo trabalho duro . se por um acaso Um elefante se arriscasse pelo interior da Bolsa. Nós queremos que nos digas Como. Lévi. Parando de pagar. Como a água que cai na cascata. a carne de boi. quando e com que dinheiro Nos pagarás o gado comprado. os agentes fechando suas escrivaninhas. Eles precisavam entregar. E como contratos nulos não impõem compras. Rangerem os dentes. Os corretores. Em tudo semelhantes aos antigos corcéis Mordendo. por sua indiferença. Só um. MAULER: Agora mesmo. os fabricantes apáticos Depositarem a vossos pés suas fábricas fechadas. obstinados. E Brigham arranca a barba aos gritos: “Noventa e seis”. que travaste a batalha Que deixei a teus cuidados! SLIFT: Corte-me a cabeça! MAULER: E de que me serve tua cabeça? Dá-me o chapéu. em um espasmo. Ouviu-se nesse dia os jovens estagiários. entrego por cinco. e então se retirarem.

entendei. MAULER: Em nós a consciência. isso não é possível. amigos.” Não.. Pois ainda creio ouvir O rumor dos matadouros. De máximas sagradas e escolhidas com grande cuidado. Compreendido como sendo de interesse geral. de Nova Iorque. Pois os preços do gado vão subir. mostrando o lombo vazio E nossos bolsos também? Como.(Ele abre a carta e lê de canto) “Escrevemos a você recentemente. Como voltar para nossa terra? E que diremos a eles. Se assim fosse concebido. Jogai sobre vossos ombros o jugo. esperamos” E agora. elas vão mal. Neste caso. mas são numerosas. Mas se fizéssemos uma grande promoção De sua instituição. MAULER – Eu costumava ser esse Mauler. nós estaremos de bom grado à sua disposição. Mas para mim. Alguma chance de sucesso. condescender. Nem todos aqui em baixo poderiam ser ricos. Não ter fartura de bens terrestres. Cuja voz está a tal ponto asfixiada. pensai no caos Que ameaça a tudo engolir. sozinho. GRAHAM – Mas então é Wall Street? Um murmúrio percorre o ambiente. Deixando as sublimes esferas onde meditais. Seus amigos de Nova Iorque. MAULER: Ou seja. MEYERS – Quem são esses amigos de Nova Iorque? MAULER – Morgan. E o barulho das metralhadoras. Agora. Mas nossa pobreza não é.47 “Ei.. compreendei. Caro Pierpoint. Nossa pobreza é termos perdido O sentido dos valores mais elevados.. Não quero. Estariam vocês dispostos a repetir aos quatro ventos . entrando – Mauler está? Uma correspondência para ele. Julguem vocês mesmos. pelo que dizem. Como tudo de agora em diante Me parece diferente. MAULER: Se o faço. esta caça fatigante. De um asilo necessário para os casos mais graves. Ele estende-lhes a carta. Abandonai. para que os preços voltem a subir. Outra vez responsável. é muito a contragosto. A Snyder: Existem muitas dessas lojinhas Onde se vende a Bíblia? BISPA SNYDER – Sim? MAULER – E como elas vão? BISPA SNYDER – Mal. ao contrário. Rockfeller. voltar para casa? O HOMEM DE ANTES. E voltar até nós? Pensai. é impraticável. caro Pierpoint. Seus bens. conhecem um meio de sair desta. E dado que de vós necessitamos. Sancionado pelas instâncias superiores. Providos de sopa quente e de boa música. nós aconselhamos a fazer um acordo com os criadores para reduzir o rebanho. a quem mandavam cartas desse tipo.. O negócio só é possível. assumir a empreitada. nobre Mauler. Não. Mauler. para que comprasse carne. vocês estariam dispostos. nós lhe forneceremos amanhã mais detalhes. não bebam todo o dinheiro. neste estado. OS FABRICANTES E OS CRIADORES: Desejarias. O projeto teria talvez. GRAHAM – O que não é possível? MAULER – Tenho amigos em Nova Iorque que. rapazes. o que faremos. estão para sempre perdidos.

Nós o faremos. Vê que são eles os compradores! Seja como for. Não tem outra causa a não ser Que há carne demais. ou melhor: quase todos Mas é o único meio de salvar o sistema De vendas e compras no qual vivemos. Digamos: a maior parte. dizem. TODOS – Não há outra saída! MAULER – E também precisaremos reduzir os salários! TODOS – É o ovo de Colombo! MAULER: Qual o objetivo dessas medidas? Nesta noite de sangue e confusão. você não compreendeu A questão de fundo. O mercado foi saturado este ano. Chapéus Negros. . Elas trarão a calma e a ordem. aos fabricantes: Faremos uma fusão de suas indústrias Em um só monopólio. nós decidimos. sorrindo: Minha cara bispa. Eles podem nos parecer inferiores. Miséria e fome. quebre suas ferramentas E destrua assim seu próprio ganha-pão. Então. que nós subvencionaremos Fartamente a sua missão que contribui Com a manutenção da ordem. Seria muito importante. mas se o gado tem tão pouco valor Que pensam em queimá-lo. Eu fico com a metade das ações. nesses tempos de desgraça? Pois serão necessárias medidas draconianas Que poderão parecer duras porque irão Derrubar alguns e. é claro Que entre vocês estivesse Joana. desordem e violência. Meter um freio à anarquia da criação. Em que em nossas cidades os problemas não têm fim. Eu compreendo o senhor. MAULER. para puxar os preços. ofuscado. mais ainda. meus amigos! Eles cochicham. Limitar o rebanho oferecido no mercado.48 Que nós somos uma gente valorosa. Nesse tempo de humanidade desumanizada. E que. Em conjunto. é eminente -. . que deseja Fazer o bem. não poderíamos Doá-lo àqueles que esperam lá fora E quem sabe utilizá-lo melhor? MAULER. BISPA SNYDER – Quase todos. Será preciso demitir um terço dos operários: Também de mão de obra o mercado está saturado. E é por isso que os preços caíram a zero. queimar um terço do gado existente. Todos sorriem longamente. E mesmo que muitos não compreendam. E às vezes inoportunos. Esta dificuldade pela qual estamos passando Está a ponto de ser superada. é lógico. Elas impedirão que em sua brutalidade Um povo. mas olhando bem Quem vê além das aparências das coisas. TODOS – Que solução simples! BISPA SNYDER. supérfluos. aos criadores : Escutem. Eliminar o estoque excedente atual. Toda essa gente aí fora: Eles são os nossos compradores! Dirigindo-se aos outros: É incrível. pedindo a palavra: Perdão. É por isso. OS FABRICANTES – Que cérebro! MAULER. tem seus defeitos. Enfim. criadores e industriais. É preciso limitá-la.Pois eis Chicago outra vez agitada A greve geral.

Nossos planos outra vez se impõem. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Vamos. a seu lado. cantam. penteados e carecas. joguem as grandes redes! Sejam bem-vindos. Quando estão cegos e surdos. Joana segue com o olhar os prisioneiros. De sopa encham os pratos. Eles vêm até nós para chorar. UM DELES – E por que foram presos? . Passam apenas alguns grupos de operários. SNYDER – Abram as portas! A porta principal é aberta. Sejam bem-vindos. JOANA. Os que aqui chegarem. UM CORRETOR.49 Cuja face por si só já inspira confiança. estão chegando! Daqui eles não escapam. Ninguém pode escapar: tranquem as saídas. não deixaremos! Sejam bem-vindos. Perseguidos sem trégua. olhar fixo na porta: Eles terão de vir. Música de órgão. apanhem-nos! Sejam bem-vindos. Eles combateram Pelo pão dos outros. Nenhum deles tem chapéu. estamos prontos! Já estão chegando! A miséria os traz aqui como um rebanho! São obrigados a vir. joguem as grandes redes! Eles saíram agora de sua última casa! Deus lançou sobre eles o frio! Deus lançou sobre eles a chuva! Eles terão de vir. Foram presos os sacrílegos que perturbavam a paz e a ordem! SLIFT: Podem respirar. Toquem a música e nós mesmos Seremos os primeiros a nos sentar Para elevar nossos corações a Deus. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Tranquem as saídas. dois homens conversando. entrando precipitadamente – Escutem a boa nova! A greve que nos ameaçava foi sufocada. Ela então ouve. apanhem-no! Lazarentos e descalços. UM DELES – Quem são eles? O OUTRO Nenhum deles Pensou só em si mesmo. para que nenhum escape! Eles estão a caminho. Imóvel. chega e pergunta – Vocês viram passar três homens que vinham buscar uma carta? Ao fundo ouve-se gritos que se aproximam. OS CHAPÉUS NEGROS. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! XI NOS MATADOUROS EM FRENTE AO ARMAZÉM DAS FÁBRICAS GRAHAM Os matadouros estão quase vazios. Até nós. MAULER: Abram agora a porta principal Aos homens cansados e cheios de preocupação. o mercado vai ser curado! Outra vez saímos do ponto morto E realizamos uma obra difícil. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Todo aquele que aqui entrar. As coisas retomaram o rumo que nos agrada. Passam então os dois dirigentes operários escoltados por soldados. Quando perdem o trabalho. eles chegam até nós.

E a carne vai subir. foi reduzido em um terço. você aí! As coisas deram errado. Não. chega ao termo de sua vida. os jornalistas a interpelam. Nenhum come seu pão tranqüilamente. Lançados em terra profana. Nos vales e nos cimos. Todos perecem antes do tempo. OS JORNALISTAS – Vejam só. a sorte nos sorriu. A decisão sobre a greve geral só chegou a uma parte deles.50 – O homem injusto atravessa a rua à luz do dia. pisoteados. e a esta a polícia dispersou com o uso de força. Nós soubemos ser sublimes E vulgares quando necessário. Ou de malfeitores postos na cadeia. As rajadas de neve a impediram de ver os soldados. como se ainda quisesse entregá-la: . entretanto. Golpeados. Enfim o sucesso chegou E tudo acabou bem. mas o justo se esconde. o salário também. XII EM FRENTE AO ARMAZÉM DA FÁBRICAS GRAHAM Um grupo de operários entra. esticando o braço com a carta na mão. Joana cai desmaiada. Quando os soldados vierem a recolherão. à sua frente. os açougueiros (fabricantes de conservas) os criadores e os compradores. UM DELES – Por que não se ouve falar deles? O OUTRO O OUTRO greve. Nenhum. UM DELES – Sempre será assim? O OUTRO – Não. não é a nossa Madona dos matadouros? Hei. saiba que são eles. amparada por um policial. Seu último endereço Teria sido aqui. Deixem ela aí no chão. O POLICIAL: Eis aqui uma sem-teto. A greve geral fez água. Deus outra vez se impôs. Joana se vira. não é ela. que seguram bandeiras novas. Um deles a derrubou com uma coronhada. Divididos em grupos estão os Chapéus Negros. – Ela deve estar aqui. Nenhum morre de barriga cheia. UM DELES – O que farão com eles? O OUTRO: O salário deles é baixo e seu trabalho útil à maioria. Joana. Em nós podem por fé. Aqui está! Seriam necessárias muitas como ela. Durante alguns segundos eu a vi distintamente. Nem é enterrado com decência. JOANA – Os operários concordaram? OS JORNALISTAS – É claro. XIII MORTE E CANONIZAÇÃO DE SANTA JOANA DOS MATADOUROS Agora o templo dos Chapéus Negros está ricamente mobiliado. Esta aqui não é das nossas. As fábricas reabrem. SNYDER: Quando nos jornais falarem de criminosos abatidos. Recolhida doente Nos matadouros. Ela veio daquele lado e aqui ela gritou para os nossos que as empresas municipais iriam decretar OPERÁRIOS Sim. Um grupo de pobres entra. mas apenas para dois terços dos operários. JOANA. Era uma velha operária. carregando lanternas.

E em sua marcha altaneira Para evadir-se ao mundano. E tinha sonhos para milhares. também humanos! JOANA. o infinito. Eu o neguei. Matéria a sua altura . intercedendo pelos pobres e mesmo proferindo discursos contra nós. Foi necessário. BISPA SNYDER: Levanta-te. Quando se poderia ter alterado o curso das coisas. Eu falhei com os perseguidos. Ela será a nossa Santa Joana dos Matadouros. Nós faremos dela uma santa e não economizaremos em homenagens. dando provas de humanidade nos matadouros. marchava para a luz! Seus atos eram os de um ser humano. E outra vez o mundo Percorre o antigo ciclo. Quando o meu esforço. Slift discute com Snyder e com os fabricantes. JOANA: Eu falei em todos os lugares. pois ela nos ajudou a atravessar a tormenta dessas semanas difíceis. sua térrea natureza. empregando todos os meios. Que Joana exorcize o mal E que por nós ela interceda. Ela que. Pelo contrário. Por uma boa causa. infelizmente. a quem não se pode mais explorar! Comei a sopa! Ah. E seus erros. Eu faltei. por menor que fosse. um serviço tão pequeno Foi só o que em toda a minha vida Me pediram para fazer. e ultrapassa o objetivo. Mostrá-la entre nós provará o quanto nos importam os sentimentos de humanidade. Se eu apenas tivesse entregue A carta que me confiaram! OS CHAPÉUS NEGROS. E só servi aos perseguidores. MAULER: Uma alma que exala sublimes impulsos Suporta mal. Ela vai muito adiante. A vida tranqüila de um cordeiro. Consoladora dos baixios! JOANA: Que vento sopra nesses baixios? Neve. E eu não fiz! Enquanto os pobres tomam assento nos bancos para comer a sopa. Joana dos Matadouros. eu poderia levar. Vamos colocá-la em destaque. quais os gritos que abafas? Comei vossa sopa! E não desperdiceis esse resto de calor. SLIFT – Esta é nossa Joana. Vós. Intercessora dos pobres.51 Jamais receberá a carta Aquele que agora está morto. toda a obra Onde o espírito não encontra. OS CHAPÉUS NEGROS: No final. Chegou na hora certa. enquanto as moças dos Chapéus Negros a vestem novamente com o uniforme: Ouve-se outra vez o rugir das fábricas: Outra vez se desperdiçou a chance De colocar um freio a esses excessos. dirigindo-se a Joana: Como ela ainda está perturbada. MAULER: Que tome posição em nossas fileiras Esta alma inocente e cândida E que sua bela e pura voz Misture-se aos cânticos de nosso coro. na noite. O ideal. Desta vida intolerável E atingir o inconcebível.

qualquer que seja. Deixando sem medo um mundo por onde passei muito rápido. que significam Se não se manifestam em nenhum lugar? De que serve vosso saber Se o que sabeis não tem conseqüência? Eu mesma. Eu vos digo: Quando chegar a vossa vez de deixar esse mundo. Exceto aquele que muda o mundo Definitivamente: isso é o que é realmente necessário. O que está em cima está em seu justo lugar. No topo e no chão. O que está em baixo tem grande importância.Isso não basta – Deixai um mundo bom. de maneira a encobrir a voz de Joana: Para que até o céu se levante o edifício. Contrário à razão. Pois se dele esquecer Perturbará nossa harmonia. Eu. é magnífico Sempre que espírito e negócios se aliam. a Joana: Seja boa e se cale! . OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES. Maldito aquele que apelar A essas massas essenciais Mas sempre insaciáveis. JOANA: É uma grande verdade Que aprendi e que vale para todos E morrendo eu vos digo: Vossos bons sentimentos. Que cada um. Entre os do alto a baixeza é sem limites. Que ninguém seja tido como honrado. JOANA: Pois entre os de cima e os de baixo O abismo é mais profundo Que entre o Himalaia e o fundo do mar. ignora-se o que se passa em baixo. Quaisquer que sejam as aparências. OS CHAPÉUS NEGROS. E dois idiomas diferentes Os homens têm a mesma face E não se reconhecem mais. A esses elementos dos baixios! JOANA: Mas os que estão por baixo são assim mantidos Para que os de cima lá continuem. Nunca se sabe em baixo. Mas que não sabem o quanto. Não esqueçamos que ela esteve nos matadouros. eu não transformei nada. GRAHAM – Ela não pode proferir discursos que não sejam razoáveis. para os exploradores. Mas também no alto.52 Resta fragmentada Sem alma e sem vida. Não tenhais a preocupação de terem sido bons . Se não for uma ajuda real. falando alto. dois pesos e duas medidas. caí do céu! Infelizmente! Bondade sem conseqüência! Sentimentos Que não fizeram a menor diferença! Não. Mas nada mudará se eles melhorarem. Precisa-se do chão. Porque o sistema é construído assim: É apenas exploração e desordem. A essas tropas indispensáveis. Sistema bestial. então. fique no lugar Que lhe é atribuído. OS FABRICANTES: O resultado. o que foi que eu fiz? Nada. E sem descanso nem folga Realize seu dever. como do topo. Que nada seja considerado como boa ação. E o que se passa no alto.

Sempre se metamorfoseia. os alto-falantes começam a transmitir notícias que espalham o medo: “Bank of America e Citibank estão de pires na mão” “Revolta contra os cupins financeiros conflagra Londres” “Múltis drenam do país US$ 3. distingam com um sinal! Hosana! Enquanto eles cantam os versos. contraiu a serviço de Deus uma pneumonia nos matadouros de Chicago.266 bilhões só em dez dias de março” “BC assalta U$ 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street” “Montadoras almoçam os R$ 8 bi do crédito e mantêm ameaça de demitir trabalhadores” “Deficit dos EUA deve chegar a US$ 9 tri entre 2010 e 2019” . Chegar ao topo implica Pisar na cabeça daqueles que estão por baixo. de esquecer os remorsos. sempre mais alto. Denegrindo a ti mesmo. Mas evita. Não. invisível. Do qual podeis esperar ajuda. JOANA: Se alguém um dia vos disser Que existe um Deus. quando vos disserem. a eles concedei! Hosana! A quem tudo possui. Que podeis elevar-vos moralmente Mesmo com os pés enfiados na lama. MAULER: Deves agir. infelizmente. Onde reina a violência Não há outro recurso senão a violência. é preciso fazer algo para tirar a atenção do que ela fala. O Verbo magnífico. JOANA: E do mesmo modo. Todos. ou seja. OS AÇOUGUEIROS: Podes fazer qualquer coisa! OS CHAPÉUS NEGROS: Mas faça-o Sempre com muito escrúpulo! Espírito contemplador. Não esqueçam. SLIFT – Escutem. Só dos homens pode vir ajuda. Precisarás deles sempre! OS CHAPÉUS NEGROS: Olha para cima. Aos ricos concedei a riqueza! Hosana! Também a virtude. Combatente e mártir. Sempre necessário . mas que seja bem alto. A palavra de Deus. é verdade. Não esqueças: tua consciência está lá! Atenção. Batei com uma pedra em seu crânio Até que arrebente. de século em século. Falem. BISPA SNYDER – Joana Dark. ferir! OS CHAPÉUS NEGROS: Nunca esqueças do sangue que mancha teus sapatos.53 É preciso. obedeça! OS AÇOUGUEIROS: Quem se mover no espaço Nunca poderá subir: Subir é subir sobre alguém. tudo concedei! Hosana! Concedei-lhe a cidade e o Estado! Hosana! Aos vencedores. cantam a primeira estrofe do hino.Sobretudo se forem compras especulativas – Esse Verbo que. OS AÇOUGUEIROS: E nem pensa em tirá-los. digam qualquer coisa. vinte e cinco anos. Em suas compras. É preciso também golpear-lhes o crânio com uma pedra. comerciantes. Onde vivem os homens. para abafar o discurso de Joana. sobretudo.

Ajudai vossa classe. foram vocês que se recusaram a reduzir também!” “Vocês são os únicos culpados!” “Enquanto não acabarem com vocês não vai melhorar!” “Faz tempo que o destino de vocês está selado!” “O que estão esperando para prender vocês?” Todos cantam a segunda e a terceira estrofes do hino. Não dá mais sinais de vida. mas ela cai. Snyder e Mauler vão até ela. combatente e mártir. por que criaram tanto gado?” “Alucinados.” “Os bancos nos arruínam com os juros que exigem!” “Quem pode pagar tanto dinheiro para estocar o gado e pelos silos de grãos?” “Por que vocês não começaram a reduzir a produção?” “Nós começamos. na terceira vez ela o pega. tocada pela morte. mudos de emoção. Infelizmente. Um desejo vive no coração do homem. morta de pneumonia nos matadouros. Hosana! Nesses braços que vos estendem. Hosana! Notam que Joana para de falar. BISPA SNYDER – Joana Dark. Pelo espírito. Hosana! Que seus crimes terminam bem.7%” “Crise já eliminou 6 mi de empregos nos EUA” “Incertezas rondam fábricas da GM à beira do fechamento” Sob o efeito dessa terríveis notícias os personagens trocam entre si acusações e diversos insultos como esses: “Açougueiros sujos. Hosana! Esmagai o ódio. diz governo ” “EUA mudam socorro para bancos. A um sinal da bispa. Hosana! Piedade com aqueles que ignoram a fome. Hosana! Oferecei a vossa graça. Hosana! Durante esta estrofe. ao firmamento Um impulso múltiplo o atira. sinto-me atraído: . a serviço de Deus. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES: Desde que o mundo é mundo.54 “Empresas dão calote recorde para remunerar seus acionistas” “Recessão ainda irá se agravar no Japão. MAULER: Como a pureza De um ser inocente. Em seguida cai nos braços delas. Bolsa de NY cai 4. sempre ele aspira Às esferas mais elevadas. Colocam a bandeira em suas mãos. por que não empregaram mais gente e pagaram melhores salários? Quem esperam que compre a nossa carne?” “Foram os intermediários que fizeram subir tanto a carne de gado. as mulheres tentaram oferecer a Joana um prato de sopa. para sua grande pena. que vos ajuda também. MAULER – Dêem uma bandeira a ela. Comove-nos profundamente. A voz de Joana já não se ouve: Concedei aos ricos misericórdia. até cobri-la totalmente. Todos ficam muito tempo de pé. Hosana! Com mãos cheias. A carne para a terra o arrasta! MAULER: Ai! Um duplo desejo dilacera meu pobre coração. levanta e vira. Aos astros. Qual um punhal. vinte e cinco anos. que manipulam o dinheiro a rodo. Nós que temos a alma comum! E então desperta a boa alma Que temos no fundo de nosso coração. Por um nobre ideal. até o fundo cravado. se não tivessem degolado tantos porcos!” “Criadores miseráveis. Em duas tentativas ela recusa o prato. Hosana! Juntai vosso riso aos que riem. A generosidade De uma alma sem mácula. colocam-se suavemente todas as bandeiras sobre Joana.” “Foram os especuladores de grãos que encareceram o gado. O palco é iluminado com uma luz rosada.” “Foram as tarifas das estradas de ferro que nos esfolaram. Hosana! Ajudai a quem tudo possui.

não consigo resistir Inexplicavelmente! TODOS: Em cada homem habitam Duas almas opostas. Longe de querer escolher uma delas. desejo o altruísmo Mas à atração pelo lucro. como de tua alma grosseira. Cuida bem das duas! . Ele precisa cuidar de ambas. Cuida de tua alma terna. Homem! Luta sempre contigo mesmo! Sigas sendo este ser uno e sempre dividido! Cuida de tua alma boa. como de tua alma vil.55 Desejo a abnegação.