Bertolt Brecht - Santa Joana Dos Matadouros Comp

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I O rei da carne, Pierpoint Mauler, recebe uma carta de seus amigos de Nova Iorque CHICAGO. OS MATADOUROS
MAULER,

lendo uma carta. – “Parece-nos evidente, caro Pierpoint, que já há alguns dias o mercado da carne está saturado. E, no sul, as barreiras alfandegárias resistem a todas as nossas ofensivas. Acreditamos, portanto, ser prudente, querido Pierpoint, não mais envolver-se com este negócio...” Acabo de receber essas indicações de meus bons amigos de Nova Iorque. Lá vem meu sócio. Ele esconde a carta. CRIDLE – Por que esse ar tão sombrio, querido Pierpoint? MAULER: Lembra-te, Cridle, daquela caminhada Que fizemos uma vez, pelos abatedouros? Era noite. Diante de nossa máquina nova, Cridle, lembra-te, nós vimos um touro Claro e nobre, dirigindo aos céus seus grandes olhos vazios. Ele recebeu diante de nós o golpe que o abatia: E tal golpe me atingiu até o fundo do coração! Há sangue demais, Cridle, em nosso negócio! CRIDLE: Amigo, vens outra vez com tua antiga fraqueza. Quem acreditaria, Pierpoint? Tu, o maior de todos, O rei dos abatedouros, dos açougueiros o terror, A morte de um touro louro te enche de dor! Não conte, eu te rogo, tal segredo a ninguém A não ser a mim! MAULER: Oh, meu fiel amigo, Por que me levaste a visitar o abatedouro! Durante os sete anos em que estou no negócio

Eu evitei fazê-lo. Eu não posso suportar Um comércio tão sangrento, não tenho mais forças: Eu me retiro de imediato... Cridle, queres a minha parte? A terias por muito pouco; a ti, a preferência: Ninguém conhece o negócio como tu. CRIDLE: Muito pouco? Quanto? MAULER: Velhos amigos como nós dois Não podem disputar muito por valores. Dez milhões! CRIDLE: Não seria caro, se não houvesse Lennox Que, pela carne em conserva, lata a lata se bate, E estraga o mercado com seus preços baixos. Tirará nossa pele, se não tirarmos a dele. Enquanto ele estiver em pé, e só tu podes abatê-lo, Não posso aceitar tua proposta. Deverás, até lá, com tua mente fértil, Encontrar uma saída. MAULER: Não, Cridle, Esse coração treme ainda com o grito do touro! É preciso então que Lennox caia rápido, Pois quero, doravante, viver como homem de bem E não mais como açougueiro. Saiamos, Cridle, e eu te direi A forma de abater Lennox. Mas tu deverás então tirar esse peso do meu coração E tomar a frente de nosso negócio CRIDLE: Quando Lennox for derrubado Eles saem. II

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O desmoronamento das grandes indústrias da carne A - DIANTE DA FÁBRICA DE ENLATADOS DE LENNOX
OS OPERÁRIOS

Nós somos setenta mil Nessas fábricas de conservas E nossos salários são tão baixos que não podemos mais [sobreviver. Ainda ontem, de surpresa, reduziram nosso pagamento E hoje, um novo aviso: “Os que não estão satisfeitos, sempre podem deixar a fábrica!” Saiamos então, e todos juntos. Ao diabo esse salário que diminui todos os dias. Silêncio Há muito tempo já esse trabalho nos nauseia: Esta fábrica é para nós um verdadeiro inferno E só pode nos manter aqui o medo, O medo duplo, de Chicago e do inverno. Mas agora, doze horas de trabalho Já não garantem nem um pão seco Nem dão para comprar um trapo velho. Melhor partir E morrer de uma vez. Silêncio Pelo que nos tomam eles? Acreditam então Que nós somos gado, dispostos a tudo? Tomam-nos por jumentos? Melhor morrer! Deixemos a fábrica Agora mesmo. Silêncio O que houve? São seis horas! Por que não abrem, corja de esfoladores? Seus bois estão aqui, bando de açougueiros! Abram! Batem no portão.

Terão eles nos esquecido? Risos. Abram! Queremos entrar Em suas imundas pocilgas E suas cozinhas infectas Para preparar guisados indigestos Para os que ainda podem pagar. Silêncio No mínimo exigimos, O salário anterior, que já não dá para nada. No mínimo A jornada de dez horas e, no mínimo... UM HOMEM QUE PASSA: O que vocês estão esperando? Não sabem que Lennox fechou? Gazeteiros de jornal aparecem na cena GAZETEIRO – Lennox, o rei da carne, forçado a fechar suas fábricas! Setenta mil operários na rua. Lennox vítima da concorrência feroz imposta por Pierpoint Mauler, rei da carne e da responsabilidade social!
OS OPERÁRIOS

Desgraça! O próprio inferno Diante de nós fecha suas portas! Nós estamos perdidos. O impiedoso Mauler Aperta a garganta de nosso explorador E somos nós que sufocamos! B - UMA RUA – A Tribuna de Chicago, edição do meio-dia! O rei da carne e da responsabilidade social, Pierpoint Mauler vai inaugurar os Hospitais Pierpoint Mauler, os maiores e mais caros do mundo! Dois transeuntes olham para o fundo do palco, “vendo” Mauler. UM TRANSEUNTE, ao outro – Aquele é o Pierpoint Mauler. Mas quem são os dois que o acompanham?
GAZETEIRO

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– Seguranças. Só anda escoltado, com medo de apanhar de alguém.
O OUTRO

Para levar Deus ao coração de um mundo que desaba E nele restaurá-Lo, pela ação dos mais humildes. Os Chapéus Negros andam. Toque de tambores. Durante todo o dia os Chapéus Negros pregaram nos matadouros, mas, quando a noite chegou, os resultados eram quase nulos. DIANTE DA FÁBRICA DE CONSERVAS LENNOX – Dizem que eles estão preparando um grande golpe sobre o mercado de carne. Para nós isso que dizer esperar e passar fome. OUTRO OPERÁRIO – A luz está acesa nos escritórios. Estão lá, calculando os lucros. Chegam os chapéus Negros. Fixam no chão uma placa na qual se lê: “Hospedagem: 20 centavos por noite. Com café: 30 centavos.” CHAPÉUS NEGROS cantando Escutem todos, escutem bem! Tu que te afundas, nós te vemos, Teu apelo por ajuda, nós o escutamos, Teu sinal, nós o percebemos. Parem os carros, detenham o trânsito Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Tu que te escondes, tu que duvidas, Olha para nós! Olha, Meu irmão, antes que sucumbas! Nós te damos o que comer E nós não esquecemos Que tu não tens abrigo. E, sobretudo, não digas que tudo está perdido: Tudo será diferente, a injustiça nesse mundo Não poderá durar se todos se juntarem a nós, Marchando ao nosso lado Com o único objetivo de ajudar o próximo. Nós faremos avançar os tanques e os canhões
UM OPERÁRIO

Para levar consolo aos miseráveis dos matadouros, os Chapéus Negros deixam a sua sede. Joana empreende sua primeira descida às profundezas. C - EM FRENTE AO TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS
JOANA,

à frente de um comando dos Chapéus Negros: Nesta noite de sangue e confusão, Nesse tempo de desordem organizada, De arbitrariedade consentida, E de humanidade desumanizada, Nesse tempo em que em nossas cidades Os problemas não têm fim; Nesse mundo, imenso matadouro, Em que nos chegam rumores de violência iminente; Para impedir que, em sua brutalidade, O povo, ofuscado, quebre suas ferramentas E destrua assim seu ganha-pão, Nós queremos reintegrar Deus Pois aos lugares onde realmente vivem os homens Ele não mais tem acesso: Sua glória anda pouca, Seu nome, já quase suspeito. Dos mais humildes, entretanto, ele é a única salvação! Então nós resolvemos Por ele bater nossos tambores nesses bairros; Para que ele penetre no coração da miséria E que sua voz retumbe pelos matadouros. Aos Chapéus Negros: O que faremos agora é uma última tentativa. Pela derradeira vez, nos esforçaremos

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Nós lançaremos ao mar os navios de guerra, E nos ares, os aviões Para conquistar teu pão, meu irmão. Porque vós, os pobres, formais Nesse mundo um imenso exército. Vós que nos escutais Não esperai o amanhã! Desde hoje ajudai, Ajudai ao próximo! Avante! Ao assalto! Empunhai vossos fuzis! Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Cantando, os Chapéus Negros começam a distribuir seu jornal: Apelo às Armas, bem como colheres, pratos e sopa. Os operários agradecem e põem-se a escutar o discurso de Joana. JOANA – Nós somos os soldados do bom Deus. Por causa dos chapéus que usamos, somos também conhecidos como os Chapéus Negros. Nós dizemos que somos soldados, porque formamos um exército e porque, em todos os lugares em que vamos, precisamos lutar contra o crime e a miséria, contra as forças que tendem a nos aviltar. (Ela mesma começa a distribuir sopa) Bem, agora comam esta sopa quente e constatarão que depois vocês verão as coisas com um olhar diferente. Pensem agora qual esperança se pode fundar sobre a felicidade terrena. Nenhuma, absolutamente nenhuma. A desgraça vem como a chuva: ninguém a provoca, mas, entretanto, ela vem... Suas desgraças, digam-me de onde vem? UM DOS QUE COMEM – De Lennox & Cia. JOANA – O senhor Lennox tem talvez mais preocupações do que vocês! O que vocês estão perdendo? Ele, suas perdas se contam por milhões. UM OPERÁRIO – Carne não há nesta sopa, só uma aguinha clara, isso sim. Mas quente, pelo menos, está. OUTRO OPERÁRIO – Fiquem quietos, bando de glutões! Escutem a palavra de Deus! Senão vão tomar o prato de água quente de vocês.

– Silêncio! Queridos amigos, digam-me: por que vocês são pobres? UM OPERÁRIO – Sei lá! Explique você! JOANA – Eu lhes direi. Não é porque vocês não estão cheios de bens materiais – que não chegam para todos – mas porque vocês não têm idéia dos valores mais elevados. É por isso que vocês são pobres. Esses gozos vulgares aos quais vocês aspiram, comer um pouco, ter um bom lugar para morar e ir ao cinema, não são mais do que prazeres frívolos, grosseiros. Enquanto que a palavra de Deus é um prazer mais delicado, mais profundo e muito mais refinado; talvez vocês não possam nem imaginar algo mais doce do que o chantili, mas a palavra de Deus é ainda mais doce. Homens de pouca fé, os pássaros no céu não têm carteira de trabalho, as açucenas do campo não têm emprego e, entretanto, como eles cantam Sua glória, Deus lhes dá alimento. Nós, os Chapéus Negros, fazemos então a vocês uma pergunta muito prática: de que um homem precisa para crescer na vida? UM OPERÁRIO – Um colarinho engomado. JOANA – Nada disso. Para progredir na terra talvez seja necessário um bom colarinho, mas diante de Deus é preciso muito mais que isso, outras glórias. Vocês aos olhos Dele, nem mesmo um colarinho puído têm, pois deixaram suas almas no abandono. Mas então como vocês querem elevar-se, chegar ao que vocês, em sua ignorância, chamam de uma “situação melhor”? Pela força bruta, pela violência? Como se algum dia a violência tivesse trazido alguma coisa além da destruição. Vocês acham que mostrando os dentes conquistarão o paraíso na terra. Mas eu lhes digo, agindo dessa maneira o que se cria não é o paraíso, mas o caos! Um operário chega correndo. O OPERÁRIO: Uma vaga, agora mesmo, acaba de abrir! Um trabalho, um salário, esperam por vocês, Na fábrica número cinco! Que mais parece uma latrina. Corram, rápido. Um operário larga seu prato cheio e sai correndo.
JOANA

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– Ei, você, onde é que você vai? Quando se ocupará de Deus? Vocês não querem nem ouvir falar, não é? UMA MOÇA DOS CHAPÉUS NEGROS – Acabou a sopa. OS OPERÁRIOS: Acabou a sopa; Era só um caldinho ralo Mas era melhor do que nada. Todos se viram e se levantam. JOANA – Fiquem sentados; acabou, mas que importa, uma vez que a grande sopa celeste não se esgota nunca. OS OPERÁRIOS: Quando, afinal, vocês Abrirão as portas de seus porões, Carniceiros, mercadores de carne humana? UM OPERÁRIOS: Com o quê, agora, pagarei A casa pequena e úmida, onde vivemos doze? Eu já paguei dezessete prestações, Mas a última, não conseguirei Seremos jogados na rua. E o chão de terra batida E nosso pedaço de grama amarela, Nunca mais os veremos, nunca mais, Nem tampouco respiraremos seu pestilento ar familiar. UM OUTRO OPERÁRIOS: Aqui estamos, em pé, nossas mãos como pás, E nossos pescoços fortes como tratores. Nossas mãos e nossos pescoços, queremos vendê-los Mas não há quem os compre. OS OPERÁRIOS: E nossas ferramentas - Gigantesca montanha de prensas e gruas – Estão trancadas, detrás desses muros! JOANA – E então, o que se passa? Quer dizer que já se vão? É porque já terminaram de comer? Adeus e obrigado. Mas por que então vocês escutaram até agora?
JOANA

– Pela sopa. JOANA – Continuemos. Cantem! CHAPÉUS NEGROS cantando Avante, entrai nessa luta! No coração da batalha lutai! Cantai com louvor, que cante todo o mundo. Ainda é noite, mas logo virá o dia, Raiando com todo o esplendor, E junto virá Jesus Nosso Senhor. UMA VOZ, do fundo do palco – Estão contratando nas fábricas de Mauler! Os operários saem. Fica apenas uma mulher. JOANA, com ar sombrio: Parem a música! Acabou a sopa, lá se vão eles! Seus olhos são incapazes de elevar-se Mais alto do que a borda do prato. Eles não crêem em nada além do que está Entre suas mãos. Acreditarão em suas mãos? Vivendo cada dia, cada minuto mesmo, Na insegurança, eles não são capazes De se esquecer das preocupações mais básicas. Nada, a não ser a fome, tem sobre eles qualquer influência. Nenhuma canção os toca mais. Nenhuma palavra pode Descer até eles e penetrar seus corações. Aos que a cercam: Parece que nós, os Chapéus Negros, temos por tarefa alimentar todo um continente com nossos poucos talheres. Os trabalhadores voltam. Ao longe, ouvem-se gritos. OS OPERÁRIOS, na frente do palco – Que gritos são esses? Um imenso caudal humano emerge dos abatedouros. UMA VOZ, do fundo: Mauler e Cridle também fecharam. As indústrias Mauler optam pelo lock-out! OS OPERÁRIOS, refluindo:
UM OPERÁRIO

Os Chapéus Negros se afastam. Eles têm apenas idéias vulgares na cabeça. ele te revenderia. E vê esvanecer-se sua pureza original. JOANA – Esse Mauler. Na insana esperança de obter uma resposta Que jamais chegará. pronto. os fabricantes de conservas Lennox e Graham discutem. No alto. Jamais seus corações. eu quero vê-lo. OS CHAPÉUS NEGROS – Pare! Não te metas com essas questões. onde se compram e vendem animais. ruídos da Bolsa. meu velho Lennox. – Não. Recebemos mil respostas. JOANA III Pierpoint Mauler é tocado pelo sopro de um outro mundo EM FRENTE À BOLSA DE CARNES Em baixo. desce cada vez mais baixo. JOANA – Quero saber. Ele venderia o próprio ar. Abrigaram sentimentos nobres. JOANA – Não! Eu quero saber (aos trabalhadores) Digam-me. Tu desaparecerás na lama! Pois a lama entope as bocas Que fazem perguntas sem prudência JOANA: Eu quero saber. MARTA. para ele. na frente do palco: Desgraça! De todos os lados chegam ainda Torrentes infindáveis de homens! OS CHAPÉUS NEGROS. já que ele é a causa de tamanha miséria. Todos haviam perdido o emprego E perguntavam onde achar trabalho. quem é o responsável por tudo isso. São reles glutões Preguiçosos. O que comeste. Em um grande edifício: A Bolsa de Carnes JOANA: Eu vou até lá: Eu preciso saber. presa. desde o dia em que nasceram. Torna-se mercadoria. por que correm de um lado a outro e não encontram trabalho? OS OPERÁRIOS: O sanguessuga Mauler e o muquirana Lennox brigam entre si. que fogem do trabalho. Enquanto corríamos atrás de trabalho. OS CHAPÉUS NEGROS – Então teu destino nos parece bem negro. Eles encherão tuas orelhas com seus gritos. Lennox está branco como algodão. a Joana – Vamos agora. Ao fundo. torna-se. derrubou-te. antes. Resultado para nós: barrigas vazias. Degrau após degrau. dos Chapéus Negros: Não vá te meter com estes problemas. Oh Joana! Não te metas nas querelas terrestres! Pois quem nelas se envolve. mora aonde? OS OPERÁRIOS: Lá. Sua bondade perde rápido. por favor. E o frio supremo Rouba de seu coração todo o calor. Uma multidão enorme e desesperada. Estamos gelados e molhados e precisamos comer. Ao fazer mil perguntas. UM OPERÁRIO. O selvagem Mauler! De um tal monstro a investida É inexorável! A natureza. Quem abandona o lar protetor. esse Mauler.6 No meio do caminho encontramos. . GRAHAM: E então. Joana e Marta esperam.

acompanhado de seu corretor. cruzei a última fronteira. Gritaram-me prudência: Para eles. Tal qual dois grandes búfalos. eu garanto.7 De barracos miseráveis. Vocês mesmos. até aqui me acompanhastes. Primeiro perde a pele. De carne podre. E se lhe jogas pedras na cabeça. A nova técnica é muito engenhosa: O porco é colocado em uma esteira rolante Até o alto da fábrica. à Marta: Tu somente. Quando ele não podia absorver mais nada. olhe para mim e de meu pescoço. como vais reconhecê-lo? JOANA – Saberei bem reconhecê-lo. MARTA – Joana. Em dinheiro ele as transformará. MARTA . com voz suave. que. Mauler. ele faz ouro. este homem não é duro E nem ama o dinheiro. A Lennox: Estás perdido.. O que fazer com ela? Ah. Instalar duas ou três dessas máquinas novas. Saibas. Nas facas. esta arte contrária à natureza. JOANA – Mas tu vieste comigo. que vira couro. e dorme mal à noite. Fizeram desabar os preços e destruíram seu negócio. Fecho minhas fábricas. Agora vou limpar a minha fábrica. não achas? Ele se degola e logo. surge de um grupo de fabricantes de conserva. O faro para o dinheiro é nele tão potente. a cada fase. sozinho. Tão natural. para economizar Uma agradável soma em salários. ainda ontem florescente!. E agora. Cridle. então. o porco se precipita. lutando.” CRIDLE : . Lennox! Acabou a guerra de preços! Foste eliminado. OS FABRICANTES DE CONSERVAS : Trata-se de saber quem agüentará mais tempo.. Cridle sai da Bolsa e desce até o palco. CRIDLE: Muito bem.Joana.. MAULER : Lennox está de joelhos.. moídos como farinha. no último andar. Lubrificar meus cutelos. Batendo-se por sua conquista. eu também te recomendei prudência. época maldita! Um comércio estrangulado por montanhas de conservas. Bem pensado. nele. Tira esta mão que me aperta e me estrangula. até ele e. Que ele não saberia jamais trair seu instinto. Ele não pode suportar A visão da miséria. Pois caindo.. Marta. ele extrai rendas. ficarás com a fábrica Conforme está previsto nos termos do contrato: “No dia em que Lennox for eliminado. JOANA. Vá. confessa. Estranho conselho! Eu te agradeço. chega Na lata que o espera lá embaixo. com sua escalada. Por si mesmo. por conta de seu próprio peso. em salsicha se transforma. Até chegar aos ossos. não é verdade? GRAHAM : Muito bela! Mas e a lata. Um mercado aviltado. Bela invenção. Depois seus pelos. Todos me abandonaram. Slift. Destroem com seus cascos o pasto que disputam.. Começa então o seu retalhamento. Ele terá medo. que viram escovas. E pensa nos velhos tempos. Espero que o mercado recobre a saúde. E assim. no entanto. Diga-lhe: Mauler. E talvez chore.

Antes que quebres de uma vez! Creia-me. um contrato dos tempos de prosperidade! Mas e a crise? Ela não existe? Que posso fazer eu com um grande matadouro Se ninguém mais compra carne em conserva? Agora sei bem porque não podias Mais suportar a visão do gado morrendo: sua carne Não vende mais! MAULER : Não. tu me forças. Hoje. olhe para mim. Pois eu proibirei Cridle De comprar-te uma única lata. GRAHAM — Mauler. então. Pepê! Como quiseres. : Pepê! Isso não é um jogo! Não podes misturar Questões pessoais aos negócios! CRIDLE – Pois não.. Lennox. Freddy! Quer dizer que tu me socas.8 Sim. MAULER . Tu me ofereceste a 320. nada. se tu estás Realmente onde dizes. Seis dias? Não.. Veja se esse contrato diz uma só palavra sobre a crise. o coração torturado! Cridle se afasta. Mas. e onde eu conseguiria dinheiro para pagar tua parte? Eu estaria arruinado! MAULER : Já que me dizes isso. É preciso então. sem mais delongas. MAULER – Leia. Não pude imaginar seu fado. A exigir meu dinheiro. Cridle. CRAHAM . se eu fizer isso. e tu tinhas um terço. veja Lennox. mergulhado em meus negócios. Estou tão temeroso que chego a suar frio: seis dias. eu precisaria jogar essas ações no mercado. de examinar Contigo. cinco. Mas com ele acabaram Os bons dias do mercado. Isso não é um contrato? Com um preço fixado? CRIDLE : Sim. CRAHAM : Toque-lhe o coração. Joana fez um sinal a um segurança e lhe diz algumas palavras. nosso contrato não é mais viável. elas cairão a 70. Não estava caro. LENNOX – Não. Lennox! Toque-o! É uma lata de lixo. tenho dois mil empregados! CRIDLE – Mande-os ao cinema! Mas Pepê. é que meu coração se aperta Quando ouço mugir a criatura CRAHAM : Agora eu compreendo a grandeza de teus atos. Lennox acabou.. LENNOX – Mauler. (faz contas em uma caderneta) Quando combinamos que tu sairias do negócio. Mauler. É o máximo que posso fazer. Mauler. as ações estavam a 390. Para pagar o que te devo.. MAULER : O quê? A soma está inscrita Claramente no contrato Tome. Mauler. Ele sai. as ações caíram para 100. Cridle. E eu. então. seguindo-o com os olhos: Tive a ligeira impressão de que algo o atormentava.. Repensar os dez milhões de dólares Que queres por tuas ações. mas. Nada além. MAULER – Ai! GRAHAM — Viu? Ele tem um coração! MAULER : Então.. Ah! Pudesse eu estar liberado De um comércio tão bestial! Tenho. sensível! Ele soca Mauler no coração. até teu coração sabe ver longe! LENNOX : Eu gostaria ainda. isto é. como eu. devido à saturação do mercado.

nem desses versos sentimentais Que eles adoram cantar. MAULER – Rindo. 43. Com ar invejoso. 59. Chapéus Negros. na verdade. é ele. MAULER : O que é esta organização? O SEGURANÇA — Eles têm muitas ramificações. Diga-lhes que eu os receberei Mas que eles limitem-se a responder minhas perguntas. Mas. sem dúvida? Prontos para a violência. Para Joana:) Quanto recebes por dia? JOANA. JOANA. cá entre nós.9 O SEGURANÇA — Senhor Mauler. etc. – É o senhor. (aponta para Slift) É ele! JOANA. Slift? (Enquanto isso. Vitelos. JOANA: Por que joga. A Joana: Vós sois.É assim. que o sangrento Mauler. Ouve-se: Bois. é o que tem a cara mais ensangüentada. . O melhor para eles É causar em mim a impressão de gente honesta. eu sei. dirigindo-se direto a Mauler – O senhor é o Mauler! – Não sou eu. seus trabalhadores na rua? MAULER. respondam apenas Quando ele lhes perguntar. Que não é acusada de nada E que não espera o impossível de mim. não é homem de bem. MAULER : Já ouvi falar dessa gente.. Creiam-me: esses são assuntos profissionais Que não vos interessam. apontando para Mauler – O senhor é o Mauler! MAULER – Não. MAULER – Como me reconheceste? JOANA: De todos. MAULER: O tecido é bem fininho e. Slift ri. a Slift: Que eles trabalhem por nada. Graham sai. O segurança vai ao encontro de Joana no outro lado do palco. Slift.. Nada de choros. Pretendo renunciar a esse negócio sangrento Logo que eu possa: renunciar sem retorno. JOANA. que eu sou Mauler. não é notável? Já viste algo igual? Que trabalhem por nada e sem se lamentar? Não vejo em seus olhos nem medo da miséria Nem de dormir sob as pontes alguma noite. que a sopa seja rala. em absoluto. MAULER : A escória em farrapos. Sim. adoraria vossa opinião. hein? Não. MAULER : Está bem. diga que não estou. O SEGURANÇA — São membros da Organização dos Chapéus Negros. Porcos. Mas o que eles querem comigo? O SEGURANÇA — Afirmam que têm algo a dizer ao senhor. além da comida e do uniforme. MAULER . – Vinte centavos. Dizem. sobre outra questão. Mas que nome curioso! Soldados do Bom Deus. Durante esta cena. mas vocês não devem Perguntar nada. Mais uma coisa: não diga. Senhor Mauler. O SEGURANÇA: Ele vai vê-los. e pôs em apuros Cridle que. 55. São chamados de soldados do Bom Deus. gente estranha. Pouco me importa o que esperam de mim. o rumor da Bolsa continua. que a escória me chama – Despojou Lennox. são numerosos e gozam de grande consideração nas camadas inferiores da população. há algumas pessoas que querem lhe falar. o tecido não é grosso Nem é grossa a sopa. suponho.

Mas tendes consideração demais pelo destino dos pobres: Eles são maus. É bom. São todos carniceiros. diga. dêem o dinheiro. O senhor não poderia realmente ajudá-los? MAULER: Repita por toda a parte: eu aprovo vossa ação. não creias que seja de boa fé. Talvez por isso te ajude. dêem! Corja de carniceiros! Ele continua mexendo nos bolsos deles para dar dinheiro à Joana. não é? JOANA: Não sei se o senhor fala sério. Um instante. Eu sei. Dirigindo-se aos outros: Parece-me que fui tocado pelo sopro de um outro mundo.. Deixai disso. MAULER: É que adquiri o maldito hábito De disfarçar a voz. Mas é uma gentileza. pessoas extremamente más. ele decidiu abater O rico Cridle. JOANA: Senhor Mauler. A canalha. há pouco. JOANA – Senhor Mauler. O homem. minha filha. que com tal decisão As pessoas sofreram. por favor. Isso não é bom? E conforme vosso espírito? SLIFT : Vendo morrer o boi. Senhor Mauler. Eu também vou embora. Desculpe-me. sem nenhuma obrigação: Eu não sofro de insônia. Seu rosto me agrada. Deverias. a Joana: Joana. isso de se retirar do negócio. tu também. Eu sei. de resto. Diga-me que está certo E que isso te agrada. Eu os verei chorar um dia. tomando-lhes o dinheiro que trazem consigo e dando-o a Joana. MAULER: Riam todos. Tamanha inocência!. MAULER: Eu tenho grande piedade pelos bois: o homem. Ele se aproxima dos industriais. MARTA. E desejaria que fossem mais numerosos. A parte – doze milhões – que eu tinha na usina. Tome para os pobres.. Mas este mal era inevitável. por que fechou os matadouros? Eu preciso saber. JOANA – Isso é uma gota no oceano. não me comove. Mas... Cedi por dez ao homem que vêem aqui. aliás. no lugar do pobre animal. Ele fala com Slift em voz baixa. um boi e fiquei tão comovido Que quis largar tudo. mas não digas nada. Embora já tenhas vivido mais de vinte anos. Não. nos matadouros dizem que o senhor é o responsável pela miséria deles. Marta sai. O mundo não poderá mudar se antes não mudarem os homens. não me digas nada. Abandonar esta empreitada. Ele não é maduro ainda. confesso. . MAULER: Poderia eu ir mais longe? Porque ele é sangrento É que eu tirei as minhas mãos deste imenso negócio. Isso não é bom? Os fabricantes de conservas explodem em gargalhadas. Dêem o dinheiro. ele é mau. São. Nenhum é inocente. Seu riso não me atinge. vamos. eu sinto Que tu não gostas de mim. Eles não têm mais trabalho. para o que pretendes fazer.10 Pois eu vi – e isso vos interessará – Morrer. Melhor para ti que não os veja.

dê dinheiro a ela. Azar. peguei para mim.. ficará com a vaga de Luckerniddle. Ele sai. saindo – Um conselho: não te metas com as gentes dos matadouros. vendo Mauler se afastar: Este homem não é mau. E verás que tua piedade é descabida. Ele ouviu nosso chamado. o quanto antes melhor. Slift e Joana escutam. e enrola o seu. Se isso falhar . Aqui estão seu casaco e seu boné: pegue-os e façaos desaparecer. ele cairá bem. e mostre a ela Como os pobres são maus e covardes. A Slift: Mal posso suportar a existência de seres Semelhantes a esta moça. SLIFT: Em teu lugar não gostaria. Entrego a você porque sei que é de confiança: se alguém encontrá-los em algum lugar. este homem será mandado para os quatro cantos do mundo sob a forma de toicinho. a um jovem operário – Um de nossos homens. que nada têm Além de seus vinte centavos por dia e seu chapéu negro.) É uma pena. caiu. Slift e Joana contornam o muro de uma fábrica. JOANA. é pavoroso. SLIFT. ela poderá Aceitar sem pudor. JOANA. UM CONTRAMESTRE. senhor Smith. é claro. e para mim. É preciso queimá-los. IV O corretor Sullivan Slift mostra à Joana Dark como os pobres são maus: Joana desce às profundezas pela segunda vez BAIRRO DOS MATADOUROS SLIFT: Joana. Luckerniddle.11 Chame ela de lado.E eu adoraria que não desse certo – Leve-a aos matadouros. perderei meu emprego. . (O contramestre volta para a fábrica pela portinhola. Mas seu casaco ainda está bom e isso também é uma pena. E que não têm nenhum medo. Estão ocupando inutilmente um cabide no vestiário. Veja então o que ela compra. Dois homens saem por uma portinhola. A Joana: Aqui está meu corretor. o que causa má impressão. Sullivan Slift. e ele entrou na faca e virou toicinho. Isso pode funcionar. por suas vidas miseráveis. assim como o seu boné. De saber o que queres saber. em um jornal. agora eu vou te mostrar Como eles são maus Essa gente da qual tens piedade. É o primeiro que nossos tambores desalojaram Das trevas da vilania. faz quatro dias. e depois a siga. já que agora ele está em embalado. em uma palavra. na caldeira. Semelhantes a bestas. vestido com uma lata. ele te fará ver algumas coisas. Se quiseres mesmo saber. O JOVEM OPERÁRIO – O senhor pode confiar em mim. cheios de traições. Diga “para seus pobres”.. se quiser. Mas volte aqui amanhã. O amigo Pedaço-de-Toicinho não precisa mais dele. é o lixo do mundo. mas não pudemos parar as máquinas a tempo. sobre o qual se lê: “Fábrica de Conservas de Carne Mauler e Cridle”: O nome de Mauler aparece riscado. é a escória. Responsáveis. enfim. Quando a fábrica reabrir você. Ele veste o casaco. JOANA — Eu quero vê-los. vacilando: Estou me sentindo mal.

fui trabalhar no moinho de ossos e adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. E malditos sejam vocês Se lhe fizeram qualquer coisa! Slift caminha até ela. lamentando-se: Faz já quatro dias que. GLOOMB – O feitor está bem ali.. Por causa dele deixei minha mão na máquina de cortar chapas. senhor. passe-me logo teu cassetete. se você não está precisando disso!. a Joana – Fique aqui. DONA LUCKERNIDDLE está sentada em frente ao portão da fábrica. e vocês não querem que se saiba disso. (Ele pára o jovem operário. saindo para o trabalho. Joana e Slift seguem seu caminho. Esse salafrário se empanturra às nossas custas. além dele. mesmo à noite. então a senhora não pode aceitar a refeição que a fábrica lhe oferece. para nós. O JOVEM OPERÁRIO – Mas senhor. diga-lhe que procura trabalho. SLIFT: Guarde essas coisas. Eu. gratuitamente. Eu estou em uma situação muito ruim. Tenho a impressão de que você está prestes a cometer um ato impensado. senhor. obrigados a fazê-la. é capaz de o meu quebrar já no primeiro golpe. É por isso que lhe fazemos uma proposta: note bem que. Precisará nos processar. SLIFT: Senhora Luckerniddle. ele me dizia: “Espere-me à noite com uma sopa quente!” Desde então não [voltou. vou falar com ele. de qualquer modo. Aconteceu alguma coisa com ele aí. Eu ficarei aqui. . de forma alguma. Vamos. se quiser me ver. SLIFT – Se é esta a sua opinião. DONA LUCKERNIDDLE: Eu quero que me devolvam meu marido. ao meio-dia. Já não posso mais trabalhar como antes e só consegui emprego duas vezes desde fevereiro. em nossa cantina durante três semanas. DONA LUCKERNIDDLE – Não. No frio. Vinte refeições são muita coisa Para aquele que tem fome. (Ele vai em direção a Gloomb). isso não lhe parece muito brutal? SLIFT: Bem. Amanhã.12 SLIFT: Aí está a vida como ela é. não diga mais isso. Verás então o que é essa gente. na fábrica. me encontrará na cantina. à cantina número 7.. Não procure mais saber o que se passou com seu marido e a senhora poderá almoçar. enquanto não o vir. DONA LUCKERNIDDLE: Agora inventam que ele viajou! SLIFT – Deixe-me dizer uma coisa. todo o tempo. ele não foi para São Francisco. O JOVEM OPERÁRIO – Pode confiar em mim. nós não somos. SLIFT. é muito desagradável vê-la sentada aí. Bando de açougueiros. Slift volta para junto de Joana. Eles chegam a uma cantina da usina e vêem diante de uma janela dois homens que olham para o interior. SLIFT – Estamos dizendo que ele partiu para São Francisco. dizendo tolices. Venha. Joana e Slift prosseguem seu caminho. Vamos cuidar para que essa seja a última vez. Quando ele se aproximar. Você poderá comer e lhe darei um dólar se disser à mulher de Luckerniddle onde conseguiu o casaco e o boné. e meu marido não sai da fábrica. aquele que se acidentou? O JOVEM OPERÁRIO – Por favor. Mas reflita bem. JOANA: Ela nunca aceitará. seu marido está viajando. legalmente. Eu tiro agora mesmo.) Onde você conseguiu este casaco e este boné? Estes são os pertences de Luckerniddle. que fizeram dele? Há quatro dias que estou aqui. Não tenho outro esteio. Senhora Luckerniddle: ele está viajando e. senhora Luckerniddle. DONA LUCKERNIDDLE – Quero saber o que aconteceu ao meu marido. No ano passado me deixei seduzir pelos vinte centavos a mais que se ganha na fábrica de adubo. pronto para encher a pança. Antes eu gostaria de fazer-lhe uma proposição interessante. lhes digo. Mas existem coisas Que importam mais para ela. esperando por ele Mas ninguém diz nada.

Se você. por exemplo. pode ser que mude de idéia. (Ao seu companheiro:) Pensei melhor. SLIFT – Leve você mesmo a comida a ela. já faz dois dias que eu não como nada. Ali adiante. temi que amanhã ela viesse. não sabia. O posto que você ocupava na sua máquina continua vago e isto é muito chato. Disseram-me que não tinha ninguém além dele. Eu sou inspetor nesta fábrica. Ela senta-se em uma mesa. É um bom posto? GLOOMB – É um ótimo posto. Ela não parece muito forte. E eis que ela nos precedeu. DONA LUCKERNIDDLE – É verdade..) Você está procurando trabalho? JOANA – Sim. Uma jogada dessas é melhor de se fazer à noite. no moinho de ossos. Joana procura um prato e leva à senhora Luckerniddle. (Ele vai em direção a Joana. E é um trabalho que pode ser feito mesmo por pessoas como você. DONA LUCKERNIDDLE – O que? Vocês pensaram melhor e estão retirando a oferta? Então eu não terei mais as minhas vinte refeições? JOANA – Me pareceu que a senhora se dava bem com seu marido. desde hoje? DONA LUCKERNIDDLE – Não como nada há dois dias. por acaso. O que mais verei? Eles entram na cantina. Seria vantajoso para você.. Naturalmente você precisaria manter os ritmos de trabalho mesmo os dispositivos de segurança não sendo perfeitos.. justamente porque você contou todas essas histórias a respeito de seus dedos. A GARÇONETE – Se a senhora não for comer. JOANA – Vindo para cá ouvi dizer que aconteceu alguma coisa com o seu marido e que a fábrica é responsável. depois do que eu iria. e então eu teria.. DONA LUCKERNIDDLE.. Apesar de tudo. A maior parte dos trabalhadores a considera muito perigosa. O que há para comer hoje? A GARÇONETE – Ervilhas. SLIFT – Que pena. tem que se retirar. não muito fortes. GLOOMB – Posso confiar no que você está me dizendo? SLIFT – Sim. GLOOMB . e lhe daríamos até um trabalho mais fácil e melhor remunerado do que o antigo..13 – Não tenho tempo. encontrasse alguém.. estaríamos dispostos a reempregá-lo imediatamente. JOANA – Mas a senhora nem sabia que nós viríamos hoje.. JOANA – Não há realmente como me arranjar outro posto? Ouvi dizer que o trabalho nesta máquina era perigoso para quem não resistisse ao trabalho muito pesado. faremos isso amanhã à noite. Talvez a vaga deste contramestre. É preciso que ele pague hoje mesmo por esse sistema desumano do qual ele é o feitor. meu senhor. GLOOMB – Rápido então. Não podemos perder esse safado. JOANA – Quase tenho medo de continuar. DONA LUCKERNIDDLE – Sim. há uma moça que está procurando trabalho. No ano passado fui trabalhar na fábrica de adubo. Naturalmente seria muito bom se nós encontrássemos alguém para esse posto. e então eu poderia. JOANA – A senhora já está aqui. SLIFT – Gostaria de propor um meio de tirar-lhe dessa jogada. GLOOMB – Aquela moça ali? . Os movimentos ficam menos firmes e pode-se prender as mãos nas serras. Slift cai na gargalhada e arrasta Joana. GLOOMB – Nada disso é verdade. Eu imaginava que ela iria resistir. A senhora Luckerniddle está falando com a garçonete.. Ela correu até aqui e já nos espera. Desde fevereiro estou sem emprego. Tchau. calculando – Vinte refeições. Você se surpreenderá ao ver como o trabalho é agradável. O posto não é feito para gente fraca. GLOOMB – Você enxerga bem? JOANA – Não. DONA LUCKERNIDDLE – Espero uma pessoa que deve vir hoje ou amanhã. JOANA: Ela sentou-se ali.. Adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. Vai se perguntar como alguém pode contar histórias tão ridículas sobre esta máquina.

Atrás dele:) Você tem um belo boné. O que tu me mostraste Não é a imoralidade Dos pobres: é a pobreza deles. ao garçom – Deixe meu prato. JOANA: Porões e armazéns abarrotados de carne. Mostrar-te-ei. (Ele senta-se. Pois não há mais compradores! Do fundo do palco chega o jovem operário com seu casaco e seu boné. ao lado daquela mulher. mas não em uma loja. posso comer aqui? SLIFT – Você só precisa sentar-se ali. Desejas mostrar-me a sua imoralidade. Um certo tempo ainda. como vós a explorais! Não vês que nem teto eles têm. eu volto. com que habilidade torna-te mestre dela! Esta imoralidade. DONA LUCKERNIDDLE. Você só precisa perguntar a esse senhor. para colocar Ao abrigo da chuva. e por mais justa que fosse. Mercadoria invendável. então? O JOVEM OPERÁRIO – De um homem que caiu dentro de uma caldeira. como um animal. SLIFT – E onde você conseguiu. comprem nossas latas! Carne fresca e suculenta. Era seu único esteio. eu. Joana? A imoralidade dela não tem limites! JOANA: E tu. e comerá sem levantar os olhos do prato. verdadeira manteiga! Banha fresca do Kentucky! OS COMPRADORES: OS FABRICANTES DE CONSERVAS . esta mulher.14 – A senhora não quer esperar até amanhã? Se a senhora desistir de procurar o seu marido. Você a viu. Sua imoralidade é sem limites. os sofrimentos que suportam Esses pobres sem moralidade. como manda o costume. certamente teria me prevenido Não fosse o preço a pagar por seu pequeno escrúpulo. Dona Luckerniddle arranca o prato das mãos dela e começa a comer avidamente. estamos vendendo carne! Compradores. DONA LUCKERNIDDLE – Ele foi para São Francisco. saindo. preferido. A senhora Luckerniddle sente náuseas. Tão cara a ele. tu me dizes? Sua pobreza também é incomensurável. e que já apodrece. a vossos olhos contradiga Esta depravação que injustamente se lhes imputa. como muitas. a imoralidade deles? Ela teria. Ela se levanta e sai. E este jovem – em quem botaria fé Qualquer malandro -. Fatias de toicinho Cridle-Mauler! Carne de filé Graham. SLIFT – E onde você comprou? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. o preço era muito alto. JOANA E procurar por ele. ninguém mais perguntará o que foi feito dele. acreditas que ele teria mostrado À mulher do morto a roupa que usava Se tivesse tido a chance de escolher? O maneta. SLIFT – Durante três semanas ela virá. Ela sai. Ele foi obrigado a vender sua cólera. Que sua miséria. Continuar fiel à memória de seu marido. (O jovem operário o esconde) De onde ele vem? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. (Dona Luckerniddle permanece em silêncio) Não pegue. Mas vinte refeições. O JOVEM OPERÁRIO – Bom dia. Eu virei todos os dias. V Joana apresenta os pobres à Bolsa de Carnes A BOLSA DE CARNES : Nós todos.

Nós estamos perdidos! OS CRIADORES: E nós. Engolindo nosso ouro junto com nosso grão. A nós. Saturado de carne em conserva. A morte Despreza esse gado e fecha-lhe a porta. o que te escrevem? MAULER: Teorias. Eu teria sobre as costas toda a carne! Idiotas. ao trabalho de nossos [engenheiros. OS FABRICANTES: Graças aos avanços da técnica. com nossos matadouros? Nossas fábricas estão cheias de bois. Aproveitem então.15 E sobre as águas fez-se um grande silêncio De todos os compradores. Mas ninguém quer comprar carne enlatada. Temos diante de nós montanhas de latas. E graças aos perspicazes planos dos industriais da carne Nós conseguimos reduzir em um terço O preço do toicinho Cridle-Mauler. cubas. A dar-se-lhes ouvidos Seria necessário agora deitar por terra Todo o cartel da carne E deixá-lo estagnado durante muitas semanas. verdadeira manteiga. O estômago do país. Clamamos aos berros por um consumidor que não existe. compradores. . MAULER: E mesmo a faca os recusa. Quando todos te seguem com olhos de lince Para ver o que fazes? Eu não teria cara. a visão da carne enlatada Causa náuseas. compradores. os criadores. dia e noite nossas máquinas Ligadas no máximo: salgadeiras. Do filé Graham. Não a agüenta mais. Esperando até ninguém poder Mexer nem o mindinho! E eu. E da banha de Kentucky. eles conseguissem Fazer cair de uma vez as taxas de importação. Quem comprará agora nosso gado? Os estábulos estão cheios De porcos e bois devoradores de milho Que eles devoram ainda nos trens que os transportam. E abrissem assim o Sul aos nossos produtos. Comprem. Nós iríamos perder o bonde! MAULER: E quando isso ocorresse! Terias a imprudência De tirar tua parte de tamanha miséria. Nós não compramos mais nada! OS FABRICANTES: E nós. em Nova Iorque. quase de graça. Frigoríficos entupidos de carne congelada. O que provocaria um movimento de alta. Nós queremos vender a carne em conserva E ninguém a quer! E todos os nossos clientes. cozinhas e lojas Estão cheios até as bordas. OS COMPRADORES: Nós compradores. SLIFT: E teus amigos de Nova Iorque. comprem nossas latas! OS COMPRADORES: E sobre as montanhas fez-se um grande silêncio E as cozinhas dos hotéis escondem a face E as lojas se desviam com horror Os atacadistas mudam de cor. Nas estações e nos pátios. SLIFT: Eu riria se. caldeirões Convertem sem parar em latas de conserva As manadas mugidouras que pastam nos prados. fabricantes. nenhum tinha dinheiro.

na entrada da bolsa: Queda gigantesca das cotações na Bolsa! Venda maciça de ações.apontando para Mauler: Falem com ele! CRAHAM – colocando-se diante de Cridle: Não é Cridle. Ele queria me vender a sua parte. Pois tu liquidaste. nem que fosse por mais uma hora. OS FABRICANTES: Quando ages assim com Cridle. mas um outro Quem joga a rede. ao invés de trinta. preferiu o vosso. Foste tu mesmo quem provocou o marasmo! Nossas latas agora não saem mais caro Que a areia dos mares. todo teu estoque. Ele poderia exigir seu dinheiro quando quisesse. que estavam valorizadas. antes de qualquer coisa. mas três milhões.investindo contra Mauler que lê o jornal: Traidor. ave de agouro. ao fundo. Cridle. é que me levem a sério. MAULER – O próprio Cridle me confessou que está insolvente: se eu deixasse meu dinheiro com ele. que já se arrasta. . Cala-se e aponta para o dedo para ti. Tumulto entre os fabricantes. nesta conjuntura. olha para nós! Assim. pálido como algodão. Carrega em sua queda as cotações de todo o cartel!.. Não é de hoje que fazes tais manobras. Hoje os papéis de Mauler não valem mais dez. o que desejo. OS FABRICANTES Essa gente não faz as coisas pela metade. e ficando com as outras. Isso representava um terço do total das ações. que conspurca nosso ninho! Nós sabemos bem quem fez os preços caírem sem cessar Vendendo gado por baixo do pano.Há quatro semanas apenas eu assinei um contrato com Mauler. Esses dez milhões são exatamente a soma que devo a Mauler – e ele a exige em vinte e quatro horas. provoca muitas outras! Lixo! Assassino! CRIDLE . a preço vil. estava acordado. Quero apenas meu dinheiro e a paz de minh’alma UM CORRETOR – urrando. ele vem realizando secretamente vultosas vendas de gado a preços baixos e provocou a queda das cotações que.16 .. Desde aquele dia. MAULER: Açougueiros insolentes é o que sois! O animal torturado parou de mugir. MAULER: E por que matastes tanto gado? Açougueiros alucinados sois vós! Agora. Veio a baixa. É bom que ele seja nosso adversário. Falai que um dentre os vossos Não pode mais suportar o grito dos bois morrendo E aos mugidos deles. Cridle. de toda a maneira. Tu te desfazes de tuas ações? UM CORRETOR: A cento e quinze! OS FABRICANTES: Ficaste louco? Tua morte. Mas somos atingidos pelo que lhe acontece. e o conjunto das fábricas vale dez. que se lançam sobre Cridle. eu acabo de saber. CRIDLE – dirigindo-se aos que o cercam:. Cridle? Levanta os olhos. então! OS FABRICANTES – a Mauler: Corre o boato que teu capital. quem de vocês continuaria a me levar a sério nos negócios? Ora. Eu me propunha pagar-lhe vendendo uma parte das ações dele mesmo. antigamente Mauler. já vinham caindo. tu o retiras Do negócio e Cridle. E exiges dele o pagamento sem demora. é o cartel da carne. Voltai para casa. por dez milhões de dólares. Para acabar com Lennox. nós somos os peixes! O que querem arruinar. eu quero o meu dinheiro. Mauler! Fala. OS FABRICANTES: O que significa isso. E vós soluçais nas saias de vossas mães.

Os que nos escutam. ele retira o seu dinheiro! OS FABRICANTES: Oitenta mil latas a cinqüenta. olhos para ver? Ele é vosso irmão. Ei-nos aqui. Lançar ao mar os navios de guerra E nos ares. Estimularam-nos a criar bois. meu chapéu. Pois os bons nesse mundo Não formam um grande exército. acompanhada de exclamações. E nós dizemos: é preciso ir sempre adiante. não saia! Graham. mas rápido! OS COMPRADORES . nós estamos perdidos! JOANA – Onde está Mauler? MAULER: Slift. Uma mulher nos faz sinais de aflição. pois tenho outros projetos. Para Illinois esse dia é um desastre! Vocês fizeram os preços subirem. . JOANA .17 Mesmo que tivésseis todos que mendigar. E ninguém se preocupa. fiquem diante de mim. escutem bem! Um homem afunda sob os nossos olhos! Escutamos lá no fundo seu apelo por salvação. Uma explosão de gargalhadas toma a frente da cena. pois preciso partir. Com o único objetivo de ajudar o próximo. com isso. detenham todo o tráfego Em torno de vós os seres naufragam. onde cada um revela Sua boca desnuda. Mauler.Nenhuma sequer! OS FABRICANTES – Então. seu cão. Não esperem o amanhã! Cada um deve nos ajudar. com nossos bois Que hoje ninguém mais quer. E. Graham. Parem os carros. os aviões Para conquistar o pão dos pobres. És tu. suja de sangue? Joana e Marta avançam e cantam o seu hino de guerra. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Escutem todos. OS FABRICANTES: Oitenta e sete mil latas pela metade do preço.Nenhuma sequer! Silêncio. Eu quero meu dinheiro. Ei. então. E ninguém se preocupa Não tendes. Fazer avançar os tanques e os canhões. Não falemos mais de negócios.Pierpoint Mauler! Onde está Mauler? MAULER: O que é esse barulho de tambores que de súbito me envolve? E quem chama pelo meu nome Nesse lugar. o responsável Por esta catástrofe. Nesse mundo sempre reinará a injustiça. cem dólares pelo meu chapéu. seja quem for! Levantai o nariz de vosso prato. Meu chapéu. Durante esse período a batalha na bolsa continua. OS CRIADORES: Impossível vender um boi em Chicago. Ouvem-se os tambores dos Chapéus Negros e a voz de Joana. OS CRIADORES: Lennox já caiu! E Cridle balança! E Mauler. Meyers. Eu não quero que me vejam aqui. Avante! Ao assalto! Empunhem os fuzis! Diante de nossos olhos os homens naufragam. mas rápido! OS COMPRADORES . Mauler. Haveis então esquecido Os que esperam diante da porta E que esperam. MAULER: Por hoje basta. para comer? Pensai convosco mesmo: sempre será assim.

Silêncio! Não lhes agrada muito. seus mugidos serão testemunhos. JOANA – Mas os senhores. Se os senhores continuarem tergiversando. nada além disso. como fazem em seus jornais. é lá que mora a imoralidade no estado puro e. os Chapéus Negros. Vossa imunda cobiça. e é verdade. ver surgir a nós. Traçam essas desconhecidas. Cujo ciclo pavoroso sempre recomeça. pois os que estão lá fora já não têm como comprar. as leis econômicas. Não tenham vergonha. eles que nada têm? Senhores. CRIDLE OS CRIADORES: Como? Somos asfixiados e ninguém pode fazer nada? A causa de nossos males é a imoralidade De vossas armações escusas. que os pobres não têm muita moral. Senhores. UMA VOZ. a Revolução. gritando – Afastem-nos! Ele desmaia. imaginando que não virão à tona suas manobras. Inverno e verão nós dependemos do tempo: nós também estamos mais próximos do Deus de nossos pais do que os senhores. As crises são catástrofes naturais. existe também um poder de compra moral: o dinheiro. JOANA. destinos inelutáveis. Mas nós lhes dissemos que é um imbecil. atrás de mauler – Fique senhor Mauler. nesses lugares sombrios e secretos onde os senhores tratam de seu comércio. E os senhores. então em suas costas os bois começarão a mugir contra os senhores. MAULER. todo-poderosos. Reparem então nestas gentes. Aumentem-no. replicando: Imbecis são vocês! Ninguém pode nada contra as crises! Bem acima de nós. são todos uns imbecis. Mas se os senhores acreditaram que seus procedimentos permaneceriam ignorados. em tom de reprovação Aqui estamos com nossos bois Que hoje em dia ninguém quer. pobres e deploráveis imbecis. que se dobram sob o fardo de suas penas. a quem os senhores transformaram no que são. avancem à luz do dia. eu bem sei.18 – Maldito sejas! Cridle sai. OS POBRES – Ele é o responsável por tudo! Os fabricantes de conservas correm para socorrer Mauler. nada querem saber da miséria que existe fora deste recinto. Mas então eu lhes pergunto: de onde tirariam eles alguma moralidade. COMPRADOR. Risos OS CRIADORES – Nós criadores não encontramos nestas palavras motivo para o riso. Já me disseram o que os senhores fazem: manobras. Nos baixios. JOANA – Um homem de negócios também pode ser um bandido – dependendo do ponto de vista. engodos e combinações para aumentar o preço da carne. aí pelo mundo. e escute o que eu tenho a lhe dizer. Joana mostra aos negociantes os pobres (Luckerniddle e Gloomb) que ela trouxe. OS CRIADORES. que sentam nesse palácio. e a quem não querem reconhecer como irmãos. nas favelas. JOANA – E qual a causa desta imoralidade no mundo? Poderia ser diferente? Se cada um é obrigado a rachar com um machado a cabeça de seu próximo para fazê-lo ceder seu pequeno pedaço de presunto e sua migalha de pão. Causais vossa própria queda! Bando de imbecis! OS FABRICANTES. e diante de Deus TodoPoderoso. em conseqüência. acabarão tendo de comer sozinhos a carne que produzem. o salário. que fazem subir o preço do pão e que fazem da vida um inferno onde os homens viram demônios. ao fundo – Pierpoint Mauler passou mal. OS FABRICANTES: Água para Pierpoint Mauler! . tanto hoje quanto no dia do juízo final. vocês. tereis a moralidade. os senhores se enganaram. buscando desculpas. como não seriam os valores mais elevados esmagados em seu coração? Sempre ouço dizer. Se continuarem a agir assim. gritando: Por vossa especulação desenfreada.

Invisíveis para vós. OS POBRES – Gente como essa.” OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Nunca faltará o pão Ao que dedica a Deus sua alma. JOANA – E agora. nós conhecemos. tudo o que em oito semanas conseguirdes [fabricar. vós me mostrastes a imoralidade deles.. ao instinto animal. Nem mesmo do boi que esmaga espigas com seu casco! Em todo o caso.. Os que estão atrás. OS FABRICANTES – Quem? Os Chapéus Negros? Quer que eles saiam? MAULER – Não. gritando em um megafone – Pierpoint Mauler reanima o mercado da carne. levantai-me. aí em cima. nós nunca tínhamos visto. cantemos: “Nunca faltará o pão. por favor. E lá. ao preço do dia. e reduzi-los À voracidade. vos rogo. MAULER – Agora. Eles. então Para querer fechar a boca do Bom Deus? Não se deve calar a boca de ninguém. em 15 de novembro. para eles inacessíveis. CRAHAM: Então! Não podes vê-los? No entanto foste tu. Tu quem os reduziu à tamanha miséria. CRAHAM – A cinqüenta? MAULER – A cinqüenta! CRAHAM: Ele comprou tudo! Vocês ouviram: Comprou tudo! CORRETOR. voltando a si – Eles ainda estão aí? Eu suplico que os afastem. assume compromisso sobre a produção de dois meses. Mas quem sois vós. antes de partirmos. Que viver assim pode mesmo afastá-los Da necessidade de um ideal. eu vou falar. levantando-lhe a cabeça – E os estoques? MAULER. E vós. cumprimos nosso trabalho de [missionários. Compro. eu. Além disso. Nós. como eles sim. a contar de hoje.19 Um médico para Mauler! JOANA: Mauler. qual burros de carga. Mauler. No seio de Deus não há frio. A tal ponto dependentes de alguma comida E de um pouco de calor. Eu vos mostro agora a pobreza dos pobres. Aos pobres: Segunda-feira vocês terão novamente trabalho. OS FABRICANTES – Ele comprou! Mauler comprou! MAULER – Ao preço do dia! CRAHAM. e por vós mantidos Nesta pobreza. Quem em seu seio habita Jamais será infeliz. ao fundo. Eles parecem bem piores. levai-o agora. Eles o levantam. estão tão enfraquecidos. MAULER. de todos os estoques do cartel. meus amigos. JOANA: É isso. afastados dos bens indispensáveis. o que fazeis? Vós me ordenastes não dizer uma palavra. E fome nunca se passa. pelo menos cinqüenta mil toneladas de conservas. deitado no chão – Eu compro. MAULER: Afastem-nos. O cartel entregará a Pierpoint Mauler. E não basta que cerres as pálpebras Para que eles desapareçam. também ao preço de cinqüenta. Mas os dois que estavam ao lado dele. eles não. que mantendes longe de vós. Torna-se comprador. . eu compro! Escutai todos: Pierpoint Mauler compra! Que estas gentes tenham trabalho e que se afastem. SLIFT – Ele não abrirá os olhos enquanto não os fizerem sair.

Mauler. OS CRIADORES: Agora os preços subirão. enfim do ponto morto! Confiança e concórdia estavam fortemente abaladas. Os patrões vão reabrir. Pois o contrato que acabam de ver firmado É apenas um pedaço de papel. a sabedoria triunfa. liga as luzes e agora repara em mim. por que te impressionas com os discursos dela? MAULER: . Podem esquecer seu nome. os operários entrarão. Se estiverem muito necessitados. VI A Captura dos grilos NA CIDADE CASA DO CORRETOR SULLIVAN SLIFT. na Rua Lincoln. Que carecem tanto uns como os outros? CRIADOR. Contra a desrazão.20 OS COMPRADORES: Este homem está ruim da cabeça. O homem que o assinou não estava em seu juízo. às duas horas. Ele cumpre. então. discute com Slift – Fecha a porta. Recusa-se a engolir mais. Slift. Joana e os Chapéus Negros saem. pois nós também. E vocês precisam dela. Para tal negócio. nenhum. dentro da casa. Agora os senhores podem respirar. É preciso. Escutem: saímos. açougueiros infames! Enquanto vocês não dobrarem o preço do gado Não entregaremos um só grama de carne. Muitos criadores se transtornaram. E ele faz meter carne em latas Que ninguém comprará. saturado de conservas. não é. ele não encontrará Um centavo. Música a partir das 3 horas. Nós estamos sob uma miséria atroz. Não o deixaremos descansar Enquanto um homem precisar de ajuda. PEQUENO IMÓVEL COM DUAS SAÍDAS MAULER. SLIFT. cutucá-lo. seguidos dos criadores. OS FABRICANTES: Podem guardar sua carniça podre! Não estamos interessados em comprar. JOANA: Saibam todos: estou de olhos em Mauler. Nesse momento o mercado recobra a saúde. sabiamente acatada. Pois ele pode vir em auxílio. Sua consciência já despertou. aqueles que o recebem. Os fabricantes de conserva saem. Sábia decisão. de São Francisco a Nova Iorque. e diga se realmente todos podem ler em meu rosto? SLIFT – Ler o quê? MAULER – Ora! A minha profissão! SLIFT – Teu ofício de açougueiro? Diga-me. O estômago do país. JOANA – Todos aqueles que se interessam realmente pela palavra de Deus e que querem saber o que ele diz e não apenas a cotação da Bolsa podem vir domingo à tarde assistir nosso ofício. dirigindo-se à Joana Aquilo que disseste e tua intervenção Causou-nos forte impressão. ao criador: O que Mauler promete. Venham comigo procurá-lo Para que ele os tire do embaraço. Aqueles que dão o pão. As fábricas reabrem e as chaminés fumegam! Pois efetivamente é de trabalho. entrada gratuita.

Máscaras da aflição. no entanto. Isso não pode mais perdurar. talvez. Seu número aumenta a cada dia.21 O que ela disse? Eu não ouvi nada. a humanidade. MAULER: Mas que dizem eles? Essas cidades São um braseiro jamais extinto Onde. Fórmulas tomadas ao coração. Tagarelice vazia e fácil. vender e lutar sem parar. urrando. retorna. Onde o fogo arde embaixo Enquanto congela-se em cima. Por trás havia rostos selvagens. Para limpar esse mundo. meu caro Slift. MAULER: Sempre me pergunto por que essas tolices me afetam: Discursos plenos de utopias.. SLIFT – E o que é. Eu deveria podê-lo de novo. Não conheceremos a morte em nossas camas. Há sempre boquirrotos que acham Que as coisas não andam como deveriam. Que não sabem como passarão a noite mas. Então creio sentir Como um peixe aprisionado entre duas águas Pauladas na espinha. SLIFT – O discurso deles te perturbou.. MAULER: Tu crês que eu deveria? Eu poderia. não é? SLIFT – Come.. caro Pierpoint? Pense que agora podes fazê-lo sem peso na consciência. Tão forte. por mais louca que seja. Levantar-se-ão com a aurora e por-se-ão em marcha. E dezoito horas por dia. (À parte:) Farei com que ele coma um filé muito mal passado. Ele se afasta e começa a grelhar um bife no fogão. Slift. SLIFT – Não queres comer um pouco de carne. Talvez depois de comer carne crua ele retome seus instintos. E quando da onda emana uma voz Que nada tem de bestial. Tudo isso são ainda meras desculpas O que temo não é Deus.. vejo-te mergulhado na contemplação de teu ser grandioso. Agora. Nós e nossa corja. pois desde essa manhã tu nada tens a ver com a morte dos bois. lançar-nos-ão Ao chão como um peixe podre. Esfolarmos uns aos outros friamente. Certamente porque essa gente trabalha a troco de nada. Sob a chuva e de barriga vazia. Sabias que tu compraste hoje tudo aquilo que pode ser colocado dentro de uma lata de alumínio? Meu caro Mauler. irei confessar-te Minha verdadeira opinião sobre nossos negócios: Comprar. Para estes que caem em nossos porões sangrentos. Não. SLIFT: Em cidades como as nossas. Nós que aqui estamos. É sua antiga fraqueza que retorna. É outra coisa. eles são muito numerosos. um após o outro. Se nos apanharem um dia.. Não há mais consolo. Esquecer todo o resto. por mais externa e sem importância que ela seja. de onde se eleva uma cólera Que nos varrerá a todos. E pense em tua situação: ela não é muito boa. A urrar de aflição. .. Seremos colados ao muro. que mais não vi. qual onda. então? MAULER: O que vive abaixo e não acima De mim! Esses seres reunidos nos matadouros. mas permita que eu te exponha simplesmente a situação.

comprar carne. o Cartel te entregará mais cinqüenta mil toneladas a cinqüenta. votarão contra as tarifas aduaneiras. Ou desencadear guerras. Sob o fardo de toneladas de latas de alumínio. de anunciar-te que nosso dinheiro começa a render seus frutos: muitos são aqueles que. O ladrão está perdido. eu estou perdido! Esse é o meu fim. Receberás. Mas ainda há a carne Que no mercado liquidarão cem criadores Muito ávidos. de resto. Ainda pela manhã. ou a vinte e cinco. SLIFT: Tudo depende de quem escreve a carta. Essa seria uma saída. apesar de tudo. Eu fui vê-los cair. SLIFT – E por que reclamas de ter comprado? MAULER – Sim. a não ser que golpeie Y Se ele golpear. Ah. essas teorias de gabinete. eu tenho a impressão De que nada de bom sairá daí. então? Mauler sorri. MAULER: Tu compreenderás. rir-me deles. SLIFT – E o que escreveram. então. escapando bem. indicado. E uma vez lá. eu me escutei dizer: “Eu compro tudo”. muitos de meus concorrentes balançavam. caro Pierpoint. MAULER: Oh! Slift. continuando a leitura .. dizer-lhes Que ninguém era louco o suficiente Para comprar carne em conserva. assim. mais notícias. qual Atlas. Facilmente nascem guerras À custa de tais atitudes. Corromper ou abolir as tarifas. . eu comprei. acredito. na melhor hipótese. esmagado. É coisa que também não se deveria fazer. é verdade. na Câmara. Estão erradas. SLIFT – Tu deves fazer o que? MAULER – Comprar carne. eu não agi por razões vis. quando os preços estiverem em trinta. Cairei. sim! Eu comprei carne. eles me escrevem para comprar. safa-se. deverás escoá-lo em um mercado que já não consegue absorver uma única lata. SLIFT – E tu compraste! MAULER: Oh. Nas semanas vindouras. SLIFT – Quem são. Em quinze de novembro. amanhã.. Tu as compraste a cinqüenta mas. Sim. Mas esta mulher comoveu-me a tal ponto Que mal lancei os olhos.” SLIFT. Escuta: X comete um roubo. Realmente eu não vejo sentido nesta carta. eu estou perdido. teus amigos de Nova Iorque? MAULER – Que eu devo comprar carne.. MAULER: Corromper assim. Os preços baixarão novamente. Parece. mas Y o surpreende. os preços cairão a trinta. Aqui está: “Caro Pierpoint. Então pode ser que.“Estamos em condições. Na carta que recebi de Nova Iorque essa manhã. hoje.. eu comprei! O que eu fiz! Coloquei sobre minhas costas toda a carne desse mundo! Trôpego. Ah! Meu caro Slift.22 Primeiro compraste ao Cartel um estoque de vinte mil toneladas de conservas. Mas não foi por causa da carta. os preços Subam? E nós acabaríamos. Não. Slift. eu te juro. Milhares de homens sangram Por causa deste imundo dinheiro. Não é qualquer um que pode. Essas pessoas são gente de bem? MAULER – É gente com liquidez. sob os arcos de alguma ponte.

tentará sair pela outra porta. que precisa bastante. Joana entra acompanhada dos criadores. Não. quero paz em minh’alma.. diante da porta da esquerda – Enquanto os criadores não forem ajudados. então. Isto é o principal: Sumir com o gado. E por agora também não penso em reabrir a fábrica. Slift tragame tudo o que se pareça. (Os criadores colocam-se diante da porta da direita. para o outro lado. Devo comprar ainda todo o gado de Sírius? É como se alguém viesse dizer a Atlas Que não mais agüenta. de perto ou de longe. eu estou comprando e compro ao preço do dia. Joana diante da porta da esquerda. é verdade. Eu não compro mais nada. Ele não gosta muito de me ver. eu não comprarei! Eu que já carrego toda a carne desse mundo. SLIFT Tu que não querias mais comprar um chapéu. aos criadores – Pierpoint Mauler está examinando vosso pedido. Quem me comprará. OS CRIADORES. SLIFT – Qual crime? MAULER: Um crime que eu não poderia cometer. mais de dez mil criadores que não sabem mais a qual santo rezar. como quem captura um grilo. Vão para lá. ele se dirige à porta da direita. Slift. grandes lucros! É verdade que o ganho seria apreciável. . Feliz se. eu compro. depois. Retumbar de tambores. não sairemos daqui! MAULER – Tu dizes Graham? É verdade que ele precisa de gado? Saia. no fim. todo esse gado? SLIFT – Vejo apenas Graham. para evitar me encontrar. tiver cem dólares no bolso. SLIFT. Slift. não foi bom. Compra então o nosso gado! MAULER: Fecha a porta. MAULER – Eu não compro. Slift volta. Senhor Mauler. Eu fiz “A”. Ele desenha um “A” na porta de um armário. a cinqüenta.). Tu és o responsável por nossa desgraça. No interior da casa. Nem a mim nem aos que me acompanham. àquela gente que está com ela. Mas então. Agora.) Slift. a partir de hoje.) Saia. Também trouxe alguns trabalhadores que adorariam perguntar-lhe quando o senhor reabrirá a sua fábrica. é preciso que eu lhe fale da miséria dos criadores de Illinois. E comprar-lhes tudo. e tudo o que cheire à banha eu compro também. SLIFT – Não deverias ter comprado. MAULER – A outra saída onde é. Lembrá-los de Lennox. em todo o Illinois. Vais comprar todo o gado de Illinois. diante da porta da direita – Sai. nem chapéu nem sapatos. JOANA. Pierpoint! MAULER: Ah! É verdade. sobretudo. Mauler. Que eles tirem.23 Da mesma maneira a carta – que está errada – Requer – para acertar – um crime desta ordem. Slift.. Slift? Não quero reencontrá-la e. com um porco ou com um boi. Ele pede-vos dois minutos de reflexão. (Ele calcula. eu vou comprar. Toda a carne posta em conserva até hoje. Slift sai. SLIFT – Por aqui. Os enganados serão os criadores. das fábricas paradas. de seus delitos. Quando ele me ouvir cantar aqui. MAULER: É verdade. Persuadir os criadores da oferta excessiva. Slift. Pois. e diga-lhes que quero refletir dois minutos. E nós somos. Traga-me até a menor mancha de gordura. eu não quero meter o dedo neste negócio. Antes de ter saído dessa. (Ela ri. dobrando-se sob o peso da terra: Saturno também precisa de apoio. minha decisão está tomada. JOANA – Nós o faremos sair de sua toca. A operação é simples: seria preciso comprar Todo o gado que se encontrasse em pé.

mas não fizeram nada. não é preciso que as vendas sejam feitas em seu nome. os Chapéus Negros esvaziam suas latas de ferro e contam ao óbolos das viúvas e dos órfãos. Mas Deus todo poderoso Achará os meios de alimentá-los! BISPA SNYDER. acabamos constatando que esses segmentos demonstraram. pois eles sabem que as fábricas receberam encomendas. VII Os mercadores são expulsos do templo TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS Sentados em uma longa mesa. BISPA SNYDER – Agora. minha cara dona Mulberry. DONA MULBERRY – O que me agradaria muito. Eles não têm pão. o que foi feito dele? BISPA SNYDER – Meus caros Chapéus Negros. grita a eles – Digam ao senhor Mauler que os Chapéus Negros lhe agradecem. GLOOMB – Muitos já dizem que se não empregarem a violência não haverá trabalho para todos tão cedo. Aos pobres:) Digam-me. (Os Chapéus Negros saem. Ela sai. E eis que “A” e “B” tomados juntos. que são gente de bem. Assim eu decidi. o aluguel que ela tão gentilmente tem adiado. . dona Mulberry. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Recolham cantando Os trocados dos órfãos E os trocados das viúvas. em nome de Deus. que eles nos ajudem a desferir. Pierpoint Mauler resolveu comprar todo o gado que se encontrar no mercado. uma avareza completamente inexplicável. dão certo. Em seguida comete “B”. sai e se dirige aos criadores – Para salvar Illinois e impedir a ruína dos fazendeiros e criadores. (Aos operários:) Quando os que compram gado e os que o vendem se acertarem. Faça entrar os fazendeiros. convidar em vosso nome as pessoas ricas e bem colocadas de Chicago. Alguém se equivoca: “A” é um erro. os dispensados esperam ainda pacientemente na porta dos matadouros ou já começam a dar discursos revolucionários? DONA LUCKERNIDDLE – Desde ontem gritam bastante. Trabalham duro e vestem-se decentemente. ao fundo. Entra dona Mulberry. Mas seu nome não deve ser mencionado. não se esqueçam de varrer a escada. Infelizmente. DONA MULBERRY – E meu aluguel. mas por enquanto não se preocupem. entre os quais dona Luckerniddle e Gloomb:) Vocês de novo? Vocês passam a vida aqui? O trabalho voltou nos matadouros! DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. JOANA. salvador do comércio! Eles entram na casa. proprietária do imóvel. para vocês também haverá pão novamente. pelo que acaba de fazer. Eles não têm teto. um grande golpe no ateísmo e no materialismo que reinam nesta cidade. Talvez isso tenha a ver com o fato de que eles não possuem nada. Eles não são como os outros. e. sobretudo nas camadas inferiores da população. frente a Deus. tão errado quanto “A”. Suas misérias são grandes. se levantando – Que mixaria! Que mixaria! (Dirigindo-se a alguns pobres. BISPA SNYDER – Não se aproximem muito da caixa! Ele fez sinal para que eles recuem até o fundo. que cada um volte alegremente às suas funções. Comandante dos Chapéus Negros. Que dão medo de olhar. SLIFT.24 Dominado por seus sentimentos. caros ouvintes! Para resolver o delicado problema do financiamento nós até agora apelamos aos pobres e aos mais pobres. GLOOMB – No começo falaram em reabri-los. sobretudo. O dinheiro nos permitirá também pagar à nossa querida proprietária. sábado próximo. OS CRIADORES – Viva Pierpoint Mauler.

.. menos Snyder. portanto. GRAHAM – Confesse. MEYERS. GRAHAM. Que tal. estão acima da querela.. . um dia. bispa. Nós também prometeremos a eles que os ricos serão punidos. no púlpito – Nós. os Chapéus Negros. não enrole. tão certo quanto eu estou aqui. (Aos pobres:) Vocês não poderiam ao menos cortar lenha para nós? OS POBRES – Não há mais lenha. afirmando que sois vós os responsáveis pelo desemprego! Em breve eles dirão: queremos fazer como os bolcheviques. (Aos outros) Eles carecem desta quantia. Slift. após a sua morte. recompensados por suas penas.. são vocês que estão com o gado. BISPA SNYDER MEYERS Há um cretino que razia o gado E que sabe bem que estamos comprometidos A entregar carne enlatada E que. Do lado de cá. Slift? (Slift simula um ar astucioso e exagera na mímica do ato de dar dinheiro). Nós. Se vierem para cá tocados a pedradas. os reis da carne nos escutarão mais facilmente. a Snyder – Quinhentos dólares? Isto é muito dinheiro! Quem vai pagar? SLIFT – Ah. onde poderia estar todo o gado! GRAHAM – É o que eu me pergunto também: onde poderia estar? SLIFT – Eu me coloco a mesma questão. dando-lhe um soco na boca do estômago: Velho cão imundo! Vamos. SLIFT – O essencial. SLIFT – Quem poderia ser? GRAHAM. MEYERS – O que não será fácil. BISPA SNYDER – Podemos dar um jeito com setecentos e cinqüenta. OS FABRICANTES – Por que falar em pagamento? BISPA SNYDER – O pagamento do qual falamos é feito após a morte. senhora bispa. a Meyers – Essa senhora não tem senso de humor. SLIFT – Mauler e eu não compramos um centavo sequer de gado. o Pepê está com o gado.25 – Isso nos é favorável. MEYERS. e vá dizer ao Pepê Que afrouxe o laço. tomar as fábricas em nossas mãos para que todos possam trabalhar e comer. mais então. É nosso nervo vital! SLIFT. na frente do palco – Então. quinhentos? GRAHAM – Quinhentos sim. MEYERS – Eu me pergunto. GRAHAM – Até tu? E Mauler também. Porque já começam a dizer por todos os lados que a desgraça não cai do céu como a chuva. Slift! MEYERS. mas que serão. a Snyder – Desembuche! Eles se sentam no banco dos fiéis. que eles estão destinados ao sofrimento. SLIFT. os Chapéus Negros. Entram os fabricantes de conservas: Cridle. Na mosca. sem que ninguém saiba como. BISPA SNYDER. Graham. não gosto disso. a Snyder – Todos pobretões. E que alguns entre eles começam a resmungar e a dizer: devemos nós mesmos cuidar do negócio. Bispa Snyder! Todos riem. Já é melhor. confesse Slift. Graham.. minha cara. portanto. Quinhentos dólares. MEYERS – Setecentos e cinqüenta. novo soco – Que tu achas que eles querem. E já citam vossos nomes. mas que ela é provocada por aqueles que dela tiram vantagem.. Senhor Slift. é saber de que lado vocês estão! Desse lado da barricada ou do outro? BISPA SNYDER – Os Chapéus Negros. Deus é testemunha. OS FABRICANTES – E quanto querem pelo serviço? BISPA SNYDER – Oitocentos dólares por mês. sim! Vocês agora terão que achar alguém que faça a doação. então. precisamos do gado. vocês certamente precisam. Meyers. (Os fabricantes de conserva caem na gargalhada) E tudo isso por apenas oitocentos dólares por mês! GRAHAM – Não precisas de tanto. a Snyder – O que querem de nós? GRAHAM. precisamos de sopa quente e música animada. sem dúvida? SLIFT – Sem dúvida. ouvimos dizer que há nos matadouros cinqüenta mil pessoas sem trabalho. diremos a eles que a desgraça vem como a chuva.

ao me veres aqui. Se fizeres isso por nós. Mas agora. quem comerá a carne que nós compramos? E para que nós a compramos. Para que ninguém mais vá olhar de perto. para fazer pior. pagaremos o aluguel dos Chapéus Negros por quatro anos. ela está espantada – O que fazem vocês aqui? DONA LUCKERNIDDLE. Dirigindo-se aos fabricantes: Mauler. aí estás! Nós não estamos muito contentes contigo! Tu não poderias dizer uma palavrinha de nossa parte à Mauler? Parece que tens sobre ele alguma influência. É preciso ser muito tonta! Na verdade. Mas o Bom Deus tem uma opinião muito elevada de Si mesmo para ser sempre a vossa babá para todo o serviço e para vir limpar vossas cavalariças. da tua vista sairia. É o seguinte: alguém sumiu com o gado do mercado de uma maneira que somos obrigados a ficar de olho em Mauler. Estou pronto. e que os operários poderiam comprar a carne. olhando os pobres. SLIFT – Mas querem antes estrangular os agricultores! OS TRÊS – Como abater gado que não existe? SLIFT – Quando Mauler e eu compramos a carne de vocês. entretanto. JOANA – Por que não trabalham? Não arranjei trabalho para vocês? DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. Não me detenham. Se essas pobres criaturas. supúnhamos que iriam retomar o trabalho. e a religião vos parecerá de novo algo de muito bom. empunharem um porrete para bater em vossas cabeça. se os consumidores não têm com o que pagar? JOANA – Em vossas gigantescas instalações e vossas fábricas detendes as ferramentas dessa gente: deveríeis ao menos permitir que eles as usassem. e eu.) Saí! Quereis transformar a casa de Deus em um estábulo! Saí! Nada tendes a fazer aqui! Cabeças como as vossas.26 Entra Joana SLIFT – Aí está a nossa Santa Joana da Bolsa de Carnes! OS TRÊS. JOANA. Mas cruel é a fome: Renasce sempre. gritando alto a Joana – Ah. qualquer um que queira ajudar aos pobres deve ajudá-los a protegerem-se de vós. Saí. mas não fizeram nada. pois. comprou-vos conservas Por minha solicitação! E não reabristes ainda? OS TRÊS – Está correto. dizendo-me: ajudando aos de cima. senão ficam imobilizados. senão lançar-me-ei sobre vós e golpeá-los-ei a cabeça. eu sei o que faço. JOANA. avançando: Eu te conheço: tentei te convencer A trabalhar nas serras que me cortaram o braço. nós não queremos mais ver. que ela usa como se fosse um porrete. ajudo também aos de baixo. própria para jogar água na fervura. mas também os esconde De todos os olhares. vós então vos borrareis todos. Esta neve os mata. que haveis atormentado ao extremo. E eu. sem pena também Esqueci o que todos se apressam em esquecer Para rapidamente estar em paz com suas consciências. hoje. aos fabricantes: Esses pobres continuam a esperar trabalho? Silêncio dos fabricantes Eu que pensava que eles estavam arranjados! Faz já oito dias que neva nas costas deles. Nós queremos reabrir nossas fábricas. perdi demasiado tempo até sabêlo. (Joana sai atrás deles com o mastro de uma bandeira. Basta que alguém diga: está acertado. De bom grado. mal tendo sido saciada. GLOOMB. Dizem que ele come na tua mão. Parece que podes fazê-lo agir ao teu gosto. Os Chapéus negros aparecem na porta. GLOOMB .No começo falaram em reabri-los. avançando: As vinte refeições foram comidas! Não te irrites. Haveis perdido então todo o respeito pelo que se parece humano? E ousais anda vir à casa de Deus porque possuem o vil metal? Sabe-se bem de onde haveis tirado esse ouro e como o haveis adquirido. Sois indignos e eu vos expulso! Apesar de vosso dinheiro! . indo de um lado a outro. e nessa atitude há alguma coisa que parece exploração. e rápido. É preciso que ele libere o gado.

entrando — Vocês já arranjaram o dinheiro? BISPA SNYDER – Deus encontrará logo o meio de pagar o abrigo bastante modesto – eu disse modesto. como jamais viu antes o mercado do gado! Saída dos fabricantes de conservas. Trazendo-vos totalmente convertido. DONA MULBERRY — Sim. oferece teus bons préstimos. é muito justo que pague. correndo sai atrás deles – Fiquem senhores. Por causa do aluguel. de volta Convida a tua casa. BISPA SNYDER: Infeliz ignorante! Como não vês que operários e patrões. ah. Queres. tu a ignoras E cedes a teus impulsos! É mesmo muito fácil Caçar esses impuros com um gesto cheio de orgulho. Eu não desejo Colocar novamente o chapéu e o uniforme negro. OS TRÊS Joana sai. esses pobres. comê-lo também! Vá-te então. aos Chapéus Negros – O que acabo de fazer certamente foi pouco habilidoso. fracos. então. tudo mal. terá de se mudar. Ela carrega uma mala pequena. Vá sob a neve e continue intransigente! JOANA – Quer dizer que devo tirar meu uniforme? BISPA SNYDER – Tira o uniforme e arruma tua bagagem! Sai desta casa e livra-nos da escória que arrebanhaste. Anda cuidar de tua vida. JOANA. De qualquer maneira. é bem disso que se trata! Falaste a palavra exata! Se o Bom Deus paga. não tem nenhum mandato! É apenas uma mulher que perdeu a razão! Ela está despedida! Ela fará pelos senhores tudo o que desejarem. está bem. É mister que haja um Justo entre eles! Ela sai. Serve-lhes água de chuva e belas palavras Pois do céu não lhes vem mais do que neve E não misericórdia! A humildade. tudo bem. Mas como deixar-se levar por isso? (À dona Luckerniddle e a Gloomb:) Sentem-se lá no fundo. modestamente. Enfrentam-se como gigantes? Vá. Mas se ele não paga. ela não representa ninguém. Mesmo que o dinheiro os carcoma como um câncer Devorando o que seu resto tem de humano. BISPA SNYDER. não temos mais um centavo. JOANA Irei ver o rico Mauler. Mesmo que ele os torne surdos. Nós iremos viver dias terríveis. Enquanto não tiver feito de Mauler um dos nossos. Se o Bom Deus não paga o seu aluguel. Eu pedirei sua ajuda. BISPA SNYDER. Doravante farás parte dela. Homem de boa fé e destemido. entretanto. eu lhes trarei a sopa. na ponta dos pés. Mediadora inútil e que cava a própria cova. onde não escutam mais Os pedidos de salvação do resto dos humanos. ela retorna vestida como uma jovem camponesa. Quanto ao pão que precisamos comer. Grupos inimigos irreconciliáveis. e a partir de sábado à noite. pois esses que te seguem não são mais do que escória e refugo. vão-se irrevogavelmente quarenta meses de aluguel. agora. não se vão. bispa Snyder? Ela sai. no coração da tormenta. Fazes-te de difícil e és muito curiosa Para saber como é feito. de um ao outro. dona Mulberry – que ele encontrou sobre a terra. Nem outra vez cruzar o limiar dessa querida casa. Tu que planas mais alto que as questões terrenas! Parta sob a chuva. Povoada de cânticos e palavras que despertam. prisioneiros Em uma torre de marfim. .27 – Está bem! Mas conosco. DONA MULBERRY.

mesmo nas pequenas coisa.28 VIII Discurso de Pierpoint Mauler sobre a absoluta necessidade do capitalismo e da religião ESCRITÓRIO DE MAULER MAULER: MAULER: Chegou enfim o dia em que nosso caro Graham. É um belo sofá que o senhor tem aqui. Terão de pagar mais caro. E os preços Subirão ainda mais. Desde Que ela nos expulsou do Templo. Mas o senhor tem razão. meu caro Slift. Gosto nela deste traço. E na nossa mão é mais caro. que tu tenhas superado Teus recentes acessos de fraqueza. SLIFT. Eu desmenti. Agora que não tenho mais o trabalho fatigante da missão. Então eu disse a mim mesma: vá dar uma olhada no que se passa com o senhor Mauler. Vou ver como eles compram. mas por que o lençol em cima. Em busca de animais que. onde enfiaremos o pé Unicamente para ver a marca que deixa. de perto ou de longe. SLIFT: Estou feliz. Dir-se-ia Que Chicago a engoliu Em sua negra e ruidosa bruma. realmente. Slift. Houve discrepâncias entre nós. e que nem mesmo está dobrado direito? Diga-me: o senhor dorme aqui mesmo. de ser cuidadoso. JOANA – Bom dia. e de que. Serão obrigados a comprar a carne Que devem nos entregar. Neste mercado de Chicago Todos os bois que se escutam mugir São nossos bois. se eu estivesse lá. Não se possa aceitar gente da minha laia. queriam esperar Que o preço do gado caísse o mais baixo possível. desta vez. dá rédea solta a teus corretores! Deixa-os correr o mercado. Slift. Não se fala mais dela. em sua casa. E todos aqueles que como ele. A mim também Teria expulsado. posso me interessar mais por cada homem em particular. Não é fácil encontrá-lo. Assemelhem-se a bois ou porcos. Deixar que gritem: “É um crime!” Entra Joana. MAULER: Seria preciso esfolar esta cidade maldita E ensinar-lhes o seu ofício A essa gente. e cada porco Que eles precisam nos entregar. Deixo minhas coisas nesse canto. É que eu não estou mais com os Chapéus Negros. Mas o senhor. Eles precisam comprar de nós. Não pretendo soltar um só grama de carne A fim de arrancar-lhes mesmo a pele desta vez: É a minha natureza quem exige. Senhor . senhor Mauler. os preços a oitenta. no seu escritório? Sempre achei que o senhor devia possuir um dos grandes palácios de Chicago (Mauler se cala). Gostei muito de vê-la expulsá-los do Templo. Ela não tem medo de nada. carregando uma mala. Ele sai. Graham e companhia ficarão então parecidos À lama. Mauler. SLIFT: E tua Joana? Algo de novo? Um boato corre na bolsa: dizem Que te deitaste com ela. MAULER: Agora. por um momento. Faça subir. senhor Mauler.

. Eu também. sim. JOANA – Senhor Mauler.. O escuro caminho que leva aos matadouros. muda logo a tua cara? . eu não comerei. Mauler vai até o fundo do palco e chora. Mas nesse negócio. Queres? Joana observa a comida. Mas contigo não será assim. Aqui está por escrito. Eis o desafio. E foi por isso que eu me disse: irei ver o senhor Mauler. É Mauler quem vai dá-lo. Trata-se de saber Se eu serei o melhor de minha classe Ou se tomarei eu mesmo. Assim como aos criadores. MAULER – E do que tens vivido? (Silêncio de Joana) De nada. Nesta história dos cinqüenta mil trabalhadores. Joana pára de comer. é claro. Ela começa a comer avidamente. o dinheiro para vocês eu terei. Eu quero dar-vos alguma coisa Para provar-vos a bondade de meu coração. Estás de acordo? JOANA – Sim. que vive do aluguel. Confirme que foi por teus conselhos Que eu. Daqui até sábado. a proprietária. o que me agradou muito e me pareceu justo.. tenho boas esperanças de que sua consciência esteja em paz nesse momento! MAULER – Então não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Não. senhor Mauler. JOANA – Os operários continuam esperando nos matadouros? MAULER Por que és contra o dinheiro? E por que então.. é lógico. naqueles pátios imensos. não faço mais parte. senhor Mauler. É por ti que o faço. não querem partir. Mas eu o encontrarei. encomendei a carne. eu buscarei o dinheiro a qualquer preço. JOANA – . vá dizer-lhes isso. Ele traz comida a ela em uma bandeja. Eu te encontro bastante mudada. JOANA – Sim. Há quanto tempo não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Oito dias. Vou agora mesmo à Bolsa para procurar o dinheiro. Toma. Eu não conheço. MAULER – Vá dizer-lhes que o dinheiro está chegando. MAULER – Ah! E agora os Chapéus Negros estão em uma situação financeira difícil? JOANA – Sim. Eu irei à Bolsa encontrar o dinheiro que lhes falta. quando nós expulsamos os ricos de nosso templo. Quando não o tens. Eles são cinqüenta mil Que permanecem lá. MAULER: Tão mudada! Apenas oito dias! Onde ela esteve? O que ela viu? E por que essas rugas em torno dos lábios? Esta cidade de onde ela saiu. aos fabricantes. e aos Chapéus Negros é preciso auxiliar. de pé. Um trabalho ruim.. Mesmo que deva cortar na carne. na minha vez. nos deu prazo só até o próximo domingo. MAULER – Não te inquietes. e que agi bem. ainda por cima. a coisa não andou. eu lamento Que o trabalho ainda demore nos matadouros. ser ou não ser. Não pude dar-lhes trabalho rapidamente. O dinheiro. MAULER – . Eu confesso cruamente. Que meu comércio não é antinatural. E que. mesmo à noite. E como eu sei que sois pobres E que querem privar-vos Do teto que vos abriga. Corra... senhor Mauler! MAULER Tome. está caro. arrancar a pele desta cidade. não como eu queria. Teria adorado ouvir-te dizer Que o que eu faço está bem..29 Mauler. Uma vez mais.

aliás. Desde que existem sobre a terra. isso será suficiente. Eis porque esta obra é sempre defendida Pelos melhores entre os homens. O dinheiro é um meio De melhorar um pouco a vida.30 O que pensas tu do dinheiro. malgrado os sacrifícios. Ou então seria preciso mudar tudo. nem nós tampouco: Não seríamos necessários. Para que Ele finque pé nas favelas E para que Sua voz retumbe nos matadouros. Seria como um mosquito Tentando se opor a derrubada de uma montanha.O que nós não vos exigiremos de nenhuma forma – Devem dizer ao menos que eles são justificados. Como esses bobos para os quais o dinheiro Tem não sei qual problema. ou quase. E que. Mas eu faço parte daqueles Para quem essa não é uma ajuda. Assim. Não enchas a cabeça de falsas idéias. sob gemidos. destruído na mesma hora. Daqueles a quem ninguém oferece nada. É à sorte. durmo mal à noite. Tão penosa de construir. Concepção inaudita à qual vós mesmos. JOANA Senhor Mauler. As coisas não deixariam de seguir o seu curso de antes. Apanhe o que te dão. nem Deus. eu que nutro Poucas simpatias pela ordem do mundo. Que seria suprimido por falta de utilidade. veja bem. de cima a baixo. Isso que o senhor falou. Obra imensa. Eu não compreendo E nem quero compreender. Quero saber. Ele alcança o papel a Joana. Atribuir ao homem um lugar totalmente diferente. MAULER . Ainda que dia após dia se precise reconstruir O que dia após dia é destruído. Se eu quisesse me retirar. Fazendo Dele a única salvação. Que o gênero humano está entregue. eu concordo. E incessantemente construída. diga-me. Por isso vós deveis nos ajudar em nossa obra. Pouco agradável. Sim. sob chuva e frio. Mas pensa na realidade. Olha também como o mundo é feito! Que edifício! Obra dos homens. . eu deveria estar feliz De ver que alguém vem em ajuda a Deus. Esse sistema é o único que permite arrancar O que pode ser arrancado dos rigores desse mundo. sem dúvida. Eu seria varrido. Modificar por inteiro o plano do edifício. Em uma palavra é preciso que vós Restabeleçam Deus em sua glória. Ela se levanta. Eu sei. Ao menos a vida de alguns. Na banal verdade. Mas saiba com qual objetivo foi dado! Tome isso! Saiba que representa O aluguel de quatro anos. Pouco ou muito segundo o caso. E se vós não precisais se expor aos sacrifícios. Por Ele batendo os tambores. Mas mesmo assim verdade: Sobre a terra nada há de sólido. Não desejais.

desfilando. No futuro. JOANA Terceira descida de Joana às profundezas. Que o campo inflou-se e uma cascata humana Inteira ficou pendurada em suas elevadas bordas. MAULER Esta noite. Vi depois cortejos E ruas desconhecidas. Quantos eram eles? Eu não sei. em um pequeno campo. Pois esta vida sem eira nem beira não te serve. Chicago! Vós também Lá estavam. Ela sai. Que o aceitem. Eu comerei esta neve. Sobre ela que tu conheces. pulsando vida. A tempestade de neve. Ficarei lá até que as portas sejam reabertas. E o senhor. silhueta múltipla. Que alguém gritou em algum lugar. Mais numerosos. Saberás que neva sobre ela. E isso é muito bom. em todo o caso. E se nevar. Depois eu gritei palavras em tom belicoso Em uma língua para mim mesma desconhecida. sem uma palavra. 1. E então uma palavra. Notei uma massa humana. eu quero fazê-lo. Pelo menos não honestamente. Jovem e velha. BAIRRO DOS MATADOUROS Joana. Cercado de todos os lados por enormes edifícios E tão pequeno que a sombra de um arbusto O teria encoberto totalmente. E eu. e então eu me vi: À vossa frente. do que os pardais Que se poderia colocar em tal lugar. Eu marchava. Mas eu me sentarei Em frente aos matadouros. Eu também não tenho dinheiro E nem uma maneira de ganhá-lo de outro modo. Arranjando para não ver esses condenados. Jogados aos matadouros e de tudo ignorantes. creia-me. levanta-te. E o trabalho deles também. com aqueles que esperam.31 Leva aos Chapéus Negros este dinheiro E poderás ficar com eles. soluçando e jurando Logo fora de mim! Virtude e terror confundidos! . Eles fazem muita questão do dinheiro. JOANA Se os Chapéus Negros quiserem o seu dinheiro. Vai à janela e repara se neva. E se não houver trabalho. afluíam inúmeros cortejos. e outras familiares. a fronte ensangüentada. Sem poder suportar a visão dos pobres Que os julga sem conhecê-los. uma palavra sem importância. por toda a parte. marchava à sua frente. com passos guerreiros. que vive da pobreza. Perto dela Gloomb e dona Luckerniddle. Ela permaneceu suspensa por um instante. IX Escutai o que eu sonhei. Há sete dias: Diante de mim. Se for um punhado de neve o que lhes dão. E nada comerei além do que eles comem. se o senhor quiser me ver Me verá nos matadouros. A cada hora. Fez esta massa começar a fluir. Ao mesmo tempo. Mauler. Eu serei como eles sem trabalho. Eles formavam uma massa tão densa.

Todas as conservas Previstas no contrato. Assim foi o meu sonho. MAULER: Sendo grande a demanda De conserva e de vianda E sendo os preços aceitáveis. mas existe. Eu andava no mesmo passo que o cortejo.. Há muito gado. e pior. E com a aurora chegaremos a Chicago. se eu me lembro direito Daquela hora em que perdi um pouco o juízo. OS FABRICANTES: Mas como nós poderemos Comprar gado com preços em alta? Alguém promoveu uma razia. Envolvida pela neve. GRAHAM: Ao preço antigo? MAULER: Como combinado. Ninguém sabe quem foi. UM PEQUENO BAR NO BAIRRO DOS MATADOUROS Desgraça! As tarifas caíram! E nós não temos mais carne para vender! Ela já está vendida. E assim andava o cortejo. sem mais delongas. O que acontecerá. a senhora entendeu esta história? Eu não. libere-nos de nossos compromissos! MAULER: Estou desolado. eu ignoro. é verdade. a cidade deles. nas praças públicas. e pior. Mauler. Eu exijo que me entreguem. ao abrigo dos ataques inimigos. Rendidos pela fome. a preço vil. estávamos fora de alcance. E também perturbando o aspecto familiar de ruas bem próximas. DONA LUCKERNIDDLE – Se ela tivesse calado um pouco a boca lá nos Chapéus Negros. a preço vil. Para aí mostrar a todos. OS FABRICANTES Desgraça! As tarifas caíram E nós não temos mais bois para vender! Eles já estão vendidos. BOLSA DE CARNES MAULER. bem e aquecidos! 2. mas preciso das conservas. Oitenta mil toneladas. nós agora estaríamos comendo a nossa sopa. Graham. Precisamos comprar e os preços aumentam! .32 Tudo o que eu pisava. modificava. Hoje eu compreendo o seu sentido: Nós deixaremos os matadouros antes do raiar do dia. OS CRIADORES aos fabricantes de conservas: Meus amigos de Nova Iorque me escreveram Que as tarifas aduaneiras no Sul Acabam de ser derrubadas. transparentes. Ocasionando imensas destruições. Influenciando o curso dos planetas distantes. éramos inatingíveis. abandonando este lugar insuportável Por qualquer outro. não nos podiam alvejar. A exata extensão de nossa miséria. Habitando em lugar algum. Um pouco caro. Senhores. Comprem-no! OS FABRICANTES: Comprar gado nestes dias! Que horror! 3. Habituados ao sofrimento.. Faremos um chamado a todo o ser que pareça humano. GLOOMB – Dona Luckerniddle. que eu saiba.

hoje (eles não estão escutando nada!) basta que eu pense muito em Jesus. que um resto de pudor lhes diga: Aqui reinam a neve e o vento: calem-se! 4.Aleluia! (Jackeline faz circular a cuia de esmolas. ente os quais Joana. dona Swingburn? A MULHER – A sua música era bonita. JACKELINE. meus irmão. à margem do caminho. mas então eu encontrei Nosso Senhor Jesus e fez-se em meu coração uma grande luz e provei uma grande alegria. e eu não tenho mais fome e nem sede. JOANA – Mas não são os tais que ficam incitando ao crime? O TRABALHADOR – Não. mas ninguém contribui) Aleluia! JOANA – Deixe-os. Vinde a ele. UM TRABALHADOR. por causa do meu marido. tenente dos Chapéus Negros. Silêncio. Onde está Jesus. Nosso Senhor. vinde logo! Aleluia! Uma jovem dos Chapéus Negros dirige-se aos trabalhadores. depois de entoar um cântico apressadamente: Por que não provar. estava um dia sentada. meu irmão. triste. Pois nós encontramos Jesus. (Isso não serve para nada!). JOANA – Então não há ninguém que tente fazer alguma coisa? O TRABALHADOR – Sim. Ah. A MULHER – Por que não nos procuram para tentar nos converter? GLOOMB. Joana se levanta e. curta bondade. reina a paz. DONA LUCKERNIDDLE – Eles são boas pessoas. minhas irmãs. (É tudo absolutamente inútil!) Eu lhes digo: ajudem-nos a manter a marmita fervendo! OS CHAPÉUS NEGROS . tu também. Bem que eu gostaria de estar com eles! DONA LUCKERNIDDLE – A música era bonitinha! GLOOMB – Bonita e curta. tenho apenas sede da palavra de Jesus. já ouvi demais. UMA MULHER Por que vir aqui fazer escândalo Com tamanho frio! E se pudessem ao menos se calar! Com muito custo eu consigo agora Suportar as palavras que há pouco amava E que me soavam agradáveis. o amor. Um destacamento dos Chapéus Negros chega. por favor! OS CRIADORES: Não sobrou mais nada! Tudo o que podia ser vendido . durante a cena. mas eles traziam uma panela. JOANA – Onde eles estão? GLOOMB – A dona Luckerniddle pode lhe dizer. como vocês. grande o nosso regozijo. GLOOMB – Bondade curta. eu prefiro os atos. que nos salvou na dor. Intercala sua pregação com observações aos companheiros. surpreendendo-se pela ingenuidade – É sério? A senhora acreditou nisso? DONA LUCKERNIDDLE – Eu também. Se algumas pessoas soubessem calar a boca eu saberia onde procurar abrigo esta noite. Luckerniddle – De onde a senhora os conhece? DONA LUCKERNIDDLE – No tempo em que eu não me fiava em gente como você eu ia bastante até eles.(Vocês acham que isso serve para alguma coisa?) Eu também.33 Trabalhadores e trabalhadoras. faz desesperadamente sinais para que saiam. eu esperava que eles fossem ao menos nos dar um prato de sopa. BOLSA DE CARNES OS FABRICANTES: Nós compramos qualquer gado! Bezerros! Gado gordo! Vitelos! Bois! Porcos! Façam as suas ofertas. Discursos. Nosso Senhor. JOANA. apesar de todas as nossas más ações. MARTHA. que alguma voz. à dona. não o ódio. e o velho Adão dentro de mim não tinha outro desejo do que comer e beber. não a violência. Eles precisam fazer isso para conseguir um pouco de calor e de comida. fazendo o gesto de contar dinheiro – A senhora consegue manter a marmita fervendo. os comunistas. do pão de Deus? Grande é nossa alegria. soldado dos Chapéus Negros: .

OS FABRICANTES: É Mauler. sabemos agora de uma coisa: se tudo andar como querem os industriais da carne. Terá de ser comprado de mim. É claro que é! Era o que dizíamos! O cão! Ele nos obriga a entregar-lhe as latas E é ele quem compra o gado! Somos então obrigados a comprar de Mauler A carne que deveremos colocar em suas latas! Carniceiro sujo! Tome então a nossa carne. OS CRIADORES – Vendido. eu acertarei as contas com ele! MAULER: Ah! É assim. JOANA – São vocês os que defendem a causa dos desempregados? Eu posso ajudá-los. uma parte de nós perderá seu emprego nos matadouros e os outros nunca recuperarão o salário anterior. precisamos de um prazo. Qualquer vitelo. Mauler. Os senhores devem me entregar a carne. Nós. É impossível encontrar um boi em Chicago. Chegada de Joana. OS CRIADORES: Oitocentos bois a quatrocentos para Sullivan Slift. a greve geral. Não havendo ninguém que precise de carne. precipitando-se sobre Mauler: É preciso liquidá-lo. dois homens da direção dos sindicatos discutem com um grupo de operários. eu tenho propostas a fazer. Deixe-os totalmente à míngua. no mais tardar depois de amanhã. Ele vai falar com Slift. se ela for justa. mesmo nos grandes. Os trabalhadores das grandes empresas da cidade nos prometeram declarar. eu não tenho medo. OUTRO LUGAR NOS MATADOUROS Nos cartazes se lê: “Solidariedade com os trabalhadores sob lockout!” “Desencadeiem a Greve Geral”. Aprendi a falar em lugares públicos e em auditórios. Silêncio . OS FABRICANTES: Mais nada? E nas estações? Estão abarrotadas de gado. UM CRIADOR: Oitocentos bois de Kentucky a quatrocentos. eu as quero agora. mesmo só uma pata. Mesmo que tenhas que te enfiar nelas! Eu vos ensinarei como se faz esse comércio! Doravante. para começar Quinhentos bois a cinqüenta e seis. de Chicago a Illinois. OS FABRICANTES: Nem pensar! Vocês estão loucos? Quatrocentos! SLIFT – Eu compro. e acho que sou capaz de defender bem uma causa.. Quatrocentos. os operários. Em frente a um galpão.34 Foi vendido. se são os senhores os bois. UM DIRIGENTE OPERÁRIO – Escutem todos: até agora os magnatas da carne não manifestaram a menor intenção de reabrir as suas fábricas. Os fabricantes se precipitam sobre ele. Agora eu quero sessenta! E tenham o cuidado De não esquecer as minhas latas! 5. Já que não há demanda. o apetite desperta! GRAHAM. Corte você mesmo! MAULER: Por que se surpreendem. Se alguém vier perturbar a reunião. MAULER: Atenham-se à nossa combinação. OS FABRICANTES – Vendido a quem? Entra Mauler. Vendo-os. Além disso. Na minha opinião é preciso fazer alguma coisa imediatamente.. Graham! As latas que me deves. e caro! Ofereço. De hoje até amanhã é certo que os patrões vão lançar todo o tipo de falsas notícias: eles dirão que .

eu sei quem ela é. – Eu já vendi jornais na rua Vinte e Quatro.. as centrais elétricas e o serviço de águas entrarão em greve em solidariedade a nós. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – E quem te garante que ela vai levar a carta que lhe entregarmos? O DIRIGENTE OPERÁRIO – Ninguém. na esquina do Parque Michigan. dessa maneira. SLIFT. Meyers e Cia. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E para quem trabalhava? JOANA – Eu era ambulante. os preços estão a mais de setenta! OS CORRETORES – Os cabeçudos não compram. em diversos pontos dos matadouros. E poderíamos até dizer que esta pobreza seja obra deles. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua Três. Ela é sua conhecida. encostado em uma coluna – Faça subir. essa noite. Isso é bom. É do Exército da Salvação e os policiais a conhecem bem. O contrato assinado há pouco entre nós: Eu queria. em frente ao edifício da Westinghouse! (À Joana) Quem é você? JOANA – Fui mandada embora do emprego. Um operário apanha a carta e sai. Eu luto de todo o coração pela causa de vocês. assegurar o trabalho . O DIRIGENTE OPERÁRIO – E em que trabalhava? JOANA – Eu vendia um jornal. Essas cartas anunciam que a usina de gás. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua vinte e seis. ouve-se gritar ao fundo o nome das empresas que suspenderam seus pagamentos: “Encerram os pagamentos. dona Luckerniddle? (Dona Luckerniddle faz sinal que sim). Como se rede já não houvesse: De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. JOANA 6. UM OUTRO OPERÁRIO – Dê-me a carta para as usinas Graham. e vá esperar os responsáveis defronte à cantina da senhora Schmittens. estou vendo. Ela é honesta. galpão número cinco. pois o endereço dado pelos camaradas das usinas Cridle para o encontro está muito vigiado. Você pode tranqüilamente entregar-lhe a carta. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Não é sem provas. Esconda essa em seu casaco. tanta gente na rua.. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Não. Nós não temos ninguém para passar despercebido como ela. BOLSA DE CARNES Durante toda esta cena. Quando você vir chegarem três operários com cara de quem procura alguém. A carta é para eles. aos responsáveis que esperam nossa orientação. Tudo acontece como se a miséria dos pobres fosse útil aos ricos. Eu não sou uma espiã. MAULER: Os senhores não respeitaram. Jack. Ninguém suspeitaria que ela trabalha para nós.. eu conheço o pessoal. pergunte-lhes se são das usinas Cridle. não é? DONA LUCKERNIDDLE – Honesta ela é. etc.” OS FABRICANTES – Nós não podemos mais agüentar. Por este buraco fogem todos os peixes. À Joana: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. a Mauler. Elas devem ser entregues às dez horas. dando a carta à Joana – Vá até a fábrica Graham. pau neles! OS FABRICANTES – Queremos dois mil bois a setenta. UM OPERÁRIO – Pode ser uma espiã.35 tudo está arranjado e que a greve geral não acontecerá. O operário apanha a carta e sai. com tal medida. O DIRIGENTE OPERÁRIO. (os operários riem alto) Mas é desumano! E dizendo isso eu penso também em gente como Mauler! (os operários caem na gargalhada) Por que se riem? Acho que vocês estão errados em zombar e em acreditar sem provas que alguém como Mauler não é um ser humano. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Pela nossa causa? Diga-me: ela não é também a sua? JOANA – Não é no interesse geral que os industriais jogam.

No canto em que trabalham os sindicatos reina uma grande efervescência! MAULER – Quem trabalha? Os sindicatos? E a polícia os deixa incitar os operários? Meu Deus! Liga imediatamente para a polícia. Eles ainda agüentam! Quinhentos bois a setenta e sete. GRAHAM: Que seja. Sem contar que a polícia está evacuando os matadouros e que começa a atirar. Se perguntasse por uma Joana. Mas os senhores se lamentarão por isso. São centenas de milhares nos matadouros. Ceda. As conservas que comprei. Ainda por cima está escuro. se apresentariam dez ou talvez cem. sim. O segundo segurança sai. subir muito mais. A carne sumiu de vez do mercado! Quinhentos bois a setenta e cinco! MAULER: Não seria conveniente. Ponha os pingos nos “is”. MAULER – Então. senhor. Ele pode ir longe demais. Slift. por telefone. eu não me sinto muito bem. Isso basta. O SEGURANÇA – As multidões. Quando se grita qualquer coisa. O primeiro segurança sai. Slift. MAULER. Diga-lhe para que não me procure. tudo a oitenta. eu me pego esgoelando-os E não tenho tanto prazer quanto esperava. Pergunta para que nós pagamos impostos! Manda arrebentar a cabeça dos líderes. Impossível. SLIFT – A oitenta. que voltou para perto da coluna – Slift. É preciso que a cidade Possa voltar a respirar. Que sangrem. MAULER: Atiram? Contra quem? Mas eu sei bem. nós não podemos pagar oitenta a Mauler pelo gado. SLIFT: Faça subir. Ele repara no segundo segurança. Acima disso. MEYERS – Cinco mil a oitenta! Assassino! MAULER. A multidão anônima e sem rosto continua sentada lá. é impossível ouvir uma voz isolada: há muita gente correndo de todos os lados. O estranho é que aqui não se ouve nada. . pois.36 Aos operários e agora me dizem Que eles ainda esperam em frente aos matadouros. MAULER. Mauler. Slift. A encontraste? O SEGURANÇA – Não. entreguem-me! GRAHAM: Nada poderíamos ter feito. Além disso. Mil a setenta e sete. é o fim! SLIFT: Quinhentos a setenta e sete para Graham. é claro. eu não vi ninguém com o uniforme dos Chapéus Negros. Senão pensarão ainda Que fomos nós que exigimos que atirassem. esperando. Vou soltar a carne e deixá-los partir. Pois a queda deles Será a nossa. o vento abafa as palavras. dizes. de achá-la? E atiram? Encontra o Jim. não me diverte mais. desembucha! O primeiro segurança faz seu relatório. mas que não rebentem. Eles já não agüentam. à procura de um parente que não encontram. Vá só até oitenta e depois abaixe o preço. OS FABRICANTES – Mauler paga cinqüenta pelas conservas. a Slift – Onde está o pessoal que eu mandei para os matadouros? SLIFT – Ali está um. Mas para nós. perdido por perdido. MEYERS – Mil e quinhentos a oitenta. E tenho outras preocupações! Veja bem. Fala em meu nome. voltando ao grupo: Este negócio. são incontáveis. só quinhentos.

a alguma distância. De outra forma isso terminaria em violência. Aja conforme o meu espírito. Joana. (Joana vira-lhes as costas. ALGUÉM – Porque estás aqui? JOANA – Tenho que entregar uma carta. Continue então com o negócio. Para nós a senhorita faz parte. Nesse dia sim. no fundo. NOS MATADOUROS Muita gente esperando. Eles se sentam. Prefiro abandonar tudo Do que ser a causa de uma desgraça! Oitenta e cinco. Não vão embora. (a Joana) Esses são jornalistas. Aja conforme o meu espírito. JOANA – Eu não faço mais parte dos Chapéus Negros. SLIFT: Mentirosos! Agora serei eu que vos ensinarei A vender carne enlatada Sem ter nem mesmo um quilo! E cinco mil bois a noventa e cinco! Urros. OS TRABALHADORES. Eu não posso mais. pode ler. Entre eles. Tu me conheces. apontando para Joana – Aqui está. nos matadouros Enquanto a miséria não chegar ao máximo. Mauler? MAULER. Slift não tem ordem para isso. senhorita Dark. 7. afastando-se – É preciso que façam chegar aos operários que eu acabo de ceder gado às fábricas. Fora uns poucos especuladores sem escrúpulos. JORNALISTAS – O que há de novo.37 – Nem pensar. Eles não abrirão as fábricas. OS JORNALISTAS – Veja bem. O HOMEM. a jovem pregadora dos Chapéus Negros? JOANA – Não. Um homem os guia. Nós publicamos isso com manchete de oito colunas. OS JORNALISTAS – Podemos lhe assegurar. nós ouvimos. – Olá! A senhorita é Joana Dark. declara: Deus está solidário com os operários das fábricas de conservas. SLIFT MAULER Eu preciso de ar fresco. Eles terão de nos responder. Saindo ele encontra jornalistas. em segundo plano. não mais. toda a Chicago comparte seus sentimentos. Eles ainda agüentam. JOANA – Eu queria que vocês fossem embora. Queria vender a oitenta e cinco. Joana Dark. Virão três pessoas. Mas quando a aflição for tremenda. Então agora existe gado. Chega um grupo de jornalistas. que a opinião pública está do seu lado. Os jornalistas lêem em voz alta) “A Madona dos matadouros. OS JORNALISTAS – No escritório do senhor Mauler nos disseram que a senhorita jurou não sair dos matadouros enquanto as fábricas não fossem reabertas. Veja. Slift. É um enorme sucesso para os Chapéus Negros. esperem a resposta! CORO OPOSTO. a não ser nós mesmos E a ninguém podemos apelar OS JORNALISTAS . isso não é possível.” JOANA – Eu não falei nada disso. também em segundo plano: É mentira: por maior que seja a miséria. E se quiseres abrandar. Mas nós não queremos incomodá-la e iremos ficar ali. SLIFT – Quinhentos bois a noventa! OS FABRICANTES: Mauler. Eles não abrirão as fábricas! Eles esperarão os lucros aumentarem! E a sua resposta sairá Dos canhões e das metralhadoras! Ninguém poderá nos ajudar. serei eu quem fará subir. eles abrirão.

tenho frio. A qual logo se nota claramente Que serve de gangorra Todo o sistema é como uma balança Na qual os dois lados dependem um do outro. UM VELHO HOMEM. com um vasto plano. Quer um gole de whisky? (Joana bebe) Ei. não dormir. (Ela arranca de sua vizinha o pano com o qual ela cobre a cabeça) Sim. Mas. o medo me aperta a garganta: Não comer. dona Luckerniddle? DONA LUCKERNIDDLE – Sim é verdade. E falar Daquele que mora lá em cima. Onde está o meu chale? Eles me roubaram. O TRABALHADOR – Mas falaste com eles! JOANA – Eles me confundiram com outra pessoa. E para vós é fácil passar frio. Algo de obscuro. que de resto Já é a muito conhecido. A mim me esperam.. Mas é apenas uma tábua. ao qual estava acostumada. Não fazia tanto frio em meu sonho. chega! Você é boa mesmo de copo. a qualquer momento. Os jornalistas. um emprego que me assegurava O pão de cada dia.38 Que não seja um nosso igual. Quase uma comédia.. E um ambiente. confesso... JOANA Se dependesse só de vós Eu poderia congelar nua em pleno vento. dir-se-ia que é um caminho. foi você! Não adianta mentir. isso é normal. é claro! É o cúmulo! Eles me roubaram até o chale! Quem foi o mão leve que pegou o meu chale? Devolvam-me imediatamente. imbecil!. JOANA: Eu compreendo esse sistema. Alguns – pouco numerosos – estão sentados lá em cima E um grande número aqui embaixo. guardam-me a sopa. Mas eu posso. Entre os que estão em cima e os que estão embaixo. eu quero ir embora. Para que estejamos todos no alto! Mas olhando mais de perto descobre-se. Encorajada por um sonho que confirmava minhas idéias. levantam-se e dirigem-se ao fundo. ignorar aonde te leva a vida. . desde fora. ela vai me matar. UMA MULHER – Que audácia! JOANA – A senhora falou alguma coisa? A MULHER – Sim. Empunhar a bandeira e bater o tambor. Que audácia! Emborcar assim o whisky desse velho! JOANA – Segure a língua. Vós todos. o que haveis deixado? Eu. não é? JOANA – A senhora também acha. Vós. a Joana – O que fazias com aquela gente? JOANA – Nada. Mas. UM TRABALHADOR. que acabaram de receber uma informação. Apesar de tudo. Eu não tinha sonhado que pudesse fazer tanto frio! Se eu tivesse pelo menos o meu agasalho! Ah! É fácil para vós passar fome. um teto e o sustento. Já basta. a Joana – Você está totalmente gelada. Tenho fome e isso é banal. Ir para um quarto quente. E uns se sentam lá em cima Só porque os outros estão embaixo. A MULHER – Socorro. mais do que tudo. Mas a estrutura interna continua ignorada. Enfim. E os do alto gritam: Subam. UM HOMEM – Silêncio! Alguém atira um trapo para Joana. eu não tenho o direito de ir. dê-me meu pano. Ficar aqui sem necessidade absoluta Parece-me um jogo indigno. o que deixei foi uma vocação. Quando eu cheguei aqui. que nada tendes para comer.

acaba de cedê-lo aos fabricantes. Não creiam em nada e não escutem ninguém. Mas tu. Se combaterdes. o seu sucesso foi formidável: nós ouvimos que Pierpoint Mauler. (Ela se levanta) Eu vou avisar aos nossos que os boatos já começaram a circular. aconteça o que acontecer. Havia entre eles pelo menos um homem honesto E ele não falhou em seu dever. Nessas condições o trabalho voltará muito em breve aos matadouros. se esses senhores estão dizendo? Sobre um assunto como esse não se brinca. o milionário que dispõe de muito gado. E nós vos dizemos: combatei. de jeito nenhum. O coração deles não é de gelo. no fundo do palco: Se ficardes agrupados Eles vos rebentarão. E sobretudo entendam bem Que nada se faz sem luta E sem a sua própria ação. Os jornalistas retornam. com a carta. mocinha. Que tem a fome por mestre e onde a miséria Fala implacavelmente da necessidade! E sois cem mil alunos. JOANA – Oh! A boa nova! DONA LUCKERNIDDLE – Vejam as mentiras sobre as quais nos alertaram. UMA MULHER – Devemos voltar para casa agora? UM TRABALHADOR – Quem nos garante que é verdade? Que haverá trabalho de novo? – E por que não seria verdade. Não te movas! Entendeu? Ela sai. O que aprendeis? OS TRABALHADORES. JOANA: Parai! Chega de aprender essas lições! JOANA . E nós vos dizemos: ficai agrupados. Agora as fábricas reabrirão. JOANA: Tanto assim? Oh! Escola desconhecida. A não ser a proposta Que leve a mudanças verdadeiras. Ao longe as metralhadoras crepitam. JOANA – Quanta gente há aqui? OS JORNALISTAS – Uns cem mil. Quando se falou com ele como a um ser humano Ele deu uma resposta humana. Tu não compreendes nada de nada. Que barulho é esse? UM JORNALISTA – São as metralhadoras. Não se separem! É apenas ficando todos juntos Que poderão ajudar uns aos outros. Esse combate será perdido E talvez perdido Ainda o próximo combate Mas vós ireis aprender a combater E aprendereis pela experiência Que nada se faz sem luta E sem a vossa própria ação. ainda que os preços continuem a subir. Os matadouros são tão grandes que a tropa levará horas até aqui. Então a bondade existe. A tropa foi encarregada de evacuar os matadouros. OS JORNALISTAS – Olá. espera. Os tanques deles vos esmagarão.39 OS TRABALHADORES: Fiquem. Felizmente temos a carta para mostrar a verdade. Classe cheia de neve e que as leis ignoram. DONA LUCKERNIDDLE – Não digas tais tolices. JOANA: Escutem todos! Há trabalho. JOANA – Mas estão atirando! UM OPERÁRIO – Pode ficar sentada tranqüilamente. no frio. É preciso fazer com que se calem os agitadores que incitam à violência. Não ficaste tempo suficiente aqui.

No terceiro dia sucumbiu. Quem o comerá? Eu vou embora. No final o lodo a engoliu. e ninguém Poderá manter a sua calma. eu preciso ir. Mas o prato que se prepara aqui. Sobre sua cabeça.40 Que gélidas elas são! Não é pela violência Que se combatem a desordem e a confusão. Vós. mas agora a coisa está terminada. JOANA: Os que me entregaram a carta. E é por isso que parto. estão muito enganados. Os operários se levantam. Direis que fazia muito frio. OS OPERÁRIOS – Estão trazendo os sindicalistas. E aprendestes A alimentar friamente terríveis pensamentos. voltando – Nada além de mentiras! Onde foi a moça que estava sentada ao meu lado? UMA MULHER – Partiu! UM OPERÁRIO – Desde o começo eu disse que ela iria embora quando começasse a nevar de verdade. Eu não sou um deles. conduzidos por policiais. as palavras teriam outro sentido. Ela se vê com roupas de criminosa. Por três dias viram Joana em Packingtown. A tentação. Enquanto a noite cai. Há muito tempo que já está tudo arranjado. Nada de bom pode surgir da violência. para um dos dirigentes presos – Não liga não. longe do mundo que lhe é familiar. Perseguidor perseguido E não mais sabendo ver sem desconfiar. Do fundo ouve-se gritos que se aproximam. Ela se levanta e sai. Se desde a infância o peso da miséria e da fome me tivessem ensinado a violência. Eles procuram alguém que não encontram e vão embora. Violar as regras em uso. No lodaçal dos matadouros. Começa a nevar. Joana tem uma visão. Os dois dirigentes operários passam. é imensa! Mais uma noite como esta. eu digo. Quem agisse assim se sentiria perdido. Por que foram presos? O que ela contém. aparece uma inscrição: A neve começa a cair. Ou que engendrasse a violência. Com seu silêncio opressor. os astros sem harmonia Já não seguiriam sua órbitas. Eu digo: na escuridão se acumulam As violências e as questões nunca resolvidas. Toda inocência tê-lo-ia abandonado. Isso seria desleal para com os outros homens. esta carta? Eu não saberia fazer nada Que requeresse violência. Seu sucesso foi grande. UM OUTRO OPERÁRIO grita para o grupo que se afasta – Assassinos! OS OPERÁRIOS – Se eles acham que assim irão parar as coisas. William. Dia após dia ela desceu. DONA LUCKERNIDDLE. OS JORNALISTAS – Nós a aconselhamos a sair dos matadouros. algemados. Viram-na descer de degrau em degrau Para em água límpida a lama transformar e aos humildes Aparecer. eu seria como eles e não faria perguntas. Mas assim. Ela continua sentada. vós estivestes juntos Longas noites. Para este homem. que eles ainda poderão ter uma surpresa. Apartado em um mundo Tornado para ele estrangeiro. Enquanto o fraco ao fraco se alia. ao longo dos anos. Eles saem. Chegam três operários. . Eu assim não poderia viver. UM OPERÁRIO.

E ninguém quis. Mauler e seu amigo. Slift. em cima. confessa. preto no branco: O gado está a trinta e ninguém compra. Perto dos matadouros. o mais vasto. Em todo o caso. Quanto a este edifício. o que foi? Riste. aqui sob meus olhos. Doravante Não há mais ninguém que me queira matar. em suor e em dinheiro. Vejam o que leio. Até o reino do espírito. a um de seus seguranças Parem. preto no branco. dele se diria Um prédio construído com grandes despesas. Tem certa razão de estar alegre. os pobres.41 Pergunta feita: quem ficará? Como nos outros dias. Pensar não serve para nada. UM DOS SEGURANÇAS. Ter construído a maior cloaca do mundo Constituirá a sua única glória. façamos meia volta. mais de vocês. A mim ela vai elevar às mais altas esferas. que todos os fabricantes Quebraram juntos e saíram do mercado. Vejam. Há resistência. Ele lê e empalidece. Não é para pensar que eu vos pago. Sou conhecido nos matadouros. seja por economia. Não preciso.. Até mesmo aos matadouros. mas o arquiteto teria. impresso. Aquela que eu procurava terá tido o bom senso De sair das profundezas onde o inferno se instala. Sem nenhuma exigência. Parece-me Que contratei dois idiotas. Cedi meu gado a qualquer um que o quisesse. saindo – Bom.. UMA ESQUINA EM CHICAGO MAULER. Passa um vendedor de jornais Ei! Jornal! Vejamos o que se passa na Bolsa de Carnes. Agora eu estou livre. De agora em diante. 9. Aquele que sai de tal imóvel. Escolhido como material. Assim espero. UM LUGAR DESERTO NO BAIRRO DOS MATADOUROS Neva. Na borrasca. . OS DOIS SEGURANÇAS – Então podemos ir? MAULER: Podem E eu também posso ir aonde queira. E a vocês eu despeço Pois da pobreza eu cruzei a fronteira. hoje restarão No chão as pedras. ainda atiram. Está dito. Pierpoint Mauler cruza a fronteira da pobreza 8. MAULER: Se a desgraça abate ao homem sem caráter. modificam tudo. não lhes parece? Ah! Eu repito Não fiquem enchendo a cabeça com idéias. a dona Luckerniddle reencontra Joana. Essas notícias. Basta. É o que está escrito. Que nós construímos em nossas grandes cidades Sem importar o custo. cocô de cachorro: Que torna a permanência difícil. meia volta. O mais prático também. Este homem está perdido. Assim foi conseguido. então. Sem que eu tenha procurado. Mas vejo que estão pensando. Eu disse: meia volta E tu riste. Eu tenho as minhas razões. são os mais atingidos. Seja por aberração. Só porque duas ou três vezes eu dei meia volta. um objetivo que eu saúdo E que muito me alivia. nada mais posso fazer por eles.

oh verdade! Que a neve em tempestade Inoportunamente mascarou com sua noite. Errando pelos matadouros. Muitos operários teriam ficado se soubessem da notícia. Ao que tropeça e cai. Pierpoint Mauler as arruinou. para poder se apresentar amanhã bem cedo ao trabalho e de repente eles falam que as fábricas nunca mais abrirão. De tua missão. JOANA. JOANA – Não. Joana ouve vozes. (Joana desaparece na tempestade de neve) Hei! Venha! Ela foi embora! DONA LUCKERNIDDLE 10. UMA VOZ – Lá onde te esperam. Claridade que então eu deixei de ver! Oh! Quem conhecerá o poder da neve! Oh. Joana. podias dar conta. Joana cruza com dois operários de quem ouve a conversa: O PRIMEIRO OPERÁRIO – Primeiro eles fizeram correr o boato que as fábricas reabririam a todo o vapor. mas a senhora quer continuar. Uma parte dos operários saiu dos matadouros. As massas não deveriam ter se dispersado. DONA LUCKERNIDDLE – Ora essa! Para ti está tudo normal! E eu que disse que tu eras honesta! Sem isso não teriam te confiado a carta. Joana pára. Que nada diga. Um lixo. Dê a carta aqui imediatamente. De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. fraqueza do corpo! Oh fome. estás aí! Onde tinhas te metido? Entregaste direitinho a carta? JOANA – Não. Mas tu és uma traidora e teu lugar é com eles. Eu vou embora. O PRIMEIRO OPERÁRIO – E aqui nós não ficamos sabendo. ela procura se livrar das vozes que ouve de todos os lados. UM OUTRO LUGAR Correndo em direção ao centro da cidade. Ainda mais que amanhã todas as empresas de Chicago iriam declarar a greve geral. DONA LUCKERNIDDLE – Eu devia ter duvidado. Mas a carta que trazia a verdade. Eles teriam ficado apesar da violência da polícia. Anda em outra direção. Nós não sabíamos quem eras. É inútil tentar pegar. Mas também podias nos trair.42 – Ah. Que sentimentos em nós deixareis sobreviver? . Nela estava nosso destino. isso é o que tu és! Dê-me a carta que te confiaram. Como se rede já não houvesse. AS VOZES: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. Sem récitas inoportunas dos seus infortúnios. mas entregue. O SEGUNDO OPERÁRIO – Os comunistas é que tinham razão. UMA VOZ: Não há desculpa Para quem não chega. A pedra não perdoa. caindo de joelhos: Luz. Nós te encarregamos. de uma missão. Aquilo que lhe foi confiado. A VOZ DA DONA LUCKERNIDDLE: Eu fui a tua fiadora. Tu não a entregaste. O SEGUNDO OPERÁRIO – Isso é grave: sem dúvida uma parte das ligações não funcionou. Por este buraco fogem todos os peixes. Lá dentro só se fala em violência. OUTRA VOZ: Joana pára. E aquele que chega a bom porto. precisas chegar! Joana olha ao redor. Cumpriste a missão? Joana volta a andar e uma nova voz a detém. Tudo está voltando ao normal agora. eu não a darei.

BISPA SNYDER – Dona Mulberry. Vejam que já balança. UM HOMEM. ele possuía dez milhões. com certeza! Ele já está a caminho com os seus milhões! UM CHAPÉU NEGRO – Bispa. é sábado a noite. Buscam-no por toda a parte. com sopa quente E um pouco de música. BISPA SNYDER – Sente lá atrás e fique quieto! Ele se senta. De um só golpe o bolchevismo também é enterrado. o banco dos penitentes! E já suas mãos avidamente se dirigem Ao órgão a vapor e ao púlpito. DONA MULBERRY – Meu caro Dick. posto que sem abrigo. OS CHAPÉUS NEGROS: Romperam-se os diques da fé Em Chicago. quem vos pode resistir? Eu preciso dar meia volta! Ela retorna sobre seus passos correndo. na frente do palco : Ouvi alguém procurando um certo Mauler. Exposta outra vez à neve. no céu e no inferno. Um homem começa a levar os móveis para a rua. E as ondas de lama do materialismo Ameaçam a casa de Deus. X Humilhação e assunção de Pierpoint Mauler TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS MARTA. à chuva. coloque os móveis na rua. E nós gritamos à plena garganta: Ah. Conheci bem um homem. a outro Chapéu Negro – Há três dias um emissário de Pierpoint Mauler. OS CHAPÉUS NEGROS: Estão levando. Uma boa orquestra à mão e sopa Bem grossinha: terminam para Deus todas as preocupações. entrando – Pierpoint Mauler está aqui? BISPA SNYDER – Não. MAULER. investindo contra ele – A sopa. que aliás é muito barato. ou que deixe o imóvel. Quero que a senhora pague o meu aluguel. O reino de Deus está pronto na minha cabeça. o suntuoso Mauler. BISPA SNYDER. o senhor Pierpoint Mauler. onde iremos acomodar o nosso público? Chega um pobre. que prometeu nos ajudar. MAULER – Eis aqui um homen marchando até o seu Deus. veio nos dizer que Mauler em pessoa estava disposto a assumir o nosso aluguel e a organizar conosco uma grande campanha em favor dos pobres.43 Frio da noite. A massa espera. O HOMEM – Os fabricantes de conservas querem falar com ele e os criadores o chamam aos gritos. minha cara Mulberry. Liberada. Mas nós o estamos esperando. estamos aguardando. DONA MULBERRY – Bispa Snyder. É Mauler. . Pediram-lhe cem dólares. afastada do trabalho. Ele sai. é tudo o que eles querem! Aqui não tem mais sopa! Aqui só tem a palavra de Deus! Ouvindo isso eles vão logo embora. agora os pegamos. que já se afunda! Mas o rico Mauler virá. que triste. Este homem que foi em sua vida Mais estúpido do que um vagabundo bêbado e repugnante. Sob um plúmbeo zênite de destinos desconhecidos. Para nos salvar neste instante. se ele pudesse vir. o rei da carne. Ah. a qualquer momento. Eu o conheci: era um imbecil. nossa boa cidade. Ele se levanta e avança até os Chapéus Negros. Salvar-nos com o seu dinheiro! BISPA SNYDER Há exatos oito dias Que nos matadouros onde as máquinas enferrujam.

mas arrependido. Sentados sobre seus últimos bancos e suas últimas cadeiras os Chapéus Negros cantam desordenadamente seus últimos hinos. UM CHAPÉU NEGRO – É ele. e dilacerado de remorsos. não o seu dinheiro. seguindo a letra por sobre o ombro de um dos Chapéus Negros. Eles cantam ainda “Entrai na batalha”. OS CHAPÉUS NEGROS – Ele já chegou? MAULER: Um hino. Não podemos mais pagar as nossas contas. dirigindo-se aos músicos que vão embora: Nossas orações eram pelo rico Mauler E foi Mauler o arrependido que entrou. meus amigos. sem nada. Mas quebrou a nossa cara De uma vez por todas. Passar bem. Jogou no mar seus milhões. Os Chapéus Negros cantam. todos para fora! A Mauler: E tu primeiro! Onde estão os quarenta meses de aluguel Desses não-convertidos que Joana enxotou? E vejam só o que ela me trás em troca! Devolva-me. já. CORO DOS CHAPÉUS NEGROS. BISPA SNYDER Silêncio! Fora. OS MÚSICOS: É deste aí então que vocês esperavam O dinheiro para nos pagar? Então nós vamos embora. devolva-me os meus quarenta aluguéis! MAULER: Vós desejais. Joana. Abusado da força e espoliado todo o mundo Em nome da propriedade. BISPA SNYDER. OS CHAPÉUS NEGROS: Não perca a confiança! Homem de pouca fé! Ele virá. eu vos rogo! Pois eu sinto O coração ao mesmo tempo leve e pesado. Ouçam então a minha confissão: Aqui jamais se ajoelhou Ninguém. ar ausente. Se aproxima já Com os seus milhões. deu cabo de si mesmo. Culpado. Diante de vós. E esse gesto tocou os nossos corações. Aqui estou agora. Sentados sobre as margens do lago Michigan. Envolvamos em nossas bandeiras derrotadas Os livros de cânticos. MAULER: Eu me acuso de ter explorado o meu próximo. BISPA SNYDER – Tu és Mauler? MAULER – Sim. Mauler! MAULER: Mas quero acrescentar que no sétimo dia Fui despojado de tudo. inclinado sobre os livros de contabilidade – Não direi o que estou calculando. Todos os pagamentos estão suspensos. gritando – E sem dinheiro? (Aos Chapéus Negros:) Façam as malas. Ele pega dois Chapéus Negros pelo braço e senta-se com eles no banco dos penitentes.44 No fim. E sobre nós a neve envia suas tempestades Em um inverno no qual crescem os rigores. Por sete dias apertei a garganta Desta cidade até sufocá-la. Os músicos tocam um hino. olhos voltados para a porta. Tiremos de nossas paredes as máximas. eu vejo. DOIS MÚSICOS: Um pedacinho só. é certo. recusou-se a dar o dinheiro. Silêncio! Tragam-me o livro das faturas e contas por pagar: estou nessa parte. Apenas nos resta chorar. construir vossa casa . BISPA SNYDER. Ele trazia o seu coração. Mauler canta com eles. sim. que tenha caído tão baixo.

Em três dias. E sobre eles atirou-se. Que não ficou só por muito tempo. como um bêbado sedento Que ao mar esvaziou sem se satisfazer E lambe avidamente cada gota que encontra. Mas se chamássemos de homem àquele a quem se ajuda Daria no mesmo: necessitaríeis sempre De gente a ponto de afogar-se. E tudo o que de longe parecesse um boi. firmas de grande renome. Lançou. O ancião venerável. Para mim o humano era aquele a quem eu podia explorar. por ter vindo Atrapalhar neste lugar as tuas meditações. E hipotecando até o último lápis Para trazer de Quebec. Era vosso todo o gado. Por vós fomos forçados. Eles também estão muito pálidos. Ele tenta sair. Vossa função seria apenas a de brincar na relva. Que projeto tendes agora. e sobre nossas cabeças. Que vos pertencia. é aqui então que te escondes? Paga nossos bois ao invés de fazer penitência. Este espetáculo atroz apavorou o ancião. Mas Slift. o que existisse de gado. Não terias a necessidade de aliviar aqui A tua consciência. O que pretendeis fazer de nós? Foste vós. Viram-se os preços Oscilarem. Os complexos pensamentos de vosso imenso espírito. e a noventa e cinco Comprou-os todos. Acorreram todos em ajuda. tomado de loucura. Ninguém jamais pode fugir da lei. hesitantes. paga-nos o gado! GRAHAM. eles iriam trazer. nobre Mauler. os reis da carne vêm ao seu encontro. Slift apertou Ainda mais forte a nossa garganta. Bispa. Pelos contratos que nos obrigavam A entregar de imediato as conservas prometidas. tomando a frente : Mauler. salva tua alma. Mas nós estamos perdidos: Em torno de nós. Um vitelo ou um porco. Prometiam até o gado por nascer. Que a constatação vos enche de amargura. partistes. Dá o dinheiro. com voz dura. OS REIS DA CARNE: Perdoai-nos. No mercado perturbado. O Banco Nacional gritou: “Alto”. Mauler. o caos. comprometendo suas casas.45 Sobre o que há de pior em mim. assumindo seus deveres. Loew e Lévi. Quando. Mauler. gado canadense. Ah! Se não tivesses aliviado tanto os nossos bolsos. que fareis? Entram os criadores em grande agitação. Relatarei o combate memorável Que. chorando. em poucas palavras. Mal viu esses bois vindo ao longe. Na porta. a comprar gado. ao meio-dia. No ciclo dos astros ou das mercadorias. desde a aurora. Um zênite ameaçador de pensamentos desconhecidos. Dais o nome de homem a quem vos vem ajudar. agigantou-se E a todos nos precipitou no abismo! MAULER: Oh! Eternos combates! Em nada são diferentes Desde os tempos antigos onde os homens Com uma barra de ferro rachavam-se as cabeças! GRAHAM: Recordai que estávamos à vossa mercê. Eu sei muito bem. durante sete horas. E Wallox e Brigham. Subiu os preços a noventa e cinco. quem nos derrubou. . OS CRIADORES: Maldito Mauler. Mauler. da Argentina. Estão pálidos como o linho. Concluo eu o seguinte: o Mauler que sou Não é aquele do qual precisais.

Mas alto o bastante para que todos ouvissem: Para pagar-lhes tomem então nossas fábricas. De cotação em cotação Os preços caíram e rolaram até os negros abismos. paravam de viver. Lançaram-se um a um nesta última batalha. por sua indiferença. os fabricantes apáticos Depositarem a vossos pés suas fábricas fechadas. e então se retirarem. E viu-se. é sabido. Slift. Os corretores.46 Mas Slift gritou: “Três dias não. quando e com que dinheiro Nos pagarás o gado comprado.. E os jovens bois de pêlos reluzentes Engordados com tanto cuidado. a carne de boi. E em silêncio também os bancos desmoronaram. mudos. Só um. Estão satisfeitos? OS CRIADORES: Há pouco tempo. Aí está o que tornou o contrato sem valor Apertastes muito forte. Com esse gado que ninguém é obrigado a comprar? OS CRIADORES: Sem querer perder a paciência. de imediato. golpeia um corretor na barriga. E nós comprávamos sempre: Nós precisávamos comprar. Lévi. Eles precisavam entregar. isto é. com olhos marejados. agora. Casas até então sólidas e poderosas. O sapato.E a voz ainda nos alcançava Mesmo com a balbúrdia dos trens que partiam: . um a um. o velho Lévi disse então em voz baixa. O que fazer. obstinados. os vívidos vitelos. Do outro eu preciso. comprar. Lévi. Célebres. E Brigham arranca a barba aos gritos: “Noventa e seis”. Até os simples contínuos. Toda a família nos gritava de longe Com a voz embargada pelo trabalho duro . baixou. os cavalos inimigos. diga-me.. Em tudo semelhantes aos antigos corcéis Mordendo. tomados de desespero. MAULER: Agora mesmo. E que não foi ainda acertado. Rangerem os dentes. que travaste a batalha Que deixei a teus cuidados! SLIFT: Corte-me a cabeça! MAULER: E de que me serve tua cabeça? Dá-me o chapéu. Como a água que cai na cascata. Como definha uma esponja espremida. de rocha em rocha E somente em trinta a queda parou. quando levamos às estações De nosso longínquo Missouri Com muito sacrifício. bancos. Sob nossos olhos. Naquele instante. ele ao menos vale vinte e cinco centavos. Porque não mais podemos honrar os contratos. Nós queremos que nos digas Como. se por um acaso Um elefante se arriscasse pelo interior da Bolsa. fomos estrangulados E de que adianta estrangular um cadáver? MAULER: Foi assim então. Ouviu-se nesse dia os jovens estagiários. Vertiginosamente. Seria esmagado como um morango no chão. entrego por cinco. Institutos de crédito. Eu quero para hoje”. em um espasmo. Inúteis portanto. Que nos píncaros se encontrava. na batalha. os agentes fechando suas escrivaninhas. E como contratos nulos não impõem compras. Parando de pagar. e os preços subiram. em um suspiro. Slift então gritou: “Cem”! Poderia ouvir-se um alfinete cair. Lutavam a dentadas. Com esse chapéu e este sapato: Dez milhões o chapéu.

Como voltar para nossa terra? E que diremos a eles. Compreendido como sendo de interesse geral. entendei.” Não. MAULER: Se o faço. assumir a empreitada. Como tudo de agora em diante Me parece diferente. Mauler. compreendei. O negócio só é possível. Jogai sobre vossos ombros o jugo. E dado que de vós necessitamos. Cuja voz está a tal ponto asfixiada. voltar para casa? O HOMEM DE ANTES. é muito a contragosto. amigos. não bebam todo o dinheiro. Não quero. E o barulho das metralhadoras. condescender. GRAHAM – O que não é possível? MAULER – Tenho amigos em Nova Iorque que.47 “Ei.. o que faremos. caro Pierpoint. nobre Mauler. nós aconselhamos a fazer um acordo com os criadores para reduzir o rebanho. E voltar até nós? Pensai.. Julguem vocês mesmos. esta caça fatigante. De um asilo necessário para os casos mais graves. a quem mandavam cartas desse tipo. sozinho. Neste caso. nós lhe forneceremos amanhã mais detalhes. De máximas sagradas e escolhidas com grande cuidado. Outra vez responsável. Pois os preços do gado vão subir. Sancionado pelas instâncias superiores. conhecem um meio de sair desta. Ele estende-lhes a carta. Caro Pierpoint. Nossa pobreza é termos perdido O sentido dos valores mais elevados. nós estaremos de bom grado à sua disposição. ao contrário.. é impraticável. Não. Não ter fartura de bens terrestres. Alguma chance de sucesso. esperamos” E agora. Mas nossa pobreza não é. para que os preços voltem a subir. OS FABRICANTES E OS CRIADORES: Desejarias. Pois ainda creio ouvir O rumor dos matadouros. Seus amigos de Nova Iorque. mas são numerosas. Rockfeller. rapazes. isso não é possível. mostrando o lombo vazio E nossos bolsos também? Como. pensai no caos Que ameaça a tudo engolir. Mas para mim. para que comprasse carne. GRAHAM – Mas então é Wall Street? Um murmúrio percorre o ambiente. vocês estariam dispostos. Agora. MAULER: Em nós a consciência. MAULER: Ou seja.(Ele abre a carta e lê de canto) “Escrevemos a você recentemente. neste estado. pelo que dizem. Estariam vocês dispostos a repetir aos quatro ventos . Deixando as sublimes esferas onde meditais. Seus bens. Mas se fizéssemos uma grande promoção De sua instituição. MEYERS – Quem são esses amigos de Nova Iorque? MAULER – Morgan.. de Nova Iorque. O projeto teria talvez. elas vão mal. Nem todos aqui em baixo poderiam ser ricos. entrando – Mauler está? Uma correspondência para ele. Se assim fosse concebido. estão para sempre perdidos. Abandonai. A Snyder: Existem muitas dessas lojinhas Onde se vende a Bíblia? BISPA SNYDER – Sim? MAULER – E como elas vão? BISPA SNYDER – Mal. Providos de sopa quente e de boa música. MAULER – Eu costumava ser esse Mauler.

mais ainda. Eu compreendo o senhor. aos criadores : Escutem. sorrindo: Minha cara bispa. quebre suas ferramentas E destrua assim seu próprio ganha-pão. queimar um terço do gado existente. TODOS – Não há outra saída! MAULER – E também precisaremos reduzir os salários! TODOS – É o ovo de Colombo! MAULER: Qual o objetivo dessas medidas? Nesta noite de sangue e confusão. que deseja Fazer o bem. E às vezes inoportunos. pedindo a palavra: Perdão. é lógico. TODOS – Que solução simples! BISPA SNYDER. OS FABRICANTES – Que cérebro! MAULER. Vê que são eles os compradores! Seja como for. Então. não poderíamos Doá-lo àqueles que esperam lá fora E quem sabe utilizá-lo melhor? MAULER. Enfim. Em que em nossas cidades os problemas não têm fim. meus amigos! Eles cochicham. dizem. Eliminar o estoque excedente atual. é claro Que entre vocês estivesse Joana. E que. Eles podem nos parecer inferiores. ou melhor: quase todos Mas é o único meio de salvar o sistema De vendas e compras no qual vivemos. supérfluos. É preciso limitá-la. criadores e industriais. Elas impedirão que em sua brutalidade Um povo. Não tem outra causa a não ser Que há carne demais. Chapéus Negros. Miséria e fome.Pois eis Chicago outra vez agitada A greve geral. mas se o gado tem tão pouco valor Que pensam em queimá-lo. Eu fico com a metade das ações. MAULER. Nós o faremos.48 Que nós somos uma gente valorosa. E mesmo que muitos não compreendam. O mercado foi saturado este ano. mas olhando bem Quem vê além das aparências das coisas. nós decidimos. É por isso. Limitar o rebanho oferecido no mercado. para puxar os preços. Nesse tempo de humanidade desumanizada. Toda essa gente aí fora: Eles são os nossos compradores! Dirigindo-se aos outros: É incrível. Será preciso demitir um terço dos operários: Também de mão de obra o mercado está saturado. Todos sorriem longamente. tem seus defeitos. Meter um freio à anarquia da criação. que nós subvencionaremos Fartamente a sua missão que contribui Com a manutenção da ordem. aos fabricantes: Faremos uma fusão de suas indústrias Em um só monopólio. você não compreendeu A questão de fundo. Elas trarão a calma e a ordem. desordem e violência. Em conjunto. E é por isso que os preços caíram a zero. . Digamos: a maior parte. é eminente -. BISPA SNYDER – Quase todos. Esta dificuldade pela qual estamos passando Está a ponto de ser superada. . nesses tempos de desgraça? Pois serão necessárias medidas draconianas Que poderão parecer duras porque irão Derrubar alguns e. ofuscado. Seria muito importante.

a seu lado. JOANA. dois homens conversando. Toquem a música e nós mesmos Seremos os primeiros a nos sentar Para elevar nossos corações a Deus. Nenhum deles tem chapéu. joguem as grandes redes! Sejam bem-vindos. Ela então ouve. apanhem-no! Lazarentos e descalços. estamos prontos! Já estão chegando! A miséria os traz aqui como um rebanho! São obrigados a vir. Eles combateram Pelo pão dos outros. entrando precipitadamente – Escutem a boa nova! A greve que nos ameaçava foi sufocada. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Tranquem as saídas. Ninguém pode escapar: tranquem as saídas. Imóvel. para que nenhum escape! Eles estão a caminho. Perseguidos sem trégua.49 Cuja face por si só já inspira confiança. eles chegam até nós. As coisas retomaram o rumo que nos agrada. apanhem-nos! Sejam bem-vindos. Quando estão cegos e surdos. não deixaremos! Sejam bem-vindos. Música de órgão. Eles vêm até nós para chorar. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Vamos. Sejam bem-vindos. De sopa encham os pratos. Foram presos os sacrílegos que perturbavam a paz e a ordem! SLIFT: Podem respirar. Os que aqui chegarem. OS CHAPÉUS NEGROS. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Todo aquele que aqui entrar. chega e pergunta – Vocês viram passar três homens que vinham buscar uma carta? Ao fundo ouve-se gritos que se aproximam. UM DELES – E por que foram presos? . joguem as grandes redes! Eles saíram agora de sua última casa! Deus lançou sobre eles o frio! Deus lançou sobre eles a chuva! Eles terão de vir. UM DELES – Quem são eles? O OUTRO Nenhum deles Pensou só em si mesmo. Até nós. Passam apenas alguns grupos de operários. cantam. MAULER: Abram agora a porta principal Aos homens cansados e cheios de preocupação. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! XI NOS MATADOUROS EM FRENTE AO ARMAZÉM DAS FÁBRICAS GRAHAM Os matadouros estão quase vazios. penteados e carecas. Quando perdem o trabalho. olhar fixo na porta: Eles terão de vir. o mercado vai ser curado! Outra vez saímos do ponto morto E realizamos uma obra difícil. Nossos planos outra vez se impõem. Joana segue com o olhar os prisioneiros. estão chegando! Daqui eles não escapam. SNYDER – Abram as portas! A porta principal é aberta. Passam então os dois dirigentes operários escoltados por soldados. UM CORRETOR.

Em nós podem por fé. Todos perecem antes do tempo. mas apenas para dois terços dos operários. Enfim o sucesso chegou E tudo acabou bem. A greve geral fez água. não é ela. Nenhum morre de barriga cheia. – Ela deve estar aqui. Golpeados. foi reduzido em um terço. Joana. O POLICIAL: Eis aqui uma sem-teto. JOANA – Os operários concordaram? OS JORNALISTAS – É claro. Divididos em grupos estão os Chapéus Negros. mas o justo se esconde. o salário também. carregando lanternas. chega ao termo de sua vida. Lançados em terra profana. Ou de malfeitores postos na cadeia. Aqui está! Seriam necessárias muitas como ela. Era uma velha operária. e a esta a polícia dispersou com o uso de força. JOANA. Joana cai desmaiada. Seu último endereço Teria sido aqui. Nenhum. amparada por um policial. Um grupo de pobres entra. Deus outra vez se impôs. os açougueiros (fabricantes de conservas) os criadores e os compradores. OS JORNALISTAS – Vejam só. E a carne vai subir. pisoteados.50 – O homem injusto atravessa a rua à luz do dia. não é a nossa Madona dos matadouros? Hei. Não. Um deles a derrubou com uma coronhada. Recolhida doente Nos matadouros. Quando os soldados vierem a recolherão. XIII MORTE E CANONIZAÇÃO DE SANTA JOANA DOS MATADOUROS Agora o templo dos Chapéus Negros está ricamente mobiliado. Durante alguns segundos eu a vi distintamente. SNYDER: Quando nos jornais falarem de criminosos abatidos. As fábricas reabrem. saiba que são eles. entretanto. você aí! As coisas deram errado. Ela veio daquele lado e aqui ela gritou para os nossos que as empresas municipais iriam decretar OPERÁRIOS Sim. UM DELES – Sempre será assim? O OUTRO – Não. que seguram bandeiras novas. esticando o braço com a carta na mão. a sorte nos sorriu. Nem é enterrado com decência. os jornalistas a interpelam. UM DELES – O que farão com eles? O OUTRO: O salário deles é baixo e seu trabalho útil à maioria. à sua frente. Deixem ela aí no chão. como se ainda quisesse entregá-la: . Nenhum come seu pão tranqüilamente. UM DELES – Por que não se ouve falar deles? O OUTRO O OUTRO greve. Joana se vira. A decisão sobre a greve geral só chegou a uma parte deles. XII EM FRENTE AO ARMAZÉM DA FÁBRICAS GRAHAM Um grupo de operários entra. Nos vales e nos cimos. Nós soubemos ser sublimes E vulgares quando necessário. As rajadas de neve a impediram de ver os soldados. Esta aqui não é das nossas.

toda a obra Onde o espírito não encontra. Eu falhei com os perseguidos. Se eu apenas tivesse entregue A carta que me confiaram! OS CHAPÉUS NEGROS. Slift discute com Snyder e com os fabricantes.51 Jamais receberá a carta Aquele que agora está morto. também humanos! JOANA. pois ela nos ajudou a atravessar a tormenta dessas semanas difíceis. Por uma boa causa. A vida tranqüila de um cordeiro. na noite. quais os gritos que abafas? Comei vossa sopa! E não desperdiceis esse resto de calor. E só servi aos perseguidores. Joana dos Matadouros. MAULER: Uma alma que exala sublimes impulsos Suporta mal. Que Joana exorcize o mal E que por nós ela interceda. Foi necessário. E seus erros. Pelo contrário. sua térrea natureza. um serviço tão pequeno Foi só o que em toda a minha vida Me pediram para fazer. intercedendo pelos pobres e mesmo proferindo discursos contra nós. o infinito. Matéria a sua altura . enquanto as moças dos Chapéus Negros a vestem novamente com o uniforme: Ouve-se outra vez o rugir das fábricas: Outra vez se desperdiçou a chance De colocar um freio a esses excessos. infelizmente. Mostrá-la entre nós provará o quanto nos importam os sentimentos de humanidade. eu poderia levar. Desta vida intolerável E atingir o inconcebível. Quando o meu esforço. E eu não fiz! Enquanto os pobres tomam assento nos bancos para comer a sopa. Intercessora dos pobres. Eu faltei. E tinha sonhos para milhares. dando provas de humanidade nos matadouros. JOANA: Eu falei em todos os lugares. E outra vez o mundo Percorre o antigo ciclo. Eu o neguei. dirigindo-se a Joana: Como ela ainda está perturbada. Chegou na hora certa. Nós faremos dela uma santa e não economizaremos em homenagens. E em sua marcha altaneira Para evadir-se ao mundano. MAULER: Que tome posição em nossas fileiras Esta alma inocente e cândida E que sua bela e pura voz Misture-se aos cânticos de nosso coro. Quando se poderia ter alterado o curso das coisas. Ela será a nossa Santa Joana dos Matadouros. marchava para a luz! Seus atos eram os de um ser humano. BISPA SNYDER: Levanta-te. a quem não se pode mais explorar! Comei a sopa! Ah. Vamos colocá-la em destaque. empregando todos os meios. Vós. OS CHAPÉUS NEGROS: No final. O ideal. e ultrapassa o objetivo. SLIFT – Esta é nossa Joana. Consoladora dos baixios! JOANA: Que vento sopra nesses baixios? Neve. Ela que. por menor que fosse. Ela vai muito adiante.

Sistema bestial. ignora-se o que se passa em baixo. então. Não tenhais a preocupação de terem sido bons . falando alto. Eu. O que está em baixo tem grande importância. Que ninguém seja tido como honrado. caí do céu! Infelizmente! Bondade sem conseqüência! Sentimentos Que não fizeram a menor diferença! Não. dois pesos e duas medidas. qualquer que seja. de maneira a encobrir a voz de Joana: Para que até o céu se levante o edifício. Mas que não sabem o quanto. Quaisquer que sejam as aparências. JOANA: É uma grande verdade Que aprendi e que vale para todos E morrendo eu vos digo: Vossos bons sentimentos. E o que se passa no alto. é magnífico Sempre que espírito e negócios se aliam. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES. A essas tropas indispensáveis. A esses elementos dos baixios! JOANA: Mas os que estão por baixo são assim mantidos Para que os de cima lá continuem. Deixando sem medo um mundo por onde passei muito rápido. como do topo. Mas nada mudará se eles melhorarem. E sem descanso nem folga Realize seu dever. Não esqueçamos que ela esteve nos matadouros.Isso não basta – Deixai um mundo bom. o que foi que eu fiz? Nada. Que nada seja considerado como boa ação. GRAHAM – Ela não pode proferir discursos que não sejam razoáveis. fique no lugar Que lhe é atribuído.52 Resta fragmentada Sem alma e sem vida. eu não transformei nada. Porque o sistema é construído assim: É apenas exploração e desordem. E dois idiomas diferentes Os homens têm a mesma face E não se reconhecem mais. Eu vos digo: Quando chegar a vossa vez de deixar esse mundo. Mas também no alto. que significam Se não se manifestam em nenhum lugar? De que serve vosso saber Se o que sabeis não tem conseqüência? Eu mesma. Se não for uma ajuda real. a Joana: Seja boa e se cale! . Que cada um. JOANA: Pois entre os de cima e os de baixo O abismo é mais profundo Que entre o Himalaia e o fundo do mar. Nunca se sabe em baixo. OS FABRICANTES: O resultado. O que está em cima está em seu justo lugar. para os exploradores. OS CHAPÉUS NEGROS. No topo e no chão. Exceto aquele que muda o mundo Definitivamente: isso é o que é realmente necessário. Maldito aquele que apelar A essas massas essenciais Mas sempre insaciáveis. Pois se dele esquecer Perturbará nossa harmonia. Precisa-se do chão. Contrário à razão. Entre os do alto a baixeza é sem limites.

é preciso fazer algo para tirar a atenção do que ela fala. quando vos disserem. Aos ricos concedei a riqueza! Hosana! Também a virtude. MAULER: Deves agir. Que podeis elevar-vos moralmente Mesmo com os pés enfiados na lama. Só dos homens pode vir ajuda. É preciso também golpear-lhes o crânio com uma pedra. OS AÇOUGUEIROS: Podes fazer qualquer coisa! OS CHAPÉUS NEGROS: Mas faça-o Sempre com muito escrúpulo! Espírito contemplador. Sempre necessário . A palavra de Deus. JOANA: E do mesmo modo. JOANA: Se alguém um dia vos disser Que existe um Deus. Todos. tudo concedei! Hosana! Concedei-lhe a cidade e o Estado! Hosana! Aos vencedores. contraiu a serviço de Deus uma pneumonia nos matadouros de Chicago. infelizmente. os alto-falantes começam a transmitir notícias que espalham o medo: “Bank of America e Citibank estão de pires na mão” “Revolta contra os cupins financeiros conflagra Londres” “Múltis drenam do país US$ 3. ou seja. mas que seja bem alto. Onde vivem os homens. Não esqueçam. Mas evita. Onde reina a violência Não há outro recurso senão a violência. vinte e cinco anos. OS AÇOUGUEIROS: E nem pensa em tirá-los.266 bilhões só em dez dias de março” “BC assalta U$ 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street” “Montadoras almoçam os R$ 8 bi do crédito e mantêm ameaça de demitir trabalhadores” “Deficit dos EUA deve chegar a US$ 9 tri entre 2010 e 2019” . Em suas compras. de século em século. BISPA SNYDER – Joana Dark. ferir! OS CHAPÉUS NEGROS: Nunca esqueças do sangue que mancha teus sapatos. a eles concedei! Hosana! A quem tudo possui. Combatente e mártir. Falem. para abafar o discurso de Joana. Chegar ao topo implica Pisar na cabeça daqueles que estão por baixo. distingam com um sinal! Hosana! Enquanto eles cantam os versos. SLIFT – Escutem. sobretudo. Do qual podeis esperar ajuda. Batei com uma pedra em seu crânio Até que arrebente.Sobretudo se forem compras especulativas – Esse Verbo que. Não. invisível. é verdade. digam qualquer coisa. O Verbo magnífico. Denegrindo a ti mesmo. Precisarás deles sempre! OS CHAPÉUS NEGROS: Olha para cima. obedeça! OS AÇOUGUEIROS: Quem se mover no espaço Nunca poderá subir: Subir é subir sobre alguém.53 É preciso. comerciantes. de esquecer os remorsos. Não esqueças: tua consciência está lá! Atenção. cantam a primeira estrofe do hino. Sempre se metamorfoseia. sempre mais alto.

Por um nobre ideal. A voz de Joana já não se ouve: Concedei aos ricos misericórdia. a serviço de Deus. BISPA SNYDER – Joana Dark. Nós que temos a alma comum! E então desperta a boa alma Que temos no fundo de nosso coração. Hosana! Oferecei a vossa graça. sinto-me atraído: . Bolsa de NY cai 4. A um sinal da bispa. Ajudai vossa classe. Hosana! Com mãos cheias. Pelo espírito. que vos ajuda também. MAULER: Como a pureza De um ser inocente. Infelizmente. morta de pneumonia nos matadouros. combatente e mártir. Não dá mais sinais de vida.7%” “Crise já eliminou 6 mi de empregos nos EUA” “Incertezas rondam fábricas da GM à beira do fechamento” Sob o efeito dessa terríveis notícias os personagens trocam entre si acusações e diversos insultos como esses: “Açougueiros sujos. Todos ficam muito tempo de pé.54 “Empresas dão calote recorde para remunerar seus acionistas” “Recessão ainda irá se agravar no Japão. Hosana! Que seus crimes terminam bem.” “Foram os especuladores de grãos que encareceram o gado. que manipulam o dinheiro a rodo. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES: Desde que o mundo é mundo. Hosana! Ajudai a quem tudo possui. até cobri-la totalmente. diz governo ” “EUA mudam socorro para bancos. Hosana! Piedade com aqueles que ignoram a fome. sempre ele aspira Às esferas mais elevadas. Hosana! Juntai vosso riso aos que riem. as mulheres tentaram oferecer a Joana um prato de sopa. A carne para a terra o arrasta! MAULER: Ai! Um duplo desejo dilacera meu pobre coração.” “Os bancos nos arruínam com os juros que exigem!” “Quem pode pagar tanto dinheiro para estocar o gado e pelos silos de grãos?” “Por que vocês não começaram a reduzir a produção?” “Nós começamos.” “Foram as tarifas das estradas de ferro que nos esfolaram. se não tivessem degolado tantos porcos!” “Criadores miseráveis. mudos de emoção. na terceira vez ela o pega. Em seguida cai nos braços delas. Em duas tentativas ela recusa o prato. colocam-se suavemente todas as bandeiras sobre Joana. por que criaram tanto gado?” “Alucinados. Aos astros. Qual um punhal. vinte e cinco anos. Um desejo vive no coração do homem. Colocam a bandeira em suas mãos. Hosana! Esmagai o ódio. foram vocês que se recusaram a reduzir também!” “Vocês são os únicos culpados!” “Enquanto não acabarem com vocês não vai melhorar!” “Faz tempo que o destino de vocês está selado!” “O que estão esperando para prender vocês?” Todos cantam a segunda e a terceira estrofes do hino. para sua grande pena. Hosana! Nesses braços que vos estendem. A generosidade De uma alma sem mácula. Comove-nos profundamente. Hosana! Durante esta estrofe. O palco é iluminado com uma luz rosada. por que não empregaram mais gente e pagaram melhores salários? Quem esperam que compre a nossa carne?” “Foram os intermediários que fizeram subir tanto a carne de gado. tocada pela morte. até o fundo cravado. mas ela cai. MAULER – Dêem uma bandeira a ela. Snyder e Mauler vão até ela. ao firmamento Um impulso múltiplo o atira. levanta e vira. Hosana! Notam que Joana para de falar.

como de tua alma grosseira. como de tua alma vil. desejo o altruísmo Mas à atração pelo lucro. Cuida bem das duas! . Homem! Luta sempre contigo mesmo! Sigas sendo este ser uno e sempre dividido! Cuida de tua alma boa. Cuida de tua alma terna. não consigo resistir Inexplicavelmente! TODOS: Em cada homem habitam Duas almas opostas.55 Desejo a abnegação. Longe de querer escolher uma delas. Ele precisa cuidar de ambas.

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