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I O rei da carne, Pierpoint Mauler, recebe uma carta de seus amigos de Nova Iorque CHICAGO. OS MATADOUROS
MAULER,

lendo uma carta. – “Parece-nos evidente, caro Pierpoint, que já há alguns dias o mercado da carne está saturado. E, no sul, as barreiras alfandegárias resistem a todas as nossas ofensivas. Acreditamos, portanto, ser prudente, querido Pierpoint, não mais envolver-se com este negócio...” Acabo de receber essas indicações de meus bons amigos de Nova Iorque. Lá vem meu sócio. Ele esconde a carta. CRIDLE – Por que esse ar tão sombrio, querido Pierpoint? MAULER: Lembra-te, Cridle, daquela caminhada Que fizemos uma vez, pelos abatedouros? Era noite. Diante de nossa máquina nova, Cridle, lembra-te, nós vimos um touro Claro e nobre, dirigindo aos céus seus grandes olhos vazios. Ele recebeu diante de nós o golpe que o abatia: E tal golpe me atingiu até o fundo do coração! Há sangue demais, Cridle, em nosso negócio! CRIDLE: Amigo, vens outra vez com tua antiga fraqueza. Quem acreditaria, Pierpoint? Tu, o maior de todos, O rei dos abatedouros, dos açougueiros o terror, A morte de um touro louro te enche de dor! Não conte, eu te rogo, tal segredo a ninguém A não ser a mim! MAULER: Oh, meu fiel amigo, Por que me levaste a visitar o abatedouro! Durante os sete anos em que estou no negócio

Eu evitei fazê-lo. Eu não posso suportar Um comércio tão sangrento, não tenho mais forças: Eu me retiro de imediato... Cridle, queres a minha parte? A terias por muito pouco; a ti, a preferência: Ninguém conhece o negócio como tu. CRIDLE: Muito pouco? Quanto? MAULER: Velhos amigos como nós dois Não podem disputar muito por valores. Dez milhões! CRIDLE: Não seria caro, se não houvesse Lennox Que, pela carne em conserva, lata a lata se bate, E estraga o mercado com seus preços baixos. Tirará nossa pele, se não tirarmos a dele. Enquanto ele estiver em pé, e só tu podes abatê-lo, Não posso aceitar tua proposta. Deverás, até lá, com tua mente fértil, Encontrar uma saída. MAULER: Não, Cridle, Esse coração treme ainda com o grito do touro! É preciso então que Lennox caia rápido, Pois quero, doravante, viver como homem de bem E não mais como açougueiro. Saiamos, Cridle, e eu te direi A forma de abater Lennox. Mas tu deverás então tirar esse peso do meu coração E tomar a frente de nosso negócio CRIDLE: Quando Lennox for derrubado Eles saem. II

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O desmoronamento das grandes indústrias da carne A - DIANTE DA FÁBRICA DE ENLATADOS DE LENNOX
OS OPERÁRIOS

Nós somos setenta mil Nessas fábricas de conservas E nossos salários são tão baixos que não podemos mais [sobreviver. Ainda ontem, de surpresa, reduziram nosso pagamento E hoje, um novo aviso: “Os que não estão satisfeitos, sempre podem deixar a fábrica!” Saiamos então, e todos juntos. Ao diabo esse salário que diminui todos os dias. Silêncio Há muito tempo já esse trabalho nos nauseia: Esta fábrica é para nós um verdadeiro inferno E só pode nos manter aqui o medo, O medo duplo, de Chicago e do inverno. Mas agora, doze horas de trabalho Já não garantem nem um pão seco Nem dão para comprar um trapo velho. Melhor partir E morrer de uma vez. Silêncio Pelo que nos tomam eles? Acreditam então Que nós somos gado, dispostos a tudo? Tomam-nos por jumentos? Melhor morrer! Deixemos a fábrica Agora mesmo. Silêncio O que houve? São seis horas! Por que não abrem, corja de esfoladores? Seus bois estão aqui, bando de açougueiros! Abram! Batem no portão.

Terão eles nos esquecido? Risos. Abram! Queremos entrar Em suas imundas pocilgas E suas cozinhas infectas Para preparar guisados indigestos Para os que ainda podem pagar. Silêncio No mínimo exigimos, O salário anterior, que já não dá para nada. No mínimo A jornada de dez horas e, no mínimo... UM HOMEM QUE PASSA: O que vocês estão esperando? Não sabem que Lennox fechou? Gazeteiros de jornal aparecem na cena GAZETEIRO – Lennox, o rei da carne, forçado a fechar suas fábricas! Setenta mil operários na rua. Lennox vítima da concorrência feroz imposta por Pierpoint Mauler, rei da carne e da responsabilidade social!
OS OPERÁRIOS

Desgraça! O próprio inferno Diante de nós fecha suas portas! Nós estamos perdidos. O impiedoso Mauler Aperta a garganta de nosso explorador E somos nós que sufocamos! B - UMA RUA – A Tribuna de Chicago, edição do meio-dia! O rei da carne e da responsabilidade social, Pierpoint Mauler vai inaugurar os Hospitais Pierpoint Mauler, os maiores e mais caros do mundo! Dois transeuntes olham para o fundo do palco, “vendo” Mauler. UM TRANSEUNTE, ao outro – Aquele é o Pierpoint Mauler. Mas quem são os dois que o acompanham?
GAZETEIRO

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– Seguranças. Só anda escoltado, com medo de apanhar de alguém.
O OUTRO

Para levar Deus ao coração de um mundo que desaba E nele restaurá-Lo, pela ação dos mais humildes. Os Chapéus Negros andam. Toque de tambores. Durante todo o dia os Chapéus Negros pregaram nos matadouros, mas, quando a noite chegou, os resultados eram quase nulos. DIANTE DA FÁBRICA DE CONSERVAS LENNOX – Dizem que eles estão preparando um grande golpe sobre o mercado de carne. Para nós isso que dizer esperar e passar fome. OUTRO OPERÁRIO – A luz está acesa nos escritórios. Estão lá, calculando os lucros. Chegam os chapéus Negros. Fixam no chão uma placa na qual se lê: “Hospedagem: 20 centavos por noite. Com café: 30 centavos.” CHAPÉUS NEGROS cantando Escutem todos, escutem bem! Tu que te afundas, nós te vemos, Teu apelo por ajuda, nós o escutamos, Teu sinal, nós o percebemos. Parem os carros, detenham o trânsito Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Tu que te escondes, tu que duvidas, Olha para nós! Olha, Meu irmão, antes que sucumbas! Nós te damos o que comer E nós não esquecemos Que tu não tens abrigo. E, sobretudo, não digas que tudo está perdido: Tudo será diferente, a injustiça nesse mundo Não poderá durar se todos se juntarem a nós, Marchando ao nosso lado Com o único objetivo de ajudar o próximo. Nós faremos avançar os tanques e os canhões
UM OPERÁRIO

Para levar consolo aos miseráveis dos matadouros, os Chapéus Negros deixam a sua sede. Joana empreende sua primeira descida às profundezas. C - EM FRENTE AO TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS
JOANA,

à frente de um comando dos Chapéus Negros: Nesta noite de sangue e confusão, Nesse tempo de desordem organizada, De arbitrariedade consentida, E de humanidade desumanizada, Nesse tempo em que em nossas cidades Os problemas não têm fim; Nesse mundo, imenso matadouro, Em que nos chegam rumores de violência iminente; Para impedir que, em sua brutalidade, O povo, ofuscado, quebre suas ferramentas E destrua assim seu ganha-pão, Nós queremos reintegrar Deus Pois aos lugares onde realmente vivem os homens Ele não mais tem acesso: Sua glória anda pouca, Seu nome, já quase suspeito. Dos mais humildes, entretanto, ele é a única salvação! Então nós resolvemos Por ele bater nossos tambores nesses bairros; Para que ele penetre no coração da miséria E que sua voz retumbe pelos matadouros. Aos Chapéus Negros: O que faremos agora é uma última tentativa. Pela derradeira vez, nos esforçaremos

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Nós lançaremos ao mar os navios de guerra, E nos ares, os aviões Para conquistar teu pão, meu irmão. Porque vós, os pobres, formais Nesse mundo um imenso exército. Vós que nos escutais Não esperai o amanhã! Desde hoje ajudai, Ajudai ao próximo! Avante! Ao assalto! Empunhai vossos fuzis! Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Cantando, os Chapéus Negros começam a distribuir seu jornal: Apelo às Armas, bem como colheres, pratos e sopa. Os operários agradecem e põem-se a escutar o discurso de Joana. JOANA – Nós somos os soldados do bom Deus. Por causa dos chapéus que usamos, somos também conhecidos como os Chapéus Negros. Nós dizemos que somos soldados, porque formamos um exército e porque, em todos os lugares em que vamos, precisamos lutar contra o crime e a miséria, contra as forças que tendem a nos aviltar. (Ela mesma começa a distribuir sopa) Bem, agora comam esta sopa quente e constatarão que depois vocês verão as coisas com um olhar diferente. Pensem agora qual esperança se pode fundar sobre a felicidade terrena. Nenhuma, absolutamente nenhuma. A desgraça vem como a chuva: ninguém a provoca, mas, entretanto, ela vem... Suas desgraças, digam-me de onde vem? UM DOS QUE COMEM – De Lennox & Cia. JOANA – O senhor Lennox tem talvez mais preocupações do que vocês! O que vocês estão perdendo? Ele, suas perdas se contam por milhões. UM OPERÁRIO – Carne não há nesta sopa, só uma aguinha clara, isso sim. Mas quente, pelo menos, está. OUTRO OPERÁRIO – Fiquem quietos, bando de glutões! Escutem a palavra de Deus! Senão vão tomar o prato de água quente de vocês.

– Silêncio! Queridos amigos, digam-me: por que vocês são pobres? UM OPERÁRIO – Sei lá! Explique você! JOANA – Eu lhes direi. Não é porque vocês não estão cheios de bens materiais – que não chegam para todos – mas porque vocês não têm idéia dos valores mais elevados. É por isso que vocês são pobres. Esses gozos vulgares aos quais vocês aspiram, comer um pouco, ter um bom lugar para morar e ir ao cinema, não são mais do que prazeres frívolos, grosseiros. Enquanto que a palavra de Deus é um prazer mais delicado, mais profundo e muito mais refinado; talvez vocês não possam nem imaginar algo mais doce do que o chantili, mas a palavra de Deus é ainda mais doce. Homens de pouca fé, os pássaros no céu não têm carteira de trabalho, as açucenas do campo não têm emprego e, entretanto, como eles cantam Sua glória, Deus lhes dá alimento. Nós, os Chapéus Negros, fazemos então a vocês uma pergunta muito prática: de que um homem precisa para crescer na vida? UM OPERÁRIO – Um colarinho engomado. JOANA – Nada disso. Para progredir na terra talvez seja necessário um bom colarinho, mas diante de Deus é preciso muito mais que isso, outras glórias. Vocês aos olhos Dele, nem mesmo um colarinho puído têm, pois deixaram suas almas no abandono. Mas então como vocês querem elevar-se, chegar ao que vocês, em sua ignorância, chamam de uma “situação melhor”? Pela força bruta, pela violência? Como se algum dia a violência tivesse trazido alguma coisa além da destruição. Vocês acham que mostrando os dentes conquistarão o paraíso na terra. Mas eu lhes digo, agindo dessa maneira o que se cria não é o paraíso, mas o caos! Um operário chega correndo. O OPERÁRIO: Uma vaga, agora mesmo, acaba de abrir! Um trabalho, um salário, esperam por vocês, Na fábrica número cinco! Que mais parece uma latrina. Corram, rápido. Um operário larga seu prato cheio e sai correndo.
JOANA

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– Ei, você, onde é que você vai? Quando se ocupará de Deus? Vocês não querem nem ouvir falar, não é? UMA MOÇA DOS CHAPÉUS NEGROS – Acabou a sopa. OS OPERÁRIOS: Acabou a sopa; Era só um caldinho ralo Mas era melhor do que nada. Todos se viram e se levantam. JOANA – Fiquem sentados; acabou, mas que importa, uma vez que a grande sopa celeste não se esgota nunca. OS OPERÁRIOS: Quando, afinal, vocês Abrirão as portas de seus porões, Carniceiros, mercadores de carne humana? UM OPERÁRIOS: Com o quê, agora, pagarei A casa pequena e úmida, onde vivemos doze? Eu já paguei dezessete prestações, Mas a última, não conseguirei Seremos jogados na rua. E o chão de terra batida E nosso pedaço de grama amarela, Nunca mais os veremos, nunca mais, Nem tampouco respiraremos seu pestilento ar familiar. UM OUTRO OPERÁRIOS: Aqui estamos, em pé, nossas mãos como pás, E nossos pescoços fortes como tratores. Nossas mãos e nossos pescoços, queremos vendê-los Mas não há quem os compre. OS OPERÁRIOS: E nossas ferramentas - Gigantesca montanha de prensas e gruas – Estão trancadas, detrás desses muros! JOANA – E então, o que se passa? Quer dizer que já se vão? É porque já terminaram de comer? Adeus e obrigado. Mas por que então vocês escutaram até agora?
JOANA

– Pela sopa. JOANA – Continuemos. Cantem! CHAPÉUS NEGROS cantando Avante, entrai nessa luta! No coração da batalha lutai! Cantai com louvor, que cante todo o mundo. Ainda é noite, mas logo virá o dia, Raiando com todo o esplendor, E junto virá Jesus Nosso Senhor. UMA VOZ, do fundo do palco – Estão contratando nas fábricas de Mauler! Os operários saem. Fica apenas uma mulher. JOANA, com ar sombrio: Parem a música! Acabou a sopa, lá se vão eles! Seus olhos são incapazes de elevar-se Mais alto do que a borda do prato. Eles não crêem em nada além do que está Entre suas mãos. Acreditarão em suas mãos? Vivendo cada dia, cada minuto mesmo, Na insegurança, eles não são capazes De se esquecer das preocupações mais básicas. Nada, a não ser a fome, tem sobre eles qualquer influência. Nenhuma canção os toca mais. Nenhuma palavra pode Descer até eles e penetrar seus corações. Aos que a cercam: Parece que nós, os Chapéus Negros, temos por tarefa alimentar todo um continente com nossos poucos talheres. Os trabalhadores voltam. Ao longe, ouvem-se gritos. OS OPERÁRIOS, na frente do palco – Que gritos são esses? Um imenso caudal humano emerge dos abatedouros. UMA VOZ, do fundo: Mauler e Cridle também fecharam. As indústrias Mauler optam pelo lock-out! OS OPERÁRIOS, refluindo:
UM OPERÁRIO

que fogem do trabalho. Os Chapéus Negros se afastam. Estamos gelados e molhados e precisamos comer. São reles glutões Preguiçosos. Uma multidão enorme e desesperada. para ele. ruídos da Bolsa. JOANA – Quero saber. onde se compram e vendem animais. E o frio supremo Rouba de seu coração todo o calor. por favor. MARTA. Abrigaram sentimentos nobres. meu velho Lennox. Tu desaparecerás na lama! Pois a lama entope as bocas Que fazem perguntas sem prudência JOANA: Eu quero saber. Todos haviam perdido o emprego E perguntavam onde achar trabalho. já que ele é a causa de tamanha miséria. JOANA – Não! Eu quero saber (aos trabalhadores) Digam-me. Oh Joana! Não te metas nas querelas terrestres! Pois quem nelas se envolve. O que comeste. antes.6 No meio do caminho encontramos. OS CHAPÉUS NEGROS – Pare! Não te metas com essas questões. JOANA – Esse Mauler. os fabricantes de conservas Lennox e Graham discutem. JOANA III Pierpoint Mauler é tocado pelo sopro de um outro mundo EM FRENTE À BOLSA DE CARNES Em baixo. UM OPERÁRIO. eu quero vê-lo. Em um grande edifício: A Bolsa de Carnes JOANA: Eu vou até lá: Eu preciso saber. Ao fazer mil perguntas. pronto. Enquanto corríamos atrás de trabalho. Joana e Marta esperam. Na insana esperança de obter uma resposta Que jamais chegará. desde o dia em que nasceram. a Joana – Vamos agora. OS CHAPÉUS NEGROS – Então teu destino nos parece bem negro. Torna-se mercadoria. Ele venderia o próprio ar. . Ao fundo. presa. O selvagem Mauler! De um tal monstro a investida É inexorável! A natureza. na frente do palco: Desgraça! De todos os lados chegam ainda Torrentes infindáveis de homens! OS CHAPÉUS NEGROS. mora aonde? OS OPERÁRIOS: Lá. por que correm de um lado a outro e não encontram trabalho? OS OPERÁRIOS: O sanguessuga Mauler e o muquirana Lennox brigam entre si. quem é o responsável por tudo isso. torna-se. – Não. derrubou-te. Quem abandona o lar protetor. E vê esvanecer-se sua pureza original. GRAHAM: E então. ele te revenderia. Resultado para nós: barrigas vazias. dos Chapéus Negros: Não vá te meter com estes problemas. Degrau após degrau. Eles têm apenas idéias vulgares na cabeça. Eles encherão tuas orelhas com seus gritos. Lennox está branco como algodão. desce cada vez mais baixo. No alto. Recebemos mil respostas. Sua bondade perde rápido. esse Mauler. Jamais seus corações.

Cridle sai da Bolsa e desce até o palco. Slift. Instalar duas ou três dessas máquinas novas. não achas? Ele se degola e logo. moídos como farinha. Nas facas. E agora. Depois seus pelos. OS FABRICANTES DE CONSERVAS : Trata-se de saber quem agüentará mais tempo.. não é verdade? GRAHAM : Muito bela! Mas e a lata. ficarás com a fábrica Conforme está previsto nos termos do contrato: “No dia em que Lennox for eliminado. Agora vou limpar a minha fábrica. ele extrai rendas. Primeiro perde a pele. JOANA. Mauler. nele. para economizar Uma agradável soma em salários. confessa. cruzei a última fronteira.Joana. O que fazer com ela? Ah. Destroem com seus cascos o pasto que disputam. que vira couro. Ele terá medo. Diga-lhe: Mauler. por conta de seu próprio peso. Gritaram-me prudência: Para eles. esta arte contrária à natureza.. e dorme mal à noite. até aqui me acompanhastes. Bela invenção. com sua escalada. JOANA – Mas tu vieste comigo. à Marta: Tu somente.. em salsicha se transforma. como vais reconhecê-lo? JOANA – Saberei bem reconhecê-lo.. O faro para o dinheiro é nele tão potente. a cada fase. Quando ele não podia absorver mais nada.” CRIDLE : . Fecho minhas fábricas. A Lennox: Estás perdido. E assim. Em dinheiro ele as transformará. no último andar. Ele não pode suportar A visão da miséria. até ele e. Espero que o mercado recobre a saúde. este homem não é duro E nem ama o dinheiro. E pensa nos velhos tempos. E se lhe jogas pedras na cabeça.. chega Na lata que o espera lá embaixo. que. Lubrificar meus cutelos. Bem pensado. Lennox! Acabou a guerra de preços! Foste eliminado.7 De barracos miseráveis. MAULER : Lennox está de joelhos. Todos me abandonaram. época maldita! Um comércio estrangulado por montanhas de conservas. olhe para mim e de meu pescoço. surge de um grupo de fabricantes de conserva. com voz suave. ele faz ouro. então. Vá. eu garanto. Tira esta mão que me aperta e me estrangula. Um mercado aviltado. Batendo-se por sua conquista. o porco se precipita.. Tal qual dois grandes búfalos. Até chegar aos ossos. MARTA – Joana. Fizeram desabar os preços e destruíram seu negócio. Vocês mesmos. ainda ontem florescente!. acompanhado de seu corretor. Estranho conselho! Eu te agradeço. sozinho. Que ele não saberia jamais trair seu instinto. Saibas. CRIDLE: Muito bem. Tão natural. no entanto. Marta. A nova técnica é muito engenhosa: O porco é colocado em uma esteira rolante Até o alto da fábrica. Começa então o seu retalhamento. eu também te recomendei prudência. Por si mesmo. E talvez chore. De carne podre. MARTA . lutando. Pois caindo. Cridle. que viram escovas.

tenho dois mil empregados! CRIDLE – Mande-os ao cinema! Mas Pepê. Hoje. mergulhado em meus negócios. Cridle. MAULER . Estou tão temeroso que chego a suar frio: seis dias. CRAHAM : Toque-lhe o coração. MAULER : O quê? A soma está inscrita Claramente no contrato Tome. como eu. Seis dias? Não. devido à saturação do mercado. Lennox acabou. é que meu coração se aperta Quando ouço mugir a criatura CRAHAM : Agora eu compreendo a grandeza de teus atos. isto é. É preciso então. se tu estás Realmente onde dizes. A exigir meu dinheiro. se eu fizer isso. Mauler. e tu tinhas um terço. MAULER – Ai! GRAHAM — Viu? Ele tem um coração! MAULER : Então. Veja se esse contrato diz uma só palavra sobre a crise. as ações caíram para 100.. e onde eu conseguiria dinheiro para pagar tua parte? Eu estaria arruinado! MAULER : Já que me dizes isso. nada. Lennox! Toque-o! É uma lata de lixo. sensível! Ele soca Mauler no coração... E eu. então. Nada além. um contrato dos tempos de prosperidade! Mas e a crise? Ela não existe? Que posso fazer eu com um grande matadouro Se ninguém mais compra carne em conserva? Agora sei bem porque não podias Mais suportar a visão do gado morrendo: sua carne Não vende mais! MAULER : Não. : Pepê! Isso não é um jogo! Não podes misturar Questões pessoais aos negócios! CRIDLE – Pois não.8 Sim. elas cairão a 70. então. Ele sai. Antes que quebres de uma vez! Creia-me. LENNOX – Não.. (faz contas em uma caderneta) Quando combinamos que tu sairias do negócio. Mas com ele acabaram Os bons dias do mercado. Cridle. seguindo-o com os olhos: Tive a ligeira impressão de que algo o atormentava. Joana fez um sinal a um segurança e lhe diz algumas palavras. eu precisaria jogar essas ações no mercado. Pois eu proibirei Cridle De comprar-te uma única lata. tu me forças. Mauler. nosso contrato não é mais viável.. Não pude imaginar seu fado. MAULER – Leia. de examinar Contigo. Mas. Freddy! Quer dizer que tu me socas. sem mais delongas. CRAHAM . veja Lennox. GRAHAM — Mauler. até teu coração sabe ver longe! LENNOX : Eu gostaria ainda. o coração torturado! Cridle se afasta.. olhe para mim. cinco. Lennox. Pepê! Como quiseres. Para pagar o que te devo. as ações estavam a 390. Mauler. Repensar os dez milhões de dólares Que queres por tuas ações. mas. LENNOX – Mauler. Tu me ofereceste a 320. Isso não é um contrato? Com um preço fixado? CRIDLE : Sim. Não estava caro. Ah! Pudesse eu estar liberado De um comércio tão bestial! Tenho. É o máximo que posso fazer.

Nada de choros. Vitelos. MAULER : O que é esta organização? O SEGURANÇA — Eles têm muitas ramificações. 59. são numerosos e gozam de grande consideração nas camadas inferiores da população. hein? Não. Graham sai. que a sopa seja rala. cá entre nós. dirigindo-se direto a Mauler – O senhor é o Mauler! – Não sou eu. A Joana: Vós sois. que a escória me chama – Despojou Lennox.É assim. Sim. MAULER: O tecido é bem fininho e. gente estranha. não é homem de bem. apontando para Mauler – O senhor é o Mauler! MAULER – Não. Chapéus Negros. seus trabalhadores na rua? MAULER. Com ar invejoso. 55. (aponta para Slift) É ele! JOANA. MAULER : Está bem. Dizem. adoraria vossa opinião. Pouco me importa o que esperam de mim. Pretendo renunciar a esse negócio sangrento Logo que eu possa: renunciar sem retorno. Diga-lhes que eu os receberei Mas que eles limitem-se a responder minhas perguntas. Mas o que eles querem comigo? O SEGURANÇA — Afirmam que têm algo a dizer ao senhor. – É o senhor. mas vocês não devem Perguntar nada. é o que tem a cara mais ensangüentada. Senhor Mauler. MAULER – Rindo. JOANA: Por que joga. Creiam-me: esses são assuntos profissionais Que não vos interessam. e pôs em apuros Cridle que. Durante esta cena. a Slift: Que eles trabalhem por nada. o tecido não é grosso Nem é grossa a sopa. Porcos.. eu sei. Slift? (Enquanto isso. há algumas pessoas que querem lhe falar. etc. sem dúvida? Prontos para a violência. suponho. em absoluto. O melhor para eles É causar em mim a impressão de gente honesta. além da comida e do uniforme. MAULER : A escória em farrapos. JOANA.. MAULER : Já ouvi falar dessa gente. sobre outra questão. O SEGURANÇA: Ele vai vê-los. Que não é acusada de nada E que não espera o impossível de mim. Slift ri.9 O SEGURANÇA — Senhor Mauler. nem desses versos sentimentais Que eles adoram cantar. o rumor da Bolsa continua. – Vinte centavos. . Para Joana:) Quanto recebes por dia? JOANA. Mais uma coisa: não diga. Mas. Ouve-se: Bois. que eu sou Mauler. JOANA. diga que não estou. MAULER . é ele. São chamados de soldados do Bom Deus. 43. O segurança vai ao encontro de Joana no outro lado do palco. que o sangrento Mauler. Slift. O SEGURANÇA — São membros da Organização dos Chapéus Negros. respondam apenas Quando ele lhes perguntar. não é notável? Já viste algo igual? Que trabalhem por nada e sem se lamentar? Não vejo em seus olhos nem medo da miséria Nem de dormir sob as pontes alguma noite. MAULER – Como me reconheceste? JOANA: De todos. na verdade. Mas que nome curioso! Soldados do Bom Deus.

a Joana: Joana. Eu também vou embora. Eu os verei chorar um dia. mas não digas nada. Tome para os pobres. Dirigindo-se aos outros: Parece-me que fui tocado pelo sopro de um outro mundo. Mas. Seu rosto me agrada. dêem! Corja de carniceiros! Ele continua mexendo nos bolsos deles para dar dinheiro à Joana. dêem o dinheiro. MARTA. Deverias. não é? JOANA: Não sei se o senhor fala sério. Dêem o dinheiro. no lugar do pobre animal. pessoas extremamente más. Ele se aproxima dos industriais. que com tal decisão As pessoas sofreram. JOANA: Senhor Mauler. aliás.. Desculpe-me. Ele não é maduro ainda. diga. Talvez por isso te ajude. E desejaria que fossem mais numerosos. sem nenhuma obrigação: Eu não sofro de insônia. MAULER: Eu tenho grande piedade pelos bois: o homem.. Não. Eles não têm mais trabalho. Eu sei. por favor. Tamanha inocência!. A canalha. O senhor não poderia realmente ajudá-los? MAULER: Repita por toda a parte: eu aprovo vossa ação. Deixai disso..10 Pois eu vi – e isso vos interessará – Morrer. vamos. Diga-me que está certo E que isso te agrada. isso de se retirar do negócio. Isso não é bom? E conforme vosso espírito? SLIFT : Vendo morrer o boi. confesso. tomando-lhes o dinheiro que trazem consigo e dando-o a Joana. Abandonar esta empreitada. tu também. não me comove. É bom. Marta sai. Embora já tenhas vivido mais de vinte anos. Ele fala com Slift em voz baixa.. nos matadouros dizem que o senhor é o responsável pela miséria deles. para o que pretendes fazer. Mas tendes consideração demais pelo destino dos pobres: Eles são maus. Nenhum é inocente. Eu sei. Mas é uma gentileza. não creias que seja de boa fé. Um instante. minha filha. JOANA – Isso é uma gota no oceano. um boi e fiquei tão comovido Que quis largar tudo. ele decidiu abater O rico Cridle. Seu riso não me atinge. há pouco. . O mundo não poderá mudar se antes não mudarem os homens. São todos carniceiros. JOANA – Senhor Mauler. MAULER: Poderia eu ir mais longe? Porque ele é sangrento É que eu tirei as minhas mãos deste imenso negócio. eu sinto Que tu não gostas de mim. Cedi por dez ao homem que vêem aqui. Senhor Mauler. ele é mau. A parte – doze milhões – que eu tinha na usina. Mas este mal era inevitável. MAULER: Riam todos. O homem. de resto. Melhor para ti que não os veja. Isso não é bom? Os fabricantes de conservas explodem em gargalhadas. MAULER: É que adquiri o maldito hábito De disfarçar a voz. por que fechou os matadouros? Eu preciso saber. não me digas nada. São.

Sullivan Slift. o quanto antes melhor.. faz quatro dias. E verás que tua piedade é descabida. Quando a fábrica reabrir você. UM CONTRAMESTRE. (O contramestre volta para a fábrica pela portinhola. o que causa má impressão. em um jornal. ficará com a vaga de Luckerniddle. É preciso queimá-los. é a escória. já que agora ele está em embalado. IV O corretor Sullivan Slift mostra à Joana Dark como os pobres são maus: Joana desce às profundezas pela segunda vez BAIRRO DOS MATADOUROS SLIFT: Joana. Isso pode funcionar. Semelhantes a bestas. caiu. por suas vidas miseráveis. Veja então o que ela compra. É o primeiro que nossos tambores desalojaram Das trevas da vilania. vacilando: Estou me sentindo mal. Luckerniddle. O amigo Pedaço-de-Toicinho não precisa mais dele. JOANA.. SLIFT. Azar. e mostre a ela Como os pobres são maus e covardes. O JOVEM OPERÁRIO – O senhor pode confiar em mim. JOANA — Eu quero vê-los. agora eu vou te mostrar Como eles são maus Essa gente da qual tens piedade. sobre o qual se lê: “Fábrica de Conservas de Carne Mauler e Cridle”: O nome de Mauler aparece riscado. e para mim. se quiser. mas não pudemos parar as máquinas a tempo. enfim. De saber o que queres saber. que nada têm Além de seus vinte centavos por dia e seu chapéu negro. Aqui estão seu casaco e seu boné: pegue-os e façaos desaparecer. Se isso falhar . na caldeira. saindo – Um conselho: não te metas com as gentes dos matadouros. e depois a siga. assim como o seu boné. este homem será mandado para os quatro cantos do mundo sob a forma de toicinho. JOANA. é o lixo do mundo. é pavoroso. senhor Smith. Responsáveis. Ele sai. Mas seu casaco ainda está bom e isso também é uma pena. ele cairá bem. peguei para mim. Mas volte aqui amanhã.) É uma pena. A Joana: Aqui está meu corretor. ela poderá Aceitar sem pudor. Ele ouviu nosso chamado. Dois homens saem por uma portinhola.11 Chame ela de lado. Slift e Joana escutam. vendo Mauler se afastar: Este homem não é mau.E eu adoraria que não desse certo – Leve-a aos matadouros. E que não têm nenhum medo. e ele entrou na faca e virou toicinho. Slift e Joana contornam o muro de uma fábrica. A Slift: Mal posso suportar a existência de seres Semelhantes a esta moça. Se quiseres mesmo saber. em uma palavra. a um jovem operário – Um de nossos homens. perderei meu emprego. Entrego a você porque sei que é de confiança: se alguém encontrá-los em algum lugar. Ele veste o casaco. cheios de traições. Estão ocupando inutilmente um cabide no vestiário. dê dinheiro a ela. . é claro. SLIFT: Em teu lugar não gostaria. Diga “para seus pobres”. vestido com uma lata. ele te fará ver algumas coisas. e enrola o seu.

além dele. Mas reflita bem. passe-me logo teu cassetete. nós não somos.) Onde você conseguiu este casaco e este boné? Estes são os pertences de Luckerniddle. Eles chegam a uma cantina da usina e vêem diante de uma janela dois homens que olham para o interior. em nossa cantina durante três semanas. O JOVEM OPERÁRIO – Pode confiar em mim. Por causa dele deixei minha mão na máquina de cortar chapas. legalmente. se você não está precisando disso!. DONA LUCKERNIDDLE – Quero saber o que aconteceu ao meu marido. à cantina número 7. não diga mais isso. senhora Luckerniddle. Antes eu gostaria de fazer-lhe uma proposição interessante. Slift volta para junto de Joana. todo o tempo. Eu. Não tenho outro esteio.. Verás então o que é essa gente. ele me dizia: “Espere-me à noite com uma sopa quente!” Desde então não [voltou. Aconteceu alguma coisa com ele aí. Vamos cuidar para que essa seja a última vez. ao meio-dia. mesmo à noite. é muito desagradável vê-la sentada aí. SLIFT: Guarde essas coisas. Venha. então a senhora não pode aceitar a refeição que a fábrica lhe oferece. Eu ficarei aqui. dizendo tolices. Você poderá comer e lhe darei um dólar se disser à mulher de Luckerniddle onde conseguiu o casaco e o boné. E malditos sejam vocês Se lhe fizeram qualquer coisa! Slift caminha até ela. na fábrica. Bando de açougueiros. Precisará nos processar. seu marido está viajando. Joana e Slift seguem seu caminho. é capaz de o meu quebrar já no primeiro golpe. DONA LUCKERNIDDLE – Não. Esse salafrário se empanturra às nossas custas. obrigados a fazê-la. SLIFT. Quando ele se aproximar. JOANA: Ela nunca aceitará. senhor. isso não lhe parece muito brutal? SLIFT: Bem. Eu tiro agora mesmo. DONA LUCKERNIDDLE: Agora inventam que ele viajou! SLIFT – Deixe-me dizer uma coisa. lamentando-se: Faz já quatro dias que. Não procure mais saber o que se passou com seu marido e a senhora poderá almoçar. lhes digo. DONA LUCKERNIDDLE: Eu quero que me devolvam meu marido. me encontrará na cantina. SLIFT – Estamos dizendo que ele partiu para São Francisco. ele não foi para São Francisco. e vocês não querem que se saiba disso. Eu estou em uma situação muito ruim. para nós. de forma alguma. Joana e Slift prosseguem seu caminho. O JOVEM OPERÁRIO – Mas senhor. Tenho a impressão de que você está prestes a cometer um ato impensado. fui trabalhar no moinho de ossos e adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. saindo para o trabalho. gratuitamente. esperando por ele Mas ninguém diz nada. que fizeram dele? Há quatro dias que estou aqui.. . Senhora Luckerniddle: ele está viajando e. (Ele vai em direção a Gloomb). No ano passado me deixei seduzir pelos vinte centavos a mais que se ganha na fábrica de adubo. se quiser me ver. Vamos. e meu marido não sai da fábrica. DONA LUCKERNIDDLE está sentada em frente ao portão da fábrica. aquele que se acidentou? O JOVEM OPERÁRIO – Por favor. Vinte refeições são muita coisa Para aquele que tem fome. SLIFT: Senhora Luckerniddle. de qualquer modo. a Joana – Fique aqui. enquanto não o vir. Mas existem coisas Que importam mais para ela. SLIFT – Se é esta a sua opinião. GLOOMB – O feitor está bem ali. vou falar com ele. senhor. pronto para encher a pança.12 SLIFT: Aí está a vida como ela é. diga-lhe que procura trabalho. Já não posso mais trabalhar como antes e só consegui emprego duas vezes desde fevereiro. No frio. É por isso que lhe fazemos uma proposta: note bem que. (Ele pára o jovem operário. Amanhã.

E é um trabalho que pode ser feito mesmo por pessoas como você. tem que se retirar. SLIFT – Leve você mesmo a comida a ela. Adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. Eu sou inspetor nesta fábrica. Uma jogada dessas é melhor de se fazer à noite. Ela não parece muito forte.. (Ele vai em direção a Joana.. O posto que você ocupava na sua máquina continua vago e isto é muito chato.. Talvez a vaga deste contramestre. No ano passado fui trabalhar na fábrica de adubo. JOANA – A senhora já está aqui. DONA LUCKERNIDDLE – É verdade. encontrasse alguém. JOANA – Quase tenho medo de continuar. faremos isso amanhã à noite. A senhora Luckerniddle está falando com a garçonete. JOANA: Ela sentou-se ali. calculando – Vinte refeições. Naturalmente você precisaria manter os ritmos de trabalho mesmo os dispositivos de segurança não sendo perfeitos. Vai se perguntar como alguém pode contar histórias tão ridículas sobre esta máquina. SLIFT – Gostaria de propor um meio de tirar-lhe dessa jogada. GLOOMB – Rápido então. O posto não é feito para gente fraca. e lhe daríamos até um trabalho mais fácil e melhor remunerado do que o antigo. É preciso que ele pague hoje mesmo por esse sistema desumano do qual ele é o feitor. por acaso. GLOOMB – Posso confiar no que você está me dizendo? SLIFT – Sim.. Seria vantajoso para você. já faz dois dias que eu não como nada. há uma moça que está procurando trabalho. Os movimentos ficam menos firmes e pode-se prender as mãos nas serras. E eis que ela nos precedeu. JOANA – Não há realmente como me arranjar outro posto? Ouvi dizer que o trabalho nesta máquina era perigoso para quem não resistisse ao trabalho muito pesado. Joana procura um prato e leva à senhora Luckerniddle. DONA LUCKERNIDDLE – Espero uma pessoa que deve vir hoje ou amanhã. e então eu teria. Slift cai na gargalhada e arrasta Joana. Apesar de tudo.. GLOOMB – Você enxerga bem? JOANA – Não. SLIFT – Que pena. GLOOMB – Nada disso é verdade. Desde fevereiro estou sem emprego. depois do que eu iria. GLOOMB – Aquela moça ali? . Ela senta-se em uma mesa. pode ser que mude de idéia.. DONA LUCKERNIDDLE – Sim.. Tchau. GLOOMB .. JOANA – Mas a senhora nem sabia que nós viríamos hoje. Eu imaginava que ela iria resistir.) Você está procurando trabalho? JOANA – Sim. não sabia. A maior parte dos trabalhadores a considera muito perigosa. (Ao seu companheiro:) Pensei melhor. Ali adiante. desde hoje? DONA LUCKERNIDDLE – Não como nada há dois dias. estaríamos dispostos a reempregá-lo imediatamente. Não podemos perder esse safado. Se você. Disseram-me que não tinha ninguém além dele. O que mais verei? Eles entram na cantina. JOANA – Vindo para cá ouvi dizer que aconteceu alguma coisa com o seu marido e que a fábrica é responsável. Ela correu até aqui e já nos espera.13 – Não tenho tempo. DONA LUCKERNIDDLE – O que? Vocês pensaram melhor e estão retirando a oferta? Então eu não terei mais as minhas vinte refeições? JOANA – Me pareceu que a senhora se dava bem com seu marido. por exemplo.. no moinho de ossos. É um bom posto? GLOOMB – É um ótimo posto. O que há para comer hoje? A GARÇONETE – Ervilhas. A GARÇONETE – Se a senhora não for comer. DONA LUCKERNIDDLE. Você se surpreenderá ao ver como o trabalho é agradável. Naturalmente seria muito bom se nós encontrássemos alguém para esse posto. justamente porque você contou todas essas histórias a respeito de seus dedos. não muito fortes. meu senhor.. temi que amanhã ela viesse. e então eu poderia.

Continuar fiel à memória de seu marido. Ela se levanta e sai. posso comer aqui? SLIFT – Você só precisa sentar-se ali.14 – A senhora não quer esperar até amanhã? Se a senhora desistir de procurar o seu marido. V Joana apresenta os pobres à Bolsa de Carnes A BOLSA DE CARNES : Nós todos. eu volto. Pois não há mais compradores! Do fundo do palco chega o jovem operário com seu casaco e seu boné. ao garçom – Deixe meu prato. Tão cara a ele. certamente teria me prevenido Não fosse o preço a pagar por seu pequeno escrúpulo. Você a viu. DONA LUCKERNIDDLE – Ele foi para São Francisco. eu. e comerá sem levantar os olhos do prato. os sofrimentos que suportam Esses pobres sem moralidade. e por mais justa que fosse. DONA LUCKERNIDDLE. para colocar Ao abrigo da chuva. Mas vinte refeições. saindo. mas não em uma loja. com que habilidade torna-te mestre dela! Esta imoralidade. como manda o costume. Um certo tempo ainda. como um animal. E este jovem – em quem botaria fé Qualquer malandro -. Mercadoria invendável. SLIFT – E onde você conseguiu. como vós a explorais! Não vês que nem teto eles têm. SLIFT – Durante três semanas ela virá. Fatias de toicinho Cridle-Mauler! Carne de filé Graham. comprem nossas latas! Carne fresca e suculenta. a imoralidade deles? Ela teria. Joana? A imoralidade dela não tem limites! JOANA: E tu. preferido. verdadeira manteiga! Banha fresca do Kentucky! OS COMPRADORES: OS FABRICANTES DE CONSERVAS . então? O JOVEM OPERÁRIO – De um homem que caiu dentro de uma caldeira. e que já apodrece. a vossos olhos contradiga Esta depravação que injustamente se lhes imputa. Desejas mostrar-me a sua imoralidade. Que sua miséria. o preço era muito alto. Você só precisa perguntar a esse senhor. esta mulher. Eu virei todos os dias. tu me dizes? Sua pobreza também é incomensurável. (O jovem operário o esconde) De onde ele vem? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. Ele foi obrigado a vender sua cólera. Mostrar-te-ei. estamos vendendo carne! Compradores. (Ele senta-se. Ela sai. Atrás dele:) Você tem um belo boné. O JOVEM OPERÁRIO – Bom dia. Sua imoralidade é sem limites. JOANA: Porões e armazéns abarrotados de carne. SLIFT – E onde você comprou? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. acreditas que ele teria mostrado À mulher do morto a roupa que usava Se tivesse tido a chance de escolher? O maneta. Dona Luckerniddle arranca o prato das mãos dela e começa a comer avidamente. O que tu me mostraste Não é a imoralidade Dos pobres: é a pobreza deles. Era seu único esteio. ao lado daquela mulher. A senhora Luckerniddle sente náuseas. ninguém mais perguntará o que foi feito dele. como muitas. (Dona Luckerniddle permanece em silêncio) Não pegue. JOANA E procurar por ele.

Clamamos aos berros por um consumidor que não existe. Eu teria sobre as costas toda a carne! Idiotas. verdadeira manteiga. Não a agüenta mais. OS COMPRADORES: Nós compradores. em Nova Iorque. Nós não compramos mais nada! OS FABRICANTES: E nós. Frigoríficos entupidos de carne congelada.15 E sobre as águas fez-se um grande silêncio De todos os compradores. compradores. cubas. quase de graça. SLIFT: E teus amigos de Nova Iorque. Nós estamos perdidos! OS CRIADORES: E nós. Nós iríamos perder o bonde! MAULER: E quando isso ocorresse! Terias a imprudência De tirar tua parte de tamanha miséria. Aproveitem então. Do filé Graham. A nós. OS FABRICANTES: Graças aos avanços da técnica. E graças aos perspicazes planos dos industriais da carne Nós conseguimos reduzir em um terço O preço do toicinho Cridle-Mauler. compradores. Quem comprará agora nosso gado? Os estábulos estão cheios De porcos e bois devoradores de milho Que eles devoram ainda nos trens que os transportam. MAULER: E mesmo a faca os recusa. O que provocaria um movimento de alta. Esperando até ninguém poder Mexer nem o mindinho! E eu. . Nós queremos vender a carne em conserva E ninguém a quer! E todos os nossos clientes. dia e noite nossas máquinas Ligadas no máximo: salgadeiras. Temos diante de nós montanhas de latas. com nossos matadouros? Nossas fábricas estão cheias de bois. Comprem. nenhum tinha dinheiro. Mas ninguém quer comprar carne enlatada. Engolindo nosso ouro junto com nosso grão. E da banha de Kentucky. caldeirões Convertem sem parar em latas de conserva As manadas mugidouras que pastam nos prados. O estômago do país. Quando todos te seguem com olhos de lince Para ver o que fazes? Eu não teria cara. Nas estações e nos pátios. E abrissem assim o Sul aos nossos produtos. comprem nossas latas! OS COMPRADORES: E sobre as montanhas fez-se um grande silêncio E as cozinhas dos hotéis escondem a face E as lojas se desviam com horror Os atacadistas mudam de cor. SLIFT: Eu riria se. fabricantes. o que te escrevem? MAULER: Teorias. A dar-se-lhes ouvidos Seria necessário agora deitar por terra Todo o cartel da carne E deixá-lo estagnado durante muitas semanas. ao trabalho de nossos [engenheiros. cozinhas e lojas Estão cheios até as bordas. eles conseguissem Fazer cair de uma vez as taxas de importação. a visão da carne enlatada Causa náuseas. os criadores. A morte Despreza esse gado e fecha-lhe a porta. Saturado de carne em conserva.

tu o retiras Do negócio e Cridle. de toda a maneira.16 . por dez milhões de dólares. na entrada da bolsa: Queda gigantesca das cotações na Bolsa! Venda maciça de ações. Quero apenas meu dinheiro e a paz de minh’alma UM CORRETOR – urrando. mas três milhões. e o conjunto das fábricas vale dez. E exiges dele o pagamento sem demora. nesta conjuntura. e ficando com as outras.Há quatro semanas apenas eu assinei um contrato com Mauler. Cridle. eu quero o meu dinheiro. E vós soluçais nas saias de vossas mães.investindo contra Mauler que lê o jornal: Traidor. . o que desejo. OS FABRICANTES Essa gente não faz as coisas pela metade. MAULER – O próprio Cridle me confessou que está insolvente: se eu deixasse meu dinheiro com ele. Para acabar com Lennox. olha para nós! Assim. que se lançam sobre Cridle. antigamente Mauler. estava acordado. Cridle? Levanta os olhos. ao fundo. preferiu o vosso. Foste tu mesmo quem provocou o marasmo! Nossas latas agora não saem mais caro Que a areia dos mares. Isso representava um terço do total das ações. ave de agouro. É bom que ele seja nosso adversário. CRIDLE – dirigindo-se aos que o cercam:. que estavam valorizadas. que conspurca nosso ninho! Nós sabemos bem quem fez os preços caírem sem cessar Vendendo gado por baixo do pano. Hoje os papéis de Mauler não valem mais dez. Tumulto entre os fabricantes. Carrega em sua queda as cotações de todo o cartel!. eu acabo de saber. ao invés de trinta. OS FABRICANTES: Quando ages assim com Cridle. é o cartel da carne. a preço vil. Esses dez milhões são exatamente a soma que devo a Mauler – e ele a exige em vinte e quatro horas.. nós somos os peixes! O que querem arruinar. MAULER: E por que matastes tanto gado? Açougueiros alucinados sois vós! Agora. Mauler! Fala. Mas somos atingidos pelo que lhe acontece. Tu te desfazes de tuas ações? UM CORRETOR: A cento e quinze! OS FABRICANTES: Ficaste louco? Tua morte. nem que fosse por mais uma hora. já vinham caindo. quem de vocês continuaria a me levar a sério nos negócios? Ora. Cala-se e aponta para o dedo para ti. Eu me propunha pagar-lhe vendendo uma parte das ações dele mesmo. Cridle. MAULER: Açougueiros insolentes é o que sois! O animal torturado parou de mugir. mas um outro Quem joga a rede. Não é de hoje que fazes tais manobras. então! OS FABRICANTES – a Mauler: Corre o boato que teu capital. Voltai para casa. Ele poderia exigir seu dinheiro quando quisesse. Desde aquele dia. OS FABRICANTES: O que significa isso. Falai que um dentre os vossos Não pode mais suportar o grito dos bois morrendo E aos mugidos deles. que já se arrasta. pálido como algodão. Pois tu liquidaste. ele vem realizando secretamente vultosas vendas de gado a preços baixos e provocou a queda das cotações que. Veio a baixa. antes de qualquer coisa..apontando para Mauler: Falem com ele! CRAHAM – colocando-se diante de Cridle: Não é Cridle. provoca muitas outras! Lixo! Assassino! CRIDLE . Ele queria me vender a sua parte. todo teu estoque. é que me levem a sério.

Nenhuma sequer! OS FABRICANTES – Então. o responsável Por esta catástrofe. Fazer avançar os tanques e os canhões. com isso. OS FABRICANTES: Oitenta e sete mil latas pela metade do preço. Eu quero meu dinheiro. OS CRIADORES: Impossível vender um boi em Chicago. Eu não quero que me vejam aqui. Parem os carros. És tu. seu cão. Avante! Ao assalto! Empunhem os fuzis! Diante de nossos olhos os homens naufragam. com nossos bois Que hoje ninguém mais quer. Uma explosão de gargalhadas toma a frente da cena. E nós dizemos: é preciso ir sempre adiante. nós estamos perdidos! JOANA – Onde está Mauler? MAULER: Slift. para comer? Pensai convosco mesmo: sempre será assim. OS CRIADORES: Lennox já caiu! E Cridle balança! E Mauler. os aviões Para conquistar o pão dos pobres. acompanhada de exclamações. Ei.Pierpoint Mauler! Onde está Mauler? MAULER: O que é esse barulho de tambores que de súbito me envolve? E quem chama pelo meu nome Nesse lugar. Pois os bons nesse mundo Não formam um grande exército. Ouvem-se os tambores dos Chapéus Negros e a voz de Joana. Uma mulher nos faz sinais de aflição. cem dólares pelo meu chapéu.Nenhuma sequer! Silêncio. meu chapéu. Para Illinois esse dia é um desastre! Vocês fizeram os preços subirem. pois tenho outros projetos. Mauler. então. JOANA . E ninguém se preocupa. Graham. onde cada um revela Sua boca desnuda. detenham todo o tráfego Em torno de vós os seres naufragam. Meyers. suja de sangue? Joana e Marta avançam e cantam o seu hino de guerra.17 Mesmo que tivésseis todos que mendigar. escutem bem! Um homem afunda sob os nossos olhos! Escutamos lá no fundo seu apelo por salvação. Não esperem o amanhã! Cada um deve nos ajudar. Meu chapéu. Os que nos escutam. . Haveis então esquecido Os que esperam diante da porta E que esperam. mas rápido! OS COMPRADORES . MAULER: Por hoje basta. Mauler. Nesse mundo sempre reinará a injustiça. Ei-nos aqui. ele retira o seu dinheiro! OS FABRICANTES: Oitenta mil latas a cinqüenta. Não falemos mais de negócios. pois preciso partir. olhos para ver? Ele é vosso irmão. E. E ninguém se preocupa Não tendes. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Escutem todos. Estimularam-nos a criar bois. fiquem diante de mim. não saia! Graham. Lançar ao mar os navios de guerra E nos ares. mas rápido! OS COMPRADORES . seja quem for! Levantai o nariz de vosso prato. Com o único objetivo de ajudar o próximo. Durante esse período a batalha na bolsa continua.

Risos OS CRIADORES – Nós criadores não encontramos nestas palavras motivo para o riso. acabarão tendo de comer sozinhos a carne que produzem. nada além disso. Aumentem-no. ver surgir a nós. os Chapéus Negros. Nos baixios. OS FABRICANTES: Água para Pierpoint Mauler! . CRIDLE OS CRIADORES: Como? Somos asfixiados e ninguém pode fazer nada? A causa de nossos males é a imoralidade De vossas armações escusas. nas favelas. avancem à luz do dia. como não seriam os valores mais elevados esmagados em seu coração? Sempre ouço dizer. Mas nós lhes dissemos que é um imbecil. OS CRIADORES. e escute o que eu tenho a lhe dizer. Já me disseram o que os senhores fazem: manobras. aí pelo mundo.18 – Maldito sejas! Cridle sai. como fazem em seus jornais. gritando: Por vossa especulação desenfreada. os senhores se enganaram. gritando – Afastem-nos! Ele desmaia. Mas então eu lhes pergunto: de onde tirariam eles alguma moralidade. Se os senhores continuarem tergiversando. Senhores. JOANA – E qual a causa desta imoralidade no mundo? Poderia ser diferente? Se cada um é obrigado a rachar com um machado a cabeça de seu próximo para fazê-lo ceder seu pequeno pedaço de presunto e sua migalha de pão. ao fundo – Pierpoint Mauler passou mal. Causais vossa própria queda! Bando de imbecis! OS FABRICANTES. MAULER. JOANA – Mas os senhores. Vossa imunda cobiça. vocês. que os pobres não têm muita moral. As crises são catástrofes naturais. que se dobram sob o fardo de suas penas. então em suas costas os bois começarão a mugir contra os senhores. tereis a moralidade. a quem os senhores transformaram no que são. Inverno e verão nós dependemos do tempo: nós também estamos mais próximos do Deus de nossos pais do que os senhores. Mas se os senhores acreditaram que seus procedimentos permaneceriam ignorados. pobres e deploráveis imbecis. Reparem então nestas gentes. Joana mostra aos negociantes os pobres (Luckerniddle e Gloomb) que ela trouxe. JOANA – Um homem de negócios também pode ser um bandido – dependendo do ponto de vista. e diante de Deus TodoPoderoso. e é verdade. E os senhores. atrás de mauler – Fique senhor Mauler. eu bem sei. JOANA. existe também um poder de compra moral: o dinheiro. Não tenham vergonha. UMA VOZ. destinos inelutáveis. são todos uns imbecis. seus mugidos serão testemunhos. todo-poderosos. que sentam nesse palácio. Silêncio! Não lhes agrada muito. eles que nada têm? Senhores. OS POBRES – Ele é o responsável por tudo! Os fabricantes de conservas correm para socorrer Mauler. buscando desculpas. nada querem saber da miséria que existe fora deste recinto. engodos e combinações para aumentar o preço da carne. Traçam essas desconhecidas. tanto hoje quanto no dia do juízo final. COMPRADOR. pois os que estão lá fora já não têm como comprar. replicando: Imbecis são vocês! Ninguém pode nada contra as crises! Bem acima de nós. imaginando que não virão à tona suas manobras. Cujo ciclo pavoroso sempre recomeça. e a quem não querem reconhecer como irmãos. que fazem subir o preço do pão e que fazem da vida um inferno onde os homens viram demônios. o salário. em conseqüência. em tom de reprovação Aqui estamos com nossos bois Que hoje em dia ninguém quer. Se continuarem a agir assim. nesses lugares sombrios e secretos onde os senhores tratam de seu comércio. as leis econômicas. é lá que mora a imoralidade no estado puro e. a Revolução.

E não basta que cerres as pálpebras Para que eles desapareçam. que mantendes longe de vós. voltando a si – Eles ainda estão aí? Eu suplico que os afastem. para eles inacessíveis. ao instinto animal. eles não. Mas quem sois vós. Os que estão atrás. o que fazeis? Vós me ordenastes não dizer uma palavra. aí em cima. meus amigos.” OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Nunca faltará o pão Ao que dedica a Deus sua alma. Aos pobres: Segunda-feira vocês terão novamente trabalho. assume compromisso sobre a produção de dois meses. então Para querer fechar a boca do Bom Deus? Não se deve calar a boca de ninguém. E lá. Mauler. E fome nunca se passa. tudo o que em oito semanas conseguirdes [fabricar. eu compro! Escutai todos: Pierpoint Mauler compra! Que estas gentes tenham trabalho e que se afastem. de todos os estoques do cartel. afastados dos bens indispensáveis. deitado no chão – Eu compro. eu vou falar. nós nunca tínhamos visto. nós conhecemos. e por vós mantidos Nesta pobreza. por favor. SLIFT – Ele não abrirá os olhos enquanto não os fizerem sair. ao preço do dia. qual burros de carga. A tal ponto dependentes de alguma comida E de um pouco de calor. OS POBRES – Gente como essa. pelo menos cinqüenta mil toneladas de conservas. Tu quem os reduziu à tamanha miséria. Torna-se comprador. MAULER: Afastem-nos. Além disso. também ao preço de cinqüenta. . Mas os dois que estavam ao lado dele. Que viver assim pode mesmo afastá-los Da necessidade de um ideal. em 15 de novembro. gritando em um megafone – Pierpoint Mauler reanima o mercado da carne. Eles parecem bem piores. CRAHAM: Então! Não podes vê-los? No entanto foste tu. levantando-lhe a cabeça – E os estoques? MAULER. Nem mesmo do boi que esmaga espigas com seu casco! Em todo o caso. cantemos: “Nunca faltará o pão. Nós. MAULER – Agora. JOANA: É isso. MAULER. como eles sim. Invisíveis para vós. O cartel entregará a Pierpoint Mauler. JOANA – E agora. CRAHAM – A cinqüenta? MAULER – A cinqüenta! CRAHAM: Ele comprou tudo! Vocês ouviram: Comprou tudo! CORRETOR. Eles. Eles o levantam. No seio de Deus não há frio. E vós.. levai-o agora. a contar de hoje. Eu vos mostro agora a pobreza dos pobres. antes de partirmos. estão tão enfraquecidos. Quem em seu seio habita Jamais será infeliz. cumprimos nosso trabalho de [missionários. OS FABRICANTES – Ele comprou! Mauler comprou! MAULER – Ao preço do dia! CRAHAM. eu. vos rogo. vós me mostrastes a imoralidade deles. levantai-me.19 Um médico para Mauler! JOANA: Mauler. Compro.. ao fundo. e reduzi-los À voracidade. OS FABRICANTES – Quem? Os Chapéus Negros? Quer que eles saiam? MAULER – Não.

Muitos criadores se transtornaram. As fábricas reabrem e as chaminés fumegam! Pois efetivamente é de trabalho. Recusa-se a engolir mais. ao criador: O que Mauler promete. Podem esquecer seu nome. Música a partir das 3 horas. na Rua Lincoln. discute com Slift – Fecha a porta. OS FABRICANTES: Podem guardar sua carniça podre! Não estamos interessados em comprar. a sabedoria triunfa. Se estiverem muito necessitados. por que te impressionas com os discursos dela? MAULER: . dentro da casa. Contra a desrazão. cutucá-lo. PEQUENO IMÓVEL COM DUAS SAÍDAS MAULER. E vocês precisam dela. nenhum. Joana e os Chapéus Negros saem.20 OS COMPRADORES: Este homem está ruim da cabeça. Não o deixaremos descansar Enquanto um homem precisar de ajuda. seguidos dos criadores. Os patrões vão reabrir. saturado de conservas. Aqueles que dão o pão. VI A Captura dos grilos NA CIDADE CASA DO CORRETOR SULLIVAN SLIFT. Slift. Escutem: saímos. JOANA: Saibam todos: estou de olhos em Mauler. O homem que o assinou não estava em seu juízo. aqueles que o recebem. então. Pois ele pode vir em auxílio. às duas horas. JOANA – Todos aqueles que se interessam realmente pela palavra de Deus e que querem saber o que ele diz e não apenas a cotação da Bolsa podem vir domingo à tarde assistir nosso ofício. Nesse momento o mercado recobra a saúde. entrada gratuita. É preciso. Ele cumpre. E ele faz meter carne em latas Que ninguém comprará. açougueiros infames! Enquanto vocês não dobrarem o preço do gado Não entregaremos um só grama de carne. O estômago do país. sabiamente acatada. de São Francisco a Nova Iorque. Para tal negócio. e diga se realmente todos podem ler em meu rosto? SLIFT – Ler o quê? MAULER – Ora! A minha profissão! SLIFT – Teu ofício de açougueiro? Diga-me. Que carecem tanto uns como os outros? CRIADOR. não é. Nós estamos sob uma miséria atroz. ele não encontrará Um centavo. SLIFT. Pois o contrato que acabam de ver firmado É apenas um pedaço de papel. Mauler. Sábia decisão. Agora os senhores podem respirar. liga as luzes e agora repara em mim. pois nós também. Venham comigo procurá-lo Para que ele os tire do embaraço. enfim do ponto morto! Confiança e concórdia estavam fortemente abaladas. OS CRIADORES: Agora os preços subirão. os operários entrarão. Os fabricantes de conserva saem. dirigindo-se à Joana Aquilo que disseste e tua intervenção Causou-nos forte impressão. Sua consciência já despertou.

Fórmulas tomadas ao coração. lançar-nos-ão Ao chão como um peixe podre. E dezoito horas por dia. E quando da onda emana uma voz Que nada tem de bestial. Esfolarmos uns aos outros friamente. não é? SLIFT – Come. Então creio sentir Como um peixe aprisionado entre duas águas Pauladas na espinha. Eu deveria podê-lo de novo. Por trás havia rostos selvagens. meu caro Slift. urrando. Isso não pode mais perdurar... Seu número aumenta a cada dia. Nós e nossa corja. Onde o fogo arde embaixo Enquanto congela-se em cima. por mais louca que seja. Não conheceremos a morte em nossas camas. É sua antiga fraqueza que retorna. Para estes que caem em nossos porões sangrentos.21 O que ela disse? Eu não ouvi nada. no entanto. retorna. Para limpar esse mundo.. Slift. Talvez depois de comer carne crua ele retome seus instintos. pois desde essa manhã tu nada tens a ver com a morte dos bois. . de onde se eleva uma cólera Que nos varrerá a todos.. Se nos apanharem um dia. Seremos colados ao muro. SLIFT – E o que é. Não. Certamente porque essa gente trabalha a troco de nada. Esquecer todo o resto. irei confessar-te Minha verdadeira opinião sobre nossos negócios: Comprar. eles são muito numerosos. Sob a chuva e de barriga vazia. Que não sabem como passarão a noite mas. por mais externa e sem importância que ela seja. qual onda. Tão forte. caro Pierpoint? Pense que agora podes fazê-lo sem peso na consciência. a humanidade. vender e lutar sem parar. então? MAULER: O que vive abaixo e não acima De mim! Esses seres reunidos nos matadouros. Nós que aqui estamos. É outra coisa. Não há mais consolo. vejo-te mergulhado na contemplação de teu ser grandioso. MAULER: Sempre me pergunto por que essas tolices me afetam: Discursos plenos de utopias. (À parte:) Farei com que ele coma um filé muito mal passado. Sabias que tu compraste hoje tudo aquilo que pode ser colocado dentro de uma lata de alumínio? Meu caro Mauler. um após o outro. Levantar-se-ão com a aurora e por-se-ão em marcha. A urrar de aflição. SLIFT: Em cidades como as nossas. MAULER: Tu crês que eu deveria? Eu poderia. E pense em tua situação: ela não é muito boa. Agora. mas permita que eu te exponha simplesmente a situação. Há sempre boquirrotos que acham Que as coisas não andam como deveriam. Tudo isso são ainda meras desculpas O que temo não é Deus. talvez. Tagarelice vazia e fácil.. Ele se afasta e começa a grelhar um bife no fogão. que mais não vi. MAULER: Mas que dizem eles? Essas cidades São um braseiro jamais extinto Onde. Máscaras da aflição.. SLIFT – Não queres comer um pouco de carne. SLIFT – O discurso deles te perturbou.

MAULER: Oh! Slift. Na carta que recebi de Nova Iorque essa manhã. Os preços baixarão novamente. dizer-lhes Que ninguém era louco o suficiente Para comprar carne em conserva. Parece. Então pode ser que. muitos de meus concorrentes balançavam. SLIFT: Tudo depende de quem escreve a carta. sob os arcos de alguma ponte. Realmente eu não vejo sentido nesta carta. Essa seria uma saída. comprar carne. indicado. então.22 Primeiro compraste ao Cartel um estoque de vinte mil toneladas de conservas. MAULER: Corromper assim.. Cairei. amanhã. Ah. SLIFT – E por que reclamas de ter comprado? MAULER – Sim. Ah! Meu caro Slift. esmagado. de anunciar-te que nosso dinheiro começa a render seus frutos: muitos são aqueles que. sim! Eu comprei carne. Mas ainda há a carne Que no mercado liquidarão cem criadores Muito ávidos. votarão contra as tarifas aduaneiras. Ainda pela manhã. acredito. eu te juro. eles me escrevem para comprar. eu comprei. na Câmara. Mas esta mulher comoveu-me a tal ponto Que mal lancei os olhos. mais notícias.. de resto. Estão erradas. É coisa que também não se deveria fazer. SLIFT – E o que escreveram. continuando a leitura . . o Cartel te entregará mais cinqüenta mil toneladas a cinqüenta. é verdade. O ladrão está perdido. os preços cairão a trinta. eu me escutei dizer: “Eu compro tudo”. caro Pierpoint..” SLIFT. Sim. apesar de tudo. eu não agi por razões vis. Essas pessoas são gente de bem? MAULER – É gente com liquidez. mas Y o surpreende. assim. na melhor hipótese.“Estamos em condições. teus amigos de Nova Iorque? MAULER – Que eu devo comprar carne. Receberás. Não é qualquer um que pode.. essas teorias de gabinete. eu tenho a impressão De que nada de bom sairá daí. SLIFT – Quem são. Em quinze de novembro. Corromper ou abolir as tarifas. então? Mauler sorri. Ou desencadear guerras. os preços Subam? E nós acabaríamos. Tu as compraste a cinqüenta mas. hoje. Nas semanas vindouras. escapando bem. Aqui está: “Caro Pierpoint. safa-se. a não ser que golpeie Y Se ele golpear. eu comprei! O que eu fiz! Coloquei sobre minhas costas toda a carne desse mundo! Trôpego. SLIFT – Tu deves fazer o que? MAULER – Comprar carne. rir-me deles. Facilmente nascem guerras À custa de tais atitudes. qual Atlas. Milhares de homens sangram Por causa deste imundo dinheiro. E uma vez lá. Não. Escuta: X comete um roubo. Sob o fardo de toneladas de latas de alumínio. MAULER: Tu compreenderás. Eu fui vê-los cair. Mas não foi por causa da carta. Slift. SLIFT – E tu compraste! MAULER: Oh. deverás escoá-lo em um mercado que já não consegue absorver uma única lata. eu estou perdido! Esse é o meu fim. ou a vinte e cinco. eu estou perdido. quando os preços estiverem em trinta.

Joana diante da porta da esquerda. Slift. diante da porta da direita – Sai. Slift. para evitar me encontrar. Mauler. OS CRIADORES. todo esse gado? SLIFT – Vejo apenas Graham. a cinqüenta. Compra então o nosso gado! MAULER: Fecha a porta. No interior da casa. SLIFT. mais de dez mil criadores que não sabem mais a qual santo rezar. depois. Traga-me até a menor mancha de gordura. Pois. Devo comprar ainda todo o gado de Sírius? É como se alguém viesse dizer a Atlas Que não mais agüenta. Vão para lá. E nós somos. Persuadir os criadores da oferta excessiva. então. das fábricas paradas. MAULER – A outra saída onde é. E comprar-lhes tudo. sobretudo. minha decisão está tomada. Quem me comprará. SLIFT – Não deverias ter comprado. àquela gente que está com ela. e diga-lhes que quero refletir dois minutos. Nem a mim nem aos que me acompanham. no fim. Slift volta. e tudo o que cheire à banha eu compro também. MAULER: É verdade. eu não comprarei! Eu que já carrego toda a carne desse mundo. Pierpoint! MAULER: Ah! É verdade. SLIFT – Por aqui. Antes de ter saído dessa.) Slift. tentará sair pela outra porta. eu vou comprar. é preciso que eu lhe fale da miséria dos criadores de Illinois. Ele pede-vos dois minutos de reflexão. Joana entra acompanhada dos criadores. não foi bom. a partir de hoje. Também trouxe alguns trabalhadores que adorariam perguntar-lhe quando o senhor reabrirá a sua fábrica. Tu és o responsável por nossa desgraça. como quem captura um grilo. diante da porta da esquerda – Enquanto os criadores não forem ajudados. JOANA – Nós o faremos sair de sua toca. Eu não compro mais nada. grandes lucros! É verdade que o ganho seria apreciável.. aos criadores – Pierpoint Mauler está examinando vosso pedido. eu compro. (Ela ri. MAULER – Eu não compro. . em todo o Illinois. Eu fiz “A”. Quando ele me ouvir cantar aqui. com um porco ou com um boi. Slift. Retumbar de tambores.. A operação é simples: seria preciso comprar Todo o gado que se encontrasse em pé.). SLIFT – Qual crime? MAULER: Um crime que eu não poderia cometer. nem chapéu nem sapatos. Que eles tirem. ele se dirige à porta da direita. Feliz se. Não. Toda a carne posta em conserva até hoje. que precisa bastante. Senhor Mauler. Ele não gosta muito de me ver. de perto ou de longe. Slift? Não quero reencontrá-la e. Vais comprar todo o gado de Illinois. Os enganados serão os criadores. não sairemos daqui! MAULER – Tu dizes Graham? É verdade que ele precisa de gado? Saia. para o outro lado. quero paz em minh’alma. E por agora também não penso em reabrir a fábrica. Slift.23 Da mesma maneira a carta – que está errada – Requer – para acertar – um crime desta ordem. eu não quero meter o dedo neste negócio. eu estou comprando e compro ao preço do dia. (Ele calcula. tiver cem dólares no bolso. dobrando-se sob o peso da terra: Saturno também precisa de apoio. JOANA. Slift tragame tudo o que se pareça. é verdade. Lembrá-los de Lennox. Ele desenha um “A” na porta de um armário. Mas então. (Os criadores colocam-se diante da porta da direita. Agora. de seus delitos.) Saia. SLIFT Tu que não querias mais comprar um chapéu. Isto é o principal: Sumir com o gado. Slift sai.

salvador do comércio! Eles entram na casa. GLOOMB – No começo falaram em reabri-los. Eles não têm pão. Aos pobres:) Digam-me. entre os quais dona Luckerniddle e Gloomb:) Vocês de novo? Vocês passam a vida aqui? O trabalho voltou nos matadouros! DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. não é preciso que as vendas sejam feitas em seu nome. . DONA MULBERRY – O que me agradaria muito. que são gente de bem. acabamos constatando que esses segmentos demonstraram. Ela sai. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Recolham cantando Os trocados dos órfãos E os trocados das viúvas. Mas seu nome não deve ser mencionado. DONA MULBERRY – E meu aluguel. Faça entrar os fazendeiros. GLOOMB – Muitos já dizem que se não empregarem a violência não haverá trabalho para todos tão cedo. mas por enquanto não se preocupem. Que dão medo de olhar. SLIFT. grita a eles – Digam ao senhor Mauler que os Chapéus Negros lhe agradecem. Entra dona Mulberry. minha cara dona Mulberry. Alguém se equivoca: “A” é um erro. Trabalham duro e vestem-se decentemente. tão errado quanto “A”. e. JOANA. Comandante dos Chapéus Negros. Em seguida comete “B”. sai e se dirige aos criadores – Para salvar Illinois e impedir a ruína dos fazendeiros e criadores. proprietária do imóvel. Assim eu decidi. Eles não têm teto. sábado próximo. Infelizmente. (Aos operários:) Quando os que compram gado e os que o vendem se acertarem. que cada um volte alegremente às suas funções. Talvez isso tenha a ver com o fato de que eles não possuem nada. Suas misérias são grandes. em nome de Deus. o que foi feito dele? BISPA SNYDER – Meus caros Chapéus Negros. sobretudo nas camadas inferiores da população. para vocês também haverá pão novamente. dona Mulberry. uma avareza completamente inexplicável. ao fundo. sobretudo. BISPA SNYDER – Não se aproximem muito da caixa! Ele fez sinal para que eles recuem até o fundo. o aluguel que ela tão gentilmente tem adiado. OS CRIADORES – Viva Pierpoint Mauler. que eles nos ajudem a desferir. dão certo.24 Dominado por seus sentimentos. caros ouvintes! Para resolver o delicado problema do financiamento nós até agora apelamos aos pobres e aos mais pobres. não se esqueçam de varrer a escada. O dinheiro nos permitirá também pagar à nossa querida proprietária. Eles não são como os outros. mas não fizeram nada. Pierpoint Mauler resolveu comprar todo o gado que se encontrar no mercado. BISPA SNYDER – Agora. VII Os mercadores são expulsos do templo TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS Sentados em uma longa mesa. E eis que “A” e “B” tomados juntos. os Chapéus Negros esvaziam suas latas de ferro e contam ao óbolos das viúvas e dos órfãos. frente a Deus. Mas Deus todo poderoso Achará os meios de alimentá-los! BISPA SNYDER. pelo que acaba de fazer. se levantando – Que mixaria! Que mixaria! (Dirigindo-se a alguns pobres. um grande golpe no ateísmo e no materialismo que reinam nesta cidade. convidar em vosso nome as pessoas ricas e bem colocadas de Chicago. (Os Chapéus Negros saem. pois eles sabem que as fábricas receberam encomendas. os dispensados esperam ainda pacientemente na porta dos matadouros ou já começam a dar discursos revolucionários? DONA LUCKERNIDDLE – Desde ontem gritam bastante.

OS FABRICANTES – E quanto querem pelo serviço? BISPA SNYDER – Oitocentos dólares por mês. quinhentos? GRAHAM – Quinhentos sim. SLIFT – Mauler e eu não compramos um centavo sequer de gado. precisamos do gado. MEYERS – O que não será fácil. BISPA SNYDER MEYERS Há um cretino que razia o gado E que sabe bem que estamos comprometidos A entregar carne enlatada E que. dando-lhe um soco na boca do estômago: Velho cão imundo! Vamos.. Graham.25 – Isso nos é favorável. são vocês que estão com o gado. Porque já começam a dizer por todos os lados que a desgraça não cai do céu como a chuva. bispa. minha cara.. Quinhentos dólares. SLIFT – O essencial.. MEYERS. Do lado de cá. sim! Vocês agora terão que achar alguém que faça a doação. estão acima da querela. E já citam vossos nomes. no púlpito – Nós. senhora bispa. a Snyder – Todos pobretões. os reis da carne nos escutarão mais facilmente. os Chapéus Negros. É nosso nervo vital! SLIFT. BISPA SNYDER. Já é melhor. mas que ela é provocada por aqueles que dela tiram vantagem. tomar as fábricas em nossas mãos para que todos possam trabalhar e comer. sem dúvida? SLIFT – Sem dúvida. a Meyers – Essa senhora não tem senso de humor. e vá dizer ao Pepê Que afrouxe o laço. Na mosca. (Aos pobres:) Vocês não poderiam ao menos cortar lenha para nós? OS POBRES – Não há mais lenha. MEYERS – Eu me pergunto. Senhor Slift. diremos a eles que a desgraça vem como a chuva. GRAHAM – Confesse. Nós também prometeremos a eles que os ricos serão punidos. o Pepê está com o gado. Slift? (Slift simula um ar astucioso e exagera na mímica do ato de dar dinheiro). Entram os fabricantes de conservas: Cridle. MEYERS – Setecentos e cinqüenta. sem que ninguém saiba como. não gosto disso. vocês certamente precisam. Meyers. Slift. a Snyder – Quinhentos dólares? Isto é muito dinheiro! Quem vai pagar? SLIFT – Ah. mas que serão. (Aos outros) Eles carecem desta quantia. Nós. . precisamos de sopa quente e música animada.. os Chapéus Negros. Que tal. a Snyder – Desembuche! Eles se sentam no banco dos fiéis. que eles estão destinados ao sofrimento. um dia. mais então. GRAHAM – Até tu? E Mauler também. menos Snyder. após a sua morte. na frente do palco – Então. Bispa Snyder! Todos riem. SLIFT – Quem poderia ser? GRAHAM. portanto. ouvimos dizer que há nos matadouros cinqüenta mil pessoas sem trabalho. então. é saber de que lado vocês estão! Desse lado da barricada ou do outro? BISPA SNYDER – Os Chapéus Negros. Slift! MEYERS. GRAHAM. MEYERS.. tão certo quanto eu estou aqui. Deus é testemunha. onde poderia estar todo o gado! GRAHAM – É o que eu me pergunto também: onde poderia estar? SLIFT – Eu me coloco a mesma questão. SLIFT. novo soco – Que tu achas que eles querem. afirmando que sois vós os responsáveis pelo desemprego! Em breve eles dirão: queremos fazer como os bolcheviques. (Os fabricantes de conserva caem na gargalhada) E tudo isso por apenas oitocentos dólares por mês! GRAHAM – Não precisas de tanto. recompensados por suas penas. BISPA SNYDER – Podemos dar um jeito com setecentos e cinqüenta. confesse Slift. a Snyder – O que querem de nós? GRAHAM.. Graham. Se vierem para cá tocados a pedradas. portanto. não enrole. OS FABRICANTES – Por que falar em pagamento? BISPA SNYDER – O pagamento do qual falamos é feito após a morte. E que alguns entre eles começam a resmungar e a dizer: devemos nós mesmos cuidar do negócio.

Não me detenham. senão lançar-me-ei sobre vós e golpeá-los-ei a cabeça. que ela usa como se fosse um porrete. e rápido. e eu. vós então vos borrareis todos. entretanto. (Joana sai atrás deles com o mastro de uma bandeira.No começo falaram em reabri-los. se os consumidores não têm com o que pagar? JOANA – Em vossas gigantescas instalações e vossas fábricas detendes as ferramentas dessa gente: deveríeis ao menos permitir que eles as usassem. pois. ela está espantada – O que fazem vocês aqui? DONA LUCKERNIDDLE. mas não fizeram nada. Sois indignos e eu vos expulso! Apesar de vosso dinheiro! . Basta que alguém diga: está acertado. Se essas pobres criaturas. Mas o Bom Deus tem uma opinião muito elevada de Si mesmo para ser sempre a vossa babá para todo o serviço e para vir limpar vossas cavalariças. perdi demasiado tempo até sabêlo. Haveis perdido então todo o respeito pelo que se parece humano? E ousais anda vir à casa de Deus porque possuem o vil metal? Sabe-se bem de onde haveis tirado esse ouro e como o haveis adquirido. Os Chapéus negros aparecem na porta. Para que ninguém mais vá olhar de perto. Dirigindo-se aos fabricantes: Mauler. para fazer pior. nós não queremos mais ver. empunharem um porrete para bater em vossas cabeça. aí estás! Nós não estamos muito contentes contigo! Tu não poderias dizer uma palavrinha de nossa parte à Mauler? Parece que tens sobre ele alguma influência. JOANA – Por que não trabalham? Não arranjei trabalho para vocês? DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. Nós queremos reabrir nossas fábricas. supúnhamos que iriam retomar o trabalho. SLIFT – Mas querem antes estrangular os agricultores! OS TRÊS – Como abater gado que não existe? SLIFT – Quando Mauler e eu compramos a carne de vocês. GLOOMB. quem comerá a carne que nós compramos? E para que nós a compramos. hoje. De bom grado. qualquer um que queira ajudar aos pobres deve ajudá-los a protegerem-se de vós. Estou pronto. sem pena também Esqueci o que todos se apressam em esquecer Para rapidamente estar em paz com suas consciências. E eu. avançando: As vinte refeições foram comidas! Não te irrites. Parece que podes fazê-lo agir ao teu gosto. indo de um lado a outro. e que os operários poderiam comprar a carne. É o seguinte: alguém sumiu com o gado do mercado de uma maneira que somos obrigados a ficar de olho em Mauler. pagaremos o aluguel dos Chapéus Negros por quatro anos. mal tendo sido saciada. ajudo também aos de baixo. avançando: Eu te conheço: tentei te convencer A trabalhar nas serras que me cortaram o braço. Dizem que ele come na tua mão. mas também os esconde De todos os olhares. aos fabricantes: Esses pobres continuam a esperar trabalho? Silêncio dos fabricantes Eu que pensava que eles estavam arranjados! Faz já oito dias que neva nas costas deles. dizendo-me: ajudando aos de cima.) Saí! Quereis transformar a casa de Deus em um estábulo! Saí! Nada tendes a fazer aqui! Cabeças como as vossas. da tua vista sairia. JOANA. Mas agora. JOANA. gritando alto a Joana – Ah. GLOOMB . É preciso ser muito tonta! Na verdade. e a religião vos parecerá de novo algo de muito bom. Esta neve os mata.26 Entra Joana SLIFT – Aí está a nossa Santa Joana da Bolsa de Carnes! OS TRÊS. senão ficam imobilizados. comprou-vos conservas Por minha solicitação! E não reabristes ainda? OS TRÊS – Está correto. Saí. Se fizeres isso por nós. ao me veres aqui. que haveis atormentado ao extremo. Mas cruel é a fome: Renasce sempre. eu sei o que faço. e nessa atitude há alguma coisa que parece exploração. É preciso que ele libere o gado. olhando os pobres. própria para jogar água na fervura.

Mas se ele não paga. Enquanto não tiver feito de Mauler um dos nossos. Nem outra vez cruzar o limiar dessa querida casa. está bem. não se vão. Vá sob a neve e continue intransigente! JOANA – Quer dizer que devo tirar meu uniforme? BISPA SNYDER – Tira o uniforme e arruma tua bagagem! Sai desta casa e livra-nos da escória que arrebanhaste. prisioneiros Em uma torre de marfim. tudo bem. Enfrentam-se como gigantes? Vá. modestamente. Fazes-te de difícil e és muito curiosa Para saber como é feito. e a partir de sábado à noite. tudo mal. eu lhes trarei a sopa. agora. não tem nenhum mandato! É apenas uma mulher que perdeu a razão! Ela está despedida! Ela fará pelos senhores tudo o que desejarem. Se o Bom Deus não paga o seu aluguel. Queres. vão-se irrevogavelmente quarenta meses de aluguel. Povoada de cânticos e palavras que despertam. BISPA SNYDER. Homem de boa fé e destemido. ela retorna vestida como uma jovem camponesa. ela não representa ninguém. Trazendo-vos totalmente convertido. aos Chapéus Negros – O que acabo de fazer certamente foi pouco habilidoso. como jamais viu antes o mercado do gado! Saída dos fabricantes de conservas. Eu pedirei sua ajuda. no coração da tormenta. é muito justo que pague. De qualquer maneira. Quanto ao pão que precisamos comer. Tu que planas mais alto que as questões terrenas! Parta sob a chuva. BISPA SNYDER: Infeliz ignorante! Como não vês que operários e patrões. na ponta dos pés. entrando — Vocês já arranjaram o dinheiro? BISPA SNYDER – Deus encontrará logo o meio de pagar o abrigo bastante modesto – eu disse modesto. Ela carrega uma mala pequena. Grupos inimigos irreconciliáveis. ah. tu a ignoras E cedes a teus impulsos! É mesmo muito fácil Caçar esses impuros com um gesto cheio de orgulho. terá de se mudar. Mesmo que ele os torne surdos. DONA MULBERRY. JOANA Irei ver o rico Mauler. fracos. de volta Convida a tua casa. entretanto. então. Mas como deixar-se levar por isso? (À dona Luckerniddle e a Gloomb:) Sentem-se lá no fundo. Doravante farás parte dela. Por causa do aluguel. oferece teus bons préstimos.27 – Está bem! Mas conosco. Mesmo que o dinheiro os carcoma como um câncer Devorando o que seu resto tem de humano. Anda cuidar de tua vida. OS TRÊS Joana sai. é bem disso que se trata! Falaste a palavra exata! Se o Bom Deus paga. Nós iremos viver dias terríveis. . Serve-lhes água de chuva e belas palavras Pois do céu não lhes vem mais do que neve E não misericórdia! A humildade. onde não escutam mais Os pedidos de salvação do resto dos humanos. comê-lo também! Vá-te então. Eu não desejo Colocar novamente o chapéu e o uniforme negro. não temos mais um centavo. correndo sai atrás deles – Fiquem senhores. bispa Snyder? Ela sai. DONA MULBERRY — Sim. esses pobres. de um ao outro. BISPA SNYDER. Mediadora inútil e que cava a própria cova. É mister que haja um Justo entre eles! Ela sai. pois esses que te seguem não são mais do que escória e refugo. dona Mulberry – que ele encontrou sobre a terra. JOANA.

Mas o senhor tem razão. MAULER: Agora. mesmo nas pequenas coisa. queriam esperar Que o preço do gado caísse o mais baixo possível. de perto ou de longe. Terão de pagar mais caro. Deixar que gritem: “É um crime!” Entra Joana. JOANA – Bom dia. posso me interessar mais por cada homem em particular. Mas o senhor. Faça subir. Gosto nela deste traço. Ele sai. no seu escritório? Sempre achei que o senhor devia possuir um dos grandes palácios de Chicago (Mauler se cala). E na nossa mão é mais caro. Eu desmenti. Não se fala mais dela. Desde Que ela nos expulsou do Templo. se eu estivesse lá. Em busca de animais que. e de que. onde enfiaremos o pé Unicamente para ver a marca que deixa. É que eu não estou mais com os Chapéus Negros. Graham e companhia ficarão então parecidos À lama. Mauler. Ela não tem medo de nada. Serão obrigados a comprar a carne Que devem nos entregar. Dir-se-ia Que Chicago a engoliu Em sua negra e ruidosa bruma. senhor Mauler. Não pretendo soltar um só grama de carne A fim de arrancar-lhes mesmo a pele desta vez: É a minha natureza quem exige. Slift. É um belo sofá que o senhor tem aqui. Assemelhem-se a bois ou porcos. carregando uma mala. Gostei muito de vê-la expulsá-los do Templo. A mim também Teria expulsado. por um momento. SLIFT: Estou feliz. e cada porco Que eles precisam nos entregar. e que nem mesmo está dobrado direito? Diga-me: o senhor dorme aqui mesmo. desta vez. meu caro Slift. senhor Mauler. em sua casa. Deixo minhas coisas nesse canto. Não é fácil encontrá-lo. que tu tenhas superado Teus recentes acessos de fraqueza. MAULER: Seria preciso esfolar esta cidade maldita E ensinar-lhes o seu ofício A essa gente. Eles precisam comprar de nós. Vou ver como eles compram. SLIFT. os preços a oitenta. Houve discrepâncias entre nós. SLIFT: E tua Joana? Algo de novo? Um boato corre na bolsa: dizem Que te deitaste com ela. E os preços Subirão ainda mais. mas por que o lençol em cima. Slift. Então eu disse a mim mesma: vá dar uma olhada no que se passa com o senhor Mauler. dá rédea solta a teus corretores! Deixa-os correr o mercado.28 VIII Discurso de Pierpoint Mauler sobre a absoluta necessidade do capitalismo e da religião ESCRITÓRIO DE MAULER MAULER: MAULER: Chegou enfim o dia em que nosso caro Graham. Neste mercado de Chicago Todos os bois que se escutam mugir São nossos bois. Não se possa aceitar gente da minha laia. realmente. de ser cuidadoso. Agora que não tenho mais o trabalho fatigante da missão. Senhor . E todos aqueles que como ele.

. não como eu queria. Um trabalho ruim. naqueles pátios imensos. quando nós expulsamos os ricos de nosso templo. MAULER – Não te inquietes. Confirme que foi por teus conselhos Que eu. Mas nesse negócio. E foi por isso que eu me disse: irei ver o senhor Mauler. Vou agora mesmo à Bolsa para procurar o dinheiro. Assim como aos criadores. MAULER – Ah! E agora os Chapéus Negros estão em uma situação financeira difícil? JOANA – Sim. na minha vez. E que. MAULER: Tão mudada! Apenas oito dias! Onde ela esteve? O que ela viu? E por que essas rugas em torno dos lábios? Esta cidade de onde ela saiu. Há quanto tempo não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Oito dias. Nesta história dos cinqüenta mil trabalhadores. e que agi bem. ser ou não ser. Queres? Joana observa a comida. eu lamento Que o trabalho ainda demore nos matadouros. Eu não conheço.. Mas contigo não será assim. Eles são cinqüenta mil Que permanecem lá.. o que me agradou muito e me pareceu justo. Joana pára de comer. sim. Mas eu o encontrarei. ainda por cima. Eu também. encomendei a carne. Toma. Mesmo que deva cortar na carne.. eu não comerei. a coisa não andou.29 Mauler. tenho boas esperanças de que sua consciência esteja em paz nesse momento! MAULER – Então não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Não. é claro. aos fabricantes. E como eu sei que sois pobres E que querem privar-vos Do teto que vos abriga. Uma vez mais.. Corra. nos deu prazo só até o próximo domingo. É por ti que o faço. que vive do aluguel. É Mauler quem vai dá-lo. JOANA – . Não pude dar-lhes trabalho rapidamente. Eu quero dar-vos alguma coisa Para provar-vos a bondade de meu coração. e aos Chapéus Negros é preciso auxiliar.. de pé. Eu te encontro bastante mudada. O dinheiro. Ele traz comida a ela em uma bandeja. senhor Mauler! MAULER Tome. Mauler vai até o fundo do palco e chora. Daqui até sábado. Eis o desafio. senhor Mauler. o dinheiro para vocês eu terei. Ela começa a comer avidamente. muda logo a tua cara? . Aqui está por escrito. vá dizer-lhes isso.. arrancar a pele desta cidade. não faço mais parte. mesmo à noite. não querem partir. eu buscarei o dinheiro a qualquer preço. Teria adorado ouvir-te dizer Que o que eu faço está bem.. Eu irei à Bolsa encontrar o dinheiro que lhes falta. MAULER – . a proprietária. está caro. é lógico. MAULER – Vá dizer-lhes que o dinheiro está chegando. O escuro caminho que leva aos matadouros. senhor Mauler. Trata-se de saber Se eu serei o melhor de minha classe Ou se tomarei eu mesmo. JOANA – Senhor Mauler. JOANA – Sim. Que meu comércio não é antinatural. JOANA – Os operários continuam esperando nos matadouros? MAULER Por que és contra o dinheiro? E por que então. Quando não o tens. Estás de acordo? JOANA – Sim. MAULER – E do que tens vivido? (Silêncio de Joana) De nada. Eu confesso cruamente.

Por Ele batendo os tambores. Eu sei. Fazendo Dele a única salvação. nem nós tampouco: Não seríamos necessários.30 O que pensas tu do dinheiro. É à sorte. Em uma palavra é preciso que vós Restabeleçam Deus em sua glória. eu deveria estar feliz De ver que alguém vem em ajuda a Deus. O dinheiro é um meio De melhorar um pouco a vida. Eu não compreendo E nem quero compreender. Apanhe o que te dão. Obra imensa. eu concordo. Atribuir ao homem um lugar totalmente diferente. As coisas não deixariam de seguir o seu curso de antes.O que nós não vos exigiremos de nenhuma forma – Devem dizer ao menos que eles são justificados. Mas eu faço parte daqueles Para quem essa não é uma ajuda. Quero saber. Ele alcança o papel a Joana. Ainda que dia após dia se precise reconstruir O que dia após dia é destruído. diga-me. Por isso vós deveis nos ajudar em nossa obra. Assim. Eu seria varrido. E incessantemente construída. Para que Ele finque pé nas favelas E para que Sua voz retumbe nos matadouros. aliás. Sim. Na banal verdade. Mas saiba com qual objetivo foi dado! Tome isso! Saiba que representa O aluguel de quatro anos. JOANA Senhor Mauler. destruído na mesma hora. Ou então seria preciso mudar tudo. Daqueles a quem ninguém oferece nada. MAULER . sob gemidos. malgrado os sacrifícios. Não desejais. sem dúvida. Ao menos a vida de alguns. E que. Que seria suprimido por falta de utilidade. Mas mesmo assim verdade: Sobre a terra nada há de sólido. veja bem. sob chuva e frio. isso será suficiente. Isso que o senhor falou. E se vós não precisais se expor aos sacrifícios. Desde que existem sobre a terra. Tão penosa de construir. Como esses bobos para os quais o dinheiro Tem não sei qual problema. Não enchas a cabeça de falsas idéias. de cima a baixo. nem Deus. Que o gênero humano está entregue. Eis porque esta obra é sempre defendida Pelos melhores entre os homens. Seria como um mosquito Tentando se opor a derrubada de uma montanha. ou quase. Concepção inaudita à qual vós mesmos. Se eu quisesse me retirar. Pouco agradável. Modificar por inteiro o plano do edifício. eu que nutro Poucas simpatias pela ordem do mundo. durmo mal à noite. Pouco ou muito segundo o caso. . Olha também como o mundo é feito! Que edifício! Obra dos homens. Mas pensa na realidade. Ela se levanta. Esse sistema é o único que permite arrancar O que pode ser arrancado dos rigores desse mundo.

E eu. Que o aceitem. MAULER Esta noite. Sem poder suportar a visão dos pobres Que os julga sem conhecê-los. Eles fazem muita questão do dinheiro. Saberás que neva sobre ela.31 Leva aos Chapéus Negros este dinheiro E poderás ficar com eles. Eu marchava. Ela sai. Pelo menos não honestamente. Há sete dias: Diante de mim. Eu serei como eles sem trabalho. Quantos eram eles? Eu não sei. E se não houver trabalho. Fez esta massa começar a fluir. E isso é muito bom. A cada hora. creia-me. E então uma palavra. BAIRRO DOS MATADOUROS Joana. afluíam inúmeros cortejos. E se nevar. por toda a parte. Ficarei lá até que as portas sejam reabertas. Jovem e velha. JOANA Se os Chapéus Negros quiserem o seu dinheiro. Depois eu gritei palavras em tom belicoso Em uma língua para mim mesma desconhecida. marchava à sua frente. a fronte ensangüentada. sem uma palavra. IX Escutai o que eu sonhei. Cercado de todos os lados por enormes edifícios E tão pequeno que a sombra de um arbusto O teria encoberto totalmente. levanta-te. se o senhor quiser me ver Me verá nos matadouros. Vi depois cortejos E ruas desconhecidas. Sobre ela que tu conheces. Ao mesmo tempo. soluçando e jurando Logo fora de mim! Virtude e terror confundidos! . Arranjando para não ver esses condenados. Perto dela Gloomb e dona Luckerniddle. No futuro. Chicago! Vós também Lá estavam. em um pequeno campo. 1. desfilando. com aqueles que esperam. eu quero fazê-lo. Eu comerei esta neve. Jogados aos matadouros e de tudo ignorantes. que vive da pobreza. e então eu me vi: À vossa frente. Que o campo inflou-se e uma cascata humana Inteira ficou pendurada em suas elevadas bordas. e outras familiares. JOANA Terceira descida de Joana às profundezas. Mas eu me sentarei Em frente aos matadouros. E o senhor. do que os pardais Que se poderia colocar em tal lugar. Mais numerosos. E o trabalho deles também. Que alguém gritou em algum lugar. Pois esta vida sem eira nem beira não te serve. Eu também não tenho dinheiro E nem uma maneira de ganhá-lo de outro modo. pulsando vida. Eles formavam uma massa tão densa. Vai à janela e repara se neva. A tempestade de neve. Mauler. uma palavra sem importância. E nada comerei além do que eles comem. em todo o caso. silhueta múltipla. Notei uma massa humana. Ela permaneceu suspensa por um instante. com passos guerreiros. Se for um punhado de neve o que lhes dão.

BOLSA DE CARNES MAULER. nas praças públicas. Ocasionando imensas destruições. estávamos fora de alcance. é verdade. sem mais delongas. Influenciando o curso dos planetas distantes. mas existe. OS CRIADORES aos fabricantes de conservas: Meus amigos de Nova Iorque me escreveram Que as tarifas aduaneiras no Sul Acabam de ser derrubadas. nós agora estaríamos comendo a nossa sopa. Oitenta mil toneladas. Eu exijo que me entreguem.. GRAHAM: Ao preço antigo? MAULER: Como combinado. transparentes. E também perturbando o aspecto familiar de ruas bem próximas. Precisamos comprar e os preços aumentam! . libere-nos de nossos compromissos! MAULER: Estou desolado. éramos inatingíveis. mas preciso das conservas.. a preço vil. bem e aquecidos! 2. Senhores. E com a aurora chegaremos a Chicago. A exata extensão de nossa miséria. OS FABRICANTES: Mas como nós poderemos Comprar gado com preços em alta? Alguém promoveu uma razia. modificava. GLOOMB – Dona Luckerniddle. Envolvida pela neve. a cidade deles. MAULER: Sendo grande a demanda De conserva e de vianda E sendo os preços aceitáveis. Eu andava no mesmo passo que o cortejo. e pior. e pior. E assim andava o cortejo. Mauler. DONA LUCKERNIDDLE – Se ela tivesse calado um pouco a boca lá nos Chapéus Negros. Habitando em lugar algum. Ninguém sabe quem foi. Faremos um chamado a todo o ser que pareça humano. Assim foi o meu sonho. Habituados ao sofrimento. Todas as conservas Previstas no contrato. Há muito gado.32 Tudo o que eu pisava. ao abrigo dos ataques inimigos. Graham. O que acontecerá. Rendidos pela fome. Um pouco caro. Comprem-no! OS FABRICANTES: Comprar gado nestes dias! Que horror! 3. UM PEQUENO BAR NO BAIRRO DOS MATADOUROS Desgraça! As tarifas caíram! E nós não temos mais carne para vender! Ela já está vendida. OS FABRICANTES Desgraça! As tarifas caíram E nós não temos mais bois para vender! Eles já estão vendidos. não nos podiam alvejar. a preço vil. que eu saiba. Para aí mostrar a todos. eu ignoro. se eu me lembro direito Daquela hora em que perdi um pouco o juízo. abandonando este lugar insuportável Por qualquer outro. a senhora entendeu esta história? Eu não. Hoje eu compreendo o seu sentido: Nós deixaremos os matadouros antes do raiar do dia.

reina a paz. curta bondade. Bem que eu gostaria de estar com eles! DONA LUCKERNIDDLE – A música era bonitinha! GLOOMB – Bonita e curta. que nos salvou na dor. não o ódio.33 Trabalhadores e trabalhadoras. Intercala sua pregação com observações aos companheiros. triste. GLOOMB – Bondade curta. depois de entoar um cântico apressadamente: Por que não provar. JOANA – Então não há ninguém que tente fazer alguma coisa? O TRABALHADOR – Sim. fazendo o gesto de contar dinheiro – A senhora consegue manter a marmita fervendo. Se algumas pessoas soubessem calar a boca eu saberia onde procurar abrigo esta noite. mas ninguém contribui) Aleluia! JOANA – Deixe-os. e o velho Adão dentro de mim não tinha outro desejo do que comer e beber. apesar de todas as nossas más ações. Vinde a ele. BOLSA DE CARNES OS FABRICANTES: Nós compramos qualquer gado! Bezerros! Gado gordo! Vitelos! Bois! Porcos! Façam as suas ofertas. JACKELINE. eu prefiro os atos.Aleluia! (Jackeline faz circular a cuia de esmolas. faz desesperadamente sinais para que saiam. mas eles traziam uma panela. mas então eu encontrei Nosso Senhor Jesus e fez-se em meu coração uma grande luz e provei uma grande alegria. Onde está Jesus. hoje (eles não estão escutando nada!) basta que eu pense muito em Jesus. Discursos.(Vocês acham que isso serve para alguma coisa?) Eu também. soldado dos Chapéus Negros: . Ah. Um destacamento dos Chapéus Negros chega. meu irmão. por favor! OS CRIADORES: Não sobrou mais nada! Tudo o que podia ser vendido . que um resto de pudor lhes diga: Aqui reinam a neve e o vento: calem-se! 4. e eu não tenho mais fome e nem sede. Nosso Senhor. tenente dos Chapéus Negros. não a violência. MARTHA. vinde logo! Aleluia! Uma jovem dos Chapéus Negros dirige-se aos trabalhadores. tenho apenas sede da palavra de Jesus. por causa do meu marido. tu também. à dona. estava um dia sentada. o amor. meus irmão. UMA MULHER Por que vir aqui fazer escândalo Com tamanho frio! E se pudessem ao menos se calar! Com muito custo eu consigo agora Suportar as palavras que há pouco amava E que me soavam agradáveis. já ouvi demais. UM TRABALHADOR. durante a cena. grande o nosso regozijo. Joana se levanta e. eu esperava que eles fossem ao menos nos dar um prato de sopa. ente os quais Joana. surpreendendo-se pela ingenuidade – É sério? A senhora acreditou nisso? DONA LUCKERNIDDLE – Eu também. Nosso Senhor. JOANA. Pois nós encontramos Jesus. (Isso não serve para nada!). DONA LUCKERNIDDLE – Eles são boas pessoas. Silêncio. JOANA – Mas não são os tais que ficam incitando ao crime? O TRABALHADOR – Não. (É tudo absolutamente inútil!) Eu lhes digo: ajudem-nos a manter a marmita fervendo! OS CHAPÉUS NEGROS . do pão de Deus? Grande é nossa alegria. à margem do caminho. como vocês. minhas irmãs. Eles precisam fazer isso para conseguir um pouco de calor e de comida. os comunistas. dona Swingburn? A MULHER – A sua música era bonita. A MULHER – Por que não nos procuram para tentar nos converter? GLOOMB. JOANA – Onde eles estão? GLOOMB – A dona Luckerniddle pode lhe dizer. Luckerniddle – De onde a senhora os conhece? DONA LUCKERNIDDLE – No tempo em que eu não me fiava em gente como você eu ia bastante até eles. que alguma voz.

o apetite desperta! GRAHAM. Os fabricantes se precipitam sobre ele. OS FABRICANTES: É Mauler. Já que não há demanda. Na minha opinião é preciso fazer alguma coisa imediatamente. dois homens da direção dos sindicatos discutem com um grupo de operários. eu as quero agora. Graham! As latas que me deves.. OS CRIADORES – Vendido. OS FABRICANTES – Vendido a quem? Entra Mauler. e caro! Ofereço. OS CRIADORES: Oitocentos bois a quatrocentos para Sullivan Slift. sabemos agora de uma coisa: se tudo andar como querem os industriais da carne.34 Foi vendido. É impossível encontrar um boi em Chicago. eu tenho propostas a fazer. MAULER: Atenham-se à nossa combinação. UM DIRIGENTE OPERÁRIO – Escutem todos: até agora os magnatas da carne não manifestaram a menor intenção de reabrir as suas fábricas. Aprendi a falar em lugares públicos e em auditórios. precisamos de um prazo. e acho que sou capaz de defender bem uma causa. Chegada de Joana.. mesmo só uma pata. uma parte de nós perderá seu emprego nos matadouros e os outros nunca recuperarão o salário anterior. Qualquer vitelo. Mauler. É claro que é! Era o que dizíamos! O cão! Ele nos obriga a entregar-lhe as latas E é ele quem compra o gado! Somos então obrigados a comprar de Mauler A carne que deveremos colocar em suas latas! Carniceiro sujo! Tome então a nossa carne. Vendo-os. mesmo nos grandes. Os senhores devem me entregar a carne. Os trabalhadores das grandes empresas da cidade nos prometeram declarar. para começar Quinhentos bois a cinqüenta e seis. Em frente a um galpão. Além disso. De hoje até amanhã é certo que os patrões vão lançar todo o tipo de falsas notícias: eles dirão que . OS FABRICANTES: Nem pensar! Vocês estão loucos? Quatrocentos! SLIFT – Eu compro. OUTRO LUGAR NOS MATADOUROS Nos cartazes se lê: “Solidariedade com os trabalhadores sob lockout!” “Desencadeiem a Greve Geral”. Quatrocentos. OS FABRICANTES: Mais nada? E nas estações? Estão abarrotadas de gado. Deixe-os totalmente à míngua. de Chicago a Illinois. Agora eu quero sessenta! E tenham o cuidado De não esquecer as minhas latas! 5. JOANA – São vocês os que defendem a causa dos desempregados? Eu posso ajudá-los. os operários. Não havendo ninguém que precise de carne. eu acertarei as contas com ele! MAULER: Ah! É assim. se são os senhores os bois. Mesmo que tenhas que te enfiar nelas! Eu vos ensinarei como se faz esse comércio! Doravante. Se alguém vier perturbar a reunião. precipitando-se sobre Mauler: É preciso liquidá-lo. Silêncio . Terá de ser comprado de mim. eu não tenho medo. no mais tardar depois de amanhã. UM CRIADOR: Oitocentos bois de Kentucky a quatrocentos. Corte você mesmo! MAULER: Por que se surpreendem. se ela for justa. a greve geral. Nós. Ele vai falar com Slift.

eu sei quem ela é. na esquina do Parque Michigan. Eu luto de todo o coração pela causa de vocês. E poderíamos até dizer que esta pobreza seja obra deles. aos responsáveis que esperam nossa orientação.. os preços estão a mais de setenta! OS CORRETORES – Os cabeçudos não compram. (os operários riem alto) Mas é desumano! E dizendo isso eu penso também em gente como Mauler! (os operários caem na gargalhada) Por que se riem? Acho que vocês estão errados em zombar e em acreditar sem provas que alguém como Mauler não é um ser humano. dessa maneira. encostado em uma coluna – Faça subir. pau neles! OS FABRICANTES – Queremos dois mil bois a setenta. ouve-se gritar ao fundo o nome das empresas que suspenderam seus pagamentos: “Encerram os pagamentos. Essas cartas anunciam que a usina de gás. O contrato assinado há pouco entre nós: Eu queria. Tudo acontece como se a miséria dos pobres fosse útil aos ricos. Elas devem ser entregues às dez horas. em frente ao edifício da Westinghouse! (À Joana) Quem é você? JOANA – Fui mandada embora do emprego. galpão número cinco. O operário apanha a carta e sai. Ela é honesta. Um operário apanha a carta e sai. etc. MAULER: Os senhores não respeitaram. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – E quem te garante que ela vai levar a carta que lhe entregarmos? O DIRIGENTE OPERÁRIO – Ninguém. não é? DONA LUCKERNIDDLE – Honesta ela é. À Joana: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. O DIRIGENTE OPERÁRIO. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E para quem trabalhava? JOANA – Eu era ambulante. JOANA 6. Meyers e Cia. dona Luckerniddle? (Dona Luckerniddle faz sinal que sim).35 tudo está arranjado e que a greve geral não acontecerá. as centrais elétricas e o serviço de águas entrarão em greve em solidariedade a nós. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua Três. estou vendo. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Pela nossa causa? Diga-me: ela não é também a sua? JOANA – Não é no interesse geral que os industriais jogam. pergunte-lhes se são das usinas Cridle. pois o endereço dado pelos camaradas das usinas Cridle para o encontro está muito vigiado. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E em que trabalhava? JOANA – Eu vendia um jornal.. Por este buraco fogem todos os peixes. – Eu já vendi jornais na rua Vinte e Quatro. e vá esperar os responsáveis defronte à cantina da senhora Schmittens. dando a carta à Joana – Vá até a fábrica Graham. UM OPERÁRIO – Pode ser uma espiã. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Não.. A carta é para eles. em diversos pontos dos matadouros. Esconda essa em seu casaco. É do Exército da Salvação e os policiais a conhecem bem. SLIFT. Ela é sua conhecida. Jack. BOLSA DE CARNES Durante toda esta cena. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Não é sem provas. Isso é bom. Quando você vir chegarem três operários com cara de quem procura alguém. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua vinte e seis. Como se rede já não houvesse: De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. assegurar o trabalho . Nós não temos ninguém para passar despercebido como ela.” OS FABRICANTES – Nós não podemos mais agüentar. essa noite. Você pode tranqüilamente entregar-lhe a carta. UM OUTRO OPERÁRIO – Dê-me a carta para as usinas Graham. Ninguém suspeitaria que ela trabalha para nós. tanta gente na rua. com tal medida. eu conheço o pessoal. a Mauler. Eu não sou uma espiã.

é impossível ouvir uma voz isolada: há muita gente correndo de todos os lados. de achá-la? E atiram? Encontra o Jim. não me diverte mais. são incontáveis. Vou soltar a carne e deixá-los partir. SLIFT: Faça subir. Ele repara no segundo segurança. Diga-lhe para que não me procure. Impossível. Pois a queda deles Será a nossa. entreguem-me! GRAHAM: Nada poderíamos ter feito. GRAHAM: Que seja. Eles ainda agüentam! Quinhentos bois a setenta e sete. As conservas que comprei. que voltou para perto da coluna – Slift. senhor. Mas os senhores se lamentarão por isso. Se perguntasse por uma Joana. tudo a oitenta. Senão pensarão ainda Que fomos nós que exigimos que atirassem. Mas para nós. O estranho é que aqui não se ouve nada. Slift. OS FABRICANTES – Mauler paga cinqüenta pelas conservas. A encontraste? O SEGURANÇA – Não. E tenho outras preocupações! Veja bem. por telefone. Vá só até oitenta e depois abaixe o preço. perdido por perdido. Mauler. No canto em que trabalham os sindicatos reina uma grande efervescência! MAULER – Quem trabalha? Os sindicatos? E a polícia os deixa incitar os operários? Meu Deus! Liga imediatamente para a polícia. MEYERS – Cinco mil a oitenta! Assassino! MAULER. Fala em meu nome. MEYERS – Mil e quinhentos a oitenta. desembucha! O primeiro segurança faz seu relatório. Mil a setenta e sete. Que sangrem. Sem contar que a polícia está evacuando os matadouros e que começa a atirar. MAULER. Quando se grita qualquer coisa. O SEGURANÇA – As multidões. Ceda. eu não vi ninguém com o uniforme dos Chapéus Negros. o vento abafa as palavras. Ponha os pingos nos “is”. eu não me sinto muito bem. A carne sumiu de vez do mercado! Quinhentos bois a setenta e cinco! MAULER: Não seria conveniente. subir muito mais. MAULER: Atiram? Contra quem? Mas eu sei bem. é o fim! SLIFT: Quinhentos a setenta e sete para Graham. Além disso. Acima disso. É preciso que a cidade Possa voltar a respirar. MAULER – Então. O segundo segurança sai. São centenas de milhares nos matadouros. mas que não rebentem. esperando. . sim. é claro. Eles já não agüentam. se apresentariam dez ou talvez cem. A multidão anônima e sem rosto continua sentada lá. dizes. O primeiro segurança sai. Slift. Isso basta. Ainda por cima está escuro. nós não podemos pagar oitenta a Mauler pelo gado. MAULER.36 Aos operários e agora me dizem Que eles ainda esperam em frente aos matadouros. a Slift – Onde está o pessoal que eu mandei para os matadouros? SLIFT – Ali está um. voltando ao grupo: Este negócio. só quinhentos. eu me pego esgoelando-os E não tenho tanto prazer quanto esperava. à procura de um parente que não encontram. Ele pode ir longe demais. Slift. pois. SLIFT – A oitenta. Pergunta para que nós pagamos impostos! Manda arrebentar a cabeça dos líderes.

Mauler? MAULER. SLIFT: Mentirosos! Agora serei eu que vos ensinarei A vender carne enlatada Sem ter nem mesmo um quilo! E cinco mil bois a noventa e cinco! Urros. Slift. JOANA – Eu queria que vocês fossem embora. Eu não posso mais.” JOANA – Eu não falei nada disso. toda a Chicago comparte seus sentimentos. em segundo plano. SLIFT MAULER Eu preciso de ar fresco. Eles terão de nos responder. NOS MATADOUROS Muita gente esperando. SLIFT – Quinhentos bois a noventa! OS FABRICANTES: Mauler. (Joana vira-lhes as costas. a não ser nós mesmos E a ninguém podemos apelar OS JORNALISTAS . Fora uns poucos especuladores sem escrúpulos. Slift não tem ordem para isso. pode ler. Eles não abrirão as fábricas! Eles esperarão os lucros aumentarem! E a sua resposta sairá Dos canhões e das metralhadoras! Ninguém poderá nos ajudar. Nesse dia sim. Os jornalistas lêem em voz alta) “A Madona dos matadouros. JOANA – Eu não faço mais parte dos Chapéus Negros. (a Joana) Esses são jornalistas. esperem a resposta! CORO OPOSTO. nós ouvimos. não mais. Não vão embora. ALGUÉM – Porque estás aqui? JOANA – Tenho que entregar uma carta. também em segundo plano: É mentira: por maior que seja a miséria. a jovem pregadora dos Chapéus Negros? JOANA – Não. declara: Deus está solidário com os operários das fábricas de conservas. E se quiseres abrandar. 7. – Olá! A senhorita é Joana Dark. Tu me conheces. serei eu quem fará subir. OS JORNALISTAS – Veja bem. Nós publicamos isso com manchete de oito colunas. Continue então com o negócio. no fundo. JORNALISTAS – O que há de novo.37 – Nem pensar. Aja conforme o meu espírito. OS JORNALISTAS – No escritório do senhor Mauler nos disseram que a senhorita jurou não sair dos matadouros enquanto as fábricas não fossem reabertas. apontando para Joana – Aqui está. eles abrirão. Prefiro abandonar tudo Do que ser a causa de uma desgraça! Oitenta e cinco. Mas nós não queremos incomodá-la e iremos ficar ali. OS TRABALHADORES. Virão três pessoas. Um homem os guia. Saindo ele encontra jornalistas. Queria vender a oitenta e cinco. OS JORNALISTAS – Podemos lhe assegurar. que a opinião pública está do seu lado. Aja conforme o meu espírito. Para nós a senhorita faz parte. Eles não abrirão as fábricas. Eles ainda agüentam. Então agora existe gado. De outra forma isso terminaria em violência. afastando-se – É preciso que façam chegar aos operários que eu acabo de ceder gado às fábricas. isso não é possível. senhorita Dark. Mas quando a aflição for tremenda. Joana. O HOMEM. Chega um grupo de jornalistas. a alguma distância. Entre eles. É um enorme sucesso para os Chapéus Negros. Joana Dark. Eles se sentam. nos matadouros Enquanto a miséria não chegar ao máximo. Veja.

Mas eu posso. Enfim. levantam-se e dirigem-se ao fundo. um teto e o sustento. guardam-me a sopa. que nada tendes para comer. o que haveis deixado? Eu.. com um vasto plano. Onde está o meu chale? Eles me roubaram. Alguns – pouco numerosos – estão sentados lá em cima E um grande número aqui embaixo. mais do que tudo. tenho frio. eu não tenho o direito de ir. JOANA Se dependesse só de vós Eu poderia congelar nua em pleno vento. JOANA: Eu compreendo esse sistema.. Não fazia tanto frio em meu sonho. confesso. não é? JOANA – A senhora também acha. ela vai me matar. que acabaram de receber uma informação. (Ela arranca de sua vizinha o pano com o qual ela cobre a cabeça) Sim. Que audácia! Emborcar assim o whisky desse velho! JOANA – Segure a língua. . Algo de obscuro. Mas é apenas uma tábua. Empunhar a bandeira e bater o tambor. a Joana – O que fazias com aquela gente? JOANA – Nada. E uns se sentam lá em cima Só porque os outros estão embaixo. UM TRABALHADOR. UMA MULHER – Que audácia! JOANA – A senhora falou alguma coisa? A MULHER – Sim.. Quase uma comédia. isso é normal. Encorajada por um sonho que confirmava minhas idéias. ao qual estava acostumada. A mim me esperam. O TRABALHADOR – Mas falaste com eles! JOANA – Eles me confundiram com outra pessoa. que de resto Já é a muito conhecido. E falar Daquele que mora lá em cima. eu quero ir embora. a qualquer momento. Quer um gole de whisky? (Joana bebe) Ei. E para vós é fácil passar frio. UM HOMEM – Silêncio! Alguém atira um trapo para Joana. Vós. o que deixei foi uma vocação. a Joana – Você está totalmente gelada. Ir para um quarto quente. Entre os que estão em cima e os que estão embaixo. A MULHER – Socorro. dona Luckerniddle? DONA LUCKERNIDDLE – Sim é verdade. é claro! É o cúmulo! Eles me roubaram até o chale! Quem foi o mão leve que pegou o meu chale? Devolvam-me imediatamente. ignorar aonde te leva a vida. E um ambiente. Mas a estrutura interna continua ignorada. imbecil!. chega! Você é boa mesmo de copo. Vós todos. não dormir. Os jornalistas. E os do alto gritam: Subam. dir-se-ia que é um caminho.38 Que não seja um nosso igual. Tenho fome e isso é banal. Quando eu cheguei aqui. A qual logo se nota claramente Que serve de gangorra Todo o sistema é como uma balança Na qual os dois lados dependem um do outro. desde fora. UM VELHO HOMEM. dê-me meu pano. o medo me aperta a garganta: Não comer.. Mas. Apesar de tudo. foi você! Não adianta mentir. Já basta. Mas. Eu não tinha sonhado que pudesse fazer tanto frio! Se eu tivesse pelo menos o meu agasalho! Ah! É fácil para vós passar fome. Para que estejamos todos no alto! Mas olhando mais de perto descobre-se. um emprego que me assegurava O pão de cada dia. Ficar aqui sem necessidade absoluta Parece-me um jogo indigno.

Felizmente temos a carta para mostrar a verdade. UMA MULHER – Devemos voltar para casa agora? UM TRABALHADOR – Quem nos garante que é verdade? Que haverá trabalho de novo? – E por que não seria verdade. Os jornalistas retornam. Os tanques deles vos esmagarão. JOANA – Mas estão atirando! UM OPERÁRIO – Pode ficar sentada tranqüilamente. Os matadouros são tão grandes que a tropa levará horas até aqui. Tu não compreendes nada de nada. OS JORNALISTAS – Olá. Não te movas! Entendeu? Ela sai. E sobretudo entendam bem Que nada se faz sem luta E sem a sua própria ação. JOANA – Quanta gente há aqui? OS JORNALISTAS – Uns cem mil. Nessas condições o trabalho voltará muito em breve aos matadouros. DONA LUCKERNIDDLE – Não digas tais tolices.39 OS TRABALHADORES: Fiquem. (Ela se levanta) Eu vou avisar aos nossos que os boatos já começaram a circular. com a carta. Não ficaste tempo suficiente aqui. A não ser a proposta Que leve a mudanças verdadeiras. JOANA: Tanto assim? Oh! Escola desconhecida. JOANA – Oh! A boa nova! DONA LUCKERNIDDLE – Vejam as mentiras sobre as quais nos alertaram. aconteça o que acontecer. acaba de cedê-lo aos fabricantes. o seu sucesso foi formidável: nós ouvimos que Pierpoint Mauler. Que barulho é esse? UM JORNALISTA – São as metralhadoras. O que aprendeis? OS TRABALHADORES. Se combaterdes. E nós vos dizemos: combatei. Agora as fábricas reabrirão. Quando se falou com ele como a um ser humano Ele deu uma resposta humana. se esses senhores estão dizendo? Sobre um assunto como esse não se brinca. o milionário que dispõe de muito gado. mocinha. Mas tu. Então a bondade existe. Havia entre eles pelo menos um homem honesto E ele não falhou em seu dever. espera. Não se separem! É apenas ficando todos juntos Que poderão ajudar uns aos outros. JOANA: Escutem todos! Há trabalho. Classe cheia de neve e que as leis ignoram. no fundo do palco: Se ficardes agrupados Eles vos rebentarão. É preciso fazer com que se calem os agitadores que incitam à violência. Esse combate será perdido E talvez perdido Ainda o próximo combate Mas vós ireis aprender a combater E aprendereis pela experiência Que nada se faz sem luta E sem a vossa própria ação. E nós vos dizemos: ficai agrupados. O coração deles não é de gelo. ainda que os preços continuem a subir. A tropa foi encarregada de evacuar os matadouros. de jeito nenhum. Não creiam em nada e não escutem ninguém. no frio. Que tem a fome por mestre e onde a miséria Fala implacavelmente da necessidade! E sois cem mil alunos. JOANA: Parai! Chega de aprender essas lições! JOANA . Ao longe as metralhadoras crepitam.

William. Ou que engendrasse a violência. UM OPERÁRIO. Eles procuram alguém que não encontram e vão embora. Ela se levanta e sai. Chegam três operários. é imensa! Mais uma noite como esta. Mas assim. e ninguém Poderá manter a sua calma. No terceiro dia sucumbiu. os astros sem harmonia Já não seguiriam sua órbitas. voltando – Nada além de mentiras! Onde foi a moça que estava sentada ao meu lado? UMA MULHER – Partiu! UM OPERÁRIO – Desde o começo eu disse que ela iria embora quando começasse a nevar de verdade. No lodaçal dos matadouros. Nada de bom pode surgir da violência. Isso seria desleal para com os outros homens. eu digo. que eles ainda poderão ter uma surpresa. Para este homem. Eu digo: na escuridão se acumulam As violências e as questões nunca resolvidas. eu preciso ir. mas agora a coisa está terminada. . aparece uma inscrição: A neve começa a cair. Eu assim não poderia viver. Quem agisse assim se sentiria perdido. estão muito enganados. Com seu silêncio opressor. Joana tem uma visão. Seu sucesso foi grande. UM OUTRO OPERÁRIO grita para o grupo que se afasta – Assassinos! OS OPERÁRIOS – Se eles acham que assim irão parar as coisas. Enquanto o fraco ao fraco se alia. Sobre sua cabeça. Eles saem. conduzidos por policiais. JOANA: Os que me entregaram a carta. Ela se vê com roupas de criminosa. OS OPERÁRIOS – Estão trazendo os sindicalistas. Por três dias viram Joana em Packingtown. OS JORNALISTAS – Nós a aconselhamos a sair dos matadouros. eu seria como eles e não faria perguntas. Há muito tempo que já está tudo arranjado. Vós. Do fundo ouve-se gritos que se aproximam. Os dois dirigentes operários passam. Toda inocência tê-lo-ia abandonado. A tentação. algemados. vós estivestes juntos Longas noites. Apartado em um mundo Tornado para ele estrangeiro. Violar as regras em uso. Direis que fazia muito frio. Enquanto a noite cai. DONA LUCKERNIDDLE. No final o lodo a engoliu. E aprendestes A alimentar friamente terríveis pensamentos. esta carta? Eu não saberia fazer nada Que requeresse violência. ao longo dos anos.40 Que gélidas elas são! Não é pela violência Que se combatem a desordem e a confusão. Quem o comerá? Eu vou embora. Os operários se levantam. para um dos dirigentes presos – Não liga não. Perseguidor perseguido E não mais sabendo ver sem desconfiar. E é por isso que parto. Viram-na descer de degrau em degrau Para em água límpida a lama transformar e aos humildes Aparecer. Mas o prato que se prepara aqui. Dia após dia ela desceu. longe do mundo que lhe é familiar. Por que foram presos? O que ela contém. Começa a nevar. Eu não sou um deles. as palavras teriam outro sentido. Se desde a infância o peso da miséria e da fome me tivessem ensinado a violência. Ela continua sentada.

É o que está escrito. cocô de cachorro: Que torna a permanência difícil. Escolhido como material.. E ninguém quis. Agora eu estou livre. E a vocês eu despeço Pois da pobreza eu cruzei a fronteira. Passa um vendedor de jornais Ei! Jornal! Vejamos o que se passa na Bolsa de Carnes. UMA ESQUINA EM CHICAGO MAULER. Parece-me Que contratei dois idiotas. UM DOS SEGURANÇAS. saindo – Bom. modificam tudo. a dona Luckerniddle reencontra Joana. a um de seus seguranças Parem. Até o reino do espírito. preto no branco. Doravante Não há mais ninguém que me queira matar. o mais vasto. Assim foi conseguido.. então. um objetivo que eu saúdo E que muito me alivia. são os mais atingidos. hoje restarão No chão as pedras. nada mais posso fazer por eles. A mim ela vai elevar às mais altas esferas. Sem que eu tenha procurado. mas o arquiteto teria. Há resistência. Sou conhecido nos matadouros. MAULER: Se a desgraça abate ao homem sem caráter. os pobres. UM LUGAR DESERTO NO BAIRRO DOS MATADOUROS Neva. Até mesmo aos matadouros. Pensar não serve para nada. Só porque duas ou três vezes eu dei meia volta. De agora em diante. Perto dos matadouros. Ter construído a maior cloaca do mundo Constituirá a sua única glória. Eu disse: meia volta E tu riste. . que todos os fabricantes Quebraram juntos e saíram do mercado. Eu tenho as minhas razões. Slift. Vejam o que leio. Que nós construímos em nossas grandes cidades Sem importar o custo. Ele lê e empalidece. OS DOIS SEGURANÇAS – Então podemos ir? MAULER: Podem E eu também posso ir aonde queira. O mais prático também. impresso. mais de vocês. não lhes parece? Ah! Eu repito Não fiquem enchendo a cabeça com idéias. meia volta. em suor e em dinheiro. Não preciso. Seja por aberração. Não é para pensar que eu vos pago. aqui sob meus olhos. Na borrasca. Sem nenhuma exigência. preto no branco: O gado está a trinta e ninguém compra. Pierpoint Mauler cruza a fronteira da pobreza 8. Mauler e seu amigo. façamos meia volta. Este homem está perdido. Cedi meu gado a qualquer um que o quisesse. Está dito. Aquele que sai de tal imóvel. seja por economia. dele se diria Um prédio construído com grandes despesas. Aquela que eu procurava terá tido o bom senso De sair das profundezas onde o inferno se instala. ainda atiram. Assim espero. Mas vejo que estão pensando. 9. Tem certa razão de estar alegre. em cima. o que foi? Riste. Em todo o caso. Essas notícias.41 Pergunta feita: quem ficará? Como nos outros dias. Basta. confessa. Vejam. Quanto a este edifício.

fraqueza do corpo! Oh fome. A pedra não perdoa. Que sentimentos em nós deixareis sobreviver? . Dê a carta aqui imediatamente. Ainda mais que amanhã todas as empresas de Chicago iriam declarar a greve geral. Um lixo. AS VOZES: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. O SEGUNDO OPERÁRIO – Isso é grave: sem dúvida uma parte das ligações não funcionou. UM OUTRO LUGAR Correndo em direção ao centro da cidade. JOANA. Nela estava nosso destino. Errando pelos matadouros. Muitos operários teriam ficado se soubessem da notícia. caindo de joelhos: Luz. mas entregue. isso é o que tu és! Dê-me a carta que te confiaram. Joana ouve vozes. estás aí! Onde tinhas te metido? Entregaste direitinho a carta? JOANA – Não. Por este buraco fogem todos os peixes. O PRIMEIRO OPERÁRIO – E aqui nós não ficamos sabendo.42 – Ah. oh verdade! Que a neve em tempestade Inoportunamente mascarou com sua noite. Pierpoint Mauler as arruinou. Tu não a entregaste. As massas não deveriam ter se dispersado. precisas chegar! Joana olha ao redor. JOANA – Não. para poder se apresentar amanhã bem cedo ao trabalho e de repente eles falam que as fábricas nunca mais abrirão. Tudo está voltando ao normal agora. Eu vou embora. Eles teriam ficado apesar da violência da polícia. Joana cruza com dois operários de quem ouve a conversa: O PRIMEIRO OPERÁRIO – Primeiro eles fizeram correr o boato que as fábricas reabririam a todo o vapor. Que nada diga. eu não a darei. Lá dentro só se fala em violência. podias dar conta. Cumpriste a missão? Joana volta a andar e uma nova voz a detém. DONA LUCKERNIDDLE – Ora essa! Para ti está tudo normal! E eu que disse que tu eras honesta! Sem isso não teriam te confiado a carta. Ao que tropeça e cai. É inútil tentar pegar. Como se rede já não houvesse. (Joana desaparece na tempestade de neve) Hei! Venha! Ela foi embora! DONA LUCKERNIDDLE 10. Uma parte dos operários saiu dos matadouros. Claridade que então eu deixei de ver! Oh! Quem conhecerá o poder da neve! Oh. Joana. Mas a carta que trazia a verdade. de uma missão. Nós te encarregamos. Sem récitas inoportunas dos seus infortúnios. Mas tu és uma traidora e teu lugar é com eles. Nós não sabíamos quem eras. ela procura se livrar das vozes que ouve de todos os lados. Anda em outra direção. DONA LUCKERNIDDLE – Eu devia ter duvidado. OUTRA VOZ: Joana pára. De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. UMA VOZ – Lá onde te esperam. O SEGUNDO OPERÁRIO – Os comunistas é que tinham razão. Mas também podias nos trair. Aquilo que lhe foi confiado. mas a senhora quer continuar. De tua missão. A VOZ DA DONA LUCKERNIDDLE: Eu fui a tua fiadora. E aquele que chega a bom porto. UMA VOZ: Não há desculpa Para quem não chega. Joana pára.

Ah. É Mauler. Para nos salvar neste instante. UM HOMEM. Uma boa orquestra à mão e sopa Bem grossinha: terminam para Deus todas as preocupações. posto que sem abrigo. é tudo o que eles querem! Aqui não tem mais sopa! Aqui só tem a palavra de Deus! Ouvindo isso eles vão logo embora. com certeza! Ele já está a caminho com os seus milhões! UM CHAPÉU NEGRO – Bispa. a qualquer momento. E nós gritamos à plena garganta: Ah. Ele sai. veio nos dizer que Mauler em pessoa estava disposto a assumir o nosso aluguel e a organizar conosco uma grande campanha em favor dos pobres. Mas nós o estamos esperando. afastada do trabalho. O HOMEM – Os fabricantes de conservas querem falar com ele e os criadores o chamam aos gritos. BISPA SNYDER – Sente lá atrás e fique quieto! Ele se senta. onde iremos acomodar o nosso público? Chega um pobre. Pediram-lhe cem dólares. agora os pegamos. O reino de Deus está pronto na minha cabeça. que aliás é muito barato. nossa boa cidade. OS CHAPÉUS NEGROS: Estão levando. que já se afunda! Mas o rico Mauler virá. a outro Chapéu Negro – Há três dias um emissário de Pierpoint Mauler. coloque os móveis na rua. com sopa quente E um pouco de música. Exposta outra vez à neve. MAULER – Eis aqui um homen marchando até o seu Deus. o senhor Pierpoint Mauler. Liberada.43 Frio da noite. no céu e no inferno. DONA MULBERRY – Bispa Snyder. BISPA SNYDER. X Humilhação e assunção de Pierpoint Mauler TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS MARTA. entrando – Pierpoint Mauler está aqui? BISPA SNYDER – Não. Vejam que já balança. Quero que a senhora pague o meu aluguel. MAULER. que prometeu nos ajudar. o banco dos penitentes! E já suas mãos avidamente se dirigem Ao órgão a vapor e ao púlpito. ele possuía dez milhões. Este homem que foi em sua vida Mais estúpido do que um vagabundo bêbado e repugnante. Ele se levanta e avança até os Chapéus Negros. que triste. investindo contra ele – A sopa. DONA MULBERRY – Meu caro Dick. De um só golpe o bolchevismo também é enterrado. OS CHAPÉUS NEGROS: Romperam-se os diques da fé Em Chicago. Conheci bem um homem. Um homem começa a levar os móveis para a rua. quem vos pode resistir? Eu preciso dar meia volta! Ela retorna sobre seus passos correndo. o rei da carne. minha cara Mulberry. Buscam-no por toda a parte. na frente do palco : Ouvi alguém procurando um certo Mauler. se ele pudesse vir. Eu o conheci: era um imbecil. à chuva. Sob um plúmbeo zênite de destinos desconhecidos. estamos aguardando. A massa espera. BISPA SNYDER – Dona Mulberry. Salvar-nos com o seu dinheiro! BISPA SNYDER Há exatos oito dias Que nos matadouros onde as máquinas enferrujam. o suntuoso Mauler. é sábado a noite. ou que deixe o imóvel. E as ondas de lama do materialismo Ameaçam a casa de Deus. .

Os músicos tocam um hino. seguindo a letra por sobre o ombro de um dos Chapéus Negros. Passar bem. Por sete dias apertei a garganta Desta cidade até sufocá-la. DOIS MÚSICOS: Um pedacinho só. OS CHAPÉUS NEGROS – Ele já chegou? MAULER: Um hino. Sentados sobre seus últimos bancos e suas últimas cadeiras os Chapéus Negros cantam desordenadamente seus últimos hinos. eu vos rogo! Pois eu sinto O coração ao mesmo tempo leve e pesado. inclinado sobre os livros de contabilidade – Não direi o que estou calculando. Culpado. Ele pega dois Chapéus Negros pelo braço e senta-se com eles no banco dos penitentes. Não podemos mais pagar as nossas contas. OS MÚSICOS: É deste aí então que vocês esperavam O dinheiro para nos pagar? Então nós vamos embora. BISPA SNYDER. Envolvamos em nossas bandeiras derrotadas Os livros de cânticos. BISPA SNYDER Silêncio! Fora. sem nada. Mas quebrou a nossa cara De uma vez por todas. Ouçam então a minha confissão: Aqui jamais se ajoelhou Ninguém. meus amigos. Abusado da força e espoliado todo o mundo Em nome da propriedade. que tenha caído tão baixo. já. E esse gesto tocou os nossos corações. Joana. MAULER: Eu me acuso de ter explorado o meu próximo. Tiremos de nossas paredes as máximas. Aqui estou agora. Todos os pagamentos estão suspensos.44 No fim. dirigindo-se aos músicos que vão embora: Nossas orações eram pelo rico Mauler E foi Mauler o arrependido que entrou. OS CHAPÉUS NEGROS: Não perca a confiança! Homem de pouca fé! Ele virá. deu cabo de si mesmo. Sentados sobre as margens do lago Michigan. gritando – E sem dinheiro? (Aos Chapéus Negros:) Façam as malas. Eles cantam ainda “Entrai na batalha”. Se aproxima já Com os seus milhões. CORO DOS CHAPÉUS NEGROS. Diante de vós. Os Chapéus Negros cantam. Silêncio! Tragam-me o livro das faturas e contas por pagar: estou nessa parte. todos para fora! A Mauler: E tu primeiro! Onde estão os quarenta meses de aluguel Desses não-convertidos que Joana enxotou? E vejam só o que ela me trás em troca! Devolva-me. BISPA SNYDER. Jogou no mar seus milhões. é certo. Ele trazia o seu coração. eu vejo. construir vossa casa . e dilacerado de remorsos. mas arrependido. E sobre nós a neve envia suas tempestades Em um inverno no qual crescem os rigores. olhos voltados para a porta. ar ausente. BISPA SNYDER – Tu és Mauler? MAULER – Sim. recusou-se a dar o dinheiro. sim. Mauler! MAULER: Mas quero acrescentar que no sétimo dia Fui despojado de tudo. UM CHAPÉU NEGRO – É ele. não o seu dinheiro. Mauler canta com eles. Apenas nos resta chorar. devolva-me os meus quarenta aluguéis! MAULER: Vós desejais.

e sobre nossas cabeças. Mas se chamássemos de homem àquele a quem se ajuda Daria no mesmo: necessitaríeis sempre De gente a ponto de afogar-se. Slift apertou Ainda mais forte a nossa garganta. Mas nós estamos perdidos: Em torno de nós. E hipotecando até o último lápis Para trazer de Quebec. Eu sei muito bem. Subiu os preços a noventa e cinco. Ah! Se não tivesses aliviado tanto os nossos bolsos. Os complexos pensamentos de vosso imenso espírito. eles iriam trazer. Eles também estão muito pálidos. Loew e Lévi. que fareis? Entram os criadores em grande agitação. O que pretendeis fazer de nós? Foste vós. Prometiam até o gado por nascer. Concluo eu o seguinte: o Mauler que sou Não é aquele do qual precisais. com voz dura. é aqui então que te escondes? Paga nossos bois ao invés de fazer penitência. Acorreram todos em ajuda. Ninguém jamais pode fugir da lei. partistes. OS REIS DA CARNE: Perdoai-nos. Mas Slift. O Banco Nacional gritou: “Alto”. como um bêbado sedento Que ao mar esvaziou sem se satisfazer E lambe avidamente cada gota que encontra. Que não ficou só por muito tempo. . E Wallox e Brigham. E sobre eles atirou-se. em poucas palavras. Bispa. Mal viu esses bois vindo ao longe. Em três dias. comprometendo suas casas. Mauler. Dais o nome de homem a quem vos vem ajudar. paga-nos o gado! GRAHAM. OS CRIADORES: Maldito Mauler. Viram-se os preços Oscilarem. e a noventa e cinco Comprou-os todos. Que vos pertencia. o caos. tomado de loucura. Pelos contratos que nos obrigavam A entregar de imediato as conservas prometidas. Vossa função seria apenas a de brincar na relva. os reis da carne vêm ao seu encontro. Este espetáculo atroz apavorou o ancião. Era vosso todo o gado. salva tua alma. Estão pálidos como o linho. chorando. Que projeto tendes agora. desde a aurora. Não terias a necessidade de aliviar aqui A tua consciência. hesitantes. Na porta. da Argentina. Lançou. o que existisse de gado. Por vós fomos forçados. ao meio-dia. a comprar gado. No ciclo dos astros ou das mercadorias. Para mim o humano era aquele a quem eu podia explorar. Quando. Que a constatação vos enche de amargura. No mercado perturbado. quem nos derrubou. Ele tenta sair. agigantou-se E a todos nos precipitou no abismo! MAULER: Oh! Eternos combates! Em nada são diferentes Desde os tempos antigos onde os homens Com uma barra de ferro rachavam-se as cabeças! GRAHAM: Recordai que estávamos à vossa mercê. durante sete horas. Mauler. Mauler. E tudo o que de longe parecesse um boi. Dá o dinheiro. assumindo seus deveres. por ter vindo Atrapalhar neste lugar as tuas meditações.45 Sobre o que há de pior em mim. nobre Mauler. Um zênite ameaçador de pensamentos desconhecidos. gado canadense. tomando a frente : Mauler. O ancião venerável. Um vitelo ou um porco. Relatarei o combate memorável Que. firmas de grande renome.

Que nos píncaros se encontrava. Institutos de crédito. Ouviu-se nesse dia os jovens estagiários. de imediato.E a voz ainda nos alcançava Mesmo com a balbúrdia dos trens que partiam: . em um suspiro.46 Mas Slift gritou: “Três dias não. se por um acaso Um elefante se arriscasse pelo interior da Bolsa. E nós comprávamos sempre: Nós precisávamos comprar. o velho Lévi disse então em voz baixa. Rangerem os dentes. Nós queremos que nos digas Como. Estão satisfeitos? OS CRIADORES: Há pouco tempo. Lutavam a dentadas. Lançaram-se um a um nesta última batalha. com olhos marejados. O que fazer. E em silêncio também os bancos desmoronaram. por sua indiferença. Como definha uma esponja espremida. Com esse chapéu e este sapato: Dez milhões o chapéu. comprar. e os preços subiram. mudos. ele ao menos vale vinte e cinco centavos. Só um. E os jovens bois de pêlos reluzentes Engordados com tanto cuidado. agora. tomados de desespero. Inúteis portanto. diga-me. fomos estrangulados E de que adianta estrangular um cadáver? MAULER: Foi assim então. é sabido. Com esse gado que ninguém é obrigado a comprar? OS CRIADORES: Sem querer perder a paciência. Célebres. O sapato. bancos. que travaste a batalha Que deixei a teus cuidados! SLIFT: Corte-me a cabeça! MAULER: E de que me serve tua cabeça? Dá-me o chapéu. os agentes fechando suas escrivaninhas. MAULER: Agora mesmo.. Casas até então sólidas e poderosas. Sob nossos olhos. Vertiginosamente. golpeia um corretor na barriga. Slift. Como a água que cai na cascata. E como contratos nulos não impõem compras. os vívidos vitelos. Os corretores. isto é. E viu-se. Aí está o que tornou o contrato sem valor Apertastes muito forte. Porque não mais podemos honrar os contratos. Slift então gritou: “Cem”! Poderia ouvir-se um alfinete cair. baixou. De cotação em cotação Os preços caíram e rolaram até os negros abismos. de rocha em rocha E somente em trinta a queda parou. Toda a família nos gritava de longe Com a voz embargada pelo trabalho duro . na batalha. os cavalos inimigos. E Brigham arranca a barba aos gritos: “Noventa e seis”. Até os simples contínuos. Eu quero para hoje”. paravam de viver. um a um. Parando de pagar. entrego por cinco. a carne de boi. E que não foi ainda acertado. Naquele instante. Seria esmagado como um morango no chão. os fabricantes apáticos Depositarem a vossos pés suas fábricas fechadas. Em tudo semelhantes aos antigos corcéis Mordendo.. Lévi. e então se retirarem. Eles precisavam entregar. em um espasmo. obstinados. Mas alto o bastante para que todos ouvissem: Para pagar-lhes tomem então nossas fábricas. Lévi. quando e com que dinheiro Nos pagarás o gado comprado. quando levamos às estações De nosso longínquo Missouri Com muito sacrifício. Do outro eu preciso.

Jogai sobre vossos ombros o jugo. E dado que de vós necessitamos. esta caça fatigante. de Nova Iorque. Pois ainda creio ouvir O rumor dos matadouros. nobre Mauler. MEYERS – Quem são esses amigos de Nova Iorque? MAULER – Morgan. O projeto teria talvez. Rockfeller. nós lhe forneceremos amanhã mais detalhes. Como tudo de agora em diante Me parece diferente. é impraticável. Sancionado pelas instâncias superiores. Nossa pobreza é termos perdido O sentido dos valores mais elevados. conhecem um meio de sair desta. vocês estariam dispostos. para que os preços voltem a subir. entrando – Mauler está? Uma correspondência para ele. Agora.. pelo que dizem. nós estaremos de bom grado à sua disposição. rapazes. Seus bens.” Não. Alguma chance de sucesso. Estariam vocês dispostos a repetir aos quatro ventos . não bebam todo o dinheiro. Nem todos aqui em baixo poderiam ser ricos. Não. GRAHAM – Mas então é Wall Street? Um murmúrio percorre o ambiente. MAULER: Se o faço. compreendei. elas vão mal. Compreendido como sendo de interesse geral. Julguem vocês mesmos. De máximas sagradas e escolhidas com grande cuidado. O negócio só é possível. Seus amigos de Nova Iorque. MAULER: Ou seja. OS FABRICANTES E OS CRIADORES: Desejarias. Abandonai. De um asilo necessário para os casos mais graves. ao contrário. Caro Pierpoint. Neste caso. Pois os preços do gado vão subir. o que faremos. Mas para mim. amigos.. isso não é possível. a quem mandavam cartas desse tipo. nós aconselhamos a fazer um acordo com os criadores para reduzir o rebanho.. condescender. esperamos” E agora. Providos de sopa quente e de boa música. sozinho. GRAHAM – O que não é possível? MAULER – Tenho amigos em Nova Iorque que.(Ele abre a carta e lê de canto) “Escrevemos a você recentemente. pensai no caos Que ameaça a tudo engolir. E voltar até nós? Pensai. E o barulho das metralhadoras. caro Pierpoint. mostrando o lombo vazio E nossos bolsos também? Como. assumir a empreitada. voltar para casa? O HOMEM DE ANTES.. para que comprasse carne. MAULER: Em nós a consciência. é muito a contragosto. Não ter fartura de bens terrestres. Como voltar para nossa terra? E que diremos a eles. mas são numerosas. A Snyder: Existem muitas dessas lojinhas Onde se vende a Bíblia? BISPA SNYDER – Sim? MAULER – E como elas vão? BISPA SNYDER – Mal. Mas se fizéssemos uma grande promoção De sua instituição. estão para sempre perdidos.47 “Ei. Se assim fosse concebido. Ele estende-lhes a carta. neste estado. Cuja voz está a tal ponto asfixiada. Mauler. Não quero. Mas nossa pobreza não é. MAULER – Eu costumava ser esse Mauler. Deixando as sublimes esferas onde meditais. Outra vez responsável. entendei.

dizem. Chapéus Negros. Nesse tempo de humanidade desumanizada. OS FABRICANTES – Que cérebro! MAULER. aos fabricantes: Faremos uma fusão de suas indústrias Em um só monopólio. Nós o faremos. é claro Que entre vocês estivesse Joana. Então. queimar um terço do gado existente. ou melhor: quase todos Mas é o único meio de salvar o sistema De vendas e compras no qual vivemos. É preciso limitá-la. Eu fico com a metade das ações. é lógico. para puxar os preços. mas se o gado tem tão pouco valor Que pensam em queimá-lo. Eliminar o estoque excedente atual. Limitar o rebanho oferecido no mercado. Não tem outra causa a não ser Que há carne demais. Esta dificuldade pela qual estamos passando Está a ponto de ser superada. Meter um freio à anarquia da criação. Será preciso demitir um terço dos operários: Também de mão de obra o mercado está saturado. O mercado foi saturado este ano. Toda essa gente aí fora: Eles são os nossos compradores! Dirigindo-se aos outros: É incrível. Elas trarão a calma e a ordem. . Miséria e fome. quebre suas ferramentas E destrua assim seu próprio ganha-pão. Digamos: a maior parte. MAULER. TODOS – Não há outra saída! MAULER – E também precisaremos reduzir os salários! TODOS – É o ovo de Colombo! MAULER: Qual o objetivo dessas medidas? Nesta noite de sangue e confusão. aos criadores : Escutem. Seria muito importante. criadores e industriais. que nós subvencionaremos Fartamente a sua missão que contribui Com a manutenção da ordem. E é por isso que os preços caíram a zero. é eminente -. TODOS – Que solução simples! BISPA SNYDER. que deseja Fazer o bem. você não compreendeu A questão de fundo. E mesmo que muitos não compreendam. nesses tempos de desgraça? Pois serão necessárias medidas draconianas Que poderão parecer duras porque irão Derrubar alguns e. Em que em nossas cidades os problemas não têm fim. mais ainda. Eles podem nos parecer inferiores. mas olhando bem Quem vê além das aparências das coisas. desordem e violência. supérfluos. meus amigos! Eles cochicham. É por isso. E às vezes inoportunos. Vê que são eles os compradores! Seja como for. Em conjunto. BISPA SNYDER – Quase todos. pedindo a palavra: Perdão. Eu compreendo o senhor. não poderíamos Doá-lo àqueles que esperam lá fora E quem sabe utilizá-lo melhor? MAULER. nós decidimos. . sorrindo: Minha cara bispa. tem seus defeitos. ofuscado. Enfim.48 Que nós somos uma gente valorosa.Pois eis Chicago outra vez agitada A greve geral. Elas impedirão que em sua brutalidade Um povo. Todos sorriem longamente. E que.

sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Todo aquele que aqui entrar. Ela então ouve. Imóvel. SNYDER – Abram as portas! A porta principal é aberta. Passam apenas alguns grupos de operários. Até nós. Foram presos os sacrílegos que perturbavam a paz e a ordem! SLIFT: Podem respirar. UM CORRETOR. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Vamos. olhar fixo na porta: Eles terão de vir. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Tranquem as saídas. dois homens conversando. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! XI NOS MATADOUROS EM FRENTE AO ARMAZÉM DAS FÁBRICAS GRAHAM Os matadouros estão quase vazios. MAULER: Abram agora a porta principal Aos homens cansados e cheios de preocupação. não deixaremos! Sejam bem-vindos. Eles vêm até nós para chorar. JOANA. Nenhum deles tem chapéu. UM DELES – Quem são eles? O OUTRO Nenhum deles Pensou só em si mesmo. apanhem-nos! Sejam bem-vindos. estão chegando! Daqui eles não escapam. a seu lado.49 Cuja face por si só já inspira confiança. OS CHAPÉUS NEGROS. Ninguém pode escapar: tranquem as saídas. De sopa encham os pratos. entrando precipitadamente – Escutem a boa nova! A greve que nos ameaçava foi sufocada. Passam então os dois dirigentes operários escoltados por soldados. o mercado vai ser curado! Outra vez saímos do ponto morto E realizamos uma obra difícil. Toquem a música e nós mesmos Seremos os primeiros a nos sentar Para elevar nossos corações a Deus. penteados e carecas. Eles combateram Pelo pão dos outros. cantam. Perseguidos sem trégua. joguem as grandes redes! Sejam bem-vindos. para que nenhum escape! Eles estão a caminho. estamos prontos! Já estão chegando! A miséria os traz aqui como um rebanho! São obrigados a vir. Os que aqui chegarem. apanhem-no! Lazarentos e descalços. chega e pergunta – Vocês viram passar três homens que vinham buscar uma carta? Ao fundo ouve-se gritos que se aproximam. Quando perdem o trabalho. UM DELES – E por que foram presos? . joguem as grandes redes! Eles saíram agora de sua última casa! Deus lançou sobre eles o frio! Deus lançou sobre eles a chuva! Eles terão de vir. Música de órgão. As coisas retomaram o rumo que nos agrada. Joana segue com o olhar os prisioneiros. Quando estão cegos e surdos. Sejam bem-vindos. eles chegam até nós. Nossos planos outra vez se impõem.

Recolhida doente Nos matadouros. a sorte nos sorriu. chega ao termo de sua vida. o salário também. pisoteados. JOANA. como se ainda quisesse entregá-la: . Em nós podem por fé. Seu último endereço Teria sido aqui. que seguram bandeiras novas. Deixem ela aí no chão. E a carne vai subir. XII EM FRENTE AO ARMAZÉM DA FÁBRICAS GRAHAM Um grupo de operários entra. Não. Um deles a derrubou com uma coronhada. Ou de malfeitores postos na cadeia. Era uma velha operária. As fábricas reabrem. UM DELES – Por que não se ouve falar deles? O OUTRO O OUTRO greve. Todos perecem antes do tempo. – Ela deve estar aqui. Um grupo de pobres entra. esticando o braço com a carta na mão. não é ela. XIII MORTE E CANONIZAÇÃO DE SANTA JOANA DOS MATADOUROS Agora o templo dos Chapéus Negros está ricamente mobiliado. e a esta a polícia dispersou com o uso de força. amparada por um policial. Joana cai desmaiada. Deus outra vez se impôs. entretanto. UM DELES – O que farão com eles? O OUTRO: O salário deles é baixo e seu trabalho útil à maioria. A decisão sobre a greve geral só chegou a uma parte deles. JOANA – Os operários concordaram? OS JORNALISTAS – É claro. Ela veio daquele lado e aqui ela gritou para os nossos que as empresas municipais iriam decretar OPERÁRIOS Sim. As rajadas de neve a impediram de ver os soldados. Divididos em grupos estão os Chapéus Negros. saiba que são eles. Nem é enterrado com decência. O POLICIAL: Eis aqui uma sem-teto. carregando lanternas. não é a nossa Madona dos matadouros? Hei. Nós soubemos ser sublimes E vulgares quando necessário. UM DELES – Sempre será assim? O OUTRO – Não.50 – O homem injusto atravessa a rua à luz do dia. SNYDER: Quando nos jornais falarem de criminosos abatidos. Nenhum. você aí! As coisas deram errado. Golpeados. Joana se vira. A greve geral fez água. Aqui está! Seriam necessárias muitas como ela. Nenhum morre de barriga cheia. foi reduzido em um terço. à sua frente. Nenhum come seu pão tranqüilamente. mas apenas para dois terços dos operários. Esta aqui não é das nossas. OS JORNALISTAS – Vejam só. Durante alguns segundos eu a vi distintamente. os jornalistas a interpelam. os açougueiros (fabricantes de conservas) os criadores e os compradores. Quando os soldados vierem a recolherão. Lançados em terra profana. Nos vales e nos cimos. mas o justo se esconde. Enfim o sucesso chegou E tudo acabou bem. Joana.

E eu não fiz! Enquanto os pobres tomam assento nos bancos para comer a sopa. Quando se poderia ter alterado o curso das coisas. SLIFT – Esta é nossa Joana. O ideal. eu poderia levar. e ultrapassa o objetivo.51 Jamais receberá a carta Aquele que agora está morto. Foi necessário. Nós faremos dela uma santa e não economizaremos em homenagens. Que Joana exorcize o mal E que por nós ela interceda. A vida tranqüila de um cordeiro. Vamos colocá-la em destaque. na noite. E tinha sonhos para milhares. a quem não se pode mais explorar! Comei a sopa! Ah. quais os gritos que abafas? Comei vossa sopa! E não desperdiceis esse resto de calor. marchava para a luz! Seus atos eram os de um ser humano. E seus erros. MAULER: Uma alma que exala sublimes impulsos Suporta mal. infelizmente. Eu o neguei. JOANA: Eu falei em todos os lugares. Ela vai muito adiante. o infinito. toda a obra Onde o espírito não encontra. Se eu apenas tivesse entregue A carta que me confiaram! OS CHAPÉUS NEGROS. Eu faltei. Pelo contrário. pois ela nos ajudou a atravessar a tormenta dessas semanas difíceis. um serviço tão pequeno Foi só o que em toda a minha vida Me pediram para fazer. MAULER: Que tome posição em nossas fileiras Esta alma inocente e cândida E que sua bela e pura voz Misture-se aos cânticos de nosso coro. Eu falhei com os perseguidos. dando provas de humanidade nos matadouros. Slift discute com Snyder e com os fabricantes. Intercessora dos pobres. Por uma boa causa. empregando todos os meios. Consoladora dos baixios! JOANA: Que vento sopra nesses baixios? Neve. BISPA SNYDER: Levanta-te. por menor que fosse. intercedendo pelos pobres e mesmo proferindo discursos contra nós. Mostrá-la entre nós provará o quanto nos importam os sentimentos de humanidade. E em sua marcha altaneira Para evadir-se ao mundano. OS CHAPÉUS NEGROS: No final. Chegou na hora certa. E só servi aos perseguidores. Quando o meu esforço. Matéria a sua altura . sua térrea natureza. Ela será a nossa Santa Joana dos Matadouros. Ela que. E outra vez o mundo Percorre o antigo ciclo. dirigindo-se a Joana: Como ela ainda está perturbada. também humanos! JOANA. Joana dos Matadouros. Desta vida intolerável E atingir o inconcebível. enquanto as moças dos Chapéus Negros a vestem novamente com o uniforme: Ouve-se outra vez o rugir das fábricas: Outra vez se desperdiçou a chance De colocar um freio a esses excessos. Vós.

No topo e no chão. Mas nada mudará se eles melhorarem. ignora-se o que se passa em baixo. Que ninguém seja tido como honrado. Não tenhais a preocupação de terem sido bons . Contrário à razão. E o que se passa no alto. O que está em baixo tem grande importância. Quaisquer que sejam as aparências. E dois idiomas diferentes Os homens têm a mesma face E não se reconhecem mais. para os exploradores. a Joana: Seja boa e se cale! . O que está em cima está em seu justo lugar. E sem descanso nem folga Realize seu dever. Deixando sem medo um mundo por onde passei muito rápido. qualquer que seja. então. Nunca se sabe em baixo. JOANA: Pois entre os de cima e os de baixo O abismo é mais profundo Que entre o Himalaia e o fundo do mar. Mas que não sabem o quanto. como do topo. fique no lugar Que lhe é atribuído. A esses elementos dos baixios! JOANA: Mas os que estão por baixo são assim mantidos Para que os de cima lá continuem. dois pesos e duas medidas. o que foi que eu fiz? Nada. Se não for uma ajuda real. Eu. Exceto aquele que muda o mundo Definitivamente: isso é o que é realmente necessário. Maldito aquele que apelar A essas massas essenciais Mas sempre insaciáveis. OS CHAPÉUS NEGROS. caí do céu! Infelizmente! Bondade sem conseqüência! Sentimentos Que não fizeram a menor diferença! Não. de maneira a encobrir a voz de Joana: Para que até o céu se levante o edifício.Isso não basta – Deixai um mundo bom. Que nada seja considerado como boa ação. Pois se dele esquecer Perturbará nossa harmonia. eu não transformei nada.52 Resta fragmentada Sem alma e sem vida. Eu vos digo: Quando chegar a vossa vez de deixar esse mundo. Mas também no alto. é magnífico Sempre que espírito e negócios se aliam. Não esqueçamos que ela esteve nos matadouros. Precisa-se do chão. Que cada um. Sistema bestial. GRAHAM – Ela não pode proferir discursos que não sejam razoáveis. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES. OS FABRICANTES: O resultado. falando alto. Entre os do alto a baixeza é sem limites. JOANA: É uma grande verdade Que aprendi e que vale para todos E morrendo eu vos digo: Vossos bons sentimentos. A essas tropas indispensáveis. Porque o sistema é construído assim: É apenas exploração e desordem. que significam Se não se manifestam em nenhum lugar? De que serve vosso saber Se o que sabeis não tem conseqüência? Eu mesma.

Chegar ao topo implica Pisar na cabeça daqueles que estão por baixo. infelizmente. Todos. Aos ricos concedei a riqueza! Hosana! Também a virtude. vinte e cinco anos. cantam a primeira estrofe do hino. Não. sobretudo. A palavra de Deus.266 bilhões só em dez dias de março” “BC assalta U$ 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street” “Montadoras almoçam os R$ 8 bi do crédito e mantêm ameaça de demitir trabalhadores” “Deficit dos EUA deve chegar a US$ 9 tri entre 2010 e 2019” . SLIFT – Escutem. Falem. Não esqueçam. Sempre necessário . BISPA SNYDER – Joana Dark. a eles concedei! Hosana! A quem tudo possui. Não esqueças: tua consciência está lá! Atenção.Sobretudo se forem compras especulativas – Esse Verbo que. Em suas compras. ferir! OS CHAPÉUS NEGROS: Nunca esqueças do sangue que mancha teus sapatos. digam qualquer coisa. Precisarás deles sempre! OS CHAPÉUS NEGROS: Olha para cima. Sempre se metamorfoseia. Mas evita. Combatente e mártir. O Verbo magnífico. OS AÇOUGUEIROS: E nem pensa em tirá-los. MAULER: Deves agir. é verdade. mas que seja bem alto. Só dos homens pode vir ajuda. Denegrindo a ti mesmo. OS AÇOUGUEIROS: Podes fazer qualquer coisa! OS CHAPÉUS NEGROS: Mas faça-o Sempre com muito escrúpulo! Espírito contemplador. JOANA: E do mesmo modo. obedeça! OS AÇOUGUEIROS: Quem se mover no espaço Nunca poderá subir: Subir é subir sobre alguém. Onde vivem os homens. É preciso também golpear-lhes o crânio com uma pedra. ou seja.53 É preciso. de século em século. Que podeis elevar-vos moralmente Mesmo com os pés enfiados na lama. invisível. para abafar o discurso de Joana. os alto-falantes começam a transmitir notícias que espalham o medo: “Bank of America e Citibank estão de pires na mão” “Revolta contra os cupins financeiros conflagra Londres” “Múltis drenam do país US$ 3. tudo concedei! Hosana! Concedei-lhe a cidade e o Estado! Hosana! Aos vencedores. comerciantes. de esquecer os remorsos. Batei com uma pedra em seu crânio Até que arrebente. sempre mais alto. distingam com um sinal! Hosana! Enquanto eles cantam os versos. Onde reina a violência Não há outro recurso senão a violência. JOANA: Se alguém um dia vos disser Que existe um Deus. contraiu a serviço de Deus uma pneumonia nos matadouros de Chicago. Do qual podeis esperar ajuda. é preciso fazer algo para tirar a atenção do que ela fala. quando vos disserem.

a serviço de Deus. Hosana! Notam que Joana para de falar. na terceira vez ela o pega. mudos de emoção. vinte e cinco anos. MAULER – Dêem uma bandeira a ela. Hosana! Juntai vosso riso aos que riem. Pelo espírito. A um sinal da bispa. Aos astros. Hosana! Durante esta estrofe. Hosana! Oferecei a vossa graça. se não tivessem degolado tantos porcos!” “Criadores miseráveis. BISPA SNYDER – Joana Dark. Comove-nos profundamente. morta de pneumonia nos matadouros.” “Foram as tarifas das estradas de ferro que nos esfolaram. A voz de Joana já não se ouve: Concedei aos ricos misericórdia. por que não empregaram mais gente e pagaram melhores salários? Quem esperam que compre a nossa carne?” “Foram os intermediários que fizeram subir tanto a carne de gado. Por um nobre ideal. sempre ele aspira Às esferas mais elevadas. Hosana! Nesses braços que vos estendem. Hosana! Ajudai a quem tudo possui. Todos ficam muito tempo de pé. até cobri-la totalmente. tocada pela morte.” “Foram os especuladores de grãos que encareceram o gado. Infelizmente. Colocam a bandeira em suas mãos. A carne para a terra o arrasta! MAULER: Ai! Um duplo desejo dilacera meu pobre coração. Qual um punhal. que vos ajuda também. Hosana! Esmagai o ódio. ao firmamento Um impulso múltiplo o atira. Em seguida cai nos braços delas. Hosana! Com mãos cheias. Nós que temos a alma comum! E então desperta a boa alma Que temos no fundo de nosso coração. até o fundo cravado. as mulheres tentaram oferecer a Joana um prato de sopa. que manipulam o dinheiro a rodo.54 “Empresas dão calote recorde para remunerar seus acionistas” “Recessão ainda irá se agravar no Japão. mas ela cai. MAULER: Como a pureza De um ser inocente. foram vocês que se recusaram a reduzir também!” “Vocês são os únicos culpados!” “Enquanto não acabarem com vocês não vai melhorar!” “Faz tempo que o destino de vocês está selado!” “O que estão esperando para prender vocês?” Todos cantam a segunda e a terceira estrofes do hino. Hosana! Que seus crimes terminam bem. Hosana! Piedade com aqueles que ignoram a fome. levanta e vira. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES: Desde que o mundo é mundo. O palco é iluminado com uma luz rosada. por que criaram tanto gado?” “Alucinados. para sua grande pena. Não dá mais sinais de vida. Snyder e Mauler vão até ela. combatente e mártir. A generosidade De uma alma sem mácula. Em duas tentativas ela recusa o prato. sinto-me atraído: . colocam-se suavemente todas as bandeiras sobre Joana. Ajudai vossa classe. Um desejo vive no coração do homem. Bolsa de NY cai 4.7%” “Crise já eliminou 6 mi de empregos nos EUA” “Incertezas rondam fábricas da GM à beira do fechamento” Sob o efeito dessa terríveis notícias os personagens trocam entre si acusações e diversos insultos como esses: “Açougueiros sujos.” “Os bancos nos arruínam com os juros que exigem!” “Quem pode pagar tanto dinheiro para estocar o gado e pelos silos de grãos?” “Por que vocês não começaram a reduzir a produção?” “Nós começamos. diz governo ” “EUA mudam socorro para bancos.

Cuida de tua alma terna. como de tua alma grosseira. Ele precisa cuidar de ambas. desejo o altruísmo Mas à atração pelo lucro. não consigo resistir Inexplicavelmente! TODOS: Em cada homem habitam Duas almas opostas. Homem! Luta sempre contigo mesmo! Sigas sendo este ser uno e sempre dividido! Cuida de tua alma boa. Longe de querer escolher uma delas.55 Desejo a abnegação. como de tua alma vil. Cuida bem das duas! .

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