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I O rei da carne, Pierpoint Mauler, recebe uma carta de seus amigos de Nova Iorque CHICAGO. OS MATADOUROS
MAULER,

lendo uma carta. – “Parece-nos evidente, caro Pierpoint, que já há alguns dias o mercado da carne está saturado. E, no sul, as barreiras alfandegárias resistem a todas as nossas ofensivas. Acreditamos, portanto, ser prudente, querido Pierpoint, não mais envolver-se com este negócio...” Acabo de receber essas indicações de meus bons amigos de Nova Iorque. Lá vem meu sócio. Ele esconde a carta. CRIDLE – Por que esse ar tão sombrio, querido Pierpoint? MAULER: Lembra-te, Cridle, daquela caminhada Que fizemos uma vez, pelos abatedouros? Era noite. Diante de nossa máquina nova, Cridle, lembra-te, nós vimos um touro Claro e nobre, dirigindo aos céus seus grandes olhos vazios. Ele recebeu diante de nós o golpe que o abatia: E tal golpe me atingiu até o fundo do coração! Há sangue demais, Cridle, em nosso negócio! CRIDLE: Amigo, vens outra vez com tua antiga fraqueza. Quem acreditaria, Pierpoint? Tu, o maior de todos, O rei dos abatedouros, dos açougueiros o terror, A morte de um touro louro te enche de dor! Não conte, eu te rogo, tal segredo a ninguém A não ser a mim! MAULER: Oh, meu fiel amigo, Por que me levaste a visitar o abatedouro! Durante os sete anos em que estou no negócio

Eu evitei fazê-lo. Eu não posso suportar Um comércio tão sangrento, não tenho mais forças: Eu me retiro de imediato... Cridle, queres a minha parte? A terias por muito pouco; a ti, a preferência: Ninguém conhece o negócio como tu. CRIDLE: Muito pouco? Quanto? MAULER: Velhos amigos como nós dois Não podem disputar muito por valores. Dez milhões! CRIDLE: Não seria caro, se não houvesse Lennox Que, pela carne em conserva, lata a lata se bate, E estraga o mercado com seus preços baixos. Tirará nossa pele, se não tirarmos a dele. Enquanto ele estiver em pé, e só tu podes abatê-lo, Não posso aceitar tua proposta. Deverás, até lá, com tua mente fértil, Encontrar uma saída. MAULER: Não, Cridle, Esse coração treme ainda com o grito do touro! É preciso então que Lennox caia rápido, Pois quero, doravante, viver como homem de bem E não mais como açougueiro. Saiamos, Cridle, e eu te direi A forma de abater Lennox. Mas tu deverás então tirar esse peso do meu coração E tomar a frente de nosso negócio CRIDLE: Quando Lennox for derrubado Eles saem. II

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O desmoronamento das grandes indústrias da carne A - DIANTE DA FÁBRICA DE ENLATADOS DE LENNOX
OS OPERÁRIOS

Nós somos setenta mil Nessas fábricas de conservas E nossos salários são tão baixos que não podemos mais [sobreviver. Ainda ontem, de surpresa, reduziram nosso pagamento E hoje, um novo aviso: “Os que não estão satisfeitos, sempre podem deixar a fábrica!” Saiamos então, e todos juntos. Ao diabo esse salário que diminui todos os dias. Silêncio Há muito tempo já esse trabalho nos nauseia: Esta fábrica é para nós um verdadeiro inferno E só pode nos manter aqui o medo, O medo duplo, de Chicago e do inverno. Mas agora, doze horas de trabalho Já não garantem nem um pão seco Nem dão para comprar um trapo velho. Melhor partir E morrer de uma vez. Silêncio Pelo que nos tomam eles? Acreditam então Que nós somos gado, dispostos a tudo? Tomam-nos por jumentos? Melhor morrer! Deixemos a fábrica Agora mesmo. Silêncio O que houve? São seis horas! Por que não abrem, corja de esfoladores? Seus bois estão aqui, bando de açougueiros! Abram! Batem no portão.

Terão eles nos esquecido? Risos. Abram! Queremos entrar Em suas imundas pocilgas E suas cozinhas infectas Para preparar guisados indigestos Para os que ainda podem pagar. Silêncio No mínimo exigimos, O salário anterior, que já não dá para nada. No mínimo A jornada de dez horas e, no mínimo... UM HOMEM QUE PASSA: O que vocês estão esperando? Não sabem que Lennox fechou? Gazeteiros de jornal aparecem na cena GAZETEIRO – Lennox, o rei da carne, forçado a fechar suas fábricas! Setenta mil operários na rua. Lennox vítima da concorrência feroz imposta por Pierpoint Mauler, rei da carne e da responsabilidade social!
OS OPERÁRIOS

Desgraça! O próprio inferno Diante de nós fecha suas portas! Nós estamos perdidos. O impiedoso Mauler Aperta a garganta de nosso explorador E somos nós que sufocamos! B - UMA RUA – A Tribuna de Chicago, edição do meio-dia! O rei da carne e da responsabilidade social, Pierpoint Mauler vai inaugurar os Hospitais Pierpoint Mauler, os maiores e mais caros do mundo! Dois transeuntes olham para o fundo do palco, “vendo” Mauler. UM TRANSEUNTE, ao outro – Aquele é o Pierpoint Mauler. Mas quem são os dois que o acompanham?
GAZETEIRO

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– Seguranças. Só anda escoltado, com medo de apanhar de alguém.
O OUTRO

Para levar Deus ao coração de um mundo que desaba E nele restaurá-Lo, pela ação dos mais humildes. Os Chapéus Negros andam. Toque de tambores. Durante todo o dia os Chapéus Negros pregaram nos matadouros, mas, quando a noite chegou, os resultados eram quase nulos. DIANTE DA FÁBRICA DE CONSERVAS LENNOX – Dizem que eles estão preparando um grande golpe sobre o mercado de carne. Para nós isso que dizer esperar e passar fome. OUTRO OPERÁRIO – A luz está acesa nos escritórios. Estão lá, calculando os lucros. Chegam os chapéus Negros. Fixam no chão uma placa na qual se lê: “Hospedagem: 20 centavos por noite. Com café: 30 centavos.” CHAPÉUS NEGROS cantando Escutem todos, escutem bem! Tu que te afundas, nós te vemos, Teu apelo por ajuda, nós o escutamos, Teu sinal, nós o percebemos. Parem os carros, detenham o trânsito Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Tu que te escondes, tu que duvidas, Olha para nós! Olha, Meu irmão, antes que sucumbas! Nós te damos o que comer E nós não esquecemos Que tu não tens abrigo. E, sobretudo, não digas que tudo está perdido: Tudo será diferente, a injustiça nesse mundo Não poderá durar se todos se juntarem a nós, Marchando ao nosso lado Com o único objetivo de ajudar o próximo. Nós faremos avançar os tanques e os canhões
UM OPERÁRIO

Para levar consolo aos miseráveis dos matadouros, os Chapéus Negros deixam a sua sede. Joana empreende sua primeira descida às profundezas. C - EM FRENTE AO TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS
JOANA,

à frente de um comando dos Chapéus Negros: Nesta noite de sangue e confusão, Nesse tempo de desordem organizada, De arbitrariedade consentida, E de humanidade desumanizada, Nesse tempo em que em nossas cidades Os problemas não têm fim; Nesse mundo, imenso matadouro, Em que nos chegam rumores de violência iminente; Para impedir que, em sua brutalidade, O povo, ofuscado, quebre suas ferramentas E destrua assim seu ganha-pão, Nós queremos reintegrar Deus Pois aos lugares onde realmente vivem os homens Ele não mais tem acesso: Sua glória anda pouca, Seu nome, já quase suspeito. Dos mais humildes, entretanto, ele é a única salvação! Então nós resolvemos Por ele bater nossos tambores nesses bairros; Para que ele penetre no coração da miséria E que sua voz retumbe pelos matadouros. Aos Chapéus Negros: O que faremos agora é uma última tentativa. Pela derradeira vez, nos esforçaremos

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Nós lançaremos ao mar os navios de guerra, E nos ares, os aviões Para conquistar teu pão, meu irmão. Porque vós, os pobres, formais Nesse mundo um imenso exército. Vós que nos escutais Não esperai o amanhã! Desde hoje ajudai, Ajudai ao próximo! Avante! Ao assalto! Empunhai vossos fuzis! Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Cantando, os Chapéus Negros começam a distribuir seu jornal: Apelo às Armas, bem como colheres, pratos e sopa. Os operários agradecem e põem-se a escutar o discurso de Joana. JOANA – Nós somos os soldados do bom Deus. Por causa dos chapéus que usamos, somos também conhecidos como os Chapéus Negros. Nós dizemos que somos soldados, porque formamos um exército e porque, em todos os lugares em que vamos, precisamos lutar contra o crime e a miséria, contra as forças que tendem a nos aviltar. (Ela mesma começa a distribuir sopa) Bem, agora comam esta sopa quente e constatarão que depois vocês verão as coisas com um olhar diferente. Pensem agora qual esperança se pode fundar sobre a felicidade terrena. Nenhuma, absolutamente nenhuma. A desgraça vem como a chuva: ninguém a provoca, mas, entretanto, ela vem... Suas desgraças, digam-me de onde vem? UM DOS QUE COMEM – De Lennox & Cia. JOANA – O senhor Lennox tem talvez mais preocupações do que vocês! O que vocês estão perdendo? Ele, suas perdas se contam por milhões. UM OPERÁRIO – Carne não há nesta sopa, só uma aguinha clara, isso sim. Mas quente, pelo menos, está. OUTRO OPERÁRIO – Fiquem quietos, bando de glutões! Escutem a palavra de Deus! Senão vão tomar o prato de água quente de vocês.

– Silêncio! Queridos amigos, digam-me: por que vocês são pobres? UM OPERÁRIO – Sei lá! Explique você! JOANA – Eu lhes direi. Não é porque vocês não estão cheios de bens materiais – que não chegam para todos – mas porque vocês não têm idéia dos valores mais elevados. É por isso que vocês são pobres. Esses gozos vulgares aos quais vocês aspiram, comer um pouco, ter um bom lugar para morar e ir ao cinema, não são mais do que prazeres frívolos, grosseiros. Enquanto que a palavra de Deus é um prazer mais delicado, mais profundo e muito mais refinado; talvez vocês não possam nem imaginar algo mais doce do que o chantili, mas a palavra de Deus é ainda mais doce. Homens de pouca fé, os pássaros no céu não têm carteira de trabalho, as açucenas do campo não têm emprego e, entretanto, como eles cantam Sua glória, Deus lhes dá alimento. Nós, os Chapéus Negros, fazemos então a vocês uma pergunta muito prática: de que um homem precisa para crescer na vida? UM OPERÁRIO – Um colarinho engomado. JOANA – Nada disso. Para progredir na terra talvez seja necessário um bom colarinho, mas diante de Deus é preciso muito mais que isso, outras glórias. Vocês aos olhos Dele, nem mesmo um colarinho puído têm, pois deixaram suas almas no abandono. Mas então como vocês querem elevar-se, chegar ao que vocês, em sua ignorância, chamam de uma “situação melhor”? Pela força bruta, pela violência? Como se algum dia a violência tivesse trazido alguma coisa além da destruição. Vocês acham que mostrando os dentes conquistarão o paraíso na terra. Mas eu lhes digo, agindo dessa maneira o que se cria não é o paraíso, mas o caos! Um operário chega correndo. O OPERÁRIO: Uma vaga, agora mesmo, acaba de abrir! Um trabalho, um salário, esperam por vocês, Na fábrica número cinco! Que mais parece uma latrina. Corram, rápido. Um operário larga seu prato cheio e sai correndo.
JOANA

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– Ei, você, onde é que você vai? Quando se ocupará de Deus? Vocês não querem nem ouvir falar, não é? UMA MOÇA DOS CHAPÉUS NEGROS – Acabou a sopa. OS OPERÁRIOS: Acabou a sopa; Era só um caldinho ralo Mas era melhor do que nada. Todos se viram e se levantam. JOANA – Fiquem sentados; acabou, mas que importa, uma vez que a grande sopa celeste não se esgota nunca. OS OPERÁRIOS: Quando, afinal, vocês Abrirão as portas de seus porões, Carniceiros, mercadores de carne humana? UM OPERÁRIOS: Com o quê, agora, pagarei A casa pequena e úmida, onde vivemos doze? Eu já paguei dezessete prestações, Mas a última, não conseguirei Seremos jogados na rua. E o chão de terra batida E nosso pedaço de grama amarela, Nunca mais os veremos, nunca mais, Nem tampouco respiraremos seu pestilento ar familiar. UM OUTRO OPERÁRIOS: Aqui estamos, em pé, nossas mãos como pás, E nossos pescoços fortes como tratores. Nossas mãos e nossos pescoços, queremos vendê-los Mas não há quem os compre. OS OPERÁRIOS: E nossas ferramentas - Gigantesca montanha de prensas e gruas – Estão trancadas, detrás desses muros! JOANA – E então, o que se passa? Quer dizer que já se vão? É porque já terminaram de comer? Adeus e obrigado. Mas por que então vocês escutaram até agora?
JOANA

– Pela sopa. JOANA – Continuemos. Cantem! CHAPÉUS NEGROS cantando Avante, entrai nessa luta! No coração da batalha lutai! Cantai com louvor, que cante todo o mundo. Ainda é noite, mas logo virá o dia, Raiando com todo o esplendor, E junto virá Jesus Nosso Senhor. UMA VOZ, do fundo do palco – Estão contratando nas fábricas de Mauler! Os operários saem. Fica apenas uma mulher. JOANA, com ar sombrio: Parem a música! Acabou a sopa, lá se vão eles! Seus olhos são incapazes de elevar-se Mais alto do que a borda do prato. Eles não crêem em nada além do que está Entre suas mãos. Acreditarão em suas mãos? Vivendo cada dia, cada minuto mesmo, Na insegurança, eles não são capazes De se esquecer das preocupações mais básicas. Nada, a não ser a fome, tem sobre eles qualquer influência. Nenhuma canção os toca mais. Nenhuma palavra pode Descer até eles e penetrar seus corações. Aos que a cercam: Parece que nós, os Chapéus Negros, temos por tarefa alimentar todo um continente com nossos poucos talheres. Os trabalhadores voltam. Ao longe, ouvem-se gritos. OS OPERÁRIOS, na frente do palco – Que gritos são esses? Um imenso caudal humano emerge dos abatedouros. UMA VOZ, do fundo: Mauler e Cridle também fecharam. As indústrias Mauler optam pelo lock-out! OS OPERÁRIOS, refluindo:
UM OPERÁRIO

na frente do palco: Desgraça! De todos os lados chegam ainda Torrentes infindáveis de homens! OS CHAPÉUS NEGROS. Joana e Marta esperam. antes. Ao fazer mil perguntas. desde o dia em que nasceram. JOANA – Quero saber. derrubou-te. O que comeste. Estamos gelados e molhados e precisamos comer. O selvagem Mauler! De um tal monstro a investida É inexorável! A natureza. Jamais seus corações. UM OPERÁRIO. GRAHAM: E então. Em um grande edifício: A Bolsa de Carnes JOANA: Eu vou até lá: Eu preciso saber. Enquanto corríamos atrás de trabalho. presa. Resultado para nós: barrigas vazias. Eles têm apenas idéias vulgares na cabeça. Sua bondade perde rápido. onde se compram e vendem animais. pronto. meu velho Lennox. ele te revenderia. Uma multidão enorme e desesperada. ruídos da Bolsa. JOANA – Não! Eu quero saber (aos trabalhadores) Digam-me. dos Chapéus Negros: Não vá te meter com estes problemas. eu quero vê-lo. Quem abandona o lar protetor. JOANA – Esse Mauler. Os Chapéus Negros se afastam. OS CHAPÉUS NEGROS – Então teu destino nos parece bem negro. Ele venderia o próprio ar. já que ele é a causa de tamanha miséria. JOANA III Pierpoint Mauler é tocado pelo sopro de um outro mundo EM FRENTE À BOLSA DE CARNES Em baixo.6 No meio do caminho encontramos. para ele. – Não. Lennox está branco como algodão. Tu desaparecerás na lama! Pois a lama entope as bocas Que fazem perguntas sem prudência JOANA: Eu quero saber. E vê esvanecer-se sua pureza original. Ao fundo. Na insana esperança de obter uma resposta Que jamais chegará. MARTA. Abrigaram sentimentos nobres. . esse Mauler. São reles glutões Preguiçosos. quem é o responsável por tudo isso. a Joana – Vamos agora. torna-se. desce cada vez mais baixo. Eles encherão tuas orelhas com seus gritos. OS CHAPÉUS NEGROS – Pare! Não te metas com essas questões. No alto. por que correm de um lado a outro e não encontram trabalho? OS OPERÁRIOS: O sanguessuga Mauler e o muquirana Lennox brigam entre si. os fabricantes de conservas Lennox e Graham discutem. por favor. Todos haviam perdido o emprego E perguntavam onde achar trabalho. E o frio supremo Rouba de seu coração todo o calor. Recebemos mil respostas. que fogem do trabalho. Torna-se mercadoria. Degrau após degrau. mora aonde? OS OPERÁRIOS: Lá. Oh Joana! Não te metas nas querelas terrestres! Pois quem nelas se envolve.

Lennox! Acabou a guerra de preços! Foste eliminado. A nova técnica é muito engenhosa: O porco é colocado em uma esteira rolante Até o alto da fábrica. lutando. nele. MAULER : Lennox está de joelhos. E agora. até ele e. Ele terá medo.. não achas? Ele se degola e logo. que vira couro. não é verdade? GRAHAM : Muito bela! Mas e a lata. Vocês mesmos. Até chegar aos ossos. até aqui me acompanhastes. época maldita! Um comércio estrangulado por montanhas de conservas. E pensa nos velhos tempos.. e dorme mal à noite. Começa então o seu retalhamento. Tal qual dois grandes búfalos.” CRIDLE : .. Vá. E assim. Bem pensado. Primeiro perde a pele. como vais reconhecê-lo? JOANA – Saberei bem reconhecê-lo. JOANA. olhe para mim e de meu pescoço. Um mercado aviltado. então. Agora vou limpar a minha fábrica. cruzei a última fronteira. por conta de seu próprio peso. Espero que o mercado recobre a saúde.Joana. no último andar. esta arte contrária à natureza.. este homem não é duro E nem ama o dinheiro. Saibas. Por si mesmo. confessa. A Lennox: Estás perdido. Bela invenção. Slift. Cridle sai da Bolsa e desce até o palco. O faro para o dinheiro é nele tão potente. E se lhe jogas pedras na cabeça. com voz suave. surge de um grupo de fabricantes de conserva. Pois caindo. o porco se precipita. moídos como farinha. em salsicha se transforma. ele faz ouro. eu garanto. Batendo-se por sua conquista. Todos me abandonaram. a cada fase. O que fazer com ela? Ah. eu também te recomendei prudência.. à Marta: Tu somente. Nas facas. E talvez chore. Quando ele não podia absorver mais nada. Fecho minhas fábricas.. Que ele não saberia jamais trair seu instinto. ele extrai rendas. MARTA . CRIDLE: Muito bem. Tira esta mão que me aperta e me estrangula. para economizar Uma agradável soma em salários.7 De barracos miseráveis. Diga-lhe: Mauler. De carne podre. Fizeram desabar os preços e destruíram seu negócio. Cridle. Depois seus pelos. Ele não pode suportar A visão da miséria. chega Na lata que o espera lá embaixo. que. OS FABRICANTES DE CONSERVAS : Trata-se de saber quem agüentará mais tempo. Mauler. sozinho. Instalar duas ou três dessas máquinas novas. Em dinheiro ele as transformará. ainda ontem florescente!. que viram escovas. Gritaram-me prudência: Para eles. Destroem com seus cascos o pasto que disputam. Tão natural. MARTA – Joana. ficarás com a fábrica Conforme está previsto nos termos do contrato: “No dia em que Lennox for eliminado. JOANA – Mas tu vieste comigo. com sua escalada. Lubrificar meus cutelos. no entanto. acompanhado de seu corretor. Estranho conselho! Eu te agradeço. Marta.

Mauler. tenho dois mil empregados! CRIDLE – Mande-os ao cinema! Mas Pepê.. Mas.. Não pude imaginar seu fado. um contrato dos tempos de prosperidade! Mas e a crise? Ela não existe? Que posso fazer eu com um grande matadouro Se ninguém mais compra carne em conserva? Agora sei bem porque não podias Mais suportar a visão do gado morrendo: sua carne Não vende mais! MAULER : Não. como eu. então. Joana fez um sinal a um segurança e lhe diz algumas palavras. Repensar os dez milhões de dólares Que queres por tuas ações. é que meu coração se aperta Quando ouço mugir a criatura CRAHAM : Agora eu compreendo a grandeza de teus atos. A exigir meu dinheiro. MAULER . Estou tão temeroso que chego a suar frio: seis dias. até teu coração sabe ver longe! LENNOX : Eu gostaria ainda.8 Sim. sensível! Ele soca Mauler no coração. LENNOX – Não. GRAHAM — Mauler. isto é. tu me forças. (faz contas em uma caderneta) Quando combinamos que tu sairias do negócio. LENNOX – Mauler. Cridle. as ações caíram para 100. Nada além. Pepê! Como quiseres. Lennox! Toque-o! É uma lata de lixo. Hoje. de examinar Contigo. mas. : Pepê! Isso não é um jogo! Não podes misturar Questões pessoais aos negócios! CRIDLE – Pois não. sem mais delongas. devido à saturação do mercado. Mas com ele acabaram Os bons dias do mercado. Antes que quebres de uma vez! Creia-me. cinco. Tu me ofereceste a 320. as ações estavam a 390. Ele sai. MAULER : O quê? A soma está inscrita Claramente no contrato Tome.. e onde eu conseguiria dinheiro para pagar tua parte? Eu estaria arruinado! MAULER : Já que me dizes isso. eu precisaria jogar essas ações no mercado. Mauler. Seis dias? Não. Freddy! Quer dizer que tu me socas. É preciso então. mergulhado em meus negócios. MAULER – Leia. Isso não é um contrato? Com um preço fixado? CRIDLE : Sim. Mauler. Pois eu proibirei Cridle De comprar-te uma única lata. elas cairão a 70. Ah! Pudesse eu estar liberado De um comércio tão bestial! Tenho. se tu estás Realmente onde dizes. nosso contrato não é mais viável. É o máximo que posso fazer. nada. o coração torturado! Cridle se afasta.. se eu fizer isso.. MAULER – Ai! GRAHAM — Viu? Ele tem um coração! MAULER : Então.. CRAHAM . Cridle. E eu. olhe para mim. e tu tinhas um terço. Lennox acabou. Não estava caro. Lennox. veja Lennox. Veja se esse contrato diz uma só palavra sobre a crise. Para pagar o que te devo. então. CRAHAM : Toque-lhe o coração. seguindo-o com os olhos: Tive a ligeira impressão de que algo o atormentava.

MAULER – Rindo. Pouco me importa o que esperam de mim. – É o senhor. MAULER . O SEGURANÇA — São membros da Organização dos Chapéus Negros. Diga-lhes que eu os receberei Mas que eles limitem-se a responder minhas perguntas. Senhor Mauler. Creiam-me: esses são assuntos profissionais Que não vos interessam. Dizem. respondam apenas Quando ele lhes perguntar. sobre outra questão. que eu sou Mauler. Mais uma coisa: não diga. e pôs em apuros Cridle que. Vitelos. Slift ri. nem desses versos sentimentais Que eles adoram cantar. Durante esta cena. 55. JOANA. Slift. etc. São chamados de soldados do Bom Deus. na verdade. 43. MAULER : Já ouvi falar dessa gente. MAULER: O tecido é bem fininho e. cá entre nós. que a sopa seja rala. além da comida e do uniforme. Mas. seus trabalhadores na rua? MAULER. JOANA: Por que joga. diga que não estou. são numerosos e gozam de grande consideração nas camadas inferiores da população. 59. . sem dúvida? Prontos para a violência. o tecido não é grosso Nem é grossa a sopa. Sim. O SEGURANÇA: Ele vai vê-los.. Para Joana:) Quanto recebes por dia? JOANA. Graham sai. A Joana: Vós sois. Que não é acusada de nada E que não espera o impossível de mim. a Slift: Que eles trabalhem por nada.9 O SEGURANÇA — Senhor Mauler. suponho. Nada de choros.. mas vocês não devem Perguntar nada. que a escória me chama – Despojou Lennox. Com ar invejoso. é ele. que o sangrento Mauler. Chapéus Negros. Mas o que eles querem comigo? O SEGURANÇA — Afirmam que têm algo a dizer ao senhor. O segurança vai ao encontro de Joana no outro lado do palco. (aponta para Slift) É ele! JOANA. Pretendo renunciar a esse negócio sangrento Logo que eu possa: renunciar sem retorno.É assim. há algumas pessoas que querem lhe falar. o rumor da Bolsa continua. em absoluto. Slift? (Enquanto isso. hein? Não. não é homem de bem. JOANA. é o que tem a cara mais ensangüentada. MAULER : O que é esta organização? O SEGURANÇA — Eles têm muitas ramificações. Ouve-se: Bois. MAULER : A escória em farrapos. MAULER : Está bem. MAULER – Como me reconheceste? JOANA: De todos. – Vinte centavos. não é notável? Já viste algo igual? Que trabalhem por nada e sem se lamentar? Não vejo em seus olhos nem medo da miséria Nem de dormir sob as pontes alguma noite. O melhor para eles É causar em mim a impressão de gente honesta. Porcos. adoraria vossa opinião. Mas que nome curioso! Soldados do Bom Deus. gente estranha. dirigindo-se direto a Mauler – O senhor é o Mauler! – Não sou eu. apontando para Mauler – O senhor é o Mauler! MAULER – Não. eu sei.

Isso não é bom? E conforme vosso espírito? SLIFT : Vendo morrer o boi. tu também. diga. Diga-me que está certo E que isso te agrada.10 Pois eu vi – e isso vos interessará – Morrer. . dêem! Corja de carniceiros! Ele continua mexendo nos bolsos deles para dar dinheiro à Joana. um boi e fiquei tão comovido Que quis largar tudo. MAULER: Poderia eu ir mais longe? Porque ele é sangrento É que eu tirei as minhas mãos deste imenso negócio. Embora já tenhas vivido mais de vinte anos. MAULER: Riam todos. MAULER: Eu tenho grande piedade pelos bois: o homem. vamos.. JOANA – Senhor Mauler. no lugar do pobre animal. Ele fala com Slift em voz baixa. Mas tendes consideração demais pelo destino dos pobres: Eles são maus. O homem. Ele se aproxima dos industriais. Seu riso não me atinge. não é? JOANA: Não sei se o senhor fala sério. não creias que seja de boa fé.. Marta sai. A parte – doze milhões – que eu tinha na usina. Tamanha inocência!. Eu sei.. Mas. de resto. não me digas nada. MARTA. pessoas extremamente más. MAULER: É que adquiri o maldito hábito De disfarçar a voz. Ele não é maduro ainda. Dirigindo-se aos outros: Parece-me que fui tocado pelo sopro de um outro mundo. ele é mau. dêem o dinheiro. Mas é uma gentileza. Talvez por isso te ajude. aliás. Tome para os pobres. Um instante. Eu sei. para o que pretendes fazer. a Joana: Joana. São todos carniceiros. Desculpe-me. O senhor não poderia realmente ajudá-los? MAULER: Repita por toda a parte: eu aprovo vossa ação. Melhor para ti que não os veja. JOANA – Isso é uma gota no oceano. É bom. JOANA: Senhor Mauler. Cedi por dez ao homem que vêem aqui. tomando-lhes o dinheiro que trazem consigo e dando-o a Joana. minha filha. Nenhum é inocente. nos matadouros dizem que o senhor é o responsável pela miséria deles. por que fechou os matadouros? Eu preciso saber. Abandonar esta empreitada. confesso. Deverias. isso de se retirar do negócio. Seu rosto me agrada. São. Eu também vou embora. O mundo não poderá mudar se antes não mudarem os homens. Eles não têm mais trabalho. Não. E desejaria que fossem mais numerosos. Mas este mal era inevitável. eu sinto Que tu não gostas de mim. Isso não é bom? Os fabricantes de conservas explodem em gargalhadas. A canalha. há pouco. ele decidiu abater O rico Cridle. não me comove. Senhor Mauler. mas não digas nada. Eu os verei chorar um dia. sem nenhuma obrigação: Eu não sofro de insônia. Deixai disso. Dêem o dinheiro.. por favor. que com tal decisão As pessoas sofreram.

Mas volte aqui amanhã. a um jovem operário – Um de nossos homens. A Joana: Aqui está meu corretor. Dois homens saem por uma portinhola. A Slift: Mal posso suportar a existência de seres Semelhantes a esta moça. Diga “para seus pobres”. ele te fará ver algumas coisas. se quiser. É preciso queimá-los. E verás que tua piedade é descabida. É o primeiro que nossos tambores desalojaram Das trevas da vilania. JOANA — Eu quero vê-los.. De saber o que queres saber. E que não têm nenhum medo. peguei para mim. Semelhantes a bestas. dê dinheiro a ela. Azar. na caldeira. mas não pudemos parar as máquinas a tempo.E eu adoraria que não desse certo – Leve-a aos matadouros. Luckerniddle. Estão ocupando inutilmente um cabide no vestiário. ela poderá Aceitar sem pudor. o quanto antes melhor. ele cairá bem. . Slift e Joana contornam o muro de uma fábrica. é o lixo do mundo. Se quiseres mesmo saber. é pavoroso. Ele sai. Se isso falhar . por suas vidas miseráveis. e para mim. este homem será mandado para os quatro cantos do mundo sob a forma de toicinho. em um jornal. vendo Mauler se afastar: Este homem não é mau. perderei meu emprego. sobre o qual se lê: “Fábrica de Conservas de Carne Mauler e Cridle”: O nome de Mauler aparece riscado. UM CONTRAMESTRE. O amigo Pedaço-de-Toicinho não precisa mais dele. Responsáveis. e depois a siga. e ele entrou na faca e virou toicinho. caiu. Veja então o que ela compra. vacilando: Estou me sentindo mal. saindo – Um conselho: não te metas com as gentes dos matadouros. é a escória. Slift e Joana escutam. JOANA. cheios de traições. vestido com uma lata. em uma palavra. JOANA. agora eu vou te mostrar Como eles são maus Essa gente da qual tens piedade. SLIFT: Em teu lugar não gostaria. senhor Smith. enfim. faz quatro dias. Aqui estão seu casaco e seu boné: pegue-os e façaos desaparecer.. o que causa má impressão. Isso pode funcionar. Ele ouviu nosso chamado. Ele veste o casaco. (O contramestre volta para a fábrica pela portinhola. IV O corretor Sullivan Slift mostra à Joana Dark como os pobres são maus: Joana desce às profundezas pela segunda vez BAIRRO DOS MATADOUROS SLIFT: Joana. é claro. assim como o seu boné. que nada têm Além de seus vinte centavos por dia e seu chapéu negro. Sullivan Slift. Mas seu casaco ainda está bom e isso também é uma pena. ficará com a vaga de Luckerniddle. e enrola o seu. Quando a fábrica reabrir você. SLIFT.11 Chame ela de lado. e mostre a ela Como os pobres são maus e covardes. O JOVEM OPERÁRIO – O senhor pode confiar em mim.) É uma pena. já que agora ele está em embalado. Entrego a você porque sei que é de confiança: se alguém encontrá-los em algum lugar.

Vinte refeições são muita coisa Para aquele que tem fome. Verás então o que é essa gente. O JOVEM OPERÁRIO – Pode confiar em mim. GLOOMB – O feitor está bem ali. Joana e Slift prosseguem seu caminho. de qualquer modo. Precisará nos processar. DONA LUCKERNIDDLE está sentada em frente ao portão da fábrica. mesmo à noite. Slift volta para junto de Joana. ele me dizia: “Espere-me à noite com uma sopa quente!” Desde então não [voltou. Senhora Luckerniddle: ele está viajando e. Eu. SLIFT: Guarde essas coisas. Mas reflita bem. além dele. Você poderá comer e lhe darei um dólar se disser à mulher de Luckerniddle onde conseguiu o casaco e o boné. (Ele pára o jovem operário. Bando de açougueiros. nós não somos. saindo para o trabalho. e meu marido não sai da fábrica. a Joana – Fique aqui. de forma alguma. Já não posso mais trabalhar como antes e só consegui emprego duas vezes desde fevereiro. na fábrica. pronto para encher a pança. gratuitamente. senhora Luckerniddle.) Onde você conseguiu este casaco e este boné? Estes são os pertences de Luckerniddle. Esse salafrário se empanturra às nossas custas. é muito desagradável vê-la sentada aí. e vocês não querem que se saiba disso. me encontrará na cantina. em nossa cantina durante três semanas. E malditos sejam vocês Se lhe fizeram qualquer coisa! Slift caminha até ela. vou falar com ele. é capaz de o meu quebrar já no primeiro golpe. então a senhora não pode aceitar a refeição que a fábrica lhe oferece.. seu marido está viajando. obrigados a fazê-la. todo o tempo. que fizeram dele? Há quatro dias que estou aqui. fui trabalhar no moinho de ossos e adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar.12 SLIFT: Aí está a vida como ela é. se quiser me ver. ao meio-dia. Por causa dele deixei minha mão na máquina de cortar chapas. esperando por ele Mas ninguém diz nada. passe-me logo teu cassetete. No frio. enquanto não o vir. legalmente. senhor. à cantina número 7. dizendo tolices. SLIFT – Se é esta a sua opinião. Quando ele se aproximar. ele não foi para São Francisco. É por isso que lhe fazemos uma proposta: note bem que. se você não está precisando disso!. DONA LUCKERNIDDLE: Agora inventam que ele viajou! SLIFT – Deixe-me dizer uma coisa. Não tenho outro esteio. SLIFT. Eu ficarei aqui. Aconteceu alguma coisa com ele aí. não diga mais isso. diga-lhe que procura trabalho. O JOVEM OPERÁRIO – Mas senhor. Tenho a impressão de que você está prestes a cometer um ato impensado. Amanhã. para nós. senhor. Eu tiro agora mesmo. lamentando-se: Faz já quatro dias que. DONA LUCKERNIDDLE – Quero saber o que aconteceu ao meu marido. DONA LUCKERNIDDLE: Eu quero que me devolvam meu marido. Mas existem coisas Que importam mais para ela. (Ele vai em direção a Gloomb). SLIFT: Senhora Luckerniddle. SLIFT – Estamos dizendo que ele partiu para São Francisco. Não procure mais saber o que se passou com seu marido e a senhora poderá almoçar. No ano passado me deixei seduzir pelos vinte centavos a mais que se ganha na fábrica de adubo. Joana e Slift seguem seu caminho. JOANA: Ela nunca aceitará. lhes digo. Venha. isso não lhe parece muito brutal? SLIFT: Bem. Vamos. aquele que se acidentou? O JOVEM OPERÁRIO – Por favor. Eu estou em uma situação muito ruim. . Eles chegam a uma cantina da usina e vêem diante de uma janela dois homens que olham para o interior. Vamos cuidar para que essa seja a última vez. DONA LUCKERNIDDLE – Não. Antes eu gostaria de fazer-lhe uma proposição interessante..

(Ele vai em direção a Joana. A maior parte dos trabalhadores a considera muito perigosa. DONA LUCKERNIDDLE – O que? Vocês pensaram melhor e estão retirando a oferta? Então eu não terei mais as minhas vinte refeições? JOANA – Me pareceu que a senhora se dava bem com seu marido. Desde fevereiro estou sem emprego. Você se surpreenderá ao ver como o trabalho é agradável. JOANA: Ela sentou-se ali. O que mais verei? Eles entram na cantina. SLIFT – Que pena. GLOOMB . JOANA – Quase tenho medo de continuar. temi que amanhã ela viesse. encontrasse alguém. Se você. Joana procura um prato e leva à senhora Luckerniddle. e então eu poderia. SLIFT – Leve você mesmo a comida a ela. depois do que eu iria. DONA LUCKERNIDDLE – Sim. (Ao seu companheiro:) Pensei melhor. O posto não é feito para gente fraca. JOANA – A senhora já está aqui. JOANA – Mas a senhora nem sabia que nós viríamos hoje. Eu sou inspetor nesta fábrica. SLIFT – Gostaria de propor um meio de tirar-lhe dessa jogada. Slift cai na gargalhada e arrasta Joana. JOANA – Vindo para cá ouvi dizer que aconteceu alguma coisa com o seu marido e que a fábrica é responsável..13 – Não tenho tempo.. tem que se retirar. já faz dois dias que eu não como nada. justamente porque você contou todas essas histórias a respeito de seus dedos. pode ser que mude de idéia. GLOOMB – Nada disso é verdade. Ela não parece muito forte. DONA LUCKERNIDDLE. Vai se perguntar como alguém pode contar histórias tão ridículas sobre esta máquina. Ali adiante.. DONA LUCKERNIDDLE – Espero uma pessoa que deve vir hoje ou amanhã.. Os movimentos ficam menos firmes e pode-se prender as mãos nas serras. O posto que você ocupava na sua máquina continua vago e isto é muito chato. Naturalmente seria muito bom se nós encontrássemos alguém para esse posto. estaríamos dispostos a reempregá-lo imediatamente. por exemplo. calculando – Vinte refeições. não muito fortes. Apesar de tudo.. GLOOMB – Posso confiar no que você está me dizendo? SLIFT – Sim. GLOOMB – Rápido então. No ano passado fui trabalhar na fábrica de adubo. Seria vantajoso para você. meu senhor. por acaso. Não podemos perder esse safado. GLOOMB – Aquela moça ali? . no moinho de ossos. E eis que ela nos precedeu. Eu imaginava que ela iria resistir. É um bom posto? GLOOMB – É um ótimo posto. Ela correu até aqui e já nos espera. Talvez a vaga deste contramestre. JOANA – Não há realmente como me arranjar outro posto? Ouvi dizer que o trabalho nesta máquina era perigoso para quem não resistisse ao trabalho muito pesado... DONA LUCKERNIDDLE – É verdade. há uma moça que está procurando trabalho.) Você está procurando trabalho? JOANA – Sim. Ela senta-se em uma mesa.. desde hoje? DONA LUCKERNIDDLE – Não como nada há dois dias. A senhora Luckerniddle está falando com a garçonete. e lhe daríamos até um trabalho mais fácil e melhor remunerado do que o antigo. GLOOMB – Você enxerga bem? JOANA – Não. e então eu teria. Adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. Naturalmente você precisaria manter os ritmos de trabalho mesmo os dispositivos de segurança não sendo perfeitos. Tchau. não sabia. A GARÇONETE – Se a senhora não for comer. É preciso que ele pague hoje mesmo por esse sistema desumano do qual ele é o feitor. Disseram-me que não tinha ninguém além dele. O que há para comer hoje? A GARÇONETE – Ervilhas. Uma jogada dessas é melhor de se fazer à noite... E é um trabalho que pode ser feito mesmo por pessoas como você. faremos isso amanhã à noite.

verdadeira manteiga! Banha fresca do Kentucky! OS COMPRADORES: OS FABRICANTES DE CONSERVAS . DONA LUCKERNIDDLE. Ela se levanta e sai. como manda o costume.14 – A senhora não quer esperar até amanhã? Se a senhora desistir de procurar o seu marido. saindo. os sofrimentos que suportam Esses pobres sem moralidade. então? O JOVEM OPERÁRIO – De um homem que caiu dentro de uma caldeira. DONA LUCKERNIDDLE – Ele foi para São Francisco. V Joana apresenta os pobres à Bolsa de Carnes A BOLSA DE CARNES : Nós todos. como vós a explorais! Não vês que nem teto eles têm. e comerá sem levantar os olhos do prato. Mas vinte refeições. Ele foi obrigado a vender sua cólera. como um animal. E este jovem – em quem botaria fé Qualquer malandro -. A senhora Luckerniddle sente náuseas. Era seu único esteio. Mostrar-te-ei. para colocar Ao abrigo da chuva. esta mulher. a imoralidade deles? Ela teria. mas não em uma loja. e por mais justa que fosse. Você a viu. O que tu me mostraste Não é a imoralidade Dos pobres: é a pobreza deles. o preço era muito alto. comprem nossas latas! Carne fresca e suculenta. Joana? A imoralidade dela não tem limites! JOANA: E tu. tu me dizes? Sua pobreza também é incomensurável. (Ele senta-se. Um certo tempo ainda. (O jovem operário o esconde) De onde ele vem? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. Desejas mostrar-me a sua imoralidade. certamente teria me prevenido Não fosse o preço a pagar por seu pequeno escrúpulo. (Dona Luckerniddle permanece em silêncio) Não pegue. com que habilidade torna-te mestre dela! Esta imoralidade. Tão cara a ele. Mercadoria invendável. acreditas que ele teria mostrado À mulher do morto a roupa que usava Se tivesse tido a chance de escolher? O maneta. JOANA E procurar por ele. eu. estamos vendendo carne! Compradores. preferido. Atrás dele:) Você tem um belo boné. O JOVEM OPERÁRIO – Bom dia. ao garçom – Deixe meu prato. Você só precisa perguntar a esse senhor. posso comer aqui? SLIFT – Você só precisa sentar-se ali. Dona Luckerniddle arranca o prato das mãos dela e começa a comer avidamente. Que sua miséria. e que já apodrece. como muitas. Pois não há mais compradores! Do fundo do palco chega o jovem operário com seu casaco e seu boné. JOANA: Porões e armazéns abarrotados de carne. Eu virei todos os dias. eu volto. ao lado daquela mulher. SLIFT – E onde você comprou? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. SLIFT – Durante três semanas ela virá. ninguém mais perguntará o que foi feito dele. Sua imoralidade é sem limites. a vossos olhos contradiga Esta depravação que injustamente se lhes imputa. Fatias de toicinho Cridle-Mauler! Carne de filé Graham. SLIFT – E onde você conseguiu. Ela sai. Continuar fiel à memória de seu marido.

Do filé Graham. A dar-se-lhes ouvidos Seria necessário agora deitar por terra Todo o cartel da carne E deixá-lo estagnado durante muitas semanas. Mas ninguém quer comprar carne enlatada. OS FABRICANTES: Graças aos avanços da técnica. dia e noite nossas máquinas Ligadas no máximo: salgadeiras. cubas. A morte Despreza esse gado e fecha-lhe a porta. E abrissem assim o Sul aos nossos produtos. Nós não compramos mais nada! OS FABRICANTES: E nós. compradores. SLIFT: Eu riria se. nenhum tinha dinheiro. Nós estamos perdidos! OS CRIADORES: E nós. Esperando até ninguém poder Mexer nem o mindinho! E eu. ao trabalho de nossos [engenheiros. o que te escrevem? MAULER: Teorias. Quando todos te seguem com olhos de lince Para ver o que fazes? Eu não teria cara. quase de graça. E da banha de Kentucky. compradores. com nossos matadouros? Nossas fábricas estão cheias de bois. SLIFT: E teus amigos de Nova Iorque. Comprem. Engolindo nosso ouro junto com nosso grão. Nas estações e nos pátios. Nós iríamos perder o bonde! MAULER: E quando isso ocorresse! Terias a imprudência De tirar tua parte de tamanha miséria. Saturado de carne em conserva. em Nova Iorque. verdadeira manteiga. Nós queremos vender a carne em conserva E ninguém a quer! E todos os nossos clientes. Não a agüenta mais. E graças aos perspicazes planos dos industriais da carne Nós conseguimos reduzir em um terço O preço do toicinho Cridle-Mauler. O estômago do país. . os criadores. caldeirões Convertem sem parar em latas de conserva As manadas mugidouras que pastam nos prados. a visão da carne enlatada Causa náuseas. Clamamos aos berros por um consumidor que não existe. comprem nossas latas! OS COMPRADORES: E sobre as montanhas fez-se um grande silêncio E as cozinhas dos hotéis escondem a face E as lojas se desviam com horror Os atacadistas mudam de cor. Frigoríficos entupidos de carne congelada. Temos diante de nós montanhas de latas. O que provocaria um movimento de alta.15 E sobre as águas fez-se um grande silêncio De todos os compradores. Quem comprará agora nosso gado? Os estábulos estão cheios De porcos e bois devoradores de milho Que eles devoram ainda nos trens que os transportam. cozinhas e lojas Estão cheios até as bordas. Aproveitem então. OS COMPRADORES: Nós compradores. A nós. eles conseguissem Fazer cair de uma vez as taxas de importação. Eu teria sobre as costas toda a carne! Idiotas. fabricantes. MAULER: E mesmo a faca os recusa.

.investindo contra Mauler que lê o jornal: Traidor. ao invés de trinta. Ele poderia exigir seu dinheiro quando quisesse. que conspurca nosso ninho! Nós sabemos bem quem fez os preços caírem sem cessar Vendendo gado por baixo do pano. OS FABRICANTES: O que significa isso. todo teu estoque. tu o retiras Do negócio e Cridle. por dez milhões de dólares. MAULER: Açougueiros insolentes é o que sois! O animal torturado parou de mugir. que já se arrasta. Quero apenas meu dinheiro e a paz de minh’alma UM CORRETOR – urrando. Não é de hoje que fazes tais manobras. então! OS FABRICANTES – a Mauler: Corre o boato que teu capital. Ele queria me vender a sua parte. na entrada da bolsa: Queda gigantesca das cotações na Bolsa! Venda maciça de ações. Falai que um dentre os vossos Não pode mais suportar o grito dos bois morrendo E aos mugidos deles. Cridle? Levanta os olhos. Esses dez milhões são exatamente a soma que devo a Mauler – e ele a exige em vinte e quatro horas. provoca muitas outras! Lixo! Assassino! CRIDLE . antes de qualquer coisa. MAULER: E por que matastes tanto gado? Açougueiros alucinados sois vós! Agora. e ficando com as outras. Carrega em sua queda as cotações de todo o cartel!.. Cridle. que se lançam sobre Cridle. Foste tu mesmo quem provocou o marasmo! Nossas latas agora não saem mais caro Que a areia dos mares. Tumulto entre os fabricantes. Tu te desfazes de tuas ações? UM CORRETOR: A cento e quinze! OS FABRICANTES: Ficaste louco? Tua morte. Pois tu liquidaste. OS FABRICANTES Essa gente não faz as coisas pela metade. ele vem realizando secretamente vultosas vendas de gado a preços baixos e provocou a queda das cotações que. Mauler! Fala. Veio a baixa. OS FABRICANTES: Quando ages assim com Cridle. CRIDLE – dirigindo-se aos que o cercam:. olha para nós! Assim. Eu me propunha pagar-lhe vendendo uma parte das ações dele mesmo. E vós soluçais nas saias de vossas mães. Hoje os papéis de Mauler não valem mais dez. é que me levem a sério. quem de vocês continuaria a me levar a sério nos negócios? Ora. já vinham caindo. e o conjunto das fábricas vale dez. Desde aquele dia. preferiu o vosso. Para acabar com Lennox. estava acordado.Há quatro semanas apenas eu assinei um contrato com Mauler. É bom que ele seja nosso adversário. é o cartel da carne. eu quero o meu dinheiro. . MAULER – O próprio Cridle me confessou que está insolvente: se eu deixasse meu dinheiro com ele. nem que fosse por mais uma hora. eu acabo de saber.apontando para Mauler: Falem com ele! CRAHAM – colocando-se diante de Cridle: Não é Cridle. mas três milhões. de toda a maneira.16 . E exiges dele o pagamento sem demora. a preço vil. Voltai para casa. pálido como algodão. ao fundo. Cridle. nesta conjuntura. que estavam valorizadas. Mas somos atingidos pelo que lhe acontece. mas um outro Quem joga a rede. antigamente Mauler. Cala-se e aponta para o dedo para ti. o que desejo. Isso representava um terço do total das ações. nós somos os peixes! O que querem arruinar. ave de agouro.

fiquem diante de mim. Mauler. Nesse mundo sempre reinará a injustiça. Fazer avançar os tanques e os canhões. Eu não quero que me vejam aqui. Uma explosão de gargalhadas toma a frente da cena. . E ninguém se preocupa. o responsável Por esta catástrofe. OS CRIADORES: Impossível vender um boi em Chicago. então. cem dólares pelo meu chapéu. pois preciso partir. nós estamos perdidos! JOANA – Onde está Mauler? MAULER: Slift. com isso. seu cão. para comer? Pensai convosco mesmo: sempre será assim. JOANA . suja de sangue? Joana e Marta avançam e cantam o seu hino de guerra. Ouvem-se os tambores dos Chapéus Negros e a voz de Joana. E. Não esperem o amanhã! Cada um deve nos ajudar. Ei-nos aqui. Haveis então esquecido Os que esperam diante da porta E que esperam. OS CRIADORES: Lennox já caiu! E Cridle balança! E Mauler. Lançar ao mar os navios de guerra E nos ares.17 Mesmo que tivésseis todos que mendigar. Mauler. Não falemos mais de negócios. onde cada um revela Sua boca desnuda. Avante! Ao assalto! Empunhem os fuzis! Diante de nossos olhos os homens naufragam. Graham. Ei. os aviões Para conquistar o pão dos pobres. seja quem for! Levantai o nariz de vosso prato. Durante esse período a batalha na bolsa continua. não saia! Graham. mas rápido! OS COMPRADORES .Pierpoint Mauler! Onde está Mauler? MAULER: O que é esse barulho de tambores que de súbito me envolve? E quem chama pelo meu nome Nesse lugar. E ninguém se preocupa Não tendes. olhos para ver? Ele é vosso irmão. MAULER: Por hoje basta. És tu. Pois os bons nesse mundo Não formam um grande exército. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Escutem todos. Com o único objetivo de ajudar o próximo. Os que nos escutam. acompanhada de exclamações. Meu chapéu. mas rápido! OS COMPRADORES . OS FABRICANTES: Oitenta e sete mil latas pela metade do preço. Uma mulher nos faz sinais de aflição. escutem bem! Um homem afunda sob os nossos olhos! Escutamos lá no fundo seu apelo por salvação. Para Illinois esse dia é um desastre! Vocês fizeram os preços subirem. detenham todo o tráfego Em torno de vós os seres naufragam. E nós dizemos: é preciso ir sempre adiante.Nenhuma sequer! Silêncio. Meyers. Parem os carros. Estimularam-nos a criar bois. Eu quero meu dinheiro. ele retira o seu dinheiro! OS FABRICANTES: Oitenta mil latas a cinqüenta. meu chapéu. com nossos bois Que hoje ninguém mais quer. pois tenho outros projetos.Nenhuma sequer! OS FABRICANTES – Então.

existe também um poder de compra moral: o dinheiro. como não seriam os valores mais elevados esmagados em seu coração? Sempre ouço dizer. Aumentem-no. atrás de mauler – Fique senhor Mauler. Não tenham vergonha. nesses lugares sombrios e secretos onde os senhores tratam de seu comércio. JOANA – E qual a causa desta imoralidade no mundo? Poderia ser diferente? Se cada um é obrigado a rachar com um machado a cabeça de seu próximo para fazê-lo ceder seu pequeno pedaço de presunto e sua migalha de pão. que se dobram sob o fardo de suas penas. Mas se os senhores acreditaram que seus procedimentos permaneceriam ignorados.18 – Maldito sejas! Cridle sai. tanto hoje quanto no dia do juízo final. Mas então eu lhes pergunto: de onde tirariam eles alguma moralidade. que os pobres não têm muita moral. buscando desculpas. nas favelas. JOANA – Um homem de negócios também pode ser um bandido – dependendo do ponto de vista. UMA VOZ. destinos inelutáveis. é lá que mora a imoralidade no estado puro e. Silêncio! Não lhes agrada muito. replicando: Imbecis são vocês! Ninguém pode nada contra as crises! Bem acima de nós. OS FABRICANTES: Água para Pierpoint Mauler! . pois os que estão lá fora já não têm como comprar. vocês. Cujo ciclo pavoroso sempre recomeça. eu bem sei. aí pelo mundo. Joana mostra aos negociantes os pobres (Luckerniddle e Gloomb) que ela trouxe. MAULER. imaginando que não virão à tona suas manobras. a quem os senhores transformaram no que são. Nos baixios. OS POBRES – Ele é o responsável por tudo! Os fabricantes de conservas correm para socorrer Mauler. E os senhores. eles que nada têm? Senhores. ver surgir a nós. Já me disseram o que os senhores fazem: manobras. seus mugidos serão testemunhos. então em suas costas os bois começarão a mugir contra os senhores. os Chapéus Negros. pobres e deploráveis imbecis. os senhores se enganaram. gritando – Afastem-nos! Ele desmaia. que fazem subir o preço do pão e que fazem da vida um inferno onde os homens viram demônios. o salário. a Revolução. avancem à luz do dia. em tom de reprovação Aqui estamos com nossos bois Que hoje em dia ninguém quer. Inverno e verão nós dependemos do tempo: nós também estamos mais próximos do Deus de nossos pais do que os senhores. JOANA – Mas os senhores. as leis econômicas. Reparem então nestas gentes. ao fundo – Pierpoint Mauler passou mal. Se continuarem a agir assim. tereis a moralidade. são todos uns imbecis. nada querem saber da miséria que existe fora deste recinto. nada além disso. e é verdade. como fazem em seus jornais. gritando: Por vossa especulação desenfreada. JOANA. Traçam essas desconhecidas. que sentam nesse palácio. engodos e combinações para aumentar o preço da carne. Se os senhores continuarem tergiversando. e escute o que eu tenho a lhe dizer. OS CRIADORES. e a quem não querem reconhecer como irmãos. COMPRADOR. Risos OS CRIADORES – Nós criadores não encontramos nestas palavras motivo para o riso. e diante de Deus TodoPoderoso. acabarão tendo de comer sozinhos a carne que produzem. Vossa imunda cobiça. As crises são catástrofes naturais. em conseqüência. todo-poderosos. Mas nós lhes dissemos que é um imbecil. Causais vossa própria queda! Bando de imbecis! OS FABRICANTES. Senhores. CRIDLE OS CRIADORES: Como? Somos asfixiados e ninguém pode fazer nada? A causa de nossos males é a imoralidade De vossas armações escusas.

eles não. Os que estão atrás. Que viver assim pode mesmo afastá-los Da necessidade de um ideal. levantai-me. afastados dos bens indispensáveis. Além disso. SLIFT – Ele não abrirá os olhos enquanto não os fizerem sair. O cartel entregará a Pierpoint Mauler. No seio de Deus não há frio. aí em cima. a contar de hoje. cumprimos nosso trabalho de [missionários. eu. tudo o que em oito semanas conseguirdes [fabricar. OS POBRES – Gente como essa. Quem em seu seio habita Jamais será infeliz. OS FABRICANTES – Quem? Os Chapéus Negros? Quer que eles saiam? MAULER – Não. JOANA: É isso. em 15 de novembro. MAULER. ao instinto animal. meus amigos. Nós. que mantendes longe de vós. estão tão enfraquecidos. CRAHAM – A cinqüenta? MAULER – A cinqüenta! CRAHAM: Ele comprou tudo! Vocês ouviram: Comprou tudo! CORRETOR. Eles o levantam. então Para querer fechar a boca do Bom Deus? Não se deve calar a boca de ninguém. como eles sim. .. o que fazeis? Vós me ordenastes não dizer uma palavra. Mas quem sois vós. deitado no chão – Eu compro. levai-o agora. assume compromisso sobre a produção de dois meses. ao fundo. Nem mesmo do boi que esmaga espigas com seu casco! Em todo o caso. Eu vos mostro agora a pobreza dos pobres. Compro. E vós. e por vós mantidos Nesta pobreza. também ao preço de cinqüenta. Torna-se comprador. Invisíveis para vós. levantando-lhe a cabeça – E os estoques? MAULER. E lá. Aos pobres: Segunda-feira vocês terão novamente trabalho. vos rogo. JOANA – E agora. Mas os dois que estavam ao lado dele. e reduzi-los À voracidade.. Tu quem os reduziu à tamanha miséria. de todos os estoques do cartel. E fome nunca se passa. Mauler. CRAHAM: Então! Não podes vê-los? No entanto foste tu. eu compro! Escutai todos: Pierpoint Mauler compra! Que estas gentes tenham trabalho e que se afastem.19 Um médico para Mauler! JOANA: Mauler. gritando em um megafone – Pierpoint Mauler reanima o mercado da carne. OS FABRICANTES – Ele comprou! Mauler comprou! MAULER – Ao preço do dia! CRAHAM. nós nunca tínhamos visto. Eles parecem bem piores. qual burros de carga. MAULER – Agora. MAULER: Afastem-nos. cantemos: “Nunca faltará o pão. pelo menos cinqüenta mil toneladas de conservas. eu vou falar. nós conhecemos. E não basta que cerres as pálpebras Para que eles desapareçam. para eles inacessíveis.” OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Nunca faltará o pão Ao que dedica a Deus sua alma. A tal ponto dependentes de alguma comida E de um pouco de calor. Eles. por favor. ao preço do dia. vós me mostrastes a imoralidade deles. antes de partirmos. voltando a si – Eles ainda estão aí? Eu suplico que os afastem.

aqueles que o recebem. Música a partir das 3 horas. Nós estamos sob uma miséria atroz. os operários entrarão.20 OS COMPRADORES: Este homem está ruim da cabeça. às duas horas. entrada gratuita. Agora os senhores podem respirar. Os fabricantes de conserva saem. Os patrões vão reabrir. Nesse momento o mercado recobra a saúde. seguidos dos criadores. OS FABRICANTES: Podem guardar sua carniça podre! Não estamos interessados em comprar. discute com Slift – Fecha a porta. Não o deixaremos descansar Enquanto um homem precisar de ajuda. saturado de conservas. JOANA: Saibam todos: estou de olhos em Mauler. Slift. Joana e os Chapéus Negros saem. nenhum. Venham comigo procurá-lo Para que ele os tire do embaraço. liga as luzes e agora repara em mim. Para tal negócio. É preciso. Sua consciência já despertou. e diga se realmente todos podem ler em meu rosto? SLIFT – Ler o quê? MAULER – Ora! A minha profissão! SLIFT – Teu ofício de açougueiro? Diga-me. sabiamente acatada. não é. de São Francisco a Nova Iorque. As fábricas reabrem e as chaminés fumegam! Pois efetivamente é de trabalho. dirigindo-se à Joana Aquilo que disseste e tua intervenção Causou-nos forte impressão. açougueiros infames! Enquanto vocês não dobrarem o preço do gado Não entregaremos um só grama de carne. por que te impressionas com os discursos dela? MAULER: . Sábia decisão. Mauler. Podem esquecer seu nome. VI A Captura dos grilos NA CIDADE CASA DO CORRETOR SULLIVAN SLIFT. Pois ele pode vir em auxílio. E ele faz meter carne em latas Que ninguém comprará. O estômago do país. ao criador: O que Mauler promete. cutucá-lo. OS CRIADORES: Agora os preços subirão. Que carecem tanto uns como os outros? CRIADOR. Ele cumpre. Aqueles que dão o pão. PEQUENO IMÓVEL COM DUAS SAÍDAS MAULER. E vocês precisam dela. Contra a desrazão. na Rua Lincoln. JOANA – Todos aqueles que se interessam realmente pela palavra de Deus e que querem saber o que ele diz e não apenas a cotação da Bolsa podem vir domingo à tarde assistir nosso ofício. Muitos criadores se transtornaram. Se estiverem muito necessitados. O homem que o assinou não estava em seu juízo. dentro da casa. enfim do ponto morto! Confiança e concórdia estavam fortemente abaladas. Pois o contrato que acabam de ver firmado É apenas um pedaço de papel. Escutem: saímos. ele não encontrará Um centavo. pois nós também. a sabedoria triunfa. Recusa-se a engolir mais. SLIFT. então.

Slift. Não conheceremos a morte em nossas camas. caro Pierpoint? Pense que agora podes fazê-lo sem peso na consciência. vender e lutar sem parar. Tagarelice vazia e fácil. que mais não vi. Fórmulas tomadas ao coração.. lançar-nos-ão Ao chão como um peixe podre. Esquecer todo o resto. no entanto. MAULER: Mas que dizem eles? Essas cidades São um braseiro jamais extinto Onde. talvez. meu caro Slift. A urrar de aflição. E quando da onda emana uma voz Que nada tem de bestial. retorna. Ele se afasta e começa a grelhar um bife no fogão.. qual onda. MAULER: Tu crês que eu deveria? Eu poderia. Agora.. Não há mais consolo. É sua antiga fraqueza que retorna.21 O que ela disse? Eu não ouvi nada. Que não sabem como passarão a noite mas. Nós e nossa corja. Tudo isso são ainda meras desculpas O que temo não é Deus. não é? SLIFT – Come... Máscaras da aflição. Seremos colados ao muro. Sob a chuva e de barriga vazia. pois desde essa manhã tu nada tens a ver com a morte dos bois. por mais externa e sem importância que ela seja. mas permita que eu te exponha simplesmente a situação. Para estes que caem em nossos porões sangrentos. Isso não pode mais perdurar. Tão forte. a humanidade. Nós que aqui estamos. Não. MAULER: Sempre me pergunto por que essas tolices me afetam: Discursos plenos de utopias. SLIFT – Não queres comer um pouco de carne. vejo-te mergulhado na contemplação de teu ser grandioso. Então creio sentir Como um peixe aprisionado entre duas águas Pauladas na espinha. Há sempre boquirrotos que acham Que as coisas não andam como deveriam. (À parte:) Farei com que ele coma um filé muito mal passado. um após o outro. Onde o fogo arde embaixo Enquanto congela-se em cima. Sabias que tu compraste hoje tudo aquilo que pode ser colocado dentro de uma lata de alumínio? Meu caro Mauler. Para limpar esse mundo. eles são muito numerosos. então? MAULER: O que vive abaixo e não acima De mim! Esses seres reunidos nos matadouros. Esfolarmos uns aos outros friamente. . Se nos apanharem um dia. É outra coisa. de onde se eleva uma cólera Que nos varrerá a todos. E dezoito horas por dia. Talvez depois de comer carne crua ele retome seus instintos.. Por trás havia rostos selvagens. SLIFT: Em cidades como as nossas. Eu deveria podê-lo de novo. irei confessar-te Minha verdadeira opinião sobre nossos negócios: Comprar. por mais louca que seja. E pense em tua situação: ela não é muito boa. SLIFT – E o que é. SLIFT – O discurso deles te perturbou. Seu número aumenta a cada dia. Levantar-se-ão com a aurora e por-se-ão em marcha. urrando. Certamente porque essa gente trabalha a troco de nada.

Ah! Meu caro Slift. eu te juro. Milhares de homens sangram Por causa deste imundo dinheiro. Parece. a não ser que golpeie Y Se ele golpear. MAULER: Oh! Slift. esmagado. safa-se. Receberás. sim! Eu comprei carne. qual Atlas. É coisa que também não se deveria fazer. Ou desencadear guerras. deverás escoá-lo em um mercado que já não consegue absorver uma única lata. sob os arcos de alguma ponte. mas Y o surpreende. Mas não foi por causa da carta. MAULER: Tu compreenderás. SLIFT – E por que reclamas de ter comprado? MAULER – Sim. dizer-lhes Que ninguém era louco o suficiente Para comprar carne em conserva. SLIFT: Tudo depende de quem escreve a carta. hoje. Na carta que recebi de Nova Iorque essa manhã. Ah. assim. Aqui está: “Caro Pierpoint. teus amigos de Nova Iorque? MAULER – Que eu devo comprar carne. os preços Subam? E nós acabaríamos. escapando bem.“Estamos em condições.. Slift. MAULER: Corromper assim. Os preços baixarão novamente. muitos de meus concorrentes balançavam. Escuta: X comete um roubo. Não. Em quinze de novembro. eu não agi por razões vis. Tu as compraste a cinqüenta mas. Mas ainda há a carne Que no mercado liquidarão cem criadores Muito ávidos. eu comprei.” SLIFT. O ladrão está perdido. Realmente eu não vejo sentido nesta carta. rir-me deles. acredito. os preços cairão a trinta. então. Estão erradas. essas teorias de gabinete. Então pode ser que. Sim. indicado. quando os preços estiverem em trinta. ou a vinte e cinco. Eu fui vê-los cair. eu comprei! O que eu fiz! Coloquei sobre minhas costas toda a carne desse mundo! Trôpego. votarão contra as tarifas aduaneiras. eu estou perdido. SLIFT – E o que escreveram.. Corromper ou abolir as tarifas. Mas esta mulher comoveu-me a tal ponto Que mal lancei os olhos. . então? Mauler sorri. eu tenho a impressão De que nada de bom sairá daí. eles me escrevem para comprar. Ainda pela manhã. Sob o fardo de toneladas de latas de alumínio.. Nas semanas vindouras. de resto. apesar de tudo. caro Pierpoint. SLIFT – Tu deves fazer o que? MAULER – Comprar carne. na melhor hipótese. Não é qualquer um que pode. amanhã. SLIFT – Quem são. o Cartel te entregará mais cinqüenta mil toneladas a cinqüenta. é verdade.. eu me escutei dizer: “Eu compro tudo”. Facilmente nascem guerras À custa de tais atitudes. Essas pessoas são gente de bem? MAULER – É gente com liquidez. E uma vez lá. na Câmara.22 Primeiro compraste ao Cartel um estoque de vinte mil toneladas de conservas. Cairei. eu estou perdido! Esse é o meu fim. mais notícias. continuando a leitura . comprar carne. de anunciar-te que nosso dinheiro começa a render seus frutos: muitos são aqueles que. SLIFT – E tu compraste! MAULER: Oh. Essa seria uma saída.

Quem me comprará. Ele desenha um “A” na porta de um armário. com um porco ou com um boi. Persuadir os criadores da oferta excessiva. MAULER: É verdade. Quando ele me ouvir cantar aqui. de seus delitos. das fábricas paradas. Joana diante da porta da esquerda. Traga-me até a menor mancha de gordura. Nem a mim nem aos que me acompanham. diante da porta da esquerda – Enquanto os criadores não forem ajudados.) Saia. E por agora também não penso em reabrir a fábrica. E comprar-lhes tudo. grandes lucros! É verdade que o ganho seria apreciável. todo esse gado? SLIFT – Vejo apenas Graham. .). Slift. (Ela ri. Slift. minha decisão está tomada. (Os criadores colocam-se diante da porta da direita. SLIFT – Qual crime? MAULER: Um crime que eu não poderia cometer. No interior da casa. no fim. que precisa bastante. eu não comprarei! Eu que já carrego toda a carne desse mundo. Retumbar de tambores. MAULER – Eu não compro. Toda a carne posta em conserva até hoje. eu vou comprar. JOANA – Nós o faremos sair de sua toca. ele se dirige à porta da direita. a cinqüenta. Lembrá-los de Lennox. nem chapéu nem sapatos. Eu fiz “A”. Joana entra acompanhada dos criadores. Não. Slift volta.23 Da mesma maneira a carta – que está errada – Requer – para acertar – um crime desta ordem. eu não quero meter o dedo neste negócio. Slift? Não quero reencontrá-la e. de perto ou de longe. Vão para lá. Pois. Mas então. não sairemos daqui! MAULER – Tu dizes Graham? É verdade que ele precisa de gado? Saia.) Slift.. (Ele calcula. Isto é o principal: Sumir com o gado. mais de dez mil criadores que não sabem mais a qual santo rezar. então. Ele pede-vos dois minutos de reflexão. não foi bom. Devo comprar ainda todo o gado de Sírius? É como se alguém viesse dizer a Atlas Que não mais agüenta. Os enganados serão os criadores. Slift sai. Slift. Vais comprar todo o gado de Illinois. Feliz se. eu estou comprando e compro ao preço do dia. OS CRIADORES. é preciso que eu lhe fale da miséria dos criadores de Illinois. Pierpoint! MAULER: Ah! É verdade. em todo o Illinois. tentará sair pela outra porta. Compra então o nosso gado! MAULER: Fecha a porta. e tudo o que cheire à banha eu compro também. SLIFT – Por aqui.. é verdade. e diga-lhes que quero refletir dois minutos. eu compro. Slift tragame tudo o que se pareça. diante da porta da direita – Sai. MAULER – A outra saída onde é. sobretudo. Eu não compro mais nada. Slift. aos criadores – Pierpoint Mauler está examinando vosso pedido. SLIFT Tu que não querias mais comprar um chapéu. dobrando-se sob o peso da terra: Saturno também precisa de apoio. Mauler. Senhor Mauler. E nós somos. SLIFT. Que eles tirem. Agora. quero paz em minh’alma. depois. àquela gente que está com ela. Antes de ter saído dessa. para evitar me encontrar. A operação é simples: seria preciso comprar Todo o gado que se encontrasse em pé. a partir de hoje. JOANA. Também trouxe alguns trabalhadores que adorariam perguntar-lhe quando o senhor reabrirá a sua fábrica. tiver cem dólares no bolso. Ele não gosta muito de me ver. Tu és o responsável por nossa desgraça. como quem captura um grilo. para o outro lado. SLIFT – Não deverias ter comprado.

Ela sai. mas não fizeram nada. ao fundo. entre os quais dona Luckerniddle e Gloomb:) Vocês de novo? Vocês passam a vida aqui? O trabalho voltou nos matadouros! DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. que são gente de bem. . Mas seu nome não deve ser mencionado. dona Mulberry. GLOOMB – No começo falaram em reabri-los. que eles nos ajudem a desferir. grita a eles – Digam ao senhor Mauler que os Chapéus Negros lhe agradecem. sábado próximo. dão certo. Pierpoint Mauler resolveu comprar todo o gado que se encontrar no mercado. (Aos operários:) Quando os que compram gado e os que o vendem se acertarem.24 Dominado por seus sentimentos. sobretudo nas camadas inferiores da população. os dispensados esperam ainda pacientemente na porta dos matadouros ou já começam a dar discursos revolucionários? DONA LUCKERNIDDLE – Desde ontem gritam bastante. o aluguel que ela tão gentilmente tem adiado. e. O dinheiro nos permitirá também pagar à nossa querida proprietária. se levantando – Que mixaria! Que mixaria! (Dirigindo-se a alguns pobres. minha cara dona Mulberry. sai e se dirige aos criadores – Para salvar Illinois e impedir a ruína dos fazendeiros e criadores. E eis que “A” e “B” tomados juntos. VII Os mercadores são expulsos do templo TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS Sentados em uma longa mesa. não se esqueçam de varrer a escada. Eles não são como os outros. Assim eu decidi. caros ouvintes! Para resolver o delicado problema do financiamento nós até agora apelamos aos pobres e aos mais pobres. frente a Deus. que cada um volte alegremente às suas funções. o que foi feito dele? BISPA SNYDER – Meus caros Chapéus Negros. em nome de Deus. Alguém se equivoca: “A” é um erro. Entra dona Mulberry. uma avareza completamente inexplicável. BISPA SNYDER – Não se aproximem muito da caixa! Ele fez sinal para que eles recuem até o fundo. (Os Chapéus Negros saem. para vocês também haverá pão novamente. tão errado quanto “A”. Eles não têm pão. convidar em vosso nome as pessoas ricas e bem colocadas de Chicago. Comandante dos Chapéus Negros. GLOOMB – Muitos já dizem que se não empregarem a violência não haverá trabalho para todos tão cedo. pois eles sabem que as fábricas receberam encomendas. Mas Deus todo poderoso Achará os meios de alimentá-los! BISPA SNYDER. DONA MULBERRY – E meu aluguel. JOANA. DONA MULBERRY – O que me agradaria muito. OS CRIADORES – Viva Pierpoint Mauler. os Chapéus Negros esvaziam suas latas de ferro e contam ao óbolos das viúvas e dos órfãos. Talvez isso tenha a ver com o fato de que eles não possuem nada. mas por enquanto não se preocupem. não é preciso que as vendas sejam feitas em seu nome. salvador do comércio! Eles entram na casa. Em seguida comete “B”. Trabalham duro e vestem-se decentemente. um grande golpe no ateísmo e no materialismo que reinam nesta cidade. Que dão medo de olhar. proprietária do imóvel. Suas misérias são grandes. Infelizmente. sobretudo. Faça entrar os fazendeiros. acabamos constatando que esses segmentos demonstraram. BISPA SNYDER – Agora. Aos pobres:) Digam-me. pelo que acaba de fazer. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Recolham cantando Os trocados dos órfãos E os trocados das viúvas. Eles não têm teto. SLIFT.

Graham. Deus é testemunha. a Snyder – Desembuche! Eles se sentam no banco dos fiéis.. após a sua morte. SLIFT. MEYERS. precisamos de sopa quente e música animada. SLIFT – Quem poderia ser? GRAHAM. Slift! MEYERS. e vá dizer ao Pepê Que afrouxe o laço. Slift? (Slift simula um ar astucioso e exagera na mímica do ato de dar dinheiro). BISPA SNYDER. Slift. Entram os fabricantes de conservas: Cridle. (Aos outros) Eles carecem desta quantia. confesse Slift. Já é melhor. não gosto disso. ouvimos dizer que há nos matadouros cinqüenta mil pessoas sem trabalho. Que tal. Meyers. E já citam vossos nomes. SLIFT – Mauler e eu não compramos um centavo sequer de gado. a Snyder – Quinhentos dólares? Isto é muito dinheiro! Quem vai pagar? SLIFT – Ah. Senhor Slift.. Do lado de cá. sem dúvida? SLIFT – Sem dúvida. sim! Vocês agora terão que achar alguém que faça a doação. MEYERS – O que não será fácil. SLIFT – O essencial. vocês certamente precisam. o Pepê está com o gado. a Meyers – Essa senhora não tem senso de humor.. Quinhentos dólares. MEYERS – Eu me pergunto. Nós. diremos a eles que a desgraça vem como a chuva. senhora bispa. um dia. recompensados por suas penas. BISPA SNYDER MEYERS Há um cretino que razia o gado E que sabe bem que estamos comprometidos A entregar carne enlatada E que. no púlpito – Nós. Bispa Snyder! Todos riem.. E que alguns entre eles começam a resmungar e a dizer: devemos nós mesmos cuidar do negócio. então. . são vocês que estão com o gado.25 – Isso nos é favorável. onde poderia estar todo o gado! GRAHAM – É o que eu me pergunto também: onde poderia estar? SLIFT – Eu me coloco a mesma questão. Porque já começam a dizer por todos os lados que a desgraça não cai do céu como a chuva. MEYERS. Se vierem para cá tocados a pedradas. mas que serão. mas que ela é provocada por aqueles que dela tiram vantagem. novo soco – Que tu achas que eles querem. Graham. MEYERS – Setecentos e cinqüenta. portanto. na frente do palco – Então. os Chapéus Negros. que eles estão destinados ao sofrimento. a Snyder – O que querem de nós? GRAHAM. é saber de que lado vocês estão! Desse lado da barricada ou do outro? BISPA SNYDER – Os Chapéus Negros. BISPA SNYDER – Podemos dar um jeito com setecentos e cinqüenta. Nós também prometeremos a eles que os ricos serão punidos. (Aos pobres:) Vocês não poderiam ao menos cortar lenha para nós? OS POBRES – Não há mais lenha. menos Snyder. tão certo quanto eu estou aqui. Na mosca. a Snyder – Todos pobretões.. (Os fabricantes de conserva caem na gargalhada) E tudo isso por apenas oitocentos dólares por mês! GRAHAM – Não precisas de tanto. GRAHAM. É nosso nervo vital! SLIFT. portanto. não enrole. os reis da carne nos escutarão mais facilmente. GRAHAM – Confesse. mais então. bispa.. minha cara. quinhentos? GRAHAM – Quinhentos sim. afirmando que sois vós os responsáveis pelo desemprego! Em breve eles dirão: queremos fazer como os bolcheviques. estão acima da querela. OS FABRICANTES – E quanto querem pelo serviço? BISPA SNYDER – Oitocentos dólares por mês. tomar as fábricas em nossas mãos para que todos possam trabalhar e comer. OS FABRICANTES – Por que falar em pagamento? BISPA SNYDER – O pagamento do qual falamos é feito após a morte. os Chapéus Negros. precisamos do gado. sem que ninguém saiba como. GRAHAM – Até tu? E Mauler também. dando-lhe um soco na boca do estômago: Velho cão imundo! Vamos.

É preciso ser muito tonta! Na verdade. Sois indignos e eu vos expulso! Apesar de vosso dinheiro! . Haveis perdido então todo o respeito pelo que se parece humano? E ousais anda vir à casa de Deus porque possuem o vil metal? Sabe-se bem de onde haveis tirado esse ouro e como o haveis adquirido. mas também os esconde De todos os olhares. Os Chapéus negros aparecem na porta. Se fizeres isso por nós. aos fabricantes: Esses pobres continuam a esperar trabalho? Silêncio dos fabricantes Eu que pensava que eles estavam arranjados! Faz já oito dias que neva nas costas deles. Estou pronto. indo de um lado a outro. ao me veres aqui. dizendo-me: ajudando aos de cima. nós não queremos mais ver. comprou-vos conservas Por minha solicitação! E não reabristes ainda? OS TRÊS – Está correto. senão ficam imobilizados. Se essas pobres criaturas. GLOOMB . Mas o Bom Deus tem uma opinião muito elevada de Si mesmo para ser sempre a vossa babá para todo o serviço e para vir limpar vossas cavalariças. sem pena também Esqueci o que todos se apressam em esquecer Para rapidamente estar em paz com suas consciências. vós então vos borrareis todos. qualquer um que queira ajudar aos pobres deve ajudá-los a protegerem-se de vós.26 Entra Joana SLIFT – Aí está a nossa Santa Joana da Bolsa de Carnes! OS TRÊS. e eu.No começo falaram em reabri-los. e que os operários poderiam comprar a carne. SLIFT – Mas querem antes estrangular os agricultores! OS TRÊS – Como abater gado que não existe? SLIFT – Quando Mauler e eu compramos a carne de vocês. Basta que alguém diga: está acertado. Mas agora. pagaremos o aluguel dos Chapéus Negros por quatro anos. pois. e a religião vos parecerá de novo algo de muito bom. eu sei o que faço. Dizem que ele come na tua mão. aí estás! Nós não estamos muito contentes contigo! Tu não poderias dizer uma palavrinha de nossa parte à Mauler? Parece que tens sobre ele alguma influência. JOANA. Não me detenham. avançando: As vinte refeições foram comidas! Não te irrites. avançando: Eu te conheço: tentei te convencer A trabalhar nas serras que me cortaram o braço. Dirigindo-se aos fabricantes: Mauler. Nós queremos reabrir nossas fábricas. ela está espantada – O que fazem vocês aqui? DONA LUCKERNIDDLE. perdi demasiado tempo até sabêlo. da tua vista sairia. (Joana sai atrás deles com o mastro de uma bandeira. ajudo também aos de baixo. supúnhamos que iriam retomar o trabalho. que ela usa como se fosse um porrete. É o seguinte: alguém sumiu com o gado do mercado de uma maneira que somos obrigados a ficar de olho em Mauler. e nessa atitude há alguma coisa que parece exploração. senão lançar-me-ei sobre vós e golpeá-los-ei a cabeça. De bom grado. empunharem um porrete para bater em vossas cabeça. entretanto. Saí. Esta neve os mata. e rápido. GLOOMB. hoje. própria para jogar água na fervura. Para que ninguém mais vá olhar de perto. Parece que podes fazê-lo agir ao teu gosto. se os consumidores não têm com o que pagar? JOANA – Em vossas gigantescas instalações e vossas fábricas detendes as ferramentas dessa gente: deveríeis ao menos permitir que eles as usassem. olhando os pobres. E eu. É preciso que ele libere o gado. mas não fizeram nada. Mas cruel é a fome: Renasce sempre. JOANA. gritando alto a Joana – Ah. quem comerá a carne que nós compramos? E para que nós a compramos. JOANA – Por que não trabalham? Não arranjei trabalho para vocês? DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. mal tendo sido saciada. para fazer pior.) Saí! Quereis transformar a casa de Deus em um estábulo! Saí! Nada tendes a fazer aqui! Cabeças como as vossas. que haveis atormentado ao extremo.

ah. como jamais viu antes o mercado do gado! Saída dos fabricantes de conservas. prisioneiros Em uma torre de marfim. . e a partir de sábado à noite. Serve-lhes água de chuva e belas palavras Pois do céu não lhes vem mais do que neve E não misericórdia! A humildade. está bem. de volta Convida a tua casa. correndo sai atrás deles – Fiquem senhores. no coração da tormenta. Eu pedirei sua ajuda. Mesmo que ele os torne surdos. OS TRÊS Joana sai. dona Mulberry – que ele encontrou sobre a terra. Mas como deixar-se levar por isso? (À dona Luckerniddle e a Gloomb:) Sentem-se lá no fundo. é muito justo que pague. não tem nenhum mandato! É apenas uma mulher que perdeu a razão! Ela está despedida! Ela fará pelos senhores tudo o que desejarem. É mister que haja um Justo entre eles! Ela sai. tudo mal. Quanto ao pão que precisamos comer. Eu não desejo Colocar novamente o chapéu e o uniforme negro. De qualquer maneira. tudo bem. agora. Fazes-te de difícil e és muito curiosa Para saber como é feito. Nós iremos viver dias terríveis. esses pobres. BISPA SNYDER: Infeliz ignorante! Como não vês que operários e patrões. DONA MULBERRY. Enfrentam-se como gigantes? Vá. BISPA SNYDER. Mediadora inútil e que cava a própria cova. não temos mais um centavo. então. de um ao outro. comê-lo também! Vá-te então. Tu que planas mais alto que as questões terrenas! Parta sob a chuva. não se vão. oferece teus bons préstimos. DONA MULBERRY — Sim. Anda cuidar de tua vida. Mas se ele não paga. Doravante farás parte dela. vão-se irrevogavelmente quarenta meses de aluguel. Se o Bom Deus não paga o seu aluguel. terá de se mudar. ela não representa ninguém. Vá sob a neve e continue intransigente! JOANA – Quer dizer que devo tirar meu uniforme? BISPA SNYDER – Tira o uniforme e arruma tua bagagem! Sai desta casa e livra-nos da escória que arrebanhaste. onde não escutam mais Os pedidos de salvação do resto dos humanos. Homem de boa fé e destemido. entrando — Vocês já arranjaram o dinheiro? BISPA SNYDER – Deus encontrará logo o meio de pagar o abrigo bastante modesto – eu disse modesto. tu a ignoras E cedes a teus impulsos! É mesmo muito fácil Caçar esses impuros com um gesto cheio de orgulho. Grupos inimigos irreconciliáveis. aos Chapéus Negros – O que acabo de fazer certamente foi pouco habilidoso. JOANA. Por causa do aluguel. fracos. Trazendo-vos totalmente convertido. é bem disso que se trata! Falaste a palavra exata! Se o Bom Deus paga. Ela carrega uma mala pequena. Mesmo que o dinheiro os carcoma como um câncer Devorando o que seu resto tem de humano. eu lhes trarei a sopa. Nem outra vez cruzar o limiar dessa querida casa. Enquanto não tiver feito de Mauler um dos nossos. entretanto. Povoada de cânticos e palavras que despertam. ela retorna vestida como uma jovem camponesa. BISPA SNYDER. pois esses que te seguem não são mais do que escória e refugo. JOANA Irei ver o rico Mauler. na ponta dos pés.27 – Está bem! Mas conosco. modestamente. bispa Snyder? Ela sai. Queres.

realmente. Assemelhem-se a bois ou porcos. por um momento. Houve discrepâncias entre nós. JOANA – Bom dia. Eles precisam comprar de nós. de perto ou de longe. Graham e companhia ficarão então parecidos À lama. Vou ver como eles compram.28 VIII Discurso de Pierpoint Mauler sobre a absoluta necessidade do capitalismo e da religião ESCRITÓRIO DE MAULER MAULER: MAULER: Chegou enfim o dia em que nosso caro Graham. se eu estivesse lá. É um belo sofá que o senhor tem aqui. Desde Que ela nos expulsou do Templo. que tu tenhas superado Teus recentes acessos de fraqueza. A mim também Teria expulsado. Mas o senhor. e cada porco Que eles precisam nos entregar. mesmo nas pequenas coisa. e que nem mesmo está dobrado direito? Diga-me: o senhor dorme aqui mesmo. SLIFT. Deixo minhas coisas nesse canto. SLIFT: E tua Joana? Algo de novo? Um boato corre na bolsa: dizem Que te deitaste com ela. Não se fala mais dela. senhor Mauler. Agora que não tenho mais o trabalho fatigante da missão. de ser cuidadoso. Slift. Gosto nela deste traço. carregando uma mala. Slift. Em busca de animais que. Terão de pagar mais caro. meu caro Slift. Gostei muito de vê-la expulsá-los do Templo. MAULER: Seria preciso esfolar esta cidade maldita E ensinar-lhes o seu ofício A essa gente. em sua casa. senhor Mauler. desta vez. Neste mercado de Chicago Todos os bois que se escutam mugir São nossos bois. MAULER: Agora. posso me interessar mais por cada homem em particular. no seu escritório? Sempre achei que o senhor devia possuir um dos grandes palácios de Chicago (Mauler se cala). os preços a oitenta. E todos aqueles que como ele. Ele sai. mas por que o lençol em cima. Eu desmenti. Serão obrigados a comprar a carne Que devem nos entregar. Faça subir. SLIFT: Estou feliz. Mas o senhor tem razão. Ela não tem medo de nada. onde enfiaremos o pé Unicamente para ver a marca que deixa. Senhor . Não pretendo soltar um só grama de carne A fim de arrancar-lhes mesmo a pele desta vez: É a minha natureza quem exige. E na nossa mão é mais caro. Mauler. Deixar que gritem: “É um crime!” Entra Joana. Então eu disse a mim mesma: vá dar uma olhada no que se passa com o senhor Mauler. É que eu não estou mais com os Chapéus Negros. e de que. Não é fácil encontrá-lo. E os preços Subirão ainda mais. dá rédea solta a teus corretores! Deixa-os correr o mercado. queriam esperar Que o preço do gado caísse o mais baixo possível. Dir-se-ia Que Chicago a engoliu Em sua negra e ruidosa bruma. Não se possa aceitar gente da minha laia.

MAULER – Vá dizer-lhes que o dinheiro está chegando.. mesmo à noite. Eu irei à Bolsa encontrar o dinheiro que lhes falta. vá dizer-lhes isso. o que me agradou muito e me pareceu justo. MAULER – Ah! E agora os Chapéus Negros estão em uma situação financeira difícil? JOANA – Sim. É por ti que o faço. Há quanto tempo não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Oito dias. E que. o dinheiro para vocês eu terei. e aos Chapéus Negros é preciso auxiliar. tenho boas esperanças de que sua consciência esteja em paz nesse momento! MAULER – Então não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Não. eu lamento Que o trabalho ainda demore nos matadouros. MAULER – . É Mauler quem vai dá-lo. naqueles pátios imensos. muda logo a tua cara? . Joana pára de comer. não como eu queria. na minha vez. senhor Mauler. Assim como aos criadores. senhor Mauler! MAULER Tome. a proprietária. O dinheiro. Toma. MAULER – Não te inquietes.. JOANA – . Eu quero dar-vos alguma coisa Para provar-vos a bondade de meu coração. Quando não o tens. Não pude dar-lhes trabalho rapidamente. Eu não conheço.. Mesmo que deva cortar na carne. Vou agora mesmo à Bolsa para procurar o dinheiro. Queres? Joana observa a comida. Eis o desafio. eu não comerei. está caro.. não faço mais parte. JOANA – Sim. arrancar a pele desta cidade. E como eu sei que sois pobres E que querem privar-vos Do teto que vos abriga. é lógico. de pé. E foi por isso que eu me disse: irei ver o senhor Mauler. Confirme que foi por teus conselhos Que eu. sim. Teria adorado ouvir-te dizer Que o que eu faço está bem. MAULER – E do que tens vivido? (Silêncio de Joana) De nada. JOANA – Senhor Mauler. ser ou não ser. Eles são cinqüenta mil Que permanecem lá. Mauler vai até o fundo do palco e chora. Nesta história dos cinqüenta mil trabalhadores. Daqui até sábado. que vive do aluguel.. e que agi bem. Mas eu o encontrarei. Mas nesse negócio. ainda por cima. O escuro caminho que leva aos matadouros. MAULER: Tão mudada! Apenas oito dias! Onde ela esteve? O que ela viu? E por que essas rugas em torno dos lábios? Esta cidade de onde ela saiu. Eu confesso cruamente. Ele traz comida a ela em uma bandeja. encomendei a carne. quando nós expulsamos os ricos de nosso templo.. a coisa não andou. Eu também. não querem partir. é claro. aos fabricantes. Mas contigo não será assim.. Trata-se de saber Se eu serei o melhor de minha classe Ou se tomarei eu mesmo. eu buscarei o dinheiro a qualquer preço. Ela começa a comer avidamente. senhor Mauler. Que meu comércio não é antinatural.. Corra. Um trabalho ruim. Estás de acordo? JOANA – Sim. JOANA – Os operários continuam esperando nos matadouros? MAULER Por que és contra o dinheiro? E por que então. Eu te encontro bastante mudada. Aqui está por escrito.29 Mauler. nos deu prazo só até o próximo domingo. Uma vez mais.

eu que nutro Poucas simpatias pela ordem do mundo. Fazendo Dele a única salvação. Mas pensa na realidade. MAULER . Ela se levanta.O que nós não vos exigiremos de nenhuma forma – Devem dizer ao menos que eles são justificados. Para que Ele finque pé nas favelas E para que Sua voz retumbe nos matadouros. isso será suficiente. Daqueles a quem ninguém oferece nada. Mas eu faço parte daqueles Para quem essa não é uma ajuda. aliás. Olha também como o mundo é feito! Que edifício! Obra dos homens. Por Ele batendo os tambores. As coisas não deixariam de seguir o seu curso de antes. Por isso vós deveis nos ajudar em nossa obra. Ou então seria preciso mudar tudo. Não desejais. Em uma palavra é preciso que vós Restabeleçam Deus em sua glória. Eis porque esta obra é sempre defendida Pelos melhores entre os homens. sob chuva e frio. eu concordo. Seria como um mosquito Tentando se opor a derrubada de uma montanha. Eu sei. JOANA Senhor Mauler. Ao menos a vida de alguns. ou quase. E se vós não precisais se expor aos sacrifícios. E incessantemente construída. Tão penosa de construir. sob gemidos. Pouco ou muito segundo o caso. Apanhe o que te dão. Concepção inaudita à qual vós mesmos. Que o gênero humano está entregue. Eu não compreendo E nem quero compreender. Na banal verdade. Quero saber. É à sorte. durmo mal à noite. Modificar por inteiro o plano do edifício. eu deveria estar feliz De ver que alguém vem em ajuda a Deus. Sim. Eu seria varrido. Se eu quisesse me retirar. de cima a baixo. Isso que o senhor falou. destruído na mesma hora. E que. malgrado os sacrifícios. Não enchas a cabeça de falsas idéias. veja bem. . O dinheiro é um meio De melhorar um pouco a vida. Assim. sem dúvida. Mas saiba com qual objetivo foi dado! Tome isso! Saiba que representa O aluguel de quatro anos. Ele alcança o papel a Joana. Desde que existem sobre a terra. Ainda que dia após dia se precise reconstruir O que dia após dia é destruído. Esse sistema é o único que permite arrancar O que pode ser arrancado dos rigores desse mundo. Que seria suprimido por falta de utilidade. nem Deus. Obra imensa.30 O que pensas tu do dinheiro. nem nós tampouco: Não seríamos necessários. Como esses bobos para os quais o dinheiro Tem não sei qual problema. Mas mesmo assim verdade: Sobre a terra nada há de sólido. diga-me. Atribuir ao homem um lugar totalmente diferente. Pouco agradável.

Eu marchava. Eu comerei esta neve. MAULER Esta noite. com aqueles que esperam. em um pequeno campo. E nada comerei além do que eles comem. Que alguém gritou em algum lugar. E isso é muito bom. Chicago! Vós também Lá estavam. JOANA Terceira descida de Joana às profundezas. se o senhor quiser me ver Me verá nos matadouros. Se for um punhado de neve o que lhes dão. Fez esta massa começar a fluir. e então eu me vi: À vossa frente. desfilando. afluíam inúmeros cortejos. Sobre ela que tu conheces. E se não houver trabalho. Cercado de todos os lados por enormes edifícios E tão pequeno que a sombra de um arbusto O teria encoberto totalmente. E se nevar. Pois esta vida sem eira nem beira não te serve. Jogados aos matadouros e de tudo ignorantes. Sem poder suportar a visão dos pobres Que os julga sem conhecê-los. Vai à janela e repara se neva. marchava à sua frente. Eu também não tenho dinheiro E nem uma maneira de ganhá-lo de outro modo. Mas eu me sentarei Em frente aos matadouros. No futuro. E o senhor. que vive da pobreza. sem uma palavra. Eles formavam uma massa tão densa. JOANA Se os Chapéus Negros quiserem o seu dinheiro. E o trabalho deles também. Saberás que neva sobre ela. Eles fazem muita questão do dinheiro. E então uma palavra. e outras familiares. Pelo menos não honestamente.31 Leva aos Chapéus Negros este dinheiro E poderás ficar com eles. com passos guerreiros. Mais numerosos. pulsando vida. Jovem e velha. 1. do que os pardais Que se poderia colocar em tal lugar. eu quero fazê-lo. Ficarei lá até que as portas sejam reabertas. E eu. a fronte ensangüentada. Notei uma massa humana. Ao mesmo tempo. Perto dela Gloomb e dona Luckerniddle. Quantos eram eles? Eu não sei. creia-me. Vi depois cortejos E ruas desconhecidas. por toda a parte. IX Escutai o que eu sonhei. A cada hora. Ela permaneceu suspensa por um instante. Há sete dias: Diante de mim. levanta-te. Que o campo inflou-se e uma cascata humana Inteira ficou pendurada em suas elevadas bordas. A tempestade de neve. Mauler. Depois eu gritei palavras em tom belicoso Em uma língua para mim mesma desconhecida. em todo o caso. silhueta múltipla. Eu serei como eles sem trabalho. soluçando e jurando Logo fora de mim! Virtude e terror confundidos! . Arranjando para não ver esses condenados. Ela sai. Que o aceitem. BAIRRO DOS MATADOUROS Joana. uma palavra sem importância.

bem e aquecidos! 2. e pior. Senhores. mas existe.32 Tudo o que eu pisava. a senhora entendeu esta história? Eu não. Habituados ao sofrimento. GLOOMB – Dona Luckerniddle. estávamos fora de alcance. DONA LUCKERNIDDLE – Se ela tivesse calado um pouco a boca lá nos Chapéus Negros. Hoje eu compreendo o seu sentido: Nós deixaremos os matadouros antes do raiar do dia. OS FABRICANTES Desgraça! As tarifas caíram E nós não temos mais bois para vender! Eles já estão vendidos. Influenciando o curso dos planetas distantes. Mauler. libere-nos de nossos compromissos! MAULER: Estou desolado. Rendidos pela fome. não nos podiam alvejar. Eu andava no mesmo passo que o cortejo. e pior. eu ignoro.. a preço vil. Assim foi o meu sonho. E assim andava o cortejo. MAULER: Sendo grande a demanda De conserva e de vianda E sendo os preços aceitáveis. Para aí mostrar a todos. Precisamos comprar e os preços aumentam! . sem mais delongas. a cidade deles. nós agora estaríamos comendo a nossa sopa. que eu saiba. abandonando este lugar insuportável Por qualquer outro. A exata extensão de nossa miséria. transparentes. Um pouco caro. nas praças públicas. mas preciso das conservas. a preço vil. UM PEQUENO BAR NO BAIRRO DOS MATADOUROS Desgraça! As tarifas caíram! E nós não temos mais carne para vender! Ela já está vendida. Faremos um chamado a todo o ser que pareça humano. Envolvida pela neve. Todas as conservas Previstas no contrato. GRAHAM: Ao preço antigo? MAULER: Como combinado. Graham. BOLSA DE CARNES MAULER. Há muito gado. modificava. éramos inatingíveis. Habitando em lugar algum. ao abrigo dos ataques inimigos.. Oitenta mil toneladas. O que acontecerá. Ninguém sabe quem foi. é verdade. se eu me lembro direito Daquela hora em que perdi um pouco o juízo. OS CRIADORES aos fabricantes de conservas: Meus amigos de Nova Iorque me escreveram Que as tarifas aduaneiras no Sul Acabam de ser derrubadas. Ocasionando imensas destruições. OS FABRICANTES: Mas como nós poderemos Comprar gado com preços em alta? Alguém promoveu uma razia. Eu exijo que me entreguem. E também perturbando o aspecto familiar de ruas bem próximas. Comprem-no! OS FABRICANTES: Comprar gado nestes dias! Que horror! 3. E com a aurora chegaremos a Chicago.

como vocês. por causa do meu marido. e eu não tenho mais fome e nem sede. eu prefiro os atos. Ah. tu também. soldado dos Chapéus Negros: . mas ninguém contribui) Aleluia! JOANA – Deixe-os. Luckerniddle – De onde a senhora os conhece? DONA LUCKERNIDDLE – No tempo em que eu não me fiava em gente como você eu ia bastante até eles.(Vocês acham que isso serve para alguma coisa?) Eu também. GLOOMB – Bondade curta. à margem do caminho. Onde está Jesus. já ouvi demais. minhas irmãs. tenho apenas sede da palavra de Jesus. dona Swingburn? A MULHER – A sua música era bonita. que um resto de pudor lhes diga: Aqui reinam a neve e o vento: calem-se! 4. do pão de Deus? Grande é nossa alegria. BOLSA DE CARNES OS FABRICANTES: Nós compramos qualquer gado! Bezerros! Gado gordo! Vitelos! Bois! Porcos! Façam as suas ofertas. JACKELINE. eu esperava que eles fossem ao menos nos dar um prato de sopa. hoje (eles não estão escutando nada!) basta que eu pense muito em Jesus. que nos salvou na dor. Um destacamento dos Chapéus Negros chega. e o velho Adão dentro de mim não tinha outro desejo do que comer e beber. JOANA. UMA MULHER Por que vir aqui fazer escândalo Com tamanho frio! E se pudessem ao menos se calar! Com muito custo eu consigo agora Suportar as palavras que há pouco amava E que me soavam agradáveis. grande o nosso regozijo. Nosso Senhor. tenente dos Chapéus Negros. Bem que eu gostaria de estar com eles! DONA LUCKERNIDDLE – A música era bonitinha! GLOOMB – Bonita e curta. MARTHA. Se algumas pessoas soubessem calar a boca eu saberia onde procurar abrigo esta noite. Silêncio. à dona. curta bondade.33 Trabalhadores e trabalhadoras. meus irmão. Vinde a ele.Aleluia! (Jackeline faz circular a cuia de esmolas. DONA LUCKERNIDDLE – Eles são boas pessoas. que alguma voz. não o ódio. JOANA – Mas não são os tais que ficam incitando ao crime? O TRABALHADOR – Não. vinde logo! Aleluia! Uma jovem dos Chapéus Negros dirige-se aos trabalhadores. ente os quais Joana. Pois nós encontramos Jesus. depois de entoar um cântico apressadamente: Por que não provar. A MULHER – Por que não nos procuram para tentar nos converter? GLOOMB. Nosso Senhor. (Isso não serve para nada!). estava um dia sentada. UM TRABALHADOR. (É tudo absolutamente inútil!) Eu lhes digo: ajudem-nos a manter a marmita fervendo! OS CHAPÉUS NEGROS . reina a paz. por favor! OS CRIADORES: Não sobrou mais nada! Tudo o que podia ser vendido . apesar de todas as nossas más ações. JOANA – Onde eles estão? GLOOMB – A dona Luckerniddle pode lhe dizer. os comunistas. faz desesperadamente sinais para que saiam. Joana se levanta e. mas então eu encontrei Nosso Senhor Jesus e fez-se em meu coração uma grande luz e provei uma grande alegria. durante a cena. triste. Intercala sua pregação com observações aos companheiros. Eles precisam fazer isso para conseguir um pouco de calor e de comida. mas eles traziam uma panela. surpreendendo-se pela ingenuidade – É sério? A senhora acreditou nisso? DONA LUCKERNIDDLE – Eu também. meu irmão. fazendo o gesto de contar dinheiro – A senhora consegue manter a marmita fervendo. não a violência. o amor. JOANA – Então não há ninguém que tente fazer alguma coisa? O TRABALHADOR – Sim. Discursos.

MAULER: Atenham-se à nossa combinação. OS FABRICANTES: É Mauler. se ela for justa. dois homens da direção dos sindicatos discutem com um grupo de operários. OS CRIADORES: Oitocentos bois a quatrocentos para Sullivan Slift. Além disso. Os trabalhadores das grandes empresas da cidade nos prometeram declarar. Quatrocentos. OS CRIADORES – Vendido. mesmo nos grandes. OS FABRICANTES: Mais nada? E nas estações? Estão abarrotadas de gado.. UM CRIADOR: Oitocentos bois de Kentucky a quatrocentos. no mais tardar depois de amanhã. Silêncio . Os senhores devem me entregar a carne. para começar Quinhentos bois a cinqüenta e seis. precipitando-se sobre Mauler: É preciso liquidá-lo. eu não tenho medo. Não havendo ninguém que precise de carne. OUTRO LUGAR NOS MATADOUROS Nos cartazes se lê: “Solidariedade com os trabalhadores sob lockout!” “Desencadeiem a Greve Geral”. UM DIRIGENTE OPERÁRIO – Escutem todos: até agora os magnatas da carne não manifestaram a menor intenção de reabrir as suas fábricas. Os fabricantes se precipitam sobre ele. os operários. mesmo só uma pata. eu as quero agora. se são os senhores os bois. Chegada de Joana. Deixe-os totalmente à míngua. eu acertarei as contas com ele! MAULER: Ah! É assim. Mesmo que tenhas que te enfiar nelas! Eu vos ensinarei como se faz esse comércio! Doravante. Já que não há demanda. OS FABRICANTES: Nem pensar! Vocês estão loucos? Quatrocentos! SLIFT – Eu compro. Em frente a um galpão. Mauler. JOANA – São vocês os que defendem a causa dos desempregados? Eu posso ajudá-los. e caro! Ofereço. Qualquer vitelo. Agora eu quero sessenta! E tenham o cuidado De não esquecer as minhas latas! 5. É claro que é! Era o que dizíamos! O cão! Ele nos obriga a entregar-lhe as latas E é ele quem compra o gado! Somos então obrigados a comprar de Mauler A carne que deveremos colocar em suas latas! Carniceiro sujo! Tome então a nossa carne. precisamos de um prazo. É impossível encontrar um boi em Chicago. sabemos agora de uma coisa: se tudo andar como querem os industriais da carne. Na minha opinião é preciso fazer alguma coisa imediatamente. e acho que sou capaz de defender bem uma causa. a greve geral. Corte você mesmo! MAULER: Por que se surpreendem. Aprendi a falar em lugares públicos e em auditórios. Ele vai falar com Slift. eu tenho propostas a fazer.34 Foi vendido. De hoje até amanhã é certo que os patrões vão lançar todo o tipo de falsas notícias: eles dirão que . Vendo-os. Graham! As latas que me deves. de Chicago a Illinois. Terá de ser comprado de mim. OS FABRICANTES – Vendido a quem? Entra Mauler. uma parte de nós perderá seu emprego nos matadouros e os outros nunca recuperarão o salário anterior.. o apetite desperta! GRAHAM. Nós. Se alguém vier perturbar a reunião.

não é? DONA LUCKERNIDDLE – Honesta ela é. Um operário apanha a carta e sai. UM OUTRO OPERÁRIO – Dê-me a carta para as usinas Graham. Ela é sua conhecida. – Eu já vendi jornais na rua Vinte e Quatro. dona Luckerniddle? (Dona Luckerniddle faz sinal que sim). MAULER: Os senhores não respeitaram. UM OPERÁRIO – Pode ser uma espiã. A carta é para eles. Você pode tranqüilamente entregar-lhe a carta. estou vendo. Por este buraco fogem todos os peixes. em frente ao edifício da Westinghouse! (À Joana) Quem é você? JOANA – Fui mandada embora do emprego. a Mauler. pergunte-lhes se são das usinas Cridle. É do Exército da Salvação e os policiais a conhecem bem. Tudo acontece como se a miséria dos pobres fosse útil aos ricos. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Não. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Pela nossa causa? Diga-me: ela não é também a sua? JOANA – Não é no interesse geral que os industriais jogam.. (os operários riem alto) Mas é desumano! E dizendo isso eu penso também em gente como Mauler! (os operários caem na gargalhada) Por que se riem? Acho que vocês estão errados em zombar e em acreditar sem provas que alguém como Mauler não é um ser humano. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E para quem trabalhava? JOANA – Eu era ambulante. na esquina do Parque Michigan. O contrato assinado há pouco entre nós: Eu queria. tanta gente na rua. Quando você vir chegarem três operários com cara de quem procura alguém. essa noite. E poderíamos até dizer que esta pobreza seja obra deles. os preços estão a mais de setenta! OS CORRETORES – Os cabeçudos não compram. encostado em uma coluna – Faça subir. eu conheço o pessoal. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – E quem te garante que ela vai levar a carta que lhe entregarmos? O DIRIGENTE OPERÁRIO – Ninguém. pois o endereço dado pelos camaradas das usinas Cridle para o encontro está muito vigiado. Jack. Eu luto de todo o coração pela causa de vocês. Meyers e Cia. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E em que trabalhava? JOANA – Eu vendia um jornal. Ela é honesta.35 tudo está arranjado e que a greve geral não acontecerá. Nós não temos ninguém para passar despercebido como ela. JOANA 6. SLIFT.” OS FABRICANTES – Nós não podemos mais agüentar. Como se rede já não houvesse: De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. Isso é bom. eu sei quem ela é. etc. Ninguém suspeitaria que ela trabalha para nós. e vá esperar os responsáveis defronte à cantina da senhora Schmittens. Esconda essa em seu casaco. assegurar o trabalho . À Joana: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua vinte e seis. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Não é sem provas.. as centrais elétricas e o serviço de águas entrarão em greve em solidariedade a nós. com tal medida. O DIRIGENTE OPERÁRIO. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua Três. pau neles! OS FABRICANTES – Queremos dois mil bois a setenta. Eu não sou uma espiã. Essas cartas anunciam que a usina de gás. aos responsáveis que esperam nossa orientação. galpão número cinco. ouve-se gritar ao fundo o nome das empresas que suspenderam seus pagamentos: “Encerram os pagamentos. O operário apanha a carta e sai. BOLSA DE CARNES Durante toda esta cena. em diversos pontos dos matadouros. Elas devem ser entregues às dez horas. dessa maneira. dando a carta à Joana – Vá até a fábrica Graham..

. O segundo segurança sai. No canto em que trabalham os sindicatos reina uma grande efervescência! MAULER – Quem trabalha? Os sindicatos? E a polícia os deixa incitar os operários? Meu Deus! Liga imediatamente para a polícia. MAULER. Slift. entreguem-me! GRAHAM: Nada poderíamos ter feito. Pois a queda deles Será a nossa. é claro. MAULER: Atiram? Contra quem? Mas eu sei bem. Ele pode ir longe demais. Slift. Vou soltar a carne e deixá-los partir. Que sangrem. Eles já não agüentam. Quando se grita qualquer coisa. As conservas que comprei. O SEGURANÇA – As multidões. Fala em meu nome. A carne sumiu de vez do mercado! Quinhentos bois a setenta e cinco! MAULER: Não seria conveniente. Impossível. MEYERS – Mil e quinhentos a oitenta.36 Aos operários e agora me dizem Que eles ainda esperam em frente aos matadouros. MEYERS – Cinco mil a oitenta! Assassino! MAULER. Mas para nós. MAULER. O estranho é que aqui não se ouve nada. é o fim! SLIFT: Quinhentos a setenta e sete para Graham. nós não podemos pagar oitenta a Mauler pelo gado. A encontraste? O SEGURANÇA – Não. senhor. Se perguntasse por uma Joana. OS FABRICANTES – Mauler paga cinqüenta pelas conservas. que voltou para perto da coluna – Slift. Vá só até oitenta e depois abaixe o preço. Ponha os pingos nos “is”. é impossível ouvir uma voz isolada: há muita gente correndo de todos os lados. Além disso. Eles ainda agüentam! Quinhentos bois a setenta e sete. só quinhentos. Ainda por cima está escuro. E tenho outras preocupações! Veja bem. O primeiro segurança sai. Sem contar que a polícia está evacuando os matadouros e que começa a atirar. se apresentariam dez ou talvez cem. à procura de um parente que não encontram. o vento abafa as palavras. dizes. GRAHAM: Que seja. subir muito mais. Slift. SLIFT – A oitenta. Mauler. eu me pego esgoelando-os E não tenho tanto prazer quanto esperava. desembucha! O primeiro segurança faz seu relatório. esperando. de achá-la? E atiram? Encontra o Jim. Ele repara no segundo segurança. SLIFT: Faça subir. não me diverte mais. Senão pensarão ainda Que fomos nós que exigimos que atirassem. voltando ao grupo: Este negócio. Pergunta para que nós pagamos impostos! Manda arrebentar a cabeça dos líderes. perdido por perdido. É preciso que a cidade Possa voltar a respirar. Mas os senhores se lamentarão por isso. Diga-lhe para que não me procure. a Slift – Onde está o pessoal que eu mandei para os matadouros? SLIFT – Ali está um. eu não vi ninguém com o uniforme dos Chapéus Negros. São centenas de milhares nos matadouros. Mil a setenta e sete. eu não me sinto muito bem. A multidão anônima e sem rosto continua sentada lá. MAULER – Então. pois. Acima disso. são incontáveis. tudo a oitenta. mas que não rebentem. sim. por telefone. Isso basta. Ceda.

Mas quando a aflição for tremenda. É um enorme sucesso para os Chapéus Negros. Nesse dia sim. O HOMEM. Os jornalistas lêem em voz alta) “A Madona dos matadouros. (a Joana) Esses são jornalistas. OS TRABALHADORES. SLIFT MAULER Eu preciso de ar fresco. serei eu quem fará subir. Eles se sentam. SLIFT – Quinhentos bois a noventa! OS FABRICANTES: Mauler. nós ouvimos. Não vão embora. senhorita Dark. OS JORNALISTAS – Veja bem. Prefiro abandonar tudo Do que ser a causa de uma desgraça! Oitenta e cinco. Eles ainda agüentam. Mauler? MAULER. OS JORNALISTAS – Podemos lhe assegurar. Joana Dark. isso não é possível. 7. Eles terão de nos responder. afastando-se – É preciso que façam chegar aos operários que eu acabo de ceder gado às fábricas. SLIFT: Mentirosos! Agora serei eu que vos ensinarei A vender carne enlatada Sem ter nem mesmo um quilo! E cinco mil bois a noventa e cinco! Urros. Eles não abrirão as fábricas! Eles esperarão os lucros aumentarem! E a sua resposta sairá Dos canhões e das metralhadoras! Ninguém poderá nos ajudar. apontando para Joana – Aqui está. no fundo. eles abrirão. ALGUÉM – Porque estás aqui? JOANA – Tenho que entregar uma carta. Chega um grupo de jornalistas. Aja conforme o meu espírito. Tu me conheces. Joana. Entre eles. Fora uns poucos especuladores sem escrúpulos. De outra forma isso terminaria em violência. OS JORNALISTAS – No escritório do senhor Mauler nos disseram que a senhorita jurou não sair dos matadouros enquanto as fábricas não fossem reabertas. pode ler. a jovem pregadora dos Chapéus Negros? JOANA – Não. Saindo ele encontra jornalistas.37 – Nem pensar. Então agora existe gado. NOS MATADOUROS Muita gente esperando. Queria vender a oitenta e cinco. E se quiseres abrandar. Continue então com o negócio. também em segundo plano: É mentira: por maior que seja a miséria. (Joana vira-lhes as costas. a alguma distância. – Olá! A senhorita é Joana Dark. Virão três pessoas. Aja conforme o meu espírito. Nós publicamos isso com manchete de oito colunas. JORNALISTAS – O que há de novo. Para nós a senhorita faz parte. nos matadouros Enquanto a miséria não chegar ao máximo. declara: Deus está solidário com os operários das fábricas de conservas. esperem a resposta! CORO OPOSTO. Eles não abrirão as fábricas. Slift não tem ordem para isso. Slift. em segundo plano.” JOANA – Eu não falei nada disso. JOANA – Eu não faço mais parte dos Chapéus Negros. toda a Chicago comparte seus sentimentos. Mas nós não queremos incomodá-la e iremos ficar ali. não mais. Um homem os guia. Eu não posso mais. Veja. que a opinião pública está do seu lado. a não ser nós mesmos E a ninguém podemos apelar OS JORNALISTAS . JOANA – Eu queria que vocês fossem embora.

Ir para um quarto quente. Mas eu posso. (Ela arranca de sua vizinha o pano com o qual ela cobre a cabeça) Sim. Alguns – pouco numerosos – estão sentados lá em cima E um grande número aqui embaixo. levantam-se e dirigem-se ao fundo. Mas. eu quero ir embora. ela vai me matar. Vós todos. UMA MULHER – Que audácia! JOANA – A senhora falou alguma coisa? A MULHER – Sim.. isso é normal. a Joana – O que fazias com aquela gente? JOANA – Nada. a Joana – Você está totalmente gelada. Já basta. eu não tenho o direito de ir. Vós.. A MULHER – Socorro. Ficar aqui sem necessidade absoluta Parece-me um jogo indigno. mais do que tudo. Que audácia! Emborcar assim o whisky desse velho! JOANA – Segure a língua. o que deixei foi uma vocação. ao qual estava acostumada. chega! Você é boa mesmo de copo. E os do alto gritam: Subam. não dormir. E uns se sentam lá em cima Só porque os outros estão embaixo. A qual logo se nota claramente Que serve de gangorra Todo o sistema é como uma balança Na qual os dois lados dependem um do outro. Algo de obscuro. dir-se-ia que é um caminho.. não é? JOANA – A senhora também acha. Entre os que estão em cima e os que estão embaixo. foi você! Não adianta mentir. E falar Daquele que mora lá em cima. o medo me aperta a garganta: Não comer. dê-me meu pano. tenho frio. a qualquer momento. um teto e o sustento. que nada tendes para comer. confesso. Quase uma comédia. Mas é apenas uma tábua. UM VELHO HOMEM. UM TRABALHADOR. Para que estejamos todos no alto! Mas olhando mais de perto descobre-se. O TRABALHADOR – Mas falaste com eles! JOANA – Eles me confundiram com outra pessoa. Empunhar a bandeira e bater o tambor. Quando eu cheguei aqui.. Apesar de tudo. UM HOMEM – Silêncio! Alguém atira um trapo para Joana. Tenho fome e isso é banal. que acabaram de receber uma informação. Encorajada por um sonho que confirmava minhas idéias. imbecil!. desde fora.38 Que não seja um nosso igual. que de resto Já é a muito conhecido. com um vasto plano. é claro! É o cúmulo! Eles me roubaram até o chale! Quem foi o mão leve que pegou o meu chale? Devolvam-me imediatamente. A mim me esperam. Quer um gole de whisky? (Joana bebe) Ei. dona Luckerniddle? DONA LUCKERNIDDLE – Sim é verdade. Enfim. JOANA Se dependesse só de vós Eu poderia congelar nua em pleno vento. ignorar aonde te leva a vida. Os jornalistas. Não fazia tanto frio em meu sonho. guardam-me a sopa. um emprego que me assegurava O pão de cada dia. . E para vós é fácil passar frio. Eu não tinha sonhado que pudesse fazer tanto frio! Se eu tivesse pelo menos o meu agasalho! Ah! É fácil para vós passar fome. o que haveis deixado? Eu. Mas a estrutura interna continua ignorada. Onde está o meu chale? Eles me roubaram. E um ambiente. Mas. JOANA: Eu compreendo esse sistema.

Mas tu. Os tanques deles vos esmagarão. o milionário que dispõe de muito gado. O coração deles não é de gelo. Que barulho é esse? UM JORNALISTA – São as metralhadoras. mocinha. se esses senhores estão dizendo? Sobre um assunto como esse não se brinca. Não ficaste tempo suficiente aqui. Classe cheia de neve e que as leis ignoram. Se combaterdes. JOANA – Mas estão atirando! UM OPERÁRIO – Pode ficar sentada tranqüilamente. JOANA: Tanto assim? Oh! Escola desconhecida. E sobretudo entendam bem Que nada se faz sem luta E sem a sua própria ação. Esse combate será perdido E talvez perdido Ainda o próximo combate Mas vós ireis aprender a combater E aprendereis pela experiência Que nada se faz sem luta E sem a vossa própria ação. Não creiam em nada e não escutem ninguém. A tropa foi encarregada de evacuar os matadouros. Os jornalistas retornam. espera. de jeito nenhum. JOANA – Quanta gente há aqui? OS JORNALISTAS – Uns cem mil. OS JORNALISTAS – Olá. E nós vos dizemos: ficai agrupados. com a carta. JOANA – Oh! A boa nova! DONA LUCKERNIDDLE – Vejam as mentiras sobre as quais nos alertaram. ainda que os preços continuem a subir. E nós vos dizemos: combatei. aconteça o que acontecer. Não te movas! Entendeu? Ela sai. Não se separem! É apenas ficando todos juntos Que poderão ajudar uns aos outros. UMA MULHER – Devemos voltar para casa agora? UM TRABALHADOR – Quem nos garante que é verdade? Que haverá trabalho de novo? – E por que não seria verdade. (Ela se levanta) Eu vou avisar aos nossos que os boatos já começaram a circular. Nessas condições o trabalho voltará muito em breve aos matadouros. no frio. Então a bondade existe. Quando se falou com ele como a um ser humano Ele deu uma resposta humana. O que aprendeis? OS TRABALHADORES. Ao longe as metralhadoras crepitam. Os matadouros são tão grandes que a tropa levará horas até aqui. o seu sucesso foi formidável: nós ouvimos que Pierpoint Mauler. no fundo do palco: Se ficardes agrupados Eles vos rebentarão. É preciso fazer com que se calem os agitadores que incitam à violência. Tu não compreendes nada de nada. Que tem a fome por mestre e onde a miséria Fala implacavelmente da necessidade! E sois cem mil alunos. acaba de cedê-lo aos fabricantes. JOANA: Parai! Chega de aprender essas lições! JOANA . DONA LUCKERNIDDLE – Não digas tais tolices.39 OS TRABALHADORES: Fiquem. A não ser a proposta Que leve a mudanças verdadeiras. JOANA: Escutem todos! Há trabalho. Felizmente temos a carta para mostrar a verdade. Agora as fábricas reabrirão. Havia entre eles pelo menos um homem honesto E ele não falhou em seu dever.

é imensa! Mais uma noite como esta. Se desde a infância o peso da miséria e da fome me tivessem ensinado a violência.40 Que gélidas elas são! Não é pela violência Que se combatem a desordem e a confusão. Toda inocência tê-lo-ia abandonado. No final o lodo a engoliu. Mas o prato que se prepara aqui. Direis que fazia muito frio. OS OPERÁRIOS – Estão trazendo os sindicalistas. OS JORNALISTAS – Nós a aconselhamos a sair dos matadouros. os astros sem harmonia Já não seguiriam sua órbitas. Ela continua sentada. ao longo dos anos. Ou que engendrasse a violência. UM OPERÁRIO. Há muito tempo que já está tudo arranjado. Eu digo: na escuridão se acumulam As violências e as questões nunca resolvidas. aparece uma inscrição: A neve começa a cair. A tentação. Enquanto a noite cai. algemados. para um dos dirigentes presos – Não liga não. Dia após dia ela desceu. Os dois dirigentes operários passam. Os operários se levantam. Por três dias viram Joana em Packingtown. Mas assim. eu preciso ir. vós estivestes juntos Longas noites. E é por isso que parto. Chegam três operários. Violar as regras em uso. eu seria como eles e não faria perguntas. conduzidos por policiais. No terceiro dia sucumbiu. Enquanto o fraco ao fraco se alia. Perseguidor perseguido E não mais sabendo ver sem desconfiar. JOANA: Os que me entregaram a carta. Quem agisse assim se sentiria perdido. esta carta? Eu não saberia fazer nada Que requeresse violência. Joana tem uma visão. E aprendestes A alimentar friamente terríveis pensamentos. e ninguém Poderá manter a sua calma. Com seu silêncio opressor. . Seu sucesso foi grande. Vós. Isso seria desleal para com os outros homens. que eles ainda poderão ter uma surpresa. Eles procuram alguém que não encontram e vão embora. UM OUTRO OPERÁRIO grita para o grupo que se afasta – Assassinos! OS OPERÁRIOS – Se eles acham que assim irão parar as coisas. No lodaçal dos matadouros. Quem o comerá? Eu vou embora. Começa a nevar. estão muito enganados. Ela se vê com roupas de criminosa. Sobre sua cabeça. Apartado em um mundo Tornado para ele estrangeiro. voltando – Nada além de mentiras! Onde foi a moça que estava sentada ao meu lado? UMA MULHER – Partiu! UM OPERÁRIO – Desde o começo eu disse que ela iria embora quando começasse a nevar de verdade. Viram-na descer de degrau em degrau Para em água límpida a lama transformar e aos humildes Aparecer. eu digo. DONA LUCKERNIDDLE. Eles saem. Ela se levanta e sai. Nada de bom pode surgir da violência. William. mas agora a coisa está terminada. Para este homem. Por que foram presos? O que ela contém. as palavras teriam outro sentido. Do fundo ouve-se gritos que se aproximam. Eu não sou um deles. Eu assim não poderia viver. longe do mundo que lhe é familiar.

Aquela que eu procurava terá tido o bom senso De sair das profundezas onde o inferno se instala. Perto dos matadouros. Quanto a este edifício. Parece-me Que contratei dois idiotas. Sem que eu tenha procurado. Pensar não serve para nada. os pobres. UMA ESQUINA EM CHICAGO MAULER. A mim ela vai elevar às mais altas esferas. mas o arquiteto teria. Pierpoint Mauler cruza a fronteira da pobreza 8. De agora em diante. Slift. a um de seus seguranças Parem. aqui sob meus olhos. cocô de cachorro: Que torna a permanência difícil. Este homem está perdido. Só porque duas ou três vezes eu dei meia volta. UM LUGAR DESERTO NO BAIRRO DOS MATADOUROS Neva. Aquele que sai de tal imóvel. não lhes parece? Ah! Eu repito Não fiquem enchendo a cabeça com idéias. confessa. em suor e em dinheiro. saindo – Bom. É o que está escrito. Não preciso. Na borrasca.41 Pergunta feita: quem ficará? Como nos outros dias. Assim foi conseguido. Mauler e seu amigo. . preto no branco: O gado está a trinta e ninguém compra. preto no branco. OS DOIS SEGURANÇAS – Então podemos ir? MAULER: Podem E eu também posso ir aonde queira. modificam tudo. um objetivo que eu saúdo E que muito me alivia. Ter construído a maior cloaca do mundo Constituirá a sua única glória. Passa um vendedor de jornais Ei! Jornal! Vejamos o que se passa na Bolsa de Carnes. impresso. Até o reino do espírito. Basta. E ninguém quis. façamos meia volta. dele se diria Um prédio construído com grandes despesas.. nada mais posso fazer por eles. Vejam o que leio. Cedi meu gado a qualquer um que o quisesse. seja por economia. E a vocês eu despeço Pois da pobreza eu cruzei a fronteira. Seja por aberração. Sou conhecido nos matadouros. Há resistência. meia volta. que todos os fabricantes Quebraram juntos e saíram do mercado. Vejam. o mais vasto. MAULER: Se a desgraça abate ao homem sem caráter. Sem nenhuma exigência. Mas vejo que estão pensando. O mais prático também.. Não é para pensar que eu vos pago. Essas notícias. o que foi? Riste. Eu disse: meia volta E tu riste. 9. são os mais atingidos. então. Ele lê e empalidece. Eu tenho as minhas razões. hoje restarão No chão as pedras. a dona Luckerniddle reencontra Joana. Doravante Não há mais ninguém que me queira matar. Em todo o caso. em cima. mais de vocês. Tem certa razão de estar alegre. UM DOS SEGURANÇAS. Está dito. Que nós construímos em nossas grandes cidades Sem importar o custo. Até mesmo aos matadouros. ainda atiram. Agora eu estou livre. Escolhido como material. Assim espero.

Dê a carta aqui imediatamente. de uma missão. Por este buraco fogem todos os peixes. Joana pára. AS VOZES: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. Nós te encarregamos. Cumpriste a missão? Joana volta a andar e uma nova voz a detém. UM OUTRO LUGAR Correndo em direção ao centro da cidade. De tua missão. Como se rede já não houvesse. UMA VOZ – Lá onde te esperam. mas entregue. OUTRA VOZ: Joana pára. Tudo está voltando ao normal agora.42 – Ah. Sem récitas inoportunas dos seus infortúnios. Nós não sabíamos quem eras. Mas a carta que trazia a verdade. Errando pelos matadouros. Pierpoint Mauler as arruinou. Joana. Mas também podias nos trair. As massas não deveriam ter se dispersado. (Joana desaparece na tempestade de neve) Hei! Venha! Ela foi embora! DONA LUCKERNIDDLE 10. Uma parte dos operários saiu dos matadouros. DONA LUCKERNIDDLE – Eu devia ter duvidado. JOANA. oh verdade! Que a neve em tempestade Inoportunamente mascarou com sua noite. É inútil tentar pegar. Que sentimentos em nós deixareis sobreviver? . Joana cruza com dois operários de quem ouve a conversa: O PRIMEIRO OPERÁRIO – Primeiro eles fizeram correr o boato que as fábricas reabririam a todo o vapor. Eu vou embora. ela procura se livrar das vozes que ouve de todos os lados. para poder se apresentar amanhã bem cedo ao trabalho e de repente eles falam que as fábricas nunca mais abrirão. eu não a darei. precisas chegar! Joana olha ao redor. Claridade que então eu deixei de ver! Oh! Quem conhecerá o poder da neve! Oh. UMA VOZ: Não há desculpa Para quem não chega. isso é o que tu és! Dê-me a carta que te confiaram. podias dar conta. Mas tu és uma traidora e teu lugar é com eles. Ainda mais que amanhã todas as empresas de Chicago iriam declarar a greve geral. Um lixo. Ao que tropeça e cai. JOANA – Não. Eles teriam ficado apesar da violência da polícia. O SEGUNDO OPERÁRIO – Os comunistas é que tinham razão. Aquilo que lhe foi confiado. fraqueza do corpo! Oh fome. DONA LUCKERNIDDLE – Ora essa! Para ti está tudo normal! E eu que disse que tu eras honesta! Sem isso não teriam te confiado a carta. Anda em outra direção. Que nada diga. Joana ouve vozes. O PRIMEIRO OPERÁRIO – E aqui nós não ficamos sabendo. caindo de joelhos: Luz. De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. Nela estava nosso destino. Lá dentro só se fala em violência. E aquele que chega a bom porto. estás aí! Onde tinhas te metido? Entregaste direitinho a carta? JOANA – Não. mas a senhora quer continuar. Tu não a entregaste. Muitos operários teriam ficado se soubessem da notícia. A VOZ DA DONA LUCKERNIDDLE: Eu fui a tua fiadora. O SEGUNDO OPERÁRIO – Isso é grave: sem dúvida uma parte das ligações não funcionou. A pedra não perdoa.

é sábado a noite. no céu e no inferno. MAULER – Eis aqui um homen marchando até o seu Deus. A massa espera. nossa boa cidade. . DONA MULBERRY – Meu caro Dick. se ele pudesse vir. Pediram-lhe cem dólares. onde iremos acomodar o nosso público? Chega um pobre. com sopa quente E um pouco de música. Um homem começa a levar os móveis para a rua. a outro Chapéu Negro – Há três dias um emissário de Pierpoint Mauler. quem vos pode resistir? Eu preciso dar meia volta! Ela retorna sobre seus passos correndo. investindo contra ele – A sopa. agora os pegamos. que triste. o banco dos penitentes! E já suas mãos avidamente se dirigem Ao órgão a vapor e ao púlpito. Liberada. que aliás é muito barato. Ele se levanta e avança até os Chapéus Negros. BISPA SNYDER. Ele sai. que prometeu nos ajudar. OS CHAPÉUS NEGROS: Romperam-se os diques da fé Em Chicago. com certeza! Ele já está a caminho com os seus milhões! UM CHAPÉU NEGRO – Bispa. O reino de Deus está pronto na minha cabeça. o suntuoso Mauler. entrando – Pierpoint Mauler está aqui? BISPA SNYDER – Não. na frente do palco : Ouvi alguém procurando um certo Mauler. minha cara Mulberry. posto que sem abrigo. DONA MULBERRY – Bispa Snyder. E as ondas de lama do materialismo Ameaçam a casa de Deus. BISPA SNYDER – Dona Mulberry. veio nos dizer que Mauler em pessoa estava disposto a assumir o nosso aluguel e a organizar conosco uma grande campanha em favor dos pobres. Eu o conheci: era um imbecil. que já se afunda! Mas o rico Mauler virá. Buscam-no por toda a parte. Exposta outra vez à neve. Mas nós o estamos esperando. Sob um plúmbeo zênite de destinos desconhecidos. Salvar-nos com o seu dinheiro! BISPA SNYDER Há exatos oito dias Que nos matadouros onde as máquinas enferrujam. Conheci bem um homem.43 Frio da noite. E nós gritamos à plena garganta: Ah. Para nos salvar neste instante. a qualquer momento. Quero que a senhora pague o meu aluguel. OS CHAPÉUS NEGROS: Estão levando. à chuva. o rei da carne. MAULER. Uma boa orquestra à mão e sopa Bem grossinha: terminam para Deus todas as preocupações. UM HOMEM. Ah. ou que deixe o imóvel. Este homem que foi em sua vida Mais estúpido do que um vagabundo bêbado e repugnante. o senhor Pierpoint Mauler. ele possuía dez milhões. BISPA SNYDER – Sente lá atrás e fique quieto! Ele se senta. De um só golpe o bolchevismo também é enterrado. Vejam que já balança. coloque os móveis na rua. afastada do trabalho. estamos aguardando. O HOMEM – Os fabricantes de conservas querem falar com ele e os criadores o chamam aos gritos. é tudo o que eles querem! Aqui não tem mais sopa! Aqui só tem a palavra de Deus! Ouvindo isso eles vão logo embora. X Humilhação e assunção de Pierpoint Mauler TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS MARTA. É Mauler.

Abusado da força e espoliado todo o mundo Em nome da propriedade. construir vossa casa . Os Chapéus Negros cantam. Não podemos mais pagar as nossas contas. OS MÚSICOS: É deste aí então que vocês esperavam O dinheiro para nos pagar? Então nós vamos embora. E esse gesto tocou os nossos corações. Mas quebrou a nossa cara De uma vez por todas. Passar bem. já. gritando – E sem dinheiro? (Aos Chapéus Negros:) Façam as malas. é certo. Todos os pagamentos estão suspensos. Ele pega dois Chapéus Negros pelo braço e senta-se com eles no banco dos penitentes. BISPA SNYDER. ar ausente. que tenha caído tão baixo. BISPA SNYDER Silêncio! Fora. Joana. recusou-se a dar o dinheiro. sim. BISPA SNYDER – Tu és Mauler? MAULER – Sim. devolva-me os meus quarenta aluguéis! MAULER: Vós desejais. Apenas nos resta chorar. Culpado. seguindo a letra por sobre o ombro de um dos Chapéus Negros. não o seu dinheiro. Eles cantam ainda “Entrai na batalha”. Por sete dias apertei a garganta Desta cidade até sufocá-la. eu vejo. CORO DOS CHAPÉUS NEGROS. todos para fora! A Mauler: E tu primeiro! Onde estão os quarenta meses de aluguel Desses não-convertidos que Joana enxotou? E vejam só o que ela me trás em troca! Devolva-me. mas arrependido. UM CHAPÉU NEGRO – É ele. Os músicos tocam um hino. OS CHAPÉUS NEGROS – Ele já chegou? MAULER: Um hino. Aqui estou agora. Se aproxima já Com os seus milhões. OS CHAPÉUS NEGROS: Não perca a confiança! Homem de pouca fé! Ele virá. sem nada. DOIS MÚSICOS: Um pedacinho só. e dilacerado de remorsos. Diante de vós. dirigindo-se aos músicos que vão embora: Nossas orações eram pelo rico Mauler E foi Mauler o arrependido que entrou. BISPA SNYDER. Mauler! MAULER: Mas quero acrescentar que no sétimo dia Fui despojado de tudo. eu vos rogo! Pois eu sinto O coração ao mesmo tempo leve e pesado. Mauler canta com eles. Sentados sobre seus últimos bancos e suas últimas cadeiras os Chapéus Negros cantam desordenadamente seus últimos hinos. deu cabo de si mesmo. inclinado sobre os livros de contabilidade – Não direi o que estou calculando. Jogou no mar seus milhões. MAULER: Eu me acuso de ter explorado o meu próximo. Envolvamos em nossas bandeiras derrotadas Os livros de cânticos. E sobre nós a neve envia suas tempestades Em um inverno no qual crescem os rigores. Sentados sobre as margens do lago Michigan. meus amigos. Silêncio! Tragam-me o livro das faturas e contas por pagar: estou nessa parte. Ouçam então a minha confissão: Aqui jamais se ajoelhou Ninguém. Tiremos de nossas paredes as máximas. Ele trazia o seu coração. olhos voltados para a porta.44 No fim.

OS REIS DA CARNE: Perdoai-nos. Viram-se os preços Oscilarem. agigantou-se E a todos nos precipitou no abismo! MAULER: Oh! Eternos combates! Em nada são diferentes Desde os tempos antigos onde os homens Com uma barra de ferro rachavam-se as cabeças! GRAHAM: Recordai que estávamos à vossa mercê. . Mauler. tomado de loucura. Um zênite ameaçador de pensamentos desconhecidos.45 Sobre o que há de pior em mim. em poucas palavras. Mas nós estamos perdidos: Em torno de nós. durante sete horas. por ter vindo Atrapalhar neste lugar as tuas meditações. Subiu os preços a noventa e cinco. Quando. é aqui então que te escondes? Paga nossos bois ao invés de fazer penitência. eles iriam trazer. Que projeto tendes agora. Relatarei o combate memorável Que. desde a aurora. Que a constatação vos enche de amargura. Mal viu esses bois vindo ao longe. salva tua alma. que fareis? Entram os criadores em grande agitação. e sobre nossas cabeças. o caos. quem nos derrubou. O que pretendeis fazer de nós? Foste vós. Em três dias. como um bêbado sedento Que ao mar esvaziou sem se satisfazer E lambe avidamente cada gota que encontra. paga-nos o gado! GRAHAM. E Wallox e Brigham. com voz dura. Ele tenta sair. Que vos pertencia. No ciclo dos astros ou das mercadorias. Lançou. Mauler. Concluo eu o seguinte: o Mauler que sou Não é aquele do qual precisais. Ah! Se não tivesses aliviado tanto os nossos bolsos. Para mim o humano era aquele a quem eu podia explorar. Um vitelo ou um porco. OS CRIADORES: Maldito Mauler. Mas se chamássemos de homem àquele a quem se ajuda Daria no mesmo: necessitaríeis sempre De gente a ponto de afogar-se. Não terias a necessidade de aliviar aqui A tua consciência. os reis da carne vêm ao seu encontro. Estão pálidos como o linho. E hipotecando até o último lápis Para trazer de Quebec. Slift apertou Ainda mais forte a nossa garganta. Dais o nome de homem a quem vos vem ajudar. ao meio-dia. Prometiam até o gado por nascer. partistes. Na porta. Mauler. E tudo o que de longe parecesse um boi. chorando. Bispa. Mas Slift. Os complexos pensamentos de vosso imenso espírito. gado canadense. O Banco Nacional gritou: “Alto”. Loew e Lévi. e a noventa e cinco Comprou-os todos. tomando a frente : Mauler. firmas de grande renome. o que existisse de gado. Ninguém jamais pode fugir da lei. Acorreram todos em ajuda. Este espetáculo atroz apavorou o ancião. E sobre eles atirou-se. da Argentina. No mercado perturbado. Por vós fomos forçados. Dá o dinheiro. Eu sei muito bem. nobre Mauler. Que não ficou só por muito tempo. hesitantes. Era vosso todo o gado. a comprar gado. assumindo seus deveres. Vossa função seria apenas a de brincar na relva. Pelos contratos que nos obrigavam A entregar de imediato as conservas prometidas. comprometendo suas casas. Eles também estão muito pálidos. O ancião venerável.

comprar. e os preços subiram. De cotação em cotação Os preços caíram e rolaram até os negros abismos. Institutos de crédito. Em tudo semelhantes aos antigos corcéis Mordendo. em um suspiro. O que fazer. Lutavam a dentadas. Vertiginosamente. Com esse gado que ninguém é obrigado a comprar? OS CRIADORES: Sem querer perder a paciência. Célebres. E Brigham arranca a barba aos gritos: “Noventa e seis”. Até os simples contínuos. é sabido. E que não foi ainda acertado. e então se retirarem. Aí está o que tornou o contrato sem valor Apertastes muito forte. quando e com que dinheiro Nos pagarás o gado comprado. obstinados. Que nos píncaros se encontrava. Só um. Naquele instante. paravam de viver. quando levamos às estações De nosso longínquo Missouri Com muito sacrifício. E nós comprávamos sempre: Nós precisávamos comprar. E viu-se. Slift. Do outro eu preciso. Seria esmagado como um morango no chão. Slift então gritou: “Cem”! Poderia ouvir-se um alfinete cair. bancos. se por um acaso Um elefante se arriscasse pelo interior da Bolsa. Eles precisavam entregar. os vívidos vitelos. fomos estrangulados E de que adianta estrangular um cadáver? MAULER: Foi assim então. MAULER: Agora mesmo. E em silêncio também os bancos desmoronaram. Inúteis portanto. agora. Porque não mais podemos honrar os contratos. Casas até então sólidas e poderosas. Como a água que cai na cascata.46 Mas Slift gritou: “Três dias não. de rocha em rocha E somente em trinta a queda parou. com olhos marejados. tomados de desespero. Mas alto o bastante para que todos ouvissem: Para pagar-lhes tomem então nossas fábricas. Rangerem os dentes. o velho Lévi disse então em voz baixa. a carne de boi.E a voz ainda nos alcançava Mesmo com a balbúrdia dos trens que partiam: . Estão satisfeitos? OS CRIADORES: Há pouco tempo. golpeia um corretor na barriga. Lévi. mudos. um a um. os agentes fechando suas escrivaninhas. Toda a família nos gritava de longe Com a voz embargada pelo trabalho duro . que travaste a batalha Que deixei a teus cuidados! SLIFT: Corte-me a cabeça! MAULER: E de que me serve tua cabeça? Dá-me o chapéu. O sapato. isto é. Sob nossos olhos. baixou. Parando de pagar. Nós queremos que nos digas Como. os fabricantes apáticos Depositarem a vossos pés suas fábricas fechadas. entrego por cinco. Os corretores. Lévi. os cavalos inimigos. Eu quero para hoje”. diga-me. Ouviu-se nesse dia os jovens estagiários. de imediato. ele ao menos vale vinte e cinco centavos. na batalha. Lançaram-se um a um nesta última batalha. E como contratos nulos não impõem compras. por sua indiferença. Com esse chapéu e este sapato: Dez milhões o chapéu. em um espasmo. Como definha uma esponja espremida.. E os jovens bois de pêlos reluzentes Engordados com tanto cuidado..

nobre Mauler. E voltar até nós? Pensai. E dado que de vós necessitamos. Outra vez responsável. entendei. Deixando as sublimes esferas onde meditais. Sancionado pelas instâncias superiores. Compreendido como sendo de interesse geral. Mauler. Mas nossa pobreza não é.47 “Ei. MAULER: Em nós a consciência. OS FABRICANTES E OS CRIADORES: Desejarias. Providos de sopa quente e de boa música. para que os preços voltem a subir. neste estado.(Ele abre a carta e lê de canto) “Escrevemos a você recentemente. Seus bens. MEYERS – Quem são esses amigos de Nova Iorque? MAULER – Morgan. mostrando o lombo vazio E nossos bolsos também? Como. O negócio só é possível. mas são numerosas. Pois os preços do gado vão subir. Não quero. pensai no caos Que ameaça a tudo engolir. GRAHAM – O que não é possível? MAULER – Tenho amigos em Nova Iorque que. assumir a empreitada.. para que comprasse carne. Caro Pierpoint. GRAHAM – Mas então é Wall Street? Um murmúrio percorre o ambiente. Como voltar para nossa terra? E que diremos a eles. Alguma chance de sucesso. esta caça fatigante. caro Pierpoint. MAULER: Ou seja. esperamos” E agora. compreendei.. Pois ainda creio ouvir O rumor dos matadouros. De máximas sagradas e escolhidas com grande cuidado.. Não. o que faremos. Abandonai. Cuja voz está a tal ponto asfixiada. entrando – Mauler está? Uma correspondência para ele. Nossa pobreza é termos perdido O sentido dos valores mais elevados. Estariam vocês dispostos a repetir aos quatro ventos . estão para sempre perdidos. voltar para casa? O HOMEM DE ANTES. não bebam todo o dinheiro. Mas para mim. E o barulho das metralhadoras.” Não. sozinho. Seus amigos de Nova Iorque. Como tudo de agora em diante Me parece diferente. elas vão mal. pelo que dizem. Nem todos aqui em baixo poderiam ser ricos. nós estaremos de bom grado à sua disposição. amigos. de Nova Iorque. rapazes. isso não é possível. Julguem vocês mesmos. Agora. conhecem um meio de sair desta. Mas se fizéssemos uma grande promoção De sua instituição. MAULER: Se o faço. Jogai sobre vossos ombros o jugo. é impraticável. Não ter fartura de bens terrestres. ao contrário. nós lhe forneceremos amanhã mais detalhes.. A Snyder: Existem muitas dessas lojinhas Onde se vende a Bíblia? BISPA SNYDER – Sim? MAULER – E como elas vão? BISPA SNYDER – Mal. vocês estariam dispostos. Se assim fosse concebido. MAULER – Eu costumava ser esse Mauler. De um asilo necessário para os casos mais graves. Ele estende-lhes a carta. a quem mandavam cartas desse tipo. condescender. Neste caso. nós aconselhamos a fazer um acordo com os criadores para reduzir o rebanho. Rockfeller. é muito a contragosto. O projeto teria talvez.

Então. Será preciso demitir um terço dos operários: Também de mão de obra o mercado está saturado. para puxar os preços. que deseja Fazer o bem. é lógico. Limitar o rebanho oferecido no mercado. Em que em nossas cidades os problemas não têm fim. BISPA SNYDER – Quase todos. ofuscado. aos criadores : Escutem. meus amigos! Eles cochicham. Nesse tempo de humanidade desumanizada. Meter um freio à anarquia da criação. Enfim.Pois eis Chicago outra vez agitada A greve geral. não poderíamos Doá-lo àqueles que esperam lá fora E quem sabe utilizá-lo melhor? MAULER. quebre suas ferramentas E destrua assim seu próprio ganha-pão. tem seus defeitos. Eu fico com a metade das ações. E mesmo que muitos não compreendam. Seria muito importante. Elas trarão a calma e a ordem. nós decidimos. criadores e industriais. TODOS – Não há outra saída! MAULER – E também precisaremos reduzir os salários! TODOS – É o ovo de Colombo! MAULER: Qual o objetivo dessas medidas? Nesta noite de sangue e confusão. ou melhor: quase todos Mas é o único meio de salvar o sistema De vendas e compras no qual vivemos. É por isso. E é por isso que os preços caíram a zero. mais ainda.48 Que nós somos uma gente valorosa. é claro Que entre vocês estivesse Joana. Não tem outra causa a não ser Que há carne demais. OS FABRICANTES – Que cérebro! MAULER. Nós o faremos. é eminente -. E às vezes inoportunos. O mercado foi saturado este ano. que nós subvencionaremos Fartamente a sua missão que contribui Com a manutenção da ordem. E que. Em conjunto. . Digamos: a maior parte. supérfluos. Elas impedirão que em sua brutalidade Um povo. . desordem e violência. Miséria e fome. sorrindo: Minha cara bispa. Esta dificuldade pela qual estamos passando Está a ponto de ser superada. Vê que são eles os compradores! Seja como for. dizem. pedindo a palavra: Perdão. Toda essa gente aí fora: Eles são os nossos compradores! Dirigindo-se aos outros: É incrível. TODOS – Que solução simples! BISPA SNYDER. queimar um terço do gado existente. É preciso limitá-la. Eu compreendo o senhor. Todos sorriem longamente. Chapéus Negros. você não compreendeu A questão de fundo. mas olhando bem Quem vê além das aparências das coisas. mas se o gado tem tão pouco valor Que pensam em queimá-lo. aos fabricantes: Faremos uma fusão de suas indústrias Em um só monopólio. nesses tempos de desgraça? Pois serão necessárias medidas draconianas Que poderão parecer duras porque irão Derrubar alguns e. MAULER. Eliminar o estoque excedente atual. Eles podem nos parecer inferiores.

Ela então ouve. JOANA. MAULER: Abram agora a porta principal Aos homens cansados e cheios de preocupação. Foram presos os sacrílegos que perturbavam a paz e a ordem! SLIFT: Podem respirar. OS CHAPÉUS NEGROS. o mercado vai ser curado! Outra vez saímos do ponto morto E realizamos uma obra difícil. Nenhum deles tem chapéu. não deixaremos! Sejam bem-vindos.49 Cuja face por si só já inspira confiança. Nossos planos outra vez se impõem. Joana segue com o olhar os prisioneiros. UM CORRETOR. cantam. SNYDER – Abram as portas! A porta principal é aberta. estão chegando! Daqui eles não escapam. dois homens conversando. joguem as grandes redes! Sejam bem-vindos. Até nós. entrando precipitadamente – Escutem a boa nova! A greve que nos ameaçava foi sufocada. Imóvel. apanhem-no! Lazarentos e descalços. Toquem a música e nós mesmos Seremos os primeiros a nos sentar Para elevar nossos corações a Deus. penteados e carecas. chega e pergunta – Vocês viram passar três homens que vinham buscar uma carta? Ao fundo ouve-se gritos que se aproximam. estamos prontos! Já estão chegando! A miséria os traz aqui como um rebanho! São obrigados a vir. Eles combateram Pelo pão dos outros. Os que aqui chegarem. Perseguidos sem trégua. De sopa encham os pratos. As coisas retomaram o rumo que nos agrada. Passam então os dois dirigentes operários escoltados por soldados. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! XI NOS MATADOUROS EM FRENTE AO ARMAZÉM DAS FÁBRICAS GRAHAM Os matadouros estão quase vazios. eles chegam até nós. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Tranquem as saídas. UM DELES – E por que foram presos? . para que nenhum escape! Eles estão a caminho. Sejam bem-vindos. joguem as grandes redes! Eles saíram agora de sua última casa! Deus lançou sobre eles o frio! Deus lançou sobre eles a chuva! Eles terão de vir. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Todo aquele que aqui entrar. Quando perdem o trabalho. Eles vêm até nós para chorar. apanhem-nos! Sejam bem-vindos. UM DELES – Quem são eles? O OUTRO Nenhum deles Pensou só em si mesmo. Música de órgão. Ninguém pode escapar: tranquem as saídas. olhar fixo na porta: Eles terão de vir. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Vamos. Quando estão cegos e surdos. Passam apenas alguns grupos de operários. a seu lado.

UM DELES – Sempre será assim? O OUTRO – Não. Durante alguns segundos eu a vi distintamente. Seu último endereço Teria sido aqui. não é ela. Esta aqui não é das nossas. à sua frente. que seguram bandeiras novas. foi reduzido em um terço. Joana. Todos perecem antes do tempo. esticando o braço com a carta na mão. Era uma velha operária. JOANA. saiba que são eles. Lançados em terra profana. Ou de malfeitores postos na cadeia. Nenhum come seu pão tranqüilamente. carregando lanternas. Nem é enterrado com decência. não é a nossa Madona dos matadouros? Hei. e a esta a polícia dispersou com o uso de força. – Ela deve estar aqui. E a carne vai subir. entretanto. A decisão sobre a greve geral só chegou a uma parte deles. UM DELES – Por que não se ouve falar deles? O OUTRO O OUTRO greve. como se ainda quisesse entregá-la: . XIII MORTE E CANONIZAÇÃO DE SANTA JOANA DOS MATADOUROS Agora o templo dos Chapéus Negros está ricamente mobiliado. Divididos em grupos estão os Chapéus Negros. Nenhum morre de barriga cheia. o salário também. OS JORNALISTAS – Vejam só. A greve geral fez água.50 – O homem injusto atravessa a rua à luz do dia. Quando os soldados vierem a recolherão. Um grupo de pobres entra. SNYDER: Quando nos jornais falarem de criminosos abatidos. mas apenas para dois terços dos operários. Deixem ela aí no chão. As rajadas de neve a impediram de ver os soldados. Golpeados. você aí! As coisas deram errado. Nenhum. O POLICIAL: Eis aqui uma sem-teto. As fábricas reabrem. JOANA – Os operários concordaram? OS JORNALISTAS – É claro. Ela veio daquele lado e aqui ela gritou para os nossos que as empresas municipais iriam decretar OPERÁRIOS Sim. pisoteados. Joana se vira. Recolhida doente Nos matadouros. os jornalistas a interpelam. UM DELES – O que farão com eles? O OUTRO: O salário deles é baixo e seu trabalho útil à maioria. os açougueiros (fabricantes de conservas) os criadores e os compradores. Nos vales e nos cimos. Nós soubemos ser sublimes E vulgares quando necessário. Joana cai desmaiada. Não. amparada por um policial. Em nós podem por fé. XII EM FRENTE AO ARMAZÉM DA FÁBRICAS GRAHAM Um grupo de operários entra. mas o justo se esconde. Enfim o sucesso chegou E tudo acabou bem. Aqui está! Seriam necessárias muitas como ela. a sorte nos sorriu. Deus outra vez se impôs. Um deles a derrubou com uma coronhada. chega ao termo de sua vida.

um serviço tão pequeno Foi só o que em toda a minha vida Me pediram para fazer. E em sua marcha altaneira Para evadir-se ao mundano. E eu não fiz! Enquanto os pobres tomam assento nos bancos para comer a sopa. na noite. o infinito. por menor que fosse. Vós. dando provas de humanidade nos matadouros. JOANA: Eu falei em todos os lugares. E tinha sonhos para milhares. Ela será a nossa Santa Joana dos Matadouros. Consoladora dos baixios! JOANA: Que vento sopra nesses baixios? Neve. E seus erros. Desta vida intolerável E atingir o inconcebível. Ela que. Eu faltei. marchava para a luz! Seus atos eram os de um ser humano. toda a obra Onde o espírito não encontra. a quem não se pode mais explorar! Comei a sopa! Ah. Que Joana exorcize o mal E que por nós ela interceda. Pelo contrário. E outra vez o mundo Percorre o antigo ciclo. Vamos colocá-la em destaque. quais os gritos que abafas? Comei vossa sopa! E não desperdiceis esse resto de calor. empregando todos os meios. pois ela nos ajudou a atravessar a tormenta dessas semanas difíceis. intercedendo pelos pobres e mesmo proferindo discursos contra nós. Foi necessário. também humanos! JOANA. OS CHAPÉUS NEGROS: No final. Intercessora dos pobres. e ultrapassa o objetivo. eu poderia levar. Eu o neguei. E só servi aos perseguidores. MAULER: Que tome posição em nossas fileiras Esta alma inocente e cândida E que sua bela e pura voz Misture-se aos cânticos de nosso coro. BISPA SNYDER: Levanta-te. O ideal.51 Jamais receberá a carta Aquele que agora está morto. Matéria a sua altura . Eu falhei com os perseguidos. SLIFT – Esta é nossa Joana. Se eu apenas tivesse entregue A carta que me confiaram! OS CHAPÉUS NEGROS. Chegou na hora certa. Quando se poderia ter alterado o curso das coisas. Mostrá-la entre nós provará o quanto nos importam os sentimentos de humanidade. dirigindo-se a Joana: Como ela ainda está perturbada. infelizmente. A vida tranqüila de um cordeiro. Ela vai muito adiante. Slift discute com Snyder e com os fabricantes. MAULER: Uma alma que exala sublimes impulsos Suporta mal. Por uma boa causa. Nós faremos dela uma santa e não economizaremos em homenagens. sua térrea natureza. Quando o meu esforço. Joana dos Matadouros. enquanto as moças dos Chapéus Negros a vestem novamente com o uniforme: Ouve-se outra vez o rugir das fábricas: Outra vez se desperdiçou a chance De colocar um freio a esses excessos.

Entre os do alto a baixeza é sem limites. Nunca se sabe em baixo. como do topo. ignora-se o que se passa em baixo. JOANA: Pois entre os de cima e os de baixo O abismo é mais profundo Que entre o Himalaia e o fundo do mar. E sem descanso nem folga Realize seu dever. Que ninguém seja tido como honrado. para os exploradores. OS FABRICANTES: O resultado. Porque o sistema é construído assim: É apenas exploração e desordem. Deixando sem medo um mundo por onde passei muito rápido. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES.Isso não basta – Deixai um mundo bom. Não esqueçamos que ela esteve nos matadouros. qualquer que seja. o que foi que eu fiz? Nada. Mas nada mudará se eles melhorarem. Não tenhais a preocupação de terem sido bons . Que nada seja considerado como boa ação. GRAHAM – Ela não pode proferir discursos que não sejam razoáveis. Se não for uma ajuda real. Mas também no alto. Exceto aquele que muda o mundo Definitivamente: isso é o que é realmente necessário. Eu. Contrário à razão. OS CHAPÉUS NEGROS. E o que se passa no alto. Sistema bestial. A esses elementos dos baixios! JOANA: Mas os que estão por baixo são assim mantidos Para que os de cima lá continuem.52 Resta fragmentada Sem alma e sem vida. Precisa-se do chão. falando alto. que significam Se não se manifestam em nenhum lugar? De que serve vosso saber Se o que sabeis não tem conseqüência? Eu mesma. a Joana: Seja boa e se cale! . caí do céu! Infelizmente! Bondade sem conseqüência! Sentimentos Que não fizeram a menor diferença! Não. Que cada um. JOANA: É uma grande verdade Que aprendi e que vale para todos E morrendo eu vos digo: Vossos bons sentimentos. O que está em cima está em seu justo lugar. O que está em baixo tem grande importância. Quaisquer que sejam as aparências. então. E dois idiomas diferentes Os homens têm a mesma face E não se reconhecem mais. eu não transformei nada. Eu vos digo: Quando chegar a vossa vez de deixar esse mundo. Maldito aquele que apelar A essas massas essenciais Mas sempre insaciáveis. é magnífico Sempre que espírito e negócios se aliam. A essas tropas indispensáveis. No topo e no chão. de maneira a encobrir a voz de Joana: Para que até o céu se levante o edifício. Mas que não sabem o quanto. dois pesos e duas medidas. fique no lugar Que lhe é atribuído. Pois se dele esquecer Perturbará nossa harmonia.

a eles concedei! Hosana! A quem tudo possui. MAULER: Deves agir. obedeça! OS AÇOUGUEIROS: Quem se mover no espaço Nunca poderá subir: Subir é subir sobre alguém. É preciso também golpear-lhes o crânio com uma pedra. SLIFT – Escutem. Todos. para abafar o discurso de Joana. JOANA: Se alguém um dia vos disser Que existe um Deus. Precisarás deles sempre! OS CHAPÉUS NEGROS: Olha para cima. Combatente e mártir. Chegar ao topo implica Pisar na cabeça daqueles que estão por baixo.Sobretudo se forem compras especulativas – Esse Verbo que. Não esqueças: tua consciência está lá! Atenção. quando vos disserem. comerciantes. digam qualquer coisa. Onde vivem os homens. os alto-falantes começam a transmitir notícias que espalham o medo: “Bank of America e Citibank estão de pires na mão” “Revolta contra os cupins financeiros conflagra Londres” “Múltis drenam do país US$ 3. contraiu a serviço de Deus uma pneumonia nos matadouros de Chicago. Só dos homens pode vir ajuda. JOANA: E do mesmo modo. A palavra de Deus. Denegrindo a ti mesmo. Não esqueçam. Que podeis elevar-vos moralmente Mesmo com os pés enfiados na lama. Falem. BISPA SNYDER – Joana Dark. ferir! OS CHAPÉUS NEGROS: Nunca esqueças do sangue que mancha teus sapatos. OS AÇOUGUEIROS: Podes fazer qualquer coisa! OS CHAPÉUS NEGROS: Mas faça-o Sempre com muito escrúpulo! Espírito contemplador. Em suas compras. de século em século. O Verbo magnífico. infelizmente. Onde reina a violência Não há outro recurso senão a violência. sobretudo. sempre mais alto. OS AÇOUGUEIROS: E nem pensa em tirá-los. mas que seja bem alto.266 bilhões só em dez dias de março” “BC assalta U$ 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street” “Montadoras almoçam os R$ 8 bi do crédito e mantêm ameaça de demitir trabalhadores” “Deficit dos EUA deve chegar a US$ 9 tri entre 2010 e 2019” . Mas evita. Não. Sempre se metamorfoseia. Do qual podeis esperar ajuda. Sempre necessário . de esquecer os remorsos. ou seja. é preciso fazer algo para tirar a atenção do que ela fala. tudo concedei! Hosana! Concedei-lhe a cidade e o Estado! Hosana! Aos vencedores. vinte e cinco anos. invisível. distingam com um sinal! Hosana! Enquanto eles cantam os versos. Aos ricos concedei a riqueza! Hosana! Também a virtude. é verdade. Batei com uma pedra em seu crânio Até que arrebente. cantam a primeira estrofe do hino.53 É preciso.

BISPA SNYDER – Joana Dark. A voz de Joana já não se ouve: Concedei aos ricos misericórdia. Aos astros. morta de pneumonia nos matadouros. a serviço de Deus. Colocam a bandeira em suas mãos. MAULER: Como a pureza De um ser inocente. por que criaram tanto gado?” “Alucinados. diz governo ” “EUA mudam socorro para bancos. A generosidade De uma alma sem mácula. Hosana! Oferecei a vossa graça. Por um nobre ideal. até cobri-la totalmente.” “Foram os especuladores de grãos que encareceram o gado. até o fundo cravado.” “Os bancos nos arruínam com os juros que exigem!” “Quem pode pagar tanto dinheiro para estocar o gado e pelos silos de grãos?” “Por que vocês não começaram a reduzir a produção?” “Nós começamos. mudos de emoção. A um sinal da bispa. Comove-nos profundamente. sempre ele aspira Às esferas mais elevadas. foram vocês que se recusaram a reduzir também!” “Vocês são os únicos culpados!” “Enquanto não acabarem com vocês não vai melhorar!” “Faz tempo que o destino de vocês está selado!” “O que estão esperando para prender vocês?” Todos cantam a segunda e a terceira estrofes do hino. Hosana! Nesses braços que vos estendem. Todos ficam muito tempo de pé.” “Foram as tarifas das estradas de ferro que nos esfolaram. Pelo espírito. as mulheres tentaram oferecer a Joana um prato de sopa. Hosana! Juntai vosso riso aos que riem. Qual um punhal. Hosana! Piedade com aqueles que ignoram a fome. Hosana! Que seus crimes terminam bem. Bolsa de NY cai 4. A carne para a terra o arrasta! MAULER: Ai! Um duplo desejo dilacera meu pobre coração. Hosana! Notam que Joana para de falar. Um desejo vive no coração do homem. Em duas tentativas ela recusa o prato. levanta e vira. Em seguida cai nos braços delas. Snyder e Mauler vão até ela. se não tivessem degolado tantos porcos!” “Criadores miseráveis. que vos ajuda também. sinto-me atraído: . Hosana! Com mãos cheias. Infelizmente. mas ela cai. por que não empregaram mais gente e pagaram melhores salários? Quem esperam que compre a nossa carne?” “Foram os intermediários que fizeram subir tanto a carne de gado. Hosana! Ajudai a quem tudo possui. ao firmamento Um impulso múltiplo o atira.7%” “Crise já eliminou 6 mi de empregos nos EUA” “Incertezas rondam fábricas da GM à beira do fechamento” Sob o efeito dessa terríveis notícias os personagens trocam entre si acusações e diversos insultos como esses: “Açougueiros sujos. combatente e mártir. Hosana! Esmagai o ódio. Nós que temos a alma comum! E então desperta a boa alma Que temos no fundo de nosso coração. O palco é iluminado com uma luz rosada. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES: Desde que o mundo é mundo. colocam-se suavemente todas as bandeiras sobre Joana. na terceira vez ela o pega. Ajudai vossa classe. MAULER – Dêem uma bandeira a ela. vinte e cinco anos. Hosana! Durante esta estrofe.54 “Empresas dão calote recorde para remunerar seus acionistas” “Recessão ainda irá se agravar no Japão. que manipulam o dinheiro a rodo. Não dá mais sinais de vida. tocada pela morte. para sua grande pena.

Homem! Luta sempre contigo mesmo! Sigas sendo este ser uno e sempre dividido! Cuida de tua alma boa. Cuida de tua alma terna. Ele precisa cuidar de ambas. desejo o altruísmo Mas à atração pelo lucro. como de tua alma grosseira. não consigo resistir Inexplicavelmente! TODOS: Em cada homem habitam Duas almas opostas. Cuida bem das duas! . Longe de querer escolher uma delas.55 Desejo a abnegação. como de tua alma vil.

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