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I O rei da carne, Pierpoint Mauler, recebe uma carta de seus amigos de Nova Iorque CHICAGO. OS MATADOUROS
MAULER,

lendo uma carta. – “Parece-nos evidente, caro Pierpoint, que já há alguns dias o mercado da carne está saturado. E, no sul, as barreiras alfandegárias resistem a todas as nossas ofensivas. Acreditamos, portanto, ser prudente, querido Pierpoint, não mais envolver-se com este negócio...” Acabo de receber essas indicações de meus bons amigos de Nova Iorque. Lá vem meu sócio. Ele esconde a carta. CRIDLE – Por que esse ar tão sombrio, querido Pierpoint? MAULER: Lembra-te, Cridle, daquela caminhada Que fizemos uma vez, pelos abatedouros? Era noite. Diante de nossa máquina nova, Cridle, lembra-te, nós vimos um touro Claro e nobre, dirigindo aos céus seus grandes olhos vazios. Ele recebeu diante de nós o golpe que o abatia: E tal golpe me atingiu até o fundo do coração! Há sangue demais, Cridle, em nosso negócio! CRIDLE: Amigo, vens outra vez com tua antiga fraqueza. Quem acreditaria, Pierpoint? Tu, o maior de todos, O rei dos abatedouros, dos açougueiros o terror, A morte de um touro louro te enche de dor! Não conte, eu te rogo, tal segredo a ninguém A não ser a mim! MAULER: Oh, meu fiel amigo, Por que me levaste a visitar o abatedouro! Durante os sete anos em que estou no negócio

Eu evitei fazê-lo. Eu não posso suportar Um comércio tão sangrento, não tenho mais forças: Eu me retiro de imediato... Cridle, queres a minha parte? A terias por muito pouco; a ti, a preferência: Ninguém conhece o negócio como tu. CRIDLE: Muito pouco? Quanto? MAULER: Velhos amigos como nós dois Não podem disputar muito por valores. Dez milhões! CRIDLE: Não seria caro, se não houvesse Lennox Que, pela carne em conserva, lata a lata se bate, E estraga o mercado com seus preços baixos. Tirará nossa pele, se não tirarmos a dele. Enquanto ele estiver em pé, e só tu podes abatê-lo, Não posso aceitar tua proposta. Deverás, até lá, com tua mente fértil, Encontrar uma saída. MAULER: Não, Cridle, Esse coração treme ainda com o grito do touro! É preciso então que Lennox caia rápido, Pois quero, doravante, viver como homem de bem E não mais como açougueiro. Saiamos, Cridle, e eu te direi A forma de abater Lennox. Mas tu deverás então tirar esse peso do meu coração E tomar a frente de nosso negócio CRIDLE: Quando Lennox for derrubado Eles saem. II

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O desmoronamento das grandes indústrias da carne A - DIANTE DA FÁBRICA DE ENLATADOS DE LENNOX
OS OPERÁRIOS

Nós somos setenta mil Nessas fábricas de conservas E nossos salários são tão baixos que não podemos mais [sobreviver. Ainda ontem, de surpresa, reduziram nosso pagamento E hoje, um novo aviso: “Os que não estão satisfeitos, sempre podem deixar a fábrica!” Saiamos então, e todos juntos. Ao diabo esse salário que diminui todos os dias. Silêncio Há muito tempo já esse trabalho nos nauseia: Esta fábrica é para nós um verdadeiro inferno E só pode nos manter aqui o medo, O medo duplo, de Chicago e do inverno. Mas agora, doze horas de trabalho Já não garantem nem um pão seco Nem dão para comprar um trapo velho. Melhor partir E morrer de uma vez. Silêncio Pelo que nos tomam eles? Acreditam então Que nós somos gado, dispostos a tudo? Tomam-nos por jumentos? Melhor morrer! Deixemos a fábrica Agora mesmo. Silêncio O que houve? São seis horas! Por que não abrem, corja de esfoladores? Seus bois estão aqui, bando de açougueiros! Abram! Batem no portão.

Terão eles nos esquecido? Risos. Abram! Queremos entrar Em suas imundas pocilgas E suas cozinhas infectas Para preparar guisados indigestos Para os que ainda podem pagar. Silêncio No mínimo exigimos, O salário anterior, que já não dá para nada. No mínimo A jornada de dez horas e, no mínimo... UM HOMEM QUE PASSA: O que vocês estão esperando? Não sabem que Lennox fechou? Gazeteiros de jornal aparecem na cena GAZETEIRO – Lennox, o rei da carne, forçado a fechar suas fábricas! Setenta mil operários na rua. Lennox vítima da concorrência feroz imposta por Pierpoint Mauler, rei da carne e da responsabilidade social!
OS OPERÁRIOS

Desgraça! O próprio inferno Diante de nós fecha suas portas! Nós estamos perdidos. O impiedoso Mauler Aperta a garganta de nosso explorador E somos nós que sufocamos! B - UMA RUA – A Tribuna de Chicago, edição do meio-dia! O rei da carne e da responsabilidade social, Pierpoint Mauler vai inaugurar os Hospitais Pierpoint Mauler, os maiores e mais caros do mundo! Dois transeuntes olham para o fundo do palco, “vendo” Mauler. UM TRANSEUNTE, ao outro – Aquele é o Pierpoint Mauler. Mas quem são os dois que o acompanham?
GAZETEIRO

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– Seguranças. Só anda escoltado, com medo de apanhar de alguém.
O OUTRO

Para levar Deus ao coração de um mundo que desaba E nele restaurá-Lo, pela ação dos mais humildes. Os Chapéus Negros andam. Toque de tambores. Durante todo o dia os Chapéus Negros pregaram nos matadouros, mas, quando a noite chegou, os resultados eram quase nulos. DIANTE DA FÁBRICA DE CONSERVAS LENNOX – Dizem que eles estão preparando um grande golpe sobre o mercado de carne. Para nós isso que dizer esperar e passar fome. OUTRO OPERÁRIO – A luz está acesa nos escritórios. Estão lá, calculando os lucros. Chegam os chapéus Negros. Fixam no chão uma placa na qual se lê: “Hospedagem: 20 centavos por noite. Com café: 30 centavos.” CHAPÉUS NEGROS cantando Escutem todos, escutem bem! Tu que te afundas, nós te vemos, Teu apelo por ajuda, nós o escutamos, Teu sinal, nós o percebemos. Parem os carros, detenham o trânsito Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Tu que te escondes, tu que duvidas, Olha para nós! Olha, Meu irmão, antes que sucumbas! Nós te damos o que comer E nós não esquecemos Que tu não tens abrigo. E, sobretudo, não digas que tudo está perdido: Tudo será diferente, a injustiça nesse mundo Não poderá durar se todos se juntarem a nós, Marchando ao nosso lado Com o único objetivo de ajudar o próximo. Nós faremos avançar os tanques e os canhões
UM OPERÁRIO

Para levar consolo aos miseráveis dos matadouros, os Chapéus Negros deixam a sua sede. Joana empreende sua primeira descida às profundezas. C - EM FRENTE AO TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS
JOANA,

à frente de um comando dos Chapéus Negros: Nesta noite de sangue e confusão, Nesse tempo de desordem organizada, De arbitrariedade consentida, E de humanidade desumanizada, Nesse tempo em que em nossas cidades Os problemas não têm fim; Nesse mundo, imenso matadouro, Em que nos chegam rumores de violência iminente; Para impedir que, em sua brutalidade, O povo, ofuscado, quebre suas ferramentas E destrua assim seu ganha-pão, Nós queremos reintegrar Deus Pois aos lugares onde realmente vivem os homens Ele não mais tem acesso: Sua glória anda pouca, Seu nome, já quase suspeito. Dos mais humildes, entretanto, ele é a única salvação! Então nós resolvemos Por ele bater nossos tambores nesses bairros; Para que ele penetre no coração da miséria E que sua voz retumbe pelos matadouros. Aos Chapéus Negros: O que faremos agora é uma última tentativa. Pela derradeira vez, nos esforçaremos

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Nós lançaremos ao mar os navios de guerra, E nos ares, os aviões Para conquistar teu pão, meu irmão. Porque vós, os pobres, formais Nesse mundo um imenso exército. Vós que nos escutais Não esperai o amanhã! Desde hoje ajudai, Ajudai ao próximo! Avante! Ao assalto! Empunhai vossos fuzis! Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Cantando, os Chapéus Negros começam a distribuir seu jornal: Apelo às Armas, bem como colheres, pratos e sopa. Os operários agradecem e põem-se a escutar o discurso de Joana. JOANA – Nós somos os soldados do bom Deus. Por causa dos chapéus que usamos, somos também conhecidos como os Chapéus Negros. Nós dizemos que somos soldados, porque formamos um exército e porque, em todos os lugares em que vamos, precisamos lutar contra o crime e a miséria, contra as forças que tendem a nos aviltar. (Ela mesma começa a distribuir sopa) Bem, agora comam esta sopa quente e constatarão que depois vocês verão as coisas com um olhar diferente. Pensem agora qual esperança se pode fundar sobre a felicidade terrena. Nenhuma, absolutamente nenhuma. A desgraça vem como a chuva: ninguém a provoca, mas, entretanto, ela vem... Suas desgraças, digam-me de onde vem? UM DOS QUE COMEM – De Lennox & Cia. JOANA – O senhor Lennox tem talvez mais preocupações do que vocês! O que vocês estão perdendo? Ele, suas perdas se contam por milhões. UM OPERÁRIO – Carne não há nesta sopa, só uma aguinha clara, isso sim. Mas quente, pelo menos, está. OUTRO OPERÁRIO – Fiquem quietos, bando de glutões! Escutem a palavra de Deus! Senão vão tomar o prato de água quente de vocês.

– Silêncio! Queridos amigos, digam-me: por que vocês são pobres? UM OPERÁRIO – Sei lá! Explique você! JOANA – Eu lhes direi. Não é porque vocês não estão cheios de bens materiais – que não chegam para todos – mas porque vocês não têm idéia dos valores mais elevados. É por isso que vocês são pobres. Esses gozos vulgares aos quais vocês aspiram, comer um pouco, ter um bom lugar para morar e ir ao cinema, não são mais do que prazeres frívolos, grosseiros. Enquanto que a palavra de Deus é um prazer mais delicado, mais profundo e muito mais refinado; talvez vocês não possam nem imaginar algo mais doce do que o chantili, mas a palavra de Deus é ainda mais doce. Homens de pouca fé, os pássaros no céu não têm carteira de trabalho, as açucenas do campo não têm emprego e, entretanto, como eles cantam Sua glória, Deus lhes dá alimento. Nós, os Chapéus Negros, fazemos então a vocês uma pergunta muito prática: de que um homem precisa para crescer na vida? UM OPERÁRIO – Um colarinho engomado. JOANA – Nada disso. Para progredir na terra talvez seja necessário um bom colarinho, mas diante de Deus é preciso muito mais que isso, outras glórias. Vocês aos olhos Dele, nem mesmo um colarinho puído têm, pois deixaram suas almas no abandono. Mas então como vocês querem elevar-se, chegar ao que vocês, em sua ignorância, chamam de uma “situação melhor”? Pela força bruta, pela violência? Como se algum dia a violência tivesse trazido alguma coisa além da destruição. Vocês acham que mostrando os dentes conquistarão o paraíso na terra. Mas eu lhes digo, agindo dessa maneira o que se cria não é o paraíso, mas o caos! Um operário chega correndo. O OPERÁRIO: Uma vaga, agora mesmo, acaba de abrir! Um trabalho, um salário, esperam por vocês, Na fábrica número cinco! Que mais parece uma latrina. Corram, rápido. Um operário larga seu prato cheio e sai correndo.
JOANA

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– Ei, você, onde é que você vai? Quando se ocupará de Deus? Vocês não querem nem ouvir falar, não é? UMA MOÇA DOS CHAPÉUS NEGROS – Acabou a sopa. OS OPERÁRIOS: Acabou a sopa; Era só um caldinho ralo Mas era melhor do que nada. Todos se viram e se levantam. JOANA – Fiquem sentados; acabou, mas que importa, uma vez que a grande sopa celeste não se esgota nunca. OS OPERÁRIOS: Quando, afinal, vocês Abrirão as portas de seus porões, Carniceiros, mercadores de carne humana? UM OPERÁRIOS: Com o quê, agora, pagarei A casa pequena e úmida, onde vivemos doze? Eu já paguei dezessete prestações, Mas a última, não conseguirei Seremos jogados na rua. E o chão de terra batida E nosso pedaço de grama amarela, Nunca mais os veremos, nunca mais, Nem tampouco respiraremos seu pestilento ar familiar. UM OUTRO OPERÁRIOS: Aqui estamos, em pé, nossas mãos como pás, E nossos pescoços fortes como tratores. Nossas mãos e nossos pescoços, queremos vendê-los Mas não há quem os compre. OS OPERÁRIOS: E nossas ferramentas - Gigantesca montanha de prensas e gruas – Estão trancadas, detrás desses muros! JOANA – E então, o que se passa? Quer dizer que já se vão? É porque já terminaram de comer? Adeus e obrigado. Mas por que então vocês escutaram até agora?
JOANA

– Pela sopa. JOANA – Continuemos. Cantem! CHAPÉUS NEGROS cantando Avante, entrai nessa luta! No coração da batalha lutai! Cantai com louvor, que cante todo o mundo. Ainda é noite, mas logo virá o dia, Raiando com todo o esplendor, E junto virá Jesus Nosso Senhor. UMA VOZ, do fundo do palco – Estão contratando nas fábricas de Mauler! Os operários saem. Fica apenas uma mulher. JOANA, com ar sombrio: Parem a música! Acabou a sopa, lá se vão eles! Seus olhos são incapazes de elevar-se Mais alto do que a borda do prato. Eles não crêem em nada além do que está Entre suas mãos. Acreditarão em suas mãos? Vivendo cada dia, cada minuto mesmo, Na insegurança, eles não são capazes De se esquecer das preocupações mais básicas. Nada, a não ser a fome, tem sobre eles qualquer influência. Nenhuma canção os toca mais. Nenhuma palavra pode Descer até eles e penetrar seus corações. Aos que a cercam: Parece que nós, os Chapéus Negros, temos por tarefa alimentar todo um continente com nossos poucos talheres. Os trabalhadores voltam. Ao longe, ouvem-se gritos. OS OPERÁRIOS, na frente do palco – Que gritos são esses? Um imenso caudal humano emerge dos abatedouros. UMA VOZ, do fundo: Mauler e Cridle também fecharam. As indústrias Mauler optam pelo lock-out! OS OPERÁRIOS, refluindo:
UM OPERÁRIO

esse Mauler. ele te revenderia. Lennox está branco como algodão. por favor. dos Chapéus Negros: Não vá te meter com estes problemas. JOANA III Pierpoint Mauler é tocado pelo sopro de um outro mundo EM FRENTE À BOLSA DE CARNES Em baixo. mora aonde? OS OPERÁRIOS: Lá. No alto. na frente do palco: Desgraça! De todos os lados chegam ainda Torrentes infindáveis de homens! OS CHAPÉUS NEGROS. Quem abandona o lar protetor. Oh Joana! Não te metas nas querelas terrestres! Pois quem nelas se envolve. . Recebemos mil respostas. O selvagem Mauler! De um tal monstro a investida É inexorável! A natureza. meu velho Lennox. Resultado para nós: barrigas vazias. Ao fundo. os fabricantes de conservas Lennox e Graham discutem. Os Chapéus Negros se afastam. que fogem do trabalho. Tu desaparecerás na lama! Pois a lama entope as bocas Que fazem perguntas sem prudência JOANA: Eu quero saber. desde o dia em que nasceram. Eles têm apenas idéias vulgares na cabeça. Enquanto corríamos atrás de trabalho. Estamos gelados e molhados e precisamos comer. Todos haviam perdido o emprego E perguntavam onde achar trabalho. Em um grande edifício: A Bolsa de Carnes JOANA: Eu vou até lá: Eu preciso saber.6 No meio do caminho encontramos. por que correm de um lado a outro e não encontram trabalho? OS OPERÁRIOS: O sanguessuga Mauler e o muquirana Lennox brigam entre si. ruídos da Bolsa. JOANA – Não! Eu quero saber (aos trabalhadores) Digam-me. JOANA – Esse Mauler. pronto. E vê esvanecer-se sua pureza original. MARTA. já que ele é a causa de tamanha miséria. eu quero vê-lo. OS CHAPÉUS NEGROS – Pare! Não te metas com essas questões. São reles glutões Preguiçosos. Ele venderia o próprio ar. torna-se. UM OPERÁRIO. E o frio supremo Rouba de seu coração todo o calor. desce cada vez mais baixo. Na insana esperança de obter uma resposta Que jamais chegará. onde se compram e vendem animais. O que comeste. derrubou-te. Degrau após degrau. Abrigaram sentimentos nobres. Eles encherão tuas orelhas com seus gritos. GRAHAM: E então. JOANA – Quero saber. Sua bondade perde rápido. para ele. antes. OS CHAPÉUS NEGROS – Então teu destino nos parece bem negro. Joana e Marta esperam. Jamais seus corações. Ao fazer mil perguntas. Uma multidão enorme e desesperada. Torna-se mercadoria. presa. – Não. a Joana – Vamos agora. quem é o responsável por tudo isso.

Em dinheiro ele as transformará.. eu garanto. Depois seus pelos. Destroem com seus cascos o pasto que disputam. Espero que o mercado recobre a saúde. Cridle. Que ele não saberia jamais trair seu instinto. Ele terá medo. Lennox! Acabou a guerra de preços! Foste eliminado. Tira esta mão que me aperta e me estrangula. em salsicha se transforma. E se lhe jogas pedras na cabeça. JOANA – Mas tu vieste comigo. OS FABRICANTES DE CONSERVAS : Trata-se de saber quem agüentará mais tempo. Gritaram-me prudência: Para eles. por conta de seu próprio peso. Bem pensado. Slift. no entanto. Por si mesmo. o porco se precipita. Um mercado aviltado. Marta.” CRIDLE : . ele extrai rendas.7 De barracos miseráveis. A Lennox: Estás perdido. época maldita! Um comércio estrangulado por montanhas de conservas. esta arte contrária à natureza. A nova técnica é muito engenhosa: O porco é colocado em uma esteira rolante Até o alto da fábrica. Primeiro perde a pele. O faro para o dinheiro é nele tão potente. Tão natural. surge de um grupo de fabricantes de conserva. no último andar. Mauler. ficarás com a fábrica Conforme está previsto nos termos do contrato: “No dia em que Lennox for eliminado. até aqui me acompanhastes. Fecho minhas fábricas. Começa então o seu retalhamento. chega Na lata que o espera lá embaixo. Batendo-se por sua conquista. CRIDLE: Muito bem. Bela invenção. E talvez chore.. Vá. à Marta: Tu somente. ele faz ouro. MARTA – Joana. como vais reconhecê-lo? JOANA – Saberei bem reconhecê-lo. E pensa nos velhos tempos. Lubrificar meus cutelos. com voz suave. que. Instalar duas ou três dessas máquinas novas.. e dorme mal à noite. eu também te recomendei prudência. Tal qual dois grandes búfalos.. Quando ele não podia absorver mais nada. E assim.. sozinho. olhe para mim e de meu pescoço. não achas? Ele se degola e logo. De carne podre. Ele não pode suportar A visão da miséria. Cridle sai da Bolsa e desce até o palco. não é verdade? GRAHAM : Muito bela! Mas e a lata. Diga-lhe: Mauler. que vira couro. Estranho conselho! Eu te agradeço. Todos me abandonaram. lutando. Nas facas. ainda ontem florescente!. E agora. confessa. este homem não é duro E nem ama o dinheiro. nele. para economizar Uma agradável soma em salários. que viram escovas. até ele e. MAULER : Lennox está de joelhos. Agora vou limpar a minha fábrica. Saibas. JOANA. moídos como farinha.. cruzei a última fronteira. Até chegar aos ossos.Joana. a cada fase. com sua escalada. O que fazer com ela? Ah. Pois caindo. então. Vocês mesmos. Fizeram desabar os preços e destruíram seu negócio. acompanhado de seu corretor. MARTA .

Isso não é um contrato? Com um preço fixado? CRIDLE : Sim. veja Lennox. É preciso então. seguindo-o com os olhos: Tive a ligeira impressão de que algo o atormentava. sensível! Ele soca Mauler no coração. Lennox. CRAHAM : Toque-lhe o coração. Estou tão temeroso que chego a suar frio: seis dias.. Não estava caro. então. eu precisaria jogar essas ações no mercado... LENNOX – Mauler. (faz contas em uma caderneta) Quando combinamos que tu sairias do negócio. MAULER – Ai! GRAHAM — Viu? Ele tem um coração! MAULER : Então. Freddy! Quer dizer que tu me socas. Mas. Hoje. se eu fizer isso. mergulhado em meus negócios. Mauler. então. Tu me ofereceste a 320. Cridle. nada. de examinar Contigo. Antes que quebres de uma vez! Creia-me. Mauler. GRAHAM — Mauler. olhe para mim. as ações estavam a 390. E eu. Lennox acabou. é que meu coração se aperta Quando ouço mugir a criatura CRAHAM : Agora eu compreendo a grandeza de teus atos. elas cairão a 70. se tu estás Realmente onde dizes. sem mais delongas. Pois eu proibirei Cridle De comprar-te uma única lata. isto é. Não pude imaginar seu fado. e onde eu conseguiria dinheiro para pagar tua parte? Eu estaria arruinado! MAULER : Já que me dizes isso. cinco. o coração torturado! Cridle se afasta.8 Sim. um contrato dos tempos de prosperidade! Mas e a crise? Ela não existe? Que posso fazer eu com um grande matadouro Se ninguém mais compra carne em conserva? Agora sei bem porque não podias Mais suportar a visão do gado morrendo: sua carne Não vende mais! MAULER : Não. : Pepê! Isso não é um jogo! Não podes misturar Questões pessoais aos negócios! CRIDLE – Pois não. Lennox! Toque-o! É uma lata de lixo. Mauler. e tu tinhas um terço. Ele sai. devido à saturação do mercado. Seis dias? Não. as ações caíram para 100. Ah! Pudesse eu estar liberado De um comércio tão bestial! Tenho. tu me forças. LENNOX – Não... Nada além. Joana fez um sinal a um segurança e lhe diz algumas palavras.. Para pagar o que te devo. nosso contrato não é mais viável. MAULER : O quê? A soma está inscrita Claramente no contrato Tome. Repensar os dez milhões de dólares Que queres por tuas ações. MAULER . Veja se esse contrato diz uma só palavra sobre a crise. CRAHAM . Cridle. MAULER – Leia. A exigir meu dinheiro. É o máximo que posso fazer. como eu. Pepê! Como quiseres. mas. até teu coração sabe ver longe! LENNOX : Eu gostaria ainda. Mas com ele acabaram Os bons dias do mercado. tenho dois mil empregados! CRIDLE – Mande-os ao cinema! Mas Pepê.

MAULER : Está bem. Que não é acusada de nada E que não espera o impossível de mim. Pouco me importa o que esperam de mim. eu sei. apontando para Mauler – O senhor é o Mauler! MAULER – Não. MAULER . sem dúvida? Prontos para a violência. . são numerosos e gozam de grande consideração nas camadas inferiores da população. Slift. há algumas pessoas que querem lhe falar. Nada de choros. Senhor Mauler. a Slift: Que eles trabalhem por nada. seus trabalhadores na rua? MAULER. 59. O SEGURANÇA: Ele vai vê-los. gente estranha. Mas que nome curioso! Soldados do Bom Deus. etc. Com ar invejoso. diga que não estou. que a sopa seja rala. MAULER : O que é esta organização? O SEGURANÇA — Eles têm muitas ramificações. Dizem. dirigindo-se direto a Mauler – O senhor é o Mauler! – Não sou eu. respondam apenas Quando ele lhes perguntar. MAULER : Já ouvi falar dessa gente. Slift? (Enquanto isso. mas vocês não devem Perguntar nada. não é notável? Já viste algo igual? Que trabalhem por nada e sem se lamentar? Não vejo em seus olhos nem medo da miséria Nem de dormir sob as pontes alguma noite. em absoluto. é ele. que o sangrento Mauler. além da comida e do uniforme. – Vinte centavos. Vitelos. Chapéus Negros. o rumor da Bolsa continua. Slift ri.. Graham sai. Mas o que eles querem comigo? O SEGURANÇA — Afirmam que têm algo a dizer ao senhor. não é homem de bem. São chamados de soldados do Bom Deus. é o que tem a cara mais ensangüentada. Ouve-se: Bois. cá entre nós. Durante esta cena.É assim. nem desses versos sentimentais Que eles adoram cantar. MAULER – Como me reconheceste? JOANA: De todos. o tecido não é grosso Nem é grossa a sopa. O SEGURANÇA — São membros da Organização dos Chapéus Negros. O segurança vai ao encontro de Joana no outro lado do palco. suponho. Pretendo renunciar a esse negócio sangrento Logo que eu possa: renunciar sem retorno. JOANA: Por que joga. Diga-lhes que eu os receberei Mas que eles limitem-se a responder minhas perguntas. 55. Mais uma coisa: não diga. A Joana: Vós sois. (aponta para Slift) É ele! JOANA. que eu sou Mauler. MAULER: O tecido é bem fininho e.9 O SEGURANÇA — Senhor Mauler. hein? Não. que a escória me chama – Despojou Lennox. Para Joana:) Quanto recebes por dia? JOANA. O melhor para eles É causar em mim a impressão de gente honesta. Sim. MAULER – Rindo. 43.. sobre outra questão. JOANA. – É o senhor. na verdade. MAULER : A escória em farrapos. adoraria vossa opinião. JOANA. Creiam-me: esses são assuntos profissionais Que não vos interessam. Porcos. Mas. e pôs em apuros Cridle que.

mas não digas nada. tu também. dêem o dinheiro. Não. Eu sei. É bom. pessoas extremamente más. Desculpe-me. isso de se retirar do negócio. São todos carniceiros. O homem. não me comove. há pouco. de resto. Ele não é maduro ainda. Eu também vou embora. diga. MAULER: É que adquiri o maldito hábito De disfarçar a voz. Ele fala com Slift em voz baixa. Talvez por isso te ajude. A canalha. Eu sei. Isso não é bom? Os fabricantes de conservas explodem em gargalhadas. Seu riso não me atinge. Dirigindo-se aos outros: Parece-me que fui tocado pelo sopro de um outro mundo. Mas este mal era inevitável. que com tal decisão As pessoas sofreram. Tome para os pobres.. no lugar do pobre animal. Embora já tenhas vivido mais de vinte anos. dêem! Corja de carniceiros! Ele continua mexendo nos bolsos deles para dar dinheiro à Joana. Mas tendes consideração demais pelo destino dos pobres: Eles são maus. Abandonar esta empreitada. a Joana: Joana. Deverias. minha filha. confesso. não é? JOANA: Não sei se o senhor fala sério. por que fechou os matadouros? Eu preciso saber. não me digas nada.. MAULER: Riam todos. nos matadouros dizem que o senhor é o responsável pela miséria deles. Mas é uma gentileza. Um instante. por favor. Ele se aproxima dos industriais. São. ele decidiu abater O rico Cridle. Tamanha inocência!. eu sinto Que tu não gostas de mim. JOANA – Senhor Mauler. Isso não é bom? E conforme vosso espírito? SLIFT : Vendo morrer o boi. Melhor para ti que não os veja. para o que pretendes fazer. MAULER: Poderia eu ir mais longe? Porque ele é sangrento É que eu tirei as minhas mãos deste imenso negócio. MAULER: Eu tenho grande piedade pelos bois: o homem. Senhor Mauler. um boi e fiquei tão comovido Que quis largar tudo. O senhor não poderia realmente ajudá-los? MAULER: Repita por toda a parte: eu aprovo vossa ação. tomando-lhes o dinheiro que trazem consigo e dando-o a Joana. Seu rosto me agrada. Cedi por dez ao homem que vêem aqui. Dêem o dinheiro. vamos.. JOANA: Senhor Mauler. Marta sai. Diga-me que está certo E que isso te agrada. aliás. Eles não têm mais trabalho.. Nenhum é inocente. ele é mau. Mas. E desejaria que fossem mais numerosos. Eu os verei chorar um dia. A parte – doze milhões – que eu tinha na usina. Deixai disso. não creias que seja de boa fé. sem nenhuma obrigação: Eu não sofro de insônia. MARTA. . JOANA – Isso é uma gota no oceano.10 Pois eu vi – e isso vos interessará – Morrer. O mundo não poderá mudar se antes não mudarem os homens.

JOANA. é claro. saindo – Um conselho: não te metas com as gentes dos matadouros. Ele veste o casaco. e ele entrou na faca e virou toicinho. e para mim.11 Chame ela de lado. (O contramestre volta para a fábrica pela portinhola. É preciso queimá-los. por suas vidas miseráveis. O amigo Pedaço-de-Toicinho não precisa mais dele. é a escória. já que agora ele está em embalado. A Slift: Mal posso suportar a existência de seres Semelhantes a esta moça.. E verás que tua piedade é descabida. SLIFT: Em teu lugar não gostaria. ficará com a vaga de Luckerniddle. enfim. vendo Mauler se afastar: Este homem não é mau. Ele sai. agora eu vou te mostrar Como eles são maus Essa gente da qual tens piedade. Slift e Joana contornam o muro de uma fábrica. é o lixo do mundo. . Aqui estão seu casaco e seu boné: pegue-os e façaos desaparecer. e mostre a ela Como os pobres são maus e covardes. Azar. De saber o que queres saber. Se isso falhar . em um jornal. Semelhantes a bestas. Se quiseres mesmo saber.. o quanto antes melhor. que nada têm Além de seus vinte centavos por dia e seu chapéu negro. JOANA. sobre o qual se lê: “Fábrica de Conservas de Carne Mauler e Cridle”: O nome de Mauler aparece riscado. peguei para mim. Sullivan Slift. cheios de traições. Diga “para seus pobres”. é pavoroso. JOANA — Eu quero vê-los. Estão ocupando inutilmente um cabide no vestiário. em uma palavra. Mas volte aqui amanhã. e enrola o seu. Mas seu casaco ainda está bom e isso também é uma pena. dê dinheiro a ela. perderei meu emprego. caiu. O JOVEM OPERÁRIO – O senhor pode confiar em mim. A Joana: Aqui está meu corretor. Isso pode funcionar. Veja então o que ela compra. faz quatro dias. o que causa má impressão. mas não pudemos parar as máquinas a tempo. assim como o seu boné. vacilando: Estou me sentindo mal. e depois a siga. É o primeiro que nossos tambores desalojaram Das trevas da vilania. ele cairá bem. este homem será mandado para os quatro cantos do mundo sob a forma de toicinho. Ele ouviu nosso chamado. ele te fará ver algumas coisas. Quando a fábrica reabrir você. IV O corretor Sullivan Slift mostra à Joana Dark como os pobres são maus: Joana desce às profundezas pela segunda vez BAIRRO DOS MATADOUROS SLIFT: Joana. se quiser. Dois homens saem por uma portinhola. Entrego a você porque sei que é de confiança: se alguém encontrá-los em algum lugar. na caldeira. a um jovem operário – Um de nossos homens. senhor Smith. Slift e Joana escutam. UM CONTRAMESTRE. Luckerniddle. ela poderá Aceitar sem pudor. E que não têm nenhum medo.) É uma pena. Responsáveis. vestido com uma lata.E eu adoraria que não desse certo – Leve-a aos matadouros. SLIFT.

de forma alguma. de qualquer modo. para nós. Amanhã. é muito desagradável vê-la sentada aí. na fábrica. seu marido está viajando. Bando de açougueiros. a Joana – Fique aqui.. dizendo tolices. E malditos sejam vocês Se lhe fizeram qualquer coisa! Slift caminha até ela. todo o tempo. Aconteceu alguma coisa com ele aí. ele me dizia: “Espere-me à noite com uma sopa quente!” Desde então não [voltou. além dele. Por causa dele deixei minha mão na máquina de cortar chapas. O JOVEM OPERÁRIO – Pode confiar em mim. então a senhora não pode aceitar a refeição que a fábrica lhe oferece.) Onde você conseguiu este casaco e este boné? Estes são os pertences de Luckerniddle. saindo para o trabalho. Vinte refeições são muita coisa Para aquele que tem fome. Mas reflita bem. Eu tiro agora mesmo. Precisará nos processar. Verás então o que é essa gente. legalmente. não diga mais isso. (Ele vai em direção a Gloomb). lamentando-se: Faz já quatro dias que. se você não está precisando disso!. Você poderá comer e lhe darei um dólar se disser à mulher de Luckerniddle onde conseguiu o casaco e o boné. mesmo à noite. gratuitamente. SLIFT: Senhora Luckerniddle. No ano passado me deixei seduzir pelos vinte centavos a mais que se ganha na fábrica de adubo. Eu ficarei aqui. senhora Luckerniddle. É por isso que lhe fazemos uma proposta: note bem que. em nossa cantina durante três semanas. Joana e Slift prosseguem seu caminho. isso não lhe parece muito brutal? SLIFT: Bem. ao meio-dia. vou falar com ele. Esse salafrário se empanturra às nossas custas. Não procure mais saber o que se passou com seu marido e a senhora poderá almoçar. fui trabalhar no moinho de ossos e adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. JOANA: Ela nunca aceitará. Eu. se quiser me ver. . Mas existem coisas Que importam mais para ela. O JOVEM OPERÁRIO – Mas senhor. (Ele pára o jovem operário. esperando por ele Mas ninguém diz nada. senhor. DONA LUCKERNIDDLE: Eu quero que me devolvam meu marido. à cantina número 7. Não tenho outro esteio. No frio. DONA LUCKERNIDDLE está sentada em frente ao portão da fábrica.. lhes digo. Senhora Luckerniddle: ele está viajando e. enquanto não o vir. Eu estou em uma situação muito ruim. que fizeram dele? Há quatro dias que estou aqui. Vamos. e meu marido não sai da fábrica. Já não posso mais trabalhar como antes e só consegui emprego duas vezes desde fevereiro. obrigados a fazê-la. Vamos cuidar para que essa seja a última vez. é capaz de o meu quebrar já no primeiro golpe. SLIFT – Estamos dizendo que ele partiu para São Francisco. SLIFT – Se é esta a sua opinião. SLIFT: Guarde essas coisas. Joana e Slift seguem seu caminho. me encontrará na cantina. GLOOMB – O feitor está bem ali. DONA LUCKERNIDDLE: Agora inventam que ele viajou! SLIFT – Deixe-me dizer uma coisa. Slift volta para junto de Joana. senhor. ele não foi para São Francisco. DONA LUCKERNIDDLE – Quero saber o que aconteceu ao meu marido. e vocês não querem que se saiba disso. Antes eu gostaria de fazer-lhe uma proposição interessante. nós não somos. DONA LUCKERNIDDLE – Não. Eles chegam a uma cantina da usina e vêem diante de uma janela dois homens que olham para o interior. diga-lhe que procura trabalho. aquele que se acidentou? O JOVEM OPERÁRIO – Por favor.12 SLIFT: Aí está a vida como ela é. pronto para encher a pança. Venha. passe-me logo teu cassetete. Quando ele se aproximar. Tenho a impressão de que você está prestes a cometer um ato impensado. SLIFT.

Eu imaginava que ela iria resistir. GLOOMB – Você enxerga bem? JOANA – Não. GLOOMB – Rápido então.. Você se surpreenderá ao ver como o trabalho é agradável.. no moinho de ossos. JOANA – A senhora já está aqui. A GARÇONETE – Se a senhora não for comer. Uma jogada dessas é melhor de se fazer à noite. Apesar de tudo. E eis que ela nos precedeu. SLIFT – Leve você mesmo a comida a ela. pode ser que mude de idéia. Joana procura um prato e leva à senhora Luckerniddle. e lhe daríamos até um trabalho mais fácil e melhor remunerado do que o antigo. A senhora Luckerniddle está falando com a garçonete. faremos isso amanhã à noite. DONA LUCKERNIDDLE – O que? Vocês pensaram melhor e estão retirando a oferta? Então eu não terei mais as minhas vinte refeições? JOANA – Me pareceu que a senhora se dava bem com seu marido. Ali adiante. DONA LUCKERNIDDLE – Espero uma pessoa que deve vir hoje ou amanhã. Naturalmente seria muito bom se nós encontrássemos alguém para esse posto. JOANA – Quase tenho medo de continuar. GLOOMB – Nada disso é verdade. DONA LUCKERNIDDLE – É verdade. meu senhor.. A maior parte dos trabalhadores a considera muito perigosa. DONA LUCKERNIDDLE – Sim. GLOOMB . Ela senta-se em uma mesa. (Ao seu companheiro:) Pensei melhor. O que há para comer hoje? A GARÇONETE – Ervilhas. já faz dois dias que eu não como nada. SLIFT – Gostaria de propor um meio de tirar-lhe dessa jogada. temi que amanhã ela viesse. não muito fortes. JOANA – Mas a senhora nem sabia que nós viríamos hoje. Seria vantajoso para você. encontrasse alguém. Ela não parece muito forte. E é um trabalho que pode ser feito mesmo por pessoas como você. DONA LUCKERNIDDLE. Adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. (Ele vai em direção a Joana. No ano passado fui trabalhar na fábrica de adubo. Disseram-me que não tinha ninguém além dele. JOANA – Não há realmente como me arranjar outro posto? Ouvi dizer que o trabalho nesta máquina era perigoso para quem não resistisse ao trabalho muito pesado. Os movimentos ficam menos firmes e pode-se prender as mãos nas serras. É preciso que ele pague hoje mesmo por esse sistema desumano do qual ele é o feitor. Ela correu até aqui e já nos espera. tem que se retirar. Tchau.. Naturalmente você precisaria manter os ritmos de trabalho mesmo os dispositivos de segurança não sendo perfeitos. Slift cai na gargalhada e arrasta Joana. JOANA – Vindo para cá ouvi dizer que aconteceu alguma coisa com o seu marido e que a fábrica é responsável.. O posto não é feito para gente fraca. Desde fevereiro estou sem emprego. O que mais verei? Eles entram na cantina. desde hoje? DONA LUCKERNIDDLE – Não como nada há dois dias. e então eu poderia. Não podemos perder esse safado.) Você está procurando trabalho? JOANA – Sim. não sabia. JOANA: Ela sentou-se ali. Se você. por acaso. Eu sou inspetor nesta fábrica. depois do que eu iria. e então eu teria. GLOOMB – Posso confiar no que você está me dizendo? SLIFT – Sim..13 – Não tenho tempo. justamente porque você contou todas essas histórias a respeito de seus dedos. O posto que você ocupava na sua máquina continua vago e isto é muito chato. Talvez a vaga deste contramestre.. Vai se perguntar como alguém pode contar histórias tão ridículas sobre esta máquina.. há uma moça que está procurando trabalho. GLOOMB – Aquela moça ali? . SLIFT – Que pena. por exemplo.. É um bom posto? GLOOMB – É um ótimo posto. estaríamos dispostos a reempregá-lo imediatamente. calculando – Vinte refeições..

Ela se levanta e sai. e comerá sem levantar os olhos do prato. como muitas. JOANA: Porões e armazéns abarrotados de carne. Dona Luckerniddle arranca o prato das mãos dela e começa a comer avidamente. V Joana apresenta os pobres à Bolsa de Carnes A BOLSA DE CARNES : Nós todos. Você a viu. tu me dizes? Sua pobreza também é incomensurável. e por mais justa que fosse. O JOVEM OPERÁRIO – Bom dia. DONA LUCKERNIDDLE – Ele foi para São Francisco. como vós a explorais! Não vês que nem teto eles têm. Mostrar-te-ei. A senhora Luckerniddle sente náuseas. esta mulher. Atrás dele:) Você tem um belo boné. eu volto. como um animal. Era seu único esteio. então? O JOVEM OPERÁRIO – De um homem que caiu dentro de uma caldeira. Um certo tempo ainda. Eu virei todos os dias. Que sua miséria. preferido. como manda o costume. JOANA E procurar por ele. ao lado daquela mulher. Fatias de toicinho Cridle-Mauler! Carne de filé Graham. (Dona Luckerniddle permanece em silêncio) Não pegue. E este jovem – em quem botaria fé Qualquer malandro -. o preço era muito alto. eu. comprem nossas latas! Carne fresca e suculenta.14 – A senhora não quer esperar até amanhã? Se a senhora desistir de procurar o seu marido. ninguém mais perguntará o que foi feito dele. os sofrimentos que suportam Esses pobres sem moralidade. saindo. e que já apodrece. mas não em uma loja. Desejas mostrar-me a sua imoralidade. acreditas que ele teria mostrado À mulher do morto a roupa que usava Se tivesse tido a chance de escolher? O maneta. O que tu me mostraste Não é a imoralidade Dos pobres: é a pobreza deles. Joana? A imoralidade dela não tem limites! JOANA: E tu. posso comer aqui? SLIFT – Você só precisa sentar-se ali. verdadeira manteiga! Banha fresca do Kentucky! OS COMPRADORES: OS FABRICANTES DE CONSERVAS . para colocar Ao abrigo da chuva. DONA LUCKERNIDDLE. ao garçom – Deixe meu prato. Continuar fiel à memória de seu marido. (Ele senta-se. certamente teria me prevenido Não fosse o preço a pagar por seu pequeno escrúpulo. Tão cara a ele. Mas vinte refeições. SLIFT – Durante três semanas ela virá. (O jovem operário o esconde) De onde ele vem? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. SLIFT – E onde você conseguiu. SLIFT – E onde você comprou? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. Ele foi obrigado a vender sua cólera. a vossos olhos contradiga Esta depravação que injustamente se lhes imputa. a imoralidade deles? Ela teria. Sua imoralidade é sem limites. Mercadoria invendável. Você só precisa perguntar a esse senhor. Pois não há mais compradores! Do fundo do palco chega o jovem operário com seu casaco e seu boné. com que habilidade torna-te mestre dela! Esta imoralidade. estamos vendendo carne! Compradores. Ela sai.

Saturado de carne em conserva. caldeirões Convertem sem parar em latas de conserva As manadas mugidouras que pastam nos prados. verdadeira manteiga. SLIFT: E teus amigos de Nova Iorque. comprem nossas latas! OS COMPRADORES: E sobre as montanhas fez-se um grande silêncio E as cozinhas dos hotéis escondem a face E as lojas se desviam com horror Os atacadistas mudam de cor. Nas estações e nos pátios. . Esperando até ninguém poder Mexer nem o mindinho! E eu. OS FABRICANTES: Graças aos avanços da técnica. Do filé Graham. cozinhas e lojas Estão cheios até as bordas. Quando todos te seguem com olhos de lince Para ver o que fazes? Eu não teria cara. Frigoríficos entupidos de carne congelada. fabricantes. Comprem. o que te escrevem? MAULER: Teorias. E graças aos perspicazes planos dos industriais da carne Nós conseguimos reduzir em um terço O preço do toicinho Cridle-Mauler. Temos diante de nós montanhas de latas. Aproveitem então. com nossos matadouros? Nossas fábricas estão cheias de bois.15 E sobre as águas fez-se um grande silêncio De todos os compradores. os criadores. Nós iríamos perder o bonde! MAULER: E quando isso ocorresse! Terias a imprudência De tirar tua parte de tamanha miséria. nenhum tinha dinheiro. em Nova Iorque. Nós estamos perdidos! OS CRIADORES: E nós. SLIFT: Eu riria se. A morte Despreza esse gado e fecha-lhe a porta. A nós. Quem comprará agora nosso gado? Os estábulos estão cheios De porcos e bois devoradores de milho Que eles devoram ainda nos trens que os transportam. O que provocaria um movimento de alta. Eu teria sobre as costas toda a carne! Idiotas. dia e noite nossas máquinas Ligadas no máximo: salgadeiras. ao trabalho de nossos [engenheiros. Nós não compramos mais nada! OS FABRICANTES: E nós. compradores. Nós queremos vender a carne em conserva E ninguém a quer! E todos os nossos clientes. OS COMPRADORES: Nós compradores. A dar-se-lhes ouvidos Seria necessário agora deitar por terra Todo o cartel da carne E deixá-lo estagnado durante muitas semanas. E da banha de Kentucky. Não a agüenta mais. quase de graça. MAULER: E mesmo a faca os recusa. a visão da carne enlatada Causa náuseas. O estômago do país. eles conseguissem Fazer cair de uma vez as taxas de importação. Mas ninguém quer comprar carne enlatada. compradores. Clamamos aos berros por um consumidor que não existe. Engolindo nosso ouro junto com nosso grão. cubas. E abrissem assim o Sul aos nossos produtos.

Tu te desfazes de tuas ações? UM CORRETOR: A cento e quinze! OS FABRICANTES: Ficaste louco? Tua morte.. ao invés de trinta. Ele queria me vender a sua parte. então! OS FABRICANTES – a Mauler: Corre o boato que teu capital.apontando para Mauler: Falem com ele! CRAHAM – colocando-se diante de Cridle: Não é Cridle. mas três milhões. CRIDLE – dirigindo-se aos que o cercam:. Não é de hoje que fazes tais manobras. Carrega em sua queda as cotações de todo o cartel!. OS FABRICANTES: O que significa isso. é que me levem a sério. E vós soluçais nas saias de vossas mães. que se lançam sobre Cridle. tu o retiras Do negócio e Cridle. Mas somos atingidos pelo que lhe acontece.investindo contra Mauler que lê o jornal: Traidor. nós somos os peixes! O que querem arruinar.16 . Ele poderia exigir seu dinheiro quando quisesse. antigamente Mauler. Cridle? Levanta os olhos. E exiges dele o pagamento sem demora. eu quero o meu dinheiro. . Esses dez milhões são exatamente a soma que devo a Mauler – e ele a exige em vinte e quatro horas. por dez milhões de dólares. Quero apenas meu dinheiro e a paz de minh’alma UM CORRETOR – urrando. Cala-se e aponta para o dedo para ti. a preço vil. Mauler! Fala. Voltai para casa. MAULER – O próprio Cridle me confessou que está insolvente: se eu deixasse meu dinheiro com ele. que estavam valorizadas. Pois tu liquidaste. É bom que ele seja nosso adversário. que conspurca nosso ninho! Nós sabemos bem quem fez os preços caírem sem cessar Vendendo gado por baixo do pano. ele vem realizando secretamente vultosas vendas de gado a preços baixos e provocou a queda das cotações que. todo teu estoque. Para acabar com Lennox. OS FABRICANTES Essa gente não faz as coisas pela metade. Cridle. de toda a maneira. ao fundo. OS FABRICANTES: Quando ages assim com Cridle. Veio a baixa. Cridle. provoca muitas outras! Lixo! Assassino! CRIDLE . já vinham caindo. e o conjunto das fábricas vale dez. é o cartel da carne. ave de agouro. antes de qualquer coisa.Há quatro semanas apenas eu assinei um contrato com Mauler. Eu me propunha pagar-lhe vendendo uma parte das ações dele mesmo. Hoje os papéis de Mauler não valem mais dez. que já se arrasta.. Falai que um dentre os vossos Não pode mais suportar o grito dos bois morrendo E aos mugidos deles. quem de vocês continuaria a me levar a sério nos negócios? Ora. na entrada da bolsa: Queda gigantesca das cotações na Bolsa! Venda maciça de ações. olha para nós! Assim. o que desejo. mas um outro Quem joga a rede. pálido como algodão. Foste tu mesmo quem provocou o marasmo! Nossas latas agora não saem mais caro Que a areia dos mares. Desde aquele dia. estava acordado. nem que fosse por mais uma hora. eu acabo de saber. MAULER: E por que matastes tanto gado? Açougueiros alucinados sois vós! Agora. Isso representava um terço do total das ações. nesta conjuntura. MAULER: Açougueiros insolentes é o que sois! O animal torturado parou de mugir. Tumulto entre os fabricantes. preferiu o vosso. e ficando com as outras.

OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Escutem todos. Graham. seja quem for! Levantai o nariz de vosso prato.17 Mesmo que tivésseis todos que mendigar. ele retira o seu dinheiro! OS FABRICANTES: Oitenta mil latas a cinqüenta. mas rápido! OS COMPRADORES .Nenhuma sequer! Silêncio. JOANA . Lançar ao mar os navios de guerra E nos ares. Mauler. onde cada um revela Sua boca desnuda. então. pois preciso partir. com isso. seu cão. Eu quero meu dinheiro. . acompanhada de exclamações.Pierpoint Mauler! Onde está Mauler? MAULER: O que é esse barulho de tambores que de súbito me envolve? E quem chama pelo meu nome Nesse lugar. detenham todo o tráfego Em torno de vós os seres naufragam. escutem bem! Um homem afunda sob os nossos olhos! Escutamos lá no fundo seu apelo por salvação.Nenhuma sequer! OS FABRICANTES – Então. não saia! Graham. Ei. Avante! Ao assalto! Empunhem os fuzis! Diante de nossos olhos os homens naufragam. Uma mulher nos faz sinais de aflição. Para Illinois esse dia é um desastre! Vocês fizeram os preços subirem. Meu chapéu. cem dólares pelo meu chapéu. E ninguém se preocupa. os aviões Para conquistar o pão dos pobres. fiquem diante de mim. Durante esse período a batalha na bolsa continua. suja de sangue? Joana e Marta avançam e cantam o seu hino de guerra. E. OS FABRICANTES: Oitenta e sete mil latas pela metade do preço. Eu não quero que me vejam aqui. olhos para ver? Ele é vosso irmão. Parem os carros. Pois os bons nesse mundo Não formam um grande exército. Mauler. Nesse mundo sempre reinará a injustiça. Com o único objetivo de ajudar o próximo. Ouvem-se os tambores dos Chapéus Negros e a voz de Joana. OS CRIADORES: Impossível vender um boi em Chicago. Estimularam-nos a criar bois. E nós dizemos: é preciso ir sempre adiante. Fazer avançar os tanques e os canhões. para comer? Pensai convosco mesmo: sempre será assim. Não falemos mais de negócios. Haveis então esquecido Os que esperam diante da porta E que esperam. És tu. meu chapéu. pois tenho outros projetos. E ninguém se preocupa Não tendes. Ei-nos aqui. OS CRIADORES: Lennox já caiu! E Cridle balança! E Mauler. o responsável Por esta catástrofe. Não esperem o amanhã! Cada um deve nos ajudar. Uma explosão de gargalhadas toma a frente da cena. nós estamos perdidos! JOANA – Onde está Mauler? MAULER: Slift. MAULER: Por hoje basta. mas rápido! OS COMPRADORES . com nossos bois Que hoje ninguém mais quer. Os que nos escutam. Meyers.

Não tenham vergonha. que fazem subir o preço do pão e que fazem da vida um inferno onde os homens viram demônios. vocês. ver surgir a nós. todo-poderosos. Se continuarem a agir assim. nas favelas. tereis a moralidade. Joana mostra aos negociantes os pobres (Luckerniddle e Gloomb) que ela trouxe. como não seriam os valores mais elevados esmagados em seu coração? Sempre ouço dizer. JOANA – Mas os senhores. os senhores se enganaram. as leis econômicas. aí pelo mundo. em tom de reprovação Aqui estamos com nossos bois Que hoje em dia ninguém quer. nada além disso. OS POBRES – Ele é o responsável por tudo! Os fabricantes de conservas correm para socorrer Mauler. UMA VOZ. nesses lugares sombrios e secretos onde os senhores tratam de seu comércio. tanto hoje quanto no dia do juízo final. JOANA – Um homem de negócios também pode ser um bandido – dependendo do ponto de vista. Já me disseram o que os senhores fazem: manobras. Mas se os senhores acreditaram que seus procedimentos permaneceriam ignorados. e a quem não querem reconhecer como irmãos. que sentam nesse palácio. pobres e deploráveis imbecis. Mas então eu lhes pergunto: de onde tirariam eles alguma moralidade. que se dobram sob o fardo de suas penas. Reparem então nestas gentes. Risos OS CRIADORES – Nós criadores não encontramos nestas palavras motivo para o riso. atrás de mauler – Fique senhor Mauler. gritando – Afastem-nos! Ele desmaia. a quem os senhores transformaram no que são. são todos uns imbecis. pois os que estão lá fora já não têm como comprar. destinos inelutáveis. em conseqüência. Silêncio! Não lhes agrada muito. acabarão tendo de comer sozinhos a carne que produzem. imaginando que não virão à tona suas manobras. As crises são catástrofes naturais. nada querem saber da miséria que existe fora deste recinto. Se os senhores continuarem tergiversando. avancem à luz do dia.18 – Maldito sejas! Cridle sai. JOANA. e diante de Deus TodoPoderoso. existe também um poder de compra moral: o dinheiro. JOANA – E qual a causa desta imoralidade no mundo? Poderia ser diferente? Se cada um é obrigado a rachar com um machado a cabeça de seu próximo para fazê-lo ceder seu pequeno pedaço de presunto e sua migalha de pão. seus mugidos serão testemunhos. então em suas costas os bois começarão a mugir contra os senhores. COMPRADOR. Inverno e verão nós dependemos do tempo: nós também estamos mais próximos do Deus de nossos pais do que os senhores. CRIDLE OS CRIADORES: Como? Somos asfixiados e ninguém pode fazer nada? A causa de nossos males é a imoralidade De vossas armações escusas. replicando: Imbecis são vocês! Ninguém pode nada contra as crises! Bem acima de nós. e é verdade. Mas nós lhes dissemos que é um imbecil. a Revolução. os Chapéus Negros. engodos e combinações para aumentar o preço da carne. Aumentem-no. Senhores. Traçam essas desconhecidas. e escute o que eu tenho a lhe dizer. OS CRIADORES. eu bem sei. é lá que mora a imoralidade no estado puro e. eles que nada têm? Senhores. como fazem em seus jornais. gritando: Por vossa especulação desenfreada. MAULER. OS FABRICANTES: Água para Pierpoint Mauler! . Nos baixios. que os pobres não têm muita moral. o salário. ao fundo – Pierpoint Mauler passou mal. Causais vossa própria queda! Bando de imbecis! OS FABRICANTES. Cujo ciclo pavoroso sempre recomeça. E os senhores. Vossa imunda cobiça. buscando desculpas.

Eles parecem bem piores.. Mas quem sois vós. meus amigos. Eu vos mostro agora a pobreza dos pobres. Aos pobres: Segunda-feira vocês terão novamente trabalho. levai-o agora. a contar de hoje. nós conhecemos. levantando-lhe a cabeça – E os estoques? MAULER. CRAHAM: Então! Não podes vê-los? No entanto foste tu. eu compro! Escutai todos: Pierpoint Mauler compra! Que estas gentes tenham trabalho e que se afastem. afastados dos bens indispensáveis. Nós. E não basta que cerres as pálpebras Para que eles desapareçam. estão tão enfraquecidos. pelo menos cinqüenta mil toneladas de conservas. E vós. E fome nunca se passa.19 Um médico para Mauler! JOANA: Mauler. de todos os estoques do cartel. eu vou falar. Além disso. OS FABRICANTES – Ele comprou! Mauler comprou! MAULER – Ao preço do dia! CRAHAM. ao preço do dia. No seio de Deus não há frio. assume compromisso sobre a produção de dois meses.” OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Nunca faltará o pão Ao que dedica a Deus sua alma. cantemos: “Nunca faltará o pão. Eles o levantam. E lá. e por vós mantidos Nesta pobreza. que mantendes longe de vós. para eles inacessíveis. vos rogo. então Para querer fechar a boca do Bom Deus? Não se deve calar a boca de ninguém. Nem mesmo do boi que esmaga espigas com seu casco! Em todo o caso. Tu quem os reduziu à tamanha miséria. SLIFT – Ele não abrirá os olhos enquanto não os fizerem sair. como eles sim. e reduzi-los À voracidade. Invisíveis para vós. . ao instinto animal. cumprimos nosso trabalho de [missionários. JOANA – E agora. em 15 de novembro. deitado no chão – Eu compro. OS FABRICANTES – Quem? Os Chapéus Negros? Quer que eles saiam? MAULER – Não. Eles. eu. voltando a si – Eles ainda estão aí? Eu suplico que os afastem. qual burros de carga. ao fundo. antes de partirmos. MAULER. eles não. Que viver assim pode mesmo afastá-los Da necessidade de um ideal. Os que estão atrás. vós me mostrastes a imoralidade deles. Compro.. nós nunca tínhamos visto. A tal ponto dependentes de alguma comida E de um pouco de calor. gritando em um megafone – Pierpoint Mauler reanima o mercado da carne. MAULER – Agora. aí em cima. Mas os dois que estavam ao lado dele. OS POBRES – Gente como essa. Torna-se comprador. o que fazeis? Vós me ordenastes não dizer uma palavra. CRAHAM – A cinqüenta? MAULER – A cinqüenta! CRAHAM: Ele comprou tudo! Vocês ouviram: Comprou tudo! CORRETOR. levantai-me. JOANA: É isso. MAULER: Afastem-nos. Quem em seu seio habita Jamais será infeliz. O cartel entregará a Pierpoint Mauler. também ao preço de cinqüenta. tudo o que em oito semanas conseguirdes [fabricar. Mauler. por favor.

É preciso. Joana e os Chapéus Negros saem. Pois o contrato que acabam de ver firmado É apenas um pedaço de papel. Se estiverem muito necessitados. Sua consciência já despertou. ele não encontrará Um centavo. Nós estamos sob uma miséria atroz. Escutem: saímos. discute com Slift – Fecha a porta. SLIFT. liga as luzes e agora repara em mim. Slift. a sabedoria triunfa. saturado de conservas. açougueiros infames! Enquanto vocês não dobrarem o preço do gado Não entregaremos um só grama de carne. de São Francisco a Nova Iorque. Pois ele pode vir em auxílio. por que te impressionas com os discursos dela? MAULER: . OS CRIADORES: Agora os preços subirão. os operários entrarão. Recusa-se a engolir mais. As fábricas reabrem e as chaminés fumegam! Pois efetivamente é de trabalho. sabiamente acatada. OS FABRICANTES: Podem guardar sua carniça podre! Não estamos interessados em comprar. entrada gratuita. na Rua Lincoln. E ele faz meter carne em latas Que ninguém comprará. às duas horas. ao criador: O que Mauler promete. não é. enfim do ponto morto! Confiança e concórdia estavam fortemente abaladas. O estômago do país. VI A Captura dos grilos NA CIDADE CASA DO CORRETOR SULLIVAN SLIFT. Os patrões vão reabrir. dentro da casa. Venham comigo procurá-lo Para que ele os tire do embaraço.20 OS COMPRADORES: Este homem está ruim da cabeça. Contra a desrazão. Agora os senhores podem respirar. Que carecem tanto uns como os outros? CRIADOR. então. cutucá-lo. nenhum. Sábia decisão. Podem esquecer seu nome. e diga se realmente todos podem ler em meu rosto? SLIFT – Ler o quê? MAULER – Ora! A minha profissão! SLIFT – Teu ofício de açougueiro? Diga-me. Para tal negócio. aqueles que o recebem. dirigindo-se à Joana Aquilo que disseste e tua intervenção Causou-nos forte impressão. Muitos criadores se transtornaram. Ele cumpre. Música a partir das 3 horas. seguidos dos criadores. Aqueles que dão o pão. E vocês precisam dela. JOANA – Todos aqueles que se interessam realmente pela palavra de Deus e que querem saber o que ele diz e não apenas a cotação da Bolsa podem vir domingo à tarde assistir nosso ofício. Mauler. Os fabricantes de conserva saem. JOANA: Saibam todos: estou de olhos em Mauler. pois nós também. PEQUENO IMÓVEL COM DUAS SAÍDAS MAULER. O homem que o assinou não estava em seu juízo. Nesse momento o mercado recobra a saúde. Não o deixaremos descansar Enquanto um homem precisar de ajuda.

Para limpar esse mundo... Seu número aumenta a cada dia. SLIFT: Em cidades como as nossas. SLIFT – Não queres comer um pouco de carne. SLIFT – E o que é. MAULER: Sempre me pergunto por que essas tolices me afetam: Discursos plenos de utopias. por mais louca que seja.. urrando. meu caro Slift. E pense em tua situação: ela não é muito boa. Fórmulas tomadas ao coração. Isso não pode mais perdurar. Não conheceremos a morte em nossas camas. a humanidade. Onde o fogo arde embaixo Enquanto congela-se em cima. Não há mais consolo. MAULER: Mas que dizem eles? Essas cidades São um braseiro jamais extinto Onde. MAULER: Tu crês que eu deveria? Eu poderia. Certamente porque essa gente trabalha a troco de nada. Por trás havia rostos selvagens. Não. Tudo isso são ainda meras desculpas O que temo não é Deus. um após o outro. retorna. lançar-nos-ão Ao chão como um peixe podre. que mais não vi. Que não sabem como passarão a noite mas. (À parte:) Farei com que ele coma um filé muito mal passado. Sob a chuva e de barriga vazia. Tagarelice vazia e fácil. Tão forte. Para estes que caem em nossos porões sangrentos. E quando da onda emana uma voz Que nada tem de bestial. Nós e nossa corja. É outra coisa. Ele se afasta e começa a grelhar um bife no fogão. A urrar de aflição. Levantar-se-ão com a aurora e por-se-ão em marcha. no entanto. pois desde essa manhã tu nada tens a ver com a morte dos bois. Máscaras da aflição. Sabias que tu compraste hoje tudo aquilo que pode ser colocado dentro de uma lata de alumínio? Meu caro Mauler. Talvez depois de comer carne crua ele retome seus instintos. Slift. Há sempre boquirrotos que acham Que as coisas não andam como deveriam.. Eu deveria podê-lo de novo. Esquecer todo o resto. SLIFT – O discurso deles te perturbou. eles são muito numerosos. não é? SLIFT – Come. . caro Pierpoint? Pense que agora podes fazê-lo sem peso na consciência. Então creio sentir Como um peixe aprisionado entre duas águas Pauladas na espinha. É sua antiga fraqueza que retorna.21 O que ela disse? Eu não ouvi nada. vender e lutar sem parar.. Seremos colados ao muro. mas permita que eu te exponha simplesmente a situação.. irei confessar-te Minha verdadeira opinião sobre nossos negócios: Comprar. por mais externa e sem importância que ela seja. de onde se eleva uma cólera Que nos varrerá a todos. qual onda. Agora. então? MAULER: O que vive abaixo e não acima De mim! Esses seres reunidos nos matadouros. vejo-te mergulhado na contemplação de teu ser grandioso. talvez. Se nos apanharem um dia. E dezoito horas por dia. Nós que aqui estamos. Esfolarmos uns aos outros friamente.

escapando bem. continuando a leitura . safa-se. eu comprei! O que eu fiz! Coloquei sobre minhas costas toda a carne desse mundo! Trôpego. SLIFT: Tudo depende de quem escreve a carta. apesar de tudo. eu não agi por razões vis. MAULER: Oh! Slift. mais notícias. eu me escutei dizer: “Eu compro tudo”. comprar carne. Mas não foi por causa da carta. Ou desencadear guerras.” SLIFT. amanhã. Receberás. o Cartel te entregará mais cinqüenta mil toneladas a cinqüenta. na melhor hipótese. Milhares de homens sangram Por causa deste imundo dinheiro. Mas esta mulher comoveu-me a tal ponto Que mal lancei os olhos. então. Corromper ou abolir as tarifas.. Essas pessoas são gente de bem? MAULER – É gente com liquidez. MAULER: Tu compreenderás.. Os preços baixarão novamente.. Ah. indicado. SLIFT – Tu deves fazer o que? MAULER – Comprar carne. Sim. SLIFT – Quem são. SLIFT – E tu compraste! MAULER: Oh. Então pode ser que. essas teorias de gabinete. Não. Ah! Meu caro Slift. hoje. Essa seria uma saída. Eu fui vê-los cair. os preços cairão a trinta. Na carta que recebi de Nova Iorque essa manhã. na Câmara. qual Atlas. SLIFT – E o que escreveram.22 Primeiro compraste ao Cartel um estoque de vinte mil toneladas de conservas. de anunciar-te que nosso dinheiro começa a render seus frutos: muitos são aqueles que. Escuta: X comete um roubo. muitos de meus concorrentes balançavam. deverás escoá-lo em um mercado que já não consegue absorver uma única lata. . eu te juro. acredito. eu estou perdido. ou a vinte e cinco. Parece. rir-me deles. Realmente eu não vejo sentido nesta carta. os preços Subam? E nós acabaríamos. mas Y o surpreende. É coisa que também não se deveria fazer. teus amigos de Nova Iorque? MAULER – Que eu devo comprar carne. Estão erradas. a não ser que golpeie Y Se ele golpear. Slift. então? Mauler sorri. sob os arcos de alguma ponte. esmagado. de resto. eu comprei. Ainda pela manhã. Sob o fardo de toneladas de latas de alumínio. caro Pierpoint. assim. eu estou perdido! Esse é o meu fim. MAULER: Corromper assim.“Estamos em condições. O ladrão está perdido. Não é qualquer um que pode. eles me escrevem para comprar. Facilmente nascem guerras À custa de tais atitudes. quando os preços estiverem em trinta. é verdade.. eu tenho a impressão De que nada de bom sairá daí. sim! Eu comprei carne. Tu as compraste a cinqüenta mas. Cairei. Mas ainda há a carne Que no mercado liquidarão cem criadores Muito ávidos. dizer-lhes Que ninguém era louco o suficiente Para comprar carne em conserva. Aqui está: “Caro Pierpoint. SLIFT – E por que reclamas de ter comprado? MAULER – Sim. E uma vez lá. Em quinze de novembro. Nas semanas vindouras. votarão contra as tarifas aduaneiras.

SLIFT – Qual crime? MAULER: Um crime que eu não poderia cometer. Antes de ter saído dessa. eu estou comprando e compro ao preço do dia. tentará sair pela outra porta. Retumbar de tambores. SLIFT. eu vou comprar. Os enganados serão os criadores. das fábricas paradas. Mauler. OS CRIADORES.. grandes lucros! É verdade que o ganho seria apreciável. eu não comprarei! Eu que já carrego toda a carne desse mundo. diante da porta da esquerda – Enquanto os criadores não forem ajudados. E comprar-lhes tudo. como quem captura um grilo. Que eles tirem. para evitar me encontrar. Slift tragame tudo o que se pareça. para o outro lado. MAULER: É verdade. é verdade. no fim. diante da porta da direita – Sai. Pierpoint! MAULER: Ah! É verdade. . não sairemos daqui! MAULER – Tu dizes Graham? É verdade que ele precisa de gado? Saia. JOANA – Nós o faremos sair de sua toca. E nós somos. Senhor Mauler. Nem a mim nem aos que me acompanham.) Slift. Slift? Não quero reencontrá-la e. Slift.). não foi bom. E por agora também não penso em reabrir a fábrica. a cinqüenta. de seus delitos. é preciso que eu lhe fale da miséria dos criadores de Illinois. de perto ou de longe. Vão para lá. sobretudo. tiver cem dólares no bolso. e tudo o que cheire à banha eu compro também. A operação é simples: seria preciso comprar Todo o gado que se encontrasse em pé. MAULER – Eu não compro. todo esse gado? SLIFT – Vejo apenas Graham. Slift volta. Tu és o responsável por nossa desgraça. Isto é o principal: Sumir com o gado. Feliz se. Joana entra acompanhada dos criadores. àquela gente que está com ela.. MAULER – A outra saída onde é. SLIFT Tu que não querias mais comprar um chapéu. Ele não gosta muito de me ver. Mas então. em todo o Illinois. aos criadores – Pierpoint Mauler está examinando vosso pedido. Quem me comprará. Persuadir os criadores da oferta excessiva. minha decisão está tomada. que precisa bastante. SLIFT – Não deverias ter comprado. SLIFT – Por aqui. depois. Devo comprar ainda todo o gado de Sírius? É como se alguém viesse dizer a Atlas Que não mais agüenta. (Os criadores colocam-se diante da porta da direita.) Saia. Ele desenha um “A” na porta de um armário. eu não quero meter o dedo neste negócio. Não. quero paz em minh’alma. Também trouxe alguns trabalhadores que adorariam perguntar-lhe quando o senhor reabrirá a sua fábrica. No interior da casa. (Ele calcula. Slift. (Ela ri. Toda a carne posta em conserva até hoje. eu compro. nem chapéu nem sapatos. Joana diante da porta da esquerda. com um porco ou com um boi. Pois. Lembrá-los de Lennox.23 Da mesma maneira a carta – que está errada – Requer – para acertar – um crime desta ordem. Ele pede-vos dois minutos de reflexão. Eu não compro mais nada. Traga-me até a menor mancha de gordura. Quando ele me ouvir cantar aqui. dobrando-se sob o peso da terra: Saturno também precisa de apoio. então. Agora. Compra então o nosso gado! MAULER: Fecha a porta. Slift. Eu fiz “A”. JOANA. e diga-lhes que quero refletir dois minutos. a partir de hoje. Vais comprar todo o gado de Illinois. mais de dez mil criadores que não sabem mais a qual santo rezar. ele se dirige à porta da direita. Slift. Slift sai.

grita a eles – Digam ao senhor Mauler que os Chapéus Negros lhe agradecem. Talvez isso tenha a ver com o fato de que eles não possuem nada. Aos pobres:) Digam-me. O dinheiro nos permitirá também pagar à nossa querida proprietária. Mas seu nome não deve ser mencionado. E eis que “A” e “B” tomados juntos. Infelizmente. minha cara dona Mulberry. que cada um volte alegremente às suas funções. pois eles sabem que as fábricas receberam encomendas. o que foi feito dele? BISPA SNYDER – Meus caros Chapéus Negros. SLIFT. Faça entrar os fazendeiros. sobretudo. frente a Deus. mas não fizeram nada. se levantando – Que mixaria! Que mixaria! (Dirigindo-se a alguns pobres. DONA MULBERRY – E meu aluguel. os Chapéus Negros esvaziam suas latas de ferro e contam ao óbolos das viúvas e dos órfãos. Pierpoint Mauler resolveu comprar todo o gado que se encontrar no mercado. Em seguida comete “B”. proprietária do imóvel. sai e se dirige aos criadores – Para salvar Illinois e impedir a ruína dos fazendeiros e criadores. Eles não têm teto. tão errado quanto “A”. Assim eu decidi. dona Mulberry. caros ouvintes! Para resolver o delicado problema do financiamento nós até agora apelamos aos pobres e aos mais pobres. Eles não têm pão. os dispensados esperam ainda pacientemente na porta dos matadouros ou já começam a dar discursos revolucionários? DONA LUCKERNIDDLE – Desde ontem gritam bastante. entre os quais dona Luckerniddle e Gloomb:) Vocês de novo? Vocês passam a vida aqui? O trabalho voltou nos matadouros! DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. GLOOMB – Muitos já dizem que se não empregarem a violência não haverá trabalho para todos tão cedo. GLOOMB – No começo falaram em reabri-los. Ela sai. OS CRIADORES – Viva Pierpoint Mauler. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Recolham cantando Os trocados dos órfãos E os trocados das viúvas. VII Os mercadores são expulsos do templo TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS Sentados em uma longa mesa. o aluguel que ela tão gentilmente tem adiado. . mas por enquanto não se preocupem. salvador do comércio! Eles entram na casa. (Os Chapéus Negros saem. ao fundo. BISPA SNYDER – Não se aproximem muito da caixa! Ele fez sinal para que eles recuem até o fundo. para vocês também haverá pão novamente. pelo que acaba de fazer. JOANA. BISPA SNYDER – Agora. Alguém se equivoca: “A” é um erro. (Aos operários:) Quando os que compram gado e os que o vendem se acertarem. dão certo. Mas Deus todo poderoso Achará os meios de alimentá-los! BISPA SNYDER. Entra dona Mulberry. DONA MULBERRY – O que me agradaria muito. sábado próximo. Comandante dos Chapéus Negros. em nome de Deus. Eles não são como os outros. que eles nos ajudem a desferir. sobretudo nas camadas inferiores da população. Que dão medo de olhar. que são gente de bem. não se esqueçam de varrer a escada. um grande golpe no ateísmo e no materialismo que reinam nesta cidade. Trabalham duro e vestem-se decentemente. e. não é preciso que as vendas sejam feitas em seu nome. uma avareza completamente inexplicável. Suas misérias são grandes. acabamos constatando que esses segmentos demonstraram.24 Dominado por seus sentimentos. convidar em vosso nome as pessoas ricas e bem colocadas de Chicago.

25 – Isso nos é favorável. portanto.. a Meyers – Essa senhora não tem senso de humor. OS FABRICANTES – E quanto querem pelo serviço? BISPA SNYDER – Oitocentos dólares por mês. não enrole. SLIFT – Mauler e eu não compramos um centavo sequer de gado. a Snyder – Todos pobretões. sem que ninguém saiba como. dando-lhe um soco na boca do estômago: Velho cão imundo! Vamos. quinhentos? GRAHAM – Quinhentos sim. (Aos outros) Eles carecem desta quantia. SLIFT – Quem poderia ser? GRAHAM. BISPA SNYDER. É nosso nervo vital! SLIFT. Slift? (Slift simula um ar astucioso e exagera na mímica do ato de dar dinheiro). tão certo quanto eu estou aqui. Se vierem para cá tocados a pedradas. e vá dizer ao Pepê Que afrouxe o laço. não gosto disso... (Os fabricantes de conserva caem na gargalhada) E tudo isso por apenas oitocentos dólares por mês! GRAHAM – Não precisas de tanto. Deus é testemunha. Já é melhor. precisamos do gado. BISPA SNYDER – Podemos dar um jeito com setecentos e cinqüenta. ouvimos dizer que há nos matadouros cinqüenta mil pessoas sem trabalho. Nós também prometeremos a eles que os ricos serão punidos. os reis da carne nos escutarão mais facilmente. confesse Slift. que eles estão destinados ao sofrimento. Senhor Slift.. afirmando que sois vós os responsáveis pelo desemprego! Em breve eles dirão: queremos fazer como os bolcheviques. MEYERS – Setecentos e cinqüenta. mas que serão. portanto. bispa. a Snyder – Desembuche! Eles se sentam no banco dos fiéis. mas que ela é provocada por aqueles que dela tiram vantagem. . mais então. então. os Chapéus Negros. Bispa Snyder! Todos riem. MEYERS – O que não será fácil. os Chapéus Negros. um dia. minha cara. vocês certamente precisam. tomar as fábricas em nossas mãos para que todos possam trabalhar e comer. (Aos pobres:) Vocês não poderiam ao menos cortar lenha para nós? OS POBRES – Não há mais lenha. E que alguns entre eles começam a resmungar e a dizer: devemos nós mesmos cuidar do negócio. Que tal. MEYERS. E já citam vossos nomes. recompensados por suas penas. são vocês que estão com o gado. GRAHAM – Confesse. o Pepê está com o gado. Na mosca. sem dúvida? SLIFT – Sem dúvida. GRAHAM – Até tu? E Mauler também. após a sua morte. menos Snyder. estão acima da querela. SLIFT. Do lado de cá. senhora bispa. BISPA SNYDER MEYERS Há um cretino que razia o gado E que sabe bem que estamos comprometidos A entregar carne enlatada E que. MEYERS. novo soco – Que tu achas que eles querem. SLIFT – O essencial. Slift! MEYERS. sim! Vocês agora terão que achar alguém que faça a doação. onde poderia estar todo o gado! GRAHAM – É o que eu me pergunto também: onde poderia estar? SLIFT – Eu me coloco a mesma questão. OS FABRICANTES – Por que falar em pagamento? BISPA SNYDER – O pagamento do qual falamos é feito após a morte. Nós. é saber de que lado vocês estão! Desse lado da barricada ou do outro? BISPA SNYDER – Os Chapéus Negros. no púlpito – Nós. Graham. na frente do palco – Então. Graham.. precisamos de sopa quente e música animada. Quinhentos dólares. GRAHAM. Meyers. a Snyder – O que querem de nós? GRAHAM. diremos a eles que a desgraça vem como a chuva.. MEYERS – Eu me pergunto. Porque já começam a dizer por todos os lados que a desgraça não cai do céu como a chuva. Entram os fabricantes de conservas: Cridle. Slift. a Snyder – Quinhentos dólares? Isto é muito dinheiro! Quem vai pagar? SLIFT – Ah.

(Joana sai atrás deles com o mastro de uma bandeira. quem comerá a carne que nós compramos? E para que nós a compramos. SLIFT – Mas querem antes estrangular os agricultores! OS TRÊS – Como abater gado que não existe? SLIFT – Quando Mauler e eu compramos a carne de vocês. perdi demasiado tempo até sabêlo.26 Entra Joana SLIFT – Aí está a nossa Santa Joana da Bolsa de Carnes! OS TRÊS. sem pena também Esqueci o que todos se apressam em esquecer Para rapidamente estar em paz com suas consciências. JOANA – Por que não trabalham? Não arranjei trabalho para vocês? DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. vós então vos borrareis todos. GLOOMB . e eu. e a religião vos parecerá de novo algo de muito bom. mas não fizeram nada. Parece que podes fazê-lo agir ao teu gosto. E eu. dizendo-me: ajudando aos de cima. qualquer um que queira ajudar aos pobres deve ajudá-los a protegerem-se de vós. e rápido. Dizem que ele come na tua mão. e que os operários poderiam comprar a carne.No começo falaram em reabri-los. ela está espantada – O que fazem vocês aqui? DONA LUCKERNIDDLE. mal tendo sido saciada. Não me detenham. empunharem um porrete para bater em vossas cabeça. mas também os esconde De todos os olhares. Mas cruel é a fome: Renasce sempre. que haveis atormentado ao extremo. se os consumidores não têm com o que pagar? JOANA – Em vossas gigantescas instalações e vossas fábricas detendes as ferramentas dessa gente: deveríeis ao menos permitir que eles as usassem. Se fizeres isso por nós. senão ficam imobilizados. Para que ninguém mais vá olhar de perto. própria para jogar água na fervura. GLOOMB. que ela usa como se fosse um porrete. Os Chapéus negros aparecem na porta. ajudo também aos de baixo. De bom grado. É o seguinte: alguém sumiu com o gado do mercado de uma maneira que somos obrigados a ficar de olho em Mauler. Mas o Bom Deus tem uma opinião muito elevada de Si mesmo para ser sempre a vossa babá para todo o serviço e para vir limpar vossas cavalariças. aos fabricantes: Esses pobres continuam a esperar trabalho? Silêncio dos fabricantes Eu que pensava que eles estavam arranjados! Faz já oito dias que neva nas costas deles. indo de um lado a outro. Nós queremos reabrir nossas fábricas. JOANA. Se essas pobres criaturas. senão lançar-me-ei sobre vós e golpeá-los-ei a cabeça. É preciso ser muito tonta! Na verdade. Sois indignos e eu vos expulso! Apesar de vosso dinheiro! . Mas agora. comprou-vos conservas Por minha solicitação! E não reabristes ainda? OS TRÊS – Está correto. nós não queremos mais ver. Dirigindo-se aos fabricantes: Mauler. olhando os pobres. pois. aí estás! Nós não estamos muito contentes contigo! Tu não poderias dizer uma palavrinha de nossa parte à Mauler? Parece que tens sobre ele alguma influência. Haveis perdido então todo o respeito pelo que se parece humano? E ousais anda vir à casa de Deus porque possuem o vil metal? Sabe-se bem de onde haveis tirado esse ouro e como o haveis adquirido. É preciso que ele libere o gado. para fazer pior. supúnhamos que iriam retomar o trabalho. Saí.) Saí! Quereis transformar a casa de Deus em um estábulo! Saí! Nada tendes a fazer aqui! Cabeças como as vossas. e nessa atitude há alguma coisa que parece exploração. eu sei o que faço. hoje. Estou pronto. entretanto. Esta neve os mata. gritando alto a Joana – Ah. JOANA. pagaremos o aluguel dos Chapéus Negros por quatro anos. avançando: Eu te conheço: tentei te convencer A trabalhar nas serras que me cortaram o braço. ao me veres aqui. da tua vista sairia. Basta que alguém diga: está acertado. avançando: As vinte refeições foram comidas! Não te irrites.

agora. como jamais viu antes o mercado do gado! Saída dos fabricantes de conservas. Anda cuidar de tua vida. entrando — Vocês já arranjaram o dinheiro? BISPA SNYDER – Deus encontrará logo o meio de pagar o abrigo bastante modesto – eu disse modesto. OS TRÊS Joana sai. ah. Doravante farás parte dela. Povoada de cânticos e palavras que despertam. Nem outra vez cruzar o limiar dessa querida casa. BISPA SNYDER. de volta Convida a tua casa. está bem. não se vão. e a partir de sábado à noite. prisioneiros Em uma torre de marfim. na ponta dos pés. oferece teus bons préstimos. aos Chapéus Negros – O que acabo de fazer certamente foi pouco habilidoso. De qualquer maneira. Por causa do aluguel. terá de se mudar. no coração da tormenta. É mister que haja um Justo entre eles! Ela sai. Nós iremos viver dias terríveis. Enfrentam-se como gigantes? Vá. Vá sob a neve e continue intransigente! JOANA – Quer dizer que devo tirar meu uniforme? BISPA SNYDER – Tira o uniforme e arruma tua bagagem! Sai desta casa e livra-nos da escória que arrebanhaste. Grupos inimigos irreconciliáveis. tu a ignoras E cedes a teus impulsos! É mesmo muito fácil Caçar esses impuros com um gesto cheio de orgulho. correndo sai atrás deles – Fiquem senhores. DONA MULBERRY — Sim. Fazes-te de difícil e és muito curiosa Para saber como é feito. . Serve-lhes água de chuva e belas palavras Pois do céu não lhes vem mais do que neve E não misericórdia! A humildade. bispa Snyder? Ela sai. Se o Bom Deus não paga o seu aluguel. modestamente. dona Mulberry – que ele encontrou sobre a terra. comê-lo também! Vá-te então. fracos. BISPA SNYDER. tudo bem. é bem disso que se trata! Falaste a palavra exata! Se o Bom Deus paga. ela não representa ninguém. eu lhes trarei a sopa. Trazendo-vos totalmente convertido. onde não escutam mais Os pedidos de salvação do resto dos humanos. vão-se irrevogavelmente quarenta meses de aluguel. Eu pedirei sua ajuda. não temos mais um centavo. então. Mesmo que o dinheiro os carcoma como um câncer Devorando o que seu resto tem de humano. pois esses que te seguem não são mais do que escória e refugo. DONA MULBERRY. BISPA SNYDER: Infeliz ignorante! Como não vês que operários e patrões. Enquanto não tiver feito de Mauler um dos nossos. esses pobres. Mas se ele não paga. Mas como deixar-se levar por isso? (À dona Luckerniddle e a Gloomb:) Sentem-se lá no fundo.27 – Está bem! Mas conosco. JOANA Irei ver o rico Mauler. Tu que planas mais alto que as questões terrenas! Parta sob a chuva. Ela carrega uma mala pequena. de um ao outro. JOANA. ela retorna vestida como uma jovem camponesa. tudo mal. Mesmo que ele os torne surdos. Mediadora inútil e que cava a própria cova. Queres. Homem de boa fé e destemido. Quanto ao pão que precisamos comer. entretanto. não tem nenhum mandato! É apenas uma mulher que perdeu a razão! Ela está despedida! Ela fará pelos senhores tudo o que desejarem. Eu não desejo Colocar novamente o chapéu e o uniforme negro. é muito justo que pague.

Slift. Mauler. Faça subir. Senhor . SLIFT: Estou feliz. Não é fácil encontrá-lo. mesmo nas pequenas coisa. Deixar que gritem: “É um crime!” Entra Joana. de perto ou de longe. É um belo sofá que o senhor tem aqui. dá rédea solta a teus corretores! Deixa-os correr o mercado. Ele sai. SLIFT: E tua Joana? Algo de novo? Um boato corre na bolsa: dizem Que te deitaste com ela. de ser cuidadoso. MAULER: Agora. senhor Mauler. Mas o senhor tem razão. Em busca de animais que. Não pretendo soltar um só grama de carne A fim de arrancar-lhes mesmo a pele desta vez: É a minha natureza quem exige. E os preços Subirão ainda mais. Então eu disse a mim mesma: vá dar uma olhada no que se passa com o senhor Mauler. É que eu não estou mais com os Chapéus Negros. desta vez. Eles precisam comprar de nós. SLIFT. Desde Que ela nos expulsou do Templo. no seu escritório? Sempre achei que o senhor devia possuir um dos grandes palácios de Chicago (Mauler se cala). Serão obrigados a comprar a carne Que devem nos entregar. Slift. Terão de pagar mais caro. JOANA – Bom dia. Neste mercado de Chicago Todos os bois que se escutam mugir São nossos bois. carregando uma mala. senhor Mauler. em sua casa. A mim também Teria expulsado. e que nem mesmo está dobrado direito? Diga-me: o senhor dorme aqui mesmo. e de que. Gosto nela deste traço. Não se fala mais dela. Mas o senhor. que tu tenhas superado Teus recentes acessos de fraqueza. mas por que o lençol em cima. queriam esperar Que o preço do gado caísse o mais baixo possível. por um momento. os preços a oitenta. se eu estivesse lá. posso me interessar mais por cada homem em particular. Graham e companhia ficarão então parecidos À lama. Gostei muito de vê-la expulsá-los do Templo. Eu desmenti. Deixo minhas coisas nesse canto. E na nossa mão é mais caro. MAULER: Seria preciso esfolar esta cidade maldita E ensinar-lhes o seu ofício A essa gente. Não se possa aceitar gente da minha laia. Vou ver como eles compram. Agora que não tenho mais o trabalho fatigante da missão. E todos aqueles que como ele. Assemelhem-se a bois ou porcos. realmente.28 VIII Discurso de Pierpoint Mauler sobre a absoluta necessidade do capitalismo e da religião ESCRITÓRIO DE MAULER MAULER: MAULER: Chegou enfim o dia em que nosso caro Graham. meu caro Slift. onde enfiaremos o pé Unicamente para ver a marca que deixa. Dir-se-ia Que Chicago a engoliu Em sua negra e ruidosa bruma. Houve discrepâncias entre nós. e cada porco Que eles precisam nos entregar. Ela não tem medo de nada.

JOANA – . E como eu sei que sois pobres E que querem privar-vos Do teto que vos abriga. na minha vez.. Não pude dar-lhes trabalho rapidamente. Uma vez mais. Eu quero dar-vos alguma coisa Para provar-vos a bondade de meu coração. Ela começa a comer avidamente. É Mauler quem vai dá-lo. Eles são cinqüenta mil Que permanecem lá. Eu te encontro bastante mudada. quando nós expulsamos os ricos de nosso templo. MAULER – Ah! E agora os Chapéus Negros estão em uma situação financeira difícil? JOANA – Sim.. MAULER: Tão mudada! Apenas oito dias! Onde ela esteve? O que ela viu? E por que essas rugas em torno dos lábios? Esta cidade de onde ela saiu.. eu lamento Que o trabalho ainda demore nos matadouros. Nesta história dos cinqüenta mil trabalhadores. Mas nesse negócio. Vou agora mesmo à Bolsa para procurar o dinheiro. E foi por isso que eu me disse: irei ver o senhor Mauler. muda logo a tua cara? . vá dizer-lhes isso. MAULER – Vá dizer-lhes que o dinheiro está chegando. O dinheiro. Ele traz comida a ela em uma bandeja. e que agi bem. Toma. MAULER – E do que tens vivido? (Silêncio de Joana) De nada. não querem partir. encomendei a carne. não como eu queria.29 Mauler. é claro. Corra. Queres? Joana observa a comida.. senhor Mauler! MAULER Tome.. o dinheiro para vocês eu terei. Que meu comércio não é antinatural. MAULER – . naqueles pátios imensos. Eu também. Trata-se de saber Se eu serei o melhor de minha classe Ou se tomarei eu mesmo.. senhor Mauler. Joana pára de comer. Mas contigo não será assim. mesmo à noite. Eu não conheço.. eu buscarei o dinheiro a qualquer preço. MAULER – Não te inquietes. que vive do aluguel. a coisa não andou. o que me agradou muito e me pareceu justo. arrancar a pele desta cidade. Assim como aos criadores. sim. O escuro caminho que leva aos matadouros. ser ou não ser. não faço mais parte. aos fabricantes. Estás de acordo? JOANA – Sim. está caro. Mas eu o encontrarei. nos deu prazo só até o próximo domingo. É por ti que o faço. Há quanto tempo não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Oito dias. Aqui está por escrito. Um trabalho ruim. Eu irei à Bolsa encontrar o dinheiro que lhes falta. ainda por cima. Eu confesso cruamente. de pé. Eis o desafio. Daqui até sábado. tenho boas esperanças de que sua consciência esteja em paz nesse momento! MAULER – Então não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Não. Mesmo que deva cortar na carne. JOANA – Os operários continuam esperando nos matadouros? MAULER Por que és contra o dinheiro? E por que então. Teria adorado ouvir-te dizer Que o que eu faço está bem. e aos Chapéus Negros é preciso auxiliar. senhor Mauler. eu não comerei. a proprietária. Quando não o tens. JOANA – Sim. E que.. é lógico. Confirme que foi por teus conselhos Que eu. Mauler vai até o fundo do palco e chora. JOANA – Senhor Mauler.

sob gemidos. Não desejais. Sim. Eu não compreendo E nem quero compreender. diga-me. eu deveria estar feliz De ver que alguém vem em ajuda a Deus. Que o gênero humano está entregue. MAULER . Que seria suprimido por falta de utilidade. Daqueles a quem ninguém oferece nada. Na banal verdade. Pouco agradável. veja bem. de cima a baixo. isso será suficiente. Para que Ele finque pé nas favelas E para que Sua voz retumbe nos matadouros. Como esses bobos para os quais o dinheiro Tem não sei qual problema. durmo mal à noite. Mas saiba com qual objetivo foi dado! Tome isso! Saiba que representa O aluguel de quatro anos. E que. Assim. destruído na mesma hora. As coisas não deixariam de seguir o seu curso de antes. sem dúvida. Mas pensa na realidade. Pouco ou muito segundo o caso. Ao menos a vida de alguns. eu concordo. aliás. E se vós não precisais se expor aos sacrifícios. Se eu quisesse me retirar. ou quase. Por Ele batendo os tambores. Ele alcança o papel a Joana. Modificar por inteiro o plano do edifício. sob chuva e frio. eu que nutro Poucas simpatias pela ordem do mundo. Apanhe o que te dão. JOANA Senhor Mauler.30 O que pensas tu do dinheiro. Seria como um mosquito Tentando se opor a derrubada de uma montanha. Mas eu faço parte daqueles Para quem essa não é uma ajuda. Concepção inaudita à qual vós mesmos. Eu sei. Tão penosa de construir. . Ou então seria preciso mudar tudo. Ainda que dia após dia se precise reconstruir O que dia após dia é destruído. malgrado os sacrifícios. É à sorte. Eu seria varrido. O dinheiro é um meio De melhorar um pouco a vida. Não enchas a cabeça de falsas idéias. Isso que o senhor falou. nem Deus. Por isso vós deveis nos ajudar em nossa obra. Em uma palavra é preciso que vós Restabeleçam Deus em sua glória. E incessantemente construída. Quero saber. Olha também como o mundo é feito! Que edifício! Obra dos homens. nem nós tampouco: Não seríamos necessários. Atribuir ao homem um lugar totalmente diferente. Obra imensa. Desde que existem sobre a terra. Eis porque esta obra é sempre defendida Pelos melhores entre os homens. Fazendo Dele a única salvação. Mas mesmo assim verdade: Sobre a terra nada há de sólido. Ela se levanta. Esse sistema é o único que permite arrancar O que pode ser arrancado dos rigores desse mundo.O que nós não vos exigiremos de nenhuma forma – Devem dizer ao menos que eles são justificados.

JOANA Se os Chapéus Negros quiserem o seu dinheiro. Pois esta vida sem eira nem beira não te serve. Quantos eram eles? Eu não sei. Mais numerosos. BAIRRO DOS MATADOUROS Joana. em um pequeno campo. Eu serei como eles sem trabalho. e outras familiares. Depois eu gritei palavras em tom belicoso Em uma língua para mim mesma desconhecida. Sobre ela que tu conheces. Vai à janela e repara se neva. sem uma palavra. que vive da pobreza. pulsando vida. uma palavra sem importância. Chicago! Vós também Lá estavam. E então uma palavra. A tempestade de neve. Eles formavam uma massa tão densa. Ela permaneceu suspensa por um instante. JOANA Terceira descida de Joana às profundezas. levanta-te. Perto dela Gloomb e dona Luckerniddle. eu quero fazê-lo. e então eu me vi: À vossa frente. afluíam inúmeros cortejos. E o senhor. E o trabalho deles também. Eu marchava. Notei uma massa humana. MAULER Esta noite. E nada comerei além do que eles comem. Eu também não tenho dinheiro E nem uma maneira de ganhá-lo de outro modo. A cada hora. Que alguém gritou em algum lugar. E se nevar. a fronte ensangüentada. com aqueles que esperam. Saberás que neva sobre ela. Jovem e velha. Ao mesmo tempo. Que o aceitem. E isso é muito bom. Sem poder suportar a visão dos pobres Que os julga sem conhecê-los. E eu. Há sete dias: Diante de mim. Cercado de todos os lados por enormes edifícios E tão pequeno que a sombra de um arbusto O teria encoberto totalmente. IX Escutai o que eu sonhei.31 Leva aos Chapéus Negros este dinheiro E poderás ficar com eles. Fez esta massa começar a fluir. Ficarei lá até que as portas sejam reabertas. se o senhor quiser me ver Me verá nos matadouros. creia-me. 1. silhueta múltipla. Jogados aos matadouros e de tudo ignorantes. do que os pardais Que se poderia colocar em tal lugar. Eu comerei esta neve. Vi depois cortejos E ruas desconhecidas. soluçando e jurando Logo fora de mim! Virtude e terror confundidos! . em todo o caso. No futuro. Que o campo inflou-se e uma cascata humana Inteira ficou pendurada em suas elevadas bordas. Pelo menos não honestamente. Ela sai. desfilando. Mauler. Mas eu me sentarei Em frente aos matadouros. Se for um punhado de neve o que lhes dão. marchava à sua frente. por toda a parte. Eles fazem muita questão do dinheiro. E se não houver trabalho. Arranjando para não ver esses condenados. com passos guerreiros.

OS FABRICANTES: Mas como nós poderemos Comprar gado com preços em alta? Alguém promoveu uma razia. Assim foi o meu sonho. BOLSA DE CARNES MAULER. é verdade.32 Tudo o que eu pisava. ao abrigo dos ataques inimigos. e pior. não nos podiam alvejar. a cidade deles. a preço vil. transparentes. Precisamos comprar e os preços aumentam! . se eu me lembro direito Daquela hora em que perdi um pouco o juízo. E com a aurora chegaremos a Chicago. Senhores. UM PEQUENO BAR NO BAIRRO DOS MATADOUROS Desgraça! As tarifas caíram! E nós não temos mais carne para vender! Ela já está vendida. libere-nos de nossos compromissos! MAULER: Estou desolado. estávamos fora de alcance. A exata extensão de nossa miséria. Um pouco caro. Todas as conservas Previstas no contrato. mas existe.. Rendidos pela fome. O que acontecerá. E assim andava o cortejo. nas praças públicas. Envolvida pela neve. Oitenta mil toneladas. a preço vil. E também perturbando o aspecto familiar de ruas bem próximas. Hoje eu compreendo o seu sentido: Nós deixaremos os matadouros antes do raiar do dia. Comprem-no! OS FABRICANTES: Comprar gado nestes dias! Que horror! 3. Mauler. Habituados ao sofrimento. nós agora estaríamos comendo a nossa sopa. Habitando em lugar algum. OS FABRICANTES Desgraça! As tarifas caíram E nós não temos mais bois para vender! Eles já estão vendidos. éramos inatingíveis. Graham. DONA LUCKERNIDDLE – Se ela tivesse calado um pouco a boca lá nos Chapéus Negros. Influenciando o curso dos planetas distantes. Ninguém sabe quem foi. Há muito gado. sem mais delongas. Para aí mostrar a todos. GLOOMB – Dona Luckerniddle. Eu exijo que me entreguem. Eu andava no mesmo passo que o cortejo. mas preciso das conservas.. OS CRIADORES aos fabricantes de conservas: Meus amigos de Nova Iorque me escreveram Que as tarifas aduaneiras no Sul Acabam de ser derrubadas. GRAHAM: Ao preço antigo? MAULER: Como combinado. bem e aquecidos! 2. MAULER: Sendo grande a demanda De conserva e de vianda E sendo os preços aceitáveis. a senhora entendeu esta história? Eu não. abandonando este lugar insuportável Por qualquer outro. Faremos um chamado a todo o ser que pareça humano. Ocasionando imensas destruições. eu ignoro. modificava. que eu saiba. e pior.

Um destacamento dos Chapéus Negros chega. não o ódio. não a violência. BOLSA DE CARNES OS FABRICANTES: Nós compramos qualquer gado! Bezerros! Gado gordo! Vitelos! Bois! Porcos! Façam as suas ofertas. depois de entoar um cântico apressadamente: Por que não provar. apesar de todas as nossas más ações. tenente dos Chapéus Negros. ente os quais Joana. meu irmão. UMA MULHER Por que vir aqui fazer escândalo Com tamanho frio! E se pudessem ao menos se calar! Com muito custo eu consigo agora Suportar as palavras que há pouco amava E que me soavam agradáveis. A MULHER – Por que não nos procuram para tentar nos converter? GLOOMB. Intercala sua pregação com observações aos companheiros. minhas irmãs. Luckerniddle – De onde a senhora os conhece? DONA LUCKERNIDDLE – No tempo em que eu não me fiava em gente como você eu ia bastante até eles. JOANA. tu também. surpreendendo-se pela ingenuidade – É sério? A senhora acreditou nisso? DONA LUCKERNIDDLE – Eu também. fazendo o gesto de contar dinheiro – A senhora consegue manter a marmita fervendo. e eu não tenho mais fome e nem sede. que alguma voz. vinde logo! Aleluia! Uma jovem dos Chapéus Negros dirige-se aos trabalhadores. eu prefiro os atos. mas eles traziam uma panela. Vinde a ele. faz desesperadamente sinais para que saiam. do pão de Deus? Grande é nossa alegria. reina a paz. mas ninguém contribui) Aleluia! JOANA – Deixe-os. meus irmão. MARTHA. Onde está Jesus. (É tudo absolutamente inútil!) Eu lhes digo: ajudem-nos a manter a marmita fervendo! OS CHAPÉUS NEGROS . GLOOMB – Bondade curta. por causa do meu marido. Nosso Senhor. curta bondade. o amor. Silêncio. JACKELINE. Se algumas pessoas soubessem calar a boca eu saberia onde procurar abrigo esta noite. que um resto de pudor lhes diga: Aqui reinam a neve e o vento: calem-se! 4. JOANA – Onde eles estão? GLOOMB – A dona Luckerniddle pode lhe dizer. eu esperava que eles fossem ao menos nos dar um prato de sopa. Nosso Senhor.33 Trabalhadores e trabalhadoras. soldado dos Chapéus Negros: . (Isso não serve para nada!). Eles precisam fazer isso para conseguir um pouco de calor e de comida. à margem do caminho. DONA LUCKERNIDDLE – Eles são boas pessoas. UM TRABALHADOR. Joana se levanta e. Discursos. tenho apenas sede da palavra de Jesus. os comunistas. grande o nosso regozijo. Ah. hoje (eles não estão escutando nada!) basta que eu pense muito em Jesus. que nos salvou na dor. durante a cena. Bem que eu gostaria de estar com eles! DONA LUCKERNIDDLE – A música era bonitinha! GLOOMB – Bonita e curta. JOANA – Mas não são os tais que ficam incitando ao crime? O TRABALHADOR – Não.(Vocês acham que isso serve para alguma coisa?) Eu também. já ouvi demais. à dona. JOANA – Então não há ninguém que tente fazer alguma coisa? O TRABALHADOR – Sim. mas então eu encontrei Nosso Senhor Jesus e fez-se em meu coração uma grande luz e provei uma grande alegria. Pois nós encontramos Jesus. dona Swingburn? A MULHER – A sua música era bonita.Aleluia! (Jackeline faz circular a cuia de esmolas. e o velho Adão dentro de mim não tinha outro desejo do que comer e beber. estava um dia sentada. triste. por favor! OS CRIADORES: Não sobrou mais nada! Tudo o que podia ser vendido . como vocês.

mesmo nos grandes. Se alguém vier perturbar a reunião.34 Foi vendido. OS CRIADORES: Oitocentos bois a quatrocentos para Sullivan Slift. eu acertarei as contas com ele! MAULER: Ah! É assim. Não havendo ninguém que precise de carne. Em frente a um galpão. Nós.. Corte você mesmo! MAULER: Por que se surpreendem. Além disso. De hoje até amanhã é certo que os patrões vão lançar todo o tipo de falsas notícias: eles dirão que . precisamos de um prazo. dois homens da direção dos sindicatos discutem com um grupo de operários. Silêncio . Ele vai falar com Slift. se são os senhores os bois. os operários. OS FABRICANTES: É Mauler. a greve geral. e caro! Ofereço. JOANA – São vocês os que defendem a causa dos desempregados? Eu posso ajudá-los. MAULER: Atenham-se à nossa combinação. Quatrocentos. Os trabalhadores das grandes empresas da cidade nos prometeram declarar. Agora eu quero sessenta! E tenham o cuidado De não esquecer as minhas latas! 5. e acho que sou capaz de defender bem uma causa. OS FABRICANTES: Nem pensar! Vocês estão loucos? Quatrocentos! SLIFT – Eu compro. Aprendi a falar em lugares públicos e em auditórios. Chegada de Joana. para começar Quinhentos bois a cinqüenta e seis. Deixe-os totalmente à míngua. UM DIRIGENTE OPERÁRIO – Escutem todos: até agora os magnatas da carne não manifestaram a menor intenção de reabrir as suas fábricas. precipitando-se sobre Mauler: É preciso liquidá-lo. de Chicago a Illinois. OUTRO LUGAR NOS MATADOUROS Nos cartazes se lê: “Solidariedade com os trabalhadores sob lockout!” “Desencadeiem a Greve Geral”. Na minha opinião é preciso fazer alguma coisa imediatamente. Graham! As latas que me deves. o apetite desperta! GRAHAM. OS FABRICANTES: Mais nada? E nas estações? Estão abarrotadas de gado. Os senhores devem me entregar a carne.. Vendo-os. Mauler. É claro que é! Era o que dizíamos! O cão! Ele nos obriga a entregar-lhe as latas E é ele quem compra o gado! Somos então obrigados a comprar de Mauler A carne que deveremos colocar em suas latas! Carniceiro sujo! Tome então a nossa carne. UM CRIADOR: Oitocentos bois de Kentucky a quatrocentos. se ela for justa. Já que não há demanda. eu tenho propostas a fazer. OS FABRICANTES – Vendido a quem? Entra Mauler. eu não tenho medo. Terá de ser comprado de mim. uma parte de nós perderá seu emprego nos matadouros e os outros nunca recuperarão o salário anterior. mesmo só uma pata. Qualquer vitelo. É impossível encontrar um boi em Chicago. eu as quero agora. Mesmo que tenhas que te enfiar nelas! Eu vos ensinarei como se faz esse comércio! Doravante. OS CRIADORES – Vendido. no mais tardar depois de amanhã. Os fabricantes se precipitam sobre ele. sabemos agora de uma coisa: se tudo andar como querem os industriais da carne.

. Você pode tranqüilamente entregar-lhe a carta. dona Luckerniddle? (Dona Luckerniddle faz sinal que sim). na esquina do Parque Michigan. SLIFT. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua Três. JOANA 6. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E em que trabalhava? JOANA – Eu vendia um jornal. com tal medida. BOLSA DE CARNES Durante toda esta cena. em diversos pontos dos matadouros. Ela é sua conhecida. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – E quem te garante que ela vai levar a carta que lhe entregarmos? O DIRIGENTE OPERÁRIO – Ninguém. tanta gente na rua. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Pela nossa causa? Diga-me: ela não é também a sua? JOANA – Não é no interesse geral que os industriais jogam. eu conheço o pessoal. O contrato assinado há pouco entre nós: Eu queria. Quando você vir chegarem três operários com cara de quem procura alguém. O operário apanha a carta e sai. dando a carta à Joana – Vá até a fábrica Graham. Nós não temos ninguém para passar despercebido como ela. etc. Por este buraco fogem todos os peixes. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Não é sem provas. É do Exército da Salvação e os policiais a conhecem bem. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E para quem trabalhava? JOANA – Eu era ambulante. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua vinte e seis. A carta é para eles. em frente ao edifício da Westinghouse! (À Joana) Quem é você? JOANA – Fui mandada embora do emprego. a Mauler. essa noite. Ninguém suspeitaria que ela trabalha para nós. Isso é bom. não é? DONA LUCKERNIDDLE – Honesta ela é. Como se rede já não houvesse: De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada.. UM OUTRO OPERÁRIO – Dê-me a carta para as usinas Graham. e vá esperar os responsáveis defronte à cantina da senhora Schmittens. Elas devem ser entregues às dez horas. E poderíamos até dizer que esta pobreza seja obra deles. Eu não sou uma espiã. Um operário apanha a carta e sai. – Eu já vendi jornais na rua Vinte e Quatro. Essas cartas anunciam que a usina de gás. encostado em uma coluna – Faça subir. Eu luto de todo o coração pela causa de vocês. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Não.35 tudo está arranjado e que a greve geral não acontecerá. aos responsáveis que esperam nossa orientação. ouve-se gritar ao fundo o nome das empresas que suspenderam seus pagamentos: “Encerram os pagamentos. MAULER: Os senhores não respeitaram. galpão número cinco. as centrais elétricas e o serviço de águas entrarão em greve em solidariedade a nós. os preços estão a mais de setenta! OS CORRETORES – Os cabeçudos não compram. Jack. pergunte-lhes se são das usinas Cridle. UM OPERÁRIO – Pode ser uma espiã.” OS FABRICANTES – Nós não podemos mais agüentar.. O DIRIGENTE OPERÁRIO. pois o endereço dado pelos camaradas das usinas Cridle para o encontro está muito vigiado. (os operários riem alto) Mas é desumano! E dizendo isso eu penso também em gente como Mauler! (os operários caem na gargalhada) Por que se riem? Acho que vocês estão errados em zombar e em acreditar sem provas que alguém como Mauler não é um ser humano. eu sei quem ela é. estou vendo. assegurar o trabalho . pau neles! OS FABRICANTES – Queremos dois mil bois a setenta. Ela é honesta. Tudo acontece como se a miséria dos pobres fosse útil aos ricos. Esconda essa em seu casaco. Meyers e Cia. À Joana: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. dessa maneira.

desembucha! O primeiro segurança faz seu relatório. por telefone. perdido por perdido. entreguem-me! GRAHAM: Nada poderíamos ter feito. nós não podemos pagar oitenta a Mauler pelo gado. só quinhentos. senhor. de achá-la? E atiram? Encontra o Jim.36 Aos operários e agora me dizem Que eles ainda esperam em frente aos matadouros. Isso basta. A carne sumiu de vez do mercado! Quinhentos bois a setenta e cinco! MAULER: Não seria conveniente. se apresentariam dez ou talvez cem. esperando. Impossível. O primeiro segurança sai. MAULER: Atiram? Contra quem? Mas eu sei bem. tudo a oitenta. Eles já não agüentam. Fala em meu nome. mas que não rebentem. o vento abafa as palavras. que voltou para perto da coluna – Slift. . é impossível ouvir uma voz isolada: há muita gente correndo de todos os lados. No canto em que trabalham os sindicatos reina uma grande efervescência! MAULER – Quem trabalha? Os sindicatos? E a polícia os deixa incitar os operários? Meu Deus! Liga imediatamente para a polícia. eu não vi ninguém com o uniforme dos Chapéus Negros. SLIFT: Faça subir. é o fim! SLIFT: Quinhentos a setenta e sete para Graham. MEYERS – Cinco mil a oitenta! Assassino! MAULER. pois. Que sangrem. Ele repara no segundo segurança. não me diverte mais. O SEGURANÇA – As multidões. Diga-lhe para que não me procure. MEYERS – Mil e quinhentos a oitenta. OS FABRICANTES – Mauler paga cinqüenta pelas conservas. Quando se grita qualquer coisa. Mas os senhores se lamentarão por isso. voltando ao grupo: Este negócio. Além disso. Vou soltar a carne e deixá-los partir. sim. A multidão anônima e sem rosto continua sentada lá. Ainda por cima está escuro. É preciso que a cidade Possa voltar a respirar. Vá só até oitenta e depois abaixe o preço. Ele pode ir longe demais. O estranho é que aqui não se ouve nada. Eles ainda agüentam! Quinhentos bois a setenta e sete. é claro. Mil a setenta e sete. Senão pensarão ainda Que fomos nós que exigimos que atirassem. Ceda. Se perguntasse por uma Joana. Slift. Pergunta para que nós pagamos impostos! Manda arrebentar a cabeça dos líderes. Mas para nós. SLIFT – A oitenta. MAULER – Então. eu não me sinto muito bem. a Slift – Onde está o pessoal que eu mandei para os matadouros? SLIFT – Ali está um. O segundo segurança sai. subir muito mais. E tenho outras preocupações! Veja bem. MAULER. são incontáveis. Mauler. à procura de um parente que não encontram. Ponha os pingos nos “is”. MAULER. As conservas que comprei. Slift. dizes. GRAHAM: Que seja. São centenas de milhares nos matadouros. Slift. eu me pego esgoelando-os E não tenho tanto prazer quanto esperava. Sem contar que a polícia está evacuando os matadouros e que começa a atirar. A encontraste? O SEGURANÇA – Não. Acima disso. Pois a queda deles Será a nossa.

Não vão embora. Nós publicamos isso com manchete de oito colunas. Eles não abrirão as fábricas! Eles esperarão os lucros aumentarem! E a sua resposta sairá Dos canhões e das metralhadoras! Ninguém poderá nos ajudar. Aja conforme o meu espírito. a jovem pregadora dos Chapéus Negros? JOANA – Não. E se quiseres abrandar. Um homem os guia. Nesse dia sim. Slift. – Olá! A senhorita é Joana Dark. toda a Chicago comparte seus sentimentos. pode ler. que a opinião pública está do seu lado. Fora uns poucos especuladores sem escrúpulos. não mais. Veja.37 – Nem pensar. Os jornalistas lêem em voz alta) “A Madona dos matadouros. Eles se sentam. Slift não tem ordem para isso. JORNALISTAS – O que há de novo. Prefiro abandonar tudo Do que ser a causa de uma desgraça! Oitenta e cinco. OS JORNALISTAS – No escritório do senhor Mauler nos disseram que a senhorita jurou não sair dos matadouros enquanto as fábricas não fossem reabertas. Eles não abrirão as fábricas. É um enorme sucesso para os Chapéus Negros.” JOANA – Eu não falei nada disso. Saindo ele encontra jornalistas. JOANA – Eu queria que vocês fossem embora. ALGUÉM – Porque estás aqui? JOANA – Tenho que entregar uma carta. nós ouvimos. Chega um grupo de jornalistas. Joana Dark. nos matadouros Enquanto a miséria não chegar ao máximo. (Joana vira-lhes as costas. Queria vender a oitenta e cinco. a alguma distância. Para nós a senhorita faz parte. Eu não posso mais. a não ser nós mesmos E a ninguém podemos apelar OS JORNALISTAS . SLIFT MAULER Eu preciso de ar fresco. Virão três pessoas. eles abrirão. também em segundo plano: É mentira: por maior que seja a miséria. OS TRABALHADORES. Aja conforme o meu espírito. Tu me conheces. (a Joana) Esses são jornalistas. Então agora existe gado. Mauler? MAULER. OS JORNALISTAS – Podemos lhe assegurar. Mas nós não queremos incomodá-la e iremos ficar ali. Continue então com o negócio. afastando-se – É preciso que façam chegar aos operários que eu acabo de ceder gado às fábricas. serei eu quem fará subir. Mas quando a aflição for tremenda. JOANA – Eu não faço mais parte dos Chapéus Negros. Eles terão de nos responder. SLIFT: Mentirosos! Agora serei eu que vos ensinarei A vender carne enlatada Sem ter nem mesmo um quilo! E cinco mil bois a noventa e cinco! Urros. esperem a resposta! CORO OPOSTO. OS JORNALISTAS – Veja bem. SLIFT – Quinhentos bois a noventa! OS FABRICANTES: Mauler. NOS MATADOUROS Muita gente esperando. De outra forma isso terminaria em violência. senhorita Dark. O HOMEM. isso não é possível. declara: Deus está solidário com os operários das fábricas de conservas. em segundo plano. 7. Eles ainda agüentam. apontando para Joana – Aqui está. Entre eles. no fundo. Joana.

a Joana – O que fazias com aquela gente? JOANA – Nada.. Alguns – pouco numerosos – estão sentados lá em cima E um grande número aqui embaixo. dona Luckerniddle? DONA LUCKERNIDDLE – Sim é verdade. E falar Daquele que mora lá em cima. eu quero ir embora. E uns se sentam lá em cima Só porque os outros estão embaixo. Não fazia tanto frio em meu sonho. (Ela arranca de sua vizinha o pano com o qual ela cobre a cabeça) Sim. dê-me meu pano. A qual logo se nota claramente Que serve de gangorra Todo o sistema é como uma balança Na qual os dois lados dependem um do outro. que de resto Já é a muito conhecido. ela vai me matar. desde fora. foi você! Não adianta mentir. Mas. . Ficar aqui sem necessidade absoluta Parece-me um jogo indigno. não é? JOANA – A senhora também acha. a Joana – Você está totalmente gelada. com um vasto plano. A MULHER – Socorro. UM HOMEM – Silêncio! Alguém atira um trapo para Joana. um emprego que me assegurava O pão de cada dia. dir-se-ia que é um caminho. Empunhar a bandeira e bater o tambor. UM TRABALHADOR. imbecil!. UM VELHO HOMEM. o medo me aperta a garganta: Não comer. Algo de obscuro.. Encorajada por um sonho que confirmava minhas idéias. E um ambiente. Quase uma comédia. Que audácia! Emborcar assim o whisky desse velho! JOANA – Segure a língua. A mim me esperam. E os do alto gritam: Subam. eu não tenho o direito de ir. não dormir. Onde está o meu chale? Eles me roubaram. Mas é apenas uma tábua. que acabaram de receber uma informação. Mas eu posso. Mas a estrutura interna continua ignorada. UMA MULHER – Que audácia! JOANA – A senhora falou alguma coisa? A MULHER – Sim. que nada tendes para comer. tenho frio... ao qual estava acostumada. JOANA Se dependesse só de vós Eu poderia congelar nua em pleno vento. Eu não tinha sonhado que pudesse fazer tanto frio! Se eu tivesse pelo menos o meu agasalho! Ah! É fácil para vós passar fome. Tenho fome e isso é banal. o que deixei foi uma vocação. é claro! É o cúmulo! Eles me roubaram até o chale! Quem foi o mão leve que pegou o meu chale? Devolvam-me imediatamente. guardam-me a sopa. confesso. JOANA: Eu compreendo esse sistema. Vós. Enfim.38 Que não seja um nosso igual. um teto e o sustento. chega! Você é boa mesmo de copo. ignorar aonde te leva a vida. Quer um gole de whisky? (Joana bebe) Ei. Mas. Ir para um quarto quente. Vós todos. Quando eu cheguei aqui. a qualquer momento. Entre os que estão em cima e os que estão embaixo. Para que estejamos todos no alto! Mas olhando mais de perto descobre-se. mais do que tudo. O TRABALHADOR – Mas falaste com eles! JOANA – Eles me confundiram com outra pessoa. Apesar de tudo. Os jornalistas. isso é normal. E para vós é fácil passar frio. o que haveis deixado? Eu. Já basta. levantam-se e dirigem-se ao fundo.

Agora as fábricas reabrirão. Os tanques deles vos esmagarão. JOANA: Escutem todos! Há trabalho. aconteça o que acontecer. JOANA: Parai! Chega de aprender essas lições! JOANA . Felizmente temos a carta para mostrar a verdade. DONA LUCKERNIDDLE – Não digas tais tolices. espera. Havia entre eles pelo menos um homem honesto E ele não falhou em seu dever. Mas tu. E sobretudo entendam bem Que nada se faz sem luta E sem a sua própria ação. OS JORNALISTAS – Olá. Não creiam em nada e não escutem ninguém. Esse combate será perdido E talvez perdido Ainda o próximo combate Mas vós ireis aprender a combater E aprendereis pela experiência Que nada se faz sem luta E sem a vossa própria ação. (Ela se levanta) Eu vou avisar aos nossos que os boatos já começaram a circular. E nós vos dizemos: combatei. no fundo do palco: Se ficardes agrupados Eles vos rebentarão. Se combaterdes. JOANA – Quanta gente há aqui? OS JORNALISTAS – Uns cem mil. Classe cheia de neve e que as leis ignoram. Ao longe as metralhadoras crepitam. Tu não compreendes nada de nada. E nós vos dizemos: ficai agrupados. JOANA – Mas estão atirando! UM OPERÁRIO – Pode ficar sentada tranqüilamente. O que aprendeis? OS TRABALHADORES. de jeito nenhum. ainda que os preços continuem a subir. acaba de cedê-lo aos fabricantes. Que barulho é esse? UM JORNALISTA – São as metralhadoras. JOANA – Oh! A boa nova! DONA LUCKERNIDDLE – Vejam as mentiras sobre as quais nos alertaram. Então a bondade existe. com a carta. A tropa foi encarregada de evacuar os matadouros. Não se separem! É apenas ficando todos juntos Que poderão ajudar uns aos outros. se esses senhores estão dizendo? Sobre um assunto como esse não se brinca. Nessas condições o trabalho voltará muito em breve aos matadouros. Os jornalistas retornam. Quando se falou com ele como a um ser humano Ele deu uma resposta humana.39 OS TRABALHADORES: Fiquem. JOANA: Tanto assim? Oh! Escola desconhecida. A não ser a proposta Que leve a mudanças verdadeiras. Não ficaste tempo suficiente aqui. o seu sucesso foi formidável: nós ouvimos que Pierpoint Mauler. Não te movas! Entendeu? Ela sai. Os matadouros são tão grandes que a tropa levará horas até aqui. UMA MULHER – Devemos voltar para casa agora? UM TRABALHADOR – Quem nos garante que é verdade? Que haverá trabalho de novo? – E por que não seria verdade. o milionário que dispõe de muito gado. mocinha. Que tem a fome por mestre e onde a miséria Fala implacavelmente da necessidade! E sois cem mil alunos. no frio. O coração deles não é de gelo. É preciso fazer com que se calem os agitadores que incitam à violência.

Chegam três operários. Quem o comerá? Eu vou embora. Toda inocência tê-lo-ia abandonado. Eles saem. UM OPERÁRIO. para um dos dirigentes presos – Não liga não. Mas o prato que se prepara aqui. JOANA: Os que me entregaram a carta. ao longo dos anos. OS OPERÁRIOS – Estão trazendo os sindicalistas. Joana tem uma visão. que eles ainda poderão ter uma surpresa. William. Eles procuram alguém que não encontram e vão embora. Mas assim. Do fundo ouve-se gritos que se aproximam. Por que foram presos? O que ela contém. Ela se levanta e sai.40 Que gélidas elas são! Não é pela violência Que se combatem a desordem e a confusão. Há muito tempo que já está tudo arranjado. as palavras teriam outro sentido. algemados. estão muito enganados. UM OUTRO OPERÁRIO grita para o grupo que se afasta – Assassinos! OS OPERÁRIOS – Se eles acham que assim irão parar as coisas. Eu não sou um deles. aparece uma inscrição: A neve começa a cair. é imensa! Mais uma noite como esta. mas agora a coisa está terminada. e ninguém Poderá manter a sua calma. Vós. . Sobre sua cabeça. Seu sucesso foi grande. Violar as regras em uso. OS JORNALISTAS – Nós a aconselhamos a sair dos matadouros. Eu digo: na escuridão se acumulam As violências e as questões nunca resolvidas. vós estivestes juntos Longas noites. Começa a nevar. A tentação. Apartado em um mundo Tornado para ele estrangeiro. Viram-na descer de degrau em degrau Para em água límpida a lama transformar e aos humildes Aparecer. No terceiro dia sucumbiu. Ela continua sentada. No lodaçal dos matadouros. Por três dias viram Joana em Packingtown. conduzidos por policiais. eu preciso ir. eu seria como eles e não faria perguntas. longe do mundo que lhe é familiar. Eu assim não poderia viver. os astros sem harmonia Já não seguiriam sua órbitas. Nada de bom pode surgir da violência. Os dois dirigentes operários passam. Enquanto a noite cai. No final o lodo a engoliu. Ela se vê com roupas de criminosa. Quem agisse assim se sentiria perdido. Os operários se levantam. Enquanto o fraco ao fraco se alia. Isso seria desleal para com os outros homens. Com seu silêncio opressor. Direis que fazia muito frio. Ou que engendrasse a violência. E aprendestes A alimentar friamente terríveis pensamentos. esta carta? Eu não saberia fazer nada Que requeresse violência. Se desde a infância o peso da miséria e da fome me tivessem ensinado a violência. DONA LUCKERNIDDLE. Para este homem. voltando – Nada além de mentiras! Onde foi a moça que estava sentada ao meu lado? UMA MULHER – Partiu! UM OPERÁRIO – Desde o começo eu disse que ela iria embora quando começasse a nevar de verdade. E é por isso que parto. eu digo. Perseguidor perseguido E não mais sabendo ver sem desconfiar. Dia após dia ela desceu.

Vejam o que leio. UMA ESQUINA EM CHICAGO MAULER. Na borrasca. Ter construído a maior cloaca do mundo Constituirá a sua única glória. UM DOS SEGURANÇAS. mais de vocês. preto no branco: O gado está a trinta e ninguém compra. De agora em diante. Vejam. Eu disse: meia volta E tu riste. Assim foi conseguido. hoje restarão No chão as pedras. Pierpoint Mauler cruza a fronteira da pobreza 8. não lhes parece? Ah! Eu repito Não fiquem enchendo a cabeça com idéias. E ninguém quis. os pobres. Este homem está perdido. o mais vasto. O mais prático também. que todos os fabricantes Quebraram juntos e saíram do mercado. Seja por aberração. A mim ela vai elevar às mais altas esferas. Está dito. então. Cedi meu gado a qualquer um que o quisesse.. meia volta. 9. em cima. Eu tenho as minhas razões. Essas notícias. saindo – Bom. em suor e em dinheiro. façamos meia volta. Mauler e seu amigo. Agora eu estou livre. Só porque duas ou três vezes eu dei meia volta. dele se diria Um prédio construído com grandes despesas.. Que nós construímos em nossas grandes cidades Sem importar o custo. a dona Luckerniddle reencontra Joana. são os mais atingidos. um objetivo que eu saúdo E que muito me alivia. Mas vejo que estão pensando. modificam tudo. Sem nenhuma exigência. o que foi? Riste. Pensar não serve para nada. E a vocês eu despeço Pois da pobreza eu cruzei a fronteira. Até mesmo aos matadouros. a um de seus seguranças Parem. Aquela que eu procurava terá tido o bom senso De sair das profundezas onde o inferno se instala. . Passa um vendedor de jornais Ei! Jornal! Vejamos o que se passa na Bolsa de Carnes. Em todo o caso. Doravante Não há mais ninguém que me queira matar. Há resistência. aqui sob meus olhos. Ele lê e empalidece. Não preciso. preto no branco. Quanto a este edifício. Sem que eu tenha procurado.41 Pergunta feita: quem ficará? Como nos outros dias. OS DOIS SEGURANÇAS – Então podemos ir? MAULER: Podem E eu também posso ir aonde queira. seja por economia. Slift. UM LUGAR DESERTO NO BAIRRO DOS MATADOUROS Neva. Aquele que sai de tal imóvel. Tem certa razão de estar alegre. confessa. Escolhido como material. Parece-me Que contratei dois idiotas. ainda atiram. Perto dos matadouros. Assim espero. Basta. Não é para pensar que eu vos pago. Até o reino do espírito. impresso. nada mais posso fazer por eles. mas o arquiteto teria. MAULER: Se a desgraça abate ao homem sem caráter. É o que está escrito. cocô de cachorro: Que torna a permanência difícil. Sou conhecido nos matadouros.

Nós te encarregamos. Lá dentro só se fala em violência. Um lixo. eu não a darei. O SEGUNDO OPERÁRIO – Isso é grave: sem dúvida uma parte das ligações não funcionou. A pedra não perdoa. UMA VOZ – Lá onde te esperam. JOANA – Não. Nela estava nosso destino. Pierpoint Mauler as arruinou. de uma missão. Joana. Mas também podias nos trair. Uma parte dos operários saiu dos matadouros. UM OUTRO LUGAR Correndo em direção ao centro da cidade. Joana cruza com dois operários de quem ouve a conversa: O PRIMEIRO OPERÁRIO – Primeiro eles fizeram correr o boato que as fábricas reabririam a todo o vapor. De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. (Joana desaparece na tempestade de neve) Hei! Venha! Ela foi embora! DONA LUCKERNIDDLE 10. estás aí! Onde tinhas te metido? Entregaste direitinho a carta? JOANA – Não. O PRIMEIRO OPERÁRIO – E aqui nós não ficamos sabendo. fraqueza do corpo! Oh fome. Claridade que então eu deixei de ver! Oh! Quem conhecerá o poder da neve! Oh. Errando pelos matadouros. O SEGUNDO OPERÁRIO – Os comunistas é que tinham razão. Ao que tropeça e cai. As massas não deveriam ter se dispersado. para poder se apresentar amanhã bem cedo ao trabalho e de repente eles falam que as fábricas nunca mais abrirão. Dê a carta aqui imediatamente. mas a senhora quer continuar. Muitos operários teriam ficado se soubessem da notícia. Por este buraco fogem todos os peixes. Aquilo que lhe foi confiado.42 – Ah. isso é o que tu és! Dê-me a carta que te confiaram. A VOZ DA DONA LUCKERNIDDLE: Eu fui a tua fiadora. OUTRA VOZ: Joana pára. DONA LUCKERNIDDLE – Eu devia ter duvidado. Nós não sabíamos quem eras. Anda em outra direção. Cumpriste a missão? Joana volta a andar e uma nova voz a detém. Tudo está voltando ao normal agora. podias dar conta. mas entregue. Mas tu és uma traidora e teu lugar é com eles. Que sentimentos em nós deixareis sobreviver? . Eles teriam ficado apesar da violência da polícia. Tu não a entregaste. De tua missão. Joana ouve vozes. oh verdade! Que a neve em tempestade Inoportunamente mascarou com sua noite. ela procura se livrar das vozes que ouve de todos os lados. É inútil tentar pegar. caindo de joelhos: Luz. E aquele que chega a bom porto. Como se rede já não houvesse. JOANA. Que nada diga. Mas a carta que trazia a verdade. DONA LUCKERNIDDLE – Ora essa! Para ti está tudo normal! E eu que disse que tu eras honesta! Sem isso não teriam te confiado a carta. Joana pára. Sem récitas inoportunas dos seus infortúnios. Ainda mais que amanhã todas as empresas de Chicago iriam declarar a greve geral. AS VOZES: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. Eu vou embora. precisas chegar! Joana olha ao redor. UMA VOZ: Não há desculpa Para quem não chega.

se ele pudesse vir. Liberada. Quero que a senhora pague o meu aluguel. DONA MULBERRY – Meu caro Dick. Este homem que foi em sua vida Mais estúpido do que um vagabundo bêbado e repugnante. E nós gritamos à plena garganta: Ah. onde iremos acomodar o nosso público? Chega um pobre. De um só golpe o bolchevismo também é enterrado. o senhor Pierpoint Mauler. quem vos pode resistir? Eu preciso dar meia volta! Ela retorna sobre seus passos correndo. veio nos dizer que Mauler em pessoa estava disposto a assumir o nosso aluguel e a organizar conosco uma grande campanha em favor dos pobres. Eu o conheci: era um imbecil. E as ondas de lama do materialismo Ameaçam a casa de Deus. a qualquer momento. afastada do trabalho. estamos aguardando. Sob um plúmbeo zênite de destinos desconhecidos. BISPA SNYDER. BISPA SNYDER – Sente lá atrás e fique quieto! Ele se senta. OS CHAPÉUS NEGROS: Estão levando. que prometeu nos ajudar. O HOMEM – Os fabricantes de conservas querem falar com ele e os criadores o chamam aos gritos. MAULER – Eis aqui um homen marchando até o seu Deus. Um homem começa a levar os móveis para a rua. investindo contra ele – A sopa. no céu e no inferno. BISPA SNYDER – Dona Mulberry. é tudo o que eles querem! Aqui não tem mais sopa! Aqui só tem a palavra de Deus! Ouvindo isso eles vão logo embora. coloque os móveis na rua. que já se afunda! Mas o rico Mauler virá. com certeza! Ele já está a caminho com os seus milhões! UM CHAPÉU NEGRO – Bispa. Conheci bem um homem. na frente do palco : Ouvi alguém procurando um certo Mauler. Exposta outra vez à neve. Para nos salvar neste instante. UM HOMEM. X Humilhação e assunção de Pierpoint Mauler TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS MARTA. ele possuía dez milhões. O reino de Deus está pronto na minha cabeça. Buscam-no por toda a parte. Ele sai. DONA MULBERRY – Bispa Snyder. minha cara Mulberry. OS CHAPÉUS NEGROS: Romperam-se os diques da fé Em Chicago. agora os pegamos. Salvar-nos com o seu dinheiro! BISPA SNYDER Há exatos oito dias Que nos matadouros onde as máquinas enferrujam. Vejam que já balança. posto que sem abrigo. com sopa quente E um pouco de música. A massa espera. o suntuoso Mauler. que aliás é muito barato. . Ah. o rei da carne. o banco dos penitentes! E já suas mãos avidamente se dirigem Ao órgão a vapor e ao púlpito. é sábado a noite. à chuva. MAULER. Pediram-lhe cem dólares. nossa boa cidade.43 Frio da noite. Ele se levanta e avança até os Chapéus Negros. É Mauler. ou que deixe o imóvel. Mas nós o estamos esperando. a outro Chapéu Negro – Há três dias um emissário de Pierpoint Mauler. Uma boa orquestra à mão e sopa Bem grossinha: terminam para Deus todas as preocupações. que triste. entrando – Pierpoint Mauler está aqui? BISPA SNYDER – Não.

DOIS MÚSICOS: Um pedacinho só. devolva-me os meus quarenta aluguéis! MAULER: Vós desejais. E esse gesto tocou os nossos corações. MAULER: Eu me acuso de ter explorado o meu próximo. Mas quebrou a nossa cara De uma vez por todas. OS CHAPÉUS NEGROS – Ele já chegou? MAULER: Um hino. meus amigos. Ele trazia o seu coração. Joana. BISPA SNYDER – Tu és Mauler? MAULER – Sim. deu cabo de si mesmo. recusou-se a dar o dinheiro. Envolvamos em nossas bandeiras derrotadas Os livros de cânticos. eu vejo. construir vossa casa . CORO DOS CHAPÉUS NEGROS. Ouçam então a minha confissão: Aqui jamais se ajoelhou Ninguém. sem nada. Mauler canta com eles. que tenha caído tão baixo. Aqui estou agora. BISPA SNYDER. BISPA SNYDER. eu vos rogo! Pois eu sinto O coração ao mesmo tempo leve e pesado. é certo. Apenas nos resta chorar. Não podemos mais pagar as nossas contas. Sentados sobre seus últimos bancos e suas últimas cadeiras os Chapéus Negros cantam desordenadamente seus últimos hinos. Sentados sobre as margens do lago Michigan. não o seu dinheiro. já. inclinado sobre os livros de contabilidade – Não direi o que estou calculando. Passar bem. olhos voltados para a porta. e dilacerado de remorsos. OS CHAPÉUS NEGROS: Não perca a confiança! Homem de pouca fé! Ele virá. Tiremos de nossas paredes as máximas. todos para fora! A Mauler: E tu primeiro! Onde estão os quarenta meses de aluguel Desses não-convertidos que Joana enxotou? E vejam só o que ela me trás em troca! Devolva-me. BISPA SNYDER Silêncio! Fora. OS MÚSICOS: É deste aí então que vocês esperavam O dinheiro para nos pagar? Então nós vamos embora. Abusado da força e espoliado todo o mundo Em nome da propriedade. UM CHAPÉU NEGRO – É ele. sim.44 No fim. Eles cantam ainda “Entrai na batalha”. Silêncio! Tragam-me o livro das faturas e contas por pagar: estou nessa parte. Por sete dias apertei a garganta Desta cidade até sufocá-la. Os músicos tocam um hino. Todos os pagamentos estão suspensos. gritando – E sem dinheiro? (Aos Chapéus Negros:) Façam as malas. Diante de vós. Se aproxima já Com os seus milhões. Ele pega dois Chapéus Negros pelo braço e senta-se com eles no banco dos penitentes. Os Chapéus Negros cantam. dirigindo-se aos músicos que vão embora: Nossas orações eram pelo rico Mauler E foi Mauler o arrependido que entrou. Jogou no mar seus milhões. seguindo a letra por sobre o ombro de um dos Chapéus Negros. Culpado. mas arrependido. Mauler! MAULER: Mas quero acrescentar que no sétimo dia Fui despojado de tudo. ar ausente. E sobre nós a neve envia suas tempestades Em um inverno no qual crescem os rigores.

o caos. Bispa. Ninguém jamais pode fugir da lei. E hipotecando até o último lápis Para trazer de Quebec. Que não ficou só por muito tempo. como um bêbado sedento Que ao mar esvaziou sem se satisfazer E lambe avidamente cada gota que encontra. salva tua alma. quem nos derrubou. Dá o dinheiro. Para mim o humano era aquele a quem eu podia explorar. Eu sei muito bem. gado canadense. assumindo seus deveres. paga-nos o gado! GRAHAM. Slift apertou Ainda mais forte a nossa garganta. o que existisse de gado. Subiu os preços a noventa e cinco. e sobre nossas cabeças. Era vosso todo o gado. E tudo o que de longe parecesse um boi. Um vitelo ou um porco. Não terias a necessidade de aliviar aqui A tua consciência. Mauler. O que pretendeis fazer de nós? Foste vós. Que vos pertencia. E sobre eles atirou-se. Este espetáculo atroz apavorou o ancião. desde a aurora. Os complexos pensamentos de vosso imenso espírito. Acorreram todos em ajuda. OS CRIADORES: Maldito Mauler. Um zênite ameaçador de pensamentos desconhecidos. . Por vós fomos forçados. Mal viu esses bois vindo ao longe. Mauler. Pelos contratos que nos obrigavam A entregar de imediato as conservas prometidas. No ciclo dos astros ou das mercadorias. é aqui então que te escondes? Paga nossos bois ao invés de fazer penitência. Na porta. Viram-se os preços Oscilarem. Que projeto tendes agora. Loew e Lévi. Lançou. da Argentina. por ter vindo Atrapalhar neste lugar as tuas meditações. e a noventa e cinco Comprou-os todos. Eles também estão muito pálidos. Concluo eu o seguinte: o Mauler que sou Não é aquele do qual precisais. hesitantes. Mas Slift. que fareis? Entram os criadores em grande agitação. firmas de grande renome. Ele tenta sair. em poucas palavras. comprometendo suas casas. O ancião venerável. OS REIS DA CARNE: Perdoai-nos. chorando. Dais o nome de homem a quem vos vem ajudar. Prometiam até o gado por nascer. tomando a frente : Mauler. os reis da carne vêm ao seu encontro. Ah! Se não tivesses aliviado tanto os nossos bolsos. nobre Mauler. Que a constatação vos enche de amargura. Quando. Mauler.45 Sobre o que há de pior em mim. No mercado perturbado. Vossa função seria apenas a de brincar na relva. tomado de loucura. a comprar gado. Em três dias. Mas se chamássemos de homem àquele a quem se ajuda Daria no mesmo: necessitaríeis sempre De gente a ponto de afogar-se. agigantou-se E a todos nos precipitou no abismo! MAULER: Oh! Eternos combates! Em nada são diferentes Desde os tempos antigos onde os homens Com uma barra de ferro rachavam-se as cabeças! GRAHAM: Recordai que estávamos à vossa mercê. E Wallox e Brigham. eles iriam trazer. O Banco Nacional gritou: “Alto”. Relatarei o combate memorável Que. ao meio-dia. com voz dura. Estão pálidos como o linho. durante sete horas. Mas nós estamos perdidos: Em torno de nós. partistes.

obstinados. Naquele instante. diga-me. De cotação em cotação Os preços caíram e rolaram até os negros abismos. e então se retirarem. Mas alto o bastante para que todos ouvissem: Para pagar-lhes tomem então nossas fábricas. Os corretores. de rocha em rocha E somente em trinta a queda parou. Porque não mais podemos honrar os contratos.. Ouviu-se nesse dia os jovens estagiários. E viu-se. E Brigham arranca a barba aos gritos: “Noventa e seis”. Seria esmagado como um morango no chão.. com olhos marejados. Sob nossos olhos. MAULER: Agora mesmo. Inúteis portanto. Em tudo semelhantes aos antigos corcéis Mordendo. isto é. quando levamos às estações De nosso longínquo Missouri Com muito sacrifício. que travaste a batalha Que deixei a teus cuidados! SLIFT: Corte-me a cabeça! MAULER: E de que me serve tua cabeça? Dá-me o chapéu. agora. Estão satisfeitos? OS CRIADORES: Há pouco tempo. um a um. os cavalos inimigos. golpeia um corretor na barriga. Que nos píncaros se encontrava. bancos. E como contratos nulos não impõem compras. Com esse chapéu e este sapato: Dez milhões o chapéu. os fabricantes apáticos Depositarem a vossos pés suas fábricas fechadas. Aí está o que tornou o contrato sem valor Apertastes muito forte. na batalha. se por um acaso Um elefante se arriscasse pelo interior da Bolsa. por sua indiferença. Lévi. e os preços subiram. Vertiginosamente. paravam de viver. é sabido. Slift então gritou: “Cem”! Poderia ouvir-se um alfinete cair. Eles precisavam entregar. comprar. Eu quero para hoje”. Casas até então sólidas e poderosas. a carne de boi. o velho Lévi disse então em voz baixa. O sapato. baixou. Do outro eu preciso. E em silêncio também os bancos desmoronaram. tomados de desespero. Como a água que cai na cascata. Rangerem os dentes. E os jovens bois de pêlos reluzentes Engordados com tanto cuidado. em um espasmo. de imediato. Só um. Lutavam a dentadas. Toda a família nos gritava de longe Com a voz embargada pelo trabalho duro . Com esse gado que ninguém é obrigado a comprar? OS CRIADORES: Sem querer perder a paciência. em um suspiro. Como definha uma esponja espremida. mudos. Nós queremos que nos digas Como.E a voz ainda nos alcançava Mesmo com a balbúrdia dos trens que partiam: . E nós comprávamos sempre: Nós precisávamos comprar. E que não foi ainda acertado. Célebres. entrego por cinco. fomos estrangulados E de que adianta estrangular um cadáver? MAULER: Foi assim então. O que fazer. os agentes fechando suas escrivaninhas. Até os simples contínuos. os vívidos vitelos. Parando de pagar. Slift.46 Mas Slift gritou: “Três dias não. ele ao menos vale vinte e cinco centavos. Lançaram-se um a um nesta última batalha. quando e com que dinheiro Nos pagarás o gado comprado. Institutos de crédito. Lévi.

. MAULER: Em nós a consciência. Mas para mim. esta caça fatigante. de Nova Iorque. ao contrário. pensai no caos Que ameaça a tudo engolir. mas são numerosas.” Não. mostrando o lombo vazio E nossos bolsos também? Como.. E voltar até nós? Pensai. entendei. caro Pierpoint.. De máximas sagradas e escolhidas com grande cuidado. MAULER – Eu costumava ser esse Mauler. Outra vez responsável.(Ele abre a carta e lê de canto) “Escrevemos a você recentemente. O projeto teria talvez. Nem todos aqui em baixo poderiam ser ricos. Não ter fartura de bens terrestres. MEYERS – Quem são esses amigos de Nova Iorque? MAULER – Morgan. pelo que dizem. entrando – Mauler está? Uma correspondência para ele. MAULER: Se o faço. Neste caso. nós estaremos de bom grado à sua disposição. não bebam todo o dinheiro. GRAHAM – O que não é possível? MAULER – Tenho amigos em Nova Iorque que. conhecem um meio de sair desta. nós lhe forneceremos amanhã mais detalhes. voltar para casa? O HOMEM DE ANTES. Se assim fosse concebido. sozinho. Deixando as sublimes esferas onde meditais. é muito a contragosto. MAULER: Ou seja. assumir a empreitada. Mas se fizéssemos uma grande promoção De sua instituição. Pois ainda creio ouvir O rumor dos matadouros. Agora. GRAHAM – Mas então é Wall Street? Um murmúrio percorre o ambiente. para que comprasse carne. Julguem vocês mesmos. Como tudo de agora em diante Me parece diferente. rapazes. Não quero. é impraticável. E dado que de vós necessitamos. A Snyder: Existem muitas dessas lojinhas Onde se vende a Bíblia? BISPA SNYDER – Sim? MAULER – E como elas vão? BISPA SNYDER – Mal. condescender. esperamos” E agora. Nossa pobreza é termos perdido O sentido dos valores mais elevados. elas vão mal.47 “Ei. nós aconselhamos a fazer um acordo com os criadores para reduzir o rebanho. Seus bens. Não. o que faremos. isso não é possível.. OS FABRICANTES E OS CRIADORES: Desejarias. estão para sempre perdidos. amigos. Seus amigos de Nova Iorque. Providos de sopa quente e de boa música. a quem mandavam cartas desse tipo. Cuja voz está a tal ponto asfixiada. De um asilo necessário para os casos mais graves. Ele estende-lhes a carta. vocês estariam dispostos. Mauler. Caro Pierpoint. Compreendido como sendo de interesse geral. Abandonai. neste estado. Pois os preços do gado vão subir. Como voltar para nossa terra? E que diremos a eles. Mas nossa pobreza não é. para que os preços voltem a subir. O negócio só é possível. nobre Mauler. Jogai sobre vossos ombros o jugo. Estariam vocês dispostos a repetir aos quatro ventos . Alguma chance de sucesso. compreendei. Rockfeller. E o barulho das metralhadoras. Sancionado pelas instâncias superiores.

supérfluos. BISPA SNYDER – Quase todos. Todos sorriem longamente. desordem e violência. Nesse tempo de humanidade desumanizada. Toda essa gente aí fora: Eles são os nossos compradores! Dirigindo-se aos outros: É incrível. é eminente -. TODOS – Não há outra saída! MAULER – E também precisaremos reduzir os salários! TODOS – É o ovo de Colombo! MAULER: Qual o objetivo dessas medidas? Nesta noite de sangue e confusão. Vê que são eles os compradores! Seja como for. Em que em nossas cidades os problemas não têm fim. Esta dificuldade pela qual estamos passando Está a ponto de ser superada. TODOS – Que solução simples! BISPA SNYDER. mas se o gado tem tão pouco valor Que pensam em queimá-lo. Elas trarão a calma e a ordem. O mercado foi saturado este ano. ou melhor: quase todos Mas é o único meio de salvar o sistema De vendas e compras no qual vivemos. Eu fico com a metade das ações. Seria muito importante. que deseja Fazer o bem. tem seus defeitos. E mesmo que muitos não compreendam. você não compreendeu A questão de fundo. aos fabricantes: Faremos uma fusão de suas indústrias Em um só monopólio. aos criadores : Escutem. criadores e industriais. que nós subvencionaremos Fartamente a sua missão que contribui Com a manutenção da ordem. Eles podem nos parecer inferiores. mas olhando bem Quem vê além das aparências das coisas. Miséria e fome. E é por isso que os preços caíram a zero. meus amigos! Eles cochicham. Será preciso demitir um terço dos operários: Também de mão de obra o mercado está saturado. queimar um terço do gado existente. para puxar os preços. Chapéus Negros. OS FABRICANTES – Que cérebro! MAULER. Eu compreendo o senhor.48 Que nós somos uma gente valorosa. E às vezes inoportunos. . Limitar o rebanho oferecido no mercado. pedindo a palavra: Perdão. não poderíamos Doá-lo àqueles que esperam lá fora E quem sabe utilizá-lo melhor? MAULER. mais ainda. Nós o faremos. Enfim. Em conjunto. Não tem outra causa a não ser Que há carne demais. nós decidimos. é lógico. Meter um freio à anarquia da criação.Pois eis Chicago outra vez agitada A greve geral. É preciso limitá-la. nesses tempos de desgraça? Pois serão necessárias medidas draconianas Que poderão parecer duras porque irão Derrubar alguns e. Elas impedirão que em sua brutalidade Um povo. É por isso. E que. Então. ofuscado. MAULER. quebre suas ferramentas E destrua assim seu próprio ganha-pão. é claro Que entre vocês estivesse Joana. . Eliminar o estoque excedente atual. Digamos: a maior parte. dizem. sorrindo: Minha cara bispa.

joguem as grandes redes! Eles saíram agora de sua última casa! Deus lançou sobre eles o frio! Deus lançou sobre eles a chuva! Eles terão de vir. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Tranquem as saídas. Nossos planos outra vez se impõem. Joana segue com o olhar os prisioneiros. olhar fixo na porta: Eles terão de vir. entrando precipitadamente – Escutem a boa nova! A greve que nos ameaçava foi sufocada. joguem as grandes redes! Sejam bem-vindos. Foram presos os sacrílegos que perturbavam a paz e a ordem! SLIFT: Podem respirar. para que nenhum escape! Eles estão a caminho. SNYDER – Abram as portas! A porta principal é aberta. Quando estão cegos e surdos. estão chegando! Daqui eles não escapam. Passam então os dois dirigentes operários escoltados por soldados. cantam. o mercado vai ser curado! Outra vez saímos do ponto morto E realizamos uma obra difícil. estamos prontos! Já estão chegando! A miséria os traz aqui como um rebanho! São obrigados a vir. Ninguém pode escapar: tranquem as saídas. Ela então ouve. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! XI NOS MATADOUROS EM FRENTE AO ARMAZÉM DAS FÁBRICAS GRAHAM Os matadouros estão quase vazios. Imóvel. MAULER: Abram agora a porta principal Aos homens cansados e cheios de preocupação. Quando perdem o trabalho. eles chegam até nós. Até nós. não deixaremos! Sejam bem-vindos. Os que aqui chegarem. UM DELES – E por que foram presos? . Passam apenas alguns grupos de operários. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Todo aquele que aqui entrar. Eles combateram Pelo pão dos outros. apanhem-no! Lazarentos e descalços.49 Cuja face por si só já inspira confiança. OS CHAPÉUS NEGROS. Nenhum deles tem chapéu. dois homens conversando. De sopa encham os pratos. UM DELES – Quem são eles? O OUTRO Nenhum deles Pensou só em si mesmo. Eles vêm até nós para chorar. Perseguidos sem trégua. chega e pergunta – Vocês viram passar três homens que vinham buscar uma carta? Ao fundo ouve-se gritos que se aproximam. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Vamos. a seu lado. JOANA. Toquem a música e nós mesmos Seremos os primeiros a nos sentar Para elevar nossos corações a Deus. Música de órgão. apanhem-nos! Sejam bem-vindos. penteados e carecas. Sejam bem-vindos. UM CORRETOR. As coisas retomaram o rumo que nos agrada.

OS JORNALISTAS – Vejam só. Não. UM DELES – O que farão com eles? O OUTRO: O salário deles é baixo e seu trabalho útil à maioria. que seguram bandeiras novas. Durante alguns segundos eu a vi distintamente. amparada por um policial. Nenhum come seu pão tranqüilamente. Joana se vira. As fábricas reabrem. Divididos em grupos estão os Chapéus Negros. carregando lanternas. Joana. O POLICIAL: Eis aqui uma sem-teto. Enfim o sucesso chegou E tudo acabou bem. não é ela. SNYDER: Quando nos jornais falarem de criminosos abatidos. As rajadas de neve a impediram de ver os soldados. pisoteados. Nenhum. JOANA – Os operários concordaram? OS JORNALISTAS – É claro. Recolhida doente Nos matadouros. Esta aqui não é das nossas. A greve geral fez água. à sua frente. Joana cai desmaiada. Nem é enterrado com decência. Deus outra vez se impôs. Todos perecem antes do tempo. JOANA. a sorte nos sorriu. Ou de malfeitores postos na cadeia. XII EM FRENTE AO ARMAZÉM DA FÁBRICAS GRAHAM Um grupo de operários entra. os jornalistas a interpelam. Um deles a derrubou com uma coronhada. Deixem ela aí no chão. UM DELES – Sempre será assim? O OUTRO – Não. entretanto. Lançados em terra profana. os açougueiros (fabricantes de conservas) os criadores e os compradores. esticando o braço com a carta na mão. você aí! As coisas deram errado. Aqui está! Seriam necessárias muitas como ela. como se ainda quisesse entregá-la: . Era uma velha operária. mas apenas para dois terços dos operários. Nos vales e nos cimos. E a carne vai subir. saiba que são eles. Ela veio daquele lado e aqui ela gritou para os nossos que as empresas municipais iriam decretar OPERÁRIOS Sim. Nós soubemos ser sublimes E vulgares quando necessário. Golpeados. Quando os soldados vierem a recolherão. o salário também. UM DELES – Por que não se ouve falar deles? O OUTRO O OUTRO greve. chega ao termo de sua vida. Em nós podem por fé. – Ela deve estar aqui. e a esta a polícia dispersou com o uso de força. Um grupo de pobres entra. Nenhum morre de barriga cheia. mas o justo se esconde. A decisão sobre a greve geral só chegou a uma parte deles.50 – O homem injusto atravessa a rua à luz do dia. foi reduzido em um terço. não é a nossa Madona dos matadouros? Hei. XIII MORTE E CANONIZAÇÃO DE SANTA JOANA DOS MATADOUROS Agora o templo dos Chapéus Negros está ricamente mobiliado. Seu último endereço Teria sido aqui.

também humanos! JOANA. OS CHAPÉUS NEGROS: No final. na noite. A vida tranqüila de um cordeiro. quais os gritos que abafas? Comei vossa sopa! E não desperdiceis esse resto de calor. eu poderia levar. Quando o meu esforço. Consoladora dos baixios! JOANA: Que vento sopra nesses baixios? Neve. Por uma boa causa. Eu faltei. Quando se poderia ter alterado o curso das coisas. infelizmente. enquanto as moças dos Chapéus Negros a vestem novamente com o uniforme: Ouve-se outra vez o rugir das fábricas: Outra vez se desperdiçou a chance De colocar um freio a esses excessos. E tinha sonhos para milhares. E outra vez o mundo Percorre o antigo ciclo. Pelo contrário. E eu não fiz! Enquanto os pobres tomam assento nos bancos para comer a sopa. Vós. intercedendo pelos pobres e mesmo proferindo discursos contra nós. Eu falhei com os perseguidos. empregando todos os meios. dirigindo-se a Joana: Como ela ainda está perturbada. Ela que. um serviço tão pequeno Foi só o que em toda a minha vida Me pediram para fazer. MAULER: Uma alma que exala sublimes impulsos Suporta mal. MAULER: Que tome posição em nossas fileiras Esta alma inocente e cândida E que sua bela e pura voz Misture-se aos cânticos de nosso coro. BISPA SNYDER: Levanta-te. Slift discute com Snyder e com os fabricantes. Ela será a nossa Santa Joana dos Matadouros.51 Jamais receberá a carta Aquele que agora está morto. Vamos colocá-la em destaque. E seus erros. Nós faremos dela uma santa e não economizaremos em homenagens. Ela vai muito adiante. E em sua marcha altaneira Para evadir-se ao mundano. pois ela nos ajudou a atravessar a tormenta dessas semanas difíceis. O ideal. por menor que fosse. marchava para a luz! Seus atos eram os de um ser humano. Chegou na hora certa. Joana dos Matadouros. dando provas de humanidade nos matadouros. Desta vida intolerável E atingir o inconcebível. toda a obra Onde o espírito não encontra. Mostrá-la entre nós provará o quanto nos importam os sentimentos de humanidade. Eu o neguei. E só servi aos perseguidores. Intercessora dos pobres. Matéria a sua altura . e ultrapassa o objetivo. sua térrea natureza. JOANA: Eu falei em todos os lugares. Foi necessário. Se eu apenas tivesse entregue A carta que me confiaram! OS CHAPÉUS NEGROS. Que Joana exorcize o mal E que por nós ela interceda. SLIFT – Esta é nossa Joana. o infinito. a quem não se pode mais explorar! Comei a sopa! Ah.

A essas tropas indispensáveis. ignora-se o que se passa em baixo. dois pesos e duas medidas. Eu vos digo: Quando chegar a vossa vez de deixar esse mundo. O que está em baixo tem grande importância. Mas nada mudará se eles melhorarem. Porque o sistema é construído assim: É apenas exploração e desordem. que significam Se não se manifestam em nenhum lugar? De que serve vosso saber Se o que sabeis não tem conseqüência? Eu mesma. o que foi que eu fiz? Nada. E sem descanso nem folga Realize seu dever. a Joana: Seja boa e se cale! . No topo e no chão. então. OS FABRICANTES: O resultado. Maldito aquele que apelar A essas massas essenciais Mas sempre insaciáveis. Se não for uma ajuda real. fique no lugar Que lhe é atribuído. como do topo. E o que se passa no alto. de maneira a encobrir a voz de Joana: Para que até o céu se levante o edifício. Não esqueçamos que ela esteve nos matadouros. JOANA: Pois entre os de cima e os de baixo O abismo é mais profundo Que entre o Himalaia e o fundo do mar. Contrário à razão. Quaisquer que sejam as aparências. Sistema bestial. para os exploradores. Que cada um. OS CHAPÉUS NEGROS. eu não transformei nada. Precisa-se do chão. Entre os do alto a baixeza é sem limites. JOANA: É uma grande verdade Que aprendi e que vale para todos E morrendo eu vos digo: Vossos bons sentimentos. Mas que não sabem o quanto. Mas também no alto. caí do céu! Infelizmente! Bondade sem conseqüência! Sentimentos Que não fizeram a menor diferença! Não. Que nada seja considerado como boa ação. Eu. qualquer que seja. Nunca se sabe em baixo. GRAHAM – Ela não pode proferir discursos que não sejam razoáveis. O que está em cima está em seu justo lugar. Deixando sem medo um mundo por onde passei muito rápido. é magnífico Sempre que espírito e negócios se aliam.Isso não basta – Deixai um mundo bom. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES. falando alto. Pois se dele esquecer Perturbará nossa harmonia. Que ninguém seja tido como honrado. A esses elementos dos baixios! JOANA: Mas os que estão por baixo são assim mantidos Para que os de cima lá continuem. E dois idiomas diferentes Os homens têm a mesma face E não se reconhecem mais. Não tenhais a preocupação de terem sido bons . Exceto aquele que muda o mundo Definitivamente: isso é o que é realmente necessário.52 Resta fragmentada Sem alma e sem vida.

mas que seja bem alto. tudo concedei! Hosana! Concedei-lhe a cidade e o Estado! Hosana! Aos vencedores. Do qual podeis esperar ajuda. para abafar o discurso de Joana. de esquecer os remorsos. BISPA SNYDER – Joana Dark. comerciantes. Só dos homens pode vir ajuda. MAULER: Deves agir. Não. Sempre necessário . JOANA: Se alguém um dia vos disser Que existe um Deus. Em suas compras. sempre mais alto. Todos. Precisarás deles sempre! OS CHAPÉUS NEGROS: Olha para cima. Sempre se metamorfoseia. é verdade. JOANA: E do mesmo modo. Que podeis elevar-vos moralmente Mesmo com os pés enfiados na lama. vinte e cinco anos. sobretudo. distingam com um sinal! Hosana! Enquanto eles cantam os versos. A palavra de Deus. Não esqueçam. Chegar ao topo implica Pisar na cabeça daqueles que estão por baixo. É preciso também golpear-lhes o crânio com uma pedra. invisível. Falem. OS AÇOUGUEIROS: Podes fazer qualquer coisa! OS CHAPÉUS NEGROS: Mas faça-o Sempre com muito escrúpulo! Espírito contemplador. digam qualquer coisa. obedeça! OS AÇOUGUEIROS: Quem se mover no espaço Nunca poderá subir: Subir é subir sobre alguém. cantam a primeira estrofe do hino. Denegrindo a ti mesmo. ferir! OS CHAPÉUS NEGROS: Nunca esqueças do sangue que mancha teus sapatos. Não esqueças: tua consciência está lá! Atenção. Aos ricos concedei a riqueza! Hosana! Também a virtude. os alto-falantes começam a transmitir notícias que espalham o medo: “Bank of America e Citibank estão de pires na mão” “Revolta contra os cupins financeiros conflagra Londres” “Múltis drenam do país US$ 3. contraiu a serviço de Deus uma pneumonia nos matadouros de Chicago. OS AÇOUGUEIROS: E nem pensa em tirá-los. Onde reina a violência Não há outro recurso senão a violência.Sobretudo se forem compras especulativas – Esse Verbo que. Combatente e mártir. Onde vivem os homens. a eles concedei! Hosana! A quem tudo possui. Mas evita. ou seja.266 bilhões só em dez dias de março” “BC assalta U$ 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street” “Montadoras almoçam os R$ 8 bi do crédito e mantêm ameaça de demitir trabalhadores” “Deficit dos EUA deve chegar a US$ 9 tri entre 2010 e 2019” . Batei com uma pedra em seu crânio Até que arrebente. O Verbo magnífico. SLIFT – Escutem. é preciso fazer algo para tirar a atenção do que ela fala. de século em século.53 É preciso. infelizmente. quando vos disserem.

Aos astros. Hosana! Durante esta estrofe.” “Foram os especuladores de grãos que encareceram o gado. vinte e cinco anos. Bolsa de NY cai 4.7%” “Crise já eliminou 6 mi de empregos nos EUA” “Incertezas rondam fábricas da GM à beira do fechamento” Sob o efeito dessa terríveis notícias os personagens trocam entre si acusações e diversos insultos como esses: “Açougueiros sujos. por que criaram tanto gado?” “Alucinados. que manipulam o dinheiro a rodo. levanta e vira. Hosana! Nesses braços que vos estendem. Nós que temos a alma comum! E então desperta a boa alma Que temos no fundo de nosso coração. Todos ficam muito tempo de pé. MAULER: Como a pureza De um ser inocente.54 “Empresas dão calote recorde para remunerar seus acionistas” “Recessão ainda irá se agravar no Japão. Hosana! Que seus crimes terminam bem. Hosana! Oferecei a vossa graça. Comove-nos profundamente. Hosana! Ajudai a quem tudo possui. sempre ele aspira Às esferas mais elevadas. O palco é iluminado com uma luz rosada. Hosana! Piedade com aqueles que ignoram a fome. Infelizmente. Colocam a bandeira em suas mãos. foram vocês que se recusaram a reduzir também!” “Vocês são os únicos culpados!” “Enquanto não acabarem com vocês não vai melhorar!” “Faz tempo que o destino de vocês está selado!” “O que estão esperando para prender vocês?” Todos cantam a segunda e a terceira estrofes do hino. ao firmamento Um impulso múltiplo o atira. A um sinal da bispa. sinto-me atraído: . A voz de Joana já não se ouve: Concedei aos ricos misericórdia. Snyder e Mauler vão até ela. diz governo ” “EUA mudam socorro para bancos. BISPA SNYDER – Joana Dark. mas ela cai. Não dá mais sinais de vida. A generosidade De uma alma sem mácula. tocada pela morte. Hosana! Notam que Joana para de falar. Por um nobre ideal. Hosana! Com mãos cheias. Um desejo vive no coração do homem. na terceira vez ela o pega. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES: Desde que o mundo é mundo. a serviço de Deus. combatente e mártir. para sua grande pena. que vos ajuda também. Ajudai vossa classe. Qual um punhal. Em duas tentativas ela recusa o prato. se não tivessem degolado tantos porcos!” “Criadores miseráveis. Hosana! Juntai vosso riso aos que riem. MAULER – Dêem uma bandeira a ela. A carne para a terra o arrasta! MAULER: Ai! Um duplo desejo dilacera meu pobre coração. as mulheres tentaram oferecer a Joana um prato de sopa. morta de pneumonia nos matadouros. até cobri-la totalmente. Em seguida cai nos braços delas. colocam-se suavemente todas as bandeiras sobre Joana.” “Os bancos nos arruínam com os juros que exigem!” “Quem pode pagar tanto dinheiro para estocar o gado e pelos silos de grãos?” “Por que vocês não começaram a reduzir a produção?” “Nós começamos. por que não empregaram mais gente e pagaram melhores salários? Quem esperam que compre a nossa carne?” “Foram os intermediários que fizeram subir tanto a carne de gado. Hosana! Esmagai o ódio.” “Foram as tarifas das estradas de ferro que nos esfolaram. mudos de emoção. até o fundo cravado. Pelo espírito.

como de tua alma vil. Ele precisa cuidar de ambas. Cuida de tua alma terna. desejo o altruísmo Mas à atração pelo lucro. Cuida bem das duas! . Longe de querer escolher uma delas. como de tua alma grosseira.55 Desejo a abnegação. Homem! Luta sempre contigo mesmo! Sigas sendo este ser uno e sempre dividido! Cuida de tua alma boa. não consigo resistir Inexplicavelmente! TODOS: Em cada homem habitam Duas almas opostas.

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