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I O rei da carne, Pierpoint Mauler, recebe uma carta de seus amigos de Nova Iorque CHICAGO. OS MATADOUROS
MAULER,

lendo uma carta. – “Parece-nos evidente, caro Pierpoint, que já há alguns dias o mercado da carne está saturado. E, no sul, as barreiras alfandegárias resistem a todas as nossas ofensivas. Acreditamos, portanto, ser prudente, querido Pierpoint, não mais envolver-se com este negócio...” Acabo de receber essas indicações de meus bons amigos de Nova Iorque. Lá vem meu sócio. Ele esconde a carta. CRIDLE – Por que esse ar tão sombrio, querido Pierpoint? MAULER: Lembra-te, Cridle, daquela caminhada Que fizemos uma vez, pelos abatedouros? Era noite. Diante de nossa máquina nova, Cridle, lembra-te, nós vimos um touro Claro e nobre, dirigindo aos céus seus grandes olhos vazios. Ele recebeu diante de nós o golpe que o abatia: E tal golpe me atingiu até o fundo do coração! Há sangue demais, Cridle, em nosso negócio! CRIDLE: Amigo, vens outra vez com tua antiga fraqueza. Quem acreditaria, Pierpoint? Tu, o maior de todos, O rei dos abatedouros, dos açougueiros o terror, A morte de um touro louro te enche de dor! Não conte, eu te rogo, tal segredo a ninguém A não ser a mim! MAULER: Oh, meu fiel amigo, Por que me levaste a visitar o abatedouro! Durante os sete anos em que estou no negócio

Eu evitei fazê-lo. Eu não posso suportar Um comércio tão sangrento, não tenho mais forças: Eu me retiro de imediato... Cridle, queres a minha parte? A terias por muito pouco; a ti, a preferência: Ninguém conhece o negócio como tu. CRIDLE: Muito pouco? Quanto? MAULER: Velhos amigos como nós dois Não podem disputar muito por valores. Dez milhões! CRIDLE: Não seria caro, se não houvesse Lennox Que, pela carne em conserva, lata a lata se bate, E estraga o mercado com seus preços baixos. Tirará nossa pele, se não tirarmos a dele. Enquanto ele estiver em pé, e só tu podes abatê-lo, Não posso aceitar tua proposta. Deverás, até lá, com tua mente fértil, Encontrar uma saída. MAULER: Não, Cridle, Esse coração treme ainda com o grito do touro! É preciso então que Lennox caia rápido, Pois quero, doravante, viver como homem de bem E não mais como açougueiro. Saiamos, Cridle, e eu te direi A forma de abater Lennox. Mas tu deverás então tirar esse peso do meu coração E tomar a frente de nosso negócio CRIDLE: Quando Lennox for derrubado Eles saem. II

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O desmoronamento das grandes indústrias da carne A - DIANTE DA FÁBRICA DE ENLATADOS DE LENNOX
OS OPERÁRIOS

Nós somos setenta mil Nessas fábricas de conservas E nossos salários são tão baixos que não podemos mais [sobreviver. Ainda ontem, de surpresa, reduziram nosso pagamento E hoje, um novo aviso: “Os que não estão satisfeitos, sempre podem deixar a fábrica!” Saiamos então, e todos juntos. Ao diabo esse salário que diminui todos os dias. Silêncio Há muito tempo já esse trabalho nos nauseia: Esta fábrica é para nós um verdadeiro inferno E só pode nos manter aqui o medo, O medo duplo, de Chicago e do inverno. Mas agora, doze horas de trabalho Já não garantem nem um pão seco Nem dão para comprar um trapo velho. Melhor partir E morrer de uma vez. Silêncio Pelo que nos tomam eles? Acreditam então Que nós somos gado, dispostos a tudo? Tomam-nos por jumentos? Melhor morrer! Deixemos a fábrica Agora mesmo. Silêncio O que houve? São seis horas! Por que não abrem, corja de esfoladores? Seus bois estão aqui, bando de açougueiros! Abram! Batem no portão.

Terão eles nos esquecido? Risos. Abram! Queremos entrar Em suas imundas pocilgas E suas cozinhas infectas Para preparar guisados indigestos Para os que ainda podem pagar. Silêncio No mínimo exigimos, O salário anterior, que já não dá para nada. No mínimo A jornada de dez horas e, no mínimo... UM HOMEM QUE PASSA: O que vocês estão esperando? Não sabem que Lennox fechou? Gazeteiros de jornal aparecem na cena GAZETEIRO – Lennox, o rei da carne, forçado a fechar suas fábricas! Setenta mil operários na rua. Lennox vítima da concorrência feroz imposta por Pierpoint Mauler, rei da carne e da responsabilidade social!
OS OPERÁRIOS

Desgraça! O próprio inferno Diante de nós fecha suas portas! Nós estamos perdidos. O impiedoso Mauler Aperta a garganta de nosso explorador E somos nós que sufocamos! B - UMA RUA – A Tribuna de Chicago, edição do meio-dia! O rei da carne e da responsabilidade social, Pierpoint Mauler vai inaugurar os Hospitais Pierpoint Mauler, os maiores e mais caros do mundo! Dois transeuntes olham para o fundo do palco, “vendo” Mauler. UM TRANSEUNTE, ao outro – Aquele é o Pierpoint Mauler. Mas quem são os dois que o acompanham?
GAZETEIRO

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– Seguranças. Só anda escoltado, com medo de apanhar de alguém.
O OUTRO

Para levar Deus ao coração de um mundo que desaba E nele restaurá-Lo, pela ação dos mais humildes. Os Chapéus Negros andam. Toque de tambores. Durante todo o dia os Chapéus Negros pregaram nos matadouros, mas, quando a noite chegou, os resultados eram quase nulos. DIANTE DA FÁBRICA DE CONSERVAS LENNOX – Dizem que eles estão preparando um grande golpe sobre o mercado de carne. Para nós isso que dizer esperar e passar fome. OUTRO OPERÁRIO – A luz está acesa nos escritórios. Estão lá, calculando os lucros. Chegam os chapéus Negros. Fixam no chão uma placa na qual se lê: “Hospedagem: 20 centavos por noite. Com café: 30 centavos.” CHAPÉUS NEGROS cantando Escutem todos, escutem bem! Tu que te afundas, nós te vemos, Teu apelo por ajuda, nós o escutamos, Teu sinal, nós o percebemos. Parem os carros, detenham o trânsito Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Tu que te escondes, tu que duvidas, Olha para nós! Olha, Meu irmão, antes que sucumbas! Nós te damos o que comer E nós não esquecemos Que tu não tens abrigo. E, sobretudo, não digas que tudo está perdido: Tudo será diferente, a injustiça nesse mundo Não poderá durar se todos se juntarem a nós, Marchando ao nosso lado Com o único objetivo de ajudar o próximo. Nós faremos avançar os tanques e os canhões
UM OPERÁRIO

Para levar consolo aos miseráveis dos matadouros, os Chapéus Negros deixam a sua sede. Joana empreende sua primeira descida às profundezas. C - EM FRENTE AO TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS
JOANA,

à frente de um comando dos Chapéus Negros: Nesta noite de sangue e confusão, Nesse tempo de desordem organizada, De arbitrariedade consentida, E de humanidade desumanizada, Nesse tempo em que em nossas cidades Os problemas não têm fim; Nesse mundo, imenso matadouro, Em que nos chegam rumores de violência iminente; Para impedir que, em sua brutalidade, O povo, ofuscado, quebre suas ferramentas E destrua assim seu ganha-pão, Nós queremos reintegrar Deus Pois aos lugares onde realmente vivem os homens Ele não mais tem acesso: Sua glória anda pouca, Seu nome, já quase suspeito. Dos mais humildes, entretanto, ele é a única salvação! Então nós resolvemos Por ele bater nossos tambores nesses bairros; Para que ele penetre no coração da miséria E que sua voz retumbe pelos matadouros. Aos Chapéus Negros: O que faremos agora é uma última tentativa. Pela derradeira vez, nos esforçaremos

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Nós lançaremos ao mar os navios de guerra, E nos ares, os aviões Para conquistar teu pão, meu irmão. Porque vós, os pobres, formais Nesse mundo um imenso exército. Vós que nos escutais Não esperai o amanhã! Desde hoje ajudai, Ajudai ao próximo! Avante! Ao assalto! Empunhai vossos fuzis! Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Cantando, os Chapéus Negros começam a distribuir seu jornal: Apelo às Armas, bem como colheres, pratos e sopa. Os operários agradecem e põem-se a escutar o discurso de Joana. JOANA – Nós somos os soldados do bom Deus. Por causa dos chapéus que usamos, somos também conhecidos como os Chapéus Negros. Nós dizemos que somos soldados, porque formamos um exército e porque, em todos os lugares em que vamos, precisamos lutar contra o crime e a miséria, contra as forças que tendem a nos aviltar. (Ela mesma começa a distribuir sopa) Bem, agora comam esta sopa quente e constatarão que depois vocês verão as coisas com um olhar diferente. Pensem agora qual esperança se pode fundar sobre a felicidade terrena. Nenhuma, absolutamente nenhuma. A desgraça vem como a chuva: ninguém a provoca, mas, entretanto, ela vem... Suas desgraças, digam-me de onde vem? UM DOS QUE COMEM – De Lennox & Cia. JOANA – O senhor Lennox tem talvez mais preocupações do que vocês! O que vocês estão perdendo? Ele, suas perdas se contam por milhões. UM OPERÁRIO – Carne não há nesta sopa, só uma aguinha clara, isso sim. Mas quente, pelo menos, está. OUTRO OPERÁRIO – Fiquem quietos, bando de glutões! Escutem a palavra de Deus! Senão vão tomar o prato de água quente de vocês.

– Silêncio! Queridos amigos, digam-me: por que vocês são pobres? UM OPERÁRIO – Sei lá! Explique você! JOANA – Eu lhes direi. Não é porque vocês não estão cheios de bens materiais – que não chegam para todos – mas porque vocês não têm idéia dos valores mais elevados. É por isso que vocês são pobres. Esses gozos vulgares aos quais vocês aspiram, comer um pouco, ter um bom lugar para morar e ir ao cinema, não são mais do que prazeres frívolos, grosseiros. Enquanto que a palavra de Deus é um prazer mais delicado, mais profundo e muito mais refinado; talvez vocês não possam nem imaginar algo mais doce do que o chantili, mas a palavra de Deus é ainda mais doce. Homens de pouca fé, os pássaros no céu não têm carteira de trabalho, as açucenas do campo não têm emprego e, entretanto, como eles cantam Sua glória, Deus lhes dá alimento. Nós, os Chapéus Negros, fazemos então a vocês uma pergunta muito prática: de que um homem precisa para crescer na vida? UM OPERÁRIO – Um colarinho engomado. JOANA – Nada disso. Para progredir na terra talvez seja necessário um bom colarinho, mas diante de Deus é preciso muito mais que isso, outras glórias. Vocês aos olhos Dele, nem mesmo um colarinho puído têm, pois deixaram suas almas no abandono. Mas então como vocês querem elevar-se, chegar ao que vocês, em sua ignorância, chamam de uma “situação melhor”? Pela força bruta, pela violência? Como se algum dia a violência tivesse trazido alguma coisa além da destruição. Vocês acham que mostrando os dentes conquistarão o paraíso na terra. Mas eu lhes digo, agindo dessa maneira o que se cria não é o paraíso, mas o caos! Um operário chega correndo. O OPERÁRIO: Uma vaga, agora mesmo, acaba de abrir! Um trabalho, um salário, esperam por vocês, Na fábrica número cinco! Que mais parece uma latrina. Corram, rápido. Um operário larga seu prato cheio e sai correndo.
JOANA

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– Ei, você, onde é que você vai? Quando se ocupará de Deus? Vocês não querem nem ouvir falar, não é? UMA MOÇA DOS CHAPÉUS NEGROS – Acabou a sopa. OS OPERÁRIOS: Acabou a sopa; Era só um caldinho ralo Mas era melhor do que nada. Todos se viram e se levantam. JOANA – Fiquem sentados; acabou, mas que importa, uma vez que a grande sopa celeste não se esgota nunca. OS OPERÁRIOS: Quando, afinal, vocês Abrirão as portas de seus porões, Carniceiros, mercadores de carne humana? UM OPERÁRIOS: Com o quê, agora, pagarei A casa pequena e úmida, onde vivemos doze? Eu já paguei dezessete prestações, Mas a última, não conseguirei Seremos jogados na rua. E o chão de terra batida E nosso pedaço de grama amarela, Nunca mais os veremos, nunca mais, Nem tampouco respiraremos seu pestilento ar familiar. UM OUTRO OPERÁRIOS: Aqui estamos, em pé, nossas mãos como pás, E nossos pescoços fortes como tratores. Nossas mãos e nossos pescoços, queremos vendê-los Mas não há quem os compre. OS OPERÁRIOS: E nossas ferramentas - Gigantesca montanha de prensas e gruas – Estão trancadas, detrás desses muros! JOANA – E então, o que se passa? Quer dizer que já se vão? É porque já terminaram de comer? Adeus e obrigado. Mas por que então vocês escutaram até agora?
JOANA

– Pela sopa. JOANA – Continuemos. Cantem! CHAPÉUS NEGROS cantando Avante, entrai nessa luta! No coração da batalha lutai! Cantai com louvor, que cante todo o mundo. Ainda é noite, mas logo virá o dia, Raiando com todo o esplendor, E junto virá Jesus Nosso Senhor. UMA VOZ, do fundo do palco – Estão contratando nas fábricas de Mauler! Os operários saem. Fica apenas uma mulher. JOANA, com ar sombrio: Parem a música! Acabou a sopa, lá se vão eles! Seus olhos são incapazes de elevar-se Mais alto do que a borda do prato. Eles não crêem em nada além do que está Entre suas mãos. Acreditarão em suas mãos? Vivendo cada dia, cada minuto mesmo, Na insegurança, eles não são capazes De se esquecer das preocupações mais básicas. Nada, a não ser a fome, tem sobre eles qualquer influência. Nenhuma canção os toca mais. Nenhuma palavra pode Descer até eles e penetrar seus corações. Aos que a cercam: Parece que nós, os Chapéus Negros, temos por tarefa alimentar todo um continente com nossos poucos talheres. Os trabalhadores voltam. Ao longe, ouvem-se gritos. OS OPERÁRIOS, na frente do palco – Que gritos são esses? Um imenso caudal humano emerge dos abatedouros. UMA VOZ, do fundo: Mauler e Cridle também fecharam. As indústrias Mauler optam pelo lock-out! OS OPERÁRIOS, refluindo:
UM OPERÁRIO

Resultado para nós: barrigas vazias. pronto. onde se compram e vendem animais. Degrau após degrau. Estamos gelados e molhados e precisamos comer. Em um grande edifício: A Bolsa de Carnes JOANA: Eu vou até lá: Eu preciso saber. Enquanto corríamos atrás de trabalho. . Eles encherão tuas orelhas com seus gritos. a Joana – Vamos agora. O que comeste. JOANA III Pierpoint Mauler é tocado pelo sopro de um outro mundo EM FRENTE À BOLSA DE CARNES Em baixo. mora aonde? OS OPERÁRIOS: Lá. Eles têm apenas idéias vulgares na cabeça. ruídos da Bolsa. OS CHAPÉUS NEGROS – Então teu destino nos parece bem negro. Os Chapéus Negros se afastam. já que ele é a causa de tamanha miséria. São reles glutões Preguiçosos. O selvagem Mauler! De um tal monstro a investida É inexorável! A natureza. Quem abandona o lar protetor. UM OPERÁRIO. Jamais seus corações. E o frio supremo Rouba de seu coração todo o calor. No alto. que fogem do trabalho. Tu desaparecerás na lama! Pois a lama entope as bocas Que fazem perguntas sem prudência JOANA: Eu quero saber. na frente do palco: Desgraça! De todos os lados chegam ainda Torrentes infindáveis de homens! OS CHAPÉUS NEGROS. desce cada vez mais baixo. ele te revenderia. Uma multidão enorme e desesperada. por que correm de um lado a outro e não encontram trabalho? OS OPERÁRIOS: O sanguessuga Mauler e o muquirana Lennox brigam entre si. para ele. MARTA. Abrigaram sentimentos nobres. Oh Joana! Não te metas nas querelas terrestres! Pois quem nelas se envolve. torna-se. GRAHAM: E então. Todos haviam perdido o emprego E perguntavam onde achar trabalho. Torna-se mercadoria. quem é o responsável por tudo isso. Na insana esperança de obter uma resposta Que jamais chegará. JOANA – Quero saber. – Não. dos Chapéus Negros: Não vá te meter com estes problemas. os fabricantes de conservas Lennox e Graham discutem. Ele venderia o próprio ar. esse Mauler.6 No meio do caminho encontramos. meu velho Lennox. eu quero vê-lo. E vê esvanecer-se sua pureza original. Ao fazer mil perguntas. por favor. JOANA – Não! Eu quero saber (aos trabalhadores) Digam-me. Ao fundo. JOANA – Esse Mauler. Joana e Marta esperam. OS CHAPÉUS NEGROS – Pare! Não te metas com essas questões. Sua bondade perde rápido. presa. desde o dia em que nasceram. derrubou-te. antes. Recebemos mil respostas. Lennox está branco como algodão.

Um mercado aviltado.” CRIDLE : . O que fazer com ela? Ah. A nova técnica é muito engenhosa: O porco é colocado em uma esteira rolante Até o alto da fábrica. confessa. E agora. Todos me abandonaram. A Lennox: Estás perdido. ficarás com a fábrica Conforme está previsto nos termos do contrato: “No dia em que Lennox for eliminado. Estranho conselho! Eu te agradeço... MAULER : Lennox está de joelhos. este homem não é duro E nem ama o dinheiro. no último andar. Saibas. Pois caindo. acompanhado de seu corretor.7 De barracos miseráveis. Bem pensado. E se lhe jogas pedras na cabeça. Tão natural. Por si mesmo. JOANA. esta arte contrária à natureza. época maldita! Um comércio estrangulado por montanhas de conservas. o porco se precipita. chega Na lata que o espera lá embaixo. Instalar duas ou três dessas máquinas novas. para economizar Uma agradável soma em salários. até aqui me acompanhastes. que vira couro. até ele e. Fecho minhas fábricas. Agora vou limpar a minha fábrica. Bela invenção. com sua escalada. lutando. Ele terá medo. olhe para mim e de meu pescoço. E talvez chore..Joana. Que ele não saberia jamais trair seu instinto. e dorme mal à noite. Quando ele não podia absorver mais nada. não é verdade? GRAHAM : Muito bela! Mas e a lata. nele. Mauler. Nas facas. Lubrificar meus cutelos. Tira esta mão que me aperta e me estrangula. Batendo-se por sua conquista. ele extrai rendas. Tal qual dois grandes búfalos. Em dinheiro ele as transformará. CRIDLE: Muito bem. eu também te recomendei prudência. então. Primeiro perde a pele. Começa então o seu retalhamento. Lennox! Acabou a guerra de preços! Foste eliminado. que. Diga-lhe: Mauler. Marta. que viram escovas. cruzei a última fronteira. Espero que o mercado recobre a saúde.. Destroem com seus cascos o pasto que disputam. Depois seus pelos. Até chegar aos ossos. Gritaram-me prudência: Para eles. ele faz ouro.. MARTA – Joana. à Marta: Tu somente. Cridle. como vais reconhecê-lo? JOANA – Saberei bem reconhecê-lo. Vá.. Vocês mesmos. não achas? Ele se degola e logo. com voz suave. E assim. Cridle sai da Bolsa e desce até o palco. eu garanto. por conta de seu próprio peso. OS FABRICANTES DE CONSERVAS : Trata-se de saber quem agüentará mais tempo. E pensa nos velhos tempos. MARTA . Fizeram desabar os preços e destruíram seu negócio. O faro para o dinheiro é nele tão potente. surge de um grupo de fabricantes de conserva. De carne podre. sozinho. em salsicha se transforma. Ele não pode suportar A visão da miséria. moídos como farinha. no entanto. JOANA – Mas tu vieste comigo. Slift. ainda ontem florescente!. a cada fase.

devido à saturação do mercado. Veja se esse contrato diz uma só palavra sobre a crise. nada.. : Pepê! Isso não é um jogo! Não podes misturar Questões pessoais aos negócios! CRIDLE – Pois não. sem mais delongas. Hoje. cinco. Lennox! Toque-o! É uma lata de lixo. Repensar os dez milhões de dólares Que queres por tuas ações. até teu coração sabe ver longe! LENNOX : Eu gostaria ainda. É o máximo que posso fazer. é que meu coração se aperta Quando ouço mugir a criatura CRAHAM : Agora eu compreendo a grandeza de teus atos. elas cairão a 70. Cridle. É preciso então. as ações estavam a 390. LENNOX – Mauler.. Mauler.. E eu. tu me forças. Isso não é um contrato? Com um preço fixado? CRIDLE : Sim.. um contrato dos tempos de prosperidade! Mas e a crise? Ela não existe? Que posso fazer eu com um grande matadouro Se ninguém mais compra carne em conserva? Agora sei bem porque não podias Mais suportar a visão do gado morrendo: sua carne Não vende mais! MAULER : Não. Cridle. Ah! Pudesse eu estar liberado De um comércio tão bestial! Tenho. Ele sai. Joana fez um sinal a um segurança e lhe diz algumas palavras. mergulhado em meus negócios. Mas. LENNOX – Não. MAULER – Leia. Para pagar o que te devo. tenho dois mil empregados! CRIDLE – Mande-os ao cinema! Mas Pepê. MAULER : O quê? A soma está inscrita Claramente no contrato Tome. GRAHAM — Mauler. Tu me ofereceste a 320. MAULER . e onde eu conseguiria dinheiro para pagar tua parte? Eu estaria arruinado! MAULER : Já que me dizes isso. Não estava caro. A exigir meu dinheiro. Freddy! Quer dizer que tu me socas. Nada além.8 Sim. e tu tinhas um terço. CRAHAM : Toque-lhe o coração. Estou tão temeroso que chego a suar frio: seis dias. (faz contas em uma caderneta) Quando combinamos que tu sairias do negócio. se eu fizer isso. Pepê! Como quiseres. Lennox acabou. Lennox. Seis dias? Não. o coração torturado! Cridle se afasta. Pois eu proibirei Cridle De comprar-te uma única lata. isto é. eu precisaria jogar essas ações no mercado. de examinar Contigo. CRAHAM . Não pude imaginar seu fado.. veja Lennox. MAULER – Ai! GRAHAM — Viu? Ele tem um coração! MAULER : Então. como eu. sensível! Ele soca Mauler no coração. as ações caíram para 100. mas. Antes que quebres de uma vez! Creia-me. nosso contrato não é mais viável. se tu estás Realmente onde dizes. Mauler. então. olhe para mim. Mauler. então. seguindo-o com os olhos: Tive a ligeira impressão de que algo o atormentava.. Mas com ele acabaram Os bons dias do mercado.

Mas o que eles querem comigo? O SEGURANÇA — Afirmam que têm algo a dizer ao senhor. há algumas pessoas que querem lhe falar. Sim. é o que tem a cara mais ensangüentada. que eu sou Mauler. 43. JOANA. Para Joana:) Quanto recebes por dia? JOANA. etc. Vitelos. Que não é acusada de nada E que não espera o impossível de mim. suponho. Nada de choros. Slift ri. Ouve-se: Bois.. O SEGURANÇA — São membros da Organização dos Chapéus Negros. A Joana: Vós sois.É assim. que o sangrento Mauler. sobre outra questão. nem desses versos sentimentais Que eles adoram cantar. diga que não estou. respondam apenas Quando ele lhes perguntar. Dizem. cá entre nós. 55. o rumor da Bolsa continua. Graham sai. dirigindo-se direto a Mauler – O senhor é o Mauler! – Não sou eu. que a escória me chama – Despojou Lennox. MAULER . MAULER – Rindo. eu sei. e pôs em apuros Cridle que. não é homem de bem.9 O SEGURANÇA — Senhor Mauler. MAULER: O tecido é bem fininho e. o tecido não é grosso Nem é grossa a sopa. JOANA: Por que joga. Chapéus Negros. mas vocês não devem Perguntar nada. Creiam-me: esses são assuntos profissionais Que não vos interessam. 59. apontando para Mauler – O senhor é o Mauler! MAULER – Não. adoraria vossa opinião. O segurança vai ao encontro de Joana no outro lado do palco. MAULER – Como me reconheceste? JOANA: De todos. além da comida e do uniforme. . na verdade. O SEGURANÇA: Ele vai vê-los. – Vinte centavos. MAULER : Já ouvi falar dessa gente. Slift. MAULER : O que é esta organização? O SEGURANÇA — Eles têm muitas ramificações. (aponta para Slift) É ele! JOANA. que a sopa seja rala. não é notável? Já viste algo igual? Que trabalhem por nada e sem se lamentar? Não vejo em seus olhos nem medo da miséria Nem de dormir sob as pontes alguma noite. MAULER : A escória em farrapos.. hein? Não. Durante esta cena. MAULER : Está bem. Pretendo renunciar a esse negócio sangrento Logo que eu possa: renunciar sem retorno. Mais uma coisa: não diga. gente estranha. Diga-lhes que eu os receberei Mas que eles limitem-se a responder minhas perguntas. Senhor Mauler. JOANA. é ele. Porcos. seus trabalhadores na rua? MAULER. sem dúvida? Prontos para a violência. – É o senhor. Com ar invejoso. são numerosos e gozam de grande consideração nas camadas inferiores da população. Mas. a Slift: Que eles trabalhem por nada. São chamados de soldados do Bom Deus. em absoluto. O melhor para eles É causar em mim a impressão de gente honesta. Mas que nome curioso! Soldados do Bom Deus. Slift? (Enquanto isso. Pouco me importa o que esperam de mim.

vamos.. tomando-lhes o dinheiro que trazem consigo e dando-o a Joana. Ele fala com Slift em voz baixa. Seu rosto me agrada. um boi e fiquei tão comovido Que quis largar tudo. Ele se aproxima dos industriais. Eu os verei chorar um dia. Mas é uma gentileza.10 Pois eu vi – e isso vos interessará – Morrer. JOANA: Senhor Mauler. dêem! Corja de carniceiros! Ele continua mexendo nos bolsos deles para dar dinheiro à Joana. Diga-me que está certo E que isso te agrada. por que fechou os matadouros? Eu preciso saber. de resto. Dêem o dinheiro. O homem. Ele não é maduro ainda. Tome para os pobres. O mundo não poderá mudar se antes não mudarem os homens. MAULER: Eu tenho grande piedade pelos bois: o homem. minha filha.. A canalha. Dirigindo-se aos outros: Parece-me que fui tocado pelo sopro de um outro mundo. diga. confesso. Nenhum é inocente.. São. que com tal decisão As pessoas sofreram. Deverias. Mas. Eu sei. não creias que seja de boa fé. É bom. não me comove. Deixai disso. JOANA – Senhor Mauler. ele decidiu abater O rico Cridle. não é? JOANA: Não sei se o senhor fala sério. mas não digas nada. por favor. A parte – doze milhões – que eu tinha na usina. MAULER: É que adquiri o maldito hábito De disfarçar a voz. JOANA – Isso é uma gota no oceano. para o que pretendes fazer. Eu sei. Desculpe-me. Seu riso não me atinge. Não. Isso não é bom? E conforme vosso espírito? SLIFT : Vendo morrer o boi. Cedi por dez ao homem que vêem aqui. há pouco. Talvez por isso te ajude. Mas este mal era inevitável. MAULER: Poderia eu ir mais longe? Porque ele é sangrento É que eu tirei as minhas mãos deste imenso negócio.. O senhor não poderia realmente ajudá-los? MAULER: Repita por toda a parte: eu aprovo vossa ação. Melhor para ti que não os veja. eu sinto Que tu não gostas de mim. não me digas nada. aliás. no lugar do pobre animal. E desejaria que fossem mais numerosos. nos matadouros dizem que o senhor é o responsável pela miséria deles. tu também. Mas tendes consideração demais pelo destino dos pobres: Eles são maus. Embora já tenhas vivido mais de vinte anos. MARTA. Um instante. Isso não é bom? Os fabricantes de conservas explodem em gargalhadas. Senhor Mauler. dêem o dinheiro. pessoas extremamente más. Abandonar esta empreitada. Marta sai. Eles não têm mais trabalho. MAULER: Riam todos. isso de se retirar do negócio. Tamanha inocência!. sem nenhuma obrigação: Eu não sofro de insônia. . Eu também vou embora. São todos carniceiros. a Joana: Joana. ele é mau.

É o primeiro que nossos tambores desalojaram Das trevas da vilania. agora eu vou te mostrar Como eles são maus Essa gente da qual tens piedade. A Joana: Aqui está meu corretor. Estão ocupando inutilmente um cabide no vestiário. cheios de traições. é a escória. De saber o que queres saber. perderei meu emprego. em um jornal. Isso pode funcionar. mas não pudemos parar as máquinas a tempo. A Slift: Mal posso suportar a existência de seres Semelhantes a esta moça. e ele entrou na faca e virou toicinho. caiu. Slift e Joana contornam o muro de uma fábrica. já que agora ele está em embalado. sobre o qual se lê: “Fábrica de Conservas de Carne Mauler e Cridle”: O nome de Mauler aparece riscado. o que causa má impressão. JOANA. É preciso queimá-los. ele te fará ver algumas coisas. Azar. Se isso falhar . .E eu adoraria que não desse certo – Leve-a aos matadouros.) É uma pena. Aqui estão seu casaco e seu boné: pegue-os e façaos desaparecer. Semelhantes a bestas. E verás que tua piedade é descabida. JOANA — Eu quero vê-los. vendo Mauler se afastar: Este homem não é mau. assim como o seu boné. é o lixo do mundo. ficará com a vaga de Luckerniddle. o quanto antes melhor.. é pavoroso. Dois homens saem por uma portinhola. se quiser. este homem será mandado para os quatro cantos do mundo sob a forma de toicinho.. vestido com uma lata. IV O corretor Sullivan Slift mostra à Joana Dark como os pobres são maus: Joana desce às profundezas pela segunda vez BAIRRO DOS MATADOUROS SLIFT: Joana. e mostre a ela Como os pobres são maus e covardes. SLIFT: Em teu lugar não gostaria. Slift e Joana escutam.11 Chame ela de lado. que nada têm Além de seus vinte centavos por dia e seu chapéu negro. senhor Smith. Ele sai. dê dinheiro a ela. O amigo Pedaço-de-Toicinho não precisa mais dele. peguei para mim. a um jovem operário – Um de nossos homens. Mas volte aqui amanhã. E que não têm nenhum medo. ela poderá Aceitar sem pudor. e enrola o seu. e para mim. ele cairá bem. na caldeira. Sullivan Slift. em uma palavra. Responsáveis. Luckerniddle. por suas vidas miseráveis. (O contramestre volta para a fábrica pela portinhola. Mas seu casaco ainda está bom e isso também é uma pena. Diga “para seus pobres”. Entrego a você porque sei que é de confiança: se alguém encontrá-los em algum lugar. UM CONTRAMESTRE. enfim. é claro. O JOVEM OPERÁRIO – O senhor pode confiar em mim. faz quatro dias. Ele ouviu nosso chamado. Quando a fábrica reabrir você. Veja então o que ela compra. JOANA. e depois a siga. Se quiseres mesmo saber. vacilando: Estou me sentindo mal. SLIFT. saindo – Um conselho: não te metas com as gentes dos matadouros. Ele veste o casaco.

à cantina número 7. seu marido está viajando. Eu estou em uma situação muito ruim. isso não lhe parece muito brutal? SLIFT: Bem. É por isso que lhe fazemos uma proposta: note bem que. não diga mais isso. esperando por ele Mas ninguém diz nada. O JOVEM OPERÁRIO – Pode confiar em mim. Já não posso mais trabalhar como antes e só consegui emprego duas vezes desde fevereiro. me encontrará na cantina. pronto para encher a pança. Venha. SLIFT: Guarde essas coisas. SLIFT – Estamos dizendo que ele partiu para São Francisco. Vamos. DONA LUCKERNIDDLE – Quero saber o que aconteceu ao meu marido. se quiser me ver. SLIFT: Senhora Luckerniddle. Eu. Não procure mais saber o que se passou com seu marido e a senhora poderá almoçar.. Não tenho outro esteio. DONA LUCKERNIDDLE está sentada em frente ao portão da fábrica. No frio. senhora Luckerniddle. Joana e Slift seguem seu caminho.12 SLIFT: Aí está a vida como ela é. legalmente. passe-me logo teu cassetete. Eu ficarei aqui. Você poderá comer e lhe darei um dólar se disser à mulher de Luckerniddle onde conseguiu o casaco e o boné. saindo para o trabalho.. em nossa cantina durante três semanas. Joana e Slift prosseguem seu caminho. Esse salafrário se empanturra às nossas custas. de forma alguma. e vocês não querem que se saiba disso. O JOVEM OPERÁRIO – Mas senhor. (Ele pára o jovem operário. Senhora Luckerniddle: ele está viajando e. gratuitamente. na fábrica. que fizeram dele? Há quatro dias que estou aqui. todo o tempo. ao meio-dia. vou falar com ele. Eu tiro agora mesmo. Bando de açougueiros. Quando ele se aproximar. Eles chegam a uma cantina da usina e vêem diante de uma janela dois homens que olham para o interior. Aconteceu alguma coisa com ele aí. Mas existem coisas Que importam mais para ela. No ano passado me deixei seduzir pelos vinte centavos a mais que se ganha na fábrica de adubo. se você não está precisando disso!. Vamos cuidar para que essa seja a última vez. mesmo à noite. senhor. .) Onde você conseguiu este casaco e este boné? Estes são os pertences de Luckerniddle. lamentando-se: Faz já quatro dias que. e meu marido não sai da fábrica. lhes digo. Amanhã. SLIFT – Se é esta a sua opinião. então a senhora não pode aceitar a refeição que a fábrica lhe oferece. SLIFT. de qualquer modo. nós não somos. obrigados a fazê-la. Tenho a impressão de que você está prestes a cometer um ato impensado. DONA LUCKERNIDDLE: Agora inventam que ele viajou! SLIFT – Deixe-me dizer uma coisa. GLOOMB – O feitor está bem ali. JOANA: Ela nunca aceitará. DONA LUCKERNIDDLE – Não. diga-lhe que procura trabalho. ele não foi para São Francisco. Mas reflita bem. além dele. a Joana – Fique aqui. Verás então o que é essa gente. Por causa dele deixei minha mão na máquina de cortar chapas. (Ele vai em direção a Gloomb). DONA LUCKERNIDDLE: Eu quero que me devolvam meu marido. enquanto não o vir. Vinte refeições são muita coisa Para aquele que tem fome. Antes eu gostaria de fazer-lhe uma proposição interessante. para nós. ele me dizia: “Espere-me à noite com uma sopa quente!” Desde então não [voltou. é capaz de o meu quebrar já no primeiro golpe. fui trabalhar no moinho de ossos e adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. Slift volta para junto de Joana. E malditos sejam vocês Se lhe fizeram qualquer coisa! Slift caminha até ela. senhor. Precisará nos processar. é muito desagradável vê-la sentada aí. aquele que se acidentou? O JOVEM OPERÁRIO – Por favor. dizendo tolices.

. (Ele vai em direção a Joana. Talvez a vaga deste contramestre. Vai se perguntar como alguém pode contar histórias tão ridículas sobre esta máquina. JOANA – Quase tenho medo de continuar. E eis que ela nos precedeu. Os movimentos ficam menos firmes e pode-se prender as mãos nas serras. JOANA – Não há realmente como me arranjar outro posto? Ouvi dizer que o trabalho nesta máquina era perigoso para quem não resistisse ao trabalho muito pesado. já faz dois dias que eu não como nada. JOANA: Ela sentou-se ali... DONA LUCKERNIDDLE – É verdade. Seria vantajoso para você. O posto não é feito para gente fraca. Naturalmente você precisaria manter os ritmos de trabalho mesmo os dispositivos de segurança não sendo perfeitos. E é um trabalho que pode ser feito mesmo por pessoas como você. JOANA – A senhora já está aqui. Eu sou inspetor nesta fábrica. GLOOMB – Você enxerga bem? JOANA – Não. Slift cai na gargalhada e arrasta Joana. pode ser que mude de idéia. GLOOMB – Rápido então. e então eu teria. A maior parte dos trabalhadores a considera muito perigosa.. não sabia. Disseram-me que não tinha ninguém além dele. GLOOMB . JOANA – Vindo para cá ouvi dizer que aconteceu alguma coisa com o seu marido e que a fábrica é responsável. JOANA – Mas a senhora nem sabia que nós viríamos hoje. O posto que você ocupava na sua máquina continua vago e isto é muito chato. Adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar.) Você está procurando trabalho? JOANA – Sim. O que há para comer hoje? A GARÇONETE – Ervilhas. faremos isso amanhã à noite. no moinho de ossos. Ela correu até aqui e já nos espera. SLIFT – Gostaria de propor um meio de tirar-lhe dessa jogada. (Ao seu companheiro:) Pensei melhor. não muito fortes... estaríamos dispostos a reempregá-lo imediatamente. depois do que eu iria. Ali adiante. justamente porque você contou todas essas histórias a respeito de seus dedos. meu senhor.. por acaso. Tchau.. Se você. encontrasse alguém. por exemplo. desde hoje? DONA LUCKERNIDDLE – Não como nada há dois dias. DONA LUCKERNIDDLE – O que? Vocês pensaram melhor e estão retirando a oferta? Então eu não terei mais as minhas vinte refeições? JOANA – Me pareceu que a senhora se dava bem com seu marido.. há uma moça que está procurando trabalho. GLOOMB – Aquela moça ali? . e lhe daríamos até um trabalho mais fácil e melhor remunerado do que o antigo. No ano passado fui trabalhar na fábrica de adubo. SLIFT – Que pena. Você se surpreenderá ao ver como o trabalho é agradável. Apesar de tudo. DONA LUCKERNIDDLE – Sim. temi que amanhã ela viesse. É preciso que ele pague hoje mesmo por esse sistema desumano do qual ele é o feitor. Uma jogada dessas é melhor de se fazer à noite. Ela senta-se em uma mesa. A GARÇONETE – Se a senhora não for comer. GLOOMB – Posso confiar no que você está me dizendo? SLIFT – Sim. É um bom posto? GLOOMB – É um ótimo posto. O que mais verei? Eles entram na cantina. Não podemos perder esse safado.13 – Não tenho tempo. SLIFT – Leve você mesmo a comida a ela. Eu imaginava que ela iria resistir. DONA LUCKERNIDDLE. A senhora Luckerniddle está falando com a garçonete. DONA LUCKERNIDDLE – Espero uma pessoa que deve vir hoje ou amanhã. tem que se retirar. Ela não parece muito forte. Naturalmente seria muito bom se nós encontrássemos alguém para esse posto.. Joana procura um prato e leva à senhora Luckerniddle. GLOOMB – Nada disso é verdade. Desde fevereiro estou sem emprego. calculando – Vinte refeições. e então eu poderia.

como manda o costume. Desejas mostrar-me a sua imoralidade. O que tu me mostraste Não é a imoralidade Dos pobres: é a pobreza deles. e comerá sem levantar os olhos do prato. ao lado daquela mulher.14 – A senhora não quer esperar até amanhã? Se a senhora desistir de procurar o seu marido. e que já apodrece. verdadeira manteiga! Banha fresca do Kentucky! OS COMPRADORES: OS FABRICANTES DE CONSERVAS . a imoralidade deles? Ela teria. Mostrar-te-ei. como um animal. Joana? A imoralidade dela não tem limites! JOANA: E tu. A senhora Luckerniddle sente náuseas. preferido. saindo. acreditas que ele teria mostrado À mulher do morto a roupa que usava Se tivesse tido a chance de escolher? O maneta. posso comer aqui? SLIFT – Você só precisa sentar-se ali. então? O JOVEM OPERÁRIO – De um homem que caiu dentro de uma caldeira. DONA LUCKERNIDDLE – Ele foi para São Francisco. os sofrimentos que suportam Esses pobres sem moralidade. a vossos olhos contradiga Esta depravação que injustamente se lhes imputa. comprem nossas latas! Carne fresca e suculenta. mas não em uma loja. o preço era muito alto. (O jovem operário o esconde) De onde ele vem? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. Fatias de toicinho Cridle-Mauler! Carne de filé Graham. O JOVEM OPERÁRIO – Bom dia. Você só precisa perguntar a esse senhor. eu. JOANA: Porões e armazéns abarrotados de carne. SLIFT – Durante três semanas ela virá. Eu virei todos os dias. Continuar fiel à memória de seu marido. como muitas. Você a viu. Sua imoralidade é sem limites. SLIFT – E onde você comprou? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. V Joana apresenta os pobres à Bolsa de Carnes A BOLSA DE CARNES : Nós todos. E este jovem – em quem botaria fé Qualquer malandro -. ao garçom – Deixe meu prato. ninguém mais perguntará o que foi feito dele. Pois não há mais compradores! Do fundo do palco chega o jovem operário com seu casaco e seu boné. estamos vendendo carne! Compradores. JOANA E procurar por ele. e por mais justa que fosse. para colocar Ao abrigo da chuva. eu volto. Mas vinte refeições. tu me dizes? Sua pobreza também é incomensurável. Tão cara a ele. esta mulher. Dona Luckerniddle arranca o prato das mãos dela e começa a comer avidamente. como vós a explorais! Não vês que nem teto eles têm. (Dona Luckerniddle permanece em silêncio) Não pegue. SLIFT – E onde você conseguiu. Era seu único esteio. com que habilidade torna-te mestre dela! Esta imoralidade. DONA LUCKERNIDDLE. (Ele senta-se. Atrás dele:) Você tem um belo boné. Ela sai. certamente teria me prevenido Não fosse o preço a pagar por seu pequeno escrúpulo. Mercadoria invendável. Que sua miséria. Um certo tempo ainda. Ela se levanta e sai. Ele foi obrigado a vender sua cólera.

. SLIFT: E teus amigos de Nova Iorque. eles conseguissem Fazer cair de uma vez as taxas de importação. Nós estamos perdidos! OS CRIADORES: E nós. E graças aos perspicazes planos dos industriais da carne Nós conseguimos reduzir em um terço O preço do toicinho Cridle-Mauler. OS COMPRADORES: Nós compradores. Quando todos te seguem com olhos de lince Para ver o que fazes? Eu não teria cara. fabricantes. Engolindo nosso ouro junto com nosso grão. OS FABRICANTES: Graças aos avanços da técnica. E abrissem assim o Sul aos nossos produtos. Eu teria sobre as costas toda a carne! Idiotas. dia e noite nossas máquinas Ligadas no máximo: salgadeiras. A morte Despreza esse gado e fecha-lhe a porta. a visão da carne enlatada Causa náuseas. O que provocaria um movimento de alta. compradores. ao trabalho de nossos [engenheiros. A dar-se-lhes ouvidos Seria necessário agora deitar por terra Todo o cartel da carne E deixá-lo estagnado durante muitas semanas. Nós queremos vender a carne em conserva E ninguém a quer! E todos os nossos clientes. Nós não compramos mais nada! OS FABRICANTES: E nós. com nossos matadouros? Nossas fábricas estão cheias de bois. Do filé Graham. Temos diante de nós montanhas de latas. Frigoríficos entupidos de carne congelada. Quem comprará agora nosso gado? Os estábulos estão cheios De porcos e bois devoradores de milho Que eles devoram ainda nos trens que os transportam.15 E sobre as águas fez-se um grande silêncio De todos os compradores. Clamamos aos berros por um consumidor que não existe. O estômago do país. Aproveitem então. Não a agüenta mais. MAULER: E mesmo a faca os recusa. Saturado de carne em conserva. compradores. Comprem. Esperando até ninguém poder Mexer nem o mindinho! E eu. quase de graça. Nós iríamos perder o bonde! MAULER: E quando isso ocorresse! Terias a imprudência De tirar tua parte de tamanha miséria. caldeirões Convertem sem parar em latas de conserva As manadas mugidouras que pastam nos prados. em Nova Iorque. cozinhas e lojas Estão cheios até as bordas. Mas ninguém quer comprar carne enlatada. nenhum tinha dinheiro. Nas estações e nos pátios. cubas. A nós. os criadores. o que te escrevem? MAULER: Teorias. SLIFT: Eu riria se. E da banha de Kentucky. verdadeira manteiga. comprem nossas latas! OS COMPRADORES: E sobre as montanhas fez-se um grande silêncio E as cozinhas dos hotéis escondem a face E as lojas se desviam com horror Os atacadistas mudam de cor.

eu acabo de saber. Desde aquele dia. pálido como algodão. eu quero o meu dinheiro. Cala-se e aponta para o dedo para ti. Eu me propunha pagar-lhe vendendo uma parte das ações dele mesmo. Tu te desfazes de tuas ações? UM CORRETOR: A cento e quinze! OS FABRICANTES: Ficaste louco? Tua morte. ave de agouro. Quero apenas meu dinheiro e a paz de minh’alma UM CORRETOR – urrando.Há quatro semanas apenas eu assinei um contrato com Mauler. E vós soluçais nas saias de vossas mães. tu o retiras Do negócio e Cridle. Veio a baixa. olha para nós! Assim... Ele queria me vender a sua parte. nem que fosse por mais uma hora. Foste tu mesmo quem provocou o marasmo! Nossas latas agora não saem mais caro Que a areia dos mares. quem de vocês continuaria a me levar a sério nos negócios? Ora. mas um outro Quem joga a rede.16 . Para acabar com Lennox. na entrada da bolsa: Queda gigantesca das cotações na Bolsa! Venda maciça de ações. que se lançam sobre Cridle. provoca muitas outras! Lixo! Assassino! CRIDLE . MAULER: E por que matastes tanto gado? Açougueiros alucinados sois vós! Agora. Hoje os papéis de Mauler não valem mais dez.apontando para Mauler: Falem com ele! CRAHAM – colocando-se diante de Cridle: Não é Cridle. nesta conjuntura. ele vem realizando secretamente vultosas vendas de gado a preços baixos e provocou a queda das cotações que. Isso representava um terço do total das ações. antes de qualquer coisa. de toda a maneira. é que me levem a sério. Pois tu liquidaste. que estavam valorizadas. . e o conjunto das fábricas vale dez. que conspurca nosso ninho! Nós sabemos bem quem fez os preços caírem sem cessar Vendendo gado por baixo do pano. Não é de hoje que fazes tais manobras. por dez milhões de dólares. CRIDLE – dirigindo-se aos que o cercam:. MAULER: Açougueiros insolentes é o que sois! O animal torturado parou de mugir. ao invés de trinta. Voltai para casa. antigamente Mauler. mas três milhões. é o cartel da carne. Cridle? Levanta os olhos. estava acordado. É bom que ele seja nosso adversário. E exiges dele o pagamento sem demora. Mas somos atingidos pelo que lhe acontece. preferiu o vosso.investindo contra Mauler que lê o jornal: Traidor. MAULER – O próprio Cridle me confessou que está insolvente: se eu deixasse meu dinheiro com ele. todo teu estoque. Tumulto entre os fabricantes. OS FABRICANTES Essa gente não faz as coisas pela metade. Ele poderia exigir seu dinheiro quando quisesse. Carrega em sua queda as cotações de todo o cartel!. nós somos os peixes! O que querem arruinar. Falai que um dentre os vossos Não pode mais suportar o grito dos bois morrendo E aos mugidos deles. Cridle. então! OS FABRICANTES – a Mauler: Corre o boato que teu capital. Esses dez milhões são exatamente a soma que devo a Mauler – e ele a exige em vinte e quatro horas. OS FABRICANTES: O que significa isso. já vinham caindo. e ficando com as outras. ao fundo. que já se arrasta. Mauler! Fala. Cridle. o que desejo. a preço vil. OS FABRICANTES: Quando ages assim com Cridle.

seja quem for! Levantai o nariz de vosso prato. para comer? Pensai convosco mesmo: sempre será assim. Lançar ao mar os navios de guerra E nos ares.Nenhuma sequer! Silêncio. Uma mulher nos faz sinais de aflição. Meu chapéu. os aviões Para conquistar o pão dos pobres. Mauler. detenham todo o tráfego Em torno de vós os seres naufragam. Eu não quero que me vejam aqui. nós estamos perdidos! JOANA – Onde está Mauler? MAULER: Slift. JOANA . OS FABRICANTES: Oitenta e sete mil latas pela metade do preço. Ei. Uma explosão de gargalhadas toma a frente da cena. Não falemos mais de negócios. Com o único objetivo de ajudar o próximo. Avante! Ao assalto! Empunhem os fuzis! Diante de nossos olhos os homens naufragam. Graham.Pierpoint Mauler! Onde está Mauler? MAULER: O que é esse barulho de tambores que de súbito me envolve? E quem chama pelo meu nome Nesse lugar. não saia! Graham. com nossos bois Que hoje ninguém mais quer. Haveis então esquecido Os que esperam diante da porta E que esperam. mas rápido! OS COMPRADORES . mas rápido! OS COMPRADORES . o responsável Por esta catástrofe. com isso. Meyers. . E. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Escutem todos. Ouvem-se os tambores dos Chapéus Negros e a voz de Joana. Não esperem o amanhã! Cada um deve nos ajudar. Mauler. cem dólares pelo meu chapéu. MAULER: Por hoje basta. Durante esse período a batalha na bolsa continua. Para Illinois esse dia é um desastre! Vocês fizeram os preços subirem.17 Mesmo que tivésseis todos que mendigar. E ninguém se preocupa. Nesse mundo sempre reinará a injustiça. escutem bem! Um homem afunda sob os nossos olhos! Escutamos lá no fundo seu apelo por salvação. Eu quero meu dinheiro.Nenhuma sequer! OS FABRICANTES – Então. pois tenho outros projetos. pois preciso partir. meu chapéu. OS CRIADORES: Lennox já caiu! E Cridle balança! E Mauler. então. Estimularam-nos a criar bois. fiquem diante de mim. És tu. onde cada um revela Sua boca desnuda. olhos para ver? Ele é vosso irmão. seu cão. acompanhada de exclamações. Pois os bons nesse mundo Não formam um grande exército. Fazer avançar os tanques e os canhões. Ei-nos aqui. suja de sangue? Joana e Marta avançam e cantam o seu hino de guerra. E nós dizemos: é preciso ir sempre adiante. E ninguém se preocupa Não tendes. Os que nos escutam. ele retira o seu dinheiro! OS FABRICANTES: Oitenta mil latas a cinqüenta. Parem os carros. OS CRIADORES: Impossível vender um boi em Chicago.

os senhores se enganaram. JOANA – E qual a causa desta imoralidade no mundo? Poderia ser diferente? Se cada um é obrigado a rachar com um machado a cabeça de seu próximo para fazê-lo ceder seu pequeno pedaço de presunto e sua migalha de pão. Causais vossa própria queda! Bando de imbecis! OS FABRICANTES. avancem à luz do dia. existe também um poder de compra moral: o dinheiro. então em suas costas os bois começarão a mugir contra os senhores. As crises são catástrofes naturais. UMA VOZ. Inverno e verão nós dependemos do tempo: nós também estamos mais próximos do Deus de nossos pais do que os senhores. Mas nós lhes dissemos que é um imbecil. tereis a moralidade. que sentam nesse palácio. buscando desculpas. eles que nada têm? Senhores. como fazem em seus jornais. Traçam essas desconhecidas. nas favelas. Joana mostra aos negociantes os pobres (Luckerniddle e Gloomb) que ela trouxe. Se continuarem a agir assim. pois os que estão lá fora já não têm como comprar. os Chapéus Negros. Risos OS CRIADORES – Nós criadores não encontramos nestas palavras motivo para o riso. pobres e deploráveis imbecis. gritando: Por vossa especulação desenfreada. vocês. é lá que mora a imoralidade no estado puro e. Vossa imunda cobiça. que se dobram sob o fardo de suas penas. destinos inelutáveis. OS CRIADORES. nada além disso. Nos baixios. nesses lugares sombrios e secretos onde os senhores tratam de seu comércio. aí pelo mundo. MAULER. JOANA – Mas os senhores. a quem os senhores transformaram no que são. que os pobres não têm muita moral. CRIDLE OS CRIADORES: Como? Somos asfixiados e ninguém pode fazer nada? A causa de nossos males é a imoralidade De vossas armações escusas. como não seriam os valores mais elevados esmagados em seu coração? Sempre ouço dizer. as leis econômicas. Senhores. E os senhores.18 – Maldito sejas! Cridle sai. JOANA – Um homem de negócios também pode ser um bandido – dependendo do ponto de vista. e é verdade. todo-poderosos. nada querem saber da miséria que existe fora deste recinto. eu bem sei. e a quem não querem reconhecer como irmãos. Já me disseram o que os senhores fazem: manobras. tanto hoje quanto no dia do juízo final. e escute o que eu tenho a lhe dizer. OS POBRES – Ele é o responsável por tudo! Os fabricantes de conservas correm para socorrer Mauler. Mas se os senhores acreditaram que seus procedimentos permaneceriam ignorados. Silêncio! Não lhes agrada muito. Não tenham vergonha. replicando: Imbecis são vocês! Ninguém pode nada contra as crises! Bem acima de nós. Se os senhores continuarem tergiversando. e diante de Deus TodoPoderoso. Reparem então nestas gentes. Cujo ciclo pavoroso sempre recomeça. ao fundo – Pierpoint Mauler passou mal. acabarão tendo de comer sozinhos a carne que produzem. ver surgir a nós. Mas então eu lhes pergunto: de onde tirariam eles alguma moralidade. OS FABRICANTES: Água para Pierpoint Mauler! . são todos uns imbecis. a Revolução. seus mugidos serão testemunhos. em conseqüência. COMPRADOR. gritando – Afastem-nos! Ele desmaia. Aumentem-no. o salário. atrás de mauler – Fique senhor Mauler. imaginando que não virão à tona suas manobras. engodos e combinações para aumentar o preço da carne. que fazem subir o preço do pão e que fazem da vida um inferno onde os homens viram demônios. JOANA. em tom de reprovação Aqui estamos com nossos bois Que hoje em dia ninguém quer.

Eles o levantam. também ao preço de cinqüenta. Mauler. levai-o agora. E fome nunca se passa. Quem em seu seio habita Jamais será infeliz. levantai-me. e por vós mantidos Nesta pobreza. CRAHAM – A cinqüenta? MAULER – A cinqüenta! CRAHAM: Ele comprou tudo! Vocês ouviram: Comprou tudo! CORRETOR. nós nunca tínhamos visto. qual burros de carga. . levantando-lhe a cabeça – E os estoques? MAULER. SLIFT – Ele não abrirá os olhos enquanto não os fizerem sair. eles não. Além disso. meus amigos. eu compro! Escutai todos: Pierpoint Mauler compra! Que estas gentes tenham trabalho e que se afastem. E não basta que cerres as pálpebras Para que eles desapareçam. MAULER. MAULER – Agora. OS POBRES – Gente como essa. ao preço do dia. Compro. CRAHAM: Então! Não podes vê-los? No entanto foste tu. JOANA: É isso. tudo o que em oito semanas conseguirdes [fabricar. vos rogo. Eles.19 Um médico para Mauler! JOANA: Mauler. em 15 de novembro. eu vou falar. nós conhecemos. afastados dos bens indispensáveis. cumprimos nosso trabalho de [missionários. gritando em um megafone – Pierpoint Mauler reanima o mercado da carne. Invisíveis para vós. pelo menos cinqüenta mil toneladas de conservas. Nem mesmo do boi que esmaga espigas com seu casco! Em todo o caso. por favor. E lá. estão tão enfraquecidos. como eles sim. para eles inacessíveis. assume compromisso sobre a produção de dois meses. antes de partirmos. MAULER: Afastem-nos. Nós. No seio de Deus não há frio. voltando a si – Eles ainda estão aí? Eu suplico que os afastem. deitado no chão – Eu compro. vós me mostrastes a imoralidade deles. ao fundo. JOANA – E agora. A tal ponto dependentes de alguma comida E de um pouco de calor. de todos os estoques do cartel. cantemos: “Nunca faltará o pão.. eu. O cartel entregará a Pierpoint Mauler. Torna-se comprador.” OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Nunca faltará o pão Ao que dedica a Deus sua alma. Os que estão atrás. Eles parecem bem piores. Tu quem os reduziu à tamanha miséria. a contar de hoje. que mantendes longe de vós. OS FABRICANTES – Quem? Os Chapéus Negros? Quer que eles saiam? MAULER – Não. OS FABRICANTES – Ele comprou! Mauler comprou! MAULER – Ao preço do dia! CRAHAM. Aos pobres: Segunda-feira vocês terão novamente trabalho. E vós. Mas os dois que estavam ao lado dele.. Eu vos mostro agora a pobreza dos pobres. então Para querer fechar a boca do Bom Deus? Não se deve calar a boca de ninguém. Que viver assim pode mesmo afastá-los Da necessidade de um ideal. Mas quem sois vós. ao instinto animal. aí em cima. e reduzi-los À voracidade. o que fazeis? Vós me ordenastes não dizer uma palavra.

Não o deixaremos descansar Enquanto um homem precisar de ajuda. Recusa-se a engolir mais. SLIFT. nenhum. na Rua Lincoln. e diga se realmente todos podem ler em meu rosto? SLIFT – Ler o quê? MAULER – Ora! A minha profissão! SLIFT – Teu ofício de açougueiro? Diga-me. PEQUENO IMÓVEL COM DUAS SAÍDAS MAULER. os operários entrarão. VI A Captura dos grilos NA CIDADE CASA DO CORRETOR SULLIVAN SLIFT. ele não encontrará Um centavo. O estômago do país. a sabedoria triunfa. Pois ele pode vir em auxílio. Slift. Para tal negócio. OS FABRICANTES: Podem guardar sua carniça podre! Não estamos interessados em comprar.20 OS COMPRADORES: Este homem está ruim da cabeça. açougueiros infames! Enquanto vocês não dobrarem o preço do gado Não entregaremos um só grama de carne. Aqueles que dão o pão. então. O homem que o assinou não estava em seu juízo. dirigindo-se à Joana Aquilo que disseste e tua intervenção Causou-nos forte impressão. enfim do ponto morto! Confiança e concórdia estavam fortemente abaladas. entrada gratuita. E ele faz meter carne em latas Que ninguém comprará. Venham comigo procurá-lo Para que ele os tire do embaraço. Se estiverem muito necessitados. Contra a desrazão. Mauler. OS CRIADORES: Agora os preços subirão. Os fabricantes de conserva saem. Música a partir das 3 horas. Agora os senhores podem respirar. dentro da casa. Os patrões vão reabrir. não é. por que te impressionas com os discursos dela? MAULER: . saturado de conservas. JOANA: Saibam todos: estou de olhos em Mauler. ao criador: O que Mauler promete. Sábia decisão. de São Francisco a Nova Iorque. discute com Slift – Fecha a porta. Muitos criadores se transtornaram. Que carecem tanto uns como os outros? CRIADOR. liga as luzes e agora repara em mim. É preciso. E vocês precisam dela. Escutem: saímos. às duas horas. Nesse momento o mercado recobra a saúde. Nós estamos sob uma miséria atroz. As fábricas reabrem e as chaminés fumegam! Pois efetivamente é de trabalho. JOANA – Todos aqueles que se interessam realmente pela palavra de Deus e que querem saber o que ele diz e não apenas a cotação da Bolsa podem vir domingo à tarde assistir nosso ofício. Pois o contrato que acabam de ver firmado É apenas um pedaço de papel. aqueles que o recebem. Ele cumpre. seguidos dos criadores. Sua consciência já despertou. sabiamente acatada. Podem esquecer seu nome. Joana e os Chapéus Negros saem. cutucá-lo. pois nós também.

no entanto. SLIFT – Não queres comer um pouco de carne. Tudo isso são ainda meras desculpas O que temo não é Deus. Nós que aqui estamos. urrando. por mais externa e sem importância que ela seja.. E quando da onda emana uma voz Que nada tem de bestial. Esfolarmos uns aos outros friamente. (À parte:) Farei com que ele coma um filé muito mal passado. Nós e nossa corja.. lançar-nos-ão Ao chão como um peixe podre. Certamente porque essa gente trabalha a troco de nada. Levantar-se-ão com a aurora e por-se-ão em marcha. Agora. então? MAULER: O que vive abaixo e não acima De mim! Esses seres reunidos nos matadouros. SLIFT – E o que é. Não há mais consolo. Se nos apanharem um dia.. SLIFT: Em cidades como as nossas. Talvez depois de comer carne crua ele retome seus instintos. É outra coisa. retorna. Tão forte. não é? SLIFT – Come. meu caro Slift. a humanidade. MAULER: Sempre me pergunto por que essas tolices me afetam: Discursos plenos de utopias. Para estes que caem em nossos porões sangrentos. Ele se afasta e começa a grelhar um bife no fogão. qual onda. E dezoito horas por dia. Não conheceremos a morte em nossas camas. Por trás havia rostos selvagens. Esquecer todo o resto. por mais louca que seja. irei confessar-te Minha verdadeira opinião sobre nossos negócios: Comprar. Isso não pode mais perdurar. mas permita que eu te exponha simplesmente a situação. Tagarelice vazia e fácil. Não. A urrar de aflição. Então creio sentir Como um peixe aprisionado entre duas águas Pauladas na espinha. MAULER: Mas que dizem eles? Essas cidades São um braseiro jamais extinto Onde. talvez. E pense em tua situação: ela não é muito boa. Fórmulas tomadas ao coração.21 O que ela disse? Eu não ouvi nada. Que não sabem como passarão a noite mas. Sabias que tu compraste hoje tudo aquilo que pode ser colocado dentro de uma lata de alumínio? Meu caro Mauler. de onde se eleva uma cólera Que nos varrerá a todos. MAULER: Tu crês que eu deveria? Eu poderia. É sua antiga fraqueza que retorna. Há sempre boquirrotos que acham Que as coisas não andam como deveriam.. eles são muito numerosos. Máscaras da aflição. . que mais não vi. Onde o fogo arde embaixo Enquanto congela-se em cima. Seremos colados ao muro. pois desde essa manhã tu nada tens a ver com a morte dos bois. Slift. Sob a chuva e de barriga vazia. Eu deveria podê-lo de novo. SLIFT – O discurso deles te perturbou. vender e lutar sem parar. vejo-te mergulhado na contemplação de teu ser grandioso. Seu número aumenta a cada dia. um após o outro.. caro Pierpoint? Pense que agora podes fazê-lo sem peso na consciência. Para limpar esse mundo..

o Cartel te entregará mais cinqüenta mil toneladas a cinqüenta. SLIFT: Tudo depende de quem escreve a carta. Cairei. apesar de tudo.22 Primeiro compraste ao Cartel um estoque de vinte mil toneladas de conservas. votarão contra as tarifas aduaneiras.” SLIFT. eles me escrevem para comprar. SLIFT – Quem são. Não.. Então pode ser que. Ah. dizer-lhes Que ninguém era louco o suficiente Para comprar carne em conserva. Ah! Meu caro Slift. comprar carne. sim! Eu comprei carne. Ainda pela manhã. SLIFT – Tu deves fazer o que? MAULER – Comprar carne. Sim. Mas ainda há a carne Que no mercado liquidarão cem criadores Muito ávidos. muitos de meus concorrentes balançavam. os preços Subam? E nós acabaríamos. SLIFT – E o que escreveram. Nas semanas vindouras. eu estou perdido. eu não agi por razões vis. Mas esta mulher comoveu-me a tal ponto Que mal lancei os olhos. rir-me deles. MAULER: Corromper assim. continuando a leitura . então. hoje. Ou desencadear guerras. a não ser que golpeie Y Se ele golpear. de resto. Não é qualquer um que pode. Facilmente nascem guerras À custa de tais atitudes. escapando bem. Receberás. Milhares de homens sangram Por causa deste imundo dinheiro. . acredito. eu estou perdido! Esse é o meu fim. Slift. Mas não foi por causa da carta. é verdade. Escuta: X comete um roubo. Parece. Na carta que recebi de Nova Iorque essa manhã. Realmente eu não vejo sentido nesta carta. mais notícias. então? Mauler sorri. É coisa que também não se deveria fazer. MAULER: Tu compreenderás. de anunciar-te que nosso dinheiro começa a render seus frutos: muitos são aqueles que. qual Atlas. assim. caro Pierpoint. indicado. quando os preços estiverem em trinta. mas Y o surpreende. na melhor hipótese. eu comprei. SLIFT – E tu compraste! MAULER: Oh. safa-se.. Em quinze de novembro. esmagado. MAULER: Oh! Slift. Sob o fardo de toneladas de latas de alumínio. teus amigos de Nova Iorque? MAULER – Que eu devo comprar carne. Os preços baixarão novamente. essas teorias de gabinete. os preços cairão a trinta... sob os arcos de alguma ponte.“Estamos em condições. Essas pessoas são gente de bem? MAULER – É gente com liquidez. eu te juro. eu me escutei dizer: “Eu compro tudo”. deverás escoá-lo em um mercado que já não consegue absorver uma única lata. na Câmara. ou a vinte e cinco. Corromper ou abolir as tarifas. Estão erradas. amanhã. E uma vez lá. Tu as compraste a cinqüenta mas. eu comprei! O que eu fiz! Coloquei sobre minhas costas toda a carne desse mundo! Trôpego. O ladrão está perdido. Eu fui vê-los cair. Aqui está: “Caro Pierpoint. eu tenho a impressão De que nada de bom sairá daí. Essa seria uma saída. SLIFT – E por que reclamas de ter comprado? MAULER – Sim.

Pois. Retumbar de tambores. Nem a mim nem aos que me acompanham.23 Da mesma maneira a carta – que está errada – Requer – para acertar – um crime desta ordem. A operação é simples: seria preciso comprar Todo o gado que se encontrasse em pé. Traga-me até a menor mancha de gordura. Devo comprar ainda todo o gado de Sírius? É como se alguém viesse dizer a Atlas Que não mais agüenta. Senhor Mauler. Joana diante da porta da esquerda. SLIFT Tu que não querias mais comprar um chapéu. Mauler. quero paz em minh’alma. Compra então o nosso gado! MAULER: Fecha a porta. Mas então. é preciso que eu lhe fale da miséria dos criadores de Illinois.. (Ele calcula. e diga-lhes que quero refletir dois minutos. Ele pede-vos dois minutos de reflexão. dobrando-se sob o peso da terra: Saturno também precisa de apoio. todo esse gado? SLIFT – Vejo apenas Graham. Slift. diante da porta da esquerda – Enquanto os criadores não forem ajudados. Quando ele me ouvir cantar aqui. não sairemos daqui! MAULER – Tu dizes Graham? É verdade que ele precisa de gado? Saia. Eu fiz “A”. grandes lucros! É verdade que o ganho seria apreciável. eu estou comprando e compro ao preço do dia. Slift. para o outro lado. eu compro. tiver cem dólares no bolso. Lembrá-los de Lennox. No interior da casa. Não. Slift. para evitar me encontrar. Eu não compro mais nada. Antes de ter saído dessa. Slift? Não quero reencontrá-la e. nem chapéu nem sapatos.) Saia. como quem captura um grilo. ele se dirige à porta da direita. a cinqüenta. SLIFT. Agora. MAULER: É verdade.. Ele não gosta muito de me ver. Também trouxe alguns trabalhadores que adorariam perguntar-lhe quando o senhor reabrirá a sua fábrica. . é verdade. àquela gente que está com ela. não foi bom. em todo o Illinois. SLIFT – Por aqui. a partir de hoje. e tudo o que cheire à banha eu compro também.). eu não quero meter o dedo neste negócio. (Ela ri. JOANA. MAULER – A outra saída onde é. tentará sair pela outra porta. aos criadores – Pierpoint Mauler está examinando vosso pedido. OS CRIADORES. minha decisão está tomada. diante da porta da direita – Sai. E comprar-lhes tudo. então. depois. E por agora também não penso em reabrir a fábrica. de seus delitos. Slift sai. Que eles tirem. sobretudo. no fim. SLIFT – Não deverias ter comprado. Feliz se. com um porco ou com um boi. Isto é o principal: Sumir com o gado. de perto ou de longe. E nós somos.) Slift. eu não comprarei! Eu que já carrego toda a carne desse mundo. Vais comprar todo o gado de Illinois. Tu és o responsável por nossa desgraça. Os enganados serão os criadores. Pierpoint! MAULER: Ah! É verdade. Joana entra acompanhada dos criadores. eu vou comprar. que precisa bastante. Toda a carne posta em conserva até hoje. mais de dez mil criadores que não sabem mais a qual santo rezar. Vão para lá. Persuadir os criadores da oferta excessiva. JOANA – Nós o faremos sair de sua toca. Slift. (Os criadores colocam-se diante da porta da direita. SLIFT – Qual crime? MAULER: Um crime que eu não poderia cometer. Slift tragame tudo o que se pareça. Slift volta. Ele desenha um “A” na porta de um armário. Quem me comprará. das fábricas paradas. MAULER – Eu não compro.

proprietária do imóvel. GLOOMB – Muitos já dizem que se não empregarem a violência não haverá trabalho para todos tão cedo. VII Os mercadores são expulsos do templo TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS Sentados em uma longa mesa. Suas misérias são grandes. . Eles não são como os outros. pelo que acaba de fazer. em nome de Deus. DONA MULBERRY – E meu aluguel. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Recolham cantando Os trocados dos órfãos E os trocados das viúvas. (Os Chapéus Negros saem. mas não fizeram nada. O dinheiro nos permitirá também pagar à nossa querida proprietária. minha cara dona Mulberry. que eles nos ajudem a desferir. o aluguel que ela tão gentilmente tem adiado. sai e se dirige aos criadores – Para salvar Illinois e impedir a ruína dos fazendeiros e criadores. caros ouvintes! Para resolver o delicado problema do financiamento nós até agora apelamos aos pobres e aos mais pobres. (Aos operários:) Quando os que compram gado e os que o vendem se acertarem. Em seguida comete “B”. Eles não têm pão. Que dão medo de olhar. Eles não têm teto. sobretudo nas camadas inferiores da população. dona Mulberry. uma avareza completamente inexplicável. mas por enquanto não se preocupem. que são gente de bem. que cada um volte alegremente às suas funções. acabamos constatando que esses segmentos demonstraram. Infelizmente. Assim eu decidi. Aos pobres:) Digam-me. BISPA SNYDER – Agora. não é preciso que as vendas sejam feitas em seu nome. ao fundo. pois eles sabem que as fábricas receberam encomendas.24 Dominado por seus sentimentos. SLIFT. JOANA. frente a Deus. Alguém se equivoca: “A” é um erro. dão certo. não se esqueçam de varrer a escada. para vocês também haverá pão novamente. E eis que “A” e “B” tomados juntos. os dispensados esperam ainda pacientemente na porta dos matadouros ou já começam a dar discursos revolucionários? DONA LUCKERNIDDLE – Desde ontem gritam bastante. Comandante dos Chapéus Negros. entre os quais dona Luckerniddle e Gloomb:) Vocês de novo? Vocês passam a vida aqui? O trabalho voltou nos matadouros! DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. Faça entrar os fazendeiros. Mas seu nome não deve ser mencionado. os Chapéus Negros esvaziam suas latas de ferro e contam ao óbolos das viúvas e dos órfãos. tão errado quanto “A”. GLOOMB – No começo falaram em reabri-los. grita a eles – Digam ao senhor Mauler que os Chapéus Negros lhe agradecem. convidar em vosso nome as pessoas ricas e bem colocadas de Chicago. o que foi feito dele? BISPA SNYDER – Meus caros Chapéus Negros. BISPA SNYDER – Não se aproximem muito da caixa! Ele fez sinal para que eles recuem até o fundo. Talvez isso tenha a ver com o fato de que eles não possuem nada. um grande golpe no ateísmo e no materialismo que reinam nesta cidade. e. se levantando – Que mixaria! Que mixaria! (Dirigindo-se a alguns pobres. sobretudo. sábado próximo. Entra dona Mulberry. Mas Deus todo poderoso Achará os meios de alimentá-los! BISPA SNYDER. DONA MULBERRY – O que me agradaria muito. OS CRIADORES – Viva Pierpoint Mauler. salvador do comércio! Eles entram na casa. Ela sai. Pierpoint Mauler resolveu comprar todo o gado que se encontrar no mercado. Trabalham duro e vestem-se decentemente.

tão certo quanto eu estou aqui. confesse Slift. Graham. MEYERS. Slift? (Slift simula um ar astucioso e exagera na mímica do ato de dar dinheiro). Nós também prometeremos a eles que os ricos serão punidos. . Deus é testemunha. Graham. novo soco – Que tu achas que eles querem. afirmando que sois vós os responsáveis pelo desemprego! Em breve eles dirão: queremos fazer como os bolcheviques. Do lado de cá.. vocês certamente precisam. MEYERS – Setecentos e cinqüenta. no púlpito – Nós. OS FABRICANTES – Por que falar em pagamento? BISPA SNYDER – O pagamento do qual falamos é feito após a morte. os Chapéus Negros.. sem que ninguém saiba como. E já citam vossos nomes. GRAHAM – Confesse. minha cara. então. BISPA SNYDER – Podemos dar um jeito com setecentos e cinqüenta. a Meyers – Essa senhora não tem senso de humor. mas que serão. que eles estão destinados ao sofrimento. Nós. portanto. o Pepê está com o gado. diremos a eles que a desgraça vem como a chuva. é saber de que lado vocês estão! Desse lado da barricada ou do outro? BISPA SNYDER – Os Chapéus Negros.. Bispa Snyder! Todos riem. Que tal. BISPA SNYDER MEYERS Há um cretino que razia o gado E que sabe bem que estamos comprometidos A entregar carne enlatada E que. MEYERS – O que não será fácil. mais então. menos Snyder. Quinhentos dólares. bispa. quinhentos? GRAHAM – Quinhentos sim. GRAHAM. Se vierem para cá tocados a pedradas. Porque já começam a dizer por todos os lados que a desgraça não cai do céu como a chuva. não enrole.. os Chapéus Negros. sim! Vocês agora terão que achar alguém que faça a doação. são vocês que estão com o gado. e vá dizer ao Pepê Que afrouxe o laço. dando-lhe um soco na boca do estômago: Velho cão imundo! Vamos. a Snyder – Todos pobretões. tomar as fábricas em nossas mãos para que todos possam trabalhar e comer. Senhor Slift. Entram os fabricantes de conservas: Cridle. SLIFT – Quem poderia ser? GRAHAM. ouvimos dizer que há nos matadouros cinqüenta mil pessoas sem trabalho. estão acima da querela. recompensados por suas penas.25 – Isso nos é favorável. mas que ela é provocada por aqueles que dela tiram vantagem. a Snyder – Quinhentos dólares? Isto é muito dinheiro! Quem vai pagar? SLIFT – Ah. a Snyder – O que querem de nós? GRAHAM. Na mosca. SLIFT – O essencial. não gosto disso. Meyers. SLIFT – Mauler e eu não compramos um centavo sequer de gado. precisamos do gado. Slift! MEYERS. sem dúvida? SLIFT – Sem dúvida.. Já é melhor. É nosso nervo vital! SLIFT. Slift. senhora bispa. onde poderia estar todo o gado! GRAHAM – É o que eu me pergunto também: onde poderia estar? SLIFT – Eu me coloco a mesma questão. GRAHAM – Até tu? E Mauler também. (Aos outros) Eles carecem desta quantia. E que alguns entre eles começam a resmungar e a dizer: devemos nós mesmos cuidar do negócio. MEYERS – Eu me pergunto. MEYERS. SLIFT. portanto. (Os fabricantes de conserva caem na gargalhada) E tudo isso por apenas oitocentos dólares por mês! GRAHAM – Não precisas de tanto. precisamos de sopa quente e música animada. um dia. OS FABRICANTES – E quanto querem pelo serviço? BISPA SNYDER – Oitocentos dólares por mês. na frente do palco – Então. (Aos pobres:) Vocês não poderiam ao menos cortar lenha para nós? OS POBRES – Não há mais lenha. BISPA SNYDER. a Snyder – Desembuche! Eles se sentam no banco dos fiéis. após a sua morte.. os reis da carne nos escutarão mais facilmente.

senão lançar-me-ei sobre vós e golpeá-los-ei a cabeça. aos fabricantes: Esses pobres continuam a esperar trabalho? Silêncio dos fabricantes Eu que pensava que eles estavam arranjados! Faz já oito dias que neva nas costas deles. ao me veres aqui. Dirigindo-se aos fabricantes: Mauler. da tua vista sairia. hoje. GLOOMB. Parece que podes fazê-lo agir ao teu gosto. E eu. eu sei o que faço. mas também os esconde De todos os olhares. Haveis perdido então todo o respeito pelo que se parece humano? E ousais anda vir à casa de Deus porque possuem o vil metal? Sabe-se bem de onde haveis tirado esse ouro e como o haveis adquirido. Mas o Bom Deus tem uma opinião muito elevada de Si mesmo para ser sempre a vossa babá para todo o serviço e para vir limpar vossas cavalariças. comprou-vos conservas Por minha solicitação! E não reabristes ainda? OS TRÊS – Está correto. Não me detenham. Mas agora. Para que ninguém mais vá olhar de perto. senão ficam imobilizados. que haveis atormentado ao extremo. mas não fizeram nada. vós então vos borrareis todos. Se essas pobres criaturas. GLOOMB . qualquer um que queira ajudar aos pobres deve ajudá-los a protegerem-se de vós. Os Chapéus negros aparecem na porta. própria para jogar água na fervura. Dizem que ele come na tua mão. nós não queremos mais ver. e nessa atitude há alguma coisa que parece exploração. SLIFT – Mas querem antes estrangular os agricultores! OS TRÊS – Como abater gado que não existe? SLIFT – Quando Mauler e eu compramos a carne de vocês. supúnhamos que iriam retomar o trabalho. gritando alto a Joana – Ah. aí estás! Nós não estamos muito contentes contigo! Tu não poderias dizer uma palavrinha de nossa parte à Mauler? Parece que tens sobre ele alguma influência. avançando: Eu te conheço: tentei te convencer A trabalhar nas serras que me cortaram o braço. indo de um lado a outro.) Saí! Quereis transformar a casa de Deus em um estábulo! Saí! Nada tendes a fazer aqui! Cabeças como as vossas. empunharem um porrete para bater em vossas cabeça. Estou pronto. se os consumidores não têm com o que pagar? JOANA – Em vossas gigantescas instalações e vossas fábricas detendes as ferramentas dessa gente: deveríeis ao menos permitir que eles as usassem. Saí. É o seguinte: alguém sumiu com o gado do mercado de uma maneira que somos obrigados a ficar de olho em Mauler. entretanto. e que os operários poderiam comprar a carne. JOANA – Por que não trabalham? Não arranjei trabalho para vocês? DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. Sois indignos e eu vos expulso! Apesar de vosso dinheiro! . ajudo também aos de baixo.26 Entra Joana SLIFT – Aí está a nossa Santa Joana da Bolsa de Carnes! OS TRÊS. ela está espantada – O que fazem vocês aqui? DONA LUCKERNIDDLE. Se fizeres isso por nós. que ela usa como se fosse um porrete. (Joana sai atrás deles com o mastro de uma bandeira. JOANA. JOANA. Nós queremos reabrir nossas fábricas. avançando: As vinte refeições foram comidas! Não te irrites. para fazer pior. É preciso que ele libere o gado. De bom grado. quem comerá a carne que nós compramos? E para que nós a compramos. É preciso ser muito tonta! Na verdade. pois. e rápido. pagaremos o aluguel dos Chapéus Negros por quatro anos. mal tendo sido saciada. Basta que alguém diga: está acertado. perdi demasiado tempo até sabêlo. e eu. e a religião vos parecerá de novo algo de muito bom. sem pena também Esqueci o que todos se apressam em esquecer Para rapidamente estar em paz com suas consciências.No começo falaram em reabri-los. olhando os pobres. Esta neve os mata. Mas cruel é a fome: Renasce sempre. dizendo-me: ajudando aos de cima.

É mister que haja um Justo entre eles! Ela sai. modestamente. BISPA SNYDER: Infeliz ignorante! Como não vês que operários e patrões. tudo bem. DONA MULBERRY — Sim. ela retorna vestida como uma jovem camponesa. tudo mal. aos Chapéus Negros – O que acabo de fazer certamente foi pouco habilidoso. é muito justo que pague. Serve-lhes água de chuva e belas palavras Pois do céu não lhes vem mais do que neve E não misericórdia! A humildade. dona Mulberry – que ele encontrou sobre a terra. oferece teus bons préstimos. Mesmo que o dinheiro os carcoma como um câncer Devorando o que seu resto tem de humano. onde não escutam mais Os pedidos de salvação do resto dos humanos. De qualquer maneira. não tem nenhum mandato! É apenas uma mulher que perdeu a razão! Ela está despedida! Ela fará pelos senhores tudo o que desejarem. JOANA. Mediadora inútil e que cava a própria cova. comê-lo também! Vá-te então. ah. vão-se irrevogavelmente quarenta meses de aluguel. Mas se ele não paga. entrando — Vocês já arranjaram o dinheiro? BISPA SNYDER – Deus encontrará logo o meio de pagar o abrigo bastante modesto – eu disse modesto. entretanto. eu lhes trarei a sopa. Mesmo que ele os torne surdos. Quanto ao pão que precisamos comer. OS TRÊS Joana sai. fracos. BISPA SNYDER. Por causa do aluguel. Eu pedirei sua ajuda. Queres. no coração da tormenta. Tu que planas mais alto que as questões terrenas! Parta sob a chuva. Mas como deixar-se levar por isso? (À dona Luckerniddle e a Gloomb:) Sentem-se lá no fundo. Enquanto não tiver feito de Mauler um dos nossos. Povoada de cânticos e palavras que despertam. DONA MULBERRY. de um ao outro. Se o Bom Deus não paga o seu aluguel. Trazendo-vos totalmente convertido. Nem outra vez cruzar o limiar dessa querida casa. de volta Convida a tua casa. e a partir de sábado à noite. esses pobres. tu a ignoras E cedes a teus impulsos! É mesmo muito fácil Caçar esses impuros com um gesto cheio de orgulho. pois esses que te seguem não são mais do que escória e refugo. . Eu não desejo Colocar novamente o chapéu e o uniforme negro. agora. Fazes-te de difícil e és muito curiosa Para saber como é feito. não temos mais um centavo. Doravante farás parte dela. está bem. Grupos inimigos irreconciliáveis. Vá sob a neve e continue intransigente! JOANA – Quer dizer que devo tirar meu uniforme? BISPA SNYDER – Tira o uniforme e arruma tua bagagem! Sai desta casa e livra-nos da escória que arrebanhaste. correndo sai atrás deles – Fiquem senhores. terá de se mudar. prisioneiros Em uma torre de marfim. JOANA Irei ver o rico Mauler. é bem disso que se trata! Falaste a palavra exata! Se o Bom Deus paga. BISPA SNYDER.27 – Está bem! Mas conosco. Anda cuidar de tua vida. não se vão. Homem de boa fé e destemido. Enfrentam-se como gigantes? Vá. Nós iremos viver dias terríveis. bispa Snyder? Ela sai. então. na ponta dos pés. como jamais viu antes o mercado do gado! Saída dos fabricantes de conservas. Ela carrega uma mala pequena. ela não representa ninguém.

Então eu disse a mim mesma: vá dar uma olhada no que se passa com o senhor Mauler. queriam esperar Que o preço do gado caísse o mais baixo possível. Em busca de animais que. A mim também Teria expulsado. Slift. no seu escritório? Sempre achei que o senhor devia possuir um dos grandes palácios de Chicago (Mauler se cala). É que eu não estou mais com os Chapéus Negros. e de que. de perto ou de longe. em sua casa. senhor Mauler. que tu tenhas superado Teus recentes acessos de fraqueza. se eu estivesse lá. Faça subir. dá rédea solta a teus corretores! Deixa-os correr o mercado. meu caro Slift. Ele sai. Não é fácil encontrá-lo. Não se possa aceitar gente da minha laia. e cada porco Que eles precisam nos entregar. Deixo minhas coisas nesse canto. desta vez. E na nossa mão é mais caro. Houve discrepâncias entre nós. Ela não tem medo de nada. Desde Que ela nos expulsou do Templo. Gosto nela deste traço. Mas o senhor tem razão. Eles precisam comprar de nós. posso me interessar mais por cada homem em particular. Slift. SLIFT: E tua Joana? Algo de novo? Um boato corre na bolsa: dizem Que te deitaste com ela. realmente. MAULER: Agora.28 VIII Discurso de Pierpoint Mauler sobre a absoluta necessidade do capitalismo e da religião ESCRITÓRIO DE MAULER MAULER: MAULER: Chegou enfim o dia em que nosso caro Graham. Mas o senhor. por um momento. e que nem mesmo está dobrado direito? Diga-me: o senhor dorme aqui mesmo. mesmo nas pequenas coisa. Não se fala mais dela. mas por que o lençol em cima. MAULER: Seria preciso esfolar esta cidade maldita E ensinar-lhes o seu ofício A essa gente. Serão obrigados a comprar a carne Que devem nos entregar. de ser cuidadoso. SLIFT. JOANA – Bom dia. os preços a oitenta. onde enfiaremos o pé Unicamente para ver a marca que deixa. Eu desmenti. É um belo sofá que o senhor tem aqui. Não pretendo soltar um só grama de carne A fim de arrancar-lhes mesmo a pele desta vez: É a minha natureza quem exige. Dir-se-ia Que Chicago a engoliu Em sua negra e ruidosa bruma. Gostei muito de vê-la expulsá-los do Templo. E todos aqueles que como ele. senhor Mauler. Deixar que gritem: “É um crime!” Entra Joana. Terão de pagar mais caro. Vou ver como eles compram. Mauler. Assemelhem-se a bois ou porcos. E os preços Subirão ainda mais. SLIFT: Estou feliz. Graham e companhia ficarão então parecidos À lama. carregando uma mala. Neste mercado de Chicago Todos os bois que se escutam mugir São nossos bois. Agora que não tenho mais o trabalho fatigante da missão. Senhor .

MAULER – Não te inquietes. MAULER – Ah! E agora os Chapéus Negros estão em uma situação financeira difícil? JOANA – Sim. Daqui até sábado. o que me agradou muito e me pareceu justo. Uma vez mais.29 Mauler. e aos Chapéus Negros é preciso auxiliar. Joana pára de comer. Nesta história dos cinqüenta mil trabalhadores. Que meu comércio não é antinatural. E foi por isso que eu me disse: irei ver o senhor Mauler. Aqui está por escrito. eu lamento Que o trabalho ainda demore nos matadouros. É por ti que o faço. é claro. Quando não o tens. Mas nesse negócio.. Eles são cinqüenta mil Que permanecem lá. Teria adorado ouvir-te dizer Que o que eu faço está bem. O escuro caminho que leva aos matadouros. muda logo a tua cara? . E que. a proprietária. MAULER: Tão mudada! Apenas oito dias! Onde ela esteve? O que ela viu? E por que essas rugas em torno dos lábios? Esta cidade de onde ela saiu. MAULER – Vá dizer-lhes que o dinheiro está chegando.. Eu confesso cruamente.. e que agi bem. Queres? Joana observa a comida. Ele traz comida a ela em uma bandeja. Mas contigo não será assim. ainda por cima. Eu quero dar-vos alguma coisa Para provar-vos a bondade de meu coração. eu não comerei. E como eu sei que sois pobres E que querem privar-vos Do teto que vos abriga.. quando nós expulsamos os ricos de nosso templo. JOANA – . Mesmo que deva cortar na carne. sim. não querem partir. não faço mais parte. mesmo à noite. É Mauler quem vai dá-lo. é lógico. Eu não conheço. O dinheiro. de pé. Eis o desafio. encomendei a carne. JOANA – Sim. Eu te encontro bastante mudada. a coisa não andou. Há quanto tempo não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Oito dias. ser ou não ser. Trata-se de saber Se eu serei o melhor de minha classe Ou se tomarei eu mesmo. JOANA – Senhor Mauler. Confirme que foi por teus conselhos Que eu. tenho boas esperanças de que sua consciência esteja em paz nesse momento! MAULER – Então não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Não.. Mauler vai até o fundo do palco e chora. Vou agora mesmo à Bolsa para procurar o dinheiro. na minha vez. Toma.. o dinheiro para vocês eu terei. Mas eu o encontrarei. Corra.. arrancar a pele desta cidade. aos fabricantes. Não pude dar-lhes trabalho rapidamente. Eu irei à Bolsa encontrar o dinheiro que lhes falta. está caro. Ela começa a comer avidamente. Eu também. Assim como aos criadores. senhor Mauler! MAULER Tome. eu buscarei o dinheiro a qualquer preço. Estás de acordo? JOANA – Sim. naqueles pátios imensos. JOANA – Os operários continuam esperando nos matadouros? MAULER Por que és contra o dinheiro? E por que então. senhor Mauler.. não como eu queria. Um trabalho ruim. MAULER – E do que tens vivido? (Silêncio de Joana) De nada. MAULER – . nos deu prazo só até o próximo domingo. que vive do aluguel. vá dizer-lhes isso. senhor Mauler.

Esse sistema é o único que permite arrancar O que pode ser arrancado dos rigores desse mundo. Ao menos a vida de alguns. . aliás. Não desejais. Sim. Assim. Como esses bobos para os quais o dinheiro Tem não sei qual problema. As coisas não deixariam de seguir o seu curso de antes. ou quase. Apanhe o que te dão. Eu não compreendo E nem quero compreender. Por Ele batendo os tambores.O que nós não vos exigiremos de nenhuma forma – Devem dizer ao menos que eles são justificados. durmo mal à noite. Atribuir ao homem um lugar totalmente diferente. Concepção inaudita à qual vós mesmos. diga-me. Eis porque esta obra é sempre defendida Pelos melhores entre os homens. Ainda que dia após dia se precise reconstruir O que dia após dia é destruído. Quero saber. É à sorte. Ou então seria preciso mudar tudo. sob chuva e frio. Eu seria varrido. Por isso vós deveis nos ajudar em nossa obra. Tão penosa de construir. Mas pensa na realidade. nem nós tampouco: Não seríamos necessários. Ela se levanta. Daqueles a quem ninguém oferece nada. Mas mesmo assim verdade: Sobre a terra nada há de sólido. Que seria suprimido por falta de utilidade. E que. Para que Ele finque pé nas favelas E para que Sua voz retumbe nos matadouros. Desde que existem sobre a terra. isso será suficiente. Em uma palavra é preciso que vós Restabeleçam Deus em sua glória. destruído na mesma hora. sob gemidos. eu deveria estar feliz De ver que alguém vem em ajuda a Deus. JOANA Senhor Mauler. E incessantemente construída. eu que nutro Poucas simpatias pela ordem do mundo. Mas saiba com qual objetivo foi dado! Tome isso! Saiba que representa O aluguel de quatro anos. Seria como um mosquito Tentando se opor a derrubada de uma montanha. Eu sei. Que o gênero humano está entregue. de cima a baixo. E se vós não precisais se expor aos sacrifícios. Na banal verdade. Se eu quisesse me retirar.30 O que pensas tu do dinheiro. Olha também como o mundo é feito! Que edifício! Obra dos homens. Isso que o senhor falou. Pouco agradável. Modificar por inteiro o plano do edifício. Fazendo Dele a única salvação. malgrado os sacrifícios. Ele alcança o papel a Joana. nem Deus. O dinheiro é um meio De melhorar um pouco a vida. MAULER . eu concordo. veja bem. Pouco ou muito segundo o caso. sem dúvida. Mas eu faço parte daqueles Para quem essa não é uma ajuda. Obra imensa. Não enchas a cabeça de falsas idéias.

IX Escutai o que eu sonhei. Eles fazem muita questão do dinheiro. Se for um punhado de neve o que lhes dão. e então eu me vi: À vossa frente. pulsando vida. do que os pardais Que se poderia colocar em tal lugar. creia-me. soluçando e jurando Logo fora de mim! Virtude e terror confundidos! . marchava à sua frente. Quantos eram eles? Eu não sei. E se nevar. BAIRRO DOS MATADOUROS Joana. Que o campo inflou-se e uma cascata humana Inteira ficou pendurada em suas elevadas bordas. com passos guerreiros. Sem poder suportar a visão dos pobres Que os julga sem conhecê-los. Eu marchava. Há sete dias: Diante de mim. com aqueles que esperam. Pelo menos não honestamente. afluíam inúmeros cortejos. Jovem e velha. eu quero fazê-lo. Mais numerosos. Saberás que neva sobre ela. Vai à janela e repara se neva. a fronte ensangüentada. Eu também não tenho dinheiro E nem uma maneira de ganhá-lo de outro modo. 1. Vi depois cortejos E ruas desconhecidas. Eles formavam uma massa tão densa. Cercado de todos os lados por enormes edifícios E tão pequeno que a sombra de um arbusto O teria encoberto totalmente. sem uma palavra. Mas eu me sentarei Em frente aos matadouros. se o senhor quiser me ver Me verá nos matadouros.31 Leva aos Chapéus Negros este dinheiro E poderás ficar com eles. Fez esta massa começar a fluir. que vive da pobreza. em todo o caso. Chicago! Vós também Lá estavam. Eu serei como eles sem trabalho. MAULER Esta noite. silhueta múltipla. Ela permaneceu suspensa por um instante. Eu comerei esta neve. desfilando. Mauler. Arranjando para não ver esses condenados. E nada comerei além do que eles comem. Jogados aos matadouros e de tudo ignorantes. Ela sai. E isso é muito bom. Sobre ela que tu conheces. uma palavra sem importância. Ao mesmo tempo. E o senhor. A tempestade de neve. Notei uma massa humana. e outras familiares. em um pequeno campo. Pois esta vida sem eira nem beira não te serve. Que o aceitem. E então uma palavra. JOANA Se os Chapéus Negros quiserem o seu dinheiro. Que alguém gritou em algum lugar. por toda a parte. JOANA Terceira descida de Joana às profundezas. Ficarei lá até que as portas sejam reabertas. E se não houver trabalho. Perto dela Gloomb e dona Luckerniddle. E o trabalho deles também. No futuro. E eu. A cada hora. Depois eu gritei palavras em tom belicoso Em uma língua para mim mesma desconhecida. levanta-te.

libere-nos de nossos compromissos! MAULER: Estou desolado. Mauler. BOLSA DE CARNES MAULER. abandonando este lugar insuportável Por qualquer outro. OS FABRICANTES: Mas como nós poderemos Comprar gado com preços em alta? Alguém promoveu uma razia. Ocasionando imensas destruições. eu ignoro. que eu saiba. mas existe. Influenciando o curso dos planetas distantes. a preço vil. éramos inatingíveis. a senhora entendeu esta história? Eu não. nas praças públicas. Todas as conservas Previstas no contrato. MAULER: Sendo grande a demanda De conserva e de vianda E sendo os preços aceitáveis. Eu exijo que me entreguem. Precisamos comprar e os preços aumentam! . Habituados ao sofrimento. Um pouco caro. O que acontecerá. Habitando em lugar algum. Graham. e pior. Ninguém sabe quem foi. Comprem-no! OS FABRICANTES: Comprar gado nestes dias! Que horror! 3. OS CRIADORES aos fabricantes de conservas: Meus amigos de Nova Iorque me escreveram Que as tarifas aduaneiras no Sul Acabam de ser derrubadas. bem e aquecidos! 2. E assim andava o cortejo. DONA LUCKERNIDDLE – Se ela tivesse calado um pouco a boca lá nos Chapéus Negros. sem mais delongas. estávamos fora de alcance. Há muito gado. Assim foi o meu sonho.32 Tudo o que eu pisava. A exata extensão de nossa miséria. a cidade deles. Eu andava no mesmo passo que o cortejo. mas preciso das conservas. E com a aurora chegaremos a Chicago. Faremos um chamado a todo o ser que pareça humano. transparentes. GRAHAM: Ao preço antigo? MAULER: Como combinado. GLOOMB – Dona Luckerniddle. e pior. UM PEQUENO BAR NO BAIRRO DOS MATADOUROS Desgraça! As tarifas caíram! E nós não temos mais carne para vender! Ela já está vendida. Envolvida pela neve. se eu me lembro direito Daquela hora em que perdi um pouco o juízo. Oitenta mil toneladas. é verdade.. a preço vil.. modificava. Rendidos pela fome. OS FABRICANTES Desgraça! As tarifas caíram E nós não temos mais bois para vender! Eles já estão vendidos. não nos podiam alvejar. Senhores. Hoje eu compreendo o seu sentido: Nós deixaremos os matadouros antes do raiar do dia. nós agora estaríamos comendo a nossa sopa. ao abrigo dos ataques inimigos. E também perturbando o aspecto familiar de ruas bem próximas. Para aí mostrar a todos.

Ah. triste. curta bondade. MARTHA. mas então eu encontrei Nosso Senhor Jesus e fez-se em meu coração uma grande luz e provei uma grande alegria. durante a cena. grande o nosso regozijo. à dona. estava um dia sentada. dona Swingburn? A MULHER – A sua música era bonita. (Isso não serve para nada!). já ouvi demais. faz desesperadamente sinais para que saiam. e eu não tenho mais fome e nem sede. ente os quais Joana. JOANA. JOANA – Onde eles estão? GLOOMB – A dona Luckerniddle pode lhe dizer. depois de entoar um cântico apressadamente: Por que não provar. mas eles traziam uma panela. que um resto de pudor lhes diga: Aqui reinam a neve e o vento: calem-se! 4. por favor! OS CRIADORES: Não sobrou mais nada! Tudo o que podia ser vendido . Eles precisam fazer isso para conseguir um pouco de calor e de comida. por causa do meu marido. Se algumas pessoas soubessem calar a boca eu saberia onde procurar abrigo esta noite. UM TRABALHADOR. os comunistas. eu prefiro os atos. DONA LUCKERNIDDLE – Eles são boas pessoas. BOLSA DE CARNES OS FABRICANTES: Nós compramos qualquer gado! Bezerros! Gado gordo! Vitelos! Bois! Porcos! Façam as suas ofertas. surpreendendo-se pela ingenuidade – É sério? A senhora acreditou nisso? DONA LUCKERNIDDLE – Eu também. mas ninguém contribui) Aleluia! JOANA – Deixe-os. eu esperava que eles fossem ao menos nos dar um prato de sopa. tenho apenas sede da palavra de Jesus. Onde está Jesus. como vocês. Pois nós encontramos Jesus.Aleluia! (Jackeline faz circular a cuia de esmolas. Joana se levanta e. tenente dos Chapéus Negros. do pão de Deus? Grande é nossa alegria. que nos salvou na dor. não a violência. à margem do caminho. vinde logo! Aleluia! Uma jovem dos Chapéus Negros dirige-se aos trabalhadores. Vinde a ele. e o velho Adão dentro de mim não tinha outro desejo do que comer e beber. Discursos. JACKELINE. não o ódio. fazendo o gesto de contar dinheiro – A senhora consegue manter a marmita fervendo. A MULHER – Por que não nos procuram para tentar nos converter? GLOOMB. meu irmão. soldado dos Chapéus Negros: . minhas irmãs. Bem que eu gostaria de estar com eles! DONA LUCKERNIDDLE – A música era bonitinha! GLOOMB – Bonita e curta. JOANA – Então não há ninguém que tente fazer alguma coisa? O TRABALHADOR – Sim.33 Trabalhadores e trabalhadoras. que alguma voz. reina a paz. GLOOMB – Bondade curta. Um destacamento dos Chapéus Negros chega. UMA MULHER Por que vir aqui fazer escândalo Com tamanho frio! E se pudessem ao menos se calar! Com muito custo eu consigo agora Suportar as palavras que há pouco amava E que me soavam agradáveis. Silêncio. hoje (eles não estão escutando nada!) basta que eu pense muito em Jesus. JOANA – Mas não são os tais que ficam incitando ao crime? O TRABALHADOR – Não. Nosso Senhor. Luckerniddle – De onde a senhora os conhece? DONA LUCKERNIDDLE – No tempo em que eu não me fiava em gente como você eu ia bastante até eles. Nosso Senhor. Intercala sua pregação com observações aos companheiros. meus irmão. o amor. apesar de todas as nossas más ações.(Vocês acham que isso serve para alguma coisa?) Eu também. (É tudo absolutamente inútil!) Eu lhes digo: ajudem-nos a manter a marmita fervendo! OS CHAPÉUS NEGROS . tu também.

. se ela for justa. dois homens da direção dos sindicatos discutem com um grupo de operários. Deixe-os totalmente à míngua. mesmo só uma pata. OS FABRICANTES – Vendido a quem? Entra Mauler. Já que não há demanda. Quatrocentos. Silêncio . Nós. OS CRIADORES – Vendido. Qualquer vitelo. precipitando-se sobre Mauler: É preciso liquidá-lo. OS FABRICANTES: É Mauler. JOANA – São vocês os que defendem a causa dos desempregados? Eu posso ajudá-los. se são os senhores os bois. Graham! As latas que me deves. e caro! Ofereço. É impossível encontrar um boi em Chicago. MAULER: Atenham-se à nossa combinação. Os trabalhadores das grandes empresas da cidade nos prometeram declarar. no mais tardar depois de amanhã. mesmo nos grandes. Chegada de Joana. Agora eu quero sessenta! E tenham o cuidado De não esquecer as minhas latas! 5. UM CRIADOR: Oitocentos bois de Kentucky a quatrocentos. Não havendo ninguém que precise de carne. OS FABRICANTES: Mais nada? E nas estações? Estão abarrotadas de gado.34 Foi vendido. Em frente a um galpão. os operários. eu tenho propostas a fazer. Na minha opinião é preciso fazer alguma coisa imediatamente. Vendo-os. uma parte de nós perderá seu emprego nos matadouros e os outros nunca recuperarão o salário anterior. o apetite desperta! GRAHAM. de Chicago a Illinois.. eu acertarei as contas com ele! MAULER: Ah! É assim. e acho que sou capaz de defender bem uma causa. Se alguém vier perturbar a reunião. Os fabricantes se precipitam sobre ele. eu não tenho medo. OS CRIADORES: Oitocentos bois a quatrocentos para Sullivan Slift. UM DIRIGENTE OPERÁRIO – Escutem todos: até agora os magnatas da carne não manifestaram a menor intenção de reabrir as suas fábricas. Mesmo que tenhas que te enfiar nelas! Eu vos ensinarei como se faz esse comércio! Doravante. a greve geral. OUTRO LUGAR NOS MATADOUROS Nos cartazes se lê: “Solidariedade com os trabalhadores sob lockout!” “Desencadeiem a Greve Geral”. Terá de ser comprado de mim. Mauler. sabemos agora de uma coisa: se tudo andar como querem os industriais da carne. precisamos de um prazo. OS FABRICANTES: Nem pensar! Vocês estão loucos? Quatrocentos! SLIFT – Eu compro. Corte você mesmo! MAULER: Por que se surpreendem. Além disso. De hoje até amanhã é certo que os patrões vão lançar todo o tipo de falsas notícias: eles dirão que . É claro que é! Era o que dizíamos! O cão! Ele nos obriga a entregar-lhe as latas E é ele quem compra o gado! Somos então obrigados a comprar de Mauler A carne que deveremos colocar em suas latas! Carniceiro sujo! Tome então a nossa carne. Os senhores devem me entregar a carne. Aprendi a falar em lugares públicos e em auditórios. para começar Quinhentos bois a cinqüenta e seis. eu as quero agora. Ele vai falar com Slift.

O DIRIGENTE OPERÁRIO. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Não. Quando você vir chegarem três operários com cara de quem procura alguém. ouve-se gritar ao fundo o nome das empresas que suspenderam seus pagamentos: “Encerram os pagamentos.35 tudo está arranjado e que a greve geral não acontecerá. Elas devem ser entregues às dez horas. Ela é sua conhecida. UM OPERÁRIO – Pode ser uma espiã. É do Exército da Salvação e os policiais a conhecem bem. e vá esperar os responsáveis defronte à cantina da senhora Schmittens. Tudo acontece como se a miséria dos pobres fosse útil aos ricos. dando a carta à Joana – Vá até a fábrica Graham. A carta é para eles. Eu não sou uma espiã. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua vinte e seis. E poderíamos até dizer que esta pobreza seja obra deles. Um operário apanha a carta e sai. a Mauler. estou vendo. dessa maneira. JOANA 6. eu conheço o pessoal. os preços estão a mais de setenta! OS CORRETORES – Os cabeçudos não compram.” OS FABRICANTES – Nós não podemos mais agüentar. O operário apanha a carta e sai. Você pode tranqüilamente entregar-lhe a carta.. Nós não temos ninguém para passar despercebido como ela. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua Três. pergunte-lhes se são das usinas Cridle. À Joana: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E em que trabalhava? JOANA – Eu vendia um jornal. pau neles! OS FABRICANTES – Queremos dois mil bois a setenta. etc. – Eu já vendi jornais na rua Vinte e Quatro. Meyers e Cia. aos responsáveis que esperam nossa orientação. BOLSA DE CARNES Durante toda esta cena. UM OUTRO OPERÁRIO – Dê-me a carta para as usinas Graham. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Pela nossa causa? Diga-me: ela não é também a sua? JOANA – Não é no interesse geral que os industriais jogam. O contrato assinado há pouco entre nós: Eu queria. Por este buraco fogem todos os peixes. Ela é honesta. em frente ao edifício da Westinghouse! (À Joana) Quem é você? JOANA – Fui mandada embora do emprego. MAULER: Os senhores não respeitaram. Jack. Isso é bom.. Eu luto de todo o coração pela causa de vocês. galpão número cinco. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Não é sem provas. Ninguém suspeitaria que ela trabalha para nós. pois o endereço dado pelos camaradas das usinas Cridle para o encontro está muito vigiado. em diversos pontos dos matadouros. Como se rede já não houvesse: De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. SLIFT. tanta gente na rua. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – E quem te garante que ela vai levar a carta que lhe entregarmos? O DIRIGENTE OPERÁRIO – Ninguém. Esconda essa em seu casaco. assegurar o trabalho . com tal medida. (os operários riem alto) Mas é desumano! E dizendo isso eu penso também em gente como Mauler! (os operários caem na gargalhada) Por que se riem? Acho que vocês estão errados em zombar e em acreditar sem provas que alguém como Mauler não é um ser humano. na esquina do Parque Michigan. encostado em uma coluna – Faça subir. as centrais elétricas e o serviço de águas entrarão em greve em solidariedade a nós. essa noite. Essas cartas anunciam que a usina de gás. não é? DONA LUCKERNIDDLE – Honesta ela é. eu sei quem ela é.. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E para quem trabalhava? JOANA – Eu era ambulante. dona Luckerniddle? (Dona Luckerniddle faz sinal que sim).

não me diverte mais. por telefone. Ele pode ir longe demais. é impossível ouvir uma voz isolada: há muita gente correndo de todos os lados. MEYERS – Cinco mil a oitenta! Assassino! MAULER. Mil a setenta e sete. sim. eu me pego esgoelando-os E não tenho tanto prazer quanto esperava. . A multidão anônima e sem rosto continua sentada lá. tudo a oitenta. Pois a queda deles Será a nossa. Mas os senhores se lamentarão por isso. eu não me sinto muito bem. MAULER: Atiram? Contra quem? Mas eu sei bem. O segundo segurança sai. Mauler. As conservas que comprei. desembucha! O primeiro segurança faz seu relatório. Quando se grita qualquer coisa. SLIFT: Faça subir. o vento abafa as palavras. à procura de um parente que não encontram. Acima disso. Pergunta para que nós pagamos impostos! Manda arrebentar a cabeça dos líderes. mas que não rebentem. Slift. MAULER – Então. O estranho é que aqui não se ouve nada. MAULER. E tenho outras preocupações! Veja bem. Senão pensarão ainda Que fomos nós que exigimos que atirassem. Sem contar que a polícia está evacuando os matadouros e que começa a atirar. Ceda. Isso basta. Ainda por cima está escuro. Que sangrem. É preciso que a cidade Possa voltar a respirar. se apresentariam dez ou talvez cem. que voltou para perto da coluna – Slift. MAULER. de achá-la? E atiram? Encontra o Jim. SLIFT – A oitenta. Slift. só quinhentos. Impossível. Diga-lhe para que não me procure. Eles ainda agüentam! Quinhentos bois a setenta e sete. OS FABRICANTES – Mauler paga cinqüenta pelas conservas. Se perguntasse por uma Joana. Fala em meu nome. é claro. a Slift – Onde está o pessoal que eu mandei para os matadouros? SLIFT – Ali está um. senhor. Mas para nós. Ponha os pingos nos “is”. é o fim! SLIFT: Quinhentos a setenta e sete para Graham. MEYERS – Mil e quinhentos a oitenta. Além disso. nós não podemos pagar oitenta a Mauler pelo gado. voltando ao grupo: Este negócio. subir muito mais.36 Aos operários e agora me dizem Que eles ainda esperam em frente aos matadouros. Eles já não agüentam. Slift. Vou soltar a carne e deixá-los partir. GRAHAM: Que seja. perdido por perdido. A encontraste? O SEGURANÇA – Não. são incontáveis. A carne sumiu de vez do mercado! Quinhentos bois a setenta e cinco! MAULER: Não seria conveniente. O SEGURANÇA – As multidões. eu não vi ninguém com o uniforme dos Chapéus Negros. esperando. dizes. No canto em que trabalham os sindicatos reina uma grande efervescência! MAULER – Quem trabalha? Os sindicatos? E a polícia os deixa incitar os operários? Meu Deus! Liga imediatamente para a polícia. entreguem-me! GRAHAM: Nada poderíamos ter feito. pois. O primeiro segurança sai. Vá só até oitenta e depois abaixe o preço. São centenas de milhares nos matadouros. Ele repara no segundo segurança.

Mas quando a aflição for tremenda. Eles se sentam. Mas nós não queremos incomodá-la e iremos ficar ali.37 – Nem pensar. Queria vender a oitenta e cinco. JOANA – Eu queria que vocês fossem embora. Virão três pessoas. Não vão embora. Fora uns poucos especuladores sem escrúpulos. isso não é possível. Aja conforme o meu espírito. Tu me conheces. Nesse dia sim. Eles terão de nos responder. Slift. (Joana vira-lhes as costas. Prefiro abandonar tudo Do que ser a causa de uma desgraça! Oitenta e cinco. OS TRABALHADORES. Mauler? MAULER. senhorita Dark. ALGUÉM – Porque estás aqui? JOANA – Tenho que entregar uma carta. toda a Chicago comparte seus sentimentos. Nós publicamos isso com manchete de oito colunas. afastando-se – É preciso que façam chegar aos operários que eu acabo de ceder gado às fábricas. a jovem pregadora dos Chapéus Negros? JOANA – Não. Entre eles. Joana. Joana Dark. nós ouvimos. JORNALISTAS – O que há de novo. também em segundo plano: É mentira: por maior que seja a miséria. não mais. SLIFT MAULER Eu preciso de ar fresco. OS JORNALISTAS – Veja bem. Os jornalistas lêem em voz alta) “A Madona dos matadouros. Eles não abrirão as fábricas. Para nós a senhorita faz parte. no fundo. a não ser nós mesmos E a ninguém podemos apelar OS JORNALISTAS . Um homem os guia. (a Joana) Esses são jornalistas. SLIFT: Mentirosos! Agora serei eu que vos ensinarei A vender carne enlatada Sem ter nem mesmo um quilo! E cinco mil bois a noventa e cinco! Urros. Eles não abrirão as fábricas! Eles esperarão os lucros aumentarem! E a sua resposta sairá Dos canhões e das metralhadoras! Ninguém poderá nos ajudar. De outra forma isso terminaria em violência. Então agora existe gado. Slift não tem ordem para isso. É um enorme sucesso para os Chapéus Negros. O HOMEM. NOS MATADOUROS Muita gente esperando. Saindo ele encontra jornalistas. Chega um grupo de jornalistas. Eu não posso mais. a alguma distância.” JOANA – Eu não falei nada disso. 7. esperem a resposta! CORO OPOSTO. – Olá! A senhorita é Joana Dark. Eles ainda agüentam. Continue então com o negócio. declara: Deus está solidário com os operários das fábricas de conservas. em segundo plano. OS JORNALISTAS – Podemos lhe assegurar. Aja conforme o meu espírito. serei eu quem fará subir. pode ler. eles abrirão. SLIFT – Quinhentos bois a noventa! OS FABRICANTES: Mauler. Veja. E se quiseres abrandar. apontando para Joana – Aqui está. OS JORNALISTAS – No escritório do senhor Mauler nos disseram que a senhorita jurou não sair dos matadouros enquanto as fábricas não fossem reabertas. JOANA – Eu não faço mais parte dos Chapéus Negros. nos matadouros Enquanto a miséria não chegar ao máximo. que a opinião pública está do seu lado.

A mim me esperam. foi você! Não adianta mentir. A qual logo se nota claramente Que serve de gangorra Todo o sistema é como uma balança Na qual os dois lados dependem um do outro. ao qual estava acostumada. JOANA: Eu compreendo esse sistema. tenho frio.. não é? JOANA – A senhora também acha. E uns se sentam lá em cima Só porque os outros estão embaixo. Mas. Vós. a qualquer momento. Algo de obscuro. confesso. guardam-me a sopa.. Enfim. A MULHER – Socorro.. Alguns – pouco numerosos – estão sentados lá em cima E um grande número aqui embaixo. dona Luckerniddle? DONA LUCKERNIDDLE – Sim é verdade. é claro! É o cúmulo! Eles me roubaram até o chale! Quem foi o mão leve que pegou o meu chale? Devolvam-me imediatamente. Encorajada por um sonho que confirmava minhas idéias. E para vós é fácil passar frio. Quer um gole de whisky? (Joana bebe) Ei. Mas eu posso.. dir-se-ia que é um caminho. dê-me meu pano. um teto e o sustento. Ficar aqui sem necessidade absoluta Parece-me um jogo indigno. UM HOMEM – Silêncio! Alguém atira um trapo para Joana. UM TRABALHADOR. Eu não tinha sonhado que pudesse fazer tanto frio! Se eu tivesse pelo menos o meu agasalho! Ah! É fácil para vós passar fome. Não fazia tanto frio em meu sonho. ela vai me matar. JOANA Se dependesse só de vós Eu poderia congelar nua em pleno vento. imbecil!. Empunhar a bandeira e bater o tambor. Quando eu cheguei aqui. Já basta. Onde está o meu chale? Eles me roubaram. O TRABALHADOR – Mas falaste com eles! JOANA – Eles me confundiram com outra pessoa. eu não tenho o direito de ir. Ir para um quarto quente. Para que estejamos todos no alto! Mas olhando mais de perto descobre-se. Vós todos. Apesar de tudo. que nada tendes para comer. E falar Daquele que mora lá em cima. que acabaram de receber uma informação. Mas. ignorar aonde te leva a vida. chega! Você é boa mesmo de copo. um emprego que me assegurava O pão de cada dia. o medo me aperta a garganta: Não comer. que de resto Já é a muito conhecido. UM VELHO HOMEM. o que deixei foi uma vocação. a Joana – O que fazias com aquela gente? JOANA – Nada. E os do alto gritam: Subam. não dormir. Que audácia! Emborcar assim o whisky desse velho! JOANA – Segure a língua. a Joana – Você está totalmente gelada. Entre os que estão em cima e os que estão embaixo. desde fora. levantam-se e dirigem-se ao fundo. Quase uma comédia. .38 Que não seja um nosso igual. mais do que tudo. eu quero ir embora. Tenho fome e isso é banal. UMA MULHER – Que audácia! JOANA – A senhora falou alguma coisa? A MULHER – Sim. E um ambiente. o que haveis deixado? Eu. (Ela arranca de sua vizinha o pano com o qual ela cobre a cabeça) Sim. com um vasto plano. Mas é apenas uma tábua. isso é normal. Os jornalistas. Mas a estrutura interna continua ignorada.

JOANA – Mas estão atirando! UM OPERÁRIO – Pode ficar sentada tranqüilamente. Não te movas! Entendeu? Ela sai. no fundo do palco: Se ficardes agrupados Eles vos rebentarão. ainda que os preços continuem a subir. Que barulho é esse? UM JORNALISTA – São as metralhadoras. Não se separem! É apenas ficando todos juntos Que poderão ajudar uns aos outros. Havia entre eles pelo menos um homem honesto E ele não falhou em seu dever. Não creiam em nada e não escutem ninguém. A tropa foi encarregada de evacuar os matadouros. Então a bondade existe. Não ficaste tempo suficiente aqui. o seu sucesso foi formidável: nós ouvimos que Pierpoint Mauler. E sobretudo entendam bem Que nada se faz sem luta E sem a sua própria ação. JOANA: Tanto assim? Oh! Escola desconhecida. Mas tu. O coração deles não é de gelo. O que aprendeis? OS TRABALHADORES. E nós vos dizemos: combatei. (Ela se levanta) Eu vou avisar aos nossos que os boatos já começaram a circular. Agora as fábricas reabrirão. o milionário que dispõe de muito gado. JOANA – Quanta gente há aqui? OS JORNALISTAS – Uns cem mil. A não ser a proposta Que leve a mudanças verdadeiras. Os jornalistas retornam. JOANA – Oh! A boa nova! DONA LUCKERNIDDLE – Vejam as mentiras sobre as quais nos alertaram.39 OS TRABALHADORES: Fiquem. mocinha. Felizmente temos a carta para mostrar a verdade. com a carta. se esses senhores estão dizendo? Sobre um assunto como esse não se brinca. Ao longe as metralhadoras crepitam. Que tem a fome por mestre e onde a miséria Fala implacavelmente da necessidade! E sois cem mil alunos. espera. Nessas condições o trabalho voltará muito em breve aos matadouros. de jeito nenhum. JOANA: Parai! Chega de aprender essas lições! JOANA . E nós vos dizemos: ficai agrupados. Os tanques deles vos esmagarão. Se combaterdes. Classe cheia de neve e que as leis ignoram. DONA LUCKERNIDDLE – Não digas tais tolices. Tu não compreendes nada de nada. UMA MULHER – Devemos voltar para casa agora? UM TRABALHADOR – Quem nos garante que é verdade? Que haverá trabalho de novo? – E por que não seria verdade. no frio. JOANA: Escutem todos! Há trabalho. aconteça o que acontecer. Esse combate será perdido E talvez perdido Ainda o próximo combate Mas vós ireis aprender a combater E aprendereis pela experiência Que nada se faz sem luta E sem a vossa própria ação. OS JORNALISTAS – Olá. Os matadouros são tão grandes que a tropa levará horas até aqui. acaba de cedê-lo aos fabricantes. Quando se falou com ele como a um ser humano Ele deu uma resposta humana. É preciso fazer com que se calem os agitadores que incitam à violência.

Ela se levanta e sai. Seu sucesso foi grande. Chegam três operários. No final o lodo a engoliu. Há muito tempo que já está tudo arranjado. Mas o prato que se prepara aqui. E é por isso que parto. eu preciso ir. Vós. Enquanto o fraco ao fraco se alia. Perseguidor perseguido E não mais sabendo ver sem desconfiar. OS JORNALISTAS – Nós a aconselhamos a sair dos matadouros. Eles procuram alguém que não encontram e vão embora. Quem agisse assim se sentiria perdido. os astros sem harmonia Já não seguiriam sua órbitas. Se desde a infância o peso da miséria e da fome me tivessem ensinado a violência. Ela se vê com roupas de criminosa. E aprendestes A alimentar friamente terríveis pensamentos. para um dos dirigentes presos – Não liga não. estão muito enganados. longe do mundo que lhe é familiar. A tentação. Com seu silêncio opressor. . Direis que fazia muito frio. eu seria como eles e não faria perguntas. mas agora a coisa está terminada. Eu não sou um deles. UM OPERÁRIO. Joana tem uma visão. aparece uma inscrição: A neve começa a cair. Por que foram presos? O que ela contém. Eu digo: na escuridão se acumulam As violências e as questões nunca resolvidas. Enquanto a noite cai. e ninguém Poderá manter a sua calma. esta carta? Eu não saberia fazer nada Que requeresse violência.40 Que gélidas elas são! Não é pela violência Que se combatem a desordem e a confusão. Por três dias viram Joana em Packingtown. Os operários se levantam. é imensa! Mais uma noite como esta. No terceiro dia sucumbiu. ao longo dos anos. Sobre sua cabeça. Violar as regras em uso. Ou que engendrasse a violência. Dia após dia ela desceu. vós estivestes juntos Longas noites. Os dois dirigentes operários passam. OS OPERÁRIOS – Estão trazendo os sindicalistas. JOANA: Os que me entregaram a carta. Para este homem. Apartado em um mundo Tornado para ele estrangeiro. DONA LUCKERNIDDLE. Mas assim. conduzidos por policiais. algemados. Ela continua sentada. Do fundo ouve-se gritos que se aproximam. que eles ainda poderão ter uma surpresa. eu digo. UM OUTRO OPERÁRIO grita para o grupo que se afasta – Assassinos! OS OPERÁRIOS – Se eles acham que assim irão parar as coisas. Eu assim não poderia viver. Eles saem. Viram-na descer de degrau em degrau Para em água límpida a lama transformar e aos humildes Aparecer. Nada de bom pode surgir da violência. No lodaçal dos matadouros. Toda inocência tê-lo-ia abandonado. as palavras teriam outro sentido. voltando – Nada além de mentiras! Onde foi a moça que estava sentada ao meu lado? UMA MULHER – Partiu! UM OPERÁRIO – Desde o começo eu disse que ela iria embora quando começasse a nevar de verdade. Começa a nevar. Quem o comerá? Eu vou embora. William. Isso seria desleal para com os outros homens.

meia volta. E a vocês eu despeço Pois da pobreza eu cruzei a fronteira. impresso. Assim foi conseguido. Pierpoint Mauler cruza a fronteira da pobreza 8. A mim ela vai elevar às mais altas esferas. mais de vocês. não lhes parece? Ah! Eu repito Não fiquem enchendo a cabeça com idéias. . saindo – Bom. Escolhido como material. Que nós construímos em nossas grandes cidades Sem importar o custo. Quanto a este edifício. são os mais atingidos. Mauler e seu amigo. OS DOIS SEGURANÇAS – Então podemos ir? MAULER: Podem E eu também posso ir aonde queira. 9. Há resistência. modificam tudo. Até o reino do espírito. o que foi? Riste. Doravante Não há mais ninguém que me queira matar. que todos os fabricantes Quebraram juntos e saíram do mercado. Agora eu estou livre. Vejam o que leio. Sem nenhuma exigência. Este homem está perdido. Não é para pensar que eu vos pago. Seja por aberração. Pensar não serve para nada. aqui sob meus olhos. a dona Luckerniddle reencontra Joana. em suor e em dinheiro. os pobres. Aquele que sai de tal imóvel.. O mais prático também. façamos meia volta. Aquela que eu procurava terá tido o bom senso De sair das profundezas onde o inferno se instala. Ter construído a maior cloaca do mundo Constituirá a sua única glória. Mas vejo que estão pensando.41 Pergunta feita: quem ficará? Como nos outros dias. hoje restarão No chão as pedras. Essas notícias. confessa. De agora em diante. preto no branco. Slift. É o que está escrito. UMA ESQUINA EM CHICAGO MAULER. ainda atiram.. seja por economia. Na borrasca. cocô de cachorro: Que torna a permanência difícil. um objetivo que eu saúdo E que muito me alivia. MAULER: Se a desgraça abate ao homem sem caráter. a um de seus seguranças Parem. o mais vasto. Passa um vendedor de jornais Ei! Jornal! Vejamos o que se passa na Bolsa de Carnes. Eu tenho as minhas razões. Sou conhecido nos matadouros. E ninguém quis. Tem certa razão de estar alegre. Basta. Cedi meu gado a qualquer um que o quisesse. Parece-me Que contratei dois idiotas. Até mesmo aos matadouros. Perto dos matadouros. Só porque duas ou três vezes eu dei meia volta. nada mais posso fazer por eles. mas o arquiteto teria. Está dito. em cima. Eu disse: meia volta E tu riste. UM LUGAR DESERTO NO BAIRRO DOS MATADOUROS Neva. então. Vejam. dele se diria Um prédio construído com grandes despesas. UM DOS SEGURANÇAS. Em todo o caso. Não preciso. preto no branco: O gado está a trinta e ninguém compra. Sem que eu tenha procurado. Ele lê e empalidece. Assim espero.

Tudo está voltando ao normal agora. Pierpoint Mauler as arruinou. JOANA. Que nada diga. OUTRA VOZ: Joana pára. Anda em outra direção. A VOZ DA DONA LUCKERNIDDLE: Eu fui a tua fiadora. Tu não a entregaste. estás aí! Onde tinhas te metido? Entregaste direitinho a carta? JOANA – Não. DONA LUCKERNIDDLE – Eu devia ter duvidado. Errando pelos matadouros. Joana pára. Mas também podias nos trair. podias dar conta. (Joana desaparece na tempestade de neve) Hei! Venha! Ela foi embora! DONA LUCKERNIDDLE 10. A pedra não perdoa. Eu vou embora. UMA VOZ – Lá onde te esperam.42 – Ah. fraqueza do corpo! Oh fome. O SEGUNDO OPERÁRIO – Os comunistas é que tinham razão. Nós não sabíamos quem eras. de uma missão. oh verdade! Que a neve em tempestade Inoportunamente mascarou com sua noite. caindo de joelhos: Luz. DONA LUCKERNIDDLE – Ora essa! Para ti está tudo normal! E eu que disse que tu eras honesta! Sem isso não teriam te confiado a carta. De tua missão. precisas chegar! Joana olha ao redor. É inútil tentar pegar. AS VOZES: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. Dê a carta aqui imediatamente. Joana ouve vozes. Eles teriam ficado apesar da violência da polícia. Mas tu és uma traidora e teu lugar é com eles. Joana cruza com dois operários de quem ouve a conversa: O PRIMEIRO OPERÁRIO – Primeiro eles fizeram correr o boato que as fábricas reabririam a todo o vapor. Como se rede já não houvesse. JOANA – Não. Claridade que então eu deixei de ver! Oh! Quem conhecerá o poder da neve! Oh. Nós te encarregamos. ela procura se livrar das vozes que ouve de todos os lados. Uma parte dos operários saiu dos matadouros. Mas a carta que trazia a verdade. Por este buraco fogem todos os peixes. mas a senhora quer continuar. Lá dentro só se fala em violência. eu não a darei. Sem récitas inoportunas dos seus infortúnios. Que sentimentos em nós deixareis sobreviver? . UMA VOZ: Não há desculpa Para quem não chega. E aquele que chega a bom porto. isso é o que tu és! Dê-me a carta que te confiaram. Aquilo que lhe foi confiado. UM OUTRO LUGAR Correndo em direção ao centro da cidade. Ao que tropeça e cai. O SEGUNDO OPERÁRIO – Isso é grave: sem dúvida uma parte das ligações não funcionou. As massas não deveriam ter se dispersado. para poder se apresentar amanhã bem cedo ao trabalho e de repente eles falam que as fábricas nunca mais abrirão. Nela estava nosso destino. mas entregue. Ainda mais que amanhã todas as empresas de Chicago iriam declarar a greve geral. Um lixo. Muitos operários teriam ficado se soubessem da notícia. Cumpriste a missão? Joana volta a andar e uma nova voz a detém. Joana. De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. O PRIMEIRO OPERÁRIO – E aqui nós não ficamos sabendo.

à chuva. entrando – Pierpoint Mauler está aqui? BISPA SNYDER – Não. . É Mauler. O reino de Deus está pronto na minha cabeça. investindo contra ele – A sopa. que aliás é muito barato. UM HOMEM. Para nos salvar neste instante. estamos aguardando. MAULER – Eis aqui um homen marchando até o seu Deus. Salvar-nos com o seu dinheiro! BISPA SNYDER Há exatos oito dias Que nos matadouros onde as máquinas enferrujam. De um só golpe o bolchevismo também é enterrado. BISPA SNYDER. X Humilhação e assunção de Pierpoint Mauler TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS MARTA. onde iremos acomodar o nosso público? Chega um pobre. o banco dos penitentes! E já suas mãos avidamente se dirigem Ao órgão a vapor e ao púlpito. veio nos dizer que Mauler em pessoa estava disposto a assumir o nosso aluguel e a organizar conosco uma grande campanha em favor dos pobres. OS CHAPÉUS NEGROS: Estão levando. Uma boa orquestra à mão e sopa Bem grossinha: terminam para Deus todas as preocupações. Ele sai. com certeza! Ele já está a caminho com os seus milhões! UM CHAPÉU NEGRO – Bispa. O HOMEM – Os fabricantes de conservas querem falar com ele e os criadores o chamam aos gritos.43 Frio da noite. o senhor Pierpoint Mauler. Mas nós o estamos esperando. ou que deixe o imóvel. no céu e no inferno. Sob um plúmbeo zênite de destinos desconhecidos. Um homem começa a levar os móveis para a rua. Buscam-no por toda a parte. se ele pudesse vir. E nós gritamos à plena garganta: Ah. A massa espera. o rei da carne. OS CHAPÉUS NEGROS: Romperam-se os diques da fé Em Chicago. que já se afunda! Mas o rico Mauler virá. minha cara Mulberry. DONA MULBERRY – Bispa Snyder. BISPA SNYDER – Dona Mulberry. é sábado a noite. Ele se levanta e avança até os Chapéus Negros. Ah. nossa boa cidade. BISPA SNYDER – Sente lá atrás e fique quieto! Ele se senta. Pediram-lhe cem dólares. quem vos pode resistir? Eu preciso dar meia volta! Ela retorna sobre seus passos correndo. com sopa quente E um pouco de música. ele possuía dez milhões. Quero que a senhora pague o meu aluguel. a qualquer momento. MAULER. Conheci bem um homem. Eu o conheci: era um imbecil. DONA MULBERRY – Meu caro Dick. Este homem que foi em sua vida Mais estúpido do que um vagabundo bêbado e repugnante. E as ondas de lama do materialismo Ameaçam a casa de Deus. a outro Chapéu Negro – Há três dias um emissário de Pierpoint Mauler. agora os pegamos. Liberada. Vejam que já balança. é tudo o que eles querem! Aqui não tem mais sopa! Aqui só tem a palavra de Deus! Ouvindo isso eles vão logo embora. posto que sem abrigo. Exposta outra vez à neve. que triste. que prometeu nos ajudar. na frente do palco : Ouvi alguém procurando um certo Mauler. coloque os móveis na rua. o suntuoso Mauler. afastada do trabalho.

BISPA SNYDER. Se aproxima já Com os seus milhões. Jogou no mar seus milhões. eu vos rogo! Pois eu sinto O coração ao mesmo tempo leve e pesado. OS CHAPÉUS NEGROS – Ele já chegou? MAULER: Um hino. Por sete dias apertei a garganta Desta cidade até sufocá-la. Silêncio! Tragam-me o livro das faturas e contas por pagar: estou nessa parte. deu cabo de si mesmo. Aqui estou agora. MAULER: Eu me acuso de ter explorado o meu próximo. recusou-se a dar o dinheiro. Sentados sobre as margens do lago Michigan.44 No fim. Os Chapéus Negros cantam. Ele trazia o seu coração. sem nada. ar ausente. Tiremos de nossas paredes as máximas. construir vossa casa . devolva-me os meus quarenta aluguéis! MAULER: Vós desejais. mas arrependido. CORO DOS CHAPÉUS NEGROS. Mauler canta com eles. olhos voltados para a porta. BISPA SNYDER Silêncio! Fora. Sentados sobre seus últimos bancos e suas últimas cadeiras os Chapéus Negros cantam desordenadamente seus últimos hinos. OS MÚSICOS: É deste aí então que vocês esperavam O dinheiro para nos pagar? Então nós vamos embora. Não podemos mais pagar as nossas contas. Todos os pagamentos estão suspensos. UM CHAPÉU NEGRO – É ele. que tenha caído tão baixo. Joana. Culpado. inclinado sobre os livros de contabilidade – Não direi o que estou calculando. seguindo a letra por sobre o ombro de um dos Chapéus Negros. Abusado da força e espoliado todo o mundo Em nome da propriedade. Envolvamos em nossas bandeiras derrotadas Os livros de cânticos. e dilacerado de remorsos. OS CHAPÉUS NEGROS: Não perca a confiança! Homem de pouca fé! Ele virá. meus amigos. sim. Eles cantam ainda “Entrai na batalha”. E esse gesto tocou os nossos corações. Diante de vós. gritando – E sem dinheiro? (Aos Chapéus Negros:) Façam as malas. Ele pega dois Chapéus Negros pelo braço e senta-se com eles no banco dos penitentes. é certo. E sobre nós a neve envia suas tempestades Em um inverno no qual crescem os rigores. DOIS MÚSICOS: Um pedacinho só. Apenas nos resta chorar. BISPA SNYDER – Tu és Mauler? MAULER – Sim. Os músicos tocam um hino. Mas quebrou a nossa cara De uma vez por todas. BISPA SNYDER. Mauler! MAULER: Mas quero acrescentar que no sétimo dia Fui despojado de tudo. todos para fora! A Mauler: E tu primeiro! Onde estão os quarenta meses de aluguel Desses não-convertidos que Joana enxotou? E vejam só o que ela me trás em troca! Devolva-me. Passar bem. eu vejo. dirigindo-se aos músicos que vão embora: Nossas orações eram pelo rico Mauler E foi Mauler o arrependido que entrou. já. não o seu dinheiro. Ouçam então a minha confissão: Aqui jamais se ajoelhou Ninguém.

E hipotecando até o último lápis Para trazer de Quebec. firmas de grande renome. Um zênite ameaçador de pensamentos desconhecidos. Para mim o humano era aquele a quem eu podia explorar. Não terias a necessidade de aliviar aqui A tua consciência. em poucas palavras. Eu sei muito bem. Dá o dinheiro. Eles também estão muito pálidos. o que existisse de gado. Mauler. O Banco Nacional gritou: “Alto”. Que não ficou só por muito tempo. quem nos derrubou. Acorreram todos em ajuda. tomado de loucura. assumindo seus deveres. Mauler. durante sete horas. OS REIS DA CARNE: Perdoai-nos. nobre Mauler. Estão pálidos como o linho. Mal viu esses bois vindo ao longe. Mauler. Por vós fomos forçados. chorando. Vossa função seria apenas a de brincar na relva. com voz dura. agigantou-se E a todos nos precipitou no abismo! MAULER: Oh! Eternos combates! Em nada são diferentes Desde os tempos antigos onde os homens Com uma barra de ferro rachavam-se as cabeças! GRAHAM: Recordai que estávamos à vossa mercê. O ancião venerável. Concluo eu o seguinte: o Mauler que sou Não é aquele do qual precisais. desde a aurora. Ah! Se não tivesses aliviado tanto os nossos bolsos. Este espetáculo atroz apavorou o ancião. Mas Slift. tomando a frente : Mauler. Em três dias. Loew e Lévi. Mas se chamássemos de homem àquele a quem se ajuda Daria no mesmo: necessitaríeis sempre De gente a ponto de afogar-se. gado canadense. OS CRIADORES: Maldito Mauler. salva tua alma. Os complexos pensamentos de vosso imenso espírito. Viram-se os preços Oscilarem. Mas nós estamos perdidos: Em torno de nós. Relatarei o combate memorável Que. como um bêbado sedento Que ao mar esvaziou sem se satisfazer E lambe avidamente cada gota que encontra. Prometiam até o gado por nascer.45 Sobre o que há de pior em mim. paga-nos o gado! GRAHAM. partistes. e a noventa e cinco Comprou-os todos. comprometendo suas casas. eles iriam trazer. E Wallox e Brigham. Quando. da Argentina. Que projeto tendes agora. Lançou. Que vos pertencia. Que a constatação vos enche de amargura. Era vosso todo o gado. Na porta. Ele tenta sair. . por ter vindo Atrapalhar neste lugar as tuas meditações. Pelos contratos que nos obrigavam A entregar de imediato as conservas prometidas. Slift apertou Ainda mais forte a nossa garganta. Ninguém jamais pode fugir da lei. No mercado perturbado. E tudo o que de longe parecesse um boi. é aqui então que te escondes? Paga nossos bois ao invés de fazer penitência. que fareis? Entram os criadores em grande agitação. hesitantes. Subiu os preços a noventa e cinco. os reis da carne vêm ao seu encontro. e sobre nossas cabeças. ao meio-dia. Um vitelo ou um porco. o caos. E sobre eles atirou-se. Dais o nome de homem a quem vos vem ajudar. No ciclo dos astros ou das mercadorias. a comprar gado. O que pretendeis fazer de nós? Foste vós. Bispa.

Do outro eu preciso. diga-me.46 Mas Slift gritou: “Três dias não. Seria esmagado como um morango no chão. quando e com que dinheiro Nos pagarás o gado comprado. Aí está o que tornou o contrato sem valor Apertastes muito forte. Ouviu-se nesse dia os jovens estagiários. agora. os agentes fechando suas escrivaninhas. de imediato. Eles precisavam entregar. E em silêncio também os bancos desmoronaram. E que não foi ainda acertado. Com esse chapéu e este sapato: Dez milhões o chapéu. Como a água que cai na cascata. e então se retirarem. E viu-se. O que fazer. quando levamos às estações De nosso longínquo Missouri Com muito sacrifício. comprar. golpeia um corretor na barriga. mudos. Em tudo semelhantes aos antigos corcéis Mordendo. os vívidos vitelos. tomados de desespero. De cotação em cotação Os preços caíram e rolaram até os negros abismos. Parando de pagar. os cavalos inimigos. de rocha em rocha E somente em trinta a queda parou. Célebres. Toda a família nos gritava de longe Com a voz embargada pelo trabalho duro . com olhos marejados. a carne de boi. Lévi. entrego por cinco. MAULER: Agora mesmo. Slift. O sapato. em um suspiro.. Lançaram-se um a um nesta última batalha.. por sua indiferença. Estão satisfeitos? OS CRIADORES: Há pouco tempo. Eu quero para hoje”. Casas até então sólidas e poderosas. E os jovens bois de pêlos reluzentes Engordados com tanto cuidado. Rangerem os dentes. E como contratos nulos não impõem compras. se por um acaso Um elefante se arriscasse pelo interior da Bolsa. que travaste a batalha Que deixei a teus cuidados! SLIFT: Corte-me a cabeça! MAULER: E de que me serve tua cabeça? Dá-me o chapéu. baixou. obstinados. isto é. Mas alto o bastante para que todos ouvissem: Para pagar-lhes tomem então nossas fábricas. Naquele instante. fomos estrangulados E de que adianta estrangular um cadáver? MAULER: Foi assim então. Lévi. paravam de viver. Até os simples contínuos. Só um. ele ao menos vale vinte e cinco centavos. Nós queremos que nos digas Como. Inúteis portanto. Como definha uma esponja espremida. e os preços subiram. os fabricantes apáticos Depositarem a vossos pés suas fábricas fechadas. na batalha. o velho Lévi disse então em voz baixa. Porque não mais podemos honrar os contratos. um a um. Com esse gado que ninguém é obrigado a comprar? OS CRIADORES: Sem querer perder a paciência. Institutos de crédito. Sob nossos olhos. E nós comprávamos sempre: Nós precisávamos comprar. é sabido. E Brigham arranca a barba aos gritos: “Noventa e seis”. Vertiginosamente. Que nos píncaros se encontrava. Lutavam a dentadas. Slift então gritou: “Cem”! Poderia ouvir-se um alfinete cair. em um espasmo. Os corretores.E a voz ainda nos alcançava Mesmo com a balbúrdia dos trens que partiam: . bancos.

O negócio só é possível. Como tudo de agora em diante Me parece diferente. a quem mandavam cartas desse tipo. neste estado. Estariam vocês dispostos a repetir aos quatro ventos . isso não é possível. Sancionado pelas instâncias superiores. amigos. nobre Mauler. esperamos” E agora. Caro Pierpoint. MAULER – Eu costumava ser esse Mauler. De máximas sagradas e escolhidas com grande cuidado. Jogai sobre vossos ombros o jugo. Não quero. mostrando o lombo vazio E nossos bolsos também? Como. entrando – Mauler está? Uma correspondência para ele. GRAHAM – Mas então é Wall Street? Um murmúrio percorre o ambiente. estão para sempre perdidos. Cuja voz está a tal ponto asfixiada. Julguem vocês mesmos. caro Pierpoint. Seus bens. E o barulho das metralhadoras. Seus amigos de Nova Iorque. Agora. é impraticável. voltar para casa? O HOMEM DE ANTES. Alguma chance de sucesso. E voltar até nós? Pensai. nós aconselhamos a fazer um acordo com os criadores para reduzir o rebanho.. nós estaremos de bom grado à sua disposição. sozinho.47 “Ei. pelo que dizem. Outra vez responsável. E dado que de vós necessitamos. elas vão mal. MAULER: Ou seja. Pois os preços do gado vão subir. Mas se fizéssemos uma grande promoção De sua instituição. não bebam todo o dinheiro. Nem todos aqui em baixo poderiam ser ricos. Como voltar para nossa terra? E que diremos a eles. assumir a empreitada. mas são numerosas. esta caça fatigante. Compreendido como sendo de interesse geral. O projeto teria talvez. conhecem um meio de sair desta. compreendei. Deixando as sublimes esferas onde meditais. Se assim fosse concebido. Não. A Snyder: Existem muitas dessas lojinhas Onde se vende a Bíblia? BISPA SNYDER – Sim? MAULER – E como elas vão? BISPA SNYDER – Mal. nós lhe forneceremos amanhã mais detalhes. OS FABRICANTES E OS CRIADORES: Desejarias.. GRAHAM – O que não é possível? MAULER – Tenho amigos em Nova Iorque que. Não ter fartura de bens terrestres.” Não. Mas para mim. rapazes. condescender. é muito a contragosto. De um asilo necessário para os casos mais graves. Abandonai... de Nova Iorque. Neste caso. MAULER: Em nós a consciência. Ele estende-lhes a carta. Nossa pobreza é termos perdido O sentido dos valores mais elevados. para que os preços voltem a subir. Pois ainda creio ouvir O rumor dos matadouros. MAULER: Se o faço. Rockfeller. ao contrário. Providos de sopa quente e de boa música. entendei. pensai no caos Que ameaça a tudo engolir. Mauler. o que faremos.(Ele abre a carta e lê de canto) “Escrevemos a você recentemente. Mas nossa pobreza não é. MEYERS – Quem são esses amigos de Nova Iorque? MAULER – Morgan. para que comprasse carne. vocês estariam dispostos.

E que. é claro Que entre vocês estivesse Joana. Eles podem nos parecer inferiores. E mesmo que muitos não compreendam. não poderíamos Doá-lo àqueles que esperam lá fora E quem sabe utilizá-lo melhor? MAULER. nesses tempos de desgraça? Pois serão necessárias medidas draconianas Que poderão parecer duras porque irão Derrubar alguns e. E às vezes inoportunos. OS FABRICANTES – Que cérebro! MAULER. Não tem outra causa a não ser Que há carne demais. mais ainda. aos fabricantes: Faremos uma fusão de suas indústrias Em um só monopólio. Eu compreendo o senhor. é eminente -. ofuscado. Chapéus Negros. criadores e industriais. Enfim. você não compreendeu A questão de fundo. pedindo a palavra: Perdão. ou melhor: quase todos Mas é o único meio de salvar o sistema De vendas e compras no qual vivemos. Em que em nossas cidades os problemas não têm fim. O mercado foi saturado este ano. . Eu fico com a metade das ações. TODOS – Que solução simples! BISPA SNYDER. nós decidimos. TODOS – Não há outra saída! MAULER – E também precisaremos reduzir os salários! TODOS – É o ovo de Colombo! MAULER: Qual o objetivo dessas medidas? Nesta noite de sangue e confusão.Pois eis Chicago outra vez agitada A greve geral. BISPA SNYDER – Quase todos. Digamos: a maior parte. Será preciso demitir um terço dos operários: Também de mão de obra o mercado está saturado. supérfluos. Vê que são eles os compradores! Seja como for. Então. quebre suas ferramentas E destrua assim seu próprio ganha-pão. Esta dificuldade pela qual estamos passando Está a ponto de ser superada. mas se o gado tem tão pouco valor Que pensam em queimá-lo. que deseja Fazer o bem. Elas trarão a calma e a ordem. Limitar o rebanho oferecido no mercado.48 Que nós somos uma gente valorosa. E é por isso que os preços caíram a zero. tem seus defeitos. É por isso. Seria muito importante. desordem e violência. Miséria e fome. Toda essa gente aí fora: Eles são os nossos compradores! Dirigindo-se aos outros: É incrível. é lógico. Todos sorriem longamente. meus amigos! Eles cochicham. Meter um freio à anarquia da criação. para puxar os preços. sorrindo: Minha cara bispa. Elas impedirão que em sua brutalidade Um povo. mas olhando bem Quem vê além das aparências das coisas. MAULER. Nesse tempo de humanidade desumanizada. Em conjunto. aos criadores : Escutem. queimar um terço do gado existente. Nós o faremos. É preciso limitá-la. que nós subvencionaremos Fartamente a sua missão que contribui Com a manutenção da ordem. dizem. . Eliminar o estoque excedente atual.

JOANA. eles chegam até nós. apanhem-nos! Sejam bem-vindos. Nossos planos outra vez se impõem. UM DELES – Quem são eles? O OUTRO Nenhum deles Pensou só em si mesmo. cantam. Quando estão cegos e surdos. De sopa encham os pratos. Quando perdem o trabalho. UM DELES – E por que foram presos? . Até nós. não deixaremos! Sejam bem-vindos. dois homens conversando. para que nenhum escape! Eles estão a caminho. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Vamos. joguem as grandes redes! Eles saíram agora de sua última casa! Deus lançou sobre eles o frio! Deus lançou sobre eles a chuva! Eles terão de vir. joguem as grandes redes! Sejam bem-vindos. Joana segue com o olhar os prisioneiros. As coisas retomaram o rumo que nos agrada. MAULER: Abram agora a porta principal Aos homens cansados e cheios de preocupação. Ninguém pode escapar: tranquem as saídas. estão chegando! Daqui eles não escapam. OS CHAPÉUS NEGROS. Toquem a música e nós mesmos Seremos os primeiros a nos sentar Para elevar nossos corações a Deus. estamos prontos! Já estão chegando! A miséria os traz aqui como um rebanho! São obrigados a vir. Ela então ouve.49 Cuja face por si só já inspira confiança. Sejam bem-vindos. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Todo aquele que aqui entrar. apanhem-no! Lazarentos e descalços. Música de órgão. Foram presos os sacrílegos que perturbavam a paz e a ordem! SLIFT: Podem respirar. Perseguidos sem trégua. Eles combateram Pelo pão dos outros. penteados e carecas. Os que aqui chegarem. o mercado vai ser curado! Outra vez saímos do ponto morto E realizamos uma obra difícil. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Tranquem as saídas. UM CORRETOR. a seu lado. Passam então os dois dirigentes operários escoltados por soldados. Passam apenas alguns grupos de operários. olhar fixo na porta: Eles terão de vir. SNYDER – Abram as portas! A porta principal é aberta. chega e pergunta – Vocês viram passar três homens que vinham buscar uma carta? Ao fundo ouve-se gritos que se aproximam. Imóvel. Eles vêm até nós para chorar. entrando precipitadamente – Escutem a boa nova! A greve que nos ameaçava foi sufocada. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! XI NOS MATADOUROS EM FRENTE AO ARMAZÉM DAS FÁBRICAS GRAHAM Os matadouros estão quase vazios. Nenhum deles tem chapéu.

Quando os soldados vierem a recolherão. esticando o braço com a carta na mão. foi reduzido em um terço. Ela veio daquele lado e aqui ela gritou para os nossos que as empresas municipais iriam decretar OPERÁRIOS Sim. Golpeados. Todos perecem antes do tempo. A decisão sobre a greve geral só chegou a uma parte deles. UM DELES – Sempre será assim? O OUTRO – Não. Joana cai desmaiada. JOANA – Os operários concordaram? OS JORNALISTAS – É claro. Recolhida doente Nos matadouros. Ou de malfeitores postos na cadeia. saiba que são eles.50 – O homem injusto atravessa a rua à luz do dia. Nem é enterrado com decência. UM DELES – Por que não se ouve falar deles? O OUTRO O OUTRO greve. e a esta a polícia dispersou com o uso de força. Um deles a derrubou com uma coronhada. Um grupo de pobres entra. JOANA. Deus outra vez se impôs. XII EM FRENTE AO ARMAZÉM DA FÁBRICAS GRAHAM Um grupo de operários entra. O POLICIAL: Eis aqui uma sem-teto. A greve geral fez água. Enfim o sucesso chegou E tudo acabou bem. Seu último endereço Teria sido aqui. Divididos em grupos estão os Chapéus Negros. – Ela deve estar aqui. a sorte nos sorriu. mas apenas para dois terços dos operários. As fábricas reabrem. os jornalistas a interpelam. pisoteados. não é ela. Nós soubemos ser sublimes E vulgares quando necessário. Nenhum morre de barriga cheia. Esta aqui não é das nossas. que seguram bandeiras novas. à sua frente. chega ao termo de sua vida. E a carne vai subir. As rajadas de neve a impediram de ver os soldados. como se ainda quisesse entregá-la: . o salário também. Joana se vira. Em nós podem por fé. XIII MORTE E CANONIZAÇÃO DE SANTA JOANA DOS MATADOUROS Agora o templo dos Chapéus Negros está ricamente mobiliado. UM DELES – O que farão com eles? O OUTRO: O salário deles é baixo e seu trabalho útil à maioria. Deixem ela aí no chão. Durante alguns segundos eu a vi distintamente. os açougueiros (fabricantes de conservas) os criadores e os compradores. SNYDER: Quando nos jornais falarem de criminosos abatidos. Nos vales e nos cimos. entretanto. Joana. Aqui está! Seriam necessárias muitas como ela. Lançados em terra profana. Nenhum. mas o justo se esconde. não é a nossa Madona dos matadouros? Hei. carregando lanternas. Não. amparada por um policial. Era uma velha operária. Nenhum come seu pão tranqüilamente. OS JORNALISTAS – Vejam só. você aí! As coisas deram errado.

toda a obra Onde o espírito não encontra. Foi necessário. Ela que. a quem não se pode mais explorar! Comei a sopa! Ah. sua térrea natureza. MAULER: Que tome posição em nossas fileiras Esta alma inocente e cândida E que sua bela e pura voz Misture-se aos cânticos de nosso coro. por menor que fosse.51 Jamais receberá a carta Aquele que agora está morto. dando provas de humanidade nos matadouros. OS CHAPÉUS NEGROS: No final. dirigindo-se a Joana: Como ela ainda está perturbada. Se eu apenas tivesse entregue A carta que me confiaram! OS CHAPÉUS NEGROS. Joana dos Matadouros. SLIFT – Esta é nossa Joana. Ela vai muito adiante. intercedendo pelos pobres e mesmo proferindo discursos contra nós. Nós faremos dela uma santa e não economizaremos em homenagens. empregando todos os meios. o infinito. na noite. Slift discute com Snyder e com os fabricantes. enquanto as moças dos Chapéus Negros a vestem novamente com o uniforme: Ouve-se outra vez o rugir das fábricas: Outra vez se desperdiçou a chance De colocar um freio a esses excessos. JOANA: Eu falei em todos os lugares. Chegou na hora certa. A vida tranqüila de um cordeiro. Ela será a nossa Santa Joana dos Matadouros. Por uma boa causa. E só servi aos perseguidores. e ultrapassa o objetivo. MAULER: Uma alma que exala sublimes impulsos Suporta mal. um serviço tão pequeno Foi só o que em toda a minha vida Me pediram para fazer. Quando o meu esforço. Quando se poderia ter alterado o curso das coisas. pois ela nos ajudou a atravessar a tormenta dessas semanas difíceis. quais os gritos que abafas? Comei vossa sopa! E não desperdiceis esse resto de calor. Pelo contrário. E em sua marcha altaneira Para evadir-se ao mundano. Intercessora dos pobres. E seus erros. Eu o neguei. marchava para a luz! Seus atos eram os de um ser humano. também humanos! JOANA. Mostrá-la entre nós provará o quanto nos importam os sentimentos de humanidade. Consoladora dos baixios! JOANA: Que vento sopra nesses baixios? Neve. eu poderia levar. E outra vez o mundo Percorre o antigo ciclo. infelizmente. E eu não fiz! Enquanto os pobres tomam assento nos bancos para comer a sopa. Matéria a sua altura . E tinha sonhos para milhares. Eu faltei. BISPA SNYDER: Levanta-te. Vós. O ideal. Desta vida intolerável E atingir o inconcebível. Que Joana exorcize o mal E que por nós ela interceda. Vamos colocá-la em destaque. Eu falhei com os perseguidos.

Entre os do alto a baixeza é sem limites. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES. Exceto aquele que muda o mundo Definitivamente: isso é o que é realmente necessário. Porque o sistema é construído assim: É apenas exploração e desordem. E sem descanso nem folga Realize seu dever. Mas nada mudará se eles melhorarem. eu não transformei nada.Isso não basta – Deixai um mundo bom. fique no lugar Que lhe é atribuído. que significam Se não se manifestam em nenhum lugar? De que serve vosso saber Se o que sabeis não tem conseqüência? Eu mesma. Contrário à razão. Que nada seja considerado como boa ação. qualquer que seja. então. de maneira a encobrir a voz de Joana: Para que até o céu se levante o edifício. é magnífico Sempre que espírito e negócios se aliam. JOANA: É uma grande verdade Que aprendi e que vale para todos E morrendo eu vos digo: Vossos bons sentimentos. Que cada um. a Joana: Seja boa e se cale! . Se não for uma ajuda real. E o que se passa no alto. Não esqueçamos que ela esteve nos matadouros. Maldito aquele que apelar A essas massas essenciais Mas sempre insaciáveis. Pois se dele esquecer Perturbará nossa harmonia. o que foi que eu fiz? Nada. Eu. falando alto. JOANA: Pois entre os de cima e os de baixo O abismo é mais profundo Que entre o Himalaia e o fundo do mar. A esses elementos dos baixios! JOANA: Mas os que estão por baixo são assim mantidos Para que os de cima lá continuem. O que está em baixo tem grande importância. Eu vos digo: Quando chegar a vossa vez de deixar esse mundo. Mas que não sabem o quanto. dois pesos e duas medidas. E dois idiomas diferentes Os homens têm a mesma face E não se reconhecem mais.52 Resta fragmentada Sem alma e sem vida. Não tenhais a preocupação de terem sido bons . Sistema bestial. O que está em cima está em seu justo lugar. Que ninguém seja tido como honrado. Precisa-se do chão. A essas tropas indispensáveis. OS CHAPÉUS NEGROS. Deixando sem medo um mundo por onde passei muito rápido. Nunca se sabe em baixo. para os exploradores. como do topo. caí do céu! Infelizmente! Bondade sem conseqüência! Sentimentos Que não fizeram a menor diferença! Não. ignora-se o que se passa em baixo. Mas também no alto. GRAHAM – Ela não pode proferir discursos que não sejam razoáveis. Quaisquer que sejam as aparências. OS FABRICANTES: O resultado. No topo e no chão.

Chegar ao topo implica Pisar na cabeça daqueles que estão por baixo. de século em século. obedeça! OS AÇOUGUEIROS: Quem se mover no espaço Nunca poderá subir: Subir é subir sobre alguém. infelizmente. comerciantes. OS AÇOUGUEIROS: Podes fazer qualquer coisa! OS CHAPÉUS NEGROS: Mas faça-o Sempre com muito escrúpulo! Espírito contemplador. sempre mais alto. JOANA: Se alguém um dia vos disser Que existe um Deus. Que podeis elevar-vos moralmente Mesmo com os pés enfiados na lama. A palavra de Deus. Onde vivem os homens. BISPA SNYDER – Joana Dark. SLIFT – Escutem. Não. Em suas compras. mas que seja bem alto. Não esqueças: tua consciência está lá! Atenção. contraiu a serviço de Deus uma pneumonia nos matadouros de Chicago. ou seja. OS AÇOUGUEIROS: E nem pensa em tirá-los. para abafar o discurso de Joana. a eles concedei! Hosana! A quem tudo possui. JOANA: E do mesmo modo. os alto-falantes começam a transmitir notícias que espalham o medo: “Bank of America e Citibank estão de pires na mão” “Revolta contra os cupins financeiros conflagra Londres” “Múltis drenam do país US$ 3. É preciso também golpear-lhes o crânio com uma pedra. é verdade. Todos. Batei com uma pedra em seu crânio Até que arrebente.Sobretudo se forem compras especulativas – Esse Verbo que. digam qualquer coisa. Falem. Combatente e mártir. invisível. Do qual podeis esperar ajuda. Precisarás deles sempre! OS CHAPÉUS NEGROS: Olha para cima. cantam a primeira estrofe do hino. ferir! OS CHAPÉUS NEGROS: Nunca esqueças do sangue que mancha teus sapatos. Só dos homens pode vir ajuda. sobretudo. Mas evita. Sempre se metamorfoseia. MAULER: Deves agir. Denegrindo a ti mesmo. é preciso fazer algo para tirar a atenção do que ela fala. Aos ricos concedei a riqueza! Hosana! Também a virtude. distingam com um sinal! Hosana! Enquanto eles cantam os versos. tudo concedei! Hosana! Concedei-lhe a cidade e o Estado! Hosana! Aos vencedores. de esquecer os remorsos. Sempre necessário . vinte e cinco anos.266 bilhões só em dez dias de março” “BC assalta U$ 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street” “Montadoras almoçam os R$ 8 bi do crédito e mantêm ameaça de demitir trabalhadores” “Deficit dos EUA deve chegar a US$ 9 tri entre 2010 e 2019” . O Verbo magnífico. quando vos disserem.53 É preciso. Onde reina a violência Não há outro recurso senão a violência. Não esqueçam.

A voz de Joana já não se ouve: Concedei aos ricos misericórdia. sinto-me atraído: . tocada pela morte. A generosidade De uma alma sem mácula. A carne para a terra o arrasta! MAULER: Ai! Um duplo desejo dilacera meu pobre coração. Snyder e Mauler vão até ela. Hosana! Esmagai o ódio. até cobri-la totalmente. que vos ajuda também. BISPA SNYDER – Joana Dark. Hosana! Nesses braços que vos estendem. sempre ele aspira Às esferas mais elevadas. combatente e mártir. mudos de emoção. Um desejo vive no coração do homem. se não tivessem degolado tantos porcos!” “Criadores miseráveis. por que não empregaram mais gente e pagaram melhores salários? Quem esperam que compre a nossa carne?” “Foram os intermediários que fizeram subir tanto a carne de gado. Pelo espírito. A um sinal da bispa. Hosana! Que seus crimes terminam bem. levanta e vira. as mulheres tentaram oferecer a Joana um prato de sopa. Em seguida cai nos braços delas. Colocam a bandeira em suas mãos. por que criaram tanto gado?” “Alucinados. O palco é iluminado com uma luz rosada. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES: Desde que o mundo é mundo. Bolsa de NY cai 4.” “Os bancos nos arruínam com os juros que exigem!” “Quem pode pagar tanto dinheiro para estocar o gado e pelos silos de grãos?” “Por que vocês não começaram a reduzir a produção?” “Nós começamos. Comove-nos profundamente. Hosana! Oferecei a vossa graça. que manipulam o dinheiro a rodo. colocam-se suavemente todas as bandeiras sobre Joana. Todos ficam muito tempo de pé. Hosana! Juntai vosso riso aos que riem. Hosana! Notam que Joana para de falar. Nós que temos a alma comum! E então desperta a boa alma Que temos no fundo de nosso coração. Por um nobre ideal. Hosana! Piedade com aqueles que ignoram a fome. Em duas tentativas ela recusa o prato. Infelizmente. para sua grande pena. Aos astros. MAULER: Como a pureza De um ser inocente. vinte e cinco anos. foram vocês que se recusaram a reduzir também!” “Vocês são os únicos culpados!” “Enquanto não acabarem com vocês não vai melhorar!” “Faz tempo que o destino de vocês está selado!” “O que estão esperando para prender vocês?” Todos cantam a segunda e a terceira estrofes do hino.7%” “Crise já eliminou 6 mi de empregos nos EUA” “Incertezas rondam fábricas da GM à beira do fechamento” Sob o efeito dessa terríveis notícias os personagens trocam entre si acusações e diversos insultos como esses: “Açougueiros sujos. ao firmamento Um impulso múltiplo o atira. até o fundo cravado. Não dá mais sinais de vida. MAULER – Dêem uma bandeira a ela.54 “Empresas dão calote recorde para remunerar seus acionistas” “Recessão ainda irá se agravar no Japão. Hosana! Durante esta estrofe. Qual um punhal.” “Foram as tarifas das estradas de ferro que nos esfolaram. diz governo ” “EUA mudam socorro para bancos. Hosana! Com mãos cheias. Hosana! Ajudai a quem tudo possui. na terceira vez ela o pega. morta de pneumonia nos matadouros.” “Foram os especuladores de grãos que encareceram o gado. a serviço de Deus. Ajudai vossa classe. mas ela cai.

como de tua alma grosseira. Longe de querer escolher uma delas. não consigo resistir Inexplicavelmente! TODOS: Em cada homem habitam Duas almas opostas. Ele precisa cuidar de ambas. Homem! Luta sempre contigo mesmo! Sigas sendo este ser uno e sempre dividido! Cuida de tua alma boa. Cuida de tua alma terna. desejo o altruísmo Mas à atração pelo lucro. como de tua alma vil. Cuida bem das duas! .55 Desejo a abnegação.

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