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I O rei da carne, Pierpoint Mauler, recebe uma carta de seus amigos de Nova Iorque CHICAGO. OS MATADOUROS
MAULER,

lendo uma carta. – “Parece-nos evidente, caro Pierpoint, que já há alguns dias o mercado da carne está saturado. E, no sul, as barreiras alfandegárias resistem a todas as nossas ofensivas. Acreditamos, portanto, ser prudente, querido Pierpoint, não mais envolver-se com este negócio...” Acabo de receber essas indicações de meus bons amigos de Nova Iorque. Lá vem meu sócio. Ele esconde a carta. CRIDLE – Por que esse ar tão sombrio, querido Pierpoint? MAULER: Lembra-te, Cridle, daquela caminhada Que fizemos uma vez, pelos abatedouros? Era noite. Diante de nossa máquina nova, Cridle, lembra-te, nós vimos um touro Claro e nobre, dirigindo aos céus seus grandes olhos vazios. Ele recebeu diante de nós o golpe que o abatia: E tal golpe me atingiu até o fundo do coração! Há sangue demais, Cridle, em nosso negócio! CRIDLE: Amigo, vens outra vez com tua antiga fraqueza. Quem acreditaria, Pierpoint? Tu, o maior de todos, O rei dos abatedouros, dos açougueiros o terror, A morte de um touro louro te enche de dor! Não conte, eu te rogo, tal segredo a ninguém A não ser a mim! MAULER: Oh, meu fiel amigo, Por que me levaste a visitar o abatedouro! Durante os sete anos em que estou no negócio

Eu evitei fazê-lo. Eu não posso suportar Um comércio tão sangrento, não tenho mais forças: Eu me retiro de imediato... Cridle, queres a minha parte? A terias por muito pouco; a ti, a preferência: Ninguém conhece o negócio como tu. CRIDLE: Muito pouco? Quanto? MAULER: Velhos amigos como nós dois Não podem disputar muito por valores. Dez milhões! CRIDLE: Não seria caro, se não houvesse Lennox Que, pela carne em conserva, lata a lata se bate, E estraga o mercado com seus preços baixos. Tirará nossa pele, se não tirarmos a dele. Enquanto ele estiver em pé, e só tu podes abatê-lo, Não posso aceitar tua proposta. Deverás, até lá, com tua mente fértil, Encontrar uma saída. MAULER: Não, Cridle, Esse coração treme ainda com o grito do touro! É preciso então que Lennox caia rápido, Pois quero, doravante, viver como homem de bem E não mais como açougueiro. Saiamos, Cridle, e eu te direi A forma de abater Lennox. Mas tu deverás então tirar esse peso do meu coração E tomar a frente de nosso negócio CRIDLE: Quando Lennox for derrubado Eles saem. II

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O desmoronamento das grandes indústrias da carne A - DIANTE DA FÁBRICA DE ENLATADOS DE LENNOX
OS OPERÁRIOS

Nós somos setenta mil Nessas fábricas de conservas E nossos salários são tão baixos que não podemos mais [sobreviver. Ainda ontem, de surpresa, reduziram nosso pagamento E hoje, um novo aviso: “Os que não estão satisfeitos, sempre podem deixar a fábrica!” Saiamos então, e todos juntos. Ao diabo esse salário que diminui todos os dias. Silêncio Há muito tempo já esse trabalho nos nauseia: Esta fábrica é para nós um verdadeiro inferno E só pode nos manter aqui o medo, O medo duplo, de Chicago e do inverno. Mas agora, doze horas de trabalho Já não garantem nem um pão seco Nem dão para comprar um trapo velho. Melhor partir E morrer de uma vez. Silêncio Pelo que nos tomam eles? Acreditam então Que nós somos gado, dispostos a tudo? Tomam-nos por jumentos? Melhor morrer! Deixemos a fábrica Agora mesmo. Silêncio O que houve? São seis horas! Por que não abrem, corja de esfoladores? Seus bois estão aqui, bando de açougueiros! Abram! Batem no portão.

Terão eles nos esquecido? Risos. Abram! Queremos entrar Em suas imundas pocilgas E suas cozinhas infectas Para preparar guisados indigestos Para os que ainda podem pagar. Silêncio No mínimo exigimos, O salário anterior, que já não dá para nada. No mínimo A jornada de dez horas e, no mínimo... UM HOMEM QUE PASSA: O que vocês estão esperando? Não sabem que Lennox fechou? Gazeteiros de jornal aparecem na cena GAZETEIRO – Lennox, o rei da carne, forçado a fechar suas fábricas! Setenta mil operários na rua. Lennox vítima da concorrência feroz imposta por Pierpoint Mauler, rei da carne e da responsabilidade social!
OS OPERÁRIOS

Desgraça! O próprio inferno Diante de nós fecha suas portas! Nós estamos perdidos. O impiedoso Mauler Aperta a garganta de nosso explorador E somos nós que sufocamos! B - UMA RUA – A Tribuna de Chicago, edição do meio-dia! O rei da carne e da responsabilidade social, Pierpoint Mauler vai inaugurar os Hospitais Pierpoint Mauler, os maiores e mais caros do mundo! Dois transeuntes olham para o fundo do palco, “vendo” Mauler. UM TRANSEUNTE, ao outro – Aquele é o Pierpoint Mauler. Mas quem são os dois que o acompanham?
GAZETEIRO

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– Seguranças. Só anda escoltado, com medo de apanhar de alguém.
O OUTRO

Para levar Deus ao coração de um mundo que desaba E nele restaurá-Lo, pela ação dos mais humildes. Os Chapéus Negros andam. Toque de tambores. Durante todo o dia os Chapéus Negros pregaram nos matadouros, mas, quando a noite chegou, os resultados eram quase nulos. DIANTE DA FÁBRICA DE CONSERVAS LENNOX – Dizem que eles estão preparando um grande golpe sobre o mercado de carne. Para nós isso que dizer esperar e passar fome. OUTRO OPERÁRIO – A luz está acesa nos escritórios. Estão lá, calculando os lucros. Chegam os chapéus Negros. Fixam no chão uma placa na qual se lê: “Hospedagem: 20 centavos por noite. Com café: 30 centavos.” CHAPÉUS NEGROS cantando Escutem todos, escutem bem! Tu que te afundas, nós te vemos, Teu apelo por ajuda, nós o escutamos, Teu sinal, nós o percebemos. Parem os carros, detenham o trânsito Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Tu que te escondes, tu que duvidas, Olha para nós! Olha, Meu irmão, antes que sucumbas! Nós te damos o que comer E nós não esquecemos Que tu não tens abrigo. E, sobretudo, não digas que tudo está perdido: Tudo será diferente, a injustiça nesse mundo Não poderá durar se todos se juntarem a nós, Marchando ao nosso lado Com o único objetivo de ajudar o próximo. Nós faremos avançar os tanques e os canhões
UM OPERÁRIO

Para levar consolo aos miseráveis dos matadouros, os Chapéus Negros deixam a sua sede. Joana empreende sua primeira descida às profundezas. C - EM FRENTE AO TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS
JOANA,

à frente de um comando dos Chapéus Negros: Nesta noite de sangue e confusão, Nesse tempo de desordem organizada, De arbitrariedade consentida, E de humanidade desumanizada, Nesse tempo em que em nossas cidades Os problemas não têm fim; Nesse mundo, imenso matadouro, Em que nos chegam rumores de violência iminente; Para impedir que, em sua brutalidade, O povo, ofuscado, quebre suas ferramentas E destrua assim seu ganha-pão, Nós queremos reintegrar Deus Pois aos lugares onde realmente vivem os homens Ele não mais tem acesso: Sua glória anda pouca, Seu nome, já quase suspeito. Dos mais humildes, entretanto, ele é a única salvação! Então nós resolvemos Por ele bater nossos tambores nesses bairros; Para que ele penetre no coração da miséria E que sua voz retumbe pelos matadouros. Aos Chapéus Negros: O que faremos agora é uma última tentativa. Pela derradeira vez, nos esforçaremos

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Nós lançaremos ao mar os navios de guerra, E nos ares, os aviões Para conquistar teu pão, meu irmão. Porque vós, os pobres, formais Nesse mundo um imenso exército. Vós que nos escutais Não esperai o amanhã! Desde hoje ajudai, Ajudai ao próximo! Avante! Ao assalto! Empunhai vossos fuzis! Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Cantando, os Chapéus Negros começam a distribuir seu jornal: Apelo às Armas, bem como colheres, pratos e sopa. Os operários agradecem e põem-se a escutar o discurso de Joana. JOANA – Nós somos os soldados do bom Deus. Por causa dos chapéus que usamos, somos também conhecidos como os Chapéus Negros. Nós dizemos que somos soldados, porque formamos um exército e porque, em todos os lugares em que vamos, precisamos lutar contra o crime e a miséria, contra as forças que tendem a nos aviltar. (Ela mesma começa a distribuir sopa) Bem, agora comam esta sopa quente e constatarão que depois vocês verão as coisas com um olhar diferente. Pensem agora qual esperança se pode fundar sobre a felicidade terrena. Nenhuma, absolutamente nenhuma. A desgraça vem como a chuva: ninguém a provoca, mas, entretanto, ela vem... Suas desgraças, digam-me de onde vem? UM DOS QUE COMEM – De Lennox & Cia. JOANA – O senhor Lennox tem talvez mais preocupações do que vocês! O que vocês estão perdendo? Ele, suas perdas se contam por milhões. UM OPERÁRIO – Carne não há nesta sopa, só uma aguinha clara, isso sim. Mas quente, pelo menos, está. OUTRO OPERÁRIO – Fiquem quietos, bando de glutões! Escutem a palavra de Deus! Senão vão tomar o prato de água quente de vocês.

– Silêncio! Queridos amigos, digam-me: por que vocês são pobres? UM OPERÁRIO – Sei lá! Explique você! JOANA – Eu lhes direi. Não é porque vocês não estão cheios de bens materiais – que não chegam para todos – mas porque vocês não têm idéia dos valores mais elevados. É por isso que vocês são pobres. Esses gozos vulgares aos quais vocês aspiram, comer um pouco, ter um bom lugar para morar e ir ao cinema, não são mais do que prazeres frívolos, grosseiros. Enquanto que a palavra de Deus é um prazer mais delicado, mais profundo e muito mais refinado; talvez vocês não possam nem imaginar algo mais doce do que o chantili, mas a palavra de Deus é ainda mais doce. Homens de pouca fé, os pássaros no céu não têm carteira de trabalho, as açucenas do campo não têm emprego e, entretanto, como eles cantam Sua glória, Deus lhes dá alimento. Nós, os Chapéus Negros, fazemos então a vocês uma pergunta muito prática: de que um homem precisa para crescer na vida? UM OPERÁRIO – Um colarinho engomado. JOANA – Nada disso. Para progredir na terra talvez seja necessário um bom colarinho, mas diante de Deus é preciso muito mais que isso, outras glórias. Vocês aos olhos Dele, nem mesmo um colarinho puído têm, pois deixaram suas almas no abandono. Mas então como vocês querem elevar-se, chegar ao que vocês, em sua ignorância, chamam de uma “situação melhor”? Pela força bruta, pela violência? Como se algum dia a violência tivesse trazido alguma coisa além da destruição. Vocês acham que mostrando os dentes conquistarão o paraíso na terra. Mas eu lhes digo, agindo dessa maneira o que se cria não é o paraíso, mas o caos! Um operário chega correndo. O OPERÁRIO: Uma vaga, agora mesmo, acaba de abrir! Um trabalho, um salário, esperam por vocês, Na fábrica número cinco! Que mais parece uma latrina. Corram, rápido. Um operário larga seu prato cheio e sai correndo.
JOANA

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– Ei, você, onde é que você vai? Quando se ocupará de Deus? Vocês não querem nem ouvir falar, não é? UMA MOÇA DOS CHAPÉUS NEGROS – Acabou a sopa. OS OPERÁRIOS: Acabou a sopa; Era só um caldinho ralo Mas era melhor do que nada. Todos se viram e se levantam. JOANA – Fiquem sentados; acabou, mas que importa, uma vez que a grande sopa celeste não se esgota nunca. OS OPERÁRIOS: Quando, afinal, vocês Abrirão as portas de seus porões, Carniceiros, mercadores de carne humana? UM OPERÁRIOS: Com o quê, agora, pagarei A casa pequena e úmida, onde vivemos doze? Eu já paguei dezessete prestações, Mas a última, não conseguirei Seremos jogados na rua. E o chão de terra batida E nosso pedaço de grama amarela, Nunca mais os veremos, nunca mais, Nem tampouco respiraremos seu pestilento ar familiar. UM OUTRO OPERÁRIOS: Aqui estamos, em pé, nossas mãos como pás, E nossos pescoços fortes como tratores. Nossas mãos e nossos pescoços, queremos vendê-los Mas não há quem os compre. OS OPERÁRIOS: E nossas ferramentas - Gigantesca montanha de prensas e gruas – Estão trancadas, detrás desses muros! JOANA – E então, o que se passa? Quer dizer que já se vão? É porque já terminaram de comer? Adeus e obrigado. Mas por que então vocês escutaram até agora?
JOANA

– Pela sopa. JOANA – Continuemos. Cantem! CHAPÉUS NEGROS cantando Avante, entrai nessa luta! No coração da batalha lutai! Cantai com louvor, que cante todo o mundo. Ainda é noite, mas logo virá o dia, Raiando com todo o esplendor, E junto virá Jesus Nosso Senhor. UMA VOZ, do fundo do palco – Estão contratando nas fábricas de Mauler! Os operários saem. Fica apenas uma mulher. JOANA, com ar sombrio: Parem a música! Acabou a sopa, lá se vão eles! Seus olhos são incapazes de elevar-se Mais alto do que a borda do prato. Eles não crêem em nada além do que está Entre suas mãos. Acreditarão em suas mãos? Vivendo cada dia, cada minuto mesmo, Na insegurança, eles não são capazes De se esquecer das preocupações mais básicas. Nada, a não ser a fome, tem sobre eles qualquer influência. Nenhuma canção os toca mais. Nenhuma palavra pode Descer até eles e penetrar seus corações. Aos que a cercam: Parece que nós, os Chapéus Negros, temos por tarefa alimentar todo um continente com nossos poucos talheres. Os trabalhadores voltam. Ao longe, ouvem-se gritos. OS OPERÁRIOS, na frente do palco – Que gritos são esses? Um imenso caudal humano emerge dos abatedouros. UMA VOZ, do fundo: Mauler e Cridle também fecharam. As indústrias Mauler optam pelo lock-out! OS OPERÁRIOS, refluindo:
UM OPERÁRIO

presa. Ele venderia o próprio ar. onde se compram e vendem animais. meu velho Lennox. os fabricantes de conservas Lennox e Graham discutem. dos Chapéus Negros: Não vá te meter com estes problemas.6 No meio do caminho encontramos. O selvagem Mauler! De um tal monstro a investida É inexorável! A natureza. ruídos da Bolsa. MARTA. E o frio supremo Rouba de seu coração todo o calor. GRAHAM: E então. Ao fazer mil perguntas. E vê esvanecer-se sua pureza original. ele te revenderia. Uma multidão enorme e desesperada. desce cada vez mais baixo. Abrigaram sentimentos nobres. esse Mauler. por favor. Eles têm apenas idéias vulgares na cabeça. Oh Joana! Não te metas nas querelas terrestres! Pois quem nelas se envolve. UM OPERÁRIO. Ao fundo. JOANA – Não! Eu quero saber (aos trabalhadores) Digam-me. para ele. . Joana e Marta esperam. Lennox está branco como algodão. desde o dia em que nasceram. Torna-se mercadoria. pronto. Resultado para nós: barrigas vazias. JOANA – Quero saber. antes. Em um grande edifício: A Bolsa de Carnes JOANA: Eu vou até lá: Eu preciso saber. – Não. Enquanto corríamos atrás de trabalho. Estamos gelados e molhados e precisamos comer. eu quero vê-lo. JOANA III Pierpoint Mauler é tocado pelo sopro de um outro mundo EM FRENTE À BOLSA DE CARNES Em baixo. que fogem do trabalho. Jamais seus corações. Quem abandona o lar protetor. OS CHAPÉUS NEGROS – Então teu destino nos parece bem negro. Eles encherão tuas orelhas com seus gritos. a Joana – Vamos agora. já que ele é a causa de tamanha miséria. derrubou-te. Todos haviam perdido o emprego E perguntavam onde achar trabalho. Tu desaparecerás na lama! Pois a lama entope as bocas Que fazem perguntas sem prudência JOANA: Eu quero saber. Sua bondade perde rápido. São reles glutões Preguiçosos. Degrau após degrau. O que comeste. Os Chapéus Negros se afastam. por que correm de um lado a outro e não encontram trabalho? OS OPERÁRIOS: O sanguessuga Mauler e o muquirana Lennox brigam entre si. na frente do palco: Desgraça! De todos os lados chegam ainda Torrentes infindáveis de homens! OS CHAPÉUS NEGROS. No alto. Recebemos mil respostas. torna-se. quem é o responsável por tudo isso. mora aonde? OS OPERÁRIOS: Lá. Na insana esperança de obter uma resposta Que jamais chegará. JOANA – Esse Mauler. OS CHAPÉUS NEGROS – Pare! Não te metas com essas questões.

. E assim. MARTA . Tal qual dois grandes búfalos. O que fazer com ela? Ah. eu garanto. Instalar duas ou três dessas máquinas novas. Até chegar aos ossos. Ele não pode suportar A visão da miséria. não achas? Ele se degola e logo. Quando ele não podia absorver mais nada. Cridle. ficarás com a fábrica Conforme está previsto nos termos do contrato: “No dia em que Lennox for eliminado. Destroem com seus cascos o pasto que disputam. Vá. A Lennox: Estás perdido. Primeiro perde a pele. então. MARTA – Joana. Cridle sai da Bolsa e desce até o palco. Saibas. para economizar Uma agradável soma em salários. e dorme mal à noite. com voz suave. como vais reconhecê-lo? JOANA – Saberei bem reconhecê-lo. olhe para mim e de meu pescoço. em salsicha se transforma. Fecho minhas fábricas. Em dinheiro ele as transformará. Lennox! Acabou a guerra de preços! Foste eliminado. época maldita! Um comércio estrangulado por montanhas de conservas. Batendo-se por sua conquista.. Que ele não saberia jamais trair seu instinto. Diga-lhe: Mauler.. eu também te recomendei prudência.Joana. ele extrai rendas. JOANA – Mas tu vieste comigo. este homem não é duro E nem ama o dinheiro. Ele terá medo.” CRIDLE : . Por si mesmo. A nova técnica é muito engenhosa: O porco é colocado em uma esteira rolante Até o alto da fábrica. JOANA. De carne podre. surge de um grupo de fabricantes de conserva.. Espero que o mercado recobre a saúde. Todos me abandonaram. nele. não é verdade? GRAHAM : Muito bela! Mas e a lata. Vocês mesmos. Slift. que. à Marta: Tu somente. O faro para o dinheiro é nele tão potente.. Bela invenção. Tão natural. E se lhe jogas pedras na cabeça. Gritaram-me prudência: Para eles. OS FABRICANTES DE CONSERVAS : Trata-se de saber quem agüentará mais tempo. moídos como farinha. Um mercado aviltado. no último andar. E pensa nos velhos tempos. acompanhado de seu corretor.. Começa então o seu retalhamento. E talvez chore. Nas facas. com sua escalada. até aqui me acompanhastes.7 De barracos miseráveis. Agora vou limpar a minha fábrica. que viram escovas. Mauler. o porco se precipita. Lubrificar meus cutelos. Estranho conselho! Eu te agradeço. chega Na lata que o espera lá embaixo. lutando. ele faz ouro. esta arte contrária à natureza. Marta. E agora. que vira couro. ainda ontem florescente!. confessa. Depois seus pelos. CRIDLE: Muito bem. sozinho. MAULER : Lennox está de joelhos. por conta de seu próprio peso. Pois caindo. Tira esta mão que me aperta e me estrangula. Bem pensado. no entanto. a cada fase. até ele e. Fizeram desabar os preços e destruíram seu negócio. cruzei a última fronteira.

mas. A exigir meu dinheiro. o coração torturado! Cridle se afasta... Mauler.. seguindo-o com os olhos: Tive a ligeira impressão de que algo o atormentava. veja Lennox. devido à saturação do mercado. MAULER . nosso contrato não é mais viável. : Pepê! Isso não é um jogo! Não podes misturar Questões pessoais aos negócios! CRIDLE – Pois não.8 Sim. se tu estás Realmente onde dizes. se eu fizer isso. Joana fez um sinal a um segurança e lhe diz algumas palavras. Mas. Veja se esse contrato diz uma só palavra sobre a crise. Não estava caro. as ações estavam a 390. Isso não é um contrato? Com um preço fixado? CRIDLE : Sim. MAULER – Ai! GRAHAM — Viu? Ele tem um coração! MAULER : Então. e onde eu conseguiria dinheiro para pagar tua parte? Eu estaria arruinado! MAULER : Já que me dizes isso. eu precisaria jogar essas ações no mercado. CRAHAM . Pois eu proibirei Cridle De comprar-te uma única lata. Cridle. cinco. de examinar Contigo. tu me forças. LENNOX – Mauler. Cridle. elas cairão a 70. até teu coração sabe ver longe! LENNOX : Eu gostaria ainda. CRAHAM : Toque-lhe o coração. É preciso então. então. Lennox acabou. um contrato dos tempos de prosperidade! Mas e a crise? Ela não existe? Que posso fazer eu com um grande matadouro Se ninguém mais compra carne em conserva? Agora sei bem porque não podias Mais suportar a visão do gado morrendo: sua carne Não vende mais! MAULER : Não. MAULER – Leia. Antes que quebres de uma vez! Creia-me. Repensar os dez milhões de dólares Que queres por tuas ações. é que meu coração se aperta Quando ouço mugir a criatura CRAHAM : Agora eu compreendo a grandeza de teus atos. Mauler. olhe para mim. Lennox. Mas com ele acabaram Os bons dias do mercado. GRAHAM — Mauler. É o máximo que posso fazer. Estou tão temeroso que chego a suar frio: seis dias. como eu. isto é. Para pagar o que te devo... Lennox! Toque-o! É uma lata de lixo. sem mais delongas. sensível! Ele soca Mauler no coração. Hoje.. LENNOX – Não. as ações caíram para 100. e tu tinhas um terço. nada. Seis dias? Não. Pepê! Como quiseres. Ele sai. Ah! Pudesse eu estar liberado De um comércio tão bestial! Tenho. (faz contas em uma caderneta) Quando combinamos que tu sairias do negócio. MAULER : O quê? A soma está inscrita Claramente no contrato Tome. então. mergulhado em meus negócios. Nada além. Não pude imaginar seu fado. Freddy! Quer dizer que tu me socas. E eu. tenho dois mil empregados! CRIDLE – Mande-os ao cinema! Mas Pepê. Tu me ofereceste a 320. Mauler.

a Slift: Que eles trabalhem por nada. (aponta para Slift) É ele! JOANA.9 O SEGURANÇA — Senhor Mauler. não é notável? Já viste algo igual? Que trabalhem por nada e sem se lamentar? Não vejo em seus olhos nem medo da miséria Nem de dormir sob as pontes alguma noite.. Dizem. sem dúvida? Prontos para a violência. que a sopa seja rala. Slift ri. gente estranha. MAULER . diga que não estou. etc. MAULER : A escória em farrapos. Slift. eu sei. Com ar invejoso. há algumas pessoas que querem lhe falar. mas vocês não devem Perguntar nada. O melhor para eles É causar em mim a impressão de gente honesta. adoraria vossa opinião. é ele. Senhor Mauler. Chapéus Negros. Graham sai. Que não é acusada de nada E que não espera o impossível de mim. JOANA. MAULER : Já ouvi falar dessa gente. Para Joana:) Quanto recebes por dia? JOANA. MAULER – Rindo. nem desses versos sentimentais Que eles adoram cantar. Mas. que o sangrento Mauler. Diga-lhes que eu os receberei Mas que eles limitem-se a responder minhas perguntas. O SEGURANÇA: Ele vai vê-los. Sim. Porcos. respondam apenas Quando ele lhes perguntar. MAULER – Como me reconheceste? JOANA: De todos. Ouve-se: Bois. Mais uma coisa: não diga. o tecido não é grosso Nem é grossa a sopa. em absoluto. 59. o rumor da Bolsa continua. MAULER : O que é esta organização? O SEGURANÇA — Eles têm muitas ramificações. – Vinte centavos. além da comida e do uniforme.. Mas o que eles querem comigo? O SEGURANÇA — Afirmam que têm algo a dizer ao senhor. JOANA: Por que joga. são numerosos e gozam de grande consideração nas camadas inferiores da população. hein? Não. na verdade. que a escória me chama – Despojou Lennox. Creiam-me: esses são assuntos profissionais Que não vos interessam. Nada de choros. – É o senhor. e pôs em apuros Cridle que. é o que tem a cara mais ensangüentada. dirigindo-se direto a Mauler – O senhor é o Mauler! – Não sou eu. Mas que nome curioso! Soldados do Bom Deus. MAULER: O tecido é bem fininho e. São chamados de soldados do Bom Deus. O SEGURANÇA — São membros da Organização dos Chapéus Negros.É assim. sobre outra questão. 55. apontando para Mauler – O senhor é o Mauler! MAULER – Não. Slift? (Enquanto isso. JOANA. cá entre nós. seus trabalhadores na rua? MAULER. O segurança vai ao encontro de Joana no outro lado do palco. MAULER : Está bem. Durante esta cena. suponho. Pouco me importa o que esperam de mim. que eu sou Mauler. Vitelos. A Joana: Vós sois. . Pretendo renunciar a esse negócio sangrento Logo que eu possa: renunciar sem retorno. não é homem de bem. 43.

O homem. confesso. tu também. isso de se retirar do negócio. aliás. E desejaria que fossem mais numerosos. Eu sei. Ele fala com Slift em voz baixa. Deverias.. Deixai disso. São todos carniceiros. O senhor não poderia realmente ajudá-los? MAULER: Repita por toda a parte: eu aprovo vossa ação. Marta sai.. Mas. que com tal decisão As pessoas sofreram. JOANA: Senhor Mauler. Melhor para ti que não os veja. minha filha. Dêem o dinheiro. A canalha. dêem! Corja de carniceiros! Ele continua mexendo nos bolsos deles para dar dinheiro à Joana. Abandonar esta empreitada. Isso não é bom? E conforme vosso espírito? SLIFT : Vendo morrer o boi. Embora já tenhas vivido mais de vinte anos. JOANA – Senhor Mauler. Diga-me que está certo E que isso te agrada. São. Mas este mal era inevitável. Ele não é maduro ainda. JOANA – Isso é uma gota no oceano.10 Pois eu vi – e isso vos interessará – Morrer. para o que pretendes fazer. Tamanha inocência!. sem nenhuma obrigação: Eu não sofro de insônia. A parte – doze milhões – que eu tinha na usina. não creias que seja de boa fé. nos matadouros dizem que o senhor é o responsável pela miséria deles. Ele se aproxima dos industriais. Eu sei. diga. Desculpe-me. Eu também vou embora. não me comove. a Joana: Joana. MAULER: Riam todos. não me digas nada. Senhor Mauler. Mas tendes consideração demais pelo destino dos pobres: Eles são maus. Seu rosto me agrada. de resto. um boi e fiquei tão comovido Que quis largar tudo. MAULER: É que adquiri o maldito hábito De disfarçar a voz. há pouco. tomando-lhes o dinheiro que trazem consigo e dando-o a Joana. por que fechou os matadouros? Eu preciso saber. Eu os verei chorar um dia. . MAULER: Eu tenho grande piedade pelos bois: o homem. MARTA. no lugar do pobre animal. O mundo não poderá mudar se antes não mudarem os homens. Cedi por dez ao homem que vêem aqui. vamos. dêem o dinheiro. Talvez por isso te ajude. Não. É bom.. Eles não têm mais trabalho. Seu riso não me atinge.. ele é mau. MAULER: Poderia eu ir mais longe? Porque ele é sangrento É que eu tirei as minhas mãos deste imenso negócio. ele decidiu abater O rico Cridle. mas não digas nada. Mas é uma gentileza. Um instante. Tome para os pobres. Dirigindo-se aos outros: Parece-me que fui tocado pelo sopro de um outro mundo. por favor. pessoas extremamente más. eu sinto Que tu não gostas de mim. Isso não é bom? Os fabricantes de conservas explodem em gargalhadas. Nenhum é inocente. não é? JOANA: Não sei se o senhor fala sério.

é o lixo do mundo. enfim. SLIFT: Em teu lugar não gostaria. vacilando: Estou me sentindo mal. Luckerniddle. e enrola o seu. vestido com uma lata. . é pavoroso. JOANA. perderei meu emprego. é claro. já que agora ele está em embalado. Dois homens saem por uma portinhola. Azar. este homem será mandado para os quatro cantos do mundo sob a forma de toicinho. Mas seu casaco ainda está bom e isso também é uma pena. Se isso falhar . Semelhantes a bestas. Ele veste o casaco. Diga “para seus pobres”. ela poderá Aceitar sem pudor. Ele sai. ficará com a vaga de Luckerniddle. Veja então o que ela compra. ele cairá bem. o que causa má impressão. (O contramestre volta para a fábrica pela portinhola. JOANA — Eu quero vê-los. Slift e Joana escutam. Sullivan Slift. UM CONTRAMESTRE. A Slift: Mal posso suportar a existência de seres Semelhantes a esta moça.E eu adoraria que não desse certo – Leve-a aos matadouros. SLIFT. Entrego a você porque sei que é de confiança: se alguém encontrá-los em algum lugar. em um jornal. IV O corretor Sullivan Slift mostra à Joana Dark como os pobres são maus: Joana desce às profundezas pela segunda vez BAIRRO DOS MATADOUROS SLIFT: Joana. E verás que tua piedade é descabida. É o primeiro que nossos tambores desalojaram Das trevas da vilania. na caldeira. É preciso queimá-los. a um jovem operário – Um de nossos homens. O amigo Pedaço-de-Toicinho não precisa mais dele.. Mas volte aqui amanhã. e ele entrou na faca e virou toicinho. dê dinheiro a ela. agora eu vou te mostrar Como eles são maus Essa gente da qual tens piedade. senhor Smith.) É uma pena. Estão ocupando inutilmente um cabide no vestiário. JOANA. se quiser. caiu. A Joana: Aqui está meu corretor. e mostre a ela Como os pobres são maus e covardes. cheios de traições. sobre o qual se lê: “Fábrica de Conservas de Carne Mauler e Cridle”: O nome de Mauler aparece riscado. ele te fará ver algumas coisas. que nada têm Além de seus vinte centavos por dia e seu chapéu negro. por suas vidas miseráveis. Slift e Joana contornam o muro de uma fábrica. E que não têm nenhum medo. Quando a fábrica reabrir você. Responsáveis. faz quatro dias. e depois a siga. Se quiseres mesmo saber.. mas não pudemos parar as máquinas a tempo. em uma palavra. saindo – Um conselho: não te metas com as gentes dos matadouros. e para mim.11 Chame ela de lado. Ele ouviu nosso chamado. O JOVEM OPERÁRIO – O senhor pode confiar em mim. o quanto antes melhor. vendo Mauler se afastar: Este homem não é mau. Isso pode funcionar. Aqui estão seu casaco e seu boné: pegue-os e façaos desaparecer. assim como o seu boné. peguei para mim. é a escória. De saber o que queres saber.

Venha. a Joana – Fique aqui. Já não posso mais trabalhar como antes e só consegui emprego duas vezes desde fevereiro. SLIFT: Guarde essas coisas. É por isso que lhe fazemos uma proposta: note bem que. (Ele pára o jovem operário. se quiser me ver. . SLIFT: Senhora Luckerniddle. Eu. Vamos. Aconteceu alguma coisa com ele aí. de qualquer modo. JOANA: Ela nunca aceitará. passe-me logo teu cassetete. é capaz de o meu quebrar já no primeiro golpe. GLOOMB – O feitor está bem ali. Slift volta para junto de Joana. No frio. DONA LUCKERNIDDLE – Não. ao meio-dia. dizendo tolices. Eu tiro agora mesmo. Quando ele se aproximar. aquele que se acidentou? O JOVEM OPERÁRIO – Por favor. O JOVEM OPERÁRIO – Pode confiar em mim. SLIFT – Estamos dizendo que ele partiu para São Francisco. para nós. Vamos cuidar para que essa seja a última vez. diga-lhe que procura trabalho. Não procure mais saber o que se passou com seu marido e a senhora poderá almoçar. esperando por ele Mas ninguém diz nada. mesmo à noite. Eles chegam a uma cantina da usina e vêem diante de uma janela dois homens que olham para o interior. me encontrará na cantina. Joana e Slift seguem seu caminho. Senhora Luckerniddle: ele está viajando e. fui trabalhar no moinho de ossos e adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. DONA LUCKERNIDDLE: Agora inventam que ele viajou! SLIFT – Deixe-me dizer uma coisa. gratuitamente. DONA LUCKERNIDDLE está sentada em frente ao portão da fábrica. Vinte refeições são muita coisa Para aquele que tem fome. isso não lhe parece muito brutal? SLIFT: Bem. Amanhã. é muito desagradável vê-la sentada aí. pronto para encher a pança.. No ano passado me deixei seduzir pelos vinte centavos a mais que se ganha na fábrica de adubo. Mas existem coisas Que importam mais para ela. todo o tempo. à cantina número 7. Eu estou em uma situação muito ruim. senhor. SLIFT – Se é esta a sua opinião. Mas reflita bem. Por causa dele deixei minha mão na máquina de cortar chapas. saindo para o trabalho. e meu marido não sai da fábrica. e vocês não querem que se saiba disso. DONA LUCKERNIDDLE: Eu quero que me devolvam meu marido. Verás então o que é essa gente. em nossa cantina durante três semanas. de forma alguma.12 SLIFT: Aí está a vida como ela é. Antes eu gostaria de fazer-lhe uma proposição interessante. Bando de açougueiros. ele me dizia: “Espere-me à noite com uma sopa quente!” Desde então não [voltou. senhor. legalmente. lhes digo. não diga mais isso. se você não está precisando disso!. Não tenho outro esteio. que fizeram dele? Há quatro dias que estou aqui. senhora Luckerniddle. obrigados a fazê-la. Esse salafrário se empanturra às nossas custas. lamentando-se: Faz já quatro dias que. na fábrica. seu marido está viajando. Você poderá comer e lhe darei um dólar se disser à mulher de Luckerniddle onde conseguiu o casaco e o boné. enquanto não o vir. Eu ficarei aqui. Precisará nos processar. ele não foi para São Francisco.. DONA LUCKERNIDDLE – Quero saber o que aconteceu ao meu marido. E malditos sejam vocês Se lhe fizeram qualquer coisa! Slift caminha até ela. Tenho a impressão de que você está prestes a cometer um ato impensado. (Ele vai em direção a Gloomb). nós não somos. Joana e Slift prosseguem seu caminho. SLIFT. vou falar com ele. O JOVEM OPERÁRIO – Mas senhor. além dele.) Onde você conseguiu este casaco e este boné? Estes são os pertences de Luckerniddle. então a senhora não pode aceitar a refeição que a fábrica lhe oferece.

DONA LUCKERNIDDLE – Espero uma pessoa que deve vir hoje ou amanhã.. Uma jogada dessas é melhor de se fazer à noite.. Slift cai na gargalhada e arrasta Joana. estaríamos dispostos a reempregá-lo imediatamente. faremos isso amanhã à noite. Joana procura um prato e leva à senhora Luckerniddle. encontrasse alguém. É preciso que ele pague hoje mesmo por esse sistema desumano do qual ele é o feitor. Ela correu até aqui e já nos espera.13 – Não tenho tempo. (Ao seu companheiro:) Pensei melhor. Você se surpreenderá ao ver como o trabalho é agradável. GLOOMB . GLOOMB – Posso confiar no que você está me dizendo? SLIFT – Sim.. A GARÇONETE – Se a senhora não for comer. O posto que você ocupava na sua máquina continua vago e isto é muito chato.. SLIFT – Que pena. DONA LUCKERNIDDLE. Talvez a vaga deste contramestre. Vai se perguntar como alguém pode contar histórias tão ridículas sobre esta máquina. Adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. JOANA – Quase tenho medo de continuar. Ali adiante. O posto não é feito para gente fraca. SLIFT – Leve você mesmo a comida a ela. calculando – Vinte refeições. A maior parte dos trabalhadores a considera muito perigosa. DONA LUCKERNIDDLE – É verdade. GLOOMB – Rápido então. temi que amanhã ela viesse. tem que se retirar. DONA LUCKERNIDDLE – Sim. É um bom posto? GLOOMB – É um ótimo posto. Ela senta-se em uma mesa. depois do que eu iria. JOANA – Não há realmente como me arranjar outro posto? Ouvi dizer que o trabalho nesta máquina era perigoso para quem não resistisse ao trabalho muito pesado. Apesar de tudo. JOANA – Mas a senhora nem sabia que nós viríamos hoje.. JOANA – A senhora já está aqui. Naturalmente seria muito bom se nós encontrássemos alguém para esse posto. GLOOMB – Nada disso é verdade. há uma moça que está procurando trabalho. por exemplo. Seria vantajoso para você.. Eu sou inspetor nesta fábrica. No ano passado fui trabalhar na fábrica de adubo. O que há para comer hoje? A GARÇONETE – Ervilhas. pode ser que mude de idéia. no moinho de ossos. GLOOMB – Aquela moça ali? . Naturalmente você precisaria manter os ritmos de trabalho mesmo os dispositivos de segurança não sendo perfeitos. E eis que ela nos precedeu. já faz dois dias que eu não como nada... (Ele vai em direção a Joana. E é um trabalho que pode ser feito mesmo por pessoas como você. O que mais verei? Eles entram na cantina. Disseram-me que não tinha ninguém além dele. e lhe daríamos até um trabalho mais fácil e melhor remunerado do que o antigo. Desde fevereiro estou sem emprego. JOANA: Ela sentou-se ali. A senhora Luckerniddle está falando com a garçonete. justamente porque você contou todas essas histórias a respeito de seus dedos. e então eu poderia. meu senhor. não muito fortes. DONA LUCKERNIDDLE – O que? Vocês pensaram melhor e estão retirando a oferta? Então eu não terei mais as minhas vinte refeições? JOANA – Me pareceu que a senhora se dava bem com seu marido. GLOOMB – Você enxerga bem? JOANA – Não. não sabia.. desde hoje? DONA LUCKERNIDDLE – Não como nada há dois dias.. JOANA – Vindo para cá ouvi dizer que aconteceu alguma coisa com o seu marido e que a fábrica é responsável. SLIFT – Gostaria de propor um meio de tirar-lhe dessa jogada. por acaso. Se você. e então eu teria. Ela não parece muito forte.) Você está procurando trabalho? JOANA – Sim. Tchau. Eu imaginava que ela iria resistir. Os movimentos ficam menos firmes e pode-se prender as mãos nas serras. Não podemos perder esse safado.

como manda o costume. O que tu me mostraste Não é a imoralidade Dos pobres: é a pobreza deles. (Dona Luckerniddle permanece em silêncio) Não pegue. posso comer aqui? SLIFT – Você só precisa sentar-se ali. mas não em uma loja. estamos vendendo carne! Compradores. Você só precisa perguntar a esse senhor. certamente teria me prevenido Não fosse o preço a pagar por seu pequeno escrúpulo. e que já apodrece. ao lado daquela mulher. e comerá sem levantar os olhos do prato. V Joana apresenta os pobres à Bolsa de Carnes A BOLSA DE CARNES : Nós todos. então? O JOVEM OPERÁRIO – De um homem que caiu dentro de uma caldeira. acreditas que ele teria mostrado À mulher do morto a roupa que usava Se tivesse tido a chance de escolher? O maneta. Continuar fiel à memória de seu marido. ninguém mais perguntará o que foi feito dele. verdadeira manteiga! Banha fresca do Kentucky! OS COMPRADORES: OS FABRICANTES DE CONSERVAS . Pois não há mais compradores! Do fundo do palco chega o jovem operário com seu casaco e seu boné. Mas vinte refeições. JOANA: Porões e armazéns abarrotados de carne. a imoralidade deles? Ela teria.14 – A senhora não quer esperar até amanhã? Se a senhora desistir de procurar o seu marido. Que sua miséria. Fatias de toicinho Cridle-Mauler! Carne de filé Graham. Sua imoralidade é sem limites. Mercadoria invendável. Ela sai. (Ele senta-se. Dona Luckerniddle arranca o prato das mãos dela e começa a comer avidamente. Ela se levanta e sai. SLIFT – Durante três semanas ela virá. preferido. DONA LUCKERNIDDLE – Ele foi para São Francisco. O JOVEM OPERÁRIO – Bom dia. com que habilidade torna-te mestre dela! Esta imoralidade. como vós a explorais! Não vês que nem teto eles têm. o preço era muito alto. Joana? A imoralidade dela não tem limites! JOANA: E tu. SLIFT – E onde você comprou? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. Um certo tempo ainda. Era seu único esteio. para colocar Ao abrigo da chuva. Desejas mostrar-me a sua imoralidade. eu volto. JOANA E procurar por ele. Eu virei todos os dias. tu me dizes? Sua pobreza também é incomensurável. comprem nossas latas! Carne fresca e suculenta. a vossos olhos contradiga Esta depravação que injustamente se lhes imputa. E este jovem – em quem botaria fé Qualquer malandro -. Atrás dele:) Você tem um belo boné. SLIFT – E onde você conseguiu. saindo. como um animal. como muitas. Mostrar-te-ei. eu. Você a viu. ao garçom – Deixe meu prato. os sofrimentos que suportam Esses pobres sem moralidade. (O jovem operário o esconde) De onde ele vem? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. A senhora Luckerniddle sente náuseas. Ele foi obrigado a vender sua cólera. esta mulher. DONA LUCKERNIDDLE. Tão cara a ele. e por mais justa que fosse.

O que provocaria um movimento de alta. Quando todos te seguem com olhos de lince Para ver o que fazes? Eu não teria cara. Do filé Graham. quase de graça. OS COMPRADORES: Nós compradores.15 E sobre as águas fez-se um grande silêncio De todos os compradores. Aproveitem então. Esperando até ninguém poder Mexer nem o mindinho! E eu. compradores. O estômago do país. Eu teria sobre as costas toda a carne! Idiotas. Nós queremos vender a carne em conserva E ninguém a quer! E todos os nossos clientes. Engolindo nosso ouro junto com nosso grão. Nós não compramos mais nada! OS FABRICANTES: E nós. . comprem nossas latas! OS COMPRADORES: E sobre as montanhas fez-se um grande silêncio E as cozinhas dos hotéis escondem a face E as lojas se desviam com horror Os atacadistas mudam de cor. E graças aos perspicazes planos dos industriais da carne Nós conseguimos reduzir em um terço O preço do toicinho Cridle-Mauler. A dar-se-lhes ouvidos Seria necessário agora deitar por terra Todo o cartel da carne E deixá-lo estagnado durante muitas semanas. MAULER: E mesmo a faca os recusa. caldeirões Convertem sem parar em latas de conserva As manadas mugidouras que pastam nos prados. com nossos matadouros? Nossas fábricas estão cheias de bois. SLIFT: Eu riria se. a visão da carne enlatada Causa náuseas. cubas. os criadores. Quem comprará agora nosso gado? Os estábulos estão cheios De porcos e bois devoradores de milho Que eles devoram ainda nos trens que os transportam. cozinhas e lojas Estão cheios até as bordas. verdadeira manteiga. dia e noite nossas máquinas Ligadas no máximo: salgadeiras. OS FABRICANTES: Graças aos avanços da técnica. Temos diante de nós montanhas de latas. Mas ninguém quer comprar carne enlatada. Comprem. E da banha de Kentucky. Nós iríamos perder o bonde! MAULER: E quando isso ocorresse! Terias a imprudência De tirar tua parte de tamanha miséria. compradores. SLIFT: E teus amigos de Nova Iorque. em Nova Iorque. Nas estações e nos pátios. nenhum tinha dinheiro. A morte Despreza esse gado e fecha-lhe a porta. Frigoríficos entupidos de carne congelada. Saturado de carne em conserva. eles conseguissem Fazer cair de uma vez as taxas de importação. E abrissem assim o Sul aos nossos produtos. Não a agüenta mais. A nós. Nós estamos perdidos! OS CRIADORES: E nós. fabricantes. o que te escrevem? MAULER: Teorias. ao trabalho de nossos [engenheiros. Clamamos aos berros por um consumidor que não existe.

eu quero o meu dinheiro. Foste tu mesmo quem provocou o marasmo! Nossas latas agora não saem mais caro Que a areia dos mares.Há quatro semanas apenas eu assinei um contrato com Mauler. na entrada da bolsa: Queda gigantesca das cotações na Bolsa! Venda maciça de ações. tu o retiras Do negócio e Cridle. MAULER – O próprio Cridle me confessou que está insolvente: se eu deixasse meu dinheiro com ele. OS FABRICANTES Essa gente não faz as coisas pela metade. preferiu o vosso. E vós soluçais nas saias de vossas mães. então! OS FABRICANTES – a Mauler: Corre o boato que teu capital. E exiges dele o pagamento sem demora. e o conjunto das fábricas vale dez. quem de vocês continuaria a me levar a sério nos negócios? Ora. ele vem realizando secretamente vultosas vendas de gado a preços baixos e provocou a queda das cotações que. Não é de hoje que fazes tais manobras. antigamente Mauler. Esses dez milhões são exatamente a soma que devo a Mauler – e ele a exige em vinte e quatro horas. e ficando com as outras. . provoca muitas outras! Lixo! Assassino! CRIDLE .. CRIDLE – dirigindo-se aos que o cercam:. mas três milhões. Cridle? Levanta os olhos. o que desejo. Eu me propunha pagar-lhe vendendo uma parte das ações dele mesmo. é que me levem a sério. Ele poderia exigir seu dinheiro quando quisesse. ao fundo. a preço vil. ao invés de trinta. nem que fosse por mais uma hora. Isso representava um terço do total das ações. Ele queria me vender a sua parte.apontando para Mauler: Falem com ele! CRAHAM – colocando-se diante de Cridle: Não é Cridle. Mauler! Fala. Voltai para casa. Tumulto entre os fabricantes. Carrega em sua queda as cotações de todo o cartel!. de toda a maneira. antes de qualquer coisa. que estavam valorizadas. nós somos os peixes! O que querem arruinar. Hoje os papéis de Mauler não valem mais dez. Quero apenas meu dinheiro e a paz de minh’alma UM CORRETOR – urrando. pálido como algodão. olha para nós! Assim. que se lançam sobre Cridle. Mas somos atingidos pelo que lhe acontece. É bom que ele seja nosso adversário. ave de agouro. Desde aquele dia. MAULER: E por que matastes tanto gado? Açougueiros alucinados sois vós! Agora. por dez milhões de dólares. todo teu estoque. Para acabar com Lennox. estava acordado.investindo contra Mauler que lê o jornal: Traidor. OS FABRICANTES: O que significa isso.16 . mas um outro Quem joga a rede. é o cartel da carne. que conspurca nosso ninho! Nós sabemos bem quem fez os preços caírem sem cessar Vendendo gado por baixo do pano. Cridle. OS FABRICANTES: Quando ages assim com Cridle. Cala-se e aponta para o dedo para ti.. Veio a baixa. eu acabo de saber. Pois tu liquidaste. Falai que um dentre os vossos Não pode mais suportar o grito dos bois morrendo E aos mugidos deles. Tu te desfazes de tuas ações? UM CORRETOR: A cento e quinze! OS FABRICANTES: Ficaste louco? Tua morte. MAULER: Açougueiros insolentes é o que sois! O animal torturado parou de mugir. nesta conjuntura. Cridle. que já se arrasta. já vinham caindo.

Nenhuma sequer! OS FABRICANTES – Então. o responsável Por esta catástrofe. não saia! Graham. Com o único objetivo de ajudar o próximo. OS FABRICANTES: Oitenta e sete mil latas pela metade do preço. Mauler. meu chapéu. Uma mulher nos faz sinais de aflição. Não esperem o amanhã! Cada um deve nos ajudar. com nossos bois Que hoje ninguém mais quer. Parem os carros. ele retira o seu dinheiro! OS FABRICANTES: Oitenta mil latas a cinqüenta. Haveis então esquecido Os que esperam diante da porta E que esperam.Pierpoint Mauler! Onde está Mauler? MAULER: O que é esse barulho de tambores que de súbito me envolve? E quem chama pelo meu nome Nesse lugar. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Escutem todos. E nós dizemos: é preciso ir sempre adiante. Eu quero meu dinheiro. OS CRIADORES: Impossível vender um boi em Chicago. Ouvem-se os tambores dos Chapéus Negros e a voz de Joana. olhos para ver? Ele é vosso irmão. Uma explosão de gargalhadas toma a frente da cena. onde cada um revela Sua boca desnuda. Durante esse período a batalha na bolsa continua. Fazer avançar os tanques e os canhões. OS CRIADORES: Lennox já caiu! E Cridle balança! E Mauler. Meyers. acompanhada de exclamações. seja quem for! Levantai o nariz de vosso prato. Eu não quero que me vejam aqui. Pois os bons nesse mundo Não formam um grande exército. Lançar ao mar os navios de guerra E nos ares. Ei-nos aqui. cem dólares pelo meu chapéu. seu cão. E. JOANA .17 Mesmo que tivésseis todos que mendigar. Não falemos mais de negócios. Avante! Ao assalto! Empunhem os fuzis! Diante de nossos olhos os homens naufragam.Nenhuma sequer! Silêncio. Estimularam-nos a criar bois. detenham todo o tráfego Em torno de vós os seres naufragam. MAULER: Por hoje basta. E ninguém se preocupa. Os que nos escutam. pois preciso partir. mas rápido! OS COMPRADORES . Ei. Nesse mundo sempre reinará a injustiça. És tu. . nós estamos perdidos! JOANA – Onde está Mauler? MAULER: Slift. suja de sangue? Joana e Marta avançam e cantam o seu hino de guerra. Mauler. Para Illinois esse dia é um desastre! Vocês fizeram os preços subirem. mas rápido! OS COMPRADORES . para comer? Pensai convosco mesmo: sempre será assim. Meu chapéu. Graham. E ninguém se preocupa Não tendes. então. os aviões Para conquistar o pão dos pobres. com isso. pois tenho outros projetos. fiquem diante de mim. escutem bem! Um homem afunda sob os nossos olhos! Escutamos lá no fundo seu apelo por salvação.

então em suas costas os bois começarão a mugir contra os senhores. todo-poderosos. o salário. nas favelas. Mas se os senhores acreditaram que seus procedimentos permaneceriam ignorados. Se os senhores continuarem tergiversando. eu bem sei. JOANA – Um homem de negócios também pode ser um bandido – dependendo do ponto de vista. UMA VOZ. Traçam essas desconhecidas. E os senhores. Risos OS CRIADORES – Nós criadores não encontramos nestas palavras motivo para o riso. é lá que mora a imoralidade no estado puro e. gritando: Por vossa especulação desenfreada. tereis a moralidade. os Chapéus Negros. nada além disso. Inverno e verão nós dependemos do tempo: nós também estamos mais próximos do Deus de nossos pais do que os senhores. pois os que estão lá fora já não têm como comprar. JOANA – E qual a causa desta imoralidade no mundo? Poderia ser diferente? Se cada um é obrigado a rachar com um machado a cabeça de seu próximo para fazê-lo ceder seu pequeno pedaço de presunto e sua migalha de pão. são todos uns imbecis. que os pobres não têm muita moral. OS FABRICANTES: Água para Pierpoint Mauler! . nesses lugares sombrios e secretos onde os senhores tratam de seu comércio. e é verdade. gritando – Afastem-nos! Ele desmaia. e a quem não querem reconhecer como irmãos. as leis econômicas. CRIDLE OS CRIADORES: Como? Somos asfixiados e ninguém pode fazer nada? A causa de nossos males é a imoralidade De vossas armações escusas. Não tenham vergonha. Joana mostra aos negociantes os pobres (Luckerniddle e Gloomb) que ela trouxe. a quem os senhores transformaram no que são. como não seriam os valores mais elevados esmagados em seu coração? Sempre ouço dizer. tanto hoje quanto no dia do juízo final. Mas então eu lhes pergunto: de onde tirariam eles alguma moralidade. Senhores. ver surgir a nós. imaginando que não virão à tona suas manobras. destinos inelutáveis. a Revolução. JOANA. que fazem subir o preço do pão e que fazem da vida um inferno onde os homens viram demônios. que sentam nesse palácio. As crises são catástrofes naturais. Nos baixios. replicando: Imbecis são vocês! Ninguém pode nada contra as crises! Bem acima de nós. avancem à luz do dia. Já me disseram o que os senhores fazem: manobras. JOANA – Mas os senhores. Mas nós lhes dissemos que é um imbecil. acabarão tendo de comer sozinhos a carne que produzem. Se continuarem a agir assim. existe também um poder de compra moral: o dinheiro. engodos e combinações para aumentar o preço da carne. em tom de reprovação Aqui estamos com nossos bois Que hoje em dia ninguém quer. Reparem então nestas gentes. nada querem saber da miséria que existe fora deste recinto. eles que nada têm? Senhores. MAULER. aí pelo mundo. vocês. como fazem em seus jornais. OS POBRES – Ele é o responsável por tudo! Os fabricantes de conservas correm para socorrer Mauler. OS CRIADORES. Aumentem-no. que se dobram sob o fardo de suas penas. pobres e deploráveis imbecis. Causais vossa própria queda! Bando de imbecis! OS FABRICANTES. Silêncio! Não lhes agrada muito. Vossa imunda cobiça.18 – Maldito sejas! Cridle sai. ao fundo – Pierpoint Mauler passou mal. seus mugidos serão testemunhos. e escute o que eu tenho a lhe dizer. Cujo ciclo pavoroso sempre recomeça. buscando desculpas. e diante de Deus TodoPoderoso. atrás de mauler – Fique senhor Mauler. os senhores se enganaram. em conseqüência. COMPRADOR.

vós me mostrastes a imoralidade deles. Compro. ao preço do dia. de todos os estoques do cartel. que mantendes longe de vós. Os que estão atrás. Torna-se comprador. cantemos: “Nunca faltará o pão. Aos pobres: Segunda-feira vocês terão novamente trabalho. voltando a si – Eles ainda estão aí? Eu suplico que os afastem.19 Um médico para Mauler! JOANA: Mauler. vos rogo. antes de partirmos. Mauler. Eles parecem bem piores. o que fazeis? Vós me ordenastes não dizer uma palavra. ao instinto animal. MAULER: Afastem-nos. tudo o que em oito semanas conseguirdes [fabricar. levantai-me. Nem mesmo do boi que esmaga espigas com seu casco! Em todo o caso. eles não. Nós. E não basta que cerres as pálpebras Para que eles desapareçam. então Para querer fechar a boca do Bom Deus? Não se deve calar a boca de ninguém. O cartel entregará a Pierpoint Mauler. MAULER. afastados dos bens indispensáveis. Eu vos mostro agora a pobreza dos pobres. Eles o levantam. também ao preço de cinqüenta. pelo menos cinqüenta mil toneladas de conservas. JOANA: É isso.. por favor. Quem em seu seio habita Jamais será infeliz. gritando em um megafone – Pierpoint Mauler reanima o mercado da carne. No seio de Deus não há frio. ao fundo. CRAHAM: Então! Não podes vê-los? No entanto foste tu. Mas quem sois vós. deitado no chão – Eu compro. aí em cima. Invisíveis para vós. JOANA – E agora. como eles sim. E vós. cumprimos nosso trabalho de [missionários. em 15 de novembro. assume compromisso sobre a produção de dois meses. a contar de hoje. OS POBRES – Gente como essa. Tu quem os reduziu à tamanha miséria. OS FABRICANTES – Ele comprou! Mauler comprou! MAULER – Ao preço do dia! CRAHAM.” OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Nunca faltará o pão Ao que dedica a Deus sua alma. E lá. levai-o agora. Eles. meus amigos. nós nunca tínhamos visto. E fome nunca se passa. e por vós mantidos Nesta pobreza.. A tal ponto dependentes de alguma comida E de um pouco de calor. Que viver assim pode mesmo afastá-los Da necessidade de um ideal. SLIFT – Ele não abrirá os olhos enquanto não os fizerem sair. . estão tão enfraquecidos. CRAHAM – A cinqüenta? MAULER – A cinqüenta! CRAHAM: Ele comprou tudo! Vocês ouviram: Comprou tudo! CORRETOR. e reduzi-los À voracidade. MAULER – Agora. eu. eu vou falar. OS FABRICANTES – Quem? Os Chapéus Negros? Quer que eles saiam? MAULER – Não. Além disso. Mas os dois que estavam ao lado dele. qual burros de carga. para eles inacessíveis. nós conhecemos. levantando-lhe a cabeça – E os estoques? MAULER. eu compro! Escutai todos: Pierpoint Mauler compra! Que estas gentes tenham trabalho e que se afastem.

cutucá-lo. a sabedoria triunfa. então. Se estiverem muito necessitados. SLIFT. O homem que o assinou não estava em seu juízo. enfim do ponto morto! Confiança e concórdia estavam fortemente abaladas. Que carecem tanto uns como os outros? CRIADOR. Ele cumpre. dirigindo-se à Joana Aquilo que disseste e tua intervenção Causou-nos forte impressão. Mauler. não é. entrada gratuita. Slift. Nesse momento o mercado recobra a saúde. por que te impressionas com os discursos dela? MAULER: . Muitos criadores se transtornaram. aqueles que o recebem. ao criador: O que Mauler promete. Contra a desrazão. seguidos dos criadores. Pois o contrato que acabam de ver firmado É apenas um pedaço de papel. Nós estamos sob uma miséria atroz. pois nós também. Não o deixaremos descansar Enquanto um homem precisar de ajuda. Os patrões vão reabrir. JOANA – Todos aqueles que se interessam realmente pela palavra de Deus e que querem saber o que ele diz e não apenas a cotação da Bolsa podem vir domingo à tarde assistir nosso ofício. Sábia decisão. os operários entrarão. Venham comigo procurá-lo Para que ele os tire do embaraço. na Rua Lincoln. de São Francisco a Nova Iorque. ele não encontrará Um centavo. Aqueles que dão o pão. discute com Slift – Fecha a porta. nenhum. O estômago do país. E ele faz meter carne em latas Que ninguém comprará. Pois ele pode vir em auxílio. As fábricas reabrem e as chaminés fumegam! Pois efetivamente é de trabalho. saturado de conservas. E vocês precisam dela. açougueiros infames! Enquanto vocês não dobrarem o preço do gado Não entregaremos um só grama de carne. Podem esquecer seu nome. liga as luzes e agora repara em mim. Agora os senhores podem respirar. às duas horas. dentro da casa. JOANA: Saibam todos: estou de olhos em Mauler. Escutem: saímos. OS FABRICANTES: Podem guardar sua carniça podre! Não estamos interessados em comprar. sabiamente acatada. Joana e os Chapéus Negros saem. Música a partir das 3 horas. Sua consciência já despertou.20 OS COMPRADORES: Este homem está ruim da cabeça. É preciso. VI A Captura dos grilos NA CIDADE CASA DO CORRETOR SULLIVAN SLIFT. PEQUENO IMÓVEL COM DUAS SAÍDAS MAULER. Os fabricantes de conserva saem. Recusa-se a engolir mais. Para tal negócio. e diga se realmente todos podem ler em meu rosto? SLIFT – Ler o quê? MAULER – Ora! A minha profissão! SLIFT – Teu ofício de açougueiro? Diga-me. OS CRIADORES: Agora os preços subirão.

MAULER: Mas que dizem eles? Essas cidades São um braseiro jamais extinto Onde. irei confessar-te Minha verdadeira opinião sobre nossos negócios: Comprar. Eu deveria podê-lo de novo. Se nos apanharem um dia. Esquecer todo o resto. Fórmulas tomadas ao coração. de onde se eleva uma cólera Que nos varrerá a todos.. lançar-nos-ão Ao chão como um peixe podre. Tudo isso são ainda meras desculpas O que temo não é Deus. Certamente porque essa gente trabalha a troco de nada. Sabias que tu compraste hoje tudo aquilo que pode ser colocado dentro de uma lata de alumínio? Meu caro Mauler. Máscaras da aflição. caro Pierpoint? Pense que agora podes fazê-lo sem peso na consciência. vender e lutar sem parar. Isso não pode mais perdurar. Que não sabem como passarão a noite mas. Não. por mais externa e sem importância que ela seja. por mais louca que seja. um após o outro. É outra coisa. urrando. Não conheceremos a morte em nossas camas. no entanto. Seu número aumenta a cada dia. SLIFT – Não queres comer um pouco de carne. Ele se afasta e começa a grelhar um bife no fogão. talvez. SLIFT: Em cidades como as nossas.. qual onda. MAULER: Sempre me pergunto por que essas tolices me afetam: Discursos plenos de utopias.. E quando da onda emana uma voz Que nada tem de bestial. Agora.21 O que ela disse? Eu não ouvi nada. retorna. Para limpar esse mundo. mas permita que eu te exponha simplesmente a situação.. (À parte:) Farei com que ele coma um filé muito mal passado.. que mais não vi. Slift. Não há mais consolo. a humanidade. Há sempre boquirrotos que acham Que as coisas não andam como deveriam. E pense em tua situação: ela não é muito boa. Esfolarmos uns aos outros friamente. Nós e nossa corja. Então creio sentir Como um peixe aprisionado entre duas águas Pauladas na espinha. A urrar de aflição. SLIFT – E o que é. Seremos colados ao muro. Para estes que caem em nossos porões sangrentos. . Sob a chuva e de barriga vazia. meu caro Slift. Talvez depois de comer carne crua ele retome seus instintos. SLIFT – O discurso deles te perturbou. Tão forte. Tagarelice vazia e fácil. Por trás havia rostos selvagens. Nós que aqui estamos. vejo-te mergulhado na contemplação de teu ser grandioso. então? MAULER: O que vive abaixo e não acima De mim! Esses seres reunidos nos matadouros. E dezoito horas por dia. eles são muito numerosos. É sua antiga fraqueza que retorna. Levantar-se-ão com a aurora e por-se-ão em marcha. MAULER: Tu crês que eu deveria? Eu poderia. não é? SLIFT – Come.. pois desde essa manhã tu nada tens a ver com a morte dos bois. Onde o fogo arde embaixo Enquanto congela-se em cima.

acredito. Os preços baixarão novamente.22 Primeiro compraste ao Cartel um estoque de vinte mil toneladas de conservas. eu não agi por razões vis. teus amigos de Nova Iorque? MAULER – Que eu devo comprar carne. SLIFT – Tu deves fazer o que? MAULER – Comprar carne. Tu as compraste a cinqüenta mas. Milhares de homens sangram Por causa deste imundo dinheiro. Ah. deverás escoá-lo em um mercado que já não consegue absorver uma única lata. votarão contra as tarifas aduaneiras. Cairei.. eles me escrevem para comprar. SLIFT – E tu compraste! MAULER: Oh. Eu fui vê-los cair. continuando a leitura . MAULER: Oh! Slift. Sob o fardo de toneladas de latas de alumínio. Essas pessoas são gente de bem? MAULER – É gente com liquidez. sob os arcos de alguma ponte. É coisa que também não se deveria fazer. MAULER: Tu compreenderás. Em quinze de novembro. eu comprei. eu me escutei dizer: “Eu compro tudo”. Na carta que recebi de Nova Iorque essa manhã. eu te juro. SLIFT – E o que escreveram. na Câmara.” SLIFT. amanhã. eu estou perdido. Ainda pela manhã. Sim. escapando bem. eu tenho a impressão De que nada de bom sairá daí. Corromper ou abolir as tarifas. é verdade. ou a vinte e cinco. Escuta: X comete um roubo. os preços Subam? E nós acabaríamos. qual Atlas. de resto. o Cartel te entregará mais cinqüenta mil toneladas a cinqüenta. Essa seria uma saída. eu comprei! O que eu fiz! Coloquei sobre minhas costas toda a carne desse mundo! Trôpego. na melhor hipótese. Não é qualquer um que pode. .. mas Y o surpreende. Facilmente nascem guerras À custa de tais atitudes. Mas esta mulher comoveu-me a tal ponto Que mal lancei os olhos. Nas semanas vindouras. Receberás. eu estou perdido! Esse é o meu fim. quando os preços estiverem em trinta. caro Pierpoint. SLIFT – E por que reclamas de ter comprado? MAULER – Sim. a não ser que golpeie Y Se ele golpear. então. Realmente eu não vejo sentido nesta carta. sim! Eu comprei carne. os preços cairão a trinta. Mas não foi por causa da carta. apesar de tudo. de anunciar-te que nosso dinheiro começa a render seus frutos: muitos são aqueles que. SLIFT – Quem são. Mas ainda há a carne Que no mercado liquidarão cem criadores Muito ávidos. Ah! Meu caro Slift. Parece. Não. esmagado. comprar carne. mais notícias. Slift. hoje. essas teorias de gabinete. Estão erradas. MAULER: Corromper assim..“Estamos em condições.. rir-me deles. SLIFT: Tudo depende de quem escreve a carta. Aqui está: “Caro Pierpoint. muitos de meus concorrentes balançavam. dizer-lhes Que ninguém era louco o suficiente Para comprar carne em conserva. Então pode ser que. E uma vez lá. Ou desencadear guerras. safa-se. indicado. então? Mauler sorri. O ladrão está perdido. assim.

eu compro. de seus delitos. JOANA. Slift sai. E nós somos. A operação é simples: seria preciso comprar Todo o gado que se encontrasse em pé. JOANA – Nós o faremos sair de sua toca. para evitar me encontrar. Slift tragame tudo o que se pareça. Devo comprar ainda todo o gado de Sírius? É como se alguém viesse dizer a Atlas Que não mais agüenta.. Os enganados serão os criadores. (Ela ri. para o outro lado. SLIFT – Não deverias ter comprado. àquela gente que está com ela. diante da porta da direita – Sai. mais de dez mil criadores que não sabem mais a qual santo rezar. Agora. dobrando-se sob o peso da terra: Saturno também precisa de apoio. grandes lucros! É verdade que o ganho seria apreciável. com um porco ou com um boi. Também trouxe alguns trabalhadores que adorariam perguntar-lhe quando o senhor reabrirá a sua fábrica. como quem captura um grilo. MAULER: É verdade. Isto é o principal: Sumir com o gado.23 Da mesma maneira a carta – que está errada – Requer – para acertar – um crime desta ordem. Eu não compro mais nada. Nem a mim nem aos que me acompanham. SLIFT. MAULER – Eu não compro. Slift. eu estou comprando e compro ao preço do dia. e diga-lhes que quero refletir dois minutos.) Saia. é verdade. (Os criadores colocam-se diante da porta da direita. Tu és o responsável por nossa desgraça. eu não quero meter o dedo neste negócio. e tudo o que cheire à banha eu compro também. Quem me comprará. não sairemos daqui! MAULER – Tu dizes Graham? É verdade que ele precisa de gado? Saia. Não. Mauler. das fábricas paradas. Senhor Mauler. não foi bom. MAULER – A outra saída onde é. E comprar-lhes tudo. Joana entra acompanhada dos criadores. Antes de ter saído dessa. no fim. de perto ou de longe. Pois. em todo o Illinois. Compra então o nosso gado! MAULER: Fecha a porta. que precisa bastante. (Ele calcula. Pierpoint! MAULER: Ah! É verdade. todo esse gado? SLIFT – Vejo apenas Graham. eu vou comprar. No interior da casa. Mas então. sobretudo. minha decisão está tomada. quero paz em minh’alma. aos criadores – Pierpoint Mauler está examinando vosso pedido.) Slift. Eu fiz “A”. Ele não gosta muito de me ver. nem chapéu nem sapatos. Que eles tirem. tentará sair pela outra porta. Retumbar de tambores. a partir de hoje. Ele desenha um “A” na porta de um armário. é preciso que eu lhe fale da miséria dos criadores de Illinois. Joana diante da porta da esquerda. Quando ele me ouvir cantar aqui. então. Vão para lá. Lembrá-los de Lennox. eu não comprarei! Eu que já carrego toda a carne desse mundo. ele se dirige à porta da direita. depois. Slift volta. Slift. Traga-me até a menor mancha de gordura. Persuadir os criadores da oferta excessiva. SLIFT – Qual crime? MAULER: Um crime que eu não poderia cometer. . Ele pede-vos dois minutos de reflexão. SLIFT Tu que não querias mais comprar um chapéu. OS CRIADORES. E por agora também não penso em reabrir a fábrica. Vais comprar todo o gado de Illinois.). tiver cem dólares no bolso. Toda a carne posta em conserva até hoje. Slift? Não quero reencontrá-la e. Slift.. SLIFT – Por aqui. a cinqüenta. Feliz se. Slift. diante da porta da esquerda – Enquanto os criadores não forem ajudados.

sobretudo. JOANA. BISPA SNYDER – Agora. . frente a Deus. sábado próximo. e. mas não fizeram nada. minha cara dona Mulberry. o que foi feito dele? BISPA SNYDER – Meus caros Chapéus Negros. GLOOMB – No começo falaram em reabri-los. os dispensados esperam ainda pacientemente na porta dos matadouros ou já começam a dar discursos revolucionários? DONA LUCKERNIDDLE – Desde ontem gritam bastante.24 Dominado por seus sentimentos. Entra dona Mulberry. salvador do comércio! Eles entram na casa. (Os Chapéus Negros saem. Mas Deus todo poderoso Achará os meios de alimentá-los! BISPA SNYDER. não é preciso que as vendas sejam feitas em seu nome. SLIFT. Pierpoint Mauler resolveu comprar todo o gado que se encontrar no mercado. um grande golpe no ateísmo e no materialismo que reinam nesta cidade. se levantando – Que mixaria! Que mixaria! (Dirigindo-se a alguns pobres. Ela sai. que cada um volte alegremente às suas funções. Eles não têm pão. Em seguida comete “B”. convidar em vosso nome as pessoas ricas e bem colocadas de Chicago. em nome de Deus. acabamos constatando que esses segmentos demonstraram. Que dão medo de olhar. pois eles sabem que as fábricas receberam encomendas. proprietária do imóvel. caros ouvintes! Para resolver o delicado problema do financiamento nós até agora apelamos aos pobres e aos mais pobres. que eles nos ajudem a desferir. DONA MULBERRY – E meu aluguel. uma avareza completamente inexplicável. O dinheiro nos permitirá também pagar à nossa querida proprietária. ao fundo. Talvez isso tenha a ver com o fato de que eles não possuem nada. Eles não têm teto. Comandante dos Chapéus Negros. sai e se dirige aos criadores – Para salvar Illinois e impedir a ruína dos fazendeiros e criadores. Infelizmente. VII Os mercadores são expulsos do templo TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS Sentados em uma longa mesa. GLOOMB – Muitos já dizem que se não empregarem a violência não haverá trabalho para todos tão cedo. Alguém se equivoca: “A” é um erro. entre os quais dona Luckerniddle e Gloomb:) Vocês de novo? Vocês passam a vida aqui? O trabalho voltou nos matadouros! DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. os Chapéus Negros esvaziam suas latas de ferro e contam ao óbolos das viúvas e dos órfãos. mas por enquanto não se preocupem. Faça entrar os fazendeiros. tão errado quanto “A”. que são gente de bem. dona Mulberry. pelo que acaba de fazer. (Aos operários:) Quando os que compram gado e os que o vendem se acertarem. Suas misérias são grandes. OS CRIADORES – Viva Pierpoint Mauler. o aluguel que ela tão gentilmente tem adiado. sobretudo nas camadas inferiores da população. Trabalham duro e vestem-se decentemente. para vocês também haverá pão novamente. Eles não são como os outros. Aos pobres:) Digam-me. DONA MULBERRY – O que me agradaria muito. grita a eles – Digam ao senhor Mauler que os Chapéus Negros lhe agradecem. E eis que “A” e “B” tomados juntos. Assim eu decidi. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Recolham cantando Os trocados dos órfãos E os trocados das viúvas. Mas seu nome não deve ser mencionado. dão certo. BISPA SNYDER – Não se aproximem muito da caixa! Ele fez sinal para que eles recuem até o fundo. não se esqueçam de varrer a escada.

. E que alguns entre eles começam a resmungar e a dizer: devemos nós mesmos cuidar do negócio. estão acima da querela. BISPA SNYDER – Podemos dar um jeito com setecentos e cinqüenta. Nós também prometeremos a eles que os ricos serão punidos. Graham. Que tal. Quinhentos dólares. novo soco – Que tu achas que eles querem. precisamos do gado. e vá dizer ao Pepê Que afrouxe o laço. sem que ninguém saiba como. então. OS FABRICANTES – E quanto querem pelo serviço? BISPA SNYDER – Oitocentos dólares por mês. após a sua morte. sem dúvida? SLIFT – Sem dúvida. portanto. Do lado de cá. . BISPA SNYDER MEYERS Há um cretino que razia o gado E que sabe bem que estamos comprometidos A entregar carne enlatada E que. MEYERS. Na mosca.. mas que ela é provocada por aqueles que dela tiram vantagem.. a Snyder – Quinhentos dólares? Isto é muito dinheiro! Quem vai pagar? SLIFT – Ah. na frente do palco – Então. são vocês que estão com o gado. afirmando que sois vós os responsáveis pelo desemprego! Em breve eles dirão: queremos fazer como os bolcheviques. confesse Slift. no púlpito – Nós. BISPA SNYDER. Slift. mais então.. onde poderia estar todo o gado! GRAHAM – É o que eu me pergunto também: onde poderia estar? SLIFT – Eu me coloco a mesma questão. mas que serão. dando-lhe um soco na boca do estômago: Velho cão imundo! Vamos. é saber de que lado vocês estão! Desse lado da barricada ou do outro? BISPA SNYDER – Os Chapéus Negros. SLIFT – Mauler e eu não compramos um centavo sequer de gado. Meyers. que eles estão destinados ao sofrimento. GRAHAM – Até tu? E Mauler também. a Snyder – O que querem de nós? GRAHAM. o Pepê está com o gado. Deus é testemunha.25 – Isso nos é favorável. (Aos outros) Eles carecem desta quantia. diremos a eles que a desgraça vem como a chuva.. Já é melhor. Porque já começam a dizer por todos os lados que a desgraça não cai do céu como a chuva. MEYERS – O que não será fácil. os Chapéus Negros. um dia. bispa. recompensados por suas penas. a Snyder – Desembuche! Eles se sentam no banco dos fiéis. MEYERS – Setecentos e cinqüenta. (Os fabricantes de conserva caem na gargalhada) E tudo isso por apenas oitocentos dólares por mês! GRAHAM – Não precisas de tanto. E já citam vossos nomes. vocês certamente precisam. senhora bispa. Slift! MEYERS. Graham. Nós. GRAHAM. sim! Vocês agora terão que achar alguém que faça a doação. quinhentos? GRAHAM – Quinhentos sim. os Chapéus Negros. os reis da carne nos escutarão mais facilmente. precisamos de sopa quente e música animada. É nosso nervo vital! SLIFT. tomar as fábricas em nossas mãos para que todos possam trabalhar e comer. Slift? (Slift simula um ar astucioso e exagera na mímica do ato de dar dinheiro). minha cara. menos Snyder.. não gosto disso. GRAHAM – Confesse. tão certo quanto eu estou aqui. (Aos pobres:) Vocês não poderiam ao menos cortar lenha para nós? OS POBRES – Não há mais lenha. SLIFT – O essencial. ouvimos dizer que há nos matadouros cinqüenta mil pessoas sem trabalho. SLIFT. Se vierem para cá tocados a pedradas. Senhor Slift. portanto. Bispa Snyder! Todos riem. a Snyder – Todos pobretões. a Meyers – Essa senhora não tem senso de humor. MEYERS. Entram os fabricantes de conservas: Cridle. não enrole. SLIFT – Quem poderia ser? GRAHAM. MEYERS – Eu me pergunto. OS FABRICANTES – Por que falar em pagamento? BISPA SNYDER – O pagamento do qual falamos é feito após a morte.

É o seguinte: alguém sumiu com o gado do mercado de uma maneira que somos obrigados a ficar de olho em Mauler. É preciso ser muito tonta! Na verdade. senão lançar-me-ei sobre vós e golpeá-los-ei a cabeça. que ela usa como se fosse um porrete. Dirigindo-se aos fabricantes: Mauler. Nós queremos reabrir nossas fábricas. para fazer pior. e nessa atitude há alguma coisa que parece exploração. É preciso que ele libere o gado. hoje. mas não fizeram nada. ajudo também aos de baixo.No começo falaram em reabri-los. nós não queremos mais ver. Os Chapéus negros aparecem na porta. gritando alto a Joana – Ah. Saí. JOANA. se os consumidores não têm com o que pagar? JOANA – Em vossas gigantescas instalações e vossas fábricas detendes as ferramentas dessa gente: deveríeis ao menos permitir que eles as usassem.26 Entra Joana SLIFT – Aí está a nossa Santa Joana da Bolsa de Carnes! OS TRÊS. JOANA – Por que não trabalham? Não arranjei trabalho para vocês? DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. mal tendo sido saciada. empunharem um porrete para bater em vossas cabeça. comprou-vos conservas Por minha solicitação! E não reabristes ainda? OS TRÊS – Está correto. eu sei o que faço. Não me detenham. da tua vista sairia. ao me veres aqui. ela está espantada – O que fazem vocês aqui? DONA LUCKERNIDDLE. Mas cruel é a fome: Renasce sempre. Para que ninguém mais vá olhar de perto. quem comerá a carne que nós compramos? E para que nós a compramos. que haveis atormentado ao extremo. Mas o Bom Deus tem uma opinião muito elevada de Si mesmo para ser sempre a vossa babá para todo o serviço e para vir limpar vossas cavalariças. e eu. olhando os pobres. De bom grado. senão ficam imobilizados. e rápido. Se fizeres isso por nós. pagaremos o aluguel dos Chapéus Negros por quatro anos. Basta que alguém diga: está acertado. aí estás! Nós não estamos muito contentes contigo! Tu não poderias dizer uma palavrinha de nossa parte à Mauler? Parece que tens sobre ele alguma influência. Esta neve os mata. Se essas pobres criaturas. Mas agora. mas também os esconde De todos os olhares. pois. avançando: Eu te conheço: tentei te convencer A trabalhar nas serras que me cortaram o braço. perdi demasiado tempo até sabêlo. SLIFT – Mas querem antes estrangular os agricultores! OS TRÊS – Como abater gado que não existe? SLIFT – Quando Mauler e eu compramos a carne de vocês. Sois indignos e eu vos expulso! Apesar de vosso dinheiro! . aos fabricantes: Esses pobres continuam a esperar trabalho? Silêncio dos fabricantes Eu que pensava que eles estavam arranjados! Faz já oito dias que neva nas costas deles. indo de um lado a outro. JOANA. Haveis perdido então todo o respeito pelo que se parece humano? E ousais anda vir à casa de Deus porque possuem o vil metal? Sabe-se bem de onde haveis tirado esse ouro e como o haveis adquirido. qualquer um que queira ajudar aos pobres deve ajudá-los a protegerem-se de vós. supúnhamos que iriam retomar o trabalho. Estou pronto. avançando: As vinte refeições foram comidas! Não te irrites. vós então vos borrareis todos. dizendo-me: ajudando aos de cima. GLOOMB. (Joana sai atrás deles com o mastro de uma bandeira. e a religião vos parecerá de novo algo de muito bom. GLOOMB . própria para jogar água na fervura. Parece que podes fazê-lo agir ao teu gosto. Dizem que ele come na tua mão.) Saí! Quereis transformar a casa de Deus em um estábulo! Saí! Nada tendes a fazer aqui! Cabeças como as vossas. e que os operários poderiam comprar a carne. E eu. entretanto. sem pena também Esqueci o que todos se apressam em esquecer Para rapidamente estar em paz com suas consciências.

Trazendo-vos totalmente convertido. ela retorna vestida como uma jovem camponesa. Eu pedirei sua ajuda. tudo mal. ah. comê-lo também! Vá-te então. Mas como deixar-se levar por isso? (À dona Luckerniddle e a Gloomb:) Sentem-se lá no fundo. no coração da tormenta. é bem disso que se trata! Falaste a palavra exata! Se o Bom Deus paga. fracos. Grupos inimigos irreconciliáveis. como jamais viu antes o mercado do gado! Saída dos fabricantes de conservas. na ponta dos pés. Anda cuidar de tua vida. de volta Convida a tua casa. Quanto ao pão que precisamos comer. BISPA SNYDER. Mas se ele não paga. Mesmo que o dinheiro os carcoma como um câncer Devorando o que seu resto tem de humano. entretanto. agora. não se vão. Fazes-te de difícil e és muito curiosa Para saber como é feito. tu a ignoras E cedes a teus impulsos! É mesmo muito fácil Caçar esses impuros com um gesto cheio de orgulho. e a partir de sábado à noite. não tem nenhum mandato! É apenas uma mulher que perdeu a razão! Ela está despedida! Ela fará pelos senhores tudo o que desejarem. pois esses que te seguem não são mais do que escória e refugo. terá de se mudar. Tu que planas mais alto que as questões terrenas! Parta sob a chuva. Nós iremos viver dias terríveis. prisioneiros Em uma torre de marfim. DONA MULBERRY — Sim. modestamente. bispa Snyder? Ela sai. onde não escutam mais Os pedidos de salvação do resto dos humanos. Por causa do aluguel. então. Eu não desejo Colocar novamente o chapéu e o uniforme negro. Nem outra vez cruzar o limiar dessa querida casa. de um ao outro. Mediadora inútil e que cava a própria cova. correndo sai atrás deles – Fiquem senhores. DONA MULBERRY.27 – Está bem! Mas conosco. vão-se irrevogavelmente quarenta meses de aluguel. esses pobres. BISPA SNYDER: Infeliz ignorante! Como não vês que operários e patrões. É mister que haja um Justo entre eles! Ela sai. tudo bem. Enquanto não tiver feito de Mauler um dos nossos. eu lhes trarei a sopa. De qualquer maneira. Queres. ela não representa ninguém. Povoada de cânticos e palavras que despertam. é muito justo que pague. Mesmo que ele os torne surdos. OS TRÊS Joana sai. JOANA. está bem. . JOANA Irei ver o rico Mauler. aos Chapéus Negros – O que acabo de fazer certamente foi pouco habilidoso. dona Mulberry – que ele encontrou sobre a terra. Se o Bom Deus não paga o seu aluguel. entrando — Vocês já arranjaram o dinheiro? BISPA SNYDER – Deus encontrará logo o meio de pagar o abrigo bastante modesto – eu disse modesto. não temos mais um centavo. BISPA SNYDER. Serve-lhes água de chuva e belas palavras Pois do céu não lhes vem mais do que neve E não misericórdia! A humildade. Enfrentam-se como gigantes? Vá. Doravante farás parte dela. Vá sob a neve e continue intransigente! JOANA – Quer dizer que devo tirar meu uniforme? BISPA SNYDER – Tira o uniforme e arruma tua bagagem! Sai desta casa e livra-nos da escória que arrebanhaste. Homem de boa fé e destemido. Ela carrega uma mala pequena. oferece teus bons préstimos.

senhor Mauler. e que nem mesmo está dobrado direito? Diga-me: o senhor dorme aqui mesmo. Deixar que gritem: “É um crime!” Entra Joana. posso me interessar mais por cada homem em particular. no seu escritório? Sempre achei que o senhor devia possuir um dos grandes palácios de Chicago (Mauler se cala). Não se possa aceitar gente da minha laia. desta vez. Não é fácil encontrá-lo. A mim também Teria expulsado. mesmo nas pequenas coisa. de ser cuidadoso. Não pretendo soltar um só grama de carne A fim de arrancar-lhes mesmo a pele desta vez: É a minha natureza quem exige. Faça subir. Slift. MAULER: Agora. Em busca de animais que. e cada porco Que eles precisam nos entregar. E todos aqueles que como ele. se eu estivesse lá. Ela não tem medo de nada. Não se fala mais dela. senhor Mauler. Serão obrigados a comprar a carne Que devem nos entregar. SLIFT: E tua Joana? Algo de novo? Um boato corre na bolsa: dizem Que te deitaste com ela. Slift. Senhor . MAULER: Seria preciso esfolar esta cidade maldita E ensinar-lhes o seu ofício A essa gente. Eu desmenti. SLIFT. meu caro Slift. Assemelhem-se a bois ou porcos. carregando uma mala. queriam esperar Que o preço do gado caísse o mais baixo possível. Então eu disse a mim mesma: vá dar uma olhada no que se passa com o senhor Mauler. Mas o senhor. Dir-se-ia Que Chicago a engoliu Em sua negra e ruidosa bruma. Neste mercado de Chicago Todos os bois que se escutam mugir São nossos bois. Gosto nela deste traço.28 VIII Discurso de Pierpoint Mauler sobre a absoluta necessidade do capitalismo e da religião ESCRITÓRIO DE MAULER MAULER: MAULER: Chegou enfim o dia em que nosso caro Graham. Ele sai. E os preços Subirão ainda mais. E na nossa mão é mais caro. Mauler. É que eu não estou mais com os Chapéus Negros. SLIFT: Estou feliz. mas por que o lençol em cima. de perto ou de longe. É um belo sofá que o senhor tem aqui. Terão de pagar mais caro. e de que. que tu tenhas superado Teus recentes acessos de fraqueza. em sua casa. por um momento. Agora que não tenho mais o trabalho fatigante da missão. Desde Que ela nos expulsou do Templo. Gostei muito de vê-la expulsá-los do Templo. realmente. Graham e companhia ficarão então parecidos À lama. Mas o senhor tem razão. os preços a oitenta. Deixo minhas coisas nesse canto. JOANA – Bom dia. dá rédea solta a teus corretores! Deixa-os correr o mercado. Houve discrepâncias entre nós. Vou ver como eles compram. Eles precisam comprar de nós. onde enfiaremos o pé Unicamente para ver a marca que deixa.

está caro. Mas contigo não será assim. E como eu sei que sois pobres E que querem privar-vos Do teto que vos abriga.. Trata-se de saber Se eu serei o melhor de minha classe Ou se tomarei eu mesmo. ainda por cima. MAULER – Vá dizer-lhes que o dinheiro está chegando. eu não comerei. É por ti que o faço. Teria adorado ouvir-te dizer Que o que eu faço está bem. de pé. É Mauler quem vai dá-lo. E foi por isso que eu me disse: irei ver o senhor Mauler. Quando não o tens.. Eu te encontro bastante mudada. MAULER – Ah! E agora os Chapéus Negros estão em uma situação financeira difícil? JOANA – Sim. vá dizer-lhes isso.. Mesmo que deva cortar na carne. Ela começa a comer avidamente. O dinheiro. MAULER – Não te inquietes. MAULER – . tenho boas esperanças de que sua consciência esteja em paz nesse momento! MAULER – Então não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Não. JOANA – Os operários continuam esperando nos matadouros? MAULER Por que és contra o dinheiro? E por que então. Há quanto tempo não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Oito dias. JOANA – Sim. Vou agora mesmo à Bolsa para procurar o dinheiro. Aqui está por escrito. eu lamento Que o trabalho ainda demore nos matadouros. Nesta história dos cinqüenta mil trabalhadores. Ele traz comida a ela em uma bandeja. Queres? Joana observa a comida. naqueles pátios imensos. MAULER: Tão mudada! Apenas oito dias! Onde ela esteve? O que ela viu? E por que essas rugas em torno dos lábios? Esta cidade de onde ela saiu. não como eu queria. quando nós expulsamos os ricos de nosso templo. Eu não conheço. e aos Chapéus Negros é preciso auxiliar. Corra. Eu confesso cruamente. aos fabricantes.. não faço mais parte. Eu irei à Bolsa encontrar o dinheiro que lhes falta. senhor Mauler. Daqui até sábado. Toma. nos deu prazo só até o próximo domingo. não querem partir. Estás de acordo? JOANA – Sim. O escuro caminho que leva aos matadouros. MAULER – E do que tens vivido? (Silêncio de Joana) De nada. Mas nesse negócio. é lógico. Mas eu o encontrarei. Eu também. a coisa não andou. muda logo a tua cara? . e que agi bem. sim.. E que. senhor Mauler! MAULER Tome. Um trabalho ruim... a proprietária. eu buscarei o dinheiro a qualquer preço. encomendei a carne. na minha vez.29 Mauler. Confirme que foi por teus conselhos Que eu. Assim como aos criadores. o dinheiro para vocês eu terei. o que me agradou muito e me pareceu justo. é claro. JOANA – Senhor Mauler. JOANA – . mesmo à noite.. Não pude dar-lhes trabalho rapidamente. senhor Mauler. Joana pára de comer. Eis o desafio. Mauler vai até o fundo do palco e chora. arrancar a pele desta cidade. Uma vez mais. Que meu comércio não é antinatural. que vive do aluguel. ser ou não ser. Eles são cinqüenta mil Que permanecem lá. Eu quero dar-vos alguma coisa Para provar-vos a bondade de meu coração.

aliás. Sim. Seria como um mosquito Tentando se opor a derrubada de uma montanha. MAULER . Eu sei.O que nós não vos exigiremos de nenhuma forma – Devem dizer ao menos que eles são justificados. Mas saiba com qual objetivo foi dado! Tome isso! Saiba que representa O aluguel de quatro anos. nem Deus. Ele alcança o papel a Joana. Que o gênero humano está entregue. diga-me. Apanhe o que te dão. de cima a baixo. destruído na mesma hora. durmo mal à noite.30 O que pensas tu do dinheiro. Para que Ele finque pé nas favelas E para que Sua voz retumbe nos matadouros. eu concordo. Olha também como o mundo é feito! Que edifício! Obra dos homens. sob gemidos. Ao menos a vida de alguns. Pouco ou muito segundo o caso. Fazendo Dele a única salvação. sem dúvida. Daqueles a quem ninguém oferece nada. nem nós tampouco: Não seríamos necessários. Mas pensa na realidade. sob chuva e frio. Ou então seria preciso mudar tudo. isso será suficiente. Assim. veja bem. Modificar por inteiro o plano do edifício. Mas eu faço parte daqueles Para quem essa não é uma ajuda. Se eu quisesse me retirar. Quero saber. E que. Por isso vós deveis nos ajudar em nossa obra. Não desejais. Desde que existem sobre a terra. Tão penosa de construir. Por Ele batendo os tambores. Mas mesmo assim verdade: Sobre a terra nada há de sólido. eu que nutro Poucas simpatias pela ordem do mundo. Obra imensa. Não enchas a cabeça de falsas idéias. . E se vós não precisais se expor aos sacrifícios. Concepção inaudita à qual vós mesmos. As coisas não deixariam de seguir o seu curso de antes. Eis porque esta obra é sempre defendida Pelos melhores entre os homens. É à sorte. malgrado os sacrifícios. ou quase. Como esses bobos para os quais o dinheiro Tem não sei qual problema. Que seria suprimido por falta de utilidade. Na banal verdade. JOANA Senhor Mauler. Eu seria varrido. O dinheiro é um meio De melhorar um pouco a vida. Eu não compreendo E nem quero compreender. Atribuir ao homem um lugar totalmente diferente. Ela se levanta. E incessantemente construída. Em uma palavra é preciso que vós Restabeleçam Deus em sua glória. Pouco agradável. Ainda que dia após dia se precise reconstruir O que dia após dia é destruído. Esse sistema é o único que permite arrancar O que pode ser arrancado dos rigores desse mundo. eu deveria estar feliz De ver que alguém vem em ajuda a Deus. Isso que o senhor falou.

Mais numerosos. Eu comerei esta neve. Sobre ela que tu conheces. por toda a parte. a fronte ensangüentada. E isso é muito bom. Há sete dias: Diante de mim. marchava à sua frente. 1. e outras familiares. Chicago! Vós também Lá estavam. Eu serei como eles sem trabalho. soluçando e jurando Logo fora de mim! Virtude e terror confundidos! . A tempestade de neve. Pelo menos não honestamente. pulsando vida. Ao mesmo tempo. Depois eu gritei palavras em tom belicoso Em uma língua para mim mesma desconhecida. No futuro. creia-me. Quantos eram eles? Eu não sei. E então uma palavra. Mauler. Notei uma massa humana. Pois esta vida sem eira nem beira não te serve. Vi depois cortejos E ruas desconhecidas. Se for um punhado de neve o que lhes dão. JOANA Terceira descida de Joana às profundezas. desfilando. BAIRRO DOS MATADOUROS Joana. levanta-te. do que os pardais Que se poderia colocar em tal lugar. uma palavra sem importância. E se não houver trabalho. com aqueles que esperam. E o senhor. com passos guerreiros. Que o campo inflou-se e uma cascata humana Inteira ficou pendurada em suas elevadas bordas. Ela permaneceu suspensa por um instante. Vai à janela e repara se neva. que vive da pobreza. Que alguém gritou em algum lugar. Jovem e velha. Cercado de todos os lados por enormes edifícios E tão pequeno que a sombra de um arbusto O teria encoberto totalmente. E o trabalho deles também. IX Escutai o que eu sonhei. Mas eu me sentarei Em frente aos matadouros. Sem poder suportar a visão dos pobres Que os julga sem conhecê-los. JOANA Se os Chapéus Negros quiserem o seu dinheiro. se o senhor quiser me ver Me verá nos matadouros. A cada hora. e então eu me vi: À vossa frente. MAULER Esta noite. Que o aceitem. Eu também não tenho dinheiro E nem uma maneira de ganhá-lo de outro modo. Fez esta massa começar a fluir. Jogados aos matadouros e de tudo ignorantes. afluíam inúmeros cortejos. em todo o caso.31 Leva aos Chapéus Negros este dinheiro E poderás ficar com eles. Eles fazem muita questão do dinheiro. em um pequeno campo. eu quero fazê-lo. silhueta múltipla. E nada comerei além do que eles comem. Ficarei lá até que as portas sejam reabertas. Perto dela Gloomb e dona Luckerniddle. Arranjando para não ver esses condenados. Eu marchava. E se nevar. Saberás que neva sobre ela. sem uma palavra. Ela sai. E eu. Eles formavam uma massa tão densa.

a preço vil. Faremos um chamado a todo o ser que pareça humano.. Todas as conservas Previstas no contrato. éramos inatingíveis. OS FABRICANTES Desgraça! As tarifas caíram E nós não temos mais bois para vender! Eles já estão vendidos. Habituados ao sofrimento. transparentes. Assim foi o meu sonho. GLOOMB – Dona Luckerniddle. que eu saiba. abandonando este lugar insuportável Por qualquer outro. Rendidos pela fome. ao abrigo dos ataques inimigos. Oitenta mil toneladas. Eu andava no mesmo passo que o cortejo. Comprem-no! OS FABRICANTES: Comprar gado nestes dias! Que horror! 3. mas existe. Ocasionando imensas destruições. estávamos fora de alcance. BOLSA DE CARNES MAULER. é verdade. Um pouco caro. OS FABRICANTES: Mas como nós poderemos Comprar gado com preços em alta? Alguém promoveu uma razia. Influenciando o curso dos planetas distantes. a preço vil.. eu ignoro. Envolvida pela neve. Hoje eu compreendo o seu sentido: Nós deixaremos os matadouros antes do raiar do dia. Habitando em lugar algum. OS CRIADORES aos fabricantes de conservas: Meus amigos de Nova Iorque me escreveram Que as tarifas aduaneiras no Sul Acabam de ser derrubadas. E assim andava o cortejo. Eu exijo que me entreguem. A exata extensão de nossa miséria. MAULER: Sendo grande a demanda De conserva e de vianda E sendo os preços aceitáveis. a senhora entendeu esta história? Eu não. não nos podiam alvejar. modificava. e pior. Senhores. sem mais delongas. Ninguém sabe quem foi. e pior. E também perturbando o aspecto familiar de ruas bem próximas. Para aí mostrar a todos. nós agora estaríamos comendo a nossa sopa. se eu me lembro direito Daquela hora em que perdi um pouco o juízo. Mauler. GRAHAM: Ao preço antigo? MAULER: Como combinado. libere-nos de nossos compromissos! MAULER: Estou desolado. Há muito gado. E com a aurora chegaremos a Chicago. Graham. UM PEQUENO BAR NO BAIRRO DOS MATADOUROS Desgraça! As tarifas caíram! E nós não temos mais carne para vender! Ela já está vendida. a cidade deles. mas preciso das conservas. O que acontecerá. DONA LUCKERNIDDLE – Se ela tivesse calado um pouco a boca lá nos Chapéus Negros. Precisamos comprar e os preços aumentam! .32 Tudo o que eu pisava. nas praças públicas. bem e aquecidos! 2.

meus irmão. depois de entoar um cântico apressadamente: Por que não provar. não a violência. à margem do caminho. (Isso não serve para nada!). e eu não tenho mais fome e nem sede. JOANA – Onde eles estão? GLOOMB – A dona Luckerniddle pode lhe dizer. JOANA – Então não há ninguém que tente fazer alguma coisa? O TRABALHADOR – Sim. Se algumas pessoas soubessem calar a boca eu saberia onde procurar abrigo esta noite. do pão de Deus? Grande é nossa alegria. reina a paz. durante a cena. e o velho Adão dentro de mim não tinha outro desejo do que comer e beber. Vinde a ele. UMA MULHER Por que vir aqui fazer escândalo Com tamanho frio! E se pudessem ao menos se calar! Com muito custo eu consigo agora Suportar as palavras que há pouco amava E que me soavam agradáveis. UM TRABALHADOR. já ouvi demais. DONA LUCKERNIDDLE – Eles são boas pessoas. dona Swingburn? A MULHER – A sua música era bonita. MARTHA. curta bondade. surpreendendo-se pela ingenuidade – É sério? A senhora acreditou nisso? DONA LUCKERNIDDLE – Eu também. meu irmão. eu esperava que eles fossem ao menos nos dar um prato de sopa.(Vocês acham que isso serve para alguma coisa?) Eu também. faz desesperadamente sinais para que saiam. que alguma voz. BOLSA DE CARNES OS FABRICANTES: Nós compramos qualquer gado! Bezerros! Gado gordo! Vitelos! Bois! Porcos! Façam as suas ofertas. JOANA – Mas não são os tais que ficam incitando ao crime? O TRABALHADOR – Não. tenente dos Chapéus Negros. Um destacamento dos Chapéus Negros chega. JOANA. que nos salvou na dor. Bem que eu gostaria de estar com eles! DONA LUCKERNIDDLE – A música era bonitinha! GLOOMB – Bonita e curta. Silêncio. triste. ente os quais Joana. vinde logo! Aleluia! Uma jovem dos Chapéus Negros dirige-se aos trabalhadores. Eles precisam fazer isso para conseguir um pouco de calor e de comida. Ah. Onde está Jesus. Joana se levanta e. JACKELINE. à dona. os comunistas. mas eles traziam uma panela. fazendo o gesto de contar dinheiro – A senhora consegue manter a marmita fervendo. estava um dia sentada. mas ninguém contribui) Aleluia! JOANA – Deixe-os. grande o nosso regozijo. Luckerniddle – De onde a senhora os conhece? DONA LUCKERNIDDLE – No tempo em que eu não me fiava em gente como você eu ia bastante até eles. Pois nós encontramos Jesus. por causa do meu marido.Aleluia! (Jackeline faz circular a cuia de esmolas. GLOOMB – Bondade curta. apesar de todas as nossas más ações. minhas irmãs. por favor! OS CRIADORES: Não sobrou mais nada! Tudo o que podia ser vendido . soldado dos Chapéus Negros: . hoje (eles não estão escutando nada!) basta que eu pense muito em Jesus. mas então eu encontrei Nosso Senhor Jesus e fez-se em meu coração uma grande luz e provei uma grande alegria. A MULHER – Por que não nos procuram para tentar nos converter? GLOOMB. não o ódio.33 Trabalhadores e trabalhadoras. Discursos. como vocês. tenho apenas sede da palavra de Jesus. o amor. Nosso Senhor. (É tudo absolutamente inútil!) Eu lhes digo: ajudem-nos a manter a marmita fervendo! OS CHAPÉUS NEGROS . que um resto de pudor lhes diga: Aqui reinam a neve e o vento: calem-se! 4. tu também. Nosso Senhor. eu prefiro os atos. Intercala sua pregação com observações aos companheiros.

Terá de ser comprado de mim. Os fabricantes se precipitam sobre ele. precisamos de um prazo. Aprendi a falar em lugares públicos e em auditórios. Em frente a um galpão. OS FABRICANTES – Vendido a quem? Entra Mauler. Os senhores devem me entregar a carne. Mauler. os operários. Chegada de Joana. mesmo só uma pata. Quatrocentos. MAULER: Atenham-se à nossa combinação. Se alguém vier perturbar a reunião. eu as quero agora. OS CRIADORES: Oitocentos bois a quatrocentos para Sullivan Slift. Deixe-os totalmente à míngua. Nós. dois homens da direção dos sindicatos discutem com um grupo de operários.. eu não tenho medo. Não havendo ninguém que precise de carne. a greve geral. OS FABRICANTES: É Mauler. UM DIRIGENTE OPERÁRIO – Escutem todos: até agora os magnatas da carne não manifestaram a menor intenção de reabrir as suas fábricas. uma parte de nós perderá seu emprego nos matadouros e os outros nunca recuperarão o salário anterior. eu acertarei as contas com ele! MAULER: Ah! É assim. OS FABRICANTES: Mais nada? E nas estações? Estão abarrotadas de gado. De hoje até amanhã é certo que os patrões vão lançar todo o tipo de falsas notícias: eles dirão que . Qualquer vitelo. Já que não há demanda. e acho que sou capaz de defender bem uma causa. Silêncio .. o apetite desperta! GRAHAM. Ele vai falar com Slift. precipitando-se sobre Mauler: É preciso liquidá-lo. É impossível encontrar um boi em Chicago. Corte você mesmo! MAULER: Por que se surpreendem. sabemos agora de uma coisa: se tudo andar como querem os industriais da carne. OS FABRICANTES: Nem pensar! Vocês estão loucos? Quatrocentos! SLIFT – Eu compro. JOANA – São vocês os que defendem a causa dos desempregados? Eu posso ajudá-los. Os trabalhadores das grandes empresas da cidade nos prometeram declarar. OUTRO LUGAR NOS MATADOUROS Nos cartazes se lê: “Solidariedade com os trabalhadores sob lockout!” “Desencadeiem a Greve Geral”. Além disso. OS CRIADORES – Vendido. UM CRIADOR: Oitocentos bois de Kentucky a quatrocentos. Mesmo que tenhas que te enfiar nelas! Eu vos ensinarei como se faz esse comércio! Doravante. e caro! Ofereço. Vendo-os.34 Foi vendido. mesmo nos grandes. se são os senhores os bois. para começar Quinhentos bois a cinqüenta e seis. Graham! As latas que me deves. É claro que é! Era o que dizíamos! O cão! Ele nos obriga a entregar-lhe as latas E é ele quem compra o gado! Somos então obrigados a comprar de Mauler A carne que deveremos colocar em suas latas! Carniceiro sujo! Tome então a nossa carne. no mais tardar depois de amanhã. Agora eu quero sessenta! E tenham o cuidado De não esquecer as minhas latas! 5. eu tenho propostas a fazer. de Chicago a Illinois. Na minha opinião é preciso fazer alguma coisa imediatamente. se ela for justa.

O operário apanha a carta e sai. Ela é honesta. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Não. as centrais elétricas e o serviço de águas entrarão em greve em solidariedade a nós. Quando você vir chegarem três operários com cara de quem procura alguém. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Não é sem provas. pois o endereço dado pelos camaradas das usinas Cridle para o encontro está muito vigiado. pau neles! OS FABRICANTES – Queremos dois mil bois a setenta. O DIRIGENTE OPERÁRIO. na esquina do Parque Michigan. Como se rede já não houvesse: De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. Nós não temos ninguém para passar despercebido como ela. Ninguém suspeitaria que ela trabalha para nós. Um operário apanha a carta e sai. eu conheço o pessoal. e vá esperar os responsáveis defronte à cantina da senhora Schmittens. Tudo acontece como se a miséria dos pobres fosse útil aos ricos.. Isso é bom. Eu luto de todo o coração pela causa de vocês. Essas cartas anunciam que a usina de gás. dessa maneira.. Esconda essa em seu casaco. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – E quem te garante que ela vai levar a carta que lhe entregarmos? O DIRIGENTE OPERÁRIO – Ninguém. Ela é sua conhecida. Você pode tranqüilamente entregar-lhe a carta. UM OPERÁRIO – Pode ser uma espiã. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E para quem trabalhava? JOANA – Eu era ambulante. não é? DONA LUCKERNIDDLE – Honesta ela é. – Eu já vendi jornais na rua Vinte e Quatro. essa noite. encostado em uma coluna – Faça subir. Por este buraco fogem todos os peixes. com tal medida. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Pela nossa causa? Diga-me: ela não é também a sua? JOANA – Não é no interesse geral que os industriais jogam. BOLSA DE CARNES Durante toda esta cena.35 tudo está arranjado e que a greve geral não acontecerá. galpão número cinco. E poderíamos até dizer que esta pobreza seja obra deles. UM OUTRO OPERÁRIO – Dê-me a carta para as usinas Graham. aos responsáveis que esperam nossa orientação. em frente ao edifício da Westinghouse! (À Joana) Quem é você? JOANA – Fui mandada embora do emprego. O contrato assinado há pouco entre nós: Eu queria.” OS FABRICANTES – Nós não podemos mais agüentar. os preços estão a mais de setenta! OS CORRETORES – Os cabeçudos não compram. eu sei quem ela é. tanta gente na rua. pergunte-lhes se são das usinas Cridle. ouve-se gritar ao fundo o nome das empresas que suspenderam seus pagamentos: “Encerram os pagamentos. dando a carta à Joana – Vá até a fábrica Graham. Meyers e Cia. a Mauler. MAULER: Os senhores não respeitaram. SLIFT. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E em que trabalhava? JOANA – Eu vendia um jornal. À Joana: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua Três. dona Luckerniddle? (Dona Luckerniddle faz sinal que sim). em diversos pontos dos matadouros. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua vinte e seis.. É do Exército da Salvação e os policiais a conhecem bem. Elas devem ser entregues às dez horas. etc. estou vendo. A carta é para eles. JOANA 6. Eu não sou uma espiã. assegurar o trabalho . Jack. (os operários riem alto) Mas é desumano! E dizendo isso eu penso também em gente como Mauler! (os operários caem na gargalhada) Por que se riem? Acho que vocês estão errados em zombar e em acreditar sem provas que alguém como Mauler não é um ser humano.

GRAHAM: Que seja. desembucha! O primeiro segurança faz seu relatório. Mauler. O estranho é que aqui não se ouve nada.36 Aos operários e agora me dizem Que eles ainda esperam em frente aos matadouros. eu me pego esgoelando-os E não tenho tanto prazer quanto esperava. tudo a oitenta. Fala em meu nome. sim. Sem contar que a polícia está evacuando os matadouros e que começa a atirar. Slift. subir muito mais. à procura de um parente que não encontram. dizes. Que sangrem. voltando ao grupo: Este negócio. a Slift – Onde está o pessoal que eu mandei para os matadouros? SLIFT – Ali está um. Quando se grita qualquer coisa. A carne sumiu de vez do mercado! Quinhentos bois a setenta e cinco! MAULER: Não seria conveniente. MAULER: Atiram? Contra quem? Mas eu sei bem. Pois a queda deles Será a nossa. E tenho outras preocupações! Veja bem. eu não me sinto muito bem. A multidão anônima e sem rosto continua sentada lá. Vá só até oitenta e depois abaixe o preço. esperando. entreguem-me! GRAHAM: Nada poderíamos ter feito. É preciso que a cidade Possa voltar a respirar. Slift. Slift. Ceda. Ponha os pingos nos “is”. Se perguntasse por uma Joana. não me diverte mais. se apresentariam dez ou talvez cem. São centenas de milhares nos matadouros. Senão pensarão ainda Que fomos nós que exigimos que atirassem. Acima disso. MAULER. por telefone. são incontáveis. A encontraste? O SEGURANÇA – Não. MEYERS – Cinco mil a oitenta! Assassino! MAULER. Além disso. . Ainda por cima está escuro. que voltou para perto da coluna – Slift. perdido por perdido. nós não podemos pagar oitenta a Mauler pelo gado. é impossível ouvir uma voz isolada: há muita gente correndo de todos os lados. Ele repara no segundo segurança. só quinhentos. é claro. de achá-la? E atiram? Encontra o Jim. mas que não rebentem. Mas para nós. Mil a setenta e sete. Diga-lhe para que não me procure. Eles ainda agüentam! Quinhentos bois a setenta e sete. senhor. o vento abafa as palavras. No canto em que trabalham os sindicatos reina uma grande efervescência! MAULER – Quem trabalha? Os sindicatos? E a polícia os deixa incitar os operários? Meu Deus! Liga imediatamente para a polícia. SLIFT – A oitenta. MAULER. Pergunta para que nós pagamos impostos! Manda arrebentar a cabeça dos líderes. MAULER – Então. OS FABRICANTES – Mauler paga cinqüenta pelas conservas. MEYERS – Mil e quinhentos a oitenta. Impossível. Isso basta. SLIFT: Faça subir. O primeiro segurança sai. pois. Mas os senhores se lamentarão por isso. As conservas que comprei. é o fim! SLIFT: Quinhentos a setenta e sete para Graham. O SEGURANÇA – As multidões. eu não vi ninguém com o uniforme dos Chapéus Negros. Vou soltar a carne e deixá-los partir. Ele pode ir longe demais. Eles já não agüentam. O segundo segurança sai.

Entre eles. OS TRABALHADORES. a jovem pregadora dos Chapéus Negros? JOANA – Não. Slift não tem ordem para isso. (a Joana) Esses são jornalistas. Eles terão de nos responder. Então agora existe gado. Aja conforme o meu espírito. OS JORNALISTAS – Podemos lhe assegurar. Continue então com o negócio. nos matadouros Enquanto a miséria não chegar ao máximo. Para nós a senhorita faz parte. em segundo plano. Veja. – Olá! A senhorita é Joana Dark. declara: Deus está solidário com os operários das fábricas de conservas. E se quiseres abrandar. JOANA – Eu queria que vocês fossem embora. esperem a resposta! CORO OPOSTO. eles abrirão. Virão três pessoas. pode ler. Fora uns poucos especuladores sem escrúpulos. apontando para Joana – Aqui está. Eles se sentam.” JOANA – Eu não falei nada disso. Não vão embora. a não ser nós mesmos E a ninguém podemos apelar OS JORNALISTAS . Joana Dark. Queria vender a oitenta e cinco. Um homem os guia. Nós publicamos isso com manchete de oito colunas. isso não é possível. Eles não abrirão as fábricas! Eles esperarão os lucros aumentarem! E a sua resposta sairá Dos canhões e das metralhadoras! Ninguém poderá nos ajudar. senhorita Dark. Saindo ele encontra jornalistas. O HOMEM. Aja conforme o meu espírito. nós ouvimos. Eu não posso mais. SLIFT MAULER Eu preciso de ar fresco. Mauler? MAULER. OS JORNALISTAS – No escritório do senhor Mauler nos disseram que a senhorita jurou não sair dos matadouros enquanto as fábricas não fossem reabertas.37 – Nem pensar. Prefiro abandonar tudo Do que ser a causa de uma desgraça! Oitenta e cinco. serei eu quem fará subir. Mas nós não queremos incomodá-la e iremos ficar ali. no fundo. JOANA – Eu não faço mais parte dos Chapéus Negros. Chega um grupo de jornalistas. SLIFT: Mentirosos! Agora serei eu que vos ensinarei A vender carne enlatada Sem ter nem mesmo um quilo! E cinco mil bois a noventa e cinco! Urros. toda a Chicago comparte seus sentimentos. É um enorme sucesso para os Chapéus Negros. NOS MATADOUROS Muita gente esperando. 7. Eles ainda agüentam. JORNALISTAS – O que há de novo. a alguma distância. De outra forma isso terminaria em violência. OS JORNALISTAS – Veja bem. que a opinião pública está do seu lado. Nesse dia sim. (Joana vira-lhes as costas. também em segundo plano: É mentira: por maior que seja a miséria. SLIFT – Quinhentos bois a noventa! OS FABRICANTES: Mauler. Eles não abrirão as fábricas. ALGUÉM – Porque estás aqui? JOANA – Tenho que entregar uma carta. Joana. afastando-se – É preciso que façam chegar aos operários que eu acabo de ceder gado às fábricas. Slift. não mais. Mas quando a aflição for tremenda. Tu me conheces. Os jornalistas lêem em voz alta) “A Madona dos matadouros.

Onde está o meu chale? Eles me roubaram. não dormir. um teto e o sustento. E uns se sentam lá em cima Só porque os outros estão embaixo. a qualquer momento. UM VELHO HOMEM. Não fazia tanto frio em meu sonho. Vós. Tenho fome e isso é banal. Ir para um quarto quente. Quando eu cheguei aqui. Que audácia! Emborcar assim o whisky desse velho! JOANA – Segure a língua. Mas é apenas uma tábua. UMA MULHER – Que audácia! JOANA – A senhora falou alguma coisa? A MULHER – Sim. Mas eu posso. Quer um gole de whisky? (Joana bebe) Ei. a Joana – Você está totalmente gelada. JOANA Se dependesse só de vós Eu poderia congelar nua em pleno vento. Vós todos. Alguns – pouco numerosos – estão sentados lá em cima E um grande número aqui embaixo. Os jornalistas. não é? JOANA – A senhora também acha. que de resto Já é a muito conhecido.. dê-me meu pano. a Joana – O que fazias com aquela gente? JOANA – Nada. E os do alto gritam: Subam. A qual logo se nota claramente Que serve de gangorra Todo o sistema é como uma balança Na qual os dois lados dependem um do outro. dona Luckerniddle? DONA LUCKERNIDDLE – Sim é verdade. A mim me esperam. Mas a estrutura interna continua ignorada. um emprego que me assegurava O pão de cada dia.. Já basta. que acabaram de receber uma informação. E um ambiente. chega! Você é boa mesmo de copo. imbecil!. Mas. Empunhar a bandeira e bater o tambor. O TRABALHADOR – Mas falaste com eles! JOANA – Eles me confundiram com outra pessoa. Entre os que estão em cima e os que estão embaixo. ela vai me matar. eu quero ir embora. UM TRABALHADOR. guardam-me a sopa. A MULHER – Socorro. Enfim. E para vós é fácil passar frio. Mas. ignorar aonde te leva a vida. dir-se-ia que é um caminho. é claro! É o cúmulo! Eles me roubaram até o chale! Quem foi o mão leve que pegou o meu chale? Devolvam-me imediatamente. Eu não tinha sonhado que pudesse fazer tanto frio! Se eu tivesse pelo menos o meu agasalho! Ah! É fácil para vós passar fome. Encorajada por um sonho que confirmava minhas idéias. Quase uma comédia. que nada tendes para comer. Algo de obscuro. com um vasto plano. Ficar aqui sem necessidade absoluta Parece-me um jogo indigno. Para que estejamos todos no alto! Mas olhando mais de perto descobre-se. . eu não tenho o direito de ir.. E falar Daquele que mora lá em cima. Apesar de tudo. isso é normal.. (Ela arranca de sua vizinha o pano com o qual ela cobre a cabeça) Sim. tenho frio. foi você! Não adianta mentir. JOANA: Eu compreendo esse sistema. ao qual estava acostumada. UM HOMEM – Silêncio! Alguém atira um trapo para Joana. levantam-se e dirigem-se ao fundo. confesso. o que haveis deixado? Eu. mais do que tudo.38 Que não seja um nosso igual. o medo me aperta a garganta: Não comer. o que deixei foi uma vocação. desde fora.

Agora as fábricas reabrirão.39 OS TRABALHADORES: Fiquem. aconteça o que acontecer. Não se separem! É apenas ficando todos juntos Que poderão ajudar uns aos outros. JOANA – Mas estão atirando! UM OPERÁRIO – Pode ficar sentada tranqüilamente. OS JORNALISTAS – Olá. O coração deles não é de gelo. JOANA – Oh! A boa nova! DONA LUCKERNIDDLE – Vejam as mentiras sobre as quais nos alertaram. Classe cheia de neve e que as leis ignoram. JOANA – Quanta gente há aqui? OS JORNALISTAS – Uns cem mil. Nessas condições o trabalho voltará muito em breve aos matadouros. com a carta. Não creiam em nada e não escutem ninguém. Que barulho é esse? UM JORNALISTA – São as metralhadoras. Mas tu. Então a bondade existe. A tropa foi encarregada de evacuar os matadouros. Quando se falou com ele como a um ser humano Ele deu uma resposta humana. (Ela se levanta) Eu vou avisar aos nossos que os boatos já começaram a circular. no frio. Os tanques deles vos esmagarão. no fundo do palco: Se ficardes agrupados Eles vos rebentarão. Tu não compreendes nada de nada. Esse combate será perdido E talvez perdido Ainda o próximo combate Mas vós ireis aprender a combater E aprendereis pela experiência Que nada se faz sem luta E sem a vossa própria ação. Havia entre eles pelo menos um homem honesto E ele não falhou em seu dever. É preciso fazer com que se calem os agitadores que incitam à violência. mocinha. ainda que os preços continuem a subir. Não te movas! Entendeu? Ela sai. UMA MULHER – Devemos voltar para casa agora? UM TRABALHADOR – Quem nos garante que é verdade? Que haverá trabalho de novo? – E por que não seria verdade. DONA LUCKERNIDDLE – Não digas tais tolices. E nós vos dizemos: combatei. Ao longe as metralhadoras crepitam. Felizmente temos a carta para mostrar a verdade. Se combaterdes. o milionário que dispõe de muito gado. JOANA: Tanto assim? Oh! Escola desconhecida. E sobretudo entendam bem Que nada se faz sem luta E sem a sua própria ação. Que tem a fome por mestre e onde a miséria Fala implacavelmente da necessidade! E sois cem mil alunos. Os matadouros são tão grandes que a tropa levará horas até aqui. espera. Não ficaste tempo suficiente aqui. O que aprendeis? OS TRABALHADORES. de jeito nenhum. o seu sucesso foi formidável: nós ouvimos que Pierpoint Mauler. A não ser a proposta Que leve a mudanças verdadeiras. se esses senhores estão dizendo? Sobre um assunto como esse não se brinca. JOANA: Parai! Chega de aprender essas lições! JOANA . Os jornalistas retornam. acaba de cedê-lo aos fabricantes. JOANA: Escutem todos! Há trabalho. E nós vos dizemos: ficai agrupados.

UM OUTRO OPERÁRIO grita para o grupo que se afasta – Assassinos! OS OPERÁRIOS – Se eles acham que assim irão parar as coisas. JOANA: Os que me entregaram a carta. Toda inocência tê-lo-ia abandonado. Dia após dia ela desceu. Por três dias viram Joana em Packingtown. Há muito tempo que já está tudo arranjado. e ninguém Poderá manter a sua calma. William. Com seu silêncio opressor. OS JORNALISTAS – Nós a aconselhamos a sair dos matadouros. para um dos dirigentes presos – Não liga não. Os dois dirigentes operários passam. E é por isso que parto. Os operários se levantam. algemados. Do fundo ouve-se gritos que se aproximam. OS OPERÁRIOS – Estão trazendo os sindicalistas. Vós. Mas assim. E aprendestes A alimentar friamente terríveis pensamentos. Seu sucesso foi grande. Chegam três operários. Sobre sua cabeça. Eu digo: na escuridão se acumulam As violências e as questões nunca resolvidas. Eles procuram alguém que não encontram e vão embora. mas agora a coisa está terminada. Para este homem. Nada de bom pode surgir da violência. aparece uma inscrição: A neve começa a cair. Por que foram presos? O que ela contém. Mas o prato que se prepara aqui. Perseguidor perseguido E não mais sabendo ver sem desconfiar. longe do mundo que lhe é familiar. eu seria como eles e não faria perguntas. Isso seria desleal para com os outros homens. estão muito enganados. Ela se levanta e sai. Quem agisse assim se sentiria perdido. vós estivestes juntos Longas noites. Viram-na descer de degrau em degrau Para em água límpida a lama transformar e aos humildes Aparecer. Apartado em um mundo Tornado para ele estrangeiro. Ela continua sentada. Eu não sou um deles. Começa a nevar. Violar as regras em uso. Eles saem. Quem o comerá? Eu vou embora. DONA LUCKERNIDDLE. No terceiro dia sucumbiu. Ou que engendrasse a violência. os astros sem harmonia Já não seguiriam sua órbitas. voltando – Nada além de mentiras! Onde foi a moça que estava sentada ao meu lado? UMA MULHER – Partiu! UM OPERÁRIO – Desde o começo eu disse que ela iria embora quando começasse a nevar de verdade. No final o lodo a engoliu. UM OPERÁRIO. Eu assim não poderia viver. eu digo. Se desde a infância o peso da miséria e da fome me tivessem ensinado a violência. eu preciso ir. Joana tem uma visão. ao longo dos anos. Ela se vê com roupas de criminosa. é imensa! Mais uma noite como esta. as palavras teriam outro sentido. A tentação. . Enquanto o fraco ao fraco se alia. No lodaçal dos matadouros. conduzidos por policiais. Direis que fazia muito frio. esta carta? Eu não saberia fazer nada Que requeresse violência. que eles ainda poderão ter uma surpresa.40 Que gélidas elas são! Não é pela violência Que se combatem a desordem e a confusão. Enquanto a noite cai.

Não é para pensar que eu vos pago. Essas notícias.. Este homem está perdido.41 Pergunta feita: quem ficará? Como nos outros dias. em cima. mais de vocês. Vejam. são os mais atingidos. que todos os fabricantes Quebraram juntos e saíram do mercado. Na borrasca. Aquele que sai de tal imóvel. MAULER: Se a desgraça abate ao homem sem caráter. Perto dos matadouros. Pierpoint Mauler cruza a fronteira da pobreza 8. Eu tenho as minhas razões. UM DOS SEGURANÇAS. Quanto a este edifício. Não preciso. UMA ESQUINA EM CHICAGO MAULER. Até o reino do espírito. o mais vasto. impresso. OS DOIS SEGURANÇAS – Então podemos ir? MAULER: Podem E eu também posso ir aonde queira.. saindo – Bom. Cedi meu gado a qualquer um que o quisesse. meia volta. Só porque duas ou três vezes eu dei meia volta. façamos meia volta. Está dito. A mim ela vai elevar às mais altas esferas. cocô de cachorro: Que torna a permanência difícil. Assim foi conseguido. Sem nenhuma exigência. . Eu disse: meia volta E tu riste. Vejam o que leio. aqui sob meus olhos. em suor e em dinheiro. Até mesmo aos matadouros. modificam tudo. Assim espero. Doravante Não há mais ninguém que me queira matar. preto no branco: O gado está a trinta e ninguém compra. Mauler e seu amigo. E ninguém quis. mas o arquiteto teria. Parece-me Que contratei dois idiotas. seja por economia. Sou conhecido nos matadouros. Passa um vendedor de jornais Ei! Jornal! Vejamos o que se passa na Bolsa de Carnes. UM LUGAR DESERTO NO BAIRRO DOS MATADOUROS Neva. nada mais posso fazer por eles. os pobres. De agora em diante. a dona Luckerniddle reencontra Joana. Aquela que eu procurava terá tido o bom senso De sair das profundezas onde o inferno se instala. Seja por aberração. 9. Mas vejo que estão pensando. O mais prático também. Ele lê e empalidece. hoje restarão No chão as pedras. então. E a vocês eu despeço Pois da pobreza eu cruzei a fronteira. ainda atiram. Há resistência. Que nós construímos em nossas grandes cidades Sem importar o custo. a um de seus seguranças Parem. Em todo o caso. É o que está escrito. não lhes parece? Ah! Eu repito Não fiquem enchendo a cabeça com idéias. preto no branco. Tem certa razão de estar alegre. confessa. Escolhido como material. o que foi? Riste. Pensar não serve para nada. Sem que eu tenha procurado. Slift. Basta. Agora eu estou livre. dele se diria Um prédio construído com grandes despesas. um objetivo que eu saúdo E que muito me alivia. Ter construído a maior cloaca do mundo Constituirá a sua única glória.

Claridade que então eu deixei de ver! Oh! Quem conhecerá o poder da neve! Oh. eu não a darei. Eles teriam ficado apesar da violência da polícia. Sem récitas inoportunas dos seus infortúnios. Nós te encarregamos. Mas a carta que trazia a verdade. UMA VOZ – Lá onde te esperam. Anda em outra direção. É inútil tentar pegar. UMA VOZ: Não há desculpa Para quem não chega. UM OUTRO LUGAR Correndo em direção ao centro da cidade. JOANA. mas a senhora quer continuar. Tu não a entregaste. caindo de joelhos: Luz. oh verdade! Que a neve em tempestade Inoportunamente mascarou com sua noite. O SEGUNDO OPERÁRIO – Os comunistas é que tinham razão. Nós não sabíamos quem eras. de uma missão. Ainda mais que amanhã todas as empresas de Chicago iriam declarar a greve geral. As massas não deveriam ter se dispersado. Ao que tropeça e cai. AS VOZES: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. Uma parte dos operários saiu dos matadouros. Joana cruza com dois operários de quem ouve a conversa: O PRIMEIRO OPERÁRIO – Primeiro eles fizeram correr o boato que as fábricas reabririam a todo o vapor. Errando pelos matadouros. precisas chegar! Joana olha ao redor. para poder se apresentar amanhã bem cedo ao trabalho e de repente eles falam que as fábricas nunca mais abrirão. DONA LUCKERNIDDLE – Ora essa! Para ti está tudo normal! E eu que disse que tu eras honesta! Sem isso não teriam te confiado a carta. isso é o que tu és! Dê-me a carta que te confiaram.42 – Ah. Um lixo. fraqueza do corpo! Oh fome. Lá dentro só se fala em violência. Aquilo que lhe foi confiado. Joana. Eu vou embora. Como se rede já não houvesse. De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. De tua missão. Que nada diga. OUTRA VOZ: Joana pára. Que sentimentos em nós deixareis sobreviver? . Dê a carta aqui imediatamente. DONA LUCKERNIDDLE – Eu devia ter duvidado. O PRIMEIRO OPERÁRIO – E aqui nós não ficamos sabendo. JOANA – Não. Muitos operários teriam ficado se soubessem da notícia. Joana ouve vozes. Cumpriste a missão? Joana volta a andar e uma nova voz a detém. ela procura se livrar das vozes que ouve de todos os lados. Mas também podias nos trair. (Joana desaparece na tempestade de neve) Hei! Venha! Ela foi embora! DONA LUCKERNIDDLE 10. Pierpoint Mauler as arruinou. Nela estava nosso destino. Joana pára. mas entregue. Tudo está voltando ao normal agora. E aquele que chega a bom porto. estás aí! Onde tinhas te metido? Entregaste direitinho a carta? JOANA – Não. Por este buraco fogem todos os peixes. Mas tu és uma traidora e teu lugar é com eles. O SEGUNDO OPERÁRIO – Isso é grave: sem dúvida uma parte das ligações não funcionou. A VOZ DA DONA LUCKERNIDDLE: Eu fui a tua fiadora. podias dar conta. A pedra não perdoa.

se ele pudesse vir. X Humilhação e assunção de Pierpoint Mauler TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS MARTA. É Mauler. nossa boa cidade. minha cara Mulberry. afastada do trabalho. UM HOMEM. Mas nós o estamos esperando.43 Frio da noite. no céu e no inferno. posto que sem abrigo. a qualquer momento. De um só golpe o bolchevismo também é enterrado. Um homem começa a levar os móveis para a rua. OS CHAPÉUS NEGROS: Romperam-se os diques da fé Em Chicago. Salvar-nos com o seu dinheiro! BISPA SNYDER Há exatos oito dias Que nos matadouros onde as máquinas enferrujam. DONA MULBERRY – Bispa Snyder. Uma boa orquestra à mão e sopa Bem grossinha: terminam para Deus todas as preocupações. à chuva. investindo contra ele – A sopa. Conheci bem um homem. MAULER. onde iremos acomodar o nosso público? Chega um pobre. Pediram-lhe cem dólares. . Ele se levanta e avança até os Chapéus Negros. Ah. Ele sai. com sopa quente E um pouco de música. que prometeu nos ajudar. ele possuía dez milhões. Exposta outra vez à neve. veio nos dizer que Mauler em pessoa estava disposto a assumir o nosso aluguel e a organizar conosco uma grande campanha em favor dos pobres. agora os pegamos. com certeza! Ele já está a caminho com os seus milhões! UM CHAPÉU NEGRO – Bispa. que já se afunda! Mas o rico Mauler virá. Sob um plúmbeo zênite de destinos desconhecidos. Liberada. quem vos pode resistir? Eu preciso dar meia volta! Ela retorna sobre seus passos correndo. entrando – Pierpoint Mauler está aqui? BISPA SNYDER – Não. BISPA SNYDER – Dona Mulberry. que triste. Vejam que já balança. Eu o conheci: era um imbecil. o senhor Pierpoint Mauler. MAULER – Eis aqui um homen marchando até o seu Deus. é tudo o que eles querem! Aqui não tem mais sopa! Aqui só tem a palavra de Deus! Ouvindo isso eles vão logo embora. Buscam-no por toda a parte. o suntuoso Mauler. coloque os móveis na rua. o rei da carne. O reino de Deus está pronto na minha cabeça. O HOMEM – Os fabricantes de conservas querem falar com ele e os criadores o chamam aos gritos. OS CHAPÉUS NEGROS: Estão levando. estamos aguardando. Quero que a senhora pague o meu aluguel. na frente do palco : Ouvi alguém procurando um certo Mauler. A massa espera. o banco dos penitentes! E já suas mãos avidamente se dirigem Ao órgão a vapor e ao púlpito. DONA MULBERRY – Meu caro Dick. BISPA SNYDER – Sente lá atrás e fique quieto! Ele se senta. E as ondas de lama do materialismo Ameaçam a casa de Deus. a outro Chapéu Negro – Há três dias um emissário de Pierpoint Mauler. E nós gritamos à plena garganta: Ah. que aliás é muito barato. BISPA SNYDER. é sábado a noite. Este homem que foi em sua vida Mais estúpido do que um vagabundo bêbado e repugnante. Para nos salvar neste instante. ou que deixe o imóvel.

UM CHAPÉU NEGRO – É ele. Os músicos tocam um hino. Jogou no mar seus milhões. eu vos rogo! Pois eu sinto O coração ao mesmo tempo leve e pesado. BISPA SNYDER – Tu és Mauler? MAULER – Sim. CORO DOS CHAPÉUS NEGROS. Silêncio! Tragam-me o livro das faturas e contas por pagar: estou nessa parte. Ouçam então a minha confissão: Aqui jamais se ajoelhou Ninguém. Não podemos mais pagar as nossas contas. recusou-se a dar o dinheiro.44 No fim. Joana. todos para fora! A Mauler: E tu primeiro! Onde estão os quarenta meses de aluguel Desses não-convertidos que Joana enxotou? E vejam só o que ela me trás em troca! Devolva-me. MAULER: Eu me acuso de ter explorado o meu próximo. sim. é certo. mas arrependido. Envolvamos em nossas bandeiras derrotadas Os livros de cânticos. Ele trazia o seu coração. E sobre nós a neve envia suas tempestades Em um inverno no qual crescem os rigores. devolva-me os meus quarenta aluguéis! MAULER: Vós desejais. Diante de vós. Todos os pagamentos estão suspensos. Eles cantam ainda “Entrai na batalha”. já. que tenha caído tão baixo. Os Chapéus Negros cantam. BISPA SNYDER. Mauler canta com eles. Por sete dias apertei a garganta Desta cidade até sufocá-la. Ele pega dois Chapéus Negros pelo braço e senta-se com eles no banco dos penitentes. Sentados sobre seus últimos bancos e suas últimas cadeiras os Chapéus Negros cantam desordenadamente seus últimos hinos. Tiremos de nossas paredes as máximas. meus amigos. OS MÚSICOS: É deste aí então que vocês esperavam O dinheiro para nos pagar? Então nós vamos embora. Se aproxima já Com os seus milhões. Aqui estou agora. Abusado da força e espoliado todo o mundo Em nome da propriedade. BISPA SNYDER. E esse gesto tocou os nossos corações. inclinado sobre os livros de contabilidade – Não direi o que estou calculando. seguindo a letra por sobre o ombro de um dos Chapéus Negros. DOIS MÚSICOS: Um pedacinho só. Culpado. OS CHAPÉUS NEGROS – Ele já chegou? MAULER: Um hino. ar ausente. deu cabo de si mesmo. construir vossa casa . não o seu dinheiro. olhos voltados para a porta. OS CHAPÉUS NEGROS: Não perca a confiança! Homem de pouca fé! Ele virá. gritando – E sem dinheiro? (Aos Chapéus Negros:) Façam as malas. Mas quebrou a nossa cara De uma vez por todas. Mauler! MAULER: Mas quero acrescentar que no sétimo dia Fui despojado de tudo. Apenas nos resta chorar. BISPA SNYDER Silêncio! Fora. sem nada. Passar bem. dirigindo-se aos músicos que vão embora: Nossas orações eram pelo rico Mauler E foi Mauler o arrependido que entrou. Sentados sobre as margens do lago Michigan. e dilacerado de remorsos. eu vejo.

Ninguém jamais pode fugir da lei. O ancião venerável. Mauler. Viram-se os preços Oscilarem. Mal viu esses bois vindo ao longe. O que pretendeis fazer de nós? Foste vós. o caos. Quando. E Wallox e Brigham. gado canadense. Eu sei muito bem. Lançou. assumindo seus deveres. comprometendo suas casas. tomado de loucura. Eles também estão muito pálidos. Vossa função seria apenas a de brincar na relva. Mas se chamássemos de homem àquele a quem se ajuda Daria no mesmo: necessitaríeis sempre De gente a ponto de afogar-se. Que não ficou só por muito tempo. tomando a frente : Mauler. Um zênite ameaçador de pensamentos desconhecidos. Os complexos pensamentos de vosso imenso espírito. Era vosso todo o gado. e sobre nossas cabeças. Que vos pertencia. hesitantes. em poucas palavras. Mas Slift. Por vós fomos forçados. ao meio-dia. Mauler. nobre Mauler. como um bêbado sedento Que ao mar esvaziou sem se satisfazer E lambe avidamente cada gota que encontra. E tudo o que de longe parecesse um boi. durante sete horas. Dais o nome de homem a quem vos vem ajudar. é aqui então que te escondes? Paga nossos bois ao invés de fazer penitência. Bispa. Um vitelo ou um porco. Em três dias. que fareis? Entram os criadores em grande agitação. Estão pálidos como o linho. Que a constatação vos enche de amargura. e a noventa e cinco Comprou-os todos. . Este espetáculo atroz apavorou o ancião. os reis da carne vêm ao seu encontro. Mas nós estamos perdidos: Em torno de nós. E sobre eles atirou-se. desde a aurora. partistes. firmas de grande renome. agigantou-se E a todos nos precipitou no abismo! MAULER: Oh! Eternos combates! Em nada são diferentes Desde os tempos antigos onde os homens Com uma barra de ferro rachavam-se as cabeças! GRAHAM: Recordai que estávamos à vossa mercê. paga-nos o gado! GRAHAM. o que existisse de gado. Na porta. Concluo eu o seguinte: o Mauler que sou Não é aquele do qual precisais. Ele tenta sair. Que projeto tendes agora. E hipotecando até o último lápis Para trazer de Quebec. Loew e Lévi. No ciclo dos astros ou das mercadorias. Prometiam até o gado por nascer. Acorreram todos em ajuda. Ah! Se não tivesses aliviado tanto os nossos bolsos. Não terias a necessidade de aliviar aqui A tua consciência. Pelos contratos que nos obrigavam A entregar de imediato as conservas prometidas. da Argentina. Mauler. a comprar gado. salva tua alma. quem nos derrubou. OS REIS DA CARNE: Perdoai-nos.45 Sobre o que há de pior em mim. Slift apertou Ainda mais forte a nossa garganta. OS CRIADORES: Maldito Mauler. No mercado perturbado. Para mim o humano era aquele a quem eu podia explorar. eles iriam trazer. Dá o dinheiro. O Banco Nacional gritou: “Alto”. Subiu os preços a noventa e cinco. Relatarei o combate memorável Que. por ter vindo Atrapalhar neste lugar as tuas meditações. chorando. com voz dura.

Nós queremos que nos digas Como. Inúteis portanto. de imediato. Ouviu-se nesse dia os jovens estagiários. isto é. Mas alto o bastante para que todos ouvissem: Para pagar-lhes tomem então nossas fábricas. Institutos de crédito. Até os simples contínuos. os agentes fechando suas escrivaninhas.. os cavalos inimigos. diga-me. Em tudo semelhantes aos antigos corcéis Mordendo. Slift então gritou: “Cem”! Poderia ouvir-se um alfinete cair. Eles precisavam entregar. Porque não mais podemos honrar os contratos. O que fazer. Célebres. Que nos píncaros se encontrava. com olhos marejados. paravam de viver. bancos. é sabido. Como a água que cai na cascata. os fabricantes apáticos Depositarem a vossos pés suas fábricas fechadas. comprar. Os corretores.46 Mas Slift gritou: “Três dias não. se por um acaso Um elefante se arriscasse pelo interior da Bolsa. E nós comprávamos sempre: Nós precisávamos comprar. Sob nossos olhos. Slift. Eu quero para hoje”. Naquele instante. Lévi. um a um. de rocha em rocha E somente em trinta a queda parou. Lévi. Só um. De cotação em cotação Os preços caíram e rolaram até os negros abismos.E a voz ainda nos alcançava Mesmo com a balbúrdia dos trens que partiam: . Parando de pagar. Casas até então sólidas e poderosas. quando levamos às estações De nosso longínquo Missouri Com muito sacrifício. e os preços subiram. fomos estrangulados E de que adianta estrangular um cadáver? MAULER: Foi assim então. E viu-se. E os jovens bois de pêlos reluzentes Engordados com tanto cuidado. a carne de boi. Como definha uma esponja espremida. MAULER: Agora mesmo. o velho Lévi disse então em voz baixa. Com esse chapéu e este sapato: Dez milhões o chapéu. Rangerem os dentes. Seria esmagado como um morango no chão. Aí está o que tornou o contrato sem valor Apertastes muito forte. mudos. quando e com que dinheiro Nos pagarás o gado comprado. agora. Lançaram-se um a um nesta última batalha. obstinados. por sua indiferença. Toda a família nos gritava de longe Com a voz embargada pelo trabalho duro . E como contratos nulos não impõem compras. E Brigham arranca a barba aos gritos: “Noventa e seis”. Com esse gado que ninguém é obrigado a comprar? OS CRIADORES: Sem querer perder a paciência. Vertiginosamente. ele ao menos vale vinte e cinco centavos. em um suspiro. os vívidos vitelos. Do outro eu preciso. em um espasmo. E que não foi ainda acertado. entrego por cinco. que travaste a batalha Que deixei a teus cuidados! SLIFT: Corte-me a cabeça! MAULER: E de que me serve tua cabeça? Dá-me o chapéu. E em silêncio também os bancos desmoronaram. golpeia um corretor na barriga. tomados de desespero. baixou. O sapato. Lutavam a dentadas. Estão satisfeitos? OS CRIADORES: Há pouco tempo. e então se retirarem. na batalha..

a quem mandavam cartas desse tipo. Nem todos aqui em baixo poderiam ser ricos.” Não. nobre Mauler. para que comprasse carne. Julguem vocês mesmos. caro Pierpoint. E o barulho das metralhadoras. Não ter fartura de bens terrestres. Deixando as sublimes esferas onde meditais. Não. Nossa pobreza é termos perdido O sentido dos valores mais elevados. ao contrário. condescender. Pois os preços do gado vão subir. Se assim fosse concebido. nós aconselhamos a fazer um acordo com os criadores para reduzir o rebanho. é muito a contragosto. sozinho.. Mas se fizéssemos uma grande promoção De sua instituição. Como voltar para nossa terra? E que diremos a eles. Alguma chance de sucesso.. nós estaremos de bom grado à sua disposição. Compreendido como sendo de interesse geral. estão para sempre perdidos. não bebam todo o dinheiro. pensai no caos Que ameaça a tudo engolir. Jogai sobre vossos ombros o jugo. entendei. GRAHAM – Mas então é Wall Street? Um murmúrio percorre o ambiente. Caro Pierpoint. OS FABRICANTES E OS CRIADORES: Desejarias. assumir a empreitada. Agora. voltar para casa? O HOMEM DE ANTES. compreendei. Outra vez responsável. O negócio só é possível. MAULER: Se o faço. pelo que dizem. vocês estariam dispostos. conhecem um meio de sair desta. amigos. Sancionado pelas instâncias superiores. A Snyder: Existem muitas dessas lojinhas Onde se vende a Bíblia? BISPA SNYDER – Sim? MAULER – E como elas vão? BISPA SNYDER – Mal. O projeto teria talvez. elas vão mal. Abandonai. Pois ainda creio ouvir O rumor dos matadouros. Mauler. Seus bens. Seus amigos de Nova Iorque. Estariam vocês dispostos a repetir aos quatro ventos .. GRAHAM – O que não é possível? MAULER – Tenho amigos em Nova Iorque que. MAULER – Eu costumava ser esse Mauler. mas são numerosas. De um asilo necessário para os casos mais graves. de Nova Iorque. Mas para mim. entrando – Mauler está? Uma correspondência para ele. para que os preços voltem a subir. isso não é possível. De máximas sagradas e escolhidas com grande cuidado. MAULER: Em nós a consciência. E dado que de vós necessitamos. esta caça fatigante. Não quero. MEYERS – Quem são esses amigos de Nova Iorque? MAULER – Morgan..47 “Ei. rapazes. o que faremos. neste estado. nós lhe forneceremos amanhã mais detalhes. E voltar até nós? Pensai. mostrando o lombo vazio E nossos bolsos também? Como. MAULER: Ou seja. Mas nossa pobreza não é.(Ele abre a carta e lê de canto) “Escrevemos a você recentemente. Como tudo de agora em diante Me parece diferente. é impraticável. Ele estende-lhes a carta. Cuja voz está a tal ponto asfixiada. Neste caso. esperamos” E agora. Rockfeller. Providos de sopa quente e de boa música.

Eliminar o estoque excedente atual. MAULER. queimar um terço do gado existente. Enfim. não poderíamos Doá-lo àqueles que esperam lá fora E quem sabe utilizá-lo melhor? MAULER. Chapéus Negros. supérfluos. . mas se o gado tem tão pouco valor Que pensam em queimá-lo. Toda essa gente aí fora: Eles são os nossos compradores! Dirigindo-se aos outros: É incrível. O mercado foi saturado este ano. ofuscado. Então. Em conjunto.Pois eis Chicago outra vez agitada A greve geral. Meter um freio à anarquia da criação. mais ainda. E mesmo que muitos não compreendam. criadores e industriais. Não tem outra causa a não ser Que há carne demais. BISPA SNYDER – Quase todos. nós decidimos. pedindo a palavra: Perdão. é claro Que entre vocês estivesse Joana. É por isso. OS FABRICANTES – Que cérebro! MAULER. ou melhor: quase todos Mas é o único meio de salvar o sistema De vendas e compras no qual vivemos. é eminente -. você não compreendeu A questão de fundo. TODOS – Que solução simples! BISPA SNYDER. aos fabricantes: Faremos uma fusão de suas indústrias Em um só monopólio. Limitar o rebanho oferecido no mercado. meus amigos! Eles cochicham. E às vezes inoportunos. tem seus defeitos. Esta dificuldade pela qual estamos passando Está a ponto de ser superada. quebre suas ferramentas E destrua assim seu próprio ganha-pão. Miséria e fome. Digamos: a maior parte. aos criadores : Escutem. Todos sorriem longamente. que nós subvencionaremos Fartamente a sua missão que contribui Com a manutenção da ordem. é lógico. Nesse tempo de humanidade desumanizada. desordem e violência.48 Que nós somos uma gente valorosa. para puxar os preços. nesses tempos de desgraça? Pois serão necessárias medidas draconianas Que poderão parecer duras porque irão Derrubar alguns e. E é por isso que os preços caíram a zero. Nós o faremos. Elas impedirão que em sua brutalidade Um povo. Eu compreendo o senhor. TODOS – Não há outra saída! MAULER – E também precisaremos reduzir os salários! TODOS – É o ovo de Colombo! MAULER: Qual o objetivo dessas medidas? Nesta noite de sangue e confusão. Vê que são eles os compradores! Seja como for. Eles podem nos parecer inferiores. sorrindo: Minha cara bispa. mas olhando bem Quem vê além das aparências das coisas. . dizem. Seria muito importante. Em que em nossas cidades os problemas não têm fim. Será preciso demitir um terço dos operários: Também de mão de obra o mercado está saturado. Eu fico com a metade das ações. E que. É preciso limitá-la. Elas trarão a calma e a ordem. que deseja Fazer o bem.

sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Vamos. Sejam bem-vindos. Nenhum deles tem chapéu. Joana segue com o olhar os prisioneiros. UM CORRETOR. Imóvel. entrando precipitadamente – Escutem a boa nova! A greve que nos ameaçava foi sufocada. As coisas retomaram o rumo que nos agrada. Nossos planos outra vez se impõem. Perseguidos sem trégua. apanhem-nos! Sejam bem-vindos.49 Cuja face por si só já inspira confiança. apanhem-no! Lazarentos e descalços. Ela então ouve. Passam então os dois dirigentes operários escoltados por soldados. estamos prontos! Já estão chegando! A miséria os traz aqui como um rebanho! São obrigados a vir. JOANA. Os que aqui chegarem. olhar fixo na porta: Eles terão de vir. para que nenhum escape! Eles estão a caminho. Eles combateram Pelo pão dos outros. a seu lado. SNYDER – Abram as portas! A porta principal é aberta. joguem as grandes redes! Sejam bem-vindos. OS CHAPÉUS NEGROS. Até nós. De sopa encham os pratos. chega e pergunta – Vocês viram passar três homens que vinham buscar uma carta? Ao fundo ouve-se gritos que se aproximam. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Todo aquele que aqui entrar. cantam. MAULER: Abram agora a porta principal Aos homens cansados e cheios de preocupação. eles chegam até nós. Foram presos os sacrílegos que perturbavam a paz e a ordem! SLIFT: Podem respirar. Ninguém pode escapar: tranquem as saídas. UM DELES – E por que foram presos? . UM DELES – Quem são eles? O OUTRO Nenhum deles Pensou só em si mesmo. penteados e carecas. estão chegando! Daqui eles não escapam. não deixaremos! Sejam bem-vindos. dois homens conversando. Eles vêm até nós para chorar. Toquem a música e nós mesmos Seremos os primeiros a nos sentar Para elevar nossos corações a Deus. Passam apenas alguns grupos de operários. Música de órgão. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Tranquem as saídas. Quando estão cegos e surdos. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! XI NOS MATADOUROS EM FRENTE AO ARMAZÉM DAS FÁBRICAS GRAHAM Os matadouros estão quase vazios. Quando perdem o trabalho. joguem as grandes redes! Eles saíram agora de sua última casa! Deus lançou sobre eles o frio! Deus lançou sobre eles a chuva! Eles terão de vir. o mercado vai ser curado! Outra vez saímos do ponto morto E realizamos uma obra difícil.

UM DELES – O que farão com eles? O OUTRO: O salário deles é baixo e seu trabalho útil à maioria. entretanto. não é ela. – Ela deve estar aqui. os jornalistas a interpelam. carregando lanternas. mas apenas para dois terços dos operários. Todos perecem antes do tempo. XII EM FRENTE AO ARMAZÉM DA FÁBRICAS GRAHAM Um grupo de operários entra. Era uma velha operária. Joana cai desmaiada. Golpeados. Não. Um deles a derrubou com uma coronhada. E a carne vai subir. As fábricas reabrem. Enfim o sucesso chegou E tudo acabou bem. foi reduzido em um terço. Aqui está! Seriam necessárias muitas como ela. As rajadas de neve a impediram de ver os soldados. Deixem ela aí no chão. Joana. amparada por um policial. não é a nossa Madona dos matadouros? Hei. XIII MORTE E CANONIZAÇÃO DE SANTA JOANA DOS MATADOUROS Agora o templo dos Chapéus Negros está ricamente mobiliado. mas o justo se esconde.50 – O homem injusto atravessa a rua à luz do dia. Ou de malfeitores postos na cadeia. Lançados em terra profana. Nem é enterrado com decência. Quando os soldados vierem a recolherão. Nos vales e nos cimos. Deus outra vez se impôs. e a esta a polícia dispersou com o uso de força. Divididos em grupos estão os Chapéus Negros. pisoteados. UM DELES – Por que não se ouve falar deles? O OUTRO O OUTRO greve. A decisão sobre a greve geral só chegou a uma parte deles. Nenhum morre de barriga cheia. como se ainda quisesse entregá-la: . Ela veio daquele lado e aqui ela gritou para os nossos que as empresas municipais iriam decretar OPERÁRIOS Sim. SNYDER: Quando nos jornais falarem de criminosos abatidos. que seguram bandeiras novas. Seu último endereço Teria sido aqui. UM DELES – Sempre será assim? O OUTRO – Não. Nenhum. O POLICIAL: Eis aqui uma sem-teto. Em nós podem por fé. A greve geral fez água. você aí! As coisas deram errado. saiba que são eles. Durante alguns segundos eu a vi distintamente. Joana se vira. os açougueiros (fabricantes de conservas) os criadores e os compradores. a sorte nos sorriu. chega ao termo de sua vida. o salário também. JOANA – Os operários concordaram? OS JORNALISTAS – É claro. Um grupo de pobres entra. JOANA. Esta aqui não é das nossas. à sua frente. esticando o braço com a carta na mão. Recolhida doente Nos matadouros. OS JORNALISTAS – Vejam só. Nenhum come seu pão tranqüilamente. Nós soubemos ser sublimes E vulgares quando necessário.

Mostrá-la entre nós provará o quanto nos importam os sentimentos de humanidade. BISPA SNYDER: Levanta-te. enquanto as moças dos Chapéus Negros a vestem novamente com o uniforme: Ouve-se outra vez o rugir das fábricas: Outra vez se desperdiçou a chance De colocar um freio a esses excessos. Intercessora dos pobres. Eu falhei com os perseguidos. MAULER: Que tome posição em nossas fileiras Esta alma inocente e cândida E que sua bela e pura voz Misture-se aos cânticos de nosso coro. Vamos colocá-la em destaque. intercedendo pelos pobres e mesmo proferindo discursos contra nós. E em sua marcha altaneira Para evadir-se ao mundano. Vós. Ela vai muito adiante. dando provas de humanidade nos matadouros. E tinha sonhos para milhares. o infinito. eu poderia levar. Eu faltei. E seus erros. Matéria a sua altura . Quando o meu esforço. empregando todos os meios. a quem não se pode mais explorar! Comei a sopa! Ah. sua térrea natureza. MAULER: Uma alma que exala sublimes impulsos Suporta mal. Desta vida intolerável E atingir o inconcebível. Foi necessário. na noite. também humanos! JOANA. e ultrapassa o objetivo. Nós faremos dela uma santa e não economizaremos em homenagens. Ela que. Slift discute com Snyder e com os fabricantes. quais os gritos que abafas? Comei vossa sopa! E não desperdiceis esse resto de calor.51 Jamais receberá a carta Aquele que agora está morto. toda a obra Onde o espírito não encontra. Por uma boa causa. E outra vez o mundo Percorre o antigo ciclo. marchava para a luz! Seus atos eram os de um ser humano. OS CHAPÉUS NEGROS: No final. Joana dos Matadouros. E eu não fiz! Enquanto os pobres tomam assento nos bancos para comer a sopa. um serviço tão pequeno Foi só o que em toda a minha vida Me pediram para fazer. Quando se poderia ter alterado o curso das coisas. Consoladora dos baixios! JOANA: Que vento sopra nesses baixios? Neve. Se eu apenas tivesse entregue A carta que me confiaram! OS CHAPÉUS NEGROS. Que Joana exorcize o mal E que por nós ela interceda. Ela será a nossa Santa Joana dos Matadouros. SLIFT – Esta é nossa Joana. dirigindo-se a Joana: Como ela ainda está perturbada. pois ela nos ajudou a atravessar a tormenta dessas semanas difíceis. Pelo contrário. infelizmente. A vida tranqüila de um cordeiro. por menor que fosse. E só servi aos perseguidores. O ideal. JOANA: Eu falei em todos os lugares. Eu o neguei. Chegou na hora certa.

para os exploradores. Que nada seja considerado como boa ação. Entre os do alto a baixeza é sem limites. Nunca se sabe em baixo. então. Que cada um. OS CHAPÉUS NEGROS. O que está em cima está em seu justo lugar. O que está em baixo tem grande importância. Mas que não sabem o quanto. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES. Precisa-se do chão. No topo e no chão. E sem descanso nem folga Realize seu dever. caí do céu! Infelizmente! Bondade sem conseqüência! Sentimentos Que não fizeram a menor diferença! Não. Que ninguém seja tido como honrado.52 Resta fragmentada Sem alma e sem vida. Sistema bestial. E o que se passa no alto. eu não transformei nada. Eu. falando alto. Quaisquer que sejam as aparências. Eu vos digo: Quando chegar a vossa vez de deixar esse mundo. Se não for uma ajuda real. é magnífico Sempre que espírito e negócios se aliam. A essas tropas indispensáveis. ignora-se o que se passa em baixo. o que foi que eu fiz? Nada. Contrário à razão. a Joana: Seja boa e se cale! . que significam Se não se manifestam em nenhum lugar? De que serve vosso saber Se o que sabeis não tem conseqüência? Eu mesma. Não tenhais a preocupação de terem sido bons . Não esqueçamos que ela esteve nos matadouros. fique no lugar Que lhe é atribuído. Mas também no alto. A esses elementos dos baixios! JOANA: Mas os que estão por baixo são assim mantidos Para que os de cima lá continuem. qualquer que seja. Exceto aquele que muda o mundo Definitivamente: isso é o que é realmente necessário. Mas nada mudará se eles melhorarem. Pois se dele esquecer Perturbará nossa harmonia. OS FABRICANTES: O resultado. GRAHAM – Ela não pode proferir discursos que não sejam razoáveis. como do topo. Deixando sem medo um mundo por onde passei muito rápido. JOANA: Pois entre os de cima e os de baixo O abismo é mais profundo Que entre o Himalaia e o fundo do mar. Porque o sistema é construído assim: É apenas exploração e desordem.Isso não basta – Deixai um mundo bom. E dois idiomas diferentes Os homens têm a mesma face E não se reconhecem mais. Maldito aquele que apelar A essas massas essenciais Mas sempre insaciáveis. JOANA: É uma grande verdade Que aprendi e que vale para todos E morrendo eu vos digo: Vossos bons sentimentos. de maneira a encobrir a voz de Joana: Para que até o céu se levante o edifício. dois pesos e duas medidas.

É preciso também golpear-lhes o crânio com uma pedra.Sobretudo se forem compras especulativas – Esse Verbo que. BISPA SNYDER – Joana Dark. O Verbo magnífico.266 bilhões só em dez dias de março” “BC assalta U$ 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street” “Montadoras almoçam os R$ 8 bi do crédito e mantêm ameaça de demitir trabalhadores” “Deficit dos EUA deve chegar a US$ 9 tri entre 2010 e 2019” . ou seja. SLIFT – Escutem. MAULER: Deves agir. Só dos homens pode vir ajuda. sobretudo. A palavra de Deus. Aos ricos concedei a riqueza! Hosana! Também a virtude. digam qualquer coisa. Combatente e mártir. Precisarás deles sempre! OS CHAPÉUS NEGROS: Olha para cima. de século em século. JOANA: E do mesmo modo. Falem. Não. Sempre se metamorfoseia. Batei com uma pedra em seu crânio Até que arrebente. os alto-falantes começam a transmitir notícias que espalham o medo: “Bank of America e Citibank estão de pires na mão” “Revolta contra os cupins financeiros conflagra Londres” “Múltis drenam do país US$ 3. Não esqueças: tua consciência está lá! Atenção. JOANA: Se alguém um dia vos disser Que existe um Deus. invisível. sempre mais alto. quando vos disserem. vinte e cinco anos. Todos. Em suas compras. infelizmente. a eles concedei! Hosana! A quem tudo possui. ferir! OS CHAPÉUS NEGROS: Nunca esqueças do sangue que mancha teus sapatos. para abafar o discurso de Joana. de esquecer os remorsos. OS AÇOUGUEIROS: E nem pensa em tirá-los. Onde reina a violência Não há outro recurso senão a violência. é verdade. cantam a primeira estrofe do hino. Sempre necessário . Denegrindo a ti mesmo.53 É preciso. Não esqueçam. tudo concedei! Hosana! Concedei-lhe a cidade e o Estado! Hosana! Aos vencedores. é preciso fazer algo para tirar a atenção do que ela fala. Que podeis elevar-vos moralmente Mesmo com os pés enfiados na lama. Onde vivem os homens. contraiu a serviço de Deus uma pneumonia nos matadouros de Chicago. Mas evita. distingam com um sinal! Hosana! Enquanto eles cantam os versos. Chegar ao topo implica Pisar na cabeça daqueles que estão por baixo. mas que seja bem alto. obedeça! OS AÇOUGUEIROS: Quem se mover no espaço Nunca poderá subir: Subir é subir sobre alguém. Do qual podeis esperar ajuda. OS AÇOUGUEIROS: Podes fazer qualquer coisa! OS CHAPÉUS NEGROS: Mas faça-o Sempre com muito escrúpulo! Espírito contemplador. comerciantes.

se não tivessem degolado tantos porcos!” “Criadores miseráveis. tocada pela morte. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES: Desde que o mundo é mundo.54 “Empresas dão calote recorde para remunerar seus acionistas” “Recessão ainda irá se agravar no Japão. Colocam a bandeira em suas mãos. sempre ele aspira Às esferas mais elevadas. Hosana! Que seus crimes terminam bem. Um desejo vive no coração do homem.” “Foram os especuladores de grãos que encareceram o gado. levanta e vira.7%” “Crise já eliminou 6 mi de empregos nos EUA” “Incertezas rondam fábricas da GM à beira do fechamento” Sob o efeito dessa terríveis notícias os personagens trocam entre si acusações e diversos insultos como esses: “Açougueiros sujos. mudos de emoção. Qual um punhal. foram vocês que se recusaram a reduzir também!” “Vocês são os únicos culpados!” “Enquanto não acabarem com vocês não vai melhorar!” “Faz tempo que o destino de vocês está selado!” “O que estão esperando para prender vocês?” Todos cantam a segunda e a terceira estrofes do hino. a serviço de Deus. Nós que temos a alma comum! E então desperta a boa alma Que temos no fundo de nosso coração. mas ela cai. Em duas tentativas ela recusa o prato. Infelizmente. morta de pneumonia nos matadouros. MAULER: Como a pureza De um ser inocente.” “Foram as tarifas das estradas de ferro que nos esfolaram. até cobri-la totalmente. ao firmamento Um impulso múltiplo o atira. Hosana! Com mãos cheias. A voz de Joana já não se ouve: Concedei aos ricos misericórdia.” “Os bancos nos arruínam com os juros que exigem!” “Quem pode pagar tanto dinheiro para estocar o gado e pelos silos de grãos?” “Por que vocês não começaram a reduzir a produção?” “Nós começamos. na terceira vez ela o pega. as mulheres tentaram oferecer a Joana um prato de sopa. que vos ajuda também. Hosana! Ajudai a quem tudo possui. para sua grande pena. Hosana! Nesses braços que vos estendem. BISPA SNYDER – Joana Dark. até o fundo cravado. diz governo ” “EUA mudam socorro para bancos. Não dá mais sinais de vida. Comove-nos profundamente. Hosana! Esmagai o ódio. combatente e mártir. que manipulam o dinheiro a rodo. Em seguida cai nos braços delas. Hosana! Durante esta estrofe. A carne para a terra o arrasta! MAULER: Ai! Um duplo desejo dilacera meu pobre coração. por que não empregaram mais gente e pagaram melhores salários? Quem esperam que compre a nossa carne?” “Foram os intermediários que fizeram subir tanto a carne de gado. O palco é iluminado com uma luz rosada. A generosidade De uma alma sem mácula. Por um nobre ideal. Hosana! Piedade com aqueles que ignoram a fome. vinte e cinco anos. Todos ficam muito tempo de pé. Aos astros. Hosana! Juntai vosso riso aos que riem. por que criaram tanto gado?” “Alucinados. Hosana! Oferecei a vossa graça. A um sinal da bispa. Hosana! Notam que Joana para de falar. Bolsa de NY cai 4. MAULER – Dêem uma bandeira a ela. colocam-se suavemente todas as bandeiras sobre Joana. sinto-me atraído: . Ajudai vossa classe. Pelo espírito. Snyder e Mauler vão até ela.

Cuida bem das duas! . não consigo resistir Inexplicavelmente! TODOS: Em cada homem habitam Duas almas opostas.55 Desejo a abnegação. desejo o altruísmo Mas à atração pelo lucro. como de tua alma grosseira. Cuida de tua alma terna. Ele precisa cuidar de ambas. Homem! Luta sempre contigo mesmo! Sigas sendo este ser uno e sempre dividido! Cuida de tua alma boa. Longe de querer escolher uma delas. como de tua alma vil.

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