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I O rei da carne, Pierpoint Mauler, recebe uma carta de seus amigos de Nova Iorque CHICAGO. OS MATADOUROS
MAULER,

lendo uma carta. – “Parece-nos evidente, caro Pierpoint, que já há alguns dias o mercado da carne está saturado. E, no sul, as barreiras alfandegárias resistem a todas as nossas ofensivas. Acreditamos, portanto, ser prudente, querido Pierpoint, não mais envolver-se com este negócio...” Acabo de receber essas indicações de meus bons amigos de Nova Iorque. Lá vem meu sócio. Ele esconde a carta. CRIDLE – Por que esse ar tão sombrio, querido Pierpoint? MAULER: Lembra-te, Cridle, daquela caminhada Que fizemos uma vez, pelos abatedouros? Era noite. Diante de nossa máquina nova, Cridle, lembra-te, nós vimos um touro Claro e nobre, dirigindo aos céus seus grandes olhos vazios. Ele recebeu diante de nós o golpe que o abatia: E tal golpe me atingiu até o fundo do coração! Há sangue demais, Cridle, em nosso negócio! CRIDLE: Amigo, vens outra vez com tua antiga fraqueza. Quem acreditaria, Pierpoint? Tu, o maior de todos, O rei dos abatedouros, dos açougueiros o terror, A morte de um touro louro te enche de dor! Não conte, eu te rogo, tal segredo a ninguém A não ser a mim! MAULER: Oh, meu fiel amigo, Por que me levaste a visitar o abatedouro! Durante os sete anos em que estou no negócio

Eu evitei fazê-lo. Eu não posso suportar Um comércio tão sangrento, não tenho mais forças: Eu me retiro de imediato... Cridle, queres a minha parte? A terias por muito pouco; a ti, a preferência: Ninguém conhece o negócio como tu. CRIDLE: Muito pouco? Quanto? MAULER: Velhos amigos como nós dois Não podem disputar muito por valores. Dez milhões! CRIDLE: Não seria caro, se não houvesse Lennox Que, pela carne em conserva, lata a lata se bate, E estraga o mercado com seus preços baixos. Tirará nossa pele, se não tirarmos a dele. Enquanto ele estiver em pé, e só tu podes abatê-lo, Não posso aceitar tua proposta. Deverás, até lá, com tua mente fértil, Encontrar uma saída. MAULER: Não, Cridle, Esse coração treme ainda com o grito do touro! É preciso então que Lennox caia rápido, Pois quero, doravante, viver como homem de bem E não mais como açougueiro. Saiamos, Cridle, e eu te direi A forma de abater Lennox. Mas tu deverás então tirar esse peso do meu coração E tomar a frente de nosso negócio CRIDLE: Quando Lennox for derrubado Eles saem. II

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O desmoronamento das grandes indústrias da carne A - DIANTE DA FÁBRICA DE ENLATADOS DE LENNOX
OS OPERÁRIOS

Nós somos setenta mil Nessas fábricas de conservas E nossos salários são tão baixos que não podemos mais [sobreviver. Ainda ontem, de surpresa, reduziram nosso pagamento E hoje, um novo aviso: “Os que não estão satisfeitos, sempre podem deixar a fábrica!” Saiamos então, e todos juntos. Ao diabo esse salário que diminui todos os dias. Silêncio Há muito tempo já esse trabalho nos nauseia: Esta fábrica é para nós um verdadeiro inferno E só pode nos manter aqui o medo, O medo duplo, de Chicago e do inverno. Mas agora, doze horas de trabalho Já não garantem nem um pão seco Nem dão para comprar um trapo velho. Melhor partir E morrer de uma vez. Silêncio Pelo que nos tomam eles? Acreditam então Que nós somos gado, dispostos a tudo? Tomam-nos por jumentos? Melhor morrer! Deixemos a fábrica Agora mesmo. Silêncio O que houve? São seis horas! Por que não abrem, corja de esfoladores? Seus bois estão aqui, bando de açougueiros! Abram! Batem no portão.

Terão eles nos esquecido? Risos. Abram! Queremos entrar Em suas imundas pocilgas E suas cozinhas infectas Para preparar guisados indigestos Para os que ainda podem pagar. Silêncio No mínimo exigimos, O salário anterior, que já não dá para nada. No mínimo A jornada de dez horas e, no mínimo... UM HOMEM QUE PASSA: O que vocês estão esperando? Não sabem que Lennox fechou? Gazeteiros de jornal aparecem na cena GAZETEIRO – Lennox, o rei da carne, forçado a fechar suas fábricas! Setenta mil operários na rua. Lennox vítima da concorrência feroz imposta por Pierpoint Mauler, rei da carne e da responsabilidade social!
OS OPERÁRIOS

Desgraça! O próprio inferno Diante de nós fecha suas portas! Nós estamos perdidos. O impiedoso Mauler Aperta a garganta de nosso explorador E somos nós que sufocamos! B - UMA RUA – A Tribuna de Chicago, edição do meio-dia! O rei da carne e da responsabilidade social, Pierpoint Mauler vai inaugurar os Hospitais Pierpoint Mauler, os maiores e mais caros do mundo! Dois transeuntes olham para o fundo do palco, “vendo” Mauler. UM TRANSEUNTE, ao outro – Aquele é o Pierpoint Mauler. Mas quem são os dois que o acompanham?
GAZETEIRO

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– Seguranças. Só anda escoltado, com medo de apanhar de alguém.
O OUTRO

Para levar Deus ao coração de um mundo que desaba E nele restaurá-Lo, pela ação dos mais humildes. Os Chapéus Negros andam. Toque de tambores. Durante todo o dia os Chapéus Negros pregaram nos matadouros, mas, quando a noite chegou, os resultados eram quase nulos. DIANTE DA FÁBRICA DE CONSERVAS LENNOX – Dizem que eles estão preparando um grande golpe sobre o mercado de carne. Para nós isso que dizer esperar e passar fome. OUTRO OPERÁRIO – A luz está acesa nos escritórios. Estão lá, calculando os lucros. Chegam os chapéus Negros. Fixam no chão uma placa na qual se lê: “Hospedagem: 20 centavos por noite. Com café: 30 centavos.” CHAPÉUS NEGROS cantando Escutem todos, escutem bem! Tu que te afundas, nós te vemos, Teu apelo por ajuda, nós o escutamos, Teu sinal, nós o percebemos. Parem os carros, detenham o trânsito Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Tu que te escondes, tu que duvidas, Olha para nós! Olha, Meu irmão, antes que sucumbas! Nós te damos o que comer E nós não esquecemos Que tu não tens abrigo. E, sobretudo, não digas que tudo está perdido: Tudo será diferente, a injustiça nesse mundo Não poderá durar se todos se juntarem a nós, Marchando ao nosso lado Com o único objetivo de ajudar o próximo. Nós faremos avançar os tanques e os canhões
UM OPERÁRIO

Para levar consolo aos miseráveis dos matadouros, os Chapéus Negros deixam a sua sede. Joana empreende sua primeira descida às profundezas. C - EM FRENTE AO TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS
JOANA,

à frente de um comando dos Chapéus Negros: Nesta noite de sangue e confusão, Nesse tempo de desordem organizada, De arbitrariedade consentida, E de humanidade desumanizada, Nesse tempo em que em nossas cidades Os problemas não têm fim; Nesse mundo, imenso matadouro, Em que nos chegam rumores de violência iminente; Para impedir que, em sua brutalidade, O povo, ofuscado, quebre suas ferramentas E destrua assim seu ganha-pão, Nós queremos reintegrar Deus Pois aos lugares onde realmente vivem os homens Ele não mais tem acesso: Sua glória anda pouca, Seu nome, já quase suspeito. Dos mais humildes, entretanto, ele é a única salvação! Então nós resolvemos Por ele bater nossos tambores nesses bairros; Para que ele penetre no coração da miséria E que sua voz retumbe pelos matadouros. Aos Chapéus Negros: O que faremos agora é uma última tentativa. Pela derradeira vez, nos esforçaremos

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Nós lançaremos ao mar os navios de guerra, E nos ares, os aviões Para conquistar teu pão, meu irmão. Porque vós, os pobres, formais Nesse mundo um imenso exército. Vós que nos escutais Não esperai o amanhã! Desde hoje ajudai, Ajudai ao próximo! Avante! Ao assalto! Empunhai vossos fuzis! Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Cantando, os Chapéus Negros começam a distribuir seu jornal: Apelo às Armas, bem como colheres, pratos e sopa. Os operários agradecem e põem-se a escutar o discurso de Joana. JOANA – Nós somos os soldados do bom Deus. Por causa dos chapéus que usamos, somos também conhecidos como os Chapéus Negros. Nós dizemos que somos soldados, porque formamos um exército e porque, em todos os lugares em que vamos, precisamos lutar contra o crime e a miséria, contra as forças que tendem a nos aviltar. (Ela mesma começa a distribuir sopa) Bem, agora comam esta sopa quente e constatarão que depois vocês verão as coisas com um olhar diferente. Pensem agora qual esperança se pode fundar sobre a felicidade terrena. Nenhuma, absolutamente nenhuma. A desgraça vem como a chuva: ninguém a provoca, mas, entretanto, ela vem... Suas desgraças, digam-me de onde vem? UM DOS QUE COMEM – De Lennox & Cia. JOANA – O senhor Lennox tem talvez mais preocupações do que vocês! O que vocês estão perdendo? Ele, suas perdas se contam por milhões. UM OPERÁRIO – Carne não há nesta sopa, só uma aguinha clara, isso sim. Mas quente, pelo menos, está. OUTRO OPERÁRIO – Fiquem quietos, bando de glutões! Escutem a palavra de Deus! Senão vão tomar o prato de água quente de vocês.

– Silêncio! Queridos amigos, digam-me: por que vocês são pobres? UM OPERÁRIO – Sei lá! Explique você! JOANA – Eu lhes direi. Não é porque vocês não estão cheios de bens materiais – que não chegam para todos – mas porque vocês não têm idéia dos valores mais elevados. É por isso que vocês são pobres. Esses gozos vulgares aos quais vocês aspiram, comer um pouco, ter um bom lugar para morar e ir ao cinema, não são mais do que prazeres frívolos, grosseiros. Enquanto que a palavra de Deus é um prazer mais delicado, mais profundo e muito mais refinado; talvez vocês não possam nem imaginar algo mais doce do que o chantili, mas a palavra de Deus é ainda mais doce. Homens de pouca fé, os pássaros no céu não têm carteira de trabalho, as açucenas do campo não têm emprego e, entretanto, como eles cantam Sua glória, Deus lhes dá alimento. Nós, os Chapéus Negros, fazemos então a vocês uma pergunta muito prática: de que um homem precisa para crescer na vida? UM OPERÁRIO – Um colarinho engomado. JOANA – Nada disso. Para progredir na terra talvez seja necessário um bom colarinho, mas diante de Deus é preciso muito mais que isso, outras glórias. Vocês aos olhos Dele, nem mesmo um colarinho puído têm, pois deixaram suas almas no abandono. Mas então como vocês querem elevar-se, chegar ao que vocês, em sua ignorância, chamam de uma “situação melhor”? Pela força bruta, pela violência? Como se algum dia a violência tivesse trazido alguma coisa além da destruição. Vocês acham que mostrando os dentes conquistarão o paraíso na terra. Mas eu lhes digo, agindo dessa maneira o que se cria não é o paraíso, mas o caos! Um operário chega correndo. O OPERÁRIO: Uma vaga, agora mesmo, acaba de abrir! Um trabalho, um salário, esperam por vocês, Na fábrica número cinco! Que mais parece uma latrina. Corram, rápido. Um operário larga seu prato cheio e sai correndo.
JOANA

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– Ei, você, onde é que você vai? Quando se ocupará de Deus? Vocês não querem nem ouvir falar, não é? UMA MOÇA DOS CHAPÉUS NEGROS – Acabou a sopa. OS OPERÁRIOS: Acabou a sopa; Era só um caldinho ralo Mas era melhor do que nada. Todos se viram e se levantam. JOANA – Fiquem sentados; acabou, mas que importa, uma vez que a grande sopa celeste não se esgota nunca. OS OPERÁRIOS: Quando, afinal, vocês Abrirão as portas de seus porões, Carniceiros, mercadores de carne humana? UM OPERÁRIOS: Com o quê, agora, pagarei A casa pequena e úmida, onde vivemos doze? Eu já paguei dezessete prestações, Mas a última, não conseguirei Seremos jogados na rua. E o chão de terra batida E nosso pedaço de grama amarela, Nunca mais os veremos, nunca mais, Nem tampouco respiraremos seu pestilento ar familiar. UM OUTRO OPERÁRIOS: Aqui estamos, em pé, nossas mãos como pás, E nossos pescoços fortes como tratores. Nossas mãos e nossos pescoços, queremos vendê-los Mas não há quem os compre. OS OPERÁRIOS: E nossas ferramentas - Gigantesca montanha de prensas e gruas – Estão trancadas, detrás desses muros! JOANA – E então, o que se passa? Quer dizer que já se vão? É porque já terminaram de comer? Adeus e obrigado. Mas por que então vocês escutaram até agora?
JOANA

– Pela sopa. JOANA – Continuemos. Cantem! CHAPÉUS NEGROS cantando Avante, entrai nessa luta! No coração da batalha lutai! Cantai com louvor, que cante todo o mundo. Ainda é noite, mas logo virá o dia, Raiando com todo o esplendor, E junto virá Jesus Nosso Senhor. UMA VOZ, do fundo do palco – Estão contratando nas fábricas de Mauler! Os operários saem. Fica apenas uma mulher. JOANA, com ar sombrio: Parem a música! Acabou a sopa, lá se vão eles! Seus olhos são incapazes de elevar-se Mais alto do que a borda do prato. Eles não crêem em nada além do que está Entre suas mãos. Acreditarão em suas mãos? Vivendo cada dia, cada minuto mesmo, Na insegurança, eles não são capazes De se esquecer das preocupações mais básicas. Nada, a não ser a fome, tem sobre eles qualquer influência. Nenhuma canção os toca mais. Nenhuma palavra pode Descer até eles e penetrar seus corações. Aos que a cercam: Parece que nós, os Chapéus Negros, temos por tarefa alimentar todo um continente com nossos poucos talheres. Os trabalhadores voltam. Ao longe, ouvem-se gritos. OS OPERÁRIOS, na frente do palco – Que gritos são esses? Um imenso caudal humano emerge dos abatedouros. UMA VOZ, do fundo: Mauler e Cridle também fecharam. As indústrias Mauler optam pelo lock-out! OS OPERÁRIOS, refluindo:
UM OPERÁRIO

Lennox está branco como algodão. mora aonde? OS OPERÁRIOS: Lá. os fabricantes de conservas Lennox e Graham discutem. E o frio supremo Rouba de seu coração todo o calor. Quem abandona o lar protetor. Uma multidão enorme e desesperada. O selvagem Mauler! De um tal monstro a investida É inexorável! A natureza. dos Chapéus Negros: Não vá te meter com estes problemas. na frente do palco: Desgraça! De todos os lados chegam ainda Torrentes infindáveis de homens! OS CHAPÉUS NEGROS. E vê esvanecer-se sua pureza original. Estamos gelados e molhados e precisamos comer. . que fogem do trabalho. antes. onde se compram e vendem animais. São reles glutões Preguiçosos. já que ele é a causa de tamanha miséria. ruídos da Bolsa. JOANA – Esse Mauler. Sua bondade perde rápido. Eles encherão tuas orelhas com seus gritos. Oh Joana! Não te metas nas querelas terrestres! Pois quem nelas se envolve. GRAHAM: E então. Ele venderia o próprio ar. pronto. ele te revenderia. Joana e Marta esperam. JOANA – Não! Eu quero saber (aos trabalhadores) Digam-me. Abrigaram sentimentos nobres. presa. Ao fazer mil perguntas. quem é o responsável por tudo isso. derrubou-te. a Joana – Vamos agora. UM OPERÁRIO. Tu desaparecerás na lama! Pois a lama entope as bocas Que fazem perguntas sem prudência JOANA: Eu quero saber. meu velho Lennox. MARTA. desde o dia em que nasceram. torna-se. Na insana esperança de obter uma resposta Que jamais chegará. No alto. OS CHAPÉUS NEGROS – Pare! Não te metas com essas questões. Ao fundo. eu quero vê-lo. desce cada vez mais baixo. – Não. Resultado para nós: barrigas vazias. por que correm de um lado a outro e não encontram trabalho? OS OPERÁRIOS: O sanguessuga Mauler e o muquirana Lennox brigam entre si. por favor. Enquanto corríamos atrás de trabalho. OS CHAPÉUS NEGROS – Então teu destino nos parece bem negro. Recebemos mil respostas. esse Mauler.6 No meio do caminho encontramos. Jamais seus corações. JOANA – Quero saber. Os Chapéus Negros se afastam. JOANA III Pierpoint Mauler é tocado pelo sopro de um outro mundo EM FRENTE À BOLSA DE CARNES Em baixo. O que comeste. Todos haviam perdido o emprego E perguntavam onde achar trabalho. Torna-se mercadoria. Em um grande edifício: A Bolsa de Carnes JOANA: Eu vou até lá: Eu preciso saber. para ele. Degrau após degrau. Eles têm apenas idéias vulgares na cabeça.

no último andar. Estranho conselho! Eu te agradeço. este homem não é duro E nem ama o dinheiro. surge de um grupo de fabricantes de conserva. eu garanto. que vira couro. MARTA – Joana.. Cridle. E se lhe jogas pedras na cabeça. MAULER : Lennox está de joelhos. Fecho minhas fábricas. nele. ele extrai rendas. Vocês mesmos. como vais reconhecê-lo? JOANA – Saberei bem reconhecê-lo. que. esta arte contrária à natureza. De carne podre. a cada fase. CRIDLE: Muito bem. O faro para o dinheiro é nele tão potente. Nas facas. Um mercado aviltado. Por si mesmo. JOANA – Mas tu vieste comigo. Batendo-se por sua conquista. Pois caindo. Bela invenção. JOANA. Agora vou limpar a minha fábrica.. Tão natural. à Marta: Tu somente. Vá. ele faz ouro. Gritaram-me prudência: Para eles.. sozinho. Lubrificar meus cutelos. até aqui me acompanhastes. Cridle sai da Bolsa e desce até o palco. Depois seus pelos. eu também te recomendei prudência. Espero que o mercado recobre a saúde. moídos como farinha. que viram escovas.Joana. não é verdade? GRAHAM : Muito bela! Mas e a lata. e dorme mal à noite. confessa. o porco se precipita. Saibas. até ele e. olhe para mim e de meu pescoço. A Lennox: Estás perdido. chega Na lata que o espera lá embaixo.” CRIDLE : . para economizar Uma agradável soma em salários. cruzei a última fronteira. lutando. Todos me abandonaram. A nova técnica é muito engenhosa: O porco é colocado em uma esteira rolante Até o alto da fábrica. Ele terá medo. OS FABRICANTES DE CONSERVAS : Trata-se de saber quem agüentará mais tempo. Fizeram desabar os preços e destruíram seu negócio. Que ele não saberia jamais trair seu instinto. Até chegar aos ossos. E assim. no entanto.. Diga-lhe: Mauler. E pensa nos velhos tempos. ainda ontem florescente!.. E agora. então. ficarás com a fábrica Conforme está previsto nos termos do contrato: “No dia em que Lennox for eliminado.7 De barracos miseráveis. E talvez chore. MARTA . Tal qual dois grandes búfalos. Em dinheiro ele as transformará. Slift. Lennox! Acabou a guerra de preços! Foste eliminado. com sua escalada. O que fazer com ela? Ah. não achas? Ele se degola e logo. com voz suave. Tira esta mão que me aperta e me estrangula. por conta de seu próprio peso. Destroem com seus cascos o pasto que disputam. Primeiro perde a pele. Ele não pode suportar A visão da miséria. Bem pensado. Quando ele não podia absorver mais nada. acompanhado de seu corretor. Marta. em salsicha se transforma. Começa então o seu retalhamento. época maldita! Um comércio estrangulado por montanhas de conservas.. Instalar duas ou três dessas máquinas novas. Mauler.

até teu coração sabe ver longe! LENNOX : Eu gostaria ainda. eu precisaria jogar essas ações no mercado. LENNOX – Não. Isso não é um contrato? Com um preço fixado? CRIDLE : Sim. Não pude imaginar seu fado. Lennox! Toque-o! É uma lata de lixo. mas. sem mais delongas. MAULER – Ai! GRAHAM — Viu? Ele tem um coração! MAULER : Então. mergulhado em meus negócios. devido à saturação do mercado.8 Sim. Lennox. cinco. isto é. CRAHAM : Toque-lhe o coração. sensível! Ele soca Mauler no coração. tenho dois mil empregados! CRIDLE – Mande-os ao cinema! Mas Pepê. Joana fez um sinal a um segurança e lhe diz algumas palavras. Freddy! Quer dizer que tu me socas. nada. veja Lennox. Mas com ele acabaram Os bons dias do mercado. Lennox acabou. CRAHAM . Mauler. é que meu coração se aperta Quando ouço mugir a criatura CRAHAM : Agora eu compreendo a grandeza de teus atos. um contrato dos tempos de prosperidade! Mas e a crise? Ela não existe? Que posso fazer eu com um grande matadouro Se ninguém mais compra carne em conserva? Agora sei bem porque não podias Mais suportar a visão do gado morrendo: sua carne Não vende mais! MAULER : Não. É o máximo que posso fazer. Estou tão temeroso que chego a suar frio: seis dias. Não estava caro. Mas. MAULER : O quê? A soma está inscrita Claramente no contrato Tome. nosso contrato não é mais viável. A exigir meu dinheiro. se tu estás Realmente onde dizes. Pois eu proibirei Cridle De comprar-te uma única lata. seguindo-o com os olhos: Tive a ligeira impressão de que algo o atormentava. GRAHAM — Mauler. Tu me ofereceste a 320. e tu tinhas um terço. MAULER . então. Mauler. : Pepê! Isso não é um jogo! Não podes misturar Questões pessoais aos negócios! CRIDLE – Pois não. Para pagar o que te devo. Cridle. Pepê! Como quiseres... como eu. se eu fizer isso. tu me forças. Cridle. Antes que quebres de uma vez! Creia-me.. elas cairão a 70. (faz contas em uma caderneta) Quando combinamos que tu sairias do negócio. MAULER – Leia.. É preciso então. olhe para mim. E eu. então. as ações estavam a 390.. de examinar Contigo. e onde eu conseguiria dinheiro para pagar tua parte? Eu estaria arruinado! MAULER : Já que me dizes isso. Seis dias? Não. o coração torturado! Cridle se afasta. LENNOX – Mauler. Veja se esse contrato diz uma só palavra sobre a crise. Mauler. Ele sai. Repensar os dez milhões de dólares Que queres por tuas ações.. as ações caíram para 100. Hoje. Ah! Pudesse eu estar liberado De um comércio tão bestial! Tenho. Nada além.

Slift. nem desses versos sentimentais Que eles adoram cantar.. (aponta para Slift) É ele! JOANA. Mas que nome curioso! Soldados do Bom Deus. A Joana: Vós sois. não é notável? Já viste algo igual? Que trabalhem por nada e sem se lamentar? Não vejo em seus olhos nem medo da miséria Nem de dormir sob as pontes alguma noite. eu sei. Graham sai. que eu sou Mauler. que a sopa seja rala. Porcos. O segurança vai ao encontro de Joana no outro lado do palco. a Slift: Que eles trabalhem por nada. sobre outra questão. seus trabalhadores na rua? MAULER. Chapéus Negros. Diga-lhes que eu os receberei Mas que eles limitem-se a responder minhas perguntas. Durante esta cena. Mais uma coisa: não diga. JOANA: Por que joga. 43. Vitelos. MAULER : Está bem. Senhor Mauler. são numerosos e gozam de grande consideração nas camadas inferiores da população. Pouco me importa o que esperam de mim. hein? Não. Mas o que eles querem comigo? O SEGURANÇA — Afirmam que têm algo a dizer ao senhor. Creiam-me: esses são assuntos profissionais Que não vos interessam. Slift? (Enquanto isso. MAULER – Como me reconheceste? JOANA: De todos.. gente estranha. não é homem de bem. JOANA. Pretendo renunciar a esse negócio sangrento Logo que eu possa: renunciar sem retorno. na verdade. 59. Slift ri. sem dúvida? Prontos para a violência. adoraria vossa opinião. MAULER – Rindo. é ele. mas vocês não devem Perguntar nada. Mas. – Vinte centavos. em absoluto. MAULER : Já ouvi falar dessa gente. Com ar invejoso. cá entre nós. JOANA. MAULER : A escória em farrapos. respondam apenas Quando ele lhes perguntar. o rumor da Bolsa continua. Para Joana:) Quanto recebes por dia? JOANA. Sim. – É o senhor. O SEGURANÇA — São membros da Organização dos Chapéus Negros. dirigindo-se direto a Mauler – O senhor é o Mauler! – Não sou eu. apontando para Mauler – O senhor é o Mauler! MAULER – Não. MAULER . O melhor para eles É causar em mim a impressão de gente honesta.9 O SEGURANÇA — Senhor Mauler. Ouve-se: Bois. Que não é acusada de nada E que não espera o impossível de mim. Dizem. e pôs em apuros Cridle que. há algumas pessoas que querem lhe falar. além da comida e do uniforme. é o que tem a cara mais ensangüentada. o tecido não é grosso Nem é grossa a sopa. suponho. . que o sangrento Mauler. Nada de choros. 55.É assim. MAULER : O que é esta organização? O SEGURANÇA — Eles têm muitas ramificações. diga que não estou. São chamados de soldados do Bom Deus. etc. MAULER: O tecido é bem fininho e. O SEGURANÇA: Ele vai vê-los. que a escória me chama – Despojou Lennox.

JOANA – Senhor Mauler. Ele não é maduro ainda. há pouco. E desejaria que fossem mais numerosos. Tome para os pobres. Eu também vou embora.. Eu sei. A canalha. de resto. MAULER: Riam todos. diga. tu também. tomando-lhes o dinheiro que trazem consigo e dando-o a Joana. São. Não. O mundo não poderá mudar se antes não mudarem os homens. Dirigindo-se aos outros: Parece-me que fui tocado pelo sopro de um outro mundo. Desculpe-me. ele é mau. Isso não é bom? Os fabricantes de conservas explodem em gargalhadas. MAULER: Poderia eu ir mais longe? Porque ele é sangrento É que eu tirei as minhas mãos deste imenso negócio. dêem! Corja de carniceiros! Ele continua mexendo nos bolsos deles para dar dinheiro à Joana. Um instante. Talvez por isso te ajude. pessoas extremamente más. no lugar do pobre animal. Mas este mal era inevitável. Seu rosto me agrada.. Isso não é bom? E conforme vosso espírito? SLIFT : Vendo morrer o boi. nos matadouros dizem que o senhor é o responsável pela miséria deles. Deixai disso.. Eu sei. vamos. Marta sai. por favor. a Joana: Joana. MAULER: Eu tenho grande piedade pelos bois: o homem. A parte – doze milhões – que eu tinha na usina. JOANA: Senhor Mauler. Mas é uma gentileza. não creias que seja de boa fé. eu sinto Que tu não gostas de mim.10 Pois eu vi – e isso vos interessará – Morrer. Senhor Mauler. sem nenhuma obrigação: Eu não sofro de insônia. . Ele fala com Slift em voz baixa. Mas. dêem o dinheiro. É bom. Tamanha inocência!. não me comove. O senhor não poderia realmente ajudá-los? MAULER: Repita por toda a parte: eu aprovo vossa ação. Abandonar esta empreitada. Deverias. Cedi por dez ao homem que vêem aqui. O homem. Seu riso não me atinge. para o que pretendes fazer. São todos carniceiros. que com tal decisão As pessoas sofreram. por que fechou os matadouros? Eu preciso saber. JOANA – Isso é uma gota no oceano. Melhor para ti que não os veja. um boi e fiquei tão comovido Que quis largar tudo. não me digas nada. aliás. confesso. Mas tendes consideração demais pelo destino dos pobres: Eles são maus. Eles não têm mais trabalho. não é? JOANA: Não sei se o senhor fala sério. MARTA.. Dêem o dinheiro. mas não digas nada. ele decidiu abater O rico Cridle. MAULER: É que adquiri o maldito hábito De disfarçar a voz. Nenhum é inocente. Eu os verei chorar um dia. Ele se aproxima dos industriais. isso de se retirar do negócio. Diga-me que está certo E que isso te agrada. Embora já tenhas vivido mais de vinte anos. minha filha.

Ele sai. Se quiseres mesmo saber. JOANA.E eu adoraria que não desse certo – Leve-a aos matadouros. O amigo Pedaço-de-Toicinho não precisa mais dele. Veja então o que ela compra. Slift e Joana contornam o muro de uma fábrica. JOANA — Eu quero vê-los. enfim. E verás que tua piedade é descabida. Se isso falhar . peguei para mim. ficará com a vaga de Luckerniddle. SLIFT. e depois a siga. O JOVEM OPERÁRIO – O senhor pode confiar em mim. JOANA. dê dinheiro a ela. em um jornal. senhor Smith.11 Chame ela de lado. caiu.. cheios de traições. se quiser. Sullivan Slift. (O contramestre volta para a fábrica pela portinhola. agora eu vou te mostrar Como eles são maus Essa gente da qual tens piedade. Quando a fábrica reabrir você. Ele ouviu nosso chamado. e enrola o seu. assim como o seu boné. em uma palavra. De saber o que queres saber. a um jovem operário – Um de nossos homens. vendo Mauler se afastar: Este homem não é mau. Diga “para seus pobres”. Estão ocupando inutilmente um cabide no vestiário.) É uma pena. Dois homens saem por uma portinhola. vestido com uma lata. o que causa má impressão. sobre o qual se lê: “Fábrica de Conservas de Carne Mauler e Cridle”: O nome de Mauler aparece riscado. mas não pudemos parar as máquinas a tempo. A Joana: Aqui está meu corretor.. e mostre a ela Como os pobres são maus e covardes. . vacilando: Estou me sentindo mal. este homem será mandado para os quatro cantos do mundo sob a forma de toicinho. por suas vidas miseráveis. A Slift: Mal posso suportar a existência de seres Semelhantes a esta moça. Mas seu casaco ainda está bom e isso também é uma pena. Luckerniddle. ele te fará ver algumas coisas. E que não têm nenhum medo. é pavoroso. é o lixo do mundo. Aqui estão seu casaco e seu boné: pegue-os e façaos desaparecer. e ele entrou na faca e virou toicinho. na caldeira. Semelhantes a bestas. Responsáveis. que nada têm Além de seus vinte centavos por dia e seu chapéu negro. Isso pode funcionar. Azar. ele cairá bem. e para mim. saindo – Um conselho: não te metas com as gentes dos matadouros. faz quatro dias. Mas volte aqui amanhã. já que agora ele está em embalado. é a escória. Ele veste o casaco. Entrego a você porque sei que é de confiança: se alguém encontrá-los em algum lugar. perderei meu emprego. SLIFT: Em teu lugar não gostaria. o quanto antes melhor. IV O corretor Sullivan Slift mostra à Joana Dark como os pobres são maus: Joana desce às profundezas pela segunda vez BAIRRO DOS MATADOUROS SLIFT: Joana. É o primeiro que nossos tambores desalojaram Das trevas da vilania. é claro. UM CONTRAMESTRE. ela poderá Aceitar sem pudor. É preciso queimá-los. Slift e Joana escutam.

Eu ficarei aqui. seu marido está viajando. Slift volta para junto de Joana. Mas reflita bem. aquele que se acidentou? O JOVEM OPERÁRIO – Por favor. O JOVEM OPERÁRIO – Mas senhor. me encontrará na cantina. é capaz de o meu quebrar já no primeiro golpe. esperando por ele Mas ninguém diz nada. Joana e Slift prosseguem seu caminho. SLIFT. DONA LUCKERNIDDLE – Quero saber o que aconteceu ao meu marido. em nossa cantina durante três semanas. além dele. Já não posso mais trabalhar como antes e só consegui emprego duas vezes desde fevereiro.. para nós. Vinte refeições são muita coisa Para aquele que tem fome. No ano passado me deixei seduzir pelos vinte centavos a mais que se ganha na fábrica de adubo. nós não somos. gratuitamente. JOANA: Ela nunca aceitará. SLIFT: Guarde essas coisas. na fábrica. DONA LUCKERNIDDLE – Não. se você não está precisando disso!. No frio. Eu. Não procure mais saber o que se passou com seu marido e a senhora poderá almoçar. enquanto não o vir. SLIFT – Estamos dizendo que ele partiu para São Francisco. Vamos cuidar para que essa seja a última vez.) Onde você conseguiu este casaco e este boné? Estes são os pertences de Luckerniddle. legalmente. Mas existem coisas Que importam mais para ela. Aconteceu alguma coisa com ele aí. . Joana e Slift seguem seu caminho. senhor. então a senhora não pode aceitar a refeição que a fábrica lhe oferece. Venha. GLOOMB – O feitor está bem ali. de qualquer modo. É por isso que lhe fazemos uma proposta: note bem que. Eu estou em uma situação muito ruim. a Joana – Fique aqui. saindo para o trabalho. fui trabalhar no moinho de ossos e adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. Por causa dele deixei minha mão na máquina de cortar chapas. é muito desagradável vê-la sentada aí. passe-me logo teu cassetete. SLIFT – Se é esta a sua opinião. que fizeram dele? Há quatro dias que estou aqui. (Ele pára o jovem operário. pronto para encher a pança. à cantina número 7. e meu marido não sai da fábrica. DONA LUCKERNIDDLE: Agora inventam que ele viajou! SLIFT – Deixe-me dizer uma coisa. (Ele vai em direção a Gloomb). todo o tempo. Antes eu gostaria de fazer-lhe uma proposição interessante. O JOVEM OPERÁRIO – Pode confiar em mim. lamentando-se: Faz já quatro dias que. Esse salafrário se empanturra às nossas custas. Verás então o que é essa gente. isso não lhe parece muito brutal? SLIFT: Bem. SLIFT: Senhora Luckerniddle. Não tenho outro esteio. vou falar com ele. Eles chegam a uma cantina da usina e vêem diante de uma janela dois homens que olham para o interior. Precisará nos processar. mesmo à noite. ao meio-dia.. Vamos. diga-lhe que procura trabalho. Tenho a impressão de que você está prestes a cometer um ato impensado. Eu tiro agora mesmo. Quando ele se aproximar. DONA LUCKERNIDDLE: Eu quero que me devolvam meu marido. ele não foi para São Francisco. Você poderá comer e lhe darei um dólar se disser à mulher de Luckerniddle onde conseguiu o casaco e o boné. dizendo tolices. lhes digo. senhora Luckerniddle. Amanhã. E malditos sejam vocês Se lhe fizeram qualquer coisa! Slift caminha até ela. obrigados a fazê-la. Bando de açougueiros. Senhora Luckerniddle: ele está viajando e. se quiser me ver. senhor. de forma alguma.12 SLIFT: Aí está a vida como ela é. e vocês não querem que se saiba disso. DONA LUCKERNIDDLE está sentada em frente ao portão da fábrica. não diga mais isso. ele me dizia: “Espere-me à noite com uma sopa quente!” Desde então não [voltou.

Tchau. JOANA: Ela sentou-se ali. SLIFT – Gostaria de propor um meio de tirar-lhe dessa jogada.. temi que amanhã ela viesse. DONA LUCKERNIDDLE – Sim. Slift cai na gargalhada e arrasta Joana. estaríamos dispostos a reempregá-lo imediatamente... Apesar de tudo...) Você está procurando trabalho? JOANA – Sim. Adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. GLOOMB – Rápido então. A GARÇONETE – Se a senhora não for comer. Seria vantajoso para você. GLOOMB – Nada disso é verdade. Desde fevereiro estou sem emprego. A maior parte dos trabalhadores a considera muito perigosa. (Ao seu companheiro:) Pensei melhor. Disseram-me que não tinha ninguém além dele. No ano passado fui trabalhar na fábrica de adubo. E é um trabalho que pode ser feito mesmo por pessoas como você. Os movimentos ficam menos firmes e pode-se prender as mãos nas serras. Ela não parece muito forte. depois do que eu iria. Talvez a vaga deste contramestre... JOANA – Vindo para cá ouvi dizer que aconteceu alguma coisa com o seu marido e que a fábrica é responsável. Uma jogada dessas é melhor de se fazer à noite. Ela senta-se em uma mesa. meu senhor.13 – Não tenho tempo. JOANA – Quase tenho medo de continuar. não muito fortes. já faz dois dias que eu não como nada. É um bom posto? GLOOMB – É um ótimo posto. E eis que ela nos precedeu. Naturalmente seria muito bom se nós encontrássemos alguém para esse posto. A senhora Luckerniddle está falando com a garçonete. Ela correu até aqui e já nos espera.. SLIFT – Leve você mesmo a comida a ela. há uma moça que está procurando trabalho. Não podemos perder esse safado. O posto não é feito para gente fraca. calculando – Vinte refeições. DONA LUCKERNIDDLE. Joana procura um prato e leva à senhora Luckerniddle. JOANA – Mas a senhora nem sabia que nós viríamos hoje. DONA LUCKERNIDDLE – Espero uma pessoa que deve vir hoje ou amanhã.. e então eu poderia. Vai se perguntar como alguém pode contar histórias tão ridículas sobre esta máquina. O que mais verei? Eles entram na cantina. Eu imaginava que ela iria resistir. e então eu teria. Se você. e lhe daríamos até um trabalho mais fácil e melhor remunerado do que o antigo. JOANA – Não há realmente como me arranjar outro posto? Ouvi dizer que o trabalho nesta máquina era perigoso para quem não resistisse ao trabalho muito pesado. GLOOMB . por acaso. GLOOMB – Aquela moça ali? . (Ele vai em direção a Joana. encontrasse alguém.. Eu sou inspetor nesta fábrica. O que há para comer hoje? A GARÇONETE – Ervilhas. JOANA – A senhora já está aqui. SLIFT – Que pena. desde hoje? DONA LUCKERNIDDLE – Não como nada há dois dias. GLOOMB – Você enxerga bem? JOANA – Não. Naturalmente você precisaria manter os ritmos de trabalho mesmo os dispositivos de segurança não sendo perfeitos. não sabia. pode ser que mude de idéia. DONA LUCKERNIDDLE – É verdade. justamente porque você contou todas essas histórias a respeito de seus dedos. DONA LUCKERNIDDLE – O que? Vocês pensaram melhor e estão retirando a oferta? Então eu não terei mais as minhas vinte refeições? JOANA – Me pareceu que a senhora se dava bem com seu marido. tem que se retirar. por exemplo. GLOOMB – Posso confiar no que você está me dizendo? SLIFT – Sim. Ali adiante. no moinho de ossos. O posto que você ocupava na sua máquina continua vago e isto é muito chato. Você se surpreenderá ao ver como o trabalho é agradável. É preciso que ele pague hoje mesmo por esse sistema desumano do qual ele é o feitor. faremos isso amanhã à noite.

comprem nossas latas! Carne fresca e suculenta. e que já apodrece. (O jovem operário o esconde) De onde ele vem? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. ninguém mais perguntará o que foi feito dele. Atrás dele:) Você tem um belo boné. esta mulher. ao lado daquela mulher. Era seu único esteio. DONA LUCKERNIDDLE – Ele foi para São Francisco. A senhora Luckerniddle sente náuseas. verdadeira manteiga! Banha fresca do Kentucky! OS COMPRADORES: OS FABRICANTES DE CONSERVAS . Um certo tempo ainda. certamente teria me prevenido Não fosse o preço a pagar por seu pequeno escrúpulo. Ela sai. (Ele senta-se. Que sua miséria. posso comer aqui? SLIFT – Você só precisa sentar-se ali. Sua imoralidade é sem limites. os sofrimentos que suportam Esses pobres sem moralidade. Pois não há mais compradores! Do fundo do palco chega o jovem operário com seu casaco e seu boné. eu volto. SLIFT – E onde você conseguiu. a imoralidade deles? Ela teria. Desejas mostrar-me a sua imoralidade. ao garçom – Deixe meu prato. O que tu me mostraste Não é a imoralidade Dos pobres: é a pobreza deles. DONA LUCKERNIDDLE. com que habilidade torna-te mestre dela! Esta imoralidade. O JOVEM OPERÁRIO – Bom dia. tu me dizes? Sua pobreza também é incomensurável. Ele foi obrigado a vender sua cólera. para colocar Ao abrigo da chuva.14 – A senhora não quer esperar até amanhã? Se a senhora desistir de procurar o seu marido. como um animal. então? O JOVEM OPERÁRIO – De um homem que caiu dentro de uma caldeira. o preço era muito alto. Mostrar-te-ei. como muitas. Continuar fiel à memória de seu marido. saindo. eu. e comerá sem levantar os olhos do prato. Joana? A imoralidade dela não tem limites! JOANA: E tu. a vossos olhos contradiga Esta depravação que injustamente se lhes imputa. JOANA: Porões e armazéns abarrotados de carne. JOANA E procurar por ele. Fatias de toicinho Cridle-Mauler! Carne de filé Graham. estamos vendendo carne! Compradores. preferido. como manda o costume. Dona Luckerniddle arranca o prato das mãos dela e começa a comer avidamente. e por mais justa que fosse. SLIFT – E onde você comprou? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. como vós a explorais! Não vês que nem teto eles têm. (Dona Luckerniddle permanece em silêncio) Não pegue. Mercadoria invendável. mas não em uma loja. Mas vinte refeições. V Joana apresenta os pobres à Bolsa de Carnes A BOLSA DE CARNES : Nós todos. SLIFT – Durante três semanas ela virá. E este jovem – em quem botaria fé Qualquer malandro -. Eu virei todos os dias. Você a viu. Tão cara a ele. Ela se levanta e sai. Você só precisa perguntar a esse senhor. acreditas que ele teria mostrado À mulher do morto a roupa que usava Se tivesse tido a chance de escolher? O maneta.

O que provocaria um movimento de alta. Nós estamos perdidos! OS CRIADORES: E nós. nenhum tinha dinheiro. SLIFT: Eu riria se. Aproveitem então. Engolindo nosso ouro junto com nosso grão. Temos diante de nós montanhas de latas. Nós queremos vender a carne em conserva E ninguém a quer! E todos os nossos clientes. fabricantes. A dar-se-lhes ouvidos Seria necessário agora deitar por terra Todo o cartel da carne E deixá-lo estagnado durante muitas semanas. com nossos matadouros? Nossas fábricas estão cheias de bois. cozinhas e lojas Estão cheios até as bordas. A morte Despreza esse gado e fecha-lhe a porta. Nós iríamos perder o bonde! MAULER: E quando isso ocorresse! Terias a imprudência De tirar tua parte de tamanha miséria. cubas. Comprem. caldeirões Convertem sem parar em latas de conserva As manadas mugidouras que pastam nos prados. dia e noite nossas máquinas Ligadas no máximo: salgadeiras. compradores. eles conseguissem Fazer cair de uma vez as taxas de importação. E graças aos perspicazes planos dos industriais da carne Nós conseguimos reduzir em um terço O preço do toicinho Cridle-Mauler. a visão da carne enlatada Causa náuseas. quase de graça. SLIFT: E teus amigos de Nova Iorque. Do filé Graham. compradores. ao trabalho de nossos [engenheiros. em Nova Iorque. OS FABRICANTES: Graças aos avanços da técnica. Frigoríficos entupidos de carne congelada. A nós. Não a agüenta mais. Mas ninguém quer comprar carne enlatada. MAULER: E mesmo a faca os recusa. Nós não compramos mais nada! OS FABRICANTES: E nós. Quando todos te seguem com olhos de lince Para ver o que fazes? Eu não teria cara. OS COMPRADORES: Nós compradores. verdadeira manteiga. o que te escrevem? MAULER: Teorias. comprem nossas latas! OS COMPRADORES: E sobre as montanhas fez-se um grande silêncio E as cozinhas dos hotéis escondem a face E as lojas se desviam com horror Os atacadistas mudam de cor. . O estômago do país. Clamamos aos berros por um consumidor que não existe. E abrissem assim o Sul aos nossos produtos.15 E sobre as águas fez-se um grande silêncio De todos os compradores. Eu teria sobre as costas toda a carne! Idiotas. Saturado de carne em conserva. E da banha de Kentucky. Quem comprará agora nosso gado? Os estábulos estão cheios De porcos e bois devoradores de milho Que eles devoram ainda nos trens que os transportam. os criadores. Esperando até ninguém poder Mexer nem o mindinho! E eu. Nas estações e nos pátios.

eu quero o meu dinheiro.apontando para Mauler: Falem com ele! CRAHAM – colocando-se diante de Cridle: Não é Cridle. que se lançam sobre Cridle. todo teu estoque. antes de qualquer coisa. na entrada da bolsa: Queda gigantesca das cotações na Bolsa! Venda maciça de ações. Cridle? Levanta os olhos. eu acabo de saber. Veio a baixa. estava acordado. Esses dez milhões são exatamente a soma que devo a Mauler – e ele a exige em vinte e quatro horas. mas três milhões. ave de agouro. ao invés de trinta. Carrega em sua queda as cotações de todo o cartel!. Cridle. OS FABRICANTES: O que significa isso. Tu te desfazes de tuas ações? UM CORRETOR: A cento e quinze! OS FABRICANTES: Ficaste louco? Tua morte. de toda a maneira. preferiu o vosso. MAULER: E por que matastes tanto gado? Açougueiros alucinados sois vós! Agora.16 . mas um outro Quem joga a rede. e o conjunto das fábricas vale dez. MAULER: Açougueiros insolentes é o que sois! O animal torturado parou de mugir. . já vinham caindo. MAULER – O próprio Cridle me confessou que está insolvente: se eu deixasse meu dinheiro com ele.Há quatro semanas apenas eu assinei um contrato com Mauler. E vós soluçais nas saias de vossas mães. Tumulto entre os fabricantes. então! OS FABRICANTES – a Mauler: Corre o boato que teu capital. antigamente Mauler. Cridle. Desde aquele dia. ele vem realizando secretamente vultosas vendas de gado a preços baixos e provocou a queda das cotações que. CRIDLE – dirigindo-se aos que o cercam:. Mas somos atingidos pelo que lhe acontece. e ficando com as outras. nem que fosse por mais uma hora. o que desejo. Falai que um dentre os vossos Não pode mais suportar o grito dos bois morrendo E aos mugidos deles. Isso representava um terço do total das ações. OS FABRICANTES Essa gente não faz as coisas pela metade. nesta conjuntura. a preço vil. provoca muitas outras! Lixo! Assassino! CRIDLE . Foste tu mesmo quem provocou o marasmo! Nossas latas agora não saem mais caro Que a areia dos mares. Eu me propunha pagar-lhe vendendo uma parte das ações dele mesmo. Mauler! Fala. Cala-se e aponta para o dedo para ti. É bom que ele seja nosso adversário. Voltai para casa. E exiges dele o pagamento sem demora. Não é de hoje que fazes tais manobras. que estavam valorizadas. é que me levem a sério. pálido como algodão. que conspurca nosso ninho! Nós sabemos bem quem fez os preços caírem sem cessar Vendendo gado por baixo do pano. Para acabar com Lennox. OS FABRICANTES: Quando ages assim com Cridle. Hoje os papéis de Mauler não valem mais dez. quem de vocês continuaria a me levar a sério nos negócios? Ora.. nós somos os peixes! O que querem arruinar. ao fundo. que já se arrasta. Quero apenas meu dinheiro e a paz de minh’alma UM CORRETOR – urrando. por dez milhões de dólares. Pois tu liquidaste. Ele poderia exigir seu dinheiro quando quisesse.investindo contra Mauler que lê o jornal: Traidor. Ele queria me vender a sua parte. olha para nós! Assim. é o cartel da carne.. tu o retiras Do negócio e Cridle.

Graham.17 Mesmo que tivésseis todos que mendigar. Ei-nos aqui. então. detenham todo o tráfego Em torno de vós os seres naufragam. olhos para ver? Ele é vosso irmão. seja quem for! Levantai o nariz de vosso prato. JOANA . Lançar ao mar os navios de guerra E nos ares. OS CRIADORES: Impossível vender um boi em Chicago. E ninguém se preocupa. o responsável Por esta catástrofe.Nenhuma sequer! OS FABRICANTES – Então. Meyers. Ei. Nesse mundo sempre reinará a injustiça. Os que nos escutam. fiquem diante de mim. Ouvem-se os tambores dos Chapéus Negros e a voz de Joana. não saia! Graham.Pierpoint Mauler! Onde está Mauler? MAULER: O que é esse barulho de tambores que de súbito me envolve? E quem chama pelo meu nome Nesse lugar. Uma explosão de gargalhadas toma a frente da cena. OS FABRICANTES: Oitenta e sete mil latas pela metade do preço. com nossos bois Que hoje ninguém mais quer. E nós dizemos: é preciso ir sempre adiante. Não esperem o amanhã! Cada um deve nos ajudar. meu chapéu. Eu não quero que me vejam aqui. Meu chapéu. Mauler. acompanhada de exclamações. Não falemos mais de negócios. pois tenho outros projetos. nós estamos perdidos! JOANA – Onde está Mauler? MAULER: Slift. Durante esse período a batalha na bolsa continua. suja de sangue? Joana e Marta avançam e cantam o seu hino de guerra. OS CRIADORES: Lennox já caiu! E Cridle balança! E Mauler. Para Illinois esse dia é um desastre! Vocês fizeram os preços subirem. Eu quero meu dinheiro. Com o único objetivo de ajudar o próximo. ele retira o seu dinheiro! OS FABRICANTES: Oitenta mil latas a cinqüenta. para comer? Pensai convosco mesmo: sempre será assim. És tu. com isso. os aviões Para conquistar o pão dos pobres. MAULER: Por hoje basta. Avante! Ao assalto! Empunhem os fuzis! Diante de nossos olhos os homens naufragam. E. seu cão. mas rápido! OS COMPRADORES . Pois os bons nesse mundo Não formam um grande exército. cem dólares pelo meu chapéu. Estimularam-nos a criar bois.Nenhuma sequer! Silêncio. mas rápido! OS COMPRADORES . Uma mulher nos faz sinais de aflição. escutem bem! Um homem afunda sob os nossos olhos! Escutamos lá no fundo seu apelo por salvação. E ninguém se preocupa Não tendes. Fazer avançar os tanques e os canhões. pois preciso partir. Haveis então esquecido Os que esperam diante da porta E que esperam. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Escutem todos. onde cada um revela Sua boca desnuda. Mauler. Parem os carros. .

ver surgir a nós. OS FABRICANTES: Água para Pierpoint Mauler! . acabarão tendo de comer sozinhos a carne que produzem. Risos OS CRIADORES – Nós criadores não encontramos nestas palavras motivo para o riso. gritando – Afastem-nos! Ele desmaia. atrás de mauler – Fique senhor Mauler. JOANA. Vossa imunda cobiça. Inverno e verão nós dependemos do tempo: nós também estamos mais próximos do Deus de nossos pais do que os senhores. JOANA – Um homem de negócios também pode ser um bandido – dependendo do ponto de vista. nas favelas. e a quem não querem reconhecer como irmãos. Reparem então nestas gentes. que se dobram sob o fardo de suas penas. que sentam nesse palácio. Já me disseram o que os senhores fazem: manobras. OS POBRES – Ele é o responsável por tudo! Os fabricantes de conservas correm para socorrer Mauler. COMPRADOR. Mas se os senhores acreditaram que seus procedimentos permaneceriam ignorados. gritando: Por vossa especulação desenfreada. OS CRIADORES. é lá que mora a imoralidade no estado puro e. Traçam essas desconhecidas. vocês. em conseqüência. ao fundo – Pierpoint Mauler passou mal. pobres e deploráveis imbecis. eu bem sei. MAULER. tanto hoje quanto no dia do juízo final. e é verdade. Senhores. os senhores se enganaram. então em suas costas os bois começarão a mugir contra os senhores.18 – Maldito sejas! Cridle sai. destinos inelutáveis. os Chapéus Negros. imaginando que não virão à tona suas manobras. nada além disso. aí pelo mundo. eles que nada têm? Senhores. existe também um poder de compra moral: o dinheiro. são todos uns imbecis. as leis econômicas. Aumentem-no. Não tenham vergonha. As crises são catástrofes naturais. e escute o que eu tenho a lhe dizer. Mas então eu lhes pergunto: de onde tirariam eles alguma moralidade. nada querem saber da miséria que existe fora deste recinto. JOANA – Mas os senhores. seus mugidos serão testemunhos. e diante de Deus TodoPoderoso. engodos e combinações para aumentar o preço da carne. nesses lugares sombrios e secretos onde os senhores tratam de seu comércio. Cujo ciclo pavoroso sempre recomeça. Se os senhores continuarem tergiversando. que fazem subir o preço do pão e que fazem da vida um inferno onde os homens viram demônios. em tom de reprovação Aqui estamos com nossos bois Que hoje em dia ninguém quer. tereis a moralidade. Silêncio! Não lhes agrada muito. pois os que estão lá fora já não têm como comprar. como não seriam os valores mais elevados esmagados em seu coração? Sempre ouço dizer. E os senhores. como fazem em seus jornais. a quem os senhores transformaram no que são. buscando desculpas. Mas nós lhes dissemos que é um imbecil. que os pobres não têm muita moral. Causais vossa própria queda! Bando de imbecis! OS FABRICANTES. avancem à luz do dia. CRIDLE OS CRIADORES: Como? Somos asfixiados e ninguém pode fazer nada? A causa de nossos males é a imoralidade De vossas armações escusas. Joana mostra aos negociantes os pobres (Luckerniddle e Gloomb) que ela trouxe. JOANA – E qual a causa desta imoralidade no mundo? Poderia ser diferente? Se cada um é obrigado a rachar com um machado a cabeça de seu próximo para fazê-lo ceder seu pequeno pedaço de presunto e sua migalha de pão. Nos baixios. replicando: Imbecis são vocês! Ninguém pode nada contra as crises! Bem acima de nós. o salário. a Revolução. todo-poderosos. Se continuarem a agir assim. UMA VOZ.

CRAHAM – A cinqüenta? MAULER – A cinqüenta! CRAHAM: Ele comprou tudo! Vocês ouviram: Comprou tudo! CORRETOR. de todos os estoques do cartel. Nem mesmo do boi que esmaga espigas com seu casco! Em todo o caso. Mas os dois que estavam ao lado dele. eu. a contar de hoje. A tal ponto dependentes de alguma comida E de um pouco de calor. o que fazeis? Vós me ordenastes não dizer uma palavra. nós conhecemos. Eles parecem bem piores. meus amigos. OS FABRICANTES – Ele comprou! Mauler comprou! MAULER – Ao preço do dia! CRAHAM. assume compromisso sobre a produção de dois meses.. por favor. OS POBRES – Gente como essa. ao fundo. qual burros de carga. e por vós mantidos Nesta pobreza. Tu quem os reduziu à tamanha miséria. MAULER – Agora. também ao preço de cinqüenta. levantai-me. MAULER: Afastem-nos. cumprimos nosso trabalho de [missionários. que mantendes longe de vós. Quem em seu seio habita Jamais será infeliz. Torna-se comprador. ao preço do dia. eu compro! Escutai todos: Pierpoint Mauler compra! Que estas gentes tenham trabalho e que se afastem. MAULER. JOANA: É isso. OS FABRICANTES – Quem? Os Chapéus Negros? Quer que eles saiam? MAULER – Não. Invisíveis para vós. gritando em um megafone – Pierpoint Mauler reanima o mercado da carne. voltando a si – Eles ainda estão aí? Eu suplico que os afastem. vós me mostrastes a imoralidade deles. Que viver assim pode mesmo afastá-los Da necessidade de um ideal. Mauler. deitado no chão – Eu compro. em 15 de novembro. cantemos: “Nunca faltará o pão. eu vou falar. como eles sim. antes de partirmos. Compro. O cartel entregará a Pierpoint Mauler. SLIFT – Ele não abrirá os olhos enquanto não os fizerem sair. ao instinto animal.” OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Nunca faltará o pão Ao que dedica a Deus sua alma. CRAHAM: Então! Não podes vê-los? No entanto foste tu. E não basta que cerres as pálpebras Para que eles desapareçam. para eles inacessíveis. Mas quem sois vós. . levantando-lhe a cabeça – E os estoques? MAULER.. e reduzi-los À voracidade. JOANA – E agora. eles não. Além disso. afastados dos bens indispensáveis. Aos pobres: Segunda-feira vocês terão novamente trabalho. aí em cima. levai-o agora. pelo menos cinqüenta mil toneladas de conservas. No seio de Deus não há frio.19 Um médico para Mauler! JOANA: Mauler. Eles. E vós. E lá. Nós. estão tão enfraquecidos. Os que estão atrás. então Para querer fechar a boca do Bom Deus? Não se deve calar a boca de ninguém. tudo o que em oito semanas conseguirdes [fabricar. Eles o levantam. vos rogo. E fome nunca se passa. nós nunca tínhamos visto. Eu vos mostro agora a pobreza dos pobres.

Para tal negócio. os operários entrarão. enfim do ponto morto! Confiança e concórdia estavam fortemente abaladas. Sua consciência já despertou. E ele faz meter carne em latas Que ninguém comprará. VI A Captura dos grilos NA CIDADE CASA DO CORRETOR SULLIVAN SLIFT. Que carecem tanto uns como os outros? CRIADOR. cutucá-lo. Pois ele pode vir em auxílio. ele não encontrará Um centavo. Nós estamos sob uma miséria atroz. pois nós também. sabiamente acatada. Música a partir das 3 horas. às duas horas. de São Francisco a Nova Iorque. Contra a desrazão. entrada gratuita. Não o deixaremos descansar Enquanto um homem precisar de ajuda. dentro da casa. Ele cumpre. nenhum. discute com Slift – Fecha a porta. dirigindo-se à Joana Aquilo que disseste e tua intervenção Causou-nos forte impressão. O homem que o assinou não estava em seu juízo. Slift. Sábia decisão. É preciso. Pois o contrato que acabam de ver firmado É apenas um pedaço de papel. e diga se realmente todos podem ler em meu rosto? SLIFT – Ler o quê? MAULER – Ora! A minha profissão! SLIFT – Teu ofício de açougueiro? Diga-me. por que te impressionas com os discursos dela? MAULER: . Recusa-se a engolir mais. Se estiverem muito necessitados. Agora os senhores podem respirar. Escutem: saímos. Joana e os Chapéus Negros saem. na Rua Lincoln. Nesse momento o mercado recobra a saúde. Aqueles que dão o pão. ao criador: O que Mauler promete. liga as luzes e agora repara em mim. Os patrões vão reabrir. saturado de conservas. açougueiros infames! Enquanto vocês não dobrarem o preço do gado Não entregaremos um só grama de carne. O estômago do país. Venham comigo procurá-lo Para que ele os tire do embaraço. Mauler. seguidos dos criadores. OS CRIADORES: Agora os preços subirão. JOANA: Saibam todos: estou de olhos em Mauler.20 OS COMPRADORES: Este homem está ruim da cabeça. E vocês precisam dela. aqueles que o recebem. JOANA – Todos aqueles que se interessam realmente pela palavra de Deus e que querem saber o que ele diz e não apenas a cotação da Bolsa podem vir domingo à tarde assistir nosso ofício. SLIFT. a sabedoria triunfa. OS FABRICANTES: Podem guardar sua carniça podre! Não estamos interessados em comprar. Podem esquecer seu nome. PEQUENO IMÓVEL COM DUAS SAÍDAS MAULER. Os fabricantes de conserva saem. então. As fábricas reabrem e as chaminés fumegam! Pois efetivamente é de trabalho. Muitos criadores se transtornaram. não é.

Levantar-se-ão com a aurora e por-se-ão em marcha. Sabias que tu compraste hoje tudo aquilo que pode ser colocado dentro de uma lata de alumínio? Meu caro Mauler. Há sempre boquirrotos que acham Que as coisas não andam como deveriam. (À parte:) Farei com que ele coma um filé muito mal passado. Isso não pode mais perdurar. E dezoito horas por dia. mas permita que eu te exponha simplesmente a situação. MAULER: Sempre me pergunto por que essas tolices me afetam: Discursos plenos de utopias. SLIFT: Em cidades como as nossas. um após o outro. Tudo isso são ainda meras desculpas O que temo não é Deus. vejo-te mergulhado na contemplação de teu ser grandioso. no entanto. meu caro Slift. por mais louca que seja. É outra coisa. SLIFT – E o que é.. Esquecer todo o resto. Certamente porque essa gente trabalha a troco de nada. Esfolarmos uns aos outros friamente. Fórmulas tomadas ao coração. caro Pierpoint? Pense que agora podes fazê-lo sem peso na consciência. Agora. de onde se eleva uma cólera Que nos varrerá a todos. Nós que aqui estamos.. qual onda. MAULER: Tu crês que eu deveria? Eu poderia. eles são muito numerosos. Talvez depois de comer carne crua ele retome seus instintos. retorna.. Tagarelice vazia e fácil. É sua antiga fraqueza que retorna. lançar-nos-ão Ao chão como um peixe podre. Então creio sentir Como um peixe aprisionado entre duas águas Pauladas na espinha. E pense em tua situação: ela não é muito boa. talvez. Sob a chuva e de barriga vazia. pois desde essa manhã tu nada tens a ver com a morte dos bois. que mais não vi. Ele se afasta e começa a grelhar um bife no fogão. por mais externa e sem importância que ela seja.. E quando da onda emana uma voz Que nada tem de bestial.. Para estes que caem em nossos porões sangrentos.. Onde o fogo arde embaixo Enquanto congela-se em cima. MAULER: Mas que dizem eles? Essas cidades São um braseiro jamais extinto Onde. urrando. Se nos apanharem um dia. Não. Eu deveria podê-lo de novo. Para limpar esse mundo. Seremos colados ao muro. Que não sabem como passarão a noite mas. Máscaras da aflição. não é? SLIFT – Come. Não conheceremos a morte em nossas camas. vender e lutar sem parar. A urrar de aflição. Nós e nossa corja. a humanidade. Seu número aumenta a cada dia. irei confessar-te Minha verdadeira opinião sobre nossos negócios: Comprar.21 O que ela disse? Eu não ouvi nada. então? MAULER: O que vive abaixo e não acima De mim! Esses seres reunidos nos matadouros. Slift. . Tão forte. SLIFT – O discurso deles te perturbou. Por trás havia rostos selvagens. Não há mais consolo. SLIFT – Não queres comer um pouco de carne.

então. Parece. MAULER: Oh! Slift. hoje. eles me escrevem para comprar. caro Pierpoint. . então? Mauler sorri. é verdade. Facilmente nascem guerras À custa de tais atitudes. esmagado. E uma vez lá. mais notícias. eu estou perdido! Esse é o meu fim.” SLIFT. os preços cairão a trinta.. na melhor hipótese. de anunciar-te que nosso dinheiro começa a render seus frutos: muitos são aqueles que. os preços Subam? E nós acabaríamos.“Estamos em condições. Na carta que recebi de Nova Iorque essa manhã. SLIFT – E o que escreveram. Mas esta mulher comoveu-me a tal ponto Que mal lancei os olhos. eu comprei. muitos de meus concorrentes balançavam. safa-se. assim. Corromper ou abolir as tarifas. Ah! Meu caro Slift. ou a vinte e cinco. rir-me deles. eu comprei! O que eu fiz! Coloquei sobre minhas costas toda a carne desse mundo! Trôpego. MAULER: Corromper assim. Os preços baixarão novamente. Essa seria uma saída. É coisa que também não se deveria fazer. Não é qualquer um que pode. indicado. Em quinze de novembro. Receberás. Milhares de homens sangram Por causa deste imundo dinheiro. Ou desencadear guerras. Slift. qual Atlas. SLIFT – Tu deves fazer o que? MAULER – Comprar carne. SLIFT: Tudo depende de quem escreve a carta. continuando a leitura . SLIFT – E por que reclamas de ter comprado? MAULER – Sim.. SLIFT – Quem são. Sim. O ladrão está perdido. sob os arcos de alguma ponte. a não ser que golpeie Y Se ele golpear. eu me escutei dizer: “Eu compro tudo”.. eu te juro. escapando bem. Ah. comprar carne. MAULER: Tu compreenderás. teus amigos de Nova Iorque? MAULER – Que eu devo comprar carne. na Câmara. Ainda pela manhã. Eu fui vê-los cair. acredito.22 Primeiro compraste ao Cartel um estoque de vinte mil toneladas de conservas. deverás escoá-lo em um mercado que já não consegue absorver uma única lata. de resto. Aqui está: “Caro Pierpoint. Realmente eu não vejo sentido nesta carta. Cairei. amanhã. eu estou perdido. Estão erradas. quando os preços estiverem em trinta. Mas ainda há a carne Que no mercado liquidarão cem criadores Muito ávidos. Mas não foi por causa da carta. essas teorias de gabinete. mas Y o surpreende. apesar de tudo. eu tenho a impressão De que nada de bom sairá daí. Escuta: X comete um roubo. Essas pessoas são gente de bem? MAULER – É gente com liquidez. Não. Nas semanas vindouras. Então pode ser que. eu não agi por razões vis. Sob o fardo de toneladas de latas de alumínio. o Cartel te entregará mais cinqüenta mil toneladas a cinqüenta. SLIFT – E tu compraste! MAULER: Oh. sim! Eu comprei carne. votarão contra as tarifas aduaneiras. dizer-lhes Que ninguém era louco o suficiente Para comprar carne em conserva. Tu as compraste a cinqüenta mas..

é verdade. é preciso que eu lhe fale da miséria dos criadores de Illinois. não foi bom. Traga-me até a menor mancha de gordura. como quem captura um grilo. No interior da casa. Antes de ter saído dessa. eu vou comprar. Mauler. Senhor Mauler. Slift tragame tudo o que se pareça. MAULER: É verdade. não sairemos daqui! MAULER – Tu dizes Graham? É verdade que ele precisa de gado? Saia. Ele não gosta muito de me ver. no fim. Feliz se. Slift. Ele desenha um “A” na porta de um armário.23 Da mesma maneira a carta – que está errada – Requer – para acertar – um crime desta ordem. Quando ele me ouvir cantar aqui. àquela gente que está com ela. Persuadir os criadores da oferta excessiva. eu compro. eu não comprarei! Eu que já carrego toda a carne desse mundo. aos criadores – Pierpoint Mauler está examinando vosso pedido. para o outro lado. todo esse gado? SLIFT – Vejo apenas Graham. SLIFT – Qual crime? MAULER: Um crime que eu não poderia cometer. diante da porta da esquerda – Enquanto os criadores não forem ajudados. (Os criadores colocam-se diante da porta da direita. SLIFT. das fábricas paradas. Pierpoint! MAULER: Ah! É verdade. Joana diante da porta da esquerda. OS CRIADORES. Devo comprar ainda todo o gado de Sírius? É como se alguém viesse dizer a Atlas Que não mais agüenta. Toda a carne posta em conserva até hoje. Nem a mim nem aos que me acompanham. tentará sair pela outra porta. sobretudo. grandes lucros! É verdade que o ganho seria apreciável. Isto é o principal: Sumir com o gado. Slift. Quem me comprará. minha decisão está tomada. nem chapéu nem sapatos. Joana entra acompanhada dos criadores. Não. eu estou comprando e compro ao preço do dia. MAULER – Eu não compro. Retumbar de tambores. Também trouxe alguns trabalhadores que adorariam perguntar-lhe quando o senhor reabrirá a sua fábrica. depois. e tudo o que cheire à banha eu compro também. SLIFT Tu que não querias mais comprar um chapéu. que precisa bastante. tiver cem dólares no bolso. de seus delitos. diante da porta da direita – Sai. (Ele calcula. Slift? Não quero reencontrá-la e. JOANA. Agora. E por agora também não penso em reabrir a fábrica. Lembrá-los de Lennox. Tu és o responsável por nossa desgraça. Eu não compro mais nada. mais de dez mil criadores que não sabem mais a qual santo rezar.) Slift. Os enganados serão os criadores. Eu fiz “A”. E comprar-lhes tudo. (Ela ri. JOANA – Nós o faremos sair de sua toca. a partir de hoje. Ele pede-vos dois minutos de reflexão. então. em todo o Illinois. MAULER – A outra saída onde é. Slift. e diga-lhes que quero refletir dois minutos.). Vais comprar todo o gado de Illinois. E nós somos. Slift sai. SLIFT – Por aqui. dobrando-se sob o peso da terra: Saturno também precisa de apoio. ele se dirige à porta da direita. A operação é simples: seria preciso comprar Todo o gado que se encontrasse em pé. de perto ou de longe. . quero paz em minh’alma. SLIFT – Não deverias ter comprado. eu não quero meter o dedo neste negócio.. Compra então o nosso gado! MAULER: Fecha a porta. Pois. a cinqüenta. Que eles tirem. para evitar me encontrar. Mas então. Vão para lá.) Saia. Slift. com um porco ou com um boi.. Slift volta.

mas não fizeram nada. se levantando – Que mixaria! Que mixaria! (Dirigindo-se a alguns pobres. GLOOMB – Muitos já dizem que se não empregarem a violência não haverá trabalho para todos tão cedo. Mas seu nome não deve ser mencionado. Mas Deus todo poderoso Achará os meios de alimentá-los! BISPA SNYDER. Trabalham duro e vestem-se decentemente. frente a Deus. BISPA SNYDER – Não se aproximem muito da caixa! Ele fez sinal para que eles recuem até o fundo. em nome de Deus. para vocês também haverá pão novamente. mas por enquanto não se preocupem. Em seguida comete “B”. Talvez isso tenha a ver com o fato de que eles não possuem nada. Eles não são como os outros. salvador do comércio! Eles entram na casa. proprietária do imóvel. (Aos operários:) Quando os que compram gado e os que o vendem se acertarem. que cada um volte alegremente às suas funções. Eles não têm pão. tão errado quanto “A”. grita a eles – Digam ao senhor Mauler que os Chapéus Negros lhe agradecem. o que foi feito dele? BISPA SNYDER – Meus caros Chapéus Negros. Pierpoint Mauler resolveu comprar todo o gado que se encontrar no mercado. sábado próximo. dona Mulberry. sobretudo nas camadas inferiores da população. pelo que acaba de fazer. Comandante dos Chapéus Negros. um grande golpe no ateísmo e no materialismo que reinam nesta cidade. Entra dona Mulberry. uma avareza completamente inexplicável. dão certo. O dinheiro nos permitirá também pagar à nossa querida proprietária. OS CRIADORES – Viva Pierpoint Mauler. DONA MULBERRY – O que me agradaria muito. (Os Chapéus Negros saem. GLOOMB – No começo falaram em reabri-los.24 Dominado por seus sentimentos. e. Infelizmente. ao fundo. os dispensados esperam ainda pacientemente na porta dos matadouros ou já começam a dar discursos revolucionários? DONA LUCKERNIDDLE – Desde ontem gritam bastante. não se esqueçam de varrer a escada. entre os quais dona Luckerniddle e Gloomb:) Vocês de novo? Vocês passam a vida aqui? O trabalho voltou nos matadouros! DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. Ela sai. Alguém se equivoca: “A” é um erro. Assim eu decidi. E eis que “A” e “B” tomados juntos. DONA MULBERRY – E meu aluguel. Faça entrar os fazendeiros. sobretudo. que eles nos ajudem a desferir. o aluguel que ela tão gentilmente tem adiado. minha cara dona Mulberry. caros ouvintes! Para resolver o delicado problema do financiamento nós até agora apelamos aos pobres e aos mais pobres. Aos pobres:) Digam-me. não é preciso que as vendas sejam feitas em seu nome. os Chapéus Negros esvaziam suas latas de ferro e contam ao óbolos das viúvas e dos órfãos. . SLIFT. Suas misérias são grandes. BISPA SNYDER – Agora. sai e se dirige aos criadores – Para salvar Illinois e impedir a ruína dos fazendeiros e criadores. pois eles sabem que as fábricas receberam encomendas. acabamos constatando que esses segmentos demonstraram. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Recolham cantando Os trocados dos órfãos E os trocados das viúvas. JOANA. que são gente de bem. Que dão medo de olhar. Eles não têm teto. VII Os mercadores são expulsos do templo TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS Sentados em uma longa mesa. convidar em vosso nome as pessoas ricas e bem colocadas de Chicago.

portanto. SLIFT. OS FABRICANTES – Por que falar em pagamento? BISPA SNYDER – O pagamento do qual falamos é feito após a morte. mas que serão. mais então. é saber de que lado vocês estão! Desse lado da barricada ou do outro? BISPA SNYDER – Os Chapéus Negros. OS FABRICANTES – E quanto querem pelo serviço? BISPA SNYDER – Oitocentos dólares por mês. Graham. Quinhentos dólares. sem que ninguém saiba como. Entram os fabricantes de conservas: Cridle. SLIFT – Quem poderia ser? GRAHAM. Bispa Snyder! Todos riem. MEYERS – O que não será fácil. confesse Slift. e vá dizer ao Pepê Que afrouxe o laço. sim! Vocês agora terão que achar alguém que faça a doação. É nosso nervo vital! SLIFT. recompensados por suas penas. Meyers. os Chapéus Negros. GRAHAM – Até tu? E Mauler também. portanto. tão certo quanto eu estou aqui. afirmando que sois vós os responsáveis pelo desemprego! Em breve eles dirão: queremos fazer como os bolcheviques. Nós também prometeremos a eles que os ricos serão punidos. tomar as fábricas em nossas mãos para que todos possam trabalhar e comer. quinhentos? GRAHAM – Quinhentos sim. sem dúvida? SLIFT – Sem dúvida. após a sua morte. (Os fabricantes de conserva caem na gargalhada) E tudo isso por apenas oitocentos dólares por mês! GRAHAM – Não precisas de tanto. BISPA SNYDER MEYERS Há um cretino que razia o gado E que sabe bem que estamos comprometidos A entregar carne enlatada E que. Do lado de cá.25 – Isso nos é favorável. a Snyder – Quinhentos dólares? Isto é muito dinheiro! Quem vai pagar? SLIFT – Ah. Nós. senhora bispa. a Snyder – O que querem de nós? GRAHAM. no púlpito – Nós. SLIFT – Mauler e eu não compramos um centavo sequer de gado. MEYERS. o Pepê está com o gado. os reis da carne nos escutarão mais facilmente. Slift! MEYERS.. dando-lhe um soco na boca do estômago: Velho cão imundo! Vamos. MEYERS – Eu me pergunto.. minha cara. E já citam vossos nomes. Graham.. Se vierem para cá tocados a pedradas. mas que ela é provocada por aqueles que dela tiram vantagem. BISPA SNYDER. .. MEYERS. um dia. estão acima da querela. Slift. Na mosca. que eles estão destinados ao sofrimento. vocês certamente precisam. não enrole. não gosto disso. MEYERS – Setecentos e cinqüenta. a Snyder – Todos pobretões. Slift? (Slift simula um ar astucioso e exagera na mímica do ato de dar dinheiro). BISPA SNYDER – Podemos dar um jeito com setecentos e cinqüenta. os Chapéus Negros. diremos a eles que a desgraça vem como a chuva. então.. na frente do palco – Então. Que tal. GRAHAM. menos Snyder. a Meyers – Essa senhora não tem senso de humor. onde poderia estar todo o gado! GRAHAM – É o que eu me pergunto também: onde poderia estar? SLIFT – Eu me coloco a mesma questão. Deus é testemunha. ouvimos dizer que há nos matadouros cinqüenta mil pessoas sem trabalho. a Snyder – Desembuche! Eles se sentam no banco dos fiéis. bispa. precisamos de sopa quente e música animada. Porque já começam a dizer por todos os lados que a desgraça não cai do céu como a chuva. Já é melhor.. (Aos outros) Eles carecem desta quantia. precisamos do gado. Senhor Slift. novo soco – Que tu achas que eles querem. GRAHAM – Confesse. (Aos pobres:) Vocês não poderiam ao menos cortar lenha para nós? OS POBRES – Não há mais lenha. E que alguns entre eles começam a resmungar e a dizer: devemos nós mesmos cuidar do negócio. são vocês que estão com o gado. SLIFT – O essencial.

Se essas pobres criaturas. gritando alto a Joana – Ah. JOANA. supúnhamos que iriam retomar o trabalho. aos fabricantes: Esses pobres continuam a esperar trabalho? Silêncio dos fabricantes Eu que pensava que eles estavam arranjados! Faz já oito dias que neva nas costas deles. Parece que podes fazê-lo agir ao teu gosto. pagaremos o aluguel dos Chapéus Negros por quatro anos. mas não fizeram nada. ao me veres aqui. indo de um lado a outro. GLOOMB . Mas agora. e eu. Para que ninguém mais vá olhar de perto. Nós queremos reabrir nossas fábricas. Se fizeres isso por nós. e a religião vos parecerá de novo algo de muito bom. ajudo também aos de baixo. entretanto. dizendo-me: ajudando aos de cima. Mas o Bom Deus tem uma opinião muito elevada de Si mesmo para ser sempre a vossa babá para todo o serviço e para vir limpar vossas cavalariças.) Saí! Quereis transformar a casa de Deus em um estábulo! Saí! Nada tendes a fazer aqui! Cabeças como as vossas. e que os operários poderiam comprar a carne. JOANA – Por que não trabalham? Não arranjei trabalho para vocês? DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. Haveis perdido então todo o respeito pelo que se parece humano? E ousais anda vir à casa de Deus porque possuem o vil metal? Sabe-se bem de onde haveis tirado esse ouro e como o haveis adquirido. Mas cruel é a fome: Renasce sempre. vós então vos borrareis todos. SLIFT – Mas querem antes estrangular os agricultores! OS TRÊS – Como abater gado que não existe? SLIFT – Quando Mauler e eu compramos a carne de vocês. eu sei o que faço. mal tendo sido saciada. sem pena também Esqueci o que todos se apressam em esquecer Para rapidamente estar em paz com suas consciências. que ela usa como se fosse um porrete. senão ficam imobilizados. e rápido. Sois indignos e eu vos expulso! Apesar de vosso dinheiro! . que haveis atormentado ao extremo. própria para jogar água na fervura. perdi demasiado tempo até sabêlo. aí estás! Nós não estamos muito contentes contigo! Tu não poderias dizer uma palavrinha de nossa parte à Mauler? Parece que tens sobre ele alguma influência. Dirigindo-se aos fabricantes: Mauler.No começo falaram em reabri-los. quem comerá a carne que nós compramos? E para que nós a compramos. GLOOMB. qualquer um que queira ajudar aos pobres deve ajudá-los a protegerem-se de vós. empunharem um porrete para bater em vossas cabeça. Estou pronto. avançando: As vinte refeições foram comidas! Não te irrites. É preciso ser muito tonta! Na verdade. Esta neve os mata. E eu. e nessa atitude há alguma coisa que parece exploração. ela está espantada – O que fazem vocês aqui? DONA LUCKERNIDDLE. pois. avançando: Eu te conheço: tentei te convencer A trabalhar nas serras que me cortaram o braço. É o seguinte: alguém sumiu com o gado do mercado de uma maneira que somos obrigados a ficar de olho em Mauler. Dizem que ele come na tua mão. É preciso que ele libere o gado. JOANA. se os consumidores não têm com o que pagar? JOANA – Em vossas gigantescas instalações e vossas fábricas detendes as ferramentas dessa gente: deveríeis ao menos permitir que eles as usassem. olhando os pobres.26 Entra Joana SLIFT – Aí está a nossa Santa Joana da Bolsa de Carnes! OS TRÊS. comprou-vos conservas Por minha solicitação! E não reabristes ainda? OS TRÊS – Está correto. para fazer pior. Os Chapéus negros aparecem na porta. da tua vista sairia. hoje. Não me detenham. nós não queremos mais ver. Saí. senão lançar-me-ei sobre vós e golpeá-los-ei a cabeça. mas também os esconde De todos os olhares. (Joana sai atrás deles com o mastro de uma bandeira. De bom grado. Basta que alguém diga: está acertado.

ela não representa ninguém. BISPA SNYDER: Infeliz ignorante! Como não vês que operários e patrões. Enquanto não tiver feito de Mauler um dos nossos. Doravante farás parte dela. Mediadora inútil e que cava a própria cova. pois esses que te seguem não são mais do que escória e refugo. não temos mais um centavo. prisioneiros Em uma torre de marfim. Grupos inimigos irreconciliáveis. aos Chapéus Negros – O que acabo de fazer certamente foi pouco habilidoso. tudo bem. entretanto. É mister que haja um Justo entre eles! Ela sai. de volta Convida a tua casa. Mesmo que o dinheiro os carcoma como um câncer Devorando o que seu resto tem de humano. ela retorna vestida como uma jovem camponesa. Trazendo-vos totalmente convertido. DONA MULBERRY — Sim. Povoada de cânticos e palavras que despertam. e a partir de sábado à noite. BISPA SNYDER. dona Mulberry – que ele encontrou sobre a terra. eu lhes trarei a sopa. não tem nenhum mandato! É apenas uma mulher que perdeu a razão! Ela está despedida! Ela fará pelos senhores tudo o que desejarem. terá de se mudar. . está bem. Homem de boa fé e destemido. na ponta dos pés. é bem disso que se trata! Falaste a palavra exata! Se o Bom Deus paga. Mas se ele não paga. Enfrentam-se como gigantes? Vá. Se o Bom Deus não paga o seu aluguel. então. no coração da tormenta. Mesmo que ele os torne surdos.27 – Está bem! Mas conosco. Queres. bispa Snyder? Ela sai. Nem outra vez cruzar o limiar dessa querida casa. OS TRÊS Joana sai. JOANA Irei ver o rico Mauler. De qualquer maneira. de um ao outro. DONA MULBERRY. não se vão. Por causa do aluguel. BISPA SNYDER. onde não escutam mais Os pedidos de salvação do resto dos humanos. é muito justo que pague. modestamente. ah. tudo mal. correndo sai atrás deles – Fiquem senhores. Serve-lhes água de chuva e belas palavras Pois do céu não lhes vem mais do que neve E não misericórdia! A humildade. fracos. Tu que planas mais alto que as questões terrenas! Parta sob a chuva. Nós iremos viver dias terríveis. tu a ignoras E cedes a teus impulsos! É mesmo muito fácil Caçar esses impuros com um gesto cheio de orgulho. comê-lo também! Vá-te então. JOANA. esses pobres. vão-se irrevogavelmente quarenta meses de aluguel. Mas como deixar-se levar por isso? (À dona Luckerniddle e a Gloomb:) Sentem-se lá no fundo. Quanto ao pão que precisamos comer. oferece teus bons préstimos. entrando — Vocês já arranjaram o dinheiro? BISPA SNYDER – Deus encontrará logo o meio de pagar o abrigo bastante modesto – eu disse modesto. agora. Eu pedirei sua ajuda. Eu não desejo Colocar novamente o chapéu e o uniforme negro. Vá sob a neve e continue intransigente! JOANA – Quer dizer que devo tirar meu uniforme? BISPA SNYDER – Tira o uniforme e arruma tua bagagem! Sai desta casa e livra-nos da escória que arrebanhaste. Ela carrega uma mala pequena. Fazes-te de difícil e és muito curiosa Para saber como é feito. como jamais viu antes o mercado do gado! Saída dos fabricantes de conservas. Anda cuidar de tua vida.

os preços a oitenta. Ela não tem medo de nada. no seu escritório? Sempre achei que o senhor devia possuir um dos grandes palácios de Chicago (Mauler se cala). Faça subir. Mas o senhor tem razão. Serão obrigados a comprar a carne Que devem nos entregar. Eles precisam comprar de nós. A mim também Teria expulsado. desta vez. de perto ou de longe. de ser cuidadoso. E todos aqueles que como ele. Senhor . É que eu não estou mais com os Chapéus Negros. SLIFT: Estou feliz. E os preços Subirão ainda mais. Terão de pagar mais caro. e de que. É um belo sofá que o senhor tem aqui. posso me interessar mais por cada homem em particular. meu caro Slift. carregando uma mala. Ele sai. Deixar que gritem: “É um crime!” Entra Joana. SLIFT. Eu desmenti. Mauler. Então eu disse a mim mesma: vá dar uma olhada no que se passa com o senhor Mauler. Neste mercado de Chicago Todos os bois que se escutam mugir São nossos bois. dá rédea solta a teus corretores! Deixa-os correr o mercado. Não pretendo soltar um só grama de carne A fim de arrancar-lhes mesmo a pele desta vez: É a minha natureza quem exige. Deixo minhas coisas nesse canto. queriam esperar Que o preço do gado caísse o mais baixo possível. Não se fala mais dela.28 VIII Discurso de Pierpoint Mauler sobre a absoluta necessidade do capitalismo e da religião ESCRITÓRIO DE MAULER MAULER: MAULER: Chegou enfim o dia em que nosso caro Graham. Vou ver como eles compram. senhor Mauler. Gostei muito de vê-la expulsá-los do Templo. em sua casa. que tu tenhas superado Teus recentes acessos de fraqueza. mesmo nas pequenas coisa. Graham e companhia ficarão então parecidos À lama. Slift. mas por que o lençol em cima. Houve discrepâncias entre nós. onde enfiaremos o pé Unicamente para ver a marca que deixa. E na nossa mão é mais caro. se eu estivesse lá. Mas o senhor. Não é fácil encontrá-lo. Slift. Desde Que ela nos expulsou do Templo. Gosto nela deste traço. Assemelhem-se a bois ou porcos. Dir-se-ia Que Chicago a engoliu Em sua negra e ruidosa bruma. SLIFT: E tua Joana? Algo de novo? Um boato corre na bolsa: dizem Que te deitaste com ela. senhor Mauler. MAULER: Seria preciso esfolar esta cidade maldita E ensinar-lhes o seu ofício A essa gente. por um momento. Em busca de animais que. e que nem mesmo está dobrado direito? Diga-me: o senhor dorme aqui mesmo. Não se possa aceitar gente da minha laia. Agora que não tenho mais o trabalho fatigante da missão. MAULER: Agora. realmente. JOANA – Bom dia. e cada porco Que eles precisam nos entregar.

Mas eu o encontrarei. quando nós expulsamos os ricos de nosso templo. JOANA – Os operários continuam esperando nos matadouros? MAULER Por que és contra o dinheiro? E por que então. naqueles pátios imensos. que vive do aluguel. Mauler vai até o fundo do palco e chora. MAULER – Não te inquietes. nos deu prazo só até o próximo domingo. Eu quero dar-vos alguma coisa Para provar-vos a bondade de meu coração. e que agi bem. Eu irei à Bolsa encontrar o dinheiro que lhes falta. mesmo à noite. O escuro caminho que leva aos matadouros. MAULER: Tão mudada! Apenas oito dias! Onde ela esteve? O que ela viu? E por que essas rugas em torno dos lábios? Esta cidade de onde ela saiu. arrancar a pele desta cidade. Um trabalho ruim. Eu não conheço. Mas contigo não será assim. É por ti que o faço. MAULER – Ah! E agora os Chapéus Negros estão em uma situação financeira difícil? JOANA – Sim. ainda por cima. eu lamento Que o trabalho ainda demore nos matadouros. eu não comerei. Queres? Joana observa a comida. JOANA – Senhor Mauler. é lógico. vá dizer-lhes isso. não faço mais parte. Eu te encontro bastante mudada.. tenho boas esperanças de que sua consciência esteja em paz nesse momento! MAULER – Então não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Não. Quando não o tens. ser ou não ser. Trata-se de saber Se eu serei o melhor de minha classe Ou se tomarei eu mesmo. Mas nesse negócio. muda logo a tua cara? . eu buscarei o dinheiro a qualquer preço. Corra. É Mauler quem vai dá-lo. é claro. na minha vez. o que me agradou muito e me pareceu justo. e aos Chapéus Negros é preciso auxiliar. Ela começa a comer avidamente. Assim como aos criadores. Uma vez mais. JOANA – . senhor Mauler! MAULER Tome. Há quanto tempo não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Oito dias. Estás de acordo? JOANA – Sim. Mesmo que deva cortar na carne. Confirme que foi por teus conselhos Que eu. Joana pára de comer. aos fabricantes. Que meu comércio não é antinatural.... sim. Ele traz comida a ela em uma bandeja.. não como eu queria. Eis o desafio. JOANA – Sim. não querem partir. Teria adorado ouvir-te dizer Que o que eu faço está bem. Aqui está por escrito. Toma.29 Mauler. Daqui até sábado. MAULER – . Eu confesso cruamente. MAULER – Vá dizer-lhes que o dinheiro está chegando. a coisa não andou. Nesta história dos cinqüenta mil trabalhadores. O dinheiro.. está caro. Eles são cinqüenta mil Que permanecem lá. E que. o dinheiro para vocês eu terei. de pé. encomendei a carne. Vou agora mesmo à Bolsa para procurar o dinheiro. a proprietária. E foi por isso que eu me disse: irei ver o senhor Mauler. Eu também. E como eu sei que sois pobres E que querem privar-vos Do teto que vos abriga. MAULER – E do que tens vivido? (Silêncio de Joana) De nada.. senhor Mauler.. senhor Mauler. Não pude dar-lhes trabalho rapidamente.

Mas mesmo assim verdade: Sobre a terra nada há de sólido. Apanhe o que te dão. eu que nutro Poucas simpatias pela ordem do mundo. Como esses bobos para os quais o dinheiro Tem não sei qual problema. isso será suficiente. . Ou então seria preciso mudar tudo. JOANA Senhor Mauler. eu deveria estar feliz De ver que alguém vem em ajuda a Deus. Seria como um mosquito Tentando se opor a derrubada de uma montanha. Modificar por inteiro o plano do edifício. ou quase. diga-me. Mas eu faço parte daqueles Para quem essa não é uma ajuda. Ele alcança o papel a Joana. aliás. durmo mal à noite. Tão penosa de construir. de cima a baixo. Esse sistema é o único que permite arrancar O que pode ser arrancado dos rigores desse mundo. Que seria suprimido por falta de utilidade. sem dúvida. Obra imensa. Não enchas a cabeça de falsas idéias. É à sorte. veja bem. E que. Pouco agradável. eu concordo. Ao menos a vida de alguns. destruído na mesma hora. As coisas não deixariam de seguir o seu curso de antes. Eu não compreendo E nem quero compreender. Fazendo Dele a única salvação.O que nós não vos exigiremos de nenhuma forma – Devem dizer ao menos que eles são justificados. Desde que existem sobre a terra. Concepção inaudita à qual vós mesmos. Sim. E se vós não precisais se expor aos sacrifícios. Daqueles a quem ninguém oferece nada. nem nós tampouco: Não seríamos necessários. Quero saber. Se eu quisesse me retirar. Olha também como o mundo é feito! Que edifício! Obra dos homens. sob chuva e frio. Pouco ou muito segundo o caso. Ela se levanta. Para que Ele finque pé nas favelas E para que Sua voz retumbe nos matadouros. Não desejais. malgrado os sacrifícios. E incessantemente construída. nem Deus. MAULER . Mas pensa na realidade.30 O que pensas tu do dinheiro. sob gemidos. Que o gênero humano está entregue. Eis porque esta obra é sempre defendida Pelos melhores entre os homens. O dinheiro é um meio De melhorar um pouco a vida. Por isso vós deveis nos ajudar em nossa obra. Atribuir ao homem um lugar totalmente diferente. Isso que o senhor falou. Por Ele batendo os tambores. Assim. Ainda que dia após dia se precise reconstruir O que dia após dia é destruído. Eu sei. Em uma palavra é preciso que vós Restabeleçam Deus em sua glória. Eu seria varrido. Mas saiba com qual objetivo foi dado! Tome isso! Saiba que representa O aluguel de quatro anos. Na banal verdade.

marchava à sua frente. levanta-te.31 Leva aos Chapéus Negros este dinheiro E poderás ficar com eles. do que os pardais Que se poderia colocar em tal lugar. Que alguém gritou em algum lugar. pulsando vida. e então eu me vi: À vossa frente. E nada comerei além do que eles comem. Eles formavam uma massa tão densa. Perto dela Gloomb e dona Luckerniddle. se o senhor quiser me ver Me verá nos matadouros. silhueta múltipla. Notei uma massa humana. Arranjando para não ver esses condenados. E se nevar. Eu comerei esta neve. A cada hora. em todo o caso. e outras familiares. Mais numerosos. JOANA Se os Chapéus Negros quiserem o seu dinheiro. Que o campo inflou-se e uma cascata humana Inteira ficou pendurada em suas elevadas bordas. sem uma palavra. Jogados aos matadouros e de tudo ignorantes. JOANA Terceira descida de Joana às profundezas. Ela permaneceu suspensa por um instante. eu quero fazê-lo. E então uma palavra. Vi depois cortejos E ruas desconhecidas. Jovem e velha. IX Escutai o que eu sonhei. que vive da pobreza. A tempestade de neve. Ao mesmo tempo. a fronte ensangüentada. BAIRRO DOS MATADOUROS Joana. Chicago! Vós também Lá estavam. Pois esta vida sem eira nem beira não te serve. creia-me. E isso é muito bom. em um pequeno campo. Sobre ela que tu conheces. Saberás que neva sobre ela. E o trabalho deles também. MAULER Esta noite. E eu. Cercado de todos os lados por enormes edifícios E tão pequeno que a sombra de um arbusto O teria encoberto totalmente. No futuro. Vai à janela e repara se neva. Se for um punhado de neve o que lhes dão. uma palavra sem importância. desfilando. 1. Quantos eram eles? Eu não sei. com aqueles que esperam. soluçando e jurando Logo fora de mim! Virtude e terror confundidos! . por toda a parte. Ficarei lá até que as portas sejam reabertas. E se não houver trabalho. Sem poder suportar a visão dos pobres Que os julga sem conhecê-los. Mauler. Ela sai. E o senhor. Fez esta massa começar a fluir. Que o aceitem. Mas eu me sentarei Em frente aos matadouros. Pelo menos não honestamente. afluíam inúmeros cortejos. Eles fazem muita questão do dinheiro. com passos guerreiros. Eu serei como eles sem trabalho. Eu marchava. Eu também não tenho dinheiro E nem uma maneira de ganhá-lo de outro modo. Há sete dias: Diante de mim. Depois eu gritei palavras em tom belicoso Em uma língua para mim mesma desconhecida.

Faremos um chamado a todo o ser que pareça humano. Rendidos pela fome. nós agora estaríamos comendo a nossa sopa. OS FABRICANTES: Mas como nós poderemos Comprar gado com preços em alta? Alguém promoveu uma razia. Para aí mostrar a todos. éramos inatingíveis.32 Tudo o que eu pisava. abandonando este lugar insuportável Por qualquer outro. Todas as conservas Previstas no contrato. E também perturbando o aspecto familiar de ruas bem próximas.. a cidade deles. mas existe. Mauler. O que acontecerá. Oitenta mil toneladas. MAULER: Sendo grande a demanda De conserva e de vianda E sendo os preços aceitáveis. ao abrigo dos ataques inimigos. bem e aquecidos! 2. Um pouco caro. e pior. a preço vil. é verdade. não nos podiam alvejar. Eu exijo que me entreguem. GRAHAM: Ao preço antigo? MAULER: Como combinado.. UM PEQUENO BAR NO BAIRRO DOS MATADOUROS Desgraça! As tarifas caíram! E nós não temos mais carne para vender! Ela já está vendida. nas praças públicas. Hoje eu compreendo o seu sentido: Nós deixaremos os matadouros antes do raiar do dia. Assim foi o meu sonho. Influenciando o curso dos planetas distantes. Ocasionando imensas destruições. Comprem-no! OS FABRICANTES: Comprar gado nestes dias! Que horror! 3. Graham. Ninguém sabe quem foi. Envolvida pela neve. sem mais delongas. Há muito gado. OS CRIADORES aos fabricantes de conservas: Meus amigos de Nova Iorque me escreveram Que as tarifas aduaneiras no Sul Acabam de ser derrubadas. eu ignoro. GLOOMB – Dona Luckerniddle. Senhores. BOLSA DE CARNES MAULER. modificava. libere-nos de nossos compromissos! MAULER: Estou desolado. OS FABRICANTES Desgraça! As tarifas caíram E nós não temos mais bois para vender! Eles já estão vendidos. transparentes. Habitando em lugar algum. que eu saiba. Eu andava no mesmo passo que o cortejo. E com a aurora chegaremos a Chicago. e pior. a preço vil. mas preciso das conservas. Precisamos comprar e os preços aumentam! . DONA LUCKERNIDDLE – Se ela tivesse calado um pouco a boca lá nos Chapéus Negros. a senhora entendeu esta história? Eu não. A exata extensão de nossa miséria. Habituados ao sofrimento. estávamos fora de alcance. se eu me lembro direito Daquela hora em que perdi um pouco o juízo. E assim andava o cortejo.

Nosso Senhor. minhas irmãs. (É tudo absolutamente inútil!) Eu lhes digo: ajudem-nos a manter a marmita fervendo! OS CHAPÉUS NEGROS . BOLSA DE CARNES OS FABRICANTES: Nós compramos qualquer gado! Bezerros! Gado gordo! Vitelos! Bois! Porcos! Façam as suas ofertas. Luckerniddle – De onde a senhora os conhece? DONA LUCKERNIDDLE – No tempo em que eu não me fiava em gente como você eu ia bastante até eles. Silêncio. do pão de Deus? Grande é nossa alegria. o amor. que um resto de pudor lhes diga: Aqui reinam a neve e o vento: calem-se! 4. mas eles traziam uma panela. A MULHER – Por que não nos procuram para tentar nos converter? GLOOMB. surpreendendo-se pela ingenuidade – É sério? A senhora acreditou nisso? DONA LUCKERNIDDLE – Eu também. estava um dia sentada. como vocês. meu irmão. JOANA – Onde eles estão? GLOOMB – A dona Luckerniddle pode lhe dizer. Intercala sua pregação com observações aos companheiros. faz desesperadamente sinais para que saiam. Pois nós encontramos Jesus. MARTHA. (Isso não serve para nada!). Joana se levanta e. hoje (eles não estão escutando nada!) basta que eu pense muito em Jesus. dona Swingburn? A MULHER – A sua música era bonita. já ouvi demais. os comunistas. não o ódio. eu prefiro os atos.33 Trabalhadores e trabalhadoras. JOANA – Mas não são os tais que ficam incitando ao crime? O TRABALHADOR – Não. JOANA – Então não há ninguém que tente fazer alguma coisa? O TRABALHADOR – Sim. durante a cena. à margem do caminho. mas ninguém contribui) Aleluia! JOANA – Deixe-os. tenente dos Chapéus Negros. UMA MULHER Por que vir aqui fazer escândalo Com tamanho frio! E se pudessem ao menos se calar! Com muito custo eu consigo agora Suportar as palavras que há pouco amava E que me soavam agradáveis. eu esperava que eles fossem ao menos nos dar um prato de sopa. Onde está Jesus. apesar de todas as nossas más ações.(Vocês acham que isso serve para alguma coisa?) Eu também. DONA LUCKERNIDDLE – Eles são boas pessoas. reina a paz. grande o nosso regozijo. que alguma voz. meus irmão. Vinde a ele. que nos salvou na dor. mas então eu encontrei Nosso Senhor Jesus e fez-se em meu coração uma grande luz e provei uma grande alegria. UM TRABALHADOR. Bem que eu gostaria de estar com eles! DONA LUCKERNIDDLE – A música era bonitinha! GLOOMB – Bonita e curta. Um destacamento dos Chapéus Negros chega. curta bondade. Ah. soldado dos Chapéus Negros: . vinde logo! Aleluia! Uma jovem dos Chapéus Negros dirige-se aos trabalhadores. ente os quais Joana. por causa do meu marido.Aleluia! (Jackeline faz circular a cuia de esmolas. por favor! OS CRIADORES: Não sobrou mais nada! Tudo o que podia ser vendido . depois de entoar um cântico apressadamente: Por que não provar. GLOOMB – Bondade curta. triste. tu também. não a violência. fazendo o gesto de contar dinheiro – A senhora consegue manter a marmita fervendo. e o velho Adão dentro de mim não tinha outro desejo do que comer e beber. JOANA. Nosso Senhor. e eu não tenho mais fome e nem sede. Se algumas pessoas soubessem calar a boca eu saberia onde procurar abrigo esta noite. tenho apenas sede da palavra de Jesus. à dona. Eles precisam fazer isso para conseguir um pouco de calor e de comida. JACKELINE. Discursos.

Graham! As latas que me deves. Silêncio . eu não tenho medo.. mesmo só uma pata. Qualquer vitelo. e acho que sou capaz de defender bem uma causa. Os fabricantes se precipitam sobre ele. Os senhores devem me entregar a carne. mesmo nos grandes. Ele vai falar com Slift. dois homens da direção dos sindicatos discutem com um grupo de operários. eu tenho propostas a fazer. Corte você mesmo! MAULER: Por que se surpreendem. Mesmo que tenhas que te enfiar nelas! Eu vos ensinarei como se faz esse comércio! Doravante. OS FABRICANTES: Nem pensar! Vocês estão loucos? Quatrocentos! SLIFT – Eu compro. OUTRO LUGAR NOS MATADOUROS Nos cartazes se lê: “Solidariedade com os trabalhadores sob lockout!” “Desencadeiem a Greve Geral”. se são os senhores os bois. OS FABRICANTES: Mais nada? E nas estações? Estão abarrotadas de gado. OS FABRICANTES – Vendido a quem? Entra Mauler. Deixe-os totalmente à míngua. Se alguém vier perturbar a reunião. Não havendo ninguém que precise de carne. Além disso. Vendo-os. Na minha opinião é preciso fazer alguma coisa imediatamente. precipitando-se sobre Mauler: É preciso liquidá-lo. o apetite desperta! GRAHAM. De hoje até amanhã é certo que os patrões vão lançar todo o tipo de falsas notícias: eles dirão que . Já que não há demanda. e caro! Ofereço. É claro que é! Era o que dizíamos! O cão! Ele nos obriga a entregar-lhe as latas E é ele quem compra o gado! Somos então obrigados a comprar de Mauler A carne que deveremos colocar em suas latas! Carniceiro sujo! Tome então a nossa carne. eu as quero agora. Mauler. precisamos de um prazo.. UM DIRIGENTE OPERÁRIO – Escutem todos: até agora os magnatas da carne não manifestaram a menor intenção de reabrir as suas fábricas. UM CRIADOR: Oitocentos bois de Kentucky a quatrocentos. Nós. Terá de ser comprado de mim. OS CRIADORES: Oitocentos bois a quatrocentos para Sullivan Slift. se ela for justa. É impossível encontrar um boi em Chicago. Aprendi a falar em lugares públicos e em auditórios. para começar Quinhentos bois a cinqüenta e seis. Agora eu quero sessenta! E tenham o cuidado De não esquecer as minhas latas! 5. OS FABRICANTES: É Mauler. JOANA – São vocês os que defendem a causa dos desempregados? Eu posso ajudá-los. OS CRIADORES – Vendido. Os trabalhadores das grandes empresas da cidade nos prometeram declarar. Chegada de Joana. uma parte de nós perderá seu emprego nos matadouros e os outros nunca recuperarão o salário anterior. Quatrocentos. eu acertarei as contas com ele! MAULER: Ah! É assim. MAULER: Atenham-se à nossa combinação.34 Foi vendido. no mais tardar depois de amanhã. os operários. de Chicago a Illinois. sabemos agora de uma coisa: se tudo andar como querem os industriais da carne. Em frente a um galpão. a greve geral.

(os operários riem alto) Mas é desumano! E dizendo isso eu penso também em gente como Mauler! (os operários caem na gargalhada) Por que se riem? Acho que vocês estão errados em zombar e em acreditar sem provas que alguém como Mauler não é um ser humano. E poderíamos até dizer que esta pobreza seja obra deles. Por este buraco fogem todos os peixes. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Não. Nós não temos ninguém para passar despercebido como ela. dona Luckerniddle? (Dona Luckerniddle faz sinal que sim). Eu luto de todo o coração pela causa de vocês. UM OUTRO OPERÁRIO – Dê-me a carta para as usinas Graham. ouve-se gritar ao fundo o nome das empresas que suspenderam seus pagamentos: “Encerram os pagamentos. dando a carta à Joana – Vá até a fábrica Graham. galpão número cinco. O DIRIGENTE OPERÁRIO. encostado em uma coluna – Faça subir.35 tudo está arranjado e que a greve geral não acontecerá. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Pela nossa causa? Diga-me: ela não é também a sua? JOANA – Não é no interesse geral que os industriais jogam. essa noite. os preços estão a mais de setenta! OS CORRETORES – Os cabeçudos não compram. as centrais elétricas e o serviço de águas entrarão em greve em solidariedade a nós. eu conheço o pessoal. MAULER: Os senhores não respeitaram. Como se rede já não houvesse: De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – E quem te garante que ela vai levar a carta que lhe entregarmos? O DIRIGENTE OPERÁRIO – Ninguém. – Eu já vendi jornais na rua Vinte e Quatro. Tudo acontece como se a miséria dos pobres fosse útil aos ricos. À Joana: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. etc.. tanta gente na rua. aos responsáveis que esperam nossa orientação. em diversos pontos dos matadouros. UM OPERÁRIO – Pode ser uma espiã. Esconda essa em seu casaco. A carta é para eles. O contrato assinado há pouco entre nós: Eu queria. e vá esperar os responsáveis defronte à cantina da senhora Schmittens. dessa maneira. SLIFT.. em frente ao edifício da Westinghouse! (À Joana) Quem é você? JOANA – Fui mandada embora do emprego. Essas cartas anunciam que a usina de gás. É do Exército da Salvação e os policiais a conhecem bem. pergunte-lhes se são das usinas Cridle. O operário apanha a carta e sai. a Mauler. Ela é sua conhecida.. Jack. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Não é sem provas. pau neles! OS FABRICANTES – Queremos dois mil bois a setenta. Eu não sou uma espiã. Ninguém suspeitaria que ela trabalha para nós. não é? DONA LUCKERNIDDLE – Honesta ela é. Quando você vir chegarem três operários com cara de quem procura alguém. Você pode tranqüilamente entregar-lhe a carta. JOANA 6. estou vendo. eu sei quem ela é. na esquina do Parque Michigan. BOLSA DE CARNES Durante toda esta cena. assegurar o trabalho .” OS FABRICANTES – Nós não podemos mais agüentar. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua Três. Isso é bom. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E para quem trabalhava? JOANA – Eu era ambulante. Meyers e Cia. Elas devem ser entregues às dez horas. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua vinte e seis. com tal medida. Um operário apanha a carta e sai. Ela é honesta. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E em que trabalhava? JOANA – Eu vendia um jornal. pois o endereço dado pelos camaradas das usinas Cridle para o encontro está muito vigiado.

se apresentariam dez ou talvez cem. No canto em que trabalham os sindicatos reina uma grande efervescência! MAULER – Quem trabalha? Os sindicatos? E a polícia os deixa incitar os operários? Meu Deus! Liga imediatamente para a polícia. SLIFT: Faça subir. Slift. Se perguntasse por uma Joana. eu me pego esgoelando-os E não tenho tanto prazer quanto esperava. Fala em meu nome. Ponha os pingos nos “is”. Mas para nós. São centenas de milhares nos matadouros. Mil a setenta e sete. só quinhentos. O estranho é que aqui não se ouve nada. não me diverte mais. eu não me sinto muito bem. SLIFT – A oitenta. Vou soltar a carne e deixá-los partir. Ceda. MAULER. O SEGURANÇA – As multidões.36 Aos operários e agora me dizem Que eles ainda esperam em frente aos matadouros. de achá-la? E atiram? Encontra o Jim. . Pois a queda deles Será a nossa. O primeiro segurança sai. que voltou para perto da coluna – Slift. por telefone. É preciso que a cidade Possa voltar a respirar. o vento abafa as palavras. Slift. MAULER – Então. O segundo segurança sai. MAULER: Atiram? Contra quem? Mas eu sei bem. sim. A carne sumiu de vez do mercado! Quinhentos bois a setenta e cinco! MAULER: Não seria conveniente. são incontáveis. à procura de um parente que não encontram. Sem contar que a polícia está evacuando os matadouros e que começa a atirar. Que sangrem. GRAHAM: Que seja. Ele repara no segundo segurança. a Slift – Onde está o pessoal que eu mandei para os matadouros? SLIFT – Ali está um. Ele pode ir longe demais. Diga-lhe para que não me procure. Eles já não agüentam. Isso basta. é o fim! SLIFT: Quinhentos a setenta e sete para Graham. MEYERS – Cinco mil a oitenta! Assassino! MAULER. perdido por perdido. Mas os senhores se lamentarão por isso. esperando. voltando ao grupo: Este negócio. desembucha! O primeiro segurança faz seu relatório. Pergunta para que nós pagamos impostos! Manda arrebentar a cabeça dos líderes. OS FABRICANTES – Mauler paga cinqüenta pelas conservas. Vá só até oitenta e depois abaixe o preço. Senão pensarão ainda Que fomos nós que exigimos que atirassem. MEYERS – Mil e quinhentos a oitenta. dizes. mas que não rebentem. tudo a oitenta. eu não vi ninguém com o uniforme dos Chapéus Negros. pois. Quando se grita qualquer coisa. Ainda por cima está escuro. é claro. As conservas que comprei. é impossível ouvir uma voz isolada: há muita gente correndo de todos os lados. Impossível. E tenho outras preocupações! Veja bem. Eles ainda agüentam! Quinhentos bois a setenta e sete. subir muito mais. entreguem-me! GRAHAM: Nada poderíamos ter feito. Slift. A multidão anônima e sem rosto continua sentada lá. A encontraste? O SEGURANÇA – Não. nós não podemos pagar oitenta a Mauler pelo gado. Mauler. Além disso. senhor. Acima disso. MAULER.

Um homem os guia. Continue então com o negócio. Prefiro abandonar tudo Do que ser a causa de uma desgraça! Oitenta e cinco. em segundo plano. Fora uns poucos especuladores sem escrúpulos. Nós publicamos isso com manchete de oito colunas. Eles ainda agüentam. 7. esperem a resposta! CORO OPOSTO. a não ser nós mesmos E a ninguém podemos apelar OS JORNALISTAS . nós ouvimos. JOANA – Eu queria que vocês fossem embora. Mas nós não queremos incomodá-la e iremos ficar ali. Os jornalistas lêem em voz alta) “A Madona dos matadouros. OS JORNALISTAS – Veja bem. eles abrirão. declara: Deus está solidário com os operários das fábricas de conservas. SLIFT MAULER Eu preciso de ar fresco. Chega um grupo de jornalistas. JORNALISTAS – O que há de novo. toda a Chicago comparte seus sentimentos. (Joana vira-lhes as costas. SLIFT – Quinhentos bois a noventa! OS FABRICANTES: Mauler. também em segundo plano: É mentira: por maior que seja a miséria. Então agora existe gado. Entre eles. Eles não abrirão as fábricas! Eles esperarão os lucros aumentarem! E a sua resposta sairá Dos canhões e das metralhadoras! Ninguém poderá nos ajudar. isso não é possível. Aja conforme o meu espírito. Eles se sentam. NOS MATADOUROS Muita gente esperando. no fundo. pode ler. Nesse dia sim. Veja. – Olá! A senhorita é Joana Dark. JOANA – Eu não faço mais parte dos Chapéus Negros. Queria vender a oitenta e cinco. ALGUÉM – Porque estás aqui? JOANA – Tenho que entregar uma carta. É um enorme sucesso para os Chapéus Negros. Tu me conheces. (a Joana) Esses são jornalistas. que a opinião pública está do seu lado. Joana Dark. apontando para Joana – Aqui está. a alguma distância. OS JORNALISTAS – No escritório do senhor Mauler nos disseram que a senhorita jurou não sair dos matadouros enquanto as fábricas não fossem reabertas. De outra forma isso terminaria em violência. Para nós a senhorita faz parte. Slift. Eu não posso mais. a jovem pregadora dos Chapéus Negros? JOANA – Não. E se quiseres abrandar. Virão três pessoas. Saindo ele encontra jornalistas. OS TRABALHADORES. SLIFT: Mentirosos! Agora serei eu que vos ensinarei A vender carne enlatada Sem ter nem mesmo um quilo! E cinco mil bois a noventa e cinco! Urros. O HOMEM.37 – Nem pensar. Eles não abrirão as fábricas. Não vão embora. Eles terão de nos responder. afastando-se – É preciso que façam chegar aos operários que eu acabo de ceder gado às fábricas. Mauler? MAULER. Mas quando a aflição for tremenda. Slift não tem ordem para isso. OS JORNALISTAS – Podemos lhe assegurar. não mais. Joana. nos matadouros Enquanto a miséria não chegar ao máximo.” JOANA – Eu não falei nada disso. Aja conforme o meu espírito. senhorita Dark. serei eu quem fará subir.

Mas. levantam-se e dirigem-se ao fundo. Os jornalistas. Onde está o meu chale? Eles me roubaram. Enfim. um emprego que me assegurava O pão de cada dia. Quer um gole de whisky? (Joana bebe) Ei. dê-me meu pano. Alguns – pouco numerosos – estão sentados lá em cima E um grande número aqui embaixo. Já basta. Algo de obscuro. E para vós é fácil passar frio.. UMA MULHER – Que audácia! JOANA – A senhora falou alguma coisa? A MULHER – Sim. Ir para um quarto quente. E os do alto gritam: Subam. UM VELHO HOMEM. Apesar de tudo.. Vós todos. ao qual estava acostumada. A MULHER – Socorro. A qual logo se nota claramente Que serve de gangorra Todo o sistema é como uma balança Na qual os dois lados dependem um do outro. é claro! É o cúmulo! Eles me roubaram até o chale! Quem foi o mão leve que pegou o meu chale? Devolvam-me imediatamente. Mas a estrutura interna continua ignorada. eu não tenho o direito de ir. confesso. UM HOMEM – Silêncio! Alguém atira um trapo para Joana. ignorar aonde te leva a vida. que de resto Já é a muito conhecido. Mas eu posso. Mas. Entre os que estão em cima e os que estão embaixo. tenho frio.. Empunhar a bandeira e bater o tambor. Ficar aqui sem necessidade absoluta Parece-me um jogo indigno. Mas é apenas uma tábua. E falar Daquele que mora lá em cima.. Que audácia! Emborcar assim o whisky desse velho! JOANA – Segure a língua. Quase uma comédia. desde fora. o medo me aperta a garganta: Não comer. Para que estejamos todos no alto! Mas olhando mais de perto descobre-se. não dormir. ela vai me matar. foi você! Não adianta mentir. imbecil!. a qualquer momento. isso é normal. a Joana – Você está totalmente gelada. Não fazia tanto frio em meu sonho. dona Luckerniddle? DONA LUCKERNIDDLE – Sim é verdade. o que haveis deixado? Eu. E um ambiente. que nada tendes para comer. não é? JOANA – A senhora também acha. guardam-me a sopa.38 Que não seja um nosso igual. a Joana – O que fazias com aquela gente? JOANA – Nada. Eu não tinha sonhado que pudesse fazer tanto frio! Se eu tivesse pelo menos o meu agasalho! Ah! É fácil para vós passar fome. JOANA Se dependesse só de vós Eu poderia congelar nua em pleno vento. dir-se-ia que é um caminho. JOANA: Eu compreendo esse sistema. Tenho fome e isso é banal. UM TRABALHADOR. Vós. um teto e o sustento. o que deixei foi uma vocação. (Ela arranca de sua vizinha o pano com o qual ela cobre a cabeça) Sim. Quando eu cheguei aqui. Encorajada por um sonho que confirmava minhas idéias. com um vasto plano. mais do que tudo. . A mim me esperam. O TRABALHADOR – Mas falaste com eles! JOANA – Eles me confundiram com outra pessoa. chega! Você é boa mesmo de copo. eu quero ir embora. E uns se sentam lá em cima Só porque os outros estão embaixo. que acabaram de receber uma informação.

Os tanques deles vos esmagarão. Esse combate será perdido E talvez perdido Ainda o próximo combate Mas vós ireis aprender a combater E aprendereis pela experiência Que nada se faz sem luta E sem a vossa própria ação. JOANA – Mas estão atirando! UM OPERÁRIO – Pode ficar sentada tranqüilamente. (Ela se levanta) Eu vou avisar aos nossos que os boatos já começaram a circular. acaba de cedê-lo aos fabricantes. E nós vos dizemos: combatei. se esses senhores estão dizendo? Sobre um assunto como esse não se brinca. Havia entre eles pelo menos um homem honesto E ele não falhou em seu dever. mocinha. OS JORNALISTAS – Olá. Agora as fábricas reabrirão. JOANA: Parai! Chega de aprender essas lições! JOANA . Não se separem! É apenas ficando todos juntos Que poderão ajudar uns aos outros. Não ficaste tempo suficiente aqui. JOANA – Quanta gente há aqui? OS JORNALISTAS – Uns cem mil. A tropa foi encarregada de evacuar os matadouros. E nós vos dizemos: ficai agrupados. com a carta. Tu não compreendes nada de nada. Felizmente temos a carta para mostrar a verdade. A não ser a proposta Que leve a mudanças verdadeiras. Que barulho é esse? UM JORNALISTA – São as metralhadoras. Classe cheia de neve e que as leis ignoram. Os jornalistas retornam. Não te movas! Entendeu? Ela sai. Nessas condições o trabalho voltará muito em breve aos matadouros. O coração deles não é de gelo. Ao longe as metralhadoras crepitam. DONA LUCKERNIDDLE – Não digas tais tolices. O que aprendeis? OS TRABALHADORES. no fundo do palco: Se ficardes agrupados Eles vos rebentarão. o seu sucesso foi formidável: nós ouvimos que Pierpoint Mauler. UMA MULHER – Devemos voltar para casa agora? UM TRABALHADOR – Quem nos garante que é verdade? Que haverá trabalho de novo? – E por que não seria verdade. E sobretudo entendam bem Que nada se faz sem luta E sem a sua própria ação. Se combaterdes. aconteça o que acontecer. ainda que os preços continuem a subir. É preciso fazer com que se calem os agitadores que incitam à violência. Não creiam em nada e não escutem ninguém. Quando se falou com ele como a um ser humano Ele deu uma resposta humana. o milionário que dispõe de muito gado. JOANA: Escutem todos! Há trabalho. Os matadouros são tão grandes que a tropa levará horas até aqui. JOANA: Tanto assim? Oh! Escola desconhecida. Mas tu. de jeito nenhum.39 OS TRABALHADORES: Fiquem. Então a bondade existe. espera. Que tem a fome por mestre e onde a miséria Fala implacavelmente da necessidade! E sois cem mil alunos. JOANA – Oh! A boa nova! DONA LUCKERNIDDLE – Vejam as mentiras sobre as quais nos alertaram. no frio.

Joana tem uma visão. Mas assim. Com seu silêncio opressor. Dia após dia ela desceu. Do fundo ouve-se gritos que se aproximam. Eu assim não poderia viver.40 Que gélidas elas são! Não é pela violência Que se combatem a desordem e a confusão. estão muito enganados. Perseguidor perseguido E não mais sabendo ver sem desconfiar. que eles ainda poderão ter uma surpresa. Ela continua sentada. OS JORNALISTAS – Nós a aconselhamos a sair dos matadouros. Direis que fazia muito frio. aparece uma inscrição: A neve começa a cair. Para este homem. No lodaçal dos matadouros. Eles saem. Eles procuram alguém que não encontram e vão embora. Começa a nevar. esta carta? Eu não saberia fazer nada Que requeresse violência. Vós. Apartado em um mundo Tornado para ele estrangeiro. Enquanto a noite cai. No terceiro dia sucumbiu. OS OPERÁRIOS – Estão trazendo os sindicalistas. JOANA: Os que me entregaram a carta. as palavras teriam outro sentido. Ou que engendrasse a violência. algemados. Ela se vê com roupas de criminosa. Os dois dirigentes operários passam. No final o lodo a engoliu. Há muito tempo que já está tudo arranjado. Ela se levanta e sai. é imensa! Mais uma noite como esta. Quem agisse assim se sentiria perdido. UM OUTRO OPERÁRIO grita para o grupo que se afasta – Assassinos! OS OPERÁRIOS – Se eles acham que assim irão parar as coisas. eu preciso ir. E é por isso que parto. Eu não sou um deles. UM OPERÁRIO. Eu digo: na escuridão se acumulam As violências e as questões nunca resolvidas. os astros sem harmonia Já não seguiriam sua órbitas. e ninguém Poderá manter a sua calma. eu digo. voltando – Nada além de mentiras! Onde foi a moça que estava sentada ao meu lado? UMA MULHER – Partiu! UM OPERÁRIO – Desde o começo eu disse que ela iria embora quando começasse a nevar de verdade. DONA LUCKERNIDDLE. Nada de bom pode surgir da violência. Toda inocência tê-lo-ia abandonado. Os operários se levantam. Viram-na descer de degrau em degrau Para em água límpida a lama transformar e aos humildes Aparecer. Isso seria desleal para com os outros homens. vós estivestes juntos Longas noites. Se desde a infância o peso da miséria e da fome me tivessem ensinado a violência. para um dos dirigentes presos – Não liga não. conduzidos por policiais. ao longo dos anos. Enquanto o fraco ao fraco se alia. William. Chegam três operários. A tentação. eu seria como eles e não faria perguntas. . mas agora a coisa está terminada. E aprendestes A alimentar friamente terríveis pensamentos. Quem o comerá? Eu vou embora. Mas o prato que se prepara aqui. Sobre sua cabeça. Violar as regras em uso. longe do mundo que lhe é familiar. Por três dias viram Joana em Packingtown. Seu sucesso foi grande. Por que foram presos? O que ela contém.

Mauler e seu amigo. em cima. Que nós construímos em nossas grandes cidades Sem importar o custo. Na borrasca. De agora em diante. O mais prático também. Sem nenhuma exigência. em suor e em dinheiro. Cedi meu gado a qualquer um que o quisesse. então. Agora eu estou livre. Escolhido como material. Passa um vendedor de jornais Ei! Jornal! Vejamos o que se passa na Bolsa de Carnes.41 Pergunta feita: quem ficará? Como nos outros dias. Vejam. Doravante Não há mais ninguém que me queira matar. Aquele que sai de tal imóvel. saindo – Bom. o mais vasto. nada mais posso fazer por eles. preto no branco: O gado está a trinta e ninguém compra. Ter construído a maior cloaca do mundo Constituirá a sua única glória. Assim foi conseguido. Vejam o que leio. mas o arquiteto teria. Pierpoint Mauler cruza a fronteira da pobreza 8. UMA ESQUINA EM CHICAGO MAULER. meia volta. a dona Luckerniddle reencontra Joana. Só porque duas ou três vezes eu dei meia volta. mais de vocês. modificam tudo. Ele lê e empalidece. ainda atiram.. Até mesmo aos matadouros. Em todo o caso. Quanto a este edifício. cocô de cachorro: Que torna a permanência difícil. Assim espero. façamos meia volta. Perto dos matadouros. que todos os fabricantes Quebraram juntos e saíram do mercado. 9. A mim ela vai elevar às mais altas esferas. não lhes parece? Ah! Eu repito Não fiquem enchendo a cabeça com idéias. o que foi? Riste. Sou conhecido nos matadouros. . Este homem está perdido. Sem que eu tenha procurado. impresso. seja por economia. UM DOS SEGURANÇAS. aqui sob meus olhos. E a vocês eu despeço Pois da pobreza eu cruzei a fronteira. Está dito.. preto no branco. Há resistência. hoje restarão No chão as pedras. Aquela que eu procurava terá tido o bom senso De sair das profundezas onde o inferno se instala. E ninguém quis. Mas vejo que estão pensando. confessa. Até o reino do espírito. UM LUGAR DESERTO NO BAIRRO DOS MATADOUROS Neva. Não preciso. OS DOIS SEGURANÇAS – Então podemos ir? MAULER: Podem E eu também posso ir aonde queira. Parece-me Que contratei dois idiotas. são os mais atingidos. Não é para pensar que eu vos pago. Eu tenho as minhas razões. a um de seus seguranças Parem. dele se diria Um prédio construído com grandes despesas. Basta. É o que está escrito. Seja por aberração. Essas notícias. MAULER: Se a desgraça abate ao homem sem caráter. Eu disse: meia volta E tu riste. os pobres. Tem certa razão de estar alegre. um objetivo que eu saúdo E que muito me alivia. Pensar não serve para nada. Slift.

Tu não a entregaste. Tudo está voltando ao normal agora. Ainda mais que amanhã todas as empresas de Chicago iriam declarar a greve geral. Mas também podias nos trair. Joana pára. ela procura se livrar das vozes que ouve de todos os lados. Nela estava nosso destino. Que nada diga. Joana cruza com dois operários de quem ouve a conversa: O PRIMEIRO OPERÁRIO – Primeiro eles fizeram correr o boato que as fábricas reabririam a todo o vapor. Cumpriste a missão? Joana volta a andar e uma nova voz a detém. Mas tu és uma traidora e teu lugar é com eles. UMA VOZ: Não há desculpa Para quem não chega. Sem récitas inoportunas dos seus infortúnios. isso é o que tu és! Dê-me a carta que te confiaram. Por este buraco fogem todos os peixes. O PRIMEIRO OPERÁRIO – E aqui nós não ficamos sabendo. fraqueza do corpo! Oh fome. Um lixo. Ao que tropeça e cai. De tua missão. Que sentimentos em nós deixareis sobreviver? . E aquele que chega a bom porto. oh verdade! Que a neve em tempestade Inoportunamente mascarou com sua noite. JOANA. O SEGUNDO OPERÁRIO – Os comunistas é que tinham razão. A VOZ DA DONA LUCKERNIDDLE: Eu fui a tua fiadora. Uma parte dos operários saiu dos matadouros. DONA LUCKERNIDDLE – Eu devia ter duvidado. Joana ouve vozes. Como se rede já não houvesse. A pedra não perdoa. Muitos operários teriam ficado se soubessem da notícia.42 – Ah. Mas a carta que trazia a verdade. Joana. Nós te encarregamos. AS VOZES: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. (Joana desaparece na tempestade de neve) Hei! Venha! Ela foi embora! DONA LUCKERNIDDLE 10. mas a senhora quer continuar. Anda em outra direção. Eu vou embora. de uma missão. caindo de joelhos: Luz. Errando pelos matadouros. Nós não sabíamos quem eras. O SEGUNDO OPERÁRIO – Isso é grave: sem dúvida uma parte das ligações não funcionou. estás aí! Onde tinhas te metido? Entregaste direitinho a carta? JOANA – Não. JOANA – Não. Lá dentro só se fala em violência. eu não a darei. Claridade que então eu deixei de ver! Oh! Quem conhecerá o poder da neve! Oh. podias dar conta. As massas não deveriam ter se dispersado. OUTRA VOZ: Joana pára. Eles teriam ficado apesar da violência da polícia. Aquilo que lhe foi confiado. DONA LUCKERNIDDLE – Ora essa! Para ti está tudo normal! E eu que disse que tu eras honesta! Sem isso não teriam te confiado a carta. Dê a carta aqui imediatamente. precisas chegar! Joana olha ao redor. para poder se apresentar amanhã bem cedo ao trabalho e de repente eles falam que as fábricas nunca mais abrirão. UM OUTRO LUGAR Correndo em direção ao centro da cidade. mas entregue. UMA VOZ – Lá onde te esperam. É inútil tentar pegar. Pierpoint Mauler as arruinou. De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada.

é tudo o que eles querem! Aqui não tem mais sopa! Aqui só tem a palavra de Deus! Ouvindo isso eles vão logo embora. Uma boa orquestra à mão e sopa Bem grossinha: terminam para Deus todas as preocupações. se ele pudesse vir. O HOMEM – Os fabricantes de conservas querem falar com ele e os criadores o chamam aos gritos. entrando – Pierpoint Mauler está aqui? BISPA SNYDER – Não. ou que deixe o imóvel. Para nos salvar neste instante. Liberada. minha cara Mulberry. Quero que a senhora pague o meu aluguel. OS CHAPÉUS NEGROS: Estão levando. UM HOMEM. E nós gritamos à plena garganta: Ah. o banco dos penitentes! E já suas mãos avidamente se dirigem Ao órgão a vapor e ao púlpito. Salvar-nos com o seu dinheiro! BISPA SNYDER Há exatos oito dias Que nos matadouros onde as máquinas enferrujam. coloque os móveis na rua. Ele se levanta e avança até os Chapéus Negros. à chuva. o suntuoso Mauler. na frente do palco : Ouvi alguém procurando um certo Mauler. De um só golpe o bolchevismo também é enterrado. que aliás é muito barato. Um homem começa a levar os móveis para a rua. com certeza! Ele já está a caminho com os seus milhões! UM CHAPÉU NEGRO – Bispa. Vejam que já balança. posto que sem abrigo. Pediram-lhe cem dólares. Mas nós o estamos esperando. A massa espera. que prometeu nos ajudar. OS CHAPÉUS NEGROS: Romperam-se os diques da fé Em Chicago. é sábado a noite. Sob um plúmbeo zênite de destinos desconhecidos. Exposta outra vez à neve. nossa boa cidade. com sopa quente E um pouco de música. MAULER – Eis aqui um homen marchando até o seu Deus. Ah. X Humilhação e assunção de Pierpoint Mauler TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS MARTA. no céu e no inferno. E as ondas de lama do materialismo Ameaçam a casa de Deus. a qualquer momento. quem vos pode resistir? Eu preciso dar meia volta! Ela retorna sobre seus passos correndo. O reino de Deus está pronto na minha cabeça. estamos aguardando. Buscam-no por toda a parte. . Ele sai. investindo contra ele – A sopa. É Mauler. o senhor Pierpoint Mauler. que triste. Este homem que foi em sua vida Mais estúpido do que um vagabundo bêbado e repugnante. que já se afunda! Mas o rico Mauler virá.43 Frio da noite. onde iremos acomodar o nosso público? Chega um pobre. DONA MULBERRY – Meu caro Dick. DONA MULBERRY – Bispa Snyder. afastada do trabalho. agora os pegamos. BISPA SNYDER – Sente lá atrás e fique quieto! Ele se senta. a outro Chapéu Negro – Há três dias um emissário de Pierpoint Mauler. Eu o conheci: era um imbecil. o rei da carne. veio nos dizer que Mauler em pessoa estava disposto a assumir o nosso aluguel e a organizar conosco uma grande campanha em favor dos pobres. BISPA SNYDER – Dona Mulberry. MAULER. Conheci bem um homem. BISPA SNYDER. ele possuía dez milhões.

dirigindo-se aos músicos que vão embora: Nossas orações eram pelo rico Mauler E foi Mauler o arrependido que entrou. DOIS MÚSICOS: Um pedacinho só. construir vossa casa . Mauler canta com eles. ar ausente. OS CHAPÉUS NEGROS: Não perca a confiança! Homem de pouca fé! Ele virá. eu vejo. Eles cantam ainda “Entrai na batalha”. sim. Ele pega dois Chapéus Negros pelo braço e senta-se com eles no banco dos penitentes. Silêncio! Tragam-me o livro das faturas e contas por pagar: estou nessa parte. Por sete dias apertei a garganta Desta cidade até sufocá-la. Passar bem. Ouçam então a minha confissão: Aqui jamais se ajoelhou Ninguém. eu vos rogo! Pois eu sinto O coração ao mesmo tempo leve e pesado. BISPA SNYDER. Abusado da força e espoliado todo o mundo Em nome da propriedade. é certo. seguindo a letra por sobre o ombro de um dos Chapéus Negros. mas arrependido. Não podemos mais pagar as nossas contas. não o seu dinheiro. gritando – E sem dinheiro? (Aos Chapéus Negros:) Façam as malas. Ele trazia o seu coração. Apenas nos resta chorar. Mauler! MAULER: Mas quero acrescentar que no sétimo dia Fui despojado de tudo. devolva-me os meus quarenta aluguéis! MAULER: Vós desejais. OS CHAPÉUS NEGROS – Ele já chegou? MAULER: Um hino. Mas quebrou a nossa cara De uma vez por todas. recusou-se a dar o dinheiro. CORO DOS CHAPÉUS NEGROS. MAULER: Eu me acuso de ter explorado o meu próximo. UM CHAPÉU NEGRO – É ele. BISPA SNYDER Silêncio! Fora. BISPA SNYDER – Tu és Mauler? MAULER – Sim. já. deu cabo de si mesmo. todos para fora! A Mauler: E tu primeiro! Onde estão os quarenta meses de aluguel Desses não-convertidos que Joana enxotou? E vejam só o que ela me trás em troca! Devolva-me. Todos os pagamentos estão suspensos. Envolvamos em nossas bandeiras derrotadas Os livros de cânticos. Aqui estou agora. e dilacerado de remorsos. Sentados sobre seus últimos bancos e suas últimas cadeiras os Chapéus Negros cantam desordenadamente seus últimos hinos. Se aproxima já Com os seus milhões. Diante de vós. Culpado. inclinado sobre os livros de contabilidade – Não direi o que estou calculando. olhos voltados para a porta. Sentados sobre as margens do lago Michigan. Jogou no mar seus milhões. E esse gesto tocou os nossos corações. OS MÚSICOS: É deste aí então que vocês esperavam O dinheiro para nos pagar? Então nós vamos embora. E sobre nós a neve envia suas tempestades Em um inverno no qual crescem os rigores. BISPA SNYDER. Tiremos de nossas paredes as máximas. que tenha caído tão baixo.44 No fim. Os músicos tocam um hino. Os Chapéus Negros cantam. Joana. meus amigos. sem nada.

OS REIS DA CARNE: Perdoai-nos. hesitantes.45 Sobre o que há de pior em mim. Mas Slift. Para mim o humano era aquele a quem eu podia explorar. Na porta. gado canadense. tomando a frente : Mauler. Que projeto tendes agora. eles iriam trazer. tomado de loucura. Em três dias. Estão pálidos como o linho. comprometendo suas casas. em poucas palavras. Subiu os preços a noventa e cinco. Ah! Se não tivesses aliviado tanto os nossos bolsos. Mauler. Prometiam até o gado por nascer. a comprar gado. O que pretendeis fazer de nós? Foste vós. OS CRIADORES: Maldito Mauler. . Um zênite ameaçador de pensamentos desconhecidos. é aqui então que te escondes? Paga nossos bois ao invés de fazer penitência. com voz dura. Bispa. Os complexos pensamentos de vosso imenso espírito. Slift apertou Ainda mais forte a nossa garganta. Mauler. No mercado perturbado. Que não ficou só por muito tempo. Vossa função seria apenas a de brincar na relva. Eles também estão muito pálidos. quem nos derrubou. chorando. desde a aurora. e a noventa e cinco Comprou-os todos. O ancião venerável. O Banco Nacional gritou: “Alto”. o caos. Mauler. Mal viu esses bois vindo ao longe. Ninguém jamais pode fugir da lei. Quando. Este espetáculo atroz apavorou o ancião. da Argentina. Mas se chamássemos de homem àquele a quem se ajuda Daria no mesmo: necessitaríeis sempre De gente a ponto de afogar-se. e sobre nossas cabeças. E sobre eles atirou-se. Dá o dinheiro. partistes. salva tua alma. ao meio-dia. firmas de grande renome. durante sete horas. assumindo seus deveres. Concluo eu o seguinte: o Mauler que sou Não é aquele do qual precisais. paga-nos o gado! GRAHAM. E Wallox e Brigham. Lançou. agigantou-se E a todos nos precipitou no abismo! MAULER: Oh! Eternos combates! Em nada são diferentes Desde os tempos antigos onde os homens Com uma barra de ferro rachavam-se as cabeças! GRAHAM: Recordai que estávamos à vossa mercê. que fareis? Entram os criadores em grande agitação. Um vitelo ou um porco. Não terias a necessidade de aliviar aqui A tua consciência. Eu sei muito bem. No ciclo dos astros ou das mercadorias. Ele tenta sair. Que a constatação vos enche de amargura. E hipotecando até o último lápis Para trazer de Quebec. Viram-se os preços Oscilarem. como um bêbado sedento Que ao mar esvaziou sem se satisfazer E lambe avidamente cada gota que encontra. Dais o nome de homem a quem vos vem ajudar. Acorreram todos em ajuda. Por vós fomos forçados. Pelos contratos que nos obrigavam A entregar de imediato as conservas prometidas. Mas nós estamos perdidos: Em torno de nós. Loew e Lévi. E tudo o que de longe parecesse um boi. Que vos pertencia. os reis da carne vêm ao seu encontro. o que existisse de gado. Relatarei o combate memorável Que. nobre Mauler. Era vosso todo o gado. por ter vindo Atrapalhar neste lugar as tuas meditações.

fomos estrangulados E de que adianta estrangular um cadáver? MAULER: Foi assim então. isto é. Como a água que cai na cascata. E viu-se. os cavalos inimigos. e então se retirarem. O sapato. Do outro eu preciso. Mas alto o bastante para que todos ouvissem: Para pagar-lhes tomem então nossas fábricas. Até os simples contínuos.. Lutavam a dentadas. tomados de desespero. baixou. Aí está o que tornou o contrato sem valor Apertastes muito forte. Porque não mais podemos honrar os contratos. ele ao menos vale vinte e cinco centavos. Lévi. E como contratos nulos não impõem compras. Como definha uma esponja espremida. um a um. Rangerem os dentes. em um espasmo. Célebres. os fabricantes apáticos Depositarem a vossos pés suas fábricas fechadas. com olhos marejados. MAULER: Agora mesmo. os agentes fechando suas escrivaninhas. Seria esmagado como um morango no chão. Casas até então sólidas e poderosas. E nós comprávamos sempre: Nós precisávamos comprar. mudos. E que não foi ainda acertado. Que nos píncaros se encontrava. Estão satisfeitos? OS CRIADORES: Há pouco tempo.46 Mas Slift gritou: “Três dias não. Com esse chapéu e este sapato: Dez milhões o chapéu. Eles precisavam entregar. Só um. Inúteis portanto. e os preços subiram. E em silêncio também os bancos desmoronaram. os vívidos vitelos. quando e com que dinheiro Nos pagarás o gado comprado. Ouviu-se nesse dia os jovens estagiários. paravam de viver. quando levamos às estações De nosso longínquo Missouri Com muito sacrifício. Slift.. Nós queremos que nos digas Como. Com esse gado que ninguém é obrigado a comprar? OS CRIADORES: Sem querer perder a paciência. Em tudo semelhantes aos antigos corcéis Mordendo. de rocha em rocha E somente em trinta a queda parou. é sabido. de imediato. diga-me. entrego por cinco. se por um acaso Um elefante se arriscasse pelo interior da Bolsa. E Brigham arranca a barba aos gritos: “Noventa e seis”. Parando de pagar. bancos. Sob nossos olhos. Institutos de crédito. golpeia um corretor na barriga. E os jovens bois de pêlos reluzentes Engordados com tanto cuidado.E a voz ainda nos alcançava Mesmo com a balbúrdia dos trens que partiam: . Naquele instante. na batalha. Slift então gritou: “Cem”! Poderia ouvir-se um alfinete cair. o velho Lévi disse então em voz baixa. Vertiginosamente. por sua indiferença. agora. Os corretores. que travaste a batalha Que deixei a teus cuidados! SLIFT: Corte-me a cabeça! MAULER: E de que me serve tua cabeça? Dá-me o chapéu. Toda a família nos gritava de longe Com a voz embargada pelo trabalho duro . a carne de boi. Lançaram-se um a um nesta última batalha. em um suspiro. Eu quero para hoje”. Lévi. obstinados. comprar. De cotação em cotação Os preços caíram e rolaram até os negros abismos. O que fazer.

MAULER: Ou seja. Providos de sopa quente e de boa música. Caro Pierpoint. Compreendido como sendo de interesse geral. neste estado. para que os preços voltem a subir. voltar para casa? O HOMEM DE ANTES. pensai no caos Que ameaça a tudo engolir.. MAULER – Eu costumava ser esse Mauler. não bebam todo o dinheiro. compreendei. E dado que de vós necessitamos. nós estaremos de bom grado à sua disposição. Abandonai. nós lhe forneceremos amanhã mais detalhes. o que faremos. nós aconselhamos a fazer um acordo com os criadores para reduzir o rebanho. Outra vez responsável. Nossa pobreza é termos perdido O sentido dos valores mais elevados. Mas para mim. Alguma chance de sucesso. E o barulho das metralhadoras. Se assim fosse concebido. para que comprasse carne. nobre Mauler. MAULER: Em nós a consciência. MAULER: Se o faço. Mas nossa pobreza não é. Cuja voz está a tal ponto asfixiada. mostrando o lombo vazio E nossos bolsos também? Como. De um asilo necessário para os casos mais graves. OS FABRICANTES E OS CRIADORES: Desejarias. amigos. GRAHAM – O que não é possível? MAULER – Tenho amigos em Nova Iorque que. Não. Pois os preços do gado vão subir. De máximas sagradas e escolhidas com grande cuidado. Sancionado pelas instâncias superiores. Neste caso. A Snyder: Existem muitas dessas lojinhas Onde se vende a Bíblia? BISPA SNYDER – Sim? MAULER – E como elas vão? BISPA SNYDER – Mal. condescender.. Julguem vocês mesmos. é impraticável. vocês estariam dispostos. entrando – Mauler está? Uma correspondência para ele.(Ele abre a carta e lê de canto) “Escrevemos a você recentemente. pelo que dizem. Mauler. rapazes. isso não é possível.. Mas se fizéssemos uma grande promoção De sua instituição. Como tudo de agora em diante Me parece diferente. esta caça fatigante. Seus amigos de Nova Iorque. estão para sempre perdidos. Nem todos aqui em baixo poderiam ser ricos. Estariam vocês dispostos a repetir aos quatro ventos .47 “Ei. é muito a contragosto. Seus bens. Ele estende-lhes a carta. O projeto teria talvez. caro Pierpoint. E voltar até nós? Pensai. Agora. Deixando as sublimes esferas onde meditais.” Não. conhecem um meio de sair desta. mas são numerosas. Não quero. GRAHAM – Mas então é Wall Street? Um murmúrio percorre o ambiente. O negócio só é possível. Não ter fartura de bens terrestres. de Nova Iorque. sozinho. Jogai sobre vossos ombros o jugo.. MEYERS – Quem são esses amigos de Nova Iorque? MAULER – Morgan. esperamos” E agora. Rockfeller. elas vão mal. Como voltar para nossa terra? E que diremos a eles. Pois ainda creio ouvir O rumor dos matadouros. a quem mandavam cartas desse tipo. assumir a empreitada. ao contrário. entendei.

Digamos: a maior parte. OS FABRICANTES – Que cérebro! MAULER. Toda essa gente aí fora: Eles são os nossos compradores! Dirigindo-se aos outros: É incrível. tem seus defeitos. é claro Que entre vocês estivesse Joana. nesses tempos de desgraça? Pois serão necessárias medidas draconianas Que poderão parecer duras porque irão Derrubar alguns e. . Então. criadores e industriais. mas se o gado tem tão pouco valor Que pensam em queimá-lo. não poderíamos Doá-lo àqueles que esperam lá fora E quem sabe utilizá-lo melhor? MAULER. ofuscado. mas olhando bem Quem vê além das aparências das coisas. aos fabricantes: Faremos uma fusão de suas indústrias Em um só monopólio. Chapéus Negros. Elas impedirão que em sua brutalidade Um povo. E que. Não tem outra causa a não ser Que há carne demais. é eminente -.Pois eis Chicago outra vez agitada A greve geral. Em que em nossas cidades os problemas não têm fim. Eu compreendo o senhor. Eles podem nos parecer inferiores. É por isso. Nesse tempo de humanidade desumanizada. Será preciso demitir um terço dos operários: Também de mão de obra o mercado está saturado. nós decidimos. para puxar os preços. Limitar o rebanho oferecido no mercado. é lógico. Elas trarão a calma e a ordem. aos criadores : Escutem. Enfim. sorrindo: Minha cara bispa. Nós o faremos. Meter um freio à anarquia da criação. que nós subvencionaremos Fartamente a sua missão que contribui Com a manutenção da ordem. meus amigos! Eles cochicham. que deseja Fazer o bem. . Todos sorriem longamente. mais ainda. quebre suas ferramentas E destrua assim seu próprio ganha-pão. dizem. pedindo a palavra: Perdão. É preciso limitá-la. Vê que são eles os compradores! Seja como for. BISPA SNYDER – Quase todos. Eliminar o estoque excedente atual. E mesmo que muitos não compreendam. Eu fico com a metade das ações. ou melhor: quase todos Mas é o único meio de salvar o sistema De vendas e compras no qual vivemos. desordem e violência. Em conjunto. TODOS – Não há outra saída! MAULER – E também precisaremos reduzir os salários! TODOS – É o ovo de Colombo! MAULER: Qual o objetivo dessas medidas? Nesta noite de sangue e confusão.48 Que nós somos uma gente valorosa. queimar um terço do gado existente. Esta dificuldade pela qual estamos passando Está a ponto de ser superada. E é por isso que os preços caíram a zero. MAULER. Miséria e fome. você não compreendeu A questão de fundo. supérfluos. E às vezes inoportunos. O mercado foi saturado este ano. TODOS – Que solução simples! BISPA SNYDER. Seria muito importante.

penteados e carecas. estão chegando! Daqui eles não escapam. Música de órgão. Perseguidos sem trégua. As coisas retomaram o rumo que nos agrada. JOANA. dois homens conversando. cantam. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Todo aquele que aqui entrar. a seu lado. Toquem a música e nós mesmos Seremos os primeiros a nos sentar Para elevar nossos corações a Deus. o mercado vai ser curado! Outra vez saímos do ponto morto E realizamos uma obra difícil. eles chegam até nós. Foram presos os sacrílegos que perturbavam a paz e a ordem! SLIFT: Podem respirar. Até nós. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Tranquem as saídas. joguem as grandes redes! Eles saíram agora de sua última casa! Deus lançou sobre eles o frio! Deus lançou sobre eles a chuva! Eles terão de vir. apanhem-no! Lazarentos e descalços. não deixaremos! Sejam bem-vindos. Nenhum deles tem chapéu. entrando precipitadamente – Escutem a boa nova! A greve que nos ameaçava foi sufocada. UM DELES – Quem são eles? O OUTRO Nenhum deles Pensou só em si mesmo. apanhem-nos! Sejam bem-vindos. Ninguém pode escapar: tranquem as saídas. para que nenhum escape! Eles estão a caminho. Joana segue com o olhar os prisioneiros. Quando estão cegos e surdos. olhar fixo na porta: Eles terão de vir. Nossos planos outra vez se impõem. Os que aqui chegarem. De sopa encham os pratos. Eles combateram Pelo pão dos outros. UM DELES – E por que foram presos? . chega e pergunta – Vocês viram passar três homens que vinham buscar uma carta? Ao fundo ouve-se gritos que se aproximam. UM CORRETOR. Imóvel. Passam então os dois dirigentes operários escoltados por soldados. MAULER: Abram agora a porta principal Aos homens cansados e cheios de preocupação.49 Cuja face por si só já inspira confiança. Quando perdem o trabalho. estamos prontos! Já estão chegando! A miséria os traz aqui como um rebanho! São obrigados a vir. Eles vêm até nós para chorar. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! XI NOS MATADOUROS EM FRENTE AO ARMAZÉM DAS FÁBRICAS GRAHAM Os matadouros estão quase vazios. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Vamos. Sejam bem-vindos. joguem as grandes redes! Sejam bem-vindos. SNYDER – Abram as portas! A porta principal é aberta. Passam apenas alguns grupos de operários. OS CHAPÉUS NEGROS. Ela então ouve.

O POLICIAL: Eis aqui uma sem-teto. mas apenas para dois terços dos operários. não é ela. Durante alguns segundos eu a vi distintamente. E a carne vai subir. Nenhum. Um grupo de pobres entra. UM DELES – O que farão com eles? O OUTRO: O salário deles é baixo e seu trabalho útil à maioria. Era uma velha operária. XII EM FRENTE AO ARMAZÉM DA FÁBRICAS GRAHAM Um grupo de operários entra. Ou de malfeitores postos na cadeia. o salário também. você aí! As coisas deram errado. Nós soubemos ser sublimes E vulgares quando necessário. Aqui está! Seriam necessárias muitas como ela. Em nós podem por fé.50 – O homem injusto atravessa a rua à luz do dia. os jornalistas a interpelam. Não. As fábricas reabrem. Golpeados. SNYDER: Quando nos jornais falarem de criminosos abatidos. como se ainda quisesse entregá-la: . Quando os soldados vierem a recolherão. Nem é enterrado com decência. esticando o braço com a carta na mão. Enfim o sucesso chegou E tudo acabou bem. a sorte nos sorriu. As rajadas de neve a impediram de ver os soldados. A decisão sobre a greve geral só chegou a uma parte deles. e a esta a polícia dispersou com o uso de força. UM DELES – Por que não se ouve falar deles? O OUTRO O OUTRO greve. Nos vales e nos cimos. Seu último endereço Teria sido aqui. JOANA. pisoteados. – Ela deve estar aqui. Lançados em terra profana. carregando lanternas. foi reduzido em um terço. UM DELES – Sempre será assim? O OUTRO – Não. Todos perecem antes do tempo. saiba que são eles. Joana. não é a nossa Madona dos matadouros? Hei. Nenhum come seu pão tranqüilamente. A greve geral fez água. os açougueiros (fabricantes de conservas) os criadores e os compradores. chega ao termo de sua vida. Joana cai desmaiada. Ela veio daquele lado e aqui ela gritou para os nossos que as empresas municipais iriam decretar OPERÁRIOS Sim. Um deles a derrubou com uma coronhada. que seguram bandeiras novas. Nenhum morre de barriga cheia. Recolhida doente Nos matadouros. amparada por um policial. Deixem ela aí no chão. entretanto. à sua frente. OS JORNALISTAS – Vejam só. mas o justo se esconde. Divididos em grupos estão os Chapéus Negros. Deus outra vez se impôs. Joana se vira. Esta aqui não é das nossas. JOANA – Os operários concordaram? OS JORNALISTAS – É claro. XIII MORTE E CANONIZAÇÃO DE SANTA JOANA DOS MATADOUROS Agora o templo dos Chapéus Negros está ricamente mobiliado.

Por uma boa causa. Joana dos Matadouros. Vamos colocá-la em destaque.51 Jamais receberá a carta Aquele que agora está morto. Matéria a sua altura . Desta vida intolerável E atingir o inconcebível. E seus erros. BISPA SNYDER: Levanta-te. o infinito. OS CHAPÉUS NEGROS: No final. A vida tranqüila de um cordeiro. MAULER: Uma alma que exala sublimes impulsos Suporta mal. Eu o neguei. dando provas de humanidade nos matadouros. quais os gritos que abafas? Comei vossa sopa! E não desperdiceis esse resto de calor. Slift discute com Snyder e com os fabricantes. Pelo contrário. sua térrea natureza. Eu falhei com os perseguidos. E em sua marcha altaneira Para evadir-se ao mundano. também humanos! JOANA. E tinha sonhos para milhares. a quem não se pode mais explorar! Comei a sopa! Ah. Mostrá-la entre nós provará o quanto nos importam os sentimentos de humanidade. Intercessora dos pobres. O ideal. Consoladora dos baixios! JOANA: Que vento sopra nesses baixios? Neve. E eu não fiz! Enquanto os pobres tomam assento nos bancos para comer a sopa. marchava para a luz! Seus atos eram os de um ser humano. e ultrapassa o objetivo. E outra vez o mundo Percorre o antigo ciclo. Vós. infelizmente. MAULER: Que tome posição em nossas fileiras Esta alma inocente e cândida E que sua bela e pura voz Misture-se aos cânticos de nosso coro. empregando todos os meios. enquanto as moças dos Chapéus Negros a vestem novamente com o uniforme: Ouve-se outra vez o rugir das fábricas: Outra vez se desperdiçou a chance De colocar um freio a esses excessos. pois ela nos ajudou a atravessar a tormenta dessas semanas difíceis. Chegou na hora certa. Se eu apenas tivesse entregue A carta que me confiaram! OS CHAPÉUS NEGROS. Ela vai muito adiante. eu poderia levar. dirigindo-se a Joana: Como ela ainda está perturbada. JOANA: Eu falei em todos os lugares. na noite. Nós faremos dela uma santa e não economizaremos em homenagens. por menor que fosse. SLIFT – Esta é nossa Joana. Ela que. Quando se poderia ter alterado o curso das coisas. Quando o meu esforço. um serviço tão pequeno Foi só o que em toda a minha vida Me pediram para fazer. Foi necessário. E só servi aos perseguidores. intercedendo pelos pobres e mesmo proferindo discursos contra nós. Que Joana exorcize o mal E que por nós ela interceda. Ela será a nossa Santa Joana dos Matadouros. Eu faltei. toda a obra Onde o espírito não encontra.

ignora-se o que se passa em baixo. Exceto aquele que muda o mundo Definitivamente: isso é o que é realmente necessário. que significam Se não se manifestam em nenhum lugar? De que serve vosso saber Se o que sabeis não tem conseqüência? Eu mesma. Se não for uma ajuda real. a Joana: Seja boa e se cale! . No topo e no chão.52 Resta fragmentada Sem alma e sem vida. O que está em baixo tem grande importância. OS CHAPÉUS NEGROS. Entre os do alto a baixeza é sem limites. Precisa-se do chão. A essas tropas indispensáveis. E dois idiomas diferentes Os homens têm a mesma face E não se reconhecem mais. Quaisquer que sejam as aparências. falando alto. fique no lugar Que lhe é atribuído. qualquer que seja. então. Mas também no alto. GRAHAM – Ela não pode proferir discursos que não sejam razoáveis. Eu. Maldito aquele que apelar A essas massas essenciais Mas sempre insaciáveis. Que ninguém seja tido como honrado. Nunca se sabe em baixo.Isso não basta – Deixai um mundo bom. Pois se dele esquecer Perturbará nossa harmonia. eu não transformei nada. é magnífico Sempre que espírito e negócios se aliam. E o que se passa no alto. Que nada seja considerado como boa ação. o que foi que eu fiz? Nada. dois pesos e duas medidas. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES. Não esqueçamos que ela esteve nos matadouros. Sistema bestial. caí do céu! Infelizmente! Bondade sem conseqüência! Sentimentos Que não fizeram a menor diferença! Não. como do topo. E sem descanso nem folga Realize seu dever. Eu vos digo: Quando chegar a vossa vez de deixar esse mundo. JOANA: Pois entre os de cima e os de baixo O abismo é mais profundo Que entre o Himalaia e o fundo do mar. Mas que não sabem o quanto. O que está em cima está em seu justo lugar. Não tenhais a preocupação de terem sido bons . Deixando sem medo um mundo por onde passei muito rápido. OS FABRICANTES: O resultado. Porque o sistema é construído assim: É apenas exploração e desordem. JOANA: É uma grande verdade Que aprendi e que vale para todos E morrendo eu vos digo: Vossos bons sentimentos. A esses elementos dos baixios! JOANA: Mas os que estão por baixo são assim mantidos Para que os de cima lá continuem. Que cada um. Mas nada mudará se eles melhorarem. Contrário à razão. de maneira a encobrir a voz de Joana: Para que até o céu se levante o edifício. para os exploradores.

Só dos homens pode vir ajuda. Em suas compras. de esquecer os remorsos. MAULER: Deves agir. Sempre necessário . distingam com um sinal! Hosana! Enquanto eles cantam os versos. invisível. Onde vivem os homens. Onde reina a violência Não há outro recurso senão a violência. Mas evita. Denegrindo a ti mesmo. O Verbo magnífico. JOANA: Se alguém um dia vos disser Que existe um Deus. tudo concedei! Hosana! Concedei-lhe a cidade e o Estado! Hosana! Aos vencedores. infelizmente.53 É preciso. ferir! OS CHAPÉUS NEGROS: Nunca esqueças do sangue que mancha teus sapatos. mas que seja bem alto. Do qual podeis esperar ajuda. Não esqueças: tua consciência está lá! Atenção. vinte e cinco anos. é preciso fazer algo para tirar a atenção do que ela fala. cantam a primeira estrofe do hino. Combatente e mártir. contraiu a serviço de Deus uma pneumonia nos matadouros de Chicago. para abafar o discurso de Joana. comerciantes.266 bilhões só em dez dias de março” “BC assalta U$ 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street” “Montadoras almoçam os R$ 8 bi do crédito e mantêm ameaça de demitir trabalhadores” “Deficit dos EUA deve chegar a US$ 9 tri entre 2010 e 2019” . Batei com uma pedra em seu crânio Até que arrebente. JOANA: E do mesmo modo. Falem. Todos. obedeça! OS AÇOUGUEIROS: Quem se mover no espaço Nunca poderá subir: Subir é subir sobre alguém. a eles concedei! Hosana! A quem tudo possui. de século em século. sobretudo. é verdade. Não. É preciso também golpear-lhes o crânio com uma pedra. Precisarás deles sempre! OS CHAPÉUS NEGROS: Olha para cima. os alto-falantes começam a transmitir notícias que espalham o medo: “Bank of America e Citibank estão de pires na mão” “Revolta contra os cupins financeiros conflagra Londres” “Múltis drenam do país US$ 3. OS AÇOUGUEIROS: E nem pensa em tirá-los. Não esqueçam. sempre mais alto. Que podeis elevar-vos moralmente Mesmo com os pés enfiados na lama. SLIFT – Escutem. BISPA SNYDER – Joana Dark. digam qualquer coisa. Aos ricos concedei a riqueza! Hosana! Também a virtude. ou seja. A palavra de Deus. quando vos disserem.Sobretudo se forem compras especulativas – Esse Verbo que. Sempre se metamorfoseia. Chegar ao topo implica Pisar na cabeça daqueles que estão por baixo. OS AÇOUGUEIROS: Podes fazer qualquer coisa! OS CHAPÉUS NEGROS: Mas faça-o Sempre com muito escrúpulo! Espírito contemplador.

mudos de emoção. Pelo espírito. vinte e cinco anos.” “Foram as tarifas das estradas de ferro que nos esfolaram. morta de pneumonia nos matadouros. Colocam a bandeira em suas mãos.7%” “Crise já eliminou 6 mi de empregos nos EUA” “Incertezas rondam fábricas da GM à beira do fechamento” Sob o efeito dessa terríveis notícias os personagens trocam entre si acusações e diversos insultos como esses: “Açougueiros sujos. se não tivessem degolado tantos porcos!” “Criadores miseráveis. Hosana! Nesses braços que vos estendem. Em seguida cai nos braços delas. A generosidade De uma alma sem mácula. Infelizmente. MAULER: Como a pureza De um ser inocente. tocada pela morte. Hosana! Esmagai o ódio. Bolsa de NY cai 4. até o fundo cravado. Nós que temos a alma comum! E então desperta a boa alma Que temos no fundo de nosso coração. que manipulam o dinheiro a rodo. Ajudai vossa classe. sinto-me atraído: . Por um nobre ideal. a serviço de Deus. Hosana! Com mãos cheias. que vos ajuda também. Não dá mais sinais de vida. MAULER – Dêem uma bandeira a ela. Aos astros. Hosana! Durante esta estrofe. Hosana! Que seus crimes terminam bem. Snyder e Mauler vão até ela. Hosana! Oferecei a vossa graça. combatente e mártir. Hosana! Juntai vosso riso aos que riem. Comove-nos profundamente.54 “Empresas dão calote recorde para remunerar seus acionistas” “Recessão ainda irá se agravar no Japão.” “Foram os especuladores de grãos que encareceram o gado. BISPA SNYDER – Joana Dark. ao firmamento Um impulso múltiplo o atira. para sua grande pena. Hosana! Notam que Joana para de falar. A voz de Joana já não se ouve: Concedei aos ricos misericórdia. Hosana! Piedade com aqueles que ignoram a fome. até cobri-la totalmente. A um sinal da bispa. as mulheres tentaram oferecer a Joana um prato de sopa. O palco é iluminado com uma luz rosada. por que criaram tanto gado?” “Alucinados. sempre ele aspira Às esferas mais elevadas. por que não empregaram mais gente e pagaram melhores salários? Quem esperam que compre a nossa carne?” “Foram os intermediários que fizeram subir tanto a carne de gado. foram vocês que se recusaram a reduzir também!” “Vocês são os únicos culpados!” “Enquanto não acabarem com vocês não vai melhorar!” “Faz tempo que o destino de vocês está selado!” “O que estão esperando para prender vocês?” Todos cantam a segunda e a terceira estrofes do hino. Em duas tentativas ela recusa o prato. Todos ficam muito tempo de pé. Hosana! Ajudai a quem tudo possui.” “Os bancos nos arruínam com os juros que exigem!” “Quem pode pagar tanto dinheiro para estocar o gado e pelos silos de grãos?” “Por que vocês não começaram a reduzir a produção?” “Nós começamos. na terceira vez ela o pega. Qual um punhal. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES: Desde que o mundo é mundo. colocam-se suavemente todas as bandeiras sobre Joana. A carne para a terra o arrasta! MAULER: Ai! Um duplo desejo dilacera meu pobre coração. mas ela cai. levanta e vira. diz governo ” “EUA mudam socorro para bancos. Um desejo vive no coração do homem.

Cuida bem das duas! . Ele precisa cuidar de ambas. Longe de querer escolher uma delas. não consigo resistir Inexplicavelmente! TODOS: Em cada homem habitam Duas almas opostas. Homem! Luta sempre contigo mesmo! Sigas sendo este ser uno e sempre dividido! Cuida de tua alma boa. desejo o altruísmo Mas à atração pelo lucro. como de tua alma grosseira. como de tua alma vil. Cuida de tua alma terna.55 Desejo a abnegação.

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