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I O rei da carne, Pierpoint Mauler, recebe uma carta de seus amigos de Nova Iorque CHICAGO. OS MATADOUROS
MAULER,

lendo uma carta. – “Parece-nos evidente, caro Pierpoint, que já há alguns dias o mercado da carne está saturado. E, no sul, as barreiras alfandegárias resistem a todas as nossas ofensivas. Acreditamos, portanto, ser prudente, querido Pierpoint, não mais envolver-se com este negócio...” Acabo de receber essas indicações de meus bons amigos de Nova Iorque. Lá vem meu sócio. Ele esconde a carta. CRIDLE – Por que esse ar tão sombrio, querido Pierpoint? MAULER: Lembra-te, Cridle, daquela caminhada Que fizemos uma vez, pelos abatedouros? Era noite. Diante de nossa máquina nova, Cridle, lembra-te, nós vimos um touro Claro e nobre, dirigindo aos céus seus grandes olhos vazios. Ele recebeu diante de nós o golpe que o abatia: E tal golpe me atingiu até o fundo do coração! Há sangue demais, Cridle, em nosso negócio! CRIDLE: Amigo, vens outra vez com tua antiga fraqueza. Quem acreditaria, Pierpoint? Tu, o maior de todos, O rei dos abatedouros, dos açougueiros o terror, A morte de um touro louro te enche de dor! Não conte, eu te rogo, tal segredo a ninguém A não ser a mim! MAULER: Oh, meu fiel amigo, Por que me levaste a visitar o abatedouro! Durante os sete anos em que estou no negócio

Eu evitei fazê-lo. Eu não posso suportar Um comércio tão sangrento, não tenho mais forças: Eu me retiro de imediato... Cridle, queres a minha parte? A terias por muito pouco; a ti, a preferência: Ninguém conhece o negócio como tu. CRIDLE: Muito pouco? Quanto? MAULER: Velhos amigos como nós dois Não podem disputar muito por valores. Dez milhões! CRIDLE: Não seria caro, se não houvesse Lennox Que, pela carne em conserva, lata a lata se bate, E estraga o mercado com seus preços baixos. Tirará nossa pele, se não tirarmos a dele. Enquanto ele estiver em pé, e só tu podes abatê-lo, Não posso aceitar tua proposta. Deverás, até lá, com tua mente fértil, Encontrar uma saída. MAULER: Não, Cridle, Esse coração treme ainda com o grito do touro! É preciso então que Lennox caia rápido, Pois quero, doravante, viver como homem de bem E não mais como açougueiro. Saiamos, Cridle, e eu te direi A forma de abater Lennox. Mas tu deverás então tirar esse peso do meu coração E tomar a frente de nosso negócio CRIDLE: Quando Lennox for derrubado Eles saem. II

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O desmoronamento das grandes indústrias da carne A - DIANTE DA FÁBRICA DE ENLATADOS DE LENNOX
OS OPERÁRIOS

Nós somos setenta mil Nessas fábricas de conservas E nossos salários são tão baixos que não podemos mais [sobreviver. Ainda ontem, de surpresa, reduziram nosso pagamento E hoje, um novo aviso: “Os que não estão satisfeitos, sempre podem deixar a fábrica!” Saiamos então, e todos juntos. Ao diabo esse salário que diminui todos os dias. Silêncio Há muito tempo já esse trabalho nos nauseia: Esta fábrica é para nós um verdadeiro inferno E só pode nos manter aqui o medo, O medo duplo, de Chicago e do inverno. Mas agora, doze horas de trabalho Já não garantem nem um pão seco Nem dão para comprar um trapo velho. Melhor partir E morrer de uma vez. Silêncio Pelo que nos tomam eles? Acreditam então Que nós somos gado, dispostos a tudo? Tomam-nos por jumentos? Melhor morrer! Deixemos a fábrica Agora mesmo. Silêncio O que houve? São seis horas! Por que não abrem, corja de esfoladores? Seus bois estão aqui, bando de açougueiros! Abram! Batem no portão.

Terão eles nos esquecido? Risos. Abram! Queremos entrar Em suas imundas pocilgas E suas cozinhas infectas Para preparar guisados indigestos Para os que ainda podem pagar. Silêncio No mínimo exigimos, O salário anterior, que já não dá para nada. No mínimo A jornada de dez horas e, no mínimo... UM HOMEM QUE PASSA: O que vocês estão esperando? Não sabem que Lennox fechou? Gazeteiros de jornal aparecem na cena GAZETEIRO – Lennox, o rei da carne, forçado a fechar suas fábricas! Setenta mil operários na rua. Lennox vítima da concorrência feroz imposta por Pierpoint Mauler, rei da carne e da responsabilidade social!
OS OPERÁRIOS

Desgraça! O próprio inferno Diante de nós fecha suas portas! Nós estamos perdidos. O impiedoso Mauler Aperta a garganta de nosso explorador E somos nós que sufocamos! B - UMA RUA – A Tribuna de Chicago, edição do meio-dia! O rei da carne e da responsabilidade social, Pierpoint Mauler vai inaugurar os Hospitais Pierpoint Mauler, os maiores e mais caros do mundo! Dois transeuntes olham para o fundo do palco, “vendo” Mauler. UM TRANSEUNTE, ao outro – Aquele é o Pierpoint Mauler. Mas quem são os dois que o acompanham?
GAZETEIRO

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– Seguranças. Só anda escoltado, com medo de apanhar de alguém.
O OUTRO

Para levar Deus ao coração de um mundo que desaba E nele restaurá-Lo, pela ação dos mais humildes. Os Chapéus Negros andam. Toque de tambores. Durante todo o dia os Chapéus Negros pregaram nos matadouros, mas, quando a noite chegou, os resultados eram quase nulos. DIANTE DA FÁBRICA DE CONSERVAS LENNOX – Dizem que eles estão preparando um grande golpe sobre o mercado de carne. Para nós isso que dizer esperar e passar fome. OUTRO OPERÁRIO – A luz está acesa nos escritórios. Estão lá, calculando os lucros. Chegam os chapéus Negros. Fixam no chão uma placa na qual se lê: “Hospedagem: 20 centavos por noite. Com café: 30 centavos.” CHAPÉUS NEGROS cantando Escutem todos, escutem bem! Tu que te afundas, nós te vemos, Teu apelo por ajuda, nós o escutamos, Teu sinal, nós o percebemos. Parem os carros, detenham o trânsito Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Tu que te escondes, tu que duvidas, Olha para nós! Olha, Meu irmão, antes que sucumbas! Nós te damos o que comer E nós não esquecemos Que tu não tens abrigo. E, sobretudo, não digas que tudo está perdido: Tudo será diferente, a injustiça nesse mundo Não poderá durar se todos se juntarem a nós, Marchando ao nosso lado Com o único objetivo de ajudar o próximo. Nós faremos avançar os tanques e os canhões
UM OPERÁRIO

Para levar consolo aos miseráveis dos matadouros, os Chapéus Negros deixam a sua sede. Joana empreende sua primeira descida às profundezas. C - EM FRENTE AO TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS
JOANA,

à frente de um comando dos Chapéus Negros: Nesta noite de sangue e confusão, Nesse tempo de desordem organizada, De arbitrariedade consentida, E de humanidade desumanizada, Nesse tempo em que em nossas cidades Os problemas não têm fim; Nesse mundo, imenso matadouro, Em que nos chegam rumores de violência iminente; Para impedir que, em sua brutalidade, O povo, ofuscado, quebre suas ferramentas E destrua assim seu ganha-pão, Nós queremos reintegrar Deus Pois aos lugares onde realmente vivem os homens Ele não mais tem acesso: Sua glória anda pouca, Seu nome, já quase suspeito. Dos mais humildes, entretanto, ele é a única salvação! Então nós resolvemos Por ele bater nossos tambores nesses bairros; Para que ele penetre no coração da miséria E que sua voz retumbe pelos matadouros. Aos Chapéus Negros: O que faremos agora é uma última tentativa. Pela derradeira vez, nos esforçaremos

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Nós lançaremos ao mar os navios de guerra, E nos ares, os aviões Para conquistar teu pão, meu irmão. Porque vós, os pobres, formais Nesse mundo um imenso exército. Vós que nos escutais Não esperai o amanhã! Desde hoje ajudai, Ajudai ao próximo! Avante! Ao assalto! Empunhai vossos fuzis! Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Cantando, os Chapéus Negros começam a distribuir seu jornal: Apelo às Armas, bem como colheres, pratos e sopa. Os operários agradecem e põem-se a escutar o discurso de Joana. JOANA – Nós somos os soldados do bom Deus. Por causa dos chapéus que usamos, somos também conhecidos como os Chapéus Negros. Nós dizemos que somos soldados, porque formamos um exército e porque, em todos os lugares em que vamos, precisamos lutar contra o crime e a miséria, contra as forças que tendem a nos aviltar. (Ela mesma começa a distribuir sopa) Bem, agora comam esta sopa quente e constatarão que depois vocês verão as coisas com um olhar diferente. Pensem agora qual esperança se pode fundar sobre a felicidade terrena. Nenhuma, absolutamente nenhuma. A desgraça vem como a chuva: ninguém a provoca, mas, entretanto, ela vem... Suas desgraças, digam-me de onde vem? UM DOS QUE COMEM – De Lennox & Cia. JOANA – O senhor Lennox tem talvez mais preocupações do que vocês! O que vocês estão perdendo? Ele, suas perdas se contam por milhões. UM OPERÁRIO – Carne não há nesta sopa, só uma aguinha clara, isso sim. Mas quente, pelo menos, está. OUTRO OPERÁRIO – Fiquem quietos, bando de glutões! Escutem a palavra de Deus! Senão vão tomar o prato de água quente de vocês.

– Silêncio! Queridos amigos, digam-me: por que vocês são pobres? UM OPERÁRIO – Sei lá! Explique você! JOANA – Eu lhes direi. Não é porque vocês não estão cheios de bens materiais – que não chegam para todos – mas porque vocês não têm idéia dos valores mais elevados. É por isso que vocês são pobres. Esses gozos vulgares aos quais vocês aspiram, comer um pouco, ter um bom lugar para morar e ir ao cinema, não são mais do que prazeres frívolos, grosseiros. Enquanto que a palavra de Deus é um prazer mais delicado, mais profundo e muito mais refinado; talvez vocês não possam nem imaginar algo mais doce do que o chantili, mas a palavra de Deus é ainda mais doce. Homens de pouca fé, os pássaros no céu não têm carteira de trabalho, as açucenas do campo não têm emprego e, entretanto, como eles cantam Sua glória, Deus lhes dá alimento. Nós, os Chapéus Negros, fazemos então a vocês uma pergunta muito prática: de que um homem precisa para crescer na vida? UM OPERÁRIO – Um colarinho engomado. JOANA – Nada disso. Para progredir na terra talvez seja necessário um bom colarinho, mas diante de Deus é preciso muito mais que isso, outras glórias. Vocês aos olhos Dele, nem mesmo um colarinho puído têm, pois deixaram suas almas no abandono. Mas então como vocês querem elevar-se, chegar ao que vocês, em sua ignorância, chamam de uma “situação melhor”? Pela força bruta, pela violência? Como se algum dia a violência tivesse trazido alguma coisa além da destruição. Vocês acham que mostrando os dentes conquistarão o paraíso na terra. Mas eu lhes digo, agindo dessa maneira o que se cria não é o paraíso, mas o caos! Um operário chega correndo. O OPERÁRIO: Uma vaga, agora mesmo, acaba de abrir! Um trabalho, um salário, esperam por vocês, Na fábrica número cinco! Que mais parece uma latrina. Corram, rápido. Um operário larga seu prato cheio e sai correndo.
JOANA

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– Ei, você, onde é que você vai? Quando se ocupará de Deus? Vocês não querem nem ouvir falar, não é? UMA MOÇA DOS CHAPÉUS NEGROS – Acabou a sopa. OS OPERÁRIOS: Acabou a sopa; Era só um caldinho ralo Mas era melhor do que nada. Todos se viram e se levantam. JOANA – Fiquem sentados; acabou, mas que importa, uma vez que a grande sopa celeste não se esgota nunca. OS OPERÁRIOS: Quando, afinal, vocês Abrirão as portas de seus porões, Carniceiros, mercadores de carne humana? UM OPERÁRIOS: Com o quê, agora, pagarei A casa pequena e úmida, onde vivemos doze? Eu já paguei dezessete prestações, Mas a última, não conseguirei Seremos jogados na rua. E o chão de terra batida E nosso pedaço de grama amarela, Nunca mais os veremos, nunca mais, Nem tampouco respiraremos seu pestilento ar familiar. UM OUTRO OPERÁRIOS: Aqui estamos, em pé, nossas mãos como pás, E nossos pescoços fortes como tratores. Nossas mãos e nossos pescoços, queremos vendê-los Mas não há quem os compre. OS OPERÁRIOS: E nossas ferramentas - Gigantesca montanha de prensas e gruas – Estão trancadas, detrás desses muros! JOANA – E então, o que se passa? Quer dizer que já se vão? É porque já terminaram de comer? Adeus e obrigado. Mas por que então vocês escutaram até agora?
JOANA

– Pela sopa. JOANA – Continuemos. Cantem! CHAPÉUS NEGROS cantando Avante, entrai nessa luta! No coração da batalha lutai! Cantai com louvor, que cante todo o mundo. Ainda é noite, mas logo virá o dia, Raiando com todo o esplendor, E junto virá Jesus Nosso Senhor. UMA VOZ, do fundo do palco – Estão contratando nas fábricas de Mauler! Os operários saem. Fica apenas uma mulher. JOANA, com ar sombrio: Parem a música! Acabou a sopa, lá se vão eles! Seus olhos são incapazes de elevar-se Mais alto do que a borda do prato. Eles não crêem em nada além do que está Entre suas mãos. Acreditarão em suas mãos? Vivendo cada dia, cada minuto mesmo, Na insegurança, eles não são capazes De se esquecer das preocupações mais básicas. Nada, a não ser a fome, tem sobre eles qualquer influência. Nenhuma canção os toca mais. Nenhuma palavra pode Descer até eles e penetrar seus corações. Aos que a cercam: Parece que nós, os Chapéus Negros, temos por tarefa alimentar todo um continente com nossos poucos talheres. Os trabalhadores voltam. Ao longe, ouvem-se gritos. OS OPERÁRIOS, na frente do palco – Que gritos são esses? Um imenso caudal humano emerge dos abatedouros. UMA VOZ, do fundo: Mauler e Cridle também fecharam. As indústrias Mauler optam pelo lock-out! OS OPERÁRIOS, refluindo:
UM OPERÁRIO

onde se compram e vendem animais. O que comeste. que fogem do trabalho. por que correm de um lado a outro e não encontram trabalho? OS OPERÁRIOS: O sanguessuga Mauler e o muquirana Lennox brigam entre si. por favor. Ele venderia o próprio ar. esse Mauler. Todos haviam perdido o emprego E perguntavam onde achar trabalho. Degrau após degrau. JOANA – Não! Eu quero saber (aos trabalhadores) Digam-me. Eles têm apenas idéias vulgares na cabeça. na frente do palco: Desgraça! De todos os lados chegam ainda Torrentes infindáveis de homens! OS CHAPÉUS NEGROS. Eles encherão tuas orelhas com seus gritos. Oh Joana! Não te metas nas querelas terrestres! Pois quem nelas se envolve. OS CHAPÉUS NEGROS – Pare! Não te metas com essas questões. desde o dia em que nasceram. Estamos gelados e molhados e precisamos comer. antes. Ao fazer mil perguntas. MARTA. O selvagem Mauler! De um tal monstro a investida É inexorável! A natureza. para ele. OS CHAPÉUS NEGROS – Então teu destino nos parece bem negro. Em um grande edifício: A Bolsa de Carnes JOANA: Eu vou até lá: Eu preciso saber. Lennox está branco como algodão. Tu desaparecerás na lama! Pois a lama entope as bocas Que fazem perguntas sem prudência JOANA: Eu quero saber. Joana e Marta esperam. quem é o responsável por tudo isso. pronto. Uma multidão enorme e desesperada. JOANA III Pierpoint Mauler é tocado pelo sopro de um outro mundo EM FRENTE À BOLSA DE CARNES Em baixo. No alto. São reles glutões Preguiçosos. UM OPERÁRIO. mora aonde? OS OPERÁRIOS: Lá. Enquanto corríamos atrás de trabalho. . a Joana – Vamos agora. ruídos da Bolsa. desce cada vez mais baixo. Sua bondade perde rápido. JOANA – Quero saber. – Não. Resultado para nós: barrigas vazias. E o frio supremo Rouba de seu coração todo o calor. eu quero vê-lo. Os Chapéus Negros se afastam.6 No meio do caminho encontramos. E vê esvanecer-se sua pureza original. torna-se. Na insana esperança de obter uma resposta Que jamais chegará. Quem abandona o lar protetor. Recebemos mil respostas. Jamais seus corações. meu velho Lennox. derrubou-te. JOANA – Esse Mauler. GRAHAM: E então. os fabricantes de conservas Lennox e Graham discutem. dos Chapéus Negros: Não vá te meter com estes problemas. Abrigaram sentimentos nobres. presa. Ao fundo. ele te revenderia. Torna-se mercadoria. já que ele é a causa de tamanha miséria.

Um mercado aviltado. e dorme mal à noite. Primeiro perde a pele.Joana. nele. JOANA. acompanhado de seu corretor. Depois seus pelos. que viram escovas. Pois caindo. Estranho conselho! Eu te agradeço. em salsicha se transforma.” CRIDLE : . eu também te recomendei prudência. Nas facas. Agora vou limpar a minha fábrica. JOANA – Mas tu vieste comigo. no último andar. E talvez chore. com voz suave. De carne podre. Tira esta mão que me aperta e me estrangula. Fizeram desabar os preços e destruíram seu negócio. Gritaram-me prudência: Para eles. Ele não pode suportar A visão da miséria. esta arte contrária à natureza. OS FABRICANTES DE CONSERVAS : Trata-se de saber quem agüentará mais tempo.. O que fazer com ela? Ah. não achas? Ele se degola e logo. moídos como farinha. Em dinheiro ele as transformará. à Marta: Tu somente. no entanto. ainda ontem florescente!. Cridle sai da Bolsa e desce até o palco. Fecho minhas fábricas. até aqui me acompanhastes. Slift. Tão natural. MAULER : Lennox está de joelhos. que vira couro. este homem não é duro E nem ama o dinheiro.7 De barracos miseráveis. Começa então o seu retalhamento. E agora. até ele e. MARTA . eu garanto. A nova técnica é muito engenhosa: O porco é colocado em uma esteira rolante Até o alto da fábrica. Todos me abandonaram. Mauler. com sua escalada. E pensa nos velhos tempos. que. MARTA – Joana. A Lennox: Estás perdido. a cada fase. Por si mesmo. por conta de seu próprio peso. Que ele não saberia jamais trair seu instinto. O faro para o dinheiro é nele tão potente. confessa.. Marta. Vocês mesmos. ele extrai rendas. Bela invenção. ficarás com a fábrica Conforme está previsto nos termos do contrato: “No dia em que Lennox for eliminado. Batendo-se por sua conquista. E assim. chega Na lata que o espera lá embaixo.. para economizar Uma agradável soma em salários. Saibas. não é verdade? GRAHAM : Muito bela! Mas e a lata. Tal qual dois grandes búfalos. olhe para mim e de meu pescoço. cruzei a última fronteira. Lubrificar meus cutelos. o porco se precipita. Quando ele não podia absorver mais nada.. época maldita! Um comércio estrangulado por montanhas de conservas. Bem pensado. sozinho.. CRIDLE: Muito bem. Espero que o mercado recobre a saúde. lutando. ele faz ouro. E se lhe jogas pedras na cabeça. Cridle. Instalar duas ou três dessas máquinas novas. Destroem com seus cascos o pasto que disputam. Diga-lhe: Mauler. como vais reconhecê-lo? JOANA – Saberei bem reconhecê-lo. então. surge de um grupo de fabricantes de conserva.. Ele terá medo. Vá. Lennox! Acabou a guerra de preços! Foste eliminado. Até chegar aos ossos.

A exigir meu dinheiro... LENNOX – Mauler. Não pude imaginar seu fado. cinco. É o máximo que posso fazer. Mas.. mergulhado em meus negócios. MAULER – Ai! GRAHAM — Viu? Ele tem um coração! MAULER : Então. é que meu coração se aperta Quando ouço mugir a criatura CRAHAM : Agora eu compreendo a grandeza de teus atos. então. Para pagar o que te devo. eu precisaria jogar essas ações no mercado. Pois eu proibirei Cridle De comprar-te uma única lata. CRAHAM : Toque-lhe o coração. MAULER – Leia. seguindo-o com os olhos: Tive a ligeira impressão de que algo o atormentava. Ah! Pudesse eu estar liberado De um comércio tão bestial! Tenho. Mas com ele acabaram Os bons dias do mercado. tenho dois mil empregados! CRIDLE – Mande-os ao cinema! Mas Pepê. Nada além. Seis dias? Não. Cridle. É preciso então. Estou tão temeroso que chego a suar frio: seis dias. Mauler. tu me forças. então. sem mais delongas. Pepê! Como quiseres. e onde eu conseguiria dinheiro para pagar tua parte? Eu estaria arruinado! MAULER : Já que me dizes isso. GRAHAM — Mauler. : Pepê! Isso não é um jogo! Não podes misturar Questões pessoais aos negócios! CRIDLE – Pois não. se tu estás Realmente onde dizes.. Lennox acabou. Lennox! Toque-o! É uma lata de lixo. de examinar Contigo. E eu. veja Lennox. CRAHAM . MAULER : O quê? A soma está inscrita Claramente no contrato Tome. as ações caíram para 100. Lennox. Isso não é um contrato? Com um preço fixado? CRIDLE : Sim.. as ações estavam a 390. Repensar os dez milhões de dólares Que queres por tuas ações. um contrato dos tempos de prosperidade! Mas e a crise? Ela não existe? Que posso fazer eu com um grande matadouro Se ninguém mais compra carne em conserva? Agora sei bem porque não podias Mais suportar a visão do gado morrendo: sua carne Não vende mais! MAULER : Não. se eu fizer isso. Hoje. mas. elas cairão a 70. Freddy! Quer dizer que tu me socas. Cridle. Não estava caro. Mauler. Veja se esse contrato diz uma só palavra sobre a crise. Antes que quebres de uma vez! Creia-me. MAULER . (faz contas em uma caderneta) Quando combinamos que tu sairias do negócio. Joana fez um sinal a um segurança e lhe diz algumas palavras. até teu coração sabe ver longe! LENNOX : Eu gostaria ainda. devido à saturação do mercado. sensível! Ele soca Mauler no coração. LENNOX – Não. o coração torturado! Cridle se afasta.8 Sim. nosso contrato não é mais viável. olhe para mim.. Mauler. nada. e tu tinhas um terço. Tu me ofereceste a 320. isto é. como eu. Ele sai.

JOANA: Por que joga. é o que tem a cara mais ensangüentada. Durante esta cena. mas vocês não devem Perguntar nada. há algumas pessoas que querem lhe falar. a Slift: Que eles trabalhem por nada. 59. Porcos. gente estranha. MAULER : Está bem. Creiam-me: esses são assuntos profissionais Que não vos interessam. – Vinte centavos. são numerosos e gozam de grande consideração nas camadas inferiores da população. dirigindo-se direto a Mauler – O senhor é o Mauler! – Não sou eu. e pôs em apuros Cridle que. Slift. sem dúvida? Prontos para a violência. Sim. Ouve-se: Bois. Chapéus Negros. que a sopa seja rala. O SEGURANÇA: Ele vai vê-los. além da comida e do uniforme.É assim. Slift ri. que a escória me chama – Despojou Lennox. MAULER – Como me reconheceste? JOANA: De todos. nem desses versos sentimentais Que eles adoram cantar. MAULER – Rindo. Pouco me importa o que esperam de mim. na verdade. apontando para Mauler – O senhor é o Mauler! MAULER – Não. MAULER . é ele. (aponta para Slift) É ele! JOANA. não é homem de bem. O SEGURANÇA — São membros da Organização dos Chapéus Negros. sobre outra questão. MAULER : A escória em farrapos. São chamados de soldados do Bom Deus. Senhor Mauler. Graham sai. JOANA. . MAULER: O tecido é bem fininho e. o rumor da Bolsa continua. O segurança vai ao encontro de Joana no outro lado do palco. Mas que nome curioso! Soldados do Bom Deus. que eu sou Mauler. que o sangrento Mauler. Mas o que eles querem comigo? O SEGURANÇA — Afirmam que têm algo a dizer ao senhor. O melhor para eles É causar em mim a impressão de gente honesta. o tecido não é grosso Nem é grossa a sopa. Para Joana:) Quanto recebes por dia? JOANA. suponho. JOANA. respondam apenas Quando ele lhes perguntar. 43. Mas. Com ar invejoso.. Mais uma coisa: não diga. hein? Não..9 O SEGURANÇA — Senhor Mauler. Vitelos. eu sei. – É o senhor. A Joana: Vós sois. seus trabalhadores na rua? MAULER. não é notável? Já viste algo igual? Que trabalhem por nada e sem se lamentar? Não vejo em seus olhos nem medo da miséria Nem de dormir sob as pontes alguma noite. Pretendo renunciar a esse negócio sangrento Logo que eu possa: renunciar sem retorno. Slift? (Enquanto isso. MAULER : Já ouvi falar dessa gente. Que não é acusada de nada E que não espera o impossível de mim. Dizem. 55. etc. em absoluto. cá entre nós. diga que não estou. Diga-lhes que eu os receberei Mas que eles limitem-se a responder minhas perguntas. adoraria vossa opinião. Nada de choros. MAULER : O que é esta organização? O SEGURANÇA — Eles têm muitas ramificações.

Melhor para ti que não os veja.. Deixai disso. tu também. no lugar do pobre animal. Senhor Mauler. Eu sei. dêem! Corja de carniceiros! Ele continua mexendo nos bolsos deles para dar dinheiro à Joana. por favor. Eu também vou embora. Um instante. de resto. Talvez por isso te ajude. não me comove. E desejaria que fossem mais numerosos. Ele fala com Slift em voz baixa. São todos carniceiros. MAULER: Eu tenho grande piedade pelos bois: o homem. não é? JOANA: Não sei se o senhor fala sério. Eles não têm mais trabalho. vamos. Mas.. MARTA. Isso não é bom? Os fabricantes de conservas explodem em gargalhadas. sem nenhuma obrigação: Eu não sofro de insônia. Dêem o dinheiro. Tome para os pobres. confesso. A parte – doze milhões – que eu tinha na usina. Abandonar esta empreitada. JOANA – Senhor Mauler. O senhor não poderia realmente ajudá-los? MAULER: Repita por toda a parte: eu aprovo vossa ação. mas não digas nada.. Cedi por dez ao homem que vêem aqui.10 Pois eu vi – e isso vos interessará – Morrer. São. Embora já tenhas vivido mais de vinte anos. É bom. há pouco. Seu rosto me agrada. Mas tendes consideração demais pelo destino dos pobres: Eles são maus. não creias que seja de boa fé. nos matadouros dizem que o senhor é o responsável pela miséria deles. Ele não é maduro ainda. A canalha. não me digas nada. Nenhum é inocente. Mas é uma gentileza. Eu sei. ele decidiu abater O rico Cridle. Dirigindo-se aos outros: Parece-me que fui tocado pelo sopro de um outro mundo. Marta sai. Isso não é bom? E conforme vosso espírito? SLIFT : Vendo morrer o boi. Seu riso não me atinge. MAULER: Riam todos. a Joana: Joana. um boi e fiquei tão comovido Que quis largar tudo.. aliás. ele é mau. Desculpe-me. Não. O homem. isso de se retirar do negócio. . Tamanha inocência!. Ele se aproxima dos industriais. JOANA – Isso é uma gota no oceano. Mas este mal era inevitável. MAULER: Poderia eu ir mais longe? Porque ele é sangrento É que eu tirei as minhas mãos deste imenso negócio. para o que pretendes fazer. JOANA: Senhor Mauler. pessoas extremamente más. que com tal decisão As pessoas sofreram. eu sinto Que tu não gostas de mim. O mundo não poderá mudar se antes não mudarem os homens. Deverias. dêem o dinheiro. Diga-me que está certo E que isso te agrada. MAULER: É que adquiri o maldito hábito De disfarçar a voz. minha filha. tomando-lhes o dinheiro que trazem consigo e dando-o a Joana. Eu os verei chorar um dia. por que fechou os matadouros? Eu preciso saber. diga.

e enrola o seu. Responsáveis. JOANA. perderei meu emprego. Veja então o que ela compra. vestido com uma lata. Slift e Joana contornam o muro de uma fábrica. e mostre a ela Como os pobres são maus e covardes. JOANA — Eu quero vê-los. De saber o que queres saber. Ele ouviu nosso chamado. ficará com a vaga de Luckerniddle. Dois homens saem por uma portinhola. Mas volte aqui amanhã. Aqui estão seu casaco e seu boné: pegue-os e façaos desaparecer. ele cairá bem. vendo Mauler se afastar: Este homem não é mau. e ele entrou na faca e virou toicinho. é o lixo do mundo. Ele veste o casaco. Isso pode funcionar. E verás que tua piedade é descabida. Se isso falhar . e depois a siga. enfim. UM CONTRAMESTRE.. ela poderá Aceitar sem pudor. mas não pudemos parar as máquinas a tempo. saindo – Um conselho: não te metas com as gentes dos matadouros. é claro. é pavoroso. Entrego a você porque sei que é de confiança: se alguém encontrá-los em algum lugar. Quando a fábrica reabrir você. este homem será mandado para os quatro cantos do mundo sob a forma de toicinho. É o primeiro que nossos tambores desalojaram Das trevas da vilania. se quiser. já que agora ele está em embalado. SLIFT. peguei para mim. . Estão ocupando inutilmente um cabide no vestiário. ele te fará ver algumas coisas. sobre o qual se lê: “Fábrica de Conservas de Carne Mauler e Cridle”: O nome de Mauler aparece riscado.11 Chame ela de lado. SLIFT: Em teu lugar não gostaria. a um jovem operário – Um de nossos homens. É preciso queimá-los. vacilando: Estou me sentindo mal. na caldeira. Mas seu casaco ainda está bom e isso também é uma pena. E que não têm nenhum medo. Ele sai.. Se quiseres mesmo saber. senhor Smith. caiu. Azar. O JOVEM OPERÁRIO – O senhor pode confiar em mim. dê dinheiro a ela.) É uma pena. cheios de traições. assim como o seu boné. é a escória. Sullivan Slift. Semelhantes a bestas. por suas vidas miseráveis. A Slift: Mal posso suportar a existência de seres Semelhantes a esta moça. o quanto antes melhor. JOANA. o que causa má impressão. Diga “para seus pobres”. O amigo Pedaço-de-Toicinho não precisa mais dele. em um jornal. em uma palavra. que nada têm Além de seus vinte centavos por dia e seu chapéu negro. Slift e Joana escutam.E eu adoraria que não desse certo – Leve-a aos matadouros. Luckerniddle. e para mim. (O contramestre volta para a fábrica pela portinhola. faz quatro dias. agora eu vou te mostrar Como eles são maus Essa gente da qual tens piedade. IV O corretor Sullivan Slift mostra à Joana Dark como os pobres são maus: Joana desce às profundezas pela segunda vez BAIRRO DOS MATADOUROS SLIFT: Joana. A Joana: Aqui está meu corretor.

Vinte refeições são muita coisa Para aquele que tem fome. Verás então o que é essa gente. nós não somos. Vamos. senhora Luckerniddle. Precisará nos processar. Joana e Slift prosseguem seu caminho. DONA LUCKERNIDDLE – Não. em nossa cantina durante três semanas. para nós.. Você poderá comer e lhe darei um dólar se disser à mulher de Luckerniddle onde conseguiu o casaco e o boné. se você não está precisando disso!. ao meio-dia. DONA LUCKERNIDDLE está sentada em frente ao portão da fábrica. obrigados a fazê-la. mesmo à noite. Slift volta para junto de Joana. Tenho a impressão de que você está prestes a cometer um ato impensado. é capaz de o meu quebrar já no primeiro golpe. Eu ficarei aqui. a Joana – Fique aqui. isso não lhe parece muito brutal? SLIFT: Bem. No frio. Senhora Luckerniddle: ele está viajando e. SLIFT – Estamos dizendo que ele partiu para São Francisco. Eles chegam a uma cantina da usina e vêem diante de uma janela dois homens que olham para o interior. de qualquer modo. seu marido está viajando. Não tenho outro esteio.12 SLIFT: Aí está a vida como ela é. DONA LUCKERNIDDLE: Eu quero que me devolvam meu marido. me encontrará na cantina. enquanto não o vir. DONA LUCKERNIDDLE: Agora inventam que ele viajou! SLIFT – Deixe-me dizer uma coisa. DONA LUCKERNIDDLE – Quero saber o que aconteceu ao meu marido. SLIFT. Eu estou em uma situação muito ruim. E malditos sejam vocês Se lhe fizeram qualquer coisa! Slift caminha até ela. (Ele vai em direção a Gloomb). que fizeram dele? Há quatro dias que estou aqui. senhor. e vocês não querem que se saiba disso. No ano passado me deixei seduzir pelos vinte centavos a mais que se ganha na fábrica de adubo. SLIFT – Se é esta a sua opinião. (Ele pára o jovem operário. esperando por ele Mas ninguém diz nada. fui trabalhar no moinho de ossos e adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. Joana e Slift seguem seu caminho. legalmente. Venha. lhes digo. todo o tempo. Mas existem coisas Que importam mais para ela. além dele. Por causa dele deixei minha mão na máquina de cortar chapas. Eu tiro agora mesmo. aquele que se acidentou? O JOVEM OPERÁRIO – Por favor. se quiser me ver. gratuitamente. Esse salafrário se empanturra às nossas custas. Amanhã. ele não foi para São Francisco. O JOVEM OPERÁRIO – Mas senhor. O JOVEM OPERÁRIO – Pode confiar em mim. não diga mais isso. Eu. Não procure mais saber o que se passou com seu marido e a senhora poderá almoçar. SLIFT: Senhora Luckerniddle. na fábrica. então a senhora não pode aceitar a refeição que a fábrica lhe oferece. é muito desagradável vê-la sentada aí. Aconteceu alguma coisa com ele aí. dizendo tolices. É por isso que lhe fazemos uma proposta: note bem que. Bando de açougueiros. Mas reflita bem. pronto para encher a pança. Vamos cuidar para que essa seja a última vez. e meu marido não sai da fábrica. SLIFT: Guarde essas coisas. . diga-lhe que procura trabalho.. saindo para o trabalho. JOANA: Ela nunca aceitará. de forma alguma. Já não posso mais trabalhar como antes e só consegui emprego duas vezes desde fevereiro. vou falar com ele. ele me dizia: “Espere-me à noite com uma sopa quente!” Desde então não [voltou. passe-me logo teu cassetete. Quando ele se aproximar.) Onde você conseguiu este casaco e este boné? Estes são os pertences de Luckerniddle. lamentando-se: Faz já quatro dias que. à cantina número 7. senhor. Antes eu gostaria de fazer-lhe uma proposição interessante. GLOOMB – O feitor está bem ali.

há uma moça que está procurando trabalho. JOANA – Não há realmente como me arranjar outro posto? Ouvi dizer que o trabalho nesta máquina era perigoso para quem não resistisse ao trabalho muito pesado. O posto não é feito para gente fraca. justamente porque você contou todas essas histórias a respeito de seus dedos. E é um trabalho que pode ser feito mesmo por pessoas como você. Talvez a vaga deste contramestre. JOANA – Quase tenho medo de continuar.. Disseram-me que não tinha ninguém além dele. e lhe daríamos até um trabalho mais fácil e melhor remunerado do que o antigo. Adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. Tchau. Eu imaginava que ela iria resistir. SLIFT – Leve você mesmo a comida a ela. DONA LUCKERNIDDLE – Sim. O posto que você ocupava na sua máquina continua vago e isto é muito chato. GLOOMB – Nada disso é verdade. O que há para comer hoje? A GARÇONETE – Ervilhas. Se você. JOANA: Ela sentou-se ali. Desde fevereiro estou sem emprego. DONA LUCKERNIDDLE – O que? Vocês pensaram melhor e estão retirando a oferta? Então eu não terei mais as minhas vinte refeições? JOANA – Me pareceu que a senhora se dava bem com seu marido. Os movimentos ficam menos firmes e pode-se prender as mãos nas serras. JOANA – A senhora já está aqui. GLOOMB – Você enxerga bem? JOANA – Não. SLIFT – Gostaria de propor um meio de tirar-lhe dessa jogada. e então eu teria. É preciso que ele pague hoje mesmo por esse sistema desumano do qual ele é o feitor. (Ao seu companheiro:) Pensei melhor. GLOOMB – Aquela moça ali? . não muito fortes. desde hoje? DONA LUCKERNIDDLE – Não como nada há dois dias. tem que se retirar. A maior parte dos trabalhadores a considera muito perigosa. Eu sou inspetor nesta fábrica. (Ele vai em direção a Joana. no moinho de ossos. Seria vantajoso para você. Naturalmente você precisaria manter os ritmos de trabalho mesmo os dispositivos de segurança não sendo perfeitos. estaríamos dispostos a reempregá-lo imediatamente. DONA LUCKERNIDDLE – Espero uma pessoa que deve vir hoje ou amanhã. Ela correu até aqui e já nos espera. por acaso. SLIFT – Que pena.. e então eu poderia. Não podemos perder esse safado. temi que amanhã ela viesse. DONA LUCKERNIDDLE – É verdade... DONA LUCKERNIDDLE. Apesar de tudo. não sabia. JOANA – Vindo para cá ouvi dizer que aconteceu alguma coisa com o seu marido e que a fábrica é responsável. Naturalmente seria muito bom se nós encontrássemos alguém para esse posto.. GLOOMB . faremos isso amanhã à noite. calculando – Vinte refeições. Você se surpreenderá ao ver como o trabalho é agradável. GLOOMB – Rápido então. meu senhor.. Ela não parece muito forte. O que mais verei? Eles entram na cantina.. por exemplo.. Uma jogada dessas é melhor de se fazer à noite. Ela senta-se em uma mesa.. encontrasse alguém. Ali adiante. pode ser que mude de idéia. GLOOMB – Posso confiar no que você está me dizendo? SLIFT – Sim. Vai se perguntar como alguém pode contar histórias tão ridículas sobre esta máquina. JOANA – Mas a senhora nem sabia que nós viríamos hoje. depois do que eu iria.13 – Não tenho tempo. A GARÇONETE – Se a senhora não for comer. E eis que ela nos precedeu. A senhora Luckerniddle está falando com a garçonete.. Slift cai na gargalhada e arrasta Joana.) Você está procurando trabalho? JOANA – Sim. Joana procura um prato e leva à senhora Luckerniddle. É um bom posto? GLOOMB – É um ótimo posto. No ano passado fui trabalhar na fábrica de adubo. já faz dois dias que eu não como nada.

(Dona Luckerniddle permanece em silêncio) Não pegue. ao lado daquela mulher. estamos vendendo carne! Compradores. como um animal. Mostrar-te-ei. Pois não há mais compradores! Do fundo do palco chega o jovem operário com seu casaco e seu boné. e por mais justa que fosse. esta mulher. a vossos olhos contradiga Esta depravação que injustamente se lhes imputa. A senhora Luckerniddle sente náuseas. Ele foi obrigado a vender sua cólera. Eu virei todos os dias. acreditas que ele teria mostrado À mulher do morto a roupa que usava Se tivesse tido a chance de escolher? O maneta. DONA LUCKERNIDDLE. a imoralidade deles? Ela teria. (O jovem operário o esconde) De onde ele vem? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. saindo. Sua imoralidade é sem limites. eu. Que sua miséria. Mercadoria invendável. Mas vinte refeições. Você só precisa perguntar a esse senhor. E este jovem – em quem botaria fé Qualquer malandro -. Era seu único esteio. O JOVEM OPERÁRIO – Bom dia. Ela sai. e comerá sem levantar os olhos do prato. o preço era muito alto. SLIFT – E onde você comprou? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. O que tu me mostraste Não é a imoralidade Dos pobres: é a pobreza deles. Tão cara a ele. mas não em uma loja. como muitas. SLIFT – Durante três semanas ela virá. (Ele senta-se. certamente teria me prevenido Não fosse o preço a pagar por seu pequeno escrúpulo. ninguém mais perguntará o que foi feito dele. Continuar fiel à memória de seu marido. Dona Luckerniddle arranca o prato das mãos dela e começa a comer avidamente. Desejas mostrar-me a sua imoralidade. comprem nossas latas! Carne fresca e suculenta. Fatias de toicinho Cridle-Mauler! Carne de filé Graham. Ela se levanta e sai. Um certo tempo ainda. Joana? A imoralidade dela não tem limites! JOANA: E tu. para colocar Ao abrigo da chuva. ao garçom – Deixe meu prato. DONA LUCKERNIDDLE – Ele foi para São Francisco. como vós a explorais! Não vês que nem teto eles têm. os sofrimentos que suportam Esses pobres sem moralidade. SLIFT – E onde você conseguiu. e que já apodrece. JOANA E procurar por ele. então? O JOVEM OPERÁRIO – De um homem que caiu dentro de uma caldeira. JOANA: Porões e armazéns abarrotados de carne. preferido. verdadeira manteiga! Banha fresca do Kentucky! OS COMPRADORES: OS FABRICANTES DE CONSERVAS . V Joana apresenta os pobres à Bolsa de Carnes A BOLSA DE CARNES : Nós todos. com que habilidade torna-te mestre dela! Esta imoralidade. posso comer aqui? SLIFT – Você só precisa sentar-se ali.14 – A senhora não quer esperar até amanhã? Se a senhora desistir de procurar o seu marido. eu volto. tu me dizes? Sua pobreza também é incomensurável. Você a viu. Atrás dele:) Você tem um belo boné. como manda o costume.

E abrissem assim o Sul aos nossos produtos.15 E sobre as águas fez-se um grande silêncio De todos os compradores. Temos diante de nós montanhas de latas. o que te escrevem? MAULER: Teorias. os criadores. caldeirões Convertem sem parar em latas de conserva As manadas mugidouras que pastam nos prados. eles conseguissem Fazer cair de uma vez as taxas de importação. OS COMPRADORES: Nós compradores. A nós. Eu teria sobre as costas toda a carne! Idiotas. E da banha de Kentucky. A morte Despreza esse gado e fecha-lhe a porta. cubas. verdadeira manteiga. Nós queremos vender a carne em conserva E ninguém a quer! E todos os nossos clientes. com nossos matadouros? Nossas fábricas estão cheias de bois. comprem nossas latas! OS COMPRADORES: E sobre as montanhas fez-se um grande silêncio E as cozinhas dos hotéis escondem a face E as lojas se desviam com horror Os atacadistas mudam de cor. Nas estações e nos pátios. SLIFT: Eu riria se. Clamamos aos berros por um consumidor que não existe. E graças aos perspicazes planos dos industriais da carne Nós conseguimos reduzir em um terço O preço do toicinho Cridle-Mauler. a visão da carne enlatada Causa náuseas. Saturado de carne em conserva. em Nova Iorque. MAULER: E mesmo a faca os recusa. Não a agüenta mais. compradores. Aproveitem então. O estômago do país. O que provocaria um movimento de alta. . quase de graça. Engolindo nosso ouro junto com nosso grão. compradores. Mas ninguém quer comprar carne enlatada. ao trabalho de nossos [engenheiros. Quando todos te seguem com olhos de lince Para ver o que fazes? Eu não teria cara. fabricantes. Nós estamos perdidos! OS CRIADORES: E nós. Nós não compramos mais nada! OS FABRICANTES: E nós. SLIFT: E teus amigos de Nova Iorque. Quem comprará agora nosso gado? Os estábulos estão cheios De porcos e bois devoradores de milho Que eles devoram ainda nos trens que os transportam. Do filé Graham. cozinhas e lojas Estão cheios até as bordas. Comprem. Nós iríamos perder o bonde! MAULER: E quando isso ocorresse! Terias a imprudência De tirar tua parte de tamanha miséria. Frigoríficos entupidos de carne congelada. OS FABRICANTES: Graças aos avanços da técnica. nenhum tinha dinheiro. dia e noite nossas máquinas Ligadas no máximo: salgadeiras. A dar-se-lhes ouvidos Seria necessário agora deitar por terra Todo o cartel da carne E deixá-lo estagnado durante muitas semanas. Esperando até ninguém poder Mexer nem o mindinho! E eu.

antes de qualquer coisa. que já se arrasta. nesta conjuntura. . ele vem realizando secretamente vultosas vendas de gado a preços baixos e provocou a queda das cotações que. E exiges dele o pagamento sem demora. É bom que ele seja nosso adversário. Veio a baixa. que estavam valorizadas. preferiu o vosso. a preço vil. pálido como algodão. Não é de hoje que fazes tais manobras. Pois tu liquidaste. Mas somos atingidos pelo que lhe acontece. Cridle? Levanta os olhos. mas três milhões. todo teu estoque. Ele queria me vender a sua parte. MAULER – O próprio Cridle me confessou que está insolvente: se eu deixasse meu dinheiro com ele. mas um outro Quem joga a rede.Há quatro semanas apenas eu assinei um contrato com Mauler. Foste tu mesmo quem provocou o marasmo! Nossas latas agora não saem mais caro Que a areia dos mares. de toda a maneira. eu quero o meu dinheiro. nós somos os peixes! O que querem arruinar.16 . MAULER: Açougueiros insolentes é o que sois! O animal torturado parou de mugir. provoca muitas outras! Lixo! Assassino! CRIDLE . ao invés de trinta. Ele poderia exigir seu dinheiro quando quisesse. OS FABRICANTES Essa gente não faz as coisas pela metade. Hoje os papéis de Mauler não valem mais dez. Carrega em sua queda as cotações de todo o cartel!. olha para nós! Assim. quem de vocês continuaria a me levar a sério nos negócios? Ora.. por dez milhões de dólares. Quero apenas meu dinheiro e a paz de minh’alma UM CORRETOR – urrando. Esses dez milhões são exatamente a soma que devo a Mauler – e ele a exige em vinte e quatro horas. eu acabo de saber. Mauler! Fala. Cridle. Eu me propunha pagar-lhe vendendo uma parte das ações dele mesmo. ave de agouro. OS FABRICANTES: Quando ages assim com Cridle. Tu te desfazes de tuas ações? UM CORRETOR: A cento e quinze! OS FABRICANTES: Ficaste louco? Tua morte.investindo contra Mauler que lê o jornal: Traidor.apontando para Mauler: Falem com ele! CRAHAM – colocando-se diante de Cridle: Não é Cridle. Para acabar com Lennox. nem que fosse por mais uma hora. Voltai para casa. e ficando com as outras. já vinham caindo. é o cartel da carne. é que me levem a sério. OS FABRICANTES: O que significa isso. MAULER: E por que matastes tanto gado? Açougueiros alucinados sois vós! Agora. o que desejo. CRIDLE – dirigindo-se aos que o cercam:. na entrada da bolsa: Queda gigantesca das cotações na Bolsa! Venda maciça de ações. estava acordado. tu o retiras Do negócio e Cridle. Cridle. e o conjunto das fábricas vale dez. que se lançam sobre Cridle.. Falai que um dentre os vossos Não pode mais suportar o grito dos bois morrendo E aos mugidos deles. ao fundo. Tumulto entre os fabricantes. que conspurca nosso ninho! Nós sabemos bem quem fez os preços caírem sem cessar Vendendo gado por baixo do pano. então! OS FABRICANTES – a Mauler: Corre o boato que teu capital. Cala-se e aponta para o dedo para ti. Isso representava um terço do total das ações. E vós soluçais nas saias de vossas mães. antigamente Mauler. Desde aquele dia.

Pois os bons nesse mundo Não formam um grande exército. onde cada um revela Sua boca desnuda. . com nossos bois Que hoje ninguém mais quer. Avante! Ao assalto! Empunhem os fuzis! Diante de nossos olhos os homens naufragam. pois tenho outros projetos.Nenhuma sequer! OS FABRICANTES – Então. então. Eu não quero que me vejam aqui. Meu chapéu. E ninguém se preocupa Não tendes. Uma explosão de gargalhadas toma a frente da cena.Nenhuma sequer! Silêncio. OS FABRICANTES: Oitenta e sete mil latas pela metade do preço. Ei. Meyers. seja quem for! Levantai o nariz de vosso prato. E nós dizemos: é preciso ir sempre adiante. És tu. Uma mulher nos faz sinais de aflição. E. OS CRIADORES: Lennox já caiu! E Cridle balança! E Mauler. Parem os carros. mas rápido! OS COMPRADORES . Para Illinois esse dia é um desastre! Vocês fizeram os preços subirem. com isso. Nesse mundo sempre reinará a injustiça. para comer? Pensai convosco mesmo: sempre será assim. Graham. os aviões Para conquistar o pão dos pobres.Pierpoint Mauler! Onde está Mauler? MAULER: O que é esse barulho de tambores que de súbito me envolve? E quem chama pelo meu nome Nesse lugar. pois preciso partir. Eu quero meu dinheiro. olhos para ver? Ele é vosso irmão. Mauler. suja de sangue? Joana e Marta avançam e cantam o seu hino de guerra. nós estamos perdidos! JOANA – Onde está Mauler? MAULER: Slift. E ninguém se preocupa. detenham todo o tráfego Em torno de vós os seres naufragam. escutem bem! Um homem afunda sob os nossos olhos! Escutamos lá no fundo seu apelo por salvação. Não falemos mais de negócios. não saia! Graham. meu chapéu. Mauler. cem dólares pelo meu chapéu. Estimularam-nos a criar bois. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Escutem todos. mas rápido! OS COMPRADORES . Fazer avançar os tanques e os canhões.17 Mesmo que tivésseis todos que mendigar. JOANA . Ei-nos aqui. o responsável Por esta catástrofe. OS CRIADORES: Impossível vender um boi em Chicago. Durante esse período a batalha na bolsa continua. Não esperem o amanhã! Cada um deve nos ajudar. ele retira o seu dinheiro! OS FABRICANTES: Oitenta mil latas a cinqüenta. Lançar ao mar os navios de guerra E nos ares. Haveis então esquecido Os que esperam diante da porta E que esperam. Os que nos escutam. seu cão. Ouvem-se os tambores dos Chapéus Negros e a voz de Joana. MAULER: Por hoje basta. acompanhada de exclamações. fiquem diante de mim. Com o único objetivo de ajudar o próximo.

UMA VOZ. que os pobres não têm muita moral. JOANA – E qual a causa desta imoralidade no mundo? Poderia ser diferente? Se cada um é obrigado a rachar com um machado a cabeça de seu próximo para fazê-lo ceder seu pequeno pedaço de presunto e sua migalha de pão. a Revolução. e diante de Deus TodoPoderoso. atrás de mauler – Fique senhor Mauler. replicando: Imbecis são vocês! Ninguém pode nada contra as crises! Bem acima de nós. OS FABRICANTES: Água para Pierpoint Mauler! . como não seriam os valores mais elevados esmagados em seu coração? Sempre ouço dizer. destinos inelutáveis. vocês. gritando: Por vossa especulação desenfreada. Aumentem-no. a quem os senhores transformaram no que são. Vossa imunda cobiça. avancem à luz do dia. Senhores. existe também um poder de compra moral: o dinheiro. Inverno e verão nós dependemos do tempo: nós também estamos mais próximos do Deus de nossos pais do que os senhores. eles que nada têm? Senhores. JOANA – Um homem de negócios também pode ser um bandido – dependendo do ponto de vista. que sentam nesse palácio. buscando desculpas. nesses lugares sombrios e secretos onde os senhores tratam de seu comércio. pobres e deploráveis imbecis. como fazem em seus jornais. são todos uns imbecis. e escute o que eu tenho a lhe dizer. nada querem saber da miséria que existe fora deste recinto. que fazem subir o preço do pão e que fazem da vida um inferno onde os homens viram demônios. é lá que mora a imoralidade no estado puro e. MAULER. tereis a moralidade. aí pelo mundo. todo-poderosos. os senhores se enganaram. acabarão tendo de comer sozinhos a carne que produzem. Joana mostra aos negociantes os pobres (Luckerniddle e Gloomb) que ela trouxe. então em suas costas os bois começarão a mugir contra os senhores. ao fundo – Pierpoint Mauler passou mal. OS POBRES – Ele é o responsável por tudo! Os fabricantes de conservas correm para socorrer Mauler. os Chapéus Negros. COMPRADOR. OS CRIADORES. JOANA. Causais vossa própria queda! Bando de imbecis! OS FABRICANTES. nas favelas.18 – Maldito sejas! Cridle sai. pois os que estão lá fora já não têm como comprar. seus mugidos serão testemunhos. Reparem então nestas gentes. imaginando que não virão à tona suas manobras. Traçam essas desconhecidas. Silêncio! Não lhes agrada muito. engodos e combinações para aumentar o preço da carne. em conseqüência. Se continuarem a agir assim. Mas se os senhores acreditaram que seus procedimentos permaneceriam ignorados. o salário. Nos baixios. Se os senhores continuarem tergiversando. Mas então eu lhes pergunto: de onde tirariam eles alguma moralidade. Cujo ciclo pavoroso sempre recomeça. as leis econômicas. tanto hoje quanto no dia do juízo final. Mas nós lhes dissemos que é um imbecil. Não tenham vergonha. Risos OS CRIADORES – Nós criadores não encontramos nestas palavras motivo para o riso. Já me disseram o que os senhores fazem: manobras. eu bem sei. e é verdade. CRIDLE OS CRIADORES: Como? Somos asfixiados e ninguém pode fazer nada? A causa de nossos males é a imoralidade De vossas armações escusas. que se dobram sob o fardo de suas penas. gritando – Afastem-nos! Ele desmaia. E os senhores. nada além disso. e a quem não querem reconhecer como irmãos. JOANA – Mas os senhores. ver surgir a nós. As crises são catástrofes naturais. em tom de reprovação Aqui estamos com nossos bois Que hoje em dia ninguém quer.

ao instinto animal. Mas os dois que estavam ao lado dele. O cartel entregará a Pierpoint Mauler. E lá. Além disso. para eles inacessíveis. antes de partirmos. meus amigos. OS FABRICANTES – Ele comprou! Mauler comprou! MAULER – Ao preço do dia! CRAHAM. No seio de Deus não há frio. . levantai-me. levai-o agora. cumprimos nosso trabalho de [missionários. Mauler. nós nunca tínhamos visto. levantando-lhe a cabeça – E os estoques? MAULER. MAULER. Eu vos mostro agora a pobreza dos pobres. gritando em um megafone – Pierpoint Mauler reanima o mercado da carne. por favor. Torna-se comprador. pelo menos cinqüenta mil toneladas de conservas. cantemos: “Nunca faltará o pão. voltando a si – Eles ainda estão aí? Eu suplico que os afastem.. CRAHAM: Então! Não podes vê-los? No entanto foste tu. OS POBRES – Gente como essa. vos rogo. que mantendes longe de vós. em 15 de novembro. Quem em seu seio habita Jamais será infeliz. Nós. assume compromisso sobre a produção de dois meses. Aos pobres: Segunda-feira vocês terão novamente trabalho. como eles sim. JOANA – E agora. aí em cima. SLIFT – Ele não abrirá os olhos enquanto não os fizerem sair. então Para querer fechar a boca do Bom Deus? Não se deve calar a boca de ninguém. E fome nunca se passa. MAULER: Afastem-nos. o que fazeis? Vós me ordenastes não dizer uma palavra. MAULER – Agora. OS FABRICANTES – Quem? Os Chapéus Negros? Quer que eles saiam? MAULER – Não. Compro. JOANA: É isso. também ao preço de cinqüenta. CRAHAM – A cinqüenta? MAULER – A cinqüenta! CRAHAM: Ele comprou tudo! Vocês ouviram: Comprou tudo! CORRETOR. Mas quem sois vós. Eles o levantam. eu. ao fundo. de todos os estoques do cartel. deitado no chão – Eu compro. a contar de hoje. eles não. vós me mostrastes a imoralidade deles. A tal ponto dependentes de alguma comida E de um pouco de calor. ao preço do dia. estão tão enfraquecidos. e por vós mantidos Nesta pobreza. E vós.. Tu quem os reduziu à tamanha miséria. e reduzi-los À voracidade. afastados dos bens indispensáveis. Eles.19 Um médico para Mauler! JOANA: Mauler. Eles parecem bem piores. Os que estão atrás.” OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Nunca faltará o pão Ao que dedica a Deus sua alma. E não basta que cerres as pálpebras Para que eles desapareçam. Invisíveis para vós. Que viver assim pode mesmo afastá-los Da necessidade de um ideal. eu compro! Escutai todos: Pierpoint Mauler compra! Que estas gentes tenham trabalho e que se afastem. qual burros de carga. nós conhecemos. eu vou falar. tudo o que em oito semanas conseguirdes [fabricar. Nem mesmo do boi que esmaga espigas com seu casco! Em todo o caso.

de São Francisco a Nova Iorque. Recusa-se a engolir mais. Não o deixaremos descansar Enquanto um homem precisar de ajuda. O estômago do país. dirigindo-se à Joana Aquilo que disseste e tua intervenção Causou-nos forte impressão. dentro da casa. E vocês precisam dela. PEQUENO IMÓVEL COM DUAS SAÍDAS MAULER. aqueles que o recebem. OS FABRICANTES: Podem guardar sua carniça podre! Não estamos interessados em comprar. Os fabricantes de conserva saem. JOANA: Saibam todos: estou de olhos em Mauler. Agora os senhores podem respirar. pois nós também. Sábia decisão. cutucá-lo. e diga se realmente todos podem ler em meu rosto? SLIFT – Ler o quê? MAULER – Ora! A minha profissão! SLIFT – Teu ofício de açougueiro? Diga-me. açougueiros infames! Enquanto vocês não dobrarem o preço do gado Não entregaremos um só grama de carne. Muitos criadores se transtornaram. Podem esquecer seu nome. SLIFT. VI A Captura dos grilos NA CIDADE CASA DO CORRETOR SULLIVAN SLIFT. ao criador: O que Mauler promete. Se estiverem muito necessitados. nenhum. E ele faz meter carne em latas Que ninguém comprará. na Rua Lincoln. Pois ele pode vir em auxílio. OS CRIADORES: Agora os preços subirão. Pois o contrato que acabam de ver firmado É apenas um pedaço de papel. Contra a desrazão. saturado de conservas. os operários entrarão. Venham comigo procurá-lo Para que ele os tire do embaraço. JOANA – Todos aqueles que se interessam realmente pela palavra de Deus e que querem saber o que ele diz e não apenas a cotação da Bolsa podem vir domingo à tarde assistir nosso ofício. ele não encontrará Um centavo. Sua consciência já despertou. enfim do ponto morto! Confiança e concórdia estavam fortemente abaladas. às duas horas. seguidos dos criadores. Os patrões vão reabrir. por que te impressionas com os discursos dela? MAULER: . sabiamente acatada. Nesse momento o mercado recobra a saúde. Slift. Escutem: saímos. É preciso. O homem que o assinou não estava em seu juízo. Ele cumpre. Que carecem tanto uns como os outros? CRIADOR. então. Música a partir das 3 horas. As fábricas reabrem e as chaminés fumegam! Pois efetivamente é de trabalho. Mauler. Aqueles que dão o pão. Joana e os Chapéus Negros saem. entrada gratuita. Para tal negócio. discute com Slift – Fecha a porta. Nós estamos sob uma miséria atroz.20 OS COMPRADORES: Este homem está ruim da cabeça. a sabedoria triunfa. não é. liga as luzes e agora repara em mim.

Sob a chuva e de barriga vazia. Nós que aqui estamos. Agora. de onde se eleva uma cólera Que nos varrerá a todos. E pense em tua situação: ela não é muito boa.. irei confessar-te Minha verdadeira opinião sobre nossos negócios: Comprar. Que não sabem como passarão a noite mas. . Seu número aumenta a cada dia. um após o outro. Seremos colados ao muro.. Tão forte. não é? SLIFT – Come. Ele se afasta e começa a grelhar um bife no fogão. Esquecer todo o resto. Por trás havia rostos selvagens. SLIFT – Não queres comer um pouco de carne. mas permita que eu te exponha simplesmente a situação. vejo-te mergulhado na contemplação de teu ser grandioso. por mais externa e sem importância que ela seja. urrando. É sua antiga fraqueza que retorna. SLIFT – O discurso deles te perturbou. meu caro Slift. Certamente porque essa gente trabalha a troco de nada. Fórmulas tomadas ao coração. pois desde essa manhã tu nada tens a ver com a morte dos bois.. E quando da onda emana uma voz Que nada tem de bestial. Slift. Onde o fogo arde embaixo Enquanto congela-se em cima. lançar-nos-ão Ao chão como um peixe podre. Talvez depois de comer carne crua ele retome seus instintos. SLIFT – E o que é. E dezoito horas por dia. caro Pierpoint? Pense que agora podes fazê-lo sem peso na consciência. A urrar de aflição. retorna. Isso não pode mais perdurar. MAULER: Sempre me pergunto por que essas tolices me afetam: Discursos plenos de utopias.21 O que ela disse? Eu não ouvi nada. talvez. Não. Para limpar esse mundo. Então creio sentir Como um peixe aprisionado entre duas águas Pauladas na espinha. Máscaras da aflição. Tagarelice vazia e fácil. por mais louca que seja. MAULER: Tu crês que eu deveria? Eu poderia. (À parte:) Farei com que ele coma um filé muito mal passado. Levantar-se-ão com a aurora e por-se-ão em marcha. Não há mais consolo.. Eu deveria podê-lo de novo.. Se nos apanharem um dia. MAULER: Mas que dizem eles? Essas cidades São um braseiro jamais extinto Onde. Para estes que caem em nossos porões sangrentos. que mais não vi. a humanidade. SLIFT: Em cidades como as nossas. Há sempre boquirrotos que acham Que as coisas não andam como deveriam. Não conheceremos a morte em nossas camas. vender e lutar sem parar.. eles são muito numerosos. Esfolarmos uns aos outros friamente. então? MAULER: O que vive abaixo e não acima De mim! Esses seres reunidos nos matadouros. Tudo isso são ainda meras desculpas O que temo não é Deus. É outra coisa. Sabias que tu compraste hoje tudo aquilo que pode ser colocado dentro de uma lata de alumínio? Meu caro Mauler. no entanto. qual onda. Nós e nossa corja.

votarão contra as tarifas aduaneiras. Ah. Não. é verdade. assim. teus amigos de Nova Iorque? MAULER – Que eu devo comprar carne. mais notícias.” SLIFT. SLIFT – E o que escreveram. eu comprei! O que eu fiz! Coloquei sobre minhas costas toda a carne desse mundo! Trôpego. então? Mauler sorri. Facilmente nascem guerras À custa de tais atitudes. sim! Eu comprei carne. dizer-lhes Que ninguém era louco o suficiente Para comprar carne em conserva. Milhares de homens sangram Por causa deste imundo dinheiro. eu não agi por razões vis. MAULER: Tu compreenderás. de anunciar-te que nosso dinheiro começa a render seus frutos: muitos são aqueles que. Sim. Tu as compraste a cinqüenta mas. O ladrão está perdido. SLIFT – Tu deves fazer o que? MAULER – Comprar carne. indicado. Os preços baixarão novamente. Sob o fardo de toneladas de latas de alumínio. Nas semanas vindouras. Não é qualquer um que pode. a não ser que golpeie Y Se ele golpear. os preços Subam? E nós acabaríamos. quando os preços estiverem em trinta. deverás escoá-lo em um mercado que já não consegue absorver uma única lata. rir-me deles. eles me escrevem para comprar. amanhã. os preços cairão a trinta. safa-se. esmagado. Mas não foi por causa da carta. Parece. E uma vez lá. eu tenho a impressão De que nada de bom sairá daí. Em quinze de novembro. caro Pierpoint. Eu fui vê-los cair. de resto. Mas ainda há a carne Que no mercado liquidarão cem criadores Muito ávidos. qual Atlas. Escuta: X comete um roubo. Ainda pela manhã. Na carta que recebi de Nova Iorque essa manhã.. MAULER: Corromper assim. hoje. comprar carne. eu estou perdido. eu me escutei dizer: “Eu compro tudo”... muitos de meus concorrentes balançavam. Realmente eu não vejo sentido nesta carta. SLIFT: Tudo depende de quem escreve a carta. Cairei. na melhor hipótese. Estão erradas. Ou desencadear guerras. MAULER: Oh! Slift. SLIFT – E tu compraste! MAULER: Oh. apesar de tudo. Receberás. Corromper ou abolir as tarifas. na Câmara.. Mas esta mulher comoveu-me a tal ponto Que mal lancei os olhos. eu te juro. Essa seria uma saída. sob os arcos de alguma ponte. Então pode ser que. o Cartel te entregará mais cinqüenta mil toneladas a cinqüenta. ou a vinte e cinco. eu comprei. acredito. É coisa que também não se deveria fazer. Essas pessoas são gente de bem? MAULER – É gente com liquidez. então. mas Y o surpreende. Aqui está: “Caro Pierpoint. Ah! Meu caro Slift. . SLIFT – Quem são. continuando a leitura . essas teorias de gabinete.“Estamos em condições. eu estou perdido! Esse é o meu fim. SLIFT – E por que reclamas de ter comprado? MAULER – Sim. escapando bem. Slift.22 Primeiro compraste ao Cartel um estoque de vinte mil toneladas de conservas.

OS CRIADORES. MAULER: É verdade. Pois. Quem me comprará. de seus delitos. dobrando-se sob o peso da terra: Saturno também precisa de apoio. SLIFT. A operação é simples: seria preciso comprar Todo o gado que se encontrasse em pé. não sairemos daqui! MAULER – Tu dizes Graham? É verdade que ele precisa de gado? Saia. eu não comprarei! Eu que já carrego toda a carne desse mundo.. Slift. (Ele calcula. SLIFT – Por aqui. a partir de hoje. minha decisão está tomada. Eu não compro mais nada. diante da porta da direita – Sai. em todo o Illinois. ele se dirige à porta da direita. Antes de ter saído dessa. Ele desenha um “A” na porta de um armário. MAULER – Eu não compro. Joana diante da porta da esquerda. Slift? Não quero reencontrá-la e. eu estou comprando e compro ao preço do dia. das fábricas paradas. tentará sair pela outra porta. Lembrá-los de Lennox. No interior da casa. a cinqüenta. (Ela ri. (Os criadores colocam-se diante da porta da direita. Slift. Joana entra acompanhada dos criadores. não foi bom. Traga-me até a menor mancha de gordura. nem chapéu nem sapatos. Feliz se. mais de dez mil criadores que não sabem mais a qual santo rezar. Senhor Mauler. Eu fiz “A”. E nós somos. SLIFT – Qual crime? MAULER: Um crime que eu não poderia cometer. E por agora também não penso em reabrir a fábrica. Agora. eu vou comprar. tiver cem dólares no bolso. Ele não gosta muito de me ver. Tu és o responsável por nossa desgraça. Não. que precisa bastante. Pierpoint! MAULER: Ah! É verdade. Mas então. no fim. Slift sai.) Saia. Vais comprar todo o gado de Illinois. sobretudo. Os enganados serão os criadores. Que eles tirem. Vão para lá. SLIFT Tu que não querias mais comprar um chapéu.) Slift. e diga-lhes que quero refletir dois minutos. de perto ou de longe. todo esse gado? SLIFT – Vejo apenas Graham. MAULER – A outra saída onde é. é preciso que eu lhe fale da miséria dos criadores de Illinois.. Ele pede-vos dois minutos de reflexão. Quando ele me ouvir cantar aqui. Nem a mim nem aos que me acompanham. diante da porta da esquerda – Enquanto os criadores não forem ajudados. Slift volta. eu compro. eu não quero meter o dedo neste negócio. JOANA – Nós o faremos sair de sua toca. é verdade. Compra então o nosso gado! MAULER: Fecha a porta. então. Slift. com um porco ou com um boi. . para o outro lado. Slift tragame tudo o que se pareça. Slift. grandes lucros! É verdade que o ganho seria apreciável. SLIFT – Não deverias ter comprado. Retumbar de tambores. Toda a carne posta em conserva até hoje. Isto é o principal: Sumir com o gado. E comprar-lhes tudo. Mauler. aos criadores – Pierpoint Mauler está examinando vosso pedido.). Também trouxe alguns trabalhadores que adorariam perguntar-lhe quando o senhor reabrirá a sua fábrica.23 Da mesma maneira a carta – que está errada – Requer – para acertar – um crime desta ordem. para evitar me encontrar. Persuadir os criadores da oferta excessiva. e tudo o que cheire à banha eu compro também. JOANA. àquela gente que está com ela. Devo comprar ainda todo o gado de Sírius? É como se alguém viesse dizer a Atlas Que não mais agüenta. como quem captura um grilo. quero paz em minh’alma. depois.

Trabalham duro e vestem-se decentemente. os Chapéus Negros esvaziam suas latas de ferro e contam ao óbolos das viúvas e dos órfãos. dão certo. BISPA SNYDER – Não se aproximem muito da caixa! Ele fez sinal para que eles recuem até o fundo. sobretudo. mas por enquanto não se preocupem. sábado próximo. GLOOMB – Muitos já dizem que se não empregarem a violência não haverá trabalho para todos tão cedo. VII Os mercadores são expulsos do templo TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS Sentados em uma longa mesa. entre os quais dona Luckerniddle e Gloomb:) Vocês de novo? Vocês passam a vida aqui? O trabalho voltou nos matadouros! DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. não é preciso que as vendas sejam feitas em seu nome. o que foi feito dele? BISPA SNYDER – Meus caros Chapéus Negros. mas não fizeram nada. Eles não têm teto. Ela sai. em nome de Deus. Pierpoint Mauler resolveu comprar todo o gado que se encontrar no mercado. Faça entrar os fazendeiros. tão errado quanto “A”. salvador do comércio! Eles entram na casa. ao fundo. proprietária do imóvel. sai e se dirige aos criadores – Para salvar Illinois e impedir a ruína dos fazendeiros e criadores. sobretudo nas camadas inferiores da população. Alguém se equivoca: “A” é um erro. que são gente de bem. DONA MULBERRY – E meu aluguel. acabamos constatando que esses segmentos demonstraram.24 Dominado por seus sentimentos. se levantando – Que mixaria! Que mixaria! (Dirigindo-se a alguns pobres. JOANA. . convidar em vosso nome as pessoas ricas e bem colocadas de Chicago. os dispensados esperam ainda pacientemente na porta dos matadouros ou já começam a dar discursos revolucionários? DONA LUCKERNIDDLE – Desde ontem gritam bastante. para vocês também haverá pão novamente. Em seguida comete “B”. caros ouvintes! Para resolver o delicado problema do financiamento nós até agora apelamos aos pobres e aos mais pobres. Mas Deus todo poderoso Achará os meios de alimentá-los! BISPA SNYDER. o aluguel que ela tão gentilmente tem adiado. um grande golpe no ateísmo e no materialismo que reinam nesta cidade. Assim eu decidi. dona Mulberry. grita a eles – Digam ao senhor Mauler que os Chapéus Negros lhe agradecem. Talvez isso tenha a ver com o fato de que eles não possuem nada. uma avareza completamente inexplicável. e. Eles não são como os outros. que eles nos ajudem a desferir. Comandante dos Chapéus Negros. pelo que acaba de fazer. pois eles sabem que as fábricas receberam encomendas. SLIFT. Que dão medo de olhar. minha cara dona Mulberry. Eles não têm pão. não se esqueçam de varrer a escada. (Aos operários:) Quando os que compram gado e os que o vendem se acertarem. Infelizmente. E eis que “A” e “B” tomados juntos. O dinheiro nos permitirá também pagar à nossa querida proprietária. GLOOMB – No começo falaram em reabri-los. Entra dona Mulberry. Mas seu nome não deve ser mencionado. OS CRIADORES – Viva Pierpoint Mauler. Aos pobres:) Digam-me. que cada um volte alegremente às suas funções. BISPA SNYDER – Agora. DONA MULBERRY – O que me agradaria muito. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Recolham cantando Os trocados dos órfãos E os trocados das viúvas. frente a Deus. (Os Chapéus Negros saem. Suas misérias são grandes.

MEYERS – Eu me pergunto. ouvimos dizer que há nos matadouros cinqüenta mil pessoas sem trabalho. bispa. Se vierem para cá tocados a pedradas. afirmando que sois vós os responsáveis pelo desemprego! Em breve eles dirão: queremos fazer como os bolcheviques. senhora bispa. (Aos outros) Eles carecem desta quantia. Que tal. Na mosca. minha cara. diremos a eles que a desgraça vem como a chuva. precisamos do gado. o Pepê está com o gado. confesse Slift. Entram os fabricantes de conservas: Cridle. BISPA SNYDER. Meyers. precisamos de sopa quente e música animada. onde poderia estar todo o gado! GRAHAM – É o que eu me pergunto também: onde poderia estar? SLIFT – Eu me coloco a mesma questão. os reis da carne nos escutarão mais facilmente. vocês certamente precisam. que eles estão destinados ao sofrimento. são vocês que estão com o gado. é saber de que lado vocês estão! Desse lado da barricada ou do outro? BISPA SNYDER – Os Chapéus Negros. Slift! MEYERS. a Snyder – Todos pobretões. na frente do palco – Então.. sem dúvida? SLIFT – Sem dúvida. Graham. Já é melhor. E já citam vossos nomes. no púlpito – Nós.. e vá dizer ao Pepê Que afrouxe o laço. (Aos pobres:) Vocês não poderiam ao menos cortar lenha para nós? OS POBRES – Não há mais lenha. Slift. (Os fabricantes de conserva caem na gargalhada) E tudo isso por apenas oitocentos dólares por mês! GRAHAM – Não precisas de tanto. menos Snyder. MEYERS. sem que ninguém saiba como. BISPA SNYDER MEYERS Há um cretino que razia o gado E que sabe bem que estamos comprometidos A entregar carne enlatada E que. a Snyder – Desembuche! Eles se sentam no banco dos fiéis. tão certo quanto eu estou aqui. sim! Vocês agora terão que achar alguém que faça a doação. a Snyder – O que querem de nós? GRAHAM. SLIFT – Mauler e eu não compramos um centavo sequer de gado. os Chapéus Negros. após a sua morte. Porque já começam a dizer por todos os lados que a desgraça não cai do céu como a chuva. Do lado de cá. . É nosso nervo vital! SLIFT. E que alguns entre eles começam a resmungar e a dizer: devemos nós mesmos cuidar do negócio. SLIFT. a Snyder – Quinhentos dólares? Isto é muito dinheiro! Quem vai pagar? SLIFT – Ah. mas que ela é provocada por aqueles que dela tiram vantagem. novo soco – Que tu achas que eles querem. MEYERS – O que não será fácil. SLIFT – Quem poderia ser? GRAHAM. não gosto disso. quinhentos? GRAHAM – Quinhentos sim. recompensados por suas penas. SLIFT – O essencial. um dia. dando-lhe um soco na boca do estômago: Velho cão imundo! Vamos.25 – Isso nos é favorável.. Senhor Slift. a Meyers – Essa senhora não tem senso de humor. Nós. MEYERS – Setecentos e cinqüenta.. GRAHAM – Até tu? E Mauler também. portanto. mais então. portanto.. GRAHAM – Confesse. não enrole. OS FABRICANTES – E quanto querem pelo serviço? BISPA SNYDER – Oitocentos dólares por mês. Slift? (Slift simula um ar astucioso e exagera na mímica do ato de dar dinheiro). tomar as fábricas em nossas mãos para que todos possam trabalhar e comer. Graham. BISPA SNYDER – Podemos dar um jeito com setecentos e cinqüenta. estão acima da querela. GRAHAM. OS FABRICANTES – Por que falar em pagamento? BISPA SNYDER – O pagamento do qual falamos é feito após a morte.. os Chapéus Negros. Quinhentos dólares. então. Nós também prometeremos a eles que os ricos serão punidos. mas que serão. Bispa Snyder! Todos riem. Deus é testemunha. MEYERS.

olhando os pobres. nós não queremos mais ver. Os Chapéus negros aparecem na porta. pagaremos o aluguel dos Chapéus Negros por quatro anos. e que os operários poderiam comprar a carne. perdi demasiado tempo até sabêlo. JOANA. Estou pronto. gritando alto a Joana – Ah. De bom grado. Sois indignos e eu vos expulso! Apesar de vosso dinheiro! . ajudo também aos de baixo. Nós queremos reabrir nossas fábricas. que haveis atormentado ao extremo.No começo falaram em reabri-los. própria para jogar água na fervura. ao me veres aqui. vós então vos borrareis todos.26 Entra Joana SLIFT – Aí está a nossa Santa Joana da Bolsa de Carnes! OS TRÊS. para fazer pior. Basta que alguém diga: está acertado. Mas o Bom Deus tem uma opinião muito elevada de Si mesmo para ser sempre a vossa babá para todo o serviço e para vir limpar vossas cavalariças. aos fabricantes: Esses pobres continuam a esperar trabalho? Silêncio dos fabricantes Eu que pensava que eles estavam arranjados! Faz já oito dias que neva nas costas deles. É o seguinte: alguém sumiu com o gado do mercado de uma maneira que somos obrigados a ficar de olho em Mauler. e rápido. eu sei o que faço. É preciso ser muito tonta! Na verdade. Se essas pobres criaturas. SLIFT – Mas querem antes estrangular os agricultores! OS TRÊS – Como abater gado que não existe? SLIFT – Quando Mauler e eu compramos a carne de vocês. GLOOMB. JOANA. qualquer um que queira ajudar aos pobres deve ajudá-los a protegerem-se de vós. aí estás! Nós não estamos muito contentes contigo! Tu não poderias dizer uma palavrinha de nossa parte à Mauler? Parece que tens sobre ele alguma influência. se os consumidores não têm com o que pagar? JOANA – Em vossas gigantescas instalações e vossas fábricas detendes as ferramentas dessa gente: deveríeis ao menos permitir que eles as usassem. (Joana sai atrás deles com o mastro de uma bandeira. avançando: As vinte refeições foram comidas! Não te irrites. Para que ninguém mais vá olhar de perto. Saí. supúnhamos que iriam retomar o trabalho. mas não fizeram nada. Parece que podes fazê-lo agir ao teu gosto. dizendo-me: ajudando aos de cima. mal tendo sido saciada. Esta neve os mata. Dirigindo-se aos fabricantes: Mauler. sem pena também Esqueci o que todos se apressam em esquecer Para rapidamente estar em paz com suas consciências. entretanto. Dizem que ele come na tua mão. É preciso que ele libere o gado. pois. JOANA – Por que não trabalham? Não arranjei trabalho para vocês? DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. Haveis perdido então todo o respeito pelo que se parece humano? E ousais anda vir à casa de Deus porque possuem o vil metal? Sabe-se bem de onde haveis tirado esse ouro e como o haveis adquirido. comprou-vos conservas Por minha solicitação! E não reabristes ainda? OS TRÊS – Está correto. senão ficam imobilizados. Não me detenham. avançando: Eu te conheço: tentei te convencer A trabalhar nas serras que me cortaram o braço. GLOOMB . e a religião vos parecerá de novo algo de muito bom. empunharem um porrete para bater em vossas cabeça. Se fizeres isso por nós. E eu. da tua vista sairia. mas também os esconde De todos os olhares. Mas cruel é a fome: Renasce sempre. indo de um lado a outro. ela está espantada – O que fazem vocês aqui? DONA LUCKERNIDDLE. quem comerá a carne que nós compramos? E para que nós a compramos. e eu. que ela usa como se fosse um porrete. Mas agora.) Saí! Quereis transformar a casa de Deus em um estábulo! Saí! Nada tendes a fazer aqui! Cabeças como as vossas. hoje. senão lançar-me-ei sobre vós e golpeá-los-ei a cabeça. e nessa atitude há alguma coisa que parece exploração.

Enquanto não tiver feito de Mauler um dos nossos. entretanto. Fazes-te de difícil e és muito curiosa Para saber como é feito. . Queres. eu lhes trarei a sopa. DONA MULBERRY. tudo bem. Homem de boa fé e destemido. tudo mal. Tu que planas mais alto que as questões terrenas! Parta sob a chuva. entrando — Vocês já arranjaram o dinheiro? BISPA SNYDER – Deus encontrará logo o meio de pagar o abrigo bastante modesto – eu disse modesto. Trazendo-vos totalmente convertido. Eu pedirei sua ajuda. não se vão. comê-lo também! Vá-te então. aos Chapéus Negros – O que acabo de fazer certamente foi pouco habilidoso. de um ao outro. não temos mais um centavo. é muito justo que pague. tu a ignoras E cedes a teus impulsos! É mesmo muito fácil Caçar esses impuros com um gesto cheio de orgulho. onde não escutam mais Os pedidos de salvação do resto dos humanos. De qualquer maneira. Mesmo que ele os torne surdos. Nem outra vez cruzar o limiar dessa querida casa. BISPA SNYDER. BISPA SNYDER. modestamente. então. Doravante farás parte dela. ah. Se o Bom Deus não paga o seu aluguel. É mister que haja um Justo entre eles! Ela sai. oferece teus bons préstimos. Anda cuidar de tua vida. terá de se mudar. Nós iremos viver dias terríveis. de volta Convida a tua casa. Povoada de cânticos e palavras que despertam. agora. Mas como deixar-se levar por isso? (À dona Luckerniddle e a Gloomb:) Sentem-se lá no fundo. Mas se ele não paga. JOANA. ela não representa ninguém. Grupos inimigos irreconciliáveis. Vá sob a neve e continue intransigente! JOANA – Quer dizer que devo tirar meu uniforme? BISPA SNYDER – Tira o uniforme e arruma tua bagagem! Sai desta casa e livra-nos da escória que arrebanhaste. Mesmo que o dinheiro os carcoma como um câncer Devorando o que seu resto tem de humano. OS TRÊS Joana sai. JOANA Irei ver o rico Mauler. dona Mulberry – que ele encontrou sobre a terra. na ponta dos pés. no coração da tormenta.27 – Está bem! Mas conosco. ela retorna vestida como uma jovem camponesa. bispa Snyder? Ela sai. BISPA SNYDER: Infeliz ignorante! Como não vês que operários e patrões. esses pobres. não tem nenhum mandato! É apenas uma mulher que perdeu a razão! Ela está despedida! Ela fará pelos senhores tudo o que desejarem. Ela carrega uma mala pequena. DONA MULBERRY — Sim. fracos. e a partir de sábado à noite. está bem. como jamais viu antes o mercado do gado! Saída dos fabricantes de conservas. prisioneiros Em uma torre de marfim. Quanto ao pão que precisamos comer. correndo sai atrás deles – Fiquem senhores. Mediadora inútil e que cava a própria cova. Enfrentam-se como gigantes? Vá. pois esses que te seguem não são mais do que escória e refugo. Serve-lhes água de chuva e belas palavras Pois do céu não lhes vem mais do que neve E não misericórdia! A humildade. é bem disso que se trata! Falaste a palavra exata! Se o Bom Deus paga. Eu não desejo Colocar novamente o chapéu e o uniforme negro. vão-se irrevogavelmente quarenta meses de aluguel. Por causa do aluguel.

carregando uma mala. desta vez. Faça subir. JOANA – Bom dia. Então eu disse a mim mesma: vá dar uma olhada no que se passa com o senhor Mauler. Mas o senhor. os preços a oitenta. Não pretendo soltar um só grama de carne A fim de arrancar-lhes mesmo a pele desta vez: É a minha natureza quem exige. senhor Mauler. no seu escritório? Sempre achei que o senhor devia possuir um dos grandes palácios de Chicago (Mauler se cala). Não é fácil encontrá-lo. MAULER: Agora. É que eu não estou mais com os Chapéus Negros. Ele sai. Assemelhem-se a bois ou porcos. MAULER: Seria preciso esfolar esta cidade maldita E ensinar-lhes o seu ofício A essa gente. Eles precisam comprar de nós. Houve discrepâncias entre nós. Agora que não tenho mais o trabalho fatigante da missão. se eu estivesse lá. E todos aqueles que como ele. A mim também Teria expulsado. Slift. Não se possa aceitar gente da minha laia. Mauler. posso me interessar mais por cada homem em particular. Serão obrigados a comprar a carne Que devem nos entregar. Dir-se-ia Que Chicago a engoliu Em sua negra e ruidosa bruma. meu caro Slift. SLIFT: Estou feliz. que tu tenhas superado Teus recentes acessos de fraqueza. em sua casa. e que nem mesmo está dobrado direito? Diga-me: o senhor dorme aqui mesmo. Gosto nela deste traço.28 VIII Discurso de Pierpoint Mauler sobre a absoluta necessidade do capitalismo e da religião ESCRITÓRIO DE MAULER MAULER: MAULER: Chegou enfim o dia em que nosso caro Graham. de perto ou de longe. Desde Que ela nos expulsou do Templo. Eu desmenti. mesmo nas pequenas coisa. onde enfiaremos o pé Unicamente para ver a marca que deixa. realmente. Deixar que gritem: “É um crime!” Entra Joana. Slift. por um momento. E os preços Subirão ainda mais. Neste mercado de Chicago Todos os bois que se escutam mugir São nossos bois. Deixo minhas coisas nesse canto. Gostei muito de vê-la expulsá-los do Templo. e cada porco Que eles precisam nos entregar. É um belo sofá que o senhor tem aqui. SLIFT: E tua Joana? Algo de novo? Um boato corre na bolsa: dizem Que te deitaste com ela. senhor Mauler. Mas o senhor tem razão. Graham e companhia ficarão então parecidos À lama. mas por que o lençol em cima. queriam esperar Que o preço do gado caísse o mais baixo possível. Vou ver como eles compram. E na nossa mão é mais caro. e de que. Senhor . de ser cuidadoso. Terão de pagar mais caro. dá rédea solta a teus corretores! Deixa-os correr o mercado. Em busca de animais que. Não se fala mais dela. Ela não tem medo de nada. SLIFT.

Quando não o tens. Confirme que foi por teus conselhos Que eu. Daqui até sábado. O escuro caminho que leva aos matadouros. Mas eu o encontrarei. JOANA – .. E que. JOANA – Sim. encomendei a carne. quando nós expulsamos os ricos de nosso templo. Joana pára de comer. a coisa não andou. Que meu comércio não é antinatural.. Eu quero dar-vos alguma coisa Para provar-vos a bondade de meu coração. a proprietária. naqueles pátios imensos. está caro. Eu não conheço. MAULER – Vá dizer-lhes que o dinheiro está chegando. MAULER – Não te inquietes.. MAULER: Tão mudada! Apenas oito dias! Onde ela esteve? O que ela viu? E por que essas rugas em torno dos lábios? Esta cidade de onde ela saiu. nos deu prazo só até o próximo domingo. Toma. Eu irei à Bolsa encontrar o dinheiro que lhes falta. é lógico. JOANA – Senhor Mauler. É por ti que o faço. senhor Mauler! MAULER Tome. eu lamento Que o trabalho ainda demore nos matadouros. arrancar a pele desta cidade. mesmo à noite.. E foi por isso que eu me disse: irei ver o senhor Mauler. Trata-se de saber Se eu serei o melhor de minha classe Ou se tomarei eu mesmo. Mesmo que deva cortar na carne. Vou agora mesmo à Bolsa para procurar o dinheiro. não faço mais parte. sim. MAULER – . aos fabricantes. muda logo a tua cara? . Queres? Joana observa a comida. Eu te encontro bastante mudada. é claro. o dinheiro para vocês eu terei. Eis o desafio.29 Mauler. Mauler vai até o fundo do palco e chora. O dinheiro. MAULER – Ah! E agora os Chapéus Negros estão em uma situação financeira difícil? JOANA – Sim. Assim como aos criadores. Mas contigo não será assim. E como eu sei que sois pobres E que querem privar-vos Do teto que vos abriga. senhor Mauler. Há quanto tempo não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Oito dias. JOANA – Os operários continuam esperando nos matadouros? MAULER Por que és contra o dinheiro? E por que então. Uma vez mais. ser ou não ser. senhor Mauler. ainda por cima. MAULER – E do que tens vivido? (Silêncio de Joana) De nada. Eu também. Ele traz comida a ela em uma bandeja. É Mauler quem vai dá-lo. Não pude dar-lhes trabalho rapidamente. Corra. Estás de acordo? JOANA – Sim. Nesta história dos cinqüenta mil trabalhadores. eu buscarei o dinheiro a qualquer preço.. e aos Chapéus Negros é preciso auxiliar. Ela começa a comer avidamente. Teria adorado ouvir-te dizer Que o que eu faço está bem. o que me agradou muito e me pareceu justo. Um trabalho ruim. e que agi bem. Eles são cinqüenta mil Que permanecem lá. não querem partir. de pé. Mas nesse negócio. Eu confesso cruamente.. que vive do aluguel. vá dizer-lhes isso. Aqui está por escrito. não como eu queria. eu não comerei. tenho boas esperanças de que sua consciência esteja em paz nesse momento! MAULER – Então não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Não.. na minha vez..

E incessantemente construída. Atribuir ao homem um lugar totalmente diferente. Se eu quisesse me retirar. Obra imensa. Pouco ou muito segundo o caso. nem Deus. Daqueles a quem ninguém oferece nada. Desde que existem sobre a terra. Apanhe o que te dão. nem nós tampouco: Não seríamos necessários. Eu seria varrido.O que nós não vos exigiremos de nenhuma forma – Devem dizer ao menos que eles são justificados. Que o gênero humano está entregue. Sim. Ela se levanta. Mas saiba com qual objetivo foi dado! Tome isso! Saiba que representa O aluguel de quatro anos. Por isso vós deveis nos ajudar em nossa obra. Não enchas a cabeça de falsas idéias. sem dúvida. eu que nutro Poucas simpatias pela ordem do mundo. Isso que o senhor falou. As coisas não deixariam de seguir o seu curso de antes. MAULER . eu deveria estar feliz De ver que alguém vem em ajuda a Deus. Eis porque esta obra é sempre defendida Pelos melhores entre os homens. Fazendo Dele a única salvação. Como esses bobos para os quais o dinheiro Tem não sei qual problema. sob chuva e frio. Olha também como o mundo é feito! Que edifício! Obra dos homens. sob gemidos. Quero saber. durmo mal à noite. . Para que Ele finque pé nas favelas E para que Sua voz retumbe nos matadouros. Ou então seria preciso mudar tudo. Em uma palavra é preciso que vós Restabeleçam Deus em sua glória. diga-me. Ainda que dia após dia se precise reconstruir O que dia após dia é destruído.30 O que pensas tu do dinheiro. veja bem. ou quase. Mas mesmo assim verdade: Sobre a terra nada há de sólido. O dinheiro é um meio De melhorar um pouco a vida. Eu não compreendo E nem quero compreender. Por Ele batendo os tambores. isso será suficiente. aliás. Seria como um mosquito Tentando se opor a derrubada de uma montanha. Mas pensa na realidade. eu concordo. Pouco agradável. Tão penosa de construir. Assim. E que. Mas eu faço parte daqueles Para quem essa não é uma ajuda. Concepção inaudita à qual vós mesmos. de cima a baixo. Ele alcança o papel a Joana. Modificar por inteiro o plano do edifício. É à sorte. Ao menos a vida de alguns. E se vós não precisais se expor aos sacrifícios. Não desejais. Esse sistema é o único que permite arrancar O que pode ser arrancado dos rigores desse mundo. Na banal verdade. destruído na mesma hora. Que seria suprimido por falta de utilidade. malgrado os sacrifícios. Eu sei. JOANA Senhor Mauler.

Depois eu gritei palavras em tom belicoso Em uma língua para mim mesma desconhecida. Que o aceitem. Mauler. E se não houver trabalho. E se nevar. Que o campo inflou-se e uma cascata humana Inteira ficou pendurada em suas elevadas bordas. afluíam inúmeros cortejos. E o trabalho deles também. Perto dela Gloomb e dona Luckerniddle. Ficarei lá até que as portas sejam reabertas. Cercado de todos os lados por enormes edifícios E tão pequeno que a sombra de um arbusto O teria encoberto totalmente. Há sete dias: Diante de mim. Sem poder suportar a visão dos pobres Que os julga sem conhecê-los. desfilando. Eles formavam uma massa tão densa. E eu. pulsando vida. Ao mesmo tempo. Jogados aos matadouros e de tudo ignorantes. Saberás que neva sobre ela. Pois esta vida sem eira nem beira não te serve. Quantos eram eles? Eu não sei. soluçando e jurando Logo fora de mim! Virtude e terror confundidos! . Fez esta massa começar a fluir. por toda a parte. Pelo menos não honestamente. Eu marchava. Que alguém gritou em algum lugar. Vai à janela e repara se neva. Vi depois cortejos E ruas desconhecidas. Eu comerei esta neve. uma palavra sem importância. Mais numerosos. E isso é muito bom. E então uma palavra. Jovem e velha. Eu serei como eles sem trabalho. Mas eu me sentarei Em frente aos matadouros. a fronte ensangüentada. se o senhor quiser me ver Me verá nos matadouros. Arranjando para não ver esses condenados. com passos guerreiros. JOANA Se os Chapéus Negros quiserem o seu dinheiro. A tempestade de neve. E o senhor. do que os pardais Que se poderia colocar em tal lugar. com aqueles que esperam. Sobre ela que tu conheces. marchava à sua frente. Ela permaneceu suspensa por um instante. JOANA Terceira descida de Joana às profundezas. sem uma palavra. levanta-te. que vive da pobreza. e então eu me vi: À vossa frente. No futuro.31 Leva aos Chapéus Negros este dinheiro E poderás ficar com eles. Se for um punhado de neve o que lhes dão. Ela sai. e outras familiares. Chicago! Vós também Lá estavam. Notei uma massa humana. creia-me. MAULER Esta noite. 1. A cada hora. BAIRRO DOS MATADOUROS Joana. silhueta múltipla. em todo o caso. Eu também não tenho dinheiro E nem uma maneira de ganhá-lo de outro modo. IX Escutai o que eu sonhei. em um pequeno campo. E nada comerei além do que eles comem. Eles fazem muita questão do dinheiro. eu quero fazê-lo.

Mauler. abandonando este lugar insuportável Por qualquer outro. Para aí mostrar a todos. Faremos um chamado a todo o ser que pareça humano. a preço vil. Habituados ao sofrimento. E assim andava o cortejo. Ninguém sabe quem foi. nós agora estaríamos comendo a nossa sopa. Hoje eu compreendo o seu sentido: Nós deixaremos os matadouros antes do raiar do dia. Assim foi o meu sonho. éramos inatingíveis. Envolvida pela neve. Eu exijo que me entreguem. libere-nos de nossos compromissos! MAULER: Estou desolado. Oitenta mil toneladas. Graham. Todas as conservas Previstas no contrato. não nos podiam alvejar.32 Tudo o que eu pisava. E também perturbando o aspecto familiar de ruas bem próximas. a preço vil. Há muito gado. a cidade deles. Habitando em lugar algum. Senhores. GRAHAM: Ao preço antigo? MAULER: Como combinado. Rendidos pela fome. OS FABRICANTES Desgraça! As tarifas caíram E nós não temos mais bois para vender! Eles já estão vendidos. e pior. Precisamos comprar e os preços aumentam! . eu ignoro. mas existe. O que acontecerá. é verdade. se eu me lembro direito Daquela hora em que perdi um pouco o juízo. MAULER: Sendo grande a demanda De conserva e de vianda E sendo os preços aceitáveis. Influenciando o curso dos planetas distantes. ao abrigo dos ataques inimigos. sem mais delongas.. E com a aurora chegaremos a Chicago. BOLSA DE CARNES MAULER. DONA LUCKERNIDDLE – Se ela tivesse calado um pouco a boca lá nos Chapéus Negros. UM PEQUENO BAR NO BAIRRO DOS MATADOUROS Desgraça! As tarifas caíram! E nós não temos mais carne para vender! Ela já está vendida. Um pouco caro. estávamos fora de alcance. modificava. que eu saiba. bem e aquecidos! 2. OS FABRICANTES: Mas como nós poderemos Comprar gado com preços em alta? Alguém promoveu uma razia. nas praças públicas. Comprem-no! OS FABRICANTES: Comprar gado nestes dias! Que horror! 3. mas preciso das conservas. Ocasionando imensas destruições. GLOOMB – Dona Luckerniddle. transparentes. e pior. A exata extensão de nossa miséria. OS CRIADORES aos fabricantes de conservas: Meus amigos de Nova Iorque me escreveram Que as tarifas aduaneiras no Sul Acabam de ser derrubadas. Eu andava no mesmo passo que o cortejo. a senhora entendeu esta história? Eu não..

UMA MULHER Por que vir aqui fazer escândalo Com tamanho frio! E se pudessem ao menos se calar! Com muito custo eu consigo agora Suportar as palavras que há pouco amava E que me soavam agradáveis. JOANA – Onde eles estão? GLOOMB – A dona Luckerniddle pode lhe dizer. tu também. soldado dos Chapéus Negros: . faz desesperadamente sinais para que saiam. não a violência. que nos salvou na dor. A MULHER – Por que não nos procuram para tentar nos converter? GLOOMB. BOLSA DE CARNES OS FABRICANTES: Nós compramos qualquer gado! Bezerros! Gado gordo! Vitelos! Bois! Porcos! Façam as suas ofertas. Eles precisam fazer isso para conseguir um pouco de calor e de comida. DONA LUCKERNIDDLE – Eles são boas pessoas.(Vocês acham que isso serve para alguma coisa?) Eu também. JOANA. à dona. à margem do caminho. Onde está Jesus. Ah. meus irmão. mas eles traziam uma panela. Nosso Senhor. Silêncio. mas ninguém contribui) Aleluia! JOANA – Deixe-os. GLOOMB – Bondade curta. surpreendendo-se pela ingenuidade – É sério? A senhora acreditou nisso? DONA LUCKERNIDDLE – Eu também. e eu não tenho mais fome e nem sede. eu prefiro os atos. UM TRABALHADOR. Pois nós encontramos Jesus. o amor.Aleluia! (Jackeline faz circular a cuia de esmolas. tenho apenas sede da palavra de Jesus. (É tudo absolutamente inútil!) Eu lhes digo: ajudem-nos a manter a marmita fervendo! OS CHAPÉUS NEGROS . já ouvi demais. que alguma voz. dona Swingburn? A MULHER – A sua música era bonita. JACKELINE. fazendo o gesto de contar dinheiro – A senhora consegue manter a marmita fervendo. meu irmão. grande o nosso regozijo. mas então eu encontrei Nosso Senhor Jesus e fez-se em meu coração uma grande luz e provei uma grande alegria. depois de entoar um cântico apressadamente: Por que não provar. curta bondade.33 Trabalhadores e trabalhadoras. JOANA – Mas não são os tais que ficam incitando ao crime? O TRABALHADOR – Não. Luckerniddle – De onde a senhora os conhece? DONA LUCKERNIDDLE – No tempo em que eu não me fiava em gente como você eu ia bastante até eles. Joana se levanta e. que um resto de pudor lhes diga: Aqui reinam a neve e o vento: calem-se! 4. do pão de Deus? Grande é nossa alegria. tenente dos Chapéus Negros. reina a paz. ente os quais Joana. como vocês. vinde logo! Aleluia! Uma jovem dos Chapéus Negros dirige-se aos trabalhadores. triste. por causa do meu marido. hoje (eles não estão escutando nada!) basta que eu pense muito em Jesus. Bem que eu gostaria de estar com eles! DONA LUCKERNIDDLE – A música era bonitinha! GLOOMB – Bonita e curta. minhas irmãs. Se algumas pessoas soubessem calar a boca eu saberia onde procurar abrigo esta noite. JOANA – Então não há ninguém que tente fazer alguma coisa? O TRABALHADOR – Sim. os comunistas. Um destacamento dos Chapéus Negros chega. estava um dia sentada. por favor! OS CRIADORES: Não sobrou mais nada! Tudo o que podia ser vendido . durante a cena. eu esperava que eles fossem ao menos nos dar um prato de sopa. e o velho Adão dentro de mim não tinha outro desejo do que comer e beber. Nosso Senhor. MARTHA. Vinde a ele. não o ódio. Intercala sua pregação com observações aos companheiros. (Isso não serve para nada!). Discursos. apesar de todas as nossas más ações.

para começar Quinhentos bois a cinqüenta e seis. mesmo nos grandes. Já que não há demanda. os operários. uma parte de nós perderá seu emprego nos matadouros e os outros nunca recuperarão o salário anterior. precisamos de um prazo. Mesmo que tenhas que te enfiar nelas! Eu vos ensinarei como se faz esse comércio! Doravante. Graham! As latas que me deves. JOANA – São vocês os que defendem a causa dos desempregados? Eu posso ajudá-los. Se alguém vier perturbar a reunião. OS FABRICANTES: É Mauler. se ela for justa. o apetite desperta! GRAHAM. eu acertarei as contas com ele! MAULER: Ah! É assim. e caro! Ofereço. UM CRIADOR: Oitocentos bois de Kentucky a quatrocentos. OS FABRICANTES: Nem pensar! Vocês estão loucos? Quatrocentos! SLIFT – Eu compro. Em frente a um galpão. Aprendi a falar em lugares públicos e em auditórios. É impossível encontrar um boi em Chicago. eu não tenho medo. É claro que é! Era o que dizíamos! O cão! Ele nos obriga a entregar-lhe as latas E é ele quem compra o gado! Somos então obrigados a comprar de Mauler A carne que deveremos colocar em suas latas! Carniceiro sujo! Tome então a nossa carne. se são os senhores os bois. Deixe-os totalmente à míngua. OS FABRICANTES: Mais nada? E nas estações? Estão abarrotadas de gado. Vendo-os. eu as quero agora. eu tenho propostas a fazer. MAULER: Atenham-se à nossa combinação. sabemos agora de uma coisa: se tudo andar como querem os industriais da carne. Terá de ser comprado de mim. Os trabalhadores das grandes empresas da cidade nos prometeram declarar. OUTRO LUGAR NOS MATADOUROS Nos cartazes se lê: “Solidariedade com os trabalhadores sob lockout!” “Desencadeiem a Greve Geral”. a greve geral. e acho que sou capaz de defender bem uma causa. De hoje até amanhã é certo que os patrões vão lançar todo o tipo de falsas notícias: eles dirão que . Quatrocentos. Na minha opinião é preciso fazer alguma coisa imediatamente.. Não havendo ninguém que precise de carne. OS CRIADORES – Vendido. OS CRIADORES: Oitocentos bois a quatrocentos para Sullivan Slift. Os fabricantes se precipitam sobre ele. Silêncio . mesmo só uma pata. Qualquer vitelo. no mais tardar depois de amanhã. OS FABRICANTES – Vendido a quem? Entra Mauler.34 Foi vendido.. UM DIRIGENTE OPERÁRIO – Escutem todos: até agora os magnatas da carne não manifestaram a menor intenção de reabrir as suas fábricas. precipitando-se sobre Mauler: É preciso liquidá-lo. Agora eu quero sessenta! E tenham o cuidado De não esquecer as minhas latas! 5. Corte você mesmo! MAULER: Por que se surpreendem. de Chicago a Illinois. Nós. Mauler. Chegada de Joana. Além disso. Os senhores devem me entregar a carne. dois homens da direção dos sindicatos discutem com um grupo de operários. Ele vai falar com Slift.

em frente ao edifício da Westinghouse! (À Joana) Quem é você? JOANA – Fui mandada embora do emprego. BOLSA DE CARNES Durante toda esta cena. Ninguém suspeitaria que ela trabalha para nós. pau neles! OS FABRICANTES – Queremos dois mil bois a setenta. A carta é para eles. Você pode tranqüilamente entregar-lhe a carta. não é? DONA LUCKERNIDDLE – Honesta ela é. pois o endereço dado pelos camaradas das usinas Cridle para o encontro está muito vigiado. os preços estão a mais de setenta! OS CORRETORES – Os cabeçudos não compram. SLIFT. ouve-se gritar ao fundo o nome das empresas que suspenderam seus pagamentos: “Encerram os pagamentos. a Mauler. Elas devem ser entregues às dez horas. em diversos pontos dos matadouros. O contrato assinado há pouco entre nós: Eu queria. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua Três. e vá esperar os responsáveis defronte à cantina da senhora Schmittens. com tal medida. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Pela nossa causa? Diga-me: ela não é também a sua? JOANA – Não é no interesse geral que os industriais jogam.35 tudo está arranjado e que a greve geral não acontecerá. galpão número cinco. Ela é honesta. etc.. (os operários riem alto) Mas é desumano! E dizendo isso eu penso também em gente como Mauler! (os operários caem na gargalhada) Por que se riem? Acho que vocês estão errados em zombar e em acreditar sem provas que alguém como Mauler não é um ser humano. estou vendo. Quando você vir chegarem três operários com cara de quem procura alguém. Esconda essa em seu casaco. eu sei quem ela é. UM OPERÁRIO – Pode ser uma espiã. Isso é bom.” OS FABRICANTES – Nós não podemos mais agüentar. – Eu já vendi jornais na rua Vinte e Quatro.. encostado em uma coluna – Faça subir.. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Não. dando a carta à Joana – Vá até a fábrica Graham. eu conheço o pessoal. pergunte-lhes se são das usinas Cridle. na esquina do Parque Michigan. Um operário apanha a carta e sai. O DIRIGENTE OPERÁRIO. aos responsáveis que esperam nossa orientação. Eu não sou uma espiã. assegurar o trabalho . O operário apanha a carta e sai. JOANA 6. dessa maneira. É do Exército da Salvação e os policiais a conhecem bem. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua vinte e seis. Eu luto de todo o coração pela causa de vocês. dona Luckerniddle? (Dona Luckerniddle faz sinal que sim). Essas cartas anunciam que a usina de gás. as centrais elétricas e o serviço de águas entrarão em greve em solidariedade a nós. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E para quem trabalhava? JOANA – Eu era ambulante. Por este buraco fogem todos os peixes. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Não é sem provas. Como se rede já não houvesse: De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. Tudo acontece como se a miséria dos pobres fosse útil aos ricos. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – E quem te garante que ela vai levar a carta que lhe entregarmos? O DIRIGENTE OPERÁRIO – Ninguém. Nós não temos ninguém para passar despercebido como ela. Ela é sua conhecida. UM OUTRO OPERÁRIO – Dê-me a carta para as usinas Graham. MAULER: Os senhores não respeitaram. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E em que trabalhava? JOANA – Eu vendia um jornal. tanta gente na rua. À Joana: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. E poderíamos até dizer que esta pobreza seja obra deles. essa noite. Meyers e Cia. Jack.

pois. Ainda por cima está escuro. Mil a setenta e sete. é o fim! SLIFT: Quinhentos a setenta e sete para Graham. Pois a queda deles Será a nossa. é claro.36 Aos operários e agora me dizem Que eles ainda esperam em frente aos matadouros. OS FABRICANTES – Mauler paga cinqüenta pelas conservas. Eles já não agüentam. à procura de um parente que não encontram. não me diverte mais. Eles ainda agüentam! Quinhentos bois a setenta e sete. é impossível ouvir uma voz isolada: há muita gente correndo de todos os lados. São centenas de milhares nos matadouros. Vou soltar a carne e deixá-los partir. MAULER: Atiram? Contra quem? Mas eu sei bem. Mas os senhores se lamentarão por isso. Vá só até oitenta e depois abaixe o preço. O estranho é que aqui não se ouve nada. sim. O segundo segurança sai. perdido por perdido. Acima disso. desembucha! O primeiro segurança faz seu relatório. Ponha os pingos nos “is”. Senão pensarão ainda Que fomos nós que exigimos que atirassem. A carne sumiu de vez do mercado! Quinhentos bois a setenta e cinco! MAULER: Não seria conveniente. Diga-lhe para que não me procure. Slift. MEYERS – Mil e quinhentos a oitenta. Ceda. por telefone. Pergunta para que nós pagamos impostos! Manda arrebentar a cabeça dos líderes. Sem contar que a polícia está evacuando os matadouros e que começa a atirar. A encontraste? O SEGURANÇA – Não. de achá-la? E atiram? Encontra o Jim. dizes. Isso basta. Slift. Quando se grita qualquer coisa. eu não me sinto muito bem. esperando. É preciso que a cidade Possa voltar a respirar. Fala em meu nome. Mauler. Impossível. só quinhentos. mas que não rebentem. voltando ao grupo: Este negócio. que voltou para perto da coluna – Slift. Ele repara no segundo segurança. o vento abafa as palavras. tudo a oitenta. senhor. SLIFT: Faça subir. se apresentariam dez ou talvez cem. SLIFT – A oitenta. . Mas para nós. MAULER – Então. nós não podemos pagar oitenta a Mauler pelo gado. O primeiro segurança sai. Ele pode ir longe demais. A multidão anônima e sem rosto continua sentada lá. a Slift – Onde está o pessoal que eu mandei para os matadouros? SLIFT – Ali está um. E tenho outras preocupações! Veja bem. Além disso. O SEGURANÇA – As multidões. GRAHAM: Que seja. eu me pego esgoelando-os E não tenho tanto prazer quanto esperava. Slift. Que sangrem. Se perguntasse por uma Joana. entreguem-me! GRAHAM: Nada poderíamos ter feito. eu não vi ninguém com o uniforme dos Chapéus Negros. MAULER. subir muito mais. No canto em que trabalham os sindicatos reina uma grande efervescência! MAULER – Quem trabalha? Os sindicatos? E a polícia os deixa incitar os operários? Meu Deus! Liga imediatamente para a polícia. As conservas que comprei. MAULER. MEYERS – Cinco mil a oitenta! Assassino! MAULER. são incontáveis.

Eles não abrirão as fábricas. Mauler? MAULER.” JOANA – Eu não falei nada disso. De outra forma isso terminaria em violência. NOS MATADOUROS Muita gente esperando. que a opinião pública está do seu lado. a não ser nós mesmos E a ninguém podemos apelar OS JORNALISTAS . JORNALISTAS – O que há de novo. Para nós a senhorita faz parte. Tu me conheces. declara: Deus está solidário com os operários das fábricas de conservas. SLIFT – Quinhentos bois a noventa! OS FABRICANTES: Mauler. E se quiseres abrandar. (a Joana) Esses são jornalistas. em segundo plano. Não vão embora. O HOMEM. Saindo ele encontra jornalistas. nos matadouros Enquanto a miséria não chegar ao máximo. Eu não posso mais. Prefiro abandonar tudo Do que ser a causa de uma desgraça! Oitenta e cinco. Veja. JOANA – Eu não faço mais parte dos Chapéus Negros. pode ler. Queria vender a oitenta e cinco. – Olá! A senhorita é Joana Dark. Joana. Eles ainda agüentam. Aja conforme o meu espírito. Um homem os guia. Nós publicamos isso com manchete de oito colunas. OS JORNALISTAS – No escritório do senhor Mauler nos disseram que a senhorita jurou não sair dos matadouros enquanto as fábricas não fossem reabertas. Mas nós não queremos incomodá-la e iremos ficar ali. senhorita Dark. também em segundo plano: É mentira: por maior que seja a miséria. OS JORNALISTAS – Veja bem. a alguma distância. afastando-se – É preciso que façam chegar aos operários que eu acabo de ceder gado às fábricas. isso não é possível. Slift. É um enorme sucesso para os Chapéus Negros. ALGUÉM – Porque estás aqui? JOANA – Tenho que entregar uma carta. toda a Chicago comparte seus sentimentos. OS TRABALHADORES. a jovem pregadora dos Chapéus Negros? JOANA – Não. 7. Chega um grupo de jornalistas. Eles não abrirão as fábricas! Eles esperarão os lucros aumentarem! E a sua resposta sairá Dos canhões e das metralhadoras! Ninguém poderá nos ajudar. SLIFT: Mentirosos! Agora serei eu que vos ensinarei A vender carne enlatada Sem ter nem mesmo um quilo! E cinco mil bois a noventa e cinco! Urros. serei eu quem fará subir. Entre eles. Fora uns poucos especuladores sem escrúpulos. Mas quando a aflição for tremenda. não mais. Virão três pessoas. esperem a resposta! CORO OPOSTO. no fundo. Aja conforme o meu espírito. Os jornalistas lêem em voz alta) “A Madona dos matadouros. OS JORNALISTAS – Podemos lhe assegurar. JOANA – Eu queria que vocês fossem embora. SLIFT MAULER Eu preciso de ar fresco. Nesse dia sim. Eles terão de nos responder.37 – Nem pensar. Eles se sentam. nós ouvimos. Slift não tem ordem para isso. eles abrirão. (Joana vira-lhes as costas. Então agora existe gado. apontando para Joana – Aqui está. Continue então com o negócio. Joana Dark.

Para que estejamos todos no alto! Mas olhando mais de perto descobre-se. Já basta. que de resto Já é a muito conhecido. Apesar de tudo. um teto e o sustento. Tenho fome e isso é banal.38 Que não seja um nosso igual. Enfim. UM HOMEM – Silêncio! Alguém atira um trapo para Joana. a Joana – O que fazias com aquela gente? JOANA – Nada. o que haveis deixado? Eu. UM VELHO HOMEM. desde fora. com um vasto plano. Não fazia tanto frio em meu sonho. O TRABALHADOR – Mas falaste com eles! JOANA – Eles me confundiram com outra pessoa. Quer um gole de whisky? (Joana bebe) Ei. UMA MULHER – Que audácia! JOANA – A senhora falou alguma coisa? A MULHER – Sim. dir-se-ia que é um caminho. a Joana – Você está totalmente gelada. levantam-se e dirigem-se ao fundo. Entre os que estão em cima e os que estão embaixo. eu não tenho o direito de ir. chega! Você é boa mesmo de copo. não dormir. Empunhar a bandeira e bater o tambor. A MULHER – Socorro. . E uns se sentam lá em cima Só porque os outros estão embaixo. Ir para um quarto quente. Os jornalistas. E para vós é fácil passar frio. Quando eu cheguei aqui. Ficar aqui sem necessidade absoluta Parece-me um jogo indigno. que acabaram de receber uma informação. JOANA Se dependesse só de vós Eu poderia congelar nua em pleno vento. A mim me esperam. Quase uma comédia. ignorar aonde te leva a vida. Mas eu posso. Eu não tinha sonhado que pudesse fazer tanto frio! Se eu tivesse pelo menos o meu agasalho! Ah! É fácil para vós passar fome... ela vai me matar. imbecil!. dona Luckerniddle? DONA LUCKERNIDDLE – Sim é verdade. Vós todos. Que audácia! Emborcar assim o whisky desse velho! JOANA – Segure a língua.. Mas. o que deixei foi uma vocação. Mas. não é? JOANA – A senhora também acha. Mas a estrutura interna continua ignorada. Algo de obscuro. é claro! É o cúmulo! Eles me roubaram até o chale! Quem foi o mão leve que pegou o meu chale? Devolvam-me imediatamente. UM TRABALHADOR. E falar Daquele que mora lá em cima. E os do alto gritam: Subam. a qualquer momento. tenho frio. que nada tendes para comer. (Ela arranca de sua vizinha o pano com o qual ela cobre a cabeça) Sim. eu quero ir embora. mais do que tudo. dê-me meu pano. Encorajada por um sonho que confirmava minhas idéias. Vós. E um ambiente. o medo me aperta a garganta: Não comer. A qual logo se nota claramente Que serve de gangorra Todo o sistema é como uma balança Na qual os dois lados dependem um do outro. Alguns – pouco numerosos – estão sentados lá em cima E um grande número aqui embaixo. um emprego que me assegurava O pão de cada dia. ao qual estava acostumada. JOANA: Eu compreendo esse sistema. isso é normal.. guardam-me a sopa. Onde está o meu chale? Eles me roubaram. foi você! Não adianta mentir. Mas é apenas uma tábua. confesso.

JOANA – Quanta gente há aqui? OS JORNALISTAS – Uns cem mil. Quando se falou com ele como a um ser humano Ele deu uma resposta humana. JOANA: Parai! Chega de aprender essas lições! JOANA . JOANA: Escutem todos! Há trabalho. espera. UMA MULHER – Devemos voltar para casa agora? UM TRABALHADOR – Quem nos garante que é verdade? Que haverá trabalho de novo? – E por que não seria verdade. E sobretudo entendam bem Que nada se faz sem luta E sem a sua própria ação. Se combaterdes. O coração deles não é de gelo. mocinha. Os matadouros são tão grandes que a tropa levará horas até aqui. Nessas condições o trabalho voltará muito em breve aos matadouros. OS JORNALISTAS – Olá. E nós vos dizemos: ficai agrupados. Felizmente temos a carta para mostrar a verdade. Não te movas! Entendeu? Ela sai. acaba de cedê-lo aos fabricantes. JOANA – Mas estão atirando! UM OPERÁRIO – Pode ficar sentada tranqüilamente. Que barulho é esse? UM JORNALISTA – São as metralhadoras. (Ela se levanta) Eu vou avisar aos nossos que os boatos já começaram a circular. E nós vos dizemos: combatei. Os tanques deles vos esmagarão. Não se separem! É apenas ficando todos juntos Que poderão ajudar uns aos outros. Esse combate será perdido E talvez perdido Ainda o próximo combate Mas vós ireis aprender a combater E aprendereis pela experiência Que nada se faz sem luta E sem a vossa própria ação. com a carta. Agora as fábricas reabrirão. Então a bondade existe. A tropa foi encarregada de evacuar os matadouros. Mas tu. Ao longe as metralhadoras crepitam. Não ficaste tempo suficiente aqui. A não ser a proposta Que leve a mudanças verdadeiras. aconteça o que acontecer. É preciso fazer com que se calem os agitadores que incitam à violência. JOANA: Tanto assim? Oh! Escola desconhecida. Não creiam em nada e não escutem ninguém. no fundo do palco: Se ficardes agrupados Eles vos rebentarão. O que aprendeis? OS TRABALHADORES. ainda que os preços continuem a subir. Havia entre eles pelo menos um homem honesto E ele não falhou em seu dever. de jeito nenhum. Os jornalistas retornam.39 OS TRABALHADORES: Fiquem. se esses senhores estão dizendo? Sobre um assunto como esse não se brinca. DONA LUCKERNIDDLE – Não digas tais tolices. Tu não compreendes nada de nada. o milionário que dispõe de muito gado. JOANA – Oh! A boa nova! DONA LUCKERNIDDLE – Vejam as mentiras sobre as quais nos alertaram. Classe cheia de neve e que as leis ignoram. Que tem a fome por mestre e onde a miséria Fala implacavelmente da necessidade! E sois cem mil alunos. o seu sucesso foi formidável: nós ouvimos que Pierpoint Mauler. no frio.

Eu assim não poderia viver. mas agora a coisa está terminada. Isso seria desleal para com os outros homens. Sobre sua cabeça. Joana tem uma visão. Para este homem. OS OPERÁRIOS – Estão trazendo os sindicalistas. UM OUTRO OPERÁRIO grita para o grupo que se afasta – Assassinos! OS OPERÁRIOS – Se eles acham que assim irão parar as coisas. é imensa! Mais uma noite como esta. DONA LUCKERNIDDLE. Eles saem. eu preciso ir. longe do mundo que lhe é familiar. algemados. No lodaçal dos matadouros. e ninguém Poderá manter a sua calma. OS JORNALISTAS – Nós a aconselhamos a sair dos matadouros. UM OPERÁRIO. Seu sucesso foi grande. Os operários se levantam. Enquanto o fraco ao fraco se alia. voltando – Nada além de mentiras! Onde foi a moça que estava sentada ao meu lado? UMA MULHER – Partiu! UM OPERÁRIO – Desde o começo eu disse que ela iria embora quando começasse a nevar de verdade. Chegam três operários. Ou que engendrasse a violência. eu seria como eles e não faria perguntas. aparece uma inscrição: A neve começa a cair. Enquanto a noite cai. Nada de bom pode surgir da violência. Dia após dia ela desceu. E é por isso que parto. para um dos dirigentes presos – Não liga não. Ela se levanta e sai. Por que foram presos? O que ela contém. Ela continua sentada.40 Que gélidas elas são! Não é pela violência Que se combatem a desordem e a confusão. esta carta? Eu não saberia fazer nada Que requeresse violência. Eles procuram alguém que não encontram e vão embora. Mas o prato que se prepara aqui. Do fundo ouve-se gritos que se aproximam. ao longo dos anos. as palavras teriam outro sentido. estão muito enganados. JOANA: Os que me entregaram a carta. No final o lodo a engoliu. conduzidos por policiais. . Quem agisse assim se sentiria perdido. Começa a nevar. Há muito tempo que já está tudo arranjado. os astros sem harmonia Já não seguiriam sua órbitas. vós estivestes juntos Longas noites. Apartado em um mundo Tornado para ele estrangeiro. Viram-na descer de degrau em degrau Para em água límpida a lama transformar e aos humildes Aparecer. Os dois dirigentes operários passam. Mas assim. Com seu silêncio opressor. Eu não sou um deles. No terceiro dia sucumbiu. que eles ainda poderão ter uma surpresa. William. Perseguidor perseguido E não mais sabendo ver sem desconfiar. E aprendestes A alimentar friamente terríveis pensamentos. Vós. Direis que fazia muito frio. A tentação. Eu digo: na escuridão se acumulam As violências e as questões nunca resolvidas. Toda inocência tê-lo-ia abandonado. Violar as regras em uso. Ela se vê com roupas de criminosa. Por três dias viram Joana em Packingtown. Quem o comerá? Eu vou embora. Se desde a infância o peso da miséria e da fome me tivessem ensinado a violência. eu digo.

UM DOS SEGURANÇAS. OS DOIS SEGURANÇAS – Então podemos ir? MAULER: Podem E eu também posso ir aonde queira. Passa um vendedor de jornais Ei! Jornal! Vejamos o que se passa na Bolsa de Carnes. Na borrasca. Basta. Pensar não serve para nada. Mauler e seu amigo. Seja por aberração. confessa. saindo – Bom. Assim foi conseguido. Sem que eu tenha procurado. . Escolhido como material. Sou conhecido nos matadouros. UMA ESQUINA EM CHICAGO MAULER. É o que está escrito. então. modificam tudo. O mais prático também. seja por economia.41 Pergunta feita: quem ficará? Como nos outros dias. E ninguém quis. façamos meia volta. mas o arquiteto teria. MAULER: Se a desgraça abate ao homem sem caráter. Eu disse: meia volta E tu riste. nada mais posso fazer por eles. Parece-me Que contratei dois idiotas. Ele lê e empalidece. 9. De agora em diante. Ter construído a maior cloaca do mundo Constituirá a sua única glória. Perto dos matadouros.. Mas vejo que estão pensando. Aquele que sai de tal imóvel. ainda atiram.. Agora eu estou livre. Vejam. A mim ela vai elevar às mais altas esferas. preto no branco. Até mesmo aos matadouros. UM LUGAR DESERTO NO BAIRRO DOS MATADOUROS Neva. dele se diria Um prédio construído com grandes despesas. Não preciso. Sem nenhuma exigência. Em todo o caso. um objetivo que eu saúdo E que muito me alivia. Assim espero. Cedi meu gado a qualquer um que o quisesse. são os mais atingidos. Quanto a este edifício. o que foi? Riste. que todos os fabricantes Quebraram juntos e saíram do mercado. em suor e em dinheiro. Doravante Não há mais ninguém que me queira matar. Essas notícias. impresso. meia volta. Aquela que eu procurava terá tido o bom senso De sair das profundezas onde o inferno se instala. Só porque duas ou três vezes eu dei meia volta. aqui sob meus olhos. Até o reino do espírito. Que nós construímos em nossas grandes cidades Sem importar o custo. Eu tenho as minhas razões. Está dito. Tem certa razão de estar alegre. Não é para pensar que eu vos pago. a dona Luckerniddle reencontra Joana. preto no branco: O gado está a trinta e ninguém compra. em cima. Vejam o que leio. hoje restarão No chão as pedras. o mais vasto. os pobres. não lhes parece? Ah! Eu repito Não fiquem enchendo a cabeça com idéias. cocô de cachorro: Que torna a permanência difícil. E a vocês eu despeço Pois da pobreza eu cruzei a fronteira. Este homem está perdido. mais de vocês. Slift. Há resistência. a um de seus seguranças Parem. Pierpoint Mauler cruza a fronteira da pobreza 8.

eu não a darei. Tudo está voltando ao normal agora. O PRIMEIRO OPERÁRIO – E aqui nós não ficamos sabendo. Mas a carta que trazia a verdade. mas a senhora quer continuar. DONA LUCKERNIDDLE – Eu devia ter duvidado. E aquele que chega a bom porto. Tu não a entregaste. Lá dentro só se fala em violência. caindo de joelhos: Luz. A pedra não perdoa. De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. Mas tu és uma traidora e teu lugar é com eles. DONA LUCKERNIDDLE – Ora essa! Para ti está tudo normal! E eu que disse que tu eras honesta! Sem isso não teriam te confiado a carta. podias dar conta. Nós não sabíamos quem eras. UM OUTRO LUGAR Correndo em direção ao centro da cidade. isso é o que tu és! Dê-me a carta que te confiaram. Anda em outra direção. precisas chegar! Joana olha ao redor. fraqueza do corpo! Oh fome. Ainda mais que amanhã todas as empresas de Chicago iriam declarar a greve geral. Uma parte dos operários saiu dos matadouros. De tua missão. Eu vou embora. JOANA – Não. para poder se apresentar amanhã bem cedo ao trabalho e de repente eles falam que as fábricas nunca mais abrirão. Sem récitas inoportunas dos seus infortúnios. mas entregue. Como se rede já não houvesse.42 – Ah. (Joana desaparece na tempestade de neve) Hei! Venha! Ela foi embora! DONA LUCKERNIDDLE 10. Nela estava nosso destino. Pierpoint Mauler as arruinou. Que sentimentos em nós deixareis sobreviver? . UMA VOZ – Lá onde te esperam. OUTRA VOZ: Joana pára. Eles teriam ficado apesar da violência da polícia. de uma missão. Joana ouve vozes. oh verdade! Que a neve em tempestade Inoportunamente mascarou com sua noite. JOANA. Errando pelos matadouros. As massas não deveriam ter se dispersado. O SEGUNDO OPERÁRIO – Os comunistas é que tinham razão. ela procura se livrar das vozes que ouve de todos os lados. Aquilo que lhe foi confiado. AS VOZES: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. Por este buraco fogem todos os peixes. Ao que tropeça e cai. Nós te encarregamos. É inútil tentar pegar. estás aí! Onde tinhas te metido? Entregaste direitinho a carta? JOANA – Não. Dê a carta aqui imediatamente. Mas também podias nos trair. Muitos operários teriam ficado se soubessem da notícia. Cumpriste a missão? Joana volta a andar e uma nova voz a detém. Que nada diga. O SEGUNDO OPERÁRIO – Isso é grave: sem dúvida uma parte das ligações não funcionou. Claridade que então eu deixei de ver! Oh! Quem conhecerá o poder da neve! Oh. Joana cruza com dois operários de quem ouve a conversa: O PRIMEIRO OPERÁRIO – Primeiro eles fizeram correr o boato que as fábricas reabririam a todo o vapor. Joana pára. Joana. A VOZ DA DONA LUCKERNIDDLE: Eu fui a tua fiadora. UMA VOZ: Não há desculpa Para quem não chega. Um lixo.

Para nos salvar neste instante. ou que deixe o imóvel. Conheci bem um homem. BISPA SNYDER – Dona Mulberry. UM HOMEM. ele possuía dez milhões. na frente do palco : Ouvi alguém procurando um certo Mauler. Quero que a senhora pague o meu aluguel. Buscam-no por toda a parte. Ele se levanta e avança até os Chapéus Negros. que triste. MAULER – Eis aqui um homen marchando até o seu Deus. E as ondas de lama do materialismo Ameaçam a casa de Deus. o banco dos penitentes! E já suas mãos avidamente se dirigem Ao órgão a vapor e ao púlpito. que prometeu nos ajudar. a outro Chapéu Negro – Há três dias um emissário de Pierpoint Mauler. Este homem que foi em sua vida Mais estúpido do que um vagabundo bêbado e repugnante. O HOMEM – Os fabricantes de conservas querem falar com ele e os criadores o chamam aos gritos. Uma boa orquestra à mão e sopa Bem grossinha: terminam para Deus todas as preocupações. Pediram-lhe cem dólares. se ele pudesse vir. minha cara Mulberry. com sopa quente E um pouco de música. coloque os móveis na rua.43 Frio da noite. o senhor Pierpoint Mauler. é tudo o que eles querem! Aqui não tem mais sopa! Aqui só tem a palavra de Deus! Ouvindo isso eles vão logo embora. no céu e no inferno. posto que sem abrigo. o suntuoso Mauler. quem vos pode resistir? Eu preciso dar meia volta! Ela retorna sobre seus passos correndo. é sábado a noite. DONA MULBERRY – Bispa Snyder. Vejam que já balança. O reino de Deus está pronto na minha cabeça. investindo contra ele – A sopa. entrando – Pierpoint Mauler está aqui? BISPA SNYDER – Não. Exposta outra vez à neve. OS CHAPÉUS NEGROS: Romperam-se os diques da fé Em Chicago. . E nós gritamos à plena garganta: Ah. BISPA SNYDER – Sente lá atrás e fique quieto! Ele se senta. Sob um plúmbeo zênite de destinos desconhecidos. à chuva. onde iremos acomodar o nosso público? Chega um pobre. Um homem começa a levar os móveis para a rua. que aliás é muito barato. Salvar-nos com o seu dinheiro! BISPA SNYDER Há exatos oito dias Que nos matadouros onde as máquinas enferrujam. OS CHAPÉUS NEGROS: Estão levando. o rei da carne. que já se afunda! Mas o rico Mauler virá. afastada do trabalho. MAULER. Ah. Mas nós o estamos esperando. estamos aguardando. De um só golpe o bolchevismo também é enterrado. Eu o conheci: era um imbecil. Liberada. veio nos dizer que Mauler em pessoa estava disposto a assumir o nosso aluguel e a organizar conosco uma grande campanha em favor dos pobres. X Humilhação e assunção de Pierpoint Mauler TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS MARTA. DONA MULBERRY – Meu caro Dick. com certeza! Ele já está a caminho com os seus milhões! UM CHAPÉU NEGRO – Bispa. agora os pegamos. BISPA SNYDER. A massa espera. nossa boa cidade. Ele sai. a qualquer momento. É Mauler.

Mas quebrou a nossa cara De uma vez por todas. Eles cantam ainda “Entrai na batalha”. é certo. Tiremos de nossas paredes as máximas. Ele pega dois Chapéus Negros pelo braço e senta-se com eles no banco dos penitentes. Não podemos mais pagar as nossas contas. dirigindo-se aos músicos que vão embora: Nossas orações eram pelo rico Mauler E foi Mauler o arrependido que entrou. que tenha caído tão baixo. E esse gesto tocou os nossos corações. Aqui estou agora. ar ausente. DOIS MÚSICOS: Um pedacinho só. BISPA SNYDER Silêncio! Fora. olhos voltados para a porta. já. Ele trazia o seu coração. Se aproxima já Com os seus milhões. BISPA SNYDER. OS CHAPÉUS NEGROS: Não perca a confiança! Homem de pouca fé! Ele virá. construir vossa casa . seguindo a letra por sobre o ombro de um dos Chapéus Negros. Envolvamos em nossas bandeiras derrotadas Os livros de cânticos. Culpado. Todos os pagamentos estão suspensos. OS MÚSICOS: É deste aí então que vocês esperavam O dinheiro para nos pagar? Então nós vamos embora. MAULER: Eu me acuso de ter explorado o meu próximo. Sentados sobre seus últimos bancos e suas últimas cadeiras os Chapéus Negros cantam desordenadamente seus últimos hinos. Ouçam então a minha confissão: Aqui jamais se ajoelhou Ninguém. Diante de vós. Abusado da força e espoliado todo o mundo Em nome da propriedade. Jogou no mar seus milhões. BISPA SNYDER. e dilacerado de remorsos. Passar bem.44 No fim. Mauler canta com eles. Os músicos tocam um hino. E sobre nós a neve envia suas tempestades Em um inverno no qual crescem os rigores. recusou-se a dar o dinheiro. eu vejo. sim. OS CHAPÉUS NEGROS – Ele já chegou? MAULER: Um hino. Os Chapéus Negros cantam. Apenas nos resta chorar. sem nada. CORO DOS CHAPÉUS NEGROS. mas arrependido. devolva-me os meus quarenta aluguéis! MAULER: Vós desejais. deu cabo de si mesmo. meus amigos. eu vos rogo! Pois eu sinto O coração ao mesmo tempo leve e pesado. Mauler! MAULER: Mas quero acrescentar que no sétimo dia Fui despojado de tudo. todos para fora! A Mauler: E tu primeiro! Onde estão os quarenta meses de aluguel Desses não-convertidos que Joana enxotou? E vejam só o que ela me trás em troca! Devolva-me. UM CHAPÉU NEGRO – É ele. inclinado sobre os livros de contabilidade – Não direi o que estou calculando. BISPA SNYDER – Tu és Mauler? MAULER – Sim. não o seu dinheiro. gritando – E sem dinheiro? (Aos Chapéus Negros:) Façam as malas. Silêncio! Tragam-me o livro das faturas e contas por pagar: estou nessa parte. Sentados sobre as margens do lago Michigan. Joana. Por sete dias apertei a garganta Desta cidade até sufocá-la.

em poucas palavras. da Argentina. OS REIS DA CARNE: Perdoai-nos. Vossa função seria apenas a de brincar na relva. Um zênite ameaçador de pensamentos desconhecidos. comprometendo suas casas. OS CRIADORES: Maldito Mauler. Relatarei o combate memorável Que. E tudo o que de longe parecesse um boi. Ninguém jamais pode fugir da lei. Viram-se os preços Oscilarem. ao meio-dia. e a noventa e cinco Comprou-os todos. assumindo seus deveres. como um bêbado sedento Que ao mar esvaziou sem se satisfazer E lambe avidamente cada gota que encontra. Os complexos pensamentos de vosso imenso espírito. Dais o nome de homem a quem vos vem ajudar. por ter vindo Atrapalhar neste lugar as tuas meditações. Eu sei muito bem. nobre Mauler. tomado de loucura. Acorreram todos em ajuda. Ele tenta sair. hesitantes. Subiu os preços a noventa e cinco. durante sete horas. é aqui então que te escondes? Paga nossos bois ao invés de fazer penitência. paga-nos o gado! GRAHAM. No ciclo dos astros ou das mercadorias. E sobre eles atirou-se. tomando a frente : Mauler. Que projeto tendes agora. Era vosso todo o gado. E hipotecando até o último lápis Para trazer de Quebec. . Bispa. Loew e Lévi. com voz dura. chorando. Mal viu esses bois vindo ao longe. desde a aurora. No mercado perturbado. agigantou-se E a todos nos precipitou no abismo! MAULER: Oh! Eternos combates! Em nada são diferentes Desde os tempos antigos onde os homens Com uma barra de ferro rachavam-se as cabeças! GRAHAM: Recordai que estávamos à vossa mercê. eles iriam trazer. o que existisse de gado. Para mim o humano era aquele a quem eu podia explorar. e sobre nossas cabeças. Por vós fomos forçados. Lançou. Na porta. Slift apertou Ainda mais forte a nossa garganta. O ancião venerável. Mauler. E Wallox e Brigham. Mas se chamássemos de homem àquele a quem se ajuda Daria no mesmo: necessitaríeis sempre De gente a ponto de afogar-se. O Banco Nacional gritou: “Alto”. Ah! Se não tivesses aliviado tanto os nossos bolsos. Que vos pertencia. Não terias a necessidade de aliviar aqui A tua consciência. Em três dias. partistes. Mas Slift. Que a constatação vos enche de amargura. Estão pálidos como o linho. o caos. Concluo eu o seguinte: o Mauler que sou Não é aquele do qual precisais. Mas nós estamos perdidos: Em torno de nós. a comprar gado. salva tua alma. Eles também estão muito pálidos.45 Sobre o que há de pior em mim. Mauler. Um vitelo ou um porco. Este espetáculo atroz apavorou o ancião. firmas de grande renome. gado canadense. quem nos derrubou. que fareis? Entram os criadores em grande agitação. O que pretendeis fazer de nós? Foste vós. Pelos contratos que nos obrigavam A entregar de imediato as conservas prometidas. Mauler. os reis da carne vêm ao seu encontro. Prometiam até o gado por nascer. Quando. Dá o dinheiro. Que não ficou só por muito tempo.

tomados de desespero. E viu-se. Parando de pagar. os agentes fechando suas escrivaninhas. Porque não mais podemos honrar os contratos. os vívidos vitelos. E como contratos nulos não impõem compras. E que não foi ainda acertado. E Brigham arranca a barba aos gritos: “Noventa e seis”.. Com esse chapéu e este sapato: Dez milhões o chapéu. de imediato. bancos. quando e com que dinheiro Nos pagarás o gado comprado. Ouviu-se nesse dia os jovens estagiários. Slift. por sua indiferença. obstinados. Como definha uma esponja espremida. é sabido.E a voz ainda nos alcançava Mesmo com a balbúrdia dos trens que partiam: . baixou. em um espasmo. Lutavam a dentadas. o velho Lévi disse então em voz baixa. ele ao menos vale vinte e cinco centavos. Seria esmagado como um morango no chão. E em silêncio também os bancos desmoronaram. Estão satisfeitos? OS CRIADORES: Há pouco tempo. Toda a família nos gritava de longe Com a voz embargada pelo trabalho duro . Em tudo semelhantes aos antigos corcéis Mordendo. com olhos marejados. de rocha em rocha E somente em trinta a queda parou. se por um acaso Um elefante se arriscasse pelo interior da Bolsa. e os preços subiram. os fabricantes apáticos Depositarem a vossos pés suas fábricas fechadas. O sapato. Como a água que cai na cascata. e então se retirarem. O que fazer. De cotação em cotação Os preços caíram e rolaram até os negros abismos. entrego por cinco. em um suspiro. Os corretores. mudos. Naquele instante. Mas alto o bastante para que todos ouvissem: Para pagar-lhes tomem então nossas fábricas. Vertiginosamente. Nós queremos que nos digas Como. Rangerem os dentes. Inúteis portanto. Eu quero para hoje”. diga-me. comprar. Até os simples contínuos. quando levamos às estações De nosso longínquo Missouri Com muito sacrifício. golpeia um corretor na barriga. Slift então gritou: “Cem”! Poderia ouvir-se um alfinete cair. isto é. Sob nossos olhos. Lévi. paravam de viver. Aí está o que tornou o contrato sem valor Apertastes muito forte. E nós comprávamos sempre: Nós precisávamos comprar.. Do outro eu preciso. os cavalos inimigos.46 Mas Slift gritou: “Três dias não. Lançaram-se um a um nesta última batalha. a carne de boi. um a um. Institutos de crédito. Só um. Casas até então sólidas e poderosas. fomos estrangulados E de que adianta estrangular um cadáver? MAULER: Foi assim então. Célebres. agora. E os jovens bois de pêlos reluzentes Engordados com tanto cuidado. Eles precisavam entregar. que travaste a batalha Que deixei a teus cuidados! SLIFT: Corte-me a cabeça! MAULER: E de que me serve tua cabeça? Dá-me o chapéu. Que nos píncaros se encontrava. MAULER: Agora mesmo. na batalha. Lévi. Com esse gado que ninguém é obrigado a comprar? OS CRIADORES: Sem querer perder a paciência.

pelo que dizem. Mas para mim. conhecem um meio de sair desta. Cuja voz está a tal ponto asfixiada.” Não.. Seus amigos de Nova Iorque. Se assim fosse concebido. O projeto teria talvez. nós estaremos de bom grado à sua disposição. OS FABRICANTES E OS CRIADORES: Desejarias. esta caça fatigante. Estariam vocês dispostos a repetir aos quatro ventos . mostrando o lombo vazio E nossos bolsos também? Como. caro Pierpoint. MAULER: Ou seja.. Seus bens. assumir a empreitada. Nossa pobreza é termos perdido O sentido dos valores mais elevados. entrando – Mauler está? Uma correspondência para ele. De máximas sagradas e escolhidas com grande cuidado. Neste caso. Deixando as sublimes esferas onde meditais. De um asilo necessário para os casos mais graves. E voltar até nós? Pensai. para que os preços voltem a subir. Providos de sopa quente e de boa música. Agora. Mas se fizéssemos uma grande promoção De sua instituição. Alguma chance de sucesso.. de Nova Iorque. sozinho. não bebam todo o dinheiro. A Snyder: Existem muitas dessas lojinhas Onde se vende a Bíblia? BISPA SNYDER – Sim? MAULER – E como elas vão? BISPA SNYDER – Mal. Compreendido como sendo de interesse geral. Não. nobre Mauler.. Ele estende-lhes a carta. O negócio só é possível. pensai no caos Que ameaça a tudo engolir. Mauler. compreendei.(Ele abre a carta e lê de canto) “Escrevemos a você recentemente. isso não é possível. voltar para casa? O HOMEM DE ANTES. condescender. MAULER – Eu costumava ser esse Mauler. Nem todos aqui em baixo poderiam ser ricos. neste estado. Não quero. Pois os preços do gado vão subir. E o barulho das metralhadoras. Não ter fartura de bens terrestres. a quem mandavam cartas desse tipo. Outra vez responsável. ao contrário. o que faremos. Jogai sobre vossos ombros o jugo. Caro Pierpoint. Como voltar para nossa terra? E que diremos a eles. Pois ainda creio ouvir O rumor dos matadouros. MEYERS – Quem são esses amigos de Nova Iorque? MAULER – Morgan. Mas nossa pobreza não é. esperamos” E agora. E dado que de vós necessitamos. GRAHAM – Mas então é Wall Street? Um murmúrio percorre o ambiente. GRAHAM – O que não é possível? MAULER – Tenho amigos em Nova Iorque que. Sancionado pelas instâncias superiores. mas são numerosas. é muito a contragosto. Como tudo de agora em diante Me parece diferente. Rockfeller. nós lhe forneceremos amanhã mais detalhes. rapazes.47 “Ei. elas vão mal. Abandonai. MAULER: Se o faço. Julguem vocês mesmos. para que comprasse carne. é impraticável. entendei. MAULER: Em nós a consciência. vocês estariam dispostos. amigos. nós aconselhamos a fazer um acordo com os criadores para reduzir o rebanho. estão para sempre perdidos.

MAULER. Vê que são eles os compradores! Seja como for. desordem e violência. ofuscado. Então. E é por isso que os preços caíram a zero. que nós subvencionaremos Fartamente a sua missão que contribui Com a manutenção da ordem. E que. BISPA SNYDER – Quase todos. Toda essa gente aí fora: Eles são os nossos compradores! Dirigindo-se aos outros: É incrível. você não compreendeu A questão de fundo. Limitar o rebanho oferecido no mercado. Elas trarão a calma e a ordem. Eliminar o estoque excedente atual. para puxar os preços. E mesmo que muitos não compreendam. Em que em nossas cidades os problemas não têm fim. TODOS – Não há outra saída! MAULER – E também precisaremos reduzir os salários! TODOS – É o ovo de Colombo! MAULER: Qual o objetivo dessas medidas? Nesta noite de sangue e confusão. Esta dificuldade pela qual estamos passando Está a ponto de ser superada. É por isso. supérfluos. . ou melhor: quase todos Mas é o único meio de salvar o sistema De vendas e compras no qual vivemos. mas olhando bem Quem vê além das aparências das coisas. meus amigos! Eles cochicham. queimar um terço do gado existente. TODOS – Que solução simples! BISPA SNYDER. criadores e industriais. Meter um freio à anarquia da criação. Nesse tempo de humanidade desumanizada. Seria muito importante. quebre suas ferramentas E destrua assim seu próprio ganha-pão. Elas impedirão que em sua brutalidade Um povo. que deseja Fazer o bem. O mercado foi saturado este ano. é claro Que entre vocês estivesse Joana. Miséria e fome. Nós o faremos. Enfim. Eu compreendo o senhor. aos criadores : Escutem. É preciso limitá-la. mas se o gado tem tão pouco valor Que pensam em queimá-lo. Não tem outra causa a não ser Que há carne demais. nesses tempos de desgraça? Pois serão necessárias medidas draconianas Que poderão parecer duras porque irão Derrubar alguns e. pedindo a palavra: Perdão. Todos sorriem longamente. aos fabricantes: Faremos uma fusão de suas indústrias Em um só monopólio. é lógico. sorrindo: Minha cara bispa. mais ainda. nós decidimos. Eu fico com a metade das ações. Será preciso demitir um terço dos operários: Também de mão de obra o mercado está saturado. E às vezes inoportunos. Em conjunto. tem seus defeitos. Digamos: a maior parte. dizem. . não poderíamos Doá-lo àqueles que esperam lá fora E quem sabe utilizá-lo melhor? MAULER.Pois eis Chicago outra vez agitada A greve geral. Eles podem nos parecer inferiores. OS FABRICANTES – Que cérebro! MAULER. Chapéus Negros. é eminente -.48 Que nós somos uma gente valorosa.

Nenhum deles tem chapéu. SNYDER – Abram as portas! A porta principal é aberta. olhar fixo na porta: Eles terão de vir. estamos prontos! Já estão chegando! A miséria os traz aqui como um rebanho! São obrigados a vir. cantam. o mercado vai ser curado! Outra vez saímos do ponto morto E realizamos uma obra difícil. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! XI NOS MATADOUROS EM FRENTE AO ARMAZÉM DAS FÁBRICAS GRAHAM Os matadouros estão quase vazios. penteados e carecas. Quando estão cegos e surdos. chega e pergunta – Vocês viram passar três homens que vinham buscar uma carta? Ao fundo ouve-se gritos que se aproximam. MAULER: Abram agora a porta principal Aos homens cansados e cheios de preocupação. Sejam bem-vindos. Passam apenas alguns grupos de operários. Música de órgão. joguem as grandes redes! Eles saíram agora de sua última casa! Deus lançou sobre eles o frio! Deus lançou sobre eles a chuva! Eles terão de vir. Foram presos os sacrílegos que perturbavam a paz e a ordem! SLIFT: Podem respirar. Passam então os dois dirigentes operários escoltados por soldados. UM CORRETOR. Até nós. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Vamos. Perseguidos sem trégua. UM DELES – Quem são eles? O OUTRO Nenhum deles Pensou só em si mesmo. OS CHAPÉUS NEGROS. Imóvel. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Tranquem as saídas. Ninguém pode escapar: tranquem as saídas. Quando perdem o trabalho. Toquem a música e nós mesmos Seremos os primeiros a nos sentar Para elevar nossos corações a Deus. eles chegam até nós. De sopa encham os pratos. a seu lado. dois homens conversando. joguem as grandes redes! Sejam bem-vindos. Joana segue com o olhar os prisioneiros. estão chegando! Daqui eles não escapam. entrando precipitadamente – Escutem a boa nova! A greve que nos ameaçava foi sufocada. JOANA. Eles combateram Pelo pão dos outros. apanhem-no! Lazarentos e descalços. Eles vêm até nós para chorar. Ela então ouve. UM DELES – E por que foram presos? . Nossos planos outra vez se impõem. As coisas retomaram o rumo que nos agrada. apanhem-nos! Sejam bem-vindos. para que nenhum escape! Eles estão a caminho. Os que aqui chegarem.49 Cuja face por si só já inspira confiança. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Todo aquele que aqui entrar. não deixaremos! Sejam bem-vindos.

E a carne vai subir. os jornalistas a interpelam. Ela veio daquele lado e aqui ela gritou para os nossos que as empresas municipais iriam decretar OPERÁRIOS Sim. Em nós podem por fé. não é a nossa Madona dos matadouros? Hei. As rajadas de neve a impediram de ver os soldados. mas apenas para dois terços dos operários. Nenhum come seu pão tranqüilamente. Divididos em grupos estão os Chapéus Negros. SNYDER: Quando nos jornais falarem de criminosos abatidos. Nos vales e nos cimos. à sua frente. e a esta a polícia dispersou com o uso de força. JOANA – Os operários concordaram? OS JORNALISTAS – É claro. mas o justo se esconde. não é ela. Esta aqui não é das nossas. UM DELES – Sempre será assim? O OUTRO – Não. Durante alguns segundos eu a vi distintamente. Todos perecem antes do tempo. esticando o braço com a carta na mão. Um grupo de pobres entra. como se ainda quisesse entregá-la: . XIII MORTE E CANONIZAÇÃO DE SANTA JOANA DOS MATADOUROS Agora o templo dos Chapéus Negros está ricamente mobiliado. amparada por um policial. UM DELES – O que farão com eles? O OUTRO: O salário deles é baixo e seu trabalho útil à maioria. XII EM FRENTE AO ARMAZÉM DA FÁBRICAS GRAHAM Um grupo de operários entra. Seu último endereço Teria sido aqui. Ou de malfeitores postos na cadeia. pisoteados. Lançados em terra profana. – Ela deve estar aqui.50 – O homem injusto atravessa a rua à luz do dia. Quando os soldados vierem a recolherão. UM DELES – Por que não se ouve falar deles? O OUTRO O OUTRO greve. Nenhum morre de barriga cheia. Nem é enterrado com decência. Recolhida doente Nos matadouros. O POLICIAL: Eis aqui uma sem-teto. Aqui está! Seriam necessárias muitas como ela. Deixem ela aí no chão. A decisão sobre a greve geral só chegou a uma parte deles. Joana cai desmaiada. Nenhum. carregando lanternas. que seguram bandeiras novas. foi reduzido em um terço. Joana se vira. Joana. Um deles a derrubou com uma coronhada. Era uma velha operária. a sorte nos sorriu. A greve geral fez água. entretanto. Nós soubemos ser sublimes E vulgares quando necessário. JOANA. As fábricas reabrem. OS JORNALISTAS – Vejam só. o salário também. você aí! As coisas deram errado. Deus outra vez se impôs. chega ao termo de sua vida. Golpeados. Não. saiba que são eles. os açougueiros (fabricantes de conservas) os criadores e os compradores. Enfim o sucesso chegou E tudo acabou bem.

Ela vai muito adiante. Ela que. Consoladora dos baixios! JOANA: Que vento sopra nesses baixios? Neve. E outra vez o mundo Percorre o antigo ciclo. Mostrá-la entre nós provará o quanto nos importam os sentimentos de humanidade. Joana dos Matadouros. Desta vida intolerável E atingir o inconcebível. Chegou na hora certa. Que Joana exorcize o mal E que por nós ela interceda. Ela será a nossa Santa Joana dos Matadouros. E eu não fiz! Enquanto os pobres tomam assento nos bancos para comer a sopa. Se eu apenas tivesse entregue A carta que me confiaram! OS CHAPÉUS NEGROS. também humanos! JOANA. empregando todos os meios. pois ela nos ajudou a atravessar a tormenta dessas semanas difíceis. Nós faremos dela uma santa e não economizaremos em homenagens. Foi necessário. Matéria a sua altura . Quando se poderia ter alterado o curso das coisas. o infinito. intercedendo pelos pobres e mesmo proferindo discursos contra nós. Vamos colocá-la em destaque. dirigindo-se a Joana: Como ela ainda está perturbada. MAULER: Que tome posição em nossas fileiras Esta alma inocente e cândida E que sua bela e pura voz Misture-se aos cânticos de nosso coro. BISPA SNYDER: Levanta-te. Quando o meu esforço. Eu o neguei. dando provas de humanidade nos matadouros. eu poderia levar. sua térrea natureza. Eu falhei com os perseguidos. JOANA: Eu falei em todos os lugares. OS CHAPÉUS NEGROS: No final. Slift discute com Snyder e com os fabricantes. por menor que fosse. A vida tranqüila de um cordeiro. Intercessora dos pobres. a quem não se pode mais explorar! Comei a sopa! Ah. E seus erros. Pelo contrário. e ultrapassa o objetivo. enquanto as moças dos Chapéus Negros a vestem novamente com o uniforme: Ouve-se outra vez o rugir das fábricas: Outra vez se desperdiçou a chance De colocar um freio a esses excessos. O ideal. Eu faltei.51 Jamais receberá a carta Aquele que agora está morto. SLIFT – Esta é nossa Joana. na noite. MAULER: Uma alma que exala sublimes impulsos Suporta mal. um serviço tão pequeno Foi só o que em toda a minha vida Me pediram para fazer. quais os gritos que abafas? Comei vossa sopa! E não desperdiceis esse resto de calor. Vós. infelizmente. toda a obra Onde o espírito não encontra. marchava para a luz! Seus atos eram os de um ser humano. E tinha sonhos para milhares. E só servi aos perseguidores. E em sua marcha altaneira Para evadir-se ao mundano. Por uma boa causa.

o que foi que eu fiz? Nada. Não tenhais a preocupação de terem sido bons . Não esqueçamos que ela esteve nos matadouros. qualquer que seja. JOANA: Pois entre os de cima e os de baixo O abismo é mais profundo Que entre o Himalaia e o fundo do mar. Mas nada mudará se eles melhorarem. eu não transformei nada. Mas também no alto. dois pesos e duas medidas. Quaisquer que sejam as aparências. Mas que não sabem o quanto. No topo e no chão. então. Pois se dele esquecer Perturbará nossa harmonia. para os exploradores. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES. E o que se passa no alto. Porque o sistema é construído assim: É apenas exploração e desordem. ignora-se o que se passa em baixo. Maldito aquele que apelar A essas massas essenciais Mas sempre insaciáveis. caí do céu! Infelizmente! Bondade sem conseqüência! Sentimentos Que não fizeram a menor diferença! Não. OS FABRICANTES: O resultado. como do topo. Exceto aquele que muda o mundo Definitivamente: isso é o que é realmente necessário. Nunca se sabe em baixo. é magnífico Sempre que espírito e negócios se aliam.Isso não basta – Deixai um mundo bom. A esses elementos dos baixios! JOANA: Mas os que estão por baixo são assim mantidos Para que os de cima lá continuem. E dois idiomas diferentes Os homens têm a mesma face E não se reconhecem mais. O que está em cima está em seu justo lugar. O que está em baixo tem grande importância. OS CHAPÉUS NEGROS. JOANA: É uma grande verdade Que aprendi e que vale para todos E morrendo eu vos digo: Vossos bons sentimentos. de maneira a encobrir a voz de Joana: Para que até o céu se levante o edifício. A essas tropas indispensáveis. fique no lugar Que lhe é atribuído.52 Resta fragmentada Sem alma e sem vida. que significam Se não se manifestam em nenhum lugar? De que serve vosso saber Se o que sabeis não tem conseqüência? Eu mesma. Que nada seja considerado como boa ação. Deixando sem medo um mundo por onde passei muito rápido. Entre os do alto a baixeza é sem limites. falando alto. Que cada um. E sem descanso nem folga Realize seu dever. Contrário à razão. Eu vos digo: Quando chegar a vossa vez de deixar esse mundo. Sistema bestial. GRAHAM – Ela não pode proferir discursos que não sejam razoáveis. Eu. Que ninguém seja tido como honrado. a Joana: Seja boa e se cale! . Se não for uma ajuda real. Precisa-se do chão.

SLIFT – Escutem. obedeça! OS AÇOUGUEIROS: Quem se mover no espaço Nunca poderá subir: Subir é subir sobre alguém. Não esqueçam. sobretudo. os alto-falantes começam a transmitir notícias que espalham o medo: “Bank of America e Citibank estão de pires na mão” “Revolta contra os cupins financeiros conflagra Londres” “Múltis drenam do país US$ 3. Falem. Todos. infelizmente. Onde vivem os homens. Combatente e mártir. a eles concedei! Hosana! A quem tudo possui. de século em século.Sobretudo se forem compras especulativas – Esse Verbo que. Precisarás deles sempre! OS CHAPÉUS NEGROS: Olha para cima. Que podeis elevar-vos moralmente Mesmo com os pés enfiados na lama. BISPA SNYDER – Joana Dark. para abafar o discurso de Joana. vinte e cinco anos. É preciso também golpear-lhes o crânio com uma pedra. é preciso fazer algo para tirar a atenção do que ela fala. cantam a primeira estrofe do hino. OS AÇOUGUEIROS: E nem pensa em tirá-los. Sempre necessário . JOANA: Se alguém um dia vos disser Que existe um Deus. tudo concedei! Hosana! Concedei-lhe a cidade e o Estado! Hosana! Aos vencedores. A palavra de Deus. Em suas compras. OS AÇOUGUEIROS: Podes fazer qualquer coisa! OS CHAPÉUS NEGROS: Mas faça-o Sempre com muito escrúpulo! Espírito contemplador. Aos ricos concedei a riqueza! Hosana! Também a virtude. Denegrindo a ti mesmo. O Verbo magnífico.53 É preciso. Sempre se metamorfoseia. Só dos homens pode vir ajuda. digam qualquer coisa. distingam com um sinal! Hosana! Enquanto eles cantam os versos. invisível. ferir! OS CHAPÉUS NEGROS: Nunca esqueças do sangue que mancha teus sapatos. JOANA: E do mesmo modo. Do qual podeis esperar ajuda. MAULER: Deves agir. contraiu a serviço de Deus uma pneumonia nos matadouros de Chicago. Mas evita.266 bilhões só em dez dias de março” “BC assalta U$ 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street” “Montadoras almoçam os R$ 8 bi do crédito e mantêm ameaça de demitir trabalhadores” “Deficit dos EUA deve chegar a US$ 9 tri entre 2010 e 2019” . é verdade. Não esqueças: tua consciência está lá! Atenção. comerciantes. sempre mais alto. Batei com uma pedra em seu crânio Até que arrebente. Onde reina a violência Não há outro recurso senão a violência. Não. Chegar ao topo implica Pisar na cabeça daqueles que estão por baixo. quando vos disserem. de esquecer os remorsos. mas que seja bem alto. ou seja.

até cobri-la totalmente. levanta e vira. Ajudai vossa classe.” “Os bancos nos arruínam com os juros que exigem!” “Quem pode pagar tanto dinheiro para estocar o gado e pelos silos de grãos?” “Por que vocês não começaram a reduzir a produção?” “Nós começamos. na terceira vez ela o pega. Hosana! Com mãos cheias. se não tivessem degolado tantos porcos!” “Criadores miseráveis. A generosidade De uma alma sem mácula. MAULER – Dêem uma bandeira a ela. as mulheres tentaram oferecer a Joana um prato de sopa.7%” “Crise já eliminou 6 mi de empregos nos EUA” “Incertezas rondam fábricas da GM à beira do fechamento” Sob o efeito dessa terríveis notícias os personagens trocam entre si acusações e diversos insultos como esses: “Açougueiros sujos. vinte e cinco anos. Um desejo vive no coração do homem. Hosana! Esmagai o ódio. A carne para a terra o arrasta! MAULER: Ai! Um duplo desejo dilacera meu pobre coração. Snyder e Mauler vão até ela. a serviço de Deus. Em seguida cai nos braços delas. tocada pela morte. até o fundo cravado. Hosana! Notam que Joana para de falar. A um sinal da bispa. ao firmamento Um impulso múltiplo o atira. O palco é iluminado com uma luz rosada. sinto-me atraído: . MAULER: Como a pureza De um ser inocente. colocam-se suavemente todas as bandeiras sobre Joana. Em duas tentativas ela recusa o prato. Hosana! Nesses braços que vos estendem. Hosana! Juntai vosso riso aos que riem. diz governo ” “EUA mudam socorro para bancos. Hosana! Que seus crimes terminam bem. Pelo espírito. por que criaram tanto gado?” “Alucinados. combatente e mártir. sempre ele aspira Às esferas mais elevadas. mas ela cai. Todos ficam muito tempo de pé. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES: Desde que o mundo é mundo. Hosana! Oferecei a vossa graça. Hosana! Ajudai a quem tudo possui. Hosana! Piedade com aqueles que ignoram a fome. para sua grande pena. Nós que temos a alma comum! E então desperta a boa alma Que temos no fundo de nosso coração. Infelizmente. Não dá mais sinais de vida. Qual um punhal.” “Foram os especuladores de grãos que encareceram o gado. Comove-nos profundamente. Colocam a bandeira em suas mãos.” “Foram as tarifas das estradas de ferro que nos esfolaram. Aos astros.54 “Empresas dão calote recorde para remunerar seus acionistas” “Recessão ainda irá se agravar no Japão. por que não empregaram mais gente e pagaram melhores salários? Quem esperam que compre a nossa carne?” “Foram os intermediários que fizeram subir tanto a carne de gado. Bolsa de NY cai 4. Por um nobre ideal. A voz de Joana já não se ouve: Concedei aos ricos misericórdia. que manipulam o dinheiro a rodo. morta de pneumonia nos matadouros. Hosana! Durante esta estrofe. que vos ajuda também. mudos de emoção. BISPA SNYDER – Joana Dark. foram vocês que se recusaram a reduzir também!” “Vocês são os únicos culpados!” “Enquanto não acabarem com vocês não vai melhorar!” “Faz tempo que o destino de vocês está selado!” “O que estão esperando para prender vocês?” Todos cantam a segunda e a terceira estrofes do hino.

Cuida bem das duas! . como de tua alma vil. Longe de querer escolher uma delas. Ele precisa cuidar de ambas.55 Desejo a abnegação. desejo o altruísmo Mas à atração pelo lucro. Homem! Luta sempre contigo mesmo! Sigas sendo este ser uno e sempre dividido! Cuida de tua alma boa. Cuida de tua alma terna. não consigo resistir Inexplicavelmente! TODOS: Em cada homem habitam Duas almas opostas. como de tua alma grosseira.

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