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I O rei da carne, Pierpoint Mauler, recebe uma carta de seus amigos de Nova Iorque CHICAGO. OS MATADOUROS
MAULER,

lendo uma carta. – “Parece-nos evidente, caro Pierpoint, que já há alguns dias o mercado da carne está saturado. E, no sul, as barreiras alfandegárias resistem a todas as nossas ofensivas. Acreditamos, portanto, ser prudente, querido Pierpoint, não mais envolver-se com este negócio...” Acabo de receber essas indicações de meus bons amigos de Nova Iorque. Lá vem meu sócio. Ele esconde a carta. CRIDLE – Por que esse ar tão sombrio, querido Pierpoint? MAULER: Lembra-te, Cridle, daquela caminhada Que fizemos uma vez, pelos abatedouros? Era noite. Diante de nossa máquina nova, Cridle, lembra-te, nós vimos um touro Claro e nobre, dirigindo aos céus seus grandes olhos vazios. Ele recebeu diante de nós o golpe que o abatia: E tal golpe me atingiu até o fundo do coração! Há sangue demais, Cridle, em nosso negócio! CRIDLE: Amigo, vens outra vez com tua antiga fraqueza. Quem acreditaria, Pierpoint? Tu, o maior de todos, O rei dos abatedouros, dos açougueiros o terror, A morte de um touro louro te enche de dor! Não conte, eu te rogo, tal segredo a ninguém A não ser a mim! MAULER: Oh, meu fiel amigo, Por que me levaste a visitar o abatedouro! Durante os sete anos em que estou no negócio

Eu evitei fazê-lo. Eu não posso suportar Um comércio tão sangrento, não tenho mais forças: Eu me retiro de imediato... Cridle, queres a minha parte? A terias por muito pouco; a ti, a preferência: Ninguém conhece o negócio como tu. CRIDLE: Muito pouco? Quanto? MAULER: Velhos amigos como nós dois Não podem disputar muito por valores. Dez milhões! CRIDLE: Não seria caro, se não houvesse Lennox Que, pela carne em conserva, lata a lata se bate, E estraga o mercado com seus preços baixos. Tirará nossa pele, se não tirarmos a dele. Enquanto ele estiver em pé, e só tu podes abatê-lo, Não posso aceitar tua proposta. Deverás, até lá, com tua mente fértil, Encontrar uma saída. MAULER: Não, Cridle, Esse coração treme ainda com o grito do touro! É preciso então que Lennox caia rápido, Pois quero, doravante, viver como homem de bem E não mais como açougueiro. Saiamos, Cridle, e eu te direi A forma de abater Lennox. Mas tu deverás então tirar esse peso do meu coração E tomar a frente de nosso negócio CRIDLE: Quando Lennox for derrubado Eles saem. II

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O desmoronamento das grandes indústrias da carne A - DIANTE DA FÁBRICA DE ENLATADOS DE LENNOX
OS OPERÁRIOS

Nós somos setenta mil Nessas fábricas de conservas E nossos salários são tão baixos que não podemos mais [sobreviver. Ainda ontem, de surpresa, reduziram nosso pagamento E hoje, um novo aviso: “Os que não estão satisfeitos, sempre podem deixar a fábrica!” Saiamos então, e todos juntos. Ao diabo esse salário que diminui todos os dias. Silêncio Há muito tempo já esse trabalho nos nauseia: Esta fábrica é para nós um verdadeiro inferno E só pode nos manter aqui o medo, O medo duplo, de Chicago e do inverno. Mas agora, doze horas de trabalho Já não garantem nem um pão seco Nem dão para comprar um trapo velho. Melhor partir E morrer de uma vez. Silêncio Pelo que nos tomam eles? Acreditam então Que nós somos gado, dispostos a tudo? Tomam-nos por jumentos? Melhor morrer! Deixemos a fábrica Agora mesmo. Silêncio O que houve? São seis horas! Por que não abrem, corja de esfoladores? Seus bois estão aqui, bando de açougueiros! Abram! Batem no portão.

Terão eles nos esquecido? Risos. Abram! Queremos entrar Em suas imundas pocilgas E suas cozinhas infectas Para preparar guisados indigestos Para os que ainda podem pagar. Silêncio No mínimo exigimos, O salário anterior, que já não dá para nada. No mínimo A jornada de dez horas e, no mínimo... UM HOMEM QUE PASSA: O que vocês estão esperando? Não sabem que Lennox fechou? Gazeteiros de jornal aparecem na cena GAZETEIRO – Lennox, o rei da carne, forçado a fechar suas fábricas! Setenta mil operários na rua. Lennox vítima da concorrência feroz imposta por Pierpoint Mauler, rei da carne e da responsabilidade social!
OS OPERÁRIOS

Desgraça! O próprio inferno Diante de nós fecha suas portas! Nós estamos perdidos. O impiedoso Mauler Aperta a garganta de nosso explorador E somos nós que sufocamos! B - UMA RUA – A Tribuna de Chicago, edição do meio-dia! O rei da carne e da responsabilidade social, Pierpoint Mauler vai inaugurar os Hospitais Pierpoint Mauler, os maiores e mais caros do mundo! Dois transeuntes olham para o fundo do palco, “vendo” Mauler. UM TRANSEUNTE, ao outro – Aquele é o Pierpoint Mauler. Mas quem são os dois que o acompanham?
GAZETEIRO

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– Seguranças. Só anda escoltado, com medo de apanhar de alguém.
O OUTRO

Para levar Deus ao coração de um mundo que desaba E nele restaurá-Lo, pela ação dos mais humildes. Os Chapéus Negros andam. Toque de tambores. Durante todo o dia os Chapéus Negros pregaram nos matadouros, mas, quando a noite chegou, os resultados eram quase nulos. DIANTE DA FÁBRICA DE CONSERVAS LENNOX – Dizem que eles estão preparando um grande golpe sobre o mercado de carne. Para nós isso que dizer esperar e passar fome. OUTRO OPERÁRIO – A luz está acesa nos escritórios. Estão lá, calculando os lucros. Chegam os chapéus Negros. Fixam no chão uma placa na qual se lê: “Hospedagem: 20 centavos por noite. Com café: 30 centavos.” CHAPÉUS NEGROS cantando Escutem todos, escutem bem! Tu que te afundas, nós te vemos, Teu apelo por ajuda, nós o escutamos, Teu sinal, nós o percebemos. Parem os carros, detenham o trânsito Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Tu que te escondes, tu que duvidas, Olha para nós! Olha, Meu irmão, antes que sucumbas! Nós te damos o que comer E nós não esquecemos Que tu não tens abrigo. E, sobretudo, não digas que tudo está perdido: Tudo será diferente, a injustiça nesse mundo Não poderá durar se todos se juntarem a nós, Marchando ao nosso lado Com o único objetivo de ajudar o próximo. Nós faremos avançar os tanques e os canhões
UM OPERÁRIO

Para levar consolo aos miseráveis dos matadouros, os Chapéus Negros deixam a sua sede. Joana empreende sua primeira descida às profundezas. C - EM FRENTE AO TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS
JOANA,

à frente de um comando dos Chapéus Negros: Nesta noite de sangue e confusão, Nesse tempo de desordem organizada, De arbitrariedade consentida, E de humanidade desumanizada, Nesse tempo em que em nossas cidades Os problemas não têm fim; Nesse mundo, imenso matadouro, Em que nos chegam rumores de violência iminente; Para impedir que, em sua brutalidade, O povo, ofuscado, quebre suas ferramentas E destrua assim seu ganha-pão, Nós queremos reintegrar Deus Pois aos lugares onde realmente vivem os homens Ele não mais tem acesso: Sua glória anda pouca, Seu nome, já quase suspeito. Dos mais humildes, entretanto, ele é a única salvação! Então nós resolvemos Por ele bater nossos tambores nesses bairros; Para que ele penetre no coração da miséria E que sua voz retumbe pelos matadouros. Aos Chapéus Negros: O que faremos agora é uma última tentativa. Pela derradeira vez, nos esforçaremos

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Nós lançaremos ao mar os navios de guerra, E nos ares, os aviões Para conquistar teu pão, meu irmão. Porque vós, os pobres, formais Nesse mundo um imenso exército. Vós que nos escutais Não esperai o amanhã! Desde hoje ajudai, Ajudai ao próximo! Avante! Ao assalto! Empunhai vossos fuzis! Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Cantando, os Chapéus Negros começam a distribuir seu jornal: Apelo às Armas, bem como colheres, pratos e sopa. Os operários agradecem e põem-se a escutar o discurso de Joana. JOANA – Nós somos os soldados do bom Deus. Por causa dos chapéus que usamos, somos também conhecidos como os Chapéus Negros. Nós dizemos que somos soldados, porque formamos um exército e porque, em todos os lugares em que vamos, precisamos lutar contra o crime e a miséria, contra as forças que tendem a nos aviltar. (Ela mesma começa a distribuir sopa) Bem, agora comam esta sopa quente e constatarão que depois vocês verão as coisas com um olhar diferente. Pensem agora qual esperança se pode fundar sobre a felicidade terrena. Nenhuma, absolutamente nenhuma. A desgraça vem como a chuva: ninguém a provoca, mas, entretanto, ela vem... Suas desgraças, digam-me de onde vem? UM DOS QUE COMEM – De Lennox & Cia. JOANA – O senhor Lennox tem talvez mais preocupações do que vocês! O que vocês estão perdendo? Ele, suas perdas se contam por milhões. UM OPERÁRIO – Carne não há nesta sopa, só uma aguinha clara, isso sim. Mas quente, pelo menos, está. OUTRO OPERÁRIO – Fiquem quietos, bando de glutões! Escutem a palavra de Deus! Senão vão tomar o prato de água quente de vocês.

– Silêncio! Queridos amigos, digam-me: por que vocês são pobres? UM OPERÁRIO – Sei lá! Explique você! JOANA – Eu lhes direi. Não é porque vocês não estão cheios de bens materiais – que não chegam para todos – mas porque vocês não têm idéia dos valores mais elevados. É por isso que vocês são pobres. Esses gozos vulgares aos quais vocês aspiram, comer um pouco, ter um bom lugar para morar e ir ao cinema, não são mais do que prazeres frívolos, grosseiros. Enquanto que a palavra de Deus é um prazer mais delicado, mais profundo e muito mais refinado; talvez vocês não possam nem imaginar algo mais doce do que o chantili, mas a palavra de Deus é ainda mais doce. Homens de pouca fé, os pássaros no céu não têm carteira de trabalho, as açucenas do campo não têm emprego e, entretanto, como eles cantam Sua glória, Deus lhes dá alimento. Nós, os Chapéus Negros, fazemos então a vocês uma pergunta muito prática: de que um homem precisa para crescer na vida? UM OPERÁRIO – Um colarinho engomado. JOANA – Nada disso. Para progredir na terra talvez seja necessário um bom colarinho, mas diante de Deus é preciso muito mais que isso, outras glórias. Vocês aos olhos Dele, nem mesmo um colarinho puído têm, pois deixaram suas almas no abandono. Mas então como vocês querem elevar-se, chegar ao que vocês, em sua ignorância, chamam de uma “situação melhor”? Pela força bruta, pela violência? Como se algum dia a violência tivesse trazido alguma coisa além da destruição. Vocês acham que mostrando os dentes conquistarão o paraíso na terra. Mas eu lhes digo, agindo dessa maneira o que se cria não é o paraíso, mas o caos! Um operário chega correndo. O OPERÁRIO: Uma vaga, agora mesmo, acaba de abrir! Um trabalho, um salário, esperam por vocês, Na fábrica número cinco! Que mais parece uma latrina. Corram, rápido. Um operário larga seu prato cheio e sai correndo.
JOANA

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– Ei, você, onde é que você vai? Quando se ocupará de Deus? Vocês não querem nem ouvir falar, não é? UMA MOÇA DOS CHAPÉUS NEGROS – Acabou a sopa. OS OPERÁRIOS: Acabou a sopa; Era só um caldinho ralo Mas era melhor do que nada. Todos se viram e se levantam. JOANA – Fiquem sentados; acabou, mas que importa, uma vez que a grande sopa celeste não se esgota nunca. OS OPERÁRIOS: Quando, afinal, vocês Abrirão as portas de seus porões, Carniceiros, mercadores de carne humana? UM OPERÁRIOS: Com o quê, agora, pagarei A casa pequena e úmida, onde vivemos doze? Eu já paguei dezessete prestações, Mas a última, não conseguirei Seremos jogados na rua. E o chão de terra batida E nosso pedaço de grama amarela, Nunca mais os veremos, nunca mais, Nem tampouco respiraremos seu pestilento ar familiar. UM OUTRO OPERÁRIOS: Aqui estamos, em pé, nossas mãos como pás, E nossos pescoços fortes como tratores. Nossas mãos e nossos pescoços, queremos vendê-los Mas não há quem os compre. OS OPERÁRIOS: E nossas ferramentas - Gigantesca montanha de prensas e gruas – Estão trancadas, detrás desses muros! JOANA – E então, o que se passa? Quer dizer que já se vão? É porque já terminaram de comer? Adeus e obrigado. Mas por que então vocês escutaram até agora?
JOANA

– Pela sopa. JOANA – Continuemos. Cantem! CHAPÉUS NEGROS cantando Avante, entrai nessa luta! No coração da batalha lutai! Cantai com louvor, que cante todo o mundo. Ainda é noite, mas logo virá o dia, Raiando com todo o esplendor, E junto virá Jesus Nosso Senhor. UMA VOZ, do fundo do palco – Estão contratando nas fábricas de Mauler! Os operários saem. Fica apenas uma mulher. JOANA, com ar sombrio: Parem a música! Acabou a sopa, lá se vão eles! Seus olhos são incapazes de elevar-se Mais alto do que a borda do prato. Eles não crêem em nada além do que está Entre suas mãos. Acreditarão em suas mãos? Vivendo cada dia, cada minuto mesmo, Na insegurança, eles não são capazes De se esquecer das preocupações mais básicas. Nada, a não ser a fome, tem sobre eles qualquer influência. Nenhuma canção os toca mais. Nenhuma palavra pode Descer até eles e penetrar seus corações. Aos que a cercam: Parece que nós, os Chapéus Negros, temos por tarefa alimentar todo um continente com nossos poucos talheres. Os trabalhadores voltam. Ao longe, ouvem-se gritos. OS OPERÁRIOS, na frente do palco – Que gritos são esses? Um imenso caudal humano emerge dos abatedouros. UMA VOZ, do fundo: Mauler e Cridle também fecharam. As indústrias Mauler optam pelo lock-out! OS OPERÁRIOS, refluindo:
UM OPERÁRIO

Eles encherão tuas orelhas com seus gritos. na frente do palco: Desgraça! De todos os lados chegam ainda Torrentes infindáveis de homens! OS CHAPÉUS NEGROS. torna-se. antes. derrubou-te. pronto. Degrau após degrau. JOANA – Esse Mauler. Ao fazer mil perguntas. UM OPERÁRIO. Na insana esperança de obter uma resposta Que jamais chegará. Tu desaparecerás na lama! Pois a lama entope as bocas Que fazem perguntas sem prudência JOANA: Eu quero saber. Torna-se mercadoria. – Não. Em um grande edifício: A Bolsa de Carnes JOANA: Eu vou até lá: Eu preciso saber. Abrigaram sentimentos nobres. presa. para ele. já que ele é a causa de tamanha miséria. por que correm de um lado a outro e não encontram trabalho? OS OPERÁRIOS: O sanguessuga Mauler e o muquirana Lennox brigam entre si. O selvagem Mauler! De um tal monstro a investida É inexorável! A natureza. por favor. Enquanto corríamos atrás de trabalho. meu velho Lennox. E o frio supremo Rouba de seu coração todo o calor. OS CHAPÉUS NEGROS – Então teu destino nos parece bem negro. dos Chapéus Negros: Não vá te meter com estes problemas. ruídos da Bolsa. Ao fundo. Recebemos mil respostas. GRAHAM: E então. Quem abandona o lar protetor. Lennox está branco como algodão.6 No meio do caminho encontramos. Sua bondade perde rápido. OS CHAPÉUS NEGROS – Pare! Não te metas com essas questões. Todos haviam perdido o emprego E perguntavam onde achar trabalho. desce cada vez mais baixo. Ele venderia o próprio ar. que fogem do trabalho. JOANA III Pierpoint Mauler é tocado pelo sopro de um outro mundo EM FRENTE À BOLSA DE CARNES Em baixo. os fabricantes de conservas Lennox e Graham discutem. São reles glutões Preguiçosos. MARTA. esse Mauler. mora aonde? OS OPERÁRIOS: Lá. a Joana – Vamos agora. Joana e Marta esperam. No alto. JOANA – Não! Eu quero saber (aos trabalhadores) Digam-me. Estamos gelados e molhados e precisamos comer. quem é o responsável por tudo isso. Uma multidão enorme e desesperada. desde o dia em que nasceram. ele te revenderia. Os Chapéus Negros se afastam. Jamais seus corações. Eles têm apenas idéias vulgares na cabeça. E vê esvanecer-se sua pureza original. eu quero vê-lo. JOANA – Quero saber. Resultado para nós: barrigas vazias. O que comeste. . onde se compram e vendem animais. Oh Joana! Não te metas nas querelas terrestres! Pois quem nelas se envolve.

Espero que o mercado recobre a saúde. ele extrai rendas. E assim. Primeiro perde a pele. Cridle. Fecho minhas fábricas. A nova técnica é muito engenhosa: O porco é colocado em uma esteira rolante Até o alto da fábrica. JOANA. Cridle sai da Bolsa e desce até o palco. Tão natural. A Lennox: Estás perdido. MAULER : Lennox está de joelhos.. Ele não pode suportar A visão da miséria. Em dinheiro ele as transformará. eu também te recomendei prudência. E agora.7 De barracos miseráveis. Bem pensado. Instalar duas ou três dessas máquinas novas. JOANA – Mas tu vieste comigo... esta arte contrária à natureza. Até chegar aos ossos. não achas? Ele se degola e logo. Diga-lhe: Mauler. E se lhe jogas pedras na cabeça. Bela invenção. no entanto. o porco se precipita. De carne podre. Pois caindo. Depois seus pelos. com sua escalada. e dorme mal à noite. não é verdade? GRAHAM : Muito bela! Mas e a lata. acompanhado de seu corretor. Que ele não saberia jamais trair seu instinto. Slift. MARTA – Joana. Destroem com seus cascos o pasto que disputam. sozinho. Lubrificar meus cutelos. Por si mesmo. cruzei a última fronteira. Todos me abandonaram.. Tira esta mão que me aperta e me estrangula. E talvez chore. olhe para mim e de meu pescoço. eu garanto. em salsicha se transforma. CRIDLE: Muito bem. à Marta: Tu somente. época maldita! Um comércio estrangulado por montanhas de conservas. Começa então o seu retalhamento. até ele e.. Marta. Fizeram desabar os preços e destruíram seu negócio. Agora vou limpar a minha fábrica.. ainda ontem florescente!. E pensa nos velhos tempos. por conta de seu próprio peso. Nas facas. então. moídos como farinha. Vá.” CRIDLE : . que vira couro. como vais reconhecê-lo? JOANA – Saberei bem reconhecê-lo. este homem não é duro E nem ama o dinheiro. Quando ele não podia absorver mais nada. nele. Tal qual dois grandes búfalos. Estranho conselho! Eu te agradeço.Joana. Lennox! Acabou a guerra de preços! Foste eliminado. Batendo-se por sua conquista. ele faz ouro. O que fazer com ela? Ah. chega Na lata que o espera lá embaixo. a cada fase. OS FABRICANTES DE CONSERVAS : Trata-se de saber quem agüentará mais tempo. Vocês mesmos. confessa. MARTA . Um mercado aviltado. com voz suave. no último andar. que. lutando. Gritaram-me prudência: Para eles. ficarás com a fábrica Conforme está previsto nos termos do contrato: “No dia em que Lennox for eliminado. que viram escovas. Saibas. surge de um grupo de fabricantes de conserva. Ele terá medo. O faro para o dinheiro é nele tão potente. Mauler. para economizar Uma agradável soma em salários. até aqui me acompanhastes.

Seis dias? Não. como eu. eu precisaria jogar essas ações no mercado.. MAULER : O quê? A soma está inscrita Claramente no contrato Tome. CRAHAM : Toque-lhe o coração. Hoje. Não estava caro. É o máximo que posso fazer. mas. Tu me ofereceste a 320. isto é. as ações estavam a 390. Lennox. Cridle. Para pagar o que te devo. Ah! Pudesse eu estar liberado De um comércio tão bestial! Tenho. as ações caíram para 100. até teu coração sabe ver longe! LENNOX : Eu gostaria ainda. de examinar Contigo. Freddy! Quer dizer que tu me socas. Mauler. então.. Isso não é um contrato? Com um preço fixado? CRIDLE : Sim. LENNOX – Não. tenho dois mil empregados! CRIDLE – Mande-os ao cinema! Mas Pepê. nada. Lennox! Toque-o! É uma lata de lixo. nosso contrato não é mais viável. Antes que quebres de uma vez! Creia-me. LENNOX – Mauler. CRAHAM . cinco. Pois eu proibirei Cridle De comprar-te uma única lata. e onde eu conseguiria dinheiro para pagar tua parte? Eu estaria arruinado! MAULER : Já que me dizes isso. Mas com ele acabaram Os bons dias do mercado. Mauler. Repensar os dez milhões de dólares Que queres por tuas ações. veja Lennox. sensível! Ele soca Mauler no coração. Lennox acabou. sem mais delongas. se eu fizer isso. É preciso então.8 Sim. Estou tão temeroso que chego a suar frio: seis dias.. é que meu coração se aperta Quando ouço mugir a criatura CRAHAM : Agora eu compreendo a grandeza de teus atos. elas cairão a 70. MAULER – Leia. o coração torturado! Cridle se afasta. seguindo-o com os olhos: Tive a ligeira impressão de que algo o atormentava. mergulhado em meus negócios. e tu tinhas um terço. GRAHAM — Mauler. Veja se esse contrato diz uma só palavra sobre a crise. devido à saturação do mercado. Mas. então. MAULER – Ai! GRAHAM — Viu? Ele tem um coração! MAULER : Então. Joana fez um sinal a um segurança e lhe diz algumas palavras. Não pude imaginar seu fado. Nada além.. A exigir meu dinheiro. Mauler. se tu estás Realmente onde dizes. Ele sai. MAULER . E eu. (faz contas em uma caderneta) Quando combinamos que tu sairias do negócio.. olhe para mim. Pepê! Como quiseres.. um contrato dos tempos de prosperidade! Mas e a crise? Ela não existe? Que posso fazer eu com um grande matadouro Se ninguém mais compra carne em conserva? Agora sei bem porque não podias Mais suportar a visão do gado morrendo: sua carne Não vende mais! MAULER : Não. tu me forças. : Pepê! Isso não é um jogo! Não podes misturar Questões pessoais aos negócios! CRIDLE – Pois não. Cridle.

– Vinte centavos. que a escória me chama – Despojou Lennox. diga que não estou. JOANA. A Joana: Vós sois. não é homem de bem. MAULER: O tecido é bem fininho e. . Slift ri. O segurança vai ao encontro de Joana no outro lado do palco. JOANA: Por que joga.É assim. 59. Mas. Ouve-se: Bois. a Slift: Que eles trabalhem por nada. etc. hein? Não. suponho. Com ar invejoso. o rumor da Bolsa continua. O SEGURANÇA: Ele vai vê-los. há algumas pessoas que querem lhe falar. mas vocês não devem Perguntar nada. Sim.9 O SEGURANÇA — Senhor Mauler. Dizem. seus trabalhadores na rua? MAULER. Nada de choros. Pouco me importa o que esperam de mim. que a sopa seja rala. são numerosos e gozam de grande consideração nas camadas inferiores da população. adoraria vossa opinião. MAULER . Mas o que eles querem comigo? O SEGURANÇA — Afirmam que têm algo a dizer ao senhor. além da comida e do uniforme. JOANA. e pôs em apuros Cridle que. dirigindo-se direto a Mauler – O senhor é o Mauler! – Não sou eu. apontando para Mauler – O senhor é o Mauler! MAULER – Não. Slift. São chamados de soldados do Bom Deus. Diga-lhes que eu os receberei Mas que eles limitem-se a responder minhas perguntas. MAULER – Rindo. Mais uma coisa: não diga. Senhor Mauler. Slift? (Enquanto isso.. MAULER : Já ouvi falar dessa gente. Durante esta cena.. na verdade. que eu sou Mauler. MAULER : O que é esta organização? O SEGURANÇA — Eles têm muitas ramificações. Pretendo renunciar a esse negócio sangrento Logo que eu possa: renunciar sem retorno. o tecido não é grosso Nem é grossa a sopa. Graham sai. – É o senhor. em absoluto. Mas que nome curioso! Soldados do Bom Deus. é ele. Que não é acusada de nada E que não espera o impossível de mim. gente estranha. O SEGURANÇA — São membros da Organização dos Chapéus Negros. Porcos. eu sei. que o sangrento Mauler. Para Joana:) Quanto recebes por dia? JOANA. (aponta para Slift) É ele! JOANA. Chapéus Negros. MAULER – Como me reconheceste? JOANA: De todos. MAULER : Está bem. MAULER : A escória em farrapos. é o que tem a cara mais ensangüentada. não é notável? Já viste algo igual? Que trabalhem por nada e sem se lamentar? Não vejo em seus olhos nem medo da miséria Nem de dormir sob as pontes alguma noite. Creiam-me: esses são assuntos profissionais Que não vos interessam. sobre outra questão. 43. 55. cá entre nós. respondam apenas Quando ele lhes perguntar. sem dúvida? Prontos para a violência. Vitelos. O melhor para eles É causar em mim a impressão de gente honesta. nem desses versos sentimentais Que eles adoram cantar.

Eu sei. para o que pretendes fazer. isso de se retirar do negócio. Tamanha inocência!. E desejaria que fossem mais numerosos. MAULER: Poderia eu ir mais longe? Porque ele é sangrento É que eu tirei as minhas mãos deste imenso negócio. de resto. Eu sei. Mas. Um instante. A canalha. pessoas extremamente más. confesso. São. sem nenhuma obrigação: Eu não sofro de insônia. Embora já tenhas vivido mais de vinte anos. dêem! Corja de carniceiros! Ele continua mexendo nos bolsos deles para dar dinheiro à Joana. ele é mau.. MARTA. Ele fala com Slift em voz baixa. tomando-lhes o dinheiro que trazem consigo e dando-o a Joana. Melhor para ti que não os veja. JOANA: Senhor Mauler. Deixai disso. Talvez por isso te ajude. JOANA – Senhor Mauler. mas não digas nada. tu também. no lugar do pobre animal. MAULER: Eu tenho grande piedade pelos bois: o homem. Mas é uma gentileza. Mas tendes consideração demais pelo destino dos pobres: Eles são maus. MAULER: Riam todos. Dêem o dinheiro.. vamos. Eu os verei chorar um dia. Senhor Mauler. ele decidiu abater O rico Cridle. É bom. Ele não é maduro ainda. Ele se aproxima dos industriais. JOANA – Isso é uma gota no oceano. não me comove. Mas este mal era inevitável. nos matadouros dizem que o senhor é o responsável pela miséria deles. O mundo não poderá mudar se antes não mudarem os homens. Eles não têm mais trabalho. Abandonar esta empreitada. Tome para os pobres. aliás. não é? JOANA: Não sei se o senhor fala sério. A parte – doze milhões – que eu tinha na usina. Seu riso não me atinge. Seu rosto me agrada. minha filha. Não.10 Pois eu vi – e isso vos interessará – Morrer. MAULER: É que adquiri o maldito hábito De disfarçar a voz. há pouco. Marta sai.. por que fechou os matadouros? Eu preciso saber. Deverias. diga. Dirigindo-se aos outros: Parece-me que fui tocado pelo sopro de um outro mundo. eu sinto Que tu não gostas de mim. .. não me digas nada. Nenhum é inocente. Desculpe-me. que com tal decisão As pessoas sofreram. dêem o dinheiro. Eu também vou embora. O senhor não poderia realmente ajudá-los? MAULER: Repita por toda a parte: eu aprovo vossa ação. Cedi por dez ao homem que vêem aqui. a Joana: Joana. não creias que seja de boa fé. Isso não é bom? E conforme vosso espírito? SLIFT : Vendo morrer o boi. O homem. por favor. São todos carniceiros. um boi e fiquei tão comovido Que quis largar tudo. Isso não é bom? Os fabricantes de conservas explodem em gargalhadas. Diga-me que está certo E que isso te agrada.

Estão ocupando inutilmente um cabide no vestiário. A Joana: Aqui está meu corretor. vacilando: Estou me sentindo mal. O amigo Pedaço-de-Toicinho não precisa mais dele.E eu adoraria que não desse certo – Leve-a aos matadouros. e ele entrou na faca e virou toicinho. na caldeira. Mas seu casaco ainda está bom e isso também é uma pena. vestido com uma lata. E verás que tua piedade é descabida. em uma palavra. saindo – Um conselho: não te metas com as gentes dos matadouros. faz quatro dias.. e mostre a ela Como os pobres são maus e covardes. UM CONTRAMESTRE. (O contramestre volta para a fábrica pela portinhola. e para mim. SLIFT: Em teu lugar não gostaria. Se quiseres mesmo saber. Aqui estão seu casaco e seu boné: pegue-os e façaos desaparecer.) É uma pena. Quando a fábrica reabrir você. ele cairá bem. este homem será mandado para os quatro cantos do mundo sob a forma de toicinho. é o lixo do mundo. ela poderá Aceitar sem pudor.11 Chame ela de lado. Mas volte aqui amanhã. E que não têm nenhum medo. mas não pudemos parar as máquinas a tempo. JOANA — Eu quero vê-los. Ele ouviu nosso chamado. De saber o que queres saber. Veja então o que ela compra. que nada têm Além de seus vinte centavos por dia e seu chapéu negro. JOANA. dê dinheiro a ela. assim como o seu boné. Sullivan Slift. por suas vidas miseráveis. SLIFT. Ele sai. . e depois a siga. a um jovem operário – Um de nossos homens. caiu.. É preciso queimá-los. enfim. A Slift: Mal posso suportar a existência de seres Semelhantes a esta moça. senhor Smith. perderei meu emprego. Slift e Joana contornam o muro de uma fábrica. Se isso falhar . IV O corretor Sullivan Slift mostra à Joana Dark como os pobres são maus: Joana desce às profundezas pela segunda vez BAIRRO DOS MATADOUROS SLIFT: Joana. ele te fará ver algumas coisas. agora eu vou te mostrar Como eles são maus Essa gente da qual tens piedade. o quanto antes melhor. sobre o qual se lê: “Fábrica de Conservas de Carne Mauler e Cridle”: O nome de Mauler aparece riscado. O JOVEM OPERÁRIO – O senhor pode confiar em mim. Slift e Joana escutam. Ele veste o casaco. Diga “para seus pobres”. é a escória. cheios de traições. em um jornal. Entrego a você porque sei que é de confiança: se alguém encontrá-los em algum lugar. Isso pode funcionar. vendo Mauler se afastar: Este homem não é mau. Dois homens saem por uma portinhola. É o primeiro que nossos tambores desalojaram Das trevas da vilania. e enrola o seu. JOANA. o que causa má impressão. peguei para mim. Responsáveis. ficará com a vaga de Luckerniddle. já que agora ele está em embalado. Luckerniddle. Semelhantes a bestas. é pavoroso. Azar. é claro. se quiser.

nós não somos. . DONA LUCKERNIDDLE: Agora inventam que ele viajou! SLIFT – Deixe-me dizer uma coisa. se você não está precisando disso!. fui trabalhar no moinho de ossos e adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. lamentando-se: Faz já quatro dias que. me encontrará na cantina. dizendo tolices. ele me dizia: “Espere-me à noite com uma sopa quente!” Desde então não [voltou. Joana e Slift seguem seu caminho. e meu marido não sai da fábrica. JOANA: Ela nunca aceitará. Eu ficarei aqui. (Ele vai em direção a Gloomb). ao meio-dia. (Ele pára o jovem operário. No frio. Esse salafrário se empanturra às nossas custas. enquanto não o vir. Mas reflita bem. passe-me logo teu cassetete. E malditos sejam vocês Se lhe fizeram qualquer coisa! Slift caminha até ela. Verás então o que é essa gente. se quiser me ver. Não tenho outro esteio. à cantina número 7. senhor. Por causa dele deixei minha mão na máquina de cortar chapas. senhora Luckerniddle. para nós.12 SLIFT: Aí está a vida como ela é. Amanhã. Vamos. gratuitamente. isso não lhe parece muito brutal? SLIFT: Bem. Joana e Slift prosseguem seu caminho. senhor. Aconteceu alguma coisa com ele aí. Tenho a impressão de que você está prestes a cometer um ato impensado. todo o tempo. SLIFT.. Eu estou em uma situação muito ruim. É por isso que lhe fazemos uma proposta: note bem que. e vocês não querem que se saiba disso. GLOOMB – O feitor está bem ali. Eles chegam a uma cantina da usina e vêem diante de uma janela dois homens que olham para o interior. vou falar com ele. que fizeram dele? Há quatro dias que estou aqui. Mas existem coisas Que importam mais para ela. obrigados a fazê-la. Antes eu gostaria de fazer-lhe uma proposição interessante. lhes digo. pronto para encher a pança. não diga mais isso. DONA LUCKERNIDDLE: Eu quero que me devolvam meu marido. além dele. saindo para o trabalho. ele não foi para São Francisco. então a senhora não pode aceitar a refeição que a fábrica lhe oferece. Vamos cuidar para que essa seja a última vez. mesmo à noite. é capaz de o meu quebrar já no primeiro golpe.. Eu tiro agora mesmo. SLIFT: Senhora Luckerniddle. de forma alguma. aquele que se acidentou? O JOVEM OPERÁRIO – Por favor. Precisará nos processar. O JOVEM OPERÁRIO – Pode confiar em mim.) Onde você conseguiu este casaco e este boné? Estes são os pertences de Luckerniddle. Venha. Bando de açougueiros. No ano passado me deixei seduzir pelos vinte centavos a mais que se ganha na fábrica de adubo. DONA LUCKERNIDDLE – Quero saber o que aconteceu ao meu marido. na fábrica. SLIFT – Estamos dizendo que ele partiu para São Francisco. SLIFT – Se é esta a sua opinião. O JOVEM OPERÁRIO – Mas senhor. esperando por ele Mas ninguém diz nada. SLIFT: Guarde essas coisas. Vinte refeições são muita coisa Para aquele que tem fome. Não procure mais saber o que se passou com seu marido e a senhora poderá almoçar. de qualquer modo. é muito desagradável vê-la sentada aí. Eu. seu marido está viajando. Senhora Luckerniddle: ele está viajando e. diga-lhe que procura trabalho. legalmente. DONA LUCKERNIDDLE está sentada em frente ao portão da fábrica. Slift volta para junto de Joana. Já não posso mais trabalhar como antes e só consegui emprego duas vezes desde fevereiro. Quando ele se aproximar. em nossa cantina durante três semanas. Você poderá comer e lhe darei um dólar se disser à mulher de Luckerniddle onde conseguiu o casaco e o boné. DONA LUCKERNIDDLE – Não. a Joana – Fique aqui.

calculando – Vinte refeições. Se você. DONA LUCKERNIDDLE. há uma moça que está procurando trabalho. Ali adiante. encontrasse alguém. Os movimentos ficam menos firmes e pode-se prender as mãos nas serras. Slift cai na gargalhada e arrasta Joana. no moinho de ossos. meu senhor. O posto que você ocupava na sua máquina continua vago e isto é muito chato. O que mais verei? Eles entram na cantina. JOANA – Vindo para cá ouvi dizer que aconteceu alguma coisa com o seu marido e que a fábrica é responsável.13 – Não tenho tempo. SLIFT – Gostaria de propor um meio de tirar-lhe dessa jogada. O posto não é feito para gente fraca.. por acaso. JOANA – Quase tenho medo de continuar. Você se surpreenderá ao ver como o trabalho é agradável. GLOOMB – Aquela moça ali? . SLIFT – Leve você mesmo a comida a ela. JOANA – A senhora já está aqui. JOANA: Ela sentou-se ali. não muito fortes. justamente porque você contou todas essas histórias a respeito de seus dedos. Vai se perguntar como alguém pode contar histórias tão ridículas sobre esta máquina. É um bom posto? GLOOMB – É um ótimo posto. JOANA – Mas a senhora nem sabia que nós viríamos hoje. Joana procura um prato e leva à senhora Luckerniddle. estaríamos dispostos a reempregá-lo imediatamente. GLOOMB – Nada disso é verdade. Talvez a vaga deste contramestre.) Você está procurando trabalho? JOANA – Sim. DONA LUCKERNIDDLE – Espero uma pessoa que deve vir hoje ou amanhã. GLOOMB . por exemplo. depois do que eu iria.. SLIFT – Que pena. É preciso que ele pague hoje mesmo por esse sistema desumano do qual ele é o feitor. Apesar de tudo. A GARÇONETE – Se a senhora não for comer. DONA LUCKERNIDDLE – Sim. E é um trabalho que pode ser feito mesmo por pessoas como você. Seria vantajoso para você. Naturalmente você precisaria manter os ritmos de trabalho mesmo os dispositivos de segurança não sendo perfeitos. e então eu teria. Ela não parece muito forte. e então eu poderia. Desde fevereiro estou sem emprego.. (Ao seu companheiro:) Pensei melhor. Tchau. GLOOMB – Rápido então.. No ano passado fui trabalhar na fábrica de adubo. Naturalmente seria muito bom se nós encontrássemos alguém para esse posto. DONA LUCKERNIDDLE – É verdade. pode ser que mude de idéia.. faremos isso amanhã à noite. A maior parte dos trabalhadores a considera muito perigosa. Eu imaginava que ela iria resistir. Adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. desde hoje? DONA LUCKERNIDDLE – Não como nada há dois dias. GLOOMB – Posso confiar no que você está me dizendo? SLIFT – Sim. (Ele vai em direção a Joana. e lhe daríamos até um trabalho mais fácil e melhor remunerado do que o antigo. E eis que ela nos precedeu. Não podemos perder esse safado. Ela correu até aqui e já nos espera... Uma jogada dessas é melhor de se fazer à noite.. Disseram-me que não tinha ninguém além dele. tem que se retirar. DONA LUCKERNIDDLE – O que? Vocês pensaram melhor e estão retirando a oferta? Então eu não terei mais as minhas vinte refeições? JOANA – Me pareceu que a senhora se dava bem com seu marido. A senhora Luckerniddle está falando com a garçonete. Ela senta-se em uma mesa.. JOANA – Não há realmente como me arranjar outro posto? Ouvi dizer que o trabalho nesta máquina era perigoso para quem não resistisse ao trabalho muito pesado. GLOOMB – Você enxerga bem? JOANA – Não. O que há para comer hoje? A GARÇONETE – Ervilhas.. temi que amanhã ela viesse. Eu sou inspetor nesta fábrica. já faz dois dias que eu não como nada. não sabia.

estamos vendendo carne! Compradores. Ela se levanta e sai. eu. esta mulher. JOANA E procurar por ele. V Joana apresenta os pobres à Bolsa de Carnes A BOLSA DE CARNES : Nós todos. como manda o costume. os sofrimentos que suportam Esses pobres sem moralidade. e que já apodrece. acreditas que ele teria mostrado À mulher do morto a roupa que usava Se tivesse tido a chance de escolher? O maneta. DONA LUCKERNIDDLE – Ele foi para São Francisco. Mas vinte refeições. SLIFT – E onde você conseguiu. Dona Luckerniddle arranca o prato das mãos dela e começa a comer avidamente. Você a viu. Joana? A imoralidade dela não tem limites! JOANA: E tu. Atrás dele:) Você tem um belo boné. certamente teria me prevenido Não fosse o preço a pagar por seu pequeno escrúpulo. ninguém mais perguntará o que foi feito dele. DONA LUCKERNIDDLE. Tão cara a ele. então? O JOVEM OPERÁRIO – De um homem que caiu dentro de uma caldeira. eu volto. E este jovem – em quem botaria fé Qualquer malandro -. comprem nossas latas! Carne fresca e suculenta. Sua imoralidade é sem limites. como um animal. Fatias de toicinho Cridle-Mauler! Carne de filé Graham. a imoralidade deles? Ela teria. verdadeira manteiga! Banha fresca do Kentucky! OS COMPRADORES: OS FABRICANTES DE CONSERVAS . O JOVEM OPERÁRIO – Bom dia. Pois não há mais compradores! Do fundo do palco chega o jovem operário com seu casaco e seu boné. Você só precisa perguntar a esse senhor. como muitas. com que habilidade torna-te mestre dela! Esta imoralidade. Era seu único esteio. preferido. Mostrar-te-ei. (O jovem operário o esconde) De onde ele vem? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. e comerá sem levantar os olhos do prato. Ela sai. Mercadoria invendável.14 – A senhora não quer esperar até amanhã? Se a senhora desistir de procurar o seu marido. posso comer aqui? SLIFT – Você só precisa sentar-se ali. (Ele senta-se. ao lado daquela mulher. Eu virei todos os dias. para colocar Ao abrigo da chuva. o preço era muito alto. Desejas mostrar-me a sua imoralidade. Continuar fiel à memória de seu marido. Que sua miséria. tu me dizes? Sua pobreza também é incomensurável. O que tu me mostraste Não é a imoralidade Dos pobres: é a pobreza deles. Ele foi obrigado a vender sua cólera. mas não em uma loja. a vossos olhos contradiga Esta depravação que injustamente se lhes imputa. SLIFT – E onde você comprou? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. A senhora Luckerniddle sente náuseas. ao garçom – Deixe meu prato. e por mais justa que fosse. (Dona Luckerniddle permanece em silêncio) Não pegue. como vós a explorais! Não vês que nem teto eles têm. SLIFT – Durante três semanas ela virá. saindo. JOANA: Porões e armazéns abarrotados de carne. Um certo tempo ainda.

dia e noite nossas máquinas Ligadas no máximo: salgadeiras. A nós. A morte Despreza esse gado e fecha-lhe a porta. Nós estamos perdidos! OS CRIADORES: E nós. o que te escrevem? MAULER: Teorias. Frigoríficos entupidos de carne congelada. Nós iríamos perder o bonde! MAULER: E quando isso ocorresse! Terias a imprudência De tirar tua parte de tamanha miséria. Quem comprará agora nosso gado? Os estábulos estão cheios De porcos e bois devoradores de milho Que eles devoram ainda nos trens que os transportam. Mas ninguém quer comprar carne enlatada. Eu teria sobre as costas toda a carne! Idiotas. caldeirões Convertem sem parar em latas de conserva As manadas mugidouras que pastam nos prados. cozinhas e lojas Estão cheios até as bordas. Quando todos te seguem com olhos de lince Para ver o que fazes? Eu não teria cara. quase de graça. SLIFT: Eu riria se. compradores. A dar-se-lhes ouvidos Seria necessário agora deitar por terra Todo o cartel da carne E deixá-lo estagnado durante muitas semanas. Aproveitem então. O estômago do país.15 E sobre as águas fez-se um grande silêncio De todos os compradores. Esperando até ninguém poder Mexer nem o mindinho! E eu. O que provocaria um movimento de alta. ao trabalho de nossos [engenheiros. Não a agüenta mais. Nas estações e nos pátios. cubas. E da banha de Kentucky. Engolindo nosso ouro junto com nosso grão. E abrissem assim o Sul aos nossos produtos. E graças aos perspicazes planos dos industriais da carne Nós conseguimos reduzir em um terço O preço do toicinho Cridle-Mauler. Comprem. . eles conseguissem Fazer cair de uma vez as taxas de importação. comprem nossas latas! OS COMPRADORES: E sobre as montanhas fez-se um grande silêncio E as cozinhas dos hotéis escondem a face E as lojas se desviam com horror Os atacadistas mudam de cor. OS FABRICANTES: Graças aos avanços da técnica. em Nova Iorque. verdadeira manteiga. Saturado de carne em conserva. Nós queremos vender a carne em conserva E ninguém a quer! E todos os nossos clientes. SLIFT: E teus amigos de Nova Iorque. Clamamos aos berros por um consumidor que não existe. Nós não compramos mais nada! OS FABRICANTES: E nós. compradores. a visão da carne enlatada Causa náuseas. OS COMPRADORES: Nós compradores. os criadores. nenhum tinha dinheiro. com nossos matadouros? Nossas fábricas estão cheias de bois. Temos diante de nós montanhas de latas. MAULER: E mesmo a faca os recusa. fabricantes. Do filé Graham.

Tu te desfazes de tuas ações? UM CORRETOR: A cento e quinze! OS FABRICANTES: Ficaste louco? Tua morte. Desde aquele dia. CRIDLE – dirigindo-se aos que o cercam:. é o cartel da carne. ave de agouro. tu o retiras Do negócio e Cridle. OS FABRICANTES: Quando ages assim com Cridle. Para acabar com Lennox. então! OS FABRICANTES – a Mauler: Corre o boato que teu capital. Eu me propunha pagar-lhe vendendo uma parte das ações dele mesmo. quem de vocês continuaria a me levar a sério nos negócios? Ora. Pois tu liquidaste. na entrada da bolsa: Queda gigantesca das cotações na Bolsa! Venda maciça de ações. Quero apenas meu dinheiro e a paz de minh’alma UM CORRETOR – urrando. provoca muitas outras! Lixo! Assassino! CRIDLE . preferiu o vosso. Cridle? Levanta os olhos. Veio a baixa. nós somos os peixes! O que querem arruinar. nem que fosse por mais uma hora. eu acabo de saber. Esses dez milhões são exatamente a soma que devo a Mauler – e ele a exige em vinte e quatro horas. Foste tu mesmo quem provocou o marasmo! Nossas latas agora não saem mais caro Que a areia dos mares. antigamente Mauler. E exiges dele o pagamento sem demora. pálido como algodão. que estavam valorizadas. olha para nós! Assim. por dez milhões de dólares.. antes de qualquer coisa. já vinham caindo. todo teu estoque. e o conjunto das fábricas vale dez. eu quero o meu dinheiro. Cala-se e aponta para o dedo para ti. . Tumulto entre os fabricantes. nesta conjuntura. o que desejo. Isso representava um terço do total das ações. MAULER: E por que matastes tanto gado? Açougueiros alucinados sois vós! Agora. Cridle. E vós soluçais nas saias de vossas mães. Ele poderia exigir seu dinheiro quando quisesse. MAULER: Açougueiros insolentes é o que sois! O animal torturado parou de mugir. Mauler! Fala. OS FABRICANTES Essa gente não faz as coisas pela metade. que se lançam sobre Cridle. Não é de hoje que fazes tais manobras. É bom que ele seja nosso adversário.apontando para Mauler: Falem com ele! CRAHAM – colocando-se diante de Cridle: Não é Cridle. Hoje os papéis de Mauler não valem mais dez. mas três milhões. OS FABRICANTES: O que significa isso. Falai que um dentre os vossos Não pode mais suportar o grito dos bois morrendo E aos mugidos deles. mas um outro Quem joga a rede. Carrega em sua queda as cotações de todo o cartel!. ao invés de trinta. MAULER – O próprio Cridle me confessou que está insolvente: se eu deixasse meu dinheiro com ele. Mas somos atingidos pelo que lhe acontece. e ficando com as outras. estava acordado.16 . Voltai para casa. de toda a maneira. Ele queria me vender a sua parte. que já se arrasta. que conspurca nosso ninho! Nós sabemos bem quem fez os preços caírem sem cessar Vendendo gado por baixo do pano. a preço vil.Há quatro semanas apenas eu assinei um contrato com Mauler. é que me levem a sério.investindo contra Mauler que lê o jornal: Traidor. ele vem realizando secretamente vultosas vendas de gado a preços baixos e provocou a queda das cotações que. ao fundo. Cridle..

Eu não quero que me vejam aqui. com nossos bois Que hoje ninguém mais quer. Uma mulher nos faz sinais de aflição.Pierpoint Mauler! Onde está Mauler? MAULER: O que é esse barulho de tambores que de súbito me envolve? E quem chama pelo meu nome Nesse lugar. MAULER: Por hoje basta. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Escutem todos. Eu quero meu dinheiro. E ninguém se preocupa Não tendes. E. Não falemos mais de negócios. com isso. onde cada um revela Sua boca desnuda. nós estamos perdidos! JOANA – Onde está Mauler? MAULER: Slift. Com o único objetivo de ajudar o próximo. Para Illinois esse dia é um desastre! Vocês fizeram os preços subirem. Lançar ao mar os navios de guerra E nos ares. Ei-nos aqui. não saia! Graham. pois preciso partir. detenham todo o tráfego Em torno de vós os seres naufragam. Durante esse período a batalha na bolsa continua. seja quem for! Levantai o nariz de vosso prato. meu chapéu. então. OS FABRICANTES: Oitenta e sete mil latas pela metade do preço.Nenhuma sequer! Silêncio. Nesse mundo sempre reinará a injustiça. fiquem diante de mim. mas rápido! OS COMPRADORES . OS CRIADORES: Impossível vender um boi em Chicago. mas rápido! OS COMPRADORES . Não esperem o amanhã! Cada um deve nos ajudar. Os que nos escutam. pois tenho outros projetos. E ninguém se preocupa. Meu chapéu. ele retira o seu dinheiro! OS FABRICANTES: Oitenta mil latas a cinqüenta. para comer? Pensai convosco mesmo: sempre será assim. Pois os bons nesse mundo Não formam um grande exército. suja de sangue? Joana e Marta avançam e cantam o seu hino de guerra. E nós dizemos: é preciso ir sempre adiante. Estimularam-nos a criar bois. os aviões Para conquistar o pão dos pobres. Uma explosão de gargalhadas toma a frente da cena. . Meyers. OS CRIADORES: Lennox já caiu! E Cridle balança! E Mauler. És tu. Haveis então esquecido Os que esperam diante da porta E que esperam. escutem bem! Um homem afunda sob os nossos olhos! Escutamos lá no fundo seu apelo por salvação. Ei. Fazer avançar os tanques e os canhões. Avante! Ao assalto! Empunhem os fuzis! Diante de nossos olhos os homens naufragam. Parem os carros. Graham. cem dólares pelo meu chapéu. olhos para ver? Ele é vosso irmão.17 Mesmo que tivésseis todos que mendigar. o responsável Por esta catástrofe. Mauler. acompanhada de exclamações.Nenhuma sequer! OS FABRICANTES – Então. Mauler. Ouvem-se os tambores dos Chapéus Negros e a voz de Joana. seu cão. JOANA .

eles que nada têm? Senhores. a quem os senhores transformaram no que são. Mas se os senhores acreditaram que seus procedimentos permaneceriam ignorados. tereis a moralidade. Se os senhores continuarem tergiversando. como fazem em seus jornais. que se dobram sob o fardo de suas penas. JOANA – Mas os senhores. são todos uns imbecis. ver surgir a nós. Já me disseram o que os senhores fazem: manobras. que os pobres não têm muita moral. todo-poderosos. existe também um poder de compra moral: o dinheiro. então em suas costas os bois começarão a mugir contra os senhores. replicando: Imbecis são vocês! Ninguém pode nada contra as crises! Bem acima de nós. e é verdade. Vossa imunda cobiça. buscando desculpas. Inverno e verão nós dependemos do tempo: nós também estamos mais próximos do Deus de nossos pais do que os senhores. ao fundo – Pierpoint Mauler passou mal. como não seriam os valores mais elevados esmagados em seu coração? Sempre ouço dizer. vocês. gritando – Afastem-nos! Ele desmaia. as leis econômicas. e a quem não querem reconhecer como irmãos. Nos baixios. Se continuarem a agir assim. Joana mostra aos negociantes os pobres (Luckerniddle e Gloomb) que ela trouxe. Reparem então nestas gentes. gritando: Por vossa especulação desenfreada. que fazem subir o preço do pão e que fazem da vida um inferno onde os homens viram demônios. COMPRADOR. Silêncio! Não lhes agrada muito. nada além disso. os senhores se enganaram. Mas nós lhes dissemos que é um imbecil. eu bem sei. MAULER. JOANA – E qual a causa desta imoralidade no mundo? Poderia ser diferente? Se cada um é obrigado a rachar com um machado a cabeça de seu próximo para fazê-lo ceder seu pequeno pedaço de presunto e sua migalha de pão. nada querem saber da miséria que existe fora deste recinto. atrás de mauler – Fique senhor Mauler. Causais vossa própria queda! Bando de imbecis! OS FABRICANTES. acabarão tendo de comer sozinhos a carne que produzem. JOANA. destinos inelutáveis. pois os que estão lá fora já não têm como comprar. a Revolução. CRIDLE OS CRIADORES: Como? Somos asfixiados e ninguém pode fazer nada? A causa de nossos males é a imoralidade De vossas armações escusas. E os senhores. nesses lugares sombrios e secretos onde os senhores tratam de seu comércio. tanto hoje quanto no dia do juízo final. é lá que mora a imoralidade no estado puro e. pobres e deploráveis imbecis. UMA VOZ. Não tenham vergonha. imaginando que não virão à tona suas manobras. o salário. e escute o que eu tenho a lhe dizer. OS CRIADORES. os Chapéus Negros.18 – Maldito sejas! Cridle sai. OS FABRICANTES: Água para Pierpoint Mauler! . e diante de Deus TodoPoderoso. nas favelas. avancem à luz do dia. que sentam nesse palácio. Traçam essas desconhecidas. Senhores. em tom de reprovação Aqui estamos com nossos bois Que hoje em dia ninguém quer. seus mugidos serão testemunhos. OS POBRES – Ele é o responsável por tudo! Os fabricantes de conservas correm para socorrer Mauler. Cujo ciclo pavoroso sempre recomeça. Aumentem-no. Risos OS CRIADORES – Nós criadores não encontramos nestas palavras motivo para o riso. em conseqüência. As crises são catástrofes naturais. aí pelo mundo. engodos e combinações para aumentar o preço da carne. Mas então eu lhes pergunto: de onde tirariam eles alguma moralidade. JOANA – Um homem de negócios também pode ser um bandido – dependendo do ponto de vista.

levantai-me. levantando-lhe a cabeça – E os estoques? MAULER. aí em cima. cantemos: “Nunca faltará o pão. . meus amigos. nós nunca tínhamos visto. e reduzi-los À voracidade. MAULER. cumprimos nosso trabalho de [missionários. Que viver assim pode mesmo afastá-los Da necessidade de um ideal. ao instinto animal. antes de partirmos. qual burros de carga. JOANA – E agora. que mantendes longe de vós. Mas quem sois vós. ao fundo. o que fazeis? Vós me ordenastes não dizer uma palavra. OS POBRES – Gente como essa. Eles o levantam. O cartel entregará a Pierpoint Mauler. No seio de Deus não há frio. SLIFT – Ele não abrirá os olhos enquanto não os fizerem sair. Tu quem os reduziu à tamanha miséria. Nem mesmo do boi que esmaga espigas com seu casco! Em todo o caso. por favor. eu. Mas os dois que estavam ao lado dele. gritando em um megafone – Pierpoint Mauler reanima o mercado da carne. para eles inacessíveis. afastados dos bens indispensáveis. Mauler. MAULER – Agora.19 Um médico para Mauler! JOANA: Mauler. E vós. OS FABRICANTES – Ele comprou! Mauler comprou! MAULER – Ao preço do dia! CRAHAM. de todos os estoques do cartel. Além disso. Quem em seu seio habita Jamais será infeliz. voltando a si – Eles ainda estão aí? Eu suplico que os afastem. como eles sim. OS FABRICANTES – Quem? Os Chapéus Negros? Quer que eles saiam? MAULER – Não. Os que estão atrás. Eu vos mostro agora a pobreza dos pobres. Eles. a contar de hoje. eles não. nós conhecemos. MAULER: Afastem-nos. CRAHAM – A cinqüenta? MAULER – A cinqüenta! CRAHAM: Ele comprou tudo! Vocês ouviram: Comprou tudo! CORRETOR. eu compro! Escutai todos: Pierpoint Mauler compra! Que estas gentes tenham trabalho e que se afastem. E lá. vos rogo. ao preço do dia. Compro. deitado no chão – Eu compro. E não basta que cerres as pálpebras Para que eles desapareçam. Aos pobres: Segunda-feira vocês terão novamente trabalho. vós me mostrastes a imoralidade deles. assume compromisso sobre a produção de dois meses. em 15 de novembro. A tal ponto dependentes de alguma comida E de um pouco de calor. Nós.. Eles parecem bem piores. E fome nunca se passa. CRAHAM: Então! Não podes vê-los? No entanto foste tu..” OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Nunca faltará o pão Ao que dedica a Deus sua alma. Torna-se comprador. então Para querer fechar a boca do Bom Deus? Não se deve calar a boca de ninguém. pelo menos cinqüenta mil toneladas de conservas. estão tão enfraquecidos. e por vós mantidos Nesta pobreza. tudo o que em oito semanas conseguirdes [fabricar. JOANA: É isso. também ao preço de cinqüenta. levai-o agora. Invisíveis para vós. eu vou falar.

SLIFT. Nós estamos sob uma miséria atroz. PEQUENO IMÓVEL COM DUAS SAÍDAS MAULER. nenhum. discute com Slift – Fecha a porta.20 OS COMPRADORES: Este homem está ruim da cabeça. às duas horas. O estômago do país. não é. Sua consciência já despertou. Escutem: saímos. Para tal negócio. Pois ele pode vir em auxílio. Pois o contrato que acabam de ver firmado É apenas um pedaço de papel. Ele cumpre. seguidos dos criadores. Se estiverem muito necessitados. As fábricas reabrem e as chaminés fumegam! Pois efetivamente é de trabalho. os operários entrarão. E ele faz meter carne em latas Que ninguém comprará. sabiamente acatada. Slift. de São Francisco a Nova Iorque. dirigindo-se à Joana Aquilo que disseste e tua intervenção Causou-nos forte impressão. VI A Captura dos grilos NA CIDADE CASA DO CORRETOR SULLIVAN SLIFT. Agora os senhores podem respirar. OS CRIADORES: Agora os preços subirão. Muitos criadores se transtornaram. por que te impressionas com os discursos dela? MAULER: . O homem que o assinou não estava em seu juízo. Sábia decisão. dentro da casa. enfim do ponto morto! Confiança e concórdia estavam fortemente abaladas. Joana e os Chapéus Negros saem. aqueles que o recebem. Mauler. e diga se realmente todos podem ler em meu rosto? SLIFT – Ler o quê? MAULER – Ora! A minha profissão! SLIFT – Teu ofício de açougueiro? Diga-me. então. OS FABRICANTES: Podem guardar sua carniça podre! Não estamos interessados em comprar. JOANA – Todos aqueles que se interessam realmente pela palavra de Deus e que querem saber o que ele diz e não apenas a cotação da Bolsa podem vir domingo à tarde assistir nosso ofício. JOANA: Saibam todos: estou de olhos em Mauler. Contra a desrazão. Não o deixaremos descansar Enquanto um homem precisar de ajuda. Podem esquecer seu nome. ao criador: O que Mauler promete. E vocês precisam dela. Música a partir das 3 horas. liga as luzes e agora repara em mim. saturado de conservas. ele não encontrará Um centavo. a sabedoria triunfa. cutucá-lo. entrada gratuita. Recusa-se a engolir mais. pois nós também. Os fabricantes de conserva saem. açougueiros infames! Enquanto vocês não dobrarem o preço do gado Não entregaremos um só grama de carne. Venham comigo procurá-lo Para que ele os tire do embaraço. É preciso. Nesse momento o mercado recobra a saúde. Que carecem tanto uns como os outros? CRIADOR. Os patrões vão reabrir. Aqueles que dão o pão. na Rua Lincoln.

urrando. Talvez depois de comer carne crua ele retome seus instintos. irei confessar-te Minha verdadeira opinião sobre nossos negócios: Comprar. Seremos colados ao muro. Esquecer todo o resto. Esfolarmos uns aos outros friamente. Tão forte. no entanto. caro Pierpoint? Pense que agora podes fazê-lo sem peso na consciência. eles são muito numerosos. Levantar-se-ão com a aurora e por-se-ão em marcha. Se nos apanharem um dia. Por trás havia rostos selvagens. E quando da onda emana uma voz Que nada tem de bestial. Para estes que caem em nossos porões sangrentos. Sob a chuva e de barriga vazia.. . SLIFT – E o que é. de onde se eleva uma cólera Que nos varrerá a todos. a humanidade. lançar-nos-ão Ao chão como um peixe podre. por mais externa e sem importância que ela seja. Máscaras da aflição.. MAULER: Tu crês que eu deveria? Eu poderia. um após o outro. então? MAULER: O que vive abaixo e não acima De mim! Esses seres reunidos nos matadouros. por mais louca que seja. mas permita que eu te exponha simplesmente a situação. A urrar de aflição. Isso não pode mais perdurar. talvez. MAULER: Mas que dizem eles? Essas cidades São um braseiro jamais extinto Onde. Ele se afasta e começa a grelhar um bife no fogão.. vender e lutar sem parar. Seu número aumenta a cada dia. meu caro Slift. Não conheceremos a morte em nossas camas. Tudo isso são ainda meras desculpas O que temo não é Deus. Agora.. Nós e nossa corja. qual onda. Slift. não é? SLIFT – Come. SLIFT – Não queres comer um pouco de carne. Sabias que tu compraste hoje tudo aquilo que pode ser colocado dentro de uma lata de alumínio? Meu caro Mauler. É outra coisa. vejo-te mergulhado na contemplação de teu ser grandioso.21 O que ela disse? Eu não ouvi nada. (À parte:) Farei com que ele coma um filé muito mal passado. Fórmulas tomadas ao coração. SLIFT – O discurso deles te perturbou.. E dezoito horas por dia. Para limpar esse mundo. Então creio sentir Como um peixe aprisionado entre duas águas Pauladas na espinha. Certamente porque essa gente trabalha a troco de nada. Há sempre boquirrotos que acham Que as coisas não andam como deveriam. Tagarelice vazia e fácil.. SLIFT: Em cidades como as nossas. MAULER: Sempre me pergunto por que essas tolices me afetam: Discursos plenos de utopias. E pense em tua situação: ela não é muito boa. Não. pois desde essa manhã tu nada tens a ver com a morte dos bois. Eu deveria podê-lo de novo. Onde o fogo arde embaixo Enquanto congela-se em cima. Nós que aqui estamos. Que não sabem como passarão a noite mas. que mais não vi. Não há mais consolo. É sua antiga fraqueza que retorna. retorna.

Nas semanas vindouras. Não é qualquer um que pode. Mas ainda há a carne Que no mercado liquidarão cem criadores Muito ávidos. eu me escutei dizer: “Eu compro tudo”.” SLIFT.. qual Atlas. Estão erradas. Facilmente nascem guerras À custa de tais atitudes. Ou desencadear guerras. Cairei. Realmente eu não vejo sentido nesta carta.. Receberás. o Cartel te entregará mais cinqüenta mil toneladas a cinqüenta. na Câmara. rir-me deles. essas teorias de gabinete. Então pode ser que. eu tenho a impressão De que nada de bom sairá daí.“Estamos em condições. O ladrão está perdido. Ainda pela manhã. dizer-lhes Que ninguém era louco o suficiente Para comprar carne em conserva. amanhã. Escuta: X comete um roubo. eu estou perdido! Esse é o meu fim. Essa seria uma saída. votarão contra as tarifas aduaneiras. na melhor hipótese. SLIFT: Tudo depende de quem escreve a carta. os preços Subam? E nós acabaríamos. SLIFT – E o que escreveram. mais notícias. eu não agi por razões vis. E uma vez lá. Os preços baixarão novamente. esmagado. os preços cairão a trinta. safa-se. SLIFT – E por que reclamas de ter comprado? MAULER – Sim. de resto. Essas pessoas são gente de bem? MAULER – É gente com liquidez. ou a vinte e cinco. eu comprei. Em quinze de novembro. a não ser que golpeie Y Se ele golpear. de anunciar-te que nosso dinheiro começa a render seus frutos: muitos são aqueles que. . Eu fui vê-los cair. então.. comprar carne. Ah. então? Mauler sorri. Sim. deverás escoá-lo em um mercado que já não consegue absorver uma única lata. Parece. Corromper ou abolir as tarifas. Milhares de homens sangram Por causa deste imundo dinheiro. Slift. hoje. SLIFT – Tu deves fazer o que? MAULER – Comprar carne. eu te juro. indicado. quando os preços estiverem em trinta. Não. muitos de meus concorrentes balançavam. sim! Eu comprei carne. apesar de tudo. teus amigos de Nova Iorque? MAULER – Que eu devo comprar carne. é verdade. acredito. mas Y o surpreende. Na carta que recebi de Nova Iorque essa manhã. MAULER: Oh! Slift. eles me escrevem para comprar. Mas não foi por causa da carta. sob os arcos de alguma ponte. MAULER: Corromper assim. Tu as compraste a cinqüenta mas. SLIFT – E tu compraste! MAULER: Oh. continuando a leitura . SLIFT – Quem são. MAULER: Tu compreenderás. eu comprei! O que eu fiz! Coloquei sobre minhas costas toda a carne desse mundo! Trôpego.22 Primeiro compraste ao Cartel um estoque de vinte mil toneladas de conservas. Mas esta mulher comoveu-me a tal ponto Que mal lancei os olhos. É coisa que também não se deveria fazer. escapando bem. caro Pierpoint. eu estou perdido. Sob o fardo de toneladas de latas de alumínio. Aqui está: “Caro Pierpoint. Ah! Meu caro Slift.. assim.

Isto é o principal: Sumir com o gado. a cinqüenta. Compra então o nosso gado! MAULER: Fecha a porta. Tu és o responsável por nossa desgraça. (Ela ri. Slift. de perto ou de longe. Antes de ter saído dessa. nem chapéu nem sapatos. Ele pede-vos dois minutos de reflexão. Lembrá-los de Lennox. (Os criadores colocam-se diante da porta da direita. Eu fiz “A”. todo esse gado? SLIFT – Vejo apenas Graham. que precisa bastante.23 Da mesma maneira a carta – que está errada – Requer – para acertar – um crime desta ordem. Joana entra acompanhada dos criadores. JOANA – Nós o faremos sair de sua toca. (Ele calcula. àquela gente que está com ela. para o outro lado. Traga-me até a menor mancha de gordura. Devo comprar ainda todo o gado de Sírius? É como se alguém viesse dizer a Atlas Que não mais agüenta. Senhor Mauler. em todo o Illinois..). para evitar me encontrar. OS CRIADORES. então. é verdade. Slift. grandes lucros! É verdade que o ganho seria apreciável. diante da porta da direita – Sai. Que eles tirem. E nós somos. E por agora também não penso em reabrir a fábrica. Os enganados serão os criadores. das fábricas paradas. depois. aos criadores – Pierpoint Mauler está examinando vosso pedido. eu compro. SLIFT. E comprar-lhes tudo. SLIFT – Não deverias ter comprado. Slift volta. eu não quero meter o dedo neste negócio. não foi bom. dobrando-se sob o peso da terra: Saturno também precisa de apoio. A operação é simples: seria preciso comprar Todo o gado que se encontrasse em pé. Slift sai. eu estou comprando e compro ao preço do dia. No interior da casa. a partir de hoje. Slift tragame tudo o que se pareça. Eu não compro mais nada. Vão para lá. SLIFT Tu que não querias mais comprar um chapéu. sobretudo. Quem me comprará. e diga-lhes que quero refletir dois minutos. diante da porta da esquerda – Enquanto os criadores não forem ajudados. é preciso que eu lhe fale da miséria dos criadores de Illinois. Persuadir os criadores da oferta excessiva. Ele desenha um “A” na porta de um armário. como quem captura um grilo. MAULER – A outra saída onde é. tentará sair pela outra porta. não sairemos daqui! MAULER – Tu dizes Graham? É verdade que ele precisa de gado? Saia. eu vou comprar. SLIFT – Qual crime? MAULER: Um crime que eu não poderia cometer. . Pois. Feliz se. Ele não gosta muito de me ver. Também trouxe alguns trabalhadores que adorariam perguntar-lhe quando o senhor reabrirá a sua fábrica.) Saia. mais de dez mil criadores que não sabem mais a qual santo rezar. Agora. Mas então. Joana diante da porta da esquerda.) Slift. Retumbar de tambores. de seus delitos. ele se dirige à porta da direita. eu não comprarei! Eu que já carrego toda a carne desse mundo. Não. minha decisão está tomada.. Quando ele me ouvir cantar aqui. Slift. MAULER: É verdade. e tudo o que cheire à banha eu compro também. tiver cem dólares no bolso. quero paz em minh’alma. Toda a carne posta em conserva até hoje. Nem a mim nem aos que me acompanham. no fim. Vais comprar todo o gado de Illinois. com um porco ou com um boi. SLIFT – Por aqui. Slift? Não quero reencontrá-la e. Slift. Pierpoint! MAULER: Ah! É verdade. JOANA. MAULER – Eu não compro. Mauler.

BISPA SNYDER – Não se aproximem muito da caixa! Ele fez sinal para que eles recuem até o fundo. minha cara dona Mulberry. Eles não são como os outros. grita a eles – Digam ao senhor Mauler que os Chapéus Negros lhe agradecem. Mas Deus todo poderoso Achará os meios de alimentá-los! BISPA SNYDER. Que dão medo de olhar. Ela sai. caros ouvintes! Para resolver o delicado problema do financiamento nós até agora apelamos aos pobres e aos mais pobres. Aos pobres:) Digam-me. e. os Chapéus Negros esvaziam suas latas de ferro e contam ao óbolos das viúvas e dos órfãos. GLOOMB – Muitos já dizem que se não empregarem a violência não haverá trabalho para todos tão cedo. SLIFT. não é preciso que as vendas sejam feitas em seu nome. Alguém se equivoca: “A” é um erro. dão certo. pelo que acaba de fazer. Trabalham duro e vestem-se decentemente. sobretudo. OS CRIADORES – Viva Pierpoint Mauler. tão errado quanto “A”. frente a Deus. VII Os mercadores são expulsos do templo TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS Sentados em uma longa mesa. um grande golpe no ateísmo e no materialismo que reinam nesta cidade. sábado próximo. (Aos operários:) Quando os que compram gado e os que o vendem se acertarem. mas não fizeram nada. Faça entrar os fazendeiros. Talvez isso tenha a ver com o fato de que eles não possuem nada. não se esqueçam de varrer a escada. salvador do comércio! Eles entram na casa. GLOOMB – No começo falaram em reabri-los. entre os quais dona Luckerniddle e Gloomb:) Vocês de novo? Vocês passam a vida aqui? O trabalho voltou nos matadouros! DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. dona Mulberry. que eles nos ajudem a desferir. JOANA. DONA MULBERRY – E meu aluguel. ao fundo. se levantando – Que mixaria! Que mixaria! (Dirigindo-se a alguns pobres. Eles não têm teto. os dispensados esperam ainda pacientemente na porta dos matadouros ou já começam a dar discursos revolucionários? DONA LUCKERNIDDLE – Desde ontem gritam bastante. sai e se dirige aos criadores – Para salvar Illinois e impedir a ruína dos fazendeiros e criadores. Infelizmente. Suas misérias são grandes. Mas seu nome não deve ser mencionado. Eles não têm pão. Em seguida comete “B”. pois eles sabem que as fábricas receberam encomendas. Comandante dos Chapéus Negros. DONA MULBERRY – O que me agradaria muito. convidar em vosso nome as pessoas ricas e bem colocadas de Chicago. E eis que “A” e “B” tomados juntos. Assim eu decidi. em nome de Deus. . o que foi feito dele? BISPA SNYDER – Meus caros Chapéus Negros. Pierpoint Mauler resolveu comprar todo o gado que se encontrar no mercado. BISPA SNYDER – Agora. (Os Chapéus Negros saem. proprietária do imóvel. que são gente de bem. mas por enquanto não se preocupem. Entra dona Mulberry. uma avareza completamente inexplicável. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Recolham cantando Os trocados dos órfãos E os trocados das viúvas. o aluguel que ela tão gentilmente tem adiado.24 Dominado por seus sentimentos. para vocês também haverá pão novamente. acabamos constatando que esses segmentos demonstraram. que cada um volte alegremente às suas funções. O dinheiro nos permitirá também pagar à nossa querida proprietária. sobretudo nas camadas inferiores da população.

E que alguns entre eles começam a resmungar e a dizer: devemos nós mesmos cuidar do negócio. Graham. Já é melhor. a Snyder – Todos pobretões. vocês certamente precisam.. . MEYERS. Slift! MEYERS. o Pepê está com o gado. SLIFT. os Chapéus Negros. GRAHAM – Até tu? E Mauler também. os reis da carne nos escutarão mais facilmente. que eles estão destinados ao sofrimento. e vá dizer ao Pepê Que afrouxe o laço. Na mosca. precisamos do gado. tão certo quanto eu estou aqui. Porque já começam a dizer por todos os lados que a desgraça não cai do céu como a chuva. sem que ninguém saiba como. dando-lhe um soco na boca do estômago: Velho cão imundo! Vamos. Graham. tomar as fábricas em nossas mãos para que todos possam trabalhar e comer. GRAHAM. a Snyder – Desembuche! Eles se sentam no banco dos fiéis. OS FABRICANTES – E quanto querem pelo serviço? BISPA SNYDER – Oitocentos dólares por mês. sim! Vocês agora terão que achar alguém que faça a doação. Que tal. MEYERS. precisamos de sopa quente e música animada. SLIFT – O essencial. BISPA SNYDER MEYERS Há um cretino que razia o gado E que sabe bem que estamos comprometidos A entregar carne enlatada E que. minha cara. GRAHAM – Confesse. Do lado de cá. afirmando que sois vós os responsáveis pelo desemprego! Em breve eles dirão: queremos fazer como os bolcheviques. mas que ela é provocada por aqueles que dela tiram vantagem. portanto. no púlpito – Nós. Senhor Slift. E já citam vossos nomes. recompensados por suas penas. (Os fabricantes de conserva caem na gargalhada) E tudo isso por apenas oitocentos dólares por mês! GRAHAM – Não precisas de tanto. MEYERS – Setecentos e cinqüenta. É nosso nervo vital! SLIFT. Slift? (Slift simula um ar astucioso e exagera na mímica do ato de dar dinheiro).. Deus é testemunha. SLIFT – Mauler e eu não compramos um centavo sequer de gado. estão acima da querela. não enrole. MEYERS – O que não será fácil. OS FABRICANTES – Por que falar em pagamento? BISPA SNYDER – O pagamento do qual falamos é feito após a morte. mas que serão. na frente do palco – Então. a Snyder – Quinhentos dólares? Isto é muito dinheiro! Quem vai pagar? SLIFT – Ah. Bispa Snyder! Todos riem. Nós. Slift. diremos a eles que a desgraça vem como a chuva. MEYERS – Eu me pergunto.. BISPA SNYDER – Podemos dar um jeito com setecentos e cinqüenta. Quinhentos dólares. são vocês que estão com o gado. portanto. SLIFT – Quem poderia ser? GRAHAM. BISPA SNYDER. (Aos outros) Eles carecem desta quantia.. Meyers. a Meyers – Essa senhora não tem senso de humor.25 – Isso nos é favorável. não gosto disso.. ouvimos dizer que há nos matadouros cinqüenta mil pessoas sem trabalho. mais então. bispa. quinhentos? GRAHAM – Quinhentos sim. menos Snyder. um dia. senhora bispa. novo soco – Que tu achas que eles querem. Entram os fabricantes de conservas: Cridle. é saber de que lado vocês estão! Desse lado da barricada ou do outro? BISPA SNYDER – Os Chapéus Negros. então. Nós também prometeremos a eles que os ricos serão punidos. sem dúvida? SLIFT – Sem dúvida. confesse Slift. onde poderia estar todo o gado! GRAHAM – É o que eu me pergunto também: onde poderia estar? SLIFT – Eu me coloco a mesma questão. os Chapéus Negros. após a sua morte. a Snyder – O que querem de nós? GRAHAM. (Aos pobres:) Vocês não poderiam ao menos cortar lenha para nós? OS POBRES – Não há mais lenha. Se vierem para cá tocados a pedradas..

) Saí! Quereis transformar a casa de Deus em um estábulo! Saí! Nada tendes a fazer aqui! Cabeças como as vossas. própria para jogar água na fervura. É preciso que ele libere o gado. que haveis atormentado ao extremo. Não me detenham. gritando alto a Joana – Ah. GLOOMB . É preciso ser muito tonta! Na verdade. avançando: Eu te conheço: tentei te convencer A trabalhar nas serras que me cortaram o braço. olhando os pobres. aos fabricantes: Esses pobres continuam a esperar trabalho? Silêncio dos fabricantes Eu que pensava que eles estavam arranjados! Faz já oito dias que neva nas costas deles. senão ficam imobilizados. mas não fizeram nada. Mas agora. vós então vos borrareis todos. entretanto. senão lançar-me-ei sobre vós e golpeá-los-ei a cabeça. eu sei o que faço. hoje. perdi demasiado tempo até sabêlo. ao me veres aqui. Esta neve os mata. sem pena também Esqueci o que todos se apressam em esquecer Para rapidamente estar em paz com suas consciências. indo de um lado a outro. dizendo-me: ajudando aos de cima. ajudo também aos de baixo. e a religião vos parecerá de novo algo de muito bom. da tua vista sairia. aí estás! Nós não estamos muito contentes contigo! Tu não poderias dizer uma palavrinha de nossa parte à Mauler? Parece que tens sobre ele alguma influência. Haveis perdido então todo o respeito pelo que se parece humano? E ousais anda vir à casa de Deus porque possuem o vil metal? Sabe-se bem de onde haveis tirado esse ouro e como o haveis adquirido. Dizem que ele come na tua mão. comprou-vos conservas Por minha solicitação! E não reabristes ainda? OS TRÊS – Está correto.No começo falaram em reabri-los. pois. pagaremos o aluguel dos Chapéus Negros por quatro anos. supúnhamos que iriam retomar o trabalho. GLOOMB. mas também os esconde De todos os olhares. Dirigindo-se aos fabricantes: Mauler. qualquer um que queira ajudar aos pobres deve ajudá-los a protegerem-se de vós.26 Entra Joana SLIFT – Aí está a nossa Santa Joana da Bolsa de Carnes! OS TRÊS. Sois indignos e eu vos expulso! Apesar de vosso dinheiro! . Saí. e eu. quem comerá a carne que nós compramos? E para que nós a compramos. e nessa atitude há alguma coisa que parece exploração. Parece que podes fazê-lo agir ao teu gosto. SLIFT – Mas querem antes estrangular os agricultores! OS TRÊS – Como abater gado que não existe? SLIFT – Quando Mauler e eu compramos a carne de vocês. E eu. JOANA. JOANA. se os consumidores não têm com o que pagar? JOANA – Em vossas gigantescas instalações e vossas fábricas detendes as ferramentas dessa gente: deveríeis ao menos permitir que eles as usassem. que ela usa como se fosse um porrete. Nós queremos reabrir nossas fábricas. Para que ninguém mais vá olhar de perto. e que os operários poderiam comprar a carne. Os Chapéus negros aparecem na porta. nós não queremos mais ver. Mas cruel é a fome: Renasce sempre. Estou pronto. avançando: As vinte refeições foram comidas! Não te irrites. Mas o Bom Deus tem uma opinião muito elevada de Si mesmo para ser sempre a vossa babá para todo o serviço e para vir limpar vossas cavalariças. ela está espantada – O que fazem vocês aqui? DONA LUCKERNIDDLE. mal tendo sido saciada. Basta que alguém diga: está acertado. É o seguinte: alguém sumiu com o gado do mercado de uma maneira que somos obrigados a ficar de olho em Mauler. JOANA – Por que não trabalham? Não arranjei trabalho para vocês? DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. Se essas pobres criaturas. empunharem um porrete para bater em vossas cabeça. Se fizeres isso por nós. De bom grado. para fazer pior. (Joana sai atrás deles com o mastro de uma bandeira. e rápido.

Tu que planas mais alto que as questões terrenas! Parta sob a chuva. na ponta dos pés. está bem. Serve-lhes água de chuva e belas palavras Pois do céu não lhes vem mais do que neve E não misericórdia! A humildade. é bem disso que se trata! Falaste a palavra exata! Se o Bom Deus paga. não temos mais um centavo. BISPA SNYDER: Infeliz ignorante! Como não vês que operários e patrões. oferece teus bons préstimos. Trazendo-vos totalmente convertido. onde não escutam mais Os pedidos de salvação do resto dos humanos. . Fazes-te de difícil e és muito curiosa Para saber como é feito. Homem de boa fé e destemido. tu a ignoras E cedes a teus impulsos! É mesmo muito fácil Caçar esses impuros com um gesto cheio de orgulho. dona Mulberry – que ele encontrou sobre a terra. Ela carrega uma mala pequena. entrando — Vocês já arranjaram o dinheiro? BISPA SNYDER – Deus encontrará logo o meio de pagar o abrigo bastante modesto – eu disse modesto. não se vão. Mesmo que o dinheiro os carcoma como um câncer Devorando o que seu resto tem de humano. é muito justo que pague. Mas como deixar-se levar por isso? (À dona Luckerniddle e a Gloomb:) Sentem-se lá no fundo. pois esses que te seguem não são mais do que escória e refugo. Anda cuidar de tua vida. bispa Snyder? Ela sai. esses pobres. Nem outra vez cruzar o limiar dessa querida casa. DONA MULBERRY — Sim. Nós iremos viver dias terríveis. prisioneiros Em uma torre de marfim. Mas se ele não paga. Mesmo que ele os torne surdos. Enfrentam-se como gigantes? Vá. terá de se mudar. ela não representa ninguém. ah. e a partir de sábado à noite. Se o Bom Deus não paga o seu aluguel. JOANA. Quanto ao pão que precisamos comer. correndo sai atrás deles – Fiquem senhores. modestamente. comê-lo também! Vá-te então. fracos. JOANA Irei ver o rico Mauler. como jamais viu antes o mercado do gado! Saída dos fabricantes de conservas. entretanto. De qualquer maneira. então.27 – Está bem! Mas conosco. aos Chapéus Negros – O que acabo de fazer certamente foi pouco habilidoso. eu lhes trarei a sopa. É mister que haja um Justo entre eles! Ela sai. Grupos inimigos irreconciliáveis. Povoada de cânticos e palavras que despertam. Eu não desejo Colocar novamente o chapéu e o uniforme negro. de volta Convida a tua casa. tudo bem. no coração da tormenta. tudo mal. Vá sob a neve e continue intransigente! JOANA – Quer dizer que devo tirar meu uniforme? BISPA SNYDER – Tira o uniforme e arruma tua bagagem! Sai desta casa e livra-nos da escória que arrebanhaste. DONA MULBERRY. Eu pedirei sua ajuda. OS TRÊS Joana sai. Mediadora inútil e que cava a própria cova. Enquanto não tiver feito de Mauler um dos nossos. BISPA SNYDER. Por causa do aluguel. vão-se irrevogavelmente quarenta meses de aluguel. Doravante farás parte dela. não tem nenhum mandato! É apenas uma mulher que perdeu a razão! Ela está despedida! Ela fará pelos senhores tudo o que desejarem. agora. de um ao outro. ela retorna vestida como uma jovem camponesa. BISPA SNYDER. Queres.

posso me interessar mais por cada homem em particular. Ela não tem medo de nada. É um belo sofá que o senhor tem aqui. JOANA – Bom dia. de ser cuidadoso. Assemelhem-se a bois ou porcos. Não se possa aceitar gente da minha laia. Gosto nela deste traço. Faça subir. Desde Que ela nos expulsou do Templo. SLIFT: Estou feliz. de perto ou de longe. Slift. em sua casa. Senhor . Houve discrepâncias entre nós. Mas o senhor. E os preços Subirão ainda mais. Não pretendo soltar um só grama de carne A fim de arrancar-lhes mesmo a pele desta vez: É a minha natureza quem exige. que tu tenhas superado Teus recentes acessos de fraqueza. Ele sai. meu caro Slift. queriam esperar Que o preço do gado caísse o mais baixo possível. Eu desmenti. SLIFT. A mim também Teria expulsado. mas por que o lençol em cima. e cada porco Que eles precisam nos entregar. Gostei muito de vê-la expulsá-los do Templo. E na nossa mão é mais caro. desta vez. Graham e companhia ficarão então parecidos À lama. dá rédea solta a teus corretores! Deixa-os correr o mercado. É que eu não estou mais com os Chapéus Negros. e de que. MAULER: Seria preciso esfolar esta cidade maldita E ensinar-lhes o seu ofício A essa gente.28 VIII Discurso de Pierpoint Mauler sobre a absoluta necessidade do capitalismo e da religião ESCRITÓRIO DE MAULER MAULER: MAULER: Chegou enfim o dia em que nosso caro Graham. senhor Mauler. Então eu disse a mim mesma: vá dar uma olhada no que se passa com o senhor Mauler. Eles precisam comprar de nós. MAULER: Agora. e que nem mesmo está dobrado direito? Diga-me: o senhor dorme aqui mesmo. realmente. Mauler. E todos aqueles que como ele. Terão de pagar mais caro. Slift. mesmo nas pequenas coisa. carregando uma mala. Neste mercado de Chicago Todos os bois que se escutam mugir São nossos bois. por um momento. Não se fala mais dela. Serão obrigados a comprar a carne Que devem nos entregar. os preços a oitenta. onde enfiaremos o pé Unicamente para ver a marca que deixa. SLIFT: E tua Joana? Algo de novo? Um boato corre na bolsa: dizem Que te deitaste com ela. Agora que não tenho mais o trabalho fatigante da missão. Vou ver como eles compram. Deixo minhas coisas nesse canto. Não é fácil encontrá-lo. Deixar que gritem: “É um crime!” Entra Joana. Dir-se-ia Que Chicago a engoliu Em sua negra e ruidosa bruma. Mas o senhor tem razão. no seu escritório? Sempre achei que o senhor devia possuir um dos grandes palácios de Chicago (Mauler se cala). Em busca de animais que. senhor Mauler. se eu estivesse lá.

Mesmo que deva cortar na carne. Eu também. vá dizer-lhes isso. MAULER – Não te inquietes. Mas nesse negócio. não querem partir. Ele traz comida a ela em uma bandeja. eu lamento Que o trabalho ainda demore nos matadouros. senhor Mauler. Eis o desafio. Aqui está por escrito. tenho boas esperanças de que sua consciência esteja em paz nesse momento! MAULER – Então não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Não. arrancar a pele desta cidade. MAULER: Tão mudada! Apenas oito dias! Onde ela esteve? O que ela viu? E por que essas rugas em torno dos lábios? Esta cidade de onde ela saiu. Nesta história dos cinqüenta mil trabalhadores. Uma vez mais. E foi por isso que eu me disse: irei ver o senhor Mauler. sim.. quando nós expulsamos os ricos de nosso templo. O dinheiro.. naqueles pátios imensos. e que agi bem. E como eu sei que sois pobres E que querem privar-vos Do teto que vos abriga. JOANA – Sim. Eu não conheço.. MAULER – Vá dizer-lhes que o dinheiro está chegando. Vou agora mesmo à Bolsa para procurar o dinheiro. a proprietária. está caro. Mas contigo não será assim. o que me agradou muito e me pareceu justo. na minha vez. que vive do aluguel. MAULER – . Trata-se de saber Se eu serei o melhor de minha classe Ou se tomarei eu mesmo. encomendei a carne. Há quanto tempo não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Oito dias. É por ti que o faço. Eu confesso cruamente. JOANA – . a coisa não andou. de pé. Teria adorado ouvir-te dizer Que o que eu faço está bem. ainda por cima. MAULER – Ah! E agora os Chapéus Negros estão em uma situação financeira difícil? JOANA – Sim. E que. muda logo a tua cara? . Eu te encontro bastante mudada. Quando não o tens. o dinheiro para vocês eu terei.. Eu irei à Bolsa encontrar o dinheiro que lhes falta. Um trabalho ruim. é claro. É Mauler quem vai dá-lo. eu não comerei. Toma. senhor Mauler. Daqui até sábado. mesmo à noite. não faço mais parte. Mas eu o encontrarei. JOANA – Senhor Mauler. Mauler vai até o fundo do palco e chora. Estás de acordo? JOANA – Sim. Corra.. Eles são cinqüenta mil Que permanecem lá. eu buscarei o dinheiro a qualquer preço.29 Mauler. nos deu prazo só até o próximo domingo. Não pude dar-lhes trabalho rapidamente.. Que meu comércio não é antinatural. JOANA – Os operários continuam esperando nos matadouros? MAULER Por que és contra o dinheiro? E por que então. Assim como aos criadores.. aos fabricantes. não como eu queria. Queres? Joana observa a comida.. Ela começa a comer avidamente. e aos Chapéus Negros é preciso auxiliar. Joana pára de comer. Eu quero dar-vos alguma coisa Para provar-vos a bondade de meu coração. ser ou não ser. senhor Mauler! MAULER Tome. MAULER – E do que tens vivido? (Silêncio de Joana) De nada. é lógico. O escuro caminho que leva aos matadouros. Confirme que foi por teus conselhos Que eu.

Desde que existem sobre a terra. Pouco ou muito segundo o caso. Mas pensa na realidade. Olha também como o mundo é feito! Que edifício! Obra dos homens. Fazendo Dele a única salvação. Na banal verdade. de cima a baixo. Por Ele batendo os tambores. .30 O que pensas tu do dinheiro. MAULER . É à sorte. Ou então seria preciso mudar tudo. Por isso vós deveis nos ajudar em nossa obra. Ao menos a vida de alguns. Eu seria varrido. nem Deus. Para que Ele finque pé nas favelas E para que Sua voz retumbe nos matadouros. O dinheiro é um meio De melhorar um pouco a vida. Daqueles a quem ninguém oferece nada. sem dúvida. Quero saber. Em uma palavra é preciso que vós Restabeleçam Deus em sua glória. sob chuva e frio. isso será suficiente. E incessantemente construída. Não enchas a cabeça de falsas idéias. eu deveria estar feliz De ver que alguém vem em ajuda a Deus. Pouco agradável. Esse sistema é o único que permite arrancar O que pode ser arrancado dos rigores desse mundo. eu concordo.O que nós não vos exigiremos de nenhuma forma – Devem dizer ao menos que eles são justificados. Atribuir ao homem um lugar totalmente diferente. Se eu quisesse me retirar. Que seria suprimido por falta de utilidade. Concepção inaudita à qual vós mesmos. Isso que o senhor falou. As coisas não deixariam de seguir o seu curso de antes. Eu não compreendo E nem quero compreender. JOANA Senhor Mauler. eu que nutro Poucas simpatias pela ordem do mundo. Sim. E que. Modificar por inteiro o plano do edifício. destruído na mesma hora. diga-me. Eu sei. Ainda que dia após dia se precise reconstruir O que dia após dia é destruído. Ele alcança o papel a Joana. Que o gênero humano está entregue. durmo mal à noite. nem nós tampouco: Não seríamos necessários. Assim. Não desejais. Mas saiba com qual objetivo foi dado! Tome isso! Saiba que representa O aluguel de quatro anos. Obra imensa. sob gemidos. Apanhe o que te dão. Mas mesmo assim verdade: Sobre a terra nada há de sólido. Como esses bobos para os quais o dinheiro Tem não sei qual problema. Seria como um mosquito Tentando se opor a derrubada de uma montanha. Tão penosa de construir. aliás. E se vós não precisais se expor aos sacrifícios. veja bem. Mas eu faço parte daqueles Para quem essa não é uma ajuda. Ela se levanta. malgrado os sacrifícios. ou quase. Eis porque esta obra é sempre defendida Pelos melhores entre os homens.

silhueta múltipla. desfilando. 1. e outras familiares. Ela permaneceu suspensa por um instante. com passos guerreiros. Eu também não tenho dinheiro E nem uma maneira de ganhá-lo de outro modo. Sobre ela que tu conheces. E se nevar. levanta-te. A cada hora. pulsando vida. A tempestade de neve. Pelo menos não honestamente. E eu. que vive da pobreza. e então eu me vi: À vossa frente. Ao mesmo tempo. Que alguém gritou em algum lugar. Cercado de todos os lados por enormes edifícios E tão pequeno que a sombra de um arbusto O teria encoberto totalmente. Pois esta vida sem eira nem beira não te serve. se o senhor quiser me ver Me verá nos matadouros. em um pequeno campo. Sem poder suportar a visão dos pobres Que os julga sem conhecê-los. BAIRRO DOS MATADOUROS Joana. sem uma palavra. do que os pardais Que se poderia colocar em tal lugar. Ficarei lá até que as portas sejam reabertas. Notei uma massa humana. em todo o caso. JOANA Terceira descida de Joana às profundezas. Mauler. Mas eu me sentarei Em frente aos matadouros. JOANA Se os Chapéus Negros quiserem o seu dinheiro. Que o campo inflou-se e uma cascata humana Inteira ficou pendurada em suas elevadas bordas. Eu marchava. Eles formavam uma massa tão densa. Chicago! Vós também Lá estavam. Jogados aos matadouros e de tudo ignorantes. Depois eu gritei palavras em tom belicoso Em uma língua para mim mesma desconhecida. soluçando e jurando Logo fora de mim! Virtude e terror confundidos! . E nada comerei além do que eles comem. Eu serei como eles sem trabalho. E o trabalho deles também. Vi depois cortejos E ruas desconhecidas. MAULER Esta noite. Eu comerei esta neve. creia-me. Mais numerosos. Arranjando para não ver esses condenados. Há sete dias: Diante de mim. E isso é muito bom. Ela sai. E se não houver trabalho. E o senhor. Saberás que neva sobre ela. No futuro. Jovem e velha. a fronte ensangüentada. IX Escutai o que eu sonhei. E então uma palavra. Fez esta massa começar a fluir. por toda a parte. eu quero fazê-lo. Quantos eram eles? Eu não sei. com aqueles que esperam. Perto dela Gloomb e dona Luckerniddle. Eles fazem muita questão do dinheiro. uma palavra sem importância. Que o aceitem. Se for um punhado de neve o que lhes dão. marchava à sua frente.31 Leva aos Chapéus Negros este dinheiro E poderás ficar com eles. Vai à janela e repara se neva. afluíam inúmeros cortejos.

Senhores. MAULER: Sendo grande a demanda De conserva e de vianda E sendo os preços aceitáveis. Eu andava no mesmo passo que o cortejo. nas praças públicas. sem mais delongas. Todas as conservas Previstas no contrato. mas existe. se eu me lembro direito Daquela hora em que perdi um pouco o juízo. transparentes. Comprem-no! OS FABRICANTES: Comprar gado nestes dias! Que horror! 3. OS FABRICANTES Desgraça! As tarifas caíram E nós não temos mais bois para vender! Eles já estão vendidos. BOLSA DE CARNES MAULER. GLOOMB – Dona Luckerniddle. Mauler. a senhora entendeu esta história? Eu não. OS CRIADORES aos fabricantes de conservas: Meus amigos de Nova Iorque me escreveram Que as tarifas aduaneiras no Sul Acabam de ser derrubadas. Assim foi o meu sonho. Graham. E com a aurora chegaremos a Chicago. Rendidos pela fome. OS FABRICANTES: Mas como nós poderemos Comprar gado com preços em alta? Alguém promoveu uma razia. E assim andava o cortejo. a preço vil. Eu exijo que me entreguem. Influenciando o curso dos planetas distantes.32 Tudo o que eu pisava. éramos inatingíveis. Para aí mostrar a todos. Precisamos comprar e os preços aumentam! . E também perturbando o aspecto familiar de ruas bem próximas. e pior. O que acontecerá. ao abrigo dos ataques inimigos. Faremos um chamado a todo o ser que pareça humano. Um pouco caro. abandonando este lugar insuportável Por qualquer outro. nós agora estaríamos comendo a nossa sopa. a preço vil.. GRAHAM: Ao preço antigo? MAULER: Como combinado. Há muito gado. DONA LUCKERNIDDLE – Se ela tivesse calado um pouco a boca lá nos Chapéus Negros. Hoje eu compreendo o seu sentido: Nós deixaremos os matadouros antes do raiar do dia. Envolvida pela neve. libere-nos de nossos compromissos! MAULER: Estou desolado. não nos podiam alvejar. Ninguém sabe quem foi. é verdade. mas preciso das conservas. que eu saiba. a cidade deles. UM PEQUENO BAR NO BAIRRO DOS MATADOUROS Desgraça! As tarifas caíram! E nós não temos mais carne para vender! Ela já está vendida. Oitenta mil toneladas. bem e aquecidos! 2.. modificava. A exata extensão de nossa miséria. eu ignoro. Habitando em lugar algum. Ocasionando imensas destruições. e pior. estávamos fora de alcance. Habituados ao sofrimento.

os comunistas.33 Trabalhadores e trabalhadoras. durante a cena. mas ninguém contribui) Aleluia! JOANA – Deixe-os. que alguma voz. Vinde a ele. faz desesperadamente sinais para que saiam. vinde logo! Aleluia! Uma jovem dos Chapéus Negros dirige-se aos trabalhadores. mas então eu encontrei Nosso Senhor Jesus e fez-se em meu coração uma grande luz e provei uma grande alegria.(Vocês acham que isso serve para alguma coisa?) Eu também. mas eles traziam uma panela. UM TRABALHADOR. DONA LUCKERNIDDLE – Eles são boas pessoas. MARTHA. tenente dos Chapéus Negros.Aleluia! (Jackeline faz circular a cuia de esmolas. ente os quais Joana. fazendo o gesto de contar dinheiro – A senhora consegue manter a marmita fervendo. Nosso Senhor. e eu não tenho mais fome e nem sede. JOANA. do pão de Deus? Grande é nossa alegria. Pois nós encontramos Jesus. à dona. Bem que eu gostaria de estar com eles! DONA LUCKERNIDDLE – A música era bonitinha! GLOOMB – Bonita e curta. Joana se levanta e. Silêncio. e o velho Adão dentro de mim não tinha outro desejo do que comer e beber. meu irmão. apesar de todas as nossas más ações. Luckerniddle – De onde a senhora os conhece? DONA LUCKERNIDDLE – No tempo em que eu não me fiava em gente como você eu ia bastante até eles. JACKELINE. Intercala sua pregação com observações aos companheiros. Discursos. reina a paz. JOANA – Então não há ninguém que tente fazer alguma coisa? O TRABALHADOR – Sim. (É tudo absolutamente inútil!) Eu lhes digo: ajudem-nos a manter a marmita fervendo! OS CHAPÉUS NEGROS . grande o nosso regozijo. hoje (eles não estão escutando nada!) basta que eu pense muito em Jesus. soldado dos Chapéus Negros: . como vocês. curta bondade. não a violência. tu também. eu esperava que eles fossem ao menos nos dar um prato de sopa. por causa do meu marido. GLOOMB – Bondade curta. surpreendendo-se pela ingenuidade – É sério? A senhora acreditou nisso? DONA LUCKERNIDDLE – Eu também. dona Swingburn? A MULHER – A sua música era bonita. à margem do caminho. Eles precisam fazer isso para conseguir um pouco de calor e de comida. já ouvi demais. Nosso Senhor. A MULHER – Por que não nos procuram para tentar nos converter? GLOOMB. tenho apenas sede da palavra de Jesus. por favor! OS CRIADORES: Não sobrou mais nada! Tudo o que podia ser vendido . o amor. Ah. não o ódio. JOANA – Onde eles estão? GLOOMB – A dona Luckerniddle pode lhe dizer. que um resto de pudor lhes diga: Aqui reinam a neve e o vento: calem-se! 4. (Isso não serve para nada!). UMA MULHER Por que vir aqui fazer escândalo Com tamanho frio! E se pudessem ao menos se calar! Com muito custo eu consigo agora Suportar as palavras que há pouco amava E que me soavam agradáveis. meus irmão. BOLSA DE CARNES OS FABRICANTES: Nós compramos qualquer gado! Bezerros! Gado gordo! Vitelos! Bois! Porcos! Façam as suas ofertas. JOANA – Mas não são os tais que ficam incitando ao crime? O TRABALHADOR – Não. Se algumas pessoas soubessem calar a boca eu saberia onde procurar abrigo esta noite. depois de entoar um cântico apressadamente: Por que não provar. triste. minhas irmãs. Um destacamento dos Chapéus Negros chega. que nos salvou na dor. Onde está Jesus. eu prefiro os atos. estava um dia sentada.

OS CRIADORES – Vendido. para começar Quinhentos bois a cinqüenta e seis. Já que não há demanda. Em frente a um galpão. OUTRO LUGAR NOS MATADOUROS Nos cartazes se lê: “Solidariedade com os trabalhadores sob lockout!” “Desencadeiem a Greve Geral”. se ela for justa. Agora eu quero sessenta! E tenham o cuidado De não esquecer as minhas latas! 5. eu tenho propostas a fazer. Terá de ser comprado de mim. Nós. mesmo só uma pata. e caro! Ofereço. OS CRIADORES: Oitocentos bois a quatrocentos para Sullivan Slift. dois homens da direção dos sindicatos discutem com um grupo de operários.. MAULER: Atenham-se à nossa combinação. eu não tenho medo. Vendo-os. os operários. no mais tardar depois de amanhã. Os senhores devem me entregar a carne. É impossível encontrar um boi em Chicago. OS FABRICANTES: É Mauler. OS FABRICANTES – Vendido a quem? Entra Mauler. Ele vai falar com Slift.34 Foi vendido. o apetite desperta! GRAHAM. Aprendi a falar em lugares públicos e em auditórios. UM DIRIGENTE OPERÁRIO – Escutem todos: até agora os magnatas da carne não manifestaram a menor intenção de reabrir as suas fábricas. Os fabricantes se precipitam sobre ele. Deixe-os totalmente à míngua. Os trabalhadores das grandes empresas da cidade nos prometeram declarar. eu as quero agora. mesmo nos grandes. Mauler. Quatrocentos. É claro que é! Era o que dizíamos! O cão! Ele nos obriga a entregar-lhe as latas E é ele quem compra o gado! Somos então obrigados a comprar de Mauler A carne que deveremos colocar em suas latas! Carniceiro sujo! Tome então a nossa carne.. e acho que sou capaz de defender bem uma causa. Corte você mesmo! MAULER: Por que se surpreendem. a greve geral. UM CRIADOR: Oitocentos bois de Kentucky a quatrocentos. se são os senhores os bois. JOANA – São vocês os que defendem a causa dos desempregados? Eu posso ajudá-los. precipitando-se sobre Mauler: É preciso liquidá-lo. uma parte de nós perderá seu emprego nos matadouros e os outros nunca recuperarão o salário anterior. eu acertarei as contas com ele! MAULER: Ah! É assim. sabemos agora de uma coisa: se tudo andar como querem os industriais da carne. precisamos de um prazo. Na minha opinião é preciso fazer alguma coisa imediatamente. De hoje até amanhã é certo que os patrões vão lançar todo o tipo de falsas notícias: eles dirão que . Além disso. OS FABRICANTES: Nem pensar! Vocês estão loucos? Quatrocentos! SLIFT – Eu compro. Se alguém vier perturbar a reunião. de Chicago a Illinois. Mesmo que tenhas que te enfiar nelas! Eu vos ensinarei como se faz esse comércio! Doravante. Não havendo ninguém que precise de carne. OS FABRICANTES: Mais nada? E nas estações? Estão abarrotadas de gado. Chegada de Joana. Graham! As latas que me deves. Qualquer vitelo. Silêncio .

a Mauler. essa noite. dona Luckerniddle? (Dona Luckerniddle faz sinal que sim). em diversos pontos dos matadouros. em frente ao edifício da Westinghouse! (À Joana) Quem é você? JOANA – Fui mandada embora do emprego. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua vinte e seis. Eu não sou uma espiã. Por este buraco fogem todos os peixes. Como se rede já não houvesse: De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. O DIRIGENTE OPERÁRIO. MAULER: Os senhores não respeitaram. Esconda essa em seu casaco. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Não é sem provas. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Pela nossa causa? Diga-me: ela não é também a sua? JOANA – Não é no interesse geral que os industriais jogam. Essas cartas anunciam que a usina de gás. É do Exército da Salvação e os policiais a conhecem bem. O operário apanha a carta e sai. assegurar o trabalho . eu sei quem ela é. Eu luto de todo o coração pela causa de vocês. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Não. os preços estão a mais de setenta! OS CORRETORES – Os cabeçudos não compram.. pois o endereço dado pelos camaradas das usinas Cridle para o encontro está muito vigiado. estou vendo. Ela é sua conhecida. Um operário apanha a carta e sai. dessa maneira. pau neles! OS FABRICANTES – Queremos dois mil bois a setenta. as centrais elétricas e o serviço de águas entrarão em greve em solidariedade a nós. UM OUTRO OPERÁRIO – Dê-me a carta para as usinas Graham. na esquina do Parque Michigan. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua Três. Ela é honesta. À Joana: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. Elas devem ser entregues às dez horas. Jack. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – E quem te garante que ela vai levar a carta que lhe entregarmos? O DIRIGENTE OPERÁRIO – Ninguém. aos responsáveis que esperam nossa orientação. (os operários riem alto) Mas é desumano! E dizendo isso eu penso também em gente como Mauler! (os operários caem na gargalhada) Por que se riem? Acho que vocês estão errados em zombar e em acreditar sem provas que alguém como Mauler não é um ser humano.” OS FABRICANTES – Nós não podemos mais agüentar. E poderíamos até dizer que esta pobreza seja obra deles. eu conheço o pessoal.35 tudo está arranjado e que a greve geral não acontecerá. Nós não temos ninguém para passar despercebido como ela. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E para quem trabalhava? JOANA – Eu era ambulante. ouve-se gritar ao fundo o nome das empresas que suspenderam seus pagamentos: “Encerram os pagamentos. e vá esperar os responsáveis defronte à cantina da senhora Schmittens. dando a carta à Joana – Vá até a fábrica Graham. galpão número cinco. Ninguém suspeitaria que ela trabalha para nós... SLIFT. O contrato assinado há pouco entre nós: Eu queria. etc. com tal medida. JOANA 6. Tudo acontece como se a miséria dos pobres fosse útil aos ricos. pergunte-lhes se são das usinas Cridle. encostado em uma coluna – Faça subir. A carta é para eles. Quando você vir chegarem três operários com cara de quem procura alguém. – Eu já vendi jornais na rua Vinte e Quatro. não é? DONA LUCKERNIDDLE – Honesta ela é. tanta gente na rua. Meyers e Cia. BOLSA DE CARNES Durante toda esta cena. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E em que trabalhava? JOANA – Eu vendia um jornal. UM OPERÁRIO – Pode ser uma espiã. Você pode tranqüilamente entregar-lhe a carta. Isso é bom.

Pergunta para que nós pagamos impostos! Manda arrebentar a cabeça dos líderes. à procura de um parente que não encontram. No canto em que trabalham os sindicatos reina uma grande efervescência! MAULER – Quem trabalha? Os sindicatos? E a polícia os deixa incitar os operários? Meu Deus! Liga imediatamente para a polícia. Vá só até oitenta e depois abaixe o preço. eu me pego esgoelando-os E não tenho tanto prazer quanto esperava. Pois a queda deles Será a nossa. Se perguntasse por uma Joana. As conservas que comprei. a Slift – Onde está o pessoal que eu mandei para os matadouros? SLIFT – Ali está um. Fala em meu nome. O primeiro segurança sai. subir muito mais. Mil a setenta e sete. desembucha! O primeiro segurança faz seu relatório. A carne sumiu de vez do mercado! Quinhentos bois a setenta e cinco! MAULER: Não seria conveniente. Slift. Mas os senhores se lamentarão por isso. OS FABRICANTES – Mauler paga cinqüenta pelas conservas. E tenho outras preocupações! Veja bem. esperando. GRAHAM: Que seja. São centenas de milhares nos matadouros. que voltou para perto da coluna – Slift. Isso basta. Mauler. Quando se grita qualquer coisa. entreguem-me! GRAHAM: Nada poderíamos ter feito. voltando ao grupo: Este negócio. perdido por perdido. Sem contar que a polícia está evacuando os matadouros e que começa a atirar. Ele pode ir longe demais. Impossível. MAULER. sim. Mas para nós. Diga-lhe para que não me procure. só quinhentos. o vento abafa as palavras. SLIFT: Faça subir. não me diverte mais. Ele repara no segundo segurança. Slift. por telefone. eu não me sinto muito bem. Vou soltar a carne e deixá-los partir. Eles já não agüentam. Que sangrem. O segundo segurança sai. SLIFT – A oitenta. senhor. é claro. MAULER – Então.36 Aos operários e agora me dizem Que eles ainda esperam em frente aos matadouros. Ainda por cima está escuro. . pois. MAULER: Atiram? Contra quem? Mas eu sei bem. Slift. MAULER. são incontáveis. é o fim! SLIFT: Quinhentos a setenta e sete para Graham. Eles ainda agüentam! Quinhentos bois a setenta e sete. eu não vi ninguém com o uniforme dos Chapéus Negros. dizes. O SEGURANÇA – As multidões. se apresentariam dez ou talvez cem. mas que não rebentem. A multidão anônima e sem rosto continua sentada lá. MEYERS – Mil e quinhentos a oitenta. Senão pensarão ainda Que fomos nós que exigimos que atirassem. tudo a oitenta. A encontraste? O SEGURANÇA – Não. Ponha os pingos nos “is”. de achá-la? E atiram? Encontra o Jim. O estranho é que aqui não se ouve nada. Além disso. nós não podemos pagar oitenta a Mauler pelo gado. Acima disso. Ceda. MEYERS – Cinco mil a oitenta! Assassino! MAULER. É preciso que a cidade Possa voltar a respirar. é impossível ouvir uma voz isolada: há muita gente correndo de todos os lados.

Prefiro abandonar tudo Do que ser a causa de uma desgraça! Oitenta e cinco. eles abrirão. que a opinião pública está do seu lado.37 – Nem pensar. – Olá! A senhorita é Joana Dark. a jovem pregadora dos Chapéus Negros? JOANA – Não. OS JORNALISTAS – Veja bem. JOANA – Eu não faço mais parte dos Chapéus Negros. 7. Saindo ele encontra jornalistas. É um enorme sucesso para os Chapéus Negros. Nesse dia sim. no fundo. De outra forma isso terminaria em violência. declara: Deus está solidário com os operários das fábricas de conservas. Aja conforme o meu espírito. Eles não abrirão as fábricas! Eles esperarão os lucros aumentarem! E a sua resposta sairá Dos canhões e das metralhadoras! Ninguém poderá nos ajudar. Joana. Slift não tem ordem para isso. Para nós a senhorita faz parte. esperem a resposta! CORO OPOSTO. JOANA – Eu queria que vocês fossem embora. senhorita Dark. Eles não abrirão as fábricas. não mais. OS JORNALISTAS – Podemos lhe assegurar. Eles terão de nos responder. Então agora existe gado. Fora uns poucos especuladores sem escrúpulos. OS JORNALISTAS – No escritório do senhor Mauler nos disseram que a senhorita jurou não sair dos matadouros enquanto as fábricas não fossem reabertas. também em segundo plano: É mentira: por maior que seja a miséria. pode ler. Mas nós não queremos incomodá-la e iremos ficar ali. Tu me conheces. NOS MATADOUROS Muita gente esperando. apontando para Joana – Aqui está. (Joana vira-lhes as costas. Eu não posso mais. O HOMEM. OS TRABALHADORES. isso não é possível. toda a Chicago comparte seus sentimentos. Virão três pessoas. Não vão embora. Mas quando a aflição for tremenda. SLIFT MAULER Eu preciso de ar fresco. JORNALISTAS – O que há de novo. Mauler? MAULER. (a Joana) Esses são jornalistas. Chega um grupo de jornalistas. Continue então com o negócio. Queria vender a oitenta e cinco. serei eu quem fará subir. Aja conforme o meu espírito. em segundo plano. Veja. Eles se sentam. nos matadouros Enquanto a miséria não chegar ao máximo. afastando-se – É preciso que façam chegar aos operários que eu acabo de ceder gado às fábricas. Slift. Nós publicamos isso com manchete de oito colunas. Os jornalistas lêem em voz alta) “A Madona dos matadouros. E se quiseres abrandar. Entre eles. SLIFT: Mentirosos! Agora serei eu que vos ensinarei A vender carne enlatada Sem ter nem mesmo um quilo! E cinco mil bois a noventa e cinco! Urros. SLIFT – Quinhentos bois a noventa! OS FABRICANTES: Mauler. a não ser nós mesmos E a ninguém podemos apelar OS JORNALISTAS . nós ouvimos. a alguma distância. ALGUÉM – Porque estás aqui? JOANA – Tenho que entregar uma carta.” JOANA – Eu não falei nada disso. Joana Dark. Eles ainda agüentam. Um homem os guia.

. E falar Daquele que mora lá em cima. um teto e o sustento. A MULHER – Socorro. Entre os que estão em cima e os que estão embaixo. ela vai me matar. Onde está o meu chale? Eles me roubaram. Já basta. . Mas. dê-me meu pano. Ficar aqui sem necessidade absoluta Parece-me um jogo indigno. chega! Você é boa mesmo de copo. a Joana – O que fazias com aquela gente? JOANA – Nada. foi você! Não adianta mentir. JOANA: Eu compreendo esse sistema. isso é normal. UM TRABALHADOR. a Joana – Você está totalmente gelada. o que deixei foi uma vocação.. levantam-se e dirigem-se ao fundo. não dormir. ao qual estava acostumada. UMA MULHER – Que audácia! JOANA – A senhora falou alguma coisa? A MULHER – Sim. imbecil!. E para vós é fácil passar frio. (Ela arranca de sua vizinha o pano com o qual ela cobre a cabeça) Sim. que de resto Já é a muito conhecido. desde fora. Quase uma comédia. UM VELHO HOMEM. Ir para um quarto quente. Os jornalistas. Eu não tinha sonhado que pudesse fazer tanto frio! Se eu tivesse pelo menos o meu agasalho! Ah! É fácil para vós passar fome. eu não tenho o direito de ir. Quando eu cheguei aqui. dona Luckerniddle? DONA LUCKERNIDDLE – Sim é verdade. um emprego que me assegurava O pão de cada dia. Para que estejamos todos no alto! Mas olhando mais de perto descobre-se. Algo de obscuro. ignorar aonde te leva a vida. Encorajada por um sonho que confirmava minhas idéias. Não fazia tanto frio em meu sonho. A qual logo se nota claramente Que serve de gangorra Todo o sistema é como uma balança Na qual os dois lados dependem um do outro. E uns se sentam lá em cima Só porque os outros estão embaixo. Alguns – pouco numerosos – estão sentados lá em cima E um grande número aqui embaixo. E os do alto gritam: Subam. Que audácia! Emborcar assim o whisky desse velho! JOANA – Segure a língua. que acabaram de receber uma informação. Vós. JOANA Se dependesse só de vós Eu poderia congelar nua em pleno vento. Mas é apenas uma tábua. dir-se-ia que é um caminho.. Mas. mais do que tudo. O TRABALHADOR – Mas falaste com eles! JOANA – Eles me confundiram com outra pessoa. A mim me esperam. Vós todos. Enfim. é claro! É o cúmulo! Eles me roubaram até o chale! Quem foi o mão leve que pegou o meu chale? Devolvam-me imediatamente.38 Que não seja um nosso igual. guardam-me a sopa. o que haveis deixado? Eu. o medo me aperta a garganta: Não comer. a qualquer momento. Apesar de tudo. com um vasto plano. UM HOMEM – Silêncio! Alguém atira um trapo para Joana. tenho frio. Mas eu posso. que nada tendes para comer. Tenho fome e isso é banal. Mas a estrutura interna continua ignorada.. Empunhar a bandeira e bater o tambor. não é? JOANA – A senhora também acha. E um ambiente. confesso. eu quero ir embora. Quer um gole de whisky? (Joana bebe) Ei.

Nessas condições o trabalho voltará muito em breve aos matadouros. JOANA – Mas estão atirando! UM OPERÁRIO – Pode ficar sentada tranqüilamente. de jeito nenhum. aconteça o que acontecer. O coração deles não é de gelo. no frio. Então a bondade existe. Mas tu. JOANA: Tanto assim? Oh! Escola desconhecida. Não creiam em nada e não escutem ninguém. o seu sucesso foi formidável: nós ouvimos que Pierpoint Mauler. Agora as fábricas reabrirão. Classe cheia de neve e que as leis ignoram. Quando se falou com ele como a um ser humano Ele deu uma resposta humana. A não ser a proposta Que leve a mudanças verdadeiras. Os matadouros são tão grandes que a tropa levará horas até aqui. espera. Os tanques deles vos esmagarão. E sobretudo entendam bem Que nada se faz sem luta E sem a sua própria ação. JOANA – Oh! A boa nova! DONA LUCKERNIDDLE – Vejam as mentiras sobre as quais nos alertaram. OS JORNALISTAS – Olá. Tu não compreendes nada de nada. mocinha. DONA LUCKERNIDDLE – Não digas tais tolices. ainda que os preços continuem a subir. Não ficaste tempo suficiente aqui. Não te movas! Entendeu? Ela sai. Que barulho é esse? UM JORNALISTA – São as metralhadoras. UMA MULHER – Devemos voltar para casa agora? UM TRABALHADOR – Quem nos garante que é verdade? Que haverá trabalho de novo? – E por que não seria verdade. no fundo do palco: Se ficardes agrupados Eles vos rebentarão. se esses senhores estão dizendo? Sobre um assunto como esse não se brinca. Esse combate será perdido E talvez perdido Ainda o próximo combate Mas vós ireis aprender a combater E aprendereis pela experiência Que nada se faz sem luta E sem a vossa própria ação. acaba de cedê-lo aos fabricantes. Felizmente temos a carta para mostrar a verdade. É preciso fazer com que se calem os agitadores que incitam à violência. A tropa foi encarregada de evacuar os matadouros. E nós vos dizemos: ficai agrupados. o milionário que dispõe de muito gado. Se combaterdes. Havia entre eles pelo menos um homem honesto E ele não falhou em seu dever. O que aprendeis? OS TRABALHADORES. E nós vos dizemos: combatei. JOANA: Parai! Chega de aprender essas lições! JOANA . JOANA – Quanta gente há aqui? OS JORNALISTAS – Uns cem mil. Ao longe as metralhadoras crepitam. com a carta.39 OS TRABALHADORES: Fiquem. Que tem a fome por mestre e onde a miséria Fala implacavelmente da necessidade! E sois cem mil alunos. JOANA: Escutem todos! Há trabalho. Não se separem! É apenas ficando todos juntos Que poderão ajudar uns aos outros. Os jornalistas retornam. (Ela se levanta) Eu vou avisar aos nossos que os boatos já começaram a circular.

Para este homem. Se desde a infância o peso da miséria e da fome me tivessem ensinado a violência. E é por isso que parto. é imensa! Mais uma noite como esta. Com seu silêncio opressor. Começa a nevar. No terceiro dia sucumbiu. Os dois dirigentes operários passam. Chegam três operários. longe do mundo que lhe é familiar. Ou que engendrasse a violência. eu seria como eles e não faria perguntas. Por três dias viram Joana em Packingtown. eu preciso ir. Há muito tempo que já está tudo arranjado. aparece uma inscrição: A neve começa a cair. Violar as regras em uso. UM OUTRO OPERÁRIO grita para o grupo que se afasta – Assassinos! OS OPERÁRIOS – Se eles acham que assim irão parar as coisas. Por que foram presos? O que ela contém. Ela continua sentada. Joana tem uma visão. Seu sucesso foi grande. eu digo. OS OPERÁRIOS – Estão trazendo os sindicalistas. DONA LUCKERNIDDLE. vós estivestes juntos Longas noites. esta carta? Eu não saberia fazer nada Que requeresse violência. que eles ainda poderão ter uma surpresa. . Quem agisse assim se sentiria perdido. Eu não sou um deles. Dia após dia ela desceu. Vós. E aprendestes A alimentar friamente terríveis pensamentos. Ela se vê com roupas de criminosa. Direis que fazia muito frio. Perseguidor perseguido E não mais sabendo ver sem desconfiar. estão muito enganados. mas agora a coisa está terminada. voltando – Nada além de mentiras! Onde foi a moça que estava sentada ao meu lado? UMA MULHER – Partiu! UM OPERÁRIO – Desde o começo eu disse que ela iria embora quando começasse a nevar de verdade. Viram-na descer de degrau em degrau Para em água límpida a lama transformar e aos humildes Aparecer. JOANA: Os que me entregaram a carta. Mas o prato que se prepara aqui. Apartado em um mundo Tornado para ele estrangeiro. Enquanto o fraco ao fraco se alia.40 Que gélidas elas são! Não é pela violência Que se combatem a desordem e a confusão. Os operários se levantam. para um dos dirigentes presos – Não liga não. Mas assim. ao longo dos anos. os astros sem harmonia Já não seguiriam sua órbitas. Quem o comerá? Eu vou embora. algemados. OS JORNALISTAS – Nós a aconselhamos a sair dos matadouros. No final o lodo a engoliu. UM OPERÁRIO. Eles saem. Ela se levanta e sai. Sobre sua cabeça. No lodaçal dos matadouros. as palavras teriam outro sentido. e ninguém Poderá manter a sua calma. William. Eu digo: na escuridão se acumulam As violências e as questões nunca resolvidas. A tentação. Toda inocência tê-lo-ia abandonado. Eles procuram alguém que não encontram e vão embora. Eu assim não poderia viver. Nada de bom pode surgir da violência. Isso seria desleal para com os outros homens. Enquanto a noite cai. Do fundo ouve-se gritos que se aproximam. conduzidos por policiais.

aqui sob meus olhos. Sem que eu tenha procurado. Eu tenho as minhas razões. meia volta. Mas vejo que estão pensando. Assim espero. confessa. . Eu disse: meia volta E tu riste. Ele lê e empalidece. Aquela que eu procurava terá tido o bom senso De sair das profundezas onde o inferno se instala. MAULER: Se a desgraça abate ao homem sem caráter. hoje restarão No chão as pedras. Sem nenhuma exigência. Aquele que sai de tal imóvel. A mim ela vai elevar às mais altas esferas. Perto dos matadouros. Basta. Não é para pensar que eu vos pago. mas o arquiteto teria. Ter construído a maior cloaca do mundo Constituirá a sua única glória. Sou conhecido nos matadouros. De agora em diante. o mais vasto. O mais prático também. os pobres. Até mesmo aos matadouros. Tem certa razão de estar alegre.41 Pergunta feita: quem ficará? Como nos outros dias. preto no branco: O gado está a trinta e ninguém compra. UMA ESQUINA EM CHICAGO MAULER. Há resistência. façamos meia volta. Só porque duas ou três vezes eu dei meia volta. UM DOS SEGURANÇAS. Pensar não serve para nada. seja por economia. que todos os fabricantes Quebraram juntos e saíram do mercado. preto no branco. nada mais posso fazer por eles. Que nós construímos em nossas grandes cidades Sem importar o custo. É o que está escrito. Na borrasca. a um de seus seguranças Parem. E a vocês eu despeço Pois da pobreza eu cruzei a fronteira. são os mais atingidos. OS DOIS SEGURANÇAS – Então podemos ir? MAULER: Podem E eu também posso ir aonde queira. o que foi? Riste. Vejam. Até o reino do espírito. Não preciso. então. 9. um objetivo que eu saúdo E que muito me alivia. em suor e em dinheiro. Seja por aberração. Agora eu estou livre. Escolhido como material. Em todo o caso. Quanto a este edifício. UM LUGAR DESERTO NO BAIRRO DOS MATADOUROS Neva. Cedi meu gado a qualquer um que o quisesse. mais de vocês. impresso. cocô de cachorro: Que torna a permanência difícil. Pierpoint Mauler cruza a fronteira da pobreza 8. Parece-me Que contratei dois idiotas. E ninguém quis. a dona Luckerniddle reencontra Joana. Mauler e seu amigo. Assim foi conseguido. ainda atiram. Essas notícias. modificam tudo. Passa um vendedor de jornais Ei! Jornal! Vejamos o que se passa na Bolsa de Carnes. não lhes parece? Ah! Eu repito Não fiquem enchendo a cabeça com idéias. dele se diria Um prédio construído com grandes despesas. Está dito. em cima. Slift. Doravante Não há mais ninguém que me queira matar. saindo – Bom.. Vejam o que leio. Este homem está perdido..

podias dar conta. O PRIMEIRO OPERÁRIO – E aqui nós não ficamos sabendo. UMA VOZ: Não há desculpa Para quem não chega. (Joana desaparece na tempestade de neve) Hei! Venha! Ela foi embora! DONA LUCKERNIDDLE 10. AS VOZES: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. JOANA. Joana ouve vozes. Claridade que então eu deixei de ver! Oh! Quem conhecerá o poder da neve! Oh. para poder se apresentar amanhã bem cedo ao trabalho e de repente eles falam que as fábricas nunca mais abrirão. Cumpriste a missão? Joana volta a andar e uma nova voz a detém. Tu não a entregaste. Eles teriam ficado apesar da violência da polícia. Nela estava nosso destino. mas entregue. Ao que tropeça e cai. Mas também podias nos trair. Errando pelos matadouros. fraqueza do corpo! Oh fome. Joana cruza com dois operários de quem ouve a conversa: O PRIMEIRO OPERÁRIO – Primeiro eles fizeram correr o boato que as fábricas reabririam a todo o vapor. eu não a darei. As massas não deveriam ter se dispersado. De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. oh verdade! Que a neve em tempestade Inoportunamente mascarou com sua noite. Dê a carta aqui imediatamente. O SEGUNDO OPERÁRIO – Os comunistas é que tinham razão. Muitos operários teriam ficado se soubessem da notícia. DONA LUCKERNIDDLE – Eu devia ter duvidado. Por este buraco fogem todos os peixes. A VOZ DA DONA LUCKERNIDDLE: Eu fui a tua fiadora. JOANA – Não. precisas chegar! Joana olha ao redor. Eu vou embora. Aquilo que lhe foi confiado. Nós não sabíamos quem eras. A pedra não perdoa. Um lixo. UM OUTRO LUGAR Correndo em direção ao centro da cidade. De tua missão. O SEGUNDO OPERÁRIO – Isso é grave: sem dúvida uma parte das ligações não funcionou. ela procura se livrar das vozes que ouve de todos os lados. mas a senhora quer continuar. Nós te encarregamos. OUTRA VOZ: Joana pára. caindo de joelhos: Luz. Mas tu és uma traidora e teu lugar é com eles. Mas a carta que trazia a verdade. Joana. UMA VOZ – Lá onde te esperam. E aquele que chega a bom porto. Joana pára. É inútil tentar pegar. DONA LUCKERNIDDLE – Ora essa! Para ti está tudo normal! E eu que disse que tu eras honesta! Sem isso não teriam te confiado a carta. Sem récitas inoportunas dos seus infortúnios. Ainda mais que amanhã todas as empresas de Chicago iriam declarar a greve geral.42 – Ah. Anda em outra direção. Uma parte dos operários saiu dos matadouros. isso é o que tu és! Dê-me a carta que te confiaram. Que sentimentos em nós deixareis sobreviver? . Tudo está voltando ao normal agora. Que nada diga. estás aí! Onde tinhas te metido? Entregaste direitinho a carta? JOANA – Não. Como se rede já não houvesse. Lá dentro só se fala em violência. Pierpoint Mauler as arruinou. de uma missão.

X Humilhação e assunção de Pierpoint Mauler TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS MARTA. Quero que a senhora pague o meu aluguel. o senhor Pierpoint Mauler. DONA MULBERRY – Meu caro Dick. BISPA SNYDER. agora os pegamos. Ele sai. o suntuoso Mauler. o rei da carne. DONA MULBERRY – Bispa Snyder. MAULER – Eis aqui um homen marchando até o seu Deus. quem vos pode resistir? Eu preciso dar meia volta! Ela retorna sobre seus passos correndo. É Mauler. à chuva. que triste. com certeza! Ele já está a caminho com os seus milhões! UM CHAPÉU NEGRO – Bispa. entrando – Pierpoint Mauler está aqui? BISPA SNYDER – Não. no céu e no inferno. OS CHAPÉUS NEGROS: Romperam-se os diques da fé Em Chicago. Conheci bem um homem. Um homem começa a levar os móveis para a rua. A massa espera. O HOMEM – Os fabricantes de conservas querem falar com ele e os criadores o chamam aos gritos. De um só golpe o bolchevismo também é enterrado. com sopa quente E um pouco de música. Sob um plúmbeo zênite de destinos desconhecidos. a outro Chapéu Negro – Há três dias um emissário de Pierpoint Mauler. que prometeu nos ajudar. Vejam que já balança. o banco dos penitentes! E já suas mãos avidamente se dirigem Ao órgão a vapor e ao púlpito. E as ondas de lama do materialismo Ameaçam a casa de Deus. investindo contra ele – A sopa. nossa boa cidade.43 Frio da noite. ele possuía dez milhões. Ele se levanta e avança até os Chapéus Negros. é tudo o que eles querem! Aqui não tem mais sopa! Aqui só tem a palavra de Deus! Ouvindo isso eles vão logo embora. Salvar-nos com o seu dinheiro! BISPA SNYDER Há exatos oito dias Que nos matadouros onde as máquinas enferrujam. Pediram-lhe cem dólares. UM HOMEM. Ah. onde iremos acomodar o nosso público? Chega um pobre. é sábado a noite. Buscam-no por toda a parte. Exposta outra vez à neve. Para nos salvar neste instante. veio nos dizer que Mauler em pessoa estava disposto a assumir o nosso aluguel e a organizar conosco uma grande campanha em favor dos pobres. na frente do palco : Ouvi alguém procurando um certo Mauler. Liberada. se ele pudesse vir. BISPA SNYDER – Dona Mulberry. E nós gritamos à plena garganta: Ah. Uma boa orquestra à mão e sopa Bem grossinha: terminam para Deus todas as preocupações. BISPA SNYDER – Sente lá atrás e fique quieto! Ele se senta. ou que deixe o imóvel. Este homem que foi em sua vida Mais estúpido do que um vagabundo bêbado e repugnante. minha cara Mulberry. estamos aguardando. que já se afunda! Mas o rico Mauler virá. coloque os móveis na rua. afastada do trabalho. Mas nós o estamos esperando. OS CHAPÉUS NEGROS: Estão levando. a qualquer momento. posto que sem abrigo. Eu o conheci: era um imbecil. que aliás é muito barato. MAULER. O reino de Deus está pronto na minha cabeça. .

E sobre nós a neve envia suas tempestades Em um inverno no qual crescem os rigores. Por sete dias apertei a garganta Desta cidade até sufocá-la. Aqui estou agora. Apenas nos resta chorar. gritando – E sem dinheiro? (Aos Chapéus Negros:) Façam as malas. Envolvamos em nossas bandeiras derrotadas Os livros de cânticos. Mauler! MAULER: Mas quero acrescentar que no sétimo dia Fui despojado de tudo. seguindo a letra por sobre o ombro de um dos Chapéus Negros. todos para fora! A Mauler: E tu primeiro! Onde estão os quarenta meses de aluguel Desses não-convertidos que Joana enxotou? E vejam só o que ela me trás em troca! Devolva-me. e dilacerado de remorsos. devolva-me os meus quarenta aluguéis! MAULER: Vós desejais. dirigindo-se aos músicos que vão embora: Nossas orações eram pelo rico Mauler E foi Mauler o arrependido que entrou. BISPA SNYDER Silêncio! Fora. Ouçam então a minha confissão: Aqui jamais se ajoelhou Ninguém. Sentados sobre as margens do lago Michigan. Os músicos tocam um hino. eu vejo. CORO DOS CHAPÉUS NEGROS. Ele trazia o seu coração.44 No fim. Mauler canta com eles. Os Chapéus Negros cantam. OS CHAPÉUS NEGROS – Ele já chegou? MAULER: Um hino. Não podemos mais pagar as nossas contas. olhos voltados para a porta. Sentados sobre seus últimos bancos e suas últimas cadeiras os Chapéus Negros cantam desordenadamente seus últimos hinos. sem nada. Diante de vós. construir vossa casa . Ele pega dois Chapéus Negros pelo braço e senta-se com eles no banco dos penitentes. Jogou no mar seus milhões. já. inclinado sobre os livros de contabilidade – Não direi o que estou calculando. Silêncio! Tragam-me o livro das faturas e contas por pagar: estou nessa parte. E esse gesto tocou os nossos corações. OS CHAPÉUS NEGROS: Não perca a confiança! Homem de pouca fé! Ele virá. UM CHAPÉU NEGRO – É ele. MAULER: Eu me acuso de ter explorado o meu próximo. DOIS MÚSICOS: Um pedacinho só. Mas quebrou a nossa cara De uma vez por todas. Se aproxima já Com os seus milhões. recusou-se a dar o dinheiro. não o seu dinheiro. Todos os pagamentos estão suspensos. mas arrependido. BISPA SNYDER – Tu és Mauler? MAULER – Sim. eu vos rogo! Pois eu sinto O coração ao mesmo tempo leve e pesado. Passar bem. ar ausente. Culpado. deu cabo de si mesmo. Joana. BISPA SNYDER. meus amigos. sim. Abusado da força e espoliado todo o mundo Em nome da propriedade. Tiremos de nossas paredes as máximas. Eles cantam ainda “Entrai na batalha”. que tenha caído tão baixo. OS MÚSICOS: É deste aí então que vocês esperavam O dinheiro para nos pagar? Então nós vamos embora. é certo. BISPA SNYDER.

Mauler. Concluo eu o seguinte: o Mauler que sou Não é aquele do qual precisais. O que pretendeis fazer de nós? Foste vós. em poucas palavras. Na porta. Dá o dinheiro. nobre Mauler. Um vitelo ou um porco. No ciclo dos astros ou das mercadorias. E hipotecando até o último lápis Para trazer de Quebec. Acorreram todos em ajuda. o que existisse de gado. Pelos contratos que nos obrigavam A entregar de imediato as conservas prometidas. Mauler. da Argentina. E sobre eles atirou-se. os reis da carne vêm ao seu encontro. Este espetáculo atroz apavorou o ancião. partistes. ao meio-dia. Vossa função seria apenas a de brincar na relva. paga-nos o gado! GRAHAM. Loew e Lévi. durante sete horas. que fareis? Entram os criadores em grande agitação. Era vosso todo o gado. Um zênite ameaçador de pensamentos desconhecidos. agigantou-se E a todos nos precipitou no abismo! MAULER: Oh! Eternos combates! Em nada são diferentes Desde os tempos antigos onde os homens Com uma barra de ferro rachavam-se as cabeças! GRAHAM: Recordai que estávamos à vossa mercê. O Banco Nacional gritou: “Alto”. Que a constatação vos enche de amargura. Ah! Se não tivesses aliviado tanto os nossos bolsos. e sobre nossas cabeças. O ancião venerável. Que não ficou só por muito tempo. Viram-se os preços Oscilarem. por ter vindo Atrapalhar neste lugar as tuas meditações. Eu sei muito bem. OS CRIADORES: Maldito Mauler. Que projeto tendes agora. Os complexos pensamentos de vosso imenso espírito. gado canadense. hesitantes. chorando. e a noventa e cinco Comprou-os todos. é aqui então que te escondes? Paga nossos bois ao invés de fazer penitência. com voz dura. Ele tenta sair. tomando a frente : Mauler. Mas se chamássemos de homem àquele a quem se ajuda Daria no mesmo: necessitaríeis sempre De gente a ponto de afogar-se. Relatarei o combate memorável Que. Mas Slift. Estão pálidos como o linho. eles iriam trazer. firmas de grande renome. Ninguém jamais pode fugir da lei. comprometendo suas casas. OS REIS DA CARNE: Perdoai-nos.45 Sobre o que há de pior em mim. Mas nós estamos perdidos: Em torno de nós. Slift apertou Ainda mais forte a nossa garganta. . Mal viu esses bois vindo ao longe. Para mim o humano era aquele a quem eu podia explorar. Quando. Bispa. Lançou. salva tua alma. Por vós fomos forçados. a comprar gado. Dais o nome de homem a quem vos vem ajudar. desde a aurora. tomado de loucura. Prometiam até o gado por nascer. Que vos pertencia. E tudo o que de longe parecesse um boi. E Wallox e Brigham. assumindo seus deveres. Mauler. No mercado perturbado. Em três dias. como um bêbado sedento Que ao mar esvaziou sem se satisfazer E lambe avidamente cada gota que encontra. Não terias a necessidade de aliviar aqui A tua consciência. quem nos derrubou. Eles também estão muito pálidos. o caos. Subiu os preços a noventa e cinco.

Que nos píncaros se encontrava. E os jovens bois de pêlos reluzentes Engordados com tanto cuidado. E viu-se.E a voz ainda nos alcançava Mesmo com a balbúrdia dos trens que partiam: . quando e com que dinheiro Nos pagarás o gado comprado.46 Mas Slift gritou: “Três dias não. Do outro eu preciso. Slift. MAULER: Agora mesmo. Parando de pagar.. Estão satisfeitos? OS CRIADORES: Há pouco tempo. de imediato. Sob nossos olhos. Em tudo semelhantes aos antigos corcéis Mordendo. E que não foi ainda acertado. E como contratos nulos não impõem compras. em um suspiro. E Brigham arranca a barba aos gritos: “Noventa e seis”. de rocha em rocha E somente em trinta a queda parou. obstinados. com olhos marejados. na batalha. fomos estrangulados E de que adianta estrangular um cadáver? MAULER: Foi assim então. golpeia um corretor na barriga. os agentes fechando suas escrivaninhas. O sapato. Naquele instante. que travaste a batalha Que deixei a teus cuidados! SLIFT: Corte-me a cabeça! MAULER: E de que me serve tua cabeça? Dá-me o chapéu. Porque não mais podemos honrar os contratos. Célebres. um a um. baixou. e então se retirarem. Como a água que cai na cascata. Institutos de crédito. O que fazer. agora. Lévi. Vertiginosamente. Eu quero para hoje”. o velho Lévi disse então em voz baixa. Com esse gado que ninguém é obrigado a comprar? OS CRIADORES: Sem querer perder a paciência. De cotação em cotação Os preços caíram e rolaram até os negros abismos. ele ao menos vale vinte e cinco centavos. é sabido. paravam de viver. se por um acaso Um elefante se arriscasse pelo interior da Bolsa. bancos. E em silêncio também os bancos desmoronaram. em um espasmo. quando levamos às estações De nosso longínquo Missouri Com muito sacrifício. Até os simples contínuos. Aí está o que tornou o contrato sem valor Apertastes muito forte. Mas alto o bastante para que todos ouvissem: Para pagar-lhes tomem então nossas fábricas. Rangerem os dentes. Com esse chapéu e este sapato: Dez milhões o chapéu. Lutavam a dentadas. diga-me. e os preços subiram. Só um. os vívidos vitelos. entrego por cinco. comprar. E nós comprávamos sempre: Nós precisávamos comprar. os fabricantes apáticos Depositarem a vossos pés suas fábricas fechadas. isto é. Toda a família nos gritava de longe Com a voz embargada pelo trabalho duro . Nós queremos que nos digas Como. mudos. Lançaram-se um a um nesta última batalha. por sua indiferença. Seria esmagado como um morango no chão. Slift então gritou: “Cem”! Poderia ouvir-se um alfinete cair. os cavalos inimigos. Como definha uma esponja espremida. Ouviu-se nesse dia os jovens estagiários. a carne de boi. Os corretores.. Inúteis portanto. tomados de desespero. Casas até então sólidas e poderosas. Eles precisavam entregar. Lévi.

A Snyder: Existem muitas dessas lojinhas Onde se vende a Bíblia? BISPA SNYDER – Sim? MAULER – E como elas vão? BISPA SNYDER – Mal. MAULER: Em nós a consciência. Outra vez responsável. compreendei. para que os preços voltem a subir. a quem mandavam cartas desse tipo. Alguma chance de sucesso. Mas nossa pobreza não é. de Nova Iorque. estão para sempre perdidos. nobre Mauler. GRAHAM – O que não é possível? MAULER – Tenho amigos em Nova Iorque que. condescender. elas vão mal. pelo que dizem. De um asilo necessário para os casos mais graves. O projeto teria talvez. nós estaremos de bom grado à sua disposição. Julguem vocês mesmos. MAULER – Eu costumava ser esse Mauler. amigos. mas são numerosas. voltar para casa? O HOMEM DE ANTES. isso não é possível. E o barulho das metralhadoras. esperamos” E agora. nós lhe forneceremos amanhã mais detalhes. E voltar até nós? Pensai.” Não. O negócio só é possível. GRAHAM – Mas então é Wall Street? Um murmúrio percorre o ambiente. Sancionado pelas instâncias superiores. não bebam todo o dinheiro. ao contrário. Mas se fizéssemos uma grande promoção De sua instituição.(Ele abre a carta e lê de canto) “Escrevemos a você recentemente. para que comprasse carne. entendei. Não ter fartura de bens terrestres. Não. MEYERS – Quem são esses amigos de Nova Iorque? MAULER – Morgan. nós aconselhamos a fazer um acordo com os criadores para reduzir o rebanho. Compreendido como sendo de interesse geral. Seus bens. MAULER: Ou seja. pensai no caos Que ameaça a tudo engolir. De máximas sagradas e escolhidas com grande cuidado. rapazes. E dado que de vós necessitamos. o que faremos. Deixando as sublimes esferas onde meditais.. Jogai sobre vossos ombros o jugo. Abandonai. neste estado. Neste caso. Mas para mim. Como voltar para nossa terra? E que diremos a eles. Nem todos aqui em baixo poderiam ser ricos. Não quero. vocês estariam dispostos. é impraticável. Nossa pobreza é termos perdido O sentido dos valores mais elevados.. Pois os preços do gado vão subir. entrando – Mauler está? Uma correspondência para ele. Rockfeller. Providos de sopa quente e de boa música. MAULER: Se o faço. Seus amigos de Nova Iorque. Agora. caro Pierpoint. Caro Pierpoint.. mostrando o lombo vazio E nossos bolsos também? Como. Cuja voz está a tal ponto asfixiada. Mauler. Estariam vocês dispostos a repetir aos quatro ventos . Se assim fosse concebido. assumir a empreitada. Ele estende-lhes a carta. conhecem um meio de sair desta. Pois ainda creio ouvir O rumor dos matadouros. esta caça fatigante. é muito a contragosto..47 “Ei. OS FABRICANTES E OS CRIADORES: Desejarias. Como tudo de agora em diante Me parece diferente. sozinho.

BISPA SNYDER – Quase todos. É preciso limitá-la. desordem e violência. quebre suas ferramentas E destrua assim seu próprio ganha-pão. ou melhor: quase todos Mas é o único meio de salvar o sistema De vendas e compras no qual vivemos. É por isso. Eles podem nos parecer inferiores. Eliminar o estoque excedente atual. meus amigos! Eles cochicham. Nesse tempo de humanidade desumanizada. é eminente -. Será preciso demitir um terço dos operários: Também de mão de obra o mercado está saturado. aos fabricantes: Faremos uma fusão de suas indústrias Em um só monopólio. Nós o faremos. aos criadores : Escutem. Elas trarão a calma e a ordem. Miséria e fome. . mas se o gado tem tão pouco valor Que pensam em queimá-lo. OS FABRICANTES – Que cérebro! MAULER. Digamos: a maior parte. E mesmo que muitos não compreendam. sorrindo: Minha cara bispa. Não tem outra causa a não ser Que há carne demais. é claro Que entre vocês estivesse Joana. dizem. você não compreendeu A questão de fundo. queimar um terço do gado existente. tem seus defeitos. O mercado foi saturado este ano. Seria muito importante. Eu compreendo o senhor. supérfluos. para puxar os preços.48 Que nós somos uma gente valorosa. que deseja Fazer o bem. mais ainda. Em conjunto. E que. Eu fico com a metade das ações. não poderíamos Doá-lo àqueles que esperam lá fora E quem sabe utilizá-lo melhor? MAULER. TODOS – Não há outra saída! MAULER – E também precisaremos reduzir os salários! TODOS – É o ovo de Colombo! MAULER: Qual o objetivo dessas medidas? Nesta noite de sangue e confusão. TODOS – Que solução simples! BISPA SNYDER. nesses tempos de desgraça? Pois serão necessárias medidas draconianas Que poderão parecer duras porque irão Derrubar alguns e. E é por isso que os preços caíram a zero. Enfim. Em que em nossas cidades os problemas não têm fim. mas olhando bem Quem vê além das aparências das coisas. é lógico. Então. nós decidimos. E às vezes inoportunos. MAULER. Limitar o rebanho oferecido no mercado. Meter um freio à anarquia da criação. Chapéus Negros. ofuscado. Esta dificuldade pela qual estamos passando Está a ponto de ser superada. pedindo a palavra: Perdão. Vê que são eles os compradores! Seja como for. Elas impedirão que em sua brutalidade Um povo. Todos sorriem longamente. Toda essa gente aí fora: Eles são os nossos compradores! Dirigindo-se aos outros: É incrível.Pois eis Chicago outra vez agitada A greve geral. criadores e industriais. que nós subvencionaremos Fartamente a sua missão que contribui Com a manutenção da ordem. .

joguem as grandes redes! Eles saíram agora de sua última casa! Deus lançou sobre eles o frio! Deus lançou sobre eles a chuva! Eles terão de vir. Ela então ouve. olhar fixo na porta: Eles terão de vir. De sopa encham os pratos. Quando perdem o trabalho. Os que aqui chegarem. Eles combateram Pelo pão dos outros. Foram presos os sacrílegos que perturbavam a paz e a ordem! SLIFT: Podem respirar. apanhem-no! Lazarentos e descalços. Nenhum deles tem chapéu. não deixaremos! Sejam bem-vindos. dois homens conversando. Joana segue com o olhar os prisioneiros. SNYDER – Abram as portas! A porta principal é aberta. UM CORRETOR. eles chegam até nós. UM DELES – E por que foram presos? . Nossos planos outra vez se impõem. Sejam bem-vindos. As coisas retomaram o rumo que nos agrada. Toquem a música e nós mesmos Seremos os primeiros a nos sentar Para elevar nossos corações a Deus. cantam. estamos prontos! Já estão chegando! A miséria os traz aqui como um rebanho! São obrigados a vir. Ninguém pode escapar: tranquem as saídas. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Vamos. chega e pergunta – Vocês viram passar três homens que vinham buscar uma carta? Ao fundo ouve-se gritos que se aproximam. Perseguidos sem trégua. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Todo aquele que aqui entrar. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Tranquem as saídas. MAULER: Abram agora a porta principal Aos homens cansados e cheios de preocupação. OS CHAPÉUS NEGROS. Quando estão cegos e surdos. joguem as grandes redes! Sejam bem-vindos. Eles vêm até nós para chorar. estão chegando! Daqui eles não escapam. Passam apenas alguns grupos de operários. Imóvel. apanhem-nos! Sejam bem-vindos. Até nós. Música de órgão.49 Cuja face por si só já inspira confiança. a seu lado. Passam então os dois dirigentes operários escoltados por soldados. para que nenhum escape! Eles estão a caminho. o mercado vai ser curado! Outra vez saímos do ponto morto E realizamos uma obra difícil. UM DELES – Quem são eles? O OUTRO Nenhum deles Pensou só em si mesmo. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! XI NOS MATADOUROS EM FRENTE AO ARMAZÉM DAS FÁBRICAS GRAHAM Os matadouros estão quase vazios. penteados e carecas. JOANA. entrando precipitadamente – Escutem a boa nova! A greve que nos ameaçava foi sufocada.

esticando o braço com a carta na mão. Recolhida doente Nos matadouros. você aí! As coisas deram errado. Divididos em grupos estão os Chapéus Negros. UM DELES – O que farão com eles? O OUTRO: O salário deles é baixo e seu trabalho útil à maioria. Joana se vira. Joana. Nenhum come seu pão tranqüilamente. Nem é enterrado com decência. amparada por um policial. Era uma velha operária. foi reduzido em um terço. mas apenas para dois terços dos operários. Ou de malfeitores postos na cadeia. e a esta a polícia dispersou com o uso de força. carregando lanternas. Todos perecem antes do tempo. Joana cai desmaiada. à sua frente. que seguram bandeiras novas. Em nós podem por fé. Nenhum morre de barriga cheia. Não. Golpeados. mas o justo se esconde. Deixem ela aí no chão. pisoteados. O POLICIAL: Eis aqui uma sem-teto. As rajadas de neve a impediram de ver os soldados. SNYDER: Quando nos jornais falarem de criminosos abatidos. Aqui está! Seriam necessárias muitas como ela. Seu último endereço Teria sido aqui. – Ela deve estar aqui. XIII MORTE E CANONIZAÇÃO DE SANTA JOANA DOS MATADOUROS Agora o templo dos Chapéus Negros está ricamente mobiliado. chega ao termo de sua vida.50 – O homem injusto atravessa a rua à luz do dia. Durante alguns segundos eu a vi distintamente. E a carne vai subir. Lançados em terra profana. Nos vales e nos cimos. Um deles a derrubou com uma coronhada. XII EM FRENTE AO ARMAZÉM DA FÁBRICAS GRAHAM Um grupo de operários entra. Nenhum. JOANA. o salário também. como se ainda quisesse entregá-la: . os açougueiros (fabricantes de conservas) os criadores e os compradores. não é ela. Deus outra vez se impôs. Enfim o sucesso chegou E tudo acabou bem. Ela veio daquele lado e aqui ela gritou para os nossos que as empresas municipais iriam decretar OPERÁRIOS Sim. A decisão sobre a greve geral só chegou a uma parte deles. Nós soubemos ser sublimes E vulgares quando necessário. Quando os soldados vierem a recolherão. a sorte nos sorriu. não é a nossa Madona dos matadouros? Hei. saiba que são eles. A greve geral fez água. Um grupo de pobres entra. os jornalistas a interpelam. UM DELES – Por que não se ouve falar deles? O OUTRO O OUTRO greve. Esta aqui não é das nossas. OS JORNALISTAS – Vejam só. entretanto. UM DELES – Sempre será assim? O OUTRO – Não. As fábricas reabrem. JOANA – Os operários concordaram? OS JORNALISTAS – É claro.

Chegou na hora certa. E eu não fiz! Enquanto os pobres tomam assento nos bancos para comer a sopa. Mostrá-la entre nós provará o quanto nos importam os sentimentos de humanidade. MAULER: Que tome posição em nossas fileiras Esta alma inocente e cândida E que sua bela e pura voz Misture-se aos cânticos de nosso coro. eu poderia levar. o infinito. Vamos colocá-la em destaque. Ela vai muito adiante. Ela que.51 Jamais receberá a carta Aquele que agora está morto. marchava para a luz! Seus atos eram os de um ser humano. O ideal. SLIFT – Esta é nossa Joana. Vós. Eu faltei. Matéria a sua altura . Quando o meu esforço. A vida tranqüila de um cordeiro. enquanto as moças dos Chapéus Negros a vestem novamente com o uniforme: Ouve-se outra vez o rugir das fábricas: Outra vez se desperdiçou a chance De colocar um freio a esses excessos. Eu o neguei. também humanos! JOANA. E outra vez o mundo Percorre o antigo ciclo. E em sua marcha altaneira Para evadir-se ao mundano. um serviço tão pequeno Foi só o que em toda a minha vida Me pediram para fazer. Ela será a nossa Santa Joana dos Matadouros. Foi necessário. Desta vida intolerável E atingir o inconcebível. Joana dos Matadouros. E seus erros. BISPA SNYDER: Levanta-te. sua térrea natureza. pois ela nos ajudou a atravessar a tormenta dessas semanas difíceis. JOANA: Eu falei em todos os lugares. MAULER: Uma alma que exala sublimes impulsos Suporta mal. quais os gritos que abafas? Comei vossa sopa! E não desperdiceis esse resto de calor. Consoladora dos baixios! JOANA: Que vento sopra nesses baixios? Neve. e ultrapassa o objetivo. dando provas de humanidade nos matadouros. OS CHAPÉUS NEGROS: No final. Eu falhei com os perseguidos. infelizmente. intercedendo pelos pobres e mesmo proferindo discursos contra nós. E só servi aos perseguidores. dirigindo-se a Joana: Como ela ainda está perturbada. toda a obra Onde o espírito não encontra. na noite. Que Joana exorcize o mal E que por nós ela interceda. Intercessora dos pobres. Slift discute com Snyder e com os fabricantes. Pelo contrário. Por uma boa causa. Nós faremos dela uma santa e não economizaremos em homenagens. Se eu apenas tivesse entregue A carta que me confiaram! OS CHAPÉUS NEGROS. Quando se poderia ter alterado o curso das coisas. a quem não se pode mais explorar! Comei a sopa! Ah. E tinha sonhos para milhares. empregando todos os meios. por menor que fosse.

Deixando sem medo um mundo por onde passei muito rápido. ignora-se o que se passa em baixo. GRAHAM – Ela não pode proferir discursos que não sejam razoáveis. que significam Se não se manifestam em nenhum lugar? De que serve vosso saber Se o que sabeis não tem conseqüência? Eu mesma. Porque o sistema é construído assim: É apenas exploração e desordem. a Joana: Seja boa e se cale! . OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES.52 Resta fragmentada Sem alma e sem vida. Nunca se sabe em baixo. é magnífico Sempre que espírito e negócios se aliam. Que cada um. Que ninguém seja tido como honrado. Eu. Sistema bestial. para os exploradores.Isso não basta – Deixai um mundo bom. caí do céu! Infelizmente! Bondade sem conseqüência! Sentimentos Que não fizeram a menor diferença! Não. como do topo. Pois se dele esquecer Perturbará nossa harmonia. dois pesos e duas medidas. Quaisquer que sejam as aparências. falando alto. E o que se passa no alto. O que está em baixo tem grande importância. Que nada seja considerado como boa ação. Maldito aquele que apelar A essas massas essenciais Mas sempre insaciáveis. JOANA: Pois entre os de cima e os de baixo O abismo é mais profundo Que entre o Himalaia e o fundo do mar. O que está em cima está em seu justo lugar. OS FABRICANTES: O resultado. Exceto aquele que muda o mundo Definitivamente: isso é o que é realmente necessário. Não tenhais a preocupação de terem sido bons . eu não transformei nada. Mas nada mudará se eles melhorarem. A esses elementos dos baixios! JOANA: Mas os que estão por baixo são assim mantidos Para que os de cima lá continuem. Mas também no alto. E dois idiomas diferentes Os homens têm a mesma face E não se reconhecem mais. qualquer que seja. Entre os do alto a baixeza é sem limites. Não esqueçamos que ela esteve nos matadouros. Precisa-se do chão. de maneira a encobrir a voz de Joana: Para que até o céu se levante o edifício. A essas tropas indispensáveis. o que foi que eu fiz? Nada. OS CHAPÉUS NEGROS. E sem descanso nem folga Realize seu dever. No topo e no chão. Eu vos digo: Quando chegar a vossa vez de deixar esse mundo. então. fique no lugar Que lhe é atribuído. JOANA: É uma grande verdade Que aprendi e que vale para todos E morrendo eu vos digo: Vossos bons sentimentos. Mas que não sabem o quanto. Se não for uma ajuda real. Contrário à razão.

Sempre se metamorfoseia. JOANA: Se alguém um dia vos disser Que existe um Deus.Sobretudo se forem compras especulativas – Esse Verbo que. é preciso fazer algo para tirar a atenção do que ela fala. Precisarás deles sempre! OS CHAPÉUS NEGROS: Olha para cima. ou seja. A palavra de Deus. infelizmente. Onde vivem os homens. Não esqueçam. distingam com um sinal! Hosana! Enquanto eles cantam os versos. sempre mais alto. BISPA SNYDER – Joana Dark. Só dos homens pode vir ajuda. Do qual podeis esperar ajuda. é verdade. Não esqueças: tua consciência está lá! Atenção. para abafar o discurso de Joana. Onde reina a violência Não há outro recurso senão a violência. os alto-falantes começam a transmitir notícias que espalham o medo: “Bank of America e Citibank estão de pires na mão” “Revolta contra os cupins financeiros conflagra Londres” “Múltis drenam do país US$ 3. Em suas compras. JOANA: E do mesmo modo. vinte e cinco anos.53 É preciso. SLIFT – Escutem. Combatente e mártir. contraiu a serviço de Deus uma pneumonia nos matadouros de Chicago. OS AÇOUGUEIROS: Podes fazer qualquer coisa! OS CHAPÉUS NEGROS: Mas faça-o Sempre com muito escrúpulo! Espírito contemplador. MAULER: Deves agir. Chegar ao topo implica Pisar na cabeça daqueles que estão por baixo. quando vos disserem. mas que seja bem alto. a eles concedei! Hosana! A quem tudo possui. sobretudo. É preciso também golpear-lhes o crânio com uma pedra. Sempre necessário .266 bilhões só em dez dias de março” “BC assalta U$ 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street” “Montadoras almoçam os R$ 8 bi do crédito e mantêm ameaça de demitir trabalhadores” “Deficit dos EUA deve chegar a US$ 9 tri entre 2010 e 2019” . Todos. Que podeis elevar-vos moralmente Mesmo com os pés enfiados na lama. invisível. cantam a primeira estrofe do hino. de século em século. de esquecer os remorsos. obedeça! OS AÇOUGUEIROS: Quem se mover no espaço Nunca poderá subir: Subir é subir sobre alguém. Batei com uma pedra em seu crânio Até que arrebente. Mas evita. Não. Falem. comerciantes. Aos ricos concedei a riqueza! Hosana! Também a virtude. ferir! OS CHAPÉUS NEGROS: Nunca esqueças do sangue que mancha teus sapatos. tudo concedei! Hosana! Concedei-lhe a cidade e o Estado! Hosana! Aos vencedores. OS AÇOUGUEIROS: E nem pensa em tirá-los. digam qualquer coisa. Denegrindo a ti mesmo. O Verbo magnífico.

Hosana! Notam que Joana para de falar. Colocam a bandeira em suas mãos. A um sinal da bispa. se não tivessem degolado tantos porcos!” “Criadores miseráveis. para sua grande pena. que manipulam o dinheiro a rodo. Comove-nos profundamente.” “Os bancos nos arruínam com os juros que exigem!” “Quem pode pagar tanto dinheiro para estocar o gado e pelos silos de grãos?” “Por que vocês não começaram a reduzir a produção?” “Nós começamos. Não dá mais sinais de vida. Hosana! Nesses braços que vos estendem. Hosana! Com mãos cheias. Hosana! Piedade com aqueles que ignoram a fome. O palco é iluminado com uma luz rosada. mudos de emoção. a serviço de Deus. Pelo espírito. Hosana! Durante esta estrofe. Hosana! Juntai vosso riso aos que riem. diz governo ” “EUA mudam socorro para bancos. mas ela cai. Infelizmente. Bolsa de NY cai 4. Por um nobre ideal. por que criaram tanto gado?” “Alucinados. foram vocês que se recusaram a reduzir também!” “Vocês são os únicos culpados!” “Enquanto não acabarem com vocês não vai melhorar!” “Faz tempo que o destino de vocês está selado!” “O que estão esperando para prender vocês?” Todos cantam a segunda e a terceira estrofes do hino. BISPA SNYDER – Joana Dark. MAULER – Dêem uma bandeira a ela.54 “Empresas dão calote recorde para remunerar seus acionistas” “Recessão ainda irá se agravar no Japão. Hosana! Oferecei a vossa graça. até o fundo cravado. as mulheres tentaram oferecer a Joana um prato de sopa. tocada pela morte. vinte e cinco anos. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES: Desde que o mundo é mundo. Um desejo vive no coração do homem. que vos ajuda também. Snyder e Mauler vão até ela. Hosana! Que seus crimes terminam bem. combatente e mártir. Hosana! Esmagai o ódio. na terceira vez ela o pega. Ajudai vossa classe.” “Foram os especuladores de grãos que encareceram o gado. MAULER: Como a pureza De um ser inocente. ao firmamento Um impulso múltiplo o atira. colocam-se suavemente todas as bandeiras sobre Joana. Hosana! Ajudai a quem tudo possui. por que não empregaram mais gente e pagaram melhores salários? Quem esperam que compre a nossa carne?” “Foram os intermediários que fizeram subir tanto a carne de gado.” “Foram as tarifas das estradas de ferro que nos esfolaram. sinto-me atraído: . A carne para a terra o arrasta! MAULER: Ai! Um duplo desejo dilacera meu pobre coração. Em seguida cai nos braços delas. sempre ele aspira Às esferas mais elevadas. A generosidade De uma alma sem mácula. Todos ficam muito tempo de pé. Aos astros.7%” “Crise já eliminou 6 mi de empregos nos EUA” “Incertezas rondam fábricas da GM à beira do fechamento” Sob o efeito dessa terríveis notícias os personagens trocam entre si acusações e diversos insultos como esses: “Açougueiros sujos. Em duas tentativas ela recusa o prato. Nós que temos a alma comum! E então desperta a boa alma Que temos no fundo de nosso coração. morta de pneumonia nos matadouros. levanta e vira. até cobri-la totalmente. A voz de Joana já não se ouve: Concedei aos ricos misericórdia. Qual um punhal.

como de tua alma grosseira. não consigo resistir Inexplicavelmente! TODOS: Em cada homem habitam Duas almas opostas. Cuida de tua alma terna. Homem! Luta sempre contigo mesmo! Sigas sendo este ser uno e sempre dividido! Cuida de tua alma boa.55 Desejo a abnegação. Cuida bem das duas! . Ele precisa cuidar de ambas. desejo o altruísmo Mas à atração pelo lucro. Longe de querer escolher uma delas. como de tua alma vil.

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