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I O rei da carne, Pierpoint Mauler, recebe uma carta de seus amigos de Nova Iorque CHICAGO. OS MATADOUROS
MAULER,

lendo uma carta. – “Parece-nos evidente, caro Pierpoint, que já há alguns dias o mercado da carne está saturado. E, no sul, as barreiras alfandegárias resistem a todas as nossas ofensivas. Acreditamos, portanto, ser prudente, querido Pierpoint, não mais envolver-se com este negócio...” Acabo de receber essas indicações de meus bons amigos de Nova Iorque. Lá vem meu sócio. Ele esconde a carta. CRIDLE – Por que esse ar tão sombrio, querido Pierpoint? MAULER: Lembra-te, Cridle, daquela caminhada Que fizemos uma vez, pelos abatedouros? Era noite. Diante de nossa máquina nova, Cridle, lembra-te, nós vimos um touro Claro e nobre, dirigindo aos céus seus grandes olhos vazios. Ele recebeu diante de nós o golpe que o abatia: E tal golpe me atingiu até o fundo do coração! Há sangue demais, Cridle, em nosso negócio! CRIDLE: Amigo, vens outra vez com tua antiga fraqueza. Quem acreditaria, Pierpoint? Tu, o maior de todos, O rei dos abatedouros, dos açougueiros o terror, A morte de um touro louro te enche de dor! Não conte, eu te rogo, tal segredo a ninguém A não ser a mim! MAULER: Oh, meu fiel amigo, Por que me levaste a visitar o abatedouro! Durante os sete anos em que estou no negócio

Eu evitei fazê-lo. Eu não posso suportar Um comércio tão sangrento, não tenho mais forças: Eu me retiro de imediato... Cridle, queres a minha parte? A terias por muito pouco; a ti, a preferência: Ninguém conhece o negócio como tu. CRIDLE: Muito pouco? Quanto? MAULER: Velhos amigos como nós dois Não podem disputar muito por valores. Dez milhões! CRIDLE: Não seria caro, se não houvesse Lennox Que, pela carne em conserva, lata a lata se bate, E estraga o mercado com seus preços baixos. Tirará nossa pele, se não tirarmos a dele. Enquanto ele estiver em pé, e só tu podes abatê-lo, Não posso aceitar tua proposta. Deverás, até lá, com tua mente fértil, Encontrar uma saída. MAULER: Não, Cridle, Esse coração treme ainda com o grito do touro! É preciso então que Lennox caia rápido, Pois quero, doravante, viver como homem de bem E não mais como açougueiro. Saiamos, Cridle, e eu te direi A forma de abater Lennox. Mas tu deverás então tirar esse peso do meu coração E tomar a frente de nosso negócio CRIDLE: Quando Lennox for derrubado Eles saem. II

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O desmoronamento das grandes indústrias da carne A - DIANTE DA FÁBRICA DE ENLATADOS DE LENNOX
OS OPERÁRIOS

Nós somos setenta mil Nessas fábricas de conservas E nossos salários são tão baixos que não podemos mais [sobreviver. Ainda ontem, de surpresa, reduziram nosso pagamento E hoje, um novo aviso: “Os que não estão satisfeitos, sempre podem deixar a fábrica!” Saiamos então, e todos juntos. Ao diabo esse salário que diminui todos os dias. Silêncio Há muito tempo já esse trabalho nos nauseia: Esta fábrica é para nós um verdadeiro inferno E só pode nos manter aqui o medo, O medo duplo, de Chicago e do inverno. Mas agora, doze horas de trabalho Já não garantem nem um pão seco Nem dão para comprar um trapo velho. Melhor partir E morrer de uma vez. Silêncio Pelo que nos tomam eles? Acreditam então Que nós somos gado, dispostos a tudo? Tomam-nos por jumentos? Melhor morrer! Deixemos a fábrica Agora mesmo. Silêncio O que houve? São seis horas! Por que não abrem, corja de esfoladores? Seus bois estão aqui, bando de açougueiros! Abram! Batem no portão.

Terão eles nos esquecido? Risos. Abram! Queremos entrar Em suas imundas pocilgas E suas cozinhas infectas Para preparar guisados indigestos Para os que ainda podem pagar. Silêncio No mínimo exigimos, O salário anterior, que já não dá para nada. No mínimo A jornada de dez horas e, no mínimo... UM HOMEM QUE PASSA: O que vocês estão esperando? Não sabem que Lennox fechou? Gazeteiros de jornal aparecem na cena GAZETEIRO – Lennox, o rei da carne, forçado a fechar suas fábricas! Setenta mil operários na rua. Lennox vítima da concorrência feroz imposta por Pierpoint Mauler, rei da carne e da responsabilidade social!
OS OPERÁRIOS

Desgraça! O próprio inferno Diante de nós fecha suas portas! Nós estamos perdidos. O impiedoso Mauler Aperta a garganta de nosso explorador E somos nós que sufocamos! B - UMA RUA – A Tribuna de Chicago, edição do meio-dia! O rei da carne e da responsabilidade social, Pierpoint Mauler vai inaugurar os Hospitais Pierpoint Mauler, os maiores e mais caros do mundo! Dois transeuntes olham para o fundo do palco, “vendo” Mauler. UM TRANSEUNTE, ao outro – Aquele é o Pierpoint Mauler. Mas quem são os dois que o acompanham?
GAZETEIRO

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– Seguranças. Só anda escoltado, com medo de apanhar de alguém.
O OUTRO

Para levar Deus ao coração de um mundo que desaba E nele restaurá-Lo, pela ação dos mais humildes. Os Chapéus Negros andam. Toque de tambores. Durante todo o dia os Chapéus Negros pregaram nos matadouros, mas, quando a noite chegou, os resultados eram quase nulos. DIANTE DA FÁBRICA DE CONSERVAS LENNOX – Dizem que eles estão preparando um grande golpe sobre o mercado de carne. Para nós isso que dizer esperar e passar fome. OUTRO OPERÁRIO – A luz está acesa nos escritórios. Estão lá, calculando os lucros. Chegam os chapéus Negros. Fixam no chão uma placa na qual se lê: “Hospedagem: 20 centavos por noite. Com café: 30 centavos.” CHAPÉUS NEGROS cantando Escutem todos, escutem bem! Tu que te afundas, nós te vemos, Teu apelo por ajuda, nós o escutamos, Teu sinal, nós o percebemos. Parem os carros, detenham o trânsito Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Tu que te escondes, tu que duvidas, Olha para nós! Olha, Meu irmão, antes que sucumbas! Nós te damos o que comer E nós não esquecemos Que tu não tens abrigo. E, sobretudo, não digas que tudo está perdido: Tudo será diferente, a injustiça nesse mundo Não poderá durar se todos se juntarem a nós, Marchando ao nosso lado Com o único objetivo de ajudar o próximo. Nós faremos avançar os tanques e os canhões
UM OPERÁRIO

Para levar consolo aos miseráveis dos matadouros, os Chapéus Negros deixam a sua sede. Joana empreende sua primeira descida às profundezas. C - EM FRENTE AO TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS
JOANA,

à frente de um comando dos Chapéus Negros: Nesta noite de sangue e confusão, Nesse tempo de desordem organizada, De arbitrariedade consentida, E de humanidade desumanizada, Nesse tempo em que em nossas cidades Os problemas não têm fim; Nesse mundo, imenso matadouro, Em que nos chegam rumores de violência iminente; Para impedir que, em sua brutalidade, O povo, ofuscado, quebre suas ferramentas E destrua assim seu ganha-pão, Nós queremos reintegrar Deus Pois aos lugares onde realmente vivem os homens Ele não mais tem acesso: Sua glória anda pouca, Seu nome, já quase suspeito. Dos mais humildes, entretanto, ele é a única salvação! Então nós resolvemos Por ele bater nossos tambores nesses bairros; Para que ele penetre no coração da miséria E que sua voz retumbe pelos matadouros. Aos Chapéus Negros: O que faremos agora é uma última tentativa. Pela derradeira vez, nos esforçaremos

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Nós lançaremos ao mar os navios de guerra, E nos ares, os aviões Para conquistar teu pão, meu irmão. Porque vós, os pobres, formais Nesse mundo um imenso exército. Vós que nos escutais Não esperai o amanhã! Desde hoje ajudai, Ajudai ao próximo! Avante! Ao assalto! Empunhai vossos fuzis! Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Cantando, os Chapéus Negros começam a distribuir seu jornal: Apelo às Armas, bem como colheres, pratos e sopa. Os operários agradecem e põem-se a escutar o discurso de Joana. JOANA – Nós somos os soldados do bom Deus. Por causa dos chapéus que usamos, somos também conhecidos como os Chapéus Negros. Nós dizemos que somos soldados, porque formamos um exército e porque, em todos os lugares em que vamos, precisamos lutar contra o crime e a miséria, contra as forças que tendem a nos aviltar. (Ela mesma começa a distribuir sopa) Bem, agora comam esta sopa quente e constatarão que depois vocês verão as coisas com um olhar diferente. Pensem agora qual esperança se pode fundar sobre a felicidade terrena. Nenhuma, absolutamente nenhuma. A desgraça vem como a chuva: ninguém a provoca, mas, entretanto, ela vem... Suas desgraças, digam-me de onde vem? UM DOS QUE COMEM – De Lennox & Cia. JOANA – O senhor Lennox tem talvez mais preocupações do que vocês! O que vocês estão perdendo? Ele, suas perdas se contam por milhões. UM OPERÁRIO – Carne não há nesta sopa, só uma aguinha clara, isso sim. Mas quente, pelo menos, está. OUTRO OPERÁRIO – Fiquem quietos, bando de glutões! Escutem a palavra de Deus! Senão vão tomar o prato de água quente de vocês.

– Silêncio! Queridos amigos, digam-me: por que vocês são pobres? UM OPERÁRIO – Sei lá! Explique você! JOANA – Eu lhes direi. Não é porque vocês não estão cheios de bens materiais – que não chegam para todos – mas porque vocês não têm idéia dos valores mais elevados. É por isso que vocês são pobres. Esses gozos vulgares aos quais vocês aspiram, comer um pouco, ter um bom lugar para morar e ir ao cinema, não são mais do que prazeres frívolos, grosseiros. Enquanto que a palavra de Deus é um prazer mais delicado, mais profundo e muito mais refinado; talvez vocês não possam nem imaginar algo mais doce do que o chantili, mas a palavra de Deus é ainda mais doce. Homens de pouca fé, os pássaros no céu não têm carteira de trabalho, as açucenas do campo não têm emprego e, entretanto, como eles cantam Sua glória, Deus lhes dá alimento. Nós, os Chapéus Negros, fazemos então a vocês uma pergunta muito prática: de que um homem precisa para crescer na vida? UM OPERÁRIO – Um colarinho engomado. JOANA – Nada disso. Para progredir na terra talvez seja necessário um bom colarinho, mas diante de Deus é preciso muito mais que isso, outras glórias. Vocês aos olhos Dele, nem mesmo um colarinho puído têm, pois deixaram suas almas no abandono. Mas então como vocês querem elevar-se, chegar ao que vocês, em sua ignorância, chamam de uma “situação melhor”? Pela força bruta, pela violência? Como se algum dia a violência tivesse trazido alguma coisa além da destruição. Vocês acham que mostrando os dentes conquistarão o paraíso na terra. Mas eu lhes digo, agindo dessa maneira o que se cria não é o paraíso, mas o caos! Um operário chega correndo. O OPERÁRIO: Uma vaga, agora mesmo, acaba de abrir! Um trabalho, um salário, esperam por vocês, Na fábrica número cinco! Que mais parece uma latrina. Corram, rápido. Um operário larga seu prato cheio e sai correndo.
JOANA

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– Ei, você, onde é que você vai? Quando se ocupará de Deus? Vocês não querem nem ouvir falar, não é? UMA MOÇA DOS CHAPÉUS NEGROS – Acabou a sopa. OS OPERÁRIOS: Acabou a sopa; Era só um caldinho ralo Mas era melhor do que nada. Todos se viram e se levantam. JOANA – Fiquem sentados; acabou, mas que importa, uma vez que a grande sopa celeste não se esgota nunca. OS OPERÁRIOS: Quando, afinal, vocês Abrirão as portas de seus porões, Carniceiros, mercadores de carne humana? UM OPERÁRIOS: Com o quê, agora, pagarei A casa pequena e úmida, onde vivemos doze? Eu já paguei dezessete prestações, Mas a última, não conseguirei Seremos jogados na rua. E o chão de terra batida E nosso pedaço de grama amarela, Nunca mais os veremos, nunca mais, Nem tampouco respiraremos seu pestilento ar familiar. UM OUTRO OPERÁRIOS: Aqui estamos, em pé, nossas mãos como pás, E nossos pescoços fortes como tratores. Nossas mãos e nossos pescoços, queremos vendê-los Mas não há quem os compre. OS OPERÁRIOS: E nossas ferramentas - Gigantesca montanha de prensas e gruas – Estão trancadas, detrás desses muros! JOANA – E então, o que se passa? Quer dizer que já se vão? É porque já terminaram de comer? Adeus e obrigado. Mas por que então vocês escutaram até agora?
JOANA

– Pela sopa. JOANA – Continuemos. Cantem! CHAPÉUS NEGROS cantando Avante, entrai nessa luta! No coração da batalha lutai! Cantai com louvor, que cante todo o mundo. Ainda é noite, mas logo virá o dia, Raiando com todo o esplendor, E junto virá Jesus Nosso Senhor. UMA VOZ, do fundo do palco – Estão contratando nas fábricas de Mauler! Os operários saem. Fica apenas uma mulher. JOANA, com ar sombrio: Parem a música! Acabou a sopa, lá se vão eles! Seus olhos são incapazes de elevar-se Mais alto do que a borda do prato. Eles não crêem em nada além do que está Entre suas mãos. Acreditarão em suas mãos? Vivendo cada dia, cada minuto mesmo, Na insegurança, eles não são capazes De se esquecer das preocupações mais básicas. Nada, a não ser a fome, tem sobre eles qualquer influência. Nenhuma canção os toca mais. Nenhuma palavra pode Descer até eles e penetrar seus corações. Aos que a cercam: Parece que nós, os Chapéus Negros, temos por tarefa alimentar todo um continente com nossos poucos talheres. Os trabalhadores voltam. Ao longe, ouvem-se gritos. OS OPERÁRIOS, na frente do palco – Que gritos são esses? Um imenso caudal humano emerge dos abatedouros. UMA VOZ, do fundo: Mauler e Cridle também fecharam. As indústrias Mauler optam pelo lock-out! OS OPERÁRIOS, refluindo:
UM OPERÁRIO

esse Mauler. E vê esvanecer-se sua pureza original. São reles glutões Preguiçosos. Quem abandona o lar protetor. Estamos gelados e molhados e precisamos comer. a Joana – Vamos agora. dos Chapéus Negros: Não vá te meter com estes problemas. OS CHAPÉUS NEGROS – Pare! Não te metas com essas questões. Resultado para nós: barrigas vazias. Recebemos mil respostas. Sua bondade perde rápido. antes. MARTA. No alto. Ao fazer mil perguntas. por favor. Lennox está branco como algodão. presa. pronto. Eles encherão tuas orelhas com seus gritos. meu velho Lennox. Ao fundo. para ele. Os Chapéus Negros se afastam. por que correm de um lado a outro e não encontram trabalho? OS OPERÁRIOS: O sanguessuga Mauler e o muquirana Lennox brigam entre si. – Não. já que ele é a causa de tamanha miséria. O que comeste. JOANA – Esse Mauler. JOANA – Quero saber. quem é o responsável por tudo isso. eu quero vê-lo. derrubou-te. JOANA III Pierpoint Mauler é tocado pelo sopro de um outro mundo EM FRENTE À BOLSA DE CARNES Em baixo. Degrau após degrau. Em um grande edifício: A Bolsa de Carnes JOANA: Eu vou até lá: Eu preciso saber. mora aonde? OS OPERÁRIOS: Lá. Enquanto corríamos atrás de trabalho. Todos haviam perdido o emprego E perguntavam onde achar trabalho. ruídos da Bolsa. . desde o dia em que nasceram. ele te revenderia. onde se compram e vendem animais. que fogem do trabalho. UM OPERÁRIO. E o frio supremo Rouba de seu coração todo o calor. Na insana esperança de obter uma resposta Que jamais chegará. Oh Joana! Não te metas nas querelas terrestres! Pois quem nelas se envolve. na frente do palco: Desgraça! De todos os lados chegam ainda Torrentes infindáveis de homens! OS CHAPÉUS NEGROS. Jamais seus corações. Torna-se mercadoria. Joana e Marta esperam. Uma multidão enorme e desesperada. desce cada vez mais baixo.6 No meio do caminho encontramos. torna-se. Abrigaram sentimentos nobres. Eles têm apenas idéias vulgares na cabeça. JOANA – Não! Eu quero saber (aos trabalhadores) Digam-me. OS CHAPÉUS NEGROS – Então teu destino nos parece bem negro. GRAHAM: E então. os fabricantes de conservas Lennox e Graham discutem. Ele venderia o próprio ar. O selvagem Mauler! De um tal monstro a investida É inexorável! A natureza. Tu desaparecerás na lama! Pois a lama entope as bocas Que fazem perguntas sem prudência JOANA: Eu quero saber.

JOANA. MARTA – Joana.. E agora. sozinho. A Lennox: Estás perdido.. acompanhado de seu corretor. Gritaram-me prudência: Para eles. Tão natural. Vá. Lennox! Acabou a guerra de preços! Foste eliminado. Ele não pode suportar A visão da miséria. MARTA . Vocês mesmos. Cridle. Ele terá medo. OS FABRICANTES DE CONSERVAS : Trata-se de saber quem agüentará mais tempo. Instalar duas ou três dessas máquinas novas.” CRIDLE : . Todos me abandonaram. Um mercado aviltado. então.. Slift. em salsicha se transforma. Fecho minhas fábricas. surge de um grupo de fabricantes de conserva..Joana. Até chegar aos ossos. por conta de seu próprio peso. Que ele não saberia jamais trair seu instinto. época maldita! Um comércio estrangulado por montanhas de conservas. MAULER : Lennox está de joelhos. até ele e. com voz suave. Começa então o seu retalhamento. moídos como farinha. Bem pensado. cruzei a última fronteira. Estranho conselho! Eu te agradeço. que viram escovas. Espero que o mercado recobre a saúde. ele faz ouro. Em dinheiro ele as transformará. O que fazer com ela? Ah. ficarás com a fábrica Conforme está previsto nos termos do contrato: “No dia em que Lennox for eliminado. que. Depois seus pelos. esta arte contrária à natureza. nele. JOANA – Mas tu vieste comigo. O faro para o dinheiro é nele tão potente. até aqui me acompanhastes. Diga-lhe: Mauler. à Marta: Tu somente. CRIDLE: Muito bem. olhe para mim e de meu pescoço. E assim. e dorme mal à noite. não achas? Ele se degola e logo. Tira esta mão que me aperta e me estrangula. não é verdade? GRAHAM : Muito bela! Mas e a lata. este homem não é duro E nem ama o dinheiro. eu também te recomendei prudência. confessa. como vais reconhecê-lo? JOANA – Saberei bem reconhecê-lo.. Batendo-se por sua conquista. E talvez chore. eu garanto. E pensa nos velhos tempos. o porco se precipita. lutando. a cada fase. Destroem com seus cascos o pasto que disputam. no entanto. De carne podre. Agora vou limpar a minha fábrica. com sua escalada. Quando ele não podia absorver mais nada. Nas facas. Cridle sai da Bolsa e desce até o palco. E se lhe jogas pedras na cabeça.7 De barracos miseráveis. Bela invenção. ainda ontem florescente!. Lubrificar meus cutelos. Pois caindo. no último andar. ele extrai rendas. A nova técnica é muito engenhosa: O porco é colocado em uma esteira rolante Até o alto da fábrica. que vira couro. Fizeram desabar os preços e destruíram seu negócio. Primeiro perde a pele. Tal qual dois grandes búfalos. chega Na lata que o espera lá embaixo. para economizar Uma agradável soma em salários. Por si mesmo. Mauler.. Saibas. Marta.

se tu estás Realmente onde dizes. É o máximo que posso fazer. Freddy! Quer dizer que tu me socas. GRAHAM — Mauler. é que meu coração se aperta Quando ouço mugir a criatura CRAHAM : Agora eu compreendo a grandeza de teus atos. Cridle. Mauler. tu me forças. Antes que quebres de uma vez! Creia-me.. Lennox! Toque-o! É uma lata de lixo. e tu tinhas um terço. Para pagar o que te devo. as ações estavam a 390. Não estava caro. LENNOX – Mauler. Cridle. MAULER – Leia. e onde eu conseguiria dinheiro para pagar tua parte? Eu estaria arruinado! MAULER : Já que me dizes isso. CRAHAM . Lennox acabou. eu precisaria jogar essas ações no mercado. Isso não é um contrato? Com um preço fixado? CRIDLE : Sim. Nada além. Veja se esse contrato diz uma só palavra sobre a crise. se eu fizer isso. Ele sai. até teu coração sabe ver longe! LENNOX : Eu gostaria ainda. então. CRAHAM : Toque-lhe o coração.. um contrato dos tempos de prosperidade! Mas e a crise? Ela não existe? Que posso fazer eu com um grande matadouro Se ninguém mais compra carne em conserva? Agora sei bem porque não podias Mais suportar a visão do gado morrendo: sua carne Não vende mais! MAULER : Não. então. o coração torturado! Cridle se afasta. elas cairão a 70. Mas. nada. Pois eu proibirei Cridle De comprar-te uma única lata. É preciso então. (faz contas em uma caderneta) Quando combinamos que tu sairias do negócio. Ah! Pudesse eu estar liberado De um comércio tão bestial! Tenho. as ações caíram para 100. seguindo-o com os olhos: Tive a ligeira impressão de que algo o atormentava.. Lennox.8 Sim. devido à saturação do mercado. tenho dois mil empregados! CRIDLE – Mande-os ao cinema! Mas Pepê. cinco. Hoje. mas. MAULER . Mauler. LENNOX – Não. : Pepê! Isso não é um jogo! Não podes misturar Questões pessoais aos negócios! CRIDLE – Pois não. sem mais delongas. E eu. de examinar Contigo. Estou tão temeroso que chego a suar frio: seis dias.. MAULER – Ai! GRAHAM — Viu? Ele tem um coração! MAULER : Então. Mas com ele acabaram Os bons dias do mercado. Seis dias? Não. como eu. MAULER : O quê? A soma está inscrita Claramente no contrato Tome. Joana fez um sinal a um segurança e lhe diz algumas palavras. Não pude imaginar seu fado. sensível! Ele soca Mauler no coração. mergulhado em meus negócios. olhe para mim. Mauler. nosso contrato não é mais viável.. isto é. A exigir meu dinheiro. Tu me ofereceste a 320. veja Lennox. Pepê! Como quiseres. Repensar os dez milhões de dólares Que queres por tuas ações..

suponho. mas vocês não devem Perguntar nada.9 O SEGURANÇA — Senhor Mauler. e pôs em apuros Cridle que. seus trabalhadores na rua? MAULER. JOANA. (aponta para Slift) É ele! JOANA. adoraria vossa opinião. que eu sou Mauler. na verdade. MAULER .É assim. O melhor para eles É causar em mim a impressão de gente honesta. é ele. Com ar invejoso. a Slift: Que eles trabalhem por nada. MAULER : A escória em farrapos. O segurança vai ao encontro de Joana no outro lado do palco. Pretendo renunciar a esse negócio sangrento Logo que eu possa: renunciar sem retorno. 59. Que não é acusada de nada E que não espera o impossível de mim. não é notável? Já viste algo igual? Que trabalhem por nada e sem se lamentar? Não vejo em seus olhos nem medo da miséria Nem de dormir sob as pontes alguma noite. JOANA: Por que joga. Vitelos. Chapéus Negros. diga que não estou. Slift ri. Mas. Sim. não é homem de bem. Mais uma coisa: não diga. Graham sai. MAULER : O que é esta organização? O SEGURANÇA — Eles têm muitas ramificações. MAULER : Está bem. hein? Não. Slift. além da comida e do uniforme. sem dúvida? Prontos para a violência. MAULER : Já ouvi falar dessa gente. Senhor Mauler. que a escória me chama – Despojou Lennox. Mas que nome curioso! Soldados do Bom Deus. MAULER – Rindo. MAULER: O tecido é bem fininho e. Mas o que eles querem comigo? O SEGURANÇA — Afirmam que têm algo a dizer ao senhor. 43. Pouco me importa o que esperam de mim. Dizem. etc. há algumas pessoas que querem lhe falar. 55. Nada de choros.. – Vinte centavos. dirigindo-se direto a Mauler – O senhor é o Mauler! – Não sou eu. – É o senhor.. Durante esta cena. MAULER – Como me reconheceste? JOANA: De todos. eu sei. apontando para Mauler – O senhor é o Mauler! MAULER – Não. o tecido não é grosso Nem é grossa a sopa. Para Joana:) Quanto recebes por dia? JOANA. que o sangrento Mauler. é o que tem a cara mais ensangüentada. JOANA. que a sopa seja rala. O SEGURANÇA: Ele vai vê-los. o rumor da Bolsa continua. gente estranha. Ouve-se: Bois. A Joana: Vós sois. nem desses versos sentimentais Que eles adoram cantar. São chamados de soldados do Bom Deus. Slift? (Enquanto isso. cá entre nós. sobre outra questão. Creiam-me: esses são assuntos profissionais Que não vos interessam. . Diga-lhes que eu os receberei Mas que eles limitem-se a responder minhas perguntas. são numerosos e gozam de grande consideração nas camadas inferiores da população. respondam apenas Quando ele lhes perguntar. Porcos. O SEGURANÇA — São membros da Organização dos Chapéus Negros. em absoluto.

Abandonar esta empreitada. Eu sei. Embora já tenhas vivido mais de vinte anos. confesso. Isso não é bom? E conforme vosso espírito? SLIFT : Vendo morrer o boi. Cedi por dez ao homem que vêem aqui. Talvez por isso te ajude. São. JOANA – Senhor Mauler. no lugar do pobre animal. Eu também vou embora. Melhor para ti que não os veja. ele é mau. Senhor Mauler. há pouco. O homem. . Um instante. São todos carniceiros. pessoas extremamente más. Ele fala com Slift em voz baixa. E desejaria que fossem mais numerosos. de resto. por favor. para o que pretendes fazer. minha filha. Dirigindo-se aos outros: Parece-me que fui tocado pelo sopro de um outro mundo. Deverias. diga. dêem! Corja de carniceiros! Ele continua mexendo nos bolsos deles para dar dinheiro à Joana. Tome para os pobres.10 Pois eu vi – e isso vos interessará – Morrer. JOANA – Isso é uma gota no oceano. sem nenhuma obrigação: Eu não sofro de insônia. A parte – doze milhões – que eu tinha na usina. aliás. dêem o dinheiro. tomando-lhes o dinheiro que trazem consigo e dando-o a Joana. a Joana: Joana. MAULER: Eu tenho grande piedade pelos bois: o homem. É bom. O senhor não poderia realmente ajudá-los? MAULER: Repita por toda a parte: eu aprovo vossa ação. não me comove. Nenhum é inocente.. isso de se retirar do negócio. Tamanha inocência!. O mundo não poderá mudar se antes não mudarem os homens. MARTA. Eu sei. Mas tendes consideração demais pelo destino dos pobres: Eles são maus. Ele não é maduro ainda. mas não digas nada. Mas este mal era inevitável. MAULER: Riam todos. Não. tu também. Diga-me que está certo E que isso te agrada. Desculpe-me. Deixai disso. eu sinto Que tu não gostas de mim. Marta sai. por que fechou os matadouros? Eu preciso saber. um boi e fiquei tão comovido Que quis largar tudo. ele decidiu abater O rico Cridle. Mas é uma gentileza. não me digas nada. Seu rosto me agrada. MAULER: É que adquiri o maldito hábito De disfarçar a voz. que com tal decisão As pessoas sofreram. não é? JOANA: Não sei se o senhor fala sério. Eu os verei chorar um dia. não creias que seja de boa fé. nos matadouros dizem que o senhor é o responsável pela miséria deles. A canalha. vamos.. Seu riso não me atinge. Mas.. Ele se aproxima dos industriais. MAULER: Poderia eu ir mais longe? Porque ele é sangrento É que eu tirei as minhas mãos deste imenso negócio.. Eles não têm mais trabalho. Dêem o dinheiro. Isso não é bom? Os fabricantes de conservas explodem em gargalhadas. JOANA: Senhor Mauler.

o que causa má impressão. Luckerniddle. já que agora ele está em embalado. ela poderá Aceitar sem pudor. e para mim.11 Chame ela de lado. JOANA. Mas volte aqui amanhã. Veja então o que ela compra. saindo – Um conselho: não te metas com as gentes dos matadouros. A Joana: Aqui está meu corretor. vendo Mauler se afastar: Este homem não é mau. Dois homens saem por uma portinhola. por suas vidas miseráveis.. assim como o seu boné. é o lixo do mundo. mas não pudemos parar as máquinas a tempo. Slift e Joana contornam o muro de uma fábrica. ele cairá bem. Ele sai. o quanto antes melhor. que nada têm Além de seus vinte centavos por dia e seu chapéu negro. e mostre a ela Como os pobres são maus e covardes. caiu. Diga “para seus pobres”. em um jornal. enfim. e ele entrou na faca e virou toicinho. e depois a siga. E verás que tua piedade é descabida. SLIFT: Em teu lugar não gostaria. Se quiseres mesmo saber. agora eu vou te mostrar Como eles são maus Essa gente da qual tens piedade. em uma palavra. Sullivan Slift. faz quatro dias.E eu adoraria que não desse certo – Leve-a aos matadouros. O amigo Pedaço-de-Toicinho não precisa mais dele. JOANA — Eu quero vê-los. Estão ocupando inutilmente um cabide no vestiário. se quiser. senhor Smith. (O contramestre volta para a fábrica pela portinhola. Slift e Joana escutam. Mas seu casaco ainda está bom e isso também é uma pena. É preciso queimá-los. Ele veste o casaco.. Aqui estão seu casaco e seu boné: pegue-os e façaos desaparecer. Quando a fábrica reabrir você. este homem será mandado para os quatro cantos do mundo sob a forma de toicinho.) É uma pena. Responsáveis. é claro. Azar. De saber o que queres saber. A Slift: Mal posso suportar a existência de seres Semelhantes a esta moça. Se isso falhar . a um jovem operário – Um de nossos homens. Isso pode funcionar. ficará com a vaga de Luckerniddle. IV O corretor Sullivan Slift mostra à Joana Dark como os pobres são maus: Joana desce às profundezas pela segunda vez BAIRRO DOS MATADOUROS SLIFT: Joana. O JOVEM OPERÁRIO – O senhor pode confiar em mim. vestido com uma lata. Ele ouviu nosso chamado. JOANA. SLIFT. Entrego a você porque sei que é de confiança: se alguém encontrá-los em algum lugar. sobre o qual se lê: “Fábrica de Conservas de Carne Mauler e Cridle”: O nome de Mauler aparece riscado. perderei meu emprego. Semelhantes a bestas. UM CONTRAMESTRE. e enrola o seu. na caldeira. ele te fará ver algumas coisas. dê dinheiro a ela. E que não têm nenhum medo. vacilando: Estou me sentindo mal. é a escória. é pavoroso. peguei para mim. . cheios de traições. É o primeiro que nossos tambores desalojaram Das trevas da vilania.

obrigados a fazê-la. esperando por ele Mas ninguém diz nada. saindo para o trabalho. à cantina número 7. passe-me logo teu cassetete. SLIFT: Senhora Luckerniddle. Já não posso mais trabalhar como antes e só consegui emprego duas vezes desde fevereiro. que fizeram dele? Há quatro dias que estou aqui. Não procure mais saber o que se passou com seu marido e a senhora poderá almoçar. Mas reflita bem. para nós.12 SLIFT: Aí está a vida como ela é. além dele. vou falar com ele. e meu marido não sai da fábrica. senhor. se você não está precisando disso!. Joana e Slift prosseguem seu caminho. O JOVEM OPERÁRIO – Mas senhor. é capaz de o meu quebrar já no primeiro golpe. a Joana – Fique aqui. nós não somos. e vocês não querem que se saiba disso. senhor. Por causa dele deixei minha mão na máquina de cortar chapas. DONA LUCKERNIDDLE: Eu quero que me devolvam meu marido.. gratuitamente. DONA LUCKERNIDDLE: Agora inventam que ele viajou! SLIFT – Deixe-me dizer uma coisa. diga-lhe que procura trabalho. DONA LUCKERNIDDLE está sentada em frente ao portão da fábrica. Esse salafrário se empanturra às nossas custas. Eu estou em uma situação muito ruim. me encontrará na cantina. SLIFT – Estamos dizendo que ele partiu para São Francisco. No ano passado me deixei seduzir pelos vinte centavos a mais que se ganha na fábrica de adubo. ele me dizia: “Espere-me à noite com uma sopa quente!” Desde então não [voltou. em nossa cantina durante três semanas. Tenho a impressão de que você está prestes a cometer um ato impensado. Vamos cuidar para que essa seja a última vez. ao meio-dia. fui trabalhar no moinho de ossos e adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. Verás então o que é essa gente. de qualquer modo. E malditos sejam vocês Se lhe fizeram qualquer coisa! Slift caminha até ela. Slift volta para junto de Joana. de forma alguma. ele não foi para São Francisco.) Onde você conseguiu este casaco e este boné? Estes são os pertences de Luckerniddle. Quando ele se aproximar. se quiser me ver. Eu.. Eu tiro agora mesmo. senhora Luckerniddle. legalmente. Senhora Luckerniddle: ele está viajando e. Amanhã. . Antes eu gostaria de fazer-lhe uma proposição interessante. Mas existem coisas Que importam mais para ela. Você poderá comer e lhe darei um dólar se disser à mulher de Luckerniddle onde conseguiu o casaco e o boné. DONA LUCKERNIDDLE – Quero saber o que aconteceu ao meu marido. (Ele pára o jovem operário. GLOOMB – O feitor está bem ali. Bando de açougueiros. aquele que se acidentou? O JOVEM OPERÁRIO – Por favor. dizendo tolices. Vinte refeições são muita coisa Para aquele que tem fome. JOANA: Ela nunca aceitará. então a senhora não pode aceitar a refeição que a fábrica lhe oferece. Venha. Vamos. Precisará nos processar. Não tenho outro esteio. Eles chegam a uma cantina da usina e vêem diante de uma janela dois homens que olham para o interior. SLIFT. SLIFT – Se é esta a sua opinião. na fábrica. isso não lhe parece muito brutal? SLIFT: Bem. enquanto não o vir. (Ele vai em direção a Gloomb). SLIFT: Guarde essas coisas. lhes digo. DONA LUCKERNIDDLE – Não. É por isso que lhe fazemos uma proposta: note bem que. não diga mais isso. Joana e Slift seguem seu caminho. Aconteceu alguma coisa com ele aí. todo o tempo. pronto para encher a pança. Eu ficarei aqui. lamentando-se: Faz já quatro dias que. é muito desagradável vê-la sentada aí. No frio. seu marido está viajando. mesmo à noite. O JOVEM OPERÁRIO – Pode confiar em mim.

Uma jogada dessas é melhor de se fazer à noite. e lhe daríamos até um trabalho mais fácil e melhor remunerado do que o antigo. O posto não é feito para gente fraca. faremos isso amanhã à noite.. GLOOMB – Você enxerga bem? JOANA – Não. A senhora Luckerniddle está falando com a garçonete. E eis que ela nos precedeu. Eu sou inspetor nesta fábrica. (Ele vai em direção a Joana. Joana procura um prato e leva à senhora Luckerniddle. meu senhor... Disseram-me que não tinha ninguém além dele. Slift cai na gargalhada e arrasta Joana. Tchau. não sabia. JOANA: Ela sentou-se ali. É preciso que ele pague hoje mesmo por esse sistema desumano do qual ele é o feitor. Ela não parece muito forte. Eu imaginava que ela iria resistir. não muito fortes. calculando – Vinte refeições. Ali adiante. Seria vantajoso para você. há uma moça que está procurando trabalho. e então eu teria. SLIFT – Gostaria de propor um meio de tirar-lhe dessa jogada.. justamente porque você contou todas essas histórias a respeito de seus dedos. Naturalmente você precisaria manter os ritmos de trabalho mesmo os dispositivos de segurança não sendo perfeitos. tem que se retirar. e então eu poderia. GLOOMB – Aquela moça ali? . SLIFT – Leve você mesmo a comida a ela. Desde fevereiro estou sem emprego. encontrasse alguém.. DONA LUCKERNIDDLE – Espero uma pessoa que deve vir hoje ou amanhã. temi que amanhã ela viesse. Você se surpreenderá ao ver como o trabalho é agradável.. (Ao seu companheiro:) Pensei melhor. Vai se perguntar como alguém pode contar histórias tão ridículas sobre esta máquina. Adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. JOANA – Quase tenho medo de continuar. pode ser que mude de idéia. GLOOMB – Nada disso é verdade. A maior parte dos trabalhadores a considera muito perigosa. Os movimentos ficam menos firmes e pode-se prender as mãos nas serras. GLOOMB – Posso confiar no que você está me dizendo? SLIFT – Sim. SLIFT – Que pena. JOANA – Não há realmente como me arranjar outro posto? Ouvi dizer que o trabalho nesta máquina era perigoso para quem não resistisse ao trabalho muito pesado. DONA LUCKERNIDDLE – É verdade. JOANA – A senhora já está aqui. No ano passado fui trabalhar na fábrica de adubo. O posto que você ocupava na sua máquina continua vago e isto é muito chato. Não podemos perder esse safado.. depois do que eu iria. Naturalmente seria muito bom se nós encontrássemos alguém para esse posto. Talvez a vaga deste contramestre. estaríamos dispostos a reempregá-lo imediatamente. GLOOMB . E é um trabalho que pode ser feito mesmo por pessoas como você.. desde hoje? DONA LUCKERNIDDLE – Não como nada há dois dias.) Você está procurando trabalho? JOANA – Sim. Ela correu até aqui e já nos espera. no moinho de ossos. Apesar de tudo. GLOOMB – Rápido então. Se você.13 – Não tenho tempo. JOANA – Mas a senhora nem sabia que nós viríamos hoje. DONA LUCKERNIDDLE. por exemplo. por acaso. O que há para comer hoje? A GARÇONETE – Ervilhas. DONA LUCKERNIDDLE – Sim. Ela senta-se em uma mesa. A GARÇONETE – Se a senhora não for comer. JOANA – Vindo para cá ouvi dizer que aconteceu alguma coisa com o seu marido e que a fábrica é responsável.. já faz dois dias que eu não como nada. É um bom posto? GLOOMB – É um ótimo posto.. DONA LUCKERNIDDLE – O que? Vocês pensaram melhor e estão retirando a oferta? Então eu não terei mais as minhas vinte refeições? JOANA – Me pareceu que a senhora se dava bem com seu marido. O que mais verei? Eles entram na cantina.

Fatias de toicinho Cridle-Mauler! Carne de filé Graham. ao lado daquela mulher. Joana? A imoralidade dela não tem limites! JOANA: E tu. Você a viu. saindo.14 – A senhora não quer esperar até amanhã? Se a senhora desistir de procurar o seu marido. (Dona Luckerniddle permanece em silêncio) Não pegue. Ele foi obrigado a vender sua cólera. Você só precisa perguntar a esse senhor. tu me dizes? Sua pobreza também é incomensurável. mas não em uma loja. eu volto. Mas vinte refeições. a imoralidade deles? Ela teria. Ela se levanta e sai. os sofrimentos que suportam Esses pobres sem moralidade. estamos vendendo carne! Compradores. ao garçom – Deixe meu prato. DONA LUCKERNIDDLE. Eu virei todos os dias. a vossos olhos contradiga Esta depravação que injustamente se lhes imputa. Continuar fiel à memória de seu marido. SLIFT – Durante três semanas ela virá. e que já apodrece. verdadeira manteiga! Banha fresca do Kentucky! OS COMPRADORES: OS FABRICANTES DE CONSERVAS . SLIFT – E onde você comprou? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. como manda o costume. E este jovem – em quem botaria fé Qualquer malandro -. e comerá sem levantar os olhos do prato. e por mais justa que fosse. preferido. V Joana apresenta os pobres à Bolsa de Carnes A BOLSA DE CARNES : Nós todos. O que tu me mostraste Não é a imoralidade Dos pobres: é a pobreza deles. (O jovem operário o esconde) De onde ele vem? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. Um certo tempo ainda. ninguém mais perguntará o que foi feito dele. posso comer aqui? SLIFT – Você só precisa sentar-se ali. esta mulher. Dona Luckerniddle arranca o prato das mãos dela e começa a comer avidamente. com que habilidade torna-te mestre dela! Esta imoralidade. SLIFT – E onde você conseguiu. Tão cara a ele. Atrás dele:) Você tem um belo boné. JOANA E procurar por ele. Mostrar-te-ei. como muitas. O JOVEM OPERÁRIO – Bom dia. A senhora Luckerniddle sente náuseas. (Ele senta-se. o preço era muito alto. então? O JOVEM OPERÁRIO – De um homem que caiu dentro de uma caldeira. eu. como um animal. acreditas que ele teria mostrado À mulher do morto a roupa que usava Se tivesse tido a chance de escolher? O maneta. como vós a explorais! Não vês que nem teto eles têm. para colocar Ao abrigo da chuva. Mercadoria invendável. DONA LUCKERNIDDLE – Ele foi para São Francisco. JOANA: Porões e armazéns abarrotados de carne. comprem nossas latas! Carne fresca e suculenta. Sua imoralidade é sem limites. Ela sai. Pois não há mais compradores! Do fundo do palco chega o jovem operário com seu casaco e seu boné. certamente teria me prevenido Não fosse o preço a pagar por seu pequeno escrúpulo. Era seu único esteio. Desejas mostrar-me a sua imoralidade. Que sua miséria.

Temos diante de nós montanhas de latas. cozinhas e lojas Estão cheios até as bordas. Engolindo nosso ouro junto com nosso grão. MAULER: E mesmo a faca os recusa. OS COMPRADORES: Nós compradores. compradores. dia e noite nossas máquinas Ligadas no máximo: salgadeiras. Esperando até ninguém poder Mexer nem o mindinho! E eu. comprem nossas latas! OS COMPRADORES: E sobre as montanhas fez-se um grande silêncio E as cozinhas dos hotéis escondem a face E as lojas se desviam com horror Os atacadistas mudam de cor.15 E sobre as águas fez-se um grande silêncio De todos os compradores. o que te escrevem? MAULER: Teorias. SLIFT: Eu riria se. A nós. O estômago do país. A dar-se-lhes ouvidos Seria necessário agora deitar por terra Todo o cartel da carne E deixá-lo estagnado durante muitas semanas. Nós não compramos mais nada! OS FABRICANTES: E nós. a visão da carne enlatada Causa náuseas. Quem comprará agora nosso gado? Os estábulos estão cheios De porcos e bois devoradores de milho Que eles devoram ainda nos trens que os transportam. compradores. quase de graça. Aproveitem então. Mas ninguém quer comprar carne enlatada. Nós iríamos perder o bonde! MAULER: E quando isso ocorresse! Terias a imprudência De tirar tua parte de tamanha miséria. Saturado de carne em conserva. caldeirões Convertem sem parar em latas de conserva As manadas mugidouras que pastam nos prados. . O que provocaria um movimento de alta. verdadeira manteiga. ao trabalho de nossos [engenheiros. Nas estações e nos pátios. em Nova Iorque. Quando todos te seguem com olhos de lince Para ver o que fazes? Eu não teria cara. SLIFT: E teus amigos de Nova Iorque. A morte Despreza esse gado e fecha-lhe a porta. Não a agüenta mais. E abrissem assim o Sul aos nossos produtos. nenhum tinha dinheiro. eles conseguissem Fazer cair de uma vez as taxas de importação. E da banha de Kentucky. Nós queremos vender a carne em conserva E ninguém a quer! E todos os nossos clientes. Comprem. com nossos matadouros? Nossas fábricas estão cheias de bois. Eu teria sobre as costas toda a carne! Idiotas. Frigoríficos entupidos de carne congelada. os criadores. Nós estamos perdidos! OS CRIADORES: E nós. cubas. OS FABRICANTES: Graças aos avanços da técnica. Clamamos aos berros por um consumidor que não existe. fabricantes. E graças aos perspicazes planos dos industriais da carne Nós conseguimos reduzir em um terço O preço do toicinho Cridle-Mauler. Do filé Graham.

Tumulto entre os fabricantes. então! OS FABRICANTES – a Mauler: Corre o boato que teu capital.investindo contra Mauler que lê o jornal: Traidor. Ele queria me vender a sua parte. nem que fosse por mais uma hora. OS FABRICANTES: Quando ages assim com Cridle. quem de vocês continuaria a me levar a sério nos negócios? Ora. todo teu estoque. tu o retiras Do negócio e Cridle. MAULER: E por que matastes tanto gado? Açougueiros alucinados sois vós! Agora. Tu te desfazes de tuas ações? UM CORRETOR: A cento e quinze! OS FABRICANTES: Ficaste louco? Tua morte. Cala-se e aponta para o dedo para ti. Ele poderia exigir seu dinheiro quando quisesse. eu quero o meu dinheiro. Hoje os papéis de Mauler não valem mais dez. é que me levem a sério. MAULER: Açougueiros insolentes é o que sois! O animal torturado parou de mugir. de toda a maneira. que já se arrasta. antigamente Mauler. a preço vil. nesta conjuntura. E exiges dele o pagamento sem demora. e ficando com as outras. Voltai para casa. Para acabar com Lennox. OS FABRICANTES Essa gente não faz as coisas pela metade. . CRIDLE – dirigindo-se aos que o cercam:. ave de agouro. Mauler! Fala.16 . que estavam valorizadas. estava acordado.Há quatro semanas apenas eu assinei um contrato com Mauler. já vinham caindo. Cridle. ao invés de trinta. por dez milhões de dólares. provoca muitas outras! Lixo! Assassino! CRIDLE . Eu me propunha pagar-lhe vendendo uma parte das ações dele mesmo. Falai que um dentre os vossos Não pode mais suportar o grito dos bois morrendo E aos mugidos deles. Cridle? Levanta os olhos. MAULER – O próprio Cridle me confessou que está insolvente: se eu deixasse meu dinheiro com ele. Carrega em sua queda as cotações de todo o cartel!. Quero apenas meu dinheiro e a paz de minh’alma UM CORRETOR – urrando. nós somos os peixes! O que querem arruinar. Mas somos atingidos pelo que lhe acontece. que se lançam sobre Cridle. ao fundo. mas um outro Quem joga a rede. Pois tu liquidaste. OS FABRICANTES: O que significa isso. Foste tu mesmo quem provocou o marasmo! Nossas latas agora não saem mais caro Que a areia dos mares. Desde aquele dia. Veio a baixa. e o conjunto das fábricas vale dez. E vós soluçais nas saias de vossas mães. preferiu o vosso. olha para nós! Assim. é o cartel da carne. antes de qualquer coisa. eu acabo de saber.. Cridle. na entrada da bolsa: Queda gigantesca das cotações na Bolsa! Venda maciça de ações. que conspurca nosso ninho! Nós sabemos bem quem fez os preços caírem sem cessar Vendendo gado por baixo do pano. Não é de hoje que fazes tais manobras. mas três milhões. Isso representava um terço do total das ações. o que desejo.. É bom que ele seja nosso adversário. ele vem realizando secretamente vultosas vendas de gado a preços baixos e provocou a queda das cotações que. pálido como algodão.apontando para Mauler: Falem com ele! CRAHAM – colocando-se diante de Cridle: Não é Cridle. Esses dez milhões são exatamente a soma que devo a Mauler – e ele a exige em vinte e quatro horas.

Com o único objetivo de ajudar o próximo. nós estamos perdidos! JOANA – Onde está Mauler? MAULER: Slift. ele retira o seu dinheiro! OS FABRICANTES: Oitenta mil latas a cinqüenta. . Uma mulher nos faz sinais de aflição. E nós dizemos: é preciso ir sempre adiante. Mauler.17 Mesmo que tivésseis todos que mendigar. escutem bem! Um homem afunda sob os nossos olhos! Escutamos lá no fundo seu apelo por salvação. suja de sangue? Joana e Marta avançam e cantam o seu hino de guerra.Pierpoint Mauler! Onde está Mauler? MAULER: O que é esse barulho de tambores que de súbito me envolve? E quem chama pelo meu nome Nesse lugar. seja quem for! Levantai o nariz de vosso prato. Parem os carros. JOANA .Nenhuma sequer! OS FABRICANTES – Então. acompanhada de exclamações. os aviões Para conquistar o pão dos pobres. E ninguém se preocupa. Meu chapéu. Não falemos mais de negócios. OS CRIADORES: Lennox já caiu! E Cridle balança! E Mauler. Nesse mundo sempre reinará a injustiça. Ouvem-se os tambores dos Chapéus Negros e a voz de Joana. com nossos bois Que hoje ninguém mais quer. Os que nos escutam. Ei. Estimularam-nos a criar bois. E. Pois os bons nesse mundo Não formam um grande exército. Não esperem o amanhã! Cada um deve nos ajudar. Eu quero meu dinheiro. fiquem diante de mim. Durante esse período a batalha na bolsa continua. mas rápido! OS COMPRADORES . Ei-nos aqui. Avante! Ao assalto! Empunhem os fuzis! Diante de nossos olhos os homens naufragam. És tu. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Escutem todos. Graham. Mauler. Fazer avançar os tanques e os canhões. Eu não quero que me vejam aqui. Lançar ao mar os navios de guerra E nos ares. pois tenho outros projetos. para comer? Pensai convosco mesmo: sempre será assim. meu chapéu. E ninguém se preocupa Não tendes. olhos para ver? Ele é vosso irmão. Meyers. seu cão. então. onde cada um revela Sua boca desnuda. não saia! Graham. OS FABRICANTES: Oitenta e sete mil latas pela metade do preço. detenham todo o tráfego Em torno de vós os seres naufragam. mas rápido! OS COMPRADORES . o responsável Por esta catástrofe. Haveis então esquecido Os que esperam diante da porta E que esperam. Uma explosão de gargalhadas toma a frente da cena. OS CRIADORES: Impossível vender um boi em Chicago.Nenhuma sequer! Silêncio. com isso. cem dólares pelo meu chapéu. pois preciso partir. MAULER: Por hoje basta. Para Illinois esse dia é um desastre! Vocês fizeram os preços subirem.

Inverno e verão nós dependemos do tempo: nós também estamos mais próximos do Deus de nossos pais do que os senhores. que os pobres não têm muita moral. o salário. destinos inelutáveis. JOANA – Mas os senhores. gritando: Por vossa especulação desenfreada. CRIDLE OS CRIADORES: Como? Somos asfixiados e ninguém pode fazer nada? A causa de nossos males é a imoralidade De vossas armações escusas. avancem à luz do dia. Se os senhores continuarem tergiversando. Reparem então nestas gentes. e escute o que eu tenho a lhe dizer. que fazem subir o preço do pão e que fazem da vida um inferno onde os homens viram demônios. E os senhores. Causais vossa própria queda! Bando de imbecis! OS FABRICANTES. como não seriam os valores mais elevados esmagados em seu coração? Sempre ouço dizer. Aumentem-no. Traçam essas desconhecidas. Não tenham vergonha. replicando: Imbecis são vocês! Ninguém pode nada contra as crises! Bem acima de nós. que se dobram sob o fardo de suas penas. Risos OS CRIADORES – Nós criadores não encontramos nestas palavras motivo para o riso. tanto hoje quanto no dia do juízo final. JOANA. Vossa imunda cobiça. pobres e deploráveis imbecis. todo-poderosos. Já me disseram o que os senhores fazem: manobras. ao fundo – Pierpoint Mauler passou mal. seus mugidos serão testemunhos. gritando – Afastem-nos! Ele desmaia. Silêncio! Não lhes agrada muito. como fazem em seus jornais. existe também um poder de compra moral: o dinheiro. imaginando que não virão à tona suas manobras. os senhores se enganaram. que sentam nesse palácio. engodos e combinações para aumentar o preço da carne. Senhores. JOANA – E qual a causa desta imoralidade no mundo? Poderia ser diferente? Se cada um é obrigado a rachar com um machado a cabeça de seu próximo para fazê-lo ceder seu pequeno pedaço de presunto e sua migalha de pão. eu bem sei. as leis econômicas. Nos baixios. OS CRIADORES. nesses lugares sombrios e secretos onde os senhores tratam de seu comércio. tereis a moralidade. os Chapéus Negros. buscando desculpas. vocês. eles que nada têm? Senhores.18 – Maldito sejas! Cridle sai. Cujo ciclo pavoroso sempre recomeça. a quem os senhores transformaram no que são. e diante de Deus TodoPoderoso. em tom de reprovação Aqui estamos com nossos bois Que hoje em dia ninguém quer. Se continuarem a agir assim. Mas se os senhores acreditaram que seus procedimentos permaneceriam ignorados. e é verdade. em conseqüência. a Revolução. nas favelas. Mas então eu lhes pergunto: de onde tirariam eles alguma moralidade. UMA VOZ. ver surgir a nós. e a quem não querem reconhecer como irmãos. MAULER. atrás de mauler – Fique senhor Mauler. JOANA – Um homem de negócios também pode ser um bandido – dependendo do ponto de vista. então em suas costas os bois começarão a mugir contra os senhores. são todos uns imbecis. acabarão tendo de comer sozinhos a carne que produzem. Joana mostra aos negociantes os pobres (Luckerniddle e Gloomb) que ela trouxe. Mas nós lhes dissemos que é um imbecil. aí pelo mundo. nada querem saber da miséria que existe fora deste recinto. pois os que estão lá fora já não têm como comprar. é lá que mora a imoralidade no estado puro e. COMPRADOR. As crises são catástrofes naturais. OS FABRICANTES: Água para Pierpoint Mauler! . OS POBRES – Ele é o responsável por tudo! Os fabricantes de conservas correm para socorrer Mauler. nada além disso.

aí em cima. E lá. gritando em um megafone – Pierpoint Mauler reanima o mercado da carne. OS FABRICANTES – Quem? Os Chapéus Negros? Quer que eles saiam? MAULER – Não. deitado no chão – Eu compro. Aos pobres: Segunda-feira vocês terão novamente trabalho. nós nunca tínhamos visto. CRAHAM – A cinqüenta? MAULER – A cinqüenta! CRAHAM: Ele comprou tudo! Vocês ouviram: Comprou tudo! CORRETOR. levantando-lhe a cabeça – E os estoques? MAULER. Eu vos mostro agora a pobreza dos pobres. MAULER: Afastem-nos. Invisíveis para vós. voltando a si – Eles ainda estão aí? Eu suplico que os afastem. e reduzi-los À voracidade. vós me mostrastes a imoralidade deles. levai-o agora. ao instinto animal. para eles inacessíveis. estão tão enfraquecidos. cantemos: “Nunca faltará o pão. CRAHAM: Então! Não podes vê-los? No entanto foste tu. No seio de Deus não há frio. meus amigos. assume compromisso sobre a produção de dois meses. antes de partirmos. .” OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Nunca faltará o pão Ao que dedica a Deus sua alma. tudo o que em oito semanas conseguirdes [fabricar. nós conhecemos. o que fazeis? Vós me ordenastes não dizer uma palavra. E vós. MAULER – Agora. Eles o levantam. Torna-se comprador. a contar de hoje. ao preço do dia. OS FABRICANTES – Ele comprou! Mauler comprou! MAULER – Ao preço do dia! CRAHAM. Compro. MAULER. JOANA: É isso. Mauler. Nem mesmo do boi que esmaga espigas com seu casco! Em todo o caso.. eu. JOANA – E agora. Tu quem os reduziu à tamanha miséria. Mas os dois que estavam ao lado dele. Que viver assim pode mesmo afastá-los Da necessidade de um ideal. eles não. ao fundo. então Para querer fechar a boca do Bom Deus? Não se deve calar a boca de ninguém. em 15 de novembro. como eles sim. afastados dos bens indispensáveis. também ao preço de cinqüenta. de todos os estoques do cartel. Mas quem sois vós. O cartel entregará a Pierpoint Mauler. Além disso. Nós. eu compro! Escutai todos: Pierpoint Mauler compra! Que estas gentes tenham trabalho e que se afastem.19 Um médico para Mauler! JOANA: Mauler. A tal ponto dependentes de alguma comida E de um pouco de calor. OS POBRES – Gente como essa. eu vou falar. SLIFT – Ele não abrirá os olhos enquanto não os fizerem sair. Eles parecem bem piores. Os que estão atrás. Quem em seu seio habita Jamais será infeliz. pelo menos cinqüenta mil toneladas de conservas. levantai-me. por favor. cumprimos nosso trabalho de [missionários. qual burros de carga. que mantendes longe de vós.. e por vós mantidos Nesta pobreza. Eles. E não basta que cerres as pálpebras Para que eles desapareçam. E fome nunca se passa. vos rogo.

dentro da casa. entrada gratuita. Música a partir das 3 horas. SLIFT. Mauler. PEQUENO IMÓVEL COM DUAS SAÍDAS MAULER. OS FABRICANTES: Podem guardar sua carniça podre! Não estamos interessados em comprar. Podem esquecer seu nome. aqueles que o recebem. Se estiverem muito necessitados. Os fabricantes de conserva saem. a sabedoria triunfa. Não o deixaremos descansar Enquanto um homem precisar de ajuda. Sábia decisão. O homem que o assinou não estava em seu juízo. não é. E vocês precisam dela. os operários entrarão. Pois ele pode vir em auxílio. Nós estamos sob uma miséria atroz. às duas horas. Ele cumpre. ao criador: O que Mauler promete. sabiamente acatada. liga as luzes e agora repara em mim. na Rua Lincoln. Muitos criadores se transtornaram. Contra a desrazão. Nesse momento o mercado recobra a saúde. nenhum. pois nós também. Escutem: saímos. dirigindo-se à Joana Aquilo que disseste e tua intervenção Causou-nos forte impressão. Slift. Pois o contrato que acabam de ver firmado É apenas um pedaço de papel. VI A Captura dos grilos NA CIDADE CASA DO CORRETOR SULLIVAN SLIFT. JOANA – Todos aqueles que se interessam realmente pela palavra de Deus e que querem saber o que ele diz e não apenas a cotação da Bolsa podem vir domingo à tarde assistir nosso ofício. enfim do ponto morto! Confiança e concórdia estavam fortemente abaladas. e diga se realmente todos podem ler em meu rosto? SLIFT – Ler o quê? MAULER – Ora! A minha profissão! SLIFT – Teu ofício de açougueiro? Diga-me. ele não encontrará Um centavo. Que carecem tanto uns como os outros? CRIADOR. O estômago do país. Venham comigo procurá-lo Para que ele os tire do embaraço. Agora os senhores podem respirar. Joana e os Chapéus Negros saem. É preciso. OS CRIADORES: Agora os preços subirão. Os patrões vão reabrir. açougueiros infames! Enquanto vocês não dobrarem o preço do gado Não entregaremos um só grama de carne. seguidos dos criadores. Aqueles que dão o pão. de São Francisco a Nova Iorque. cutucá-lo. As fábricas reabrem e as chaminés fumegam! Pois efetivamente é de trabalho. por que te impressionas com os discursos dela? MAULER: .20 OS COMPRADORES: Este homem está ruim da cabeça. JOANA: Saibam todos: estou de olhos em Mauler. Recusa-se a engolir mais. Sua consciência já despertou. então. saturado de conservas. Para tal negócio. E ele faz meter carne em latas Que ninguém comprará. discute com Slift – Fecha a porta.

Então creio sentir Como um peixe aprisionado entre duas águas Pauladas na espinha. no entanto. Ele se afasta e começa a grelhar um bife no fogão. que mais não vi. pois desde essa manhã tu nada tens a ver com a morte dos bois.. Fórmulas tomadas ao coração. não é? SLIFT – Come. É sua antiga fraqueza que retorna. A urrar de aflição. . de onde se eleva uma cólera Que nos varrerá a todos. vender e lutar sem parar. lançar-nos-ão Ao chão como um peixe podre. então? MAULER: O que vive abaixo e não acima De mim! Esses seres reunidos nos matadouros. Seremos colados ao muro. Não. Nós e nossa corja. E dezoito horas por dia. mas permita que eu te exponha simplesmente a situação. SLIFT – O discurso deles te perturbou. Que não sabem como passarão a noite mas. E pense em tua situação: ela não é muito boa. Eu deveria podê-lo de novo. eles são muito numerosos. Não há mais consolo. Esquecer todo o resto. qual onda. Certamente porque essa gente trabalha a troco de nada..21 O que ela disse? Eu não ouvi nada. MAULER: Sempre me pergunto por que essas tolices me afetam: Discursos plenos de utopias. É outra coisa. Tagarelice vazia e fácil. (À parte:) Farei com que ele coma um filé muito mal passado. talvez. meu caro Slift. Slift. MAULER: Tu crês que eu deveria? Eu poderia. retorna. Por trás havia rostos selvagens. Para estes que caem em nossos porões sangrentos. MAULER: Mas que dizem eles? Essas cidades São um braseiro jamais extinto Onde. Sabias que tu compraste hoje tudo aquilo que pode ser colocado dentro de uma lata de alumínio? Meu caro Mauler. SLIFT – Não queres comer um pouco de carne.. SLIFT: Em cidades como as nossas. Sob a chuva e de barriga vazia. Máscaras da aflição. SLIFT – E o que é. Não conheceremos a morte em nossas camas. vejo-te mergulhado na contemplação de teu ser grandioso. Seu número aumenta a cada dia. Para limpar esse mundo. Talvez depois de comer carne crua ele retome seus instintos. a humanidade.. Tão forte. Há sempre boquirrotos que acham Que as coisas não andam como deveriam. Nós que aqui estamos. Esfolarmos uns aos outros friamente. Tudo isso são ainda meras desculpas O que temo não é Deus. Levantar-se-ão com a aurora e por-se-ão em marcha. por mais louca que seja. urrando.. E quando da onda emana uma voz Que nada tem de bestial. um após o outro. por mais externa e sem importância que ela seja. Agora. irei confessar-te Minha verdadeira opinião sobre nossos negócios: Comprar.. Se nos apanharem um dia. Onde o fogo arde embaixo Enquanto congela-se em cima. Isso não pode mais perdurar. caro Pierpoint? Pense que agora podes fazê-lo sem peso na consciência.

. de resto. SLIFT – E o que escreveram. qual Atlas. Realmente eu não vejo sentido nesta carta. Sim. sob os arcos de alguma ponte. Ah. na melhor hipótese. sim! Eu comprei carne. eu estou perdido! Esse é o meu fim. mas Y o surpreende. SLIFT – E tu compraste! MAULER: Oh. Cairei. votarão contra as tarifas aduaneiras. o Cartel te entregará mais cinqüenta mil toneladas a cinqüenta. Os preços baixarão novamente. Aqui está: “Caro Pierpoint. Ou desencadear guerras. escapando bem. safa-se. Estão erradas. Não é qualquer um que pode. Tu as compraste a cinqüenta mas. eu estou perdido. mais notícias. acredito. Facilmente nascem guerras À custa de tais atitudes. então? Mauler sorri. Ah! Meu caro Slift. Eu fui vê-los cair. Receberás. Mas ainda há a carne Que no mercado liquidarão cem criadores Muito ávidos. Nas semanas vindouras. eu tenho a impressão De que nada de bom sairá daí. ou a vinte e cinco. Corromper ou abolir as tarifas. teus amigos de Nova Iorque? MAULER – Que eu devo comprar carne. O ladrão está perdido. comprar carne. Ainda pela manhã. Escuta: X comete um roubo. eu me escutei dizer: “Eu compro tudo”.“Estamos em condições. muitos de meus concorrentes balançavam.. Mas não foi por causa da carta. Essas pessoas são gente de bem? MAULER – É gente com liquidez. MAULER: Tu compreenderás. deverás escoá-lo em um mercado que já não consegue absorver uma única lata. eu não agi por razões vis. É coisa que também não se deveria fazer. esmagado. dizer-lhes Que ninguém era louco o suficiente Para comprar carne em conserva. indicado. Milhares de homens sangram Por causa deste imundo dinheiro. E uma vez lá. eu comprei! O que eu fiz! Coloquei sobre minhas costas toda a carne desse mundo! Trôpego. SLIFT – Tu deves fazer o que? MAULER – Comprar carne. de anunciar-te que nosso dinheiro começa a render seus frutos: muitos são aqueles que. então. os preços cairão a trinta. SLIFT: Tudo depende de quem escreve a carta.” SLIFT. amanhã. os preços Subam? E nós acabaríamos. Em quinze de novembro. SLIFT – Quem são. caro Pierpoint. Na carta que recebi de Nova Iorque essa manhã. MAULER: Oh! Slift. eu te juro. Slift. Não. rir-me deles. eles me escrevem para comprar. . Parece.. continuando a leitura . é verdade. assim. Sob o fardo de toneladas de latas de alumínio. a não ser que golpeie Y Se ele golpear. eu comprei. Essa seria uma saída. Então pode ser que. essas teorias de gabinete. Mas esta mulher comoveu-me a tal ponto Que mal lancei os olhos.22 Primeiro compraste ao Cartel um estoque de vinte mil toneladas de conservas. quando os preços estiverem em trinta. na Câmara.. hoje. MAULER: Corromper assim. apesar de tudo. SLIFT – E por que reclamas de ter comprado? MAULER – Sim.

como quem captura um grilo. para o outro lado. àquela gente que está com ela. Devo comprar ainda todo o gado de Sírius? É como se alguém viesse dizer a Atlas Que não mais agüenta. SLIFT Tu que não querias mais comprar um chapéu.) Saia. aos criadores – Pierpoint Mauler está examinando vosso pedido. e diga-lhes que quero refletir dois minutos. E nós somos. Pois. eu não quero meter o dedo neste negócio. e tudo o que cheire à banha eu compro também. não sairemos daqui! MAULER – Tu dizes Graham? É verdade que ele precisa de gado? Saia. quero paz em minh’alma. Ele não gosta muito de me ver. Slift.) Slift. Também trouxe alguns trabalhadores que adorariam perguntar-lhe quando o senhor reabrirá a sua fábrica. de seus delitos. grandes lucros! É verdade que o ganho seria apreciável.. Feliz se. SLIFT – Qual crime? MAULER: Um crime que eu não poderia cometer. Quem me comprará. Quando ele me ouvir cantar aqui. MAULER – A outra saída onde é. dobrando-se sob o peso da terra: Saturno também precisa de apoio. mais de dez mil criadores que não sabem mais a qual santo rezar. eu não comprarei! Eu que já carrego toda a carne desse mundo. tiver cem dólares no bolso. JOANA. é preciso que eu lhe fale da miséria dos criadores de Illinois. de perto ou de longe. Toda a carne posta em conserva até hoje. não foi bom. Os enganados serão os criadores. Senhor Mauler. minha decisão está tomada. A operação é simples: seria preciso comprar Todo o gado que se encontrasse em pé. eu vou comprar. Agora. que precisa bastante. nem chapéu nem sapatos. Nem a mim nem aos que me acompanham. todo esse gado? SLIFT – Vejo apenas Graham. E comprar-lhes tudo. Slift. SLIFT – Não deverias ter comprado. Slift? Não quero reencontrá-la e. ele se dirige à porta da direita. sobretudo. Antes de ter saído dessa. Slift sai. diante da porta da direita – Sai. Vais comprar todo o gado de Illinois. Que eles tirem. (Ela ri. depois. tentará sair pela outra porta. (Ele calcula. Eu não compro mais nada. no fim. SLIFT. Persuadir os criadores da oferta excessiva. Traga-me até a menor mancha de gordura. . MAULER: É verdade. Mas então. Retumbar de tambores. Ele pede-vos dois minutos de reflexão. para evitar me encontrar. eu compro. SLIFT – Por aqui. com um porco ou com um boi. Slift. das fábricas paradas. E por agora também não penso em reabrir a fábrica. Mauler. a cinqüenta.. diante da porta da esquerda – Enquanto os criadores não forem ajudados. Não. eu estou comprando e compro ao preço do dia. a partir de hoje. Slift volta. Ele desenha um “A” na porta de um armário. Vão para lá. (Os criadores colocam-se diante da porta da direita. Joana diante da porta da esquerda. é verdade. Joana entra acompanhada dos criadores. então. JOANA – Nós o faremos sair de sua toca. Compra então o nosso gado! MAULER: Fecha a porta. Tu és o responsável por nossa desgraça. em todo o Illinois. MAULER – Eu não compro. Lembrá-los de Lennox. Pierpoint! MAULER: Ah! É verdade.). OS CRIADORES.23 Da mesma maneira a carta – que está errada – Requer – para acertar – um crime desta ordem. Isto é o principal: Sumir com o gado. Slift tragame tudo o que se pareça. Slift. No interior da casa. Eu fiz “A”.

Infelizmente. frente a Deus. . Eles não têm pão. uma avareza completamente inexplicável. tão errado quanto “A”. mas por enquanto não se preocupem. sábado próximo. Mas Deus todo poderoso Achará os meios de alimentá-los! BISPA SNYDER. Pierpoint Mauler resolveu comprar todo o gado que se encontrar no mercado. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Recolham cantando Os trocados dos órfãos E os trocados das viúvas. E eis que “A” e “B” tomados juntos. DONA MULBERRY – E meu aluguel. (Os Chapéus Negros saem. Eles não têm teto. Alguém se equivoca: “A” é um erro. Ela sai. e. pelo que acaba de fazer. não é preciso que as vendas sejam feitas em seu nome. sai e se dirige aos criadores – Para salvar Illinois e impedir a ruína dos fazendeiros e criadores. O dinheiro nos permitirá também pagar à nossa querida proprietária. que são gente de bem. não se esqueçam de varrer a escada. proprietária do imóvel. Trabalham duro e vestem-se decentemente. os dispensados esperam ainda pacientemente na porta dos matadouros ou já começam a dar discursos revolucionários? DONA LUCKERNIDDLE – Desde ontem gritam bastante. JOANA. caros ouvintes! Para resolver o delicado problema do financiamento nós até agora apelamos aos pobres e aos mais pobres. acabamos constatando que esses segmentos demonstraram. BISPA SNYDER – Agora. o que foi feito dele? BISPA SNYDER – Meus caros Chapéus Negros. Que dão medo de olhar. BISPA SNYDER – Não se aproximem muito da caixa! Ele fez sinal para que eles recuem até o fundo. ao fundo. convidar em vosso nome as pessoas ricas e bem colocadas de Chicago. em nome de Deus. grita a eles – Digam ao senhor Mauler que os Chapéus Negros lhe agradecem. Faça entrar os fazendeiros. entre os quais dona Luckerniddle e Gloomb:) Vocês de novo? Vocês passam a vida aqui? O trabalho voltou nos matadouros! DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. Entra dona Mulberry. minha cara dona Mulberry. os Chapéus Negros esvaziam suas latas de ferro e contam ao óbolos das viúvas e dos órfãos. (Aos operários:) Quando os que compram gado e os que o vendem se acertarem. VII Os mercadores são expulsos do templo TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS Sentados em uma longa mesa. GLOOMB – No começo falaram em reabri-los. SLIFT. OS CRIADORES – Viva Pierpoint Mauler. para vocês também haverá pão novamente. o aluguel que ela tão gentilmente tem adiado. DONA MULBERRY – O que me agradaria muito. Suas misérias são grandes. Assim eu decidi. Mas seu nome não deve ser mencionado. salvador do comércio! Eles entram na casa. um grande golpe no ateísmo e no materialismo que reinam nesta cidade. Aos pobres:) Digam-me. sobretudo nas camadas inferiores da população. Talvez isso tenha a ver com o fato de que eles não possuem nada.24 Dominado por seus sentimentos. Eles não são como os outros. Em seguida comete “B”. que cada um volte alegremente às suas funções. dona Mulberry. mas não fizeram nada. que eles nos ajudem a desferir. dão certo. Comandante dos Chapéus Negros. GLOOMB – Muitos já dizem que se não empregarem a violência não haverá trabalho para todos tão cedo. pois eles sabem que as fábricas receberam encomendas. se levantando – Que mixaria! Que mixaria! (Dirigindo-se a alguns pobres. sobretudo.

OS FABRICANTES – Por que falar em pagamento? BISPA SNYDER – O pagamento do qual falamos é feito após a morte. Slift? (Slift simula um ar astucioso e exagera na mímica do ato de dar dinheiro). Graham. Deus é testemunha. sem dúvida? SLIFT – Sem dúvida. não gosto disso. os Chapéus Negros. BISPA SNYDER – Podemos dar um jeito com setecentos e cinqüenta. precisamos do gado. mas que ela é provocada por aqueles que dela tiram vantagem. portanto. BISPA SNYDER. precisamos de sopa quente e música animada. a Snyder – Quinhentos dólares? Isto é muito dinheiro! Quem vai pagar? SLIFT – Ah. portanto. MEYERS – Setecentos e cinqüenta. bispa. MEYERS – O que não será fácil. GRAHAM – Confesse. sem que ninguém saiba como. Slift. confesse Slift. que eles estão destinados ao sofrimento. Meyers. menos Snyder. estão acima da querela.. MEYERS – Eu me pergunto. (Aos pobres:) Vocês não poderiam ao menos cortar lenha para nós? OS POBRES – Não há mais lenha.25 – Isso nos é favorável. Bispa Snyder! Todos riem. não enrole. Senhor Slift. (Aos outros) Eles carecem desta quantia. Porque já começam a dizer por todos os lados que a desgraça não cai do céu como a chuva. e vá dizer ao Pepê Que afrouxe o laço. Entram os fabricantes de conservas: Cridle. diremos a eles que a desgraça vem como a chuva. SLIFT – Quem poderia ser? GRAHAM. MEYERS. Graham.. Slift! MEYERS. mais então. SLIFT. tomar as fábricas em nossas mãos para que todos possam trabalhar e comer. BISPA SNYDER MEYERS Há um cretino que razia o gado E que sabe bem que estamos comprometidos A entregar carne enlatada E que. recompensados por suas penas. É nosso nervo vital! SLIFT. MEYERS. E já citam vossos nomes. sim! Vocês agora terão que achar alguém que faça a doação. a Meyers – Essa senhora não tem senso de humor.. Nós também prometeremos a eles que os ricos serão punidos. novo soco – Que tu achas que eles querem. minha cara. E que alguns entre eles começam a resmungar e a dizer: devemos nós mesmos cuidar do negócio. então. a Snyder – O que querem de nós? GRAHAM.. GRAHAM. na frente do palco – Então.. GRAHAM – Até tu? E Mauler também. ouvimos dizer que há nos matadouros cinqüenta mil pessoas sem trabalho. OS FABRICANTES – E quanto querem pelo serviço? BISPA SNYDER – Oitocentos dólares por mês. . a Snyder – Desembuche! Eles se sentam no banco dos fiéis. dando-lhe um soco na boca do estômago: Velho cão imundo! Vamos. é saber de que lado vocês estão! Desse lado da barricada ou do outro? BISPA SNYDER – Os Chapéus Negros. a Snyder – Todos pobretões. mas que serão. Na mosca. no púlpito – Nós. são vocês que estão com o gado. SLIFT – O essencial. Se vierem para cá tocados a pedradas. vocês certamente precisam. Que tal. afirmando que sois vós os responsáveis pelo desemprego! Em breve eles dirão: queremos fazer como os bolcheviques. os Chapéus Negros.. (Os fabricantes de conserva caem na gargalhada) E tudo isso por apenas oitocentos dólares por mês! GRAHAM – Não precisas de tanto. SLIFT – Mauler e eu não compramos um centavo sequer de gado. senhora bispa. quinhentos? GRAHAM – Quinhentos sim. Quinhentos dólares. Do lado de cá. tão certo quanto eu estou aqui. após a sua morte. onde poderia estar todo o gado! GRAHAM – É o que eu me pergunto também: onde poderia estar? SLIFT – Eu me coloco a mesma questão. o Pepê está com o gado. Já é melhor. os reis da carne nos escutarão mais facilmente. um dia. Nós.

senão ficam imobilizados. mas não fizeram nada. Saí. Esta neve os mata. Sois indignos e eu vos expulso! Apesar de vosso dinheiro! . Dirigindo-se aos fabricantes: Mauler. Estou pronto. Para que ninguém mais vá olhar de perto. Mas cruel é a fome: Renasce sempre. e eu. sem pena também Esqueci o que todos se apressam em esquecer Para rapidamente estar em paz com suas consciências. GLOOMB . entretanto. Basta que alguém diga: está acertado. indo de um lado a outro. JOANA – Por que não trabalham? Não arranjei trabalho para vocês? DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. quem comerá a carne que nós compramos? E para que nós a compramos. É preciso que ele libere o gado.26 Entra Joana SLIFT – Aí está a nossa Santa Joana da Bolsa de Carnes! OS TRÊS. própria para jogar água na fervura. gritando alto a Joana – Ah. De bom grado. hoje. aos fabricantes: Esses pobres continuam a esperar trabalho? Silêncio dos fabricantes Eu que pensava que eles estavam arranjados! Faz já oito dias que neva nas costas deles. pagaremos o aluguel dos Chapéus Negros por quatro anos. e rápido. mas também os esconde De todos os olhares. ela está espantada – O que fazem vocês aqui? DONA LUCKERNIDDLE. Haveis perdido então todo o respeito pelo que se parece humano? E ousais anda vir à casa de Deus porque possuem o vil metal? Sabe-se bem de onde haveis tirado esse ouro e como o haveis adquirido. pois. Dizem que ele come na tua mão. perdi demasiado tempo até sabêlo. dizendo-me: ajudando aos de cima. ajudo também aos de baixo.No começo falaram em reabri-los. JOANA. É preciso ser muito tonta! Na verdade. qualquer um que queira ajudar aos pobres deve ajudá-los a protegerem-se de vós. se os consumidores não têm com o que pagar? JOANA – Em vossas gigantescas instalações e vossas fábricas detendes as ferramentas dessa gente: deveríeis ao menos permitir que eles as usassem. avançando: Eu te conheço: tentei te convencer A trabalhar nas serras que me cortaram o braço. SLIFT – Mas querem antes estrangular os agricultores! OS TRÊS – Como abater gado que não existe? SLIFT – Quando Mauler e eu compramos a carne de vocês. Se essas pobres criaturas. Os Chapéus negros aparecem na porta. Nós queremos reabrir nossas fábricas. (Joana sai atrás deles com o mastro de uma bandeira. e que os operários poderiam comprar a carne. mal tendo sido saciada. senão lançar-me-ei sobre vós e golpeá-los-ei a cabeça.) Saí! Quereis transformar a casa de Deus em um estábulo! Saí! Nada tendes a fazer aqui! Cabeças como as vossas. E eu. É o seguinte: alguém sumiu com o gado do mercado de uma maneira que somos obrigados a ficar de olho em Mauler. avançando: As vinte refeições foram comidas! Não te irrites. para fazer pior. Se fizeres isso por nós. olhando os pobres. ao me veres aqui. nós não queremos mais ver. eu sei o que faço. que ela usa como se fosse um porrete. e nessa atitude há alguma coisa que parece exploração. GLOOMB. supúnhamos que iriam retomar o trabalho. JOANA. Mas agora. empunharem um porrete para bater em vossas cabeça. comprou-vos conservas Por minha solicitação! E não reabristes ainda? OS TRÊS – Está correto. da tua vista sairia. Mas o Bom Deus tem uma opinião muito elevada de Si mesmo para ser sempre a vossa babá para todo o serviço e para vir limpar vossas cavalariças. aí estás! Nós não estamos muito contentes contigo! Tu não poderias dizer uma palavrinha de nossa parte à Mauler? Parece que tens sobre ele alguma influência. Parece que podes fazê-lo agir ao teu gosto. que haveis atormentado ao extremo. e a religião vos parecerá de novo algo de muito bom. Não me detenham. vós então vos borrareis todos.

27 – Está bem! Mas conosco. e a partir de sábado à noite. Grupos inimigos irreconciliáveis. BISPA SNYDER. modestamente. vão-se irrevogavelmente quarenta meses de aluguel. está bem. aos Chapéus Negros – O que acabo de fazer certamente foi pouco habilidoso. prisioneiros Em uma torre de marfim. não temos mais um centavo. pois esses que te seguem não são mais do que escória e refugo. terá de se mudar. Mesmo que ele os torne surdos. Trazendo-vos totalmente convertido. De qualquer maneira. OS TRÊS Joana sai. como jamais viu antes o mercado do gado! Saída dos fabricantes de conservas. Homem de boa fé e destemido. Enquanto não tiver feito de Mauler um dos nossos. ela não representa ninguém. então. esses pobres. Vá sob a neve e continue intransigente! JOANA – Quer dizer que devo tirar meu uniforme? BISPA SNYDER – Tira o uniforme e arruma tua bagagem! Sai desta casa e livra-nos da escória que arrebanhaste. comê-lo também! Vá-te então. Anda cuidar de tua vida. JOANA. Povoada de cânticos e palavras que despertam. entrando — Vocês já arranjaram o dinheiro? BISPA SNYDER – Deus encontrará logo o meio de pagar o abrigo bastante modesto – eu disse modesto. no coração da tormenta. tu a ignoras E cedes a teus impulsos! É mesmo muito fácil Caçar esses impuros com um gesto cheio de orgulho. Quanto ao pão que precisamos comer. Se o Bom Deus não paga o seu aluguel. Eu pedirei sua ajuda. Queres. É mister que haja um Justo entre eles! Ela sai. Nem outra vez cruzar o limiar dessa querida casa. JOANA Irei ver o rico Mauler. ela retorna vestida como uma jovem camponesa. DONA MULBERRY. Por causa do aluguel. é muito justo que pague. de volta Convida a tua casa. bispa Snyder? Ela sai. Fazes-te de difícil e és muito curiosa Para saber como é feito. Tu que planas mais alto que as questões terrenas! Parta sob a chuva. Enfrentam-se como gigantes? Vá. Eu não desejo Colocar novamente o chapéu e o uniforme negro. entretanto. Nós iremos viver dias terríveis. eu lhes trarei a sopa. na ponta dos pés. DONA MULBERRY — Sim. Mesmo que o dinheiro os carcoma como um câncer Devorando o que seu resto tem de humano. agora. BISPA SNYDER. ah. Mas como deixar-se levar por isso? (À dona Luckerniddle e a Gloomb:) Sentem-se lá no fundo. Mas se ele não paga. não tem nenhum mandato! É apenas uma mulher que perdeu a razão! Ela está despedida! Ela fará pelos senhores tudo o que desejarem. Doravante farás parte dela. não se vão. . tudo bem. Ela carrega uma mala pequena. é bem disso que se trata! Falaste a palavra exata! Se o Bom Deus paga. oferece teus bons préstimos. tudo mal. correndo sai atrás deles – Fiquem senhores. de um ao outro. dona Mulberry – que ele encontrou sobre a terra. Mediadora inútil e que cava a própria cova. Serve-lhes água de chuva e belas palavras Pois do céu não lhes vem mais do que neve E não misericórdia! A humildade. fracos. BISPA SNYDER: Infeliz ignorante! Como não vês que operários e patrões. onde não escutam mais Os pedidos de salvação do resto dos humanos.

no seu escritório? Sempre achei que o senhor devia possuir um dos grandes palácios de Chicago (Mauler se cala). por um momento. Dir-se-ia Que Chicago a engoliu Em sua negra e ruidosa bruma. os preços a oitenta. MAULER: Agora. Assemelhem-se a bois ou porcos. É que eu não estou mais com os Chapéus Negros. Agora que não tenho mais o trabalho fatigante da missão. Gosto nela deste traço. realmente. mas por que o lençol em cima. E na nossa mão é mais caro. Houve discrepâncias entre nós. desta vez. E os preços Subirão ainda mais. Deixar que gritem: “É um crime!” Entra Joana. de ser cuidadoso. Em busca de animais que.28 VIII Discurso de Pierpoint Mauler sobre a absoluta necessidade do capitalismo e da religião ESCRITÓRIO DE MAULER MAULER: MAULER: Chegou enfim o dia em que nosso caro Graham. e de que. em sua casa. senhor Mauler. Graham e companhia ficarão então parecidos À lama. É um belo sofá que o senhor tem aqui. Ele sai. SLIFT: Estou feliz. Faça subir. Deixo minhas coisas nesse canto. Não se fala mais dela. Não se possa aceitar gente da minha laia. E todos aqueles que como ele. queriam esperar Que o preço do gado caísse o mais baixo possível. se eu estivesse lá. de perto ou de longe. Vou ver como eles compram. e cada porco Que eles precisam nos entregar. Slift. Eu desmenti. Gostei muito de vê-la expulsá-los do Templo. senhor Mauler. Senhor . SLIFT: E tua Joana? Algo de novo? Um boato corre na bolsa: dizem Que te deitaste com ela. Ela não tem medo de nada. Desde Que ela nos expulsou do Templo. Serão obrigados a comprar a carne Que devem nos entregar. A mim também Teria expulsado. dá rédea solta a teus corretores! Deixa-os correr o mercado. mesmo nas pequenas coisa. e que nem mesmo está dobrado direito? Diga-me: o senhor dorme aqui mesmo. Então eu disse a mim mesma: vá dar uma olhada no que se passa com o senhor Mauler. Não é fácil encontrá-lo. Terão de pagar mais caro. SLIFT. Não pretendo soltar um só grama de carne A fim de arrancar-lhes mesmo a pele desta vez: É a minha natureza quem exige. que tu tenhas superado Teus recentes acessos de fraqueza. onde enfiaremos o pé Unicamente para ver a marca que deixa. meu caro Slift. JOANA – Bom dia. Mas o senhor tem razão. carregando uma mala. Eles precisam comprar de nós. MAULER: Seria preciso esfolar esta cidade maldita E ensinar-lhes o seu ofício A essa gente. Neste mercado de Chicago Todos os bois que se escutam mugir São nossos bois. posso me interessar mais por cada homem em particular. Slift. Mauler. Mas o senhor.

senhor Mauler. Eis o desafio. Vou agora mesmo à Bolsa para procurar o dinheiro. Mauler vai até o fundo do palco e chora. Uma vez mais. Um trabalho ruim. Joana pára de comer. Queres? Joana observa a comida. o que me agradou muito e me pareceu justo. Estás de acordo? JOANA – Sim. E foi por isso que eu me disse: irei ver o senhor Mauler. JOANA – Os operários continuam esperando nos matadouros? MAULER Por que és contra o dinheiro? E por que então. mesmo à noite. Corra. eu buscarei o dinheiro a qualquer preço. Eu quero dar-vos alguma coisa Para provar-vos a bondade de meu coração. Mas nesse negócio. É Mauler quem vai dá-lo. Quando não o tens. ser ou não ser. MAULER – Não te inquietes. é lógico. é claro. eu lamento Que o trabalho ainda demore nos matadouros. Há quanto tempo não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Oito dias. muda logo a tua cara? . e que agi bem. O escuro caminho que leva aos matadouros. naqueles pátios imensos. JOANA – Sim. o dinheiro para vocês eu terei. MAULER – . MAULER – Vá dizer-lhes que o dinheiro está chegando... Aqui está por escrito.. nos deu prazo só até o próximo domingo. Mesmo que deva cortar na carne. sim. O dinheiro.. eu não comerei. E como eu sei que sois pobres E que querem privar-vos Do teto que vos abriga. encomendei a carne. vá dizer-lhes isso. MAULER – E do que tens vivido? (Silêncio de Joana) De nada. arrancar a pele desta cidade. senhor Mauler. Eles são cinqüenta mil Que permanecem lá.. É por ti que o faço. a coisa não andou. JOANA – . Nesta história dos cinqüenta mil trabalhadores. de pé. na minha vez. JOANA – Senhor Mauler.. MAULER: Tão mudada! Apenas oito dias! Onde ela esteve? O que ela viu? E por que essas rugas em torno dos lábios? Esta cidade de onde ela saiu. senhor Mauler! MAULER Tome. não faço mais parte. Mas contigo não será assim. Eu também. Eu te encontro bastante mudada. ainda por cima. a proprietária. está caro. Ele traz comida a ela em uma bandeja. MAULER – Ah! E agora os Chapéus Negros estão em uma situação financeira difícil? JOANA – Sim. Assim como aos criadores. Daqui até sábado. que vive do aluguel. quando nós expulsamos os ricos de nosso templo. Teria adorado ouvir-te dizer Que o que eu faço está bem. tenho boas esperanças de que sua consciência esteja em paz nesse momento! MAULER – Então não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Não. aos fabricantes. Confirme que foi por teus conselhos Que eu.. e aos Chapéus Negros é preciso auxiliar. Eu não conheço. Que meu comércio não é antinatural. não querem partir.. E que. Toma. Trata-se de saber Se eu serei o melhor de minha classe Ou se tomarei eu mesmo. Mas eu o encontrarei. Eu irei à Bolsa encontrar o dinheiro que lhes falta. Eu confesso cruamente. Não pude dar-lhes trabalho rapidamente.29 Mauler. não como eu queria. Ela começa a comer avidamente.

sob gemidos. Quero saber. Não desejais. Ou então seria preciso mudar tudo. Eu sei. JOANA Senhor Mauler. Se eu quisesse me retirar.30 O que pensas tu do dinheiro. Daqueles a quem ninguém oferece nada. O dinheiro é um meio De melhorar um pouco a vida. É à sorte. Pouco ou muito segundo o caso. Fazendo Dele a única salvação. Por Ele batendo os tambores. veja bem. nem Deus. Ao menos a vida de alguns. Esse sistema é o único que permite arrancar O que pode ser arrancado dos rigores desse mundo. Como esses bobos para os quais o dinheiro Tem não sei qual problema. diga-me. E se vós não precisais se expor aos sacrifícios. nem nós tampouco: Não seríamos necessários. Atribuir ao homem um lugar totalmente diferente. Seria como um mosquito Tentando se opor a derrubada de uma montanha. sob chuva e frio. Tão penosa de construir. Assim.O que nós não vos exigiremos de nenhuma forma – Devem dizer ao menos que eles são justificados. eu que nutro Poucas simpatias pela ordem do mundo. Eis porque esta obra é sempre defendida Pelos melhores entre os homens. Mas mesmo assim verdade: Sobre a terra nada há de sólido. Que seria suprimido por falta de utilidade. Sim. Ela se levanta. Para que Ele finque pé nas favelas E para que Sua voz retumbe nos matadouros. Por isso vós deveis nos ajudar em nossa obra. Apanhe o que te dão. Mas saiba com qual objetivo foi dado! Tome isso! Saiba que representa O aluguel de quatro anos. durmo mal à noite. . Mas pensa na realidade. Ele alcança o papel a Joana. E que. Pouco agradável. Isso que o senhor falou. aliás. malgrado os sacrifícios. Não enchas a cabeça de falsas idéias. Modificar por inteiro o plano do edifício. ou quase. eu deveria estar feliz De ver que alguém vem em ajuda a Deus. As coisas não deixariam de seguir o seu curso de antes. E incessantemente construída. sem dúvida. Eu seria varrido. Obra imensa. Mas eu faço parte daqueles Para quem essa não é uma ajuda. Eu não compreendo E nem quero compreender. isso será suficiente. Na banal verdade. Concepção inaudita à qual vós mesmos. Que o gênero humano está entregue. Olha também como o mundo é feito! Que edifício! Obra dos homens. eu concordo. destruído na mesma hora. MAULER . Ainda que dia após dia se precise reconstruir O que dia após dia é destruído. Em uma palavra é preciso que vós Restabeleçam Deus em sua glória. Desde que existem sobre a terra. de cima a baixo.

silhueta múltipla. Pelo menos não honestamente. Depois eu gritei palavras em tom belicoso Em uma língua para mim mesma desconhecida. Eu também não tenho dinheiro E nem uma maneira de ganhá-lo de outro modo. Jogados aos matadouros e de tudo ignorantes. A tempestade de neve. eu quero fazê-lo. sem uma palavra. Quantos eram eles? Eu não sei. Jovem e velha. Notei uma massa humana. Que o campo inflou-se e uma cascata humana Inteira ficou pendurada em suas elevadas bordas. E se não houver trabalho. pulsando vida. Ficarei lá até que as portas sejam reabertas. Que alguém gritou em algum lugar. uma palavra sem importância.31 Leva aos Chapéus Negros este dinheiro E poderás ficar com eles. Saberás que neva sobre ela. marchava à sua frente. Mas eu me sentarei Em frente aos matadouros. a fronte ensangüentada. se o senhor quiser me ver Me verá nos matadouros. Vai à janela e repara se neva. No futuro. por toda a parte. Mauler. Eu comerei esta neve. do que os pardais Que se poderia colocar em tal lugar. MAULER Esta noite. que vive da pobreza. Eles fazem muita questão do dinheiro. 1. Perto dela Gloomb e dona Luckerniddle. E o senhor. Ela sai. E então uma palavra. Eu marchava. com aqueles que esperam. E se nevar. E isso é muito bom. E o trabalho deles também. Sobre ela que tu conheces. Chicago! Vós também Lá estavam. E eu. Vi depois cortejos E ruas desconhecidas. JOANA Se os Chapéus Negros quiserem o seu dinheiro. soluçando e jurando Logo fora de mim! Virtude e terror confundidos! . Sem poder suportar a visão dos pobres Que os julga sem conhecê-los. IX Escutai o que eu sonhei. Há sete dias: Diante de mim. em todo o caso. com passos guerreiros. afluíam inúmeros cortejos. JOANA Terceira descida de Joana às profundezas. Ao mesmo tempo. Pois esta vida sem eira nem beira não te serve. BAIRRO DOS MATADOUROS Joana. A cada hora. Ela permaneceu suspensa por um instante. e outras familiares. levanta-te. Se for um punhado de neve o que lhes dão. Eu serei como eles sem trabalho. Mais numerosos. E nada comerei além do que eles comem. desfilando. Arranjando para não ver esses condenados. em um pequeno campo. Cercado de todos os lados por enormes edifícios E tão pequeno que a sombra de um arbusto O teria encoberto totalmente. Fez esta massa começar a fluir. Que o aceitem. Eles formavam uma massa tão densa. creia-me. e então eu me vi: À vossa frente.

e pior. Ocasionando imensas destruições.. Hoje eu compreendo o seu sentido: Nós deixaremos os matadouros antes do raiar do dia. UM PEQUENO BAR NO BAIRRO DOS MATADOUROS Desgraça! As tarifas caíram! E nós não temos mais carne para vender! Ela já está vendida. Faremos um chamado a todo o ser que pareça humano. Todas as conservas Previstas no contrato. Um pouco caro. OS CRIADORES aos fabricantes de conservas: Meus amigos de Nova Iorque me escreveram Que as tarifas aduaneiras no Sul Acabam de ser derrubadas. E com a aurora chegaremos a Chicago. não nos podiam alvejar. OS FABRICANTES: Mas como nós poderemos Comprar gado com preços em alta? Alguém promoveu uma razia. DONA LUCKERNIDDLE – Se ela tivesse calado um pouco a boca lá nos Chapéus Negros. Eu exijo que me entreguem. Comprem-no! OS FABRICANTES: Comprar gado nestes dias! Que horror! 3. ao abrigo dos ataques inimigos. GLOOMB – Dona Luckerniddle. GRAHAM: Ao preço antigo? MAULER: Como combinado. OS FABRICANTES Desgraça! As tarifas caíram E nós não temos mais bois para vender! Eles já estão vendidos. BOLSA DE CARNES MAULER. sem mais delongas. Graham. que eu saiba. Para aí mostrar a todos. Envolvida pela neve. e pior. mas existe. eu ignoro. Oitenta mil toneladas. mas preciso das conservas. estávamos fora de alcance. se eu me lembro direito Daquela hora em que perdi um pouco o juízo. transparentes. Mauler. E assim andava o cortejo. Ninguém sabe quem foi. bem e aquecidos! 2. modificava. éramos inatingíveis. A exata extensão de nossa miséria. MAULER: Sendo grande a demanda De conserva e de vianda E sendo os preços aceitáveis.. Habitando em lugar algum. a cidade deles. Precisamos comprar e os preços aumentam! . Habituados ao sofrimento. libere-nos de nossos compromissos! MAULER: Estou desolado. Assim foi o meu sonho. abandonando este lugar insuportável Por qualquer outro. Rendidos pela fome. nas praças públicas. a preço vil. a preço vil. Senhores. é verdade. Há muito gado.32 Tudo o que eu pisava. a senhora entendeu esta história? Eu não. Eu andava no mesmo passo que o cortejo. nós agora estaríamos comendo a nossa sopa. E também perturbando o aspecto familiar de ruas bem próximas. O que acontecerá. Influenciando o curso dos planetas distantes.

Ah. Intercala sua pregação com observações aos companheiros. como vocês. hoje (eles não estão escutando nada!) basta que eu pense muito em Jesus. tenho apenas sede da palavra de Jesus. por favor! OS CRIADORES: Não sobrou mais nada! Tudo o que podia ser vendido . depois de entoar um cântico apressadamente: Por que não provar. não a violência. que alguma voz. reina a paz. MARTHA. DONA LUCKERNIDDLE – Eles são boas pessoas. que um resto de pudor lhes diga: Aqui reinam a neve e o vento: calem-se! 4. Onde está Jesus. Discursos.33 Trabalhadores e trabalhadoras. minhas irmãs. soldado dos Chapéus Negros: . JOANA – Onde eles estão? GLOOMB – A dona Luckerniddle pode lhe dizer. triste. JOANA – Então não há ninguém que tente fazer alguma coisa? O TRABALHADOR – Sim. o amor. Eles precisam fazer isso para conseguir um pouco de calor e de comida. Joana se levanta e. ente os quais Joana. os comunistas. Luckerniddle – De onde a senhora os conhece? DONA LUCKERNIDDLE – No tempo em que eu não me fiava em gente como você eu ia bastante até eles. mas ninguém contribui) Aleluia! JOANA – Deixe-os. à margem do caminho. à dona. tu também. Bem que eu gostaria de estar com eles! DONA LUCKERNIDDLE – A música era bonitinha! GLOOMB – Bonita e curta. UM TRABALHADOR. BOLSA DE CARNES OS FABRICANTES: Nós compramos qualquer gado! Bezerros! Gado gordo! Vitelos! Bois! Porcos! Façam as suas ofertas. A MULHER – Por que não nos procuram para tentar nos converter? GLOOMB. GLOOMB – Bondade curta. não o ódio. mas eles traziam uma panela. meu irmão. Pois nós encontramos Jesus. (É tudo absolutamente inútil!) Eu lhes digo: ajudem-nos a manter a marmita fervendo! OS CHAPÉUS NEGROS . durante a cena. meus irmão. apesar de todas as nossas más ações. e o velho Adão dentro de mim não tinha outro desejo do que comer e beber. já ouvi demais. estava um dia sentada. por causa do meu marido. Vinde a ele.Aleluia! (Jackeline faz circular a cuia de esmolas. vinde logo! Aleluia! Uma jovem dos Chapéus Negros dirige-se aos trabalhadores. eu prefiro os atos. Se algumas pessoas soubessem calar a boca eu saberia onde procurar abrigo esta noite. tenente dos Chapéus Negros. fazendo o gesto de contar dinheiro – A senhora consegue manter a marmita fervendo. curta bondade. UMA MULHER Por que vir aqui fazer escândalo Com tamanho frio! E se pudessem ao menos se calar! Com muito custo eu consigo agora Suportar as palavras que há pouco amava E que me soavam agradáveis. eu esperava que eles fossem ao menos nos dar um prato de sopa. JACKELINE. e eu não tenho mais fome e nem sede. faz desesperadamente sinais para que saiam. mas então eu encontrei Nosso Senhor Jesus e fez-se em meu coração uma grande luz e provei uma grande alegria. Um destacamento dos Chapéus Negros chega. JOANA – Mas não são os tais que ficam incitando ao crime? O TRABALHADOR – Não. grande o nosso regozijo. que nos salvou na dor.(Vocês acham que isso serve para alguma coisa?) Eu também. surpreendendo-se pela ingenuidade – É sério? A senhora acreditou nisso? DONA LUCKERNIDDLE – Eu também. do pão de Deus? Grande é nossa alegria. Nosso Senhor. JOANA. Silêncio. Nosso Senhor. (Isso não serve para nada!). dona Swingburn? A MULHER – A sua música era bonita.

Mauler. eu as quero agora. eu não tenho medo. sabemos agora de uma coisa: se tudo andar como querem os industriais da carne. Agora eu quero sessenta! E tenham o cuidado De não esquecer as minhas latas! 5. UM CRIADOR: Oitocentos bois de Kentucky a quatrocentos. OUTRO LUGAR NOS MATADOUROS Nos cartazes se lê: “Solidariedade com os trabalhadores sob lockout!” “Desencadeiem a Greve Geral”. Na minha opinião é preciso fazer alguma coisa imediatamente. de Chicago a Illinois. Vendo-os. De hoje até amanhã é certo que os patrões vão lançar todo o tipo de falsas notícias: eles dirão que . Terá de ser comprado de mim. É impossível encontrar um boi em Chicago. MAULER: Atenham-se à nossa combinação. se ela for justa. Os fabricantes se precipitam sobre ele. OS FABRICANTES: É Mauler. OS CRIADORES: Oitocentos bois a quatrocentos para Sullivan Slift. OS FABRICANTES: Mais nada? E nas estações? Estão abarrotadas de gado. os operários. e caro! Ofereço. o apetite desperta! GRAHAM. UM DIRIGENTE OPERÁRIO – Escutem todos: até agora os magnatas da carne não manifestaram a menor intenção de reabrir as suas fábricas.. Deixe-os totalmente à míngua. Qualquer vitelo. eu tenho propostas a fazer. Corte você mesmo! MAULER: Por que se surpreendem. Quatrocentos. Se alguém vier perturbar a reunião. É claro que é! Era o que dizíamos! O cão! Ele nos obriga a entregar-lhe as latas E é ele quem compra o gado! Somos então obrigados a comprar de Mauler A carne que deveremos colocar em suas latas! Carniceiro sujo! Tome então a nossa carne. Os senhores devem me entregar a carne. Mesmo que tenhas que te enfiar nelas! Eu vos ensinarei como se faz esse comércio! Doravante. OS CRIADORES – Vendido. Graham! As latas que me deves.. OS FABRICANTES – Vendido a quem? Entra Mauler. Os trabalhadores das grandes empresas da cidade nos prometeram declarar. Já que não há demanda. OS FABRICANTES: Nem pensar! Vocês estão loucos? Quatrocentos! SLIFT – Eu compro. e acho que sou capaz de defender bem uma causa. uma parte de nós perderá seu emprego nos matadouros e os outros nunca recuperarão o salário anterior. Ele vai falar com Slift. eu acertarei as contas com ele! MAULER: Ah! É assim. Silêncio . Chegada de Joana. mesmo só uma pata. se são os senhores os bois. Em frente a um galpão. para começar Quinhentos bois a cinqüenta e seis. mesmo nos grandes. Nós. precisamos de um prazo.34 Foi vendido. a greve geral. no mais tardar depois de amanhã. Além disso. JOANA – São vocês os que defendem a causa dos desempregados? Eu posso ajudá-los. dois homens da direção dos sindicatos discutem com um grupo de operários. Não havendo ninguém que precise de carne. Aprendi a falar em lugares públicos e em auditórios. precipitando-se sobre Mauler: É preciso liquidá-lo.

em frente ao edifício da Westinghouse! (À Joana) Quem é você? JOANA – Fui mandada embora do emprego. assegurar o trabalho .35 tudo está arranjado e que a greve geral não acontecerá. as centrais elétricas e o serviço de águas entrarão em greve em solidariedade a nós. Eu não sou uma espiã. com tal medida. dessa maneira. dona Luckerniddle? (Dona Luckerniddle faz sinal que sim). UM OPERÁRIO – Pode ser uma espiã. tanta gente na rua. na esquina do Parque Michigan. e vá esperar os responsáveis defronte à cantina da senhora Schmittens. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E em que trabalhava? JOANA – Eu vendia um jornal. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Não. MAULER: Os senhores não respeitaram. Quando você vir chegarem três operários com cara de quem procura alguém. Eu luto de todo o coração pela causa de vocês. etc. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua Três. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E para quem trabalhava? JOANA – Eu era ambulante.. Um operário apanha a carta e sai. essa noite. galpão número cinco. É do Exército da Salvação e os policiais a conhecem bem. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Pela nossa causa? Diga-me: ela não é também a sua? JOANA – Não é no interesse geral que os industriais jogam. Nós não temos ninguém para passar despercebido como ela. Esconda essa em seu casaco. em diversos pontos dos matadouros. eu conheço o pessoal. ouve-se gritar ao fundo o nome das empresas que suspenderam seus pagamentos: “Encerram os pagamentos. UM OUTRO OPERÁRIO – Dê-me a carta para as usinas Graham. Essas cartas anunciam que a usina de gás. Você pode tranqüilamente entregar-lhe a carta. (os operários riem alto) Mas é desumano! E dizendo isso eu penso também em gente como Mauler! (os operários caem na gargalhada) Por que se riem? Acho que vocês estão errados em zombar e em acreditar sem provas que alguém como Mauler não é um ser humano. Tudo acontece como se a miséria dos pobres fosse útil aos ricos. Ela é honesta. aos responsáveis que esperam nossa orientação. Como se rede já não houvesse: De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. BOLSA DE CARNES Durante toda esta cena. pergunte-lhes se são das usinas Cridle. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – E quem te garante que ela vai levar a carta que lhe entregarmos? O DIRIGENTE OPERÁRIO – Ninguém.. – Eu já vendi jornais na rua Vinte e Quatro.” OS FABRICANTES – Nós não podemos mais agüentar. Jack. Ela é sua conhecida. estou vendo. encostado em uma coluna – Faça subir. À Joana: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. não é? DONA LUCKERNIDDLE – Honesta ela é. os preços estão a mais de setenta! OS CORRETORES – Os cabeçudos não compram. JOANA 6. Isso é bom. O DIRIGENTE OPERÁRIO. eu sei quem ela é. pois o endereço dado pelos camaradas das usinas Cridle para o encontro está muito vigiado.. Elas devem ser entregues às dez horas. E poderíamos até dizer que esta pobreza seja obra deles. pau neles! OS FABRICANTES – Queremos dois mil bois a setenta. SLIFT. Meyers e Cia. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Não é sem provas. dando a carta à Joana – Vá até a fábrica Graham. O contrato assinado há pouco entre nós: Eu queria. a Mauler. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua vinte e seis. O operário apanha a carta e sai. Por este buraco fogem todos os peixes. A carta é para eles. Ninguém suspeitaria que ela trabalha para nós.

à procura de um parente que não encontram. não me diverte mais. E tenho outras preocupações! Veja bem. Sem contar que a polícia está evacuando os matadouros e que começa a atirar. Além disso. A encontraste? O SEGURANÇA – Não. esperando. perdido por perdido. MEYERS – Mil e quinhentos a oitenta. Que sangrem. eu não vi ninguém com o uniforme dos Chapéus Negros. Mauler. voltando ao grupo: Este negócio. entreguem-me! GRAHAM: Nada poderíamos ter feito. MAULER. Acima disso. Mas os senhores se lamentarão por isso. As conservas que comprei. de achá-la? E atiram? Encontra o Jim. eu não me sinto muito bem. MAULER: Atiram? Contra quem? Mas eu sei bem. Fala em meu nome. Mas para nós. Impossível. MAULER. O segundo segurança sai. O primeiro segurança sai. Eles ainda agüentam! Quinhentos bois a setenta e sete. Ele pode ir longe demais. Slift. Diga-lhe para que não me procure. é impossível ouvir uma voz isolada: há muita gente correndo de todos os lados. GRAHAM: Que seja. É preciso que a cidade Possa voltar a respirar. Pois a queda deles Será a nossa. A multidão anônima e sem rosto continua sentada lá. é claro. Ceda. desembucha! O primeiro segurança faz seu relatório. senhor. por telefone. Ele repara no segundo segurança. só quinhentos. são incontáveis. A carne sumiu de vez do mercado! Quinhentos bois a setenta e cinco! MAULER: Não seria conveniente. No canto em que trabalham os sindicatos reina uma grande efervescência! MAULER – Quem trabalha? Os sindicatos? E a polícia os deixa incitar os operários? Meu Deus! Liga imediatamente para a polícia. eu me pego esgoelando-os E não tenho tanto prazer quanto esperava. O estranho é que aqui não se ouve nada. São centenas de milhares nos matadouros. Vou soltar a carne e deixá-los partir. se apresentariam dez ou talvez cem. mas que não rebentem. SLIFT – A oitenta. Ponha os pingos nos “is”. MEYERS – Cinco mil a oitenta! Assassino! MAULER. Se perguntasse por uma Joana. dizes. Isso basta. Eles já não agüentam. OS FABRICANTES – Mauler paga cinqüenta pelas conservas. tudo a oitenta. que voltou para perto da coluna – Slift. nós não podemos pagar oitenta a Mauler pelo gado. sim. Quando se grita qualquer coisa. Ainda por cima está escuro. o vento abafa as palavras. é o fim! SLIFT: Quinhentos a setenta e sete para Graham. . Mil a setenta e sete. Pergunta para que nós pagamos impostos! Manda arrebentar a cabeça dos líderes.36 Aos operários e agora me dizem Que eles ainda esperam em frente aos matadouros. O SEGURANÇA – As multidões. MAULER – Então. Slift. a Slift – Onde está o pessoal que eu mandei para os matadouros? SLIFT – Ali está um. Vá só até oitenta e depois abaixe o preço. Slift. pois. SLIFT: Faça subir. Senão pensarão ainda Que fomos nós que exigimos que atirassem. subir muito mais.

Tu me conheces. Prefiro abandonar tudo Do que ser a causa de uma desgraça! Oitenta e cinco. Nesse dia sim. Joana Dark. É um enorme sucesso para os Chapéus Negros. no fundo. Veja. Aja conforme o meu espírito. NOS MATADOUROS Muita gente esperando. SLIFT – Quinhentos bois a noventa! OS FABRICANTES: Mauler. afastando-se – É preciso que façam chegar aos operários que eu acabo de ceder gado às fábricas. Então agora existe gado. Um homem os guia. Mas nós não queremos incomodá-la e iremos ficar ali. Joana. Slift. serei eu quem fará subir. OS TRABALHADORES. Para nós a senhorita faz parte. JOANA – Eu não faço mais parte dos Chapéus Negros.” JOANA – Eu não falei nada disso. Eles se sentam. Entre eles. 7. esperem a resposta! CORO OPOSTO. (a Joana) Esses são jornalistas. JOANA – Eu queria que vocês fossem embora. E se quiseres abrandar. OS JORNALISTAS – No escritório do senhor Mauler nos disseram que a senhorita jurou não sair dos matadouros enquanto as fábricas não fossem reabertas. nós ouvimos. Os jornalistas lêem em voz alta) “A Madona dos matadouros. Aja conforme o meu espírito.37 – Nem pensar. também em segundo plano: É mentira: por maior que seja a miséria. Slift não tem ordem para isso. Nós publicamos isso com manchete de oito colunas. a jovem pregadora dos Chapéus Negros? JOANA – Não. ALGUÉM – Porque estás aqui? JOANA – Tenho que entregar uma carta. OS JORNALISTAS – Podemos lhe assegurar. SLIFT: Mentirosos! Agora serei eu que vos ensinarei A vender carne enlatada Sem ter nem mesmo um quilo! E cinco mil bois a noventa e cinco! Urros. toda a Chicago comparte seus sentimentos. Não vão embora. apontando para Joana – Aqui está. JORNALISTAS – O que há de novo. Mas quando a aflição for tremenda. eles abrirão. Continue então com o negócio. Eles ainda agüentam. Eles terão de nos responder. De outra forma isso terminaria em violência. a não ser nós mesmos E a ninguém podemos apelar OS JORNALISTAS . nos matadouros Enquanto a miséria não chegar ao máximo. Eu não posso mais. – Olá! A senhorita é Joana Dark. Fora uns poucos especuladores sem escrúpulos. isso não é possível. Chega um grupo de jornalistas. Eles não abrirão as fábricas! Eles esperarão os lucros aumentarem! E a sua resposta sairá Dos canhões e das metralhadoras! Ninguém poderá nos ajudar. senhorita Dark. O HOMEM. a alguma distância. pode ler. em segundo plano. declara: Deus está solidário com os operários das fábricas de conservas. não mais. Mauler? MAULER. que a opinião pública está do seu lado. Queria vender a oitenta e cinco. Virão três pessoas. Saindo ele encontra jornalistas. OS JORNALISTAS – Veja bem. SLIFT MAULER Eu preciso de ar fresco. Eles não abrirão as fábricas. (Joana vira-lhes as costas.

a Joana – Você está totalmente gelada. Vós. Mas. E para vós é fácil passar frio. tenho frio. ao qual estava acostumada. que nada tendes para comer. não dormir. a qualquer momento. isso é normal. que acabaram de receber uma informação. Não fazia tanto frio em meu sonho. Eu não tinha sonhado que pudesse fazer tanto frio! Se eu tivesse pelo menos o meu agasalho! Ah! É fácil para vós passar fome. Onde está o meu chale? Eles me roubaram. O TRABALHADOR – Mas falaste com eles! JOANA – Eles me confundiram com outra pessoa. dê-me meu pano. levantam-se e dirigem-se ao fundo. Mas é apenas uma tábua. Enfim..38 Que não seja um nosso igual. Que audácia! Emborcar assim o whisky desse velho! JOANA – Segure a língua. (Ela arranca de sua vizinha o pano com o qual ela cobre a cabeça) Sim. E uns se sentam lá em cima Só porque os outros estão embaixo. um emprego que me assegurava O pão de cada dia. confesso. Entre os que estão em cima e os que estão embaixo. Apesar de tudo. UM VELHO HOMEM. Encorajada por um sonho que confirmava minhas idéias. Alguns – pouco numerosos – estão sentados lá em cima E um grande número aqui embaixo. Já basta. Mas. JOANA: Eu compreendo esse sistema. JOANA Se dependesse só de vós Eu poderia congelar nua em pleno vento. Mas eu posso. o que haveis deixado? Eu. A mim me esperam. eu não tenho o direito de ir. A qual logo se nota claramente Que serve de gangorra Todo o sistema é como uma balança Na qual os dois lados dependem um do outro. UMA MULHER – Que audácia! JOANA – A senhora falou alguma coisa? A MULHER – Sim. que de resto Já é a muito conhecido. Ficar aqui sem necessidade absoluta Parece-me um jogo indigno. não é? JOANA – A senhora também acha.. Tenho fome e isso é banal. dona Luckerniddle? DONA LUCKERNIDDLE – Sim é verdade. eu quero ir embora. E falar Daquele que mora lá em cima. E um ambiente. o medo me aperta a garganta: Não comer. UM HOMEM – Silêncio! Alguém atira um trapo para Joana. A MULHER – Socorro. imbecil!.. Mas a estrutura interna continua ignorada. a Joana – O que fazias com aquela gente? JOANA – Nada. desde fora. Para que estejamos todos no alto! Mas olhando mais de perto descobre-se. Ir para um quarto quente. é claro! É o cúmulo! Eles me roubaram até o chale! Quem foi o mão leve que pegou o meu chale? Devolvam-me imediatamente. E os do alto gritam: Subam. Quando eu cheguei aqui. . um teto e o sustento. ela vai me matar. Algo de obscuro. mais do que tudo. Quer um gole de whisky? (Joana bebe) Ei. guardam-me a sopa. Os jornalistas. Vós todos. com um vasto plano. Quase uma comédia. o que deixei foi uma vocação. ignorar aonde te leva a vida. chega! Você é boa mesmo de copo.. Empunhar a bandeira e bater o tambor. UM TRABALHADOR. foi você! Não adianta mentir. dir-se-ia que é um caminho.

JOANA – Oh! A boa nova! DONA LUCKERNIDDLE – Vejam as mentiras sobre as quais nos alertaram. o milionário que dispõe de muito gado. Que tem a fome por mestre e onde a miséria Fala implacavelmente da necessidade! E sois cem mil alunos. Agora as fábricas reabrirão. (Ela se levanta) Eu vou avisar aos nossos que os boatos já começaram a circular. O coração deles não é de gelo. Quando se falou com ele como a um ser humano Ele deu uma resposta humana. O que aprendeis? OS TRABALHADORES. A tropa foi encarregada de evacuar os matadouros. A não ser a proposta Que leve a mudanças verdadeiras. Os matadouros são tão grandes que a tropa levará horas até aqui. Tu não compreendes nada de nada. Felizmente temos a carta para mostrar a verdade. aconteça o que acontecer. ainda que os preços continuem a subir. Mas tu. E sobretudo entendam bem Que nada se faz sem luta E sem a sua própria ação. Não creiam em nada e não escutem ninguém. JOANA: Tanto assim? Oh! Escola desconhecida. Então a bondade existe.39 OS TRABALHADORES: Fiquem. Se combaterdes. JOANA: Parai! Chega de aprender essas lições! JOANA . acaba de cedê-lo aos fabricantes. JOANA: Escutem todos! Há trabalho. Os jornalistas retornam. Não te movas! Entendeu? Ela sai. se esses senhores estão dizendo? Sobre um assunto como esse não se brinca. Ao longe as metralhadoras crepitam. espera. É preciso fazer com que se calem os agitadores que incitam à violência. Esse combate será perdido E talvez perdido Ainda o próximo combate Mas vós ireis aprender a combater E aprendereis pela experiência Que nada se faz sem luta E sem a vossa própria ação. no frio. Os tanques deles vos esmagarão. JOANA – Mas estão atirando! UM OPERÁRIO – Pode ficar sentada tranqüilamente. DONA LUCKERNIDDLE – Não digas tais tolices. mocinha. Não ficaste tempo suficiente aqui. no fundo do palco: Se ficardes agrupados Eles vos rebentarão. com a carta. Não se separem! É apenas ficando todos juntos Que poderão ajudar uns aos outros. Havia entre eles pelo menos um homem honesto E ele não falhou em seu dever. de jeito nenhum. Que barulho é esse? UM JORNALISTA – São as metralhadoras. JOANA – Quanta gente há aqui? OS JORNALISTAS – Uns cem mil. OS JORNALISTAS – Olá. o seu sucesso foi formidável: nós ouvimos que Pierpoint Mauler. Classe cheia de neve e que as leis ignoram. E nós vos dizemos: ficai agrupados. E nós vos dizemos: combatei. UMA MULHER – Devemos voltar para casa agora? UM TRABALHADOR – Quem nos garante que é verdade? Que haverá trabalho de novo? – E por que não seria verdade. Nessas condições o trabalho voltará muito em breve aos matadouros.

Vós. Com seu silêncio opressor. Perseguidor perseguido E não mais sabendo ver sem desconfiar. A tentação. Eu não sou um deles. Joana tem uma visão. E é por isso que parto. . longe do mundo que lhe é familiar. esta carta? Eu não saberia fazer nada Que requeresse violência. DONA LUCKERNIDDLE. eu digo. Seu sucesso foi grande. para um dos dirigentes presos – Não liga não. Dia após dia ela desceu. OS OPERÁRIOS – Estão trazendo os sindicalistas. Do fundo ouve-se gritos que se aproximam. eu preciso ir. UM OPERÁRIO. Isso seria desleal para com os outros homens. Quem agisse assim se sentiria perdido. No lodaçal dos matadouros. Há muito tempo que já está tudo arranjado. Viram-na descer de degrau em degrau Para em água límpida a lama transformar e aos humildes Aparecer. mas agora a coisa está terminada. Enquanto a noite cai. eu seria como eles e não faria perguntas. é imensa! Mais uma noite como esta. e ninguém Poderá manter a sua calma. Sobre sua cabeça. No final o lodo a engoliu. aparece uma inscrição: A neve começa a cair. Eles procuram alguém que não encontram e vão embora. Ela continua sentada. JOANA: Os que me entregaram a carta. Por que foram presos? O que ela contém. Chegam três operários. Eu assim não poderia viver. algemados. ao longo dos anos. estão muito enganados. Por três dias viram Joana em Packingtown. Nada de bom pode surgir da violência.40 Que gélidas elas são! Não é pela violência Que se combatem a desordem e a confusão. Apartado em um mundo Tornado para ele estrangeiro. E aprendestes A alimentar friamente terríveis pensamentos. Mas o prato que se prepara aqui. conduzidos por policiais. Violar as regras em uso. Os dois dirigentes operários passam. Ou que engendrasse a violência. Mas assim. Toda inocência tê-lo-ia abandonado. Quem o comerá? Eu vou embora. No terceiro dia sucumbiu. Enquanto o fraco ao fraco se alia. Direis que fazia muito frio. Ela se levanta e sai. Para este homem. Ela se vê com roupas de criminosa. OS JORNALISTAS – Nós a aconselhamos a sair dos matadouros. os astros sem harmonia Já não seguiriam sua órbitas. Eles saem. UM OUTRO OPERÁRIO grita para o grupo que se afasta – Assassinos! OS OPERÁRIOS – Se eles acham que assim irão parar as coisas. voltando – Nada além de mentiras! Onde foi a moça que estava sentada ao meu lado? UMA MULHER – Partiu! UM OPERÁRIO – Desde o começo eu disse que ela iria embora quando começasse a nevar de verdade. William. Os operários se levantam. Eu digo: na escuridão se acumulam As violências e as questões nunca resolvidas. vós estivestes juntos Longas noites. Se desde a infância o peso da miséria e da fome me tivessem ensinado a violência. as palavras teriam outro sentido. Começa a nevar. que eles ainda poderão ter uma surpresa.

Sou conhecido nos matadouros. saindo – Bom. Na borrasca. Mauler e seu amigo. façamos meia volta. E ninguém quis. o que foi? Riste. confessa. Parece-me Que contratei dois idiotas. De agora em diante. Agora eu estou livre. Até o reino do espírito. Quanto a este edifício. Em todo o caso. em cima. Sem que eu tenha procurado. preto no branco. Essas notícias. mas o arquiteto teria. UM DOS SEGURANÇAS. Ter construído a maior cloaca do mundo Constituirá a sua única glória. preto no branco: O gado está a trinta e ninguém compra. impresso. o mais vasto. um objetivo que eu saúdo E que muito me alivia. A mim ela vai elevar às mais altas esferas. Que nós construímos em nossas grandes cidades Sem importar o custo. O mais prático também. aqui sob meus olhos. Escolhido como material. É o que está escrito. Só porque duas ou três vezes eu dei meia volta. Vejam o que leio. os pobres. são os mais atingidos. Não preciso. então.. modificam tudo. seja por economia. Eu disse: meia volta E tu riste. Pensar não serve para nada. Ele lê e empalidece. não lhes parece? Ah! Eu repito Não fiquem enchendo a cabeça com idéias. a dona Luckerniddle reencontra Joana. Aquele que sai de tal imóvel. Assim foi conseguido. meia volta. Cedi meu gado a qualquer um que o quisesse. MAULER: Se a desgraça abate ao homem sem caráter. Passa um vendedor de jornais Ei! Jornal! Vejamos o que se passa na Bolsa de Carnes. Assim espero. UM LUGAR DESERTO NO BAIRRO DOS MATADOUROS Neva. dele se diria Um prédio construído com grandes despesas. que todos os fabricantes Quebraram juntos e saíram do mercado. Seja por aberração. Não é para pensar que eu vos pago. Aquela que eu procurava terá tido o bom senso De sair das profundezas onde o inferno se instala. Mas vejo que estão pensando. Vejam. Doravante Não há mais ninguém que me queira matar. em suor e em dinheiro. Este homem está perdido.. 9. Sem nenhuma exigência. nada mais posso fazer por eles. UMA ESQUINA EM CHICAGO MAULER. ainda atiram. Até mesmo aos matadouros.41 Pergunta feita: quem ficará? Como nos outros dias. Pierpoint Mauler cruza a fronteira da pobreza 8. Eu tenho as minhas razões. cocô de cachorro: Que torna a permanência difícil. OS DOIS SEGURANÇAS – Então podemos ir? MAULER: Podem E eu também posso ir aonde queira. Basta. Há resistência. Tem certa razão de estar alegre. Slift. Está dito. hoje restarão No chão as pedras. a um de seus seguranças Parem. mais de vocês. . Perto dos matadouros. E a vocês eu despeço Pois da pobreza eu cruzei a fronteira.

precisas chegar! Joana olha ao redor. Lá dentro só se fala em violência. Ao que tropeça e cai. para poder se apresentar amanhã bem cedo ao trabalho e de repente eles falam que as fábricas nunca mais abrirão. DONA LUCKERNIDDLE – Eu devia ter duvidado. UM OUTRO LUGAR Correndo em direção ao centro da cidade. Tudo está voltando ao normal agora. Que sentimentos em nós deixareis sobreviver? . Cumpriste a missão? Joana volta a andar e uma nova voz a detém. Muitos operários teriam ficado se soubessem da notícia. eu não a darei. Como se rede já não houvesse. Joana. podias dar conta. caindo de joelhos: Luz. Joana cruza com dois operários de quem ouve a conversa: O PRIMEIRO OPERÁRIO – Primeiro eles fizeram correr o boato que as fábricas reabririam a todo o vapor. Eles teriam ficado apesar da violência da polícia. Eu vou embora. Nós não sabíamos quem eras. Nela estava nosso destino. ela procura se livrar das vozes que ouve de todos os lados. UMA VOZ – Lá onde te esperam. Joana pára. fraqueza do corpo! Oh fome. E aquele que chega a bom porto. Por este buraco fogem todos os peixes. O SEGUNDO OPERÁRIO – Isso é grave: sem dúvida uma parte das ligações não funcionou. O SEGUNDO OPERÁRIO – Os comunistas é que tinham razão. Dê a carta aqui imediatamente. (Joana desaparece na tempestade de neve) Hei! Venha! Ela foi embora! DONA LUCKERNIDDLE 10. oh verdade! Que a neve em tempestade Inoportunamente mascarou com sua noite. Pierpoint Mauler as arruinou. A pedra não perdoa. JOANA.42 – Ah. De tua missão. Joana ouve vozes. A VOZ DA DONA LUCKERNIDDLE: Eu fui a tua fiadora. isso é o que tu és! Dê-me a carta que te confiaram. Mas tu és uma traidora e teu lugar é com eles. DONA LUCKERNIDDLE – Ora essa! Para ti está tudo normal! E eu que disse que tu eras honesta! Sem isso não teriam te confiado a carta. Sem récitas inoportunas dos seus infortúnios. As massas não deveriam ter se dispersado. Ainda mais que amanhã todas as empresas de Chicago iriam declarar a greve geral. Tu não a entregaste. Que nada diga. Mas a carta que trazia a verdade. Um lixo. Uma parte dos operários saiu dos matadouros. Nós te encarregamos. OUTRA VOZ: Joana pára. de uma missão. Claridade que então eu deixei de ver! Oh! Quem conhecerá o poder da neve! Oh. JOANA – Não. De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. Anda em outra direção. Errando pelos matadouros. Mas também podias nos trair. AS VOZES: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. mas a senhora quer continuar. É inútil tentar pegar. mas entregue. O PRIMEIRO OPERÁRIO – E aqui nós não ficamos sabendo. Aquilo que lhe foi confiado. UMA VOZ: Não há desculpa Para quem não chega. estás aí! Onde tinhas te metido? Entregaste direitinho a carta? JOANA – Não.

Conheci bem um homem. E nós gritamos à plena garganta: Ah. Buscam-no por toda a parte. Liberada. ele possuía dez milhões. é tudo o que eles querem! Aqui não tem mais sopa! Aqui só tem a palavra de Deus! Ouvindo isso eles vão logo embora. que já se afunda! Mas o rico Mauler virá. UM HOMEM. Vejam que já balança. agora os pegamos. Eu o conheci: era um imbecil. coloque os móveis na rua. Sob um plúmbeo zênite de destinos desconhecidos. Mas nós o estamos esperando. X Humilhação e assunção de Pierpoint Mauler TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS MARTA. . ou que deixe o imóvel. o suntuoso Mauler. OS CHAPÉUS NEGROS: Romperam-se os diques da fé Em Chicago.43 Frio da noite. Para nos salvar neste instante. BISPA SNYDER – Sente lá atrás e fique quieto! Ele se senta. à chuva. o banco dos penitentes! E já suas mãos avidamente se dirigem Ao órgão a vapor e ao púlpito. veio nos dizer que Mauler em pessoa estava disposto a assumir o nosso aluguel e a organizar conosco uma grande campanha em favor dos pobres. MAULER. BISPA SNYDER. É Mauler. com certeza! Ele já está a caminho com os seus milhões! UM CHAPÉU NEGRO – Bispa. Exposta outra vez à neve. que prometeu nos ajudar. é sábado a noite. posto que sem abrigo. Ah. que triste. DONA MULBERRY – Bispa Snyder. Pediram-lhe cem dólares. DONA MULBERRY – Meu caro Dick. que aliás é muito barato. estamos aguardando. afastada do trabalho. minha cara Mulberry. MAULER – Eis aqui um homen marchando até o seu Deus. Ele se levanta e avança até os Chapéus Negros. o senhor Pierpoint Mauler. Este homem que foi em sua vida Mais estúpido do que um vagabundo bêbado e repugnante. E as ondas de lama do materialismo Ameaçam a casa de Deus. O HOMEM – Os fabricantes de conservas querem falar com ele e os criadores o chamam aos gritos. BISPA SNYDER – Dona Mulberry. a outro Chapéu Negro – Há três dias um emissário de Pierpoint Mauler. investindo contra ele – A sopa. Uma boa orquestra à mão e sopa Bem grossinha: terminam para Deus todas as preocupações. o rei da carne. quem vos pode resistir? Eu preciso dar meia volta! Ela retorna sobre seus passos correndo. entrando – Pierpoint Mauler está aqui? BISPA SNYDER – Não. Um homem começa a levar os móveis para a rua. nossa boa cidade. a qualquer momento. O reino de Deus está pronto na minha cabeça. A massa espera. Quero que a senhora pague o meu aluguel. OS CHAPÉUS NEGROS: Estão levando. onde iremos acomodar o nosso público? Chega um pobre. se ele pudesse vir. na frente do palco : Ouvi alguém procurando um certo Mauler. Salvar-nos com o seu dinheiro! BISPA SNYDER Há exatos oito dias Que nos matadouros onde as máquinas enferrujam. De um só golpe o bolchevismo também é enterrado. no céu e no inferno. com sopa quente E um pouco de música. Ele sai.

Ele pega dois Chapéus Negros pelo braço e senta-se com eles no banco dos penitentes. Tiremos de nossas paredes as máximas. devolva-me os meus quarenta aluguéis! MAULER: Vós desejais. OS CHAPÉUS NEGROS – Ele já chegou? MAULER: Um hino. Culpado. Abusado da força e espoliado todo o mundo Em nome da propriedade. Os Chapéus Negros cantam. MAULER: Eu me acuso de ter explorado o meu próximo. eu vejo. gritando – E sem dinheiro? (Aos Chapéus Negros:) Façam as malas. todos para fora! A Mauler: E tu primeiro! Onde estão os quarenta meses de aluguel Desses não-convertidos que Joana enxotou? E vejam só o que ela me trás em troca! Devolva-me. OS MÚSICOS: É deste aí então que vocês esperavam O dinheiro para nos pagar? Então nós vamos embora. Sentados sobre as margens do lago Michigan. Diante de vós. Sentados sobre seus últimos bancos e suas últimas cadeiras os Chapéus Negros cantam desordenadamente seus últimos hinos. OS CHAPÉUS NEGROS: Não perca a confiança! Homem de pouca fé! Ele virá. BISPA SNYDER – Tu és Mauler? MAULER – Sim. BISPA SNYDER Silêncio! Fora. CORO DOS CHAPÉUS NEGROS. Apenas nos resta chorar. Todos os pagamentos estão suspensos. Aqui estou agora. é certo. E sobre nós a neve envia suas tempestades Em um inverno no qual crescem os rigores. E esse gesto tocou os nossos corações. Se aproxima já Com os seus milhões. Mas quebrou a nossa cara De uma vez por todas. Ouçam então a minha confissão: Aqui jamais se ajoelhou Ninguém. seguindo a letra por sobre o ombro de um dos Chapéus Negros. Mauler! MAULER: Mas quero acrescentar que no sétimo dia Fui despojado de tudo. Silêncio! Tragam-me o livro das faturas e contas por pagar: estou nessa parte. Os músicos tocam um hino. eu vos rogo! Pois eu sinto O coração ao mesmo tempo leve e pesado. mas arrependido. olhos voltados para a porta. já. deu cabo de si mesmo. sem nada. meus amigos. Jogou no mar seus milhões. Joana. Eles cantam ainda “Entrai na batalha”. ar ausente. sim. Passar bem. Não podemos mais pagar as nossas contas. construir vossa casa . que tenha caído tão baixo. Envolvamos em nossas bandeiras derrotadas Os livros de cânticos. UM CHAPÉU NEGRO – É ele.44 No fim. DOIS MÚSICOS: Um pedacinho só. BISPA SNYDER. dirigindo-se aos músicos que vão embora: Nossas orações eram pelo rico Mauler E foi Mauler o arrependido que entrou. recusou-se a dar o dinheiro. BISPA SNYDER. Por sete dias apertei a garganta Desta cidade até sufocá-la. inclinado sobre os livros de contabilidade – Não direi o que estou calculando. Mauler canta com eles. não o seu dinheiro. Ele trazia o seu coração. e dilacerado de remorsos.

com voz dura. Um vitelo ou um porco. Que a constatação vos enche de amargura. Mas Slift. tomando a frente : Mauler. Ah! Se não tivesses aliviado tanto os nossos bolsos. Ninguém jamais pode fugir da lei. OS CRIADORES: Maldito Mauler. Eles também estão muito pálidos. Mauler. Em três dias. a comprar gado. E sobre eles atirou-se. o que existisse de gado. em poucas palavras. gado canadense. assumindo seus deveres. e a noventa e cinco Comprou-os todos. Não terias a necessidade de aliviar aqui A tua consciência. Mauler. Relatarei o combate memorável Que. Lançou. Que não ficou só por muito tempo. os reis da carne vêm ao seu encontro. comprometendo suas casas. Que vos pertencia.45 Sobre o que há de pior em mim. agigantou-se E a todos nos precipitou no abismo! MAULER: Oh! Eternos combates! Em nada são diferentes Desde os tempos antigos onde os homens Com uma barra de ferro rachavam-se as cabeças! GRAHAM: Recordai que estávamos à vossa mercê. que fareis? Entram os criadores em grande agitação. salva tua alma. Vossa função seria apenas a de brincar na relva. da Argentina. OS REIS DA CARNE: Perdoai-nos. chorando. No mercado perturbado. durante sete horas. Acorreram todos em ajuda. Viram-se os preços Oscilarem. é aqui então que te escondes? Paga nossos bois ao invés de fazer penitência. O Banco Nacional gritou: “Alto”. desde a aurora. hesitantes. firmas de grande renome. Era vosso todo o gado. Pelos contratos que nos obrigavam A entregar de imediato as conservas prometidas. o caos. Ele tenta sair. Para mim o humano era aquele a quem eu podia explorar. E tudo o que de longe parecesse um boi. paga-nos o gado! GRAHAM. Que projeto tendes agora. Slift apertou Ainda mais forte a nossa garganta. E Wallox e Brigham. Bispa. Dá o dinheiro. ao meio-dia. como um bêbado sedento Que ao mar esvaziou sem se satisfazer E lambe avidamente cada gota que encontra. eles iriam trazer. Estão pálidos como o linho. Eu sei muito bem. Este espetáculo atroz apavorou o ancião. tomado de loucura. . Os complexos pensamentos de vosso imenso espírito. por ter vindo Atrapalhar neste lugar as tuas meditações. quem nos derrubou. O que pretendeis fazer de nós? Foste vós. O ancião venerável. Mas nós estamos perdidos: Em torno de nós. No ciclo dos astros ou das mercadorias. Concluo eu o seguinte: o Mauler que sou Não é aquele do qual precisais. Por vós fomos forçados. Mauler. Quando. E hipotecando até o último lápis Para trazer de Quebec. Prometiam até o gado por nascer. nobre Mauler. Loew e Lévi. Na porta. Subiu os preços a noventa e cinco. Um zênite ameaçador de pensamentos desconhecidos. e sobre nossas cabeças. Dais o nome de homem a quem vos vem ajudar. Mas se chamássemos de homem àquele a quem se ajuda Daria no mesmo: necessitaríeis sempre De gente a ponto de afogar-se. Mal viu esses bois vindo ao longe. partistes.

E os jovens bois de pêlos reluzentes Engordados com tanto cuidado. isto é. Porque não mais podemos honrar os contratos. O que fazer. Lévi. em um suspiro. os agentes fechando suas escrivaninhas. Estão satisfeitos? OS CRIADORES: Há pouco tempo. Com esse gado que ninguém é obrigado a comprar? OS CRIADORES: Sem querer perder a paciência. Seria esmagado como um morango no chão. Lançaram-se um a um nesta última batalha. Slift então gritou: “Cem”! Poderia ouvir-se um alfinete cair. Rangerem os dentes. fomos estrangulados E de que adianta estrangular um cadáver? MAULER: Foi assim então. e os preços subiram. Eles precisavam entregar. Nós queremos que nos digas Como. Ouviu-se nesse dia os jovens estagiários. Como definha uma esponja espremida. Sob nossos olhos. Slift. golpeia um corretor na barriga.E a voz ainda nos alcançava Mesmo com a balbúrdia dos trens que partiam: . Lévi. E nós comprávamos sempre: Nós precisávamos comprar. MAULER: Agora mesmo. com olhos marejados. Institutos de crédito. se por um acaso Um elefante se arriscasse pelo interior da Bolsa. agora. quando e com que dinheiro Nos pagarás o gado comprado. E em silêncio também os bancos desmoronaram. Aí está o que tornou o contrato sem valor Apertastes muito forte. os vívidos vitelos. o velho Lévi disse então em voz baixa. Vertiginosamente. Parando de pagar. tomados de desespero. que travaste a batalha Que deixei a teus cuidados! SLIFT: Corte-me a cabeça! MAULER: E de que me serve tua cabeça? Dá-me o chapéu. Com esse chapéu e este sapato: Dez milhões o chapéu. Que nos píncaros se encontrava. entrego por cinco. na batalha. Célebres. de imediato. ele ao menos vale vinte e cinco centavos. os cavalos inimigos. paravam de viver. mudos. e então se retirarem. E que não foi ainda acertado. é sabido. de rocha em rocha E somente em trinta a queda parou. E viu-se. obstinados. E como contratos nulos não impõem compras. Até os simples contínuos. Casas até então sólidas e poderosas.. Em tudo semelhantes aos antigos corcéis Mordendo. Os corretores. diga-me. De cotação em cotação Os preços caíram e rolaram até os negros abismos. Do outro eu preciso. Só um. Mas alto o bastante para que todos ouvissem: Para pagar-lhes tomem então nossas fábricas. O sapato. Lutavam a dentadas. quando levamos às estações De nosso longínquo Missouri Com muito sacrifício. os fabricantes apáticos Depositarem a vossos pés suas fábricas fechadas. Toda a família nos gritava de longe Com a voz embargada pelo trabalho duro . Eu quero para hoje”. baixou. bancos. a carne de boi. Como a água que cai na cascata.. Naquele instante. Inúteis portanto.46 Mas Slift gritou: “Três dias não. comprar. por sua indiferença. um a um. E Brigham arranca a barba aos gritos: “Noventa e seis”. em um espasmo.

Estariam vocês dispostos a repetir aos quatro ventos . E dado que de vós necessitamos. voltar para casa? O HOMEM DE ANTES. é impraticável.(Ele abre a carta e lê de canto) “Escrevemos a você recentemente. Rockfeller. MAULER: Em nós a consciência. OS FABRICANTES E OS CRIADORES: Desejarias. Mas para mim. para que os preços voltem a subir. de Nova Iorque. GRAHAM – Mas então é Wall Street? Um murmúrio percorre o ambiente. não bebam todo o dinheiro. GRAHAM – O que não é possível? MAULER – Tenho amigos em Nova Iorque que. pelo que dizem. Pois os preços do gado vão subir. nobre Mauler. é muito a contragosto. De um asilo necessário para os casos mais graves.. caro Pierpoint. Alguma chance de sucesso.” Não. entrando – Mauler está? Uma correspondência para ele. Providos de sopa quente e de boa música.. compreendei. Pois ainda creio ouvir O rumor dos matadouros. MAULER: Ou seja. Jogai sobre vossos ombros o jugo. esta caça fatigante. mostrando o lombo vazio E nossos bolsos também? Como. O negócio só é possível. o que faremos. para que comprasse carne. nós estaremos de bom grado à sua disposição. Agora. esperamos” E agora. Se assim fosse concebido. Compreendido como sendo de interesse geral. O projeto teria talvez. estão para sempre perdidos. neste estado. MAULER: Se o faço.. Não quero. rapazes. vocês estariam dispostos. a quem mandavam cartas desse tipo. Não. Nossa pobreza é termos perdido O sentido dos valores mais elevados. isso não é possível. MEYERS – Quem são esses amigos de Nova Iorque? MAULER – Morgan. Julguem vocês mesmos. Seus amigos de Nova Iorque. MAULER – Eu costumava ser esse Mauler. Sancionado pelas instâncias superiores. amigos. Nem todos aqui em baixo poderiam ser ricos. conhecem um meio de sair desta. nós lhe forneceremos amanhã mais detalhes. Não ter fartura de bens terrestres. assumir a empreitada. sozinho. elas vão mal. E voltar até nós? Pensai.. Neste caso. Deixando as sublimes esferas onde meditais. A Snyder: Existem muitas dessas lojinhas Onde se vende a Bíblia? BISPA SNYDER – Sim? MAULER – E como elas vão? BISPA SNYDER – Mal. Seus bens. condescender. ao contrário. Caro Pierpoint. Mauler. Cuja voz está a tal ponto asfixiada. De máximas sagradas e escolhidas com grande cuidado. Ele estende-lhes a carta. pensai no caos Que ameaça a tudo engolir. mas são numerosas. Como tudo de agora em diante Me parece diferente. E o barulho das metralhadoras. Como voltar para nossa terra? E que diremos a eles.47 “Ei. nós aconselhamos a fazer um acordo com os criadores para reduzir o rebanho. entendei. Abandonai. Mas se fizéssemos uma grande promoção De sua instituição. Mas nossa pobreza não é. Outra vez responsável.

Esta dificuldade pela qual estamos passando Está a ponto de ser superada. Eliminar o estoque excedente atual. . desordem e violência. E que. mas se o gado tem tão pouco valor Que pensam em queimá-lo. você não compreendeu A questão de fundo. Nós o faremos. Todos sorriem longamente. para puxar os preços. ou melhor: quase todos Mas é o único meio de salvar o sistema De vendas e compras no qual vivemos. Seria muito importante. tem seus defeitos. nesses tempos de desgraça? Pois serão necessárias medidas draconianas Que poderão parecer duras porque irão Derrubar alguns e. Digamos: a maior parte. Vê que são eles os compradores! Seja como for. Limitar o rebanho oferecido no mercado. BISPA SNYDER – Quase todos. Elas trarão a calma e a ordem. Elas impedirão que em sua brutalidade Um povo. Em conjunto. criadores e industriais.Pois eis Chicago outra vez agitada A greve geral. Meter um freio à anarquia da criação. Não tem outra causa a não ser Que há carne demais. é eminente -. . supérfluos. OS FABRICANTES – Que cérebro! MAULER. MAULER. Será preciso demitir um terço dos operários: Também de mão de obra o mercado está saturado. Eles podem nos parecer inferiores. Toda essa gente aí fora: Eles são os nossos compradores! Dirigindo-se aos outros: É incrível. é claro Que entre vocês estivesse Joana. mais ainda. E mesmo que muitos não compreendam. aos fabricantes: Faremos uma fusão de suas indústrias Em um só monopólio. O mercado foi saturado este ano. E às vezes inoportunos.48 Que nós somos uma gente valorosa. TODOS – Não há outra saída! MAULER – E também precisaremos reduzir os salários! TODOS – É o ovo de Colombo! MAULER: Qual o objetivo dessas medidas? Nesta noite de sangue e confusão. É preciso limitá-la. que nós subvencionaremos Fartamente a sua missão que contribui Com a manutenção da ordem. quebre suas ferramentas E destrua assim seu próprio ganha-pão. sorrindo: Minha cara bispa. meus amigos! Eles cochicham. E é por isso que os preços caíram a zero. nós decidimos. Chapéus Negros. Nesse tempo de humanidade desumanizada. Miséria e fome. é lógico. Eu compreendo o senhor. mas olhando bem Quem vê além das aparências das coisas. ofuscado. TODOS – Que solução simples! BISPA SNYDER. Enfim. Eu fico com a metade das ações. que deseja Fazer o bem. dizem. Em que em nossas cidades os problemas não têm fim. não poderíamos Doá-lo àqueles que esperam lá fora E quem sabe utilizá-lo melhor? MAULER. Então. É por isso. pedindo a palavra: Perdão. aos criadores : Escutem. queimar um terço do gado existente.

chega e pergunta – Vocês viram passar três homens que vinham buscar uma carta? Ao fundo ouve-se gritos que se aproximam. Até nós. o mercado vai ser curado! Outra vez saímos do ponto morto E realizamos uma obra difícil. Sejam bem-vindos. Passam então os dois dirigentes operários escoltados por soldados. olhar fixo na porta: Eles terão de vir. Os que aqui chegarem. penteados e carecas.49 Cuja face por si só já inspira confiança. Imóvel. Eles vêm até nós para chorar. Ninguém pode escapar: tranquem as saídas. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Todo aquele que aqui entrar. joguem as grandes redes! Eles saíram agora de sua última casa! Deus lançou sobre eles o frio! Deus lançou sobre eles a chuva! Eles terão de vir. apanhem-no! Lazarentos e descalços. eles chegam até nós. Foram presos os sacrílegos que perturbavam a paz e a ordem! SLIFT: Podem respirar. para que nenhum escape! Eles estão a caminho. Ela então ouve. apanhem-nos! Sejam bem-vindos. não deixaremos! Sejam bem-vindos. a seu lado. estamos prontos! Já estão chegando! A miséria os traz aqui como um rebanho! São obrigados a vir. Quando perdem o trabalho. dois homens conversando. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! XI NOS MATADOUROS EM FRENTE AO ARMAZÉM DAS FÁBRICAS GRAHAM Os matadouros estão quase vazios. Toquem a música e nós mesmos Seremos os primeiros a nos sentar Para elevar nossos corações a Deus. MAULER: Abram agora a porta principal Aos homens cansados e cheios de preocupação. UM DELES – Quem são eles? O OUTRO Nenhum deles Pensou só em si mesmo. Eles combateram Pelo pão dos outros. Quando estão cegos e surdos. As coisas retomaram o rumo que nos agrada. Passam apenas alguns grupos de operários. Nossos planos outra vez se impõem. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Tranquem as saídas. UM CORRETOR. Música de órgão. De sopa encham os pratos. UM DELES – E por que foram presos? . JOANA. Joana segue com o olhar os prisioneiros. OS CHAPÉUS NEGROS. SNYDER – Abram as portas! A porta principal é aberta. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Vamos. estão chegando! Daqui eles não escapam. Perseguidos sem trégua. joguem as grandes redes! Sejam bem-vindos. cantam. Nenhum deles tem chapéu. entrando precipitadamente – Escutem a boa nova! A greve que nos ameaçava foi sufocada.

que seguram bandeiras novas. foi reduzido em um terço. Divididos em grupos estão os Chapéus Negros. à sua frente. Não. E a carne vai subir. carregando lanternas. Um grupo de pobres entra. entretanto. As fábricas reabrem. As rajadas de neve a impediram de ver os soldados. OS JORNALISTAS – Vejam só. chega ao termo de sua vida. – Ela deve estar aqui. Lançados em terra profana. Aqui está! Seriam necessárias muitas como ela. JOANA. pisoteados. os açougueiros (fabricantes de conservas) os criadores e os compradores. mas apenas para dois terços dos operários. amparada por um policial. você aí! As coisas deram errado. UM DELES – Por que não se ouve falar deles? O OUTRO O OUTRO greve. O POLICIAL: Eis aqui uma sem-teto. como se ainda quisesse entregá-la: . Em nós podem por fé. Seu último endereço Teria sido aqui. Enfim o sucesso chegou E tudo acabou bem. SNYDER: Quando nos jornais falarem de criminosos abatidos. A greve geral fez água. Nenhum come seu pão tranqüilamente. Ela veio daquele lado e aqui ela gritou para os nossos que as empresas municipais iriam decretar OPERÁRIOS Sim. Deixem ela aí no chão.50 – O homem injusto atravessa a rua à luz do dia. UM DELES – Sempre será assim? O OUTRO – Não. Joana se vira. esticando o braço com a carta na mão. Joana cai desmaiada. a sorte nos sorriu. mas o justo se esconde. Nos vales e nos cimos. Nenhum morre de barriga cheia. Todos perecem antes do tempo. Golpeados. Nós soubemos ser sublimes E vulgares quando necessário. Era uma velha operária. e a esta a polícia dispersou com o uso de força. não é ela. Esta aqui não é das nossas. os jornalistas a interpelam. Deus outra vez se impôs. XII EM FRENTE AO ARMAZÉM DA FÁBRICAS GRAHAM Um grupo de operários entra. Recolhida doente Nos matadouros. o salário também. Nem é enterrado com decência. JOANA – Os operários concordaram? OS JORNALISTAS – É claro. Ou de malfeitores postos na cadeia. Quando os soldados vierem a recolherão. não é a nossa Madona dos matadouros? Hei. saiba que são eles. UM DELES – O que farão com eles? O OUTRO: O salário deles é baixo e seu trabalho útil à maioria. XIII MORTE E CANONIZAÇÃO DE SANTA JOANA DOS MATADOUROS Agora o templo dos Chapéus Negros está ricamente mobiliado. Nenhum. Joana. A decisão sobre a greve geral só chegou a uma parte deles. Um deles a derrubou com uma coronhada. Durante alguns segundos eu a vi distintamente.

Vós. quais os gritos que abafas? Comei vossa sopa! E não desperdiceis esse resto de calor. Joana dos Matadouros. Desta vida intolerável E atingir o inconcebível. OS CHAPÉUS NEGROS: No final. Vamos colocá-la em destaque. E tinha sonhos para milhares. Intercessora dos pobres. Quando o meu esforço. na noite. Eu faltei. Ela será a nossa Santa Joana dos Matadouros. Chegou na hora certa.51 Jamais receberá a carta Aquele que agora está morto. O ideal. por menor que fosse. E eu não fiz! Enquanto os pobres tomam assento nos bancos para comer a sopa. Eu o neguei. o infinito. Ela vai muito adiante. Consoladora dos baixios! JOANA: Que vento sopra nesses baixios? Neve. enquanto as moças dos Chapéus Negros a vestem novamente com o uniforme: Ouve-se outra vez o rugir das fábricas: Outra vez se desperdiçou a chance De colocar um freio a esses excessos. pois ela nos ajudou a atravessar a tormenta dessas semanas difíceis. Por uma boa causa. E só servi aos perseguidores. Ela que. Eu falhei com os perseguidos. marchava para a luz! Seus atos eram os de um ser humano. Slift discute com Snyder e com os fabricantes. Pelo contrário. SLIFT – Esta é nossa Joana. Mostrá-la entre nós provará o quanto nos importam os sentimentos de humanidade. Que Joana exorcize o mal E que por nós ela interceda. dirigindo-se a Joana: Como ela ainda está perturbada. toda a obra Onde o espírito não encontra. Foi necessário. E seus erros. E outra vez o mundo Percorre o antigo ciclo. empregando todos os meios. A vida tranqüila de um cordeiro. eu poderia levar. E em sua marcha altaneira Para evadir-se ao mundano. também humanos! JOANA. a quem não se pode mais explorar! Comei a sopa! Ah. e ultrapassa o objetivo. intercedendo pelos pobres e mesmo proferindo discursos contra nós. MAULER: Uma alma que exala sublimes impulsos Suporta mal. MAULER: Que tome posição em nossas fileiras Esta alma inocente e cândida E que sua bela e pura voz Misture-se aos cânticos de nosso coro. BISPA SNYDER: Levanta-te. Matéria a sua altura . Se eu apenas tivesse entregue A carta que me confiaram! OS CHAPÉUS NEGROS. JOANA: Eu falei em todos os lugares. dando provas de humanidade nos matadouros. um serviço tão pequeno Foi só o que em toda a minha vida Me pediram para fazer. Nós faremos dela uma santa e não economizaremos em homenagens. sua térrea natureza. Quando se poderia ter alterado o curso das coisas. infelizmente.

JOANA: É uma grande verdade Que aprendi e que vale para todos E morrendo eu vos digo: Vossos bons sentimentos. Não esqueçamos que ela esteve nos matadouros. Se não for uma ajuda real. OS FABRICANTES: O resultado. caí do céu! Infelizmente! Bondade sem conseqüência! Sentimentos Que não fizeram a menor diferença! Não. qualquer que seja.52 Resta fragmentada Sem alma e sem vida. que significam Se não se manifestam em nenhum lugar? De que serve vosso saber Se o que sabeis não tem conseqüência? Eu mesma. JOANA: Pois entre os de cima e os de baixo O abismo é mais profundo Que entre o Himalaia e o fundo do mar. Porque o sistema é construído assim: É apenas exploração e desordem. então. Precisa-se do chão. E dois idiomas diferentes Os homens têm a mesma face E não se reconhecem mais. dois pesos e duas medidas. Contrário à razão. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES. eu não transformei nada. Maldito aquele que apelar A essas massas essenciais Mas sempre insaciáveis. Pois se dele esquecer Perturbará nossa harmonia. O que está em cima está em seu justo lugar. para os exploradores. Não tenhais a preocupação de terem sido bons . é magnífico Sempre que espírito e negócios se aliam. como do topo. Deixando sem medo um mundo por onde passei muito rápido. Eu. E o que se passa no alto. GRAHAM – Ela não pode proferir discursos que não sejam razoáveis. A esses elementos dos baixios! JOANA: Mas os que estão por baixo são assim mantidos Para que os de cima lá continuem. Mas que não sabem o quanto. Que ninguém seja tido como honrado. ignora-se o que se passa em baixo. E sem descanso nem folga Realize seu dever. Mas também no alto. Que nada seja considerado como boa ação. No topo e no chão. falando alto. OS CHAPÉUS NEGROS. Que cada um. Mas nada mudará se eles melhorarem. fique no lugar Que lhe é atribuído. Quaisquer que sejam as aparências. Eu vos digo: Quando chegar a vossa vez de deixar esse mundo. o que foi que eu fiz? Nada. A essas tropas indispensáveis. Sistema bestial. a Joana: Seja boa e se cale! . Entre os do alto a baixeza é sem limites.Isso não basta – Deixai um mundo bom. O que está em baixo tem grande importância. de maneira a encobrir a voz de Joana: Para que até o céu se levante o edifício. Nunca se sabe em baixo. Exceto aquele que muda o mundo Definitivamente: isso é o que é realmente necessário.

Não. digam qualquer coisa. Não esqueças: tua consciência está lá! Atenção. Falem. de século em século. Sempre necessário . é preciso fazer algo para tirar a atenção do que ela fala. Em suas compras. infelizmente. ou seja. vinte e cinco anos.53 É preciso. Que podeis elevar-vos moralmente Mesmo com os pés enfiados na lama. BISPA SNYDER – Joana Dark. Aos ricos concedei a riqueza! Hosana! Também a virtude. Do qual podeis esperar ajuda. Onde vivem os homens. Sempre se metamorfoseia. a eles concedei! Hosana! A quem tudo possui. Precisarás deles sempre! OS CHAPÉUS NEGROS: Olha para cima.Sobretudo se forem compras especulativas – Esse Verbo que. É preciso também golpear-lhes o crânio com uma pedra. invisível. obedeça! OS AÇOUGUEIROS: Quem se mover no espaço Nunca poderá subir: Subir é subir sobre alguém. Só dos homens pode vir ajuda. Onde reina a violência Não há outro recurso senão a violência. Combatente e mártir. O Verbo magnífico. Todos. ferir! OS CHAPÉUS NEGROS: Nunca esqueças do sangue que mancha teus sapatos. mas que seja bem alto. Não esqueçam. JOANA: Se alguém um dia vos disser Que existe um Deus. sobretudo. contraiu a serviço de Deus uma pneumonia nos matadouros de Chicago. Batei com uma pedra em seu crânio Até que arrebente. OS AÇOUGUEIROS: E nem pensa em tirá-los. Denegrindo a ti mesmo. Chegar ao topo implica Pisar na cabeça daqueles que estão por baixo. distingam com um sinal! Hosana! Enquanto eles cantam os versos.266 bilhões só em dez dias de março” “BC assalta U$ 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street” “Montadoras almoçam os R$ 8 bi do crédito e mantêm ameaça de demitir trabalhadores” “Deficit dos EUA deve chegar a US$ 9 tri entre 2010 e 2019” . de esquecer os remorsos. Mas evita. JOANA: E do mesmo modo. A palavra de Deus. cantam a primeira estrofe do hino. tudo concedei! Hosana! Concedei-lhe a cidade e o Estado! Hosana! Aos vencedores. é verdade. comerciantes. sempre mais alto. MAULER: Deves agir. SLIFT – Escutem. quando vos disserem. para abafar o discurso de Joana. OS AÇOUGUEIROS: Podes fazer qualquer coisa! OS CHAPÉUS NEGROS: Mas faça-o Sempre com muito escrúpulo! Espírito contemplador. os alto-falantes começam a transmitir notícias que espalham o medo: “Bank of America e Citibank estão de pires na mão” “Revolta contra os cupins financeiros conflagra Londres” “Múltis drenam do país US$ 3.

por que não empregaram mais gente e pagaram melhores salários? Quem esperam que compre a nossa carne?” “Foram os intermediários que fizeram subir tanto a carne de gado.54 “Empresas dão calote recorde para remunerar seus acionistas” “Recessão ainda irá se agravar no Japão. Comove-nos profundamente. até cobri-la totalmente. Hosana! Piedade com aqueles que ignoram a fome. se não tivessem degolado tantos porcos!” “Criadores miseráveis. Por um nobre ideal. Ajudai vossa classe. Hosana! Durante esta estrofe. que vos ajuda também. Hosana! Oferecei a vossa graça.” “Foram as tarifas das estradas de ferro que nos esfolaram. Bolsa de NY cai 4. Snyder e Mauler vão até ela. até o fundo cravado. A um sinal da bispa. levanta e vira. Nós que temos a alma comum! E então desperta a boa alma Que temos no fundo de nosso coração. Infelizmente. Hosana! Ajudai a quem tudo possui. as mulheres tentaram oferecer a Joana um prato de sopa. Hosana! Que seus crimes terminam bem. morta de pneumonia nos matadouros. Todos ficam muito tempo de pé. Em seguida cai nos braços delas. mas ela cai. que manipulam o dinheiro a rodo. Um desejo vive no coração do homem.” “Foram os especuladores de grãos que encareceram o gado. Qual um punhal. Hosana! Juntai vosso riso aos que riem. ao firmamento Um impulso múltiplo o atira. tocada pela morte. Colocam a bandeira em suas mãos. Hosana! Nesses braços que vos estendem. A carne para a terra o arrasta! MAULER: Ai! Um duplo desejo dilacera meu pobre coração. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES: Desde que o mundo é mundo. BISPA SNYDER – Joana Dark. Pelo espírito. O palco é iluminado com uma luz rosada. Em duas tentativas ela recusa o prato.7%” “Crise já eliminou 6 mi de empregos nos EUA” “Incertezas rondam fábricas da GM à beira do fechamento” Sob o efeito dessa terríveis notícias os personagens trocam entre si acusações e diversos insultos como esses: “Açougueiros sujos. MAULER – Dêem uma bandeira a ela. vinte e cinco anos. diz governo ” “EUA mudam socorro para bancos. Hosana! Notam que Joana para de falar. sinto-me atraído: . Aos astros. Hosana! Esmagai o ódio. combatente e mártir. foram vocês que se recusaram a reduzir também!” “Vocês são os únicos culpados!” “Enquanto não acabarem com vocês não vai melhorar!” “Faz tempo que o destino de vocês está selado!” “O que estão esperando para prender vocês?” Todos cantam a segunda e a terceira estrofes do hino. para sua grande pena. MAULER: Como a pureza De um ser inocente. Hosana! Com mãos cheias.” “Os bancos nos arruínam com os juros que exigem!” “Quem pode pagar tanto dinheiro para estocar o gado e pelos silos de grãos?” “Por que vocês não começaram a reduzir a produção?” “Nós começamos. sempre ele aspira Às esferas mais elevadas. na terceira vez ela o pega. A voz de Joana já não se ouve: Concedei aos ricos misericórdia. por que criaram tanto gado?” “Alucinados. Não dá mais sinais de vida. colocam-se suavemente todas as bandeiras sobre Joana. A generosidade De uma alma sem mácula. mudos de emoção. a serviço de Deus.

Cuida de tua alma terna. Homem! Luta sempre contigo mesmo! Sigas sendo este ser uno e sempre dividido! Cuida de tua alma boa. não consigo resistir Inexplicavelmente! TODOS: Em cada homem habitam Duas almas opostas. Ele precisa cuidar de ambas. Cuida bem das duas! . como de tua alma vil.55 Desejo a abnegação. como de tua alma grosseira. Longe de querer escolher uma delas. desejo o altruísmo Mas à atração pelo lucro.

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