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I O rei da carne, Pierpoint Mauler, recebe uma carta de seus amigos de Nova Iorque CHICAGO. OS MATADOUROS
MAULER,

lendo uma carta. – “Parece-nos evidente, caro Pierpoint, que já há alguns dias o mercado da carne está saturado. E, no sul, as barreiras alfandegárias resistem a todas as nossas ofensivas. Acreditamos, portanto, ser prudente, querido Pierpoint, não mais envolver-se com este negócio...” Acabo de receber essas indicações de meus bons amigos de Nova Iorque. Lá vem meu sócio. Ele esconde a carta. CRIDLE – Por que esse ar tão sombrio, querido Pierpoint? MAULER: Lembra-te, Cridle, daquela caminhada Que fizemos uma vez, pelos abatedouros? Era noite. Diante de nossa máquina nova, Cridle, lembra-te, nós vimos um touro Claro e nobre, dirigindo aos céus seus grandes olhos vazios. Ele recebeu diante de nós o golpe que o abatia: E tal golpe me atingiu até o fundo do coração! Há sangue demais, Cridle, em nosso negócio! CRIDLE: Amigo, vens outra vez com tua antiga fraqueza. Quem acreditaria, Pierpoint? Tu, o maior de todos, O rei dos abatedouros, dos açougueiros o terror, A morte de um touro louro te enche de dor! Não conte, eu te rogo, tal segredo a ninguém A não ser a mim! MAULER: Oh, meu fiel amigo, Por que me levaste a visitar o abatedouro! Durante os sete anos em que estou no negócio

Eu evitei fazê-lo. Eu não posso suportar Um comércio tão sangrento, não tenho mais forças: Eu me retiro de imediato... Cridle, queres a minha parte? A terias por muito pouco; a ti, a preferência: Ninguém conhece o negócio como tu. CRIDLE: Muito pouco? Quanto? MAULER: Velhos amigos como nós dois Não podem disputar muito por valores. Dez milhões! CRIDLE: Não seria caro, se não houvesse Lennox Que, pela carne em conserva, lata a lata se bate, E estraga o mercado com seus preços baixos. Tirará nossa pele, se não tirarmos a dele. Enquanto ele estiver em pé, e só tu podes abatê-lo, Não posso aceitar tua proposta. Deverás, até lá, com tua mente fértil, Encontrar uma saída. MAULER: Não, Cridle, Esse coração treme ainda com o grito do touro! É preciso então que Lennox caia rápido, Pois quero, doravante, viver como homem de bem E não mais como açougueiro. Saiamos, Cridle, e eu te direi A forma de abater Lennox. Mas tu deverás então tirar esse peso do meu coração E tomar a frente de nosso negócio CRIDLE: Quando Lennox for derrubado Eles saem. II

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O desmoronamento das grandes indústrias da carne A - DIANTE DA FÁBRICA DE ENLATADOS DE LENNOX
OS OPERÁRIOS

Nós somos setenta mil Nessas fábricas de conservas E nossos salários são tão baixos que não podemos mais [sobreviver. Ainda ontem, de surpresa, reduziram nosso pagamento E hoje, um novo aviso: “Os que não estão satisfeitos, sempre podem deixar a fábrica!” Saiamos então, e todos juntos. Ao diabo esse salário que diminui todos os dias. Silêncio Há muito tempo já esse trabalho nos nauseia: Esta fábrica é para nós um verdadeiro inferno E só pode nos manter aqui o medo, O medo duplo, de Chicago e do inverno. Mas agora, doze horas de trabalho Já não garantem nem um pão seco Nem dão para comprar um trapo velho. Melhor partir E morrer de uma vez. Silêncio Pelo que nos tomam eles? Acreditam então Que nós somos gado, dispostos a tudo? Tomam-nos por jumentos? Melhor morrer! Deixemos a fábrica Agora mesmo. Silêncio O que houve? São seis horas! Por que não abrem, corja de esfoladores? Seus bois estão aqui, bando de açougueiros! Abram! Batem no portão.

Terão eles nos esquecido? Risos. Abram! Queremos entrar Em suas imundas pocilgas E suas cozinhas infectas Para preparar guisados indigestos Para os que ainda podem pagar. Silêncio No mínimo exigimos, O salário anterior, que já não dá para nada. No mínimo A jornada de dez horas e, no mínimo... UM HOMEM QUE PASSA: O que vocês estão esperando? Não sabem que Lennox fechou? Gazeteiros de jornal aparecem na cena GAZETEIRO – Lennox, o rei da carne, forçado a fechar suas fábricas! Setenta mil operários na rua. Lennox vítima da concorrência feroz imposta por Pierpoint Mauler, rei da carne e da responsabilidade social!
OS OPERÁRIOS

Desgraça! O próprio inferno Diante de nós fecha suas portas! Nós estamos perdidos. O impiedoso Mauler Aperta a garganta de nosso explorador E somos nós que sufocamos! B - UMA RUA – A Tribuna de Chicago, edição do meio-dia! O rei da carne e da responsabilidade social, Pierpoint Mauler vai inaugurar os Hospitais Pierpoint Mauler, os maiores e mais caros do mundo! Dois transeuntes olham para o fundo do palco, “vendo” Mauler. UM TRANSEUNTE, ao outro – Aquele é o Pierpoint Mauler. Mas quem são os dois que o acompanham?
GAZETEIRO

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– Seguranças. Só anda escoltado, com medo de apanhar de alguém.
O OUTRO

Para levar Deus ao coração de um mundo que desaba E nele restaurá-Lo, pela ação dos mais humildes. Os Chapéus Negros andam. Toque de tambores. Durante todo o dia os Chapéus Negros pregaram nos matadouros, mas, quando a noite chegou, os resultados eram quase nulos. DIANTE DA FÁBRICA DE CONSERVAS LENNOX – Dizem que eles estão preparando um grande golpe sobre o mercado de carne. Para nós isso que dizer esperar e passar fome. OUTRO OPERÁRIO – A luz está acesa nos escritórios. Estão lá, calculando os lucros. Chegam os chapéus Negros. Fixam no chão uma placa na qual se lê: “Hospedagem: 20 centavos por noite. Com café: 30 centavos.” CHAPÉUS NEGROS cantando Escutem todos, escutem bem! Tu que te afundas, nós te vemos, Teu apelo por ajuda, nós o escutamos, Teu sinal, nós o percebemos. Parem os carros, detenham o trânsito Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Tu que te escondes, tu que duvidas, Olha para nós! Olha, Meu irmão, antes que sucumbas! Nós te damos o que comer E nós não esquecemos Que tu não tens abrigo. E, sobretudo, não digas que tudo está perdido: Tudo será diferente, a injustiça nesse mundo Não poderá durar se todos se juntarem a nós, Marchando ao nosso lado Com o único objetivo de ajudar o próximo. Nós faremos avançar os tanques e os canhões
UM OPERÁRIO

Para levar consolo aos miseráveis dos matadouros, os Chapéus Negros deixam a sua sede. Joana empreende sua primeira descida às profundezas. C - EM FRENTE AO TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS
JOANA,

à frente de um comando dos Chapéus Negros: Nesta noite de sangue e confusão, Nesse tempo de desordem organizada, De arbitrariedade consentida, E de humanidade desumanizada, Nesse tempo em que em nossas cidades Os problemas não têm fim; Nesse mundo, imenso matadouro, Em que nos chegam rumores de violência iminente; Para impedir que, em sua brutalidade, O povo, ofuscado, quebre suas ferramentas E destrua assim seu ganha-pão, Nós queremos reintegrar Deus Pois aos lugares onde realmente vivem os homens Ele não mais tem acesso: Sua glória anda pouca, Seu nome, já quase suspeito. Dos mais humildes, entretanto, ele é a única salvação! Então nós resolvemos Por ele bater nossos tambores nesses bairros; Para que ele penetre no coração da miséria E que sua voz retumbe pelos matadouros. Aos Chapéus Negros: O que faremos agora é uma última tentativa. Pela derradeira vez, nos esforçaremos

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Nós lançaremos ao mar os navios de guerra, E nos ares, os aviões Para conquistar teu pão, meu irmão. Porque vós, os pobres, formais Nesse mundo um imenso exército. Vós que nos escutais Não esperai o amanhã! Desde hoje ajudai, Ajudai ao próximo! Avante! Ao assalto! Empunhai vossos fuzis! Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Cantando, os Chapéus Negros começam a distribuir seu jornal: Apelo às Armas, bem como colheres, pratos e sopa. Os operários agradecem e põem-se a escutar o discurso de Joana. JOANA – Nós somos os soldados do bom Deus. Por causa dos chapéus que usamos, somos também conhecidos como os Chapéus Negros. Nós dizemos que somos soldados, porque formamos um exército e porque, em todos os lugares em que vamos, precisamos lutar contra o crime e a miséria, contra as forças que tendem a nos aviltar. (Ela mesma começa a distribuir sopa) Bem, agora comam esta sopa quente e constatarão que depois vocês verão as coisas com um olhar diferente. Pensem agora qual esperança se pode fundar sobre a felicidade terrena. Nenhuma, absolutamente nenhuma. A desgraça vem como a chuva: ninguém a provoca, mas, entretanto, ela vem... Suas desgraças, digam-me de onde vem? UM DOS QUE COMEM – De Lennox & Cia. JOANA – O senhor Lennox tem talvez mais preocupações do que vocês! O que vocês estão perdendo? Ele, suas perdas se contam por milhões. UM OPERÁRIO – Carne não há nesta sopa, só uma aguinha clara, isso sim. Mas quente, pelo menos, está. OUTRO OPERÁRIO – Fiquem quietos, bando de glutões! Escutem a palavra de Deus! Senão vão tomar o prato de água quente de vocês.

– Silêncio! Queridos amigos, digam-me: por que vocês são pobres? UM OPERÁRIO – Sei lá! Explique você! JOANA – Eu lhes direi. Não é porque vocês não estão cheios de bens materiais – que não chegam para todos – mas porque vocês não têm idéia dos valores mais elevados. É por isso que vocês são pobres. Esses gozos vulgares aos quais vocês aspiram, comer um pouco, ter um bom lugar para morar e ir ao cinema, não são mais do que prazeres frívolos, grosseiros. Enquanto que a palavra de Deus é um prazer mais delicado, mais profundo e muito mais refinado; talvez vocês não possam nem imaginar algo mais doce do que o chantili, mas a palavra de Deus é ainda mais doce. Homens de pouca fé, os pássaros no céu não têm carteira de trabalho, as açucenas do campo não têm emprego e, entretanto, como eles cantam Sua glória, Deus lhes dá alimento. Nós, os Chapéus Negros, fazemos então a vocês uma pergunta muito prática: de que um homem precisa para crescer na vida? UM OPERÁRIO – Um colarinho engomado. JOANA – Nada disso. Para progredir na terra talvez seja necessário um bom colarinho, mas diante de Deus é preciso muito mais que isso, outras glórias. Vocês aos olhos Dele, nem mesmo um colarinho puído têm, pois deixaram suas almas no abandono. Mas então como vocês querem elevar-se, chegar ao que vocês, em sua ignorância, chamam de uma “situação melhor”? Pela força bruta, pela violência? Como se algum dia a violência tivesse trazido alguma coisa além da destruição. Vocês acham que mostrando os dentes conquistarão o paraíso na terra. Mas eu lhes digo, agindo dessa maneira o que se cria não é o paraíso, mas o caos! Um operário chega correndo. O OPERÁRIO: Uma vaga, agora mesmo, acaba de abrir! Um trabalho, um salário, esperam por vocês, Na fábrica número cinco! Que mais parece uma latrina. Corram, rápido. Um operário larga seu prato cheio e sai correndo.
JOANA

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– Ei, você, onde é que você vai? Quando se ocupará de Deus? Vocês não querem nem ouvir falar, não é? UMA MOÇA DOS CHAPÉUS NEGROS – Acabou a sopa. OS OPERÁRIOS: Acabou a sopa; Era só um caldinho ralo Mas era melhor do que nada. Todos se viram e se levantam. JOANA – Fiquem sentados; acabou, mas que importa, uma vez que a grande sopa celeste não se esgota nunca. OS OPERÁRIOS: Quando, afinal, vocês Abrirão as portas de seus porões, Carniceiros, mercadores de carne humana? UM OPERÁRIOS: Com o quê, agora, pagarei A casa pequena e úmida, onde vivemos doze? Eu já paguei dezessete prestações, Mas a última, não conseguirei Seremos jogados na rua. E o chão de terra batida E nosso pedaço de grama amarela, Nunca mais os veremos, nunca mais, Nem tampouco respiraremos seu pestilento ar familiar. UM OUTRO OPERÁRIOS: Aqui estamos, em pé, nossas mãos como pás, E nossos pescoços fortes como tratores. Nossas mãos e nossos pescoços, queremos vendê-los Mas não há quem os compre. OS OPERÁRIOS: E nossas ferramentas - Gigantesca montanha de prensas e gruas – Estão trancadas, detrás desses muros! JOANA – E então, o que se passa? Quer dizer que já se vão? É porque já terminaram de comer? Adeus e obrigado. Mas por que então vocês escutaram até agora?
JOANA

– Pela sopa. JOANA – Continuemos. Cantem! CHAPÉUS NEGROS cantando Avante, entrai nessa luta! No coração da batalha lutai! Cantai com louvor, que cante todo o mundo. Ainda é noite, mas logo virá o dia, Raiando com todo o esplendor, E junto virá Jesus Nosso Senhor. UMA VOZ, do fundo do palco – Estão contratando nas fábricas de Mauler! Os operários saem. Fica apenas uma mulher. JOANA, com ar sombrio: Parem a música! Acabou a sopa, lá se vão eles! Seus olhos são incapazes de elevar-se Mais alto do que a borda do prato. Eles não crêem em nada além do que está Entre suas mãos. Acreditarão em suas mãos? Vivendo cada dia, cada minuto mesmo, Na insegurança, eles não são capazes De se esquecer das preocupações mais básicas. Nada, a não ser a fome, tem sobre eles qualquer influência. Nenhuma canção os toca mais. Nenhuma palavra pode Descer até eles e penetrar seus corações. Aos que a cercam: Parece que nós, os Chapéus Negros, temos por tarefa alimentar todo um continente com nossos poucos talheres. Os trabalhadores voltam. Ao longe, ouvem-se gritos. OS OPERÁRIOS, na frente do palco – Que gritos são esses? Um imenso caudal humano emerge dos abatedouros. UMA VOZ, do fundo: Mauler e Cridle também fecharam. As indústrias Mauler optam pelo lock-out! OS OPERÁRIOS, refluindo:
UM OPERÁRIO

para ele. ruídos da Bolsa. esse Mauler. Recebemos mil respostas. JOANA – Esse Mauler. Jamais seus corações. O que comeste. pronto. Todos haviam perdido o emprego E perguntavam onde achar trabalho. GRAHAM: E então.6 No meio do caminho encontramos. Eles têm apenas idéias vulgares na cabeça. eu quero vê-lo. mora aonde? OS OPERÁRIOS: Lá. JOANA – Não! Eu quero saber (aos trabalhadores) Digam-me. Tu desaparecerás na lama! Pois a lama entope as bocas Que fazem perguntas sem prudência JOANA: Eu quero saber. MARTA. – Não. Em um grande edifício: A Bolsa de Carnes JOANA: Eu vou até lá: Eu preciso saber. OS CHAPÉUS NEGROS – Pare! Não te metas com essas questões. desde o dia em que nasceram. já que ele é a causa de tamanha miséria. quem é o responsável por tudo isso. os fabricantes de conservas Lennox e Graham discutem. Enquanto corríamos atrás de trabalho. Abrigaram sentimentos nobres. São reles glutões Preguiçosos. meu velho Lennox. Resultado para nós: barrigas vazias. por que correm de um lado a outro e não encontram trabalho? OS OPERÁRIOS: O sanguessuga Mauler e o muquirana Lennox brigam entre si. E vê esvanecer-se sua pureza original. Torna-se mercadoria. Ao fundo. Lennox está branco como algodão. Estamos gelados e molhados e precisamos comer. presa. JOANA – Quero saber. JOANA III Pierpoint Mauler é tocado pelo sopro de um outro mundo EM FRENTE À BOLSA DE CARNES Em baixo. por favor. Ao fazer mil perguntas. No alto. Os Chapéus Negros se afastam. ele te revenderia. OS CHAPÉUS NEGROS – Então teu destino nos parece bem negro. torna-se. Ele venderia o próprio ar. E o frio supremo Rouba de seu coração todo o calor. Degrau após degrau. na frente do palco: Desgraça! De todos os lados chegam ainda Torrentes infindáveis de homens! OS CHAPÉUS NEGROS. UM OPERÁRIO. Quem abandona o lar protetor. Na insana esperança de obter uma resposta Que jamais chegará. onde se compram e vendem animais. O selvagem Mauler! De um tal monstro a investida É inexorável! A natureza. . Sua bondade perde rápido. Uma multidão enorme e desesperada. antes. Oh Joana! Não te metas nas querelas terrestres! Pois quem nelas se envolve. que fogem do trabalho. Eles encherão tuas orelhas com seus gritos. Joana e Marta esperam. a Joana – Vamos agora. desce cada vez mais baixo. dos Chapéus Negros: Não vá te meter com estes problemas. derrubou-te.

com voz suave. Slift. O que fazer com ela? Ah. Quando ele não podia absorver mais nada. Estranho conselho! Eu te agradeço. A nova técnica é muito engenhosa: O porco é colocado em uma esteira rolante Até o alto da fábrica. Bela invenção. até ele e. que. Um mercado aviltado.. a cada fase. O faro para o dinheiro é nele tão potente. E agora. CRIDLE: Muito bem. Tão natural. no último andar. à Marta: Tu somente. eu garanto. esta arte contrária à natureza. para economizar Uma agradável soma em salários. surge de um grupo de fabricantes de conserva. como vais reconhecê-lo? JOANA – Saberei bem reconhecê-lo. JOANA – Mas tu vieste comigo. Fizeram desabar os preços e destruíram seu negócio. Primeiro perde a pele. ficarás com a fábrica Conforme está previsto nos termos do contrato: “No dia em que Lennox for eliminado. Até chegar aos ossos. MAULER : Lennox está de joelhos. olhe para mim e de meu pescoço. acompanhado de seu corretor. Fecho minhas fábricas. E assim.. Vá. E pensa nos velhos tempos. no entanto.. que viram escovas. Instalar duas ou três dessas máquinas novas. lutando. até aqui me acompanhastes. não achas? Ele se degola e logo. Tira esta mão que me aperta e me estrangula. Marta. Ele não pode suportar A visão da miséria.. ele extrai rendas. Todos me abandonaram. Ele terá medo. JOANA. e dorme mal à noite. Nas facas. E se lhe jogas pedras na cabeça. Cridle sai da Bolsa e desce até o palco. OS FABRICANTES DE CONSERVAS : Trata-se de saber quem agüentará mais tempo. Mauler.” CRIDLE : . Por si mesmo. De carne podre. Cridle. com sua escalada. Espero que o mercado recobre a saúde. por conta de seu próprio peso. Destroem com seus cascos o pasto que disputam. Diga-lhe: Mauler. Lennox! Acabou a guerra de preços! Foste eliminado. em salsicha se transforma. nele. que vira couro. moídos como farinha. A Lennox: Estás perdido. cruzei a última fronteira. Tal qual dois grandes búfalos. confessa. chega Na lata que o espera lá embaixo. Em dinheiro ele as transformará. Agora vou limpar a minha fábrica.. Saibas. MARTA . ele faz ouro. Gritaram-me prudência: Para eles. Vocês mesmos. Depois seus pelos. Começa então o seu retalhamento. E talvez chore.Joana. MARTA – Joana. Bem pensado.7 De barracos miseráveis. época maldita! Um comércio estrangulado por montanhas de conservas. então. sozinho. este homem não é duro E nem ama o dinheiro. Que ele não saberia jamais trair seu instinto. Pois caindo. não é verdade? GRAHAM : Muito bela! Mas e a lata. Lubrificar meus cutelos. o porco se precipita.. Batendo-se por sua conquista. ainda ontem florescente!. eu também te recomendei prudência.

Hoje. Lennox! Toque-o! É uma lata de lixo. as ações caíram para 100. como eu. seguindo-o com os olhos: Tive a ligeira impressão de que algo o atormentava. nada.8 Sim. Mauler. tenho dois mil empregados! CRIDLE – Mande-os ao cinema! Mas Pepê. Veja se esse contrato diz uma só palavra sobre a crise. Ah! Pudesse eu estar liberado De um comércio tão bestial! Tenho. MAULER – Ai! GRAHAM — Viu? Ele tem um coração! MAULER : Então. Joana fez um sinal a um segurança e lhe diz algumas palavras. LENNOX – Mauler. Isso não é um contrato? Com um preço fixado? CRIDLE : Sim. E eu. Cridle.. Antes que quebres de uma vez! Creia-me. Freddy! Quer dizer que tu me socas. A exigir meu dinheiro. as ações estavam a 390. Mauler. MAULER . MAULER – Leia. É preciso então. sem mais delongas. Mas com ele acabaram Os bons dias do mercado. tu me forças. Repensar os dez milhões de dólares Que queres por tuas ações. o coração torturado! Cridle se afasta. CRAHAM : Toque-lhe o coração. Lennox. eu precisaria jogar essas ações no mercado. Para pagar o que te devo. até teu coração sabe ver longe! LENNOX : Eu gostaria ainda.. se tu estás Realmente onde dizes.. devido à saturação do mercado. sensível! Ele soca Mauler no coração. Pois eu proibirei Cridle De comprar-te uma única lata. Estou tão temeroso que chego a suar frio: seis dias. Não pude imaginar seu fado. um contrato dos tempos de prosperidade! Mas e a crise? Ela não existe? Que posso fazer eu com um grande matadouro Se ninguém mais compra carne em conserva? Agora sei bem porque não podias Mais suportar a visão do gado morrendo: sua carne Não vende mais! MAULER : Não.. olhe para mim. Lennox acabou. Tu me ofereceste a 320. LENNOX – Não. cinco. nosso contrato não é mais viável. se eu fizer isso. Seis dias? Não. Mas. veja Lennox. é que meu coração se aperta Quando ouço mugir a criatura CRAHAM : Agora eu compreendo a grandeza de teus atos. de examinar Contigo. e tu tinhas um terço.. isto é. Ele sai. mas. e onde eu conseguiria dinheiro para pagar tua parte? Eu estaria arruinado! MAULER : Já que me dizes isso. MAULER : O quê? A soma está inscrita Claramente no contrato Tome. elas cairão a 70. Pepê! Como quiseres.. então. : Pepê! Isso não é um jogo! Não podes misturar Questões pessoais aos negócios! CRIDLE – Pois não. então. Mauler. É o máximo que posso fazer. mergulhado em meus negócios. GRAHAM — Mauler. (faz contas em uma caderneta) Quando combinamos que tu sairias do negócio. Cridle. CRAHAM . Nada além. Não estava caro.

.. O segurança vai ao encontro de Joana no outro lado do palco. Graham sai. (aponta para Slift) É ele! JOANA. é o que tem a cara mais ensangüentada. Ouve-se: Bois. JOANA. MAULER . MAULER : Está bem. não é homem de bem. não é notável? Já viste algo igual? Que trabalhem por nada e sem se lamentar? Não vejo em seus olhos nem medo da miséria Nem de dormir sob as pontes alguma noite. dirigindo-se direto a Mauler – O senhor é o Mauler! – Não sou eu. Que não é acusada de nada E que não espera o impossível de mim. JOANA. O SEGURANÇA — São membros da Organização dos Chapéus Negros. Senhor Mauler. MAULER : A escória em farrapos. São chamados de soldados do Bom Deus. suponho. em absoluto. Dizem. e pôs em apuros Cridle que. Diga-lhes que eu os receberei Mas que eles limitem-se a responder minhas perguntas.. A Joana: Vós sois. Chapéus Negros. 55. há algumas pessoas que querem lhe falar. Mas que nome curioso! Soldados do Bom Deus. Para Joana:) Quanto recebes por dia? JOANA. Sim. Com ar invejoso. que o sangrento Mauler. MAULER : Já ouvi falar dessa gente. respondam apenas Quando ele lhes perguntar. na verdade. que a escória me chama – Despojou Lennox. Pretendo renunciar a esse negócio sangrento Logo que eu possa: renunciar sem retorno. gente estranha. Creiam-me: esses são assuntos profissionais Que não vos interessam. Porcos. JOANA: Por que joga. Vitelos. – É o senhor. cá entre nós.9 O SEGURANÇA — Senhor Mauler. 59. sem dúvida? Prontos para a violência. sobre outra questão. MAULER : O que é esta organização? O SEGURANÇA — Eles têm muitas ramificações. Slift. Pouco me importa o que esperam de mim. que a sopa seja rala. eu sei. a Slift: Que eles trabalhem por nada. Mas. 43. diga que não estou. além da comida e do uniforme. é ele. o rumor da Bolsa continua. adoraria vossa opinião. – Vinte centavos. MAULER: O tecido é bem fininho e. hein? Não. O SEGURANÇA: Ele vai vê-los. apontando para Mauler – O senhor é o Mauler! MAULER – Não. Mais uma coisa: não diga. Mas o que eles querem comigo? O SEGURANÇA — Afirmam que têm algo a dizer ao senhor.É assim. Slift ri. MAULER – Rindo. seus trabalhadores na rua? MAULER. Nada de choros. são numerosos e gozam de grande consideração nas camadas inferiores da população. nem desses versos sentimentais Que eles adoram cantar. que eu sou Mauler. MAULER – Como me reconheceste? JOANA: De todos. o tecido não é grosso Nem é grossa a sopa. Durante esta cena. etc. Slift? (Enquanto isso. mas vocês não devem Perguntar nada. O melhor para eles É causar em mim a impressão de gente honesta.

há pouco. MAULER: Riam todos. ele decidiu abater O rico Cridle. que com tal decisão As pessoas sofreram. São. Ele não é maduro ainda. tu também. diga. por favor. Seu riso não me atinge. pessoas extremamente más. Mas tendes consideração demais pelo destino dos pobres: Eles são maus. Eu também vou embora.. Talvez por isso te ajude. Eu sei. Diga-me que está certo E que isso te agrada. Mas. JOANA – Isso é uma gota no oceano. Abandonar esta empreitada. tomando-lhes o dinheiro que trazem consigo e dando-o a Joana. não creias que seja de boa fé. Mas é uma gentileza. JOANA – Senhor Mauler. Eu sei. no lugar do pobre animal. um boi e fiquei tão comovido Que quis largar tudo. Isso não é bom? Os fabricantes de conservas explodem em gargalhadas. Eles não têm mais trabalho. A canalha. Senhor Mauler.10 Pois eu vi – e isso vos interessará – Morrer. MARTA. Cedi por dez ao homem que vêem aqui.. vamos. sem nenhuma obrigação: Eu não sofro de insônia. O mundo não poderá mudar se antes não mudarem os homens. não me comove. MAULER: Poderia eu ir mais longe? Porque ele é sangrento É que eu tirei as minhas mãos deste imenso negócio. mas não digas nada. Um instante. Eu os verei chorar um dia. JOANA: Senhor Mauler. A parte – doze milhões – que eu tinha na usina. por que fechou os matadouros? Eu preciso saber. MAULER: É que adquiri o maldito hábito De disfarçar a voz. dêem o dinheiro. ele é mau. O senhor não poderia realmente ajudá-los? MAULER: Repita por toda a parte: eu aprovo vossa ação. MAULER: Eu tenho grande piedade pelos bois: o homem. Deverias. nos matadouros dizem que o senhor é o responsável pela miséria deles. dêem! Corja de carniceiros! Ele continua mexendo nos bolsos deles para dar dinheiro à Joana. para o que pretendes fazer. Marta sai. Ele se aproxima dos industriais. Tome para os pobres. Dêem o dinheiro. eu sinto Que tu não gostas de mim. Deixai disso. não me digas nada. confesso. E desejaria que fossem mais numerosos. Mas este mal era inevitável. de resto. não é? JOANA: Não sei se o senhor fala sério. Melhor para ti que não os veja. isso de se retirar do negócio. É bom.. São todos carniceiros. Embora já tenhas vivido mais de vinte anos. Desculpe-me. aliás.. Tamanha inocência!. Nenhum é inocente. Isso não é bom? E conforme vosso espírito? SLIFT : Vendo morrer o boi. a Joana: Joana. Ele fala com Slift em voz baixa. O homem. Dirigindo-se aos outros: Parece-me que fui tocado pelo sopro de um outro mundo. Seu rosto me agrada. . Não. minha filha.

Ele ouviu nosso chamado.11 Chame ela de lado. SLIFT: Em teu lugar não gostaria. Estão ocupando inutilmente um cabide no vestiário. Luckerniddle. Ele veste o casaco. ficará com a vaga de Luckerniddle. cheios de traições. o que causa má impressão. enfim. JOANA — Eu quero vê-los. JOANA. é claro. em um jornal. a um jovem operário – Um de nossos homens. agora eu vou te mostrar Como eles são maus Essa gente da qual tens piedade. dê dinheiro a ela. ele te fará ver algumas coisas. Responsáveis. É preciso queimá-los. e para mim. saindo – Um conselho: não te metas com as gentes dos matadouros. mas não pudemos parar as máquinas a tempo. é a escória. e enrola o seu. (O contramestre volta para a fábrica pela portinhola. o quanto antes melhor. vacilando: Estou me sentindo mal. Sullivan Slift.. ela poderá Aceitar sem pudor. IV O corretor Sullivan Slift mostra à Joana Dark como os pobres são maus: Joana desce às profundezas pela segunda vez BAIRRO DOS MATADOUROS SLIFT: Joana. Semelhantes a bestas. SLIFT. Slift e Joana contornam o muro de uma fábrica. Diga “para seus pobres”. peguei para mim. por suas vidas miseráveis. senhor Smith. A Joana: Aqui está meu corretor. Se isso falhar . caiu. Isso pode funcionar. Dois homens saem por uma portinhola. é o lixo do mundo.E eu adoraria que não desse certo – Leve-a aos matadouros. e ele entrou na faca e virou toicinho. perderei meu emprego. na caldeira. em uma palavra. De saber o que queres saber. Aqui estão seu casaco e seu boné: pegue-os e façaos desaparecer. JOANA. É o primeiro que nossos tambores desalojaram Das trevas da vilania. UM CONTRAMESTRE. assim como o seu boné. Slift e Joana escutam. Veja então o que ela compra. E verás que tua piedade é descabida. já que agora ele está em embalado.. O JOVEM OPERÁRIO – O senhor pode confiar em mim. Azar. e depois a siga. sobre o qual se lê: “Fábrica de Conservas de Carne Mauler e Cridle”: O nome de Mauler aparece riscado. . Se quiseres mesmo saber. E que não têm nenhum medo. faz quatro dias. é pavoroso. Quando a fábrica reabrir você. que nada têm Além de seus vinte centavos por dia e seu chapéu negro. este homem será mandado para os quatro cantos do mundo sob a forma de toicinho. vendo Mauler se afastar: Este homem não é mau. Mas volte aqui amanhã. ele cairá bem. vestido com uma lata. O amigo Pedaço-de-Toicinho não precisa mais dele. A Slift: Mal posso suportar a existência de seres Semelhantes a esta moça. e mostre a ela Como os pobres são maus e covardes. Ele sai. Mas seu casaco ainda está bom e isso também é uma pena.) É uma pena. Entrego a você porque sei que é de confiança: se alguém encontrá-los em algum lugar. se quiser.

senhora Luckerniddle. lhes digo. GLOOMB – O feitor está bem ali. ao meio-dia. Senhora Luckerniddle: ele está viajando e. todo o tempo. senhor. gratuitamente. Você poderá comer e lhe darei um dólar se disser à mulher de Luckerniddle onde conseguiu o casaco e o boné. aquele que se acidentou? O JOVEM OPERÁRIO – Por favor. nós não somos. Verás então o que é essa gente. DONA LUCKERNIDDLE está sentada em frente ao portão da fábrica. Vinte refeições são muita coisa Para aquele que tem fome. não diga mais isso. Tenho a impressão de que você está prestes a cometer um ato impensado. Vamos cuidar para que essa seja a última vez. É por isso que lhe fazemos uma proposta: note bem que. SLIFT: Senhora Luckerniddle.. Venha. esperando por ele Mas ninguém diz nada. Eles chegam a uma cantina da usina e vêem diante de uma janela dois homens que olham para o interior. (Ele vai em direção a Gloomb).12 SLIFT: Aí está a vida como ela é. Não tenho outro esteio.. me encontrará na cantina. Joana e Slift prosseguem seu caminho. No frio. e vocês não querem que se saiba disso. isso não lhe parece muito brutal? SLIFT: Bem. de qualquer modo. SLIFT – Se é esta a sua opinião. SLIFT. Antes eu gostaria de fazer-lhe uma proposição interessante. SLIFT: Guarde essas coisas. à cantina número 7. Bando de açougueiros.) Onde você conseguiu este casaco e este boné? Estes são os pertences de Luckerniddle. saindo para o trabalho. em nossa cantina durante três semanas. fui trabalhar no moinho de ossos e adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. SLIFT – Estamos dizendo que ele partiu para São Francisco. na fábrica. para nós. Não procure mais saber o que se passou com seu marido e a senhora poderá almoçar. é muito desagradável vê-la sentada aí. DONA LUCKERNIDDLE – Não. senhor. (Ele pára o jovem operário. Eu tiro agora mesmo. se você não está precisando disso!. e meu marido não sai da fábrica. . dizendo tolices. lamentando-se: Faz já quatro dias que. Precisará nos processar. Esse salafrário se empanturra às nossas custas. mesmo à noite. enquanto não o vir. é capaz de o meu quebrar já no primeiro golpe. que fizeram dele? Há quatro dias que estou aqui. pronto para encher a pança. Slift volta para junto de Joana. Quando ele se aproximar. Vamos. Eu. se quiser me ver. além dele. Eu estou em uma situação muito ruim. seu marido está viajando. JOANA: Ela nunca aceitará. DONA LUCKERNIDDLE: Agora inventam que ele viajou! SLIFT – Deixe-me dizer uma coisa. diga-lhe que procura trabalho. vou falar com ele. Joana e Slift seguem seu caminho. Mas existem coisas Que importam mais para ela. Eu ficarei aqui. Por causa dele deixei minha mão na máquina de cortar chapas. No ano passado me deixei seduzir pelos vinte centavos a mais que se ganha na fábrica de adubo. O JOVEM OPERÁRIO – Mas senhor. DONA LUCKERNIDDLE – Quero saber o que aconteceu ao meu marido. DONA LUCKERNIDDLE: Eu quero que me devolvam meu marido. a Joana – Fique aqui. de forma alguma. Amanhã. Aconteceu alguma coisa com ele aí. ele me dizia: “Espere-me à noite com uma sopa quente!” Desde então não [voltou. legalmente. então a senhora não pode aceitar a refeição que a fábrica lhe oferece. ele não foi para São Francisco. obrigados a fazê-la. E malditos sejam vocês Se lhe fizeram qualquer coisa! Slift caminha até ela. Já não posso mais trabalhar como antes e só consegui emprego duas vezes desde fevereiro. Mas reflita bem. passe-me logo teu cassetete. O JOVEM OPERÁRIO – Pode confiar em mim.

SLIFT – Gostaria de propor um meio de tirar-lhe dessa jogada. (Ele vai em direção a Joana. Ela não parece muito forte.. A senhora Luckerniddle está falando com a garçonete. encontrasse alguém. JOANA – A senhora já está aqui.. Os movimentos ficam menos firmes e pode-se prender as mãos nas serras. desde hoje? DONA LUCKERNIDDLE – Não como nada há dois dias. GLOOMB – Rápido então... tem que se retirar. JOANA – Não há realmente como me arranjar outro posto? Ouvi dizer que o trabalho nesta máquina era perigoso para quem não resistisse ao trabalho muito pesado. Se você. DONA LUCKERNIDDLE. A GARÇONETE – Se a senhora não for comer. Talvez a vaga deste contramestre. Ela correu até aqui e já nos espera. Vai se perguntar como alguém pode contar histórias tão ridículas sobre esta máquina. temi que amanhã ela viesse. não muito fortes.. JOANA – Mas a senhora nem sabia que nós viríamos hoje. estaríamos dispostos a reempregá-lo imediatamente. pode ser que mude de idéia. Apesar de tudo. meu senhor. Naturalmente você precisaria manter os ritmos de trabalho mesmo os dispositivos de segurança não sendo perfeitos. O posto que você ocupava na sua máquina continua vago e isto é muito chato. Tchau. No ano passado fui trabalhar na fábrica de adubo. Ela senta-se em uma mesa. GLOOMB – Você enxerga bem? JOANA – Não. Eu imaginava que ela iria resistir. É preciso que ele pague hoje mesmo por esse sistema desumano do qual ele é o feitor. Slift cai na gargalhada e arrasta Joana. Disseram-me que não tinha ninguém além dele. JOANA – Vindo para cá ouvi dizer que aconteceu alguma coisa com o seu marido e que a fábrica é responsável. Não podemos perder esse safado. por acaso. por exemplo. E é um trabalho que pode ser feito mesmo por pessoas como você. A maior parte dos trabalhadores a considera muito perigosa. calculando – Vinte refeições. e lhe daríamos até um trabalho mais fácil e melhor remunerado do que o antigo. O posto não é feito para gente fraca.. GLOOMB – Aquela moça ali? . há uma moça que está procurando trabalho. faremos isso amanhã à noite. justamente porque você contou todas essas histórias a respeito de seus dedos. Seria vantajoso para você. O que há para comer hoje? A GARÇONETE – Ervilhas. SLIFT – Leve você mesmo a comida a ela.. Ali adiante. e então eu teria... Adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. SLIFT – Que pena. depois do que eu iria. Naturalmente seria muito bom se nós encontrássemos alguém para esse posto. GLOOMB . Eu sou inspetor nesta fábrica. Você se surpreenderá ao ver como o trabalho é agradável. JOANA – Quase tenho medo de continuar. E eis que ela nos precedeu. O que mais verei? Eles entram na cantina. É um bom posto? GLOOMB – É um ótimo posto. DONA LUCKERNIDDLE – Espero uma pessoa que deve vir hoje ou amanhã. DONA LUCKERNIDDLE – Sim. já faz dois dias que eu não como nada.) Você está procurando trabalho? JOANA – Sim. Desde fevereiro estou sem emprego. GLOOMB – Posso confiar no que você está me dizendo? SLIFT – Sim. não sabia. DONA LUCKERNIDDLE – É verdade.13 – Não tenho tempo. Uma jogada dessas é melhor de se fazer à noite. e então eu poderia. no moinho de ossos. GLOOMB – Nada disso é verdade. DONA LUCKERNIDDLE – O que? Vocês pensaram melhor e estão retirando a oferta? Então eu não terei mais as minhas vinte refeições? JOANA – Me pareceu que a senhora se dava bem com seu marido. (Ao seu companheiro:) Pensei melhor. JOANA: Ela sentou-se ali.. Joana procura um prato e leva à senhora Luckerniddle.

Desejas mostrar-me a sua imoralidade. então? O JOVEM OPERÁRIO – De um homem que caiu dentro de uma caldeira. (O jovem operário o esconde) De onde ele vem? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. Você só precisa perguntar a esse senhor. mas não em uma loja. E este jovem – em quem botaria fé Qualquer malandro -. a imoralidade deles? Ela teria. certamente teria me prevenido Não fosse o preço a pagar por seu pequeno escrúpulo. Fatias de toicinho Cridle-Mauler! Carne de filé Graham. Mas vinte refeições. esta mulher. eu. Mercadoria invendável. e que já apodrece. comprem nossas latas! Carne fresca e suculenta. Atrás dele:) Você tem um belo boné. Dona Luckerniddle arranca o prato das mãos dela e começa a comer avidamente. Um certo tempo ainda. Que sua miséria. acreditas que ele teria mostrado À mulher do morto a roupa que usava Se tivesse tido a chance de escolher? O maneta. Pois não há mais compradores! Do fundo do palco chega o jovem operário com seu casaco e seu boné. como um animal. DONA LUCKERNIDDLE. com que habilidade torna-te mestre dela! Esta imoralidade. estamos vendendo carne! Compradores. verdadeira manteiga! Banha fresca do Kentucky! OS COMPRADORES: OS FABRICANTES DE CONSERVAS . JOANA: Porões e armazéns abarrotados de carne. A senhora Luckerniddle sente náuseas. tu me dizes? Sua pobreza também é incomensurável. SLIFT – Durante três semanas ela virá. ao lado daquela mulher. ao garçom – Deixe meu prato. Continuar fiel à memória de seu marido. Você a viu. ninguém mais perguntará o que foi feito dele. (Ele senta-se. O que tu me mostraste Não é a imoralidade Dos pobres: é a pobreza deles. Mostrar-te-ei. DONA LUCKERNIDDLE – Ele foi para São Francisco. Ele foi obrigado a vender sua cólera. e comerá sem levantar os olhos do prato. para colocar Ao abrigo da chuva.14 – A senhora não quer esperar até amanhã? Se a senhora desistir de procurar o seu marido. e por mais justa que fosse. V Joana apresenta os pobres à Bolsa de Carnes A BOLSA DE CARNES : Nós todos. SLIFT – E onde você conseguiu. (Dona Luckerniddle permanece em silêncio) Não pegue. SLIFT – E onde você comprou? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. posso comer aqui? SLIFT – Você só precisa sentar-se ali. como manda o costume. os sofrimentos que suportam Esses pobres sem moralidade. eu volto. como vós a explorais! Não vês que nem teto eles têm. JOANA E procurar por ele. a vossos olhos contradiga Esta depravação que injustamente se lhes imputa. Joana? A imoralidade dela não tem limites! JOANA: E tu. Ela sai. O JOVEM OPERÁRIO – Bom dia. preferido. Era seu único esteio. saindo. Sua imoralidade é sem limites. Eu virei todos os dias. Tão cara a ele. o preço era muito alto. como muitas. Ela se levanta e sai.

com nossos matadouros? Nossas fábricas estão cheias de bois. em Nova Iorque. Nós estamos perdidos! OS CRIADORES: E nós. eles conseguissem Fazer cair de uma vez as taxas de importação. quase de graça. . A morte Despreza esse gado e fecha-lhe a porta. compradores. Comprem. Esperando até ninguém poder Mexer nem o mindinho! E eu. MAULER: E mesmo a faca os recusa. fabricantes. Temos diante de nós montanhas de latas. E abrissem assim o Sul aos nossos produtos. SLIFT: E teus amigos de Nova Iorque. cubas. os criadores. dia e noite nossas máquinas Ligadas no máximo: salgadeiras. E da banha de Kentucky. E graças aos perspicazes planos dos industriais da carne Nós conseguimos reduzir em um terço O preço do toicinho Cridle-Mauler. Nós queremos vender a carne em conserva E ninguém a quer! E todos os nossos clientes. A nós. Quando todos te seguem com olhos de lince Para ver o que fazes? Eu não teria cara. o que te escrevem? MAULER: Teorias. compradores. Quem comprará agora nosso gado? Os estábulos estão cheios De porcos e bois devoradores de milho Que eles devoram ainda nos trens que os transportam. a visão da carne enlatada Causa náuseas. Aproveitem então. Mas ninguém quer comprar carne enlatada. Engolindo nosso ouro junto com nosso grão. Nas estações e nos pátios. verdadeira manteiga. Não a agüenta mais.15 E sobre as águas fez-se um grande silêncio De todos os compradores. O estômago do país. Nós não compramos mais nada! OS FABRICANTES: E nós. nenhum tinha dinheiro. OS COMPRADORES: Nós compradores. A dar-se-lhes ouvidos Seria necessário agora deitar por terra Todo o cartel da carne E deixá-lo estagnado durante muitas semanas. OS FABRICANTES: Graças aos avanços da técnica. Do filé Graham. O que provocaria um movimento de alta. comprem nossas latas! OS COMPRADORES: E sobre as montanhas fez-se um grande silêncio E as cozinhas dos hotéis escondem a face E as lojas se desviam com horror Os atacadistas mudam de cor. Frigoríficos entupidos de carne congelada. ao trabalho de nossos [engenheiros. Nós iríamos perder o bonde! MAULER: E quando isso ocorresse! Terias a imprudência De tirar tua parte de tamanha miséria. caldeirões Convertem sem parar em latas de conserva As manadas mugidouras que pastam nos prados. cozinhas e lojas Estão cheios até as bordas. Eu teria sobre as costas toda a carne! Idiotas. Saturado de carne em conserva. Clamamos aos berros por um consumidor que não existe. SLIFT: Eu riria se.

que estavam valorizadas.apontando para Mauler: Falem com ele! CRAHAM – colocando-se diante de Cridle: Não é Cridle. MAULER: Açougueiros insolentes é o que sois! O animal torturado parou de mugir. então! OS FABRICANTES – a Mauler: Corre o boato que teu capital.. Hoje os papéis de Mauler não valem mais dez. Cala-se e aponta para o dedo para ti.16 . Carrega em sua queda as cotações de todo o cartel!. Desde aquele dia. Não é de hoje que fazes tais manobras. antes de qualquer coisa. por dez milhões de dólares. é que me levem a sério. E vós soluçais nas saias de vossas mães. eu acabo de saber. Ele poderia exigir seu dinheiro quando quisesse. Mauler! Fala. mas um outro Quem joga a rede. é o cartel da carne. Esses dez milhões são exatamente a soma que devo a Mauler – e ele a exige em vinte e quatro horas. ao fundo. e ficando com as outras. o que desejo. a preço vil. quem de vocês continuaria a me levar a sério nos negócios? Ora. OS FABRICANTES: Quando ages assim com Cridle. MAULER: E por que matastes tanto gado? Açougueiros alucinados sois vós! Agora. na entrada da bolsa: Queda gigantesca das cotações na Bolsa! Venda maciça de ações. ao invés de trinta.investindo contra Mauler que lê o jornal: Traidor. Tumulto entre os fabricantes. pálido como algodão. Veio a baixa. MAULER – O próprio Cridle me confessou que está insolvente: se eu deixasse meu dinheiro com ele. nós somos os peixes! O que querem arruinar. provoca muitas outras! Lixo! Assassino! CRIDLE . eu quero o meu dinheiro. que se lançam sobre Cridle. E exiges dele o pagamento sem demora. Cridle. nesta conjuntura. Eu me propunha pagar-lhe vendendo uma parte das ações dele mesmo. CRIDLE – dirigindo-se aos que o cercam:. ave de agouro. OS FABRICANTES Essa gente não faz as coisas pela metade. Para acabar com Lennox. que já se arrasta. nem que fosse por mais uma hora. que conspurca nosso ninho! Nós sabemos bem quem fez os preços caírem sem cessar Vendendo gado por baixo do pano. Isso representava um terço do total das ações. antigamente Mauler. Cridle.. Ele queria me vender a sua parte.Há quatro semanas apenas eu assinei um contrato com Mauler. Tu te desfazes de tuas ações? UM CORRETOR: A cento e quinze! OS FABRICANTES: Ficaste louco? Tua morte. Cridle? Levanta os olhos. Pois tu liquidaste. ele vem realizando secretamente vultosas vendas de gado a preços baixos e provocou a queda das cotações que. Foste tu mesmo quem provocou o marasmo! Nossas latas agora não saem mais caro Que a areia dos mares. Falai que um dentre os vossos Não pode mais suportar o grito dos bois morrendo E aos mugidos deles. Mas somos atingidos pelo que lhe acontece. Voltai para casa. preferiu o vosso. estava acordado. Quero apenas meu dinheiro e a paz de minh’alma UM CORRETOR – urrando. OS FABRICANTES: O que significa isso. olha para nós! Assim. É bom que ele seja nosso adversário. mas três milhões. já vinham caindo. e o conjunto das fábricas vale dez. de toda a maneira. . tu o retiras Do negócio e Cridle. todo teu estoque.

o responsável Por esta catástrofe. E ninguém se preocupa Não tendes. . Uma explosão de gargalhadas toma a frente da cena. para comer? Pensai convosco mesmo: sempre será assim. OS FABRICANTES: Oitenta e sete mil latas pela metade do preço. seja quem for! Levantai o nariz de vosso prato. os aviões Para conquistar o pão dos pobres. Lançar ao mar os navios de guerra E nos ares. ele retira o seu dinheiro! OS FABRICANTES: Oitenta mil latas a cinqüenta. onde cada um revela Sua boca desnuda. Com o único objetivo de ajudar o próximo. com isso.Nenhuma sequer! OS FABRICANTES – Então. Durante esse período a batalha na bolsa continua. Mauler. olhos para ver? Ele é vosso irmão. Eu não quero que me vejam aqui. Graham. Nesse mundo sempre reinará a injustiça. cem dólares pelo meu chapéu. Para Illinois esse dia é um desastre! Vocês fizeram os preços subirem. Os que nos escutam. pois tenho outros projetos. escutem bem! Um homem afunda sob os nossos olhos! Escutamos lá no fundo seu apelo por salvação. com nossos bois Que hoje ninguém mais quer. não saia! Graham. detenham todo o tráfego Em torno de vós os seres naufragam. E nós dizemos: é preciso ir sempre adiante.Pierpoint Mauler! Onde está Mauler? MAULER: O que é esse barulho de tambores que de súbito me envolve? E quem chama pelo meu nome Nesse lugar. JOANA . OS CRIADORES: Impossível vender um boi em Chicago. meu chapéu. OS CRIADORES: Lennox já caiu! E Cridle balança! E Mauler. E ninguém se preocupa. Haveis então esquecido Os que esperam diante da porta E que esperam. Não falemos mais de negócios. Meu chapéu. Fazer avançar os tanques e os canhões. Ouvem-se os tambores dos Chapéus Negros e a voz de Joana.17 Mesmo que tivésseis todos que mendigar. mas rápido! OS COMPRADORES . MAULER: Por hoje basta. Ei. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Escutem todos. Uma mulher nos faz sinais de aflição. então.Nenhuma sequer! Silêncio. Meyers. fiquem diante de mim. pois preciso partir. Estimularam-nos a criar bois. E. És tu. nós estamos perdidos! JOANA – Onde está Mauler? MAULER: Slift. Pois os bons nesse mundo Não formam um grande exército. acompanhada de exclamações. Não esperem o amanhã! Cada um deve nos ajudar. seu cão. Parem os carros. Ei-nos aqui. Mauler. Avante! Ao assalto! Empunhem os fuzis! Diante de nossos olhos os homens naufragam. suja de sangue? Joana e Marta avançam e cantam o seu hino de guerra. mas rápido! OS COMPRADORES . Eu quero meu dinheiro.

Cujo ciclo pavoroso sempre recomeça. JOANA – E qual a causa desta imoralidade no mundo? Poderia ser diferente? Se cada um é obrigado a rachar com um machado a cabeça de seu próximo para fazê-lo ceder seu pequeno pedaço de presunto e sua migalha de pão. OS FABRICANTES: Água para Pierpoint Mauler! . é lá que mora a imoralidade no estado puro e. Mas se os senhores acreditaram que seus procedimentos permaneceriam ignorados. e é verdade. JOANA – Um homem de negócios também pode ser um bandido – dependendo do ponto de vista. Aumentem-no. Se continuarem a agir assim. CRIDLE OS CRIADORES: Como? Somos asfixiados e ninguém pode fazer nada? A causa de nossos males é a imoralidade De vossas armações escusas. Vossa imunda cobiça. Silêncio! Não lhes agrada muito. OS POBRES – Ele é o responsável por tudo! Os fabricantes de conservas correm para socorrer Mauler. em tom de reprovação Aqui estamos com nossos bois Que hoje em dia ninguém quer. Risos OS CRIADORES – Nós criadores não encontramos nestas palavras motivo para o riso. nas favelas. nesses lugares sombrios e secretos onde os senhores tratam de seu comércio. tereis a moralidade. que os pobres não têm muita moral. e a quem não querem reconhecer como irmãos. UMA VOZ. como não seriam os valores mais elevados esmagados em seu coração? Sempre ouço dizer. como fazem em seus jornais. Não tenham vergonha. COMPRADOR. e escute o que eu tenho a lhe dizer. então em suas costas os bois começarão a mugir contra os senhores. Mas então eu lhes pergunto: de onde tirariam eles alguma moralidade. avancem à luz do dia. que sentam nesse palácio. aí pelo mundo. os Chapéus Negros. e diante de Deus TodoPoderoso. o salário. Já me disseram o que os senhores fazem: manobras. ao fundo – Pierpoint Mauler passou mal. Senhores. acabarão tendo de comer sozinhos a carne que produzem. As crises são catástrofes naturais. Inverno e verão nós dependemos do tempo: nós também estamos mais próximos do Deus de nossos pais do que os senhores. a quem os senhores transformaram no que são. destinos inelutáveis. são todos uns imbecis. Causais vossa própria queda! Bando de imbecis! OS FABRICANTES. engodos e combinações para aumentar o preço da carne. em conseqüência. a Revolução. Joana mostra aos negociantes os pobres (Luckerniddle e Gloomb) que ela trouxe. os senhores se enganaram. Nos baixios. E os senhores. replicando: Imbecis são vocês! Ninguém pode nada contra as crises! Bem acima de nós. JOANA. todo-poderosos. gritando – Afastem-nos! Ele desmaia. nada além disso. ver surgir a nós. eles que nada têm? Senhores. vocês.18 – Maldito sejas! Cridle sai. existe também um poder de compra moral: o dinheiro. seus mugidos serão testemunhos. Se os senhores continuarem tergiversando. MAULER. tanto hoje quanto no dia do juízo final. imaginando que não virão à tona suas manobras. Mas nós lhes dissemos que é um imbecil. que fazem subir o preço do pão e que fazem da vida um inferno onde os homens viram demônios. pois os que estão lá fora já não têm como comprar. pobres e deploráveis imbecis. atrás de mauler – Fique senhor Mauler. JOANA – Mas os senhores. Traçam essas desconhecidas. Reparem então nestas gentes. eu bem sei. que se dobram sob o fardo de suas penas. nada querem saber da miséria que existe fora deste recinto. gritando: Por vossa especulação desenfreada. as leis econômicas. OS CRIADORES. buscando desculpas.

JOANA: É isso. pelo menos cinqüenta mil toneladas de conservas. Eles. eu compro! Escutai todos: Pierpoint Mauler compra! Que estas gentes tenham trabalho e que se afastem. levai-o agora. E não basta que cerres as pálpebras Para que eles desapareçam.19 Um médico para Mauler! JOANA: Mauler. eu vou falar. assume compromisso sobre a produção de dois meses. Torna-se comprador.. ao preço do dia. eles não. Mauler. No seio de Deus não há frio. OS POBRES – Gente como essa. cumprimos nosso trabalho de [missionários. nós conhecemos. Eu vos mostro agora a pobreza dos pobres. aí em cima. em 15 de novembro. para eles inacessíveis. ao instinto animal. cantemos: “Nunca faltará o pão. MAULER: Afastem-nos. levantai-me. que mantendes longe de vós. Aos pobres: Segunda-feira vocês terão novamente trabalho. afastados dos bens indispensáveis. O cartel entregará a Pierpoint Mauler. voltando a si – Eles ainda estão aí? Eu suplico que os afastem. e reduzi-los À voracidade. deitado no chão – Eu compro. qual burros de carga. E lá. Tu quem os reduziu à tamanha miséria. Eles parecem bem piores. de todos os estoques do cartel. o que fazeis? Vós me ordenastes não dizer uma palavra. OS FABRICANTES – Quem? Os Chapéus Negros? Quer que eles saiam? MAULER – Não. A tal ponto dependentes de alguma comida E de um pouco de calor. Quem em seu seio habita Jamais será infeliz. Mas quem sois vós. antes de partirmos. Mas os dois que estavam ao lado dele. Compro. E fome nunca se passa.” OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Nunca faltará o pão Ao que dedica a Deus sua alma. tudo o que em oito semanas conseguirdes [fabricar. Nem mesmo do boi que esmaga espigas com seu casco! Em todo o caso. gritando em um megafone – Pierpoint Mauler reanima o mercado da carne. levantando-lhe a cabeça – E os estoques? MAULER. por favor. Que viver assim pode mesmo afastá-los Da necessidade de um ideal. . vos rogo. Nós. e por vós mantidos Nesta pobreza. Eles o levantam. Além disso. eu. MAULER – Agora. Os que estão atrás. Invisíveis para vós. a contar de hoje. também ao preço de cinqüenta. então Para querer fechar a boca do Bom Deus? Não se deve calar a boca de ninguém. nós nunca tínhamos visto. ao fundo. estão tão enfraquecidos. SLIFT – Ele não abrirá os olhos enquanto não os fizerem sair. E vós.. meus amigos. como eles sim. CRAHAM: Então! Não podes vê-los? No entanto foste tu. JOANA – E agora. CRAHAM – A cinqüenta? MAULER – A cinqüenta! CRAHAM: Ele comprou tudo! Vocês ouviram: Comprou tudo! CORRETOR. MAULER. OS FABRICANTES – Ele comprou! Mauler comprou! MAULER – Ao preço do dia! CRAHAM. vós me mostrastes a imoralidade deles.

enfim do ponto morto! Confiança e concórdia estavam fortemente abaladas. E ele faz meter carne em latas Que ninguém comprará. Recusa-se a engolir mais. Música a partir das 3 horas. Mauler. entrada gratuita. SLIFT. a sabedoria triunfa. açougueiros infames! Enquanto vocês não dobrarem o preço do gado Não entregaremos um só grama de carne. nenhum. Os patrões vão reabrir. Aqueles que dão o pão. Agora os senhores podem respirar. Slift. PEQUENO IMÓVEL COM DUAS SAÍDAS MAULER. Os fabricantes de conserva saem. Muitos criadores se transtornaram. Não o deixaremos descansar Enquanto um homem precisar de ajuda. Ele cumpre. dirigindo-se à Joana Aquilo que disseste e tua intervenção Causou-nos forte impressão. e diga se realmente todos podem ler em meu rosto? SLIFT – Ler o quê? MAULER – Ora! A minha profissão! SLIFT – Teu ofício de açougueiro? Diga-me. Para tal negócio. OS CRIADORES: Agora os preços subirão. Escutem: saímos. Sábia decisão. O homem que o assinou não estava em seu juízo. então. Sua consciência já despertou. JOANA – Todos aqueles que se interessam realmente pela palavra de Deus e que querem saber o que ele diz e não apenas a cotação da Bolsa podem vir domingo à tarde assistir nosso ofício. discute com Slift – Fecha a porta. às duas horas. Pois ele pode vir em auxílio. dentro da casa. Que carecem tanto uns como os outros? CRIADOR. Se estiverem muito necessitados. ao criador: O que Mauler promete. E vocês precisam dela. O estômago do país. seguidos dos criadores. É preciso. cutucá-lo.20 OS COMPRADORES: Este homem está ruim da cabeça. na Rua Lincoln. VI A Captura dos grilos NA CIDADE CASA DO CORRETOR SULLIVAN SLIFT. ele não encontrará Um centavo. Contra a desrazão. pois nós também. OS FABRICANTES: Podem guardar sua carniça podre! Não estamos interessados em comprar. Podem esquecer seu nome. Nós estamos sob uma miséria atroz. não é. As fábricas reabrem e as chaminés fumegam! Pois efetivamente é de trabalho. aqueles que o recebem. Venham comigo procurá-lo Para que ele os tire do embaraço. Nesse momento o mercado recobra a saúde. JOANA: Saibam todos: estou de olhos em Mauler. saturado de conservas. Joana e os Chapéus Negros saem. sabiamente acatada. Pois o contrato que acabam de ver firmado É apenas um pedaço de papel. por que te impressionas com os discursos dela? MAULER: . de São Francisco a Nova Iorque. os operários entrarão. liga as luzes e agora repara em mim.

Sob a chuva e de barriga vazia. (À parte:) Farei com que ele coma um filé muito mal passado. lançar-nos-ão Ao chão como um peixe podre. SLIFT – O discurso deles te perturbou. Não há mais consolo. SLIFT: Em cidades como as nossas. um após o outro. SLIFT – E o que é. Talvez depois de comer carne crua ele retome seus instintos.. Para limpar esse mundo. por mais externa e sem importância que ela seja.. MAULER: Mas que dizem eles? Essas cidades São um braseiro jamais extinto Onde. E dezoito horas por dia.. Tão forte. não é? SLIFT – Come. Não. Fórmulas tomadas ao coração. SLIFT – Não queres comer um pouco de carne. Esfolarmos uns aos outros friamente. Que não sabem como passarão a noite mas.. Tagarelice vazia e fácil. Para estes que caem em nossos porões sangrentos. eles são muito numerosos. retorna. Então creio sentir Como um peixe aprisionado entre duas águas Pauladas na espinha. Sabias que tu compraste hoje tudo aquilo que pode ser colocado dentro de uma lata de alumínio? Meu caro Mauler. Se nos apanharem um dia. por mais louca que seja. E pense em tua situação: ela não é muito boa. MAULER: Sempre me pergunto por que essas tolices me afetam: Discursos plenos de utopias. pois desde essa manhã tu nada tens a ver com a morte dos bois. É outra coisa. Nós e nossa corja. urrando. talvez. no entanto. que mais não vi. Há sempre boquirrotos que acham Que as coisas não andam como deveriam. . meu caro Slift.21 O que ela disse? Eu não ouvi nada. Esquecer todo o resto. Eu deveria podê-lo de novo. Por trás havia rostos selvagens. Não conheceremos a morte em nossas camas. de onde se eleva uma cólera Que nos varrerá a todos.. E quando da onda emana uma voz Que nada tem de bestial. então? MAULER: O que vive abaixo e não acima De mim! Esses seres reunidos nos matadouros. irei confessar-te Minha verdadeira opinião sobre nossos negócios: Comprar. Levantar-se-ão com a aurora e por-se-ão em marcha. Tudo isso são ainda meras desculpas O que temo não é Deus. Nós que aqui estamos. MAULER: Tu crês que eu deveria? Eu poderia. Certamente porque essa gente trabalha a troco de nada. Agora. Ele se afasta e começa a grelhar um bife no fogão. caro Pierpoint? Pense que agora podes fazê-lo sem peso na consciência. Slift. A urrar de aflição. Seremos colados ao muro. mas permita que eu te exponha simplesmente a situação. a humanidade. Seu número aumenta a cada dia. Onde o fogo arde embaixo Enquanto congela-se em cima. Máscaras da aflição. vender e lutar sem parar. qual onda. vejo-te mergulhado na contemplação de teu ser grandioso.. Isso não pode mais perdurar. É sua antiga fraqueza que retorna.

eu te juro. O ladrão está perdido. MAULER: Tu compreenderás. mais notícias. de resto. rir-me deles. eu não agi por razões vis. eu tenho a impressão De que nada de bom sairá daí. Na carta que recebi de Nova Iorque essa manhã. MAULER: Corromper assim. Parece. escapando bem. então? Mauler sorri. os preços cairão a trinta.“Estamos em condições. comprar carne. eu estou perdido! Esse é o meu fim. SLIFT: Tudo depende de quem escreve a carta. qual Atlas. E uma vez lá.. na melhor hipótese. É coisa que também não se deveria fazer. esmagado. de anunciar-te que nosso dinheiro começa a render seus frutos: muitos são aqueles que. SLIFT – E o que escreveram. então. Ah. Sim. mas Y o surpreende. Realmente eu não vejo sentido nesta carta. muitos de meus concorrentes balançavam. Cairei. Estão erradas... MAULER: Oh! Slift. sim! Eu comprei carne. Essas pessoas são gente de bem? MAULER – É gente com liquidez. votarão contra as tarifas aduaneiras. eu comprei! O que eu fiz! Coloquei sobre minhas costas toda a carne desse mundo! Trôpego. eu estou perdido. sob os arcos de alguma ponte. Então pode ser que. o Cartel te entregará mais cinqüenta mil toneladas a cinqüenta. Receberás. os preços Subam? E nós acabaríamos.” SLIFT. . Essa seria uma saída. Facilmente nascem guerras À custa de tais atitudes. Escuta: X comete um roubo. apesar de tudo. hoje. na Câmara. continuando a leitura . SLIFT – Tu deves fazer o que? MAULER – Comprar carne. Tu as compraste a cinqüenta mas. safa-se. SLIFT – Quem são. eles me escrevem para comprar. Não é qualquer um que pode. eu comprei. caro Pierpoint. Não. Ou desencadear guerras. indicado. Nas semanas vindouras. Corromper ou abolir as tarifas. assim. teus amigos de Nova Iorque? MAULER – Que eu devo comprar carne.. SLIFT – E tu compraste! MAULER: Oh. é verdade. Ainda pela manhã. Mas não foi por causa da carta. acredito. Slift. amanhã. Milhares de homens sangram Por causa deste imundo dinheiro. Eu fui vê-los cair. essas teorias de gabinete. Sob o fardo de toneladas de latas de alumínio. Os preços baixarão novamente. a não ser que golpeie Y Se ele golpear. deverás escoá-lo em um mercado que já não consegue absorver uma única lata. Em quinze de novembro. Mas esta mulher comoveu-me a tal ponto Que mal lancei os olhos. ou a vinte e cinco.22 Primeiro compraste ao Cartel um estoque de vinte mil toneladas de conservas. SLIFT – E por que reclamas de ter comprado? MAULER – Sim. eu me escutei dizer: “Eu compro tudo”. Ah! Meu caro Slift. Mas ainda há a carne Que no mercado liquidarão cem criadores Muito ávidos. dizer-lhes Que ninguém era louco o suficiente Para comprar carne em conserva. quando os preços estiverem em trinta. Aqui está: “Caro Pierpoint.

não sairemos daqui! MAULER – Tu dizes Graham? É verdade que ele precisa de gado? Saia. eu não comprarei! Eu que já carrego toda a carne desse mundo. quero paz em minh’alma. Agora. Persuadir os criadores da oferta excessiva. é preciso que eu lhe fale da miséria dos criadores de Illinois. ele se dirige à porta da direita. (Ela ri. E comprar-lhes tudo. No interior da casa. todo esse gado? SLIFT – Vejo apenas Graham. Eu não compro mais nada. Slift. Vão para lá. Isto é o principal: Sumir com o gado. Mauler. depois. JOANA. Lembrá-los de Lennox. Eu fiz “A”. A operação é simples: seria preciso comprar Todo o gado que se encontrasse em pé.). eu estou comprando e compro ao preço do dia. eu vou comprar. Senhor Mauler. Ele desenha um “A” na porta de um armário. tiver cem dólares no bolso. nem chapéu nem sapatos. OS CRIADORES. eu não quero meter o dedo neste negócio. Pierpoint! MAULER: Ah! É verdade. tentará sair pela outra porta. Tu és o responsável por nossa desgraça. no fim. Não. de perto ou de longe. minha decisão está tomada. que precisa bastante. Nem a mim nem aos que me acompanham. Antes de ter saído dessa. àquela gente que está com ela. dobrando-se sob o peso da terra: Saturno também precisa de apoio. grandes lucros! É verdade que o ganho seria apreciável. MAULER – A outra saída onde é. Toda a carne posta em conserva até hoje.23 Da mesma maneira a carta – que está errada – Requer – para acertar – um crime desta ordem. e diga-lhes que quero refletir dois minutos. E por agora também não penso em reabrir a fábrica.) Slift. Slift. Joana diante da porta da esquerda. a cinqüenta. Quando ele me ouvir cantar aqui.. e tudo o que cheire à banha eu compro também. Pois. Retumbar de tambores. SLIFT – Por aqui. eu compro. Ele pede-vos dois minutos de reflexão.) Saia. Compra então o nosso gado! MAULER: Fecha a porta. JOANA – Nós o faremos sair de sua toca. SLIFT Tu que não querias mais comprar um chapéu. Slift volta. Vais comprar todo o gado de Illinois. Quem me comprará. mais de dez mil criadores que não sabem mais a qual santo rezar. das fábricas paradas. aos criadores – Pierpoint Mauler está examinando vosso pedido. diante da porta da esquerda – Enquanto os criadores não forem ajudados. SLIFT. como quem captura um grilo. Slift? Não quero reencontrá-la e. em todo o Illinois. a partir de hoje. Slift. Slift tragame tudo o que se pareça. sobretudo. Que eles tirem. não foi bom. (Os criadores colocam-se diante da porta da direita. . Mas então. Devo comprar ainda todo o gado de Sírius? É como se alguém viesse dizer a Atlas Que não mais agüenta. (Ele calcula. Traga-me até a menor mancha de gordura. Os enganados serão os criadores. é verdade. Ele não gosta muito de me ver. de seus delitos. diante da porta da direita – Sai. Slift sai. E nós somos. SLIFT – Qual crime? MAULER: Um crime que eu não poderia cometer.. Slift. para evitar me encontrar. MAULER – Eu não compro. com um porco ou com um boi. MAULER: É verdade. Joana entra acompanhada dos criadores. Feliz se. SLIFT – Não deverias ter comprado. então. Também trouxe alguns trabalhadores que adorariam perguntar-lhe quando o senhor reabrirá a sua fábrica. para o outro lado.

Faça entrar os fazendeiros. ao fundo. O dinheiro nos permitirá também pagar à nossa querida proprietária. os dispensados esperam ainda pacientemente na porta dos matadouros ou já começam a dar discursos revolucionários? DONA LUCKERNIDDLE – Desde ontem gritam bastante. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Recolham cantando Os trocados dos órfãos E os trocados das viúvas. Ela sai. em nome de Deus. grita a eles – Digam ao senhor Mauler que os Chapéus Negros lhe agradecem. GLOOMB – Muitos já dizem que se não empregarem a violência não haverá trabalho para todos tão cedo. (Aos operários:) Quando os que compram gado e os que o vendem se acertarem. JOANA. para vocês também haverá pão novamente. mas não fizeram nada. dona Mulberry. Aos pobres:) Digam-me. pelo que acaba de fazer. que cada um volte alegremente às suas funções. DONA MULBERRY – E meu aluguel. (Os Chapéus Negros saem. sobretudo nas camadas inferiores da população. Eles não são como os outros. tão errado quanto “A”. os Chapéus Negros esvaziam suas latas de ferro e contam ao óbolos das viúvas e dos órfãos. Trabalham duro e vestem-se decentemente.24 Dominado por seus sentimentos. Mas seu nome não deve ser mencionado. Entra dona Mulberry. acabamos constatando que esses segmentos demonstraram. Pierpoint Mauler resolveu comprar todo o gado que se encontrar no mercado. Comandante dos Chapéus Negros. que eles nos ajudem a desferir. SLIFT. BISPA SNYDER – Não se aproximem muito da caixa! Ele fez sinal para que eles recuem até o fundo. E eis que “A” e “B” tomados juntos. salvador do comércio! Eles entram na casa. o que foi feito dele? BISPA SNYDER – Meus caros Chapéus Negros. e. sai e se dirige aos criadores – Para salvar Illinois e impedir a ruína dos fazendeiros e criadores. sábado próximo. Em seguida comete “B”. DONA MULBERRY – O que me agradaria muito. não é preciso que as vendas sejam feitas em seu nome. GLOOMB – No começo falaram em reabri-los. Eles não têm teto. caros ouvintes! Para resolver o delicado problema do financiamento nós até agora apelamos aos pobres e aos mais pobres. proprietária do imóvel. minha cara dona Mulberry. que são gente de bem. Mas Deus todo poderoso Achará os meios de alimentá-los! BISPA SNYDER. dão certo. Talvez isso tenha a ver com o fato de que eles não possuem nada. . pois eles sabem que as fábricas receberam encomendas. sobretudo. OS CRIADORES – Viva Pierpoint Mauler. BISPA SNYDER – Agora. se levantando – Que mixaria! Que mixaria! (Dirigindo-se a alguns pobres. Assim eu decidi. Suas misérias são grandes. VII Os mercadores são expulsos do templo TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS Sentados em uma longa mesa. convidar em vosso nome as pessoas ricas e bem colocadas de Chicago. entre os quais dona Luckerniddle e Gloomb:) Vocês de novo? Vocês passam a vida aqui? O trabalho voltou nos matadouros! DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. não se esqueçam de varrer a escada. frente a Deus. mas por enquanto não se preocupem. Infelizmente. Eles não têm pão. Que dão medo de olhar. um grande golpe no ateísmo e no materialismo que reinam nesta cidade. o aluguel que ela tão gentilmente tem adiado. Alguém se equivoca: “A” é um erro. uma avareza completamente inexplicável.

a Snyder – O que querem de nós? GRAHAM. Nós. a Snyder – Desembuche! Eles se sentam no banco dos fiéis. Quinhentos dólares. sim! Vocês agora terão que achar alguém que faça a doação. Slift. Graham. minha cara. confesse Slift. (Aos pobres:) Vocês não poderiam ao menos cortar lenha para nós? OS POBRES – Não há mais lenha. Meyers. MEYERS – O que não será fácil. Porque já começam a dizer por todos os lados que a desgraça não cai do céu como a chuva.. não gosto disso. Na mosca. sem que ninguém saiba como. Entram os fabricantes de conservas: Cridle. sem dúvida? SLIFT – Sem dúvida. bispa. portanto. É nosso nervo vital! SLIFT. Nós também prometeremos a eles que os ricos serão punidos. tomar as fábricas em nossas mãos para que todos possam trabalhar e comer. a Snyder – Todos pobretões. um dia. precisamos de sopa quente e música animada. OS FABRICANTES – Por que falar em pagamento? BISPA SNYDER – O pagamento do qual falamos é feito após a morte. Que tal. novo soco – Que tu achas que eles querem. BISPA SNYDER MEYERS Há um cretino que razia o gado E que sabe bem que estamos comprometidos A entregar carne enlatada E que. (Aos outros) Eles carecem desta quantia. tão certo quanto eu estou aqui.. precisamos do gado. mais então. Do lado de cá.. é saber de que lado vocês estão! Desse lado da barricada ou do outro? BISPA SNYDER – Os Chapéus Negros. estão acima da querela. recompensados por suas penas. mas que serão. GRAHAM. BISPA SNYDER. Já é melhor. SLIFT. os reis da carne nos escutarão mais facilmente. são vocês que estão com o gado.. afirmando que sois vós os responsáveis pelo desemprego! Em breve eles dirão: queremos fazer como os bolcheviques. Slift! MEYERS. GRAHAM – Até tu? E Mauler também. portanto. Bispa Snyder! Todos riem. os Chapéus Negros. Deus é testemunha. então. SLIFT – O essencial. BISPA SNYDER – Podemos dar um jeito com setecentos e cinqüenta. E que alguns entre eles começam a resmungar e a dizer: devemos nós mesmos cuidar do negócio. Senhor Slift. após a sua morte. (Os fabricantes de conserva caem na gargalhada) E tudo isso por apenas oitocentos dólares por mês! GRAHAM – Não precisas de tanto. MEYERS. não enrole. MEYERS. mas que ela é provocada por aqueles que dela tiram vantagem. que eles estão destinados ao sofrimento. SLIFT – Mauler e eu não compramos um centavo sequer de gado. MEYERS – Setecentos e cinqüenta. menos Snyder.. dando-lhe um soco na boca do estômago: Velho cão imundo! Vamos. Slift? (Slift simula um ar astucioso e exagera na mímica do ato de dar dinheiro). OS FABRICANTES – E quanto querem pelo serviço? BISPA SNYDER – Oitocentos dólares por mês. diremos a eles que a desgraça vem como a chuva. Graham.. na frente do palco – Então. . e vá dizer ao Pepê Que afrouxe o laço. quinhentos? GRAHAM – Quinhentos sim. MEYERS – Eu me pergunto. senhora bispa. E já citam vossos nomes. GRAHAM – Confesse. vocês certamente precisam. os Chapéus Negros. a Meyers – Essa senhora não tem senso de humor. o Pepê está com o gado. no púlpito – Nós.25 – Isso nos é favorável. Se vierem para cá tocados a pedradas. a Snyder – Quinhentos dólares? Isto é muito dinheiro! Quem vai pagar? SLIFT – Ah. onde poderia estar todo o gado! GRAHAM – É o que eu me pergunto também: onde poderia estar? SLIFT – Eu me coloco a mesma questão. SLIFT – Quem poderia ser? GRAHAM. ouvimos dizer que há nos matadouros cinqüenta mil pessoas sem trabalho.

eu sei o que faço. GLOOMB . E eu. indo de um lado a outro.26 Entra Joana SLIFT – Aí está a nossa Santa Joana da Bolsa de Carnes! OS TRÊS. da tua vista sairia.) Saí! Quereis transformar a casa de Deus em um estábulo! Saí! Nada tendes a fazer aqui! Cabeças como as vossas. JOANA. e que os operários poderiam comprar a carne. Mas cruel é a fome: Renasce sempre. É o seguinte: alguém sumiu com o gado do mercado de uma maneira que somos obrigados a ficar de olho em Mauler. Para que ninguém mais vá olhar de perto. qualquer um que queira ajudar aos pobres deve ajudá-los a protegerem-se de vós. que haveis atormentado ao extremo. gritando alto a Joana – Ah. Dirigindo-se aos fabricantes: Mauler. que ela usa como se fosse um porrete. (Joana sai atrás deles com o mastro de uma bandeira. aí estás! Nós não estamos muito contentes contigo! Tu não poderias dizer uma palavrinha de nossa parte à Mauler? Parece que tens sobre ele alguma influência. olhando os pobres. quem comerá a carne que nós compramos? E para que nós a compramos. pois. Dizem que ele come na tua mão. mal tendo sido saciada. ao me veres aqui. JOANA – Por que não trabalham? Não arranjei trabalho para vocês? DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. mas também os esconde De todos os olhares. GLOOMB. senão lançar-me-ei sobre vós e golpeá-los-ei a cabeça. De bom grado. para fazer pior. nós não queremos mais ver. hoje. e a religião vos parecerá de novo algo de muito bom. supúnhamos que iriam retomar o trabalho. aos fabricantes: Esses pobres continuam a esperar trabalho? Silêncio dos fabricantes Eu que pensava que eles estavam arranjados! Faz já oito dias que neva nas costas deles.No começo falaram em reabri-los. Mas agora. vós então vos borrareis todos. SLIFT – Mas querem antes estrangular os agricultores! OS TRÊS – Como abater gado que não existe? SLIFT – Quando Mauler e eu compramos a carne de vocês. comprou-vos conservas Por minha solicitação! E não reabristes ainda? OS TRÊS – Está correto. Se fizeres isso por nós. se os consumidores não têm com o que pagar? JOANA – Em vossas gigantescas instalações e vossas fábricas detendes as ferramentas dessa gente: deveríeis ao menos permitir que eles as usassem. avançando: Eu te conheço: tentei te convencer A trabalhar nas serras que me cortaram o braço. Parece que podes fazê-lo agir ao teu gosto. e nessa atitude há alguma coisa que parece exploração. própria para jogar água na fervura. mas não fizeram nada. ela está espantada – O que fazem vocês aqui? DONA LUCKERNIDDLE. JOANA. Nós queremos reabrir nossas fábricas. Esta neve os mata. Os Chapéus negros aparecem na porta. e eu. sem pena também Esqueci o que todos se apressam em esquecer Para rapidamente estar em paz com suas consciências. empunharem um porrete para bater em vossas cabeça. perdi demasiado tempo até sabêlo. É preciso que ele libere o gado. dizendo-me: ajudando aos de cima. Estou pronto. Sois indignos e eu vos expulso! Apesar de vosso dinheiro! . Mas o Bom Deus tem uma opinião muito elevada de Si mesmo para ser sempre a vossa babá para todo o serviço e para vir limpar vossas cavalariças. e rápido. Haveis perdido então todo o respeito pelo que se parece humano? E ousais anda vir à casa de Deus porque possuem o vil metal? Sabe-se bem de onde haveis tirado esse ouro e como o haveis adquirido. Saí. Basta que alguém diga: está acertado. entretanto. ajudo também aos de baixo. senão ficam imobilizados. É preciso ser muito tonta! Na verdade. Não me detenham. pagaremos o aluguel dos Chapéus Negros por quatro anos. avançando: As vinte refeições foram comidas! Não te irrites. Se essas pobres criaturas.

aos Chapéus Negros – O que acabo de fazer certamente foi pouco habilidoso.27 – Está bem! Mas conosco. de volta Convida a tua casa. é muito justo que pague. Enquanto não tiver feito de Mauler um dos nossos. É mister que haja um Justo entre eles! Ela sai. vão-se irrevogavelmente quarenta meses de aluguel. esses pobres. De qualquer maneira. JOANA Irei ver o rico Mauler. correndo sai atrás deles – Fiquem senhores. como jamais viu antes o mercado do gado! Saída dos fabricantes de conservas. na ponta dos pés. Eu não desejo Colocar novamente o chapéu e o uniforme negro. Nós iremos viver dias terríveis. prisioneiros Em uma torre de marfim. Enfrentam-se como gigantes? Vá. no coração da tormenta. não se vão. BISPA SNYDER. Mediadora inútil e que cava a própria cova. onde não escutam mais Os pedidos de salvação do resto dos humanos. Por causa do aluguel. terá de se mudar. . tudo mal. modestamente. Fazes-te de difícil e és muito curiosa Para saber como é feito. Ela carrega uma mala pequena. Tu que planas mais alto que as questões terrenas! Parta sob a chuva. Mesmo que ele os torne surdos. Eu pedirei sua ajuda. bispa Snyder? Ela sai. entretanto. Serve-lhes água de chuva e belas palavras Pois do céu não lhes vem mais do que neve E não misericórdia! A humildade. tu a ignoras E cedes a teus impulsos! É mesmo muito fácil Caçar esses impuros com um gesto cheio de orgulho. oferece teus bons préstimos. Se o Bom Deus não paga o seu aluguel. e a partir de sábado à noite. ela retorna vestida como uma jovem camponesa. ela não representa ninguém. Mesmo que o dinheiro os carcoma como um câncer Devorando o que seu resto tem de humano. JOANA. comê-lo também! Vá-te então. tudo bem. está bem. de um ao outro. Doravante farás parte dela. dona Mulberry – que ele encontrou sobre a terra. pois esses que te seguem não são mais do que escória e refugo. BISPA SNYDER. Trazendo-vos totalmente convertido. DONA MULBERRY — Sim. entrando — Vocês já arranjaram o dinheiro? BISPA SNYDER – Deus encontrará logo o meio de pagar o abrigo bastante modesto – eu disse modesto. Povoada de cânticos e palavras que despertam. agora. fracos. Quanto ao pão que precisamos comer. Anda cuidar de tua vida. então. eu lhes trarei a sopa. Mas como deixar-se levar por isso? (À dona Luckerniddle e a Gloomb:) Sentem-se lá no fundo. ah. BISPA SNYDER: Infeliz ignorante! Como não vês que operários e patrões. não temos mais um centavo. não tem nenhum mandato! É apenas uma mulher que perdeu a razão! Ela está despedida! Ela fará pelos senhores tudo o que desejarem. OS TRÊS Joana sai. Queres. DONA MULBERRY. Nem outra vez cruzar o limiar dessa querida casa. Homem de boa fé e destemido. Mas se ele não paga. Vá sob a neve e continue intransigente! JOANA – Quer dizer que devo tirar meu uniforme? BISPA SNYDER – Tira o uniforme e arruma tua bagagem! Sai desta casa e livra-nos da escória que arrebanhaste. é bem disso que se trata! Falaste a palavra exata! Se o Bom Deus paga. Grupos inimigos irreconciliáveis.

realmente. onde enfiaremos o pé Unicamente para ver a marca que deixa. Slift. SLIFT. mesmo nas pequenas coisa. É um belo sofá que o senhor tem aqui. E na nossa mão é mais caro. Houve discrepâncias entre nós. Em busca de animais que. Mauler. Ele sai. Ela não tem medo de nada. se eu estivesse lá. Gosto nela deste traço. posso me interessar mais por cada homem em particular. Dir-se-ia Que Chicago a engoliu Em sua negra e ruidosa bruma. Então eu disse a mim mesma: vá dar uma olhada no que se passa com o senhor Mauler. e que nem mesmo está dobrado direito? Diga-me: o senhor dorme aqui mesmo. Mas o senhor tem razão. Graham e companhia ficarão então parecidos À lama. Gostei muito de vê-la expulsá-los do Templo. SLIFT: Estou feliz. carregando uma mala. E os preços Subirão ainda mais. e cada porco Que eles precisam nos entregar. dá rédea solta a teus corretores! Deixa-os correr o mercado. Assemelhem-se a bois ou porcos. meu caro Slift. por um momento. queriam esperar Que o preço do gado caísse o mais baixo possível. MAULER: Seria preciso esfolar esta cidade maldita E ensinar-lhes o seu ofício A essa gente. Desde Que ela nos expulsou do Templo. Não se possa aceitar gente da minha laia. É que eu não estou mais com os Chapéus Negros. SLIFT: E tua Joana? Algo de novo? Um boato corre na bolsa: dizem Que te deitaste com ela. no seu escritório? Sempre achei que o senhor devia possuir um dos grandes palácios de Chicago (Mauler se cala). Não é fácil encontrá-lo. Senhor . senhor Mauler. Vou ver como eles compram. os preços a oitenta. Terão de pagar mais caro. Eu desmenti. em sua casa. Não se fala mais dela. e de que. MAULER: Agora. Deixar que gritem: “É um crime!” Entra Joana. desta vez. Faça subir. de perto ou de longe. E todos aqueles que como ele. senhor Mauler. Slift. Mas o senhor. A mim também Teria expulsado. Não pretendo soltar um só grama de carne A fim de arrancar-lhes mesmo a pele desta vez: É a minha natureza quem exige. de ser cuidadoso. JOANA – Bom dia. Serão obrigados a comprar a carne Que devem nos entregar. mas por que o lençol em cima. Eles precisam comprar de nós. Agora que não tenho mais o trabalho fatigante da missão. Neste mercado de Chicago Todos os bois que se escutam mugir São nossos bois. Deixo minhas coisas nesse canto. que tu tenhas superado Teus recentes acessos de fraqueza.28 VIII Discurso de Pierpoint Mauler sobre a absoluta necessidade do capitalismo e da religião ESCRITÓRIO DE MAULER MAULER: MAULER: Chegou enfim o dia em que nosso caro Graham.

Teria adorado ouvir-te dizer Que o que eu faço está bem. senhor Mauler. tenho boas esperanças de que sua consciência esteja em paz nesse momento! MAULER – Então não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Não. ainda por cima. a proprietária. arrancar a pele desta cidade. Trata-se de saber Se eu serei o melhor de minha classe Ou se tomarei eu mesmo.. JOANA – Os operários continuam esperando nos matadouros? MAULER Por que és contra o dinheiro? E por que então. Quando não o tens. Vou agora mesmo à Bolsa para procurar o dinheiro. JOANA – Sim. eu não comerei.. E que. não querem partir. quando nós expulsamos os ricos de nosso templo. MAULER – Não te inquietes. muda logo a tua cara? .. Mas eu o encontrarei. Eu confesso cruamente. MAULER: Tão mudada! Apenas oito dias! Onde ela esteve? O que ela viu? E por que essas rugas em torno dos lábios? Esta cidade de onde ela saiu. É Mauler quem vai dá-lo. Estás de acordo? JOANA – Sim. Eu também. e aos Chapéus Negros é preciso auxiliar. E como eu sei que sois pobres E que querem privar-vos Do teto que vos abriga.. Aqui está por escrito. Ela começa a comer avidamente. Uma vez mais. é lógico. JOANA – Senhor Mauler. Mesmo que deva cortar na carne. nos deu prazo só até o próximo domingo. Nesta história dos cinqüenta mil trabalhadores. senhor Mauler! MAULER Tome. o dinheiro para vocês eu terei. MAULER – . Eles são cinqüenta mil Que permanecem lá. é claro. ser ou não ser. está caro. o que me agradou muito e me pareceu justo. Mauler vai até o fundo do palco e chora. JOANA – . O escuro caminho que leva aos matadouros. aos fabricantes. não faço mais parte. Daqui até sábado. e que agi bem. Ele traz comida a ela em uma bandeja. que vive do aluguel. vá dizer-lhes isso. eu buscarei o dinheiro a qualquer preço. naqueles pátios imensos.. mesmo à noite.. MAULER – Ah! E agora os Chapéus Negros estão em uma situação financeira difícil? JOANA – Sim. E foi por isso que eu me disse: irei ver o senhor Mauler. Um trabalho ruim.. a coisa não andou. MAULER – Vá dizer-lhes que o dinheiro está chegando. Não pude dar-lhes trabalho rapidamente. Eis o desafio. na minha vez. Eu irei à Bolsa encontrar o dinheiro que lhes falta. de pé. Eu não conheço. Eu te encontro bastante mudada. Assim como aos criadores. O dinheiro. Mas nesse negócio. eu lamento Que o trabalho ainda demore nos matadouros. Queres? Joana observa a comida. sim. Mas contigo não será assim. MAULER – E do que tens vivido? (Silêncio de Joana) De nada. É por ti que o faço. Corra. senhor Mauler. Há quanto tempo não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Oito dias. não como eu queria.. Confirme que foi por teus conselhos Que eu. encomendei a carne. Eu quero dar-vos alguma coisa Para provar-vos a bondade de meu coração.29 Mauler. Que meu comércio não é antinatural. Joana pára de comer. Toma.

E que. O dinheiro é um meio De melhorar um pouco a vida. Por Ele batendo os tambores. Seria como um mosquito Tentando se opor a derrubada de uma montanha. Por isso vós deveis nos ajudar em nossa obra. durmo mal à noite. Assim. Daqueles a quem ninguém oferece nada. veja bem.30 O que pensas tu do dinheiro. Atribuir ao homem um lugar totalmente diferente. Quero saber. . Obra imensa. Mas eu faço parte daqueles Para quem essa não é uma ajuda. Desde que existem sobre a terra. Eu seria varrido. Isso que o senhor falou. Não enchas a cabeça de falsas idéias. isso será suficiente. Olha também como o mundo é feito! Que edifício! Obra dos homens. nem Deus. eu deveria estar feliz De ver que alguém vem em ajuda a Deus. Ele alcança o papel a Joana. Para que Ele finque pé nas favelas E para que Sua voz retumbe nos matadouros. eu concordo. sob gemidos. Eu sei. ou quase. Se eu quisesse me retirar. E se vós não precisais se expor aos sacrifícios. diga-me. Que seria suprimido por falta de utilidade. Tão penosa de construir. Eu não compreendo E nem quero compreender. Como esses bobos para os quais o dinheiro Tem não sei qual problema. E incessantemente construída. Ela se levanta. destruído na mesma hora. Que o gênero humano está entregue. Em uma palavra é preciso que vós Restabeleçam Deus em sua glória. Na banal verdade. Ainda que dia após dia se precise reconstruir O que dia após dia é destruído. Não desejais. aliás. Esse sistema é o único que permite arrancar O que pode ser arrancado dos rigores desse mundo. Pouco agradável. Mas pensa na realidade. MAULER . As coisas não deixariam de seguir o seu curso de antes. Pouco ou muito segundo o caso.O que nós não vos exigiremos de nenhuma forma – Devem dizer ao menos que eles são justificados. JOANA Senhor Mauler. Eis porque esta obra é sempre defendida Pelos melhores entre os homens. Mas saiba com qual objetivo foi dado! Tome isso! Saiba que representa O aluguel de quatro anos. malgrado os sacrifícios. sem dúvida. É à sorte. Apanhe o que te dão. Sim. nem nós tampouco: Não seríamos necessários. eu que nutro Poucas simpatias pela ordem do mundo. de cima a baixo. Fazendo Dele a única salvação. Modificar por inteiro o plano do edifício. Mas mesmo assim verdade: Sobre a terra nada há de sólido. Ao menos a vida de alguns. sob chuva e frio. Ou então seria preciso mudar tudo. Concepção inaudita à qual vós mesmos.

Jogados aos matadouros e de tudo ignorantes. Mauler. JOANA Terceira descida de Joana às profundezas. em todo o caso. Se for um punhado de neve o que lhes dão. Sem poder suportar a visão dos pobres Que os julga sem conhecê-los. Sobre ela que tu conheces. A cada hora. desfilando. com passos guerreiros. uma palavra sem importância. Pois esta vida sem eira nem beira não te serve. afluíam inúmeros cortejos. Chicago! Vós também Lá estavam. em um pequeno campo. E o senhor. se o senhor quiser me ver Me verá nos matadouros. Quantos eram eles? Eu não sei. soluçando e jurando Logo fora de mim! Virtude e terror confundidos! . Vi depois cortejos E ruas desconhecidas. por toda a parte. Fez esta massa começar a fluir. Depois eu gritei palavras em tom belicoso Em uma língua para mim mesma desconhecida. Cercado de todos os lados por enormes edifícios E tão pequeno que a sombra de um arbusto O teria encoberto totalmente. E o trabalho deles também. A tempestade de neve. Eu marchava. E nada comerei além do que eles comem. E se não houver trabalho. IX Escutai o que eu sonhei. Eles fazem muita questão do dinheiro. creia-me. No futuro. pulsando vida. Perto dela Gloomb e dona Luckerniddle. E eu. Eles formavam uma massa tão densa.31 Leva aos Chapéus Negros este dinheiro E poderás ficar com eles. sem uma palavra. Pelo menos não honestamente. Notei uma massa humana. Vai à janela e repara se neva. JOANA Se os Chapéus Negros quiserem o seu dinheiro. que vive da pobreza. levanta-te. Eu comerei esta neve. Ficarei lá até que as portas sejam reabertas. MAULER Esta noite. Ela permaneceu suspensa por um instante. 1. E então uma palavra. a fronte ensangüentada. marchava à sua frente. Ao mesmo tempo. BAIRRO DOS MATADOUROS Joana. Há sete dias: Diante de mim. com aqueles que esperam. silhueta múltipla. E se nevar. Eu também não tenho dinheiro E nem uma maneira de ganhá-lo de outro modo. Mas eu me sentarei Em frente aos matadouros. eu quero fazê-lo. Que o aceitem. Arranjando para não ver esses condenados. Que o campo inflou-se e uma cascata humana Inteira ficou pendurada em suas elevadas bordas. Que alguém gritou em algum lugar. Eu serei como eles sem trabalho. Saberás que neva sobre ela. Jovem e velha. do que os pardais Que se poderia colocar em tal lugar. Mais numerosos. e outras familiares. e então eu me vi: À vossa frente. Ela sai. E isso é muito bom.

libere-nos de nossos compromissos! MAULER: Estou desolado. Habitando em lugar algum.. Ocasionando imensas destruições. sem mais delongas. eu ignoro. E também perturbando o aspecto familiar de ruas bem próximas.. Precisamos comprar e os preços aumentam! . a preço vil. OS FABRICANTES Desgraça! As tarifas caíram E nós não temos mais bois para vender! Eles já estão vendidos. O que acontecerá. modificava. Envolvida pela neve. Mauler. DONA LUCKERNIDDLE – Se ela tivesse calado um pouco a boca lá nos Chapéus Negros. ao abrigo dos ataques inimigos. Todas as conservas Previstas no contrato. Hoje eu compreendo o seu sentido: Nós deixaremos os matadouros antes do raiar do dia. A exata extensão de nossa miséria. nós agora estaríamos comendo a nossa sopa. Faremos um chamado a todo o ser que pareça humano.32 Tudo o que eu pisava. Senhores. Influenciando o curso dos planetas distantes. E com a aurora chegaremos a Chicago. E assim andava o cortejo. transparentes. mas existe. estávamos fora de alcance. e pior. nas praças públicas. a preço vil. Graham. OS FABRICANTES: Mas como nós poderemos Comprar gado com preços em alta? Alguém promoveu uma razia. GRAHAM: Ao preço antigo? MAULER: Como combinado. mas preciso das conservas. Comprem-no! OS FABRICANTES: Comprar gado nestes dias! Que horror! 3. Um pouco caro. não nos podiam alvejar. Eu exijo que me entreguem. e pior. éramos inatingíveis. se eu me lembro direito Daquela hora em que perdi um pouco o juízo. abandonando este lugar insuportável Por qualquer outro. Ninguém sabe quem foi. a cidade deles. UM PEQUENO BAR NO BAIRRO DOS MATADOUROS Desgraça! As tarifas caíram! E nós não temos mais carne para vender! Ela já está vendida. Há muito gado. Rendidos pela fome. a senhora entendeu esta história? Eu não. MAULER: Sendo grande a demanda De conserva e de vianda E sendo os preços aceitáveis. que eu saiba. Oitenta mil toneladas. é verdade. OS CRIADORES aos fabricantes de conservas: Meus amigos de Nova Iorque me escreveram Que as tarifas aduaneiras no Sul Acabam de ser derrubadas. bem e aquecidos! 2. Habituados ao sofrimento. BOLSA DE CARNES MAULER. Eu andava no mesmo passo que o cortejo. GLOOMB – Dona Luckerniddle. Assim foi o meu sonho. Para aí mostrar a todos.

como vocês. vinde logo! Aleluia! Uma jovem dos Chapéus Negros dirige-se aos trabalhadores. Pois nós encontramos Jesus. Onde está Jesus. MARTHA. A MULHER – Por que não nos procuram para tentar nos converter? GLOOMB. hoje (eles não estão escutando nada!) basta que eu pense muito em Jesus. mas eles traziam uma panela. que um resto de pudor lhes diga: Aqui reinam a neve e o vento: calem-se! 4. por causa do meu marido. soldado dos Chapéus Negros: . BOLSA DE CARNES OS FABRICANTES: Nós compramos qualquer gado! Bezerros! Gado gordo! Vitelos! Bois! Porcos! Façam as suas ofertas. ente os quais Joana. faz desesperadamente sinais para que saiam. durante a cena. mas então eu encontrei Nosso Senhor Jesus e fez-se em meu coração uma grande luz e provei uma grande alegria. Discursos. Vinde a ele. e o velho Adão dentro de mim não tinha outro desejo do que comer e beber. os comunistas. Luckerniddle – De onde a senhora os conhece? DONA LUCKERNIDDLE – No tempo em que eu não me fiava em gente como você eu ia bastante até eles. já ouvi demais. DONA LUCKERNIDDLE – Eles são boas pessoas. Se algumas pessoas soubessem calar a boca eu saberia onde procurar abrigo esta noite. à margem do caminho. do pão de Deus? Grande é nossa alegria.(Vocês acham que isso serve para alguma coisa?) Eu também. JOANA. mas ninguém contribui) Aleluia! JOANA – Deixe-os. JACKELINE. que nos salvou na dor. estava um dia sentada. grande o nosso regozijo. meus irmão. Intercala sua pregação com observações aos companheiros. Bem que eu gostaria de estar com eles! DONA LUCKERNIDDLE – A música era bonitinha! GLOOMB – Bonita e curta. surpreendendo-se pela ingenuidade – É sério? A senhora acreditou nisso? DONA LUCKERNIDDLE – Eu também. UMA MULHER Por que vir aqui fazer escândalo Com tamanho frio! E se pudessem ao menos se calar! Com muito custo eu consigo agora Suportar as palavras que há pouco amava E que me soavam agradáveis. eu esperava que eles fossem ao menos nos dar um prato de sopa. apesar de todas as nossas más ações. UM TRABALHADOR. (Isso não serve para nada!). meu irmão. por favor! OS CRIADORES: Não sobrou mais nada! Tudo o que podia ser vendido .33 Trabalhadores e trabalhadoras. tenente dos Chapéus Negros. não a violência. tenho apenas sede da palavra de Jesus.Aleluia! (Jackeline faz circular a cuia de esmolas. JOANA – Onde eles estão? GLOOMB – A dona Luckerniddle pode lhe dizer. Silêncio. Eles precisam fazer isso para conseguir um pouco de calor e de comida. tu também. Joana se levanta e. minhas irmãs. Ah. não o ódio. JOANA – Mas não são os tais que ficam incitando ao crime? O TRABALHADOR – Não. à dona. o amor. JOANA – Então não há ninguém que tente fazer alguma coisa? O TRABALHADOR – Sim. eu prefiro os atos. curta bondade. e eu não tenho mais fome e nem sede. Um destacamento dos Chapéus Negros chega. que alguma voz. GLOOMB – Bondade curta. reina a paz. (É tudo absolutamente inútil!) Eu lhes digo: ajudem-nos a manter a marmita fervendo! OS CHAPÉUS NEGROS . depois de entoar um cântico apressadamente: Por que não provar. triste. Nosso Senhor. Nosso Senhor. fazendo o gesto de contar dinheiro – A senhora consegue manter a marmita fervendo. dona Swingburn? A MULHER – A sua música era bonita.

De hoje até amanhã é certo que os patrões vão lançar todo o tipo de falsas notícias: eles dirão que . OS FABRICANTES – Vendido a quem? Entra Mauler. e acho que sou capaz de defender bem uma causa. o apetite desperta! GRAHAM. Mesmo que tenhas que te enfiar nelas! Eu vos ensinarei como se faz esse comércio! Doravante. MAULER: Atenham-se à nossa combinação. UM DIRIGENTE OPERÁRIO – Escutem todos: até agora os magnatas da carne não manifestaram a menor intenção de reabrir as suas fábricas.. eu as quero agora. OUTRO LUGAR NOS MATADOUROS Nos cartazes se lê: “Solidariedade com os trabalhadores sob lockout!” “Desencadeiem a Greve Geral”. os operários. Corte você mesmo! MAULER: Por que se surpreendem. OS FABRICANTES: É Mauler. sabemos agora de uma coisa: se tudo andar como querem os industriais da carne. Mauler. de Chicago a Illinois. se ela for justa. eu tenho propostas a fazer. Vendo-os. Chegada de Joana. Ele vai falar com Slift. Aprendi a falar em lugares públicos e em auditórios. mesmo só uma pata. OS FABRICANTES: Nem pensar! Vocês estão loucos? Quatrocentos! SLIFT – Eu compro. OS FABRICANTES: Mais nada? E nas estações? Estão abarrotadas de gado. precisamos de um prazo. uma parte de nós perderá seu emprego nos matadouros e os outros nunca recuperarão o salário anterior. Qualquer vitelo. Já que não há demanda. Na minha opinião é preciso fazer alguma coisa imediatamente. mesmo nos grandes. precipitando-se sobre Mauler: É preciso liquidá-lo. Silêncio . e caro! Ofereço. Graham! As latas que me deves. Quatrocentos. OS CRIADORES – Vendido. Os senhores devem me entregar a carne. no mais tardar depois de amanhã. Nós. JOANA – São vocês os que defendem a causa dos desempregados? Eu posso ajudá-los. Em frente a um galpão. eu acertarei as contas com ele! MAULER: Ah! É assim. UM CRIADOR: Oitocentos bois de Kentucky a quatrocentos. dois homens da direção dos sindicatos discutem com um grupo de operários. É claro que é! Era o que dizíamos! O cão! Ele nos obriga a entregar-lhe as latas E é ele quem compra o gado! Somos então obrigados a comprar de Mauler A carne que deveremos colocar em suas latas! Carniceiro sujo! Tome então a nossa carne. para começar Quinhentos bois a cinqüenta e seis. É impossível encontrar um boi em Chicago. Terá de ser comprado de mim. Os fabricantes se precipitam sobre ele. Se alguém vier perturbar a reunião. Não havendo ninguém que precise de carne. se são os senhores os bois.34 Foi vendido. Além disso.. OS CRIADORES: Oitocentos bois a quatrocentos para Sullivan Slift. a greve geral. Agora eu quero sessenta! E tenham o cuidado De não esquecer as minhas latas! 5. Os trabalhadores das grandes empresas da cidade nos prometeram declarar. Deixe-os totalmente à míngua. eu não tenho medo.

estou vendo. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Não. dona Luckerniddle? (Dona Luckerniddle faz sinal que sim). pergunte-lhes se são das usinas Cridle. E poderíamos até dizer que esta pobreza seja obra deles. tanta gente na rua. JOANA 6. Ela é sua conhecida. UM OUTRO OPERÁRIO – Dê-me a carta para as usinas Graham. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Pela nossa causa? Diga-me: ela não é também a sua? JOANA – Não é no interesse geral que os industriais jogam. Eu luto de todo o coração pela causa de vocês. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E para quem trabalhava? JOANA – Eu era ambulante. Tudo acontece como se a miséria dos pobres fosse útil aos ricos. dessa maneira. Nós não temos ninguém para passar despercebido como ela. O DIRIGENTE OPERÁRIO. Meyers e Cia.35 tudo está arranjado e que a greve geral não acontecerá. MAULER: Os senhores não respeitaram. Eu não sou uma espiã. (os operários riem alto) Mas é desumano! E dizendo isso eu penso também em gente como Mauler! (os operários caem na gargalhada) Por que se riem? Acho que vocês estão errados em zombar e em acreditar sem provas que alguém como Mauler não é um ser humano. em diversos pontos dos matadouros.” OS FABRICANTES – Nós não podemos mais agüentar. Ela é honesta.. Jack. etc. pau neles! OS FABRICANTES – Queremos dois mil bois a setenta. Quando você vir chegarem três operários com cara de quem procura alguém. a Mauler. ouve-se gritar ao fundo o nome das empresas que suspenderam seus pagamentos: “Encerram os pagamentos. É do Exército da Salvação e os policiais a conhecem bem. Como se rede já não houvesse: De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. eu conheço o pessoal. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Não é sem provas. na esquina do Parque Michigan. Essas cartas anunciam que a usina de gás. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua Três.. encostado em uma coluna – Faça subir. Elas devem ser entregues às dez horas. não é? DONA LUCKERNIDDLE – Honesta ela é. UM OPERÁRIO – Pode ser uma espiã. essa noite. em frente ao edifício da Westinghouse! (À Joana) Quem é você? JOANA – Fui mandada embora do emprego.. O contrato assinado há pouco entre nós: Eu queria. O operário apanha a carta e sai. e vá esperar os responsáveis defronte à cantina da senhora Schmittens. – Eu já vendi jornais na rua Vinte e Quatro. com tal medida. SLIFT. Por este buraco fogem todos os peixes. BOLSA DE CARNES Durante toda esta cena. Um operário apanha a carta e sai. Você pode tranqüilamente entregar-lhe a carta. eu sei quem ela é. assegurar o trabalho . os preços estão a mais de setenta! OS CORRETORES – Os cabeçudos não compram. galpão número cinco. as centrais elétricas e o serviço de águas entrarão em greve em solidariedade a nós. pois o endereço dado pelos camaradas das usinas Cridle para o encontro está muito vigiado. Ninguém suspeitaria que ela trabalha para nós. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua vinte e seis. A carta é para eles. À Joana: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. Esconda essa em seu casaco. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E em que trabalhava? JOANA – Eu vendia um jornal. Isso é bom. dando a carta à Joana – Vá até a fábrica Graham. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – E quem te garante que ela vai levar a carta que lhe entregarmos? O DIRIGENTE OPERÁRIO – Ninguém. aos responsáveis que esperam nossa orientação.

voltando ao grupo: Este negócio. OS FABRICANTES – Mauler paga cinqüenta pelas conservas. é claro. Que sangrem. só quinhentos. são incontáveis. por telefone. Ainda por cima está escuro. o vento abafa as palavras. E tenho outras preocupações! Veja bem. Slift. eu não me sinto muito bem. Mas os senhores se lamentarão por isso. O segundo segurança sai. . Quando se grita qualquer coisa. Pois a queda deles Será a nossa. sim. Slift. MEYERS – Mil e quinhentos a oitenta. Pergunta para que nós pagamos impostos! Manda arrebentar a cabeça dos líderes. à procura de um parente que não encontram. MAULER. desembucha! O primeiro segurança faz seu relatório. O primeiro segurança sai. MAULER. dizes. eu não vi ninguém com o uniforme dos Chapéus Negros. GRAHAM: Que seja. é o fim! SLIFT: Quinhentos a setenta e sete para Graham. Além disso. esperando. É preciso que a cidade Possa voltar a respirar. mas que não rebentem. SLIFT – A oitenta. Vou soltar a carne e deixá-los partir. tudo a oitenta. Ponha os pingos nos “is”. No canto em que trabalham os sindicatos reina uma grande efervescência! MAULER – Quem trabalha? Os sindicatos? E a polícia os deixa incitar os operários? Meu Deus! Liga imediatamente para a polícia. Fala em meu nome. Eles já não agüentam. é impossível ouvir uma voz isolada: há muita gente correndo de todos os lados. Ele repara no segundo segurança. MEYERS – Cinco mil a oitenta! Assassino! MAULER. a Slift – Onde está o pessoal que eu mandei para os matadouros? SLIFT – Ali está um. Ceda. A carne sumiu de vez do mercado! Quinhentos bois a setenta e cinco! MAULER: Não seria conveniente. entreguem-me! GRAHAM: Nada poderíamos ter feito. de achá-la? E atiram? Encontra o Jim. MAULER – Então. Mauler. Eles ainda agüentam! Quinhentos bois a setenta e sete. Isso basta. As conservas que comprei. A multidão anônima e sem rosto continua sentada lá. São centenas de milhares nos matadouros. Diga-lhe para que não me procure. não me diverte mais. pois. Acima disso. Impossível. que voltou para perto da coluna – Slift. eu me pego esgoelando-os E não tenho tanto prazer quanto esperava. nós não podemos pagar oitenta a Mauler pelo gado.36 Aos operários e agora me dizem Que eles ainda esperam em frente aos matadouros. Mil a setenta e sete. se apresentariam dez ou talvez cem. A encontraste? O SEGURANÇA – Não. Ele pode ir longe demais. Sem contar que a polícia está evacuando os matadouros e que começa a atirar. Mas para nós. SLIFT: Faça subir. Slift. subir muito mais. Senão pensarão ainda Que fomos nós que exigimos que atirassem. senhor. Se perguntasse por uma Joana. perdido por perdido. O estranho é que aqui não se ouve nada. Vá só até oitenta e depois abaixe o preço. MAULER: Atiram? Contra quem? Mas eu sei bem. O SEGURANÇA – As multidões.

OS JORNALISTAS – Veja bem. OS TRABALHADORES. – Olá! A senhorita é Joana Dark. Virão três pessoas. Eles não abrirão as fábricas! Eles esperarão os lucros aumentarem! E a sua resposta sairá Dos canhões e das metralhadoras! Ninguém poderá nos ajudar. 7. Eles ainda agüentam. Entre eles. serei eu quem fará subir. Slift. apontando para Joana – Aqui está. Fora uns poucos especuladores sem escrúpulos. Não vão embora. Mauler? MAULER. isso não é possível. OS JORNALISTAS – Podemos lhe assegurar. em segundo plano. JOANA – Eu queria que vocês fossem embora. afastando-se – É preciso que façam chegar aos operários que eu acabo de ceder gado às fábricas. Eles se sentam. eles abrirão. JOANA – Eu não faço mais parte dos Chapéus Negros. senhorita Dark. (a Joana) Esses são jornalistas. Nesse dia sim. NOS MATADOUROS Muita gente esperando. Continue então com o negócio. SLIFT – Quinhentos bois a noventa! OS FABRICANTES: Mauler. Saindo ele encontra jornalistas. a alguma distância. no fundo. a não ser nós mesmos E a ninguém podemos apelar OS JORNALISTAS . pode ler. SLIFT MAULER Eu preciso de ar fresco. também em segundo plano: É mentira: por maior que seja a miséria. Os jornalistas lêem em voz alta) “A Madona dos matadouros. E se quiseres abrandar. Então agora existe gado. que a opinião pública está do seu lado. Eles terão de nos responder. Mas nós não queremos incomodá-la e iremos ficar ali. Queria vender a oitenta e cinco. Joana Dark. SLIFT: Mentirosos! Agora serei eu que vos ensinarei A vender carne enlatada Sem ter nem mesmo um quilo! E cinco mil bois a noventa e cinco! Urros. (Joana vira-lhes as costas. Slift não tem ordem para isso. Eles não abrirão as fábricas. Um homem os guia. Aja conforme o meu espírito. Nós publicamos isso com manchete de oito colunas. Aja conforme o meu espírito. nos matadouros Enquanto a miséria não chegar ao máximo. Tu me conheces. Eu não posso mais. declara: Deus está solidário com os operários das fábricas de conservas. É um enorme sucesso para os Chapéus Negros. Joana. toda a Chicago comparte seus sentimentos. OS JORNALISTAS – No escritório do senhor Mauler nos disseram que a senhorita jurou não sair dos matadouros enquanto as fábricas não fossem reabertas. Prefiro abandonar tudo Do que ser a causa de uma desgraça! Oitenta e cinco. não mais. Veja. Mas quando a aflição for tremenda. Chega um grupo de jornalistas. nós ouvimos. ALGUÉM – Porque estás aqui? JOANA – Tenho que entregar uma carta. a jovem pregadora dos Chapéus Negros? JOANA – Não. Para nós a senhorita faz parte.” JOANA – Eu não falei nada disso. O HOMEM.37 – Nem pensar. esperem a resposta! CORO OPOSTO. JORNALISTAS – O que há de novo. De outra forma isso terminaria em violência.

Onde está o meu chale? Eles me roubaram. desde fora. E para vós é fácil passar frio. guardam-me a sopa. A MULHER – Socorro. Os jornalistas.. o que deixei foi uma vocação. isso é normal. Quando eu cheguei aqui.. Já basta. UM HOMEM – Silêncio! Alguém atira um trapo para Joana. Eu não tinha sonhado que pudesse fazer tanto frio! Se eu tivesse pelo menos o meu agasalho! Ah! É fácil para vós passar fome. é claro! É o cúmulo! Eles me roubaram até o chale! Quem foi o mão leve que pegou o meu chale? Devolvam-me imediatamente. A qual logo se nota claramente Que serve de gangorra Todo o sistema é como uma balança Na qual os dois lados dependem um do outro. Ir para um quarto quente. Enfim. imbecil!. um teto e o sustento. chega! Você é boa mesmo de copo. foi você! Não adianta mentir. a Joana – Você está totalmente gelada. Para que estejamos todos no alto! Mas olhando mais de perto descobre-se. que acabaram de receber uma informação. Quer um gole de whisky? (Joana bebe) Ei.. o medo me aperta a garganta: Não comer. Apesar de tudo. não é? JOANA – A senhora também acha. levantam-se e dirigem-se ao fundo. Alguns – pouco numerosos – estão sentados lá em cima E um grande número aqui embaixo. . Tenho fome e isso é banal. o que haveis deixado? Eu. confesso. JOANA Se dependesse só de vós Eu poderia congelar nua em pleno vento. Mas a estrutura interna continua ignorada. a Joana – O que fazias com aquela gente? JOANA – Nada. Vós todos. tenho frio. Mas eu posso. E uns se sentam lá em cima Só porque os outros estão embaixo. Vós. Encorajada por um sonho que confirmava minhas idéias. UM VELHO HOMEM. Mas. Entre os que estão em cima e os que estão embaixo. Que audácia! Emborcar assim o whisky desse velho! JOANA – Segure a língua. UMA MULHER – Que audácia! JOANA – A senhora falou alguma coisa? A MULHER – Sim. Algo de obscuro. E um ambiente. ignorar aonde te leva a vida. ela vai me matar. Não fazia tanto frio em meu sonho. Ficar aqui sem necessidade absoluta Parece-me um jogo indigno. que de resto Já é a muito conhecido. dir-se-ia que é um caminho. E os do alto gritam: Subam. (Ela arranca de sua vizinha o pano com o qual ela cobre a cabeça) Sim. eu não tenho o direito de ir. A mim me esperam. Empunhar a bandeira e bater o tambor. dona Luckerniddle? DONA LUCKERNIDDLE – Sim é verdade. um emprego que me assegurava O pão de cada dia.38 Que não seja um nosso igual. eu quero ir embora. não dormir. E falar Daquele que mora lá em cima.. O TRABALHADOR – Mas falaste com eles! JOANA – Eles me confundiram com outra pessoa. dê-me meu pano. a qualquer momento. Mas. Mas é apenas uma tábua. que nada tendes para comer. mais do que tudo. com um vasto plano. Quase uma comédia. UM TRABALHADOR. JOANA: Eu compreendo esse sistema. ao qual estava acostumada.

acaba de cedê-lo aos fabricantes. (Ela se levanta) Eu vou avisar aos nossos que os boatos já começaram a circular. com a carta. Não se separem! É apenas ficando todos juntos Que poderão ajudar uns aos outros. Havia entre eles pelo menos um homem honesto E ele não falhou em seu dever. Os jornalistas retornam. DONA LUCKERNIDDLE – Não digas tais tolices. espera. Tu não compreendes nada de nada. Agora as fábricas reabrirão. aconteça o que acontecer. Mas tu. mocinha. Esse combate será perdido E talvez perdido Ainda o próximo combate Mas vós ireis aprender a combater E aprendereis pela experiência Que nada se faz sem luta E sem a vossa própria ação. o milionário que dispõe de muito gado. Então a bondade existe. E sobretudo entendam bem Que nada se faz sem luta E sem a sua própria ação. JOANA – Oh! A boa nova! DONA LUCKERNIDDLE – Vejam as mentiras sobre as quais nos alertaram. JOANA: Escutem todos! Há trabalho. E nós vos dizemos: combatei. no frio. A não ser a proposta Que leve a mudanças verdadeiras. Classe cheia de neve e que as leis ignoram. JOANA – Quanta gente há aqui? OS JORNALISTAS – Uns cem mil. no fundo do palco: Se ficardes agrupados Eles vos rebentarão. Ao longe as metralhadoras crepitam. É preciso fazer com que se calem os agitadores que incitam à violência. Os matadouros são tão grandes que a tropa levará horas até aqui. o seu sucesso foi formidável: nós ouvimos que Pierpoint Mauler. JOANA – Mas estão atirando! UM OPERÁRIO – Pode ficar sentada tranqüilamente. Não te movas! Entendeu? Ela sai. de jeito nenhum. Que barulho é esse? UM JORNALISTA – São as metralhadoras. Não creiam em nada e não escutem ninguém. OS JORNALISTAS – Olá. Quando se falou com ele como a um ser humano Ele deu uma resposta humana. O que aprendeis? OS TRABALHADORES. A tropa foi encarregada de evacuar os matadouros. UMA MULHER – Devemos voltar para casa agora? UM TRABALHADOR – Quem nos garante que é verdade? Que haverá trabalho de novo? – E por que não seria verdade. E nós vos dizemos: ficai agrupados.39 OS TRABALHADORES: Fiquem. JOANA: Tanto assim? Oh! Escola desconhecida. Nessas condições o trabalho voltará muito em breve aos matadouros. Se combaterdes. Não ficaste tempo suficiente aqui. JOANA: Parai! Chega de aprender essas lições! JOANA . ainda que os preços continuem a subir. Que tem a fome por mestre e onde a miséria Fala implacavelmente da necessidade! E sois cem mil alunos. Felizmente temos a carta para mostrar a verdade. se esses senhores estão dizendo? Sobre um assunto como esse não se brinca. Os tanques deles vos esmagarão. O coração deles não é de gelo.

eu seria como eles e não faria perguntas. Ou que engendrasse a violência. Nada de bom pode surgir da violência. Chegam três operários. Mas o prato que se prepara aqui. JOANA: Os que me entregaram a carta. Para este homem. Os operários se levantam. Por três dias viram Joana em Packingtown. OS JORNALISTAS – Nós a aconselhamos a sair dos matadouros. vós estivestes juntos Longas noites. Enquanto a noite cai. ao longo dos anos. Mas assim. E aprendestes A alimentar friamente terríveis pensamentos. Eles procuram alguém que não encontram e vão embora. Sobre sua cabeça. Vós. UM OPERÁRIO. A tentação. os astros sem harmonia Já não seguiriam sua órbitas. algemados. Eu não sou um deles. que eles ainda poderão ter uma surpresa. No terceiro dia sucumbiu. Quem agisse assim se sentiria perdido. Eles saem. Joana tem uma visão. Apartado em um mundo Tornado para ele estrangeiro. eu digo. longe do mundo que lhe é familiar.40 Que gélidas elas são! Não é pela violência Que se combatem a desordem e a confusão. conduzidos por policiais. para um dos dirigentes presos – Não liga não. Ela continua sentada. voltando – Nada além de mentiras! Onde foi a moça que estava sentada ao meu lado? UMA MULHER – Partiu! UM OPERÁRIO – Desde o começo eu disse que ela iria embora quando começasse a nevar de verdade. Dia após dia ela desceu. DONA LUCKERNIDDLE. Toda inocência tê-lo-ia abandonado. é imensa! Mais uma noite como esta. Enquanto o fraco ao fraco se alia. estão muito enganados. OS OPERÁRIOS – Estão trazendo os sindicalistas. Por que foram presos? O que ela contém. No final o lodo a engoliu. . UM OUTRO OPERÁRIO grita para o grupo que se afasta – Assassinos! OS OPERÁRIOS – Se eles acham que assim irão parar as coisas. eu preciso ir. as palavras teriam outro sentido. Eu assim não poderia viver. Perseguidor perseguido E não mais sabendo ver sem desconfiar. aparece uma inscrição: A neve começa a cair. Há muito tempo que já está tudo arranjado. No lodaçal dos matadouros. Direis que fazia muito frio. esta carta? Eu não saberia fazer nada Que requeresse violência. Seu sucesso foi grande. Começa a nevar. Eu digo: na escuridão se acumulam As violências e as questões nunca resolvidas. e ninguém Poderá manter a sua calma. Ela se levanta e sai. mas agora a coisa está terminada. Violar as regras em uso. Com seu silêncio opressor. E é por isso que parto. Se desde a infância o peso da miséria e da fome me tivessem ensinado a violência. Do fundo ouve-se gritos que se aproximam. Os dois dirigentes operários passam. Viram-na descer de degrau em degrau Para em água límpida a lama transformar e aos humildes Aparecer. Quem o comerá? Eu vou embora. William. Ela se vê com roupas de criminosa. Isso seria desleal para com os outros homens.

. O mais prático também. mas o arquiteto teria. UMA ESQUINA EM CHICAGO MAULER. façamos meia volta. UM LUGAR DESERTO NO BAIRRO DOS MATADOUROS Neva. Assim foi conseguido. Mauler e seu amigo. Doravante Não há mais ninguém que me queira matar. aqui sob meus olhos. a um de seus seguranças Parem. Pierpoint Mauler cruza a fronteira da pobreza 8. Este homem está perdido. Agora eu estou livre. Passa um vendedor de jornais Ei! Jornal! Vejamos o que se passa na Bolsa de Carnes. ainda atiram. Escolhido como material. Assim espero. Basta. De agora em diante. UM DOS SEGURANÇAS. Seja por aberração. Até o reino do espírito. saindo – Bom. Eu disse: meia volta E tu riste. preto no branco. Parece-me Que contratei dois idiotas. Vejam o que leio. MAULER: Se a desgraça abate ao homem sem caráter. Está dito. Pensar não serve para nada. E ninguém quis.. Ele lê e empalidece. Que nós construímos em nossas grandes cidades Sem importar o custo. Não é para pensar que eu vos pago. seja por economia. Na borrasca. Quanto a este edifício. Sem nenhuma exigência. Eu tenho as minhas razões. Cedi meu gado a qualquer um que o quisesse. Há resistência. 9. mais de vocês. nada mais posso fazer por eles. impresso. E a vocês eu despeço Pois da pobreza eu cruzei a fronteira. hoje restarão No chão as pedras. dele se diria Um prédio construído com grandes despesas. Sou conhecido nos matadouros. Só porque duas ou três vezes eu dei meia volta. É o que está escrito. Mas vejo que estão pensando. então. a dona Luckerniddle reencontra Joana. um objetivo que eu saúdo E que muito me alivia. meia volta. confessa. o mais vasto. preto no branco: O gado está a trinta e ninguém compra. Até mesmo aos matadouros. Essas notícias. modificam tudo.41 Pergunta feita: quem ficará? Como nos outros dias. OS DOIS SEGURANÇAS – Então podemos ir? MAULER: Podem E eu também posso ir aonde queira. Slift. em suor e em dinheiro. Tem certa razão de estar alegre. Ter construído a maior cloaca do mundo Constituirá a sua única glória. que todos os fabricantes Quebraram juntos e saíram do mercado. o que foi? Riste.. em cima. são os mais atingidos. não lhes parece? Ah! Eu repito Não fiquem enchendo a cabeça com idéias. Em todo o caso. Vejam. Perto dos matadouros. cocô de cachorro: Que torna a permanência difícil. Aquela que eu procurava terá tido o bom senso De sair das profundezas onde o inferno se instala. os pobres. Aquele que sai de tal imóvel. Não preciso. A mim ela vai elevar às mais altas esferas. Sem que eu tenha procurado.

para poder se apresentar amanhã bem cedo ao trabalho e de repente eles falam que as fábricas nunca mais abrirão. eu não a darei. Joana cruza com dois operários de quem ouve a conversa: O PRIMEIRO OPERÁRIO – Primeiro eles fizeram correr o boato que as fábricas reabririam a todo o vapor. (Joana desaparece na tempestade de neve) Hei! Venha! Ela foi embora! DONA LUCKERNIDDLE 10. De tua missão. Por este buraco fogem todos os peixes. É inútil tentar pegar. OUTRA VOZ: Joana pára. mas a senhora quer continuar. A pedra não perdoa. Eu vou embora. Joana pára. Errando pelos matadouros. Nós te encarregamos. Joana ouve vozes. ela procura se livrar das vozes que ouve de todos os lados. O PRIMEIRO OPERÁRIO – E aqui nós não ficamos sabendo. E aquele que chega a bom porto. Ao que tropeça e cai. UM OUTRO LUGAR Correndo em direção ao centro da cidade. Que sentimentos em nós deixareis sobreviver? . Pierpoint Mauler as arruinou. AS VOZES: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. Claridade que então eu deixei de ver! Oh! Quem conhecerá o poder da neve! Oh. As massas não deveriam ter se dispersado. Mas a carta que trazia a verdade. O SEGUNDO OPERÁRIO – Isso é grave: sem dúvida uma parte das ligações não funcionou. Aquilo que lhe foi confiado. Eles teriam ficado apesar da violência da polícia. Cumpriste a missão? Joana volta a andar e uma nova voz a detém. Sem récitas inoportunas dos seus infortúnios. Uma parte dos operários saiu dos matadouros. UMA VOZ: Não há desculpa Para quem não chega. estás aí! Onde tinhas te metido? Entregaste direitinho a carta? JOANA – Não. podias dar conta. UMA VOZ – Lá onde te esperam. Joana. Tudo está voltando ao normal agora. Como se rede já não houvesse. O SEGUNDO OPERÁRIO – Os comunistas é que tinham razão. isso é o que tu és! Dê-me a carta que te confiaram. Mas também podias nos trair. Que nada diga. precisas chegar! Joana olha ao redor. Ainda mais que amanhã todas as empresas de Chicago iriam declarar a greve geral. Nela estava nosso destino. fraqueza do corpo! Oh fome. caindo de joelhos: Luz. de uma missão. DONA LUCKERNIDDLE – Ora essa! Para ti está tudo normal! E eu que disse que tu eras honesta! Sem isso não teriam te confiado a carta. Nós não sabíamos quem eras. De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. oh verdade! Que a neve em tempestade Inoportunamente mascarou com sua noite. JOANA. Dê a carta aqui imediatamente.42 – Ah. Tu não a entregaste. Muitos operários teriam ficado se soubessem da notícia. Um lixo. JOANA – Não. Anda em outra direção. DONA LUCKERNIDDLE – Eu devia ter duvidado. mas entregue. A VOZ DA DONA LUCKERNIDDLE: Eu fui a tua fiadora. Mas tu és uma traidora e teu lugar é com eles. Lá dentro só se fala em violência.

afastada do trabalho. Liberada. DONA MULBERRY – Bispa Snyder. à chuva. ele possuía dez milhões. Para nos salvar neste instante. que prometeu nos ajudar. o banco dos penitentes! E já suas mãos avidamente se dirigem Ao órgão a vapor e ao púlpito. coloque os móveis na rua. veio nos dizer que Mauler em pessoa estava disposto a assumir o nosso aluguel e a organizar conosco uma grande campanha em favor dos pobres. agora os pegamos. com certeza! Ele já está a caminho com os seus milhões! UM CHAPÉU NEGRO – Bispa. é tudo o que eles querem! Aqui não tem mais sopa! Aqui só tem a palavra de Deus! Ouvindo isso eles vão logo embora. DONA MULBERRY – Meu caro Dick. é sábado a noite. MAULER. UM HOMEM. o senhor Pierpoint Mauler. nossa boa cidade. que já se afunda! Mas o rico Mauler virá. Vejam que já balança. Conheci bem um homem. que triste. Este homem que foi em sua vida Mais estúpido do que um vagabundo bêbado e repugnante. Sob um plúmbeo zênite de destinos desconhecidos. É Mauler. Uma boa orquestra à mão e sopa Bem grossinha: terminam para Deus todas as preocupações. Um homem começa a levar os móveis para a rua. com sopa quente E um pouco de música. Ele sai. Ele se levanta e avança até os Chapéus Negros. E nós gritamos à plena garganta: Ah. entrando – Pierpoint Mauler está aqui? BISPA SNYDER – Não. a outro Chapéu Negro – Há três dias um emissário de Pierpoint Mauler.43 Frio da noite. o suntuoso Mauler. Eu o conheci: era um imbecil. a qualquer momento. Quero que a senhora pague o meu aluguel. que aliás é muito barato. na frente do palco : Ouvi alguém procurando um certo Mauler. . quem vos pode resistir? Eu preciso dar meia volta! Ela retorna sobre seus passos correndo. A massa espera. Exposta outra vez à neve. Pediram-lhe cem dólares. onde iremos acomodar o nosso público? Chega um pobre. X Humilhação e assunção de Pierpoint Mauler TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS MARTA. BISPA SNYDER – Sente lá atrás e fique quieto! Ele se senta. MAULER – Eis aqui um homen marchando até o seu Deus. minha cara Mulberry. ou que deixe o imóvel. estamos aguardando. O reino de Deus está pronto na minha cabeça. E as ondas de lama do materialismo Ameaçam a casa de Deus. BISPA SNYDER. O HOMEM – Os fabricantes de conservas querem falar com ele e os criadores o chamam aos gritos. Ah. OS CHAPÉUS NEGROS: Romperam-se os diques da fé Em Chicago. BISPA SNYDER – Dona Mulberry. o rei da carne. se ele pudesse vir. Salvar-nos com o seu dinheiro! BISPA SNYDER Há exatos oito dias Que nos matadouros onde as máquinas enferrujam. Mas nós o estamos esperando. OS CHAPÉUS NEGROS: Estão levando. posto que sem abrigo. no céu e no inferno. investindo contra ele – A sopa. Buscam-no por toda a parte. De um só golpe o bolchevismo também é enterrado.

BISPA SNYDER. construir vossa casa . Eles cantam ainda “Entrai na batalha”. OS CHAPÉUS NEGROS: Não perca a confiança! Homem de pouca fé! Ele virá. deu cabo de si mesmo. olhos voltados para a porta. Ele pega dois Chapéus Negros pelo braço e senta-se com eles no banco dos penitentes. E sobre nós a neve envia suas tempestades Em um inverno no qual crescem os rigores. Os Chapéus Negros cantam. Mas quebrou a nossa cara De uma vez por todas. Sentados sobre as margens do lago Michigan. Joana. BISPA SNYDER – Tu és Mauler? MAULER – Sim. Tiremos de nossas paredes as máximas. sim. meus amigos. gritando – E sem dinheiro? (Aos Chapéus Negros:) Façam as malas. BISPA SNYDER. MAULER: Eu me acuso de ter explorado o meu próximo. E esse gesto tocou os nossos corações. Não podemos mais pagar as nossas contas. Ele trazia o seu coração. Silêncio! Tragam-me o livro das faturas e contas por pagar: estou nessa parte. UM CHAPÉU NEGRO – É ele. já. Diante de vós. Ouçam então a minha confissão: Aqui jamais se ajoelhou Ninguém. seguindo a letra por sobre o ombro de um dos Chapéus Negros. Culpado. Jogou no mar seus milhões. CORO DOS CHAPÉUS NEGROS. devolva-me os meus quarenta aluguéis! MAULER: Vós desejais. Sentados sobre seus últimos bancos e suas últimas cadeiras os Chapéus Negros cantam desordenadamente seus últimos hinos. ar ausente. que tenha caído tão baixo. Os músicos tocam um hino. DOIS MÚSICOS: Um pedacinho só. Por sete dias apertei a garganta Desta cidade até sufocá-la. Apenas nos resta chorar. Envolvamos em nossas bandeiras derrotadas Os livros de cânticos. mas arrependido. Aqui estou agora. dirigindo-se aos músicos que vão embora: Nossas orações eram pelo rico Mauler E foi Mauler o arrependido que entrou. Passar bem. Se aproxima já Com os seus milhões. BISPA SNYDER Silêncio! Fora. eu vos rogo! Pois eu sinto O coração ao mesmo tempo leve e pesado. Mauler! MAULER: Mas quero acrescentar que no sétimo dia Fui despojado de tudo. OS CHAPÉUS NEGROS – Ele já chegou? MAULER: Um hino. Abusado da força e espoliado todo o mundo Em nome da propriedade. Mauler canta com eles. inclinado sobre os livros de contabilidade – Não direi o que estou calculando. sem nada. é certo. todos para fora! A Mauler: E tu primeiro! Onde estão os quarenta meses de aluguel Desses não-convertidos que Joana enxotou? E vejam só o que ela me trás em troca! Devolva-me.44 No fim. OS MÚSICOS: É deste aí então que vocês esperavam O dinheiro para nos pagar? Então nós vamos embora. e dilacerado de remorsos. eu vejo. recusou-se a dar o dinheiro. Todos os pagamentos estão suspensos. não o seu dinheiro.

o caos. tomado de loucura. Mauler. Concluo eu o seguinte: o Mauler que sou Não é aquele do qual precisais. os reis da carne vêm ao seu encontro. Para mim o humano era aquele a quem eu podia explorar. Não terias a necessidade de aliviar aqui A tua consciência. desde a aurora. OS CRIADORES: Maldito Mauler. Prometiam até o gado por nascer. Slift apertou Ainda mais forte a nossa garganta. por ter vindo Atrapalhar neste lugar as tuas meditações. Mas se chamássemos de homem àquele a quem se ajuda Daria no mesmo: necessitaríeis sempre De gente a ponto de afogar-se. Relatarei o combate memorável Que. Era vosso todo o gado. Mas nós estamos perdidos: Em torno de nós.45 Sobre o que há de pior em mim. Loew e Lévi. Um vitelo ou um porco. firmas de grande renome. como um bêbado sedento Que ao mar esvaziou sem se satisfazer E lambe avidamente cada gota que encontra. assumindo seus deveres. Que vos pertencia. com voz dura. Mauler. que fareis? Entram os criadores em grande agitação. Viram-se os preços Oscilarem. gado canadense. E tudo o que de longe parecesse um boi. . Quando. Mauler. hesitantes. é aqui então que te escondes? Paga nossos bois ao invés de fazer penitência. Acorreram todos em ajuda. Na porta. Pelos contratos que nos obrigavam A entregar de imediato as conservas prometidas. paga-nos o gado! GRAHAM. chorando. eles iriam trazer. Vossa função seria apenas a de brincar na relva. durante sete horas. e sobre nossas cabeças. Dá o dinheiro. Bispa. da Argentina. O ancião venerável. Em três dias. Eles também estão muito pálidos. Que projeto tendes agora. e a noventa e cinco Comprou-os todos. Este espetáculo atroz apavorou o ancião. quem nos derrubou. tomando a frente : Mauler. Lançou. No ciclo dos astros ou das mercadorias. Um zênite ameaçador de pensamentos desconhecidos. O Banco Nacional gritou: “Alto”. o que existisse de gado. ao meio-dia. agigantou-se E a todos nos precipitou no abismo! MAULER: Oh! Eternos combates! Em nada são diferentes Desde os tempos antigos onde os homens Com uma barra de ferro rachavam-se as cabeças! GRAHAM: Recordai que estávamos à vossa mercê. nobre Mauler. E sobre eles atirou-se. partistes. Mal viu esses bois vindo ao longe. Que não ficou só por muito tempo. Eu sei muito bem. Ah! Se não tivesses aliviado tanto os nossos bolsos. Estão pálidos como o linho. em poucas palavras. Os complexos pensamentos de vosso imenso espírito. Subiu os preços a noventa e cinco. Ele tenta sair. O que pretendeis fazer de nós? Foste vós. Ninguém jamais pode fugir da lei. OS REIS DA CARNE: Perdoai-nos. Por vós fomos forçados. a comprar gado. No mercado perturbado. Mas Slift. salva tua alma. Dais o nome de homem a quem vos vem ajudar. E Wallox e Brigham. Que a constatação vos enche de amargura. E hipotecando até o último lápis Para trazer de Quebec. comprometendo suas casas.

Com esse gado que ninguém é obrigado a comprar? OS CRIADORES: Sem querer perder a paciência. E os jovens bois de pêlos reluzentes Engordados com tanto cuidado. que travaste a batalha Que deixei a teus cuidados! SLIFT: Corte-me a cabeça! MAULER: E de que me serve tua cabeça? Dá-me o chapéu. Seria esmagado como um morango no chão. e os preços subiram. o velho Lévi disse então em voz baixa. bancos.46 Mas Slift gritou: “Três dias não. golpeia um corretor na barriga. os cavalos inimigos. Célebres. Toda a família nos gritava de longe Com a voz embargada pelo trabalho duro . E como contratos nulos não impõem compras. os vívidos vitelos. Inúteis portanto. E Brigham arranca a barba aos gritos: “Noventa e seis”. Mas alto o bastante para que todos ouvissem: Para pagar-lhes tomem então nossas fábricas. E viu-se. Até os simples contínuos. tomados de desespero. Lévi. Em tudo semelhantes aos antigos corcéis Mordendo. De cotação em cotação Os preços caíram e rolaram até os negros abismos. Com esse chapéu e este sapato: Dez milhões o chapéu. Que nos píncaros se encontrava. Parando de pagar. paravam de viver. Casas até então sólidas e poderosas.. Slift. ele ao menos vale vinte e cinco centavos. fomos estrangulados E de que adianta estrangular um cadáver? MAULER: Foi assim então. Vertiginosamente. quando levamos às estações De nosso longínquo Missouri Com muito sacrifício. Slift então gritou: “Cem”! Poderia ouvir-se um alfinete cair. comprar. os fabricantes apáticos Depositarem a vossos pés suas fábricas fechadas. Os corretores. Lévi. agora. MAULER: Agora mesmo. E em silêncio também os bancos desmoronaram. Sob nossos olhos. um a um. Aí está o que tornou o contrato sem valor Apertastes muito forte. Eu quero para hoje”. de imediato. diga-me. Eles precisavam entregar. Ouviu-se nesse dia os jovens estagiários. isto é. com olhos marejados. de rocha em rocha E somente em trinta a queda parou. Como definha uma esponja espremida. e então se retirarem. obstinados. Lançaram-se um a um nesta última batalha. Como a água que cai na cascata. na batalha. E nós comprávamos sempre: Nós precisávamos comprar. O sapato. em um espasmo. Estão satisfeitos? OS CRIADORES: Há pouco tempo. baixou. O que fazer.. em um suspiro. Do outro eu preciso. entrego por cinco. se por um acaso Um elefante se arriscasse pelo interior da Bolsa. Nós queremos que nos digas Como. por sua indiferença. é sabido. Institutos de crédito. Só um. Naquele instante. os agentes fechando suas escrivaninhas. quando e com que dinheiro Nos pagarás o gado comprado. Porque não mais podemos honrar os contratos. a carne de boi. mudos. E que não foi ainda acertado. Lutavam a dentadas. Rangerem os dentes.E a voz ainda nos alcançava Mesmo com a balbúrdia dos trens que partiam: .

é impraticável. é muito a contragosto. para que comprasse carne. MAULER: Ou seja.. Jogai sobre vossos ombros o jugo. Seus bens. Sancionado pelas instâncias superiores. De máximas sagradas e escolhidas com grande cuidado. Como tudo de agora em diante Me parece diferente. conhecem um meio de sair desta. mostrando o lombo vazio E nossos bolsos também? Como. Mas para mim. Deixando as sublimes esferas onde meditais. condescender. O projeto teria talvez. nós aconselhamos a fazer um acordo com os criadores para reduzir o rebanho. entrando – Mauler está? Uma correspondência para ele. Julguem vocês mesmos. Cuja voz está a tal ponto asfixiada. Se assim fosse concebido. vocês estariam dispostos. O negócio só é possível. De um asilo necessário para os casos mais graves. Pois ainda creio ouvir O rumor dos matadouros. MAULER: Se o faço. não bebam todo o dinheiro. sozinho. GRAHAM – O que não é possível? MAULER – Tenho amigos em Nova Iorque que. estão para sempre perdidos. nobre Mauler. GRAHAM – Mas então é Wall Street? Um murmúrio percorre o ambiente. de Nova Iorque. neste estado. mas são numerosas. OS FABRICANTES E OS CRIADORES: Desejarias. entendei. o que faremos. Como voltar para nossa terra? E que diremos a eles. Caro Pierpoint. Não. Mas se fizéssemos uma grande promoção De sua instituição. Neste caso. Pois os preços do gado vão subir. para que os preços voltem a subir. MAULER: Em nós a consciência. Estariam vocês dispostos a repetir aos quatro ventos . nós estaremos de bom grado à sua disposição. Mauler. compreendei. caro Pierpoint. voltar para casa? O HOMEM DE ANTES. Ele estende-lhes a carta. Seus amigos de Nova Iorque. pensai no caos Que ameaça a tudo engolir. E voltar até nós? Pensai. Não quero. nós lhe forneceremos amanhã mais detalhes. Abandonai. ao contrário. Mas nossa pobreza não é. amigos. Agora. Não ter fartura de bens terrestres.47 “Ei. Providos de sopa quente e de boa música. MAULER – Eu costumava ser esse Mauler. elas vão mal.. Compreendido como sendo de interesse geral. Nem todos aqui em baixo poderiam ser ricos. Rockfeller. A Snyder: Existem muitas dessas lojinhas Onde se vende a Bíblia? BISPA SNYDER – Sim? MAULER – E como elas vão? BISPA SNYDER – Mal. E o barulho das metralhadoras. Alguma chance de sucesso.. esperamos” E agora. E dado que de vós necessitamos. MEYERS – Quem são esses amigos de Nova Iorque? MAULER – Morgan..(Ele abre a carta e lê de canto) “Escrevemos a você recentemente. pelo que dizem. esta caça fatigante. Nossa pobreza é termos perdido O sentido dos valores mais elevados. assumir a empreitada. a quem mandavam cartas desse tipo. isso não é possível. rapazes. Outra vez responsável.” Não.

Em que em nossas cidades os problemas não têm fim. aos fabricantes: Faremos uma fusão de suas indústrias Em um só monopólio. Limitar o rebanho oferecido no mercado. Elas impedirão que em sua brutalidade Um povo. mas se o gado tem tão pouco valor Que pensam em queimá-lo. Digamos: a maior parte. Meter um freio à anarquia da criação. Miséria e fome. Nós o faremos. não poderíamos Doá-lo àqueles que esperam lá fora E quem sabe utilizá-lo melhor? MAULER. Toda essa gente aí fora: Eles são os nossos compradores! Dirigindo-se aos outros: É incrível. dizem. nesses tempos de desgraça? Pois serão necessárias medidas draconianas Que poderão parecer duras porque irão Derrubar alguns e. E que. Eu compreendo o senhor. OS FABRICANTES – Que cérebro! MAULER. Será preciso demitir um terço dos operários: Também de mão de obra o mercado está saturado. E mesmo que muitos não compreendam. E às vezes inoportunos. tem seus defeitos. mais ainda. Eu fico com a metade das ações. que nós subvencionaremos Fartamente a sua missão que contribui Com a manutenção da ordem. E é por isso que os preços caíram a zero. criadores e industriais. ou melhor: quase todos Mas é o único meio de salvar o sistema De vendas e compras no qual vivemos. ofuscado. é lógico. O mercado foi saturado este ano. aos criadores : Escutem. É preciso limitá-la. Todos sorriem longamente. é eminente -. supérfluos. é claro Que entre vocês estivesse Joana. meus amigos! Eles cochicham. para puxar os preços.Pois eis Chicago outra vez agitada A greve geral. Chapéus Negros. BISPA SNYDER – Quase todos. Enfim. . Elas trarão a calma e a ordem. É por isso. Nesse tempo de humanidade desumanizada. pedindo a palavra: Perdão. Em conjunto. Eles podem nos parecer inferiores. TODOS – Que solução simples! BISPA SNYDER. que deseja Fazer o bem. quebre suas ferramentas E destrua assim seu próprio ganha-pão. sorrindo: Minha cara bispa.48 Que nós somos uma gente valorosa. . Vê que são eles os compradores! Seja como for. Não tem outra causa a não ser Que há carne demais. nós decidimos. TODOS – Não há outra saída! MAULER – E também precisaremos reduzir os salários! TODOS – É o ovo de Colombo! MAULER: Qual o objetivo dessas medidas? Nesta noite de sangue e confusão. Esta dificuldade pela qual estamos passando Está a ponto de ser superada. Seria muito importante. mas olhando bem Quem vê além das aparências das coisas. você não compreendeu A questão de fundo. desordem e violência. MAULER. queimar um terço do gado existente. Eliminar o estoque excedente atual. Então.

Eles vêm até nós para chorar. Quando perdem o trabalho.49 Cuja face por si só já inspira confiança. Até nós. olhar fixo na porta: Eles terão de vir. não deixaremos! Sejam bem-vindos. o mercado vai ser curado! Outra vez saímos do ponto morto E realizamos uma obra difícil. JOANA. Toquem a música e nós mesmos Seremos os primeiros a nos sentar Para elevar nossos corações a Deus. joguem as grandes redes! Sejam bem-vindos. eles chegam até nós. Nenhum deles tem chapéu. UM CORRETOR. Quando estão cegos e surdos. chega e pergunta – Vocês viram passar três homens que vinham buscar uma carta? Ao fundo ouve-se gritos que se aproximam. entrando precipitadamente – Escutem a boa nova! A greve que nos ameaçava foi sufocada. As coisas retomaram o rumo que nos agrada. Joana segue com o olhar os prisioneiros. UM DELES – Quem são eles? O OUTRO Nenhum deles Pensou só em si mesmo. Passam apenas alguns grupos de operários. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Vamos. Passam então os dois dirigentes operários escoltados por soldados. MAULER: Abram agora a porta principal Aos homens cansados e cheios de preocupação. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Todo aquele que aqui entrar. Os que aqui chegarem. Foram presos os sacrílegos que perturbavam a paz e a ordem! SLIFT: Podem respirar. cantam. para que nenhum escape! Eles estão a caminho. Imóvel. Eles combateram Pelo pão dos outros. Ela então ouve. OS CHAPÉUS NEGROS. UM DELES – E por que foram presos? . sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Tranquem as saídas. apanhem-nos! Sejam bem-vindos. estamos prontos! Já estão chegando! A miséria os traz aqui como um rebanho! São obrigados a vir. Música de órgão. a seu lado. estão chegando! Daqui eles não escapam. joguem as grandes redes! Eles saíram agora de sua última casa! Deus lançou sobre eles o frio! Deus lançou sobre eles a chuva! Eles terão de vir. penteados e carecas. De sopa encham os pratos. Sejam bem-vindos. Perseguidos sem trégua. dois homens conversando. Ninguém pode escapar: tranquem as saídas. Nossos planos outra vez se impõem. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! XI NOS MATADOUROS EM FRENTE AO ARMAZÉM DAS FÁBRICAS GRAHAM Os matadouros estão quase vazios. apanhem-no! Lazarentos e descalços. SNYDER – Abram as portas! A porta principal é aberta.

XII EM FRENTE AO ARMAZÉM DA FÁBRICAS GRAHAM Um grupo de operários entra. Nem é enterrado com decência. que seguram bandeiras novas. Ela veio daquele lado e aqui ela gritou para os nossos que as empresas municipais iriam decretar OPERÁRIOS Sim. A greve geral fez água. Um grupo de pobres entra. Nenhum morre de barriga cheia. JOANA. Não. Quando os soldados vierem a recolherão. Ou de malfeitores postos na cadeia. a sorte nos sorriu. Aqui está! Seriam necessárias muitas como ela. Divididos em grupos estão os Chapéus Negros. à sua frente. esticando o braço com a carta na mão. mas apenas para dois terços dos operários. UM DELES – Por que não se ouve falar deles? O OUTRO O OUTRO greve. O POLICIAL: Eis aqui uma sem-teto. Lançados em terra profana. saiba que são eles. os jornalistas a interpelam. Golpeados. Seu último endereço Teria sido aqui. o salário também.50 – O homem injusto atravessa a rua à luz do dia. E a carne vai subir. Joana. Deus outra vez se impôs. mas o justo se esconde. Esta aqui não é das nossas. Durante alguns segundos eu a vi distintamente. não é ela. carregando lanternas. entretanto. Joana se vira. Todos perecem antes do tempo. Nós soubemos ser sublimes E vulgares quando necessário. Nenhum come seu pão tranqüilamente. A decisão sobre a greve geral só chegou a uma parte deles. não é a nossa Madona dos matadouros? Hei. Um deles a derrubou com uma coronhada. Nos vales e nos cimos. você aí! As coisas deram errado. Em nós podem por fé. pisoteados. e a esta a polícia dispersou com o uso de força. OS JORNALISTAS – Vejam só. Recolhida doente Nos matadouros. Enfim o sucesso chegou E tudo acabou bem. As rajadas de neve a impediram de ver os soldados. os açougueiros (fabricantes de conservas) os criadores e os compradores. JOANA – Os operários concordaram? OS JORNALISTAS – É claro. Joana cai desmaiada. Nenhum. – Ela deve estar aqui. amparada por um policial. foi reduzido em um terço. XIII MORTE E CANONIZAÇÃO DE SANTA JOANA DOS MATADOUROS Agora o templo dos Chapéus Negros está ricamente mobiliado. As fábricas reabrem. SNYDER: Quando nos jornais falarem de criminosos abatidos. UM DELES – O que farão com eles? O OUTRO: O salário deles é baixo e seu trabalho útil à maioria. Deixem ela aí no chão. UM DELES – Sempre será assim? O OUTRO – Não. Era uma velha operária. chega ao termo de sua vida. como se ainda quisesse entregá-la: .

quais os gritos que abafas? Comei vossa sopa! E não desperdiceis esse resto de calor. eu poderia levar. OS CHAPÉUS NEGROS: No final. Eu faltei. Pelo contrário. empregando todos os meios. Quando se poderia ter alterado o curso das coisas. SLIFT – Esta é nossa Joana. E outra vez o mundo Percorre o antigo ciclo. Intercessora dos pobres. Joana dos Matadouros. toda a obra Onde o espírito não encontra. E em sua marcha altaneira Para evadir-se ao mundano. Vamos colocá-la em destaque. Chegou na hora certa. marchava para a luz! Seus atos eram os de um ser humano. Nós faremos dela uma santa e não economizaremos em homenagens. dirigindo-se a Joana: Como ela ainda está perturbada. Se eu apenas tivesse entregue A carta que me confiaram! OS CHAPÉUS NEGROS. na noite. E tinha sonhos para milhares. sua térrea natureza. Quando o meu esforço. Eu falhei com os perseguidos. MAULER: Uma alma que exala sublimes impulsos Suporta mal. Mostrá-la entre nós provará o quanto nos importam os sentimentos de humanidade. Por uma boa causa. um serviço tão pequeno Foi só o que em toda a minha vida Me pediram para fazer. Foi necessário. Eu o neguei. Que Joana exorcize o mal E que por nós ela interceda. O ideal. MAULER: Que tome posição em nossas fileiras Esta alma inocente e cândida E que sua bela e pura voz Misture-se aos cânticos de nosso coro. por menor que fosse. Slift discute com Snyder e com os fabricantes. JOANA: Eu falei em todos os lugares. a quem não se pode mais explorar! Comei a sopa! Ah. E seus erros. BISPA SNYDER: Levanta-te.51 Jamais receberá a carta Aquele que agora está morto. Ela vai muito adiante. Matéria a sua altura . intercedendo pelos pobres e mesmo proferindo discursos contra nós. Ela será a nossa Santa Joana dos Matadouros. enquanto as moças dos Chapéus Negros a vestem novamente com o uniforme: Ouve-se outra vez o rugir das fábricas: Outra vez se desperdiçou a chance De colocar um freio a esses excessos. Consoladora dos baixios! JOANA: Que vento sopra nesses baixios? Neve. E só servi aos perseguidores. o infinito. Vós. E eu não fiz! Enquanto os pobres tomam assento nos bancos para comer a sopa. dando provas de humanidade nos matadouros. e ultrapassa o objetivo. também humanos! JOANA. pois ela nos ajudou a atravessar a tormenta dessas semanas difíceis. infelizmente. A vida tranqüila de um cordeiro. Ela que. Desta vida intolerável E atingir o inconcebível.

Contrário à razão. E o que se passa no alto. O que está em baixo tem grande importância. Eu. caí do céu! Infelizmente! Bondade sem conseqüência! Sentimentos Que não fizeram a menor diferença! Não. ignora-se o que se passa em baixo. Se não for uma ajuda real. fique no lugar Que lhe é atribuído. Que nada seja considerado como boa ação. a Joana: Seja boa e se cale! . Que ninguém seja tido como honrado. Não tenhais a preocupação de terem sido bons . Entre os do alto a baixeza é sem limites. é magnífico Sempre que espírito e negócios se aliam. como do topo. o que foi que eu fiz? Nada. eu não transformei nada. A essas tropas indispensáveis. Mas também no alto. Quaisquer que sejam as aparências.Isso não basta – Deixai um mundo bom. Porque o sistema é construído assim: É apenas exploração e desordem. Pois se dele esquecer Perturbará nossa harmonia. então. para os exploradores. OS FABRICANTES: O resultado. A esses elementos dos baixios! JOANA: Mas os que estão por baixo são assim mantidos Para que os de cima lá continuem. JOANA: Pois entre os de cima e os de baixo O abismo é mais profundo Que entre o Himalaia e o fundo do mar. dois pesos e duas medidas. Mas que não sabem o quanto. Exceto aquele que muda o mundo Definitivamente: isso é o que é realmente necessário. Eu vos digo: Quando chegar a vossa vez de deixar esse mundo. No topo e no chão. Sistema bestial. Precisa-se do chão. Nunca se sabe em baixo. que significam Se não se manifestam em nenhum lugar? De que serve vosso saber Se o que sabeis não tem conseqüência? Eu mesma. E sem descanso nem folga Realize seu dever. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES. E dois idiomas diferentes Os homens têm a mesma face E não se reconhecem mais. JOANA: É uma grande verdade Que aprendi e que vale para todos E morrendo eu vos digo: Vossos bons sentimentos. de maneira a encobrir a voz de Joana: Para que até o céu se levante o edifício. qualquer que seja. Deixando sem medo um mundo por onde passei muito rápido.52 Resta fragmentada Sem alma e sem vida. GRAHAM – Ela não pode proferir discursos que não sejam razoáveis. Não esqueçamos que ela esteve nos matadouros. falando alto. OS CHAPÉUS NEGROS. O que está em cima está em seu justo lugar. Mas nada mudará se eles melhorarem. Que cada um. Maldito aquele que apelar A essas massas essenciais Mas sempre insaciáveis.

cantam a primeira estrofe do hino. obedeça! OS AÇOUGUEIROS: Quem se mover no espaço Nunca poderá subir: Subir é subir sobre alguém. Mas evita. Onde reina a violência Não há outro recurso senão a violência. de esquecer os remorsos. ou seja. mas que seja bem alto. comerciantes. Aos ricos concedei a riqueza! Hosana! Também a virtude. Sempre se metamorfoseia.Sobretudo se forem compras especulativas – Esse Verbo que. Que podeis elevar-vos moralmente Mesmo com os pés enfiados na lama. OS AÇOUGUEIROS: Podes fazer qualquer coisa! OS CHAPÉUS NEGROS: Mas faça-o Sempre com muito escrúpulo! Espírito contemplador. os alto-falantes começam a transmitir notícias que espalham o medo: “Bank of America e Citibank estão de pires na mão” “Revolta contra os cupins financeiros conflagra Londres” “Múltis drenam do país US$ 3. Do qual podeis esperar ajuda. tudo concedei! Hosana! Concedei-lhe a cidade e o Estado! Hosana! Aos vencedores. Não esqueças: tua consciência está lá! Atenção.53 É preciso. A palavra de Deus. Combatente e mártir. Falem. distingam com um sinal! Hosana! Enquanto eles cantam os versos. Sempre necessário . Só dos homens pode vir ajuda. Em suas compras.266 bilhões só em dez dias de março” “BC assalta U$ 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street” “Montadoras almoçam os R$ 8 bi do crédito e mantêm ameaça de demitir trabalhadores” “Deficit dos EUA deve chegar a US$ 9 tri entre 2010 e 2019” . BISPA SNYDER – Joana Dark. Precisarás deles sempre! OS CHAPÉUS NEGROS: Olha para cima. Chegar ao topo implica Pisar na cabeça daqueles que estão por baixo. SLIFT – Escutem. a eles concedei! Hosana! A quem tudo possui. invisível. de século em século. Denegrindo a ti mesmo. vinte e cinco anos. JOANA: Se alguém um dia vos disser Que existe um Deus. JOANA: E do mesmo modo. quando vos disserem. Não. sobretudo. O Verbo magnífico. OS AÇOUGUEIROS: E nem pensa em tirá-los. contraiu a serviço de Deus uma pneumonia nos matadouros de Chicago. Batei com uma pedra em seu crânio Até que arrebente. é preciso fazer algo para tirar a atenção do que ela fala. MAULER: Deves agir. infelizmente. Não esqueçam. ferir! OS CHAPÉUS NEGROS: Nunca esqueças do sangue que mancha teus sapatos. É preciso também golpear-lhes o crânio com uma pedra. é verdade. para abafar o discurso de Joana. Todos. Onde vivem os homens. sempre mais alto. digam qualquer coisa.

Hosana! Ajudai a quem tudo possui. até o fundo cravado. a serviço de Deus. na terceira vez ela o pega. Snyder e Mauler vão até ela.” “Foram os especuladores de grãos que encareceram o gado. sempre ele aspira Às esferas mais elevadas. A voz de Joana já não se ouve: Concedei aos ricos misericórdia. Em seguida cai nos braços delas. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES: Desde que o mundo é mundo. mas ela cai. por que criaram tanto gado?” “Alucinados. Bolsa de NY cai 4. que manipulam o dinheiro a rodo. Hosana! Nesses braços que vos estendem. tocada pela morte. ao firmamento Um impulso múltiplo o atira. Por um nobre ideal. para sua grande pena. combatente e mártir. diz governo ” “EUA mudam socorro para bancos. A um sinal da bispa. vinte e cinco anos. Hosana! Esmagai o ódio. Hosana! Piedade com aqueles que ignoram a fome. Ajudai vossa classe. levanta e vira. Um desejo vive no coração do homem. Hosana! Com mãos cheias. Colocam a bandeira em suas mãos. Nós que temos a alma comum! E então desperta a boa alma Que temos no fundo de nosso coração. até cobri-la totalmente. Hosana! Durante esta estrofe. MAULER: Como a pureza De um ser inocente. sinto-me atraído: . MAULER – Dêem uma bandeira a ela. mudos de emoção. foram vocês que se recusaram a reduzir também!” “Vocês são os únicos culpados!” “Enquanto não acabarem com vocês não vai melhorar!” “Faz tempo que o destino de vocês está selado!” “O que estão esperando para prender vocês?” Todos cantam a segunda e a terceira estrofes do hino. se não tivessem degolado tantos porcos!” “Criadores miseráveis. O palco é iluminado com uma luz rosada.7%” “Crise já eliminou 6 mi de empregos nos EUA” “Incertezas rondam fábricas da GM à beira do fechamento” Sob o efeito dessa terríveis notícias os personagens trocam entre si acusações e diversos insultos como esses: “Açougueiros sujos. Hosana! Juntai vosso riso aos que riem. colocam-se suavemente todas as bandeiras sobre Joana. Qual um punhal. Hosana! Notam que Joana para de falar. BISPA SNYDER – Joana Dark. Não dá mais sinais de vida. Pelo espírito.” “Os bancos nos arruínam com os juros que exigem!” “Quem pode pagar tanto dinheiro para estocar o gado e pelos silos de grãos?” “Por que vocês não começaram a reduzir a produção?” “Nós começamos.54 “Empresas dão calote recorde para remunerar seus acionistas” “Recessão ainda irá se agravar no Japão.” “Foram as tarifas das estradas de ferro que nos esfolaram. morta de pneumonia nos matadouros. Comove-nos profundamente. Aos astros. Hosana! Que seus crimes terminam bem. as mulheres tentaram oferecer a Joana um prato de sopa. Todos ficam muito tempo de pé. Em duas tentativas ela recusa o prato. A carne para a terra o arrasta! MAULER: Ai! Um duplo desejo dilacera meu pobre coração. Hosana! Oferecei a vossa graça. por que não empregaram mais gente e pagaram melhores salários? Quem esperam que compre a nossa carne?” “Foram os intermediários que fizeram subir tanto a carne de gado. que vos ajuda também. Infelizmente. A generosidade De uma alma sem mácula.

Homem! Luta sempre contigo mesmo! Sigas sendo este ser uno e sempre dividido! Cuida de tua alma boa. Cuida de tua alma terna. como de tua alma vil. Cuida bem das duas! .55 Desejo a abnegação. Ele precisa cuidar de ambas. Longe de querer escolher uma delas. como de tua alma grosseira. desejo o altruísmo Mas à atração pelo lucro. não consigo resistir Inexplicavelmente! TODOS: Em cada homem habitam Duas almas opostas.

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