1

I O rei da carne, Pierpoint Mauler, recebe uma carta de seus amigos de Nova Iorque CHICAGO. OS MATADOUROS
MAULER,

lendo uma carta. – “Parece-nos evidente, caro Pierpoint, que já há alguns dias o mercado da carne está saturado. E, no sul, as barreiras alfandegárias resistem a todas as nossas ofensivas. Acreditamos, portanto, ser prudente, querido Pierpoint, não mais envolver-se com este negócio...” Acabo de receber essas indicações de meus bons amigos de Nova Iorque. Lá vem meu sócio. Ele esconde a carta. CRIDLE – Por que esse ar tão sombrio, querido Pierpoint? MAULER: Lembra-te, Cridle, daquela caminhada Que fizemos uma vez, pelos abatedouros? Era noite. Diante de nossa máquina nova, Cridle, lembra-te, nós vimos um touro Claro e nobre, dirigindo aos céus seus grandes olhos vazios. Ele recebeu diante de nós o golpe que o abatia: E tal golpe me atingiu até o fundo do coração! Há sangue demais, Cridle, em nosso negócio! CRIDLE: Amigo, vens outra vez com tua antiga fraqueza. Quem acreditaria, Pierpoint? Tu, o maior de todos, O rei dos abatedouros, dos açougueiros o terror, A morte de um touro louro te enche de dor! Não conte, eu te rogo, tal segredo a ninguém A não ser a mim! MAULER: Oh, meu fiel amigo, Por que me levaste a visitar o abatedouro! Durante os sete anos em que estou no negócio

Eu evitei fazê-lo. Eu não posso suportar Um comércio tão sangrento, não tenho mais forças: Eu me retiro de imediato... Cridle, queres a minha parte? A terias por muito pouco; a ti, a preferência: Ninguém conhece o negócio como tu. CRIDLE: Muito pouco? Quanto? MAULER: Velhos amigos como nós dois Não podem disputar muito por valores. Dez milhões! CRIDLE: Não seria caro, se não houvesse Lennox Que, pela carne em conserva, lata a lata se bate, E estraga o mercado com seus preços baixos. Tirará nossa pele, se não tirarmos a dele. Enquanto ele estiver em pé, e só tu podes abatê-lo, Não posso aceitar tua proposta. Deverás, até lá, com tua mente fértil, Encontrar uma saída. MAULER: Não, Cridle, Esse coração treme ainda com o grito do touro! É preciso então que Lennox caia rápido, Pois quero, doravante, viver como homem de bem E não mais como açougueiro. Saiamos, Cridle, e eu te direi A forma de abater Lennox. Mas tu deverás então tirar esse peso do meu coração E tomar a frente de nosso negócio CRIDLE: Quando Lennox for derrubado Eles saem. II

2

O desmoronamento das grandes indústrias da carne A - DIANTE DA FÁBRICA DE ENLATADOS DE LENNOX
OS OPERÁRIOS

Nós somos setenta mil Nessas fábricas de conservas E nossos salários são tão baixos que não podemos mais [sobreviver. Ainda ontem, de surpresa, reduziram nosso pagamento E hoje, um novo aviso: “Os que não estão satisfeitos, sempre podem deixar a fábrica!” Saiamos então, e todos juntos. Ao diabo esse salário que diminui todos os dias. Silêncio Há muito tempo já esse trabalho nos nauseia: Esta fábrica é para nós um verdadeiro inferno E só pode nos manter aqui o medo, O medo duplo, de Chicago e do inverno. Mas agora, doze horas de trabalho Já não garantem nem um pão seco Nem dão para comprar um trapo velho. Melhor partir E morrer de uma vez. Silêncio Pelo que nos tomam eles? Acreditam então Que nós somos gado, dispostos a tudo? Tomam-nos por jumentos? Melhor morrer! Deixemos a fábrica Agora mesmo. Silêncio O que houve? São seis horas! Por que não abrem, corja de esfoladores? Seus bois estão aqui, bando de açougueiros! Abram! Batem no portão.

Terão eles nos esquecido? Risos. Abram! Queremos entrar Em suas imundas pocilgas E suas cozinhas infectas Para preparar guisados indigestos Para os que ainda podem pagar. Silêncio No mínimo exigimos, O salário anterior, que já não dá para nada. No mínimo A jornada de dez horas e, no mínimo... UM HOMEM QUE PASSA: O que vocês estão esperando? Não sabem que Lennox fechou? Gazeteiros de jornal aparecem na cena GAZETEIRO – Lennox, o rei da carne, forçado a fechar suas fábricas! Setenta mil operários na rua. Lennox vítima da concorrência feroz imposta por Pierpoint Mauler, rei da carne e da responsabilidade social!
OS OPERÁRIOS

Desgraça! O próprio inferno Diante de nós fecha suas portas! Nós estamos perdidos. O impiedoso Mauler Aperta a garganta de nosso explorador E somos nós que sufocamos! B - UMA RUA – A Tribuna de Chicago, edição do meio-dia! O rei da carne e da responsabilidade social, Pierpoint Mauler vai inaugurar os Hospitais Pierpoint Mauler, os maiores e mais caros do mundo! Dois transeuntes olham para o fundo do palco, “vendo” Mauler. UM TRANSEUNTE, ao outro – Aquele é o Pierpoint Mauler. Mas quem são os dois que o acompanham?
GAZETEIRO

3

– Seguranças. Só anda escoltado, com medo de apanhar de alguém.
O OUTRO

Para levar Deus ao coração de um mundo que desaba E nele restaurá-Lo, pela ação dos mais humildes. Os Chapéus Negros andam. Toque de tambores. Durante todo o dia os Chapéus Negros pregaram nos matadouros, mas, quando a noite chegou, os resultados eram quase nulos. DIANTE DA FÁBRICA DE CONSERVAS LENNOX – Dizem que eles estão preparando um grande golpe sobre o mercado de carne. Para nós isso que dizer esperar e passar fome. OUTRO OPERÁRIO – A luz está acesa nos escritórios. Estão lá, calculando os lucros. Chegam os chapéus Negros. Fixam no chão uma placa na qual se lê: “Hospedagem: 20 centavos por noite. Com café: 30 centavos.” CHAPÉUS NEGROS cantando Escutem todos, escutem bem! Tu que te afundas, nós te vemos, Teu apelo por ajuda, nós o escutamos, Teu sinal, nós o percebemos. Parem os carros, detenham o trânsito Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Tu que te escondes, tu que duvidas, Olha para nós! Olha, Meu irmão, antes que sucumbas! Nós te damos o que comer E nós não esquecemos Que tu não tens abrigo. E, sobretudo, não digas que tudo está perdido: Tudo será diferente, a injustiça nesse mundo Não poderá durar se todos se juntarem a nós, Marchando ao nosso lado Com o único objetivo de ajudar o próximo. Nós faremos avançar os tanques e os canhões
UM OPERÁRIO

Para levar consolo aos miseráveis dos matadouros, os Chapéus Negros deixam a sua sede. Joana empreende sua primeira descida às profundezas. C - EM FRENTE AO TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS
JOANA,

à frente de um comando dos Chapéus Negros: Nesta noite de sangue e confusão, Nesse tempo de desordem organizada, De arbitrariedade consentida, E de humanidade desumanizada, Nesse tempo em que em nossas cidades Os problemas não têm fim; Nesse mundo, imenso matadouro, Em que nos chegam rumores de violência iminente; Para impedir que, em sua brutalidade, O povo, ofuscado, quebre suas ferramentas E destrua assim seu ganha-pão, Nós queremos reintegrar Deus Pois aos lugares onde realmente vivem os homens Ele não mais tem acesso: Sua glória anda pouca, Seu nome, já quase suspeito. Dos mais humildes, entretanto, ele é a única salvação! Então nós resolvemos Por ele bater nossos tambores nesses bairros; Para que ele penetre no coração da miséria E que sua voz retumbe pelos matadouros. Aos Chapéus Negros: O que faremos agora é uma última tentativa. Pela derradeira vez, nos esforçaremos

4

Nós lançaremos ao mar os navios de guerra, E nos ares, os aviões Para conquistar teu pão, meu irmão. Porque vós, os pobres, formais Nesse mundo um imenso exército. Vós que nos escutais Não esperai o amanhã! Desde hoje ajudai, Ajudai ao próximo! Avante! Ao assalto! Empunhai vossos fuzis! Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Cantando, os Chapéus Negros começam a distribuir seu jornal: Apelo às Armas, bem como colheres, pratos e sopa. Os operários agradecem e põem-se a escutar o discurso de Joana. JOANA – Nós somos os soldados do bom Deus. Por causa dos chapéus que usamos, somos também conhecidos como os Chapéus Negros. Nós dizemos que somos soldados, porque formamos um exército e porque, em todos os lugares em que vamos, precisamos lutar contra o crime e a miséria, contra as forças que tendem a nos aviltar. (Ela mesma começa a distribuir sopa) Bem, agora comam esta sopa quente e constatarão que depois vocês verão as coisas com um olhar diferente. Pensem agora qual esperança se pode fundar sobre a felicidade terrena. Nenhuma, absolutamente nenhuma. A desgraça vem como a chuva: ninguém a provoca, mas, entretanto, ela vem... Suas desgraças, digam-me de onde vem? UM DOS QUE COMEM – De Lennox & Cia. JOANA – O senhor Lennox tem talvez mais preocupações do que vocês! O que vocês estão perdendo? Ele, suas perdas se contam por milhões. UM OPERÁRIO – Carne não há nesta sopa, só uma aguinha clara, isso sim. Mas quente, pelo menos, está. OUTRO OPERÁRIO – Fiquem quietos, bando de glutões! Escutem a palavra de Deus! Senão vão tomar o prato de água quente de vocês.

– Silêncio! Queridos amigos, digam-me: por que vocês são pobres? UM OPERÁRIO – Sei lá! Explique você! JOANA – Eu lhes direi. Não é porque vocês não estão cheios de bens materiais – que não chegam para todos – mas porque vocês não têm idéia dos valores mais elevados. É por isso que vocês são pobres. Esses gozos vulgares aos quais vocês aspiram, comer um pouco, ter um bom lugar para morar e ir ao cinema, não são mais do que prazeres frívolos, grosseiros. Enquanto que a palavra de Deus é um prazer mais delicado, mais profundo e muito mais refinado; talvez vocês não possam nem imaginar algo mais doce do que o chantili, mas a palavra de Deus é ainda mais doce. Homens de pouca fé, os pássaros no céu não têm carteira de trabalho, as açucenas do campo não têm emprego e, entretanto, como eles cantam Sua glória, Deus lhes dá alimento. Nós, os Chapéus Negros, fazemos então a vocês uma pergunta muito prática: de que um homem precisa para crescer na vida? UM OPERÁRIO – Um colarinho engomado. JOANA – Nada disso. Para progredir na terra talvez seja necessário um bom colarinho, mas diante de Deus é preciso muito mais que isso, outras glórias. Vocês aos olhos Dele, nem mesmo um colarinho puído têm, pois deixaram suas almas no abandono. Mas então como vocês querem elevar-se, chegar ao que vocês, em sua ignorância, chamam de uma “situação melhor”? Pela força bruta, pela violência? Como se algum dia a violência tivesse trazido alguma coisa além da destruição. Vocês acham que mostrando os dentes conquistarão o paraíso na terra. Mas eu lhes digo, agindo dessa maneira o que se cria não é o paraíso, mas o caos! Um operário chega correndo. O OPERÁRIO: Uma vaga, agora mesmo, acaba de abrir! Um trabalho, um salário, esperam por vocês, Na fábrica número cinco! Que mais parece uma latrina. Corram, rápido. Um operário larga seu prato cheio e sai correndo.
JOANA

5

– Ei, você, onde é que você vai? Quando se ocupará de Deus? Vocês não querem nem ouvir falar, não é? UMA MOÇA DOS CHAPÉUS NEGROS – Acabou a sopa. OS OPERÁRIOS: Acabou a sopa; Era só um caldinho ralo Mas era melhor do que nada. Todos se viram e se levantam. JOANA – Fiquem sentados; acabou, mas que importa, uma vez que a grande sopa celeste não se esgota nunca. OS OPERÁRIOS: Quando, afinal, vocês Abrirão as portas de seus porões, Carniceiros, mercadores de carne humana? UM OPERÁRIOS: Com o quê, agora, pagarei A casa pequena e úmida, onde vivemos doze? Eu já paguei dezessete prestações, Mas a última, não conseguirei Seremos jogados na rua. E o chão de terra batida E nosso pedaço de grama amarela, Nunca mais os veremos, nunca mais, Nem tampouco respiraremos seu pestilento ar familiar. UM OUTRO OPERÁRIOS: Aqui estamos, em pé, nossas mãos como pás, E nossos pescoços fortes como tratores. Nossas mãos e nossos pescoços, queremos vendê-los Mas não há quem os compre. OS OPERÁRIOS: E nossas ferramentas - Gigantesca montanha de prensas e gruas – Estão trancadas, detrás desses muros! JOANA – E então, o que se passa? Quer dizer que já se vão? É porque já terminaram de comer? Adeus e obrigado. Mas por que então vocês escutaram até agora?
JOANA

– Pela sopa. JOANA – Continuemos. Cantem! CHAPÉUS NEGROS cantando Avante, entrai nessa luta! No coração da batalha lutai! Cantai com louvor, que cante todo o mundo. Ainda é noite, mas logo virá o dia, Raiando com todo o esplendor, E junto virá Jesus Nosso Senhor. UMA VOZ, do fundo do palco – Estão contratando nas fábricas de Mauler! Os operários saem. Fica apenas uma mulher. JOANA, com ar sombrio: Parem a música! Acabou a sopa, lá se vão eles! Seus olhos são incapazes de elevar-se Mais alto do que a borda do prato. Eles não crêem em nada além do que está Entre suas mãos. Acreditarão em suas mãos? Vivendo cada dia, cada minuto mesmo, Na insegurança, eles não são capazes De se esquecer das preocupações mais básicas. Nada, a não ser a fome, tem sobre eles qualquer influência. Nenhuma canção os toca mais. Nenhuma palavra pode Descer até eles e penetrar seus corações. Aos que a cercam: Parece que nós, os Chapéus Negros, temos por tarefa alimentar todo um continente com nossos poucos talheres. Os trabalhadores voltam. Ao longe, ouvem-se gritos. OS OPERÁRIOS, na frente do palco – Que gritos são esses? Um imenso caudal humano emerge dos abatedouros. UMA VOZ, do fundo: Mauler e Cridle também fecharam. As indústrias Mauler optam pelo lock-out! OS OPERÁRIOS, refluindo:
UM OPERÁRIO

Sua bondade perde rápido. UM OPERÁRIO. Ao fundo. presa. desde o dia em que nasceram. Lennox está branco como algodão. Estamos gelados e molhados e precisamos comer. Uma multidão enorme e desesperada. Eles encherão tuas orelhas com seus gritos. São reles glutões Preguiçosos. GRAHAM: E então. Ao fazer mil perguntas. MARTA. E o frio supremo Rouba de seu coração todo o calor. Abrigaram sentimentos nobres. OS CHAPÉUS NEGROS – Então teu destino nos parece bem negro. Tu desaparecerás na lama! Pois a lama entope as bocas Que fazem perguntas sem prudência JOANA: Eu quero saber. por favor. O que comeste. Na insana esperança de obter uma resposta Que jamais chegará. Joana e Marta esperam. meu velho Lennox. Em um grande edifício: A Bolsa de Carnes JOANA: Eu vou até lá: Eu preciso saber. JOANA – Não! Eu quero saber (aos trabalhadores) Digam-me. Recebemos mil respostas. onde se compram e vendem animais. OS CHAPÉUS NEGROS – Pare! Não te metas com essas questões. No alto. – Não. mora aonde? OS OPERÁRIOS: Lá. desce cada vez mais baixo. Enquanto corríamos atrás de trabalho. Oh Joana! Não te metas nas querelas terrestres! Pois quem nelas se envolve. quem é o responsável por tudo isso. Os Chapéus Negros se afastam. Quem abandona o lar protetor. JOANA – Quero saber.6 No meio do caminho encontramos. JOANA III Pierpoint Mauler é tocado pelo sopro de um outro mundo EM FRENTE À BOLSA DE CARNES Em baixo. para ele. ele te revenderia. os fabricantes de conservas Lennox e Graham discutem. que fogem do trabalho. dos Chapéus Negros: Não vá te meter com estes problemas. JOANA – Esse Mauler. Resultado para nós: barrigas vazias. já que ele é a causa de tamanha miséria. por que correm de um lado a outro e não encontram trabalho? OS OPERÁRIOS: O sanguessuga Mauler e o muquirana Lennox brigam entre si. esse Mauler. Todos haviam perdido o emprego E perguntavam onde achar trabalho. Ele venderia o próprio ar. Jamais seus corações. O selvagem Mauler! De um tal monstro a investida É inexorável! A natureza. . ruídos da Bolsa. Degrau após degrau. Eles têm apenas idéias vulgares na cabeça. na frente do palco: Desgraça! De todos os lados chegam ainda Torrentes infindáveis de homens! OS CHAPÉUS NEGROS. E vê esvanecer-se sua pureza original. a Joana – Vamos agora. torna-se. pronto. eu quero vê-lo. Torna-se mercadoria. antes. derrubou-te.

Ele não pode suportar A visão da miséria.. Tal qual dois grandes búfalos. sozinho. JOANA – Mas tu vieste comigo. à Marta: Tu somente. então. Um mercado aviltado. surge de um grupo de fabricantes de conserva. Mauler. não achas? Ele se degola e logo. para economizar Uma agradável soma em salários. ficarás com a fábrica Conforme está previsto nos termos do contrato: “No dia em que Lennox for eliminado.. Que ele não saberia jamais trair seu instinto. Marta. olhe para mim e de meu pescoço. Depois seus pelos. acompanhado de seu corretor. Bela invenção. como vais reconhecê-lo? JOANA – Saberei bem reconhecê-lo. que viram escovas. O que fazer com ela? Ah. que. Tão natural. ele faz ouro. Vocês mesmos. com sua escalada. Tira esta mão que me aperta e me estrangula. E pensa nos velhos tempos. no entanto. Primeiro perde a pele... E assim. E talvez chore. ele extrai rendas. Fecho minhas fábricas. A nova técnica é muito engenhosa: O porco é colocado em uma esteira rolante Até o alto da fábrica. Vá. eu garanto. moídos como farinha. Cridle sai da Bolsa e desce até o palco. Fizeram desabar os preços e destruíram seu negócio.. não é verdade? GRAHAM : Muito bela! Mas e a lata.” CRIDLE : . Lubrificar meus cutelos. Lennox! Acabou a guerra de preços! Foste eliminado. Começa então o seu retalhamento. que vira couro. por conta de seu próprio peso. Saibas.7 De barracos miseráveis. Estranho conselho! Eu te agradeço. Pois caindo. Batendo-se por sua conquista. época maldita! Um comércio estrangulado por montanhas de conservas. e dorme mal à noite. cruzei a última fronteira. Gritaram-me prudência: Para eles. Slift. Agora vou limpar a minha fábrica. no último andar. eu também te recomendei prudência. nele. confessa. até aqui me acompanhastes. Diga-lhe: Mauler. com voz suave. OS FABRICANTES DE CONSERVAS : Trata-se de saber quem agüentará mais tempo. JOANA. Nas facas. MARTA – Joana. este homem não é duro E nem ama o dinheiro.. em salsicha se transforma. De carne podre. chega Na lata que o espera lá embaixo. esta arte contrária à natureza. a cada fase. MARTA . MAULER : Lennox está de joelhos. lutando. E agora. Em dinheiro ele as transformará. Destroem com seus cascos o pasto que disputam. Cridle. O faro para o dinheiro é nele tão potente. Instalar duas ou três dessas máquinas novas.Joana. ainda ontem florescente!. Todos me abandonaram. Bem pensado. Até chegar aos ossos. CRIDLE: Muito bem. Por si mesmo. Quando ele não podia absorver mais nada. A Lennox: Estás perdido. Espero que o mercado recobre a saúde. Ele terá medo. E se lhe jogas pedras na cabeça. até ele e. o porco se precipita.

LENNOX – Mauler. mas. CRAHAM . Não estava caro. sensível! Ele soca Mauler no coração. um contrato dos tempos de prosperidade! Mas e a crise? Ela não existe? Que posso fazer eu com um grande matadouro Se ninguém mais compra carne em conserva? Agora sei bem porque não podias Mais suportar a visão do gado morrendo: sua carne Não vende mais! MAULER : Não. Lennox! Toque-o! É uma lata de lixo. É o máximo que posso fazer. então. Isso não é um contrato? Com um preço fixado? CRIDLE : Sim. A exigir meu dinheiro. mergulhado em meus negócios. Tu me ofereceste a 320. Ah! Pudesse eu estar liberado De um comércio tão bestial! Tenho. sem mais delongas.. tu me forças. nada. elas cairão a 70. Ele sai. até teu coração sabe ver longe! LENNOX : Eu gostaria ainda. devido à saturação do mercado. veja Lennox. é que meu coração se aperta Quando ouço mugir a criatura CRAHAM : Agora eu compreendo a grandeza de teus atos.. Mauler. : Pepê! Isso não é um jogo! Não podes misturar Questões pessoais aos negócios! CRIDLE – Pois não. GRAHAM — Mauler. e tu tinhas um terço. o coração torturado! Cridle se afasta. Mauler. tenho dois mil empregados! CRIDLE – Mande-os ao cinema! Mas Pepê. MAULER – Leia. como eu. Nada além. CRAHAM : Toque-lhe o coração. Estou tão temeroso que chego a suar frio: seis dias. Para pagar o que te devo. Pepê! Como quiseres. Lennox acabou. Cridle. Pois eu proibirei Cridle De comprar-te uma única lata. MAULER : O quê? A soma está inscrita Claramente no contrato Tome. então. MAULER . seguindo-o com os olhos: Tive a ligeira impressão de que algo o atormentava. Joana fez um sinal a um segurança e lhe diz algumas palavras. eu precisaria jogar essas ações no mercado. E eu. Lennox.. Mas com ele acabaram Os bons dias do mercado. se tu estás Realmente onde dizes. Mauler. Veja se esse contrato diz uma só palavra sobre a crise. Freddy! Quer dizer que tu me socas. É preciso então. Não pude imaginar seu fado. isto é. se eu fizer isso. MAULER – Ai! GRAHAM — Viu? Ele tem um coração! MAULER : Então. de examinar Contigo. e onde eu conseguiria dinheiro para pagar tua parte? Eu estaria arruinado! MAULER : Já que me dizes isso.. nosso contrato não é mais viável. Seis dias? Não.. Antes que quebres de uma vez! Creia-me. cinco.8 Sim. (faz contas em uma caderneta) Quando combinamos que tu sairias do negócio. LENNOX – Não.. as ações estavam a 390. olhe para mim. Hoje. Cridle. Mas. Repensar os dez milhões de dólares Que queres por tuas ações. as ações caíram para 100.

gente estranha. hein? Não. é ele. além da comida e do uniforme. Mas. Slift ri. não é homem de bem. Com ar invejoso. suponho.É assim. 55. na verdade. JOANA: Por que joga.9 O SEGURANÇA — Senhor Mauler. Para Joana:) Quanto recebes por dia? JOANA. Graham sai. MAULER : Está bem. O segurança vai ao encontro de Joana no outro lado do palco. em absoluto. não é notável? Já viste algo igual? Que trabalhem por nada e sem se lamentar? Não vejo em seus olhos nem medo da miséria Nem de dormir sob as pontes alguma noite. JOANA. Pouco me importa o que esperam de mim. Slift? (Enquanto isso. O SEGURANÇA: Ele vai vê-los. Slift. apontando para Mauler – O senhor é o Mauler! MAULER – Não. que a sopa seja rala. etc. Senhor Mauler. seus trabalhadores na rua? MAULER. – É o senhor. MAULER : Já ouvi falar dessa gente. Vitelos. há algumas pessoas que querem lhe falar. é o que tem a cara mais ensangüentada. diga que não estou. Ouve-se: Bois. O melhor para eles É causar em mim a impressão de gente honesta.. São chamados de soldados do Bom Deus. – Vinte centavos. MAULER : A escória em farrapos. mas vocês não devem Perguntar nada. nem desses versos sentimentais Que eles adoram cantar. . Dizem. Sim. são numerosos e gozam de grande consideração nas camadas inferiores da população. sobre outra questão. eu sei. Que não é acusada de nada E que não espera o impossível de mim. adoraria vossa opinião. sem dúvida? Prontos para a violência. Pretendo renunciar a esse negócio sangrento Logo que eu possa: renunciar sem retorno. JOANA. Chapéus Negros. A Joana: Vós sois. que a escória me chama – Despojou Lennox. Mas que nome curioso! Soldados do Bom Deus. Mas o que eles querem comigo? O SEGURANÇA — Afirmam que têm algo a dizer ao senhor. Nada de choros. MAULER . MAULER – Rindo. a Slift: Que eles trabalhem por nada. que eu sou Mauler. (aponta para Slift) É ele! JOANA. Durante esta cena.. 43. 59. MAULER: O tecido é bem fininho e. Diga-lhes que eu os receberei Mas que eles limitem-se a responder minhas perguntas. MAULER – Como me reconheceste? JOANA: De todos. respondam apenas Quando ele lhes perguntar. Porcos. Creiam-me: esses são assuntos profissionais Que não vos interessam. MAULER : O que é esta organização? O SEGURANÇA — Eles têm muitas ramificações. e pôs em apuros Cridle que. o tecido não é grosso Nem é grossa a sopa. dirigindo-se direto a Mauler – O senhor é o Mauler! – Não sou eu. o rumor da Bolsa continua. Mais uma coisa: não diga. que o sangrento Mauler. O SEGURANÇA — São membros da Organização dos Chapéus Negros. cá entre nós.

. Mas este mal era inevitável. Ele se aproxima dos industriais. por que fechou os matadouros? Eu preciso saber. Ele fala com Slift em voz baixa. Nenhum é inocente. Seu riso não me atinge. que com tal decisão As pessoas sofreram. Isso não é bom? Os fabricantes de conservas explodem em gargalhadas. confesso. nos matadouros dizem que o senhor é o responsável pela miséria deles. MAULER: É que adquiri o maldito hábito De disfarçar a voz. MARTA. aliás. para o que pretendes fazer. Abandonar esta empreitada. há pouco. ele decidiu abater O rico Cridle. minha filha. não me comove. . Eu os verei chorar um dia. a Joana: Joana. Senhor Mauler. Ele não é maduro ainda. Talvez por isso te ajude. ele é mau. A canalha. O mundo não poderá mudar se antes não mudarem os homens.. mas não digas nada. MAULER: Eu tenho grande piedade pelos bois: o homem. Cedi por dez ao homem que vêem aqui. Eu também vou embora. tomando-lhes o dinheiro que trazem consigo e dando-o a Joana. eu sinto Que tu não gostas de mim. Embora já tenhas vivido mais de vinte anos. não creias que seja de boa fé. Marta sai. Eu sei. Desculpe-me. dêem! Corja de carniceiros! Ele continua mexendo nos bolsos deles para dar dinheiro à Joana.10 Pois eu vi – e isso vos interessará – Morrer. vamos. A parte – doze milhões – que eu tinha na usina.. Não. Dêem o dinheiro. Melhor para ti que não os veja. não me digas nada. Deixai disso. Eu sei. São todos carniceiros. Mas. não é? JOANA: Não sei se o senhor fala sério. MAULER: Riam todos. no lugar do pobre animal. O homem. pessoas extremamente más. E desejaria que fossem mais numerosos. Mas é uma gentileza. Eles não têm mais trabalho. de resto. um boi e fiquei tão comovido Que quis largar tudo. sem nenhuma obrigação: Eu não sofro de insônia. Deverias. JOANA – Isso é uma gota no oceano. por favor. JOANA – Senhor Mauler. Mas tendes consideração demais pelo destino dos pobres: Eles são maus. Um instante. isso de se retirar do negócio.. dêem o dinheiro. JOANA: Senhor Mauler. Diga-me que está certo E que isso te agrada. diga. Seu rosto me agrada. É bom. Isso não é bom? E conforme vosso espírito? SLIFT : Vendo morrer o boi. São. MAULER: Poderia eu ir mais longe? Porque ele é sangrento É que eu tirei as minhas mãos deste imenso negócio. Tome para os pobres. Dirigindo-se aos outros: Parece-me que fui tocado pelo sopro de um outro mundo. Tamanha inocência!. tu também. O senhor não poderia realmente ajudá-los? MAULER: Repita por toda a parte: eu aprovo vossa ação.

Sullivan Slift.E eu adoraria que não desse certo – Leve-a aos matadouros. que nada têm Além de seus vinte centavos por dia e seu chapéu negro. Se isso falhar . o quanto antes melhor. Ele sai. JOANA. em um jornal. é o lixo do mundo. Slift e Joana contornam o muro de uma fábrica. JOANA. UM CONTRAMESTRE. O amigo Pedaço-de-Toicinho não precisa mais dele. e depois a siga. vestido com uma lata.. SLIFT: Em teu lugar não gostaria. já que agora ele está em embalado. senhor Smith. perderei meu emprego. agora eu vou te mostrar Como eles são maus Essa gente da qual tens piedade. É preciso queimá-los. na caldeira. Mas seu casaco ainda está bom e isso também é uma pena. Diga “para seus pobres”. Entrego a você porque sei que é de confiança: se alguém encontrá-los em algum lugar. ficará com a vaga de Luckerniddle. Isso pode funcionar. mas não pudemos parar as máquinas a tempo. sobre o qual se lê: “Fábrica de Conservas de Carne Mauler e Cridle”: O nome de Mauler aparece riscado. peguei para mim. e enrola o seu.11 Chame ela de lado. ela poderá Aceitar sem pudor. e para mim. Ele veste o casaco. E verás que tua piedade é descabida. assim como o seu boné. De saber o que queres saber. saindo – Um conselho: não te metas com as gentes dos matadouros. o que causa má impressão. cheios de traições. A Joana: Aqui está meu corretor. dê dinheiro a ela. E que não têm nenhum medo.. e ele entrou na faca e virou toicinho. Luckerniddle. Semelhantes a bestas. O JOVEM OPERÁRIO – O senhor pode confiar em mim.) É uma pena. Mas volte aqui amanhã. Se quiseres mesmo saber. vacilando: Estou me sentindo mal. . Veja então o que ela compra. vendo Mauler se afastar: Este homem não é mau. IV O corretor Sullivan Slift mostra à Joana Dark como os pobres são maus: Joana desce às profundezas pela segunda vez BAIRRO DOS MATADOUROS SLIFT: Joana. Aqui estão seu casaco e seu boné: pegue-os e façaos desaparecer. caiu. Responsáveis. Quando a fábrica reabrir você. este homem será mandado para os quatro cantos do mundo sob a forma de toicinho. se quiser. é pavoroso. faz quatro dias. JOANA — Eu quero vê-los. A Slift: Mal posso suportar a existência de seres Semelhantes a esta moça. Dois homens saem por uma portinhola. Azar. ele cairá bem. É o primeiro que nossos tambores desalojaram Das trevas da vilania. (O contramestre volta para a fábrica pela portinhola. é a escória. por suas vidas miseráveis. a um jovem operário – Um de nossos homens. ele te fará ver algumas coisas. Slift e Joana escutam. e mostre a ela Como os pobres são maus e covardes. Estão ocupando inutilmente um cabide no vestiário. enfim. em uma palavra. é claro. SLIFT. Ele ouviu nosso chamado.

a Joana – Fique aqui. DONA LUCKERNIDDLE está sentada em frente ao portão da fábrica. (Ele pára o jovem operário. passe-me logo teu cassetete. DONA LUCKERNIDDLE: Agora inventam que ele viajou! SLIFT – Deixe-me dizer uma coisa. e vocês não querem que se saiba disso. E malditos sejam vocês Se lhe fizeram qualquer coisa! Slift caminha até ela. Não procure mais saber o que se passou com seu marido e a senhora poderá almoçar. que fizeram dele? Há quatro dias que estou aqui. não diga mais isso. Antes eu gostaria de fazer-lhe uma proposição interessante. se quiser me ver.) Onde você conseguiu este casaco e este boné? Estes são os pertences de Luckerniddle. SLIFT. Venha. SLIFT: Guarde essas coisas. na fábrica. isso não lhe parece muito brutal? SLIFT: Bem.12 SLIFT: Aí está a vida como ela é. SLIFT: Senhora Luckerniddle. nós não somos. Eu. legalmente. Eu tiro agora mesmo. esperando por ele Mas ninguém diz nada. aquele que se acidentou? O JOVEM OPERÁRIO – Por favor. para nós. No frio. pronto para encher a pança. e meu marido não sai da fábrica. Mas existem coisas Que importam mais para ela. lamentando-se: Faz já quatro dias que. lhes digo. ele me dizia: “Espere-me à noite com uma sopa quente!” Desde então não [voltou. se você não está precisando disso!. gratuitamente. seu marido está viajando. Eles chegam a uma cantina da usina e vêem diante de uma janela dois homens que olham para o interior. Bando de açougueiros. Tenho a impressão de que você está prestes a cometer um ato impensado. No ano passado me deixei seduzir pelos vinte centavos a mais que se ganha na fábrica de adubo. Quando ele se aproximar. Vinte refeições são muita coisa Para aquele que tem fome. Precisará nos processar.. vou falar com ele. enquanto não o vir. O JOVEM OPERÁRIO – Mas senhor. senhor. dizendo tolices. Eu ficarei aqui. me encontrará na cantina. em nossa cantina durante três semanas. Por causa dele deixei minha mão na máquina de cortar chapas. Não tenho outro esteio. senhora Luckerniddle. Eu estou em uma situação muito ruim. DONA LUCKERNIDDLE: Eu quero que me devolvam meu marido. DONA LUCKERNIDDLE – Não. (Ele vai em direção a Gloomb). mesmo à noite. Senhora Luckerniddle: ele está viajando e. Verás então o que é essa gente. é capaz de o meu quebrar já no primeiro golpe. Mas reflita bem. Aconteceu alguma coisa com ele aí. GLOOMB – O feitor está bem ali. Esse salafrário se empanturra às nossas custas. então a senhora não pode aceitar a refeição que a fábrica lhe oferece. é muito desagradável vê-la sentada aí. DONA LUCKERNIDDLE – Quero saber o que aconteceu ao meu marido. É por isso que lhe fazemos uma proposta: note bem que. Slift volta para junto de Joana. diga-lhe que procura trabalho. Vamos. Já não posso mais trabalhar como antes e só consegui emprego duas vezes desde fevereiro. O JOVEM OPERÁRIO – Pode confiar em mim. senhor. Joana e Slift seguem seu caminho. de forma alguma. à cantina número 7.. ele não foi para São Francisco. Você poderá comer e lhe darei um dólar se disser à mulher de Luckerniddle onde conseguiu o casaco e o boné. Vamos cuidar para que essa seja a última vez. fui trabalhar no moinho de ossos e adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. SLIFT – Estamos dizendo que ele partiu para São Francisco. de qualquer modo. ao meio-dia. SLIFT – Se é esta a sua opinião. JOANA: Ela nunca aceitará. Joana e Slift prosseguem seu caminho. saindo para o trabalho. todo o tempo. Amanhã. além dele. obrigados a fazê-la. .

E é um trabalho que pode ser feito mesmo por pessoas como você. A senhora Luckerniddle está falando com a garçonete. tem que se retirar. DONA LUCKERNIDDLE. DONA LUCKERNIDDLE – Espero uma pessoa que deve vir hoje ou amanhã. e então eu teria. Apesar de tudo. Os movimentos ficam menos firmes e pode-se prender as mãos nas serras. JOANA – Mas a senhora nem sabia que nós viríamos hoje. Joana procura um prato e leva à senhora Luckerniddle. JOANA – Não há realmente como me arranjar outro posto? Ouvi dizer que o trabalho nesta máquina era perigoso para quem não resistisse ao trabalho muito pesado. meu senhor.. Tchau. por exemplo. Vai se perguntar como alguém pode contar histórias tão ridículas sobre esta máquina. Você se surpreenderá ao ver como o trabalho é agradável. SLIFT – Que pena.. Slift cai na gargalhada e arrasta Joana.) Você está procurando trabalho? JOANA – Sim. GLOOMB – Nada disso é verdade. não muito fortes.. no moinho de ossos. Ela não parece muito forte. (Ao seu companheiro:) Pensei melhor. Desde fevereiro estou sem emprego. estaríamos dispostos a reempregá-lo imediatamente. Seria vantajoso para você. DONA LUCKERNIDDLE – O que? Vocês pensaram melhor e estão retirando a oferta? Então eu não terei mais as minhas vinte refeições? JOANA – Me pareceu que a senhora se dava bem com seu marido. E eis que ela nos precedeu. e então eu poderia. pode ser que mude de idéia. Naturalmente você precisaria manter os ritmos de trabalho mesmo os dispositivos de segurança não sendo perfeitos. O posto que você ocupava na sua máquina continua vago e isto é muito chato. justamente porque você contou todas essas histórias a respeito de seus dedos. faremos isso amanhã à noite. temi que amanhã ela viesse. Ali adiante.. SLIFT – Leve você mesmo a comida a ela. JOANA: Ela sentou-se ali.. DONA LUCKERNIDDLE – É verdade. O que mais verei? Eles entram na cantina.. GLOOMB . depois do que eu iria. já faz dois dias que eu não como nada. SLIFT – Gostaria de propor um meio de tirar-lhe dessa jogada.. DONA LUCKERNIDDLE – Sim. desde hoje? DONA LUCKERNIDDLE – Não como nada há dois dias. GLOOMB – Aquela moça ali? .13 – Não tenho tempo. não sabia. Não podemos perder esse safado. É preciso que ele pague hoje mesmo por esse sistema desumano do qual ele é o feitor. JOANA – Quase tenho medo de continuar. GLOOMB – Rápido então. JOANA – A senhora já está aqui. (Ele vai em direção a Joana. Eu imaginava que ela iria resistir. e lhe daríamos até um trabalho mais fácil e melhor remunerado do que o antigo. Eu sou inspetor nesta fábrica. Naturalmente seria muito bom se nós encontrássemos alguém para esse posto.. Talvez a vaga deste contramestre. A GARÇONETE – Se a senhora não for comer. Adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. Disseram-me que não tinha ninguém além dele. GLOOMB – Você enxerga bem? JOANA – Não. Uma jogada dessas é melhor de se fazer à noite.. O que há para comer hoje? A GARÇONETE – Ervilhas.. por acaso. há uma moça que está procurando trabalho. calculando – Vinte refeições. No ano passado fui trabalhar na fábrica de adubo. A maior parte dos trabalhadores a considera muito perigosa. É um bom posto? GLOOMB – É um ótimo posto. O posto não é feito para gente fraca. JOANA – Vindo para cá ouvi dizer que aconteceu alguma coisa com o seu marido e que a fábrica é responsável. encontrasse alguém. Ela correu até aqui e já nos espera. GLOOMB – Posso confiar no que você está me dizendo? SLIFT – Sim. Se você. Ela senta-se em uma mesa.

os sofrimentos que suportam Esses pobres sem moralidade. Ela se levanta e sai. comprem nossas latas! Carne fresca e suculenta. preferido. V Joana apresenta os pobres à Bolsa de Carnes A BOLSA DE CARNES : Nós todos. ao garçom – Deixe meu prato. Mas vinte refeições. a vossos olhos contradiga Esta depravação que injustamente se lhes imputa. esta mulher. como muitas. Que sua miséria. posso comer aqui? SLIFT – Você só precisa sentar-se ali. Dona Luckerniddle arranca o prato das mãos dela e começa a comer avidamente. tu me dizes? Sua pobreza também é incomensurável. A senhora Luckerniddle sente náuseas. DONA LUCKERNIDDLE. Era seu único esteio. SLIFT – E onde você comprou? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. Ele foi obrigado a vender sua cólera. O que tu me mostraste Não é a imoralidade Dos pobres: é a pobreza deles. E este jovem – em quem botaria fé Qualquer malandro -. ninguém mais perguntará o que foi feito dele. (Ele senta-se. a imoralidade deles? Ela teria. Atrás dele:) Você tem um belo boné. JOANA E procurar por ele. o preço era muito alto. Continuar fiel à memória de seu marido. O JOVEM OPERÁRIO – Bom dia. Ela sai. e comerá sem levantar os olhos do prato. Você só precisa perguntar a esse senhor. como vós a explorais! Não vês que nem teto eles têm. DONA LUCKERNIDDLE – Ele foi para São Francisco. Joana? A imoralidade dela não tem limites! JOANA: E tu. Tão cara a ele. SLIFT – Durante três semanas ela virá. como um animal. JOANA: Porões e armazéns abarrotados de carne. estamos vendendo carne! Compradores. SLIFT – E onde você conseguiu. eu. (Dona Luckerniddle permanece em silêncio) Não pegue. acreditas que ele teria mostrado À mulher do morto a roupa que usava Se tivesse tido a chance de escolher? O maneta. Mercadoria invendável. então? O JOVEM OPERÁRIO – De um homem que caiu dentro de uma caldeira. mas não em uma loja. eu volto.14 – A senhora não quer esperar até amanhã? Se a senhora desistir de procurar o seu marido. e por mais justa que fosse. e que já apodrece. Fatias de toicinho Cridle-Mauler! Carne de filé Graham. Desejas mostrar-me a sua imoralidade. ao lado daquela mulher. Eu virei todos os dias. Você a viu. Um certo tempo ainda. verdadeira manteiga! Banha fresca do Kentucky! OS COMPRADORES: OS FABRICANTES DE CONSERVAS . Pois não há mais compradores! Do fundo do palco chega o jovem operário com seu casaco e seu boné. para colocar Ao abrigo da chuva. como manda o costume. Sua imoralidade é sem limites. com que habilidade torna-te mestre dela! Esta imoralidade. saindo. Mostrar-te-ei. (O jovem operário o esconde) De onde ele vem? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. certamente teria me prevenido Não fosse o preço a pagar por seu pequeno escrúpulo.

Saturado de carne em conserva. Quando todos te seguem com olhos de lince Para ver o que fazes? Eu não teria cara. Não a agüenta mais. O que provocaria um movimento de alta.15 E sobre as águas fez-se um grande silêncio De todos os compradores. em Nova Iorque. Nós iríamos perder o bonde! MAULER: E quando isso ocorresse! Terias a imprudência De tirar tua parte de tamanha miséria. E graças aos perspicazes planos dos industriais da carne Nós conseguimos reduzir em um terço O preço do toicinho Cridle-Mauler. Mas ninguém quer comprar carne enlatada. os criadores. A morte Despreza esse gado e fecha-lhe a porta. cubas. com nossos matadouros? Nossas fábricas estão cheias de bois. compradores. caldeirões Convertem sem parar em latas de conserva As manadas mugidouras que pastam nos prados. ao trabalho de nossos [engenheiros. a visão da carne enlatada Causa náuseas. O estômago do país. Temos diante de nós montanhas de latas. Clamamos aos berros por um consumidor que não existe. Aproveitem então. MAULER: E mesmo a faca os recusa. Nas estações e nos pátios. Engolindo nosso ouro junto com nosso grão. comprem nossas latas! OS COMPRADORES: E sobre as montanhas fez-se um grande silêncio E as cozinhas dos hotéis escondem a face E as lojas se desviam com horror Os atacadistas mudam de cor. fabricantes. quase de graça. A dar-se-lhes ouvidos Seria necessário agora deitar por terra Todo o cartel da carne E deixá-lo estagnado durante muitas semanas. OS COMPRADORES: Nós compradores. E abrissem assim o Sul aos nossos produtos. Quem comprará agora nosso gado? Os estábulos estão cheios De porcos e bois devoradores de milho Que eles devoram ainda nos trens que os transportam. SLIFT: Eu riria se. E da banha de Kentucky. dia e noite nossas máquinas Ligadas no máximo: salgadeiras. A nós. eles conseguissem Fazer cair de uma vez as taxas de importação. Do filé Graham. Frigoríficos entupidos de carne congelada. verdadeira manteiga. Esperando até ninguém poder Mexer nem o mindinho! E eu. Nós queremos vender a carne em conserva E ninguém a quer! E todos os nossos clientes. nenhum tinha dinheiro. SLIFT: E teus amigos de Nova Iorque. Nós estamos perdidos! OS CRIADORES: E nós. o que te escrevem? MAULER: Teorias. compradores. . Nós não compramos mais nada! OS FABRICANTES: E nós. Eu teria sobre as costas toda a carne! Idiotas. OS FABRICANTES: Graças aos avanços da técnica. cozinhas e lojas Estão cheios até as bordas. Comprem.

. é que me levem a sério..Há quatro semanas apenas eu assinei um contrato com Mauler. E exiges dele o pagamento sem demora. MAULER: Açougueiros insolentes é o que sois! O animal torturado parou de mugir. CRIDLE – dirigindo-se aos que o cercam:. estava acordado. Voltai para casa. ao invés de trinta. o que desejo. Cala-se e aponta para o dedo para ti. eu acabo de saber. na entrada da bolsa: Queda gigantesca das cotações na Bolsa! Venda maciça de ações. Não é de hoje que fazes tais manobras. todo teu estoque. Eu me propunha pagar-lhe vendendo uma parte das ações dele mesmo. E vós soluçais nas saias de vossas mães. Cridle. Falai que um dentre os vossos Não pode mais suportar o grito dos bois morrendo E aos mugidos deles.16 . MAULER: E por que matastes tanto gado? Açougueiros alucinados sois vós! Agora. antes de qualquer coisa. olha para nós! Assim. nesta conjuntura. Tu te desfazes de tuas ações? UM CORRETOR: A cento e quinze! OS FABRICANTES: Ficaste louco? Tua morte. OS FABRICANTES Essa gente não faz as coisas pela metade. OS FABRICANTES: O que significa isso. Carrega em sua queda as cotações de todo o cartel!. e ficando com as outras. MAULER – O próprio Cridle me confessou que está insolvente: se eu deixasse meu dinheiro com ele. que conspurca nosso ninho! Nós sabemos bem quem fez os preços caírem sem cessar Vendendo gado por baixo do pano. OS FABRICANTES: Quando ages assim com Cridle. é o cartel da carne. mas três milhões. Para acabar com Lennox. provoca muitas outras! Lixo! Assassino! CRIDLE . Isso representava um terço do total das ações. que se lançam sobre Cridle. pálido como algodão. ele vem realizando secretamente vultosas vendas de gado a preços baixos e provocou a queda das cotações que. já vinham caindo. Pois tu liquidaste. eu quero o meu dinheiro. quem de vocês continuaria a me levar a sério nos negócios? Ora. então! OS FABRICANTES – a Mauler: Corre o boato que teu capital. Mas somos atingidos pelo que lhe acontece. Ele poderia exigir seu dinheiro quando quisesse. a preço vil. ao fundo. que estavam valorizadas. nem que fosse por mais uma hora. É bom que ele seja nosso adversário. Tumulto entre os fabricantes. Esses dez milhões são exatamente a soma que devo a Mauler – e ele a exige em vinte e quatro horas. mas um outro Quem joga a rede. de toda a maneira. antigamente Mauler. Mauler! Fala. ave de agouro. nós somos os peixes! O que querem arruinar. Foste tu mesmo quem provocou o marasmo! Nossas latas agora não saem mais caro Que a areia dos mares. Ele queria me vender a sua parte. que já se arrasta. Veio a baixa. Cridle? Levanta os olhos.. tu o retiras Do negócio e Cridle. Cridle. Quero apenas meu dinheiro e a paz de minh’alma UM CORRETOR – urrando. Hoje os papéis de Mauler não valem mais dez.investindo contra Mauler que lê o jornal: Traidor.apontando para Mauler: Falem com ele! CRAHAM – colocando-se diante de Cridle: Não é Cridle. Desde aquele dia. por dez milhões de dólares. preferiu o vosso. e o conjunto das fábricas vale dez.

com nossos bois Que hoje ninguém mais quer.17 Mesmo que tivésseis todos que mendigar. És tu. meu chapéu. Uma explosão de gargalhadas toma a frente da cena. Ouvem-se os tambores dos Chapéus Negros e a voz de Joana. MAULER: Por hoje basta.Nenhuma sequer! OS FABRICANTES – Então. Avante! Ao assalto! Empunhem os fuzis! Diante de nossos olhos os homens naufragam. Graham. não saia! Graham. seu cão. Nesse mundo sempre reinará a injustiça. Ei. E nós dizemos: é preciso ir sempre adiante. Meyers. acompanhada de exclamações. olhos para ver? Ele é vosso irmão. pois preciso partir. Eu quero meu dinheiro. o responsável Por esta catástrofe. Haveis então esquecido Os que esperam diante da porta E que esperam. então. mas rápido! OS COMPRADORES . Mauler. suja de sangue? Joana e Marta avançam e cantam o seu hino de guerra. escutem bem! Um homem afunda sob os nossos olhos! Escutamos lá no fundo seu apelo por salvação. Para Illinois esse dia é um desastre! Vocês fizeram os preços subirem. Eu não quero que me vejam aqui. Lançar ao mar os navios de guerra E nos ares. Não falemos mais de negócios. Ei-nos aqui. OS CRIADORES: Impossível vender um boi em Chicago. Mauler. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Escutem todos. . Estimularam-nos a criar bois. E ninguém se preocupa Não tendes. Fazer avançar os tanques e os canhões.Nenhuma sequer! Silêncio. pois tenho outros projetos. cem dólares pelo meu chapéu.Pierpoint Mauler! Onde está Mauler? MAULER: O que é esse barulho de tambores que de súbito me envolve? E quem chama pelo meu nome Nesse lugar. Meu chapéu. OS CRIADORES: Lennox já caiu! E Cridle balança! E Mauler. Durante esse período a batalha na bolsa continua. Os que nos escutam. Com o único objetivo de ajudar o próximo. os aviões Para conquistar o pão dos pobres. ele retira o seu dinheiro! OS FABRICANTES: Oitenta mil latas a cinqüenta. JOANA . nós estamos perdidos! JOANA – Onde está Mauler? MAULER: Slift. Não esperem o amanhã! Cada um deve nos ajudar. E ninguém se preocupa. detenham todo o tráfego Em torno de vós os seres naufragam. com isso. fiquem diante de mim. E. seja quem for! Levantai o nariz de vosso prato. onde cada um revela Sua boca desnuda. Parem os carros. Uma mulher nos faz sinais de aflição. mas rápido! OS COMPRADORES . OS FABRICANTES: Oitenta e sete mil latas pela metade do preço. para comer? Pensai convosco mesmo: sempre será assim. Pois os bons nesse mundo Não formam um grande exército.

buscando desculpas. que fazem subir o preço do pão e que fazem da vida um inferno onde os homens viram demônios. Mas então eu lhes pergunto: de onde tirariam eles alguma moralidade. ao fundo – Pierpoint Mauler passou mal. Aumentem-no. OS FABRICANTES: Água para Pierpoint Mauler! . JOANA – Mas os senhores.18 – Maldito sejas! Cridle sai. e é verdade. e diante de Deus TodoPoderoso. atrás de mauler – Fique senhor Mauler. Risos OS CRIADORES – Nós criadores não encontramos nestas palavras motivo para o riso. As crises são catástrofes naturais. Silêncio! Não lhes agrada muito. pobres e deploráveis imbecis. Não tenham vergonha. Joana mostra aos negociantes os pobres (Luckerniddle e Gloomb) que ela trouxe. vocês. pois os que estão lá fora já não têm como comprar. e a quem não querem reconhecer como irmãos. o salário. Nos baixios. as leis econômicas. tereis a moralidade. Causais vossa própria queda! Bando de imbecis! OS FABRICANTES. CRIDLE OS CRIADORES: Como? Somos asfixiados e ninguém pode fazer nada? A causa de nossos males é a imoralidade De vossas armações escusas. a Revolução. Já me disseram o que os senhores fazem: manobras. OS CRIADORES. nas favelas. Reparem então nestas gentes. gritando – Afastem-nos! Ele desmaia. avancem à luz do dia. nesses lugares sombrios e secretos onde os senhores tratam de seu comércio. aí pelo mundo. os senhores se enganaram. como não seriam os valores mais elevados esmagados em seu coração? Sempre ouço dizer. Mas se os senhores acreditaram que seus procedimentos permaneceriam ignorados. replicando: Imbecis são vocês! Ninguém pode nada contra as crises! Bem acima de nós. eles que nada têm? Senhores. que sentam nesse palácio. nada querem saber da miséria que existe fora deste recinto. Se os senhores continuarem tergiversando. Traçam essas desconhecidas. Se continuarem a agir assim. os Chapéus Negros. acabarão tendo de comer sozinhos a carne que produzem. Inverno e verão nós dependemos do tempo: nós também estamos mais próximos do Deus de nossos pais do que os senhores. eu bem sei. JOANA – E qual a causa desta imoralidade no mundo? Poderia ser diferente? Se cada um é obrigado a rachar com um machado a cabeça de seu próximo para fazê-lo ceder seu pequeno pedaço de presunto e sua migalha de pão. Vossa imunda cobiça. seus mugidos serão testemunhos. existe também um poder de compra moral: o dinheiro. E os senhores. gritando: Por vossa especulação desenfreada. em conseqüência. UMA VOZ. JOANA. Mas nós lhes dissemos que é um imbecil. tanto hoje quanto no dia do juízo final. imaginando que não virão à tona suas manobras. destinos inelutáveis. COMPRADOR. Cujo ciclo pavoroso sempre recomeça. JOANA – Um homem de negócios também pode ser um bandido – dependendo do ponto de vista. como fazem em seus jornais. que se dobram sob o fardo de suas penas. OS POBRES – Ele é o responsável por tudo! Os fabricantes de conservas correm para socorrer Mauler. MAULER. ver surgir a nós. a quem os senhores transformaram no que são. em tom de reprovação Aqui estamos com nossos bois Que hoje em dia ninguém quer. então em suas costas os bois começarão a mugir contra os senhores. nada além disso. são todos uns imbecis. engodos e combinações para aumentar o preço da carne. todo-poderosos. Senhores. é lá que mora a imoralidade no estado puro e. que os pobres não têm muita moral. e escute o que eu tenho a lhe dizer.

eu vou falar. ao instinto animal. MAULER – Agora. meus amigos. No seio de Deus não há frio. SLIFT – Ele não abrirá os olhos enquanto não os fizerem sair. Tu quem os reduziu à tamanha miséria. levai-o agora.” OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Nunca faltará o pão Ao que dedica a Deus sua alma. E vós. Compro. OS FABRICANTES – Quem? Os Chapéus Negros? Quer que eles saiam? MAULER – Não.19 Um médico para Mauler! JOANA: Mauler. eles não. CRAHAM: Então! Não podes vê-los? No entanto foste tu. E fome nunca se passa. então Para querer fechar a boca do Bom Deus? Não se deve calar a boca de ninguém. Invisíveis para vós. afastados dos bens indispensáveis. deitado no chão – Eu compro. qual burros de carga.. a contar de hoje. tudo o que em oito semanas conseguirdes [fabricar. vos rogo. JOANA: É isso. como eles sim. aí em cima. de todos os estoques do cartel.. e por vós mantidos Nesta pobreza. OS POBRES – Gente como essa. estão tão enfraquecidos. Nós. CRAHAM – A cinqüenta? MAULER – A cinqüenta! CRAHAM: Ele comprou tudo! Vocês ouviram: Comprou tudo! CORRETOR. assume compromisso sobre a produção de dois meses. E lá. E não basta que cerres as pálpebras Para que eles desapareçam. cantemos: “Nunca faltará o pão. JOANA – E agora. voltando a si – Eles ainda estão aí? Eu suplico que os afastem. eu compro! Escutai todos: Pierpoint Mauler compra! Que estas gentes tenham trabalho e que se afastem. Quem em seu seio habita Jamais será infeliz. MAULER: Afastem-nos. Que viver assim pode mesmo afastá-los Da necessidade de um ideal. O cartel entregará a Pierpoint Mauler. em 15 de novembro. para eles inacessíveis. Mauler. gritando em um megafone – Pierpoint Mauler reanima o mercado da carne. Além disso. Eles. vós me mostrastes a imoralidade deles. nós conhecemos. MAULER. ao fundo. Eles parecem bem piores. Eles o levantam. Torna-se comprador. levantando-lhe a cabeça – E os estoques? MAULER. Nem mesmo do boi que esmaga espigas com seu casco! Em todo o caso. Eu vos mostro agora a pobreza dos pobres. levantai-me. pelo menos cinqüenta mil toneladas de conservas. Mas quem sois vós. o que fazeis? Vós me ordenastes não dizer uma palavra. que mantendes longe de vós. eu. A tal ponto dependentes de alguma comida E de um pouco de calor. antes de partirmos. ao preço do dia. por favor. Mas os dois que estavam ao lado dele. também ao preço de cinqüenta. Os que estão atrás. Aos pobres: Segunda-feira vocês terão novamente trabalho. cumprimos nosso trabalho de [missionários. nós nunca tínhamos visto. e reduzi-los À voracidade. OS FABRICANTES – Ele comprou! Mauler comprou! MAULER – Ao preço do dia! CRAHAM. .

JOANA – Todos aqueles que se interessam realmente pela palavra de Deus e que querem saber o que ele diz e não apenas a cotação da Bolsa podem vir domingo à tarde assistir nosso ofício. E vocês precisam dela. por que te impressionas com os discursos dela? MAULER: . cutucá-lo. saturado de conservas. Pois o contrato que acabam de ver firmado É apenas um pedaço de papel. Escutem: saímos. Recusa-se a engolir mais. Aqueles que dão o pão. Se estiverem muito necessitados. Pois ele pode vir em auxílio. Nesse momento o mercado recobra a saúde. ele não encontrará Um centavo. As fábricas reabrem e as chaminés fumegam! Pois efetivamente é de trabalho. Ele cumpre. aqueles que o recebem. SLIFT. liga as luzes e agora repara em mim. Para tal negócio. Os fabricantes de conserva saem. enfim do ponto morto! Confiança e concórdia estavam fortemente abaladas. Música a partir das 3 horas. dentro da casa. PEQUENO IMÓVEL COM DUAS SAÍDAS MAULER. Slift. sabiamente acatada. Os patrões vão reabrir. pois nós também.20 OS COMPRADORES: Este homem está ruim da cabeça. OS FABRICANTES: Podem guardar sua carniça podre! Não estamos interessados em comprar. de São Francisco a Nova Iorque. discute com Slift – Fecha a porta. Joana e os Chapéus Negros saem. E ele faz meter carne em latas Que ninguém comprará. VI A Captura dos grilos NA CIDADE CASA DO CORRETOR SULLIVAN SLIFT. e diga se realmente todos podem ler em meu rosto? SLIFT – Ler o quê? MAULER – Ora! A minha profissão! SLIFT – Teu ofício de açougueiro? Diga-me. OS CRIADORES: Agora os preços subirão. a sabedoria triunfa. JOANA: Saibam todos: estou de olhos em Mauler. entrada gratuita. Mauler. Contra a desrazão. Não o deixaremos descansar Enquanto um homem precisar de ajuda. ao criador: O que Mauler promete. dirigindo-se à Joana Aquilo que disseste e tua intervenção Causou-nos forte impressão. Venham comigo procurá-lo Para que ele os tire do embaraço. às duas horas. É preciso. não é. O homem que o assinou não estava em seu juízo. nenhum. Nós estamos sob uma miséria atroz. Agora os senhores podem respirar. seguidos dos criadores. Podem esquecer seu nome. então. Que carecem tanto uns como os outros? CRIADOR. Sua consciência já despertou. Muitos criadores se transtornaram. O estômago do país. na Rua Lincoln. Sábia decisão. os operários entrarão. açougueiros infames! Enquanto vocês não dobrarem o preço do gado Não entregaremos um só grama de carne.

Isso não pode mais perdurar. Esquecer todo o resto. Levantar-se-ão com a aurora e por-se-ão em marcha.. Onde o fogo arde embaixo Enquanto congela-se em cima. Não. meu caro Slift. Há sempre boquirrotos que acham Que as coisas não andam como deveriam. Por trás havia rostos selvagens. Seu número aumenta a cada dia. Nós que aqui estamos. É sua antiga fraqueza que retorna. lançar-nos-ão Ao chão como um peixe podre. .. Tagarelice vazia e fácil. Não há mais consolo. Seremos colados ao muro. E dezoito horas por dia. A urrar de aflição. Agora. qual onda. Certamente porque essa gente trabalha a troco de nada. pois desde essa manhã tu nada tens a ver com a morte dos bois. um após o outro. por mais externa e sem importância que ela seja. MAULER: Mas que dizem eles? Essas cidades São um braseiro jamais extinto Onde. não é? SLIFT – Come. eles são muito numerosos. Eu deveria podê-lo de novo. retorna.. urrando.. SLIFT – O discurso deles te perturbou. vender e lutar sem parar.. SLIFT – E o que é. Então creio sentir Como um peixe aprisionado entre duas águas Pauladas na espinha. E quando da onda emana uma voz Que nada tem de bestial. Esfolarmos uns aos outros friamente.. (À parte:) Farei com que ele coma um filé muito mal passado. Fórmulas tomadas ao coração. caro Pierpoint? Pense que agora podes fazê-lo sem peso na consciência. talvez. por mais louca que seja. SLIFT – Não queres comer um pouco de carne.21 O que ela disse? Eu não ouvi nada. Que não sabem como passarão a noite mas. irei confessar-te Minha verdadeira opinião sobre nossos negócios: Comprar. É outra coisa. a humanidade. no entanto. Ele se afasta e começa a grelhar um bife no fogão. Se nos apanharem um dia. Para limpar esse mundo. Máscaras da aflição. Não conheceremos a morte em nossas camas. vejo-te mergulhado na contemplação de teu ser grandioso. Sabias que tu compraste hoje tudo aquilo que pode ser colocado dentro de uma lata de alumínio? Meu caro Mauler. Para estes que caem em nossos porões sangrentos. Sob a chuva e de barriga vazia. MAULER: Tu crês que eu deveria? Eu poderia. E pense em tua situação: ela não é muito boa. Tudo isso são ainda meras desculpas O que temo não é Deus. Slift. SLIFT: Em cidades como as nossas. que mais não vi. de onde se eleva uma cólera Que nos varrerá a todos. MAULER: Sempre me pergunto por que essas tolices me afetam: Discursos plenos de utopias. Nós e nossa corja. Talvez depois de comer carne crua ele retome seus instintos. então? MAULER: O que vive abaixo e não acima De mim! Esses seres reunidos nos matadouros. mas permita que eu te exponha simplesmente a situação. Tão forte.

Então pode ser que. muitos de meus concorrentes balançavam. Na carta que recebi de Nova Iorque essa manhã. Mas ainda há a carne Que no mercado liquidarão cem criadores Muito ávidos. de resto. Facilmente nascem guerras À custa de tais atitudes. Mas esta mulher comoveu-me a tal ponto Que mal lancei os olhos. dizer-lhes Que ninguém era louco o suficiente Para comprar carne em conserva. Aqui está: “Caro Pierpoint. ou a vinte e cinco. comprar carne. de anunciar-te que nosso dinheiro começa a render seus frutos: muitos são aqueles que.. eu te juro. sob os arcos de alguma ponte. escapando bem. Ainda pela manhã. é verdade. Essa seria uma saída. SLIFT – Quem são. teus amigos de Nova Iorque? MAULER – Que eu devo comprar carne. Eu fui vê-los cair. Sob o fardo de toneladas de latas de alumínio. Os preços baixarão novamente. eu estou perdido. Realmente eu não vejo sentido nesta carta. Mas não foi por causa da carta. Ou desencadear guerras. SLIFT – E por que reclamas de ter comprado? MAULER – Sim. MAULER: Corromper assim. Nas semanas vindouras. Essas pessoas são gente de bem? MAULER – É gente com liquidez. MAULER: Tu compreenderás. deverás escoá-lo em um mercado que já não consegue absorver uma única lata.. indicado. eu comprei! O que eu fiz! Coloquei sobre minhas costas toda a carne desse mundo! Trôpego. . essas teorias de gabinete. na melhor hipótese. o Cartel te entregará mais cinqüenta mil toneladas a cinqüenta. então? Mauler sorri. Não. Slift. na Câmara. Sim. eu estou perdido! Esse é o meu fim. então. votarão contra as tarifas aduaneiras. os preços cairão a trinta.” SLIFT. Estão erradas.“Estamos em condições. Em quinze de novembro. os preços Subam? E nós acabaríamos. esmagado. O ladrão está perdido.22 Primeiro compraste ao Cartel um estoque de vinte mil toneladas de conservas. qual Atlas. rir-me deles. Cairei. a não ser que golpeie Y Se ele golpear. Ah! Meu caro Slift. Milhares de homens sangram Por causa deste imundo dinheiro. continuando a leitura . Receberás. Ah. SLIFT – E o que escreveram. safa-se. É coisa que também não se deveria fazer. sim! Eu comprei carne. hoje. eu comprei.. SLIFT: Tudo depende de quem escreve a carta. eu me escutei dizer: “Eu compro tudo”. SLIFT – E tu compraste! MAULER: Oh. mas Y o surpreende. eles me escrevem para comprar. Corromper ou abolir as tarifas. assim. Não é qualquer um que pode. Parece. eu não agi por razões vis. amanhã. acredito. mais notícias. apesar de tudo. Escuta: X comete um roubo. quando os preços estiverem em trinta. eu tenho a impressão De que nada de bom sairá daí. E uma vez lá.. Tu as compraste a cinqüenta mas. caro Pierpoint. SLIFT – Tu deves fazer o que? MAULER – Comprar carne. MAULER: Oh! Slift.

ele se dirige à porta da direita. Eu não compro mais nada. A operação é simples: seria preciso comprar Todo o gado que se encontrasse em pé. Eu fiz “A”. Também trouxe alguns trabalhadores que adorariam perguntar-lhe quando o senhor reabrirá a sua fábrica. JOANA. não foi bom. Devo comprar ainda todo o gado de Sírius? É como se alguém viesse dizer a Atlas Que não mais agüenta. Antes de ter saído dessa. eu estou comprando e compro ao preço do dia. para o outro lado. Slift? Não quero reencontrá-la e. Slift. Joana diante da porta da esquerda. MAULER – A outra saída onde é. SLIFT Tu que não querias mais comprar um chapéu.) Slift. Vão para lá. Vais comprar todo o gado de Illinois. Slift. em todo o Illinois. MAULER: É verdade. MAULER – Eu não compro. Que eles tirem. No interior da casa. Ele pede-vos dois minutos de reflexão. minha decisão está tomada. sobretudo. eu vou comprar. diante da porta da direita – Sai.. Senhor Mauler. tentará sair pela outra porta. (Ela ri. como quem captura um grilo. Quando ele me ouvir cantar aqui. Slift volta. Joana entra acompanhada dos criadores. Pierpoint! MAULER: Ah! É verdade. Quem me comprará. e diga-lhes que quero refletir dois minutos. SLIFT – Não deverias ter comprado. àquela gente que está com ela. Não. Toda a carne posta em conserva até hoje. grandes lucros! É verdade que o ganho seria apreciável. (Os criadores colocam-se diante da porta da direita. E nós somos. das fábricas paradas. que precisa bastante. (Ele calcula. Pois. Retumbar de tambores. Compra então o nosso gado! MAULER: Fecha a porta. depois. tiver cem dólares no bolso. SLIFT – Qual crime? MAULER: Um crime que eu não poderia cometer. dobrando-se sob o peso da terra: Saturno também precisa de apoio. aos criadores – Pierpoint Mauler está examinando vosso pedido. com um porco ou com um boi. todo esse gado? SLIFT – Vejo apenas Graham. Mas então.23 Da mesma maneira a carta – que está errada – Requer – para acertar – um crime desta ordem. para evitar me encontrar. Slift. e tudo o que cheire à banha eu compro também. Lembrá-los de Lennox. SLIFT. não sairemos daqui! MAULER – Tu dizes Graham? É verdade que ele precisa de gado? Saia. JOANA – Nós o faremos sair de sua toca. é verdade. Agora. diante da porta da esquerda – Enquanto os criadores não forem ajudados. Traga-me até a menor mancha de gordura. eu não quero meter o dedo neste negócio. Feliz se. OS CRIADORES. nem chapéu nem sapatos. a partir de hoje. quero paz em minh’alma.) Saia. no fim. mais de dez mil criadores que não sabem mais a qual santo rezar.. Nem a mim nem aos que me acompanham. Ele não gosta muito de me ver. Ele desenha um “A” na porta de um armário. de perto ou de longe. a cinqüenta. E por agora também não penso em reabrir a fábrica. Os enganados serão os criadores. eu compro. eu não comprarei! Eu que já carrego toda a carne desse mundo. . de seus delitos. Slift sai. SLIFT – Por aqui. E comprar-lhes tudo. Slift. Slift tragame tudo o que se pareça. Persuadir os criadores da oferta excessiva. Isto é o principal: Sumir com o gado.). Tu és o responsável por nossa desgraça. então. Mauler. é preciso que eu lhe fale da miséria dos criadores de Illinois.

Assim eu decidi. uma avareza completamente inexplicável. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Recolham cantando Os trocados dos órfãos E os trocados das viúvas. entre os quais dona Luckerniddle e Gloomb:) Vocês de novo? Vocês passam a vida aqui? O trabalho voltou nos matadouros! DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. (Os Chapéus Negros saem. não se esqueçam de varrer a escada. não é preciso que as vendas sejam feitas em seu nome. O dinheiro nos permitirá também pagar à nossa querida proprietária. . Eles não têm teto. Eles não são como os outros. Aos pobres:) Digam-me. caros ouvintes! Para resolver o delicado problema do financiamento nós até agora apelamos aos pobres e aos mais pobres. sábado próximo. dão certo. Ela sai. Eles não têm pão. Comandante dos Chapéus Negros. DONA MULBERRY – O que me agradaria muito. mas não fizeram nada. Alguém se equivoca: “A” é um erro. pelo que acaba de fazer. mas por enquanto não se preocupem. Em seguida comete “B”. dona Mulberry. sobretudo nas camadas inferiores da população. Mas Deus todo poderoso Achará os meios de alimentá-los! BISPA SNYDER. que são gente de bem. para vocês também haverá pão novamente. salvador do comércio! Eles entram na casa. SLIFT. e. se levantando – Que mixaria! Que mixaria! (Dirigindo-se a alguns pobres. Trabalham duro e vestem-se decentemente. DONA MULBERRY – E meu aluguel. Que dão medo de olhar. ao fundo. sai e se dirige aos criadores – Para salvar Illinois e impedir a ruína dos fazendeiros e criadores. Suas misérias são grandes. E eis que “A” e “B” tomados juntos. em nome de Deus. convidar em vosso nome as pessoas ricas e bem colocadas de Chicago. BISPA SNYDER – Não se aproximem muito da caixa! Ele fez sinal para que eles recuem até o fundo. proprietária do imóvel. tão errado quanto “A”. Entra dona Mulberry. GLOOMB – No começo falaram em reabri-los. JOANA. um grande golpe no ateísmo e no materialismo que reinam nesta cidade. minha cara dona Mulberry. Mas seu nome não deve ser mencionado. sobretudo. GLOOMB – Muitos já dizem que se não empregarem a violência não haverá trabalho para todos tão cedo. BISPA SNYDER – Agora. que eles nos ajudem a desferir. grita a eles – Digam ao senhor Mauler que os Chapéus Negros lhe agradecem. VII Os mercadores são expulsos do templo TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS Sentados em uma longa mesa. Pierpoint Mauler resolveu comprar todo o gado que se encontrar no mercado. pois eles sabem que as fábricas receberam encomendas. OS CRIADORES – Viva Pierpoint Mauler. Faça entrar os fazendeiros. que cada um volte alegremente às suas funções. Talvez isso tenha a ver com o fato de que eles não possuem nada. acabamos constatando que esses segmentos demonstraram. o que foi feito dele? BISPA SNYDER – Meus caros Chapéus Negros. os dispensados esperam ainda pacientemente na porta dos matadouros ou já começam a dar discursos revolucionários? DONA LUCKERNIDDLE – Desde ontem gritam bastante. o aluguel que ela tão gentilmente tem adiado. (Aos operários:) Quando os que compram gado e os que o vendem se acertarem. os Chapéus Negros esvaziam suas latas de ferro e contam ao óbolos das viúvas e dos órfãos. frente a Deus. Infelizmente.24 Dominado por seus sentimentos.

bispa. Slift. MEYERS – O que não será fácil. precisamos do gado. É nosso nervo vital! SLIFT. precisamos de sopa quente e música animada. mas que serão. portanto. minha cara. Deus é testemunha. os reis da carne nos escutarão mais facilmente. GRAHAM – Até tu? E Mauler também. E já citam vossos nomes. SLIFT – Quem poderia ser? GRAHAM. SLIFT – Mauler e eu não compramos um centavo sequer de gado. os Chapéus Negros.. após a sua morte.. menos Snyder. OS FABRICANTES – Por que falar em pagamento? BISPA SNYDER – O pagamento do qual falamos é feito após a morte. Porque já começam a dizer por todos os lados que a desgraça não cai do céu como a chuva. Bispa Snyder! Todos riem. sim! Vocês agora terão que achar alguém que faça a doação. tão certo quanto eu estou aqui. MEYERS. a Snyder – Todos pobretões. (Aos pobres:) Vocês não poderiam ao menos cortar lenha para nós? OS POBRES – Não há mais lenha. a Snyder – Quinhentos dólares? Isto é muito dinheiro! Quem vai pagar? SLIFT – Ah. ouvimos dizer que há nos matadouros cinqüenta mil pessoas sem trabalho. BISPA SNYDER – Podemos dar um jeito com setecentos e cinqüenta. que eles estão destinados ao sofrimento. recompensados por suas penas. Quinhentos dólares. . Meyers. Graham. a Snyder – O que querem de nós? GRAHAM. portanto. SLIFT – O essencial. então. Na mosca. a Snyder – Desembuche! Eles se sentam no banco dos fiéis. Graham. no púlpito – Nós. (Aos outros) Eles carecem desta quantia. estão acima da querela.. SLIFT. dando-lhe um soco na boca do estômago: Velho cão imundo! Vamos. BISPA SNYDER. Se vierem para cá tocados a pedradas. sem que ninguém saiba como. onde poderia estar todo o gado! GRAHAM – É o que eu me pergunto também: onde poderia estar? SLIFT – Eu me coloco a mesma questão.. Que tal. Entram os fabricantes de conservas: Cridle. a Meyers – Essa senhora não tem senso de humor. diremos a eles que a desgraça vem como a chuva. novo soco – Que tu achas que eles querem. mais então. e vá dizer ao Pepê Que afrouxe o laço. um dia. o Pepê está com o gado. na frente do palco – Então. Do lado de cá. não enrole.25 – Isso nos é favorável. GRAHAM. os Chapéus Negros. confesse Slift. são vocês que estão com o gado. vocês certamente precisam. sem dúvida? SLIFT – Sem dúvida. (Os fabricantes de conserva caem na gargalhada) E tudo isso por apenas oitocentos dólares por mês! GRAHAM – Não precisas de tanto. é saber de que lado vocês estão! Desse lado da barricada ou do outro? BISPA SNYDER – Os Chapéus Negros. OS FABRICANTES – E quanto querem pelo serviço? BISPA SNYDER – Oitocentos dólares por mês. tomar as fábricas em nossas mãos para que todos possam trabalhar e comer. Slift? (Slift simula um ar astucioso e exagera na mímica do ato de dar dinheiro).. não gosto disso. MEYERS.. quinhentos? GRAHAM – Quinhentos sim. Já é melhor. GRAHAM – Confesse. afirmando que sois vós os responsáveis pelo desemprego! Em breve eles dirão: queremos fazer como os bolcheviques. Slift! MEYERS. Senhor Slift. Nós também prometeremos a eles que os ricos serão punidos. senhora bispa. E que alguns entre eles começam a resmungar e a dizer: devemos nós mesmos cuidar do negócio. Nós. BISPA SNYDER MEYERS Há um cretino que razia o gado E que sabe bem que estamos comprometidos A entregar carne enlatada E que. MEYERS – Eu me pergunto. MEYERS – Setecentos e cinqüenta. mas que ela é provocada por aqueles que dela tiram vantagem.

e nessa atitude há alguma coisa que parece exploração. vós então vos borrareis todos. mas não fizeram nada. ajudo também aos de baixo. Dizem que ele come na tua mão. Haveis perdido então todo o respeito pelo que se parece humano? E ousais anda vir à casa de Deus porque possuem o vil metal? Sabe-se bem de onde haveis tirado esse ouro e como o haveis adquirido. supúnhamos que iriam retomar o trabalho. ela está espantada – O que fazem vocês aqui? DONA LUCKERNIDDLE. própria para jogar água na fervura. eu sei o que faço. entretanto. dizendo-me: ajudando aos de cima. pagaremos o aluguel dos Chapéus Negros por quatro anos.No começo falaram em reabri-los. se os consumidores não têm com o que pagar? JOANA – Em vossas gigantescas instalações e vossas fábricas detendes as ferramentas dessa gente: deveríeis ao menos permitir que eles as usassem. Mas o Bom Deus tem uma opinião muito elevada de Si mesmo para ser sempre a vossa babá para todo o serviço e para vir limpar vossas cavalariças. olhando os pobres. Esta neve os mata. hoje. mas também os esconde De todos os olhares. avançando: As vinte refeições foram comidas! Não te irrites. ao me veres aqui. É preciso que ele libere o gado. e eu. Sois indignos e eu vos expulso! Apesar de vosso dinheiro! . Estou pronto. Para que ninguém mais vá olhar de perto. Parece que podes fazê-lo agir ao teu gosto. JOANA. JOANA – Por que não trabalham? Não arranjei trabalho para vocês? DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. Mas agora. nós não queremos mais ver. De bom grado. JOANA. mal tendo sido saciada. Nós queremos reabrir nossas fábricas. Se fizeres isso por nós. e a religião vos parecerá de novo algo de muito bom. Os Chapéus negros aparecem na porta. senão ficam imobilizados. perdi demasiado tempo até sabêlo. aí estás! Nós não estamos muito contentes contigo! Tu não poderias dizer uma palavrinha de nossa parte à Mauler? Parece que tens sobre ele alguma influência. sem pena também Esqueci o que todos se apressam em esquecer Para rapidamente estar em paz com suas consciências. É preciso ser muito tonta! Na verdade. Basta que alguém diga: está acertado. avançando: Eu te conheço: tentei te convencer A trabalhar nas serras que me cortaram o braço. para fazer pior. gritando alto a Joana – Ah. aos fabricantes: Esses pobres continuam a esperar trabalho? Silêncio dos fabricantes Eu que pensava que eles estavam arranjados! Faz já oito dias que neva nas costas deles. comprou-vos conservas Por minha solicitação! E não reabristes ainda? OS TRÊS – Está correto. Dirigindo-se aos fabricantes: Mauler. GLOOMB. empunharem um porrete para bater em vossas cabeça. Saí. É o seguinte: alguém sumiu com o gado do mercado de uma maneira que somos obrigados a ficar de olho em Mauler. E eu.) Saí! Quereis transformar a casa de Deus em um estábulo! Saí! Nada tendes a fazer aqui! Cabeças como as vossas. senão lançar-me-ei sobre vós e golpeá-los-ei a cabeça. e que os operários poderiam comprar a carne. da tua vista sairia. Se essas pobres criaturas. e rápido. quem comerá a carne que nós compramos? E para que nós a compramos. (Joana sai atrás deles com o mastro de uma bandeira. Mas cruel é a fome: Renasce sempre. SLIFT – Mas querem antes estrangular os agricultores! OS TRÊS – Como abater gado que não existe? SLIFT – Quando Mauler e eu compramos a carne de vocês. que ela usa como se fosse um porrete. qualquer um que queira ajudar aos pobres deve ajudá-los a protegerem-se de vós.26 Entra Joana SLIFT – Aí está a nossa Santa Joana da Bolsa de Carnes! OS TRÊS. Não me detenham. indo de um lado a outro. GLOOMB . que haveis atormentado ao extremo. pois.

eu lhes trarei a sopa. Serve-lhes água de chuva e belas palavras Pois do céu não lhes vem mais do que neve E não misericórdia! A humildade. Grupos inimigos irreconciliáveis. DONA MULBERRY. De qualquer maneira. tu a ignoras E cedes a teus impulsos! É mesmo muito fácil Caçar esses impuros com um gesto cheio de orgulho. não temos mais um centavo. Trazendo-vos totalmente convertido. DONA MULBERRY — Sim. então. Homem de boa fé e destemido. Nem outra vez cruzar o limiar dessa querida casa. dona Mulberry – que ele encontrou sobre a terra. Quanto ao pão que precisamos comer. Ela carrega uma mala pequena. Nós iremos viver dias terríveis. Mas como deixar-se levar por isso? (À dona Luckerniddle e a Gloomb:) Sentem-se lá no fundo. OS TRÊS Joana sai.27 – Está bem! Mas conosco. Se o Bom Deus não paga o seu aluguel. Tu que planas mais alto que as questões terrenas! Parta sob a chuva. correndo sai atrás deles – Fiquem senhores. Mesmo que ele os torne surdos. . é muito justo que pague. BISPA SNYDER: Infeliz ignorante! Como não vês que operários e patrões. Eu não desejo Colocar novamente o chapéu e o uniforme negro. é bem disso que se trata! Falaste a palavra exata! Se o Bom Deus paga. JOANA Irei ver o rico Mauler. JOANA. vão-se irrevogavelmente quarenta meses de aluguel. BISPA SNYDER. ela não representa ninguém. pois esses que te seguem não são mais do que escória e refugo. É mister que haja um Justo entre eles! Ela sai. de um ao outro. Fazes-te de difícil e és muito curiosa Para saber como é feito. Mesmo que o dinheiro os carcoma como um câncer Devorando o que seu resto tem de humano. Doravante farás parte dela. no coração da tormenta. Povoada de cânticos e palavras que despertam. prisioneiros Em uma torre de marfim. não tem nenhum mandato! É apenas uma mulher que perdeu a razão! Ela está despedida! Ela fará pelos senhores tudo o que desejarem. Enfrentam-se como gigantes? Vá. de volta Convida a tua casa. entrando — Vocês já arranjaram o dinheiro? BISPA SNYDER – Deus encontrará logo o meio de pagar o abrigo bastante modesto – eu disse modesto. ah. Mas se ele não paga. e a partir de sábado à noite. tudo bem. entretanto. tudo mal. BISPA SNYDER. está bem. Anda cuidar de tua vida. Enquanto não tiver feito de Mauler um dos nossos. terá de se mudar. Eu pedirei sua ajuda. Mediadora inútil e que cava a própria cova. agora. aos Chapéus Negros – O que acabo de fazer certamente foi pouco habilidoso. Queres. onde não escutam mais Os pedidos de salvação do resto dos humanos. Vá sob a neve e continue intransigente! JOANA – Quer dizer que devo tirar meu uniforme? BISPA SNYDER – Tira o uniforme e arruma tua bagagem! Sai desta casa e livra-nos da escória que arrebanhaste. comê-lo também! Vá-te então. modestamente. bispa Snyder? Ela sai. fracos. como jamais viu antes o mercado do gado! Saída dos fabricantes de conservas. não se vão. na ponta dos pés. esses pobres. ela retorna vestida como uma jovem camponesa. oferece teus bons préstimos. Por causa do aluguel.

JOANA – Bom dia. Assemelhem-se a bois ou porcos. Eles precisam comprar de nós. Então eu disse a mim mesma: vá dar uma olhada no que se passa com o senhor Mauler. Ele sai. Deixo minhas coisas nesse canto. mesmo nas pequenas coisa. SLIFT. no seu escritório? Sempre achei que o senhor devia possuir um dos grandes palácios de Chicago (Mauler se cala). e cada porco Que eles precisam nos entregar. senhor Mauler. Em busca de animais que. Desde Que ela nos expulsou do Templo. Ela não tem medo de nada. MAULER: Agora. Terão de pagar mais caro. Slift. SLIFT: Estou feliz. Serão obrigados a comprar a carne Que devem nos entregar. Não se fala mais dela. de ser cuidadoso. Faça subir. MAULER: Seria preciso esfolar esta cidade maldita E ensinar-lhes o seu ofício A essa gente. Slift. e de que. E todos aqueles que como ele. meu caro Slift. se eu estivesse lá. Neste mercado de Chicago Todos os bois que se escutam mugir São nossos bois. onde enfiaremos o pé Unicamente para ver a marca que deixa. SLIFT: E tua Joana? Algo de novo? Um boato corre na bolsa: dizem Que te deitaste com ela. Não pretendo soltar um só grama de carne A fim de arrancar-lhes mesmo a pele desta vez: É a minha natureza quem exige. queriam esperar Que o preço do gado caísse o mais baixo possível. Não se possa aceitar gente da minha laia. em sua casa. senhor Mauler. por um momento.28 VIII Discurso de Pierpoint Mauler sobre a absoluta necessidade do capitalismo e da religião ESCRITÓRIO DE MAULER MAULER: MAULER: Chegou enfim o dia em que nosso caro Graham. desta vez. É um belo sofá que o senhor tem aqui. e que nem mesmo está dobrado direito? Diga-me: o senhor dorme aqui mesmo. Agora que não tenho mais o trabalho fatigante da missão. que tu tenhas superado Teus recentes acessos de fraqueza. Deixar que gritem: “É um crime!” Entra Joana. Mas o senhor. Mas o senhor tem razão. Eu desmenti. Gostei muito de vê-la expulsá-los do Templo. carregando uma mala. Não é fácil encontrá-lo. de perto ou de longe. E os preços Subirão ainda mais. dá rédea solta a teus corretores! Deixa-os correr o mercado. Dir-se-ia Que Chicago a engoliu Em sua negra e ruidosa bruma. É que eu não estou mais com os Chapéus Negros. os preços a oitenta. posso me interessar mais por cada homem em particular. Gosto nela deste traço. Houve discrepâncias entre nós. realmente. A mim também Teria expulsado. Senhor . Mauler. E na nossa mão é mais caro. Graham e companhia ficarão então parecidos À lama. mas por que o lençol em cima. Vou ver como eles compram.

Ele traz comida a ela em uma bandeja. eu lamento Que o trabalho ainda demore nos matadouros. Vou agora mesmo à Bolsa para procurar o dinheiro. eu buscarei o dinheiro a qualquer preço. sim. Corra. quando nós expulsamos os ricos de nosso templo. aos fabricantes. Eis o desafio. JOANA – Sim. de pé. Eu também. Joana pára de comer. Nesta história dos cinqüenta mil trabalhadores. JOANA – Os operários continuam esperando nos matadouros? MAULER Por que és contra o dinheiro? E por que então. Eles são cinqüenta mil Que permanecem lá. Quando não o tens. Confirme que foi por teus conselhos Que eu. MAULER – Não te inquietes. é lógico. e aos Chapéus Negros é preciso auxiliar. Mas nesse negócio. Eu irei à Bolsa encontrar o dinheiro que lhes falta. Daqui até sábado. Eu te encontro bastante mudada. É Mauler quem vai dá-lo. E como eu sei que sois pobres E que querem privar-vos Do teto que vos abriga. senhor Mauler! MAULER Tome. Um trabalho ruim. ainda por cima.. Mesmo que deva cortar na carne. Eu quero dar-vos alguma coisa Para provar-vos a bondade de meu coração. MAULER – Vá dizer-lhes que o dinheiro está chegando. Toma. Aqui está por escrito.. MAULER – E do que tens vivido? (Silêncio de Joana) De nada. a proprietária. senhor Mauler. Mas eu o encontrarei. MAULER – . Trata-se de saber Se eu serei o melhor de minha classe Ou se tomarei eu mesmo. mesmo à noite. MAULER – Ah! E agora os Chapéus Negros estão em uma situação financeira difícil? JOANA – Sim. a coisa não andou. que vive do aluguel. Uma vez mais. Não pude dar-lhes trabalho rapidamente. vá dizer-lhes isso. Ela começa a comer avidamente. está caro.. encomendei a carne.. Que meu comércio não é antinatural. Queres? Joana observa a comida. Estás de acordo? JOANA – Sim. não querem partir. e que agi bem. o dinheiro para vocês eu terei.. Há quanto tempo não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Oito dias. ser ou não ser. naqueles pátios imensos. não como eu queria.. E que. nos deu prazo só até o próximo domingo. O escuro caminho que leva aos matadouros. não faço mais parte. MAULER: Tão mudada! Apenas oito dias! Onde ela esteve? O que ela viu? E por que essas rugas em torno dos lábios? Esta cidade de onde ela saiu. Assim como aos criadores. Mauler vai até o fundo do palco e chora. Teria adorado ouvir-te dizer Que o que eu faço está bem. JOANA – . tenho boas esperanças de que sua consciência esteja em paz nesse momento! MAULER – Então não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Não. Eu não conheço. Mas contigo não será assim. o que me agradou muito e me pareceu justo. O dinheiro. Eu confesso cruamente.29 Mauler. senhor Mauler. eu não comerei. É por ti que o faço. JOANA – Senhor Mauler. arrancar a pele desta cidade. é claro... na minha vez. E foi por isso que eu me disse: irei ver o senhor Mauler. muda logo a tua cara? .

. Quero saber. Ainda que dia após dia se precise reconstruir O que dia após dia é destruído. E se vós não precisais se expor aos sacrifícios. Fazendo Dele a única salvação. de cima a baixo. sem dúvida. sob chuva e frio. Mas pensa na realidade. Concepção inaudita à qual vós mesmos. durmo mal à noite. O dinheiro é um meio De melhorar um pouco a vida. Por isso vós deveis nos ajudar em nossa obra. Em uma palavra é preciso que vós Restabeleçam Deus em sua glória. isso será suficiente. JOANA Senhor Mauler. Tão penosa de construir. Ao menos a vida de alguns. Mas mesmo assim verdade: Sobre a terra nada há de sólido. Eu não compreendo E nem quero compreender. Que o gênero humano está entregue. Modificar por inteiro o plano do edifício. Sim. Apanhe o que te dão. Desde que existem sobre a terra. ou quase. sob gemidos. Esse sistema é o único que permite arrancar O que pode ser arrancado dos rigores desse mundo. Se eu quisesse me retirar. Mas saiba com qual objetivo foi dado! Tome isso! Saiba que representa O aluguel de quatro anos. Mas eu faço parte daqueles Para quem essa não é uma ajuda. destruído na mesma hora. Ou então seria preciso mudar tudo. Pouco agradável. Isso que o senhor falou. eu que nutro Poucas simpatias pela ordem do mundo. Não desejais.O que nós não vos exigiremos de nenhuma forma – Devem dizer ao menos que eles são justificados. Não enchas a cabeça de falsas idéias. nem Deus. nem nós tampouco: Não seríamos necessários. Eu sei. Por Ele batendo os tambores. E incessantemente construída. Como esses bobos para os quais o dinheiro Tem não sei qual problema. Obra imensa. As coisas não deixariam de seguir o seu curso de antes. Atribuir ao homem um lugar totalmente diferente.30 O que pensas tu do dinheiro. MAULER . Pouco ou muito segundo o caso. Ela se levanta. eu deveria estar feliz De ver que alguém vem em ajuda a Deus. Olha também como o mundo é feito! Que edifício! Obra dos homens. Que seria suprimido por falta de utilidade. Na banal verdade. eu concordo. Assim. Para que Ele finque pé nas favelas E para que Sua voz retumbe nos matadouros. Eis porque esta obra é sempre defendida Pelos melhores entre os homens. Eu seria varrido. E que. Ele alcança o papel a Joana. malgrado os sacrifícios. aliás. Seria como um mosquito Tentando se opor a derrubada de uma montanha. É à sorte. Daqueles a quem ninguém oferece nada. veja bem. diga-me.

sem uma palavra. Cercado de todos os lados por enormes edifícios E tão pequeno que a sombra de um arbusto O teria encoberto totalmente. E o senhor. uma palavra sem importância. por toda a parte. com aqueles que esperam. MAULER Esta noite. Ficarei lá até que as portas sejam reabertas. Mauler. em um pequeno campo. desfilando. Sobre ela que tu conheces. E eu. Que alguém gritou em algum lugar. Pois esta vida sem eira nem beira não te serve. Há sete dias: Diante de mim. Eu serei como eles sem trabalho. Jogados aos matadouros e de tudo ignorantes. JOANA Se os Chapéus Negros quiserem o seu dinheiro.31 Leva aos Chapéus Negros este dinheiro E poderás ficar com eles. E o trabalho deles também. Chicago! Vós também Lá estavam. afluíam inúmeros cortejos. creia-me. Arranjando para não ver esses condenados. e então eu me vi: À vossa frente. Depois eu gritei palavras em tom belicoso Em uma língua para mim mesma desconhecida. Eu marchava. E isso é muito bom. com passos guerreiros. levanta-te. Quantos eram eles? Eu não sei. E se nevar. e outras familiares. Pelo menos não honestamente. Vai à janela e repara se neva. pulsando vida. silhueta múltipla. Eu comerei esta neve. Mas eu me sentarei Em frente aos matadouros. Se for um punhado de neve o que lhes dão. E se não houver trabalho. Eles fazem muita questão do dinheiro. A cada hora. em todo o caso. Ao mesmo tempo. Vi depois cortejos E ruas desconhecidas. 1. Que o campo inflou-se e uma cascata humana Inteira ficou pendurada em suas elevadas bordas. BAIRRO DOS MATADOUROS Joana. a fronte ensangüentada. Eles formavam uma massa tão densa. A tempestade de neve. Mais numerosos. Jovem e velha. E então uma palavra. Eu também não tenho dinheiro E nem uma maneira de ganhá-lo de outro modo. Fez esta massa começar a fluir. Saberás que neva sobre ela. JOANA Terceira descida de Joana às profundezas. Ela permaneceu suspensa por um instante. se o senhor quiser me ver Me verá nos matadouros. que vive da pobreza. Notei uma massa humana. E nada comerei além do que eles comem. Ela sai. soluçando e jurando Logo fora de mim! Virtude e terror confundidos! . Sem poder suportar a visão dos pobres Que os julga sem conhecê-los. Que o aceitem. do que os pardais Que se poderia colocar em tal lugar. Perto dela Gloomb e dona Luckerniddle. No futuro. marchava à sua frente. IX Escutai o que eu sonhei. eu quero fazê-lo.

Ninguém sabe quem foi. a preço vil. BOLSA DE CARNES MAULER. Hoje eu compreendo o seu sentido: Nós deixaremos os matadouros antes do raiar do dia. Para aí mostrar a todos. Um pouco caro. Ocasionando imensas destruições. eu ignoro. sem mais delongas. mas preciso das conservas. abandonando este lugar insuportável Por qualquer outro.. nós agora estaríamos comendo a nossa sopa. MAULER: Sendo grande a demanda De conserva e de vianda E sendo os preços aceitáveis. mas existe. DONA LUCKERNIDDLE – Se ela tivesse calado um pouco a boca lá nos Chapéus Negros. Influenciando o curso dos planetas distantes. e pior. a preço vil. transparentes. E assim andava o cortejo. UM PEQUENO BAR NO BAIRRO DOS MATADOUROS Desgraça! As tarifas caíram! E nós não temos mais carne para vender! Ela já está vendida. a senhora entendeu esta história? Eu não. que eu saiba. Eu andava no mesmo passo que o cortejo. Habitando em lugar algum. Assim foi o meu sonho. Graham. libere-nos de nossos compromissos! MAULER: Estou desolado.32 Tudo o que eu pisava. nas praças públicas. e pior. Senhores. éramos inatingíveis. GLOOMB – Dona Luckerniddle. Eu exijo que me entreguem. é verdade. Rendidos pela fome. a cidade deles.. GRAHAM: Ao preço antigo? MAULER: Como combinado. ao abrigo dos ataques inimigos. Precisamos comprar e os preços aumentam! . A exata extensão de nossa miséria. OS CRIADORES aos fabricantes de conservas: Meus amigos de Nova Iorque me escreveram Que as tarifas aduaneiras no Sul Acabam de ser derrubadas. Envolvida pela neve. Mauler. Habituados ao sofrimento. modificava. se eu me lembro direito Daquela hora em que perdi um pouco o juízo. não nos podiam alvejar. O que acontecerá. Comprem-no! OS FABRICANTES: Comprar gado nestes dias! Que horror! 3. E com a aurora chegaremos a Chicago. Há muito gado. Todas as conservas Previstas no contrato. estávamos fora de alcance. E também perturbando o aspecto familiar de ruas bem próximas. Faremos um chamado a todo o ser que pareça humano. OS FABRICANTES Desgraça! As tarifas caíram E nós não temos mais bois para vender! Eles já estão vendidos. bem e aquecidos! 2. Oitenta mil toneladas. OS FABRICANTES: Mas como nós poderemos Comprar gado com preços em alta? Alguém promoveu uma razia.

meu irmão. Nosso Senhor. por favor! OS CRIADORES: Não sobrou mais nada! Tudo o que podia ser vendido . à dona. UMA MULHER Por que vir aqui fazer escândalo Com tamanho frio! E se pudessem ao menos se calar! Com muito custo eu consigo agora Suportar as palavras que há pouco amava E que me soavam agradáveis. faz desesperadamente sinais para que saiam. não a violência. eu esperava que eles fossem ao menos nos dar um prato de sopa. JOANA – Mas não são os tais que ficam incitando ao crime? O TRABALHADOR – Não. reina a paz. triste. hoje (eles não estão escutando nada!) basta que eu pense muito em Jesus.Aleluia! (Jackeline faz circular a cuia de esmolas. Luckerniddle – De onde a senhora os conhece? DONA LUCKERNIDDLE – No tempo em que eu não me fiava em gente como você eu ia bastante até eles. por causa do meu marido. e o velho Adão dentro de mim não tinha outro desejo do que comer e beber. Silêncio. dona Swingburn? A MULHER – A sua música era bonita. (Isso não serve para nada!). soldado dos Chapéus Negros: .(Vocês acham que isso serve para alguma coisa?) Eu também. à margem do caminho. mas ninguém contribui) Aleluia! JOANA – Deixe-os. que nos salvou na dor. Bem que eu gostaria de estar com eles! DONA LUCKERNIDDLE – A música era bonitinha! GLOOMB – Bonita e curta. vinde logo! Aleluia! Uma jovem dos Chapéus Negros dirige-se aos trabalhadores. tu também. Discursos. surpreendendo-se pela ingenuidade – É sério? A senhora acreditou nisso? DONA LUCKERNIDDLE – Eu também.33 Trabalhadores e trabalhadoras. Onde está Jesus. os comunistas. tenho apenas sede da palavra de Jesus. já ouvi demais. do pão de Deus? Grande é nossa alegria. o amor. estava um dia sentada. eu prefiro os atos. e eu não tenho mais fome e nem sede. Intercala sua pregação com observações aos companheiros. durante a cena. que alguma voz. apesar de todas as nossas más ações. UM TRABALHADOR. que um resto de pudor lhes diga: Aqui reinam a neve e o vento: calem-se! 4. Ah. depois de entoar um cântico apressadamente: Por que não provar. mas eles traziam uma panela. mas então eu encontrei Nosso Senhor Jesus e fez-se em meu coração uma grande luz e provei uma grande alegria. como vocês. ente os quais Joana. curta bondade. A MULHER – Por que não nos procuram para tentar nos converter? GLOOMB. JOANA. Se algumas pessoas soubessem calar a boca eu saberia onde procurar abrigo esta noite. JACKELINE. não o ódio. tenente dos Chapéus Negros. MARTHA. Eles precisam fazer isso para conseguir um pouco de calor e de comida. fazendo o gesto de contar dinheiro – A senhora consegue manter a marmita fervendo. JOANA – Então não há ninguém que tente fazer alguma coisa? O TRABALHADOR – Sim. grande o nosso regozijo. Vinde a ele. Pois nós encontramos Jesus. Um destacamento dos Chapéus Negros chega. minhas irmãs. Joana se levanta e. Nosso Senhor. JOANA – Onde eles estão? GLOOMB – A dona Luckerniddle pode lhe dizer. DONA LUCKERNIDDLE – Eles são boas pessoas. BOLSA DE CARNES OS FABRICANTES: Nós compramos qualquer gado! Bezerros! Gado gordo! Vitelos! Bois! Porcos! Façam as suas ofertas. GLOOMB – Bondade curta. (É tudo absolutamente inútil!) Eu lhes digo: ajudem-nos a manter a marmita fervendo! OS CHAPÉUS NEGROS . meus irmão.

Os trabalhadores das grandes empresas da cidade nos prometeram declarar. eu não tenho medo. Se alguém vier perturbar a reunião. OUTRO LUGAR NOS MATADOUROS Nos cartazes se lê: “Solidariedade com os trabalhadores sob lockout!” “Desencadeiem a Greve Geral”. Chegada de Joana. eu as quero agora. UM DIRIGENTE OPERÁRIO – Escutem todos: até agora os magnatas da carne não manifestaram a menor intenção de reabrir as suas fábricas. Mesmo que tenhas que te enfiar nelas! Eu vos ensinarei como se faz esse comércio! Doravante. mesmo só uma pata. Ele vai falar com Slift. Deixe-os totalmente à míngua. É claro que é! Era o que dizíamos! O cão! Ele nos obriga a entregar-lhe as latas E é ele quem compra o gado! Somos então obrigados a comprar de Mauler A carne que deveremos colocar em suas latas! Carniceiro sujo! Tome então a nossa carne. Nós. Graham! As latas que me deves. de Chicago a Illinois. uma parte de nós perderá seu emprego nos matadouros e os outros nunca recuperarão o salário anterior. UM CRIADOR: Oitocentos bois de Kentucky a quatrocentos. Já que não há demanda. OS CRIADORES – Vendido. dois homens da direção dos sindicatos discutem com um grupo de operários. Agora eu quero sessenta! E tenham o cuidado De não esquecer as minhas latas! 5. Qualquer vitelo. sabemos agora de uma coisa: se tudo andar como querem os industriais da carne. precisamos de um prazo. eu acertarei as contas com ele! MAULER: Ah! É assim. se são os senhores os bois.. Na minha opinião é preciso fazer alguma coisa imediatamente. o apetite desperta! GRAHAM. OS FABRICANTES: Nem pensar! Vocês estão loucos? Quatrocentos! SLIFT – Eu compro. para começar Quinhentos bois a cinqüenta e seis. e caro! Ofereço. OS FABRICANTES: É Mauler.. OS CRIADORES: Oitocentos bois a quatrocentos para Sullivan Slift. se ela for justa. mesmo nos grandes. Aprendi a falar em lugares públicos e em auditórios. no mais tardar depois de amanhã. Os senhores devem me entregar a carne. É impossível encontrar um boi em Chicago. eu tenho propostas a fazer. Os fabricantes se precipitam sobre ele. OS FABRICANTES – Vendido a quem? Entra Mauler. MAULER: Atenham-se à nossa combinação. precipitando-se sobre Mauler: É preciso liquidá-lo. Vendo-os. Não havendo ninguém que precise de carne. Corte você mesmo! MAULER: Por que se surpreendem. Quatrocentos.34 Foi vendido. Além disso. os operários. OS FABRICANTES: Mais nada? E nas estações? Estão abarrotadas de gado. Em frente a um galpão. De hoje até amanhã é certo que os patrões vão lançar todo o tipo de falsas notícias: eles dirão que . Terá de ser comprado de mim. e acho que sou capaz de defender bem uma causa. a greve geral. Mauler. JOANA – São vocês os que defendem a causa dos desempregados? Eu posso ajudá-los. Silêncio .

etc. O operário apanha a carta e sai. não é? DONA LUCKERNIDDLE – Honesta ela é. ouve-se gritar ao fundo o nome das empresas que suspenderam seus pagamentos: “Encerram os pagamentos. Ninguém suspeitaria que ela trabalha para nós. Esconda essa em seu casaco.. galpão número cinco. pau neles! OS FABRICANTES – Queremos dois mil bois a setenta. UM OPERÁRIO – Pode ser uma espiã. eu conheço o pessoal. O DIRIGENTE OPERÁRIO.35 tudo está arranjado e que a greve geral não acontecerá. as centrais elétricas e o serviço de águas entrarão em greve em solidariedade a nós. pois o endereço dado pelos camaradas das usinas Cridle para o encontro está muito vigiado. Elas devem ser entregues às dez horas. – Eu já vendi jornais na rua Vinte e Quatro. O contrato assinado há pouco entre nós: Eu queria. Ela é honesta. em diversos pontos dos matadouros. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Não. essa noite. A carta é para eles. SLIFT. MAULER: Os senhores não respeitaram. Ela é sua conhecida. Como se rede já não houvesse: De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. Um operário apanha a carta e sai. Isso é bom. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua Três. Nós não temos ninguém para passar despercebido como ela. assegurar o trabalho . À Joana: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. JOANA 6. e vá esperar os responsáveis defronte à cantina da senhora Schmittens. É do Exército da Salvação e os policiais a conhecem bem. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – E quem te garante que ela vai levar a carta que lhe entregarmos? O DIRIGENTE OPERÁRIO – Ninguém.” OS FABRICANTES – Nós não podemos mais agüentar. a Mauler. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Pela nossa causa? Diga-me: ela não é também a sua? JOANA – Não é no interesse geral que os industriais jogam. os preços estão a mais de setenta! OS CORRETORES – Os cabeçudos não compram. aos responsáveis que esperam nossa orientação.. UM OUTRO OPERÁRIO – Dê-me a carta para as usinas Graham. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E para quem trabalhava? JOANA – Eu era ambulante. em frente ao edifício da Westinghouse! (À Joana) Quem é você? JOANA – Fui mandada embora do emprego. E poderíamos até dizer que esta pobreza seja obra deles. BOLSA DE CARNES Durante toda esta cena. Por este buraco fogem todos os peixes. Tudo acontece como se a miséria dos pobres fosse útil aos ricos. dona Luckerniddle? (Dona Luckerniddle faz sinal que sim). (os operários riem alto) Mas é desumano! E dizendo isso eu penso também em gente como Mauler! (os operários caem na gargalhada) Por que se riem? Acho que vocês estão errados em zombar e em acreditar sem provas que alguém como Mauler não é um ser humano. com tal medida. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua vinte e seis. Eu luto de todo o coração pela causa de vocês. estou vendo. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E em que trabalhava? JOANA – Eu vendia um jornal. eu sei quem ela é.. Essas cartas anunciam que a usina de gás. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Não é sem provas. Jack. dessa maneira. pergunte-lhes se são das usinas Cridle. Você pode tranqüilamente entregar-lhe a carta. na esquina do Parque Michigan. Quando você vir chegarem três operários com cara de quem procura alguém. Eu não sou uma espiã. encostado em uma coluna – Faça subir. Meyers e Cia. dando a carta à Joana – Vá até a fábrica Graham. tanta gente na rua.

GRAHAM: Que seja. MAULER. Vá só até oitenta e depois abaixe o preço. sim.36 Aos operários e agora me dizem Que eles ainda esperam em frente aos matadouros. voltando ao grupo: Este negócio. Se perguntasse por uma Joana. não me diverte mais. SLIFT – A oitenta. se apresentariam dez ou talvez cem. o vento abafa as palavras. A multidão anônima e sem rosto continua sentada lá. a Slift – Onde está o pessoal que eu mandei para os matadouros? SLIFT – Ali está um. Isso basta. tudo a oitenta. Senão pensarão ainda Que fomos nós que exigimos que atirassem. eu me pego esgoelando-os E não tenho tanto prazer quanto esperava. Ainda por cima está escuro. esperando. nós não podemos pagar oitenta a Mauler pelo gado. é o fim! SLIFT: Quinhentos a setenta e sete para Graham. MEYERS – Mil e quinhentos a oitenta. dizes. MAULER – Então. MAULER: Atiram? Contra quem? Mas eu sei bem. A carne sumiu de vez do mercado! Quinhentos bois a setenta e cinco! MAULER: Não seria conveniente. perdido por perdido. MAULER. Ponha os pingos nos “is”. pois. entreguem-me! GRAHAM: Nada poderíamos ter feito. Sem contar que a polícia está evacuando os matadouros e que começa a atirar. A encontraste? O SEGURANÇA – Não. SLIFT: Faça subir. desembucha! O primeiro segurança faz seu relatório. Mauler. por telefone. OS FABRICANTES – Mauler paga cinqüenta pelas conservas. Mas para nós. Slift. senhor. Eles já não agüentam. Slift. Impossível. MEYERS – Cinco mil a oitenta! Assassino! MAULER. Acima disso. Fala em meu nome. que voltou para perto da coluna – Slift. Quando se grita qualquer coisa. à procura de um parente que não encontram. São centenas de milhares nos matadouros. O estranho é que aqui não se ouve nada. No canto em que trabalham os sindicatos reina uma grande efervescência! MAULER – Quem trabalha? Os sindicatos? E a polícia os deixa incitar os operários? Meu Deus! Liga imediatamente para a polícia. O primeiro segurança sai. Eles ainda agüentam! Quinhentos bois a setenta e sete. Ceda. é claro. eu não me sinto muito bem. de achá-la? E atiram? Encontra o Jim. É preciso que a cidade Possa voltar a respirar. Que sangrem. O segundo segurança sai. Pergunta para que nós pagamos impostos! Manda arrebentar a cabeça dos líderes. Mas os senhores se lamentarão por isso. Ele pode ir longe demais. Diga-lhe para que não me procure. são incontáveis. Além disso. E tenho outras preocupações! Veja bem. só quinhentos. O SEGURANÇA – As multidões. As conservas que comprei. Vou soltar a carne e deixá-los partir. Slift. mas que não rebentem. Mil a setenta e sete. Ele repara no segundo segurança. eu não vi ninguém com o uniforme dos Chapéus Negros. subir muito mais. é impossível ouvir uma voz isolada: há muita gente correndo de todos os lados. Pois a queda deles Será a nossa. .

SLIFT: Mentirosos! Agora serei eu que vos ensinarei A vender carne enlatada Sem ter nem mesmo um quilo! E cinco mil bois a noventa e cinco! Urros. Nesse dia sim. Nós publicamos isso com manchete de oito colunas.” JOANA – Eu não falei nada disso. nós ouvimos. JORNALISTAS – O que há de novo. Eles ainda agüentam. toda a Chicago comparte seus sentimentos. Tu me conheces. JOANA – Eu não faço mais parte dos Chapéus Negros. Aja conforme o meu espírito. a não ser nós mesmos E a ninguém podemos apelar OS JORNALISTAS . – Olá! A senhorita é Joana Dark. Mauler? MAULER. OS JORNALISTAS – Veja bem. O HOMEM. eles abrirão. apontando para Joana – Aqui está. Mas quando a aflição for tremenda. OS TRABALHADORES. SLIFT – Quinhentos bois a noventa! OS FABRICANTES: Mauler. Mas nós não queremos incomodá-la e iremos ficar ali. em segundo plano. Virão três pessoas. Não vão embora. afastando-se – É preciso que façam chegar aos operários que eu acabo de ceder gado às fábricas. Eles se sentam. serei eu quem fará subir. Queria vender a oitenta e cinco. Eles não abrirão as fábricas! Eles esperarão os lucros aumentarem! E a sua resposta sairá Dos canhões e das metralhadoras! Ninguém poderá nos ajudar. 7. esperem a resposta! CORO OPOSTO. nos matadouros Enquanto a miséria não chegar ao máximo. ALGUÉM – Porque estás aqui? JOANA – Tenho que entregar uma carta. Então agora existe gado. Eu não posso mais. Continue então com o negócio. (Joana vira-lhes as costas. Um homem os guia. a jovem pregadora dos Chapéus Negros? JOANA – Não. Eles terão de nos responder. senhorita Dark. Entre eles. no fundo. Slift não tem ordem para isso. Joana Dark. também em segundo plano: É mentira: por maior que seja a miséria. (a Joana) Esses são jornalistas. pode ler. que a opinião pública está do seu lado. não mais. OS JORNALISTAS – Podemos lhe assegurar.37 – Nem pensar. Slift. É um enorme sucesso para os Chapéus Negros. E se quiseres abrandar. Eles não abrirão as fábricas. Prefiro abandonar tudo Do que ser a causa de uma desgraça! Oitenta e cinco. declara: Deus está solidário com os operários das fábricas de conservas. SLIFT MAULER Eu preciso de ar fresco. Para nós a senhorita faz parte. Joana. Veja. JOANA – Eu queria que vocês fossem embora. Os jornalistas lêem em voz alta) “A Madona dos matadouros. De outra forma isso terminaria em violência. Saindo ele encontra jornalistas. NOS MATADOUROS Muita gente esperando. isso não é possível. Aja conforme o meu espírito. OS JORNALISTAS – No escritório do senhor Mauler nos disseram que a senhorita jurou não sair dos matadouros enquanto as fábricas não fossem reabertas. Chega um grupo de jornalistas. Fora uns poucos especuladores sem escrúpulos. a alguma distância.

A mim me esperam. Não fazia tanto frio em meu sonho. UM TRABALHADOR. um emprego que me assegurava O pão de cada dia. Quando eu cheguei aqui. Vós. eu não tenho o direito de ir. tenho frio. ignorar aonde te leva a vida. que de resto Já é a muito conhecido. A qual logo se nota claramente Que serve de gangorra Todo o sistema é como uma balança Na qual os dois lados dependem um do outro. Os jornalistas. Quer um gole de whisky? (Joana bebe) Ei. isso é normal. não é? JOANA – A senhora também acha. que acabaram de receber uma informação. A MULHER – Socorro. Tenho fome e isso é banal. eu quero ir embora. com um vasto plano.. dir-se-ia que é um caminho. imbecil!. chega! Você é boa mesmo de copo. dê-me meu pano. Entre os que estão em cima e os que estão embaixo. confesso. . Empunhar a bandeira e bater o tambor. que nada tendes para comer. E um ambiente. Vós todos. desde fora. E falar Daquele que mora lá em cima. Mas eu posso. o que deixei foi uma vocação.. Eu não tinha sonhado que pudesse fazer tanto frio! Se eu tivesse pelo menos o meu agasalho! Ah! É fácil para vós passar fome. Já basta. ao qual estava acostumada. Algo de obscuro. ela vai me matar. dona Luckerniddle? DONA LUCKERNIDDLE – Sim é verdade. levantam-se e dirigem-se ao fundo. O TRABALHADOR – Mas falaste com eles! JOANA – Eles me confundiram com outra pessoa. não dormir.. guardam-me a sopa. a qualquer momento. Apesar de tudo. UM VELHO HOMEM. JOANA Se dependesse só de vós Eu poderia congelar nua em pleno vento. Ficar aqui sem necessidade absoluta Parece-me um jogo indigno. JOANA: Eu compreendo esse sistema. E uns se sentam lá em cima Só porque os outros estão embaixo. E os do alto gritam: Subam. um teto e o sustento. (Ela arranca de sua vizinha o pano com o qual ela cobre a cabeça) Sim. Mas a estrutura interna continua ignorada. Para que estejamos todos no alto! Mas olhando mais de perto descobre-se. Mas é apenas uma tábua. E para vós é fácil passar frio. Que audácia! Emborcar assim o whisky desse velho! JOANA – Segure a língua. Mas. UMA MULHER – Que audácia! JOANA – A senhora falou alguma coisa? A MULHER – Sim. o medo me aperta a garganta: Não comer. a Joana – Você está totalmente gelada. Ir para um quarto quente. mais do que tudo. foi você! Não adianta mentir. UM HOMEM – Silêncio! Alguém atira um trapo para Joana. Enfim..38 Que não seja um nosso igual. Encorajada por um sonho que confirmava minhas idéias. Onde está o meu chale? Eles me roubaram. o que haveis deixado? Eu. Mas. é claro! É o cúmulo! Eles me roubaram até o chale! Quem foi o mão leve que pegou o meu chale? Devolvam-me imediatamente. a Joana – O que fazias com aquela gente? JOANA – Nada. Alguns – pouco numerosos – estão sentados lá em cima E um grande número aqui embaixo. Quase uma comédia.

o milionário que dispõe de muito gado. Felizmente temos a carta para mostrar a verdade. A não ser a proposta Que leve a mudanças verdadeiras. Que barulho é esse? UM JORNALISTA – São as metralhadoras. Não creiam em nada e não escutem ninguém. Os tanques deles vos esmagarão. Se combaterdes. Mas tu. no frio. Classe cheia de neve e que as leis ignoram. Os matadouros são tão grandes que a tropa levará horas até aqui. OS JORNALISTAS – Olá. de jeito nenhum. no fundo do palco: Se ficardes agrupados Eles vos rebentarão. Não se separem! É apenas ficando todos juntos Que poderão ajudar uns aos outros. Que tem a fome por mestre e onde a miséria Fala implacavelmente da necessidade! E sois cem mil alunos. Não te movas! Entendeu? Ela sai. O que aprendeis? OS TRABALHADORES. O coração deles não é de gelo. JOANA: Tanto assim? Oh! Escola desconhecida. Não ficaste tempo suficiente aqui. Tu não compreendes nada de nada. Ao longe as metralhadoras crepitam. JOANA: Parai! Chega de aprender essas lições! JOANA . E nós vos dizemos: combatei. espera. aconteça o que acontecer. Nessas condições o trabalho voltará muito em breve aos matadouros.39 OS TRABALHADORES: Fiquem. se esses senhores estão dizendo? Sobre um assunto como esse não se brinca. JOANA – Quanta gente há aqui? OS JORNALISTAS – Uns cem mil. o seu sucesso foi formidável: nós ouvimos que Pierpoint Mauler. UMA MULHER – Devemos voltar para casa agora? UM TRABALHADOR – Quem nos garante que é verdade? Que haverá trabalho de novo? – E por que não seria verdade. A tropa foi encarregada de evacuar os matadouros. E sobretudo entendam bem Que nada se faz sem luta E sem a sua própria ação. Então a bondade existe. Esse combate será perdido E talvez perdido Ainda o próximo combate Mas vós ireis aprender a combater E aprendereis pela experiência Que nada se faz sem luta E sem a vossa própria ação. (Ela se levanta) Eu vou avisar aos nossos que os boatos já começaram a circular. Havia entre eles pelo menos um homem honesto E ele não falhou em seu dever. JOANA – Oh! A boa nova! DONA LUCKERNIDDLE – Vejam as mentiras sobre as quais nos alertaram. DONA LUCKERNIDDLE – Não digas tais tolices. JOANA: Escutem todos! Há trabalho. JOANA – Mas estão atirando! UM OPERÁRIO – Pode ficar sentada tranqüilamente. acaba de cedê-lo aos fabricantes. mocinha. com a carta. Agora as fábricas reabrirão. É preciso fazer com que se calem os agitadores que incitam à violência. Quando se falou com ele como a um ser humano Ele deu uma resposta humana. E nós vos dizemos: ficai agrupados. Os jornalistas retornam. ainda que os preços continuem a subir.

Ela continua sentada. os astros sem harmonia Já não seguiriam sua órbitas. Ela se vê com roupas de criminosa. Enquanto o fraco ao fraco se alia. Por três dias viram Joana em Packingtown. é imensa! Mais uma noite como esta. Enquanto a noite cai.40 Que gélidas elas são! Não é pela violência Que se combatem a desordem e a confusão. Mas o prato que se prepara aqui. Vós. Dia após dia ela desceu. Eles procuram alguém que não encontram e vão embora. as palavras teriam outro sentido. No final o lodo a engoliu. A tentação. Os dois dirigentes operários passam. DONA LUCKERNIDDLE. Começa a nevar. Apartado em um mundo Tornado para ele estrangeiro. Ela se levanta e sai. vós estivestes juntos Longas noites. Do fundo ouve-se gritos que se aproximam. eu preciso ir. aparece uma inscrição: A neve começa a cair. Eu assim não poderia viver. Violar as regras em uso. Quem o comerá? Eu vou embora. UM OPERÁRIO. No lodaçal dos matadouros. e ninguém Poderá manter a sua calma. Toda inocência tê-lo-ia abandonado. No terceiro dia sucumbiu. Eles saem. Com seu silêncio opressor. Isso seria desleal para com os outros homens. eu digo. Há muito tempo que já está tudo arranjado. Joana tem uma visão. estão muito enganados. Quem agisse assim se sentiria perdido. Mas assim. Direis que fazia muito frio. Seu sucesso foi grande. E é por isso que parto. que eles ainda poderão ter uma surpresa. E aprendestes A alimentar friamente terríveis pensamentos. mas agora a coisa está terminada. Nada de bom pode surgir da violência. UM OUTRO OPERÁRIO grita para o grupo que se afasta – Assassinos! OS OPERÁRIOS – Se eles acham que assim irão parar as coisas. ao longo dos anos. Viram-na descer de degrau em degrau Para em água límpida a lama transformar e aos humildes Aparecer. Para este homem. conduzidos por policiais. Ou que engendrasse a violência. OS JORNALISTAS – Nós a aconselhamos a sair dos matadouros. para um dos dirigentes presos – Não liga não. voltando – Nada além de mentiras! Onde foi a moça que estava sentada ao meu lado? UMA MULHER – Partiu! UM OPERÁRIO – Desde o começo eu disse que ela iria embora quando começasse a nevar de verdade. Perseguidor perseguido E não mais sabendo ver sem desconfiar. Se desde a infância o peso da miséria e da fome me tivessem ensinado a violência. Eu não sou um deles. Sobre sua cabeça. Eu digo: na escuridão se acumulam As violências e as questões nunca resolvidas. Os operários se levantam. eu seria como eles e não faria perguntas. OS OPERÁRIOS – Estão trazendo os sindicalistas. Por que foram presos? O que ela contém. Chegam três operários. longe do mundo que lhe é familiar. . esta carta? Eu não saberia fazer nada Que requeresse violência. William. JOANA: Os que me entregaram a carta. algemados.

Sem nenhuma exigência. Sou conhecido nos matadouros. modificam tudo. A mim ela vai elevar às mais altas esferas. preto no branco. Cedi meu gado a qualquer um que o quisesse. a dona Luckerniddle reencontra Joana. Doravante Não há mais ninguém que me queira matar. Parece-me Que contratei dois idiotas. em cima. Perto dos matadouros. Aquele que sai de tal imóvel. são os mais atingidos. em suor e em dinheiro. Até mesmo aos matadouros. E a vocês eu despeço Pois da pobreza eu cruzei a fronteira. aqui sob meus olhos. Eu tenho as minhas razões. E ninguém quis. Slift. Este homem está perdido. dele se diria Um prédio construído com grandes despesas.. Está dito. não lhes parece? Ah! Eu repito Não fiquem enchendo a cabeça com idéias. hoje restarão No chão as pedras.. ainda atiram. que todos os fabricantes Quebraram juntos e saíram do mercado. É o que está escrito. UM DOS SEGURANÇAS. Pierpoint Mauler cruza a fronteira da pobreza 8. Ter construído a maior cloaca do mundo Constituirá a sua única glória. Não preciso. mais de vocês. Até o reino do espírito. Assim espero. Que nós construímos em nossas grandes cidades Sem importar o custo. confessa. Vejam o que leio. cocô de cachorro: Que torna a permanência difícil. Só porque duas ou três vezes eu dei meia volta. UMA ESQUINA EM CHICAGO MAULER. UM LUGAR DESERTO NO BAIRRO DOS MATADOUROS Neva. saindo – Bom. Tem certa razão de estar alegre. impresso. Ele lê e empalidece. Mas vejo que estão pensando. Sem que eu tenha procurado. Assim foi conseguido. OS DOIS SEGURANÇAS – Então podemos ir? MAULER: Podem E eu também posso ir aonde queira. a um de seus seguranças Parem. Pensar não serve para nada. então. nada mais posso fazer por eles. Não é para pensar que eu vos pago. Há resistência. . Quanto a este edifício. Escolhido como material. Vejam. um objetivo que eu saúdo E que muito me alivia. 9. Essas notícias. mas o arquiteto teria. meia volta. Aquela que eu procurava terá tido o bom senso De sair das profundezas onde o inferno se instala. preto no branco: O gado está a trinta e ninguém compra. De agora em diante. Passa um vendedor de jornais Ei! Jornal! Vejamos o que se passa na Bolsa de Carnes. MAULER: Se a desgraça abate ao homem sem caráter. o mais vasto.41 Pergunta feita: quem ficará? Como nos outros dias. seja por economia. Em todo o caso. Agora eu estou livre. Mauler e seu amigo. Seja por aberração. Eu disse: meia volta E tu riste. Basta. O mais prático também. Na borrasca. façamos meia volta. os pobres. o que foi? Riste.

Mas também podias nos trair. Eles teriam ficado apesar da violência da polícia. Que sentimentos em nós deixareis sobreviver? . Aquilo que lhe foi confiado. A VOZ DA DONA LUCKERNIDDLE: Eu fui a tua fiadora. O SEGUNDO OPERÁRIO – Isso é grave: sem dúvida uma parte das ligações não funcionou. podias dar conta. DONA LUCKERNIDDLE – Eu devia ter duvidado. Joana pára. De tua missão. Nós te encarregamos. Errando pelos matadouros. isso é o que tu és! Dê-me a carta que te confiaram. Muitos operários teriam ficado se soubessem da notícia. A pedra não perdoa. mas a senhora quer continuar. precisas chegar! Joana olha ao redor. AS VOZES: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. eu não a darei. Que nada diga. Lá dentro só se fala em violência. ela procura se livrar das vozes que ouve de todos os lados. Sem récitas inoportunas dos seus infortúnios. Claridade que então eu deixei de ver! Oh! Quem conhecerá o poder da neve! Oh. mas entregue. Mas tu és uma traidora e teu lugar é com eles. Nela estava nosso destino. Tu não a entregaste. caindo de joelhos: Luz. Pierpoint Mauler as arruinou. Joana. de uma missão. Cumpriste a missão? Joana volta a andar e uma nova voz a detém. Dê a carta aqui imediatamente. Nós não sabíamos quem eras. UMA VOZ: Não há desculpa Para quem não chega. Mas a carta que trazia a verdade. Joana ouve vozes. De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. OUTRA VOZ: Joana pára. UM OUTRO LUGAR Correndo em direção ao centro da cidade. JOANA. E aquele que chega a bom porto. Uma parte dos operários saiu dos matadouros. fraqueza do corpo! Oh fome. Ainda mais que amanhã todas as empresas de Chicago iriam declarar a greve geral. estás aí! Onde tinhas te metido? Entregaste direitinho a carta? JOANA – Não. É inútil tentar pegar. oh verdade! Que a neve em tempestade Inoportunamente mascarou com sua noite. JOANA – Não. UMA VOZ – Lá onde te esperam. As massas não deveriam ter se dispersado. DONA LUCKERNIDDLE – Ora essa! Para ti está tudo normal! E eu que disse que tu eras honesta! Sem isso não teriam te confiado a carta. Eu vou embora. Por este buraco fogem todos os peixes. O SEGUNDO OPERÁRIO – Os comunistas é que tinham razão. Ao que tropeça e cai. O PRIMEIRO OPERÁRIO – E aqui nós não ficamos sabendo. Tudo está voltando ao normal agora. Um lixo. Como se rede já não houvesse. Anda em outra direção. Joana cruza com dois operários de quem ouve a conversa: O PRIMEIRO OPERÁRIO – Primeiro eles fizeram correr o boato que as fábricas reabririam a todo o vapor.42 – Ah. (Joana desaparece na tempestade de neve) Hei! Venha! Ela foi embora! DONA LUCKERNIDDLE 10. para poder se apresentar amanhã bem cedo ao trabalho e de repente eles falam que as fábricas nunca mais abrirão.

O reino de Deus está pronto na minha cabeça. Exposta outra vez à neve. à chuva. entrando – Pierpoint Mauler está aqui? BISPA SNYDER – Não. Sob um plúmbeo zênite de destinos desconhecidos. DONA MULBERRY – Bispa Snyder. a qualquer momento. BISPA SNYDER. agora os pegamos. Um homem começa a levar os móveis para a rua. OS CHAPÉUS NEGROS: Estão levando. A massa espera. estamos aguardando. o banco dos penitentes! E já suas mãos avidamente se dirigem Ao órgão a vapor e ao púlpito. que prometeu nos ajudar. MAULER – Eis aqui um homen marchando até o seu Deus. E nós gritamos à plena garganta: Ah. nossa boa cidade. é tudo o que eles querem! Aqui não tem mais sopa! Aqui só tem a palavra de Deus! Ouvindo isso eles vão logo embora. com certeza! Ele já está a caminho com os seus milhões! UM CHAPÉU NEGRO – Bispa. DONA MULBERRY – Meu caro Dick. que aliás é muito barato. onde iremos acomodar o nosso público? Chega um pobre. Ele se levanta e avança até os Chapéus Negros. minha cara Mulberry. o senhor Pierpoint Mauler. Pediram-lhe cem dólares. É Mauler. Quero que a senhora pague o meu aluguel. Para nos salvar neste instante. na frente do palco : Ouvi alguém procurando um certo Mauler. OS CHAPÉUS NEGROS: Romperam-se os diques da fé Em Chicago.43 Frio da noite. Buscam-no por toda a parte. posto que sem abrigo. investindo contra ele – A sopa. a outro Chapéu Negro – Há três dias um emissário de Pierpoint Mauler. Uma boa orquestra à mão e sopa Bem grossinha: terminam para Deus todas as preocupações. coloque os móveis na rua. veio nos dizer que Mauler em pessoa estava disposto a assumir o nosso aluguel e a organizar conosco uma grande campanha em favor dos pobres. X Humilhação e assunção de Pierpoint Mauler TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS MARTA. Conheci bem um homem. UM HOMEM. se ele pudesse vir. MAULER. . Ah. o suntuoso Mauler. Este homem que foi em sua vida Mais estúpido do que um vagabundo bêbado e repugnante. BISPA SNYDER – Sente lá atrás e fique quieto! Ele se senta. Ele sai. BISPA SNYDER – Dona Mulberry. Liberada. que já se afunda! Mas o rico Mauler virá. quem vos pode resistir? Eu preciso dar meia volta! Ela retorna sobre seus passos correndo. Mas nós o estamos esperando. ou que deixe o imóvel. que triste. Vejam que já balança. no céu e no inferno. com sopa quente E um pouco de música. é sábado a noite. Eu o conheci: era um imbecil. o rei da carne. De um só golpe o bolchevismo também é enterrado. Salvar-nos com o seu dinheiro! BISPA SNYDER Há exatos oito dias Que nos matadouros onde as máquinas enferrujam. E as ondas de lama do materialismo Ameaçam a casa de Deus. afastada do trabalho. ele possuía dez milhões. O HOMEM – Os fabricantes de conservas querem falar com ele e os criadores o chamam aos gritos.

Joana. seguindo a letra por sobre o ombro de um dos Chapéus Negros. Diante de vós. Ouçam então a minha confissão: Aqui jamais se ajoelhou Ninguém. MAULER: Eu me acuso de ter explorado o meu próximo. Culpado. é certo. meus amigos. inclinado sobre os livros de contabilidade – Não direi o que estou calculando. OS CHAPÉUS NEGROS: Não perca a confiança! Homem de pouca fé! Ele virá. E esse gesto tocou os nossos corações. DOIS MÚSICOS: Um pedacinho só. Sentados sobre as margens do lago Michigan.44 No fim. Silêncio! Tragam-me o livro das faturas e contas por pagar: estou nessa parte. Mauler canta com eles. todos para fora! A Mauler: E tu primeiro! Onde estão os quarenta meses de aluguel Desses não-convertidos que Joana enxotou? E vejam só o que ela me trás em troca! Devolva-me. já. Tiremos de nossas paredes as máximas. olhos voltados para a porta. Ele pega dois Chapéus Negros pelo braço e senta-se com eles no banco dos penitentes. devolva-me os meus quarenta aluguéis! MAULER: Vós desejais. OS CHAPÉUS NEGROS – Ele já chegou? MAULER: Um hino. não o seu dinheiro. BISPA SNYDER. Mauler! MAULER: Mas quero acrescentar que no sétimo dia Fui despojado de tudo. UM CHAPÉU NEGRO – É ele. Ele trazia o seu coração. e dilacerado de remorsos. gritando – E sem dinheiro? (Aos Chapéus Negros:) Façam as malas. sem nada. deu cabo de si mesmo. Por sete dias apertei a garganta Desta cidade até sufocá-la. Se aproxima já Com os seus milhões. Passar bem. que tenha caído tão baixo. sim. ar ausente. construir vossa casa . eu vejo. OS MÚSICOS: É deste aí então que vocês esperavam O dinheiro para nos pagar? Então nós vamos embora. mas arrependido. Todos os pagamentos estão suspensos. Os músicos tocam um hino. Apenas nos resta chorar. Aqui estou agora. BISPA SNYDER Silêncio! Fora. Jogou no mar seus milhões. Sentados sobre seus últimos bancos e suas últimas cadeiras os Chapéus Negros cantam desordenadamente seus últimos hinos. recusou-se a dar o dinheiro. eu vos rogo! Pois eu sinto O coração ao mesmo tempo leve e pesado. Eles cantam ainda “Entrai na batalha”. Envolvamos em nossas bandeiras derrotadas Os livros de cânticos. BISPA SNYDER. Abusado da força e espoliado todo o mundo Em nome da propriedade. dirigindo-se aos músicos que vão embora: Nossas orações eram pelo rico Mauler E foi Mauler o arrependido que entrou. Não podemos mais pagar as nossas contas. Mas quebrou a nossa cara De uma vez por todas. CORO DOS CHAPÉUS NEGROS. BISPA SNYDER – Tu és Mauler? MAULER – Sim. Os Chapéus Negros cantam. E sobre nós a neve envia suas tempestades Em um inverno no qual crescem os rigores.

hesitantes. Os complexos pensamentos de vosso imenso espírito. Este espetáculo atroz apavorou o ancião. Ninguém jamais pode fugir da lei. Pelos contratos que nos obrigavam A entregar de imediato as conservas prometidas. . No mercado perturbado. tomado de loucura. E sobre eles atirou-se. Que projeto tendes agora. No ciclo dos astros ou das mercadorias. Subiu os preços a noventa e cinco. por ter vindo Atrapalhar neste lugar as tuas meditações. o que existisse de gado. Que a constatação vos enche de amargura. Mauler. Por vós fomos forçados. O ancião venerável. Acorreram todos em ajuda. chorando. Viram-se os preços Oscilarem. Bispa. Não terias a necessidade de aliviar aqui A tua consciência. Um vitelo ou um porco. salva tua alma. partistes. Vossa função seria apenas a de brincar na relva. desde a aurora. gado canadense. o caos. Mauler. como um bêbado sedento Que ao mar esvaziou sem se satisfazer E lambe avidamente cada gota que encontra. Em três dias. OS CRIADORES: Maldito Mauler. que fareis? Entram os criadores em grande agitação. Mas se chamássemos de homem àquele a quem se ajuda Daria no mesmo: necessitaríeis sempre De gente a ponto de afogar-se. tomando a frente : Mauler. Mauler. agigantou-se E a todos nos precipitou no abismo! MAULER: Oh! Eternos combates! Em nada são diferentes Desde os tempos antigos onde os homens Com uma barra de ferro rachavam-se as cabeças! GRAHAM: Recordai que estávamos à vossa mercê. Para mim o humano era aquele a quem eu podia explorar. Mas nós estamos perdidos: Em torno de nós.45 Sobre o que há de pior em mim. comprometendo suas casas. com voz dura. Quando. Loew e Lévi. assumindo seus deveres. Era vosso todo o gado. Mal viu esses bois vindo ao longe. Ele tenta sair. E hipotecando até o último lápis Para trazer de Quebec. e a noventa e cinco Comprou-os todos. Estão pálidos como o linho. durante sete horas. firmas de grande renome. Na porta. O que pretendeis fazer de nós? Foste vós. O Banco Nacional gritou: “Alto”. OS REIS DA CARNE: Perdoai-nos. Relatarei o combate memorável Que. Mas Slift. quem nos derrubou. Ah! Se não tivesses aliviado tanto os nossos bolsos. é aqui então que te escondes? Paga nossos bois ao invés de fazer penitência. a comprar gado. Dais o nome de homem a quem vos vem ajudar. Prometiam até o gado por nascer. Que não ficou só por muito tempo. Dá o dinheiro. E Wallox e Brigham. eles iriam trazer. Um zênite ameaçador de pensamentos desconhecidos. Eles também estão muito pálidos. nobre Mauler. Slift apertou Ainda mais forte a nossa garganta. da Argentina. Lançou. Eu sei muito bem. em poucas palavras. Que vos pertencia. os reis da carne vêm ao seu encontro. paga-nos o gado! GRAHAM. E tudo o que de longe parecesse um boi. e sobre nossas cabeças. ao meio-dia. Concluo eu o seguinte: o Mauler que sou Não é aquele do qual precisais.

tomados de desespero. Lançaram-se um a um nesta última batalha. Como definha uma esponja espremida. Eles precisavam entregar. Slift então gritou: “Cem”! Poderia ouvir-se um alfinete cair.E a voz ainda nos alcançava Mesmo com a balbúrdia dos trens que partiam: . MAULER: Agora mesmo. é sabido. de imediato. baixou. Mas alto o bastante para que todos ouvissem: Para pagar-lhes tomem então nossas fábricas. Como a água que cai na cascata. E Brigham arranca a barba aos gritos: “Noventa e seis”. e então se retirarem. E nós comprávamos sempre: Nós precisávamos comprar.. Naquele instante. Ouviu-se nesse dia os jovens estagiários. Rangerem os dentes. Até os simples contínuos. entrego por cinco. Vertiginosamente. Parando de pagar. Lutavam a dentadas. Lévi. O que fazer. E em silêncio também os bancos desmoronaram. quando e com que dinheiro Nos pagarás o gado comprado. em um suspiro. de rocha em rocha E somente em trinta a queda parou. Do outro eu preciso. Aí está o que tornou o contrato sem valor Apertastes muito forte. os vívidos vitelos. Porque não mais podemos honrar os contratos. Institutos de crédito. Que nos píncaros se encontrava. o velho Lévi disse então em voz baixa. E viu-se. Inúteis portanto. Slift.46 Mas Slift gritou: “Três dias não. mudos. um a um. bancos. os cavalos inimigos. Toda a família nos gritava de longe Com a voz embargada pelo trabalho duro . Os corretores. paravam de viver. E os jovens bois de pêlos reluzentes Engordados com tanto cuidado. Seria esmagado como um morango no chão. por sua indiferença. Com esse gado que ninguém é obrigado a comprar? OS CRIADORES: Sem querer perder a paciência. Lévi. fomos estrangulados E de que adianta estrangular um cadáver? MAULER: Foi assim então. Eu quero para hoje”. agora. Nós queremos que nos digas Como.. E como contratos nulos não impõem compras. quando levamos às estações De nosso longínquo Missouri Com muito sacrifício. Estão satisfeitos? OS CRIADORES: Há pouco tempo. O sapato. com olhos marejados. Com esse chapéu e este sapato: Dez milhões o chapéu. na batalha. Só um. Célebres. Casas até então sólidas e poderosas. os agentes fechando suas escrivaninhas. comprar. a carne de boi. isto é. se por um acaso Um elefante se arriscasse pelo interior da Bolsa. que travaste a batalha Que deixei a teus cuidados! SLIFT: Corte-me a cabeça! MAULER: E de que me serve tua cabeça? Dá-me o chapéu. Sob nossos olhos. diga-me. e os preços subiram. obstinados. E que não foi ainda acertado. os fabricantes apáticos Depositarem a vossos pés suas fábricas fechadas. De cotação em cotação Os preços caíram e rolaram até os negros abismos. Em tudo semelhantes aos antigos corcéis Mordendo. golpeia um corretor na barriga. em um espasmo. ele ao menos vale vinte e cinco centavos.

De um asilo necessário para os casos mais graves. Seus bens. esta caça fatigante. entendei.. de Nova Iorque. o que faremos. pensai no caos Que ameaça a tudo engolir. caro Pierpoint. Não ter fartura de bens terrestres. assumir a empreitada. nós lhe forneceremos amanhã mais detalhes. sozinho. Como tudo de agora em diante Me parece diferente. Cuja voz está a tal ponto asfixiada. Mas para mim. Abandonai. Compreendido como sendo de interesse geral. neste estado.(Ele abre a carta e lê de canto) “Escrevemos a você recentemente. Ele estende-lhes a carta. Mas se fizéssemos uma grande promoção De sua instituição. compreendei. Jogai sobre vossos ombros o jugo. Outra vez responsável. E voltar até nós? Pensai. pelo que dizem. isso não é possível. conhecem um meio de sair desta. OS FABRICANTES E OS CRIADORES: Desejarias. Seus amigos de Nova Iorque. Nossa pobreza é termos perdido O sentido dos valores mais elevados. Mas nossa pobreza não é. Pois os preços do gado vão subir. rapazes. Julguem vocês mesmos. amigos. Sancionado pelas instâncias superiores. Rockfeller. MAULER: Em nós a consciência. para que os preços voltem a subir. Caro Pierpoint. mas são numerosas. Estariam vocês dispostos a repetir aos quatro ventos . não bebam todo o dinheiro. para que comprasse carne. é muito a contragosto. GRAHAM – Mas então é Wall Street? Um murmúrio percorre o ambiente. MAULER: Se o faço. é impraticável. a quem mandavam cartas desse tipo. estão para sempre perdidos. E o barulho das metralhadoras. O negócio só é possível.. entrando – Mauler está? Uma correspondência para ele. nós aconselhamos a fazer um acordo com os criadores para reduzir o rebanho. De máximas sagradas e escolhidas com grande cuidado. nobre Mauler. O projeto teria talvez. nós estaremos de bom grado à sua disposição. condescender.. MAULER – Eu costumava ser esse Mauler. MEYERS – Quem são esses amigos de Nova Iorque? MAULER – Morgan. Como voltar para nossa terra? E que diremos a eles. Neste caso. Nem todos aqui em baixo poderiam ser ricos. voltar para casa? O HOMEM DE ANTES. A Snyder: Existem muitas dessas lojinhas Onde se vende a Bíblia? BISPA SNYDER – Sim? MAULER – E como elas vão? BISPA SNYDER – Mal. Mauler. Providos de sopa quente e de boa música. Alguma chance de sucesso. Pois ainda creio ouvir O rumor dos matadouros. MAULER: Ou seja.47 “Ei. E dado que de vós necessitamos. esperamos” E agora. GRAHAM – O que não é possível? MAULER – Tenho amigos em Nova Iorque que. vocês estariam dispostos. Se assim fosse concebido. ao contrário.. Agora. Deixando as sublimes esferas onde meditais. elas vão mal. Não quero. mostrando o lombo vazio E nossos bolsos também? Como. Não.” Não.

Todos sorriem longamente. é lógico. Elas impedirão que em sua brutalidade Um povo. mais ainda. pedindo a palavra: Perdão. criadores e industriais. Nesse tempo de humanidade desumanizada. Miséria e fome. é claro Que entre vocês estivesse Joana. tem seus defeitos. ofuscado. Eliminar o estoque excedente atual. Não tem outra causa a não ser Que há carne demais. nós decidimos. para puxar os preços. mas se o gado tem tão pouco valor Que pensam em queimá-lo. E é por isso que os preços caíram a zero. Em que em nossas cidades os problemas não têm fim. OS FABRICANTES – Que cérebro! MAULER. Elas trarão a calma e a ordem. Nós o faremos. É por isso. aos fabricantes: Faremos uma fusão de suas indústrias Em um só monopólio. ou melhor: quase todos Mas é o único meio de salvar o sistema De vendas e compras no qual vivemos. Em conjunto. Esta dificuldade pela qual estamos passando Está a ponto de ser superada. O mercado foi saturado este ano. dizem. supérfluos. Enfim. É preciso limitá-la. nesses tempos de desgraça? Pois serão necessárias medidas draconianas Que poderão parecer duras porque irão Derrubar alguns e. E mesmo que muitos não compreendam. BISPA SNYDER – Quase todos. que deseja Fazer o bem. queimar um terço do gado existente. quebre suas ferramentas E destrua assim seu próprio ganha-pão.Pois eis Chicago outra vez agitada A greve geral. Eu compreendo o senhor. Eu fico com a metade das ações. Eles podem nos parecer inferiores. Vê que são eles os compradores! Seja como for.48 Que nós somos uma gente valorosa. Digamos: a maior parte. é eminente -. meus amigos! Eles cochicham. Meter um freio à anarquia da criação. não poderíamos Doá-lo àqueles que esperam lá fora E quem sabe utilizá-lo melhor? MAULER. . . TODOS – Que solução simples! BISPA SNYDER. Toda essa gente aí fora: Eles são os nossos compradores! Dirigindo-se aos outros: É incrível. Será preciso demitir um terço dos operários: Também de mão de obra o mercado está saturado. E às vezes inoportunos. Então. aos criadores : Escutem. mas olhando bem Quem vê além das aparências das coisas. TODOS – Não há outra saída! MAULER – E também precisaremos reduzir os salários! TODOS – É o ovo de Colombo! MAULER: Qual o objetivo dessas medidas? Nesta noite de sangue e confusão. sorrindo: Minha cara bispa. que nós subvencionaremos Fartamente a sua missão que contribui Com a manutenção da ordem. Limitar o rebanho oferecido no mercado. desordem e violência. Chapéus Negros. E que. MAULER. Seria muito importante. você não compreendeu A questão de fundo.

JOANA. apanhem-no! Lazarentos e descalços. Perseguidos sem trégua. o mercado vai ser curado! Outra vez saímos do ponto morto E realizamos uma obra difícil. MAULER: Abram agora a porta principal Aos homens cansados e cheios de preocupação. dois homens conversando. Nossos planos outra vez se impõem. SNYDER – Abram as portas! A porta principal é aberta. Nenhum deles tem chapéu. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! XI NOS MATADOUROS EM FRENTE AO ARMAZÉM DAS FÁBRICAS GRAHAM Os matadouros estão quase vazios. cantam. Ninguém pode escapar: tranquem as saídas. Ela então ouve. Passam então os dois dirigentes operários escoltados por soldados. Sejam bem-vindos. Música de órgão. As coisas retomaram o rumo que nos agrada. entrando precipitadamente – Escutem a boa nova! A greve que nos ameaçava foi sufocada. eles chegam até nós. OS CHAPÉUS NEGROS. Passam apenas alguns grupos de operários. penteados e carecas. joguem as grandes redes! Sejam bem-vindos. não deixaremos! Sejam bem-vindos. De sopa encham os pratos. Eles vêm até nós para chorar. UM CORRETOR. Joana segue com o olhar os prisioneiros.49 Cuja face por si só já inspira confiança. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Tranquem as saídas. Até nós. Foram presos os sacrílegos que perturbavam a paz e a ordem! SLIFT: Podem respirar. UM DELES – Quem são eles? O OUTRO Nenhum deles Pensou só em si mesmo. para que nenhum escape! Eles estão a caminho. apanhem-nos! Sejam bem-vindos. Toquem a música e nós mesmos Seremos os primeiros a nos sentar Para elevar nossos corações a Deus. a seu lado. UM DELES – E por que foram presos? . chega e pergunta – Vocês viram passar três homens que vinham buscar uma carta? Ao fundo ouve-se gritos que se aproximam. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Todo aquele que aqui entrar. olhar fixo na porta: Eles terão de vir. estão chegando! Daqui eles não escapam. Eles combateram Pelo pão dos outros. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Vamos. Os que aqui chegarem. Quando perdem o trabalho. estamos prontos! Já estão chegando! A miséria os traz aqui como um rebanho! São obrigados a vir. Quando estão cegos e surdos. joguem as grandes redes! Eles saíram agora de sua última casa! Deus lançou sobre eles o frio! Deus lançou sobre eles a chuva! Eles terão de vir. Imóvel.

A decisão sobre a greve geral só chegou a uma parte deles. Quando os soldados vierem a recolherão. O POLICIAL: Eis aqui uma sem-teto. Esta aqui não é das nossas. Era uma velha operária. Joana cai desmaiada. o salário também. mas apenas para dois terços dos operários. Durante alguns segundos eu a vi distintamente. UM DELES – O que farão com eles? O OUTRO: O salário deles é baixo e seu trabalho útil à maioria. chega ao termo de sua vida. à sua frente. XIII MORTE E CANONIZAÇÃO DE SANTA JOANA DOS MATADOUROS Agora o templo dos Chapéus Negros está ricamente mobiliado. a sorte nos sorriu. Deus outra vez se impôs. Joana. Ela veio daquele lado e aqui ela gritou para os nossos que as empresas municipais iriam decretar OPERÁRIOS Sim. Joana se vira. Um deles a derrubou com uma coronhada. UM DELES – Por que não se ouve falar deles? O OUTRO O OUTRO greve. OS JORNALISTAS – Vejam só. Recolhida doente Nos matadouros. Nem é enterrado com decência. saiba que são eles. JOANA. Nenhum. UM DELES – Sempre será assim? O OUTRO – Não. Nenhum come seu pão tranqüilamente. Não. carregando lanternas. Seu último endereço Teria sido aqui. Em nós podem por fé. As rajadas de neve a impediram de ver os soldados. não é ela. como se ainda quisesse entregá-la: . esticando o braço com a carta na mão. Nenhum morre de barriga cheia. pisoteados. XII EM FRENTE AO ARMAZÉM DA FÁBRICAS GRAHAM Um grupo de operários entra. e a esta a polícia dispersou com o uso de força. SNYDER: Quando nos jornais falarem de criminosos abatidos. A greve geral fez água. As fábricas reabrem. Deixem ela aí no chão.50 – O homem injusto atravessa a rua à luz do dia. não é a nossa Madona dos matadouros? Hei. Enfim o sucesso chegou E tudo acabou bem. Golpeados. Um grupo de pobres entra. Nós soubemos ser sublimes E vulgares quando necessário. que seguram bandeiras novas. Nos vales e nos cimos. Divididos em grupos estão os Chapéus Negros. Ou de malfeitores postos na cadeia. Todos perecem antes do tempo. JOANA – Os operários concordaram? OS JORNALISTAS – É claro. Lançados em terra profana. entretanto. mas o justo se esconde. os açougueiros (fabricantes de conservas) os criadores e os compradores. Aqui está! Seriam necessárias muitas como ela. – Ela deve estar aqui. amparada por um policial. E a carne vai subir. você aí! As coisas deram errado. os jornalistas a interpelam. foi reduzido em um terço.

51 Jamais receberá a carta Aquele que agora está morto. Ela será a nossa Santa Joana dos Matadouros. por menor que fosse. dando provas de humanidade nos matadouros. Eu faltei. A vida tranqüila de um cordeiro. E só servi aos perseguidores. Chegou na hora certa. enquanto as moças dos Chapéus Negros a vestem novamente com o uniforme: Ouve-se outra vez o rugir das fábricas: Outra vez se desperdiçou a chance De colocar um freio a esses excessos. Joana dos Matadouros. quais os gritos que abafas? Comei vossa sopa! E não desperdiceis esse resto de calor. E outra vez o mundo Percorre o antigo ciclo. toda a obra Onde o espírito não encontra. Vós. intercedendo pelos pobres e mesmo proferindo discursos contra nós. Ela vai muito adiante. Quando o meu esforço. infelizmente. Ela que. na noite. E tinha sonhos para milhares. um serviço tão pequeno Foi só o que em toda a minha vida Me pediram para fazer. Slift discute com Snyder e com os fabricantes. JOANA: Eu falei em todos os lugares. OS CHAPÉUS NEGROS: No final. eu poderia levar. Mostrá-la entre nós provará o quanto nos importam os sentimentos de humanidade. Matéria a sua altura . MAULER: Uma alma que exala sublimes impulsos Suporta mal. Vamos colocá-la em destaque. E seus erros. e ultrapassa o objetivo. pois ela nos ajudou a atravessar a tormenta dessas semanas difíceis. Nós faremos dela uma santa e não economizaremos em homenagens. sua térrea natureza. SLIFT – Esta é nossa Joana. o infinito. Eu falhei com os perseguidos. E eu não fiz! Enquanto os pobres tomam assento nos bancos para comer a sopa. Pelo contrário. empregando todos os meios. Eu o neguei. Quando se poderia ter alterado o curso das coisas. Que Joana exorcize o mal E que por nós ela interceda. Foi necessário. MAULER: Que tome posição em nossas fileiras Esta alma inocente e cândida E que sua bela e pura voz Misture-se aos cânticos de nosso coro. O ideal. BISPA SNYDER: Levanta-te. dirigindo-se a Joana: Como ela ainda está perturbada. Se eu apenas tivesse entregue A carta que me confiaram! OS CHAPÉUS NEGROS. a quem não se pode mais explorar! Comei a sopa! Ah. marchava para a luz! Seus atos eram os de um ser humano. Consoladora dos baixios! JOANA: Que vento sopra nesses baixios? Neve. E em sua marcha altaneira Para evadir-se ao mundano. também humanos! JOANA. Intercessora dos pobres. Desta vida intolerável E atingir o inconcebível. Por uma boa causa.

E sem descanso nem folga Realize seu dever. falando alto. JOANA: É uma grande verdade Que aprendi e que vale para todos E morrendo eu vos digo: Vossos bons sentimentos. Não tenhais a preocupação de terem sido bons .Isso não basta – Deixai um mundo bom. Que ninguém seja tido como honrado. GRAHAM – Ela não pode proferir discursos que não sejam razoáveis. Que cada um. como do topo. de maneira a encobrir a voz de Joana: Para que até o céu se levante o edifício. E o que se passa no alto. para os exploradores. OS FABRICANTES: O resultado. fique no lugar Que lhe é atribuído. ignora-se o que se passa em baixo. OS CHAPÉUS NEGROS. A essas tropas indispensáveis. Sistema bestial. O que está em baixo tem grande importância. Se não for uma ajuda real. Porque o sistema é construído assim: É apenas exploração e desordem. Mas que não sabem o quanto. então. Quaisquer que sejam as aparências. eu não transformei nada. Que nada seja considerado como boa ação. Maldito aquele que apelar A essas massas essenciais Mas sempre insaciáveis. Nunca se sabe em baixo. Mas nada mudará se eles melhorarem. A esses elementos dos baixios! JOANA: Mas os que estão por baixo são assim mantidos Para que os de cima lá continuem. Exceto aquele que muda o mundo Definitivamente: isso é o que é realmente necessário. Eu. é magnífico Sempre que espírito e negócios se aliam. JOANA: Pois entre os de cima e os de baixo O abismo é mais profundo Que entre o Himalaia e o fundo do mar. E dois idiomas diferentes Os homens têm a mesma face E não se reconhecem mais. Deixando sem medo um mundo por onde passei muito rápido. O que está em cima está em seu justo lugar. Pois se dele esquecer Perturbará nossa harmonia.52 Resta fragmentada Sem alma e sem vida. Entre os do alto a baixeza é sem limites. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES. Não esqueçamos que ela esteve nos matadouros. que significam Se não se manifestam em nenhum lugar? De que serve vosso saber Se o que sabeis não tem conseqüência? Eu mesma. No topo e no chão. Mas também no alto. a Joana: Seja boa e se cale! . dois pesos e duas medidas. Eu vos digo: Quando chegar a vossa vez de deixar esse mundo. Precisa-se do chão. Contrário à razão. o que foi que eu fiz? Nada. caí do céu! Infelizmente! Bondade sem conseqüência! Sentimentos Que não fizeram a menor diferença! Não. qualquer que seja.

é verdade. quando vos disserem. digam qualquer coisa. Onde reina a violência Não há outro recurso senão a violência. Sempre necessário . SLIFT – Escutem. O Verbo magnífico. Aos ricos concedei a riqueza! Hosana! Também a virtude. Combatente e mártir. de esquecer os remorsos. ferir! OS CHAPÉUS NEGROS: Nunca esqueças do sangue que mancha teus sapatos. ou seja. de século em século. BISPA SNYDER – Joana Dark. Onde vivem os homens. JOANA: Se alguém um dia vos disser Que existe um Deus. contraiu a serviço de Deus uma pneumonia nos matadouros de Chicago. sobretudo. É preciso também golpear-lhes o crânio com uma pedra. para abafar o discurso de Joana. vinte e cinco anos. Precisarás deles sempre! OS CHAPÉUS NEGROS: Olha para cima. Mas evita.Sobretudo se forem compras especulativas – Esse Verbo que. os alto-falantes começam a transmitir notícias que espalham o medo: “Bank of America e Citibank estão de pires na mão” “Revolta contra os cupins financeiros conflagra Londres” “Múltis drenam do país US$ 3. distingam com um sinal! Hosana! Enquanto eles cantam os versos. invisível. Não esqueças: tua consciência está lá! Atenção. A palavra de Deus. sempre mais alto. Falem. Chegar ao topo implica Pisar na cabeça daqueles que estão por baixo. Todos. Que podeis elevar-vos moralmente Mesmo com os pés enfiados na lama. a eles concedei! Hosana! A quem tudo possui. OS AÇOUGUEIROS: E nem pensa em tirá-los.53 É preciso. MAULER: Deves agir. comerciantes. tudo concedei! Hosana! Concedei-lhe a cidade e o Estado! Hosana! Aos vencedores. cantam a primeira estrofe do hino. mas que seja bem alto. Sempre se metamorfoseia. Em suas compras. Denegrindo a ti mesmo. infelizmente. Não esqueçam. Do qual podeis esperar ajuda. é preciso fazer algo para tirar a atenção do que ela fala. OS AÇOUGUEIROS: Podes fazer qualquer coisa! OS CHAPÉUS NEGROS: Mas faça-o Sempre com muito escrúpulo! Espírito contemplador. JOANA: E do mesmo modo. Batei com uma pedra em seu crânio Até que arrebente.266 bilhões só em dez dias de março” “BC assalta U$ 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street” “Montadoras almoçam os R$ 8 bi do crédito e mantêm ameaça de demitir trabalhadores” “Deficit dos EUA deve chegar a US$ 9 tri entre 2010 e 2019” . obedeça! OS AÇOUGUEIROS: Quem se mover no espaço Nunca poderá subir: Subir é subir sobre alguém. Só dos homens pode vir ajuda. Não.

Nós que temos a alma comum! E então desperta a boa alma Que temos no fundo de nosso coração. se não tivessem degolado tantos porcos!” “Criadores miseráveis. sinto-me atraído: . mas ela cai. Hosana! Notam que Joana para de falar. Hosana! Que seus crimes terminam bem. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES: Desde que o mundo é mundo. Pelo espírito. sempre ele aspira Às esferas mais elevadas. foram vocês que se recusaram a reduzir também!” “Vocês são os únicos culpados!” “Enquanto não acabarem com vocês não vai melhorar!” “Faz tempo que o destino de vocês está selado!” “O que estão esperando para prender vocês?” Todos cantam a segunda e a terceira estrofes do hino. Todos ficam muito tempo de pé. Um desejo vive no coração do homem. Hosana! Ajudai a quem tudo possui. mudos de emoção. combatente e mártir.” “Os bancos nos arruínam com os juros que exigem!” “Quem pode pagar tanto dinheiro para estocar o gado e pelos silos de grãos?” “Por que vocês não começaram a reduzir a produção?” “Nós começamos. até cobri-la totalmente. Infelizmente. MAULER: Como a pureza De um ser inocente. Aos astros. A voz de Joana já não se ouve: Concedei aos ricos misericórdia. Hosana! Durante esta estrofe. por que criaram tanto gado?” “Alucinados. Hosana! Nesses braços que vos estendem. Não dá mais sinais de vida. O palco é iluminado com uma luz rosada. Bolsa de NY cai 4. morta de pneumonia nos matadouros. BISPA SNYDER – Joana Dark. Em seguida cai nos braços delas. por que não empregaram mais gente e pagaram melhores salários? Quem esperam que compre a nossa carne?” “Foram os intermediários que fizeram subir tanto a carne de gado. Qual um punhal. a serviço de Deus. Ajudai vossa classe. até o fundo cravado. Hosana! Com mãos cheias. Hosana! Juntai vosso riso aos que riem. vinte e cinco anos. Colocam a bandeira em suas mãos. A carne para a terra o arrasta! MAULER: Ai! Um duplo desejo dilacera meu pobre coração. diz governo ” “EUA mudam socorro para bancos. na terceira vez ela o pega. ao firmamento Um impulso múltiplo o atira. Comove-nos profundamente. para sua grande pena. Hosana! Oferecei a vossa graça. as mulheres tentaram oferecer a Joana um prato de sopa. Hosana! Esmagai o ódio. Em duas tentativas ela recusa o prato.” “Foram as tarifas das estradas de ferro que nos esfolaram.7%” “Crise já eliminou 6 mi de empregos nos EUA” “Incertezas rondam fábricas da GM à beira do fechamento” Sob o efeito dessa terríveis notícias os personagens trocam entre si acusações e diversos insultos como esses: “Açougueiros sujos. MAULER – Dêem uma bandeira a ela. Snyder e Mauler vão até ela. A generosidade De uma alma sem mácula. que vos ajuda também. A um sinal da bispa.54 “Empresas dão calote recorde para remunerar seus acionistas” “Recessão ainda irá se agravar no Japão. tocada pela morte.” “Foram os especuladores de grãos que encareceram o gado. Por um nobre ideal. levanta e vira. que manipulam o dinheiro a rodo. colocam-se suavemente todas as bandeiras sobre Joana. Hosana! Piedade com aqueles que ignoram a fome.

55 Desejo a abnegação. como de tua alma vil. Ele precisa cuidar de ambas. não consigo resistir Inexplicavelmente! TODOS: Em cada homem habitam Duas almas opostas. Cuida bem das duas! . desejo o altruísmo Mas à atração pelo lucro. como de tua alma grosseira. Cuida de tua alma terna. Homem! Luta sempre contigo mesmo! Sigas sendo este ser uno e sempre dividido! Cuida de tua alma boa. Longe de querer escolher uma delas.