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Com Resolução do Mérito->Procedência em Parte

Processo nº 19829-41.2012.811.0041 (767032).

SENTENÇA.

Meta 2 - CNJ

Vistos etc.

Cuida-se de Ação de Resolução Contratual proposta por FERNANDO JORGE SANTOS OJEDA,
devidamente qualificado nos autos do processo acima epigrafado, em face do ESPÓLIO DE
OSCAR HERMÍNIO FERREIRA FILHO, ESPÓLIO DE MARIA AMÉLIA FERREIRA e do
Habilitado Assistente Litisconsorcial dos requeridos EFRAIM RODRIGUES GONÇALVES.

O autor tem por pretensão a resolução do contrato de prestação de serviços advocatícios, em razão
de expressa e unilateral revogação do mandado pelos requeridos, e por consequência a condenação
dos requeridos ao pagamento de R$ 232.295.202,60 (duzentos e trinta e dois milhões, duzentos e
noventa e cinco mil, duzentos e dois reais e sessenta centavos), equivalente a 15% do valor total de
cada imóvel rural que viesse a ser recuperado, além da multa contratual de 10%.

Junto à inicial vieram documentos às fls. 37/384.

Aditamento à inicial às fls. 385/389.

Recebido o processo, foi indeferida a liminar para averbação da existência da ação à margem da
matrícula e determinada a citação dos requeridos (fls. 390/390-verso).

Interposto recurso de Agravo de Instrumento, este foi provido parcialmente para autorizar a
averbação da existência da ação perante o Cartório de Registro de Imóveis.

Efetuada a citação (fls. 480/481), os requeridos apresentaram contestação, arguindo
preliminarmente a inépcia e a impossibilidade jurídica do pedido, e no mérito alegaram que a
iniciativa de rescisão foi do autor, que houve justa causa para revogação do mandado, que são
abusivas as cláusulas contratuais, da necessidade de arbitramento, do descabimento de averbações
nas matrículas dos imóveis, erro no computo do valor da condenação, e por fim requereu a
improcedência dos pedidos (fls. 484.

Às fls. 849/1290, Efrain Rodrigues Gonçalves, apresentou pedido de assistência litisconsorcial em
favor dos requeridos, tendo em vista ser signatário do contrato que se visa à resolução, arguiu
preliminar incapacidade/ilegitimidade da parte, inépcia da petição inicial e no mérito aduziu que o
autor não comprovou os serviços prestados, que o mandado se deu apenas por substabelecimento,
que houve quebra da confiança, que se aplica a exceção do contrato não cumprido, e por fim a
pleiteou a improcedência dos pedidos iniciais.

Instada a autora a se manifestar acerca das defesas, apresentou impugnação às fls. 1292/1317 e
1318/1400.

O autor requereu o arresto no rosto dos autos do processo de inventário em trâmite em no Juízo
Sucessório de São Paulo, fls. 1327/1488, que foi deferido no decisório de fls. 1489/1491-verso, e
reformada em sede de Agravo de Instrumento juntado aos autos de fls. 1676/1683.

No decisório de fls. 1402/1404, foi admitido o pedido de assistência litisconsorcial aos autos, e
intimadas as partes a especificarem provas, o autor requereu o julgamento antecipado da lide, os
requeridos requereram a produção da prova oral, pericial de arbitramento e avaliatória, além da
quebra do sigilo fiscal do autor e o assistente litisconsorcial requereu a prova oral e pericial.

Os autos me vieram conclusos.

É o relatório.

Decido.

Assinala-se que a análise do feito se enquadra na hipótese prevista no artigo 12, § 2º, VII, do
Código de Processo Civil Brasileiro, que assim autoriza:

“12. Os juízes e os tribunais atenderão, preferencialmente, à ordem cronológica de conclusão para
proferir sentença ou acórdão. (Redação dada pela Lei nº 13.256, de 2016) (Vigência)
§ 2o Estão excluídos da regra do caput:

VII - as preferências legais e as metas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Justiça.”
(Destaquei).

Vale ressaltar, de início, que foi preservado no presente feito, a garantia constitucional do
contraditório, além da ampla defesa, de modo que não paire dúvidas sobre qualquer irregularidade
que possa ser apontada para macular o procedimento.

Seguindo o entendimento dos Tribunais Superiores, embora tenham os requeridos e o assistente
especificado provas, o deslinde da controvérsia não reclama dilação probatória, uma vez que há
segurança necessária para realização da justiça, o que em última análise confrontaria com os
princípios da celeridade e economia processual, já que os elementos do processo permitem a
formação do convencimento do juiz, como se verá da análise meritória (CPC, art. 370).

Nesse sentido vem decidindo a Corte Mato-grossense, verbis:

“PRELIMINARES DE CERCEAMENTO DE DEFESA E NULIDADE DA PENHORA POR SE
TRATAR DE BEM DE FAMÍLIA - REJEIÇÃO - CONTRATO DE HONORÁRIOS
ADVOCATÍCIOS - NÃO CUMPRIMENTO - RECURSO IMPROVIDO. Em sede de embargos à
execução é dever do magistrado proceder ao julgamento antecipado da lide quando entender não
haver necessidade de produção probatória, nos termos do artigo 740 do Código de Processo Civil”.
(APELAÇÃO CÍVEL Nº 18316/2004; 3ª CÂMARA CÍVEL; j. 02/6/2004).

Nesse sentido é a jurisprudência:

“PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS. ENERGIA ELÉTRICA. DECLARATÓRIA CUMULADA COM
REPETIÇÃO DE INDÉBITO. JULGAMENTO ANTECIPADO DA LIDE. CERCEAMENTO DE
DEFESA. INOCORRÊNCIA. PRELIMINAR REJEITADA. Para que fique evidente que o
julgamento antecipado da lide cerceou o direito de defesa da parte, a necessidade da produção de
prova deve ficar evidenciada. Se o magistrado já firmou seu convencimento sobre os aspectos
decisivos da demanda a antecipação do julgamento é legítima. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS.
ENERGIA ELÉTRICA. DECLARATÓRIA CUMULADA COM REPETIÇÃO DE INDÉBITO.
REPASSE DO PIS E COFINS. TRANSFERÊNCIA DO ÔNUS AO CONSUMIDOR.
CABIMENTO. QUESTÃO JÁ DECIDIDA PELO C. STJ. PEDIDO IMPROCEDENTE.
RECURSO IMPROVIDO. O autor se mostra inconformado com o desfecho de seu pedido.
Todavia, o Colendo Superior Tribunal de Justiça já pacificou o entendimento de que tais tributos
integram a própria lógica do contrato de concessão e que é passível sua transferência aos
consumidores. Ademais, não há o pagamento das contribuições sociais pelo usuário, mas sim um
aumento da tarifa, em razão da adição dos tributos devidos ao preço cobrado pela concessionária
pelo serviço prestado. Há, desse modo, um repasse econômico e não jurídico. (TJSP - APL:
0013484-76.2010.8.26.0408 - Relator: Adilson de Araujo – j. 23/07/2013) destaquei.

Dessa forma, sendo suficientes os documentos juntados nos autos para persuasão do juiz sobre as
questões suscitadas, conheço diretamente do pedido julgando antecipadamente a lide nos moldes do
artigo 355, I do CPC.

Antes de adentrar ao mérito, passo a análise das preliminares suscitadas em sede de defesa:

INÉPCIA DO PEDIDO

Os requeridos aduzem que a inicial é inepta, em razão dos fatos narrados na inicial não decorrerem
logicamente o pedido.

Da simples leitura da exordial, não se sustenta a alegação dos requeridos, pois o autor tem por
objetivo a resolução do contrato em decorrência de descumprimento de cláusula contratual, como
será abordado com profundidade no mérito, portanto, não há imperfeição ao ponto de não ser hábil
a peça para produzir seus efeitos jurídicos, e comprometer a sua compreensão a fim de obstaculizar
a defesa, assim REJEITO a preliminar.

ILEGITIMIDADE ATIVA/INCAPACIDADE DA PARTE

O assistente indica que o mandado outorgado ao autor se deu por força de substabelecimento, sendo
vedada, portanto, a cobrança de honorários sem a participação do outorgante, ou seria cobrar em
nome próprio direito alheio.

Não obstante as alegações do assistente, razões também não lhe assiste, pois a normativa invocada
se presta apenas a cobrança de honorários sucumbenciais, enquanto o objeto da ação é a resolução
contratual e o cumprimento de cláusulas contratuais do qual o autor também é parte, portanto capaz
e legítimo a figurar no polo ativo da demanda, superada assim a preliminar.
Considerando que as demais preliminares se confundem com o mérito, juntamente com este serão
apreciadas.

DO MÉRITO DA CAUSA

A controvérsia gira derredor do fato de se indagar ou saber se houve ou não a rescisão unilateral do
contrato de prestação de serviços profissionais, e em caso positivo, se deve prosperar a multa
contratual (cláusula penal), e não da cobrança de honorários advocatícios.

Pretende o requerente a resolução do contrato de prestação de serviços advocatícios, em razão de
expressa e unilateral revogação do mandado pelos requeridos, e por consequência a condenação dos
requeridos ao cumprimento das obrigações e penalidades nele previsto.

É incontroversa a existência do contrato de prestação de serviços advocatícios existente entre as
partes e o assistente.

O contrato teve por contratante OSCAR HERMÍNIO FERREIRA FILHO, e este na qualidade de
inventariante e representante do Espólio de MARIA AMÉLIA FERREIRA, conforme confirmado
pelos requeridos (fls. 486) e diferente do que quer levar a crer o assistente em sede de preliminar de
defesa.

O instrumento tem por objeto a distribuição e acompanhamento dos processos perante qualquer
instância ou tribunal de áreas de terras rurais, denominadas ”Gleba Atlântica Grandes Matas”,
localizadas nos municípios de Cláudia, Itaúba e Sinop, com 142.605 hectares.

Como forma de pagamento se estabeleceu a quantia de 15% (quinze por cento), sobre as áreas dos
imóveis mencionados, desde que a decisão seja favorável à parte contratante, mediante o pagamento
em espécie ou o equivalente em áreas de terras.

DA
RESOLUÇÃO CONTRATUAL
Sabe-se que a Resolução é o meio de dissolução do contrato em caso de inadimplemento culposo ou
fortuito. Quando há descumprimento do contrato, ele deve ser tecnicamente resolvido.

O autor alegou que firmou o contrato de prestação de serviços advocatícios em julho de 2004, e que
em 29 de outubro de 2010 foi surpreendido com uma notificação extrajudicial onde de forma
expressa e unilateral os requeridos revogaram o seu mandato, daí a razão dos pedidos exordiais.

Em contrapartida os requeridos aduzem que a notificação apenas revogava o mandato em relação ao
autor, mas que o contrato subsiste e que não foi negado ao autor o recebimento dos seus direitos,
contudo depende da implementação de condição.

Embora os apontamentos do requerido da continuidade do contrato, mesmo que tenha revogado o
mandado não podem prevalecer, pois no caso em tela se trata de serviços advocatícios, e estes se
sabe que depende de outorga de poderes para atuação em juízo.

O objeto contratual consistia em distribuição e acompanhamento dos processos perante qualquer
instância ou tribunal, com a revogação do mandado como poderia o autor efetuar o seu
cumprimento, diante da impossibilidade de estar em juízo sem a devida procuração e outorga de
poderes.

Se fosse tangível tal situação fática, seria aceitar que o autor ficasse vinculado ao contrato e,
doravante na condição de mero espectador/torcedor pelo êxito da demanda, subordinado a atuação e
outro profissional, sem poder nada fazer, a não ser, apenas aguardar pelo seu resultado, para caso
seja positivo, satisfazer os seus direitos nele assegurados em razão dos trabalhos até então
desenvolvidos.

Dessa forma, no caso em tela, a notificação da revogação do mandato, decorre sim no intuito de
rescisão contratual em relação ao autor, até porque o assistente, também contratado, continua
atuando no objetivo contratual isoladamente, enquanto o autor se encontra obstado da sua
realização.

Diante do fundamentado, passamos a análise do contrato no que diz respeito a rescisão contratual,
mais precisamente em sua Cláusula Quinta:

Corroborando com a fundamentação já apresentada, resta claramente tipificada a conduta dos
requeridos no intuito de rescisão contratual em face do autor, quando da notificação de revogação
do mandato, conforme se extrai claramente da cláusula contratual mencionada e colacionada aos
autos de fls. 40/41, confirmando a iniciativa de rescisão.

Inicialmente, os requeridos informam que não havia o intuito da rescisão contratual e apenas
revogação do mandado como já afastado acima, posteriormente induz que havia justo motivo para
revogação do mandato.

Da análise da notificação que revogou os poderes outorgados e da resposta à contra notificação,
ambas enviadas ao autor (fls. 44 e 56), não foram indicados nenhum motivo da revogação.

Já em sede de defesa, os requeridos indicam como causa de revogação dos poderes outorgados a
ocorrência de inúmeras notícias vinculadas envolvendo o autor e seus familiares em investigação de
venda de sentença, reputando conduta incompatível com a esperada de um advogado.

Embora a alegação de justo motivo, depara-se com uma situação interessante, qual seja, revogam-se
os poderes outorgados, contudo, objetiva-se manter o contrato de prestação de serviços advocatícios
com qual finalidade senão pela atuação profissional? Estranho.

Configurado do descumprimento contratual pelos requeridos e sua conduta indutiva de rescisão
contratual, vejamos o que dita o contrato a respeito, conforme trecho da Cláusula Quinta, também já
mencionada: - “(...) Em caso de inadimplência contratual, (...) este contrato poderá ser rescindido,
cabendo aos CONTRATADOS a percepção integral dos valores estipulados como honorários, além
da multa estipulada.

A parte final da referida cláusula, deixa claro e evidente os resultados do descumprimento
contratual, qual seja a percepção integral dos valores estipulados a título de honorários e da multa
contratual, ficando afastada a condição ad êxito.

Os requeridos alegam abusividade das Cláusulas Segunda, Quarta e Quinta, conforme se extrai da
defesa, comportamento amplamente contraditório no processo, uma vez que de início roga pela
manutenção do contrato e não nega o direito do autor no recebimento do crédito quando
implementada a condição, em segundo plano abusividade das cláusulas, e ainda da continuidade do
trabalho pelo assistente.

Esse comportamento contraditório apresentado pelos requeridos é vedado, o que se denomina na
expressão venire contra factum proprium.
A expressão "venire contra factum proprium" significa vedação do comportamento contraditório,
baseando-se na regra da pacta sunt servanda. Segundo o prof. Nelson Nery, citando Menezes
Cordero, venire contra factum proprium postula dois comportamentos da mesma pessoa, lícitos em
si e diferidos no tempo. O primeiro - factum proprium - é, porém, contrariado pelo segundo.

O venire contra factum proprium encontra respaldo nas situações em que uma pessoa, por um certo
período de tempo, comporta-se de determinada maneira, gerando expectativas em outra de que seu
comportamento permanecerá inalterado.

Em vista desse comportamento, existe um investimento, a confiança de que a conduta será a
adotada anteriormente, mas depois de referido lapso temporal, é alterada por comportamento
contrário ao inicial, quebrando dessa forma a boa-fé objetiva (confiança).

Nos dizeres de Anderson Schreiber, a tutela da confiança atribui ao venire um conteúdo substancial,
no sentido de que deixa de se tratar de uma proibição à incoerência por si só, para se tornar um
princípio de proibição à ruptura da confiança, por meio da incoerência. Em suma, segundo o autor
fluminense, o fundamento da vedação do comportamento contraditório é, justamente, a tutela da
confiança, que mantém relação íntima com a boa-fé objetiva.

Vejamos a ementa do julgado:

Dano moral. Responsabilidade civil. Negativação no Serasa e constrangimento pela recusa do
cartão de crédito, cancelado pela ré. Caracterização. Boa-fé objetiva. Venire contra factum
proprium. Administradora que aceitava pagamento das faturas com atraso. Cobrança dos encargos
da mora. Ocorrência. Repentinamente invoca cláusula contratual para considerar o contrato
rescindido, a conta encerrada e o débito vencido antecipadamente. Simultaneamente providencia a
inclusão do nome do titular no Serasa. Inadmissibilidade. Inversão do comportamento
anteriormente adotado e exercício abusivo da posição jurídica. Recurso improvido (Tribunal de
Justiça de São Paulo, Apelação Cível n. 174.305-4/2-00, São Paulo, 3ª Câmara de Direito Privado
A, Relator: Enéas Costa Garcia, J. 16.12.05, V. U., Voto n. 309).

É patente licitude do que foi entabulado pelas partes considerando que foram livremente contratadas
e não evidenciado, de plano, nenhum defeito no negócio jurídico, devendo se prestigiar o pacta sunt
servanda (brocardo latino que significa "os pactos assumidos devem ser respeitados" ou mesmo "os
contratos assinados devem ser cumpridos").

No que tange as alegações dos requeridos de arbitramento, vejamos o que dita o artigo 22 do
Estatuto da Advocacia:

Art. 22. A prestação de serviço profissional assegura aos inscritos na OAB o direito aos honorários
convencionados, aos fixados por arbitramento judicial e aos de sucumbência.
§ 2º Na falta de estipulação ou de acordo, os honorários são fixados por arbitramento judicial, em
remuneração compatível com o trabalho e o valor econômico da questão, não podendo ser inferiores
aos estabelecidos na tabela organizada pelo Conselho Seccional da OAB.

Da leitura do dispositivo legal, se extrai que o arbitramento tem lugar quando faltar estipulação ou
acordo entre as partes ou mesmo quando essa estipulação não se deu de forma clara, situações que
não se amoldam ao caso em tela, o qual há o contrato e este traz de forma clara os percentuais e o
montante do bem, aptos a retribuíram a atividade profissional.

Outrossim, é incontroversa a prestação de serviços por parte do autor em favor dos requeridos,
conforme documentos acostados na exordial e inclusive menção dos trabalhos realizados em sede
de defesa que confirmam sua existência.

Tanto os requeridos como os assistentes tentam desqualificar ou diminuir a atuação do autor, mas
comprovada a atuação faz jus a remuneração já que há estipulação contratual para tanto e mais, o
presente feito, como dito, não se trata de arbitramento, não competindo a este juízo valorá-la.

O PAGAMENTO EXIGIDO NO PRESENTE FEITO DECORRE DA RESCISÃO UNILATERAL
DO CONTRATO PELO REQUERIDO E DA APLICAÇÃO DE PENALIDADE PREVISTA NO
INSTRUMENTO FIRMADO ENTRE AS PARTES.

DO CABIMENTO DA MULTA CONTRATUAL

O referido instituto tem como objetivo primeiro o reforço para que a parte cumpra sua obrigação de
maneira pontual e integral.

Por sua vez, cláusula penal, também denominada pena convencional ou multa contratual, é uma
cláusula acessória ao contrato na qual se pretende estipular uma consequência em virtude de uma
ação ou omissão, de caráter econômico. O dispositivo tem por finalidade estimular o devedor a
cumprir a obrigação quando o mesmo tenha a ciência acerca da sanção relativa caso ocorra à
insatisfação desta. Trata-se de uma obrigação coligada à obrigação principal pactuada.

Segundo os ensinamentos de Limongi França:
“A cláusula penal é um pacto acessório ao contrato ou a outro ato jurídico, efetuado na mesma
declaração ou declaração à parte, por meio do qual se estipula uma pena, em dinheiro ou outra
utilidade, a ser cumprida pelo devedor ou por terceiro, cuja finalidade precípua é garantir,
alternativa ou cumulativamente, conforme o caso, em benefício do credor ou de outrem, o fiel
cumprimento da obrigação principal, bem assim, ordinariamente, constituir-se na pré-avaliação das
perdas e danos e em punição do devedor
inadimplente”.

O assunto hoje é disposto pela legislação pátria, em especial o Código Civil que em seu artigo 412,
assim dispõe: “O valor da cominação imposta na cláusula penal não pode exceder o da obrigação
principal.”.

Diante da análise do valor atribuído a causa, bem como do montante das áreas estipuladas no
contrato e seus respectivos valores, não se vislumbra motivos a ensejarem a sua não aplicação
(inadimplemento já configurado e fundamentado) ou mesmo a sua redução visto que fixada dentro
dos parâmetros legais.

Conforme já esboçado, as cláusulas foram livremente contratadas, de acordo com a autonomia das
partes, devendo, portanto prevalecer.

DO QUANTUM DEBEATUR

A quantia a ser paga, encontra previsão na Cláusula Segunda do instrumento contratual, que
estabelece:

Assim, é claro que a retribuição pecuniária pelos serviços prestados se daria na fração de 15%
(quinze por cento), ad exitum, sobre as áreas dos imóveis descritos na Cláusula Primeira, contudo,
diante de rescisão prematura do contrato pelo inadimplemento dos requeridos (revogação do
mandato), fica afastada a condição mencionada, e recai a obrigação do pagamento na percepção
integral dos valores estipulados a título de honorários e da multa contratual, respaldado na Cláusula
Quinta, invocada anteriormente.

Outro ponto debatido pelas partes paira na aferição do valor do hectare.

Da análise dos autos a controvérsia se encontra entre o valor indicado pelo autor em sua
contranotificação, como de R$ 2.492,49 (dois mil, quatrocentos e noventa e dois reais e quarenta e
nove centavos) o hectare, de acordo com um lote em avançado processo de desapropriação, ou de
R$ 10.859,61 (dez mil, oitocentos e cinquenta e nove reais e sessenta e um centavos) o hectare,
decorrente de valores atribuídos à área em ações de impugnação ao valor da causa.

Diante da divergência constada, poder-se-ia determinar a avaliação da área a fim de se apurar o
valor exato do hectare na região, tanto no curso desta fase cognitiva ou mesmo em liquidação de
sentença (no caso de acolhimento do pedido alternativo do autor formulado em aditamento à
inicial).

Entretanto, buscando a contribuir com a celeridade processual e possibilitar a entrega da prestação
jurisdicional, dá-se por acertado a quantia de R$ 10.859,61 (dez mil, oitocentos e cinquenta e nove
reais e sessenta e um centavos) por hectare, a fim de tornar líquida a sentença.

Fundamenta-se a conclusão no fato do valor indicado na inicial ter sido o mesmo valor atribuído
pelos próprios requeridos à área, sabendo-se do impedimento de alegar a própria torpeza em juízo.

Em face do exposto, para aferição do valor a ser pago pelos serviços prestados e estabelecidos no
contrato, basta simples cálculo aritmético, levando em conta a área objeto do contrato de que é de
142.605,00 (cento e quarenta e dois mil, seiscentos e cinco) hectares, e o valor supra estabelecido
pelo hectare, após basta a incidência do percentual de 15% e após a multa de 10%.

Por fim, localizado o valor total do contrato, deve prevalecer, neste ponto, as razão esboçadas pela
defesa no sentido de que o autor faz jus apenas a metade, tendo em vista que no contrato também
figura o assistente como titular do direito nele estabelecido.

O Código Civil não conceituou a obrigação divisível, mas sim a indivisível (CC, art. 258), embora
não desconheça a íntima relação entre o problema da divisibilidade e da indivisibilidade e do objeto
das obrigações.

As obrigações divisíveis e indivisíveis são compostas pela multiplicidade de sujeitos no qual há um
desdobramento de pessoas no polo ativo ou passivo, ou mesmo em ambos, passando a existir tantas
obrigações distintas quantas pessoas dos devedores ou dos credores. Nesse caso, cada credor só
pode exigir a sua quota e cada devedor só responde pela parte respectiva (CC, art. 257).

É perfeitamente possível a separação descrita em razão de se tratar de obrigação divisível, além da
demonstração de vontade dos requeridos e assistente na manutenção contratual, assim faz jus o
autor apenas a metade do total contratual exigido.
Os requeridos informam que foram antecipados os valores de R$ 250.000,00 (duzentos e cinquenta
mil reais) a título de honorários, conforme documentos de fls. 513/514 dos autos, em contrapartida
o autor informa que os comprovantes decorrem de relação jurídica existente para com terceiros.

As alegações do requerido devem prosperar, uma vez que juntou documentos demonstrando o
efetivo pagamento, em contrapartida, o autor induz que decorre de relação jurídica diversa para com
terceiro, no entanto nada colaciona aos autos a fim de demonstrar a sua origem, devendo, portanto a
quantia ser deduzida do valor da condenação.

O cenário da litigância de má-fé exige a comprovação inequívoca e não presumida de um agir com
dolo ou culpa, no intento de causar dano processual à parte adversa, traduzido na alteração da
verdade dos fatos, oposição imotivada ao andamento do processo, ou uso de meios protelatórios e
obstativos ao alcance da Justiça, o que, não restou caracterizado no caso concreto, motivo pelo qual
afasto o pedido do autor.

DISPOSITIVO:

Diante do exposto, enfrentadas as questões trazidas a baila e capazes a influir à conclusão, com
fulcro no artigo 487, I do CPC, JULGO PARCIALMENTE PROCEDENTE os pedidos iniciais
para:

a) DECLARAR rescindido o contrato celebrado entre o autor e os requeridos (fls. 40/42);

b) CONDENAR os requeridos ao pagamento de 50% (cinquenta por cento) sobre 15% (quinze por
cento) do valor total da área de 142.605,00 (cento e quarenta e dois mil, seiscentos e cinco)
hectares, a qual foi atribuída à quantia de R$ 10.859,61 (dez mil, oitocentos e cinquenta e nove reais
e sessenta e um centavos) o hectare, fazendo incidir posteriormente 10% (dez por cento) da multa
contratual, e por fim deduzindo do montante alcançado o importe de R$ 250.000,00 (duzentos e
cinquenta mil reais) que foram recebidos de forma antecipada.

c) O valor alcançado no item anterior deverá ser acrescido de correção monetária pelo INPC/IBGE
e juros de mora de 1% a.m., a partir da citação, EM RAZÃO DA RESCISÃO UNILATERAL DO
CONTRATO FIRMADO ENTRE AS PARTES;

d) Tornar DEFINITIVA a providência cautelar deferida em sede de Agravo de Instrumento n.
95136/2012.

Em face da sucumbência recíproca (art.86, do CPC), condeno as partes e o assistente ao pagamento
das custas e despesas processuais, mais honorários advocatícios, que fixo em 15% (quinze por
cento) sobre valor da condenação, nos termos do que preceitua parágrafo 2º do art. 85 do CPC, na
proporção de 1/3 (um terço) para cada.

P.R.I.

Com o trânsito em julgado, aguarde-se a manifestação da parte vencedora no prazo de quinze (15)
dias, sem a qual, determino sejam os autos remetidos ao ARQUIVO, conforme determinado no
capitulo 6, seção 16, item 29, da CONSOLIDAÇÃO DAS NORMAS GERAIS DA
CORREGEDORIA GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MATO GROSSO - CGJ.

Cumpra-se.

Gilberto Bussiki, juiz de Direito