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293.

A estrutura narrativa da realidade


A experiência de estar dentro de um universo, concebido como uma totalidade finita ou
ilimitada, foi durante milénios traduzida sob a forma de narrativas míticas. Tratavam-se de
histórias em que as personagens, mesmo que fossem deuses, heróis, anjos, demónios, fadas,
duendes, etc., tinham essencialmente um comportamento humano (faziam escolhas, tinham
preferências, não eram totalmente previsíveis, comiam, bebiam). Inclusivamente, o núcleo da
mitologia grega, que faz a narração da criação e o conflito entre os deuses, é a descrição de
acções que se podem dizer humanas.
Depois ocorreu na Grécia uma mutação, e a expressão da realidade última já não foi cristalizada
numa narrativa mas em afirmações sobre o ser. Passou-se do tempo passado, usado nas
narrativas, para o tempo presente, mas o presente eterno. Quando Parménides diz que “o ser é,
o não-ser não é” isto não se refere a um momento do tempo, é uma fórmula metafísica
permanente e imutável; é o contrário do acontecer, porque aquilo que acontece começa e
termina, mas o ser nunca cessa. Então, por trás das narrativas era agora vislumbrada uma
realidade mais permanente, transcendendo tempo e espaço.
Apareceram várias fórmulas metafísicas e nunca foi possível chegar a um consenso. A partir do
século XVI deu-se outra mutação, como que cedendo à dificuldade em chegar a uma única
formulação metafísica. Ao invés de tentar abranger toda a realidade, o foco incidiu só na parte
da chamada Natureza física. Na realidade, nunca alguém provou que era possível descrever a
Natureza física sem referência ao ser humano que a habita, ou seja, descrever a Natureza como
uma coisa separada. Uma coisa é uma realidade que pode ser facilmente reduzida a uma
fórmula que expresse o seu carácter repetitivo, e idealmente os elementos da Natureza
expressam-se mediante fórmulas matemáticas. O fim último do cientista é chegar a uma
descrição estática e fechada daquilo que ele chama de universo ou Natureza, sobre o qual tem
total controlo intelectual. As fórmulas constantes permitem ter um controlo intelectual das
coisas, o que abre a possibilidade de um controlo tecnológico, e assim parece que a natureza das
coisas é estarem sob domínio dos seres humanos.
Contudo, o que se acontece quando se passa das coisas para os entes vivos? Nunca confundimos
uma pessoa com uma coisa. Podemos escrever um poema em que uma árvore fala mas sabemos
que se trata de uma alegoria, ou então temos alguma patologia. Os animais são seres
intermediários, com algo de coisa e algo de gente. E eles distribuem-se numa escala, havendo
alguns mais parecidos com coisas e outros mais parecidos com os seres humanos, como os
macacos e os cachorros. Contudo, já temos uma descrição genética de algumas espécies animais,
que assim podem ser cruzadas e gerar novos seres. Então, passou também a ser próprio da
natureza animal estar sob domínio humano, não apenas intelectual mas já tecnológico.
A tendência dos últimos séculos de desviar o foco de atenção da realidade como um todo para a
parte chamada Natureza veio acompanhada com outra tendência subtil de acreditar que a
totalidade da realidade tem a natureza de coisa e não a de uma história humana, como se
verificava na mitologia. Não há qualquer prova disto, mas é a base de que todo o cientista parte
para o seu desígnio de chegar a uma explicação global da realidade. 360
O que o estudo das narrativas míticas nos diz é que o mito é o quadro supremo de todo o
pensamento humano, incluindo o pensamento científico. O pensamento mítico não pode ser
superado simplesmente porque não existe algum outro que seja mais amplo que ele. A ciência
pode recuar até à origem da matéria, mas chega à conclusão que havia um conjunto de forças e
não tem como lidar com isso, porque estas forças não são um nada. Então, temos de recuar e
usar outros meios que não são os científicos. No final chegamos a um mundo mitológico e ao
início da própria Bíblia, que diz que no início era o Logos. O pensamento mitológico conta tudo
sob a forma de narrativas, que não se dão entre coisas mas entre forças dotas de identidade,
liberdade de acção e consciência de si mesmas, ou seja, de forças que agem como seres
humanos. Não há forma de superar a concepção antropomórfica do universo. A realidade não
pode ser reduzida a fórmulas matemáticas ou metafísicas, nem sequer a leis, porque a realidade
não é uma coisa. Deus transcende as suas próprias leis.
Contar histórias é a actividade mental mais constante desde sempre. Em comparação, a
actividade explicativa é quase nula. Mesmo a teoria do Big Bang é uma narrativa, não pode ser
compreendida como uma constante. A cultura moderna criou a ilusão de vivermos dentro de
uma coisa e não dentro de uma narrativa. Mas quando as narrativas antigas são removida, as
pessoas vão criar novas narrativas, só que agora completamente falsas, como as mitologias
grupais do marxismo ou do liberalismo materialista-ateísta [292]. Todas as narrativas
pretendem simbolizar a narrativa da realidade, a diferença é que esta última foi escrita por
Deus. As nossas narrativas são válidas quando nos abrem para a realidade, caso contrário
tentam confundir-se com ela, encerrando-nos nos seus limites estreitos. Northrop Frye fazia a
distinção entre mitos e fábulas. Os mitos são símbolos auto-conscientes dentro da narrativa
divina, e as fábulas são histórias que acreditam em si mesmas, e tornam-se falsas quando
pretendem passar por verdades literais. Quando a percepção da totalidade da realidade como
narrativa desaparece, vão proliferar as fábulas de todo o género, literárias, científicas,
cinematográficas, históricas, etc., mas agora o ser humano já não se vê como personagem mas
como um narrador que pode controlar o conjunto como se fosse um demiurgo.
Consideramos legítimo que um romancista faça uma narrativa como símbolo da narrativa
divina, mas achamos que ele enlouqueceu quando se encerrou dentro da sua narrativa e não vê
nada fora dela. Contudo, o cientista faz exactamente isto e não o chamamos de louco. Mas o
cientista quer ainda impor aos outros a sua fábula como realidade. Daqui derivam as ideologias
totalitárias, todas têm origem científica, assim como é a origem remota das mitologias grupais
[292]. Mas nenhum filósofo sério cai neste erro, ele nunca vai levar a sua filosofia a sério até ao
fim, sabe que tudo aquilo é simbólico e que está trabalhando dentro de uma estrutura mítica que
o abrange e da qual ele apenas pode compreender uma parte. α98