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Editora Poisson

Sustentabilidade e Responsabilidade Social


em Foco
Volume 6

1ª Edição

Belo Horizonte
Poisson
2018
Editor Chefe: Dr. Darly Fernando Andrade

Conselho Editorial
Dr. Antônio Artur de Souza – Universidade Federal de Minas Gerais
Dra. Cacilda Nacur Lorentz – Universidade do Estado de Minas Gerais
Dr. José Eduardo Ferreira Lopes – Universidade Federal de Uberlândia
Dr. Otaviano Francisco Neves – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Dr. Luiz Cláudio de Lima – Universidade FUMEC
Dr. Nelson Ferreira Filho – Faculdades Kennedy

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

S587s
Sustentabilidade e Responsabilidade Social
em foco – Volume 6/
Organização Editora Poisson – Belo
Horizonte - MG : Poisson, 2018
255

Formato: PDF
ISBN: 978-85-93729-73-7
DOI: 10.5935/978-85-93729-73-7.2018B001

Modo de acesso: World Wide Web


Inclui bibliografia

1. Gestão 2. Sustentabilidade. 3.
Responsabilidade Social I. Título

CDD-658.8

O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correção e confiabilidade são
de responsabilidade exclusiva dos seus respectivos autores.

www.poisson.com.br

contato@poisson.com.br
SUMÁRIO
Capítulo 1: Qualidade de vida de afetados por barragem na Amazônia
brasileira ...............................................................................................................
7
Ernani Marques de Almeida, Mariluce Paes de Souza, Vanessa Fernanda Rios de
Almeida, Aloir Pedruzzi Junior, Diones Soares de Souza

Capítulo 2: A embalagem retornável como fator de sustentabilidade na


cadeia automobilística: um estudo de caso. ........................................................
18
Patricia Kasumi Inoue, Getulio K Akabane, Claudio Tadeu Pinheiro De Oliveira,
Fernando José Bussola, Graziela Bizin Panza

Capítulo 3: Balanço social: estudo sobre a presença formal e/ou


informal de práticas que caracterizam situações sociais nas IES em
porto velho ............................................................................................................
28
Rwrsilany Silva, Gustavo Melazi Girardi, Artur Virgílio Simpson Martins, Euliene da
Silva Gonçalves, Ricardo Lopes Vieira Cesar

Capítulo 4: Proposição de um Indicador para avaliação da


sustentabilidade ambiental no campus do Setor Litoral da Universidade
Federal do Paraná ................................................................................................
39
Adelson da Silva, Felipe Paulo Proença da Silva, Doralice de Almeida Nascimento,
Juliane Borges Pereira, Sandra Simm Rohrich

Capítulo 5: O discurso da sustentabilidade no capitalismo: uma


falácia? .................................................................................................................
52
Renata Storti Pereira, Nicole Cerci Mostagi, Eduardo Camargo de Aguiar, Cesar
Henrique da Silva Rezende

Capítulo 6: Termos de compromisso ambiental e a política de gestão


ambiental em Campinas .......................................................................................
65
Beatriz Duarte Correa de Brito, Anderson Gonçalves, Josmar Cappa, Samuel
Carvalho de Benedicto, Josué Mastrodi Neto

Capítulo 7: Responsabilidade social corporativa aplicada em PMES no


município de Presidente Prudente/SP ..................................................................
95
Alessandra Harumi Sakai dos Santos, Edilene Mayumi Murashita Takenaka,
Alexandre Godinho Bertoncello, João Lucas de Souza Maximiano
SUMÁRIO
Capítulo 8: Sistema de gestão ambiental e suas aplicabilidades: um
estudo de caso na empresa Natura Cosméticos S.A ...........................................
104
Paloma Gasparino do Monte, Patricia Fernandes Frauches, Vlademir Betaressi

Capítulo 9: Adoção de práticas sustentáveis na cadeia de suprimentos


e desempenho operacional de novos produtos ...................................................
119
Thaíse Caroline Milbratz, Vilmar Siewert Junior, Luciano Castro de Carvalho

Capítulo 10: Cidades Sustentáveis: Estudo sobre o saneamento básico


de maiores municípios catarinenses a partir do Índice de
Desenvolvimento Sustentável dos Municípios Catarinenses
SIDEMS/FECAM ...................................................................................................
134
Fabricia Silva da Rosa, Mirella Cristiane dos Santos, Heitor Gerson dos Santos

Capítulo 11: Sustentabilidade em instituições de ensino superior: uma


revisão sobre as conferências internacionais para a sustentabilidade
em IES ..................................................................................................................
142
Paulo Fonseca Ramos de Oliveira, Betane Faria de Oliveira, Sandra Simm Rohrich

Capítulo 12: Indicadores de desenvolvimento humano e


sustentabilidade: uma abordagem regional para a cidade de São Paulo ...........
152
Aurélio Sbizzarro Neto, Elizabeth Borelli

Capítulo 13: Sustentabilidade: um estudo sobre a exportação de


alimentos orgânicos .............................................................................................
166
Antônia Amanda Alves Pereira Moreira, Henrique César Melo Ribeiro, Rosany Corrêa

Capítulo 14: Análise do serviço de hemodiálise a partir da ferramenta


produção mais limpa (p+l) ...................................................................................
180
Nayara Ariane L. Gonçalves, Lúcia Santana Freitas, Thaynara Ariadne Laureano
Gonçalves

Capítulo 15: O desafio frente à escassês de água: um estudo


observacional do documentário “Flow Love of Water” .........................................
193
Laíse Luciene Costa de Lima Maia, Oderlene Vieira de Oliveira

Capítulo 16: A importância da elaboração de inventários de gases de


efeito estufa para evitar o aquecimento global. Análise das iniciativas
internacionais e nacionais. ...................................................................................
202
Cláudia Virgínia M. de Freitas
SUMÁRIO
Capítulo 17: Estudo para implantação de produção mais limpa no
contexto das pequenas e médias empresas do segmento têxtil .........................
213
Ana Paula Duarte Seleghim, Analdo Junior Silva

Capítulo 18: Os impactos da sustentabilidade nas organizações .......................


226
Vera Lucia Chaves Alonso, Éllen Rodrigues de Sena, Nelson Alonso Junior

Capítulo 19: Dinâmica relacional entre inovação e internacionalização:


o caso da Empresa Greenmile .............................................................................
240
Polyana karina Mendes Ximenes, Mônica Mota Tassigny, Artur Gomes de Oliveira,
Jessie Coutinho de Souza Tavares, Odéssia Fernanda Gomes de Assis

Autores: ................................................................................................................
255
Capítulo 1

Ernani Marques de Almeida


Mariluce Paes de Souza
Vanessa Fernanda Rios de Almeida
Aloir Pedruzzi Junior
Diones Soares de Souza

Resumo: A construção de barragens hidrelétricas na Amazônia Legal é recorrente


nos últimos anos. Estas obras introduzem alterações na vida dos residentes em sua
área de influência direta, perda de peixes e de outros recursos dos rios, a
inundação de grandes áreas, o desmatamento, o reassentamento de pessoas
urbanas e rurais. Na cidade de Porto Velho cerca de duas mil pessoas foram
reassentamentos. No Assentamento Novo Engenho Velho cerca de 40 famílias
oriundas sofrem os impactos do empreendimento energético afetando assim a
qualidade de vida destas pessoas. Qualidade de vida está relacionado com bem-
estar, é a avaliação global da experiência humana, representa tanto o quão bem
são satisfeitas as necessidades humanas, na medida em que indivíduos e grupos
percebem satisfação ou insatisfação em vários domínios da vida. Melhoria da
qualidade de vida tem sido uma meta explícita ou implícita para indivíduos,
comunidades, nações, de todo o mundo. Este trabalho objetiva mensurar o nível de
qualidade de vida dos moradores do Assentamento Novo Engenho Velho. A
metodologia aplicada neste estudo se enquadra em uma pesquisa qualitativa,
descritiva, realizada por meio da aplicação do questionário whoqol-bref aos
moradores do Assentamento. Como principais resultados tem-se que que 59% das
pessoas avalia sua qualidade de vida como boa ou muito boa, e 50% está satisfeito
ou muito satisfeito com as condições atuais de saúde. Fica evidenciado a
necessidade a promoção de atividades de lazer no local uma vez que o
assentamento em estudo não é contemplado por nenhuma possibilidade de
distração familiar.

Palavras-chave: Qualidade de vida. Assentamento rural. Amazônia.


8

1 INTRODUÇÃO De acordo com Fearnside (2015) o impacto


social da expulsão de pessoas que viveram
O Brasil desenvolveu nos últimos anos
por gerações em um determinado lugar e que
diversos projetos de construção de barragens
não estão adequadamente preparadas para
hidrelétricas, a maioria localizada na
outros contextos é maior do que no
Amazônia Legal, e o resultado será a
deslocamento de populações urbanas ou
conversão de praticamente todos os afluentes
colonos recém-chegados. Este impacto social
do rio Amazonas em cadeias contínuas de
aliado a dificuldade de desenvolvimento de
reservatórios. As barragens acarretam
novas habilidades pode trazer alterações na
impactos ambientais como a perda de peixes
qualidade de vida destas pessoas.
e de outros recursos dos rios, a inundação de
grandes áreas, o desmatamento, o Qualidade de vida é a avaliação global da
reassentamento de pessoas urbanas e rurais. experiência humana, representa tanto o quão
Os impactos destas obras recaem sempre bem são satisfeitas as necessidades, na
sobre as populações locais enquanto os medida em que indivíduos e grupos
benefícios, normalmente, são colhidos por percebem satisfação ou insatisfação em
cidades distantes (FEARNSIDE, 2015). vários domínios da vida. Melhoria da
qualidade de vida tem sido uma meta
Na cidade de Porto Velho, Capital do Estado
explícita ou implícita para indivíduos,
de Rondônia, foram implantadas duas usinas
comunidades, nações, de todo o mundo.
hidrelétricas, ambas no leito do Rio Madeira.
Embora não seja possível investir diretamente
Estas obras introduziram alterações na vida
na qualidade de vida pode-se à medida que
dos residentes em sua área de influência
identificar as necessidades dos indivíduos
direta. Em apenas um dos empreendimentos,
investir os recursos para desenvolver
cerca de duas mil pessoas foram retiradas de
oportunidades, decidir pelas ações que irão
suas terras e levadas para outros locais
criar mais oportunidades para atender essa
conhecidos como assentamentos. O
necessidade obtendo assim um maior retorno
Assentamento Novo Engenho Velho originou-
sobre o investimento, medida pelo aumento
se com a transferência de pessoas por
da qualidade de vida (CONSTANZA et. al.
ocasião da construção da Usina Hidrelétrica
2006).
de Santo Antônio. Cerca de 40 famílias
oriundas de comunidades ribeirinhas, que Diante da contextualização ora apresentada
possuíam como atividade econômica surge a indagação que dá sentido a este
principal a pesca, foram deslocadas de seu trabalho: qual o nível da qualidade de vida
habitat tradicional e hoje sofrem os impactos dos moradores do assentamento Novo
do empreendimento. Engenho Velho? Dada a problematização
apresenta-se o objetivo da pesquisa como
Ribeiro e Moret (2014), constataram reflexos
sendo: mensurar o nível de qualidade de vida
negativos nas condições econômicas e
dos moradores do Assentamento Novo
culturais dos assentados; a necessidade de
Engenho Velho a partir da aplicação do
enfrentamento em rotinas alheias ao seu
instrumento WHOQOL-BREF.
conhecimento tradicional; ócio decorrente do
desemprego estrutural causado pela O texto está estruturado em cinco seções,
desmobilização da mão de obra da sendo esta introdução a primeira onde se
construção das Usinas Hidrelétricas. Virgulino buscou contextualizar o trabalho no tempo e
et. al. (2012), também estuda os assentados e espaço. Em seguida procede-se a revisão
aponta que estes novos residentes deixaram teórica e conceitual, buscando uma visão
de realizar atividades que produzam renda geral dos conceitos e teorias fundamentais
sustentável passando por privação de sua para a realização do trabalho proporcionando
subsistência produtiva natural e necessidade o entendimento dos principais pontos. A
de qualificação para uma nova atividade. terceira seção, trata da metodologia utilizada
Complementa Cavalcante (2012), sinalizando na tarefa, em seguida tem-se uma análise e
o esvaziamento local, em função de discussão dos dados obtidos na pesquisa e
alterações nos hábitos e costumes dos por fim são apresentadas as considerações
nativos, pois ocorreu um deslocamento no finais, onde se buscou apresentar visão crítica
seu ritmo de vida vinculado ao fluxo do rio, sobre a problemática em questão.
onde mediante extração pesqueira artesanal
obtinha sua renda.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


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2 REFERENCIAL TEÓRICO do bem-estar sentido pelas pessoas. Para


Oliveira (2006) qualidade de vida varia de
O termo “qualidade de vida” de acordo com
pessoa para pessoa e de sociedade para
Carvalho et. al. (2012) tem origem no discurso
sociedade, evolui com os avanços científicos
de Lyndon Johnson, ex-presidente dos
e tecnológicos em vários domínios, como
Estados Unidos, que em 1964 afirmou que os
saúde, habitação e transportes, e a medida
objetivos não podem ser medidos pelos
que estas vão sendo satisfeitas são almejados
balanços bancários, mas sim pela qualidade
outros indicadores, como o reconhecimento
de vida que eles proporcionam as pessoas.
social, a recuperação e a preservação do
Fleck (2000) afirma que especialistas de
ambiente.
várias partes do mundo reunidos pela
organização mundial da saúde definiram a Para Daubermann e Tonete (2012) e Pilatti
qualidade de vida em WHOQOL (1995) como (2012) a busca pela qualidade de vida se
a percepção dos indivíduos da sua posição refere tanto a vida em sociedade, quanto aos
na vida no contexto dos sistemas de cultura e momentos destinado às atividades laborais,
valor, em que eles vivem e em relação a suas pois não há como dissociar a vida e o
metas, expectativas, padrões e trabalho. Oliveira et. al. (2015) complementa
preocupações. Para Pilatti (2012) a afirmando que a qualidade de vida no
percepção individual torna o abstraimento trabalho envolve os aspectos humanos,
subjetivo, podendo-se concluir que, segundo técnicos e econômicos e pode ser definida
o conceito, o que é qualidade de vida para como a qualidade da relação entre
um indivíduo, pode não ser para outro. empregados e seu ambiente de trabalho.
Para Carvalho et. al. (2012) esta preocupação
Para Constanza et. al. (2006) qualidade de
deve-se estender também ao meio rural
vida é a avaliação global da experiência
incluindo os produtores, empresários rurais,
humana, representa tanto o quão bem são
comerciantes e prestadores de serviços, pois
satisfeitas as necessidades ou a medida em
a sensação de bem-estar e realização das
que indivíduos ou grupos percebem
pessoas é capaz de afetar sua capacidade
satisfação ou insatisfação em vários domínios
de produção.
da vida. Para Fescina Junior (2010) qualidade
de vida agrupa um conjunto de fatores como Qualidade de vida é um atributo subjetivo e
saúde, educação, bem-estar físico, sua percepção pode variar de pessoa para
psicológico, emocional e mental, expectativa pessoa deste modo mensurar a qualidade de
de vida e também outros elementos, como a vida não é uma tarefa fácil. Segundo Fleck
família, amigos, emprego, liberdade, e (2000) desenvolver instrumentos para avaliar
representa as condições de vida das qualidade de vida é um grande desafio, em
pessoas. Carvalho et. al. (2012) corrobora sua maioria os instrumentos foram
relacionando qualidade de vida com bem- desenvolvidos nos Estados Unidos e na
estar, assim, segundo os autores, tudo que Europa o que torna o seu uso em outras
proporciona melhoria e bem-estar às pessoas culturas no mínimo questionável.
está diretamente ligado à qualidade de vida.
De acordo com Constanza et. al. (2006) duas
Minayo (2000) alerta que nas sociedades metodologias básicas de medição são
onde a desigualdade e heterogeneidade são utilizadas: um método utiliza indicadores
muito fortes os padrões e as concepções de sociais ou econômicos quantificáveis
bem-estar são igualmente estratificados, e (objetivas); o outro o auto relato das pessoas
frisa que os objetivos em geral são: conforto, sobre os níveis de felicidade, prazer,
prazer, alimentação, bens móveis e imóveis, realização e similares (bem-estar subjetivo).
tecnologias que diminuem o trabalho manual, Assim diversos instrumentos foram
arte, cultura, riquezas e outras comodidades. desenvolvidos tentando sintetizar a
complexidade do tema e de sua relatividade
A utilização do termo é subjetiva, ampla e
nas diferentes culturas e realidades sociais.
abrangente podendo caracterizar as
condições de vida de uma pessoa, de um Minayo (2000) afirma que o Programa das
grupo de pessoas, de uma região, uma Nações Unidas para o Desenvolvimento criou
cidade, um estado, um país apresentando o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)
para cada óptica uma avaliação diferente que se baseia em três elementos
sobre o que é qualidade de vida, as fundamentais: renda; saúde; e educação,
definições para qualidade de vida permeiam para medir a qualidade de vida, porém não
de uma forma geral o campo da percepção consegue incorporar a essência do conceito

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


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central que tenta medir, a percepção do disponibilizado em mais de 20 idiomas, o


indivíduo. grupo responsável selecionou centros
oriundos de países com diferentes níveis de
Outro instrumento, o Índice de Condições de
industrialização, serviços de saúde, valoração
Vida (ICV) da Fundação João Pinheiro,
da família e religião praticada, entre outros e
agrupa 20 indicadores em cinco dimensões:
desenvolveu o questionário por meio de uma
renda; educação; infância; habitação; e
metodologia única e o resultado possibilita a
longevidade. Estes indicadores trabalham
avaliação de qualidade de vida com um
apenas com os aspectos objetivos. Entre os
enfoque transcultural.
de natureza subjetiva está o Índice de
Qualidade de Vida (IQV) de São Paulo no qual De acordo com WHOQOL (1998) os
são analisados os indicadores a partir do questionários receberam como denominação
ponto de vista da população que responde as iniciais do grupo que os criaram World
sobre o seu grau de satisfação. Health Organization Instrument to Evaluate
Quality of Life - WHOQOL. Foram
De acordo com a Organização Mundial da
desenvolvidas inicialmente duas versões do
Saúde (OMS) por meio do grupo World Health
questionário WHOQOL-100 e WHOQOL-Bref.
Organization Instrument to Evaluate Quality of
O primeiro consta de 100 questões que
Life WHOQOL (1995), em virtude da
avaliam seis domínios: físico, psicológico, de
necessidade de uma avaliação internacional
independência, relações sociais, meio
da qualidade de vida foram criados os
ambiente e espiritualidade, o segundo uma
questionários da OMS para aferição do índice
versão abreviada apresenta 26 questões e
de qualidade de vida tornando possível
avalia quatro domínios: físico, psicológico,
realizar a pesquisa em diferentes contextos
relações sociais e meio ambiente. A
culturais e para comparar diretamente os
distribuição das facetas do questionário entre
resultados obtidos nas diversas
os domínios avaliados pode ser atestada
configurações.
Fleck (2000) e a versão brasileira das
O projeto WHOQOL, segundo Pedroso et. al. perguntas é apresentada por Casto,
(2013) e Fleck (2000) teve início em 1993 com Hökerberg e passos (2013) a partir dos quais
a participação de 15 centros sediados em 14 se elabora o Quadro 1..
países e seus resultados foram

Quadro 1: Versão brasileira do WHOQOL-BREF


Domínio Faceta Perguntas
Qualidade de vida Como você avaliaria sua qualidade de vida?
Geral
Saúde Quão satisfeito (a) você está com a sua saúde?
Em que medida você acha que sua dor (física) impede
Dor física
você de fazer o que você precisa?
O quanto você precisa de algum tratamento médico
Tratamento
para levar sua vida diária?
Energia Você tem energia suficiente para seu dia-a-dia?
Físico Locomoção Quão bem você e capaz de se locomover?
Sono Quão satisfeito (a) você está com o seu sono?
Quão satisfeito (a) você está com sua capacidade de
Atividades diárias
desempenhar as atividades do seu dia-a-dia?
Quão satisfeito (a) você está com sua capacidade
Capacidade trabalho
para o trabalho?
Aproveita vida O quanto você aproveita a vida?
Em que medida você acha que a sua vida tem
Sentido da vida
sentido?
Concentração O quanto você consegue se concentrar?
Psicológico Aparência física Você e capaz de aceitar sua aparência física?
Autossatisfação Quão satisfeito (a) você está consigo mesmo?
Com que frequência você tem sentimentos negativos
Sentimentos negativos tais como mau humor, desespero, ansiedade,
depressão?

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


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Quadro 2: Versão brasileira do WHOQOL-BREF (continuação)


Domínio Faceta Perguntas
Quão satisfeito (a) você está com suas relações
Relações pessoais
pessoais (amigos, parentes, conhecidos, colegas)?
Relações
Vida sexual Quão satisfeito (a) você está com sua vida sexual?
Sociais
Quão satisfeito (a) você está com o apoio que você
Apoio dos amigos
recebe de seus amigos?
Segurança na vida Quão seguro (a) você se sente em sua vida diária?
Quão saudável e o seu ambiente físico (clima, barulho,
Ambiente saudável
poluição, atrativos)?
Você tem dinheiro suficiente para satisfazer suas
Recursos financeiros
necessidades?
Informações Quão disponíveis para você estão as informações que
disponíveis precisa no seu dia-a-dia?
Meio Ambiente Em que medida você tem oportunidades de atividade
Atividade de lazer
de lazer?
Quão satisfeito (a) você está com as condições do
Moradia
local onde mora?
Acesso serviço de Quão satisfeito (a) você está com o seu acesso aos
saúde serviços de saúde?
Quão satisfeito (a) você está com o seu meio de
Meio de transporte
transporte?
Fonte: Elaborado pelos autores a partir de Casto, Hökerberg e Passos (2013)
O domínio físico do questionário avalia: a A presente pesquisa apresenta uma
existência de dor física que possa impedir de abordagem qualitativa, descritiva, de
fazer as atividades; a necessidade de levantamento e corte transversal realizada
tratamento médico; a energia para o dia-a- através de entrevistas estruturadas utilizando
dia; a capacidade de locomoção; a satisfação o questionário WHOQOL-Bref. A ferramenta
com o sono; a satisfação com a capacidade utilizada é o instrumento genérico de aferição
de desempenhar as atividades do dia a dia e de qualidade de vida da Organização
do trabalho. Mundial da Saúde que por meio do grupo
World Health Organization Quality of Life criou
No domínio psicológico é avaliada a
o WHOQOL-Bref, composto por 26 questões
percepção do respondente sobre: o quanto
fechadas, 2 gerais de qualidade de vida e 24
aproveita a vida; o quanto acha que a vida
que representam as variáveis que compõe o
tem sentido; a capacidade de concentração;
instrumento original, envolve 4 domínios:
aceitação da aparência física; a satisfação
físico, psicológico, relações sociais e meio
consigo mesmo; e a frequência que se tem
ambiente. Foi utilizada a versão abreviada,
sentimentos negativos como mau humor,
em português, do WHOQOL-bref,
desespero, ansiedade, depressão.
desenvolvida no Centro WHOQOL para o
Nas relações sociais os respondentes são Brasil, no Departamento de Psiquiatria e
questionados sobre a satisfação: com suas Medicina Legal da Universidade Federal do
relações pessoais; com a vida sexual; e com Rio Grande do Sul, sob a coordenação do Dr.
o apoio que recebe de amigos. Marcelo Pio de Almeida Fleck.
No domínio meio ambiente questiona-se O questionário foi aplicado no dia 13 de
sobre: segurança na vida; se o ambiente em dezembro de 2015, um domingo, dia da
que vive é saudável; a posse de recursos semana em que se esperava encontrar um
financeiros; o acesso a informações; a maior número de pessoas em casa, obtendo-
disponibilidade de atividades de lazer; as se as informações primárias junto aos
condições de moradia; o acesso ao serviço moradores do Assentamento Novo Engenho
de saúde; e a satisfação com o meio de Velho. Estes moradores foram remanejados
transporte. em um passado próximo, por ocasião da
construção de uma das Usinas do complexo
hidrelétrico do Rio Madeira, de seu local de
3 METODOLOGIA moradia original para um novo ambiente com
características diferentes.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


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Como sugerido em Carvalho et. al. (2012) O WHOQOL – bref é um questionário


além da aplicação do questionário, buscou autoexplicativo que avalia a percepção
levantar dados sociodemográficos da individual do respondente e deve ser
população estudada, o perfil do morador: preenchido por ele, porém devido à
idade, sexo, estado civil, atividade principal, simplicidade dos entrevistados, estes foram
renda, escolaridade e o que eles consideram assistidos pelo entrevistador quando
necessário para se ter uma boa qualidade de solicitaram apoio e em 6 casos o questionário
vida. foi administrado pelo entrevistador.
Os participantes foram selecionados por Depois de aplicada a ferramenta de pesquisa,
conveniência e disponibilidade para os dados foram compilados em uma planilha
realização da coleta de dados. Amostra por do programa Excel for Windows, onde após
conveniência segundo Ochoa (2015) consiste consolidação tirou-se as médias das
em selecionar os indivíduos empregados por respostas de cada faceta e construiu-se os
estarem prontamente disponíveis, ou seja, gráficos que possibilitam uma melhor
uma amostra da população que seja visualização dos resultados.
acessível e não por meio de um critério
estatístico.
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES
Antes de cada coleta de dados foram
apresentados os objetivos e as informações O estudo foi realizado no Assentamento Novo
sobre a pesquisa, realizada a retirada de Engenho Velho localizado na margem
possíveis dúvidas e apresentação e Termo de esquerda do Rio Madeira, a 10 km de
Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). distância da Cidade de Porto Velho, Capital
do Estado de Rondônia. O assentamento teve
Os critérios de inclusão: idade igual ou
origem com a remoção de 40 famílias
superior a 18 anos e ser residente do
oriundas de três comunidades ribeirinhas
Assentamento Novo Engenho Velho. A coleta
atingidas pela construção de uma usina
de dados foi realizada pelos autores e o
hidroelétrica. Estudos como o de Ribeiro e
grupo de participantes definido para
Moret (2014), e Virgulino et. al. (2012)
responderem a pesquisa é no mínimo um
apontam reflexos negativos nas condições
adulto por residência do assentamento Novo
econômicas e culturais locais. Endossa
Engenho Velho, porém durante a realização
Cavalcante (2012) os hábitos e costumes dos
da pesquisa os responsáveis por duas
nativos foram desestabilizados, com
residências não quiseram responder e dez
deslocamento no seu ritmo de vida que era
casas estavam fechadas, nas residências
vinculado ao fluxo do rio.
onde haviam mais de um adulto disposto a
colaborar com a pesquisa estes dados foram Nesta pesquisa observou-se que 62% dos
coletados. Assim chegou-se a um total de 32 respondentes são do sexo feminino e os
questionários totalmente preenchidos. outros 38% são do sexo masculino, quanto ao
estado civil verifica-se que a grande maioria
Para análise da escala seguiu-se os passos
66% é casado, os solteiros somam 19%, os
definidos pela OMS: Cada uma das 26
divorciados 6%, viúvos 3% e os que possuem
questões apresenta respostas entre 1-5;
união estável 6%. Com relação a renda média
inverteu-se os valores das questões 3, 4 e 26,
familiar verificou-se que 75% sobrevivem com
por serem negativamente orientadas. As
até 2 salários mínimos mensais e os outros
questões gerais que avaliam a Qualidade de
25% possuem renda familiar média na faixa
Vida do questionário WHOQOL-Bref são as
compreendida entra 2 e 4 salários mínimos. A
questões 1 e 2 e variam de muito ruim a muito
profissão dos participantes da pesquisa está
boa e muito insatisfeito a muito satisfeito.
distribuída no
Gráfico 1. concluir que para estas pessoas as
condições de vida do assentamento são os
Pelo gráfico verifica-se que uma parcela
fatores principais que afetam sua qualidade
relevante dos participantes (81%) permanece
de vida.
praticamente o dia todo no assentamento,
quer seja por não terem atividade
remunerada: aposentados, donas de casa e
desempregados, ou por exercerem suas
profissões no próprio assentamento, é o caso
dos pescadores e agricultores, o que leva a

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


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Gráfico 1: Profissão dos participantes

40% 31%
30% 19% 16%
20% 9% 6%
10% 3% 3% 3% 3% 3% 3%
0%

Fonte: Dados da pesquisa.


A idade dos entrevistados varia de 18 a 83 está muito abaixo da média nacional que é
anos, distribuídos como se segue: 19% 11%. Verifica-se também que 9% da amostra
possuem até 29 anos; 19% de 30 a 39 anos; não foi alfabetizada 31% estudou apenas no
19% de 40 a 49 anos; 21,5% de 50 a 59 anos; ensino primário, estas pessoas são em geral
e 21,5% 60 anos ou mais. Quanto a as de mais idade com uma forte concentração
escolaridade, verifica-se que apenas 3% dos entre os que possuem mais de 50 anos.
entrevistados possui curso superior, o que

Gráfico 2: escolaridade dos entrevistados

Ensino superior. 3%
Ensino médio. 31%
Ensino fundamental. 25%
Ensino primário. 31%
Não alfabetizado. 9%

0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% 35%

Fonte: dados da pesquisa


Na questão aberta sobre o que é necessário elemento necessário para se atingir o patamar
para se ter uma boa qualidade de vida, onde mínimo para se ter uma boa qualidade de
a quantidade de alternativas era livre, os vida.
moradores citaram em sua maioria a saúde
50% apresentando-se também como
respostas os seguintes itens: paz 19%, 4.1 AVALIAÇÃO GERAL DA QUALIDADE DE
dinheiro 13%, alimentação 13%, amigos 9%, VIDA
família 9%, trabalho 9%, Deus 9%, transporte
A avaliação da qualidade de vida por meio da
9%, alegria 6%, Felicidade 6%, ajuda pública
utilização do questionário Whoqol-bref inicia-
3%, educação 3%, ser uma boa pessoa 3%,
se com duas perguntas gerais sobre a
disposição 3%, e 9% das pessoas não
qualidade de vida. Na primeira o respondente
souberam responder a pergunta. Com base
avalia sua qualidade de vida. Nesta questão,
nestas informações acredita-se que para os
conforme Gráfico 3 a seguir, obteve-se que
moradores do assentamento em estudo o
59% das pessoas avalia sua qualidade de
fator mais importante para se ter uma boa
vida como boa ou muito boa, 22% avalia
qualidade de vida é a saúde. Este fato
como nem ruim nem boa, e 19% como ruim e
corrobora com a pesquisa de Carvalho et. al.
nenhuma pessoa avaliou a qualidade de vida
(2012) que afirma que sem saúde não se tem
como muito ruim.
qualidade de vida uma vez que ela é

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


14

Gráfico 3: avaliação pessoal da qualidade de vida e da saúde.

Muito boa 3%
Muito Satisfeito 3%
Muito boa 56%
Muito Satisfeito 47%
nem ruim nem boa 22% Qualidade de Vida
nem satisfeito nem insatisfeito 31%
Saúde
Ruim 19%
Isatisfeito 19%
Muito Ruim 0%
Muito Isatisfeito 0%

0% 10% 20% 30% 40% 50% 60%

Fonte: dados da pesquisa


O Gráfico 3 reune também as respostas para comparação dos resultados seguiu-se as
a segunda questão, esta avalia a satisfação orientações da OMS invertendo as médias
com a saúde pessoal, neste item 50% está obtidas nas facetas relacionadas a dor física,
satisfeito ou muito satisfeito com as condições dependência de tratamentos e sentimentos
atuais de saúde, 19% está insatisfeito com a negativos possibilitando assim uma
saúde e 31% não está nem satisfeito nem uniformização dos resultados.
insatisfeito. Fato este que demonstra que para
No Gráfico 4 são apresentadas as médias das
a grande maioria, 81%, a saúde própria não
facetas que compõem o domínio físico,
caracteriza um problema para a obtenção de
através dele pode-se observar que os
uma boa qualidade de vida.
entrevistados relatam possuir energia para
realizar as atividades do dia-a-dia, estarem
satisfeitos com a qualidade do seu sono, com
4.2 AVALIAÇÃO DOS DOMÍNIOS QUE
a capacidade de locomoção e capacidade de
COMPÕEM O WHOQOL-BREF
realização das tarefas diárias. Contudo,
Analisou-se cada um dos domínios revelam a existência de dor física e a
apresentados no WHOQOL-bref e os necessidade de tratamento médico. O
resultados serão apresentados a seguir. Esse domínio físico possui como média geral 3,23
instrumento aponta 1 como a pior resposta e 5 sendo a segunda pior média entre os
como a melhor, assim visando possibilitar a domínios.

Gráfico 4: Médias das facetas do domínio físico

dor física
5
4
capacidade trabalho 3 2,41 tratamento
3,47
2 2,28
1
0
3,75
atividades diárias 3,56 energia

3,66 3,50
sono locomoção

Fonte: dados da pesquisa

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


15

Críticas ao Gráfico 5 verifica uma sentimentos. Por meio das entrevistas foi
convergência positiva nas facetas do domínio possível observar que estes sentimentos
psicológico apesar da existência de negativos estão associados ao fato de terem
sentimentos negativos tais como mau humor, sidos transferidos de suas propriedades
desespero, ansiedade, depressão relatados tradicionais para este novo assentamento, o
pelos moradores verifica-se que a satisfação que corrobora com a pesquisa de Fearnside
consigo mesmo e a percepção de que a (2015).
própria vida tem sentido compensam estes

Gráfico 5: Médias das facetas do domínio psicológico

aproveita vida
5
4 3,38
sentimentos 3 sentido da vida
negativos 2,81 2
4,06
1
0

autossatisfação 3,63concentração
4,19

3,81
aparência física
Fonte: dados da pesquisa
O domínio relações sociais é o que possui relações pessoais com amigos e parentes,
maior média geral, 3,89. No com o apoio que recebem destes e ainda
mais satisfeitos com sua vida sexual.
Gráfico 6 a seguir é possível verificar que os
respondentes estão satisfeitos com suas

Gráfico 6: Médias das facetas do domínio relações sociais

relações pessoais
5
4 3,88
3
2
1
0

apoio dos amigos vida sexual


3,97
3,81

Fonte: dados da pesquisa


Por fim o

Gráfico 7apresenta facetas do domínio meio as maiores queixas são: a falta de atividades
ambiente, este domínio é o que possui menor de lazer no assentamento; a insuficiência dos
média geral (3,09), no gráfico verifica-se que recursos financeiros para a satisfação das

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


16

necessidades familiares; e a insatisfação com condições das moradias e acreditam que o


os meios de transporte. Por outro verifica-se ambiente onde vivem seja saudável.
que os respondentes estão satisfeitos com as
Gráfico 7: Médias das facetas do domínio meio ambiente

segurança na vida
5
meio de transporte 4 3,25 ambiente saudável
2,97 3 3,50
2
1
acesso serviço de
3,19 0 2,69 recursos financeiros
saúde

3,06 informações
moradia3,69 2,34
disponíveis

atividade de lazer

Fonte: dados da pesquisa


Com base nos dados apresentados pode-se financeira pode ser promovida com o
verificar que apenas duas facetas apresentam atendimento de outra necessidade dos
índices superiores a 4, são satisfação pessoal habitantes, a disponibilização de meios de
e sentido da vida, ambas as facetas são do transporte para a população, o transporte
domínio psicológico. Por outro lado tem-se as público pode facilitar idas e vindas para o
facetas tratamento e dor física recursos trabalho na capital e/ou a condução de
financeiros e atividades de lazer que mercadorias para venda.
apresentam os menores índices.
Outra ação necessária no ambiente em
Como apresentado por Constanza et. al. estudo é a promoção no Assentamento Novo
(2006) não é possível investir diretamente na Engenho Velho de ações que possibilitem e
qualidade de vida mas os decisores podem melhora na dor física dos moradores e acesso
investir os recursos para desenvolver aos tratamentos médicos necessários. Além
oportunidades visando atender as de um acompanhamento psicológico para
necessidades humanas obtendo assim um verificar os motivos e amenizar a presença
maior retorno sobre o investimento, medida dos sentimentos negativos apontados pelos
pelo aumento da qualidade de vida. respondentes.
O estudo mostrou-se relevante, pois
apresentou dados sobre a percepção da
5 CONCLUSÕES
qualidade de vida de habitantes de um
Com o este estudo verifica-se que 59% das assentamento localizado na Amazônia Legal
pessoas avalia sua qualidade de vida como Brasileira que foram retirados de suas terras,
boa ou muito boa, e 50% estão satisfeitas ou tradições e culturas para a construção de
muito satisfeitas com as condições atuais de uma usina hidrelétrica que visa beneficiar
saúde. Porém a necessidade à promoção de pessoas distantes desta realidade. A
atividades de lazer no local foi mencionada pesquisa serve como contribuição para
por quase todos os moradores durante as futuros trabalhos sobre o tema em questão,
entrevistas, uma vez que o assentamento em para os quais sugere-se o estudo da
estudo não é contemplado por nenhuma percepção da qualidade de vida em outros
possibilidade de distração familiar. assentamentos com mesma origem para
verificar se há ou não semelhança nos
Melhoria na renda também é requerida pelos
resultados.
moradores, 75% das famílias sobrevivem com
menos de 2 salários mínimos, esta melhoria

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


17

REFERÊNCIAS [11] OLIVEIRA, E. G. O LAZER E A MELHORIA DA


QUALIDADE DE VIDA DOS JOVENS RURAIS DE SÃO JOÃO
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GESTÃO. RIO DE JANEIRO. 2012. [12] OLIVEIRA, L. B. ET. AL. EFEITOS DA TECNOLOGIA
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JAN/JUN, 2011, P. 01-15. VALIDAÇÃO DO QUESTIONÁRIO QWLQ-78. REVISTA
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CONVENIENCIA/> ACESSO EM: 03 MAR 16. 10, 403 – 409, 1995.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


18

Capítulo 2

Patricia Kasumi Inoue


Getulio K Akabane
Claudio Tadeu Pinheiro de Oliveira
Fernando José Bussola
Graziela Bizin Panza

Resumo: A embalagem faz um valioso contributo para o desenvolvimento


econômico, ambiental e social através da proteção de produtos, prevenção de
resíduos, possibilitando conduta empresarial eficiente e fornecendo aos
consumidores os benefícios de os produtos que contém. O estudo de caso
escolhido para o trabalho foi realizado em uma empresa multinacional automotiva
com o objetivo pesquisar os fatores financeiros e ambientais na substituição das
embalagens “one-way” pelas retornáveis durante a distribuição de peças para
concessionários automotivos. Foi contemplado o atendimento de três estados
brasileiros, totalizando 60 pontos de distribuição de peças para reposição,
substituindo dois tipos de caixas de papelão por um único modelo de caixa plástica
reutilizável. Como resultado obtivemos um valor de redução financeiramente
estimada 41,18% no primeiro ano e para os próximos quatro anos uma economia
de 66,75% por ano, além de uma redução do consumo de 36 toneladas de papelão
utilizadas no processo das caixas “one-way”. Pode-se assim confirmar a
contribuição da estratégia da embalagem retornável como um procedimento
importante na viabilização da ação sustentável nos processos logísticos
empresariais, porém cabe ressaltar que não existe uma solução única para
gerenciar o desperdício de embalagens. A melhor combinação de opções depende
das condições locais, especialmente a demografia e o grau de investimento feito
nos modernos sistemas de processamento. Determinar a melhor combinação de
opções para gerenciar o desperdício de embalagens exige, portanto, uma análise
detalhada caso a caso, onde as avaliações do ciclo de vida podem oferecer um
importante suporte de decisão.

Palavras-chave: Embalagem, sustentabilidade, desperdício, finanças.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


19

1. INTRODUÇÃO competitividade do setor automotivo, a


obtenção de vantagem competitiva por meio
A embalagem é uma das questões
da melhoria dos processos logísticos tem se
importantes na alocação de recursos em
tornado um fator determinante para a
diferentes setores industriais, especialmente
sobrevivência e sucesso da empresa. A
na manufatura e nos serviços logísticos. Sem
redução de custo e na minimização do
a embalagem, os alimentos deterioram, os
impacto ambiental das embalagens constitui-
produtos frágeis são danificados e o processo
se no elemento fundamental nas operações
de distribuição torna-se danosa e toda a
empresariais no mundo de hoje.
cadeia de suprimentos torna-se extremamente
ineficiente. O estudo de caso escolhido para o trabalho
foi realizado em uma empresa multinacional
A pressão sobre a embalagem não é um
automotiva, onde sua sede encontra-se na
fenômeno novo, mas aumentou drasticamente
cidade de São Paulo e a mesma possui um
no século XXI pelas percepções dos
relacionamento com concessionários em todo
consumidores impulsionadas pela mídia e
o país. A pesquisa abrange uma das ações
legislação que exigem embalagens cada vez
da empresa visando o aspecto da
mais "sustentáveis", tornando um grande
sustentabilidade no que tange a redução dos
desafio para as empresas.
custos econômicos e ambientais no estudo da
A embalagem passou a ser percebida como substituição de caixas descartáveis por
um produto autônomo, transpassando assim, retornáveis no fornecimento de peças para os
do seu papel fundamental, que é de proteger, concessionários.
distribuir e exibir mercadorias.
Desta forma tem-se como objetivo pesquisar
Mesmo sendo essencial, a embalagem os fatores financeiros e ambientais na
raramente é analisada profundamente e a substituição das embalagens “one-way” pelas
pressão sociocultural que o mercado impõe retornáveis durante a distribuição de peças
para que as embalagens sejam "sustentáveis", para concessionários automotivos.
se depara com a ausência da compreensão
comum sobre o que isso pode significar.
2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
Como resultado, as empresas acabam tendo
que lidar com demandas conflitantes dos 2.1 SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL
consumidores, reguladores e outras partes
Em 1987 na Comissão Mundial sobre Meio
interessadas. Isso requer tempo, um custo
Ambiente e Desenvolvimento sob a liderança
significativo e uma fonte de fricção entre as
do ex-primeiro-ministro norueguês Brundtland,
empresas e as comunidades em que operam.
apresentou a definição de Desenvolvimento
Wu et al. (2016) destacam que a embalagem Sustentável como um “desenvolvimento capaz
tem uma série de funções e seu papel de cobrir as necessidades atuais de um
fundamental é entregar o produto ao ambiente intacto, justiça social e
consumidor em perfeito estado. A boa prosperidade econômica, sem limitar a
embalagem usa apenas o tipo certo de capacidade das gerações futuras de atender
material necessário para realizar esta tarefa, às suas necessidades, onde a preservação
porém reduções excessivas no seu custo, do meio ambiente natural é um pré-requisito
torna a economia falsa pois a medida que a para uma economia e uma justiça social que
embalagem é reduzida, a gama de cenários funcionem bem”. (FINKBEINER, 2010).
sob a qual a frequência das perdas de
Para Kuhlman e Farrington (2010) sempre
produtos aumenta até que o ponto de destino
houve o contraponto na relação entre a
seja alcançado, onde a perda do produto
humanidade e a natureza, onde uma visão
excede as economias no material de
reforça que a natureza deve ser conquistada
embalagem.
e a outra que enfatiza uma relação de
As embalagens de transporte (ou embalagens adaptação e harmonia. Apesar da primeira
terciárias) destinam-se a assegurar o visão ter sido a predominante nos últimos
manuseio e o transporte sem danos para uma séculos, a segunda tem se tornado um
dada operação seja em modal rodoviário, constante questionamento no comportamento
ferroviário, aquaviário ou aéreo. a partir da década de 1970.
Com a entrada de inúmeras montadoras no Philippi Jr et al. (2017) destacam a partir da
mercado brasileiro, e devido à alta década atual e de forma crescente na

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


20

questão ambiental, duas vertentes onde de sustentáveis para quebrar o vínculo


um lado requer atender as exigências legais e entre crescimento econômico e
ambientais dos mercados específicos, e o degradação ambiental".
outro que ganha força um mercado
Quando são fornecidos exemplos práticos
consumidor que prefere empresas com
dos três pilares, os aspectos ambientais,
características ecológicos-ambientalistas.
incluindo as mudanças climáticas, o uso de
Neste contexto, uma nova realidade surge
recursos e a biodiversidade tendem a
onde elementos antes menos relacionados
predominar, seguidos de aspectos sociais
com a sobrevivência da empresa tomam
voltados para a saúde pública e a proteção
importância e se apresenta intimamente
do trabalho.
ligados a saúde econômico-financeira das
mesmas. Com isso, torna-se imprescindível a O imperativo econômico para manter o
incorporação da temática sócio ambiental nos padrão de vida mantém os três aspectos em
processos decisórios organizacionais. equilíbrio.
Ao discorrer sobre a sustentabilidade no O desafio é trabalhar de forma holística com
contexto empresarial, é essencial para pleno esses três pilares, reconhecendo as tensões
entendimento, o conceito do Triple Bottom entre eles e respeitando a importância de
Line (TBL ou 3BL) que representa o tripé́ da cada um. Uma breve definição que encapsula
sustentabilidade que engloba os requisitos isso é "desenvolvimento sustentável: uma
sociais, ambientais e econômicos das resposta duradoura e equilibrada à atividade
atividades produtivas, devendo estes serem econômica, responsabilidade ambiental e
geridos de forma integrada, refletindo um progresso social" (BRITISH STANDARDS
equilíbrio em termos de resultado entre os três ORGANIZATION, 2006).
Ps: Pessoas (People), Lucro (Profit) e o
Empresas vêm adaptando seus modelos de
Planeta (Planet) (Elkington, 1997).
negócios e incluindo produtos, serviços e
De fato, esses três pilares estão intimamente processos com base no tripé da
ligados e não podem ser desenvolvidos sustentabilidade, assegurando para seus
isoladamente. Eles passaram a ser stakeholders retornos tangíveis, econômicos e
reconhecidos como a abordagem padrão financeiros e intangíveis, como credibilidade,
para considerar a sustentabilidade conforme conhecimento, imagem, capital intelectual,
a British Standards Organization (2006). impulsionando a Nova Economia (PEREIRA,
2012).
 Pessoas - Equidade social e coesão:
"Promover uma sociedade Vislumbrando alternativa que possam
democrática, socialmente inclusiva, contribuir com a visão sustentável na
coesa, saudável, segura e justa, com empresa, uma questão perene em muitas
respeito pelos direitos fundamentais e delas é em relação a embalagens de
a diversidade cultural que cria produtos.
oportunidades iguais e combate a
A embalagem faz um valioso contributo para o
discriminação em todas as suas
desenvolvimento econômico, ambiental e
formas".
sustentabilidade social através da proteção
 Lucro - prosperidade econômica: de produtos, prevenção de resíduos,
"Promover uma economia próspera, possibilitando conduta empresarial eficiente e
inovadora, rica em conhecimento, fornecendo aos consumidores os benefícios
competitiva e eco eficiente que de os produtos que contém.
ofereça altos padrões de vida e
Faria e Costa (2005), destacam dois tipos de
emprego completo e de alta
embalagens: descartáveis (“one way”) onde
qualidade em todo o planeta".
normalmente é utilizada apenas uma vez e
 Planeta - Proteção ambiental: "Proteja depois descartada e retornáveis, que podem
a capacidade da terra para apoiar a ser utilizadas várias vezes. Assim como outros
vida em toda a sua diversidade, processos logísticos, a decisão referente ao
respeitar os limites dos recursos melhor tipo de embalagem para o processo,
naturais do planeta e garantir um alto deve levar em consideração os preceitos da
nível de proteção e melhoria da Logística Integrada, em que o grande
qualidade do meio ambiente. Prevenir paradigma é atender ao nível de serviço
e reduzir a poluição ambiental e exigido pelo cliente ao mínimo custo possível.
promover o consumo e a produção

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


21

Leite (2003) faz um comparativo entre manter ou reduzir os impactos do produto


embalagens descartáveis e retornáveis. As embalado.
embalagens, tanto retornáveis quanto
Existem diversas iniciativas buscando
descartáveis, possuem custos do transporte
aperfeiçoar o sistema de produtos embalados
direto, transporte de retorno, administração de
e incentivar melhorias que contribuam para
fluxos, recepção, limpeza, reparos eventuais,
sustentabilidade do produto, entre elas:
armazenamento e de capital investido. Porém,
as embalagens retornáveis possuem outros  A European Parliament and Council (1994)
benefícios como ambientais, conferem maior que define requisitos legais para a
proteção aos produtos e ao término da vida embalagem dos participantes da União
útil, em muitos casos as embalagens podem Europeia, ações para a redução, reciclagem,
retornar ao fabricante como material reutilização e/ou recuperabilidade da fonte.
reciclado, podendo ser utilizados em novas  A Conseil National de l'Emballage (2008) na
embalagens. França, que tem o compromisso de oferecer
produtos aos consumidores com um custo
ambiental e econômico mínimo.
2.2 PAPEL DA EMBALAGEM NA  A INCPEN (1995) do Reino Unido em seu
SUSTENTABILIDADE relatório INCPEN5 "Redução da embalagem:
fazer mais com menos”, descreve ações
A contribuição do empacotamento para a
como redução de fontes, seleção de materiais
sustentabilidade econômica, ambiental e
e compatibilidade melhorada de embalagens
social pode ser ilustrada pelo fato de que, nos
com esquemas de reciclagem e recuperação
países em desenvolvimento, a falta de
existentes.
embalagens ou de embalagens inadequadas
na distribuição faz com que 30% a 50% de Tais estratégias e esforços são meios para
todos os alimentos se desintegram antes de otimizar o sistema total de produtos
chegar ao consumidor (WORLD HEALTH embalados e não termina em si mesmos.
ORGANIZATION, 1984; MADI, 1984). Na
2.3 REUTILIZAÇÃO, RECUPERAÇÃO E
Europa Ocidental, onde a comida é embalada
ELIMINAÇÃO
eficientemente, apenas 2% a 3% dos
alimentos produzidos não alcançam o Um objetivo central da Diretiva-Quadro de
consumidor (PRO-EUROPE, 2004). Resíduos da União Europeia é prevenir e
reduzir a geração de resíduos (CEN, 2003).
Os produtos geralmente representam mais
Dado que a embalagem evita o desperdício
recursos e têm um valor inerente maiores do
de produtos, está contribuindo
que a embalagem usada para protegê-los
significativamente para esse objetivo.
(Kooijman, 1994, Erlöv et. al, 2000, Busser et
al, 2008). Assim, as perdas de produtos A reutilização de embalagens (CEN,
devido a embalagens de baixo desempenho 2003,2004), nos termos do artigo 5º da
estão susceptíveis a causar efeitos adversos Diretiva relativa aos resíduos de embalagens
muito maiores no ambiente do que os ganhos significa que é devolvido à fábrica e
obtidos através da redução excessiva da recarregado. Deve suportar várias rotações
embalagem (KOOIJMAN, 1994, ERLÖV et. al, desse tipo dentro do seu ciclo de vida antes
2000, BUSSER et al, 2008, INCPEN, 1995). de ser recuperado quando não pode mais ser
usado. Não há preferência geral por
Se, nos países em desenvolvimento, as
embalagens reutilizáveis ou não reutilizáveis,
perdas médias na cadeia de fornecimento de
a escolha depende inteiramente da cadeia de
alimentos pudessem ser reduzidas através do
abastecimento local e do mercado.
uso de embalagens melhoradas de 40% para
a média europeia de 2,5%, o consumo de Devemos destacar também que a reciclagem
energia associado a perdas de alimentos pode desempenhar papel fundamental no
seria reduzido em mais de 50%, aumentando ciclo de vida do produto, através da economia
também a disponibilidade de alimentos. enérgica, pode proporcionar a sua diminuição
no processo de fabricação, como exemplos:
As melhorias no desempenho ambiental da
embalagem não devem ser geradas para  A reciclagem de alumínio economiza até 95%
gerar impactos ambientais negativos maiores da energia necessária para materiais virgens
em qualquer outro lugar do ciclo de vida do (ENERGY INFORMATION ADMINISTRATION,
produto e só devem ser prosseguidos se 2006),

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


22

 A reciclagem de PET9 economiza cerca de 2.4 PANORAMA DA INDÚSTRIA


50% da energia (FEDERAL OFFICE OF THE AUTOMOBILÍSTICA NO BRASIL
ENVIRONMENT, 2007).
O setor automotivo é um grande propulsor da
A organização Eco Emballages (2007) economia nacional e mundial e fomenta a
destaca que a aplicação da reciclagem dever inovação em grande proporção devido a alta
ser adotada, onde resulta em menores competividade do setor e sua robusta
impactos ambientais do que as demais participação no comércio geral.
alternativas de recuperação e que atendam a
No Brasil, de acordo com a ANFAVEA
outros requisitos como, por exemplo,
(2017b), o setor automotivo está presente em
segurança.
todas as regiões brasileiras com 67 unidades
Alguns tipos de material recuperado também industriais e atualmente emprega mais de 121
são uma valiosa fonte de energia (incineração mil colaboradores diretos e aproximadamente
com recuperação de energia). Portanto, a 1.3 milhão de empregos em toda a cadeia
reciclagem precisa ser considerada dentro de produtiva. Para 2017 foi estimada uma
uma abordagem equilibrada para a produção nacional de 2.2 milhões de veículos,
recuperação da embalagem. com uma perspectiva de crescimento para os
próximos anos, conforme demonstra o Gráfico
O equilíbrio ideal entre reciclagem e
1.
recuperação de energia varia enormemente
com a composição dos resíduos.
Gráfico 1: Quantidade de veículos produzidos no Brasil e variação Dólar em relação ao Real.

Fonte: Site da ANFAVEA (2017a).


O setor automotivo é considerado um dos país com o tradicional modelo de produção
pilares de sustentação da economia e em massa.
comércio dos pais. Sua estrutura influencia
Segundo Neto e Pires (2007) o setor
cidades inteiras onde encontra-se instalado,
automobilístico expande suas estruturas pelo
devido a sua potencialidade e força (VAZ ET
mundo todo, dentro deste processo contínuo,
AL., 2017).
o Brasil atualmente encontra-se como
Di Serio (2007) descreve que o participante dos Mercados Regionais
desenvolvimento da cadeia automobilística no Emergentes (ERMs – Emerging Regional
Brasil iniciou-se com a instalação da primeira Markets), juntamente com Argentina, Rússia e
unidade de montagem da Ford em 1919, Turquia. O mercado brasileiro é atrativo, pois
seguida pela GM em 1925. Neste período as possui rápido crescimento do mercado de
duas empresas importavam kits desmontados veículos, unidades de produção em
e peças de outros países e montavam em localidades com custos mais baixos,
suas linhas localizadas em São Paulo para crescimento acelerado das taxas de
atender a legislação local. Na década de 50, motorização, características comuns aos país
com as políticas públicas de desenvolvimento classificado no ERMs. Na cadeia
econômico e industrial do governo de Vargas automobilística no Brasil foram implantados
(1951-1954) e posteriormente Kubitschek também arranjos diversos arranjos
(1956), culminou com as instalações das organizacionais, podemos citar o consórcio
fabricas das empresas GM, VW e Ford no modular e condomínio industriais.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


23

Como em todos os segmentos a busca de empresa ABC complementadas com a


melhorias em processos, produtos, bem como técnica de observação direta no centro de
de criar vantagens competitivas não devem distribuição de peças e acessórios da
ser desvinculadas das preocupações de empresa referenciada.
sustentabilidade.
A amostra selecionada pode ser considerada
como por conveniência, a qual é
caracterizada como não probabilística, na
3. METODOLOGIA DA PESQUISA
qual o pesquisador seleciona membros da
Trata se de um estudo de caso de natureza população mais acessíveis, visando assim o
qualitativa, a qual enfatiza a perspectiva do levantamento de dados e informações de
indivíduo que está sendo estudado, para que maneira mais simplificada. Foram
assim seja possível a obtenção de selecionados os respondentes como:
informações a partir destas perspectivas, para gerentes e responsáveis de determinados
a interpretação do ambiente no qual o setores da empresa (AAKER; KUMAR; DAY,
problema se encontra (CAUCHICK; MARTINS, 1995).
2012). Logo, o ambiente natural no qual os
O tratamento dos dados foi estatístico que
indivíduos estão inseridos, se torna o
busca descrever as características de uma
ambiente de pesquisa. O método a ser
determinada situação, medindo
empregado é o estudo de caso único, o qual
numericamente o objetivo levantado a
possui como objeto de estudo uma
respeito de um problema de pesquisa.
multinacional automotiva líder em seu
segmento, que será denominada ABC.
Para Yin (2001), um estudo de caso é: “uma 4. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS
investigação empírica de um fenômeno RESULTADOS
contemporâneo dentro de seu contexto da
4.1 OUTBOUND LOGISTICS
vida real, e, quando os limites entre o
fenômeno e o contexto não estão claramente A logística de distribuição ou outbound
definidos”. Segundo Eisenhardt (1989) o logistics está associada ao movimento de
estudo de caso pode ser utilizado para material de um ponto de produção ou
oferecer uma descrição; testar uma teoria; ou armazenagem até o cliente, e também
gerar uma nova teoria. Para Bryman (1989), incluindo o retorno dos produtos em bom ou
as preocupações primordiais desta mau estado como parte deste processo
abordagem são: mensurabilidade; (BERTAGLIA, 2009).
causalidade; generalização; replicação.
A distribuição de peças para reposição no
Para este estudo foram consideradas as Brasil, foi segmentada conforme a Figura 1
fontes de evidências internas (YIN, 2001), abaixo em 5 grandes regiões, de acordo com
como a realização de entrevistas com os os pontos de entrega atendidos por 5
responsáveis pelo setor de logística da transportadoras.
Figura 1 – Mapa Brasil divido por regiões de atendimento

Fonte: Elaborado pelos autores.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


24

4.2 SITUAÇÃO ATUAL substituição das caixas “one-way” por caixa


retornáveis.
Devido à grande extensão do território
brasileiro, e o longo prazo para atendimento Na operação atual são utilizados 14 tipos de
aos clientes das regiões 1, 2 e 5 bem como a embalagens de papelão “one-way”, porém
logística reversa, delimitou-se que, com base foram considerados apenas os 2 modelos
nos critérios definidos pela empresa ABC, com o maior volume de consumo para este
apenas alguns concessionários localizados estudo, as embalagens denominadas neste
nas regiões e estados abaixo: estudo como “A” e “B”.
❸: Rio de Janeiro (7 concessionários) e Os dados demonstraram que na situação
Minas Gerais (9 concessionários); e atual todos os volumes de peças pequenas
são despachadas diariamente com
❹: São Paulo (44 concessionários).
embalagens de papelão, sendo os volumes e
Sendo assim, os 60 pontos de entrega foram fluxos conforme Figura 2 abaixo.
contextualizados nesta pesquisa para a

Figura 2 – Situação atual da distribuição com embalagens “one-way”.

Fonte: Elaborado pelos autores.

Considerando os 240 dias de despacho por resumo dos volumes e valores envolvidos na
ano e os respectivos custos de aquisição de operação com caixas de papelão “one-way”.
cada modelo, a Figura 3 demonstra um
Figura 3 – Custo e volumes da situação atual

Fonte: Elaborado pelos autores.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


25

4.3 SITUAÇÃO PROPOSTA “C”, sendo esta caixa com um volume e


ocupação suficiente para substituir os 2
De acordo com a Figura 3, a proposta para
modelos anteriores.
substituir os 2 tipos de caixas de papelão
“one-way” “A” e “B” por apenas 1 modelo de A Figura 4 abaixo demonstra este novo fluxo,
caixa retornável de plástico denominado de bem como o novo volume envolvido.
Figura 4 – Situação proposta da distribuição com embalagens retornáveis.

RETURNABLE CONTAINER APPLICATION FOR DLRs


1) SMALL PARTS 2) PACKAGE MODEL 3) OUTBOUND VEHICLE
TAMPER-RESISTENT
PLASTIC BOX
(Frequency = Once/day)

DEALERS
Total

320mm
SP / RJ / MG
volume:
STATE ROUTE
129/day

"A" "B"

"ONE-WAY"

Fonte: Elaborado pelos autores.

Considerando os mesmos 240 dias de danificadas e/ou extraviadas, chega-se a um


despacho por ano, o custo de aquisição do custo final e comparativo com a situação
novo modelo, o custo da logística reversa e atual, demonstrados na Figura 5 abaixo.
de substituição de eventuais caixas

Figura 5 – Comparativo de custos (“one-way” x retornável).

❶ CURRENT SITUATION ❷ PROPOSAL SITUATION


COST COMPARISON
<"A" + "B" ONE-WAY> <"C" RETURNABLE>
CURRENT x PROPOSAL
TOTAL COST/YEAR TOTAL COST/YEAR
Total volume / day: 871 (Round Trip + Inventory) ❶ONE-WAY: R$ 261,259.20
Total volume & cost / year:
(a) Box acquistion cost / year: R$ 66,892.20 ❷RETURNABLE: R$ 153,670.60
"A": 24.720 units & R$ 170,568.00
(b) Box replacement (5%): R$ 3,388,00
"B": 11.280 units & R$ 90,691.20
(c) Logistics impact (reverse): R$ 83,390.40 Cost reduction (❷ - ❶):
TOTAL cost / year :
TOTAL cost / year: (a) + (b) + (c) - R$107,588.60
R$ 261,259.20 R$ 153,670.60 ↓ 41.18%
Fonte: Elaborado pelos autores.

Com base na tabela comparativa de custos primeiro ano, e o ganho neste mesmo período
da Figura 5, pode-se concluir que com a fica em R$ 107.588,60.
utilização da embalagem retornável de
Para os 4 anos seguintes, os valores do
plástico ao invés de caixa de papelão, obtém-
investimento inicial não serão descontados,
se um ganho de R$ 107,588.60 no primeiro
como: (b) box replacement: R$ 3,388.00, e (c)
ano, ou seja, uma redução de 41.18%
logistics impact (reverse) R$ 83,390.40.
comparado ao custo anual atual, descontando
Portanto, teremos: o valor total das caixas de
o investimento inicial demonstrado na coluna
papelão “one-way” (a) 261,259.20 – (b) box
2.
replacement R$ 3,388.00 - (c) logistics impact
É possível calcular os ganhos financeiros para (reverse) R$ 83,390.40 = R$ 174,480.80 de
os próximos 5 anos, a partir dos dados ganho para o segundo, terceiro, quarto e
apresentados na figura 5. Considerando que quinto ano consecutivamente.
o investimento inicial é descontado já no

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


26

Entretanto, não somente ganhos financeiros da redução do consumo de papelão no


são possíveis, mas sim uma grande processo de fabricação e utilização das
contribuição com o meio ambiente, por meio caixas “one-way”.
Tabela 1 – Redução consumo anual de papelão em kg.

Box type Volume/year Unit weight Total weight

"A" 24,720 1 24,720

"B" 11,280 1 11,280

TOTAL: 36,000
Fonte: Elaborado pelos autores.

5. CONCLUSÕES / CONSIDERAÇÕES FINAIS automotivos, sendo possível diminuir de


maneira expressiva o consumo de papelão
Devido à alta competitividade do setor
neste processo.
automotivo brasileiro, o processo de melhoria
continua na cadeia de logística reversa tem se Outrossim, o estudo limitou-se a apenas dois
tornado um fator crucial para o sucesso das tipos de embalagens, denominadas “A” e “B”
empresas. e em um fluxo logístico específico de
distribuição de peças para reposição nas
O fator sustentabilidade tem sido considerado
regiões 3 e 4. Entretanto, torna-se necessária
como elemento fundamental nas operações,
a ampliação da presente pesquisa para todas
onde a sua adequada aplicação pode
as cinco regiões, integrando o “supply chain”
agregar valores nos resultados das empresas.
em nível nacional, para assim identificar novas
Desta forma, pode-se observar com base nos oportunidades de melhorias e ganhos na
resultados apresentados neste estudo, a substituição das embalagens “one-way” por
existência de ganho já no primeiro ano de R$ retornáveis.
107.588,69, o equivalente a 41,18% de
Não existe uma solução única para gerenciar
redução dos custos e também, uma economia
o desperdício de embalagens. A melhor
ambiental do consumo de 36 toneladas de
combinação de opções depende das
papelão por ano com a substituição das
condições locais, especialmente a demografia
embalagens “one-way” pelas retornáveis,
e o grau de investimento feito nos modernos
obtendo-se significativos ganhos financeiros e
sistemas de processamento. Determinar a
ambientais.
melhor combinação de opções para gerenciar
Pode-se assim confirmar a contribuição da o desperdício de embalagens exige, portanto,
estratégia da embalagem retornável como um uma análise detalhada caso a caso, onde as
procedimento importante na viabilização da avaliações do ciclo de vida podem oferecer
ação sustentável nos processos logísticos um suporte de decisão valioso.
empresariais.
Notou-se desta forma que a ampliação da
Por outro lado, os resultados obtidos na estratégia para outros setores logísticos e
presente pesquisa, também evidenciaram a para outras operações poderia acarretar
viabilidade financeira da substituição das outras economias e assim adicionar novos
embalagens “one-way” pelas retornáveis sem valores aos processos da empresa no seu
comprometer a qualidade nos processos de âmbito global.
distribuição de peças para concessionários

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


28

Capítulo 3

Rwrsilany Silva
Gustavo Melazi Girardi
Artur Virgílio Simpson Martins
Euliene da Silva Gonçalves
Ricardo Lopes Vieira Cesar

Resumo: A preocupação com a sociedade em geral e com a preservação do meio


ambiente tem se tornado cada vez mais evidente. Na tentativa de se adaptar a esta
nova realidade, é que muitas organizações utilizam a responsabilidade social e
ambiental não apenas como ferramentas de negócio mas, também, como elemento
agregado aos seus princípios e valores. Dada a natureza e problemática
relacionada ao tema, a questão da pesquisa neste trabalho consiste em investigar
se as IES de Porto Velho – RO praticam a responsabilidade social empresarial, bem
como se as evidenciam. Os conceitos teóricos dão ênfase às teorias sobre
responsabilidade social e balanço social, inclusive, as teorias editadas na NBC T 15
– Informações de Natureza Social e Ambiental e Modelos de Balanço Social. No
aspecto metodológico, esse artigo tem a abordagem qualitativa e exploratória,
aplica procedimentos de levantamento bibliográfico e documental que substanciam
os conceitos trabalhados, bem como utilizou-se de uma entrevista estruturada, além
de analisar os fenômenos à luz dos preceitos da Teoria dos stakeholders. Os
resultados da pesquisa possibilitaram verificar que as IES analisadas são
conscientes de que a prática da Responsabilidade Social é um elemento agregador
aos princípios e valores das organizações, e mais, o desenvolvimento de práticas
sociais e ambientais são de suma importância para o seu prestígio junto à
sociedade. Conclui-se, portanto, que, para uma sociedade mais justa, obedecer às
obrigações fiscais não é o bastante, as empresas precisam inovar com inteligência
analisando os fatores externos da sociedade, principalmente, os aspectos
socioambientais, mas sem desconsiderar a perspectiva econômica.

Palavras-Chave: Responsabilidade Social Empresarial, Balanço Social, Instituição


de Ensino Superior - IES. Teoria dos stakeholders.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


29

1. INTRODUÇÃO no Brasil, onde as empresas interessadas em


demonstrar suas ações sociais seguem as
A responsabilidade social empresarial (RSE)
Normas Brasileiras de Contabilidade Técnica -
tornou-se um dos assuntos éticos mais
NBC T 15.
fascinantes e debatidos no mundo
empresarial. Num cenário cada vez mais Um dos grandes defensores do BS no Brasil
competitivo, onde se ganha e se perde por foi o sociólogo Herbert de Souza “Betinho”,
muito pouco, onde tudo e todos estão com o objetivo de tornar públicas as ações
frequentemente ligados, pressionados por adotadas pelas empresas em torno da RSE,
resultados de curto prazo, numa busca que através do Instituto Brasileiro de Análises
contínua pelo triunfo, há conceitos que Sociais e Econômicas (IBASE), desenvolveu
emergem para fazer a diferença ou, um modelo de BS e disponibilizou para as
simplesmente, para permitir a sobrevivência. empresas associadas ao Instituto Ethos. Ao
Na tentativa de adaptar-se a esta nova focar a importância da responsabilidade
realidade, muitas organizações utilizam a social, Betinho defendeu a publicação do BS,
responsabilidade social, não apenas como como um relatório de atividades
ferramentas de negócio, mas também como desenvolvidas pela empresa.
elementos agregados aos seus princípios e
Essas reflexões levam à seguinte questão: as
valores. Consequentemente, ganham em
IES (Instituições de Ensino Superior) praticam
competitividade, pois se tornam mais
a responsabilidade social empresarial, bem
admiradas pela sociedade.
como as evidenciam? Para responder a esta
As práticas de Responsabilidade Social indagação, apresenta-se como objetivo
Empresarial (RSE) podem ser observadas investigar se as IES de Porto Velho – RO
quando as organizações desenvolvem ações praticam a responsabilidade social
que oferecem melhores condições de empresarial, bem como se as evidenciam. O
trabalho aos seus colaboradores, investindo trabalho é composto de tópicos e subtópicos,
no bem estar da sociedade com medidas de com uma revisão teórico-conceitual, a
preservação do meio ambiente e prestando metodologia, os resultados relatados na
contas à comunidade pela utilização dos pesquisa e por fim as considerações finais.
recursos naturais. Além disso, através da RSE
a organização obtém fortalecimento e
agregação de valores à marca e imagem 2. REFERENCIAL TEÓRICO
positiva perante seus investidores,
A base deste estudo é a Teoria dos
consumidores e outros stakeholders, reduz
Stakeholders, que fornecerá elementos para
custos com água, energia, combustível e
conduzir a interpretação do cenário ora
reciclagem de lixo e resíduos.
investigado. Levantamento bibliográfico em
O surgimento do Balanço Social (BS) partiu Lopes (2015) sedimenta que o pilar dessa
da necessidade das empresas em constituir Teoria tem como premissa estudar as
um levantamento dos principais indicadores relações entre as instituições e os
de desempenho social, econômico e stakeholders, buscando entender como são
ambiental da instituição. Nele é evidenciado o afetados pelas decisões da organização e
que empresa faz por seus profissionais, como têm capacidade para influenciá-las.
dependentes, colaboradores, comunidade e
O nascimento da teoria dos stakeholders vem
meio ambiente. Dessa forma, o BS fortalece e
da gestão estratégica, e o seu contexto de
constrói elos entre a empresa e a sociedade,
negócio é a chave para a gestão de
para tanto, evidencia práticas adotadas pelas
stakeholders (GARRIGA, 2014). Os negócios
organizações, demonstrando o grau de
estão relacionados com os diversos
envolvimento da empresa perante a
stakeholders considerados para a gestão de
sociedade em que está inserida. Além disso,
uma corporação, e esses são apontados por
é considerado um poderoso instrumento de
Freeman (2010), como acionistas, os
informação e definição de políticas de
empregados, administradores, os
recursos humanos.
fornecedores, comunidade e consumidores
A publicação do BS é feita de forma (clientes). Oliveira (2008) por sua vez,
compulsória em países como a França, onde expande essa rede, acrescentando governo,
as empresas com mais de 300 funcionários funcionários, mídia e Organizações Não
são obrigadas por lei a publicar seu BS. Governamentais (ONG’s). E Sousa e Almeida
Porém, essa obrigatoriedade não se evidencia (2006) ampliam ainda mais tal rede,

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


30

agregando a ela os sindicatos e os Segundo Tinoco (2001), a partir da década de


concorrentes. 60 surgiram as primeiras reivindicações dos
trabalhadores para terem acesso às
Vale destacar que identificar, gerir, aproximar
informações relacionadas ao desempenho
e envolver os diversos stakeholders das
econômico e social das organizações. Isto
empresas é uma missão inteiramente vital ao
devido às exigências cada vez mais
sucesso e notoriedade da organização, além
crescentes por parte da sociedade,
disso, a gestão empresarial deve ser
instigando as organizações a praticarem e
desenvolvida para assegurar o apoio de cada
demonstrarem o que faziam para a população
um desses interessados, o que garantiria o
como um todo, especialmente aquelas
sucesso da empresa em longo prazo. Por
relativas ao emprego.
conseguinte, a RSE consiste na integração
espontânea de preocupações Nessa mesma década, as grandes empresas
socioambientais por parte das empresas nas americanas já passaram a apresentar
suas ações e na sua interação com outros anualmente relatórios descrevendo sua
stakeholders. política social. Na atualidade, esses relatórios
são aplicados basicamente para o ambiente
Este capítulo versa sobre a identificação dos
externo, para a satisfação dos clientes com
parâmetros conceituais que definem as
controles de qualidade, poluição e
principais características de responsabilidade
preservação do meio ambiente. (TORRES e
Social e seu histórico, bem como, em um
SILVA, 2008).
segundo momento, apresentar a NBC T15
que trata sobre as informações de natureza Nos anos 70 a Responsabilidade Social na
social e ambiental. Europa se popularizou. Em 1971 a companhia
alemã Steag fez um balanço de suas
atividades e executou um tipo de relatório
2.1 RESPONSABILIDADE SOCIAL: social. Conforme Tinoco (2010), a França foi o
HISTÓRICO primeiro país a publicar uma lei sobre Balanço
Social, colocada em prática no ano de 1979, a
O surgimento da responsabilidade social, de
qual obriga as organizações com mais de 300
acordo com Toldo (2002), tornou-se evidente
funcionários a publicar o Balanço Social. Já
em 1919 quando Henry Ford, presidente
na década de 90, começou a discussão, com
majoritário da Ford Motor Company, decidiu
uma maior participação de autores, sobre
não distribuir parte dos lucros aos acionistas e
temas votados para a questão de
investiu na capacidade de produção, no
Responsabilidades Social, ética e moral nas
aumento de salários em fundo de reservas
empresas, o que contribuiu de forma
para uma previsão da diminuição das
significativa para a conceituação do termo. No
receitas, devido à redução dos preços dos
quadro 1 apresenta-se, resumidamente, a
automóveis. Outro fato significativo ocorreu
maior ênfase dada em alguns países quando
em 1953, no caso A. P. Smith Manufacturing
do início da elaboração do Balanço Social.
Company versus seus Acionistas, pois os
mesmos contestavam a doação de recursos
financeiros à Universidade de Princeton.

Quadro 1. Balanço ou Relatório Social – Panorama internacional

Fonte: De Luca et al. (2009).

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


31

No Brasil, a discussão sobre empresários e as questões relacionadas aos


Responsabilidade Social (RS) é evidenciada a problemas sociais. A criação do instituto
partir de 1960 com a formação da Associação antecedeu a crescente publicação do
dos Dirigentes Cristãos de Empresas - ADCE, Balanço Social por diversas empresas.
com sede em São Paulo. Nas reuniões para a
No final da década de 90, na Holanda,
criação desta Associação foi destacada a
durante a reunião do Conselho Empresarial
relação dos dirigentes das empresas com o
Mundial, foi lançado o conceito de RS:
tema da sustentabilidade. Destaca-se que,
responsabilidade social corporativa define-se
em 1977, a ADCE organizou o 2º Encontro
como “o comprometimento permanente dos
Nacional de Dirigentes de Empresas. Neste
empresários de adotar um comportamento
encontro, o tema central foi o Balanço Social
ético e contribuir para o desenvolvimento
da Empresa (TINOCO, 2010).
econômico, melhorando simultaneamente, a
Conforme Tinoco (2010), em 1984, a empresa qualidade de vida de seus empregados e de
Nitrofértil publicou um relatório que suas famílias e da sociedade como um todo”
denominou de Balanço Social. No mesmo (REIS e MEDEIROS, 2007, p. 41). Atualmente
ano, o autor Tinoco defendeu uma dissertação as empresas apresentam grande influência
de mestrado intitulada ‘Balanço Social: uma sobre o meio ambiente, recursos humanos e a
abordagem socioeconômica da sociedade, de tal modo, que a ações
contabilidade’, sendo a pioneira sobre BS no adotadas pelas organizações influenciam no
Brasil. No que se refere à legislação, as aperfeiçoamento destas áreas e buscam
primeiras discussões sobre o tema colaborar para justiça social, transparência e
aconteceram em 1991. Neste ano foi comportamento ético. Além disso,
encaminhado ao Congresso um anteprojeto preocupam-se com um ambiente de trabalho
de lei visando à obrigatoriedade de harmonioso e que ofereça melhores
publicação de um relatório contábil que condições, investindo no bem estar dos
demonstrasse o que as organizações estão funcionários e das ações comunitárias.
desenvolvendo no quesito social. Relata
O conceito de responsabilidade social está se
Tinoco (2010, p.10) “Em 1991, o senador
ampliando, passando da filantropia, que é a
Valmor Campelo encaminha ao congresso um
relação socialmente compromissada da
anteprojeto propondo a publicação do
empresa com a comunidade, para abranger
Balanço Social pelas empresas que foi votado
todas as relações da empresa: com seus
favoravelmente no senado, entretanto, não foi
funcionários, clientes, fornecedores,
aprovado na Câmara dos Deputados”.
acionistas, concorrentes, meio ambiente e
O grande marco da história do Brasil se deu, organizações públicas e estatais (GRAJEW,
mais precisamente, na década de 90, quando 2000 apud MELO NETO; FROES, 2002, p.79).
o termo Responsabilidade Social começou a É de fundamental importância que as
ter mais evidência por iniciativa e inspiração empresas sejam apreciadas pela sociedade,
do sociólogo Herbert de Souza “Betinho”. Seu por seus colaboradores, pelos parceiros de
principal objetivo era tornar públicas as ações negócios e pelos investidores. No entanto a
sociais das organizações contribuindo para a empresa encara muitos desafios para que
diminuição dos índices de desigualdade seja uma empresa cidadã e de acordo com
social e ressalta a importância que isso Vassallo (2000), o primeiro deles é o desafio
representa para a sociedade (SCHUTZ, 2008, operacional.
p. 13).
O desafio operacional das empresas baseia-
Em virtude da alteração da Lei das se na preocupação que suas ações possam
Sociedades Anônimas – Lei 6.404/76, o causar ao meio ambiente, à comunidade, ao
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, consumidor, aos fornecedores e aos seus
sancionou a Lei 11.638/07 em dezembro de acionistas, de nada importa investir fortunas
2007, objetivando a obrigatoriedade da em projetos e causar danos ao meio
elaboração e divulgação da Demonstração do ambiente, ou beneficiar seus funcionários com
Valor Adicionado no Brasil, que é reconhecida a falta de transparência de seus
como um instrumento de fundamental consumidores, ou ainda preservar recursos
importância para elaboração do BS. naturais de seu país e comprar insumos de
Atualmente, existe no Brasil o instituto Ethos outro que explore mão de obra infantil.
de Empresas e Responsabilidade Social,
Uma empresa socialmente responsável é
fundado pelo empresário Oded Grajew, que
aquela que, além de ser ética nos seus
serve como meio de ligação entre os

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


32

negócios, prima por uma postura como uma forma pela qual ela deve contribuir
politicamente correta, incluindo a não para o bem-estar da sociedade.
utilização de mão de obra infantil, a
O Balanço Social tem como objetivo
preocupação com a saúde de seus
demonstrar publicamente o desempenho
funcionários, não utilização de trabalhos
social da empresa. Essa meta pode ser
forçados, priorização da segurança no
alcançada através do esclarecimento do seu
trabalho, prática da liberdade de associação
desempenho social e a demonstração da
e negociação coletiva, não discriminação de
destinação de seus recursos. Além disso, o
seus funcionários nem a sociedade em geral,
Balanço Social é um recurso utilizado para
respeito ao horário de trabalho para os
melhoria da imagem da entidade (TINOCO,
trabalhadores, preocupação também com o
2010).
meio ambiente e um sistema de gestão
coerente (CAETANO, 2006). As entidades estão aderindo permitindo que
sua gestão seja permeada pela
A responsabilidade tem um significado que
Responsabilidade Social em razão à grande
não é homogêneo para todos, para alguns ela
pressão e exigência da sociedade, a fim de
representa a ideia de responsabilidade na sua
promover o bem estar social. Pelo mesmo
essência e, para outros, obrigação legal. Para
motivo outras empresas preferem estratégias
Schommer e Fischer (1999), é tratada de
que envolvam seus parceiros e fornecedores
forma abrangente, a partir de toda a cadeia
como partícipes em sua política de evoluir
produtiva da empresa e envolvendo os
com consciência e responsabilidade. Os
clientes, funcionários e fornecedores. Já
interessados do Balanço Social são variados.
Lacombe (2004) defende que a
O quadro 2 mostra alguns destes
responsabilidade social existe não somente
interessados.
para a maximização dos resultados
financeiros da organização, mas também

Quadro 2. Usuários do BS e sua área de interesse.


Quadro dos usuários do balanço social e sua área de interesse
Usuários Indicadores e Metas Relevantes
Clientes Produtos com qualidade; recebimento de produtos em dia; produtos mais
baratos.
Fornecedores e Parceria; segurança no recebimento; continuidade.
Financiadores
Colaboradores Geração de caixa; salários adequados; incentivos à promoção;
produtividade; valor adicionado; segurança e sustentabilidade no emprego;
efetivo.
Investidores Custo de oportunidade; rentabilidade; liquidez da ação.
Potenciais
Acionistas Retorno s/o patrimônio líquido; retorno s/ o ativo; continuidade; crescimento
Controladores no mercado, sustentabilidade.
Acionistas Fluxo regular de dividendos; valorização da ação; liquidez.
Minoritários
Gestores Retorno sobre o patrimônio liquido; continuidade; valor patrimonial da ação;
qualidade; produtividade; valor adicionado, sustentabilidade.
Governo Lucro tributável; valor adicionado; produtividade.
Vizinhos Contribuição social; preservação do meio ambiente; segurança, qualidade;
sustentabilidade social.
Fonte: Tinoco (2010).
Os primeiros indícios de informações sociais França, em 1977, onde por intervenção dos
afim de, entre outros objetivos, atender a movimentos sociais, foi criada a Lei nº 77.769
estes interessados ocorreram em meados da que tornou obrigatória a publicação do
década de 60 e 70 do século passado. Na Balanço Social, posto em prática em 1979 e

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


33

sendo obrigatórias somente as empresas de Com relação à Interação com o Meio


grande porte, com mais de 300 funcionários Ambiente devem ser evidenciados:
(TINOCO, 2010). investimentos e gastos com manutenção nos
processos operacionais para a melhoria do
Outros países, como Alemanha, Holanda,
meio ambiente, investimentos e gastos com a
Bélgica, Espanha, Portugal e Inglaterra,
prevenção e/ou recuperação de ambientes
passaram a se interessar pela divulgação do
degredados, investimentos e gastos com
Balanço Social em função das diretrizes
educação ambiental para empregados,
previstas na lei francesa de divulgação das
terceirizados, autônomos e administradores
ações sociais. Na maior parte do mundo, não
da entidade, investimentos e gastos com
existe a obrigatoriedade da publicação do
educação ambiental para a comunidade,
Balanço Social, no entanto, as empresas,
investimentos e gastos com outros projetos
cada vez mais voltadas para a
ambientais, quantidade de processos
responsabilidade social, acabam publicando
ambientais, administrativos e judiciais
relatório com características similares, assim
movidos contra a entidade, valor das multas e
evidenciando informações ecológicas,
das indenizações relativas à matéria
condições de trabalho e outras ações.
ambiental, determinadas administrativas e/ou
judicialmente e passivos e contingências
ambientais.
2.2 NBC T15: INFORMAÇÕES DE NATUREZA
SOCIAL E AMBIENTAL
A NBC T 15 se refere a Informações de 3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Natureza Social e Ambiental e passou a
A pesquisa proposta tem como objetivo
vigorar em 1º de janeiro de 2008,
investigar se as IES do município de Porto
estabelecendo procedimentos e
velho praticam a responsabilidade social
evidenciações de informações de natureza
empresarial e se as evidenciam. A pesquisa
social e ambiental, objetivando demonstrar à
foi feita com foco nas atividades (práticas) de
sociedade a participação e a
Responsabilidade Social Empresarial, em um
responsabilidade social da entidade. Não
grupo de instituições do ramo do ensino
compete ao Conselho Federal de
superior, onde a geração de informações
Contabilidade obrigar as empresas a
sobre a RSE e o Balanço Social pudesse ser
elaborem Demonstrações, mas somente
formal e/ou informal. As informações, portanto,
discipliná-las. Conforma a NBC T 15,
poderiam estar publicadas ou, apenas,
entendem-se como informações de Natureza
evidenciadas nas práticas das IES. Para tanto,
Social e Ambiental:
utilizou-se da pesquisa qualitativa, que tem
 A Geração e a Distribuição de como características comuns às intenções de
Riqueza; analisar o mundo fora do ambiente controlado
de um laboratório e entender, descrever e, às
 Os Recursos Humanos;
vezes, explicar os fenômenos sociais a partir
 A Interação da Entidade com o do cerne do acontecimento do fenômeno
Ambiente Externo; e, (FLICK, 2009). Creswell (2010) destaca que é
importante mencionar as características
 Interação com o Meio Ambiente. básicas dos estudos qualitativos. Nesse
Na Geração e Distribuição de Riqueza a sentido, Zanella (2009, p.75) afirma que esses
entidade deverá ser apresentada conforme estudos se fundamentam
Demonstração do Valor Adicionado - DVA,
definida pela NBC T 3. Em referência aos
Recursos Humanos, devem constar principalmente em análises qualitativas,
informações referentes à remuneração, caracterizando-se, em princípio, pela não
benefícios concedidos, composição do corpo utilização de instrumental estatístico na
funcional e as contingências e os passivos análise dos dados. Esse tipo de análise
trabalhistas da entidade. Quanto a Interação tem por base conhecimentos teóricos
da Entidade com o Ambiente Externo deverão empíricos que permitem atribuir-lhe
ser fornecidas informações sobre o cientificidade.
relacionamento com a comunidade em que
está inserida, com os clientes e com os
fornecedores, além de incentivos decorrentes Quanto aos objetivos trata-se de uma
dessa interação. pesquisa exploratória que, segundo Creswell

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


34

(2010), é um meio valioso para fazer parcialmente, indiferente concordo


perguntas para descobrir o que está parcialmente e concordo totalmente.
acontecendo e obter informações sobre um
Após a coleta dos dados foi feita análise com
tema de interesse. Quanto aos
o propósito de verificar quais ações de RSE
procedimentos, utiliza-se a pesquisa
as entidades pesquisadas realmente
bibliográfica e documental e, por meio
praticam, considerando o caráter formal ou
dessas, fez-se um histórico da RSE no mundo,
informal, e se elas estão de acordo com a
em especial no Brasil, descreveram-se
NBC T 15 que corroborou a identificação e
conceitos e aplicações. Ainda através da
aceitabilidade das práticas de
pesquisa documental os principais conceitos
responsabilidade social e, ainda, o modo de
do Balanço Social e da NBC T15 foram
demonstração das suas ações de RSE.
descritos.
Os principais dados sobre as práticas de RSE
e as publicações de Balanço Social foram 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
coletados por meio de questionário fechado e
Por intermédio desta pesquisa, verificou-se
estruturado (GIL, 2010), junto a instituições
que as IES estão conscientes de que a prática
privadas de ensino superior do município de
da Responsabilidade Social não se presta
Porto Velho. Foram aplicados questionários
apenas a servir como uma ferramenta de
aos representantes de 10 (dez) IES que
negócio, mas também como um elemento
exerciam cargos na área executiva, ou seja,
agregado aos seus princípios e valores,
que participavam das decisões das
sendo relevante para seu desenvolvimento e
instituições. Mediante esses procedimentos,
prestígio junto à sociedade. Nota-se que a
buscou-se compreender as principais ações
totalidade das instituições percebe-se
de RSE praticadas pelas Instituições
responsável socialmente. O objetivo da
pesquisadas, a aceitabilidade da RSE pelas
empresa não é mais somente o lucro, mas
empresas e se as mesmas estão
também a promoção de um desenvolvimento
demonstrando as suas ações sociais e de que
sustentável e transparente ao mesmo tempo
modo.
que responde satisfatoriamente aos
Foram coletados dados primários e stakeholders.
secundários. Os dados primários
Com a intensificação das discussões
constituíram-se por meio dos questionários
relacionadas aos impactos ambientais e à
aplicados aos gestores das IES. Os dados
cobrança da sociedade, no que tange ao
secundários foram coletados a partir de
comportamento social das organizações,
diversas fontes, tais como: artigos de
cada vez mais, o conceito de sustentabilidade
periódicos, livros, Normas Brasileiras de
ganha espaço entre os cientistas e, inclusive,
Contabilidade (NBC T 15), Guia de
na sociedade. Diante desse pressuposto,
Elaboração de Balanço Social e Relatório de
demonstra-se que, a partir das informações
Sustentabilidade do Instituto Ethos e modelo
coletadas na presente pesquisa, existe certo
de Elaboração de Balanço Social do Instituto
interesse em realizar o Balanço Social. Os
Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas
resultados indicam que as organizações
(IBASE). Através destes dados foi possível
estudadas, sem exceção, realizam algum tipo
identificar o processo de elaboração do
de atividade que as torna socialmente
Balanço Social dos dois principais institutos
responsáveis.
do país, citados acima, bem como adequação
dos Balanços Sociais através da NBC T 15. O Projetos ligados à sustentabilidade também
questionário foi divido em duas partes, sendo foram desenvolvidos pela Universidade do
a primeira com o propósito de verificar quais Oeste do Paraná-UNIOESTE. Essa IES
ações de RSE as entidades pesquisadas desenvolveu o projeto Casulo
realmente praticam, considerando o caráter Sociotecnológico, cujo objetivo era criar uma
formal ou informal e se elas estão de acordo estratégia de ação para a elaboração de
com a NBC T 15, e a segunda por meio de estratégias inovadoras sustentáveis no
escala Likert para verificar a percepção município de Toledo. (OLIVEIRA, 2014). As
quanto à importância da publicação do IES estudadas naquela pesquisa
balanço social. O formato da escala Likert era: desenvolvem outras formas de projetos como
não concordo totalmente, não concordo os indicados no gráfico 1.
Gráfico 1. Práticas de responsabilidade social interna.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


35

Fonte: elaboração dos autores.


Verifica-se, de acordo com o gráfico 1, a Lopes (2015), os colaboradores são
existência de ações em que as organizações observados como um meio para atingir um
são unânimes em considerar como fim, pelo que a organização tem o dever de
necessárias para o desempenho e envolvê-los nas decisões que os concernem
consolidação de práticas sociais. Enfatizam- ou que possam interferir na sua performance.
se itens como contratação de estagiários, Em troca da lealdade e dedicação à empresa,
saúde, transporte e auxílio alimentação, cujas os colaboradores esperam segurança,
práticas são verificadas por todas as benefícios e um trabalho compensador. Por
organizações pesquisadas. A capacitação outro lado, oferecem muitas vezes um
profissional também é destaque no gráfico 1, investimento no seu trabalho que pode incluir
e de acordo com a Instituição (A), após adotar mudanças geográficas, mudanças de funções
o sistema de capacitação profissional, o ou formação adicional. Algumas destas
desempenho dos colaboradores aumentou obrigações empresariais estão protegidas por
em 50% no período de 2015 para 2016, pois lei, mas a teoria vai mais longe ao argumentar
os mesmos se sentem valorizados e que é preciso ir além das obrigações
trabalham de forma adequada e produtiva. contratuais, alertando para as questões
Além disso, os profissionais se tornam fiéis à morais e éticas. Esta evolução relatada pela
empresa e tornam-se qualificados para IES (A) está relacionada à educação, uma das
assumir novas promoções de carreira. Neste práticas indicadas no gráfico 2 como sendo
contexto e da teoria dos stakeholders, uma atitude benéfica à sociedade e ao meio
conforme o levantamento bibliográfico em ambiente.

Gráfico 2. Práticas que beneficiam a sociedade e o meio ambiente

Fonte: elaboração dos autores.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


36

O investimento em educação tem sido existem para educar. Nos próximos gráficos
destacado como uma estratégia para gerar o serão apresentadas algumas informações
desenvolvimento das organizações e, construídas com base em uma escala de
consequentemente, dos países, estados ou cinco valores possíveis em que o 1 significa
municípios. Por meio da observação do menor importância e o cinco maior
gráfico 2, nota-se essa tendência das IES importância. No gráfico 3, por exemplo,
analisadas, pois os dez participantes da demonstra-se o sentimento dos entrevistados
entrevista destacaram realizar algum do que se refere às práticas de
investimento em educação. Seria surpresa se responsabilidade social.
fosse diferente, pois tais organizações

Gráfico 3. Percepção dos entrevistados quanto a algumas práticas de RSE.

Fonte: elaboração dos autores.


Ao observar o gráfico 3, percebe-se que, de relação dos acionistas com a RSE tem se
maneira geral, as IES valorizam práticas que transformado ao longo do tempo com a
demonstram a preocupação com a presença de fundos financeiros que arriscam
Responsabilidade Social Empresarial. Na em empresas com alto nível de RSE e com a
percepção dos entrevistados, quesitos como crescente consciencialização da sociedade
‘relação com funcionários’ e ‘valorização da que começa a privilegiar organizações
empresa perante investidores’ assumem eticamente responsáveis. Neste ambiente,
papel relevante no processo de promover a alguns acionistas escolhem alocar
educação, ou seja, exercerem as suas investimentos em empreendimentos
funções enquanto IES, o que influencia no socialmente responsáveis porque acreditam
relacionamento das organizações com a que esses melhoram a reputação corporativa,
sociedade, visto que empresas lucrativas e mas sem colocar em risco a remuneração do
rentáveis poderão contribuir com recursos capital que pretendem. Há ainda a percepção
destinados à realização de pesquisas que de que empresas socialmente responsáveis
visem o desenvolvimento sustentável. são mais atrativas, têm maior capacidade
para se proteger de ataques externos e têm
Contextualizando com a teoria do
mais facilidade em criar valor tornando-se, por
stakeholders, Lopes (2015), em seu
isso, financeiramente mais atrativas.
levantamento bibliográfico, relata que a

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


37

Gráfico 4. As organizações publicam o Balanço Social?

Fonte: elaboração dos autores.


Percebeu-se que, por meio do gráfico 4, a credibilidade dessa junto ao stakeholders os
totalidade das IES pesquisadas elaboram o dados divulgados devem ser fidedignos e
BS, podendo em muitos casos não publicá-lo, consistentes.
mas elaboram essa peça contábil. Apesar da
falta de um padrão para a elaboração do BS,
Nascimento e Souza (2010) elaboraram um 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
BS para uma instituição do setor público e se
As IES, objeto da presente pesquisa, buscam
basearam no modelo do Ibase-Instituto
o desenvolvimento econômico observando
Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas.
aspectos sociais e ambientais. Entretanto é
Diante disto, é possível evidenciar que as preciso mais investimento em ações de
informações coleadas das organizações Responsabilidade Social e Empresarial,
apresentam uma inconsistência, pois tais transformando o ambiente de trabalho ao
Instituições não divulgam estas informações. torná-lo propício à realização profissional dos
Seria o receio de ter os seus projetos funcionários.
copiados a causa para a não publicação
Entretanto, ao buscar uma sociedade mais
destes? Essa reflexão tem lugar em face de
justa, não basta observar as normas técnicas,
que essas instituições já parecem reconhecer
aquelas constantes na legislação. Para isto, é
que a importância de ser socialmente
preciso desenvolver ações externas à
responsável e, a partir disso, passam a
sociedade, como recuperação de ambientes
desenvolver projetos sociais. Se as IES agem
degradados. É preciso inovar analisando
deste modo, por que não publicar para a
quais fatores poderiam contribuir para a
sociedade conhecer os seus projetos?
evolução social e ambiental da sociedade.
No passado, fornecer apenas informações
Deste modo, respondendo ao questionamento
econômicas à sociedade ou grupo de
inicial, relativamente à constatação de ações
investidores era considerado suficiente. Com
que caracterizam Responsabilidade Social
o avanço do conhecimento, o entendimento
nas IES pesquisadas, conclui-se pela
de que é preciso gerar novos benefícios por
presença de práticas qualificadoras de
meio de projetos ambientais e sociais,
organizações socialmente responsáveis. Com
publicando tais informações, tornou-se
base nas sugestões de quesitos constantes
necessário. Considerando isto, torna-se cada
da NBC T-15, tais como contratação de
vez mais indispensável a publicação de
estagiários, controle de admissões e
demonstrativos que evidenciem práticas
demissões e saúde/saneamento, conclui-se,
sustentáveis. Para tanto, tem-se o Balanço
então, que as organizações investigadas
Social como instrumento dessa nova cultura,
podem ser classificadas como instituições
uma vez que incorpora informações pontuais
socialmente responsáveis. Dentre o universo
sobre o desempenho da empresa nas áreas
pesquisado, notaram-se algumas IES menos
sociais, ambientais e nas relações com os
desenvolvidas nesta matéria que outras por
seus diversos stakeholders (OLIVEIRA, 2008).
ainda não terem consolidado determinadas
Não há necessidade de publicação de dados
práticas.
sigilosos da instituição, mas para construir a

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


38

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Elaboração do Balanço Social e Demonstração Contabilidade. São Paulo: Atlas, 2010.
do Valor Adicionado de instituição pública: um

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


39

Capítulo 4

Adelson da Silva
Felipe Paulo Proença da Silva
Doralice de Almeida Nascimento
Juliane Borges Pereira
Sandra Simm Rohrich

Resumo: Os indicadores de sustentabilidade são instrumentos que auxiliam na


gestão dos projetos de sustentabilidade, bem como na avaliação e manutenção
das ações executadas. Atualmente o Setor Litoral da UFPR não segue quaisquer
indicadores de sustentabilidade, tampouco não avalia a existência de práticas
sustentáveis em seu campus. Este artigo teve por objetivo propor um indicador de
sustentabilidade a ser adotado pelo Setor Litoral da UFPR, adaptado às próprias
condições da Instituição. A metodologia adotada baseou-se em pesquisa
bibliográfica em fontes secundárias; e reuniões de um grupo de trabalho
denominado Núcleo de Sustentabilidade Socioambiental (NOSSA), que analisou os
indicadores de sustentabilidade que poderiam ser empregados em Instituições de
Ensino Superior (IES). Entre os indicadores analisados o grupo escolheu a Agenda
Ambiental da Administração Pública (A3P) e fez adaptações de acordo com as
especificidades da Instituição. Esse indicador mostrou-se suficiente para estruturar
e elencar os principais pontos referentes a sustentabilidade na Instituição. Foram
elencados critérios para cada uns dos seis eixos propostos pela A3P, além desta
ação foi criado o eixo Acadêmico, sendo esta a maior inovação apresentada.

Palavras-chave: Indicadores de Sustentabilidade; Sustentabilidade em IES;


Sustentabilidade.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


40

1 INTRODUÇÃO levantadas nesta pesquisa, como resultado o


artigo apresentou o indicador de
Este artigo abordou o tema indicadores de
sustentabilidade A3P, escolhido pelo NOSSA
sustentabilidade e teve por objetivo propor um
para realizar o diagnóstico da
indicador de sustentabilidade a ser adotado
sustentabilidade no Setor litoral da UFPR. O
pelo Setor Litoral da UFPR, adaptado às
artigo ainda aponta como proposta de
próprias condições da Instituição. Para tanto,
continuidade, aplicar os critérios criados na
em um primeiro momento se fez necessário
realização de um diagnóstico da
fundamentar o referencial teórico com
sustentabilidade no setor Litoral e,
abordagens que ajudassem a aprofundar o
posteriormente, a proposição de ações para a
entendimento, para então chegar ao objeto da
promoção da sustentabilidade no campus de
pesquisa e resposta a problemática.
forma continuada.
A sustentabilidade, no sentido ecológico, é
tudo que a terra faz para que um ecossistema
subsista (BOFF, 2015). É atender as 2. SUSTENTABILIDADE
necessidades do presente sem comprometer
Atualmente a sustentabilidade vem sendo
as necessidades das gerações futuras
amplamente discutida, de tal modo que o
(NOSSO FUTURO COMUM, 1987). A
cuidado com o planeta se tornou um assunto
sustentabilidade em Instituições de Ensino
discutido de forma global. Mas os primórdios
Superior (IES) e as práticas de gestão
dessa temática são bem anteriores ao século
ambiental nas universidades brasileiras, em
vigente. Em 1560, na Alemanha, surgiu pela
sua grande maioria, não são efetivas, mas a
primeira vez a preocupação com o uso
tendência é que ao longo do tempo os
racional das florestas, de forma que elas
impactos ambientais negativos causados
pudessem se regenerar e se manter
pelas IES sejam reduzidos, gerando, em
permanentemente. Neste contexto surgiu a
contrapartida, benefícios ambientais
palavra alemã Nachhaltigkeit, que significa
(MACHADO et al., 2013).
“sustentabilidade.” (BOFF, 2015).
Tendo em vista o exposto, surgiu a seguinte
Foi somente em 1713, que a palavra
questão de pesquisa: Qual indicador pode
“sustentabilidade” se transformou num
avaliar a sustentabilidade ambiental em uma
conceito estratégico, quando o Capitão Hans
(IES)? Para responder à questão proposta, a
Carl von Carlowitz escreveu um verdadeiro
metodologia norteadora deste estudo foi de
tratado sobre sustentabilidade com o título de
natureza descritiva qualitativa, pautada em
silvicultura econômica. Propunha
pesquisa bibliográfica e em fontes
enfaticamente o uso sustentável da madeira.
secundárias. Além destes, abrangeu a
Seu lema era: “devemos tratar a madeira com
reunião de um grupo de trabalho denominado
cuidado”, caso contrário cessará o lucro.
Núcleo de Sustentabilidade Socioambiental
(BOFF, 2015).
(NOSSA).
Posteriormente a abordagem para a
O estudo apresentou em sua revisão de
sustentabilidade começou a se tornar mais
literatura inicialmente os conceitos de
abrangente, se consolidando em Estocolmo,
Sustentabilidade e Sustentabilidade em IES.
em 1972, a Primeira Conferência Mundial
Na sequência foram abordados três
sobre o
Indicadores de Sustentabilidade para
comparação e análise do mais adequado Homem e o Meio Ambiente, onde se deu a
para a o Setor Litoral da UFPR. Os criação do Programa das Nações Unidas para
Indicadores evidenciados neste trabalho o Meio Ambiente (PNUMA).Alguns anos após,
foram, inicialmente, o Global Reporting em 1975, Carl Georg Ludwig Hartig escreveu
Iniciative (GRI), e a norma NBR ISO outro livro: Indicações para a avaliação e a
14001:2015, considerados relevantes em nível descrição das florestas, afirmando: “é uma
internacional. O terceiro indicador foi a sábia medida avaliar de forma mais exata
Agenda Ambiental na Administração Pública possível o desflorestamento e usar as
(A3P), um indicador nacional de adesão florestas de tal maneira que as futuras
voluntária para os órgãos públicos, podendo gerações tenham as mesmas vantagens que
ser empregado nas Instituições de Ensino a atual”. (BOFF, 2015).
Superior Públicas (IESP), para inserirem
Em 1983, dez anos após a conferência de
critérios ambientais em quaisquer que sejam
Estocolmo, a ONU (Organização das Nações
suas atividades. A partir das informações
Unidas) criou a Comissão Mundial sobre o

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


41

Homem e o Meio Ambiente. O organismo 2.1 SUSTENTABILIDADE EM IES


promoveu discussões entre líderes de
O desenvolvimento da consciência ecológica
governo e membros da sociedade civil,
em diferentes camadas e setores da
presidido por Gro Harlem Brundtland se
sociedade mundial acaba por envolver
estendeu até 1987 e culminou com o relatório
também o setor da educação, a exemplo das
“Nosso futuro comum”. Nesse processo foi
Instituições de Ensino Superior (IES). No
legitimado o termo “desenvolvimento
entanto, ainda são poucas as práticas
sustentável”, como “aquele que satisfaz as
observadas, as quais
necessidades do presente sem comprometer
a capacidade das gerações futuras têm o papel de qualificar e conscientizar os
satisfazerem as suas próprias necessidades.”. cidadãos formadores de opinião de amanhã
E propõe que os objetivos de (TAUCHEN & BRANDLI, 2006).
desenvolvimento econômico e social devem
Existe uma preocupação crescente de
ser baseados na sustentabilidade em todos
adaptação das universidades em busca de
os países (NOSSO FUTURO COMUM, 1987).
um desenvolvimento sustentável, não só no
Segundo Sachs (2002), a abordagem aspecto do ensino, mas em práticas
fundamentada na harmonização de objetivos ambientalmente corretas presentes na gestão
sociais, ambientais e econômicos não se (TAUCHEN &BRANDLI, 2006).
alterou desde Estocolmo até as conferências
Na tentativa de se adaptar a essas novas
do Rio de Janeiro. O autor recomendou a
exigências da sociedade, as IES buscam
adoção de oito critérios para se alcançar a
incorporar uma gestão com foco na
sustentabilidade: Social, Cultural, Ecológica,
sustentabilidade, realizando diversas ações
Ambiental, Territorial, Econômico, Política
ambientais, dentre
(Nacional) e Política (Internacional).
Considerando o exposto, a utilização da elas estão os Sistemas de Gestão Ambiental
natureza para uma formação social na (SGA). Nesse contexto, o ensino universitário,
perspectiva de um desenvolvimento é uma ferramenta essencial para a
sustentável deve ser congruente com os conscientização da sociedade (ENGELMAN;
processos de reprodução de seus recursos. GUISSO; FRACASSO, 2009).
Isso implica avaliar desde logo as
Para Uehera et al.(2010) demandas de
perturbações que podem introduzir diferentes
conhecimentos de gestão ambiental têm sido
práticas produtivas no ecossistema mediante
cada vez mais geradas pela sociedade, o que
os padrões tecnológicos e a intensidade da
exigirá das IES maior atenção e cuidados em
exploração de seus recursos, assim como por
termos de pesquisa, ensino e extensão que
suas formas de organização social, seus
respondam às necessidades de
processos demográficos e pelos modelos de
desenvolvimento da sociedade. Além disso,
urbanização de seus assentamentos
as IES podem servir de exemplo. A partir de
humanos.
suas práticas de Gestão ambiental,
A satisfação das necessidades básicas da minimizando seus impactos, ao mesmo tempo
população está associada a padrões de em que contribuem com a conscientização da
aproveitamento sociedade.
de recursos, seus processos de produção e Em uma perspectiva otimista pode-se inferir
formas de consumo. (LEFF, 2009). que a tendência é que os impactos
ambientais negativos causados pelas IES
O desenvolvimento sustentável irá exigir
sejam reduzidos ao longo do tempo, gerando,
sistemas políticos e econômicos realmente
em contrapartida, benefícios ambientais.
eficientes. Levando em conta cada indivíduo, (MACHADO et al., 2013).
em seus variados setores de atuação, tanto
Um aumento no número de ações da área de
empresarial, quanto governamental.
educação ambiental para toda comunidade
(SCHMIDHEINY, 1992).
universitária afetaria esses resultados de
forma positiva, pois os impactos ambientais
estão diretamente relacionados aos hábitos
das pessoas que fazem uso dos espaços
físicos da Universidade. (SGARBI et al., 2013).

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


42

2.2 PRÁTICAS DE GESTÃO AMBIENTAL NAS estudo. Observou-se a reduzida preocupação


UNIVERSIDADES BRASILEIRAS e conscientização com as questões sociais e
ambientais, não constando nenhum tipo de
Apesar da crescente preocupação com as
plano ou política de qualidade ambiental por
questões ambientais nota-se que são poucas
parte da instituição. (KEUNECK et al., 2012).
as instituições que adotam práticas efetivas
que visem à diminuição dos impactos Em 2013, um estudo realizado com uma
ambientais causados por elas na natureza. amostra de 75 universidades brasileiras por
Especificamente no Brasil são poucos os Machado et al. destacou que as IES têm
casos de instituições que incorporam a dificuldades em adotar certas práticas de
sustentabilidade em suas gestões, mas há gestão ambiental, pois encontram barreiras
algumas que merecem destaque. como a falta de recursos, principalmente
humanos e financeiros; a dificuldade de
Segundo Tauchen e Brandli (2006), existem
conscientização dos envolvidos; e a falta de
razões significativas para implantar um SGA
interesse das próprias instituições de ensino.
numa Instituição de Ensino Superior, dentre
Neste mesmo estudo verificaram que as
elas está a possibilidade de se comparar as
práticas mais comuns adotadas são as que
instituições de ensino superior a pequenos
demandam menor infraestrutura física e de
núcleos urbanos, já que podem envolver
pessoal.
diversas atividades referentes à sua
operação, tais como: bares, restaurantes, Também em 2013, Borges et al. avaliaram 82
alojamentos, centros de conveniência, entre campi dos Institutos Federais de Educação,
outras. Dado o contexto, essas IES Ciência e Tecnologia (IF), chegaram à
demandam redes de abastecimento de água conclusão que a questão ambiental ainda é
e energia, redes de saneamento, coleta de deixada de lado por grande parte dos IF
águas pluviais e vias de acesso. brasileiros. E que existem campi que não
dispõem de estrutura responsável
Pesquisas têm demonstrado as práticas
exclusivamente pelas questões ambientais,
sustentáveis observadas nas IES nacionais.
cabendo a outros setores essa função.
Um exemplo está no estudo de caso realizado
por KRUGER et al. (2011) em uma instituição Em um estudo de caso realizado na
de ensino superior comunitária no município Universidade Federal do Rio Grande do Sul
de Chapecó em Santa Catarina, com o (UFRGS) os autores utilizaram a metodologia
objetivo de identificar se a mesma atende as LAIA, empregada no SGA da UFRGS para
demandas da Agenda Ambiental da análise dos aspectos e impactos ambientais
Administração Pública (A3P) nas suas de suas Unidades, que foi desenvolvida
práticas de gestão ambiental. Foi observado agregando e adaptando a ferramenta FMEA
que a instituição atende parcialmente as do setor aeroespacial.
diretrizes da A3P mediante ações como a
Esta ferramenta auxilia os gestores das
destinação correta dos resíduos gerados.
unidades da UFRGS no gerenciamento dos
Salientou-se ainda, que a IES possui diversas
processos ambientais, o qual recebe um
ações desenvolvidas em prol do meio
plano de ação bem explicitado, com clareza
ambiente e da comunidade, visando reduzir
nas tarefas e prazos que devem ser
os impactos ambientais causados no decorrer
realizadas ao longo do período, gerando
de suas atividades.
rapidez e facilidade aos gestores, pois os
Um estudo realizado em uma instituição de procedimentos já são todos apresentados,
ensino superior, através do método SICOGEA, sendo necessário apenas executar as tarefas
sendo esta uma ferramenta de gestão (SGARBI et al., 2013).
ambiental que une, por meio de controles, a
A unidade de Florianópolis da SOCIESC
contabilidade ao meio ambiente. Buscou-se
(Sociedade Educacional de Santa Catarina),
identificar o grau de atendimento da IES a
busca disseminar a sustentabilidade por meio
determinados requisitos ambientais. Esta IES
do desenvolvimento de projetos de extensão
analisada possui seis campi localizados no
e iniciação científica, envolvendo temáticas de
estado de Santa Catarina, com sua sede
sustentabilidade, inclusão social e
instalada em um município do Vale do Rio
preservação ambiental. Uma campanha de
Itajaí-Açu, e obteve um índice de
reciclagem institucional - Projeto 3R’s -, a
sustentabilidade ambiental total de 41%,
inclusão de disciplinas nas grades dos cursos
considerado fraco pelo método de avaliação
de graduação e pós-graduação e a realização
do desempenho ambiental adotado no
de palestras sobre sustentabilidade nos

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


43

eventos realizados para os alunos e a sustentável devem ser os mais qualitativos por
comunidade em geral complementam as existir limitações aos indicadores
ações voltadas à sustentabilidade. (PONTES simplesmente numéricos. O mesmo ressalta
et al., 2015). que algumas medições qualitativas também
podem ser transformadas em dados
Em estudo realizado na Universidade Federal
quantitativos.
Fronteira Sul, campus de Chapecó/SC, com o
objetivo de avaliar o nível de sustentabilidade Existem uma variedade de indicadores da
ambiental a partir da aplicação do Modelo de sustentabilidade, dentre esses está o
Avaliação de Sustentabilidade Socioambiental Ecological footprint Method (EFM) ou Pegada
(MASS) elaborado por Freitas em 2013, os Ecológica em português, uma ferramenta
autores chegaram a um resultado que quantitativa e que conforme página web da
demonstra que UFFS apresenta 53,09% do WWF BRASIL (Organização de Conservação
índice geral de sustentabilidade, Global), é uma: Metodologia de contabilidade
representando que a instituição aplica a ambiental que avalia a pressão do consumo
Sustentabilidade Ambiental das populações humanas sobre os recursos
preponderantemente para cumprir os naturais. Expressada em hectares globais
requisitos legais (WARKEN et al.,2014). (gha), permite comparar diferentes padrões
de consumo e verificar se estão dentro da
capacidade ecológica do planeta. Um hectare
2.3 INDICADORES DE SUSTENTABILIDADE global significa um hectare de produtividade
média mundial para terras e águas produtivas
O termo indicador é originário do latim
em um ano. (WWF BRASIL, 2016).
indicare, que significa descobrir, apontar,
anunciar, estimar. Os indicadores podem Sendo assim, a Pegada Ecológica contabiliza
comunicar ou informar sobre o progresso em os recursos naturais biológicos renováveis
direção a uma determinada meta, como o (grãos e vegetais, carne, peixes, madeira e
desenvolvimento sustentável, por exemplo. fibras, energia renovável etc.), segmentados
Mas também podem ser entendidos como um em agricultura, pastagens, florestas, pesca,
recurso que deixa mais perceptível uma área construída e energia e absorção de
tendência ou fenômeno, que não seja dióxido de carbono (CO2).
imediatamente detectável (HAMMOND, 1995
Dentre os principais indicadores da
APUD BELLEN, 2006).
sustentabilidade elencados por BELLEN
Partindo dessa ótica, pode-se afirmar que um (2006) além da Pegada Ecológica, estão o
indicador é uma ferramenta que serve de Dashboard of Sustainability (DS), o Barometer
parâmetros. Logo, um indicador de of Sustainability (BS), Human Development
sustentabilidade busca mensurar, servindo Index (HDI), o Driven Force, State, Response
como medida para avaliar, refletir de que (DSR) entre outros.
maneira as organizações realizam as práticas
Priorizou-se neste artigo, abordar de maneira
sustentáveis, e se as mesmas estão sendo
relevante os seguintes indicadores da
efetivas. As principais funções de um
sustentabilidade: o GRI, a norma NBR ISO
indicador de sustentabilidade, citadas por
14001:2015 e a A3P.
BELLEN (2006), são de avaliar condições e
tendências, comparar lugares e situações, O GRI, um indicador muito utilizado em
avaliar condições e tendências referentes a ambiente empresarial no mundo, é composto
metas e objetivos, prover informações e por uma estrutura de relatórios de
advertência e a de antecipar futuras sustentabilidade e que estima a transparência
condições e tendências. Seu objetivo, é o de sobre os impactos das organizações,
agregar e quantificar informações de modo focando-se nos pilares social, econômico e
que sua significância se apresente com ambiental. Visa a eficácia da relação com
clareza. Eles simplificam as informações todas as partes interessadas, os stakeholders
sobre fenômenos complexos tentando (TERMIGNONI, 2012).
melhorar com isso o processo de
Conforme página própria da GRI na web,
comunicação.
vários programas e empresas incentivam e
Segundo Bellen (2006) os indicadores podem adotaram as diretrizes dos relatórios da GRI
ser quantitativos e/ou qualitativos. Ele afirma no Brasil, dentre eles estão Natura
que alguns autores defendem que os mais Cosméticos, Petrobras, Serasa, CBPAK
adequados para avaliar o desenvolvimento Tecnologia Florestas, Hering Madeiras e

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


44

Instrumentos Musicais da Amazônia. No implementação de iniciativas proativas que


entanto, não há registros de IES nacionais que visem proteger o meio ambiente contra danos
empreguem o GRI como diretriz principal para e degradação, como por exemplo, o uso
sustentabilidade. (GRI, 2016). sustentável dos recursos e a mitigação das
alterações climáticas; enfoque no conceito de
Ao adotar as diretrizes GRI as organizações
ciclo de vida a fim de garantir que aspectos
têm um modo de prestar contas aos
ambientais sejam levados em consideração
stakeholders de maneira clara e transparente
desde o desenvolvimento até o fim da vida útil
suas atitudes de responsabilidade
do produto; e a adoção de uma estratégia de
sustentável.
comunicação com foco nas partes
Interessante ressaltar que tais diretrizes interessadas.
podem ser adotadas por diversos tamanhos,
Além de possibilitar uma integração mais fácil
porte de organizações, para qualquer setor
a outros sistemas de gestão, visto que têm a
em qualquer localização geográfica.
mesma estrutura e os mesmos termos e
Para Savitz (2007) apud Termignoni (2012) definições (ABNT, 2016).
não há dúvidas de que as diretrizes GRI são o
Já A A3P é uma ação em nível nacional que
principal padrão global para mensuração,
busca a construção de uma nova cultura
monitoramento e divulgação das questões
institucional nos órgãos e entidades públicos
relacionadas à sustentabilidade.
e que objetiva estimular os gestores públicos
As diretrizes GRI abordam aspectos como o a incorporar princípios e critérios de gestão
desempenho econômico como afirma socioambiental em suas atividades rotineiras,
Termignoni (2012). Seu objetivo é mostrar o ou seja, a mesma abrange somente os pilares
fluxo de capital entre diferentes stakeholders social e ambiental, levando à economia de
e os principais impactos econômicos da recursos naturais e à redução de gastos
organização sobre a sociedade como um institucionais por meio do uso racional dos
todo. O desempenho ambiental inclui os bens públicos, da gestão adequada dos
sistemas naturais vivos e não-vivos, resíduos, da licitação sustentável e da
abrangendo o desempenho de insumos e promoção da sensibilização, capacitação e
resíduos. O desempenho social é composto qualidade de vida no ambiente de trabalho
por quatro grupos de indicadores, referentes (MMA, 2016).
às práticas trabalhistas, direitos humanos,
Importante salientar também que:
sociedade e responsabilidade pelo produto.
Uma outra proposta de diretrizes para a
sustentabilidade é a NBR ISO 14.001 que A A3P é um programa de adesão
exige dentro do seu escopo, o gerenciamento voluntária para os órgãos públicos, no qual
dos resíduos e o atendimento às exigências estão enquadradas as Instituições de
ambientais legais pertinentes à atividade da Ensino Superior Públicas (IESP), que
organização, através da definição de devem inserir critérios ambientais em suas
objetivos e metas com responsabilidades atividades sejam elas de investimento, de
delegadas. Planos de situações de compras e ou de contratação de serviços,
emergência também são exigidos pela norma. como na gestão adequada dos resíduos
(TERMIGNONI 2012). E em sua mais recente gerados, promovendo a melhoria da
atualização, a NBR ISO 14001:2015 define qualidade de vida no ambiente de trabalho
particularidades para se colocar um SGA em (MMA, 2006 APUD WARKEN et al. 2014).
ação ajudando a melhorar o desempenho das
empresas por meio da utilização eficiente dos
recursos e da redução da quantidade de O que se busca é uma ação exemplar do
resíduos, ganhando assim vantagem gestor público a partir da compreensão do
competitiva e a confiança das partes que é a responsabilidade socioambiental.
interessadas. Para tanto, A3P está estruturada em 06 (seis)
eixos, a saber: O primeiro eixo compreende o
Diferentemente das diretrizes GRI, a NBR
Uso Racional dos Recursos Naturais e Bens
ISSO 14001:2015 abrange apenas a
Públicos: inclui-se neste eixo ou critério o
perspectiva ambiental. E propõe que a gestão
consumo de água, energia, papel, copos
ambiental seja mais importante no
plásticos, madeira, transporte e demais bens
posicionamento estratégico da empresa;
e materiais utilizados pela administração
maior comprometimento da liderança; a
pública. Usar racionalmente tais recursos

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


45

implica economia de gasto, otimizar o uso e referencial para a administração pública


redução do desperdício dos mesmos. federal que estabelece critérios, práticas e
diretrizes gerais para a promoção do
O segundo eixo trata do Gerenciamento de
desenvolvimento nacional sustentável por
resíduos sólidos: que é definido e
meio das contratações realizadas pela
regulamentado pela Política Nacional de
administração pública federal direta,
Resíduos Sólidos – PNRS, Lei N° 12.305/2010
autárquica e fundacional e pelas emp resas
e Decreto N° 7.404/2010 que preveem a
estatais dependentes.
redução e a destinação ambientalmente
adequada destes resíduos. A PNRS também O sexto eixo abrange as Construções
ampliou a inclusão de catadores de materiais Sustentáveis refere-se as edificações e
recicláveis e reutilizáveis determinada para a ambientes que considerem, desde a sua
administração pública pelo Decreto No concepção, construção, operação e
5.940/2006. renovação, o uso de conceitos e
procedimentos reconhecidos de
O terceiro eixo aborda a Qualidade de vida no
sustentabilidade. A construção deve
ambiente de trabalho: envolve-se aqui tanto
considerar medidas para: redução e
os aspectos físicos e ambientais, como os
otimização do consumo de materiais e
aspectos psicológicos do local de trabalho. O
energia; redução dos resíduos gerados;
mesmo visa atender as necessidades do
preservação do ambiente natural e melhoria
servidor e desenvolver ações para o seu
da qualidade do ambiente construído.
desenvolvimento pessoal e profissional,
aumentado a sua produtividade e bem-estar Mediante a aplicabilidade destes seis eixos, a
no trabalho. Que abrange ainda a garantia da A3P é uma iniciativa em constante
acessibilidade, redução do estresse e aperfeiçoamento e se tornou um referencial
ampliação da participação dos servidores nos para a inclusão do tema da sustentabilidade
processos institucionais. nas atividades administrativas. Também tem
contribuído para uma crescente
No quarto eixo está a Sensibilização e
conscientização por parte dos órgãos e
capacitação dos servidores: busca-se neste
entidades públicas, o que por si só já é um
eixo, desenvolver e estimular a prática da
grande resultado alcançado. Contribuindo
consciência cidadã pelos gestores e
com a responsabilidade socioambiental pelas
servidores públicos, partindo dos princípios
instituições públicas e para a melhoria da
da responsabilidade socioambiental.
gestão pública em todo o país.
Capacitando para o desenvolvimento de
competências institucionais e individuais e Os indicadores da sustentabilidade são
fornecendo novas oportunidades para o pautados nos pilares social, ambiental e
engajamento dos servidores nas questões econômico. Foram abordados aqui exemplos
socioambiental. de indicadores abrangendo estes três pilares:
as Diretrizes GRI que engloba os três pilares,
O quinto eixo engloba as Contratações
a norma NBR ISO 14001:2015 que abrange
Públicas Sustentáveis: compreendem as
somente a perspectiva ambiental. E a A3P,
aquisições de bens, contratações de serviços,
quem tem como perspectiva os pilares
obras e reformas com critérios de
socioambiental. Desta forma os indicadores
sustentabilidade, e devem ser planejadas e
da sustentabilidade são pautados, como
realizadas a partir de uma visão sistêmica do
mostra a figura 1, a seguir:
processo produtivo como, por exemplo, da
Análise de Ciclo de Vida do produto – ACV. O
Decreto no 7.746/2012 é o principal

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


46

Figura 1: Pilares da Sustentabilidade

Fonte: Elaborado pelos autores

3. A UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ 4. METODOLOGIA


A Universidade Federal do Paraná está A metodologia que norteia o estudo exposto é
geograficamente dispersa, composta por 7 de natureza descritiva qualitativa. Segundo
Campi distribuídos, na sua maioria, em Demo (2000) a metodologia qualitativa é
Curitiba, mas também em Cidades diferentes caracterizada como alternativa, pois busca
no estado como são os casos de Palotina, salvaguardar o que a metodologia dura joga
Jandaia do Sul, Pontal do Sul e Matinhos. fora, por não caber no método, sendo isso por
vezes o mais importante. A pesquisa
O Setor Litoral da Universidade Federal do
descritiva não tem compromisso de explicar
Paraná está localizado no município de
os fenômenos que descreve, embora sirva de
Matinhos, suas ações acadêmicas chegam
base para tal explicação (VERGARA, 1998).
aos sete municípios litorâneos do estado e se
estendem ao Vale do Ribeira. São oferecidos O estudo se propõe, mediante pesquisa
14 cursos de graduação, de diferentes áreas bibliográfica em fontes secundárias a
do conhecimento, cursos de pós-graduação construir um indicador da sustentabilidade
latu-sensu e stricto-sensu (mestrado). para o campus litoral da UFPR. O trabalho
começou a se delinear no final do ano de
Na UFPR, desde 2002 a Divisão de Gestão
2015, quando três servidoras técnicas e uma
Ambiental (DGA), tem por responsabilidade
docente iniciaram as reuniões para buscar
realizar o gerenciamento integrado dos
possíveis indicadores para avaliar e nortear a
resíduos e o seu monitoramento. Nesse
sustentabilidade no campus. Inicialmente
sentido os Campi da UFPR têm atendido aos
esse grupo de servidoras propôs à direção
requisitos legais provenientes do Decreto
que se formasse um núcleo para concentrar
Federal 5940/2006 e da Lei 12315/2010.
as ações da sustentabilidade no campus, foi
Apesar disso, as práticas ambientais não têm
então que nasceu o NOSSA (Núcleo de
sido sistemáticas no campus Litoral, são
Sustentabilidade Socioambiental). A partir da
percebidas iniciativas acadêmicas
formalização, mediante portaria da direção,
envolvendo o tema sustentabilidade, mas
começaram a ser realizadas reuniões
poucas ações visando estruturar as rotinas
semanais com o propósito de pensar a
organizacionais. Assim, visando entender a
sustentabilidade no setor. Em 2016 entraram
extensão das práticas realizadas, esse estudo
no grupo de trabalho cinco discentes
propõe a adoção de um modelo de
mediante a iniciação científica, fortalecendo o
indicadores que possibilite diagnosticar e
trabalho de pesquisa e as proposições para a
propor ações sustentáveis sistêmicas para o
IES. Feito isso, a partir de revisão de literatura
Setor Litoral da UFPR.
observou-se que não há no Brasil um
indicador para a sustentabilidade em
Instituições de Ensino Superior. No entanto,

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


47

alguns estudos e instituições construíram os 5. PROPOSTA DE INDICADOR DE


seus próprios indicadores (TAUCHEN e SUSTENTABILIDADE A PARTIR DA A3P
BRANDLI, 2006; De MARCO et al., 2010,
A partir dos eixos propostos pela A3P foi
KRUGER et al., 2011; KEUNECKE et al.
organizada uma lista de critérios para avaliar
(2012), SGARBI et al., 2013; TRIGO et al.,
a sustentabilidade no Setor Litoral da UFPR,
2014; WARKEN et al.,2014).
esses critérios respeitaram as diretrizes da
A partir desse levantamento e analisando as A3P, mas, sobretudo, procuraram considerar
possibilidades de indicadores já existentes no as especificidades percebidas em uma IES.
ambiente empresarial, o NOSSA optou pela Os critérios foram organizados em uma lista,
A3P, Agenda Ambiental da Administração mediante a qual pretende-se dois tipos de
Pública para realizar o diagnóstico da aplicações, a primeira delas é como roteiro de
sustentabilidade no Setor litoral da UFPR. A entrevista que poderá diagnosticar a
A3P, é composta por seis eixos para avaliar a realidade do setor conversando com os
sustentabilidade, todos eles foram reavaliados docentes, técnicos e discentes que compõem
e adaptados para compor os critérios da a comunidade acadêmica. A segunda
sustentabilidade na Instituição. Somou-se a aplicação pode ser em uma amostra de
eles um sétimo eixo, o Acadêmico, pesquisa, compondo um levantamento
completando assim o Indicador da representativo de docentes, discentes e
Sustentabilidade para a Instituição e técnicos em uma escala de Likert para cada
abrangendo, para tanto, as questões do um dos critérios que compõem os sete eixos
ensino, da pesquisa e da extensão. propostos. Tendo em vista essas duas
possibilidades de utilização do Indicador
proposto, definiu-se uma nomenclatura para
ele: “Sustentabilidade na Universidade”, que
está detalhado no quadro 1:

Quadro 1: Sustentabilidade na Universidade


1) USO RACIONAL DOS RECURSOS NATURAIS E BENS PÚBLICOS:

Minimização da utilização de papel


Reutilização sistemática do papel como rascunho
Utilização sistemática de papel reciclado
Minimização da utilização de água
Captação e aproveitamento da água da chuva
Minimização da utilização de energia
Utilização de fontes energéticas alternativas
Utilização eficiente dos aparelhos de ar condicionado
Utilização de copos e canecas de porcelana, vidro ou equivalente
Minimização do uso de copos descartáveis
Racionalização do uso de veículos movidos a combustível fóssil

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


48

Quadro 1: Sustentabilidade na Universidade (continuação)

2) GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS SÓLIDOS:

Separação dos resíduos orgânicos e recicláveis nas salas de aula


Separação dos resíduos orgânicos e recicláveis nos gabinetes dos professores
Separação dos resíduos orgânicos e recicláveis nos espaços administrativos
Separação dos resíduos orgânicos e recicláveis nos espaços comuns (bibliotecas,
laboratórios, corredores)
Separação e destinação adequada dos resíduos produzidos no restaurante universitário.
Local para a comunidade acadêmica depositar resíduos perigosos (pilhas, baterias,
eletrônicos, medicamentos etc) para posterior disposição adequada
Segregação e destinação adequada dos resíduos químicos produzidos nos laboratórios

3) QUALIDADE DE VIDA NO AMBIENTE DE TRABALHO:

Ambiente de convivência para a comunidade acadêmica (praça, cantina, café etc)


Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA)
Ambiente de estudo com carteiras adequadas e espaço físico suficiente para os
discentes
Ambiente de trabalho com espaço físico adequado para os técnicos

Ambiente de trabalho com espaço físico adequado para os professores nas salas de aula

Ambiente de trabalho com espaço físico adequado para os professores nos gabinetes de
trabalho
Atendimento psicológico
Atendimento médico
Ginastica laboral
Ergonomia no local de trabalho/estudo
Confraternizações promovidas pela Instituição
4) SENSIBILIZAÇÃO E CAPACITAÇÃO DOS SERVIDORES:
Políticas de sustentabilidade compartilhadas
Eventos de sensibilização para a sustentabilidade
Treinamento de docentes e técnicos para promover a sustentabilidade
Informativos sobre a sustentabilidade na IES
Campanhas internas para a promoção da sustentabilidade

Definição formal de equipe interna para conduzir as ações da sustentabilidade na IES

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


49

Quadro 1: Sustentabilidade na Universidade (continuação)

5) CONTRATAÇÕES PUBLICAS SUSTENTÁVEIS:


Nos processos de compra é priorizada a origem ambientalmente regular de recursos
naturais utilizados nos bens, serviços e obras.
Controle dos fornecedores da IES nos processos de extração ou fabricação
Controle dos fornecedores da IES na utilização e descarte dos produtos e matérias-
primas
As licitações estabelecem critérios objetivos de sustentabilidade ambiental
Há algum edital de licitação sustentável publicado no Comprasnet pela IES
Diretrizes internas da IES para a realização de compras sustentáveis?
6) CONSTRUÇÕES SUSTENTÁVEIS:
Práticas sustentáveis em obras e serviços de engenharia
Planejamento de instalações hidráulicas de forma a ter acesso para inspeção e
manutenção
Planejamento de utilização de sistemas de reuso da água e de captação de água de
chuva
Planejamento para utilização de fontes energéticas alternativas
Planejamento das construções de modo a privilegiar o conforto térmico e a iluminação
natural
7) ACADÊMICO:
Os cursos oferecem disciplinas que apresentam o tema sustentabilidade no seu título
Os cursos oferecem disciplinas que apresentam o tema sustentabilidade de modo
transversal
Há projetos de pesquisa que apresentam o tema sustentabilidade no seu título
Há projetos de pesquisa que apresentam o tema sustentabilidade de modo transversal
Há projetos de extensão que apresentam o tema sustentabilidade no seu título
Há projetos de extensão que apresentam o tema sustentabilidade de modo transversal

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS Sendo as universidades um lugar formador de


opinião elas devem propagar o ensino da
O presente trabalho buscou descrever o
sustentabilidade e principalmente adotar
conceito de sustentabilidade de forma ampla
práticas eficazes que visem mudar todo este
e especificamente nas instituições de ensino
sistema de degradação ambiental, para isso é
superior, através da metodologia descritiva
necessário um engajamento de todos os
buscou-se modelos de instituições de ensino
responsáveis pelo setor sejam eles diretos ou
superior que adotem práticas sustentáveis em
indiretos, cabe aos gestores do campus
seus campi.
buscar e implementar ações de gestão
A revisão de literatura mostrou-se de acordo ambiental, podendo ser feito em parceria com
com a temática proposta e expôs a docentes e técnicos administrativos e até
importância que a sustentabilidade tem nos mesmo os discentes. Ademais, cabe aos
dias atuais, devido aos problemas ambientais alunos, apesar de sua permanência no
enfrentados pela atual geração, portanto se campus ser rotativa, contribuir para que as
faz necessário repensar e gerir de forma mais ações sejam mantidas e propagadas para
eficiente o uso dos recursos naturais de forma além do espaço acadêmico.
que o planeta seja capaz de suprir as
Estes conceitos devem estar presentes no
necessidades de todos que aqui estão sem
projeto de gestão das IES de maneira que ele
esgotar sua capacidade de reposição natural
seja contínuo e que não busque apenas
dos recursos e garantindo se assim a
cumprir com o papel legal da instituição
sobrevivência das gerações que estão por vir.
perante as leis ambientais vigentes que se
mostram insuficientes quanto a preservação

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


50

da natureza. Entre os indicadores de necessidades ambientais tanto das empresas


sustentabilidade existentes nota-se que as quanto das IES.
universidades os têm ajustado para que
A A3P é especificamente usada nas
atendam às suas necessidades específicas e
instituições públicas e pode ser adotada
algumas optam por desenvolver indicadores
pelas instituições públicas de ensino. Na
próprios adaptados para determinadas
UFPR litoral optou-se por utilizar a A3P, sendo
situações especificas de cada campus.
que este indicador mostrou-se suficiente para
Tais modelos desenvolvidos se mostram estruturar e elencar os principais pontos
eficientes, mas a adoção de um único referentes a sustentabilidade na instituição. A
indicador pelas IES poderia trazer maior partir da escolha da A3P como diretriz para o
eficiência e facilitaria a implantação de Setor Litoral da UFPR foram elencados
sistemas de gestão ambiental entre as IES. critérios para cada uns dos seis eixos
propostos pela A3P. Além desta ação ainda
Entre os vários modelos de indicadores de
foi criado o eixo Acadêmico, sendo esta a
sustentabilidade existentes, o presente estudo
maior inovação apresentada. Como proposta
priorizou três deles: o Global Reporting
de continuidade, o estudo se propõe a aplicar
Iniciative (GRI), a NBR ISO 14.001:2015 e a
os critérios criados na realização de um
Agenda Ambiental na Administração Pública
diagnóstico da sustentabilidade no setor
(A3P). Estes indicadores já são utilizados por
Litoral. Posteriormente a proposição de ações
várias empresas e algumas universidades e
para a promoção da sustentabilidade no
se mostram eficientes em suprir as
campus de modo continuado.

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Ambiental em Instituições de Ensino Superior: uma
revisão.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


52

Capítulo 5

Renata Storti Pereira


Nicole Cerci Mostagi
Eduardo Camargo de Aguiar
Cesar Henrique da Silva Rezende

Resumo: A problemática ambiental e social tomou maior proporção nas últimas


décadas, como um prenúncio da crise eminente da racionalidade econômica que
conduziu ao capitalismo contemporâneo, como é inferido na definição de
desenvolvimento sustentável feita pela World Commission on Environment and
Development (WCED). Entretanto, o conceito de desenvolvimento sustentável,
assim como sua prática, é controvertido e discrepante, devido a sua imprecisão e
ambiguidade no sistema atual. Ademais, verifica-se que os aspectos econômicos
são superestimados na definição da WCED. Nesse sentido, o estudo tem como
objetivo indagar as relações entre a sustentabilidade, o capitalismo contemporâneo
e as teorias organizacionais. Para tanto, primeiramente apresenta-se um breve
levantamento da racionalidade capitalista, em seguida, aborda-se algumas ideias
que contrapõem o conceito de desenvolvimento sustentável e sustentabilidade. A
análise é feita por meio do levantamento teórico, por isso o estudo é caracterizado
como ensaio teórico. Este estudo contribui teoricamente por apresentar visões
críticas referentes à sustentabilidade frente ao capitalismo e às teorias
organizacionais.

Palavras chaves: Sustentabilidade; Capitalismo; Organizações.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


53

1 INTRODUÇÃO ambiguidade no sistema atual. Holmberg


(1994 apud MEBRATU, 1998) constatou que
A problemática socioambiental tomou maior
havia mais de 80 interpretações do conceito
proporção nas últimas décadas do século XX,
de desenvolvimento sustentável que
como um prenúncio eloquente da crise da
compartilhavam o conceito central da
racionalidade econômica que conduziu o
definição da WCED. Castro (2004), afirma
processo de modernização. Nesse contexto
que essa definição é vaga e não conceitua o
de crise aparente, a ideia de sustentabilidade
que são as necessidades. Já Banerjee (2003)
e desenvolvimento sustentável emergem
diz que o conceito submeteu-se ao
como o propósito de contribuir à superação
paradigma econômico dominante e assim,
da radical diferenciação que o sistema
não elaborou uma definição de necessidades.
capitalista fez entre as atividades humanas,
econômicas e dos sistemas naturais (LEFF, Outras definições sugerem que o
2009). “desenvolvimento sustentável busca a soma
dos equilíbrios dos sistemas sociais,
Em 1972, em Estocolmo, foi realizada a
econômicos e ambientais, e mais um
Conferência das Nações Unidas sobre o meio
equilíbrio maior composto por todas as
ambiente humano que reconheceu a
interações entre esses sistemas” (MUNCK;
importância da gestão ambiental,
BORIM-DE-SOUZA, 2009). Porém, isso
proporcionando maior debate sobre as
realmente está ocorrendo?
questões socioambientais vivenciadas. À
compreensão dos danos ambientais em nível Nesse sentido, a presente pesquisa acredita
global causados por um expansivo processo que o discurso do desenvolvimento
de desenvolvimento industrial globalizado, sustentável justifica a sustentabilidade do
proporcionando visibilidade acerca dos próprio sistema Capitalista contemporâneo,
problemas ambientais ocorridos pelo mundo e visto que o desenvolvimento econômico é o
introduziu a dimensão ambiental da agenda mais sustentado no sistema, onde a
internacional. (PELICIONI, 2014; PIERRI 2001; preocupação ambiental é consequência do
FOLADORI, 2001; JACOBI, 2005). desenvolvimento econômico, enquanto a
dimensão social, na grande maioria, ainda é
No debate sobre as questões ambientais,
deixada de lado. Ou seja, o discurso de
sucedeu a World Commission on Environment
sustentabilidade e desenvolvimento
and Development (WCED) - Comissão
sustentável é utilizado para sustentar o
Mundial sobre o Meio Ambiente e
capitalismo e os que detém os recursos
Desenvolvimento - já na década seguinte, em
financeiros. Isso corrobora com a ideia de
1987, emergindo o termo desenvolvimento
O’Connor (2002, p. 34) que afirma que “do
sustentável, cujo relatório “Nosso Futuro
ponto de vista econômico, o capitalismo
Comum” (relatório Brundtland) o define como
sustentável deve, necessariamente, ser um
sendo o desenvolvimento que “satisfaz as
capitalismo em expansão, e como tal deve ser
necessidades atuais sem comprometer a
representado”.
habilidade das futuras gerações de atender
suas próprias necessidades” (ONU, 2010). O Como uma tentativa de mudança ao sistema
conceito foi desenvolvido devido à atual, muitas organizações aplicaram algumas
preocupação com a rápida deterioração do modificações em suas ações para minimizar
meio ambiente e principalmente por suas os problemas ambientais, surgindo um novo
consequências para o desenvolvimento conceito - greening corporativo ou capitalismo
econômico e social. A partir de então, o verde - que camuflava o capitalismo de
desenvolvimento sustentável passou a ser maneira que sua lógica de consumo ainda
introduzido na agenda política global continua presente, assim sendo, esse
(DOVERS, 1996; PIERRI, 2001; PELICIONI, conceito foi introduzido nos estudos
2014) organizacionais sobre o meio ambiente
(KALLIO; NORDBERG, 2009).
Não obstante, não há uma definição
consensual de sustentabilidade e Destaca-se também que as organizações são
desenvolvimento sustentável, apesar do propulsoras e engrenagens da destruição
conceito mais conhecido de desenvolvimento ambiental de maneira intensa (PERROW,
sustentável ser o elaborado pelo relatório 1997; SHWOM, 2009). As organizações
Brundtland. Entretanto, o conceito, assim envolvidas nos processos relacionados aos
como sua prática, é controvertido e problemas ambientais variam de informal para
discrepante, devido a sua imprecisão e formal, de empresas privadas a públicas,

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


54

incluindo também as organizações de intenso processo de desenvolvimento


movimentos sociais (SHWOM, 2009). Mesmo industrial inglês, ao qual se chamou
emergindo uma consciência ambiental, pelos Revolução Industrial” (CATANI, 1986, p.8).
debates internacionais concernentes à
A partir do século XVII, o capitalismo afirmou-
sustentabilidade, o impacto das organizações
se por meio das revoluções políticas
no meio ambiente é relativamente inexplorado
burguesas. No século XVIII, o mundo passou
pelas teorias das organizações (SHWOM,
por mudanças expressivas, principalmente na
2009).
Europa, no que se refere ao sistema
As relações organizacionais, econômicas e produtivo. Um marco foi a Revolução
políticas fazem com que as organizações Industrial, que transferiu o trabalho, que era
influenciem várias instituições sociais para realizado pelos artesões, para as fábricas e
mudarem seu encadeamento com o ambiente organizações. Nessa perspectiva, “as
(SHWOM, 2009), assim como com a organizações são indiscutivelmente o tipo de
sociedade. Nesse sentido, as ações sistema social predominante das sociedades
individuais ou coletivas das organizações industriais” (BRESSER-PEREIRA, 2004, p.1).
podem tentar alterar o sistema em vigor, mas
Marx, numa visão histórica, conceitua o
estão limitadas em suas opções de como
capitalismo como sendo um modo de
fazê-lo (SHWOM, 2009).
produção cujos meios estão nas mãos dos
Diante do contexto complexo que envolve o capitalistas, que constituem uma classe
tema sustentabilidade no sistema econômico distinta da sociedade. Assim, o capitalismo
atual e sua relação com as ações e pode ser definido como um sistema
teorizações organizacionais, surge a seguinte socioeconômico que apresenta uma classe
questão problema: quais são as possíveis de indivíduos possuidores do capital que
relações entre sustentabilidade, capitalismo e buscam investir de forma a fazê-lo crescer, do
o estudo das organizações? Dessa forma, o excesso, do lucro, e uma classe de
objetivo do trabalho é questionar as relações assalariados que vende sua força de trabalho
entre a sustentabilidade com o capitalismo por dinheiro com o intuito de sobreviver.
contemporâneo e as teorias organizacionais, Assim, o capitalismo não é apenas um
pois em uma análise superficial, percebe-se sistema de produção de mercadorias, “como
que há uma falácia entre o discurso de também de um determinado sistema no qual a
desenvolvimento sustentável e as ações força de trabalho se transforma em
efetivamente sustentáveis, pois, ao promover mercadoria e se coloca no mercado como
melhoras em alguns pontos, ocorre a qualquer objeto de troca” (CATANI, 1986,
danificação em outros. p.9).
No decorrer do artigo, a exposição está Com base em Marx, Catani (1986) afirma que
dividida em cinco momentos. Após a assim como a troca, a propriedade privada e
apresentação de forma sucinta sobre a divisão social do trabalho também são
racionalidade do capitalismo e o consumismo características fundamentais da sociedade
causado por ele, será abordado algumas produtora de mercadorias, pois os produtos
ideias que refutam o conceito de dos diferentes trabalhos, têm que ser,
sustentabilidade e de desenvolvimento trocados, e essa troca é uma condição
sustentável referido no relatório “Nosso Futuro necessária à subsistência de todos nessa
Comum” e os obstáculos enfrentados por sociedade, e é denominado de mercadoria. A
este, a seguir apresenta-se a metodologia do utilidade de uma coisa faz dela um valor de
trabalho, seguido por uma análise crítica com uso. Essa troca de mercadorias faz um valor
relação a teoria das organizações, o de troca (ou simplesmente valor). O valor de
capitalismo contemporâneo e o uso e valor de troca tem em comum que são
desenvolvimento sustentável e, por fim, as de fato produtos do trabalho (CATANI, 1986).
considerações finais.
Nesse contexto, onde tudo é mercadoria ou
pode se tornar, “o instituto da propriedade,
como bem assinalou Marx, é a pedra
2 A RACIONALIDADE DO CAPITALISMO
fundamental do edifício jurídico capitalista. A
O Capitalismo surgiu como “modo de busca incessante do empresário capitalista é
produção de mercadorias, gerado pela apropriação, sob a forma de direito
historicamente desde o início da idade exclusivo, de toda e qualquer coisa material”
moderna e que encontrou sua plenitude no (COMPARATO, 2011, p. 262-263). Para que

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


55

isso aconteça, Weber (1968, p. 250) explica especialmente à produção e uso de artigos
que o capitalismo contemporâneo tem como de qualidade inferior”.
condição prévia “a contabilidade racional do
Essas atitudes que ocorrem no sistema
capital como norma para todas as grandes
capitalista, mostram o processo de
empresas lucrativas que se ocupam da
racionalização na busca de maiores vendas,
satisfação das necessidades cotidianas”.
maiores lucros, para a efetivação do
Nesse sentido, “para a economia moderna, a
capitalismo. “A tendência à racionalização da
emissão de valores é o meio mais racional da
técnica e da economia, com o fim de diminuir
formação de capital” (WEBER, 1968, p. 252).
os preços, em proporção aos custos, deu
Já as condições prévias das empresas
lugar, durante o século XVII, a uma corrida na
capitalistas são:
busca de inventos” (WEBER, 1968, p. 273).
Resumidamente, “o capitalismo surgiu através
da empresa permanente e racional, da
1. Apropriação de todos os bens materiais
contabilidade racional, da técnica racional e
de produção como propriedades de livre
do direito racional. A tudo isto se deve ainda
disposição por parte das empresas
adicionar a ideologia racional, a
lucrativas autônomas; [...] 2. A liberdade
racionalização da vida, a ética racional na
mercantil, isto é, a liberdade do mercado,
economia” (WEBER, 1968, p. 310).
com referência a toda irracional limitação
do comércio; [...] 3. Técnica racional, isto Nesse contexto, o capitalismo se valeu das
é, contabilizável até o máximo, e, portanto, mudanças e inovações que ocorreram nos
mecanizada, tanto na produção como na processos industriais e se consolidou como
troca; [...] 4. Direito racional. Isto é, direito um sistema socioeconômico predominante,
calculável. Para que a exploração em que qualquer transformação no processo
econômica capitalista proceda de trabalho deriva da substituição da
racionalmente precisa confiar em que a produção de valor de uso para a produção de
justiça e a administração seguirão valor excedente (MARX, 1989).
determinadas pautas.[...] 5. Trabalho livre,
Entretanto, o capitalismo levou ao processo
isto é, que existam pessoas, não somente
de destruição que vem sendo gradativamente
no aspecto jurídico, mas no econômico,
intensificado pela lógica do consumismo,
obrigadas a vender livremente sua
sendo “a cultura do consumismo como um
atividade num mercado. [...] 6.
dos alvos da crítica à sociedade moderna” e
Comercialização da economia, sob cuja
também da sociedade sustentável
denominação compreendemos o uso geral
(LAYRARGUES, 2011, p. 189). As
de títulos de valor para os direitos de
organizações podem ser descritas como
participação nas empresas e, do mesmo
destruidoras ambientais mais intensas e
modo, para os direitos patrimoniais. Em
eficazes (PERROW, 1997). Nessa perspectiva,
suma: possibilidade de uma orientação
as origens dos problemas sociais e
exclusiva, na satisfação das necessidades,
ambientais podem ser localizadas nos
num sentido mercantil e de rentabilidade
processos organizacionais e
(WEBER, 1968, p. 250-251).
interorganizacionais. “Instituições como o
capitalismo e o Estado podem ser as
máquinas de degradação ambiental, e as
Nesse contexto, a produção capitalista se
pessoas podem tomar decisões importantes
caracterizou pela separação do trabalhador
que afetam o meio ambiente, mas as
dos meios de produção, e foi o
organizações são as engrenagens das
desenvolvimento das grandes fábricas e
máquinas” (SHWOM, 2009, p. 271). A autora
linhas contínuas de produção que aceleraram
explica que a teoria organizacional
as mudanças nos sistemas organizacionais,
desenvolveu um corpo de pesquisa sobre o
em que o trabalho artesanal foi sendo
porquê e como as organizações fazem o que
substituído pelas grandes fábricas. Para
fazem por teorizar tanto processos
Weber (1968, p. 277), o desenvolvimento da
organizacional e interorganizacionais, contudo
venda em grande escala foi decisivo para a
essas teorias, na maioria das vezes, ficam
marcha ao capitalismo. Esse desenvolvimento
aquém do que representa o contexto
surgiu “somente quando uma pequena parte
econômico e político mais amplo relacionados
das indústrias de luxo estendeu-se mediante
às questões ambientais e extensão da base
a democratização do consumo, recorrendo
material das organizações (SHWOM, 2009).

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


56

Até meados do século passado, a ambientais entraram na agenda internacional


preocupação relativa ao impacto ambiental e começaram a moldar atitudes pessoais e
ocasionado pelo modo de produção políticas governamentais. Conforme o tempo
capitalista poderia ser posta de lado em vista passava, a confiança na capacidade dos
de uma relativa abundância de recursos. O governos e corporações para resolver crises
uso de organizações e / ou gestão de teorias ambientais e sociais de alguma forma
organizacionais na investigação de gestão de desapareceu (SEGHEZZO, 2009). Percebe-se
sustentabilidade produziram conclusões e então que o “mercado fracassou na
recomendações interessantes e úteis, mas a consolidação de uma sociedade sustentável”
maioria desses estudos, com algumas (FOLADORI, 2001, p. 142). Nesse sentido,
exceções notáveis, poderia ser visto como eclode as propostas de desenvolvimento
incrementais e mais focado na organização sustentável, bem como algumas críticas a
empresarial ou nas indústrias do que em elas, conforme é mostrado na próxima seção.
questões de sustentabilidade socioeconômica
e ambiental, em impactos e no futuro (Lange,
2010 apud Starik e Kanashiro, 2013). Shwom 3 AS PROPOSTAS DE DESENVOLVIMENTO
(2009) explica que o processo de valorização SUSTENTÁVEL E DE SUSTENTABILIDADE:
que liga os recursos naturais a atividade AS FALÁCIAS DO DISCURSO
econômica começou a se desintegrar ainda
O primórdio da sustentabilidade, assim como
mais devido ao capitalismo global. Entretanto,
o seu conceito, não é consensual entre os
a autora afirma que a medição dos impactos
autores. A priori sua origem se deu em 1987
causados pelas organizações ainda é um
em uma Assembleia Geral da Organização
desafio complexo voltado para todos os que
das Nações Unidas (ONU) com o documento
procuram integrar as variáveis sociais e
"Nosso Futuro Comum", que ficou conhecido
ambientais nos estudos organizacionais.
como Relatório Brundtland (ONU, 2007)
A partir da década de 1970, no entanto, esse formalmente instituído pela World Commission
conceito de recursos naturais ilimitados on Environment and Development (WCED).
começou a se desfazer. E ocorreu o
Nesse contexto, a Conferência de Estocolmo
surgimento de uma conscientização sobre a
foi expressiva, pois marcou o processo de
gravidade dos problemas ambientais
institucionalização da problemática ambiental
juntamente com uma crise econômica
em meio a uma série de transformações na
mundial. Os especialistas em questões
economia mundial (políticas neoliberais e
ambientais começaram a falar dos limites
globalização), desse modo, a questão
para o crescimento, e de algo ainda mais
ambiental passa a ser debatida. (PORTO-
preocupante, os novos impactos destrutivos
GONÇALVES, 2012).
do modo de produção e consumo
tradicionalmente capitalistas para o ambiente Autores como Castro (2004), Seghezzo
e para a humanidade. A preocupação não foi (2009), Hopwood, Mellor e O’Brien (2005) e
somente com a questão ambiental, mas Porto-Gonçalves (2012), fazem diversas
também com as diferenças sociais que o críticas tanto ao conceito quanto prática da
Capitalismo gerou e continua gerando. sustentabilidade e desenvolvimento
sustentável proposto pela WCED.
Nesse contexto, o mercado, como meio para
manter esse sistema funcionando, cambaleia, O conceito WCED de desenvolvimento
mostrando não ser capaz de alocação sustentável tem contradições e limitações.
medianamente equitativa da riqueza, Contempla-se que na asserção de
apresentando também os efeitos negativos do desenvolvimento sustentável da WCED
capitalismo como sistema. Essa preocupação encontrou-se quatro imprescindíveis
com o meio ambiente fez com que fossem limitações, a saber: visão antropocêntrica,
desenvolvidos modelos e instrumentos de problemas econômicos, problemas relativos à
política econômica a atribuir um preço às espaço e tempo, e descaso com a questão
depredações dos recursos naturais e a social, atinente às pessoas.
poluição industrial. Tentando assim, colocar
Seghezzo (2009) mostra que a ideia
preço no que, na prática, não o tem
convencional de desenvolvimento sustentável
(FOLADORI, 2002).
tem uma série de limitações conceituais e não
Nas últimas décadas, o movimento ambiental consegue capturar alguns aspectos, como:
tem contribuído para o desenvolvimento da espaciais, temporais e pessoais. Em primeiro
identidade pessoal e social. As questões lugar, Seghezzo (2009) verifica que a

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


57

definição é uma visão antropocêntrica (o muito reduzida, e não vejo isso acontecendo”.
triângulo da sustentabilidade habitual Porém, o mercado é o mecanismo escolhido
representa a sociedade e meio ambiente para lidar com a crise ambiental de acordo
como "pilares" distintos) em que o bem-estar com os economistas ambientais. “O
humano é a razão fundamental para a desenvolvimento sustentável, tal como
proteção do capital natural. O autor acredita concebido pela economia ambiental é
que não se deve separar natureza de basicamente o mesmo que o desenvolvimento
sociedade, pois a natureza vista como capitalista” (CASTRO, 2004, p. 206).
dissociada pode ser dominada pela
Seghezzo (2009) afirma que o conflito entre
tecnologia, ciência e produção capitalista.
crescimento econômico e sustentabilidade
Nessa perspectiva, encontra-se uma segunda pode ser mais sensível nas sociedades
limitação do conceito da WCED. Seghezzo industriais, onde os produtos e amenidade
(2009) acredita que a importância da ambientais nunca serão suficientes para
economia é superestimada na definição da satisfazer as necessidades dos indivíduos,
comissão, pois afirmam que a economia que são supostamente infinitas. Portanto, fica
internacional deve acelerar o crescimento claro que a sustentabilidade não pode ser
mundial, e afirma que esse crescimento é entendida nos termos puramente econômicos,
supostamente essencial para evitar as apesar da superestimação desse pilar pela
catástrofes tanto econômicas, como sociais e WCED.
ambientais. Tanto Seghezzo (2009) quanto
Castro (2004) diz que o desenvolvimento
Castro (2004) identificaram que de acordo
sustentável ainda é em grande parte definido
com a WCED o crescimento deve ser
dentro do pensamento dominante e
alcançado por meio da promoção do livre
hegemônico do desenvolvimento, que dá
mercado. O relatório prega o livre mercado
primazia ao mercado na alocação de recursos
para que haja maior desenvolvimento
e, teoricamente, tem em conta do ambiente
econômico, ou seja, ele apresenta
apenas como uma preocupação subsidiária
essencialmente ideias neoliberais, e afirma
quando a prossecução do seu objeto
que o desenvolvimento sustentável pode ser
principal promover o crescimento econômico.
alcançado pelo uso de instrumentos
econômicos (CASTRO, 2004). O relatório No que tange as abordagens e conceituação
afirma que para evitar as catástrofes da sustentabilidade e desenvolvimento
econômicas, sociais e ambientais, a sustentável Hopwood, Mellor e O’Brien (2005)
revitalização do crescimento econômico é e Castro (2004), descrevem que apenas uma
essencial. A pobreza deveria ser reduzida, abordagem econômica é exorbitantemente
pois ela é a causa da degradação ambiental frágil, fazendo necessária uma transformação
de acordo com o relatório. Para a redução da na sociedade, requerendo uma mudança
pobreza, sugere-se que os países da periferia estrutural com um sistema mais comunitário e
se espelhem nos países desenvolvidos para democrático. Os autores fazem ainda, uma
terem seu crescimento econômico (CASTRO, crítica quanto a uma sustentabilidade voltada
2004). à satisfação das necessidades do homem e a
sua contemplação apenas na esfera
Nesse sentido, Castro (2004) apresenta uma
econômica.
contradição da abordagem defendida pela
ONU: ao mesmo tempo em que prega a Não só no conceito da WCED que o aspecto
sustentabilidade ambiental, promove o livre econômico prevalece. Castro (2004) explica
comércio. “A ideia de que o crescimento que o Banco Mundial defende o
econômico é alcançado pelo livre comércio, e desenvolvimento sustentável e o define como
que o crescimento econômico reduz a “o desenvolvimento que dura”, argumentando
pobreza, e que a degradação ambiental será que no longo prazo a degradação ambiental
reduzida, bem como, não funciona na prática” pode destruir sociedades. O Banco Mundial
(CASTRO, 2004, p. 198). destaca que fatores de pobreza, incerteza e
ignorância são responsáveis pela degradação
Castro (2004, p. 204) identifica economistas
ambiental e que esses fatores devem ser
que não acreditam no livre mercado como
dirigidos por políticas ambientais eficazes.
solução: “Pearce e Warford argumentaram
Novamente o desenvolvimento econômico
que uma solução de livre mercado será
aparece como o que irá salvar o mundo, visto
aquela em que os consumidores exigem
que para o Banco Mundial “o crescimento
produtos verdes, a tal ponto que a
econômico é um meio essencial para permitir
degradação ambiental será interrompida ou

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


58

o desenvolvimento” (CASTRO, 2004, p. 201). países desenvolvidos, importam os produtos


Além disso, o autor afirma que mesmo que dos países periféricos a um baixo custo. Essa
são discutidos interesses e problemas sociais, inserção dos países periféricos no mercado
uma crítica ao modo de produção atual está internacional se justifica para que os países
ausente no relatório do banco. desenvolvidos possam explorar os recursos
dos países periféricos a um baixo custo, como
A terceira limitação encontrada, diz respeito
mão-de-obra barata, terrenos baratos, entre
ao espaço e o tempo, que de acordo com
outros.
Seghezzo (2009), foram muito negligenciados
na definição WCED de sustentabilidade. O Além disso, Hopwood, Mellor e O’Brien (2005,
espaço e o tempo não são considerados nos p. 39) afirmam que “problemas ambientais
projetos de sustentabilidade, apenas os ameaçam a saúde das pessoas, meios de
aspectos econômicos, ambientais e sociais. subsistência, a vida e podem causar guerras
e ameaças as gerações futuras”, mas por que
Identifica-se a quarta limitação como os
essas guerras seriam causadas, ameaçando
aspectos pessoais que “são tão bons quanto
a vida e saúde das pessoas? Pode-se refletir
esquecidos na definição WCED do
que, devido ao capitalismo e o consumo dos
desenvolvimento sustentável” (SEGHEZZO,
recursos naturais, quando o recurso de uma
2009, p. 546). A definição da WCED enfatiza o
nação abastada acabar, ela irá utilizar-se de
papel das necessidades humanas como um
seu poder econômico, para explorar as
dos objetivos de qualquer política de
nações mais pobres, que ainda possuírem os
desenvolvimento, no entanto, o autor lembra
recursos de que necessitam para
que as necessidades humanas não são
sobrevivência. Seria por isso que os países
apenas fisiológicas, mas que diversas outras
desenvolvidos são incentivados a treinarem
necessidades foram identificadas nas
os países periféricos para o desenvolvimento
pesquisas acadêmicas, tais como segurança,
sustentável?
amor, autoestima e o desejo de
autorrealização. Nesse sentido, Seghezzo Nesse sentido, Porto-Gonçalves (2012) faz
(2009, p. 547) afirma que “a maioria dessas uma abordagem da ecologia política numa
necessidades envolvem sentimentos, sentidos perspectiva latino-americana, apontando que
pelos indivíduos, e não podem ser o pensamento ambiental na América Latina
catalogados como ‘social’’. desenvolve-se contra os fundamentos de uma
matriz eurocêntrica capitalista, fundada na
Outra possível limitação está no fato que os
geopolítica atual, onde a globalização e a
modelos de sustentabilidade são impostos
“sustentabilidade” são novas formas de
aos países periféricos, desrespeitando a
colonização/exploração em sua feição
diversidade. Conforme explica Castro (2004),
colonial. Em contrapartida, surgem “respostas
o conceito proposto liga a periferia ao núcleo
críticas com o novo protagonismo, a partir das
de mercados, promovendo o mercado como
lutas locais/regionais de camponeses, de
solução para a pobreza e a sustentabilidade
povos indígenas e de afroamericanos que no
ambiental. Nesse contexto,
contexto geopolítico que se abre pós anos
todo modelo é imposto sobre as 1960, passam a ter condições de se
comunidades e países da periferia. [...] expressar à escala internacional, inclusive se
Especialistas em desenvolvimento apropriando dos vetores ecológico e
“sabem” o que essas sociedades tecnológico” (PORTO-GONÇALVES, 2012, p.
precisam: ser parte do mercado 16). Assim, essas populações discutem a
internacional, ter instituições democráticas questão nacional, emergindo um novo léxico
liberais, ser modernizado. Não há respeito teórico-político (trabalham como conceitos
pela diversidade cultural e institucional. como: descolonização, interculturalidade,
(CASTRO, 2004, p. 206). transmodernidade; pluralismo jurídico, os
direitos das gentes, consuetudinários),
originando aportes específicas na região a
A ligação dos países desenvolvidos com os esse debate teórico político. A ampla
países periféricos, é incentivada pelo fato do contribuição latina americana reside na crítica
capitalismo necessitar de consumidores. à sociedade capitalista, particularmente, nos
Pode-se perceber que as exportações dos atributos do consumismo e produtivismo, que
países periféricos são produtos primários e é alicerçada em categorias marxistas,
que os mesmos dependem das tecnologias acompanhada pelo respeito aos povos
ofertadas pelos países desenvolvidos. Já os originários e tradicionais, ao aprendizado com

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


59

seus costumes, culturas e modos de análise das relações entre o meio ambiente e
produção, e à necessidade de diálogo de a sociedade, buscando a equidade social e
saberes. ambiental (HOPWOOD; MELLOR; O’BRIEN,
2005)
Além dos autores supracitados, outras
reflexões sobre a sustentabilidade e o Dovers (1996) também analisando essa
desenvolvimento sustentável são concebidas questão, constata que nos últimos anos, as
por O’Connor (2002), Hopwood, Mellor e questões de meio ambiente e
O’Brien (2005), Dovers (1996), Bachram desenvolvimento humano foram aglomerados
(2004) e Leff (2009; 2010). no âmbito do quadro de integração da
sustentabilidade e desenvolvimento
Na abordagem do marxismo ambiental, ou do
sustentável, criando demandas sem
eco marxismo, pactua-se uma feroz crítica
precedentes em matéria de política. Assim,
político-econômica das principais tendências
entende que sustentabilidade “é a
de acumulação de capital com um
capacidade de um sistema natural, humano
engajamento com a transformação social
ou misto para resistir ou se adaptar, através
radical e, portanto, é capaz de desafiar a
de uma escala de tempo indefinido,
convencional teoria do desenvolvimento
mudanças endógenas ou exógenas
sustentável em seu próprio terreno como uma
percebidas como ameaçadoras”. Já o
alternativa de grande alcance. Contudo, o
desenvolvimento sustentável é entendido “um
marxismo, tem se retratado extremamente
caminho de mudança endógena deliberada
adaptável, entretanto não é suficiente, pois
(melhoria) que mantém ou aumenta esse
tem de ser combinado com outras formas de
atributo em algum grau, ao responder às
análise, tais como a crítica da cultura pós-
necessidades da população atual” (DOVERS,
estruturalista de tendências de degradação
1996, p. 304).
ambiental (O’CONNOR, 2002).
Afirma ainda que os problemas de
Essa abordagem acredita que essa forma de
sustentabilidade são problemas de domínio
produção capitalista enfrenta duas
políticos (DOVERS, 1996). Assim, como
contradições que provocarão uma crise no
O’Connor que indica que estamos a assistir a
sistema (O’CONNOR, 2002). A primeira
uma luta global para determinar como será
contradição é a crise de superprodução, a
definido e usado o "desenvolvimento
crise de demanda. A segunda contradição é a
sustentável" em um discurso sobre a riqueza
crise de custos, concebido por movimentos
das nações. Isto denota que
sociais e ambientais que agem por conta dos
"sustentabilidade" é uma questão ideológica e
problemas sociais e ambientais que o sistema
política, em vez de um problema ecológico e
produz (O’CONNOR, 2002).
econômico.
Em relação à política do sistema vigente,
Dovers (1996) adapta os tributos que definem
verifica-se que atualmente o status quo é
os problemas de política em sustentabilidade.
dominante na sociedade, mas “suas políticas
Os atributos são: Escala Temporal; Escala
são uma resposta inadequada às
Parcial, Limites, a Irreversibilidade; Urgência;
necessidades do desenvolvimento
Conectividade e Complexidade; Incerteza;
sustentável” (HOPWOOD; MELLOR; O’BRIEN,
Acumulação; Dimensões morais e éticos;
2005, p. 48). “Argumenta-se que eles têm
novidade. Sendo, importante ressaltar que
usado as frases de desenvolvimento
este permite uma abordagem que é informada
sustentável para continuar e justificar a forma
por uma valorização dos atributos dos
de negócios atual como comum” (KOTHARI,
sistemas naturais e da natureza das questões
1990 apud HOPWOOD; MELLOR; O’BRIEN,
de fundo, ao invés de simplesmente a
2005, p. 48). Concluem que todos os
natureza das disputas políticas imediatas.
proponentes do desenvolvimento sustentável
Esses atributos não são exclusivos para os
consentem que a sociedade precisa mudar,
problemas de sustentabilidade, ou que todo
embora haja grandes debates sobre a
problema de sustentabilidade exibe todos
natureza do desenvolvimento sustentável, as
eles. Nesse sentido, os processos existentes,
alterações necessárias, os meios e agentes
que evoluíram em torno de problemas que
para estas mudanças. Assim, no momento, a
não comumente mostram esses atributos,
reforma é melhor do que não fazer nada, e
podem ser suspeitos de ter capacidade
transformação pode não ser imediatamente
limitada em lidar com os problemas que o
possível. Concluem também que o
fazem. Destarte, as deficiências de respostas
desenvolvimento sustentável deve ter base na
atuais para a sustentabilidade têm uma base

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


60

estrutural, sendo os produtos de processos desse sistema, porque “o ambiente e as


inadequados. pessoas nele inseridas devem ser olhados
holisticamente: não são reduzidos a variáveis,
Uma nova abordagem implica apreciações
mas observados como um todo” (GODOY,
diferentes e mais substanciais de valor, não
1995, p. 62). Nesse sentido, vários tipos de
concernentes puramente ao cálculo
dados são coletados e analisados para
econômico. Assim, é essencial colocar a vida
entender os procedimentos e dinâmicas das
no centro do mundo e não apenas a
organizações capitalistas com relação ao
rentabilidade. Esse pensamento determina
desenvolvimento sustentável.
novos padrões de produção e consumo. A
O presente trabalho caracteriza-se como
vida é uma questão de integridade
documental, pois os documentos
ecossistêmica. O que é considerado como
representaram importantes fontes de dados
''ética ecocêntrica'' é essencialmente a ética
para a realização dessa pesquisa.
na defesa do valor intrínseco. Em síntese, é a
abstenção de reduzir o mundo ao dinheiro e
Como comumente pensamos que o
ceder aos “senhores do cálculo econômico” É
trabalho de pesquisa sempre envolve o
a recusa de todos os fetichismos, tanto da
contato direto do pesquisador com o
mercadoria, bem como da máquina. Esta
grupo de pessoas que será estudado,
perspectiva torna-se indispensável a
esquecemos que os documentos
superação da crise ecológica. É o nível mais
constituem uma rica fonte de dados. O
profundo da resistência ao capital, e o
exame de materiais de natureza diversa,
fundamento de todas as outras (BACHRAM,
que ainda não receberam um tratamento
2004).
analítico, ou que podem ser reexaminados,
Leff (2009) complementa que o caminho para buscando-se novas e/ ou interpretações
a sustentabilidade eclode como o complementares, constitui o que estamos
desenvolvimento da economização do denominando pesquisa documental.
mundo. Mas é justamente esta racionalidade (GODOY, 1995, p. 21).
modernizadora que produziu as
externalidades econômicas e as forças O estudo ainda possui características de
negativas do crescimento ilimitado que levou ensaio teórico que sistematiza conceitos e
à insustentabilidade: ao desequilíbrio abordagens centradas na definição de
ecológico, à pobreza extrema, à escassez de sustentabilidade e desenvolvimento
recursos, ao risco ecológico e à sustentável no sistema capitalista atual, pois
vulnerabilidade da sociedade. Aborda que o se trata de embasar o problema de pesquisa
equilíbrio ecológico, a preservação da em um corpo de conhecimentos. “Isto implica
biodiversidade e a qualidade de vida dos analisar e expor os elementos teóricos gerais
homens, não são somente valores intrínsecos e particulares que se entende serem
ou extra econômicos, no entanto, são como pertinentes para orientar o processo de
condições efetivas à sustentabilidade da pesquisa” (SORIANO, 2004, p. 61). Perscruta-
própria economia. se nas concepções e revisões bibliográficas,
com o intuito de delimitar os parâmetros e
A economia ambiental busca contornar as
questões que amparem na análise desses
questões ambientais por meio de novos
conceitos. Constituíram as fontes de
conceitos e instrumentos, para assim,
informação artigos teóricos e revisões de
economizar ainda mais o mundo e capitalizar
literatura acerca dos conceitos, seguindo uma
a natureza, sendo que o desafio da economia
epistemologia crítica. Muitas pesquisas sobre
é de internalizar as externalidades. Leff (2010)
a relação entre as organizações e o ambiente
entende que os discursos de sustentabilidade
natural tem se concentrado principalmente
são baseados na vertente da economia
nas ações estratégicas das organizações
ecológica, um contraponto à economia
individuais (HOFFMANN, 2001), portanto, o
neoclássica, onde recursos naturais não se
estudo tem como contribuição teórica,
reduzem ao valor de mercado.
apresentar visões críticas referentes à
sustentabilidade frente ao capitalismo e às
organizações modernas.
4 METODOLOGIA
O estudo é qualitativo, pois observamos o
sistema capitalista como um todo, assim
como a atuação das organizações dentro

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


61

5 ANÁLISE CRÍTICA que alguns autores defendem a cultura como


mais uma dimensão da sustentabilidade com
Com base na ratificação que os recursos
a ideia de que a cultura deve ser preservada.
naturais são escassos e limitados, os
Ademais, os povos pobres e marginalizados
capitalistas preocuparam-se com a questão
são colocados no caminho do risco, e em
ambiental, pois é essencial sustentar o
uma escala maior, por causa dos critérios
planeta para progredir com o
econômicos e imperiais inexoráveis que
desenvolvimento econômico.
determinam as decisões dos capitalistas
Nota-se que na proposta de desenvolvimento (BACHRAM, 2004).
sustentável da WCED encontrou-se quatro
Nessa perspectiva, o problema está na forma
imprescindíveis limitações: visão
de transformar a natureza e consumir os
antropocêntrica, problemas econômicos,
resultados desse trabalho. A única recobra à
problemas relativos à espaço e tempo, e
“patologia” que é o consumismo será a
descaso com a questão social, atinente às
universalização do trabalho associado
pessoas.
livremente, aplicado ecocentricamente.
A ONU afirma que o crescimento econômico é Portanto, o sistema capitalista vigente não só
essencial para acabar com a degradação impede que o problema da degradação
ambiental e com a pobreza (Castro, 2004), ambiental seja superado, como agrava cada
mas há um paradoxo, pois para se vez mais a situação do planeta. A aceleração
desenvolver economicamente no sistema do consumo, expansão dos níveis de
capitalista, uma nação deve explorar o meio produção e acumulação capitalista gerados
ambiente, e sempre haverá uma classe pela lógica desse sistema tem causado um
trabalhadora e a outra que possui o capital impacto devastador cada vez maior ao
necessário para essa exploração, ou seja, ambiente e a vida humana. Assim, entende-se
haverá também diferenças socioeconômicas que, sem nenhuma mudança fundamental nas
devido à divisão do trabalho capitalista. Como estruturas do sistema econômico atual não
seria possível relacionar a sustentabilidade será possível impossibilitar a degradação do
nessas condições capitalistas? Principalmente meio ambiente e consequentemente sua
em relação à limitação econômica, percebe- extinção que fomentará uma verdadeira
se que a sustentabilidade e o catástrofe e muitos outros desastres
desenvolvimento sustentável, conforme é “naturais”.
exposta pela WCED, sustenta as condições
Assim, sustentabilidade como forma de
do capitalismo contemporâneo, pois o
mudança absoluta nas estruturas do sistema
desenvolvimento econômico é o que mais se
capitalista contemporâneo, deve ser
destaca, sendo superestimado, conforme
considerada como Leff (2010) que define
apontam Castro (2004) e Seghezzo (2009).
sustentabilidade como “uma maneira de
Com a economia superestimada no conceito e
repensar a produção e o processo
prática do desenvolvimento sustentável, o
econômico, de abrir o fluxo do tempo a partir
consumo tende a aumentar, ao invés de
da reconfiguração das identidades, rompendo
diminuir para evitar os desastres ambientais.
o cerco do mundo e o fechamento da história
Conforme explica Bachram (2004), o nível de
impostos pela globalização econômica”
consumo imposto pelo capital é o instigador
(LEFF, 2010, p.31).
imediato da crise ecológica. Conclui-se que
existe um conflito entre o Capitalismo e a Nesse sentido, Kovel (2008) entende que um
Sustentabilidade. sistema de valores centrado na natureza, em
oposição ao antropocentrismo é a única forma
Também nota-se que o capitalismo impôs
coerente para a superação das questões
uma cultura de consumo. Conforme
ambientais. Assim, o objetivo global de
constatado por Castro (2004), os países
transformação é a derrubada do mecanismo
desenvolvidos são incentivados a treinarem
de crescimento patológico, de expansão de
os países periféricos, para que esses se
capital por meio da industrialização.
desenvolvam da maneira proposta por eles.
Ou seja, não há uma liberdade cultural para Ao longo do tempo as organizações tornaram-
os países periféricos. As pessoas são se uma forte instância de funcionamento da
diferentes, as culturas são diferentes, e o sociedade, sendo, muitas vezes, mais
desenvolvimento sustentável proposto no abrangentes e funcionais do que o Estado, e
relatório não reconhece as características dessa forma acumulando força suficiente para
culturais das diferentes nações. É por isso realizar importantes mudanças na sociedade

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


62

civil. Sendo assim, o planejamento das uma nova proposta de organização social
organizações com relação a sustentabilidade para que os problemas ambientais possam
deve estar fortemente alinhado no sentido de ser mais bem compreendidos e solucionados.
promover um desenvolvimento sustentável,
Dessa forma, pensar sustentabilidade sem
sem agressão ou excesso em relação ao meio
incorporar as organizações na discussão
no qual estão inseridas. Consideradas um dos
seria excluir o principal representante do
expoentes do capitalismo, elas deveriam
sistema capitalista. Há uma necessidade da
encaminhar esforços para o desenvolvimento
sociedade civil, governos e organizações
de uma sociedade sustentável, entretanto,
trabalharem de modo conjunto e efetivo,
com frequência os interesses individuais e
pensando o funcionamento e a aplicabilidade
financeiros se sobressaem, fazendo muitas
do desenvolvimento sustentável. Entretanto,
vezes o discurso dessas organizações com
aparentemente, as organizações estão
relação a essa problemática soar falso.
centradas em seus lucros e na projeção de
imagem sustentável que querem exibir ao
invés de formularem políticas que podem
As organizações não são entes abstratos,
mitigar seus impactos negativos de suas
sujeitos absolutos, entidades plenamente
atuações.
autônomas, unidades totalizadoras e
independentes, mas construções sociais
dinâmicas e contraditórias, nas quais
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
convivem estruturas formais e subjetivas,
manifestas e ocultas, concretas e Este artigo teve como objetivo indagar as
imaginárias. (FARIA, 2014, P. 10). relações entre a sustentabilidade com o
capitalismo contemporâneo e como essas
relações são entendidas e estudadas pelas
Conforme afirma Shwom (2009), são as teorias organizacionais. Para tanto,
organizações as engrenagens dos desastres descreveu-se de forma sucinta como o
ambientais, e aqui complementa-se que as sistema capitalista contribuiu para a crise
organizações são as engrenagens do ambiental e social, e como os conceitos de
capitalismo, que consequentemente destrói o sustentabilidade e desenvolvimento
meio ambiente por meio de sua racionalidade sustentável possuem ambiguidade. Pois,
de lucro e consumo, levando a desigualdades estudiosos das organizações e
econômicas e sociais chocantes em todo o sustentabilidade seguem a lógica da análise
mundo. Dentro desse contexto, a teoria científica e se empenham profundamente nos
organizacional passará a discutir as práticas fragmentos, entretanto, há uma crescente
das organizações em relação ao contexto de necessidade de enfrentar as questões
proteção ambiental. básicas e debatê-las.
Pierri (2001), classificou três grandes De acordo com Hoffman (2001), a definição
correntes paradigmáticas que dão suporte ao de práticas ambientais dentro das
debate ambiental contemporâneo: corrente organizações ainda são contestadas e
Ecológica Conservacionista (Sustentabilidade representam um alto grau de conflito em nível
Forte); corrente Ambientalista Moderada de campo e mudança. Entretanto, Shwom
(Sustentabilidade Fraca); e a corrente do (2009) aponta que um caminho de pesquisa
Humanismo Crítico. Em síntese, sabe-se que focada na compreensão das ações
Ecológica Conservacionista, a Ambientalista organizacionais e suas consequências
Moderada, embora possuam características sociais, políticas, econômicas e materiais,
teóricas e filosóficas distintas, ainda sim são pode auxiliar mais verdadeiramente a avaliar
propostas que dominam o debate as ideais de sustentabilidade. Assim, as
contemporâneo (com destaque para a teorias organizacionais até recentemente não
segunda) e são pautadas em uma visão que produziram uma compreensão integradora de
enfatiza as dimensões Econômica e Ecológica como as organizações influenciam e são
do Desenvolvimento Sustentável, discutem a influenciadas pelo ambiente natural.
questão do crescimento econômico e limites e
Starik e Kanashiro (2013) destacam a
consideram a pobreza como fonte central dos
importância do papel da gestão da
problemas ambientais. Já a perspectiva
sustentabilidade como uma preocupação
Humanista Critica, valoriza e enfatiza a
acadêmica e prática tanto aos indivíduos,
dimensão Social do Desenvolvimento
quanto às organizações e sociedades. Porém,
Sustentável e acredita que se faz necessário

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


63

a gestão da sustentabilidade é considerada lógica imposta de mercado, limita as ações


uma área relativamente nova à maioria dos sociais relativas ao meio ambiente, o que leva
estudiosos da administração e teóricos a ações ambientais organizacionais
organizacionais, por mais que as pesquisas e cooptadas (coercitivamente) pelo sistema
argumentos dessas teorias sejam bem- capitalista global, o que faz com que a
intencionados, nenhuma das teorias de sustentabilidade se torne algo abstrato sem
gestão tradicionais conseguem refletir aplicabilidade.
adequadamente a essência dos desafios da
É importante destacar que no processo do
sustentabilidade.
capitalismo desenfreado que levou a
Com base nos tópicos abordados ao longo necessidade da sustentabilidade, as
dessa pesquisa, percebe-se que a teoria organizações que podem ser consideradas as
organizacional, embora seja rica em escolas protagonistas, deveriam ser pioneiras no
de pensamento e abordagens, ainda se trata sentido de buscar a melhor saída para tal
de um campo fragmentado, contraditório e em situação na qual a sociedade está inserida.
construção, principalmente quando se volta Usar o discurso da sustentabilidade apenas
para a sustentabilidade. Portanto, além do para ganhar certificação torna a ação vazia e
debate que se levanta em torno das sem sentido algum. Partindo dessa premissa,
organizações e a sustentabilidade, é algumas questões podem ser levantadas:
necessário um aprofundamento em torno estaria o modelo capitalista esgotado? E o
destas questões e mudanças no campo, no discurso da sustentabilidade, demagógico e
sentido de fomentar uma postura mais crítica moralista apenas? Até que ponto as
e menos ingênua do papel das organizações organizações estão dispostas a abrir mão de
em relação a sustentabilidade. seus lucros para ações efetivas na
sustentabilidade? Qual o papel da sociedade
Por isso acredita-se que a relação entre
civil nesse processo? Essas questões podem
capitalismo, organizações e sustentabilidade
ser respondidas em um trabalho futuro que
é forte, pois o discurso sustenta o capitalismo
aprofunde a finalidade do desenvolvimento
e suas organizações, entretanto, no sentido
sustentável no interior das organizações, e
da concretização da sustentabilidade, a
tais questões devem ser levadas e trazidas
relação ainda é fraca. De acordo com a nossa
para o centro do debate.
questão problema proposta, ficou
evidenciado que o sistema capitalista, pela

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sostenible?. In: ALIMONDA, Héctor (comp.) [34] Weber, M. História Geral da Economia. 1ª
Ecología Política. Naturaleza, sociedad y utopia. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1968.
Buenos Aires: CLACSO, 2002.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


65

Capítulo 6

Beatriz Duarte Correa de Brito


Anderson Gonçalves
Josmar Cappa
Samuel Carvalho de Benedicto
Josué Mastrodi Neto

Resumo: Tanto o Poder Público quanto a iniciativa privada dispõem de diversos


instrumentos para a gestão ambiental e o Termo de Compromisso é um instrumento
que tem adquirido importância na gestão ambiental municipal. Por isso, esse
trabalho, partindo de uma discussão teórica do conceito de sustentabilidade, teve
por objetivo estudar os Termos de Compromisso Ambiental (TCAs1) utilizados pela
Secretaria Municipal do Verde e Desenvolvimento Sustentável, na gestão ambiental
do Município de Campinas, São Paulo – um polo tecnológico e educacional de
grande relevância para o cenário nacional. A metodologia utilizada foi a análise da
legislação municipal e das normas que regulam os TCAs,bem como dos dados
quantitativos e qualitativos relacionados ao instrumento e obtidos por meio de
documentos oficiais da Administração Municipal. A pesquisa concluiu que os TCAs
estão sendo utilizados de forma abusiva e desvirtuada para cumprir metas de
governo, pois a Administração os utiliza para repassar a particulares o custei de
algumas de suas responsabilidades, como infraestrutura urbana, em detrimento da
preservação ambiental. Ou seja, a gestão ambiental de Campinas não é
ambientalmente sustentável.

Palavras-Chave: Sustentabilidade, Termo de Compromisso Ambiental, Gestão


Ambiental, Deveres do Estado, Medidas Compensatórias, Instrumentos de Controle
Ambiental.

1
Este capítulo resulta de uma versão modificada de: DE BENEDICTO, S. C. et al. Termo de compromisso
ambiental em Campinas: uma análise de seus limites na promoção da sustentabilidade ambiental. Revista de
Direito Ambiental, São Paulo, v. 88, n. 22, p. 293-319, out./dez. 2017.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


66

1. INTRODUÇÃO O trabalho foi dividido em quatro etapas,


incluindo esta introdução. Na segunda etapa
Nos termos da Constituição Federal de 1988,
fez-se uma revisão bibliográfica acerca do
a República Federativa do Brasil é formada
conceito de sustentabilidade e do papel da
pela união indissolúvel dos Estados,
gestão ambiental como mecanismo de
Municípios e Distrito Federal. Todos entes
controle e a utilização dos Termos de
autônomos e dotados de competências
Ajustamento de Conduta (TAC). A terceira
legislativas e administrativas próprias. Apesar
etapa ocorreu através da pesquisa e
de autônomos, esses entes não são
sistematização dos dados referentes aos
soberanos, ou seja, há uma descentralização
ajustes firmados pela Secretaria Municipal do
político-financeira, porém somente a União é
Verde, Meio Ambiente e Desenvolvimento
soberana e, portanto, considerada um ente
Sustentável (SVDS) de Campinas nos anos
político internacional. Pode se dizer, assim,
entre 2012 e 2016. Finalmente, a quarta etapa
que a União harmoniza o interesse de todos
apresentou a análise dos dados e apontou a
os entes federativos, em busca da promoção
possível utilização desvirtuada dos termos,
do interesse público.
que permitem a compensação os danos ao
Ao promulgar uma lei que estabelece uma meio ambiente com empreendimentos de
determinada política nacional, o Congresso infraestrutura.
Nacional estabelece obrigações aos entes
federativos, porém, nem todos possuem plena
capacidade financeira e administrativa de 2. A SUSTENTABILIDADE E SUAS
atender aos requisitos dessas políticas. DIMENSÕES: UMA DISCUSSÃO TEÓRICA
Assim, para além das receitas ordinárias
O termo sustentabilidade surgiu em 1972, na
(tributos e transferências), os municípios
Conferência das Nações Unidas sobre Meio
buscam alternativas para implementar tais
Ambiente Humano, na qual se buscava um
políticas, já que o orçamento previamente
acordo global para redução da degradação
destinado ao cumprimento destas nem
ambiental, em razão do modelo de produção
sempre é suficiente para tanto.
e consumo vigente em boa parte do planeta.
O Termo de Ajustamento de Condutas (TAC) A Declaração resultante dessa Conferência
é um dos instrumentos que pode ser utilizado definiu em seu artigo 2º o termo
para cumprir parte das políticas, fugindo, sustentabilidade:
pois, de sua finalidade original, que é
enquadrar a conduta de infratores à lei.
Os recursos naturais da Terra, incluindo o
Este capítulo apresentará um estudo de caso,
ar, a água, a terra, a flora e a fauna e,
contendo dados qualitativos e quantitativos
especialmente as amostras representativas
acerca dos TACs do Município de Campinas,
dos ecossistemas naturais, devem ser
no interior do Estado de São Paulo. O estudo
preservados em benefício das gerações
partiu da hipótese de que, considerando a
presentes e futuras, através de
ausência de regramento jurídico suficiente, os
planejamento ou gestão cuidadosa, como
Termos de Compromisso (TCs) podem
apropriado (ONU, 1972).
permitir compensações ambientais em forma
de infraestrutura, além de permitir ao Poder Tal conferência desencadeou outros eventos,
Público a transferência de responsabilidades como a Comissão Mundial sobre o Meio
para o cumprimento de metas de governo, ao Ambiente e Desenvolvimento, chefiada pela
invés de servir como instrumento de controle médica e ex-primeira-ministra da Noruega,
ambiental para reparação de danos. Gro Harlem Brundtland. A função dessa
Comissão era analisar os riscos ambientais e
O estudo partiu da hipótese de que,
o crescimento econômico (ONU) e teve como
considerando a ausência de regramento
resultado o documento Nosso Futuro Comum,
jurídico suficiente, os TACs podem ser
também conhecido como Relatório
utilizados para exigir compensações
Brundtland, que alertou a comunidade
ambientais – que não foram exigidas durante
internacional para a necessidade de se levar
o licenciamento ambiental – em forma de
a sério “o risco ambiental do crescimento
infraestrutura, além de permitir ao Poder
econômico” (ROMEIRO, 2016).
Público a transferência de responsabilidades
para o cumprimento de metas de governo, ao Apesar de ter surgido na seara ambiental, o
invés de servir como instrumento de controle termo sustentabilidade foi se aprimorando ao
ambiental para reparação de danos. longo do tempo, consolidando-se na

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


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Conferência das Nações Unidas sobre Meio geração e a próxima possam usufruir dos
Ambiente e Desenvolvimento, conhecida bens ambientais, sem comprometer a
como ECO-92, sobre o tripé: ambiental- capacidade de regeneração da Terra. Alguns
econômico-social. Ou seja, somente seria mecanismos que podem ser adotados para
possível alcançar a sustentabilidade se os se buscar a sustentabilidade ambiental são:
fatores ambiental, social e econômico fossem substituição das fontes de energia fósseis por
levados em conta e estivessem em equilíbrio fontes de energia limpas e/ou renováveis,
(SILVA, 2007). redução, reutilização e reciclagem de
produtos, fiscalização mais rígidas para
Com o passar dos anos, porém, os estudiosos
proteção ambiental, entre outros (DE
constataram a inviabilidade de se alcançar
BENEDICTO, et al., 2017).
um ecodesenvolvimento, até então defendido
pelos ambientalistas, pois este pregava a Como ressalta Bismarchi (2011), a mudança
incompatibilidade entre o crescimento deve partir de todos os atores sociais. O
econômico e a proteção ambiental. Surgiu, consumidor deve consumir de forma
então, a noção de desenvolvimento consciente, ou seja, comprando o necessário
sustentável, no qual era possível e dando prioridade para produtos que
compatibilizar o crescimento econômico e a causam menos impacto ambiental. Os
proteção ambiental (VEIGA, 2005). produtores, além de adotar meios de
produção mais sustentáveis, devem exigir que
Sachs (2009) destacou outras variáveis
seus fornecedores também o façam,
importantes no debate sobre desenvolvimento
construindo, assim, uma cadeia de produção
sustentável: ecológica, econômica, social,
sustentável. E o Poder Público também deve
cultural, psicológica, territorial/espacial,
incentivar esse modelo de desenvolvimento.
política nacional e política internacional.
Todavia, as dimensões mais consolidadas, e A sustentabilidade social, por sua vez, busca
que serão, pois, neste trabalho abordadas, a melhoria na qualidade de vida da
são: ecológica, econômica, social, cultural e população. O foco aqui é no ser humano.
territorial/espacial. Assim como as outras dimensões, tanto o
Poder Público, quanto os particulares, devem
A dimensão ecológica, passo inicial do termo
promover ações em busca da
sustentabilidade e, portanto, a dimensão mais
sustentabilidade social. Ao Poder Público, por
conhecida, prevê a proteção e o respeito aos
exemplo, cabe garantir acesso à moradia
recursos naturais e aos ecossistemas em que
adequada, universalizar o saneamento
vivemos, para que as gerações presentes e
básico, educação e saúde de qualidade. Aos
futuras possam usufruir dos bens ambientais,
empresários cabe oferecer um ambiente
essenciais à sadia qualidade de vida
adequado e seguro de trabalho, investir em
(FRANCISCO, 2015).
obras e projetos sociais, dentre outros (DE
É inegável que, para sobreviver, o ser humano BENEDICTO, et al., 2017).
precisa utilizar os bens ambientais, porém, a
Outros fatores importantes para obter a
exploração dos bens não pode ultrapassar a
sustentabilidade social são a busca por uma
capacidade de regeneração da natureza,
homogeneidade social, garantindo o acesso
como está acontecendo atualmente. Segundo
de toda a população aos direitos sociais,
o WWF (World Wildlife Fund) – maior
constitucionalmente previstos, distribuição
organização não governamental de proteção
justa de renda e igualdade no acesso a
ambiental do planeta –, em 2015, o Dia da
recursos sociais e ambientais (BISMARCHI,
Sobrecarga da Terra, ou seja, o dia em que os
2011).
recursos naturais que deveriam ser utilizados
em um ano inteiro se esgotam, ocorreu em 13 Já a sustentabilidade econômica, assim como
de agosto, 45 dias antes da primeira medição, a ecológica, defende a utilização equilibrada
em 2000 (WWF, 2015). dos recursos disponíveis, mas nesse caso,
tem por objetivo a eficiência através da
Segundo essa dimensão, portanto, o homem
redução de custos, como foco na gestão
precisa rever seu modo de vida,
eficiente dos recursos produtivos, para que a
principalmente os modelos de produção e
iniciativa privada ou poder público possam
consumo, substituindo “insumos e práticas
gerar empreendimentos economicamente
intensivas em capital e degradadoras do meio
viáveis, com o crescimento até o patamar
ambiente por outras mais benignas sob o
necessário à satisfação das necessidades.
ponto de vista ecológico” (CAPORAL;
Nas palavras de Arruda e Quelhas (2010, p.
COSTABEBER, 2002, p.73), para que essa

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


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55), a “sustentabilidade está relacionada à problemas como poluição atmosférica, mais


capacidade de este país manter uma estresse e conflitos, esgotamento dos
atividade por um longo período, sem nunca se recursos naturais locais, principalmente da
esgotar”. água, essa dimensão defende uma melhor
distribuição espacial da população pelo
Ao defender o crescimento econômico, essa
Planeta Terra, para a utilização mais
dimensão não ignora a dimensão ecológica,
equilibrada dos recursos naturais (DE
apenas defende que o desenvolvimento
BENEDICTO, et al., 2017).
econômico é possível sem esgotar os
recursos naturais. Para tanto, porém, os Justino (2010, p. 52) propõe formas de mitigar
modelos de produção precisam ser eficientes os efeitos causados pela má distribuição
e menos agressivos à natureza, buscando-se populacional no espaço, elevando o bem-
um desenvolvimento sustentável e não um estar da população:
crescimento ilimitado. Ou seja, o crescimento
econômico (lucro/PIB) não deve ser o único
objetivo do empreendedor ou administrador Imprescindível mitigar os efeitos desse
público. É preciso levar em conta outros aglomerado populacional por meio de
fatores, principalmente os ambientais, sociais iniciativas que considerem aspectos como:
e culturais. Segundo Furlan (2016, p. 1): possibilidades de fixação das
comunidades tradicionais em suas regiões
de origem, garantido a elas condições de
Sustentabilidade econômica requer a sobrevivência; democratização do espaço
incorporação de conceitos de política para o assentamento humano, oferecendo
econômica que vai além do foco na condições necessárias de educação,
maximização da produção a qualquer moradia, mobilidade, transporte, saúde e
preço sem se preocupar com o objetivo segurança; tratamento adequado e técnico
dessa produção. Não existe consenso para abastecimento de água, energia,
universal que toda organização deve ser destinação dos resíduos sólidos,
economicamente sustentável, mas a qualidade do ar, distribuição racional dos
maioria concorda que sustentabilidade é equipamentos públicos, acessibilidade e
necessária para evitar uma morte inúmeros outros, menos óbvios, porém não
prematura. menos importantes.

A sustentabilidade cultural refere-se à A sustentabilidade, portanto, possui várias


preservação da cultura e da história dos dimensões e somente pode ser atingida se
povos. Aqui a preocupação é manter viva a todas forem levadas em conta e estiverem em
tradição de um povo, diante da globalização e equilíbrio. Apesar de a busca pela
da facilitação do acesso aos meios de sustentabilidade ser um dever de todos, o
comunicação, que difundiram o modo de vida Estado tem um papel de destaque, conforme
e consumo predatório e supérfluo. será a seguir demonstrado. A política pública
de sustentabilidade e a gestão ambiental
Apesar de alguns povos possuírem tradições
organizam e controlam um conjunto de
fortes, a forma como a globalização incidiu
instrumentos para esta nova perspectiva de
nessas culturas ameaça algumas tradições.
organização multidimensional (DE
Considerando que não é possível impedir o
BENEDICTO, et al., 2017).
acesso aos meios de comunicação, a
sustentabilidade cultural defende a
valorização dos valores culturais, para que
2.1 O DEVER DO ESTADO
eles sobrevivam em conjunto com a cultura
imposta pela globalização (DE BENEDICTO, A Constituição Federal de 1988 ao
et al., 2017). estabelecer a organização político-
administrativa do Brasil e as competências
Já a sustentabilidade espacial relaciona-se à
dos entes federados, implementou um Estado
distribuição da população no território e se
de bem-estar social, segundo o qual o Estado
refere à densidade demográfica, urbanização,
deve garantir aos cidadãos, nos termos do
organização do território, entre outros. Como a
artigo 6º da Carta Magna, os direitos sociais,
excessiva concentração da população em um
tais como: alimentação, educação, saúde,
lugar não é saudável para os seres humanos,
pois sobrecarrega tais lugares e provoca

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


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lazer, moradia, segurança, trabalho e comunidade de modo participativo e


transporte. autocrítico. Contudo, o sucesso na
participação e na autocrítica da comunidade
Além de garantir tais direitos, compete à
dependem do próprio nível de consciência
União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos
disponível entre seus pares.
Municípios, em conjunto com a sociedade,
garantir o meio ambiente equilibrado, nos
termos do artigo 225 da Constituição Federal:
Assim, é interessante observar que, a
“todos têm direito ao meio ambiente
partir de um processo onde apreendemos
ecologicamente equilibrado, bem de uso
como funciona o ambiente, a forma como
comum do povo e essencial à sadia
dependemos dele, como nossas atitudes,
qualidade de vida, impondo-se ao Poder
por mais simples que pareçam, são
Público e à coletividade o dever de defendê-
fornecedoras de impactos, encontraremos
lo e preservá-lo para as presentes e futuras
mecanismos para a promoção da
gerações”.
sustentabilidade. E é nessa premissa que
O referido dispositivo constitucional consiste uma EA consciente, crítica e
estabeleceu que o Brasil deve promover um transformadora, capaz de fomentar
desenvolvimento sustentável, ou seja, um atitudes revolucionárias para o
desenvolvimento capaz de satisfazer as enfrentamento da problemática vigente.
necessidades das gerações presentes, sem (JUSTINO, 2010, p. 28)
comprometer as necessidades das gerações
futuras e que leva em consideração fatores
econômicos, sociais e ambientais (ONU, Desse modo, a educação ambiental como
1972). E para que esse nível de instrumento de política pública de
desenvolvimento seja possível, é imperioso sustentabilidade apresenta-se como
que tanto o Poder Público, quanto os fundamental, porém, insuficiente para
particulares se engajem em sua promoção. contornar a problemática vigente, haja vista a
exigência de ações de curto e médio prazo. O
Aos particulares cabe adotar práticas
desenvolvimento sustentável, portanto, deve
sustentáveis no dia a dia e ao Poder Público,
estar inserido em outros instrumentos de
além de tais práticas, cabe promoção de
política pública, estabelecendo, de forma
políticas públicas para nortear a ação da
clara, legislação que oriente a sociedade
coletividade, visto que o Estado possui
através de incentivos ou restrições. Os
capacidade de influenciar a harmonização
incentivos e restrições para o
das relações sociais, econômicas e
desenvolvimento sustentável estão
ambientais para a promoção do
relacionados à busca por mudança nos
desenvolvimento sustentável. O papel da
padrões de comportamento, seja de pessoas
política pública de sustentabilidade será tão
ou de empresas (DE BENEDICTO, et al.,
mais relevante, quanto menor for o nível de
2017).
consciência social sobre a sustentabilidade.
Assim, o Estado deve contribuir para o Com a evolução do planejamento como forma
processo de conscientização através de de atuação do Estado e das empresas,
diversos instrumentos de política pública (DE surgiram também os instrumentos de gestão e
BENEDICTO, et al., 2017). controle, que permitem maior regulação do
Estado na execução das ações empresariais,
moldando determinadas ações planejadas,
Neste sentido, podemos considerar a em conformidade com a legislação em vigor.
política pública como um processo de Assim, o papel da política pública de
planejamento, no qual se inserem vários sustentabilidade pode ser observado em, pelo
atores: poder público (executivo, menos, quatro níveis de atuação do Estado: I)
legislativo e judiciário), iniciativa privada, a educação para a ampliação da consciência;
sociedade civil organizada (ONGs e II) incentivos às boas práticas e novas
Movimentos sociais). (JUSTINO, 2010, p. tecnologias; III) punição ao descumprimento
146) de regras preestabelecidas; IV) regulação das
ações privadas.
Na esfera de gestão local, as competências
O desafio para a política pública de
dos municípios brasileiros sobre o
sustentabilidade é a execução de uma
planejamento e a execução da política
agenda que consiga ampliar a consciência da

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


70

pública de sustentabilidade exigem demonstrado. Assim, os instrumentos de


transversalidade nas ações entre as controle de uma política de Estado, quando
secretarias municipais. Nesse sentido, o dotados de prerrogativas afetas ao poder
planejamento para o processo de econômico local, podem contribuir para o
urbanização deve orientar a execução da financiamento das políticas de governo,
política pública de sustentabilidade (Brasil, gerando preocupação sobre sua legitimidade,
2001). eficácia e, principalmente, sobre a sua
sustentabilidade.
Dias (1999) considera que
O processo de urbanização requer
medidas de efeito amplo, por intermédio 2.2 O TERMO DE AJUSTAMENTO DE
de políticas públicas de médio e longo CONDUTA
prazo, que definam parâmetros
O TAC, também conhecido como
construtivos para uso e ocupação do solo,
Compromisso de Ajustamento de Conduta
através de Planos Diretores e Leis
(CAC) e Termo de Compromisso de
Municipais de Zoneamento. Neste contexto
Ajustamento (TCA), é um instituto de natureza
deverão estar inseridas as variáveis
jurídica indefinida, instituído no direito
ambientais (preservação de áreas verdes,
brasileiro pela Lei 8.069/90 – Estatuto da
fundos de vale etc.), que possibilitem a
Criança e do Adolescente – e que adquiriu
minimização dos impactos ambientais
abrangência com a Lei 8.078/90, que
negativos da urbanização sobre o meio
acrescentou ao artigo 5º da Lei da Ação Civil
ambiente. (DIAS, 1999, p. 150)
Pública o seguinte parágrafo:
Para além do planejamento da política
pública, é preciso que o município tenha
capacidade administrativa de lidar com § 6° Os órgãos públicos legitimados [a
questões pontuais e locais, tais como o propor ação civil pública] poderão tomar
acompanhamento de empreendimentos da dos interessados compromisso de
construção civil através da mensuração dos ajustamento de sua conduta às exigências
impactos específicos em cada etapa de legais, mediante cominações, que terá
execução. Isso garante a eficácia no controle eficácia de título executivo extrajudicial.
dos impactos previstos e na execução de
medidas atenuantes.
A ação civil pública, regulada pela Lei
A regulação do Estado sobre as ações de
7.347/85, é uma ação de responsabilidade
determinado empreendimento exige elevada
por danos morais e patrimoniais causados: ao
capacidade técnica para qualificar e
meio-ambiente; ao consumidor; à ordem
quantificar os impactos ambientais dele
urbanística ou econômica, ao patrimônio
decorrente. Antes disso, a definição legal de
público e social e a qualquer outro interesse
parâmetros para a condução dos trabalhos é
difuso ou coletivo. Segundo a referida lei,
de suma importância. Posteriormente, em
somente possuem legitimidade para propor a
caso de descumprimento da previsão legal,
ação: o Ministério Público; a Defensoria
medidas compensatórias poderão ser
Pública; a União, os Estados, o Distrito
exigidas pelo Estado. Assim, o planejamento
Federal e os Municípios; a autarquia, empresa
e a definição de parâmetros legais
pública, fundação ou sociedade de economia
específicos devem minimizar os impactos
mista; a associação que atenda aos requisitos
decorrentes da instalação de um novo
legais. Porém somente os órgãos públicos
empreendimento no município e, ainda,
possuem legitimidade para propor TAC.
possibilitar a exigência de ações
compensatórias para casos específicos (DE Apesar de a lei utilizar o termo “órgãos
BENEDICTO, et al., 2017). púbicos”, é pacifico na doutrina que não
somente os órgãos, mas todas as entidades
Apesar de existirem diversos meios para a
que compõem a Administração Direta,
execução de políticas públicas de
Indireta e Fundacional, possuem legitimidade
sustentabilidade, alguns entes públicos
para propor TAC. Dessa forma, de todos os
podem utilizar parte desses instrumentos
legitimados para propor ação civil pública,
como, por exemplo, os Termos de
somente as associações não possuem
Ajustamento de Conduta (TACs), para
legitimidade para firmar o compromisso.
implementação e cumprimento de metas de
governo, conforme será a seguir

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


71

Apesar de a lei definir que o TAC possui em resolver a questão pode agravar o dano e
eficácia de título executivo extrajudicial, ela dificultar sua reparação.
não define qual sua natureza jurídica,
O segundo requisito, previsão de cominações
cabendo à doutrina esse papel. Porém, os
em caso de descumprimento, é necessário
juristas ainda não chegaram a um consenso
para haver efetividade jurídica do instrumento.
se o instituto trata de transação, negócio
Por meio da cominação, que é a ameaça de
jurídico bilateral ou contrato.
imposição de penalidade em caso de
Independentemente do nome a que se dá à
descumprimento, busca-se garantir ao
natureza jurídica do instituto, o que se mostra
máximo o cumprimento do termo, evitando,
relevante para o desenvolvimento deste
assim, uma demanda judicial. E para que o
trabalho são suas características (DE
compromissário não prefira a cominação ao
BENEDICTO, et al., 2017).
cumprimento das obrigações, aquela não
Além da legitimidade do tomador, o Termo, ao deve ser meramente compensatória,
postular a obrigação de fazer, não fazer ou de mas cominatória, como adverte a Súmula 23
indenizar, mediante a qual o compromitente do Conselho Superior do Ministério Público:
assume o dever (ou obrigação) de adequar
sua conduta às exigências legais, deve prever
a reparação integral do dano e cominações A multa fixada em compromisso de
para o caso de descumprimento. O primeiro ajustamento não deve ter caráter
requisito se dá em razão da indisponibilidade compensatório, e sim cominatório, pois nas
do direito violado. Por não ser o tomador o obrigações de fazer ou não fazer
titular desse direito, não pode ele transacionar normalmente mais interessa o
a seu respeito, permitindo que não haja cumprimento da obrigação pelo próprio
reparação integral. A discricionariedade do devedor que o correspondente econômico
tomador se limita às condições de (CSMP, 2015.)
cumprimento das obrigações, ou seja, as
partes podem negociar sobre o modo de
cumprimento da obrigação, como lugar e Apesar de necessária, a ausência da multa
tempo, desde que o dano seja integralmente cominatória não acarreta a nulidade do
reparado (DE BENEDICTO, et al., 2017). instrumento, pois o Judiciário pode fixar ou
adequar a multa prevista no TAC, nos termos
Porém, a integralidade da reparação não
do artigo 645 do Código de Processo Civil.
precisa estar abrangida por um único acordo.
O ordenamento jurídico brasileiro admite o O TAC, portanto, é um “instrumento de
TAC Parcial, como explica Milaré (2014, p. resolução negociada de conflitos envolvendo
145): direitos difusos, coletivos e individuais
homogêneos” (MPMS, 2016) que, no âmbito
ambiental visa ajustar a conduta de um
Nada impede a celebração de poluidor - pessoa física ou jurídica, de direito
compromisso de ajustamento de conduta público ou privado, responsável, direta ou
envolvendo apenas parte das questões indiretamente, por atividade causadora de
objeto das investigações. De fato, o que se degradação ambiental. Ou seja, tornar a ação
exige é que o dano seja integralmente que está em desacordo com as exigências
reparado, pouco importando que a legais em uma conduta lícita.
atividade reparatória seja fragmentada em
mais de um instrumento, desde que a
soma das obrigações assumidas em cada 3. METODOLOGIA
um deles alcance a integralidade da
A pesquisa deste trabalho é de natureza
reparação .
qualitativa e quantitativa (RICHARDSON,
2012). E foi dividida e relatada em três etapas.
Iniciou-se pela fundamentação teórica,
Apesar de não haver espaço para muitas
seguida da busca e sistematização de dados
negociações em razão da indisponibilidade
empíricos. Finalmente, na terceira etapa deste
do direito objeto do acordo, o TAC, por
trabalho, foram apresentados os resultados
abranger tudo o que seria discutido em
através da análise descritiva e com o uso de
eventual processo de conhecimento, evita
dados estatísticos para a discussão
uma demanda judicial, sendo mais célere e,
conclusiva.
por ventura, mais eficaz, visto que a demora

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


72

Assim, a primeira etapa tratou da revisão Campinas conta com localização estratégica
bibliográfica para elaborar uma e logística favorecida por diversas rodovias -
fundamentação teórica acerca da tais como Rodovia Anhanguera (SP-330);
sustentabilidade e da relevância da política Rodovia Bandeirantes (SP-348); Rodovia Dom
pública na gestão ambiental. Além de Pedro I (SP-065); Rodovia Adhemar de Barros
apresentar as dimensões da sustentabilidade (SP-340 e SP-342); Rodovia Santos Dumont
e o dever do Estado, a fundamentação teórica (SP-75) - e dois aeroportos, o Aeroporto
buscou explicar o surgimento e a Internacional de Viracopos e o Aeroporto
aplicabilidade administrativa dos TCAs no Campos dos Amarais.
Brasil, observando as informações da
Outra característica de Campinas é a
legislação vigente em âmbito nacional.
presença de importantes institutos e centros
Na segunda etapa, a estratégia de pesquisa de pesquisa e universidades como, por
foi pautada pelo estudo de caso, onde se exemplo, a Universidade Estadual de
definiu o Município de Campinas como Campinas - UNICAMP, a Pontifícia
amostra do universo que se pretendeu Universidade Católica de Campinas - PUC, a
estudar. Após escolhida a amostra, foram Universidade Paulista - UNIP, o Centro
definidos os dados empíricos a serem Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais
pesquisados. Tratamos então de sistematizar - CNPEM, o Centro de Tecnologia da
tais dados constantes em documentos oficiais Informação Renato Archer - CTI, a Empresa
e relacionar com a legislação vigente no Brasileira de Agropecuária - EMBRAPA, o
município. Além das normativas relativas às Instituto Agronômico de Campinas - IAC, o
medidas compensatórias, foram analisadas Instituto de Tecnologia de Alimentos - ITAL, o
publicações oficiais, bem como os dados dos Instituto Biológico - IB, o Centro de Pesquisa e
seguintes relatórios: I) Relatório de Atividades Desenvolvimento em Telecomunicações -
da Secretaria Municipal do Verde, Meio CPqD, o Institutos de Pesquisa Eldorado, a
Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Coordenadoria de Assistência Técnica
Campinas - SVDS ; II) Publicações periódicas Integral - CATI, a Companhia de
de documentos oficiais expedidos pela SVDS; Desenvolvimento do Polo de Alta Tecnologia
e III) o Plano Cicloviário do Município de de Campinas - CIATEC, entre outros, que
Campinas, publicado pela Empresa Municipal contribuem para o desenvolvimento de
de Desenvolvimento de Campinas - EMDEC; ciência e tecnologia em dimensão e
IV) Guia de Investimentos da Secretaria reconhecimento nacional.
Municipal de Desenvolvimento Econômico,
Todas essas características, combinadas com
Social e de Turismo.
a infraestrutura e organização administrativa
A escolha da referida amostra se justifica do Poder Executivo Municipal de Campinas,
porque Campinas é a cidade centro de sua justificam a importância dessa amostra para o
região metropolitana, a qual é constituída por presente estudo. Pois, Campinas conta com a
20 municípios2. Com população estimada em SVDS, que, além de conceder licenças e
mais de 1.1 milhão de habitantes e PIB avaliar impactos ambientais, possui
superior a R$ 42 bilhões, Campinas está entre competências como articulação e integração
as maiores cidades do Brasil, segundo Guia dos órgãos da administração nos três níveis
de Investimentos publicado pelo próprio de governo, no que concerne às ações de
município. O desenvolvimento de Campinas defesa do meio ambiente.
pode ser relativizado pelo Índice de
Desse modo, a segunda etapa tratou da
Desenvolvimento Humano Municipal, o qual,
coleta e tratamento de dados empíricos de
segundo IBGE 2010, registra 8.05.
fontes primárias, todas referentes ao
Município de Campinas. Foram obtidos os
seguintes dados: I) quantidade de
funcionários e reestruturação do órgão de
¹ Segundo a Lei Complementar Estadual nº controle ambiental (SVDS); II) quantidade
870/2000, a RMC é constituída dos seguintes absoluta e valor monetário dos TACs e TCAs
municípios: Americana, Artur Nogueira, Campinas, firmados pela SVDS entre os anos de 2012 e
Cosmópolis, Engenheiro Coelho, Holambra,
2015; II) as causas da formalização de ajustes
Hortolândia, Indaiatuba, Itatiba, Jaguariúna, Monte
Mor, Morungaba, Nova Odessa, Paulínia, Pedreira, no formato do TAC ou TCA; III) valores
Santa Bárbara d'Oeste, Santo Antônio de Posse, monetários relativos à implantação de duas
Sumaré, Valinhos e Vinhedo. ciclovias financiadas através de TACs e TCAs;
IV) legislação municipal que disciplina as

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


73

compensações decorrentes de impactos infraestrutura de esporte, lazer ou educação


ambientais específicos; V) Deliberações ambiental.
publicadas no Diário Oficial do Município
Na terceira parte deste trabalho, a ausência
referentes ao Banco de Áreas Verdes e
de informações sobre as medidas
medidas compensatórias de infraestrutura.
compensatórias exigidas em cada TCA não
Com o acesso às publicações periódicas de permitiu uma análise global das
documentos oficiais expedidos pela SVDS, compensações existentes município.
foram extraídas as informações dos Contudo, foi possível identificar a implantação
documentos que já estavam classificados de duas ciclovias que foram viabilizadas por
como TCA. Essas publicações apresentaram diferentes TCAs. A implantação dessas
as seguintes informações: I) número do TCA ciclovias foi evidenciada como parte do
formalizado; II) número do protocolado cumprimento do programa de governo, deste
administrativo; III) requerente ou modo, as informações foram disponibilizadas
empreendedor; IV) tipo de empreendimento, nas páginas oficiais da SVDS e da EMDEC.
obra ou atividade que originou o TCA; V)
Diante da natureza dos empreendimentos
endereço ou localização do impacto
cicloviários, que são classificados como
ambiental; VI) data de referência da
infraestrutura de esporte e lazer e, portanto,
formalização do documento. Os dados foram
atendem à legislação municipal de
sistematizados com objetivo de demonstrar a
compensações ambientais, optou-se por uma
evolução histórica no número absoluto de
análise parcial da problemática apresentada.
TCAs e os tipos de atividades, obras ou
Assim, fundamentou-se a análise com dados
empreendimentos que ocasionaram a
específicos das Ciclovias instaladas, em
exigência de compensações através do
especial, aquela na Avenida Baden Powell,
referido termo. Parte desses dados foi
que surgiu por meio de dois TCAs e com o
organizada para apresentação em duas
Termo de Anuência do BAV, ambos com
tabelas e um gráfico.
informações publicadas no Diário Oficial do
Assim, além de registrar a evolução no Município.
número de TCAs (Tabela 1) e seus
respectivos valores monetários (Gráfico 1), a
pesquisa conseguiu identificar as atividades, 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
obras ou empreendimentos que levaram à
A estruturação da SVDS permitiu a melhoria
formalização dos compromissos (Tabela 2) .
no acompanhamento dos empreendimentos
Com base na observação dos documentos
no Município de Campinas. Essa
publicados, os empreendimentos, as obras e
reestruturação ocorreu em termos qualitativos,
as atividades foram classificados nos cinco
conforme edição da Lei Complementar nº 59
seguintes grupos: I) remoção, de indivíduos
de 09 de janeiro de 2014, e também em
arbóreos; II) empreendimentos imobiliários; III)
termos quantitativos, haja vista a ampliação
intervenção em APP; IV) movimentação de
no número de servidores municipais
terra; V) outros. O objetivo dessa classificação
reservados ao órgão. Em dezembro de 2012,
foi identificar os principais fatos geradores de
o órgão contava com 46 profissionais; em
TCAs. Posteriormente, pretendeu-se encontrar
dezembro de 2013, com 64; em dezembro de
a vinculação de cada fato gerador com a
2014, com 83 e, em 2015, o número saltou
exigência de compensação apresentada pela
para 115 profissionais.
SVDS.
Com a recomposição da estrutura técnico-
Não foi possível o acesso aos processos
administrativa, os instrumentos de controle
administrativos que contêm os TCAs. Assim, o
ambiental utilizados pela SVDS foram
teor dos termos e o mérito dos compromissos
lapidados e sofreram ampliação no uso e em
não pôde ser avaliado. Outra limitação desta
seus respectivos resultados. Além do sistema
pesquisa está no fato de os relatórios não
para a execução do licenciamento on-line e a
apresentarem as exigências de cada TCA
ampliação no número de multas relativas ao
firmado, ou seja, não foi possível identificar as
meio ambiente, houve ampliação na utilização
medidas compensatórias de cada termo. Essa
dos TACs e TCAs.
identificação viabilizaria a classificação do
tipo de medida compensatória, permitindo O TCA, principal nomenclatura utilizada pela
separar as compensações ambientais SDVS, é semelhante ao TAC e possui a
daquelas relacionadas à implantação de mesma finalidade, porém, enquanto o TAC
pode ser utilizado para enquadrar condutas

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


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lesivas a qualquer interesse difuso ou coletivo, que resultaram em impacto ao meio ambiente
o TCA é utilizado exclusivamente para e visam, além da adequação da conduta do
enquadrar condutas lesivas ao meio ambiente infrator, a recomposição do dano e/ou uma
natural. No caso da SVDS, tanto os TCAs compensação. A tabela 1 mostra a constante
quanto os TACs têm origem em atividades ampliação nos TCAs nos últimos anos.

Tabela 1: Termos de Compromisso Ambiental firmados no Município de Campinas - TCA's entre


2012 e 2015
2012 2013 2014 2015
janeiro * 1 8 15
fevereiro * 0 15 7
março * 0 8 8
abril * 0 18 14

maio 1 0 7 21
junho 0 9 12 10
julho 0 13 13 30
agosto 0 14 18 11
setembro 0 16 7 11
outubro 3 21 16 15
novembro 8 23 13 12
dezembro 5 16 19 15
TOTAL 17 113 154 169
Crescimento % 100 564,7 805,9 894,1
Elaboração dos autores
* Dados indisponíveis nos relatórios publicados
Fonte: SVDS de Campinas (2016).
O fortalecimento do órgão de controle compensatórias através de TCAs. Quando da
ambiental contribuiu para a ampliação no assinatura dos termos, as medidas
acompanhamento dos empreendimentos, compensatórias são definidas pela SVDS e
obras e atividades lesivas ao meio ambiente. executadas pelo empreendedor. Essas
Isso levou ao crescimento do número de medidas materializam o compromisso de
TCAs firmados entre os anos de 2012 e 2015, cada termo. Embora a exigência de
aumentando o número de utilizações do compensação através de TCAs seja material,
instrumento, que saltou do total de 17 no os termos são mensurados em valores
primeiro ano para 169 no último, um monetários. Os valores de compensação
crescimento de quase nove vezes na através de TCAs são ostentados pelo
comparação entre esses dois anos. Relatório de Atividades da SVDS, conforme
mostra o gráfico 1.
A SVDS tem como prerrogativa a proposição,
aprovação ou exigência de medidas

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


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Gráfico 1: Compromissos ambientais firmados com a Secretaria


(Total acumulado em R$ mil)

Série2; 2015*;
R$22.525,04

Série2; 2014;
R$10.288,14
Série2; 2013;
R$4.595,60

Elaboração dos Autores


*Dados até outubro de 2015.

Os valores apresentados acima têm espaço outras palavras, a SVDS apenas orienta qual
como indicador de atividades no relatório da conduta deve ser adotada e o empreendedor
SVDS, ou seja, são ostentados como forma de se responsabiliza pela execução e
demonstrar a efetividade do controle financiamento.
ambiental em termos quantitativos. Entretanto,
A conduta e o compromisso exigidos pelo
esses valores financeiros não transitam pelas
poder público são substanciais e, portanto,
contas do tesouro municipal, o qual não
geram custos para o tomador. A exigência de
exerce qualquer gerência ou
nova conduta ou compromisso decorre de
responsabilidade sobre estes recursos. Trata-
diversas atividades ou empreendimentos. As
se do valor despendido para a adoção de
principais origens de TCAs no Município de
conduta por parte do empreendedor. Em
Campinas são as descritas na tabela 2.
Tabela 2: Principais origens da formalização do ajuste tipo TCA (2012-2015)

Quantidade de TCAs % do total Empreendimento, obra ou atividade


246 54,3 Remoção de indivíduos arbóreos
75 16,6 Empreendimentos imobiliários
60 13,2 Intervenção em APP
30 6,6 Movimentação de terra
42 9,3 Outros
453 100 Total

Elaboração dos Autores


Fonte: SVDS de Campinas (2016).

Observa-se que todos os TCAs formalizados exigidos através desse instrumento visassem
pela SVDS decorrem da prática de atividade a recomposição do meio ambiente afetado ou,
lesiva ao meio ambiente. Desse modo, seria ao menos, tivessem o meio ambiente como
desejável que toda conduta ou compromisso

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


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prioritário nas exigências dos Termos ambiental através da implantação de


firmados. infraestrutura específica. Em seu parágrafo 3º,
V, o referido Decreto define que:
A remoção de indivíduos arbóreos ganha
destaque por representar mais da metade das
causas que levaram a exigência de medida
Nos casos previstos no Decreto Municipal
compensatória através de TCA. Além disso,
nº 16.974, de 04 de fevereiro de 2010, a
dos fatos geradores de TCAs apresentados
compensação irá contemplar o plantio na
na Tabela 2, a remoção de indivíduos
modalidade a ser definida pela Secretaria
arbóreos é o único que dispõe de critérios
do Verde, Meio Ambiente e
preestabelecidos em normativa específica. O
Desenvolvimento Sustentável - SVDS e/ou
Decreto nº 18.859, de 21 de setembro de
implantação de equipamentos de
2015 dispõe sobre a compensação ambiental
infraestrutura de esportes, lazer e
relativa a critérios de plantios e obrigações
educação ambiental, cujos projetos afetos
acessórias em áreas verdes do Município de
às Modalidades Praça, Canteiros e
Campinas.
Calçadas Públicas deverão ser orientados
Embora não existam critérios predefinidos e aprovados pelo DPJ/SMSP (CAMPINAS,
para a compensação dos demais fatos 2015).
geradores de TCAs apresentados na Tabela
2, a Lei Complementar nº 49 de 20 de
dezembro de 2013, que dispõe sobre Observa-se na citação que, nos casos
procedimentos para licenciamento e controle previstos no Decreto Municipal nº 16.974 de
ambiental de empreendimentos e atividades 2010, existe maior discricionariedade por
de impacto local, diz que a SVDS expede o parte da SVDS para a exigência dos critérios
TAC "quando o empreendimento, obra ou de plantio ou implantação de equipamentos
atividade apresenta passivos ambientais, de infraestrutura de interesse social. O
devendo recuperar ambientalmente a área e Decreto 16.974/10 criou o Banco de Áreas
os meios afetados ou, na impossibilidade, Verdes (BAV) em Campinas, fomentando a
implementar medidas compensatórias dos preservação das atuais e a instituição de
impactos causados". novas áreas verdes através de incentivos
fiscais. Trata-se, portanto, de uma exceção
Assim, somente pela impossibilidade de
para medidas compensatórias relativas à
recuperação ambiental, poderão ser
remoção de indivíduos arbóreos.
implementadas medidas compensatórias
celebradas através de TCs com os Assim, no que se refere às definições legais
responsáveis pela construção, instalação, sobre medidas compensatórias em
ampliação, funcionamento de Campinas, em especial aquelas referentes
estabelecimentos ou atividades utilizadoras aos fatos que ocorram no BAV, observamos
de recursos ambientais, considerados efetiva que a legislação vigente permite maior
ou potencialmente poluidores (Brasil, 1998). discricionariedade no ato de formalizar
Em outras palavras, a norma geral apresenta ajustes do tipo TAC ou TCA para
a prioridade em recuperar o meio ambiente compensações através de infraestrutura de
afetado e, na impossibilidade, o passivo interesse social, leia-se equipamentos de
ambiental poderá ser compensado por esporte, lazer e educação ambiental.
determinada medida compensatória.
Diante dessa possibilidade de implementar
A Lei Federal nº 12.651, de 25 de maio de infraestrutura de interesse social através de
2012, que dispõe sobre a proteção da TCAs, verifica-se que duas ciclovias, recém
vegetação nativa, entende que a implantação instaladas em Campinas, decorrem da
de infraestrutura pública destinada a formalização de empreendimentos
esportes, lazer e atividades educacionais e classificados na Tabela 2. São TCAs
culturais ao ar livre em áreas urbanas e rurais decorrentes de empreendimentos imobiliários
consolidadas, é considerada de interesse e remoção de indivíduos arbóreos
social. Com isso, o Decreto nº 18.859 de pertencentes ao BAV.
2015, além de disciplinar os critérios de
É necessário afirmar que todo
plantios como medida compensatória, reitera
empreendimento ocasiona, em maior ou
essa disposição da Lei Federal. O objetivo
menor escala, impactos ambientais, sociais e
dessa afirmação por parte do município é
econômicos. Portanto, o desafio das medidas
vincular a possibilidade de compensação
compensatórias é conseguir minimizar os

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


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impactos ambientais, sem restringir o 20 de abril de 2016, o TCA 165/2013-III e o


desenvolvimento econômico e social. Esse TCA 166/2013-III são decorrentes de "corte e
equilíbrio só pode ser conquistado na medida transplante de árvores para construção de
em que se observa as diversas dimensões edifício comercial CSE-6" e possuem o Termo
discutidas na primeira parte deste estudo, de Anuência nº 132/15 - BAV, estando,
quantificando e qualificando os impactos de portanto, com fundamentação legal segundo
cada empreendimento. o Decreto 16.974/10, o qual permite a
compensação da remoção de árvores
Essa identificação qualitativa e quantitativa
pertencentes ao BAV através da instalação de
dos impactos dificulta a edição de regras
equipamentos de infraestrutura de esportes,
gerais acerca das medidas compensatórias e,
lazer e educação ambiental.
portanto, exige análise específica de cada
empreendimento e de seus respectivos Ambas as ciclovias fazem parte do
impactos. Contudo, há de se verificar a cumprimento de parte do plano de governo
existência de medidas compensatórias que de Campinas, o qual prometeu a construção
tenham plena vinculação com diretrizes de 100 quilômetros de ciclovia até o fim de
normativas, zelando pelos princípios da 2016. A construção dessas ciclovias integra o
legalidade e isonomia na Administração Plano Cicloviário de Campinas (2014-2016) e
Pública. exigiu a integração da SVDS com a EMDEC,
órgão responsável pelo trânsito e transporte
As medidas compensatórias serão favoráveis
coletivo no município. Na prática, a SVDS faz
à sustentabilidade quando efetivarem o zelo
a exigência da medida compensatória e
pelo meio ambiente, sem inviabilizar a
propõe ao empreendedor a assinatura do
execução de empreendimentos necessários
TCA que, após assinado, segue o
ao desenvolvimento social e econômico.
acompanhamento da obra pela EMDEC,
Trata-se de uma visão holística sobre
conforme o projeto pré-estabelecido.
expansão econômica, justiça social e
preservação do meio ambiente. O Plano Cicloviário de Campinas ainda prevê
a construção de mais ciclovias nas avenidas
É fato que a infraestrutura disponível à
Theodureto de Almeida Camargo e
sociedade pode contribuir para justiça social
Washington Luiz, bem como nos distritos de
e eficiência econômica, tão necessárias à
Barão Geraldo, Nova Aparecida e no bairro
sustentabilidade. Porém, a utilização de
Taquaral.
medida compensatória que tenha por objetivo
a ampliação de infraestrutura disponível à Verifica-se que o Poder Executivo Municipal
sociedade, e como origem, o impacto tem ampliado a utilização destes instrumentos
ambiental gerado por determinado de gestão ambiental, TAC e TCA,
empreendimento, pode representar uma possibilitando maior controle sobre os
distorção da medida proposta. impactos gerados ao meio ambiente e a
possibilidade de compensação dos danos
Das infraestruturas de interesse social
gerados por diversas atividades. Contudo, a
decorrentes de compensações formalizadas
discricionariedade presente na formalização
por TCAs e TACs estão duas ciclovias. A
desses ajustes pode permitir a transformação
primeira foi implementada na Avenida José de
de uma política de Estado em uma política de
Souza Campos (Norte-Sul) e inaugurada no
governo, desvirtuando o real sentido da
dia 04 de outubro de 2015. Com 1,3
compensação ambiental. Eis que surge a
quilômetro de extensão, a obra custou R$ 750
seguinte questão: estamos diante de uma
mil, financiados por três empresas – ADM
tendência ao uso de TCAs e TACs como
Participações e Administrações, Residencial
instrumento de política pública relacionada a
Coimbra Empreendimentos Imobiliários e o
esporte, lazer e educação ambiental, que
Condomínio Shopping Center Iguatemi –,
pode variar de governo para governo, em
através de três TACs e um TCA. A outra
detrimento da efetiva compensação ambiental
ciclovia foi construída na Avenida Baden
que vise assegurar no presente as condições
Powel, com quase 1,7 quilômetro de extensão
de vida para as gerações futuras?
e investimentos de R$ 411 mil, também
resultante de dois TCAs (TCA 165/2013-III e É certo que esse risco no uso abusivo ou
TCA 166/2013-III) e custeada pelo hotel The desvirtuado desses instrumentos de gestão
Royal Palm Plaza. ambiental está relacionado às dificuldades do
município em financiar políticas públicas
Segundo publicações no Diário Oficial do
através das tradicionais fontes de receitas
Município dos dias 16 de dezembro de 2013 e

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


78

municipais, tais como os tributos e as argumentação em prol da política de governo


transferências. Porém, existe um limite na que amplie essas estruturas. Porém, a forma
capacidade de compensação ambiental e de financiamento dessa ampliação de
esse não parece estar observado na infraestrutura não pode estar assentada no
dimensão necessária para a sustentabilidade, dano ao meio ambiente, pois esse também
haja vista a compensação ambiental através compõe uma das dimensões da
da construção de infraestrutura de sustentabilidade.
competência do orçamento público.
Torna-se imprescindível, portanto, a reflexão
Por serem instrumentos relativamente novos sobre a combinação adequada de interesse
na gestão ambiental, os TCAs ou TACs devem social, ambiental e econômico na formulação
ter atenção do Ministério Público e das de política públicas, para que se apresentem
instâncias de discussão e controle social, tal os limites de cada uma dessas dimensões e
como o Conselho Municipal de Meio se tenha o devido controle por parte do
Ambiente, pois outros instrumentos de Estado e da sociedade.
controle público, como por exemplo, as
multas, são constantemente reconhecidas
pela sociedade a uma forma de receita 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
extraordinária para o Estado. Neste caso,
O desenvolvimento sustentável exige maior
embora não haja trânsito de valores
rigor técnico na elaboração das políticas
financeiros para os cofres públicos, existe a
públicas. Os instrumentos de controle
possibilidade do cumprimento de metas de
ambiental podem corroborar na busca pela
governo através da imposição expressa pelos
sustentabilidade, estimulando a preservação
TCAs e TACs.
ou recuperação do meio ambiente,
Inegavelmente, ao observar os valores incentivando empreendimentos com práticas
agregados referentes aos TCAs e dos TACs sustentáveis e restringindo a intervenção de
no Município de Campinas, verifica-se maior empreendimentos com práticas danosas ao
eficácia do Poder Executivo Municipal no meio ambiente. A restrição imposta pelos
acompanhamento dos empreendimentos e instrumentos de política pública nem sempre
atividades que, segundo a previsão legal, consegue evitar impactos ambientais.
geram impactos ambientais impossíveis de se
Os impactos ambientais são consequências
recuperar na área e nos meios afetados.
das novas intervenções urbanas e, por mais
Entretanto, somente com a observação
que sejam necessários para permitir o
aprofundada de cada ajuste firmado é
desenvolvimento social e econômico, podem
possível a verificação da real eficácia em
ser mitigados. A mitigação pode ocorrer de
termos de sustentabilidade.
várias formas, desde a reparação in natura –
Com a insuficiência em termos de legislação primeira opção – até a indenização – última
sobre medidas compensatórias, combinada hipótese. Assim, os TCA's são instrumentos
com a ausência de controle social e a utilizados para disciplinar as medidas
limitação orçamentária na esfera municipal, os pactuadas entre o Poder Executivo e os
TCA's e TAC's apresentam-se como um fator empreendedores com práticas danosas ao
de preocupação para o controle ambiental e a meio ambiente.
preservação dessa dimensão na
O estudo dos TCAs firmados pela SVDS de
sustentabilidade. A discricionariedade
Campinas mostrou que a forma de mitigação
transmitida ao poder executivo pode
utilizada no município é a compensação.
comprometer a disponibilidade de áreas
Sendo que parte dos impactos ambientais
preservadas em prol do cumprimento de
causados pelas intervenções urbanas são
metas de governo.
mitigados com a construção de obras de
Indiscutivelmente, as infraestruturas de infraestrutura, como ciclovias, e não com a
esporte, lazer e educação ambiental são de reparação do dano ambiental ou replantio e
interesse social e, portanto, atendem a uma árvores.
das dimensões da sustentabilidade. A criação
Nesta esteira, os TCAs que deveriam ser
de modais alternativos de transporte urbano -
utilizados para enquadrar as condutas dos
como por exemplo as ciclovias, que reduzem
infratores ambientais estão sendo
a demanda por combustíveis fósseis - é parte
aproveitados pelo poder público municipal
dessa infraestrutura relacionada com a
para repassar a particulares
sustentabilidade. Nesse sentido cabe a
responsabilidades daquele. Mais ainda, tais

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


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termos estão sendo empregados pela os recursos arrecadados pelo FDDD deverão
administração municipal para cumprimento do ser aplicados na efetivação de medidas
plano de governo, em claro desvio de relacionadas à natureza da infração ou do
finalidade do instrumento. dano causado. Ou seja, o dinheiro destinado
ao Fundo que seja resultante de um dano
Para que esse desvirtuamento não ocorra, são
ambiental deverá ser aplicado na melhoria da
necessárias regras mais claras e precisas,
qualidade ambiental, e não em obra de
dos limites de compensação. Em outras
infraestrutura.
palavras, a legislação precisa restringir as
formas de compensação do impacto Em suma, os Termos de Compromisso
ambiental, reduzindo a discricionariedade do precisam de regras mais rígidas e fiscalização
administrador público, para evitar que os mais efetiva por parte da sociedade. São
infratores paguem os danos causados ao duas as razões para isso. Primeiro para que
meio ambiente com a construção de obras de não sejam utilizados como instrumentos de
infraestrutura, visto que, do ponto de vista cumprimento de plano de governo, pois isso
ambiental, essa medida não se mostra levaria ao uso abusivo do instrumento.
sustentável. Segundo, para que não seja possível a
compensação de dano ambiental com a
A legislação que trata do Fundo de Defesa de
implantação de infraestrutura.
Direitos Difusos, por exemplo, determina que

REFERÊNCIAS lesivas ao meio ambiente, e dá outras


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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


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2005. maio 2016.
[36] WWF. Este ano, a data chegou mais cedo.
Disponível em:

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


82

Capítulo 7

Alessandra Harumi Sakai dos Santos


Edilene Mayumi Murashita Takenaka
Alexandre Godinho Bertoncello
João Lucas de Souza Maximiano

Resumo: A Responsabilidade Social Corporativa não se limita a grandes empresas


e nem a investimentos em ações sociais, ela vai além. O exemplo da CREDSAT
demonstra claramente os benefícios socioeconômicos de uma ação RSC, afirma
também que é possível que PMEs atuem na região que estão instaladas e
provoquem uma mudança cultural dos stakeholders. É possível que as PMEs façam
ações RSC com baixo custo, os resultados foram: o surgimento de mídia
espontânea, a melhoria de imagem, reconhecimento e o fortalecimento do
pertencimento regional. Esta pesquisa se caracterizou como qualitativa exploratória
explicativa. Como característica principal utilizou o olhar do pesquisador sobre o
fenômeno ocorrido, enfatizando uma visão lógica de raciocínio dedutível. Houve
familiaridade do pesquisador com o tema, desta forma as hipóteses puderam ser
construídas com base no know-how dos envolvidos. Buscou o porquê dos
acontecimentos e usou procedimentos técnicos para comprova-la. Foi realizada
uma análise com levantamento bibliográfico para definição de conceitos, e o
acompanhamento da ação RSC. Esta pesquisa foi autorizada pelo sistema gestor
de pesquisa (SGP) da Unoeste e pelo Comitê de Ética em Pesquisa CEP protocolo
3339, Protocolo Plataforma Brasil: 57674416.7.0000.5515 para acompanhar as
ações da empresa e o impacto nos stakeholders entre fevereiro de 2016 e
Setembro de 2017.

Palavras-chave: Responsabilidade Social Corporativa; Dengue; Meio ambiente;

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


83

1. INTRODUÇÃO Este fenômeno é uma das consequências da


grande circulação de informações, a
Práticas de Responsabilidade Social
sociedade assimila rapidamente diversos
Corporativa (doravante RSC) são importantes
conceitos nas áreas ambientais e estes tem
no contexto atual. Grandes empresas a
mudado o comportamento de inúmeras
aplicam e utilizam-se do marketing para
empresas.
promover seus produtos e o nome da
empresa. Observa-se que as controvérsias
ocorrem devido ao fato que a RSC tem
2. CONTEXTO INVESTIGADO
relações com vários participantes da
sociedade com seus interesses, ações e A empresa não deve visar o lucro a todo custo
obrigações diversos. e sim fazer cumprir a função social da
empresa determinada por Lei. Tal assertiva
Apesar da ausência de consenso entre os
encontra-se fundamentada na Lei das
stakeholders, é claro que para uma empresa
Sociedades Anônimas (LSA), abaixo
ter ações de RSC, ela deve ir além de
transcrito, (BRASIL, Presidência da República,
somente cumprir suas obrigações
1976):
estabelecidas por lei, quando se cumpre as
regras e normas estabelecidas a empresa não
ofende critérios sociais, porém não pode ser
Art. 116. Parágrafo único. O acionista
considerada RSC. No final da década de 70 o
controlador deve usar o poder com o fim
foco das investigações e estudos foram além
de fazer a companhia realizar o seu objeto
das obrigações das empresas perante a
e cumprir sua função social, e tem deveres
sociedade e buscou também mensurar as
e responsabilidades para com os demais
contribuições que a empresa pode gerar na
acionistas da empresa, os que nela
sociedade com práticas de RSC.
trabalham e para com a comunidade em
Após a década de 1980 passou-se a que atua, cujos direitos e interesses deve
desenvolver leis, as quais de certa forma lealmente respeitar e atender. Art. 154. O
obrigava as empresas aderirem à adoção de administrador deve exercer as atribuições
práticas de responsabilidade social e que a lei e o estatuto lhe conferem para
melhores condições de trabalhos aos seus lograr os fins e no interesse da companhia,
funcionários dando a eles direitos trabalhistas, satisfeitas as exigências do bem público e
na atualidade a ênfase da discussão social é da função social da empresa.
principalmente os impactos do homem e das
empresas no meio ambiente de uma forma
geral. No início as principais partes interessadas de
uma empresa eram proprietários, gestores,
Buscou-se nesta pesquisa demonstrar a
funcionários, fornecedores e clientes, porém
importância de ações socioambientais em
com o passar do tempo foi adicionado a
empresas de pequeno e médio porte (PMEs)
comunidade, autoridades governamentais e
no município de Presidente Prudente/SP.
outros. Matter e Moon (2004) após estudo,
Segundo Kobayashi (1977), a RSC direciona a
observaram que a essência da RSC é um
construção do conhecimento cientifico do
termo guarda-chuva que permite um conjunto
tema voltado principalmente para as grandes
de conceito e sinônimos da responsabilidade
empresas, desta forma, a sociedade não
de gestão de empresas sobre diversas óticas
espera muitas ações de pequenas e medias
diferentes das partes interessadas nas
empresas, e que devido ao seu tamanho seria
empresas presente na sociedade. A RSC
complicado elas atenderem necessidades
definida pela Global Affairs Canada
sociais relevantes. Por outro lado, procurou-se
(CORPORATE.., 2017, n.p.) é um conceito
identificar o impacto socioeconômico para
onde versa sobre atividades voluntárias
uma PME por praticar a RSC, se os benefícios
pautadas na economia, sociedade e
do ponto de vista do marketing social são
sustentabilidade. Esse ato voluntário, sem fins
favoráveis, e como uma empresa de pequeno
lucrativos pode afetar diretamente na
porte pode modificar o ambiente onde ela
lucratividade final, visto que propicia novos
está instalada.
olhares da sociedade frente a empresa.
Afinal, segundo Daher et al. (2012), a
Atualmente a nomenclatura utilizada é a
sociedade está cada vez mais exigente
Responsabilidade Socioambiental Empresarial
fazendo com que as empresas se
(RSAE). Barbieri e Cajazeira (2009) a
comprometam com a responsabilidade social.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


84

consideram sendo uma forma onde as resultado apurado foi de 3,1. Conforme a
empresas, por meio de suas atividades sejam Organização Mundial de Saúde (OMS), o
capazes de subsidiar a concretização do índice menor do que 1 é considerado
desenvolvimento sustentável. Os autores “tolerável”, de 1 a 3,9 representa “situação
ainda salientam a importância da criação de de alerta” e superior a 4 corresponde a
estratégias de negócios atreladas a “risco de surto”. Foram registrados 12
responsabilidade socioambiental que casos de Dengue até Setembro de 2017,
satisfaça tanto os desejos empresarias como (PRESIDENTE PRUDENTE, 2017).
os de todos os stakeholders.
Viapiana (2001, p. 20) conclui que “[...] o
No bairro Jardim Novo Bongiovani, na rua
sucesso empresarial depende de vários
Angelina Berton de Azevedo, n° 55, está
fatores, tanto internos como externos, e está
instaurada a CREDSAT que atua no ramo de
relacionado no modo “como” os dirigentes e
Informações e Automação comercial em
as empresas fazem as coisas. “Esse modo de
vários estados brasileiros e conta com 16
fazer as coisas é fator decisivo nos objetivos
funcionários. Ao seu entorno existem terrenos
almejados da empresa, bem como no alcance
baldios, onde pessoas jogam lixos que são
dos resultados esperados.
grandes recipientes de criadouros do
Quanto a Responsabilidade Ambiental mosquito Aedes Aegypti. E ainda a vizinhança
Corporativa o autor Reinhardt (1999) se coloca seus lixos no chão para a coleta
posiciona argumentando que todos os pública recolher, os cachorros rasgam e
investimentos, aplicações e gastos espalham esses lixos.
direcionado a preservação do meio ambiente
ou a sustentabilidade não deve ser
considerada como responsabilidade social 4. CONTEXTO INVESTIGADO
pois estão intrínsecas as suas atividades e a
A CREDSAT pratica ações socioambientais e
não realização delas levaria a ignorar riscos e
aplica a Responsabilidade Social Corporativa,
oportunidades.
em que trabalha fortemente a campanha:
Para Hart (1997) quando o assunto é Bairro Consciente desde 2016. Este projeto
Responsabilidade Ambiental Corporativa o visa despertar as empresas e a sociedade do
comportamento das empresas devem ser de Bairro a se mobilizarem coletivamente na luta
líderes e educadores ambientais, pois o contra o mosquito Aedes Aegypti e ao mesmo
desenvolvimento sustentável no século XXI tempo contribuir com a preservação do meio
será uma grande oportunidade de guiar a ambiente.
preferência do consumo de clientes atentos a
A ação englobou duas práticas: a distribuição
questões de sustentabilidade. Relações
e plantio da Crotalária Junceia, considerada
empresarias não se limitam apenas a
um apoio para o controle biológico do
comercialização de serviços e sim a uma
mosquito transmissor da dengue e a
parceria com as comunidades, colaboradores
realização do mutirão de limpeza com a
e clientes, que prezem pela qualidade de
participação dos funcionários da empresa,
vida.
apoiadores e moradores do bairro, pois
apesar de estar estimulada a praticar o RSC
somente dispunha de seus colaboradores
3. DIAGNÓSTICO DA SITUAÇÃO-PROBLEMA
para a elaboração do plano de ação.
Presidente Prudente tem índices de infestação
A distribuição das sementes e o plantio da
do Aedes Aegypti acima do tolerado pela
Crotalária Junceia aos moradores do bairro
Organização Mundial de Saúde. Em 2016
teve como foco os terrenos baldios, jardins,
foram confirmados 183 casos de Dengue e 1
quintais, próximo a rios e terrenos que tendem
óbito. Em 2017 a Vigilância Epidemiológica
a acumular água parada. Suas flores atraem
Municipal (VEM) divulgou o novo Índice de
a Libélula, que por sua vez deposita suas
Breteau (IB) de Pres. Prudente e informou que
larvas em águas paradas que se alimentam
em todo o município foram encontrados
das larvas do mosquito transmissor da
criadouros do mosquito.
Dengue. A estrutura de ação da empresa foi
montada com a ajuda dos pesquisadores,
pois apesar de estar estimulada a praticar o
A medição define a quantidade de larvas
RSC somente dispunha de seus
do inseto em fase de desenvolvimento e o

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


85

colaboradores para a elaboração do plano de ação.


DIAGRAMA 1: Plano de Ação de combate contra o Aedes Aegypti.

Fonte: Elaborado pelos autores (2016).


Feito o plano de ação, ficou firmado a Desta forma, a empresa arcou com as
parceria entre empresa e universidade, e despesas iniciais do projeto para realização
buscou-se patrocinadores para colocar o do processo de embalagem da Crotalária,
plano em ação, mas falar em RSC para englobando orientações sobre o plantio
pequenas empresas ainda era um tabu, toda descriminados na tabela abaixo.
a iniciativa teve pouco eco e nenhum
patrocinador apareceu para o projeto.
TABELA 1: Investimento da ação inicial
01 Impressões – Orientações (15.000 ) R$ 300,00
02 Banner R$ 130,00
03 Sacos plásticos / grampos R$ 184,80
04 Sacos plásticos / grampos R$ 31,00
Total Gasto R$ 645,80
Fonte: CREDSAT (2016).
Em seguida, foi elaborado um Banner todo o trabalho feito, foi voluntário;
conforme a figura 1 e realizou a distribuição e proprietário, colaboradores e pesquisadores,
plantio da Crotalária nos terrenos como consequência, conquistaram o respeito
devidamente limpos e nas casas do bairro, da comunidade e em seguida iniciaram a
neste momento as ações superaram os limites segunda fase do projeto. Silva (2016), expõe
dos bairros próximos, diversas escolas, que Presidente Prudente possui um índice
prefeituras e igrejas se engajaram no grande de Dengue e a população
processo, e durante o ano de 2016, foram responsabiliza o governo municipal, mas a
distribuídos 20.005 saquinhos com sementes verdadeira responsabilidade está na
de Crotalária para vários parceiros conforme população do município, pois podem
tabela 2. contribuir cuidando do seu entorno. Isso é
fundamental, pois se todos colaborassem
Como definido por Mancini (2008), as
teríamos mais pessoas responsáveis e
empresas e seus pares devem fazer algo que
conscientes de seus atos e diminuiria o índice
superem os padrões estabelecidos por lei,
de Dengue no município.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


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FIGURA 1: Banner de Responsabilidade Social da CREDSAT

Fonte: CREDSAT (2016).

TABELA 2: Quantidade de saquinhos distribuídos


Item Local da entrega Embalagens
01 Escola Vereador José Molina-Coronel Goulart-Alvares Machado – SP 187
02 Escola Municipal Ivo Garrido-Bairro Mediterrâneo - Presidente Prudente 300
03 Secretaria da Educação – SEDUC –Presidente Prudente 10.000
04 Prefeitura Municipal de Pirapozinho 5.000
05 Fórum de discussão e integração Regional Hansoro 358
06 Academia de Ginastica 12/8-Tenis Clube Presidente Prudente 100
07 Escolas Públicas – Presidente Prudente 400
08 Colégio Átomo – Presidente Prudente 60
09 Igreja – Presidente Prudente 3000
10 Paroquia Nossa Senhora do Carmo (Igreja Maristela) -Presidente Prudente 600
Total da campanha 20.005
Fonte: CREDSAT elaborado pelos autores, (2016).
FIGURA 2: Ação socioambiental no bairro Jardim Novo Bongiovani

Fonte: CREDSAT (2016).


Para a ação do mutirão de limpeza, a recolhimento do sistema de coleta pública de
empresa investiu na compra de luvas lixo, devidamente ensacados. A maioria do
plásticas e sacos de lixos. Feita a lixo recolhido estava com água parada, isso
sensibilização e demonstrado os primeiros preocupou a CREDSAT, pois esses
resultados, nas duas primeiras intervenções recipientes são criadouros do mosquito Aedes
no bairro, foram retirados lixos dispostos Aegypti.
indevidamente em terrenos e ruas no entorno
Para que as pessoas se conscientizassem em
da empresa, dentre eles estavam garrafas,
relação a não jogar lixos no chão a CREDSAT
sacos plásticos, latas, madeiras, ferros, entre
decidiu investir em placas comunicativas e
outros. Os mesmos foram destinados ao

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


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lixeiras. Assim em parceria com as empresas satisfatórios. Mesmo com as placas e as


do bairro implantou 02 lixeiras e 04 placas lixeiras as pessoas continuaram jogando lixo,
informativas nos terrenos baldios e no entorno sendo assim as placas não inibiram as ações
da empresa, porém não obteve-se resultados errôneas da população.
FIGURA 3 - Mídia Espontânea

Fonte: O Imparcial (2016).

FIGURA 4: Mídia UNOESTE

Fonte: Assessoria de Imprensa da UNOESTE (2016).


As ações foram sustentadas não apenas pela todas personalizadas com a sua própria
empresa, mas também por outras 14 logomarca. Haviam 05 empresas que ainda
empresas da região. A CREDSAT visitou cada não possuíam suas logomarcas, logo a
empresa no bairro e sensibilizou todos os CREDSAT desenvolveu sem custo cada uma
stakeholders a participarem do projeto “Bairro delas. As empresas que participaram deste
Consciente”, onde cada empresa arcou com projeto foram: Credsat Informações;
a despesa para a confecção de um Banner Serralheria Pinheiro; Salvador Pneus; Arelit; M.
que foi fixado na fachada de cada uma delas, Garcia Funilaria; Bar e Mercearia Novo

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


88

Bongiovani- BMNB; Construjack; Magu Bongiovani; Sidnei Cabeleireiro; Cris Pães


Agropecuária e Pet Shop; Posto Novo
e doces; Conveniência D. Sonia; Mercado Casa da Sogra; Madeireira Tuiuiú; e Posto ACJ.
FIGURA 5: Banners das empresas participantes.

Fonte: CREDSAT, (2016).


Em 2017 as ações de responsabilidade social empresas no Brasil precisam reconhecer e
foram mais intensivas, no início do ano a compreender que elas não estão isoladas na
CREDSAT fez o planejamento das ações de sociedade e sim estão mergulhadas em um
mutirão de limpeza, elaborou panfletos para contexto social e ecológico fundamental para
comunicar a realização do primeiro mutirão do a sustentação da empresa. É preciso
ano em Março, que foram entregues nas transformar a dimensão ambiental em um
casas do bairro e as empresas participantes diferencial de mercado além de ser um
do projeto também colaboraram com a diferencial de imagem e todos os resultados
entrega dos panfletos. Diante dos resultados socioambientais necessitam ser divulgados e
da pesquisa observa-se o engajamento da integrados a estrutura do negócio para que se
CREDSAT com a responsabilidade social, que ganhe força.
conforme as abordagens dos diversos autores
Diante das evidencias literárias, a visão da
enfatizam esta prática como uma
complexidade das relações existentes na
responsabilidade que todos devem exercer e
sociedade propicia uma nova postura. O
que impacta suas ações comerciais.
município de Presidente Prudente possui
diversas empresas e industrias, cabe a elas
adotarem posturas de responsabilidade com
5. ANÁLISE DA SITUAÇÃO-PROBLEMA
o meio ambiente. Tais posturas devem ser
Ummus (2015) apresenta um panorama do praticadas e seus resultados analisados para
Brasil em relação a RSC, salientando que as

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


89

uma possível avaliação e medição do grau de terrenos e preparar o plantio das sementes, a
engajamento das organizações. população contribui para minimizar o
surgimento de novos criadouros. Ações
A visão do Administrador ou do executivo
simples como a de mutirão de limpeza podem
deste século deve ser voltada para a
combater a proliferação do mosquito da
preservação ambiental, e isso somente é
Dengue, para isso basta ter iniciativa e pensar
possível quando estes adotam posturas de
na sustentabilidade ambiental. Essas ações
exemplos perante a sociedade. Dar o primeiro
tem grande impacto na saúde da população,
passo é fundamental, encabeçar projetos de
uma vez que elimina ambientes de
responsabilidade social exige uma iniciativa
proliferação do Aedes Aegypti. Os resultados
proativa. O assunto em questão é de grande
dessas ações também são vistos pela
valia, visto que se faz necessário a promoção
comunidade local, pois propicia lugares mais
do desenvolvimento sustentável no município.
limpos no bairro.
No ano de 2016, Presidente Prudente,
6. CONTRIBUIÇÃO TECNOLÓGICA-SOCIAL registrou um recorde de casos de dengue, na
cidade houve 183 casos confirmados com a
Para a CREDSAT, suas ações geraram mídia
doença, e para o ano de 2017, até setembro
espontânea e uma melhoria significativa para
deste ano houve apenas 12 casos
sua imagem perante a sociedade, além das
confirmados em Presidente Prudente.
pessoas passarem a conhecer a CREDSAT.
Naturalmente estes números são reflexos de
Muitas instituições ligavam na empresa
diversas ações de toda a cidade, assim é
perguntando como poderiam adquirir a
impossível afirmar os desdobramentos
semente da Crotalária para também
específicos da operação Bairro Consciente
participarem das ações de responsabilidade
em 2017. Se todas as PMEs do município
social no município. Ressalte-se que há
fossem engajadas em projetos sociais e
controversas sobre a eficácia do plantio da
praticassem a RSC como a CREDSAT
Crotalária Junceia na eliminação das larvas
teríamos resultados significativos e
do mosquito transmissor da dengue.
impactantes para Presidente Prudente.
Entretanto, para a empresa CREDSAT,
apoiadores e pesquisadores, ao limpar os

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


91

CAPÍTULO 8

Paloma Gasparino do Monte


Patricia Fernandes Frauches
Vlademir Betaressi

Abstract: The objective of the study was to verify the impacts obtained with the
application of the Environmental Management System in the company Natura
Cosméticos S.A. An exploratory research was carried out, through documentary
analysis, with a qualitative approach. The study was based on the annual reports
issued between the years 2004 and 2016, as it was during this period that the
company implemented and developed the management system focused on
environmental control. The effectiveness of environmental management was verified
through accounting, which measured the environmental and economic impacts with
the control and monitoring systems developed according to the particularities of the
organization. It was observed that the company has sustainable values and seeks to
provide its employees, suppliers and customers an environmental education based
on research and investments for instruction of sustainable practices. Care was taken
to recycle materials and water resources consumed in production, in addition to the
projects developed so that the elements that can not be reused, may have their
consumption reduced. It was concluded that effective management is essential to
provide information about environmental patrimony and according to this data, users
identify the posture of the organization on issues related to the environment.

Keywords: Accounting, Environmental Management System, Sustainability.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


92

1. INTRODUÇÃO Um estudo realizado por Ceruti e Silva (2009),


demonstra as dificuldades que as empresas
Por volta da segunda metade do século XX,
têm em aplicar a gestão ambiental em suas
devido ao crescimento acelerado da
organizações. O principal problema foi a
população na superfície do planeta e a
disponibilidade de capital para a área
expansão dos processos produtivos,
ambiental, logo em seguida as empresas se
especialmente os industriais, tornou-se
depararam com a falta de relacionamento
evidente que os recursos naturais são
com os órgãos ambientais, treinamento e
limitados, e que seu esgotamento ameaça a
estruturação do setor ambiental da empresa.
qualidade de vida e o bem-estar das
Adaptação aos programas de gestão
gerações atuais e futuras. Diante disso a
ambiental e a falta de pessoas capacitadas
legislação ambiental exige que as
são mais uma das dificuldades encontradas
organizações adotem uma postura eficiente
pelas empresas. Outros empecilhos foram o
em relação aos seus processos industriais e
desconhecimento das normas ambientais, a
emissões de poluentes no meio ambiente,
falta de interesse na implantação dos
pois muitos consumidores, principalmente de
sistemas de gestão e a localização dessas
países desenvolvidos, se preocupam em
empresas.
escolher produtos que são menos agressivos
para a natureza (SEIFFERT, 2011). Partindo das dificuldades encontradas pelas
empresas, de modo que possam se interessar
Conceição et al. (2014) apresentam na
pela implantação de controles ambientais
contabilidade maneiras para demonstrar o
surgiu o seguinte questionamento: Quais os
controle ambiental que é feito através de
impactos obtidos com a aplicação do sistema
relatórios que possibilitam evidenciar formas
de gestão ambiental na empresa Natura
para diminuir passivos ambientais e aumentar
Cosméticos S.A?
os ativos ambientais dentro de uma empresa.
Para eles, a contabilidade ambiental auxilia na O objetivo do estudo é verificar a efetividade
mensuração da situação financeira da que o sistema de gestão ambiental trouxe
companhia, que explica o grande aumento de para uma das maiores empresas de
entidades que se interessam cada vez mais cosméticos do estado de São Paulo, que
pela preservação da natureza e como retorno, utilizou da contabilidade como principal
estão ganhando destaque no mercado ferramenta a fim de desenvolver uma gestão
competitivo. ambiental, afim de analisar, gerenciar e
controlar evidenciando o desenvolvimento
Segundo Epelbaum (2004) a contabilidade
sustentável da empresa, observando sua
ambiental é considerada uma ferramenta
capacidade de organizar seus processos
importante no processo de gerenciamento,
produtivos de maneira adequada sem
porém nota-se um número muito baixo de
comprometer ou prejudicar o ecossistema.
empresas que utilizam esses controles
ambientais, já empresas que o adotam é O presente trabalho pretende mostrar para as
perceptível o seu comprometimento com o empresas e a sociedade no geral, os
meio ambiente e isso se torna um diferencial benefícios que a contabilidade ambiental
no meio dos negócios. Diante desse contexto, proporciona na gestão de vários recursos e
é possível afirmar que o controle ambiental na proliferação do sistema produtivo de uma
exerce um grande papel na organização no grande empresa de cosméticos, bem como
que se diz respeito ao processo de ela influencia no processo decisivo da
preservação do meio ambiente, evitando organização.
problemas sociais e econômicos.
Com a questão ambiental em alta, muitas
Mas para que ocorra de fato uma gestão empresas estão se conscientizando para
ambiental, é necessário traçar objetivos e produzir, vender ou consumir sem agredir a
estabelecer metas onde a empresa possa natureza, mas para alcançar isso é necessário
fazer uso de informações contábeis para adotar um sistema de gestão ambiental,
esclarecer, identificar e mensurar uma gestão porém toda gestão exige a aplicação de
ambiental eficaz, averiguando a melhor forma recursos financeiros e é esse montante que
de continuar atuando sem comprometer os causa dúvidas na hora de unir a preservação
recursos naturais, utilizando dessas da natureza junto com a gestão empresarial
informações para facilitar e esclarecer os (PEREIRA; CARVALHO; PARENTE, 2011).
fatos ocorridos nas organizações
(FALQUETO, 2007).

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


93

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA desenvolvimento, programação, análise e


amparo a política sustentável da entidade.
2.1. CONTABILIDADE AMBIENTAL
Ferreira (1995) acrescenta que gestão
A Contabilidade Ambiental teve enfoque na ambiental vai além de sustentabilidade,
sociedade a partir dos anos 70 pelo grande envolve custos econômicos e sociais, e com
questionamento sobre a preservação do meio isso as empresas se tornam o foco, pois são
ambiente, mas foi em 1998 que passou a ser as que mais contribuem para a degradação
considerada como o novo ramo da Ciência do meio ambiente.
Contábil, seu processo de evolução ocorreu a
Para Gonçalves e Heliodoro (2005), no
partir de problemas de controle na gestão
espaço onde os custos se confrontam com os
ambiental que muitas empresas sofreram e
benefícios ocasionados pela gestão, o SGA
que foi se agravando cada vez mais
mostra o desempenho tanto econômico
(GARCIA; OLIVEIRA, 2009).
quanto do meio ambiente, identificando
Com o intuito de dar respostas a gestores custos ambientais que passaram
acerca de informações financeiras sobre o despercebidos assim como oportunidades de
meio ambiente, contadores e alguns órgãos redução ou eliminação de custos, além de
tanto do governo, quanto pesquisadores, agir amparado na legislação para poder
começaram a estudar a contabilidade tomar decisões estratégicas.
ambiental e averiguar como seria possível
Ao implantar o SGA numa empresa, além de
novos procedimentos ou ainda metodologias
proporcionar para a organização agir dentro
que fossem capazes de apresentar respostas
das Normas ISO, também agrega a ela uma
satisfatórias para a diretoria das organizações
boa imagem no mercado e principalmente
para suprir a dificuldade em analisar a
nos setores que ela atua, além de garantir um
situação da empresa frente o meio ambiente
desempenho ambiental e consequentemente
(MARCONDES; CAMPOS, 2006).
o controle de custos possibilitando mais valor
Para Naujack, Ferreira e Stela (2011), a aos negócios e qualquer companhia pode
contabilidade não tem a capacidade de implantar o SGA, obtendo assim vantagens
resolver os problemas ambientais, mas tem como a certificação ambiental de suas
como grande importância fornecer aos atividades, produtos e serviços (ABNT, 1996).
usuários informações que o ajudem a
Um sistema eficaz de gestão ambiental que
solucionar e enfrentar as dificuldades
atrele os interesses da empresa com a
encontradas na gestão ambiental que numa
preocupação e preservação do meio
organização, é aplicada em diversas fases
ambiente tem sido fundamental numa
como preventivas, corretivas, de remedição e
organização, pois segundo Epelbaum (2004),
proativos.
as corporações perceberam que não
É a partir daí ,que muitas empresas buscam adiantavam ter apenas conscientização de
por um sistema de gestão para dar a eles o preservação, tinham que incorporar uma
suporte necessário de como anda o educação ambiental dentro do gerenciamento
desenvolvimento organizacional em seus de suas empresas. Foi a partir daí que as
negócios, o meio ambiente ao redor e organizações passaram a enxergar os
também de como demostrar isso em seus sistemas de gestão ambiental como princípio
relatórios. Muitos empresários e gestores essencial no gerenciamento de negócio.
encontram resultados através do Sistema de
Segundo Zahaikevitch et al (2011), a gestão e
Gestão Ambiental (SGA), que pode ser
o controle ambiental trazem muitos benefícios
entendido como procedimentos capazes de
para a entidade como a redução dos custos
administrar e direcionar na tomada de
na própria produção relacionados com o
decisão da empresa em relação a aspectos
consumo de energia elétrica, o consumo e
ambientais (NASCIMENTO, 2008).
reaproveitamento da água e também as
multas decorrentes das fiscalizações
ambientais, aumentando a relação de
2.2. SISTEMA DE GESTÃO AMBIENTAL (SGA)
confiança com seus consumidores e órgãos
O Sistema de Gestão Ambiental (SGA), governamentais.
segundo Maimon (1996), é o princípio
A preocupação com a natureza é crescente
fundamental em uma organização para
no mercado, como mostra o Programa Sebrae
englobar a estrutura de atividades de
de Gestão Ambiental (2004), para muitas
planejamento aos processos de
empresas além de fornecer produtos que

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


94

contribuam com o meio ambiente buscam vez que elas faziam uso de recursos naturais
também fornecedores capazes de atender para desenvolver suas atividades.
suas necessidades de maneira que exerçam
Segundo Nascimento e Morais (2013), as
cuidados ambientais. Esses requisitos
normas ISO fazem parte de um conjunto de
garantem que os produtos fornecidos
normas reconhecidas internacionalmente
cumpram as exigências impostas pelos
capazes de definir as condições que as
clientes e ao mesmo tempo estejam em
organizações devem manter para assegurar a
conformidade com a legislação. Com a
qualidade em seus processos, produtos e
parceria feita entre comprador, fornecedor e
serviços abrangendo desde o recebimento de
consumidor, o SGA se torna objeto de
produtos em seu estoque até a entrega do
marketing ambiental para atrair o público,
produto acabado a seus clientes. Os autores
aumentando assim os resultados de uma
salientam que para as empresas as normas
empresa e a satisfação daqueles que
são de extrema importância no o crescimento
adquirem o produto.
da produção tanto de bens como serviços,
Ruiz (2006) acrescenta que as organizações pois influenciam as organizações a
não são obrigadas a certificar-se no sistema desenvolver pesquisas sobre como ampliar os
de gestão ambiental, porém tem o dever de sistemas de gestões e atrelá-los a
exercer seus processos de acordo com as certificação, com essa união os resultados
normas ambientais instituídas em leis, obtidos são a conquista de mercados
decretos, portarias, entre outros, nacionais e internacionais firmando uma
estabelecendo uma política ambiental em confiabilidade junto a clientes, fornecedores e
uma organização que busca a preservação e colaboradores
segurança tanto da natureza quanto do
Conforme informações disponíveis no site da
homem.
ABNT (2016), a mais recente das normas é a
Por ser uma opção indispensável numa ISO 14001, que é indispensável para ajudar
organização, a implantação do SGA no desempenho ambiental das empresas,
desempenha resultados positivos tanto além de funcionar para gestão sistemática e
econômicos e financeiros quanto ambientais, contribuir para a sustentabilidade, buscando
partindo dessa premissa, altos padrões estão resultados numa organização que vai de
sendo exigidos quando o assunto é a encontro com a política ambiental, que se
natureza. Os olhos de consumidores, aplica a qualquer tipo, tamanho e natureza de
empresas e até mesmo do fisco estão uma empresa.
voltados para as corporações quando o
assunto é o cumprimento de uma gestão
ambiental de qualidade nos produtos e em 2.3.1. NORMAS DA SÉRIE ISO 14001
seu processo de produção. Nesse caso,
De acordo com Curi (2011), com a questão
quem não se adequar ao sistema de gestão
ambiental em alta, a ISO decidiu trazer o tema
ambiental estará arriscando seus negócios,
para o mundo dos negócios, elaborando uma
pois não se trata apenas de legislação
abordagem padronizada para a gestão
ambiental, mas de mudanças que preparam
ambiental e foi assim que surgiu a série de
para um mercado competitivo.
normas ISO 14000. Dentre esses princípios, a
ISO 14001 é a única capaz de fornecer as
organizações certificações que comprovem
2.3. NORMAS ISO
que as empresas seguem à risca os
Pilz et al (2015) descrevem a respeito do processos de gestão ambiental aconselhados
surgimento das normas ISO que ocorreu com pela organização internacional.
a crescente evolução industrial, onde a
A norma ISO 14001 é aceita
agressão causada na natureza ficou mais
internacionalmente e define as condições
evidente resultando em impactos ambientais
para vigorar um sistema de gestão ambiental
que provocaram enormes problemas a órgão
numa empresa, ajudando no desempenho
ambientais e autoridades responsáveis pelo
das organizações por meio da utilização
assunto, foi a partir daí que a International
adequada dos recursos e do descarte de
Standardization Organization (ISO),
resíduos incapazes de serem aproveitados.
desenvolveu normas focadas na gestão
Ela é adequada a todos os tipos de
ambiental e a adaptação aos sistemas
empresas, sejam elas de pequeno, médio ou
contábeis já utilizados pelas empresas uma
grande porte, exigindo que essas entidades

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


95

considerem qualquer fator ambiental envolvidos mais de 5 mil colaboradores


referentes às suas operações e assim como diretamente na produção.
todas as normas de sistemas da gestão, a
De acordo com a Direct Selling News que
ISO 14001 abrange a necessidade de uma
apresenta anualmente as principais empresas
melhoria contínua dos sistemas com
de vendas diretas mundiais e o domínio que
abordagem ambiental (ABNT, 2016).
as indústrias possuem na economia e na
A certificação ISO 14001 não depende sociedade de magnitude global, divulgou em
somente das empresas, elas precisam 2016 o ranking de 100 maiores empresas do
ultrapassar as fronteiras de suas mundo onde a Natura ocupa o 8º lugar dessa
organizações para buscar avaliação de um colocação com faturamento referente ao ano
órgão credenciador, que é responsável por de 2015, de aproximadamente 2.410 bilhões
analisar os pedidos e encaminhá-los para de dólares (ABEVD, 2016).
entidades certificadoras, que tem como
Conforme o relatório da empresa, seus
principal função auditar as empresas para
valores são direcionados para a sociedade
verificar se então de acordo com requisitos
em geral com olhares voltados para várias
obrigatórios para obter a certificação (CURI,
dimensões como social, econômica e
2011).
ambiental, a missão da Natura consiste em
A norma ISO 14001 é fundamental para a promover o bem-estar de seus colaboradores,
geração de novos empregos, pesquisas clientes e fornecedores. Com uma visão
científicas e aquecimento da economia voltada para a sustentabilidade, a Natura
através da prestação de serviços e busca transformar sua imagem em positiva
fornecimento de bens, e com essa frente a sociedade ajudando tanto as pessoas
certificação as organizações tem mais como o meio ambiente, foi assim que em 2014
destaque no mercado tanto interno quanto lançou a Visão de Sustentabilidade 2050. O
externo e conquistam clientes, ganham plano futuro de sustentabilidade deixa claro
respeito dos fornecedores e acima de tudo que a organização acredita na capacidade de
lealdade de seus funcionários. Atualmente ajudar a construir um meio ambiente e uma
alcançar essa certificação significa que a sociedade melhores, ela também busca gerar
corporação prioriza o meio ambiente e a impactos positivos em diversas áreas como:
sociedade, deixando transparecer uma na economia, na sociedade, no meio
conduta positiva frente à população ambiente e até enriquecendo a cultura da
(NASCIMENTO; MORAIS, 2013). população.

2.4. NATURA 2.4.1. POLÍTICAS E PRÁTICAS DE GESTÃO


DA EMPRESA
Há mais de 40 anos no mercado, a Natura é
uma das maiores empresas do ramo de Por ser considerada uma empresa de grande
perfumaria, cosméticos e higiene pessoal no porte comparada a outras indústrias
Brasil, e atua na venda e distribuição de brasileiras e de médio risco relacionado com
produtos inovadores produzidos através de a degradação que ela está sujeita a causar
matérias primas retiradas da natureza e com suas atividades, a Natura possui uma
desde que integrou o grupo de empresas de grande responsabilidade com o meio
capital aberto em 2004, faz parte do índice de ambiente já que na fabricação de seus
sustentabilidade empresarial da produtos utiliza como fonte principal os
BM&FBovespa (NATURA, 2016). recursos naturais, além de que a principal
imagem de negócios da empresa é a
Noguti et al (2008) explicam que além do
natureza (NOGUTI, 2008).
Brasil, a empresa tem sede em outros países
como na Argentina, no Chile, no México, no A Natura divulgou em seu Relatório Anual
Peru, na Venezuela e na França, e a Bolívia (2005) que se posiciona como responsável
tem acesso aos produtos da Natura através em gerenciar os impactos ambientais
de consultores sediados no país. A empresa causados por suas atividades de maneira que
distribui seus produtos por meio da venda consiga identificar o que pode ser minimizado
direta e conta com mais de 617 mil daquilo que é negativo e o que pode ser
consultores e consultoras para levar as ampliado no que diz respeito aos impactos
mercadorias para seus clientes e somando positivos e com essas atitudes seja capaz de
todas as áreas de atuação da Natura, estão apresentar para outras organizações as

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


96

práticas e conhecimentos que ela adquiriu consumo de água e energia até o


com a implantação de políticas e gestões reaproveitamento desses recursos.
ambientais. A empresa aponta ainda suas
diretrizes de política ambiental e dentre elas
está a responsabilidade com gerações 3. METODOLOGIA
futuras, a educação ambiental, o
A fim de atender o objetivo proposto, que
gerenciamento do impacto do meio ambiente
consiste em verificar os impactos obtidos com
e a durabilidade de bens e serviços e por fim
a aplicação do sistema de gestão ambiental
a redução de entradas e saídas de matérias-
na empresa Natura Cosméticos S.A, realizou-
primas.
se um estudo exploratório, de abordagem
Na responsabilidade que a Natura adota com qualitativa. Segundo Trivinõs (2008), o estudo
as gerações futuras, está explícito o exploratório auxilia o pesquisador a solucionar
cumprimento dos parâmetros e requisitos e/ou aumentar sua expectativa em função do
exigidos pela legislação e as normas internas problema determinado. Sobre a abordagem
da empresa, o acompanhamento e vigilância qualitativa, Souza et al (2011) citam que nesse
dos processos de produção também tipo de pesquisa é muito importante uma
demonstram a preocupação que a definição detalhada das técnicas utilizadas
organização tem com seus clientes, assim para a compreensão do processo
como a melhoria contínua dos processos e a interpretativo, sendo capaz de influenciar o
inclusão de questões ambientais em toda surgimento de novos estudos qualitativos
cadeira produtiva. A educação ambiental é contribuindo cada vez mais com o
propagada individualmente e coletivamente aperfeiçoamento da aplicação dessa
para seus colaboradores, fornecedores e metodologia.
consumidores, qualificando seus funcionários
Já em relação aos procedimentos utilizados
por meio de treinamentos e palestras para
nessa pesquisa, adotou-se a análise
que exerçam a sustentabilidade em suas
documental. Conforme Oliveira (2007), uma
atividades dentro e fora do local de trabalho
análise eficaz requer a busca em
(NATURA, 2005).
documentos, pois são eles os registros
No gerenciamento dos impactos causados no escritos que proporcionam informações dos
meio ambiente, a Natura opera sistemas de fatos e relações, possibilitando conhecer o
gestão ambiental voltados para fatores de período histórico e social dos fatos, pois se
riscos com novos projetos, distribuição de constituem em manifestações registradas de
recursos, treinamento de colaboradores e aspectos da vida social de determinado
auditoria em todos os processos. Já nas grupo.
diretrizes de política de meio ambiente
Diante disso, o presente estudo explorou os
voltadas para a redução de entradas e saídas
relatórios divulgados anualmente pela
de materiais, a empresa se preocupa em
empresa Natura Cosméticos S.A., nesses
diminuir o consumo de água, energia elétrica,
documentos foram analisados itens como
produtos nocivos à saúde humana e do meio
indicadores de gases poluentes, tratamento
ambiente e também de matérias-primas,
de água, consumo de energia elétrica,
revertendo o consumo em reciclagem dos
materiais reciclados, investimentos e
resíduos produzidos (NATURA, 2005).
despesas ambientais, além do indicador de
O Relatório Anual de 2004 mostra a rotatividade dos colaboradores. Tais
preocupação que a empresa possui referente informações foram agrupadas em 5 gráficos e
às questões ambientais, e mediante o seu 1 tabela através do Software Excel e foram
interesse em adaptar sua estrutura para avaliados no período entre o ano 2004, em
minimizar os dados ambientais, buscou a que foi obtida a certificação NBR ISO 14001,
certificação da norma ISO 14001, a qual foi e o último relatório divulgado, relativo a 2016,
concedida neste mesmo ano. Durante o totalizando 13 relatórios anuais analisados,
processo foi analisado e monitorado os riscos levantando as informações mais relevantes
ambientais e com a certificação obtida a para suprir com o objetivo dessa pesquisa.
empresa passou a adotar o Sistema de
Gestão Ambiental Natura - SIGAN, que foi
executado tendo como base a NBR ISO 4. ANÁLISE DOS DADOS
14001, cujo principal objetivo é identificar
Antes de analisar os impactos obtidos com a
itens imperfeitos na produção, desde o
implantação do sistema de gestão ambiental

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


97

na empresa Natura Cosméticos S.A., por meio informaçõesa respeito dos impactos
da análise de relatórios anuais, é importante causados na sociedade.
destacar a qualidade da contabilidade
Zahaikevitch et al (2011) afirmam que no
ambiental na organização. Em julho de 2016,
Sistema de Gestão Ambiental, o principal
durante um evento internacional em Londres,
objetivo não é obter lucro mas desenvolver
foi divulgado o levantamento completo de
programas sustentáveis voltados para o
ganhos e perdas ambientais, o EP&L –
controle do consumo de energia elétrica, uso
Environmental Profit &Loss. Com esse
da água e descarte de materiais,
acontecimento, a Natura tornou-se a primeira
acompanhando todas as fases de produção.
empresa da América Latina a divulgar seus
Curi (2011) acrescenta que as empresas,
resultados evidenciando os impactos
além de gerarem impactos sociais e
positivos e negativos de toda a cadeia
econômicos consequentemente refletem no
produtiva da empresa, desde a produção até
meio ambiente: na emissão de poluentes e na
o descarte das embalagens por seus
extração de recursos naturais.
consumidores (NATURA, 2016).
Diante disso, é possível notar que a Natura
O levantamento realizado através dos
vem fazendo esse trabalho de monitoramento
relatórios evidenciou os impactos positivos
ambiental desde sua certificação NBR ISO
que a empresa gerou com a gestão ambiental
14001 em 2004, auxiliando os gestores na
por meio da contabilidade e o EP&L passou a
tomada de decisões mais responsáveis
ser um importante indicador para calcular os
voltadas ao meio ambiente, e foi em 2009 que
danos ambientais em todas as etapas de suas
a organização implantou uma metodologia de
atividades produtivas, sendo esse estudo
planejamento integrada, encarregada pelo
primordial para os impactos refletidos em
controle dos indicadores econômicos, sociais
diversas áreas da empresa. “Com esse
e ambientais, capaz de acompanhar a
estudo, buscamos conhecer e detalhar os
influência desses fatores nas atividades da
impactos ambientais gerados por nossas
empresa (NATURA, 2009).
operações e definir estratégias para
neutralizá-los”, diz José Roberto Littiere, vice- Conforme o Gráfico 1, houve uma queda
presidente financeiro da Natura, em uma brusca das emissões de CO₂E entre 2007,
entrevista para a redação de imprensa período que inaugurou o Programa Carbono
(REDAÇÃO NATURA, 2016, p.1). Neutro, e o ano de 2013. Na implantação
desse programa na gestão ambiental da
No Relatório Anual Natura (2016), o resultado
Natura, foi estabelecida uma meta para
estimado em 2013 nas demonstrações
redução de gases de 33% até 2011, porém o
financeiras, referente ao impacto ambiental
resultado encontrado até o fim do período foi
com o consumo de água e energia elétrica,
de uma queda nas emissões de poluentes
materiais utilizados e emissões de gases
gasosos de 29,3%, ou seja, no ano que
poluentes foi de R$ 132 milhões e teria sido
deveria atingir a meta, sua redução tinha sido
ainda maior (aproximadamente R$ 164
de apenas 21,5% e não conseguiram
milhões) sem a aplicação do Programa
alcançar os resultados pré-estabelecidos.
Carbono Neutro em 2007, que monitora os
processos produtivos para diminuir as Posteriormente, é possível observar a grande
emissões de gases do efeito estufa – GEE, redução nas emissões de CO₂E, em 2008,
que por meio da contabilidade ambiental teve onde a Natura tornou-se uma empresa líder
um resultado favorável de R$ 77 milhões. em carbono neutro por compensar essas
Conforme Ferreira (2003), a contabilidade emissões na produção que não puderam ser
ambiental não se difere do controle que já é evitadas, por troca de crédito de carbono. Foi
feito pelas empresas, ou seja, todos os assim que em 2009 estabeleceu uma nova
eventos do patrimônio ambiental devem ser meta de redução ainda mais ousada: diminuir
registrados contabilmente, e as até 2012 a emissão de gases no meio
demonstrações são importantes para fornecer ambiente em 10%, e conforme o Gráfico 1, a
a investidores e gestores da organização Natura ultrapassa a meta com um valor
redutível de 13,3% (NATURA, 2013).

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


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Gráfico 1 – Redução das emissões de CO₂E

Fonte: Adaptado do Relatório Anual Natura (2013)

Em 2010, gestores lançaram o programa consistem na diminuição da demanda de


“Menos Carbono, Mais Produtividade”, que recursos naturais em processos produtivo e
permitiu que eles fossem capazes de estimar consequentemente a melhora no desempenho
as emissões de GEE antes mesmo de econômico da organização e isso envolve
produzirem novos produtos e essa iniciativa também a redução de tudo aquilo que é
teve uma queda significativa de 2009 para lançado no meio ambiente que não é possível
2010 de 6,1%. Já no ano de 2011, com o reaproveitar.
relançamento da linha Ekos, a emissão de
Outro fator de destaque para a Natura é a
gases do efeito estufa diminuiu cerca de 45%,
reutilização da água no seu processo
e em 2013, com outro lançamento, agora na
produtivo, onde é possível verificar que desde
linha Sou que é responsável por produtos
2004 o cuidado com a reutilização de água foi
para pele e cabelo, reduziu até 60%
adotado pela empresa seguindo as normas
comparados com os anos anteriores
da política de meio ambiente da Natura e
(NATURA, 2013).
esse fato trouxe resultados positivos acerca
É importante ressaltar que esses resultados do alto índice de tratamento e
só foram possíveis através do sistema de reaproveitamento do recurso hídrico na
gestão ambiental, pois segundo Curi (2011), indústria, conforme demonstrado no gráfico 2.
os benefícios adquiridos com o SGA
Gráfico 2 – Tratamento da água na Natura Cosméticos S.A.

Fonte: Adaptado dos Relatórios Anuais Natura (2004 a 2016)


O Relatório Anual Natura (2005, p. 93) ao meta estabelecida para reciclagem de água,
referir-se à utilização da água ressalta que “a e em 2014 não foi diferente já que o ano
retirada anual respeita os critérios de apontou um alto índice de reaproveitamento
regeneração do lençol freático, havendo que aconteceu devido a campanhas voltadas
monitoração diária do limite de suas a crise hídrica que transcorreram nessa
outorgas”. A cada ano a empresa supera a época, esse embate estabeleceu um

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


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consumo mais consciente, valorizando o elétrica se deu em 2008, no qual foi criado um
cuidado com o desperdício de forma coletiva, comitê multidisciplinar para conscientizar os
envolvendo os gestores, colaboradores, colaboradores a adotarem um consumo
fornecedores e clientes da empresa. inteligente. Foi observado então, no Gráfico 3,
uma queda de 16,88% comparado a 2007, e
Outro recurso que apresenta um cuidado
esse fator provém da queda da temperatura
especial no processo de suas atividades é a
média no ano, que colaborou com a redução
energia elétrica consumida. O
do uso de ar-condicionado (NATURA, 2008).
acompanhamento do consumo de energia
Gráfico 3 – Consumo de energia elétrica

Matriz energética
por unidade vendida
(kjoules/unidade)

603,7 551,8 469,5 598,9 552,1


447,3 443,8 410 436

2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012

Fonte: Adaptado dos Relatórios Anuais Natura (2004 a 2012)


De acordo com o Relatório Anual Natura aperfeiçoamento para renovação do meio
(2009), tinha sido elaborado um plano de ambiente, reaproveitando todo material
consumo de energia solar para substituir a fabricado, que irá muitas vezes com destino
energia elétrica na indústria e com esse ao descarte (CURI, 2011). É esse
projeto logo foi possível identificar uma queda planejamento que a Natura vem fazendo em
significativa de energia por unidade em 2009, seus processos desde 2004 com o intuito de
de aproximadamente 25% com relação a que as extrações de recursos naturais não
2008. Em 2011, houve uma redução de 12% comprometam o equilíbrio ambiental e que
no consumo de energia em razão do plano de essas ações sejam conduzidas de forma
consumo que foi produzido dois anos antes. politicamente correta (NATURA, 2004).
Nesse mesmo ano foi possível identificar na
Pensando na reciclagem de materiais nos
indústria da Natura localizada em Cajamar,
processos de produção, em 2006 a Natura
que a utilização de energia relativa à
desenvolveu uma parceria com os fabricantes
climatização e ar comprimido (gás não
de máquinas para forneceram equipamentos
toxico), era de 50% com relação a todo o
sustentáveis de acordo com a política
consumo de energia da indústria (NATURA,
ambiental da empresa, buscavam por
2011).
fornecedores conscientizados a produzirem
Na extração de recursos naturais, é instrumentos que utilizassem menos água e
impossível removê-lo sem causar exaustão ao energia elétrica (NATURA, 2006). Em
ecossistema, porém para garantir a saúde da consequência dessa iniciativa, é possível
natureza e o seguimento da organização, é observar no Gráfico 4, que a Natura
indispensável o planejamento dos ciclos de desenvolve um programa de reciclagem de
produção com o propósito de materiais
fundamental para a natureza, pois seus
índices de reaproveitamento são elevados.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


100

Gráfico 4 – Impacto dos produtos

MATERIAIS - recursos reciclados

88,0% 88,7% 91,5% 86,0% 84,2% 83,7%


81,1% 84,1% 81,6%
73,4%

2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013

Fonte: Adaptado dos Relatórios Anuais Natura (2004 a 2013)


A Natura Cosméticos se preocupa com o ambientais. A partir da ideia do autor é
impacto ambiental e por isso investe em possível identificar a postura ambientalmente
novas tecnologias e programas capacitados correta da Natura frente a todas as
para atender sua política ambiental, como a possibilidades de reciclagem dos materiais
redução da massa da embalagem, matérias- que fazem parte do processo produtivo, mas
primas menos agressivas a natureza e então a que acabam não compondo o produto final na
reciclagem de resíduos não utilizados para venda, e assim a organização investe em
produzir. A empresa fabrica produtos que mecanismos de reaproveitamento dessas
acompanham uma tabela ambiental sobras para introduzir em embalagens e
informando dados como: origem, processo de frascos sustentáveis.
transformação utilizado, percentual de
Conforme o Gráfico 5, nota-se que a princípio
material reciclado, dentre outros. “Nossos
as despesas ambientais eram muito maiores
rótulos estão de acordo com as legislações
do que o investimento que a Natura dispunha
em vigor e respeitam todas as resoluções
para o controle ambiental dentro da empresa.
relacionadas a cosméticos definidas pela
Em 2009 esse cenário mudou apresentando
agência Nacional de Vigilância Sanitária –
uma redução significativa das despesas em
Anvisa” (NATURA, 2011, p.81).
aproximadamente 43% e um aumento nos
Valle (2002) salienta que a gestão ambiental investimentos em cerca de 48% e daí em
deve seguir os procedimentos adequados diante os investimentos mantiveram-se
para que a empresa alcance resultados maiores que as despesas, ou seja, o que foi
positivos com os investimentos e despesas aplicado a partir daquele ano não deu espaço
aplicados no controle de impactos para os gastos ambientais.
Gráfico 5 – Investimentos e despesas de gestão ambiental

Fonte: Adaptado dos Relatórios Anuais Natura (2004 a 2010)

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


101

Esse fato aconteceu devido ao aumento das gestão ambiental é fundamental para a
aplicações na área da logística e capacitação organização, instruir e capacitar seus
industrial, havendo treinamento dos colaboradores, pois isso é indispensável para
colaboradores e consultores para que eles o progresso da gestão.
engajassem em projetos socioambientais em
Em 2008 ocorreu uma organização estrutural
regiões precárias e necessitadas. Nesse
que atingiu principalmente os colaborados da
mesmo ano, a Natura inaugurou o programa
empresa no país, que a princípio houve certo
de desenvolvimento de lideranças que
desconforto por parte deles, mas logo em
também recebeu investimentos por volta de
seguida foram notados os primeiros sinais de
0,4% da receita líquida anual de 2009. Nota-
aceitação, pois a leveza, a agilidade e
se que o principal investimento da empresa
eficiência na tomada de decisões tornaram o
está focado na formação dos gestores para
ambiente administrativo muito melhor e foi
que enfrentem o desenvolvimento acelerado e
preciso tomar algumas atitudes como a
contínuo da organização nos próximos anos
redução de 8,6% no número de funcionários
(NATURA, 2009).
para que esse objetivo fosse alcançado
Para Seiffert (2011), o processo de educação (NATURA, 2008).
ambiental é fundamental na conscientização
Essa reestruturação que aconteceu naquele
do colaborador a adotar práticas sustentáveis
ano não teve impacto nos processos de
dentro e fora da empresa, mas que além da
produção muito menos nas vendas, porém a
instrução, o funcionário precisa estar
rotatividade no Brasil, expresso na Tabela 1,
sensibilizado para mudar sua atitude frente as
apresenta valor elevado quando comparado
questõesambientais. A autora ressalta que o
com os anos anteriores. Este alto índice de
manuseio incorreto de resíduos por
rotatividade é devido à aplicação do sistema
colaboradores incapacitados pode gerar
de gestão ambiental na empresa e apresenta
problemas econômicos, pois com o
uma taxa de rotatividade com um aumento
desperdício resultará num resultado negativo
correspondente a cerca de 38% com relação
financeiro, mas também pode gerar
a 2007, porém é abaixo comparado aos
problemas ambientais uma vez que aqueles
outros países que possuem uma variação
materiais que poderiam ser reciclados
considerável entre os anos anteriores e até
acabam tendo um descarte definitivo. Para
mesmo entre um país e o outro (NATURA,
ela, assim como a implantação do sistema de
2008).
Tabela 1 – Rotatividade dos colaboradores

2006 2007 2008


Brasil 6,7% 9,0% 12,4%
Argentina 19,7% 16,1% 16,6%
Chile 31,6% 20,4% 13,9%
México 36,3% 56,5% 42,7%
Peru 15,0% 17,2% 12,2%
França 6,6% 4,0% 35,0%
Venezuela¹ n.d 43,5% 31,9%
Colômbia² n.a 4,6% 35,4%
Fonte: Relatório Anual Natura (2008)
Durante o ano de 2006, a operação na 2004, assim que obteve certificação NBR ISO
Venezuela estava em estruturação para início 14001. Como é possível observar na Tabela 2,
o gerenciamento consiste nos resultados
das atividades e o indicador de rotatividade
voltados para a área financeira, social e
não foi medido.
ambiental da empresa, assim como nas
² A operação na Colômbia teve início em diversas áreas de atividade e dos pilares de
2007. atuação: processos, cultura e liderança
(NATURA, 2008).
Ao analisar os relatórios anuais da empresa,
observa-se a eficácia do Sistema de Gestão
Ambiental Natura após sua implantação em

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


102

Tabela 2 – Impactos com a aplicação do Sistema de Gestão Ambiental Natura

Implantação Desenvolvimento Impacto


Gastos com consumo
Redução total de R$
de água e energia R$ 164 milhões RS 132 milhões POSITIVO
32 milhões
elétrica
Aumento total de
Despesas de gestão R$ 2.277 mil RS 4.972 mil NEGATIVO
R$ 2.695 mil
Aumento total de
Investimentos R$ 308 mil R$ 6.638,7 mil POSITIVO
R$ 6.330,7 mil
Redução de Redução de Redução total de
Emissões de CO₂E POSITIVO
3,9% 33,2% 29,3%
Aumento total de
Tratamento da água 29.065 mᶟ 63.523 mᶟ POSITIVO
34.458 mᶟ
Redução total de
Consumo de energia 603,7 436
167,7 POSITIVO
elétrica kjoules/unidade kjoules/unidade
kjoules/unidade
Aumento total de
Materiais reciclados 73,40% 81,60% POSITIVO
8,2%
Fonte: Adaptado dos Relatórios Anuais Natura (2004 a 2016)
Os resultados obtidos com a aplicação do foram positivos, expressos por meio de vários
sistema de gestão na Natura, na maioria dos índices que apresentaram a redução no
parâmetros apresentaram impactos positivos, impacto ambiental causado por uma
pois houve reduções ou aumentos de fatores produção mais sustentável, consciente e
importantes tanto econômicos quanto planejada. Os resultados apresentam valores
ambientais. A organização ainda mostra redutíveis consideráveis como: redução dos
resultados com despesas em gestão gastos com consumo de água e energia
negativos, visto que houve um crescimento elétrica de aproximadamente R$ 132 milhões,
nos valores gastos com o gerenciamento redução total de 29,3% com emissões de
ecossistêmico. Se considerar que esse CO₂E, diminuição do consumo de energia
processo está em fase de desenvolvimento e elétrica de 167,7 kjoules/unidade. A empresa
que os gastos com recursos produtivos possui também resultados que aumentaram
diminuíram significativamente nas positivamente: crescimento de investimentos
demonstrações financeiras, são plausíveis os de R$ 6.330,70 mil, tratamento de água com
custos com esse fator. Epelbaum (2004) aumento de 34.458 mᶟ e materiais reciclados
reforça que os gastos com despesa de com crescimento de 8,2%.
gestão são evidentes, no entanto a
Foram analisados os relatórios da Natura
organização deve trabalhar para atingir
divulgados anualmente entre os anos de 2004
custos mais baixos, com o propósito de
a 2016, considerados uma peça chave para
oferecer a seus clientes produtos fabricados
verificar a efetividade que a gestão ambiental
com os padrões sustentáveis exigidos pela
causou na organização. Comprovou-se então
política ambiental.
que a empresa tem valores voltados para a
questão ambiental edificados em todos os
setores e isso compreende desde o processo
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
produtivo até mesmo os colaboradores das
Esse estudo teve por finalidade verificar os diversas hierarquias e essa efetividade é
impactos obtidos com a aplicação do Sistema fundamental para que a organização estruture
de Gestão Ambiental na empresa Natura suas atividades de planejamento como a
Cosméticos S.A. Para tanto realizou-se uma certificação ISO 14001, para adequar-se aos
pesquisa exploratória com abordagem parâmetros e condições do sistema de gestão
qualitativa, onde a análise documental foi o ambiental.
procedimento utilizado para alcançar o
Ao analisar os relatórios anuais da Natura, o
objetivo proposto.
presente estudo pôde apresentar de forma
De acordo com a análise evidenciou-se que clara e organizada os impactos causados no
os resultados adquiridos com a implantação meio ambiente de acordo com as informações
de uma gestão voltada para a área ambiental presente nesses documentos. A limitação de

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


103

pesquisa foi a veracidade dos resultados, ambientais. Para garantir exatidão dessas
visto que os valores expressos sobre o informações, é importante realizar estudos
sistema de gestão ambiental da empresa são futuros que acompanhe de perto se os
auditados por profissionais independentes processos produtivos da empresa são de fato
que são responsáveis pelo parecer acerca politicamente corretos e se os indicadores
das demonstrações contábeis elaboradas e ambientais realmente são controlados e
do acompanhamento de indicadores monitorados frequentemente.

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


105

Capítulo 9

Thaíse Caroline Milbratz


Vilmar Siewert Junior
Luciano Castro de Carvalho

Resumo: Com regulamentações mais severas e a conscientização dos


consumidores sobre proteção ambiental e responsabilidade social corporativ a, as
empresas já não podem simplesmente escolher a tecnologia ou o processo com o
menor custo, sem considerar cuidadosamente os fatores ambientais e sociais. As
estratégias operacionais sustentáveis de uma empresa apenas são benéficas
quando as estratégia s são alinhadas com a de seus Fornecedores e Clientes
(GIMENEZ; TACHIZAWA, 2012). Desta forma, buscou - se analisar se as práticas de
operações sustentáveis adotadas por Fornecedores e Clientes influenciam de forma
significativa no desempenho operacional de novos produtos. Para isto, realizou - se
uma pesquisa quantitativa, descritiva , do tipo survey. Foram pesquisadas 82
empresas da indústria têxtil de diferentes portes e idades. O instrumento de coleta
de dados abordou questões referentes a adoção de práti cas sustentáveis por parte
de Fornecedores e Clientes e questões referentes ao desempenho operacional de
novos pr odutos. Como resultado identificou - se que a adoção de práticas de
operações sustentáveis por parte dos Fornecedores influencia na eficiência em
custos, flexibilidade e velocidade, enquanto a adoção de práticas de operações
sustentáveis por parte de Clientes influencia a qualidade. Verificou - se que a
confiabilidade não está relacionada nem com Fornecedores e nem com Clientes,
mas é um desempenho de motivação interna.

Palavras - chave: Integração; Fornecedor; Cliente; Operações sustentáveis .

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


106

1. INTRODUÇÃO A preocupação com as práticas sustentáveis


deve-se à limitada oferta de recursos naturais,
Estudos sobre a integração da Cadeia de
ao limite do ecossistema em absorver os
Suprimentos vêm sendo articulados há algum
poluentes gerados, a responsabilidade
tempo pelos pesquisadores da área, que já
quanto aos riscos a que as organizações
apontavam a necessidade de uma relação de
estão sendo expostas, e principalmente ao
trabalho mais próxima entre os fabricantes e
crescimento da população e do consumo per
seus parceiros (FLYNN et al. 2010; DANESE,
capita. Os indicadores sugerem que estes
ROMANO, 2011).
índices tendem a permanecer o que aumenta
O aumento da concorrência em termos a preocupação, pois a demanda torna-se
globais e a demanda por melhores serviços e maior que a oferta e por consequência eleva
produtos por parte do consumidor fez com os preços dos produtos e o interesse
que as empresas sentissem a necessidade de daqueles que o exploram. A relevância da
repensar suas formas de trabalho, gestão de operações sustentáveis está na
identificando na cooperação uma estratégia influência das decisões das organizações em
que possibilita benefícios mútuos a todos os determinar com que grau de eficiência os
envolvidos na Cadeia de Suprimentos (FLYNN recursos serão utilizados, assim como o tipo e
et al., 2010; DANESE, ROMANO, 2011). O a intensidade dos resíduos que serão
aprimoramento dessa união, desse trabalho lançados no ecossistema (DRAKE; SPINLER,
conjunto, passou a ser o foco das empresas 2013).
que buscam melhores resultados (FLYNN et
A fim de garantir maior valor e desempenho
al., 2010).
superior para sua cadeia de suprimentos, as
Estudos que avaliam a Cadeia de manufaturas vêm estendendo as práticas de
Suprimentos como um sistema único são mais sustentabilidade para Clientes e
recentes, se comparados aos estudos dos Fornecedores. As operações sustentáveis
impactos unidimensionais. Porém, poucas estão diretamente relacionadas com a
pesquisas buscaram entender e aprimorar eficiência energética e redução de resíduos,
separadamente cada dimensão desse poluição, emissões, acidentes ambientais,
sistema. É importante compreender como as etc; a sustentabilidade social, que se refere a
dimensões operam individualmente, assim condições de trabalho, diversidade,
como, seu funcionamento conjunto (FLYNN et qualidade de vida, e a sustentabilidade
al., 2010; DANESE, ROMANO, 2011). econômica, que aborda a eficiência
operacional, participação de mercado,
Tratando-se do ambiente da indústria, os
vendas, etc. (GIMENEZ; TACHIZAWA, 2012).
Fornecedores e Clientes são elementos-
chave. Sua integração na cadeia de Com base no exposto, busca-se neste estudo
suprimentos pode ser relevante para os verificar se a adoção de práticas sustentáveis
fabricantes atingirem as melhorias pelos parceiros da Cadeia de Suprimentos,
necessárias e se manterem competitivos. Fornecedores e Clientes, influenciam no
Conforme sugere a Teoria Contingencial, o desempenho operacional de novos produtos.
desempenho da organização está Neste estudo a Cadeia de Suprimentos é
diretamente ligado à forma como a mesma testada separadamente, ou seja, há uma
consegue alinhar sua estratégia ao formato de dimensão relacionada a adoção de práticas
seus fluxos (RAGATZ et al.2002). O consenso de operações sustentáveis (OS) por parte de
dominante é que a integração da Cadeia de Fornecedores e outra dimensão considerando
Suprimentos é uma abordagem útil para o Cliente. Da mesma forma, o desempenho
melhorar diferentes tipos de indicadores de operacional foi dividido em custo, qualidade,
desemprenho (DANESE, ROMANO, 2011). flexibilidade, confiabilidade e velocidade.
Como as questões ambientais vêm se
tornando um fator significante no momento da
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
compra de um produto, ambos os setores,
público e privado, enfrentam a pressão de Esta seção esclarece os principais tópicos
seus consumidores, das regulamentações relacionados a pesquisa, que são: integração
ambientais e de outros stakeholders para da cadeia de suprimentos, operações
adequar suas políticas organizacionais aos sustentáveis, integração com Fornecedores e
aspectos ambientais (IGARASHI; DE BOER; Clientes e desempenho operacional.
FET, 2013).

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


107

2.1 INTEGRAÇÃO DA CADEIA DE integração relacionadas à Gestão Ambiental,


SUPRIMENTOS que conforme os autores, possui uma relação
positiva com a performance organizacional
Flynn et al. (2010, p. 59) definem Integração
(VACHON; KLASSEN, 2006).
da Cadeia de Suprimentos como “o grau com
que um fabricante estrategicamente colabora
com seus parceiros da Cadeia de
2.2 OPERAÇÕES SUSTENTÁVEIS
Suprimentos e gerencia de forma colaborativa
seus processos intra e inter-organizacionais”. Quando se discute a respeito das Operações
De acordo com os autores, o objetivo Sustentáveis, especificamente no
principal é proporcionar o máximo de valor gerenciamento delas, divide-se o termo em
para o Cliente (FLYNN et al. 2010). Para isso, gerenciamento das Green Supply-Chains e de
envolve a colaboração de toda Cadeia de Sustainable Supply Chains. Ahi e Searcy
Suprimentos para se chegar a resultados (2013), destacam que dentre as diversas
mutuamente aceitáveis (BOON-ITT; YEW definições analisadas em seu trabalho, ainda
WONG, 2011) não há um consenso e também não há uma
definição compreensiva entre os termos, mas
Flynn et al. (2010) apontam que as diversas
há certas convergências entre suas
dimensões da Cadeia se fundiram em três de
características.
maior relevância: a integração com Clientes,
Fornecedores e a integração interna. Ambas Percebe-se que a área de gestão de
as perspectivas são importantes para permitir operações vem sendo observada a partir da
que os membros da Cadeia de Suprimentos perspectiva da sustentabilidade (DRAKE;
sejam eficazes em suas ações, a fim de SPINLER, 2013). Em um nível micro, as
maximizar o valor da cadeia de suprimentos decisões irão determinar as tecnologias de
(FLYNN et al., 2010). distribuição e produção, que por sua vez, irão
determinar a eficiência, os materiais e a
A Integração com Clientes (downstream) e
energia que serão utilizados e também o tipo
Fornecedores (upstream) é comumente
e a intensidade de resíduos que irão para o
chamada de integração externa (VACHON;
ecossistema. A gestão de operações
KLASSEN, 2006). Danese e Romano (2011)
sustentáveis atua no que se refere aos
comprovam em sua pesquisa que a
desafios enfrentados na área de
Integração com Fornecedor é um elemento
sustentabilidade (DRAKE; SPINLER, 2013).
moderador entre a Integração com Clientes e
Diante disso, a sustentabilidade tem atraído
a eficiência no desempenho, ou seja, que em
interesse dentro do contexto das operações
determinadas situações apenas Integrar com
(CORBETT, 2009).
Clientes pode não trazer a eficiência desejada
para a indústria. Isso, pois a Integração com As decisões que determinam o impacto das
Clientes pode determinar outros custos firmas, no que se refere a sustentabilidade,
adicionais, devido às modificações estão relacionadas a correntes já
necessárias para acompanhar às estabelecidas na Gestão de Operações
necessidades dos consumidores. A como, design de produto, escolhas de
Integração com Fornecedores pode ser uma tecnologias e gerenciamento da cadeia de
ferramenta útil para limitar as implicações suprimentos (DRAKE; SPINLER, 2013). Neste
negativas da Integração com Clientes, sentido a gestão de operações está ligada à
ampliando assim o efeito positivo no sustentabilidade, figurando como elemento
desempenho (DANESE, ROMANO, 2011). chave nas cadeias de suprimento,
compreendendo, não somente os elementos
A literatura da Cadeia de Suprimentos se
operacionais que geram rentabilidade, mas
apoia no Paradigma Colaborativo, que propõe
também a sua relação com o planeta e as
que as organizações operam dento de uma
pessoas (KLEINDORFER; SINGHAL;
rede de relações inter-dependentes e
WASSENHOVE, 2005).
fomentadas por meio da integração
estratégica. Essa integração proporciona A definição de Sustainable Supply Chain
benefícios no desempenho organizacional, Management utilizada é:
como a redução de custos, a diminuição do
tempo de lançamento de produtos e a
melhora na qualidade dos produtos. O gerenciamento de materiais,
Entretanto, a investigação desse paradigma é informações e fluxos de capital bem como
ínfima quando que trata de atividades de a cooperação entre as empresas ao longo

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


108

da cadeia de suprimentos, objetivando


todas as três dimensões do
De acordo com Vachon e Klassen (2006), a
desenvolvimento sustentável (econômico,
gestão ambiental da cadeia de suprimentos
ambiental e social) que derivam das
pode ser vista, de maneira simplificada, como
necessidades dos Clientes e das partes
a gestão das atividades ambientais de duas
interessadas (SEURING; MÜLLER, 2008, p.
ou mais empresas que realizam transações.
1700)
Os autores trazem evidências empíricas que
organizações que desenvolvem a integração
de sua cadeia de suprimentos estão aptas e
Outra definição que corrobora com a de
propensas a atividades colaborativas e de
Seuring e Müller (2008) é a de que o
monitoramento ambiental e social. “GSCP -
Sustainable Supply Chain Management é:
Green Supply Chain Practices - é compatível
com outros esforços para integrar os
parceiros de toda a rede da cadeia de
[...] a estratégia, integração transparente e
suprimentos, o que sugere que objetivos
a realização de objetivos sociais,
econômicos e ambientais não conflitam
ambientais e econômicos da organização
necessariamente” (VACHON; KLASSEN,
na coordenação sistêmica de processos
2006, p.814).
de negócios inter-organizacionais chave
para aprimorar o desempenho econômico Uma organização pode escolher entre um
de longo prazo da companhia e de sua envolvimento e investimento direto de seus
cadeia de suprimentos (CARTER; recursos afim de proporcionar melhorias nas
ROGERS, 2008, p. 368) práticas ambientais de seus parceiros da
cadeia -colaboração, ou então, utilizar-se de
um mecanismo de menor contato que
Argumenta-se então, que “devido as pressões influencia a prática desses parceiros -
para a sustentabilidade ambiental é esperado monitoramento. As atividades de colaboração
que as organizações irão precisar envolvem o planejamento conjunto e a troca
implementar estratégias para reduzir os de conhecimentos e experiências referentes à
impactos ambientais dos seus produtos e fatores ambientais (VACHON; KLASSEN,
serviços” (LEWIS; GRESTSAKIS, 2001, p. 2006).
450).
O monitoramento é um processo reativo,
Diante do contexto da sustentabilidade em iniciado por imposições ambientais
Gestão de Operações, pode-se observar determinadas à empresa, e relevante tanto
também as chamadas Green Supply-Chains. para melhorar a performance ambiental, como
Srivastava (2007) afirma que o gerenciamento para proteger a empresa de acontecimentos
das Green Supply-Chains é um tema que imprevistos que possam afetar sua posição
ganhou interesse nas áreas de gerenciamento competitiva. Segundo os autores, quanto
de operações e da cadeia de suprimentos, maior a integração na cadeia, menores os
sendo sua base teórica constituída pela custos e a complexidade para o
gestão ambiental e gestão de cadeia de monitoramento, o que incentiva o investimento
suprimentos. A adição do termo green ao por parte das organizações (VACHON;
gerenciamento da cadeia de suprimentos, KLASSEN, 2006).
compreende a relação entre o gerenciamento
Green Jr. et al. (2012) esclarece que a
da cadeia de suprimentos e o ambiente
implantação de GSCP deve ser antecedida
natural (SRIVASTAVA, 2007).
pela incorporação de políticas de
A definição de Green Supply-Chain é dada sustentabilidade ambiental. De acordo com o
por Srivastava (2007, p. 54) e trata da: autor, o sucesso da GSCP está diretamente
relacionado com a facilidade em disseminar a
informação com Fornecedores e Clientes. Zhu
[...] integração do pensamento ambiental e Sarkis (2004) identificaram a importância do
em gestão da cadeia de suprimentos, programa de Gestão da Qualidade interna
incluindo design de produtos, material de como antecessor de GSPC. Resultados de
terceirização e seleção, fabricação de estudos anteriores apontam que existe uma
produtos, entrega do produto final para os relação positiva entre a implementação de
consumidores, bem como a gestão de fim GSCP e o desempenho operacional,
de vida do produto após sua vida útil. ambiental e econômico da organização

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


109

(AZEVEDO; CARVALHO; CRUZ MACHADO, restante da cadeia. Portanto, é fundamental


2011). Zhu e Sarkis (2004) contribuem que as organizações consigam repassar essa
afirmando que parece haver uma pressão e preocupação ambiental para o
oportunidade ganha-ganha para as empresas restante da cadeia envolvida (SARKIS, 2012).
que buscam implantar as práticas GSCP.
A prática de colaboração com Fornecedores
em questões ambientais produz benefícios
semelhantes a outras práticas que envolvem a
2. 3 INTEGRAÇÃO COM FORNECEDORES
colaboração com Fornecedores, ou seja,
A Integração com Fornecedor pode se tornar aprimora a habilidade de coordenar as
a chave do sucesso na Integração da Cadeia operações nas diferentes etapas do processo
de Suprimentos, onde adotar as melhores afim de responder às necessidades dos
práticas de fabricação auxilia os fabricantes e Clientes. Essa integração aumenta a
seus Fornecedores a estabelecerem satisfação dos Clientes e contribui para a
metas/estratégias comuns para melhor apoiar redução de resíduos, custos ambientais,
vários processos operacionais. Além disso, as custos operacionais e ainda, adiciona valor ao
indústrias podem integrar com os produto. De maneira adicional, o trabalho de
Fornecedores proporcionando comunicação design colaborativo com Fornecedores-chave
de dados rápida e gerenciamento de fortalece os esforços nas práticas
informações confiáveis (SO; SUN, 2010). ambientalmente corretas e reduz o tempo de
introdução de novos produtos (AZEVEDO;
Tanto comprador como fornecedor, incorrem
CARVALHO; CRUZ MACHADO, 2011).
em um custo para participar dessa
integração, sejam compromissos de tempo, Embora a compra de materiais
recursos humanos, financiamento - custo de ambientalmente corretos represente um custo,
transação. Segundo os autores, para justificar ela proporciona uma vantagem quando se
esses investimentos na integração, o valor trata de custos de eliminação de resíduos e
esperado dos fluxos combinados deve de responsabilidade técnica, além de
exceder as desvantagens de dividir o contribuir para a conservação dos recursos e
conhecimento com outras empresas. A consequentemente para a imagem
integração com fornecedor exige organizacional. Essa prática tem se tornado
salvaguardas apropriadas e mecanismos de um fator relevante na seleção de
coordenação para que resulte positivamente Fornecedores (ZHU; SARKIS; LAI, 2008;
(PETERSEN et al., 2005). AZEVEDO; CARVALHO; CRUZ MACHADO,
2011).
Os resultados expostos por Petersen et al.
(2005) reforçam a criticidade da decisão de Vachon e Klassen (2006) identificaram por
seleção de Fornecedores neste tipo de meio de estudos empíricos que uma maior
esforço, considerando não só as capacidades integração logística e tecnológica com
do fornecedor, mas também a cultura do Fornecedores, e um menor número de
fornecedor, o que terá um impacto sobre a empresas envolvidas no processo favorece as
capacidade da indústria para interagir com o práticas ambientais colaborativas e de
fornecedor de forma eficaz. monitoramento. A integração tecnológica,
que ocorre em um nível estratégico, além de
Quando se trata de integração com
melhorar a performance industrial cria uma
Fornecedores (upstream) afim de introduzir
propensão ao desenvolvimento colaborativo
GSCP, algumas das estratégias identificadas
de planos que abordam aspectos ambientais
são: a colaboração com Fornecedores, o
do design de processos e produtos
desenvolvimento de Fornecedores, o trabalho
(VACHON; KLASSEN, 2006).
com designers e Fornecedores para reduzir e
eliminar os impactos ambientais dos produtos,
a terceirização, as auditorias e a prática da
2.4 INTEGRAÇÃO COM CLIENTES
compra ambientalmente correta (ZHU;
SARKIS; LAI, 2008; AZEVEDO; CARVALHO; Dahlsten (2004) define Integração com Cliente
CRUZ MACHADO, 2011; SARKIS, 2012). como o processo de socialização onde o
conhecimento tácito do Cliente é repassado à
As principais pressões sofridas pelas
empresa. Ao envolver os Clientes, insights
organizações para melhorar o desempenho
profundos têm a oportunidade de emergir
ambiental são provenientes de grupos
(FLINT, 2002). Pals et al. (2008) ressaltam que
externos, ou seja, são impostas no final da
essa integração não se trata de estudar as
Cadeia de Suprimentos e se difundem para o

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


110

necessidades dos Clientes e criar algo para produtos e processos, porém considerando
saciá-las, mas comenta sobre a os resultados de custos, confiabilidade,
aprendizagem mútua que esta criação em produtividade, e impactos sociais e
conjunto traz. ambientais (GIMENEZ; TACHIZAWA, 2012).
Chhajed (2002 apud GIMENEZ; TACHIZAWA,
A integração com Clientes permite a redução
2012) expõe que os consumidores
de custos e mantém a confiabilidade das
consideram múltiplas dimensões de
operações, aumentando a qualidade dos
qualidade, e que produtos que oferecem
produtos e a capacidade de resposta às
apenas uma dimensão não são competitivos.
preocupações ambientais do mercado, e
diminuindo o tempo de lançamento de novos Tratando-se do desenvolvimento de produtos,
produtos. Esta prática ambientalmente correta duas questões são relevantes na associação
aumenta o nível de consciência ambiental e com a sustentabilidade: o seu desempenho,
faz dos Clientes parceiros nesta mudança, o ou impacto durante o uso; e sua
que gera uma maior satisfação. Os Clientes remanufatura, ou seja, seu impacto ambiental
também podem auxiliar as organizações nas e social após a utilização. As estratégias
especificações dos produtos, aumentando a operacionais sustentáveis de uma empresa
eficiência do processo e a satisfação do apenas são benéficas quando estão
mercado, uma vez que a prática reduz as alinhadas com a de seus Fornecedores e
taxas de rejeição dos Clientes (AZEVEDO; Clientes (GIMENEZ; TACHIZAWA, 2012).
CARVALHO; CRUZ MACHADO, 2011).
Com isso a Cadeia de Suprimentos e seu
A minimização dos resíduos ambientais é gerenciamento desempenha um papel central
outra prática que envolve a integração com os para as indústrias alcançarem a
Clientes, e representa para a organização um sustentabilidade, por duas razões. Primeiro, a
custo. Portanto, a participação dos Clientes Cadeia de Suprimentos tem um impacto forte
para a redução deste custo é importante para e profundo nos recursos naturais porque lida
aumentar o ganho ambiental com esta prática com os recursos renováveis e não renováveis
(AZEVEDO; CARVALHO; CRUZ MACHADO, necessários para a produção de um bem ou
2011). serviço. Isto resolve o aspecto relevante de
incorporar a sustentabilidade na Cadeia de
No estudo de Vachon e Klassen (2006) os
Suprimento. Em segundo lugar, as empresas
resultados demonstraram que a integração
podem usar o seu poder de compra para
com os Clientes traz benefícios limitados às
ajudar a incutir boas práticas ambientais e
GSCP, estando relacionado de maneira
sociais em toda a Cadeia (WOLF, 2011). Há
particular a integração tecnológica, que
evidências empíricas que os consumidores
acontece em nível estratégico, em atividades
buscam entender as condições sob as quais
de desenvolvimento de produtos e
os produtos foram produzidos, e desejam que
transferência de conhecimentos tácitos. Em
os mesmos tenham sido produzidos em um
contraste, os resultados não demonstraram
ambiente de forma sustentável (WOLF, 2011).
uma relação positiva entre integração logística
com Clientes e as práticas de GSCP. Esses A Integração com Clientes está relacionada
resultados fazem os autores se questionarem com decisões coordenadas entre os
quanto a quem cabe a responsabilidade por consumidores e indústrias. Seu efeito positivo
iniciar e manter a integração da cadeia, no desempenho de novos produtos pode
Fornecedores ou Clientes. estar relacionado a alguns fatores. Primeiro,
os consumidores podem auxiliar as empresas
Green Jr. et al. (2012) utilizando uma amostra
a desenvolverem produtos inovadores, de
de diferentes indústrias americanas,
acordo com suas necessidades e desejos.
identificou uma relação direta entre a
Outro ponto a ser considerado, é que
cooperação com os Clientes e a performance
conhecendo seu público, a empresa pode
ambiental, e um impacto indireto na
ofertar produtos personalizados. Os
performance econômica, que é mediada pela
consumidores podem retroalimentar as
performance ambiental.
indústrias com informações sobre a qualidade
e a performance na entrega do produto, assim
as mesmas podem tornar seus produtos mais
2.5 DESEMPENHO DO PRODUTO
eficientes (HE et al., 2014).
Para obter vantagem competitiva, uma
A Integração com Fornecedores também
indústria precisa desenvolver um modelo de
pode proporcionar vantagens no processo de
negócio que selecione alternativas de

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


111

desenvolvimento de produtos (HE et al., da Integração da Cadeia de Suprimentos, há


2014). “O envolvimento do fornecedor pode uma grande quantidade de sobreposição
variar desde uma simples consulta sobre entre elas, tornando- se difícil de desvendar
ideias, até torná-los completamente suas relações” (FLYNN et al. 2010, p.59).
responsáveis pelo design de componentes,
A conexão entra a Integração com
sistemas, processos ou serviços que eles
Fornecedores e com Clientes no
fornecerão” (RAGATZ et al., 2002, p. 389).
desenvolvimento de novos produtos ainda é
Utilizar o conhecimento e a experiência dos
bastante limitada (HE et al., 2014). O que se
Fornecedores para complementar as
sabe é que quanto maior o nível de integração
capacidades internas pode auxiliar a reduzir o
de ambos, maiores os benefícios (HE et al.,
tempo de resposta ao consumidor, reduzir os
2014).
custos, diminuir problemas de qualidade, e
melhorar o design (RAGATZ et al., 2002). Flynn et al. (2010) apontam que podem existir
diferentes configurações de Cadeias de
Características dos produtos estão
Suprimentos, pois essa variação está
associadas diretamente com a matéria-prima
relacionada à ênfase dada a cada dimensão
e as tecnologias utilizadas no processo (HE et
individualmente. A natureza das relações
al., 2014). Quanto mais cedo houver a
entre Clientes, indústrias e Fornecedores são
Integração com o Fornecedor, maiores serão
normalmente estabelecidas no início do
as vantagens em custo, na qualidade e na
processo de desenvolvimento de novos
confiabilidade do produto. A aquisição de
produtos (HANDFIELD; BECHTEL, 2002;
matérias-primas de qualidade e com uma
RAGATZ et al., 2002). Isso, pois, é nesta
menor variação, possibilita que as indústrias
etapa que ocorre efetivamente o desenho da
consigam manter seus padrões de qualidade,
cadeia de suprimentos, ou seja, quando as
o que também reduz a variação no processo
decisões de produto, processo e os sistemas
e com isso, uma diminuição do tempo de
de informação são especificados e
desenvolvimento e maior credibilidade do
determinados (PETERSEN et al., 2005).
produto (HE et al., 2014). HE et al. (2014)
sugerem que a Integração com Fornecedor Nesta pesquisa será analisada a interação da
melhora o desempenho por meio da organização com os Clientes e com os
capacidade de inovação de produtos. Fornecedores a fim de entender de que forma
esta interação afeta o desempenho e o tempo
de lançamento de um novo produto no
2.6 MODELO DA PESQUISA mercado. É esperado que a colaboração das
práticas sustentáveis, com Fornecedores e
A natureza da Integração da Cadeia de
consumidores, tenha influência positiva no
Suprimentos é complexa e muito
desempenho, como pode ser visto em Vachon
conhecimento é necessário para que a
e Klassen (2008) e Gavronski et al. (2012), de
performance, por exemplo, no
onde foram retiradas as questões para
desenvolvimento de novos produtos seja
elaborar os constructos que medem a
alcançada (HE et al., 2014). É importante
integração das práticas sustentáveis com
compreender a maneira como as dimensões
Clientes e Fornecedores. A Figura 1
operam individualmente, bem como a forma
representa o modelo de análise utilizado para
como elas funcionam em conjunto (FLYNN et
atender aos objetivos desta pesquisa.
al. 2010). “Embora cada uma destas
dimensões represente um importante aspecto

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


112

Figura 1 – Modelo de Análise

Fonte: Modelo adaptado de Vachon e Klassen (2008) e Gavronski et al. (2012)

3. METODOLOGIA pesquisadores e adaptado para melhor


entendimento por parte dos respondentes.
Para analisar a relação entre o
Para medir a dimensão “Práticas de
desenvolvimento de operações sustentáveis,
Operações Sustentáveis - Integração com
que ocorre por meio da Integração de
Clientes” foi utilizado como referência parte
Fornecedores e Clientes, e o desempenho
do questionário de Vachon e Klassen (2008)
operacional foi realizada uma pesquisa com
desenvolvido para mensurar os métodos
método quantitativo, descritiva, do tipo survey.
utilizados pelas empresas para desenvolver
Com ela objetiva-se mensurar se essas
operações sustentáveis, por meio da
integrações oferecem melhores resultados
integração com seus Clientes. Da mesma
para as indústrias no que tange ao custo,
forma, as questões foram traduzidas do inglês
qualidade, flexibilidade, velocidade e
para o português pelos pesquisadores e
confiabilidade.
adaptadas para melhor entendimento.
Um questionário on-line foi enviado, Quanto as questões da dimensão,
endereçado aos executivos e gerentes de “Desempenho operacional” foram baseadas
indústrias têxtil de Santa Catarina, de no instrumento de Ahmad e Schroeder (2003),
diferentes portes. A pesquisa aconteceu e busca avaliar de que forma a empresa está
durante os meses de agosto de 2015 a abril concretizando essa alteração em seu
de 2016. Retornaram para os pesquisadores desempenho.
um total de 82 questionários válidos de
O produto final desse processo resultou em
empresas pertencentes a indústria têxtil.
16 questões, medidas por meio de uma
As variáveis empregadas para mensurar a escala Likert de 5 pontos para monitorar a
dimensão “Práticas de Operações extensão na qual os sujeitos da pesquisa
Sustentáveis - Integração com Fornecedores” concordam com as declarações. Foi
foram adaptadas do trabalho de Gavronski et realizado um pré-teste para validação externa
al. (2012). Este questionário foi desenvolvido das escalas desenvolvidas com 23
para avaliar quais as técnicas utilizadas pelas especialistas da área sob estudo. Após o pré-
indústrias para garantir práticas de operações teste, duas questões foram ajustadas. As
sustentáveis em seu processo, por meio da dimensões e respectivas questões validadas
integração com seus Fornecedores, e foi são apresentadas no Quadro 1.
traduzido do inglês para o português pelos

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


113

Quadro 1 – Dimensões e questões validadas


Dimensão Código Itens Autores
Temos implantado melhorias no
Desempenho Custo processo que diminuem os custos de Adaptado de
produção
Nós conseguimos fabricar nossos
Ahmad e
produtos de acordo com as
Operacionacional Qualidade Schroeder
especificações feitas no projeto do
(2003)
produto
Nós conseguimos entregar as
Confiabilidade mercadorias aos nossos Clientes no
prazo combinado
Nós conseguimos mudar rapidamente o
volume de produção e a variedade dos
Flexibilidade
produtos para atender a demanda dos
Clientes
Nós geralmente lançamos novos
Velocidade produtos no mercado antes dos nossos
concorrentes
Nós solicitamos licenças ambientais de
Práticas de SUSTFOR01 Adaptado de
nossos Fornecedores
Nós solicitamos que nossos
Fornecedores tenham um sistema de Gavronski et al.
Operações SUSTFOR02
gestão ambiental implementado (por (2012)
exemplo, ISSO 14001)
Nós solicitamos de nossos
Fornecedores uma declaração formal
Sustentáveis – SUSTFOR03
sobre o cumprimento das normas
ambientais
Nós temos profissionais que auditam os
Integração com SUSTFOR04 Fornecedores em relação às questões
ambientais
Nós solicitamos aos nossos
Fornecedores que se comprometam
Fornecedor SUSTFOR05
com os objetivos de redução de
resíduos.
Envolvemos nossos Clientes em
Vachon e
Práticas de SUSTCLIENT01 atividades voltadas as metas
Klassen
ambientais.
Desenvolvemos com nossos Clientes
uma compreensão mútua de
Operações SUSTCLIENT2 -2008
responsabilidades em matéria de
desempenho ambiental.
Envolvemos nossos Clientes no trabalho
Sustentáveis – SUSTCLIENT3 para redução do impacto ambiental de
nossas atividades.
Envolvemos nossos Clientes no
Integração com SUSTCLIENT4 planejamento para antecipar e resolver
problemas ambientais.
Envolvemos nossos Clientes na tomada
Clientes SUSTCLIENT5 de decisão sobre maneiras de reduzir o
impacto ambiental do nosso produto.
Fonte: Elaborado pelos autores.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


114

Após coletados, os dados foram exportados operacional no desenvolvimento de produtos


para o software estatístico SPSS versão 22 (custo, qualidade, flexibilidade, velocidade e
para a análise dos dados. confiabilidade). Foi considerada como
significante a relação entre práticas
A primeira análise foi descritiva, mencionando
sustentáveis e desempenho que obtivesse p-
as características as organizações
value inferior a 0,05.
participantes na pesquisa. Em seguida
procedeu-se ao refinamento das dimensões Ressalta-se que as questões referentes ao
propostas no modelo teórico que teve o intuito desempenho operacional não foram testadas
de eliminar possíveis questões que não foram neste estudo como uma dimensão, mas foram
significativas ou que não estavam ajustadas testadas separadamente, como variáveis
as demais questões da mesma dimensão. isoladas, por considerar que se trata de uma
dimensão de caráter formativo, ou seja, as
Este refinamento foi feito por meio da análise
questões não são necessariamente
fatorial confirmatória, com base na análise de
correlacionadas. Assim, o modelo estrutural
todas as dimensões em conjunto, ligadas por
foi testado para cada tipo de desempenho
covariância, conforme sugerido por Koufteros
operacional. Por esse motivo, a dimensão
(1999) e Stratman e Roth (2002). As questões
desempenho operacional não passou pela
em suas respectivas dimensões foram
etapa de refinamento, unidimensionalidade e
analisadas por meio carga fatorial com
validade discriminante.
valores superiores a 0,70 e p-value inferior a
0,05. As questões que obtiveram coeficientes Os dados resultantes das análises foram
fora dos padrões estabelecidos foram apresentados em textos descritivos, tabelas e
retirados da análise. quadros.
Em seguida verificou-se a
unidimensionalidade das dimensões por meio
4. ANÁLISE DOS RESULTADOS
do cálculo do Alfa de Cronbach,
Confiabilidade Composta e Análise da A amostra desta pesquisa compreende 82
Variância Extraída. Para estes cálculos empresas da indústria têxtil localizadas no
considerou-se um coeficiente de 0,70 como Estado de Santa Catarina. Em relação ao
aceitável para os dois primeiros cálculos e de faturamento, 21% das empresas apresentam
0,50 para o último, conforme Hair et al (2009). receita anual menor que R$ 2,4 milhões, 27%
entre R$ 2,4 milhões e R$ 16 milhões, 28%
Verificou-se ainda a validade discriminante
entre R$ 16 milhões e 90 milhões, 14 % entre
analisando as dimensões em pares, com
90 milhões e 300 milhões e 10% com receitas
covariância. Em um primeiro momento
anuais superiores a R$ 300 milhões.
verificou-se o qui-quadrado e o grau de
liberdade desta relação. Em seguida No que diz respeito ao tempo de abertura das
adicionou-se um grau de liberdade por meio empresas, 17% possuem até 10 anos de
da restrição da covariância e verificou-se abertura; 28% possuem de 11 a 20 anos; 32%
novamente o qui-quadrado. A diferença de possuem de 21 a 30 anos; 7,3% entre 31 e 40
qui-quadrados para um grau de liberdade anos e 15,8% acima de 40 anos. Em se
deve ser superior a 3,84 para garantir tratando de principal mercado de atuação,
validade discriminante com confiabilidade de 52% atuam na região Sul, 42% na região
95%. Sudeste, 2% na região Norte, 2% na região
Nordeste e 2% na região Centro-Oeste.
Para finalizar testou-se o modelo estrutural,
por meio das modelagens por equações Após a descrição da amostra, foi realizado o
estruturais, utilizando o Software AMOS, em refinamento das dimensões que serão
que foi verificada relação entre as práticas utilizadas neste estudo como variáveis
sustentáveis desenvolvidas pelos independentes. O resultado do refinamento
Fornecedores e Clientes e o desempenho consta na Tabela 1.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


115

Tabela 1 – Refinamento das dimensões


Carga
Questões S.E. C.R. P-value
Dimensões Padronizada
SUSTFORN1 0,891 ***
SUSTFORN2 0,924 0,069 13,332 ***
Práticas de OS -
SUSTFORN3 0,954 0,072 14,56 ***
Fornecedores
SUSTFORN4 0,809 0,088 9,922 ***
SUSTFORN5 0,885 0,077 11,979 ***
SUSTCLIENT1 0,949 ***
SUSTCLIENT2 0,915 0,059 16,096 ***
Práticas de OS -
SUSTCLIENT3 0,898 0,061 15,039 ***
Clientes
SUSTCLIENT4 0,976 0,046 22,084 ***
SUSTCLIENT5 0,948 0,053 18,83 ***
Fonte: dados da pesquisa critérios de corte previstos na metodologia
O resultado da pesquisa aponta que as deste estudo.
questões constantes das dimensões Práticas Verificou-se também a unidimensionalidade
de Operações Sustentáveis – Fornecedores e das dimensões por meio do Alfa de
Clientes apresentam cargas fatoriais Cronbach, Confiabilidade Composta e Análise
satisfatórias, superiores a 0,70 e p-value da Variância Extraída (AVE). Os resultados
inferior a 0,05. Assim, nenhuma questão foi dos testes são apresentados na Tabela 2.
excluída por estarem de acordo com os
Tabela 2 – Unidimensionalidade das dimensões
Confiabilidade
Alfa de Cronbach AVE
Dimensões Composta
Práticas de OS -
0,950 0,951 0,800
Fornecedores
Práticas de OS - Clientes 0,970 0,973 0,880
Fonte: dados da pesquisa
De acordo com a Tabela 2, as dimensões de Antes do teste do modelo estrutural da
Práticas de Operações Sustentáveis, tanto de pesquisa, verificou-se estatisticamente se há
Fornecedores, quanto de Clientes, encontram- diferenças entre estas dimensões de modo
se com consistência interna superior a 0,70, que não estejam medindo o mesmo
indicando que as questões que compõem constructo teórico. A validade discriminante
cada dimensão possuem correlação das dimensões é apresentada na Tabela 3.
suficiente para pertencerem a mesma
dimensão.
Tabela 3 – Validade Discriminante.
Sem
Com Restrição Restrição
Dimensões em Pares χ² gl χ² gl ∆χ² Sig
Práticas de OS – Práticas de OS -
Fornecedores Clientes 60,970 35 56,147 34 4,823 0,028082
Fonte: dados da pesquisa

Verifica-se na Tabela 3 que a diferença de foram restringidas a um grau de liberdade é


qui-quadrado entre as dimensões quando superior a 3,84. Isso significa que se aceita a
estavam livres para correlacionar e quando validade discriminante entre as dimensões ao

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


116

nível de 0,05. Em outras palavras, as Por fim realizou o teste do modelo estrutural, o
dimensões que serão utilizadas como qual apresenta a relação entre as variáveis
variáveis independentes no modelo estrutural independentes e dependentes. O resultado
não são iguais ou não medem o mesmo deste teste é apresentado na Tabela 4.
constructo teórico.

Tabela 4 – Teste do Modelo Estrutural (modelo da pesquisa)


Peso da
Variável Dependente Variável Independente regressão p-value R²

Custos Fornecedores 0,359 ***


Clientes -0,033 0,756 0,130
Fornecedores 0,137 0,207
Qualidade
Clientes 0,264 0,014 0,089
Fornecedores 0,101 0,365
Confiabilidade
Clientes 0,157 0,155 0,035
Fornecedores 0,373 ***
Flexibilidade
Clientes -0,154 0,136 0,163
Fornecedores 0,495 ***
Velocidade
Clientes -0,122 0,210 0,260
CFI=0,98; GFI=0,885; RMSEA= 0,09; χ²/gl=1,651
Fonte: dados da pesquisa
Com base nos dados apresentados na Tabela 0,264; p-value= 0,014). Isto se deve ao
4, verifica-se que quando o desempenho envolvimento do Cliente na tomada de
operacional do produto é medido por meio da decisão das práticas ambientais que serão
eficiência em custos, apenas as Práticas de adotadas pela indústria têxtil, o que influencia
Operações Sustentáveis desenvolvidas por nas especificações do projeto dos produtos e
Fornecedores têm influência significativa por sua vez, na percepção de qualidade do
(peso= 0,359; p-value= 0,000). Assim, as Cliente e consequentemente na taxa de
certificações ambientais -ISO 14001- e a rejeição de produtos (AZEVEDO; CARVALHO;
adoção de políticas de melhorias de processo CRUZ MACHADO, 2011).
e redução de resíduos são percebidas como
No que se refere a confiabilidade de entrega
relevantes para as empresas da indústria têxtil
dos produtos no prazo combinado aos
como forma de geração de eficiência, e
Clientes, não se verificou influências das
consequentemente redução de custos.
práticas de Operações Sustentáveis adotadas
Conforme Zhu e Sarkis (2004) a maior parte
por Fornecedores ou Clientes. Sugere-se que
do custo ocorre nos estágios iniciais do
como há uma alta rotação de produtos por
desenvolvimento de produtos e com isso, é
causa das coleções, e que são desenvolvidas
relevante que o processo esteja devidamente
pelo menos quatro coleções de produtos por
articulado afim de reduzir esses custos e
ano, o atraso na entrega de uma destas
prevenir possíveis defeitos e perdas. A
coleções implica no prejuízo comercial dos
integração com Fornecedores para a adoção
produtos. Desta forma, a motivação para as
de práticas ambientalmente corretas contribui
entregas pontuais dos produtos ao Cliente é
para a redução de resíduos, custos
interna, não dependendo de ações de
ambientais e operacionais (AZEVEDO;
Fornecedores ou Clientes. Zhu e Sarkis (2004)
CARVALHO; CRUZ MACHADO, 2011).
entendem que a integração em busca que
Adicionalmente, evita custos com a
práticas ambientalmente corretas podem se
eliminação de resíduos e de responsabilidade
tornar um entrave na entrega dos produtos,
técnica (ZHU; SARKIS; LAI, 2008).
pois exige o compartilhamento dessas
Quando o desempenho é medido por meio da preocupações por todos os membros da
qualidade, verifica-se que este é influenciado Cadeia de Suprimentos.
basicamente pelas Práticas de Operações
Sustentáveis adotadas pelos Clientes (peso=

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


117

Em se tratando de flexibilidade, constatou-se Estudos que tratam do envolvimento do


que os Fornecedores (peso= 0,373; p-value= fornecedor e cliente no processo de
0,000) ao adotarem as Práticas de Operações desenvolvimento de produtos não têm
Sustentáveis e obedecerem às exigências e considerado a influência que a adoção das
normas ambientais, apresentam materiais e práticas sustentáveis pode ter sobre o
tecnologias alternativas que possibilitam desempenho operacional de novos produtos,
aumentar o poder de adaptação das mas sim, tem considerado o grau de
empresas às exigências da demanda, tanto envolvimento dos parceiros, relações de
em relação a variedade de produtos e volume confiança e poder na cadeia, estágio do
de produção. A flexibilidade está diretamente desenvolvimento de produto que os parceiros
relacionada com a satisfação do Cliente foram envolvidos, e etc.
(AZEVEDO; CARVALHO; CRUZ MACHADO,
Como resultado verificou-se que a adoção de
2011). Conforme Vachon e Klassen (2006), a
práticas pelo fornecedor influencia positiva e
integração com Fornecedores possibilita um
significativamente no desempenho
entendimento mútuo das capacidades e
operacional, quando medido pela redução
prioridades de cada empresa, e um maior
dos custos, velocidade de introdução de
alinhamento entre as metas e objetivos. Essa
novos produtos e flexibilidade produção. Os
relação madura entre as partes reduz a
clientes, por sua vez, influenciam na
necessidade de controle e aumenta a
qualidade dos produtos. Já a confiabilidade é
flexibilidade do processo, pois permite a
um desempenho operacional que não sofreu
cooperação na busca por soluções para os
influência dos parceiros externos, e por isso,
Clientes (VACHON; KLASSEN, 2006).
sugere-se que este indicador de desempenho
Por último, foi analisada a velocidade de seja buscado por motivação interna.
introdução de novos produtos ao mercado
Com base nos resultados encontrados,
como indicador de desempenho operacional.
identificou-se que ambas as integrações, com
Como os Fornecedores (peso= 0,495; p-
Clientes e Fornecedores, refletiram-se em
value= 0,000) possuem certificação e seguem
resultados de desempenho operacional
as regras estabelecidas para desempenho
positivos para a organização. Porém a
ambiental, os desperdícios da fabricação de
Integração com Fornecedores em busca de
materiais e tecnologias são eliminados,
práticas Sustentáveis mostrou-se mais
reduzindo o tempo de produção e o tempo de
relevante para os resultados no desempenho
entrega (AZEVEDO; CARVALHO; CRUZ
operacional. Esse resultado pode estar
MACHADO, 2011). Consequentemente, as
associado ao fato do Fornecedor encontrar-se
empresas têxteis conseguem desenvolver,
no início da Cadeia de Suprimentos e,
produzir e lançar os produtos no mercado
portanto, influenciar num maior número de
mais rápido que seus concorrentes. Esse
etapas do processo.
resultado está de acordo com estudos
anteriores (HE et al., 2014; ZHU; SARKIS; LAI, A prática de colaboração com os
2008). Fornecedores em questões ambientais
aprimora a habilidade de coordenar as
operações nas diferentes etapas do processo
5. CONCLUSÃO afim de responder às necessidades dos
Clientes (AZEVEDO; CARVALHO; CRUZ
A pressão que as organizações estão
MACHADO, 2011). Com a integração, a
sofrendo quanto às responsabilidades
organização tem a possibilidade de agregar o
ambientais e sociais precisa ser repassada
valor da sustentabilidade a seus processos e
aos demais membros da Cadeia de
produtos, criando uma imagem positiva para
Suprimentos para que, de forma colaborativa,
o mercado e ainda, melhorar seus resultados
consigam gerar soluções por meio de práticas
no que tange aos principais indicadores de
corretas. Logo, esta pesquisa contribui com a
desempenho operacional: custo, qualidade,
literatura verificando se a adoção de Práticas
flexibilidade, confiabilidade e velocidade para
Sustentáveis pelos parceiros da Cadeia de
o lançamento de novos produtos.
Suprimentos, Fornecedores e Clientes,
influencia no desempenho operacional dos Quanto às limitações do estudo encontra-se o
produtos. Para isto, foi utilizada uma amostra tamanho da amostra e a especificidade dos
de 82 empresas da indústria têxtil, de resultados quanto ao tipo de indústria. Assim,
diferentes tamanhos e idades. sugere-se em pesquisas futuras que este
modelo de pesquisa seja testado em

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


118

diferentes indústrias, com amostras ainda representantes da maturidade da manufatura


maiores. Sugere-se ainda que este modelo na adoção de práticas de operações
seja moderado pelo tamanho do mercado de sustentáveis, permitindo assim a comparação
atuação (nacional e internacional), tamanho com àquelas de maturidade inferior.
da empresas e idade da empresa.
Consideramos a partir destas sugestões as
moderações mencionadas podem ser
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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


120

Capítulo 10

Fabricia Silva da Rosa


Mirella Cristiane dos Santos
Heitor Gerson dos Santos

Resumo: A presente pesquisa tem como objetivo analisar o desempenho em


saneamento básico de municípios catarinenses com mais de 100 mil habitantes nos
anos de 2012, 2014 e 2016. A amostra limita-se a Joinville, Florianópolis, Blumenau,
São José, Criciúma, Chapecó, Itajaí, Jaraguá do Sul, Lages, Palhoça, Balneário
Camboriú, Brusque e Tubarão. A metodologia quanto aos objetivos é descritiva e
quali-quantitativa quanto aos procedimentos. Para alcançar o objetivo desta
pesquisa, primeiramente verificou-se a abrangência em saneamento básico
realizado pelos municípios por meio da análise do processo de prestação de
contas de prefeito, em seguida identificou-se a qualidade do serviço medido por
meio do Índice de Desenvolvimento Sustentável dos Municípios Catarinenses
SIDEMS/FECAM. Os resultados revelam que 12 dos municípios analisados
apresentam indicadores considerados alto e médio alto no que se refere a coleta de
lixo, ao abastecimento de água e coleta de esgoto, revelando também evolução
positiva do desempenho do ano 2012 para o ano de 2016. Releva também que o
município de Chapecó não apresentou o mesmo comportamento dos demais, com
maior deficiência no que se refere a coleta de esgoto. Para estudos futuros
considera-se relevante identificar fatores internos e externos que explicam o
desempenho municipal.

Palavras chaves: cidades sustentáveis, saneamento básico, indicadores de


desempenho.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


121

1- INTRODUÇÃO saneamento básico prevê que os usuários de


serviços de água e esgoto têm, desde 2007,
Segundo o Ministério do Meio Ambiente
uma série de direitos assegurados, como a
(2017) uma cidade sustentável é aquela que
universalização dos serviços de
busca um melhor ordenamento do ambiente
abastecimento de água e tratamento da rede
urbano primando pela qualidade de vida da
de esgoto para garantir a saúde dos
população e trabalha por uma cidade
brasileiros. Contudo, deixa claro compete ao
sustentável. Melhora a mobilidade urbana, a
município prestar, diretamente ou via
poluição sonora e atmosférica, o descarte de
concessão a empresas privadas, os serviços
resíduos sólidos, eficiência energética,
de saneamento básico, coleta, tratamento e
economia de água, entre outros aspectos,
disposição final de esgotos sanitários.
contribuem para tornar-se uma cidade
sustentável.
Dentre os aspectos relevantes neste conceito, 2- REFERENCIAL TEÓRICO
está justamente o saneamento básico, que
O conceito saneamento básico compreende o
segundo Cavinatto (1992) significa higiene e
abastecimento de água, o esgotamento
limpeza. Conforme a Organização Mundial de
sanitário, a coleta e a disposição de resíduos
Saúde (OMS), saneamento é o controle de
sólidos, a drenagem urbana e o controle de
todos os fatores do meio físico do ser
vetores, entre outras ações inerentes ao meio
humano, que exercem ou podem exercer
ambiente salubre (BRASIL. Cidades, 2005).
efeitos nocivos sobre o bem-estar físico,
mental e social. Portanto, saneamento básico Segundo Trata Brasil (2010) o tratamento de
entende-se acesso à água potável, coleta e esgoto vem associado à pobreza, junto com
tratamento de esgoto, e coleta e tratamento outros fatores de riscos, como subnutrição e
de resíduos urbanos. problemas de higiene. Porém a falta de
saneamento básico afeta principalmente a
Neste sentido, percebe-se que o Brasil
população com baixa renda. De acordo com
apresenta carências que afetam a qualidade
a Organização Mundial de Saúde (OMS) em
de vida da população, já que dados do
2004, doenças correlacionadas a sistemas
Instituto Trata Brasil (2015) demonstram que
precários de água e esgoto e a deficiência de
83,3% da população tem acesso à água
higiene causaram a morte de mais de 1,6
potável; 50,3% possuem acesso a coleta de
milhões de pessoas em países pobres. Além
esgoto, e apenas 42,97% do esgoto coletado
disso, segundo Guimarães, et al., (2007) no
é tratado; além disso o Instituto de Pesquisa
Brasil, há uma carência grave na área de
Econômica Aplicada (IPEA) revela que ocorre
drenagem urbana, submetendo diversos
coleta de resíduos em mais de 90% das
municípios a periódicas enchentes e
residências urbanas, contudo, apenas metade
inundações, além de problemas na área de
é devidamente destinado e tratado. Estes
controle de vetores.
dados demonstram que o saneamento básico
é insuficiente no Brasil, e que pode acarretar Como consequência, é percebido que a
em consequências relevantes para a saúde estrutura dos serviços de saneamento,
humana, equilíbrio ecológico e ordenamento principalmente no abastecimento de água e
urbano. esgoto sanitários, está associada à realidade
da urbanização e à multiplicidade de
Com base nesses dados, a presente pesquisa
atribuições de competência, além de possuir
tem como objetivo de analisar o desempenho
ligação com o desempenho do setor público
em saneamento básico de municípios
(SOARES et al., 2002).
catarinenses com mais de 100 mil habitantes
nos anos de 2012, 2014 e 2016. Outro aspecto importante a considerar é que
além da demanda atual não atendida, a
O presente estudo torna-se relevante ao tratar
população urbana é crescente. Segundo
o tema saneamento básico de forma a
Banco Interamericano de Desenvolvimento
compreender como estão sendo atendidas a
(BID) a população urbana da América Latina
população de cidades catarinenses. Pois se
e do Caribe está concentrada em áreas
reconhece que de um lado se tem o desafio
urbanas (cerca de 80% da população), além
de atender uma população que ultrapassa os
disso, o crescimento nesta região é
200 milhões de habitantes, e de outro uma
exponencial, com aumento de 50 a 80 por
obrigação dos municípios em prestar o
cento no período de 1950 a 2014, e com
serviço. Ou seja, a Lei 11.445/2007 que
projeção de atingir 86% em 2050 (BID, 2017).
estabelece as diretrizes nacionais de

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


122

Portanto, a maior concentração da população quanto aos procedimentos de coleta e análise


em área urbana acarreta maior demanda por dos dados. A amostra de pesquisa limita-se
saneamento básico. Neste contexto, percebe- aos municípios catarinenses com mais de
se uma preocupação latente com saneamento cem mil habitantes, sendo os municípios por
básico da população urbana brasileira, já que ordem de maiores para menores números de
há projeção de aumento da população de um habitantes: Joinville, Florianópolis, Blumenau,
lado e há oferta insuficiente de serviços do São José, Criciúma, Chapecó, Itajaí, Jaraguá
outro. do Sul, Lages, Palhoça, Balneário Camboriú,
Brusque e Tubarão. O período de análise
Estudos recentes demonstram que a ausência
limita-se aos anos de 2012, 2014 e 2016.
ou insuficiência de saneamento básico pode
acarretar em prejuízos à saúde humana ao Os dados são coletados no Índice de
meio ambiente. No Brasil, as doenças Desenvolvimento Sustentável dos Municípios
resultantes da falta ou de um inadequado Catarinenses IDMS/FECAM. O IDMS é
sistema de saneamento, especialmente em construído pela equipe da Federação
áreas pobres, têm agravado o quadro Catarinense de Municípios (FECAM), sendo
epidemiológico (BRASIL, 2006). Investir em uma ferramenta para a aplicação do conceito
saneamento é uma das formas de prevenir as de desenvolvimento municipal sustentável
doenças. Dados divulgados pelo Ministério da construído a partir de uma série de
Saúde afirmam que para cada R$1,00 indicadores considerados fundamentais para
investido no setor de saneamento, economiza- diagnosticar o grau de desenvolvimento de
se R$4,00 na área da saúde. um território. Considera que a
sustentabilidade é entendida como o
Para que as cidades sejam capazes de
desenvolvimento equilibrado das dimensões
atender a demanda atual e futura de
Social, Cultural, Ambiental, Econômica e
saneamento básico, é compreendido pela
Político-institucional.
sociedade, pelo poder público, pela
comunidade científica que deve haver O IDMS é calculado a partir da média
políticas públicas capazes de gerenciar aritmética dos índices de cada dimensão; os
recursos públicos de maneira eficiente. índices das dimensões, por sua vez, são
calculados pela média ponderada das
Portanto, requer dos gestores municipais
subdimensões, a partir dos pesos mostrados
medidas que possibilitem o atendimento à
na matriz “Composição do IDMS” (acima); os
população com saneamento básico, mas
índices das subdimensões são calculados
segundo Rosa et al (2016) o foco excessivo
pela média aritmética dos indicadores, que,
dos gestores públicos em forças coercitivas e
por sua vez, são calculados pela média
a ineficiência dos gastos públicos com
aritmética das variáveis. Assim, o índice geral
saneamento público podem acarretar em
é expresso na seguinte fórmula: IDMS =
problemas como a limitação de acesso a
(IDMSsc + IDMSe + IDMSa + IDMSpi)/4.
esgoto, abastecimento de água e coleta de
Onde, IDMS: Índice de Desenvolvimento
lixo.
Municipal Sustentável, IDMSsc: Índice de
Para Pinnto et al. (2017), a administração Desenvolvimento Municipal Sociocultural,
pública se norteia por princípios específicos IDMSe: Índice de Desenvolvimento Municipal
para a sua gestão, entre eles, o princípio da Econômico, IDMSa: Índice de
eficiência na prestação de serviços de Desenvolvimento Municipal Ambiental e
saneamento básico, onde a busca pela IDMSpi: Índice de Desenvolvimento Municipal
economia de recursos deve ter reflexos Político-institucional.
positivos de curto e longo prazo. Estes
Todos os índices e subíndices municipais são
aspectos podem contribuir diretamente para a
classificados em uma das categorias abaixo.
eficiência da gestão pública e indiretamente
As classificações são utilizadas em todos os
para o desenvolvimento social do país.
níveis do sistema, de modo que o usuário
possa verificar as classificações dos
municípios e regiões tanto para o índice geral,
3 – METODOLOGIA
quanto para dimensões, subdimensões,
Esta pesquisa caracteriza-se como descritiva indicadores ou variáveis, conforme Quadro 1.
quanto aos objetivos e quali-quantitativa

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


123

Quadro 1: Mensuração dos indicadores

Valor do IDMS Classificação

Maior ou igual a 0,875 ALTO

Maior ou igual a 0,750 e menor do que 0,875 MÉDIO ALTO

Maior ou igual a 0,625 e menor do que 0,750 MÉDIO

Maior ou igual a 0,500 e menor do que 0,625 MÉDIO BAIXO

Menor do 0,500 BAIXO


Fonte: FECAM (2017)
Os índices analisados nesta pesquisa limitam- séptica dos municípios catarinenses
se a dimensão ambiental, e utiliza-se dos apresentam o aperfeiçoamento dos serviços
indicadores diretamente relacionados ao de abastecimento de água e acesso à rede
saneamento básico, são eles: a) Cobertura de geral de esgoto ou fossa séptica em cada
saneamento básico dos municípios; b) município respectivamente.
domicílios atendidos direta ou indiretamente
por coleta de lixo dos municípios
catarinenses; c) domicílios atendidos por rede 4 – APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS
pública de água dos municípios catarinenses; RESULTADOS
d) domicílios com acesso à rede geral de
Para atender o objetivo da presente pesquisa,
esgoto ou fossa séptica dos municípios
nesta seção busca-se primeiramente
catarinenses.
descrever o cenário do saneamento básico
O índice que se refere a cobertura de dos municípios catarinenses desta pesquisa,
saneamento básico dos municípios e na sequência são analisados os indicadores
catarinenses, apresenta a porcentagem da referente a resíduos, abastecimento de água,
evolução do serviço de cobertura de e finalmente esgoto.
saneamento básico nos últimos cinco anos.
Inicialmente se observa o índice de cobertura
Significa dizer que coleta de lixo direta é a
de saneamento básico dos 13 maiores
coleta onde atende ao local onde se situa o
municípios catarinenses. Segundo FECAM
domicílio e a coleta de lixo indireta são os
(2017) esse indicador está ligado à
entulhos depositado em caçamba, tanque ou
implantação de sistemas e modelos públicos
depósito de serviço ou empresa, portanto, o
que promovam o abastecimento de água,
índice dos domicílios atendidos direta ou
esgoto sanitário e destinação correta de lixo,
indiretamente por coleta de lixo dos
com o objetivo de prevenção e controle de
municípios catarinenses, apresenta a
doenças, promoção de hábitos higiênicos e
evolução do serviço nos Municípios do Estado
saudáveis, melhorias da limpeza pública
de Santa Catarina. Os índices dos domicílios
básica e, consequentemente, da qualidade
atendidos por rede pública de água dos
de vida da população.
municípios catarinenses domicílios com
acesso à rede geral de esgoto ou fossa

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


124

Gráfico 1:

Fonte: Elaborado pelos Autores

Conforme Gráfico 1, em 2012 pode ser melhor cobertura de saneamento básico em


observado que os níveis de cobertura de 2016, com notas 0,95 e 0,92 respectivamente.
saneamento básico em Santa Catarina eram
Com tudo se for analisado a figura 1 em um
baixos, tendo Itajaí com a melhor nota 0,76,
aspecto geral, Blumenau e Itajaí possuem a
seguido de Blumenau, Joinville e Jaraguá
melhor média dos três anos avaliados, 0,81 e
com nota 0,75. Porém a média de cobertura
0,80 respectivamente. Com tudo também
de saneamento básico fica em 0,69, olhando
pode ser dito que desde 2012 os municípios
para o gráfico da figura 1 podemos dizer que
se preocuparam em melhorar sua cobertura
está é a pior média dos últimos 5 anos.
de saneamento básico, desta forma temos o
Em 2014 as situações para alguns municípios resultado de 2016 tendo um alto nível de
melhoraram, como é o caso de São José, cobertura.
Balneário Camboriú e Brusque, todos eram
Na sequência observa-se o indicador
inferiores a 0,70, porém neste ano
“Domicílios atendidos direta ou indiretamente
conseguiram ultrapassar essa marca. Com
por Coleta de Lixo”. Segundo FECAM (2017)
essa melhoria significativa em quase todos os
este indicador mede o percentual de
municípios a média subiu para 0,70. Tendo
domicílios atendidos direta ou indiretamente
apenas Tubarão e Florianópolis que
por coleta de lixo, com dados do Censo
permaneceram com o mesmo índice.
Demográfico 2010 – IBGE, da seguinte forma:
No ano de 2016 teve melhora, fazendo com 𝐷𝐴𝐶𝐿 = (𝐴𝐷 + 𝐴𝐼) 𝑇𝐷 Onde, DACL: Domicílios
que todos os municípios estudados que tem acesso à Coleta Direta e Indireta de
conseguissem melhorar seus índices, apenas Lixo; AD: Total de Domicílios com Acesso
Chapecó ficou inferior a 0,8. São José e Direto ao Lixo; AI: Total de Domicílios com
Blumenau são os municípios que apresentam Acesso Indireto ao Lixo; TD: Total de
Domicílios Particulares Permanentes.
Gráfico 2

Fonte: Elaborado pelos Autores.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


125

Conforme a Gráfico 2 os municípios água”. Segundo FECAM (2017) este indicador


analisados tiveram um padrão alto. Pode ser considera domicílios particulares e de
analisado que Florianópolis, Joinville e Itajaí moradia permanente que possuem acesso à
conseguiram manter nota máxima nos três rede pública de distribuição de água.
anos analisados. Porém Criciúma, Jaraguá do Portanto, domicílios que acessam a água por
Sul e Brusque conseguiram 99% no índice. meio de poços, fontes naturais, dentre outras,
são consideradas domicílios sem acesso à
O único município que sofre alteração é
rede geral de distribuição de água. Para
Blumenau em 2012 possuía 64% de
cálculo do percentual de domicílios atendidos
domicílios atendidos por coleta de lixo. Em
por Rede Pública de Água foram usados
2014 conseguiu atingir a nota máxima que
dados do Censo Demográfico 2010 – IBGE,
permanece em 2016. Há um atendimento a
conforme fórmula a baixo: 𝐷𝑅𝑃𝐴 = 𝐷𝐴 𝑇𝐷
legislação por quase todos os municípios.
Onde, DRPA: Domicílios Atendidos por Rede
Sendo considerado um bom indício de
Pública de Água; DA: Total de domicílios
cumprimento legal.
atendidos por Rede Pública de água; TD:
Em seguida observa-se o indicador Total de domicílios particulares permanentes.
“Domicílios atendidos por rede pública de

Gráfico 3

Fonte: Elaborado pelos Autores.


Por fim, observa-se o indicador “Domicílio
com acesso à rede geral de esgoto ou fossa
Conforme Gráfico 3, os domicílios atendidos
séptica”. Esse indicador possibilita conhecer
pela rede pública de água das cidades
a realidade municipal com relação ao Acesso
escolhida demonstram um padrão nos três
à Rede Geral de Esgoto ou Fossa Séptica dos
anos analisados, que pode ser dito que não
domicílios. Este indicador visa proporcionar
houve melhora no atendimento, porém
aos gestores municipais uma ferramenta de
também não houve um declínio no
política pública eficiente para garantir a
atendimento. São José lidera com 96% dos
prevenção do meio ambiente e da saúde da
domicílios atendidos, seguido de Lages com
população. No cálculo do percentual de
94%, e em terceiro tem dois municípios
Domicílios com Acesso à Rede Geral de
empatados Joinville e Criciúma com 93% de
Esgoto ou Fossa Séptica foram usados dados
atendimento.
do Censo Demográfico 2010 – IBGE, do
A única cidade que teve um baixo rendimento seguinte modo: 𝐷𝐸𝐹 = (𝐷𝑅 + 𝐷𝐹𝑆) 𝑇𝐷 Onde,
foi Chapecó com apenas 69% de domicílios DEF: Domicílios com Acesso à Rede Geral de
atendidos. Após Chapecó o pior município é Esgoto ou fossa séptica; DR: Total de
Brusque com 78% de domicílios atendidos. Domicílios com Acesso a Rede de Esgoto ou
Apenas esses as duas cidades possuem Pluvial; DFS: Total de Domicílios com Acesso
resultados inferiores a 80%, tornando assim a Fossa Séptica; TD: Total de domicílios
um padrão alto de atendimento. Particulares Permanentes.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


126

Gráfico 4

Fonte: Elaborado pelos Autores.


Conforme Gráfico 4 este índice possui um é descritiva e quali-quantitativa quanto aos
valor crítico comparado com os demais procedimentos.
índices analisados. Os municípios que lideram
Foram realizadas quatro análises: índice geral
este índice são: São José com 90% de
de saneamento básico, situação relacionada
domicílios com acesso, Blumenau com 87%
a resíduos, abastecimento de água, e
de domicílios atendidos e Criciúma com 86%.
finalmente esgoto.
Os municípios com piores indicadores de
Assim, primeiramente observou-se que em
acesso a rede de esgoto ou fossa séptica são
geral os treze municípios analisados constam
Palhoça com 73% de domicílios com acesso,
apresentam boa qualificação nos três anos
Joinville com apenas 58% dos atendidos e o
analisados, obtendo em 2016 indicadores
município com pior índice é Chapecó com
considerados como médio alto (Maior ou igual
37% de domicílios atendidos, ou seja, não
a 0,750 e menor do que 0,875) - Jaraguá do
chega nem a metade de domicílios atendidos.
Sul; Palhoça; Brusque e São José; e alto
Os demais municípios atingem pelo menos
(Maior ou igual a 0,875) – Blumenau;
entre 76% a 85%.
Criciúma; Joinville; Itajaí; Florianópolis; Lages;
Os indicadores de todos os municípios Balneário Camboriú e Tubarão.
permanecem iguais nos três anos, pode ser
No entanto, Chapecó não obteve o mesmo
extraído da figura que, os municípios não
desempenho dos demais municípios, sendo
conseguiram aumentar sua escala de
considerado com desempenho médio por
atendimentos, o que resulta destes valores
atender em torno de 65% nos três anos
constantes durante seis anos. Um problema
analisados.
que pode ser notado tanto nas figura 4 tanto
nas figuras 3 e 2, as maioria dos municípios O índice de domicílios atendidos por coleta
não apresentam um declínio, porém não de lixo revela que todos os municípios
apresentam qualquer tipo de melhora. analisados tiveram uma média considerada
alta pela metodologia IDMS/FECAM, tendo
municípios com 100% de atendimentos.
5 – CONCLUSÃO
Quanto aos domicílios atendidos por rede
A presente pesquisa teve como objetivo pública de água tem-se uma média de
analisar o desempenho em saneamento desempenho considerado alta e média alta,
básico de municípios catarinenses com mais com quase todas as cidades intercalando
de 100 mil habitantes nos anos de 2012, 2014 entre 78% a 96% de atendimentos, apenas
e 2016. A amostra limita-se a Joinville, Chapecó permanece fora desta faixa com
Florianópolis, Blumenau, São José, Criciúma, uma marca de 69% de domicílios atendidos.
Chapecó, Itajaí, Jaraguá do Sul, Lages,
Por fim, observa-se que o índice de domicílios
Palhoça, Balneário Camboriú, Brusque e
com acesso a esgoto ou fossa séptica em
Tubarão. A metodologia quanto aos objetivos
geral considerado com desempenho bom,
pois em média de 77% dos domicílios dos

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


127

municípios analisados possibilitam percentual de lixo, porém possibilita apenas 58% de


de atendimento à população considerado alto acesso à rede pública de esgoto.
ou alto médio. Porém Chapecó e Joinville são
Para estudos futuros sugere-se compreender
os responsáveis por baixar tanto esse índice.
o nível de gastos desses municípios com o
O que pode ser observado também, é que saneamento básico, para identificar eficiência
dentre os 13 municípios analisados, apenas na gestão pública. Além disso, considera-se
Chapecó está com aproveitamento baixo em relevante identificar fatores internos
quase todos os índices, e Joinville, analisando (institucional) e fatores externos
tem um excelente desempenho com a coleta (contingencial) que podem afetar o
desempenho no saneamento básico.
6 – REFERÊNCIAS loads/APOSTILA/Apostila%20IT%20179/Cap%201.
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de dezembro de 1979, 8.036, de 11 de maio de Dimensionamento econômico otimizado de redes
1990, 8.666, de 21 de junho de 1993, 8.987, de 13 de distribuição de água considerando custos de
de fevereiro de 1995; revoga a Lei no 6.528, de 11 manutenção. Eng. Sanit. Ambiental, v. 22, n. 1, p.
de maio de 1978; e dá outras providências. 145-153.
Publicado no Diário Oficial da União - DOU de [21] Plano Nacional de Saneamento Básico
8.1.2007 e retificado no DOU de 11.1.2007. (Plansab). Disponível em:
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<http://www.ufrrj.br/institutos/it/deng/leonardo/down Janeiro, v. 18, p. 1713-1724.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


128

Capítulo 11

Paulo Fonseca Ramos de Oliveira


Betane Faria de Oliveira
Sandra Simm Rohrich

Resumo Nas últimas décadas, as questões ligadas à sustentabilidade têm gerado


mudanças nos âmbitos econômicos e sociais, com o intuito de atender as
necessidades ambientais do nosso planeta. A conscientização ecológica, portanto,
é a principal ferramenta para assegurar que se cumpram novas práticas
sustentáveis, e neste processo as Instituições de Ensino Superior (IES)
desempenham um importante papel, contribuindo com seus estudos e
implementações de ações ambientais em seus campi. Esse artigo tem por objetivo
compreender como o conceito da sustentabilidade está sendo referenciado nas
Conferências Internacionais que tratam essencialmente da temática
sustentabilidade em IES, influenciando as práticas ambientais oriundas das IES.
Operacionalmente trata-se de uma pesquisa fundamentada em fontes secundárias,
especificamente os eventos internacionais que referenciaram a sustentabilidade em
IES. Inferindo como as Instituições de Ensino Superior são pouco exploradas e
restritas em relação ao seu gerenciamento ambiental, principalmente no Brasil.

Palavras chave: ustentabilidade; Sustentabilidade em IES; Conferências


Internacionais.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


129

1. INTRODUÇÃO sustentabilidade em IES, delineando as


proposições para o avanço dessa temática.
A questão da degradação ambiental
ocasionada pelo homem vem crescendo em
larga escala nos últimos anos, portanto, torna-
2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
se cada vez mais necessário abordar
alternativas que proponham práticas O desenvolvimento da pesquisa trabalha o
sustentáveis em todas as áreas sociais. Um conceito de sustentabilidade, abordando a
dos fatores que mais podem contribuir para o importância das Instituições de Ensino
equilíbrio ecológico é o setor educacional, Superior neste contexto, os avanços das
que além de exercer o papel de conscientizar questões relativas à sustentabilidade em IES
as futuras gerações nas tomadas de delineadas em âmbito internacional, e as
decisões, também se torna o modelo para principais conferências internacionais para a
toda a sociedade. sustentabilidade em IES e as proposições
para o avanço dessa temática.
A presença das instituições de ensino na
discussão sobre gestão ambiental não pode
ser descartada, pois elas também precisam
2.1 ORIGEM DO CONCEITO
encontrar soluções para os problemas
“SUSTENTABILIDADE”
pertinentes ao ambiente que as cercam
(ROCHA et al., 2015). De maneira geral a sociedade acredita que o
conceito “sustentabilidade”, é um termo
Independentemente de uma Instituição de
recente, e origina-se das conferências
Ensino Superior (IES) possuir caráter público
realizadas pela ONU nos anos de 1970.
ou privado, apresentar práticas sustentáveis,
Porém o que muitos não sabem, é que por
pode ser uma relevante característica em
trás deste conceito, estima-se 400 anos de
destaque diante de outras IES. Portanto,
sua origem. Nessa abordagem histórica, Boff
torna-se essencial a participação ativa das
(2012), descreveu em sua obra, que as
instituições nos processos decisórios da
primeiras iniciativas são muito remotas,
sociedade, promovendo à ética, e atendendo
originárias da Silvicultura.
as demandas sociais e ambientais.
Foi pelo uso intensivo da madeira, que as
Este artigo tem por objetivo compreender
florestas começaram a diminuir
como o conceito da sustentabilidade está
aceleradamente. Contudo, somente em 1560
sendo referenciado em Conferências
na Alemanha, veio a florescer a preocupação
Internacionais que tratam essencialmente da
pelo uso racional das florestas, visando à
temática sustentabilidade em IES,
necessidade de conscientizar a sociedade, e
influenciando as práticas ambientais oriundas
agir de modo que a natureza pudesse não só
das IES. Para tanto, traz a seguinte questão
se manter, mas também se regenerar. Neste
de pesquisa: Como as conferências
contexto surgiu a palavra alemã
internacionais para a sustentabilidade em IES
Nachhaltigkeit, que significa
têm influenciado as práticas nas IES Abrange,
“sustentabilidade” (BOFF, 2012).
para tanto, em termos de objetivos
específicos, realizar uma abordagem teórica A atenção com a sustentabilidade das
sobre como a sustentabilidade vem sendo florestas foi o principal fator na contribuição
abordada nas IES nacionais; e descrever as da origem de uma nova ciência, nomeada
conferências internacionais de como Silvicultura, que destina seus estudos e
sustentabilidade nas IES, apontando os seus pesquisas, à gestão dos ecossistemas
avanços em termos de objetivos, bem como florestais, e assim engajando novas
destacando a participação do Brasil nesses academias dedicas especificadamente a
eventos. estas questões.
O desenvolvimento do presente estudo tem o Posteriormente, a Revolução Industrial
seu início a partir do conceito de contribuiu, como uma das grandes vertentes
sustentabilidade, abordando a importância no crescente problemático ambiental. Barbieri
das IES neste contexto. Segue descrevendo, (2011), descreveu que a partir desse período
os avanços das questões relativas às houve a maior parcela de emissões ácidas,
sustentabilidades delineadas em âmbito de gases de estufa e de substâncias tóxicas,
internacional, estas, por sua vez, inspiram as assim como o aumento da produção de lixo,
iniciativas das IES e assim surgem, as causadas pelas embalagens industriais. O
primeiras conferências internacionais para a uso intensivo de inseticidas, herbicidas,

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


130

fertilizantes, fez com que a agricultura se  Sociais: refere-se ao capital humano,


tornasse uma atividade favorável na comunidade, sociedade como um
degradação ambiental. todo, proporcionando o bem-estar;
Em 1962 a bióloga Rachel Carson publicou a  Ambientais: refere-se ao capital
obra “Primavera Silenciosa” contribuindo natural, indicando que é preciso
significativamente com a literatura científica, amenizar o impacto ambiental
retratando liricamente a contaminação negativo e compensar o que não é
exercida pelo uso de agrotóxicos, que, por possível amenizar;
sua vez são os motivos de morte, das mais
 Econômico: refere-se a produção,
diversas espécies de fauna e flora.
distribuição de consumo de bens e
Em consequência da nova ciência, a serviços;
Silvicultura, o Clube de Roma – organização
não governamental, fundada em 1966,
produziu o relatório titulado “Os limites do smo sendo um interesse comum da
crescimento” em 1970, explorando quesitos sociedade, a sustentabilidade exige uma
de sustentabilidade, provocando um grande mudança de comportamento, consciência e
alarme ecológico. Este relatório causou diálogo, o que coloca as Instituições de
grandes discussões no meio empresarial, Ensino Superior, como principais agentes
científico e social, fazendo com que a ONU para esta transformação.
tomasse para si o tema, assumindo a
importância do assunto como necessidade
global nas mais abrangentes áreas sociais. 2.2 SUSTENTABILIDADE EM INSTITUIÇÕES
DE ENSINO SUPERIOR
A primeira Conferência Mundial sobre o
Homem e o Meio Ambiente, foi realizada em O desenvolvimento de uma consciência social
Estocolmo no ano de 1972, cujo resultado foi ecológica envolve as mais diversas áreas
a criação do Programa das Nações Unidas estruturais de uma sociedade, logo, o setor
para o Meio Ambiente, mais conhecido como educacional também está inserido nesta
PNUMA. Posteriormente, 1984, foi a Comissão perspectiva sustentável, principalmente por
Mundial sobre Meio Ambiente e exercer o papel fundamental de conscientizar
Desenvolvimento, que encerrou, em 1987, os tomadores de decisão no amanhã.
com o relatório “Nosso futuro comum” Destaca-se, que é preciso ir além de ensinar
liderado pela Primeira-ministra norueguesa as práticas corretas, é imprescindível que as
Gro Harlem Brundland, no qual a expressão organizações educacionais pratiquem aquilo
de desenvolvimento sustentável foi definida que ensinam.
como “aquele que atende as necessidades
das gerações atuais sem comprometer a De acordo com Tauchen e Brandli (2006),
capacidade das gerações futuras de existem duas correntes de pensamento que
atenderem suas necessidades e aspirações” se referente ao papel das IES. A primeira
(BOFF, 2012). aborda questões nas práticas educacionais
em formação e qualificação de seus
Um dos acontecimentos mais marcantes para egressos, para que estes em suas atuações
Ávila et al., (2015), foi a conferência Eco-92, profissionais possam abranger e priorizar as
resultando na Agenda 21, cujo documento necessidades ambientais. A segunda corrente
reforça a importância de cada país em se está voltada na implementação de um SGA
comprometer e cooperar, com soluções para (Sistemas de Gestão Ambiental).
os problemas socioambientais. Segundo
estes mesmos autores, o conceito de Tauchen e Brandli (2006) destacam a
desenvolvimento sustentável, ganhou necessidade de um projeto político-
destaque tanto no meio acadêmico quanto no pedagógico que estimule o homem, enquanto
meio empresarial. Ávila et al., (2015) citaram o ator político, na construção de proposta eco-
modelo denominado Triple Botton Line (TBL). desenvolvimentista, cujo qual apresente
Conhecido como Tripé da Sustentabilidade, o alternativas sustentáveis para a contribuição
modelo TBL se forma mediante três do equilíbrio ecológico, se enquadrando na
dimensões: sociais, ambientais e econômicas primeira corrente de pensamento criada por
(Elkington, 2012 apud Ávila; Madruga e eles. Nesse mesmo contexto Ávila et al.
Beuron, 2015). (2015), relevam a importância da filosofia
institucional, que: “é um o componente do
planejamento estratégico que pode revelar

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


131

muito sobre a organização e sua forma de Talloires, França, na qual presidentes e


gestão, evidenciando a missão, visão e reitores de universidades de diversas regiões
valores que nortearão seus objetivos, do mundo, se reuniram para discutir o papel
interesses e ações”. das IES na construção de um futuro
sustentável. Crendo na urgência de mudança
Na segunda corrente de Tauchen e Brandli –
de hábitos e ações que agridam o meio
inerente à implementação de um SGA nas
ambiente acreditaram na importância da
IES, pode-se aplicar a definição de Sistemas
responsabilidade que as universidades
de Gestão Ambiental proposto por Rocha
possuem na educação, pesquisa e
(2015), como: “instrumento de gestão que
desenvolvimento pessoal. Como resultado,
possibilita a uma entidade controlar o impacto
vinte e duas universidades, no Centro dos
de suas atividades no ambiente”. Barbieri
Estudos Europeus da Universidade de Tufts,
(2011) ressalta que a organização deve definir
assumiram em seguir dez ações a fim de
e documentar o escopo do seu SGA, a fim de
cumprir o objetivo da conferência. Tais como
esclarecer os limites dentro dos quais todas
o aumento da consciência de um
as atividades, produtos e serviços serão
desenvolvimento ambiental sustentável,
considerados. O sistema pode ser aderido a
criação de uma cultura sustentável
qualquer organização, cuja esta possui a
institucional, trabalhar com organizações
liberdade e flexibilidade para inserir o SGA, a
nacionais e internacionais para promover um
todas as unidades operacionais, ou em suas
impulso de universidades em todo mundo,
atividades específicas.
rumo a um futuro sustentável e por último,
Se as instituições incorporarem o discurso de manter o movimento para dar-se continuidade
que a sustentabilidade e a responsabilidade a temática (THE TALLOIRES DECLARATION,
social são produtos da organização, elas 1990).
terão aumento de produtividade,
No total, quatrocentos e noventa e nove
lucratividade, além de funcionários, docentes
universidades de mais de quarenta países
e discentes mais responsáveis nas suas
assinaram a declaração, e cinquenta e duas
ações (SEVERO et al., 2006 apud ÁVILA et al.,
universidades brasileiras fazem parte dessa
2015).
articulação (TALLOIRES DECLARATION
INSTITUTIONAL SIGNATORY LIST, 2016).
2.3 AS CONFERÊNCIAS PARA A Um ano depois, em dezembro de 1991, no
SUSTENTABILIDADE NAS IES Canadá, mais especificamente na cidade de
Halifax, houve outra conferência de grande
A temática ambiental na gestão das IES vem
importância na trajetória da sustentabilidade
sendo discutida desde a década de 1970,
em IES.Assinada por representantes da
discutindo a responsabilidade do ensino
Associação das Universidades do Canadá, da
superior na promoção de um sistema
Associação Internacional das Universidades e
sustentável.
da Universidade das Nações Unidas; a
A Conferência das Nações Unidas de 1972, Conferência de Halifax contou com a
em Estocolmo, destacou a importância de se presença de trinta e três universidades
desenvolver a humanidade em harmonia com provenientes de dez países dos cinco
o ambiente, a fim de preservar os recursos continentes. Acompanhados por empresários
ecológicos para as presentes e futuras e ONGs, discutiram o desenvolvimento
gerações; fundamentando metas de paz, sustentável dentro das universidades. O
desenvolvimento e economia global. Ficou desafio foi proposto por presidentes de
evidenciado o papel das Instituições de universidades do Brasil, Zimbabwe,
Ensino, desde a escola primária até a idade Indonésia, entre outros.
adulta, como forma de melhorar o
O encontro convidou todos participantes a
comportamento das pessoas, das
assegurar a voz da universidade em defesa
organizações e de seus dirigentes
do princípio da prática de desenvolvimento
(DECLARATION OF THE UNITED NATIONS
sustentável, afim de utilizar recursos
CONFERENCE ON THE HUMAN
intelectuais dentro do meio acadêmico para
ENVIRONMENT, 1972). No entanto, foi
encorajar o melhor entendimento social sobre
somente no início da década de 1990 que o
os riscos que o planeta Terra está sendo
assunto ganhou um real enfoque. A primeira
submetido. Enfatizando a compreensão da
conferência que organizou os interesses das
ética ambiental e aprimorando a capacidade
IES pela sustentabilidade aconteceu em
das universidades de ensinar e aplicar

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


132

práticas sustentáveis (THE HALIFAX No ano de 1995 foi criada, em São José na
DECLARATION, 1991). Costa Rica, a Organização Internacional de
Universidades pelo Desenvolvimento
Em agosto de 1993 em Swansea, Suécia no
Sustentável e Meio Ambiente (OIUDSMA).
15º Congresso da Associação das
Possuindo como objetivo a criação e
Universidades do Commonwealth com a
aplicação de programas e pesquisas no
participação de quatrocentas universidades,
âmbito do meio ambiente e desenvolvimento
de quarenta e sete países, essa reunião se
sustentável. No dia vinte e três de novembro
inspirou nas conferências de Talloires e
do mesmo ano, divulgaram a DECLARAÇÃO
Halifax para responder ao desafio de um
DE COMPROMISSOS da organização,
desenvolvimento sustentável. Enfatizando a
destacando as diferentes formas de
necessidade de se desenvolver sem pôr em
percepção dos problemas ambientais
risco as gerações futuras, realçando a
singulares que cada país possui.
obrigação ética para superar práticas de
Denunciando as brechas existentes entre os
utilização de recursos limitados da natureza.
diferentes níveis socioeconômicos de
Buscando difundir o entendimento da ética
desenvolvimento, favorecendo o interesse por
ambiental entre a faculdade, os estudantes e
experiência de pesquisa, interpretação e
o público em geral, a fim de buscar medidas
divulgação, permitindo a tomada de decisão
práticas para conseguir a revisão e a reversão
do ponto de vista político social e tecnológico.
eficaz de práticas correntes que contribuam à
degradação ambiental (THE SWANSEA Em março de 2000, no palácio de Haga,
DECLARATION, 1993). ministros de vários países da região do Mar
Báltico se reuniram com a finalidade de
As universidades presentes na conferência de
discutir, examinar autoridades e instituições
Kyoto, Japão, em 1993, divulgou a seus
educacionais comprometidas com uma
seiscentos e cinquenta membros a tarefa para
educação que visa o desenvolvimento
que se estabelecessem e disseminassem a
sustentável. Em 2002, outra edição desta
compreensão mais clara do desenvolvimento
conferência, na qual Alemanha, Polônia,
sustentável, utilizando recursos das
Rússia, Dinamarca e outros países da Europa
universidades para incentivar uma melhor
Setentrional participaram. A intenção desta
compreensão por parte dos governos e do
segunda conferência era justamente examinar
público em geral sobre os perigos físicos,
os resultados conseguidos pelo cumprimento
biológicos e sociais enfrentados pelo planeta.
das tarefas discutidas em março de 2000,
Alavancando, assim, a capacidades das IES
adotando a Agenda 21 na educação para um
na ação de princípios do desenvolvimento
desenvolvimento sustentável da região do Mar
sustentável e difundindo essa ideia entre
Báltico (HAGA DECLARATION, 2000, 2002).
todos a volta, estimulando a reflexão de cada
um na busca de um futuro melhor (THE Nos Estados Unidos no ano de 2004, na
KYOTO DECLARATION, 1993). cidade de Portland, Oregon ocorreu a
primeira conferência de sustentabilidade em
A Carta Universitária para o Desenvolvimento
ensino superior norte americana. Tendo como
Sustentável do Programa Copernicus, foi um
missão inspirar e catalisar a educação
programa interuniversitário de ajuda ao meio
superior a tomar frente das transformações
ambiente, decidido pela Associação das
global de sustentabilidade. Sendo um alicerce
Universidades Europeias, assinada em
para um mundo próspero, equitativo e
Genebra, em 1994. Na época a Carta possuía
ecologicamente saudável (AASHE, 2016).
a participação de apenas cento e noventa e
Desta raiz resultou a Association for the
seis universidades; hoje mais de trezentos e
Advancement of Sustainability in Higher
vinte instituições de ensino superior compõem
Education (AASHE), uma fusão de duas
o elenco desse programa. O Programa expõe
organizações que desenvolvem atividades
um interesse coletivo de usufruir dos recursos
ambientais no ensino superior desde 2005,
das IES em uma educação de alto nível,
atuando exclusivamente na América do Norte.
desenvolvendo e difundindo um entendimento
O Sucesso dessa conferência e o aumento da
mais complexo de desenvolvimento, com o
demanda de transição de uma organização
objetivo de tornar a sustentabilidade uma
regional para uma organização federal norte
realidade na pesquisa e no ensino europeu
americana, a AASHE se firmou em Janeiro de
utilizando princípios de sua carta
2006, tornando-se a primeira Associação de
(COPERNICUS, 1994).
Ensino Superior profissional para a
comunidade sustentável em campis.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


133

Também em 2006, criado pelo Higher agente incentivador para outros atores sociais
Education Funding Council for England, a fim (OUI-IOHE, 2011)
de contribuir para o desenvolvimento da ética
Em 2012, a declaração da Educação Superior
sustentável em IES europeias foi criado o
para a RIO+20, discutiu a importância do
ECOCAMPUS. Umsistema de gerenciamento
reconhecimento das responsabilidades que
e premiação, que busca consolidar a
as IES possuem sobre o desenvolvimento
incorporação de práticas ambientais nos
sustentável e encorajamento das mesmas
Campi universitários através de uma
para promover ações relacionadas à temática
certificação, auxiliando as IES rumo a
(Rio+20 Treaty on Higher Education, 2015).
sustentabilidade ambiental de forma alinhada
a norma ISO 14.001 (TERMIGNONI, 2012)
Segundo Tauchen e Brandli (2006) o Reino
3. METODOLOGIA
Unido ainda possui uma estrutura de ligação
de âmbito nacional, a Environmental A metodologia que norteou o estudo exposto
Association for Universities and Colleges é de natureza descritiva qualitativa. Pesquisas
(EAUC), responsável pela ligação de qualitativas são as que têm por objetivo
universidades britânicas junto as estruturas estudar situações complexas ou estritamente
nacionais, regionais e internacionais. particulares (RICHARDSON, 1999). A
pesquisa descritiva tem por fundamento
Em 2007, um acordo global das Nações
descrever as características de um
Unidas e importantes instituições acadêmicas
determinado fenômeno (GIL, 2009).
desenvolveu a iniciativa Principles for
Operacionalmente trata-se de uma pesquisa
Responsible Management Education (PRME).
fundamentada em fontes secundárias,
Formada por mais de 60 Reitores e
especificamente os eventos internacionais
representantes de organizações, seguem seis
que referenciaram a sustentabilidade em IES.
princípios básicos (Propósito, valores,
Esses eventos constituem-se,
método, pesquisa, parceria e diálogo) que
predominantemente, em conferências
visam formar uma platarforma global no
internacionais para delinear as estratégias
ensino de gestão sustentável. (PRME, 2012)
das IES em relação às práticas ambientais
Em 2008, como resultado da Conferência das nos Campi, tendo por inspiração os grandes
Universidades da Cúpula do G8, a eventos internacionais para a
Declaração de Sapporo evidenciou a sustentabilidade, iniciando a partir da
preocupação das IES no seu papel de Conferência de Estocolmo, em 1972. Mais
destaque na inclusão da sustentabilidade no tardiamente, os eventos específicos para
ensino superior, além de se discutir sobre tratar da temática ambiental nas IES têm o seu
meios operacionais a serem desenvolvidos início na Conferência de Talloires, em 1990. A
para a obtenção de resultados concretos. partir deste evento o presente estudo teve por
metodologia empregar dados secundários
A Declaração de Turin sobre a Educação e
representados nos relatórios ou publicações
Pesquisa para o Desenvolvimento Sustentável
equivalentes que estão disponíveis online,
e Responsável, também realizada pela G8
descrevendo os avanços acordados em cada
University Network teve como foco o
um deles.
reconhecimento do papel de liderança que as
IES e organizações de pesquisas cientificas
desempenham para o suporte do
4. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS
desenvolvimento sustentável no âmbito global
RESULTADOS
e regional (G8 UNIVERSITY SUMMIT, 2009).
Em que pese as Conferências Internacionais e
Em 2011, as IES membros da Organização
os objetivos propostos em cada uma delas,
Universitária Interamericana (OUI) se
no quadro 1 foi possível evidenciar que os
comprometeram por meio da Declaração das
seus propósitos estão direcionados em torno
Américas “Por la sustentabilidade de y desde
de disseminar o conceito da sustentabilidade
la universidad” a assumir seu papel de
nas IES, promovendo o diálogo sobre o tema
destaque em relação ao desempenho do seu
no ambiente acadêmico.
desenvolvimento sustentável, além de ser

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


134

Quadro 1: Objetivos fundamentais das Conferências para a Sustentabilidade em IES


Participação do
Conferência Objetivo
Brasil
Aumentar a consciência para o desenvolvimento ambiental sustentável;
Talloires 1990 Criar uma cultura institucional da sustentabilidade; Avaliar o papel das Sim
Universidades na criação de um futuro sustentável (MADEIRA, 2008).
Destacar a obrigação ética da geração atual; realçar a capacidade da
Halifax 1991 universidade; cooperar com todos os segmentos da sociedade (MADEIRA, Sim
2008).
Repetiu muitas das tendências e princípios das declarações anteriores de
sustentabilidade nas Universidades, como enfatizar a obrigação ética da
Swansea
geração atual e incentivar universidades a reverem suas próprias Sim
1993
operações; Tem como diferencial a abordagem do aspecto de
desigualdade de países. (MADEIRA, 2008)
Incitar as universidades do mundo inteiro a procurar estabelecer e transmitir
uma compreensão mais clara de desenvolvimento Sustentável;
Kyoto 1993 Sim
Estimular as universidades a rever o seu funcionamento interno e espelhar
as melhores práticas de desenvolvimento sustentável (MADEIRA, 2008).
Demonstrar um compromisso institucional para com a teoria e prática das
Copernicus questões ambientais e de sustentabilidade; promover padrões de consumo
Não
1994 sustentável e estilo de vida ecológico; proporcionar aos funcionários
educação e formação em matérias ambientais (MADEIRA, 2008).
Finalidade de discutir, examinar autoridades e instituições educacionais
Haga
comprometidas com uma educação que visa o desenvolvimento sustentável Não
2000/2002
(TERMIGNONI, 2012)
Inspirar e catalisar a educação superior a tomar frente das transformações
AASHE 2005 Não
global de sustentabilidade. (TERMIGNONI, 2012)
Consolidar a incorporação de práticas ambientais nos campi universitários
Ecocampus
através de uma certificação, auxiliando as IES rumo a sustentabilidade Não
2006
ambiental de forma alinhada a norma ISO 14.001 (TAUCHEN, 2007).
Visam formar uma plataforma global no ensino de gestão sustentável;
PRME 2007 seguindo um conjunto de seis princípios a fim de atingir o objetivo Sim
(TERMIGNONI, 2012).
Evidenciou a preocupação das IES no seu papel de destaque na inclusão
Sapporo da sustentabilidade no ensino superior, além de se discutir sobre meios
Não
2008 operacionais a serem desenvolvidos para a obtenção de resultados
concretos (G8 UNIVERSITY SUMMIT, 2008).
Foca o reconhecimento do papel de liderança que as IES e organizações de
Turin 2009 pesquisas cientificas desempenham para o suporte do desenvolvimento Sim
sustentável no âmbito global e regional (G8 UNIVERSITY SUMMIT, 2009).
Assumir seu papel de destaque em relação ao desempenho do seu
OIU-IOHE
desenvolvimento sustentável, além de ser agente incentivador para outros Sim
2011
atores sociais (OUI-IOHE, 2011).
Fonte: elaborado pelos autores

Já em Swansea, em 1993, mencionavam o certificar as IES em relação às suas práticas e


incentivo à sustentabilidade nas operações impactos ambientais. Em 2007, a PRME,
dos Campi, ampliando as fronteiras além da visando formar uma plataforma de ensino de
formação acadêmica para a sustentabilidade. gestão sustentável, apresentou seis princípios
No mesmo sentido, Kyoto destacou o a serem seguidos. Tanto a Conferência de
funcionamento interno e as práticas para a Sapporo, 2008 como a Conferência de Turin,
sustentabilidade. Em Copérnicus, em 1994, o 2009, focaram suas discussões no
consumo sustentável aparece como tema de protagonismo das IES para organizar meios
destaque. Em 2005 foi criada a AASHE, a de pesquisas e soluções para obter
primeira associação que começa a discutir os resultados concretos sobre o desenvolvimento
parâmetros para a sustentabilidade de modo sustentável. Três anos mais tarde, em 2011 a
estruturado, gerando diretrizes específicas OIU-IOHE assumiu o papel de destaque em
para as IES norte americanas. No mesmo relação ao desempenho do desenvolvimento
caminho, foi criado em 2006, o Ecocampus, sustentável nas IES, incentivando outros
desta vez inspirado na ISO 14001, visando atores sociais.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


135

O Quadro 2 foi inspirado na publicação de assim como a Alfabetização Ecológica e a


Wright (2000) do International Journal of Sensibilização Pública, que visam
Sustainability in Higher Education, no qual a proporcionar o entendimento da importância
autora compara pontos de destaques entre as de preservar o meio ambiente para as
conferências ocorridas desde 1972, presentes e futuras gerações dentro e fora
conferência de Estocolmo, até 1994, com a das escolas; atingindo tanto os envolvidos
Carta Copernicus. A partir de pesquisas e com o meio acadêmico, como o público
compreensão, foi desenvolvido uma comum. Os demais itens se demostram
averiguação com as outras conferências esporádicos dentro das discussões das
citadas no texto, buscando apontar quais conferências. Importante ressaltar que cada
manifestaram um Comportamento Ético Conferência toma como premissa para
Sustentável; Encorajamento em pesquisas de desenvolver os projetos futuros que serão
sustentabilidade; Sensibilização Pública; aplicados a partir do que foi discutido nas
Cooperação interuniversitária; Parceiras com reuniões anteriores, fazendo com que muitas
Estado; ONGs e empresas privadas; Conferencias consecutivas abordassem a
Educação Interdisciplinar; Alfabetização mesma temática. Dentre as conferencias
Ecológica. pesquisadas, as de Talloires, 1990; Kyoto,
1993; Ecocampus, 2006; PRME, 2007 e Turin,
De acordo com o preenchimento do quadro é
2009; se demonstram como as reuniões que
notória a importância dada a mudança do
abrangeram de forma mais completa os
comportamento comum, para um
apontamentos explorados.
comportamento ético sustentável. Ponto
abordado em quase todas as conferências,

Quadro 2: Pontos de destaque entre as conferências

empresas privadas.
Encorajamento em
Ético Sustentável

pesquisas sobre
sustentabilidade

interuniversitária

Estado, ONGs e
Comportamento

Interdisciplinar
Parceiras com
Sensibilização

Alfabetização
Cooperação

Educação

Ecológica
Pública

Conferências

Estocolmo 1972 X - X - - - X
Talloires 1990 X X X X X X X
Halifax 1991 X - X X X - X
Swansea 1993 X X X X - - X
Kyoto 1993 X X X X X - X
Copernicus 1994 X X X - X - X
Haga 2000/2002 X - X - X X X
AASHE 2005 X - X X X - X
Ecocampus 2006 X X X - X X X
PRME 2007 X X X X X X X
Sapporo 2008 X X - X - X -
Turin 2009 X X - X X X X
OIU-IOHE 2011 X - X X X - X
Rio+20 2012 X X X - X - X
Fonte: Elaborado pelos autores

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


136

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS tempo, as IES conquistam grande força e


importância na temática, mostrando a sua
O presente trabalho buscou compreender
preocupação com o desenvolvimento
como o conceito da sustentabilidade está
sustentável, tanto no que diz respeito a
sendo referenciado em Conferências
conscientização dos alunos em suas práticas
Internacionais que tratam essencialmente da
na sociedade, quanto a um novo
temática sustentabilidade em IES,
comportamento ético sustentável.
influenciando as práticas ambientais oriundas
das IES. Descreveu o conceito de Dentre os pontos temáticos referenciados nas
sustentabilidade de forma ampla e conferências destacou-se que o estímulo a
especificamente nas IES mediante um comportamento ético sustentável esteve
metodologia descritiva e qualitativa. presente em todos os eventos e esse parece
ser o seu principal papel. A promoção das
A revisão de literatura expôs a importância do
práticas sustentáveis das IES começa em
papel das IES no cenário do desenvolvimento
uma abordagem internacional e com o tempo
sustentável. Levando em conta os problemas
se propaga em âmbito nacional. Algumas
ambientais que fragilizam cada vez mais o
ações mais concretas já aparecem, como o
planeta, e sendo as universidades um lugar
projeto ECOCAMPUS na Europa e a AASHE,
formador de opinião, se faz necessária a
na América do Norte. No Brasil ainda não há
intervenção das IES para compreender,
uma iniciativa que promova as práticas
disseminar e incentivar a ideologia do
sustentáveis nas IES, mas considera-se que,
desenvolvimento sustentável, tanto em níveis
essa é uma questão relacionada ao
sociais, quanto econômicos e ambientais.
desenvolvimento, e, como tantas outras, em
Neste contexto, se observou os avanços das
um país periférico essas ações serão
questões relativas à sustentabilidade em IES
disseminadas por aqui também.
delineadas em âmbito internacional, e as
principais conferências internacionais para a Essa pesquisa trouxe limitações por não haver
sustentabilidade em IES, além das uma padronização nas publicações dos
proposições para o avanço dessa temática. eventos citados, dificultando aos
pesquisadores a leitura e interpretação das
Pode-se concluir, que as Instituições de
ações propostas em cada conferência.
Ensino Superior são pouco exploradas e
restritas, em relação ao seu gerenciamento Recomenda-se para pesquisas futuras
ambiental, principalmente no Brasil. Mesmo acompanhar os eventos que continuam a ser
com de discussão sobre a temática, pouco foi realizados, bem como as ações em países
desenvolvido e aplicado eficazmente a ponto que apresentam diretrizes formais para a
de impactar de forma global a degradação do sustentabilidade em IES, comparando com
meio ambiente. Porém, com o decorrer do países que não as possuem, como o Brasil.

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


138

Capítulo 12

Aurélio Sbizzarro Neto


Elizabeth Borelli

Resumo: Este capítulo apresenta uma sistematização de indicadores de


desenvolvimento humano e de sustentabilidade, tendo como objetivo propor uma
reflexão acadêmica acerca da sua utilização como instrumento de suporte às
políticas públicas de meio ambiente e desenvolvimento urbano, numa análise
específica para o Município de São Paulo, cidade profundamente marcada pela
desigualdade social. A partir da concepção teórica de desenvolvimento humano
dos economistas Mahbub Ul Haq e Amartya Sen, conjugada à possibilidade de se
mensurar o desenvolvimento sustentável, procurou-se esboçar um perfil quantitativo
da cidade, numa perspectiva regional de análise, através de indicadores
representativos das diferentes realidades intra-urbanas, abrangendo as dimensões:
educação, renda, saúde, trabalho, sustentabilidade e vulnerabilidade social, para a
primeira década do século XXI. Pretende-se, assim, abordar os conceitos de
desenvolvimento humano e sustentabilidade, a partir de uma metodologia
descritiva, com base em pesquisa bibliográfica e documental, numa visão holística,
na expectativa de compreender fatos e fenômenos em sua totalidade e globalidade,
como contribuição à elaboração de propostas de políticas públicas.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


139

1. INTRODUÇÃO agregado. Esse conjunto de atividades de


gestão do capital, no Brasil, está centralizado
A expansão recente dos centros urbanos e,
no município de São Paulo.(GASPAR et
principalmente, das regiões metropolitanas
al.,2015).
brasileiras, foi marcadamente influenciada
pela crescente substituição do papel das Na primeira década do século XXI, a cidade
indústrias, na geração de riqueza e de de São Paulo é o centro nacional do setor de
empregos, pelas atividades terciárias de serviços. Além de ser o centro financeiro do
comércio e serviços ligados em grande país, a cidade concentra também os
parte ao capital financeiro e a modernas principais grupos empresariais nacionais e
tecnologias de informação e comunicação. estrangeiros, o que estimula a proliferação
(BÓGUS; PASTERNACK, 2015). de serviços especializados de apoio à
produção e, principalmente, à gestão das
Em relação à cidade de São Paulo, as
empresas (SERT, 2012).
transformações urbanas ocorridas a partir
de meados dos anos de 1970, explicitam O papel polarizador da metrópole
uma mudança na hegemonia do seu paulistana naeconomia brasileira
padrão de crescimento. De forma sintética, contemporânea replica o funcionamento das
pode-se dizer que até meados dos anos de grandes cidades mundiais, enquanto
1980 houve a predominância de um padrão aglomerações urbano- regionais,o que
periférico de crescimento da cidade, justifica a preocupação com uma análise
associado a uma dinâmica socioespacial que segmentada, que, neste artigo, é
viabilizava a solução do problema apresentada por sub-prefeituras, com o intuito
habitacional através da produção doméstica de melhor identificar as características
da casa em loteamentos de periferia. diversas das regiões da cidade.
A década de 1980 foi marcada pela No final da primeira década do século XXI,
estagnação industrial, acompanhada por as cidades passam a contar com novos
crescente aceleração do processo desafios, como a questão das mudanças
inflacionário e desemprego. Nesse climáticas e novas dinâmicas econômicas.
contexto, o Estado passa a depender mais Assim sendo, faz-se necessário incorporar
de atividades agrícolas, refletindo o avanço novos instrumentos de gestão urbana, uma
do Programa Nacional do Álcool - Proálcool, vez que as pressões sobre o meio
da exportação de suco concentrado, soja e ambiente englobam um complexo conjunto
trigo, e das atividades do setor terciário. de fatores de ordem econômica, social e
Novos elementos foram introduzidos em política, comsigniiificativas transformaçõesno
sua dinâmica, como os ajustes realizados espaço urbano, gerando impactos
pela indústria por meio de um intenso ambientais e sociais. (SEPE et al.,2008).
processo de terceirização de atividades-
Nesse sentido, os sistemas de indicadores
meio,a necessidade de novos serviços
são instrumentos hábeis para viabilizar
das atividades exportadoras, a
diagnósticos e orientar a proposição e a
hipertrofia do setor financeiro, o
avaliação das políticas públicas,
crescimento da administração
envolvendo o conceito de desenvolvimento
pública.Esses fatos foram favorecidos pelas
que, neste artigo, se fundamenta teoricamente
transformações qualitativas na metrópole de
no paradigma do desenvolvimento humano,
São Paulo, que passou a assumir a
de Mahbub Ul Haq e Amartya Sen,
condição de um centro de serviços de
incluindo-se a questão da sustentabilidade
âmbito nacional e mesmo
em sentido amplo.
internacional.(CANO; SEMEGHINI, 1992).
Assim, desde os anos 1990, São Paulo se
consolidou como centro prestador de 2. REFERENCIAL TEÓRICO
sofisticados serviços corporativos e O processo de desenvolvimento econômico é
financeiros.A direção da dinâmica de resultante de mudanças revolucionárias
urbanização segue a hegemonia do setor endógenas no sistema produtivo econômico,
financeiro e das atividades a ele agregadas - tais como as inovações, que alterarão os
a exemplo do que ocorre em todas as métodos de produção de maneira
grandes cidades do mundo -, atrelada à acentuada, contribuindo para o crescimento
concentração da renda e à precarização das econômico no sistema capitalista, através
atividades produtivas de baixo valor de seus ciclos econômicos. Num

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


140

ambiente econômico repleto de parcelas das populações que possuem


incertezas, principalmente em relação à acesso limitado a recursos, terão como
produção, considerando-seo tempo consequência severas restrições a suas
econômico um aspecto fundamental, escolhas.
decisões do presente afetarão o
Ul Haq (1995, p. 18) destaca que não existe
comportamento do sistema econômico no
um “link automático” entre rendimentos e
futuro, trazendo resultados positivos ou
vidas humanas, no entanto, considera que já
negativos. (SCHUMPETER, 1985).
há algum tempo o pensamento econômico
Dado que o desenvolvimento econômico tem a presunção que tal tipo de
e o desenvolvimento humano estão “automatismo” existe. Apesar de muitas
estritamente relacionados, embora com escolhas humanas dependerem do nível de
enfoque e resultados são diferentes, esta rendimentos ou riqueza dos indivíduos,
análise pretende priorizar os resultados algumas escolhas não estão condicionadas
referentes ao desenvolvimento humano em aos níveis de rendimentos ou riqueza, tais
seus diversos aspectos. como; democracia, respeito entre os
membros familiares, tratamento igualitário
Para Mahbub Ul Haq (1995, p.17), o
entre homens e mulheres. Ul Haq (1995,
propósito básico do desenvolvimento
p. 18) considera que valores sociais e
humano deve se fundar na ampliação das
tradições culturais independem do nível de
escolhas das pessoas.
renda, sendo que podem ser mantidos nos
mais diversos níveis de rendimentos.
A diferença que define a perspectiva Ul Haq (1995) destaca, também, que as
baseada no crescimento econômico e a escolhas humanas se estendem para muito
das escolas de desenvolvimento além do bem-estar econômico. O
humano, é que a primeira concentra-se conhecimento, a saúde, o meio ambiente
exclusivamente na expansão de apenas preservado, a liberdade política ou simples
uma escolha – renda – enquanto que a prazeres da vida podem ou não ser
segunda abrange a ampliação por expandidos através da riqueza nacional;
todas as escolhas humanas – sejam trata-se de escolhas que não são largamente
econômicas, sociais, culturais ou ou totalmente dependentes da renda.
políticas. Poderia também se
De acordo com o seu paradigma do
argumentar que a expansão da renda
desenvolvimento, o crescimento econômico
pode ampliar todas as outras opções de
pode não resultar em ampliação das
escolhas. Mas não é necessariamente o
escolhas, ou seja, em desenvolvimento
que ocorre, por diversas razões. (Ul Haq,
humano. Em sua visão, a qualidade do
1995, p. 17).
crescimento é tão importante quanto a
quantidade. Sendo assim, é primordial dar
mais ênfase aos aspectos qualitativos do
De acordo com o autor, algumas escolas
crescimento, o que irá requerer mudanças
do pensamento econômico têm uma
estruturais, envolvendo o aperfeiçoamento de
perspectiva de desenvolvimento humano
estruturas econômicas e de poder.
estritamente relacionada aos níveis de
crescimento econômico; em contrapartida, Para uma melhor correlação entre o
outras têm como foco a expansão das crescimento econômico e a ampliação das
escolhas das pessoas. escolhas humanas, podem ser necessárias
medidas tais como, promover reforma
Ainda de acordo com Mahbub Ul Haq,
agrária de longo alcance, sistemas
embora o crescimento econômico possa
tributários com regimes fiscais
ampliar as escolhas das pessoas, isso nem
progressivos, ampliação do crédito bancário
sempre ocorre, de fato. Além disso, o foco
para pessoas pobres, expansão dos serviços
restrito somente ao crescimento econômico
sociais básicos de forma que seu alcance se
traz como limitação a possibilidade de se
estenda a toda população, estabelecimento
analisar somente uma das escolhas, dentre
de redes de proteção e segurança social
várias, que as pessoas eventualmente
para indivíduos ignorados pelos mercados
valorizam e podem fazer. O autor enfatiza,
ou ações de políticas públicas, entre
também, que os rendimentos costumam e
outros, podendo variar de acordo com os
podem ser distribuídos de forma desigual
países.
dentro de uma sociedade, sendo que as

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


141

Como ponto de partida, as pessoas devem casos, tal situação se traduz, inclusive, na
ser colocadas “centro do palco”, ou seja, realidade da maioria dos indivíduos.
devem ser consideradas como o centro e o
Por ausência de liberdades substantivas, o
objetivo final das políticas públicas, que
autor menciona a pobreza econômica, que
deverão ser voltadas para a melhoria da
rouba das pessoas a liberdade de saciar a
qualidade de vida dos indivíduos.
fome, de obter uma nutrição que permita uma
O autor propõe que se trate o vida saudável, de obter remédios para
desenvolvimento como um conceito holístico, doenças tratáveis, a oportunidade de ter
de forma global, com abrangência em toda a moradia ou se vestir de modo apropriado.
sua totalidade.
Além da pobreza econômica, o autor enfatiza,
Os indicadores macroeconômicos podem também, que a privação de liberdades pode
indicar perspectivas futuras de crescimento, estar relacionada à carência de serviços
de distribuição de renda e riqueza, gastos e públicos e assistência social, bem como à
investimento sociais, investimentos em carência de sistemas educacionais ou de
tecnologia e sustentabilidade. Todos os segurança, que sejam capazes de garantir a
aspectos da vida - econômicos, políticos ou paz e a ordem.
culturais - são vistos a partir dessa
As privações de liberdade podem
perspectiva; o crescimento econômico, como
estender-se ainda a restrições
tal, torna-se apenas um subconjunto do
relacionadas aos direitos civis, direitos de
paradigma de desenvolvimento humano.
participar da vida social, política e econômica
Amartya Sen (2000), ao tratar a temática do da comunidade.(SEN,
desenvolvimento humano, considera que
2000).
existem problemas novos convivendo com
antigos, tais como: fomes coletivas, fome De certa forma, a perspectiva da liberdade
crônica, violação de liberdades, está relacionada à possibilidade ou não de se
desigualdade entre os gêneros, ameaças ter a liberdade de viver com dignidade. Isso
cada vez maiores à sustentabilidade do inclui ter acesso à moradia e renda suficiente,
ambiente, bem como da vida econômica e sistemas educacionais e de saúde de
social, entre outros. qualidade, viver em uma sociedade onde
a paz e a segurança prevaleçam e os
Considera, também, que os avanços
direitos civis e políticos sejam respeitados;
tecnológicos registrados pelo planeta
ter acesso à agua potável e ao
são
saneamento básico, o que inclui a
extraordinários; simultaneamente, há dados preservação do meio-ambiente e a não
preocupantes referentes à vida das pessoas, poluição.
que pioraram diante do impacto da crise
Entretanto, a desigualdade faz-se presente
internacional de 2008.
em todos os países do mundo; países ricos
O autor enfatiza enormes paradoxos com convivem, atualmente, com parcelas de
os quais se convive: a) o planeta poderia suas populações sujeitas a viver em
produzir alimentos para uma população bem condições de pobreza, assim como existem
maior do que a atual e, no entanto, 1 bilhão de muitos países pobres que concentram,
pessoas passam fome; b) as reservas de simultaneamente, extrema desigualdade. O
água atuais seriam suficientes para suprir a resultado é que uma ampla parcela das
sede de toda a humanidade e 1,2 bilhão de populações, nesses países, vivem em
pessoas não tem acesso à agua tratada; c) condições extremamente difíceis.
2,6 bilhões de pessoas não possuem
De acordo com Sen (2000), oportunidades
acesso a sistemas de saneamento e
sociais estão relacionadas às liberdades
essa situação compromete gravemente
instrumentais que a sociedade estabelece e
suas vidas, através do impacto que essa
viabiliza nas áreas de educação e saúde, que
privação causa nasaúde. (SEN, 2010).
tem influência na liberdade substantiva do
Sen (2000) destaca que, apesar de aumentos indivíduo ter uma vida com mais
sem precedentes na geração de riquezas a qualidade. Possuir sistemas educacionais
nível global, faz-se comum nas diversas e de saúde eficientes pode contribuir
sociedades do mundo, a negação de exponencialmente para a ampliação das
liberdades elementares a um grande liberdades instrumentais dos indivíduos; isso
número de pessoas, sendo que em alguns se dá através do acesso a se ter uma vida

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


142

saudável, ao conhecimento através de Neste artigo, a abordagem da mensuração


instrução educacional, por exemplo. do conjunto de indicadores será feita em
torno das dimensões: educação, renda,
Muitos países do mundo já possuem sistemas
saúde, trabalho, sustentabilidade e
educacionais e de saúde considerados de
vulnerabilidade social, eleitas com base nas
qualidade. No entanto, principalmente nos
discussões que vêm acontecendo desde a
países em desenvolvimento, a falta de
criação do Programa das Nações Unidas para
acesso à educação e saúde de qualidade
o Meio Ambiente - PNUMA, em 1972,
faz parte da realidade de grande parcela
passando pelo relatório Nosso Futuro
das populações, comprometendo o bem-
Comum, elaborado pela Comissão
estar social e as condições de vida desses
Brundtland, em 1987, e ainda, pela
indivíduos.
Conferência das Nações Unidas sobre o
Estar em condição de vulnerabilidade Meio Ambiente e o Desenvolvimento, que
social faz parte da realidade de parcelas aprovou o documento Agenda 21.Neste, que
das populações de praticamente todos os se constitui num conjunto de ações para a
países (CIA, 2014). Dessa forma, sistemas proteção do planeta e para o seu
eficientes de segurança protetora são desenvolvimento sustentável, as ações
importantes para a ampliação das preconizadas abrangem a sociedade como
liberdades substantivas dos indivíduos, seja um todo, nas suas diferentes formas de
para protegê-los do desemprego, da pobreza organização.
extrema, da fome ou até mesmo para garantir
A Comissão para o Desenvolvimento
condições dignas de vida após a
Sustentável, criada em 2002, recomendou ao
aposentadoria.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística –
Uma ênfase excessiva é dada à pobreza e à IBGE o estabelecimento dos Indicadores de
desigualdade medidas pela renda, deixando Desenvolvimento Sustentável, que vêm sendo
adotados desde 2002. Pretende-se, assim,
em segundo plano a desigualdade em outros
compatibilizar esses conceitos aos
aspectos - tais como desemprego, doença,
apresentados sobre o desenvolvimento
baixo nível de instrução e exclusão social.
humano, numa abordagem holística.
Ou seja, não se pode identificar a
desigualdade econômica com a desigualdade
de renda.
3. METODOLOGIA
Materializando seus ideais, em 1990, Ul
O Índice de Desenvolvimento Humano - IDH
Haq e Sen criaram o Índice de
vem sendo divulgado pelo Programa das
Desenvolvimento Humano (IDH), que, ao
Nações Unidas para o Desenvolvimento
contrário de outros indicadores, trazia
desde 1990, com a finalidade de monitorar e
como proposta medir o desenvolvimento
comparar de forma ampla o progresso
não apenas pelo rendimento nacional, mas
realizado pelas diferentes regiões e países do
também por indicadores de outras variáveis,
mundo, em termos de melhoria da qualidade
tais como educação e saúde, baseando-se,
de vida das populações. Esse índice é
teoricamente, no enfoque das escolhas.
divulgado anualmente, junto com o Relatório
(IPEA, 2010).
de Desenvolvimento Humano - RDH.
O século XXI vem se caracterizando por
Conforme a metodologia utilizada pelo
profundas mudanças decorrentes de novos
Programa das Nações Unidas para o
modelos de gestão socioambiental, com
Desenvolvimento - PNUD, desde 1990, o IDH
base no trinômio capital, meio ambiente e
é dividido em três dimensões. Segundo o
justiça social, fundamentando-se na evolução
Relatório do Desenvolvimento Humano 2010
do conceito de desenvolvimento sustentável,
(PNUD, 2010), a primeira dimensão refere-se
com foco no meio ambiente, para o de
à possibilidade de desfrutar de uma vida
sustentabilidade, no qual são
longa, é a dimensão de expectativa de vida;
contemplados, além do meio ambiente, a
para obter- se bons resultados faz-se
sociedade e o capital. Assim, a gestão da
necessário ter condições adequadas de
sustentabilidade no âmbito dos países deve
saúde, nutrição, saneamento, dentre outros. A
ser facilitada, estimulada e fomentada
segunda dimensão está associada à
pelos seus governos, legitimados por
possibilidade de se obter conhecimento, que
formas democráticas de escolha. (AQUINO et
é dado por indicadores educacionais. O
al., 2014).
indicador educacional considera a taxa de

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


143

alfabetização de adultos e a taxa combinada humanas. Também se centra nas


de matrícula nos ensinos fundamental, médio escolhas – sobre o que as pessoas devem
e superior. Finalmente, a terceira dimensão ter, ser e fazer para assegurarem sua
se refere à disponibilidade de recursos, própria subsistência. Além disso, o
sendo definida com o pib per capita do país, desenvolvimento humano preocupa- se
porém para o cálculo do IDH, a renda per não apenas com a satisfação das
capita é ajustada segundo a paridade do necessidades básicas, mas também com
poder de compra (PPC), que permite a o desenvolvimento humano como um
comparação de renda entre os países, não processo participativo e dinâmico.
considerando variações na taxa de câmbio, e Aplica-se de forma igual aos países
somente os preços reais da economia. desenvolvidos e aos altamente
desenvolvidos (PNUD, 2010, p. 13)
Em suma, o IDH considera os seguintes
indicadores: 1. Longevidade, medida em anos
representando a expectativa de vida ao
O RDH de 2010 trouxe como destaque uma
nascer; 2. Educação, medida através da
profunda reflexão referente ao alcance,
combinação de dois indicadores: taxa de
eficácia e popularidade do IDH durante seus
alfabetização de adultos (com peso de 2/3) e
primeiros vinte anos de publicação. Além
uma combinação de taxa de matricula no
disso, algumas mudanças foram introduzidas
ensino fundamental, médio e superior (com
para a metodologia de cálculo do indicador.
peso de 1/3); 3. Padrão de vida medido pelo
O objetivo principal dessas mudanças foi o de
PIB real em dólares per capita, ajustado pela
aperfeiçoar, atualizar e atender a críticas,
paridade do poder de compra.
recomendações e sugestões consideradas
O que está por trás dessa combinação de construtivas e válidas pelo Programa das
indicadores é a ideia de que o crescimento do Nações Unidas para o Desenvolvimento
pib per capita deve vir acompanhado de um (PNUD) (PNUD, 2010). De acordo com a nova
aumento na esperança de vida dos metodologia de cálculo do IDH, “o Índice de
habitantes, juntamente com uma melhora nas Desenvolvimento Humano permanece como
condições de educação, de modo a tornar uma medida agregada do desenvolvimento
esse crescimento universal e fazer com que em três dimensões – saúde, educação e
ele se traduza em desenvolvimento rendimento.” (PNUD, 2010, p. 15). O Quadro
socioeconômico e bem-estar social. 1 relaciona as principais mudanças
efetuadas na metodologia de cálculo com
relação à dimensão educação,
O desenvolvimento humano reúne a compreendendo características do “velho
produção e distribuição de bens e a IDH”, que passa a trabalhar com outras
expansão e utilização das capacidades variáveis.
Quadro 1 – Comparação entre “IDH antigo” e “IDH novo”: dimensão educação.
Variável no Variável no
‘velho ‘novo Significado Vantagem
IDH’ IDH’
É o número médio de
Anos anos de educação
Renda mensal per capita (em
Alfabetização Médios de recebidos pelas
R$ago/2010)
Estudo pessoas que tem 25
anos ou mais.
É o número de anos - leva em consideração taxas de
de escolaridade que matrícula em relação á idade das
Esperança Média de
uma criança na idade crianças.
de vida ao Anos de
de entrar na escola
nascer estudo 25 + - trata de elementos qualitativos de
pode esperar
ensino
receber.
Fonte: Programa das Nações Unidas (PNUD): O Novo IDH, 2010, p. 2 Elaboração própria.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


144

O PNUD considera que a variável “anos De acordo com o PNUD (2010), a variável
médios de estudo” discrimina de maneira alfabetização é muito simples, já que
mais acertada a educação da população. considera somente duas opções para se
Com essa alteração, torna-se possível medir classificar os indivíduos: alfabetizados ou
de forma quantitativa sua média de anos de analfabetos; com isso, não se avalia o avanço
estudos. Em relação aos anos esperados de em anos adicionais de escolaridade que os
escolaridade, consideram-se as taxas de indivíduos possam ter. Considera, também,
matrícula, correlacionando-as com a idade que a variável “matrícula combinada”,
das crianças; dessa forma, medem-se utilizada no “velho IDH”, não consegue
também as perspectivas futuras de nível elucidar questões relativas a níveis
educacional. qualitativos com relação aos sistemas
educacionais dos países.
Além disso, os anos esperados de
escolaridade têm com diferencial tratar Com relação à medição da dimensão saúde,
também de elementos qualitativos do ensino; não houve mudanças, já que continua sendo
por exemplo, mede-se o percentual de utilizada a variável expectativa de vida. Além
matrícula nos diversos níveis de ensino, dessas alterações, o PNUD reformulou o
detalhando as taxas brutas de matrículas de modelo de cálculo dos índices das três
acordo com as segmentações: fundamental, dimensões e também os parâmetros de
médio e superior. normatização.
De acordo com o PNUD (2010),uma mudança grande vantagem é que não há mais uma
que pode ser considerada fundamental é a “substitutibilidade” perfeita entre as
adoção da média geométrica, já que esse dimensões, como havia anteriormente, com a
método respeita mais as diferenças média aritmética entre 0 e 1.” (PNUD, 2010, p.
intrínsecas do que uma média simples. A 152).

Quadro 2: Dimensões e indicadores do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)

Saúde Expectativa de Vida


Anos Médios de Escolaridade
Novo IDH Conhecimento
Anos Esperados de Escolaridade
Padrão de Vida Decente RNB per capita ppc
Fonte: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, 2010, p.3
Elaboração própria
.
Como o objetivo deste trabalho centra-se na regiões em baixo, médio, alto ou muito alto
cidade de São Paulo, julgou-se oportuno desenvolvimento humano, exatamente como
abordar a metodologia do IDHM. “O Brasil foi no IDH.
um dos países pioneiros ao adaptar e calcular
Uma utilização adequada do IDH em nível
o IDH para todos os municípios brasileiros,
municipal exige, necessariamente, certas
criando o Índice de Desenvolvimento
adaptações. A questão básica é que o IDH foi
Humano Municipal (IDHM) em 1998.” (PNUD;
inicialmente idealizado para ser calculado
IPEA; FJP. 2013).
para uma sociedade razoavelmente fechada,
O IDHM permite ajustar o IDH para a tanto do ponto de vista econômico, como do
realidade dos municípios e regiões ponto de vista demográfico (no sentido de
metropolitanas, bem como, através dos que não há migração temporária).
resultados obtidos, refletir as
Municípios, no entanto, são espaços
especificidades e desafios regionais no
geopolíticos relativamente abertos e por este
alcance do desenvolvimento humano.
motivo foram realizadas algumas adaptações
As dimensões do IDHM são as mesmas do nos indicadores. Em municípios, ocorre
IDH: educação, saúde e renda, mas há frequentemente de os indivíduos migrarem de
alguns indicadores diferentes. Os valores um município para outro para estudar,
também variam de 0 a 1, utilizando-se dos trabalhar, dentre, outras diversas atividades;
mesmos parâmetros para classificação das caso adaptações não fossem efetuadas,

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


145

isso poderia interferir diretamente nos Com relação à dimensão “renda”,


resultados obtidos, como por exemplo, nas enquanto o IDH global utiliza a Renda
dimensões educação e padrão de vida. Nacional Bruta per capita em paridade de
poder de compra, o IDHM “considera a renda
De acordo com o PNUD; IPEA; FJP (2013), na
municipal per capita, ou seja, a renda
dimensão “educação”, o índice final é
média mensal dos indivíduos residentes
calculado utilizando-se dois indicadores:
em um determinado município, expressa em
“...um indicador fornece informação sobre a
Reais por meio da renda per capita
situação educacional da população adulta
municipal.” (PNUD; IPEA; FJP,2013).
e um referente à população em idade
escolar (jovens). Entretanto, as variáveis são No que tange à dimensão saúde, é utilizado
outras.” (PNUD; FJP; IPEA. 2013). para o IDHM a mesma variável utilizada para
o IDH global; o índice da saúde é calculado
Diferentemente do IDH global, em que é
pela esperança de vida ao nascer, “...ou seja,
utilizado o indicador da média de anos de
o número médio de anos que as pessoas
estudo de pessoas de 25 anos ou mais, para
viveriam a partir do nascimento, mantidos os
o IDHM não foi possível se obter esse tipo de
mesmo padrões de mortalidade do ano de
informação através do Censo 2010.
referência” (PNUD; IPEA; FJP, 2013).
Sendo assim, esse indicador foi
substituído pela proporção da população Destaque-se ainda, que, embora o IDHM
adulta de 18 ou mais que concluiu o ensino não abranja todos os aspectos do
fundamental. desenvolvimento humano, sintetiza três das
mais importantes dimensões do
Este indicador permite uma boa avaliação do
desenvolvimento humano, quais sejam,
nível de carência da população adulta em
longevidade, educação e renda, e se
relação à escolaridade considerada básica.
constitui num importante instrumento de
Com relação à população jovem, para o IDH
informação. Contribui, também, para a
global utiliza-se o indicador de expectativa
superação de desafios locais referentes ao
de vida escolar, que é uma medida de
estado da qualidade de vida, nas unidades
retenção das pessoas na escola,
federativas, munícipios, regiões
independentemente da repetência, e inclui o
metropolitanas e unidades de
ensino superior. “A adaptação do IDHM para
desenvolvimento humano (UDH’s) brasileiras.
os contextos nacional e municipal foi feita
(PNUD; IPEA; FJP, 2013).
com uma combinação de 4 indicadores
que permitem verificar até que ponto as Os indicadores que compõem as dimensões
crianças e os jovens estão frequentando e do IDHM, bem como os indicadores que
completando os determinados ciclos da compõem as dimensões do IDH global, são
escola” (PNUD; IPEA; FJP, 2013). apresentados no Quadro 3.

Quadro 3: Comparação entre Indicadores do IDHM e Indicadores do IDH.


Educação: Educação:
Renda
Longevidade População adulta População jovem
5-6 na escola
11-13 nos anos finais
do fundamenta
18+com Renda mensal
Esperança de 15-17 com
IDHM Brasil fundamental per capita (em
vida ao nascer fundamental
completo R$ago/2010)
completo
18-20 com médio
completo
Renda média
Esperança
Média de Anos de Anos esperados de nacional per
IDH Global de vida ao
estudo 25 + estudo capita (U$$
nascer
ppc 2010)
Fonte: PNUD; IPEA; FJP. 2013.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


146

Na comparação, é possível notar-se as os resultados alcançados, tendo em vista que


principais diferenças entre os dados utilizados o IDHM aumentou em todas as subprefeituras
para as duas metodologias de cálculo. Uma da cidade, durante essa primeira década do
utilização adequada do IDH em nível século XXI. Por outro lado, são notáveis
municipal exige, necessariamente, certas também as imensas disparidades com
adaptações. relação ao IDHM dentro da cidade. Pinheiros
– a subprefeitura com melhor IDH – possuía
A questão básica é que o IDH foi inicialmente
em 2010 um IDHM de 0,942, índice superior
idealizado para ser calculado para uma
ao da cidade considerada como a mais
sociedade razoavelmente fechada, tanto do
desenvolvida do Brasil, São Caetano do Sul,
ponto de vista econômico, como do ponto de
que, para esse mesmo ano possuía um IDHM
vista demográfico (no sentido de que não
de 0,862. Na outra ponta, tem-se a
há migração temporária). Municípios, no
subprefeitura de Parelheiros, que registrou
entanto, são espaços geopolíticos
para o ano de 2010 um IDHM de 0,680,
relativamente abertos e por este motivo
índice comparável ao da cidade de
foram realizadas algumas adaptações nos
Carpina em Pernambuco, que obteve a
indicadores. Em municípios, ocorre
colocação 2439º dentre 5565 cidades
frequentemente de os indivíduos migrarem
brasileiras para aquele ano. (FJP; IPEA;
para estudar, trabalhar, dentre outras
PNUD, 2013).
atividades; caso adaptações não fossem
efetuadas, isso poderia interferir diretamente Os contrastes são imensos; nota-se que as
nos resultados obtidos, como por exemplo, subprefeituras localizadas nos extremos da
nas dimensões educação e padrão de vida. cidade: leste, oeste, norte e sul, com
destaque para os extremos leste e sul,
Além disso, diferenças também ocorrem
possuíam, tanto em
em relação à fonte de dados para os
dois índices: para o cálculo do IDHM, todos 2000 quanto em 2010, os piores IDHMs da
os dados foram extraídos dos Censos cidade.
Demográficos do IBGE, ao passo que o IDH
Apesar do índice ter evoluído em todas as
Global traz dados do Departamento de
subprefeituras, essas continuam como as
Assuntos Econômicos e Sociais da ONU,
regiões menos favorecidas. Por outro lado, as
Instituto de Estatísticas da UNESCO, Banco
regiões centrais permaneceram concentrando
Mundial e Fundo Monetário
os maiores IDHM dentre as subprefeituras da
Internacional.(PNUD; IPEA; FJP; 2013).
cidade, com destaque para: 1º Pinheiros
(0,942), 2º Vila Mariana (0,938) e 3º Santo
Amaro (0,909).
4. RESULTADOS OBTIDOS
Partindo da contribuição dos autores, buscou-
A análise aqui apresentada pode ser
se sistematizar indicadores de
considerada um reflexo, mesmo que de
desenvolvimento humano e sustentabilidade
forma simplificada, da mudança nas formas
para a cidade de São Paulo,dentro do objetivo
de se medir desenvolvimento e
de considerar o desenvolvimento humano
sustentabilidade, propostas pelos teóricos
sustentável de forma ampla, considerando,
do desenvolvimento humano, bem como
também, os aspectos distributivos
das metodologias apresentadas
referentes à cidade, a partir dos dados
anteriormente.
desagregados para as subprefeituras.Para a
Parte-se da premissa da utilização de dados construção de tal sistema, foram
de forma desagregada, com o intuito de se considerados os indicadores referentes às
refletir os aspectos de equidade e de dimensões: educação, renda, saúde,
distribuição, bem como buscar uma análise sustentabilidade, trabalho e vulnerabilidade
que não se baseie unicamente numa social.
dimensão.
Com relação à desagregação dos dados,
optou-se pela distribuição através das 31
subprefeituras da cidade de São Paulo.
De acordo com os dados apresentados na
Tabela 1, pode-se considerar como positivos

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


147

Tabela 1 - IDHM das Subprefeituras da cidade de São Paulo: 2000 – 2010


IDHM IDHM Variação
Ranking Subprefeitura (2000) (2010) (%)
1º Pinheiros 0,91 0,942 3,52
2º Vila Mariana 0,897 0,938 4,57
3º Santo Amaro 0,867 0,909 4,84
4º Lapa 0,849 0,906 6,71
5º Sé 0,831 0,889 6,98
6º Mooca 0,811 0,869 7,15
7º Santana / Tucuruvi 0,811 0,869 7,15
8º Butantã 0,789 0,859 8,87
9º Ipiranga 0,759 0,824 8,56
10º Aricanduva / Vila Formosa 0,762 0,822 7,87
11º Jabaquara 0,756 0,816 7,94
12º Penha 0,745 0,804 7,92
13º Casa Verde 0,732 0,799 9,15
14º Vila Maria / Vila Guilherme 0,733 0,793 8,19
15º Pirituba / Jaraguá 0,718 0,787 9,61
16º Vila Prudente 0,723 0,785 8,58
17º Campo Limpo 0,699 0,783 12,02
18º Ermelino Matarazzo 0,707 0,777 9,9
19º Jaçanã / Tremembé 0,716 0,768 7,26
20º Freguesia do Ó / Brasilândia 0,677 0,762 12,56
21º Cidade Ademar 0,662 0,758 14,5
22º Itaquera 0,691 0,758 9,7
23º Capela do Socorro 0,656 0,75 14,33
24º São Miguel Paulista 0,65 0,736 13,23
25º São Mateus 0,658 0,732 11,25
26º Perus 0,637 0,731 14,76
27º Itaim Paulista 0,639 0,725 13,46
28º M’Boi Mirim 0,638 0,716 12,23
29º Guaianases 0,621 0,713 14,81
30º Cidade Tiradentes 0,634 0,708 11,67
31º Parelheiros 0,593 0,68 14,67
Fonte: Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil. PNUD; IPEA; FJP, 2013. Elaboração própria.

Com relação às dimensões educação e Para as dimensões renda, trabalho,


saúde, foram utilizados os seguintes sustentabilidade e vulnerabilidade social,
indicadores: taxa de analfabetismo com 18 foram utilizados os seguintes indicadores:
anos ou mais, percentagem da população renda domiciliar per capita média mensal,
com 25 anos ou mais com ensino superior índice de Gini e percentual da renda
completo, expectativa de vida e mortalidade apropriada pelos 10% mais ricos, taxas de
infantil até 5 anos (a cada 1000 nascidos extrema pobreza e de pobreza, grau de
vivos). formalização dos trabalhadores e taxa de

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


148

desemprego, percentagem de mulheres de localizadas nas periferias. Isso reflete um


10 a 17 anos que tiveram filhos, movimento de crescimento populacional para
percentagem de mães chefes de família os extremos leste e sul da cidade, sendo que
sem fundamental e com filho menor no na zona sul, tal ocupação tem ocorrido em
total de chefes de família e percentagem áreas de proteção de mananciais,
de pessoas em domicílios com carentes de infraestrutura e com maior
abastecimento de água e esgotamento impacto ambiental. A subprefeitura de
sanitário. Parelheiros localiza-se exatamente nesta
região.
Partindo do pressuposto que todas as
dimensões do desenvolvimento humano Quanto maior a pontuação obtida, melhores
sustentável são de igual importância, foi os resultados alcançados pelas
atribuído peso igual para todos os subprefeituras, considerando os indicadores
indicadores. O método de pontuação se deu referentes às diversas dimensões do
através da atribuição de um valor de 1 a 31, desenvolvimento humano sustentável. Nota-
de acordo com a colocação obtida pela se que em 2000 e 2010, as subprefeituras
subprefeitura, em cada um dos indicadores mais desenvolvidas da cidade foram: Vila
analisados. Para o caso de empate dos Mariana, Pinheiros e Santo Amaro,
indicadores, por exemplo: “mesmo número respectivamente. Não houve grandes
de anos de expectativa de vida ao mudanças de colocações nessa primeira
nascer”, foi atribuída a mesma nota para década do século XXI; as regiões mais
subprefeituras onde tal empate ocorreu, desenvolvidas e menos desenvolvidas, no
sendo que nestes casos o valor máximo de geral, permaneceram as mesmas. Os
pontuação foi diminuído, descontando o resultados obtidos podem ser considerados
total de casos de empates. positivos, para a maioria dos casos, com
relação à evolução de praticamente todos os
De acordo com os resultados apresentados
indicadores. No entanto, simultaneamente,
na tabela 2, não houve grandes mudanças
apesar de tal melhora, a diferença dos
quando consideradas quais subprefeituras da
resultados entre os bairros centrais e os
cidade eram mais desenvolvidas para os
localizados nos extremos da cidade,
anos2000 e 2010.
permanece elevada.
Pode-se considerar que existem duas regiões
Além dos resultados apresentados, destaca-
distintas, no que tange à distribuição do
se, ainda, a recomendação para a medição
desenvolvimento humano sustentável da
do desenvolvimento humano sustentável
cidade de São Paulo: a região central e as
através de novas propostas. De acordo
periferias. As subprefeituras localizadas nos
com as recomendações de Ul Haq e Sen ,
bairros centrais apresentaram os melhores
deve-se buscar cada vez mais mensurações
resultados, tanto em 2000, quanto em 2010 e
que abranjam tal conceito em toda sua
quando considerados os piores resultados, o
amplitude, bem como, considerar questões
mesmo ocorreu com as subprefeituras
distributivas e qualitativas dos indicadores em
localizadas nas periferias ou extremos da
todas as dimensões – tal proposta serviu com
cidade. Vale ressaltar o caso específico da
base de metodologia para a mensuração
subprefeitura de Parelheiros, que apresentou
apresentada referente à cidade de São Paulo,
em 2000 e em 2010, indicadores piores,
mesmo que de forma simplificada,
inclusive, do que as outras subprefeituras
considerando diversas limitações existentes.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


149

Tabela 2 – Classificação das subprefeituras da cidade de São Paulo segundo indicadores de


Ranking Ranking
2010 2000 Subprefeitura Pontos (2000) Pontos (2010)
1º 1º Vila Mariana 374 367
2º 2º Pinheiros 373 365
3º 3º Santo Amaro 337 339
4º 6º Lapa 333 337
5º 7º Santana/Tucuruvi 319 331
6º 4º Sé 318 313
7º 5º Mooca 316 293
8º 9º Ipiranga 280 282
9º 8º Aricanduva/ Vila Formosa 272 267
10º 11º Jabaquara 270 258
11º 10º Butantã 258 254
12º 12º Penha 248 251
13º 14º Casa Verde 232 234
14º 13º Vila Maria / Vila Guilherme 222 232
15º 17º Ermelino Matarazzo 222 203
16º 21º Campo Limpo 211 194
17º 16º Vila Prudente 195 190
18º 15º Pirituba / Jaraguá 167 189
19º 19º Freguesia do Ó / Brasilândia 162 172
20º 18º Itaquera 161 169
21º 20º Jacanã/Tremembé 159 160
22º 22º Cidade Ademar 122 132
23º 23º Capela do Socorro 108 123
24º 24º Perus 105 121
25º 26º M`Boi Mirim 102 111
26º 27º São Miguel Paulista 99 96
27º 25º São Mateus 98 88
28º 29º Itaim Paulista 78 86
29º 28º Cidade Tiradentes 73 85
30º 30º Guaianases 58 73
31º 31º Parelheiros 26 39
Fonte: Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil. PNUD; IPEA; FJP, 2013. Elaboração própria.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Amartya Sen contribuiu com a análise a partir


de uma perspectiva do desenvolvimento
O debate sobre a temática do
como liberdade centrada nas pessoas, que
desenvolvimento permanece intenso e aberto.
de acordo com o autor “devem ser movidas
Mahbub Ul Haq apresentou a perspectiva de
para o centro do palco” e consideradas tanto
desenvolvimento humano enfatizando as
como os meios, como os fins do
escolhas das pessoas, e de suas análises
desenvolvimento.
surgiu o IDH, indicador que passou a ser
utilizado como alternativa ao PIB, para a Através dos indicadores de desenvolvimento
mensuração do desenvolvimento humano. humano sustentável na cidade de São

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


150

Paulo, considerando-se os anos de 2000 e debate colabora para o


2010, buscou-se apresentar um panorama aperfeiçoamento das mensurações e
da situação geral da cidade, considerando-se métricas, resultando, consequentemente, em
as questões distributivas e holísticas, políticas econômicas, públicas e sociais mais
referentes às subprefeituras, com o leque de eficientes.
indicadores disponíveis nas diversas
Para que os indivíduos da cidade de São
dimensões.
Paulo sejam considerados os meios e os fins
Os resultados obtidos demonstraram que do desenvolvimento, para que sejam
nessa primeira década do século XXI, a colocados no “centro do palco”, seus
cidade de São Paulo obteve melhora em indicadores de desenvolvimento humano
seus indicadores. Entretanto, ficou claro, sustentável ainda precisam melhorar muito.
também, que o desenvolvimento humano é Partindo-se dos resultados atuais, tudo indica
distribuído de forma muito desigual na que o caminho ainda será longo; é essencial
cidade. Evidencia-se que algumas regiões, que o progresso obtido nesses primeiros dez
especificamente as subprefeituras localizadas anos do século XXI seja mantido e ampliado.
na região central, possuem indicadores Será primordial focar na ampliação do bem-
elevados em todas as dimensões; em estar social dos habitantes residentes nas
contrapartida, as subprefeituras localizadas subprefeituras localizadas nos extremos, ou
nos extremos da cidade, ou periferias, periferias da cidade. São Paulo não
apesar de, também, terem obtido melhoras alcançará um desenvolvimento humano
em seus indicadores, no período de 2000 sustentável harmonioso enquanto isso não
a 2010, ainda possuem índices muito ocorrer; as políticas econômicas, públicas e
inferiores quando comparados às outras sociais devem priorizar essas regiões da
regiões da cidade. As desigualdades entre as cidade, conjugadas a esforços de
subprefeituras apresentam- se em todas as manutenção e melhoria do desenvolvimento
dimensões: educação, renda, saúde, humano em outras regiões.
sustentabilidade, trabalho e vulnerabilidade
Todos os conceitos inclusos nas diversas
social. Nota-se que as subprefeituras
dimensões carecem de melhorias: educação,
localizadas nos extremos leste e sul da
renda, saúde, trabalho, sustentabilidade e
cidade, possuem os piores indicadores em
vulnerabilidade social. São Paulo precisa, de
todas as dimensões, sem exceção.
fato, alçar seus habitantes à condição de
Houveram melhoras, no entanto,
meios e fins de seu desenvolvimento. Dessa
insuficientes, para fazer com que tais
forma, considerando todos os indivíduos, de
regiões da cidade obtivessem indicadores
todas as regiões da cidade, espera-se obter
próximos aos das regiões centrais da cidade.
uma ampliação do desenvolvimento humano
Os conceitos de desenvolvimento humano sustentável, de forma mais equitativa e
sustentável estão ainda em aberto e o harmoniosa.

REFERÊNCIAS [5] Gaspar, R.C.; Aparício, C.A.P.; Bessa,


[1] Aquino, A.R.; Almeida, J.R. Senna ,M. L. V.C. A Metrópole de São Paulo:
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acadêmica. Rio de Janeiro: Rede Sirius; OUERJ, PASTERNAK, S.(org.). São Paulo: transformações
2014. na ordem urbana. 1. ed. Rio de Janeiro: Letra
[2] Bógus, L.M.M.; Pasternak, S. São Paulo Capital, 2015.
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PASTERNAK, S.(org.). São Paulo: transformações APLICADA (IPEA); PROGRAMA DAS NAÇÕES
na ordem urbana. 1. ed. Rio de Janeiro: Letra UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO
Capital,2015. (PNUD); FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO (FJP).
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do setor de serviços: documento básico. In: http://www.atlasbrasil.org.br/2013/ . Acesso
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XXI: diagnósticos setoriais da economia paulista, [8] INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA
setores de indústria e serviços. São Paulo: APLICADA (IPEA ). Nota técnica de apoio ao
Fundação Seade, 1992. V. 3. lançamento do relatório de desenvolvimento
[4] Centralinteligence Agency (CIA). humano 2010 “A verdadeira riqueza das
TheWorld Factbook. 2014.Disponível em nações”: O novo IDH. 2010, 11 pg.
https://www.cia.gov/library/publications/download/d [9] PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS
ownload-2014. Acesso em 10/06/2016. PARA O DESENVOLVIMENTO (PNUD).

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


151

Relatório do desenvolvimento Humano 2010 (RDH o uso de indicadores ambientais como subsídio
2010) . A verdadeira riqueza das nações: vias para às políticas públicas de meio ambiente: a
o desenvolvimento humano. 2010, anual, 253 pg. experiência da cidade de São Paulo .
[10] SCHUMPETER, J.L. Teoria do Secretaria Municipal do Verde e Meio
desenvolvimento econômico. São Paulo : Abril Ambiente - Prefeitura do Município de São
Cultural, 2 ed.,1985. Paulo/Brasil, 2008.
[11] Sen, Amartya. As pessoas em primeiro [13] Sert. Secretaria do Emprego e
lugar: a ética do desenvolvimento e os problemas Relações do Trabalho (SERT) do Estado de
do mundo globalizado. São Paulo: Companhia das São Paulo. Boletim Foco 2011. Região
Letras, 2010.. Desenvolvimento como liberdade. Metropolitana de São Paulo, 2012. Disponível
Tradução: Laura Teixeira Motta. São Paulo: em: http://www.seade.gov.br/projetos/simtrabalho.
Companhia das Letras: 2000. Acesso em: 01/09/2016.
[12] Sepe, P.M; MACIEL, Y. R.; COSTA, [14] Ul Haq, M. Reflections on human
F. C.; RISETTE, M. C. ; AKAMINE, T. development.Londo, Oxford University Press, 1995.
Caracterizando a interação sociedade-natureza-

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


152

Capítulo 13

Antônia Amanda Alves Pereira Moreira


Henrique César Melo Ribeiro
Rosany Corrêa

Resumo: Produzir no mercado atual é um desafio para as organizações. Observa-


se através dos estudos dos últimos anos, que o consumo de alimentos mais
naturais se mostra crescente, e os produtos orgânicos estão cada vez mais
procurados em relação a outras fontes de alimento. O presente estudo tem como
principal objetivo, investigar a importância da exportação de alimentos orgânicos
para o desenvolvimento sustentável do município de Parnaíba-PI sob a ótica dos
stakeholders. Seu procedimento é um estudo de caso único com abordagem
qualitativa. Sua análise de dados foi baseada nas entrevistas de 10 perguntas com
15 Stakeholders dos Tabuleiros Litorâneos localizado em Parnaíba-PI. Diante da
análise e discursão dos resultados, constatou-se a qual produção de alimentos
orgânicos realizada nos Tabuleiros Litorâneos apresentam inúmeros benefícios
para o desenvolvimento sustentável do município de Parnaíba no Piauí, uma vez
que conserva e gerencia os recursos naturais, que controla e estimula às práticas
culturais, à saúde, alimentação e, sobretudo, qualidade de vida com geração de
empregos e remuneração justa para a população parnaibana e das regiões
vizinhas. Enquanto a exportação desses alimentos, ela proporciona uma melhor
visibilidade para o município.

Palavras-Chave: Sustentabilidade. Alimentos orgânicos. Exportação.


Desenvolvimento sustentável.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


153

1.INTRODUÇÃO são muito boas “os orgânicos continuam em


crescimento, em especial no número de
Produzir no mercado atual é um desafio para
unidades produtivas de agricultura orgânica e
as organizações. Devidos às leis, os padrões
sustentável, passando para 18 mil nos últimos
de qualidade e a velocidade de informações,
12 meses, cerca de 15% de crescimento e as
os consumidores, de maneira geral, estão
54 empresas, associadas ao Conselho
cada vez mais informados e exigentes quanto
Brasileiro da Produção Orgânica e
aos alimentos os quais consomem, exigindo
Sustentável (Organis) e ao Projeto Organics
que a empresa além de produzir com
Brasil. (ESTADÃO,2017).
qualidade, ela deve produzir sem agredir o
meio ambiente, em um amplo sentido, é No Nordeste a produção de alimentos
produzir para desenvolver, é gerar com orgânicos se mostra em potencial, devido aos
sustentabilidade. (SALVADOR, 2011; Tabuleiros Litorâneos, localizado em Parnaíba
CASTRO NETO et al., 2010). e cidades próximas da região norte do
Estado. (PORTAL BRASIL, 2014). A cidade de
Felizmente a adoção do termo e da prática
Parnaíba “se destaca produzindo em plena
sustentabilidade vem sendo debatida e
caatinga, alimentos orgânicos. Os alimentos
aplicada no decorrer dos anos. Um grande
colhidos viram matéria-prima para a produção
marco se deu em 1972 com a I Conferência
de polpa de frutas que são vendidos para os
sobre o Meio Ambiente Humano, em
estados de Pernambuco, Maranhão e Ceará,
Estocolmo na Suécia e recentemente durante
além de exportados para países como
a ECO 92 (Conferência das Nações Unidas
Estados Unidos e Alemanha”. (ALVES, 2015).
sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento)
foram redefinidos objetivos e meios de O projeto dos Tabuleiros Litorâneos foi
programas de assistência para a relação implantado em 1989 e está sob
sociedade-natureza. (OLIVEIRA et al., 2008; responsabilidade do Departamento Nacional
RIBEIRO; CORRÊA; PIEROT, 2012). de Obras Contra as Secas (DNOCS).Ele se
utiliza da fonte hídrica do rio Parnaíba para
Em contra partida, unir produção e
irrigar uma área que atualmente abrange 800
desenvolvimento sustentável tem sido um dos
hectares, onde ainda há outros 2.443,08ha
grandes paradigmas desse milênio, uma vez
equipados e prontos para o manuseio das
que a crise socioambiental deste final de
terras e sua produção renda por ano cerca de
século colocou em xeque as bases teóricas e
R$ 12 milhões, com geração de 2.369 postos
metodológicas que sustentaram o
de trabalho fixos e temporários. A maior
estabelecimento do atual modelo de
produção e consequente exportação dos
crescimento econômico e sua reitera da
tabuleiros é a acerola orgânica, que é
inobservância dos limites impostos pela
exportada por uma multinacional. Além da
natureza, especialmente aos quais possuem
acerola, o projeto se destaca na produção de
relação aos meios de produção. (OLIVEIRA et
melancia, caju, melão, mamão, e o mais
al., 2008; SANTOS; CÂNDIDO, 2010; ARAUJO
recente investimento são as uvas. (RIBEIRO,
et al., 2015).
2015).
Nesse contexto, observa-se através de
Em todo o processo de produção e
estudos dos últimos anos, que o consumo de
exportação desses alimentos orgânicos, em
alimentos mais naturais se mostra crescente,
qualquer ambiente que seja, faz-se
e os produtos orgânicos com sua ausência de
necessária à análise de várias óticas. A teoria
agrotóxicos e fertilizantes químicos em seu
dos Stakeholders é a perspectiva adequada
cultivo estão cada vez mais procurados em
para realizar está ação, porque a decisão
relação a outras fontes de alimentos
conjunta de diversos atores no contexto da
(MEIRELES et al., 2016), como os
produção e exportação de alimentos
convencionais, transgênicos, ecológicos e
orgânicos é que causam grandes impactos
outros (TAMBOSI et al., 2015). São
no desenvolvimento de Parnaíba, uma vez
consequências dessa maior produção e
que em diversos estudos, observam-se
dessa maior demanda cujas prateleiras de
muitos argumentos favoráveis à teoria dos
supermercados estão lotadas com os
stakeholders, afirmando com esta teoria a
alimentos provenientes da agricultura
organização possua uma postura
orgânica e uma maior exportação.
administrativa mais estratégica, favorecendo
(LOMBARDI; MOORI; SATO, 2004; HOPPE et
a geração de inúmeros benefícios para a
al., 2012; TEIXEIRA,2006).
empresa. (BOA VENTURA et al., 2008). Assim
Atualmente no mercado brasileiro as notícias esse estudo se justifica, visando entender

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


154

como se da à importância da exportação de para fins de estudo, procurando dar as bases


alimentos orgânicos para o desenvolvimento que sustentarão ao processo de pesquisa.
sustentável (AZEVEDO et al., 2014), do
município sob uma ótica diferenciada e
estratégica, e também como forma de 2.1 SUSTENTABILIDADE E
contribuição para a pesquisa desse setor tão DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
amplo e com potencial de desenvolvimento,
Uma das palavras mais ouvidas nos dias
mas tão carente de referências.
atuais é sustentabilidade, em suas diversas
Portanto as informações citadas anteriormente dimensões, tanto pelos órgãos públicos,
levam à seguinte questão de pesquisa: Como quanto por empresas, escolas e até mesmo
ocorre a exportação de alimentos orgânicos os meios de comunicação, sua conceituação
par a o desenvolvimento sustentável do também se apresenta ampla, em decorrência
município de Parnaíba-PI sob a ótica dos a evolução do tema que vem sendo debatido
stakeholders? A fim de responder essa e aplicado no decorrer dos anos. (LIBONI;
indagação o presente estudo tem como CEZARINO, 2012; PEREIRA et al., 2015). Para
principal objetivo, investigar a importância da que se entenda o conceito e o consequente
exportação de alimentos orgânicos para o desenvolvimento sustentável garantido por
desenvolvimento sustentável do município de essa prática, se faz necessário perpassar
Parnaíba-PI sob a ótica dos stakeholders e pela gênese da história.
tem como objetivos específicos, (1)
Com os avanços tecnológicos advindos da
apresentar o potencial da produção orgânica
Revolução Industrial, o modelo de consumo,
dos Tabuleiros Litorâneos; (2) mostrar a
produção e desenvolvimento adotado pelo
importância da exportação dos alimentos
homem, visando sempre o lucro e a
orgânicos para o desenvolvimento do
exploração de recursos se intensificaram.
município; e (3) sugerir maiores investimentos
Todavia, com o passar do tempo, a produção
no que diz respeito à visibilidade do s
em grande escala passou a causar uma série
Tabuleiros Litorâneos.
de impactos, sem permitir que o meio
A metodologia adotada para a realização da ambiente tivesse o tempo necessário para se
pesquisa se constitui como uma pesquisa recuperar. (SANTOS, 2016).
qualitativa do estudo de caso único através
Contrário do que a princípio se imaginava,
de entrevistas, análise documental e
surgiram inúmeras desigualdades. Muitos
observações coletadas nos Tabuleiros
direitos e garantias do homem passaram a ser
Litorâneos de Parnaíba-PI. O presente estudo
violado, isto porque exploravam o meio
visa contribuir para a pesquisa científica do
ambiente de maneira excessiva e
assunto em questão tão escasso de
irresponsável, acreditando que este seria
referências, servindo assim de base para
fonte inexaurível de recursos. Todavia só
futuras pesquisas mais aprofundadas sobre a
foram percebidos os impactos negativos
temática e também para mostrar a
desta exploração após anos. (SANTOS,
importância da exportação de alimentos
2016).
orgânicos para o desenvolvimento sustentável
do município, no intuito de sugerir maiores A preocupação da comunidade internacional
investimentos para o desenvolvimento com os limites do desenvolvimento do planeta
sustentável dos tabuleiros. Além desta seção, foi tão intensa que levou a Organização das
o presente trabalho possui mais quatro Nações Unidas (ONU) a promover a I
partes. A seção seguinte compete ao Conferência sobre o Meio Ambiente Humano,
referencial teórico, posteriormente serão em Estocolmo, em 1972. (VEIGA, 1999). Anos
apresentados à metodologia, seguida da após, durante a ECO 92 foram redefinidos
análise e discussão dos dados coletados e, objetivos e meios de programas de
por fim, as considerações finais desse estudo. assistência para a relação sociedade-
natureza e a Conferência do Rio elaborou um
plano estratégico de ação para o
2. REFERÊNCIAL TEÓRICO desenvolvimento sustentável, o documento
que ficou conhecido como Agenda 21.
Esta sessão abordará temas importantes nos
(OLIVEIRA et al., 2008).
quais envolvem sustentabilidade e
desenvolvimento sustentável, alimentos Reuniões, conferências, discussões e anos de
orgânicos, exportação e a teoria dos estudos trouxeram para o mundo uma
stakeholders, abordando conceitos e teorias diversidade de conceitos do que seria essa

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


155

palavra tão usada na atualidade, de modo a de alimentos orgânicos se apresenta


simplificar, “Sustentabilidade” é um termo promissora, uma vez que são componente-
usado para definir ações e atividades chave destes novos mercados de produção
humanas que visam suprir as necessidades limpa.
atuais dos seres humanos, sem comprometer
o futuro das próximas gerações (PORTAL DE
PESQUISAS TEMÁTICAS E EDUCACIONAIS, 2.2 ALIMENTOS ORGÂNICOS
2017).
Entende-se por alimentos orgânicos, aqueles
A noção de sustentabilidade refere-se a três que utilizam, em todos seus processos de
dimensões distintas, ou seja, a ecológica, a produção, técnicas que respeitam o meio
social e a econômica (MACEDO; FERREIRA; ambiente e visam à qualidade do alimento.
CÍPOLA, 2011). Tais dimensões propõem Além de ser isento de insumos artificiais,
intensas transformações nas três dimensões como os adubos químicos e os agrotóxicos,
para reorganizar a sociedade, em longo também deve ser isento de drogas
prazo. Trata-se de buscar novas formas de veterinárias, hormônios e antibióticos, e de
socialização, de organização social e organismos geneticamente modificados.
econômica, que permitam romper com os (FOOD INGREDIENTS BRASIL, 2013).
atuais modelos de desenvolvimento,
Como reflexo dos impactos causados pela
produção e consumo, que são impulsionados
agricultura convencional, a degradação do
e dominados pelo capitalismo (CARVALHO,
meio ambiente, redução de mão-de-obra e de
2015).
subsídio s estatais os alimentos orgânicos
A prática de ações sustentáveis leva ao que vêm ganhando espaço e conquistando um
se chama de Desenvolvimento Sustentável. mercado exigente. A agricultura orgânica é
Este, não é um estado de harmonia uma alternativa para o agricultor, com uma
permanente. Trata-se de um processo de produção de alta qualidade, usando apenas
mudança onde o uso dos recursos, a insumos produzidos na própria lavoura.
destinação dos investimentos, o s caminhos (ARAÚJO et al.,2007) .
do desenvolvimento da tecnologia e a
Através das mudanças e evoluções de
mudança institucional devem estar de acordo
pensamentos, analisou-se que o
com as necessidades do presente e do futuro
comportamento individual dos consumidores
(OLÍVIO et al., 2010).
de alimentos vem passando por mudanças ao
Assim, desenvolvimento sustentável não longo dos anos, principalmente relacionado a
significa somente a conservação dos recursos aspectos sociais e culturais (PEIXOTO;
naturais, mas, sobretudo um planejamento PEREIRA, 2013). Diferentes estilos de vida,
territorial, das áreas urbanas e rurais, um alterações tanto nas refeições (STRASBURG;
gerenciamento dos recursos naturais, um JAHNO, 2017), como nos papéis familiares,
controle e estímulo às práticas culturais, à além de inovações trazidas pelas ciências
saúde, alimentação e, sobretudo, qualidade como a biotecnologia e a química na
de vida com distribuição justa de renda per composição destes alimentos.
capita. (OLÍVIO et al., 2010; MORAES et al., Simultaneamente a esses fatores, percebe-se
2016). o crescimento de novos tipos de
apresentação e de distribuição de alimentos
Com o surgimento desses novos conceitos
em lojas, supermercados, feiras e diferentes
surgem novas exigências por parte do
pontos de venda. Um dos segmentos que tem
mercado. Não basta mais produzir, se faz
merecido especial atenção é o dos alimentos
necessário gerar com sustentabilidade. Os
orgânicos. (NEUTZLING et al., 2010).
consumidores, de maneira geral, estão cada
vez mais informados e exigentes quanto aos A busca pela qualidade alimentar está se
padrões de qualidade dos alimentos que tornando uma das principais preocupações
consomem. Tal conscientização converge dos consumidores conscientes. (DAROLT,
com os preceitos de segurança alimentar e 2003). Essa ascensão do mercado de
de sustentabilidade difundidos atualmente, ou produtos naturais e orgânicos vem seguindo
seja, há uma preocupação para que não se uma tendência mundial de aumento da
utilizem os recursos naturais de maneira demanda por produtos e serviços que
indiscriminada, causando danos ao meio proporcionam saúde e bem-estar. Soma-se a
ambiente. (CASTRO NETO et al., 2010). esse fator a crescente desconfiança de
Nesse contexto, observa-se que a produção alguns setores da sociedade em relação à

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


156

indústria moderna, a qual trouxe uma série de É evidente que essa produção e exportação
facilidades à vida cotidiana, mas também de alimentos orgânicos gerados pelos
aumentou significativamente a manipulação tabuleiros apresentam um crescimento mais
de químicos persistentes no meio ambiente, do que significativo para município e para
com graves consequências para a saúde toda a região. Manter essa produção em alta
humana e para os ecossistemas naturais. requer esforço s e uma análise de várias
(DIAS et al., 2015). óticas, e a teoria dos Stakeholders é a
perspectiva adequada para realizar está
ação, porque a decisão conjunta de diversos
2.3 EXPORTAÇÃO atores no contexto da produção e exportação
de alimentos orgânicos é que causam
O Brasil se consolida cada vez mais como um
grandes impactos no desenvolvimento do
país com grande potencial para o Comércio
meio. (BOAVENTURA et al., 2008).
exterior, em 2011, as exportações chegaram
ao valor de US$ 256,0 bilhões com relação a
2010. Essa atividade de exportação pode ser
2.4 TEORIA DOS STAKEROLDERS
vista como o ato de trocar mercadorias e
serviços entre os países, afim de que essas Em uma definição precisa os stakeholders
trocas supram as necessidades das partes são públicos de interesse, grupos ou
envolvidas e da mesma forma gerando indivíduos, que legitimam as ações de uma
divisas para os países que participam dessa organização e que tem um papel direto ou
atividade. (SOUZA; SOUZA, 2013; SILVA, indireto na gestão e resultados dessa mesma
2008). organização. Eles são classificados como:
primários e secundários. Os primários são:
Como um país de clima e solo diversificado, o
proprietários, clientes, fornecedores
Brasil tem um potencial muito grande em
empregados e a concorrência; os
relação ao plantio de espécies das mais
secundários são: governos internos, governos
variadas. Sua fruticultura abrange uma
externos, mídia, comunidade, organizações
grande variedade de exemplares e é focada
sem fins lucrativos, analistas financeiros,
principalmente no plantio de frutas tropicais,
instituições financeiras. (TRINDADE, 2011).
subtropicais e temperadas. Além dos fatores
já mencionados, há uma crescente demanda Dentro de uma classificação mais
em função de a população buscar uma aprofundada eles podem ser definidos como:
alimentação mais saudável e balanceada, de (1) Dominante: aquele que espera e recebe
modo que o setor vem crescendo muita atenção na organização. Influencia a
gradativamente e ganhando uma empresa, pois tem poder e legitimidade; (2)
representatividade cada vez maior na Adormecido: aquele que na organização,
agroindústria. (DIRETTI et al., 2014). possui poder para impor alguma decisão,
mas há pouca interação, pois o seu poder
Frente a mercados de exportação exigentes
não tem legitimidade ou urgência; (3)
com norma s rígidas de controle de qualidade
Definitivo, tem poder e legitimidade. Os
dos produtos que ingressam em seus
gestores devem dar prioridade e atenção
mercados, os produtos agrícolas orgânicos
imediata quando o stakeholder definitivo
brasileiros são uma alternativa diferenciada,
alegar urgência e (3) Dependente: É aquele
com grande potencial e que vêm
que depende do poder de outro stakeholder.
conquistando grandes mercados como
Mesmo tendo alegações legítimas e urgentes,
Estados Unidos, Europa e Japão. (SILVA,
suas reivindicações somente serão levadas
2012; JOÃO et al., 2016).
em consideração quando outro apresentar ou
O Nordeste, assim como o país, apresenta defender. (TRINDADE, 2011).
avanços através dos Tabuleiros Litorâneos e
Em suma a Teoria dos Stakeholders propõe
sua produção de acerola. Essa produção
uma estratégia de somar visão econômica
começou a tomar maiores proporções entre
dos recursos à visão econômica de mercado
2001 e 2003, uma atividade relativamente
ao mesmo tempo em que incorpora uma visão
nova, na qual agricultores encorajados pela
sociológica e política da sociedade, ao
chegada de novas tecnologias, e incentivos
sistema maior cuja empresa está situada,
de órgãos como a Embrapa Meio-Norte,
para as tomadas de decisão. No
Banco do Nordeste e universidades, deram
gerenciamento estratégico o objetivo da
inicio à produção de frutíferas orgânicas no
abordagem é reformular uma nova direção.
Estado. (MARTINS, 2013).
Baseado nessa teoria, as organizações

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


157

deixam de privilegiar somente os interesses interpretações que os humanos fazem a


dos seus acionistas, mas foca também na respeito de como vivem, constroem seus
responsabilidade das empresas em artefatos e a si mesmos, sentem e pensam.
“satisfazer” os interesses dos empregados, Esse tipo de pesquisa reforça que o estudo
fornecedores, comunidade local, compreende a logica interna de grupos,
consumidores, governo, dentre outros. instituições e atores. (MINAYO, 2006;
(PIANCA, 2014). VERGARA, 2008).
Então a Teoria dos Stakeholders constituiu-se Faz-se necessário salientar que, seu campo
em uma alternativa para a definição da de pesquisa em questão produz muitos
função-objetivo. A importância deste tema alimentos orgânicos, dentre eles estão:
estimulou o desenvolvimento de diversos acerola, uva, melancia, caju, manga, goiaba e
estudos teóricos e empíricos acerca da coco, entretanto apenas a acerola é
compatibilidade das definições da função- exportada. Sua produção é a maior dos
objetivo da empresa. (BOAVENTURA et tabuleiros, para cuidar dessa produção
al.,2008). Pode-se dizer que os stakeholders existem três cooperativas denominadas
são preponderantes para qualquer gestão respectivamente: Biofruta, Orgânicos e
organizacional. (RIBEIRO; COSTA, 2017). Parnaíba Litoral – onde vendem o produto
Deste modo isso implica para as para a multinacional estadunidense Nutrilite,
organizações produtoras de alimentos tem sede em Ubajara, no Estado do Ceará, os
orgânicos uma vez que ela se faz presente demais produtos são consumidos dentro do
nas diversas abordagens. estado e em regiões vizinhas, por este motivo,
a acerola é o alimento foco desse estudo.

3. METODOLOGIA
3.1 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Essa pesquisa busca entender a seguinte
questão de pesquisa: Como ocorre a Seu procedimento será um estudo de caso
exportação de alimentos orgânicos para o único da importância da exportação de
desenvolvi mento sustentável do município de alimentos orgânicos para o desenvolvimento
Parnaíba-PI sob a ótica dos stakeholders? A sustentável do município de Parnaíba-PI sob a
fim de responder essa indagação o presente ótica dos stakeholders através de
estudo tem como principal objetivo, investigar documentos, observação do campo de
a importância da exportação de alimentos pesquisa, a qual se trata das empresas
orgânicos para o desenvolvimento sustentável produtoras de alimentos orgânicos alocadas
do município de Parnaíba-PI sob a ótica dos nos tabuleiros, e entrevista com 15
stakeholders. stakeholders dos Tabuleiros Litorâneos do
município de Parnaíba-PI, sendo eles, dez
A pesquisa demonstrará sua natureza
produtores de acerola orgânica dos
descritiva, pois pesquisas desse tipo têm
Tabuleiros, três presidentes das cooperativas
como necessidade primordial a descrição das
responsáveis pela venda das acerolas
características de determinada população ou
orgânicas, a administradora dos Tabuleiros e
fenômeno ou o estabelecimento de relação
o gerente da Nutrilite, o responsável pelas
entre variáveis. Ela também se constitui de
unidades produtivas e pela compra e
natureza explicativa, um estudo que permite
recebimento das acerolas das cooperativas.
ao investigador identificar fatores que
determinam ou contribuem para as Entende-se por estudo de caso um estudo
ocorrências do fenômeno. E também não aprofundado e exaustivo de um ou de poucos
deixará de ter traços exploratórios na medida objetos, de maneira a permitir o seu
em que irá buscar auxiliar e compreender conhecimento amplo e detalhado ou a
melhor uma situação para a elaboração de seleção de um objeto de estudo restrito,
novas ideias, unificação de novos conceitos e exigindo do pesquisador equilíbrio intelectual
ampliação de novos conhecimentos. (GIL, e capacidade de observação, por serem
1987). fatos/fenômenos isolados que serve para
explorar situações da vida real e descrever a
Ele irá optar ainda pela abordagem
situação do contexto a qual está sendo feita
qualitativa, pois o estudo qualitativo se aplica
determinada investigação. (GIL, 1987).
ao estudo da história, das relações, das
representações, das crenças, das
percepções e das opiniões, produtos das

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


158

3.2 PROCEDIMENTOS DE COLETA DE fatos ou ocorrências através da utilização de


DADOS instrumentos. Ela faz parte do método
científico, pois a semelhança da
Seu procedimento de coleta de dados será
experimentação permite realizar verificação
pautado em um tripé constituído por: análise
empírica dos fenômenos. (MARCONI;
documental, observação e entrevistas. Os
LAKATOS, 2003).
documentos são quaisquer suportes que
contenham informações registradas, Por fim, a entrevista constitui um instrumento
formando uma unidade, que possam servir eficaz na escolha de dados fidedignos para a
para consulta, estudo ou prova. Incluem elaboração de uma pesquisa, desde que seja
impressos, manuscritos, registros b em elaborada, bem realizada e
audiovisuais e sonoros, imagens, sem interpretada. Para tanto se faz necessário
modificações, independentemente do período definir os objetivos e como deve ser
decorrido desde a primeira Publicação. planejada e executada. Ela pode ter como
(MARCONI; LAKATOS, 2003). objetivo averiguar fatos ou fenômenos,
identificar opiniões individuais e descobrir os
A observação é a ação ou efeito de observar,
fatores que influenciam ou determinam essas
examinar com atenção, olhar com pormenor,
opiniões. (ANDRADE, 2006).
constatar. Trata-se de uma atividade realizada
para detectar e assimilar informação. O termo
também faz referência ao registro de certos
Quadro 1: Entrevistados

Entrevistados Gênero Cargo Função Duração da Entrevista

Administrar unidades
E1 Masculino Gerente Agrícola 17min3s
produtivas

Planejar, organizar, dirigir e


E2 Feminino Administradora 18min15s
controlar o projeto

Presidente da Representar o interesse da


E3 Feminino 09min43s
Cooperativa Cooperativa

Presidente da Representar o interesse da


E4 Masculino 05min11s
Cooperativa Cooperativa

Presidente da Representar o interesse da


E5 Masculino 07min49s
Cooperativa Cooperativa

E6 Masculino Produtor de Acerola Produzir e Entregar Acerola 06min16s

E7 Masculino Produtor de Acerola Produzir e Entregar Acerola 05min34s

E8 Masculino Produtor de Acerola Produzir e Entregar Acerola 05min45s

E9 Masculino Produtor de Acerola Produzir e Entregar Acerola 05min27s

E10 Masculino Produtor de Acerola Produzir e Entregar Acerola 07min2s

E11 Masculino Produtor de Acerola Produzir e Entregar Acerola 05min30s

E12 Masculino Produtor de Acerola Produzir e Entregar Acerola 05min55s

E13 Masculino Produtor de Acerola Produzir e Entregar Acerola 10min16

E14 Masculino Produtor de Acerola Produzir e Entregar Acerola 05min50s

E15 Masculino Produtor de Acerola Produzir e Entregar Acerola 06min5s


Fonte: Dados da Pesquisa

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


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3.3 PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE DE papel preponderante das organizações na


DADOS dinâmica econômica do sistema social e o
compromisso com os vários stakeholders.
Seu procedimento de análise de dados foi
(RIBEIRO et al., 2012).
baseado nas dez perguntas da entrevista
com 15 Stakeholders dos Tabuleiros Para os entrevistados sustentabilidade é:
Litorâneos. As entrevistas foram realizadas
“Sustentabilidade é uma forma de preparar o
individualmente com cada um e filmadas para
mundo para as gerações futuras, baseado em
posterior transcrição. Cada um desses
três indicadores: Social, Econômico e
stakeholders entrevistados assume um papel
Ambiental”. (E1)
diferente por uma finalidade e dentro do
processo de produção e exportação de “Sustentabilidade é o equilíbrio na produção
acerola orgânica. Suas respectivas gerando uma produção limpa e sem
classificações foram apresentadas no quadro agressões ao meio ambiente”. (E4)
1 (um) da sessão anterior.
Ao encontrar a definição do termo na qual
Através da observação do perfil dos conhecem, eles acreditam trabalhar com uma
entrevistados podem-se identificar alguns produção sustentável em seu trabalho e por
desses perfis, como por exemplo, o consequência contribuem para o
entrevistado E1 ser classificado como Desenvolvimento Sustentável do município:
Stakeholder Dominante, o entrevistado E2 ser
classificado como Stakeholder Adormecido, já
os entrevistados E3, E4 e E5 ser classificados “Ao produzir orgânicos internalizamos a
como Stakeholder Definitivo e os questão do desenvolvimento sustentável,
entrevistados E6, E7, E8, E9, E10, E11, E12, tudo está atrelado, produzimos pelo prazer
E13, E14 e E15 podem ser classificados como de proporcionar qualidade e saúde para
Stakeholders Dependente. quem adquire esse produto. Seja no Brasil
ou fora dele”. (E5)
“Todas as minhas práticas de produção
4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS
não agridem o meio ambiente. Tudo o que
RESULTADOS
é produzido é pensando no hoje e no
A seguir serão apresentadas as descrições futuro. Eu ajudo a natureza e o ser
obtidas da análise e discursão dos dados humano”. (E6)
referente às entrevistas aplicadas aos
Stakeholders dos Tabuleiros Litorâneos
pretendendo atingir o objetivo geral e os Ao analisar o trabalho realizado pelos
objetivos específicos desse estudo. entrevistados pode perceber claramente, que
todos os stakerolders, por mais que não
saibam conceituar precisamente a palavra
4.1 SUSTENTABILIDADE E PRODUÇÃO “Sustentabilidade”, sabem o que o ela
SUSTENTÁVEL significa e tem consciência de que trabalham
com prática do termo em sua produção, e
Muitos conceitos foram dados para o termo
consequentemente, auxiliam no
sustentabilidade ao longo dos anos devido a
desenvolvimento sustentável do município. A
sua evolução, de maneira precisa, a
contribuição desta pesquisa para a literatura
sustentabilidade está diretamente relacionada
acadêmica nacional consiste em mostrar a
ao desenvolvimento econômico e material
diversidade da amplitude do termo em
sem agredir o meio ambiente, usando os
questão e sugere-se que catalogue pesquisas
recursos naturais de forma inteligente, para
semelhantes a essa.
que eles se mantenham no futuro. Seguindo
estes parâmetros, a humanidade pode
garantir o desenvolvimento sustentável.
4.2 POTENCIAIS DA PRODUÇÃO DE
(PORTAL DE PESQUISAS TEMÁTICAS E
ALIMENTOS ORGÂNICOS
EDUCACIONAIS, 2017).
Observando os estudos dos últimos,
Semelhante à conceituação, o tema
encontra-se que o consumo de alimentos
sustentabilidade ganhou força e notoriedade
mais naturais se mostra crescente, e os
no cenário dos negócios a partir da década
produtos orgânicos com sua ausência de
de 80 em congressos acadêmicos e
agrotóxicos (CONTO; ANTUNES JÚNIOR;
seminários executivos, o qual direcionou o

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 6


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VACCARO, 2016) e fertilizantes químicos em “A acerola é um mercado certo, ou seja,


seu cultivo estão cada vez mais procurados tem um comprador com contrato para
em relação a outras fontes de alimentos, comprar nossos alimentos”. (E11)
como os convencionais, transgênicos,
ecológicos e outros. (LOMBARDI et al.,
2004;HOPPE et al., 2012; TEIXEIRA,2006; Percebe deste modo que a busca pela
TAMBOSI et al., 2015). qualidade de vida e o mercado seguro são
fatores primordiais para a produção de
Existe uma razão para produzir alimentos
acerola orgânica nos Tabuleiros Litorâneos, e
orgânicos nos Tabuleiros Litorâneos do Piauí
assim os produtores tem interesse e
que não se diverge ao pensamento dos
capacidade de produzir outras culturas em
autores citados acima. Ao analisar a fala dos
suas terras aumentando assim o potencial
entrevistados, percebe-se essa razão, ela se
produtivo da região. A contribuição deste
mostra de forma concisa devido ao potencial
estudo consiste em apresentar os fatores
dessa produção que se apresenta crescente
primordiais para essa produção na região,
no mercado e pela busca da qualidade de
alertando que existe capacidade de
vida:
crescimento e potencial para novas
produções de ali mentos orgânicos e em
sugerir estudos quantitativos, onde mensurem
“O orgânico é mais saudável, tem um
essa capacidade ressaltada por parte dos
melhor sabor, oferta qualidade de vida,
stakerolders entrevistados.
não agride o meio ambiente”. (E2)
“A produção orgânica gera melhor
alimentação para as pessoas, porque é 4.3 INVESTIMENTO E VISIBILIDADE DA
livre de agrotóxicos”. (E8) EXPORTAÇÃO ORGÂNICA
“A produção orgânica tem condição de No Nordeste o Piauí se destaca na produção
alimentar o mundo e não mata”. (E10) de alimentos orgânicos, sua agricultura
orgânica certificada. É a marca dos cultivos
“A produção orgânica gera alimentos
no perímetro irrigado Tabuleiros Litorâneos. O
saudáveis que trazem saúde e qualidade
destaque da produção é a acerola que ocupa
de vida”. (E13)
a maior área plantada e rende, pelo menos,
5.750 toneladas por ano. Cerca de 80% do
cultivo é produzido de forma orgânica. Ao
Além da Acerola, nos Tabuleiros Litorâneos
todo, o projeto tem aproximadamente 2,5 mil
são produzidos diversos alimentos orgânicos
hectares, onde estão plantados mais de 10
com: mamão, melão, manga, goiaba, coco, d
tipos de frutas. (PORTAL BRASIL, 2014).
entre outros, todos eles apresentam um
grande potencial de produção, entretanto, a A produção rende por ano cerca de R$ 12
acerola orgânica é o único produzido e milhões, com geração de 2.369 postos de
exportado devido ao mercado “certo”, assim trabalho fixos e temporários. A qualidade dos
apontado pelos stakerolders, uma vez que produtos é conhecida em todo o Brasil.
existe uma empresa denominada Nutrilite, a Grandes empresas do ramo adquirem as
qual investiu na produção dessa acerola frutas e comercializam nas centrais de
desde o seu plantio até sua produção final, e abastecimento das capitais e nos
a mesma compra toda a produção para supermercados das regiões Nordeste, Sul e
transformar em vitamina C e exportar para Sudeste. As frutas piauienses também são
China, Estados Unidos e Europa. exportadas para a Europa e América do Norte
gerando desenvolvimento para o estado.
(PORTAL BRASIL, 2014).
“Apenas a acerola é exportada. Além da
Mediante analise das falas dos entrevistados
acerola temo coco, o maracujá, a goiaba e
percebe-se que embora a produção de
entre outros”. (E3)