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5' EDIÇÃO

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Thompson, John B.
A mídia e a modernidade : uma te0ria social da mídia / John B. Thompson ;
tradução de Wagner de Oliveira Brandão ; revisão da tradução Leonardo Avritzer.
- Petrópolis. RJ : Vozes, 1998.

Título original: The media and modernity.
ISBN 85-326-2079-5

1. Comunicação - Aspectos sociais 2. Mídia - Aspectos sociais !. Título.

98-2583 CDD-302.23
Índices para catálogo sistemático:
1. Mídia : Sociologia 3 02. 23

JOHN B. THOMPSON

,
AMIDIA EAMODERNIDADE
UMA TEORIA SOCIAL DA MÍDIA

Tradução de WC19ner de Oliveira Brandão

Revisão da tradução: Leonardo Avritzer

5ª Edição

Ihy VOZES
EDITORA

Petrópolis
2002

Copyright© John B. Thompson 199 5
Publicado pela primeira vez em 199 5
by Polity Press em associação com Blackwell Publishers Ltd.
Título original em inglês: The media and Modemity-A social theory of the media
Direitos de publicação em língua portuguesa no Brasil:
Editora Vozes Ltda.
Rua Frei Luís, 100
25689-900 Petrópolis, RJ
COMp R /Jfitemet: http:/ /www.vozes.com.br
Brasil

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Editoruçúo e orgumroçüo lilcrUriu: Jaim.t:: A. ((a...,ffl

ISBN 0-7456-1005-6 (edição inglesa)
ISBN 85.326.2079-5 (edição brasileira)

CHAM- 316.77 I T468m
REG - 028094
LOC - 1
OBRA- 38351 DATA - 25/7/2003

Este livro foi composto e impresso peb Editora Vozes Ltd.

Sumário

Apresentação, 7

Prefácio, 9

Introdução, 11

l. Comunicação e Contexco Social, 19
Ação, poder e comunicação, 20
, Os usos dos meios de comunicação, 25
·,~/ Algumas caracceríslicas da "comunicação de massa", 30
A reorganização do espaço e do lempo, 3 6
... Comunicação, apropriação e 'lida colidi'11_1:ª· 41

2. A Mídia e o Desenvolvimento das Sociedades Modem:iS, 47
Algumas dimensões inslicucionais das sociedades modernas, ·49
Comunicação, mercanlilização e o advento da irriprensa, 54
, O surgimenlo do comércio de nolícias, 63
. /
··A leoria da esfera pública: uma avaliação prelirrii.nar, 67 ·
:.v O crescimento das indústrias da mídia, 73

3. O Advento da lnleração Mediada, 77
Três lipos de interação, 78
A organização social da quase-interação mediada, 82
Ação à discâ.ncia ( 1): representando para outros distantes, 92
Ação à distância (2): ação responsiva em contextos distantes, 99

4. A Transformação da Visibilidade, 109
O público e o privado, 1 1O
Públicos sem lugares: O advento da publicidade mediada, 114

apropriação localizada: em busca de uma teoria da globalização da mídia. 121 Os limites do controle: Gafes. novas responsabilidades: vivendo num mundo mediado. A Nova Ancoragem da Tradição. 205 Publicidade além do estado. l 59 A natureza da tradição. 196 " -' Novas opções. O Eu e Experiência num Mundo Mediado. 16 6 Tradição e a mídia (2): tradição deslocada. l 54 6. A administração da visibilidade. 229 Índice. 126 5. A Reinvenção da Publicidade. 183 Intimidade não recíproca à distância. 21 l Para uma renovação da política democrática. 160 Tradição e a mídia ( l): tradição destruída?. A Globalização da Comunicação. 135 A emergência das redes de comunicação global. l 74 Populações migrantes. 13 7 Padrões globais de comunicação hoje: uma visão geral. escândalos e outras fontes de problemas. 191 "Desseqüestração" e a mediação da experiência. tradições nômades: algumas fontes de conflito cultural. z16 Para uma ética de responsabilidade global. 181 O self como um projeto simbólico. 143 A teoria do imperialismo cultural: uma reavaliação. 206 Visibilidade além da localidade. 247 . 223 Notas. 201 8. 178 7. 147 Difusão globalizada.

"Uma ação ou um eYen- . possuir um caráter mono- lógico. com o advento da mídia escrita..·Â núdia e a miXfêmidade._.!t~~-~p~a. no sentido de que a inf. claramen~~-!1E.~~~~~_:!!~.ciiad~ conceito esse derivado-da idéia de distanciamento espaço-temporal em Giddens.<?!.W.:. Para o autor.(_ _ êiê bens e p7cX!utos cuftür~fu...interação na medida em que" .mm.re_!. º. ele é autor de muitos outros liwos entre os quais caberia destacar Habennas criticai debates e Criticai henneneutics.'?. -----.. fase outro chstante passa a ser o intcrlocu'tor. a ~on~xro -éniré""i· pcrcqx. a prin- cipal rnnse. e.' pel~~--j~rnais.d. ela cria unl<:erto ti_E2 d!" situação social através da qual os indivíduos são conectados_J?9r mei<Tde ~m pr~~~so de cornuni_cação e de-·rr~a slin~Ü~~~·~partrr-dõêonccito de quase-int~.!lªS:~? fl1Ii.. O professor Thompson já era conhecido do público brasileiro desde a publicação do seu livro Ideologia e cultura moderna pela Editora Vozes.int~}-Ç.__.ria ele_~~? com a tradição d~~~~c!. csfora política base:lêi..~i:_ankfurt. torna-se o eixo central da análise.·na pu- _f>]F"1dadc mediada.-~~-~~l_~!l!!..1.!_g~~~~J?~!a ~s_:o!a a. por um lado..e 9~jn~~' Ele distingue --- entre o que denomina di:_.. Thompson.. em post.~1.sá.· ~quil~·que se ~pr~ell"tava como __________.~ Para Thompson._.~~Ii~Çi?-da~~~e~.. Thompson inicia o livro relacionan- ~9 a n:i_od~rnidade com ~liferentes ÍQIDl~_de . Thompson propõe uma análise sociológica da mídia segundo a qual ela é analisada sob a ótica das formas de interação que ela cria entre os indivíduos.Ilª . Esta última forma à qual pertencem as i~te~aç~~ri~ pelos livr.ão direta de wn evento e a sua publicização foi alterada. e aquilo que ele denomina de imeraç_~9 mediada e de quase-interação_medi. 9 liHo A mídia e a modemida~~~-~LP_r~do Q~LJQll~_ri:ai~t!?.~çã~~-.9~i&C>!1ª. Professor na universidade de Cambridge.~-1!~~~~i~ dade de análises da mídia que ressaltassem a autonomia interpretativa do sujeit~n..ªQ. a forma clássica de interação entre os in- -···· diYíduos. Apresentação É com grande prazer que apresento ao público o livro A mídia e a modernidade de au- toria do professor John B.9~~!1ente :o~~2?éia_jeferididà.~tor_p..rr.~._c~ptQ.prinCii~~-d~. pela rádio e pela televisão.o~p~~ta~.. se tratar de uma forma de.._da. por Ad9ri!ô ·~ Horkheimer de 9. Já em Ideologia e cultura moderna. se caracteriza pelo fato de.. por outro lado..-~ tuna preocupação.!!<~ ~ade rk agir te1~do em ~~~a um outro que conhece apen_~s-~ J~a~1 da minha ação.~~_:i:·~~a.qüên:i~ do desenvolvime'!.ue o consumo de produt~crrais implica quase automaticamente .:'!::~~.de_ ~o_ns!~~~ _na.p. que Thompson irá discutir as transformações provocadas pela mídia nas fonnas modernas de interação entre os indivíduos.r.s.m_r.ir~~o.t!>A~ní~ia_ 1~a .~1_1:~eração fac~ fac:!..Y.

_ati:_I]~~~: uma ação ou evento deixou de ter de ser presenciadã pelos inêliVíduos para os quais ela-~dquire um significado público".to passa a adquirir um status público para outros que não estavam presentes no local no qual ele ocorreu ou que não foram capazes de vê-lo ou ouvi-lo. o fato de as imagens. fenômenos esses que alteram fundamental- mente a nossa percepção da política moderna. Tal possibilidade.~ti<?. adqui- rindo um significado político. o autor nos apresenta uma excelente análise das possibilidades abertas pela mídia para o exercício da democracia. entendeu a mídia apenas como um problema para o exercício da democracia. precariamente construídas através da mídia.uar o fim das ideologias e das formas de manipulação. no entanto.~a qual aS diferentes oondições e necessidades podem se manifestar e ser discutidas.cllllllrJ. ESta última torna-se capaz· de criãÍ'-uma e5férà-piibfi-. A análise de Thompson toma-se referência para pensarmos um conjunto de fenôme- nos próprios das sociedades contemporâneas.. O livro de Thompson certamente constitui um excelente pon- to de partida para pensar o tipo de política que se abre com a expansão da mídia Rompendo com preconceitos próprios de uma tradição que.rn~::na são arn_e. no entanto. tais como a queda do muro de Berlim ou a guerra da Bósnia.JÕcab nos qúáiS-Õs indivíduos vivem e se torna experiência mediada. l. isto é. A questão que fica em suspenso. traz consigo o seu contrário.J. Thompson dialoga com essas com.. O p~pel dos escân§~~ P_?. Thompson nos fornece al- gumas indicações sobre como pensar essa questão ao propor o conceito de pluralis- mo regulado. por um longo pcriodo. que é a ~~~<. é corno transformar a reflexidade de mera possibilidade em realidade. um modelo capaz de garantir institucionalmente que a pluralidã"de. Fenômenos distan- tes da realidade local.~e­ visibilidade e publicidade foi.. conceito esse capaz de renovar alguns dos potenciais democr~~­ ~_poiític.. tomam-se material a ser processado pelos indivíduos nas suas discussões cotidianas. A política contemporânea lida cada vez mais com imagens públicas constnú- das através da núdia. A experiência nas sociedades contempor~ se dissocia dos contex- (~. resgata os pontos positivos das suas análises e faz uma proposta na qual a democratiu\-fo cU mí- dia continua sendo pane do horizonte de uma política democrática.•ntes.i Ai llllCI ..)pria idéia de experiência.~~~~~~ Existe um segundo i'ênôrneno político igualmente impor- tante que resulta ao surgimento da visibilidade mediada. o indiví- duo que tem acesso a esse material passa a possuir uma capacidade reflexiva de processar novos conteúdos e atuar em novas questões em um novo tipo de esfera pública. O primeiro desses fenômenos consiste na possibilidade da construção mediática de imagens e da conseqüente fragilidade dessas mes- mas imagens. em uma situação na qual o controle da mídia não é igualmente distribuído entre indivíduos e forças políticas. Para Thompson esses fatos apontam na direção de um novo conceito de publicidade. serem vulneráveis à revela- ção de um novo fato ou mesmo de uma só imagem.-de posições pÕlíticas e de propostas políticas seja correspondida por uma pluralidade de instituições mediáticas. desse modo. Sem cair no ufanismo das análises que se apressam em decl.i-mOderna.

. William Outhwaite and Annabelle Sreberny-Moham- madi foram generosos com o seu tempo e os seus comentários.ª... e a tantas outras pessoas da Polity Press e Blackwell Publishers . Examino co~ guns detalhes a n~tureza dos meios de comunicação e suas transformações. Julia Harsant.-p. eles também leram os primeiros esboços e forneceram valiosas informa- ções.t~Ii~.~~. a Anne Bane por sua cuidadosa editoração.~N~.ações Ç:\llJ. estudo a emergência da indústria da comunicação de massa e analiso as tendências mais recen- tes.transfor. e que tiveram tempo para ler e comentar o pri- meiro esboço deste texto.ão. Helga Geyer-Ryan.ento .P~Ltrrm_ortante ao desenvolvimento da ~ídi~e-aõ-Seli'i~ét-. Tenho uma dívida substancial com numerosos amigos e colegas com os quais discuti estas questões durante anos. Henrietta Moore.especialmente Gill Motley. deveríamos reservar um E. se qui- _s. Sou-lhes muito grato pela crítica investigante e pelas numerosas referências a trabalhos relevantes em suas áreas de competência.a preparar este livro para a publicação. Lin Lucas e Ginny Stroud-Lewis .. Peter Burke.. Prefácio Este livro é uma elaboração e clarificação de algumas das idéias inicialmente es- boçadas no meu Ideology and Modem Culture.B.Q. tra- çar-lhes os contornos e considerar suas implicações. Michelle Stanworth.~~~.que ajudaram . mas acima de tudo tento mostrar que o. na esperança de produzir alguma luz para o nosso mundo contemporâneo saturado pela mídia e ao mesmo tempo evi- tar preocupações míopes com o presente. James Lull.. As conversas com Anthony Giddens e David Held me ajudaram a definir os objetivos deste livro. J.~~~o redimir es~~-~~. Cambridge. Peter e Karin Groombridge foram amigos maravilhosos e sempre me deram bons conse- lhos. Lizbeth Goodman merece uma menção especial: ela me deu muitas sugestões úteis e foi uma fonte constante de encorajamento e de apoio. Naquele livro eu havia sugerido que.'l-rais associadas ao sw:gimeot.~ dades modernas.T. Meu principal interesse é explorar estas interconexões. daanbro 1994 9 .. Ni- cola Ross.em dife- rentes etapas .. c:lesenvolvUp._das ~29. Pam Thomas.I!!. Gostaria também de agradecer a Avril Symonds pelo paciente trabalho de pro- dução do texto.da mídia vem entrelaça- do de modo fundamental com as principais transformações institucionais que mo- delaram o mundo moderno.

.

Introdução "Eu tenho dito que. e estes eram os anjos. isto é.. A mais santa majestade decretou que estes deveriam ser Deus e os anjos. Não há dúvida de que Menocchio era um homem de imaginação extraordinária. apesar da distância que separa nossos mundos. Sua estranha cosmogonia era uma criação sua. na minha opinião. o livro foi reimpresso muitas vezes no século XVI e lar- gamente difundido por toda a Europa. Originalmente escri- to em mead~do século XIV. também conhecido como Menocchio . a tradução de um livro popular de viagens atribuído a Sir John Mandeville. impressio- nam-nos hoje como vestígios de uma outra era. ditas por um moleiro do sé- culo XVI em Monreale.) Mas. ao contrário de muitos de seus contemporâneos. um pequeno vilarejo de Friuli no norte da Itália. e suas idéias provavelmente foram vis- tas por seus contemporâneos com um misto de cautela. obedeciam a diferentes leis e pro- fessavam diferentes crenças. Não nos é fácil levar a sério a visão do mundo que elas nos transmitem. pigmeus e homens com ca- beça de cachorro. No curso de seu interrogatório.como do leite se produz o queijo . Elas ofereceram-lhe uma jane- la para um outro mundo.com o tipo de inquietação que quase sempre acompanha a des- coberta de alternativas . um mundo em que ele poderia entrar temporariamente e do qual poderia ver . terra. e en- tre esses anjos havia também Deus. ele também tendo sido criado ao mesmo tempo daquela massa. ou entender por que a pessoa que as pronunciou . e desse volume informe surgiu uma mas- sa . no princípio tudo era caos. Nele Menocchio havia lido sobre terras dis- tantes onde as pessoas tinham diferentes costumes. Menocchio tinha lido II cavallier Zuanne de Mandavilla. Menocchio podia ler. ele havia lido sobre lugares onde as pessoas veneravam o sol. ar. desorientação e temor. e ele se tornou Senhor . outras reverenciavam o fogo. e outras ainda cultuavam imagens e ídolos. Menocchio insistiu repetidamente dizendo que suas idéias 11 . água e fogo estavam misturados juntos.Domenico Scandella.o seu mundo cotidiano em Monreale. preso e condenado à morte. há um traço social de fundamental importância que nos une a ele. (Menocchio foi interrogado. Entre outras coisas. " 1 Estas palavras.e vermes apareceram nela. Estas descrições perturbaram profundamente Menocchio e o levaram a questionar as bases de suas próprias crenças. Pois.teve que pagar tão caro por sua excêntrica crença. ele ha- via lido sobre ilhas aparentemente habitadas por canibais..

Mas os impressos se espalharam rapi- damente. refundindo-as com outros significados.este moleiro autodidata de origens humildes . o interesse pelos meios de comunicação prima pela ausência.isto é. mas isto era apenas parte da verdade. o produto de uma mente desassossegada e original.deveremos dar um lugar central ao desenvolvi- mento dos meios de comunicação e seu impacto. Elas vinham produ- zindo uma crescente avalanche de materiais impressos que iriam gradualmente transformar as condições de vida de muitas pessoas. e não foi preciso muito tempo para que simples indivíduos como Menoc- chio . • \Meu objetivo neste livro é traçar o perfil desta e das subseqüentes transformações naquilo que chamarei de organização social do poder simbólico. se quisermos entender a natureza da modernidade . É talvez surpreendente que. Sua fértil imaginação havia reelaborado estas idéias. mas nos escritos dos teóricos sociais. há muito poucos que trataram a mí- dia com a seriedade que ela merece.foi uma parte integral do surgimento das sociedades moderna~O d17Senvolvimi:. Há um corpo substancial de trabalho de historiadores sociais e culturais sobre o impacto da imprensa nos primórdios da Eu- ropa moderna e de outros lugares. mas elas se tornaram possíveis graças às transformações sociais cujas causas estavam em outros lugares e cujo impacto ultrapassou os limites dos vilarejos de Friuli. as características institucionais das sociedades modernas e as condições de vida criadas por elas . ele foi o precursor de uma nova era na qual as formas simbólicas iriam extravasar muito além dos locais compartilhados da vida co- tidiana. eu nunc.- sos de desen. as máquinas impresso- ras estavam em operação por toda a Europa há mais de cem anos. e explorar algumas de suas conseqüências para o tipo de mundo em que vivemos hoje. e na qual a circulação das idéias não estaria mais restrita ao intercâmbio de palavras em contextos de interação face a face. Menocchio tinha lido muitos livros e colhido muitas idéias neles.a encontrei ninguém que sustente estas opiniões.nto 1dos meio~ d~ comunicação se _entrelaçou de maneira complexa com um número de outros proces. Tentarei mostrar que o desenvolvimento dos meios de comunicação . misturando-as com outras idéias oriundas das tradições da vida rural.desde as mais remotas formas de impressão até os mais recentes tipos de comunicação eletrônica . mi- nhas opiniões saíram da minha própria cabeça"). Qual a causa deste esqueci- 12 . Quando o julgamento de Menocchio começou em 1584. Por isso. e há uma abundante literatura sobre os mais re- centes desenvolvimentos na indústria da mídia.tivessem acesso aos mundos desvelados pelas máquinas impressoras.volvimento que. sem dúvida. se constituíram naquilo qu:e hóje chamamos de 'modernidade'. Inicialmente o impacto das im- pressoras foi sentido mais fortemente nos grandes centros urbanos.eram invenção sua ("Senhor. considerados em sua totalidade. Por mais que pareçam estranhas Pª?" nós hoje essas opiniões de Menocchio. entre os trabalhos dos teóricos sociais que se interes- sam pelo surgimento das sociedades modernas. entre as elites ins- truídas que detinham as rédeas do poder. As visões de Menocchio eram.

geralmente o fazem profundamente informados e formados pelo legado do pensamento social clássico. O estudo que ofereço aqui tem pouco em comum com a alta dramaticidade da grande narrativa.. servem pua transmmr mforma~o e conteudõ simbólico a 1n Vl uos '-.i·rataçãodt: novas formas de açlo e de interação no mundo social. apesar do caráter temporal destes desenvolvimentos. através dos quais as sociedades modernas gradualmente livrar-se-iam dos escombros do passado. desde as pequenas e rudimentares máquinas impressoras do século XV até os enormes conglomerados da comunicação de hoje.mento? Pane é devida. tanto individuais quanto coletivos. suas con- sequências são de grande alcance. novos tipos de relações sociais e novas maneiras de rela- cionamento do indivíduo com os outros e consigo mesmo. E é uma visão que continua a atrair a imaginação teórica.. político e militar ..s pelos atores. a respeito da qual muito pouco de alguma importância se pode dizer.· com os outro. Interessar-me-ei pela gradual expansão das redes de comunica- ção e do fluxo de informação. desde meados do século XIX. que arremessavam as forças pro- gressistas da razão e do iluminismo contra os tenebrosos baluartes do mito e da supers- tição. Seguirei também os caminhos pelos quais estas redes se entrela- çaram com outras formas de poder . os pensadores sociais clássicos não atribuíam um papel significativo ao desen- volvimento dos meios de comunicação. razão e o mito. Pua teóricos interessados em processos de mudanças sociais de longo prazo. Com raras exceções.s-.c:b.!. sem dúvida. na busca de seus objetivos. redes que. Quando teóricos sociais hoje refletem sobre os largos contornos de desenvolvi- mento da modernidade. Para eles.ada ao surgimento das sociedades modernas se assentava em outro lugar: consistia sobretudo nos processos de racionalização e secularização. O raciocínio central deste livro é que nós só pocieremos entender o impacto so- sep~ermos de lado_~ idéi'i1ntu1~1. Em contraste com esta espécie de batalha etérea entre as forças da.econômico.Jós irCiiiõs ver. uma narrativa grandiosa na tradição das grandes epopéias. têm crescido em objetivos globais.e foram usa. a chave da dinãmica cultural assoc:i. Seus termos de referência provêm de traba- lhos de autores que. a?J ~ que o uso dos meios de comuitié:açi""órml>Jie.. Mas irei também mostrar que. a mídia pode pa- recer como uma esfera do superficial e do eiemero. a uma certa suspeição pan com a mídia.vamente ~rius1~êl de_ que~:~: de== cial do desenvolvimento c:b. dividindo os teóricos contemporâneos em campos opostos: dos que desejam defender e clarificar a narrati- va e dos que se inclinam a rejeitá-la como mais um outro mito.pe@~ec~Jundamentalrriente inalterac:b. Esta era uma visão sublime. lutavam para dar sentido às sociedades industriais que se formavam em tomo deles. Quando os indivíduos ll .s novas redes de comunicação e do fluxo ae mlomaÇIO. escrevendo no século XIX e em prinópios do século XX. que nos ajudam a explicar este descuido. relacionarei uma série de desenvolvimentos que podem ser razoavel- mente bem documentados e que têm claras bases institucionais. Mas há outras razões. mais profundamente enraiza- das histórica e intelectualmente.

tanto teórica como historicamente. e vacilante algumas vezes .~l!rgimepto . Tento mostrar que os fenômenos que produzem questões difusas e incômodas na arena política hoje . enfatizando o g~s_en­ ~olvimento das instituições da mídia e o crescimento de :povas redes de comunicação e de informação. Os dois primeiros capítulos preparam o caminho. e cujas características e conseqüências são o assunto do capí- tulo 5 · Aqui procuro mostrar como_ a globalização da comunicação vem imbricada e~ outros processos de desenvolvimento constitutivos das modem-as. ofereço uma ampla interpretação das .induindo a.!r. pelo menos. e novas maneiras de exercer o poder.comunicaçãocmeQ. e tento. É mais fácil chamar a atenção para esta transformação.estão enraizados numa série de transformações fundamentais que dizem respeito à visibilidade do poder exposto através da mídia. mas o fez numa escala nunca dantes experimentada: hoje a visibilidade mediada é efetivamente global em alcance.\!1!. de um modo geral. com rigor e exatidão possí- veis. onde exploro o impacto dos meios de comunicação na relação entre o público e o privado e na mudança do vínculo entre a visibilidade e o pod'. s~c-iedaaes:-e argumento que. A partir do marco teórico elabo- radô bo primeiro capítulo. criando novas formas de ação e interação.iis q.QJ. Muitos dos capítulos que seguem são um esforço . No capítulo 3 argumento que o uso dos meios de comunicação criou novas for- mas de ação e de interação no mundo moderno. 14 . O desenvolvimento dos meios de comunicação não somente tornou o poder visí- vel de muitas maneiras. este capítulo lança os fundamentos de uma teoria social da mídia analisando os contextos sociais dentro dos quais toda comunicação -.lo se prolonga pelo capítulo 4. No ca- pítulo 1 analiso a natureza dos meios de comunicação no interior do marco de uma teoria social mais ampla. Esta circunstância é o resulta- do de um processo complexo de globalização cujas origens remontam a meados do século XIX..~~Qç!a.S~Q-.seqüêrióas. analisar estas formas. Eles são capazes de agir em favor de outros fisicamente ausentes..acontece e em referência aos quais ela deve ser entendida.J~­ ~çõ. se quisermõs-enténder-liies·ascõii. eles entram em formas de interação que diferem dos tipos de interação face a face que caracterizam a maioria dos nossos encontros quoti- dianos.para analisar esta transformação e explorar suas amplas implicações. que não está mais ligado ao compartilhamento local comum. o uso dos meios de comunicação transforma a organização espacial e temporal da vida social. deveremos levar ~m co~~ide:ação os. De um modo fundamental. ~ítulo j)eva a análise para um plano histórico. do que analisar rigorosamente e seguir-lhe as implicações na vida social e política.usam os meios de comunicação.certamente parcial. ou respon- der a outros situados em locais distantes.como a fre- qüente ocorrência de escândalos de todos os tipos .i~da . A argumentaç. contextos específicos dentro dos quais os produtos globalizados da m1dia sao recebidos e entendidos.princip.elas -~ociedades modernas.

i.ii:_t~'.m.a__çl~. Mas o tradicional modelo de público como co-pre- sença guarda pouca semelhança com as realidades práticas do nosso mundo atual.. Mas este livro foi escrito essencialmente como um trabal~_de teoria social. na minh~ visão. desco- briremos a profunda influência que ela exerce na formação do pensamento político e social. como também tem muito a receber delas· e a teoria social da mídia pode ajudar a situar o estudo da mídia lá onde.. O que s1gm- fica viver num mundo onde a capacidade de experimentar os acontecimentos ultra- passa a possibilidade de os encontrar nos caminhos da vida cotidiana limitados pelo tempo e pelo espaço? O capítulo final alinha questões de caráter mais normativo sobre o papel que as instituições da mídia podem ter. A teoria social tem muito a ofe- recer às pesquisas sobre as comunicações.gi~~-9~ có~-~~~:s. se levarmos a mídia a sério. compl!:Hs iIIJ~.fi. sirvo-me também livremente da lite- ratura sobre a teoria social e cultural contemporânea. Ao longo deste livro. Ao desenvolver a argumentação neste livro. Hoje devemos reinventar a idéia de .!c_i_~. valho-me de uma rica e variada literatura sobre história cul- tural e das comunicações... como müITõScõmentadores têm ~fin~i(:fo?õutalvêz~ em certo sentido. não como uma contribuição à literatura especializada no campo das comunicações. Explico que muitas de nossas maneiras tradicionais de pensar sobre questões sociais e políticas são produtos de certo modelo de vida pública que tem ori- gem no mundo antigo. os capítulos 6 e 7 tratam dos efeitos que o desenvolvimento dos meios de comu- nicação produziram na vida diária dos indivíduos.?"9u~ pe!d~"f... mostrando que._~ modo . Mas há três tradições de pensa- 15 .~ identi~~e desconectadas~l!~_!o-­ ~~s? O capítu~o 7 focaliza a natur~za Ciô eu e_as mane~r~s pelas quais.!~~.~-~ã. ele deve estar: entre o conjunto de disciplinas que dizem respeito à emergên- cia. No capítulo 6 me detenho na na- tureza da tradição e na mudança de seu papel: a difusão crescente dos produtos da mídia ajudou a minar as formas tradicionais da vida.E:iíJili_ç:Q. ao desenvolvimento e à estruturação das modernas sociedades e ao seu futuro. Tenho tentado reparar o desinteresse da teoria social para com os meios de comunicação.as. e estudos sobre a mí- dia e a cultura contemporâneas. onde se imagina a possi- bilidade de indivíduos compartilharem o mesmo espaço para discutir questões que dizem respeito ao interesse de todos. e igualmente unilateral.eu­ dências ci? mundo-~modern:~. enquanto tento reparar este vazio.udletir . precisamente da agora da Grécia Clássica. e devem ter..º processo de sua formação e afetado pela profusao de materms da m1d1a. teoria e pesquisa das comunicações. procuro evitar também uma excessiva. desenrai- ~~de seus contextos originais.-elesten!iãmOXlgênado as trad1çoes. como se alguém pudesse estudar o desenvolvimento dos meios de comunicação independentemente de outros processos históricos e sociais mais amplos.~ed!ato do face af~ce. na formação de um modo de vida autôno- mo e responsável.e a reconhecer a cr~ç:~me. E ao mesmo tempo.fu!:.nlep. preocupação com a mídia. transplantan_:io-as 2ara a diáspora culturaTe proporcionando aos indivíduos noya~_.~i> c~§T.impat:~@f.

quando se pensa na orgariização social das indústrias da mídia. Esta ~~°i"~-foi·-~~~~-. Innis foi quem primeir~o. Esta tradição é menos útil.{u~i~~Çã. a merecer o nosso respeito. como veremos.~·-_::-por McLuhan: co~·t-. Ele argumenta que a circulação de matérias impressas nos primórdios da Europa moderna teve um papel crucial na transição do absolutismo para os regimes liberais e democráticos. A grande força desse estudo de Habermas reside no lu- gar que ele reserva ao desenvolvimento da mídia como parte integral da formação das sociedades modernas. Tal teoria foi sem dúvida muito prematura para dar conta de todas as complexidades das relações históricas entre a comunicação e o poder. desenvolvida por o. e eu penso que dificilmente seu raciocínio se possa sustentar em sua formulação origi. mas também por teóricos mais recentes como Joshua Meyrowitz. O mais conhecido deles. ou ainda nas razões pelas quais os indivíduos dão sentido aos produtos da mídia e os incorporam em suas vidas. sua crítica do que eles chamavam "a indústria da cultura" era muito negativa e se baseava em conceitos questionáveis sobre as so- ciedades modernas e suas tendências de desenvolvimento 3 ...d~ certeza..uhanf Harold"Tnnis. Mas/Iiinis enfa- tizou corretamente o fato de que os meios de comunicação como tais são importan- tes para a organiz~o do poder. 16 .:. Há muitos pontos em que a argumentação de Habermas não convence muito.-. mas o mais original e perspicaz foi provavelmente o compatriota e mentõ~-<re MCÍ. com alguma justifi-/ cação. nal..Iüêava de maneira simples wmo os diferentes meios favorecem diferentes maneiras de organizar o poder políti- co. e a organização espacial e"témporal do p. Adorno e Marcuse. contudo._tr. Uma é a tradição da teoria da crítica social produzida pela Escola d~ Frankfurt\Duvido que alguma coisa se pos- sa ainda resgatar hoje dos escritos mais ºantigos dós teóricos da Escola de Frankfurt. ou nos meios pelos quais a mídia se conecta com uma distribuição desigual de poder e de recursos.mento que me são particularmente relevantes para as minhas intenções e que me aju- daram a dar forma à orientação geral deste m~u trabalho. é Marsl(al(Mcl. que perspi- cazmente combina uma análise dos meios eletrônicos inspirada em McLuhan com es- tudos de interação social realizados por Goffman 6 .--::::--... cer- tamente..úfü:n. Uma segunda tradição de pensamento de que livremente me alimento aqui pro- vém do trabalho dos assim chamados teóricos da mídia.Escrevendo nos anos 40 e inícios dos anos 50. e que a articulação da opinião pública crítica através da mídia foi de vital importância para a vida democrática moderna. independentemente das mensagens que eles vei- ~7il~m..~-~lstematicamente as relações entre os meios de comunicação. Mas um dos primeiros trabalhos de Habermas sobre a emergência e a transformação da esfera pública ainda merece atenta consideração 4 . de um lado. centralizada ou descentralizadamente estendido no espaço e no tempo. Mas a visão que subjaz ao arrazoado de Habermas continua.der. e assim por diante. d~ -outro 5 .ida. Sua teorta sobre o~r~s" d~ ~~. como Horkheimer.

Q.ma:-'tradiÇã() intere~~~d~ ~() elo de ligação entre a inter- preta:Çi~~-. não foi que os processos de desenvolvi- mento característicos das sociedades modernas nos impeliram para além da moderni- dade. estudos !:tnogr. 8!~~mente falando. 7 de Gadamer e Ricoeur.-. em muitos aspectos. Este não é o lugar para decifrar as razões da minha insatisfação com grande parte desta literatura. enquanto ao mesmo tempo enriquece este frã5ãifíõ ~~~. Ela também chama a nossa atenção para o fato de que a atividade de "apropriação" faz parte de um processo mais extenso de formação pessoal.Y. .<.--...~v.ialmente YiP.:.:·· ----· --·----.. lastimavelmente inadequadas.e~~'ísõs-Cle-u. através do qual os indivíduos desenvolvem um sentido. .talvez até com o infortunado moleiro de Monreale .a -ii-e~menêutica conv:!!fg.. culado da interpretação. uma tradição que diz respeito. por enquanto. Entre as mais recentes--ccintnoüiÇõ.om. -· Alguns leitores podem estranhar que num livro interessado pela teoria social e pela mídia muito pouco eu tenha escrito sobre a literatura geralmente rotulada (um tanto toscamente) de "pós-estruturalismo" e "pós-modernismo". Se o debate provocado pelo pós-modernismo nos ensinou alguma coisa.~.. Basta.. há pou- cos sinais preciosos de que os habitantes do mundo neste final do século XX tenham entrado numa nova era. algu- mas das razões vão emergir nas páginas que seguem. para eles mesmos e para os outros. Se pusermos de lado a retórica da moda e atentar- mos para as profundas transformações sociais que modelaram nossas vidas.. dizer que..és·a·esiãtfââiçaõ'êu ·íiiêlÜo o trabalho __/ -·------.no qual os indivíduos se servem dos recursos de que dispõem.. A terceira tradição que informa o meu estudo é a da l(ermenêuhca. talvez descubramos o que temos em comum com nossos predecessores . e de que as portas abertas pelo advento das sociedades mo- dernas se tenham definitivamente fechado atrás deles.e mais do que os nossos teóricos contemporâ- neos gostariam de nos fazer crer. para dar sentido às mensagens que recebem.~çi~ do ~-.. --···-··· ·-·· . e cujas conseqüências ainda esta- mos por descobrir completamente. 17 . mas antes que nossas estruturas teóricas para entender estes processos são...in- cluindo os produtos da mídia .e c. qiaú. de sua história.sempre implicã"um processo contextuãhzado e criati- vo de interpret-ãÇàÜ.-tc. cará~er. à interpretação contextualizada__~_!~ simbólicas. alguns. mas de uma nova teoria da era cujos largos contornos foram divisados há pouco.e . de tendências mais etnográficas. Precisamos hoje não de uma teoria sobre a nova era. para uma nova e ainda indefinida era.------e.áfim_s~ sobre a recepÇão dos produtos d~ mídia.. Ao enfatt~a:r. de seu lugar no mundo e dos grupos so- ciais a que pertencem. A hermenêutica ensina que a recepção das formas simbólicas .Qnstrutivo. apesar de todos os discursos sobre o pós-modernismo e a pós-modernidade.__.. mas também os escritos de Clifford Geertz .R.

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Mas com o desenvolvimento de wna variedade de instituições de comunicação a parúr do século XV até os nossos dias. armazenamento e circulação têm passado por significativas trans- formações. l Comunicação e Contexto Social Em todas as sociedades os seres humanos se ocupam da produção e do intercâm- bio de informações e de conteúdo simbólico. como veremos: não deveriam. .mat'êiíãls que são significativos para os indivíduos que os produzem e os recebem. É fácil perder de vista esta dimensão simbólica e preocupar-se tão-so- mente com os aspectos técnicos dos meios de comunicação. isto é. Estes aspectos técnicos são certamente importantes. .Üma fôrm. Irei desenvolver uma in- trodução à mídia que é fundamentalmente "cultural". Se "o homem é um animal suspenso em teias de significado que ele 19 . é importante sublinhar que os meios de comunicação têm.d~-. o armazenamento e a circulação de informação e conteúdo simbólico têm sido aspectos centrais da vida social.~didas no mercado: ficar~m ·. Estes processos foram alcançados por uma série de desenvolvimentos institu- cionais que são característicos da era moderna. unu dimensão simbólica irredutível: eles se relacionam.em es~~-~emp~:sin expª"-!!sã~: tornaram:se-mercãaõrias-que podernséí'~~. êom a produçÍ~~·~rn:.. em sentido fundamental. preocupada tanto com o caráter significativo das formas simbólicas.p~. quanto com a sua contextualização so- cial 1• Por um lado.az~namen­ to e a cirêüraçaciºcfe. ~~~-~-~~-~n!~!~.. as e fõi'iiiâsºSimooliru-roram prÕdüildãs..l1Qifç~demo~ ..~~ssívci5aos indivÍ<luoSlãtgamehré díS-Jfrnt'lnió fempo e nõ-êspãfcl~De .\'õT~imento da-mídiã'íransfor~ou a natureza da pro-. Em virtude destes-Ôesenvolvimentos. porém.' . Desde as mais anúgas formas de comuni- cação gestual e de uso da linguagem até os mais recentes desenvolvimentos na tecnologia computacional. .:' pWTunda· e ·1rrevrníVêr. uma reorganização dos meios pelos quais a informação e o conteúdo simbólico são produzidos e intercambiados no mundo social e uma reestruturação dos meios pelos quais os indivíduos se rela- cionam entre si. reprõduiicí. - Neste capítulo começarei a explorar os contornos desta transformação pela análi- se de algumas das características da comunicação mediada. a produção.õ'êieseD. uma reelaboração do caráter simbólic_o da vida social. os processos de produção.~_Qio sim.. obscurecer o fato de que o desenvolvimento dos meios de comunicação é.

a análise< \ ~mw:i!:_ação deve se basear. everiam ser entendidas. ao usar estes meios. produzem impac na éüffiü~i~~ção~-q~-. é também importante enfatizar que\a. pe_l~ p~~os em parte.palavras inscritas em papel. e a comunicação mediada em particul.~~Mais uma vez.~9-. mumente se descreve como "comunicação de massa" (seção 3). . Desde q1 Austin observou que p:_oferir uma ~-~liâo. Sobre este pano de fundo. Na seção final do capítulo irei e piorar. por is! suas considerações sobre os atos da fala tendem a ser um tanto formais e abstrato divorciados das verdadeiras circunstâncias nas quais os indivíduos usam a linguage1 no dia-a-dia de suas vidas.é~~~~ uma ação e nã~ apenas relat ou descrever um estado de coisas'. 20 . por sua vez. ou imagens gravadas em películas . 2 então os meios de comunicação s rodas de fiar no mundo moderno e. desenvolverei uma abordagem que p: vilegia a comunicação como parte integral de . Na primeira seção deste capítulo esboçarei alguns dos aspectos de contextos s iais dentro dos quais a comunicação em geral.comunicação mediada sempre um fenômeno social comexruahzadp: é sempre !!Jlplar:. por exemplo. os seres humanos fabrico teias de significação para si mesmos. é fácil perder de vista este aspeciõ-:Ur vez que a comunicação é geralmente "fixada" num substrato material de algum tij . Jçã. Por outro lado. Hoje nós podemos retomar a observação de Austín s< mente se desenvolvermos uma teoria social substantiva da ação e dos tipos de pode recursos e instituições em que ele se baseia. as relações entre a comunicação mediada e os contextos sociJ práticos dentro dos quais tal comunicação é recebida e entendida. como Geertz uma vez observou.e que não pode ser entendida sem contextos mais amplos da vida social. analisarei algumas das característic os meios técnicos de comunicação (seção 2) e algumas das peculiaridades do que c '.ente contextualízad~ustin e muitos dos subseqüent1 teóricos dos atõSãelíiíguãg-êrii-iíâõ êóriêi~ziram o raciocínio nesta direção. Sem negligenciar conteúdo simbólico das mensagens da mídia. A quarta seção se int j ressará pelas maneiras nas quais os meios de comunicação reordenam as relações 1 espaço e de tempo e alteram a nossa experiência delas.cfo seu cará[er socíaUri. Ação.é j cil focalizar o conteúdo simbólico das mensagens da mídia e ignorar a complexa m bilização das condições sociais que subjazem à produção e circulação destas mem gens.!d:~~ el!l. Esta é uma tendência que decididamente procurarei evitar. na análise da açã~ e na considei.\Mas se comunicação é uma forma de ação. nos tomamos sensíveis ao fato de que falar un lin~agern-ê uma atividáde ~t~~és da qual os indivíduos estabelecem e renovam relações uns com os outros. c9nl_!:x~ cía'isque se estruturam de diver~s mapeir_~e que. preliminarmente. poder e comunicação Tomou-se lugar comum dizer que com1micação é uma forma de ação. mesmo teceu".

Assim fazendo.eliie1igãdããopoder que ele ou ela possui.isto é. a capacidade de intervir no curso dos acontecimentos e em suas conseqüências. o poder é um fenômeno social penetrante. Os indivíduos se situam em diferentes posições dentro destes cam. isto é porque os estados se tornaram particu- larmente centros importantes de concentração do poder no mundo moderno. os indivíduos podem aumentar seu poder . que são bases importantes para o exercido do poder. dependendo do tipo e da quantidade de recursos disponíveis para eles.~_s__pgs~sÕJ s. às ações de indivíduos agindo em nome do estado. Assim fazendo. e que se mantêm unidas com o propósito de alcançar alguns obje- tivos globais. Indivíduos que ocupam posições dominantes dentro de grandes instituições podem dispor de vastos recursos que os tornam capazes de tomar decisões e perseguir objetivos que têm conseqüências de longo alcance. recursos são os meios que lhes pos- sibilitam alcançar efetivamente seus objetivos e interesses.pos.l. Ao acumular recursos dos mais diversos tipos.. quando institucionalizadas. isto é._genérico. As instituições definem a configuração dos campos de interação .!~~. criam nov. adquirem uma certa estabili- dade . No exercido do poder. Mas a importância das instituições estatais não nos deveria ocultar o fato de que o poder manifestamente político é somente uma forma mais especializada de poder. Em alguns casos estas posições.m-e- existentes e. Há recursos controlados pessoalmente.. característico de diferentes tipos de. desde as ações reconnêcidã: mentep~ÍíÚc~s dos furiêionãrios pi'ibiicõs até os encÕntros mais prosaicos entre indi- víduos na rua. No senticÍÓ mais geral. recur- sos e relações sociais. -ª~mesmo tempo. Estes conjuntos de circunstâncias podem ser concei- tuados como "campos de interaçã<L.do mesmo modo que. eles exprimem e ajudarn a tornar relativa- 21 . Se hoje comumente associamos poder à política.. os indiví- duos empregam os recursos que lhe são disponíveis. ação-ede-~ncontro.~!nstituição ~uito estreúãlri. e há também recursos acumu- lados dentro de organizações institucionais. um indivíduo pode controlar economias pessoais com a finalidade de comprar uma propriedade. para usar um termo fertilmente desenvolvido por Pierre Bourdieu 1. tornam-se parte de um conjunto relativamente estável de regras. rernrsos e relações com certo grau de durabilidade no tempo e alguma ex- tensão no espaço. poder é a capa- cidade de agir para ãlcançar os prÕp'ªos objetiv~i9_y_ÍJ. __ .~o. por exemplo. e de que os indivíduos normalmente exercem poder em m•1itos contextos que pouco ou nada têm a ver com o estado. As instituições podem ser vistas como determinados conjuntos de regras. . eles sempre agem dentro de um conjunto de circunstâncias previamente dadas que proporcionam a diferentes indivíduos diferen- tes inclinações e oportunidades. bem cÕmo novos conjuntos de tr~tórias de vida_para os indivíduos que os ocupam. As considerações aqui desenvolvidas se sustentam na suposição de que os fenô- menos sociais podem ser vistos como ações intencionais levadas a cabo em contextos sociais estruturados 4 • A vida social é feita por indivíduos que perseguem fins e objeti- vos os mais variados. ··~ "----·-·~ A posição que um indivíduo ocupa dentro de.----··.wn camyg_Q. Entendido assim de m~.

os de recursos mate- ~~~~X:n:_~~?r~~~q~Üe_~!ll. e en- tre grupos de indivíduos.- .~r. E~. com processos de fabricação manufaturada e. por exemplo..~~~~ máquinas.is as or~anizações implicam algum grau de coord-. de uma maneira geral. recursos e poder. que ocupam diferentes posições nos camp·1~ de interação. ·--····-.c()_::9. atividade relacio- ~~.-ã~-. rSeguindoCMiciiã~C~~e outros.g~Í:mientação. procuro distinguir quatr~ ~_?.tfri_. etc.~1coeram np1caméiite or~ariizâÇÕes -de· pequeno porte orientadas para .~. -~~~.<l. as chamarei de "instituições paradigmáticas". O poda econômico provém da atividade humana produtiva. e por isso tambem um certo grau de poder político neste sentido.~il'~~-d~ - E~ que chamar~ de ·~econ~~ .~~o" e "s_imbólirn:) Estas distinções são de carater e5senc1almente anahnco.).. :. 111divíduos.<l ~ubsistência da expToraça0 agríc"õ!~ 'õU_~a-f?:ro?U\:~() de pequéifos ·excé~~~<futi- _Eados ao comér~ Com o de~nvolvimento das sociedades modernaS: as instituições paradigmáticas de poder econômico se tornaram maiores em porte e finalidade..da mesma forma que.. O poder econômico pode ser distinguido do poder político.TÕd.. mente estáveis as relações ou redes de poder e dominação entn' e. Estes recursos pod~m ser acu~~la­ dos por indivíduos e organizações com o objetivo de expandir sua atividade pro- dutiva. construções. Mas nós podemos identificar uma gama de instituições que se dedicam essencialmente à coordenação e à regulamen- 22 .~·p~Í~~. É útil fazer uma distinção.. formas de crédito. que deriva da atividade de ~::1açã~-~~: i_?~ví?uos e ~~ularnentação «iõs.~d:Çi~ ·(i. Mas na realidade estas diferentes formas de po- der comumente se sobrepõem de maneiras complexas e variadas. uma empresa comercial de nossos dias serve de estrutura para a capitalização de recursos materiais que são a base privilegiada para o exercício do poder econômico.ocas ~~~. Uma instituição particular ou tipo de instituição pode fornecer a e5trutura para a acumulação intensi- va de um certo tipo de recurso. Elas refletem os diferentes npos de atividades nas quais os seres humanos se ocupam. ·~l'9~~so"..ll>.). de tipo mais variado. subseqüentemente. industrializada que assumiram uma importância fundamental. terra.. ''.~~çã.!rminados recursos e o exercício de certa forma de poder. produtos de consumo" e""capital financeiro (di- nheiro. ativida~­ de produtiva era predominantemente agrária. ao fazê-lo. e d. e.. e daí uma base privilegiada para o exercício de uma certa forma de poder . isto é. e os diversos tipos de recursos de que se servem no exercício do poder.···-·· --··-··-----··--' nada com a provisão dos meios de subsistência através da extração da matéria-prima e de sua transformação em bens que podem ser consumidos ou trocados no merca- do. e as instituições paradigmáticas _do po. ainda que direcionadas essencialmen- te para a acumulação de det>. Mas também elas implicam uma mistura complexa de diferentes tipos de atividades. A atividade produtiva implica o uso e a criação de vários tiP... aumentam seu poder econômico. valores de bolsa... Estas instituições que propor- cionam bases privilegiadas para o exercício de certas formas de poder.. etc.--· ··-· .padroes de sua imeração. entre as diversas formas de po- der.

.r ·- der simbólico.ªITI_. O poder ~~Sfrtlli:Q.sh exercer a autoridade g...... ~. :. pelo treinamento e pelas táticas. até as modernas formas d1 estado-nação...e!ãiiú.._. ~P..._da... que irei descrever como poder coercitiu> e po· -··~ . Todos os estados. i força fíSTCa se aplica de muitas maneira~:C:om êrifereó'iês.dos re 2: .através das conquistas e dos saques. Estas instituições abrangem e que geralmente é conhecido como o estado .Eªcid~!!_t:. Fundamentalmente o estado pode recorrer a várias formas de coerçãc aousõ ~ ·i.. pela inteli gência e pelo planejamento. Embora haja uma estreita conexão histórica e empírica entre o poder político e 1 poder coercitivo...... e a forma mais im portante de poder coercitivo é o _poder ITI~~ É claro que o poder militar desempe nhou um papel importante na form~ção dos processos sociais e históricos. tanto nc passado quanto no presente..·(Õ[. desde os tradicionais estados impe· riais.Mas até que ponto as formas simbólicas particulares conse guem criar e sustentar a crença na legitimidade do poder? Até que ponto tais crença são realmente compartilhadas pelos vários grupos e membros de uma população vas sala. tanto com relação às ameaças ou invasões externas. Contudo.tação.idade do estado .aç~. . ~~-~xercer d~~i'?EE.. e que desempenham estas atividades de uma maneira relativamente centraliza da dentro de um território mais ou menos circunscrito.ª. Implicam um complexo sistema de regras e procedimentos que autorizarr certos indivíduos a agirem de determinadas maneiras... A autoridade do estado pode também se apoia: na difusão de formas simbólicas que procuram cultivar e sustentar a crença na legiti· midade do poder político . Ela pode ser aumen tada pelo µso de armas e equipamentos. Ao longo da história os estados têm reservado uma parti significativa de suas atividades para o fortalecimento do poder militar. etc.~m-~ponente..ute @ mfe rentes resultados.. e para a obten ção .. Mas há uma fundamental ligação entre a coerção e a lesão física 01 a morte: o uso da força física comporta o perigo de mutilar ou de~truir o oponente A força física não consiste simplesmente na força bruta humana. quanto com relação i agitação ou desobediência internas.S.~! relacionadas mas distintas de poder.s. ou instittúções paraestatais. como ~~entre outros observou..para garantir o exercício do podei político.!!'.. é sensato distinguir analiticamente um do outro.gra~s ae mfe1rmt. _ ' .for_~J):sic<l para subjugar ou conquistar. e até que ponto a partilha de tais crenças é necessária para o estável e efetive exercício do poder político? Não há respostas simples e completas para estas questões e é a incerteza (entre outras coisas) que torna o uso político do poder simbólico um aventura arriscada e sempre aberta. -··d . são essencialmente sistema' de autoridade.. ou dos vários tipos de tributação . Historicamente houve muitas formas de estado....a instituição paradigmática do poder poli· tico. -~------.. Em alguns casos estas regras t procedimentos são explicitamente codificados em forma de leis promulgadas poi corporações soberanas e administradas por um sistema judicial. dep~I}~-~~.i!!1 plic~-~ us~~-~~1-.en$. passando pelas cidades-estado da idade clássica. Historicamente as instituições mais importante: acumuladoras de recursos deste tipo são as instituições militares.. real ou sob ameaça da força física .

Tradicionalmente o poder militar tem sido usado tanto para a defesa e a conquista externas. instituições educacionais. transmissão e recepção do significado das formas simbólicas. uma grande variedade de instituições que assumem um papel particular histo- ricamente importante na acumulação. em igualdade de condições com a atividade produtiva. As ações simbólicas podem provocar reações. entre- tanto. sugerir caminhos e decisões. de influenciar as ações dos outros e produzir eventos por meio da produção e da transmissão de formas simbólicas 8 . e instituições da mídia. a coordenação dos indivíduos e a atividade coerciva.cursos materiais para sustentar as instituições da força armada. A atividade simbó- lica é característica fundamental da vida social. Nas sociedades modernas. competências e formas de conhecimento empregadas na produção. Estas e outras instituições culturais forneceram importantes bases para a acumulação dos 24 . apoiar os negócios do estado ou sublevar as massas_ em revolta coleti- va. que se dedicam essencialmente à produção e di- fusão de formas simbólicas associadas à salvação. quanto para a pacificação e o controle internos. ções de conteúdo simbólico. Usarei o termo "poder simbólico" para me referir a esta capacidade de intervir no curso dos acontecimentos. liderar respostas de determinado teor. se servem de toda sorte de recursos que/ descreverei como "meios de informação e comunicação". que se ocupam com a transmissão de con- teúdos simbólicos adquiridos (o conhecimento) e com o treinamento de habilidades e competências. faz-se uma distinção mais precisa entre as instituições militares envolvidas essencialmente com a manutenção (ou expansão) dos limites territoriais do estado-nação. O quarto tipo de poder é cultural ou simbólico. Estas incluem instituições religiosas. transmissão e:· recepção da informação e do conteúdo simbólico (que Bourdieu chama de "capital cultural"\ e o prestígio acu- mulado. há. e há muitos exemplos na história recente do uso do poder militar para reprimir agitações internas. o reconhecimento e o respeito tributados a alguns produtores ou instituições ("capital simbólico"). as habilidades. Se a atividade simbólica é uma característica penetrante da vida social. os indivíduos se servem destas e de outras fontes para realizar ações que possam intervir no curso dos aconte- cimentos com conseqüências as mais diversas.. que se orientam para a produção em larga escala e a difusão generalizada de formas simbólicas no espaço e no tempo. Mas esta definição institucional não é absolutamente definitiva. induzir a crer e a descrer-.'Na produção de formas simbólicas. eles são continuamente envolvidos na comunicação uns com os outros e na troca de informa. Assim fazendo. que nasce na atividade de produ- ção. e as várias orga- nizações paramilitares (como a polícia) e instituições relacionadas (como as institui- ções carcerárias) que cuidam fundamentalmente da pacificação e do controle interno. dos meios de informação e de comunicação. aos valores espirituais e crenças transcendentais. Estes recursos incluem os meios técnicos de fixação e transmissão. Os indiví- duos se ocupam constantemente com as atividades de expressão de si mesmos em formas simbólicas ou de interpretação das expressões usadas pelos outros. entretanto..

r 1 ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~- Formas de poder Tabela 1. como também os recursos materiais_ e fmancei- ros. Quero agora examinar mais detâlhãdãriíente âlguns destes recur- sos. as indústrias da mídia. 25 . muitas ações. Os usos dos meios de comunicação Caracterizei a comunica_s:ão corno um tipo_slistintoJie. empresas comerciais) Poder político Autoridade Instituições políticas (p. estados) Poder coercitivo Força fisica e armada Instituições coercitivas (especialmente poder (especialmente militares.) A tabela 1. Não obstantê. a transmiss~~~o de formas simbólicas e implica a utiílzação de re- cursos de vários tipos.1 Formas de poder Recursos Instituições paradigmáticas Poder econômico Materiais e financeiros Instituições econômicas (p. como indiquei anteriormente.1 resume as quatro formas de poder em relação aos recursos dos quais dependem tipicamente e as instituições paradigmáticas em que eles se concentram. escolas e universidades. se valem de recursos os mais diversos. E. e forjaram os meios com os quais a informação e_o conteúdo_simbóUco são pro- duzidos e distribuídos pelo mundo social.ex. na prática. competências e for- mas de conhecimento que são pressupostas pelos meios de comunicação. ela pode ser efetivamente usada para analisar as transformações institu- cionais associadas ao surgimento das sociedades modernas. • mei()_S_ de informação e comunicação.esta tipologia nos dá uma estrutura útil para analisar a orga- nização social e suas transformações. instituições carcerárias. distin~s raramente são defmitivas.) Poder simbólico Meios de informação Instituições culturais e comunicação (p.. Passo depois a considerar algumas das habilidades..atividade social que cnvol'!Si- produção. etc. a Igreja. e muitas instituições fornecem verdadeiras bases para dife- rentes formas de poder: na sombria realidade da vida social. etc. militar) mas também a polida.ex.ex. como me comprometi a mostrar nos capítu- los seguintes. Esta tipologia não quer ser uma classificação exaustiva das formas de poder e dos tipos de ins- tituição. Começo considerando a natureza dos meios de comunicação e alguns dos usos a que eles se prestam. Além do que.

"podem servir assim de fonte para o exercício de diferentes formas de poder. etc. a escultura em madeira ou pedra.: tanto a conversã:ção face a face quanto aquela transmitida por meios técnicos como alto-falante ou telefo- ne . como a escrita em perga- minho ou papel.em virtude dos quais os sons significativos são produzidos e recebidos. pode haver um grau relativamente alto de fixação. ondas de ar.tenham sido usadas principalmente com a finalidade de registrar informações relevantes à posse de propriedades e admi- nistração do comérdo9 . mais do que de alguma propriedade distintiva do meio técnico como tal. Um dos atributos é o que permite ao meio técnico um certo grau de fixação da form~:-ou'süã pres·ervaÇáü em-'íim~ ineio que possui graus variáveis de durafüh~de~-No-c~-so Cla'éori.(!.. Mas a natureza do meio técnico pode variar grandemente de um tipo de produção simbólica (e inter- câmbio) para outro. Nós podemos examinar melhor estas questões distinguindo vários aspectos gerais ou atributos dos meios técnicos.. ê. a impressão. por exemplo.uma mensagem talhada numa pedra. É muito provável que as primeiras formas de escrita . preparados.desenvolvidas pelos sumérios e pelos antigos egípcios em torno de 3000 aC .. ouvidos e úmpanos auditivos._r:!~-z_enam~mação"..versaçãó. em diferentes grà.o grau de fixação pode ser muito baixo ou efetivamente inexistente. a infor- mação ou o conteúdo simbólico é fixado e transmitido do produtor para o receptor. Uma mensagem escrita a lápis é mais susceptível à alteração do que uma escrita à tinta. terá mais duração do que uma outra escrita em pergaminho ou papel. a pintura. . como no final da Idade Média e início da Europa moderna. assim também eles variam na medida em que nos permitem alterar ou revisar uma mensagem fixa- da. qualquer fi- xação neste caso vai depender da memória. a filma- gem. o elem~ial com que. os meios técnicos podem armazenar infor- -~~ç:Q~s-~údo 3irnbólico. dependeu crucialmente da disponibilidade de vários meios de anotação e de proteção 26 . e as propriedades dos diferentes meios técnicos facilitam e cir- cunscrevem os tipos de produção simbólica e de intercâmbio possíveis. ou por meio do qual. a gravação etc. isto é. cordas vocais.-Õs mêiOs técni'cos·~·e as!Iiiõ-rmaçÕes Õü conteúdo simbólico neles armã- ~õS. Mas em outros casos. O desenvolvimento da atividade econômica em períodos his- tóricos posteriores.!!!. To- dos os processos de intercâmbio simbólico· envolvem um meio técnico de algum tipo. Na produção de formas simbólicas e na sua transmissão para os outros. O meio técnico é o substrato material das formas simbólicas.u5. _Em ~t_ude da capacidade de fixação. os indiví- duos geralmente empregam um meio técnico..por isso ~ãô'êànsiderados como diferentes tipos dê ~~Q~ _cJ.laringe. e uma fala registrada em gravador é mais dificil de ser desmentida do que pala- vras trocadas no fluxo de uma interação do dia-a-dia. E assim como diferentes meios permitem ciiferentes graus de fixação. Mesmo o intercâmbio de afirmações lingüísticas face a face pressupõe alguns elementos materiais . O grau de fixação depende do meio específico utilizado .' par":_ preservar informaçÕ~~-õ~ éonteuâb simbólico e torná-los disponíveis para uso· si:ibs~qü~me.

~-~êr-. literários e filosóficos. Po~ \eprc:iàü.·~er~antilizadas"'. a reprodução.desde organizações encar- regadas de compilar estatísticas oficiais aos funcionários de relações públicas ._ltilização" das formas simbólicas estão justamente no aumento e no controle da capacidade de sua reprodu- / 5_ã0Muitas das grandes inovações na i~dústria da ~ídla :. Em ºtéimos de· suas origens e de seus principais beneficiários.. ela também tem implicações de longo alcãflce ºôo. Si- milarmente. iSto-é. que tinham muito a perder com a reprodução não autorizada de livros e de outros materiais impressos. e à medida 27 . o desenvolvimento da litografia. em princípio.~r~~-1'.da- merital importmcia para a indústria da mídià. Através da Idade Média numerosas falanges de escribas se dedica- vam à tarefa de reproduzir textos religiosos. o fato de uma obra origfnal ou aut~tica não ~. não somente porque permitiram a fixação de fenô- menos visuais e acústicos em meios técnicos duráveis. dificilmente se podem reproduzir. isto é. Mas o passo deci- sivo veio com a invenção da máquina im.·~m:~-~~­ produção toma-se cada vez mais uma característica importante da obra.. da fotografia. do gramofone. é de fun.'ºlransformadas em mercadorias para serem vendi- da:s e compràda~ no mercad~~ os m.'.---- \ ?mbora a capacidade de reprod~ção dos ~eios técnicos sirva à exploração co- mercial.. como os entalhes em pedra. mas também porque tais fenô- menos eram fixados em meios que lhes facilitavam. estão na base da exploraçfo-corrierci~fêiô~··meios de comunicação. Além disso.que-langeºã:nõÇão"de obra :. licenciar e distribuir uma obra.Ção" entendei a capacidade de multipiic~-~7 cópias de uma forma simbólica. que permitiu a reprodução de mensagens escritas em escala e velocidade que até então tinham sido impossíveis._ tais como a introdução da prensa a vapor de Koenig em 1814 e as prensas rotatórias em 1848 . do direito de reproduzir.pressora. Alguns meios técnicos.eios pr\ncipais de "ni. do radio- gravador foram significativos. r A reprodutibilidade das formas simbólicas é uma das características que.fMas a viabi- lidade comercial das organizações da mídia depende também do exercício do contro- le·: em certo grau. da informação concernente à produção e ao intercâmbio de bens.2figinal" ou "<tl!têntica"~. As formas simbó)icas po- ã. O desenvolvimento dos sistemas de escrita e de meios técnicos como o pergaminho e o papel aumentaram substancialmente a reprodutibilidade das formas simbólicas.da! nossas sociedades hodiernas.se destinavam diretamente ao aumento da capacidade reprodutiva para fins comerciais. tipificado no pape dos escribas de eras mais remotas e das diversas agências . Um segundo atributo dos meios técnicos é o que lhes permite um certo grau d_~ ó _!Sl~oduçã~. sobre a reprodutibilidade de· uma obra. o exer· cício do poder pelas autoridades políticas e religiosas andou sempre estreitamente li· gado à verificação e ao controle da informação e da comunicação. o desenvolvimento da lei do copyright tem muito menos a ver com a salvaguarda dos direitos dos autores do que com a proteção dos interesses dos editores e livreiros.:J . E por isso a proteção do copyright.

gerlliuente J>aiea~ª na singularidade da ~ (e na defesa desta qualidade contra os falsificadores). torna-se possível reproduzir múltiplas cópias ou réplicas de obras originais.terâmbio simbólico geralmente -impli- -~~-. o que se tornam tipicamente itens cobiçados por colecionadores não são os textos realmente "originais". há um distanciamento relativamente pe- queno. mas de uma cópia. dependendo das circunstâncias de comunicação ê . a obra consiste em cópias ou reproduções a serem produzidas.mo mesmo modo. filmes. Mas ~x_t:nsão ~este deslocamento varia grandemente. certo grau de deslocamento no tempo e no espaço. Claro. ·--=::i Um terceiro aspecto dos meios técnicos é que eles permitem um certo gr~e distancianunto ~paço-temporal. Todas as formas de comunicação implicam um certo grau de distanciamento espaço- temporal. Usarei a expres- são "distanciamento espaço-temporal" para indicar este processo de afastamento 12 .- ~--. Mais. À medida que a reprodução controlada se centraliza no processo de reprodução em si mes- mo. mas as suas primeiras edições. um alto-falante a toma disponível a mdivi- 28 . Uma conversa acontece num contexto de co-presença: os participantes estão fisicamente presentes e partilham o mesmo conjunto referencial de espaço e de tem- po. e terão duração transitória. que compreendem todas as cópias produzidas na primeira impressão da obra. Assim.-----~ . precisamente porque são cópias. - do tipo de ~i:cnú:õ einpre!fado. As falas trocadas numa conversação são disponíveis somente aos interlocutores. com o desenvolvimen- to das técnicas de impressão e de fotografia. a exploração comercial de lj~s. Mas estas réplicas não são iguais ao original. por quanto du- rar a memória de seu conteúdo. filmes e gravações musi- cais são sempre produzidos em múltiplas cópias. ·.r a obra em múltiplas céJ~ e de controlar este processo de uma maneira lucrativa. 1 . e por isso são cotadas em valores mais baixos no mercado de bens simbólicos..mãístanêíâiiiénfo daTorma simbólica do seu contexto de produção: ela é afasta- da de seu contexto. e reimplantada em novos contextos que podem estar situados em tempos e lugares diferentes. Todo proêess~· d~-i. etc. ou a indivíduos situados nas imediações. as noções de originalidade e de autenticidade são gradualmente valorizadas diversa- mente da idéia de "qualidade daquilo que é único". Assim. militas formas simbólicas são reproduzidas não de um texto original. amplificando-a. Entretanto. o caráter de origi- nalidade e autenticidade de uma obra se torna sempre mais um fator importante para determinar-lhe o valor no mercado de bens simbólicos. é baseada na capaci~~"iroduZi.. tanto no espaço quanto no tempo. A suplementação da fala por meios técnicos de vários tipos estende-lhe a <füponibili- dade no espaço e no tempo.que a reprodução das formas simbólicas vai se tornando comum. ·-- No caso de uma interação face a face. por exemplo. enquanto a/ valorização econômica das obr~s de arte é. e todas as cópias gozam do mesmo status (desde que tenham boa qualidade de produção ou "alta fidelidade"). no caso de livros. discos.

Usando outros meios técnicos. A maioria dos indivíduos que assistem à t~levisão. à maneira como eles as en- 29 . elt:s empregam não somente as habilidades e competências requeridas pelo meio técnico. Finalmente. normal- mente saberá também ler na mesma língua)... e novas maneiras de us~r o tempo e o espaço para os próprios fins.duos que se encontram além do alcance de uma conversação ordinária: a fala adquire uma disponibilidade maior no espaço. implica o uso de um conjunto de regras e procedimentos \. as regras e os procedimentos. diferen- tes tanto no tempo quanto no espaço do contexto original de sua produção. Raramente somos convidados a formular estas re- gras e procedimentos explicitamente. saber como continuar. embora conheça muito pouco sobre a produ- ção de um program.cimmto exigidas pelo uso dos meios técnicos. diria Wittgenstein. mas somos obrigados a usá-los praticamente todas as vezes que empregamos um meio técnico de comunicação. apenas a habilidade de usá-los na prática. podem intervir e influenciar no curso dos acontecimentos mais distantes no espaço e no tempo. Os indivíduos que empregam um meio devem conhecer.. discursos podem receber uma maior disponibilidade no tem- po: podem ser repetidos ou lidos por indivíduos situados em outros contextos. Na prática estas habilidades e competências podem vir juntas ou coincidirem até certo ponto (por exemplo. é capaz de entender perfeitamente os programas. O desenvolvimento de novos meios técnicos pode também aprofundar o impacto com que os indivíduos experimentam as dimensões de espaço e de tempo da vida so- cial. o uso dos meios téc- nicos também altera as condições de espaço e de tempo sob as quais os indivíduos exercem o poder 13 : tornam-se capazes de agir e interagir à distância. Ao alterar as condições espaço-temporais da comunicação. quem sabe eJCrever numa língua particular. como radiogravadorcs ou várias formas de inscrição. competências e fonnas de co- nhr. isto é. O domínio destas regras e procedimentos não exige necessariamente a capacidade de os formular de modo claro e explícito. Quando indivíduos codificam ou decodificam mensagens. Estes co- nhecimentos e pressuposições dão forma às mensagens.:_.\ Mas estas habilidades nem sempre coin- cidem. e aqueles necessários para decodificar a mensa- gem.1 de codificação e decodificação da informação ou do conteúdo simbólico.. O uso dos meios técnicos pressupõe um \ 1 processo de codificação. é importante distinguir entre aqueles exigidos na codificação da infor- mação ou do conteúdo simbólico. embora sua duração temporal permaneça limitada ao momento de sua emissão. Ao considerar os tipos de habilidades e competências envolvidas no uso de um meio técnico. mas também várias formas de conhecimento e suposições de fundo que fazem parte dos recursos culturais que eles trazem para apoiar o processo de intercãmbio simbólico. consideremos brevemente os tipos de habilidades. por exemplo. até certo ponto. Iremos dar mais detalhes destas implicações mais tarde. O uso dos meios técnicos dá aos indivíduos novas maneiras de organizar e controlar o espaço e o tempo.

Algumas características da "comunicação de massa" Até agora consideramos alguns dos atributos dos meios técnicos de comunicação e algumas de suas utilidades mais comuns. jornais. tendem. o que impor- ta na comunicação de massa não está na quantidade de indivíduos que recebe os pro- dutos. Ele sugere que os destinatarios dos produtos da mídia se compõem de um vasto mar de passivos e indi- ferenciàdos indivíduos. Ainda iremos retomar a esta questão mais adiante. se o termo "massa" deve ser utilizado. discos. e estes sempre trazem uma grande quantidade de recursos culturais de apoio a este processo. reduzi-lo a uma questão de quantidade. embora com alguma modificação. porém. que diverte sem desafiar. tais como os mais modernos e populares jor- nais. mas dificilmente representa as circunstâncias de muitos produtos da mídia. não se pode. Isto é. programas de rádio e de televisão. ela tem despertado questões válidas que merecem atenção ainda hoje. Mas esta 30 . algumas editoras de livros e revistas). Há um outro. que proporciona gratificação imediata sem questionar os fundamentos dessa gratificação.. O · termo "massa" é especificameiltê' engã:. Mas o que é "comunicação de mas- sa"? Este é um termo ao qual podemos dar um sentido claro e coerente 7 ~Já se disse muitas vezes que "comunicação de massa" é uma expressão infeliz. criando um tipo de cultura homogênea e branda.. mas no fato de que estes produtos estão disponíveis em princípio para uma grande pluralidacfe de destinatários. Esta é uma imagem associada a algumas das primeiras críticas à "cultura de massa" e à "sociedade de massa". no passado ou no presente. e assim por diante. pensamos num conjunto de instituições e produtos que são comumente agrupados sob a etiqueta "comunicação de massa''. Tenho usado a expressão "meio técnico de co- municação" para me referir aos elementos materiais pelos quais a informação ou o con- teúdo simbólico é fixado e transmitido.s~j Ele evoca a imagem de uma vasta au- diência de muitos milhares e até milhões de indivíduos. críticas qtce geralmente pressupu- nham que o desenvolvimento da comunicação de massa tinha um grande impacto negativo na vida social moderna. que prende a atenção sem ocupar as faculdades críticas. a audiência foi e per- manece relativamente pequena e especializada. filmes. e em alguns setores das indústrias da mídia hoje (por exemplo.:{(. Esta linha tradicional de crítica cultural é interessante. Mas quando nós usamos o termo "meios de comunicação" quase sempre pensamos num conjunto mais específico de instituições e produtos: livros. Assim. se relacionam com elas e as integram em suas vidas. filmes e programas de televisão. . ·- em que o termo "massa" pode enganar. Isto pode perfeitamente vir a calhar para alguns produtos da mídia. Durante as fases iniciais do desenvolvimento da imprensa escrita periódica.a~p~cto ~~--.. O processo de com- preensão é sempre urna ação recíproca entre as mensagens codificadas e os intérpre- tes situados.

interpretados por eles e incorporados em suas vidas.:__ à difusão dos jornais de grande circulação. mais do que "comunicação" como tal. . os intercâmbios numa interação face a face são fundamentalmente dialógicos.e . Devemos também descartar a suposição de que a recepção em si mesma seja um processo sem problemas.:r..ua tl i. Por isso os receptores das mensagens da mídia não são parceiros de um processo de intercâmbio comunicativo recíproco. ou simplesment~ re- cusar a compra ou a recepção de um determinado produto.. Há uma razão ulterior que torna a expressão "comunicação de massa" um tanto imprópria hoje. 'Se o termo "massa" pode ser enganador em certos aspectos. o fluxo de comu- ~icação tem mão-d~pla: uma pessoa fala.( Entretanto hoje parece que estamos testemunhando mudanças fundamentais na natureza da comunicação mediada.j combinada com 0 desenvolvi- i:nento1~ novos sistemas de transm1ssao (incluindo os satélites e os cabos de fibra ouca)i estao criando um novo cenário técnico no qual a informação e a comunicação '.: 1 .al l!JJ 31 it.ria. a outra responde.Al\'CISCANO ._() term22c:9_IT. jã~" t~-ITl~é~ u_ma vez que os tipos de comunicação geralmente implicados na co~ . No intercâmbio comunicativo de uma interação face a face. f '. Devemos abandonar a idéia de que os destinatários dos produ- tos da mídia são espectadores passivos cujos sentidos foram permanentemente embo- tados pela contínua recepção de mensagens similares. telefonar para as companhias de televisão e expressar seus pontos de vista.-.1~!_lic_a-.i. perspectiva crítica é também impregnada de um conjunto de pressuposições que sãc insustentáveis e que podem obstaculizar a compreensão da mídia e de seu impacto no mundo moderno. o fluxo de co- municação é ~smagadoramente de sentido único. Em óutras palavras. os receptores tem alguma capacidade de intervir e contribuir com eventos e conteúdo durante o processo comunicativo.por exempl9.. aos programas de rádio e de televisão. e que os produtos são absorvidos pelos indivíduos como uma esponja absorve água. ainda que não completamente mono- lógico ou de sentido único. por exemplo. Com muitas formas de comunicação de massa. mas participantes de um processo estruturado ·a~ transmissão simbólica. Geralmente se associa este termo a certos tipos de transmissões da mídia. entretanto. E assim o processo co- municativo é fundamentalmente assimétrico.':'D FR. A troca dos sistemas analógicos pelos sistemas digitais na codificaçã~ ª-ª informaçã_c>.um grupo de indivíduos e transmitidas para outros situados em circunstãncias espa- ciais e temporais muito diferentes das encontradas no contexto original de produção. / • _J_}!Jesmo em circunstâncias estruturadas de comunicação de massa. e assim por ·a:iante. acrítico.Eles podem. escrever cartas ao editor. Suposições deste tipo têm muito pouco a ver com o verdadeiro caráter das atividades de recepção e com as maneiras complexas pelas quais os produtos da mídia são rece- bidos pelos indivíduos. Daí o motivo por que geralmente falarei de "transmissão" -ou "difusão" das mensagens da mídia.municação de massa são bem diferentes dos que ocorrem numa conversação ordi- ---~á. As mensagens são produzidas por .

podem ser operadas em maneiras mais flexívei:.:. 'fiais adiante iremos considerar al-
guns destes desenvolvimentos mais detalhadamente. Aqui simplesmente direi que(s"e
a expressão "comunicação de massa" é enganosa como descrição das formas mais
tradicionais de transmissão da mídia, ela é ainda mais inapropriada para os novos ti-
pos de informação e comunicação em rede, que estão se tornando cada vez mais co-
muns hoje em dia.
_J
Depois de todas estas considerações, a expressão "comunicação de massa" deverá
ser usada com uma boa dose de circunspecção.ÍEu usarei geralmente outras expressões -
como "comunicação mediada" ou, mais simplesmente, "a mídia" - que têm menos
perigos de serem mal interpretada_sj Contudo não deveremos deixar estas diferenças
conceituais obscurecer o fato de que, através de uma série de desenvolvimentos his-
tóricos que podem ser cabalmente documentados, uma nova série de fenômenos co-
municativos emergiu. Sempre que eu usar a expressão "comunicação de massa".
estarei me referindo a este conjunto inu~!"~~do ~e desenvoh:imentos histó~~ [e-:_
nômenos comunicativos. O que agora descrevemos um tanto vagamente como "co-
municàção d.e massa' -e uma~e de i~!>EI~~ q11~_emergiram histori~ente
através do desenvolvimento de instituiçõ~ gue procuravam explorar novas op_grtuni-/
d;i.des p~ r_e_unir e r~gistrar informações, para produzir e reproduzir formas simbóli-
cas, e para transmitir inf_ormaçi(;-~Mo ~;;;;R;~co para uma pluralid~ de
destiii.at~los em troca de al_gum tipo de remun::~ç~o fin~nc~ira. ~
Sejamos mais precisosfeu usarei a expressão "comunic~ção de massa" para me refe-
rir à produção institucionalizada e difusáoJl~r~~da de bens sirr!~cos através da fixação e transmissão de in-
\ formação o~ cori_t~dó_- simbóli~esdobro esta definição em cinco características: os meios
" técnicos e institucionais de produção e difusão; a mercantilização das formas simbólicas;
a dissociação estruturada entre a produção e a recepção; o prolongamento da disponibili-
dade dos produtos da mídia no tempo e no espaço; e a circulação pública das formas
simbólicas mediadaj Nem todas estas características são singularmente pertinentes ao
que poderíamos chamar de "comunicação de massa". Mas juntas elas evidenciam um
conjunto de características que são típicos e importantes aspectos do tipo de fenôme-
no comunicativo que queremos significar com esta expressão.
,.....-
\ ~ei.r.ii característica da comunicação de massa é que ela envolve certos meigs
técnicos §~tituci,Qnais de .produção e de difusão. É esta característica que tem rece-
1
------ - ------------ ~!
bido mais atenção na literatura especializada sobre a mídia. Pois é claro que o desen-
volvimento da mídia, desde as formas mais antigas de impressão aos mais recentes
desenvolvimentos no campo das telecomunicações, tem se baseado numa série de
inovações técnicas capazes de serem exploradas comercialmente. É claro também que
a exploração destas inovações é um processo que ocorre dentro de instituições e es-
truturas institucionais, e que estas instituições continuam a determinar os caminhos
operacionais da mídia hoje. Em outras palavras, o desenvolvimento das indú.smas da mi-

32

dia, isto é, das numerosas organizações que, desde a Idade Média até os nossos dias,
tem se interessadÕ--pela exploraçãoCõffi~~as inov~_é)es téoücas_: tornou ~
~ pr~di7çãoú difusão-~rerreraliz:rdicdãs forni~ólicas. No-pióximÕ-~pítulo exa-
'ffii~~rei alguiis dos -ãspectos tecmê:õs--e -fosütuéionais éfá mídia, começando pela ex-
ploração comercial da imprensa a partir da segunda metade do século XV. Mas
diversamente da literatura especializada nas tecnologias da mídia, tentarei relacionar
o desenvolvimento dos meios técnicos com os mais amplos aspectos institucionais do
desenvolvimento das modernas sociedades.
O fato de que a comunicação de massa implique a exploração comercial das ino-
vações técnicas se torna explícito na\s~d_i!.~característica - naquilo que chamei de
-~<:E_~~~ das formas simbólic5Disc-uti esta característica brevemente na seção
anterior, em relação à capacidade reprodutiva dos meios técnicos; aqui irei estudá-la
de um modo mais geral. Considero a mercantilização como um tipo particular de
"valorização", isto é, uma das maneiras pelas quais se pode atribuir aos objetos um

·--
certo valor.[}:s formas simbólicas se submetem a dois tipos de valorização 1•. A "valo-
rização simbólica" é um processo de atribuição de "valor simbólico" às formas sim-
bólicas. Este é o valor que os objetos têm em virtude do apreço, da estima, da ,

___
indiferença ou do desprezo dos indivíduos. A "valorização econômica" é o processo
de atribuição de ."valor
·- ... econômico"
--....... às formas simbólicas, um valor pelo qual elas
podem ser trocadas no mercad~ Em virtude da valorização econômica, as formas
simbólicas se tornam mercadoria: objetF.- que podem ser vendidos e comprados no
mercado por um determinado preço.\As formas simbólicas mercantilizadas irei me
referir como "bens simbólicos",
- . 1

A comunicação de massa implica a mercantilização das formas simbólicas no sen-
tido de que os objetos produzidos pelas instituições da mídia passam por um proces-
so de valorização econômica. As maneiras de valorização das formas simbólicas
variam muito, dependendo dos meios técnicos e das estruturas institucionais dentro
das quais elas são empregadas. A mercantilização de alguns impressos, como livros e
panfletos, depende quase inteiramente da capacidade de produzir e vender as múlti-
plas cópias da obra. Outros impressos (jornais, por exemplo) combinam este tipo de
valorização com outros, como a capacidade de vender o espaço de propaganda. No
caso das transmissões de d.dio e televisão, a venda do tempo de propaganda aos
anunciantes tem sido de fundamental importância, em alguns contextos nacionais,
para a valorização econômica. Em outros contextos nacionais, os receptores dos pro-
gramas de rádio e televisão pagam diretamente (através de uma assinatura) ou indire-
tamente (através dos impostos) pelo direito de receber o material transmitido. Os
desenvolvimentos tecnológicos recentes associados às transmissões via cabo ou satéli-
te criaram novas oportunidades para a valorização econômica, como o pagamento
das taxas de inscrição ou o uso dos cartões de crédito que ::iermitem aos receptores a
decodificação das mensagens codificadas.

33

É claro que a mercantilização das formas simbóhcasJão é extl"'"·' da comunica-
ção de massa. H.i outros tipos de formas simbólicas. como as obra.~ Jl· arte, que são roti-
neiramente sujeitas ao processo de valorização econômica. O desenvolvimento de um
mercado para as obras de arte - as galerias de arte, as casas de leilões, etc. - pode ser visto
como o desenvolvimento de um conjunto de instituições que controlam a valorização
das obras de arte, e dent:"o das quais (;StaS obras podem ser vendidas e compradas como
mercadorias. Quanto mais valor simbólico for atribuído a estas obras e aos seus produto-
res, isto é, quanto mais forem consideradas CO_!!JO "grandes obras" e "grandes artistas",
tanto maior será o preço de troca no mercadm De modo que as indústrias da mídia não
são as únicas instituições interessadas na valorização econômica das formas simbólicas_:
Mas no mundo moderno elas estão certamente entre as mais importantes instituições
que invadem cotidianamente as vidas de muitos indivíduo~
A ~a caracteristica da comunicação de massa é que ela estabelece uma dissocia-
ç_ão esn'.Ufufai ent:~~I':~uçã<;>_~Jon:n~s~mbólicas e_a su~r_:__c~pçã9.1Em todos os tipos
de comunicaçãÓ de massa, o contexto de produção é geralmenteseparado do contexto
(ou contextos) de recepção. Os bens simbólicos são produzidos em um contexto ou
conjunto de contextos (as instituições que formam as indústrias da mídia) e transmitidos
para receptores localizados em contextos distantes e diversos (tais como diferentes resi-
dências domésticas). Além disso, diversamente de muitos outros casos de comunicação
que implicam a separação de contextos. no caso da comunicação de massa o fluxo de
mensagens é, como já notei anteriormente, predominantemente de sentido único. O
contexto de produção_Dão é também (ou pelo menos na mesma medida) o contexto de
recepção, e vice-versa. Por isso o fllLxo de mersagens é um fluxo cstrururado e a capacidade
de~~~~~ ~~n~b~~~os_r:_ceptores ~-estritam~nte-rucunscritj
Esta característica da comunicação de massa tem implicações importantes no pro-
cesso de produção e recepção. No lado da produção, ela significa que o pessoal en-
volvido na produção e transmissão das mensagens da mídia são geralmente privados
das formas diretas e contínuas do fctdback característico da interação face a face. Os
processos de produção e transmissão, portanto, são caracterizados por um tipo distm-
tivo de indeterminação. uma vez que ocorrem na ausência de deixas fornecidas pelos
receptores. (Compare-se a diferença entre um discurso diante de uma assembléia,
que pode manifestar aprovação ou desaprovação através do riso, das pal;nas ou do si-
lêncio, e um discurso transmitido pela televisão). É claro que o pessoal da mídia tem
desenvolvido uma variedade de técnicas para enfrentar a indetermmação, desde o uso
das fórmulas de sucesso garantido e que têm uma aud1ênc1a previsível (como as sé-
ries televisivas e os filmes seqüenciais) até a pesquisa mercadológica e o acompanha-
mento regular e estatístico do tamanho e da satisfação da aud1ênc1a' 1 .
No la.do da recepção, a dissociação estrutural significa que os receptores das men-
sagens mediadas ficam à vontade. Podem fazer o que bem entenderem das meno;a-
gens, e o produtor não está li para reelaborar ou corrigir os possíveis mal-entendidos

Ele também revela uma fundamental desigualdade entre os participantes do processo
comunicativo. Os receptores são, pela própria natureza da comunicação de massa, par-
ceiros desiguais no processo de intercâmbio simbólico. Comparados com os indivíduos
envolvidos no processo de produção e transmissão, os receptores de mensagens media-
das pouco podem fazer para determinar os tópicos ou o conteúdo da comunicação. Mas
isto não significa que eles sejam totalmente privados de poder. meros espectadores
passivos de um espetáculo sobre o qual não têm nenhum controle.
'\Uma ·~característica da comunicação de massa é a extensão da dispQD.~~­
dade das fo~mas sim~c)!~~~ tempo e no espaç<?J Esta cara~terística se relaciona es-
treitamente com a anterior: uma vez que a mídia estabelece uma separação entre os
contextos de produção e os contextos de recepção, as mensagens mediadas se tornam
disponíveis em contextos os mais remotos e distantes dos contextos em que as men-
sagens foram originalmente produzidas. Esta ampliação da disponibilidade das men-
sagens mediadas é uma característica que tem conseqüências de grande alcance, e por
isso vamos examiná-la com mais detalhes logo mais. Mais uma vez, esta característica
não é exclusiva da comunicação de massa. Todas as formas simbólicas, em virtude de
serem intercambiadas entre indivíduos que não ocupam posições idênticas no espaço
e no tempo. implicam um certo grau de distanciamento espaço-temporal. Mas com o
desenvolvimento de instituições orientadas para a produção em grande escala e para a
difusão generalizada de bens simbólicos, a ampliação da disponibilidade das formas
simbólicas se torna um fenômeno social cada vez mais significativo e penetrante. In-
formação e conteúdo simbólico são colocados à disposição de um número incalculá-
vel de indivíduos, em espaços cada vez mais amplos e em velocidade sempre maior.
A ampliação da disponibilidade das formas simbólicas se tornou tão pronunciada e
rotineira, que todos a supõem como uma característica corriqueira da vida social.
/ ílsto nos leva à qliTrit:l'característica da comunicação de massa: a que implica a cir-
~~!~ção púb!ica__ d!t_sT~rn.E._.;!.~~-i?_~~~·i Os produtos da mídia são disponíveis,-;~1
princípio. a uma pluralidade de destinatários. Eles são produzidos em múltiplas có-
pias ou transmitidos para uma multiplicidade de receptores, e permanecem disponí-
veis a quem quer que tenha os meios técnicos, as habilidades e os recursos para
adquiri-los. Neste aspecto, a comunicação de massa se diferencia de outras formas de
comunicação - como as conversas telefônicas, as teleconferências, ou as produções
particulares de vídeo - que empregam os mesmos meios técnicos de fixação e trans-
missão, mas que são dirigidas para um indivíduo ou para um grupo bem restrito de
receptores. A linha a ser traçada aqui não é definitiva, e a distinção pode ficar ainda
mais confusa nas próximas décadas com a implantação de novas tecnologias que per-
mitem serviços cada vez mais person~izados. Contudo, é uma característica da co-
municação de massa ficar à disposição, em princípio, de uma pluralidade de re-
ceptores - mesmo quando. por uma série de razões, estes produtos circulem apenas
entre um relauvameme pequeno e restrito setor da população.

35

,/

A disponibilidade dos produtos de comunicação de massa tem implicações im-
portantes na distinção que se faz entre os domínios público e privado. Os produtos
da mídia, por sua disponibilidade, em princípio, a uma pluralidade de receptores,
têm intrinsecamente um caráter público, no sentido de que estão "abertos" ou "dispo-
níveis ao público". O conteúdo das mensagens da mídia se torna público, isto é, visí-
vel e verificável, a uma multiplicidade de indivíduos que podem estar situados em
contextos os mais diversos. O impacto dos meios de comunicação na "esfera públi-
ca", e na relação entre os domínios público e privado é o tema que iremos ver em
mais detalhes nos próximos capítulos.

A reorganização do espaço e do tempo

Já observamos que o uso dos meiOs técnicos de comunicação pode alterar as di-
mensões espaço-temporal da vida social. Capacitando os indivíduos a se comunica-
rem através de espaço e de tempo sempre mais dilatados, o uso dos meios técnicos os
torna capazes de transcender os limites característicos de uma interação face a face./
Ao mesmo tempo, os leva a reordenar as questões de espaço e de tempo dentro da
organização social, e a usar esta reorganização como meio para atingir seus objetivos.
Todos os meios técnicos têm uma relação com os aspectos de espaço e de tempo
da vida social, mas o desenvolvimento da tecnologia da telecomunicação na segunda
metade do século XIX foi particularmente significativo a este respeito. Antes do ad-
vento da telecomunicação, a extensão da disponibilidade das formas simbólicas no espa-
ço geralmente dependia de seu transporte fisico; com pouquíssimas exceções (por
exemplo, o semáforo)-:;:;- distanciamento espacial só era possível com o deslocamento das
formas simbólicas de um lugar para um outro. Mas com o desenvolvimento das primei-
/' J ras formas de telecomunicação, o distanciamento espacial não mais exigia fisicamente o
1 _; transporte das formas simbólicas e, portanto, evitava os atrasos no tempo devidos a tais
deslocamento~ O advent_o~a t~~_c~mlll1icação_ trmixe uma di~llllÇão__~tre ~espaço e o tempo,
no_ sentido de qu_e o _distançiamento espacial_ !.l~º -~ai_s_!!Ilplicava o distandamento
l_~_mporal:_\Informação e conteúdo simbólico podiam ser transmitldÓs para cfisiliíci.as
cada vez-maiores num tempo cada vez menor; quando a transmissão telegráfica foi
instalada, as mensagens eram recebidas em menos tempo do que era necessário para
codificar e decodificar a informação. O distanciamento espacial foi aumentando, en-
T:~n~~ ~-~·emora temporal foi sendo virt;,1al~~ii:te..eliminada ..
A disjunção entre o espaço e o tempo preparou o caminho para uma outra tran~
formação, estreitamente relacionada com o desenvolvimento da telecomunicação: a
descoberto do simultaneidade não espaci~. Em períodos históricos mais antigos a experiência
da simultaneidade - isto é, de eventos que ocorrem "ao mesmo tempo" - pressupu-
nha uma localização específica onde os eventos simultãneos podiam ser experimenta-

36

de velocidade e simultaneidade. deu origem a problemas cada vez mais agudos de coorde- nação espaço-temporal. O desenvolvimento de novos meios de comunicação e transporte também afetou as maneiras pelas quais os indivíduos experimentam as características de espaço e de tempo da vida social. aperu <Ie acontecerem lu-em gares completamente distintos. gradualmente levou a adoção do GMT (Greenwich Mean Time) como a hora- padrão para toda a Inglaterra. O impacto literário e artís- tico destes desenvolvimentos foi explorado com muito discernimento por Stephen Kem. A padronização do tempo mundial trouxe um crescente interes- se na experiência pessoal de tempo e espaço. A linha de mudança de data esco- lhida foi o meridiano a 180º de igual distância a leste e a oeste de Greenwich. de Proust e Baudelai- re a James Joyce. D.e . emergiu um sentido de "agora" não mais ligado a um determinado lugar. Mas com o desenvolvimento dos serviços postais em fins do século XVIII e a construção das ferrovias nos inícios do sé- culo XIX. e em parte pelo desenvolvimento de meios mais rápidos de transporte. aexperiência de sfrritiltarieidade separou-se de seu condíctonmí~-espãc~ e. Aqui desejo considerar de modo mais geral algu- 37 . S~ultaneidade pressupunha localidade: "o mesmo tempo" exigia "o mesmo lu- gar''. havia uma pluralidade de horas locais que não se coordenavam entre si. cada cidade. Marshall Berman e outros 18 . As transformações do espaço e do tempo trazidas em parte pelo desenvolvimento das novas tecnologias da comunicação. A tarefa de padronizar o cálculo do tempo em escalas territoriais maiores trouxe novos problemas que foram solucionados com a adoção de diferentes fusos horários. Estes foram estabelecidos inicialmente no continente norte-americano nos anos 1870s e princípios dos anos 1880s. Em contraste com a concretude do aqui e agora. baseado na Hora Média de Greenwich. enquanto os que o atravessam na direção oeste perdem um dia.dos. Este interesse se manifestou expressivamente na arte e na literatura do final do século XIX e início do século XX. os via- jantes atravessando-o na direção leste ganham um dia. houve uma pressão crescente para calcular o tempo em níveis supralocais. do cubismo e futurismo ao surrealismo. O mundo foi dividido em 24 fusos horários de uma hora de duração cada e uma linha internacional de mudança de data foi estabelecida. a padronização do sistema de tempo no mundo forneceu uma estrutura para a coordenação dos tempos locais e para a or- ganização de redes de comunicação e transporte. problemas que foram finalmente superados com uma série de convenções destinadas a padronizar o tempo no mundo 17 • Até meados do século XIX. e finalmente aceitos em 1884 na Conferência Internacional do Meridiano realizada em Washington.. A simulta- neidade ganhou mais espaço e se tornou finalmente global em alcance. vila ou aldeia tinha o seu padrão de tempo. Tornou-se possívefêxperimentar eventos SíiifültânéõS. com a finalidade de estabelecer um sistema global de padronização do tempo. Daí por diante./Com o advento da disjunção entre espaço e tempo trazida pela telecomunica- ção. e na disjunção entre o espaço e o tempo. A introdução do horário padronizado das ferrovias.

mas maneiras nas quais o desenvolvimento dos meios de comunicação afetou o senti- do de espaço e de tempo de pessoas comuns. quando viajamos pelo mundo para lugares 38 . Esta difusão dos produtos da mídia nos permite em certo sentido a experiência de eventos. em geral. como também do sentido da delimitação espacial e da continuidade histórica das comunidades a que elas pertenciam. uma vez que eles não precisam estar presentes fisicamente aos lugares onde os fenômenos ob- servados ocorrem. etc. mas estas tradições foram suplementadas. Antes do desenvolvimento das indústrias da mídia. está sendo modelada cada vez mais pela mediação de formas simbólicas. A tradi- ção oral e a interação face a face continuam a desempenhar um papel importante na elaboração de nossa compreensão do passado. principalmente através de livros. era constituída principalmente pelas tradições orais produzidas e transmitidas em contexto~ sociais da vida cotidiana. Para muitas pessoas a compreensão do passado e de lugares distan- tes. filmes e progra- mas televisivos. Mas(a crescen- te disponibilidade de formas simbólicas mediadas foi__gradualmente alteran_~ as ma- neiras nas quais as pessoas iam compreendengo_g_passª5!9 e o mu_~~~ ~T~m de-~s contextos soCiais imediato~ papel das tradições orais não foi eliminado. mas elas operam cada vez em conjunto com um processo de compreensão que se serve cada vez mais do conteúdo simbólico presente nos produtos das indústrias da mídia. fica cada vez mais difícil que os indivíduos tenham chegado ao sentido dos acontecimentos através de experiências pessoais ou de relatos de testemunhas transmitidas em interações face a face. Muitos indivíduos nas sociedades ocidentais hoje chegaram ao sentido dos principais acontecimentos do passado. criou também aquilo que poderíamos chamar de "mundanidade mediada": nossa compreensão do mundo fora do alcance de nossa experiência pessoal. pela difusão dos produtos da mídia. À medida que se recua no passado. e de nosso lugar dentro dele. A narração de histórias teve um papel central na formação do sentido do passado e do mundo muito além das imediações locais. Se a mídia alterou a nossa compreensão do passado. Tão profunda_é_.). a revolução russa. o conhecimento de um mundo que se amplia para muito além de nossos encon- tros diários. O desenvolvimento dos meios de comunicação criou assim o que agora descre- vemos como uma "historicidade mediada": nosso sentido do passado e de como ele nos alcança se torna cada vez mais dependente da expansão crescente de um reserva- tório de formas simbólicas mediadas. a compreensão que muitas pessoas tinham de lugares distantes e passados era modelada basicamente pelo inter- câmbio de conteúdo simbólico das interações face a face.l medida em que a nossa compreensão_~do foi modelada pelos produtos da rní~a hoje qu~. e até dos mais importantes acontecimentos do século XX (as duas guerras mundiais. jornais. o holocausto. e até certo ponto reconstituídas. Os horizontes espaciais de nossa compreensão se dilatam grandemente. a investigação de outros e.

quando as rodovias eram precárias e a velocidade média das carruagens a cavalo nas regiões provinciais era provavelmente cerca de 30 milhas por dia. A partir de então o sentido de distância se tomou de- pendente de duas variáveis . e a nossa compreensão de distância é ' modelada profundamente pelos meios à nossa disposição de retroceder no espaço e no tempo. o desenvolvimento dos meios de comunicação modificou o sentido de pertenàmento dos indivíduos . Os meios de comunica- ção também exercem um papel importante i:1ª elaboração da nossa compreensão do sentido de distância. o sentimento de novidade ou surpresa muitas vezes confirma o fato de que nossa experiência vivi- da foi precedida por uma séri~ de idéias preconcebidas e derivadas. Consideremos agora uma questão um tan- to diferente. Londres era muito mais distante do que é hoje para os ha- bitantes do campo na Inglaterra. nossa experiência vivida 19 é muitas vezes pre- cedida por um conjunto de imagens e expectativas adquiridas através de nossa prolonga- da exposição aos produtos da mídia. das palavras e imagens transmitidas pela mídia. de um sentimento de partilha de uma história de um lugar co- muns. Mesmo naqueles casos em que a nossa experiência de lugares distantes não coincide com nossas expectativas. até certo ponto. hoje ela pode ser feita em mais ou menos duas horas. do que está perto ou do que está longe.tempo da viagem e ~elocidade da comunicação _ que 39 . uma origem e um destino comuns. Mas à medida que nossa com- preensão do passado se toma cada vez mais dependente da mediação das formas simbólicas. do mesmo modo a nossa compreensão dos grupos e comunidades com que compartilhamos um caminho comum através do tempo e do espaço. e a nossa compreensão do mundo e do lugar que ocupamos nele vai se ali- mentando dos produtos da mídia. Quando a comunicação dependia do transporte fisico das mensa- gens. Esta compreensão provém. o sentido de distância dependia do tempo de viagem necessário entre a origem e 0 destin«Lõmo a velocidade do transporte e da comunicação aumentou. Nossa compreensão de espaço e de tempo se liga muito estreitamente à de / distância. também vai sendo alterada: sentimo-nos _uertencentes a grupns e comullkfades que E@ €91lElitu~~a__~_a. quando iremos considerar alguns exemplos mais detalhadamente. No século XVII. Para os campone- ses rurais de séculos passados. 0 \ s~ntido de distância foi gradualmente sendo estimado à parte de uma exclusiva depen- denc1a do tempo de viagem. uma viagem de um condado como Norfolk até Londres levaria vá- rios dias 20 . mais distantes como visitante ou turista. a distância pare- ceu diminuirfom a disjunção entre o çspaço e o tempo trazida pela telecomunicação.isto é. de uma trajetória comum no tempo e no espaço. Até agora consideramos algumas das maneiras pelas quais o desenvolvimento dos meios de comunicação alterou a compreensão que os indivíduos têm do passado e do mundo além de seus locais de vicia imediatos. pelo menos em parte. Ao alterar a compreensão do lugar e do passado. Retomaremos a este fenômeno da "socialidade mediada" em capítulos ulteriores. a com- preensão dos grupos e das comunidades a que eles sentem pertencer. Os meios de transporte são claramente cruciais a este respeito.

A noção d~ prog. é uma maneira de subordinar o futuro aos nossos planos e expectativas preséiites. Mas à rnefilããqüe as defieiências desta estratégia se fomarri mais ~a ápóSaía.i~. A experiência do fluxo do tempo pode estar mudando hoje. com o desenvolvimento das telecomunicações. a veloci- dade da comunicação se torna virtualmente instantânea. Logo que o tempo cg__meçou a ser disciplinado pelos objetivos de aumentar a produção das mercidorias.:tã troca: os sacrifí- dodeitos -iiõ presente eram trocadÕs p. mas um glo- bo completamente explorado. À me- dida que os indivíduos foram gradualmente sendo atraídos por um sistema de trabalho fabril e urbano. Torna-se cada vez mais difícil persistir numa concepção li- near da história como progresso. e o futuro repetidamente confunde nossos planos e expectativas. a idéia de progresso começa a perder força entr~ nós. a terra prometida para o futuro não se torna mais próxima.~sso. A idéia de progresso é um m~de colonjzar o. O mundo se parece um lugar cada vez menor: não mais uma imensidão de territórios desconhecidos. À medida que o pas- so da vida se acelera. cuidadosamente mapeado e inteiramente vulnerável à ingerência dos seres humanos.. Os lugares anteriormente mais remotos do mundo são ligados a redes globais de interdependência. foi sendo experimentada no dia-a-dia da vida como o enorme hiato en- tre a experiência passada e presente. a experiência do fluxo do tempo estava estreita- mente ligada aos ritmos naturais das estações e ao ciclo do nascimento e da morte.fu- turo. a importância das barreiras espaciais vem declinando à medida que o ritmo da vida social se acelera. O tempo das viagens é constantemente reduzido e. aliado à sempre mais intensi- va e extensiva expansão da economia capitalista orientada para a rápida movi- mentação de capital e de bens..espaço-tempora1"J21 J eom o desenvo 1- vimento dos novos meios de transporte e comunicação. Ainda temos que compreender melhor o impacto destas transformações na expe- riência que os indivíduos têm do fluxo da história e de seu lugar dentro dela. a experiência do fluxo do tempo foi se associando cada vez mais aos me- canismos de observância do tempo\em sincronização com as horas de trabalho e com a organização dos dias da semana 22 . houve U:~a-~~. t~orias sociais da evolução. O mrmdo foi se encolhendo em ambas as dimensões. ~l~borada pelas filosoflis iluministas <lã história e pela. compressao.pro~~~~ª de um futuro rriélliõf. quando a maioria dos indivíduos vivia em dependência da terra de onde tiravam a própria subsistência. e os horizontes continuamente mu- táveis das expectativas associadas ao futuro. à medida que vão se encontrando com um futuro que continuamente fica aquém das expectativas do passado e do presente. de um lado. 40 .não necessariamente coincidem. Nas formas primitivas da sociedade. de outro 23 . mas mais rapidamente numa do que noutra.. Westa transformação no sentido de distância que está subjacente ao que se tem descrito convenientemente como . Os horizontes das expectativas sempre incertas começam a desmoronar.

É muito cedo para dizer se esta mudança continuará e, se assim for, quais as con-
seqüências. Não há dúvida de que, graças em parte ao desenvolvimento de novas for-
mas de comunicação e transporte, nossa experiência do espaço e do tempo mudou
profundamente. Isto será um tema central nos capítulos que seguem. Mas ~e
ponto os desenvolvim~scu_!i._9-os aqyj._!'~oclelaram_possa experi~cia do flux~.
da histonae-cro-nõsSõ lugar dentro dela, nossa compreensão do futuro e nossa orien-
taçao paráeTê:-estas sãõ questões que deixarei, quase inteir:uneme;-zbems:- ...

Comunicação, apropriação e vida cotidiana

Em vários pontos deste capítulo enfatizela importãncia de pensar nos meios de
comunica!;ãO em r.slli;ª9_.a.os coptexros sociais prático• ngs quais os indivíduos pro-
~m e__ru:~l>_enu.1.~_[o~rn~~-~i-~~ólicas med~~~O esquecimentÓ destes contextos -
sociais é uma tendência que pode ser encontrada ao longo da história das reflexões
teóricas e das análises práticas sobre a mídia. Por exemplo, sob a influência do estru-
turalismo, da semiótica e orientações afins, um grande número de críticas culturais
nestes últimos anos se tem preocupado com as questões relativas aos "textos" - não
somente no sentido mais estreito de trabalhos literários, mas também no sentido
mais amplo de formas culturais significativas, desde os filmes e programas de televi-
são, aos anúncios de diversões e grafites 24 . Há muito a se lucrar com uma rigorosa
análise das questões relativas a estes "textos". Mas cada uma destas análises é, quando
muito, urna maneira assaz parcial de se debruçar sobre os fenômenos culturais (in-
cluindo os textos literários). É parcial porque os fenômenos em pauta são geralmente
analisados sem urna consideração sistemática e detalhada das condições sob as quais
eles foram produzidos e recebidos. Os textos são analisados em si mesmos e por si
mesmos, sem referência aos objetivos e recursos daqueles que os produzem, por um
lado, e às maneiras em que são usados e entendidos por aqueles que os recebem, por
outro lado. O~_produtor~s e recep~()res nos es~apam de vista, ~quanto o analista ou _
crítico se ~~t~JE-~1a_fo~!!1ª.c11ltural que é, urn __t~~ificialmente, abstraída de seu
contexto social de_E.:_O~~~~~l~ç~~~_r~~~..Q.:...
No interior das mais empíricas tradições de pesquisa da mídia, a natureza e o papel
dos receptores - o público - têm sido examinados com cuidadosa atenção. Vários méto-
dos de pesquisa têm sido empregados para estudar fatores tais como o tamanho e a com-
posição do público, os graus de atenção e de compreensão revelados pelos receptores, os
"efeitos" a curto ou a longo prazo de exposição às mensagens da mídia, as "necessida-
des" sociais e psicológicas satisfeitas pelos produtos de consumo da mídia, e assim por
diante 25 . Estas pesquisas têm produzido material importante e interessante. Mas há certas
deficiências em muitas destas pesquisas mais antigas. Uma deficiência é esta: ao procu-
rar sobretudo medir e quantificar o público e suas respostas, elas tendem a negligen-
ciar o que poderíamos descrever como o _caráter m~ano ~-~ Por ele

41

entendo 0 fato de que a ~r_og~toS~l!E!_<l_.E_()~ng.. uma atividade
prática que muitos indivíduos já integram como parte de suas vidas cotidianas. Se
quisermos entender a natureza da recepção, deveremos nos aproximar dela com uma
sensibilidade para os aspectos rotineiros e práticos da atividade receptiva.
Em anos mais recentes este tipo de aproximação se firmou entre os pesquisadores
da mídia. Alguns dos estudos mais perspicazes dos processos de recepção usaram
uma variedade de métodos, incluindo a participação dos próprios receptores através
de questionários, entrevistas, a fim de verificar detalhadamente as ::;::ondições sob as
quais os inc!ivíduos recebem os produtos da míd~.:,1como os processam e que sentido
lhes dão 26 .(Estes estudos deixaram de lado decisivamente a idéia de que os receptores
dos produ~os da mídia são consumidores passivos; eles mostraram mais de uma vez
. \ \ que a recepção dos produtos da mídia é u~ p_:o~-~-mais ~tivo-~ c~~ti.~~-~o
' ~ito do assistente passivo sugere. :Eles tambem mostraram que ~-s~tt~o que os md1-
1 víduos dão aos produféiscfamTcllã varia de acordo com a formação e as CC?~dições so-
/ ciili de cada ~.-·aê-tãrmaíieua--qu~ a -;;;-~;m;;;.;eiisagem pode ~~~ entendida de
~riás maneiras em diferentes context~
Nos próximos capítulos irei me servir mais de alg1ms destes estudos, mas aqui
vou ficar apenas com as implicações teóricas mais gerais desta visão dos produtos da
mídia como atividade rotineira e prática. Esta orientação significa, em primeiro lugar,
que a ~~~ei:_,vista c.omo_~l:l123t!Yi~~e: não como algo passivo, mas o
tipo de prática pelas quais os indivíduos percebem e trabalham o material simbólico
que recebem. No procP.sso de recepção, os indivíduos usam as formas simbólicas
para suas próprias finalidades, em maneiras extremamente variadas e relativamente
~cultadas, uma vez que estas práticas não estão circunscritas a lugares particulares.
· Enquanto a produção "fixa" o conte_~~o.simbólico em substratos materiais, a~­
_çã~ ?. ·~~~E~~~e" e o liberta para os_:~tr~g~sdo temp~Aiê"in disso, os usos que os
receptores fazem das matérias sim6ólicas podem divergir consideravelmente daqueles
(se é que houve) pensados ou queridos pelos produtores. Mesmo que os indivíduos
tenham pequeno ou quase nenhum controle sobre os conteúdos das matérias simbó-
licas que lhe são oferecidas, eles os podem usar, trabalhar e reelaborar de maneiras
totalmente alheias às intenções ou aos objetivos dos produtores.
~ Esta orientação significa também que a recepção é uma atividade situada: os pro-
dutos da mídia são recebidos por indivíduos que estão sempre situados em específi-
cos contextos sócio-históricos. Estes contextos se caracterizam por relações de poder
relativamente estáveis e por um acesso diferenciado aos diversos recursos acumula-
dos. A atividade de recepção se realiza dentro de contextos estruturados que depen-
dem do poder e dos recursos disponíveis aos receptores em potencial. Não se pode
norm~ente receb:1" transmissões televisivas, por exemplo, sem os equipamentos
necessanos; os padroes de assistência à TV ~ão comumente regulados de tal maneira

42

que reflitam as relações de poder entre os membros da unidade dom~stica 2 ª., E mais,
a recepção não é somente e sempre uma atividade situada, mas ela e tambem uma
atividade que permite aos indivíduos se distanciarem dos contextos práticos de suas
vidas cotidianas. Ao receber matérias que envolvem um substancial grau de distancia-
mento espacial (e talvez também temporal), os indivíduos podem elevar-se acima de
seus contextos de vida e, por um momento. perder-se em outro mun do .
29

A recepção dos produtos da mídia dever~ ser vista, além disso, como uma ativi-
dade de rotina, no sentido de que é uma parte integrante das atividades constitutivas da
vida diária. A recepção dos produtos da mídia se sobrepõe e imbrica a outras ativida-
des nas formas mais complexas, e parte da importância que tipos particulares de re-
cepção tem para indivíduos deriva das maneiras com que eles os relacionam a outros
aspectos de suas vidas.
Assim, por exemplo, os indivíduos podem ler jornais como passatempo, enquan-
to se deslocam para o trabalho; podem ligar a televisão para quebrar a monotonia de
preparar um jantar ou para serenar as crianças; ler um livro para relaxar e escapar
temporariamente das preocupações da vida ordinária. A recepção dos produtos da
mídia pode também servir para organizar o horário diário de seus receptores. Indiví-
duos podem adaptar suas rotinas de modo a assistir regularmente a certos programas
- por exemplo, o noticiário das nove horas, ou reservar um espaço diário ou semanal
para o acompanhamento de uma novela ou série televisiva. É este aspecto de recepção/
- a capacidade de ordenar e impor rotinas diárias - que tem sido atenuado pelo uso/ 1
!
dos videocassetes. Permitindo aos receptores a gravação das matérias transmitidas e a 1
1
1
'
i
reapresentação delas em horários mais convenientes, os videocassetes gravadores IH '----"--
bertam os receptores até certo ponto da ordem temporal imposta pelas organizações 1

de rádio e televisão e integram os processos de recepção em suas rotinas, determina-
das por outras exigências e constrangimentos.
Além de ser uma atividade situada e de rotina, a recepção dos produtos da mídia
é uma realização especializada. Ela depende de habilidades e competências adquiridas que
os indivíduos mostram no processo de recepção. Estas habilidades e competências são
extremamente diversas. Já observamos que meios técnicos diferentes requerem dife-
rentes tipos de habilidades e competências da parte de quem os usa. Mas é também
importante ver que, como atributos socialmente adquiridos, estas habilidades e com-
petências podem variar em muitos aspectos de um grupo para outro ou de uma clas-
se para outra ou ainda de um período histórico para outro. Elas são atributos
adq~iridos através de processos de aprendizagem ou de inculcação socialmente difo-
renc1ados e diversamente acessíveis a indivíduos de formação diferente 3 º. Uma vez
adqumdas, estas habilidades e compefências se tornam parte da maneira social d
d ·d. 'd eser
os m 1v1 uos e se revelam tão automaticamente que ninguém as percebe como
complexas, e muitas vezes sofisticadas, aquisições sociais.

43

Finalmente, a recepção dos produtos da mídia é fundamentalmente um processo her-
menêutico. Os indivíduos que recebem os produtos da mídia são geralmente envolvidos
num processo de interpretação através do qual esses produtos adquirem sentid_9. É
claro que a aquisição dos produtos da mídia não implica necessariamente um proces-
so de interpretação neste sentido: um livro pode ser comprado e nunca lido, do mes-
mo modo que um aparelho de televisão pode ser deixado às moscas. Adquirir é
simplesmente tomar posse de, como se adquire outros objetos de consumo: carros,
roupas, etc. Mas a recepção de um produto da mídia implica mais do que isto: impli-
ca um certo grau de atenção e de atividade interpretativa da parte do receptor. O in-
divíduo que recebe um produto da mídia deve, até certo ponto, prestar atenção (ler,
olhar, escutar, etc.); e, ao fazer isto, ele se ocupa inteiramente numa atividade de en-
tendimento do conteúdo simbólico transmitido pelo produto. Produtos diferentes re-
querem diferentes graus de atenção, concentração e esforço. Ler um livro geralmente
exige um pouco mais de atenção do que, por exemplo, ler um jornal, que se pode
folhear superficialmente, detendo-se apenas nas manchetes ou nos artigos de maior
interesse. À televisão se assiste com vários graus de atenção, desde uma absorção total
até os curtos e intermitentes acompanhamentos visuais que permitem seguir superfi-
cialmente o sentido geral de um programa.
Se considerarmos a recepção dos produtos da mídia como um processo herme-
nêutico, poder9JlOS nos servir de alguns conhecimentos da tradição hermenêutica sobre
este fenômeno. 1 Interpretação, como Gadamer diria, não é uma atividade sem pressuposi-
ções: é um processo ativo e criativo no qual o intérprete inclui uma série de conjecturas e
· expectativas para apoiar a mensagem que ele procura entenderjAlgumas destas conjec-
turas e expectativas podem ser pessoais, isto é, inteiramente particulares à história singu-
lar de cada indivíduo. Mas muitas das pressuposições e expectativas que um indivíduo
inclui no processo de interpretação são de caráter social e histórico mais amplo, compar-
tilhadas por um grupo com características originais e trajetórias sociais similares. Estas
constituem um tipo de pano de fundo de conhecimentos implícitos que os indiví-
duos adquirem através de um processo gradual de inculcação, e que lhes fornece uma
estrutura para interpretar e assimilar o que é novo. ·
Urna vez que a interpretação das formas simbólicas exige uma contribuição ativa
do intérprete, que traz uma estrutura pessoal de apoio à mensagem, segue-se que as
maneiras de compreender os produtos da mídia variam de um indivíduo (ou grupo
de indivíduos) para outro, e de um contexto sócio-histórico para outro. Corno acon-
tece com todas as formas simbólicas, o "significado" de uma mensagem transmitida
pela mídia não é um fenômeno estátito, permanentemente fixo e transparente para
todos\ Antes, o significado ou o sentido de uma mensagem deve ser visto como um fe-
nômeno complexo e mutável, continuamente renovado e, até certo ponto, transforma-
do, pelo próprio processo de recepção, interpretação e reinterpretaçã_g. O significado que
uma mensagem tem para um indivíduo dependerá em certa medida da estrutura que ele

44

ou ela traz para o sustentar. Claro, há alguns limites a este processo; a mensagem não
pode significar qualquer coisa, e um indivíduo deve ter algum conhecimento das regras
e convenções em base às quais uma mensagem é produzida (por exemplo, ele ou ela
devem ter conhecimentos rudimentares da linguagem). Mas estes limites são amplos
e deixam largo espaço para a possibilidade de que, de um indivíduo ou grupo de in-
divíduos para outro, e de um contexto sócio-histórico para outro, a mensagem trans-
mitida por um produto da mídia possa ser entendida diferentemente.
A tradição hermenêutica chama a nossa atenção para um outro aspecto da inter-
pretação que é relevante aqui: ao interpretar as formas simbólicas, os indivíduos as
incorporam na própria compreensão que têm de si mesmos e dos outros. Eles as
usam como veículos para reflexão e auto-reflexão, como base para refletirem sobre si
mesmos, os outros e o mundo a que pertencem. Usarei o termo "apropriação" para
me referir a este extenso processo de conhecimento e de autoconhecimento. Apro-
priar-se de uma mensagem é apoderar-se de um conteúdo significativo e torná-lo
próprio 32 • É assimilar a mensagem e incorporá-la à própria vida - um processo que
algumas vezes acontece sem muito esforço, e outras vezes requer deliberada aplica-
ção.\f adaptar a mensagem à nossa própria vida e aos contextos e circunstâncias em
que a vivemos; contextos e circunstâncias que normalmente são bem diferentes da- /;_j
queles em que a mensagem foi produzi~ 1

A apropriação das formas simbólicas - e, em particular, das mensagens transmiti-
das pelos produtos da mídia - é um processo que pode se estender muito além do (
contexto inicial da atividade de recepção. As mensagens da mídia são comumente
discutidas por indivíduos durante a sua recepção e depois; elas são portanto elabora-
das discursivamente e compartilhadas com o c:Írccle-·mais amplo de indivíduos que
~!km ter participado (ou não) do processo inicial de r~ç~pçãQ. Desta e de outras
maneiras, as mensagens podem ser retransmitidas para 011t.!?~-~9~t~_!9.s_ <!.C:..~~o~
e transformadas através de um processo contínuo de repetição, reinterpretação, co-
. mentário, riso e crítica. Este processo pode acontecer numa variedade de circunstin-
c~as - em casa, ao telefone, no lugar de trabalho - e pode envolver uma pluralidade
de participantes. Pode fornecer estruturas narrativas dentro_das quais os indivíduos
:~l~tam seus pensamentos, sentimentos e experiências, tecendo aspectos ~ws vidas
com as mensagens da mídia e com suas respostas às mensagens relata~g-"vés_ des-
te processo de elaboração discursiva, a compreensão que um indivíduo tem das men- .
sagens transmitidas pelos produtos da mídia pode sofrer transformações, pois elas são
vistas de um ângulo diferente, são submetidas aos comentários e à crítica dos outros
~gradualmente impressas no tecido simbólico da vida cotidian~ f}I~ I (;) €'"8JCtl Ç'
Na recepção e apropriação das mensagens da mídia, os indivíduos são envolvidos
num processo de formação pessoal e de autocompreensão - embora em forrou nem
sempre explícitas e reconhecidas como tais. Apoderando-se de mensagens e rotineira-

O. Dizer que a apropria-. 46 . uma consciência daquilo que ele é e de onde ele está ~~~~~ te_mpo e no espaço. Ele acontece lentamente.• que continuarão a desempenhar um papel funda- mental na formação pessoal e social. se torna cada vez mais acessível aos indivíduos em todo o mundo. tópico de conversação entre amigos.. Os primeiros processos de socialização na famí- lia e na escola são.lando nossas habilidades e nosso cabedal de conhecimento. num mundo cada vez mais bombardeado por produtos das indústrias da mídia. É um processo no qual algumas mensa- gens são retidas e outras são esquecidas. enquanto outras deslizam pelo dreno da memória e se perdem no fluxo e refluxo de imagens e idéias. decisivos para o subseqüente desenvol- vimento do indivíduo e de sua autoconsciência._. uma nova e maior arena foi criada para o processo de autoformação. dia após dia. testando nossos senti- mentos e gostos e expandindo os horizontes de nossa experiência. Este processo de transformação pessoal não é um acontecimento súbito e singular.:ão das mensagens da mídia se tornou um meio de autofor- mação no mundo moderno não é dizer que ele é o único meio: claramente não é. entre pares. ano após ano. imper- ceptivelmente. Mas não devemos perder de vista o fato de que. NÓs estamos constantemente modelando e rem~<le=­ . mente incorporando-as à própria vida. o indivíduo está implicitamente construindo uma comnreensão-de si meslJl. Nós estamos aúvamente nos modificando por meio de mensagens e de conteúdo significativo ofere- cidos pelos produtos da mídia (entre outras coisas). entre professores e alunos. no qual algumas se tornam fundamento de ação e de reflexão. Há muitas outras formas de interação social. de muitas maneiras. É uma arena livre das limitações espaço-temporais da interação face a face e. dado o alcance da televisão em sua expansão global. como as existentes entre pais e filhos.

O impacto destas transformações foi paulatina- mente sendo sentido muito além dos centros urbanos em expansão e dos emergentes estados da Europa. Em primeiro lugar. 47 . como também aos resultados de pesquisa~ mais recentes de historiadores e sociólogos. mais cedo e mais profundamente do que outras. Mas uma vez que estas transformações começaram a acontecer. Estas transformações eram complexas e variadas. Novas instituições apareceram e e. a emer- géncia das sociedades modernas implica um conjunto específico de mudanças econô- micas através das quais o feudalismo europeu foi se transformando gradualmente num novo sistema capitalista de produção e de intercâmbio. e conseqüentemente algumas partes do mundo. no sentido de que depen- diam de condições históricas específicas. afetaram algumas regiões da Europa. Práticas tradicionais foram gradualmente eclipsadas por novos tipos de ações. Em segundo. Através da exploração. novas conven- ções e novas formas de associação. muito provavelmente teriam produzido resultados diferentes. Quais são as linhas principais da transformação institucional que constituíram as sociedades que emergiram nos albores da Europa moderna? Graças ao trabalho de pensadores sociais clássicos como Marx e Weber. tivessem sido diferentes algumas destas con- dições. algumas das principais linhas eia transformação institucional se tomaram mais claras. outras par- tes do mundo foram cada vez mais envolvidas neste processo de transformação insti- tucional que começou na Europa. 0 desen- vo]~·1mento das sociedades modernas se caracterizou por um processo de mudanças pohucas pelas quais as numerosas unidades políticas da Europa Medieval foram sendo reduzidas em número e reagmpadas num sistema entrelaçado de estados-nações.Zpandiram o raio de suas atividades. 2 AMídia eoDesenvolvimento das Sociedades Modernas Algumas das características específicas do mundo moderno são o resultado de um conjunto de transformações institucionais fundamentais que tiveram início na Europa durante o último período da Idade Média e os primórdios da era moderna. mas que logo se tornou global em alcance. do comércio e da colonização. Eram também transformações contingentes. logo adquiriram uma energia pró- pria.

de alguma forma.> (' -- . comprovado que o desenvolvimento das socie- dades modernas tenha implicado um processo de transformação cultural distinto. do fato de que os teóricos do social e ou- tros têm procurado no lugar errado pelos sinais da sistemática mudança cultural. se realmente ocorreram. e os considerou mais autônomos e complexos do que os escritos de Marx quiseram suge- rir.a diferenciação dases- feras de valor. até onde ele pode ter considerado este assunto.cada um reclamando soberania sobre um território claramente delimitado e possuin- do um sistema centralizado de administração e de tributação. nas atitudes e nas orientações . ou podem ter ocorrido de maneira bem diferente.1 ~or isso se toma difictl tirar conclusões sobre mudanças culturais que têm probaoilidade de serem demonstradas por provas varia- das e conflitantes.' Estas largas linhas de transformação institucional parecem relativamente claras e receberam bastante atenção na recente literatura especializada. Basta. é se o desenvolvimento das sociedades modernas se caracteri~ou pelas transformações sistemáticas daquilo que vagamente pode se chamar de domínio "cultural''. que dominaram as descrições de Weber . podemos discernir as grandes transformações no domímo cultural . a racionalização da ação e o desencantamento das concepções de mundo tradicionais . Weber deu mais atenção aos desenvolvimentos no domínio cultural. inapreensíveis. Mudanças ocorridas numa região ou classe podem não ter ocorrido em outra.para se convencer da dificuldade de generalizar sobre mudanças de valores e de crenças. \A argumentação que desenvolverei neste capítulo me leva a crer que. Em terceiro. portanto. em outro nível e com conseqüências bem diversas. de dificil demonstração. a tese de que o desenvolvimento das modernas sociedades industriais se faz acompanhar pelo declínio do papel e da relevância da crença religiosa . variadas e ex- tremamente complexas. por sua própria natureza. pareceu presumir que o desenvolvimento do modo capitalista de produção levaria a uma progressiva desmistificação do mundo social: as crenças e os valores tradicionais que ocultaram as relações sociais no passa- do seriam varridos pelas realidades da economia selvagem da produção e da troca ca- pitalista. o poder militar foi se concentrando cada vez mais nas mãos de estados-nações que reivindica- vam. parece cla- ro que a guerra e a sua_preparação exerceram um papel fundamental neste processo de alterações políticasJ com o desenvolvimento das sociedades modernas. mas elas são também. são certamente interessantes e importan- tes. considerar o debate ainda não concluído sobre a seculariza- ção . Não parece. todavia. Neste capítulo irei demonstrar que a incerteza com relação ao processo de trans- formação cultural deriva. Tais mudanças.isto é. Eles têm tentado detectar largas mudanças nos valores e nas crenças. o monopólio do uso legítimo da força dentro de um determinado território. Aqui o legado dos pensadores sociais clássicos é menos explícito e menos útil.permaneceram contro\l'ertidos e. ao mudar o foco de atenção.naquilo que alguns recentes historiadores franceses chamariam mmtali- tés. Mas estes temas. Marx.( Menos claro. como observou uma vez Max Weber. até certo ponto.

atitudes e crenças. uma transformação cultural siste- 1 mática começou a ganhar um perfil mais preci~ Em virtude de uma série de inovações técnicas associadas à invenção da impressão e. conseqüentemente.oQ. e examinando como eles foram recebidos e usados pelos indivíduos.! Quero agora usar esta estrutura para analisar as transformações institucionais associadas com o advento das sociedades modernas. as formas simbólicas começaram a ser produzidas. Os modelos de comunicação e interação se trans- formaram de maneira profunda e irreversível.j mo período da Idade Média e início da era moderna.J7 Algumas dimensões institucionais das sociedades modernas Como deveríamos caracterizar as principais transformações institucionais que co- meçaram a aparecer na Europa no final da Idade Média e que definiram os traços do mundo moderno? No capítulo anterior classifiquei o poder em quatro tipos . tinham uma base cultural muito clara: o desen- volvimento das organizações da mídia que apareceram primeiramente na segunda meta- de do século XV e foram expandindo suas atividades a partir de então. baseada em unidades de pequena produção tais como a aldeia e 49 .J-!este contexto irei considerar alguns argumentos de ~~ó_rico ..~_ --. pqli!ico. Estas mudanças.----- \Neste capítulo focalizarei alguns dos '!_~tos-chave da mediação da cultura~~- de o final do século XV até os dias atuais~Ômeçarei examinando em detalhes as li- n4as-mestras das transformações institucionais características das sociedades moder- ' nfs~oncentrar-me-ei no desenvolvimento da imprensa e das primeiras publicações periódicas nos primórdios da Europa moderna. ~ Comecemos com a economia 1 • A mais antiga economia medieval era predomi- nantemente agrária.~_()rganizações.a ~ respeito do impacto da imprensa sobre o início do período moderno5"Concluirei co- ~entando algumas das maiores transformações nas indústrias da mídia a partir do início do século XIX.econô- mico. F~calizarei em seguida a orga- nização social do poder simbólico e suas transformações ao longo do tempo. mas as considerarei somen- te em relação ao desenvolvimento do estado moderno. Se não focalizarmos inicialmente os valores. _J . teremos -uma-_visão mais pertinente das trans ormações culturais a~sociadas ao nascimento das sociedaci~~iil.e os relacionei a fontes e instituições as mais diversas. apontando de que modo estes desen- volvimentos iVeraram as redes de comunicação preexistentes e as relações de poder 1 j estabelecidas. Atentando para as a!iYidades e produtºs_cl~fü. mas os meios d'! produção e circulação das formas simbólias no mundo social.. de modo a preparar o terreno para os capítulos seguintes. de uma forma mais sistemática e mais definitiva. com o advento das sociedades modernas no últi-1.erp. então veremos que. à codificação elétrica da informação. Examinarei brevemente as mu- danças nas formas institucionais do poder econômico e políti~As formas institucio- nais do poder coercitivo não serão discutidas em detalhe. que incluem o que chamaríamos de "mediação da cultura". coercitivo e simbólico . reproduzidas e distri- bwdas numa escala sem precedentes.

em alguns casos. Estas novas relações coexistiram com as relações feudais tradicionais durante mui- tos séculos. como Wallerstein e outros mostraram.s a preços que supera- vam os custos da produção. permitindo aos capitalistas a geração de lucro que era apro- priado privadamente e. inidalmente na União Soviética e subseqüente- mente na China e em outros lugares. 50 . . artesãos e outros puderam acumular capital e usá- lo para incrementar o comércio e a produção de bens. Mas estas mudanças ocorreram dentro de um sistema de relações de proprie- dade e de produção que permaneceram relativamente estáveis. a partir do século XI. embora a pro- dução excedente servisse a extensas redes comerciais já existentes. mais e mais trabalhadores foram sendo assalariados. e ao longo dos séculos XVI e XVII elas foram expandindo substan- cialmente suas atividades. o comércio começou a se expandir e as cidades cresceram em tamanho e influência. Era principalmente uma economia de subsistêmu.incluindo o uso das máquinas e a ramificada divisão de tra- balho dentro das fábricas. os produtos finais foram sendo vendidc. e uma parte de sua produção era regularmente recolhida pelo senhor feudal. envolvendo o sempre crescente uso da moeda e das redes de tro- ca. toma- ram-se os principais centros de acumulação de capital e de poder econômico dentro de uma rede de relações comerciais de alcance verdadeiramente global. As principais características deste novo sistema capitalista são bem conheci- das: mais e mais indivíduos foram acumulando capital e usando-o no melhoramento dos meios de produção e no aumento das mercadorias produzidas. Gradualmente. Um novo tipo de relações eco- nômicas começou a emergir. Comerciantes urbanos. reinvestido na própria produção. Ao redor de 1450 um novo sistema de produção e intercâmbio de mercadoria surgiu na Europa e rapidamente se expandiu. tanto em produtividade quanto em alcance geográfico. Ao final do século~.a Revoluçio Industrial aumentou grandemente a ca- pacidade produtiva das empresas. várias empresas capitalistas já se tinham estabelecido nos maiores centros co- merciais da Europa. no qual ª' mslitmções eco- nômicu foram sendo subordinadas cada vez mais ao poder centralizado do estado. Os camponeses es- tavam economicamente ligados à terra. que lavravam sem possuir. anunciando a era do processo industrial em grande escala. etc. Cidades como Amsterdã. Somente a partir do século XX é que surgiram tentativas.0 senhorio feudal. O comércio dentro da Europa aumentou e intercâmbios comerciais foram ligando todas as partes do mundo com os centros europeus. de desenvolver um processo indusmal em gran- de escala (e também de produção agrária) dentro de um sistema dt> rela~·ôes de propriedade e de produção fundamentalmente diferente. e mais tarde Londres. enquanto a economia européia do último período da Idade Média foi passando por sucessivas fases de expansão e de contração. Ao introduzir uma série de novos métodos de produção . A Revolução Industrial da segunda metade do século XVIII e primeira do século XIX aconteceu dentro do contexto de um sistema econômico capitalista que já existia na Europa e em outros lugares há muitos séculos. primeiramente nas vilas e cidades e posteriormente também no campo.

se necessário fosse. Por um lado. cada um carac- terizado e centralizado por um sistema de governo e de administração. o número de unidades políticas soberanas na Europa tinha sido dramaticamente reduzido para cerca de 25 estados. Em termos de organização política. as maiores potências européias dedicaram a maior parte de seus recursos para manter e expandir suas esfe- ras de influência e para se prevenirem das ameaças de rivais. num interligado sistema de estados nacionais. que viria relativamente tarde na história (não antes de meados do sérnlo XX em muitos casos). formando a base para o subseqüente desenvolvimento de instituições políticas modeladas às linhas européias. dois fatores concorre- ram. Segundo ele. À medida que o conflito militar ia ganhando proporções maiores. mas também os meios para reprimir revoltas internas e manter a ordem dentro dos territórios sobre os quais reivindicavam jurisdição. e que seria uma fonte endêmica de tensão e de con- flito no mundo moderno. Por outro lado. \Õ estado moderno como o conhecemos hoje . e por isso tiveram que desenvolver meios efetivos de tributação e de administração. Os mecanismos de consolidação e centralização deste processo foram muito bem analisados por Charles Tilly3. para criar os meios de exercer o poder coercitivo. Estes recursos eram raramente concedidos de boa vontade. foi um pro- cesso lento e hesitante. cada um rei- vindicando soberania sobre um território bem definido. Sistemas de administra- ção colonial foram instalados em muitos destes territórios. 51 . A transformação dos territórios coloniais em estados nacionais independentes. Os tetritórios estrangeiros forneceram fontes adicionais de renda para os estados europeus e se tornaram importantes parceiros co- merciais para as firmas capitalistas e comerciantes sediados na Europa. Com o cresci- mento da importância econômica dos territórios ultramarinos.o "estado-nação" ou "estado na- cional" . Enquanto os estados europeus foram consolidando seu controle sobre territórios limítrofes na Europa Continental. inclusive homens. pelo ano de 1490 havia mais de 500 unidades políticas. até maiores e mais poderosos principados e reinos. algumas potências européias foram expandindo seus círculos de influência no ultramar. os governantes tinham que desen- volver meios de extrair recursos. E finalmente se tornavam a pedra fundamental das peque- nas unidades políticas. e cada um preparado para defender suas reivindicações pela força das armas. com suas próprias instituições soberanas e s~us limites claramente definidos. equipamento e capital. Cinco séculos mais tarde. prote- gidos pela capacidade de aplicar força quando necessária. a Europa Medieval era muito fragmentada.é um conjunto de instituições cujas formas foram emergindo gradualmente num lento pr_ocess~2-~ A E~ropa Medieval era caracte_ri~da por um grande n_úmero de unidades pohticas que vanavam em tamanho e potenaa. os governantes criaram os meios para exercer o poder coercitivo - principalmente fazendo guerra contra rivais externos e se prevenindo contra possíveis ameaças externas. os estados com recursos para manter seus exércitos em condições de guerra por maiores períodos de tempo terminavam sem- pre em vantagem material. desde pequenas adades-es- tado e federações urbanas. das popu- lações subjugadas.

que o exercia de modo relativamente uruforme sobre todo o território do estado. o projeto de edificação de um estado absolutista nunca vingou realmente. mundo.e.uer- ra. Identidade nacional pode- ria ser definida grosso modo como um sentido de penença a urna pátria ou a uma nação panicular. deveres e tradições comuns 1 . Esta ênfase. Mas a criação de um sentido de identidade nacional tinha vantagens para os governantes políticos: favorecia a conso- lidação do estado nacional. porém. especialmente na Ingl.. Qracteriuda pela crescente concentração do poder nas mãos do monarca. na verdade. o estado inglês se erigiu numa forma de consmucionahsmo no qual o poder do monarca foi moderado por uma grande ênfase no governo da lei. de qualquer maneira. que não se submetia às assembléias representativas. de nicionallimo. a emergência de um sentido de idenu- dade nacional .vi~ estreita- mente ligada ao desenvolvimento de novos meios de comunlaçio que pennitiun is idéias e aos símbolos serem expressos e difusos numa linguagem comum. um sentido claro de identidade nacional raramente esteve presente nas primeiras fases da edificação do estado..ições ao longo do tempo.da e o apoio de um exército. junto com as dramáticas convulsões políticas do último período do século XVIII e crescente anseio por uma efetiva participação política. Por vá- rias razões históricas.tanto dentro como fora do Parlamen- to.algo que permaneceu.t natu- reza do poder simb6lico e suas trmsfonn. das sociedM!es modernas_1ti d\W mudanças muito bem dilcutidu a. A orgmização política interna dos estados europeus variou consideravelmente ao longo do tempo e de urna região para outra.t to- 52 . ajudaram a nu- trir o desenvolvimento de um tipo de democracia liberal.. (De que maneira a orianizaçio social do poder siJnb6lico mudou com o Mivmto ~. Retoman- mos a este raciocínio mais tarde. No período entre o século XV e o século XVIII. característica de muitos estados do século XX. tanto na Europa quanto em outras regiões do ~. na separação dos poderes e no papel da oposição .u- mente evidentes na Prússia. Em outros lugares da Europa. foi entremeada de muitas e complexas maneiras com a criação de símbolos e \ de sentimentos de identidade nacionalj O estabelecimento de um estado forte genl- mente precedeu a formação de um fone sentido de identidade nacional dentro de suas fronteiras . a oposição às tendências separatisw e a mob1hução de apoio para fins militares e outros. mas apenas i lei de Deus. Além disso. partilhando direitos. literatur. Prússia. emergiu uma forma de absolutismo ou monarquia absoluta.. lA formação dos estados modernos. Como munos estados modernos nasceram de forçada incorporação de populações diversas em unidades territoriais contestadas. uma quest. representativa e multiparti- dária. O monarca absoluto geralmente reivindicava para s1 a única fonte humana da lei. Antes d~os considerar l1Ws uentamenle . entendido como a canahução da identidade nacional para a conquista explícita de objetivos políticos . na França.io profunda- mente disputada e inapreensível da vida política moderna. Espanha e em outros lugares•. Esta tarefa ficou mais fácil com o desenvolvimento de uma burocracia centraliza. Áustria.. desenvolvimentos particul.

1 • senvolvimento que voltamos a nossa atenção agora . \\ impressão e o consequente desenvolvimento das indústrias da mídia. Nas primeiras fases da formação do estado europeu. Da mesma maneira que o conhecimento cienúfico se libertou da tutela da tradição religiosa. A autoridade religiosa se fragmentou numa pluralidade de seitas que reivindicavam estilos de vida distintos e ca~_inhos alternativos de acesso à verdade das Escritura~ i A fragmentação da autoridade religiosa e o declínio de seu poder político foram acompanhados por uma segunda mudança: a gradual expansão de sistemas de conheci- mento e de instrução essencialmente secularizad~ O século XVI testemunhou wn de- senvolvimento importante das ciências. e os governantes apelavam à doutrina religiosa para sustentar-lhes a autoridade e legitimar-lhes o govemo 6 . a Igreja Católica Romana era a instituição central do poder simbólico. como a astronomia. É claro. Uma diz respeito ao papel das instituições religiosasi Na Europa Medieval. apesar de servir-lhes de apoio até certo ponto: foi a mudança da escrita pua a. e que geralmente tem recebido menos atenção do que u duu prt-·\~!. fornecendo wna série de estruturas nacionais de transmissão de noções e habi- lidades básicas. a botânica e a medicina. ._\ meiras. com o ' monopólio da produção e da difusão dos símbolos religiosos e da inculcação da crença religios~pois da queda do Império Romano. o monopólio virtual da Igreja Católica foi abalado. As escolas e universidades se tomaram cada vez mais aptas para a transmissão de urna série de habilidades e formas de conhecimento. Estas disciplinas emergentes estimularam a formação de sociedades literárias por toda a Europa e chegaram ao currículo das universidades mais liberais. assim também o sis- tema de educação foi ganhando mais autonomia fora da Igreja.' SJ . a Igreja foi sendo gradualmente alijada do poder político. Foi somente a partir do século XIX que sistemas de educação mais abrangentes foram introduzidos nos estados euro- peus. r- \ Houve. entretanto. Mas com o crescimento e o fortalecimento nos estados eu- ropeus de seus próprios sistemas especializados de administração.ÍCom o advento do protestantismo no século XVI. os es- tudantes universitários eram quase que exclusivamente filhos das elites urbanas. Bispos e abades ajudavam os governantes a con- trolar seus domínios. r ciológica e histórica. wna terceira mudança imponmte na organização social do poder simbólico. como a alfabetização na língua-padrão da nação. forjavam-se alian- ças entre as elites religiosas e políticas. e a maioria da população rural permanecia analfabeta. ajudando a manter o equilíbrio de poder entre os governantes. ~ pua este de. O papado também exercia wn ceno grau de con- trole e de arbitragem nas relações entre os estados. entre as quais o conhecimento da escrita era apenas uma parte (e em muitos casos com wna imponãncia cada vez mais decrescente). a Igreja continuou a garantir uma estru- tura normativa não muito rígida por toda a Europa e estabeleceu wn sistema de escolas monásticas que se especializaram no ensino da leitura e da escrita e na transmissão da doutrina sagrada. o acesso ao sis- tema educacional era altamente restrito durante o primeiro período moderno.

mas que a Igreja e o estado procuraram usar em beneficio próprio e. Foi durante esse tempo que as técnicas de impressão. o papel era largamente usado em toda a China para escrever e para outras finalidades. As primeiras for- mas de papel e de impressão foram desenvolvidas na China. No período 1268-76 surgiu a primei- ra fábrica italiana de papel em Fabriano. bem antes de se populariza- rem no Ocidente7• Plantas têxteis eram transformadas em fibras. de tempos a tempos. Já no século III dC. macantilização e o advento da imprensa o surgimento das indústrias da mídia como novas bases de poder simbólico é um processo que remontai segunda metade do século XV. macio e facilmente disponível meio de inscrição que se revelaria ideal para os objetivos da impressão.\ O desenvolvimento das primeiras máquinas impressoras foi assim parte e parcela do crescimento da economia capitalista do fim da Idade Média e início da Europa modem~Ao mesmo tempo. as técnicas de impressão também foram originalmente desenvol- vidas na China. estas i~pressoras se tornaram novas bases do poder simbólico que permanecer<im em relaçoes amb1valentes com as msu- tuições políticas dos estados emergentes. Métodos me- lhorados foram introduzidos durante a dinastia Sung (960-1280). garantindo um leve. o papel já era usado em toda Europa. fábricas de papel se estabeleceram em Bagdá e Damasco. Fábricas de papel logo apareceram em outras cidades italianas. se espa- lharam pelos centros urbanos da Europa. suprim~ As inovações técnicas que possibilitaram o desenvolvimento da impressão são bem conhecidas e é suficiente descrevê-las muito brevemente aqui.-V Comunicação. mas só a partir do século XIII é que o papel europeu começou a ser produzido em escala significativa. Como o papel. e a Itália se tornou a maior fonte de fornecimento para o resto da Europa. por um lado. feu sucesso e sua sobre~cia dependeram da capacidade de mercantilizar formas simbólicas efetivamente. Os blocos de impressão emergiram gradualmente de processos de po- limento e estampagem que remontam provavelmente ao ano 700 dC. A invenção do tipo móvel é nonnalmente atnbuída a Pi . incluindo Bolonha. As técnicas de fabricação do papel foram se espalhando graduahnente na direção do Ocidente e. Em meados do século XIV. por outro lado. a partir do século VIII em diante. Pádua e Gênova. prensadas em forma de papel e postas para secar. originalm~te desenvolvidas por Gutenberg. contudo.1 Estas técnicas foram exploradas pelas ofici- nas de impressão montadas. Mercadores trouxeram o papel para a Europa. mcluindo uma pri- meira versão do tipo móvel. em sua maioria. Um pincel feito de cabelos e tinta ex- traída do pó de fuligem eram usados para escrever um elaborado sistema de ideogramas composto de vários milhares de caracteres. e com aquelas instituições re- ligiosas que reivindicavam certa autoridade sobre o exercício do poder simbólico. encharcadas em água. como empresas comerciai~.~advento da indústria gráfica representou o surgimento de novos centros e redes de poder simbólico que geralmente escapavam ao controle da Igreja e do estado.

provavelmente adaptando métodos originalmente usados para a fundição de moedas. mas tipografias foram surgin_do também na França. Ele também adaptou a tradicional prensa de parafuso. Espanha e em outros lugares. pela tipografia e pela im- pressão de livros. Algumas cidades na Alema- nha e _na Itália se tomaram particularmente importantes como centro de publicações. conhecida na Europa deste o século I dC. fixá-la em chapa e usá-la como um único bloco. As técnicas de fundição de metal eram bem conhecidas na Europa desde o início do século XV. Os métodos de impressão por meio do tipo móvel foram desenvolvidos mais tarde na Coréia. Gutenberg desenvolveu um método de duplicar a fundição das letras deºmetal. das cartas de jogo e dos livros impressos na China e com a gradual expansão dos contatos comerciais e diplomáticos entre o Oriente e o Ocidente9 • Blocos de impressão começaram a aparecer na Europa no último quartel do sécu- lo XIV. e a invenção da máquina impressora. e poucos anos depois muitas oficinas tipográficas estavam operando em Mainz. às finalidades de impressão de textos. Holanda. Johann Gutenberg. a partir do século XV. Os coreanos fo- ram os primeiros a usar formas de tipo móvel feitas de metal. estabeleceram um Ministério de Publicação que. Por volta de l '450 Gutenberg tinha desenvolvido suas técnicas o suficiente para as explorar comercialmente. de modo que grandes quantidades de tipos poderiam ser produzidas para a composição de textos extensos. estes métodos podem ter sido espalhados com a difusão do papel-moeda. As técnicas de impressão se espalharam rapidamente. começou suas experiências com a im- pressão em torno de H-4-0io. era responsável por uma substancial produção de materiais impressos. Febvre e ss . de tal maneira que o papel recebia a impres- são dos tipos. Em virtude da combinação destas técnicas. mas elas não tinham sido adaptadas às finali- dades da impressão. usou argila para fazer caracteres que depois eram endurecidos no fogoª. um ourives de Mainz. As autoridades políticas co- reanas se interessaram perspicazmente pela fundição de tipo. e livros impressos nessas chapas apareceram em 1'409. pois os ti- pógrafos carregavam seus equipamentos e seus conhecimentos de uma cidade para outra. Contudo. a partir dos irúcios do século XIII. Embora os detalhes técnicos tenham sido aperfeiçoados subseqüente- mente de muitas maneiras. podia-se compor uma página intei- ra de tipos. Embora não se te- nha prova direta da transferência de técnicas de impressão da China e da Coréia para a Europa. os desenvol- vimentos comumente associados a Gutenberg se diferenciam dos métodos originais chineses em dois aspectos: o uso de tipos alfabéticos e não ideográficos.Sheng que. durante o período 10-41-8. Em l '480 já havia tipografias instaladas em mais de cem cidades pela Europa toda e um florescente comércio de livros tinha surgido. estes princípios básicos da prensa de Gutenberg perma· neceram em uso por mais de três séculos. A produçao destas primeiras tipografias era formidável. Inglaterra. aplicava-se a tinta sobre o bloco e prensava-se o papel contra ele.

eles eram encomendados pela Igreja ou pelo estado para produzir textos litúrgicos e publicações oficiais. Em Paris do século XVII. bem como uma extensa rede comercial interligando os mais importantes centros comerciais da 56 . as primeiras tipografias estavam consolidando e expandindo um comércio que já existia bem antes da inven- ção da imprensa. . Outros pre- cisavam de fmanciamento externo. Os livros impressos. que eram destinados principal- mente para a clientela universitária. Os impressores tinham que levantar capital sufi- ciente para adquirir os meios de produção . ·como são algumas vezes chamados - produzidos por estas primeiras impressoras eram em latim. Jogo foram adquirindo seu próprio formato e aparência.e para comprar o papel e outras matérias-primas necessárias para a produção de livros. As tipografias primitivas eram. que forne- ciam livros para as faculdades universitárias e para as ordens mendicantesn Os pri- meiros impressores viram o mercado potencial e fizeram de tudo para entrar nele. como também livros usados nos cultos religiosos e nas orações particulares. Muitas organizações tipográficas permaneceram relativamente limitadas durante todo o período inicial da era moderna. Muitos destes livros . por exemplo. empresas comerciais or- ganizadas nos moldes capitalistas. etc. os tipos e a escrita se tornaram mais uniformes e o mercado de livros se expandiu rapidamente.ou "incunábulos". editores ou livreiros. em sua grande maioria. Alguns destes primeiros impressores tinham fundos suficientes para tocar o negócio por conta própria e operavam efetivamente como editores. ao lado de textos sobre assuntos jurídicos e científicos. e somente uma minoria podia ler. Anton Koberger de Nu- remberg desenvolveu uma organização editorial de porte que. já nas primeiras décadas do século XVI. como o Livro das Horas. e muitos livreiros vendiam tanto livros impressos como manuscritos. Mas algumas maiores organizações apareceram.oficina. sele- cionando o material a ser impresso e assumindo os riscos desta atividade. importando em pelo men~s 15 a 2 O milhões de cópias em circulação 11 • Por esse tempo a população das nações onde a impressão se desenvolveu não ultra- passava 100 milhões. As primeiras ti- pografias também imprimiam livros de filosofia e teologia clássica e medieval. po- rém.000 edições tinham sido produzidas. que escolhiam o material a ser impresso e os enco- mendavam. fontes de caracteres tipográficos. Estes incluíam muitas edições da Bí- blia (tanto em latim quanto em línguas vernáculas). Em alguns casos. Ao produzir estes livros.Martin estimam que até o fim do século XV pelo menos 35. prensas. Ao longo de toda a Idade Média livros manuscritos tinham sido produzidos por escribas trabalhando em escritórios monásticos como também por copistas trabalhando em sistemas de produção para comerciantes leigos. a maioria das oficinas tipográficas tinha menos de quatro prensas e dez homens traba- lhando 14. e uma proporção signifi- cativa (cerca de 45%) era de caráter religioson. Começaram a produzir livros que inicialmente pareciam cópias manuscritas. em outros casos. tinha 24 prensas e cerca de 100 trabalhadores. recebiam ajuda de financiadores privados.

Em 1485 o arcebispo Berthold de Mainz pediu ao conselho municipal de Frankfurt para examinar os livros a serem exibidos numa feira regional e assistir a Igreja na supressão de livros perniciosos. Em 1501 o Papa Alexandre VI tentou estabelecer um sistema de censura mais rigoroso e abrangente.\Os editores sempre en- contravam meios de burlar os censores. capazes de produzir e distribuir textos em grande escala. mas lugares de encontros para clérigos. o fato de que impressores e editores tinham interesse na mercantilização das formas simbólicas significava que suas relações com as autoridades religiosas e políticas eram enormemente importantes e cheias de dificuldades. No final do século XV e início do século XVI. Mas toda tenta- tiva de controlar a produção impressa e os novos centros de poder simbólico foi sem- pre muito limitada de muitos modos. inicialmente promulgado em 1559. para que a Igreja pudesse exercer um efetivo controle sobre elas. Este caráter duplo refletia-se na atmos- fera distintiva de muitas destas primeiras casas editoras. comwúcações impressas e normas. . encomendando documentos oficiais. Havia firmas impressoras demais. o Inda foi continuamente revisado e atuali- zado. pouco sucesso elas obtinham.para suprimir materiais impressos 16 . permanecendo em efeito por alguns quatro séculos. mesmo grau de circunspecção que usara para os copistas e escribas no tempo dos ' manuscritos. que não eram somente cen- tros de comércio. Além disso. e que eram por isso mesmo relativamente independentes do poder político e simbólico controlados pela Igreja e pelo estad<?JTanto a Igreja quanto o estado procuravam usar esta indústria nascente para finalidades próprias. numerosas tentativas foram feitas pela Igreja . A censura \. eruditos e intelectuais. proibindo a publicação de qualquer livro sem a autorização do poder eclesiástico. a Igreja apoiou fortemente o desenvolvimento de novos mé- todos de reprodução textual. lõSurgimento da indústria editorial criou novos centros e novas redes de poder simbólico que se ba- seavam principalmeme nos princípios da produção -~~il. Nos primeiros anos.'mais diversos tipos. Plantin de Antuérpia formou um sindicato de editores em 1563 e criou a maior e mais poderosa organização editorial.quase sempre em colaboração com as autoridades seculares . Ao crescer o número dos livros proibidos. O clero encomendava dos impressores trabalhos teoló- gicos e litúrgicos. controlando o virtual monopólio de venda de textos litúrgicos por todo o império espanhol dos Habsburgos 15 • As organizações tipográficas e editoras que emergiram nos primórdios da Europa moderna eram instituições culturais ~ econômicas. estimulava um vigoroso comércio de contrabando de livroj 57 . Mas a Igreja não podia controlar as atividades dos impressores e dos livreiros com o . e os livros banidos numa cidade ou região \ eram editados numa outra e contrabandeados por comerciantes e mascates. a Igreja finalmente compilou um Inda librorum prohibito- rwn. Europa. como também trabalhos dos. e muitos mosteiros introduziam impressores em seus ambientes. Mas embora as inter- venções das autoridades religiosas e políticas fossem numero~no final do século XV e durante todo o século XVI.

Não se pode duvidar de que as no\·as técnicas de im- pressão tiveram um papel fundamental na difusão das idéias ~e Lutero e . e monarcas publicavam éditos ordenando que seus livros fossem queimados. s sermoes e trata- dos de Lutero foram p.iblicados em numerosas edições e logo se tornaram enorme- mente populares. Cícero e outros .. e de boa parte da Europa em um mes . ela também teve conseqüências importantes em outros aspectos da cultu- ra européia moderna. em 3 1 de outubro de 1517. Se a imprensa contribuiu para a difusão do protestantismo e a fragmentação da cristandade. O comércio. A expan~ão do humanismo italiano pelo norte da Europa se deveu grandemente. numa medida que certamente seria inconcebível se estes tex- 58 . estima-se que estas teses tenham chegado ao conhecimento de quase toda a Alemanha em • 18 o - questão de quinze dias.foram publicadas em múltiplas edições. inicialmente fixadas a porta da igre1a agosti- niana em Wittenberg. e atraves da imprensa os estudiosos puderam fixar e padronizar os textos da Antiguidade. Grande quantidade çk. por exemplo. s~~ nenh~a dúvida. e imprimiram material para exportação clandestina. logo foram traduzidas para as lín- guas vernáculas.Virgílio. e em 13 de junho de 1521 o Parla- mento embargou a publicação e a venda de escritos sobre as Escrituras que . A cres- cente disponibilidade de textos clássicos facilitou e estimulou o renascimento do in- teresse pela Antiguidade.. um decreto real de 18 de março de 15 21 ordenou ao Parlamento a garantir que nenhum trabalho fosse publi- cado sem ter a licença da Universidade de Paris.Hs impressos são bem ilustradas pela Reforma. segui~ o "affaire des placards". como Antuérpia. Muitos editores migraram para cidades além das fronteiras francesas. Havia simplesmente muitas tipografias e muitos modos de transportar livros através das fronteiras para que o co- mércio fosse efetivamente C'. Na França. todavia. As 95 Teses de Lutero. Estrasburgo e Basiléia. Não demorou muito para que se iniciasse uma forte ofen- siva em várias cidades e nações contra toda literatura associada à revolta protestante. Mas estes de- cretos e embargos tiveram efeito limitado. O papado condenou as obras de Lutero. continuou.não tivessem sido aprovados pela Faculdade de Teologia da Universidade 20 . As dificuldades inerentes ao controle do comércio de matei i.000 cópias em três semanas.de outros re- formadores 17.rnaterial foi produzido e contrabandeado para a França por mercadores e mascates:. Renovadas tentativas se fize- ram para castigar o comércio de obras banidas. até 1522 já tinham apareci- do 13 edições separadas 19 . edito- res e tradutores . impressas em folhetos e distribuídas por toda a Europa. à intermediação do papel de impressores. as obras de autores clássicos . Ovídio. Embora uma grande proporção de livros publicados neste pri- meiro período fosse de caráter eminentemente religioso.)ntrolado por decretos ?apais ou reais. Surgiram organizações ilí- citas especializadas na distribuição de livros proibidos. que já se vinha manifestando entre os literatos italianos desde o século XII.. e Fran- cisco I ordenou uma série de execuções espetaculares nas quais editores e livreiros fo- ram levados à fogueira. Seu manifesto À Nobreza Cristã da Nação Alemã foi publicado em 18 de agosto de 1520 e vendeu 4.

ur anos e artesaos . Os almanaques continham. discutidos e debatidos por estudiosos em toda Europa 23 • As primeiras editoras também publicaram muitas obras de ciência popular. te que ponto esses livros eram realmente comprados e lidos é dificil de determinar com algum grau de exatidão. anatomia. e muitas imitações e versões plagiadas apareceramH. Graças ao poder preservativo e reprodutivo da imprensa. pesos e sistemas monetários. botânica. Manuais práticos e livros de conduta ofereciam orientações para uma vasta gama de atividades. O De Civilitate Morurn Pueriliwn de Erasmo. que fixava um código de boas maneiras e orientações para a instrução das crianças. comportamento moral e oratória.tos tivessem que ser copiados manualmente22 • Os eruditos estudiosos dedicaram-se à preparação de edições críticas das obras clássicas. pintores. incluindo o clero. Primeiramente publicado em Basiléia em 15 3 O. cirurgiões. gráficos. a métodos de práticas comerciais. para calcular a distância e o tempo de uma viagem. etc. manuais e almanaques práticos. foi traduzida para muitas línguas vernáculas. desde boas maneiras. etc. teve enorme sucesso edito- rial. as obras dos huma- nistas do quattrocento puderam se tomar mais do que apenas uma efemera e circuns- crita revitalização do interesse pelo pensamento clássico. que se tomaram a base para repro- dução. como boticários. Inventários de bens domésticos 59 .como os de literatura popular da assim chamada "Bibliotheque Bleue" . há alguns indícios que nos sugerem números relativamente elevados de alfabetizados entre cer- tos grupos de artesãos. tipógrafos. a elite política e a emergente classe social. Quem lia os livros produzidos por estas primeiras editoras? Qual era a composi- ção social destes primeiros leitores públicos? Os principais clientes destas primeiras casas editoras foram sem dúvida as elites urbanas instruídas. A imprensa também tomou mais fácil acumular e difundir dados sobre os mun- dos natural e social. fornecen- do-lhes instruções para levar suas mercadorias além das fronteiras locais. mapas e teorias que seriam consultados. Mas é provável tam- bém que alguns livros tenham sido comprados e lidos também por uma proporção crescente de artesãos urbanos e comerciantes. que vendiam em grande quantidade. geografia. foram usados extensivamente por comerciantes e homens de negócio. músicos e ourives 25 . pro- fessores e estudantes. traba- lhando em colaboração com professores universitários na preparação de obras cientí- ficas. para converter medi- das. e os menos volumosos e mais b"!atos . repre- sentação e prática. Algumas destas primeiras editoras logo se especializaram na pro- dução de textos de medicina. e a desenvolver sistemas padronizados de classificação.estavam certamente presentes entre os trabalhadores b . Os livros eram disponíveis à venda em lojas na cidade e em tendas no mer- cado. estima-se que pelo menos 47 . Embora provas dos índices de alfabeti- zação no início da Europa moderna sejam fragmentárias e inconclusivas..000 cópias desta obra de Erasmo estavam em circulação em 1600.26 A . matemática. entre ou- tras coifas. A imprensa criou um novo fluxo de dados. tabelas padronizadas para calcular o custo dos bens..

Somente no século XX é que o inglês emergiu corno a nova língua franca da comunicação internacional . festas e festivais espe- ciais. que constituíam a maioria da população nos inícios da Europa moderna. 60 .e verdadeiramente global. e somente gradualmente o mundo impresso foi transformando o conteúdo das tradições e o modo de sua transmissão. por um motivo ou por outro. Livros populares. como também encontros de grupos de afmidade especial. em vez do latim. contu- do. Índices de instrução eram relativamente baixos entre alguns setores da população urbana.com exceção de obras de referência como a Bí- blia e o Livro das Horas . é provável que em algumas ocasiões. que muitos indivíduos tenham comprado e lido livros e depois os tenham vendi- do novamente. almanaques e outras publicações eram levados a todas as regiões do campo por vendedores ambulantes. que carrega- vam suas mercadorias de aldeia em aldeia e as ofereciam a bom preçoz 8 . e corno língua oficial da Igreja Católica. As tradições nacionais de literatura começaram a aparecer e a adquirir um caráter distin- tivo. Os livros podiam ser revendidos com relativa facilidade e . embora sem nunca atingir a posição proeminente que o latim ocupara anteriormente. e entre os camponeses. Tais ocasiões podem ter incluído reuniões rotineiras de família e de amigos. alguns livros fos- sem lidos em voz alta para pessoas reunidas em determinados lugares. O latim continuou a ser usado por estudiosos e pelos diplomatas. crianças e a classe operária não especializada. ao longo dos séculos XVI e XVII. Impressores. edito~'es e autores começaram a orientar a crescente produção para as populações nacionais específicas que podiam ler as línguas vernácu- las. Muitos dicionários e gramáticas foram pro- duzidos tendo em vista a padronização da grafia. que indivíduos destes grupos fossem totalmente refratá- rios ao mundo dos impressos. como assembléias protestantes secretas que se reuniam para ler e discutir a Bíblia Z9 • Graças à prática de ler em voz alta. como alemão.deve ter havido bem pouco incentivo a colecioná-los entre pessoas de modestas posses. o latim foi ceden- do a uma variedade de línguas vernáculas nacionais 31 • Por algum tempo o francês se tomou a língua comum do intercâmbio cienúfico e diplomático. uma grande quantidade de livros foi sendo impressa nas línguas vernáculas. em muitos contextos lingüísticos e na maior parte da Europa. o público destinatário das obras impressas era muito maior do que os grupos relativamente pequenos de indivíduos que possuíam alguma instrução. porém. À medida que a leitura dos livros impressos foi se propagando ao longo do sécu- lo XVI. ou tenham tomado em empréstimo de outros.deixados depois da morte sugerem que na França da primeira metade do século XVI a maioria dos artesãos não possuía nenhum livro ao morrer 27 • É bem possível. Daí não se conclui. como mulheres. Livros e outros textos foram incorporados às tradições populares de caráter principalmente oral. do vocabulário e da gramática. Além disso. francês e inglês 30 • O crescimento no uso destas línguas estimulou iniciativas para torná-las mais uniformes. Mas já em fins do século XVII.

edições vernáculas da Bíblia e de outros textos religiosos e litúrgicos tiveram um papel crucial no estabelecimento de uma linguagem nacional re- lativamente uniforme e geralmente aceita. Este é o argumento de Benedict Andersoo. subordinando as línguas dos povos indígenas àquelas dos colonizadores. das línguas vernáculas nos im- pressos. Foi um processo que se interligou de formas complcns com a mudança de posição da Igreja e com o crescimento e a consolidação dos estados nacionais. aquele da Baixa Saxônia. e a promoção de algumas destas línguas ao status de língua oficial do estado. as línguas oficiais das potências européias se tomaram do- minantes em outras partes do mundo. Quando o processo de descolonização teve início nos sé- culos XIX e XX. uma barreira lingüístic. à medida que os estados europeus expandiram suas esferas de influência no ultramar. O clero se tomou mais distante. mas com conseqüências que foram bem além dos inte- resses da indústria como tal. mais esotérica e a autoridade da Igreja.a de maiores di- mensões começou a crescer entre o clero e as populações leigas. em 153 9. Em alguns casos a autoridade política dos primeiros estados modernos favoreceram ativamente o processo de unificação lingüística. a liturgia. Por outro lado. mais vulnerável ao criticismo. que sustenta que a convergência do capitalismo. O declínio do latim e o surgimento das línguas nacionais foi um processo cm pane acelerado pela indústria editorial. À medida que a Igreja Católica continuou a considerar o latim como língua oficial e a proibir o uso das línguas vernáculas. Além disso. A fluência na língua nacional se tornou cada vez mais importante comó meio de interação com os estados oficiais e de acesso ao mercado de trabalho 33 • Muitos diaietos regionais. e modelar uma linguagem que pode- ria prontamente ser entendida em todas as terras alemãs. Por exemplo. O crescimento da importância das línguas vernáculas se ligou também ao cresci- mento e à consolidação dos estados nacionais. a tecnologia da imprensa e a diversi- dade de línguas na Europa dos séculos XV e XVI apressaram a erosão da comunidade sagrada da cristandade e a emergência das "comunidades imaginadas" e que poste- riormente se tomaram as bases para a formação da consciência nacional14 . Ao difun- 61 .declinaram em importância ou de- sapareceram. nas nações onde o protestantismo predominava. Francisco I estabeleceu o francês como língua oficial das cortes de justiçan. Lutero mesmo procurou abandonar seu próprio dialeto nativo. mas gra- dualmente perderam suas bases institucionais e se tomaram subordinados à língua oficial. especialmente aqueles que permaneceram principalmente na tradi- ção oral e raramente foram usados na imprensa . As línguas regionais e os dialetos continuaram a ser utilizados nas províncias e nos contextos da vida diária. foram importantes precondições para a emergência de formas de identidade nacional e de nacionalismo no mundo moderno.. ainda totalmente abalada pelo duro golpe protestante. estas línguas dominantes permaneceram em muitos casos como lín- guas oficiais dos estados nacionais recém-formados. pelo Edito de Villers-Cotterêts. Poderia ser plausível argumentar que a fixação. adotando uma língua nacional particular como idioma oficial do estado.

compartilhar o que poderia de uma maneira geral ser chamado de uma tradição nacional . dir 0 uso das línguas vernáculas. na melhor das hipóteses. Ele esboça uma tentativa frouxa de conexão. É certamente plausível sugerir que a formação das comunidades nacionais. as possí- veis ligações (se existiram) não são examinadas em detalhe.entre a emergência da pluralidade de públicos leitores na Europa do século XVI. embora a argumentação de Anderson dirija a nossa atenção para as possíveis conseqüências sociais e políticas das mudanças na natureza dos meios de comunicação no início da era moderna. e a emergência de várias formas de identidade nacional e nacionalismo nos séculos XIX e XX. a argumentação de Anderson é sugestiva. Se o primeiro público leitor foi o embrião da comunidade nacional imaginada. a comunidade nacional imagina~ Este é um argumento importante e provocativo. O principal é que a natureza precisa desta suposta li- gação do desenvolvimento da imprensa com o surgimento do nacionalismo nunca é des- crita em detalhes. que teve um papel im- portante na formação dos movimentos nacionais dos séculos XIX e XX.ainda que estes indivíduos nunca tenham interagido diretamente. embora o desen- volvimento da imprensa possa ter tido algum papel (ainda imprecisamente definido). po- rém não inteiramente persuasiva. como An- 1 derson sugere. que o desenvolvimento da imprensa e de ou- tros meios técnicos da comunicação foi. e tem tido considerável impacto nos recentes debates. indivíduos gradualmente se tornaram conscientes do fato de que pertenciam a uma comunidade virtual de leito- ~es com quem eles nunca iriam interagir diretamente. Há uma linha divisória consideravelmente intransponível . por um lado. Mais genericamente. certamente. Como uma explicação do surgimento do nacionalismo. impressores e editores criaram campos unificados de comunicação que eram mais diversificados do que o latim e menos do que a multi- plicidade dos dialetos falados. e do moderno sentido distintivo de pertença a uma particular nação territorial- mente situada.isto é. não uma condição suficiente. por que levou tanto tempo para que este embrião amadurecesse? Anderson reconhece. ela não as delineia de um modo 62 . uma condição ne- cessária para a emergência da consciência nacional. Mas a discus- são destes últimos desenvolvimentos não é associada por Anderson de uma forma clara e convincente ao advento do que ele chama "capitalismo da imprensa" nos pri- mórdios da Europa moderna. mas a quem se sentiam ligados através da imprensa. por outro lado. estava ligada ao desenvolvimento de novos sistemas de comunicação que possibilitavam a partilha de símbolos e crenças expressas numa língua comum . a principal explicação para o surgimento do nacionalismo muito provavelmente se deve procurar em outros fatores.tanto his- toricamente quanto conceptualmente . portanto. Mas há problemas com a argumentação de Anderson. É esta comunidade virtual de leitores que se tornaria.\Lendo textos vernáculos. Ele dedica grande parte da atenção à luta contra o colonialismo. Fica-se com a impressão de que.

Com o aumento do comércio e de novas fábricas. estas redes operavam tanto dentro dos territórios particulares de cada estado. Luís XI estabeleceu o correio real em 1464. um número de redes re- gulares de comunicação tinha sido estabelecido através da Europa. Esta rede permitia ao papado em Roma manter con~to com o clero e com as elites políticas dispersas pela malha folgadamente tecida do reillo de cristandade. Em pane isto pode ser devido ao fato de que sua preocupação primor- dial é tentar entender o fenômeno do nacionalismo mais do que examinar a natureza e o impacto dos meios de comunicação como tais. como os produtos da mídia foram usados pelos indivíduos. Em primeiro lugar. Um terceiro tipo de rede estava ligada à expansão da atividade comercial. Finalmente. havia redes de comunicação estabelecidas pelas autoridades políticas dos estados e principados. Daí por que ele não examina. Antes do advento da imprensa. XVI e XVII. mascates e entretenedores ambulantes. quanto entre os estados que mantinham alguma for- ma de comunicação diplomática entre si. convincente. alguns estados começaram a estabelecer serviços postais regulares q~e rapidamente cresceram em disponibilidade para uso geral. todos ficavam sabendo de acontecimentos ocorri- dos em lugares os mais distantes. Segundo. Casas comerciais e bancárias . as alterações nas formas de ação e interação que se tornaram possíveis graças aos novos meios de comunicação. -JJ O surgimento do comércio de notícias Há uma outra maneira em que o desenvolvimento da imprensa transformou os padrões de comunicação no início da Europa moderna: foi o aparecimento de uma variedade de publicações periódicas que relatavam eventos e transmitiam informações de caráter político e comercial. Na Europa Central. indivíduos particulares podiam usar o correio com uma permissão especial e mediante 0 paga- mento de uma taxais. tais como con- tadores de histórias e trovadores. e como o desenvolvimento da mídia gradualmente alterou a natureza da tradição e a relação dos indivíduos com ela. Estas são algumas das questões que iremos analisar mais detalhadamente nos próximos capítulos. facilitando a ad- ministração e a pacificação internas.construíram extensos sistemas de comunicação e começaram a fornecer informações aos clientes de uma forma co- mercial.como a família Fugger de Augsburgo e as grandes casas comerciais de Florença . Podemos distinguir pelo menos quatro tipos de redes de comunicação anteriores à imprensa. havia uma extensa rede de comunicações estabelecidas e controladas pela Igreja Católica. Na França. informações eram também transmitidas às cidades e aldeias atra- vés das redes de comerciantes. no- / vas redes de comunicação foram estabelecidas dentro da comunidade de negócios e entre os maiores centros comerciais. Ao longo dos séculos XV. por exemplo. Ao se reunirem em mercados ou tabernas e intera- girem com mercadores e viajantes. Primeiro. Maximiliano 1 construiu uma extensa rede 63 . estas redes de comunicação foram subme- tidas a dois desenvolvimentos-chave.

ido para transmitir mensagens pelo correio foi drasticamente reduzido. incluindo Augs- burgo. . como gigantes. Eram impressos aos milhares e vendidos nas ruas por vendedores ambulantes e forneciam uma valiosa fonte de informações sobre acontecimentos correntes e distantes .. uma viagem de Edimburgo a Londres durava 60 horas. Estes eram uma miscelânea de sentenças oficiais ou oficiosas. a comunicação nestes inícios era muito lenta. como eram chamadas estas primitivas compilações de noúcias naquele tem- po . Foi somente depois do de- senvolvimento das estradas de ferro. que as recolhiam em suas re- 64 . cometas e aparições. descrições de eventos particulares.postal ligando as terras centrais do império Habsburgo às outras cidades da Europa. O segundo desenvolvimento que profundamente afetou o estabelecimento de re- des de comunicações nos inícios da era moderna foi o uso da imprensa na produção e disseminação de notícia_§.. É claro que. fornecen- do serviços postais domésticos e internacionais. Estrasburgo e Wolfenbüttel. folhetos polêmicos. tornaram-se os primeiros centros de produção de jornais. ' Publicações periódicas de notícias e informações começaram a aparecer na se- gunda metade do século XVI. As cidades localizadas ao longo das maiç>res rotas comerciais européias. mas as origens dos jornais modernos são geralmente si- tuadas nas primeiras duas décadas do século XVII. já nos inícios do século XIX. tais como encontros militares ou desastres naturais. relações sensacionalistas de fenômenos extraordiná- rios ou sobrenaturais.\Logo depois do advento da imprensa em meados do sécu- lo XV. ele nomeou Franz e Johann von Taxis como chefe dos correios. como Colônia. As notícias que compu- nham os corantos eram fornecidas pelos chefes postais.logo surgiram em outras cidades e línguas. Frankfurt. decretos do governo. pôsteres e cartazes começaram a apa- recer. embora o desenvolvimento dos serviços postais regulares para o público em geral só tenha ocorrido a partir do século XVII 37 . e um chefe dos correios foi apontado em torno de 1516. Semanários . para os padrões do sécu- lo XX. No final do século XVIII. Na Inglaterra. e há algum indício de que um periódico semanal possa ter sido publicado algo em torno de 160 7 em Amsterdã.ou "co- rantos". uma rede integrada de comunicação postal pública emergiu. um correio real foi estabelecido no início do reinado de Henrique VIII. O correio raramente viajava a mais de 1O milhas por hora em distâncias maiores. estabele- cendo assim um sistema postal imperial que permaneceu sob o controle da família Taxis por muitos séculos 36 . Antuérpia e Berlim. Estes folhetos ou folhas eram publicações avulsas e irregulares. e 24 horas eram necessárias para se ir de Londres a Manchester. As mensagens eram trans- portadas por cavalos e carruagens num tempo em que as rodovias eram muito precá- rias. quando periódicos regulares de notícias começaram a aparecer semanalmente com um certo grau de confiabilidade 3~ Em 1609 folhas semanais eram publicadas em várias cidades alemãs. uma variedade de folhetos informativos. Em 1490. que o tempo re- qu::. Gradualmente ao longo dos séculos XVII e XVIII.

ou escutavam sua leitura por outros. 15 publicações de coramos de van den Keere apareceram. e freqüentemente fossem lidos em voz alta. Por isso a circulação destas formas primitivas de jornal ajudou a criar a percepção de um mundo de acontecimentos muito distantes do ambiente imediato dos indivíduos. Enquanto os primeiros coramos se interessavam principalmente por notícias do exterior. quan- do se relaxou o controle estrito do governo sobre a imprensa.giões e as mandavam para as principais cidades. sua freqüente aparição forneceu uma cobertura regu- lar da Guerra dos Trinta Anos. Os indivíduos que liam estes jornais. Muitas destas primevas formas de jornal se preocupavam principalmente com notícias do estrangeiro. Desde 1586 um decre- to do tribunal da coroa tinha estabelecido um sistema abrangente de censura . O primeiro jornal a aparecer na Inglaterra foi provavelmente produzido em Amsterdã em 1620 por um impressor e gravador de mapas holandês Pieter van den Keere e exportado para Londres 39 . isto é.os eventos doméstico'>. em luga- res que eles certamente nunca iriam visitar. O alcance geográfico deste mundo permaneceu bastante limitado durante o século XVII: raramente se estendeu além das fronteiras da Europa. não deve ser subestimado. Havia um crescente público interessado na Guerra dos Trinta Anos e isto produziu o grande estímulo para o desenvolvimento da inexperiente indústria do jornal.fatos que eles nunca poderiam testemunhar diretamente. Os semanários podiam também ser traduzidos para outras línguas e vendidos em dife- rentes cidades e países. em 1621. não demorou muito para que começassem também a dedicar mais atenção a. mas que tinha alguma relevân- cia potencial para suas vidas. O primeiro coranto publicado na Inglaterra foi prova- velmente produzido por um papeleiro de Londres. Na Inglaterra esta evolução teve que esperar até 16-40. Em 1620 Amsterdã tinha se tornado o centro de um comércio de notícias em rá- pida expansão. Além disso. através do qual relatórios de eventos distan- tes se tomavam disponíveis de forma regular para um ilimitado número de recep- tores. Archer foi posteriormente aprisionado por publicar sem licença folhas informativas sobre a guerra no Palatinado. e em muitos casos nunca ultrapassava muito mais do que isto). embora os jornais fossem lidos por mais de um indivíduo. a circulação dos primeiros jornais era muito baixa se comparada aos pa- drões hodiernos (estima-se uma tiragem mínima de 400 cópias40 . mas outros coramos ingleses e panfletos informativos logo co- meçaram a aparecer. Embora não tenha sido publicado semanalmente.e 65 . Entre 2 de dezembro de 1620 e 18 de setembro de 1621. imprimindo-os na forma de uma série de parágrafos curtos com detalhes da data e do lugar de origem das informações. Thomas Archer. Um único indivíduo podia então reunir e editar os relatórios dos chefes postais. ficavam conhecendo fatos acontecidos em lugares os mais dis- tantes da Europa . com eventos que estavam acontecendo (ou tinham acontecido) em lugares distantes. Mas a importância des- te novo modo de difusão da informação.

Mas na medida em que a crise entre Carlos I e o Parlamento se apro- fundou. três semanários domésticos apareceram. livros e panfletos que tratavam dos fatos da Guerra Civil e de questões a ela pertinentes. restabelecido por Carlos II em 1662. foi suspenso tempo~ariamente no frm do século XVII e deu lugar a wna inundação de novas publicações periódicas. seu público leitor era maior do que sua circulação .talvez dez vezes maior. embora alguns não tenham durado mui- to41 • Este foi o começo de um período relativamente incontrolável de publicações de jornais. bem como por uma cadeia de cafés que adquiriam os principais jornais e os deixavam à disposição de seus clientes. Em 17 50 Londres já contava com cinco bem estabelecidos jornais diá- rios.licenciamento (suplementado por um decreto ulterior de 163 7). O pri- meiro jornal diário na Inglaterra. cada um deles fornecendo sumários das atividades do Parlamento. com uma circulação total de aproximadamente 100. introduzindo uma nova fase na Inglaterra do século XVIII! O sistema de licenciamento. pois foi durante esse tempo que publicações periódicas puderam pela primeira vez exercer alguma influência nos negócios do estado. Durante muitas semanas de 1645. como o Tatler. o Craftsman de Nicholas Amhurst.000 cópias por semana42 • Os periódicos eram distribuídos na cidade por redes de agentes e vendedores ambulantes. . seis trissemanais. Estes últimos in- cluíam um número de jornais que popularizaram o gênero do ensaio político. forne- cendo um fluxo contínuo de informações sobre os fatos correntes e manifestando uma variedade de pontos de vista . bem como um grande número de panfletos e opúsculos de caráter políti- co. e em julho de 1641 o tribunal foi abolido. Uma ~ariedade de periódicos mais especializados começou a aparecer. Uma vez que muitos jornais eram lidos em lugares públicos como taber- nas e cafés. outros ainda em comentários sociais e políticos. e nos primeiros três meses de 1642 outros oito periódicos apareceram. o Daily Courant de Samuel Buckley. Controles mais rigorosos foram reintroduzidos por Carlos II depois da restauração da monarquia em 1660. tomou-se extremamente dificil para a coroa reforçar seu controle sobre a imprensa.sobre matérias de interesse público . 14 periódicos foram vendidos nas ruas de Londres. o Spectator. que limitava o nú- mero de impressores na Inglaterra e os submetia a censores específlcos para cada tipo de publicação. . A crise estimulou também o in- teresse público por notícias atualizadas sobre as atividades políticas internas. Os jornais de Londres eram também distribuídos para as províncias por serviços pos- tais e de transporte cada vez mais eficientes. Entre novembro e dezembro de 1641 ·. outros em finanças e notícias comerciais. apareceu em 1702 e foi logo seguido por outros. cinco semanários e muitos outros periódicos mais baratos. alguns mais interessados em diversões e eventos culturais. mas o período entre 1641 e a restauração foi muito impor- tante na história da imprensa. o Review de Daniel Defoe e o Examina de Jonathan Swift. A evolução da imprrnsa periódica em bases comerciais e independentes do poder do estado foi ainda capaz de fornec~ informações e comentários críticos sobre questões de interesse geral.algumas vezes agudamente conflitantes .

Tais decretos foram duramente criticados e se tomaram objeto de tro- ça na luta pela liberdade da imprensa. com algumas poucas exceções. desempenhou um papel importante na evolução do estado constitu- cional modern~Alguns dos primeiros pensadores liberais e líbero-democratas. um extremamente restritivo sistema centralizado de licenciamento. ÍHá força considerável no argumento de que a luta por uma imprensa inde- pendente. foram fervorosos advogados da liber- dade da imprensa. Nas Províncias Unidas a imprensa permaneceu re- lativamente livre. restringir a produção e forçar os periódicos marginais a sair de circulação. Eles viam na liberdade de expressão de opinião através de uma im- prensa independente uma salvaguarda vital contra o uso despótico do poder do estado44 • É significativo que. e ao mesmo tempo trazer uma receita adicional para a coroa.Embora a _im~ortância de uma_ imprensa independente tenha sido notória para munas dos pnme1ros pensadores liberais e liberal-democratas. Nos estados e prin- cipados da Alemanha e da Itália.ÍGarantias legais de liberda- de de expressão foram sendo adotadas por vários governos europeus. de tal maneira que pelo fim do século XIX a liberdade da imprensa tinha se tomado uma questão constitucional em muitos estados ocidentais. capaz de reportar e comentar eventos com um mínimo de interferência e controle estatais. o grau de controle oficial variava de um estado para outro. embora fosse desencorajada a discutir assuntos políticos locais e tenha sido sujeita. como se pensava. Na França. explicitamente protegeram a liberdade de expressão (mesmo que este direito tenha sido posteriormente abolido por Napoleão). va- riando apenas o grau de severidade'º. as colônias americanas incorporaram o direito a uma imprensa livre como a Primeira Emenda à Constituição. As autoridades políticas procuraram exercer algum controle sobre a proliferação de periódicos e jornais através da imposição de taxas que deveriam. Similarmente. as constituições pós-revolu- cionárias na França de 1791 e 1793. apoiando-se na Declaração dos Direitos do Ho- mem de 1789. este é um tema que desapareceu de vista. vez por outra. A teoria da esfera pública: Uma avaliação prdiminar . depois de uma vitoriosa guerra de independência contra a coroa britânica. nas obras dos mais recentes teó- 67 . Em outros lugares da Europa a imprensa periódica do século XVIII permaneceu sob controle e censura. que instituiu um rigoroso sistema de censura e controle. Um decreto de 1712 exigia que todos os proprietários de jornais pagassem um penny por qualquer folha impressa e um shilling por qualquer propaganda. e na década de 1860 foram finalmente abolidos. a acessos de intensa censura. mas os jornais geralmente tinham mais liberdade para reportar notícias de fora do que para discutir assuntos políticos internos. James Mill e John Stuart Mill. um breve período pós-revolucionário de imprensa livre foi abortado por Napo- leão. supervisão e censura existiu até a Revo- lução. Ulteriores decretos allinentaram as somas e alargaram a base de aplicação da lei. como Jeremy Bentham. Só a partir de 1830 os impostos foram progressi- vamente reduzidos.

mas. se tornaram lugares de discussão e ambientes sociais onde as elites instruídas podiam interagir entre si e com a nobreza em posição mais ou menos de igualdade. articulada por indivíduos comprometi- dos na discussão que era em princípio aberta e irrestrita. cada um com um núcleo de clientes regulares. Ao mesmo tempo. novos centros de socialização apareceram nos prin- cipais centros urbanos da Europa moderna. era uma esfera em que as atividades do estado pode- riam ser confrontadas e sujeitas à crítica. de um lado./Habermas argumenta que o desenvolvimento do capitalismo mercan- til no século XVI. Embora estas publicações muitas vezes tenham surgido como jornais dedicados à crítica li- terária e cultural. Foi na Inglaterra do começo do século XVIII que se criaram as mais favoráveis condições para a emergência da esfera pública burguesa. o signific~do de "autoridade pública" começou a mudar: passou a ter menos referência ao domínio da vida palaciana do que às ativida- des de um sistema estatal que tinha legalmente definido esferas de jurisdição e um monopólio sobre o uso legítimo da violência. Ao mesmo tempo. pelo contrário. e o domínio privado da sociedade civil e das relações pes- soais. uma "sociedade ci- vil" emergiu como o domínio das relações de uma economia privatizada que eram estabelecidas sob a égide da autoridade pública. e periódicos e jornais proliferavam. 68 . Os jornais críticos e os semanários morais que começaram a aparecer na Europa em fins do século XVII e ao longo do século XVIII produziram um novo fórum de debate público. Entre o domínio da autoridade pública ou o estado. Uma exceção é a obra pioneira de Habermas. em tomo da primeira década do século XVIII. uma vez que eram lidos e debatidos por in- divíduos que lá se juntavam para discutir as questões do dia. a partir de meados do século XVII. O domínio "privado" assim com- preendia tanto o domínio em expansão das relações econômicas quanto a esfera ínti- ma de relações pessoais que se tomavam cada vez mais livres da atividade econômica e ancoradas na instituição da família conjugal. surgiu uma nova esfera de "público": a esfera pública burguesa que consistia de indivíduos que se reuniam privadamente para debater entre si as normas da sociedade civil e da condução do estado. Ao explicar a emergência da esfera pública burguesa. O meio para esta confrontação era em si mesmo significativo: o uso público da razão. Além disso. cria- ram as condições para a emergência de um novo tipo de esfera pública nas origens da Europa modem!{ Neste contexto. Muitos dos novos periódicos se interliga- vam estreitamente com a vida dos cafés. elas logo se interessaram por questões de importância mais so- cial e política. Mudança estrutural da esfera pública 45 . Habermas atribui parti- cular importância ao surgimento da imprensa periódica. de outro. Esta nova esfera pública não fazia parte do estado. os cafés prosperavam. A censura e o controle polí- tico da imprensa eram menos rígidos que em outras partes da Europa. estima-se que havia três mil cafés apenas em Londres. junto com as transformações institucionais do poder político.ricos sociais e pp!!ticos. incluindo salões e cafés que.

\Parte da argumentação de Habermas tenta mostrar que a discussão crítica estimu-
lada pela imprensa periódica finalmente teve um impacto transformador sobre as for- ..
mas institucionais dos estados moderno~ Ao ser constantemente chamado diante de '/
um fórum público, o Parlamento se tornou cada vez mais aberto ao escruúnio, fmal-
mente abandonando o direito de evitar a publicação de seus procedimentos. O Parla-
mento também se tornou mais aberto à imprensa e começou a desempenhar um
papel mais construtivo na formação e na articulação da opinião pública. Estes e ou-
tros desenvolvimentos foram de considerável importância; eles são um testemunho
contínuo do impacto político da esfera pública burguesa e de seu papel na formação
dos estados ocidentais. Mas Habermas também sustenta que, na forma específica em
que ela existiu no século XVIII, a esfera pública burguesa não durou muito tempo.
Mais abaixo, voltaremos a este aspecto de sua análise.
r--
\O raciocínio de Habermas, esboçado muito rapidamente aqui, tem o mérito con-
siderável de destacar a mais ampla importância política do desenvolvimento da imprensa
periódica nos inícios da Europa modernJTa! desenvolvimento é tratado não como um .. _
conjunto histórico separado dos outros processos histórico-sociais mais abrangentes, mas
antes como parte integrante deles. Há, contudo, muitas dificuldades na explicação de Ha-
bermas.('Nos capítulos seguintes examinarei em detalhe a concepção do caráter público
que está implícito nesta explicação e as questões normativas que ela provoca. Aqui me /
restringirei a considerar alguns problemas histórico~ J
(i) .Úma das críticas mais freqüentes feitas à explicação de Habermas é que, diri-
gindo a atenção para a esfera pública burguesa, ele tende a negligenciar a importância
de outras formas de discurso e atividades públicas que existiram nos séculos XVII, ~.
XVIII e XIX na Europa, formas que não fizeram parte da sociabilidade burguesa, e em , '-'
alguns casos dela foram excluídas ou a ela se opuseraÚ. obra de E.P. Thompson,
Christopher Hill e outros focalizou a importância da vanedade dos movimentos so-
ciais e políticos plebeus nas origens da era moderna47 , e não se pode presumir que
estes movimentos derivaram de atividades realizadas na esfera pública burguesa ou se
organizaram similarmente. Pelo contrário, a relação entre a esfera pública burguesa e
os movimentos sociopopulares era quase sempre conflituosa48 • Da mesma forma que
a esfera pública burguesa emergente se definiu em oposição à autoridade tradicional
do poder real, assim também se confrontou com o levante dos movimentos popula-
res que ela procurou conter.
Esta é uma linha de crítica convincente e é para crédito de Habermas que, refle-
tindo sobre estas questões 30 anos mais tarde49 , reconhece as deficiências de seu pri-
meiro enfoque. Não somente os movimentos populares naqueles inícios foram mais
importantes do que ele havia previamente admitido, mas é também claro que eles
não serão adequadamente entendidos como simples "variantes" do modelo liberal da
esfera pública burguesa, como ele de alguma forma apressadamente sugeriu 50 • Uma

69

explicação satisfatória dos movimentos sociais populares e das formas culturais popu-
lares irá exigir um enfoque mais flexível, que admita a possibilidade de que eles e
elas tenham tido um modelo e dinâmica próprias.
2) Num filão semelhante, pode-s~ questionar a ênfase de Habermas sobre a impren-
sa periódica no início do século XVIII.\ Não é dificil perceber o motivo por que ele cen-
traliza a atenção sobre este material: periódicos políticos como o Review de Defoe e o
Examiner de Swift exemplificavam o tipo de crítica e de debate que Habermas gostaria de
veicular com a idéia de esfera pública. Mas estes periódicos não foram absolutamente os
primeiros ou mais comuns entre as primeiras formas de material impresso. Como já vi-
mos, o século XVII - especialmente durante os anos da Guerra Civil Inglesa - foi um
tempo de intensa publicação de periódicos; além do mais, uma vasta gama de outros ma-
teriais impressos, de livros e panfletos a letreiros e novos jornais, estava em circulação
pela Europa há pelo menos dois séculos antes que periódicos como o Review e o Examiner
fossem fundados. As razões de Habermas para excluir estas formas anteriores de material
impresso do alcance de seus argumentos não são completamente claras 51 . Além disso, se
ele tivesse dado mais atenção a outras formas de material impresso, talvez tivesse traça-
do outro quadro do caráter da vida pública neste alvorecer do período moderno.
onde a idéia de um cavalheiro ocupado num debate de café público merecesse menos
ênfase do que o caráter agudamente comercial da imprensa primitiva e do conteúdo
inconveniente e sensacionalista de muitos de seus produtos.
6f\Jm terceiro problema com o argumento de Habermas diz respeito à natureza
restrita/da esfera pública burgues~-~Está claro que Habermas considerou este modelo
como uma idealização de verdadeiros processos históricos. Embora a esfera pública
burguesa se baseasse no princípio de acesso universal, na prática ela estava restrita a
indivíduos que tinham tido educação e meios financeiros para participar dela. O que
não se percebe muito claramente na explicação de Habermas, contudo, é até que
ponto a esfera pública burguesa não somente era destinada para as elites instruídas e
afluentes, mas também implicava uma reserva predominantemente mruculina. Haber-
mas não deixou de notar a marginalização d;.s mulheres na esfera pública burguesa e
no caráter" patriarcal da família burguesa. Mas se pode plausivelmente dizer que,
quando da publicação da Mudança estrutural da esfera pública, ele não valorizou a importân-
cia desta questão.
Em anos mais recentes um número de intelectuais feministas examinaram o gê-
nero característico da esfera pública e do discurso político nos inícios do período
moderno e trouxeram à tona um conjunt::> de questões que permaneceram um tanto
obscuras na explicação de Habermas 52 • Concentrando-se na França, no período de
17 50 a 1850, Joan !.andes sustenta que a exclusão das mulheres da esfera pública não
foi simplesmente uma circur..stância histórica contingente, um dos tantos aspectos no
qual a esfera pública ficou na prática muito aquém do ideal; mais do que isso, a ex-

70

clusão das mulheres foi constitutiva da própria noção de esfera pública. Pois a noção
de esfera pública, como foi articulada no discurso político do tempo, foi justaposta à
esfera privada de gênero específico(Ã esfera pública foi geralmente entendida como
0 domínio da razão e da universalidade cuja participação era reservada somente para
os homens, enquanto as mulheres, seres (supostamente) inclinados a particularida-
des, e a conversas frívolas e afetadas, se supunham comumente mais indicadas à vida
domésticpor isso o caráter m~s~ulino da esfera pública burg~e~a não era um aspe~­
to acidental: mas uma caractensuca fundamental da esfera publica que, na sua pro-
pria concepção, foi gerada por um conjunto de suposições profundamente enraizadas
na diferença dos gênero~
Habermas tem sido influenciado pela força desta linha de argumentação. Hoje ele
aceita que, embora trabalhadores e camponeses, não só as mulheres, fossem larga-
mente excluídos da esfera pública burguesa, a exclusão destas últimas precisa ser
pensada diferentemente, precisamente porque esta exclusão tinha, corno Habermas
agora observa, "importância estrutural" 53 . Esta mudança no enfoque de Habermas é
importante, mas as conseqüências que ela pode ter na prática para a teoria e a análise
da esfera pública não foram ainda reveladas em detalhes por ele.
~rn termos históricos, os pontos mais fracos da explicação de Habermas são
provavelmente não os argumentos que dizem respeito à emergência da esfera pública
burguesa, mas aqueles apontados para o seu suposto declíni~ Habermas sustenta que, se 1

por um lado a esfera pública burguesa floresceu nas condições propícias do século
XVIII, por outro lado a evolução subseqüente gradualmente a levou para uma trans-
formação e posterior extinção. A separação entre o estado e a sociedade civil - que
tinha criado um espaço para a esfera pública burguesa - começou a sucumbir à me-
dida que os estados assumiram um crescente caráter intervencionista e maiores res-
ponsabilidades na administração do bem comum dos cidadãos, e os grupos de
interesse organizados se tornaram mais reivindicantes no processo político. Ao mes-
mo tempo, as instituições que antes tinham proporcionado um fórum para a esfera
pública burguesa ou desapareceram ou sofreram mudança radical. Os salões e os ca-
fés perderam importância e a imprensa periódica se tornou parte de um mundo de
instituições da mídia que se foi organizando cada vez mais com interesses comer-
ciais de longo alcance. A comercialização da mídia altera o seu caráter profunda-
mente: o que antes era um fórum exemplar de debate crítico-racional torna-se
apenas mais um domínio de consumo cultural, e a esfera pública burguesa esvazia-
se num mu~ctício de imagens e opiniões. A vida púbhca assume um caráter
quase feudal~ Novos meios técnicos sofisticados são empregados para dotar a autori-
dade pública c~~ aquela aura e prestígio que uma vez eram concedidos às figuras
reais
. ..pela publicidade ....- da es fiera pu-
. . encenada . das cortes feudais · Esta "refeudali'zarEio ·
blica
. torna a políuca um espetaculo que os políticos e os parti.d os procuram ad m1- ·
mstrar, de tempo em tempo, com o consentimento aclamante d 1 - d
a popu açao espo-

71

litizad~ A massa da população é excluída da discussão pública e do processo de to-
mada de decisão, e é tratada como recurso manipulável que os líderes políticos po-
dem utilizar para extrair, com o auxílio das técnicas da mídia, aprovação suficiente
para legitimar seus programas políticos.
Há alguma substância na tese da refeudallzação da esfera pública? Certamente ela
tem alguma plausibilidade razoável. Ao longo do século XX, e especialmente desde o
advrnto da televisão, a orientação da política se tornou inseparável da administração
das ~elações públicas (ou daquilo que irei chamar, num próximo capítulo, de "admi-
nistração da visibilidade'). Mas se examinarmos o argumento de Habermas mais cui-
dadosamente, veremos que há sérias fragilidades.[Êm primeiro lugar, a argumentação
de Habermas tende a presumir, de um modo muito questionável, que os receptores
dos produtos da mídia são consumidores relativamente passivos que se deixam en-
cantar pelo espetáculo e facilmente manipular pelas técnicas da mídi..:JNesta presun-
ção, Habermas afirmou sua dívida para com a obra de Horkheimer e Adorno, cuja
teoria da cultura de massa forneceu parte da inspiração para sua própria explicação.
Hoje está claro, todavia, que este argumento exagera a passividade dos indivíduos e
a.ceita muito facilmente tal passividade no processo de recepção. Suposições deste
tipo devem ser recoloca.das dentro de explicações mais contextualizadas e hermeneu-
tica.mente sensíveis à recepção individualiza.da. dos produtos da mídia: como eles as
recebem, usam e incorporam em suas vidas.
~ segundo problema. com a argumentação de Habermas diz respeito à sua afir-
mação de que a esfera pública nas sociedades modernas foi "refeuda.liza~a" .f Não é
difícil ver por que Haberma.s fez esta afirmação: a ostentação característica dã'"política
media.da. hoje e sua preocupação em tultivar uma aura pessoal ma.is do que estimular
o debate crítico pode parecer, pelo menos à primeira. ~ta, assemelhar-se ao "caráter
de publicidade representativa." típico da Idade MédiafMas a semelhança é mais apa-
rente do que re~ Como procurarei mostrar nos capítulos seguintes, o desenvolvi-
mento dos meios ae comunicação criou novas formas de interação. novos tipos de
visibilidade e novas redes de difusão de informação no mundo moderno, e que alte-
raram o caráter simbólico da vida social tão profunda.mente que qualquer compara-
ção entre política. media.da. de hoje e práticas teatrais das cortes feudais é. no mínimo,
superficial. Mais do que comparar a arena das mediações deste século XX com cus
passa.das, precisa.mos repensar o significa.do do "caráter público" hoje. num mundc1
permeado por novas formas de comunicação e de difusão de informações. onde os
indivíduos são capazes de interagir com outros e observar pessoas e eventos sem se-
quer os encontrar no mesmo ambiente espaço-temporal.
Embora a argumentação de Habermas sobre a sorte da esfera pública seia 1mper·
feita em alguns pontos, ele teve certamente razio em chamar a atenç~o para o fato dt"
que as indústrias da mídia sofreram grandes mudanças ao longo dos sroculm XIX t"

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xxh explicação de Ha.bermas destas mudanças - a. que enfatiza sobretudo o cresci-
Jnento da comercialização da. mídia - é insuficiente, e as implicações que ele deduziu
são questionáveis, como vimo.!JMas se se deseja delinear o impacto dos meios de co-
municação, faz-se essencial uma análise institucional das transformações a.racterísti-
ca.s das indústrias da mídia.

O crescimento das indústrias da mídia

\Quero concluir este capítulo destacando algumas das tendências C\!Iltra.is no de-
senvolvimento das indústrias da. mídia desde o início do século XIX. Destaco três tcn- ,
dência.s: ( 1) a. transformação das instituições da mídia em interesses comerciais de
grande escala; (2) a. globalização da comunicação; e (3) o desenvolvimento das for-
mas de comunicação eletronicamente media~ Minha. discussão destas tendências
será breve. Alguns dos desenvolvimentos já foram extensiva.mente documenta.dos em
outras obras, e algumas das questões levanta.das por eles serão acompanhadas com
mais detalhes nos próximos capítulos.
~transformação das instituições da mídia em interesses comerciais de grande
escM um processo que começou no início do século XIXj É claro que a. comerciali-
zação dos produtos da mídia não era um fenômeno novo; as primeiras impressoras,
como já vimos, eram principalmente organizações comercia.is orienta.das para a mer-
cantilização das formas simbólicas. Mas no curso do séc.-ulo XIX a. escala. de comercia-
lização aumentou significativa.mente. Isto se deveu cm parte às inovações técnicas na.
indústria da. imprensa, e parte à transformação gradual da base de fma.nda.mcnto das
indústrias da mídia e seus métodos de valorização econômica. As inovações técnicas,
como o desenvolvimento da prensa a vapor de Koenig e, consequentemente, a prensa.
rotativa, aumentaram grandemente a. capacidade reprodutiva da indústria gráfica. Elas
permitiram a produção de jornais e outros materiais impressos dentro de um conjun-
to de processos modernos que incluíam o uso de maquina.ria. elétrica, a divislo rami-
ficada do trabalho dentro do sistema industrial, etc. -· que estavam revolucionando
outras esferas c!a produção de mercadorias. Ao mesmo tempo, muiw sociecbdes od-
dentais experimentaram um substancial crescimento ~ população urbana e, dura.ale
a segunda metade do século XIX. um declínio significativo das taus de uWfabeds-
mo, de modo a favorecer uma constante expansão do mr.ra.do de impressos.
À medida que a indústria gráfica foi se tornando mais indus~ e o merca-
do foi se expandindo. a sua. base de fmanda.mento começou a mudar. Enquanto OI
)Ornais dos séculos XVII e XVlll tinham como alvo principal wn setor rescrito d& po-
pulação mais afluente e mais instruída. a indústria de jomm dos séculos XIX e XX •
dirigiu para wn público cada vez mais vasto. A evolução temolóstca e a abobçlo dOI
impostos pcrmiura.m reduzir os preços, e mwtos jol'IWs adotaram um esuJo de )OI'-

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o pre- domínio de grandes corporações coexiste com uma grande e diversa quantidade de organizações menores em produção e serviços. muitas organizações menores da mídia foram sendo esmagadas e forçadas a fusõ~Mas a crescente concen- tração de recursos não eliminou todas as organizações menores nem sufocou o de- senvolvimento de novas empresas capazes de explorar as inovações tecnológicas. por exemplo. quatro grandes grupos da mídia controlavam cerca de 92% da circulação dos jornais diários e cerca de 89% da circulação dos jornais de domingo 56 . O grau de concentração é particularmente notável na indústria jornalística (embora de modo algum exclusivamente). das publicações de livros e revistas à produção e distribuição de filmes~ enfrentar o poder econômico de grandes corporações. muitas das quais se interligam através de subcontratos e acordos para prestação de serviços 57 . Em parte através de fusões. ela também lhes penmte bencfiaa- rem-se da concessão de certos tipos de subsídios. nalismo mais leve e mais vivo. Em muitos setores das indústrias da mídia hoje. tomadas de controle e outras formas de diversifica- ção. desde as edições de jornais locais e nacionais às transmis- sões televisivas via satélite. Além disso. os grandes conglomerados da comunicação emergiram e assumiram um cres- cente e importante papel no domínio da mídia: são organizações multimídia e multinacionais que participam dos lucros de uma variedade de indústrias interessadas na informação e na comunicação. A diversificação em escala global permlle que as grandes corporações se expandam de modo a evitar restrições ao dueno de proprie- dade presentes em muitos contextos nacionais. no começo dos anos '90 na Inglaterra. Hoie os maiores conglomeradm da .J A história sócio-econômica das indústrias da mídia no século XX está bem docu- mentada e não é necessário descrevê-la em detalhes aqui 55 . com poucas organizações no comando das maiores porções do mercado. O tradicional editor-proprietário que tinha um ou dois jornais de interesses familiares gradualmente cedeu a vez para o desenvolvimento de organizações multimídia e multinacionais de grande port.e até certo ponto outros setores da imprensa . os jornais se tornaram um meio vital para a venda de outros bens e serviços. a propaganda comercial adquiriu um importante papel na organização financeira da indústria. os processos de crescimento e de consolidação assumem cada vez mais um caráter multimí- dia à medida que grandes corporações vão adquirindo participação crescente nos vários setores das indústrias da mídia. e sua capa- cidade de garantir receita através dos anúncios ficou diretamente dependente do ta- manho e do perfil de seus leitores.ÍOs jornais . como também uma apresentação mais atraente para alargar 0 órculo de leitores 54 . Com o aumento do número de leitores. Os processos de cresci- mento e de consolidação levaram a uma crescente concentração de recursos em muitos setores da indústria. orientadas para mercados especializados e munidas de informações e de serviços rela- cionados com a comunicação.se tornaram grandes empreendimentos comerciais que exigem relativa- ! mente grandes quantidades de capital inicial e de sustentação em face à intensa e sempre crescente competição.

Em 1898 Marconi transmitiu sinais a uma distância de 23 km sobre o mar.\\.)b uso da energia elétrica na comunicação foi uma das grandes descobertas do 58 • '· sécu"ltf'XIXJAs inovações técnicas principais são bem conhecidas As primeiras ex- periências com telégrafo eletromagnético foram realizadas a partir de 1830 nos Esta- dos Unidos. isto é.com o poder econômico. Westinghouse nos Estados Unidos e Marconi na Inglaterra co- meçaram as primeiras experiências com transmissões radiofônicas. grupo Bertelsmann. Inglaterra e Alemanha. Depois da 1 Guerra Mundial. News Corporation de Rupert Murdoch. da Marinha e da Guerra. junto com a expansão das redes de comunicação ligando as regiões periféricas dos impérios com os centros europeus.(. a transmis- são de mensagens por ondas eletromagnéticas para uma indeterminada e poten- cialmente vasta audiência. lEstas grandes concentrações de poder econômico e simbólico fornecem as bases institucionais para a produção de informação e conteúdo simbóli. Dei- xarei a análise deste sistema e de suas conseqüências para um capítulo posterior. ~J c1. dispensando o uso de fios. como veremos num próximo capítulo.a1s. A transmissão eletromagnética foi adaptada com êxito para transmitir a fala nos anos seguintes a 1870. i co e sua circulação em escala glo~ \ cm globalização da comunicação é um processo cujas origens remontam aos mea. Durante a última déca- da do século XIX Marconi e outros começaram a testar a transmissão de sinais através de ondas eletromagnéticas.' do}ic(século XIXY'os séculos anteriores. estabeleceram o começo de um sistema global de processamento de comunicação e informação que se ramificou e se complexificou cada vez mais. . reinos e principados. materiais impressos eram COIJ!umente trans- portados para grandes distâncias e além das fronteiras de estados.foi rápi- do e universal. Fininvest de Silvio Berlusconi . As primeiras experiências de Marconi com o telégrafo sem fio foram subvenaonadas na Inglaterra pelos Ministérios dos Correios. (o desenvolvimento e a exploração destas várias tecnologias se interligaram de formas c~mplexas .tais como Time Warner. Mas no curso do século XIX o fluxo internacional de informação e de comunicação assu- miu uma fonrta muito mais extensiva e organizada. O subseqüente desenvolvimento dos sistemas de transmis- são radiofônica . e seu primeiro . A tecnologia de transmissão da fala por ondas eletromagnéticas foi desenvolvida durante a primeira década do século XX por Fessenden e outros. pavimentando o caminho para o de- senvolvimento dos sistemas de telefonia em escala comercial. político e coercitiv~Interesses comer.se tomaram jogadores-chave nas indústrias da mídia. O desenvolvimento das novas agên- cias internacionais sediadas nas principais cidades comerciais da Europa. e os primeiros sistemas telegráficos viáveis foram estabelecidos a partir de 1840. polmcos e m1htares uveram um papel vital na expansão das redes a cabo duran- te a segunda metade do século XIX.comunicação .o rádio a partir de 1920 e a televisão a partir dos anos 40 . e em 1899 transmitiu sinais através do Canal da Mancha.

tanto no manuseio da informação quanto na sua transmissão. de um lado.nos capítulos seguintes. alcançaram patamares inauditos.entre os interesses comerciais das indústrias da mídia. 76 . Eles oferecem muito maior flexibilidade. Entre estes estão o desenvolvimento de novas formas de informação baseadas em sistemas de codificação digital e a gradual convergência "\. A evolu- ção subseqüente dos sistemas de transmissões radiofônicas se realizou dentro de es- truturas que variavam grandemente de um_ contexto nacional para outro e que geralmente representavam algum tipo de acordo . Em parte isto é o resultado da inten- sificação dos processos iniciados há um século: o crescimento dos conglomerados da comunicação continuou e suas atividades predatórias. e os processos de globalização se aprofundaram. processamento e armazenament~stes desenvolvimentos estão criando um novo cenário técnico em que informação e conteúdo simbólico podem se converter rapidamente e com relativa facilidade em diferentes formas.como também algumas pretensões superotimistas a eles associadas . Mas antes quero retomar à trajetória percorrida neste capítulo e tentar elaborar uma nova maneira de pensar sobre os desenvolvimentos traçados. e a importância estratégica do rádio. governos e instituições militares americanas. O ambiente da mídia que nos foi legado pelos desenvolvimentos dos séculos XIX e XX ainda sofre hoje contínuas transformações. Mas há também novos fatores em jogo. o desenvolvimento e o controle de novos meios de comunicação. britânicas e alemães exerceram um papel ativo em seus desenvolvimentos 59 . contrato comercial foi com a marinha britânica. Iremos explorar algumas das implicações destes desenvolvimentos . aproximando as partes mais distantes do globo por meio de teias de in~rdependência mais tensas e mais complexas. de outro. Reconhecendo o potencial comercia. __ ) da tecnologia de informação e comunicação para um sistema digital comum de trans- missão.sujeito a contínuas revisões e re- negociações . em muitos contextos facilitadas pelo relaxamento nos controles do governo. e as preocupações políticas com a regulamentação.

15 do que isso.'Ullbérn no tempo)...dições orais dependiam para sobreviver de um conúnuo processo de renovação.formas que são bastante diferentes das que tinham prevalecido durante a maior parte da história humana. eram de al- guma maneira abertas em termos de conteúdo. a~ã. e de interação e novos tipos de relacionamentos sociais . As tradições. O uso dos meios de comunicação proporciona assim novas formas de interação que se ~dem no espaço (e talvez t.i. por isso. '"'Mà. através de histórias contadas e ativi- dades relatadas. a interação se dissocia do ambiente fisico.o. K:om o desenvolvimento dos meios de comunicação. 1 As tradições eram também relativamente restritas em termos de alcance geográfico. As tr<>.ue um menestrel medieval reinventaria uma história todas as vezes que a contasse. a ·grande maioria das interações so- ciais foram face a face. em contextos de interação face a face. ou se ocupavam de outros tipos de ação dentro de um ambiente fisico compartilhado. conscientizar de que o desénvolvimento de novos meios de comunicação não consiste simplesmente na instituição de novas redes de transmissão áe friformação entre indivíduos cujas relações sociais básicas permanecem intactas. pois sua transmissão dependia da interação face a face e do deslocamento fisico de indivíduos de um ambiente para outro.eirà-que os indivíduos podem interagir uns com os·outros ainda que não partilhem do mesmo ambiente espaço-temporal. expressões e ações que tinham sido gravadas em sua mernória ou conduta - mais ou menos do mesmo modo g.s.. devemos no.ção cria novas formas de . Ele faz surgir uma comJ>lexa reorganização de padrões de interação humana através do espaço e do tempo. 3 OAdvento da Interação Mediada Durante a maior parte da história humana.. Os indivíduos se relacionavam entre si principalmente na aproximação e no intercâmbio de formas simbólicas. de tal mai. O uso dos meios de comunicação proporciona 77 . uma vez que o processo de renovação permitia uma série de atos criativos nos quais os indivíduos reiteravam. da melhor forma possível. o desenvolvimento dos meios de comunia. --J Como o desenvolvimento dos meios de comunicação afetou os padrões tradicio- nais de interação social? Como deveríamos entender o impacto social da crescente di- fusão dos produtos da mídia a partir do século XV em diante? Para responder estas questões. e que oferecem um leque de características que as diferenciam das interações face a face.

\ocalizarei depois o tipo de si- tuação interativa criada pelos "meios de comunicação de massa~ e. "interação mediada" e "quase-interação mediada2J'Ã interação face a face· acontece num contexto de co-pn:sença. etc. ou em aml~ mtcra- ção mediada se estende no espaço e no tempo.~ que não se encaixam umas com as outras.rA:~ interações nw- diadas implicam o uso de um meio técnico (papel. ou deixa. "aquele".1companhadas de piscadelas e gestos. dispersos no espaço e no tempo.também novas formas de "ação à distância" que permitem que indivíduos dirijam suas ações para outros. etc.5Nas duas seções finais explorarei algumas das formas de ação à distância proporcionadas pelo uso dos meios de comunicação. Neste capítulo procurarei desenvolver uma estrutura conceituai para a análise das formas de ação e interação criadas pela mídia.é._ú_tjl_di~tinguir três formas ou tipos .'· : Três tipos de interação Para explorar os tipos de situação interativa criado~elo uso dos meios de comu- nicaçãoL . "este".r"começarei distinguindo três formas de interação e analisando suas principais características. mudanças na entona- ção e assim por diante. I~~~~es face_ a face contrastam com "interações mediadas". Se os partici- pantes detectam inconsistências. rnm a~ quais 111d1- co formas de interação tais como cartas. Os participantes de uma interação face a face são constante- mente e rotineiramente instados a comparar as várias deixas simbólicas e a usá-las para reduzir a ambigüidade e clarificar a compreensão da mensagem. os participantes estão imediatamente presentes e partilham um mesmo sistema referencial de espaço e de temp~or isso eles podem usar expressões denotativas ("aqui".) e presumir que são entendidos. As interações face a face têm também um caráter dialógico. "agora". e estes são também receptores de mensagens que lhe são endereçadas pelos receptores de seus comentários . ondas eletro- magnéticas. os receptores podem responder (pelo menos em princípio) aos produtores. ameaçar a continuidade da interação ou lançar dúvidas sobre a sinceridade do interlocutor. Uma outra característica da interação face a face é que os participantes normalmente empregam uma multiplicidade de deixas simbólicas para transmitir mensagens e interpretar as que cada um recebe do outr~As palavras podem vir .) que possibilitam a transmissão cje inform1ção e rnnteúdo s1mhólirn para indivíduos situados remotam~nte no espaço. adqulfindo as~1m um nLunero de ca- 78 . etc. tomando o exem- plo da televisão. examinarei algumas questões em detalhe.quel chamarei de "interação face a· face". no tempo. fios elétricos. no sentido de que geralmente implicam ida e volta no fluxo de informação e comunicação. conversas telefônicas. franzimento de sobrancelhas e sorrisos. isto pode tornar-se uma fonte de confusão.. como também responderem a ações e acontecimentos ocorridos em ambientes distantes.

"iáãio.b6li~~ ·disponíveis aos participantes. este terceiro tipo de interação implica uma extensa disponibilidade de .por exem- plo.ÍÊm primeiro lugar. etc. Enquanto a interação face a face acontece num contexto de co-presença.).informação e conteúdo simbólic~ no espaço e no tempo . afimuções.ÍAo estreitar o leque de deixas simbólicas. Como a qu~se-interaçio me~iada· tem c~ráter monológico e implica a produção de formas _s1mbóhcas para um numero mdehnido de receptores potenciais. o fluxo da comunicação é predominantemente de sentido único\ o lei- tor de um livro. poi:.JEm muitos casos .:.:. enquanto a interação face a face e a interação mediada são dialógicas. televisão. "à. SimilarmenTê. Intera. (consideremos agora o terceiro tipo de interação . há dois aspectos-chave em que as quase-inte- ~ões mediadas se diferenciam dos outros dois tipos. ex- pressões faciais.aquela que chamei de "quase- interação mediada".. Contudo.Como "õprêcédêllte. para quem eles produzem ações. é principalmente o receptor de uma forma sirrlbólica cujo remetente não exige (e geralmente não recebt!) uma resposta direta e imediata 1. Estreitando as possibilidades de deixas simbó- licas. os par- ticipantes de uma interação face a face ou de uma interação mediada são orientados para outros específicos. a quase-interação mediada é mono- lógica. preservando e acen- tuando as deixas orais. entonação.ou. enquanto outras dicas simbólicas (associa!las à es- crita) são acentuadas. a identificação inicial em uma conversa telefônica.~i~u~is associadas à interação face a face.) ~. em outras palavraS:a r interação quase mediada se dissemina através do espaço e do tem1m.c~~unicação por meio do telef011~ pr_iva os "participantes das deix~. será me- lhor classificada como um tipo de quase-mteração · Ela não tem 0 grau d e rec1proc1- · · .s:ões mediadas também implicam um certo es_treitamel}to na possibilidade d~_si.____ ela também envolve um certo estreitamento do leque de deixas simbólicas. por exemplo. mas no caso da quase-interação mediada. os indivíduos têm que se valer de seus próprios recursos para interpretar as mensagens transmitidas. Os participantes não compar- tilham o mesmo referencial de espaço e de tempo e não podem presumir que os outros entenderão expressões denotativas.~xemplo. as interações media- das fornecem àos participantes poucos dispositivos simbólicos para a redução da t' ambigüidade na comunicaç~ Por isso as interações mediadas têm um caráter mais aberto do que as interações face a face. Uso este termo para me referir às relações sociais estabelecidas pelos meios de comunicação de massa (livros. racterísticas que a diferenciam da primeira.\Em segundo lugar. A comunicação por meio de cart<1:. etc. as formas simbólicas são produzidas para um nú- mero indefinido de receptores potencia~s. priva os participantes de deixas associada_s_~_Pl~~l!ça física (gestos. isto é. os participantes de uma interação mediada podem estar em contextos espaciais ou temporais distintos. Eles devem sempre atentar para o montan- te de informações contextuais que devem ser incluídas no intercâmbio . a localização e a data no cabeçalho de uma carta. jorn<!iS. se com- parada à interação face a face. et~.

context<ls. não obstame. con tos. ~eparação dos co-presença. Orientada Orientada para um atividade para outros para outros número indefinido específicos es~íficos de receptores potenciais Dialógica/ Dialóg.--Dialógica Monológica monológica Ao distinguir entre estes três tipos de interação.Lca··----. sistema referencial dispb~ibilidade disponi ilida. Ela cria um certo tipo de situação social na qual os indivíduos se ligam uns aos outros num processo de comunicação e inter- câmbio simbólico. uma forma de interação.----. E a quase-interação mediada difere da interação mediada pela orientação de sua atividade e por seu caráter monológico. em outras palavras.-. enquanto estes se ocupam em receber formas simbólicas pro- duzidas por outros a quem eles não podem responder. mas com quem podem criar laços de amizade. muitas das interações que se desenvolvem no fluxo da vida d1ána po- dem envolver uma mistura de diferentes formas de interação . mas é. combinando assim a interação fan· a fa~e 80 .. afeto e lealdade. não qu~ro sugerir que específicas situações interativas sempre irão coincidir ordenadamente com um dos três tipos Pelo contrário. enquanto assistem . Ela é uma situação estruturada na qual alguns indivíduos se ocu- pam principalmente na produção de formas simbólicas para outros que não estão fisicamente presentes. Tabda 3.bilidade de deixas simbólicas.i televisão. indivíduos podem discutir com outros numa sala. um caráter híbrido.1 resume algumas semelhanças e diferenças entre os três tipos de inte- raçãoj A tabela mostra que tanto a interação mediada quanto a quase-interação me- diada se diferenciam da interação face a face em termos de espaço e de tempo e no leque de dispon.elas têm. e\ tabela 3.de espaço-temporal estendida no tempo estendi no comum e do espaço tempo e} no espaço \ Possibilidade de Multiplicidade Limítação dasLimitação das deixas simbólicas de deixas possibili~des de poysibilidadcs de simbólicas deixas sim~ixas simbólicas Orientação da Orieruad. seja mediada ou face a face. Por exemplo.1 Tipos de interação Características Interação Interação Quase-interação interativas face a face mediada mediada Espaço-tempo Contexto de Separação dos .dade interpessoal de outras formas de interação.

Mas primeiro quero mostrar como. Ela nos permite analisar estas situações com certo rigor e precisão.com a quase-interação mediada na mesma situação interativa. para a maioria das pessoas. (Iremos considerar alguns destes mal-entendidos raais tarde. O intercâmbio de informação e conteúdo simbólico no mundo social acontece. ~tes do início do período moderno na Europa.) Uma ulterior qualificação poder-se-Ía acrescentar a esta altura: os três tipos acima não esgotam os possíveis cenários de interação. Formas de interação mediada e quase-intera- ção mediada existiam.ce a face foi sendo cada vez mais suplementada por formas de interação e quase-interação mediadas. e evitar alguns dos mal-entendidos que podem surgir de uma caracterização apressada das situações interativas criadas pela mídia. mais do que em contextos <le interação face a face entre indivíduos que compartilham de um ambiente comum. esta estrutura pode nos ajudar a avaliar a importância do desenvolvimento dos novos meios de comunicação a partir de meados do século XV em diante. usada historicamente. e com a emergência de vários tipos de meios eletrônicos nos séculos XIX e XX. Seria fácil alegar variações mais complexas (por exemplo. cujo valor deveria ser julgado por sua utilidade. um processo que acontecia exclusivamente·'· dentro de situações contextuais face a face. O surgimento histórico da interação e quase-interação mediadas não se deu em detrimento da interação face a face. e assim por diante).tais como a capacidade de ler ou escrever . em proporção sempre crescente. a difusão dos produtos da mídia 81 . comerciais e eclesiásticas. pelo desenvolvimento de novas tecnologias da comunica- ção que permitem um maior grau de receptividade 3 • A estrutura analítica acima deve ser entendida como um dispositivo heurístico. o intercâmbio de informação e conteúdo simbólico era. a interação fr:.!outras formas de interação podem ser criadas. por exemplo. um programa de televisão pode envolver uma interação face a face entre os membros de uma mesa-redonda e os membros da assistência num estúdio. Do mesmo modo. Em alguns casos. com o surgimento da indústria da imprensa nos sé- culos XV e XVI na Europa e o seu subseqüente desenvolvimento em outras partes do mundo. embora a relação entre estes indivíduos permaneça uma forma de quase-interação mediada. em contextos de interação e quase-interação mediadas. cujas respostas são ouvidas ou vistas por ouvintes ou espectadores. Um dos méritos da estrutura analítica esboçada acima reside na sua capacidade de separar os diferentes tipos de interação envolvidas em complexas situações deste tipo. Contudo.reservadas quase sempre para as elites políticas. alguns indivíduos fazem perguntas por tele- fone para membros de um painel televisivo. mas eram restritas a setores r~lativamente pequenos da populaçã2:J Participar de interação ou quase-interação mediadas exigia habilidades especiais . pode-se deixar aberta a possibilidade de que uma estrutura analítica mais elaborada venha a ser requerida para finalidades específic~ Mais adiante neste capítulo irei usar esta estru'tura analítica para examinar algu- mas das características analíticas do relacionamento social estabelecido pela mídia. e até recentemente em algumas partes do mundo.

mas também aos ouvidos. Nesta seção quero focalizar a quase- interação mediada e examinar suas características detalhadamente. roupa. A distinção entre a região frontal e as regiões de fundo não é definitivamente completa. até certo ponto. alguns casos as regiões de fundo sim- 82 .agora extraída de um trabalho de Goffrnan 6 . a prática solitária\ significam que a vida social no mundo moderno é cada vez mais feita de formas de interação que perderam seu caráter imediato.para ambientes que podem ser descritos corno "regiões de fundo" com relação à fachada em que a ação acontece. compreendem aquilo que Goffman chama de "região frontal"~·JAções e expressões pessoais que se sentem inapropriadas. são suprimidas e reser- vadas para outros ambientes e encontros . De fato. procurando projetar uma ima- gem de si mesmo mais ou menos compatível com esta estrutura e com a impressão que ele quer transmitir. A criação e a renovação das tradições são processos que se tornam sempre mais interligados ao intercâmbio simbólico mediado. A organização social da quase-interação mediada Até agora me preocupei em distinguir as várias formas de interação e em dC'scre- ver algumas de suas características mais gerais. pois o indivíduo é constantemente chamado a adaptar o própno compor- tamento em fronteiras sempre mutáveis.(Ã estrutura de ação. Mas a importância crescente da interação e quase-interação mediadas. Nas regiôes frontais os indivíduos freqüentemente agem em contradição com as imagens que tentam projetar nas regiões de fundo. etc. adaptar o seu comportamento a ela. Nestas eles relaxam e baixam a guarda. móveis. Ew. Cada vez mais os indivíduos preferem buscar informação e conteúdo simbólico em outras fontes do que nas pessoas com quem interagem diretamente no dia-a-dia. p<>r •·v·mplo. e as características acentuadas pelos indi- víduos agindo dentro dela. É útil começar por uma distinção ulterior . equipamentos. eram produzidos com o objetivo de serem descobertos em contextos de interação face a face 4 .corno já vimos. Toda ação acon- tece dentro de uma estrutura interativa particular que implica certas suposições e convenções. Um indivíduo agindo dentro desta estrutura irá. isto é. e o de- senvolvimento gradual de novas formas de recepção e apropriação (tais corno a leitu- ra silenciosa. ou que poderiam desacreditar a imagem que a pessoa está procurando projetar. Com o surgimento da interação e quase-interação mediadas. nos li- vros que eram lidos em voz alta para indivíduos que se reuniam para ouvir o mundo escrito. a "mistura interativa" da vida social mudou. muitos livros nos séculos XVI e XVII foram escritos para serem lidos em voz alta: eles eram destinados não só aos olhos. corno também características físicas do ambiente (disposição espacial. não mais precisam monitorar as próprias ações com o mesmo grau de reflexividade geralmente exigido nas ações de frente.). Em capítulos mais adiante irei explorar algumas das conseqüências desta transformação.estimulou as situações de interação face a face .

de tal maneira que os ato- res podem se retirar da cena principal com relativa facilidade. No caso de quase-interação tecnicamente mediada. .~.tos. propnas reg1oes e demarcaçoes reg1ona1s.ão. é a região frontal relativa à estrutura de recep- ção.o som da televisão. e cada participante da interação mediada deve procurar administrar a distância entre elas.\As formas simbólicas são produzidas em um contexto (que chamarei de "estrutura interativa de produção") e recebidas numa multiplicidade de outros con.pois tais ruídos podem ser in- terpretados como comportamentos de fundo dentro da interação mediada.J Cada um destes contextos tem suas. os comentários ou risadas de um amigo ou colega. um indivíduo pode procurar supri- mir ruídos existentes nos locais físicos em que está falando ."' _ !ex. conseqüentemente. A im- precisão de fronteiras entre regiões pode ser minimizada com o auxílio de demarca- ções físicas. Nos restaurantes. ela estabelece uma estrutura interativa que consiste de duas ou mais regiões frontais separadas no espaço e talvez também no tempo. Uma vez que a interação mediada geralmente implica a separação dos contextos dentro dos quais os participantes se situam. inde- pendentemente do uso de um meio técnico de comunicação. Como o fluxo de comunicação é predomi- nantemente de sentido único. Cada uma delas tem suas próprias regiões de fundo. as cozinhas são geralmente separadas das áreas de refeições por corredores ou portas de vaivém. Mas o contrário não ocorre: isto é. etc. e muitos estabelecimentos de negócios têm áreas de rece~o separadas das áreas de serviço. uma vez que os comportamentos de fundo podem compro- meter a impressão que indivíduos e organizações desejam cultiva0 A distinção entre uma e outra região é típica de muitos contextos de ação. de onde estas não po- dem ser vistas por aquelas. Indivíduos que assistem à televisão ou ouvem música. estritamente falando regiões frontais e de fundo relativas a esta estrutura. No curso de uma conversa telefônica. ou num espaço isolado e fechado. o risco de inter- ferência de comportamentos de fundo pode ser enormemente reduzido. ' A es_trutura_ interativa de recepção ~e servir não somente como um ambiente para a quase-mteraçao mediada pela teleVIsao ou outras fonnas técnica. as regiões na esfera de recepção não interfe- rem diretamente na estrutura de produção.plesmente podem estar muito próximas da região frontal. e por isso não são. por exemplo. podem 83 . Mas o uso dos meios de comunicação pode ter um impacto bastante profundo na natureza das regiões frontais e de fundo e na relação entre elas. mas também como rnn ambiente para a interação face a face que traga algwna afinidade com a atividade de n·ccpi. (as "~~truturas intera~ivas de rec_epção'l. mas nestes casos há sempre o risco de que um comportamento de fundo possa ser visto ou ouvido. ~ue a distingue do tipo de interação mediada que ocorre numa conversa telefônica. por exemplo. por exemplo. a região frontal da estrutura de produção é acessível aos receptores e. a estrutura interativa é frag- mentada. \A passagem da região frontal para as regiões de fundo é estritamente controlada. Ao insta- lar o telefone em salas especiais.

interação mediada e quase-interação mediad~ Po- demos desenvolver esta explicação um pouco mais considerando um exemplo de quase-interação mediada e comparando-o com a interação face a face. os campos de interação adquirem uma complexidade adi- cional. a atividade de recepção pode permanecer pe- riférica à interação face a face.interagir uns com os outros enquanto participam na atividade de recepção. Há. rAs figuras 3. uma música de fundo ou um ruído numa conversação face a face. Mas nos casos de interação e quase-interação mediadas. dependendo da natureza do meio técnico. 3. É claro que os indivíduos que se ocupam numa interação. neste caso.3 reswnem e ilustram algumas das diferenças na organiza- ção social da interação face a face. seja mediada ou face a face. Em tais casos. uma vez que eles estão agora dilatados no espaço (e talvez também no tem- po). Aqui destacarei um exemplo da televisão e examinarei algumas de suas características interativas. e assim por diante. Suas ações sempre fazem parte de um campo estruturado de interação que tanto cria quanto limita as oportunidades que lhes são disponíveis. certamen- te. Figura 3.1 A organização social da interação face a face Regiões de Fnndo Região Frontal Regiões de Fnndo Principal estrutura interativa . e suas características se dife- renciam em certos aspectos. estão sempre se servindo de habilidades e recursos acwnulados de vários tipos. como quando indivíduos são envolvidos numa discussão sobre mensagens ou imagens recebidas. Em outros casos. variando de wn caso a outro. a extensão da atividade de recepção fornece o foco principal da interação face a face. e a recepção das formas simbólicas mediadas pode pa- recer. e os participantes podem estar situados em contextos os mais diversos em termos de características institucionais e estruturais. muitos tipos diferentes de quase-interação mediada. da forma típica de apropriação. O conteúdo coloquial e a atenção dispensada nwna interação face a face podem ser determinados largamente pela atividade de re- cepção.2 e 3.1.

disfarçadas ou inteiramente rede- finidas pela edição ou por outras técnicas. hi as coordenadas espaço-temporais do contexto de produção . o uso de matéria arquivada. Embora a televisão seja mais rica de termos simbóli- cos do que muitos outros meios técnicos. é útil distinguir três conjuntos de coordenadas espaço-temporais. os participantes da quase-interação criada pela televisão são privados dos tipos de contínuo e imediato fccdbock que são carac- terística da interação face a face. Além disso. precisamenre porque os indivíduos que se comunicam através dela podem ser vistos agindo dentro de um específico contexto espaço-temporal.ção criada pela televisão implica um conúnuo processo de trançamento destes três conjuntos de coor- . Como todas as formas de interação e quase-interação mediadas. Contudo. Estas coordenadas cujas características podem ou não coincidir com as do contexto de produção. do contexto dentro do qual os comunicadores agem e interagem uns com os outros. Primeiro. Terceiro. Uma das conquistas técnicas da televisão é a sua capacidade de utilizar uma grande quantidade de deixas simbólicas. etc. tanto de tipo auditivo quanto visual. En- quanto a maioria dos meios técnicos restringe a variedade de deixas simbólicas a um único tipo de forma simbólica (a palavra falada ou escrita). a televisão impli- ca a separação dos contextos de produção e de recepção.isto é. Mas em alguns aspectos a televisão também estreita a va- riedade de deixas simbólicas. um conjunto de deixas simbólicas que não podem ser transmitidas por ela. Para examinar mais detalhadamente estas questões. tais como aquelas asso- ciadas ao olfato e ao tato. não obstante. Mas as implicações são um tanto diferentes no caso da televisão com rela- ção a outros tipos de quase-interação mediada. a variedade de deixas simbólicas disponíveis aos espectadores é diferente das que são acessíveis aos participantes de uma interação face a face. e assim por diante. movimentam-se através do tempo e do espa- ço da mesma forma que os participantes na interação social cotidiana. as coordenadas podem ser alteradas. A quase-inten. Segundo. hi as coordenadas espaço- temporais dos diversos contextos de recepção. de tal modo que as men- sagens transmitidas por ela têm uma disponibilidade dilatada no espaço e no tempo. a televisão tem uma riqueza simbólica com as características da interação face a face: os comuni- cadores podem ser vistos e ouvidos. mixagens.) que não são características da interação face a face. e que os participantes interativos rotineiramente incorporam para monitorar reflexivamente a própria conduta. há as coordenadas espaço-temporais da mensagem televisiva em si mesma. há. É diferente porque a televisão focaliza a atenção dos receptores para certas caracte- rísticas em detrimento de outras e é capaz de utilizar um conjunto de técnicas (flashbacks.

os indivíduos se orientam rotineiramente para as coordenadas espaço-temporais diferentes das que caracterizam seus contextos de re- cepção. As mensagens televisivas lhe proporcionam uma variedade de deixas simbólicas para o orientar nes- te processo. pode come- çar com uma visão aérea de Londres ou uma tomada do Big Ben badalando a hora exata em que o programa começa. e as interpolam com as estruturas espaço-temporais de suas vidas diárias. um processo que descreverei como "interpolação espaço-temporal". por exemplo. Os indivíduos que assistem à televisão suspendem. A quase-interação televisiva cria assim o que podemos chamar de experiência espaço- temporal descontínua. Ao re- ceber as mensagens televisivas. as reportagens especiais de diferentes partes do 86 . até certo ponto.2 A organização social da interação tecnicamente mediada Regiões Região Região Regiões de Fundo Frontal Frontal de Fundo Principal estrutura interativa denadas. as coordenadas de espaço e de tempo do cotidiano e temporariamente se transportam para um diferente conjunto de coordenadas espaço-temporais. A capacidade de transacionar com estas estrutu- ras e retomar em segurança para os contextos da vida ordinária faz parte das habilida- des possuídas pelo indivíduo como competente espectador televisivo. tornam-se viajantes no espaço e no tempo envolvidos numa transação com diferentes estruturas espaço-tem- porais e num intercâmbio de experiências mediadas de outros tempos e lugares com suas próprias experiências cotidianas. Figura 3. Um úpico programa vespertino na Inglaterra.

mundo são geralmente acompanhadas por imagens identificadoras (a Casa Branca. de Fundo Frontal regiões de 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1.. 1 _____ _ 1 1 Estrutura Estrutura interativa interativa de produção de recepção .. Figura 3...) e por comentários introdutóriG>s e conclusivos que afastam qualquer dúvida a respeito do lugar de onde o repórter está falando. na maioria dos casos.. etc.-------. o Kremlin. do que um dia).1 .. O espectador que ligar a televisão estará preparado para viajar neste vicário veículo para diferentes lugares do mundo. 1 _____ _1 1 r------.-----~ .3 A organização social da quase-interação mediada Produção Recepção Regiões Região Principais Regiões _:e 1~.-----~1 1 1 1 1 1 1 1 1 Pc---------· • 1 11 1 1 1 1 1 1 1 1 -------1 1 1 1 1 1 1 1 ~------ . mas saberá também que a disjunção temporal será relativamente pequena (não mais. 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 ~--r-~ 1 1 1 .

por isso. usei o exemplo da assistência ao noticiário. Eles irão procurar deixas simbólicas que os orientem nas coordenadas espaço-temporais do programa e do mundo veiculado por ele. Nestes casos os espectadores se orientam para os conjuntos específicos de coordena- das espaço-temporais. Num capítulo posterior irei dar mais detalhes de como os indivíduos experimentam os vários mundos que lhes são apresentados através da tele- visão e de outros meios. NYPD Blue. guiados mais uma vez por uma variedade de deixas simbólicas (como as que aparecem nas chamadas de programas ou seriados do tipo . eles sentirão dificuldade de entender a mensagem e de relacioná-la com os contextos da vida cotidiana. ou a ou- tros programas que procuram apresentar ou retratar pessoas ou eventos. Esta interpolação de regiões espaço- temporais que se presumem reais se diferenciam dos tipos de interpolação implicada na assistência de programas de ficção que os espectadores reconhecem como tais. Suas ex- periências de espaço e de tempo se tornam cada vez mais descontínuas. exige um certo tipo de interpolação espaço-temporal. Diversamente da interação face a face. Até que se estabeleçam estas coordenadas. No exame das características espaço-temporais da quase-interação televisiva. A quase-interação televisiva pode ser analisada. e que os espectadores são continuamente e rotineiramente instados a transacionar com as fronteiras que os identificam. ou à interação face a face compartilhada em ambientes comuns. na qual as coordenadas dos participantes são as mesmas ou semelhantes.DaUas. sem conhecer as coordenadas espaço-temporais dos fatos transmitidos. Texas). a quase-interação televisiva implica diferentes conjuntos de coordenadas de espaço e de tempo que devem ser entrançadas pelos receptores. Suas experiências de espaço e de tempo não se limitam mais ao movimento fisico de seus corpos através do espaço e do tempo. eles podem se sentir confusos ou desorientados. em termos da interseção dos diferentes planos de coordenad~s espaço-temporais. Eles interpolam um espaço-tempo que sabem imaginário. Mia- mi Vice. A realização bem sucedida de uma quase-interação televisiva depende da capaci- dade dos receptores de transacionar efetivamente com as diferentes estruturas espaço- temporais que estão em jogo. Se os espectadores sintonizarem o televisor no meio de um noticiário ou documentário. LA Law. e as usam agilmente para se orientarem nas coordenadas de espaço e de tempo da mensagem e do mundo retratado nelas. mas que também tem uma relação fictícia com um lugar e um tempo reais (por exemplo.): mas sabem que estas coordenadas não correspondem a espaço e tempo reais. Competentes espectadores são experientes interpoladores de espaço e de tempo: eles sabem que deixas simbólicas procurar. Aqui desejo apenas chamar a atenção para o fato de que a as- sistência à televisão pressupõe um tipo de interpolação espaço-temporal que envolve um mundo real e um mundo imaginário. Dallas. à medida que 88 . precisamente porque os espectadores presumem que as pessoas ou os eventos existem de fato no espaço e no tempo reais - embora num espaço e num tempo não contíguos nem contemporâneos às coordena- das espaço-temporais dos contextos de recepção. etc. É claro que assistir a um noticiário.

de prestar algum grau de atenção. estas avenidas de intervenção são usadas por muito poucos in- divíduos. que têm relativamente poucas oportuni- dades de contribuir diretamente para o curso e o conteúdo da quase-interação. a ausência de um afirmativo "sim" ou "um-hum". ao simples estalo de um interruptor. são muito importantes em conversas telefônicas. Nestas situações. ela também implica a monitorização re- flexiva das respostas alheias. tanto reais quanto imagi- nários. a pessoa com quem se fala deixa de manifestar sinais indicativos de que está acompanhando o que se está dizendo (a falta de um sinal dos olhos.). como "sim" e "um-hum". ou de alguma outra forma subentendida se certificar de que o outro está atento. a televisão implica um fluxo de mensagem predominantemente de sentido único: dos produtores para os re- ceptores. por exemplo. precisamente por causa da ausência de deixas visuais/ 89 . Eles podem telefonar ou escrever às companhias de televisão para r. Há. Por força deste caráter e da separação dos contex- tos a ele associados. Alguns canais têm programas de "direito à resposta" que permitem a um pequeno número de espectadores selecionados expressarem suas opi- niões. apesar desta enorme mobi- lidade. Voltemos a atenção agora para um outro aspecto da televisão: seu caráter mono- lógico. a quase-interação televisiva (e as relações formadas dentro dela) é desligada da monitorização reflexiva das respostas alheias que é rotineira e constante na interação face a face. os interlocutores são aptos (e geralmente obriga- dos) a levar em consideração as respostas alheias. Para a grande maioria dos receptores a única maneira que eles têm para intervir na quase-interação é na decisão de sintonizar a televisão.vão sendo capazes de se locomoverem através dos mundos. uma vez que seus projetos de vida estão enraizados principalmente nos contextos práticos da vida de todos os dias (retornaremos a este tema no capítulo 7). sem deixar transparecer a dúvida. A assimetria estrutural entre produtores e receptores é não somente conseqüência do caráter monológico da televisão. e a modificar suas subseqüentes ações e expressões à luz destas respostas. (Indicações verbais. Eles podem formar grupos de pressão na tentativa de influenciar planos de programação. etc. de trocar de canal ou de desligá-la quan- do não tiver nenhum interesse na sua programação. As mensagens que são intercambiadas numa quase-interação televisiva são produzidas na sua maioria esmagadora por um grupo de participantes e transmitidas para um número indefinido de receptores. E no entanto. Mas. Como todas as formas de quase-interação mediada. a estrutura espaço-temporal do contexto de recepção permanece o "ancora- douro" para muitos espectadores. algumas avenidas de intervenção abertas aos receptores. é sinal de que se deve interromper a narrativa e investigar explicitamente ("Está me ouvindo?") para provocar uma resposta. é claro. na prática. embora as deixas e mecanismos simbólicos acessíveis aos participantes sejam geralmente mais restritos do que na interação face a face. de continuar com ela ligada. Na medida que a interação media- da (como uma conversa telefônica) é dialógica.ianifestar apoio ou repúdio a determi- nados programas. Se.

uma fonte de criatividade e liberdade interativas. não têm que responder a intervenções de outros. e na quase-interação ll'i• \ 1·. ela lhes possibilita deter- minar o curso e o conteúdo da quase-interação sem ter que levar em consideração a resposta do receptor. Mas é claro que. Mas a ausência de monitorização reflexiva é tam- bém uma fonte potencial de incerteza e preocupação para os produtores. Do ponto de vista dos produtores. a ausência de monitorização reflexiva é uma característica da quase-interação da qual os participantes . uma estratégia que veremos mais adiante. entretanto. a monitorização reflexiva das respostas alheias não é uma carauerística constituti- va da interação como tal. Neste sentido. Embora estas comumente impliquem significantes diferenciais de poder e de recursos. Os pMticipantes de uma interação face a face controlam rotineiramente as respostas dos outros e fornecem sinais que asseguram aos outros a sua participação 90 . Podem responder aos produtores e às suas mensagens de qualquer maneira (com risos ou apupos. e fazer isto sem interromper a quase- interação ou ofender os produtores. elas se caracterizam.produtores e receptores - estejam conscientes. bem como de incerteza. Do ponto de vista dos receptores. Eles não precisam prestar atenção aos receptores nem ten- tar verificar se estes estão seguindo o que está sendo dito e. Urna maneira de contornar esta incerteza é tornar o processo de produção uma interação face a face. as respostas dos receptores não afetam diretamente nem imediatamente o conteúdo da quase-interação. os receptores são muito menos limi- tados na natureza e na extensão de sua participação na quase-interação do que são os interlocutores numa situação face a face. Por outro lado. como as rodas de debates e os painéis de discussão. o tipo de participação característico da quase-interação é bem diferente da que ocorre em situações face a face. Usei o termo "participação" para descrever o envolvimento dos indivíduos na quase-interação televisiva. mais ainda. com prazer ou com pesar. apatia ou desdém). Os receptores podem controlar a natureza e a extensão de sua participação e utilizar a quase-intera- ção para necessidades e finalidades próprias. de inércia e de preocupação. com interesse. É uma característica que tanto alarga quanto estreita a participa- ção. Na quase-interação mediada em geral. Eles não têm nenl:uma obrigação de mostrar sinais de compreensão que são carac- terísticas constitutivas das interações mediadas e face a face. Isto dá aos produtores mais liberdade do que eles poderiam ter numa interação face a face.1va em particu- lar. por formas fun- damentais de reflexividade e reciprocidade que estão ausentes na quase-interação te- levisiva. mas têm muito pouco poder de intervir na quase-interação e determinar-lhe o curso e o conteúdo. em virtude da ausência de monitorização reflexiva das respostas de outros e da assimetria estrutural entre pro<lutores e recepto- res. Além do mais. pois eles são privados daquele feedback contínuo e imediato que lhes permite verificar o grau de re- cepção e de entendimento das mensagens. a ausência de monitorização reflexiva significa que eles estão livres para determinar o grau de atenção que querem dispensar aos produ- tores. e a saibam incorporar rotineiramente em suas maneiras peculia- res de participação.

e a relação que os receptores têm com elas é bem diferente dos tipos de relações formadas na interação face a face. mas sem os qu. Estas personalidades são construídas à distância. por su. .eles têm o que se poderia descrever como "televisibilidade". os produ- tores são personalidades com as quais eles podem simpatizar ou antipatizar. rod t .' ª > l'ffi OU\"lr llCITI ver os Tl't. A característica distintiva da televisibilidade é que ela combina presença audiovisual com distância espaço-tempo- ral. alguns produtores (principalmente aqueles localizados na região frontal da estrutura de produção) são acessíveis aos receptores de uma maneira distintiva e única . f'!ites. de quem eles podem gostar ou desgostar. Os rccC'ptores sa_o. ser consideradas pelos produtores como uma característica constitutiva da quase-interação. Como resultado da assimetria estrutural e da riqueza simbólica da televisão. A combinação distintiva de presença e ausência é constitutiva da relação que os receptores formam com os produtores. cm sua grande 1~aioria. Para os receptores. que eles podem detestar ou reverenciar. ou quando indivíduos encontram um líder político conhecido somente através da mídia. li . Mas o caráter acidental e incõmodo de tais encontros comprova 0 fato de que a relação estabelecida pela televisão não implica nonnalmentc a partilha de um contexto comum entre produtores e receptores.Os participantes podem an princípio puervir na conversação e determinar-lhe o curso.1 a qual eles nao p<>dcm contribuir di.. por exemplo. Consideremos agora a natureza da relação social estabelecida pela quase-interação mediada.10 e111 ser \l'l<i!> nem ouvidos por eles.1.--l!>IÇ. a relação estahelccida com os receptores é tamhém peculiar.I Mas como a quase-interação televisiva carece des- tas formas fundamentais de reflexividade e reciprocida?e.io é recíproca com relação . tais como jornais e revistas).~ C'les ni' pod · . em nenhum caso.~ Os produ1ores podem ser vis1os e ouvidos rna. e a posição dos receptores é tal que suas respostas não po- deriam. As pessoas que os receptores vêm a conhecer através da televisão são "personalidades" (ou "pcrsonae" 9 ) cujos traços são definidos dentro da região frontal da esfera de produção (suplementada pelas clarifi- cações e elaborações da mídia. podem ver e OU\'lr os (>rod111ores 1n .pod . anónimos e invisíveis C'spectadorC's de uma represclllaçao par.rc1·a 111cn 1t'. espectadores encontram uma celebridade televi- siva. 11 . melhor d~s~rev~r 1 .1 os pr<xiu1orc' Oll'J~ll nwn•"' .? envolvimento de produtores e receptores como um npo de quase-partlc1paça~ Nem os produtores nem os receptores se obrigam mutuamente a levar em considera- ção as respostas do outro. • ª·' . Pua os pr~utores. seri~.t>plores.us da não exisuri. A televisibilidade n.10 q Ut: ll'S per- 91 . . mas os tra- ços destas personalidades normalmente não podem ser retocados ou controvertidos pelo tipo de interação dialógica característica da interação face a face. Por isso as per- sonalidades da TV podem adquirir uma "aura" que se sustenta em parte pela distân- cia que os separa dos receptores. Embor.1 vez. Daí que os produtores estão presentes aos receptores mas ausentes do contexto de recepção. Em circunstâncias excepcionais esta distância pode ser vencida .quando. mesmo que na prática não o façam. ª p u ores e re- ccptorc.

da pólvora à fissão nuclear. enrreter e informar. dos receptores para continuar existindo como tais. cuja atenção eles podem ganhar ou perder e cuja audiência é a condição sine qua non da existência de suas ativida- deuAssim como os receptores dependem dos produtores para o conteúdo das repre- sentações que eles presenciam quando ligam a televisão. e com conseqüências que ul- trapassam de muito os limites de seus contextos e localizações. da eletricidade à informação tecnológica . Em outras palavras. persuadir. Uma inteira série de inovações tecnológicas . A relação entre uns e outros é um vínculo de mútua depen- dência. eles precisam. En1bora os receptores não este1am fisicamente presentes na esfera de produção e não interfiram diretamente no curso e no conteúdo da representação. algumas vezes de maneiras imprevistas e imprevisíveis. mas também fez surgir novos tipos de ação que têm características e conse- qüências bem distintas. Ação à distância ( 1): Representando para outros distantes O desenvolvimento dos meios de comunicação não somente criou novas formas de interação. Aqui me limitarei uma vez mais ao meio televisivo e examinarei algumas formas de ação introduzidas por ele. examinando em mais de- talhes os tipos de ação que acontecem em cada uma. Consideremos primeiro o contexto de produção. contudo. os produtores por sua vez dependem dos receptores e de sua boa vontade para assistir a seus programas e sus- tentar-lhes a audiência.mi te determinar o curso e o conteúdo ··de uma representação. hoje é comum ver os indivíduos orientarem suas ações para outros que não partilham o mesmo ambiente espaço-temporal. explorando em particular os vínculos distintivos de intimidade que podem ser criados através da quase-interação mediada. embora a natureza de tal dependência varie de caso para caso. A característica mais geral destes novos tipos de ação é que eles são responsivos e orientados a ações ou pessoas que se situam em contextos espaciais (e talvez também temporais) remotos. o desenvolvimento dos meios de comunicação fez surgir novos tipos de "ação à distância" que se tornaram cada vez mais comuns no mundo moderno. Mas o desenvolvimento dos meios de comunicação criou novos tipos de ação à distância com características bem distintas. mas como espectadores anônimos a quem eles devem agradar.dilatou o al- cance da ação humana no espaço e no tempo. Enquanto nas mais antigas sociedades as ações e suas con- seqüências eram geralmente restritas aos contextos de interação face a face e às suas cir- cunvizinhanças. Nas seções restantes deste ca- pítulo quero focalizar as esferas da produção e da recepção. Mais tarde retornaremos à natureza da relação social estabelecida entre produto- res e receptores. A crescente importância da ação à distância não é somente ligada ao desenvolvi- mento dos novos meios de comunicação. (ôs produtores olham os recepto- res não como parceiros co-presentes num diálogo. os produtores orientam o próprio comportarnl'nlo para os 92 .

exceção para o som abafado e ocasional de um telefone) um limitado le- que de atividades que eram tradicionalmente tratadas corno comportamento da re- gião de fundo. reb'iltan- do-a como mesquinha. por exemplo. tais como as mensagens presidenciais ou ministeriais :.o.que chamarei de. embora isto possa ocorrer de várias maneiras.receptoresjA orientação que o receptor exerce sobre o comportamento do produ~ parte constitutiva da ação em si mesma. A leitura de notícias é.ccío~"j 1 \o mais direto tipo de ação à distância é o destino receptor. o líder pode procurar marginalizar a oposição. Fil- magens ao vivo são usadas para atrair a atenção dos espectadores e fornecer-lhes al- ternativas visuais à "cabeça falante". "cotidiano mediado". O des- tino receptor direto é uma forma um tanto austera de ação e é raramente usada hoje sem algumas modificações. para que os especta- dores possam ver as atividades adjacentes à produção das notícias. de tal maneira que os espectadores têm a im-. por exemplo.uma nação no meio ou à beira de uma guerra. .·à nação. que pode ser direto e in- diretcJõ destino receptor direto acontece quando os produtores se colocam diante da câmera e fahrn diretamente para ela. uma .Aqui irei r distinguir e examinar brevemente quatro formas de ação à distância . no apelo aos representantes profissionais. Os espectadores podem assim ver (mas não ouvir. i pressão de que estão sendo particularmente interpelado~~/ A fala do produtor é wn·1 • monólogo endereçado para um número indefinido de receptores ausentes.forma rotineira de destino receptor direto: é planeja- da para acontecer em tempos fixos e de modo regular. "eventos mediados" e "ação fi. É também uma oportunidade que o líder pode esperar para manobrar a opo- sição dentro de um campo mais restrito de representantes profissionais. ou um governo envolvido num escândal. Mas há também formas excepcio- nais de destino receptor direto. O antigo repórter televisivo foi substituído em muitos ca- sos por uma dupla ou por uma equipe de apresentadores que podem conversar entre si para quebrar a monotonia de um monólogo apresentado para outros ausentes. Um exemplo de destino receptor direto é o tradicional noticiário televisivo. A construção da parede transparente é uma maneira de retirar as fronteiras entre o comportamento frontal e o de fundo na esfera de produção. As circunstâncias ex- traordinárias muitas vezes dotam a ocasião de um caráter solene: é uma oponunidade que o proeminente líder político aproveita para passar por cima dos canais de difusio de informação e dirigir-se diretamente ao povo de cujo apoio ele depende em última análise. Como uma apresentação dirigida 93 . A região frontal do ambiente de transmissão foi modificada em várias maneiras. onde o repór- ter lê diante da câmera o texto que lhe foi prévia e cuidadosamente preparado. "destino receptor". para que os receptores possam integrá-la no fluxo temporal de suas rotinas diárias. A própria existência de tais mensagens é um fenômeno extraordinário que atesta a objetabilidade das circunstâncias . A visibilidade se expande para contrastar a opacidade da destinação direta ao receptor. Em alguns casos. a parede atrás do lei- tor do n~ticiário foi substituída por urna divisória envidraçada. vingativa e obstrucionista.

e assim por diante 11 . Em- bora os produtores se orientem diretamente para os que lhe estão mais próxü. Há muitos exemplos de destino receptor indireto: entrevistas televisadas. é a mais conveniente forma de discursorn O equilíbrio entre solenidade e intimidade se refletirá também no leiaute da região frontal. entre- vistas coletivas à imprensa. um estilo de conversa mais mformal e mais calma. Esta última ocorre quando a região frontal da esfera de pródução se torna o lugar de interação face a face entre produtores que. convenções partidárias telev:sadas. Se considerarmos por um momento 0 exemplo de uma entrevista com um proeminente líder político como o presidente dos Estados Unidos.) e o relato de ex- periências pessoais. da melhor forma possível. ligado a momentos de auto-revelação cuidadosamente construídos. criando assim um tipo de intimidade familiar que pode facilitar o esforço de comunicar questões pes- soais de forma pública ou questões públicas de um modo pessoal.-~. mesas-redondas. Por isso 0 líder e a equipe de produção devem ter muJto cmdado para descobrir 0 equilíbrio certo entre solenidade e intimidade. interagindo uns com os outros. Ao mesmo tempo.is conversável e um controle reflexivo das respostas dos outros. painéis de debate (com ou sem platéia em estúdio). etc. pelo modo como se apresentam e se expressam. mas o líder pode também estar sentado num espaço que poderia ser previamente preparado como uma sala ou biblioteca de um espaço doméstico privado. "nós". Podemos distinguir est~_formas de destino receptor.os lo- cutores um estilo ma. que pode juntar naturalmente. e os deixam perceber. Dado o caráter pessoal da mensagem.c:. que são melhor aceitos por um certo tipo de audiência e inconvenientes para outro. eles sabem que estão simultaneamente voltados para outros ausentes e distantes. veremos que esta situação é muito diferente do destino receptor 94 . com um adi- cional aconchego criado por uma lareira de brasas incandescentes ao fun<lo. Nela se colocará ceTtamente um símbolo de identidade nacional reconhecível. como uma bandeira discretamente hasteada a um canto ou um retrato pendurado na pa- rede. dando ensejo a tensões ou conflitos entre modos de se dirigir. Em algw1s casos o líder pode incluir membros de sua família na região frontal.arátcr. indiretamente se dirigem para uma variedade de rEceptores ausentes. a afirmaçao de pnnc1p1os gerais e ideais elevados com o uso de pronomes pessoais ("eu". da forma in- direta de destino receptor. Ao transformar a região frontal num lugar de interação face a face. o destino receptor indireto cria uma situação na qual a audiên- cia se divide entre participantes co-presentes e espectadores ausentes. transmissões de debates parlamenta- res ou de CPis especiais. A situação face a face permite a. ambas diretas.ao povo.inda a. o destino receptor indire- to capacita os produtores a combinar monólogo com diálogo e remover algumas incerte- zas associadas à quase-interação mediada. a mensagem presidencial ou ministerial tem um c. por exemplo. contudo.. l»~encialmente pes- soal. um discurso apaixonado e uma retórica inflamada estariam fora de lugar. Este equilíb~io se reflet~rá no discur- so.

embora dirigidos aos interlocutores co-presentes. Ao mesmo tem- po. de um discurso endereçado a um público reu- nido ou uma conferência que possa ser transmitida. por outro lado. Já a entrevista é um diá- logo face a face conduzido em estilo de conversa. A ocorrência da entrevista é certamente um evento importante que pode mui- to bem ser precedida e seguida por uma grande quantidade de comentários da mídia. etc. A entrevista televisada é uma interação face a face que acontece na região frontal de uma quase-interação mediada. porém. e tem um grau de informalidade que falta à mensagem presidencial. graças ao caráter dialógico e aberto de uma interação face a face.direto. Se. Se. Os interlocutores dirigem suas perguntas e co- mentários uns aos outros. ele corre o risco de parecer combativo ou pe- dante e perder aquela aura que surge em parte de sua habilidade de manter distantes os mal-arranjados detalhes da vida política. Ela lhe dá a ocasião de aparecer diante de uma importante parcela da po- pulação e comunicar seus pontos de vista num estilo informal de conversa. ó presidente se descui- dar displicentemente da interação face a face e concentrar seus esforços na comunica- ção que ele deseja transmitir aos receptores ausentes. mas também corre o risco de se mostrar mal informado ou simplesmente muito bronco. uma estatística inexata. o presidente deve conseguir um efetivo equilíbrio entre estas duas orientações . Um deslize verbal. Diversamente.um resultado que. ela não pressupõe o conjunto de circunstâncias extraordi- nárias que cercam uma resposta própria de uma autoridade. de- vem ser feitos tendo em mente esta audiência ausente. e são capazes de monitorar reflexivamente as respostas que recebem. é bem provável que pensem que ele está sendo muito evasivo nas respostas. e parte da habilidade de entrevistar é saber como combinar efetivamente o rumo das ações pertinentes a cada uma delas. capaz de responder a questôes impertinentes de uma forma casual. 95 . A entrevista tem um grau de informalidade que pode ser usada em vantagem do presidente. mas a ocasião carece daquela solenidade característica de uma mensagem presidencial à própria nação. que atesta uma firmeza e controle. esta entrevista é conduzida uni- camente com o objetivo específico de ser recebida por espectadores ausentes. A entrevista permite ao presidente aparecer confortavelmente no comando das questões. Por isso as questões e os comentários. evitando a solenidade de uma mensagem formal. porém não extraordinário. e. esclarecendo pontos que não tinham sido entendidos. Ao mesrrib tempo. diversamente da mensagem presidencial. por exemplo. Para administrar a entrevista com su- cesso. por exem- plo. não se pode garantir com antecedência. wn comentário preconceituoso. uma resposta con- fusa: ntdo pode ser fonte de problemas para um líder que se arrisca numa quase-interação mediada através de tun processo relativamente aberto de um encontro face a face. a entrevista traz sérios riscos que o presidente deve procurar cuidadosamente evitar. eles sabem que estão se dirigindo indiretamente a uma vasta gama de receptores ausentes. Há. o presidente concentrar-se exclusivamente na interação face a face e procurar descer a detalhes com o entrevistador. É um evento importante.

i 1fa .-J. o programa coloquial inclui uma platéia em estúdio que fornece aos interlocutores uma série de respostas (risos. flux. os produtores podem seguir dois objetivos interativos simultaneamente: eles podem proporcionar aos interlocutores um grupo de receptores cu-presentes cuias respostas lhes permitem monitorar. Por isso. Consideremos brevemente um outro exemplo de destino receptor indireto. Para os espectadores. dada a natureza da quase- interação. sobretudo. \Por isso a região frontal da esfera de produção é o conjunto de ações e interações q~~·compõem a vida cotidiana de 111dl\Í- duos que as realizam ou participam delas. pedir para ver as perguntas com an- tec~ência. o programa coloquial na TV (talk show ou programa coloquial) com platéia presente no estúdio n A região frontal do espetáculo na TV é organizada diferentemente de uma entrevista com um líder político. Mas o fato de que estas ações ou illll'raçôes ~e­ jam filmadas ou gravadas e depois transmitidas para um mw1do de receptort':S <l1~t. até certo ponto. a platéia se situa na região frontal da esfera de produção.e\ característica distintiva deste tipo de ação é que ela faz part<. aprovação. A platéia ocupa uma posição peculiar. Mas os riscos que distinguem a entrevista da mensagem presidencial não podem ser eliminados completamente. Seus participantes compõem a in- teração face a face que acontece principalmente entre o anfitrião do programa e o convidado especial. a platéia faz parte da interação que eles podem ver e ouvir mas da qual eles não podem participar diretamente. etc. Quero agora considerar um tipo diferente de ação à distância. o impacto de suas ações e expressões. eles podem ser chamados ocasionalmente ou convidados a parti- cipar diretamente da interação. e por isso mesmo impliquem a quase-interação mediada. Os interlocutores estão sentados geralmente num ambiente mais informal. que ajuda a criar um certo grau de intimidade e desenvoltu- ra que faltam em muitas entrevistas políticas. também fornece aos espectadores uma sé- rie de respostas com as quais eles podem simpatizar ou antipatizar (riso. preparar as respostas com alguns detalhes e. ao conduzir um programa coloquial na presença de urna platéia. l' eles podem também fornecer aos receptores ausentes (os espectadores) um conJmHo de respostas exemplares que servem de estímulo para as suas próprias ações respousi- vas . Além do mais. por exemplo.io 96 . sejam difíceis de controlar.U1ll-s.. mas seu papel é geralmente restrito ao de receptores co-presentes que podem responder de certas maneiras convencionais e não discursi- vas. aclamações.\. palmas. pode afetar a tiaturt·z.) e lhes permite monitorar a recepção de suas expres- sões e ações. cujos membros são espectadores de uma interação para a qual eles podem contribuir muito pouco. certas maneiras de minimizar estes riscos (ou de limitar os danos quando acon- tece algum disparate): um líder pode.claro. Mas a platéia.).ct'as auvidades ordinárias da vida cotidiana. escolher os entre- vistadores cuidadosamente.embora a extensão e a profundidade deste estímulo. Com respeito à quase-interação mediada da qual o programa coloquial faz parte.i. mas a relação entre a platéia e os espectadores em casa é distinta e complexa. etc. que descrevi como a11- vidadc cotidiana mediada.

Vejamos agora um outro tipo de atividade cotidiana mediada que implica um destino receptor indireto. a ação per- derá aquele caráter mundano e a interação se interromperá. Um exemplo poderia ser o seqüestro de um avião ou de um refém por um grupo paramilitar. contudo. Pois mesmo quando os participantes não têm consciência de que estão sendo filma- dos. e por isso tam- bém orientam o seu comportamento. desconsiderar a possibilidade de que suas ações e expressões sejam vistas e ouvidas por um número de 1eceptores muito maior. uma forma de cotidiano media- do sem destino receptor. é útil uma vez mais distinguir alguns subtipos. A atividade cotidiana mediada pode também implicar um destino receptor dire- to. Pois a própria possibilidade de filmar e tomar visível aos espectadores televisivos pode transformar as ações e interações dos indivíduos nos contextos ordinários da vida cotidiana. Um exemplo poderia ser uma cena de rua ou uma demons- tração pública. e nem esquecer conseqüente- mente de balizar a própria conduta por esta orientação dual. se não o fizerem. Os membros do grupo sabem que suas ações vão receber uma certa cobertura da mídia. Eles irão. em direção aos re- cipientes ausentes. que incluirá receptores em suas nações de origem. Este é o tipo de ação que ocorre quando os indivíduos nas suas tarefas diárias percebem que estão sendo filmados. até certo ponto. por exemplo. não acontece com tanta freqüência como poderia parecer à primeira vista. gravados e transmitidos para receptores ausentes. embora eles devam orientar a própria conduta de modo a participar efetivamente da conferência. eles não podem. mas certamente já pensaram que isto pode acontecer a qual- quer momento e ajustaram o próprio comportamento a esta possibilidade. Consideremos primeiro o caso de uma atividade cotidiana que é fil- mada e transmitida sem que os próprios atores tomem consciência de que estão sen- do filmados. como também seu rumo subseqüente. eles podem considerar tal possibilidade e alterar o próprio comportamento. As- sim. a orientação para o receptor ausente é a principal aracte- rística da ação em si mesma. portanto. os soldados que patrulham as ruas na Irlanda do Norte ou os territórios palestinos ocupados em Israel podem nio saber quando estão na mira de alguma câmera distante.e da interação em si mesmas. Por isso. Mas os indivíduos sabem que sua ação é (ou pode ser) parte de uma quase-interação mediada. filmada de modo suficientemente discreto para manter a naturalidade dos participantes. de cujo apoio eles podem depender. e pane do objetivo delas é chamar atençio de outros ausentes para a sua causa. Mas o cotidiano mediado sem destino receptor é um tipo pouco comum. orientar o próprio comportamento na direção dos outros em seus ambientes sociais imediatos. E. os participantes de uma conferência internacional ou de um encontro de chefes de estado devem saber que suas atividades serão filma- das e transmitidas para uma vasta audiência. Neste tipo de atividade. É muito improvável que eles orientem o próprio comportamento para receptores ausentes: suas ações se tornam. ao seqüestrar um avião ou alguém de wna for- 97 . Para examinar um pouco mais este tipo de ação. simultânea e indiretamente. Por exemplo.

Isto e. disparam tiros para o ar ou na direção de algum inimi go aparentemente em seu campo de visão. clarc . . se o fizerem. Embora a atividade seja simulada. também. os principais eventos esportivos. a ação não atinge seus objetivos. Os indivíduos envolvidos na produção d urna atividade simulada não podem dar nenhuma indicação de que a situação é im. somente para criar um evento televisivo. eles podem ma v1s1v . como os ca sarnentos reais. exerce uma certa pressa -0 1· ndireta sobre os . ou a libertação de Nelson Mandela na África do Sul. Mas nao ha d~ vida de que 0 núcleo de tais ações é conseguir um grau de v1Slb1hdade na arena poh tica global. apenas para criar a impressão de um con flito militar naquele momento e naquele lugar. eles são concebido~ entretanto. que pode falhar nos seus objetivos ~o. eles sabem também que participam de eventos que estão send1 transmitidos ao vivo pua milhões de receptores. Há ainda outro tipo de atividade cotidiana mediada que merece consideraçãc aquilo que poderíamos chamar atividade cotidiana sim~lada. como eventos da mídia. el é distinta da ação ficcional. · · el a um grande número de indivíduos comuns.i ginada. _ . Os eventos da mídia são o terceiro tipo de ação à distância{Seguindo Dayan e Kac podemos usar o termo "eventos da mídia" para indicar aquelas grandes e excepcic nais ocasiões planejadas com antecedência. O evento em ~ mesmo é transmitido ao vivo e normalmente por vários canais. os eventos da mídia são cuidadosamente planejados e ensaiados. como a descida d homem na lua. e grandes momentos de conquista ou de reconciliação. Embor normalmente sejam organizados por instituições fora da mídia.hticos. a assinatura do acordo de Camp David que foi um passo em direçã1 da paz no Oriente Médio.governos ou O$ líderes pohticos. urna estratégia de risco. . e por isso mesmo recebem um cará ter de excepcionalidade que lhes empresta uma importância extraordinária 1". Eles interrompem o fluxo normal da vida diária. atraindo a atenção de milhões. precisamente porque ela acontece num contexto de vid real e é apresentada como se fosse real. Exemplos de eventos mediados incluem grandes ocasiões nacionais. Em to das estas ocasiões a mídia está presente com toda sua força. e embora os atores envol vidas nestes eventos devam se concentrar no que estão fazendo em seus específico ambientes de ação. como os Jogos Olímpicos ou a Copa d Mundo. Um exemplo: o comportamento d militares ou paramilitares que. redes e outros meic da mídia. que são transmitidas ao vivo e que inte1 rompem o fluxo normal dos acontecimento~1 ~jDiversamente da atividade cotidian mediada. Ela ocorre quando s pretende agir ou interagir de uma forma comum com o umco escopo de ser filmadc isto é. onde a possibilidade de ser visto e ouvido depende da capacidade d atrair a câmera de televisão. e por isso as instituições da mídia sâo invariave] mente envolvidas no processo de planejamento. São também anunciados com muit antecedência de modo a criar uma gradual e crescente expectativa. a tomada de posse de um novo presidente e os funerais de um grand estadista. quebram a rotina e criar urna atmosfera de contagiante expectativa. porque.

situados em relações de quase-interação mediada. Muitas ações ou eventos mediados são representados ou idealizados com o objetivo (pelo menos em parte) de serem televisados. Podemos distinguir os eventos mediados de um quarto tipo de ação à distância. mas sabem que são distintos del~as embora a ação ficcional ila televisão se assemelhe à represe~tação teatral. Mesmo que a ação ficcional possa se distinguir de outras formas de ação à distân- cia.. são capazes de ações direcio- nadas para outros situados em contextos distantes. a ação responsiva é separada de seu caráter dialógico de uma interação face a face e desdobrada em tantas maneiras que se torna difícil monitorá-la e controlá-la dando lugar a um novo tipo de indeterminação mediada que tem conseqüências d(: larga escala. ela se distingue desta última exatamente do mesmo modo que urna quase-mtera- ção mediada se diferencia de urna interação face a face: é urna ação à distância. aplausos. fez surgir também novos tipos de "ação responsiva" que aconte- cem em contextos bem distantes dos contextos de produção daquelas. Além disso. mas aqui foge do principal foco de minhas preocupações. Graças ao dis- ta~ciamento espaço-temporal gerado pela mídia. \ . e portan- to carece da presença de urna audiência e dos tipos de respostas dos receptores co-pre- sentes (risadas. Os disfarçados e mutáveis limites entre ficção e não ficção na esfera da televisão é tm1 fenômeno que levanta questões interessantes. são editadas e integradas numa idealização audiovisual que se diferencia em certos aspectos dos eventos corno eles de fato aconteceram. íPa'ra acompanhar estas questões mais de perto. jornais. vamos examinar detalha- damente a organização social das atividades receptivas. fica claro que na prática atual da produção televisiva a distinção entre ação ficcional e não flccional pode ficar difícil de se estabelecer. os indivíduos pod~~~ responder às açoes e aos eventos que lhe chegam dos lugares mais remotos e distantes. cujas pa- lavras e ações devem construir. llJeu objetivo foi explorar alguns meios pelos quais os indiví- duos. de modo a retratá-lo convincentemente. que chamaremos de ação ficcionalÍUrna grande quantidade de produtos da mídia televisiva é explicitamente de ~arâter Iiccional: é a construção de urna história inteiramente inven- tada e representada por indivíduos que sabem que estão representando e que são perce- bidos pelos receptores distantes da mesma forma. etc. As matérias que compõem muitas entre- vistas. e por isso eles são produzidos e direcionados reflexiva- mente para uma audiência ausente.lo tipo de ação que acontece aqui é semelhante à que se desenrola num teatro: eles encarnam um personagem-tipo. Ao mesmo tempo. como os "dramas-do- curnentários" que usam atores e roteiros ficcionais para contar urna história que se supõe real. documentários. há alguns programas que procuram ex- plicitamente disfarçar os limites entre a ficção e a não ficção. i Ação à distância (2): Ação responsivo cm contextos distantes (""' \ Assim como o desenvolvimento dos meios de comunicação criou novas formas de ação à distância.) que são características do teatro.

I_Il.Há um grau relativamente alto de auto-referenciamento dentro da mídia.Pdo as mensagens da mídia adquirem o que chamarei de ·~elaboração discursiva": elas são elaboradas. Ao responder às ações e expressões dos produtores. como se observa na quase-intera- ção. No caso da televisão. e por isso eles não precisam de cuidados com a apresentação pessoal. isto é feito por outras razões . ou para cuidar da própria apresentação pes- soal numa interação face a face que acontece entre os receptores dentro de uma mesma região de recepção. assim como a relação existente entre as regiões frontais e de fundo na es- fera de produção ou numa interação face a face.mediada. Como os receptores não podem. todavia eles podem partilhar certas características. A relação entre as regiões principal e periférica no contexto de recepção não é a mesma. clarificadas. responder diretamente aos produ- tores. por exemplo. Num mundo caracterizado por múltiplas formas de transmissão da mídia é tam- bém comum que as mensagens da mídia sejam recebidas por outras organizações e incorporadas em novas mensagens. eles geralmente o fazem como uma contribuição às outras formas de interação nas quais eles participam de tal qual a interação entre receptores que estas juntam em frente à televisão. a principal região de recepção é muitas vezes (embora de modo algum sempre) uma sala particular numa residência doméstica privada. por exemplo. da mesma forma. E assim as mensagens da mídia adquirem uma audiência adicional de receptores secundários que não participaram diretamente da quase. como portas e paredes. Se certas áreas e formas de comportamento são excluídas da yuase-interação dos receptores. mas que assimilaram alguma versão da mensagem através de interação face a face com os receptores principais. !. se descreve o que se viu na televisão a amigos que não assistiram um deter- minado programa. criticadas e elogiadas pelos receptores que tomam as mensagens recebidas como matéria para alimentar a discussão ou o debate entre eles e com os outros. comentadas. e (b) há múltiplos contextos de recepção que não se sobrepõem uns aos outr~ Embora os contextos de recepção não se sobreponham em espaço (e possam não coincidir no tempo). no sentido de que as mensagens da mídia comumente se referem a outras mensa- 100 . Como todo tipo de ação. Os receptores não participam da quase-interação televisiva da mesma forma que os produtores. geralmente.por exemplo.como quando. para mi- nimizar interrupções ou interferências. Esta principal região está quase sempre separada das re- giões periféricas na mesma residência por meio de barreiras físicas. a recepção dos produtos da mídia acontece em particu- lares contextos espaço-temporais. nwn processo que pode ser descrito como ·~­ diação estendida". Deste _. as formas de ação responsiva que eles utilizam não fazem parte da quase-inte- racão como tal. dependendo da natureza do meio técnico empregado.(Oprocesso de elaboração discursiva pode envolver indivíduos que não tomaram parte na quase-interação media<!!J.(o que é único sobre a atividade receptiva é que (a) o contexto espaço-temporal da recepção não se sobrepõe ao da produção.

UJU. lendo o jornal ou discutindo os vários eventos e mensagens com os outros. é encontrar um meio de se relacionar com ele e de incorporá-lo na própria vida. os indiví- duos se valem dos próprios conhecimentos. Por exemplo. Uso o termo "apropriação" para me referir à propaga- ção do processo de recepção das mensagens.. Figura 3.• 16H . Além do mais.gens ou eventos por ela transmitidos.1!UU F!~A.\'C/SCANO Rua au~ . Como expliquei num capítulo anterior. Assim fazendo. envolvendo outros contextos. Postal 151 101 '1 .\'li": ·.C:r. aqueles indivíduos que viram a entrevista ou ouviram o noticiário anterior terão a oportunidade de rever a própria compreensão do incidente ou os comentários do ministro. outras mensagens entrelaçadas com aquelas inicialmente recebidas. Estes atributos sociais são elementos substantivos no processo de apropriação que começa com uma recepção inicial das mensagens da mí- dia.-0~ . quer através de outras quase-interações mediadas quer através de interações face a face com indivíduos que viram ou ouviram.-:·:'.~""'· . um jornal da manhã pode relatar o que um ministro do governo di. de suas habilidades adquiridas e dos re- cursos que lhes são disponíveis.4 A extensão dos processos de recepção Interação quase Elaboração mediada 7 _i_ Recepção Recepção secundária / Mediação estendida CK"-JTl<O l!.K S . mas se estende muito além dela. outros indiví- duos.se' numa entrevista tdevisiva no dia anterior. A figura 3. uma entrevista durante a qual o ministro havia comentado sobre um incidente reportado em determinado noticiário. Um indivíduo que não tenha visto a entrevis- ta ou ouvido o noticiário anterior do incidente terá outras oportunidades de chegar aos fatos. e assim por diante..\.Santa MaT1C1 . "apropriar" é "tornar próprio" algo que é alheio ou estranho.1· .4 ilustra algumas maneiras nas quais o processo de recepção das men- sagens da mídia pode se estender além da atividade inicial de recepção dentro da principal região de recepção.

ao contrário. ouvindo.nídia são maneiras de responder aos outros espacial e temporalmente distante~Isto envolve um conjunto de ativida- des (vendo. provocando um surto nas vendas. discutindo. Vamos examinar algumas das formas em que isso pode ocorrer.o dentro dos contex- tos de recepção. etc. embora estejam situados em diversos contextos e não haja comunicação ou coordenação entre eles. Além disso. lendo. de entendê-las. Mas é óbvio também que em alguns casos as ações à distância. os receptores podem responder de maneiras semelhantes e até explicitamente coordenadas. as diferenças nos atributos sociais dos interlocutores se refletem na interação - de tal maneira que. por exemplo. é importante enfatizar que os atributos sociais que os indivíduos trazem para estes contextos não são os mesmos em todos os lugares. quanto por alguma agência relativamente independente operand. Por isso a apropriação das mensagens da mídia deve ser vista como um processo contínuo e socialmente diferenciado que depende do conteúdo das mensagens recebidas. estas atividades responsivas se desdobrarão de múltiplas e variadas maneiras e sem relação entre elas. alguns indivíduos participam ativamente e sem muito esforço de uma conversa. Podemos considerar isto como ação responsiva concertada mas descoordenada. enquanto outros permanecem hesitantes ou calados. tanto por algum aspecto da mensagem veiculada.orno tal (exceto à medida que os produtores buscam levar estas diferenças em conta . Um exemplo poderiam ser as ações de indivíduos que ouvem através da mídia que certos produtos terão seus preços aumentados em determinada data e respondem com o au- mento do consumo destes bens antes da data. Como a quase-interação me- diada torna as mensagens disponíveis para um número indefinido de receptores den- tro de um vastíssimo espaço (e talvez também no tempo).) que são estimuladas pelas ações de ou- tros que estão situados em contextos distantes. apreciá-las. Um tipo de ação respon:. como a televisão. discuti-las e inte- grá-las em suas vidas. Ainda que os diversos contextos de recepção tenham certas características co- muns. as diferenças nos atributos sociais dos receptores não se refletem na quase-interação e. usando a lingua- gem que será inteligível e aceitável para um grande número de receptores). refletindo a diversidade dos contextos nos quais as mensagens são recebidas. no caso da interação face a face. veiculadas através da mídia.por exemplo. Este surto é o resultado das discretas e descoordenadas açôes de indivíduos que respon- 102 . expressões ou eventos mediados. da elaboração discursiva das mensagens entre os receptores e os outros e dos atributos sociais dos indivíduos que as recebem. A recepção e a apropriação das mensagens da . a diversidade dos atributos sociais que concorrem no processo de sua recepção é obviamente muito maior do que a encontrada em interações face a face. No caso da quase-interação mediada. Diferen- ças entre os receptores afetam principalmente as maneiras que cada um tem de se relacionar com as mensagens recebidas. por exemplo. podem dar origem àquilo que chamarei de formas con- juntas de ação responsivo.iva conjunta surge quando os indivíduos reagem de for- mas semelhantes diante de ações. Isto é. Em muitos casos.

Um exemplo bem conhecido de tais mecanismos é o uso de risos ou aplausos pré-gravados em se- qüências humorísticas na TV. É óbvio. os receptores podem ver como outros (embora outros cuidadosamente selecionados) respondem aos principais comunica- dores e podem até sentir que fazem parte de uma platéia coletiva com cujas respostas querem de alguma maneira compartilhar. estes mecanismos servem como deixas intencionais para i~iciar semelhante ação responsiva entre os receptores ausentes. . Na prática. · 1 _ . os produtores das mensagens da mídia não estão em condições de monitorar diretamente as respostas dos receptores e de modificar-lhes as ações à luz deste fet. Diversa- mente dos interlocutores numa situação face a face. . algum grau de coordenação pode ser oferecido pela mídia· quando. Ao simular as respostas da audiência em momentos- chave do fluxo narrativo. por exemplo. Nestas circunstâncias. d. a nao penmte o con- tro e das reaçoes md1v1dua1s as mensagens recebidas ou aç. ou re- portar um surto de vendas que já está acontecendo (uma versão mediada do efeito "entre na onda"). precisamente por- 103 . d · oes reme 1a oras para ga- rantir a resposta desejada.que chamo de "mecanismos planejados para coordenar a resposta do receptor". a ação responsiva conjunta é até certo ponto o resul- tado não intencional de uma mensagem da mídia ou de um processo continuado de comentários a respostas à mensagem da mídia. Em tais casos. con- tudo muitas ações concertadas deste tipo geralmente envolvem certo grau de coor- dena~ão que provém da combinação da elaboração discursiva e da mediação es- tendida. Além do mais. Podemos distinguir esse tipo de ação conjunta de um outro tipo que ocorre quando os indivíduos respondem similarmente a dispositivos simbólicos explicita- mente planejados para coordenar a resposta do receptor. d 1 11 . Uma platéia de estú- dio numa transmissão ao vivo pode também ser usada como um mecanismo para coordenar a r~sposta dos receptores. e os pontos de vista e ações dos outros podem influenciar seu próprio comportamento. Apropria estrutura da quase-interação medi"ad . eles também não estão em condições de monito- rar as respostas de outros receptores (exceto daqueles com quem eles interagem dire- tamente) e modificar-lhes o comportamento de acordo com os seus interesses. Os receptores das mensagens da mídia comumente as discutem com outros em seus ambientes sociais imediatos.que o uso _dos mecanismos intencionais nem sempre produz a ação res- pons1va coniunta. como já observamos anteriormente. od · ser gma a pe a iensagem. os produtores podem empregar uma série de dispositivos simbólicos cujo objetivo é procurar respostas similares entre os receptores ausentes . ermma a por e a. . Se a platéia estiver na reg1ao frontal da esfera de produção. A ação rcsponsiva· dos receptores pode . Além disso. mas nao p e ser controlada ou det · d 1 .dback.dem de maneiras semelhantes a wna notícia transmitida pela mídia. estimula a compra de bens ao predizer ou especular sobre o aumento do preço de determinados produtos. . uma vez que os receptores não partilham o mesmo ambiente. A importãncia destes dispo- sitivos deriva em parte da natureza peculiar da quase-interação mediada.

por exemplo. o esforço de guerra. em última análise. as formas de ação coletiva não se teriam manifestado da mesma forma. as autoridades militares impuseram duras diretrizes aos jornalistas e controlaram rigorosamente o acesso ao front 16 . a movimentos sociais bem organizados e com objetivos bem articulados. A guerra do Vietnã foi o primeiro grande envolvimento militar americano ultramarino que recebeu uma cobertura detalhada pela televisão. É bem provável. da contagem dos mortos. não é surpreendente que as lideranças militares nos Estados Unidos e em ou- tros lugares tenham procurado exercer um controle maior sobre a cobertura da mídia dos conflitos armados. de soldados e civis feridos. se as imagens e informações mediadas não tivessem chegado aos receptores. de que em alguns ca- sos a mídia desempenhou (e continua a desempenhar) um importante papel e de que. As imagens ao vivo do lançamento das bombas incendiárias. ações e expressões mediadas. Tratamos aqui de formas de ação coletiva que são estimuladas e alimenta- das por imagens. Não resta dúvida.Peter Arnett da CNN . sido responsável pelo fortalecimento e pela organização do movimento padfista 15 . crítica e dissenso que podem enfraquecer o esforço de guerra 17 . 104 . que a intensa e viva cobertura da guerra do Vietnã tenha. Consideremos agora uma terceira forma de ação responsiva concertada.\Estas formas podem variar: de grupos relativamente difusos de indivíduos com afinidade de interesses e modos de vida. O grande esforço investido na busca do controle sobre a representação de guerra feita pela mídia é prova de que. na idade da mídia e especialmente da televisão. portanto. despertaram e alimen- taram a controvérsia nos Estados Unidos sobre a legitimidade da intervenção.foram fortemente criticadas pelo governo de Bush. na mesma ex- tensão e com a mesma rapidez. onde as imagens do campo de batalha e seus custos estão disponíveis para os indivíduos de cujo apoio depende. as guer- ras são combatidas em dois fronts: nos campos de batalha e em casa. Sabem que imagens e informações mediadas têm o poder de estimular formas de ação responsi- va. Reporta- gens compiladas e transmitidas por um dos poucos correspondentes ocidentais remanes- centes em Bagdá . e fornece- ram aos indivíduos razões prontamente disponíveis para protestar. por um lado. pelo menos em parte. Durante a guerra do Golfo. sabem muito bem que há muito mais em jogo. À luz da experiência do Vietnã. de gritos de crianças e de refugiados em desespero_. mas pertence a um novo conjunto de ações em que há uma grande variedade de possibilidades.que ela não faz parte de uma interação recíproca com produtores. expecta- tiv:_:_e prioridades articuladas para apoiar as mensagens recebidas. Em muitos casos estas formas de ação coletiva buscam apoio em diversas fontes. o papel da mídia é uma das fontes de elementos que provocam e sustentam as ações concertadas dos indivíduos. Embora as autoridades políticas e militares possam justificar suas tentativas de controlar a mídia com base na lógica do campo de batalha (como a necessidade de evitar informações que possam pôr em ris- co a vida dos soldados). aquela que precisa de um certo grau de organização e coordenação dentro dos contextos de recepção. por outro.

As imagens de refugiados superlotando as embaixadas em Praga e Buda- peste. onde a mídia nacional era rigorosamente controlada pelo estado. e que foram precipitados. equipes de televisões estrangeiras estavam a postos para filmar os acontecimentos. e em outros lugares dentro de seu próprio país. sintonizan- do transmissões de rádio e de televisão da União Soviética. Quando o Muro de Berlim caiu na noite de 9 de novembro. no me10 da maior controvérsia. entre outras coisas. dentro da própria Checoslo- váquia. obviamente. retratando as condições de vida que contrastavam enormemente com as deles. Com a intensificação do conflito dentro da Romênia. como também lhes proporcionou uma descrição virtualmente instantânea do que estava acontecen- do em nações vizinhas. Quando finalmente os Ceaucescus foram presos. bem como nas cidades próximas em seus próprios países. e sendo escoltados para o Ocidente e aclamados como heróis. que introduziram novos e fundamenw- mente importantes elementos na vida política e social. Quando a maciça demonstração popular em Praga no dia 17 de novembro foi brutalmente reprimida pela polícia. pelo novo pensamento político introduzido por Gorbachev. Ao torou disponíveis aos in- divíduos imagens e informações de acontecimentos que acontecem em lugares muito 105 . Os filmes foram revelados e minu- ciosamente examinados. As convulsões revolucionárias no Leste Europeu em 1989 fornecem um outro exemplo de como as mensagens da mídia podem estimular e alimentar ações coleti- vas em indivíduos localizados em contextos distantes. julgados por um tribunal militar e executados por um pe- lotão de fuzilamento. Os alemães orientais já vinham recebendo há algum tempo as transmissões da televisão ocidental. Na Checoslováquia a pressão por mudanças políticas atravessou os meses de ou- tubro e novembro. Estes exemplos ilustram algumas maneiras desenvolvidas pelos meios de comuni- cação de massa. Hungria e Iugoslávia. resultado de muitos anos de empobrecimento econômi- co e controle político opressivo. os indivíduos podiam se inteirar das mudanças dramáticas que estavam ocor- rendo no Leste Europeu. Não somente a televisão for- neceu aos indivíduos do Leste Europeu um fluxo de imagens do Ocidente. as imagens dos jovens celebrando sob os Portões de Brandeburgo e retalhando o muro com picaretas foram transmitidas ao vivo para todo o mundo. Até na Romênia. dificilmente dei- xariam de provocar um impacto explosivo na Alemanha Oriental. o controle dos meios de trans- missão televisiva se tornou uma questão crucial na batalha. e especialmente a televisão. muitos fa- tores que contribuíram para os acontecimentos extraordinários ocorridos durante os últimos três meses de 1989. Mas é muito improvável que 0 movimento revolucionário de 1989 pudesse ocorrer da forma como ocorreu - numa velocidade de tirar o fôlego e com resultados similares em diferentes nações - na ausência da extensa e conúnua cobertura da mídia 18 . Houve. seus corpos mutilados foram frlmados sob uma parede crivada de balas e transmitidos pela televisão para uma espantada audiência na Romênia e para o mundo afora.

continuar o mesmo sem ela. Assim. Bucareste e em outros lugares do Leste Europeu. nas reais circunsiânnas da nda social os padrões do fluxo de informação são quase sempre muilo mais complicados Nas circunstâncias reais há uma pluralidade de fontes e canais de comuntcação. ir. Ber- lim. Indivíduos em Bucare!\te podem saber o que acontece em Timisoara tão ra- pidamente .além de seus ambientes sociais imediatos.e até mais rapidamente . etc. os indivíduos envolvidos nestes aconte- cimentos podem estar bem conscientes do papel construtivo (ou desrrutivo) da mídia. abrangendo assim uma cadeia de eventos que podem ultrapassar os limites de estados-nação particulares e rapidamente fugir ao controle.divíduos que normalmente são receptores dos produ1os da mídia podem agir de modo a atrair as lentes da mesma.1ados nos mais distantes contextos. Eles sabem que. A núdia se envolve ativamente na construção do mundo social. cria acontecimentos que poderiam não ter existido em sua ausência. Estes exemplos de ação responsiva concertada também mosiram que. e provocar respostas de outros qur 106 . a mí- dia modela e influencia o curso dos acontecimentos.ainda que parcialmente . S1mil.umente. Tirnisoara. a mídia pode estimular ou intensificar for- ma. controlando o fluxo de imagens e de infom1ações. sucessos ou fracassos. O fenômeno da ação responsiva concertada sublinha o fato de que a mídia não se preocupa apenas em descrever o mw1do social que poderia. Além do mais. por aúvidades de outros distantes cujos objetivos e aspi- rações. a mídia desempenha um im- portantíssimo papel no controle do fluxo dos acontecimentos. Ao levar as imagens e as informações para indivíduos sit·. ler 1orna1s. e eles podem usar esta informação para orientar suas próprias ações. Praga. foram transmitidos pela mídia. tenham sido estimuladas. um líder político que aparece na 1elen- são de tempo em tempo pode também ass1s1ir rotineiramente à 1elevisão. as imagens e informações podem chegar aos lugares mais distantes quase instantanea- mente. enquanlo qualquer instância particular da quase-interação mediada geralmen1e implica um flu- xo de informação ou comunicação de sentido único. eles podem descobrir algo .quanto indivíduos em Timisoara. Por isso as ações e reações estimuladas pela mídia se podem conectar estreitamente no tempo. de tal maneira que os indivíduos podem se encontrar na posição de serem s1muhaneamen1e produtores e receptores. como pôde.do que está acontecendo além de seus contextos sociais imedia- tos. ao assisúr à televisão ou escutar o rádio. por exemplo. até certo ponto. Eles sabem que o qul eles dizem no rádio ou na televisão poderá ser ouvido por milhares ou milhões de outros que podem responder de formas concertadas ao que é dito. tanto quanto se podem separar no espaço. dada a natureza dos meios eletrônicos modernos e a disponibilidade de transmissões via satélite. E mais.s de ação coleúva difíceis de controlar com os mecanismos d~ poder estabelecidos. e os acontecimentos que se desenrolaram na Romênia puderam ser vistos ao mesmo tem- po em que eram transmitidos para milhões de espectadores ao redor do mundo. Parece muito provável que as ações concertadas mostradas nas ruas de Leipzig. Eles sa- bem que.

i.i pu. o dcse1wolvimel\lt) d.i " um pro<"l'sso rd.i.l midi.lt·ekr.a midi.ml'llle p.-ebid.lp.\ .i c.llgum.irticul. ptlrem.is t'.i t•xtrc- lll. \ohvi.pid.im meios tec- nkos .·.n <111e o .im su.lisposi\·ào pu.ll'- tenst1t·. Antes.lgem própri.o .~ dist.is t·onvuls&-s l\l) Lt•stt• Europeu dcmons- truam..is mens.ide e imprevisihilid.i.i1.i.i.is e t·onsequenc1.i a fa- 1. ~ de indelenninaç•o no mundo moderno.\ intcra\·fo mecliada e .o lht•s dar .imos longl' dt• entender l·.is.i midi.tte1w.l.1k.lis dt: l'Olll11nil'.lll\l'llll' n'mplt•xo.il os inte.ilnwnte.i múhiplo.do de rel.~. m.i\-ÕCS dt: poder que mudam r.i qu.·z surgir now"~ tipos dl' in- tcr~rel.is.lis tr. Este c.ado pela \'clocic.lde de l"ontrolar o rnrs<) tl•)S arontenmento. dnm.i.is d.is im.ts .a.irte base.l.s inl·omrolàvt•is . frente dt•s- crevE>rt'i .idc-s m1 p. dist.i1s dc1alht•s.wam de fornus complt•x.idt• dt• um mundo j.i.i11d.lsso tb tr.io.tment~. tl.l \'.idos 11.ilógic.içio constitui~o pcl.~ planc-j.ua .1\-.o nmfüda se en- trd.is .i fat. É antes um novo tipo de cm1po no 411al ..io."t:mfront..~ governos p.ls.i.in l'llntrihniu signilk.igens d.\is de n>mllllil·.i situ.is destes dt'sc1wohimentt\.uivid.im em ronvers.·fo nwdiada hã indh·iduos que t~m m.ndo .rlocutorcs se t.ldcs dt• us.imcntt'.. exploremo.ind. o r.i.irticip. si1.i.insform. :-.il podt• ser . qu.ições 11on11.tp.u .im diret. É um l·.s imprcvish·cis. d. esti min.ilguns temu rel.ivés d.tllll'l\ll' dentro do l.i a .lr.i a111do11 .ires podem dilkilmentl' n.ise-illler.ade de ~spondcr de maneir.lis oportunitl.w.intcs.er p. Desta n~~neir. t•st.por su.-ões e l'Vcntos que .t se rnmlmk.i.çõcs TCl.<' nwdí.il diferentes mdmduos e gru- pos pe111cgucm seus objetivos e .\M.ld.i do qu<' outros.io face .ispira\-ÕCS.iis em esc."e tu.mi~i~ cheg.iç•o sod.:ri.mn• t' l• p.~.add.·.il o.ih.i.ir um m1mdl> em que os c.1rt•m rnm nll!ro. O dese11volvime1lll' da midi. tl-nômellllS cuj.dem sc tom..i.is esteT.ir gloh.iis oportuni.il'- n nesdmt•nto dos múltiplos l'.n>l\ll'l·em . . intl'raç.~ indivíduos a c.dl' dos 1111- ~l >s dl' infonna\·.1.idou.~ individuo. 107 .i1iv.ll\t.-.~ ..l- til\lllWl\lt' <' de manl'ira.1 \'J.i.irem com outros distantes.. tfadt•s de . M.padd.l.i Yt'Z também se tornam eventos televisivos.lç.imt·ntc.impos de intcr.il. .iç•o pt.is implic.i.irtc do próprio campo de interaçio dentro do qu.igens e inl\mm.lllll'lllc e se ocup.i.Ut'l't'T 11.ln.i midi.ls dt• produ.lclo o fatt) dt• '(li<' a re~:cpç•o d.1.impo em que os p.iis .instunon.is rl'giões de vangu.ltados com m.·fo l" de Sl' l·om1111i- - r.içio face .t c. dis1.i rnmplexicl.ird. D.is di.içã.lll.itr.lliv.a midi.as est.intt•s us. como .u.ampo dt: inte- 1-.i.inntnl'lllc indt•- Pl'l\\lcnll' l(Ut' os prtmll!on·s nfo podem monitorar t·omplet.'ntwl.i d. e no qu.~ l'.i.t e cm .impo de inter.tmpo de intt·r.ld<> o fato de que h. t' d.i fan. Criando uma \'ariedade de formas dt• . que podem ou nã.i.i nio ê como um.1.l) e inform.ntagt•m nem sempre dâ aos indivíduos .

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E por isso. como o rádio e a televisão). Estas considerações são indicadoras do fosso que separa nosso mundo de hoje do mundo que existiu há poucos séculos atrás. Tentarei mostrar que ela faz parte de uma evolução mais ampla na natureza da esfera pública. podemos reavaliar como o desenvolvimento da mídia 109 . Queren- do ou não. num rumo um tanto dife- rente. Antes do desenvolvimento da rrúdia (es- pecialmente da mídia eletrônica.\ma vez ver ou ouvir indivíduos que detinham posições de poder político? Quando a única forma de interação disponível para a maioria das pessoas era face a face. algumas questões que já surgiram nos capítulos 1 e 2. Ao distinguir os dois sentidos dicotômicos de público e privado (seção !). Mas sabemos também que eles aparecem diante de milhares ou milhões de outros. J7 o ATransformação da Visibilidade Hoje nós estamos acostumados a pensar que os indivíduos que aparecem em nossos televisores pertencem a um mundo público aberto para todos. Podemos até considerá-los amigos. é muito pouco provável que al- guma vez as encontremos no curso de nossas vidas cotidianas. Começarei por conside- rar a distinção entre público e privado. e referirmo-nos a eles com certa intimidade. os líderes políticos eram invisíveis para a maioria das pessoas que eles governavam. embora possa- mos ver e ouvir estas celebridades com certa freqüência. senão diante de um relativamente pequeno número de indivíduos reunidos no mesmo lo- cal? Antes do desenvolvimento da mídia. quantas pessoas pude- ram alg\. por sua vez. Podemos sentir certo grau de familiaridade com as personalidades e os líderes políticos que aparecem regularmente na televisão e na rrúdia. \Neste capítulo quero explorar esta transformação na natureza da visibilidade e na sua relação com o poder. os líderes políticos hoje devem estar preparados para adaptar suas ativida- des a um novo tipo de visibilidade que funciona diversamente e em níveis com- pletamente diferentes. que eles são acessíveis a muitos outros além de nós. Mas hoje não é mais possível restringir do mesmo modo a atividade de auto-apresentaçãel!. e podiam restringir suas aparições j!. quantas poderiam alguma vez interagir com os líderes políticos que as governa- vam? E como. poderiam os líderes políticos aparecer em público. Retomarei e seguirei.Úblicas a grupos relativamente fechados em assembléias ou a reuniões da corte.

"público" começou a significar atividade ou auto- ridade relativa ao estado e dele derivada. Se pusennos em foco o desenvolvimento das sociedades ocidentais desde o últi- mo período medieval.(õ termo "sociedade civil" foi usado de muitas maneiras pelos primeiros pensadores modernos. e da concepção romana de res publica. redefinidos pelas mudanças no campo objetivo a que eles se referiam. ela também fez surgir novos riscos.VIII e XIX . que são um permanente risco para o exercício do poder na era da visibilidade mediada. que cada vez mais era exercido por um estado so- berano. que separava lei pública de lei privada. organizações e classes 110 . Ela pode remontar aos debates filosóficos da Grécia Clássica so- bre a vida da polis.isto é. O público e o privado A distinção entre público e privado tem uma longa história no pensamento social e político ocidental 1 . até certo ponto. e na seção final irei descrever algumas das novas fontes de preocupação. de gafes a escãndalos. no último período medieval e no início da era moderna. O uso mais comum do termo hoje é o que se atribui principalmente a Hegel. a uma certa interpretaçfo da filosofia do direito de Hegel. A explícita formula- ção da distinção provavelmente deriva dos primeiros desenvolvimentos do direito ro- mano. a partir de ~ meados do século XVI em diante.relações pessoais. Enquanto a transformação na natureza da esfera pública criou novas oportunidades para os líderes políticos. os sentidos destes termos polissémicos.>tinguir dois sentidos básicos nesta dicotomia. a distinção entre o estado e a socieda- de civil. podemos di. de acordo com a qual a sociedade civil é constituída da esfera de indivíduos privados. é óbvio. que não esgotam.. mas que destacam al- gumas formas mais importantes usadas desde o final da Idade Média. enquanto "privado" se referia às atividades ou esferas da vida que eram excluídas ou separadas daqueJ:j Este sentido cobre em parte a distinção que foi se evidenciando nos escritos de teóricos da política e do di- reito no curso dos séculos Y. O primeiro sentido da dicotomia tem a ver com a relação entre o domínio do poder político institucionalizado. ou me- lhor. a distinção entre público e privado começou a adquirir novos significados relacionados em parte com as transformações institucionais que aconteciam naquele tempo. I' ( transformou a natureza do caráter público (seção 2) e reconstituir a evolução das re- lações históricas entre poder e visibilidade (seção 3).IAssim. que fugiam ao controle direto do poder político. por outro lado. quando os cidadãos se reuniam para discutir questões de interesse comum e criar uma ordem social orientada para o bem comum. À medida que as an- tigas instituições cediam lugar às novas. e o domínio da atividade econômica e das. maneiras muitas vezes incompatíveis umas com as outras 2 . Contudo. por um lado. os termos "público" e "privado" começaram a ser usados com sentidos novos e.

como também a esfera das re- lações pessoais centradas principalmente. tal como foi desenvolvida nas sociedades ocidentais ao longo dos séculos XIX e XX. O domínio do privado poderia. por cooperativas 3 · Estas or gamzaçoes · . incluir a sociedade civil neste sentido.oprie~e do estado. associações de benef1c10 mutu~.1\o domínio privado inclui organizações econômicas privadas operando n~m mercado econômico e visando.reguladas pelo direito civil e formalmente distmtas do estado. mas elas sao 1undicamente e operacionalmente distintas das · - . expandindo os serviços e investimentos públicos ou.. Os esta- dos foram assumindo um papel cada vez mais intervencionista. . alternativamente. É óbvio que esta larga distinção entre o público e o privado nunca foi rígida ou definitiva no desenvolvimento histórico das sociedades modernas. de alguma maneira. por sua vez.s~rie de _instituições estatais e paraestatacl: das corpo~ações ! \. As atividades dos estados. as fronteiras entre o público e o privado se tomaram cada vez mais tênues. a própria fronteira entre o público e o privado tomou-se um marco importante nos debates políticos quan- do os governos procuraram redefinir o escopo da atividade estatal. foram influenciadas e constrangidas de várias maneiras pelo desenvolvimento da economia . embora não exclusivamente./ .em particular. Ili zaçoes.' tado nem se. _ . s e seus estatutos legais. Indivíduos se uniram para formar organizações e grupos de pressão com o objetivo de influenciar a política governamental. dos serviços sociais a uma variedade de organizações de bem-estar. c~mo ~s indústrias nacionalizadas e as empresas de utilida- de pubh~~~(Entre os domm10s publico e privado. . ele também inclui organizações econômicas de pr. o matrimônio).j leg1slauvas. estão resu- midos na figura 4. Na verdade.. Além disso. por exem~l~. buscando políticas de controle da atividade econômica e compensando as conseqüências negativas do cresci- mento econômico. como clubes e associações comerciais: partidos políticos e grupos de pressao que procuram articular pontos de vista particulares· orga · _ . s1t~ª1:11 _mte1:amente dentro do domínio privado.mter- · med1anas sao mst1tu1çoes privadas não estatais em termo d . . . pela sua capaci- dade de aumentar a receita através dos impostos.i como tambem uma vasta gama de relações pessoais e familiares que podem ser informais ou formalmente sancionadas pela lei (por exemplo. orgamzaçoes eco- nom1cas privadas de fins lucrativos. . Alguns aspectos desta larga distinção entre o público e o privado. a .. as 1~st1tu1çoes nao lucrativas de beneficência e caridade. Elas incluem.ministradas _ .economicas _ .O do- mínio públi~o ~ncl~i _uma. • d . na família. desde o final do século XIX. . serviços m1htares e secretos. então. fins lucrativo!. 111 . A emergência das organizações de economia capitalista foi um processo que aconteceu dentro de um con- junto de estruturas jurídicas e políticas que foram estabelecidas e continuamente alteradas pelos estados. removendo preocupações do setor público para o privado através de privatizações. . várias organizações intermediárias surgiram e pros_perara1:11 n~stes últimos ano~jEstas organizações não pertencem ao es. 1udic1a1s a pohc1a.

mas historica- mente há uma complexa e mutável relação entre formas de governo e visibilidade ou invisibilidade de poder. realizado abertamente para que qualquer um possa ver. Figura 4-. realizado secretamente atrás de portas fechad~ O segundo sentido desta dicotomia não coincide com o primeiro. contudo. l Domínios público e privado nas sociedades ocidentais contemporâneas Domínio privado Domínio público Organizações econômicas Organizações econômicas privadas operando no pertencentes ao estado mercado econômico e (p. a dicotomia tem a ver com publicidade versus pri- vacidade. Um ato público é um ato visível. organizações beneficentes. onde os cidadãos se reuniam em lugares comuns para debater questões. "públi- co" significa "aberto" ou "acessível ao público" 4 • Público neste sentido é o que é vi- sível ou observável. As assembléias constituíam um tipo distinto de esfera pública na qual a publicidade (ou visibilidade) do poder se baseava na capacidade dos indivíduos de se ocuparem num debate uns com os outros num lugar comum e de chegarem a decisões coletivas através de um consenso da maioria. ex. e todos ti- nham direitos iguais de manifestar a própria opinião e de ser ouvido. o que é realizado na frente de espectadores. o exercício do poder político era relativamente visível: as intervenções e argumenta- ções dos participantes podiam ser vistas e ouvidas por aqueles ali reunidos.) \ Nós podemos. Nas cidades-estado da Grécia Clássica. ex. o que é dito ou feito em privacidade ou segredo ou entre um cír- culo restrito de pessoas. distinguir um segundo sentido básico desta dicotomia que emergiu no discurso sociopolítico ocidental. um ato privado é invisível. mas parece provável que esta contagem não tinha senão um valor aproximado/ 112 . ao contrário. Neste sentido. partidos políticos e grupos de pressão. (Ocasionalmente pedaços de cerâmica eram usados para os vo- tos. indústrias visando fins lucrativos nacionalizadas e empresas de utilidade pública) Relações pessoais e Organizações estatais e familiares paraestatais (incluindo as organizações de bem-estar social) Organizações intermediárias (p. Privado é. etc. De acordo com este sentido. cooperativas. o que está aberto para que todos ou muitos vejam ou ouçam. com visibilidade versus invisibilidade. fazer propostas e tomar decisões. com abertura versus segredo. o que se esconde da vista dos outros.

isto é. Os detentores do poder encontraram novas formas de manter segredo e novas razões para se defenderem. o gabinete secreto. não para tornar públicas (visíveis) as razões em que assentavam suas decisões políticas. Mas ilustrou o fato de que a antiga democracia. público.O gabinete secreto foi substituído ou suplementado por urna série de instituições de caráter mais aberto e "responsá- vel". Novas formas de poder invisível e de go- verno encoberto . Com o desenvolvimento do estado constitucional moderno. e aos cidadãos foram concedidos certos direitos básicos. eles o faziam apenas para afirmar seu poder publicamente (visivelmente). decisões políticas importantes eram sujeitas a debate dentro de assembléias par- lamentares.É certo que a assembléia grega era uma esfera pública de acesso restrito: somente ho- mens atenienses acima dos 20 anos podiam participar. e mulheres. a privacidade dos processos de tomada de decisão era comumente justificada pelo re- curso ao arcana imperii . corno a vontade divina. 113 . invisível 6 • A invisibilidade do poder era garantida institucionalmente porque o processo de tornada de decisão acon- tecia num espaço fechado. embora esta larga tendência não tenha sido unifor- me e completa. um compromisso que muitas vezes faltou em outros sistemas de governo. nas quais a aura do monarca tanto se manifestava quanto se afirmava. implicava wn certo compromisso com a visibilidade do poder.desde as ininvestigáveis atividades dos serviços de segurança e or- ganizações paramilitares aos acordos e transações de políticos a portas fechadas - foram inventadas. que garantia. e porque as decisões mesmas eram apenas ocasionalmente e seletivamente reveladas ao. Nos tradicionais estados monárquicos da Idade Média e início da Europa moder- na. entre outras coisas. entre outros. os negócios do estado eram conduzidos nos círculos relativamente fechados da corte. a doutrina do segredo de estado. a invisibilidade do poder começou a ser limitada de alguma maneira . Nos primeiros escritos teóricos sobre a raison d'état. A doutrina dos arcana imperii foi transformada no princípio moderno do segredo oficial e restrito em sua aplicação para aquelas questões consi- deradas vitais para a segurança e estabilidade do estado. não ao exerácio do poder. cheios de pompa e cerimônia. mais públicos. sua liberdade de expressão e de associação.seus objetivos se for escondido da contemplação das pessoas e. como forma de governo. de modo completamente invisível à maioria da população. Suas aparições públicas eram eventos cuida- dosamente encenados. Nestes e em outros aspectos. . Quando reis. Publicidade dizia respeito. o exercício do poder nas sociedades modernas permanece de muitas maneiras envolto em segredo e escondido da contemplação pública. que sustentava que o poder do príncipe é mais efetivo e verdadeiro com. o poder se tomou mais visível e os processos de to- mada de decisão. em alguns casos formalmente reconhecidos pela lei. prin- cesas e lordes apareciam diante de seus súditos. escravos e "mete- cos" (estrangeiros domiciliados em Atenas) . mas à sua exaltação. eram excluídos. Limitar a invisibilidade do poder não torna o poder inteiramente visível: pelo contrário.

Ações e eventos podem se tornar públicos pela gravação e transmissão para outros fisicamente distantes do tempo e do espaço de suas ocorrências. não está mais limitada à partilha de um lugar co- rrium. as novas formas de publicidade começaram a suplementar. Estas novas formas não substituíram inteiramente o papel da publicidade tradicional de co-presença. Este tipo tradi- cional de publicidade serviu-se. mas incluindo a mais recente mídia eletrônica . com a extensão da disponibilidade oferecida pela mídia. como a publicidade de co- presença traz como conseqüência a reunião de indivíduos nwn mesmo lugar. Descreverei isto como "publicidade tradicional de co-presença". os debates políticos face a face nos recintos parlamentares. O desenvolvimento da mídia deu origem assim a novas formas de "publicidade mediada" que vêm assumindo um importante pa- pel no mundo moderno. quer tendo algum tipo de comportamento de espectador (batendo pal- mas. a publicida- d~ de indivíduos. da riqueza de deixas simbólicas caracte- rísticas da interação face a face. e se constituiu. Os indivíduos que falam ou representam em tais ocasiões o fazem diante de outros que podem. quer falando. talvez até cheirado ou sentido de alguma outra maneira. e gradualmente a estender. Ela permanece em destaque na sociedade moder- na. uma execução pública na Europa Medie- val. Vejamos agora brevemente algumas fases deste desenvolvimento e algu- mas formas de publicidade mediada características dele. as demonstrações de massa. transformar e substituir a tradicional forma de publicidade. podia ser visto. 114 . participar do evento. aclamando. como atestam os encontros públicos. Um evento se tornava público quando representado diante de uma pluralidade de indivíduos fisicamente pre- sentes à sua ocorrência .reconstituiu as fronteiras entre a vida pública e a vida privada.começando com a imprensa. etc.). Ações e eventos podem adquirir uma publicidade que independe de serem vistos ou ouvidos diretamente por uma pluralidade de indivíduos co-presentes. Como deveríamos entender o impacto da mídia na natureza da publicidade e na relação entre poder e vis1bilidade 7 Antes do desenvolvimento da mídia. quero agora considerar de que modo o desenvolvimento dos novos meios de comunicação . etc.como. A característica fundamental destas novas formas é que. ações ou eventos. Mas à medida que os novos meios de comu- nicação foram se tomando mais penetrantes. realizada diante de um grupo de espectadores reunidos na praça do mercado público. por aqueles poucos indivíduos que calhavam de estar presentes. ainda que na prática não o façam. ouvido.Públicos sem lugares: O advento da publicidade mediada Contra o pano de fundo destas distinções. em prinápio. Além disso. por exemplo. a publicidade dos indivíduos ou dos aconte- cimentos era ligada ao compartilhamento de um lugar comum. aparência visual e palavra falada: o evento público era um espetáculo que. assobiando. Era uma publicidade que implicava visão e audição. O desenvolvimento da mídia criou novas formas de publicidade que são bem di- ferentes da publicidade tradicional de co-presença. ela temes- sencialmente um caráter dialógico.

ações e eventos poderiam ser revestidos de publicidade na ausência de in- divíduos co-presentes. cafés e outros ambientes forneciam lugares onde os indivíduos se encontravam e discutiam o que liam.que não se podia lo- calizar no tempo nem no espaço. Assim a palavra impressa foi usada desde sua publicação tanto como um meio de proclamações oficiais por representantes do estado. o ato de testemunhar ou conhecer ações e eventos públi- cos foi separado. o ato de tornar algo pú- blico se libertava em princípio do intercâmbio dialógico dos atos da fala e se tornava cada vez mais dependente do acesso aos meios de produção e transmissão da palavra impressa. É claro. 11 s . Agora se podia tomar conhecimento de ações e eventos através da leitura e esta atividade não exigia do leitor e nem lhe permitia comunicar seus pontos de vis~ ta aos indivíduos envolvidos na produção das ações ou eventos originais. e o pú- blico leitor não coincidia com os grupos de indivíduos relativamente bem seleciona- dos que se encontravam nestes lugares para discutir o que liam. alguns membros do público leitor interagiam uns com os outros em lu- gares comuns. A publicidade da palavra impressa se estendeu bem além dos locais específicos nos quais algumas matérias impressas. Sociedades de leitura. como Habermas mostrou. Com o advento da imprensa. e o tipo de publicidade criada pela palavra impressa era definida em parte por esta relação. Mas seria enganador sugerir que estas características particulares de recepção e apropria- ção de matérias impressas no início da Europa moderna definiram o tipo de publicidade que se tornou possível com a imprensa. a relação entre a produção de matérias escritas e seus receptores era funda- mentalmente uma relação de quase-interação mediada.um público leitor . a forma criada pela palavra impressa foi separada da partilha de um lugar comum: com o advento da imprensa. mas pelo fato de que seus membros tinham acesso ao tipo de publicidade que se tomou possível graças à palavra impressa. O público leitor não era uma comunidade no senti- do de um grupo de indivíduos que interagem uns com os outros em encontros face a face. Como todas as formas de publicidade mediada. A publicidade criada pela imprensa não somente independia da partilha de um lugar comum: ela também se distinguia do tipo de intercâmbio dialógico característi- co da conversação face a face. Em outras palavras. Do mesmo modo. do papel de participante potencial de uma interação face a face. difusão e apropriação. tais como obras literárias e periódicos políticos. O advento da imprensa no início da Europa moderna criou uma nova forma de publicidade ligada às características da palavra impressa e a seu modo de produção. a princípio. Era um público sem um lugar. clubes. definido não pela existência ou possibilidade de uma interação face a face entre seus membros. Estes indivíduos abrangiam uma coletividade . eram discutidas por alguns de seus receptores. como um meio através do qual grupos de oposição poderiam salientar ações e eventos que de outra maneira passavam despercebidos: ambos eram meios de tomar públicos os fe- nômenos para indivíduos que não estavam fisicamente presentes às suas ocorrências.

ou poderiam se tornar. Além disso. de ler somente com os olhos e sem o movi- mento dos lábios. contudo. mas também à capacidade de se ve- rem e se ouvirem uns aos outros. Em contextos de co-pre- sença. de verem e ouvirem as ações e os eventos que. de ler silenciosamente cada um para si. Tinham que agir cegamente. Havia um outro aspecto no qual a nova forma de publicidade se diferenciava da forma de publicidade tradicional de co-presença: ela atenuava a ligação entre a publi- cidade de uma ação ou evento e o sentido de sua percepção. a publicidade não somente se ligava ao intercâmbio dialógico dos atos da fala entre indivíduos dentro de um mesmo ambiente.ÍUma ação ou evento poderia agora adquirir um caráter pú- l. em contextos de co-presença. Algumas ações realizadas ou aconte- cimentos ocorridos em contextos de co-presença recebiam uma disponibilidade mais ampla pelo registro e descrição da imprensa. também. fenômenos públicos. As ações e os acontecimentos adquiriam assim um novo tipo de publicidade que não somente suplementava a publicidade de co-presença. Como já dissemos nos capítulos anteriores. não posso deixar também de reconhecer que nas históricas condições do início da Europa moderna estas duas formas de pu- blicidade se imbricavam de maneiras complexas.>lico para outros que não estavam presentes no lugar de sua ocorrência. a ligação entre publicidade e sentido de percepção se modificou. mas também gradualmente a transformava. mais comum ainda hoje. adquiriam um caráter público. Com o advento da imprensa. Se enfatizei a distinção entre a publicidade tradicional de co-presença e a nova forma de publicidade trazida pela imprensa. A publicidade criada pela palavra escrita se tornava acessível. os indivíduos que realizavam ações públicas ou participavam de eventos públicos não poderiam mais ver aqueles outros para os quais as ações e eventos eram. ao se realizarem diante de outros co-presentes. livros e panfletos eram lidos em voz alta para indivíduos reunidos exclusivamente para este fim. E gradualmente. e que não ·~ram capazes de vê-la ou de ouvi-~A ligação entre publicidade e visibilidade se ate- nuou: urna ação ou evento não tinham que ser literalmente presenciados pelos indi- víduos para se tomarem públicos. esta nova forma de publicidade criada pela palavra escrita foi se dissociando da inte- ração através do diálogo que caracterizava muitos contextos de recepção. ao ponto de indivíduos agindo em contextos de co-presença cada vez mais orientarem sua conduta para ou- tros que faziam parte do público leitor. o processo de recepção estava intimamente ligado às várias formas de comunicação dia- lógica. a indivíduos que não possuíam a competência necessária (a capacidade de ler) que lhes daria aces- so direto a ela. Além do mais. no sentido de percepção dos outros co-presentes. Os outros são espectadores que testemunham a ocorrência de uma ação ou evento ao ver e ou- vir que podem atestar a sua existência. enquanto as relações entre os produtores das matérias escritas e seus receptores não tinham caráter dialógico. A publicidade de uma ação ou evento baseia- se. Somente aos poucos a prática de ler em voz alta em público cedeu o lugar à prática. no sentido de que o público leitor não estava dentro de seu 116 . pois.

-. separa a pu- blicidade da partilha de lugares comuns e da comunicação dialógica característica da interação face a face. a visibilidade no estreito sentido de visão . Há um segundo aspecto no qual a forma de publicidade criada pela televisão se diferencia da tradicional publicidade de co-presençar-. porém. lordes e príncipes da Idade Média. deixas auditi~são combinadas com deixas visuais para produzir a complexa imagem audiovisual. Como a prática de leitura implicava o uso da visão. a televisão enfatiza particularmente o sentido da visão. como já acontecia com a imprensa e com outros meios. bem como a • audição de palavras faladas e de outros son:)A publicidade de eventos. não foi. . Ao renovar o nexo entre publicidade e visibilidade.a capacidade de ser visto com os olhos .! A te. - são completamente diferente do campo de visão que os indivíduos têm com outros~ tv· 117 . a nova forma de publicidade criada pela televisão é algo semelhante à publicidade tradicional de co-presença. estabelece uma nova e distinta relação entre publicidade e visibilidade. O caráter espetacular de muitos even- tos políticos mostrados na TV hoje pode aparentar uma semelhança superficial com as práticas palacianas do passado."televisão \ cl 1 cria um campo de vi. o fator de diferença é tão grande . Mas como poderíamos pensar agora sobre as formas de publicidade criadas pelos outros tipos de comunicação mediada? Como a natureza da publicidade foi transformada pelo desenvolvimento da mídia eletrônica no século XX? Tomemos a televisão: quais são as características das formas mediadas de publici- dade criadas pela TV? A televisão. ações e eventos. Mas há diferenças importantes. Mas a televisão. f\.que seria bastante ilusório sugerir que a política na era da televisão é semelhante ao tipo de prática teatral característica das cortes feudais. produzidas por meio de xilogravuras. Até agora me preocupei em identificar algumas das características das formas me- diadas de publicidade criadas pela imprensa e em distingui-las das formas tradicionais de publicidade de co-presença. levisão assim permite aos receptores a visão de pessoas. Na verdade. lito- grafias e técnicas similares. . Na idade da televi- são. para complementar a palavra impressa. totalmente eliminada: apenas projetada através do prisma da imprensa. Em primeiro lugar. embora significativamente atenuada... em contraste com as centenas ou talvez os mi- lhares que podem testemunhar um evento em contextos de co-presença . as matérias impres- sas comumente incorporavam ilustrações.imagens televisadas são hoje visíveis por milhões em escala global. A ligação entre publicidade e visibilidade.é elevada a um novo nível de significado histórico. Mas as condições sob as quais os líderes políticos hoje devem se apresentar e administrar sua visibilidade são radicalmente diferentes de qualquer coisa vivenciada pelos reis. ações e pes- r rv soas é religada à capacidade de serem vistas e ouvidas por outros. Como o cinema.o .campo de visão. em virtude da riqueza visual de suas deixas sim- bólicas. as ações e eventos visíveis na televisão são também visíveis para um número muito maior de indivíduos situados em diversos e dis- persos contextos.

não podem ser vistos. O desenvolvimento da televisão criou assim uma nova forma de publicidade. que Habermas não estava interessado na imprensa como tal. Habermas atribui. A palavra impressa. voltemos por um momento aos argumentos de Habermas sobre a emergência e a transforma- ção da esfera pública burguesa. Mesmo em grandes concentrações onde um locutor se dirige para uma au- diência de milhares. como vimos. e tem relativamente pouco controle sobre a seleção do material visível. obvi~ente. à ca- pacidade de ver e de ser visto. Para medir o significado desta confusão. por sua vez. que é também visto por eles. Sua maneira de pensar sobre a imprensa estava marcada por um modelo de comunicação baseado na palavra falada: a imprensa periódica não fazia parte de uma conversação iniciada e continuada em lugares compartilhados pela sociabilidade 118 . Ao explicar a razão do surgimento da esfera pública burguesa. É também um campo que foge completamente ao controle de seus receptores. os indivíduos são em princípio visíveis uns aos outros. nas caracterís- ticas distintivas deste meio de comunicação e nos tipos de relações sociais estabeleci- das por ele. os espectadores são visíveis ao locutor. Mas se relermos a obra de Habermas atentamente. os espectadores podem ver os indiví- duos que aparecem diante deles. penso eu. O espectador não está livre para escolher o ângulo de visão. Se nos lembrarmos das distinções entre estas várias formas de publicidade. Mas só o fato de que eles possam ver fenômenos que acontecem em contextos bastante distantes dos seus. im- plicando um tipo distinto de visibilidade. O tipo de publicidade criada pela televisão é assim caracterizada pelo contraste fundamental entre produtores e receptores no que diz respeito à visibilidade e invisibilidade. A terceira diferença diz respeito ao que poderíamos chamar de "direcionalidade" de visão. muito mais extenso em alcance. ainda que muitos dos campos de visão possam ser administrados e controlados por aqueles envolvidos na produção das mensagens televisivas. permitindo s:ds indivíduos assistirem a fenomenos que acontecem em contextos muito distantes. mas permanecem invisíveis para os últimos. desempenhou um importante papel no fortalecimento do debate entre indiví- duos privados.em seus encontros diários} O campo televisivo é. um papel impo!tante à imprensa. No caso da televisão. Nos con~extos face a face. descobriremos. poderemos evitar a confusão que nasce da tentativa de usar um único modelo de vida pública para avaliar os tipos de publicidade criadas pe- los novos meios de comunicação. contudo!"'i' direção da visão é essencialmente de sentido únic~i Os indivíduos que aparecem na tela da televisão podem ser vistos pelos recep- tores que. Ela também se diferencia em certos aspectos da forma de publicidade mediada criada pelas palavras escritas. expressa sobretu- do nos semanários de crítica moral e nos periódicos políticos do início do século XVIII. muito diferente daquele tradicional de co- presença. é algo que distingue o tipo de publicidade criada pela televisão daquele que previamente existia.

e que nos obriga a interpretar o papel sempre crescente da comunicação mediada como um histórico pecado origi- nal. E não foi somente porque as indústrias da mídia se tomaram mais comercializadas e ligadas a interesses particulares. estava bem distante do intercâmbio dialógico que acontecia entre indivíduos reunidos em clubes e cafés no início da Europa moderna8 . foi também porque o tipo de comunicação que elas criaram. mas incluindo também as mais recentes formas de comunicação eletrônica . às assembléias e aos merca- dos da Grécia Antiga. Ha- bermas interpretou o impacto dos mais novos meios de comunicação como o rádio e a televisão em termos extremamente negativos. etc. não chegaremos a uma compreensão satisfatória da natureza da vida pública no mundo moderno. são incomparáveis ao debate crítico-racional que era constitutivo da esfera pública burguesa. Habermas reconhece. "Hoje a própria conversação é adminis- trada"9. mas em relação às conversações face a face estimuladas por ela. que o rádio e a televisão criaram novas formas de conversação . Contudo. os painéis de debate. no meio original de conversação" 7 .0 fenômeno da publicidade se separou da idéia de conversação dialógica em espaços com- partilhados. Com o desenvolvimento de novos meios de comunicação . Se o enfoque desenvolvido aqui nos permite e"itar os problemas inerentes à ex- plicação de Habermas. Mas estas novas formas. Ao aderir à noção tradicional de publicidade como co-presença. no contexto do início da Europa moderna. esta não foi conceituada por Haber- mas em relação à imprensa. obviamente. Assim.começando com a imprensa. Habermas privou-se dos meios de compreensão das novas formas de publicidade criadas pela mídia: ele as vê através das lentes do modelo tradicional. ele argumenta. clubes e cafés de Paris e de Londres eram o equivalente. ele também nos dá uma perspectiva critica sobre a obra de um 119 . A esfera pública. Sua explicação da esfera pública burguesa traz a marca da concepção greco- clássica sobre a vida pública: os salões. como na Grécia Antiga. quando é justamente este modelo que foi subs- tituído 10. e o debate ativo entre cidadãos informados foi substituído pela apropriação privatizada de uma conversação realizada em nome deles. A imprensa estava tão estreitamente conectada com a vida dos clubes e ca- fés que praticamente não podia se separar dela: "Uma mesma discussão transposta para um meio diferente se prolongava a fim de reentrar. da avaliação de diferentes argumentos.burguesa. opiniões e pontos de vista. se permanecermos ligados a uma concepção de publici- dade cujo caráter é essencialmente espacial e dialógico. através da leitura. se constituía sobretu- do do discurso. enquanto a imprensa desempenhava este papel im- portante na formação da esfera pública burguesa. na qual a recepção dos produtos da mí- dia se tornou uma forma de apropriação privatizada.os programas coloquiais da TV. e ligou-se de forma cada vez mais crescente ao tipo de visibilidade produzi- da e alcançada pela mídia (especialmente a televisão). Não é dificil ver por que. com esta concepção da esfera pública em mente. num intercâmbio dialógico de palavras faladas em locais públicos e comuns.

é este. um único supervisor na torre central poderia controlar uma multiplicidade de internos sob contínua vigília.fornece uma alternativa efetiva às formas pnmitivas de exercício de poder. o hospital: estas e outras instituições empregaram de forma crescente os mecanismos mais sutis de poder baseados no treinamento. os indivíduos foram crescen- 120 . reafirmando a glória do rei através da destruição de um súdito rebelde. eles sempre se comportarão como se es- tivessem sendo observados. a escola. As celas deveriam ter duas janelas: uma para dentro. um argumento diferente sobre a organização do poder nas sociedades modernas e a mudança na re- lação entre poder e visibilidade 11 .1 Jeremy Bentham publicou um modelo de pe- nitenciária ideal. Era um regime de poder no qual uns poucos se tornavam visíveis a muitos. Além disso. a manifestação espetacular de poder cedeu lugar a novas formas de disci- plina e controle que foram se infiltrando nas diferentes esferas da vida. Este modelo . O exército. que ele chamou de Panopticon 12 • Bentham concebeu uma construção circular com uma torre de observação no centro. confinado em sua cela. é permanentemente visí- vel: cada ação pode ser vista e monitorada pelo supervisor que permanece invisível. cada uma separada das outras por outros muros. em Vigiar e punir e em outros lugares. / outro influente teórico social . As sociedades do mundo antigo e do ancim régime eram sociedades de espetáculo: o exercício do poder estava ligado à manifestação pública de força e superioridade do soberano.que ele chama de "panoptidsmo" . na disciplina. de frente para a torre de controle.de tal maneira. Mas a partir do século XVI em diante. Cada interno. por exemplo. a prisão. como os internos sabem que suas ações são sempre visíveis. mesmo que eles não sejam observados a todo momento. sucintamente desenvolvido. A propagação destes mecanismos gradualmente fez surgir um novo tipo de "sociedade disciplinar" em que a visibilidade de poucos diante de mui- tos foi substituída pela visibilidade de muitos diante de poucos. e a outra para fora. Diversamente de Habermas. Foucault considera o Panopticon não apenas uma peça engenhosa e de alguma for- ma idiossincrática da arquitetura do século XVlll. Os muros do edificio eram alinha- dos em celas. O argumento. Mas ele desenvolveu. que a execução pública numa praça de merca- do se tornava um espetáculo no qual o poder soberano se vingava.. e na qual a manifes- tação espetacular do poder soberano foi substituído pelo poder do olhar. mas um modelo generalizável de organização das relações de poder nas sociedades modernas. e no qual a visibilidade de poucos era usada como meio de exercer o poder sobre muitos . em mais e mais esferas da vida social. Em função desta estrutura arquitetônica singular. Em 179. na obser- vação e no registro.Michel Foucault. permitindo a entrada da luz. Gradualmente ele suplementou e substituiu as formas pnm11ivas de tal modo que. Eles são submetidos a um estado de permanente visibili- dade que garante o funcionamento automático do poder. Fou- cault não discutiu diretamente a natureza da mídia e seu impacto nas sociedades mo- dernas. Foucault usa uma imagem incisiva para caracterizar esta nova relação entre o po- der e visibilidade: o Panopticon.

submetendo-as a um estado de permanente visibilidadero desen- volvimento da comunicação mediada forneceu os meios pelos quais muitas pessoa51. Certamente há algumas organizações nas sociedades modernas que dependem de métodos de controle: a polícia. os militares e os serviços de segu- rança. dissociada das condições e limitações de uma interação face a face. Eles não são mais teste- munhas de um grandioso espetáculo que se desenrola diante deles. ao mesmo tempo. considerando como aqueles 121 . Enquanto este modelo torna muitas pessoas visíveis a poucos e reforça o exercício do poder sobre elas. mais do que aqueles sobre quem o poder é exercido. portanto. mas também algumas outras agências do estado e organizações par- ticulares que se preocupam com a coleta rotineira de informações.alterou profun- damente as condições sob as quais o poder político é exercido. através do exercício diário de controle. e de seus métodos de disciplina e controle que se diferenciam das formas tradicionais de castigo e con- trole social. Mas este novo tipo de visibilidade mediada é muito diferente do tipo de espetáculo que Foucault divisou no mundo antigo e no ancim régime. basta pensar no papel dos militares no desenvolvimento das novas tecnologias de comuni- cação13. é brilhantemente perspicaz. Cada vez mais os indivíduos são conduzidos a um novo sistema de poder no qual visibilidade é um meio de controle. Pois a vi- sibilidade de indivíduos e ações é agora separada da partilha de um lugar comum e.da publicidade tradicional de co-prescn- ça para as várias formas de publicidade mediada prevalecentes hoje .temente submetidos aos tipos de disciplina e controle que estavam sendo tão efetiva- mente empregados na prisão. dis- pensa a necessidade de espetáculo. A administração da visibilidade A mudança na natureza da publicidade . Além do mais. Podemos começar a desdobrar as implicações políticas desta transformação. W1S poucos podem aparecer diante de muito~raças à mídia. Mas sua sugestão de que o Panopticon fornece um modelo generalizável para o exercício de poder nas sociedades modernas é muito menos convincente. aqueles que exercem o poder é que são submetidos ag::lra a um certo tipo de visibilidade. Sua análise da prisão. Mas a importância do controle pode ser exagerada. e poderia ser muito ilu- sório atentar exclusivamente para as atividades de controle sem levar em conta as novas formas de publicidade criadas pela mídia. Ao desenvolver este argumento Foucault chamou a nossa atenção para um importante conjnnto de questões que se relacionam direta- mente com a organização social do poder. Se Foucault tivesse considerado o papel dos meios de comunicações mais cuida- dosamente. sobretudo. ele poderia ter visto que eles estabeleceram uma relação entre poder e vi- sibilidade que é bem diferente da que: está implícita no modelo do Panopticon. é claro que os meios de comunicação foram usados com objetivos de controle. podem reunir informações sobre poucos e. mas antes objetos de múltiplos e interligados olhares que.

Estas audiências consistiam principalmente de membros das elites de governo ou de indivíduos que participavam da vida social da corte eram estes indivíduos. os mais governantes poderosos raramente ou jamais foram vistos. Por isso im- peradores. a distância da figura que podia ser vista. Para a maioria dos indivíduos nas sociedades antigas e medievais. que eram de curta duração e relativamente infreqüentes. contudo. como coroações. Os habitantes das áreas rurais ou das regiões periféricas de um império ou reino raramente teriam a oportunidade de ver o imperador ou rei em carne e osso. Estas ocasiões eram motivadas por eventos pú- blicos mais importantes. Quem par- 122 . Durante os primeiros séculos da era cristã.dos súditos que ele governava. os indivíduos podiam par- ticipar rotineiramente de festivais que celebravam a existência do monarca sem nunca vê-lo pessoalmente. lordes e outros detentores poderiam concentrar seus esfor- ços na administração da própria apresentação pessoal diante daqueles com quem interagiam em situações face a face. com quem eles interagiam na rotina cotidia- na e a quem eles dirigiam suas ações públicas. Não há nada de novo na preocupação de governantes e lideres políucos em cultivar a própria imagem pessoal e controlar sua exposição ao público: a administra- ção da visibilidade é uma arte política antiga.nos salões do palácio ou nas ruas e praças da capital do reino 15 . por exemplo. O governante estava acima .pois. Mas o desenvolvimento dos meios de comunicação. ~obretudo. e sua existência era mortal e divina ao mesmo tempo 14. Mas estes cultos e festivais foram estabelecidos e rWza. na verdade. mas não ouvida ou tocada ou confrontada como a um igual: tudo facilitava para o governante a manutenção de um distancia- mento proposital de seus súditos. funerais reais ou marchas vitoriosas. nenhum impcndor visitou a Ásia Menor durante o primeiro século da era cristã 16 . os gover- nantes políticos podiam geralmente restringir a p~ópria visibilidade a círculos relati- vamente fechados da corte.dos quase sempre sem a presença do imperador . enquanto lhes permitia que o vissem temporaria- mente e celebrassem sua existência num contexto de co-presença. A pompa e a cerimônia de tais ocasiões. e festas imperiais eram ocasiões populares de celebrações. a extravagância do aparato e das circunstâncias. Visibilidade requeria co-presença: só se podia ser visível para com aqueles que partilhassem o mesmo ambiente espaço-temporal. Nas regiões periféricas. reis.ante dos outros. Exceto pelas viagens ofi- ciais. muitas aparições pú- blicas do monarca aconteciam em centros políticos . que incluíam alguns de seus súditos.tanto lite- ralmente quanto simbolicamente . mudaram as regras práticas desta arte. príncipes. e a conseqüente transformação na natureza da visibilidade. A manutenção da distância atestava o caráter sagrado do poder. Havia ocasiões em que os governantes apareciam diante de audiências maiores. Antes do desenvolvimento da imprensa e de outras formas da mídia.que exercem poder político procuram administrar a própria visi~ilidade d'. cultos ao imperador romano floresceram nas cidades da Ásia Menor.

Por asso . ca- pKJdade de se visto mm os olhos).i sao bem diferentes das que prevaleceram nos inícios da Europa moderna. onde as atividades de auto-apresentação eram circunscritas a lugares designados pua em finalidade {Louvre. por exemplo. Mas a im- prensa era também um meio pelo qual outros podiam veicular imagens e relatos que divergiam do que os governantes procuravam apresentar. mas tam- bém nos novos meios da imprensa. Produziam-se panfletos onde os monarcas eram descritos como frívolos. monumentos e tapetes. os governantes políticos tiveram de se preocupar cada vez mais com sua apresentação diante de audiências que não estavam fisicamente presentes.do que qualquer coisa que 05 lideres polmcos anienores pudessem ter enfrentado.io no tamanho das audiências receptoras das mensagens media- das. Segunda.em termos Wl~o de número quanto de alcance 1eogrifico . mas tam- bém pua aqueles que procuravam difam. Os novos meios de comunicação foram usados por eles não somente como um veiculo de promulgação de decretos oficiais. e o Mcmm Galant. Conseqüentemente. Monarcas como Luís XN da França ou Felipe IV da Espanha. e imagens satíricas circulavam largamente. Sob o reinado de Luís XN. etc. desde o início do século XIX houve uma maoça expans.io somente pua aqueles que procuravam celebrar a imagem do rei. todavia a imagem dos monarcas. arrogantes.io particularmente imponantes. Três dife- renças s.. alcançaram extensa disponibilidade através da imprensa. periódicos como a Gmttc de Francc. o desenvolvimento da lelevt- sio rttnfauzou a unponãncia da visibilidade no sentido estreito de YlsJo (isto é. n_ias as condições sociopolíticas da administração da visibilidade neste século XX j. inescrupulosos e injus- tos. Com o desenvolvimento dos novos meios de comunicação. mas dificilmente veria o imperador em pessoa. Versailles. Primeira.i aparencia YilUI) dos líderes poliú- IU . A imprensa proporcionou um alcance extra n. embora a Yisabilidade esctja agora separada do computillwnmro de um lusar comum. os interessados no controle da visibilidade agora têm que compeur com uma variedade de receptores extremamente muito maior . foram bem versados na arte de cultivar a própria imagem 17 . e talvez uns poucos delegados das cidades vizinhas. como as formas ini- ciais da imprensa.i-la. Ao longo dos séculos XIX e XX. publicada duas vezes por semana. Hi algumas seme- lhanças com os tipos de estratégias empregadas pelos governantes como Luís XIV. e os relatos de suas atividades. Suas imagens forall) cultivadas e celebradas não somente nos meios tradicionais. gravações em vários me- tais. incluindo xilogravuras. dedicaram espaço regular pua as atividades do rei 11 • Embora as monarquias dos inícios da era moderna fossem principalmente sociedades centradas na cone.ticipasse de uma festa provincial poderia ver uma variedade de sacerdotes locais e dignitários vestidos de púrpura. publicação mensal.). a tarefa de administrar a visibilidade dos lideres políticos através da mídia assumiu uma imponãncia ainda maior. esculturas. panfletos e periódicos. mas também como um meio de projetar uma imagem pessoal que poderia alcançar os súditos nos lugares mais distantes. como pinturas.

. é um im- perativo para os líderes políticos e os aspirantes à vida política. políticos de sociedades líbero-dernocratas não têm outra escolha senão a de se submeterem à lei da visibilidade cornpulsórJ~j Renunciar à administração da visibilidade através da mídia seria um ato de suicídio político ou urna expressão de má-fé de quem foi tão acostumado à arte da auto-apre- sentação. A administração da visibilidade através da rrúdia é urna atividade perseguida não somente nos períodos intensivos de campanhas eleitorais. Depois de perder a eleição de 1960 para Kennedy. a televisão permite que os indivíduos apareçam "ao vivo" diante de audiências distantes.torna-se um aspecto importante de sua auto-apresentação diante de audiências remotas em espaço e que podem ver sem se deixarem ver. A condução de um governo exige um conúnuo processo de IH . enquanto ao mesmo tempo o protegiam dos da- nos causados por urna excessiva exposição às entrevistas jornalísticas. foi pouco a pouco suplantado pela televisão.cos . mais ~e urna opção. onde partidos políticos organizados competem em intervalos regulares. Urna terceira diferença importante diz respeito ao desenvolvimento relativamente autônomo dos sistemas políticos que em muitas sociedades ocidentais assumiram cada vez mais a forma de democracias liberais. partidos e governos variam grandemente. nesta segunda me- tade do século XX. e de acordo com certas regras. de se portar. e cujo apoio é vitalrnente requerido de tempo em tempo. as estratégias empregadas por políticos. um papel que. ela faz pane também da própria ane de governar. iNas condições sociopolí- ticas deste último período do século XX. Enquanto a administração da visibilidade através da mídia é um aspecto inevitá- vel da política moderna.o modo de se vestir. ou foi tão bem colocado numa organização que praticou a arte do bom re- sultado. de se apresentar. Hoje a cuidadosa apre- sentação pessoal diante dos outros cuja fidelidade deve ser constantemente sustentada. que pode dispensá-la. durante a qual se saíra muito mal num debate televisivo muito discutido. eles conseguiram transmitir urna imagem de Nixon como um líder estadista procurando se comunicar com o povo. etc. Nixon decidiu que não tinha outra alternativa senão a de usar a televi- são corno meio de criar urna nova imagem e apresentá-la ao eleitorado. para garantir urna proporção suficiente de votos populares que os instalem no poder. Ele concorreu às eleições de 1968 assessorado por urna equipe de técrticos de comunicação que conhe- ciam muito bem as técrticas de propaganda e estavam bem sintonizados com o uso polí- tico da televisão 19 • Através de spots comerciais e painéis de debates cuidadosamente preparados. a imprensa teve um papel importante como um fórum principal dentro do qual esta competição se realizava. Nixon foi um dos primeiros candidatos presidenciais america- nos a tentar sistematicamente usar a televisão em vantagem própria. Além do mais. elevando assim o grau de vigilân- cia e de monitorização reflexiva requeridas pelos líderes políticos e por aqueles a quem confiaram a administração de sua visibilidade. Desde os primeiros sistemas democráticos modernos.

procuraram cultivar uma re- lação simbiótica com a mídia. simplistas ou sim- plesmente incorretas.tomada de decisões sobre o que. Gergen e seus colegas. num horário mm no- bre e de maior audiência.Michael Deaver e David Gergen . por exemplo. Por um lado. mas você tem muitos outros que podem vir à frente para receber as críticas quando as notícias são ruins. eles continuaram a ofensiva e aumentaram as oponunidades para Reagan apatt- cer diante dos espectadores televisivos. Larry Speakes. "O problema da gafe ia diretamente à questão da competência". Gergen inventou a "teoria do pára-raios" da re- lação entre o presidente e a imprensa: você só tem um presidente e ele deve ser man- tido longe do prejuízo. Esta tendência ameaçou ruir a tentativa de apresenw Reagan como um líder determinado e bem sucedido. a equipe de Deaver-Gergen montou urna estratégia de duas forças. a quem e como se pode tornar público. oferecendo às redes de televisão farta programação de oportunidades para fotos e fatos que iriam encher seus horários de transmissão. Enquanto tentavam satisfazer a demanda por novos fatos e fotos. algumas das estratégias típicas da administraçio Reagan durante os inícios dos anos 80 20 . explicou Gergen. responsáveis pela administração da relação entre o governo e a mí- dia. A tarefa de tomar e executar estas decisões pode ser confiada em parte a uma equipe especializa- da de assessores. no caso Watergate. ponanto. "Se você retratasse Reagan como desleal e incompetente. reforçaram o controle em tomo do presi- 125 . a equipe de Deaver-Gergen também procurava controlar rigorosamente o acesso ao presidente e mantê-lo distante da linha de frente. Há uma outra razão por que Deaver e Gergen julgaram imponante manter Rea- gan afastado da linha de frente: eles se preocupavam com o "problema da gafe". Deaver e Gergen concentraram seus esforços em projetar positivas imagens do presidente e em cultivar relações amistosas com a imprensa através da ex- posição de outros. Reagan tinha a desconcertante tendência de fazer declarações mal informadas. Gergen trabalhara para Nixon e tinha visto como. você certamente estaria em maus lençóis" 22 • Para desarmar este pro- blema. Deaver. Como Gergen observou: "Um dos as- pectos mais destrutivos da administração Carter é que ela o deixou sempre à frente como alvo de tudo! Muito da nossa estratégia tem a ver com a preocupação de não deixar o presidente exposto a perguntas todos os dias". 21 Por isso o número de entre- vistas à imprensa foi reduzido e o presidente foi sempre mantido a uma boa distância dos repórteres.estavam convencidos da imponância política da televisão e da necessidade de administrar continuamente a relação com a imprensa. Considere-se. como o porta-voz da Casa Branca. Co- locado diante de repórteres e obrigado a responder a questões ao vivo.0s principais arquitetos das relações públicas de Reagan . Assim eles transferiram as entrevistas coletivas da tarde para a noite. que tinha a in- cumbência de responder às questões mais incômodas. Por outro lado. um enfoque beligerante e reservado podia produzir um resultado catastroficamente opos- to ao desejado. na suposição de que seu charme pessoal con- trabalançaria os riscos associados à sua incompetência e aos erros concretos.

Hertsgaard descreve isto como uma "forma sutil de cumplicidade da mídia" que fez dos jornalistas porta-vozes sem sentido crítico da administração Reagan 23 . na era moderna da televisão.11mdo a fazer algum comentário sem 0 auxílio dos microfones de ouvido. em contextos espaciais (e quem sabe tam- bém temporais) muito remotos. me- nos eles a podem controlar. Enquanto a observação de Hertsgaard pode ser um tanto exagerada. o fenômeno da visibilidade pode escapar de suas rédeas e.especialmente da- queles situados. mas que finalmente rendeu algum sucesso. Gergen e seus colegas para conquistar as novas organizações e conservá-las do pró- prio lado. numa escala e intensidade que nunca existiram antes. controlando cuidadosamente o acesso e a autocensura das novas organizações que têm algo a ganhar na adoção de uma atitude conciliatória. Na prima.·cra de 1982. o sucesso estratégico das relações públicas da administração Reagan dependeu da manutenção de relações amistosas com as principais instituições da mídia. escândalos e outras fontes de problemas Até agora me preocupei em analisar como os indivíduos empregam os meios de comunicação para administrar sua visibilidade diante de outros . dada a natureza da mídia. Esforços especiais foram feitos por Deaver.dente e tentaram limitar as ocasiões em que ele poderia ser cl1. possibilitando aos líderes políticos uma exposição pública diante de seus reais ou potenciais eleitores. 126 . Daí que a visibilidade criada pela mídia pode se tornar uma fonte de um novo tipo de fragilidade. Além disso. Mais os líderes políticos procuram administrar sua visibilidade. Que este tipo de acolhedo- ra colaboração entre os administradores da visibilidade e os fornecedores de notícias represente menos do que se poderia legitimamente esperar das organizações da mídia numa sociedade democrática é uma consideração a que pretendo ainda voltar. as mensagens produzidas por líderes políticos podem ser recebidas e entendidas de maneiras que não se podem monitorar ou controlar direta- mente. Deaver tentou evitar que os repórteres fizessem perguntas durante ~s _sessões de fotos.U arena mediada da política moderna está aberta e aces- sÍ»ei de iima forma que as assembléias tradicionais e as cortes nunca conheceram. nas sociedades onde a mídia não está sob o controle direto do estado. pode funcionar contra eles. Os limites do controle: Gafes. Embora tenha havido confrontos ocasionais. Mas a visibilidade mediada é uma faca de dois gumes. uma restrição que foi inicialmente denunciada pelas redes de telev1sao. ~ os novos meios de comunicação criaram novas oportunidades para a administração da visibilidade. ocasionalmente. confiando menos na aberta censura do que na mútua cooperação. eles também trouxeram novos ri~co. a tarefa de administrar a visibilidade de líderes políticos é geralmente realizada por meios indiretos. ele certamente está certo em enfatizar que. através de um contínuo fluxo de imagens vivas e interessantes histórias. por exemplo.

de suas ações ou expressões. (Gafes e acessos explosivos estão entre as fontes mais comuns de problemas para líderes políticouRepresentam o fracasso do indivíduo em controlar completamente o próprio comportamento. pois um ato indiscreto ou uma observação inconseqüente podem. Po- demos explorar estas questões um pouco mais focalizando algumas das diferentes fontes de problemas. o Presidente Ford deixou transparecer visivelmente sua não familiaridade com a comida mexicana quando. quanto para as carreiras daqueles que tiveram a infelicidade de as protagonizar. A incapacidade de controlar o fenômeno da visibilidade completamente é uma fonte permanente de problemas para os líderes políticos. através dos meios eletrônicos de comunicação (e especialmente da televisão). mas a possibilidade de que sejam. numa visita a San Antonio. Quando as câmeras televisivas foca- lizaram-lhe a boca. tais manifestações podem ter conseqüências tanto para as ações de outros distantes. e não são também mutuamente exclusivos: em certas circunstâncias eles podem se sobrepor uns aos outros. Obviamente. Mas Reagan. gravados ao vivo. de seus sentimentos. se forem gravadas e transmitidas a milhões de espectadores. quiçá um líder político mais propenso a gafes do que outros. Em 19 76 durante a campanha pelas primárias. gafes e aces- sos explosivos ocorrem com mais freqüência em contextos diários de interação social. Já comentei a tendência de Reagan para este tipo de ocorrência e o trabalho. Estes quatro tipos não abrangem uma lista exaustiva de fontes de problemas. ter desastrosas conseqüências. ele começou a comer o tamale. Além disso. não foi absolutamente singular a este respeito. A gafe foi tra~s~itida para todo o país nos noticiários de maior audiência e figurou na pnme1ra pagma de muitos jornais25 • 127 . e não há dúvida de que eram bastante comuns nos círculos das elites de gover- no em tempos passados. Por isso gafes e acessos explosivos se tornam públicas manifestações de incompetência e falta de controle. Distinguirei quatro tipos de ocorrências com seus respectivos exemplos: a gafe e o acesso explosivo. o vazamen- to. e revelam que ele não possui um completo domínio da si- tuação. podemos começar a explorar uma série de fenômenos que ainda devem ser analisados de um modo sistemático e profundo 24 . lhe serviram tamales quentes. mas o ato simbólico foi abortado imediatamente porque ele não removeu a palha de milho em que se enrola 0 tamale. e o escândalo. como quando um vazamento abre caminho para um escândalo. bem sucedido. e repetidos tantas vezes para círculos de audiências sempre crescentes. Novo hoje não é a ocorrência de gafes e acessos explosivos. Texas. transmitidos para milhões de especta- dores. de seus administradores de RP para limitar as conseqüências negativas des- tas manifestações públicas de incompetência. o desempenho de efeito contrário. Mas ao distinguir estes quatro tipos de ocorrências e analisar algumas das condições e conseqüências de cada um. Eles devem se policiar conti- nuamente e empregar um alto grau de reflexividade para monitorar suas ações e ex- pressões.

o indivíduo pode estar em completo controle de si mes- mo. Muskie apareceu diante da sede do Manchester Union Leader em 26 de fevereiro. Muitos lí- deres políticos são capazes de neutralizar os seus efeitos. As condições do desempenho de efeito contrário são um tanto diferentes das que ocorrem em gafes e acessos explosivos. Foi acusado de fraqueza e de excessiva emotividade pelo Partido Republicano. so- freu dano irreparável depois de seus infelizes comentários sobre ovos 28 . mas antes de uma apressada avaliação de como suas ações poderiam ser recebidas e entendidas pelas pessoas que as vêem ou as ouvem.\Gafes acontecem quando os líderes não estão em comando da situação em que se encontram ou da matéria que eles estão tratando. incluindo a sua tentativa muito discutida de corrigir a grafia da palavra 'potato(e)' 27 . O problema não provém de sua incompetência ou da falta de controle. Como resultado deste equívoco. Muskie chamou o editor do jornal de "mentiroso" e "covarde" e em seguida. como os receptores não estão fisica- mente presentes ao lugar de produção.especialmente aquelas com menor alcance político e menos experiência - podem ter dificuldade em superar ·as imagens negativas de gafes muito difundidas pela mídia. pois não pode valer-se do tipo de feedback que poderia atenuar suas conseqüências negativas. Um exemplo mar- cante disto foi a tentativa de Saddam Hussein. acaba produzindo justamente um efeito contrário. sua voz ficou embargada e ele irrompeu em lágri- mas. Em 24 de agosto de 1990 128 . Liderando as pesquisas para ganhai a candidatura presidencial pelo Partido Democrata em 1972. Secretária Júnior da Saúde do governo de Margaret Thatcher. O acesso explosivo foi gravado e transmitido muitas vezes pela televisão. Este risco se torna ainda maior quando há divergências de interesses. Além disso. Gafes e acessos explosivos nem sempre têm conseqüências destrutivas. Se gafes entre líderes políticos são bastante comuns. No caso de um desempenho que produz um efeito contrário ao desejado. acessos explosivos nem tan- to. preparando-se para a Guerra do Golfo. e sua cam- panha perdeu rapidamente a velocidade adquirida 26 . o produtor da mensagem é geralmente inca- paz de monitorar as respostas daqueles e ajustar o seu desempenho a elas. a mensa- gem destinada a produzir um certo efeito. E parece também bem provável que a carreira política de Edwina Currie. ao ler a manchete do ataque à sua esposa. acessos explosivos acontecem quando eles perdem o controle de si mesm® O exemplo do Senador Edward Muskie é bem conhecido. Mas outras figuras políticas . para condenar um ataque perverso que o jornal tinha feito contra sua esposa. atingindo seu produtor. em condições meteorológicas próximas de uma tempestade de neve. A imagem do ex-vice-presidente Dan Quayle foi completamente prejudi- cada por uma série de gafes. de usar a televisão para mostrar ao Ocidente que os estrangeiros detidos no Iraque es- tavam sendo bem tratados de maneira cortês e hospitaleira. valores e crenças entre o produtor da mensagem e os principais receptores. e alguns (como Reagan) po- dem ter assessoria especializada na prática de limitar-lhes os danos.

e elogiou-lhes o esforço para preve- nir a guerra.. se J'ir identifica. ele acariciou as crianças.Saddam Hussein encenou uma entrevista coletiva à imprensa com um grupo de re- féns britânicos e seus filhos.Mas os riscos são aceitos corno parte do preço a pagar para tornar público algo que. compromete ou prejudica potencialmente a imagem que o indivíduo deseja projetar. O termo conserva esta conotação ainda boje. Vazamentos e ~cândalos são normalmente acom- panhados por medidas defensivas destinadas a lirriitar os prejuízos que poderiam ser causados por revelações incontroladas de informação delicada ou conduta privada. Embora o uso original do tenno freqüentemente tivesse uma conotação religiosa (conduta que era uma ofensa a sensibilidades ttligiosas). Com a intenção aparente de tranqüilizar os espectadores no Ocidente e pressionar os governos ocidentais a desistir de ações militares. o termo foi adquirindo uma conotação mais genérica e um senti- do de indignação ou ultraje moral. Consideremos agora dois tipos de ocorrên~.isto é. ao se tornar visível desta maneira. e que hoje têm grande repercussão. sérias sanções lhe serão impostas.é repentinamente exposta ao domínio público. tornando-se visível a um grande número de receptores. ou o rumo da ação que ele tencionava seguir. A informa- ção ou conduta é geralmente tal que. deveria ser do domínio públic~O vazamento neste sentido é diferente da informa- ção oficiosa veiculada por urna agência do governo: este tipo de revelação é menos um vazamento do que um estratagema usado pelo governo oficial para administtar as fronteiras entre o visível e o invisível. porém. mas escândalos podem surgir de outras maneiras. "Escândalo" é um termo muito comum e largamente usado desde o século XVI.(Tanto o escândalo quanto o vazamen-r'"'- to podem ser entendidos com uma falha no esforço de administrar a relação entre a'. perguntou-lhes se estavam tendo comida e exerócios suficientes. mas os escindalos que ~ surgem na esfera política.o vazamento e o escândalo .! do(a) como a fonte do vazamento. são geralmente aqueles \v 129 . gradualmente. na sua opinião. Comportamento escandaloso era aquele que produzia desgraça ou ofendia o sentido de decência. a entrevista foi vista por muitos na Inglaterra e outros lugares como uma vergonhosa manipulação de es- trangeiros reunidos a contragosto. e sabe também que. Ele ou ela sabe 1 que sua ação vai causar problemas para outros. mas as condições sob as quais as atividades escandalosas acontecem mudaram em catos aspectos~cândalos podem ocorrer em muitas esferas da vida. região frontal e o comportamento de fun~\ informação ou conduta que os indiví- duos querem negar ou esconder .que são bem diferentes daquelas descritas até aqui. reservar para as regiões de fundo do com- portamento privado ou das atividades encobertas . Vazamentos podem provocar escândalos ou contribuir para a sua formação. \o fenômeno do vazamento é mais r~strito em alcance do que o do escândal~ Um vazamento é uma revelação intencional de informação por alguém de dentro que ( decide tornar público algo que sabe reservado para a região de fundo. Em trajes civis.

são denunciadas. Por isso o que conta como escândalo. não é muito incomum que indivíduos envolvidos em operações secretas desenvolvam meios para limitar os pre- 130 . O segredo da atividade é essencial para a sua existência: se os indivíduos res- ponsáveis por ela tivessem declarado suas intenções. ao se tornar visível. provoca o tipo de indignação pública que constitui o escândalo. a revelação pública. Estes escândalos surgem quando atividades até então mantidas em segredo ou escondidas. No caso de escândalos que ameaçam enfraquecer o apoio a líderes políticos ou governos. para circunscrever a fonte de problemas. Escândalos geralmente pressupõem conjuntos de normas ou expectativas que são transgredidas pelas atividades em questão.não somente os escândalos como Watergate e o caso Irã-Contras. mas também os escândalos menores que surgem com grande freqüência na imprensa . ex- pondo sua esposa e família a penosas conseqüências. Na verdade. E~cindalo é um ris- co profissional da política na era da visibilidade mediad:.podem ser parcialmente entendidos em termos de deslocamento de fronteiras entre o público e o privado 29 . e como extensão do prejuízo que ele provoca num in- divíduo ou numa adminbtração. A revelação de que o ex- chefe partidário de Thatcher era o homem que tinha engravidado sua secretária. dificilmente poderia ser consi- derada. entre os quais o caráter sagrado da família nuclear era considerado como supremo.ligados a falhas na administração da visibilidade através da mídia. e que só deveriam continuar em tais condições. Estes exercícios de limita- ção das conseqüências negativas dos escândalos fazem parte integral da administração da visibilidade: são as respostas normais de indivíduos e organizações cujas estratégias de administração da visibilidade entraram em colapso. para reduzir seus efeitos devastadores e preve- nir funcionários do alto P. Além disso. de uma até então secreta ou dissimulada atividade é constitutiva do seu caráter de escândalo.scalão de se envolverem no negócio. certamente não teriam podido continuar a executar o planejado. são repentinamente reveladas e publicadas através da mídia. naquele contexto. Esta revelação torna visível uma atividade que não poderia ter sido conduzida abertamente e que. e à carreira política de Parkinson em particular. foi o fato de que ela ocorreu quando Margaret Thatcher e seus companheiros tentavam construir um programa político sobre o tema da restauração dos valores tradicionais. senão como uma hipocrisia escandalosa 30 .:__\ Os escândalos que recebem mais atenção hoje . e uma vez reveladas. esforços são geralmente realizados logo que o escândalo começa a vazar. Es- tas normas e expectativas variam de um contexto sócio-histórico para outro. vai depender das normas e expectativas predomi- nantes: suborno e desvio de fundos entre funcionários do governo ou aventuras extraconjugais entre membros da elite política não têm o mesmo significado em to- dos os lugares e em todos os tempos. normalmente atra- vés da mídia. O que tornou a revelação da aventura de Cecil Parkinson com sua secretária tão prejudicial ~o governo do Partido Conservador em geral.

eles sabem que correm o risco de que eles. é cada vez mais dificil para os líderes políticos (e para suas equipes de RP) controlar a visibilidade de ações e dos acontecimentos que eles protagonizam. ou a de suas particulares ações ou eventos. o advento da visibi- lidade mediada pode tomar mais dificil o exercício do poder político de forma secreta. no caso Irã-Contras. com a crescente proliferação dos meios de produção e de trans- missão de mensagens mediadas. e a vulnerabilidade aos riscos que provêm do caráter ambíguo da visibilidade mediad:jUma das razões por que é tão dificil contro- lar o fenômeno da visibilidade mediada é a total proliferação dos meios de produção e de transmissão das mensagens mediadas no mundo hoje. líderes políticos 131 . por baixo dos panos. É verdade que os meios e de produção transmissão são organizados de certas maneiras e que há um signifi- cante grau de concentração nas indústrias da mídia. o incontrolável caráter da visibilidade mediada também revela um novo tipo de fragilidade da esfera política. como já vimos. sob certas condições institucionais. e garantir que permanecerão invisíveis ou acessíveis apenas em maneiras cuidadosamente predeterminadas.juízos na eventualidade de serem descobertas. É para eles cada vez mais dificil estender uma cortina de segredo sobre si mesmos e sobre suas atividades. Por um lado. O exercício do po- der político hoje acontece numa arena que está sempre e permanentemente aberta à vi- são. Mas estas considerações não nos podem es- conder o fato de que. o desempenho de efeito contrário. Oliver North adllÚtiu que o Diretor da CIA. William Casey. ele deve tomar o exercício do poder político mais aberto e responsável diante dos eleitores. Nós temos ainda que entender o significado completo e as conseqüências de lon- go alcance destes aspectos da visibilidade mediada. Por mais que os líderes políticos tentem restringir a própria visibilidade. o vazamento e o escândalo: são ocorrências que indicam a dificuldade de controlar completamente a própria visibilidade através da mídia. Em seu testemunho diante da collÚssão de inquérito da Câmara e do Senado. o Almirante John Poindexter. por exemplo. Governos golpeados por escândalos. por outro lado. às escondidas. sejam mostrados e vistos de ma- neiras não previstas. ou suas ações ou eventos pelos quais são responsáveis. Por isso. e portanto eles devem contar com a permanente possibilidade de uma visibilidade incontrolada. por sua vez. disse aos membros da comissão que ele tinha procurado fornecer ao presidente "futuras razões de desco- nhecimento" da operação Irã-Contras. f'í'r'gafe e o acesso explosivo. poderia ser chamado a substituí-lo na IlÚra da imprensa (31). Mas. o tinha informado de que ele provavehnente não era suficientemente graduado no escalão do governo para receber a culpa e que seu superior. Isto deve ter acontecido. É também verda- de que muitas organizações da mídia são muito menos inquiridoras e menos interessadas do lado oculto da vida política do que alguns campeões dos últimos dias da imprensa livre gostariam de sugerir. Se Reagan sabia ou não das operações é irrele- vante para o fato de que os envolvidos nelas tinham julgado inteiramente importante isolar o presidente. caso elas fossem descobertas. Poindexter.

transmissão. O exercício do poder político se submete assim a um tipo de escrutínio global que simples- mente não existia antes. escapou dos controles impostos pelo comando militar dos aliados). eventos testemunhados simultaneamen- te (isto é. África do Sul ou nos territórios palestinos ocupados são ações que acontecem num novo tipo de arena global mediada: elas são visíveis. de algumas reporta- gens da equipe da CNN que permaneceu em Bagdá e que. Mas se quisermos entender todo o significado deste fenô- meno. como no caso da China depois do massacre da Praça Tiananmen. quiçá. as condições que pouco a pouco vão enfraquecendo os governos e paralisando as atividades políticas. devemos situá-lo num contexto mais amplo.lutando para reduzir os prejuízos causados por vazamentos e revelações de virios ti- pos: estas não são as condições sob as quais uma decisiva liderança política pode proma- mente se mostrar. Mesmo nos casos onde se tenta restringir a visibilidade (como na Guerra do Golfo). ações políticas com- portam riscos anteriormente inexistentes e podem expor um regime à condenação internacional e ao isolamento econômico e político. que constituem parte da atividade de rotina destas organizações. Que é escrutínio global? Uso este termo para me referir ao regime de visibilidade criado por um crescente sistema de comunicações globalizado no qual a televisão de- sempenha um papel central. eles não são livres para olhar nesta ou naquela direção e para focalizar diferentes indivíduos ou objetos. sem que eles mesmos sejam vistos). como seriam nas si- tuações face a face. Elas são. As possíveis conseqüências da visibilidade mediada são certamente importantes e não precisam de mais estudo. pelo contririo.ü exercício do poder político hoje é cada vez mais transparente. reportagem.:\ Dada a possibilidade de tal escruúnio. apesar da censµra iraquiana. como e quando eles acontecem). O campo de visão é estruturado pelas organiuções da mídia e pe- los processos de filmagem. edição. É óbvio que os receptores não detêm o completo controle do próprio campo de visão. não somente na esfera da política doméstica mas também em escala global~ Ações como as intervenções militares no Golfo ou a repressão das demons- trações na ·china. e que podem alimentar a suspeição e o cinismo que muitas pessoas sentem hoje com relação aos políticos e às instituições políticas estabelecidas. Mas a criação de campos globais de 132 . Os receptores se tornam assim testemunhas de eventos que acontecem em lugares distantes. ou do Iraque depois da invasão do Kuwait. for- necer férteis razões para o crescimento de um novo tipo de demagogia: a repentina ascensão ao poder de uma figura aparentemente intocada pelos escândalos e pelas sombrias transações de políticos fisiológicos. Elas são também condições que poderiam. por exemplo.. há sempre a possibilidade de que as imagens sejam transmitidas e os eventos se- jam retratados em diferentes luzes (como foi o caso. e os vejam de um modo não recíproco (isto é. Este sistema permite que os receptores vejam indivíduos situados em outras partes do mundo. observáveis e teste- munhadas simultaneamente e repetidamente por milhões de espectadores ao redor do mundo. etc. e cujo apelo se enraíza em parte num penetrante sentido de descontentamento e de desconfiança.

não somente para os líderes políticos que devem agora atuar numa arena.fvC\Ç A/VO~ 133 .-'J/Of<JJ z . Num próximo capítulo iremos explor~· as implicações deste desenvolvimento na natureza da experiência pessoal.A ~ J-1 i-' 1' ' e I T€.v:. representa um significativo desenvolvimento histórico.i.A. Mas primeiro examinemos mais atentamente o processo de globalização que criou estes novos campos de visão. embora estruturados. mas também para os receptores que agora são capazes de ver e experimentar ações e eventos como nunca foi possível anteriormente. e i)r.J ) r .(: ÇÇQ tJ/)Q JC /" . aberta em escala global._..visão.. 1 . em prind- pio.

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"globalização" não parece se distinguir muito de expressões como "internacionalização" e "transnacionalização". • se pode falar de glo- balização neste sentido quando a crescente interconexão de 1 erentes regiões e luga- res se torna sistemática e recíproca num certo grau. pois é usado de diversas maneiras na litera- tura 1.\GJobalização surge somente quando (a) atividades acontecem numa arena que é glo- bal ou quase isso (e não apenas regional. Distâncias foram eclipsadas pela proliferação de redes de comunicação eletrônica. Além disso. termos usados indis- tintamente na literat~ Mas enquanto estas várias noções se referem a fenômenos que se conectam estreitamente. :Mensagens são transmitidas através de grandes distâncias com relativa facilidade. como será entendido aqui. Definido desta maneira. O termo não é preciso. envolve mais do que a expansão de atividades além das fronteiras de estados nacionais particula- res.No sentido mais geral. ou podem agir dentro de estruturas de quase-interação mediada. s) AGlobalização da Comunicação Íum dos aspectos mais salientes da comunicação no mundo moderno é que ela acontece numa escala cada vez mais global. com a sepa- ração entre o espaço e o tempo trazida pelos meios eletrônicos.·vi ades locais situadas em diferentes partes do mundo sejam modeladas umas pelas outr . de modo a permitir que at. e (c) atividades envolvem algum grau de l\ V reciprocidade e interdependência. ele se refere à crescente interconexão entre as diferentes partes do mundo. o processo de globalização. o acesso às mensa- gens provenientes das mais remotas fontes no espaço pode ser instantâneo ou virtualmente instantâneo. e somente quando o alcance da interconexão é efetivamente global. (b) atividades são organizadas. de tal maneira que indivíduos têm acesso à informação e comunicação provenientes de fontes distantes. mesmo que estejam situados. em termos de contextos práticos da vida cotidiana. em diferentes partes do mundo. Estes processos são comumente descritos hoje como ~obalizai. 135 . . planejadas ou coordenadas numa escala global. -. Indivíduos podem interagir uns com os outros. por exemplo). um processo que deu origem às formas complexas de interação e in- terdependência.ão". A reordenação do espaço e do tempo provocada pelo desenvolvimento da mídia faz parte de um conjunto mais amplo de processos que transformaram (e ainda estão transformando) o mundo moderno.

O desenvolvimento do sistema global foi espo- rádico e desigual. criando um efeito recíproco e mutável de formas de poder. O destino das nações centrais flu- tuava: inicialmente a Inglaterra detinha a liderança. Quando ela começou? Como se desenvolveu? Que formas a. coercitivo e simbólico . era pequeno em volume e restrito a urna pequena fração da população. As nações centrais importavam matéria-prima das colônias e exportavam bens manufaturados para todo o mundo.incluindo Espanha. o volume e a expansão geográfica do comércio cresceram dramaticamente. descobre-se que estas várias formas de poder se sobrepõem urnas às outras em maneiras complexas. Alemanha e Japão.também contri- buíram para ele e foram afetadas por ele. Enquanto as origens da globalização podem remontar à expansão do mercantilis- mo ao longo dos séculos XV e XVI. Se se reconstitui o processo de globalização. o processo de globalização é um aspecto distintivo do mundo moderno. A consolidação do poder colonial associada ao desenvolvimento da in- dustrialização criaram um novo modelo de comércio mundial baseado na emergente divisão internacional do trabalho. mas foi depois superada pelos Es- tados Unidos. Não resta dúvida de que a organização da atividade econômica e a concentração do poder econômico tiveram um papel fundamental no processo de globalização. refletiu flutuações na atividade econômica e fundamentais assime- trias na distribuição de poder. e que tem se intensificado significativamente nas últimas décadas. o comércio de longa distância que existia. contudo. quase todo o intercãmbio comercial ~ um caráter local. (êomeçarei remontando às origens da globalização na esfera da comunicação.formou o núcleo de urna emergente economia mundial. e um pequeno grupo de nações marítimas européias . Neste capítulo focalizarei principalmente a organização social do poder simbólico: como ela contribuiu para o processo de globalização e como foi tra:ilsforrnada por ele. Relações comerciais regulares foram estabelecidas entre a Europa e outras partes do mundo. Isto implicará necessariamen- te também alguma discussão sobre o poder econômico. político.s características estruturadas dos processos globalizados de comunicação no mundo hoje~arninarei então o legado do que provavelmente é a 136 . Holanda e Ingla- terra . Mas todas as formas de poder .econômico. Entendido neste sentido. enquanto as regiões periféricas se tornaram cada vez mais dependentes dos mais poderosos estados coloniais. Mas globalização não é absolutamente um fenômeno novo. a nature- za. Suas origens remontam à expan- são do comércio no último período da Idade Média e início do período moderno 1 . Ao longo dos séculos XV e XVI. como o das especiarias e da seda. A produção indus- trial tornou-se sempre mais importante como urna fonte de poder econômico e polí- tico para as nações centrais.ssurni~a segunda se- ção analisarei algumas da. algumas vezes colaborando e outras vezes conflitando urnas com as outras. foi nos séculos XVII. Antes disso. político e coercitivo. XVIII e XIX que o processo de globalização gradualmente se firmou e adquiriu muitas das características que ain- da tem hoje.

.. Foi no século XIX. com o desenvolvimento de relações comerciais com outras partes do mundo. conseguiu . Com o desenvolvin:iento da imprensa no século XV. O sistema inventa. Isto se deveu em parte ao desenvolvimento de novas tecnologias destinadas a dissociar a comunicação do transporte fisico das mensagens_:_~as foi também ligado diretamente a considerações econômicas. que usava o sistema 'dot-dash' (ponto-traço) para transmissão de mensagens. Mu o sistema de Morse. panfletos e outros impressos circulavam bem além de seus locais de produção. li- vros.ir""o meio de comunicação que explorou com sucesso o potencial comunicativo da eletricidadel Experiências com as primeiras formas de telé- grafo surgiram no final do século xVíI e princípio do século XIX. Em 1843 ele construiu a primeira linha de telégrafo 137 ..a teoria do imperialismo cultur~a seção final desenvolverei uma visão alternativa que. que as redes de comunicação foram organi- zadas sistematicamente em escala global. e em 18 3 7 sistemas utilizáveis foram desenvolvidos por Coolte e Wheatstone na Inglaterra e Morse nos Estados Unidos. salienta a interface complexa e criativa entre a difusão globalizada dos produ. Vimos que elaboradas redes de comunicação postal foram estabelecidas pelas autoridades políticas no Império Romano e pelas elites políticas.\. teve mais sucesso. freqüentemente atravessando as fronteiras dos ·estados nacionais emergentes. Em 1831 Jo- seph Henry de Albany. zação se firmou.transmitir sinais num circuito de uma milha. que a globali. portanto. &ami- narei os inícios da globalização da comunicação destacando três desenvolvirnentos- chave no final do século XIX e princípio do século XX: ( 1) o desenvolvimento dos sistemas de cabos submarinos pelas potências imperiais européias. canais de comunicação foram estabelecidos entre as potências da Europa e aquelas re- giões do mundo atraídas cada vez mais para as esferas da expansão colonial européia.l · tos da mídia e a sua localizada apropriaçã~ A emergência das redes de comunicação global A prática de transmitir mensagens através de extensas faixas de espaço não é nova. porém. eclesiásticas e co- merciais na Europa Medieval. políticas e militares. Além disso. New York. e (3) a formação de organizações internacionais interessadas na distribui- ção do espectro eletromagnético-j \ 1) O telégrafo foi o prim. que usava agulhas que poderiam ser lidas visualmente. (2) o estabeleci- mento de novas agências internacionais e a divisão do mundo em esferas de operação exclusivas.- qüências . foi inicialmente insta- lado ao longo da ferrovia entre Paddington e West Drayton em Julho de 1839. G"oi somente no século XIX.. mas os primeiros telégrafos eletromagnéticos foram desenvolvidos na década de 1830.mais importante interpretação teórica da globalização da comunicação e suas canse- . embora reconheça o caráter estruturado dos fluxos de comunicação \ global.do por Wheatstone e Cooke.

e foi usado durante a Guerra dos Boers. Seguindo estes primeiros sucessos. estimulada pela demanda das ferrovias. das Colônias. Em 1864. Um ano depois. os oficiais britânicos estavam bem conscientes do valor estratégico de comunicações ráptdas. a linha foi então conectada por cabos em terra para Cons- tantinopla e Europa. Os primeiros cabos subm~rinos eram ge- ralmente feitos de fios de cobre cobertos de guta-percha. aproximadamente 190. 138 . A maioria destes cabos era produzida.!?cipal fonte de financiamento para o comércio de cabos submarinos in- ternacionais. . uma substancia glutmosa e isolante que se extrai de uma planta da Malásia 3 . como também fracassaram as primeiras tentativas de conectar por cabo a Ingla- terra à Índia. John Pender. Os primeiros sistemas telegráficos eram situados em terra e por isso muito restri- tos em termos geográficos.regular entre Washington e Baltimore com financiamento do Congresso americano. contudo. e ao longo da costa da África. Esta linha se esten- deu depois at~.000 milhas de cabos sub- marinos tinham sido instalad'ls ao redor do mun~~· As firmas britânicas possuíam 72% destes cabos e uma proporção substancial pertencia a uma única firma . da Guerra e do Exterior exerceram forte pressão no governo para construir cabos sub- marinos adicionais em territórios não britânicos.a Eastern and Associated Companies fundada por um comerciante de Manchester. que se tinha envolvido com a indústria de cabos submarinos desde 1860. Em 1865 a ligação telegráfica entre a Inglaterra e a Índia estava completa. Um destes cabos foi instalado entre a Inglaterra e o Cabo da Boa Es- peranr. um cabo transatlântico foi instalado com sucesso. Maurício. Em seguida vieram os cabos entre a Europa e a América do Sul. a indústria de cabos submarinos se desenvol- veu rapidamente. Ceilão. As primeiras redes de cabos submarinos eram usadas principalmente para fins comerciais. Em 18 5 7 -8 a primeira tentativa de instalação de um cabo atravessando o oceano Atlântico fracas- sou. Em 1851-2 cabos submarinos foram instalados ao longo do Canal da Mancha e entre a Inglaterra e a Irlanda. conectando assim a Inglaterra ao Sudeste Asiatico por uma via que evitava o Médio Oriente. A partir de 1870 já havia cabos em quase todo o Sudeste Asiático. um cabo submarino foi finalmente instalado entre Karachi e o Golfo Pérsico. Como líd~res do mais extenso im- pério no final do século XIX. para ficarem menos vulneráveis em tempos de crise. Londres era o centro desta rede de comunicação em ex- pansão e a pr. Cingapura e Austrália.Por volta de 1900. da imprensa e dos seto- res financeiros e comerciais. Os Ministérios da Marinha. embora com substancial financiamento e assistência dos governos.a em 1899-1901. instalada e operada por companhias privadas. Somente a partir de 1850 é que métodos confiáveis de te- légrafo submarino foram desenvolvidos. ligando a Europa à China e à Austrália. embora preocupações políticas· e militares também tenham desempenha- do um papel importante no seu desenvolvimento. Subseqüentemente a indústria telegráfica se desenvolveu rapidamente nos Estados Unidos e na Europa.

Jorge V enviou a si mes- mo um telegrama que circulou o globo somente em linhas inglesas e levou 80 se- gundos. As redes de cabo submarino se desenvolveram na segunda metade do século XIX num primeiro sistema global de comunicação no qual a capacidade de transmitir mensagens se separava claramente dos processos . através da imprensa (e depois do rádio e da televisão). serviços rivais de coleta de notícia foram instalados em Londres por Paul Julius Reuter e em Berlim por Bernard Wolff As agências tiraram vantagem do desenvolvi- mento do sistema telegráfico a cabo. Por isso agências de notícias se ligavam às redes de comunicação que. Em 1840 a agência começou a fornecer notícias a clientes em Londres e Bruxelas.demorados de transporte das mesmas. criando assim um ordenamento multilateral de redes de comunicação que eram efetivamente globais em alcance. um telegrama podia chegar a Bombay em cinco horas. Havas adquiriu o que era principalmente um escritório de tra- dução. O contraste com as primeiras formas de transporte da comunicação era dramática.princi- palmente na Europa para começar. cada uma procurando garantir novos clientes e expan- 139 .era uma realida~ lÍ) Um segundo desenvolvimento do século XIX que teve considerável imponãn- cia para a formação das redes de comunicação global foi o estabelecimento de agên- cias internacionais de notíci~ A importãncia de agências de notícias neste contexto era tripla. e a resposta estaria de volta no mesmo dia. uma carta postada na Inglaterra levava de cinco a oito meses para chegar à Índia. Terceiro. depois de um período inicial de rivalidade competitiva.embora em rotas que refletiam a organização do poder político e econômico . Indivíduos localizados nos maiores centros urbanos da Euro- pa e da América do Norte adquiriram os meios de se comunicarem quase instanta- neamente com outras partes do mundo. fornecendo aos jornais histó- rias. extratos e informações que poderiam ser impressas e difundidas para uma enor- me audiência. as agências tinham como objetivo a sistemática coleta e dissemi- nação de notícias e outras informações sobre grandes extensões territoriais . Até a década de 1830. na Exposição do Império Britânico. o Correspondance Gamier. E em 1924.tempo e consumo . que· tomou possível transmitir informações para maiores distincias e cm maior velocidade. a resposta poderia levar dois anos para chegar4 • A partir de 18 7 O. Mais tarde ainda na mesma dé- cada. poderiam alcançar uma parce- la significativa e crescente da população. devido às monções no oceano Índico. mas logo se estendendo para outras partes do mundo. e o transformou numa agência que coletava extratos de vários jornais europeus e os entregava diariamente à imprensa francesa. as agências de notícias trabalhavam estreitamente ligadas à imprensa. através de car- ruagens e de um serviço regular de pombos-correio. e. A primeira agência de notícias foi criada em Paris por Charles Havas em 1835 5• Um rico empresário.)\ rápida comunicação em escala global . A competição entre as três agências se in- tensificou na década de 1850. as maiores agências de notícias finalmente concordaram em dividir o mundo em esferas de ope- ração mutuamente exclusivas. Primeiro. Segundo.

Escandinávia e nos territórios russos. UPI e AFP . a Agencc Francc-Prcssc {AFP). Reuter obteve os territórios do império bri- tânico e o Extremo Oriente. exercendo crescente pressão sobre o cartel europeu. contudo. Depois da I Guerra Mundial. em parte para quebrar o domínio da AP no mercado de noúcias domésticas americanas. as agências decidiram elaborar uma divisão do mundo em territórios mutuamente exclusivos. Durante e depois da Primeira Guerra Mundial. Em virtude do Tratado de Agências Aliadas de 1869. tanto a AP quanto a UPA expandiram suas atividades para todo o mun- do. A capitulação da França em 1940 provocou a disso- lução de Havas. Com o advento do nazismo e a subseqüente derrota e divisão da Alemanha após a Se- gunda Guerra Mundial. Áustria.Reuters. seus domínios de operação correspondiam a esferas de influência econômica e políti- ca das maiores potências imperiais da Europa. o cartel de agências foi dissolvido pela expansão de duas agências americanas. O tríplice cartel de agências dominou o sistema internacional de coleta e dissemi- nação de notícias até a deflagração da I Guerra Mundial. concordando em fornecer às agências européias no- úcias da América em troca do direito exclusivo de distribuir nos Estados Unidos as noú- cias de lá. Itália. a UPA montou escritórios na América do Sul para vender noúcias para o mercado sul-americano e para os jornais japoneses. Outras agências se estabele- ceram nas últimas décadas do século XIX e primeiras do século XX. Cada agência trabalhava estreitamente ligada às elites políticas e comerciais das nações que lhes serviam de sede.W. A United Press Association foi fundada por E. embora tenha sido substituído fmalmente por urna nova agência. os acontecimentos que lhe seguiram até o fim da Segunda Guerra Mundial. AP. que herdou muitos ativos e conexões de seu predecessor. No começo dos anos 1930 o cartel das três agências estava efetivamente no fun. mas muitas se associaram a uma das três.mantiveram suas posições de lidera. Além de servir o mercado americano. as outras agências européias sofreram importantes mudanças.dir sua esfera de operação. e Wolff ganhou exclusividade na Alemanha. posteriormente transformada em Unitcd Press IntemationaJ ou UPI. as quatro maiores agências . Espanha e Por- tugal.n~ no sistema internacional de coleta e disseminação de noticias e outras informaçõcs~Muiw outras agências se estabelece- 140 . a agência Wollf perdeu sua posição de influência no domínio inter- nacional e finalmente desapareceu. (Desde a Segunda Guerra Mundial. Ela se uniu ao cartel europeu em 18 9 3. Enquanto as agências americanas se expandiam rapidamente e a Reuters mantinha uma forte posição no mercado global. em 1934 a Reuters assinou um novo acordo com a AP que deu às agências americanas sinal verde para coletar e distribuir no- úcias em todo o mundo. A As- sociatcd Press foi uma cooperativa criada em 1848 por seis jornais diários de New York. a Associatcd Prc:ss {AP) e a Unitcd Press Association (UPA). Enquanto as agências eram organizações comerciais independentes. desfrutan- do certo grau de patronato político e fornecendo informações que eram valiosas para a administração do comércio e da diplomacia. Scripps em 1907. Para evitar conflitos prejudiciais. Havas ficou com o império francês.

dispensando a necessi- dade de instalar cabos fixos na terra ou no màr. juntos eles privaram a UNFSCO de cerca de 30% de seu or- çamento e limitaram enormemente a concretização das políticas recomendadas 7 • No en- tanto.j magnéticas e a sucessão de tentativas para regular a distribuição do espectro eletro- magnétic. mais genericamente. pelas desigualdades associadas à globalização da comunicação. Mas as iniciativas da UNFSCO encontraram considerável resistência por parte de certos governos e grupos de interesse ocidentais. incluindo as informações re- lativas às transações financeiras e comerciais6 • A predominância destas quatro agências de notícias. incluindo a expansão de novas agências regionais não ali- nhadas na África e em outros lugares 8 ..c.J No capítulo anterior consideramos brevemer.informação através de ondas eletro. Muitas organizações jornalísticas e radiotelevisivas pelo mundo afora dependem grandemente delas para notícias internacionais. o debate da NWICO ajudou a aumentar a consciência de questões levantadas pela predominância das quatro maiores agências de notícias e. As maiores agências de notícias também expandiram e diver- sificaram suas atividades. e muitas das menores agên- cias são afiliadas a elas. Os proponentes da NWICO estavam procurando um equilíbrio eqilitativo no fluxo internacional e no conteúdo das informa- ções.. Mas as quatro maiores continuam sendo os atores principais na organização global de informação.. Em 1984 os Estados Unidos se retiraram da UNFSCO. seguidos pelo Reino Unido em 1985. Uma série de conferências e comissões patrocinadas pela UNESCO a partir dos anos 70 até os primeiros anos 80 geraram um amplo debate sobre o terna da "Nova Ordem Mundial de Informação e Comunicação" (NWICO). (9 Um terceiro desenvolvimento que exerceu um importante papel na globaliza- ção da comunicação provém também do final do século XIX: diz respeito a9 \desen- volvimento de novos meios de transmitir .te algumas das inovações técnicas que escoraram este desenvolvimento9 • O uso das ondas eletromagnéticas para fins de comunicação expandiu grandemente ~ capacidade de transmitir informa- ção através de longas distâncias de maneira fleXível e eficiente. provocaram apelos dos quatro quadrantes do globo para uma reorganização da ordem global de informa- ção. combir. bem como no fortalecimento das infra-estruturas tecnológicas e nas capacidades produtivas de nações menos desenvolvidas na esfera da comunicação.l\. ~o crescimento do uso de ondas eletromagnéticas também criou uma crescaite necessidade de regular a distribuição 141 . bem como para notícias de suas próprias regiões geopolíticas. tirando vantagem dos novos desenvolvimentos da tecno- logia de informação e de comunicação e emergiram como atores centrais no novo mercado global de informações e dados de vários tipos. como a TASS e a Deutsche Presse Agentur.ram e expandiram suas esferas de operação. conquistaram (pelo menos temporariamente) um proeminente papel internacional. e algumas agências.ada com outras desi- gualdades no fluxo internacional de informação e comunicação. Ela ajudou também a esti- mular o desenvolvimento de várias formas de cooperação entre os assim chamados países do Terceiro Mundo.

freqüências eram distribuídas a quem chegasse primeiro 11 . a união procurou estabelecer padrões internacionais para a resolução de problemas técnicos' 1 . e logo adquiriam o "di- reito de posseiro". mas também por um conjunto mais amplo de considerações políticas sobre a natureza e o papel das organizações de transmissão. junto com a emergência das organizações nacionais e internacio- nais de administr~. Tomou-se possível transmitir crescentes quan- tidades de informações sobre longas distâncias de maneira eficiente e virtualmente instmtinea.:ões de transmissão radiofônica. em parte como resultado do crescimento das demandas de usuários existentes e em parte devido ao aumento de novas demandas de países até agora excluídos do campo internacional de telecomunicações. Originalmente formada em 18 6 5 numa convenção assinada por 2 O estados europeus. em 1906. Seções do espectro foram distribuídas para·sérviços particulares. todavia. as autoridades políticas começaram a se envolver diretamente no licen- ciamento seletivo das organiza-.para problemas específicos de distribuição do espectro e questões relativas.do espaço radioespectro tanto dentro dos países quanto entre ei<'\.cada uma a ser planejada mais detalhadamente. 10 As estruturas internacionais de administração do espaço das ondas eletromagnéti- cas foram menos efetivas. a ITU gradualmente adotou medidas mais ativas. A principal organização foi a União Telegráfica Internacio- nal. Inicialmente uma das maiores preocupações das autoridades encarregadas de distri- buir 0 espectro das ondas elêtromagnéticas era o de reservar um segmento dele para fms militares e de segurança. as Américas. Mas à medida que 0 potencial mercadológico do novo meio foi se tornando cada vez mais patente. Cada país desen- volveu sua própria estrutura legislativa de distribuição e de licl'nciamento seletivo. impulsionaram o avan- ço da globalização da comunicação. e o mundo foi dividido em três grandes regiões . Pos- teriormente a ITU criou uma conferência regular . submetidos a enorme pressão nos últimos anos. que recebiam direitos exclusivos de transmitir em freqüências fixas para determinadas regiões. Mas como as demandas aumentaram.a Conferência Mundial de Admi- nistração de Rádio (WARC) . trato11-se do rádio pela primeira vez e se chegou a um acordo para reservar certas seções do espectro para serviços específicos. as mensagens transmitidas por ondas eletromagnéticas se 142 . tais como as freqüências usadas por navios em suas viagens.ção do espaço das ondas eletromagnéticas.Europa e África. minimizando assim as interferências de radioamadores. considerações ' que variavam extremamente de um pais para outro . As práticas de licenciamento seletivo eram modeladas não somente pelas restrições técnicas de escassez do espectro. a Ásia e o Pacífico Sul . O desenvolvimento de tecnologias capazes de transmitir mensagens por ondas eletromagnéticas. Nas últimas fases destas atividades internacionais. posteriormente transformada em União Internacional de Telecomunicações (ITU). Além do mais. Os usuários simplesmente notificavam à ITU as freqüências que estavam usando ou desejavam usar. Na conferência de Berlim. Os sistemas desen- volvidos pela ITU foram.

precipiwa e promovida pela introdu- 143 .tomaram potencialmente acessíveis a qualquer um que estivesse dentro do alcance dos sinais e que tivesse equipamento para recebê-las . estados-nação ou as regiões de controle de navegação marítima. buscando identificar algumas das principais dimensões dos processos de comunicação globalizada.um fato de enorme significado para a exploração comercial do meio. como vi- mos 14. Contudo. durante a primeira m~~de do século XX a maioria das comunicações transmitidas por ondas electromagnencas permane- ceram confmadas a ambientes geográficos espeáficos. l --- !) A globalização da comunicação no século XX é um processo dirigido principal- mente por atividades de conglomerados de comunicação em grande e:scaU. é óbvio. Desde o final de 1960. as caracte- rísticas do fluxo de comunicação global foram estudadas detalhadamente por pesquisadores da comunicação internacional . entretanto.\As origens destes conglomerados remontam à trmsformação da imprensa no século XDc. mui- tas dimensões neste processo. A mudan~ na bise econômica dos jonui. Há. este processo é.s. e que incluiu mais rapidamente algumas partes do mun- do nas redes de comunicação global do que outras. mas de forma alguma o único deste processo. res- tringirei minha atenção a quatro temas: ( 1) a emergência de conglomerados trans- nacionais de comunicação como peças centrais no sistema global de comunicação e difusão de informação. especialmente aquelas associadas à comunicação via satélite. (3) o fluxo assimétrico dos produtos de informação e comunicação dentro do sistema global. como as áreas urbanas particu- lares. A globalização da comunicação tem sido também um processo estruturado e desigual que beneficiou mais a uns do que a outros. Voltarei em breve a este assunto. (2) o impacto social de novas tecnologias. O rápido desenvolvi- mento dos sistemas de transmissão radiofônica e televisiva em todo o mundo tem sido um importante. Padrões globais de comunicação hoje: uma visão geral \Embora as origens da globalização da comunicação possam remontar a meados do século XIX. o século XX testemunhou uma extraordinária proli- feração de canais de comunicação e de difusão de informação. Foi somente a partir da década de 1960.bem antes que o termo "globalização" fosse de uso corrente nas ciências sociais 13 • Nesta seção me servirei desta literatura com a finalidade de analisar alguns destes principais padrões de uma forma mais abrangente. que a comunicação por transmissão eletromagnética se tomou verdadeiramente global. tipicamente um fenômeno do século ~ Pois foi durante este século que o fluxo de comunicação e informação em escala glo- bal se tomou uma característica regular e penetrante da vida social. e (4) as variações e desigualda- des no acesso às redes de comunicação global. procurarei sobretudo destacar seu caráter estruturado e de- sigual.wmhora o leque de questões relevantes seja potencialmente muito amplo. com o êxito no lançamento dos primeiros satélites de co- municação controlados em terra.

Através de fusões. O grupo Bertelsmann. Ásia. Austrália e Japão. com atividades de publicação. entretanto. e que dispõem de recursos maciços para garantir os objetivos corporativos na arena glob~Provocou também a formação de extensas redes de comunicação. Austrália e Ásia. de como eles estão se adaptando às mudanças nas circunstâncias econômicas e políticas dos anos 90. A News Corporation de Rupert Murdoch. com a Warner Communi- cations em 1989 e agora a maior empresa da mídia no mundo. o que me dispensa de considerá-las mais de- talhadamente aqui 16 . música e sistemas de informação de alta tec- nologia. em- bora estes jWmos forneçam importantes mercados para produtos e serviços dos primeiros 15 \Por isso o desenvolvimento dos conglomerados de comunicação provo- cou a formação de grandes concentrações de poder econômico e simbólico que são privadamente controlados e desigualmente distribuídos. muito poucos têm sede nos países do Terceiro Mundo. tem operações na Europa. formado pela fusão da Time Inc. com subsidiárias na Europa. Os nomes de alguns dos maiores conglomerados da comunicação são bem co- nhecidos: Time Warner. televisão. Um é o uso mais extenso e mais sofisticado de sistemas de cabo que fornecem uma capacidade muito maior de 144 . nos setores de publicação.ção de novos métodos de produção. através das quais informação e conteúdo simbólico podem flu~ A natureza e as atividades de alguns dos grandes conglomerados da comunicação foram bem documentadas na literatura. (2) Ó desenvolvimento de novas tecnologias desempenhou um papel importante na globalização da comunicação neste século XX. Conglomerados de comu- nicação expandiram suas operações para outras regiões fora de seus países originais. compras ou outras formas de crescimento corporativo. dentro de explícitas políticas globais de ex- pansão e diversificação. foi canalizado para a aquisição substancial de ações nos setores de informação e de comunicação. estão sediados na América do Norte. televisão e cinema. e parte dos interesses financeiros e industriais. e do uso que estão fazeJ:ld:° dos novos desenvolvimentos tecnológicos. tem provavelmente a mais extensa rede de difusão. sediado na Alemanha. porém. tem subsidiárias na Austrália. Europa Oci- dental. colocou em movimento um processo a longo prazo de acumulação e concentração nas indústrias da mídia. Quase todos eles. nos Estados Unidos e na América Latina. Europa e América Latina. Três desenvol- vimentos interligados tiveram particular importância. Estes e outros grandes conglomerados operam no mercado mundial e organizam suas atividades baseados em estratégias que são efetivamente globais. Ao longo do século XX. tanto na conjunção das atividades de conglomerados da comunicação quanto independentemente deles. este processo assumiu cada vez mais um caráter transnacional. Estados Unidos. privadamente controladas. os grandes conglomerados assumiram uma presença sem- pre maior na arena global do comércio de informação e comunicação. uma necessidade de atualizar a pesquisa compa- rativa das atividades destes conglomerados. Há.

usados como pontos de distribuição suplementar para os sistemas de cabo nacionais e internacionais. o desenvolvimento de satélites mais sofisticados. Além de criar novas redes de distribuição transnacionais.é o crescente uso de métodos digitais no pro- cessamento. às fronteiras territoriais de um país particular. possibilitou a introdução da transmissão direta por satélite (DBS). no começo dos anos '90. ÍAdigitalização da infor- mação. o uso de satélites de comuni- cação. os satélites de telecomunicações foram também usados como es- tações de.transmissão de informação eletronicamente codificada.sistemas que muitas vezes são pri- vados e nos quais os grandes conglomerados da comunicação têm substancial interes- se. Nos últimos anos. uma variedade de sis- temas DBS já estavam em operação ou sendo planejados em outras partes do mundo. assumindo uma parcela crescente no tráfego internacional de telefone. no come- ço dos anos 60. do ponto de vista técnico. ainda que ligeiramente.). correio eletrônico e outros serviços de comunicação. armazenamento e recuperação da informação. Além disso. retransmissão e pontos de distribuição para a televisão. telex. O terceiro desenvolvimento . Obviamente. criou um sistema de comunicação global que é virtualmente instantãneo e que dispensa a necessidade de re- transmissores terrestres e de fios transmissores.\ mação e comunicação. · diferentes meios de comunicaç~ Todos estes três desenvolvimentos tecnológicos contribuíram de forma funda- mental para a globalização da comunicação. O segundo desenvolvimento é o crescente uso de satélites para fins de comunicação a longa distância. contudo. aumentou grandemente a capacidade de armazenar e\ transmitir informações e criou a base para a convergência das tecnologias de infor. interligados e posicionados em órbitas geossincronizadas. Parte da importãncia deste sistema é que ele cria novos sistemas de distribuição fora das redes terrestres de transmissão estabelecidas . uma vez que. permitindo que a informação seja convertida facilmente para · \. Desde o seu desenvolvimento. combinada com o desenvolvimento de tecnologias eletrônicas relacionadas (microprocessadores. Eles formam uma parte integrante do sistemas de redes nacionais nos Estados Unidos. etc. e muitas corporações multinacionais usam extensivamente a comunicação via sa- télite. fax. e os primeiros siste- mas europeus apareceram em 1986. na ex-URSS e em outros lugares. estes novos sistemas de distribuição são inerentemente transnacionais. não há nenhuma razã:> para que uma área de recepção de um satélite corresponda. muitas vezes associados a sistemas de cabo instalados em terra. Os primeiros sistemas DBS começaram a operar nos Estados Unidos em 197 S. Desde o início. o desenvolvimento da transmissão direta por satélite e outras tecnologias (incluindo a TV a cabo e videocas- 145 . a comunicação via-satélite tem sido usada para diferentes finalidades 17 • As necessidades militares e das grandes organizações comerciais tiveram um importante papel.. capazes de transmitir sinais mais fortes e bem direciona- dos. Os satélites também foram sendo cada vez mais integrados nas redes normais de telecomunicações.de muitos modos o mais fundamental .

entretanto. Europa. o poder econômico de Hollywood con- tinua a exercer uma grande influência no fluxo internacional de filmes e programas de TV. Na esfera do entretenimento. um tráfego de sentido único de programas de notícia e de entretenimento produzidos nos maiores países exportadores para o resto do mundo 18 . No campo da~ notícias.\Uma questão central da globalizaçã~ da comunicação é o fato de que o(pr. de programas de TV e outros materiais cresceu na medida cm que os produ- tores e distribuidores procuraram explorar os mercados lucrativos criados pelos saté- lites.rcado global dos produtos da mídia. permanece fragmentada. eram também grandes exportadores (e permanecem assim). eles também importam uma grande quantidade de programas do exterior (principal- mente dos Estados Unidos). Já é sabido. ·3)-. embora tenham revelado um quadro mais complexo e destacado à crescente importância do mercado inter-regional (por exemplo. entretanto. Austrália e Japão) do que importando. países como Méxi- co e Brasil têm emergido como os mais importantes produtores e exportadores de programas para outras partes da América Latina) 19 .o- dutofda mídia circulam numa arena intemacional. vendendo mais material para outros países (especialmente América Latina. Estudos posteriores de Varis e outros confirmaram a de- sigualdade do fluxo. numa enorme proporção. . como a Inglaterra e a França. Os Estado. Estudos realizados a partir dos anos 70 por Nordenstreng e Varis mostraram uma clara assimetria no fluxo internacional dos programas de televisão: havia. Há mui- 146 . é uma maneira relativamente barata (e finan- ceiramente muito atraente) de preencher os horários de transmissão.1Esta expansão do mercado global deverá ser vista contra o pano de fundo das tendências anteriores no fluxo internacional dos produtos da mídia. A importação de seriados americanos. O lluw internacional de filmes. Muitas estações de televisão em países menos desenvolvidos não têm recursos para produzir extensos programas próprios. em preços negociados bilateralmente.sete) expandiram 0 mf'.1 O material produzido em um país é distribuído não apenas no mercado doméstico rbas também . Canadá. pelos canais a cabo e pela venda e aluguel de videocassetes. Unidos lideravam (e permane- cem) o mercado exportador de programas de televisão. a pesquisa. os padrões de depen- dência refletem o legado das agências internacionais sediadas em Londres. O caráter estruturado do fluxo internacional de bens simbólicos é o resultado de vários fatores econômicos e históricos. mas diversamente dos Estados Unidos. Alguns países europeus. Paris e Nova York (embora a importância precisa dessas agências permaneça uma questão em disputa20 ). levando algumas regiões do mundo à extrema dependência de outras para o supriment:i de bens simbólicos. Embora alguns dos amplos padrões de fluxo internacional tenham sido docu- mentados nestes últimos anos. que o fluxo internacional dos produtos da mídia é um processo estruturado no qual certas organizações detêm o controle predominante.no mercado global.e em níveis sempre crescentes .

mas também a utilização das matérias simbólicas globalizadas . o que os receptores fazem delas. Mas que explicação teórica poderià nos ajudar a entender os padrões estrutura- dos da comunicação global e suas possíveis conseqüências? Muitas explicações teóri- cas são oferecidas na literatura sobre as comunicações intemacionais23 . e em diferentes estratos sociais do mesmo país. e por quanto tempo.isto é.é uma questão que demanda ainda uma grande quantidade de pesquisas. etc. de terem acesso aos programas transmitidos pelas redes globais. o acesso aos serviços de transmissão televisiva foi restrito durante muitos anos a uma pequena parcela da população nos maiores cen- tros urbanos. Mas significati- vas desigualdades permanecem no que diz respeito à capacidade de indivíduos em diferentes partes do mundo. é muito improvável que a nossa compreensão dos padrões do fluxo internacional seja completa. em algumas partes do mundo.:Considerada em si mesma. se quisermos explorar o impacto da glo- balização da comunicação. e por isso mesmo nos diz relativamente pouco sobre o grau de captação do ma- terial globalmente distribuído 22 . o rádio foi um meio de comunicação mais im- portante do que a televisão21 . Para as populações rurais. Estas são questões a que iremos retornar. a análise de con- teúdo dos programas nos diz muito pouco sobre quem os vê. deveremos considerar não somente os padrões de cap- tação. É claro que esta situação está mudando continuamente na proporção em que mais recursos estão sendo alocados para a expansão dos servi- ços de televisão e mais e mais indivíduos e famílias têm acesso a eles. as matérias simbólicas globalizadas são sujeitas a diferentes padrões de captação. E como os atuais padrões de fluxo interna- cional serão afetados pelos novos desenvolvimentos tecnológicos . e como as incorporam em suas rotinas e práticas da vida cotidiana..tais como aqueles associados aos sistemas de satélite e de cabo. como as entendem. é essencial considerar os padrões de acesso ao material transmitido e de sua captação através das redes globais. Durante as 147 . ----- \ A parte destas desigualdades de acesso. Muitas das pesquisas sobre os padrões de fluxo internacional se contentaram com'/ análise de conteúdo dos programas de televisão transmitidos em diferentes países. Mas o desenvolvimento das pesquisas pode ajudar a esclarecer algumas das tendências mais significativas. Dada a complexidade das redes globais de transmissão e de comercialização e o grande volume de matérias que passam através delas. Mas. Além disso. °4) Àlém de analisar os padrões do fluxo internacional. ou aqueles ligados à digitahzação da infor- mação . que compreendem 70 a 90% da população em muitos países do Terceiro Mundo. A teoria do imperialismo cultural: uma reavaliação Até agora nos preocupamos em reconstituir o desenvolvimento da globalização da comunicação e examinar alguns dos padrões da comunicação global no mundo hoje.tos setores das indústrias da comunicação e da informação que não foram ainda estu- dados cuidadosamente deste ponto de vista.

exemplifica como alguns dos mais imporuntes sistemas de oomunicação foram completamente permeados por interesses oomerci~ém disso. ram substituídos por um novo império americano emergente.da com pa.ação da comunicação é fruto de wm. francês.entraram em declimo. qual as cultura5 ·mdiciom. receita da propaganda . publicado pela primeira vez em 1969.do por um crescente domínio dos Estados Unidos na arena internacional 17 . explicação que vem ocu~do destaque proemmente: esta é a visão de que~ilobaliz.is e militares americanas tomar a dianteira no desenvolvimento e no controle de novos sistemas eletrônicos de comunicação no mundo modemoffehiller sustenta que o sistema americano de transmissão . Apesar disso.I domin.das. e de que este processo produziu ~va forma de dependência. proveniente principal- mente das atividades das corporações internacionais sediadas nos Estados Unidos.do e estendido em várias publicações:Jü argu- mento desenvolvido por Schiller e outros é geralmente descrito como a "tese do impe- rialismo cultural" is. Mas a obra de Schiller foi também submetida a muita crítica e há poucos estudiosos hoje que aceitariam sua análise sem reservas 26 . enorme pressio pan o desenvolvimento de sistemas comerc:Ws de tnnsmissio em muitos países do Terceiro Mundo e pan a ~çio em grande esc. e as armadilhas que se devem evitar.os impé- rios britinico. que o período seguinte à Segunda Guer- ra Mundial foi caracteriza.rticula. há wm. que permitiram às organizações comercia. Esta visão foi articula. década de 70 e início de 80 (incluindo alguns ma. seção anterior) foram influenciadas direta ou indiretamente por ele.is pro- duzidos na. e a partir de então o argumento vem sendo atua. é útil reconsiderar brevemen- te o argumento de Schiller. ~ novo regime imperial se fundamenta em dois fatores: a força econômica. numa teoria da globaliza. holandês.iza.r perspicácia. Teve urna. pode- mos esclarecer melhor os processos que se devem levar em consideraçio.io com interesses políticos e miliwes ocidentais (predomiru.IO resultado é uma "invasio eletrómca" que ameaça des- truir as tradições locais e submergir a herança cultunl de nações menos desaiwolvt- 148 . espanhol e português .boraç.W de prognmu esttanzeiros - especialmente amertcmos.ado por grandes redes e financiado principalmente pela. Quando os tradicionais impérios coloniais do século XIX .teria.. e o know-how das comunicações.is na.is são destruídas através da invasio de valores ocidentais. aianm wm. conquista de interes- ses oomercfais das grandes corporações transnacionais sediadas nos Esta. \Schiller argumen~muito amplamente. na.dos Unidos. mui- tas vezes agindo em oola. associada i nova demanda por programas de televisio e ao custo elevado da produçio doméstica. fo. influência enorme: muitas das pesquisas sobre comu- nicações interna. Ao identificar algumas de suas forças e fraqueLlS.últimas déa. es- pecialmente nos países do Terceiro Mundo. A dependência da teaiologia de comuru- caçio e do investimento americanos.um sistema essencialmente comercia.ntemente americanos). o sistema americano de tnnsmissio serviu de modelo para o desenvolvimento de outros sistemas ao redor do mundo. por Herbert Scluller em Mass Communications and Amcrican Empirt.çio da comunicaçfo. oontudo.dona.l.

pa- rece muito duvidoso que ele se possa aplicar ex>m algum grau de CXlll'ficçio às alterações no contexto global ocorridas ao longo do século XX.a llÚdia provenientes dos poucos centros de poder no Ocident:J Estes programas s. militar e político. Contudo. Apmas DO campo econômico. polítiex>.evidente e segura. e através do qual os indivíduos são ligados cada vez mais a um sistema global de comunicação e de produção de mercadorias sediado quase in- teiramente nos Estados Unidos. Além disso. restrições que tomam a importação de programas produzidos no estrangeiro muito atraentes. esboçada aqui brevemente. a tese do imperialismo cultural foi efetivamente uma discussão sobre a extensão e a consolidação em nível de comunicações e informações de um poder que era fondamentalrnente de caráter econômico.Os Estados Unidos.i. todos intimamente ligados aos te~s-~e estou abordando neste capítulo e em outros J. continua Schiller.qleiro-:-Consideremos um pouco mais a noção que Schiller tem das estruturas globais de poder no período após a Segunda Guerra Mundial.itivos da formação de valores. eles estio também en- volvidos no processo de transformação cultural e de dependência em que os valores do consumismo se sobrepõem às motivações tradicionais e aos modelos altcm. Leva em pouca consi- deração.fÕ argumento de Schil- ler foi originalmente desenvolvido num te. o argumento de Schiller traz à tona as enormes restrições fmanceiras enfrentadas pelos países do Terceiro Mundo que procuram desenvolver seus próprios sis- temas de comunicação.rapo em que a hegemonia americana no sistema global parecia .io. os conflitos fundamentalmente políticos e simbólicos do pe- ríodo da Guerra Fria. quando os países desenvolvidos adotam um sistema comercial de tranSmiss. militar e simbólico que caracterizaram o imediato período pós-guerra. Não tentarei reproduzir todas as dificuldades aqui.. mesmo que se simpatize com o amplo enfoque teórico de Schiller e com sua perspectiva crítica. como a maior potência industrial e sede de muitas das maiores cor- porações transnacionais.pelo menos para alguns observadores . quaisquer que tenham sido u de- ficiências do argumento de Schiller com respeito ao imediato período pós-guerra. Contudo. há muitos aspectos nos quais seu argu- mento é profundamente insatisfatório.io permeados de valores do consumismo. . Além disso.1gares. Por isso. de enfatiur seu caráter estruturado e de sublinhar o fato de que os sistemas de comunicação estio in- terligados de maneiras fundamentais com o exercício dos poderes econômico.das sob a avalanche de programas de TV e outros produtos d. tem o mérito considerá- vel de destacar o caráter global dos sistemas de comunicação eletrônica. e a importincia do comunismo e do nacionalismo como poder de mobilização de sistemas de crença. ela só dá ex>nta em parte das complexas e mutáveis relações dos poderes econômico. <p. pareceu ser o centro militar e industrial do sistema global do período pós-guerra. A argumentação de Schiller. as últimas décadas testemunharam um profundo processo de reesautura- 149 . pois são guiados sobretudo às necessidades dos prod'ltores que patroci- nam a televisão através da propaganda. por exemplo. Quero apenas focalizar três principais problemas.

' ção global que tem desestabilizado a posição dos Estados Unidos cnmo a . A . Este processo de reestruturação global também afetou as várias indústrias da in- formação e da comunicação. na indústria de aparelhos de TV. adquiriu a MCA por $6. º.s foram compradas pela Sony Corporation por $3. Matsushita. Corpos supranacionais como as Nações Unidas e a Comissão Européia estão de- sempenhando um papel crescente .. entreteni- mento. A MCA opera a Universal Studios e tem um leque de outros interesses nas atividades de lazer. de tal modo que a compra da Columbia e da Tristar representou mais uma mudança do setor de entretenimento por urna companhia que estabeleceu uma forte base na indústria audiovisual. Em termos de produção de componentes eletrônicos (semicondutores.maior do que qualquer preço anteriormente oferecido por uma companhia americana 30 . vendas a varejo e casas editoras. Brasil e · India. simbólico e coercitivo também mudaram de for~as comp~exas. Logo depois da Sony. Além do mais. Seria pouco plausível sugerir que este complexo e mutável campo de relações ~: de poder global poderia ser analisado em termos da tese do imperialismo cultural.embora ainda relativamente limitado .potência in- dustrial proeminente. emergiram em diferentes partes do mundo. Isto inclui indústrias sediadas na Europa Ocidental e na Austrália. apesar da . A economia global tomou-se crescente:nent" mulnpolar. co. corno México. res- ponsável por 19% de toda produção de televisores no mundo em 1987 29 . A mudança global no poder econômico também se reflete no crescente papel do capital estrangeiro no mercado americano.multinacional japonesa. um crescente número de estúdios de Hollywood foram comprados por corporações sediadas no estrangeiro.4 bilhões - . uma outra . o Japão e os novos pa1ses 1~~ustnahzad_os do Sudeste Asiático assumiram um papel crescentemente importante . Em novembro de 1989. a liderança americana foi dramaticamente suplantada à medida que a produção foi sendo deslocada para a Europa. indústrias não norte-americanas estão se tomando cada vez mais importantes como produtores regionais e exportadores de filmes e de programas de televisão.-~ ~ambém inclui indústrias sediadas em outras partes do mundo. Matsushita é a maior produtora de bens de con- sumo eletrônicos no Japão e uma das maiores do mundo. A Sony já tinha adquirido a CBS Records. em alguns casos ligadas ao renascimento de crenças religiosas nacionalistas e fundamentalistas.tese é simplesmente muito rígida e unidimensional para fazer justiça à situação global em estado de contínua mutação. a Columbia Pictures e a Tc. por exemplo. microprocessadores. etc. importância de Hollywood. a Ásia é a região de liderança no mundo hoje e a China é o maior produtor isolado. mas '. lapso dos regimes comunista na Europa Oriental e a dissoluçao da Umao Sov1enca criaram uma nova situação geopolítica . a Eu- ropa (especialmente a Alemanha). Enquanto Hollywood permanece um importante produtor de ~ filmes e diversões televisivas.não somente na Europa mas no mundo todo. Novas formas de poder simbólico.9 bilhões. 150 .nos ne- gócios internacionais. Japão e a orla do Paófico.:istar Picturf". As relaçoes de poder político. Os Estados Unidos perderam siinilarrnente sua posição de liderança na produ- ção de bens de consumo eletrônicos.).

com efeito.. enquanto ainda insiste na defesa do domí- nio cultural da mídia americana. "uma dominação cultural transnacional e corporativa" 3~ Mesmo que esta revisão da tese procure abarcar as mudanças ocorridas em déca- das recentes.. :) . Seria melhor aceitar que. Schiller reconhece que a tese do impe- rialismo cultural não se pode mais sustentar na sua formulação original 31 • Ele reco- nhece que desde os inícios dos anos 60 as relações globais de poder mudaram significativamente de muitas maneiras. e o capital de in- vestimento está sendo retirado de diversas fontes de recursos... os padrões glo- bais e as relações de poder não cabem simplesmente na estrutura de uma dominação americana sem . enquanto o do- mínio cultural permanece americano em termos de forma e de conteúdo dos produtos da mídia.rivais ..":. Um~undo problema com o argumento de Schiller é que ele tende a presumir que antes da invasão eletrônica liderada pelos Estados Unidos muitos países do Ter.--._'.·----:--:~- 151 .argumenta Schiller... como também no campo da atividade econômica. e que é este objetivo que a torna tão útil para o sistema capita- lista globai.':::::· _ ' neaam mtocadas por valores impostos de fo~ que esta em jogo na invasão: . . explica Schiller. ela não consegue ir muito longe[Schiller ainda apresenta uma visão muito uniforme da cultura da mídia americana (embora uma cultura q~ão está mais à disposição exclusiva do capital americano) e do seu domínio global Ele ainda sustenta que a cultura da mídia americana é definida pelo objetivo primor 1al de pro- mover o consumismo._:·. das comunicações eletrônicas modernas" 33 • Mas esta visão da integridade cultural dos países do Terceiro Mundo é um tanto romântica e não resiste a um cuidadoso exa. mas se tornaram mais evidentes com o colapso dos estados de regime socialista na ex-União Soviética e na Europa Oriental e com a derrota dos esforços da UNESCO para criar uma nova ordem de informação.lA revisão que Schiller faz da tese do imperialismo cultural é.ÍO im- perialismo cultural americano tornou-se. Assim. a base econômica desta dominação foi internacionalizada.. e que como resultado a tese deveria ser remo- delada. Corpor~ções transnacionais assumiram um importante e crescente papel na indústria das comunicações globais. "é a integridade cultural de sociedades fracas cuja herança\:. o fluxo global e os usos dos produtos da mídia são _j muito mais complexos do que esta caracterização poderia sugeriL.:. nas palavras de Schiller. ·· brutal.-. ~ eletrônica. local ou tribal começa a ser ameaçada de extinção pela expansão\.(Kias a composição.. na esfera da informação e da comunicação. do foram modeladas por um processo de conflito cultural longo e muitas vezes'<. Mas a base econômica deste domínio mudou... ·\ ' me 34 • As tradições e heranças culturais das assim chamadas nações do Terceiro Mun. O domínio global da cultura e dos produtos da mídia americanos não perde- ram seu apelo ._' nacional.. Refletindo sobre sua obra 25 anos depois.-C~ -::__~ ceiro M~ndo tinham autênticas _tradições e heran~ culturais ~utóctones que perma.. uma maneira de reconhe- cer a globalização da atividade econômica. durante o qual muitas práticas tradicionais foram destruídas e alguns dos valo-:. regional.

lista de produ- ção e intercâmbio de bens. crenças e formas simbólicas se sobrepuseram umas às outras.das a novas condições. Muitas das formas culturais do mundo de hoje. apropriadas seletivamente pelas popula- ções originais e gradualmente interligadas nas tradições e práticas preexistentes.. numa perspectiva histórica mais ampla. é claro. deveríamos ver que a globalização da comunicação através da mídia eletrônica é apenas a mais recente de uma série de emba- tes culturais. o de Schiller comete uma vers. Não resta. alguns dos quais aconteceram há muitos séculos. espanhola do México e a colonização de outras partes da América Central e do Sul oferecem muitos exemplos expressivos deste processo 36 . se não aceitarmos a pressuposição de que as culturas anteriores foram inteiramente isentas de contaminação com valores impostos de fora . nem tenhamos uma visão clara de suas conseqüências. Ela geralmente implicou um complexo processo de adaptação e incorporação dentro do qual valores e crenças es- tranhas foram adapta. são culturas híbridas em que diferentes valores. Mais do que presumir que antes da importação de programas tele- visivos ocidentais muitos países do Terceiro Mundo tinham tradições cultums que se mantinham intactas diante das pressões externas. colocou ênfase demasiada no papel dos valores do consu- mismo e negligenciou a enorme diversidade de temas. crenças e práti- cas se entrelaçam profundamente. de uma análise da orga- 152 . muitas vezes com o uso do poder coercitivo.res e crenças das potências colJizad~ras foram impostos às populações locaisH Mas ~ças raramente foi direta. Mas isto também não quer dizer que não possamos entender estas novas formas. em essência. portanto. que(i)Sprogramas feitos pelo siste- ma de televisão comercial inevitavelmente veicularão valores do consumismo.io do que chamei em outrm lugares de "falácia da intemalização" 11 : Schiller tenta inferir. .. Como muitos argumentos influencia· dos pelo marxismo. Isto não implica. imagens e representações que caracterizam a produção das indústrias da mídia. em sua preocupação de esclarecer a conexão entre as transmissões da mídia e o sistema capita. -~ Ul"{I ter~o problema com o argumento de Schiller diz respeito às maneiras em que os piÕdutos importados da mídia afetam seus receptores no Terceiro Mundo e k outros lugar~Schiller sustenta. tanto nos programas em si mesmos quanto na propaganda que constitui a base financeira do sistem!} que estas representações terminarão por criar e estimular motivações de consumo em seus receptores. através dos quais valores. As questões tratadas por Schiller devem ser vistas. que a globalização da comu- nicação através da mídia eletrônica não tenha produzido novas formas de dominação e de dependência culturais. A conquista. político e econômico. em vários graus de extensão. dúvida de que este apressado argumento. de tal maneira que eles se tornarão cativos de um siste- ma de produção e intercâmbio de mercadorias e bens simbólicos produzidos no Oa- dente. Mas há uma outra debilidade neste argumento que tem particular relevância para as questões que nos interessam aqui· o argumento pressupõe uma noção muito simplificada do que está envolvido na recep- ção e na apropriação dos produtos da mídia 37 .

/~. o argumento de Schiller implica um curto-circuito teórico e metodológico. das características das mensagens da mídia consideradas em si mesmas. Neste aspecto. Assim Liebes e Katz. vendo os personagens como manipulados pelos escritores e produtores do programa.que os processos de recepção. Os grupos de emigrados russos.-_ interpretam o programa em termos mais psicológicos. pelo contrário. Estudos como este mostraram convincentemente que a recepção e a apropriação dos produtos da mídia são processos sociais complexos em que indivíduos . Não somente pelo seu alto teor especulativo.. o argumento de Schiller ig- nora o processo hermenêutico de apropriação que é uma parte essencial da circulação de formas simbólicas (incluindo os produtos da mídi1J Em anos mais recentes um bom número de pesquisadores mostrou .~•· comparando suas respostas com as de grupos nos Estados Unidos e no Japão 39:" Elas p. interpretando a motivação dos personagens principalmente em termos de ordem hierárquica da família e de continuidade da dinastia.f' mostram que diferentes grupos têm diferentes maneiras de entender um programa. as conseqüências que as mensagens da mídia poderiam ter para os indivíduos que as recebem. de outro lado. de um lado. Os grupos árabes de Israel e judeus de Marrocos enfatizavam as re- lações de parentesco. os varia- dos aspectos dos processos de recepção. variadas e contextual- mente específicas nas quais as mensagens são interpretadas pelos indivíduos e incorporadas em suas vidas diárias.\fr"ocando em miúdo. Simplesmente não é possível inferir.intera--:-::_- gindo com outros e também com os personagens retratados nos programas . membros dos kibbutz e por americanos tinham também uma visão mais crítica.. como uma saga de relações e intrigas interpessoais.> diferentes maneiras de "negociar" seu conteúdo simbólico.nização social das indústrias da mídia.t·.através de estudos emográficos em contextos que são particularmente adequados para avaliar a plausibilidade da tese do imperialismo cultural . Liebes e Katz. num estudo bem conhecido. mas é antes um encontro criativo entre uma complexa e es- truturada forma simbólica. descobriram que havia diferenças sistemáticas nas maneiras usadas para recontar os programas que eles tinham visto. Mas inferências deste tipo devem ser tratadas com ceticismo. e indivíduos que pertencem a grupos parti- culares e que trazem seus próprios recursos e pressuposições para os apoiar na atividade de interpretação. mas sobre- tudo porque tendem a desconsiderar as maneiras complexas. '.dão sentido às mensagens de uma forma ativa. as adotam com atitudes diversas e as usam diferentemente no curso de suas vidas. Os grupos formados por oe-. inter- pretação e apropriação das mensagens da mídia são muito mais complicados do que pressupõe o argumento de Schiller. examinaram a recepção do seriado Dallas entre diferentes grupos étnicos em Israel. • '. A invasão eletrônica de filmes e programas televisivos americanos serviria para expandir e consolidar um novo regi- 153 . por exemplo. davam relativamente pouca atenção às relações de parentesco e eram mais inclinados a uma visão crítica. O processo de recepção não tem sentido único. mas -:.

Difusão globalizada. facilitaram o processo de globalização. insatisfatório. No irúcio deste capítulo esbocei estas origens. a única tentativa sistemática moderadamente plausível . em dois conjuntos de considerações. de modo a dar sentido às mensagens que recebem e in- corporá-las de alguma maneira em suas vidas. precisamos reconstruir historicamente os caminhos pelos quais o processo de globalização se firmou. o processo de recepção é essencialmente uma "caixa-preta" dentro da qual os produtos da mídia com valores do consumismo são derramados.~Ela falha em não levar em consideração o fato de que a recep- ção e a apropriação dos fenômenos culturais são processos fundamentalmente herme- nêuticos nos quais os indivíduos se servem de recursos materiais e simbólicos disporúveis a eles.de teorizar sobre a globalização da comunicação e seu impacto no mundo moderno. mas ao fato de ter empobrecido e reduzido a importância desta reciprocidade. mas e precisamente esta pressuposição que se deve colocar em dúvida. Mas se o argumento de Schiller e a tese do imperialismo cultural não for- necem uma e:. Para a tese do imperialismo cultural. Como muitos argumentos influenciados pelo marxismo.e na verdade. Ela mostra que a tese é insuficiente não somente porque os dados foram ultrapassados e são empiri- camente duvidosm. mas ~bém porque se baseia numa concepção um tanto defeituosa dos fenômenos culturais. Esta linha de crítica atinge o coração da tese de imperialismo cultural. focalizando o poder simbólico e as várias instituições e tecnologias -~e. a tese do imperialismo cul- 154 . Primeiro. remontando este desenvolvimento às origens de cada uma das quatro formas de poder e de suas inter-relações. político e coerciti- vo no ~rocesso de globalização:\Neste aspecto. Mas isto claramente não ocorr~ Embora o argumento de Schiller seja. a deficiência da tese do imperialismo cul- tural nao se deve ao esquecimento da reciprocidade entre estas várias formas de poder. que alternativas há? No que resta deste capí- tulo.me imperialista somente se se pudesse comprovar que os receptores destes progra: mas intemalizam os valores do consumismo abertamente veiculados neles. como tentarei demonstrar. apropriação localizada: em busca de uma teoria da globalização da mídia Uma explicação satisfatória e teoricamente informada da globalização da comunica- ção e de seu impacto deve se basear. bem como da ajuda interpretativa oferecida por aqueles com quem eles interagem quotidianamente. e de onde emergem indivíduos orientados para o propalado consumo. ele vale como uma tentativa . Mas nós precisamos de uma elaboração melhor. em última análise. desde a segunda metade do século XIX. tentarei desenvolver uma estrutura alternativa que leve em consideração tanto o caráter estruturado da comunicação global quanto o caráter contextualizado e herme- nêutico do processo de recepção.trutura teórica satisfatória. que dê majs atenção às múltiplas e mutáveis maneiras em que o poder simbólico se sobrepôs ao poder econômico.

enquanto.. estes materiais simbólicos vão sendo recebidos por indivíduos que estão situados em locais espaço-temporais espe- cíficos. Quero agora desenvolver um pouco mais esta ~calizando o processo de apropriação dentro de três temas interligado~ ~o tema é este: dado o caráter hermenêutico da apropriação. Isto foi muito bem ilustrado pelo estudo de Llebes e Katz sobre a recepção de Dallas. Mas a reciprocidade entre estas formas de poder foi sempre mais comple- xa e dominada por conflitos do que tal explicação poderia sugerir. Foi também expressivamente demons- trado pelo estudo de Sreberny-Mohammadi e Mohhamadi sobre o papel dos meios de comunicação na Revolução Iraniana40 . O segundo conjunto de considerações diz respeito às relações entre os padrões estruturados da comunicação global. que se revestia de um caráter' subversivo. conforme os indivíduos as adaptam aos contextos práticos da vida cotidiana.tural dá prioridade ao poder econômico.ÍÀ apropriação dos produtos da mídia é sempre um fenômeno localizado. onde eram facilmente reproduzidos e largamente distribuídos. seus discursos e sermões eram gravados e contrabandeados para o Irã.. a linguagem e o imaginário religioso tradicional no Irã foram usados como armas simbólicas na luta contra 0 Xá. considerando o poder simbólico como um instrumento dos interesses comerciais (associados aos interesses das elites políticas e militares). Durante os anos 70. ao mesmo tempo. por um lado. a importância que asºmcnsagens da mídia tem para os indivíduos e as maneiras de usar os materiais simbólicos mediados depen. Enquanto a comunicação e infor- mação cada vez mais se difundem em escala global. por outro. o processo de apropriação permanece intrinsecamente contextual e hermenêutico. Mas com o desenvolvimento do regime islâmico no periodo pós-revolucionário. r· '-Já lançamos alguma luz sobre o eixo global-local ao examinar alguns dos padrões de difusão global. Seu crescimento atesta o fato dual de que a circulação da informação e da comunicação se tornou cada vez mais global. e as condições locais sob as quais os produtos da mídia são apropriados. Embora Khomeini estivesse no exílio. mas criou um novo tipo de eixo simbólico no mundo moderno. diferente para muitos iranianos. E as mensagens são freqüentemente transformadas no processo de apropriação. a importância do eixo vai aumentando. A globalização da comunicação não eliminou o caráter localizado da apropriação. os produtos da cultura ocidental come- çaram a assumir um significado muito.i posição para os auxiliar no processo de recepçã?. dem crucialmente dos contextos de recepção e dos recursos que os receptores têm à dis. e que contam com os recursos que lhes são dis- poníveis para dar sentido às mensagens da mídia e as incorporar em suas vid~. que foi associado à importação corruptora da cultura ocidental. no sentido de que ela sempre envolve indivíduos específicos que estão situados em con- textos social-históricos particulares. eles ajudaram a criar um ISS . que irei descrever como o eixo da difu- são globalizada e da apropriação localizad_:f medida que a globalização da comuni- cação se torna mais intensa e extensa. Vídeos de filmes ocidentais e discos de música popular ocidental circulavam como parte de uma cultura popular subterrânea.

"A nossa vida diária nos leva de casa para o trabalho e do trabalho para casa. no começo dos anos 90 a maioria das famílias urbanas possuía pelo menos um aparelho de televisão. Podem ter alguma concepção de regiões do mundo muito distantes de seus próprios contextos geográficos. contudo. novos modos de pensar. Entre outras coisas. e havia um televisor para cada oito pessoas em todo o país43 . Quero sugerir que(â apropriação do material simbólico globalizado envolve o que descreverei como a acentuação do simbólico distancia- mento dos contextos espaço-temporais da vida cotidiana. os produtos globalizados da mídia são recebidos. .este comentário de um contador de 58 anos em Xangai reflete muito bem o efeito do distanciamento simbólico na idade da comunicação global. Os indivíduos podem conceber. embora muitos chineses sejam críticos dos programas disponíveis a eles. por isso queremos ver algo diferente do que temos cotidianamente. Entre as décadas de 1960 e 1970 relativamente poucos televisores foram vendidos na China. Através de processos de apropriação localiza- da. os lugares se tomam situações onde. Nos anos 80. A tele- visão nos oferece urna idéia do resto do mundo"+. Quando os materiais simbóli- cos circulam em escala sempre crescente.~~~do tema: como deveríamos entender o impacto social da apropriação localizadriÍos produtos globalizados da mídia? Quero enfatizar aqui um aspecto-chave deste processo. Que sentido dão os receptores chineses aos programas que eles vêem? Lull tenta responder esta pergunta com uma série de longas entrevistas com famílias em Xan- gai.espaço cultural alternativo no qual os indivíduos podiam se distanciar um pouco do regime experimentado por muitos como opressor" 1• Tais exemplos ilustram muito bem o caráter contextual do processo de apropriação. ainda que parcialmente. A transmissão hoje é dominada por uma rede nacional. a Televisão Central da China (CCTV). ele mostra que. em extensão cada vez maior. maneiras de viver e condições de vida totalmente diferentes das que eles experimentam no dia-a-dia. interpre- tados e incorporados pelos indivíduos. todavia eles têm uma gran- de estima pela televisão por lhes oferecer novas vistas. Guangzhou e Xian. mas simbolicamente e imaginativamente.não literal- mente. que fornece a maior quantidade de programas para as várias esta- ções regionais e locais que operam em todo o país. O fenômeno do distanciamento simbólico foi muito bem descrito por James Lull em seu estudo sobre o impacto da· televisão na China 42 • A televisão tornou-se um meio popular na China somente ao longo dos anos 80. Os espectadores chineses são atraídos por programas 156 . os produtos da mídia são transplantados para os conjuntos de práticas que modelam e alteram seus significados. novos estilos de vida. Pequim. Consideremos agora um(s. IA apropriação dos materiais simbólicos permite aos indivíduos se distanciarem das cbndições da vida cotidiana . a produção interna de televisores cresceu dramaticamente. eles eram muito dispendiosos em relação aos salários médios e se restringiam aos mais privilegiados das elites urbanas.

ain- da assim elas fornecem aos espectadores amplo material de distanciamento simbólico. Quando as pessoas assis- tem a noticiários internacionais.:s condições de vida e. dado o caráter contextualizado da apropriação. adquirem uma visão crítica das interpretações oficiais da realidade polí- tica e social. parece que as novelas egípcias são particularmente aceiw pelas jo- vens beduínas do deserto precisamente porque apresentam um conjunto de estilos de 157 . Pelo contrário. Aqui quero apenas acentuar que.do que é a vida em outros lugares. Mesmo que as transmissões chi- nesas sejam rigorosamente controladas. "45 Os indivíduos se distanciam das própri. A importância relativa dos diferentes as- pectos pode ser estimada somente por meio de cuidadosa investigação etnográfica. por exemplo. Descreverei alguns as. por exemplo. As- sim. nas reais circunstâncias da vida cotidiana. ao mesmo tempo. não quero que pensem. Ele dizia que nada havia de valor fora da China.\ É uma fonte de ten- são em parte porque os produtos da mídia podem veicular imagens e mensagens que chocam com. que este seja o único aspecto do processo de apropriação digno de considera- ção. mas também porque eles oferecem um vislumbre . Em alguns contextos esta discordância pode fazer parte das inten- ções manifestas ou sub-reptícias dos produtos da mídia: eles ajudam os indivíduos a tomarem distância. os valores assoàados a uma maneira de vida tradicional.importados do Japão.ain- da que fugaz e parcial . permitem-lhes. em comparação com os sistemas oàdentais. E ao fazer isto. em alguns aspectos. Isto nos leva ao ~ceiro temai-a apropriação localizada dos produtos globalizados da mídia é também umã. ela permite que os espectadores comparem suas condições de vida com aquelas que prevalecem em outros lugares. é muito provável que a apropriação dos produtos globalizados da mídia interajam com as práticas localizadas de maneiras complexas e possam. Imagens de outros modos de vida constituem um recurso que os indivíduos têm para julgar criticamente suas próprias condições de vida. tanto em seu próprio país quanto no exterior. não se pode determinar com antecedência que aspecto ou aspectos estarão envolvidos na recepção de uma forma simbólica particular. nas habitações e no vestuário quanto no comentário que acompanha os fatos ocorridos em terras estrangeiras. servir para consolidar relações estabelecidas de poder ou criar novas formas de dependência. elas podem prestar atenção tanto nas cenas de rua. Ao enfatizar o fenômeno do distanciamento simbólico. Europa e Estados Unidos não somente por seu valor entretenedor e informativo. a questionar suas práticas tradicionais. é óbvio. assim.. chegar a conclusões que divergem das interpretações oficiais do governo que lhes são rotineiramente apre- sentadas. Mas quando assistimos aos programas de TV podemos ver que o Ocidente não é tão ruim assim.fonte de tensão e de conflito potenci~. pectos mais negativos da apropriação dos produtos da mídia num próximo capítulo. ou não comportam inteiramente. a imaginar alte'"!lativas. Formosa. Como um espectador de Pequim observou: "Antes da Revolução Cultural o go- verno exagerava as situações dentro e fora do país.

Neste capítulo esbocei alguns dos contornos da globaljzação da comunicação.seria plausível dizer que a cres- cente difusão dos produtos globalizado~ da mídia desempenhou um papel-chave na provocação de alguns dos mais dramáticos conflitos nos últimos anos. um fenômenó que altrrou a natureza do intercimbio simbólico e transformou em certos aspectos as condições de vida de indivíduos em todo o mundo. quando considerarmos as formas nas quais. Mas. ou simplesmente a manter e.vida . iremos voltar a este tema mais tarde.isto é. Em si mesmo.que divergem do conjunto de opções tradicionalmente di spomve1s a e as . As terisões e os conflitos provocados pela apropriação localizada dos produtos da mídia podem ser experimentados também como uma forma de conflito pessoal. Mas. De qualquer maneira. ou fossem testemunhados por milhões de indivíduos na China e no mundo todo.como a possibilidade de casar por amor e de viver separadas das extensas famí- . ele não provocou a demonstração audaciosa na Praça Tiananmen. Mas será que a crescente disponibilidade dos produtos globalizados da mídia destrói os últimos resí- duos da tradição? Será que o desenvolvimento da mídia simplesmente sela o sepulcro da maneira de vida tradicional cujo destino já foi decidido pelo impacto transformati- vo da modernidade? 158 . Novamente. os indivíduos são constantemente chamados a reconciliar. muitas forma~ de conflito social são extre- mamente complexas e implicam diversos fatores. Seria imprudente sustentar que a apropriação localizada dos produtos globaliza- dos da mídia foi o maior fator de estímulo às mais amplas formas de conflitos e mu- danças sociais no mundo moderno. como um conflito entre as competitivas exigências que lhes são feitas ou entre os incompaúveis objeti- vos a que aspiram. Aqui será suficiente destacar o fato de que. . Lull ~firma que o fluxo de programas televisivos domésticos e internacionais transmitidos ao longo dos anos 80 na China criou um reservatório cultural de visões alternativas.n dificil equilíbrio. parece muito pouco provável que os acontecimentos tivessem os desdobramentos que tiveram. mais os indivíduos experi- mentam o choque de valores como um conflito pessoal . com o desenvolvimento da mídia. na ausência da televisão. até onde a formação pessoal possa ser informada pelo conteúdo simbólico dos produtos da mídia. 1 •• lias . indivíduos têm acesso a novos tipos de materiais simbólicos que podem ser incorporados reflexivamente no projeto de autoformação. nem determinou o curso da confronta- ção seguinte. en- corajando as pessoas a questionar valores tradicionais e interpretações oficiais e aju- dando-as a imaginar maneiras alt~vas de viver. quanto mais estes mate- riais simbólicos são extraídos de fontes as mais diversas. mensagens que confli- tam umas com as outras ou com os valores e crenças enraizadas nas práticas rotineiras da vida cotidiana.

e muitos outros pensadores. chegaremos a uma visão bem diferente do caráter mutável da tradição e de seu papel na vida social. Tradição. partilhando ou não a sua perspectiva. os indivíduos puderam experimentar eventos. Antes do desenvolvimento da mídia. observar outros e. é a fa- mosa observação de Marx./E é uma visão que foi revitalizada em anos recentes. era constituída principalmente através das tradições ~is que foram produzidas e repro- duzidas nos contextos sociais da vida cotidiana. contudo. 'Com o desenvolvimento da mídia.tanto reais quanto imaginários . em geral.situados muito além da esfera de seus encontros diários. se atentarmos para o impacto transformativo da mídia. a tradição vá gradualmente perdendo importância e finalmente cesse de desempenhar ~gum papel significativo na vida coti- diana da maioria dos indivíduos. geralmente concordaram com o ponto de vista de que bdesenvolvimento das sociedades modernas é acompanhado por um declínio irreversível do papel da tradi- ção. a noção de passado. pelos teóricos que afirmam que o desenvolvimento das sociedades modernas implica um processo de "desenraizamento das tradições". eles puderam também man- ter um ceno distanciamento do conteúdo simbólico das interações face a face e das 159 . embora de maneira mais qualifÍcâda.[ Esta visão fez parte integral de várias teorias da modernização desenvolvidas nos a~s 50 e 60. a compreensão que muitas pessoas tinham do passado e do mundo além de seus imediatos ambientes era mode- lada principalmente pelo conteúdo simbólico intercambiado em interações face a face. "Tudo o que é sólido se desmancha no ar". conhecer mundos . Além disso. do mundo além dos seus locais imediatos e de suas comunidades socialmente limitadas. à medida que os indivíduos tiveram acesso aos produtos da mídia. · Neste capítulo quero questionar a propalada visão de que a tradição é uma coisa do passadoJ Tentarei mostrar que.IEles foram incessantemente atraídos por redes de comuni- cação que não tinham mais um caráter de interagir face a face. 6 ANova Ancoragem da Tradiçõo /' Uma das mais poderosas heranças do pensamento social clássico é a idéia de que. Para a maioria das pessoas. se presume. com o desenvolvimento das sociedades modernas. das quais foram parte. é uma coisa do passado (em mais de um sentido) e "sociedades modernas" contrastam de um modo geral com "socieda- des tradicionais" que as precederam.

Mas estes desenvolvimentos enfraquecem a tradição? Não necessariamente. quero começar considerando a natureza da tradição e. formas de autoridade que prevaleciam em seus contextos sociais. os indivíduos che- garam a confiar cada vez menos no conteúdo simbólico transmitido pelas interações face a face e pelas formas localizadas de autoridade. E mais. que respondeu esta questão de um modo profllildamente determinante.. mas antes transformada ou "desalojada" por eiaJN~ se- ção final. em seguida. e que assentou OS termos do debate por muitos anou (Desenvolverei. à pressuposição de mui- tos teóricos sociais clássicos de que o desenvolvimento das sociedades modernas seria acompanhado pelo declínio da importância da tradição na vida social. realizado dentro de paradigmas da teoria da modernização. Pois as tradições transmitidas oralmente continuaram a desempenhar um papel importan- te na vida cotidiana de muitos indivíduos. se renovassem. A tradição se desritualizou.. Esta suposição se baseou em vários conjuntos de considerações sobrepostas. uma explicação alternativa que sustenta que a tradição não foi destruída pela mídia.'A mediatização da tradição dotou-lhe de uma nova vida: a tradição se libertou das limitações da interação face a face e se revestiu de novas ca- racterísticas. se enxertassem em novos contextos e se ancorassem em unidades espa- ciais muito além dos limites das interações face a face_.. O processo de autoformação tor- nou-se mais reflexivo e aberto. em parte. no sentido de que os indivíduos recorriam cada vez mais aos próprios recursos e ao conteúdo simbólico transmitido pela mídia para che- garem a identidades coerentes para si mesmos. O iluminismo estabeleceu como premissa a rejeição da 160 .J A natureza da tradição Que é tradição' Como deveríamos entender sua natureza e seu papel na vida so- cial' A noção de tradição recebeu relativamente pouca atenção na literatura da teoria social 1• Sem dúvida que esta negligência é devida. preparou-lhes o caminho para que se expandissem. Mas o desenraizamento das tradições não as privou dos meios de subsistência.:. como foi abordada na literatura da teoria social.. perdeu sua ancoragem nos contextos práti- cos da vida cotidiana. Pelo contrário. A-teoria social clássica foi de muitas maneiras um produto do pensamento iluminista . em particular.\centra- lizarei a atenção na relação entre a tradiçjo e a mídia: como as tradições foram afeta- das pelo desenvolvimento da mídi~xáminarei um estudo clássico. 1 Para desenvolver esta linha de raciocínio. Para chegarem a um sentido de si mesmos e das possibilidades que lhes eram abertas. tentarei mostrar como esta explicação alternativa do caráter mutável da tra- dição pode iluminar alguns dos fenômenos problemáticos do nosso tempo. Um deles de caráter principalmente intelectual. as tradições mesmas foram trans- formadas à medida que seu conteúdo simbólico foi sendo assumido pelos novos meios de comunicação.

Daí. Weber argwnentava que certas mudanças nas idéias e práticas religiosas eram precondições para a emergência do capitalismo ocidental. elemento espontâneo e emotivo da ação tradicional foi esmagado pelas exigências de objetivos racionalmente calculados. Um outro con- junto de considerações tem caráter mais substantivo. uma inimiga da razão e um obstáculo ao progre5so hwnano. Mas diversamente de Marx. as relações sociais e as tradições das sociedades pré-capitalistas são quebradas e dissolvidas. E com esta incessante atividade. Uma vez estabelecido como forma predominante de atividade econômica. wn véu que encobria as relações sociais e ocultava sua verdadeira natureza. racionalizou progressivamente a ação e a adaptou aos critérios de eficiência técnica. Muitos teóricos sociais clássicos argumentam que o desenvolvimento das sociedades modernas implicou uma dinâmi- ca intrinsecamente destruidora da tradição. a sociedade capitalista moderna está constantemente se ex- pandindo e se transformando. O desenvolvimento do capitalismo. Di- versamente das sociedades pré-capitalistas. Ao desencarrilar o "trem dos antigos e veneráveis preconceitos e opiniões" que abrigou às relações sociais no passado. o capitalismo adquiria uma força própria e dispensava as idéias e práticas religiosas que tinham sido necessárias para o seu advento. e o homem é finalmente compelido a enfrentar com sobrie- dade as suas reais condições de vida e suas relações com os semelhantes" 2 • A desmiti- ficação das relações sociais é assim um aspecto inerente do desenvolvimento do capitalismo.e este foi um dos temas centrais de sua obra -. Por outro lado . tudo o que é santo é profanado. Embora Weber não partilhasse o otimismo de Marx com relação à transformação do capitalismo. que eram basicamente conservadoras no seu modo de produção.e prepara o caminho para o tipo de transformação revolucionária sonhada por Marx. a economia capitalista é o cenário de atividade febril. "tudo o que é sólido se desmancha no ar. que era vista por muitos pensadores iluministas como uma fonte de mistifi- cação.Marx discernia no modo capita- lista de produção uma dinâmica que ra3garia a tradicional textura da vida social. ~x se deixou influenciar profundamente pela antipatia do ilu- minismo pela tradição: para ele. ele também pensava que o desenvolvimento do capitalismo industrial se faria acompanhar pelo desaparecimento das cosmovisões tradicionais. o capitalismo permite que os indivíduos vejam suas relações sociais como elas de fato são .tradição. A convergência destes dois conjuntos de considerações é evidente nos escritos de Marx. O puramente pessoal. mas era também fadada à destruição pela própria dinâmica posta em movimento pela emergência das rnciedades modernas. associado ao surgimento do estado burocrático. A tradição era não somente inimiga do pensamento iluminista.relações de exploração . uma herança do passado para ser criticada e dissipada em nome da razão. Argumentos um tanto semelhantes podem ser encontrados nos escritos de outros teóricos sociais clássicos. Por um lado. Este "desencantamento" do mundo moderno fazia parte 161 . a tradição era a principal fonte de mistificação. pois ela só pode continuar existindo em permanente estado de revolução.

Mas elas podem sobreviver de várias maneiras . per- dem o status de verdades inquestionáveis.. transformadas num tipo de fundamentalismo que rejeita o apelo da justificação discursiva e procura. Em anos mais recentes. resquícios de uma idade primiti- va. Se as tradições estavam condenadas à extinção com o desenvolvimento das sociedad~s . como "a fatalidade dos tempos modernos"'. Eles sustentam que nas primeiras fases da modernização muitas insti- ruições dependem crucialmente das tradições características de sociedades pré-modernas . modernas. há. se esta perspectiva não seria um tanto presunçosa. entre outros. As visões de Marx e de Weber. um refúgio de almas acanhadas. reafir- mar o seu caráter inviolável.do preço a ser pago à racionalização ocidental. mas seu status muda de alguma maneira. um apego irracional a algo condenado a desaparecer. num clima de dúvida generalizada. teóricos sociais como Ulrich Beck e Anthony Giddens propuseram uma visão mais qualificada'. ela possa também fazer parte integral do presente. dentro de condições apropriadas. Elas perdem o monopólio da verdade e se tornam menos seguras à medida que se tornam crescentemente expostas ao impacto corrosivo do escrutínio e do debate pú- blicos. porém. contudo.á de se_ ~erguntar.crenças e práticas religiosas incluídas . O Pri- meiro problema é que se torna dificil entender por que certas tradições e sistemas de crença tradicionais continuam a ter uma significativa presença ainda neste século XX . em alguns aspectos. tiveram um impacto formativo no pensamento subseqüente sobre o destino da tradição. por exemplo.por exemplo. dois grandes problemas. a passagem das primei- ras para as últimas seria um processo de mudança social de sentido único. com algum pesar. as tradições preexistentes tendem a perder sua força: as sociedades modernas são "destradicionalizadas". Não examinarei mais detalhadamente aqui os argumentos de teóricos particula- res. 162 . por que então ainda permanecem . entretanto. H. Weber a considera. não desaparecem completamente do mundo moderno. As práticas tradicionais. excluindo a possibilidade de que. Mas à medida que o processo de moderni- zação entra numa fase mais avançada (que Beck chama de "modernização reflexiva" e Giddens. muitas das primeiras organizações produtivas modernas depen- diam das formas tradicionais de vida familiar.como aspectos penetrantes da vida social hoje? Para os partidários da tese geral do declínio da tradição só é possível entender a persistência ou o ressurgimento de cren- ças e práticas tradicionais em termos de regressão ou reação: um retorno ao passado. A partir do momento que as práticas tradicionais são chamadas a se defender.como. pois ve a tradiçao somente como um legado do passado. "última modernidade"). As teorias da modernização dos anos 50 e 60 geralmente viam uma larga oposição entre sociedades "tradicionais" e "modernas" e supunham que. Quero apenas focalizar a questão geral levantada pelo trabalho deles: o desenvol- vimento das sociedade~ modernas se fez acompanhar pelo declínio do papel da tradição na vida social? Embora a resposta mais comum entre teóricos sociais clássi- cos e contemporâneos seja afirmativa.

Ao justapor as noções de razão. -. crenças e padrões de comportamentos trazidos do passado e que po- 163 ..~ndo problema com a tese geral do declínio é que. \Que é tradição? Como devemos entender suas características? No sentido mais gefal. pouca ou nenhuma atenção se deu ao papel da mídia. mas este não é necessariamente um aspecto de todas as tradições. mas. num conjunto de conceitos que temos como certos e que fa- zem parte da tradição a que pertencemos•. como a racionalização da ação .-h~rmenêuiícofÜma maneira de entender a tra- dição é vê-la como um conjunto de pressupostos de fundo.isto é. Por isso a crítica iluminista da tradição deve. a do pró- prio iluminismo. ser qualificada.. --- Muitas tradições têm também um ~specto normà. conhecimento científico e emancipação àquelas de tradição. os pensadores ilumi- nistas não estavam descartando a tradição como tal. "aspecto legitimador" e "aspecto identificador". c(. Presume-se geralmente que o caráter dinâmico das sociedades modernas . "aspecto normativo". Nenhuma compreensão pode ser inteira- mente isenta de pressuposições..\ isto é. que são aceitos pelos in- divíduos ao se conduzirem na vida cotidiana e transmitidos por eles de geração em geraç~A tradição não é um guia normativo para a ação. uma estrutura mental para entender o mundo. quero examinar um pouco mais a noção de tradição.livo. toda compreensão se baseia em pressuposições. No sentido hermenêutico de tradição. ao contrário.J>ãra esclarecer este pon- to. Mas estas questões são centrais e nos darão o ponto de partida para as análises mais detalhadas que vêm a seguir. na opinião de Gadamer.do declínio. "tradição" significa um traditum .tradição pode envolver elementos de tipo normativo (por · exemplo.teve um im- pacto direto e deletério nas formas tradicionais de vida. mas antes um esquema in- terpretativo. um conjunto de suposições aceitas-como-verdadeiras-sem-exame- prévio que fornecem uma estrutura para a compreensão do mundo. ~ Antes de embarcar nestas análises. mas articulando um conjunto de pressuposições e métodos que formavam o núcleo de uma outra tradição. Como filósofos herme- neutas como Heidegger e Gadamer enfatizaram. autoridade e mito. Na prática es- tes quatro aspectos se imbricam e se fundem uns com os outros. o iluminismo não é a antítese da tradição. mais geralmente. é útil distinguir quatro diferentes aspectos de tradição: '1aspecto hermenêutico". qualquer coisa que é transmitida _ ou trazida do passado 5 • fl. em muitas de suas ver- sões. isto é. --' Consideremos primeiro o eyéêt.entendido como a atividade eco- nômica capitalista ou. Mas ao distingui-los tem-se um sentido mais claro do que é implicado na existência da tradição.isto é..'. é uma tradição (ou aglomerado de tradições) entre outras . um conjunto de pressuposições. que práticas do passado deveriam servir como guia para futuras ações). Mas qual o papel reservado à mídia na transformação destas formas tradicionais de vida? Podemos entender esta transformação sem considerar as outras que o desenvolvimento da mídia provocou na organização social da vida cotidiana? Estas são questões esquecidas pelos defenso- res da tese geral.

· . A explicação de Weber da autoridade tradicional é útil porque acentua o fato de que.uação de identidade que nos interessam aqui . r- 0 terceiro aspecto da tradição é . servir como fonte de apoio para o exercício do poder e da autoridade. os indivíduos são obedientes a um sistema impessoal de normas. que ocupa a posição de autoridade tradicionalmente sancionada e cujas ações se tomam obrigatórias por tra- dição. No caso da auto- ridade legal.o que chamode 1'auto-identidade" e "iden- tidade coletiva". podem se basear também em fundamentos carismáticos. Há dois tipos de for. No caso da autoridade tradicional. \ . ou podem se basear em fundamentos tradicionais.que chamei de aspecto identifiCàCI& da tradição. realizadas com pouca reflexão. De acordo com ele. em certas cir- cunstãncias. precisamente porque os fundamentos da ação se tomam explícitos e elevados ao nível de justificação auto-reflexiva. A questão dos fundamentos pode ser colocada quando se pergunta a alguém por que acredita em algo ou por que age de certa ma- neira. consideremos a na.\A tradição pode. \ Este aspecto foi muito bem abordado por Max Weber 7 . como um indivíduo situa- 164 . Auto-identidade é o sentido que cada um tem de si mesmo como dotado de certas características e potencialidades pessoais. tradiçoes do passado podem servir como princípio normativo no sentido de que tomam certas práticas rotineiras . ou de al- guma outra forma variante. mas também como uma base para o exercício do poder sobre outros e para garantir-lhes a obediên- cia. obediência é devida à pessoa. da maioria das pessoas se realiza sob o signo da rotina. Rei- vindicações de legitimidade podem se basear em fundamentos racionais. dem servir como princípio orientador para as ações e as crenças do presente)ode- mos distinguir duas maneiras em que isto pode ocorrer. Por um lado. em certos contextos. isto é. envolvendo uma crença na legalidade de normas promulgadas (que Weber chama de "autoridade legal"). envolvendo uma crença no caráter sagrado de tradições imemoriais ("autoridade tradicional"). tradições do passado podem servir como princípio normativo no sentido de que tomam certas práticas tradicionalmente fundamentadas. há três-.t~~ da tradição em relação à formação da iden- tidade . podem ser usadas para estabelecer ou sustentar relações de poder estruturadas sistematica- mente de maneiras assimétricas. Grande parte do cotidiano. e estas crenças ou práticas são tradicionalmente fundamentadas se se responde dizendo: "nós sempre acreditamos nisto" ou "nós sempre agimos assim".isto é. implicando a devo- ção à santidade ou ao caráter excepcional de um indivíduo ("autoridade carismáti- ca"). porque sempre foram feitas do mesmo jeito. Por outro lado. o legitimadór. a tradição pode ter um caráter manifestamente político: ela pode servir não somente como princípio normativo para ação. justificadas pela referência à tradição.---iFinalmente. maneiras principais de estabelecer a legitimidade de um sistema de dominação. É neste aspecto que as tradições podem se tomar "ideológicas": isto é. Este é o sentido mais forte do aspecto normati- vo.

Tendo feito a distinção entre os vários aspectos da tradição. a tradição retém a sua importância no mundo moderno. A importância do nacionalismo pode ser parcialmente entendido nestes termos: o nacionalismo geralmente implica uma nova ancoragem da tradição num território contiguo a um real ou potencial estado-na- ção. as tradições fornecem material simbólico para a formação da:l/ identidade tanto a nível individual quanto a nível coleti~O sentido que cada uml tem de si mesmo e o sentido de pertença a um grupo são modelados . O processo de formação de identidade nun- ca pode começar do nada. estamos agora em posição de_s. Qual é a relevância da tradição para estes dois tipos de formação de identi- dade(c"omo con:untos de pressuposições. há um gradual declínio na funda- mentação tradicional da ação e no papel da autoridade tradicional . Mas se a tradição permanece um aspecto importante do mundo moderno. mas perdem sua ancoragem nos locais compartilhados da vida cotidiana. crenças e padrões de comporta" mento que são transmitidos do passado.pelos valores. as tradições sobreviveria ao longo do tempo somente se forem continuamente rdncorporudas em novos contextos e reancoradas em novos tipos de unidades territoriais.do numa certa trajetória de vida. um território que limita mas ultrapassa os limites dos locais compartilhados. é um sentido de pertença. sempre se constrói sobre um conjunto de material simbólico preexistente que constitui a fonte da identidade. ela se transformou de maneira crucial: a trans- missão do material simbólico que compõe a tradição se tomou cada vez mais separada da interação social compartilhada em ambientes comuns.em vários graus dependendo do contexto social . Mas pode muito bem acontecer que. a natureza deste conjunto de material simbólico preexistente tenha se alterado significativamente. de ser parte de um grupo social que tem uma história própria e um destino coletivo.pnsiderar as mudanças provocadas pelo desenvolvimento das sociedades modernas. crenças e padrões de comportamento tra- zidos do passado. Em outros aspectos. particularmente como um meio de dar sentido ao mundo (aspecto hermenêutico) e de criar um sentido de pertença (aspecto identificador). é plau- sível falar do desaparecimento da sociedade tradicional? O largo contraste entre soeie- 165 . 'Resumo os pontos salientes do argumento que irei desenvolv::· I Com o desenvolvimento das sociedades modernas. As tradições não desapare- cem. com o desenvolvimento dos meios de comunicação. contudo. nos aspec- tos normativos e legitimadores da tradição. O desenraizamento das tradições dos locais compartilhados da vida cotidiana não sig- nifica que as tradições flutuam livremente. pelo contrário. A identidade coletiva é o sentido que cada um tem de si mesmo como membro de um grupo social ou coletividade. Mesmo conservando sua importância.Isto é. e isso possa ter implicações no processo de formação de identidade. Estas são questões que merecem nossa atenção e às quais ainda voltaremos.

rr. A obra é bem conhecida no campo dos estudos de desenvolvimento e.de comu- nicação e de desenvolvimento foram debatidos por várias décadas. entre aqueles que se interessem por comunicação. novos meios de comunicação também proporcionam os meios para a separação da transmissão da tradição dos ambientes comuns comparti- lhados.The Passing of Traditional Society de Da- niel Lemer 8 • Esta obra é um estudo detalhado do processo de modernização no Oriente Médio. produto do seu tempo. mas ainda não considerei em detalhes a relação entre a tradição e a mídia. elas estabelecem a principal estrutura dentró da· quàl os prõbiernas. É neste espírito que quero reexaminar alguns aspectos de sua obra. em parti- cular. apesar das evidentes deficiências de seu enfoque.-mer é visto por muitos como o defensor de uma teoria da modernização um tanto etnocêntrica e fora de mo~:_'yma teoria que se baseou= protótipos ocidentais e de caráter extremamente en- dógenos. quero começar reexaminando os argumentos de uma obra clássica . sem dúvida a teoria de Lerner foi. Podemos entender o paradoxo da tradição e da modernidade atentando para esta consideração:iQ declínio da autoridade tradicional e dos fundamentos tradicionais da ação não significa a morte da tradição. criando assim as condições para o renovamento da tradição numa escala que excede enormemente qualquer coisa existente no passado. por outro.. 166 . o desenvolvimento dos meios de comunicação facilita o declínio da autoridade tradicional e dos fundamentos tradicio- nais da ação. Isto será feito nas seções seguintes.arecido a questão da relação entre a tradição e a mídajThe Passing of Traditional Society é um dos poucos estudos que abordam esta questão de um modo detalhado e empiricamente orientado. até certo ponto.dades "tradicionais" e "modernas" não seria um tanto ilusório a c'tc respeito 7 Não tenho dúvida disto. e dificilmente fez justiça à complexidade e inter- comunicabilidade do mundo modemofNão obstante. e tentarei mostrar que a relação entre tradição e modernidade é mais complicada e paradoxal do que uma aguda oposição deste tipo poderia sugerir. e algumas das análises de Lerner são va- liosas e perspicazes. à medida que os indivíduos confiam mais e mais nas tradições media- das e separadas de contextos compartilhados para dar sentido ao mundo e para criar um sentido de pertenç_:J Até agora distingui certos aspectos da tradição e mostrei o perfil das alterações ocorridas no mundo moderno. Tradição e a mídia ( 1): Tradição destruída? Para explorar o impacto da mídia na natureza e no papel da tradição. Sustentarei que a transforma- ção da tradição está ligada fundamentalmente ao desenvolvimento dos meios de co- municação. Estas reservas não são insignificantes. A ligação é dupla: por um lado. o tÍ-~rner permane- ce de interesse por ter esc1. junto com a obra de Wilbur Sc!trarnm'. mas antes sinais de mudança na sua natureza e no seu papel.

antes de pressu- por que ele será igual ao passado. aberto. Mas esta abertura do self foi também estimulada pela difusão das experiências mediadas pela co- municação de massa. A rigidez das maneiras tradicio- nais de vida se quebra quando os indivíduos se confrontam com alternativas anterior- mente inimagináveis.de se imaginar no lugar do outro. simplesmente porque. Os indivíduos nestas sociedades não se preocupam com assuntos que não lhes afetam diretamente a vida diária. ansioso. pois todos levam a vida de acordo com rotinas não questionadas. o indivíduo nas sociedades modernas se caracteriza por um grau de flexibilidade e mobilidade que é bastante alheio ao mundo fechado do self limitado. e suas interações com outros são restritas ao conhecimento de pessoas com quem compartilham um ambiente social comum. Quais são as caracte- rísticas da sociedade tradicional. não há. A este respeito. a mídia é wn "multiplicador da mobilidade": ela torna disponível aos indivíduos wn vasto arsenal de experiências que diversamente per- maneceriam encobertas. e a considera um aspecto-chave da vida social moderna. e procura determinar as condições subjacentes à transição das primeiras para as últimas. se interessem por assuntos que não lhes afe- \ tam a vida cotidiana. na visão de Lerner? As sociedades tradicionais se fragmentam em comunidades isoladas umas das outras e nas quais as relações de pa- rentesco têm um papel predominante. Há uma auto-experimentação relativamente pequena. Por contraste. Lerner faz uma ampla distinção entre sociedades tradicionais e sociedades mo- dernas. percebe a própria vida como um ponto que se move ao 167 .certamente awnentou-lhes a flexibilidade e a capacidade de se imaginarem em novas situações. Além disso. O self na sociedade tradicional é um self limitado: ele se enraíza no familiar e na rotina. que se torna cada vez mais capaz de se ver no lugar do outro . -:-rerner usa o termo "empatia" para descrever a capacidade . para a maioria dos indivíduos. despertando assim a necessidade da viagem fisica. o self se torna mais expansivo. como sempre foi.estimulada pela ex- posição à mídia .incluindo as mi- grações em grande escala . e sua trajetória é organizada com o mínimo de consciência da existência de alternativas práticas. Os horizontes das pessoas são limitados pelo contexto geográfico. A empatia permite que os indivíduos se distanciem imagina- riamente das circunstâncias imediatas e.nwna nova situação radicalmente diferente. onde estas são modeladas às sociedades ocidentais. Há uma ausência de curiosidade e de conhecimento sobre acontecimentos ocorridos em locais distantes. Com o desenvolvimento da empatia. A vida cotidiana nas sociedades tradicionais é rotinizada segundo os padrões tradicionais. não há outras alternativas na agenda. A vida social começa a parecer mais insegura à medida que os indivíduos começam a imaginar o que poderá acontecer no futuro. e ao invés de se ver localizado num ponto fixo de uma ordem imutável de coisas. O crescimento das viagens e dos deslocamentos fisicos dos indivíduos . precisamente porque a experiência mediada é wna experiência do outro. necessi- dade de defender ou justificar estes padrões tradicionais. confrontados com novas possibilidades. ela cultiva a fa- culdade de imaginação do indivíduo.

168 . sacerdotes e os mais velhos eram os tradicionais modeladores de opinião. Des- providos de mobilidade e instrução. eles eram respeitados. um mundo de nscos e oportunidades no qual uma nova vida pode nascer através de uma contínu~ assimi- lação de experiências verdadeiras e vicárias.mídia permite que indi- víduos experimentem vicariamente eventos que acontecem em lugares distantes. Mas quando o isolamento foi invadido pelo tráfego cres- cente entre aldeias. e por isso estimula sua capacidade de imaginar alternativas às formas de vida caracterís- ticas de seus locais imediatos.long~ de uma trajetória de coisas imag. proprietários patriarcas. Um novo grupo de intermediários .inada_:)Com~ ~ verdmeiro de Balgat.jovens que viaja- vam e tinham contato com a mídia . '\"ovamente há quem não se deixe persuadir pela inter- pretação de Lemer do fenõmeno como um tipo de "empatia" que permite aos indivíduos imaginarem-se no lugar de outros. interpretando as notícias e modelando a opinião.começou a desempenhar um papel importante na transmissão de informação. Na rede de comunicação tradicional. ele consegue destacar um número de pontos que permanecem significativos ainda hoje. antes do desenvolvimento da televisão no Oriente Médio e das convulsões sociais que caracterizaram a região em décadas re- centes). Pode ser que Lemer interprete este papel de uma maneira um tanto inequívoca. desde que a aldeia permanecesse isolada do resto do mun- do. A exposição à mídia também afeta as relações dos indivíduos com o poder e a autoridade. a pessoa empatica pode imaginar um mundo alem das 1mediaçoes locais. Chefes aldeões. é certamente correta e se acentuou ainda mais pelo advento da televisão. Embora o estudo de Lerner seja um tanto desatualizado (as pesquisas originais foram realizadas no início dos anos 50. as fontes humanas são mais importantes que a mídia: os aldeões recebem suas notícias e as di- vulgam através de encontros com outros conhecidos em interações face a face. Isto aparece bem na descrição de Lemer do impacto dos meios de comu- nicação no ambiente rural do Líbano. o respeito tradicionalmente prestado aos mais velhos começou a diminuir. Talvez mais importante a este respeito seja a ênfase de Lemer no fato de que a mídia tem um papel crucial nas transformações culturais associadas ao surgi- mento das sociedades modernas. determinada pela teoria da modernização orientada para um objetivo particular (que ele chama de "sociedade participante"). através de formas de interação que não têm mais o caráter imediato. os aldeões mais velhos gradualmente perderam o direito de influência para os jovens que se ligavam a novas redes de comunicação capazes de transmitir notícias e informações. preparando assim a motivação psicoló- gica para a emergência da sociedade participante. Mas a idéia-chave de que a mídia permite aos indivíduos adquirir experiências ao longo do espaço e do tempo. vilas e cidades. mas sua ên- fase na centralidade da mídia é um antídoto salutar contra o legado da teoria social clássica. Um segundo aspecto da obra de Lemer que permanece válida é sua caracteri- zação da mídia como um "multiplicador da mobilidade": \.

em retrospectiva.. em alguns aspectos. sem dúvida. r '( . creditam relativamente pouca importância às rela- ções entre estados e ao papel do conflito militar. questionadas ou simplesmente desconside- f. [\ 1' •. ser uma deficiência fatal na análise de Lemer? Parte da explicação está. à busca de novas >. O que emerge com menos clareza do estudo de Lemer é a resposta plausível à e pergunta sobre as razões por que o islamismo permaneceu com força expressiva no . criando uma situação instável..\ \ (... oponunidades e novos estilos de vida. uma razio que se liga mais estreitamente às nossas preocupações. 1 . .. E no entanto poucos duvidam de que no Oriente Médio o conflito militar tenha desempenhado um papel extrema- mente importante na segunda metade do século XX e. nos constrangido pela tradição e mais disponível à experimentação. Lemer não sugere que a transição da sociedade "tradicional" para a sociedade "moderna" seja um processo suave e sem problemas..1eoria um tanto simplista da modernização empregada por Lemer.-· . Oriente Médio. .. ':'·. vio. apesar das tendências modernizadoras tio bem documentadas.zero das primeiras para os últimos era mais ou menos inevitável. "~ . É ób- . Na vis. . uma outra razio por que Lemer desoonsiderou a resistente importinc:ia do islamismo. como foram nas vilas e aldeias do übano e da Anatólia. Lemer chama a atenção para algumas maneiras pelas quais. ou "participante". Mas esta qualificação dificilmente fornece uma explicação '·· ~' satisfatória para a resistente imponância do islamismo nas regiões do Oriente (e. no fato de i. .poder e autoridade podem ser desafiadas. a persistência das maneiras tradicionais de viver e a adoção de estilos modernos de vida eram opções mutuamente excludentes. Para muiw peaou. radas. Íum terceiro tema da obra de Lemer que merece ~ ::Obsid~Çio é sua suges-\ --:. me- . . na · . Mu parece claro que esta maneira de apresentar as questões é insatisfatórla. e a pusa. na verdade. tio de que.io de Lemer. I' f'I. também em outros lugares do mundo hoje). r·._ que esta teoria se baseou num modelo endógeno de transforr. como muitos modelos endógenos. "Os símbolos rituais e radals perdem relevincia quando impedem desejos vitais de pio e de instrução"'º. provocadora de violência. -~ . . Mas há. como meio de unificar e mobilizar as pessoas na busca de objetivos políticos e militares. ~. a op- ção de manter formas tradicionais de viver nio exclui a adoção de modernos escUos 169 . Parte da explicação também est. ele aventa a possibilidade de que a mudança social poderia se tomar "defasada".. muita substância nesta sugestio .. L>') Cp .: '·. na minha opinião._... uma teoria que vê a modernização como um percurso de sentido único da sociedade tradicional para a sociedade moderna. fiá. e que se tenha des- >":' cuidado do potencial de mobilização de tradições que se transformaram de alguma :: maneira.embora possa parecer queeJ'a seja superdirnensionada. tenha acentuado a importância de islamismo como apelo aglutinador de forças. com o desenvolvimento de novas redes de comunicação. o sdf se toma mais expansivo e aberto.. Por que esta falha? Como podemos entender o que parece..:iaçio social e por isso.. através da exposição à mídia. Finalmente.. f· .. as formas tradicionais de .

movimentos religiosos de vários credos ganharam força e começaram a reivindiQI' poder lL1 esfera política. Para estes indivíduos. Não resta dúvida de que o ressurgimento do islamismo em décadas recentes te- nha características que o tornam um tanto singular. que puece sobrepairar a teorias clássicas da modernização' Poderia isto 170 . mas também em países da Europa. transformada. os movimentos de re-islarnização tinham estabelecido poderosas redes que. é surpreendente que a revitalização das crenças e práticas religio- sas não seja de maneira alguma um fenômeno singular do mundo muçulmano. do poder por movimentos revolucioná- rios islâmicos tinha sido inteiramente infrutífera. Mas os desenvolvimentos dramáticos no Irã. aqueles que estavam à frente destes movimentos e redes começaram a intervir mais ativamen- te na vida política. havia. que não podem ser diretamente comparados com desenvolvimentos ocorridos em outros lu- gares. junto com algumas condições sociais e políticas de seu reaparecimento. A Revolução Iraniana de 1979 é um testemunho particularmente expressivo do reaparecimento do poder do islamismo: aqui a mobilização das crenças religiosas tradicionais. O resultado deste desenvolvimento pode ser visto não somente nas regiões islâmicas do Oriente Médio. As crenças e práticas do islamismo foram renovadas e aprofundadas dentro de comunidades e redes locais. talvez até fonalecida e revigorada através de en- contros com outros estilos de vidaj O desenvolvimento do islamismo nos anos 70 e 80 oferece um exemplo instruti- vo deste processo. Com o fortalecimento de suas bases de poder. Na Europa e nos Estados Unidos. muitas vezes por meio de organizações que também providenciavam serviços e for- mas de apoio para indivíduos e famílias que ainda não tinham visto os frutos do de- senvolvimento econômico. Pelo contrário. Como deveríamos entender este notável desen- volvimento.·ida de tal fUaneira que integre elementos da tradição com novas e modernas maneiras de viver. contudo. há aspectos doutrinais do islamis- mo. controla- vam grandes áreas e serviam de intermediários entre as autoridades do estado e os grupos sociais marginalizados. na América Latina e em outros lugares. pelo \__ contrário. em alguns casos. ajudou a desacreditar a política pró-ocidental do ~ a enfraquecer o re- gime monárquico 11 . nos países outrora comunistas. do muito e oferecido relativamente pouco. um processo gra- dual do que Gilles Kepel chama de "re-islamização de baixo"". onde há um número significante de muçulmanos. como Ingla- terra e França. Nestas últimas. de vida.jA tradi- \ ção não é necessariamente abandonada na procura de 'pão e instrução" mas é. a conquisu. elas são capazes de organizar a própria . o islamismo era um meio de reconstruir wna identidade e um senso de pertença num mundo que tinha prometi- ·. foram acontecimentos um tanto excepcionais e pouco indicadoras dos fatos ocorridos nas regiões sunitas do Oriente Médio. remodelada. No final dos anos 80.rfacilitadas pela difusão em fitas cassetes e materiais impressos circulando em redes informais de comunicação fora da esfera da mídia controlada pelo estado. culminando com a abdicação do Xá e a fundação da República Islâmica Xiita. Não obstante.

Como outras formas de tradição. crenças e práticas religiosas são quase sempre interligadas com atividades da vida diária de modo a proporcionar aos indivíduos um sentido de pertença à comunidade. conhecimento científico e hu- manismo secular . remodelado (em pane pela mídia) e relativizado a urna crescente autonomia do indivíduo corno agente reflexivo capaz de refazer a própria identidad_e. Pode haver muito conteúdo na visão de que.ou até. que produziu indiscutíveis ganhos. até certo ponto. aos olhos de alguns.que pareceram a alguns evidentes por si mesmo 13 • Mas o que pa- receu auto-evidente para alguns foi para outros nada mais do que wna escolha.envolvendo uma combinação de progresso. Entre estas está o que se pode chamar de "déficit moral" . os valores do humanismo secular se revelaram inadequados como meio de tratu de problemas éticos básicos da vida humana. O humanismo secular é moral- mente insuficiente . etc. na idade moderna. a religião sobrevive como um refúgio para os indivíduos incapazes ou sem vontade de viver num mundo do qual as certezas da tradição foram banidas. foi somente porque o surgimento destas socieda- des aconteceu simultaneamente à emergência de um conjunto de conceitos. foi.ser interpretado simplesmente como um tipo de retrocesso cultural. como wna maneira de enfrentar a radical indetermi- nação da vida na era moderna? Talvez. para muitas pessoas. Este déficit moral ajudou a manter viva. valores e crenças em detrimento de outros. o desenvolvi- mento das sociedades modernas não elimina a necessidade de formular um conjunto de conceitos. Considerar o renascimento das crenças religiosas me- ramente como uma reação defensiva à modernização é desconhecer que há certos as- pectos da tradição que não se tomam elimináveis nem redundantes neste processo - aspectos que fornecem um ponto de apoio para a continuidade do culto de muitas formas de religiosidade no mundo moderno. Se o desenvolvimento das sociedades modernas pareceu destruir este aspecto hermenêutico da tradição. aos olhos dos críticos. mas também. Crenças religiosas conservam sua importância porque. valores e crenças . foi o privilegiar certos conceitos./Este aspecto identificador da tradição não foi eliminado pelo desenvolvimento das sociedades mo- dernas. Há um outro motivo que explica a persistência de crenças e práticas religiosas no mundo moderno. a incapacidade de tratar de cer- tas questões fundamentais como vida e morte. algumas perdas. wn retomo a certezas de verdades reveladas.isto é. certo e errado. Contrariamente ao que muitos comentadores podem ter pensado. uma história comum e um destino coletivo. moralmente falido. valores e crenças que encham de sentido o mundo e o lugar que cada um ocupa nele. quando muito. um sentido de identidade como pane integnnte de uma mais ampla coletividade que compartilha crenças similares e que tem. a crença na permanência da relevância da tradição religiosa.I Há questões a que retornaremos depois. Aqui desejo apenas enfatiur a 171 . Mas é dificil acreditar que não haja mais nada além disso. para muitas pessoas.

a fixação do conteúdo simbólico nos produtos da mídia (livros. se o desenvolvimento da mídia não conduziu à extinção da tradição.. Este di:sritualismo não implica a eliminação de todos os elementos do ritual da tradição. ele. Não é dificil dar exemplos de como a mídia foi usada efetivamente no serviço da tradição. Na ausência de material de fixação. {Âté agora me esforcei por mostrar que.. Mas com a fixação do conteúdo simbólico num substrato material de qualquer tipo.:J Mas. por si mesma. etc. a formação e a transmissão da tradição se tomou cada vez mais dependente de formas de comunicação que perderam o caráter face a face. com várias conseqüências.) não deveria necessariamente ser interpretado como o de- clínio da tradição como tal. até certo ponto. entre as quais destaco três. mas também para expandir e consolidar tradições.. filmes. ele pode simplesmente exprimir o fato de que a manu- tenção da tradição no tempo se tomou menos dependente de uma reconstituição _ ritualizada. resistente importináa da tradição (incluindo a tradição religiosa) como um meio de alimentar um sentido de identidade pessoal e de pertença a uma coletividade. O cultivo de valores e crenças tradicionais se toma cada vez mais dependente de formas de interação que implicam produtos da mídia. deveremos pôr de lado a visão de que a exposição à mídia conduzirá o indivíduo invariavelmente ao abandono das ma- neiras "tradiáonais" de viver e à adoção de "modernos" estilos de vi~ expos~o à mídia não implica. nem o completo divórcio das interações face a face dos tradicionais ambientes compani- lhados. elas dotam este conteúdo de uma permanência temporal que geralmente não existe nos intercâmbios comunicati- vos de interações face a face. a manutenção da tradição no tempo pode se desligar. etc. nenhuma particular posição frente ·ã tradição! Os meios de comunicação podem ser usados não somente para desafiar e enfraquecer os valores e crenças tradicionais. se quisermos entender o impacto cultural dos meios de comunicação no mundo moderno. Por isso o declínio de cenos aspectos ritualizados da tradição (a • freqüência às igrejas. transformou fundamentalmente a tradiçãoféom o desenvolvimento dos meios de comunicação.rx· tradição.. da escola e de outros ambientes institucio- 172 .) garantem uma forma de continuidade temporal que diminui a necessida- . se tomou cada vez mais di:sritualiza~ .. A repetição prática é o único meio de garantir continui- . dade temporal. . da necessidade da reconstituição prática e contínua.._) (Í) Visto que muitas formas de comunicação mediada implicam algum grau de fi- xação/do conteúdo simbólico num substrato material. entretanto. com efeito. de de reconstituição.. . muitas tradições pcnnanecem estreitamente ligadas aos encontros práticos da vida cotidiana dentro da família. a manutenção da tradição no tempo exige umã' contínua reconstituição de seu conteúdo simbólico nas atividades da vida cotidiana.. desde a difusão das bíblias impressas e dos livros de oração nos inícios da Europa moderna ao teleevangelismo de hol. Embora o conteúdo simbólico da tradição se tome sempre mais veiculado em produtos da mídia. '.

ela também se separa dos indivíduos com quem se intera- ge na vida cotidiana . pois a transmissão da tradição permanece interli- gada com a interação face a face.uns com os outros. como um conjunto de valores. se -~~vencilharam de seus ancoradouros particulares. evangelistas como Billy Graham e Jerry Falwell são apenas personalidades de TV. ainda que tais indivíduos possam ter sucesso nesta "re-personaliza- ção". víduos vivi~ Tradições faziam parte integrante de comunidade de indivíduos que interagiam . e pode-se ver que. criaram-se condições para renovar o elo entre a autoridade da tradição e os indivíduos que a transmitem.isto é. as tradições foram sendo paulatinamente dc:slocadas 173 . Por isso. e que vêem seu próprio papel mais em termos de elaboração e expli- cação do que em termos de cultivo de uma tradição a partir do nada. com o desenvolvimento da mídia eletrônica e especialmente da televisão. Isto é evi- dente para pais e professores que dependem mais e mais de livros. Em outras palavras. A despersonalização da tradição não é. tal re-personalização carece da reciprocidade da interação face a face e da possibilidade de encontros indi- viduais em locais compartilhados da vida diária. contudo. um processo uniforme e inequí- voco.nais. o elo que as mantinha ligadas a específicos lugares de interações face a face foi-se gradualmente enfraquecendo. (3) Ao se tornarem cada vez mais ligadas aos meios de comunicação. mas eles não são pessoas com quem se possa interagir no dia- a-dia. Mas com o desen- volvimento da mídia. Mas à proporção que as formas mediadas de comu- nicação vão adquirindo um papel cada vez maior.realmente ou potencialmente . ela continua sendo de tipo diferente: para muitas pessoas. as tradições foram gradualmente desenraizadas. filmes e programas televisivos para transmitir às crianças os principais temas de uma tradição religiosa ou outra qualquer. A tradição adquire uma certa autonomia e uma autoridade própria. ela se torna despersonaliza~ Mais uma vez. 2) Na medida em que a transmissão da tradição se torna dependente de formas mediadas de comunicação. Antes do desenvolvimento da mídia. Além disso. crenças e pressuposições que existem e per- sistem independentemente dos indivíduos que podem estar envolvidos na sua trans- missão de uma geração para outra. Mas a natureza deste elo é novo e sem precedente: é um elo que se estabelece e se sustenta grandemente dentro da estrutura de quase-in- teração mediada. as tradições . ver e escutar (acreditando ou não). a autoridade da tradição vai gradualmente se distanciando dos indivíduos com quem se interage nos contextos práticos da vida diária. Para muitas pessoas. as tradições estavam enraizadas em lugares espaciais dentro dos quais os indi-'. e por isso a renovação da tradição pode envolver um intercâmbio constante entre interações face a face e quase-interações mediadas. É o tipo do que descreverei no pró- ximo capítulo como "intimidade não recíproca à distância". indivíduos que se podem observar. este processo de despersonalização nunca é total. os produtos da mídia são comumente apropriados dentro de con- textos de interação face a face.

As tradições foram deslocadas. o desenraizamento foi a condição para a reimplantação das tra- dições em novos contextos e para a nova ancoragem das tradições a novos tipos de uni- dades territoriais que iam além dos limites das localidades compartilhadas. O alcance da tradição ·. transformadas ou codificadas por indivíduos que têm acesso aos meios de produção e distribuição das formas simbólicas mediadas.1d. é muitas vezes apresentada como tendo existido desde tempo imemorial. mas parece mais provável que tenha sido uma invenção do final do século XVIII e começo do século XIX 15 • O saiote. Do contrário irão gradualmente perdendo importância. nem destruiu completamente a conexão entre tradições e unidades espaciais. à medida que as tradições se tomam crescentemente in- terligadas com os meios de comunicação. Mas as tradições que até certo ponto se tornaram mediadas não podem permanecer à deriva.tentarmos para aquilo que algumas vezes é lembrado como "a invenção da tradição". elas são gradualmente desenraizadas dos lugares particulares e se tomam dependentes de uma forma de interação não mais face a face. porém. Mas o desenraizamento das tradições não as condu- ziu ao defmhamento.à medida que se tornaram mais e mais dependentes de formas med1. 'fie liberta as tradições dos limites impostos pela transmissão oral em circunstâncias de interação face a face. ~O desenraizamento ou "deslocamento" da tradição tem conseqüências de longo alcance que desejo apresentar nas seções restantes deste capítul9. Tentei demonstrar que. expressa pela gaita de fole e o saiote de lã enxadrezada e tecido em cores e padrões identificadores dos diferentes clãs.1s de comuni- cação para sua manutenção e transmissão de uma geração para outra.não estava mais resuito pelas condições de transmissão localizada. Tradição e a mídia (2): tradição deslocada . Tradições que se desenraízam deste jeito são mais facilmente adaptadas. antes de ser um costume tradicional dos escoceses. Como Eric Hobsbawm e outros mostra- ram14. por exemplo. in- venções relativamente recentes. Para terem vida longa.tanto no espaço quanto no tempo . Pelo contrário. muitas vezes provenientes do século XVIII. na verdade. a tradição das terras altas da Escócia. não perderam. Assim. sua territorialidade: elas foram remodeladas para serem reimplantadas numa multiplicidade de lugares e religadas a unidades territo- riais cujos iimites ultrapassavam os da interação face a face. embora agora de forma a religar as tradições a novos tipos de unidade espacial? Entenderemos melhor este processo se <. foi in- 174 . O que está envolvido no desenraizamento e na nova ancoragem da tradição? Como deveríamos analisar o processo pelo qual as tradições são desalojadas de luga- res particulares e reimplantadas em contextos práticos da vida diária. em livre flutuação. algumas tradições comumente consideradas muito antigas são. elas têm que ser reimplantadas em contextos práticos da vida cotidiana.

para ser usado em desfiles naquelas ocasiões em que os escoceses se reúnem para celebrar s1. reimplantando-o em regiões e lugares particulares. que o projetou para usar numa oficina de fundição que ele havia estabelecido perto de Inverness em 1727. Mas esta literatura também salienta um outro tema que é de particular interesse para as questões consideradas aqui: ela atestaío papel desempe- nhado pela mídia na reinvenção da tradição e no seu novo ancoramento em unidades territoriais de vários tipos. como também são repletas de mitos e meias-verdades cujas origens são tão obscuras que não são mais reconhecidas como tais. Li- vros foram publicados . que forjaram a conexão (quase certamente espúria) entre 'os padrões coloridos do saiote escocês e os antigos clãs das terras altas e que ajudaram a fixá-lo como símbolo nacional da Escócia. Grande parte da literatura sobre a invenção da tradição procurou enfatizar o grau de fabricação implicado no cultivo retrospectivo de práticas e crenças tradicionais. quase sern- we alvo popular de crítica e caricatura. Não somente muitas tradições são menos antigas do que parecem. E claro. é muito prova- velmente o trabalho de uns poucos indivíduos zelosos. a filha do Príncipe Regente. muitas práticas cerimoniais associadas à mo- narquia inglesa hoje são de fato uma criação do final do século XIX e início do século XX 16 • Antes do século XIX. e o costume de associá-lo aos clãs. entre outras coisas. as cerimônias reais eram realizadas principalmente em be- neficio dos outros membros da c. Durante os primeiros três quartos do século XIX. elas eram.orte e da aristocracia. Depois da grande rebelião de 174 S.reivindicando uma conexão entre os padrões e os clãs que remontava à Idade Média. Já em 1780 ele tinha desaparecido completa- mente. Mas a atitude da imprensa era grandemente hostil e a monarquia. em tudo muito semelhantes à vida das cortes em outras partes da Europa. como David Cannadine mostrou.e diferenciando as cores e os padrões de acordo com a referência aos antigos clãs . os habitantes das terras altas foram desarmados pelos ingleses e o saiote. as grandes cerimônias da mo~arquia ingl~sa eram ~xtensivamente noticiadas na imprensa metropolitana e pro- vmaal. Muita~ tradições associadas à monarquia inglesa são muito menos antigas do que parecem. Consideremos um outro exemplo que ilustra efetivamente este ponto. O ressurgimento do saiote.de modo a torná-lo o símbolo da integridade nacional da Escócia. Os livros dos irmãos Allen.incluindo o Vestiarium Scoticum e The Custome of the Clans pelos ir- mãos Allen . Surgiram sociedades em Londres e Edimburgo dedicadas à preservação e ao cultivo das tradições escocesas. Mas.ventado por um quacre inglês de Lancashire.a identidade nacional. foi proscrito. ntos grupa1s em que as ehtes londrinas reafirmavam sua solidariedade cor- porativa. "Em 181 7. durante os funerais da Princesa Charlotte. As cerimônias mesmas eram geralmente realizadas de um modo terrivelmente incompetente. os rituais da realeza eram aspectos comuns das cortes dos Tudors e dos Stuarts. os agentes funerários estavam 175 . exemplificam a capacidade da mídia de transformar o conteúdo simbólico de uma tradição e de adaptá-lo de várias maneiras. duma maneira ge- ral. Gradualmente a tradição foi modelando o saiote .1.

contudo. para cuja unidade e integridade estes rituais foram reprogramados. através da mídia impressa. aos poucos fo- ram se transformando em cortejos suntuosos. começando com o Jubileu de Ouro da Rainha Vitória em 188 7. era um entusiasta da monarquia e logo percebeu o potencial do rádio como um meio de transmitir um sentido de participação nas grandes ocasiões cerimoniais do estado 18 . a Capela de Windsor estava tão úmida. que muitos participantes ficaram resfriados. e um grande número de cerimônias reais eram des- critas de modo sentimental e reverente. Elas se revesti- ram de um caráter de conto de fadas. Estas tradições fo- ram não somente transformadas. mas na verdade inventadas. a posição do monarca como chefe do estado e símbolo da unidade nacional foi realçada através do renovamento e da elaboração de rituais reais e suas celebrações na imprensa popular. Num tempo de rápidas transformações so- ciais. Grande cuidado mereceu a co- locação dos microfones. os rituais reais e a imagem pública da mo- narquia inglesa começaram a mudar. o anacronismo das cerimônias apenas realçou sua grandiosidade. A partir de 1870 em diante. Guilherme IV e da Rainha Vitória foram tão pobremente organizadas e en- saiadas. no fmal do século XIX. em certos e fundamen- tais aspectos: elas foram também desconectadas das raízes históricas da vida da corte e oferecidas a toda a população. Além disso. meticulosamente planejados e cuidado- samente ensaiados. o papel da monarquia como personifi- cação política e imparcial da unidade nacional se expandiu mais ainda com o advento das transmissões radiofônicas. com a emergência da imprensa popular de grande circulação. No período posterior à 1 Guerra Mundial. John Reith.completamente bêbados. Cerimônias que antes eram encenações deselegantes. Quando o poder político da monarquia co- meçou a declinar sensivelmente. a grandiosidade anacrônica das cerimônias reais se tomou ainda mais acessível em todo seu esplendor. e foram religadas aos limites territoriais do estado. As caricajffas burlescas e os editoriais críticos das décadas ante- riores foram substituídos por uma representação cada vez mais respeitosa da monarquia na imprensa popular. a um círculo muito maior de pessoas. que provocaram contundentes críticas dos colunistas reais da época. Agora era possível para grandes parcelas da população não 176 . As mais importantes cerimônias reais foram transmitidas ao vivo pelo rádio. Tradições que antes eram restri- tas principalmente às elites londrinas foram remodeladas e se tomaram disponíveis. carruagens e das multidões aclamantes. o primeiro Diretor Geral da BBC. come- çando com o casamento do Duque de York em 1923. cavalos. As tradições do ritual real foram reimplantadas na vida diária e ordinária dos indivíduos através da apropriação dos produtos da mídia. Canning contraiu febre reumática e o bispo de Londres morreu" 17 • As coroações de Jorge IV. Quando o Duque de York faleceu. para que todos pudessem ouvir os sons dos sinos. Muito se investiu no planejamento e na organi- zação dos maiores eventos do estado. houve uma notável mudança na representação pú- blica da monarquia. dez anos mais tarde. Com o desenvolvimento da televisão nos anos 50.

em contraste com as "au- tênticas tradições" do passado que nascem espontaneamente de baixo para cima. Hoje elas não são mais a reafirmação da solidariedade corporativa das elites metropolitanas. Es- tas "pseudotradições" não se enraízam na vida diária dos indivíduos. ela não vai. mas tam- bém até que ponto elas mudaram de importância e de fmalidade. e que são inclinados às mesmas tentações. num mundo cada vez mais mediado. Embora esta linha de argumento seja interessante.- : Nesta seção procurei mostrar de alguma maneira como as tradições foram assu- midas. reinventadas no curso de sua reconstituição ou elaboração ao longo do tem~ Poder-se-ia argumentar que os exemplos conside- rados. mas são impostas por elites polí- ticas. rituais que. um organismo vestido à antiga e governado por costumes de venerá- vel e honrada tradição. E é esta tensão entre o transcendental e o mun- dano.. Por outro lado. até certo ponto. Não nos surpreende que tradições dependentes da mídia se tomem também tão vulneráveis a ela.. remodeladas e. que está no centro dos escândalos que sacudiram a monarquia em anos re- centes e renovaram as especulações sobre o seu futuro . são de "tradições artificiais" que foram impostas de cima para baixo sobre as pessoas. promotores da indústria do turismo e um estranho grupo dos as- sim chamados guardiães do passado 20 . também podem participar. conduzidos pelos mesmos desejos e sujeitos às mes- mas fraquezas como mortais comuns. não são criadas e sustentadas por eles através de atividades práticas. onde quer que estejam. adornam a monarquia e os seus representantes temporais de um esplendor transcendental. ao âmago da questão. o apelo da monarquia e dos rituais reais a ela associados pro- vêm de sua capacidade de sobrepairar ao mundo comum da política partidária e de se apresentar como um organismo cuja integridade e probidade estão acima de quais- quer suspeitas. mas também ver as cerimônias ao vivo. Ao insistir na distinção entre tradições autênticas e artificiais e relegar 177 • . . podemos avaliar não somente o caráter inventivo de muitas tra. A entronização da Rainha 'Elisa- bete em 19 5 3 foi a primeira ocasião em que a coroação de um soberano inglês pôde ser vista pelo público pormenorizadamente19 • Ao considerar as transformações ocorridas nas cerimônias reais ao longo do tem- po.. os grandes eventos cerimoniais da monarquia se tomaram celebrações mediadas da unidade na- cional que todos os cidadãos. exceto pelo berço. a monai:quia está numa posição precária.dições. Na idade da visibilidade mediada. Por um lado. quando reconstituídos diante de todos nós nas cerimônias bem organizadas e transmitidas para nossas telas televisivas. como ho- mens e mulheres que pouco diferem das outras pessoas. entre o caráter reservado da monarquia e as vidas comuns de seus repre- sentantes. é dificil que os representantes tem- porais da monarquia consigam esconder suas características individuais. na minha opinião. podem •estemunhar e de que. empresários. de forma vicária.apenas ouvir. precisamente por causa de seu caráter inventivo..

apesar do deslocamento espacial. Mas as tradições que dependem grandemente das formas simbólicas mediadas não são ipso facto menos autênticas do que as que são transmitidas exclusivamente através de interações face a face. Isto é bem ilustrado. Uma característica particularmente importante a este respeito é a migração. tradições se tomaram mais e mais dependentes de formas simbólicas me- diadas. e onde há tradições e costumes bem diversos. ~ta hnha de argumento não dá a devida atenção ao fato de que as tradições se tomaram cada vez mais interligadas às formas simbólicas mediadas . Com o decorrer do tempo. tradições nômades podem gradualmente sofrer alterações. tradições nômades: algumas fontes de conflito cultural Vimos até aqui como as tradições foram desenraizadas. elas foram desalojadas de lugares particulares e reimplantadas na vida social de novas maneiras. A mídia fornece os meios de sustentar a continuida- de cultural. elas também vão se interligando aos materiais simbólicos mediados. Populações migrantes. se distancia em alguma medida dos contextos da vida prática. elas sempre carregam consigo os conjuntos de valores e crenças que fazem parte de suas tradições. pela popularidade dos filmes indianos entre as famílias de origem sul- asiática estabelecidas na Inglaterra e em outras partes do mundo 21 . pre- cisamente porque os meios de comunicação tendem a desenraizar tradições dos luga- res particulares e a revestir seu conteúdo simbólico de um certo grau de permanência temporal e mobilidade espacial. Estas tradi- ções nômades se sustentam em parte através de reconstituições ritualizadas e de práticas de recontar histórias oralmente em contextos de interação face a face. Num mundo permeado pelos meios de comunicação. Quando as pessoas se mudam (ou são forçadas a mudar) de uma região ou parte do mundo para outra. nem as condenam à extinção. este.::Jste papel é particu- larmente importante quando os grupos se estabelecem em países onde se falam línguas diferentes. o deslocamento e o reassentamento de populações. trabalhadas e novamente ancoradas em novos tipos de unidades territoriais.'For isso os meios de comunicação desempenham um papel importante na manuten~ão e no re- novamento da tradição entre os migrantes e grupos deslocado. necessaria- mente. à medida que se afastam dos contextos originais e se entrelaçam com conteúdos simbólicos deriva- dos das novas circunstâncias nas quais elas são reconstituídas. por exemplo. 178 . Mas o desenraizamento e a nova ancoragem das tradições não as tor- nam necessariamente inautênticas. o estabelecimento e a manutenção de tradições no tempo dependem agora de formas de interação que não têm mais o caráter imediato.a primeira ao passado. Isto tudo interligado de formas com- plexas com outras tendências e características desenvolvimentistas das sociedades moder- nas.. Quando 0 conteúdo simbólico da tradição se articula com os produtos da mídia. Enquanto as tradições nômades se sustentam em parte através de reconstituições ritualizadas. e de renovar a tradição em novos e di- versos contextos através da apropriação das formas simbólicas mediadas.

Podemos discernir estas tensões em diferentes contextos e em diferentes níveis. por exemplo. que tém mais facilidade de assimilar os costumes e tradições das comunidades em que se esta- belecem. como conjuntos de valores e crenças que impelem para diferentes direções. os filhos. Uma pessoa pode sentir alguma atração ou simpatia pelos la- ços de tradição com os lugares de origem. enquanto os fi- lhos não a vêem senão como uma desagradável obrigação. O indivíduo pode se sentir dividido entre conjuntos de valores e crenças que o ligam ao passado. Dentro do contexto familiar. Deste ponto de vista. "'Pais usam . Quanto maior for a distância destas origens no espaço e no tempo. pais e filhos de po- pulações migrantes podem ter diferentes opiniões sobre o mérito de tradições ligadas às suas origens distantes. novas. por outro. pode tornar difícil reimplantar certas tradições nos contextos práticos da vida diária. por um indivíduo particular. aquele lugar (India) não tem mais nada a ver comigo"n. Por isso a apropriação de produtos da mídia . ignorado ou estigmatizado de alguma maneira.. estas tradições têm muito pouco a ver com o tipo de vida que eles querem construir para si mesmos. em alguns aspectos. já que os pais consideram a atividade como uma valiosa oportunidade para renovar os laços tradicionais. inventar tradições que reconectem os indivíduos aos lugares de origem (reais ou imaginários). O apelo às raízes pretende oferecer uma maneira de recuperar e. distante no espaço e no tempo. E ainda assim os indivíduos podem sentir profunda ambivalência por este projeto que recupera tradições associadas a um suposto lugar de origem. observou um jovem lon- drino de origem sul-asiática. Não obstante a recons- tituição ritualizada de tradições e a contínua apropriação dos produtos da mídia. a procura por raízes tem uma forte mas ambivalente relação com as populações migrantes. quaisquer que tenham sido as circunstâncias da migração. porque elas podem ajudar a remodelar um as- pecto do ego que foi suprimido. filmes para apresentar sua cultura aos filhos". podem ver aquelas tradições com ceticismo e até certo desprezo.. Como um tipo de projeto cultural que pode ser veiculado em produtos particulares da mídia e ligados à sua apropria- ção. porque aquelas coisas não es- tão nas minhas raízes. Este tipo de conflito de gerações pode ser experimentado também subjetivamen- te. por um lado. Pois eles podem sentir que. e novos conjuntos de valo- res e crenças que parecem mais indicados a orientá-lo no futuro. "mas i~to não funcionará. tan- to maior será o apelo à busca de raízes. A dispersão das tradições através da mídia e através dos deslocamentos de popu- lações migrantes criou uma paisagem cultural no mundo moderno de enorme com- plexidade e diversidade.pode ser ocasião de alguma discordãncia. Ela também provocou formas de tensão e conflito que são. podemos avaliar melhor a complexidade e a ambigüidade do que pode ser descrito como "a busca de raízes". Os pais valorizam mais estas tradições e se esforçam por manter um certo grau de continuidade cultural com o passado.como a família que vê um filme em videocassete . na verda- de. 179 . e ainda assim sentir que estas tradições im- portam muito pouco nas atuais circunstâncias de sua vida.

e para reafirmar formas de identidade coletiva ligadas a tradições. a li- nha divisória intransponível da compreensão permanece. vista por al- guns como suporte de relação privilegiada para um grupo de pessoas cuja identidade co- letiva é modelada em parte por um conjunto resistente de tradições. Estas atividades de definição de fronteiras podem ter tanto um sentido simbólico quanto territorial . em parte como resultado das migrações culturais e em parte devido à globalização dos produtos da rrúdia. No campo da literatura ou da música popular. Há um esforço contínuo para proteger a integridade de tradi- ções.simbólico no sentido de que a principal preocupação pode ser de proteger tradições da intromissão de con- teúdos simbólicos estranhos. Mas este crescente contato entre tra- dições não vem necessariamente acompanhado pela compreensão mútua dos indivíduos pertencentes a diferentes grupos. Ele cria um tipo de insatisfação cultural que cons- tantemente muda de direção. as tradições estão menos protegidas do que antes das conseqüências potencialmente tonificantes dos inevitá- veis encontros com outros diferentes. O contato entre tradições pode dar origem também a formas intensificadas de definição de fronteiras.especialmente quando apoiada pelos poderes político e coercitivo . territorial no sentido de que a proteção de tradições pode vir combinada com a tentativa de ancorá-las em regiões ou lugares particulares com a exclusão forçada de outros. o entrelaçamento de temas oriundos de diferentes tradições . Os Versos Satânicos precipitaram um violento choque de valores en- raizados em diferentes tradições. Corno um produto da mídia circulando por todo o mundo.este contínuo híbrido cultural . num mundo cada vez mais marcado por migrações culturais e fluxos de comunicação.pode se manifestar nas formas mais brutais de violência. pela exclusão daqueles que não fazem parte do grupo. Urna região se torna "urna terra pátria". assumindo novas formas e se desligando inesperada- mente de convenções estabeleddasn E comprova que. Mas deve-se acentuar também que este processo de mistu- ra é uma fonte de enorme criatividade e dinamismo culturais. Há outras maneiras de manter e de renovar tradições entre grupos migrantes que podem provocar tensões e conflitos. o encontro de tradições pode dar ori- gem a intensas formas de conflito. da arte ou do cinema. As tradições de diferentes grupos estão sempre mais em contato umas com as outras. E nós sabemos muito bem como este tipo de atividade .está na base de algumas das obras mais excitantes e originais. O caso do escritor Salman Rushdie é um exem- plo expressivo deste tipo de conflito cultural. dependendo dos vários graus de incompreensão e de intolerância . Tratei de algumas das fontes de tensão e de conflito que têm origem na mistura de populações e tradições.conflitos que são tanto mais intensos quanto mais ligados estão às mais amplas relações de poder e desigualdade. Pelo contrário. e embora as barreiras espaciais entre estas tradições tenham sido destruídas pelas migrações culturais e pelos fluxos de comunicação. 180 .

.é sempre dependente dos interesses dos receptores e dos recursos que lhes são disponíveis no processo de apropriação.sem destruir . Esta conexão é enfraquecida à medida que os indivíduos têm acesso a fonnas de infonna- ção e comunicação originárias de fontes distantes.e muitas vezes são .\No caso da interação mediada. que se expandem num leque de opções disponíveis aos indivíduos e en- fraquecem .estruturadas de maneiras assimétricas. os indi- víduos são capazes de formas de intimidade que são essencialmente reápro~ isto é. 1os indivíduos têm acesso crescente ao que podemos descrever como um "conhecimento não localj Mas a conexão entre a fonnação do self e o local compartilhado não é destruída. com o desenvolvi- mento das sociedades modernas. Em outras palavras. É óbvio. uma vez que o conhecimento não local é sempre apropriado por indivíduos em locais es- pecíficos e a importância prática deste conhecimento . Relações podem ser íntimas e ainda assim po- dem ser . contudo. ele também produz um novo tipo de intimidade que não existia antes e que se diferencia em certos aspectos fundamentais das fonnas de intimidade características da interação face a face. re- ciprocidade não quer dizer igualdade. novos tipos de re- lação íntima se tomaram possíveis. Meu ponto de partida é a visão de que.a conexão entre a formação e o local compartilhado.. O desenvolvimento da mídia não somente enriquece e transforma o processo de formação do self. os indivíduos podem estabelecer uma 181 .. suas relações íntimas com os outros implicam um fluxo de ações e expressões.o que ele significa para os in- divíduos e como ele é usado por eles .fNos contextos de interação face a face. o processo de formação do self se torna mais refle- xivo e aberto. de perdas e ganhos. tal como o inter- câmbio de cartas ou uma conversa telefônica. que lhes chegam a~avés de redes de comunicação mediada em crescente expansão. /Com o desenvolvimento das formas mediadas de comunicação. no sentido de que os indivíduos dependem cada vez mais Lios próprios recursos para construir uma identidade coerente para si mesmos/ Ao mesmo tempo. 7 OEu eExperiência num Mundo Mediado . \ Neste capítulo quero focalizar a natureza do eu (self) e a experiência cotidiana num mundo mediado. o processo de formação do self é cada vez mais alimentado pdf"materiais simbólicos mediados. de direitos e obrigações que correm nos dois sentidos.

a relaçao entre um fã e seu ídolo.' tÍpKas ass~­ ciadas i partilha de um local comum. Poucas pessoas no Ocidente hoje poderiam se depuar com alguém sofrendo de extrema de- sidratação ou morrendo de fome. num mundo onde a capa. N. fenô- menos que dificilmente poderiam encontrar na rotina ordinária de suas vidas. _Mas pode se tornar também uma forma de de- pendência na qual indivíduos chegam ~nder de outros cuja ausência ou inaces- sibilidade os tornam um objeto de veneraçãj. e se esforçam para.os contextos e condições de suas próprias vidas.mbém lutam para dar sentido a fenômenos que desafiam sua comprcens.de de infomuções.io. de ver alguém morrendo. precisamente porque é livre das obrigações recíprocas características da interação face a face. ela também cria uma nova e distinta experiência mista que vai em sen- tido contrário is tendências características das sociedades modernas.ço-temporais da vida cotidiana. saída e paralindos pela profusão de imagens e opimões mediadas. Nos contextos espa. muitos. O problema que muitas pessoas hoje devem enfrentar é o do deslocamento simbólico. os indivíduos podem criar e estabelecer uma forma de intimidade essen- cialmente não recíproca.festa nova forma de intimidade mediada n~o recíproca. já viram estas experiências em seus apare- lhos de televisão. a. dando mais atenção ªº' aspectos que lhes siio de maior interesse e: ignorando ou filtrando outros.. Pode ser divenida.r indivíduos perdidos na tempesta. Para muitos indivíduos hoje.) são separados dos contextos sociais cotidianos e trata- dos por instituições especializadas e pessoal profissionalizado.l.io é mcomum encon- tn.i mais ligada à anvidade do encontro. o desenvolvimento da mídia aumentou a capaci- dade dos indivíduos experimentarem.u experiências mediadas aos contextos práticos da vida co11d1a- na. Assim como o desenvolvimento da rríÍdia produz uma nova forma de intimidade não recíproca. Ma.? Corno se podem relacionar com eventos que acontecem em locais distantes d°' 182 .' eles u.cidade de experimentar não est. ~as caracteri. ou sofrendo de uma doença crônica ou mental. etc.forma de intimidade recíproca. experiência. morte. loucura. porém. mcapazes de ver alguma. O seqüestro das experiências de locais espaço- tcmporais da vida cotidiana vai de mãos dadas com a profusãc1 de experiências me- diadas e com a rotineira mistura de experiências que muitos indivíduos dificilmente encontrariam face a face. Como os indivíduos encaram o afluxo de experiências mediadas em suas vidas diárias? Eles as recebem seletivamente. Mas paralelamente a esta segrega- ção ou "seqüestro" de experiências. por exemplo. as sociedades modernas implicam um grau rela- tivamente alto de segregação institucional e experimental: certos fenômenos sociais (doença. através da quase-interação mediada. Ao contrano\no caso de uma quase-interaçao mediada. Hoje vivemos num mundo no qual a capacidade de experimentar se desligou da atividade de encontrar. corno podem rclacion. re- lacioná-los a. é um ~vento mais raro do que corriqueiro. mas que carece ~e. que distingue. alguém baleado por um atirador isolado ou ferido por estilhaços de moneiro.11<. é claro. ex- pandida no tempo e no espaço.

contextos em que vivem. De acordo com esta explicação.!_llídia.foi uma concepção empobrecida do self. o self é visto principalmente como um produto ou idealização de sistemas simbólicos que o prece- dem.rei a na- tureza da experiência mediada e suas relações c'õm as experiências vivida_~·'. mate- riais com ~ue ele vai. muito mais do que isto. desde a "interpelação" de Al- thusser às "técnicas" e "tecnologias" pessoais de Foucault.. usando a relação fã-ídolo como um caso limite de intimidade não recíproca\Na terceira seção examinj!. Para os auto- res de uma tradição amplamente "estruturalista". a vida social é um jogo que não se pode deixar de jogar. e como podem assimilar a experiência de acontecimentos distantes numa trajetória coerente de vida que devem construir para si mesmos? .- Vo!tarei a estas questões mais adiante. tecendo.. (Neste capítulo desenvolverei uma explicação de self que diverge fundamental- mente do tipo de enfoque esboçado acim.:JMinha explicação se baseia principalmen- te na tradição hermenêutica 1. novas experiências vão entrando em cena e gradualmente redefinindo a sua identida- de no curso da trajetória de sua vida. para tentar especificar como os indivíduos se tornam sujeitos que pensam e agem de acordo com as possibi- lidades que lhes vão sendo adiantadas. antes de retornar à questão de como os indivíduos devem enfrentar o afluxo de experiências mediadas na vida diári~:J O self como um projeto simbólico Um dos legados menos felizes de muitas críticas da teoria social em décadas re- centes . self é um projeto simbólico que o indivíduo constrói ativamente. ao contrário do xadrez. os sistemas simbólicos dominantes (que alguns costumam chamar de "ideologias" e outros preferem chamar de "discur- sos") não definem cada movimento do indivíduo.. o sis~ tema dominante definirá que movimentos estão ou não estão abertos aos indivíduos . a medida que novos materiais.\ Quero começar examinando como a for- mação do self foi se entrelaçando cada vez mais com as formas simbólicas mediada~~\ \veremos novos tipos de intimidade criados pela .com a diferença não trivial de que. Uma variedade de termos foram introduzidos. nem com uma entidade fixa que o indivíduo pode imediatamente e diretamente apanhar. ou cujo enfoque foi influenciado significativamente pelas pressuposições da lingüística estruturalista. mas traz também uma afinidade com o trabalho dos interacionistas simbólicos e de outros.especialmente daquelas formas de teoria social que tiveram mais impacto nos estudos críticos da mídia . É óbvio. \oself não é visto nem como produto de um sistema simbólico externo. uma nar:ativa q:ierent~ da própria identidade.\ Esta é uma narrativa que vai se modificando com o tempo. É um projeto que o indivíduo constrói com os materiais simbólicos que lhe são disponíveis. Dizer a nós mesmos e aos outros o que somos é 183 . Como num jogo de xadrez.

que seremos capazes de dar sentido ao que somos e ao futuro que queremos. O conhecimento técnico é gradualmente separado das relações de poder estabelecidas pela interação face a face. Em alguns casos estes padrões se estendiam bem além dos locais imedia- tos da vida diária. por mais vagamente que a façamos. urna vez que os indivíduos ajustam suas expectativas e avaliações aos seus julgamentos continuamente revisáveis daquilo. graças a atividades de viajantes. Seu conhecimento era um "conhecimento local" 1 . os materiais simbólicos que formam os elementos das identidades que construímos são eles mesmos distribuídos de maneira desigual 2 . Enfatizar o caráter ativo e criativo do self não é sugerir que ele seja socialmente incondicionado. reproduzidas tecnicamente e transmitidas pela mídia. os materiais simbólicos empregados por muitos indivíduos para a formação do self eram adquiridos em contextos de inte- ração face a face. a autoformação estava ligada aos locais nos quais eles viviam e interagiam com outros. Se adotarmos este enfoque geral à natureza do self. e o acesso a eles pode exigir habilidades que somente poucos indivíduos possuem. de suas próprias con- dições materiais de vida. as maneiras que os indivíduos utilizam para se servir dos recursos simbólicos na cons- trução do próprio sentido de self dependerão. O processo de formação do self se toma mais e mais depen- dente do acesso às formas mediadas de comunicação . até certo ponto. O conhecimento local é suplementado. ps horizontes de com- '.tanto impressas quanto eletro- nicamente veiculadas. recontar as narrativas . Mas mesmo em tais casos.preensão dos indivíduos se alargam. Estes recursos simbólicos não estão disponíveis do mesmo modo a todos. parece provável que a interpretação da informação prove- niente de fontes distantes. vendedores ambulantes e outros. veremos que o desenvolvi- mento dos meios de comunicação teve um profundo impacto no processo de auto- formação. Estas várias condições são alteradas fundamentalmente pelo desenvolvimento dos meios de comunicação. e transmitida através de extensas redes de interação face a face. Antes do desenvolvimento da mídia. à m~dida que ~s indivíduos vã~ sendo capazes d~r acesso a novas for- mas de conhecunentos nao mais transrnmdos face a face. So- mos todos biógrafos não oficiais de nós mesmos. pois é somente construindo uma história. e sempre mais substituído. Pelo contrário. eles não se estreitam mais nos padrões de 184 . Os horizontes de compreensão de muitos indivíduos estavam limitados pelos padrões das interações face a face através das quais a infor- mação fluía.que são continuamente modificadas neste processo . por novas formas de conhecimento não locais que são focadas num subs- trato material. Para muitos indivíduos. dadas as circuns- tâncias de suas vidas. transmitido de geração em geração através do intercâmbio oral e adaptado às necessidades práticas da vida.de como chegamos até onde estamos e para onde estamos indo daqui para a frente. Além disso. que eles esperariam realisticamente realizar. tenha sido fortemente modelada por autoridades dentro da comunidade local.

Toma-se mais e mais dificil recorrer a estrutu- ras de compreensão relativamente estáveis que tornam corpo nas tradições orais e se ligam a locais particulares. eles se tomam capazes de usar um extenso leque de recursos simbólicos para construir o self. "um multiplicador da mobilida- de".não porque ela não existisse antes. A acentuação mediada da organizaçãó reflexiva do self pode ter conseqüências inquietantes.interação face a face. e de per- ceber corno outras pessoas viviam em outras partes do mundo. em cidades estrangeiras. seus horizontes estão continuamente se alargando. uma forma vicária de viajar que permite ao indivíduo se distanciar dos imedia- tos locais de sua vida diária. o desenvolvimento da mídia enriqueceu e acentuou a organização reflexiva do self. os indivíduos podem usar os materiais mediados para ver suas próprias vidas numa nova luz . os indivíduos são continuamente confrontados com novas possibilidades. mas porque a tremenda expansão dos materiais simbólicos mediados abriu novas possibilidades para a formação do self. mais e mais o self se torna organi- zado corno um projeto reflexivo através do qual incorpora materiais mediados (entre outros) a urna coerente e continuamente revisada narrativa biográfica4 • O desenvolvi- mento da mídia também aprofunda e acentua a organização reflexiva do self no sen- tido de que. Através de um processo de distanciamento simbólico. apresentando novas demandas de uma manei- ra e numa escala que antes não existiam. para os quais a atração de ver os noticiários internacionais na televisão recaía menos no conteúdo explícito das no- úcias do que na oportunidade de ver cenas de rua. Como os materiais simbólicos intercarnbiados em interações face a face. A organização reflexiva do self SI! toma cada vez mais im- portante corno urna característica da vida social . quando os indi- víduos têm acesso a formas mediadas de comunicação. A profusão de materiais simbólicos pode fornecer aos indivíduos os meios de explorar formas alternativas de vida de um modo imaginário e simbólico. seus pontos simbólicos de refe- rência estão continuamente mudando. mas ainda nio 185 . com a expansão dos recursos simbólicos disponíveis no processo de sua formação. Ele enriqueceu esta organização no sentido de que. Até agora me preocupei em destacar algumas maneiras nas quais o desenvolvi- mento da mídia enriqueceu e acentuou a organizaçio reflexiva do self.corno os espectadores chineses no estudo de'Lull. nos termos de Lerner. tanto para os indivíduos como para as comunidades de que eles fazem parte. Ao abrir novas formas de conhecimento não local e outros tipos de material sim- bólico mediado. wna percepção que lhes daria um ponto de comparação para refletir criticamente sobre suas próprias condições de vida 5. mas são modelados pela expansão das redes de comunicação rnediad0 mídia se torna. os materiais mediados podem ser incorporados ao processo de formação do self. e conse- qüentemente permitir-lhes uma reflexão crítica sobre si mesmos e sobre as reais cir- cunstâncias de suas vidas.

mídia.inda tem um útil e importante papel na análise das formas simbólicas. tantô'que alguns analistas prefeririam deixar a noção completamente de lado. em circunstâncias particulares.s ne- ga. (3) o efeito desorientador da sobreca.ção. Propus uma dinâmica e pragmática concepção de ideologia que focaliza a atenção nas maneiras em que as formas simbólicas servem.gens ideológicas através de extensas faixas de espaço e de tempo.pel dos produtos da. etc. para estabelecer e sustentar relações de domínio.. e a reflexiva a~ropriação das mensagens da. e ( 4) a absorção do self na quase-interação media:!:} J) 'A noção de ideologia foi muito debatida e muito criticada em anos recentes. a. em outras palavras. Para entender o caráter ideológico das mensagens da mídia. De acordo com esta concepção. mídia.ção do self. como elas se tornam par- te de seus projetos de formação de self e como elas são usadas por eles nos contextos práticos de vida. de mensagens ideológicas nos contextos práticos da vida diária. Se conceituarmos ideologia desta maneira. em circunstâncias particulares.ra.pacidade de transmitir potencialmente men- sa. dependendo de como serão rece- bidas pelo indivíduo e incorporadas reflexivamente em sua vida. Descreverei esta. pode t~r con_sequenc1a. forma.a as _relações de poder. noção se liberte de algumas pressuposições que lhe impingiram no passado 6 .o sempre perturbadoras. mídia pode ter conseqüências inquietantes para 0 indi- viduo e:_ yar. é importante enfatizar o caráter contextual da ideo- logia: mensagens mediadas podem ser ideológicas.. Claramente não são.o mediada de mensagens ideológicas. Textos e programas da mídia repletos de imagens estereotipadas. Este não é meu ponto de vista. ~ános a. parece claro que em al- guns contextos a a. desde que esta. a. rela..is nega. po- dem de fato ser recebidas pelos receptores e usadas de maneiras as mais inesperadas.gora. a.~ero considera.rga simbólica.propriação das mensagens da mídia serve para estabilizar e reforçar 186 . seria enganador e inadequado sugerir que estas consequenc1as sa. Este não é o lugar para discutir questões metodológicas levantadas por esta con- cepção de ideologia e sua utilidade para a análise das formas simbólicas mediadas - examinei estas questões com mais detalhes em outro lugar 7 . (2) a dupla dependência mediada. mensagens tranqüilizadoras. Tentei mostrar em outro lugar que a noção de ideologia a. para estabelecer e sustentar sistematica- mente relações assimétricas de poder. ele criou as condições para a intrusão mediada.umemou grandemente a ca. Contudo. Enquanto o desenvolvi- mento da mídia enriqueceu e acentuou a organização reflexiva do self.tivas pa.insisú nos aspectos ma.tives desta. e de reimplantar estas mensagens numa multiplicidade de locais particulares.s- pectos nos quais 0 crescente pa. deve-se considerar como estas mensagens são incorporadas nas vidas dos receptores. formas simbólicas específicas não são ideológicas per se: elas são ideológicas somente e até onde servem.~. mtrusa.s como ( 1) a. Aqui quero me concen- trar nos mais amplos e substantivos aspectos desta explicação. poderemos ver que o desenvolvimen- to da.

O aces- so a estes e a outros sistemas é governado por agências e processos que muitos indi- víduos dificilmente podem de alguma maneira influenciar. a própria identidade. e ainda assim estas agências e processos podem ter um impacto muito importante nas chances e na pró- pria percepção de vida ~os indiví~uos. do que no modo como o indi- víduo se porta no mundo. O aprofundamento da organização re- flexiva do self pode vir acompanhado por uma crescente dependência de sistemas que fornecem materiais simbólicos para a sua formação.enr_ão as mensagens da mídia podem assumir um papel ideológico bastante poderos~las se tornam profundamente internalizadas no self e são expressas menos em crenças e opiniões explícitas. no merca- do de trabalho. Descrevi como. no sistema de assisltncia social. Ao mesmo tempo.~quanto a disponibilidade dos produtos da mídia serve para enriquecer e acentuar a organização reflexiva do self. os indivíduos são obrigados a recorrer a si mesmos para construir com os recur- sos materiais e simbólicos disponíveis um coerente projeto de vida. com o desenvolvimento das modernas socieda- des. A entrada no sistema educacional. ao mesmo tempo a toma extremamente dependente de sistemas so- bre os quais o indivíduo tem relativamente pouco controle. no modo como se relaciona consigo mesmo e com os ou- tros _e. de identidade étnica. nos termos de Beck. mais o indivíduo se torna dependente dos sistemas da mídia que ficam além do seu contr~. etc. na forma de autobiografia narrativa. são possíveis movimentos no projeto de vida a que um indivíduo pode aspirar. as relações de poder. 1 quan- do formas simbólicas mediadas são incorporadas reflexivamente aos projetos de for- mação do self . .é um aspecto penetrante da vida social moderna.tanto materiais quanto simbólicos - de construção de seus projetos de vida 8 . mas as possibilidades de fazer estes movimentos são diversamente distribuídas e dependentes de decisões alheias.ter conseqüências negativas para o processo de formação do self. da indi- vidualização e institucionaliução . mais do que para as romper ou enfraquecer. \""6s indivíduos se tomam cada vez mais dependentes de um leque de instituições e sis- temas sociais que lhes proporcionam os meios . 2) Vejamos agora um segundo aspecto no qual o desenvolvimento da mídia pode. contudo. etc. . em geral. no modo como entende os contornos e os limites de si mesmo. Est~ o parad~xo com o qual as pessoas se confrontam cada vez mills neste seculo XX:) a acentuaçao da organização reflexiva do self acontece sob condições que tomam o indivíduo ainda mais dependente de siste- mas sociais sobre os quais tem relativamente pouco control~:J Este paradoxo da reflexividade e dependência .como. por exemplo. A dupla dependência mediada faz parte da tendência característica mais geral das sociedades modernas. O self se torna mais e mais organizado como um projeto reflexivo através do qual ela constrói.'fslo é o que chamo de dupla dependência mediada: mais o processo de formação do self se enriquece com as formas simbólicas mediadas. reflexividade e dependência não são necessariamente opostas uma a outra. A este respeito. as concepções de masculinidade e feminilidade.ou. Além disso.

inúmeras cosmovisões. A confiança em outros significantes corno urna fonte de conselho experiente no que diz respeito às mensagens da mídia foi bem documentada em vários estudos. e cujas opiniões aprenderam a respeitar como fonte de conselho experiente sobre como tais materiais devem ser in- terpretados. inúmeras formas de informação e comunicação que dificilmente poderiam ser coerente e efetiva- mente assimiladas. não somente com uma outra visão do mundo que contrasta com seus supostos pontos de vista: eles se confrontam com inúmeras narrativas autobiográficas.e de maneira nenhwna é restrito à dominação da mídia. Ávidos leitores de ficção romântica são confrontados com uma desconcertante oferta de livros.dos sistemas com- plexos para a produção e transmissão de formas simbólicas mediadas. Assim como a crescente disponibilidade dos produtos da mídia fornece meios simbólicos para que os indivíduos se distanciem dos contextos-espaço-temporais da vida diária e construam projetos de vida que in- corporem reflexivamente as imagens e idéias mediadas recebidas. Somen- te wna pequena porção dos materiais simbólicos mediados disponíveis aos indiví- duos são assimilados por eles. Consideremos. Mas os indivíduos também dependem comu- mente de outros com quem interagem todos os dias. Como os indivíduos podem enfrentar este fluxo sempre cres- cente de materiais simbólicos mediados? Em parte através de um processo seletivo do material que eles assimilam. assim também os indivíduos se tomam cada vez mais dependentes . quais materiais simbólicos devem ser assimilados ou rejeitados. Os indivíduos se confrontam não apenas com uma outra narrativa autobiográfica que lhes permite refletir criticamente sobre suas próprias vidas. sistemas que a mai~ dos indivíduos dificilmente pode controlar. por exemplo. quando indivíduos confiam nas opiniões de críticos do cinema ou da TV para fazer suas próprias escolhas. Mas se atentarmos para a re- lação entre o desenvolvimento da mídia e o processo de formação do self. \ ( 3)/A crescente disponibilidade dos materiais simbólicos mediados pode não so~ente enriquecer o processo de formação do self: pode também ter um efeito desorientado!. desde a obra mais antiga de Katz e Lazarsfeld a wna variedade de estudos mais recen- tes9. poderemos avaliar a importância deste paradoxo.:_)A enorme variedade e multiplicidade de mensagens disponíveis pela mídia pode provocar um tipo de "sobrecarga simbólica". Mas os indivíduos também desenvolvem sistemas de conhecimento que lhes permitem seguir wn determinado rumo através da densa floresta de formas simbólicas mediadas.com relação à formação do self e ao que se poderia chamar genericamente de vida da imaginação . Corno eles podem enfrentar com êxito esta avalanche de novos materiais? Em parte eles desenvolvem seus próprios sistemas experimentais que lhes 188 . Dezenas de novos títulos são publicados ou reedita- dos todos os meses. o estudo de Janice Radway sobre os leitores de fic- ção romântica 10 . Estes sistemas podem fazer parte das redes da mídia - como. por exemplo.

os leitores de Radway ilustram bem este ponto: apoian- do-se na experiência de Dot para selecionar seus 'romances entre inúmeros títulos disponíveis. uma dinâmica que se pode descrever como o efeito recíproco de complexidade e experiência prática. porque seu conselho para experimentar novos autores e novos tipos de romance era independente de qualquer editor particular e sua ajuda diminuía os riscos de desa- pontamento e de gastos inúteis. foi cru- cial. No caso dos leitores de Radway. eles conhecem os autores e impressos que mais lhes agradam. suportados e finalmente vencidos. Elas chegaram a confiar no julgamento de Dot. Mas os indivíduos procuram também conselho com ou- tros cujas opiniões aprenderam a valorizar. por exemplo. Dot começou a publicar um informativo: "Diário de Leitura de Romance de Dorothy". e no qual o caminho da felicida- de é semeado de obstáculos dolorosos que devem ser confrontados. que levava seus conselhos a outros lei- tores que não lhe conheciam da livraria. Além disso.aprendendo como enfrentar. Este exemplo ilustra bem com~ indivíduos constroem sistemas práticos de co- ~hecimento para enfrentar o sempre crescente fluxo de formas simbólicas media~ E óbvio. o desenvolvimento de sistemas práticos de conhecimento não se restringe à esfera de apropriação dos produtos da mídia peios indivíduos. e muitas mulheres na comunidade local confiavam nela como uma fonte de conselho sobre romances que se deveriam ler ou não. programas de rádio e de TV. Novamente. À medida que sua reputação cresceu.os ro- mances particulares que iriam satisfazer suas necessidades. etc. Dorothy ("Dot") Evans. É. Em outras esferas da vida . eles incorporam as mensagens extraídas dos textos num sistema de habi- lidade prática para tratar os relacionamentos pessoais e enfrentar as demandas da vida diária.os indivíduos com'lllllente constroem sistemas de experiência prática que lhes permitem examinar minuciosamente opções e esquadri- nhar as opiniões de profissionais e de outros 11 • E. eles se servem dos produtos da mídia. Dot era extremamente conhecedora do mundo da ficção romântica. Livros.com ajuda de seu conselho experiente .por exemplo. manuais. Ler romance de ficção é uma lição prática de como administrar wn relaciona- mento que promete muito mas oferece bem menos.permitem exercer seletividade .a abundante produção das casas editoras e lhes permitia encontrar . o papel desempenhado por uma atendente da livraria local. ao construir estes sistemas. ou como ajustar-se a doenças graves . fornecem uma constante fonte de conselhos para enfrentar as dificuldades e comple- xidades da vida.. urna forma de educação sentimental 11 • O desenvolvimento da mídia é assim wna parte integrante de uma característica dinâmica mais ampla das sociedades modernas. como diria Geertz. Na proporção em 189 . os relacionamentos pessoais. Dot foi assumindo cada vez mais o papel de interme- diária cultural que ajudava os leitores a selecionar . sabem como interpretar a propaganda dos editores e decodi- ficar a iconografia da capa. os edi- tores começaram a enviar-lhe provas de livros no prelo na esperança de conseguir alguma crítica no informativo.

ela poderia ser vista como um tipo de extensão e acentuação do caráter reflexi- vo do self.. pelo qual elas são capazes de incorporar materiais simbólicos (mediados ou de alguma outra maneira) num processo relativamente autônomo de formação do self. Por que os materiais simbólicos mediados têm este poder de atração sobre os in- divíduos? O que há com a natureza da quase-interação mediada que pode tornar-se não apenas uma forma de envolvimento social entre outros. que ela torna possíveis. Contudo. É precisamente porque o indivíduo é capaz de incorporar reflexivamente materiais simbólicos mediados num processo de autoformação. i . Tentei mostrar que o desenvolvimento da mídia cria um novo tipo de situação interativa . mas sua preocupação central." A mídia assim tanto contribui para o crescimento da complexidade soC1al quanto proporpona uma fonte constante de conselhos sobre como enfrentá-!:. 4) tejamos agora um quarto aspecto em que o desenvolvimento da mídia pode ter conseqüências negativas para o processo de formação do self..que chamei de quase-interação mediada. embora não sejam os únicos nem os principais. 190 . a participação na quase-intera- ção mediada é um entre tantos aspectos da atividade social diária. materiais simbóli- cos mediados são recursos ricos e variados para o processo de formação do self. em nível de intimidade pessoal.. ideais simbólicos ao redor dos quais o indivíduo começa a organizar sua vida e seu sentido.l .que 0 ambiente social dos indivíduos vai crescendo em comp. Os indivíduos também se servem ex- tensamente de materiais simbólicos intercambiados em interações face a face com membros da família. Para muitos indivíduos. é claro que em alguns casos os indivíduos podem confiar muito mais nos materiais simbólicos mediados... mas antes a principal forma de envolvimento em torno da qual outros aspectos da vida social do indivíduo e ~eu próprio self são organizados? Para responder estas perguntas precisamos exa- minar um pouco mais o caráter distintivo da quase-interação mediada e as formas de envolvimento. desaparece quase imperceptivelmente em alguma outra coisa: o self é absorvido por uma forma de quase-interação mediada.__ J A absorção do self não necessariamente implica uma suspensão da reflexividade. de tal modo que os materiais simbólicos mediados não são simplesmente um recurso para o self. antes.\o caráter reflexivo do self. que estes materiais podem se tornar fins em si mesmos.le~idadc ~em parte ~tra­ vés da maciça oferta de formas simbólicas mediadas). os ind1v1duos vao construmdo sistemas de conhecimento prático (extraídos em parte de materiais mediados) que lhes permitem enfrentar esta complexidade e as demandas da vida no mun~o moder- no. Por isso a absorção do self na quase-inte- ração mediada não é um fenômeno qualitativamente diferente da organização reflexi- va do self: é uma versão dele. amigos e outros que eles encontram no curso de suas vidas coti- dianas. estes materiais se tornam menos um recurso de que eles se servem e que eles incorporam reflexivamente em seus projetos de vida!__ do que um objeto de identificação a que eles se apegam forte e emocionalmente.

.tudo de uma forma que evita exigências recíprocas e complexidades que são características de relacionamentos sustentados através de interações face a face. e geralmente não participem de interações face a face. como a quase-interação mediada não é dialógica. astros e estrelas e outras celebridades da mídia se tornam familiares e íntimas figuras. O caráter não recíproco dos relacionamentos mediados não implica que os recep- tores fiquem à. tópicos para conver- sação. ela poss1bibta uma forma de intimidade com outros que não compartilham o mesmo ambiente espaço- temporal. . Atores e atrizes.. informações de acontecimentos importantes e remotos.\ o próprio fato de que os outros não estejam situados no ambiente es- paço-temporal dos receptores.Intimidade não recíproca à distância Há dois aspectos da quase-inceraçã.!!1~rcê dos outros distantes e não possam exercer qualquer controle. 1 Parte da atração deste tipo de intimidade criada pela quase-interação mediada consiste ' precisamente nisto\e'um tipo de intimidade que deixa os indivíduos com a liberdade de definir os termos de engajamento e de intimidade que desejam ter com os outr~ A própria concepção que os indivíduos têm daqueles que chegam a conhecer atraves da mídia é relativamente livre das características definidoras da realidade próprias da interação face a face. pelo contrário. Mas é claro também que em alguns casos estas relações não recíprocas de intimidade podem assumir uma importância maior nas vidas de certos indivíduos. não implica o tipo de reciprocidade caracterís- tica da interação face a fa~j Este tipo distintivo de intimidade não recíproca à distância tem algumas atrações para os indivíduos como também alguns custos. muitos indivíduos nas sociedades modernas estabele- cem e sustentam relações de intimidade não recíprocas com outros distantes. Os outros dis- tantes com quem se trava conhecimento em interações mediadas são figuras que po- dem ser encaixadas em nichos espaço-temporais da vida de cada um mais ou menos ad libitum. Permite aos indivíduos desfrutar al- guns dos benefícios da companhia sem as exigências típicas dos contextos de intera- ções imediatas.o mediada que são de particular imponância para a natureza dos relacionamentos pessoais que surgem através da mídia\Pri~e~r_o. muitas vezes assunto de discussão e de conversa rotineira na vida diária dos indivíduos. sem entrar na teia de compromissos recíprocos. como a quase-interação mediada se estende através do espaço e do tempo. em outras palavras. ela possibilita uma "intimidade à distância" 13 • Segundo. São companheiros regulares e confiáveis que proporcionam diversão. isto é. Dá aos indivíduos a oportunidade de explorar relações interpessoais de uma forma vicária. 191 . etc. a forma de intimidade que ela estabe- lece não tem caráter recíproco. significa que os receptores têm bastante liberdade para modelar o tipo de relaciona-· mento que eles desejam estabelecer e sustentar com seus companheiros distantes. De uma forma ou de outra. con- selhos.

quando acabamos e eu percebo que não é. Eu não posso explicar mais do que isto. Como um outro distante encontrado principalmente através da rrúdia.. Eu estou definitivamente apaixo- nada por ele.alguém. até o dia em que me envolvi com as f'as de Barry. com quem nunca se poderá esta- belecer nada mais do que uma relação recíproca de intimidade à distância.Elas podem se tornar aspectos tão importantes da vida de um indivíduo. Pode ser dificil suportar a culpa de saber que se está levando uma vida dupla. uma vez que é esta distãncia que o eleva e lhe dá permanente disponibilidade numa forma mediada ou imaginária. Pode ser muito. de tal modo que ela não o pode excluir dos relacionamentos íntimos que ela mantém nas interações face a face. Mas ainda assim não é fácil algumas vezes. Ele é um companheiro cuja distãncia dos contextos práticos da vida diária é uma das fontes de seu irresistível apelo. E Barry é . sentem do mesmo jeito e fazem a mesma coisa. um companheiro que pode ser chamado à vontade e que se pode mode- lar de acordo com os desejos. E depois. mas muito incômodo. Esta franca e desconcertante confissão é sem dúvida excepcional.talvez eu não devesse dizer isto. O caso de amor unilateral de Joanne com Barry Manilow tornou-se um aspecto integrante de sua vida. uma mulher de 4-2 anos. Mas eles certamente conseguem alguma coisa de Deus para ajudá-los a tocar a vida para a frente. 192 . na verdade. reconstituindo com uma pessoa um relacionamento íntimo numa interação face a face. Considere-se o relato de Joanne.ele é este çipo de coisa.. É o que descrevo como um caso de amor unilateral. Normalmente está escuro quando as lágrimas fluem e de alguma maneira con- sigo escondê-las. tenho este terrível sentimento de culpa . Ele é o meu amigo quando estou deprimida. Barry Manilow é um maleável ob- jeto de afeição. começo a chorar. É confortador saber que não sou a única. Ele me ajuda a viver! Mas também não é só isto. além de tudo o mais. algumas vezes com resultados dolorosos e confusos. casada e mãe de três crianças: Quando eu tenho relações sexuais com meu marido. Eu não tinha percebido quantas. enquanto se ima- gina com uma outra pessoa . Todo o tempo. Suponho que seja o mesmo tipo de coisa que as pessoas buscam na religião. para que Joanne possa imaginá-lo como ela gostaria que ele fosse. mas é como eu sinto . E ainda assim a intrusão deste relacionamento não reóproco nos contextos da vida cotidiana pode ser uma fonte de confusão e até de certa dor. Isto também acontece com muitas pessoas. sentimentos e sonhos de Joanne. Ele é o meu amante em minhas fantasias. porque freqüentemente. ao ponto de eclipsar outros aspectos. Eu sinto atração por ele. Ele está lá e parece me oferecer algo que preciso para continuar a viver 14 . Muitas delas são casadas e têm a minha idade. imagino que é com Barry Mani- low. mas é interes- sante pela luz que ela lança sobre a natureza das relações de intimidade não recípro- cas com outros distantes. redefinindo outras formas de interação diária.

revistas. ser fã tipicamente implica muito mais do que uma orientação afetiva para com um outro distante.. mas este envolvimento foi um novo passo importante: deu-lhe a sensação de fazer parte de uma coletividade de indiví- duos que compartilham preocupações semelhantes. Além disso. por exem- plo. isto se torna a preocupação central do self e serve para governar uma parte significante da própria atividade e interação com outros. Ser fã é uma maneira de se organizar refle- xivamente e de se comportar no dia a dia.face a face.até que ponto um indivíduo se orienta e modifica sua vida de acordo com certas atividades. 193 . seguindo uma certa atividade (como espectador esporti- vo). recortes de jornais. Visto desta maneira. produtos ou gêneros.). entretanto. O termo é uma abreviatura de "fanático" e foi provavelmente usado pela primeira vez no sé- culo XIX para descrever os espectadores entusiastas do esporte. const::uir coleções de lembranças. a cono- tação de fervor religioso. A ~tagem é um aspecto ordinário e rotineiro da vida diária: é organizar a pró- pria vida de tal maneira que. ou pelo telefone. como Joanne."É confortador saber que não sou a única". Este senso de pertença foi uma fonte de reafirmação . escrever cartas a outros membros do fã-clube. asso- ciar-se a f"as-clubes e participar de suas reuniões e convenções. filmes. etc. podem desenvolver laços de fidelidade com times particulares mais do que com jogadores particulares. partidas. para quem a atividade de ser fã se enraíza numa r~lação de intimidade não recíproca. etc. como colecionar discos. Joanne desenvolveu uma relação de intimidade não recíproca com Barry Mani- low antes de se envolver com as fãs de Barry. o que é mais im- portante. uma vez que sugere muitas imagens estereo- tipadas (a multidão de adolescentes lutando para conseguir um olhar de seu astro preferido. se ocupam de uma variedade de atividades sociais práticas. Há muitos indivíduos. vídeos e outros produtos da mídia. Mas há formas de admiração exaltada que não implicam necessariamente o cultivo intensivo de relações de intimidade não recíproca. Embora hoje o termo seja utilizado numa forma amplamente descritiva. Fãs. fotos etc. ocupar-se em conversa~ regulares . e é esta relação que dá sentido e objetivo para as atividades associadas ao fato de ser fã. muitos fãs de esporte. Em muitos casos. de delírio e de possessão demorúaca transmitj. ou ainda através de redes de computadores . É somente uma questão de gradação . e. Aqueles que estudaram fãs destacaram o fato de que o mundo do fã é muitas ve- zes um mundo social complexo e altamente estruturado com suas próprias convenções. o solitário obsessivo que ameaça matar a pessoa que adora.com outros indivíduos com os quais têm muito pouco em comum exceto o fato de serem fãs.. uma importante parte do ser fã está no cultivo de relações não recíprocas de intimidade com outros distantes. O que é um fã? O termo particularmente não ajuda muito. ir a concertos. não há uma clara li- nha divisória entre ser fã e não o ser. fitas. ou cultivando uma relação com alguns produtos ou gêneros da mídia.da por sua origem etimológica. ele não perdeu.

muitas vezes vão bem além deles 16 • Mas a participação no mundo do fã freqüentemente assume formas menos elaboradas. o .io de livros. que embora possam ver os mesmos programas. A mais importante é a possibilidade de se tomar parte de um grupo ou comunidade. A comunidade de fãs é bastante distinta de outros tipos de comunidade. 15 o mundo do fã pode ser dependente dos produtos da m1dia disponíveis. é uma man~ira de reconstituir um relacionamento que não pode se realizar em contextos de interação face a face. etc.são importantes para o desenvolvimem~ da comunidade de fãs. Esta é uma comunidade com a qual os indivíduos podem se envolver profundamente em níveis pessoal e emocional. . Fãs podem se reunir de tempo em tempo. a não reciprocidade do relacionamento é geralmente mantida.. de desenvolver uma rede de relações sociais com outros que compartilham a mesma orientação. Entre os mais dedicados fãs.io de intimidade não recíproca ou cultivar laços. A tietagem têm outras atrações também. este processo transformativo pode se tonar extremamente elaborado. como quando se encontram em concertos ou convenções. e que podem desse modo ser incorporados reflexivamente no projeto de formação do próprio self. Em parte este envolvimento 194 . resultando na criaç. etc. Dá aos indivíduos meios de drenar uma rica fonte de materiais simbólicos que podem ser usados para desenvolver uma relaç. etc.isto é. Por isso muitas formas de comunicação mediada . mas sua associação não se baseia na parti- lha de um local comum. suas pra'u· cas de canonização . computadores. que. vídeos. (Mesmo em ocasiões em que a distân- cia que normalmente separa o fã de seu ídolo é temporariamente suspensa . um cor.) Ao proporcionar aos indivíduos meios de reconstituir um relacionamento ou criar laços. mas estes produtos são assumidos. por exemplo. Pois para os indivíduos que estabeleceram uma relação de intimidade não recíproca com um outro distante. ouvir as mesmas músicas ou ler os mesmos livros. embora tenham sido calcados nos produtos da mídia originais. telefone. 0 simpatizante.io e formas de experiência. uma maneira de desenvol- ver o autoprojeto através da incorporação reflexiva de formas simbólicas associadas à tietagem. trabalhos de arte. Cartas intercambiadas entre fãs são cheias de palavras codificadas e conhe- cimento esotérico que ajudam a tomar o mundo do fã algo especial: um mundo se- parado dos outros que. suas regras de interaç.fã e g10. suas divisões entre o conhecedor 1• ''amador. Por que alguém deveria desejar se tomar um fã? O processo de se tomar um fã pode ser entendido como uma estratégia do self . suas hierarquias d1· poder e prestí- . tornar-se fã é uma maneira de estender e consoli- dar esta relação. a tietagem tem muito a oferecer.como. num concerto ao ar livre -. transformados e incorporados num universo simbólico estruturado e habitado somente por fãs.cartas informativos.io de uma nova geraç. não organizam suas vidas em torno destas atividades nem as tornam um aspecto integrante do próprio self.certo é uma ocasião para fãs reconstituírem uma relação de intimidade não recíproca com outros distantes cuja distância foi temporariamente suspensa. É uma comunidade que não se res- tringe a um lugar particular.

o self vai sendo paulatinamente absorvido pelo mundo do fã. É precisamente porque os indivíduos abrigaram _u~a parte significante da própria identidade na experiência de ser fã. que constituem o prazer de ser fã. as atrações da comunidade de fãs podem se tornar opressivas. sua vida se toma cativa da vida dele" 17 : esta visão. compreenderemos por que para alguns indivíduos a experiência de ser fã assume um significado ainda maior. A narrativa autobiográfica do self interliga- se com a narrativa do outro de tal maneira que não se pode mais separar uma da ou- :·o tra. é a própria existência destas fronteiras. É uma atividade estigmatiza. Se nós entendermos desta maneira a exaltada devoção dos fãs. os próprios desejos e sentimentos mais íntimos .da que. ser fã é simplesmente um entre outros aspectos do projeto de vida que constroem para si mesmos. uma atividade entre outras tantas que comportam as ocupações práticas do self. pode tomar-se uma atividade que não se pode mais dispensar. A experiência de ser fã pode se tornar um tipo de dependência compulsiva da qual o indivíduo não pode mais sair com facilidade. e a capacidade de cruzá-las sem grandes problemas. Estes mundos se tornam inextricavelmente misturados. em alguns casos. Eles se movimentam entre o mundo dos fãs e os contextos práticos de suas vidas cotidianas com relativa facilidade. Mas 0 profundo envolvimento pessoal e emocional de indivíduos com a comuni- dade de fãs é também um testemunho do fato de que ser fã faz parte integrante do projeto de formação do self. que a assoc1açao com outros fãs pode ser imensamente gratificante. Para muitos indivíduos. Associar-se a outros fãs é desco- brir que as escolhas que se fez na construção do próprio projeto de vida não são in- teiramente idiossincráticas. do mundo do fã com o mundo da vida coti- diana. Mas para alguns indivíduos. em alguns contextos. Eles não perderam de vista as fronteiras simbólicas que separam estes mundos. de . _pode provocar s~u­ mentos de culpa e de insegurança. o indivíduo pode começar a sentir que está perdendo o controle de sua vida. Com esta fusão do self com o outro.advém do fato de que muitas pessoas ainda consideram com muita reserva os fan(át~­ cos). Encontrar-se na companhia de companhe1ros- viajantes pode ser uma fonte de enorme alívio da culpa e da dúvida que pesam sobre um self estigmatiza.do. Quando isto ocorre. na verda- de. O indivíduo toma-se mais e mais preocupado com o cultivo da rela- ção de intimidade com um outro distante (ou com o desenvolvimento de um vínculo semelhante).incluindo. astro-ídolo exp~essa algo lá em cima que é muito real para você e com 0 qual voce acaba se confundindo. o indivíduo pode encontrar dificuldade de perceber a distinção entre os dois mundos. É descobrir que a trajetória de vida que se escolheu coincide significativamente com trajetórias de vida de outros. Ser fã pode gradualmente cessar de ser uma atividade que se escolheu.podem ser compartilhados com outros sem nenhuma vergonha. de tal maneira que cer- tos aspectos do self . e o projeto do self se toma inseparável da experiência de ser fã e passa a ser modelado por ela.

quando vêem. Com a emergência de sistemas especializados de conhecimento como a medicina e a psi- quiatria. e instituições especializadas como hospitais. o ferro de marcar. Mas do século XIX em diante. por exem- plo. de doenças crônicas (fisicas ou mentais) ou da morte de um ente querido. "Mas você é uma outra pessoa" . "Desseqüestraçãon e a mediação da experiência A formação de relações de intimidade não recíprocas com outros distantes não é o único modo de experiência que os indivíduos podem ter através da mídia. criminosos condenados fo- ram cada vez mais enclausurados em instituições longe das vistas da população. A experiência. Estas instituições forçosamente isolaram certas categorias de in- divíduos do resto da população e as encerraram dentro de altos muros e seguros por- tões 19. como algo extraordinário. Podemos avaliar a importância deste fenômeno se o abordarmos de uma perspectiva histórica.urna ex-fã de David Bowie. O desenvolvimento das socie- dades modernas implicou um complexo reordenamento das esferas de experiências."com urna outra história para contar" 18 . refletindo sobre suas experiências passadas . os criminosos eram marcados fisicamente e expostos em praça pública para todos verem. Hoje o castigo de criminosos condenados. como o açoite. hospícios e asilos de vários tipos. como o tratamento de doentes mentais. para mui- tas pessoas foi modelada por um leque de instituições que se especializaram no cuidado de doentes terminais. certas formas de experiências foram gradualmente sendo removidas dos locais da vida diária e concentradas em ambientes institucionais particulares. a mídia torna disponível um leque de experiências que os indivíduos normal- mente não adquirem nos contextos práticos da vida. mostra como a reflexiva apropriação dos materiais sim- bólicos mediados pode gerar preocupações compulsivas de que o self gradualmente perde o controle. o pe- lourinho e a forca. Mas a seqüestração institucional da experiência veio com um outro desenvolvi- mento que de alguma maneira o neutraliza: a maciça expansão de formas mediadas de experiência. não são mais fenômenos que as pessoas encontram rotineiramente no curso da vida diária. Nos séculos anteriores os indivíduos condenados por crimes eram submetidos a formas públicas de humilhação e castigo.ela continua a dizer. Justamente quando muitas formas de experiência foram separadas dos contextos práticos da vida diária e reconstituídas em ambientes institucionais es- 196 . São fenômenos destinados a especialistas e que muitos indivíduos vêem. Mais geral- mente. Talvez um dos exemplos mais dramáticos desta "seqüestração" da experiência possa ser encontrado no desenvolvimento de prisões e asilos para doentes mentais a partir do século XIX. cujo acesso pode ser restrito ou controlado de várias maneiras. Estas e outras formas de experiência foram separadas dos con- textos práticos da vida diária e reconstituídas em instituições especializadas.

golpes de estado. Quem quer que veja a televisão hoje. terá presenciado guerras. e se diferencia da outra de muitas maneiras. Segui11do Dilthey e outros autores dentro das tradições hermenêutica e fenomenológica.terão visto estes e muitos outros eventos desdobrando- se diante deles em suas TVs. através da mídia. que ocorrem em partes diferentes do mundo. como eu irei construir aqui. os indivíduos se confrontam com uma explosão de formas de experiên- cias mediadas. Enquanto raramente encontramos certos tipos de doença e de morte nos con- textos práticos da vida de todos os dias.talvez até ampliadas e acentuadas .· víduos hoje bastante diferente do experimentado por gerações anterior~ .através da mídia.pecializados. Pois a mídia torna disponíveis formas de experiência que são totalmente novas. A desseqüestração da experiência através da mídia é um importante desenvolvi- mento.:primeiro lugar. já deve ter assistido a inúmeras mortes naturais ou violentas (tanto simuladas quanto reais). usarei o termo "experiência vivi- da" (Erlebnis para Dilthey) para me referir à experiência adquirida no curso normal da vida diária 20 • É a experiência que adquirimos no fluxo temporal de nossas vidas. Terá visto assassinatos. em. é também uma experiência situada. terá visto crianças morrendo de fome ou de epidemias. Podemos distinguir experiência vivida neste sentido daquilo que chamo de "ex- periência mediada".. revoluções e contra-revoluções . independente de terem s\do gradualmente se- paradas (ou não) do fluxo normal da vida cotidiana.dades normais da vida diária. ela é imediata. Por 197 . Aqui me concentrarei na experiência adquirida através da quase-interação mediada e examina- rei quatro aspectos nos quais ela se diferencia da experiência vivida. pré-reflexiva.sua grande maioria. A experiência de vida. E algumas destas formas de experiência separadas do fluxo normal da vida cotidiana foram reintroduzidas .~A mídia produz um contínuo entrelaçamento de diferentes formas de experiência. no sentido de que geralmente prece- de qualquer ato de reflexão explícito. r. estão distantes espacialmente (e talvez também tem- poralmente) dos contextos práticos da vida diáriajSão eventos que dificilmente se- riam presenciados diretamente no curso das atiVi. experimentar eventos através da mídia é experimentar even- tos que. no sentido de que a adquirimos em contextos práti- cos da vida cotidiana. eventos que não poderiam ter sido vistos pela maioria das pessoas antes do advento da TV. contínua e.. conflitos e supressões de demonstrações públicas. Esta é o tipo de experiência que adquirimos através da interação ou quase-interação mediadas. Como deveríamos entender esta mistura de diferentes formas de experiência? Como analisaremos seus aspectos constitutivos e suas conseqüências? Começarei com uma larga distinção entre dois tipos de experiência. uma mistura que torna o dia-a-dia de muitos indi. com uma freqüência moderada. podemos muito bem ter experiência e algum conhecimento delas. até certo ponto. São atividades práticas do nosso dia-a-dia e de nosso encontro com outros em contextos de interação face a face que lhe dão o conteúdo. mas ela conta apenas parte da história.

'fste conjunto d':_ pnondades faz parte integrante do projeto de vida que cada um~Õnstrói para si. Espaços de experiências não estão delimitados por contextos es- paciais ou temporais. Eles são também eventos que. de fechar tempora- namente o espaço de experiência aberta por ela. de mundos divergentes que subitamente se unem numa experiência mediada.e_rminam a relevância ou não de experiências reais ou possíveis. de tal maneira que o indivíduo.eventos qu e . dos pelas ações destes indivíduos. mas lhes são sobrepostos. não afetarão d~retame~te ou percepll- velmente as vidas dos indivíduos que os experimentam atraves da m1d1a. Pode haver conexões causais entre os eventos experimentados através da mídia e os contextos práticos da vida cotidiana.et. Mas o caráter re- contextualizado da experiência mediada é também fonte de sua capacidade de chocar e desconcertar.do contexto em que o evento mesmo acontece. mas também em termos de condições materiais e sociais de vida . · 1sso . O caráter recontextualizado da experiência mediada é a fonte tanto de seu charme quanto de sua capacidade de chocar e desconcer- tar. fora do controle de quem os assiste. mas estas conexões muito provavelmente implicam muitos intermediários e são muito extensas para permanecerem imperceptíveis. para novos e diferentes espaços de experiência. Seu charme: a mídia possibilita aos indivíduos deslocarem-se com relativa facilidade. da Bósnia. e de retornar às tranqüilizantes reali- dades da própria vida diária? Urp~t~o aspecto da experiência mediada tem a ver com o que descrevo como "re~evâilm~êstrutural" 21 . O caráter chocante e desconcertante das imagens televisivas do Sudão.1 mídia. Se entendemos o self como um projeto simbólico que o in- dividuo vai modelando e remodelando no curso de sua vida. portanto. atraves da recepçao e apropnaçao dos produtos da mídia. para os indivíduos que os assistem pel. que choca e desconcerta. nos contextos práticos da vida diária. Um segundo aspecto da experiência mediada é que ela acontece num contexto diferente daquele onde o evento de fato ocorre. e sem alterar os contextos espaciais ou temporais de suas vidas.no espaço e no tempo. de se afastar das imagens que aparecem na televisão. Eles estão fora do alcance e. precisamente porque esta experiência ocorre num contexto que pode estar muito distante . Quem não sentiu a necessidade. mas nos orientamos para aquelas 198 . pode se movimentar entre eles sem alterar o contexto prático de sua vida diária. em vmude de seu distan- ciamento espacial (e quiçá também temporal). mas também do fato de que suas condições de vida se dis- tand:u11 dramaticamente dos contextos dentro dos quais estas imagens foram reimplanta- das. têm_ um ca- e! es sao · f · · isto rater re ratano: · · sa·o acontecimentos que muito improvavel111cnte serao afeta- e.ncia de even~os que transpir~m em locais distan- tes e que são reimplantadas. da Somália. fica fácil ver também que este projeto implica um conjunto de prioridades continuamente modificáveis que d. de vez em quando. E o contraste de contextos. Nao damos a todas as experiências o mesmo peso. Experiência mediada é sempre expe- riência recontextualiza~ a experiê. de Ruanda e de outros lugares provém não somente das desesperadas condições de vida daqueles povos veiculadas por estas imagens.

mas as características da experiência mediada modificam-lhe um pouco a rele- vância estrutural. A relevância da experiência vivida para o indivíduo é inquestioná- vel.o as questões de maior interesse. Deste ponto de vis- ta. mas elas não sã. 199 . poderíamos construir um mapa da relevância estrutural de diferentes formas de experiência ao longo dos caminhos diários da vida. e se a experiência mediada for de fato incorporada reflexivamente no projeto do self. Vejamos primeiro a experiência vivida. muitas formas de experiência mediada têm pouco significado para suas vidas: elas podem ser intermitentemente interessantes. e que o self pode potencialmente influenciar através de suas ações (ou com quem ela pode potencial- mente interagir). até certo ponto.seu projeto do self. Num dos pólos do espectro está o indivíduo que valoriza somente a experiência vivi- da e que tem relativamente pouco contato com formas mediadas. ocasionalmente diverti- das.çam-na com a experiência vivida que forma o tecido conectivo de suas vidas diárias. imediatas e. mas perma- necem periféricas com relação aos Íntimos interesses do self. talvez lembradas para o desempenho de determinadas tarefas. estas experiências são conúnuas. a pessoa vive continuamente imersa em experiências. inevitáveis. mas uma se- qüência desconúnua de experiências que têm vários graus de relevância para o self. enla. Nos caminhos da vida diá- ria. As experiências vividas formam um ambiente para o self. intermitente e seletivo. ela se torna um aspecto integral e regular de sua vida. a ex- periência mediada pode se confundir com a experiência vivida ou até suplantá-la. ela pode adquirir uma profunda e permanente relevância. A experiência mediada não é um fluxo contínuo. Tanto a experiência vivida como a experiência mediada sã. elas não afetam grandemente o self: podem ser no- tadas.o refratários aos indivíduos que os ex- perimentam. Por isso a experiência mediada afeta o self de um modo tênue. é a experiência de eventos que ocorrem (ou de outros que estão situados) imediatamente no mesmo local espaço-temporal. No outro pólo do espec- tro está o indivíduo que colocou a experiência mediada no centro de. a releYância estrutural é um pouco diferente. · Para cada indivíduo em particular. o projeto do self é modelado praticamente pela experiência vivida. porque é principahnente através dela que o projeto do self é formado e reformado todos os dias.que fazem parte dll prioridades do projeto do self que queremos. No caso da experiência mediada. Levada ao extremo. Mas os indivíduos também se servem seletivamente da experiência mediada. portanto. Para muitos indivíduos cujos projetos de vida estão enraizados em contextos práticos da vida diária. Embora experiências mediadas pos- sam ocorrer ao longo de sua vida.o estruturadas deste jeito. A experiência mediada geralmente implica acontecimentos que estão distantes no espa- ço (e quem sabe também no tempo) e que sã. as experiências atuais ou potenciais são estruturadas em termos de rele- vância para o self.

É claro. estes tipos tradicionais de organização política muitas vezes fizeram uso extensivo de comunicação mediada. E a ro- tina acaba fixando-as como aspectos integrantes da vida diária. Consideremos agora quar e último aspecto da experiência mediada. Eles organizam seus caminhos no espaço e no tempo de tal maneira que certas experiências mediadas se tornem aspectos planejados e integrantes . Mas mesmo quando experiências mediadas se tornam rotineiras.de tal maneira que o indivíduo dificilmente saberá distinguir uma da outra. como já vimos no caso do dedicado fã. precisamente porque os eventos experimentados através da mídia aconte- cem em locais distantes dos contextos práticos da vida cotidiana. Para muitos indivíduos. na apropriação e na incor- 200 . O planejamento das expe- riências mediadas é um índice de sua relevância para o self: e quanto mais relevantes elas parecerem ao indivíduo. eles adquirem tanto ex- periências vividas como mediadas. etc. como repetidamente já acentuei. corno os sindicatos e os partidos políticos de base popular. elas muitas vezes têm uma tênue relação com o self. pois é um tipo de experiência em q~ que há de comum não está mais ligado à partilha de um mesmo local comum~ Os indivíduos podem ter experiências similares através da mí- dia sem compartilhar os mesmos contextos de vi<!_y Isto não quer dizer que os con- textos de vida dos indivíduos sejam irrelevantes para a natureza e a importância de experiências mediadas: pelo contrário. o desenvolvimento da comunicação mediada cria um novo tipo de ex- periência que corrói estes tipos tradicionais de organização política. os episódios de um seriado televisivo. a relevância estrutural de diferentes formas de experiên- cia se situa em algum lugar entre estes dois pólos acima descritos. À medida que os indiví- duos têm experiências em comum. por exemplo. ou o horário esportivo de domingo à tarde. mais ele as integrará no seu planejamento diário. Mas fundamentalmente eles se enraiza- vam em certo partilhamento de experiências vividas e compartilhadas em condições de vida comuns. na forma de jornais partidários. É este partilhamento de experiências vividas que formou a base de muitos tipos tradicionais de organização política. Ao se moverem através da trajetória espaço-temporal de suas vidas cotidianas. e a comunicação mediada foi usada justamente para chamar a aten- ção sobre esta base comum. Contudo. os capítulos de uma novela. este partilha- rnento está muitas vezes enraizado no fato de que os contextos da vida prática desses indivíduos são os mesmos ou muito semelhantes: o que há de comum na experiência vivida está enraizado na proximidade espacial. o que tem em comum na experiência é ligado ao ~al compartilhado e à sobreposição das trajetórias de vida em circunstâncias comuns da vida diária.o no- ticiário da noite. os contextos de vida dos indivíduos têm um papel crucial na recepção. no sentido de experiência vivida. panfletos. que descrevo como "não espacia ao comunal"\No caso da experiência vivida. incorporando-as num projeto de vida em contí- nua evolução.

os m- divíduos também podem experimentar/vivenciar eventos distantes. na minha opinião.. 0 putilha- mento de experiência mediada não se enraíza na proximidade espacial. as condições de sua formação foram alteradas..ia.. mesmo que raramente seja assumida explicitamente. o self se torna um jogo sem frm de sír. À proporção que o indivíduo se torna mais e mais aberto às mensa- gens mediadas. Apesar de situados nestes contex~ e de organizar muito de suas vidas em termos das demandas levantadas por eles. Mas como caracterização do self na idade contemporânea. O self foi ttansforma- do. esta explicação é.. diversamente da experiência vivida. ·.:JSCA ·· 201 ex. o self.poração dos produtos da mídia. O self não foi dissolvido pela profusão de mensagens mediadas. . dependendo de seus interesses e prioridades.. exercem graus variados de contro- ·. nada é fixo. Novas opções. . O self foi absorvido por uma desarticulada exibição de símbolos mediados. interagir com outros à distância e deslocar-se temporariamente para outros miaocosmos mediados que.. da mídia.tal 1. comunica- ção mediada? Certamente é uma explicação de alguma influência: oculta-se em mui- tas obras associadas ao pós-modernismo 23 . mas nós precisamos considerar esta transformação de um modo diferente. novas responsabilidades: vivendo num mundo mediado · Como é viver num mundo cada vez mais permeado de formas mediadas de in- formação e comwúcação? Que acontece com o self num mundo onde a experiência me- diada desempenha um papel crescente e substancial nas vidas diárias dos indivíduos? Muitos textos recentes de teoria social e cultural sugerem maneiras de responder estas perguntas: a profusão de mensagens e imagens mediadas dissolveu efetivamente o self como uma entidade coerente. perdendo qualquer wúdade ou coerência que possa ter. R S .rio. e não há entidade separada da qual estas imagens são o reflexo: na idade de satura- ção da mídia. o self se toma mais e mais disperso e descentrado.:. ·. tem muito menos a ver com a proximidade espacial e a imbrica- ção das trajetórias de vida. No próximo capítulo tratarei das implicações políticas deste fato. Mas. entendido como um projeto simbólico organizado reflexivamente. do que com o seu acesso comum às formas mediadas de comunicação. .:. no sentido de expe- riências mediadas. Antes consideremos de um modo mais geral algumas das conseqüências de viver num mundo no qual a experiência mediada se tornou mais e mais penetrante.. e a metáfora da refração no espelho não capta muito bem a dificil situação do self no mundo contemporâneo. FRtH!':.r. tomou-se cada vez mais desemba- raçado dos locais e contextos da vida cotidiana.ibolos que mudam a cada momento. um tanto falha. . ~. ['. Com a crescente disponibilidade de materiais mediados. (~ . Nada é estável. as múltiplas e mutáveis imagens são o self 2 • Até que ponto é convincente esta explicação do self e do impacto d~. Como as imagens refletidas num espelho. o fato de in- divíduos partilharem experiências idênticas ou semelhantes. '.

. distantes das pressões rotineiras da vida. Alguns indivíduos se fazem cegos e surdos a estes úl- timos ap. há uma crescente suple- mentação de experiências m~adas. em vários graus. as experiências vividas continuam a produzir poderosa influência no projeto de ' formação do self: pensamos em nós mesmos e em nossas trajetórias de vida. . 1). fazendo experiências com o projeto do self. para influências provenientes de locais distantes. se comparamos nossas vidas hoje com as vidas de indivíduos que viveram dois ou três séculos atrás. imaginando alternativas. ou até a assumir alguma responsabilidade por questões e eventos que acontecem em partes distantes de um . Enquanto experiências vividas permanecem fundamentais. em relação aos outros e a eventos nos quais encontramos (ou podemos en- contrar) contextos práticos de nossas vidas cotidianas.cesso de formação do self. a natureza do ~cll./7' Viver num mundo mediado implica um contínuo entrelaçamento de diferentes l ~mas de experiência. princi- palmente. que depois de um banho de gasolina se transformou numa chama viva diante do Parlamento britânico. Provoca uma nova dinâmica na qual 0 Iimediatism~ da experiência vivida e as reivindicações morais associadas à interação face a face 1ogam constantemente contra as demandas e as responsabilidades prove- nientes da experiência mediada. So- mos chamados a formar uma opinião. novas opções. Nós nos descobrimos não apenas como espectadores de eventos e de outros distantes. parece claro que a estrutura da experiência mudou de várias e significativas maneiras. . A . mas também como envolvidos com eles de alguma maneira. a tomar uma decisão.mundo em incessante e crescente interconexão. se lançam em campanhas em favor de grupos e de causas distantes.por elas. mas aberta . reflexivamente ao projeto de formação do self. durante o percurso de suas vidas diá- rias. novas arenas para a experimentação do self. t~mbem vai se transformando. nós também nos descobrimos atraídos por questões e relações sociais que ultrapassam os ambientes em que vivemos. . em protesto contra o governo por . ele está explorando possibilidades.elos e procuram manter distância de acontecimentos que estão. pro porção que estas experiências mediadas vão 'endo incorporadas 1e e d e po der. estimulados pelas imagens e relatos da mídia. Contudo. que assumem um papel cada vez maior no pro- ) . de algum modo. Um indivíduo que lê um romance ou assiste a uma novela não está simplesmente consumindo uma fanta- sia. O caso de Graham Bamford. Viver num mundo mediado significa uma nova carga de responsabilidade que pesa gravemente sobre os ombros de alguns. Para muitos indivíduos. Somos liberados dos locais da vida cotidiana somente para nos descobrirmos dentro de um mundo de desconcertante complexidade. Mas como as nossas biografias estão abertas para as experiên- cias mediadas. Não é dissolvida ou dispersa pelas mensagens da m1dia.\ Os indivídu~s dependem mais e mais de experiências mediadas para informar e remodelar o propno projeto do sei~ A crescente disponibilidade de experiência mediada cria assim novas oportunida- des. Outros.

Ela pôs em foco várias e complexas questões . ao impacto de longo alcance da ação humana e ao alto risco em jogo num mun- do em crescente interconexão . ~uitos indivíduos tentam. mas ilustra expressivamente até que ponto o sentido de responsabilida- de adquirida pela experiência mediada pode. por um lado.relativas. No capítulo final irei explorar algumas destas questões com o objetivo de repensar algumas noções que as estruturas tradicionais nos legaram. aproximar-se do projeto do self 4 . Eles tentam encon- trar um equilíbrio que dê sentido e justificação a suas vi~ Esta circunstância moral é relativamente nova. o melhor que podem. ter falhado nas negociações para deter a tragédia na Bósnia. por outro. como um fenômeno difusamente espalhado. entre outras coi- sas. 203 . seguir um caminho entre as reivin- dicações e responsabilidades oriundas dos contextos práticos da vida diária. é certamente um exem- plo extremo. e aquelas provenientes da experiência mediada.que não se podem acomodar facilmente dentro das estruturas tradicionais do pensam~nto político e moral.

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. De acordo com o primeiro sentido. entre os dois sentidos da dicotomia público-privado. a reinvenção da publicidade implica a criação de novas for- mas de vida pública que se situam fora da competência do estado/ Este foi o tema que Habermas quis desenvolver na tese da esfera pública burguesa: esta esfera era impor- tante. já feita no capítulo 4. Hoje a reinvenção da publicidade deve acontecer num ambiente simbólico que já foi modelado por substanciais concentrações de recursos que ultrapassam as fronteiras particulares dos estados nacionais. embora seja necessário repensá-lo com relação às tendências desenvolvimentis- tas que transformaram as condições sob as quais as organizações da mídia operam. dizia ele. Nossas maneiras de pensar sobre a política foram profundamente modeladas por um certo tipo de vida pública. estarei interessado em desenvolver um argumento particular:l devemos procurar hoje novas maneiras de reinventar a publicidad~Mas o que significa reinventar a publicidade? Como deve- ríamos conceber esta tarefa e como traduzi-la em termos práticos? Podemos começar respondendo estas questões lembrando a distinção. a di- cotomia público-privado tem a ver com a relação entre o estado e aquelas atividades ou esferas da vida que foram excluídas ou separadas dele.. \Num primeiro nível. Há. no qual os indivíduos se reuniam no mesmo ambiente 205 . ve- remos que a reinvenção da publicidade há de ser realizada em dois níveis separados. . Tendo em mente esta distinção. um segundo nível em que a reinvenção da publicidade deve se rea- lizar. Foi o modelo derivado das assembléias das cida- des-estado da Grécia Clássica. O segundo sentido diz res- peito à relação entre visibilidade e invisibilidade. contudo. Este tema conserva sua importância hoje. porque era separada do estado e estabelecia uma relação potencial de crítica frente ao exercício do poder do estado.'8) AReinvenção da Publicidade Nos capítulos precedentes levantei algumas questões sobre um caráter mais nor- mativo da mídia e de seu papel nas sociedades modernasrComo deveria ser a mídia organizada em nível institucional? Que contribuição ela deveria dar à vida social e política? Que oportunidades ela deveria abrir e que limitações deveria impor às for- mas de comunicação possíveis no mundo moderno? Estas são algumas das questões que gostaria de desenvolver neste capít~ fin~ Ao fazer isto.

O problema não reside simplesmente no. o termo "público" se associava preponderantemente à atividade do estado. Concluirei considerando algumas das oportunidades que facilitam ou impedem a renovação do pensamento político e prático-moral na idade da comunicação glo~~J Publicidade além do estado ÍNum capítulo anterior consideramos como./Este sentido da dicotomia público-privado teve um pro- fundo impacto na compreensão subseqüente da política e da vida pública. fato de que as sociedades modernas se desenvolveram de tal modo. \ r-. Se remontarmos aos inícios das sociedades modernas. chegaremos ao desenvolvimento das atividades sociopolíticas que contribuíram para a formação de uma cultura política vibrante além da esfera do estado. . \Quais são as conseqüências deste novo tipo de publicidade mediada para a con- dução e o conteúdo da política? Que oportunidades ela abre para o mundo moderno e que riscos ela introduz? Quais são as limitações que ela impõe às formas possíveis de atividade política neste final do século XX? Estas são algumas das questões que ten- tarei resolveJo~eçarei situando a tarefa de reinventar a publicidade dentro de um contexto mais amplo de debates sobre a natureza da política e o estado. Mas a tendência de identificar a vida pública com a atividade do estado não per- maneceu intacta.à competição regularizada para controlar o estado através de partidos políticos operando dentro de regras de jogo estabelecidas. que torna impra- ticável este modelo como meio de conceituar o envolvimento de muitos indivíduos em tantas decisões políticas que afetam suas vidas. Ao contrário. aqui a rein- venção da publicidade implica a criação de novas formas de vida pública que estão fora da alçada do estad~JNa segunda seção desenvolverei uma linha de raciocínio em que a reinvenção da publicidade exige que superemos a noção tradicional de publici- dade como co-presença. Tornou-se costume pensar na vida pública e na política como atinentes às atividades do estado e . Mas devemos question~r seriamente a conveniência de aplicar este modelo de publicidade de co-presença as condições sociopolíticas deste século XX. .nos regimes democráticos ocidentais . com a formação do estado moderno. às áreas de atividade econômica e de relações pessoais que escapavam ao controle direto do estad'::. enquanto "privado".. ela é uma publicidade de abertura e visi- bilidade. e essa visibilidade não mais envolve o com- partilhamento de um local comum.espaço-temporal para discutir questões de interesse comum. Este novo tipo de publicidade me- diada não implica que indivíduos se reúnam em lugares compartilhados para discutir questões de interesse comum.Há um problema posterior: o de- senvolvimento dos meios de comunicação criou um novo tipo de publicidade muito diferente da concepção tradicional de vida pública. . Estas atividades se encon- 206 . lffa terceira seção explorarei a noção de publicidade mediada mais detalhadamente e~aminarei algumas das conseqüências da visibilidade media- da. de tomar disponível e visível.

as origens do processo de globalização estao na segundametade do seculo XIX. como vimos num capítulo anterior.çõe~ da m~dia. comunicação.esenvolvimento é a intensificação do proces- so de globahzaçao. enriquecendo assim a esfera do conhecimento e do debate. Ho1e o e amda muito mais interligado do que era há du- ze~tos anos atrá~. A liberdade de manifestar opiniões e pensamentos em público. tendo dito que o mundo do final do século XX é muito diferente da Inglaterra do século XVIII.travam em organizações que incluíam desde as classes populares de trabalhadores. por mais desconfortável que seja para as autoridades estabelecidas. há ainda muito para se recomendar na defesa clássi- ca da liberdade da imprensa. as origens deste de- senvolvimento remontam aos inícios do sécufo XIX. como Habermas e ou- tros mostraram{õ'desenvolvimento dos meios impressos de comunicação desempe- nhou um papel muito importante na emergência destas formas de vida pública e na articulação de um tipo de "opinião pública" que se distinguia das doutrinas oficiais do estado e exercia contra elas um crescente poder crític:!J rr~este contexto que vamos avaliar a importância da clássica tese da liberdade da impren~~Escrevendo nos inícios do século X~X. ~a esfera da. Com 0 207 . quando novos métodos de pro- dução e distribuição aumentaram enormemente a capacidade produtiva da indústria jornalística e prepararam o c~·o para a transformação em grande escala comercial das organiza. James Mill e John Stuart Mill fizeram uma eloqüente defesa da liberdade da imprensa e de seu papel na formação de uma vida pública fora da esfera do estado 1. os pnme1ros pensa- dores liberais como Jeremy Bentham. levando à forr'nâção de conglomerados da comunicação em grande escala. · Ü~-~les é a crescente concentração de recursos nas indústrias da mídia. e de controle dos abusos do poder de governos corruptos e tirânic~ Uma imprensa livre e inde- pendente iria desempenhar o papel de um crítico cão de guarda. Mas. que distanciam nosso mundo de hoje daquele do século XVIII. com interesses numa diversificada teia de atividades da mídia. não somente articu- laria uma diversidade de opiniões. Além disso. ~eria ilusório pensar que a tradicional teoria liberal da imprensa livre poderia ser transposta para as nossas condições sem modificação substanci~ Dois desenvolvi- mentos. no tempo em que a i~dú~tria jorna- lística na Inglaterra fazia campanha contra os impostos dos selos. é um as- pecto vital da ordem democrática moderna . Como uma série de argumentos destinados à formação de uma vida pública in- dependente do poder do estado. mas também exporia e criticaria as atividades dos governantes e os princí- pios em que baseavam suas decisões. até os salões.<f~_d. de formação de uma opinião pública esclarecida.\ Como já vimos.ÍÊÍes viram a liberdade de expressão da opinião atra- vés de uma imprensa independente como meio principal de divulgação de pontos de vista diferentes.um aspecto que ainda não é absoluta- mente característico de todos os regimes políticos no mundo hoje. cafés e "clubes" da vida social burguesa. são particu- larmente importantes a este respeito. segu~.

Para eles.yveram pela 'frente os pensadores liberais de dois séc.[Ã visão não intervencionista da atividade econômica não é necessariamente o melhor fiador da liberdade de expres- são. somente na . o crescimento em circula- ção total durante a primeira metade do século XX foi acompanhado por um declínio no número de jornais publicados e por uma crescente concentração de recursos nas mãos de grandes conglomerados da mídia. Com a transformação das orga- nizações da mídia em organizações comerciais de grande escala. a competição entre os jornais restantes se intensificou. a configuração das questões com que nos defrontamos neste final de sé5Jllo3Jiem difei'enie fü:·~. na visão daqueles pen- sadores.. as indústrias da mídia são 208 . por exemplo. Na Inglaterra.idade na sociedade de- mocrática moderna era o estado nacional vinculado territorialmente 3 • Os líderes polí- ticos eram responsáveis perante seus ctqadãos. . enfoque laissez- foire da atividade econômica ~ra a contrapartida natural à liberdade iµdividual de pen- samento e expressão 2• Os primeiros pensadores liberais também davam por des- contado que a estrutura natural de soberania e de responsabiJ. mas antes do desimpedido crescimento das or- ganizações da mídia e de seus interess"s comerciai. para cobrir seus custos•.medida. e o estado era a autoridade soberana e suprema dentro do território de sua juri~dIÇào. pois um mercado desregulado pode se desenvolver de modo a reduzir efetiva- mente a diversidade e a limitar a capacidade de muitos indivíduos de se fazerem ouvi!)\ história da indústria jornalística ocidental fornece muitos exemplos desta lei de diminuição da diversidade.. O mercado sozinho não cultiva necessariamente a diversidade e o pluralismo na esfe- ra da comunicação.-- fMas hoje estas suposições não mais se sustentam. ou uma proporção sufictente de receita de propaganda. rcomo conseqüência destes dois desenvolvimentos.ndem suas atividades comerciais numa arena global. o.u:fus atrás. a _principal 'ài:neaça à li- ~berdade individual e de expressão p~vinha do estado: os--direit~s~diyíduo ti- nham que ser protegidos contra o uso excessivo de poder do esta~o\/Dava-se por descontado que a livre iniciativa era o fundamento da liberdade de exi}réssã~ A liber- 1dade de expressão de pensame17tos e opiniões seria garantida. ameaças que provêm não do excessivo uso de poder do estado..desenvolvimento das redes de cabos submarinos. levando à extinção de útulos que não puderam sustentar um número suficientemente grande em circula- ção. a liberdade de ex- pressão teve que enfrentar crescentemente novas ameaças. com o crescimento dos conglomerados multinacionais da comunicação que expa. À medida que a circulação total começou a declinar. a globalização da co- municação continuou a crescer sem limites. a instalação de satélites integrados a sistemas de cabo capazes de transmitir grandes quantidades de informação ao redor do mundo.Komo em outros campos produtivos. em que as instituições da imprensa fossem inde- pendentes do estado f situadas no domínio privado onde poderiam se desenvolver com um mínimo de constrangimento: na teoria liberal tradicional. e com um mercado global em expansão de produtos de comunicação e informação.

o grau de intercomunicabilidade cresceu assustadoramente. no merçado e a regulamentação dos pro- cessos mercadológicos. tanto quanto possíveis. Isto é verdade sobretudo na esfera da informação e da comunicação. Numa idade em que os conglomerados de comunicação global são atores-chave na produção e distribuição de bens simbólicos. mas também em ou- tros setores de produção de mercadorias._1_1_estt:_fmal do -~~c-~~-~_!.. o prinápio sugere a descentrali- zação de recursos nas indústrias da mídia: a tendência para urna crescente con- centração de recursos deveria ser controlada· e se deveriam criar condições. Por um lado.orientadas principalmente pela lógica do lucro e da acumulação de capital. para o crescimento de independentes organizações_da mídia.P~o podemos estimular tim tipo de publicidade que nem faça f)arté-d~-~stado nem~ja inteiramente dependente dos processos autônomos do merca- d~odemos alcançar este objetivo. que limite as fusões e outros n- pos de cartéis entre as indústrias da mídia . se procurarmos implementar o que descrevi em ?utro lugar como o princípio do pluralismoreguli:!} Que entendo por plura- lismo regulado? E o estabelecimento dê uma estí'üfüra u:iSlitucional que abriga e garante a existência de uma pluralidade de independentes organizações da mídia.mas também uma legislação que crie .. uma reflexão sobre as condições dá' liberdade de ~pressão não pode se restringir à estrutura territorial do estado nacional. Os estados nacionais particulares nunca foram entidades isoladas.~~~3~ . Mas no curso dos séculos XIX e XX. na minha opinião. podem ser necessárias a intervenção.isto é.'=_para o renova- mento da . e não há correlação necessária entre a lógica do lucro e o cultivo da diversidad.!ii!'!.~ili"-~ :~~diçõ. ~o. lst_O exige não somente uma legislação restritiva . de tal maneira que não: se enfraqueçam a diversidade e o pluralismo pela concentração de poder econômico e simbólic~ O princípio do pluralismo regulado estabelece certos parâmetros para o desen- volvimento das instituições da mídia. então_.rcado deixado a si mesmo não pode garantir necessariamente as condições de liberdade de expressão e promover a diversidade e o pluralismo na esfera da comunicaçãolfP"'ara garantir 'estas condições e promover estes ob- jetivos. sempre fizeram parte de sistemas interli- gados.:J Assim como a tradicional teoria liberal subestimou os perigos provenientes da dependência das instituições da mídia de um processo altamente competitivo de acu- mulação de capital. É um prinápio que leva a sério a tradicional ênfase liberal na liberdade de expressão e na importância de sustentar as instituições da mídia independentemente do poder do estado. assim também os primeiros pensadores liberais não previram até que pomo a autonomia e a soberania de estados nacionais particulares seriam limita- dos pelo desenvolvimento de redes multinacionais de poder e pelas atividades e polí- ticas de instituições que operam cada vez mais em escala global. de alianças mutáveis e de processos interdependentes de acumulação de capi- tal que se estendiam muito além de suas fronteiras territoriais. Mas é um princípio que também reconhece que o mf'.

enquanto a BBC permaneceu relativamente cautelosa em sua programação. na esfera editorial. nas atuais circunstâncias. Mas supor que debates intelectuais sobre as formas ideais de propriedade e de controle nas indústrias da mídia possam ter algum impacto sig- nificativo nas atividades destes grandes conglomerados é. Na Inglaterra. as instituições da mídia deveriam ser livres para articular pontos de vistas críticos às po- líticas e aos políticos do estado. Este agnosticismo com relação às formas de propriedade e de controle é intencional. ameaças ou incentivos de qualquer tipo 7 . Como argumentavam os primeiros pensadores liberais. Há também boas razões para duvidar de que seja desejável prescrever em deta- lhes as formas mais adequadas de organização para as indústrias da mídia. todavia não especificam em detalhes as formas de propriedade e de controle que deveriam prevalecer nas indústrias da mídia. com toda probabilidade. uma substancial proporção dos produtos da mídia são produzidos e distribuídos por gran- des conglomerados da comunicação. deveria ser firmemente repelida. 210 . ele também exige uma nítida separação entre as instituições da midia e o exer- cício do poder do estado.condições favoráveis para 0 desenvolvimento de orgyüzações d~ mídia que não fa- çam parte dos grandes conglomerados já existentes.definem o largo espaço institucional para o desenvol- vimento das organizações da mídia. limitar suas novas aquisições e criar um ambiente simbólico no qual eles não sejam os únicos atores. O principal problema reside no fato de que a forma de propriedade ou de controle nas indústrias da mídia não é um indicador confiável do conteúdo nem da orientação do material produzido. Por outro lado.1 A intervençao legislativa nas in- dústrias da mídia deveria su vista não somente como meio de truncar o excessivo poder dos grandes conglomerados. Estes aspectos conjuntos do pluralismo regulado . um mero desejo. É possível regular as atividades destes conglo- merados. e qualquer tentativa de restringir esta liberdade - quer através de formas abertas de censura quer indiretamente. al- guns dos passos mais significativos nos últimos anos. pois me parece tanto inexeqüível quanto indesejável tentar prescrever as formas mais apropriadas de organização. quanto pela produção independente do Canal 4). mas também como meio de facilitar o desenvol- vimento de novos centros de poder simbólico fora da esfera de controle dos conglo- merados e de suas redes de produção e intercâmbio:. por exemplo. Similarmente. A orgmização das instituições da mídia em bases comerciais não leva ne- cessariamente ao embotamento da capacidade crítica. foram dados por casas editoras pequenas e inde- pendentes. assim como o princípio do pluralismo regulado pede urna intervenção legislativa nas .dústrias da mídia. como a presença crescente de mulheres na produção literária. através de pressões fi- nanceiras.a descentralização de recursos e a separação do poder estatal . É inexeqüível porque. à degradação da qualidade e à submissão do discurso público às finalidades comerciais8 .in. alguns dos programas televisivos mais críti- cos e inovativos foram produzidos pelo setor privado (tanto pelas companhias da ITV.

Hoje a criação de uma esfera pública e plura- lista em qualquer sociedade particular se torna mais e mais dependente da diversida- de e do pluralismo em níveis internacionais. Mas há um . O espaço institucional da mídia se torna cada vez mais transnacional. ou. para que haja diversidade e pluralismo na mídia. em nível que permita a criação de instituições. Mas este espaço também tem limites. onde "sociedade" é entendida. Há. mais precisamente. há uma crescente urgência para alargar a gama de questões en- frentadas por organismos internacionais. porque todas as sociedades são afetadas pelos fluxos de informação e comunicação sobre os quais nenhum estado nacional particular tem total controle. É o espaço entre o mercado e o esta- do. e qual- quer tentativa de regular e diversificar deve. fora do controle do es- tado. em ní- vel internacional. isto é. ou com os problemas de congestionamento dos fluxos de comunicação. parece sensata e dese- jável a existência de uma variedade de formas organizacionais. como o es- pectro para as transmissões de rádio e o espaço orbital dos satélites.não satis- faz mais um mundo onde as fronteiras nacionais são continuamente devassadas pelo fluxo de bens simbólicos. se situar num nível que transcenda as políticas domésticas de estados individuais. uma história de tentativas de regulamentar os meios de comunicação em nível internacional. explícita ou implicitamente. O prinópio do plura- lismo regulado defme um largo espaço institucional que permite este tipo de variedade.em termos de relação entre esta- do e sociedade. uma história que nós esboçamos brevemente num capítulo anterior. A maneira tradicional de colocar os problemas de regulamentação da mídia . Mas muitas destas tentativas se preocuparam apenas com um conjunto rela- tivamente estreito de questões sobre os escassos recursos de distribuição. de modo que se possa regulamentar. e os produtos da mídia circulam muito além das fronteiras de particulares estados na- cionais. as atividades da comunicação dos conglomerados transnacionais no respeito à diversidade e ao pluralismo. Embora estas questões sejam importantes. que contribuam para uma cultura da mídia diversificada e pluralista. Hoje não é mais possível pensar na dimensão internacional da comunicação como suplementar à política nacional de regulamentação da mídia. Por isso. é o espaço além do estado que é regulado com a intenção de cultivar a diversidade e o pluralismo. Visibilidade além da localidade Até aqui tratei de questões relativas à reinvenção da publicidade em nível institu- cional. pelo contrário. a dimensão internacional deve estar no centro de qualquer reflexão nacional sobre uma política de comunicação viável e coerente. Há um outro sentido no qual o espaço institucional da mídia fica além do estado: hoje os principais atores nas indústrias da mídia são as corporações transnacionais. é claro. como a sociedade definida pelas fronteiras territoriais de um determinado estado . portanto.

O desenvolvimento dos meios de comunicação . As novas formas de publicidade mediada têm também. QuJ! significa. para discutir assuntos de interesse geral. A verdadeira essência da vida pública.-Um segundO tipo de resposta . Estas novas formas de publicidade mediada não estão mais localizadas no espaço e no tempo: elas subtraíram a visibili- dade de ações e eventos do compartilhamento de um local comum.~ma. das assem- bléias e praças públicas da Grécia clássica. na minha opinião . neste final de século XX.'fode ser que o modelo tradicional permaneça válido em alguns aspectos para as condições sociopolíticas deste século XX. mas incluindo as mais recentes conquistas da comunicação eletrônica .que guardem certa semelhança com as assembléias clássicas da Grécia antiga. Se privilegiarmos este modelo como ideal. Pro- dutor e receptor têm papéis diferenciados e o processo de intercâmbio simbólico através da mídia adquire características que o distinguem. e as novas formas de publicidade criadas pela mí- dia. este modelo de ptJplicidade está bem longe dos contextos práticos da vida de muitos indivíduos hoje. neste sentido. em sua quase totalidade.começando com a imprensa.como reuniões e encontros públicos de vários tipos .. Hoje devemos reconhecer que este modelo tradicional de publicidade não ofere- ce mais uma estrutura adequada à natureza da vida pública. . reinventar a publicidade neste sentid~\ Nossas maneiras de pensar sobre a vida política e social foram modeladas profun- damente por um certo tipo de publicidade que deriva do mundo antigo. f-ssim.'. Este é o modelo tradicional de publicidade de co-presença: a idéia de que a vida pública consiste na reunião de indivíduos num lugar comum. Como poderíamos responder às discrepâncias entre a maneira tradicional de en- carar a vida pública. de urna interação dialógica. É um modelo que define pu- blicidade em termos espaciais e dialógicos.é supor que a comunicação mediada poderia ser entendida simplesmente corno uma extensão do modelo tradicional. na minha opinião. chega-se a supor que o tipo de comunicação 212 .sustenta que o modelo tradicional é a única e legítima maneira de ver a vida pú- blica . de outro? Há dois tipos de resposta que. na sua maioria. em muitos casos. é o intercâmbio de argumentos entre indivíduos que se confrontam uns com os outros numa interação face a face.igualmente insatisfatória. por um lado. outro sentido de publicidade que precisamos considerar agora: não aquela publicida- de que diz respeito à relação entre o estado e aqueles aspectos da vida social que estão separados dele. um caráter não dialógico. Mas. masÍa publicidade que tem a ver com a visibilidade versus invisibili- dade. Pode ser também que haja contextos da vida social e política hoje . se deveriam evitar.criou novas formas de publicidade que não partilham as características do modelo tradicional. -. sere- mos inclinados a subestimar a qualidade da vida pública neste final do século XX e a interpretar o papel sempre crescente da comunicação mediada como um processo em constante declínio.

no qual as formas sim- bólicas mediadas podem ser produzidas e recebidas por uma pluralidade de outros não presentes. Esta mídia criou um novo tipo de publicidade que consiste no que podemos descrever como o espaço do visívd: ele é um espaço não localizado. os 213 . televisão. mais promissora . etc. Claro.. e pela mídia eletrônica. A publicidade mediada é não dialógica no sentido de que O!. e estes geralmente recebem as mensagens sob condições que nio lhes permitem responder aos produtores..sua força e sua fraqueza. um local partirular no qual indivíduos possam agir e interagir.mediada que acontece no rádio ou na televisão. Alguns aspectos deste espaço merecem mais comentários. e é potencialmente global em abrangência. na minha opinião. "e os programas coloquiais no rádio ou na televisão. com sua ênfase na comunicação dialógica partilhada em lugares comuns. de algtmia maneira direta ou discursiva.de responder à discrepânci. "Mas". rHá uma terceira maneira . mas não é um "lugar". etc. não dialógico e aberto. As- sim como o desenvolvimento dos meios de comunicação permite que formas simbólicas circulem além dos contextos de sua produção. Mas as formas de comunicação que envolvem rá- dio. as oportunidades abertas por ele e os riscos a ele associados. A publicidade mediada é um espaço não localizado no sentido de que ela não se vin- cula a locais espaciais ou temporais particulares. Os papéis de produtores e receptores são diferenciados. há formas de comunicação mediada. porque muitos ouvintes ou espectadores não são participantes de um diálogo. isto é. produtores e os recep- tores de formas simbólicas mediadas geralmente não dialogam uns com os outros. assi. e tentar libertar nos- sa maneira de ver a vida pública do enfoque tradicional. como li- vros e jornais. e a relação entre eles é assiméui- ca. Produtores geralmente criam mensagens da mídia para um número indefinido de re- ceptores potenciais. como o rádio e a televisão. que são verdadeiras conversas.a destacada acima: podemos pôr de lado o modelo tradicional. é simples- mente uma conversação acessível.rll também ele subtrai o fenômeno da publicidade do local comum compartilhado: a esfera da publicidade mediada se estende no tempo e no espaço. poder-se-ia dizer. Podemos tentar remodelar nossa maneira de pensar na vida pública e ao mesmo tempo refletir sobre o novo tipo de publicidade criado pela mí~~-\ Então como deveríamos entender a natureza da publicidade mediada? Focalize- mos nossa atenção no tipo de publicidade criada pelos materiais impressos. e que só se difere da conversação ordinária na si- tuação face a face em termos de escala: a comunicação mediada é uma conversação que envolve potencialmente milhões de pessoas e não apenas duas ou três. Podemos dirigir nossa aten- ção para o tipo de publicidade criado pela mídia e frocurar analisar S'™i carac- terísticas . como uma comunicação telefôni- ca. É um "espaço" no sentido de que é uma esfera aberta de possibilidades na qual formas simbólicas mediadas podem aparecer. em livros e jornais. mas receptores de mensagens pro- duzidas e transmitidas independentemente de sua capacidade potencial de resposta'. não são conversativas neste sentido. Isto é uma ilusão.e.

onde a visibilidade dependia da partilha de um local comum.ida vc1 mais !mas pela 214 . Umas poucas frases que aparecem inicialmente na última página de um jor- nal local podem ser transferidas para a imprensa nacional e divulgada~ como uma grande história. poderemos avaliar a importãncia que a luta pda visibilidade adquiriu na vida sociopolítica das sociedades neste fim do século XX. Se tivermos presentes estes aspectos da publicidade mediada. muitos indivíduos di- ficilmente participam de alguma outra maneira senão como receptor. A publicidade mediada é aberta no sentido de que os conteúdos dos materiais simbólico~ não podem ser inteiramellle demarcados com an- tecedência . · terfienr na progr. A publicidade mediada é um espaço aberto no sentido de que ela é criativa e in- controlável. . E quando os materiais simbólicos se tornam disponíveis na mídia. cm alguns casos. Hoje a situação é muito diferente. que se permitem um outro meio de comunicação (car- ta ou telefone) para pôr uma questão ou oferecer uma opinião. Não havia meio de se fazer ouvir. à parte um pequeno número de indivíduos auto-selecionados. mas eles não participam do diálogo como interlocutores. enquanto a maioria dos que vêem ou ouvem o programa coloquial se ocu- parn somente numa forma de quase-interação mediada. um espaço onde novas fomias simbólicas podem ser expressas. suas conseqüências são indeter- minadas. uma imagem filmada por um fotógrafo amador pode ser comprada pelas redes de televisão e transmitida ao mundo todo. ·. . e onde as conseqüências da visibilidade não podem ser prevenidas nem controladas. . onde informações previamente ocultadas podem ser reveladas. e as questócs Sl' tornavam conhecidas por estranhos..u •1 tdefone para in- prograrnas em qu 0 -r-. As lutas. nio mostram estes exemplos que a pubhodade mcd1a- uTurio ..ndesse além das esferas localizadas de interação face a face: se os indivíduos quisessem expressar suas preocupações ou queixas.. lutas por reconhecimento se tornaram c. Os indivíduos que ouvem ou vêem o programa coloquial estão.'Íntes ou Pa>Petadores são convidados a us. numa interação mediada com um pequeno número de indivíduos que escreveram ou tele- fonararn). senão airavés de palavras ou ações.. eram lutas localizadas. eles o tinham que fazrr (em pessoa ou através de in- termedimos) face a face.r. proferidas ou representadas diante dos outros com quem se interagia em contextos de co-presença. E. é claro.lógico?" Absolutamente. e u.. Um programa c_oloqmal e uma forma }ubrida de interação onde os indivíduos implicados na produçao do pro- grarna se ocuparn numa interação face a face no estúdio (ou. da pode ter um caráter dia. ouvindo ou vendo um diálogo. . Desde o advento da 1mprem.• etc . se havia. onde no- vas palavras e imagens podem aparecer de repente. e as conseqüências destes e de outros procedimentos semelhantes não se podem determinar com antecedência. não. não havia uma arena pública que se estc. Nas formas anteriores de sociedade. somente se se quisesse transmiti-las por mensa- geiros ou pessoalmente.a e espcualmente da mídia eletrônia.embora o grau de controle dependa do tipo de organização das institui- ções da mídia e de suas relações com os poderes er:onômico e político.

se ele não se inserisse num sentimento mais amplo de injustiça com relação à posição dos negros na sociedade americana e ao tratamento diferenciado de grupos étr'!icos pela polícia e pelo sistema judicial. A mídia pode politizar o quotidiano tomando-o visível e observável em maneiras que antes não eram possíveis e. na verdade. Mas ele tomou a experiência quotidiana da- quele indivíduo um testemunho visível da experiência de muitos. sim. e por isso podem servir como um apelo de mobilização para indivíduos que não comparti- lham o mesmo contexto temporal-espacial. Esta explicação da publicidade mediada nos faz entender também por que a con- quista da visibilidade pode desencadear eventos que se desdobram de maneiras im- previsíveis e incontroláveis. também no mundo todo. chutado. em Los Angeles. pelo contrário. as reivindicações e preo- cupações de indivíduos particulares podem ter algum reconhecimento público. Ele tinha captado um evento doloroso. A raiva sentida por muitos ao ouvir o veredicto não se enraizava simplesmente no sentimento de que a justiça falhara: o anúncio do veredicto não te- ria provocado estes dramáticos incidentes. sub- traindo-o de seu contexto temporal-espacial.--- visibilidade dentro de espaços não localizados de publicidade mediada. o videoteipe da agressão a Rodney King "não provocou por si mesmo a onda de protes- to violento em LA e em outros lugares. Os eventos foram filmados em vídeo por um fotógrafo amador.\ O desenvolvimento dos movimentos sociais. enquanto jazia no chão. retirado de seu carro. A evolução de tais movimentos também comprova o fato de que. espancado e baleado. o anúncio do veredicto desencadeou um violento protesto popular em Los An- geles e em outras cidades americanas. numa noite de 1991. como o movimento das mulheres e o mo- vimento dos direitos civis. o motorista negro que. é isto. . fornecem amplo testemunho de que as reivindicações de grupos até então subordinados ou marginalizados só se conquistam através de lutas pela visibilidade na mídia. portanto. ao conquistar algum grau de visibilidade na mídia. O videoteipe foi usado como prova no julgamento dos policiais. As imagens e mensagens da mídia podem levar a profundas divisões e sentimentos de injustiça que são experimentados pelos indiví- duos em suas vidas cotidianas.iA luta por se fazer ouvir e ver (e impedir que outros o façam) não é um aspecto periférico das t'~ir­ bulências sociopolíticas do mundo moderno. tomando os even- tos quotidianos um catalisador para ações que vão muito além dos locais imediatos onde ocorrem. está no centro dele. foi interceptado pela polícia. O videoteipe amador tocara um nervo exposto. Quando os policiais foram absolvidos pelo júri na primavera de 1992. quando . mas foi também repetidamente mostrado na televisão (e re- produzido em jornais e revistas) em todos os Estados Unidos e. ele o tomou um testemunho visível. re- petível e absolutamente incontrolável de um tipo de brutalidade que muitos indivíduos na comunidade negra americana sentem como uma parte rotineira de suas vidas quotidianas. Isto foi muito bem ilustrado pelos fatos que cercaram o julgamento dos policiais acusados de agressão violenta contra Rodney King. mas ainda inteiramente ordinário.

no contexto de emergência das sociedades modernas .500 anos de existência. Foi somente a partir do século XVIII que o ideal democrático foi aceito mais uma vez e seriamente assumido como um princípio de organização política do poder. durante estes seus 2. É uma história ainda mais admirável porque. Para uma renovação da política democrática A democracia tornou-se a única idéia capaz de garantir o exercício legítimo do poder político neste século XX. Além disso. O caso levantou questões de justiça e injus- tiça que eram de interesse não apenas dos residentes da comunidade local: elas se tor- naram questões de preocupação nacional e mesmo internacional. o videoteipe revestiu-lhe de um grau de visibilidade que projetou os acontecimentos para fora de seu controle. mais geralmente. seria dificil de qualquer maneira ver como a democracia poderia ser praticamente implementada no mundo moderno.foi recontada muitas vezes'º. nem tinham testemunhado os acontecimentos originais. o desenvolvimento da publicidade me- diada contribuiu para uma transformação geral da natureza do poder e da política nas sociedades modernas. mas antes um mecanismo pensado para assegurar algum grau de responsabilidade dos governantes perante aqueles que eles govemavam__jTendo em vista a variedade de estados nacionais e a vastidão das populações circunscritas por eles. Por mais que as autoridades de Los Angeles tenham querido manter o caso de Rodney King dentro das fronteiras do sis- tema judicial. Mas neste contexto .isto é. democracia foi concebida principalmente como uma maneira de organizar o poder polí- tico dentro da estrutura do emergente estado nacional. questões de justiça .não podem ser contidas facil- mente em instituições ou ambientes particulares.e. A hist6ria do admirável triunfo desta idéia .justaposto ao veredicto que pareceu evidentemente injusto. questões de política . Vejamos estas transformações mais de perto. :Não foi um sistema destinado a garantir o máximo grau de autogestão do cidadão. Este éxemplo ilustra também como. mas tinham opinião própria com base no videoteipe amador. A este respeito.desde suas origens paroquiais no século VI em . a idéia de democracia foi considerada por muitos co- mentadores como uma indigesta receita para a administração dos negócios humanos. E o modo como estas questões foram tratadas pelo sistema judicial estabelecido foi objeto de intensa e extensa crítica de indivíduos que nem haviam participado do processo judicial. serviu como centelha in- cendiária da incontrolável seqüência de eventos que se espalharam muito além das cercanias regionais de Los Angeles. senão através de uma forma repre- sentativa.Atenas até o seu apelo universal de hoje . numa era de publicidade mediada.a idéia de democracia se adaptou em maneiras que a distanciaram muito significativamente das práticas dos antigos atenienses. o desenvolvimento de instituições de democracia representativa nos estados nacionais emergentes veio associado ao desenvolvimento da economia de 216 . Para os primeiros pensadores políticos modernos.

que ficaram quase irre- conhecíveis. ~m a profissionalização dos políticos e a burocratização dos partidos políticos. estas atividades não passam de movimentos premeditados num jogo pelo qual eles têm pouca simpatia ou empatia e que muitas vezes eles se recusam a jogar. Para muitos indivíduos. nos índices flutuantes (e. organizadas em base capitalista. uma vitória na qual. Esta tendên- cia não é nova nem surpreendente.d. Suas condições sociopolíticas foram analisadas muitas décadas atrás por Max Weber. feita a cada quatro ou cinco anos. \ .e Pirro.mercado e de instituições econonucas autônomas. hoje ficou cada vez mais difícil imaginar como um regime democrático poderia existir efetiva e duravelmente sem um mercado livre e orientado para o desenvolvimento da economia. a participação ativa no processo político foi se restringindo cada vez mais a indivíduos que fizeram da política wn meio de vida.-- Prinieiro. Enquanto o ideal grego clássico de cidadãos autônomos governando a si mesmos continua a fornecer uma fonte de inspiração para a imaginação política hoje. é. assim. m"Üfio baixos) de eleitores parti- cipantes. a participação neste processo não vai além de uma escolha. institucionali- zada principalmente a nível de estado e acoplada a um mercado econômico relativa- mente autônomo sobre o qual assume algum grau de controle regulador 11 • Mesmo sem ser uma vitória . até certo ponto. Embora a conexão entre democracia representativa e economia capitalista possa ter sido historicamente contingente. Para a maioria dos cidadãos. Historicamente u instituições da democracia representativa se desenvolveram numa estreiu e recíproca relação com as organizações geradoras de riqueza da economia de mercado privatiza~) Como ~ 217 . e no declínio do apoio popular aos maiores partidos políticos. entretanto. O desenvolvimento da democracia representativa criou. etc. de uma maneira geral. O aparente triunfo da democracia no mundo moderno é. entre candidatos que pouco se dis- tinguem em termos de programas políticos abrangentes e na capacidade efetiva de al- terar o rumo dos acontecimentos. a forma em que a democracia triunfou no mundo moderno é um pálido reflexo deste ideal. tan- to o campo de batalha como os adversários mudaram tanto. da denúncia dos partidos rivais. novos problemas que ameaçam solapar a própria legitimidade que o ideal ~e democracia pareceu outorgar. o desenvolvimento da democracia representativa se fez acompanhar por . o triunfo da democracia neste sentido só foi possível a um certo preço.. ~as como os partidos políticos dependem do apoio eleitoral para chegar ao po~ eles constantemente procuram distinguir-se uns dos outros através da reiteração de slogans distintivos.--- Um '6egundo problema deriva da coexistência da democracia represenutiva com uma série de desigualdades geradas pelo mercado.\Isto se reflete nas pesquisas de opinião. uma vez que a luta começou há mais ou menos dois milênios e meio atrás. algumas vezes. entre outios 12.significantes e crescentes níveis de cinismo e d~sencantamento da parte dos indi- víduos com relação às instituições políticas estabelecidas. .. Consideremos brevemente quatro destes problemas. a forma da democracia representativa.

organismos reguladores e instituições de bem-tStar conseguiram. Tentativas menos radicais de intervir na economia através de políticas fis- cais. e por isso permanecem sempre vulneráveis à crítica.que são efetivamente excluídas dos procedimentos de tomada de decisão democráticos. Além disso.do lugar de trabalho ao lar. mas não as eliminaram em absoluto.revdaram-se. a eliminar estas desi- gualdades através da parcial ou total abolição da economia de mercado privatizada . no qual nem todos os indivíduos têm acesso aos mesmos recursos econômicos e às mesmas chances de vida. das relações de autoridade entre empregados e empregadores às rela- ções de intimidade entre amigos .in- clw~do º.e outros enfatizaram.quer em forma de programas de nacionalização em grande escala realizados por países oci- dentais. É significativo que alguns dos mais sérios desafios à democracia representativa em anos recentes tenham sido dirigidos contra esta historicamente efetiva restrição das práticas democráticas às esferas políticas institucionalizadas. na melhor das hipóteses. Mas as várias experiências destinadas. Dada a complexidade dos problemas implicados na administração de uma economia mo- derna. um sucesso equívoco e.movimento pelos direitos civis. a democracia representativa efetivamente limita o escopo destas prática~. Estes regimes dependem de uma economia de mercado que eles podem regular mas nunca controlar completamente.omente riqueza mas também maciças desigualdades em termos de distribuição de recursos e de chances de vida. não obstante. Estes desafios são di- rigidos não contra a idéia de democracia como tal. um triste fracasso. estaS organizações econômicas geraram não !.é uma indicaça-o de que mwtos· m · divi'd uos sentem que as instituições 218 . 1Çomo os partidos se ocupam primeiro e acima de tudo em lu- tas de competição por apoio eleitoral. permi- tem. na pior. eles podem facilmente perder de vista as preocupações dos indivíduos comuns e responder com pouca diligência e agilidade às mudanças neces- sárias demandadas. mas à encarnação quase exclusiva dos prinópios democráticos em instituições parlamentares do estado moderno. há muitas outras esferas da vida social . ao longo do século XX. o surgimento de movimentos sociais extraparlamentares e de grupos de pressão . ao traduzir as práticas democráticas para um conjun- to de regras que definem as condições sob as quais os partidos políticos podem com- petir pelo exercício do poder. O terceiro problema é que. parece duvidoso que os regimes democráticos representativos possam definitivamente eliminar as desigualdades geradas pelo mercado. quer na forma de comando econômico centralizado dos antigos países do bloco soviético . o movimento das mulheres e os grupos ambientalistas . um processo relativamente autônomo de operações de mercado. e a dificuldade de se reconciliar a redução das desigualdades com a manutenção do dinamismo da atividade econômica. até certo ponto. dentro de um campo político definido por re- gras do jogo democrático. reduzir as desigualdades geradas pelo mercado. se as práticas democráticas são restritas às esferas po- líticas institucionalizadas. pois ainda que concedam formalmente o direito de voto a todos os cidadãos.

ao nível de relações entre os sexos 13 .~as as tendên- cias globalizantes da vida social moderna tornaram esta demarcação territorial extre- mamente problemática 14 . o espaço de manobra dos governos nacionais democraticamente eleitos. ao escrutínio crítico. Do ponto de vista mo- ral. Ele reduz 0 risco de indivíduos ou grupos buscarem seus próprios interesses às custas dos outros e sem os levar em consideração. E ele investe todos os indivíduos com a responsabilida- de ativa de modelar a própria vida e dirigir a própria história. . no qual todos te- nham direito de exprimir a própria opinião. Parece claro que os problemas enfrentados pelas instituições da democracia re- presentativa hoje são enormes. es- tes indivíduos colocaram novas questões na agenda política e abriram áreas da vida social. até agora negligenciadas pelos partidos estabelecidos. por exemplo.. Há alguma maneira exeqüível de estreitar a distância entre os eleitores e seus representantes? De diminuir a onda de Cinismo e desencanto? De criar uma for- ma mais atuante e participativa do governo democrático? É sem dúvida tentador responder tais questões com o retomo ao modelo clássico da polis. Ao se organizarem em grupos e movimentos extraparlamentares. numa medida que varia de um país para outro.que dificilmente receberão tratamento satisfatório dentro das limitadas estruturas políticas dos estados nacionais. coercitivo e simbólico) que se prolongam muito além de suas fronteiras e que limitam. à degradação ambiental. Ele reconhece que todos os indivíduos são agentes autônomos e com iguais responsabili- dades pelo próprio destino. aos problemas de poluição. e os teoncos da democracia repre- sentativa geralmente dão por descontado que um estado nacional com base territorial seja a estrutura mais apropriada para a operação do jogo democrático . Ele enfatiza a importância do diálogo e da argumentação. Menos claro ainda é o que se pode fazer para retificar esta situação. buscando inspiração para imaginar um novo mundo no qual as questões mais ur- gentes e vitais sejam discutidas ativamente por todos os interessados. e no qual as decisões sejam tomadas por consentimento (e quiçá até por consenso) de todos os envolvidos. . Além disso.relativas. como meio para resolver as diferenças.------:-~--·--"\ Uf quarto pioblema provém d~ fato de que a demo~~cia representativ~ foi ins- titucion-a~ada principalmente em mvel de estado. há muito para se dizer em favor deste modelo de democracia direta e participativa. há uma gama de questões . mais do que da violência e da força. Estados nacionais particulares estão cada vez mais imersos em redes de poder (econômico.políticas estabelecidas não têm respondido com urgência suficiente às questões que mais os afetam.cujas conse- qüências ainda não foram inteiramente desveladas . Eles também desencadearam processos de democratização além das esferas políticas insti- tucionalizadas . político. os motivos para celebração serão bastante modestos. em vez de c-0nsiderá- los como simples corpos que as ondas do tempo varrem para longe. à resolução de conflitos armados e à proliferação de armas nucleares . às atividades corporativas transnacionais.por exemplo. quando a retórica auto-elogiável dos mais ferozes de- fensores da democracia tiver diminuído o seu volume.

dada a complexidade das sociedades modernas em crescen- te intercomunicabilidade no mundo. argumentar e chegar a um juízo formado discursivamente. se distanciam muito das circunstâncias verda- deiras em que muitas decisões devem ser tomadas hoje.não tanto como uma alternativa às instituições representativas. Resumida- mente.! Tal modelo pressupõe certas condições sociais e simbólicas que raramente. Por "democracia deliberativa" entendo a concepção de democracia que trata todos os indivíduos como agentes au- tônomos. Segundo.lógica entre indivíduos de condições sociais mais ou menos iguais que se reúnem para formar. uma vontade coletiva. ele pressupõe um processo de diálogo através do qual os indivíduos sejam capazes de expressar seus pontos de vista. capazes de formar juízos razoáveis através da assimilação de informações e diferentes pontos de vista. dada a crescente intercomunicabilidade do mundo moderno. ou sucumbir aos encantos do modelo clássico. Pode haver circunstâncias onde este modelo de democracia direta e participativa se aplique com algum grau de eficiência hoje . na minha opinião. A dificuldade não é simplesmente de implementação. sem termos de nos contentar com instituições de democracia representativa. A dificuldade é mais fundamental: o modelo é baseado em certas condições que. ele dificilmente consegue resolver os dilemas da política democrática na idade moderna. A con- cepção deliberativa da democracia focaliza a atenção nos processos pelos quais os juízos são formados e as decisões são tomadas. que parecem realizar muito pouco.se veriITcam nas circunstâncias em que são tomadas as decisões hoje 1s. mais decisões ainda serão tomadas no futuro). Se o modelo de democracia direta e participativa tem valor limitado. baserodo-se . ele pressupõe uma certa igualdade social entre os participantes. através da ar- gumentação e do debate. o modelo de democra- cia direta e participativa é uma empresa arriscada praticamente sem possibilidades de êxi- t~Ele traz poucas vantagens para os problemas práticos levantados pela necessidade de tomar decisões que respondam às urgências vitais de um sem número de indivíd~os dis- persos no tempo e no espaço. questionar os dos outros. o modelo pressupõe um processo de comunicação dia. e que institucionaliza uma variedade de mecanismos para incorporar os juízos individuais num processo coletivo de tomada de decisão. considerar a idéia de "democra- cia deliberativa" . por exemplo. ~esar do inestimável apelo moral que o modelo de democracia direta e partici- pativa suscita. mas como uma maneira de as desenvolver e enriquecer 16 . primeiro. Ele pressupõe.em comunidades e associações locais re- lativamente pequenas. como se o modelo mesmo fosse acabado e os obstáculos aparecessem somente na hora de colocá-lo em prática. que parecem prometer demasiado? Aqui é útil. Mas em níveis onde muitas das mais importantes decisões são tomadas hoje (e em níveis onde. Terceiro. um local compartilhado no qual os indivíduos possam se reunir para discutir temas de interesse comum. que alterna- tivas há? Há maneiras práticas e efetivas de fortalecer o ideal democrático hoje. Os indivíduos são chamados para consideru alternativas. para pesar os prós e os contra de uma proposta particular e.

Se a. de preferência~ individuais. a tomada de decisão. porque é através dele. estimular a deliberação . a interação face a. a legitimidade de uma decisão deriva do fato de que ela é o resultado de um processo de generalizada deliberação. Mas isto quer dizer que nós devemos nos libertar da idéia de que o processo de deliberação e o da formação de juízos de valor dependem de uma relação privilegiada. com a forma dialógica de intercâmbio simbólico.da. até que se chegue a outro ponto de equilíbrio (se houver). concepção delibe- rativa não pressupõe que cada indivíduo já possua uma vontade predetermina. Este processo aberto de argumenta- ção e contra-argumentação pode levar a uma conclusão temporária pelo voto. concep- ção deliberativa de democracia. é importante sublinhar que a concepção ddiberativa de democraciá não é necessariamente uma con- cepção dialógica. idéia da democracia deliberativa nos permite preservar e elaborar algumas das idéias-chave legadas pela tradição do pensame11to democrático. que re- vela num determinado momento um índice de consenso alcançado entre os pontos de vista dos indivíduos ocupados . e da inte- ração face a face em local compartilhado. formar juízos de valor. tanto mais poderão gradualmente modificar seus pontos de vista originais.com vários graus de envolvimento. menos in- dicado para se chegar a uma deliberação do que numa conversa face a face com ou- tros. dentro de uma estrutura de democracia deliberativa. nós também podemos entender por que a 221 . a maioria está persuadida dos méritos de uma proposta particular. na prática. que os indivíduos chegam a formar suas vontades 17 . nem define a legitimidade como a soma aritmética. Segue-Se que. portanto.da.°Quanto mais informação es- tiver disponível e mais os indivíduos puderem considerar os argumentos e as reivin- dicações dos outros. Isto não quer dizer que todas as formas de comunicação me- diada irão. Pelo contrário. ela também nos ajuda a evitar algumas das armadilhas potenciais. pode estimular a deliberação tanto quanto. por si mesmo.o que sem dúvida seria uma. \Os horizontes de compreensão podem se alargar neste esforço comum para que tod'Os' tenham oportunidade de se manifestar. Mais do que isto.lógica. Ao separar a idéia de democracia deliberativa da comunicação dia. inverda- de. se não . da consideração e avaliação de diferentes pontos de vista. Em primeiro lugar. a quase-interação media.·na consideração de diferentes pontos de vista. esta se torna legítima pro tempore. quando a maioria se persuadir do contrário 18 . O processo de deliberação é necessariamente aberto'. o processo de deliberação em si mesmo é crucial. A formação de juízos de valor não'requer que os indivíduos partici- pem em diálogos com outros 19 • Não há boas razõés para pressupor que o processo de ler um livro ou de assistir a um programa de televisão seja. ou um conjunto de preferências. Uma.mais do que. o princípio da maioria fornece uma base justificável para. sem dúvida - num processo de deliberação generalizada. Quando. dada a oportunidade de St! considerar várias alternativas. face em local compartilhado. ao proporcionar aos indivíduos formas de conhecimento e informação a que eles não teriam acesso de outro modo. Numa.

Ao encorajar o cuidadoso exame das alternativas. maiores serão as chances da democracia na organização política e so- cial que modelam suas vidas. A~sim a idéia de democracia de- liberativa não é vulnerável às críticas que se apontam contra o modelo de democracia di- reta e participa. Quais são. portanto. na verdade. podemos ver que as instituições da mídia têm um pa- pel particularmente importante no desenvolvimento da democracia deliberativa. o desafio posto pela idéia de democracia deli- -oerativa é encontrar novas maneiras de expandir e institucionalizar os processos deli- berativos e novos mecanismos para alimentar os resultados da deliberação com procedimentos que implementem a decisã~uanto mais os indivíduos forem capa- zes de participar na deliberação de questões que lhes dizem respeito. O desafio.tiva.\. as assem- bléias podem despertar as paixões e levar os indivíduos a tomarem decisões em base a con~iderações que nada têm a ver com juízos de valor 20 . O processo de deliberação.. em alguns contextos e com relaçao a alguns aspec- tos.ºu ~ outro tipo ~e reunião.ÍO incentivo à diversidade e ao pluralismo na mídia é. e quanto mais os resultados de tais deliberações forem alimentados com procedimentos que reali- zem a decisão.e. A deliberação prospera com o encontro de visões conflitantes'.t ~ do _modelo de de- moaaáa direta e participa. seja 0 fuiico e legítimo (ou mais apropriado) forum de deli~açao. porém. Ao garantir as condições para que se po~sa desafiar o poder e manifestar uma diversida<le de opiniões. aprimorando sua qualidade e garantindo conseqüências perceptíveis para as decisões tornadas em vários níveis da vida social e política.. é encontrar maneiras de apro- fundar o interesse democrático alargando a abrangência dos processos deliberativos. portanto. Olhando desta perspectiva. Elas também fornecem mecanismos para que eles articulem opiniões que podem ter sido marginalizadas ou excluídas da esfera da visibilidade mediada. Pelo contra- rio. 0 princípio do plu- ralismo regulado fornece parte da estrutura institucional dentro da qual a idéia de de- mocracia deliberativa poderá praticamente se desenvol~J 222 . Engajar-se num processo de del1beraç.10 nao requer indi- víduos reunidos em local compartilhado para exprimir seus pontos de vista e escutar as opiniões de outroS.\n.ão pressupõe que a assembléia d~ cidadios . desligad.. n~da é mais_ destruidor do processo deliberativo do que um coro orques- trado de op1ruoes que nao permite divergências. as implicações práticas da idéia de democracia deliberativa' Pode-se dizer alguma coisa mais concreta sobre as condições que favoreceriam seu . então. Elas fornecem informações e pontos de vista diferentes para que os indivíduos formem juízos de valor sobre assuntos de seus interesses. não opcional ou dispensável.-- desenvolvirnento?1Em termos práticos. não se compromete com a visão de que as formas de democracia direta e participativa são os mecanismos mais ade- quados para institucionalizar o processo deliberativo.. para o desenvolvi- mento da democracia deliberativa. as assembléias de cidadios mais dificultem do que facilitem o processo de deli- beração em rúvel racional. urna condição essencial. pode muito bem acontecer que.déia de 9~ocracia deli~tiv~ é distinta .tiva.

como parte de um processo através do qual os membros de uma . Pois já se tornou habitual em circulos de teoria social e cultural considerar a reflexão ética como uma ~reo~upação do passado. ou em algumas outras formas fantásticas ~e "\~lede­ mocracia" que se tornaram aspectos essenciais da literatura de futurologistas . Nas condições atuais das sociedades modernas. no mundo densamente complexo e inter-relacio- nado deste final de século XX. no sentido de que os processos de deliberação depende- riam de instituições da mídia. Para uma ética de responsabilidade global Há uma dimensão normativa ou ética para o novo tipo de publicidade criado pela mídia? _Esta questã. sem es- perar que eles sejam. tanto como um meio de informação quanto como um meio de expressão. aprofundando-lhes o interesse democrático na vida política e social e.íe ci!fíuíiõs de valor de indi- víduos sejani liicorporad~.· ~~flexivamente em processos d. ao mesmo tempo. Mas elas nos podem ajudar a encontrar um cami- nho que não se deixe seduzir pela tentação do imediatismo que o modelo de demo- cracia direta e participativa continua a provocar na imaginação política moderna. e não admitem fácil resolução. ou que realisticamente possam ser. os problemas enfrentados pela política democrática na idade moderna. Seria ingênuo supor que estas propostas para uma democracia deliberativa pos- sam superar.pe~mitam qi.elibêr~ti~~~--~m-várlos-ní­ veis da vida social e política. uma democracia deliberativa seria uma democracia mediada. Estes problemas estão enraizados em aspectos fundamentais da organização social e em processos de mudança social de longo ter- mo. reconhecendo que. uma expressão residual da razão legisladora que procurou . parceiros num diálogo./Não há necessidade de pressupor que a relação entre a democra- cia deliberativa e a mídia encontraria uma expressão mais apropriada em algum tipo de câmara municipal eletrônica. Alguns argumentavam que questões de moral só se poqiam fazer e responder m situ. para baixo e para os lados. poderão renovar a política democráti.o pode parecer estranhamente antiquada para alguns. há ainda diferentes níveis de deliberação em que os organismos representativos são indispensáveis. com desastrosas conseqüências_ princí- ~ios universais e obrigatórios para a conduta humana. e a cnaçao de mulu- plos centros de poder e de redes diversificadas de fluxo de comunicação e informa- ção.:a}Muito ~j~­ dariam a descentralização do poder. So- mente a vigorosa aplicação do princípio do pluralismo regulado. E elas podem nos ajudar a encarar uma forma de vida democrática onde todos os indi- víduos sejam agentes autônomos. O colapso do projeto universa- lista deixou a investigação sobre a natureza e a finalidade da ética envolta numa bruma de in~ert_eza. responsáveis e capazes de juízos de valor. ou mesmo atenuar em alguma medida.muulmente e. em alguns casos. acoplado ao desenvolvimento de novos mec~ismos que. Poderia ajudar também o envolvimento de indivíduos comuns no processo de deliberação.

a. explicação original de Habermas sobre a transfor- mação da esfera pública está nesta aguda perspectiva crítica daquilo que se poderio descrever como o esvaziamento da ética na vida pública.da. eles vão atrás de trivial e do sensacional. deveria. Embora.is do que ten· ta.ngentes em escopo. completa. dimensão norma.bra. Os produtos da mídi< mesmos se tomaram cada vez mais padronizados e estereotipados.ra decodificar. ou ética. de batatas ou de qualquer outra mercadorialÕ adven- to da mídia não foi uma boa notícia para a ética . sobre a.\ As questões normativas que Habermas apresentou em Mudança estrutural continua- ram a preocupá-lo durante a. isto é. muito tempo. pergunta. só poderiam servir pa. etc. que permitiu uma realização parcial e imperfeita desta idéia. para outros ela pode parecer um tanto fora dt lugar. uma. há bem pouca diferençJ do consumo de refrigeradores. ma.r a. A mídia é um domínio no qual sérias preocupações éticas foram banidas h. embara. a. interessam-se por eventos etemeros e abandonam qualque1 inspiração para transcender as banalidades da vida diária.ra. a.pa. É claro. O! ideais políticos e morais sustentados por alguns dos primeiros empreendedores fo.ra. a. Habermas se convenceu cada vez mais da insuficiência de seu primeiro enfoque 224 . e livre· mente recria..d< possa. investigação ética.ção cria.m os laços que os unia. reconhecendo-lhe o caráter históri· co e situa. Gidéia de que as opiniões pessoais de indivíduos privados podem evoluir para uma opinião pú- blica através de um processo de debate crítico racional que seja aberto a todos e livre de qualquer dominação. concepção do self como uma. um tipo de me- dida crítica por meio da qual as deficiências existentes nas instituições poderiam ser avaliadas e formas alternativas de organização social poderiam ser esboça. de self.. ram substituídos por critérios de eficiência e lucratividade. a.do que Habermas algumas vezes c~a de "e princípio crítico de publicidade" (ou de "publicidade" .Oeffentlichkeit). E a recepção dos produtrn da mídia se tomou apenas uma outra forma de consumo.nos. uma fonte de excitação. o princípio crítico da publicidade conserva seu valor como um ideal normativo.tiva.va. a recepção dos produtos da mídia pode ter certas carac- terísticas distintivas (exigir certas habilidades pa. melhor deixá-la. Outros sugeriam que.utoforma. mas estas questões hoje sofreram algumas modifica- ções.r os objetivos de wna. provocar certos tiprn de gratificação.ça. seria. publicidade media. estética.embora muito parcial .comunidade renova. de arte que é conúnua. di- vertimento e prazer. A emergência da esfera pú- blica burguesa na Europa do século XVIII não foi apenas um desenvolvimento institu· cional: ela teve também uma dimensão moral prática. Com o crescimento da comercialização da instituição da mídia. da. Habermas sustentou que.r o indivíduo 1 restringir sua.).mente de la. apesar do declínio da esfera públi- ca burguesa. A ética.da. A esfera pública burguesa era • realização . obra.do: os preceitos éticos embora.tiva. para alguns. "- Parte do persistente apelo da.d~~·.. parecer antiqua. \Esta é uma idéia que Habermas foi buscar nos escritos de Kant sobre o iluminismo 22 .do.. ceder o lugar para. mas em termos de importância ética.o longo do tempo.

O mo- delo de Habermas é essencialmente uma extensão (embora muito mais elaborada} da concepção tradicional de publicidade como co-presença. sob condições livres de qualquer constrangimento. ou uma instituição seria legítima. somente se elas fossem discutidas aber- tamente por todos os envolvidos. Hoje ações podem afetar indivíduos largamente dispersos no espaço e no tempo. Por isso é difícil relacionar este modelo com os tipos de ação e comunicação . terá tanto su- cesso como as que lhe precederam. segundo eles.em que as questões normativas eram apresentadas como uma crítica imanente a um conjunto de idéias historicamente emergentes. é que esta concepção tem pouca relação com os tipos de ação e comu- nicação que se tornaram enormemente comuns no mundo moderno. deveriam conti- nuar a ter significado para nós ainda hoje.que os problemas nor- mativos da teoria crítica da sociedade poderiam ser tratados em termos de uma con- cepção de racionalidade que tem um certo caráter inevitável e obrigatório 23 .uma tentativa que.é uma concepção espacial e dialógica. O proble- ma. abandonou o tipo de crítica imanente desenvolvida em Mudança estrutural e tentou mostrar . mas que nos interessa diretamente aqui. nas contro- vertidas questões morais e políticas do nosso tem!~ Além destas objeções. quanto na forma de seu modelo filosofica- mente mais elaborado de discurso prático . A reelaboração de Habermas da dimensão normativa da esfera pública em termos de sua teoria da ação comunicativa não deixou de ser questionada.tanto na forma de esfera pública burguesa que emergiu no século XVIII. Ba- seia-se na idéia de que os indivíduos se reúnem em locais compartilhados e dialogam uns com os outros.fi'a>ncepção de Habermas da esfera pública .com os quais estamos tão familiarizados hoje. apesar de mais simpáticos com o projeto global de Habermas. que foram muito bem ventiladas na literatura crítica. de uma forma um tanto modificada . com alguma esperança de sucesso. em vista da pluralidade de opiniões valorativas e interpretativas característica das sociedades modernas.e com o tipo de publicidade cria- da pela mídia . Como argumentei num capítulo an- terior . Habermas. Muitos comentadores lançaram dúvidas sobre o que eles vêem como uma tentativa de ressuscitar. Outros comentadores. mas estas condições parecem muito exigentes. duvidaram de que. Há uma extensa li- teratura crítica que trata da concepção de Habermas do discurso ético e de sua análise de questões morais práticasH. contudo. por isso. e é dificil ve::: como elas funcionariam.. há um outro problema com o enfoque de Habermas que foi pouco considerado pelos críticos. 225 . como p~ticipantes iguais em conversação face a face.. Faltou uma explicação sufiàente de como os princípios. tenha sentido tentar çpnstruir uma teoria política e moral na base de uma noção de consen- so racionalVais a proposta de Habermas é a seguinte: uma norma seria válida ou jus- ta (richtig). e a mídia criou formas de comunicação que não implicam diálogos em locais compartilhados.o princípio do universalismo kantiano . · e tivessem o consentimento de todos. uma vez expressos na esfera pública burguesa.por meio de sua teoria de ação comunicativa e sua noção de discurso ético .

O universo ético era composto de contemporâneos. embora remotos no espaço e no tempo. e qualquer tentativa neste sentido não passaria de uma audaciosa pretensão. aµções hoje podem ter conseqüências que ultrapassam em muito os locais imediatos. eticamente neutras. todos os afetados por elas. para todas as intenções e fmalidades. afetam muito provavelment~ ~o­ pulações inteiras ao redor do globo e podem comprometer seriamente as ~ondiço_:s de vida de futuras gerações. e somente se. a finalidade espacial e temporal da re- flexão ética era relativamente limitada. As condições de contemporaneidade e proximidade não se sustentam mais. de acordo com esta concepção tradicional. Mas como realizar isto praticamente num mun- do onde muitas ações e normas afetam milhares ou milhões de indivíduos dispersos no espaço (e talvez também no tempo)? Ações destinadas a des~uir as florestas tropi- cais ou a esgotar a camada de ozônio. Em princípio pode parecer plausível sugerir que uma açao seria correta ou uma norma seria justa se. por exemplo.lo uni- verso ético não pode mais ser pensado como um mundo de contemporâneos co-pre- sentes. como nos tornamos mais e mais conscientes do im- pacto devastador da ação humana no meio ambiente. Assuntos de importância ética. Hoje nós não podemos pensar mais sobre questões morais desta maneira. eram essencialmente inter-humanos em caráter: eles tinham a ver com as relações entre se- res humanos (ou com as relações do indivíduo consigo mesmo). e o universo ético se deve alargar para abranger outros distantes que. e a reflexão ética era uma moral de proximidade. e a formas de interação que eram essencialmente face a face. A ética se ajustava a formas de ação cujo alcan- ce efetivo era pequeno. podemos ver algo através dessa falta de realidade q~e cerca a obra de Habermas. Graças ao desenvolvimento de tecnclogias e da maciça concentração de recursos. Além disso. no qual todos os afetados por elas deveriam ter a oportunidade de participar como parceiros de diálo- go livres e iguaisf Tal debate é simplesmente inexeqüível. tendo tido a oportunidade de discuti-las sob condições livres de qualquer constrangi- mento dessem 0 seu consentimento. Olhando desta perspectiva. podem fazer parte de uma seqüência interligada de ações e suas conseqüênci~~ Além disso. nossas maneiras de pensar estão enraizadas na concepção tradicional de ética que fo: fundamentalmente antropocên- trica em orientação e muito estreitamente circunscrita em termos espaciais e tempo- rais25. também duvidamos cada vez mais de que o mundo não humano da natureza deva ser tratado simplesmente como 226 . e as preocupações de futuras gerações di- ficilmente encontrariam lugar na agenda dos vivo~: \ Exemplos deste tipo sublinham o fato de que o pensamento sobre questões mo- rais não acompanhou o desenvolvimento que transformou (e continua a transfor- mar) o nosso mundo. Como Hans Jonas mostrou. Milhões seriam reduzidos ao silên- cio por outros que falariam em nome deles. As maneiras em que os homens tratavam o mundo não humano da natureza eram. Que significaria na prática sugerir que a correçao ou nao de tais ações deveria ser determinada pelo resultado de um debate. de indivíduos situados no aqui e no agora.

Devemos procurar desenvolver uma teoria sobre a ética que faça justiça às novas circunstâncias. Poucos duvidam de que os vários meios de comunicação tenham desempenhado e continuarão desempenhando um papel crucial na formação de um sentido de res- ponsabilidade pelo nosso destino coletivo. historicamente sem precedentes. finalmente. É óbvio. com al- gum sentimento de culpa e de tristeza . no sentido de que a preocupação por outros distantes se torna cada vez entranhada na vida quotidiana de mais e mais indivíduos. apesar de que os habitantes deste mundo (bem como as sucessivas gerações de seres humanos que herdarão o mundo) não estejam em po- sição de nos pressionar sobre qualquer reivindicação.em algum sentido e até certo ponto . É dificil ver imagens de civis envolvidos em conflitos militares ou de crianças morrendo de desnutrição sem sentir que o estado lamentável destes indiví- duos seja . Eles ajudaram a pôr em movimento uma certa "democratização da responsabilidade". devemos tomar consciência da enormidade dos riscos. mas sua importân- cia não poderia 'Ser subestimada. Temos responsabili- dade pelo mundo não humano. Deve-se começar reconhecendo a intercomunicabilidade do mundo mo- derno.compartiIham das mesmas condições de vida. de acordo com o qual os indivíduos têm respon- sabilidade pelo bem-estar de outros e partilham obrigações mútuas para tratar os ou- tros com dignidade e respeito:JDeve-se reconhecer que a nossa substantiva responsabi- lidade se estende muito além da esfera de proximidade de nossas interações quotidianas.misturada. os horizontes de responsabilidade também se estendem para outros distantes no espaço e no tempo. Eles comp~ovam a possibilidade de que a crescente· difusão de info~ações e imag~s. É dificil ler relatos de espécies animais ameaçadas de extinção pelas atividades de caça- dores inescrupulosos sem sentir alguma responsabilidade . talvez.uma margem eticamente neutra da ação e da interação humanas. que não se restringe apenas a comunidades localizadas. mas que é compartilhado numa escala sempre mais ampla. mas um senti- do mais forte e substantivo. como também para o mundo não humano da natureza cujo destino está interligado ao nosso. Eles ajudaram a criar este sentido de res- ponsabilidade. atr~vés da mídia pode ajudar a estimular e a apro- fundar um sentido de responsabilidade pelo mundo não humano da natureza e elo . universo de outros dis tantes que nao . p . onde a proxi~dade espacial e temporal perdeu sua relevância como medida de importância ética~\Deve-se admitir um sentido de responsabilidade pelos outros - não somente um sentido formal de responsabilidade. tais sentimentos não constituem de per si um processo de reflexão prático-moral. à medida que o crescimento do poder disponível pelos seres humanos vai alcançando metas onde a sobrevivência das espé- cies e do próprio planeta já não se pode mais garantir. E. num mundo em crescente intercomunicação. sob as quais as questões morais sur- gem hoje.um assunto de nosso interesse.pelo seu destino. de acordo com o qual um indi- víduo responsável é aquele que se responsabiliza pelas próprias ações.

certamente. ajudou a criar. ! este sentido de responsabilidade que poderia fazer parte de um novo tipo de refle- :ão moral-prática. !ste é um mundo. levando-nos a tuna fadiga moral que neutraliza a nossa capacidade je sentir compaixão. por outro. todos nós sabemos como é fácil. . Precário. Sabemos como a grande es- :ala e a freqüência de calamidades que acontecem no mundo hoje podem ameaçar a nos- 'ª própria existência. insignificante. . este sentido incipiente de responsabilidade seja suficiente.e única . mas dada a enorme complexidade dos processos que produzi- am as crises e situações perigosas que enfrentamos hoje. Os indivíduos podem er tuna profunda preocupação pela infelicidade de outros distantes ou pela destruição do neio ambiente global. livre das limitações antropocêntricas. como Jonas observou 27 . mui- as pessoas podem se sentir relutantes ou incapazes de traduzir na prática este sentido le preocupação. absolutamente não. por tun ado. como base para tun renovamento da reflexão prático-mo- ral no final do século XX. Seria ingênuo supor que.\Mas ten- ar é a melhor . um tipo de reflexão que estabelece uma relação to- eravelmente coerente com as realidades de um mundo em crescente interconexão.j :28 . Ele alimentou o frágil entido de responsabilidade pela humanidade e pelo mundo coletivamente habitado. no qual a nossa capacidade de agir à dis- ância. espaciais e temporais da con- ·epção tradicional de ética. .. e dada a dificuldade de in- ervir efetivamente nos processos que muitas vezes são pobremente entendidos. O desenvolvimento dos neios de comunicação abasteceu uma crescente conscientização da interconexão e nterdependência que ele mesmo. E sobretudo.abemos que há tun abismo escancarado entre o sentido de responsabilidade. Sabemos como as dramáticas imagens podem ser manipuladas cini- :amente e exploradas com a finalidade de mobilizar simpatia ou antipatia. de desencadear processos que podem ter conseqüências de longo alcance no :spaço e no tempo. e a capacidade e disponibilidade efetivas de agir. excede completamente a nossa capacidade de compreender e jul- ~ar: o alcance fortuito de nossas ações constantemente ultrapassa a nossa capacidade ie previsão. quando os outros estão dis- tantes de nossos contextos vitais diários. desviar a nossa atenção de suas dificuldades para os que se beneficiam de nossa imediata interação face a face.opção que temos. como é fugaz a dor de consciência. entre outros. Será dificil dizer se nós conseguiremos desenvolver um sentido de res- Jonsabilidade ntuna forma de reflexão prático-moral que forneça uma orientação ra- :ional para a conduta htunana e se chegaremos a entender suficientemente os :omplexos processos criados humanamente para intervir efetivamente nela. To- dos sabemos como é frágil este sentido de responsabilidade por outros distantes.

ver Douglas Xellner. Thompson. Nice (Cambrld1e: Pollty Press. DistiD<lion: A Social Critiljue of dic }. Thompson (Cambridge: Cambrid- ge University Press. lda>logy and Mo.O.angll<'ge. em seu Diala:tic of Enlightmmmr..). 1976). No Smse of Place: The lmpoct of Ela:tronic Mafia 111 Soda! Bcha•ior (New York: Oxford Unlverstry Press. Thompson. 4.. ClifTord Geertz.. 1988). especialmente Max Horkheimer e Theodor W. em seu Sociology in Quation. R. Tderi. ai MGMll CubR: Criti- ail Social Thmryin theEmof MOSJCommunicarion (Cambridge: Poliry Press.. 5. especialmente Hans-Georg Gadamer. How ro Do Things with Woids... Minha. 1986). p. Time. }ürgen Habermas.. 229 . Notas lnttodufáo 1. Ediron Vozes.i. 120-67. 5-6.. John B. 3. Theoclor W. 6.. um moleiro que foi julgado em duas dislinw ocasiões por suas crenças heré- ticas e acabou condenado à fogueira pelo Santo Oficio.. The Culrure lndustry: Sclectaf Essays on MOSJ Culture. "The Culture Industry: Enllghtmenl as Mass Decep- tion". 5-6. Tlic NatiCll-SlalC and Violma:: Vol. Truth and Mcthod (Londres: Sheed and Ward. r-. ap. ap....- ria and lhe Human Scimcc: E<says on l.B... 3. e trad. Urmson e Marina Sbis1 (Oxford: Oxford Unlvenlry Press.a brilhante reconstrução da vida e da cosmovisão de Menocchlo. 2. ed. 235-49. 2. 1995).. cap. 2 [trad. 6. Harold A. Adorno. em seu CommunicariGa as Culnuc . Cario Ginzburg. ). Cridllll Theory. "Space. Cf. Cf. Cukure.h. e "Some Properlies ofFields". vor Pierre Bourdieu. Caltmr. Ver também Emest Gellner. 1984). 1990).M. discussão deste exemplo baseia-se n. !daJlogyandMode. 1989). Bemsrcin (Londres: Roudedge. trad. Mll!Xism and Modaniry (Cambridge: PoUry Press.Ggic of Procriei. R. ftr }unes W. 1972) p. Esta explicação é desenvolvida mais detalhadamente em John B.. John B... lnnis.el Mann. Empire and Communicadons (Oxford: Oxford Univers!ry Press. Richard Nice (Cambridge: Harvard University Pr•ss.. ver John B. ap.. 5.a. ID AD 1760 (Cam- bridge: Cambridge Unlversity Press.. 1990) cap. 1951).slaa in Transillaa (Londres: British Fllm lnsdtu- te. The Ch"" and lhe Wonns: The Cosmos of a Sixtemth-Ceiitury Millu. Swolll • W: Tlic Saaamr ri H - History (Londres: Collins Harvill. John Cumming (New York: Seabury Press. p.. J. Adorno. vol. 4. 1985). and Communicalions: A Tribure 10 Harold lnnis". tnd. 1980). Carey. Para apreciações criticas da contribuição dos primeiros teóricos aíticos do estudo da mídia. 4. Aclion and lntupretation.. ClilTord Geertz. The l. "The Modes of Recepdon: For a Hermeneudc ofTV News". Para uma elaboração desta noção de análise cultural. Sobre a relevância desta tradição para o estudo da mídia. trad. 1: Comunicapio e contexto social 1. 1985). ed.. Thompson. 7.. Nice (Londres: Sa1e. 2' ed. Mudança estruruml da esfera pública (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.dic . 3. Cf. Cf. 6. 142-72. cap. e Jdarloay.. especialmente Mich>. 1989). trad. John and Anne Tedescbi (Londres: Roudedge and Kegan Paul. 1993). Paul Rlcoeur. p. em Phlllip Drummond e Richard Patterson (eds. 1975). P.Twa ri• Cmamplllly Cll- ri•ue oi Historical Maruialimi (Cambridge: Polity Press. p. p. Cf. 1984).! ri trad. The lntapretation of Cultura (New York: Basic Books. 1981). The Soun:a of Social Power. 72-7. ver Peter Dahlgren. Thompson. Para o conceito d• campo.Emys oa Mafia and Society (Boston: Unwin Hyman. The lntapretation of Cultura.L Austin. }. H .r MoMrn Calllul. Joshua Meyrowitz. Anthony Giddons. 1: A History oi Powu r.. 1973). Cf.}.k ri PU Ricoeur and Jürgm Habamas (Cambridge: Cambridge Universiry Press. Cap.. 5. 3. Critiml llmmada: A SaMy li dic n.. Para uma simpática avaliação da contribuição de lnnls.. 1985).. 1991 ). . 1950) e Tbe Biai of Olmmmklda (Toronto: University ofToronto Press. Cf. 1981 ).

Tanto Mann qumto Giddens distinguem quatro tipos principais de poder .. Onde ~nh.a explica~.º ~~ diferencia
. d -balho é mquilo que chamo. seguindo Bourdieu, de poder simbólico . Us•d• de
51púfica11vunenic
. _,
e seu ~ • • d · ·d d · ból · d
• d poder simbólico •plica-se melhor is cuacicnsticas gerilis a •UVI a e sim ica o
urna~gl:Ul,•~ 0 e • d 1) o · · a.l
- d "pod 'dcológico" de Mann ou• de "vigilincia' de Giddens (extra.id• e Fouc•u 1 . pnnap
que • n~o e er 1 d d "'d 1 · "
• d poder ideológico de Mann é que el• a.lug• demilis o senti o o termo 1 eo og1a . e
problcmacom•~º e . . . .. "'d 1
de usim • conexão entre idcologi•, domimção e crítica. E melhor, m nunha op1ru•o, usu o termo. l ':'.o-
;:.. nwn modo m;Us restrito (ver !dcology and Modem Culture, cap. 1), e deixu •noção milis gera.! de poder simbólico
incluir iodas u forrms simbólicas que são empreg•du pu• influir ou modelu o curso dos eventos. O pnna-
~problcma com • noção de vigilmci• de Giddens é que ela destac> somente wn conjunto limi1ad~ de maneiras
de utiliuçio do poder simbólico - isto é, somente aquelas usadas pelo estado e por ou~as orgaruuçoes pua reco-
lher inforrmçõcs destin>das •o controle das populações. Mas esta noção coloca muila enfase nas •.UV1dades_super-
visoru do es1ado e não é suficientemente ampla para incluir outras maneiras em que a mformaçao e a
comwücaçio são usa.das.
É também digno de nola que •utores como Mann e Giddens tenham considerado muito pouco a natureza do im-
p>Cto dos meios de comwücação no mundo moderno. O primeiro volume da lústória do poder de Mann men~io­
m • imprensa. •penll de pusa.gem (p. Hl-3) e não discute seu desenvolvimento ou explora suas imphcaçoes,
muito embora em 1760 (a data fiml do primeiro volume de Mann) a imprensa já exislisse há 300 anos e mate-
riilis impressos circul•vam por ioda a Europa. No segundo volume, que cobre o período 1760-1914, Mmn atri-
hui wn p•pcl m;Us significante à difusão de materiilis impressos e ao desenvolvimento do que ele chama de
"instrução discursiva"; contudo sua análise dos meios de comunicação é estruturada e limitada por suas preocupa-
ções ICÓricu primordiais, que desejam explicar o surgimento de cluses e de estados nacionilis e suu interconexões.
[Cf. Michael Mann, Tbc Sources of Social Powu, vol. 2: The Ris< of Cl015CS ond Notion-Stotcs, 17 60-1914 (Cambridge: Cam-
bridge Univcrsity Prcss, 1993).) Comentários milis ou menos semelhantes se poderiam fazer a respeito da obra de
Giddens, Bourdieu, Foucault e muitos outros teóricos sociilis, ma.listas sociilis e sociólogos históricos, embora eu
não sig• es1a linha de crítica aqui.
7. Cf. Pierre Bourdieu, "The Forrns ofCapita.l", trad. Richard Nice, em J.G. Richardson (ed.), Hondbook of Thcary ond Rt-
•rth for die Sociology of EAlllClltioo (Wesiport, Conn.: Greenwood Press, 1986), p. 241-58; e Distinction, p. 114s.
8. A expressão "poder simbólico" é tormda de Bourdieu; ver especia.lmeNe Languag< ond Simbolic Powa, ed. John B.
Thompson, trad. Gino Raymond e Matthew Adamson (Cambridge: Polity Press, 1991). Contudo, o uso que faço
desta expressão se diferencia em vários upectos d• maneira usa.da por Bourdieu. Mais importante, não desejo infe-
rir, como o faz Bourdieu, que o exercício do poder simbólico pressupõe necessuiamente uma forma de "desco-
nhecimento" (micnnmi"""'") d• parte daqueles que são submetidos a ele. O exercício do poder simbólico muitas
vezes implica um. crença. comwn e •tiv• cwnplicidade e em a.lguns casos estas crençu podem estar erroneamente
cnraiudas numa compreensão limitada du bases sociilis do poder, mas estas deveriam ser vistas milis como possi-
bilidades conrtngcnlCS do quP pressuposições necessárias.
9. Cf. l.J. Gclb, AStudyofWriting: ThcFoundotionsofGrommotolosy (Londres: Routledge md Kegm Paul, 1952); David Di-
ringcr, Writing (Londres: Tharnes md Hudson, 1962); Jack Goody, Thc Domesticotion of th< Sovag< Mind (Cambridge:
Cambridge University Prcss, 1977).
1O. N• lngl•tern., • pro!Cçio no copyright não foi forma.lmente estabelecida em lei senão nos inícios do século XV111,
mu já existiam disposições para proteger o direito de impressão de livros desde o século XVI. Estas disposições ti-
nham duu fonlCS prindp;Us: a prcocup>ção da Coroa em suprimir a impressão de materia.l sedicioso ou herético e
o inicrcsse de editores e livreiros em proteger seus direitos exclusivos de imprimir livros particulucs. Durante a
primeira metade do século XVI • Coro• reivindicava direitos especiilis sobre certas classes de livros e outorgava o
privilégio de os imprimir somente aos que designava. Da metade do século XVI em diante, • tarefa de regulu as
•tivid>des de editores e livreiros foi usumida pela Comp>nhia de Propriedade Llterária, criada por um decreto do
Tribuna.! da Coro. em 1556 e incorpora.do no mo seguinte. A Companhia de Propried•de Lltcrári• consisti• de 97
pcssou nome.das e •utoriudas a Imprimir livros. A companhi• conservav• o registro dos impressores que •dqui-
rWn o direito de copiu livros e outras obru; qua.lquer impressão não •utoriuda por um impressor pirata podcri•
ser pua.lisa.d> pela companh.i•. que tinha o poder de confiscu e destruir livros e de investigu e fechu casas im-
º
~cssoru ou cditoru .. "capyright" d• Companh.i• (embora o termo não fosse o.ind• usa.do mquele tempo) er• efe-
tivamente um mccarusmo de concrole do comércio de livros no interesse de certos editores e livreiros e em
puccrl> com • Cora.; cn. um. maneir• de proteger o direito de emprcsu comerci•is de imprimir e vender cópi.s
de um. obn sem medo de piratari•. A idéi• moderm de copyright como um direito do .utor não se desenvolveu se-
não• putir do século XVID, com• promulg•ção do Est•tuto de Am em 1709. hra ulicriores deta.lhes, ver Tho-

230

mu E. Scrutton, TIM: Laws of Copyrigh1 (Londres: John Murny, 1883), cap. 4-; Lymm l\ay ~ltersan, Copyri9l11 iD Hislori-
cal Pmpcctivc (Nashville, Tenn.: Vmderbilt University Press, 1968); Sir Frank Macldnnon, "Notes on the History of
English Copyright", cm Margaret Orabble (cd.). ThcO.xfonl Companioa 1D Entlish Ulmllln:, s• cd. (Oxford: Oxford Uni-
versi1y Prcss, 1985), p. 1113-25.
11. O impacto da aesccnte reprodutibilidade das tradicionais obras de arte foi eiwninado por Walter Benjamim no
clássico ensaio, "The Work of Art in the Age of Mechmical Reproduction", no seu IUumiaaticm, trad. Hury Zohn
(Londres: Fontana, 1973), p. 219-53.
12. O termo "distmciamento" é derivado de Paul Ricoeur; cf. especialmente Hammmtia mi thc Hum:m Scimm já citado.
Contudo, a mmeira como utilizo o termo nio coincide com a de Ricoeur. ~a ele, "distanciamento" refere-se ao
processo pelo qual discursos escritos, ou textos, são separados dos contextos originais de produçio; Ricoeur con-
sidera isto como um aspecto distintivo do discurso escri10, em oposição ao discurso falado. Tenho minhas dúvi-
das, porém, acerca da utilidade desta ampla distinção entre o discurso escrito e o falado e da restrição que se faz à
noção de distanciamento. Como deveríamos tratar as formas não escritas de discurso mediado, como as transmiti-
das pela 1elevisão? Na minha opinião, é mais oportuno ~nsiderar IOdos os tipos de produção e intercimbio simbó-
licos como passíveis de diferentes graus de distanciamento no espaço e no tempo, por mais limitados que possam
parecer. Esia noção mais elaborada de dis1mciamento espaço-temporal foi estudada cm detalhe por Anlhony Gid-
dens; cf. especialmenie A Conianporary Cri1iquc o( HiSIDrical Matcrialism, vol. 1: Powu, Propcrty and thc SID!t (Londres: Mac-
rnillm, 1981}; Thc Comti!Ulion o( Socit1y: Oudbx o( thc Thcory of S1ructun11ion (Cambridge: Polity Press, 1984-); e Thc
Nation-SID!t and Violma:.
13. Harold lnnis foi um dos primeiros a chamar a atenção para os meios técnicos de comunicação que permitem aos
indivíduos o excrácio do poder através do espaço e do tempo; cf. Empin: anel Communimiiaas e The Bias of CommWlimlion
já citados.
14. Para uma ulterior discussão desce ponto cf. J.B. Thompson, !deology and Modan Cultun:, p. J 54-62.
15. Cf. Denis McQuail, "Uncertainty about the Audience and the Organization of Mass Communicalion", em Paul
Halmos (ed.), The Sociology of Mm-Media Communimto1S, Sociological Review Monograph 13 (Keele: Keele Universily,
1969), p. 75-84. ~a uma visão mais detalhada dos meios de transmissão televisiva e de monitorização de au-
diências, ver len Ang, Dapaa!dy Scrking 1hc Audima: (Londres: Routlcdge, 1991 ).
16. Cf. Helga Nowotny, Timt: Thc Modan and Pomnodcm Expcrimcr, trad. Neville Plaice (Cambridge: Polity Press, 1994).
17. Cf. Eviatar Zerubaval, "The Standardization of Time: A Socio-historical Perspective", Amtrican Joumal o( Sociology, 88
(1982}. p. 1-23.
18. Cf. S1ephen Kern, Tlx Cultun: o( Timt and Spaa 1880-1918 (Londres: Weidenfeld and Nicolson, 1983); Marshal Ber-
man. AH Tha1 Is Solid Mdl5 inlo A.ir: The Expcrimcc o( Modaniiy (Londres: Verso, 1983}.
19. Este lermo é explicado no capíiulo 7.
20. Cf. J. Crofts. Packhonr, Wap ~. Post: .l.and Carriagc ~ Co~unimtiom undcr 1he Tudors and S1uaru (Londres: Routledge
and Kegan Paul, 1967), p. 123: As Viagens eram tao lemveis e cans.ativas, que os viajantes preferiam dividi-las
cm pequenas etapas, contando-as pelos dias".

21. Cf. David Harvey, Thc Condition o( Posonodaniiy: An Enquiry into 1he Origins o( Cultural Changc (Oxford: Blacltwell 1989)
204s. Cf. também a discussão de Janelle sobre a noção um tanto semelhante de "convergência de 1 ' 'p~
ço": Donald G. J':11elle, "Glo~l lnterdcpcndence and its Consequences'', cm Stanley o. Brunn e The;:.: ~~l:­
bach (eds.) Collapsing Spaa and T1mt: Geographic Aspicts o( Commlllicalion and lnforma1ion (Londres: u.~.r-lli A d ·
1991}. p. 47-81. ·-r"~ ns ca crruc.

22. Cf.
__ , ..E.P. · Comman: .xu
___ ,Thompson, "Time, Worlt-Discipline and Industrial Dpitalism" • reimpresso cm Customs ID •· d"'" ID
·
r ....m..,.. Popullr Cul1un: (New York: New Press, 1991). p. 352-403.
23. Cf. Nowotny, Timt, cap. 2.

24. O exemplo clássico deste tipo de crítica cul1ural é o de Roland Banhes Mythol..,ics tr•d A ,_ ( Alb
'-di • . . . . -. . • . nneue ...vers St ans:
Pa.. n. 1973). Cf. também Judilh W1lliamson, Dcmdm9 AolY<rtiJanmls: ldeology and MlllDin in Ad.. · · .
rion Boyars, 1978). _ 8 ilWD8 (Londres. M~-

•y
25. Cf.. por exemplo, Elihu ICatz e Paul F. Lazarsfeld. P"-11 lalluma: Thc Part Pla)'fll Peoplc ia lhe Flow of Mcm Conununica-
aaas (Glencoe, W.: Free Pras, 1950); ]. JClapper. Tht EHllCIS oi Mm Coaunimim1i111 (New y lt F ......_~
or : ree """ 1960)· J B
Blumer and E. ICatz (eds.), 1k Um oi Me Camanmimtiom (Londres and Beverly Hills· Sage 197~) p • . . .
• • T • ara um resumo

CENTRO urvn·•·;,

das pesquisas sob..., audiênci&s e efritos d.l. núdia, cf. Denis McQulll, Mass Communicatioo Tlxory: Ali lntroductiGa, 2' ed.
(Londres and Bcverly Hills: Sage, 1987), cap. 8-9.
26. P...-.. um.t sdeçio de estudos recentes, cf. Janice A. Radway, Rtading thc Romaoe<: Womm, Patriarrhy and Popular Litaaturr
(Chapei Hill: University ofNonh Carolina Press, 1984); Tamar Liebes e Elihu Katz, Th< Export oí M<aning: Cron-Cultu-
nd Rmdillf' o[ "Dallas" {New York and Oxford: Oxford University Press, 1990); James Lull, China Tumol On: Td<Visioo,
Jláorm""" Rtsislma: {Londres: Routledge, 1990). Para discutir a relevância da investigação etnográfica dos estudos d.l.
núdia, cf. James Lull. Imi4< Family Vi<wing: Ethnographic Rts<orch on Td<Visioo's AU<limas {Londres: Routledge. 1990); Da-
vid Morley, Td<Vision, Audimas and Cultural Studi"' (Londres: Rou:ledge. 1992); Reger Silverstone, Td<Vision and Evrryday
LiÍ< (Londres: Routledge, 1994).
27. Cf. Michel de Certeau. Th< Practicr oí Evrryday Lifr, trad. Stephens Randall {Berkeley: University of California Press,
1984), especialmente cap. 3.12.
28. Cf. James Lull. lnsid< Family, cap. 5; David Morley, Family Tdaision: Cultural Povv<r and Dom<Stic l.tisurt (Londres: Come-
dia, 1986).
29. "Lritores são viajantes", observou Michel de Certeau, "que se movimentam por terras alheias como nômades. pi-
lhando campos que eles não escreveram, roubando as riquezas do Egito apenas para se divertirem" {Thr Practie< o[
Evrryday Lifr, p. 174).
30. A diferenciação social de habilidades e competências, bem como os esquemas de discernimento e gosto, foram
muito bem estudados por Pierre Bourdieu. Cf. especialmente Pierre Bourdieu, Alain Darbel and Dominique
Schnapper, Th< l.ov< of Art: Europ<an Musrums and thrir Public, trad. C. Neattie e N. Merriman {Cambridge: Polity Press,
1990); Pierre Bourdieu, Th< Fidd o[ Cultural Production: Essays on Art and Litrratur<, ed. Randal Johnson (Cambridge: Polit)"
Press, 1993); e Bourdieu, Distinctioo.
31. Cf. Hans-Georg Gadamer, Trurh and M<thod {Londres: Sheed and Ward. 197 5), p. 235s.
32. Cf. Paul Ricoeur, Hmnmrutics aod th< Humao Scimcrs, cap. 7.

Cap. 2: A mídia e o dcsmvolvimmto das sociedades modernas
1. Para. explicações mais detalhadas das transformações econômicas associadas ao surgimento das sociedades moder-
nas, cf. lmrnanuel Wallerstrin, Th< Modan World-Synan l: Capitalist Agriculturt and thr Origins oí thc Europ<an World-Ecooomy in
thr Sixtocnth Cmtury {New York: Academic Press, 19 74) e Th< Modrm World-Systan ll: Mrrcaotilism and thr Consolidation of th<
Europ<WI World-Ecooomy, 1600-1750 {New York: Academic Press, 1980); cf. também Michael Mann, Thr Sourca of Social
Powtr, vol. 1, cap. 12-15.
2. Cf.. por exemplo, Charles Tilly (ed.), Thr Fonn~tion of National Sta!"' in Wrst<m Europr (Princeton: Princeton University
Press, 197 5); Charles Tilly, Corrcion, Capital aod Europ<an Stata, AD 990-1990 (Oxford: Blackwell. 1990); Mann, Th<
Sourcrs o[ Social Powa; Anthony Giddens, Thr Nation-Stat< aod Violmcr: Volumt Two of a Contanporory Critiqu< o[ Historical Matr-
rialism; Gianfnnco Poggi, Th< Stata: Its Naturc, D<vdopmmt anel Prosp«ts {Cambridge: Polity Press. 1990).
3. Cf. Tilly, Corrcion, Capital md Eu!Op<GD Stata, p. 14-15 e passim.
4. Cf. Poggi, Th< Stat<, p. 42s; Mann, Th< Sou= of Social Povvrr, p. 47 5s.
5. Anthony D. Smith, Naliaaal l.Jmtity {Harrnondsworth: Penguin, 1991 ), p. 14.
6. Cf. Poggi, Th< Stata, p. 40s; Mann. Th< Sou= o[ Social Powtr, p. 379s.
7. Cf. Thomas Francis Cuter, Th< lnvmtion of Printing in China aod its Sprmd W<stward (New York: Ronald P...,ss Company.
19 55); Joseph Neddham, Scime< aod Civilisotioo in China, vol. 5: Chanistry """ Chanical Tocluwlogy, parte 1: Papa and Prin-
ting. por Tsien Tsuen-Hsuin {Cambridge: Cambridge University Press, 1985); Lucien Febvre e Henri-Jean Martin,
Th< Coming of th< Book: Thdmpact of Printing 1450-1800, trad. 0.vid Gerard (Londres: Verso, 1976). cap. 1.
8. Cf. Carter. Th< lnv<ntion, cap. 22; Neddham, Scimcrand Civilisotion, p. 201-3.
9. Cf. Carter, Th< lnv<otion, cap. 19.24; Neddham, Scime< aod Civilisotioo, p. 302-19.
10. Cf. S.H. Strinberg, Fivr Hundrtd Ymrs of Printiog (Harmondsworth: Penguin, 1974), p. 17s; Febvre and Martin, Th<
Coming oC Ih< Book, p. 45s.
11. Febvre and Martin. Tht Caming oi thr 8ook, p. 186, 248-9. A estimativa antes de 1500 en de que cad.l. ediçio tiniu na
m<dia 500 cópias. No século seguinte estes números alcançaram cifras extraordinirias. Febvre e Martin estimam que

232

entre 1SOO e 1600 algo em torno de 150.000 a 200.000 edições foram produzidas. Presumindo uma média de
1.000 cópias por edição, cera de 150 a 200 milhões de cópias fonm produzidas no século XVI (ibid., p. 2E2).

12. lbid., p. 249s.
13. Cf. Elizabeth L Eisenstein, lhe Prinling P1tt1 as an Apt af Cbangc: CommllllÍClliODS and Cultural Tnmsfonnations in Early-Modan
Eurupc, vol. 1 e 2 (Cambridge: Cambridge Univenity Press, 1979), p. !2s.
14. Febvre and Martin, lhe Comiag af thc Book, p. 126.
15. lbid., p. 125-6. Cf. wn'>ém Eisenstein, Thc Printing P1tt1, p. 408-9, 443-5.
16. Cf. Steinberg, Fi•~ Hundml Yam af Printing, p. 260-72; Febvre e Martin, Tbc Coming of tht ilook, p. 244-7, 297s.
17. Sobre a relação entre a imprensa e a Reforma, cf. Eisenstein, Tbc Printiag P1tt1, cap. 4; Febvre e Martin, Thc Comiag af
theBook, p. 287-319.
18. Cf. Margaret Aston, Thc Fiftcrnth Cmtury: Thc Prosp<tt of Europe (Londres: Thames and Hudson, 1968), p. 76; "Ao fazer
por Lutero o que os copisw tinham feito por Wycliff~", observa Aston, "as prensas impressoras transformaram o
campo das comunicações e patrocinaram uma revolta internacional. Era a revolução".
19. Febvre e Martin, Thc Coming of thc Book, p. 2 91.
20. lbid., p. 197.
21. Cf. Peter Burke, Thc 1!aiaimmtt (Londres: Macrnillan, 1987), p. 46-7.
22. Cf. Eisenstein, Thc Printing Prm, p. 1 l 8s.
23. Sobre a relação entre a imprensa e a revolução cientifica, cf. ibid., cap. 5-8.
24. lbid., p. 430.
25. Cf. Natalie Zemon Davis, "Printing and thc People", em seu Society and Cultun: in Early Modan Fnma: (Stanford: Stan-
ford University Press, 1975), p. 210. Para um estudo geral da instrução nos primórdios da Europa moderna, cf.
Cario M. Cipoll•, ütcrocy ani Dcvdopmmc in thc Wcst (Hannondsworth: Penguin, 1969); R.A. Houston, ÜltlllC)' ia Early
Modan Eurupc: Culturc ond Ed11C11tioa 1500-1800 (Londres: Longman, 1988).
26. Cf. Peter Burke, Popular Cukun: ia Early Modem Europc (Londres: Temple Smith, 1978), p. 253-4.
27. Davis, "Printing and the People", p. 21 J.
28. Cf. I.aurence Fontaine, Hislain: du colponagc ai Europc, XVc-XIXt siêdc (Paris: Albin Michel, 1993).
19. Cf. Davis, "Printing and the Pcople", p. 213-14; Roger Chartier, "Figures ofthe 'Other': Peasant Rcading in the
Age of Enlightenment", em seu Cultural History: Bctwml Pnxticcs and Rlpiaat1atioas, trad. Lydia G. Cochrane (Cambridge:
Polity Prcss, 1988), p. 1S1-71; Roger Chartier, "Leisure and Sociability: Rcading Aloud in ürly Modem Europc",
em Susan Zimmerman e Ron.ald F.E. Wcissman (cds.), u..... üfc in thc Rataissancc (Newarlt: University ofDalaware
Press, 1989), p. 105-20; Roben Darnton, "History ofRcading", cm Pcter Burlte (cd.), Ncw Pmpc<tiva on Historicll
Writing (Cambridge, Polity Prcss, 1991), p. 140-67.
30. Febvre e Martin, Thc Cominf af thc Book, p. 319-22.
3 I . Apesar de entrar cm franco declínio, o latim não desapareceu de repente: era ainda falado e escrito cm muitos
contextos durante os séculos XIX e XX. Cf. Pcter Burlte, "'Heu Domine, Adsunt Turcae': A Sltctch for a Soc:W His-
tory of Post-Mcdieval I.atin", cm seu Tbc Ali of Conftl>Gtioa (Cambridge: Policy Prcss, 1993), p. 34-65.
32. Hugh Scton-Watson, Nlllims w Slata: An lnquiry into thc Origim af NatiGes m tbc Palitia o( Nalimmism (Londres: Mc-
thuen, 1977), p. 48.
33,. Cf. Eugen Weber, PlllSGDts Üllo Frmchmm: Tbc Modanizatioa of Rural Fnma 1870-1914 (Londres: Chatto and Windus,
1979), especialmente o cap. 6; Pierre Bourdieu, IAnpgc and Symllolic r-r. p. 46s.
34. Cf. ~cdict Anderson, lmopalJI Commuaitia: lldlcctiom 111 tbc Origia a s,-1 af Notiomlism (Londres: Verso, 1991), es-
pecialmente p. 43-6. É óbvio que Anderson não foi o primeiro a aponw uma possível conexão entre o desenvol-
vimento da imprensa e o surgimento do nacionalismo. Pua estudos anteriores, cf. Harold A. lnnis, Empin: m
Communimtioas, p. 211 s; Manha1I Mduhan, Tbc Gutmq Goluy: Tbc Momag o( T1P'lf..,mc M111 (Toronto: University of
TorontoPrcss, 1962), p. 216s.
35. Cf. Howard Robinson, Tbc British Post Oflice: A History (Princcton: Princcton Universicy Prcss, 1948), p. 4.

233

·- · · w
de "Thum und Tuis", como ficou conhecido. cf. Mutin D.U-
36. Pua uma visa.o nws completa do serviço pos l· ,,,, ....,__li tur-EinlcitWlg (~llmünz: Michael
~er. Qudlm mr Gadiidllr «s Eurupiiitlicn ""'°"5mJ, 1501-1806, Parte . .,........ tal
Lmleben. 1977). p. 49-220.
37. Robinson, Thc Brilish Pm!Offia, a.p. 1-3; J. Crofts. Padhorst. W•aooand Post. cap. 8-1 7.
38 . A identificaçio do ue poderi• ter sido "o primeiro jorml" é um assunto muito discutido, embora muüos histo-
q od · · tenlu. arurecido em tomo de 1610. Cf. Enc W. Al-
ri•dores concordem que algo semellu.nte aos m emos 1omais .-- . . . . . .. .
· --• ongms
1en. "lnlema.ao1w · · o f the Newspapers·· The Establishrnent of Penod1c1ty m Print .
. Joumahsm
.
Quartcrly,
dU ·
7
( 1930), p 307-19; Joseph Frank. Thc BcgÍllllings oi tht English NCW!pClp<r, 1620-1660 (Cambndge. Mass .. Harvar ru-
versity Press, 1961). cap. 1.
39. Frrnk. Thc llcgiMings.of thc English NCW!pClp<r. p. 3.
40 Folke D•hl. A Bibliog111phy oi English Coranios and Periodical Newsbooks. 1629-1642 (Londres: Bibliographical Society,
1952). p. 22.
41 Fr>nk. ThcllcgiMingsol1hcEnglishNCW!pClp<•. p. 21-2.
42. Amhonr Smith, Thc Ne•npapcr: AD ln1<nuuional History (Londres: Thames and Hudson, 1979), P· 56-7 ·
4~. P•n mais detalh<S da hiS!ória do controle político e da censura da imprensa, cf. F.S. Sieben. Frttdom oi Ih< Prcss in
Englon~. 1476-1776 (Urbana: Uruversny oflllinois Press, 195 2); A. Aspinall. Poli1ics and th< Pr<SS, e. 1780-1850 (Brigh-
ton: Huvester, 1973); Srruth, The Ncwspopcr. cap. 3-5.
4-4. Cf. especialmente James Mill. "Liberty of the Press'', em seus Es<ays on Govcrnrnmt, Jurisp111dcna, Llbcrty oi lhe Prcss and law
o( Nations(New York: Kelly. 1967); John Stuart Mill, "On Liberty". em seu Utililarianism, On lil><rty ond Consideralions on
Rq>ramtative Gomnmcnr, ed. H.B. Acton (Londres: Dent, 1972). Voltarei a estas questões no capítulo 8.
45. Cf. Jürgen Habermas. MudClllf• Es1111tural. Para uma exposição mais detalhada e crítica do argumento de Habermas,
cf. Craíg C.lhoun (ed.). Habcnnas and 1he Public Sphcrc (Cambridge. Mas.: MIT Pr<Ss, 1992}; John B. Thompson, "The
Theory of Public Sphere", Th<ory, CuhurlGnd Society, 1O (1993), p. 173-89.
46. Cf. Osbr Negt e Alexander Kluge, Õffcntlichk<il Ulld Erfah111D9. Zur Organisationsanalysc von &ürg<rlichcr und prolctarischer Õffcn-
dirhkci1 (Fr>nkfurt, Suhrkamp. 1972}; Giinther Lottes. Politische Aufklã111D9 und plebcjischcs Pu&likum. Zur Thcnrie und Praxis dcs
cnglischm Radi.kalismus im spãim 18 jahrhundcrt (Muruch: Oldenbourg, 1979); GeoffEley, "Nations. Publics and Political
Cultures: Placing Habermas in the Nineteenth Century. em Calhoun (ed.), Habcrmas ond 1he Pu&lic Sphcrc, p. 289-339;
Arlette Fuge, Su&rnsi>< Words: Pu&lic Opinion in Eight<mth-Ccntury frQDC<, trad. Rosemary Morris (Cambridge: Polity Press,
1994).
47. Cf. especi•lmente E.P. Thompson, Thc Making of lhe English Woding Class (Harmondsworth: Penguin, 1968); e Cris-
topher Hill, Tht Worfd Tumcd Upside Do>m (Harmondsworth: Penguin, 1975).
48 Eley. "Nations, Publics and Politic•I Cultures", p. 306, 321 .
.+9. Cf. Jürgen Habermu, "Further Reflections on the Public Sphere", tr•d. Thomas Burger. em Calhoun (ed.). Ha&cr-
mas mi tht Pu&lic Sphctt, p. 421-61.
50. Cf. o prefkio de Habermu ao Mudança m1111uraJ.
S 1. Para urna breve e um tanto secret> alusão • esta questio, cf. Jiirgen Habermu, "Concluding Remarks". em Ca-
lhoun (ed.). Habmnas mi thc Pu&lic Sphctt, p. 464-5.
52. Cf.. por exemplo, Joan !.andes. Womai and thc Pu&lic Sphm in tht Age oi thc Frmcli Rtvolutioo {lth>ca, N.Y.: Comei! Uni-
versity Press, 1988); Mary P. Ryan, Womm in Pu&lic: 8ctwan Bamxn and Bctllots, 1825-1880 (&ltimore: Johns Hopkins
Uruversity Press. 1990); Carole P•teman. Tht Sexual Controct (úmbridge: Polity Press, 1988); C.thcrine Hall, White,
Mole and Middlc CI...: Explo111tiMS in Faninism and Hiltory (úmbridge: Polity Press, 1992).
53 H>bermas. "Further Reflections on the Public Sphere". p. 428.
54. Cf. Alan J. l.ee, 1'1ic Ori9i.as oi thc Popular Prm in England 1855-1914 (Londres: Croom Helm, 197 6).
55· Para urna breve seleçio de obras relevantes. cf. George Boyce, James Curnn e Pauline Wingate (eds.). Ncwspaptr
Hutory ÍIVlll .tht·Snocn-h Ccnrury to thc Pramt Day (Londres: Const>ble. 1978); James Curr•n e Jea.n Sea.ton, Powa Wi-
thout ~b1bty: Tht p,.., mi Broodcasting io Britain. 4' ed. (Londres: Routledge. 1991}; Ben H. Bagdimn, Tht Media
Mompaly. 4 ed. (Boston: Beacon Press. 1992): Jeremy Tunst.U e Miclu.el Palmer Mali• Moguls (Londres R tled
1991); Alfonso Sinchu-Tabemero. Malia Caocmtmtion in Europc: Commm:iol Entapr;.. ..w ih< Puhlic lnt<Rll CD~s:eld:;

2H

cf.cap. Cochrane (Cambridge. pode-se publicar urna resenha do livro nwna revista ou jornal para que ele leia. Donald Honon an!i R.11h and Eightemch Callurics. 19 3. que produzem programas sob encomenda p. Nos. trad. John S. ~~r Group (que penencia anteriormente a Roben Maxwell e que tem hoje Daily Minor. Madauren. The Media Monopoly.lmente parte 4.en. John B. A indústria britãnica de televisão oferece wn bom exemplo desta coexistência. 58.-er vivo. faz surgir wn no.. 5 7.. cf. Lydia G. Cf. 1991). p. Thompson. Cf. A History ofTa:hnology. são: N-:WS lnterna- úonal de Rupert Murdoch (a quem penencem Sun. 364-414. as contribuições de Linda S. 1993). "From Press Baron to Medial Mogu!". relleúndo . Cf. redes de computadores possibilitam a comunicação de ida-e-volta que não se orienta par• outros especi- ficas. 14 grandes corporações controlavam mais da metade do comércio dos jornais diários nos Estados Unidos (cf. Polity Press. 1969). Viator: Media·al and Rmaissance Sludies. 1993). 1993). vol. W. 1994). Jeremy Tunstall. 5. Psychiatry.ada e quase-interação mediada. Labour Rtsauch (Nov. 2. Os quatro grupos. Este termo é se111elhante à expressão usada por Horton e Wohl: nwn penetrante artigo anterior.R..L. Media Power (Be- verly Hills: Sage. The Econo- mic Dei·do('l11ent of Radio (Londres: Duckworth.J.-ersity Press. especialmente p.[ay. 1846-2003 (Londres: Unwin Hyman. European [nsútute for the Media. Sunda! Mail e Daily R«ord)..ida aos sistemas de telecomunicação fez surgir formas de comunicação e interação diferentes em alguns aspectos das características da interação medi. Sunday Exp= e Daily Slar). 140-67. 1985).. A obra de Goffman foi criativamente aplicada à análise da mídia por vários autores. Economics of Signs and Space (Londres and Thousand Oaks. Patncia M. The PRSaltation of Sclf in Ereryday Lifc (Harmondswonh: Penguin.). 1988). 5. "Electrical Communication"... especi.G. em Peter Burke (ed. 56. T. ma. Roger Chutier. 17s). Tucker. 1949). em número sempre crescente. Chan. 3: O odvenco do inceropio mediado l. Cf. Williams (ed. Maclaren. The Order of Boob: Readm. Spon~ Lif~. Joshua Me)TOwitz.: MIT Press. Para a discussão destas e de outras formas de "comunicação mediada pelo computador". Mas estas maneiras têm wn caráter limitado e são bem diferentes do tipo de intercâmbio dia- lógico característico da interação medi•da e face a face. 19 (1956). Authors and Librari<S in Europo J.. Por exen1plo.ira o Canal 4 e. Ericson. D. comunicação de massa. Sturmey. 235 . pane 1. Tdens1on Produms \LOndres: Routledge. Richard Wohl. em T. 1978).- 6. The Carrier Wavc: New Infonnation Technology and the G"'llraphy of lnnovation. Harasim (ed.as difere~tes condições sob as quais as indústrias da mídia se desenvolveram. Cf. Gloltal Netwod<S: Computas and lntemational Communication (Cambridge. mas que é de "muitos para muitos". ln1·ention and IDD01·ation in the Radio lndusny (New York: Macmillan. Richard V. cf. The Rise of the Elettricol lndustiy during the Nineteenth Cm- rniy (Princeton: Princeton University Press. p. p. Cop. e V15count Rothermere s Daily Mail and General Trust (Daily Mail e Mail on Sunday). especialmente p. 1993). Cf. Nov Pmpa:tiv<S on Historicol Writiag (Cambridge: Polity Press. 215-29. 1985): Da\id Altheide. Harasim. há maneiras de se responder a wn autor: pode-se escre\'er para ele. M. Paul Saenger. p. Novs of the Wodd ~ Sunday TUD<S). para a BBC e para a ITV. por exemplo. Cal1f. "History of Reading".in..).600 jornais diários locais e regionais. "Silent Reading: lts Impact in Late Medieval Script and Society". 1993). 59. Scott Lash e John Urry. ou simplesmente pode-se recusar a ler qualquer coisa escrita por ele.: Sage. Bagdikian. Negotiating Conuol: A Study of Novs Soums (Toronto: University ofToronto Press. 4.. se •inda esú. Cf. 3. eles sugeriram que a. O uso da tecnologi. The Tim<s. Roben Damton.1900 to c. Peter Hall and Paschall Preston. Os tipos de concentração variam de nação a nação e de wn setor da indústria para outro. há muitas companhias pe- quenas e independentes. Quanerman e Howard Rheingold em Linda S.. sediadas principahnente em Londres. of Ploce: The lmpact o~ Electronic Media on ~ia! Bdiavior (New York:: ~xford University Press.). Ss. especialmente Erving Goffm. em compensação há cerca de 1. Ideology and Modem Culture.. Peaple. the focut. 1958). United Newspapers (Daily Exp!<SS.G. 1943). 13 (1982). Na década de 80. p. Baranek e Janet B. Enquanto a BBC e as grandes com- panhias da ITV permanecem dominantes e controlam uma grande parcela de recursos.1950 (Oxford: Oxford Uni.. 60. É claro..l computacional assoei. .2O5. Cf. 11-12.. Para mais detalhes sobre as inovações técnicas. 1989). Para um resumo das principais tendências. Mass. há poucos )Or- nais de circulação nacional. "Mass Conununicaúon and Para-Social lnteraction: Observaúons on lntimacy at • Distance". Nos Estados Unidos.I. Sunda~ M1nor.·o tipo de relacionamento social que eles chamam de "interação paras- social". S. 6: The Twentieth Cmtuiy c.

cap. 1OOs. Ver também Bruce Cumings. 386-414. Assim. (Cf. Colo. nem é sugerir . 11. Danocracy and Dictatonhip. também John Keane. 1992). 1994). a televisão era mais segui- dora do que condutora: foi somente com a quebra do consenso que a cobertura da televisão começou a mudar de posição. 1992). em Ithiel de Sola Pool (ed. Sonia Llvingstone e Peter Lunt. Hallin. Jürgen Haberrnas. Cf. Daniel C. Por exemplo. parece claro que. Norberto Bobbio. War aod Tdcvisioo (Londres: Verso. Há muitas ra- zões para duvidar de tais reivindicações e sugestões. cf. 9. Eloqucna: io ao Ekctronic Age: Thc Transfonnatioo of Poli- tiod Spca:hmaking (New York: Oxford University Press. cf. 12. Kathleen Hall Jamieson.: Harvard University Press. 1977). Cf. 8. The "Uocmsoml War": Thc Media aod Viemã (Oxford and New York: Oxford University Press.L. Horton and Wohl. cf. especialmente o cap.tica de um estilo coloquial no discurso público. 14. p. Ronald Reagan foi um dos presidentes mais bem sucedidos na prá. 1O. 1989). Dizer isto não é reivindicar. 1986). 236 . que a cobertura da mídia e o movimento pacifista foram as causas principais da mudança na política do governo americano com relação à guerra. Alguns destes exemplos são ponderadamente discutidos por Meyrowitz. e sim devida ao fato de que o próprio governo começou a ter crescentes dúvi- das a respeito da viabilidade da guerra. uma íntima retórica de reconciliação" (p. particularmente em relação à mudança no papel e na percepção dos líderes políticos.como alguns comentadores o fizeram ao longo dos anos . Danocrucy and Civil Society (Londres: Verso.A. se as audiências antes queriam ser conquistadas por uma arte mais marcial e agorústica. A. p. 1. 163). "Reinven- ting the Global Village: Communication and the Revolutions of 1989" . pediu com insistência à administração do governo Bush que mantivesse as cenas de sangue fora dos televisores: "Até agora conseguimos poupar os espectadores das cenas de horror criadas pelos nossos ataques aéreos. p. no começo da Guerra do Golfo. 24 de janeiro de 1991 ).). Mtrlia Evmts: The Live Broadcasting of HistOI}' (Cambridge. Anzio ou Normandia" (New York Post. Cf.que a cobertura da mídia "perdeu a guerra" para os Estados Unidos. Para uma análise mais detalhada dos talk shows televisivos e dos programas de debates.) Uma mudança na veiculação das noúcias pela televisão começou a se sen- tir durante a ofensiva de Tet. citado em Guardian. o Diretor de Comunicações do ex-presidente Reagan. Voltarei a al- gumas destas questões no capítulo 6. "com algumas exceções. Rcid. Deirdre Boden. a cobertura televisiva americana do Vietnã apoiava fortemente a política dos Estados Unidos no Sudeste Asiático. cf. mas parece muito improvável que tenha sido ocasionada pela adoção de uma posição mais adversária por parte da mídia. trad. cf. Mass. é claro. foi só até aí" (p.7. 327-31. hoje os telespectadores esperam. Como Hallin observa. cap. cf. Cf. "Comparing Telephone with Face-to-Face Conuct". 1992). Cap. 1988). 18. e quando o fez. 2. 2 l 6s. Bobbio. 1. agora respondemos mais positivamente a um es- tilo mais tranqüilo e mais conversável. Para mais detalhes sobre a história da distinção público-privado. 1992). 1988). Não seria muito ruim se isto continuasse.: Westview Press. 1S. Para uma análise detalhada da cobertura da mídia sobre a Guerra do Golfo. 13. ao invés. Para uma anílise de seu estilo retórico. cap. especialmente os capítulos 6 e 7. Douglas Kellner. Talk oo Tckvisioo: Audimcc Participatioo aod Public Debate (Londres: Routledge. No Scost of Placc. Human Socictia: An lntroductol}' Rtodcr io Sociology (Cambridge: Polity Press. a pertinente explicação de Dayan e Katz. Peter Kennealy (Cambridge: Polity Press. ~: A ttansformafâo da visibilidade 1. Thc Peniao Gulf TV War (Boulder. pelo menos no período ante- rior à ofensiva de Tet em 1968.: MIT Press. p. Danoaucy and Dictatonhip: The Narure aod limits of Srare Power. Para uma anilise mais elaborada dos eventos da mídia. cf. 17. Não sofremos na II Guerra Mundial por não termos tido cobertura dos horrores de Guadalcanal. cf. Daniel Dayan e Elihu Katz. Mudanpi cstrurund. Thc Pll5tlltation of Sdf in Evayday Lifc. cap. 16. Thc Social lmpact of the Tdq>hoa: (Cambridge. 2. onde examino a transformação dos rituais régios pela mídia. cap. "Mass Communication and Para-Social Interaction". Goffman. 2. 14. 4.). em Anthony Giddens (ed. M=. Para uma ponderada discussão do papel da mídia nas convulsões sociais de 1989. Pat Buchanan. 44). Jamieson argumen- ta que o advento da televisão expandiu e consolidou uma ampla mudança na natureza do discurso público: "Se antes esperávamos mensagens marcadas por •pelos apaixonados.

1988). 1977). 1-16.. Ritual an4 Politia sina: lhe Míddle Ages (Philadclphia: Unlversity of Pcnnsylvania Press. Jercmy Bentharn. Pua mais análises detalhadas sobre as organizações intermediárias e seu aescente significado nas sociedades modernas. 381-416.. Cf. Cf. Ibid . Na explicação de Kantorowicz. 4. a doutrina da pmona mixtll era uma precursora teológica da fic- ção legal. p. 1976). Ernst H. Va: também John Anthony Maltesc. l 7s. Alan Ware. p. Discipline and Punish: Tlx Binh of tlx Prison. 13. especialmente cap.. Cf. Disciplinc:cmd Punish. com a assistência de Freclerick Lawrence (Cambridge: Polity Press. por exemplo.. p. Roger Griffin (Dmbridgc: PoUty Press. dos "Dois Corpos do Rei". 46). 1992). p. em seu Local laowlalse: Funlxr Essays in Intapretive Anthrupology (New York: Basic Books. 86-9. Danocracy Cllld Dictatotthip.3. The Elcctronic Eye: The Rise of Survállance Soci<ty (Dmbridgc. 121-46. Burkc. 1791 ). Bobbio. cm Jolm Dunn (ecl. On Bcnded ICna:: Tlx Prm and the Rtagaa Pmidm<y (Ncw York: Farrar Straus Giroux. agora clássico. S. 18. Kantorowicz. Fricdrich Mei- necke. em Sean Wileniz (ed. Mark Hcrtsgaard. " (citado ibid. 17. Cf. á. p. á. especialmente p. uma descendendo da natureza. Simon Homblower. cf. 20. Downcast Eycs: Tlx Dmligrarion of Vision in Twmti<lh-Century Frmch Thought (Berkeley: Univcrsity of California Press. of P. 200s.H. J. Gouldner. 1994). Bobbio. 6-8. 1992). Mark Poster. Martin Jay. p. 1968 (Londres: Andre Dcutsch. Alvin W. 1957).RailOll d'État and ilS Placc in Modan History. Para ulteriores investigações sobre a obra de Foucault cm relação às formas contemporincas de vigilância. 163-5 9. trad. or tlx 1mpoctiaa Homl: (Londres: T. subseqüentemente elaborada por juristas ingleses durante o período Tudor. The ling's Two Bodiu: A Study in MtdiG<VC1I Political Thtology (Prínccton: Princcton University Prcss. Douglas Scott (Londres: Routleclgc and Kcgan Paul. Ibid. 164. 1983). e Londres: Yale Unlvcrslty Press. Rituais anel l'owl:r: The Rmnan ImpaW Cult in Asia Minor (Cambridge: Cambridge University Press. "Creation and Development ofDernocratic lnstitutions in Andent Grcccc". 6. ICings and Charisma: Rcflections on the Symbolics of Powcr". 17. 1985). Estas estratégias foram bem documentadas por Mark Hertsgaard. Tht Stniciural Tnwformalion of tlx Public Sphtrr: Ali I~uiry iara a Cattf<>ry of BoulJllDIS Soci«y. flliot. 11. 16. 1990). Richard Sennett. p. 145-73. Granunar anel Fururr of Ideology (Londres: Macmillan. "Reconhecemos. l 70s. Cf. 237 . 1957). 12. p. trad.. Alan Sheridan (Harmondsworth: Penguin. Danocracy: Thc UnfmishtdJoumey. de cuja obra me servi aqui. nos quais o "Corpo natural" e o "Corpo político" eram fundidos na "mesma Pessoa". o rei era retratado como uma persona mixta que combinava elementos temporais e es- pirituais. wnbém Norberto Bobbio. "Ccntcrs. Pricc. Pua mais detalhes. p. The Fabri111ti1111 of Louis XIV. Panopticlla. Trad. The Faliricllillll of Louis XIV (New Haven. Conn. 5. [no rei) uma pusoa gânm. Botero e outros autores italianos do século XVI. Os primeiros escritos sobre a raison d'irat in- cluem obras de Machiavelli. 14. Bctwim Pmfit mi Slatt: Intmmliatt Orgmüatiom in Britain 111111 lhe UDital Slata (Dmbridge: Polity Press. 1984). J 5. a fusão de elementos mortais e divinos na pessoa do governante foi a característica chave do pensamento político medieval (cf. Critica semelhante se poderia fazer às obras de outros teóricos sociais cujas explicações do caráter mutável da vida pública convergem em alguns aspectos com a visão de Habermas. cd. l 9H). Cf. 508 BC to AD 1993 (Oxford: Oxford Univcrsity Press. p. 7. 19. ~ Sdling of lhe Pmidml..R. Cf. inglesa de Thomas Burger. especialmente cap. Como Kantorowicz mostrou. A construção da Imagem de Nixon na campanha de 1968 foi analisada j!Or Joe McGuinniss cm seu estudo. Polity Press. 1993). 1989) . e Thc FulllR of Danocrfl')'. a outra da graça . Cf.e.. á. 1994). p. The Dialoctic of Ideology and Technology: Tht Origins. Para uma discussio mais ampliada do papel da visão e da visibilidade na obra de Foucault. Por exemplo. Tlx Fall of Pu- blic Man (Cambridge: Cambridge University Press. David Lyon. "Power and Propaganda in the Spain of Philip IV". Petcr Burle. assim. p. Spin Contra~ Tlx Whitt Housr Offia: of Cammunimtiom and lhe MlllllfClllClll of PiaWtatial Nan (Chapei Hill: University ofNonh CaroUna Press. p. trad. cf. H. 8. Michel Foucault. 19. Paync. Richard BclWlly. Machiavdlilm: Tlx Doctrine of . Foucault. Rir. p.). 1989). Danocracy mi Dictatotthip. 1O. Ver.).F. nos panfletos de um anônimo normando es- critos cm torno do ano 1100. Tlx Futurr of Danocmq: A Ddma of lhe Ruks of tht Game. 1987). 79s. 1970). 1.. The Mode or Informati1111: Posutrucruralism and Social Cootat (Cambridge: Polity Press. 282s. Jürgen Habermas. 5 e 9. Cli!Tord Gcertz.-: Sydolism. especialmente p.

. se tomou msustenu.. p 59. 1991). o potencial de hipocrisia da situação era tal que sua posição. em Forms of Talk (Oxford: Blad. e ela graiou P-0-T-A. ainda na sua inf'ancia. Policies in Bricain and chc Unit<d Scaccs: Comparacivc Pcrspa:civcs (Durham.. 30. O comentá- rio provocou uma queda vertiginosa na venda de ovos e uma furiosa manifestação pública . Hertsgurd. 1981). ele não e>. icas que es asse pedidas • e Quayle recebeu • • · . Durante uma entrevista num noticiário televisivo. David Gergen. Este exemplo foi interessantemente discutido por Sarni• el L.C.). 'f] Ih " m . 1988). 173-222]. Th Rtasoning Vom· Communication and Pcrsuasion 25. "Sex.~ qu_e escrevesse · < To d .J. Herisgurd.s foram impetrados contra Currie pelos produtores de ovos. 17 de dezembro de 1988.an analisa algumas das fontes de problemas em conversas transmi ' d bl d" . também Manfred Schrnitz. como observa justamente King. lbid .. os que en- volvem dinheiro e os que envolvem poder ." Os membros do parti- do viram sua saída como uma inevitável conseqüência da gafe que havia devastado a avicultura e a indústria de ovos e ameaçava o governo com processos caros" (Guardian. 52. Embora os esô. P· 197-3 2 7. cf. N.í urna escassez de boa literatura críti~ sobre este assunto.os que envolvem sexo. 1). p. p. cf. Anthony King distingue com muita utilidade três tipos de escândalo . A gafe ortográfica de Quayle forneceu material para inúmeras piadas. caricaturas e comentanos de- preciativos e abasteceu o debate sobre a sua competência para ocupar o posto de vice-presidente. Mas em 3 de dezembro de 1988 ela fez um comentário que acabou provocando a sua queda. Erving Goffman.plora os mais ~mp os aspec o dos. · Th p r · 1 lmpact of Mass Media (Londres: Constable. l t s sociais e políticos os pro emas me 1a- têm principalmente nas falhas. 23. Cohn Seymour-Ure.nd. p 323. Poder-se-iam citar outros numerosos casos semelhantes ao de Parkinson. Edv. Th< Pofüics of Sanda!: Powa anel PrOCC« in Liberal Dcmocracics (New York: Holmes and Meier. Anthony King. 238 . que custaram a acreditar na história que acab~vam de testemunhar.vel. h. "mas você está esquecendo alguma coisa!" E ele deu uma dica à embaraçada criança. 2 9. P· 32. 27.21. Vejamos. Markovits e Mark Silverstein (eds. p. "Radio Talk". Esta revelação foi feita num período do governo Major em que ele perseguia um• política de "retorno aos valores fundamentais" e procurava enfatizar sobretudo os "va- lores ~radicionais da famílii'. no fim. Quayle pediu a uma das criança. A turma de alunos. P· 1-6.. Em junho de 1992. 22. O governo foi obrigado a gastar cerca de (40 milhões numa operação de salvamento que incluía a compra de enorme quan- tidade de ovos l. . Numerosos mandatos judicia. O estudo comparativo de escândalos políticos está.. On Bmdcd Kna. Complementando o importante artigo de King. por exemplo. Cf. On Bmdtil Kn«. Dan Quayle foi convidado a supervisionar uma competição de ortografia numa escola ~e- · di tinha si~o preparada com anteceden- mencar de Trenton.embora reconheça que estas três categorias podem vir muitas vezes sobrepostas [(cf. u eia para responder as poss1ve1s questoes ortogra.los sejam uma característica constante d. p.s custas do contribuinte. Deveria também ter presente urna diferenciação mais cuidadosa entre os vários tipos de es- cândalo.vell. e o mca 1974). Para mais discussão deste exernplo. que acrescentou ~m E fi- nal Risadas explodiram entre os repórteres ao fundo da sala.no qua ro-neg. Uma análise mais ponderada do escândalo deveria levar em consideração vários outros aspectos. 1981 ). 140. ·odas pela mídia mas suas análises se de- 24 GofTn. Money and Power". um membro do Partido Conservador e Ministro Adjunto do Meio Ambiente do governo de John Major.o. On Bcndtd Kna:. Em janeiro de 1994 ele foi forçado a renunciar logo depois que foi revelado por um tablóide londrino que ele en pai de uma criança nascida fora do matrimônio. diferenças entre sistemas políticos. New Jersey. 1986).J.incluindo duras críticas de seus próprios companheiros de go··erno. citado em Hertsgaard. a palavra mglesa pocato.: Duke University Press. e os interesses comerciais das organizações da mídia. incluindo varia- ções culturais nos códigos de comportamento. o caso de Tim Yeo.ina Currie tinha um costume de fazer observações mal-avisadas à mídia. ela disse que grande parte da produção de ovos do Reino Unido estava contaminada por salmonella."Esta' correto fonoucamente disse Quayle. 26. · .. Andrei S..). em Richard Hodder-Williams e James Ceaser (eds. Throric und Praxis da policischm Skandals (Frankfurt: Campus Verlag. Pop ki nem e · in Prcsidmcial Campaigns (Chicago: University of Chicago Press. com 12 anos em me a. Em 16 de dezembro ela foi forçada a pedir demissão. Embora muitos membros do governo tenham apoiado Yeo publicamente quando as nouaas do aff~ir vazaram inicialmente. vida política contemporânea. 28. um maço de cartas nas quais algumas palavras já escavam corretamente escritas. 31.

Para mais detalhes das estruturas institucionais de transmissão. 1989). 14. 7. Calif. Cf. 2. 1981 ). 12-1 S. Reports and Papers on Mass Communication. Mtdia Moguls. [Cf. Mass Media anel Socicly (Londres: Edward Arnold. p.. 1991 ). 130. nenhum no Terceiro Mundo. cap. Em 1989. Tht G<0politics o[ lnlonnation: How West<m Culturc Dominai<! th< World (Londres: Faber. 55% vinham das aplicações financeiras no mercado. Media Moguls. Anthony Smith. Calif. Mass. Bagdikian. Kaarle Nordenstreng and Tapio Varis. Headrick. 76-8. McPhail. acima. Thc Tools of Empir<: Technology and Europcan lmperialism in thc Ninet«nth Cenrury (Oxford: Oxford Uni- versity Press. 1977). 5. cap. Cf. Preben Sepstrup. cf. Papatha- nassopoulos. cf. 8% de mercadorias e 11 % de serviços aos clientes. p. 1980). 2' ed. Daniel R. Numero. Thc Tools oi Empirc. 1992). Thomas L. 1951). 11-14. 56). Ekctronic Colonialism. p. Roland Robertson. !Wph Negrinc e S. 10-22. 7.lllstall. p. Peter Dicken. 1986). ldt0logy and Moclan Culrurc. Um recente relatório da UNESCO sobre as comunicações no mundo mostrou que. cap. Para mais detalhes do debate da NWICO e do papel da UNESCO. 4' ed. Thc Agt of Bdxmolhs: Thc Globalization of Mass Media Finns (New York: Priority Press. Thc Mtdia Mooopaly. Global Sl:ift: Thc lntemationalization of Economic Activity. Jeremy Tunstall e Michael Palmer. Em 1963. Cf. Anthony Smith. 12. 1S. Oliver Boyd-Barrett. 1990). 1979). 1986). Tunstall e Palmer. 25 na Europa.. vol. 104-S. John B. (Londres: Paul Chapman. Cf. cf. Graham Store)'. The lnttroationalization of Tdcvision (Londres: Pinter. a mídia respondia por apenas 7% da receita. p. Ekctronic Colonialism: The Fu- turc oi lnt<roationaJ Broadcasting and Communication. Firui. cf. 100 (Paris: UNESCO. cf. Sobre o desenvolvimento de novas agências e ouiros mecanismos do intercâmbio de informação nos países do Ter- ceiro Mundo.Os outros estudos foram realizados. Globalization: Social Theory and Global Cultur< (Londres and Ncwbury Park. 70 (Paris: UNESCO.Cap. 39 estavam sediados nos Estados Unidos. 239 . cf. por exemplo. McPhail. 1974). das quais 82. Oliver Boyd-Barrett e Daya Kishan Thussu. Rcports and Papers on Mass Communication.: Sage. 1993). 9. especialmente p. World CommUDication Rqion (Paris: UNESCO. p. Bernard S. n.5% vinham do exterior (cf. TIGDSDGtionalim!ion of Tdtvision in Eumpc (Londres: John Libbey. (Newbury Park. EDtre os primeiros estudos importantes e influentes estavam as pesquisas patrocinadas pela UNESCO realizadas por Nordenstreng e Varis entre 1971-3 e por Varis em 1983. 8 no Ja- pão e 1 na Austrália. 13. p. Thc Gcopolitics of lnfonnation. Cf.5 (Sept. Thc Moclan World-Sys1e111 I: Capitalill Agriculturc and the Origins of the Europcan World-Economy incite Sext«ntb Cauury (New York: Academic Press. p. 19% dos contratos de seguros. Submarinc Tdcgraphy: Thc Grand Victorian Technology (Margate: Thanet Press.ision Prugnunmes. Headrick. 2' ed. "The Management ofthe Spectrurn''. O crescimento e a diversificação da Reuters nos anos 70 e 80 foi particularmente acentuado. 14. Michael Mann. Thompson. Immanuel Wallerstein. Em 1990 a receita total da Reuters tinha alcançado a cifra de 1 bilhão e 369 milhões de li- bras esterlinas. 1992). 1992). 1: A History of Power from the Beginning to AD 1760 (Cambridge: Cambridge University Press. 1. acima. 4. 1987). n. Thc Media Amcrimn: Anglo-Ameriam Media in th< World (Londres: Constable. 8. em James Curran e Michael Gurevitch (eds. 11. 6. lnterMedia. 5: A globalização da comunicação 1. Smith. Raitcrs' üntuty 1851-1951 (Londres: Max Parrish. 1973). 1990).). Cf. dos 78 maiores conglomerados classificados de acordo com a rotatividade da núdia. (Boston: Beacon Press. Communications and tht "Thinl World" (Londres: Routledge. Howkins. Para explicações mais detalhadas do desenvolvimento das grandes novas agências. 1974). 3. 1992). Contra-Flow in Global Ncws: lntcmational and Rtgional Ncws Ex- changc Mechanisms (Londres: John Libbey. Ben H. 183-92. Cf. 11. lntcroational Flow of Td. "The Global and the Local in the Inter- national Communications". Para um resumo dos diferentes usos. 78-9. John Howkins. Jererny Tl. Geoffrey Reeves. AIUlabelle Sreberny-Mohammadi. S. "The Management of the Spectrum'". Tapio Varis. Tdtvision Tralf1C -A Ont-Way Strr<t? A Survcy and Analysis oi thc ln!mlCltional Flow of Tdcvision Progrwnm< Mamial. 1977).: Harvard Universiiy Press. especialmente cap. ª" Pan discussões úteis sobre a literatura peninente. dois terços da receita de 3 bilhões de libras vinham das assinaturas de clientes da mídia.] 16. Thc lnt<mational Ntw< Agencies (Londres: Constable. The Sources o[ Social Powu.: Sage. Elihu Katz e George Wedell. 1O. 1991). 1980). Broadcasting in the Thinl World: Promist and Pafonnances (Cambridge.

. por exemplo. cap. á. 197 5). Oliver Boyd-Barrett. Cf. 102-9. 116-35. cf. 39. Cwtura in Conflict: E11an11tm B<lwcai Eurvpam and Non-Europam Cukurcs. p. Katz and Wedell. TbcPoliticsand Tcd111ologyofSatdli1<Communications (I. Cf. Cf. Hamelink. p. Schiller {eds. Cf. cap. 24. 1992)... 34 {1984). 2' ed.Y. "A Quarter-Century Retrospective". James Fawcett. Pua uma obra com a mesma inspiração. 21. Cf. 134-8. 114 {1985). 1979). Michael Tracey. p. 32. Tunsta. 30. Par• uma perceptiva explicação das diferentes formas de encontra cultural e de conflitos associ•dos à expansão européia. Mattelut. 24 (1974). p. Impcrialist Idmlogy in thc Disncy Comi< (New York: International General Editions. cap. "The 'World of the News' Study: Pseudo Debate". Comentários úteis são: Tunstall. Communication and Cultural Domination {White Plains.: Westview Press..ui F. por exemplo. 1972).. 20. 22. Srebemy-Mohamrnadi. 1-43. 1972). 109. Schiller. p. Communications and tht "Third World". lbid . 35. 2. Cf. Mcm Communications and Amaican Empirc (New York: Augustus M. Annabelle Srebemy-Mohmunadi. Jonath. 316. Schiller. "Global Traffic in Television". Kelley... Dacdalus. 18. Progl'Qllllll(S. 34.F. cf. por exemplo. Schiller. 33. A. 1492-1800. HeOlth. Joumal of Communications. Abram Chayes.uidre-Charles Kiss et ai. 3.: Ablex. onde Schiller reflete so- bre a relevância da obra nas condições globais mudadas deste já bem avançado século XX. Masami !to.J Comrnunications". também Tapio Vrns. 1976).. Jbid .itchie Robenson (Cunbridge: Polity Press. p.. tr•d. Schiller. Cultural Impcriolism: A Criticul Introduction {Londres: Pinter. John Tomlinson. Uma segunda edição deste livro apueceu em 1992 com um novo e substancial capítulo. Global Shift. cap. 17-55. mas tal distinção não me interessa aqui. p. National Sovcmgnty and Intanational Communicati.: lnternational Aru and Sciences Press. Cf. 29. Joumal of Communications. p. 4. 27. 23. p. Mcm Cammunicotion anel Am<rican Empirc {1969).J.: D. "A Quaner- Century Retrospective". Há uma literatura crítica muito abundante. Pan mais detalhes históricos e técnicos das comunicações satelitizadas. Dicken. Stevenson. Pictur< Tubc Impaialism? Thc Impact of US Tdcvision on Latia Amcrica {New York: Orbis. 1988). 1. Schiller. Satdlit< Broadcasting (Londres: Oxford University Press. Cees J. Alguns estudiosos ugumentanm que a influência das novas agências ocidentais tinha sido exagerada.llo- way. 1994). P= um resumo conciso dos debates teóricos. Joumal of Communicutions. "Media Imperialism: Towards an International Frame- work for the Analysis of Media Systerns". How to Rmd Donald Duck. Kaarle Nordenstreng e Herbert 1. Herbert 1. Alex. cf. Urs Bitterli. especiilinente cap. Janet Wasko. Hollywood in tht Infonnation Age: B<yond thc Silvcr Smm (Cambridge: Polity Press. em Mass Communicatiom and Amaican Empirc. Mcm Communication and Socitty (Londres: Edwud Arnold. 1989). Sepstrup.. Cultural Autonomy in Global Communicatinns: Planning National Information Policy {Londres: Centre for the Study of Communi- cation and Culture. á. Sepstrup. Tdmsi'"' Traffic -A Onc-Way Stmt'. 1991 ). cf. 1969).. 19.11. Robert L.17. Vrns. 31. (Norwood. 25. 119-22. 121-34. Dorfm. 1977). Colo. (Boulder.uid Vrns. 1973). R. cap.exington. P= a discussão de algumas questões implicadas no estudo dos padrões de consumo em relação à globalização da comwticação. "The Global and the local in Internatio- n. Costuma-se fazer uma distinção entre "imperialismo cultural" e "imperialismo da mídia". especiilinente Herbert 1.) 26. Cf. Intanational Flow of Tdmsi. "The 'World of the News' Stu- dy: Results of International CooperOltion". 2. Reeves. 4. 240 . N.ui e A. p. Broadcnsting in tht Tbird World. em James Curran.I Television and the !deOl of Dorninance". N. Wells.). 28.C. p. TrarunatiODG!ization of Tdcvision in WCll<m Europc. Mass. Esta reconstrução do ugumento de Schiller baseia-se na edição original de 1969 de M<W Communicotions ond Amcricon Empirc. A. Thc Media are Amcrican. 34 ( 1984). (Cf.). Nordenst:i=g . Trunsfo1T11C1tion of Tdcvision in Europc. 57-9. "The Poisoned Chalice? lnternationa. Tbc MaliamAmcricun. Ga. Michael Gurevitch e Janet Woollacott (eds. cf.

Sallll Mü. 24-5. 37. &sr (Glencoc. p. 405. Thc Passing of Traditianal Socicry. John Macquarrie e Edward Robinson (Oxford: Blackwell. p. especialmen1e Max Weber. Mm MG!ia and Naliaaal Dcvdopmml (Stanford. cf. ver wnbém Serge Gruzinski. Risk Sociely: Towards a Ncw Modcmiry. Tlar Conquest of Maico: Tlar Westanillltiaa of lnd.: Stanford University Press. Cf. 1O. trad. Cf.-. 1978). 23. Rdlain Modcmimtion: Poliria. 1530-1570. 9. Big R<l'olutiaa: Communicatiaa.do ibid. Casseues and Technologies of Public Cul1ure". 7-11. Ulrich Beck. Small MG!ia. muitas das maneiras "tradicionais" de pensar. Cf. Ibid. 40. Hans-Georg Gadarner. 1991). p. trad.. uad. 39.que exprime. (Cambridge: Polity Press. Cf. Trudirion. li. Boyer. Tradirion aod Aesdxtia iD rh< Mo- dan Social Ordcr (Cambridge: Poliry Press.. Cf. 2• ed. Tamar üebes e Elihu Katz. 1991). vol. Thc Passing of Tradirional Socicry: Modanizillt thc Mid. 1977). cf. Cf. 1994). atado ibid . p. 8. em Sd«lid Worb iD Onc Volume (Londres: Lawrence and Wishart.U. 1. 4. Edward Shils. cf. uad. 1993). "The Global and lhe Local in In1ernational Communications". Th< Éxpon oi Mmning: Crou-Culwnd Raiding oi ªDallasª.: Sage. 186-8. 45-64. especialmenle p. "Bedouins. 1993). ed. China Tumal On: Tdmsiaa. 5.• p. Eileen Corrigan (Cambridge: Polity Press. 1964). 235-H. cspccialmenie p. p. aia. 1990).. 1975). Sreberny-Mohamrnadi. 130-4. Cf. Talcou Parsons (Londres: Unwin.arc Modan Age (Cambridge: Poliry Press. 171. Thc Past in Ruins: Tradition and thc Critiqut of Modaniry (Amhersl: Universi1y of MassachusetlS Press. Cf. Tlar Vuiaa ol iht V1111quisheol: Tlar Spanish Conqucst ol Pau Through lndi1111 Eyes. Ben e Sian Reynolds (Hassocks. 1994). Middlt East Rtpon. Lemer. Tniclilion as Truth aod Cammunication (Cambridge: Cambridge University Press. cspc- ciahnente seções 31-3. A mais imponanle exceção é provavelmente a obra de Shils. 41. Jdmlogy and Modan Culwrc. lbid . por exemplo. Shils. Modcmity aod Sdf-ldmriry: Sdf aod Socicry iD thc I. Uma obra mais recen1e . Karl Marx and Frederick Engels. p. 7. p. Ali Tha1 is Solid Mdt nto Air: Thc &pc- rimcc of Modaniry (Londres: Verso. 1962). Bi9 Rmtluliaa: Oimnumdiao. 1994). Economy aod Socicry: AD Oudinc of lnrapmivc Sociology. Marshall Berman. Clllbm mi 1. Ca- lif. Tradition (Londres: Faber and Faber. 1 1. a noção de uadição foi muilo discutida enue antropólogos. 38. Annabelle Sreberny-Mohammadi e Ali Mohammadi. Anthony Giddens e Sco11 Lasb. 1981 ). 105 e 291.3 6. 38.4 ( 1989). Cf. Cf. Thc Protcst11111 Ethic aod Thc Spiri1 of Copitalism. Annabelle Sreberny-Mohammadi e Ali Mohammadi. 1958).é David Gross. É claro. especialmente Ulrich Beck. P. Bcing aod Time. 46. TMh aod Mtthod (Londres: Shced and Ward.: Free Press. 6: A nova ancoragan da ttadifáo 1. Maoifeslll of thc Communist Pany. 1rad. 12. Cf. Rd'orm aod Resisllulct (Londres: Routledge. sobre a 1ra- dição . llc- volution (Minneapolis: University ofMinnesota Press. 42. p. Para uma elaboração des1e lema. 6. p.i1111 Societics from r. 159 . Tomlinson. An1hony Giddens. Guenther Rolh e Claus Wiuich (Berke- ley: Universi1y ofCalifornia Press. para um exemplo recente. Cap. 1982).ht Sixlomth 10 Ih< Eip- rcmth Cmtury. 47. Manin Heidegger. con1udo. +1-. 43. 212s. Sussex: Harvester Press. 3. 1930). cf. Calif. 1992). Cf. 1992). 241 . Mark Riuer (Londres and Newbury Park. 1H-5. p. 1968). 1994). Daniel Lemer. Thompson. Cukurc aod r. 2..ht lruiaa R<l'olulion (Minneapolis: University ofMinnesota Press. p.. 180-3. Ver 1ambém o es1udo de Daniel Miller sobre o significado das novelas em TrilÚdad em Modcmiry-An Edmo- graphic Approach: Duolism lllJd Mass Coaswnption iD Trinidad (Oxford: Berg. James Lull. Culwnd lmpcrialism. 247-53. üla Abu-Lughod. 45. Max Weber. o es1udo clássico de Na1han Wach1el sobre a conquista do Peru. p. Wilbur Schramm. Para um aprofundarnenlo.

295-31 O.. Clifford Geertz..a wm v<rsio mais recente deste argumento. 1990). S. Don Ihde (Evanston.s. Culrurc anal Hegmiony: From rhc Mcdio to Malioiioos. cap. 1994). 1949).. 1970).•-oi'"·'· .. Ili. Reith.-ooti.: Nonhwestem Universi- 1y Press. S·James Lull.).no TWDlll Oa: Tdtrisioo. 1992). 7 Ss. Cf &ic Hobsbawm e Tcrma: Rmger (eds. especialmente P•ul Ricoeuz. A ênfase nas condições sociais da prática é importante. Thc Past i. Global Cultor<: Notionolllm. especi.. também Arjun Appadurai. "Technology and Tradition: Audio-Visual Culture among South Asian Families in West l. em Amhony D. etc.-or-Roper. ed. . 1983). Gross. 6. ap.: Harvard University Prcss. Culturc. Cf.o Hamcncutics. •-~oi . 19-39. lbid. Os contornos deste implícito conjunto de conceitos. Cf. Citado em Gillespie. Local Koowlalgc: Funha Essays io illtaprctivc Ao1hropology (New York: &sic Boolr. contudo. "'·-·~ . Servi-me wnbém de outros escritos de Ricoeuz. cf. 1983). 1981 ). entre outros.F. Surpreendentemente.. 236-66. p. 117. Richard Nice (Cambridge: Policy Press.'"' · . ind. 17. 238. Hugb Tre.. Stuart Hall. P· 1 S-41. em Mike Featherstone (ed.o Ruias. Gilles l:e . Kathleen Blamey (Chicago: University of Chicago Press.W. Glol>alizotion mi Moclaniry (Londres and Newbury. O cazáter rdlexivo da pessoalidade é muito bem explorado por Anthony Giddens. 1992) 2 · Este ponto é enfatizado e bem documentado por Bourdieu. pd r•. e trad. cf. John B. 52s]. Communicatioo. Alan Braley (úmbridze· Polity Prcss.Cbrislillli"' mi judaiim i.lmente M8'aniry mi Aml11valma (Cambndge. tbid . Marie Gillespie. p.. cap. p. clcs indi. Dertis Savage (New Haven and Londres: Yale University Press. 19. 14 . especialmente Pierre Bouz- dieu. e Oocscif as Anotha. Elizabeth Fox e Robert A.. "The Question of the Subject: The Challenge of Serniology". 1820-1977". Cap. 3 (1989). Cf. Old and New Eihnicities".... David Chaney. trad. Gross nio se refere à obra de Hobsbawm sobre a invenção da tradição. D. 22. ktioo ond illcapr<14tioo. Nóstor Gará• Candini.ondres and Newbury Park. 21. Por. MalM ~ Tb< ürc Bmodcmtint of History (Cambridge. p.ocal and the Global: Globaliza- tion and Ethniciiy" e "Old and New ldentities.'Ídüos são estruturadas pelas diferences condições sociais sob as quais elas sio •dquiridas [ cf. Communianion. ed. Pohty Prcss. Calif. 13. 1991). wnbém Daniel Dayan e Elihu Katz. 11111 Modem Culruzc Criticai Social Tbcory in thr Eni of Mass Conunuaia11i111 (Cambridge: Polity 242 . ibid. 1994). 1. p. White (I. ·1 ind.. "The I. especialmente p. p. 4. Jesus Martin-Barbero. 1993). Cf. 41-68.. Mass.: Sage. 1989). "Disjuncture and Difference in the Global Cultural Economy". Malia.C. Perfonnmce anel Meaning of Ritu. p.: Grijalbo. l 70s. John B.). 1990). Malio. "The Context.). tnd. Press.. Tb< lawmtiaaoiTraditiClll (Cambridge: Cambridge Uni»=ity Prcss. 1991 ). Pua wm discussio sobre a coroação como um meio ritual. Thc Logic of Practicc. Kathleen Mruughlin. p. Cultunml Society.o tht Modan Worlol. Calif.. Modcrniry mi Sdf-ldaniry: Sdf OJld Society ui thr La!< Modem AfC (Cambridge: Polity Press. 1s. !. cf. Cultmal Studi<s. 9. ibid. S (1983). p.. Chi. "alorcs e cren<. 101-64. Andrew Boyle. 20. de perceber. 4.. Culruras híbridas: Estmtcgias para mirar y salir de la modanidod (Mexico.-amente} por Zygmunt &umm entre outros. 1974).. illto tlx Wml (Londres: Hodder and Stoughton.. Hmnmcutics and ih< HWllClll Scimca: Essays oo l.n fonrn m>pudos perceptinmence (e pro- . wnbém J. "The Jnvention of Tndition: Tbe Highland Tmlition ofScotland".l: Tbe British ~o~chy and lhe 'Jnvention of Tndition'. 1972). p. "Technology and Tndition". cf. 1991 ). nus wnbém é importame conceituar estas condições de maneira que enziqueçam e não debilitem • noção de self como um projeto criativo e construtivo... 23. King (ed. Culrurc: AGloklApproach (Cambridge: Polity Prcss. "A Symbolic Mirrar of Ourselves: Chie Ritual in Mm Sociery".aoguagc. cf. incluindo Freud anJ Philosophy: Ao Essay oo lo1trprmtion. Ráorm mi RtsislCncr (Londres: Routledge..e: Macrnillan. Cf. O tema central da teoria da pritica de Bourdieu é que as disposições (ou "hibitos") que modelam as maneiras de agir. 119-35. Only tb< Wml Wil Listm: R<ith of thr BBC (Londres: Hutchinson. 7: O ai t apaiiaáa num mwido maliado J.: Sage. 12 Cf.- •-'-. 1991). 18. Globa- lizatioo""" thr World-Syncm (Basingstolr. James Lull. em Thc Cooflict of illcaprctotioos: Essays i. p.. 16.on- don". cf. Thompson. 226-39. . 142. 1990). Thompson (Cambridge: Cambridge University Press. 3. trad. Duid únrudine.. cap. trad. e.

Este desenvolvimento foi muito bem analisado por Foucault e outros. 182-229. especialmente cap. 5-8. Wilhelm Dilthey.carninh~o de 48 ~os de idade que vivia cm Macclesfield.. Cf. Cf. Cf. p. 19 71). Pcrsonal lnfl11<11Cc: Thc Part Playal by Pmpl< in tht Flow of Mass Communication (Glencoe. Richard M. e trad. Psychiatry. Thc Adoring Audicna: Fan Cultur< and Popular Mrdia (Londres and New York: Routledge. por exemplo. "Depth Henneneutics and the Analysis of Symbolic Fonns". Sociology. Bernard e Caroline Schutze. ele não consegue mais refletir no espelho a pró- pria imagem. Richard E. 21.ele descre. 1983). 1750-1850 (Londres: Macmillan. 107-11.que as mensagens da ffildia sao comu- mente filtradas pelos indivíduos que agem como uma fonte de conselho experiente para outros . A análise da experiência em termos de estruturas de relevância foi desenvolvida por Husserl and Schutz. Zaner (New Haven.'tion~dos. l!. 1991).7. Tht Constqumcc:s of Modtmity (Cambridge: Polity Prcss.. Jenkins.. cf. Donald Horton and R.~ e uccn •1. p. entre ou- tros._ d c bre B' . Gra~_m Bamford era um motorista ~e. 14. Frederic Jameson. Richard Wohl. incapaz de produzir os ~mites do próprio ser.ara os omuns so_ a osru~. p. 243 . uma pura absorção numa superficie de reabsorção para as influentes redes de comurucaçao . Esta é uma das muitas histórias registradas por Fred e Judy Vennorel em Starlust: Thc Sccm Lif< of Fans (Londres: W. (Londres: Heinemann.atz e Paul F. ~atual Poachcrs. 1955). Thompson.P. trad. Elihu K. lbid.retém alguma relevância ainda hoje. p.storical and Compararivc Emiys (Oxford: Blackwell. trad.. O estudo é um pouco antigo e há muitos aspectos da análise que podem ser que. 1988).. 10. H<ickggcrand Gadama (Evanston. Risk Soei<!)': Towardsa Ncw Modcmity. Srarlust.. "G ah • enqumto se e ana na .) 23. Zaner e H. Anthony Giddens. um• tela de pro1eçao. 20. 27. Stanley Cohen e Andrew Scull (eds. Tinha visto pela televisao repomgens sobre a guem cvil na anuga lugoslavia e • de acordo com 0 seu pai' . 19 (1956). 1990). Citado em Vermorel e Vermorel. Michael lgatieff. 1976).. 1992). Ver também Hans-Georg Gadamer. Passando de uma cena para outra. 13. 1974). p. especialmente Alfred Schutz. 184s e 210s. 12.. trad. Allen. Tristram Engelhardt Jr. 1. 6: e John B. 1970). Cf. Truth anel Mcthod.. 1978). Ver também as várias contribuições em Usa A. Ulrich Riuer. p. Para uma perceptiva análise deste paradoxo. Textual Poachcrs: Tdcvision Fans and Participatory Cultur< (Londres and New York: Rou- tledge. Oean Baudnllard. cap. Thr Ear"'J' of Communication. Lewis (Ed.. sem 0 menor obstáculo. cf. Radway. cf. 9. especialmente Michel Foucault.. Cf. Clifford Geertz. 11. no dia 29 de abril de 1993 d b · . Logo depois das 4 da tarde..: Northwestem University Press.ve como uma nova forma de esquizofrenia: "Apesar de si mes- mo o esqmzofreruco e aberro a mdo e vive na mais extrema confusão . p 24. 25 (1991). 18. David Rothman. p. uma fase que . Rickman (Cambridge: Cambridge University Press. s. Hmnmrutics: lntCl)lrttations Thmry in Schlcicnnachcr. 1991). A Jusr Mcasurc of Pain: Thc Pmitmriary in rhc Industrial Rcvolurion. 16. lbid. 15. 215-29. por exemplo. ti n h a fi1cado " mwto . Brown. cap. Jean Baudrillard é talvez o mais conhecido proponente desta visão. 1985). e Alfred Schutz e Thomas Luckmann. p. 1973).. Palmer. Sdrctcd Writings. Mas a idéia central de seu modelo de dois tempos no fluxo de comunicação . banhou-se de gasolina e nscou um fosforo. H. 22.). 11-12.. r am caminhou calmamente para 05 jardins da praça do Parla- mento. p. 5. Rdlcctions on rhc Problcm of Rtlcvanct. 55-63.: Free Press.: Yale University Press. 1992). Dilthcy. 1969). ed. Richard M. 1984). 197 7). p.). Alan Sheridan (Harmondsworth: Penguin. Ili. 449. Parriarchy and Popular Limatur< {Chapei Hill: University ofNorth Ca- rolina Press.. per- bad fi tur o ao ver o ilme do massacre de Vitez".oc-. Conn. Thc Structurc:s of tht Lifc World. 106. 27s: Zygmunt Bauman. p. Discipline and Punish: Thc Binh of thc Prison. Levado imediatamente para 0 Hosp·i l d Q 1a u. p. Janice A. Lazarsfeld. ill.. H. ed.. Para mais detalhes das práticas transformativas dos fãs do Srar Trtk. Sylvi:re Lotringer (New York: Semiotext(e). Mo- drmity and Ambivalmct (Cambridge: Polity Press.. Rmding th< RolllClllC<: Womm. 199s. Postmodcmism-Thc Cultural Logic of Larc Capiralism (Londres: Verso. Thc ln!CIJIRl•tion of Cul!uRS (New York: Basic Books.. cf. 19. Toma~•~. Thc Discovcry of rhc Asylum: Social Ordu and Disordcr in thc Ntw Rq>ublic {Boston: Llttle. J 7. Social Conrrol and thc Slarc: Hi. 395-401. Segundo ele. ed.. "Mass Communication and Para-Social lnteraction: Observations on lnti- macyat a Distance". es e- cialmente cap. Cf. hoje nós entramos em uma nova fase da história ~o suj~ito. Henry Jcnkins.

a Martin Jacques. p. 0 clei1orado pode falar livremenle com os candida1os e figuras políticas. John B. Cf. 1991). p. Poliria and Ih< Mm Mtdia in Brilllin (Londres: Routledge. Pcrot prevê uma situação no futuro próximo em que. em George Boyce.n Guanlian. cap..: Harvard University Press. James Curran e Jean Sea1on. 1993).i. Acton (Londres: Dent. 1978). por exemplo. John Dunn. Cap. cm David Hcld (cd. (Londres: Routledge.lis- w" em ccrlO sentido.). Guardiaa. 10. repor- u. 152). 1983). 27). Keane defende "um modelo reorganizado de serviço público de comunicação" que "implica o desenvolvimenlo de uma sociedade civil cosmopoliu.1. 13-52. em vir1ude da mídia interativa. p. 197-235. 508 BC IO AD 1993 (Oxford: Oxford Univcrsity Press. 3. John Stuan MiU. cm U!ilirorianüm. 11. em Essays on Govmunall. cntrevisu. 1978). "sem precisar sair de casa. 8: A rcinvmpio ü pulllicidadc 1. Jurisprudcnc<. Cf. the Nation-Stale and the Global System". sustento que vem crescendo nesles últimos anos uma "cultura de dependência'" en1re as organizações da mídia na lngla1erra e o governo..defendida por um número de críticos da mídia em anos recentes . no sentido de que elas precisam de permanente apoio político e.). On Libeny and Comidmrions on &pr<- ""lltiw: GoY<nu. todos podem rnanlfesw os próprios pon1os de visto. Thompson. 261-2. basu. ldailogyand Mod<m Culiurc CrilicalSocial Thmry iD Ih< Eraof Mm Communico1ion. se forem "pós-capiu. "Conclusion". Modds of Dcmocracy (Cambridge: Polity Press. não resistiu aos ferimentos e morreu. 8.). James Curran e Pauline Wingate (eds. 9. 1993). por exemplo. O principal problema com esie tipo de argumenio é que ele pressupõe uma oposição muito forte enire pluralismo e produção/intercâmbio de mercadorias. Libeny of ih< Pnss and Low of No- IÍlllS (New Yo~lt: Kelly. 4. p. llhiel de Sola Pool. 7: Jcremy Tuns1all.ria de distinguir o prinápio do pluralismo regulado da visão . É importanle enfaliur que o esiado pode in1erferir nas organizações da mídia não somente a1ravés de formas aber- ras de censura e conirole.. Thc Mtdia in Bri1oin (Londres: Consu.que posiula que a esfera pública hoje s6 poderá ser reconstituída airavés do máximo de "descomcrcialização" dos meios de comunicação.). Cf. Numa das folhas do panfleto Graham deixara escrito que ele pensava que a Inglaterra dev=a ter feito muito mais do que simplesmente assistir como sentinela . Greg Dyke. 130-48. mas não se segue daí que as organizações da mídia s6 poderão contribuir para uma "cultura gcnuinamenie pluralisra". 0: cspecialmcnie David Hcld.ble. e publica- menie auto-sus1en1ada. Por isso. 27 de agosto de 1994. "On Llbctty". considerar a atenção despertada pela sugestão de Ross Pcrot de criar uma "câmara mu- nicipal cleirõnica". Cf. 1983). Serviços públicos da mídia requerem uma sociedade civil pós-capilalisra garantida por instituições democráticas de governo" (p. precisamen1e porque não é donúnada pelos interesses de produ- ção e intercimbio de mercadorias. 1989). u. tragédia dos Bálcãs" (GuanliaD. A esle respeito. Cf. 1967). 4. O cultivo do plu- ralismo pode requerer uma regulameniação das indústrias da mídia em vários níveis. 2. p. ex-chefe do Londres Weekend Television.). Cf.. in Danoaacy. "On Llbctty". Eas1.mbém fi- nanceiro para a própria sobrevivência (Greg Dyke.do e. David Hcld (ed. Cf. p. H. 248s. e "Democracy: From City-sta- tes IO a Cosmopolitan Ordcr?". P1111p1tU for Danom- cy. bunpton. 1914-76". O prinápio do pluralismo regulado opõe-se ao enfoque daqueles que pos1ulam um mercado livre e "desregulado" para as indústrias da informação e da comunicação. Dcmocraql: Tlx Unflllishaljoonxy. Ralph Negrine. 7. John Dunn (ed. Trchnologics of Fr<tdom (Cambridge. Poli1icll Thtory Todoy (Cambridge: Polity Press. 7. "The S1r11c1ure.ble. Graham Murdock e Petcr Golding. p. 25 de outubro de 1993). 4• cd. por John Keane em Thc Malia and ll<mocl'llC)' (Cambridge: Poliry Press.B. muiras vezes. 6.ecture ai the Edinburgh Tclevision Festival. John Stuart Mil!. Prosp<m of ll<mocllKJI: Nonh. Este ponto é muito bem defendido por David Hcld. "Llberty of the Press". e os dirigentes oficiais podem sabe< litcralmen1e 0 que 0 povo está pensando" (Ross Pcrot. especialmente cap. MacTaggert l. Os policiais descobriram depois nos jardins um opúsculo em al~­ mio sobre Sarajevo. W<S! (Cambridge: Polity Press. 150. "Democracy. genuinamente pluralisu. 12 de maio de 1993). Para se ter uma idéia de como a conversação em !eiras grandes continua a exercer forre atração na imaginação polí- tica contemporânea. 1991). Mass. em David Hcld (cd. Sou1h.. cd. gosu. Nmspapcr His!Dry frum 1hc Scva11ca11h Cm1ury rolhe Prcscn1 Day (Londres: Consu. Ownership and Control ofthe Prcss. 244 . é a visão desenvolvida. 1991). 1972). especialmente James Mill. cap. Powa Wilhou1 Raponsibiliry: Thc Prr:ss and Broadaisring in Briloin. mas de ouiras maneiras mais sutis. Esu. 5.

13. Thc Trarufonnation of lntimacy: S. servir à democracia em estados nacionais de g1•nde escala" (p. 16. 74-92. Seyla Benhabib. H. e ed. Para uma análise mais recente com alguma afmidade com a de Weber. 33. Mark Riuer e Jane Wiebel (Cambridge: Polity Press. p. 1991). trad. 1922). Cf. Thc Good Poliry: Normati•c Anal)'Sis of thc Statc (Oxford: Blackwell. Fishkin. the Nation-State and the Global System" e "Democracy: From City-states to a Cosmopoli- tan Order?" 15. i parte os problemas de presumir que as deliberações de amostragens estatisticamente representativas possam subs- tituir as deliberações do todo. ed. Political Thmry. Cf. É o processo pelo qual a vontade de cada um é formada que confere legitimidade ao seu resul- tado. Anthony Giddens. em Peter Lasleu (ed. Thompson. cspccialmento p. Wright Mills (Londres: Routledge and Kegan Paul. "The face to Face Society". representam as deli- berações do todo" (Dcmocracy and Dclibcrotion. 15 (1987). especialmente p. Politia and Political Scicncc (Cambridge: Cambridge University Press. Peter Lasleu. p. David Miller. 19. vol. p. J984). cf. Ele propõe o desenvolvimento de "pleitos de opiniões deliberativas". 157-84. por que se deve insistir. 1989). 196-244. há que se ter uma certa reserva com relação à inteligente e inovativa proposta de reforma demo- crática de James Fishkin. p.). Benhabib. Mas. 338-68.H. p. p. Dryzek. A idéia de democracia deliberativa foi discutida por um bom número de autores em anos recentes. 1990)..is do que a soma das vontades já fonnadas" ("On Legitimacy md Political Delibention". trad. Philosophy. 1 (1994). A este respeito. trad. 1: Rtnilla mi lhe Ralionllizatiall of Society. Cf. Cf. Thc Thmry of Communicativt. John Stuart Mill. 1987). Politics and Society (Oxford: Black- well. trad.ollc and Eroticism ia Modem Socictics (Cambridge: Polity Press. 30). em Alm Hamlin e Philip Pettit (eds. Joshua Cohen. H.Ualiry.. em From Mu Weber: Essays in Sociolo- gy. Manin. Thc Structural Tronsformati111 of thc Public Sphcrc: An 1-.: Sage. p. Bernard Manin expressa este ponto muito bem: "uma decisão legítima mo representa a voataclc de todos. Calif. "Discourse Ethics: Notes on a Programa of Philosophical Jus- 245 . trad. especialmente Jürgen Habermas. 17-34. "Democracy. por exem- plo. Tdcdcmocrocy: Can Tcchnology Prot«t llanGcrocy? (Ncwbury Park. p. 1948).is das novas tecnologias de co- municação para a reforma democrática. Cf. James S. cf. Polity Press. Consrdlatioas. 26-52. Prospccts for Danocracy. especialmente Max Weber. 77-128. John S. 359. "Na ausência de uma possibilidade realística de funcionamento das as- sembléias de cidadãos. Bernard Manin. 22.). Como Joshua Cohen justamente observa. Jiirgen Habermas. "On Legitimacy md Political Deliberation". Os pleitos procurariam criar uma forma direta e participativa de democracia entre grupos de participantes que. 171-202. 217 -18. por exemplo. em Lansuas• anel Symbolic Powcr. Gino Raymond e Matthcw Adamson (Cambridge: Polity Prcss. Cf. Cf. Tho- mas Burger com a assistênda de Frederick Lawrence (Cambridge. Pierre Bourdieu. como o faz Fishkin. Ulrich Beck e Elisabeth Beck-Gemsheim. John B. ou que encorajariam os participmt<S a se considerar iguais num proced:mento deli- berativo autenticamente livre"("Dcliberation and Democratic Legitimacy". m. ver F.). 1991). Thc Normal Choos of Lovc. Discunivt Dano- crocy. não podemos simplesmente pressupor que grandos reuniões com agendas abertas produzi- riam alguma deliberação. p. p. l.uhy in1o a Catqory of Boa""'is Society. Christopher Antcrton. 18. p. "Deliberative Rationality and Modêls of Democratic Legitimacy". e "Bureaucncy". 17. nos quais amostra- gens estatisticamente representativas da população seriam encaminhadas e discutidas para a avaliação de questões cspeáficas durante um certo período de tempo. 352). assim. 1991). Grande pane da literatura sobre democracia deliberativa busca inspiração na obra recente de Habermas sobre racionalidade comu- nicativa e discurso ético. 23. "Representative Government" em seu Utilitarianism. Genh e C. "On Legitimacy and Political Deliberation" trad. "Deliberative Democracy md Social Choice" em David Held (ed. na necossidade de diálogos face a face? 20.12. p. "Deliberation and Democratic Legitimacy". "Deliberative Rationality and Models ofDemocratic Legitimacy". 1956). "como microcosmos cstaústicos da sociedade. "Political Repre- sentation: Elements for a Thcory' of the Political Field". 21. 102s. ma. "Politics as a Vocation". Para discussões ma.tklion. Elly Stein e Jane Mansbridge. Held.is recentes que destaquem a importância do modelo de intenção face a face implícita no pensamento político grego e em sua he- rança. Danocracy and Dclibc- rotioa: Ncw Dira:tioas for Danocratic Rcform (New Haven and Londres: Yale University Press. Para uma sóbria avaliação de algumas das qucstõ<S levantadas pelos usos potencia. Thomas McCanhy (Cambridge: Polity Press. 92-3). mas deixarei a discussão deste assunto para a próxima seção. Estes pleitos deliberativos "recriariam as condições da socieda- de face a face e poderiam. 93).S é o resul- tado da cldibcmpio de todos. As limitações do modelo clássico e sua aplicabilidade às condições de organizações sociais de grande escala foram discutidas por muitos autores no pensamento liberal democrático tradicional: ver. 1989).

p. em seu Moral Comriounm and Communicativc Artion. Jurufication and Application: Ranarks on Dir<oun< Ethia.11. em seu Idcalsand Illusioru: On Ra:nmtruction and Dminstruction in Ointanporary Criticai Thcory (Cambridge. 117-22. N. Thc lmpcrativc of Rcsporuibili- cy.ctic. 1990).: MlT Press.Jhnayr (eds. Ver também Zygmunt Bauman. Jonas. Hans Jonas com • colabor>ção de David Herr (Chicago: University ofChicago Press. Social Ramrcb. p. 1974). 26.: MIT Press.. p. 61. Bernstein. 24. Cf.J. Jonas. 18. força e da fraqueza da obra de Jonas. Seyl• Benh•bib e Fred D. 2 l 7s. 1992). Posunodcm Ethia (Oxford: Blackwell. Cronin (Cambridge: Polity Press. tr>d. tr•d. Hans Jon•s. Ci.ran P. 1993). cf. p. "Technology and Responsibility". 181-99. tifk•tion". "Technology and Responsibility: Reflections on the New Tasks of Echics".J Discourse: On thc Refation ofMorality to Politics". M>ss. "Pr. 1991). e seu Thc lmpcrativc of Rc>pansibility: ln Scarcb of ao Ethia for thc Tcchnological A{)•. p. 3-20. Thclmpaativc of Rc>paruibilicy. 21-2. 246 .rnbridge. 1984). 25. uma análise que muito influen- ciou a minha própria explicação. "Rethinking Responsibility".J e responsabilidade substantiva.). 1993). p. M>ss. 90s. Cf. Ver também Rich. Christian Lenh>rdt e Shierry Weber Nicholsen (Cambridge: Polity Press. 27. Thc Commwiia1tivc Ethia Oinuovmy (C.: Prentice-H>. 43-155. p. por exemplo. Thorms McUrthy.4 {1994). Sobre• distinção entre responsabilidade form.rnp. es- peci•lmente p. trad.rd J. 1990). Bernstein oferece uma análise perceptiva d. em seu Phil050phical Es- says: From Aocicnt Crwl to Ta:hnological Mao (Englewood Cliffs. 833-52. e Faktizitãt und Gdrun9: Bcitrãs< zur Diskur>tha>ric da Rtchts und da dcmokratir<hcn Rtchtntaats (Frmkfurt: Suhrk.

102-106 cotidiano mediado. 1 12. 104 e poder. Eric W. 24-30. 81-82 outros distantes..da. 22. 92 para os primeiros livros.rei... 66 auto-referencia. 153-1 54 ação e contextos distantes. 2 O simbólica. Nicholas. 96-98 atividade cotidiana simulada. 231 n. 34 autoridade localiza. 73-74 tamanho. 59-60 va também interação e mídia. 45-46. 15-24 audiência e tecnologia. 99-108 atividade formas concenadas.ção. 242 n. 15 e religião. 23. como comunicação. 186-187. 158 e tese do imperialismo cul!ural. Ien. Thomas. ÍNDICE abermra. 229 n. 21-22 produtiva. 103-107 e formação da personalidade. 13-14. 131 e estúdio de TV. 24 Associated Press (AP). 98 Archer. Louis. 140-141 Austin. 155-158 contextos distantes. 92-99 privatiza.do. 229 n. 225 157-158. 103 Adorno. 119 coletiva. Marga. 164.da. 179 eventos mediados. 132 apropriação Abu-Lughod. 20-21.de na mídia. 30-31 acesso a redes globais. 23 5 n.da. 38 autenticidade Altheide. 183 e tradição. 71-72 Appaduni Arjun. 99-1 08 novas formas. 15 9 Ang. 128. 159-160. 173 · 247 . 48. 78 e tradição. 5 e reprodução. 147 de jornais. 233 n. 17 6. David L.. 234 n. 52-54 Antenon. 245 n. 18 responsiva. 195. 55. 241 n. 96-98 Arnett. 96. 169. 20 à distância. 233 n. 82-84 e distanciamento simbólico. Christopher. Peter. 78. 62. 20. 200 ficcional. 46 e conflito.L. 21 e estado. Benedict. 17. 161-163 Aston. J. 72. 181. Theodor W. 228 e globa. Lila. 69. 2 m também recepção Agence France-Presse (AFP). 67. 21 e tradição.. 3 Allen. 16. 65 cotidiano media. 140 racionaliza. F. 165-166.. 98 atividade cotidiana simulada. 100-1O1 Anderson. 27-28 Althusser. 99 estrumra.liza. 98 e contexto social.lida. 177-178 Amhurst. 123-124 acessos explosivos políticos. 15 6-1 5 7 e impacto da mídia.

2. 234 n. 11. P. 57 Berman. 158. 18 Chartier. 1. 66 Benjamin.. 21. 237 n. 26.. 18 Cohen. 12 CBS Records. 231 n. 242 n. 33 Carter. 231 n. Cario M. Roger. 77. 24. 184 Baudrillard. 68. 19 burocracia. 187-188. 33-34. 230 n. 16 Baudelaire. 152 245 n. 35 centro e periferia. 216-2 17 Bauman. 74-75. 23 6 n. 237 n. 15. 68-72 codificação. Ulrich. 25 Boyer. n. 70. 5 Boden. Charles fü:rre. Michel. n. Abram. Urs. 6 Chan. Cohen. 31. 232 n. Zygmunt. 23 Banhes. 15O Berlusconi. impacto da televisão. 29.Bagdikian. 231-23 2 n. 233 n. Pierre. 5 2 colonização e cultura. 234 n. 30. 18 einteraçãofaceaface. Stanley. Elisabeth. n. e linguagem. William. 138-139 e novas tecnologias. 237 n. 7. 242 n. 233 n. 71. 207 Bamford. grupo. 162.G. Graham. China. 120. n. 235 n. 144-145. 246 n. 240 n. Andew. 236 n. 29. Patrida. 231 n. 233 n. 65-66. n. 241 n. 37. 6. 243 n. 16. 5 Benhabib. 55 cinismo. 244 n. 13. 35. 241 n. Jean. Ben H . n. 3 7 capital simbólico cultural. 209 produção e recepção. 136. 139. 9 fluxo internacional. 66 206. 8. n. 214 Buchanan. 119. Giovanni. 55. Roland. Joshua. 232 n. 58-59 Boyce. James W. 61 147. 7 6 Burke. 147 Casey. 4. Pat. 145-147. 8. 4. 7 5. 1 co-presença Boyle. 8. 229 n. 12 ' ciência. 24 Calhoun. 5. 22 capitalismo e democracia. emergência. 144 e comércio de notícias. Janet B. David. 245 n. 131 Bentham. 17 5. Silvio. e estado nacional. e globalização. 111 246 n.L. 239 n. Marshall. 49-50. 54. 27. 11 Carlos II da Inglaterra. 16 cafés. 243-244 n. 233 n. 268 Columbia Picture. 24 Cannadine. 234 n. Seyla. n. 268 e sociedade moderna. 28-29. 25 e impacto na imprensa. 146. 232 n. 24. Thomas Francis. 15 2 cabos e globalização. 161-162 Beck-Gernsheim. 33. 5. 132. 7. Bertelsman. 13 Carey. 48. 242 n. 17. 243 n. 245 n. Norberto. 115. 239 n. 1 7 publicidade de. Peter. 67-68 Bitterli. 118. 7 5 censura e desenvolvimento da imprensa. 13 e tradição. 242 n. Craig. 205- Buckley. Deirdre. 209-21 O. 150 248 . 243 n. 212. 229 n. 8. 18 e pluralismo regulado. 114-118. 185 245 n. 21. Jeremy.. 45 Bannek. George. e desenvolvimento da imprensa. Néstor Garcia. 136 Blumer. 245 n. 56 Bed. 6 Chayes. J. Oliver. 240 n. 68. 16 n. 235 n. 240 n. 5 Canclini. e política. 242 n. 4 Botero. e esfera pública. 24 Carlos 1 da Inglaterra. Walter. 2. 235 n.. 237 n. 66 bens simbólicos. e meio técnico. e Terceiro Mundo.. 243 n. 29 Bobbio. 67. 267. i 56. 17 Bourdieu. 26 Cipolla. 51-52 submarinos. 225 burguesa. 25 Certeau. n. Samuel. 18. 217 Boyd-Barrett. 236 n. n. 67. n..

44. 150-151. 184 Dahl. 92-93 e desenvolvimento. 16 comunismo. negociação. 155-158 comunicação e ideologia. 208 conteúdo simbólico e fluxos desiguais. 149 Curran. 144-145. 7 1-72 152-154 comércio consumo cultural. 224 e globalização. 209-211. 234 n. 152-153 36. 149. 55. 194-195. 2O2 mediada pelo computador. 4 conglomerados da comunicação. 175. 86-88. 17. 159-160. papel da. 152. 30. 63-64. 180 e circulação pública das formas simbólicas. e mercado global. 74-75. 83-84.. 12-13. 16 redes de. 40 249 . 91-92. 135-136. e reprodutibilidade. 50.1O8. 214 de tradição. 234 n. 27-28. 231 n. 230 n. 71-72. 165-166. 230 n. Edwina. 180 características. 29 contexto de comunicação. 44. 62 Cumings. 18 6 viés. 84-85. 153.comercialização das instiruições da mídia. não espacialização. 80 e imperialismo cultural. 184-185 e recepção. 22 1 conversação e modernidade. 174-178 e interação mediada. 75. 234 n. 114-115 e tradição. 235 n. mídia crença. 155-156 Comissão Européia. 3 7 e mercantilização das formas simbólicas. 77 eco-presença. 206-211 Currie. 28-29 comércio e redes de comunicação. 19 8. 151. 109. 7O. 77 . 177-179 compreensão. J. 5 3 75. 119. de massa. 34-35. Bruce. 144. 244 n. 48 dissociação entre produção e recepção. 20. 149. James. 63 consumismo. 151-15 2 virrual. 167 de recepção. 99-108 145. H-30 corporações versus conglomerados . 244 n. 76. 1O e tradição. 213 modelo de serviço público. 150-151. 137-1_40. 200-201 e globalização. 222-223 Cooke. 238 n. 117. 13 7 e contexto social. 7 3. 148. 69-70 de fãs. 236 n. 3 5. 15 8 Companhia de Propriedade Literária. 3 6 híbrida. 127. e sociedade moderna. 33 conflito. 28. 146 . 75. 30-31 mídia americana. 8 comunicação de massa criatividade e disponibilidade de formas simbólicas. e recepção.-er também globalização. 14 compressão espaço-temporal. 9 9. 35. e imprensa periódica. e imperialismo cultural.1O8 comunal. eletrônica. 38. 148. 119 não local. 30-36 Crofts. 230 n. 16 e experiência mediada. 181. e formas de conhecimento. 41-42. 12. 148-149. 34. comunicação de massa. 49 comunidade popular. 149-150 e formação da personalidade. 178-179 e quase-interação mediada. 28 conhecimento local. 84-85. Folke. 172-173. 3 3 cultura definição. 150-151 meios de produção e difusão. 3 de produção. 8 e novos meios de comunicação. 31-3 2 e desenvolvimento da sociedade moderna. 19-46 copyright. 72 33-35 mediação. 147-154 e novas tecnologias. Sir William Fothergill. 1O usos. 119 e regulado pluralismo. 128-129. 40 distante. 14. compartilhada. 194 tradicional.

53 representativa. 89. Friedrich. 29 Dryzek. 219-220. 19 Dunn. 24 Davis.H. Richard V. 222-223 educação e sociedade moderna. 220-223 global. e comunicação. 220-223 e esferas pública e privada. A. 78. 242 n. 99-100. 9 e reprodutibilidade. 225 e quase-interação. 174-1 7 5 Diclcen. Alain. 1OO. 187-188 Dillmeier. 114. 217-219. 54 Diringer. distanciamento espaço-temporal. 1 7 deslocamento da tradição. 1O2-1 O3 e globalização da comunicação. 234 n. 236 n. 35. 35. 128. 246 n. 97 e conglomerados transnacionais. e poder simbólico. 185. 5 Dorfman. 25. J. 244 n. 156. 186-187 como domínio feminino. receptor. 22 O. 140-141 Erasmo.. 39-40. 7 Defoe. 230 n. J 5 2 eletricidade da mídia. 145 Darbel. 233 n. 20 escrita e armazenamento da informação. 78-79. Peter. 13. 16 Dayan. John. 98. 148. 1O. 23 7 n. 150 indireto. Geoff. e tra<lições das terras altas. David. 269 n. 17. 85. 114-115. 244 n. 86-88. 85. 30 diversificação global. e sociedade moderna. 46. 150 democracia e transformação institucional. 235 n. 229 n. Martin. 52 ver tambán poder econômico participativa. 131 diáspora cultural. Michael. Elizabeth. 29 Escola de Frankfurt. 22 dependência elaboração discursiva. 239 n. 220 ". Greg. 14. 232 n. 26 direcionalidade de visão. 80. 240 n. 197-198 Dallmayr. 66. 197. 11 Deaver. Robert. 70-71 250 . e monarquia. 2 destino. 1 10-111 e publicidade mediada. 48 desenvolvimento. 2. 217-219 e sociedade moderna. 8 ver tambán comunicação eletrônica desempenho de efeito contrário. indústrias de direto. Wilhelm. 115-116. 36- Dahlgren. 7 37. 243 n. 131 Eley. 94-97 ver tambán indústrias da mídia e programas coloquiais na TV. 234 n. 16 Dilthey. 240 n. 78-79. 177 114. 128-130. 24 distanciamento simbólico. 15. 233 n. 74 Darnton. 46.139 desconhecimento. 15 Escócia. 28. 36 distribuição e transmissão por satélite. 5 e democracia. 125-126 Dyke. Daniel. 235 n. 2 23 escândalos em interação face a face. 5 9 diálogo Ericson. 233 n. 216-220 e o estado. 166 Ellion. 112-113. 27 disponibilidade das formas simbólicas esfera privada aumento. 245 n. 79. 117 economia deliberação e democracia. 17 3-1 74 Engels. 27. 28. Peter. 16 7-169 despersonalização da tradição.. Desidério. 9 5 Deutsche Presse Agentur. 94-95. 9 5-96 entrevista política. 99. 49-50 deliberativa. Daniel. Fred. 13 7 . 29. 93-94 entretenimento. 117-119.. 13.sibilidade. 213-214 políticos. John S. 118 e manufatura do papel. Natalie Zemon. 187 e telegrafia. 70 deixa simbólica. 112-113 Eisenstein. 42. 38.. 2 2 1. 241 n. 174-1 7 8 empatia. 14.

16. 183 e reserva masculina. 7. 135 relevância estrutural. 5 2 e esfera privada. 173 estado família e absolutismo. e futuro. 200-201 78. 234 n. 30 e religião. 85-88 experiência e experiência descontínua. 86 espectro eletromagnético.. 43. 37-39. e reinvenção da publicidade. 110-111 e sociedade civil. distribuição. 35. 56. Arlette. 161 e tradição. na interação. 129 Europa Oriental e movimentos sociais populares. 199-200 surgimento. 207. 151 refeudalização. Bernard S. 88 da mídia. 198-202. 206-211 19. 219 Finn. Reginald Aubrey. 57. 232 n. 214 167. 44-45 compressão. 17 e esfera pública. 68. 67. 40 e escândalo. 110-113. 19 e sociedade moderna. 15. e self. 240 n. 130 coordenação. 110-113. 205 e tese do imperialismo cultural. 205 Feb\Te. 66-70 e ética. 205. 40-41 38. 50. 38-39. 206-207. James. 103. 36-41. 146 declínio. 219 e globalização. 209. 68. 50-53. 7 0-71 ética e impacto da mídia. 198-201 do visível.. 202-203 interpolação. 28 . 80. 128 m llllllbán estado-nação Fessenden. 14. 99. 141- 143. 209-211 Fawcett. 188-190 espectro eletromagnético. 16. 233 n. 181-182. 35-36 do discurso. 13 0-131 expectativas espaço-tempo e disponibilidade das formas simbólicas. 176 Fontaine. e intimidade não reáproca. 245 n. 11 1 Estados Unidos e esfera pública. 77-78. 72 eventos da mídia. 6 195. 28. 36-37. 20-21 e poder. 71. Laurcncc. 211 Falwell. relevância. 99 e democracia. 211 e sobrecarga simbólica. 105-106. 40. 213-214 seqüestrada. 61-62 Fishltin. 48. 208. 206-207 e cobertura da mídia. 23-24. 239 n. 149-150. e mercado econômico. Jerry. 75 estado-nação ficção. 223-228 e vazamentos políticos. 110-113. 3 e linguagem. 251 . 192- n. aberto. 233 n. 196 especialidade e sobrecarga simbólica de espaço e de tempo. 54 fixação de formas simbólicas. 197-200. 70-71. 107. 69-70 e globalização. Lucien. 196-201 distanciamento. 87-88. 71 estrutura. 35. ação não ficcional. 199 e a imprensa. 85 e recepção. 182. 110-113. 36-37. 148-1S1. 86 desseqüestração. 179 e controle da imprensa. 14. 45-46. 229 fãs. 10. 46 instituições. 151 e esfera privada. 198 vivida. 53 ftcdback. 216-217. James S. 90. 224 estruturalismo. 5 7-5 8 Farge. 86-87. 124. não espacialização comunal. 39-40. 26 e tradição. 11 1-1 12 de responsabilidade global. 141-143. 153 esfera pública e mercado global. 225 e organizações intermediárias. 85. 98-99 e escândalo. 227-228 reorganização. 11. 210-211.

229 n.53 gafcs. 17. 230 n. 6 características modernas. 33-36. 132 fundamcntahsmo rehgioso. 144-145. 150 e poder e visibihdade. 11 e conglomerados transnacionais. 2 2 3. 12 burguesa. 146 reprodutibihdade. Michel e pcder simbóhco. 9 formaçio do self Gellner. 230 n. e responsabilidade. Peter. 3. 120-121. 241 n. 35-36. 14 7 comoprojetosimbóhco. 189-190.51. 181-204 Gillespie. 5 8. 201 e imperiahsmo cultural. l 3 2. 236 n. 237 n. 88-89 Guerra do Golfo. 130 Gruzinski. 4 fronteiras Gouldner. 22. 245 n. 245 n. 242 n.2 2 8 linção. 154. 114. 14. 136. 276 n. Billy. cobenura da rrúdia. 232 n. cobenura da mídia. 23-24. 13 emídfa. 15. 180 !28. 143-147 circuhçãopública. 6. 229 n. 188. 186-187 241 n. 17. Johan. 234 n. 13 7 -143 e dcscnvolvimemo da sociedade moderna. Gergen. 24 Frank. 190 globalização. 163. 22 e dependência da núdia. 6 Goffman.6. 17. e tradições. 132-133. 12. 224 252 . 93 regiões principais/ periféricas. 162. 114-116. 125. 1 8 7 e cxpmência mediada. e expectativas. 16. 7. 18 6 e desigualdade de acesso. 237n. 17 cesferapúbhca. 235 n. 236n. 267 e vigilãncia/supervisão. 209-211 Fouault. 229n. 48 e respcnsabihdade global. 6. 157-158. e democracia. 6 e apropriação. Francisco 1 da França. 39. 241 n. da comunicação. Serge. 45-46. 237 n. 135-158 199. 146 e poder. 14 7 e núdia. 41 Golding. 26 e escruúnio global. 144 e o self. David. 202-203 141-143. Marie. 4. David. Erving. 231 n. 147-155 formas simbóhcas definição. 229 n.. 75-76. 183-190. 4. I. 35-36. 104 futuro. Gccm. 7 5-76. 67-72. 54-63. 196-203 Ginzburg. 19 139. 213 novas agências internacionais. 3 6 espaço/tempc. 127-128. 61 238 n. 12 7 Gelb. 241 n. 2 7 e hberdade de imprensa. 6. 20 l e plurahsmo regulado.J. 188-190. 1. 243 n. Habermas. 2 O esfera púbhca/privada. políticas. Jonathan F. 120-12. e ideologia. 27-28.12. 44. 21-22. 211 esobrccargasimbóhca. 38. 11. 79. 124-126. 159-160. 238 n. 2. Alvin T. 82. 131 e racionahdade comunicativa. 243 n. 229 n. 7. 85. Cario. 19-20. 205. 21 9 187 difusão e localização. 243 n. 151-152 e novas tecnologias. 144. 16 Galloway.. Clifford. 229 n. 111. 55 Gadamer. Ernest. 244 n. 150 guerra. 19-20. 191-1 96 e distribuição de espectro eletromagnético. 40-41 Gutenberg.Ford. 243 n.Anthony.. 24-25.13 3 e ideologia. 183 e cabos telegráficos submarinos. 82-83. 13 7- e a scqtiestração da experiência. 14 5. 24 2 n. l. 237 n. 1 e qu--interação mediada. 31. Hans-Georg. 73 emergência. 267-268 e sobrecarga simbóhca. 20 50. 181. 240 n. 4. 242 n.15 8 merantilização. 135-136 disponibilidade. 104. 21. 83-84. 54. 198. 23 7. 45. G=ld. 139-142. 119. Jlirgen. 173 regiões frontais/de fundo. 99 Graham. l 00 Gross. 15. 180 e intimidade não reáproa. Joseph. 21 186-187 Giddens. 201 e fluxo assimétrico de informação. 10 ficção/não ficção. 7. 242 n.. 245n. 49. 38.

4 imprensa periódica Hegel. 124-125 Harasim. 12 inclivíduo humanismo em sociedades modernas/tradicionais. 16. 131. 236 n. Michael. Hollywood. 240 n. 235 n. jornais e formação do self. e mercado global. 54-60 impacto. David. 146. 160 d~ntrallzaçio. Saddam. 244 n. 155 e monarquia. 20 e publicidade. 174. 3. Peter. Christopher. David. 24 imagens. 66-67 Heidegger. 170-171 ver rambán transmissões radiofônicas. 6 Hall. 3. 164.F. 69. 119. 27-38. Charles. e teoria crítica. Hill. 52-53. 54-63 Hensgaard. 13 da mídia. 60-61. 165-166.o ético. 11. 19 Hall. 243 n. 119-120 e tradição. 160-161. 1O. 171. 237 n. 171 e novas tecnologias. 146 e recepção. John. 179 e religião. 43-45. 27 Horkheimer. 115. 73-75. 17 141. 240 n. 233 n. 239 n. 6 historicidade. 14 imprensa/impressão Henrique VIII da Inglaterra. e visibilidade. 224-225 pessoal. 64 conglomerados.. 94. 16. 235 n. 206-207 e mídia. Martin. 63-67 Hornblower. 25 Headrick. 47 214. Daniel R. 245 n. 180 concentração. 229 n. 234 n. 11 O desenvolvimento.W. 163-164 Hamelink. 69-70 e poder. 1 1.. 170-171 e imprensa periódica. 171. 67. 6 e a esfera pública. 17 5 e papel da tradição. Joseph. 14. 136 indústrias da mídia identidade e comercialiuçio. 242 n. 72. Cees J. 229 n. 5 indeterminação Horton. John. 126. Max. 34.. 177 e discur. 152-153 coletiva. 71-72 nacional. 123. 62. Donald. 206-21 O hermenêutica e novas agências internacionais. mediada. 143. 23 1 n. 186 e movimentos sociais. 21 cultural. 81-82. Stuan. 34 Hobsbawm. ideologia 115. 174-175. 243 n. 115-117. 144 e localiuçio. 23 Iluminismo Hallin. Eric. 72. 164. 234 n. 70. 119. 68-69. 209-210 253 . Linda S. 233 n. 31 história. 118 Held. 164. 15. 23. Edmund. 118. 21 industrialiução. 183. 167- e influência da imprensa. 25 de produção. 68-69. G. 13 9 da mídia. 16. 207-209 e democracia. 163-164. 137 liberdade. 15 O 123. 165. 229 n. 242 n. 107 Howlins. 70. 9. 99 Houston. declínio. 73. 163. 60 II cavaUia Zwuux de Mandavilla. 121-122. 12. Mark.. 15 e progresso. 167-169. Catherine. 52 Ignatieff. 139.12 Hall. 206 e reprodutibilidade. 124 Henry. 237 n. 20. 16 Husserl. 37-39 e nacionalismo. 137. 242 n. 3 imperialismo Harvey. 1. 171 ver rambán formação do self Hussein. 236 n. ·7 J. 49. Simon. 128 indústria da. 183 e formação da sociedade moderna. 137. 243 n. 140- influência. 238 n. 2 e comércio de notícias. 235 n. 62. 58-59 169. Daniel C.. 147-154 Havas. 165. 241 n. 239 n. 40 e tradição. 131..

Kalhleen Hall. 173. 91-92. 5. 208- c1ndiçio. 1O 92. 59· 60. 80 ordem glob. I++. 1a+. 14-1-. 26-27 inlcrdepcndência e formu simbólicas. 231n. 184. 181-182 e concentração do controle. 85-86. 19 e globaliz.1 54 e ICUDluaçio do poder. S7 cduucionois. 29-36. Frcderic. 22 1 Islam. 178. 29. 73 em interação face a face. 142 e umpos de in1eração. 83-85. James. 88-90. I0+· 107 Jonas. 50-53 intimidade àdis1áncia. 73-76 e intimidade nio ruiproca. 77-108. Hans. 14. 172-17+ jornais e intimidade. HuoldA. 150 e upcriênm. Donald G. 78-82. 243 n.19 6 e comuniuçio de~. 281 n. 26. 173-17+. mtcuçio 191-196 face• face cuactcris1ic•s. Manin. 135. 153 rcligious. 82-92 infonnaçio tipos. 17+. H (mJ). s+ contex1ualizada. 2 92 n. e conglomerados ttansnacionais. 94-96 Janelle.76. 1 5. 3 7 !S+ . 79-82 muumimcnlo. 181 em quase-inlcração mediada. 173. 202-203 ecampocons1iruídopda mídia. 19 1. 236 n. 13-1+. +7-+8. 23 imerpolaçio espaço-temporal. 21 e formação do sclf. 231 n. Masami. +9 orgmizaçio soc:W. Japão. 168. 71-76. 32-33 imprensa como.açio. 191-192 llO. 214 Jamieson. 79-82. 1+. e dcscnvolvimenlo da imprensa. 177-178 209 quuc-in1uaçio mccliada expansio. 228. -1-3--1-5. 11 campos. 130. 73-74 e absorçio do sclf. 181-182. 197 aaciJDelllO. e modernização. 190 origens. 82-8+. 27 mediada. 191-196 11Ulnlçio. 115-116 propn~c e con1rolc. 181-182. 197-198. 22-25 in1erpre1ação políticas.i distincia. 77-79. 2 1. 19. 229 n. 240 n. 86-89 consti1uída pela míclia. 226. 9+. 26-27. 20-21 Jenkins. 169 eintimidade. 142 militares.11. 15 2. 209-210 e fol'INÇiO do sdf. 2 1 Intemational Tdegnph Union/União danúdia. 246 n. 25. +O nH internacionalização. Jameson. 131 e democracia. 102. 17 e apcriêndl\~vida. 88 pandigmilicas.ação. 2+. 23 e destino receptor. 17 e esferas pública/prinda. 75-76. 1+6 inleraçio simbólia. 92-99 Joyce. 135 mstiruiçõcs intemaliz. 15. 1+0-1 +2. 99-108 ra tamhãn imprensa e llçlo par• ouiros diswucs.23 lntemational Tdecomrnunications Union cultunis. 16. escândalo. 106-107 e quase-interação. 53 e mnsformaçõcs. 11 O e recepção. 233 e distmciunenlo espaço-temporal. 16 es1rurun. H-25. 64-66 e ação . 183 umucnamcn10. 85 Irã-Conira. 150 179 Jay. Henry. 268 va IAllllhém ação e novu 1ccnologiu. falácia da. 95. 190 etndiçio.18 5 mnsfonmçõcs.99-100.13. 159-160. 98 Telegráfica ln1emacional. araacrisdas.. 181-183. 26. 66-67. 151. 135 lnnis. 77. 7-1-.

235 n. 243 n. e o uso do vernáculo. 14 Luckmann. 232 Luís XI da França. 235 n. 245 n. Karl e publicidade. 2 Laslett. 185. 11 e publicidade. e meios d~ comunicação Mattelart. 6. 231 n. 54 Markovits.. 8 marxismo m imperialismo cultural Lewis. 240 n. 15 O Líbano. Alexander. 232 n. ThomasL. 19. 30 leitura primeiros livros. 16. 246 n. 59 Kluge. Joe. Sir Frank. 242 n. 9 Ma. 57. 239 n. 224 Lottes. impacto da 48-49. 244 n. Guilherme. Peter. 242 n. Lisa A. 19. 26. 237 n. 61 Kern. 12 Lutero.nismo para resposta do recep~o~. 234 n. 82.. Immanuel. 23 7 n. 231 n. 164-166 Martin. 234 n. 15 Matsushita. Henri-Jean. 58 Klapper. 245 n. 7 5 Lazarsfeld. 234 n. Rodney. John. Gilles.. 31 McCarthy. Scott.. 3 7. 59. 166-169. 36-37. 30 Koberger. Nicolau. 22. Alan J. e papel da tradição. Keane. 58. 55-56. 18 Lash. 46 Kantorowicz. 52 Manin. Anthony. 13 Khomeini. Sonia. 243 n. 181-1 8 2 mea.. Thomas. Thomas. 16 Lunt. 232 n. 15. 23 7 n. Tamar. 170. 167. 67. 12 Kepel. 233 n. 233 n. 25. 165-166. 232 n.. 25 e formação do self. 234 n. Bernard. David. 239n. 46 Major. 131. 9 Lull. 241 n. 155 King. 18 Lyon. 7 . 115-117 e capitalismo. 17. e \1sibilidade. 23 6 n. 168 língua vernácula. M. Daniel. 11. 233 n. 2. 243 n. Jesús. 159. John Anthony.. 16 Lee. 236n. 67. 156-157. 23. Herbert. 153. 26. 5 Kellner.reuse. 70. 236 n. Anton. 116 e desenvolvimento da sociedade moderna ''"imprensa. 135 etradição. Paul F. 60-6 1. Alexandre-Charles. 235 n. John. 58. 243 n. Günther. 242 n. 188. ·' 03~ 104 255 . 155. 73-74 Marx. 23 jornais. 59-60 Martín-Barbero. Denis. 3. 29 legitimidade. Sir_ John. 237 n. 215-216 Mackinnon. Ayatollah. Marshall. 21. 236 n. 218 silenciosa/em voz alta. 155.13. A. 25 Maclauren. 239 n. 3 1 Marconi. 238 n. 1O Kiss. Ernst H. 15 latim. 173-174 m também espaço-temporal Kant. 98. Stephen. 242 n. 1. 7. 158. 6 King. 29 Machiavelli. 216 e simultaneidade. 24 liberdade da imprensa. 23. 240n.R. 233 n. Douglas. Imperador. Andrei S. 231 n. 230 n. Elihu. 56 Maltese. 232 n. 26 MCA. 229 n.. 60-62. 153. 78. 132. 241n. 63 Liebes. Peter. 17 Maclaren. 11 Landes.justiça.. 12 McGuinniss. W. James. Martinho. 117 McQuail. 24 Livingstone. Michael. 188. 240 n. 231 n. J. 19 localidade McLuhan. 21 Katz. 14. 237 n. 14. 16 e globalização. 206-21 o Maximiliano I.4 Mann. 114-115. Joan. 2. 160-161 . 63 n.. 155-156 McPhail. 231 n. Lerner. 238 n. 238 n. 10. 236 n. 20 Mandeville. 25. 229 n. 184-185. 8 28.

Graham. 13. 241 n. S2 mercado e tradições. 54-63. 1 normativo. 205-228 Nações Unidas. 67 e formas simbólicas. Ali. 239 n. 58 236 n. 3 8 e democracia deliberativa. 70-71 e ação coletiva. Ralph. Edward e eventos da mídia.48. 4 interativa. 104-1 O8 mundanidade. 239 n. 240 n. cultural. Rupert. 122-124 e liberdade da imprensa. e esfera pública. 137 mercmtilização das formas simbólicas. 104. 111 Morse. 113. 40. teoria da. 2. 2 24 e ideologia. 144. movimentos sociais. 146. 169 e colaboração com os políticos.zenamento da informação. 11 Menocchio (Domenico Scandella). David. 26-27 no Oriente Médio. 146. 245 n. 207-21 O global. 235 n. 13. 29. 23 7 n. 7 7-1 08 nacionalismo e multiplicador da mobilidade. 241 n. 21 7-21 8 e visibilidade. 49 meio técnico e transformação institucional. 162. 149 Morley. 207. 234 n. 232 n. 44. 244 n. 56 e ética da responsabilidade. ver tambtm poder militar 18. 13. 163. 124 e comunicações satelitizadas. 6. 49 Miller. James. 92-1 08 social. 102. 17 monarquia absoluta. 244 n. S. 235 n. 244 n. 1. 160 modernidade Meinecke. 75. 39 da cultura. Oskar. 56 da tradição. 98-99 e interação mediada. 26 modernização e llma. 244 n. 6 e desenvolvimento da mídia. 16. 165-1 66 e pluralismo regulado. 222-223 e reinvenção da publicidade. 167 -168 e imperialismo cultural. 234 n. aspecto e tradição. 149-150 e formação do self. 177-180 News Corporation. 209-211. 62-63 serviço público. 16 6-1 7O e reprodução. 23 2 n. 16 estendida. 47-48 e fixação. 149 e politização do quotidiano. 75-144 militares Nixon. 235 n. David. 44. 4 mídia. Samuel. 33-36. 145 Nordenstreng. 103 MirrorGroup. Oliver. 73 mudança Meyrowitz. IS Nonh. 26 e esferas pública/privada. 227-228 Murdock. 11 econômica. 7 e tradição.mediação Miller. 229 n. 53. 43. e tradição. 46 migração. Daniel. 17 S-176 e democracia. 164. 162. 244 n. 68-69 e ação à distância. Friedrich. mediada. 244 n. Kaarle. Richard M. 21 Mill. 69-70. 144. 47. 28. 2 7 teorias. 67-68. 159. 21 S-216 e impacto da imprensa. 100-101. 11-13. 1SS-1 56. 18 1-2 O3 Napoleão Bonaparte e a imprensa. papel. 208. 67-68. 9 Muskie. 234 n. l 26 mulheres. 9. 215. John Stuart. 166-178 ver tambán comunicação Negrine. 245 n. Joshua. 131 256 . 8 e tradição. 19-20 Needham. 218-219 20. 78 Mohammadi. 17 Negt. 16. 46 e distanciamento espaço-temporal.. 168-169 e habilidades e competências. 157-158.165 Mill. Joseph. 2 23 Murdoch. 47 mídia política. 11-12. 19.

209 e sclf. 209. 8 Panopticon. pós-estruturalismo. 131 e tradição. 127-133 personalidades televisivas. 72. 154. 54 e visibilidade. 12-13. 230 n. Mark. 126-127. 25. 159-160 e gafes e acessos explosivos. 122 Parkinson. 17 econômico. 53. 229 Palmer. 139-140 organizações. 10 e impacto da mídia. Helga. 131. 52 e publicidade mediada. 39. 16. 90..notícias e globalização. 146. 201 e imperialismo cultural. 56. 21. 206. 121-127 religioso. 42-43 e formação do self. 224 e globalização. 20 n. 229 n. 112. 154 Papathanassopoulos. 144 e mercado global. 131 passado e cinismo do cidadão. e visibilidade. 149 Nowotny. 4. John. 16. 17 26 pós-modernismo. 125. 130 Poggi.· 14. 231 n. 9 126. 166-170 206. 54. 127-133 e esferas pública/privada. 132 e administração da visibilidade. 95-96 Poindexter. 128. 136 e tradição. 215-216 e reinvenção da publicidade. 6 e comércio. 23. 109-11 O. 16 48-49 e visibilidade. 138 e vazamentos. 164-165. 139-140. 136. 117- regulado. 216-220 Pi Sheng.. 7 5. e transformação cultural. 239 n. 131 partidos políticos e publicidade. 14. 48. 57. Gianfranco. 234 n. 25. 60 257 .176 opinião pública e a mídia. 13 9-141. 121- Perot. 132 pluralismo e visibilidade. e imperialismo cultural. 2 1 7 e mídia. 216-223 militar. 124. 239 n. Carole. 230 n. 6. 53 Pool. 22 agências internacionais. 86 ideológico. 37-39 e fragilidade. Lyman Ray. 109. Ross. Ithiel de Sola. 149 e desenvolvimento da comunicação. Ceei!. 127-129. 206-207 Plantin. 25. 52 131 Patterson. Pateman. sentido de. 51. 207-208 originalidade. 6. 148-150. 35. 20-21. Richard. 26-27. 13 organizaçãosocial. 128-131. 235 n. em quase-interação. e reprodução. 56 e escândalo. 144. 9 3 estruturas globais. 128-129. Michael. manufatura. 49-50. 110-114. mídia. Samuel L. 112-114. Paschall. 71-72. S. 13. 232 n. 75. 206. John. e organização social. 2. 6 poder Popkin. 103-106 Pender. 217- 218 política desempenho de efeito contrário. 238 n. 180 papel. 16 político. 128 simbólico. 173 mediada. 185-186 e campos de interação. 222-223 118. e modernização. 27-28 e recepção. 120 e globalização. 149-150. 148-151 e coordenação espaço-temporal. 244 n. 63-68 e publicidade mediada. 16 e distanciamento espaço-temporal. 209-211. 244 n. 55. 21-22. 13 155 Preston. 22-23. 136. 25 coercitivo. 237 n. 54 e politização do quotidiano. 25. 234 n. 205- Oriente Médio. 109-11 O. 132-133 e destino receptor. Poster. 243 n. 23-25. 68-69. 72 penença. 169.68. 149 207. 22. Christophe. 91-92. 6 participação. 146 escrutínio global. 18 7 Palmer. 50-53. 23-24.

83-84. 23 7 n. 94. 122. 205-228 organização social. 48. 161 como processo hermenêutico. Dan. 92-99 89-92 ativa/passiva. 205-206. 128. 74. 17 estrutura interativa. 26. 123 recepção. 205. 114-122. 213-214 publicação em quase-interação mediada. 185 e distribuição do espectro eletromagnético. 147 Reeves. 205-206. 131.io face a face. 148-1+9. 41-42 Proust. 145. rer também apropriação 211-216 reciprocidade e globalização. Geoffrey. 95. ++.incia/supervisão. 1O7 Reagan. 10 reflexividade em interação. 90-91 e globalização. 114-118. 46. 119. 79-80. 17. 17 6 e imprensa. 63 e monarquia. 81-82 fora do estado. 117-118 e mudança de tempo. 3 7 e publicidade na mídia. 83. Terence. 212-215. 239 n. 64. e modernidade. 74 estrutura interativa. 25-29 racionalização. 213-214 em interação face a face.. 160 258 . 85. 81. 34-35 e televisão. 78. 212-213. 79.incia. Marcel. 232n.io em quase-interação mediada. 224 programas coloquiais e destino receptor. secundária. 92 -9 6. 13. 135-136 Quartecman. 35-36 publicidade. 43-45 propaganda como mensagem ideológica. 235 n. 101 reinvenção. 21-25.F.R. 243 n. 77 no Terceiro Mundo. Quayle. 206-211 e direção receptora. 225 e formação do self. pesquisa. 103-104 e democratização da política. e desenvohimento da impressão. Ronald. 1 79 produção Ranger. 93-98 como co-presença. 85. 12-13.. 225 mecanismos de resposta. 24. 79-80. 56-57 85-91. 120-121 dissociação estruturada com produção. 43. 13. 42-43 eaimprensa. e tese do imperialismo cultural. 224 novas formas. 236 em interaç. 216-2 20 como rotina. 8 3 e publicidade mediada. 89-90. 163 e poder. S. 132 propriedade e controle. 155-157 progresso. 100 224. 238 n. 88. 211 globais. concentração. 75. 69. 7 5 anteriores à imprensa. 90-91. 15. 13. 26 rádio simbólicos. 26 Radway. 147-154 96. e ação à dist. 83. 99-1 08 e vigil.incia. 191-196 recursos e comunicação.JaniceA. 83-84 e televisão.io à dist. 242 n. 10. 41-42. John S.. 16 raízes. busca das. 40-41. 92. 209 161-162. 34-35 como consumo. 14 e aç. 30-31. 152 de comunicação de massa. 3 emin•eração. 240 n. redes 142. 72. 15. 2 1O múltipla. 112-113. 78-79 n. 125-126. 186-187 e jornal. 147 desenvohimento. 116-126. 71-72 dissociação estruturada entre produção e e tamanho da audiência. 127. Price. 132. 2 14 recepç. 31. 188-189. 4 1 206. 45-46 aberta. 42-43 mediada. 115-119 especializada. 75. 213-214 situada. 43 e visibilidade. 27 181-182. história como.

122. 24. 73 Shils. 5.A. 11 O Robinson. Richard. 230 n. 47-76. 22 e desenvolvimento da imprensa. 239 n. 1711-179 sociedade civil Robenson. 235 r. 232 n. 244 n. 60-61 Seymour-Ure. 185-187. 52 participantes. 202 segredo político. 128-129 Schramm. 12-13. 39 239 n. 82-83. 234 n. Smith. 26-27. 5 responsabilidade Siebert.W. 55. 10 relações sociais em interação face a face.any. 5 Sony Corpomion. 155-156. 160-163. 16 rituaisrégioseamídia.9 principais/periféricas. 235 n. 19 e fãs. 150 !imchez-Ta. 139. Mark. 82-83 146. 125 259 . I. 19.... Preben. 5. 24. 36. John. Viscount. 91-92. 239 n. Salman. 1O religião Sepstrup. 8 Scripps. Hugh. Edward. Paul. 33. 35. 143. 240 n. 42 32. 140. 234 n. 232 n. 140 Reith. 3 sistemas telefônicos. 127 Scandella. 234 n. 44-45 e experiência mediada. 17 Reforma e desenvolvimento da imprensa. 211 e visibilidade. Paul Julius. 172-173. 239 n. 58 Schiller. 202-203. 232 n. 90-91. 13. 1 10-1 1 1 Rothman. desenvolvimento. Andrew. 48-49.bernero. 1 ºº· 104. 234 n. 7 5 Ricoeur. F. 26 reprodutibilidade de formas simbólicas. 240 n. 233 n. 132- Revolução Iraniana. Mary P. 198-200 Sennett. 52-53. 43 global. 21 Reid. Anthony D. 68. 235 n. 27-28. 91 Seul!. 78. 26 Revolução Industrial. 242 n. 32 e línguas vernáculas.. 99. 161 secularização e modernidade. 176.S. 243 n. 166. 231 n. 179 emergência. 181. 175-177. 233 n. 236 n. 229 n. Thomas E. 237 n.. 164-165 Ryan. 11. 29 frontais/de fundo. 180 desenvolvimento. 1. 18 Scrutton.. Alfonso. 227 Silverstein. Dominique.. 234 n. 33 regiões Schmitz. 194-195 Seaton. 223-228 significado. Alfred. 162. Herbert 1.L. 148-154.. 56 e estado. Wilbur. E. 202 satélites de comunicação. 13. e formação do self. 243 n. Colin. Schnapper. e poder simbólico. e transformação símbolos mediados. 4 no marxismo. 168-169 tradicionais. 13. 208. 144-145. 1 Smith. 232 n. 56 e controle da mídia. 234 n. 131-13 2 relevância estrutural. 243 n. 46 ritualização e tradição. 201 económica. e ação social. Anthony. 241 n. 19 sociedades Rushdie. 238 n. 100-102 Schutz. 36. 6 Silverstone. 29 Reuter. 1 socialização e formação do self. 56-59 serviços postais (correios). 50 simultaneidade não espacial. 54 63-64 e tradição. A. 7. 113. Roger. 244 n. 170 133. 30 96. 169-171 Seton-Watson. 242 n. 55 Speakes. 17. 13. 235 n. 108. !'aul. Jean. 36-37. 71. Roland. e contexto. 238 n. Howard. 93-94. Domenico (Menocchio). 12. 241n. 238 n. Howard. David. 190. 135 Rheingold. socialidade mediada. 8 Rothermere. 16 7 Saenger. Manfred. 5 3 em quase-interação.

johnB. 136 e contextos clistantes.i de papel. 11 va tarnbán espaço-temporal Stcinberg. 1 5-16. 148 trabalho. 10. 182-183 e rradição. 3 6. 164-165. 17 6. 1S1-1S2 como monológica. 179-180 260 . divisão internacional do. e fluxo desigual de informação. 127. 151-IS2 massa. 7S-76. 147. 22. 163. 88-90. 140-141 Terceiro Mundo tecnologia e acesso às redes globais.17 8 e monarquia. 33. 2 O teoria crítica. 243 n. 177 invenção. 26. Annabelle. 41-42 Storey. 90-91. 234 n. 174. 213-214 Tomlinson. 231 n. 93. 229 n. 20 e globalização.174 propriedade e controle. 21 O desritualização. Hl n. 239 n. 173 171 e visibilidade. 1 28-130 tecnologia computacional. 234 n. tradição IS2. 148.. I3S. 2. 3.177 e dependência.H. 146. 231 n. l S2-I S3 e desenvolvimento da comunicação de e cultura. 32 e nova ordem de informação. 19. 54-SS programas coloquiais. 5 e satélites. '"'espaço-temporal Stevcnson. 93. 166-178. 120-1 21 e meios de comunicação. 81-82. 5 teoria do ato da fala. 144-145. 8 telégrafo eletromagnético. 3 7 e núdia. 208. 4S. 229n. Margaret. 24-ln. Graham. 160. 7. 14. e conglomerados transnacionais. l 74-1 77 tempo aspecto legitimador. 147 e ação. 240 n. 232 n. 155-156. 169. 6. 172 .i/artificial. 240 n. 70 e self. 41 --l 2 e comunicação mediada. 92-99 tipo móvel.P. 66. e reorganização do espaço e do tempo. 16S. Jonathan. 164-165 padronização. 239 n. 19 7-199 direcionalidade de visão. 16 temporalidade. John. 241 n. 1S9-l80 e quase-interação mecliada.. 109. 47-48 e núdia. 146 146. -l. 1. 119. 12-13. 23. 7 S-76. S. 239 n. l4S aspectohermenêutico. 146. 96. 19-46. 161 va também teoria crítica TASS. -l7 tdecomunicações Thompson. 117.Srcberny-Mohammadi. 92 e transmissão. 94 despersonalização. 144 e ação à distância.. 233 n. S5. 94. Charles. 6 168 Swift.inç. e interação. 235 n. 98. 170-171 124-129. 240 n. 143-14-l. 207-208 textos e contextos. e mudança. 99-1O5 Tracey.17 3 e publicidade. 17 3. 137-140 Tilly.. 170- e traclição. 37. Michael. 149. 69. IS6-IS8. e identidade. 3 televisão TimeWamer. 13. 43 239 n. E. 163-164. Thompson. 46. ISO. S l. 2 40 n. 77. 14. Robert L. 109. 7. 37. 20-2 1 sujeito ver formação do self teoria social supervisão/ vigilância clássica. 140-141 comunicação eletrônica. 18S-I86 autêntic. 117. ISO 151 e globalização da comunicação. Daya Kishan. 1S. 9 S mud. 117-118. poder como. 83-88 deslocamento/ deslocalização. l4S. 38. 178 entrevista. 78-79 ver também tecnologia computacional Thatcher. 167-169. 211 Thussu. 39-40 H2 n. 3 7 e desseqüestração da experiência. 148. 74-75. 10. 23 2 n. 15 8 e telecomunicações via satélite. 16. 241 n. 117-118 e efeitos da globalização. 143.

1. Tapio. Judith. UNESCO 47. 239 n. 24 Wingate. 132. 33-34. 30 169 Verrnorel. 77. intercâmbio mediado. 140 Wells. 23. 142 Varis. 14. 239 n. 7 3 Wolff. 146. aparelhos de. 93..F. 72. 19 vazamentos políticos. Fred eJudy. 164. 56 Wedell. 131. Weber. 148. Jeremy. 48. 16 natureza. Richard. 132-133 na teoria social. 241 n. 222 141-142. 126-133 direta por satélite (DBS). 36 Trevor-Roper. 26. 217-218. 240 n. 55. Pauline. Max e desenvolvimento da sociedade moderna. 145-146 (Soci<dodt dos Organizadom d< Índias) 261 . Tim. 131 problemas. D. George. 233 n. 12 World Conununicotion Report. 7 5. 3 New World lnformation and Communica. 112-113. 211 lutas pela. 2 Tristar Pictures. 60. 31-32 transformação. 165-166 visão. Yeo. 185 persistência. 31 Índice compilado por Mcg Davits videocassete. 148 americana. 33 6. Alan. 120-121 e monarquia. 109-133 transnacionalização. 13. 16 240 n. direcionalidade. 55 valorização Wohl. 233 n. Eugen. 14. 57. 234 n. 15 O Ware. comunicação de massa. 37-38. 214-215 e novas agências internacionais. John. 243 n. 232 n. Hugh. 50. Eviatar. 146 e supervisão/vigilância. e legitimidade. 244 n. 1 51 e política. 13 5 transporte. 9 econômica. Immanuel. 3 Tucker. 60-62. Janet. 13 8. cobertura da mídia. 160. Guerra do. 240 n. 7 tion Order (NWICO). 18. 110-121. 4 Weber. 128-129. 63-64 Wachtel. 239 n. 15 e o estado. 241 n. 91. 15 aspecto normativo. 160-166 Vietnã. 245 n. 168. e impacto da imprensa. 240 n. 109-110. 234 n. 165-166 viés da comunicação. 17 vernáculo. 48 United Newspapers. 243 n. 238 n. 1. R. 235 n. 117-118. 231 n. 211-216. 15 Wallerstein. 118 oral. 239 n. 34. 239 n. 145 e publicidade. 161-163 gerenciamento. 39-40. 191-192. 122. 55 Williamson. 140-141 simbólica. Pieter. 234 n. 121-126. 141. 241 n. e distanciamento. 170-171 visibilidade reimplantação. 33 World Administrative Radio Conference Van der Keere. 82. 242 n. 162. 17 Zerubaval. 235 n. 178-180 236 n. 57-58. 160. 174-178 global. 13 1-13 2 transmissão (radiofônica). 14. 231 n. 104. 240 n. 152-153 e poder. 98. 116-126. 163. Sir Charles.G. A. 7 5 Universal Studios. 13. 21 United Press Association (UPA). Bernard. 235 n. 235 n. 58 Wasko. ver também te