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- OI/ 09/ 2015
LONDRES, NOVA YORK, MELBOURNE,
MUNIQUE E NOVA DÉLI

GlOBOLIVROS

Editora Globo S ..A.


DK LONDRES EDITORA GLOBO Av. Jaguaré, 1485- 05346-902
São Paulo, SP
EDITOR DE PROJETO DE ARTE EDITOR RESPONSÁVEL
Anna Hall Carla Fortino www.globolivros.com.br

EDITOR SÊNIOR Texto fixado conforme as regras


ASSISTENTE EDITORIAL
Sam Atkinson do novo Acordo Ortográfico
Sarah Czapski Sirnoni
da Llngua Portuguesa
EDITORES TRADUÇÃO (Decreto Legislativo n2 54. de 1995)
Cecile Landau, Andrew Szudek, Sarah DouglasKim Todos os d ireitos reservados.
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REVISÃO DE TEXTO Título 01iginal: The Philosophy Book
GERENTE EDITORIAL Ronald Palito e Hebe Ester Lucas
Camilla Hallinan 11ª reimpressão, 2013
EDITORAÇÃO ELETRÔNICA
DIRETOR DE ARTE Cj.:31 /Douglas Kenji Watanabe Copyright © 2011 by Dorling Ki.ndersley Lllnited
Philip Ormerod
Copyrigiht da tradução © 20l 1
IMPRESSÃO E ACABAMENTO
DIRETOR EDITORIAL ASSOCIADO Gráfica Salesianas
by Editora Globo
Liz Wheeler
DIRETOR EDITORIAL
Jonathan Metcalf Dados Internacionais de Catalogação na Publitcação (CIP)
(Câmara Brasileira do li11ro, SP, Brasil)
ILUSTRAÇÕES
Jam es Graham ô Livro da FHosofia I [tradução Douglas KimJ. - São Paulo: Globo, 2011.

PESQUISA DE IMAGENS T ítulo original: The philosophy book.


Ria Jones, Myriam Megharbi Vários c-0laboradores.

EDITOR DE PRODUÇÃO ISBN 978-85-250-4986-5


Luca Frassinettfr
1. Filosofia 2. Fllósofos.
CONTROLADOR DE PRODUÇÃO
Sophie Argyris 11-04158 CDD-100

Índices para catálogo s is temático:
1. F~losofla. 100

COLABORADORES
WILL BUOKINGHAM JOHN MARENBON
Filósofo, romancista e professor universitário, Fellow do Trinity College, Cambridge, Reino Unido,
Will Buckingharn tem particular interesse na interação John Marenbon estuda e escreve sobre filosofia
entre filosofia e narrativa. Leciona na De Montfort medieval. Entre outras obras, escreveu Early medieval
University, Leicester, Reino Unido. Entre outros livros, philosophy 480 - 1150: an introduction .
escreveu Finding our sea-legs: ethics, experience and
the ocean of stories.
MARCUS WEEKS
DOUGLAS BURNHAM Escritor e músico, Marcus Weeks estudou filosofia e
trabalhou como professor antes de iniciar a carreira
Professor de filosofia na Staffordshire University, de escritor. Contribuiu para várias obras sobre arte e
Reino Unido, Douglas Burnham é autor de vários livros divulgação científica.
e artigos sobre filosofia europeia e filosofia moderna.

OUTROS COLABORADORES
CLIVE HILL
Os editores também gostaria~ de agradecer a
Palest ran te de teoria poUtica e história britânica, Richard Osborne, professor de filosofia e teoria crítica
Clive Hill dedica-se ao estudo do papel do intelectual no Camberwell College of Arts, Reino Unido , por seu
no mundo moderno. entusiasmo e auxilio no planejamento deste livro, e a
Stephanie Chilman, por seu auxilio na montagem da
lista de Outros Pensadores.
PETER J. KING
Doutor em filosofia e professor no Pembroke College,
Oxford University, Reino Unido, Peter J. King é autor
de One hundred philosophers: a guide to the world's
greatest thinkers.
-
10 INTRODUÇAO 46 A vida irrefletida não
vale a pena ser vivida
Sócrates
OMUNDO
OMUNDO 50 O conhecimento na Terra
MEDIEVAL
ANTIGO são sombras Platão
250-1500
700 a.c.-250 d.e.
56 A verdade está no mundo 72 Deus não é a origem
à nossa volta Aristóteles do mal
22 Tudo é composto Santo Agostinho
de água 64 A morte não é nada
Tales de Mileto para nós Epicuro 74 Deus antevê nossos
pensamentos e atos
24 O Tao que pode ser 66 Tem mais quem se autônomos Boécio
descrito não é o eterno Tao satisfaz com o mínimo
Lao-Tsé Diógenes de Sínope 76 A alma é distinta do
corpo Avicena
26 O número é o regente 67 O objetivo da vida é viver
das formas e ideias de acordo com a natureza 80 Basta pensar em Deus para
Pitágoras Zenão de Cítio sabermos que Ele existe
Santo Anselmo
30 Feliz aquele que
superou seu ego 82 Filosofia e religião
Sidarta Gautama não são incompatíveis
Averróis
34 Mantenha a fidelidade
e a sinceridade como 84 Deus não tem atributos
princípios básicos Moisés Maimônides
Confúcio
86 Não lamente. O que
40 Tudo é fluxo Heráclito se perde retorna em
outra forma
41 Tudo é uno Parmênides Jalal ad-Din Muhammad Rumi

42 O homem é a medida de 88 O universo nem


todas as coisas Protágoras sempre existiu
Santo Tomás de Aquino
44 Quando alguém me atira
um pêssego, devolvo uma 96 Deus é o não outro
ameixa Mozi Nicolau de Cusa

45 Nada existe, exceto 97 Não saber nada é a vida


átomos e espaço vazio mais feliz
Demócrito e Leucipo Erasmo de Roterdã
ARENASCEN A - AERA DA -
EAIDADE DA AZAO REVOLUÇAO
1500-1750 ' 1750-1900
102 Os fins justificam os meios 146 A dúvida não é· uma
Nicolau Maquiavel condição agradável, mas a
cert eza é absurda Voltaire
108 A fama e a tranquilidade
nunca podem ser 148 O hábito é o grande guia da
companheiras vida humana David Hume
Michel de Montaigne
154 O homem nasce.livre e 186 Todo homem toma os
110 Conhecimento é poder por toda parte encontra.-se limites de seu próprio
Francis Bacon acorrentado campo de visão como os
Jean-Jacques Rousseau limites do mundo
112 O homem é uma máquina Arth.u r Schopenhau er
Thomas Hobbes 160 O homem é um animal
que faz barganhas 189 Teologia é antropologia
116 Penso, logo existo Adam Smith Ludwig Andreas Feuerbach
René Descartes
164 Existem dois mund.o s: 190 Sobre seu próprio
124 A imaginação dispõe nossos cor]pos e o mund.o corpo e mente,
de tudo Blaise Pascal externo Im.manuel Kant o indivíduo é soberano
John Stuart Mill
126 Deus é a causa de tudo 172 A sociedade é, de fato,
que existe; tudo que um contrato Edmund Burke 194 A angústia é a vertigem da
existe existe em Deus liberdade S0ren Kierkegaard
Bento de Espinosa 114 A maior felicidade possível
para o maior número de 196 A história de todas as
130 O conhecimento de pessoas Jeremy Bentham sociedades até hoje
nenhum homem pode ir existentes é a história
além de s u a própria 175 A mente não tem gênero da luta d·e classes Karl Marx
experiência John Locke Mary Wollstonecraft
204 Deve o cidadão, por um
134 Há dois tipos de verdade: 176 O tipo de filosofia que se momento sequer, renu.nciar
a verdade de razão e a escolhe depende ,
do tipo de a sua consc1enc1a em
... • A •

verdade de fato pessoa que se e favor do legislador?


Gottfried Leibniz Johann Gottlieb Fichte Henry David Thoreau

138 Ser é ser percebido 117 Em nenhum outro assunto 205 Considere as
George Berkeley há menos filosofar do que consequências das coisas
em relação à filosofia Charles Sanders Peirce
Friedrich Schlegel
206 Aja como se o que você
178 A realidade é um processo faz fizesse diferença
h istórico Georg Hegel William James
241 Somente como indivíduo
OMUNDO um homem pode se tornar
filósofo Karl Jaspers
MODERNO 242 A vida é uma série de
1900-1950 colisões com o futuro
.José Ortega y Gasset
214 O homem é algo a ser
superado Friedrich Nietzsche 244 Antes de filosofar,
é preciso confessar
222 Os homens com Hajime Tanabe
autoconfiança vêm, veem
e vencem Ahad Ha'am 246 Os limites da minha 266 A inteligência é
linguagem significam uma categoria moral
223 Toda mensagem é os limites do mundo Theodor Adorno
composta por signos Ludwig Wittgenstein
Ferdinand de Saussure 268 A existência precede
252 Nós próprios somos as a essê ncia Jean-Paul Sartre
224 A experiência em si n ã o entidades a ser analisadas
é ciê ncia Edmund Husserl Martin Heidegger 272 A banalidade do mal
Han nah Arendt
226 A intuiçã o caminha no 256 A única escolha moral
próprio sentido da vida verd.a deira do indivíduo 273 A razã o vive na linguagem
Henri Bergson é a do autossacrifício em Emmanuel Levinas
prol da comunidade
228 Somente pensamos Tetsuro Watsuji 274 A fim de ver o mundo,
quando confrontados com temos de romper com
um problema John Dewey 257 A lógica é o último nossa aceitação habitual
ingrediente científico da a ele Maurice Merleau-Ponty
232 Aqueles que não conseguem filosofia Rudolf Carnap
lembrar o passado estão 276 O homem é definido como
condenados a repetí·lo 258 Unicamente conhece o ser ser humano e a mulher,
George Santayana humano aquele que o ama como fêmea
.
sem esperanç a Simone de Beauvoir
233 Só o sofrimento nos torn.a Walter Benjamin
humanos 278 A linguagem é uma
Miguel de Unamuno 259 Aquilo que é n ã o pode arte social
ser verdade Willard van Orman Quine
234 Acredite na vida Herbert Marcuse
William du Bois 280 O sentido fundamental da
260 A história não nos liberdade é liberdade dos
236 O caminho para a felicidade pertence: nós grilhões Isaiah Berlin
está na redução pertencemos a ela
organizada do trabalho Hans-Georg Gadamer 282 Pense como uma montanha
Bertrand Russell Arne Naess
262 Na medida em que uma
240 O amor é uma ponte do afirmação científica trata 284 A vida será mais bem
conhecimento mais pobre da realidade, ela deve ser vivida se não tiver
para o mais rico Max Scheler falsificável Karl Popper sentido Albert Camus
322 O pensamento sempre
FILOSOFIA _ funcionou por oposição
Hélêne Cixous
CONTEMPORANEA 323 Quem re·presenta Deus no·
1950-DIAS ATUAIS feminismo de hoje?
Julia Krist eva
290 A linguagem é uma pele
Roland Barthes 324 A filosofia não é apenas um
empreendimento escrito
292 O que faríamos sem uma Henry Odera Oruka
cultura? Mary Midgley
325 No sofrimento, os animais
293 A ciência normal não visa são nossos iguais
às novidades de fato ou Peter Singer
teoria Thomas Kuhn
326 Todas as melhores
294 Os princípios da justiça 300 Para o negro há somente análises marxistas são
são escolhidos sob um véu um destino, e ele é branco sempre a.n álises de um
V

de ignorância Frantz Fanon fracasso Slavoj Zizek


John Rawls
302 O homem é uma in vencão ~

296 Arte é uma forma de vida recente Michel Foucault


Richard Wollheim
304 Se escolhermos, 330 OUTROS PENSADORES
291 Vale tudo poderemos viver em um
Paul Feyerabend mundo de reconfortante
ilusão Noam Chomsky 340 GLOSSÁRIO
298 O conhecimento é ,
produzido para ser 306 A sociedade é dependente 344 INDICE
vendido de uma crítica às suas
Jean-François Lyotard próprias tradições 351 AGRADECIMENTOS
J ürgen Habermas

308 Não há nada fora do texto \v


J acques Derrida

314 Não há nada em nosso


íntimo, exceto o que nós
mesmos colocamos lá
Richard Rorty
-" / -
?
320 Todo desejo tem uma relação
com a loucura Luce Irigaray /\\
321 Todo império diz a si e ao
mundo que ele é diferente
de todos os outros
Edward Said /;/
12 INTRODUÇÃO

fi losofia não é apenas para ensinar não apenas as conclusões de seu pensamento. Sócrates
atividade de pensadores a que chegaram, mas a maneira como orgulhava-se de ser o mais sábio entre
brilhantes porém excêntricos, chegaram até elas. Eles encorajavam os homens porque sabia que nada
como popularmente se pensa. Filosofia os alunos a d iscordar e a criticar sabia. Seu legado é a tradição do
é o que todos fazemos quando ideias, como meio de refiná-las e de debate e discussão, do
estamos livres de nossas atividades alcançar visões novas e diferentes. questionamento às suposições alheias
cotidíanas e temos uma chance de nos Uma concepção popular equivocada é para obte r uma compreensão mais
perguntar o que é a vida e o universo. acruela do filósofo em isolamento profunda e extrair verdades
Nós, humanos, somos criaturas chegando sozinho a suas conclusões, fundamentais. Os textos de seu
naturalmente curiosas e não pois isso dificilmente acontece. Novas discípulo Platão quase
conseguimos deixar de fazer ideias surgem por meio da discussão, invariavelmente se apresentam na
perguntas sobre o mundo à nossa volta investigação, análise e crítica de forma de diálogos, com Sócrates como
e o nosso lugar nele. Também somos ideias alheias. personagem principal. Muitos fi lósofos
equipados com uma capacidade posteriores também adotaram o
intelectual poderosa, que nos permite Debate e diálogo recurso do diálogo para apresentar
tanto raciocinar como apenas divagar. Nesse sentido, o fi 16sofo arquetípico foi ideias, exibindo argumentos e contra-
Ainda que não o percebamos, ao Sócrates. Nenhum escrito seu foi -argumentos, em lugar de um simples
raciocinar praticamos o pensamento deixado para as futuras gerações - relato de suas reflexões e conclusões.
filosófico. nem grandes ideias como conclusões O filósofo que apresenta suas
Chegar às respostas para as ideias ao mundo é sujeito a reGeber
questões fundamentais é menos comentários que começam com
determinante para a fi losofia do que . mas...., ou "E se ...", ao em vez
.. 81m,
o próprio processo de busca dessas da aceitação irrestrita. Na realidade,
respostas pelo uso da razão, em vez os filósofos tendem a discordar
de aceitar sem questionamentos as ferozmente uns dos outros sobre quase
visões convencionais ou a autoridade Questionar é o atributo todos os temas. Platão e seu discípulo
tradicional. Os primeiros filósofos, nas de um filósofo, Aristóteles, por exemplo, tinham
antiguidades grega e chinesa, foram porque não há visões opostas em relação a q uestões
. ' . para
outro in1c10
pensadores que, insatisfeitos com as filosóficas fundamentais, e , desde
explicações usuais fornecidas pela a filosofia além desse. então, essas diferentes abordagens
religião e pelos costumes, procuraram Platão polarizaram as opiniões dos
respostas embasadas em justificações pensadores. Isso, por sua vez.
racionais. E, assim como provocou mais discussão, instigando o
compartilhamos nossas observações surgimento de' mais ideias novas.
com amigos e colegas, eles discutiram Mas como essas questões
ideias entre si e fundaram "escolas" filosóficas ainda continuam a ser
INTRODUÇÃO 13

djscutidas e debatidas? Por que os humana e as implicações de nossa pensamos que sabemos - e que não
pensadores não apresenta1n respostas condição de seres conscientes:. Como fomos de alguma fo1·1na "iludidos",
definitivas? Quais são, enfim, essas percebemos o mundo à nossa volta? pelos nossos sentidos, a acreditar
"questões fundamentais" tratadas pela As coisas existem independentemente
.
nisso.
fl loso:fia através dos t empos? de·nossa percepção? Oual a relação
entre 1nente e corpo? Existe tal coisa Lógica e linguagem
Existência e conhecimento chamada alma imortal? O ramo da O raciocínio depende do
Quando surgiram na antiga Grécia, metafísica que trata de questões da estabelecimento da verdade das
cerca de 2.500 anos atrás, os primeiros existência - a ontologia - é amplo e afirmações, que podem então ser
filósofos tiveram seu senso de forma a base de grande parte da usadas para desenvolver uma cadeia
questionamento inspirado pelo mundo filosofia ocidental. de pensamentos até uma conclusão.
ao redor. Eles viam a Terra e todas as Assim que os filósofos começaram Isso agora pode pareçer óbvio, mas a
formas de vida que nela habitam; a submeter o conhecimento recebido ideia de construir um argumento
observavam o sol, a lua, os planetas e ao teste da investigação racional, racional diferenciou a filosofia das
as estrelas; vivenciavam fenômenos outra questão fundament al tornou-se explicações supersticiosas e religiosas
naturais (clima, terremotos, eclipses). óbvia: "Como podemos saber?". O que existiam antes dos filósofos. Esses
E buscavam explicações para todas estudo da natureza e dos limites do pensadores arquitetaram uma forma
essas coisas - não mitos e lendas conhecimento forma uma segttnda de assegurar que suas ideias tivessein
sob.re deuses, mas algo que área importante da filosofia: a validade. O que s urgiu do pensamento
satisfizesse sua curiosidade e seu episte1nologia. deles foi a lógica - técnica de
intelecto. A primeira questão que Em seu cerne está a questão de raciocínio gradualmentE.l aperfeiçoada
ocupou suas mentes foi "Do que é feito como adquirimos conhecilnento, como
o universo?", a qual logo se expandiu chegamos a conhecer o que
para "Qual é a natureza do que quer conhecemos - o conhecimento (ou
que exista?". parte dele) é inato ou aprendemos tudo
Esse é o ramo da fi losofia que a partir da experiência? Podemos
agora chamamos de 1netafísica. conhecer algo exclusivamente a partir
Embora muito da questão original da razão? Essas questões são vitais A superstição deixa
tenha sido explicado pela ciência para o pensamento filosófico, uma vez o mundo inteiro em chamas,
moderna, q uestõeE; relacionadas à que precisamos ter confiança em a :filosofia as extingue.
metafisica. co1n o "Por que há algo ao nosso conheciment o a fim de Voltaire
invés de nada?", não são respondidas raciocinar corretamente. Também
tão facilmente. temos de determinar o escopo e os
Un1a vez que ta1nbém existimos lü11ites de r1osso conhecimento. Do
co1no parte do universo, a metafisica co11trário, ja1nais estaríamos seguros
considera a nat ureza da exis tência de que realmente sabemos o crue
14 -
INTRODUÇAO

ao longo do tempo. A princípio apenas Grande parte do problema é que mas também para explorar os próprios
uma ferramenta útil para analisar a a lógica filosófica, diferentemente conceitos. Em discussões desse
consistência de um argumento, a da matemática, expressa-se em gênero, Sócrates desafiou preceitos
lógica desenvolveu regras e palavras, e não em números ou sobre a maneira como vivemos e sobre
convenções próprias, tornando-se ela símbolos, e está sujeita às as coisas que consideramos
mesma out ro ramo importçinte da ambiguidades e s utilezas inerentes importantes.
filosofia. à linguagem. Construir um O exame sobre o significado de
Corno grande parte da filosofia , a argumento baseado na razão envolve levar uma vida "virtuosa", sobre
lógica tem conexões ínti mas com a usar a linguagem com cuidado e justiça e felicidade (e como alcançá-
ciência - a matemática, em particular. precisão, examinando afirmações e -las) e sobre como devemos nos
A estrutura !básica do argu1nento argumentos para se ter certeza de comportar formam a base para o ramo
lógico, iniciado com uma premissa e que signifiquem exatamente o que da filosofia conhecido como ética ou
construído por meio de uma série de imaginamos que significam. E, filosofia moral. O ramo que deriva da
passos até a conclusão, é a mesma de quando estudamos os argumentos questão do que constitui a beleza e a
uma demonstração matemática. Não é alheios, temos de analisar não apenas arte, por sua vez, é conhecido como
surpresa, assim, que os filósofos seus passos lógicos, m.as também a estética.
tenham recorrido muitas vezes à linguagem que usam, para averiguar Para além da consid eração sobre
matemática em busca de exemplos de se suas conclusões são consistentes.. questões éticas referentes às vidas
verdades evidentes e indiscutíveis. Desse processo floresceu no século
Muitos dos grandes pensadores, de XX outro campo de conhecimento: a
P itágoras a Descartes e Leibniz, foram filosofia da linguagem, que investiga
matemáticos completos. os termos e seus significados.
Embora a lógica passe a impressão
de ser o ramo mais exato e "científico" Moralidade, arte e política
da filosofia - um campo em que as Como a linguagem é imprecisa, os Oh, filosofia. guia da vida!
coisas estão ou certas ou erradas -, fi lósofos tentam esclarecer os Oh, tu que persegues
uma observação mais detalhada sobre significados em sua busca por a virtude e escorraças
o tema revela que as coisas não são tão respostas a questões filosóficas. O tipo os vícios! O que seríamos,
simples. Os avanços na matemática no de pergunta que Sócrates fez aos nós e todas as eras dos
século XIX desafiaram as regras da cidadãos de Atenas buscou chegar ao homens, sem ti?
!ógica estabelecidas desde Aristóteles. cerne do que eles realmente Cícero
E , mesmo nos tempos antigos , os acreditavam que eram certos
famosos paradoxos de Zenão de Eleia conceitos. Sócrates fazia perguntas
extraíram conclusões absurdas a aparentemente simples - como "O que
partir de argumentos aparentemente é justiça?" ou "O que é beleza?" - não
. , .
irrepreens1ve1s. apenas para trazer significados à luz,
-
INTRODUÇAO 15

dos indivíduos, é natural que se pense Nas filosofias orientais que diferem. Aquilo que os antigos gregos
sobre o tipo de sociedade na qual evoluíram na China e na Índia viam como metafísica era matéria
gostaríamos de viver - corno ela (particularmente o taoísmo e o devidamente t ratada pela religião
deveria ser governada, os direitos e budismo), os li1nites entre filosofia e segundo o olhar dos primeiros filósofos
responsabilidades de seus cidadãos, e religião são tênues, ao menos para o chineses, que, assim, preocupavam-se
assim por diante. A filosofia política modo de pensar ocidental. Isso marca mais com a filosofia moral e política.
trata dessas ideias. Desde a República, uma das maiores diferenças entre as
de Platão, ao Manifesto comunista, de filosofias ocidentais e orientais. Seguindo o raciocínio
Karl Marx, os filósofos sugeriram Embora em geral não se1am resultado A filosofia nos presenteou com
vários modelos a partir de suas de revelação divina ou dogma algumas das mais importantes e
crenças sobre como a sociedade religioso, as filosofias orientais estão influentes ideias da história. Este livro
deveria se organizar. muitas vezes ligadas de maneira apresenta uma coleção dessas ideias.
intrincada com o que poderíamos provenientes dos mais conhecidos
Religião: Oriente e Ocidente considerar questões de fé. Ainda que filósofos e aqui resumidas em citações
Os vários ramos da filoso.fia não estão com frequência se use o raciocínio bem conhecidas ou em sínteses
apenas interligados, mas filosófico para justificar a fé no mundo vigorosas. Talvez a mais célebre
sobrepõem-se consideravelmente, judaico-cristão e islâmico. fé e crença citação da filosofia seja o "cogito, ergo
sendo às vezes difícil definir a que se integram na filosofia oriental de um sum" de Descartes (traduzida do latim
área pertence·uma ideia particular. A modo que não encontra paralelo no como "penso, Jogo existo"). Trata-se de
filosofia ta1nbém ultrapassa os limites Ocidente. Os pontos de partida dessas uma das ideias centrais da história da
de várias disciplinas diferentes, duas tradições filosóficas também filosofia, delimitando um momento
incluindo a ciência, a história e as decisivo no pensamento que nos
artes. Criada a partir do conduziu à era moderna. Por si só.
questionamento dos dogmas contudo, a citação não significa muito:
religiosos e superstições, a filosofia é a conclusão de uma linha de
também investiga a própria religião, argumento sobre a natureza da certeza
formulando perguntas como "Deus e faz sentido somente quando
existe?" ou "Temos uma alma Não há nada bom examinamos o raciocínio que a

lIIlOrtal?". Tais questões têm suas ou rwm, mas pensar sustenta. E é apenas quando
raízes na metafísica, mas implicações toma-o assim. examinamos aonde Descartes foi com
também na ética. Por exemplo, alguns William Shakespeare a ideia - ou seja, quais as
filósofos perguntam se nossa consequências daquela conclusão -
moralidade vem de Deus ou se é uma que percebemos sua importância.
construção humana - e isso, por sua Muitas das ideias contidas neste
vez, suscitou um grande debate sobre livro podem parecer enigmáticas à
o livre-arbítrio da humanidade. primeira vista. Algumas talvez soem
16 INTRODUÇÃO

evidentes, outras paradoxais ou diferentes campos do pensamento do filosofia, maneiras de pensar e


desafiadoras do senso comum. E mesmo :filósofo. Outras emergem da organizar nossos pensamentos.
também há aquelas qu.e parecem sob análise ou critica da obra de outro Convém lembrar que essas ideias são
medida para atestar a sentença filósofo. Tais ideias podem integrar apenas uma pequena parte do
irreverente de Bertrand Russell, de que uma linha de raciocínio que se pensamento de cada filósofo - em
"a questão principal da filosofia é estende ao longo de várias gerações geral, a conclusão de uma longa linha
co1neçar com algo tão simples que dê ou mesmo séculos - ou, ainda, de raciocínio.
a impressão de não valer a pena ser constituir o conceito central de uma
enunciado e terminar com algo tão "escola" filosófica específica . Ciência e sociedade
paradoxal en1 que ninguém irá Muitos dos grandes filósofos Essas ideias seminais também
acreditar". Mas por que essas ideias organizaram "sistemas" integrados de espalharam sua influência além da
são tão importantes? filosofia com ideias interconectadas. filosofia . A lgumas geraram
Suas opiniões sobre como adquirimos movimentos científicos, políticos ou
Sistemas de pen.s amento conhecimento, por exemplo, pode1n ter artísticos. Muitas vezes, a relaÇão
Em alguns casos, as teorias levado a uma visão inetafísica ent re ciência e filosofia é de
apresent adas neste livro foram as particular sobre o universo e a allna do intercâmbio, co1n ideias de um lado
primeiras de seu gênero na história do homem. Isso, por sua vez, guarda informando o outro De fato, há todo
pensamento. Embora certas implicações sobre o tipo de vida que o u1n campo na fi losofia que estuda o
conclusões possam hoje parecer filósofo acredita que devemos levar e pensamento por trás dos métodos e
óbvias, em retrospecto foram que tipo de sociedade seria ideal. E, práticas científicas. O
surpreendentemente novas e·m sua por sua vez, esse sistema inteiro de desenvolvimento do pensament o
época e, apesar de sua aparente ideias apresenta-se como o ponto lógico influenciou o modo como a
simplicidade, podem nos servir para inicial para filósofos subsequentes.
reexaminar coisas que admitimos Devemos lembrar também que
como certas. As teorias abordadas no essas ideias quase nunca se tornam
livro que parecem ser paradoxais e datadas. Elas ainda têm muito a nos
contré;irias ao senso comum são as dizer, mesmo quando filósofos e
ideias que realmente questionam cientistas subsequentes provaram que
nossas suposições sobre nós mesmos suas conch.1sões estavam erradas. De O ceticismo é o primeiro
e o mundo - e elas também nos fazem fato, muitas ideias rejeitadas durante passo em direção à verdade.
pensar em novas maneiras de ver as sécu.los provaram ser Denis Diderot
coisas. Há várias ideias aqui surpreendentemente prescientes,
concernentes a questões sobre as como as teorias dos antigos atomistas
quais os filósofos ainda estão gregos, por exernplo. De maneira
ponderando. Algumas se relacionam a notável, tais pensadores
outros pensamentos e a teorias em estabeleceram os processos da
-
INTRODUÇAO 17

-
matemática evoluiu até se tornar a essas icleias nos textos originais, você frequência chega1n a conclusões
base para o método científico, que se não vai apenas concordar ou discordar radicalmente diversas em suas
vale da observação sistemática para do que dizem e seguir o raciocínio que investigações sobre questões que a
explicar o mundo. Já as ideias sobre a os levou às conclusões. mas ta1nbém ciência não pode (e a religião não
natureza do "eu" e da consciência formar uma imagem de que tipo de ousa) explicar.
desenvolveran1-se até a ciência da pessoa está por trás desses
psicologia. pensamentos. Você poderá, por O prazer da filosofia
O mesmo é verdadeiro J:>ara a exemplo, entusiasmar-se com o O autoquestionamento e a curiosidade
relação da filosofia com a sociedade. espirituoso e encantador Hume, são atributos humanos, assim corno a
Toda espécie de ética encontrou apreciando sua prosa magnificamente excitação da exploração e a alegria da
adeptos em líderes politicos ao longo clara mesmo que se sinta pouco à descoberta. Com a filosofia atingimos
da história, instigando revoluções e vontade com o que ele tem a dizer. Ou, o mesmo tipo de "euforia'·
moldando as sociedades nas quais então, deleitar-se com o discurso proporcionada pela atividade física - e
vivemos hoje. As decisões éticas persuasivo de Schopenhauer, ainda o mesmo prazer experimentado ao
;;ornadas em todas as profissões têm que experünente a sensação de que o apreciarmos as artes. Acima de tudo,
dimensões morais que são autor não era um homem temos a satisfação de chegar a
J!lfluenciadas pelas ideias dos grandes particularmente agradável crenças e ideias por meio de nosso
pensadores da filosofia . Acima de tudo, esses pensadores próprio raciocínio, e não por imposição
foram (e ainda são) interessantes e da sociedade, da religião, da escola ou
Por trás das ideias estimulantes. Os melhores também se mesmo dos filósofos c-onsagrados. •
As ideias filosóficas são influenciadas destacaram co1no grandes escritores:
pelos contextos sociais e culturais em seus textos originais podem ser tão
q':le foram formuladas pelos filósofos. prazerosos q uanto a prosa de ficção.
Quando as examinamos, obtemos um Podemos apreciar não apenas seus
~etrato de certas características estilos literários, mas também
nacionais e regionais, assim como um seus estilos filosóficos: o modo como
sabor da época especifica. apresentam seus argum.entos, além de O início do pensamento
Os filósofos estudados acrui nos estimular a mente, pode ser tão está no desacordo -
apresentam personalidades distintas. elevado quanto a grande arte, tão não apenas com os outros,
..;.guns pensadores são otimistas e elegante quanto uma demonstração mas também conosco.
outros. pessimistas; alguns são matemática e tão espirituoso quanto Eric Hoffer
detalhistas, outros pensam em vastos um orador inspirado.
r.or1zontes; alguns se expressam em A filosofia não trata simplesmente
h.nguagem clara e precisa. outros de de ideias. É um modo de pensar.
fo~ma poética, densa e abstrata, nem Muitas vezes, não há respostas certas
sempre simples de destrinchar. Ao ler nem erradas, e filósofos diferentes com
20 INTRODUÇÃO
Tales de Mileto,
o primeiro filósofo
grego conhecido, Data tradicional de Empédocles propõe
busca respostas nascimento de sua teoria dos quatro
racionais para Confúcio, cuia Morte de Sidarta elementos clássicos.
questões sobre filosofia é centrada no Gautama, o Buda, É o último filósofo grego
o mundo em que respeito e na fundador da religião e da a registrar suas ideias
.
vivemos. tradição . filosofia do budismo. em verso.

624-546a.C. 551 a.e. 480a.C. c.4&0a.c.

569a.C. 508a.C. 469a.C. 404a.C.

Nascimento de Pitágoras, A poderosa Nascimento de Sócrates, A derrota na


pensador grego que cidade-estado grega de cujos métodos de Guerra do
combinou filosofia Atenas adota a questionamento em Atenas Peloponeso leva
e matemática. const ituição formaram a base de grande ao decünio do
democrática. parte da filosofia ocidental. poder político de
Atenas.

esde o início da história foram apenas respostas, mas todo um matemáticas apresentassem
humana fazemos perguntas processo de como pensar significado mistice entre os adeptos
1 sobre o mundo e sobre nosso racionalmente, bem com uma ideia do da escola pitagórica. suas explicações
lugar nele. Para as primeiras tipo de explicação que poderia ser numéricas sobre o cosmos tiveram
sociedades, as respostas para as considerada satisfatória. Por isso, profunda influência nos primórdios do
questões fundamentais eram Tales de Mileto é considerado o pensamento científico.
encontradas na religião: as ações dos primeiro filósofo.
deuses explicavam o funcionamento A preocupação dos primeiros Filosofia clássica grega
do universo e ofereciam uma estrutura filósofos concentrava-se na indagação Enquanto as cidades-estados gregas
para as civilizações humanas. básica de Tales: "Do que é feito o cresciam em importância, a filosofia
Algumas pessoas. no entanto, mundo?". Suas respostas constituem a espalhava-se no mundo grego a partir
considerando inadequadas as base do pensamento científico e da região da Jônia - Atenas em
explicações religiosas, começaram a forjaram uma relação entre ciência e par ticular - , que estava se tornando
buscar respostas baseadas na razão filosofia que perdura até hoje. A obra rapidamente o centro cultural da
em lugar da convenção. Essa mudança de Pitágoras marcou uma grande Grécia. Foi ali que os filósofos
marcou o nascimento da filosofia, e o mudança, visto que ele procurou ampliaram o objetivo da filosofia para
primeiro dos grandes p ensadores explicar o mundo em termos da incluir novas questões, do tipo "Como
conhecidos foi Tales, de Mileto - matemática, e não em razão de sabemos o que sabemos?" ou "Como
cidade grega situada na atual Turquia. alguma forma de matéria primordial. devemos viver nossas vidas?". Um
Tales usou a razão para investigar a Pitágoras e seus seguidores ateniense, Sócrates, conduziu o breve
natureza do universo e encorajou descreveram a estrutura do cosmos porém altamente influente periodo da
outros a fazer o mesmo. O que em números, relações ê geometria. filosofia clássica g rega. Embora não
transmitiu a seus seguidores não Embora algumas dessas relações tenha deixado escritos, suas ideias
OMUNDO ANTIGO 21

Ptolomeu, um
cidadão romano do Egito, Galeno de Pérgamo
Platão funda sua Zenão de Citio formula propõe a ideia de que realiza extraordinária
Academia, de sua filosofia estoica, que a Terra está no pesquisa médica, que só
grande influência continua a ter apoio no centro do universo e seria superada pelo trabalho
em Atenas. Império Romano. não se move. de Vesálio, em 1543.

c.385a.C. c.332-265 a.e. c.100-178 d.C. c.150 d.C.

335a.C. 323a.C. 122 d.C, 220d.C.

Aristóteles, discipulo A morte de Alexandre, Começa a construção O colapso da


de Plat ão, funda sua o Grande, sinaliza da Muralha de dinastia Han
própria escola em o final do domínio cultural Adriano na marca o fim da
Atenas - o Liceu. e político da Grécia no Grã-Bretanha, marco da China unificada.
mundo antigo. fronteira setentrional do Começa o Período
Império Romano. de Desunião.

orient aram o fu turo curso da filosofia, e novamente rivais. Depois da morte de conjunto de filosofias que estavam
todos os filó sofos antes dele Aristóteles, em 322 a. C., a filosofia menos preocupadas com a natureza do
tornaram-se conhecidos como pré- também se dividiu em escolas de universo do que com a melhor forma
-socráticos. Seu discípulo Platão pensamento diferentes, com cínicos, de organizar uma sociedade justa,
fundou em Atenas uma escola céticos, epicuristas e estoicos fornecendo diretrizes morais para os
filosófica chamada Academia, onde discutindo suas posições. indivíduos - e, durante o processo,
lecionou e d esenvolveu suas principais Nos dois séculos seguintes a investigando o que constitui uma vida
ideias, transmitindo-as a pupilos como cultura g rega decaiu, enquanto o "virtuosa". As chamadas "Cem Escolas
Aristóteles, que também viria a ser In1pério Romano cresceu. Os romanos de Pen samento" floresceram nesse
professor ali durante vinte anos. As tinham pouco tempo para a filosofia, à período, e as mais significativas entre
ideias e os métodos contrastantes parte o estoicismo, mas as ideias elas foram o confucionismo e o
desses grandes pensadores - Sócrates, gregas persistiram, principalmente taoísmo - ambas continuaram a
Platão e Aristóteles - forrnam a base porq ue preservadas nos manuscritos e dominar a filosofia chinesa até o
da filosofia acidenta 1 como a traduções do mundo árabe. Elas século XX..
conhecemos hoje. Suas diferenç as de ressurgiram posteriormente durante a No sul da China, s urgiu um filósofo
opinião dividiram os filósofos ao longo época medieval, com a ascensão do igualmente influente: Sidarta
da história. cristianismo e do islamismo. Gautama, conhecido depois como
O período clássico da antiga Buda. A partir de seus ensinamentos
Grécia teve seu fim com a morte de Filosofias orientais
,
na Índia setentrional. por volta de
Alexandre, o Grande. em 323 a.C. Esse Pensadores em toda a Asia t ambém 500 a.e .. sua filosofia espalhou-se pelo
grande líder t inha unificado a Grécia. questionavam a sabedoria subcontinente
,
e por g rande parte da
As cidades-estados gregas. que até convencional. A revolução política na Asia meridional, onde ainda hoje é
então cooperavam, torna ram-se China de 771 a 481 a.C. levou a um amplamente praticada. •
22

TALES DE MILETO (c.624-546 a.G.)

EM CON'rEXTO
ÁREA
Metafísica
ABORDAGEM
+
Monismo
ANTES A partir da observação, Tales deduziu que condições
2500-900 a.e. A civilização específicas de tempo, e não súplicas aos deuses, levavam a uma boa
minoica em Creta e a posterior colheita. Dizem que ele, prevéndo uma alta produção das oliveiras em certo
civilização micênica na Grécia ano, comprou as moendas de azeitonas da região, obtendo grandes lucros
depois, ao alugá-las para satisfazer a demanda crescente.
dependiam da religião para
explicar fenômenos físicos.
urante o período arcaico eclipse total do sol em 585 a.C. Essa
c.1100a.C. O mito da criação
(meados do século VIII-VI a.C.), maneira prática de pensar levou-o a
babilônico, Ena.ma Elis, descreve
os povos da península grega acreditar que os aconteciment os no
o estado original do mundo como
gradualmente se estabeleceram em mundo não se deviam à intervenção
uma massa aquosa. um grupo de cidades-estados e sobrenatural, mas tinham causas
c.700a.C. A Teogorría, do poeta desenvolveram um sistema de escrita naturais que a razão e a observação
grego Hesíodo, narra como os alfabético, bem como os primórdios do revelariam.
deuses criaram o universo. que hoje é reconhecido como filosofia
ocidental. As civilizações anteriores se Substância fundamental
DEPOIS valiam da religião para explicar os Tales precisava est abelecer um
Início do século V a.e. fenômenos do mundo ao seu redor. princípio a partir do qua 1 trabalharia,
Empédocles propõe os quatro Agora, uma nova estirpe de então formulou a pergunta "Qual é a
elementos básicos do cosmos: pensadores surgia e tentava encontrar matéria-prima básica do cosmos?".
terra, água, ar e fogo. explicações naturais e racionais. A ideia de que tudo no u niverso pode
c.400a.C. Leucipo e Demócrito O primeiro desses pensadores ser reduzido basicamente a uma
científicos foi Tales de Mileto. Nada única substância é a teoria do
concluem que o cosmos é
sobreviveu de seus textos, mas monismo, e Tales e seus seguidores
constituído de átomos e espaço
sabemos que detinha bom domínio foram os primeirós a propor isso
vazio. de geometria e astronomia e dentro da filosofia ocidental. Tales
atribui-se a ele a previsão de um ponderou que a matéria-prima básica


OMUNDO ANTIGO 23
Ver também: Anaximandro 330 • Anaxímenes de Mileto 330 • Pitágoras 26-29
• Empédocles 330 • Demócrito e Leucipo 45 • Aristóteles 56-63

' t 40 _ _ _ . _. . ._ _ _ __ __

4
1
1
M
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+
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.
.
,
-
~
Qual é a matéria-prima
básica do cosmos?

Ela deve ser. ..

Tales de Mileto
Embora saibamos que
Ta les nasceu e viveu em
Mileto, na costa da atual
. .algo a partir Turquia, muito pouco s e
do qual ... essencial ... capaz ...capaz conhece sobre sua vi.da .
tudo possa à vida. de se mover. de mudar. Nenhum de seus textos -
ser formado. se é que deixou algum -
sobreviveu. No entanto,
sua reputação como u m dos
principais pensadoreis
gregos antigos parece
merecida: ~á referências a
ele em Aristóteles e ·em
Diógenes Laércio, o biógrafo
do século III dos antigos
filósofos gregos.
Rumores sugerem que,
além de ser filósofo, Tales
do universo tinha de ser algo a flutuar sobre uma base de água, da envolveu-se ativamente na
partir do qual tudo o mais pudesse qual ele emergiu. Quando ocorre algo política e era um homem de
ser formado. Tinha, ainda, de ser qt1e causa ondulações ou tremores negócios bem-sucedido.
essencial à vida, capaz de movimento nessa água, propôs Tales, nós os Espec ula-se qu.e viajou
'
e, portanto, de mudança. Ele not ou sentimos con10 terre motos. bastante pelo Mediterrâneo
que a água é evidentemente Ainda que s eja m interessar1tes os oriental - em visita ao Egito,
necessária para sustentar todas as detalhes das teorias de Tales, elas não teria aprendido a geometria
formas de vida, e que ela se move e são a pr incipal [azão pela qual ele é prática que se torn.aria a base
se modifica, assumindo diversas considerado uma figura destacada na de seu raciocínio dedutivo.
íormas, do líquido ao gelo sólido e à história da filosofia . Sua real No entanto, Tales era
névoa vaporosa. Tales concluiu, irnportância está no fato de que foi o acima de tudo u m p rofessor,
então, que toda matéria , primeiro pensador conhecido a buscar o primeiro da chamada Escola
respostas naturalistas e racionais, -em de Mileto. Anaximandro,
independentemente de suas
seu discípulo, expandiu sua s
aparentes propriedades, deve ser vez de atribuir os objetos e os
teorias científl.Gas e depois se
água em algum est ágio de acontecimentos aos caprichos de
tornou mentor de
tra nsformação. deuses v·oJ(lveis.. Ao fazer isso, ele e os Anaxímen es , o qual, acredita-
Tales também percebeu qll!e toda filósofos posteriores da Esco!a de -se, e n sinou ao jovem
massa de t erra parece chegar ao fim à Mi leto lançaram as bases do matemático Pitágoras.
beira da água. A partir disso. deduziu pensamento científico e filosófico no
que todo o conjunt o da terra devia mundo ocidental. •
24

"

LAO-TSÉ (e. SÉCULO VI a.C.)


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o século VI a.C., a China ideias criadas por esses funcionários


EM CONTEXTO avançou para um estado de tornou-se conhecido como as Cem
guerra interna quando o Escolas de Pensamento.
TRADIÇÃO
governo da dinastia Chou Isso coincidiu com o surgimento
Filosofia chinesa
desintegrou-se. Essa mudança criou, da filosofia na Grécia, com a qual se
ABORDAGEM dentro das cortes, uma nova classe partilhou de algumas preocupações,
Taoísmo social de administradores e como buscar estabilidade num mundo
magistrados, encarregados de planejar cm constante mudança e alternativas
ANTES estratégias para governar de maneira ao que anteriormente fora
1600-1046a.C. Durante a mais eficaz. O amplo con3unto de determinado pela religião. Mas a
dinastia Chang as pessoas
creem que o destino é
controlado pelas divindades e
cultuam os antepassados. Tao
(o Caminho)... A raiz de todas
1045-256 a.e. Na dinastia A fonte de toda
existência. as coisas, visiveis
. . , .
Chou, o M andato do Céu e lilVlSlVelS.
(autoridade dada pela divindade)
justifica decisões p olíticas.
DEPOIS ... é atingido
Século V a.C. Conillcio fixa por meio da...
regras para o desenvolvimento Uma vida solitária Agindo
pessoal e para o governo ético. de meditação ponderadamente,
Século IV a.e. O filósofo e reflexão. e não por impulso.
Chuang Tzu muda o foco do
taoísmo, concentrando-s e mais .
... wu we1
nas ações do indivíduo do que
(não ação).
nas ações do Estado_
Vivendo com paz ,
Século III d.C. Os estudiosos Agindo em
simplicidade e harmonia com
Wang Bi e Guo Xiang criam tranquilidade.
uma escola neotaofsta. a natureza.
OMUNDO ANTIGO 25
Ver também: Sidarta Gautama 30-33 • Confúcio 34-39 • Mozi 44 • Wang Bi 331 • Hajime Tanabe 244-245
'

filosofia chinesa evoluiu a 1:iartir da encontrado ao seguir o tao


prática política e, portanto, estava (caminho). É a base da filosofia
preocupada com moralidade e ética, conhecida como taoísmo.
em vez da natureza do cosmos.
Uma das ideias mais importantes Ciclos de mudança Conhecer os outros
dessa época veio do Tao Te Ching A fim de entender o conceito de tao é
é inteligência; conhecer
(O livro do cam inho e da vi rt ude), necessário saber como os antigos
atribuído a Lao-Tsé. Foi uma d a s chineses via111 o mundo em mutação.
a si mesmo é a verdadeira
primeiras tentativas de propor uma Para eles, as mudanças são cíclicas,
sabedoria.
teoria de governo justo, baseada no movendo-se continuamente de um Lao·Tsé
te (virtude), que poderia ser estado para outro - da noite para o
dia, do verão para o inverno, e assim
por diante. Os diferentes estados não
eram considerados opostps, mas
relacionados, um surgindo do outro.
Tais estados também possuiriam No entanto. seguir o tao não é uma
propriedades complementares que questão simples, como o Tao Te Ching
juntas compõem um todo. O processo reconhece. Filosofar sobre o tao é
de mudança seria uma expressão do inútil, visto que ele está além de
tao, condL1zindo às 10 1nil qualquer coisa que os humanos
manifestações que formam o mundo. possam conceber. É caracterizado pelo
Lao-Tsé, no Tao Te Ching, díz que os wu ("não ser"), de modo que só
humanos são apenas uma dessas podemos viver segundo o tao por meio
manifestações e não têm status do wu we1, ou seia. da "não ação" Com
especial. Mas, por causa do nosso isso, Lao-Tsé não prega o "não fazer",
des ejo e do livre-arbítrio, podemos mas, sim, o agir de acordo com a
Viver em harmonia com a natureza é a
~rilha que o Tao Te Ching prescreve para
nos desviar do tao e perturbar o natureza - espontânea e
a vida equilibrada. Para este homem, isso equilíbrio harmonioso do mundo. intuitivamente. Isso acarreta agir sem
talvez signifique respeitar o equilíbrio do Viver uma vida v irtuosa significa agir desejo, ambição ou submissão às
lago e não pescar em demasia. de acordo com o tao. convenções sociais. •

Lao-Tsé Muito pouco se sabe sobre o autor A lenda diz que Lao-Tsé deixou a
do Tao Te Ching, que corte quando a dinastia Chou
tradicionalmente é atribuído a entrou em decadência e viajou
Lao-Tsé. A respeito dessa figura para o oeste em busca de
quase mítica, já foi insinuado que a solidão. Quando estava prestes a
obra não era sua, consistindo, na cruzar a fronteira, um dos
verdade, numa compilação de frases guardas o reconheceu e pediu
de um grupo de estudiosos. O que um testemunho de sua
sabemos é que havia um erudito sabedoria. Lao-Tsé teria escrito o
nascido no estado de Chu, com o Tao Te Ching para ele e , então,
nome de Li Er ou Lao Tan, durante seguiu viagem para nunca mais
a dinastia Chou, que se tornou ser visto.
conhecido como Lao-Tsé (Antigo
Mestre). Vários textos indicam que Obra-chave
se tratava de um arquivist a da
cort e, e que Confúcio o consultou a e. século VI a.e .
respeito de rituais e cerimônias. Tao Te Ching
26
• EM CONTEXTO
ÁREA
Metafísica
ABORDAGEM
Pitagorismo
ANTES
Século VI a.e. Tales propõe
uma explicação não religiosa
do cosmos.
DEPOIS
c.535-c.475a.C. Heráclito
'
rejeita o pitagorismo e afirma
que o cosmos é governado pela
mudança.
c.428 a.e. Platão introduz seu
conceito de formas perfeitas,
reveladas ao intelecto e nã0 aos
PITÁGORAS (c.510-495 a.C.) sentidos.
c.300a.C. Euclides,
matemático grego, estabelece
os princípios da .g eometria.
1619 O matemático alemão
Johannes Kepler descreve a
relação entre geometria e
fenômenos físicos.

filosofia ocidental estava em


seu início quando Pitágoras
nasceu. Em Mileto, na
Grécia, u·m grupo de filósofos de
uma geração anterior, conhecidos
coletivamente como Escola de
Mileto, tinha começado a procurar
explicações racionais para
fenômenos naturais, inaugurando a
tradição filosófica ocidental.
Pitágoras passou a infância não
muito longe de Mileto, dai ser
provável que conhecesse, ou talvez
até tivesse estudado, na academia
desses filósofos . Dizem que
Pitágoras - como Tales, fundador da
Escola de M·ileto - aprendeu os
rudimentos da geometria numa
viagem ao Egito. Tal formação
OMUNDO ANTIGO 27
Ver também: Tales de Mileto 22-23 • Sidarta Gautama 30-33 • Heráclito 40 • Platão·50-55 • René Descartes 116-123

Tudo no universo Se compreendemos ... compreendemos A matemática é


se conforma às ) o número e • também a o modelo para o
regras e relações as relações estrutura do pensamento
matemáticas . matemáticas ... cosmos . filosófico.

·-------.....J
O número é o regente O número é o regente
das formas. das ideias.

provavelmente o influenciou a seguindo regras estritas de dieta e duas faces das crenças de Pitágoras
abordar o pensamento filosófico de comportamento. enquanto estudavam - a mística e a científica - parecem
forma cientifica e matemática. teorias religiosas e filosóficas. Os incompatíveis, mas o :filósofo não as
pitagóricos, como seus discípulos via assim. Para ele o objetivo da vida é
A academia pitagórica eram conhecidos, viam as ideias de libertar-se do ciclo de reencarnação, o
Entretanto, Pitágoras também era Pitágoras como revelações místicas - que pode ser obtido com a adesão a
profundamente religioso e embora algumas descobertas um rígido conjunto de regras de
supersticioso. Acreditava em atribuídas a ele como "revelações" comportamento e por meio da
reencarnação e na transmigração das possam. de fato, ter vindo de outros contemplação (ou o que chamaríamos
almas. Estabeleceu um culto religioso, membros da comunidade. Suas ideias de pensamento cientifico objetivo). Na
assumindo o papel de messias virtual, foram registradas por discípulos, entre geometria e na matemática encontrou
em Crotona, no sul da Itália. Seus os quais se incluíam sua esposa, verdades que julgou evidentes por si
discípulos viviam em comunidade, Teano de Crotona, e suas filhas As mesmas. como se ofertadas pelos »

Pitágoras Pouco se conhece sobre a vida de de cerca de trezentas pessoas em


Pitágoras, que não deixou textos Crotona, no sul da Itália. Seus
escritos. Infelizmente, como o membros eram iniciados numa
filósofo grego Porfírio mencionou em mistura de estudos místicos e
sua Vita Pythagorae, "ninguém acadêmicos e, apesar da natureza
sabe ao certo o que Pitágoras disse coletiva, Pitágoras era o líder da
a seus colegas, já que eles comunidade. Aos sessenta anos,
observavam um silêncio incomum". dizem que se casou com uma
Estudiosos modernos acreditam que jovem, Teano de Crotona. Uma
Pitágoras provavelmente nasceu na hostilidade crescente contra o
ilha de Samos, na costa da atual culto pitagórico o forçou a deixar
Turquia. Quando jovem, viajou Crotona, e ele fugiu para
bastante, talvez estudando na Metaponto, também no sul da
Escola de Mileto e provavelment e Itália, onde morreu logo depois.
visitando o Egito, que era um centro Sua comunidade tinha
de ensino. Com cerca de quarenta virtualmente desaparecido no
anos, estabeleceu uma comunidade final do século IV a.e.
28 PITÁGORAS
O Teore ma de Pitágoras mostrou que as
formas e as razões matemáticas são governadas
por princípios decifráveis. Isso sugeriu que
talvez fosse possível formular a estrutura do
cosmos inteiro.

c2 Há geometria no som
das cordas, há música
b2 b e
no espaçamento
das esferas.
Pitágoras
a

ª2
pontos), tinha um significado
particular n o ritual pitagórico. De
maneira menos controversa, eles

b2 -- c2 consideravam o número um como um


ponto único, uma unidade, a partir do
ª2 + qual outras coisas podiam ser
derivadas. O número dois, nessa
maneira de pensar, era uma linha, o
número três uma superficie ou plano,
deuses, e elaborou demonstrações matemáticas. Ele dizia que o número e o quatro um sólido. A
matemáticas que tivessem o impacto (razões numéricas e axiomas correspondência com o conceito
de uma revelação divina. matemáticos) pode ser usado para moderno de dimensões é óbvia.
Como essas descobertas explicar a estrutura dlo cosmos. E não A explicação pitagórica sobre a
matemáticas resultavam de puro descartou totalmente a teoria criação do universo seguiu um padrão
raciocinio, Pitágoras as via como milesiana do universo composto de matemático: no Ilimitado (o infinito
mais valiosas do que meras u1na substância fundamenta l - apenas que existia antes do universo), Deus
observações. Por exemplo, os egípcios deslocou a investigação de substância impôs um Limite, então tudo o que
haviam descoberto que um triângulo para forma . existe veio a ter um tamanho real.
cujos lados têm a razão de 3:4:5 Essa foi uma mudança profunda Dessa forma, Deus criou uma unidade
sempre tem um ângulo reto, e isso foi no modo de ver o mundo - o que nos mensurável, a partir da qual todo o
útil na prática, como na arquitetura. leva a perdoar Pitágoras e seus resto foi formado.
Mas Pjtágoras descobriu o principio discípulos por ficarem tão extasiados
fundamental de todos os triângulos ao dar aos números um significado Harmonias numéricas
com ângulo reto (que o quadrado da místico. Por meio da exploração da A descoberta mais importante de
hipotenusa é igual à soma dos relação entre números e geometria, Pitágoras diz respeito às relações
quadrados dos dois catetos) e eles descobriram os números entre os números: razões e
verificou que isso era universalmente quadrados e cúbicos - dos quais proporções. Isso foi reforçado por sua
verdadeiro. l'al descaber ta foi tão falamos até hoje -, mas também investigação sobre a música e, em
extraordinária, e tinha tanto atribuíram a eles características particular, sobre as relações entre as
potencial aplicativo, que os como "bom" (para os números pares), notas que, juntas, soavam de forma
pitagóricos consideraram-na uma "mal" (ímpares), "justo" (o número agradável. Uma história conta que
revelação divina. quatro), e assim por diante. O número ele concebeu' essa ideia ao ouvir dois
Pitágoras concluiu que todo o dez, na forma de um tetractys (forma ferreiros trabalhando. Um tinha uma
cosmos deve ser governado por regras triangular composta por filas de bigorna com a metade do ta manho
OMUNDO ANTIGO 29
do ou tro, e os sons das marteladas de acordo com o peso atômico,
estavam exatamente a uma oitava aqueles com propriedades similares
(oito notas) de distância. Embora ocorrem a cada oito elementos, como
isso possa ser verdade, foi notas de música. Essa descoberta
provavelmente por meio da tornou-se conhecida como Lei das
experiência com uma corda Oitavas e auxiliou no
dedilhada que Pitágoras determinou desenvolvimento da Lei Periódica dos A razão é imortal,
as razões dos intervalos consonantes elementos químicos, ainda usada todo o resto é mortal.
(o número de notas entre duas notas hoje. Pitágoras
que determina se elas vão soar Pitágoras também estabeleceu o
harmoniosamente se tocadas em principio do raciocinio dedutivo, que é
conjunto). Ele descobriu que esses o processo passo a passo que começa
intervalos eram harmoniosos porque com axiomas evidentes (tais como
a relação enLre eles era uma razão "2 + 2 = 4") para estabelecer uma nova
matemática precisa e simples. Essa conclusão ou fato. O raciocínio
série, conhecida agora como série dedutivo foi mais tarde refinado por
harmônica, confirmou-lhe que a Euclides, formando a base do problema que, sob certos aspectos,
elegância da matemática encontrada pensamento matemático até a Idade tem perseguido a filosofia e a religião.
na geometria abstrata também Média e mais além. Quase tudo que sabemos sobre
existia no mundo natural. Uma das contribuições mais Pitágoras chegou até nós por meio de
importantes de Pitágoras ao outros - até os simples fatos de sua
As estrelas e os elementos desenvolvimento da fi losofia foi a ideia vida são, em grande parte,
Pitágoras agora tinha provado não de que o pensamento abstrato é conjecturas. Ainda assim ,
apenas que a estrutura do universo sup erior à evidência dos sentidos. o pensador alcançou um status
podia ser explicada em termos Platão retomaria o conceito em sua quase lendário devido às ideias
matemáticos - "o número é o regente Teoria das Formas, assim como os atribuídas a ele. Se Pitágoras de fato
das formas"-, mas também que a racionalistas do séÇ1,1lO XVII ao definir foi ou não o criador dessas teorias
acústica é uma ciência exata e os seu método filosófico. A tentativa não importa. O importante, sim, é
números governam as proporções pitagórica de combinar o racional com o profundo efeito delas no
harmônicas. Ele então começou a o religioso foi pioneira ao lidar com um pensamento filosófico. •
aplicar suas teorias ao cosmos,
demonstrando a relação harmônica
das estrelas, planetas e elementos.
Sua ideia de relações harmônicas
entre as estrelas foi avidamente
retomada por astrônomos medievais e
renascentistas, que desenvolveram
teorias em torno da ideia da música
das esferas, e sua sugestão de que os
elementos estavam dispostos
harmoniosamente foi revisitada mais
de dois milênios após sua morte. Em
1865, o químico inglês John
Newlands descobriu que, quando os
elementos químicos estão dispostos

A a rquitet u r a clássica segue as


razões matemáticas pitagóricas
Formas harmônicas e razões são usadas
em toda parte - só mudam as escalas,
conforme a aplicação.
30
EM CONTEXTO
TRADIÇÃO
Filosofia oriental
ABORDAGEM
Budismo
ANTES
c .1500a.C. O vedismo alcança
o subcontinente indiano.
e. séculos X-Va.C.
O bramanismo substitui as
crenças védicas.
DEPOIS
Século III a.e. O budismo se
espalha do vale do Ganges para

SIDARTA GAUTAMA (c.563-483 a.e.) o oeste ela Índia.


Século Ia.e. Os ensinamentos
de Sidarta Gautama são escritos
pela primeira vez.
Século I d.C. O budismo se
espalha para a China e o
sudeste asiático. Diferentes
escolas budistas se
desenvolvem em diferentes
áreas.

idarta Gautama, que ficaria


conhecido como Buda, "o
'
iluminado", viveu na India
num periodo em q ue os relat os
religiosos e mitológicos acerca do
mundo sofriam questionamentos.
Na Grécia, pensadores como
Pitágoras investigavam o cosmos
utilizando a razão; na China, Lao-
-Tsé e Confúc io desvinculavam a
ética do dogma religioso. O
bramanismo, relig ião que evoluíra
do vedismo - a antiga crença
baseada nos textos sagrados dos
Vedas -, era a fé dominante no
subcontinente indiano no século
VI a .C. Sidarta Ggiutama foi o
primeiro a desafiar tal sistema com
seu raciocínio filosófico.
OMUNDO ANTIGO 31
Ver também: Lao-Tsé 24-25 • Pitágoras 26-29 • Confúcio 34-39 • David Hume
148-153 • Arthur 'Schopenhauer 186-188 • Hajime Tanabe 244-245

'

O sofrimento é parte inerente da


A verdade do sofrimento ·
existência desde o nascimento, (Dukkha).
na doença e na velhice, até a morte .

A causa do sofrimento

é A verdade da Sidarta Gautama
o desejo: anseio pelos prazeres origem do sofrimento
sensuais e apegos a os bens e (Samudaya). Quase tudo que sabemos
ao poder mundano. sobre a vida de Sida:rta
Gautama vem elas biogFafias
escritas por seus seguidora~
séculos depois de sua morte,
O sofrimento pode acabar e que diferem muito em
A verdade do
por meio do desapego·do anseio vários detalhes. Mas é certo
fim do sofrimento
e-do apego. que ele nasceu em Lumbini,
(Nirodha) .
-----"'l·... "· l
,..,...,,..;,..•q !M" at !W •f
atual Nepal, por volta de
560 a.e. Seu pai era
possivelmente um nobre, e
Sidarta Gautama levou uma
O Caminho Óctuplo A verdade do caminho vida privilegiada de luxo e
é o meio para eliminar o desejo para o fim do sofrimento grande status.
e superar o e g o. (Magga). Insatisfeitq com isso,
d.eixou esposa e filho para
d.edicar-se à espiritualidade
e descobrir o "caminho d0
meio" entre a indulgência
Embora reverenciado pelos especulação sem sentido. Em vez sensual e o ascetismo.
budistas por sua sabedoria, Gautama disso, ele se envolveu com a questão Atingiu a iluminação quando
não era um messias nem um profeta. do objetivo da vida - o que, por Slla meditava à sombra da árvore
Não atuava como pont e entre Deus e vez, envolvia investigar os conceitos de bodhi e dedicou o resto
3omem. Chegou a suas ideias por meio de felicidade, virtude e vida "correta". d'a vida a viajar e pregar por
da reflexão, e não da revelação divina. toda ·a Índia. Depoi.s de ·s ua
e é isso que marca o budismo como O caminho do meio morte, seus ensinamentos
uma filosofia tanto quanto (ou talvez No começo da vida, Gautarna foram transmitidos oralmente
ar.é mais que) uma religião. S ua busca desfrutou da luxúria e, dizem, de por cerca de quatrocentos
foi filosófica - para descobrir verdades todos os praze res sensuais. No anos até serem escritos no
- e e le sustentava que as verdades que entanto, compreendeu que isso não Tripitaka.
propunha estavam disponiveis para lhe bastava para trazer a verdadeira
Obra-chave
wdos pelo poder da razão. Como a felicidade . Consciente acerca do
:naioria dos filósofos orientais, não se sofrimento no mundo, percebeu que
S é culo 1 d.C.
interessou pelas questões isso se devia em grande parte à Tripitaka (ou "três cestos",
:rrespondjveis da metafisica que tanto doença, à velhice e à morte - e ao fato relatado por discípulos,
'
pre ocupavam os g regos. Por lidar com de que faltava às pessoas aquilo de contendo: Vinaya-pitaka, Sutta·
gntidádês além da nossa expêriência. que elas precisavam. Também -pitaka e Abhidhamma-pitaka)
esse tipo de investigação lhe parecia reconheceu que o prazer sensual ao »
32 SIDARTA GAUTAMA
prazo, mas não a felicidade no
sentido de contentamento e paz de
9SJ)ÍiltO.

O "não eu"
No raciocínio de Gautama. o passo Não acredite em nada,
seguinte dizia respeito à eliminação não importa onde você
dos apegos para evitar qualquer o leia ou quem o diga,
desapontamento e, então, impedir o a menos que esteja de acordo
sofrimento. Para conseguir isso, ele , .
com sua propr1a razao.
-
sugeriu uma causa para os apegos Sidarta Gautama
nosso egoísmo. e por egoísmo ele
queria dizer mais do que a tendência
humana de buscar satisfação. Para
Gautama, egoísmo é autocentrismo e
autoapego - o domínio do que hoje
Buda raspou o cabelo como parte de sua chamaríamos de "ego" Para nos
renúncia ao mundo matenal. De acordo livrar dos apegos que causam dor, e para encontrar um aLivio ao
com o ensinamenLo budista. as tentações portanto. não basta apenas renunciar sofrimento.
do mundo são a fonte de todo sofrimento às coisas que desejamos. Devemos
e deve-se resistir a elas ,
superar nosso vínculo com aquilo O Caminho Octuplo
que deseja: o "eu". O raciocínio de Gautama - das causas
qual nos entregamos para ahv1ar o Mas como isso pode ser do sofrimento até o caminho para
sofrimento raramente é satisfatório - conseguido? Dese10. ambição e conseguir a felicidade - é codificado
e quando o é, seus efeitos revelam-se expectativa fazem parte da natureza nos ensinamentos budistas das
transitórios Gautama considerava a humana e, para a maioria de nós, Quatro Nobre Verdades: o sofrimento é
experiência do ascetismo extremo constituem a própria razão de viver. universal; o desejo é a causa do
(austeridade e abstinência) A resposta, para Gautama, é que o sofrimento; o sofrimento pode ser
igualmente insatisfatória, incapaz de mundo do ego é ilusório - como ele evitado ao eliminar-se o desejo; seguir
aproximá-lo do entendimento sobre demonstrou, novamente. por um o Caminho Óctuplo elimina o desejo
como alcançar a felicidade. processo de raciocínio. Ele Esta última verdade refere-se ao
Chegou à concL.Jsão, então. de argumentou que nada no universo equivalente a um guia prático para o
que devia haver um "caminho elo origina a si mesmo, porque tudo "caminho do meio", concebido por
meio" entre a auto1ndu lgência e a resulta de alguma ação prévia Cada Gautama para seus seguidores em
automortificação. Esse caminho do um de nós seria apenas uma parte busca da iluminação. O Caminho
meio, ele acreditava, levaria à transitória desse processo eterno - Óctu}Jlo (ação correta, intenção
felicidade verdadeira, ou em última análise, impermanente e
"iluminação" Para encontrá-la, sem substância. Então, na realidade,
Gauta1na aplicou a razão às próprias não há "eu" que 11ão seja parte de um
experiências. todo maior - o "não eu". O sofrimento
O sofrimento, ele percebeu. é
universal Parte integral da
existência, é causado pela frustração
resulta de nosso fracasso em
reconhecer isso. O que não significa
que devemos rejeitar nossa
''
A paz vem de dentro.
dos nossos desejos e expectativas. ex1stência ou identidade pessoal. Ao Não a procure fora.
Tais dese1os ele chamou de "apegos", contrário, devemos entendê-las como
Sidarta Gautama
os quais incluem não apenas os são, ou seja, transitórias e sem
dese1os sensuais e as ambições substância. Entender o significado
mundanas, mas o nosso mais básico de ser uma parte constituinte de um
instinto pela autopreservação.
Satisfazer tais apegos, ele concluiu,
poderia trazer grat1 ficação a curto
"não eu" eterno, em vez de apegar-se
à noção de ser um "eu" único, é a
chave para abandonar aquele apego
''
OMUNDO ANTIGO 33

correta, modo de vida correto, qualquer experiência sensorial. E o Os ensinamentos de Gautama se
esforço correto, concentração correta, estado eterno e imutável de não ser e, espalharam até o império grego, por
íala correta, compreensão correta, assim, a libertação final do sofrimento volta do século III a.e., mas t iveram
consciência correta) é, na verdade, um da existência. pouca influência na filosofia ocidental.
código de ética - uma prescrição para Depois de sua iluminação, No entanto, havia similaridades entre
u ma vida correta e para a felicidade Gautama
,
passou muitos anos viajando a abordagem de Gautama e a filosofia
que Gautama, em primejro lugar, pela Indja, pregando e ensinando. dos gregos - entre elas, a ênfase na
começou a alcançar. Durante a vida, ganhou um razão como meio de alcançar a
considerável número de seguidores, e felicid ade e o uso dos d iálogos
Nirvana o budismo estabeleceu-se como filosóficos pelos discipulos para
Gautama considerava, como o objetivo religião importante, e também como elucidar os ensinamentos do mestre.
.~ nal da vida na Terra, o fim do ciclo de filosofia. Seus seguidores transmitiram O pensamento budista também
sofrimento (nascimento, morte e os ensinamentos budistas oralmente encontrou ecos nas ideias de filósofos
:enascimento) no qual nascemos. Ao até o século I d .C., quando foram ocidentais posteriores, como no
seguir o Caminho Óctuplo, o homem escritos pela primeira vez. Várias conceito do "eu" de I-fume e na
poderia superar seu ego, viver u ma escolas budistas começaram a concepção da condição humana de

·;1da livre do sofrimento e, por meio aparecer na India e, depois, Schopenhauer. Apenas no século XX
::ia 1Ju minação, evitar a dor do espalharam-se para o leste, para a o budismo exerceu influência direta
:e!las c imento em outra vida de China e o sudeste asiático, onde o no pensamento ocidental. Desde
~:;fr1mento. Ele compreenderia seu budismo rivalizou com o então. mais e mais ocidentais
..:gar no "não eu" e se tornaria uno confucionismo e o taoísmo em voltam-se para ta 1legado como um
.::im o eterno. Atingiria o estado do popularidade. g uia de como viver. •

:-.1rvana - termo traduzido
:i:·:ersamente como "não apego",
A roda do dharma, um dos mais antigos
;-,ão ser", ou literalmente "apagar-se"
símbolos budistas, representa o Cannnho
como uma vela). Óctuplo para o nirvana. No budismo, a
No bramanismo da época de palavra "dharma" refere-se aos
}autama - e na religião hindu que o ensinamentos de Buda .
• A o
sJ.cedeu - , o nirvana era entendido consc1enc1a
:orno tornar-se uno com Deus. Mas correta
:rautama cuidadosamente evitou
~.:a:quer menção a uma deidade ou a
_::: propósito final para a vida. Ele
compreensao - ação
correta correta
~esc reveu o nirvana apenas com o

:;ão nascido, não originado, não


c::ado e não formado", transcendendo

fala
o intenção
Caminho
correta correta
Óctuplo
A mente é tudo.
O que você pensa,
você se torna.
Sidarta Gautama
concentração modo de
correta vida correto

esforço
correto
,
CONFUCIO 551-479 a.C. •


- - - - - - - - ,,


36 CONFÚCIO
e 770 a 220 a.e .. a China
EM CONTEXTO viveu uma era de grande
desenvolvimento cultural.
TRADIÇÃO
As filosofias surgidas nessa época
Filosofia chinesa
ficaram conhecidas como as Cem
ABORDAGEM Escolas de Pensamento. Por volta do O homem superior faz
Confucionismo século VI a .e . a dinastia Chou o que é adequado à posição
entrou em declínio, saindo da que ocupa; ele não deseja
ANTES
estabilidade do Período da ir além disso.
Século VIIa.C. Surgem as
Primavera e Outono para o chamado Confúcio
Cem Escolas d e Pensamento. Período dos Reinos Combatentes
Século Vla.C. Lao-Tsé Foi nesse contexto que nasceu Kong
propõe agir de acordo com o tao Fuzi, o mestre Kong, ou Confúcio.
(o Camínho). Corno outros filósofos da época,
como os gregos Tales, Pitágoras e
DEPOIS Heráclito, Confúcio buscou o que
c.470-c.380a.C. O filósofo Mozi poderia haver de constante num Uma rígida hierarquia social
refuta as ideias confucionistas. mundo de mudanças. Para ele, isso existia na China, mas Confúcio fazia
372-289 a.e. O pensador equivalia a valores morais que parte de uma nova classe de eruditos
chinês Mêncio (Meng Zi) retorna capacitassem os governantes a que atuavam como conselheiros nas
o confucionismo. atuar de forma justa. cortes. Essa elite de servidores
públicos alcançara seu status não por
221-202a.C. O confucionismo é Os Analectos heran.ça, mas por mérito. Foi a
reprimido pela dinastia Oin. Diferentemente de muitos dos antigos integração de Cor1fúcio dos velhos
136 a.e. A dinastia Han filósofos chineses, Confúcio mirava o ideais com a emergente meritocracia
introduz exames para o serviço passado em busca de inspiração. que produziu sua nova e singular
público, tendo como modelo os Conservador por natureza , tinha filosofia moral.
textos confucionistas. grande respeito pelo ritual e pelo culto A grande fonte disponivel para os
aos ancestrais - ambos foram ensinamentos de Confúcio está nos
Século IX d.e. O mantidos pela dinastia Chou, cujos Analectos, coleção de fragmentos de
confucionismo renasce como governantes receberam a autoridade seus textos e úases compilada por
neoconfucionisrno. dos deuses por meio do chamado discípulos É basicamente um tratado
Mandato Divino. político composto de aforismos e

Confúcio De acordo com a tradição, ensino. Como professor, viajou


Confúcio nasceu em 551 a.e. em pelo império. No fim da vida,
Oufu, na província de Lu, na retornou a Oufu. ondle morreu
China. Seu nome era Kong Qiu e em 479 a.C. Seus ensinamentos
somente mais tarde ganhou o sobreviveram em fragmentos e
título Kong Fuzi, ou "Mestre frases transmitidos oralmente a
Kong". Pouco se sabe sobre sua discípulos e reunidos nos
vida, exceto que tinha origem Analectos e em antologias
abastada e que ainda jovem, compiladas por estudiosos
depois da morte do pai, teve de confucionistas.
trabalhar como criado para
sustentar a família. Contudo, Obras-chave
conseguiu estudar e tornou-se
administrador na corte Chou. Sé culo V a.e.
Quando suas sugestões aos Ana!ectos
governantes foram ignoradas, O caminho do .zpeio
partiu para se concentrar no O grande ensinamento
OMUNDO ANTIGO 37
Ver também: Tales de Mileto 22-23 • Lao-Tsé 24-25 • Pitágoras 26-29 • Sidarta Gautama 30-33 • Heráclito 40 •
Hajime Tanabe '244-245

anedotas que, juntos, formam uma Céu, como a fonte da ordem moral. De bênção do Mandato Divino, Confúcio
espécie de inanual de regras para o acordo com os Analectos, nós, argumentou que o homem virtuoso
bom governo, embora o uso da humanos, somos agentes escolhidos não é o que está no topo da hierarquia
palavra junzi ("cavalheiro") para pelo Céu para personificar sua vontade saciai, mas, sim, aquele que
denotar um homem superior, virtuoso, e para unir o mundo com a ordem compreende seu lugar dentro dessa
também indique o interesse social moral - uma ideia em sintonia com o hierarquia e o aceita. Para definir os
por parte de Confúcio. De fato, muitas pensamento tradicional chinês. No vários meios de atuação em
passagens dos Analectos se entanto. o que rompe com a tradição é conformidade com de, ele se volta para
assemelham a um livro de etiqueta. a crença de Confúcio de que a virtude valores tradicionais chineses: zhong
Mas considerar a obra um mero (de) não é um presente do Céu para as (fidelidade), xiao {piedade filiai), li
rratado social ou político ó não classes governantes, mas pode ser (rituais apropriados) e shu
perceber seu ponto central: no cerne, cu ltivada - por qualquer indivíduo. (reciprocidade). A pessoa que
trata-se de um amplo sistema ético. Tendo ele mesmo sido elevado a observasse sinceramente esses
1ninistro da corte Chou, Confúcio valores era chamada por Confúcio de
A vida virtuosa acreditava que era dever das classes junzi - o cavalheiro, no sentido de
-~ntes do surgimento das Cem Escolas médias, e dos governantes, homem de virtude, estudioso e
de Pensamento, o mundo tinha sido empenhar-se para agir com virtude e praticante das boas maneiras.
explicado pela mitologia e pela benevolência (ren) a fim de alcançar Os valores do de habitavam o seio
religião, e o poder e a autoridade moral uma sociedade justa e estável. das classes governantes, mas ti nham
eram geralmente aceitos como dádiva Para conciliar uma sociedade se tornado pouco mais do que gestos
àos deuses. Confúcio manteve silêncio estruturada num sistema rígido de vazios no mundo em desintegração da
em relação ao deuses, mas classe com sua crença pessoa] de que dinastia Chou. Confúcio tentou
f!equentemente se referiu ao tian, ou todos os homens podem receber a persuadir os governantes a retomar»

Fidelidade e Tais qualidades, nessas


... são exibidas em tradicionais ocasiões, permitem que a
sinceridade ...
rituais e cerimônias. virtude torne-se visível.

A virtude então A virtude pode então Os outros são


manifesta-se ser vista pelos outros. transformados
no mundo. pela virtude.

A lealdade e a fidelidade
têm o poder de
transformação.
,
38 CONFUCIO
esses ideais e a restaurar um governo
justo. Ele também pregava o poder da
As Cinco Relações benevolência, argumentando que
Constantes governar pelo exemplo, e não pelo
medo, inspiraria as pessoas a seguir
uma vida virtuosa. O mesmo princípio,
• ele acreditava, deveria governar os
relacionamentos pessoais.

Soberano - Súdito Fidelidade e ritual


Governantes devem ser Em sua análise sobre os
benevolentes; os súditos, leais. relacionamentos, Confúcio se valeu
de zhong - a virtude da fidelidade
- como princípio-guia. Inicialmente, Ritual e tradição, segundo Confúcio,
ele ressalta a imp ortância da são vitajs para unir o indivíduo à
fidelidade de um ministro a seu comunidade. Saber seu lugar na
sociedade libera a pessoa para se tornar
soberano. Então, mostra que uma
junzi. um homem de virtude.
relação similar existe entre pai e filho.
Pai - Filho marido e esposa, irmão mais velho e
Um pai deve ser amoroso; irmão mais novo e entre a1nigos. A receber convidados e oferecer
um filho. obediente. ordem na qual ele dispõe isso é presentes, além de simples gestos
significante: primeiro. a fidelidade cotidianos de cortesia, como a
política; depois, à família e ao clã; e, mesura e a forma de dirigir a
por últirno, a amigos e estranhos. palavra. Trata·se, d e acordo com
Para Confúcio, essa hierarquia reflete Confúcio, dos sinais externos de um
o fato de que cada pessoa deve de interno, desde que realizados com
conhecer sua posição na sociedade sinceridade - o que ele considerava
Marido - Esposa como um todo, assim como saber seu ser o caminho do Céu Por meio da
Maridos devem ser bons e justos;
lugar na familia e no c lã. demonstração visível de lealdade
esposas, compreensiva s.
O aspecto de "saber o seu lugar" é com sinceridade íntilna, o homem
exemplificado pelo xiao, a piedade sllperior poderia transformar a
filia]. que para Confúcio era muito sociedade.
mais do que apenas respeito aos pais
e aos mais velhos. Trata-se do que há Sinceridade
de mais próximo de ideias religiosas Para Confúcio, a sociedade podia ser
"'
Irmão mais velho -
dentro dos Analectos, porque xiao está
conectado com a tradição chinesa do
modifi<;:ada pelo exemplo. Ele
escreveu: "A sinceridade torna-se
Irmão mais novo
culto aos ancestrais. Acima de tudo, visfveL Sendo visível, ela se torna
O irmão mais velho deve
ser gentil; o irmão mais novo, xiao reforça a relação entre inferior e manifesta. Sendo manifesta. torna-se
respeitoso. superior, ponto central do pensamento brilhante. Afetando outros, eles são
confucionista.
,
modificados por ela. Modificados por
E na insistência no li, os rituais, ela, eles são transformados. Apenas
que Confúcio se revelou mais aquele que é possuído pela mais
conservador. Li não se refere completa sinceridade existente sob o
simplesmente a ritos como o culto Céu pode transformar".
aos ancestrais. mas também às Aqui, um Confúcio menos
Amigo - Amigo normas que sustentam cada aspecto conservador elucida que o processo
Amigos mais velhos devem da vida chinesa contemporânea . de transformação pode funcionar em
ser gentis; amigos mais novos, Estas envolvem desde cerimônias duas direções. O conceito de zhong
reverentes. como casamentos, funerais e (fidelidade) também implica
sacrifícios até a etiq ueta para "oonsideração pelos outros". Ele
OMUNDO ANTIGO 39
a abstenção, em vez da ação. lsso mantendo-se em silêncio sobre
implica modéstia e humildade, deuses, não obstante influenciou
valores n1antidos em alta aspectos das duas novas religiões.
consideração na sociedade chinesa e Uma escola neoconfucionista
que, para Confúcio, expressam nossa revitalizou o movimento no século IX
verdadeira natureza. Fomentar tais e alcançou o auge no século XII,
O que você sabe, sabe;
valores é uma forma de fidelidade cruando sua influência foi sentida ao
o que voc'ê desconhece, consigo mesmo - e expressa outro longo do s udeste asiático, Core ia e
desconhece. Esta é a tipo de sinceridade. Japão. Embora missionários jesuítas
verdadeira sabedoria. tenham levado as ideias de Kong
Confúcio Confucionismo Fuzi para a Europa (latinizando seu
Confúcio teve pouco êxito em nome para Confúcio) no século XVI,
persuadir os governantes o confucionismo era estranho para
contemporâneos a adotar suas ideias . o pensamento europeu e teve
Voltou sua atenção, então, para o pouca influência até que traduções
ensino. Seus discípulos, incluindo de sua. obra aparecessem no final do
Mêncio (Me ng Zi), continuaram a século XVII.
assume a perspectiva de que se reunir e expandir seus textos, que Apesar da queda da China
pode aprender a se tornar um homem sobreviveram à repressora dinastia imperial em 1911, as ideias de
~i.:perior; primeiramente, Oin e inspiraram um reviva/ de Confúcio continuaram como base de
:econ hecendo o que não se sabe confucionismo na dinastia Han do muitas das convenções morais e
::ma ideia que t eve eco um século início da era cristã . Desde então, o sociais chinesas, ainda que
depois com o filósofo grego Sócrates, impacto das ideias de Confúcio foi desaprovadas oficialmente. Em anos
que afirmava que sua sabedoria p rofundo, inspirando quase todos os recentes, a República Popular da
estava em aceitar que nada sabia); aspectos da sociedade c hinesa, da China tem demonstrado renovado
depois, observando out ras pessoas: adn1inis t ração à polít.ica e à filosofia. O interesse em Confúcio, integrando
se e las mostram virtude, tente ser taoísmo e o budismo também suas ideias co111 o lJensamento
:gual; se são inferiores, seja um guia floresceram na época de Confúcio, moderno chinês e a filosofia ocidental
oara elas. substituindo as crenças tradicionais. num híbrido conhecido como "novo
Confúcio não opinou sobre elas, confucionismo". •
Reflexo
_._?:ação de zhong con10 consideração ~;Z ·~ -~
;elos outros também está ligada ao ........
~:1mo dos valores confucionistas
..:gados a de: shu. reciprocidade, ou
-
:eflexo de s i", que deve governar
=ossas ações em relação aos out ros. A
··--
::~amada Regra de Ouro, "faça como
:ese1aria que fizessem a você",
:;:Jarece no confucionismo como
::~ativa : "o que você não deseja para
s: :nesmo, não faça aos outros". A
~erença é sutil, mas crucial:
C:i!lfúc10 não prescreve o que fazer,
=penas o que não fazer, enfatizando

A devoção à ideia de organização


=: -=na sociedade harmoniosa levou
:::-.:üc10 a v1a1ar pela China por doze
~os. ensinando as virtudes da
:::::: :dade e da sinceridade.
40

HERÁCLITO (c.535-475 a.O,.)

''' ' ** * *
'' •

n quanto out ros antigos u n idade do un iverso. Tudo seria


EM CONTEXTO fi lósofos gregos procuraram parte de um único e funda mental
e xplicações cient ificas para a processo ou substância - o principio
ÁREA
natureza física do cosmos, Heráclito c entral do monismo. Mas ele
Metafísica
o entendia como governado por um também afirmou que uma tensão é
ABORDAGEM logos divino. Às vezes interpretado c onstantemente gerada en tre esses
Monismo como "razão" ou "argumento", p ares de opos tos e, então, concluiu
Heráclito considerava o logos uma lei q ue tudo está em perman e nte
ANTES universa J, cósmica, de acordo com a estado de fluxo - ou mudan ça. O
Século VI a.e. Os filósofos q ual todas as coisas começam a d ia, por exemplo, muda pa ra noite,
de Mileto afirmam que o exis t ir e todos os elementos que por sua vez muda novamente
cosmos é composto de uma materiais do universo são ma n tidos p ara dia.
única substância. em equilíbrio Usando o exemplo de um rio,
Heráclito sugeriu que o Heráclito ilustrou sua teoria:
Século VI a.e. Pitágoras
equilíbrio de opostos - dia e noite, "Ninguém se banha duas vezes no
afirma que o universo tem uma
quente e frio, por e xemplo - levava à mesmo rio". Com isso, ele queria dizer
estrutura subjacente que pode
que, no instante em que se entra num
ser matematicamente definida. rio, águas novas imediatamente
DEPOIS s ubstituirão aquelas nas quais a
Início do século Va.C. pessoa imergiu - e ainda assim o
Parmênides usa a deduçêo próprio rio é sempre descrito como
lógica para provar que a O caminho acima coisa fixa e imutável.
mudança é possível. e o caminho abaixo A crença de Heráclito de que
- um so, e o mesmo.
sao todo ob1eto no un iverso está em
Final do século IV a.e. Platão estado de constante flu xo se opunha
descreve o mundo n um estado
Heráclito
ao pensamento dos filósofos da
de fluxo, mas rejeita Heráclito escola de Mileto, como Tales e
como contraditélrio. Anaxímene s, que definira m todas as
• • •
coisas por s ua essenc1a
Início do século XIX Georg
f undamentalmente i mutável.•
Hegel baseia seu sistema
filosófico dialético na integração
Ver também: Tales de Mileto 22-23 • Anaxímenes de Mileto 330 • Pitágoras
de opostos.
26-29 • Parmênides 41 • Platão 50-55 • Georg Hegel 178-185
OMUNDO ANTIGO 41

PARMÊNIDES {c.515-445 a.C.)

s ideias propostas por


EM CONTEXTO Parmênides marcam um
momento decisivo na filosofia
ÁREA
grega. Influenciado pelo pensamento
Metafísica
lógico e científico de Pitágoras,
ABORDAGEM Parmênides e1npregou o raciocínio
Monismo dedutivo na tentativa de revelar a
verdadeira natureza tisica do mundo.
ANTES Suas investigações o levaram a
Século V1 a.e. Pitágoras assumir uma visão oposta à de
considera a estrutura Heráclito.
matemática, e não uma A partir d a premissa de que algo Entender o cosmos é uma das mais
substância, a base do cosmos. existe ("é"), Partnênides deduziu que antigas questões filosóficas. No século
esse algo não pode tambéin nâo XX. surgiram evidências da física
c.500a.C. Heráclito afirma que quântica que sustentam ideias
existir ("não é"). pois isso envolveria
rudo é fluxo. defendidas por Parmênides apenas com o
uma contradição lógica Portanto, uso da razão.
DEPOIS seria impossível existir um estado de
Final do século Va.C. Zen~o nada - não haveria vazio. Assim, algo
de Eleía expõe seus paradoxos e não pode vir do nada: deve sempre ter indivisível: "Tudo é uno". De maneira
demonstra a natureza ilusória de ~xistido em alguma forma. Essa mais significativa p·ara filósofos
nossa experiência. forma permanente não pode mudar, posteriores, Parmênides mostrou que
porque algo que é p ermanente não nossa percepção do mundo é
c.400 a.e. Demócrito e Leucipo pode mudar p ara outra coisa sem imperfeita e cheia de cont radições.
afirmam que o cosmos é deixar de ser permanente. A Nós parecemos sentir a mudança,
composto de átomos num vazio. mudança fundan1ental seria, ainda que nossa razão nos diga que a
Final do século IVa.C. Platão portanto, impossivel. mudança é impossível. A conclusão a
expõe a Teoria das Formas e diz Parmênides concluiu, a partir que podemos chegar é que nunca
desse padrão de pensamento, que devemos confiar na experiência que
que as ideias abstratas são a
tudo que é real deve ser eterno e nos é transmitida pelos nossos
:orma maís elevada de realidade.
imutável e ter uma unidade sentidos. •
1927 Martin Heidegger escreve
Ser e Tempo, atualizando a Ver também: Pitágoras 26-29 • Heráclito 40 • Den1ócrito e Leucipo 45 • Zenão
questão do sentido do ser. de Eleia 331 • Platão 50-55 • Martin Heidegger 252-255
42 - - -- - - - - --- -- - -- -

PROTÁGORAS {c.490-420 a.C.)


EM CONTEXTO E primavera
em Atenas.
ÁREA
Etica
ABORDAGEM
Um visitante da Suécia diz Um visitante do Egito diz
Relativismo
que o tempo está quente. que o tempo está frio .
ANTES
Início do século V a.e.
Parmênides diz que podemos
confiar mais na razão do que Ambos estão falando
nas provas dos sentidos. a verdade.

DEPOIS
Início do século IVa.C. O homem é
A verdade depende da
A Teoria das Formas de Platão a medida de todas
perspectiva e, portanto,
defende que há "absolutos" ou é relativa. •
as coisas.
formas ideais de tudo. l i- "' .. . ....., . ... . .. . d 4 l~......... • -. . -

1580 Montaigne adota uma


forma de relativismo para
o século V a.C., Atenas pessoa levada à corte que
descrever o co1nportamento
tornou-se uma cidade- defendesse sua causa . Não havia
humano em seus Ensaios.
-estado importante e advogados, mas uma reconhecida
1967-72 Derrida usa a técnica próspera e, sob a liderança de classe de conselheiros logo se
de desconstrução para mostrar Péricles (445-429 a .C.), entrou em sua desenvolveu. Nesse grupo estava
que qualquer texto tem "Era de Ouro" de erudição e cultura. Protágoras.
contradições irreconciliáveis. Isso atraiu pessoas de toda a Grécia
- e , para aquelas que conheciam e Tudo é relativo
2005 Em seu primeiro discurso
sabiam interpretar a lei, havia Protágoras ensinava legislação e
como papa, Bento XVI adverte vantagens. A cidade era retónca para qualquer um que
"que estamos caminhando para administrada sob princípios pudesse pagar. Seus ensinamentos
uma ditadura do relativismo". democráticos, com um sistema legal eram objetivos - preparavam alguém
estabelecido. Exigia-se de qualquer para debater e ganhar uma causa, em
43
Ver também: Parmênides 41 • Sócrates 46-49 • Platão 50-55 • Michel de Montaigne 108-109 •Jacques Derrida 308-313

raciocínio, comum na justiça e na Protágoras foi o mais influente de um


política daquele tempo, era novo na grupo de professores itinerantes de
filosofia. Ao colocar seres humanos em legislação e retórica que se tornou
seu centro, seguiu a tradição de retirar conhecido como sofistas (cio grego
'
Muitas coisas
a religião do argumento filosófico e
também mudou o foco da filosofia - da
sophia, sabedoria). Sócrates e Platão
ridicularizaram os sofistas como
impedem o conhecimento, compreensão da natureza do universo meros retóricos, mas com Protágoras
incluindo a obscuridade para a investigação do comportamento a ética avançou significativamente
do tema e a brevidade da humano. Protágoras voltou-se rumo à visão de que não há
vida humana. principalm ente para questões absolutos e de que todos os
Protágoras práticas. Especulações filosóficas 1ulga111entos, incluindo os morais.
sobre a substância do cosmos ou a são subjetivos. •
existência dos deuses soam se1n
sentido para ele, q ue considerava tais
. . .
coisas mcognosc1veis.
.
A principal implicação de "O
homem é a medida de todas as
vez de provar um ponto de vista-. coisas" é que a crença é subjetiva e
mas ele conseguia ver as implicações relativa. Isso levou Protágoras a
filosóficas do que ensinava. Para rejeitar a existência de definições
Protágoras, todo argumento tem dois absolutas de verdade, justiça ou
lados e ambos podem ser válidos. Ele virtude. O que é verdadeiro para uma
afirmou que podia "transformar o pessoa pode sei falso para outra, ele
argu1nento inais fraco em mais forte", aftrn1ou. Esse relativis1no também se
provando não o valor d o argumento, aplicava a valores morais. tais como o
mas a persuasão de seu proponente. certo e o errado. Para Protágoras,
Segundo Protágoras, qualquer
Dessa forma , reconheceu que a crença nada é inerentemente bom em si "verdade" revelada po1 esses dois filósofos
é subjetiva: o ho1nem, mantendo um mes1no. Algo é ético ou certo apenas retratados numa ânfora grega do século
ponto de vista ou opinião, é que dá a porque uma pessoa (ou sociedade) o V a C. dependeria do uso da retórica e da
medida de seu valor. Esse estilo de julga assim. habilidade para debatei

Protágoras Nascido em Abdera, no nordeste da Protágoras. Acredita-se que ele


Grécia, P rotágoras viajou muito como viveu at é os setenta a11os, mas a
professor itinerante. Em certo data e o local exatos da sua morte
momento mudou-se para Atenas, são desconhecidos.
onde se tornou conselheiro do
governante da cidade-estado, Obras-chave
Péricles, que o encarregou de
escrever a co11stituição para a colônia Século v a.e.
de Thuri, em 444 a.e. Protágoras Sobre os deuses
defendia o agnosticismo. Diz a lenda A verdade ou as mudanças
que foi posteriormente acusado de Do ser
impiedade e que seus livros As antilogias
acabaram queimados em público. Da matemática
Apenas fragmentos de seus Da república
textos sobreviveram, embora Platão, Da ambição
em seus diálogos, trate Das virtudes
detalhadamente das concepções de Do estado das coisas no princípio
44

'
MOZI (c.410-391 a.C.)

ascido em 479 a C., pouco


EM CONTEXTO antes da morte de Confúcio,
Mozi teve uma educação
TRADIÇÃ0
tradicional chinesa baseada nos
Filosofia chinesa
textos clássicos. No entanto, mais
ABORDAGEM tarde passou a repudiar a ênfase nas
Moísmo relações de clã que atravessa o
confucionismo, e isso o levou a
ANTES fundar sua própria escola ·de
Século Vla.C. Lao-Tsé afuma pensamento, defendendo o amor
que viver de acordo com o tao universal, oujian ai. Comjian ai, Mozi
signffica agir intuitivamente e queria dizer que devemos nos
de acordo E:orh a natureza. preocupar com todas as pessoas da
mesma forma, independentemente de
Final do século VI a.e.
seu status ou de sua relação conosco.
A filosofia moral de Cónfúcio
Ele via essa filosofia - conhecida
enfatiza aimp0rtância dos
como moismo e que "alin1°e nta e
laç0s fam iliares e das tradições, Mao Tsé-Tung considerava Mozii o
ampara toda vida" - como sendo
fundamentalmente benevolente e em verdadeiro filósofo do povo. A concepção
DEPOI~
conformidade co1n o mandato do céu. de Moz;i de que todos devem ser tratados
Meados do século IVa.C. igualmente te1n sido encorajada na
A .fil0sofia confucionista de Mozi acreditava que há sempre
China moderna.
Mênci© enfatiza -a bondade reciprocidade em nossas ações. Ao
inata do.. homem tratar os outros como desejaríamos ser
.
tratados, r·eceberemos tratamento evitaria o conflito e a guerra. Quando
Meados do século IVa.C. similar em troca. Esse seria o aplicado por todo mundo, levaria a
O filósofo taoísta Chuang Tzu significado por trás de "Quando uma sociedade mais harmônica e, por
critica o confucionismo e o alguém me atira um pêssego, devolvo consequência, mais produtiva. Essa
moísmo. uma ameixa". Mozi afirmou que, ideia é similar em espírito à do
quando aplicado por governantes, esse utilitarismo proposta por filósofos
Século III a.e. O legalismo é
princípio de se preocupar por todos ocidentais do século XIX. •
adota:do pela dinastià Oin:
opos~o ao moísmo, defende leis
Ver também: Lao-Tsé 24·25 • Sidarta Gautama 30-33 • Confúcio 34-39 •
fortes para controlar a nanureza Wang Bi 331 • Jeremy Bentham 174 • Hajime Tanabe 244-245
màléfi.Ba do homem.
OMUNDO ANTIGO 45

'
DEMÓCRITO (e. 460-371 a.O.)
ELEUOIPO (INÍCIO DO SÉCULO Va.C.)

o século VI a .e. em diante, os corpos, por exemplo, não se


EM CONTEXTO filósofos começaram a deterioram ou desaparecem quando
considerar se o universo era morremos, mas se dispersam e
ÁREA
formado de uma única substância podem ser reconstituídos.
Metafísica
fundamental. Durante o século V a .e., Conhecida como atomismo, a
ABORDAGEM dois filósofos de Abdera, na Grécia, teoria concebida por Demócrito e
Atomismo Demócrito e Leucipo, sugeriram que Leucipo ofereceu a primeira visão
tudo era composto de partículas mecanicista completa do universo,
ANTES minúsculas, indivisíveis e imutáveis, sem qualquer recurso à noção de um
Início do século VI a.e. Tales que eles denominaram átomos ou mais deuses. Ela também
afirma que·o cosmos é formado (atamos é a palavra grega para o que identificou propriedades fundamentais
por uma substância não pode ser cortado). da matéria que se provaram cruciais
~ndamental. ao desenvolvimento das ciências
e.500 a.e. Heráclito declara
Primeira teoria atômica físicas - particularmente a partir do
.
Demócrito e Leucipo também século XVII - até as teorias atômicas
que tudo está em estado de
afirmaram que um espaço vazio que revolucionaram a ciência no
constante mudança.
separa os átomos, permitindo-lhes século XX. •
DEPOIS que se movam livremente. Como os
c.300 a.e. Os epicwistas áto1nos se movem, i::ioden1 colidir um
concluem que não há vida depois com outro para formar novas
da morte, já que os átomos do disposições de átomos, de modo que
corpo morto se dispersam. os objetos no mundo pareçem mudar.
Os dois pensadores consideraram O homem é um microcosmo
180 5 John Dalton propõe que que há um número infinito desses
:odas as substâncias puras
do universo.
átomos eternos, mas que o número Demócrito
contêm átomos de um único de diferentes combinações aos quais
upo que se combinam para eles podem se ajustar é fi11ito. Isso
:ormar compostos. explicaria o ap arente número fixo de
1897 O físico britânico J.J. diferentes substâncias existentes.
Os átomos que formam nossos
-:-t!omson descobre que os
átomos podem ser d ivididos em
Ver também: Tales de Mileto 22-23 • Heráclito 40 • Epicuro 64-65
partículas ainda menores.
46 -
..
.~

.
' • ' •
. , J • • EM CONTEXTO
ÁREA
Epistemologia
ABORDAGEM
Método dialético
ANTES
c.600-450a.C. Os filósofos
pré-socráticos na Jônia e na
Itália tentam explicar a natureza
do cosmos.
Início do século V a.e.
Parmênides afirma que só
podemos compreender o
universo por meio da razão.
c.450 a.e. Protágoras e os
sofistas aplicam a retórica às
SÓCRATES (469-399 a.e.) questões filosóficas .
DEPOIS

c.399-35 5 a.e. Platão retrata o
caráter de Sócrates na Apologia
e em outros diálogos.
Século IVa.C. A~istóteles
reconhece seu débito ao método
de Sócrates.

ócrates é citado co1n


frequência como um dos
fundadores da filosofia
ocidental, Contudo, nada escreveu,
não criou escola algu1na nem elaborou
qualquer teoria. O que ele fez foi
formular insistentemente perguntas
que o interessavam e, ao fazê-lo,
desenvolveu uma nova maneira de
pensar, um novo modo ele investigar o
que pensa1nos. Isso foi chamado de
método socrático, ou dialético (porque
se encaminha como um diálogo entre
visões opostas), e lhe rendeu vários
inimigos em Atenas, onde vivia.
Difamado como sofista (alguém que
argu1nenta para vencer a discussão, e
não para chegar à verd ade), foi
condenado à morte sob acL1saçâo de
OMUNDO ANTIGO 47
Ver também: Tales de Mlleto 22-23 • Pitágoras 26-29 • Heráclito 40 •
Parmênides 41 • Protágoras 42-43 • Platão 50-55 • ArisLóteles 56- 63

A única vida que


vale a pena vjver é urna
vida virtuosa.

"Bom" e "mau" n ão são


Só posso viver uma vida relativos: são absolutos
virtuosa se souber o que é que só podem ser julgados
''bom'' e ''mau''. por meio de um processo Sócrates
de questionamento
. ' .
e rac1oc1n10. Nascido em Atenas em 469 a.e ..
Sócrates era filho de um
pedreiro e uma parteira. É
provável que tenha seguido a
profissão do pai, mas teve a
Dessa forma, oportunidade de estudar
Uma vida inquestionada
a moralidade e filosofia antes de ser convocado
é uma vida de ignorância ,
o conhecimento para o serviço milita~. Depois de
sem moralidade. estão ligados. se destacar na Guerra do
Peloponeso, retornou para
Atenas e por um período
envolveu-se na política. No
entanto, quando seu pai morreu,
herdou dinheiro suficiente para
viver com a esposa Xantipa sem
precisar trabalha r. •
A parti r d e então, Sóc rates
tornou-se uma :figura
c on hecida em Atenas ,
corromper a juventude com ideias que explicações sobre a naiureza do
e nvolvendo-se em discussões
solapavam as tradições. Mas também universo, até se envolver com a filosóficas com concidadã os e
teve muitos seguidores, entre eles politica da cidade-estado e conquistando um séquito de
Platão, q ue registroll! as ideias interessar-se por assuntos práticos, jovens a lunos . Ao fim,
socráticas numa série de obras como a natureza da justiça. No acusado de corromper o
escritas, chamadas diálogos, nas entanto, não estava interessado em espírito da juventude, foi
quais Sócrates examina vários temas. vencer polêmicas ou debater para condenado à morte. Embora
Em grande par Le, é graças a tais ganhar dinheiro- acusação lançada a lhe tivesse sido oferecida a
diálogos -que incluem Apologia, muitos de seus contemporâneos. Ele a lternativa do exílio, ele
Fédon e Simpósio - que seu não procurava respostas ou aceitou o veredito de culpado
pensamento sobreviveu para guiar o e xplicações definitivas: somente e recebeu sua dose fat a l d e
curso da :filosofia ocidental. investigava a base dos conceitos que cicuta em 399 a .e.
aplicamos a nós mesmos (como "bom",
Obras-chave
"ruim" e "justo"), porq ue acreditava
O objetivo da vida que compreender o que somos é a Séculos IV-III a.e.
Sócrates viveu em Atenas na segunda primeira tarefa da filosofia. Relatos de Platão sobre a vida e
metade do século V a.e . Quando A preocupação central de Sócrates a filosofia de Sócrates na
jovem. ac rediLa-se q ue tenha estudado toi a investigação sobre a vida. Seu Apologia e em vários diálogos.
filosofia natu ral, examinando as várias implacável questiona1nento sobre as »
48 SÓCRATES
crenças inais estilnadas (e, e m grande de questionamento do significado de
parte, sobre as próprias pessoas conceitos essenciais que usamos
crentes) lhe rendeu inimigos, mas ele todos os dias, mas sobre os quais
permaneceu comprometido com sua nunca pensamos, revelando desse
empreitada até o fim. De acordo com o n1odo seu significado real e nosso
Sou um cidadão relato da defesa em seu julgamento. próprio conhecimento (ou ignorância).
do mundo. regü~trado por Platão, Sócrates preferiu Sócrates foi um dos primeiros filósofos
s .ócrates a morte a ter de encarar urna vida de a considerar o que constituía uma
ignorância: "A vida irrefletida não vale vida "virtuosa"; para ele, tratava-se de
a pena ser vivid a". alcançar a paz de espírito corno
Mas o que exatamente está resultado de fazer a coisa certa, em
envolvido nessa investigação sobre a vez de viver de acordo com os códigos
vida? Para Sócrates. era um processo morais da sociedade. E a "coisa certa"
somente pode ser determinada por
meio de um exame rigoroso.
O método dialético de Sóc:rates era
Sócrates rejeitou a noção de que
um sistema simples de questionamento
que trazia à luz pressuposições, muitas conceitos como virtude eram relativos,
vezes falsas, que servem de base para in$ístindo que constituíam valores
P: Você acha que um suposto conhecimento. absolutos, aplicáveis não apenas aos
os deuses sabem tudo? cidadãos de Atenas ou da Grécia, mas
a pessoas de todo o mundo. Ele
acreditava que a vrrtude (areté em
R: Sim , porque grego, que na época implicava
e les são deuses . excelência e concretização) era "o m ais
valioso dos bens", e que ninguém
P: Alguns deuses realmente deseja fazer o mal. Qualquer
discordam de outros? pessoa que fizesse algo ruim estaria
agindo contra sua consciência e,
portanto, sentir-se-ia desconfortável -
R: Sim, claro
e, como todos lutamos pela paz de
que sim. Eles estão
se1npre brigando. espfrito, não seria algo que faríamos de
P: Então, os deuses boa vontade. O mal, ele pensava, era
discordam sobre o que é perpetrado pela falta de sabedoria e
verdadeiro e certo? conhecimento. A partir disso, concluiu
que "há apenas uma coisa boa:
conhecimento; e uma coisa má:
R: Imagino ignorância". O conhecimento é
que sim. indissociável da moralidade. É a "única
P: Então, alguns coisa boa", e por essa razão devemos
deuses podem às vezes sempre "examinar" nossas vidas .
estar errados?
Cuidado com a alma
Para Sócrates, o conhecirnento
também pode desempenhar um papel
R: Pode ser. na vida após a morte. Na Apologia, o
Sócrates de Platão introduz sua famosa
citação sobre uma vida irrefletida:
"Digo-lhes que não deixem passar um
dia sem falar da bondade e de todos os
outros assuntos sobre os quais vocês
me ouvem falar, e que investigar a mim
OMUNDO ANTIGO 49
e aos outros é realmente a melhor comparava o processo à profissão de >''

'
. •----.~-·~""1'-"";-.-

.· ; ': . .
... : ' ••-
.
•.••.
..
coisa que um homem pode fazer''. sua mãe, parteira . auxiliando no
Esse cultivo do conhecimento, em vez nascimento de ideias.
de riqueza ou status. seria o objetivo Por meio dessas discussões
supremo da vida. Não uma questão de Sócrates compreendeu que o oráculo
diversão ou curiosidade, mas a razão de Delfos estava certo: ele era o mais
pela qual existimos. Além disso, sábio de Atenas, não por causa de seu
Só sei que nada sei.
conhecimento seria essencialmente conhecimento, mas porque declarava
Socrates
autoconhecimento, porque define a que não sabia nada. Ele também
pessoa que se é nesse mundo e percebeu que a inscrição na entrada
fomenta o cuidado pela alma imortal. do templo em Delfos, gnothi seauton
Em Fédon, Sócrates diz que uma ("conhece-te a ti mesmo"), era
vida irrefletida leva a alma a ficar igualmente significativa. Para adquirir
"confusa e aturdida. como se estivesse conhecimento acerca do mundo e de
bêbada", enquanto uma alma sábia si mesmo era necessário compreender outro a concordar com um novo
alcança a estabilidade e seu vagar os limites da própria ignorância e conjunto de conclusões.
chega a um .fim. remover as ideias preconcebidas. Só Esse método de examinar um
então se poderia ter esperança de argumento por meio da discussão
determinar a verdade. racional a partir de uma posição de
Método dialético Sócrates começou a envolver as ignorância revolucionou o pensamento
Sócrates rapidamente tornou-se figura 1::>essoas de Atenas em debates sobre filosófico_ Foi o primeiro uso
conhecida em Atenas, com reputação tópicos como a natureza do amor, da conhecido do argu1nento indutivo, no
de espírito questionador. Segundo a justiça e da lealdade. Sua missão, mal qual um conjunto de premissas
lenda, um amigo do filósofo perguntou interpretada como forma perigosa de baseadas em experiências é
à sacerdotisa de Apolo em Delfos sofisma (ou esperteza para proveito inicialmente confirmado como
quern era o homem mais sábio do ]próprio), não era a de instruir as verdadeiro e, então, leva a uma
mundo. A resposta do oráculo foi pessoas. nem mesmo aprender o que verdade universal na conclusão. Essa
que ninguém era mais sábio do elas sabiam. mas explorar as ideias forma poderosa de argumento foi
que Sócrates. Ao saber disso, o próprio que elas tinham. Era a conversa em si, desenvolvida por Aristóteles e, mais
Sócrates ficou pasmo e recorreu às com a condução de Sócrates, que tarde, por Francis Bacon, que a
pessoas mais cultas que pôde proporcionava insights. Por meio de utilizava como ponto de partida de seu
encontrar para tentar refutar o oráculo. uma série de perguntas, ele revelava método científico. Tornou-se, por
Descobriu que essas pessoas apenas as ideias e pressuposições de seu consequência, o alicerce não apenas
achavam que tinham respostas. mas interlocutor e. então. expunha as da filosofia ocidental, mas de todas as
diante do questionamento de Sócrates contradições nesse discurso e levava o ciências empíricas. •
esse cor1hecirnento revelou-se hmitado
ou falso.
O método que ele usou para
questionar o conhecimento desses
sábios foi inovador. Sócrates assumiu
o ponto de vista de quem nada sabia e
simplesmente fez perguntas, expondo
contradições nas argumentações e
brechas nas respostas para,
gradualmente, extrair insights. Ele

Sócrates foi condenado à mort e em


399 a.C. basicamente por questionar a
base da moralidade ateniense. Aqui, ele
aceita o cálice de cicuta que iria n1atá-lo
e faz gestos desafiadores aos céus.
"""
PLATAO c.427-347 a.e.

52 -
PLATAO
EM CONTEXTO
ÁREA O mundo real é o mundo das ideias,
Epistemologia que contém as formas ideais de tudo.

ABORDAGEM
Racionalismo
ANTES
Século VI a.e. Os filósofos de Nascemos com O mundo ilusório em que
Mileto propõem teorias para os conceitos dessas vivemos - o mundo dos
explicar a natureza e a
formas ideais em sentidos - contém cópias
nossas mentes. imperfeitas das formas ideais.
subs tãncia do cosmos.
e.SOO a.e. Heráclito argumenta
que tudo está em estado de
fluxo ou mu dança.
c.450 a.e. Protágoras diz que a
verdade é relativa.
Reconhecemos as coisas no mundo,
como cães , porque reconhecemos
-
que são cópias imperfeitas
DEPOIS dos conceitos em nossas mentes.
c.335 a.e. Aristóteles diz que
podemos encontrar a verdade
ao observar o mundo.
c.250 d.C. Platino funda a
escola neoplatônica, que
reinterpreta as ideias d e Platão.
Tudo nesse mundo
386 Santo Agostinho integra é uma ••sombm'' de sua for1na Ideal
as teorias de Platão à doutrina no mundo das ideias.
cristã.

m 399 a.e., o mentor de Platão, Inicialmente, as preocupações de predecessores, concluiu que o


Sócrates, foi condenado à morte. Platão eram como muitas de seu "imutável" na natureza é o mesmo que
Como Sócrates não havia mentor: buscar definições de valore s o "imutável" em moral e sociedade.
deixando nada escrito, Platão assumiu morais abstratos, como "justiça" e
a responsabilidade de preservar para a "virtude'', assim como refutar a noção Procura do ideal
posteridade o que tinha aprendido com de Protágoras de que certo e errado Em A república , Platão descreve
o mestre - primeiro na Apologia, relato são termos relativos. Em A república, Sócrates fazendo perguntas sobre as
sobre a defesa de Sócrates em seu Platão explicou sua visão de cidade- virtudes, ou conceitos morais, a fim de
julgamento, e depois ao usá-lo como -estado ideal e explorou aspectos da estabelecer definições claras e
personagem de uma série de diálogos. virtude, mas, ao fazê-lo, também tratou precisas. Sócrates tinha dito que "a
Nesses diálogos. às vezes, é difícil de outros temas além da filosofia moral. virtude é conhecimento" e que, para
distinguir quais pensamentos são do Como os antigos pensadores gregos, agir de maneira justa, por exemplo,
mestre e quais ideias partiram do questionou a nat ureza e a substância você devia primeiro perguntar o que é
discipulo, mas evidencia-se um retrato do cosmos e explorou como o imutável justiça. Platão sugeriu que, antes de
de Platão usando os métodos do e o eterno podiam existir num mundo nos referirmos a qualquer conceito
mestre para explorar e explicar suas em aparente transformação. No moral em nosso pensamento ou
próprias ideias. entanto, diferenten1ente de seus raciocínio, devemos primeiro explorar
OMUNDO ANTIGO 53
Ver também: Tales de Mileto 22-23 • Heráclito 40 • Protágoras 42-43 • Sócrates 46-49 • Aristóteles 56-63 • Plot1no 331
• Santo Agostinho 72-73

que queremos dizer com esse conceito dos três ângulos internos de qualquer
e o que o torna precisamente o tipo de triângulo é sempre 180 graus.
coisa que é . Ele levantou, ainda, a Sabemos da veracidade dessas
questão de como reconhecerlamos a afirmações, ainda que o triângulo
forma correta, ou perfeita, de qualquer perfeito não exista em nenhum lugar
coisa: urna forma que fosse verdadeira no mundo natural. Apesar disso.
Se o particular tem
para todas as sociedades e épocas. Ao conseguimos apreender o triângulo
fazer isso, Platão sugere que deve perfeito (ou a linha reta perfeita, ou o
sign ificado.
. deve
.
haver
existir alguma espécie de forma ideal circulo perfeito) em nossas mentes,
universais.
das coisas no mundo em que vivemos usando a razão. Platão especulou. Platão
- sejam essas coisas conceitos morais e ntão. se tais formas perfeitas
ou objetos físicos-, da qual estamos poderiam existir em algum lugar.
cientes. de a lguma forma.
Platão falou sobre objetos no mundo Mundo das ideias
ao nosso redor. Quando vemos uma O raciocínio levou Platão a uma única
cama, ele disse. sabemos que é conclusão: deve haver um mundo de
uma cama e podemos reconhecer ideias. ou formas, totalmente separado convidou a imaginar uma caverna na
todas as camas, mesmo que elas: do mundo material. Lá, a ideia do qual as pessoas estão aprisionadas
possam diferir em vários aspectos. triângulo perfeito, ao lado das ideias desde o nascimento, amarradas,
Cães, em suas várias espécies, são de cama e de cão perfeitos, existiria. encarando a parede ao fundo, na
ainda mais variados, apesar de todos Ele concluiu que os sentidos humanos escuridão. Elas só podem olhar para a
os cães compartilharem a não conseguem perceber tal lugar; ele frente. Atrás dos prisioneiros há uma
característica "canina", que é algo que só nos é perceptível pela razão. Platão chama brilhante que lança sombras na
podemos reconhecer e que nos permite foi mais além ao afirmar que o reino de parede para a qual eles olham. Há
dizer que sabemos o que é um cão. ideias é de fato a "realidade", e o também uma plataforma entre o fogo e
Platão argumentou que, para além do mundo que nos cerca é moldado por os prisioneiros. na qual pessoas andam
fato de existir uma "característica essa outra realidade. e exibem vários objetos de tempos em

canina" compartilhada ou uma Para ilustrar seu pensamento, Platão Le1npos, de modo que as sombras
"característica cama" compartilhada, apresentou o que se tornaria conhecido desses objetos são lançadas na parede.
todos nós temos em nossas ment es como a "teoria da caverna". Ele nos Tais sombras são tudo o que os »
uma ideia de uma cama ideal ou de um
cão ideal. que usamos parã reconhece r
qualquer exemplar específico.
Usando um exemplo matemático
para reforçar seu argumento, Platão
mostrou que o verdadeiro
conhecimento é alcançado pela razão
em vez dos sentidos. Ele afirmou que
podemos formular em bases lógicas
que o quadrado da hipotenusa de um
triângulo retângulo é igual à soma dos
quadrados dos catetos, ou que a soma

Platão u.s a a teoria da caverna. na


qual o coo hecimento sobre o mundo é
limitado a sombras da realidade, para
explicar sua tese de um mundo de formas
ou ideias perfeiLas.
,.,
54 PLATAO
Segundo a teoria das formas de Platã o , de constantes num mundo
todo cavalo encontrado no mundo à nossa volta aparentemente em transformação. O
é uma versão menor de um cavalo "ideal",
mundo material pode estar sujeito à
ou perfeito. que existe num mundo de formas
mudança, mas o mundo das ideias de
ou ide1 as - um reino que
os hu1n anos só podem Platão é eterno e imutável. Platão
acessar por meio da razão. aplica sua teoria não apenas às coisas
concretas. como camas e cães, mas
também a conceitos abstratos. No
mundo das ideias de Platão há uma
ideia de justiça, que é a justiça
verdadeira, enquanto todos os
exemplos de justiça do mundo material
ao nosso redor são apenas modelos ou
variantes menores. O mesmo é
verdadeiro em relação ao conceito de
bondade, que Platão considera ser a
ideia suprema e o objetivo de toda
investigação filosófica.
O mundo das ideias
Conhecimento inato
Persiste o problema de como podemos
nos familiarizar com essas ideias. para
que tenhamos a capacidade de
reconhecer os exemplos imperfeitos no
mundo em que vivemos. Platão
argumentou que nossa concepção das
formas ideais deve ser inata, ainda
que não este1amos conscientes disso.
Ele acreditava que os seres humanos
são divididos em duas partes: corpo e
alma . Nossos corpos possuem os
sentidos, por meio dos quais somos
O mundo dos sentidos
capazes de apreender o mundo
material. enquanto a alma possui a
prisioneiros conhecem do mundo, e eles de apreender com nossos sentidos há razão, com a qual podemos apreender
não têm noção alguma sobre os objetos uma. correspondente "forma" (ou o reino das ideias. Platão concluiu que
reais. Se um prisioneiro conseguir se "ideia") - uma eterna e perfeita a alma, imortal e eterna, habitou o
desamarrar e se virar, verá ele mesmo realidade daquela coisa - no mundo
os objetos. Mas, depois de uma vida de das ideias. Como o que apreendemos
confinamento. ele provavelmente ficará pelos sentidos é baseado em uma
muito confuso e talvez fascinado pelo experiência de "sombras" imperfeitas
fogo, e muito provavelmente se voltará ou incompletas da realidade, não
'
de novo para a parede, a única realidade podemos ter um conhecimento real
que conhece. das coisas. No máximo, podemos ter A alma do homem
Platão disse que tudo que nossos opiniões, mas conhecimento genuíno é imortal e imperecível.
sentidos apreendem no mundo só pode vi r do estudo das ideias. e isso Platão
material não passa de imagens na só pode ser alcançado pela razão. Essa
parede da caverna, ou seja, são simples separação em dois mundos distintos
sombras da realidade. Essa crença é a - um, da aparência, e o outro, do que
base de sua teoria das formas: para Platão eonsiderou como realidade de '
cada coisa na terra que temos o poder fato - solucionou o problema da busca
OMUNDO ANTIGO 55
dessas ideias exige razão, um atributo
da alma.
Para Platão, a tarefa do filósofo é
usar a razão para descobrir as formas
ideais ou ideias. Em A república , ele
também sugeriu que os filósofos - ou O que chamamos de
mais exatamente aqueles que são fiéis aprendizado é só um processo
à vocação da filosofia - deveriam ser a de reminiscência.
classe dominante, pois somente o Platão
verdadeiro filósofo poderia entender a
natureza do mundo e a verdade dos
valores morais. No entanto, assim
como o prisioneiro da teoria da
caverna que prefere as sombras aos
objetos reais, muitos acabam se
volta ndo para o único mundo no qual ideias de Platão chegaram até o
se sentem confortáveis: Platão muitas íslan1ismo medieval e os pensadores
vezes achou difíci l convencer seus cristãos, incluindo Santo Agostinho,
colegas filósofos da verdadeira que combinou as ideias de Plat ão com
natureza de sua vocação. as da Igreja católica.
Marco Aurélio, poderoso imperador de Ao propor que o uso da razão, em
Roma de 161 a 180 d.C., foi célebre erudito vez da observação, é o único
e pensador, materializando o ideal Legado incomparável caminho para adquirir
platônico de que filósofos deveriam O próprio Platão era a personificação conhecimento, Platão lançou os
comandar a sociedade.
de seu filósofo ideal, ou verdadeiro. alicerces para o racionalismo do
Debateu questões de ética antes século XVII. A influência platônica
mundo das ideias antes do nosso levantadas por seguidores de ainda sobrevive. O amplo leque de
nascimento e ainda deseja retornar Protágoras e Sócrates, mas durante o temas sobre os quais escreveu levou
àquele reino após nossa morte Por processo explorou pela primeira vez o Alfred North Whitehead , lógico
isso, as variantes de ideias que o próprio caminho para o conhecimento. britânico do século XX, a dizer que
mundo dos sentidos apresenta nos Exerceu influência profunda sobre seu toda a filosofia ocidental
. . . .
soam como uma rem1n1scenc1a. discípulo Aristóteles, ainda que este subsequente "consiste num conjunto
Rememorar as le1nbranças inalas discordasse da teoria das formas . As de notas de rodapé a Platão". •

Platão Apesar do volume de textos Fundou em Atenas uma escola


atribuídos a Platão que conhecida como Academia,
sobreviveram, pouco é conhecido permanecendo como seu líder
sobre sua vida. Nascido numa até a morte, em 347 a.e.
família nobre em Atenas por volta
de 427 a .e ., foi batizado como
Arístocles, mas ganhou o apelido
"Platão" (amplo). Embora Obras-chave
provavelmente destinado a uma
vida na política, tornou-se aluno e. 399-387 a. C. Apología, Críton,
de Sócrat es . A condenação à Górgias, Hípias maior, Mênon,
morte imputada ao mestre teria Protágoras {primeiros diálogos)
desiludido Platão, que abandonou c.380-360 a .. C. Fédon, Fedro, A
Atenas. Viajou bastante, república, O banquete (diálogos
passand o um período no sul da intermediários)
Itália e na Sicília, antes de c .360-355 a.C. Parmênides,
retornar por volta de 385 a .C . Sofista, Teeteto (diálogos finais)
,.
ARISTOTELES 384-322 a.C.

'

'· '

'

'
'
58 ARISTÓTELES
ristóteles tinha dezessete impressão de que a teoria das
EM CONTEXTO anos quando chegou a formas de Platão estava errada. É
Atenas para estudar na tentador i 1naginar que os
ÁREA Acade1nia do grande filósofo Platão, argumentos de Aristóteles já
Epistemologia
que, na época, com sessenta anos, já tivessem exercido alguma
ABORDAGEM tinha delineado sua teoria das formas. influência sobre Platão, que em seus
Empirismo De acordo com ela. todos os diálogos finais reconheceu falhas
fenômenos da Terra (da justiça à cor nas teorias mais antigas, mas é
ANTES verde, por exemplo) são sombras de impossível ter certeza. Sabe-se. no
399 a.e. Sócrates argumenta correlatos ideai.s, ou formas , que entanto, que Platão conhecia o
que a virtude é sabedoria. conferem identidades particulares a argumento do "terceiro homem",
c.380 a.C. Platão apresenta sua seus modelos mundan os. usado por Aristóteles para refutar a
teoria das formas no diálogo Estudioso, Aristóteles sem teoria das formas. Tal argumento
dúvida aprendeu muito com o diz: se no reino das formas existe
socrático A república.
mestre, mas tinha um uma perfeita fo rma do homem a
DEPOIS temperamento muito diferente. partir da qual os homens da Terra
Século IXd.C. Os textos de Onde Platão era b rilhante e são moldados, essa forma, para ter
Aristóteles são traduzidos para intuitivo, Aristóteles era erudito e qualquer essência concebivel, teria
o árabe. metódico. Contudo, havia um óbvio de ser baseada em uma "forma d a
respeito mútuo e Aristóteles forma do homem" - que também
Século XIII Traduções das permaneceu na Academia, co1no teria de ser baseada numa forma
obras de Aristóteles aparecem aluno e professor, até a morte de mais elevada, na qual as "formas
em latim. Platão, vi nte anos depois. Como das formas são baseadas", e assim
1690 John Locke funda uma surpreendentemente não foi por diante , ad infinitum.
escola de empirismo britânico. escolhido como sucessor do mestre, O argumento posterior de
deixou Atenas e fez uma viagem Aristóteles contra a teoria das
1735 O zoólogo Carl Lineu lança para a Jônia que se provaria fért il. formas foi mais simples e
as bases da moderna taxonomia diretamente relacionado com
em Systema naturae, baseado Questionamento de Platão estudos sobre o mundo natural. Ele
no sistema de classificação A ruptura com o ensino deu a percebeu que era simplesmente
biológica de Aristóteles. Aristóteles a oportunidade de desnecessário assumir que há um
satisfazer sua paixão pelo estudo da mundo hipotético das formas .
vida selvagem. o que intensificou a quando a realidade das coisas Já


Usando nossos
Vemos diferentes sentido s e nossa razão,
exemplos de "cão" no compreendemos o que torna
mundo à nossa volta. um cão um cão.

Reconhecemos as
características comuns
dos cã,e s no mundo.
OMUNDO ANTIGO 59
Ver também: Sócrates 46-49 • Platão 50-55 • Avicena 76- 79 • Averróis 82-83 • René Descartes 116-123 • John Locke
130-133 • Gottfried Leibniz 134-137 • George Berkeley 138-141 • David Hume 148-153 • Immanuel Kant 164-171

Pla t ão e Aristóteles dlvergiam em suas


opiniões sobre a natureza das qualidades
universais. Para Platão. elas residem no
elevado mundo das forr:!as: para
Aristóteles, aqw na Terra

"aspecto canino" (ou uform a" COD10


dizia Aristóteles) que define um cão.
A partir de nossa experiência do
mundo, aprendemos quais as
características compartilhadas que
tornam as coisas aquilo que elas são.
E a única maneira de experimentar o
mundo é por meio dós sentidos.

A forma essencial das



coisas
Como Platão, Aristóteles preocupou-se
em encontrar algum fundamento
imutável e eterno num mundo
caracterizado pela mudança. Mas
concluiu que não há necessidade de
procurar por esse lastro num mundo
de formas perceptíveis apenas à alma.
pode ser vista aqui na Terra, Confiando nos sentidos A evidência estaria aqui, no mundo à
inerente às coisas cotidianas. O que o Aristóteles propôs mudou nossa volta, perceptível pelos sentidos.
Talvez pelo fato de seu pai ter sido completamente a teoria de Platão. Sem Aristóteles acreditava que as coisas
médico, os interesses científicos de desconfiar dos nossos sentidos, no mundo material não são cópias
Aristóteles se voltaram para o que Aristóteles contava com eles na busca imperfeitas de alguma for1na ideal de
hoje chamamos de ciências da evidência para apoiar suas teorias. si mesmas, mas que a forma essencial
biológicas, enquanto a formação <te Ao estudar o mundo natural, ele de uma coisa é, na verdade, ine rente a
Platão tinha sido firmemente baseada aprendeu que, ao observar as cada exemplo dessa coisa. Por >>
na matemática. Essa diferença de características de cada exemplo de , , '' •• r •. •
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formação ajuda a explicar as distintas planta ou animal especifico, podia


abordagens. A matemática. construir um retrato completo sobre o
especialmente a geometria, lida com que o distinguia de outras plantas e
conceitos abstratos distantes do animais. Tais estudos con:firmaram o
mundo cotidiano, ao passo que a que Aristóteles já acreditava: não
biologia trabalha com o mundo à nascemos com a capacidade inata Tudo que depende da
nossa volta e baseia-se quase para reconhecer formas, como ação da natureza é,
unicamente na observação. Platão defendia Platão. por natureza, tão bom
buscou a confirmação de um reino Cada vez que uma criança quanto pode ser.
das formas a partir de noções como o encontra um cão. por exemplo. ela nota Aristóteles
circulo perfeito (que não pode existir o que existe de comum entre esse
na natureza). Aristóteles considerava ani1nal e outros cães, de modo q ue
que certas constantes podem ser pode conseque ntemente reconhecer
descobertas investigando-se o mundo as coisas que tornam algo um cão. A
natural. criança então forma uma ideia do
60 ARISTÓTELES
como ele discute sua quest ão, usando
criativos diálogos ficcionais entre
Sócrates e seus contemporâneos. Em
contraste, a teoria de Aristóteles é
mais prática, apresentada em
linguagem prosaica, acadêmica. Tão
Todos os homens têm, por convencido estava Aristóteles de que
natureza, des ejo de conhecer. a verdade do mundo deve ser
Aristóteles encontrada na Terra - e não numa
dimensão mais elevada -, que ele
começou a colecionar espécimes de
fauna e flora e as classificou de acordo
com suas característ icas.
A partir dessa classificação
biológica, montou um sistema
hierárquico - ·O primeiro do gênero, e
Aristóte les cla ss ificou várias das tão bem const ruído que forma até hoje
diferentes áreas do conhecimento e do a base da taxonomia. Primeiro, ele
ensino, como física, lógica , meta física,
dividiu o mundo natural em coisas
poética, ética, política e biologia.
vivas e não vivas. Então, voltou sua
exemplo. "o aspecto canino" não é a qual podemos vir a conheceI a ideia atenção para classificar o rnun.d o vivo.
apenas urna caract erística eterna e imutável de justiça é Sua divisão classificatória seguinte foi
compartilhada pelos cães - é algo observando como ela se maniifesta no entre plantas e animais, o que
inerente a todo e qualquer cão. Ao mundo à nossa volta. envolveu o mesmo tipo de pensamento
estudar coisas particulares, portanto, Assim, Aristóteles afastou-se de q ue sustenta sua teoria de qualidades
conseguimos alcançar um insight Platão não ao negar que as qualidades universais: conseguimos ser capazes
sobre sua natureza universal e unjversais existam, mas ao questionar de distinguir entre Lima planta e um
imutável. sua nat ureza e os meios pelos quais animal quase sem pensar, mas como
O que é verdadeiro em relação aos chegamos a conhecê-las (esta última é sabemos o modo de fazer essa
exemplos no mundo natural, a questão fundamental da distinção? A resposta, para
raciocinou Aristóteles, também é "epistemologia", ou teoria do Aristóteles, está nas características
verdadeiro acerca dos conceitos conhecimento). Essa mesma diferença compartilhadas. Todas as plantas
relacionados aos seres humanos. de opinião sobre como chegamos a compartilham a forma "planta" e todos
N oções como "virtude", "justiça", verdades universais, mais tarde, os animais compartilham a forma
"beleza" e "bom" pod em ser d ividiu os :filósofos em dois campos "animal". Uma vez que entendem·os a
examinadas d a mesma forma. Como separados: os racionalistas (como natureza dessas formas, conseguimos

e le observou, quando nascemos René Descartes, Immanuel Ka nt e reconhecê-las em todo e qualquer
nossas mentes são como "folhas em Gottfried Leibniz), que acreditam num espécime.
branco", e quaisq uer ideias que conhecimento a priori ou inato; e os Esse fato se torna mais visível
alcançamos só podem ser recebidas empiristas (incJujndo John Locke, quanto mais Aristóteles subdivide o
por meio dos nossos sentidos. Ao George Berkeley e David Hume), que mundo natural. A fim de classificar
' . .
nascer, não temos ideias inatas. então afirmam que todo conhecimento vem urna espec1e, como um peixe, por
não podemos ter noção de certo ou da e xperiência. exemplo, temos de reconhecer o que
errado. No entanto, quando é que o torna um peixe - o que, mais
encontramos exemplos de justiça ao Classificação biológica llma vez, pode ser conhecido pela
longo de nossas vidas, aprendemos a A m aneira pela qual Platão e expenenc1a - requer
.,.. . e nao
reconhecer as qualidades que tais Aristóteles chegaram a suas teorias conhecimento inato. Conforme
exemplos têm em comum e, aos nos diz muito sobre seus Aristóteles desenvolveu uma completa
poucos, construímos e refinamos a temperamentos. A teoria das formas: classificação dos seres vivos, dos
compreensão do que é justiça. Em de Platão é grandiosa e relaciona-se ao organismos mais simples até os seres
outras palavras, a única maneira com outro mundo, o que é refletido no modo humanos, essa tese foi confirmada.
OMUNDO ANTIGO 61
Explicação teleológica conta que, para Aristóteles, tudo no essencialmente urna extensão lógica
Outro fato que se tornou óbvio para mundo era explicado por quatro da biologia.
Aristóteles enquanto ele classificava causas inteiramente responsáveis pela Aristóteles forneceu o exemplo de
o mundo natural é que a "forma" de existência de algo. Quais sejam: a um olho: a causa final do olho (sua
u ma criatura n ão se limita a causa material, ou de que algo é feito; função) é ver. Essa função é a
ca racterísticas física s (tais como a causa formal, ou a disposição ou finalidade, o u telos, do olho (telos é a
pele, pelo, pena ou e scam as). tnas forma de a lgo; a causa eficaz, ou como palavra grega da qual deriva
inclui uma questão a cerca do que algo é levado a e xistir; e a causa final, "teleologia", ou o estudo da finalidade
essa criatura faz e como ela se ou a funçã o ou o objetivo de algo. E é na natureza). Uma explicação
comporta - o que, para Aristóteles, esse último tipo de causa, a "causa teleológica sobre algo é , portanto. uma
tem implicações éticas. final", que se relaciona à ética. um explanação sobre a finalidade de algo.
Para entender a ligação com a tópico que, para Aristóteles, não está E conhecer a finalidade de algo
ética, precisamos primeiro ter em separado da ciência, mas é implica, também, saber o que é uma
versão "boa" ou "má" de algo: o olho
bom, por exemplo. enxerga bem.
A classificação dos seres vivos de Aristóteles é a
pnmeira investigação detalhada sobre o mundo natural. No nosso caso, uma vida "de bem"
Sla origina-se da observação geral das características é. portanto. uma vida na qual
compartilhadas por todos os animais e, então, cumprimos nosso objetivo ou usamos
S'.lbdivide-se em categorias mais especificas ao máximo todas as características
que nos tornam humanos. Uma pessoa
pode ser considerada "virtuosa" ou "de
bem se usa as características com as
quais nasceu e só pode ser feliz ao
usar toda a sua ca1)acidade na busca
da virtude - a forma mais elevada do
que, para Aristóteles, é a sabedoria. O
que nos leva de volta à questão sobre
como podemos reconhecer aquilo que
chamamos vir:ude - e , segundo
Aristóteles. a resposta é, novamente,
por meio da observação.
A criatura voa? Compreendemos a natureza da
"vida virtuosa" ao vê-la nas pessoas à
nossa volta. »

Tem penas? Tem escamas?


Lineu e Cuvier têm sido
meus dois deuses, embora
Sim •
Sim Não de maneiras bem diferentes,
mas são meros alunos diante
\
do velho Aristótele s.
Charles Darwin
62 ARISTÓTELES
"Sócrates é mortal" é a conclusão incontestável do mais
famoso silogismo da história. O silogismo de Aristóteles -
uma simples dedução a partir de duas premissas até uma
conclusão - foi o pr1me1ro sistema lógico formal.

Toda ação deve-se


Todos os homens Sócrat es a uma ou outra das
são m orta is . é um home m . sete causas: acaso,
natureza, compulsão,
hábito, raciocínio. ira
ou apetite.
Aristóteles

O silogismo e que deve, portanto, ser uma helenístico da história grega, que viu
No processo de classificação, característica inata - parte daquilo o declínio da influência de Atenas. O
Aristóteles formulou uma forma que é ser humano. Embora não Império Romano, que adotou da
sistemática de lógica que aplica a tenhamos ideias inatas, possuímos filosofia grega as ideias dos estoicos,
cada espécime para determinar se ele essa capacidade inata, necessária estava se tornando o poder dominante
pertence a certa categoria. Por para aprender a partir da experiência. no Mediterrâneo. A Academia de
exemplo, uma característica comum a Quando aplicou esse fato ao seu Platão e a escola rival fundada por
todos os répteis é o sangue frio. Então, sistema hierárquico, Aristóteles Aristóteles em Atenas, o Liceu,
se um espécime particular tem percebeu que o poder inato da razão continuaram a funcionar, mas tinham
sangue quente, não pode ser réptil. nos distingue de todas as outras perdido sua antiga proeminência.
Da mesma forma, uma característica criaturas vivas, colocando-nos no Lopo Como resultado, muitos dos textos
comum a todos os mamíferos é que da hierarquia. de Aristóteles foram perdidos.
amamentam seus filhotes. Então, se Acredita-se que ele escreveu várias
um espécime é mamífero, irá Declínio da Grécia clássica centenas de tratados e diálogos que
amamentar seu filhote. Aristóteles O alcance das ideias de Aristóteles e o explicavam suas teorias, mas tudo o
observou um padrão nessa forma de modo revolucionário pelo qual ele que restou foram fragmentos de sua
pensamento: um padrão de três subverteu a Teoria das Formas de obra, principalmente na forma de
proposições que consistem em duas Platão deveriam ter assegurado que palestras e notas de professor.
premissas e uma conclusão, sua filosofia tivesse impacto bem Felizmente para a posteridade, esses
exemphficado na forma "se As são Xs, maior do que ele pôde verificar em textos foram preservados por seus
e B é um A, então B é um X". Essa vida. Isso não quer dizer que sua obra seguidores, e restou o suficiente para
forma de raciocínio - o "silogismo" não tivesse falhas. Sua geografia e sua dar uma visão geral da amplitude de
- foi o primeiro sistema formal de astronomia eram imperfeitas; sua sua obra.
lógica concebido e permaneceu como ética apoiava o uso de escravos e
modelo básico para a lógica até o considerava as mulheres inferiores; O legado de Aristóteles
século XIX. sua lógica era incompleta para Com o florescimento do Islã no
Mas o silogismo era mais do que padrões modernos. No entanto. seu século VII, as obras de Aristóteles
simples subproduto da classificação pensamento deflagrou uma revolução foram traduzidas para o árabe e se
sistemática de Aristóteles do mundo tanto na filosofia quanto na ciência. espalharam pelo mundo islâmico,
natural. Ao usar o raciocínio analítico Aristótêles, conludo, viveu no fim tornando-se leitura essencial para
na forma de lógica, Aristóteles de uma era Alexandre, o Grande, a sábios do Oriente Médio como
compreendeu que o poder çla razão era quem ele instruiu, morreu pouco antes Avicena e Averróis. Entretanto,
algo que não se baseava nos sentidos, dele, e então começou o período na Europa ocidental. a tradução latina
OMUNDO ANTIGO 63
que suas ideias foram reunidas nos
livros que conhecemos hoje, como
Física, Ética a Nicômaco e Organon.
No século XIlI, Tomás ele Aquino
desafiou a censura à obra de
Aristóteles e a integrou à filosofia
cristã, da mesma forma que Santo
Não existe nada
Agostinho tinha adotado Platão.
na mente que já não tenha
As notas sobre lógica de
passado pelos sentidos.
Aristóteles (expostas no Organon)
John Locke
permaneceram como o texto padrão
sobre o tema até o surgimento da
lógica matemática no século XIX. Da
mesma forn1a, sua classificação dos
seres vivos dominou o pensamento
ocidental durante toda a Idade
Média, tornando-se a scala naturae a OJ>osição e mpirista. Nova1nente,
("escada da natureza") cristã - ou as diferenças entre os filósofos eram
Grande Cadeia do Ser. Ela d escreveu tanto em relação ao temperamento
toda a criação dominada pelo qi.: 1nto em relação à substância -
A influên cia de Aristóteles na história homem, que ficava atrás apenas de o c:on tinental versus o insu lar, o
do pensamento é vista na Grande Cadeia Deus. Durante a Renascença, o poético versus o acadêmico,
do Ser. descrição medieval cristã da vida método empírico de investigação de o platônico versus o aristotélico.
como uma hierarquia em que Deus reina
Aristóteles também teve grande Embora o debate Lenha definhado no
acima de tudo.
importância. século XIX , houve um renascimento
No século XVII. o debate entre do interesse em Aristóteles e1n
de Boéc10 do tratado aristotéhco de empiristas e racionalistas alcançou o épocas recentes e uma reavaliação de
lógica, realizada no século VI, ápice depois que René Descartes seu significado. Sua ética, em
per111aneceu como única obra do publicou seu Discurso sobre o particular, tem tido grande apelo para
filósofo disponível até o século IX, método. Descartes - e , depois dele, os filósofos modernos, que viram em
quando todos os textos de Aristóteles Leibniz e Kant - escolheu o caminho sua definição funcional de "bom" uma
começaran1 a ser traduzidos do árabe racionalista. Em resposta, Locke, chave para entender o modo como
para o latim. Tan1bém foi nessa época Berkeley e Hume se a li nharam como usamos a linguagem ética. 111

Aristóteles Nascido em Estagira, Calcídica, encorajado por Alexandre e


nordeste da Grécia moderna, fundou o Liceu, uma escola para
Aristóteles era filho do médico da rivalizar com a de Platão. Foi ali
família real da Macedônia e foi que escreveu a maior parte de
educado como membro da seus textos e formalizou suas
aristocracia. Enviado à Academia ideias. Depois da morte de
de Platão aos dezessete anos, Alexandre em 323 a.e., um
passou quase vinte anos lá, como sentimento ant imacedônico
a luno e professor. Quando Platão espalhou-se por Atenas.
morreu , Aristóteles trocou Atenas Aristóteles fugiu para Cálcis, na
pela Jônia e passou vários anos ilha de Eubeia, onde morre u no
estudando a vida selvagem da ano seguinte.
região. Foi então designado
preceptor na corte macedônica, Obra-chave
onde instr uiu o jovem Alexandre, o
Grande, e continuou s eus estudos. Organon, Física (reunido em livro
E m 335 a.e ., retornou a Atenas no século IX).
64

EPICURO (341-270 a.C.) 1

.
p1curo '
cresceu numa epoca Fundamental à filosofia
EM CONTEXTO em que a filosofia da antiga desenvolvida por Epicuro é a visão
Grécia já tinha alcançado o da paz de espirita, ou tranquilidade
ÁREA
' auge com as ideias de Platão e como objetivo da vida. Ele
Etica
Aristóteles. O foco principal do argumentou que o prazer e a dor são
ABORDAGEM pensamento filosófico estava as raízes do bem e do mal. e que
Epicurismo mudando da metafísica para a ética, e qualidades como virtude e justiça
também da ética política para a ética derivam dessas raíze s. porque "é
ANTES pessoal. No entanto, Epicuro encontrou impossível viver uma v1da agradável
Final do século V a.e. a semente de uma nova escola de s:em viver de maneira sábia.
Sócrates afirma que a b usca da pensamento nas investigações de honrada e justa, e é impossível viver
verdade é a chave para uma antigos filósofos, como a análise de de maneira sábia, honrada e justa
vida que vale a pena. Sócrates sobre a verdade dos sem viver de maneira agradável".
conceitos e valores humanos básicos . O epicurismo muitas vezes é
c.400 a.C. Demócrito e Leucipo
1

erroneamente interpretado como


concluem que o cosmos
simples busca dos prazeres
consiste unicamente em átomos
sensuais. Para Epjcuro, o maior
movendo-se no espaço vazio.
prazer só é alcançável por meio do
DEPOIS conhecimento, da amizade e de
c.50 a.e. O filósofo romano uma vida moderada, livre do medo
Lucrécio escreve De rerum e da dor.
natura, poema que exp1ora as
ideias de Epicuro. Medo da morte
Um dos obstáculos para desfrutar da
1789 Jeremy Bentham defende paz de uma mente tranquila, Epicu r
a ideia utilitarista da "máxima raciocinou, é o medo da morte,
felicidade passivei para o intensificado pela crença religiosa d
máximo possível de pessoas". que. se incorrer na ira dos deuses,
1861 Stuart Mill argumenta você será severamente punido na
vida após a morte. Em vez de agir
que os prazeres intelectuais e Imagens aterrorizantes do deus da
morte, Tânatos, mostravam os tormentos contra esse medo. propondo um
espirituais têm valor maior do
que os antigos gregos podiam sofrer por estado alternativo de imortalidade
que os ftsicos.
seus pecados, tanto na morte quanto na Epicuro tentou explicar a natureza
vida posterior. da própria morte. Ele começou
"
OMUNDO ANTIGO 65
Ver taJ11bém: Demócrito e Leucipo 45 • Sócrates 46-49 • Platão 50-55 •
Aristóteles 56-63 • Jeremy' Bentham 174 • John Stuart Mill 190-193

A morte é o fim A morte é o fim da


da sensação, então consciência, então
O objetivo da vida
não pode ser não pode ser
é a felicidade.
fisicamente emocionalmente
dolorosa. dolorosa.

Epicuro
Nossa Filho de pais atenienses,
infelicidade é nascido na ilha egeia de Sarnas,
Não há Epicuro aprendeu filosofia com
causada pelo medo,
e nosso maior nada a temer um discípulo de Platão. Em
medo é na morte. 323 a.e., Alexandre, o Grande,
o da morte. morreu. Durante os conflitos
políticos que se seguiram,
Epicuro e sua familia se
mudaram para Colófon (hoje na
Turquia), onde ele continuou
seus estudos com Nausífanes,
Se pudermos
um segu idor de Demócrito.
super·a r o medo Epicuro lecionou em
da morte, Mitilene, na ilha de Lesbos, e
poderemos
em Lâmpsaco, no continente
ser felizes. grego, antes de se mudar para
Atenas em 306 a.e. Fundou
uma escola, conhecida como
O Jardim, que consistia numa
propondo que, q uando morremos, sentir as coisas, mental ou
comunidade de amigos e
não estamos cientes da morte, já que fisicamente , é tolice deixar o medo seguidores. Lá, escreveu com
nossa consciência (nossa a lma} para da morte causar-nos dor enquanto detalhes a filosofia que ia se
de existir quando a vida cessa. Para ainda .vivemos. tornar conhecida como
explicar isso, Epicuro assumiu a Epicuro atraiu um séquito epicurismo.
Tisão de que o univers o inteiro pequeno mas dedicado durante sua Apesar da saúde frágil - e
consiste em átomos ou espaços vida, mas era vis to como alguém frequentemente sentindo
7azios, como manifestado pelos indiferente à religião, o que o tornou muita dor-, Epicuro viveu até
a~omistas Demócrito e Leucipo. impopular. Seu pensamento !oi os 72 anos. Fiel a suas crenças ,
.::.p1curo ponderou que a alma não amplamente ignorado pela filosofia antevia seu último dia de vida
pode ser um espaço vazio porque ela predominante por séculos, como um dia verdadeiramente
opera dinamicamente com o corpo e, ressu rgindo no século XVIII nas feliz.
;n~o. deve ser composta de átomos. ideias de Jeremy Bentham e John
• Obras•chave
E::e descreveu esses átomos da a lma Stuart Mill . Na política
c..:.strlbuídos ao redor do corpo, mas revolucionária, os princípios do
Início do século III a.e.
;ão frágeis que se dissolvem quando epicurismo ecoam nas palavras da Da natureza
.oorremos, e ent ão não somos mais Declaração de Independência dos Máximas capitais
capazes de sentir nada. Se quando Estados Unidos: "vida, liberdade e a Escritos vaticanos
=iorremos perdemos a capacidade de busca pela felicidade". • •
66

"
DIÓGENES DE SÍNOPE (c.404-323 a.C.)

erta vez, Platão descreveu


EM CONTEXTO Diógenes como '"um Sócrates
• que ficou louco". Embora a
AREA intenção fosse insultuosa, não está
Ética
lon ge da verdade. Diógenes
ABORDAGEM compartilhou da paixão pela virtude e
Cinismo da rejeição ao conforto material de
Sócrates. mas levou essas ideias ao
ANTES extremo. Ele argumentava que, para
Final do século Va.C. levar uma vida virtuosa, ou que
Sócrates ensina que a vida ideal valesse a pena viver, era necessário
é aquela vivida na busca da libertar-se das restrições externas ReÍ!eitando os valores mundanos,
verdade. impostas pela sociedade e do Diógenes escolheu viver nas ruas.
descontentamento interno causado Zombava das convenções alimentando-
Final do século IVa.C. -se de restos de comida e vestindo-se,
pelo desejo, pela emoção e pelo medo
Antístenes, pupilo de Sócrates, quando muito, com trapos SUJOS.
Isso podia ser conseguido, segundo
defende uma vida ascética e em
ele, por quem fosse feliz vivendo uma
harmonia com a naturez.a. vida simples. governada pela razão e possível: Diógenes encarou uma vida
DEPOIS por impulsos naturais, rejeitando sem de extrema pobreza, tendo como
c.301 a.e. Influenciado por pudor as convenções e renunciando ao abrigo apenas um barril velho. Os
Diógenes, Zenão de Cítio funda desejo por propriedade e conforto. ciiúcos asseguravam que quanto
a escola dos estoicos. Diógenes foi o primeiro de um maior o despojamento, mais próximo
grupo de pensadotes que se tornaram estaríamos de viver urna vida ideal.
Século IV Santo Agostinho conhecidos como c1nicos, termo A pessoa mais feliz (ou que "ten1
denuncia o co1nportamento extraído do grego }(ynikos, que mais", na frase de Diógenes) é, por
indecente dos cinicos. adotado significa "parecido com cão". Elo consequência, alguém que vive de
como modelo por várias ordens refletiu a determinação dos círucos em acordo com os ritmos do mundo
ascéticas cristãs. desprezar todas as formas de hábito natural, livre das convenções e dos
social e etiqu eta e, em vez disso, viver valores da socjedade civilizada e "se
1882 Friedrich Nietzsche se
num estado tão natural quanto satisfaz com o mínimo".•
refere a Diógenes e a suas ideias
na Gaia cjência. Ver também: Sócrates 46-49 • Platão 50-55 • Zenão de Cítio 67 • Santo
Agostinho 72-73 • Friedrich Nietzsche 214-221
OMUNDO ANTIGO 67

ZENÃO DE CÍTIO {c.332-265 a.O.)

uas escolas jmportantes de nenhum controle e tornar·se


EMCQNTEXTO pensamento filosófico indiferente à dor e ao prazer, à pobreza
surgiram depois da morte de e à riqueza. Mas a pessoa que fizesse
ÁREA Aristóteles: a ética hedonista e isso, segundo Zenão, alcançaria uma
Ética
agnóstica de Epicu ro, que teve apelo vida em harmonia corn a natureza em
ABORDAGEM limitado, e o mais popular e duradouro todos os aspectos, bons ou ruins,
Estoicismo estoicismo de Zenão de Cítio. vivendo de acordo com as decisões do
Zenão estudou com um discípulo supre mo legislador.
ANTES de Diógenes de Sínope, o Cínico, e O estoicismo conquistou apoio em
c.380 a.e. Platão expõe suas compartilhou de sua abordagem grande parte da Grécia helenista, mas
ideias sobre a ética e a cidade- singela. Ele tinha pouca paciência atraiu ainda mais seguidores no
-estado em A rep ública. com especulações metafísicas e Império Romano, que estava em
Século IV a.e. Diógenes dB chegou a acreditar que o cosmos era expansão, onde floresceu como uma
Sínope vive em extrema pobreza governado por leis naturais base para a ética pessoal e política,
estabelecidas por um legislador até ser suplantado pelo cristianismo
para demonstrar seus princ!J>ios
sup remo. O homem, ele declarou, é no século VI. •
cínicos.
completamente impotente para mudar
DEPOIS essa realidade - e, além de desfrutar
c.40·45 O polític o e filósofo de seus muitos beneficios, o homem
romano Sêneca, o Jovem, também tém de aceitar sua crueldade
continua a tradição estoica em e injustiça.
seus Diálogos.
Livre-arbítrio A felicidade é
c.150-180 o imperador rom ano No entanto, Zenão também declarava o bem fluir da vida.
Marco Aµrélio escreve os doze que o ho1ne1n recebeu uma alma Zenão de Cítio
volumes de Meditações, sobre racional com a qual exerce o livre-
filosofia estoica. -arbítrio. Ninguém é forçado a
1584 O humanist a Justo Lí:psio perseguir uma vida "de bem". Cabe ao
indivíduo escolher pôr de lado as
escreve De constantia
coisas sobre as quais tem pouco ou
combinando estoicismo com
cristianismo para fundar uma
Ver também: PlaLão 50-55 • Aristóteles 56-63 • Epicuro 64-65 • Diógenes de
escola de neoestoicismo. Sínope 66
70 INTRODUÇÃO

Plotino funda Crises internas e externas


o neoplatonismo, levam à divisão do Império Boécio con1eça a O profeta Maomé realiza
escola de filosofia Romano em oriental e traduzir a obra de a Hégira, sua jornada de Meca
mística baseada nos ocidental. O império ocidental Aristóteles sobre a Medina, marcando o 1n1cio
textos de Platão. cru em um século. lógica. da era muçulmana.

c.260 395 c.510 622

313 397-98 618 711

Çgnstantino 1 decreta Santo Agostinho A dinastia Tang Conquista da


a liberdade religiosa escreve suas assume a China, península
dentro do Império
r
Conflssões. trazendo uma Era de Ibérica cristã
Romano no Edito de Ouro de (Espanha e
Milão. desenvolvimento cultural. Portugal) pelos
muçulmanos.

.filosofia não desempenhou anos. A noção grega de filosofia racional para a crença em Deus e na
grande papel na cultura como uma investigação racional alma imortal.
romana. salvo o estoicismo. independente de doutrinas religiosas
que era admirado pelos romanos por foi contida com a ascensão do A Idade das Trevas
sua ênfase na conduta virtuosa e no cristianismo As questões sobre a No momento em que o Império
cumprimento dos deveres. A tradição natureza do universo e o que Romano se encolheu e finalmente
filosófica mais ampla estabelecida constitui uma vida viirtuosa, caiu, a Europa afundou na ''Idade das
pelos gregos clássicos ficou, portanto, acreditava-se, deveriam ser Trevç.s" e a maior parte da cultura
marginalizada sob o Império Romano. respondidas nas Escrituras: não herdada da Grécia e de Roma
A filosofia continuou a ser ensinada eram consideradas temas para desapareceu. A Igreja manteve o
em Atenas, mas sua influência discussão filosófica. monopólio sobre o ensino e a única
d1minuju e nenhum filósofo de relevo Santo Agostinho procurou mtegrar filosofia verdadeira a sobreviver foi
surgiu até Platino, no século III, que a .filosofia grega à religião cristã. Esse uma forma de platonismo considerad-
fundou u1na importanLe escola processo foi a principal tarefa da compativel com o cristian ismo, hem
neoplatónica. escolástica, uma abordagem filosófica como a tradução da Lógica de
Durante o primeiro milênio da era que se originou das escolas Aristóteles por Boécio.
cristã, a influência romana também monásticas e ficou famosa por seu No entanto. em outros lugares, a
diminuiu. politica e culturalmente . O rigoroso raciocínio dialético_ A obra cultura prosperava. A China e o
cristianismo foi assimilado e, depois dos filósofos escolást.icos, como Japão, em particular. desfrutavam de
da queda do império no século V, a Agostinho, foi menos uma exploração uma "Era de Ouro" na poesia e na
Igreja tornou -se a autoridade de questões como "Há um Deus?" ou arte, enquanto tradicionais filosofias
dominante na Europa ocidental, "O homem tem uma alma imortal?" e orientais coexistiam livremente com
permanecendo assim por quase mil mais uma busca por uma justificação suas religiões. Nas terras que tinhar.
OMUNDO MEDIEVAL 71

A "Casa da
Sabedoria" é Queda do Império
fundada em Bagdá, Bizantino a porção
atraindo estudiosos Santo A Peste Negra oriental do I:npér10 Romano.
de todo o mundo para Anselmo alcança a Europa e com sua capital
compartilhar e escreve o mata inais de um terço Constantmopla tomada
t raduzir ideias. Proslogion. da população. pelos t urcos otoma_t'los

832 1077-78 1347 1453

c.1014-20 1099 1445 1492

Avicena (Ibn Sina) Os cruzados Johannes Gutenberg, da Cristóvão


escreve seu Kitab al-Shifa cristãos capturam a Alemanha, inventa a Colombo cruza
(Livro da cura). cidade sagrada de prensa tipográfica, o Atlântico e
Jerusalém. permitindo maior alcança as Índias
disseminação do Ocidentais.
conhecimento.

sido parte do império de Alexandre, o ressurgimento do p ensamento na Europa medieval. Os métodos


Grande, o legado grego inspirava filosófico dentro da Igreja cristã científicos de Arist óteles haviam sido
mais respeito do que na Europa. medieval. Embora a filosofia de refinados para níveis sofisticados na
Estudiosos árabes e persas Platão tenha sido relativamente fácil Pérsia, e avanços na química, física,
preservaram e traduziram as obras de assimilar no pensamento cristão medicina e astronomia abalaram a
dos filósofos gregos clássicos, - porque fornecia justificação autoridade da Igreja quando chegaram
incorporando suas ideias na cultura racional lJara a crença em Deus e na à Europa.
islâmica do século VI em diante. alma humana imortal -. Aristóteles A reintrodução do pensamento
Quando o Islã se espalhou para o foi t ratado com desconfiança pelas grego e das novas ideias que
' .
leste na Asia, na Africa setentrional autoridades da Igreja. Todavia, levaram à Renascença na Europa no
e na Espanha, sua influência filósofos cristãos como Roger Bacon, final do século XV provocou uma
começou a ser sentida na Europa. Tomás de Aquino, Duns Scotus e mudança de ânimo, à medida que as
Por volta do século XII, novas ideias Guilherme de Ockham abraçaram pessoas começaram a considerar
e invenções do mundo islâmico entusiasticamente o novo mais a razão do que a fé em b usca d e
estavam alcançando regiões aristotelismo e convenceram a respostas. Houve d iscordância até
setentrionais tão remotas quanto a Igreja de sua compatibilidade com dentro da Igreja, a ponto de
Grã-Bretanha, e estudiosos europeus a fé cristã. humanistas como Erasmo
começaram a redescobrir a provocarem a Reforma. Os próprios
matemática e a filosofia grega por Uma nova racionalidade filósofos desviaram sua atenção para
meio de fontes islâmicas. As obras Junto com a filosofia que revitalizou a longe das questões sobre Deus e alma
de Aristóteles, em particular, Igreja, o mundo islâmico também imortal para os problem as
surgiram como uma espécie de introduziu uma abu ndância de apresentados pela ciência e pelo
revelação e provocaram um conhecimento tecnológico e científico mundo natu ral. •
72

11
SANTO AGOSTINHO (354-430)

gostinho tinha interesse


EM CONTEXTO particular sobre a questão do

Os humanos são
AREA • •
seres rac1ona1s . mal. Se Deus é inteiramente
Ética bom e todo-poderoso, por que há o mal
no mundo? Para cristãos como
ABORDAGEM Agostínho, assim como para os
Platonismo cnstão adeptos do judaísmo e do islamismo,
Para que sejam racionais. esse era, e ainda é, um problema
ANTES central Isso ocorre porque transforma
'º s humanos devem
c.400 a.e. Nas Górgias, um fato óbvio sobre o mundo - que ele
Ler livre-arbítrio.
Platão argumenta que o mal contém o mal - em argumento contra
não é algo, mas a ausência a existência de Deus.
de algo. Agostinho foi capaz de responder a
Século III Plotino ressuscita um aspecto do problema facilmente.
a visão de Platão de bem e mal. Ele defendia que, embora tenha cnado
Isso significa que devem tudo o que existe, Deus não criou o
DEP018 ser capazes de escolher mal porque o mal não é algo, mas a
c.520 Boécio usa a teoria entre o bem e o mal. falta ou a de:ficiência de algo. Por
agostiniana de mal em exemplo, o mal padecido por um
A consolação dafilosofia. homem cego é a ausência de visão; o
mal em um ladrão é a falta de
c.1130 Pedro Abelardo
honestidade. Agostinho tomou
rejeita a ideia de que não há
emprestado esse modo de pensar de
coisas más. Platão e seus seguidores.
Os humanos podem,
1525 Martinho Lutero. portanto, agir bem ou mal.
sacerdote alemão que inspirou Liberdade essencial
a reforma protestante. publica Mas Agostinho precisava explicar por
Da vontade cativa, que Deus teria criado o mundo de tal
argumentando que o arbítrio maneira a permitir que existissem tais
humano não é livre. males ou deficiências naturais e
Deus não é morais. Sua resposta girou em torno
a origem do mal. da ideia de que os humanos são seres
racionais. Ele argumentou que, para
que Deus criasse criaturas racionais.
OMUNDO MEDIEVAL 73
Ver também: Platão 50-55 • Plotino 331 • Boécio 74-75 • Pedro Abelardo 333 •
David Hume 148-153

como os seres humanos, tinha de lhes como a dissonância na música pode


dar livre-arbítrio. Ter livre -arbítrio tomar u ma harmonia mais agradável
significa ser capaz de escolher - ou fragmentos escuros cont ribuem
inclusive escolhe r entre o bem e o mal. para a beleza de um q uadro.
Por essa razão, Deus t eve de deixar
a berta a possibilidade de que o Explicando o mal natural
primeiro homem, Adão, escolhesse o Desde Agostinho, a maioria dos
mal em vez do bem . De acordo com a filósofos cristãos tem abord ado o
Bíblia. isso é o que aconteceu, visto problema do mal usando uma de suas
q ue Adão desobedeceu a ordem de abordag ens, enquanto seus oponentes,
'
Deus para não com er a fruta d a Arvore corno Davíd Hume. têm apontado para Santo Agostinho
do Conhecimento. suas fra gilidades como argumentos
O argumento de Agos tinho se contra o cristianismo. Charnar a Aurélio Agostinho nasceu
em 354 em Tagaste , pequena
sustenta mesmo s em s e referir à d oença de ausência de saúde, por
cidade no norte da África, de
Bíblia. A racionalidade é a capacidade &xemplo, parece apenas um jogo de
mãe cristã e pai pagão. Foi
de avaliar as escolhas por meio do palavras: a doença pode se originar de educado para ser um orador e,
processo de raciocínio. O processo só uma deficiência de algo, mas o depois , lecionou retórica em
é possível onde há liberdade de sofrimento do doente é real o suficiente. sua cidade natal, em Cartago,
escolha, incluindo a liberdade de se E como o maJ natural, tais como em Roma e em Milão, onde
escolher o errado. terremotos e pragas, é explicado? ocupou posição de prestígio.
A gostinho também s ugeriu uma Alg uém sem uma crença ante rior Por um tempo, Agostinho
terceira solução para o problem a, em Deus pode argumentar que a seguiu o maniqueísmo -
c onvii.dando-nos a ver o mundo como presença do m al no mundo prova que religião que considera o bem e
algo b elo. Ele dizia q ue. e m bora exisLa n ão há u m De us todo-poderoso e o mal como forças duplas
o mal no universo. este contriblli para benevolente. M as, para aquele q ue já regendo o universo - , mas, por
um bem total, que é m aior do que acredita em Deus, os argumentos de influência do arcebispo
poderia existir sem o mal - exatamente Agostinho devem conter a resposta. • Ambrósio, de Milão, foi
atraído para o cristianismo.
Em 386, sofreu uma crise
espiritual e se converteu.
Abandonou .a carreira e
dedicou-se a escrever obras
cristãs, muitas de natureza
altamente filosófica. E m 395
O que tornou Adão capaz tornou-se bispo de Hipona, no
de obedecer as ordens norte da África, e manteve o
de Deus também o tornou posto pelo resto da vida.
capaz de pecar. Morreu ali aos 75 anos,
Santo Agostinho q uando a cidade foi sitiada e
saqueada pelos vândalos.

Obras-chave
Um mundo sem o mal, diz Agostinho.
seria um mundo sem humanos, seres c .3 88 -95 O livre-arbítrio
capazes de decidir sobre seus atos. Assim c .397-401 Confissões
como para Adão e Eva, as escolhas morais c .413-2 7 A cidade de Deus
permitem a possibilidade do mal.
74

,
BOECIO (c.480-525)

EM CONTEXTO
ÁREA Deus vive no Deus conhece o futuro
Epistemologia eterno presente. como se ele fosse o presente.
ABORDAGEM
Platonismo cristão
ANTES
c .350 a.e. Aristóteles esboça os
problemas de se tomar como
verdadeira qualquer afirmação Sou livre para não ir Deus sabe que vou
sobre o resultado de um ao cinema hoje. ao cinema hoje.
acontecimento futuro.
c.300 a.e. O filósofo sírio
Jâmblico diz que o que pode ser
c;::onhecido depende da Deus antevi nossos
capacidade do conhecedor. pensamentos
DEPOIS e atos autônomos.
c.1250-70 Tomás de Aquino
concorda com Boécio que Deus
existe fora do tempo: é filósofo romano Boécio foi escrevendo. Como acaba acontecendo,
transcendente e está além da educado na tradição filosófica vou ao cinema. Sendo este o caso, é
compreensão humana.
c.1300 John Duns Scot diz que
' platônica e era cristão.
Ganhou fama por sua solução a um
problema que antecede Aristóteles: se
verdade agora (antes do acontecimento)
que vou ao cinema esta tarde. Mas se é
verdade agora, então tudo indica que
a liberdade humana baseia-se Deus já sabe o ·que vamos fazer no eu realmente não tenho a escolha de
na própria liberdade de Dells futuro, como podemos dizer que temos passar a tarde escrevendo. Aristóteles
para agir, e que Deus conhece livre-arbítrio? foi o primeiro a definir tal problema,
nossos atos autônomos e futuros A melhor maneira de entender o mas sua resposta não é clara: ele
por conhecer seu próprio arbítrio dilema é imaginar uma situação na parece ter pensado que uma frase
- imutável, mas livre. vida cotidiana. Por exemplo, esta tarde como "devo ir ao cinema esta tarde"
posso ir ao c)nema ou passar o tempo não é verdadeira nem falsa ou, pelo
OMUNDO MEDIEVAL 75
Ver também: Aristóteles 56-63 • Tomás de Aquino 88-95 • John Duns Scot 333 • Bento de Espinosa 126-129 •
Immanuel Kant 164-171 '

menos, não do mesmo modo que "fui ao Boécio solucionou o problema


cinema ontem". argumentando que uma mesma coisa
pode ser conhecida de diferentes
Um Deus além do tempo maneiras, dep e ndendo da natureza do
Boécio enfrentou rnna versão mais conhecedor. Meu cão, por exemplo,
difícil do mesmo problema. Ele conhece o sol apenas como algo com
acreditava que Deus conhece tudo, não qualidades que ele pode sentir pela
apenas o passado e o presente, mas visão e pelo tato. Entretanto. uma
;:ambém o futuro. Então, se estou indo pessoa também pode raciocinar sobre
ao cinema à tarde, Deus já sabe disso d e a categoria do sol, pode saber quais
manhã. Parece, portanto, que não sou elementos o compõem, sua distância
realmente livre para escolher passar a da te rra, e assim por 1diante.
rarde escrevendo, visto que isso entrarita Boécio conside ra o tempo de
em conflito com o q ue Deus já sabe. forma simila r. Como vivemos no fluxo
do tempo, só podemos conhecer os
acontecimentos como passado (se A Fil osofia e Boécio discutem o
eles ocor reram), presente (se estào !ivre-arbítno. o determinismo e a visão de
-
ocorrendo agora) ou futuro (se Deus sobre o eterno presente em seu
influente hvro A consolação da filosofia
vão ocorrér). Não podemos saber
o resultado de acontecimentos futuros
Tudo é conhecido, incertos. Deus, por outro lado. não está ações futuras, como se elas fossem
não conforme si mesmo, no fluxo do tempo. Ele vive em um presente, também não as impede de
mas de acordo com a eterno presente e sabe o que para nós é serem livres.
capacidade do conhecedor. passado, presente e futuro do mesmo Hoie. alguns pensadores
Boécio modo que conhecemos o presente. E, argumentam que. já que ainda não
exatamente como o meu conhecunento decidi se vou ao cinema esta tarde, não
sobre o fato de você estar sentado há simplesmente nada para se conhecer
agora não interfere na sua liberdade sobre isso. Então, nem mesmo um Deus
para permanecer assim, então também que fosse onisciente não saberia (e não
o conhecimento de Deus sobre nossas conseguiria saber) se vou ou não. •

Boécio Anicius Boethius, ou Boécio, foi Teodorico . Gere.a de cinco anos


um aristocrata romano cristão, depois, por uma intriga da
nascido na época em que o Império corte, foi injustamente acusado
Romano estava se desintegrando e de traição e sentenciado à
os ostrogodos governavam a Itália. morte. Escreveu sua obra mais
Ficou órfão aos sete anos, tendo famosa , A consolação da
sido criado por uma família filosofia , na prisão, aguardando
a r istocrática em Roma. o julgamento.
Extremamente bem-educado, 4'
falava grego e tinha amplo Obras-chave 1
conhecimento sobre literatura e
filosofia grega e latina. Dedicou a c.510 Comentárfos às
vida a traduzir e a comentar textos "Categorias" de Aristóteles
gregos, especialmente as obras de c.513-16 Comentários a
Aristóteles sobre lógica, até ser "Da interpretação" de Aristóteles
designado como principal c.523-26 A consolação da
conselheiro do rei ostrogodo filosofia
-
76 . .. . . .·, . .
' - ·:
.
.~

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'
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'
- . '' . ' .
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ABORDAGEM
Aristotelismo árabe
ANTES
c.400 a.e, Platão aTgumenta
que a mente a o c<Drpo são
sul5stânçias di:stíntBS.
Século IV a.e. Arist6te1es
ar@me!ltague;amente é a
"forn:Ya'' do corp o.
c~ so0-950 d.C. -As 0l3ras âe
Arist6t-ele$ sáo tr~d~zida$ para,
·o éllcybe P..e la p rimeira ve.z.

AVICENA (980-1037) DEPOIS


1250-60 Santo Tomás de
Aquino ad apt a a e~plíca9cãô de·
Aristóteles sobre mente e eorpo.
1640 René DesGartes sus:&entu o
dualismo em suàs Meditações..
1949.Ryle define o d ualism o
como "errç çategoriaJ"··em
O aonceito da n1ente.

vicena, tçimbém conhecid o


como Ibn Sina, é o filósofo
mais importante na tradição
árabe e u m dos maiores pensadores do
mundo . Como seus predecessores
Al·Kíndi e Al·Farabi e seu sucessor
Averróis, Avicena conscientemente se
definiu como filósofo em vez de teólogo
islâmico, escolhendo seguir a
sabedoria grega e o caminho da razão
e da evidência. E1n particular, via a si
mesmo como seguidor de Aristóteles,
e seus principais textos são
enciclopédias de filosofia aristotélica.
No entanto, essas obras explicam a
filosofia de Aristóteles tal como
repensada e sintetizada por Avicena.
Em algumas dout][inas, como a ideia
de que o universo semp·re existiu,
OMUNDO MEDIEVAL 77
Ver também: Platão 50-55 • Aristóteles 56-63 • Al-Kindi 332 • Al-Farabi 332 •

Tomás de Aquino 88-95 • René Descartes 116-123 • Gilbert Ryle 337

Se eu ficasse de olhos
vendados e suspenso .. .não saberia que
tenho um corpo.
no ar, tocando em 11ada"..

Avicena
Então, minha alma Mas saberia que
não é um corpo, eu - meu "eu" Ibn Sina - ou Avicena, como os
mas algo diferente . ou "alma" - existo. europeus o chamaram - nasceu
em. 980 numa vila perto de
Bukhara, atualmente no
Uzbequistão. Embora escrevesse
principalmente em árabe, língua
escolar em todo o mundo islâmico,
seu idioma era o persa. Avicena foi
uma criança prodígio, superando
rapidamente seus professores
A alma é não apenas em lógica e filosofia,
distinta mas também em medicina.
do corpo. Adolescente, foi reconhecido
como médico brilhante pelo
governante samânida Nuh ibn
Mansur, que lhe abriu acesso a
uma magnífica biblioteca.
Avicena passou a vida a
serviço de vários príncipes como
Avicena manteve a visão aristotélica não considerar possivel que qualquer médico e conselheiro político.
apesar do fato de que ela entrava em ser sobrevivesse à morte do corpo. Começou a escrever aos 21
conflito com a ortodoxia islâmica, mas Em contraste, Avicena foi um dos anos, produzindo mais de
em outras áreas ele se sentia livre para mais famosos dualistas na história da duzentos textos sobre assuntos
se afastar radicalmente de Aristóteles. :filosofia: ele julgava que o corpo e a tão dive·rsos quanto metafísica,
Um exemplo notável é sua explicação 1nente são substâncias distintas. Seu fisiologi.a animal, mecânica de
àa relação entre a mente ("eu" ou alma) grande antecessor nessa visão, Platão, sólidos e sintaxe arábica. Morreu
e o corpo. considerava a mente algo distinto e quando seus remédíos para cólica
aprisionado no corpo. Platão foram adulterados, possivelmente
Mente e corpo são distintos acreditava que, no momento da morte, com más intenções, enquanto
_ti ristóteles afi rmava que o corpo e a a mente seria liberada de sua prisão estava em campanha de guerra
:!lente dos humanos (e outros animais) para reencarnar posteriormente em com seu protetor Ala al-Dawla.
não são duas coisas (ou "substâncias") outro corpo.
Obras-chave
diferentes, m as uma unidade, e que a Para provar a nat ureza separada da
mente é a "forma" do corpo humano. mente e do corpo, Avicena concebeu
. c.1014-2 0 O livro da cura
Como tal, é responsável p or todas as um exercício mental conhecido como c.1015 Cânone da medicina
atividades que um ser humano pode "homem voador": este aparece como c.1030 Livro dos teoremas e
executar, incluindo pensar. Por essa um tratado, Da alma, dentro do Livro dos avisos
:azão, Aristóteles dava a impressão de da cura, com a meta de remover >>
78 AVICENA
qualquer conhecimento que possa ser Suponha que estou com1:ileta1nente
possivelmenLe refutado, restando sem qualquer sensação. Apesar de
apenas verdades absolutas. É umà tudo, tenho certeza de que eu existo.
antecipação à obra de Descartes, o Mas o que é esse "eu" que sou eu? Ele
famoso clual1sta do século XVII, que não pode ser qualq uer parte do meu
também decidiu não acreditar em corpo, porque não sei se o tenho. O A conversa secreta
nada. exceto naquilo que ele próprio "eu" que afirmo como e xi stente não é um encontro direto
poderia saber com certeza. Avicena e ·tem comprimento, largura ou entre Deus e a alma,
Descartes quiseram demonstrar que a profundidade. Não tem extensão ou abstraída de todas as
mente. ot1 o "eu", existe porque sabe atributos físicos. E se eu fosse capaz restrições materiais.
que existe - e que é d1stinta do corpo de imaginar, por exemplo, uma mão, Avicena
humano. não a imaginaria como pertencente a
esse "eu" que sei que existe.
O home m voado r Conclui-se que o "eu" humano - o
l\To experimento homem voador, que sou - é distinto do meu corpo ou
~·.'<• •.•.,•":·~ . .. . . '
Avicena quis investigar o que de q u a lquer coisa física. O •Ã • ' •• •

conseguimos saber se formos experimento do homem voador. dizia


efetivamente privados de nossos Avicena, é um modo de alertar e como as partes de coisas físicas
sentidos e não pudermos depender lembrar a si próprio da existência da ajustam-se às partes de um órgão dos
deles para obter informação. Ele nos mente como algo diferente, e distinto, sentidos: a imagem da parede que vejo
convidou a imaginar o seguinte: do corpo. se estende à lente de 1neu olho, cada
suponha que eu tenha acabado de Avicena também tem outras uma de suas partes correspondendo
começar a existir, mas tenho toda a forma s de mostrar que a mente não a uma parte da lente. Mas a mente não
minha inteligênc1a normal. Suponha pode ser algo material. A maioria dos é um órgão dos sentidos: o que ela
também que estou con1 os olhos a rgumentos baseia-se no fato de que o compree nde são definições co1no "O
vendados e que flutuo no ar, com meus conhecimento intelectual que a mente home1n é um animal racional e
membros separados uns dos outros, de consegue apreender não pode estar mortal". As pai tes dessa frase
modo que não p osso tocar em nada contido por nada material. É fácil ver precisam ser apreendidas de uma vez,
juntas. A mente, portanto, não pode
ser de modo algum como o corpo ou
como parte do corpo.

A alma imortal
Avicena concluiu que a mente não é
destruída quando o corpo morre, m as
que é imqrtal. Isso não ajudou a tornar
seu pensamento mais palalável para

- os muçulmanos ortodoxos, que


acreditam que o indivíduo inteiro,
corpo e 1nente, ressuscit a e desfruta
das alegrias da vida após a morte.

'
,:,.} .... ......
~.
-;, .,.
..
Consequentemente. Avicena foi
atacado no século XII pelo grande
teólogo islâmico Al-Ghazali, que o
chamou de herege por abandonar o

O conh e ciment o m é d ico de Avicena


era tão vasto que lhe rendeu apoio real.
Seu Cânone eia medicina influenciou as
escolas europeias de 1nedicina até
meados do século XVII.
OMUNDO MEDIEVAL 19
ele percebeu, seria sobre sua própria somos capazes de explicar com
existência. Esse "eu" é exatamente o precisão como o pensamento funciona
"eu" d o qual o homem voador de em áreas diferentes do cérebro - mas
Avicena tem absoluta certeza, 1nesmo não está claro se isso significa que
na ausência do conhecimento pelos podemos explicar o pensamento sem
sentidos. Como Avicena, Descartes referência a u1n "eu". Um influente
concluiu que o "eu" é completamente filósofo britânico do século XX, Gilbert
Mas o que é isso que sou? distinto do corpo e deve ser imortal. Ryle, caricaturou o "eu" dos duailstas
Sou uma coisa que pensa. como "um fantasma na máquina" e
René Descartes O fantasma na máquina tentou demonstrar que podemos
Uma forte objeção ao dualismo de exphcar como os seres humanos
Avicena ou de Descartes é o compreendem e atuam dentro do
argumento usado por Aquino. Ele mundo sem recorrer a esse "fantasma
dizia que o "eu" que pensa é o mesmo doeu...
"eu" que sente através do corpo. Por Hoje, os filósofos estão divididos
exemplo; não apenas percebo que há entre um pequeno número de
dor na minha perna da mesma dualistas, um número maior de
:::!ar islâmico central da ressurreição. maneira como um marinheiro percebe pensadores que dize1n que a mente é
: :as, no mesmo século, a obra de um buraco em seu navio. A dor simplesmente um cérebro, e a maioria
.-: ·1cena foi traduzida para o latim, e pertence a mim tanto quanto meus que concorda que o pensamento é o
3-5U dualismo tornou-se popular entre pensamentos sobre filosofia ou sobre o resultado da atividade física do
s filósofos e teólogos cristãos. Eles que vou comer no almoço. cérebro, mas que insiste que há uma
aoreclara1n o modo corno suas A maioria dos filósofos distinção entre os estados físicos do
. -:terpretações dos textos de contemporâneos rejeita o dualismo cérebro (a matéria cinza, os neurônios
..:..:-istóteles tornaram-nos compatíveis mente -corpo, em grande parte por etc.) e o pensamento que deriva deles.
l"lm a ideia de uma alma imortal. conta do crescente conhecimento Muitos filósofos. especialmente
científico sobre o cérebro. Avicena e pensadores da Europa continental,
O "eu" indubitável Descartes estavam ambos ainda aceitam os resultados do
:erca de duzentos anos depois, na interessados em fisiologia e fizeram experimento ele Avicena em um
:cada de 1250, Santo Tomás de descrições científicas de atividades aspecto central: cada u1n de nós teria
---:ruino defendeu uma interpretação como movimento e sensação. Mas o um '·eu'' com uma visão do mundo em
""-:ais fiel de Aristóteles. na qual mente processo de pensamento racional era prin1eira pessoa que não está
- ;orpo estão muito mais intimamente inexplicável com as ferrament as acomodado com a visão objetiva das
ados, e suas concepções foram científicas então d is poníveis. Hoje teorias científicas. •
aitas pelos teólogos dos séculos XVI
:. :>CVII. Em 1640, Descartes retornou
;. dualismo mais próxjmo de Platão
q ue de Aristóteles, e seu
gu mento para isso era muito
a:-ecido com o de Avicena.
Descartes imaginava que havia
:n demônio que tentava enganá-lo
_ ore tudo que ele possivelmente
dia ser enganado. A única coisa
tire a qual não podia ser enganado,

.
A história A bússola de ouro, de Philip
?-u!hnan, retoma a antiga ideia grega ela
;.ma, ou daimon, separada do corpo,
:.x1bindo-a como um ser inteiramente à
:--arte. tal como um gato.
80

SANTOANSELMO (1033-1109)
~ -l, ... ~ . - -· , . - • ; • - . . • . . . . ' ' .

mbora os pensadores cristãos ser do qual não é possível pensar nada


EM CONTEXTO tomem a existência de Deus maior"; segundo, que a existência é
como questão de fé, na Idade superior à não existência. No final do
ÁREA
Média tentaram demonstrar também argumento, o louco é forçado a aceitar
Filosofia da religião
que ela podia ser provada por meio uma posição contraditória ou admitir
ABORDAGEM de a rgumentos racionais. A prova que Deus existe.
Platônica-aristotélica ontológica concebida por Anselmo O argumento foi aceito por filósofos
- filósofo italiano do século XI que eminentes, como René Descartes e
ANTES trabalhou com base na lógica Bento de Espinosa. Muitos outros,
c .400 Santo Agostinho defende aristotélica, no pensamento contudo, assumiram o lado do louco.
a existência de Deus por meio platônico e na própria genialidade Um contemporâneo de Anselmo,
da nossa compreensão de - é provavelmente a mais famosa GaunHo
1
de Marmoutiers, disse que
verdad es imutáveis. de todas . poderíamos usar o mesmo argumento
1075 Em seu Monológio, Santo Anselmo imaginou-se para provar que existe em algum lugar
argumentando com um louco, que nega uma ilha maravilhosa, maior do que
Anselmo aperfeiçoa a
que Deus exista (ver pág. ao lado). O qualquer ilha que possa ser
demonstração de Agostinho da
argumento baseia-se na aceitação de concebida. No século XVIII, Immanuel
existência de Deus.
duas coisas; primeiro, que Deus é "um Kant objetou que o argumento trata a
DEPOIS existência como se fosse um atributo
1260 Santo Tomás de Aquino das coisas como se eu pudesse
rejeita a prova ontológica de descrever meu paletó da seguinte
Santo Anselmo. forma: "é verde, feito de tweed e
existe". Existir não é como ser verde:
1640 Descartes usa uma das se não existisse, não haveria paletó
formas da prova ontológica de Acreditamos que para ser verde ou de tweed.
Santo Anselmo nas Meditações. vós [Deus] sois algo que Kant sustentou que Anselmo
1979 O norte-americano Alvin
nada se pode. conceber
. também errou ao dizer que aquilo que
Plantinga reformula a p rova
que vos se1a maior. existe tanto na realidade quanto na
ontológica de Santo Anselmo
Santo Anselmo mente é maior do que aquilo que
existe apenas na mente, mas outros
usando uma forma de lógica
filósofos discordam. O que garante,
modal para estabelecer a
afinal, que uma pintura real seja maior
verdade da prova.
do que o conceito mental q ue o pintor
tem antes de começar a trabalhar? •
OMUNDO MEDIEVAL 81
Ver também: Platão 50-55 .• Santo Agostinho 72-73 • Tomás de Aquino 88-95
• René Descartes 116-123 • Bento de Espinosa 126-129

Você concorda que se Deus


existisse ele seria a maior coisa que
poderia haver - "um ser do qual não é
possível pensar nada maior"?
Sim.
Santo Anselmo
E você concorda que "um ser do Santo Anselmo da Cantuária
qual não é possível pensar nada maior" nasceu em Aosta, Itália, em 1033.
existe na sua mente? Deixou sua casa quando tinha
Sim, n.a minha por volta de vinte anos para
mente, mas não estudar no monastério de Bec,
na realidade. França, aos cuidados de um
eminente lógico, gramático e
comentador bíblico eh.amado
Mas você concordaria que algo Laniranc. Tornou-se monge de
quê existe na realidade, assim como Bec em 1060, depois prior e,
na m ente , é maior do que algo que finalmente, abade, em 1078.
existe apenas na mente? Sim, acho que sim :
um sorvete na m inha Viajou para a Inglaterra e, em
mão é maior do que 1093, tomou-se arcebispo da
aquele que está só na Cantuária, apes.a r de seus
minha imaginação. protestos devido à saúde frágil e
à falta de habilidade política.
Então, se "um ser do qual não Essa posição o colocou em
é possível pensar nada maior" existe conflito com os reis anglo-
apenas na mente, é menor do que se -normandos Guílherm·e II e
existisse apenas na realidade. Henriquel,quandotentou
defender a Igreja contr a o poder
Verdade. O ser reaL Tais disputas levaram a dois
que realm.ente existe períodos de exílio, durante os
seria maior. quais visitou o papa para
Então, agora você está defender a causa da Igreja
dizendo q ue há algo maior do que inglesa e pleitear sua :remoção do
"um ser do qual não é possível cargo. No fim, reconciliado com o
pensar nada maior"? rei Henrique I, A nselmo morreu
na Cantuária aos 76 anos.
Isso nem mesmo
faz sentido.
Obras-çbave
Exatamente. E a única
alternativa para essa contradição 1075-76 Monológio
é admitir que Deus ("um ser do qual 1077-78 Proslógio
não é possível pensar nada maior") A prova ontológica de 1095-98 Por que Deus se fez
realmente existe - tanto no Anselmo foi escrita em homem?
pensamento quanto na realidade. 1077-78, mas ganhou esse 1080-86 Sobre a queda do
título do filósofo a lemão Kant, demónio
em 1781.
82

"
AVERRÓIS (1126-1198)

ver róis trabalhou na área ser obrigado a aceitar literalmente os


EM CONTEXTO judiciária. Foi um qâdJ (juiz ensinamentos do Alcorão. Averróis não
islâmico) que atuou sob os considerava que o Alcorão fornecesse
ÁREA
almóadas, um dos regimes islâmicos uma explicação precisa do universo se
Filosofi.a da religião
mais severos na Idade Média. Apesar lido de maneira literal, mas sustentava
ABORDAGEM disso, passava as noites escrevendo q ue era uma aproximação poética da
Aristotélica árabe comentários sobre a obra de um antigo verdade, e isso seria o máximo que o
filósofo pagão, Aristóteles. E um dos inculto poderia apreender.
ANTES leitores ávidos de Averróis era No entanto, Averróis acreditava que
1090 Abu Hamid al-Ghazali ninguém menos do que o soberano as pessoas cultas tinham a obrigação
ataca os filósofos aristotélicos a lmóada., Abu Ya'qub Yusuf. religiosa de usar o raciocínio lógico.
islâm licos. Averróis reconciliou a religião e a Nos pontos em que o raciocínio
1120 Ibn Bajja (Avempace) filosofia com sua teoria h ierárquica da revelasse que o significado literal do
sociedade. Ele julgava que apenas uma Alcorão era falso, Averróis dizia que o
estabelece a filosofia aristotélica
elite educada seria capaz de pensar texto deveria ser "interpretado". Em
na Espanha islâmica.
filosoficamente, e todo o resto deveria outras palavras, o significado óbvio das
DEPOIS
1270 Tomás de Aquino critica ... ••• • w •;•1zc •••ta a 1 a zaz se
os averraís tas por aceitar
verdades conflitantes do Aceitamos que o Alcorão é verdadeiro.
cristianismo e da :filosofia
aristotélica.
1340 Móisés de Narbonne
publica oomehtá;rios sobre a Mas algumas partes dele são
obra de Averróis. demonstravelmente equívocas.
1852 O filósofo francês Emest
Renan. publica um estudo sobre
Averróis, tomando-o uma
importante influência no O texto é uma
moderno pensamento político verdade :poética e deve
ser interpretado pelo
islâmico.
raciocinio filosófico.
OMUNDO MEDIEVAL 83
Ver t ambém: Platão 50-55 • Aristóteles 56-63 • AJ-Ghazali 332 • Ibn Bajja 333 • Tomás de Aquino 88-95 • Moisés de
Narbonne 334

ressurreição dos mortos, princípio conhecidos como averroístas, e havia


básico do Islã, era mais dificil de incluir entre eles estudiosos judeus como
no universo aristotélico. Averróis Moisés de Nardonne, e latinos, como
aceitava que devemos acreditar na Boécio e Sigério de Brabante. Os
imortalidade pessoal, e que qualquer averroistas latinos aceitaram o
Os filósofos acreditam um que rejeite isso é um herege Aristóteles interpretado por Averróis
q ue as leis religiosas são merecedor de execução. Mas ele como a verdade de acordo com a razão
artes políticas necessárias. assl1mia uma posição diferente de seus - apesar de também ratificar um
Averróis antecessores ao dizer que o tratado Da conjunto aparentemente conflitante de
alma, de Aristóteles, não afumava que "verdades" cristãs. Eles foram
os indivíduos humanos têm almas descritos como defensores de uma
imortais. De acordo com a interpretação teoria de "verdade d upla", mas sua
de Averróis, Aristóteles afirmou que a visão é, mais precisamente, a de que a
humanidade é imortal apenas por meio verdade relaciona-se ao context o da
palavras tinha de ser de sconsiderado, de um intelecto compartilhado. Averróis investigação. •
com a aceitação da teoria científica parecia dizer que há verdades
demonstrada pela filosofia aristotélica imperecíveis, passíveis de descoberta
em seu lugar. pelos homens- mas que você e eu, como
indivíduos, vamos perecer quando
O intelecto imortal nossos corpos morrerem.
Averróis se dispunha a sacrificar
algumas doutrinas islâmicas Averroístas posteriores
amplamente aceitas a fim de manter a A defesa de Averróis da filosofia
compatibilidade entre filosofia e religião. aristotélica (ao menos para a elite) foi
Por exemplo, quase t odos os evitada por seus colegas muçulmanos .
muçu lmanos acreditam que o universo Mas suas obras, traduzidas para o
Algu.n s muçulmanos não viam a
cem um inicio, mas Averróis concordava hebraico e latim, tiveram enorme filosofia co1no um tópico legitimo de
com Anstóteles que ele sempre existiu influência nos séculos XIII e XIV. estudo no século Xll. mas Averróis
- e afirmava que nada no Alcorão Estudiosos que apoiaram as opiniões argumentou que era essencial envolver-se
contradizia essa visão. No entanto, a de Arisêóteles e Averróis ficara1n com a religião de modo crítico e filosófico.

Averróis Ibn Rushd, conhecido na Europa especialistas. Apesar do crescente


como Ave rróis, nasceu em 1126 em panorama liberal do califado
Córdoba, então parte da Espanha almóada, o público desaprovou a
islâmica. Pertencia a uma familia de filosofia heterodoxa de Averróis. A
advogados ilustres e educou-se em pressão pública levou ao
direito, ciência e filosofia. Sua banimento de seus livros e ao
ami zade com outro doutor e filósofo, exílio em 1195. Comutada a pena
Ibn Tufayl, levou-o a ser dois anos depois, Averróis
apresentado ao califa Abu Ya'qub retornou a Córdoba, morrendo no
Yusuf, que nomeou Averróis como ano seguinte.
juiz principal e, depois, médico da
corte. Ab u Ya'qub também Obra s-chav e
compartilhava do interesse de
Averróis por Aristóteles e o 1179-80 Discurdo decisivo
encarregou de escrever uma série 1179-80 Incoerência do incoerente
de paráfrases de todas as obras c.1186 Grande comentário ao
aristotélicas, destinada a não "Da alma" de Aristóteles
84

MOISÉS MAIMÔNIDES (1135-1204)

aimônides escreveu tanto isso, ele di zia, devia ser excluído da


sobre a lei judaica (em comunidade judaica. Mas no Guia dos
,- ·!' hebraico) quanto sobre o perplexos, Maimônides levou essa
kiREJL
pensamento aristotélico (em árabe). ideia até o limite, desenvolvendo um
Fiie·s ofia d~· :rel~gião
~
Em ambas as áreas, uma de suas ramo do pensamento conhecido como
AB@B.DAGJEM
. - principais preocupações foi evitar a "teologia negativa". Ela já existia na
Anstotéliç·a-jutl!altª- antropomorfização de Deus - ou seja, teologia cristã e focava na descrição
pensar em Deus como se fosse u1n ser de Deus apenas em termos daquilo que
humano. Para Maimônides, o pior erro Ele não é.
e.40:0 O ffe6~oÍQ ~:,$eUGl,o-'Dtonísi~ de todos era interpretar a Torá (primeira Deus, afirmava Maimônides, não
fµrrda a 'ttailiip"ãêil d~terdl@ia parte da bíblia hebraica) como verdade tem atributos. Não podemos dizer com
r1~a1iwª'-.crf~.l. C1l:!&afi);.~a ~~e­ literal e pensar em Deus como algo exatidão que Deus é "bom" ou
De"us~;ã0 .é ' s~.t ·, rpas;;mais· do:· corpóreo. Oualq1.1,er um q1,.1e pensasse "poderoso". Isso ocorre porque um
=

-
-.. ··- :.
~'lil\.l~ .:;;µg;~~cy:µJ}. D~;\é.~·:9fi;a
-O:·:trhi.v.erse~ ,patfürr.Glo,JJ,caâa, ,&tuEi.: Atribut os são ...
;o: . - ~. •.

~ele;p~Q;P.r~"' · ~

...acidentais. ... essenciais .

.
Mas Deus Atributos essenciais
não tem acasos. definem.

Deus não tem Mas Deus


atributos. é indefinível

.
OMUNDO MEDIEVAL 85
Ver também: Johannes Scotus Eriugena 332 • Tomás de Aqt lino 88-95 •
Mestre Eckhart 333' • S0ren Kierkegaard 194-195

atributo só pode ser acidental (passível


de mudança) ou essencial. Um dos
ineus atributos acidentais, por exemplo,
é que estou sentado; outros, são meu
cabelo grisalho e meu nariz longo. Mas
eu ainda seria o que essencialmente Quando os intelectos
sou !llesmo que estivesse de pé, contemplam a essência
tivesse cabelos ruivos e nariz de Deus, sua apreensão
arrebitado. Ser humano - isto é, ser torna-se incapacidade.
um animal racional e mortal - é meu Maimônides
atributo essencial: ele me define. Mo·i sés Maimônides
Em geral, aceita-se que Deus não tem.
atributos acidentais porque é Moisés Maimônides, também
conhecido como Rambam,
imutável. Para Maimônides, Deus
nasceu em 1135, em Córdoba,
também nào podia ter qualquer
Espanha, numa família
atributo essencial porque isso seria judaica. Sua infância foi rica
definidor, e Deus não pode ser definido. que "Deus é um c riador", devemos
em influências culturais:
Então, Deus não tem atributos. entender isso como urna afirmação educado em hebraico e árabe,
sobre o que Deus faz, em vez do tipo aprendeu a lei judaica com seu
Falando sobre Deus de coisa que Deus é. Se considerarmos pai, um juiz rabínic·o, dentro
Mairnônides afiimava que podemos a sentença "John é escritor", do contexto da Espanha
dizer coisas sobre Deus, mas que elas normalmente lJodemos entender o islâmica. Sua família fugiu
devem ser compreendidas como significado de que ser escritor é a dali quando a dinastia b·erbere
referência eos etos de Deus , e não ao profissão de John. Mas Maimônides a lmóada chegou ao poder em
"ser" de Deus. A maior parte das nos convida a considerar apenas o que 1148, e viveu de forma nômade
discussões na Torá deve ser entendida foi feito: nesse exe1nplo, John escreveu por dez anos até se
desse modo. Ent ão, quando nos d izem palavras. A escrita foi obra de John, estabelecer em Fez (hoje no
Marrocos) e, depois, no Cairo.
mas ela não nos conta nada sobre ele.
Problemas financeiros da
Maimônicles também aceitava que
família levaram Maimônides a
afirmações atribuindo qualidades a estudar medicina, e sua
Deus podem ser compreendidas se habilidade o levou a uma
int erpretadas como negativas duplas . nomeação pela corte em
"Deus é poderoso", por exemplo, devia poucos anos. T ambém
ser interpretado com o significa do de trabalhou como juiz rabínico,
que Deus não é impotente. Imagine mas não recebia remuneração
un1 jogo em que penso em algo e lhe por essa atividade. Foi
conto apenas o que esse algo não é reconhecido como chefe da
("não é grande, não é vermelho..."), até comunidade judaica do Cairo
você adivinhar. A diferença, no caso em 1191. Depois de sua morte,
de Deus, é que temos apenas as seu túmulo tornou-se local de
negações a nos guiar: não podemos peregrinação judaica.
dizer o que Deus é. •
Obr.a s·cbave
A Torá mis hná foi uma completa
reformulação da Lei Oral Judaica, que 1168 Comentário sobre a misbná
;'1.TJ Maimônides escreveu em hebraico 1168-78 Torá mishná
;"11)':) • \....,.. "'"~"'
sünples, de modo que "jovens e velhos" 1190 Guia dos perpíexos
• pudessem entender as práticas.
86
,.,,,
NAO ENTE. UE
SE PERDE RET RNA EM
UT F R'MA
JALAL AD-DIN MUHAMMAD RUMI (1207-1273)

EM CONTEXTO

AREA.
Filosofia islâmica
ABORDAGEM
Sufismo
AN'l'ES
610 0-.ISlã é fundado pelo .
profet-a }4aomé. as
....
'O
644 Alubn Abi Talib, pri,mo e >
sucessor de Maomé. torna-se
califa.
Século X A interpretação
mfstica.,do Alcorão por AU
torna-se a base para o sufismo.
DEPOI&
1273 Os.seguidores de.Rumi
fundam-a Ordem Mevlevi-de
Sufism0.
1925 Após a fundação da sufismo, a interpretação Anatólia, em meados do século XIII.
repúblieasecular da Turquia, a mistica e estética do O conceito s ufl - unir-se a Deus por
OrderilMevlevi é banida-ao
país . Eermanece ilegal ate 1954,
' Alcorão, é parte do Islã desde
sua fundação, mas nem sempre foi
meio do amor - seduziu s ua
imaginação e. a partir disso. ele
quando adquire o direito-ae se aceito pelo estudiosos islâmicos desenvolveu uma versão de sufismo
predominantes. Jalal ad-Din para explicar a relação do homem
apresentar em certas ocasiões.
Muhammad Rumi, mais conhecido com o divino.
Hoje As obras de Rumi como Rumi, foi criado no Islã ortodoxo Rumi tornou-se profes sor numa
continuam a ser traduzid~ em e teve o primeiro contato com o ordem sufi e, como tal, acreditava que
váriasJíTI.guas ao redor domundo. sufismo quando sua família se mudou era um veículo entre Deus e o homem.
das fronteiras orientais da Pérsia para Em contraste com a prática geral
OMUNDO MEDIEVAL 87
Ver também: Sidarta Gautama 30-33 • Avicena 76-79 • Averróis 82-83 •

Hajime Tanab e 244 -245 • Arne Naess 282-283

desenvolvi1nento de uma forma até


outra, temos de nos empenhar p ara o
cresciment o espirit u al e para uma
compreensão da relação divino-
-humano. Rumi defendia que essa
compreensão v ern d a emoção, em
vez da razão - emoção intensificada
por música, canto e dança.

O legado de Rumi
Os elementos m ístiGos das ideias de Jalal ad·Din Rumi
Ru mi foram inspirad!ores dentro do
sufismo, mas também influenciaram Jalal ad-Din Rumi, também
conhecido com o Mawlana
o Islã p redominante. Também se
A Orcl!em Mevlevi, ou Dervixes (Nosso Guia) ou simple smente
Giratórios, dança como parte da cerimônia re·v elara·m essenciais para converter
Rumi, n asceu em Balkh , n um a
sufi da Sema. A dança representa .a grande parte da Turquia do província da Pérsia.. Quando as
jornada espiritual do homem da ignorância cristianismo ortodoxo para o . "" ,.
inv:asoes m on go1s ameaçaram
à perfeição por meio do amor. islamismo. Mas esse aspecto de seu a região, sua fa m ília
pensamento n ão influenciou muito a esta b eleceu-se na Anatólia ,
islâmica, en fatizou mu ito mais o dhikr Europa, onde o racionalism o era a Turq uia , onde Rumi conheceu
- a oração ou litanja ritua l - em vez da orde1n do dia. No entanto, no século os poetas persas Attar e
análise racional do Alcorão como guia XX, suas ideias se popularizaram no Shams al-Din Tabrizi. Decidiu
divino, tornando-se conhecido por Oc idente, prin cipalm ente p or cau sa de dicar-se ao sufismo e
suas revelações em t ranse. Acreditava da mensagem de amor em sintonia escreveu milhares de versos d e
q ue era seu dever transmitir essas com os valores New Age da década poesia persa e á rab e .
visões e, então, descreveu-as em de 1960. Talvez seu maior admirador Em 1244, Rumi t ornou-se o
no século XX tenha sido o poeta e shaykh (mestre) de uma ord em
forma de poesia. Fundamenta l para a
político Muhammed Iqbal,
sufi e ensinou sua
sua filosofia visionária era a ideia de
interpretação m ís tico-
que o universo e tu do nele são um conselheiro de Muhammad Ali
-emocional do Alcorão, as sim
fluxo de vida infinito, no qual Deus é Jinnah, que na década de 1930 fez como a import ância da m úsica
presença eterna. O homem, como ca mpan ha por um Estado e da dança em cerimôn ias
parte do universo, também é parte paquistanês islâmico. • re ligiosas. Depois de sua
desse continuum, e Rumi buscou m orte , seus seguidore s
explicar nosso lugar. fundaram a Ordem Mevlevi de
O homem , ele acreditava, é a Sufismo, famosa p elos
ligação entre o passado e o futuro em Dervixe s Giratórios , que
um contínu o processo de vida, morte executam uma d ança
e renascimento - não como ciclo. Morri como mineral característica na cerimônia da
mas em progressão de u ma forma a Sema - forma de dhi kr
e tornei-me planta, part icula r à seit a.
outra. estendendo-se até a morri como planta e renasci
eternidade . A morte e a decadência como animal, morri como Obras-chave
são inevitáveis e partes d esse fluxo animal e fui Homem.
de vida infin ito, mas ao n1esmo Jalal ad-Din Rumi Início-meados s éculo XIII
tempo em q ue algo cessa de existir Dísticos esp irituais
em u ma forma renasce em outra . Por As obra s de Sbams de Tabriz
causa disso, não devemos ter medo Nele o que estiver Nele
da morte ne m la mentar as perd as. Sete sessões
No en tanto, a fim de assegura r nosso


,.
TOMAS DE A UINO c.1225-1274

90 SANTO TOMÁS DE AQUINO
., _ai; E o
s opiniões das pessoas havido uma primeira mudança ou
costumam se dividir entre as um p rimeiro movimento: o universo
que sustentam que o estaria constant emente se movendo
universo teve um inicio e aquelas que e mudando através dos tempos.
defendem que ele sempre exístíu. Hõjê Os grandes filósofos árabes,
tendemos a procurar a resposta na Avicena e Averróis, estavam
física e na astronomia, mas no dispostos a aceitar a visão de
passado essa era uma questão para Aristóteles, ainda que isso os fizesse
filósofos e teólogos. A resposta dada discordar da ortodoxia islâmica. Os
pelo sacerdote católico Tomás de pensadores judeus e cristã'Os
A.quino, o mais famoso dos filósofos medievais, cont udo. tinham mais
m edievais cristãos, é especialmente empecilhos. Eles sustentavam q ue ,
interessante. Continua sendo uma de acordo com a Bíblia, o u niverso
forma plausível de refletir sobre o tem um inicio, então Aristóteles
problema, e também nos conta muito devia estar errado: o u niverso nem
sobre como Aquino combinou sua fé sempre existiu. Mas essa visão era
com o raciocínio fiEosófico, apesar de algo que tiínha de ser aceito baseado
suas aparentes contradições. na fé ou podia ser refutado pelo
raciocínio?
lnftuência de Aristóteles João Filopono, escritor cristão
A figura central no pensamento de grego do século VI, acreditou ter
Santo Tomás de Aquino é encontrado um argumento para
Aristóteles, o antigo filósofo grego demonstrar que Aristóteles estava
cuja obra fascinou os pensadores errado e que o u niverso nem sempre
medievais. Aristót eles tinha a havia existido. Seu raciocínio foi
certeza de que o universo sempre copiado e desenvolvido por vários
abrigou diferentes seres - de objetos pensadores do século XIII. que
inanimados, como pedras, a precisavam encontrar uma falha no
espécies vivas, como humanos, cães raciocínio de Aristóte les a fim de
e cavalos. El€ afirmava que o proteger os ensinamentos da Igreja.
universo muda e se move, e isso só A linha de argumento era
pode ser causado por mudança e especialmente engenhosa: usou as
movimento. Então, nunca poderia ter próprias id eias de Aristóteles sobre o

Santo Tomás de Aquino Nascido em 1225, em Roccasecca, período como mestre em Paris.
na Itália, Tomás de Aquino Em 1273, sofreu algo que podia
estudou na Universidade de ser tanto um d~rrame quanto
Nápoles e ingressou na Ordem um tipo de visão mí:stica.
D.ominicana (então, uma nova Depois diss.o, afirmou que tudo
ordem de frades altamente o que fizelia era "simples
intelectualizacl.a) contra a ninharia" e nu_n ca mais
vontade da familia. Como noviço, esc;:reveu. Morr.e u aos 49 anos
estudou em Paris e depois em e em 1323 foi declarado sq,nto
Colônia, com o teólog·o pela Igreja católica.
aristotélico alemão Alberto
Magno. Retornando a Paris Obras-chave
tornou -se mestre de t·eologia,
lecionando por dez afias antés de 1256-59 Questões disputadas:
viajar pela Itália. De maneira "da verdade"
incomum, Aquino recebeu c.1265-74 Suma teológica
uma oferta para um segundo '
1271 Da eternidade do mundo
OMUNDO MEDIEVAL 91
Ver também: Aristóteles 56-63 • Avicena 76-79 • Averróis 82-83 • João Filopono 332 • John Duns Scot 333 • Pedro
"
Abelardo 333 • Guilherme de Ockharn 334 • Imrnanuel Kant 164-171

que o universo
'
o universo
sempre existiu. nem sempre existiu.

O mundo teve um começo,


mas Deus pode tê- lo criado de forma
a ter existido eternamente.

Aquino cercado por Aristóteles e Platão


em O triunfo de To1nás de Aquino sobre de que ele acreditava que todos os çle ter demonstrado que o universo não
Averróis. Sua compreensão acerca da tipos de seres vivos no universo pode ter existido sempre. Aristóteles
filosofia antiga era consi.derada maior do sempre existiram. Se isso fosse estava, portanto, errado. O universo
que a de Averróis, aqui a seus pé·s. verdade, significaria que já havia um não é eterno e isso se encaixava
número infinito de seres humanos na perfeita1nente com a doutrina cristã
infinito como ponto de partida para época em que Sócrates tinha nascido de que Deus criou o mundo.
refutar sua visão do universo como - porque, se eles sempre existiram, Santo Tomás de Aquino não
a lgo eterno. também existia1n naquela época. perdeu tempo com esse tipo de
Mas desde a época de Sócrates raciocínio. Ele salientou que o
Uma infinitude de humanos muitos mais humanos nasceram, e universo pode ter sempre existido,
De acordo com Aristótel·es, infinito é o portanto o número de humanos mas que espécies como humanos e
que não tem limite. Por exemplo, a nascidos até então devia ser maior do animais podem ter tido um início -
sequência de números é infinita: para que o infinito. Mas nenhum número as dificuldades levantadas por
cada número há outro número maior pode ser maior do que o infinito. Filopono e seus seguidores, assim, >>
que o segue. De maneira similar, o Além disso, acrescentaram esses
universo tem existido por um tempo autores, os pensadores cristãos creem
infinito, porque para cada dia há um que as almas humanas são imortais.
dia anterior. Entretanto, na opinião de Se fosse assim, e um número infinito
Aristóteles, essa é uma infinitude de humanos já existia, deveria haver
"virtual", visto que esses dias não um número infinito de almas
coexistem ao mesmo tempo; uma humanas em existência. Então, Nunca houve tempo
infinitude "atual" - na qual um número haveria uma infinitude atual de em que não houvesse
infinito de seres existem ao mesmo almas, não uma infinitude virtual - e movimento.
tempo - é impossível. Aristóteles dissera que a ínfinitude Aristóteles
Fi lopono e seus seguidores do atual era impossível.
século XIII consideraram que esse Com esses argumentos, usando os
argumento apresentava problemas próprios princípios de Aristóteles
que o próprio Aristóteles não como ponto de partida, Filopono e
percebera. Eles apontaram para o fato seus seguidores estavam confiantes
92 SANTO TOMÁS DE AQUINO
Como Filopono e seus seguidores, (incontestável) sobre bases lógicas.
Aquino queria mostrar que o Como todos concordavam, Deus criou
universo teve um inicio, mas o universo com um início - mas Ele
também desejava demonstrar que poderia com igual facilidade ter criado
não houve falha no raciocínio de um universo eterno. Se aJgo é criado
Deus poderia ter Aristóteles. Ele afirmava que seus por Deus, então deve sua existência a
criado o universo sem contemporâneos cristãos Deus, mas isso não significa que deva
humanos e, depois, confundiram dois pontos diferentes: ter existido um tempo em que esse
criá-los. o primeiro é que Deus criou o algo não existiu. Seria, portanto,
Tomás de Aquino universo, e o segundo é que possível crer em um universo eterno
o universo teve um início. Aquino que tenha sido criado por Deus.
começou a provar que, de fato, a Aquino deu um exemplo de como
posição de Aristóteles o universo isso pode acontecer. Imagine que um
sempre existiu poderia ser pé deixa uma marca na areia, e que
verdadeira, a inda que também fosse esta tenha .sempre estado lá. Mesmo
verdade que Deus criou o uni verso. que nunca houvesse um momento
podiam ser evitadas. Apesar de sua anterior à marca, ainda
defesa do raciocínio de Aristóteles, Criando o eterno recon hecer1amos o pé como a causa
Aquino não aceitava a afi rmação Aquino se afastou de Filopono e seus da marca: se não fosse pelo pé, não
aristotélica de que o universo é seguidores ao insistir que embora haveria marca.
eterno, porque a fé cristã diz o fosse verdade, como a Bíblia diz, que o
contrário, mas não julgava que a universo teve um início, essa não era Aquino e síntese
posição de Aristóteles fosse llógica. uma verdade necessária Os historiadores às vezes d izem que
Aquino "sintetizou" o cristianismo e
a filosofia aristotélica, como se
tivesse pegado as partes que queria e
composto u ma inistura homogênea.
De fato, para Aquino, como para a
maioria dos cristãos, os
ensinamentos da Igreja devem ser
aceitos, sem exceção ou concessão.
No entanto, Aquino era incomum.
porque pensava que, adequadamente
compreendido, Aristóteles não
contradizia o ensinamento cristão. A
questão sobre se o uruverso sempre
existiu é a exceção que prova a regra.
Nesse caso particular, Aquino julgou
que Aristóteles estava errado, mas
não em seu princípio ou racioclnio. O
universo realmente pode ter existido
desde sempre. até onde os antigos
filósofos sabiam. O problema era
apenas o fato de que Aristóteles, não
tendo acesso à revelação cristã, não

Aquino acreditava na narrativa da


criação por fé, mas afirmava que alguns
elementos da fé cristã podiam ter
demonstração racional. Para ele, a Bíblia
e a razão não precisam estar em conflito.
OMUNDO MEDIEVAL 93
Aristóteles dizia que o universo era infinito, visto que cada
hora e cada dia são sucedidos por outras horas e outros dias.
Tomás de Aquino discordava. acreditando que o universo teve
um começo, mas seu respeito pela obra de Aristóteles levou-o a
argumentar que sua filosofia podia estar certa.

c:>e

tinha como saber que o universo uma alma imortal-. mas de ao de forma racional o que é uma
não tinha existido desde sempre. mesmo tempo dizer que. de acordo árvore de forma racional, definindo-a
Aquino acreditava que havia várias com a razão, tais teses podiam ser e distinguindo-a de outros tipos de
outras doutrinas centrais ao demonstradas como erradas. plantas e seres. Aquino chamou isso
cristianismo q ue os antigos :filósofos de "conhecimento intelectual" porque
não conheciam nem podiam ter Como adquirimos o adquirimos usando o poder inato do
conhecido - como a c rença de que conhecimento intelecto para apreender, com base
Deu s é uma Trindade. e que uma Aquino foi fiel a seus princípios em nas impressões sensoriais, a realidade
pessoa da Trindade, o Filho, toda a sua obra, mas eles estão que está por trás delas. Animais
tornou-se humano. Mas, na opinião particularmente claros em duas áreas diferentes dos humanos não têm essa
de Aquino, quando os humanos centrais de seu pensamento: suas capacidade inata - daí que seu
raciocinam corretamente. não podem descrições sobre como adquirimos conhecimento não pode se estender
chegar a qualquer conclusão que conhecimento e seu tratamento da além dos sentidos. Toda a nossa
contradiga a doutrina cristã. Isso relação entre mente e corpo. De acordo compreensão científica sobre o mundo
ocorreria porque a razão humana e o com Aquino, seres humanos adquirem se basearia no conhecimento
ensinamento cristão viriam da conhecimento por meio do uso dos intelectual. A teoria do conhecimento »
mesma fonte - Deus - e não poderiam seu s sentidos: visão, audição, olfato,
se contradizer. tato e paladar. No entanto, tais
Aquino ensinou em mosteiros e impressões sensoria1s apenas nos
universidades na França e na Itália, dizem como são as coisas
e a ideia de que a razão humana superficialmente. Por exemplo, John,
nunca poderia entrar em conflito de onde está sentado, tem uma Devemos considerar
com a doutrina cristã muitas vezes o impressão visual de um objeto se há uma contradição
colocou em conflito violento com tridimensional, que é verde e marrom. entre algo ser criado
a lguns de seus colegas acadêmicos, Eu, por outro lado, estou sentado ao por Deus e seu existir
especialmente aqueles lado de uma árvore e posso sentir a perp étuo.
especializados em ciências, que na rigidez de sua casca e o cheiro da
Tomás de Aquino
época derivavam da obra de floresta. Se John e eu fôssemos cães,
Aristóteles. Aquino acusou seus nosso conhecimento sobre a árvore
colegas eruditos de aceitar certas seria limitado a essas impressões
teses acerca da fé - por exemplo, a sensoriais. Mas, como seres humanos,
posição de que cada um d e nós tem somos capazes de ir além e entender
,
94 SANTO TOMAS DE AQUINO
de Aquino deve muito a Aristóteles, seres vivos teriam uma alma. o que grego estabelecera entre o intelecto
ainda que esclareça e elabore mais o explicaria sua capacidade para e o corpo, pois assim podiam
pensamento do filósofo grego. Para níveis diferentes do que chama de acomodar o ensinamento cristão de
Aquino, como pensador cristão, os "atividade vital": crescer e que a alma humana sobrevive à morte.
humanos são apenas um tipo entre as reproduzir, para as plantas; mover-se. Aquino recusou-se a tal distorção. Isso
várias espécies de seres capazes de sentir, procurar e evitar, para os tornou bem mais difícil para ele
conhecer as coisas intelectualmente: an imais; e pensar, para os humanos. defender - como fez - a imortalidade
almas separadas de seus corpos na Aristóteles crê que a "for1na" da alma, e1n outro exemplo de sua
vida após a morte, anjos e o próprio transforma a matéria naquilo que ela é. determinação em ser um bom
Deus também podem fazer isso. Esses Dentro do corpo humano. essa forma aristotélico, e bom fllósofo, sem
outros seres conscientes não têm de é a alma, que transforma o corpo no renunciar a sua fé.
adquirir conhecimento por meio dos ser vivo que é ao lhe dar um conjunto
sentidos: conseguem apreender particular de atividades vitais. Como Depois de Aquino
diretamente as definições das coisas. tal, a alma está ligada ao corpo, e Desde a Idade Média, Tomás de
Esse aspecto da teoria de Aquino não então Aristóteles crê que, mesmo no Aquino veio a ser considerado o
tinha paralelo em Aristóteles, mas foi caso dos humanos, a alma-vida filósofo ortodoxo ofic ial da Igreja
um desenvolvimento coerente dos sobrevive apen as enquanto anima o católica. Em sua própria época,
princípios aristotélicos. Mais uma vez, corpo, perecendo na morte. quando traduções de fi losofia grega
Aquino conseguiu manter as crenças Aquino seguiu o ensinamento de estavam sendo feitas a partir do
cristãs sem contradizer Aristóteles, Aristóteles sobre os seres vivos e suas árabe, cheias de comentários, foi um
mas indo além dele. almas, insistindo que o ser humano dos pensadores mais interessados
tem apenas uma forma: seu intelecto. em seguir a série de raciocínios
A alma humana Embora outros pensadores dos séculos filosóficos de Aristóteles, mesmo
De acordo com Aristóteles, o xm e XIV também adotassem as quando não se encaixavam com a
intelecto é o princípio da vida, ou linhas principais de Aristóteles, eles doutrina cristã. Sempre permaneceu
"alma", de um ser humano. Todos os romperam o nexo que o pensador fiel aos ensinamentos da Igreja, o

As leis de causa e efeito nos levam a buscar a causa de


qualquer acontecimento, até mesmo o começo do universo.
Aristóteles supôs que Deus colocou o universo em
Uma pessoa deve ter
movimento. Aquino concordou, mas acrescentou que o
"Primeiro Movedor" - Deus - devia ser ele mesmo sem causa. provocado o movimento desse
berço de Newton . Mas será
. . .•..•...... ••••••+••··········· ·· que a existência do próprio
- .. universo tem uma causa?


~
1 •
••



OMUNDO MEDIEVAL 95
A radiação cósmica de fundo fornece a
evidência do "Big Bang" que iniciou o
universo. Mas ainda podemos argumentar,
como Aquino, que essa não foi a única
maneira possível para sua criação.

que não evitou que seu pensamento


quase fosse condenado como
herético logo após sua morte. Os
grandes pensadores -e professores do
século seguinte, como o filósofo
secular Henrique de Gand e os
fra nciscanos John Dun s Scot e
Guilherme de Ockham, se
inclinaram muito mais a dizer que o
raci·ocinio filosófico, como
representado no mais alto grau pelos
argumentos de Aristóteles, estava
muitas vezes errado. pode demonstrar que, embora os de Aquino mostram que a filosofia
ScoL considerava inadequada a religiosos mantenham certas ainda é relevante no modo como
visão aristotélica de Aquino sobre a doutrinas como questão de fé, suas pensamos sobre a questão. Ele
alma. Ockham rejeitou a descrição visões gerais não são menos racionais demonstra como a filosofia pode
de conhecimento de Aristóteles ou coerentes d o que as dos agnósticos fornecer ferramentas para a
quase completamente. Henrique de e ateus. Essa visão é uma extensão e investigação inteligente, permitindo-
Gand criticou a visão de Aquino de um desenvolvimento do esforço de -nos investigar não o que acontece.
que Deus poderia te r criado um Aq uino para desenvolver u m sistema mas o que é possível e o que é
u niverso que sempre existiu. Se ele de pensamento filosoficamente impossível acontecer, e quais são as
sempre existiu, argumentou Gand, coerente, ao mesmo tempo em que questões inteligíveis a serem feitas.

não haveria possibilidade de não mantinha suas crenças. Ler as obras E ou não é coerente acreditar que o
existir. então Deus n ão teria de Aquino é uma lição de tolerância, universo teve um começo? Essa
possuído autonomia para criá-lo ou para cristãos e não cristãos. ainda permanece uma questão para
não. A suprema confiança de filósofos, e nem toda a física teórica
Aquino no poder da razão denotava O papel da filosofia seria capaz d e respondê-la. •
que ele tinha mais em comum com Hoje não procuramos a filosofia para
o maior filósofo do século anterior. o que ela diga se o universo sempre
teólogo francês Ped ro Abelardo, do existiu ou não, e a 1naioria de nós
que com seus contemporâneos e não se volta para a Bíblia, como
sucessores . Aquino e outros pensadores
medievais fizeram. Em vez disso,
Crença coerente buscamos a física , em particu lar a
Tanto a visão geral sobre a relação teoria do "Big Bang" proposta por Alguém pode dizer que o
ent.re filosofia e doutrina cristã de cientistas modernos, incluindo o tempo teve início no Big Bang,
Aquino quanto seu tratamento físico e cosmólogo britânico Stephen no sentido de que tempos
particular da eternidade do universo Hawking. Essa teoria afirma que o anteriores simplesmente não
permanecem relevantes no século universo se expandiu a partir de um seriam definidos.
XXI. Hoje, poucos filósofos acreditam estado de temperatura e densidade Stephen Hawking
que posições religiosas. como a altíssimas num instante particular
existência de Deus ou a imortalidade no tempo. Embora a maioria de nós
da alma, possam ser provadas pelo agora se volte para a ciência em
raciocínio filosófico. Mas o que alguns busca de uma explicação sobre como
reivindicam para a filosofia é que ela o universo começou, os argumentos
96

NIG:OLAU DE GUSA (1401-1464)


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icolau de Cusa pertence a outras formas de conhecimento, e


EM CON-.rEXTO u1na longa tradição de alguns antigos teólogos cristãos
filósofos medievais que falaram de Deus como "além do ser".
ÁREA tentaram descrever a natureza de De Cusa, que escreveu por volta de
FilosQfi:a da religião
Deus, realçando como Deus é diferente 1440, foi além, afirmando que Deus é o
.€\BORDA.GEM de qualquer ser que a mente humana que vem antes de tudo, antes mesmo
Platonism<? cri_s-t ão é capaz de apreender. De Cusa da possibilidade de algo existir. A inda
começou com a ideia de que que a razão nos fale acerca da
1.\N!fES adquirimos conhecimento ao usar a possibilidade de qualquer fenômeno,
3·80-360a.G . Platão escreve razão para definir os seres. Então, a existir deve vir antes da existência
sobr-e "o Bem1' ou "0 Uno" e.orno fim de conhecer Deus, ele deduziu que real. É impossível que algo venha a
fbntle -$.ppí~emá,da razão, dG deveríamos tentar definir a natureza existir antes que essa possibilidade se
conheê~i:rrent~ · e da--existênoia_ básica de Deus. manifeste. De Cusa concluiu, então,
Platão d·escreveu "o Bem" oú "o que algo capaz de fazer isso deveria
Fim do·século V d.e.
Uno" como fonte suprema de todas as ser descrito como "Não outro".
. e- filósofo .-grego
0 t-eblog0 -·
Dionísio, ~ ·fir'ªop.ag~tg, desçre'le: Além da apreensão
Deus ccimô.. ''álém~âo ser".
No entanto, o uso da palavra "ser" na
c.960 Duns S~ot-Erib.g-ena linha de raciocínio que De Cusa adota
pr§rnove asi deias de l)iQnísio, é enganoso, visto que o "Não outro"
o Areõpagita_ não te1n substância. Ele estaria,
O-que-conheço não segundo De Cusa, "além da
DEPOIS é Deus e o-que-concebo apreensão" e antes de todos os seres,
1492 D9 ser·e o :un0, ae· não é parecido com Deus_ de tal forma que estes "não são
" Gibvan.n:i -Píco della Mirandola, Nicolau de Cusa subsequentes a ele, n1as existem
marca um momSln'f;o·deci'sívo através dele". Por tal razão,
l1€>(pe-Rsainent© renascentista igualmente, De Cusa considerava que
sobre D.ê us. o "Não outro" aproximava-se mais de
uma definição de Deus do que
1991 o ·"filó$ofo'francês Jean-Luc
qualquer outro termo. •
l\/I~.rl.qn e~lora o ~ema.de: Deus
como :aào ser. Ver também: Platão 50-55 • Johannes Scotus Eriugena 332 • Mestre Eckhart
333 • Giovanni Pico deli a Mirandola 334
......... ·r:. . . ·. .
OMUNDO MEDIEVAL 97
. .
' ., . . . . .

ERASMO DE ROTERDÃ (1466-1536)

Elogio da loucura, tratado de Aquino, consideradas


EM CONTEXTO escrito por Erasmo em 1509, intelectualização teológica - segundo
reflete as ideias humanistas ele, a causa fundamental da corrupção
ÁREA
que começavam a se espalhar pela da fé religiosa. Em vez disso,
Filosofia da religião
Europa nos primeiros anos da defendeu um retorno às crenças
ABORDAGEM Renascença, desempenhando um sinceras, com indivíduos construindo
.
Humanismo papel importante na Reforma. E uma uina relação pessoal com Deus, e
sátira espirituosa sobre a corrupção e não uma conexão prescrita pela
ANTES as disputas doutrinárias da Igreja doutrina católica.
354-430 d.C. Santo Agostinho católica. No entanto, tem também Erasmo nos aconselhou a abraçar
integra o platonismo ao uma mensagem séria, afirmando que a o que ele considerava o verdadeiro
cristianismo. loucura - como Erasmo chan1ou a espírito das Escrituras: simplicidade,
c.1265-1274 Tomás de Aquino ignorância ingênua - é parte essencial ingenuidade e humildade. Estas, ele
do ser humano, sendo o que disse, são as características humanas
combina a filosofia aristotélica e
essencialmente nos traz a maior decisivas para uma vida feliz. •
a filosofia cristã em sua Suma
fehcidade.e contentamento. Ele foi
teológica.
adiante para afirmar que o
DEPOIS conhecimento, por outro lado, pode ser
1517 O teólogo Martinho Lutero um fardo e levar a complicações
publica as Noventa e cinco passíveis de contribuir para uma
teses, protestando contra os vida opressiva. A felicidade é
abusos do clero. Elas dão início alcançada quando
à Reforma. Fé e loucura a pessoa está pronta
A religião também é uma forma de para ser o que ela é.
1637 René Descartes escreve loucura, afirmou Eras1110, pois a crença
Discurso sobre o método,
Erasmo de Roterdã
verdadeira só pode se basear na fé,
colocando os seres humanos no nunca na razão. Ele rejeitou a mistura
centro da filosofia. de racionalismo grego com teologia
cristã feita por filósofos medievais
1689 John Locke se manifesta
como Santo Agostinho e Santo Tomás
pela separação entre governo e
religião na Carta acerca da Ver também: Santo Agostinho 72-73 • Tomás de Aquino 88-95 • René
tolerância. Descartes 116-123 • John Locke 130-133
100 INTRODUÇÃO

Nicolau Copé rnico propõe O Novum organurn, de


Nicolau que a Terra gira ao redor Francis Bacon. propõe
Maquiavel do S ol, em oposição à visão uma nova abordagem René Descartes
publica cristã de que a Terra está no à investigação escreve suas
O príncipe. centro do un 1verso. da natureza. Meditações.

1513 1543 1620 1641

1517 1593 1633 1644

Martinho Lutero afixa O Édito de Nantes é Galileu Galilei é Último poder


suas Noventa e cinco promulgado por Henrique IV, excomungado pela Igreja dinástico da China
teses na porta da Igreja do concedendo direitos aos e condenado à prisão a dinastia Oing
Castelo, em Wittenberg, protestantes que vivem na perpétua por defender a (Manchu) assu~
dando in feio à Reforma. França católica. teoria de que a Terra o poder.
gira em torno do Sol.

Renascença - u1n descobertas científicas. Por volta do a Terra em seu centro, estava errado.
renascimento c u ltural de século XV. as ideias da Renascença o que subverteu séc ulos de
extraordinária criatividade na tinham se espalhado pela Europa, ensinamento cristão. A Igreja reagiu
Europa - teve irlício no século XIV em virtualmente eclipsando o monopólio - aprisionou Galileu por heresia - ,
Florença. Espalhou-se pela Europa, do ensino da Igreja. Embora filósofos mas avanços em todas as ciências
durando até o século XVII, e hoje é cristãos, como Erasmo e Thomas logo seguiram os da astronomia,
considerada a ponte entre o período More. tivessem contribuido para os fornecendo explicações alternativas
medieval e o moderno. Marcada por argumentos no seio da Igreja que para o funcionamento do universo e
um renovado interesse no conjunto da levaram à Reforma, uma filosofia uma base para um novo tipo de
cultura clássica grega e latina - não puramente secular estava por surgir. filosofia.
apenas os textos fi losóficos e Não surpreende que o primeiro A vitória da descoberta racional
matemáticos assimilados pela filósofo renascentista tenha sido um e científica sobre o dogma cristão
escolástica medieval - . loi um florentino - Nicolau Maquiavel -, e sintetizou o pensamento do
movimento que considerou os s ua filosofia marcou o movimento século XVII. Os filósofos britânicos,
humanos, e não Deus, como seu definitivo do teológico ao político. especialmente Francis Bacon e
centro. O novo humanismo acabou Thomas Hobbes, tomaram a
refletido primeiro na arte e depois na A idade da razão iniciativa de integra r o raciocínio
estrutura política e social da O último prego no caixão da científico com o filosófico. Foi o início
sociedade italiana: re públicas como autoridade da lgreia foi batido pela de um período que se tornou
Florença e Veneza logo aband onara m ciência. Primeiro, Nicolau Copérn ico, conhecido como Ida.de da Razão, que
o feudali smo medieval em favor de depois Johannes Kepler e, fina lmente, produziu os primeiros grandes
plutocracias nas quais o comércio Galileu Galilei mostraram que o filósofos "modernos" e ressuscitou a
floresceu ao lado das novas modelo ptolomaico do universo, com conexão entre fi losofia e ciência,
-
ARENASCENCA EAIDADE DA RAZAO 101
;)

Isaac Newton
A execução do rei começa a compilar
Carlos I leva ao fim suas notas sobre John Locke publica George Berk eley publica
a Guerra Civil "Certas questões Ensaio sobre o Tratado sobre os princípios
Inglesa. filosóficas". entendimento humano. do conhecimento humano.

1649 1664 1690 1710

1651 1670 1704 1721

Publicação da grande Os Pensamentos de Gottfried Leibniz Inauguração da


obra política de Thomas Blaise P ascal são escreve Novos ensaios primeira fábrica
Hob bes. Leviatã. publicados sobre o entenclimento na Grã-Bretanha,
postumamente. humano. acelerando a
Revolução
In dustrial.

especialmente a matemática, que no século seguinLe. Ao mesmo tempo, questionar sobre como podemos
datava da Grécia pré-socrática. uma tradição fi losófica bem diferente conhecer o que conhecemos, e
se estabelecia na Grã-Bretanha. começavam a investigar a natureza da
O nascimento do Seguindo o raciocínio cientifico mente humana e do "eu". Mas essas
racionalismo adotado por Francis Bacon. John novas linhas filosóficas tinham
No século XVII, muitos dos Locke chegou à conclusão de que implicações morais e políticas. Assim
filósofos mais importantes da Europa nosso conhecimento do mundo não como a a\.ttoridade da Igreja tinha sido
eram também matemáticos. Na provém da razão, mas da experiência. abalada pela ideias da Renascença, as
França, René Descartes e Biai se Tal visão, chamada empirismo, aristocracias e monarquias eram
Pascal fizeram grandes contribuições caracterizou a filosofia britânica nos ameaçadas pelas novas ideias do
à disciplina, assim como Gottfried séculos XVII e XVIII. iluminismo, como esse período veio a
Leibniz na Alemanha . Eles Apesar da divisão entre ser conhecido. Se os antigos
acreditavam que seu processo de racionalismo continental e empirismo governantes fossem removidos do
raciocinio matemático fornecia o britânico (a mesma que apartara as poder, que tipo de sociedade iria
melhor modelo para o modo de filosofias de Platão e Aristóteles), substituí-los?
aquisição do conhecimento do ambos tinham em comum a Na Grã-Bretanha, Hobbes e
mundo. A investigação de Descartes centralidade do ser humano: um ser Locke lançaram as bases para o
sobre a questão "O que posso cuja razão ou experiência leva ao pensa1nento democrático durante
conhecer?" levou-o a uma posição de con.heciIJlento. Filósofos dos dois lados o turbulento século XVII, mas outros
racionalismo - a crença de que o do canal da Mancha deixaram de cem anos se passariam antes que
conhecimento vem apenas da razão questionar a natureza do universo - um questionamento sério do status
- que se tornaria a crença que cientistas como Isaac Newton se quo começasse intensamente em
predominante no continente europeu encarregavam de responder - para outros lugares. •
NICOLAU MA UIAVEL 1469-1527
104 NICOLAU MAQUIAVEL

EM GONTEX-TO
'
AREA
-_ O sucesso de um Estado ou
Filosofia política de urna nação é o fim supremo.

ABQJIDAGEM .
~ '! •

Realismo -
-
ANTES
Sééulo 1 a.e. Pra.tão -
defende Quem quer que governe
em~* Iepúbljca:~~e o Estaq~ o Estado ou a nação deve lutar
deve ser govemiiGio por um rei ·
.....:::- .... para assegurar ...
filósofo.
-
Século I a.C. Gescritor
ro~~o Cícero s_.ystenta que a-
Re}._lllilica Romana é a melhor
forma de governet ... sua própria glória . .. .o sucesso do Estado.
DEROIS
SeÇ,.i'IJO XVI Çn]:lgas de _
"Mâqm.avel adoJ-;lm.:o adjetivo
"mQÇJuíavélico";;p_ara descrever
ato~de astúciaardilosa. A fim de realizar isso, ele não pode
ser limitado pela moralidade.
1762_Jean-JacquêsRousseau _
p:t.ega
....,,,.
que: as pess-oas devem -sJi
agarrar
-=.
à liber:da€l.e e resistir a©
domínio dos prfricipes.
1928 O ditadori,taliano
' .
Benit&!l
MU:Ssolini desct@ve O ptineipe
~

Os fins justificam
comg-"o suprern;oguia do os meios.
homem de EstaaG".

ara compreender a visão de Desafortunado), cujo reinado foi curto. envolvimento conhecido de Maquiavel
Maquiavel sobre o poder é Sob Carlos VIII, em 1494 os franceses na política florentina, quando ele se
necessário entender o cenário invadiram a Itália com um exército tornou secretário da Segunda
de suas preocupações políticas. numeroso. Forçado a se render, Piero Chancelaria, em 1498.
Maquiavel nasceu em Florença, Itália, fugiu da cidade quando os cidadãos se
durante uma época de agitações rebelaram contra ele. Florença foi Carreira e influências
quase constantes. A família Médici declarada uma república naquele A invasào de Carlos VIII em 1494
detinha o controle público, mas não mesmo ano. iniciou um período turbulento na
oficial, da cidade-estado havia 35 O prior dominicano da ordem São história da Itália, que na época
anos. O ano do nascimento de Marcos, Girolamo Savonarola, passou dividia-se em cinco poderes: o papado,
Maquiavel testemunhou Lorenzo de a dominar a vida política florentina. A Nápoles, Veneza. Milão e Florença.
Médici (Lorenzo, o Magnífico) suceder cidade-estado entrou num periodo O Estado florentino combateu
o pai como governante, conduzindo democrático sob seu comando, mas, diversas potências estrangeiras,
um periodo de grande atividade depois de acusar o papa de corrupção, principalmente a França, a Espanha e
artística. Lorenzo foi sucedido em 1492 Savonarola acabou preso e queimado o Sacro Império Romano. Florença
pelo filho Piero (Piero, o como h erege. Isso levou ao primeiro era frágil diante desses exércitos, e
ARENASCENÇA EAIDADE DA RAZÃO 105
Ver também: Platão 50-55 •Francis Bacon 110-111 • Jean-Jacques Rousseau 154-159 •Karl Marx 196-203

Lorenzo, o Magnífico (1449-1492)


governou Florença a partir da morte do
pai, em 1469, até morrer. Embora
governasse como um déspota, a república
floresceu sob seu domínio.

deram em nada. Decidiu então


presentear o chefe da família Médici
em Florença, Juliano, com um livro. Na
época em que o texto ficou pronto,
Juliano tinha morrido, o que fez
Maquiavel mudar a dedicatória para o
sucessor, Lorenzo. O livro se alinhava
a um gênero popular na época:
conselhos a um príncipe.

O príncipe
O livro de Maquiavel. O príncipe. era
espirituoso, cínico e revelava fina
compreensão da Itália em geral, e de
Florença. em particular. Nele,
Maquiavel inicia seu argumento de
que os objetivos de um governante
justificam os meios usados para obtê-
-los. O príncipe se diferenciava de
outros 1ivros do gênero por sua resoluta
rejeição da moralidade cristã.
Maquiavel passou catorze anos tensão entre a França e o papado levou Maquiavel queria dar conselhos
viajando entre várias cidades em Florença a lutar com os franceses implacavelmente práticos a um
missões diplomáticas, tentando contra o papa e seus aliados, os .
pr1nc1pe
~ ."" .
e - como sua exper1enc1a
fortalecer a república. espanhóis. Os franceses perderam a com papas e cardeais bem-s ucedidos
No decorrer de suas atividades guerra - e Florença também. Em 1512., demonstrara - os valores cristãos »
diplomáticas conheceu César Bórgia, os espanhóis d issolveram o governo
filho ilegítimo do IJapa Alexandre VT. da cidade-estado, os Médicis
O papa era figura poderosa na Itália retornaram, e instaurou-se uma virtual
setentrional e uma ameaça tirania sob o cardeal Médici.
significativa para Florença. Embora Maquiavel foi exonerado de seu cargo
César fosse inimigo de Florença. oficial e ficou exilado em sua fazenda Como é difícil para
Maquiavel - apesar de suas visões florentina. Sua carrejra política poderia um povo acostumado
republicanas - ficou impressionado ter se renovado sob o domínio dos a viver ,sob. o domínio de
com seu vjgor, inteligência e Médicis, mas em fevereiro de 1513, um pr1nc1pe preservar
capacidade. Foi uma d as fontes para a fals a1nente imp licado numa tra111a sua liberda·de!
futura obra de Maquiavel, O príncipe. contra o clã governa nto, foi torturado.
Nicolau Maquiavel
O papa Alexandre VI morreu em multado e aprisionado.
1503, e seu sucessor, o papa J ú]jo II, Maquiavel saiu da prisão em um
era outro homem forte e bem-sucedido mês, mas suas chances de recolocação
que fascinou Maquiavel com sua eram pequenas. Suas tentativas de
capacidade militar e astúcia. Mas a conseguir um novo cargo politico
106 NICOLAU MAQUIAVEL
deviam ser postos de lado, se pela moralidade, mas deveria faze r o desnecessariamente será desprezado
atrapalhasse1n o caminho. q ue for necessário para assegurar sua - um príncipe d eve ter um.a reputação
A abordagem de Maquiavel própria glória e o sucesso do Estado por sua compaixão, não pela
c entrava-se na noção da virtú - não na que governa: urna abordage1n que se crueldade. Isso pode envolver
1noderna concepção de virtude m oral, tornou conhecida como realismo. Mas punições duras para uns poucos, a fim
mas mais próxima da percepção Maquiave l não a rg um enta que os fins de a lcançar uma ordem social geral
medieval de virtudes como ]Poderes ou just ificam os me ios em todos os casos. que beneficie m ais pessoas a longo
funções dos seres, como o poder Há certos meios que um príncipe prazo.
curativo das plantas ou m inerais. sábio dev-e evitar, porque, embora Nos casos e m que Maquiavel não
Como Maquiavel escreveu sobre as possam alcançar os fins desejados, acredita que os fins justificam os
virtudes dos príncipes, elas eram os deixam-no exposto a ameaças futuras. m eios, essa regra se aplica somente
poderes e funções que d iziam respeito Os principais meios a serem aos príncipes. A conduta adequada
ao domínio político. A raiz latina de evitados consistem naqueles que dos cidadãos do Estado não é de modc
virtú também se relaciona com fariam o povo odiar seu principe. O algum a mesm a de um príncipe. Ma s
"virilidade", e isso emba sou o que povo pode amá-lo e temê-lo - mesmo em relação aos cida dãos
Maquiavel tinha a d izer em relação ao preferivelment e ambos, dizia comuns, Maqu iavel desdenhou da
próprio prí.nci1)e e ao Est ado - onde, às Maquiavel, embora seja mais moralidade convencional cristã,
vezes, a virtú foi usada para significar importante para um príncipe ser considerada fraca e imprópria para
"suéésso" e descrever um Estado que temido do que amado. Mas o povo não uma cidade sólida.
devia ser admirado e imitado. deve odiá-lo, pois isso provavelmente
Parte da tese de Maquiavel era que levaria à revolta. Da mesma forma, um Príncipe ou república
um soberano não poderia ser limitado príncipe que maltrata seu povo Há razões para suspeitar que O
príncipe não representava ideias do
próprio M aq uia vel. Talvez o mais
O gov e rn a nte precisa saber agir como
uma fera, diz Maquiavel em O príncipe, importante seja a disparidade entre ai:
e deve imitar as qualidades da raposa, teorias que ele contém e as expressas
assil11 con10 as do leão. em outra obra princip al, Di scursos
sobre a primeira década de Tito Lívio.
Nos Díscursos, Maquiavel defendeu a
república como regime ideal que deve
ser instituído quando um razoável
grau de igualdade existe ou pod-e ser
estabelecido. Um principado só seria
apropriado quando a igualdade não

Deve ser compreendido


, . nao
que um pr1nc1pe -
pode observar a t odas
as coisas considerada s
virtuosas nos homens.
O governante deve ter O governante deve t e r Nicolau Maquiavel
a ferocidade do leão a astúcia da raposa
p ara a med ron tar quem p ara reconhe cer ciladas
busca destituí-lo. e armadilhas.
ARENASCENÇA EAIDADE DA RAZÃO 107
existe num Estado e não pode ser A crueldade tem sido uma
introduzida. Pode-se argumentar que característica de líderes ao longo da
O príncipe representava as ideias história. No século XX, o d1tador Beruto
Mussolini inspirou terror e admiração
genuínas de Maquiavel sobre como o para manter-se no poder na Itália
soberano deve governar em tais
casos; se principados são às vezes
um ma l necessário, melhor que sejam
tão bem administrados quanto
possível. Além disso, Maquiavel
acreditava que Florença estava em
tal agitação política que precisava O mundo se tornou mais
de um governante forte para deixá-la parecido com aquele de
em ordem. Maquiavel.
Bertrand Russell
Agradando aos leitores
O fato de O príncipe ter s ido escrito
para que Maquiavel se aproximasse
dos Médicis é outra razão para tratar
seu conteúdo com precaução.
Entretanto, ele também dedicou os
Discursos a membros do governo dividi-las de acordo com o quanto elas do povo. Certamente, O príncipe às
republicano de Florença. Em sua se harmonizam com as próprias vezes é interpretado satiricamente,
defesa, pode-se dizer que Maquiavel crenças do leitor-alvo, mas é como se fosse esperado que o
teria escrito o que seu público da improvável que isso forneça um público concluísse: "Se é assim que
dedicatória queria ler. resultado preciso. um bom príncipe deve se comportar,
No e11tanto, O príncipe contém muito Também foi sugerido que devemos, custe o que custar, evitar
do que se julga que :Niaquiavel Maquiavel ensaiava uma sátira e ser governados por um! ". Se
genuinamente acreditava, como a que seu público-alvo eram os Maquiavel também satirizava a
necessidade de uma milícia de republicanos, não a elite ideia de q ue ··os fins justificam os
cidadãos, em vez de se contar com governante. Essa ideia é sustentada meros", então o objetivo desse
mercenários. O problema está em pelo fato de que Maquiavel não pequeno e ilusoriamente simples
discernir que partes são
. suas crenças escreveu em latim , a linguagem da livro é muito mais intrigante do que
reais e quais não são. E tentador elite. mas em italiano, a linguagem se poderia supor. •

Nicolau Maquiavel Maquiavel nasceu em Florença, em de retornar à arena política.


1469. Pouco se conhece sobre os Finalmente, recuperou a
primeiros 28 anos de sua vida. À confiança do poder: o cardeal
parte poucas menções inconclusivas Júlio Médici o encarregou de
no diário de seu pai, a primeira escrever uma história de
evidência direta é uma carta de Florença. O livro foi concluído em
negócios escrit a em 1497. Contudo, 1525, depois de o cardeal ter se
a partir de seus textos está claro tornado papa Clemente VII.
que recebeu uma boa educação, Maquiavel morreu em 1527, sem
talvez na Universidade de Florença. alcançar sua ambição de retornar
Por võlta de 1499, havia se à vida pública.
tornado político e diplomata na
República Florentina. Depois de um Obras·chave
afastamento forçado durante o
retorno dos Médicis a Florença, em 1513 O príncipe
1512 dedicou-se a várias atividades 1517 Discursos sobre a primeira
literárias, assim como a tentativas década de Tito Lívio
108

AFAMA E
ATRAN DILIDADE
NUNCA PODEM SER
COMPANHEIRAS
MICHEL DE MONTAIGNE (1533-1592)

m seu ensaio Da solidão (no


EM CONTEXTO A tranquilidade primeiro volume de seus
==··~::==~'
depende do Ensaios), Montaigne
ÁREA
• desprendimento em dedicou-se a um tema que tem sido
Etica
relação à opinião popular desde os tempos antigos: os
ABOR~AGEM dos outros. perigos intelectuais e morais de se
Humarlismo v:iver entre os outros e o valor da
solidão. Montaigne não salientou a
ANTKS importância da solidão física, mas,
Século IV a.e. Aristóteles, mais exatamente, o desenvolvimento
em sua ÉtiCJa a Nicômaç0, da capacidade de resistir à tentação
argum en ta que , para ser - Se buscamo·s fama - de aquiescer indiferentemente às
virtuosa,= urna pessoa devê ser que é glória aos olhos
opiniões e ações da massa. Ele
sociáver e cultivar alheios - devemos buscar
relacionou nosso desejo pela aprovação
sua opinião favorável .
relacionamentos verdadeir-os. de colega com o de estar
Só um tiómem bestial ou um demasiadamente ligado à riqueza e à
deus podem ficar sozinl'i@s. posse. Ambas as paixões nos
diminuem, afirmou Montaigne, mas
DEPOf~ ele não concluiu q ue devemos
Final do século XVIII renunciar a elas: apenas devemos
O clérigo -evangélico anglicano Se buscamos fama, cultivar o desprendimento. Ao fazer
llichard Cecil afirma que,., não alcançamos isso, podemos desfrutá-las e até
"A solid ãe nos mostra o gµe o desprendimento. mesmo nos beneficiarmos - . mas não
devemos se r; a sociedade nos nos tornaremos emocionalmente
móstra·u ·que somos". escravizados por elas ou ficaremos
devastados se as perdermos.
Final do ·século XIX Nie.t~sche
Da solidão considera como nosso
descreve a solidão com o
desejo de aprovação pela massa está
necessária para a autoe ligado à busca pela glória ou fama . Ao
-investig ação, afumando que Afama e
a tranquilidade contrário de pensadores como Nicolau
só ela po_Q_e,líbertar os seres Maquiavel, que via a glória como um
humanos,çiaten:tação de ·s~§!Uir nunca podem
ser companheiras. objetivo digno, Montaigne acreditava
irrefletidamente a massa. que o empenho constante pela fama é
a maior barreira à paz de espírito - ou
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
ARENASCENÇA EAIDADE DA RAZÃO 109
Ver também: Aristóteles 56-63 • Nicolau Maquiavel 102-107 • Friedrich
Nietzsche 214-221

tranquilidade. Ele dizia, sobre aqueles opinião dos outros pode nos
que apresentam a glória como um corromper, porque acabamos imitando
objetivo desejável, que "só têm seus aqueles que são maus ou ficando tão
braços e pernas destacados da multidão; consumidos pelo ódio contra eles que
suas almas, suas vontades, estão mais perdemos a razão.
compromeLjdas com ela do que nunca''.
Montaigne não se p reocupava se As ciladas da glória
alcançamos ou não a glória. Seu ponto Montaigne retomou seu ataque contra
principal é que devemos nos livrar do a busca pela glória em textos
desejo de glória aos olhos das outras posteriores, mostrando que a
pessoas - que não devemos sempre aquisição da glória é tão Michel de Montaigne
pensar na aprovação e na admiração recorrentemente uma questão de sorte
alheias como sendo valiosas. Ele foi que faz pouco sentido considerá-la Michel Eyquem de Montaigne
nasc.e u e cresceu no ch~teau da
além ao recomendar que, em vez de com tal reverência. "Mujtas vezes vi [a
sua rica familia, perto de
procurar a aprovação daqueles à nossa sorte) sair à frente do mérito, e
Bordeaux. No entanto, foi
volta, devemos imaginar que algum frequentemente muito à frente", ele
enviado para viver com uma
ser verdadeiramente notável e nobre escreveu. Montaigne também disse família pobre de camponeses
está sempre conosco, observando que encorajar homens de Estado e até a idade de três anos, para se
nossos pensamentos mais íntimos: um líderes políticos a valorizar a glória familiarizar com a vida dos
ser em cuja presença até os loucos acima de todas as coisas, como trabalhadores comuns. Recebeu
esconderiam seus defeitos. Ao fazer Maquiavel fez, apenas os ensina a toda a sua educação em casa e,
isso, aprenderemos a pensar clara e nunca se esforçar a menos que um até os seis anos, só lhe foi
objetivamente, nos comportando de público que manifeste aprovação permitido falar em latim: o
maneira mais séria e racional. esteja disponível, pronto e ávido para francês era, de fato, sua
Montaigne afir1nava que testemunhar a extraordinária natureza segunda língua.
preocupar-se demasiadamente com a de seus poderes e realizações. • A partir de 1557 Montaigne
passou treze anos como
membro do parlamento local,
mas renunciou em 1571, ao
herdar as propriedades da
familia. Publicou o primeiro
volume dos Ensaios em 1580,
escrevendo mais dois volumes
O contágio é muito antes da morte, em 1592. Em
perigoso nas multidões. 1580, iniciou uma extensa
Ou você imita o perverso viagem pela Europa, em parte
ou o odeia. para encontrar a cura para
Michel de Montaigne cálculos renais. Retor11ou à
politica em 15B1, quando foi
eleito prefeito de Bordeaux,
cargo que manteve até 1585.

Obras-chave

1569 Apologia de Raymond


Montaigne sentiu os resultados da Sebond
violênciã da massa irracional durante as 1580-81 Diário de viagem
..... Guerras Religiosas na França (1562-98). 1580, 1588, 1595 Ensaios
incluindo as atrocidades do Massacre do (3 volumes)
D1a de São Bartolomeu, em 1572.
110 . .
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FRANCIS BACON (1561-1626)

~~~··· .· .. . ' . .

acon com frequência é às vezes chamado de Revolução


EM CONTEXTO reconhecido como o primeiro Cientifica - p roduziu um número
de uma tradição de espantoso de pensadores científicos,
ÁREA
pensamento conhecida coino incluindo Galileu Galilei, William
Filosofia da ciê ncia
empirismo britânico, caracterizado Harvey, Robert Boyle, Robert Hooke e
ABORDAGEM pela visão de que todo conhecimento Isaac Newton.
Empirismo deve vir essencialmente da Embora a Igreja fosse. de modo
experiência sensorial. Ele nasceu geral, receptiva à ciência durante
ANTES numa época em que houve um grande parte do período memeval, isso
Sé culo IV a.e. Aristóteles deslocamento da ênfase da cessou con1 o aumento da oposição à
coloca a observação e o Renascença nas redescobertas do autoridade do Vaticano durante a
raciocínio indutivo no cen tro mundo antigo rumo a uma abordagem Renascença. Vários reformadores
do pensamento científico. mais científica do conhecimento. Já religiosos, como Martinho Lutero, se
haviam surgido alguns trabalhos queixavam que a Igreja havia sido
Século XIII Os estudiosos
inovadores de cientistas muito indulgente com os desafios
Robert Grosseteste e Roger
renascentistas, como o astrônomo científicos às concepções do mundo
Bacon acrescentam a
Nicolau Copérnico e o anatomista baseadas na Bíblia. Em resposta, a
experimentação à abordagem
André Vesálio, mas o novo período - Igreja católica, que já perdera
indutiva de Aristóteles ao
conhecimento científico.
DEPOIS
1739 Tratado da natureza Ele avança firme e
humana, de Hume, questiona O conhecimento cumulativamente,
científico ergue-se descobrindo leis e tomando
a racionalidade do pensamento
indutivo.
sobre si mesmo. . -
1nvençoes ;.
poss1ve1s.

1843 O Sistema de lógica


dedutiva e indutiva, de Stuart
Mill, descreve os cinco princípios
que regulam as ciências.
1934 Karl Popper afirma que a Ele permite que as pessoas
façam coisas que não
falsificação, não a inclução, poderiam ser feitas .
define o método científico.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
ARENASCENÇA EAIDADE DA RAZÃO 111
Ver também: Aristóteles 56-63 • Rob ert Grosseteste 333 • David Hume
148-153 • John Stuart Mill 190-193 • Karl Popper 262-265

concepções sobre a natureza, em vez


de examinar o que realmente está lá;
os "ídolos do mercado", facilidade com
que deixamos as convenções sociais
distorcerem nossa experiência; e os
"ídolos do teatro", a influência
deformadora dos dogmas filosóâcos e
científicos predominantes. O cientista,
de acordo com Bacon, deve lutar
contra todos eles para adquirir
conhecimento sobre o inundo.
Francis Bacon
Método científico Nascido em Londres, Francis
Argumentando que o avanço das Bacon foi educado em casa,
A ciência, não a r eligião, foi vista cada
ciências depende da formulação de antes de segu ir para o Trinity
vez mais como a chave do conhecimento
a partir do século XVI. A gravura revela o leis de generalidade crescente, Bacon College, Cambridge, aos doze
observatório do astrônoino dinamarquês propôs u m método científico que anos. Depois da graduação
Tycho Brahe (1546-1601). incluiu uma variação dessa começou a atuar como
abordagem. Em lugar de fa zer uma advogado, mas abandon ou a
seguidores para a nova forma de série de observações - como a de profissão para assumir um
cristianismo de Lutero, mudou de metais que se expandem quando posto diplomático na França. A
postura e voltou-se contra o esforço aquecidos, para concluir que o calor morte do pai, em 1579, deixou-o
pobre e forçou o retomo à
científico. Essa op osição, de ambos os deve provocar expansão em todos os
profissão jurídica.
lados da divisão religiosa, dificultou o metais - , ele enfatizou a necessidade Bacon foi eleito para o
desenvolvimento das ciências. de testar uma nova teoria, parlamento em 1534, mas sua
Bacon a firmava aceitar os prosseguindo em busca de exemplos amizade com o traiçoeiro conde
ensinamentos da Igreja c ristã. Mas negativos (no caso, inetais que não se de Essex refreou sua carreira
também argumentou que a ciência expandem quando aquecidos). política até a ascensão de
deve ser separada da religião, a fim de A influência de Bacon põs em Jaime 1, em 1603. Em 1618, foi
torna r a aquisição de conhecimento primeiro plano a experiência prética designado lord Chancellor, mas
mais rápida e fácil, de modo que na ciência. No entanto, ele foi criticado acabou exonerado dois an os
pudesse ser usada em prol da por negligenciar a importância dos mais tarde, condenado por
qualidade de vida das pessoas. Bacon saltos imaginativos que impulsionam aceitar suborno.
enfatizou esse papel transformador todo progresso científico. • Bacon passou o resto da vida
da ciência. Para ele, a capacidade da escrevendo e realizando seu
trabalho científico. Morreu de
ciência de elevar a existência humana
bronquite, contraída enquanto
havia sido anteriormente ignorada, em
recheava uma galinha com neve,
favor do foco sobre a glória acadêmica
como parte de um experimento
e pessoal do cientista. sobre preservação d e alimentos.
Bacon elaborou uma lista de
barreiras psicológicas à busca de A melhor. prova
.
é
a expenenc1a.
~

Obras-chave
conhecimento científico em termos do
que chamou coletivamente de "ídolos Francis Bacon
1597 Ensaios
da mente''. quais sejam: os "ídolos da 1605 O progresso do
tribo", a tendência dos seres humanos conhecimento
como espécie (ou "trib o") que 1620 Novum organum
generaliza; os "ídolos da caverna", 1624 Nova Atlantis
nossa inclinação para impor pre-
112
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• ;.··,;,,,::. ,•;,.• :.,;._.,
,!
•.·.,··· EM CONTEXTO
ÁREA
Metafísica
ABORDAGEM
Fisicalismo
ANTES
Século IV a.e. Aristóteles
discorda da teoria de aln1a
humana distint a de Platão,
argumentando que a alma é
uma forma ou função do corpo.
THOMAS HOBBES (1588-1679) 1641 Descartes publica
Meditações sobre a filosofia
primeira, argumentando que
mente e corpo são entidades
diferentes.
DEPOIS
1748 O Homem-máquina, de
Julien Offray de la Mettrie,
apresenta uma visão
mecanicista dos humanos.
1949 .Ryle define a ideia de
Descartes de que mente e corpo
.são "substâncias" separadas

• como "erro categorial''.

• mbora seja n1ais conhecido


por sua filosofia política,
Thomas Hobbes escreveu
sobre grande variedade de temas .

• Muitas de suas concepções são


controversas, e não menos importante
é sua d efesa do fis icalismo, a teoria
que tudo no mundo é e xclusivame nte
físico na natureza. não admitindo

• lugar para a existê ncia de outras


entidades naturais, como a mente,

• nem para seres sobrenaturais. De


acordo com Hobbes, todos os
animais, incluindo os humanos, não
são nada 1nais do que unáqu.inas de
carne e osso.
O tipo de teoria metafísica
apoiada por Hobbes estava s e
tornando cada vez mais popular na
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
ARENASCENÇA EAIDADE DA RAZÃO 113
Ver também: Aristóteles 56-63 • Francis Bacon 110-111 • René Descartes
116-123 • Julien Offray de la Mettr1e 335 • GJlbert Ryle 337

Nada sem substância Então tudo no universo


pode existir. é físico.

Thomas Hobbes
Um se.r humano é, Órfão na infância, por sorte
O homem é portanto, Thomas Hobbes foi acolhido
uma máq11tna. inteiramente físico. por um tio rico, que lhe
ofereceu uma boa educação.
Uma graduação na
Universidade de Oxford lhe
rendeu o cargo de preceptor
dos filhos do conde de
época em que ele escreveu. em universo - isto é , a massa total das Devonshire. O emprego deu a
meados do século XVJI. O coisas que existem - é corpóreo, isto Hobbes a oportunidade de
conhecimento sobre as ciências quer dizer, tem corpo". Ele seguiu viajar pela Europa e conhecer
físicas crescia rapidamente, trazendo dizendo que cada um desses corpos cientistas e pensadores
expUcações mais claras sobre os tem "comJ;)Iimento, largura e famosos, como o astrônomo
fenômenos que há tempos eram profundidade" e "aquilo que não é italiano Galileu Galilei, assim
obscuros ou mal interpretad os. corpo não é parte do universo". como os filósofos franceses
Hobbes conhecera o astrônomo Embora I-Iobbes sustentasse que a Marin Mersenne, Pierre
Gassendi e René Descartes.
italiano Galileu, considerado o "pai natureza de tudo é puramente física ,
Em 1640, a fim de escapar da
da ciência moderna", e estivera não afirmou que por causa dessa
Guerra Civil Inglesa, Hobbes
intimamente ligado a Francis Bacon, fisicalidade tudo pode ser percebido. mudou-se para a França, lá
cujo pensa mento ajudara a Alguns cor pos ou objetos, Hobbes permanecendo por onze anos.
revolucionar a prática cientifica. declarou, são imperceptíveis, aind.a Seu primeiro livro, Do cidadão,
Hobbes viu na ciência e na que ocupem espaço físico e tenham foi publicado em Paris em 1642.
matemática o oposto da filosofia dimensões físicas . Seriam os >> Suas ideias sobre moralidade,
escolástica medieval, que tinha política e as funções da
procurado reconciliar as aparentes sociedade e do Estado, expostas
contradições entre razão e fé. Em no Leviatã, o tornaram famoso.
comum con1 vários pensadores da Também respeitado como
época. ele acreditava que não havia tradutor e matemático , Hobbes
limite para o alcance da ciência, seguiu escrevendo até a morte,
assumindo como fato que qualquer A vida é apenas um aos 91 anos.
questão sobre a natureza do mundo movimento dos membros.
Thomas Hobbes Obras-chave
podia ser respondida com uma
explicação formulada cientificamente.
1642 Do cidadão
1651 Leviatã
A teoria de Hobbes 1656 Do corpo
No Leviatã, sua principal obra 1658 Do homem
politica, Hobbes declarou: "O
114 THOMAS HOBBES
Hobbes acreditava que "espíritos"
carregavam informação necessária para
atuar no corpo. Hoje sabemos que isso é
feito poc sinais elétricos, v ia1ando pelos
neurônios do sistema nervoso.

Chalmers chama de ''o difícil


problema da consciência". Chalmers
mostra que certas funções da
consciência, como o uso da
linguagem e o processamento da
informação, podem ser explicadas de
maneira relativamente fácil em
termos dos mecanismos que realizam
essas funções, e que os filósofos
fisicalistas tinham oferecido
variantes dessa abordagem há
séculos. No entanto, o problema mais
complexo - explicar a natureza da
experiência da consciência subjetiva
em primeira pessoa - permaneceu
não esclarecido por eles. Parecia
haver uma incompatibilidade
chamados "espíritos". Alguns deles, particular, per111anecia a lé1n da intrínseca entre os objetos das
denominados ··espíritos animais" compreensão. Tudo o que seria ciências físicas , por um lado, e os
(conforme a visão comum à época), possível aos seres humanos saber sujeitos da experiência consciente,
seriam responsáveis pela maioria da sobre Deus é que Ele existe e que é a por outro - algo que Hobbes
atividade animal. especialmente a primeira causa, ou criador, de tudo pareceu ignorar.
hu mana : mover-se-iam ao redor do no universo. Ao desc1ever suas crenças,
corpo, carregando e passando Hobbes oferece poucas bases para
inforrnação, mais ou menos da O que é consciência? sua convicção de que tudo no
mesma forma como a hoje conhecida Como Hobbes considerava os seres mundo, incluindo os seres hu manos,
ação do sistema nervoso. humanos puramente físicos e , é totalmente fisico. Ele parecia não
'
As vezes, Hobbes parecia aplicar portanto, não mais do que máquinas
seu conceito de espíritos físicos a biológicas, ele foi então confrontado
Deus e outros entes encontrados na com o problema de como ser
religião, como anjos. No entanto, ele responsável pela nossa natureza
afirmava que Deus, mas não outros mental. E não tentou fornecer uma
espíritos físicos, devia ser descrito expl.anação sobre como a mente pode
como "incorpóreo". Para Hobbes, a ser explicada. Simplesmente ofereceu O que é o coração, senão
natureza divina dos atributos de uma descrição geral e um tanto vaga uma mola; e os nervos,
Deus não era inteiramente do que julgamos que a ciência senão várias cordas;
compreensível pela mente humana; eventualmente deveria demonstrar. e as articulações, senão
por consequência, o termo Mesmo assim, ele apenas cobriu várias rodas, dando
"incorpóreo" seria o único a atividades mentais como movimento movimento ao corpo inteiro.
reconhecer e também a reverenciar a voluntário, apetite e repulsa - todos Thomas Hobbes
substância incognoscível de Deus. fenômenos que podem se1 estudados
Hobbes deixou claro que acreditava e explicados a partir do ponto de
que a existência e a natureza de vista mecanicista. Hobbes não tinha
todos os entes religiosos são matéria nada a dizer sobre o que o filósofo
da fé, não da ciência, e que Deus, em australiano conte1nporâneo David
ARENASCENÇA EAIDADE DA RAZÃO 115
notar que suas premissas para a que todas as substâncias são corpos.
existência de espíritos materiais O que Hobbes tentou apresentar como
imperceptíveis podia1n igual mente fundamento para sua posição (de que
ser premissas para uma crença em não podia haver mentes incorpóreas)
substâncias não m ateriais. Para a estava fundamentado na sua premissa
maioria das pessoas, algo ser equivocada de que a única forma de Além dos sentidos,
imperceptível é mais consistente substância é o corpo (e que, portanto, dos pensamentos e da série
com um conceito mental do que com não haveria possibilidade de existirem de pensamentos, a mente
um físico . Além disso, como os seres incorpóreos). do homem não tem outro
esp1ritos materiais de Hobbes só movimento.
podiam possuir as mesmas Um simples preconceito Thomas Hobbes
propriedades que outros tipos de Em última análise. como a definição
seres f1sicos, nunca pudera1n de espíritos físicos de Hobbes
oferecer ajuda para uma exp11cação indicava, não ficou claro o que ele
da natureza menta l dos seres julgou que significasse "físico" ou
humanos. ''corpóreo". Se isso significava
qualquer coisa q ue tivesse três
O dualismo de Descartes dimensões espaciais, então ele de principio cientifico. Em vez disso,
Hobbes também teve de rivalizar com estaria excluindo muito do que nós, parece ser um preconceito não
um pensamente bem diferente sobre no início do século XXI. podemos científico (e não filosófico) contra o
mente e corpo apresentado por considerar como "físico": suas teorias conceito mental. Essas teorias
Descartes em suas Meditações, de sobre a natureza do mundo mecanicistas sobre a natureza do
1641. Descartes sustentou a "distinção excluiriam, por exemplo, a física mundo, contudo, em grande medida
real": a noção de que mente e corp o subatômica. seguiam o espírito de uma época que
são tipos de substâncias Na ausência de uma noção clara desafiaria radicalmente a maior parte
completamente distintos. Embora na do sig nificado de seu termo principal, das concepções predominantes sobre
época fizesse objeção às ideias de a obsessão de Hobbes de que tudo no a natureza humana e a ordem socia l.
Descartes. Hobbes não fez mundo podia ser explicado em termos assim como aquelas que diziam
comentários específicos sobre essa físicos começou a ficar cada vez respeito a substâncias e ao
distinção. No e ntanto, cat orze anos menos parecida com uma declaração funcionamento do universo. •
depois, dedicou-se ao problema
novamente numa passagem da obra
De corpore, apresentando e criticando
1i!1vr1L J .
o que julgava ser uma forma confusa
do argumento de Descartes. Ele
~ejeitou a conclusão cartesiana - de
~ente e corpo como substâncias
distintas:- com base no fato de que o
uso da frase "substância incorpórea"
por Descartes era um exemplo de
!1nguagem vazia. Hobbes considerou
que ela significava "um corpo sem
corpo'', o que parece não ter sentido.
!IJo entanto, tal consideração
baseava-se em sua própria visão de - ----=------
Enquanto Hobbes formulava suas
:àe1as mecanicistas, cientistas como o
:::édico William Harvey usavam técnicas
::::pincas para explorar o funcionamento
jo corpo humano.
,.
RENE DESCARTES 1596-1650
118 RENÉ DESCARTES
ené Descartes viveu no Em Meditações sobre filosofia
EM CONTEXTO começo do século XVII, num primeira, sua obra mais completa e
período por vezes chamado rigorosa sobre metafísica (o estudo
ÁREA
de Revolução Científica, uma era de do ser e da realidade) e
Epistemologia
rápidos avanços nas ciências. O epistemologia (o estudo da natureza
ABORDAGEM """.,;, -:... _ •
cientista e filósofo britânico Francis e dos limites do conhecimento),
Racionalism9, e~~-;;. Bacon havia estabelecído um novo Descartes tentou demonstrar a
método para conduzir experiências possibilidade do conhecimento
ANTES - científicas, baseado em observações mesmo a partir das posições mais
Século IV a.C.-7\ristóteles detalhadas e raciocínio dedutivo, e céticas e, a partir disso, estabelecer
argumenta qµe:-quando suas metodologias forneceram um um alicerce firme para as ciências.
executamos qualquer ação, novo sistema para investigar o
incluindo pensar, estamos mundo. Descartes compartilhava de
conscientes de qtle a sua excitação e otimismo, mas por
executamos, é dessa forma razões diferentes. Bacon considerava •·/
estamos ç9.nscientes de que que as aplicações práticas das
descobertas científicas eram seu I
I
existimos. e
objetivo e ponto principal, enquanto
c.420 d.C. Santo Agostinho Descartes estava mais fascinado
afirma em Acidade de Deus ter com o projeto de expandir o
certeza da própria existência. E conhecimento e a compreensão
diz que, se estáBrrado, isto, em do mundo.
si, prova sua exisrencia: para Durante a Renascença, as pessoas
estar errado, é preciso existir. tinham se tornado mais céticas
acerca da ciência e da possibilidade
DEPOIS
do conhecimento genuíno em gerat e
1781 Em sua Crítiaa_iia razão
pura, Immanuel-·Kant argumenta essa visão continuou a e xercer
influência na época de Descartes.
contra Descartes,:mas adota a Assim, uma grande motivação para
primeira certeza:,'- "Penso, logo O livr o de D esca.rtes, De bomine
seu "projeto de investigação pura", figuris, adota um olhar biológico em
existo" - como cerne e ponto de como sua obra ficou conhecida, foi o relação às causas do conhecimento. Na
partida de sua filosofia ideaHsta. desejo de livrar a ciência do ceticismo obra, ele sugere que a glândula pineal é a
perturbante. ligação entre a visão e a ação consciente.

Um gênio maligno pode Não há nada Mas quando digo "Eu sou,
tentar me fazer acreditar do qual posso eu existo", não posso estar
em coisas falsas. ter certeza. errado sobre isso.

Um gênio maligno poderia


tentar me fazer acreditar nisso
se eu realmente existir.
ARENASCENÇA EAIDADE DA RAZÃO 119
Ver também: Aristóteles 56-63 • Santo Agostinho 72-72 • Thomas Hobbes 112-115 • Blaise Pascal 124-125 ·• Bento ele
Espinosa 126-129 • John Loc'ke 130-133 • Gottfried Leibniz 134-137 • Immanuel Kant 164-171

As Meditações estão escritas em ou outra. Ele dizia que talvez


primeira pessoa porque ele não estivéssemos sonhando, e o mundo
estava apresentando argumentos aparentemente real não fosse mais
para provar ou refutar certas que um mundo de sonho. Ele
afirmações, mas, em vez disso, percebeu que isso seria possível, pois
,
desejava guiar o leitor pelo caminho não há indícios certos entre estar
E necessário que ao menos
que e le próprio percorreu. Dessa acordado ou dormindo. Mas. mesmo
assim, essa situação deixaria aberta
uma vez na vida você duvide,
forma. o leitor é forçado a adotar o
ponto de vista daquele que reflete, a possibilidade de que algumas
tanto quanto possível,
ponderando sobre as coisas e verdades, como os axiomas
de todas as coisas.
descobrindo a verdade, como matemáticos, podem ser conhecidas, René Descartes
Descartes fizera. Essa abordagem embora não por meio dos sentidos. E
faz lembrar o método socrático, no até essas "verdades" podem, de fato,
qual o filósofo gradualmente extrai a não ser verdadeiras, porque Deus,
compreensão da própria pessoa . em que é todo-poderoso, pode nos
vez de apresentá-la embrulhada e enganar até mesmo nesse nivel. »
pronta para ser consumida.
A ilusão ótica de linhas paralelas. feitas para parecerem
O mundo ilusório tortas. pode enganar nossos sentidos. Descartes julga que não
A nm de estabelecer que s uas devemos aceitar nada como verdadeiro ou dado mas, em vez
crenças tenham estabilidade e disso, devemos nos despojar das ideias preconcebidas a fim
resistência, o que considerava duas de poder chegar a uma posição de conhecimento.
importantes marcas do
conhecimento, Descartes usou a
chamada "dúvida metódica", que se
baseia numa reflexão que deixa de
lado qualquer crença cuja verdade
possa ser contestada, leve ou
completamente. O objetivo de
Descartes era mostrar que, ainda que
comecemos com o mais renhido
ceticismo, podemos alcançar o
conhecimento. A dúvjda "hiperbólica"
era usada apenas como ferramenta
filosófica: como Descartes frisou,
"nenhuma pessoa sã já duvidou
seriamente dessas coisas".
Descartes começou submetendo
suas crenças a uma série de
argumentos céticos cada vez mais
rigorosos, questionando como
podemos ter certeza da existência de
qualquer coisa. O mundo que
conhecemos pode ser apenas uma
ilusão? Não podemos confiar em
nossos sentidos como base segura
para o conhecimento, porque todos já
fomos "enganados" por eles uma vez
120 RENÉ DESCARTES

Imagino que algum gênio


maligno de máximo poder
e astúcia empregou
.
todas
as suas energias para
me enganar.
René Descartes

. .
...:. . ..
, .. _...:;,._

da qual ele não podia duvidar: a


crença na própria existência. Cada
um de nós pensa ou diz: "Sou,
existo" - e, enquanto pensamos ou
dizemos isso, não podemos estar
errados. Quando Descartes tentou
aplicar o teste do gênio maligno a
sua crença, percebeu que o gênio só
podia levá-lo a acreditar que ele
existe se ele, Descartes, de fato
existir - como ele poderia duvidar da
Um g ênio m a ligno, capaz de iludir a qualquer coisa. Quando se visse própria existência, se é preciso
humanidade sobre tudo, não pode me considerando uma opinião. ele se existir para ter dúvida?
fazer duvidar da minha existência: se ele perguntaria: "O gênio pode estar me O axioma "Eu sou, eu existo"
tenta, e se sou forçado a questionar minha
fazendo acreditar nisso, mes1no que constitui a primeira certeza de
própria existência, isso apenas a confirma.
seja falso?". Se a resposta fosse "sim", Descartes. Em sua obra anterior, o
ele devia deixar a opinião de lado, Discurso sobre o método, ele a
Ainda que acreditemos que Deus é pois é duvidosa. apresentou como "Penso, logo existo",
bom, é possível que Ele nos tenha Nesse ponto, apairente1nente mas abandonou a frase ao escrever
feito de tal modo que somos Descartes havia se colocado numa suas Meditações, pois o uso de "logo"
inclinados a erros em nosso situação impossível - se tudo está leva a afirmação a ser lida como
raciocínio. Ou talvez não haja Deus - sujeito a dúvida, então ele não tem premissa e conclusão. Descartes
nesse caso, temos ainda mais qualquer base sólida sobre a qual queria que o leitor - o "eu" que
probabilidade de sermos seres trabalhar. Ele descreveu a si mesmo medita - percebesse que, assim que
imperfeitos, passíveis de enganos o corno se estivesse sacudido por um considero o fato de que existo, sei
ternpo todo. redemoinho de dúvida universal, que isso é verdadeiro. Tal verdade é
Tendo chegado a uma posição em impotente, incapaz de encontrar um instantaneamente apreendida. A
que não se podia ter certeza sobre apoio. O ceticismo parecia ter-lhe percepção de que existo é uma
nada. Descartes então criou uma impossibilitado iniciar sua jornada de intuição direta, não a conclusão de
ferramenta poderosa para ajuctá-lo a volta ao conhecimento e à verdade. um argumento.
evitar que acabasse novamente na Apesar do avanço de Descartes
opinião preconcebida: ele imaginou A pri.m eira certeza para uma expressão mais clara de sua
que haveria um gênio poderoso e Nesse ponto, Descartes posição, a formulação anterior era tão
maligno capaz de enganá-lo sobre compreendeu que havia uma crença poderosa que se mantém na memória
ARENASCENÇA EAIDADE DA RAZÃO 121
mesma maneira que Descartes. para o conhecimento. Mas Descartes
Contudo, qual o propósito de uma percebeu que também podemos ser
única crença? O argumento lóg;ico capazes de adquirir conhecimento a
mais simples é um silogismo, que tem partir da própria certeza Isso ocorre
duas premissas e uma conclusão, tal porque a compreensão do que penso
Essa proposição - Eu sou. como: todos os pássaros têm asas; um é limitada pela compreensão de
eu existo - é necessariamente sabiá é um pássaro; portanto, todos minha existência. Assim, "pensar" é
verdadeira quando formulada os sabiás tê1n asas. Nós certamente também a lgo do qual não posso
por mim ou concebida não conseguimos chegar a lugar racionalmente duvidar, já que duvidar
na minha mente. algum a partir de uma única crença é um tipo de pensamento: duvidar
René Descartes verdadeira. Mas Descartes não estava que estou pensando é pensar. Como
esperando chegar a esses tipos de Descartes concluiu que existia e que
conclusões co.m sua primeira certeza. pensava, entendeu que ele - assim
Ele argumentou: "Arquimedes exigia como todos os que meditam - era
apenas um ponto de apoio a fim de coisa que pensa .
mover a Terra inteira". Para Descartes, Descartes deixou claro quê isso
a certeza sobre a própria existência era o máximo que podia extrair a
das pessoas até hoje: a primeira era esse apoio - ela o salvava daquele partir da primeira certeza. Ele
certeza é, em geral, conhecida como a redemoinho de dúvida, fornecia-H1e certa1nente não se p ermitia dizer que
sentença latina cogito ergo sum, que uma base firme e permitia iniciar a era apenas algo pensante - uma
significa "Penso, logo existo". Santo jornada de volta, do ceticismo ao mente - porque não tinha como saber
Agostinho tinha usado um a rgumento conhecimento. Foi crucial para seu o que mais poderia ser. Ele podia ser
similar em A cidade de Deus, quando projeto de investigação. mas não o algo físico qu e também possuísse a
disse "se eu estiver errado, existo", alicerce de sua epistemologia. capacidade de pensar, ou, ainda,
querendo dizer que se ele não existia, qualquer outra coisa que ainda nem
não podia estar errado. No entanto, O que é este 11eu"? tivesse concebido. Nesse estágio de
Agostinho fez pouco uso disso em seu A principal função da primeira suas meditações, e le sabia apenas
pensamento - e não chegou a ele da certeza foi fornecer uma base sólida que era algo pensante- algo»

Ao usar o método da dúvida, a única ques t ão que


Descartes pode definitivamente responder é- se ele
pensa. Isso não lhe permite provar a existência de seu
corpo ou do mundo exterior.

r • "~.i ' -,,1 #~ • • :,.·.;;·, • • -.-..~ • •

EXISTE UM MUNDO EXTERlo?-'?


122 RENÉ DESCARTES
da prim eira pessoa em "Sou, existo". pensamento "Sócrates é um homem",
Embora Descartes talvez não tenha nenhum dos dois pode concluir nada.
errado ao dizer que o ato de pensar Mas se Paula tem os dois
estava ocorrendo, como ele sabia que pensamentos, ela pode concluir que
havia "um pensador" (uma "Sócrates é mortal". Não bastaria t er
consciência única, unificada) os pensamentos "Todos os homens
Ou.a ndo alguém diz
realizando esse pensamento? O que são mortais" e "Sócrates é um
'penso, logo sou',
lhe dava o direito d e assegurar a homem" flutuando no nada - para
reconhece isso como existência de algo além dos que a razão seja possível, é preciso
algo evidente por simples pensamentos? Por outro lado, fazer com que ambos se relacionem ,
intuição mental. podemos aceitar a noção de conectando-os da forma correta.
René Descartes pensamentos circulando por ai sem Tornar os pensamentos
um pensador? subordinados a algo que não seja um
É dificil imaginar pensamentos pensador (por exemplo. a um lugar
coerentes e avulsos. Para Descartes, ou a uma época) não ajuda a realizar
isso era inconcebivel. No entanto, se a tarefa. E já que o raciocínio é
alguém discordasse e acreditasse possível, Descartes pode concluir
que um mundo de pensamentos sem que há um pensador.
pensante "somente no sentido pensadores é genuinamente possível, Alguns filósofos modernos negam
estrito", ele úisou. Só mais tarde, Descartes não teria direito à crença que a certeza de Descartes acerca da
no sexto li vro das Meditações, de que ele existe, e assim fracassaria própria existência seja capaz de
Descartes apresentaria o argumento em alcançar sua primeira certeza. A realizar a tarefa que ele imaginou. O
de q ue a mente e o cotpo são tipos existência de pensamentos não lhe argumento de que "eu existo" não
diferentes de coisas - substâncias forneceria a base sólida de que tem conteúdo, porque simplesmente
distintas. necessitava. se refere a um sujeito, mas não diz
O problema com a noção de nada significativo ou importante
Duvidando de Descartes pensamento flutuando pelo ar sem sobre ele - simplesmente indica o
A primeira certeza tem sido alvo de pensador é que o raciocínio seria sujeito. Por essa razão, nada pode
critica de muitos escritores, que impossível. Para raciocinar, é seguir a partir disso, abortando o
sustentam que a abordagem do necessário relacionar ideias de projeto de Descartes já no início.
ceticismo cartesiano está condenada maneira particular. Por exemplo, se Isso parece uma interpretação
desde o início. Um dos principais Patrick tem o pensamento "Todos os equivocada de Descartes. Como
argumentos contrários refuta o uso homens são mortais" e Patrícia tem o vimos, ele não usou a primeira

René Descartes Nascido perto de Tours, na França, 1649 foi convidado pela rainha
René Descartes foi educado no Cristina para discutir filosofia na
Jesuit College Royale, em La Suécia, onde passou a se levantar
Flêche. Devido à saúde frágil, bem cedo, contrariando sua
permitiam-lhe que permanecesse prática habitual. Esse novo
na cama até tarde da manhã, e ele regime e o clima sueco, segundo
criou o hábito de meditar. A partir o próprio Descartes, o levaram a
dos dezesseis anos, concentrou-se contrair pneumonia, mal que o
no estudo da matemática, mataria um ano depois.
interrompendo seus estudos por
quatro anos para servir como Obras-chave
voluntário na Guerra dos Trinta
Anos. Nessa época descobriu sua 163 7 Discurso sobre o método
vocação filosófica. Depois de deixar 1641 Meditações sobre fi.losofia
o exército, estabeleceu-se em Paris primeira
e, depois, na Holanda, onde passou 1644 Princípios de filosoti.a
a maior parte do resto da vida. Em 1662 O homem
ARENASCENÇA E AIDADE DA RAZÃO 123
certe za como pre1nissa da qua l se concordam, porém, que ele não existia autoridade, estabelecendo um
obtém o con hecimento: tudo o que - então, não é verdade que algo que fundamento firme e racional para o
ele precisava é que existisse um "eu" pensa, existe. conhecimento. Também ficou
como evidência. Mesmo que "eu Pode-se dizer que, na medida em conhecido por propor que mente e
existo" só resultasse em apontar para que Hamlet pensou, o fez no mundo corpo são duas substâncias distintas
aquele que pensa, isso bastava para ficticio da peça, e que ta1nbém - uma material, outra imaterial-,
Descartes vislumbrar uma saída do existiu naquele mundo fictício; se ele mas, apesar disso, são capazes de
redemoinho da dúvida. não existia, não existia no mundo interação. Essa distinção famosa,
real. Sua "realidade " e seu que ele explica na sexta Meditação,
Um pensador irreal pensamento estão )]gados ao mesmo ficou conhecida corno o dualismo
Para aqueles que interpretaram mundo_ Os críticos de Descartes cartes1ano.
Descartes equivocadamente por seu podem responder que este é O rigor do pensamento de
argumento em que o fat.o do precisamente o ponto: saber q ue Descartes e sua rejeição a qualquer
pensamento leva ao fato da existência, alguém chamado Hamlet estava dependência da autoridade talvez
pode-se salientar que a primeira pensando - e não mais do que isso representem seu mais importante
certeza é urna intuição direta, não um - não n os assegura que essa pessoa legado. Os séculos após sua morte
argumento lógico. Ainda assirn, qual o exista no mundo real. Para isso, foram dominados por filósofos que ou
problema em Descartes oferecer tal teríamos de saber o que ele estava desenvolveram as ideias cartesianas
argumento? pensando no mundo real. Saber que ou assumiram como tarefa a
Assim como se apresenta, fa lta algo ou alguém est á pensando não é contestação do seu pensamento, tais
uma premissa importante na apare11te suficiente para provar sua realidade como Thomas Hobbes, Bento de
dedução "estou pensando, logo nesse mundo. Espinosa e Gottfried Leibniz. •
existo". Isto é, para que funcione, o A resposta para esse dilema está
argumento precisa de outra premissa, na escrita em primeira pessoa das
tal como "algo que está pensando, Meditações. As razões para o uso do
'
existe". As vezes, uma premissa óbvia "eu" por Descartes, do princípio ao fim
não é enunciada em um argumento: é do texto, agora ficam claras. Embora
a cha mada premissa oculta. Mas eu possa não ter certeza se Hamlet
a lguns dos críticos de Descartes estava pensando (e, portanto, ex istia) r.St MO

reclamam que tal premissa oculta não num mundo fictício ou no mundo real.
é. de modo algum, óbvia. Por exemplo, não pos so estar incerto a respeito de
o personagem Hamlet, de mim m es1no.
Shakespeare, pensava bastante. Todos
Filosofia moderna
No "Prefácio" das Meditações.
Descartes profetizou que muitos
leitores abordariam sua obra de tal
forma que a maioria "não se
Devemos investigar incomodará em apr€ender a ordem
q ue tipo de conhecimento adequada dos meus argumentos e a
a razão humana é capaz conexão entre eles, mas simplesmente
de ating ir, antes que tentará reclamar de frases individuais,
comecemos a adquirir como é a moda". Por outro lado, ele
conhecimento sobre também escreveu q ue "não espero
nenhuma aprovação popular ou
as coisas em particular.
mesmo uma ampla audiência". Nisso,
René Descartes
e le estava enganad.o. Descartes é
A separação entre m ente e corpo
freque11temente descrito como pai defendida por Descartes abre uma questão:
da filosofia moderna. Ele buscou dar à já que tudo que podemos ver de nós
:filosofia a certeza da matemática sem mesmos são nossos corpos, como podemos
recorrer a qualquer tipo de dogma ou provar que um robô não é consciente?
124 .- . .
-. ' .
~ . . . . . . . ' . ·--=~-·- ... ·-··;..' ':_:, . .

BLAISE PASCAL (1623-1662)

obra mais conhecida de


EM CONTEXTO Pascal, Pensamentos, não era
A imaginação é uma forç:a originalmente filosófica.
ÁREA
poderosa no ser humano. Trata-se de uma compilação de
Filosofia da mente
fragmentos, a partir de suas notas para
ABORDAGEM uma obra futura sobre teologia cristã.
Voluntarismo Suas ideias eram direcionadas para
o que ele chamava libertins,
ANTES ex-católicos que tinham abandonado
c.350 a.e. Aristóteles diz que Ela pode ultrapassar a religião por conta de uma espécie
"a imaginação é o processo pelo nossa razão. de livre pensamento, encorajados por
qual dizemos que uma imagem escritores céticos como Montaigne.
é apresentada a nós" e que "a Num dos fragmentos mais longos,
alma nunca pensa sem uma Pascal discutiu a imaginação. Ofereceu
imagem mental". pouco ou nenhum fundamento para
suas alegações, preocupado apenas em
1641 René Descartes afirma Mas pode levar a verdades anotar pensamentos sobre o tema.
que o filósofo deve treinar sua ou falsidades. Do ponto de vista de Pascal, a
imaginação para a aquisição de imaginação é a força mais poderosa
conhecimento. nos seres humanos e uma de nossas
DEPOIS principais fontes de equivoco. A
1740 Em seu Tratado da in1aginação, ele dizia, leva-nos a confiar
natureza humana. David Hume nas pessoas, apesar do que nos diz a
Podemos ver beleza, justiça razão. Por exemplo, como médicos e
argumenta que "nada que ou felicidade onde elas não advogados ves Len1-se com distinção,
imaginamos é absolutamente existem realmente. tendemos a confiar neles. De maneira
impossível".
oposta, dedicamos menos atenção a
1787 Immanuel Kant defende quem parece desmazelado, mesmo que
que sintetizamos as mensagens suas palavras sejam sensatas.
incoerentes dos nossos sentidos O que piora as coisas é que, embora
em imagens e, depois, em A imaginação nos geralmente leve à falsidade, a
conceitos, usando a imaginação. desvia do eaminho. imaginação por vezes conduz à
verdade: se fosse sempre apenas falsa.
então poderíamos usá-la como fonte de
ARENASCENÇA EA IDADE DA RAZÃO 125
Ver também: Aristóteles 56-63 • Michel de Montaigne 108-109 • René Descartes 116-123 • David Hume 148-153 •
lmmanuel Kant 164-171

certeza ao aceitar simplesmente sua contexto mais amplo de uma obra de


negação Depois de tratar da questão teologia cristã (e especialmente à luz
contra a imaginação detalhadamente, da ênfase de Pascal no uso da razão
Pascal de súbito termina sua para levar as pessoas à crença
explanação escrevendo: "A im aginação religiosa), percebemos que seu objetivo
dispõe de LLido: ela produz beleza, era mostrar aos libertins que a vida de
justiça e felicidade, que é a maior coisa prazer que haviam escolhido não era o
do mundo". Fora de contexto, poderia que eles imaginavam. Embora
parecer um elogio à imaginação, mas a acreditassem que tinham eleito o
intenção do autor é bem diferente, caminho da razão, eles teriam sido, ele
como se depreende do texto que fato, iludidos pelo poder da imaginação.
precede essa frase. Como a imaginação
em geral leva ao equivoco, então a A aposta de Pascal
bele2a. a justiça e a felicidade que ela Essa visão é relevante para uma das
produz normalmente são falsas. No notas mais completas elos
Pensamentos: o famoso argumento Segundo Pascal, somos
conhecido como aposta de Pascal. Ela constantemente iludidos pela
foi criada para dar aos Jibertins uma imaginação, fazendo julgamentos errados
- inclusive sobre as pessoas, baseados no
razão para retornar à Ig reja e é u1n
modo de vestir.
bom exemplo do "voluntarismo", a
O homem não é mais que ideia de que a crença é questão de
u.m caniço, o mais fraco decisão. Pascal admitia que não era argumentou que, ao apostar que Deus
da natureza, mas é possível dar bons fundamentos não existe, há a possibilidade de
um caniço pensante. racionais para a crença religiosa, mas perder muito (a felicidade infinita no
tentou oferecer bons fundamentos céu) ou ganhar pouco (um sentido
Blaise Pascal
racionais para se querer ter tais finito de independência nesse mundo).
crenças. Estes consistiam em Já a aposta ele que Deus existe traz o
comparar os possíveis ganhos e risco de perder pouco ou a chance de
perdas ao se fazer uma aposta na ganhar muito. Seria mais racional, sob
inexistência de Deus. Pascal esse a specto, acreditar em Deus. •

Blaise Pascal Blaise Pascal nasceu em Clermont- declarada herética), depois ao


-Ferrand, na França, filho de um catolicismo. Isso o levou a
funcionário do governo muito abandonar seu trabalho
interessado em ciência e matemática matemático e científico em favor
e que educou Pascal e suas duas dos textos religiosos, incluindo os
irmãs. Publicou seu primeiro texto Pensamentos. Em 1660-62,
matemático aos dezesseis anos e instituiu o primeiro serviço de
inventou a primeira calculadora transporte público do mundo,
mecânica por volta dos dezoito anos. doando o lucro aos pobres. Sofreu
Também se correspondeu com o grave s problemas de saúde,
famoso matemático Pierre Fermat, desde a década de 1650 até a
com quem lançou as bases da teoria morte, em 1662.
das probabilidades.
Pascal passou por duas Obras-chave
conversões religiosas: primeiro ao
jansenismo (variante do 1657 Cartas provinciais
crís tianismo posteriormente 1670 Pensamentos
126
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••• _'
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... •
_••
••
j.,'1 ......
' • .' EM CONTEXTO
ÁREA
Metafísica
ABORDAGEM
Monismo substancial
1 ANTES
c.1190 O filósofo judeu Moisés
' Maimônides cria uma versão
desmitologizada aa religião-que,
depois, "inspiraria Espinosa.
Século XVI O cientista italiano
Giordano Bruno desenvolve 11ma
forma ae panteísmo.
1640 René Desca:rtes publica
BENTO DE ESPINOSA (1632-1677) suas Meditações, .outra
influência para Espinosa.
DEPOIS

Final do século XX
Os filósofos Stuart HampshirB,
Dona1d Davidsonce Thomas
N agel desenvolvem abordagens
à filosofia da mente que têm
similarídad~s com.o
pensamento mor:iista de
Espinosa.

orno a maioria das filosofias


do século XVII. o sistema
filosófico de Espinosa tem a
noção de "su,bstância" em seu cerne.
Esse conceito pode ser remontado a
Aristóteles, que questionou a natureza
do objeto que permanece o mesmo
ainda que passe por uma mudança. A
cera, por exemplo, pode derreter e
mudar de forma, tamanho, cor, cheiro
e textura, e ainda assim permanecer
"cera'', instigando a questão: a que nos
referimos quando falamos em "cera"?
Já que pode mudar de todas as formas
perceptíveis, a cera também deve ser
algo além de suas propriedades
perceptlveis, e para Aristóteles esse
algo imutável era a substância da
cera. De maneira mais geral,
-
ARENASCENÇA EAIDADE DA RAZAO 127
Ver também: Aristóteles 56-63 • Moisés Maimônides 84-85 • René Descartes 116-123 • Donald Davidson 338

Há apenas u ma Tudo que existe é Essa substância é "Deus "


única substância. constituído dessa ou "natureza".
substância única.

Ela fornece tudo


em nosso universo com seu ...

... processo de
formação, ... seu propósito, ... sua forma, ...e sua matéria.

Desses quatro modos,


Deu11 é a ••causa'' de tudo.

substância seria algo que tem entender sua relação com a outra, o nossa experiência, mas também pode
propriedades, ou aquilo que está sob o que seria uma contradição à definição ser conhecida por seus vários
mun do da aparência. de substância. Ele argumentou que, já atributos. Ele não especificot1 quantos
Espinosa empregou o termo que há apenas uma única substância, atributos. mas disse que os seres
"substância" de maneira similar, não pode haver nada, de fato. exceto humanos, ao menos, podem conceber
definindo-a como aquilo que explica a essa substância, e tudo o mais é, em dois: o atributo da extensão
si mesmo - ou aquilo que pode ser certo sentido, uma parte dela. A (fisicalidad€) e o atributo do
compreendido conhecendo-se apenas posição de Espinosa é conhecida pensamento (mentalidade). Por essa
sua natureza, em oposição a todas as como "monismo da substância": razão, Espinosa também é conhecido
outras coisas que podem ser afirma que todas as coisas são como "dualista do atributo". Ele
conhecidas apenas por meio de sua essencialmente aspectos de uma afirmou que os dois atrjbutos não
relação com outras coisas. Por única coisa, em oposição ao "dualismo podiam ser explicados um pelo outro,
exemplo, só se compreende o conceito da substância", que defende que há e deviam ser incluídos em q ualquer
"carroça" com referência a outros essencialmente dois tipos de coisas no explanação completa do mundo.
conceitos, tais como "movimento", universo. em geral definidos como Quanto à substância em si, Espinosa
"transporte", e assim por diante. Além "mente" e "matéria". argumentou que estaríamos certos ao
disso, para Espinosa, só podia haver chamá-la "Deus" ou "natureza'' (Deus
uma substância, porque se houver Deus ou natureza sive natura): aquilo que explica a si
duas, compreender uma acarretaria Para Espin osa, a substância subjaz a mesmo, que na forma humana vê >>
128 BENTO DE ESPINOSA
sob o atributo da extensão) e algo
mental (na medida em que concebido
sob o atributo do pensamento). Em
particular, a mente humana é uma
modificação da substância concebida
sob o at ributo do pensamento, e o
Mente e corpo
cérebro humano é a mesma
modificação da substância concebida
são um só.
sob o atributo da extensão. Dessa
Bento de Espinosa
forma, Espinosa evitou qualquer
questão sobre a interação entre mente
e corpo: não há interação, apenas uma
correspondência.
No entanto, a teoria de Espinosa o
Todas as m u d anças - do humor de comprometeu com a visão de que não
alguém à forma de uma vela - são, para apen,a s os seres humanos são tant o que Deus é o mundo e de que o mundo
Espinosa. alterações que ocorrem a uma inente quanto corpo. Mesas, pedras, é Deus. O panteísmo costuma ser
única substância que tem atributos
árvores - todas as coisas seriam criticado pelos teístas (crentes em
mentais e físicos .
modificações de uma substância sob Deus), que o classificam como um
os atributos de pensamento e ateísmo com outro nome. No entanto,
a si mesmo sob os atributos do corpo e extensão. Tais ob1etos seriam tanto a teoria de Espinosa é de fato muito
da mente. físicos quanto mentais, embora sua mais próxima do panteísmo: a visão
No nível das coisas individuais, mentalidade seja muito simples, de de Q\.\e o mundo é Deus, mas que Deus
incluindo seres humanos, o dualismo modo que não deveríamos chamá-la é mais do que o mundo. Para o
de atributo de Espinosa foi projetado de mente. Esse aspecto da teoria de sistema de Espinosa, o mundo não é
em parte para lidar com a questão de Espinosa é difícil de aceitar ou urna massa de coisas materiais e
como interagem mentes e corpos. As entender para muitas pessoas. mentais. Em vez d isso, o mundo das
coisas que sentimos como corpos ou coisas materiais é uma forma de Deus,
mentes individuais são, de fato . O mundo é Deus como concebida sob o atributo da
modificações da substância única, A teoria de Espinosa, explicada extensão, e o mundo das coisas
conforme concebidas sob um dos inteiramente na Ética, é mentais é essa mesma forma de Deus.
atributos. Cada rno<lificação é algo frequentemente class1ftcada como concebida sob o atributo do
físico (na medida em que concebido uma forma de panteísmo: a crença de pensamento. Portanto, a substância

Bento de Espinosa Bento de Espinosa nasceu em recusou vários cargos bem


Amsterdã, na Holanda, em 1632. remunerados, como o de
Aos 23 anos foi excomungado pela professor, para preservar a
sinagoga de judeus portugueses liberdade intelectual. Levou
da cidade, que provavelmente uma vida frugal em vários
queria se distanciar dos lugares da Holanda,
ensinamentos de Espinosa. Seu sobrevivendo do ensi no
Tratado teológico-político sofreu particular de filosofia e corno
ataques posteriores de teólogos polidor de lentes. Morreu de
cristãos e acabou banido em 1674 tuberculose em 1677_
- destino comum à obra do filósofo
franc ês René Descartes . O furor
motivou Espinosa a adiar a
publicação de sua maior obra, Obras-chave
Ética , lançada postumamente .
Espinosa era um homem 1670 Tratado teológico-político
modesto, cioso da moral, que 1677 Ética
ARENASCENÇA EAIDADE DA RAZÃO 129
De acordo com E!ipinosa, todos os ob1etos - sejam
animais, vegetais ou minerais - têm mentalidade. Seus
corpos e mentes são parte de Deus, que é 1naior do que
todos os atributos físicos e mentais do mundo. Deus.
para Espinosa, é a "substância" que subjaz à realidade.

A mente humana
é parte do intelecto infinito
de Deus.
Bento de Espinosa Cada objeto
no un1verso, mesmo
uma pedra, tem corpo Corpo e mente
e mente. são atributos da
substância.

única ou Deus é mais do q ue o mundo,


mas o próprio mundo é inteiramente
substância ou Deus.
O Deus de Espinosa, contudo, é
A substância
bem diferente do Deus da teologia é Deus, no qual tudo
judaico-cristã. Além de não ser uma é explicado.
pessoa, não pode ser considerado o
criador do mundo no sentido
encontrado no Livro do Gênesis. O
Deus de Espinosa não existe por si só
antes da criação, e daí a faz surgir.

Deus como causa


O que Espinosa quis dizer. então,
quando se referiu a Deus como a
causa de tudo? A substância única é
"Deus ou natureza" - então, mesmo
que para Deus exista mais do que
aquelas modificações da substância
que constituem nosso mundo, como aquilo que leva algo a existir (o como causa de todas as coisas, ele
pode a relação entre Deus e natureza processo de esculpír); e a causa final , quis dlzer que todas as coisas
ser causal? ou o objetivo para o qual algo existe encontram sua explicação em Deus.
Primeiro, vale notar que (a criação de uma obra ele arte, o Deus, portanto, não é o que
Espinosa, em harmonia com a desejo pelo dinheiro, e assim por Espinosa chamou de causa
ina ioria dos filósofos antes dele, usou diante}. "transitiva" do mundo - algo externo
a palavra "causa" num sentido muito Para Aristóteles e Espinosa, todas que traz o mundo à existência. Em vez
mais rico do que usamos hoje - um juntas definem "causa" e fornecem disso, Deus é a causa "imanente" do
sentido que se origina na definição uma explicação completa sobre algo, mundo. Isso signiflca que Deus está
dos quatro tipos de causa de diferentemente do significado no mundo, que o mundo está em Deus,
Aristóteles . Estas são: a causa contemporâneo, que .tende a se referir e que a existência e a essência do
formal. ou a relação entre as partes apenas às causas "eficiente" e "final". mundo são explicadas pela existência
de a lgo (contorno ou forma, Portanto. quando Espinosa falou de e essência de Deus. Para Esp:ftnosa,
tomando-se uma estátua como Deus ou substância sendo causados apreciar esse fato é atingir o mais
exemplo); a causa material, ou a por si, ele se referiu àquilo que explica elevado estado de liberdade e salvação
matéria da qual algo é feito (bronze, a si mesmo, em vez de apenas gerar a possiveis: um estado que ele chama
mármore etc.); a causa eficiente, ou si mesmo. Quando ele citou Deus de "bem-aventurança" •
130
EM CON1"EXTO
ÁREA
Epistemologia
ABORDAGEM
Empirismo
ANTES
c.380a.C. EmMênon, Platão
diz ser possível lembrar do
conhecimento de vidas passadas.
I' Meados do século XIII San to
Tomás de Aquino p ropõe: "O
que quer que esteja em nosso
intelecto deve ter existido
previamente nos sentídos".
DEPOIS
Final do século XVII Leibníz

JOHN LOCKE (1632-1704) diz que a mente pode dar a


impressão de ser uma tábula
rasa no nascimento, mas
contém conhecimento inato
que a experiência revela
gradualmente.
1966 Noam Chomsky, na
Linguística cartesiana, explica
sua teoria de gramática inata.

radicionalmente, John Locke


é incluído no grupo de
filósofos conhecidos como
empiristas britânicos, ao la do de
dois pensadores posteriores, George
Berkeley e David Hume. Os
.. .. .
emp1r1stas sao vistos como
defensores da concepção de que
todo conhecimento humano deve vir
direta ou indiretamente da
experiência de mundo adquirida por
meio do uso exclusivo dos sentid os.
Isso contrasta com o pensamento
dos rac1onalistas - tais como René
Descartes, Bento de Espinosa e
Gottfried Leibniz - , que sustentam
que, ao menos em principio, é
possível adquirir conhecimento
unicamente com o uso da razão.
ARENASCENÇA EAIDADE DA RAZÃO 131
Ver também: Platão 50-55 • Tomás de Aquino 88-95 • René Descartes 116-123 • Bento de Espinosa 126-129 • Gottfríed
Leibniz 134-137 • George Berkeley 138-141 • David Hume 148-153 • Noam Chomsky 304-305

Os racionalistas acreditam que


nascemos com algumas ideias e conceitos:
os que são "inatos".
Se considerarmos
atentamente as crianças
recém-nascidas, temos
- para crer
poucas razoes
que elas trazem consigo
Mas isso não é confirmado
pelo fato ...
muitas ideias ao mundo.
JohnLocke

...de que não há ideias


...de que não há verdades
universais encontradas em
encontradas em todos nós no
pessoas de todas as culturas,
nascimento. em todos os tempos. com cérta minúcia, em seu Ensaio
acelCÇi do entendimento humano,
contra a teoria dos racionalistas que
explicava como o conhecimento pode
ser acessado sem experiência - a
teoria das ideias inatas.
O conceito de que seres humanos
nascem com ideias inatas, e que elas
podem nos proporcionar
conhecimento sobre a natureza do
mundo, independente.m ente de
A d ivisão entre esses dois grupos constituído de partículas qualquer coisa que possamos
não é tão bem definida como muitas submicroscópicas, ou corpúsculos, experimentar, remonta ao início da
vezes se presume. Os racionalistas das quais não se pode ter filosofia. Platão desenvolveu o
admitem que, na prática, o conhecimento direto, mas que, pela conceito de que todo conhecimento
conhecimento do mundo origina-se sua própria existência, dão sentido a genuíno está essencialmente
essencialmente da experiência. fenômenos que, de outro modo, localizado d©ntro de nós, e que,
especialmente da investigação seriam difíceis ou impossíveis de quando morremos, nossas almas
científica. Locke elaborou suas exp'licar. A teoria corpuscular. reencarnam em novos corpos e o
concepções relativas à natureza do popular no pensamento científico do choque do nascimento nos faz
mundo ao aplicar um processo de século XVII, é fundamental para a esquecer tudo. A educação não é,
raciocínio conhecido posteriormente concepção de mundo físico de Locke. portanto, aprender fatos novos, mas
como abdução (inferência da melhor "não esquecer", e o educador não é
explicação a partir da evidência Ideias inatas um professor, mas um parteiro.
disponivel) aos fatos da experiência A afirmação de que o conhecimento Muitos pensadores posteriores
sensorial. Ele começou por do homem não pode ir além de sua opuseram-se à teoria de Platão,
demonstrar, por exemplo, que a experiência pode, portanto. parecer propondo que todo o conhecimento
melhor explicação do mundo corno o inadequada, ou ao menos um não pode ser inato - talvez só um
sentimos é a teoria corpuscular. A exagero, quando atribuída a Locke. número limitado de conceitos
teoria diz que tudo no mundo é No entanto, ele de fato argumentou pudesse ser, tais como o conceito de >>
132 JOHN LOCKE
Deus ou o conceito de uma estrutura exceto a capacidade humana básica
geométrica perfeita, como o triângulo de aplicar a razão à informação
equilátero. Esse tipo de reunida por meio dos sentidos. Ele
conhecimento , na visão desses argumentou não haver a menor
pensadores, podia ser adquirido sem evidência empírica para sugerir que as
qualquer experiência sensorial direta, mentes de crianças não estão vazias Parece-me quase
da 1nesma forma que é possível criar no nascimento, e acrescentou que isso uma contradição
uma fórmula matemática recorrendo também é verdadeiro em relação às afirmar que há verdades
apenas aos poderes da razão e da mentes dos deficientes mentais. impressas na alma
lógica . René Descartes, por exemplo, afirmando que "eles não têm a. menor que não são percebidas
declarou que embora acreditasse que percepção ou consciência deles ou entendidas.
todos nós temos uma ideia de Deus próprios". Locke, assim, declarou falsa JohnLocke
impressa em nós (como a marca do qualquer doutrina que apoiasse a
artesão na argila de um vaso), esse existência de ideias inatas.
conhecimento sobre a existência de Locke atacou, ainda. a própria
Deus só poderia ser t razido à mente noção de ideias inatas, por sua
consciente por um processo de incoerência. A fim de que algo seja
raciocínio. uma ideia, Locke dizia, esse algo teria
de ter estado presente em algum lugar acessivel à mente consciente. Por
Objeções de Locke na mente de alguém. Mas, como outro lado, acredita-se que as ideias
Locke refutava a ideia de que seres Locke salientou, qualquer ideia que se inatas existam de algum modo em
humanos têm qualquer tipo de afirme verdadeiramente inata também algum lugar, antes da presença de
conhecimento inato. Ele adotou a deveria afirmar que precede qualquer qualcruer tipo de mecanismo capaz de
visão de que a mente, no nascimento, forma de experiência humana. Mas concebê-las e trazê-las à consciência.
é uma tábula rasa, uma folha de papel Locke aceitou como verdadeiro, como Os partidários da existência de
em branco na qual a experiência afirma Gottfried Leibniz, que uma ideias inatas argumentam também
inscreve, da mesma forma que a luz ideia possa existir tão profundamente que. como tais ideias estão presentes
pode criar imagens no filme na memória de uma pessoa que, por em todos os seres humanos no
fotográfico. De acordo com Locke, não um tempo, é difícil ou mesmo nascimento, devem ser universais por
acrescentamos nada ao processo, impossível relembrá-la, pois não está natureza, ou seja, presentes em todas
as sociedades humanas, em todos os
momentos da história. Platão afirmou
Locke acreditava que a mente
humana , no nascimento, é como uma que todo mundo potencialmente tem
tela em branco, ou tábula rasa. Segundo acesso ao mesmo corpo básico de
ele, todo o conhecimento sobre o mundo conhecimento: nesse aspecto negando
só pode vir de nossa experiência, qualquer d iferença entre homens e
transmitido a nós pelos sentidos. mulheres ou entre escravos e homens
Podemos, então, racionalizar esse Teoria livres. De maneira similar, na época de
conhecimento para formu lar novas ideias.
Locke, a teoria era apresentada da
seguinte forma . como as ideias inatas
só nos podem ser dadas por Deus,
devem ser universais, porque Deus
não é injusto a ponto de distribuí-las
somente a um grupo seleto de
Experiência
------- -- -~ pessoas. Locke atacou o argumento a
favor das ideias universais ao cha1nar
a atenção, mais uma vez, para o fato
/ de que um simples exame do mundo à
TábulaRasa
nossa volta mostra facilmente que elas
não exisLem. Mesmo que existissem
conceitos, ou ideias, rigorosamente
ARENASCENÇA EAIDADE DA RAZÃO 133
humano. Leibniz afirmou que as
ideias inatas são o único modo claro
por meio do qual podemos adquirir
conhecimento sem base em
experiência sensorial, e que
Vamos, então, imaginar Locke estava errado em nega r
a mente como um papel sua possibilidade. O debate sobre a
em branco, destituída de possibilidade de os seres conhecerem
todas as marcas, sem algo sem o uso dos cinco sentidos
quaisquer ideias: como ela básicos continua até hoje.
é suprida?
JohnLocke Linguagem inata
Embora rejeitasse a doutrina das Como no nascimento a mente é uma
ideias inatas, Locke não refutou o tela branca, Locke acrediLa que qualquer
conceito de que seres humanos têm um pode ser transformado por uma boa
educação, que estimule o pensamento
capacidades inat as. A posse de
racional e os talentos individuais.
qualidades inatas, como a percepção e
o raciocínio, é fundamental para sua
co1nuns a todos os seres humanos, explanação sobre o n1ecanis1no do questionar como os seres humanos
Locke argumentou que não teríamos conhecimento e da compreensão adquirem conhecimento, numa época
uma base sólida para concluir que eles humana. No final do século XX, o em que a compreensão do mundo
também fossem inatos. Ele declarou filósofo noirte-americano Noam estava se expandindo em um ritmo
que seria sempre possível descobrir Chomsky levou essa ideia além, ao inédito. Os antigos filósofos -
outras explicações para sua apresentar a teoria de que há um especialmente os escolásticos
universalidade, taJ como o fato de que processo inato de pensamento em medievais como Tomás de Aquino
se originam dos modos mais básicos toda mente humana capaz de gerar - tinham concluído que alguns
por n1eio dos quais o ser humano uma "estrutura profunda" universal da aspectos da realidade estavam além
conhece o mundo à sua volta, o que é linguagem. Chomsky acredita que, da apreensão da mente humana.
algo compartilhado por toda a espécie. independentemente das aparentes Locke levou isso a outro estágio: por
Em 1704, Gottfried Leibniz diferenças estruturais, todas as meio da análise detalhada das
escreveu uma réplica aos argumentos línguas humanas foram geradas a faculdades mentais do homem, buscou
empiristas de Locke em seu Novos partir dessa base comum. Locke definir os limites exatos do que é
ensaios acerca do entendimento desempenhou importante papel ao cognoscivel. •

JohnLocke Nascido em 1632, filho de um de direitos naturais à propriedade


advogado inglês, John Locke privada. Locke fugiu da Inglaterra
recebeu uma boa educação graças a duas vezes como exilado político,
ricos protetores. Estudou primeiro mas retornou em 1688, após a
na Westminster School, em Londres, ascensão de Guilherme e Maria
depois em Oxford. Ficou ao trono. Ali pe rmaneceu,
impressionado com a abordagem escrevendo e ocupando vários
empírica da ciência, adotada pelo cargos no governo, até sua morte
químico pioneiro Robert Boyle, de em 1704.
quem se tornou ajudante no
trabalho experimental. Obras-chave
Embora as ideias empíricas de
Locke sejam importantes, foram 1689 Carta acerca da tolerância
seus textos políticos que o 1690 Ensaio acerca do
tornaram famoso. Ele propôs uma entendimento humano
teoria de contrato social da 1690 Dois tratados sobre o
legitimidade d o governo e a ideia governo
134
EM CONTEXTO
ÁREA
Epistemologia
ABORDAGEM
Racionalismo
1 ANTES
1 1340 Nicolau de Autrecourt
argumenta que não há verdades
necessárias sobre o mundo,
apenas verdades eontingentes.
1600 Descartes aftrma que as
ideias surgem de três maneiras:
derivadas da experiência,
inferidas a partir da rçizão ou
GOTTFRIED LEIBNIZ (1646-1716) conhecidas de maneira inata
{criadas na mente por Deus).
DEPOIS
1748 David Hume explora a
distinção entre verdades
, . .
necessar1as e contingentes.
1927 Alfred North Whitehead
postula os "entes reais", similar
às mônadas de Leibniz, qué
refletem todo o universo em si
mesmas.

om frequência, a filosofia
moderna é apresentada
dividida em duas escolas, a dos
racionalistas (incluindo René Descartes,
Bento de Espinosa e Immanuel Kant) e
a dos empiristas (incluindo John Locke,
George Berkeley e David Hume). Vá rios
filósofos não se encaixaram
automaticamente neste ou naquele
grupo, cada qual sendo ao mesmo
temp o semelhante e diferente dos
outros de maneira complexa .
Entretanto, a diferença essencial entre
as duas escolas era epistemológica: elas
divergiam em suas opiniões sobre o
que podemos saber e como sabemos
o que sabemos. Dito de maneira
simples, os empiristas sustentavam que
o conhecimento deriva da experiência,
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
ARENASCENÇA EAIDADE DA RAZÃO 135
Ver também: Nicolau de Autrecourt 334 • René Descartes 116-123 • David
Hume 148-153 • Immanuel Kant 164-1l71 • Alfred North Whitehead 336

Essa noção contém toda


Toda coisa no mundo tem verdade sobre essa coisa,
uma nocão

distinta . incluindo sua conexão com
outras coisas.

I Gottfried Leibniz
Podemos analisar
essas conexões por meio
da reflexão racional. Filósofo e matemático alemão,
Gottfried Leibniz nasceu em
Leipzig. Depois da
universidade, trabalhou no
serviço público de Mainz por
cinco anos, durante os quais se
concentrou principalmente em
Quando a análise
Quando a análise é infinita,
não podemos alcançar textos políticos. Após um
é finita, podemos período viajando, assumiu o
a verdade final pela razão,
alcançar a verdade final. cargo de bibliotecário do duque
somente pela experiência.
de Brunswick, em Hanover, e lá
permaneceu até a morte.
- '1 -~

Durante o último período da


vida, desenvolveu a maior parte
de seu excepcional sistema
filosófico.
Essas são as verdades Essas são as verdades Leibni z é famoso na
de razão. de fato. matemática pela invenção do
chamado "cálculo
infinitesimal" e pela polêmica
subsequente, pois tanto
Leibniz quanto Newton
enquanto os racionalistas afirmavam reivi ndicaram a autoria da
que o conhecimento pode ser adquirido descoberta. Parece estar claro
exclusivamente por meio da reflexão que ambos a alcançaram, de
racional. fato, independentemente, mas
Leibniz era um racionalista e sua Leibniz desenvolveu uma
Sabemos de quase notação muito mais prática,
distinção entre verdades d e razão e
verdades de fato marca um desvio
nada adequadamente, aínd!.a hoje empregada.
interessante do debate entre
de poucas coisas a priori,
racionalismo e empirismo. Sua
e da maioria por meio da Obras-chave
exper1enc1a.
"· A •

alegação, revelada em sua obra


famosa, A monadologia, é ,q ue, em Gottfi-ied Wilhelm 1673 A profl.ssão de fé do fi.lósofo
princípio, todo conhecimento pode ser Leibniz 1685 Discurso de metafísica
1695 O novo sistema da
acessado pela reflexão racional. No
natureza
entanto, devido a deficiências de suas 1710 Teodiaeia
faculdades racionais, os seres 1714 A monadologia
humanos também devem contar com >>
136 GOTIFRIED LEIBNIZ
Um mapa da internet mostra as
incontáveis conexões entre os usuários
da rede. A teoria das mónadas de Leibniz
sug.ere que todas as nossas mentes estão
con.ectadas de n~aneira similar.

Dells criou as coisas - em um estado


de "harmonia preestabelecida".
Leibn1z afirmou que toda ment e
hu1nana é uma mônada que contém
uma representação completa do
universo. Portanto, é possível para nós,
em principio, aprender tudo o que há
para saber sobre o inundo, e o que
está além, s implesrnente explorando
nossas mentes. Assim, ao fazer uma
análise simples de minhí'i noção da
estrela Betelgeuse, por exemplo, eu
seria capaz, ao fim, de determinar a
temperatura na superfície da estrela
Betelgeuse real. No ent anto, na
prática, a análise que é exigida de
mim para alcançar essa informação é
impassivelmente complexa - Leibniz
chama-a de "infinita" -, e, como não
posso acessá-la,, a única maneira de
que disponho para descobrir a
a experiência como meio de aquisição às "verdades de razão" de Leibniz. temperatura de Betelgeuse é
de conhecimento. Entretanto, como a mente humana medindo-.a empiricamente com um
pode apreender apenas um pequeno equipamento astronômico.
O universo em nossas número de tais verdades (como A temperatura na superfície de
mentes aquelas da matemática), tem então de Betelgeuse é uma verdade de razão ou
Para ent·ender como Leibniz chegou a contar também co1n a experiência - o uma verdade de fato? De fato, a.inda
essa conclusão, precisamos que produz as "verdades de fato". que eu tenha recorrido a métodos
co1npreender um pouco de sua Desse modo, como é possível empíricos para descobrir a resposta, se
metafísica, de sua visão sobre como o progredir do conhecimento de que
universo é construído. Ele dizia que agora está nevando, por exemplo, para
cada parte do mundo, cada coisa saber o que vai acontecer amanhã em
individual, tem um conceito distinto, algum lugar do outro lado do mundo?
ou "noção", associado a ela, e que cada Para Leibniz, a resposta está no fato de
uma dessas noções contém em si tudo que o universo é composto de
o que é verdacleiro sobre si mesmo, substâncias simples, individuais, Cada substância singular
incluindo suas relações com outras chamadas "mônadas". Cada mônada exprime todo o universo à sua
, ' '
coisas. Segundo Leibniz, como tudo está isolada de outras mônadas, e cada propr1a maneira.
no universo está conectado, cada uma contém uma completa Gottfried Wilhelm
noção está conectada a outra noção, representação de todo o universo em Leibniz
de modo que é possível - ao menos em seu estado passado, presente e futuro
princípio - rastrear essas conexões e Essa representação está sincronizada
descobrir verdades sobre o universo entre todas as mónadas, de modo que
inteiro exclusivamente por meio da cada uma delas tem o mesmo conteúdo.
reflexão racional. Tal reflex.ão conduz De acordo com Leibniz, é assim que
ARENASCENÇA EAIDADE DA RAZÃO 137
minhas faculdades racionajs fossem que todas as verdades são verdades de
melhores eu também poderia ter razão, às quais teríamos acesso se
descoberto a mesma resposta por meio pudéssemos concluir nossa análise
da reflexão racional. Se é uma verdade racional. Mas se uma verdade de razão
de razão ou uma verdade de fato, é uma verdade necessária, de que
portanto. parece depender apenas da maneira é impossível que a
maneira como chego à resposta - mas temperatura em Betelgeuse seja de
seria isso que Leibniz está afirmando? 2.401 Kellvin em vez de 2.400 Kelvin?
Certamente não é impossível no
Verdades necessárias mesmo sentido de q ue a proposição
O problema em Leibniz é que ele 2 + 2 = 5 é impossível, porque esta A <:alculadora m e cânica foi uma das
sustentou que as verdades de razão contém uma contradição lógica. muitas invenções de Leibniz. A criação é
são "necessárias", querendo dizer que Da mesma maneira, se seguirmos uma prova de seu interesse em
é impossível contradizê-las, enquanto matemática e lógica, campos nos quais
Leibniz e separarmos verdades
se destacou como inovador.
as verdades de fato seriam necessárias e contingentes, teremos o
"contíngentes", passíveis de seguinte problema: posso descobrir o
contestação sem contradição lógica. teorema de Pitágoras refletindo sobre a entre verdades cuja necessidade
Uma verdade matemática é uma ideia de triângulos, entào o teorema de podemos descobrir e verdades cuja
verdade necessária porque contestar Pitágoras deve ser uma verdade de necessidade somente Deus pode ver.
suas conclusões contradiz os razão. Mas a temperatura de Betelgeuse Sabe1nos (se aceita1nos a teoria de
significados de seus próprios termos. e o teorema de Pitágoras são igualmente Leibniz) que o futuro do mundo é
Mas a proposição "está chovendo na verdadeiros e igualmente partes da estabelecido por um deus onisciente e
Espanha" é contingente, porque mónada que é a minha mente. Então, benevolente, que, portanto, criou o
contestá-la não envolve uma por que um deve ser conside rado melhor mundo possível. Mas
contradição em termos - embora contingente e o outro necessário? chamamos o futuro de contingente, ou
ainda seja factualrnente incorreta. Além disso, Leibniz nos dizia que, indeterminado, porque, como seres
A distinção de Leibniz entre ao passo que ninguém pode alcançar humanos limitados, não podemos ver o
verdades de razão e verdades de fato o fim de uma análise infinita, Deus seu conteúdo.
não é simplesmente epistemológica pode apreender o universo todo de
(sobre os limites do conhecimento), uma vez: para Ele, só há verdades O legado de Lei bni z
mas também metafísica (sobre a necessárias. A diferença entre uma Apesar das dificuldades inerentes à
natureza do mundo), e não é evidente verdade de razão e uma verdade de teoria de Leibniz, suas ideias
que seus argumentos sustentem sua fato, portanto, parece ser uma questão continuaram a dar corpo ao trabalho
alegação metafísica . A teoria de de como alguém chega a conhecê-la de numerosos filósofos. incluindo
Leibniz das mônadas parece sugerir - e, nesse caso, é difícil entender por David Hume e Immanuel Kant. Kant
que a primeira deve sempre ser refinou as verdades de razão e
considerada como necessariamente verdades de fato de Leibniz numa
verdadeira, enquanto a segunda pode distinção entre afirmações "analíticas"
ou não ser verdadeira. e "sintéticas" - divisão que
permaneceu como fundamental para a
Deus co·m preende tudo Um futuro incerto filosofia europeia desde ent ão.
por meio da verdade eterna, Ao explicar um plano no qual um Deus A teoria das mônadas de Leibniz
já que Ele não precisa da onipotente e on1sc1ente cria o uruverso,
" • ' 1 "
não mereceu igual reverência, tendo
exper1enc1a.
• A •
Leibniz inevitavelmente enfrentou o sido criticada por sua extravagância
Gottfried Wilhelm problema de explicar a noção do livre- metafísica. No século XX, a ideia foi
-arbítrio. Como posso escolher agir de redescoberta por cientistas que se
Leibniz
certa manéita se Deus já sabe éomo intrigaram com a descrição de Leibniz
vou agir? Mas o problema vai mais do espaço e do tempo como um
fundo: parece não haver nenhum lugar sistema de relações, em vez dos
para contingência genuína. A teoria de absolutos da física newtoniana
Leibniz só permite urna distinção: tradicional. •
138
EM CONTEXTO
ÁREA
Metafísica
ABORDAGEM
Idealismo
ANTES
e. 380 a.e. Na República, Platão
apresenta sua teoria das formas,
que afirma que o mundo da
experiência é uma sombra
imperfeita da realidade_

GEORGE BERKELEY (1685-1753) DEPOIS


1781 Immanuel Kant
desenvolve a teoria de Berkeley
num "idealismo transcendental",
segundo o qual o mundo que
experimentamos é apenas
• •
aparenma.
1807 Georg Hegel substitui
o idealismo de Kant por
"ídealismo absoluto", teoria na
qual a realidade absoluta é
o espírito.
1982 Em seu livro The case for
idealism, o filósofo britânico
John Poster defende uma versão
do idealismo de Berkeley.

omo John Locke antes dele,


George Berkeley foi um
empirista, o que significa que
via a experiência como fonte primária
do conhecimento. Essa abordagem,
que pode ser remontada a Aristóteles,
contrasta com a visão racionalista de
que, em princípio, todo conhecimento
pode ser adquirido exclusivamente por
meio da reflexão racional. Berkeley
compartilhava dos mesmos
pressupostos de Locke, mas chegou a
conclusões bem diferentes. De acordo
com Berkeley, o empirismo lockeano era
moderado, pois ainda admitia a
existência de um mundo independente
dos sentidos e seguia René Descartes
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
ARENASCENÇA EAIDADE DA RAZÃO 139
Ver também: Platão 50-55 • Aristóteles 56-63 • René Descart es 116-123 •
John Locke 130-133 • lmrnanuel Kant 164-171 • Georg Hegel 178-185

O que percebemos
Todo conhecimento
são ideias ,
vem da percepção.
não coisas em si.

George Berkeley
George Berkeley nasceu e foi
Então o mundo criado no Castelo Dysart, perto
Uma coisa em si
consiste apenas da cidade de Kilkenny, Irlanda.
deve estar fora da
em ideias ... . -~
exper1enc1a.
Primeiro, ingressou no
Kilkenny College; depois, no
Trinity College, Dublin. Em
1707, foi eleito fellow em
Trinity e ordenado ministro
1 anglicano. Em 1714, tendo
escrito todas as suas
principais obras filosóficas,
deixou a Irlanda para viajar
Uma coisa só existe pela Europa, passando a maior
...e mentes
que percebem
na medida em parte do tempo em Londres .
essas ideias. que ela percebe ou Ao retornar, tornou-se deão
é percebida. de Derry. No entanto, seu
principal i nteresse era um
projeto para fundar um
seminário nas Bermudas. Em
1728, viajou até Newport,
Rhode Island, com a esposa
ao considerar os humanos como seres Ann e Fost er, e passo u três
0

constituídos de duas substâncias anos tentando levantar fundos


distintas, mente e corpo. para o seminário. Em 1731 ,
O empirismo de Berkeley era milito quando ficou claro que o
mais extremo, e o levou a uma posição projeto não vingaria, retornou
conhecida como "idealismo a Londres. Três anos depois
imaterialista". Isso significa que ele era Não existe essa tornou-se bispo de Cloyne,
monista, acred1tando que há apenas coisa que os filósofos Dublin, onde viveu pelo resto
um tipo de substância no universo e, chamam de substância da vida.
também, idealista, defendendo que material.
essa substância única é a mente, ou George Berkeley Obras-chave
pensamento, em vez da matéria.
A posição de Berkeley costuma ser
1710 Tratado sobre os princípios
resumida pela frase latina esse est
do conhecimento humano
percipi ("ser é ser percebido"), mas 1713 Três diálogos entre Hylas e
talvez tenha melhor tradução com esse Philonous
est aut perciperi auc percipi ("ser é >>
140 GEORGE BERKELEY
a outras ideias. E como nossa única
experiência do mundo vem de nossas
ideias, estaria equivocada qualquer
alegação de que até podemos entender
a noção de "coisas físicas". O que

Se existissem corpos Uma ideia não se assemelha realmente compreendemos são coisas
a nada, senão a uma ideia; mentais. O mundo é construído
externos, seria imp ossível puramente de pensamento; qualquer
. '
que v1essemos uma cor ou figura não se
assemelham a nada, exceto ser que não esteja percebendo (um
a conhecê-los. a uma outra cor ou figura. perceptor) só existe como uma de
George Berkeley nossas percepções.
George Berkeley
A causa da percepção
Se as coisas que não são perceptores
só existem na medida em que são
percebidas, contudo, isso parece
significar que, quando saio da sala,
perceber ou ser percebido"). Porque, de argumentava, nossa compreensão da minha mesa, meu computador e meus
acordo com Berkeley, o mundo causalidade (o fato de que certos livros deixam de existir, porque não
consiste apenas em mentes, que eventos causam outros) é baseada estão mais sendo perceptíveis. A
percebem, e suas ideias. Isso não quer inteiramente na experiência de nossas resposta de Berkeley a tal tipo de
dizer que negue a existência do próprias volições (o modo como impasse: nada é sempre não percebido
mundo externo ou afirme que este provocamos os eventos para que - quando não estou em minha sala,
seja, de alguma maneira, diferente ocorram conforme a ação de nossa ela ainda assim é percebida por Deus.
do que percebemos. Sua alegação é de vontade). Segundo Berkeley, não é Sua teoria, portanto, não depende
que todo conhecimento deve vir da errado projetar nossa experiência de apenas da existência de Deus, mas de
experiência, e que tudo a que temos ação volitiva sobre o mundo - o que um tipo particu lar de Deus,
acesso são nossas percepções. E já fazemos quando dizemos que o mundo constantemente envolvido no mundo.
que essas percepções são apenas causa as ideias que temos sobre ele. O Para Berkeley, o envolvimento de
"ideias" (ou representações mentais), problema é que não existe, de fato, algo Deus no mundo vai além. Como vimos,
não temos motivo para acreditar que como urna "causa física" das ideia s, ele afirmou que não há causas físicas,
qualquer coisa exista, senão ideias e porque não haveria um mundo físico mas apenas "volições", ou atos de
aqueles que percebem as ideias. para além do mundo de ideias que vontade, de onde resulta que só um
possivelmente possa ser a causa de
Causalidade e volição nossas ideias. O único tipo de causa
O alvo de Berkeley era a visão de que há no mundo, de acordo com
mundo de Descartes elaborada por Berkeley, é precisamente o tipo volitivo
Locke e pelo cientista Robert Boyle. de causa que é o exercício da vontade.
Nessa abordagem, o mundo físico é Em sua segunda objeção, Berkeley
constituído de um vasto número de afirmou que, como as ideias são entes
partículas físicas, ou "corpúsculos", mentais, não podem se assemelhar a
cuja natureza e cujas interações dão entes físicos, porque os dois tipos de
origem ao mundo corno o coisa têm propriedades
compreendemos. O que era mais completamente diferentes. Uma
controverso, para Berkeley, é que essa pintura ou uma fotografia podem se
visão também sustentava que o mundo assemelhar a um objeto físico porque
origina as ideias perceptivas que temos elas mesmas são uma coisa física.
Ilusões óticas são impossíveis para
dele, segundo o modo como o mundo Mas pensar em uma ideia
Berkeley. Já que um objeto é como ele
interage com nossos sentidos. assemelhando-se a um objeto físico é aparenta ser. Um canudo submerso na
Berkeley tinha duas objeções confundi-la com uma coisa fisica. água, por exemplo, realmente está dobrado:
principais a essa teoria. Primeiro, ele Ideias, então, só podem se assemelhar visto na lupa, realmente está maior.
ARENASCENÇA EAIDADE DA RAZÃO 141
ato de vontade pode produzir as ideias Uma árvore pode cair se não há ninguém
que temos sobre o mundo. No entanto, para observá-la? Objetos só podem e)Qstir
não tenho o controle da minha enquanto percebidos, de acordo com
Berkeley. Entretanto, a árvore pode
experiência do mundo e não posso
cair, porque a árvore (como o
escolher o que sinto; o mundo resto do mundo) é sempre
simplesmente apresenta-se a mim do percebida por Deus. /
/
''
1nodo que é. Portanto, as volições que
,/

/
/ '' ......
originam minhas ideias sobre o /
,/
''
mundo não são minhas, mas de Deus. /
/
''
Para Berkeley, então, Deus não apenas /
/
''
nos cria como perceptores, mas é a
,/
/
''
/
/
' ......
causa e o constante criador de todas ' .....
......
as nossas percepções. Isso levanta
......
uma quantidade de questões. A mais
urgente: por que e como, às vezes,
' ......

percebemos as coisas incorretamente?


'' ......

Deus quer nos iludir? ./


"
./

/
Berkeley tentou responder essa ./

questão a firmando que nossas
percepções nunca estão, de fato,
equivocadas; erramos nos julgamentos
sobre aquilo que percebemos. Por
exemplo, se um remo mergulhado até
a metade na água me parece dobrado,
então ele realmente está dobrado: a haver, de fato, dois remos: um que eu de que a única coisa que posso ter
circunsLância em que incorro no erro é vejo e um que eu toco. Ainda mais certeza de que exista, ou que possa de
ao pensar que e1e somente aparenta prob1emático para Berkeley, contudo, fato existir, sou eu mesmo.
estar dobrado. seria o fato de que duas pessoas Há uma solução possível ao
No entanto, o que acontece se toco diferentes vendo o mesmo remo solipsismo. Já que posso produzir
a água e apalpo o remo? Ele devem, de fato. estar vendo dois remos mudanças no mundo - tal como
certamente dá a sensação de estar diferentes, uma vez que não há um levantar minha própria mão - e já que
reto. E já que o remo não pode ser reto úrúco e "real" remo para o qual suas percebo mudanças similares nos
e dobrado ao mesmo tempo, deve percepções convirjam. corpos de outras pessoas, posso
concluir que aqueles corpos são
O problema do solipsismo também modificados por uma
Um fato inevitável do sistema Berkeley, "consciência" dentro deles. Todavia, o
portanto, parecer ser que nunca problema para Berkeley é que não há
percebemos as mesmas coisas. Cada uma mão "real" sendo levantada - o
um de nós está preso em seu próprio máximo que uma pessoa pode fazer é
Todos os coros do céu e bens mundo, apartado dos mundos das ser a causa da ideia de sua própria
da terra - em uma palavra, outras pessoas. O fato de que Deus mão se levantando - mas somente a
todos aqueles corpos que tenha a ideia de um remo não nos ajuda ideia delas (não de outra pessoa) de
compõem a estrutura do aqui, porque essa seria uma terceira mão levantada. Em outras palavras, eu
mundo - não têm qualquer ideia e, por consequência, um terceiro ainda dependo de Deus para fornecer
subsistência sem uma mente. remo. Deus originou minha ideia e a minha própria ideia de outras: pessoas
George Berkeley sua ideia, mas. a menos que levantando a mão. Assim, longe de nos
compartilhemos de uma única mente suprir com certeza empírica, Berkeley
entre nós e com Deus, ainda há três deixou-nos dependentes - para nossa
diferentes ideias - então, há três ideia de mundo e da existência de
remos diferentes. Isso nos conduz ao outras mentes - da fé num Deus que
problema do solipsismo· a possibilidade nunca nos iludiria. •
144 INTRODUÇÃO

O primeiro
volume da Publicação da inovadora
Enciclopédia de obra política de Declaração de Immanuel Kant
Denis Diderot Jean-Jacques Rousseau, Independência dos publica Crítica
é publicado. O contrato socíal. Estados Unidos. da razão pura.

1751 1762 1776 1781

1759 11763 1780 1789

Voltaire publica Cândido" O Tratado de Paris Jeremy Bentham A Queda da


romance que satiriza a noção torna a Grã-Bretanha o desenvolve a teoria do Bastilha em Paris
de Leibniz de que "tudo é para principal poder colonial utilitarismo em Uma marca o início da
o melhor no melhor dos na América do Norte. introdução aos princípios Revolução
mundos possíveis". da moral e da legislação, Francesa.
publicado apenas em 1789.

urante a Renascença, a comércio deram origem a uma classe tanto urna democracia liberal quanto
Europa tinha evoluído para média urbana com prosperidade sem um sistema para os direitos civis
um conjunto de nações precedentes. As nações mais ricas, modernos.
separadas, e antes era um como Grã-Bretanha, França, Espanha, A situação na França era menos
continente unificado sob o controle Portugal é Hólanda, estabeleceram estável. O racionalismo de René
da Igreja. Enquanto o poder era colônias e impérios ao redor do Descartes deu lugar a uma geração
transferido a país.as autônomos, mundo. de philosophes, filósofos políticos
distintas culturas nacionais se radicais que popularizariam o novo
formaram, o que se verificava nas França e Grã-Bretanha modo de pensan1ento científico. Entre
artes e na literatura , mas também A filosofia progressivamente eles, estavam o satirista Voltaire e o
n·os estilos filosóficos que surgiram concentrou-se em questões sociais e enciclopedista Denis Diderot, mas o
no século XVII. políticas, também segundo visões mais revolucionário foi Jean-Jacques
Na Idade da Razão havia uma nacionais. Na Grã-Bretanha, onde uma Rousseau. Sua visão de sociedade
nítida diferença entre o racionalismo revolução já tinha começado e governada pelos princípios de liberté,
da Europa continental e o empirismo terminado, o empirismo alcançou o egalité e fraternité (liberdade,
dos filósofos britânicos, e no auge nas obras de David Hume, igualdade e fraternidade) propiciou o
século XVIII a filosofia continuou a enquanto o novo utilitarismo grito d.e guerra da Revolução
se concentrar na França e na Grã- dominava a filosofia política. Tudo isso Francesa de 1789, e desde então
-Bretanha, enquanto se desenrolava evoluiu ao lado da Revoluç.ão Industrial inspira pensadores revolucionários.
o período do iluminismo. Valores iniciada na década de 1730, quando Rousseau acreditava que a civilização
antigos e sistemas feudais se pensadores como John Stuart Mill era uma influência corruptora sobre
esfacelaram ao mesmo tempo em que refinaram o utilitarismo de Jeremy ' que sao
as pessoas, ., ' . .
inst1nt1vamente
as novas nações fundadas sobre o Bentham e ajudaram a estabelecer boas. Essa parte de seu pensamento
-
AERA DA REVOLUÇAO 145

Napoleão As potências
Bonaparte S0ren Kierkegaard. Cha.r les Darwin publica europeias começam
proclama-se escreve Ou isso A origem das espécies, a colonização em
imperad-0r da ou aquilo e Temor explicando sua teoria da grande escala do
França. e Tremor evolução. continente africano.

1802 1843-46 1859 Década de 1880

1807 1848 1861 1890

Georg Hegel Karl Marx publica o John Stuart Mi!ll O principal


publica Fenon1enologia Manifesto comunista. publica Utilitarismo. pragmatista,
do espiiito. Movi1nentos William James,
revolucionários varrem a publica Princípios
Europa. de psiço!ogir:i.

deu o tom para o movimento seguinte alguns anos mais jovem do que Hume revolucionária filosofia polít1ca
do romantismo. e Rousseau, Kant pertencia à geração francesa e a teoria econômica
No período romântico, a literatura, seguinte: suas principais obras britânica. Mais tarde escreveu
a pintura e a música europeias filosóficas foram escritas depois da O capital, uma das obras filosóficas
adotaram uma visão idealizada da morte dos antecessores, e sua nova mais influentes de todos os tempos.
natureza, em acentuado contraste com interpretação sobre o universo e o Mesmo décadas após sua morte,
a elegância urbana sofisticada do conhecimento conseguiu integrar as nações de todo o mundo tinham
iluminismo. A diferença principal abordagens do racionalismo e do organizado estados de acordo com
talvez fosse a maneira pela qual os empirisrno de maneira mais princípios marxistas.
românticos valorilzavam o sentimento conveniente tanto ao romantismo Nesse ínterim, nos Estados
e a intuição acima da razão. O quanto à cultura alemã. Unidos, que derrubara o governo
movimento dominou toda a Europa, Os seguidores de Kant incluíam colonial britânico para estabelecer
prosseguindo até o fim do século XIX. Fichte, Schelling e Hegel (que, juntos, uma república baseada em valores

se tornaram conhecidos como iluministas, começou a se desenvolver
lde.a lismo alemão idealistas alemães), mas também uma cultura americana independente
A filosofia alemã veio dominar o séc·ulo Schopenhauer, cuja interpretação das raízes europeias. A princípio
XIX, em grande parte, devido à obra singular da filosofia de Kant romântica, no final do século XIX essa
de Immanuel Kant. Sua filosofia i11corporava ideias da filosofia cultura produziu uma linha local de
idealista - que afirmava que nunca oriental. filosofia, o pragmatismo, que investiga
podemos saber nada sobre as coisas Entre os herdeiros do rígido a natureza da verdade, acompanhando
que existem para além de nós m.esmos idealismo de Hegel estava Karl Marx, os matizes democráticos da nação e
- alterou radicalmente o curso do que de maneira brilhante uniu os adequando-se lbem à cultura do novo
pensamento filosófico. Embora apenas métodos filosóficos alemães, a século. •
146

, IW ,

ADUVIDA
,.,, NAO EUMA
,
CONDI AO AG AVEL,
MAS
, ACERTEZA
EABSURDA
VOLTAIRE (1694-1178)

oltaire foi um intelectual irrestritamente as explicações da


EM CON'l'EXTO francês que viveu durante o Igreja sobre o que, por que e como as
iluminismo, período coisas existiam, mas tanto os
ÁREA
caracterizado pelo questionamento cientistas quanto os filósofos já
Epistemologia
intenso sobre o mundo e sobre como apresentavam abordagens diferentes
ABORDAGEM as pessoas viviam nele. Os filósofos e para estabelecer a verdade. Em 1690,
Ceticismo escritores europeus voltaram sua o filósofo John Locke argumentou que
atenção para as autoridades nenhuma ideia era inata - todas as
ANTES reconhecidas, tais como Igreja e ideias nasciam exclusivamente da
350 a.e. Aristóteles faz a Estado, a fim de questionar sua experiência. Seu argumento ganhou
primeira referência à mente de validade e suas ideias, ao mesmo peso adicional por causa do cientista
uma crianÇà como "lousa vazia", tempo em que buscavam novas Isaac Newton, cujos experimentos
que mais tarde se fixaria no perspectivas. Até o século XVII, os forneceram novas formas de descobrir
conceito de "tábula rasa". europeus tinham aceitado verdades sobre o mundo. Foi contra
1.690 JohTuLocke argumenta
que a experiência sensorial - - - -- - - -- - · · . . .-C!":f , •••

permite a Grianças e adultos


Todo fato ou teoria Não nascemos com ideias
qdquirir conhecimento confiável
na história foi revisto em e conceitos prontos
sobre o mundo externo. em nossas cabeças.
algum momento.
DEPOIS
1859 John Stuart Millrefuta
a suposição de nossa p,rópria
infalibilidade em Sobr e a
Toda ideia ou teoria pode
liberdade. ser desafiada.
1900 Hans-Georg Gadamer e os
pós-modernistas aplicam o
pensamento cético a todas as
formas de conhecimento, até
mesmo àquele adquirido pela
informação empírica, baseada
nos sentidos.
AERA DA REVOLUÇÃO 147
Ver também: Aristóteles 56-63 • John Locke 130-133 • David Hume 148-153 • John Stuart Mill 190-193 • Hans-Georg
Gadamer 260-261 • Karl Popper 262-265

Para Voltaire, o s experimentos


científicos do iluminismo pareciam
conduzir a um mundo melhor, baseado
em evidência empírica e curiosidade
sem restrições.

esse pano de fundo de rebelião contra


as tradições que Voltaire declarou que
a certeza é absurda.
Voltaire refuta a ideia de certeza de
duas maneuas. Primeiro, ele mostrou
que, à exceção de algumas pouca s
verd ades necessárias da matemática e
da lógica, quase todo fato e teoria na
história foi revisto em algum momento.
Então, o que parece ser "fato" é
realmente pouco mais do que uma
hipótese de trabalho. Segundo, ele
concordou com Locke de que não ponto de vista lógico. Suponclo que o si mesmo. Mas Voltaire acreditava q_ue
existem ideias inatas, e mostrou que as desacordo sem fim é, por é de vital importância duvidar de todo
ideias que temos a impressão de consequência, inevitável. Voltaire "fato" e desafiar toda autoridade. Ele
conhecer como verdadeiras desde o enfatizou a importância de defendeu a limitação do poder do
nascimento podem ser apenas culturais, desenvolver um sistema, como a governo, mas a liberdade de expressão
já que elas variam de nação para nação. ciência, para estabelecer o acordo. não pode ser censurada, afirmando que
Ao afirmar que a certeza é mais a ciência e a educação levam ao
Dúvida revolucionária agradável do que a dúvida, Voltaire progresso material e moral. Esses eram
Voltaire não chegou a afirmar que não insinua o quanto é mais fácil ideais funda mentais tanto do
existem verdades absolutas, mas não simplesmente aceitar as declarações iluminismo quanto da Revolução
via meios de alcançá-las. Por essa oficiais - como as da monarquia ou da Francesa, deflagrada 11 anos depois da
razão, enunciou que a dúvida é o único Igreja - do que desafiá-las e pensar por morte de Voltaire. •

Voltaire Voltaire era o pseudônimo d!o especulaçã o financeira e,


escritor e pensador francês finalmente, pôde dedicar-se
François Marie Arouet. Ele nasceu apenas aos livros. Teve vários
numa família de classe média, em re lacionamentos longos e
Paris, como o mais jovem de três escandalosos e viajou muito pela
filhos. Estudou direito na Europa. No final da vida, fez
universidade, mas sempre preferiu campanha vigorosa pela reforma
escrever. Por volta de 1715, era legal e contra a intolerância
famoso pelo talento literário. Seus religiosa, na França e em outros
textos satíricos com frequência o lugares.
deixavam em d ificuldade: foi preso
diversas ve zes por insultar a Obras-chave
nobreza e até exilado. Isso o levou
a um período na Inglaterra, onde 1733 Cartas filosóficas
sucumbiu à influência da filosofia e 1734 Tratado de metafísica
da ciência inglesa. De volta à 1759 Cândi do
França, enriqueceu por m eio d a 1764 Dicioná.rio filosófico
DAVID HUME 1711-1776
'

,
.,

'


150 DAVID HUME
avid Hume nasceu numa da mente em dois tipos d e fenômenos
EM CONTEXTO época em que a filosofia e, depois, perguntando como eles se
,
europeia era do111inada pelo relacio11am um com o outro. Os dois
AREA fenômenos são "impressões" - ou
debate sobre a natureza do
Epistemologia
conhecimento. René Descartes tinha. percepções diretas, que Hume chama
ABORDAGEM na prática, preparado o palco para a de "sensações, paixões e emoções" - e
Empirismo filosofia moderna em Discurso sohre o "ideias", ou seja, cópias pálidas das
1nétodo, deflagrando um movime.nto de nossas impressões, tais como
ANTES racionalismo que afirmava que o pensamentos, reflexões e imaginação.
1637 René Descartes abraça o conhecimento pode ser alcançado Ao analisar essa distinção, Hume
i;aciorralismo érti ·séu DisCl.lÍSO exclusivamente pela reflexão racional. chegou a um.a conclusão inquietante,
sobre o m étodo. Na Grã-Bretanha, John Locke lançara o que põe em xeque nossas crenças
1690 John Locke expõe as contra-ataque com seu argumento mais estimadas. não apenas sobre
empirista de que o conhecimento pode lógica e ciência, mas sobre a natureza
razões -.a favor do empirismo em
ser obtido somente a partir da do mundo.
Ensaio aeerca do entenditilento
experiência. George Berkeley aderiu,
hu1n,ano.
formulando sua própria versão de
I?EPOlS empirismo, de acordo com a qual o
1781 Immanuel Kant inspira-sé mundo só existe na medida em que é
em Buwe par.a esorever suçi percebido. Mas foi Htlffie, o terceiro dos
Crítica da razão puta. principais empiristas britânicos, que
aplicou o maior golpe no racionalismo Em nossos raciocínios a
1844 Arthur Schopenhauer com seu argumento apresentado em respeito dos fatos, existem
reconhece seu.débito com Tratado da natureza humana. todos os graus imagináveis
Hume em O mundo como de certeza. Um homem
vontade e com© representação. O d ilema de Hume sábio, portanto, ajusta sua
1934 Karl P0pper propõe a Com uma clareza de linguagem crença à evidência.
falsificação como base para o notável, Hume lançou um olhar cético DavidHume
para o problema do conhecimento e
métoâo cientí:fi.co, em O):Jósição à
argumentou energicamente contra a
observação e $.inc;lução.
noção de "ideias inatas", um principio
central do racionalismo. Ele o fez
primeiramente ao dividir o conteúdo

DavidHume Nascido em Edimburgo, Escócia, em e tornou-se mais conhecido


1711, Hmne foi criança prôdíg-io: corno fi lósofo. Os controvér sos
entrou na Universidade de Diálogos sobre a religião natural
Edimburgo aos do2e anos. Por volta ocuparam os anos finais de
de 1'729, dedicou seu tempo a Hume e, por causa do que
encontrar "algum meio pelo qual chama·va de sua "abundante
a verdade possa ser estabelecida" precaução", só foram publicados
e, depois de sofrer um colapso após sua morte em Edimburgo,
nervoso, mudou-se para La Fleche, em 1776.
em Anjou, F rança. Ali, escreveu o
Tratado da natureza humana, que Obras-chave
explica quase todas a::; S\laS i<;l.eias
filosóficas, antes de retornar a 1739 Tratado da natureza humana
Edimburgo. 1748 Investigação acerca do
Em 1763, foi nomead·o para a entendimento humano
embaixada em Paris, onde ficou 1779 Diálogos sobre a religião
amigo de Jean-Jacques Rousseau natural
AERA DA REVOLUÇÃO 151
Ver também: Platão 50-55 • Aristóteles 56-63 • René Descartes 116-123 • John Locke 130-133 • George Berkeley 138-141
• lmmanuel Kant 164-171 • Ludwig Wittgenstein 246-251 • Karl Popper 262-265

O problema, para Hume, é que


muito frequentemente temos ideias
que não podem ser sustentadas por
nossas irnpressões - e Hume se dispôs Adquiro o hábito de
Vejo o sol nascer esperar o sol nascer
a examinar até que ponto este é o toda manhã.
toda manhã.
caso. Para entender o que ele quis
dizer, devemos notar que para Hume
existem apenas dois tipos de
. - . , .
propos1çoes: rac1oc1mos
"demonstrativos" e "prováveis".
Segundo Hume, na experiência
cotidiana de algum modo
confundimos os dois tipos de Aprimoro isso
no julgamento "o sol
conhecimento que eles e xpressam.
nasce toda manhã".
O raciocínio demonstrativo é aquele
cuja verdade ou falsidade é
autoevidente Tome-se, por exemplo, o
enu nc1ado 2 + 2 = 4. Negar esse
raciocínio envolve uma contradição
lógica - em outras palavras, afumar que
2 + 2 não é igual a 4 é ser incapaz de Esse julgamento não pode O julgamento não pode
ser uma verdade de lógica, ' .
apreender os significados dos termos "2" ser emp1r1co porque
ou "4" (ou"+" ou"="). Os raciocinios pois é concebivel que o sol não posso observar
demonstrativos na lógica, na não nasça (ainda que o nascer futuro do sol.
matemática e no raciocínio dedutivo são altamente improvável).
conhecidos por serem verdadeiros ou
falsos a priori - ou seja, "prévio à
experiência". Por outro lado, a verdade
de um raciocínio provável não é
autoevidente, pois diz respeito a >>
Não tenho fundamento
racional para minha crença.
mas o hábito me diz que ela
é provável.

Oh6hltoé
o g1ande gula
A matemá tica e a lógica produzem o davldá.
que Hume chama de verdades
"demonstrativas", que não podem ser
refutadas sem contradição. Essas são as
ún1cas certezas na filosofia de Hume.
152 DAVID HUME
que$tões empíricas de fato. Por exemplo, Raciocínio indutivo alegar o oposto não envolve
qualquer afirmação sobre o mundo, tal Não há surpresas no raciocinio de contradição lógica) nem um raciocínio
como "Jim está no andar de cima", é um Hume até aqui, mas as coisas dão provável (porque não podemos
raciocínio provável porque requer a uma estranha guinada quando ele experimentar já o futuro nascer do sol).
evidência empírica para ser considerada aplica essa linha de argumento à O mesmo problema ocorre se
como verdadeira ot.1 falsa. Em outras inferência indutiva - nossa capacidade aplicamos o dilema de Hume à
palavras, sua verdade ou falsidade só de inferir coisas a partir de evidência evidência de causalidade. O enunciado
pode ser conhecida por meio de algum passada. Ao observa rmos um padrão "o acontecimento A provoca o
tipo de experimento - como ir ao andar constante, inferimos que ele vai acontecimento B" parece, diante disso,
de cima para ver se Jim está lá. continuar no futuro, assumindo ser um enunciado que podemos
À luz disso, podemos indagar a tacitamente que a natureza continuará verificar, mas, novamente, isso não
respeito de qualquer raciocínio se ele é a se comportar de maneira uniforme. resiste a t1m exame mais minucioso.
provável ou demonstrativo. Se não é Por exemplo, podemos ver o sol nascer Não há contradição lógica na negação
nenhum deles, então não podemos toda manhã e inferir que ele nascerá de que A p rovoca B (como haveria em
saber se é verdadeiro ou falso; portanto, novamente amanhã. Mas a alegação negar que 2 + 2 = 4), então não pode ser
para Hume, não tem significado. Essa de que a natureza segue esse padrão um raciocínio demonstrativo. Nem
divisão de todos os raciocinios em dois uniforme é justificável? Alegar que o pode ser provado e1npiTícamente, já
tipos p ossíveis é, com frequência, sol nascerá amanhã não é um que não podemos observar todo o
chamado de "dilema de Hume". raciocínio demonstrativo (porque evento A para ver se é seguido por B
- então, também não é um raciocínio
provável. O fato de que, em nossa
De acordo com Hume, os
fundamentos par.a a nossa crença experiência limitada, B invariavellnente
de que o sol nascerá amanhã ou de que segue A não é um fundamento racional
a água, e não frutas, fluirá da torneira para acreditar que A sempre seguirá B,
não são lógicos. São simplesmente o ou que A provoca B.
resultado do condicionamento. que nos Se nunca há qualquer base
ensina que amanhã o mundo será o racional para inferir causa e efeito,
mesmo que é hoje.
então que jusLificativa temos para
fazer essa conexão? Hume explicou
isso simplesmente como "natureza
humana": um hábito mental que
interpreta uniformidade na repetição
regular, assim como uma conexão
causal naquilo que ele chamou de
"conjunção constante" de eventos. Na

A natureza, por uma


necessidade absoluta e
incontrolável, det erminou-nos
para julgar, assim como
para respirar e sentir.
David Rume
AERA DA REVOLUÇÃO 153
A ciência nos supre com informações
cada vez mais detalhadas sobre o mundo.
No entanto, para Hume, a ciência lida
apenas com teoílas e jamais pode
produzir uma "lei da natureza".

realidade, esse tipo de raciocínio


indutivo, que é a base da ciência, nos
instiga a interpretar nossas
inferências como "lei" da natureza.
Mas, apesar do que possamos pensar,
essa prática não pode ser justificada
pelo argumento racional.
Ao dizer isso, Hume apresentou
suas mais fortes razões contra o
racionalismo, porque ele atimou que
é a crença (definida como "uma ideia
vívida relacionada ou associada com
a impressão presente"), guiada pelo
hábito, que está no cerne de nossas
pretensões ao conhecimento, e não
a razão.

O hábito como nosso guia conexão óbvia entre eles. não significativa sobre os filósofos alemães
Hume foi além ao reconhecer que, devemos inferir que o toque de um do século XIX e os positivistas
embora as inferências indutivas não relógio é a causa do toque do outro. lógicos do século XX, os quais
sejam demonstráveis, isso não significa O tratamento de Hume ao acreditavam que apenas afirmações
que sejam inúteis. Afinal, ainda temos "problema da indução", como ficou significativas poderiam ser verificáveis.
uma pretensão razoável para supor que conhecido, tanto abala as alegações A explanação de Hume sobre o problema
algo aconteça, julgando a partir da do racionalismo quanto amplia o papel da indução permaneceu incontestada
observação e da experiência passada. da crença e do hábito em nossas ao longo desse período e ressurgiu na
Na ausência de uma justificativa vidas. Como ele disse, as conclusões obra de Karl Popper, que a utilizou
racional para a inferência indutiva, o obtidas por nossas crenças são "tão para sustentar sua alegação de que
hábito é um bom guia. satisfatórias à mente ... quanto o tipo uma teoria só pode ser considerada
No entanto, Hume advertiu que demonstrativo". cientifica se for falsificável. •
esse "hábito mental" deve ser
aplicado com precaução. Antes de Uma ideia revolucionária
inferir causa e efeito entre dois As ideias inovadoras apresentadas de
acontecimentos, devemos ter maneira brilhante no Tratado da
evidências de que essa sucessão de natureza humana foram quase
acontecimentos tenha sido invariável ignoradas quando publicadas em 1739, Hume estava
no passado e de que há uma conexão apesar de serem o ponto alto do absolutamente certo
necessária entre eles. Podemos prever empirismo britânico. Hume ficou mais ao indicar que a indução
razoavelmente que quando soltamos conhecido em seu pais como o autor não pode ser logicamente
um objeto ele cairá n o chão, porque de História da Grã-Bretanha do que
justificada.
isso é o que sempre aconteceu no por sua filosofia. Na Alemanha, porém,
Karl Popper
passado e há uma conexão óbvia a importância de sua epistemologia
entre soltar o objeto e sua queda. Por teve mais reconhecimento. Immanuel
outro lado, dois relógios com alguns Kant admitiu ter sido despertado de
segundos de diferença tocarão um seu "cochilo dogmático" ao ler Hume,
depois do outro - mas como não há que persistiu como influência
.

JEAN-JAC UES ROUSSEAU 1712-1778


156 JEAN-JACQUES ROUSSEAU

EM CONTEXTO
Quando a ideia de
ÁREA O homem num "estado
propriedade privada se
Filosofia política de natureza" é
desenvolveu, a sociedade
fundamentalmente
ABORDAGEM bom. teve de cnar um sistema
Teoria do contrato social para protegê-la.

ANTES
1651 Thomas Hobbes apresenta
a ideia de um contrato social em
seu livro Leviatã.
1689 A obra Dois tratados sobre
Esse sistema evoluiu
o govemo, de John Locke,
Essas leis vinculam como leis iimpostas
assevera o direito natural por proprietários scbre
as pessoas
humano de defender "a vida, a de forma injusta. aqueles que não tinham
saúde, a liberdade ou os bens". propriedade.
DEPOIS
1791 Os direitos do homem, de
Thomas Paine, argumenta que o
único objetivo do governo é
garantir os direitos do indivíduo.
1848 Karl Marx e Friedrich
Engels publicam o Man jfesto O homem nasce
comunísta. livre e por toda
1971 John Rawls desenvolve a parte encontra-se
ideia da "justiça como acorrentado.
equidade" em seu livro Uma
teoria da justiça.

ousseau era, em grande parte. Igreja e da aristocracia e defendendo hipotético, comparando-a com a
produto do período final do uma reforma social - tal como Voltaire maneira como as pessoas realmente
século XVIII. conhecido como continuamente desafiava a censura viviam em sociedade civil. Mas ele
iluminismo, e personificação da autoritária do establishment. Como era assumiu uma perspectiva tão
filosofia continental europeia da época de se esperar nesse contexto, a radicalmente própria desse estado
Quando jovem, tentou fazer seu nome principal area de interesse de natural (e do modo como ele é
tanto como músico quanto como Rousseau tornou-se a filosofia política. transformado pela sociedade) que
co1npositor, mas em 1740 conheceu Seu pensamento foi influenciado não poderia ser considerada uma forma de
Denis Diderot e Jean d 'AJembert, apenas por seus contemporâneos pensamento "contrailurninista". Sua
organizadores da nova Encyc/opédie, e franceses, mas também por obras de abordagem continha em si as
interessou-se pela filosofia. O filósofos ingleses - e, em particular, a sementes do próximo grande
ambiente político na França da época ideia de um contrato social, corno movimento, o romantismo.
estava agitado. Os pensadores proposto por Thomas Hobbes e
iluministas franceses e ingleses aperfeiçoado por John Locke. Como Ciência e arte corrompem
tinham começado a questionar o eles, Rousseau considerou a ideia de Hobbes tinha imaginado a vida em
status quo, minando a autoridade da humanidade num "estado natural" estado natural como "solitária, pobre,
AERA DA REVOLUÇÃO 157
Ver também: Thomas Hobbes 112-11!5 • John Locke 130-133 • Edmund Burke
172-173 • John Stuart Mill 190-193 • Karl Marx 196-203 • John Rawls 294-295

repugnante, brutal e curta". Em sua artes, que ganhou o primeiro prêmio,


visão, o ser humano é instintivamente apresentava de maneira controversa a
interessado e dedicado apenas a si ideia de que as artes e as: ciências
mesmo, e a civilização seria corrompem e corroem a moral. Ele
necessária para colocar restrições argumentou que. longe de
nesses instintos. De sua parte, desenvolver mentes e vidas, as artes
Rousseau considerava a natureza e as ciências diminuem a virtude e a
humana bem mais gentil e via a felicidade humana.
sociedade civil como uma força muito
menos benevolente. A desigualdade das leis
A ideia de que a sociedade pode Tendo rompido com o pensamento Jean-Jacques Rousseau
ser uma influência nociva ocorreu a estabelecido com seu texto, aclamado
Rousseau pela primeira vez quando publicamente, Rousseau levou a ideia Jean-Jacques Rousseau nasceu
um passo além num segundo ensaio, numa familia ca!lvinista em
ele escreveu um ensaio para um
Genebra. Sua mãe morreu
concurso organizado pela Academia Discurso sobre a origem e os
apenas alguns d!ias depois de
de Dijon, respondendo à questão: "O fundamentos da desigualdade entre os
seu nascimento. Alguns anos
restabelecimento das ciências e das homens. O tema condizia com o mais tarde, seu pai abandonou a
artes contribuiu para aperfeiçoar os espíríto da época, ecoando os apelos >> casa após um duelo, deixando-o
costumes?". A resposta que se aos ci.údados de um tio.
esperava de pensadores da época, e Aos dezesseis anos, Rousseau
O movimento romântico na arte e na
especialmente de um músico como literatura que dominou o finaJ do século foi para a França e se converteu
Rousseau, era um entusiástico sim. XVill e inicio do século XIX refletiu a visão ao catolicismo. Enquanto tentava
Mas Rousseau sustentou o oposto. de Rousseau sobre o estado de natureza se tornar conhecido como
Seu Discurso sobre as ciências e as como o da beleza. inocência e virtude. compositor, trabãlhõü como
funcionário público, tendo sido
designado para Veneza por dois
anos. Ao retornar, começou a
escrever filosofia. Suas visões
controversas levaram seus livros
à proibição na Suíça e na França,
onde foram dadas ordens para
sua p risão. Foi forçado a aceitar
o convite de David Hume para
viver na In·glaterra por um curto
período. Voltou para a França
com 111m nome falso. Mais tarde,
foi-lhe permitido retornar a Paris,
onde morreu aos 66 anos.

Obras-chave

1750 Discurso sobre as ciências


e as artes
1755 DiscU'rso sobre a origem e
os fundamentos da de.sigualdade
entre· os homens
1755 Discurso sobre a economia
politica
1762 O contrato social
158 JEAN-JACQUES ROUSSEAU
por reforma social de escritores como atributos de compaixão e empatia.
Voltaire - mas em sua análise Mas, uma vez que esse estado de
novamente Rousseau contrariou o inocência é destruído e o poder da
pensamento tradicional. O estado da razão começa a distinguir a
natureza egoísta, selvagem e injusta humanidade do resto da natureza, as
retratado por Hobbes é, para Rousseau, pessoas são apartadas de suas virtudes A tranquilidade também está
uma descrição não do "homem natural", naturais. A imposição da sociedade nos calabouços , mas isso
mas do "homem civilizado". Ele civil sobre o estado de natureza, basta para torná-los lugares
argumentou que a sociedade civil é portanto, resulta em um afastamento desejáveis de se viver?
que induz esse estado selvagem. O da virtude em direção ao vício - e da Jean-Jacques
estado natural da humanidade, ele felicidade idílica em direção à miséria. Rousseau
frisou , é inocente, feliz e independente: Rousseau vía a queda do estado de
o homem nasce livre. natureza e o estabelecimento da
sociedade civil como algo lamentável
A sociedade corrompe mas inevitável, porque isso resultou da
O estado de natureza que Rousseau faculdade racional humana. Segundo
descreveu é um idílio pastoril, no qual Rousseau, o processo começou na
as pessoas em seu estado natural são primeira vez em que um homem romântico. A palavra de ordem de
fundamentalmente boas. (Em diversas circundou um pedaço de terra para si, Rousseau ("de volta à natureza!") e sua
linguas, a ideia do homem natural de introduzindo a noção de propriedade. análise pessimista sobre a sociedade
Rousseau foi erroneamente Conforme grupos de pessoas moderna, cheia de desigualdades e
interpretada como o "bom selvagem", começaram a viver lado a lado dessa injustiças, afinou-se com a crescente
devido à tradução do francês sauvage, forma, formaram sociedades que só inquietação social da década de 1750,
que significa "natural", não selvagem.) podiam se manter por meio d e um especialmente na França. Não
As pessoas seriam dotadas de virtudes sistema de leis. Mas Rousseau afirmou contente em apenas a1Jresentar o
inatas e, mais importante, com que toda sociedade perde contato com problema, Rousseau tratou de oferecer
as virtudes naturais da humanidade, uma solução, no que parece ser sua
inclusive a compaixão, e impõe leis obra mais influenLe, O contrato social.
injustas. feitas para proteger a Rousseau abriu sua obra com uma
propriedade e infligidas aos pobres declaração desafiadora - "O homem
pelos ricos. O deslocamento de um nasce livre e por toda parte está
estado natural para um estado acorrentado" - considerada uma
civilizado, portanto, ocasionaria um convocação para uma mudança
deslocamento não apenas da virtude radical e que foi adotada como slogan
para o vício, salientou Rousseau, mas da Revolução Francesa, 27 anos
também da inocência e da liberdade depois. Lançado seu desafio, Rousseau
para a injustiça e a escravização. então explicou sua con cepção de
Embora naturalmente virtuosa, a sociedade civil alternativa, governada
humanidade é corrompida pela não por aristocratas, monarquia e
sociedade. E embora o homem nasça Igreja, mas por todos os cidadãos, que
livre, as leis impostas pela sociedade participariam da formulação das leis.
condenam-no a uma vida "acorrentada". Moldado nas clássicas ideias
repL1blicanas de democracia, Rousseau
O contrato social imaginou o corpo de cidadãos
O segundo Discurso de Rousseau operando como uma unidade,
causou ainda mais polêmica do que o prescrevendo leis de acordo com a
primeiro, mas proporcionou-lhe maior volonté générale, ou vontade geral. As
Adão e Eva representam o tipo de seres
humanos "naturais" que Rousseau reputação e até seguidores. Seu retrato leis proviriam de todos e se aplicariam
julgava que existiam antes da sociedade: do estado de natureza como desejável a todos - todos sendo considerados
corrompidos pelo conhecimento, e não brutal constituiu uma base vital iguais. Em contraste ao contrato social
tornaram-se mais egoístas e infellzes. do emergente movimento literário imaginado por Locke, concebido para
AERA DA REVOLUÇÃO 159
ameaça a inocência humana e, • Hume. A influência política de
st1cessivamente, a liberdade e a Rousseau foi sentida mais fortemente
felicidade. Em vez da educação do durante o período de revolL1ção logo
intelecto, ele propõe uma educação dos depois de sua morte, mas sua
sentidos e sugere que a fé religiosa seja influência na filosofia (e na filosofia
guiada pelo coração, não pela cabeça. política em particular) teve maior
A vontade geral deve
alcance no século XIX. Georg Hegel
emanar de todos para ser Influência política integrou as ideias de contrato social
aplicada a todos. A maioria dos textos de Rousseau foi de Rousseau a seu próprio sistema
Jean-Jacques imediatamente proibida na Fran·ça, filosófico . Mais tarde, e de maneira
Rousseau proporcionando-lhe mais notoriedade mais notável, Karl Marx ficou
e um número maior de seguidores. Por impressionado com algumas das obras
volta da época de sua morte, em 1778, de Rousseau sobre desigualdade e
a revolução na França e em outros injustiça. Diferentemente de
lugares era iminente. Sua ideía de um Robespíerre - um dos líderes da
contrato social no qual a vontade geral Revolução Francesa, que ajustara a
do corpo de cidadãos controlaria o Íilosona de Rousseau a seus pr6prios
proteger os direitos e a propriedade processo legisJativo ofereceu aos fins durante o Terror-, Marx
dos indivíduos, Rousseau defendeu a revolucionários uma alternativa viável compreendeu-a com precisão,
cessão de poder legislativo ao povo ao· sistema corrupto reinante. Mas a desenvolvendo a análise de Rousseau
como um todo, para o beneficio de filosofia de Rousseau estava em sobre a sociedade capitalista e os
todos e adminjstrado pela vontade desacordo com o pensamento meios de substitui-la. O Manifesto
geral. Ele acreditava que a liberdade corrente, e sua insistência de que um comunista de Marx termina com um
de participar do processo legislativo estado de natureza era superior à aceno a Rousseau, ao conclamar os
levaria a uma eliminação da civilização levou-o a indispor-se com proletários que "não têm nada a
desigualdade e da injustiça e colegas reformistas, como Voltaire e perder, exceto seus grilhões''. •
promoveria um sentímento de
participação na sociedade - o que
levaria ao trio liberté, égalité, fraternité
(liberdade, igualdade, fraternidade),
que tornou-se o mote da nova
república francesa.

Os males da educação
Em outra obra escrita no mes1no ano,
intitulada Emílio, ou Da educação,
Rousseau expandiu seu tema,
explicando crue a educação era
responsável por corromper o estado de
natureza e perpetuar os males da
sociedade moderna. Em outros livros e
ensaios, ele se concentrou nos efeitos
adversos tanto da religião qua11to do
ateísmo. No centro de todas as suas
obras está a ideia de que a razão

A Revolução !Francesa, iniciada onze


anos após a morte ele Rousseau, foi
inspirada em sua alegação de que era
injusto que poucos ricos governassem os
pobres. impotentes e sem voz.
160
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EM CONTEXTO
. '·- - .' . '- e - ' - - - • , ·.

ÁREA
Filosofia política
ABORDAGEM
Economia clássica
ANTES
c.350 a.e. Aristóteles enfatiza a
importância da produção
doméstica ("economia") e
explica o papel do dinheiro.
Início de 1700 O pensador
holandês Bernard Mandeville
argumenta que ações egoístas

ADAM SMITH (1723-1790) podem levar a consequências


socialmente desejáveis.
DEPOIS
1850 O escritor John Ruskin
diz que as concepções de Smith
são muito materialistas e
ant icristãs.
A partir de 1940 Filósofos
aplicam a ideia de barganha em
todas as ciências sociais como
um modelo para explicar o
comportamento humano.

escritor escocês Adam Smith

1 é, com frequência,
considerado o mais
importante economista que o mundo
já conheceu. Os conceitos de
bargan ha e interesse próprio que ele
explorou e a possibilidade de
diferentes tipos de acordos e
interesses - como o "interesse
comum" - têm apelo recorren te para
os filósofos. Seus textos também são
importantes porque dão uma forma
mais geral e abstrata à ideia da
sociedade "comercial", desenvolvida
por seu amigo David Hume.
Como seu contemporâneo s uiço
Jean-Jacques Rousseau, Smith
admitia que os motivos dos seres
humanos são em parte benevolentes e
...
AERA DA REVOLUÇAO 161
Ver também: David Hume 148-153 • Jean-Jacques Rousseau 154-159 •
Edmund Burke 172-173 • Karl Marx 196-203 • Noam Chomsky 304-30!5

Com frequência
As pessoas agem por d em.andamós bens
interesse próprio.
e serviços fornecidos }
por outros.

Adam Smith
Devemos, portanto. O homem
concordar em trocar é um animal O "pai da economia moderna"
bens ou dinheiro entre nós, que faz nasceu em Kirkcaldy, na Escócia,
de forma que amba s barganhas. em 1723. PJrodígio acadêmico,
as partes se benefici em. Smith tornou-se professor
assistente primeiro na
Universidade de Edimburgo e,
depois, na Universidade de
Glasgow. onde Sé tornou
em parte por interesse próprio, mas precisam de ajuda porque a vida exige professor em 1750. Na década de
que este último é o traço mais forte , "cooperação e assistência de um 1760, assumiu um cargo lucrativo
configurando-se então uma baliza grande número de pessoas". Por como preceptor pessoal de um
melhor para o comportamento exemplo, para alguém permanecer jovem aristocrata escocês, Henry
humano. Ele acreditava que isso se confortavel numa pousada por uma Scott, com quem visitou a França
confirma pela observação social. e, de noite, mobilizam-se muitas pessoas - e a Suíça.
modo geral, sua abordagem não deixa para cozinhar e servir a comida, Já familiarizado com David
de ser empírica. Num de seus mais arrumar o quarto, e assün por diante. Hume e outros ilmninistas
famosos debates sobre a psicologia da Pessoas cujos serviços não dependem escoceses, aproveitou a
barganha, ele sustentou que o oportunidade de conhecer
somente de boa vontade. Por essa
figuras importantes do
movimento inicial mais comum na razão, "o homem é u1na animal que
iluminismo europeu. Após
barganha é um lado instigar o outro: "a realiza barganhas", e a barganha é retornar à Escócia, passou uma
melhor maneira de conseguir o que realizada ao se propor um trato que década escrevendo A riqueza
você quer é me dar o que eu quero". atenda ao interesse próprio de ambas das nações,. antes de retornar ao •
Em outras palavras, "dirigimo-nos não as partes. serviço público como Comissário
à humanidade [do outro). mas ao seu da Àlfândega, assessorando o
amor-próprio". A divisão do trabalho governo britânico em várias
Smith afllrrnava quê a troca de Em sua explanação sobre o políticas econômicas. Em 1787,
objetos úteis é uma característica surgimento das economias de voltou à Universidade de
distintamente humana. Ele notou que mercado, Smith argumentou que Glasgow, onde passou os
cães nunca são observados trocando nossa capacidade de fazer barganhas últimos anos de vida como reitor.
ossos, e que, se um animal deseja colocou fim à antiga exigência
obter algo, a ú nica maneira pela qual universal de que toda pessoa, ou pelo Obras-chave
pode conseguir isso é "conquistando o menos toda família, fosse
1759 Teoria dos sentimentos
favor daqueles cujos préstimos ele economicamente autossuficiente. A .
morais
necessita". Os humanos podem barganha tornou possível que nós nos 1776 A riqueza das nações
também depender desse tipo de concentrássemos em produzir cada 17 95 Ensaios sobre temas
"adulação ou atenção servil", mas não vez menos bens, até finalmente filosóficos
podem recorrer a isso quando produzir um único bem, ou oferecer »
1162 ADAM SMITH
um único serviço, trocando-o pelo que . . .
.
. .·
-
.. ..
_.:~--- --
quer que precisássemos. O processo
foi modificado radicalmente pela
invenção do dinheiro, que aboliu a
necessidade de permuta. A partir de
A sociedade civilizada,
então, na visão de Smith, somente os O maior aprimoramento
e1n todas as épocas,
incapazes de trabalhar tinham de das forças produtivas
depender da caridade. Todo o resto do trabalho parece ter
necessita da cooperação
e da assistência de
poderia ir ao n1ercado trocar seu sido resultado da divisão
trabalho (ou o dinheiro ganho por meio de trabalho.
um grande número
de pessoas.
do trabalho} por produtos do trabalho Adam Smith
de outras pessoas. Adam Smith
A eliminação da necessidade de
autossuficiência produti'va levou ao
surgimento de pessoas com um
.
;:: ·- . . ·.· .-~-
conjunto particular de habilidades -- -·~··· . .. -

(tais como o padeiro ou o


carpinteiro), e depois ao que Smith trabalho, mas realiza uma tarefa alfinetes perfeitos em um dia. Já um
chamou de "divisão de trabalho" particular em um trabalho que é grupo de dez ho1nens, encarregados
entre as pessoas. Esse é o termo de compartilhado por várias pessoas. de diferentes tarefas (esticar o
Smith para a especialização, por Smith ilustrou a importância da arame, endireitá-lo, cortá-lo e afiá-lo
meio da qual um indivíduo não especialização no início da obra- para uni-lo a uma cabeça), era capaz,
apenas busca um tipo único de -prima A riqueza das nações, na época de Smith, de produzir mais
mostrando como a prodltçâo de um de 48 mil alfinetes por dia.
simples alfinete de metal é Smith estava impressionado co.m
O mercado é a chave para uma
sociedade justa, na visão de Smith. Com radical mente transformada com a os grandes saltos na produtividade
a liberdade proporcionada pela compra e adoção do sistema fabril. U1n homem do trabalho durante a Revolução
venda de bens , os indivíduos podem trabalhando sozinho encontraria Industrial, devido a trabalhadores
desfrutar de vidas em "liberdade natural". dificuldade para produzir vinte dotados de equipamento muito
AERA DA REVOLUÇÃO 163
melhor e, muitas vezes, a máquinas fenômeno que se espalhava por todo o
s ubstituindo homens. O trabalhador n1undo na época de Smith.
não especializado não podia Smith reconheceu que havia
sobreviver em tal sistema, e até os problemas com a noção de um
filósofos começaram a se mercado livre, em particular com o
especializar nos vários ramos de sua problema da remuneração por
área, co1no lógica, ética, serviÇos, cada vez mais cornun1.
epistemologia e metafísica. Também admitiu q ue , embora a
divisão de trabalho trouxesse
O mercado livre enormes benefícios econômicos, o
Como a divisão de trabalho aumenta trabalho repetitivo não apenas é
a produtividade e torna possivel que entediante para o trabalhador como
todos se candidatem a algum tipo de pode destruir um ser humano - e, por
tarefa, Smith argumentou que ela essa razao, .
- propos que os governos
pode levar à riqueza universal numa deveriam restringir a extensão do uso
sociedade bem ordenada. De fato , ele da linha de produção. Contudo,
dizia que, em condições de perfeita quando da primeira publicação de A
liberdade, o mercado pode levar a um . riqueza das nações, sua doutrina de
estado de perfeita igualdade - em comércio li vre e desregulamentado foi
que todo mundo é livre para buscar vista como revolucionária, não apenas
seus próprios interesses, desde que pelo ataque aos privilégios
estejam de acordo com as leis da comerciais e agrícolas e aos A linha d e produção é uma incrivel
justiça. Por igualdade Smith não se monopólios existentes, mas também máquina de ganhar dinheiro, mas Smitb
referia à equidade de oportunidade, por causa do argumento de que a adverte contra os efeitos de desum.aruzação
sobre os trabalhadores, caso ela seja
mas à igualdade de condição. Em riqueza de uma nação não depende
utilizada sem regulamentação.
outras palavras, seu objetivo era a de reservas em ouro, mas de seu
criação de uma sociedade não trabalho - uma visão que contrariava incorporar nele o trabalho
dividida pela competição, mas unida todo o pensamento econômico da doméstico (desempenhado
pela barganha baseada no mútuo Europa da época. principalmente por mulheres). que
i n.teresse próprio. A reputação "revolucionária" de ajudava a manter a sociedade
A questão de Sn1ith, portanto, não Smith foi favorecida durante o longo funcionando de maneira eficaz.
é que as pessoas devam ter liberdade debate sobre a natureza da sociedade Por essas razões, e com a
só porque a merecem. Seu argumento que ocorreu após a Revolução ascensão do socialismo n o século
é que a sociedade como um todo se Francesa de 1789, inspirando o XIX, a reputação de Smith declinou,
beneficia quando os individuos historiador vitoriano H. T. Buckle a mas o interesse renovado na
persegLtem seus próprios interesses. A descrever A riqueza das nações como econo1nia de livre mercado no fina l do
"mão invisível" do mercado, com suas "provavelmente o mais importante século XX viu u1n renascimento de
leis de oferta e demanda, regularia a livro já escrito". suas ideias. De fato, apenas hoje em
quantidade de bens disponíveis e os dia podemos apreciar completamente
avaliaria de maneira muito mais O legado de Smith sua alegação mais visionária - a de
eficient e do que qualquer governo. Os crít icos argumentaram que que um mercado é mais do que um
Em tal sociedade, um governo Smith estava errado ao supor que o lugar. O mercado é um conceito e.
pode limitar-se a desempenhar apenas "interesse geral" e o "interesse do como tal, pode existir em qualquer
funções essenciais - tais como consumidor" são o mesmo e que o lugar - e não apenas físico, como a
garantir a defesa, a justiça criminal e mercado livre é benéfico para todos. praça de uma cidacle. Isso
a educação - . e consequentemente as A verdade é que, embora fosse prenunciava o tipo de 1nercado
taxas e os impostos podem ser solidário com as vítimas da pobreza, "virtual" que só se tornou possível
reduzidos. Assim como a barganha Smith nunca teve êxito completo em com o advento da tecnologia das
floresce dentro de limites nacionais, contrabalançar os interesses dos telecomunicações. Os mercados
pode florescer tambén1 além deles, produtores e dos consumidores financeiros atuais e o comércio on-line
levando ao comércio internacional - dentro de seu modelo socjaJ, ou em atestam a grande visão de Smith. •
1
1

IMMANUEL KANT 1724-1804


'
'


166 IMMANUEL KANT
externo. Ele então prosseç, uiu para
EM CONTEXTO contrariar ésse ponto de vista cético
com um argumento que alega provar a
ÁREA
existência de Deus e. por consequência,
Metafísica
a realidade de um mundo externo. No
ABORDAGEM entanto. muitos filósofos (incluindo
Idealismo tra.n scendental Kant) não consideraram a comprovação
de Deus feita por Descartes válida em
ANTES sua dedução.
1641 René Descartes publica Berkeley, por outro lado,
Medít~ções, na qual duvida de argumentou que o conhecimento é
todo conhecimento, com realmente possível, mas que ele provém
exceção daque1e de sua própria das expenências que nossa
consc1enc1a.
'h '
consciência percebe. Não Lemos De acordo com Kant, só podemos sentir
justificativa para acreclitar que essas o tempo por meio das coisas no mundo
1739 David Hume publica seu experiências têm qualquer existência que se movem ou se modificam, como os
Tratado da natureza humana, ponteiros de um relógio. Então, só
externa fora de nossas próprias mentes.
que indica limitações sobre o sentimos o tempo indiretamente.
modo oomo a mente humana Tempo e consciência
percebe a realidade. Kant queria demonstrar que há um diante do qt1al mudar, como os números
mundo externo, material, e que sua no mostrador do relógio. Todo recurso
DEPOIS
existência não p ode ser posta em que tenho para medir o meu "agora"
Século XIX O movimento
dúvida. Seu argumento começa da constantemente em mudança é
idealist a alemão se desenvolve
seguinte forma: para q ue algo exista, encontrado nos objetos materiais fora de
em resposta à filosofia de Kant. deve ser determinável no tempo, isto mim, no espaço (incluindo meu próprio
1900 Edmund Husser1 é, devemos ser capazes de dizer corpo físico). Dizer que eu exis to exige
d esenvolve a fenomenologia, quando ele existe e por quanto tempo. um determinado momento no tempo, e
estudo dos objetos da Mas como isso funciona no caso da isso, por sua vez. exige um mundo
experiência, usando a consciência? externo realmente existente no qual o
interpretação da consciência Embora a consciência pareça estar tempo ocorre. Meu nível de certeza
de Kant. mudando constantemente com um sobre a existência do mundo externo é,
fluxo contínuo de sensações e por conseguinte, igual ao meu nível de
pensamentos. podemos usar a palavra certeza sobre a existência da
"agora" para nos referirmos ao que consciência - o que Descartes
mmanuel Kant considerava está acontecendo neste momento em acreditava que era absolutamente certo.
"escandaloso" que em mais de nossas consciências. Mas "agora" não
2 mil anos de pensamento é um tempo ou data determinada: O problema da ciência
filosófico ninguém tivesse sido capaz toda vez que digo "agora", a Kant também investigou como a
de apreséntar um argumento para consciência é d iferente. ciêrlcia entendia o mundo exterior. Ele
provar que realmente há um mundo lá Aqui se encontra o problema: o que admirava o impressionante progresso
fora. externo a nós. Ele tinha torna possível especificar o "quando" da das ciências naturais ao longo dos dois
particularmente em mente as teorias minha própria existência? Não podemos séculos precedentes, em comparação
de René Descartes e George Berkeley, experimentar o tempo em si, com a relativa estagna ção da
que consideravam que a comprovação diretamente; em vez disso, disciplina desde os tempos antigos até
de um mundo externo era impossível. experimentamos o tempo por meio das aquele momento. Kant, junto com
No início de Meditações, Descartes coisas que se movem, mudam ou outros filósofos. indagava-se sobre o
argumentou que, exceto o permanecem iguais. Considere os que era feito de maneira correta na
conhecimento de nossa própria ponteiros de um relógio, girando de pesquisa científica. A resposta dada
existência como seres pensantes, maneira lenta. Os ponteiros que se por muitos filósofos do período foi o
devemos duvidar de todo conhecimento movem são inúteis para determinar o empirismo. Os empiristas, tais como
- inclusive o de que há um mundo tempo por si só - precisam de algo John Locke e David Hume,
AERA DA REVOLUÇÃO 167
Ver também: René Descartes 116-123 •John Locke 130-133 • George Berkeley 138-141 • David Hume 148-153 • Johann
Gottlieb Fichte 176 • Georg Hegel 178-185 • Fr1edrich Schelling 335 • Arthur Schopenhauer 186-188

argumentavam que não há


conhecilnento, exceto aquele que
chega a nós através de nossa Nossa sensibilidade Nosso entendimento
experiência do mundo. Eles se é a capacidade de sentir é a capacidade de pensar
opunham às visões de filósofos as coisas no mundo. sobre as coisas.
racionalistas como Descartes ou
Gottfried Leibniz, que argumentavam
que a capacidade da mente para
raciocinar e lidar com conceitos é
mais importante para o conhecimento
do que a experiência. Espaço e tempo
Os empiristas afirmavam que o
não podem ser conhecidos
pela experiência; são
recente sucesso da ciência se devia ao
intuições da mente.
fato de os cientistas dedicarem muito
mais cuidado a suas observações
sobre o mundo do que tinha sido
previamente - também ao fato de
fazerem menos suposições
injustificadas baseadas apenas na
razão. Kant argumentou que, embora
tudo isso seja parcialmente verdadeiro, Então, uma coisa
Os conceitos só
não podia ser a resposta completa: era aparece no espaço
se aplicam ils coisas
falso dizer que não havia observação e no tempo apenas na medida em que são
empírica detalhada e cuidadosa na na medida em que é
sentidos pela mente.
ciência antes do século XVI.
sentida pela mente.
A questão real, argumentou Kant, é
que um novo método científico surgiu e
vahdou as observações empíricas. Esse
método envolve dois elementos.
Primeiro, afirma que conceitos como
força ou movimento podem ser
perfeita1nente descritos pela Uma "coisa em si" (algo
matemática. Segundo, testa seus>> considerado exterior à mente)
pode não ter nada a ver com
espaço, tempo ou qualquer um
de nossos conceitos.

,
E precisamente
ao conhecer seus limites Existem dois
que a filosofia existe. mundos: o mundo da
Immanuel Kant experiência sentida
"Coisas em si" são por nossos corpos e
. ,
incognosc1ve1s.
.
o mundo das coisas

ems1.
168 IMMANUEL KANT
capacidade de experimentar experiências com o espaço e o te mpo
diretamente coisas particulares no se assemelham, em geral) . No
espaço e no tempo, como este livro, entendimento está o meu conceito de
por exemplo. Ess a experiência direta algum tipo de coisa (livros) e meu
ele chama de "intuições". O segundo é conceito de uma "coisa" como t al
Pensamentos sem conteúdo o que Kant chama de "entendimento", (substância). Um conceito como
são vazios; intuições sem nossa capacidade de ter e usar substância define o que significa ser
conceitos são cegas ... somente conceitos. Para Kant, um conceito é uma coisa em geral, em vez de definir
a partir de sua união pode uma e xperiência indireta com as algu1n tip o de coisa como um livro.
surgir a cognição. coisas, como o conceito de "livro" em Minha intuição de um livro e o
Immanuel Kant geral. Sem conceitos não saberíamos conceito de um livro são empíricos -
que nossa intuição era a de um livro; como eu poderia saber q ualquer coisa
sem intuições, nunca saberíamos que sobre livros a menos que tivesse
existem livros. deparado com eles no mundo? Mas
Cada um desses elementos tem, minha intuição de espaço e tempo e o
por sua vez, dois lados. Na conceito de s u bstância são a priori - o
sensibilidade está a minha intuição de que significa que eles são conhecidos
próprios conceitos de mundo ao fazer uma coisa particular no espaço e no antes ou independentemente de
perguntas específicas sobre a natureza tempo (como o livro) e minha intuição qualquer experiência empírica.
e ao examinar as respostas. Por de espaço e tempo como tal (minhas Um empirista verdadeiro
exemplo, o físico experimental Galileu
Galilei queria testar a hipótese de que
Kant dividiu o c onhecimento em intuições, Legenda
dois objetos de pesos diferentes adquiridas a partir da sensibilidade direta do mundo,
cairiam pelo a r com a mesma Conhecimento
e em conceiLos, que provê1n indiretamente de nossa
empírico
velocidade - e criou um experimento compreensão Uma parte do conhecimento - tanto da
para testar isso de tal maneira que a sensibilidade quanto do entendimento - provém da Conhecimento
evidência empírica, enquanto outra parte é a priori
única explicação possível para o
resultado observado seria a verdade ou conhecida a priori.
o conceito "livro"
falsidade da hipótese.
Kant identificou a natureza e a
importância do método científico. Ele ;';
--- -- --------- ..... ... .. ~
''~,
acreditava que esse mét odo tinha ,' intuição de ... ...
colocado a física e outras disciplinas >' um livro ',
no "caminho seguro de uma ciência". particular '•
No entanto, sua investigação não
parou ai. A questão seguinte foi: "Por
que razão nossa experiência de mundo
é de tal forma que o método científico
funciona?". Em outras palavras, por
que nossa experiência científlca de ••
mundo é sempre matemática na
natureza, e como é sempre possivel

,,
para a razão humana apresentar
questões à natureza?

Intuições e conceitos '' intuição de , /

Em sua obra mais famosa, CrÍtica da ''


' ... ...
espaço e do
tempo , ,, ~

razão pura. Kant argumenta que nossa ... ...


_,, ,, .....
;

experiência de mundo envolve dois ~


~ ... .. ..... --
elementos. O primeiro é o que ele
c hama de "sensibilidade" - nossa
-
o conceito de substância
-
AERA DA REVOLUÇAO 169
próprio espaço é a priori, não pertence demonstrado que o conceito de
às coisas do mundo. Mas a substância é absolutamente
experiência de coisas no espaço é essencial antes de adquirirmos
uma característica da sensibilidade. qualquer experiência de mundo.
Uma coisa em si - termo kantiano E já que é pela experiência dos
para algo que é considerado em sentidos que aprendemos qualquer
separado da sensibilidade e, portanto, coisa empírica, o conceito de
exterior às nossas mentes - pode não substância não pode ser empírico:
ter nada a ver com o espaço. Kant mais exatamente, é a priori.
usou argumentos similares para
provar o mesmo em relação ao tempo. Os limites do conhecimento
• Kant então se dedicou a provar a A posição filosófica que sustent a que
existência de conceitos a priori - como certo estado ou atividade da me nte é
A compreensão de que entes como a substância. Ele nos convida primeiro anterior e mais fundamental do que as
árvores sofrem mudanças pressupõe a distinguir dois tipos de alteração: coisas experimentadas é chamada de
entender a priori o conceito "substância", variação e mudança. Variação diz idealismo, e Kant nomeou sua própria
segundo Kanc. Tais conceitos são respeito às propriedades que as coisas posição de "idealismo transcendental".
precondições da experjência.
têm: por exemplo, as folhas de uma Ele insistiu que espaço, tempo e
árvore podem ser verdes ou marrons. certos conceitos são características
argumentaria contra Kant que todo o Mudança é o que a árvore faz: a do mundo que experimentamos (o que
conhecimento provém da experiência mesma árvore muda suas folhas Kant chamou de mundo fenomenal), em
dos sentidos - em outras palavras, de verde para marrom. Fazer vez de caracteristicas do mundo em si,
nada é a priori. Eles poderiam dizer essa distinção já é usar a noção considerado separadamente da
que aprendemos o que é o espaço ao de substância: a árvore (como experiência dos sentidos (o que Kant
observar as coisas no espaço, e que substância) muda, mas as folhas chama de mundo numênico).
aprendemos o que é substância a (como propriedades da substância) As alegações sobre o
partir da nossa observação de que as variam. Se não aceitamos essa conhecimento a priori têm
características das coisas mudam, distinção, então não podemos aceitar consequências positivas e negativas.
sem que a própria coisa fundamental a validade do conceito de substância. A positiva é que a natureza a priori de
mude. Por exemplo, embora uma folha Estaríamos dizendo que, em qualquer tempo, espaço e certos conceitos
de árvore mude de verde para marrom, instante em que existe uma alteração, torna possível nossa experiência de
e finalmente caia da árvore, ainda é a algo "aparece ou desaparece": a árvore mundo. Espaço e tempo tornam nossa
mesma árvore. com folhas verdes seria aniquilada no experiência matemática na natureza:
mesmo jnstante em que a árvore com podemos medi-la segundo valores
Espaço e substância folhas marrons começaria a existir a conhecidos. Conceitos a priori como
Os argumentos de Kant mostraram partir do nada. substância tornam possível fazer>>
que, ao contrário, o espaço é uma Kant precisa provar que essa
intuição a priori. A fim de conhecer as última visão é impossível. A chave
coisas fora de mim, preciso saber que para isso é a determinação do tempo.
elas estão fora de mim. Mas isso O tempo não pode ser sentido
mostra que eu não poderia conhecer o diretamente; em vez disso, sentimos
espaço dessa forma: como posso o tempo através das coisas que se
localizar algo fora de mim sem saber alteram ou não se alteram, como Kant Só podemos falar
anteriormente o que "fora de mirn" já demonstrou. Se sentimos o tempo de espaço do ponto de
significa? Algum conhecimento de através da árvore com folhas verdes e vista humano.
espaço tem de ser admitido antes também sentimos o tempo através da Immanuel Kant
mesmo que eu possa estudar o espaço árvore com folhas marrons sem que
empiricamente. Devemos estar exista qualquer conexão entre as
familiarizados com o espaço a priori. duas, então estaríamos sentindo dois
Esse argumento tem uma tempos reais separados. Já que isso é
consequência extraordinária. Corno o absurdo, Kant acreditou que tivesse
170 IMMANUEL KANT
perguntas sobre a natureza, tais
como "Isso é uma substância?" e
"Que propriedades ela exibe e de
acordo com quais leis?" Em outras
palavras, o idealismo transcendental
de Kant torna possível que nossa
A razão humana é A razão só tem
exper1enc1a emp1r1ca se1a
' A • 1 • '

considerada útil para a ciência.


atormentada por questões um insight sobre aquilo
Do lado negativo, certos tipos de
crue não pode rejeitar, mas que ela cria depois de
pensamento intitulam-se ciência e também não pode resolver. um plano próprio.
até parecem ciência, mas fracassam lmmanuel Kant Immanuel Kant
completamente. Isso ocorre porque
aplicam a coisas em si intuições
sobre espaço e tempo ou conceitos
como substância - o que, de acordo r
-
-, • •
- -
·-·
- --- -- -

com Kant, deve ser válido para a


O L ' ,. 0 > 1

1 • • • • • • • 1. • • • , • •• " • • •• - • • .- • - ' - • ' ·,

experiência empírica, mas não tem


validade em relação a coisas em si. que Kant acredita ser válido apenas limites do conhecimento. O
Como se parecem com ciência, esses para o mundo percebido, mas não para idealismo transcendental nos
tipos de pensamento são uma coisas em si. Então a existência de proporciona um meio radical de
tentação constante para nós e uma Deus (considerado, como geralmente compreende r a distinção entre nós
armadilha na qual muitos caem sem é, um ser independente do mundo mesmos e o mundo externo. O que
perceber. Por exemplo, podemos conhecido) não é algo que possa ser é externo a mim é interpretado não
desejar afirmar que Deus é a causa do conhecido. A consequên cia negativa apenas como externo a mim
mundo, mas causa e efeito é outro da filosofia de Kant, então, é coloca [ no espaço, mas e xterno ao próprio
conceito a priori, como substância, restrições um tant o severas aos espaço (e ao Lempo, e a todos os
conceitos a priori que tornam nossa
experiência do mundo possível).
E existem dois mundos: o "mundo"
da experiência, que inclui meus
pensamentos e sentimentos, e
também a experiência das coisas
materiais, como meu corpo ou livros;
e o "mundo" das coisas em si, que
não é precisamente sentido e,
assim, não pode de modo algum
ser conhecido, e portanto devemos
lutar constantemente para evitar
que nos enganemos com ele.
·'<i,
- Nossos corpos têm um papel
curioso a desempenhar em tudo isso.
1 Por um lado, meu corpo, como coisa
.....,
,,,
material, é parte do mu ndo externo.
Por outro lado, o corpo é parte de nós e
o meio através do qual encontramos

A xilogravura de Flammarion retrata


um homem olhand o fora do espaço e do
tempo: o que é externo a nós é externo
ao espaço e ào tempo. Não pode ser
conhe cido como coisa em si.
-
AERA DA REVOLUÇAO 171
Racionalismo
Os racionalistas acreditavam que o

> uso da razão, em vez da


experiência, leva à compreensão
dos objetos no mundo.

Empirismo
Os empiristas acreditavam que o

< conhecimento provém da


experiência dos objetos no mundo.
em vez da razão.

Immanuel Kant

' Idealismo transcendental


A t.eoria do idealismo transcendental
Immanuel Kant nasceu em 1724,
numa modesta familia de

< de Kant afirma que tanto a razão


quanto a experiência são necessárias
para compreender o mundo.
artesãos. Cresceu e trabalhou
toda a vida na cosmopolita
cidade portuária báltica de
Kontgsberg (atual Kaliningrado),
1 então parte da Prússia. Embora
nunca tenha deixado a província
natal, tornou-se um filósofo
outras coisas (usando nossa pele, particu lar progrediu rapidamente. Os internacionalmente conhecido
nervos. olhos, ouvidos e assim por idealistas Johann Fichte, Friedrich ainda em vida.
diante). Isso nos dá uma oportunidade Schelling e Georg Hegel levaram as Kant estudou filosofia, física
de compreender a distinção entre ideias kantianas a novas direções e , e matemática na Universidade
corpos ·e mundo externo: o corpo como por sua vez, influenciaram todo o de Konigsberg e lecionou na
o meio das minhas sensações é pensamento do século XIX, do mesma instituição nos 27 anos
diferente de outras coisas externas e romantismo ao marxismo. A crítica seguintes. Em 1792, suas
sofisticada de Kant ao pensamento visões heterodoxas levaram o
materiais.
rei Friedrich Wilhelm II a proibi-
metafísico tambén1 foi importante
·lo de lecio11ar. Ele retornou ao
Influência duradoura para o positivismo, que sustentava
ofício após a morte do rei, cinco
Critica da razão pura é, possivelmente, que toda assertiva justificável é anos depois. Kant publicou ao
a obra individual mais significativa da passível de verificação científica longo de toda a sua carreira,
h istória da filosofia moderna. Do fato, ou lógica. mas é mais conhecido pela
toda disciplina da filosofia é com O fato de Kant localizar a priori série de obras inovadoras
frequência dividida por rnuitos até mesmo em nossas intuições produzidas entre os cinquenta
filósofos em tudo o que aconteceu sobre o mundo foi importante para os e setenta anos. Embora fosse
antes e depois de Kant. fenomenologistas do século XX , tais um homem brilhante e sociável.
Antes de Kant. empiristas como como Edmund Husserl e Martin nunca se casou . Morreu aos
John Locke enfatizaram o que Kant Heidegger, que procuraram oitenta anos.
clenominou sensibilidad e, mas os investigar os objetos da experiência
racionalistas como Descartes independentemente de quaisquer Obras-chave
tenderam a enfatizar o suposições que possa mos ter a
1781 Crítica da razão pura
entendimento. Kant argumentava respeit o deles. O trabalho de Kant
1785 Fundamentação da
que nossa experiência de mundo também permanece como
metafísica dos costumes
sempre envolve ambos. então é dito importante 1:ionto de referência para 1788 Crítica da razão prática
com frequência que ele combinou o os filósofos contemporâneos, 1790 Crítica da faculdade do
racionalismo e o empirismo. Depois especialmente na metafisica e na . .
]UlZO
de Kant, a filos ofia a lemã em epistemologia. •
172

'

EDMUND BURKE (1729-1797)


-
s insatisfeitos Lendem a entre seus membros, con10 uma
EM CONTEXTO
,
AREA
1 bradar: "Não é minha culpa...
culpe a sociedade!". Mas o
companhia mercantil, foi entendida
facilmente. Contudo, esse ponto de
significado da palavra "sociedade" não vista irnpllca que apenas as coisas
Filosofia política
é inteiramente claro e tem mudado ao materiais importam na vida. Burke
ABORDAGEM longo do tempo. No século XVIII, tentou reequilibrar as coisas, ao
Conservadoris.mo quando viveu o nlósofo e político lembrar que os seres humanos também
irlandês Edmund Burke, a Europa cada enriquecem suas vidas por meio da
ANTES vez mais se rnercanLilizava, e a ideia de ciência, da arte e da virtude, e que,
c.350 a.C. AristO.teles diz que a que a sociedade é um contrato mútuo embora seja realmente um contrato ou
sociedade é como um
organismo e o homem, um --~
animal político por-natureza.
Os seres huma.n os têm
Século V Santo Agostinho necessidades materiais,
argumenta que o governo é urna científicas, artísticas e morais.
forma de punição pelo "pecado
original".
Século XVII Thomas Hobbes e Eles não conseguem
John Locke desenvolvem a ideia satisfazer todas as necessidades
de "contrato social". pelo próprio esforço.

DEPOIS
Século XIX O filósofo francês . . .. . · - · · 7

Joseph de Maistre ressalta o Concordam em ajudar


Recorrem aos hábitos e à
legado antidemocrático de um ao outro, que é
religião de seus ancestrais
;surke desde a Revolução o melhor modo de satisfazer
sempre que possivel.
Francesa.
necessidades mútuas.
Século XX O filósofo britânico
Michael Oakeshott desenvolve
uma forma mais liberal de A sociedade é, de fato,
conservadorismo. 11m contrato.
AERA DA REVOLUÇÃO 173
Ver também: John Locke 130-133 • David Hume 148-153 • Jean-Jacques
Rousseau 154-159 • Adam Smith 160-163 • John Rawls 294-295

parceria, a sociedade não se ocupa Rousseau, c uja obra O contrato social


apenas da economia, ou daquilo que argumentava que o contrato entre
ele chamou de "vulgar existência cidadãos e o Estado pode ser rompido
animal". A sociedade personifica o bem a qualq uer m omento, dependendo da
comum (nosso acordo em relação a vontade do povo. Outro alvo regular de
costumes, normas e valores), mas para Burke foi o filósofo e cientista inglês
Burke "sociedade" significava mais do Joseph Priestley, que aplaudiu a
que pessoas vivendo o agora: ela Revolução Francesa e ridicularizou a
também inclui nossos ancestrais e ideia de pecado original.
descendentes. Além disso, como toda Apesar de seu ceticismo diante da
constituição política. é parte do moderna sociedade comercial, Burke foi Edmund Burke
"grande contrato primevo da sociedade grande defensor da propriedade privada
O político anglo-irlandês
eterna'', o próprio Deus seria o fiador e era otimista em relação ao mercado
Edmund Burke nasceu e foi
supremo da sociedade . livre. Por essa razão, é com frequência
educado em Dublin, na Irlanda.
A visão de Burke tem a doutrina do saudado como o "pai do
Desde a juventude estava
pecado original (a ideia de que conservadorismo moderno", filosofia que convencido de que a filosofia era
nascemos pecadores) como seu núcleo. valoriza tanto a liberdade econômica um aprendizado útil para a
Ele demonstrou pouca simpatia por quanto a tradição. Hoje, até os política e na década de 1750
quem culpabiliza a sociedade pela socialistas concordariam com Burke escreveu ensaios notáveis sobre
própria conduta. Da mesma maneira, que a propriedade privada é uma estética e as origens da
rejeitou a ideia proposta por John Locke instituição social fundamental, mas sociedade. Atuou como
de que podemos ser aperfeiçoados pela discordariam sobre seu valor. Da mesma parlamentar inglês de 1766 até
educação, como se nascêssemos maneira, filósofos ecologica·m ente 1794 e foi proeminente membro
inocentes e apenas precisássemos comprometidos compartilham de sua do partido Whig, o mais liberal
receber as influências corretas. Para crença nas obrigações de uma geração dos dois partidos aristocráticos
Burke. a falibilidade do julgamento em relação à próxima, em sintonia da época.
individual é a razão pela qual com a agenda de criação de uma Burke era simpático à causa
da independência norte·
precisamos da tradição, para nos dar o sociedade sustentável. •
-americana - que iniciou uma
sentido moral de que precisamos. O
revolução inteiramente
argumento ecoa David Hume, que
justificada, em sua visão - e
afirmava que o "hábito é o grande guia posteriormente se envolveu no
da vida humana". julgamento do impeachment de
Warren Hastings, governador-
Tradição e mudança -geral da Índia. Continuou um
Como a sociedade é uma estrutura crítico contundente da má
orgânica com raízes se estendendo administração colonial pelo
profundam ente no passado , Burke resto da vida e ganhou respeito
acreditava que sua organização por ser a consciência do Império
política devia se desenvolver Britânico.
naturalmente ao longo do tempo. Ele
refutava a ideia de mudanças políticas Obras-chave
amplas ou abruptas e m me io a esse
1756 D efesa da sociedade
processo natural. Por essa razão.
natural
opôs-se à Revolução Francesa de 1789,
Burke condenou a Revolução Francesa 1770 Thoughts on the Present
prevendo seus riscos bem antes da por sua rejeição indiscriminada ao passado. Discontents
execução do rei e do Período do Terror. Ele acreditava em mudanças graduais, 1790 Reflexões sobre a revolução
Isso t a m bém o levou e m d iversas u1na ideia que se tornou fundamental ao em França
ocasiões a criticar Jean-Jacques conservadorismo moderno.
174

JEREMY BENTHAM (1748-1832)

ererny Bentharn, filósofo e ideias, evitam-se as confusões e


EM CONTEXTO reformista legal. estava interpretações equivocadas de
convencido de que toda sistemas politicos mais complexos,
ÁREA
, atividade humana era governada por que podem muitas vezes levar a
Etica
apenas duas forças motivadoras: evitar injustiças e ressentimento.
ABORDAGEM a dor e buscar o prazer. Em Uma
Utilitarismo introdução aos princípios da moral e da Calculando o prazer
legislação (1789), ele argt1mentou c1ue De maneira controversa, Bentham
ANTES todas as decisões socjaís e políticas propõe um "cálculo da felicidade" que
Final do século IV a.e. devem ser feitas com o objetivo de possa expressar matematicamente o
Epicuro afirma que o principal alcançar a máxima felicidade possível grau de felicidade sentida pelo
objetivo da vida deve ser a para o máximo de pessoas possível indivíduo. Esse método proporcionaria
busca da felicidade. Bentham acreditava qt1e o valor moral uma plataforma objetiva i)ara resolver
de tais decisões relaciona-se disputas éticas, com decisões sendo
Final do século XVII Hobbes
diretamente com sua utilidade, ou tomadas a favor da visão que, pelo
defende que um sistema legal
eficiência, em causar felicidade ou cálculo, produziria a maior quantidade
com penas severas para
prazer. Numa sociedade governada por de felicidade.
criminosos conduz a uma
essa abordagem "utilitarista", ele Bentham também insistiu que
sociedade estável e mais feliz. afirmava, os conflitos de interesse entre todas as fontes de prazer são cl!e igual
Meados do século XVIII David indivíduos poderiam ser resolvidos valor. de modo que a felicidade
Hume afuma que a emoção pelos legisladores, guiados apenas pelo proveniente de uma boa refeição ou do
governa o julgamento moral. princí.pio da criação da mais ampla relacionamento íntimo é igual àquela
propagação possível de contentamento. proveniente de uma atividade que
DEPOIS Se podemos deixar todo mundo feliz, possa exigir esforço ou educação,
Meados do século XIX John então, melhor ainda. Mas se uma como um debate filosófico ou a leitura
Stuart Mill defende a educação escolha é necessária, deve-se preferir de poesia. Isso significa que Bentham
para todos, dizendo que ela favorecer a maioria sobre a minoria. admitia uma igualdade humana
au1nerttaria a felicidade geral. Um dos principais benefícios do fundamental, com a felicidade plena
Final do século XIX Henry sistema proposto, frisava Bentham, é sendo acessível a todos, independente
sua simplicidade Ao adotar tais de capacidade ou de classe social. •
Sidgwick diz que quanto mais
moral é l1ma ação, maior o grau
Ver também: Epicuro 64·65 • Thomas Hobbes 112-115 • David Hume 148-153
de prazer que ela proporciona.
• John Stuart Mill 190-193 • Henry Sidgwick 336
AERA DA REVOLUÇÃO 175

MARY WOLLSTONECRAFT (1759-1797)

a maior parte da história (Uma defesa dos direitos da mulher),


EM CONTEXTO registrada, as mulheres têm publicada em 1792, foi uma espécie de
sido consideradas resposta a Emílio (1762), de Jean-
ÁREA
subordinadas aos homens. Durante o -Jacques Rousseau. que recomendava
Filosofia política
século XVIII, no entanto, a justiça dessa que meninas fossem educadas de
ABORDAGEM disposiçào começou a ser quêstionada maneira diferente e que aprendessem a
Feminismo abertamente. Entre as vozes ter deferência em relação .aos menínos.
discordantes mais proeminentes estava A exigência de Wollstonecraft de
ANTES a da radical inglesa Mary Wollstonecraft. que as mulheres fossem tratadas como
Século IVa.C. Platão aconselha Muitos pensadores anteriores cidadãs iguais aos homens - com igua1s
q u e meninas devem ter tinham mencionado as diíerenças direitos legais, sociais e políticos -
e ducação similar aos meninos. físicas entre os sexos para justificar a ainda era desdenhada no final do século
desigualdade social entre mulheres e XVIll, mas semeou os movimentos
Século IV d.C. Hipátia. famosa
homens. No entanto, à luz de novas sufragistas e feministas que
m atemática e filósofa, le ciona
ideias formuladas no século XVII, floresceriam nos séculos XIX e XX. •
em Alexandria, Egito.
como a visão de John Locke de que
1790 Em Letters on education, a quase todo conhecimento era
bistoriadora·britânica Catherine adquirido por meio da experiência e
Macaulay afirma que a aparente da educação, a validade de tal
fraqueza das mulheres é causada
por sua educação incorreta.
raciocínio entrou em xeque.

Deixe a mulher compartilhar
Educação igual
DEPOIS Wollstonecraft argumentou que, se ao dos direitos e ela emulará
1869 A sujeição das n1ulheres, homem e às mulheres é dada a mesma as virtudes do homem.
de John Stuart Mill, defende a educação, ambos vão adquirir o Mary Wollstonecraft
igualdade d os sexos. mesmo caráter virtuoso e a mesma
Final do século XX Utna onda abordagem racional à vida, porque
de ativismo feminista começa a
subverter a maior parte das
têm fundamentalmente cérebros e
mentes similares. Sua obra A
vindication of the rights of woman
'
d esigualdades sociais e
políticas entre os sexos na
Ver também: Platão 50-55 • Hipátia de Alexandria 331 • John Stuart Mill
sociedade ocidental.
190·193 • Simone de Beauvoir 276-277 • Luce lr1garay 320 • Hélêne Cixous 322
176

OTIPO DE FILOSOFIA UE
SE ESCOLHE DEPENDE DO,
TIPO DE PESSOA UE SE E
JOHANN GOTTLIEB FICHTE (1762-1814)

ohann Gottlieb Fichte foi um pensar e escolher com liberdade,


EM CON'cEXTO filósofo alemão do século XVIII, independência e espontaneidade.
aluno de Irnmanuel Kant. Fichte entendeu o idealismo e o
ÁREA
Investig·ou como é possível para nós dogmatismo como pontos de partida
Epistemologia
existir como seres éticos com livre- diferentes, que nunca poderiam ser
ABORDAGEM -arbítrio, enquanto vivemos em um "misturados" num único s istema
Idealismo mundo que parece ser determinado filosófico - não haveria maneira de
de maneira causal. Em outras provar filosoficamente qual está
ANTES palavras, um mundo onde todo evento correto, e um não poderia ser usado
1641 René Descartes descobre resulta necessariamente de para refutar o outro. Por essa razão ,
que é impossível duvidar que acontecimentos e condições prévias, alguém só pode "escolher" qual
"eu existo". O "eu" é, assim, a segundo leis invariáveis da natureza. filosofia acredita não por razões
única coisa da qual podemos A ideia de que há um mundo como objetivas e racionais, mas
ter certeza. esse "lá fora", além e independente do dependendo de "que tipo de pessoa
"eu", é conhecida como dogmatismo. se é". •
Século XVIII lmmanuel Kant
A ideia ganhou terreno no período
desenvolve o idealismo e o ego
iluminista, mas Fichte julgava que ela
transcendental, o "eu" que
não deixa espaço para valores ou
sintetiza a informação. Isso
escolhas morais. Como podemos
forma a base do idealismo e da considerar que temos livre-arbítrio,
noção do "eu" de Fichte. ele perguntou, se tudo é determinado
DEPOIS por algo além que existe fora de nós Considere o eu e
Século XX As ideias mesmos? observe o que está envolvido
nacionalistas de Fichte são Fichte propôs, então, uma versão ao fazer isso.
associadas aMartin Heidegger de idealismo similar à de Kant, na Johann Gottlieb Fichte
qual nossas próprias mentes crian1
e ao regime'il.azista na
tudo que pensamos como realidade.
Alemanha.
Nesse mundo idealista, o "eu'' é um
1950 Isaiah Berlin sustenta a ente ou essência ativa que existe fora
ideia de Fichte da verdadeil:a das influências causais e é capaz de
liberdade do "eu" como
responsável pelo autoritarismo Ver também: René Descartes 116-123 • Bento de Espinosa 126-129 • Immanuel
moderno. Kant 164-171 • Martin Heidegger 252-255 • Isaiah Berlin 280-281
.
AERA DA REVOLUÇÃO 177
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·-' .. . --

EM, NENHUM OUTRO ASSUNTO


HA MENOS,,.,.FILOSOFAR
'
DO UE
EM RELA AO AFILOSOFIA
FRIEDRICH SCHLEGEL (1772-1829)

historiador e poeta alemão românticas sobre arte e vida. Estas


EM CONTEXTO
ÁREA
Metafilosofia
• F riedrich Schlegel geralmente
recebe o crédito de introdutor
do uso de aforismos (afirmações curtas,
valorizavam a emoção humana
individual acima da razão, em
contraste com grande parte do
ambíguas) na filosofia moderna pensamento iluminista. Embora sua
ABORDAGEM posterior. Em 1798, percebeu que havia critica à filosofia mais antiga não
Reflexividade pouco filosofar sobre a filosofia estivesse necessariamente correta, seu
(metafiloso:fia), sugerindo que devemos contemporâneo Georg Hegel assumiu
ANTES questionar tanto a inaneira como a a causa da reflexividade - nome dado
c.450 a.e. Protágoras defende filosofia ocidental funciona quanto sua à aplicação de métodos filosóficos à
que não existem princípios suposição de que um tipo linear de própria disciplina da filosofia . •
básicos ou verdades absolutas: argumento é a melhor abordagem.
"O homem é a medida de todas Schlegel discordava das
,a s coisas". abordagens de Aristóteles e René
Descartes, dizendo que se
1641 René Descartes diz ter
equivocaram em supor que existam
encontrado um princípio básico
"primeiros principios" sóUdos como
sobre o qual estabelecer ponto de partida. Ele também
opiniões $Obre a existência ao considerou que não é possível a lcançar
afirmar que "penso, logo existo"_ quaisquer respostas definitivas, porque
DEPOIS toda conclusão de um argumento pode
1830 Georg Hegel diz que "toda ser aperfeiçoada infinitamente.
a filosofia assemelha-se a um Descrevendo sua própria abordagem,
Schlegel dizia que a filosofia deve
círculo de círculos".
sempre "começar no meio... é um todo,
1920 Martin Heidegger e o caminho para reconhecer isso não é
F i losofia é a a r te do pensamento e
argumenta que a :filosofia trat.a dB uma linha reta, mas um círculo". Schlegel mostra que seus métodos afetam
nossa relação com a existência. A visão holistica de Schlegel - a o tipo de respostas que se pode encontrar.
filosofia como um todo - se encaixa no Filosofias ocidentais e orientais usam
1967 Jacques Derrída afir1na
contexto mais amplo de suas teorias abordagens muito diferentes.
que a análise filosófica só pode
ser feit.a no nível da linguagem e
Ver també m: Protágoras 42-43 • Aristóteles 56-63 • René Descartes 116-123 •
dos textos. Georg Hegel 1.78.-185 • Martin Heidegger 252-255 • Jacques Derrida 308-313

GEORG HEGEL 1770-1831
180 GEORG HEGEL
e gel foi o fi Rósofo mais
EM CONTEXTO famoso da Alemanha na
pri meira metade do século
ÁREA
XIX. Sua ideia central era de que
Metafísica
todos os fenômenos , da consciência
ABORDAGEM às instituições políticas. são
Idealismo aspectos de um único espírito
("mente" ou "ideia", para ele) que ao
ANTES longo do tempo rein tegra esses
Século Vla.C. Heráclito afirma aspectos em si mesmo. Esse
que todas as coisas transformam- processo de reintegração é o que
-se em seus opostos, fator Hegel chama de "dialética"; u m
importante n~ d ialética de Hegel. processo que nós (enqua nto
aspectos do espírito) entendem os
1781 Immanuel Kant publica
como "h istória ". Hegel era, portanto,
Crítica da razão pura, que
um monista (acredi tava q ue todas as
mostra os limites do
coisas são aspectos de uma única
conhecimento humano.
coisa) e um idealista (entendia a Certas mudanças, como as provocadas
1790 A s obras de Johann Fich te realidade essencialmente como algo pela Revolução Americana, são explicadas
não material (o espi rita). A ideia de por Hegel como o progresso do espírito,
e F riedrioh Schelling lançam as de um estágio do desenvolvimento para
bases da escola do idealismo Hegel alterou radicalmente o
outro, mais elevado.
ale mão. panorama filosófico. Para apreender
suas implicações, precisamos
DEPOIS conferir o pano de fundo de seu aprendemos e modificamos ao usá-la,
1846 Karl Marx escreve A pensamento. e o mesmo é verdadeiro em relação à
ideologi a alemã, que utiliza o ciência: os cientistas montam um
método dialético de Hegel. História e ,c onsciência conjunto teórico e depois tentam
Poucos filósofos negariam q ue os confirmá-lo ou desmenti-lo. O mesmo
1943 A obra exis tencialista de
seres hum anos são, em grande também se aplica às instituições
Jean-Pa ul Sartre, O ser e o nada,
medida, históricos - herdamos coisas sociais - família , Estado, bancos,
se baseia na noção de dialética do passado, as modificamos e , depois, igrejas, e assim por diante - , a maior
de Hegel. as legamos para as gerações fu turas. parte das quais são formas
A lingua gem, por exemplo, é algo que modificadas de antigas práticas ou

GeorgHegel Georg Hegel nasceu e m 1770 em tornou-se editor de jor nal e,


Stuttga rt, na Alemanha , e estudou d ep ois, dire tor de escola , a ntes
teologia em Tübin gen, onde de ser nomeado para a cadeira de
conheceu e tornou-se amigo do filosofia em Heidelberg e , depois,
poet a Friedrich Hõlderlin e do na prestig iosa Universidade de
filósofo Friedrich Schelling. Passou Berlim. Aos 41 anos, c asou-se
vários a nos trabalhando como com Marie von Tucher, com
preceptor até que uma hera nça lh e quem teve três filhos. Morreu
permitiu unir-se a Schelling na em 1831, durante uma epid emia
Universid ade d e J ena. H egel foi d e cóle ra.
forçado a deixar Jena quando as
tropas de Napoleã o ocuparam a Obras-chave
cidade, e só conseguiu salva r sua
obra prin cipal, Fenomenologia d o 1807 Fenomenologia d o espírito
esp írito, que o cat apultou a uma 1812-16 Ciência da lógica
posição dom inante na filosofia 1817 Enciclopédia das ciências
alem ã . N ecessita n d o de recursos, filosóficas
-
AERA DA REVOLUÇAO 181
Ver também: Heráclito 40 • Johann Gottlieb Fichte 176 • Fríedrich Schelling 335 • Arthur Schopenhauer 186-188 • Karl
Marx 196-203 • Jean-Paul Sartre 268-271

instituições. Os seres humanos, "substância", "existência" e


portanto, nunca começam sua "realidade". Por exemplo, a
existência do nada, mas sempre experiência pode nos dar
dentro de a lgum t ipo de contexto, que conhecimento sobre o mundo
às vezes muda radicalmente dentro exterior, mas nada na própria
de uma mesma geração. Entretanto, experiência nos informa que o mundo
Compreender o que é,
algumas coisas não parecem ser exterior rea lmente existe, o que é
imediatamente históricas ou sujeitas algo que apenas admitimos . Para
esta. é a tarefa da filosofia,
, , -
a mudança. Kant, o conhecimento de que há um
pois o que e, e a razao.
Um exemplo de tal coisa é a mundo exterior é, portanto, um
GeorgHegel
consciência. Sabemos com certeza conhecimento a priori. Ele só é
que a lgo sobre o que temos possível porque nascemos com
consciência vai mudar, mas o categorias que nos fornecem uma
significado ser consciente (que tipo estrutura para a experiência - parte
de coisa é estar despertô, estar da qual é a suposição de que há um >>
ciente, ser capaz de pensar e tomar
decisões) é algo que tendemos a c••a• ·wscc•w-- ,---------~.
acreditar que sempre foi igual para
todos. Da mesma maneira, parece A filosofia deve começar
plausível afirmar que as estruturas do .-
sem supos1çoes.
pensamento não são históricas - ou
que o tipo de atividade do
pensamento, co1n suas faculdades
mentais (memória, percepção,
compreensão etc.), sempre foi o Não devemos s upor Não devemos supor que
mesmo para todos, ao longo da que as estruturas do toda a realidade é dividida
história . Isso era certamente o que o pensamento e a consciência em pensamentos e
grande antecessor idealista de Hegel, são imutáveis. objetos do pensamento.
Immanuel Kant, acreditava. E , para
compreender Hegel. precisamos 1 •
saber o que ele pensava sobre a obra
de Kant.

As cat egorias de Kant Essas mesmas estruturas são Pensamentos e objetos são
Para Kant, os processos básicos por
aspectos do espírito. aspectos do espírito.
meio dos quais o pensamento
funciona e as estruturas básicas da
consciência são a priori - existem
antes (portanto, não derivam) da \ Toda realidade é espírito,
experiência. Isso significa que são e todo espírito é sujeito ao
independentes não apenas do que desenvolvimento histórico.
estamos pensando, ou do que
estamos conscientes, mas também
de qualquer influência histórica ou
aperfeiçoamento.
Kant chamou essas estruturas de Toda realidade é
pensamento de "categorias", e elas um processo histórico.
incluem os conceitos "causa",
182 GEORG HEGEL
A dialética de Heg el mostra como opostos alcançam a uma da outra). Para Hegel, elas são
resolução. Um estado de tirania, por exemplo. gera demanda "dialéticas", ou seja, estão sempre
por liberdade, mas. uma vez que ela seja alcançada, só pode sujeitas à mudança. Kant imaginara
haver anarquia - até que um elemento da tirania seja
uma estrutura imutável da
combinado com liberdade, criando a síntese "lei".
experiência , enquanto Hegel
ANTÍTESE acreditava que a própria estrutura da
TESE
experiência é sujeita à mudança, tanto
quanto o mundo que experi1nentamos.
A consciência, portant o, e não apenas
a lgo sobre o qual estam os cientes, é
part e de um processo em evolução.
Um processo "dialético" - conceit o
q ue tem significado bem específico no
pensamento de Hegel.
TIRANIA LIBERDADE
A dialética de Hegel
A noção de dialética é fundamental
ao que Hegel chama de explanação
imanente (interna) sobre o
desenvolvimento das coisas. Ele
declarou que sua explanação
garantiria quatro coisas. Primeiro,
que n enhuma suposição é feita.
Segundo, que apenas as noções mais
LEI amplas possíveis são empregadas -
evitando afirmativas sem justificação.
SÍNTESE
Terceiro, q:ue ela mostra como uma
noção geral produz outras noções,
mundo exterior. No entanto, continua ainda traíam suposições não criticas. mais específicas. Quarto, que esse
Kant, essa estrutura a priori só nos Hegel argumentou que Kant processo acontece inteiramente
permite ver o mundo de um modo fracassara ao menos em relação a dois "dentro" da própria noção. Essa
particular, mas pode haver outros aspectos em sua análise. quarta exigência revela o cerne da
modos de vê-lo, nenhum dos quais Primeiramente, Hegel considerava a lógica de Hegel: toda noção, ou
possivelmente representa o mundo noção kantiana de "mundo em si" "tese", contém dentro de si uma
como ele é realmente - ou como e le é como uma abstração vazia sem contradição, ou "antítese", que só é
em "si mesmo". Este "m undo como s ignificado. Para Hegel, o que existe é solucionada pelo surg imento de uma
ele é em si mesmo" é o que Kant o que vem a ser manifestado na noção mais nova e mais rica.
chamava de mundo numênico, que consciência - por exemplo, como algo chamada "síntese", a partir da própria
seria incognoscível. Tudo que sentido ou como algo pensado. O noção original. Uma con sequência
podemos conhecer, de acordo com segundo fracasso de Kant, apontou desse processo imanente é que,
Kant, é o mundo como ele se revela a Hegel, seria o excesso de suposições quando nos tornamos cientes da
nós por meio da estrutu ra das sobre a natureza e a origem das síntese, percebemos que o que
categorias. Isso é o que Kant chama categorias. havíamos considerado como
de mundo "fenomênico", ou o mundo A tarefa de Hegel foi entender contradição na tese era apenas
da experiência cotidiana. essas categorias sem fazer qualquer aparente, causada por alguma
suposição, e a pior suposição que lim itação em nossa compreensão da
A crítica de Hegel a Kant Hegel viu em Kant diz respeito às noção original.
Hegel acreditava que Kant fez grandes relações das categorias umas com as Um exemplo dessa progressão
avanços ao eliminar a ingenuidade na outras. Kant supôs que as categorias lógica aparece no início da Ciência
filosofia, mas que suas expia nações são logicamente distintas (em outras da lógica de Hegel, na qual ele
sobre o "mundo em si" e as categorias palavras , não podem ser derivadas introduziu a noção mais geral e
AERA DA REVOLUÇÃO 183
elevado, no qual eles encontram a a análise, por envolver sua própria
solução. No caso do "ser" e do "não contradição, e isso, por sua vez, é
ser'', o conceito que os soluciona é solucionado por uma noção ainda mais
"vir a ser". Quando dizemos que algo rica ou "mais elevada". Todas as
"vem a ser", queremos dizer que ele se ideias, de acordo com Hegel, estão
Cada parte da filosofia desloca de um estado de não ser para interconectadas dessa forma, e o
é um Todo filosófico, um estado de ser. Assim, o conceito processo de revelar essas conexões é o
um círculo que se fecha inicial de "ser" não era realmente um chamado "método dialético".
sobre si mesmo. conceito único, mas apenas um Ao afirmar que as estruturas de
GeorgHegel aspecto da noção tripartite de "vir a pensamento são dialéticas, portanto,
ser". O ponto vital, aqui, é que o Hegel queria dizer que elas não são
conceito d·e "vir a ser" não é distintas e irredutíveis, como Kant
introduzido a partir "de fora", por sustentava, mas que surgem a partir
assim dizer. para resolver a das noções m a is a m plas, por meio
contra dição e ntre "ser" e "não ser". Ao desse movimento de autocontradição
contrário, a análise de Hegel afirm ou e resolução.
abrangente do "puro ser" - que que "tornar-se" foi sempre o
significa qualquer coisa sobre a qual, significado de "ser" e "não ser" - basta A dialética e o mundo
em qualquer sentido, pode ser dito analisar esses conceit os para ver A discussão sobre a d ialética de Hegel
que exista. Ele então mostrou que em ergir s ua lógica subjacente. usa termos corno "emergir",
esse conceito contém uma contradição Essa resolução de uma tese (ser) "desenvolvimento" e "movimento". Por
- isto é, o "ser puro" exige o conceito com sua antítese (não ser) numa um lado, esses termos refletem algo
oposto de "nada" ou "não ser" para ser síntese (vir a ser) é apenas o início do importante sobre esse método da
compreendido inteiramente. Hegel processo dialético, que prossegue em filosofia : que ele começa sem
revelou, então, que essa contr adição é espiral, repetindo-se em níveis cada suposições e a partir do ponto menos
simplesmente um conflito entre dois vez mais elevados. Isto é, qualquer controverso, permitindo que conceitos
aspectos de um conceito único, mais nova síntese acaba, se aprofundarmos mais ricos e verdadeiros se revelem »

Na visão de Hegel, a síntese surge de um


antagonismo da tese. a antítese, sendo que a
própria síntese torna·se uma nova tese, que gera
sua própria antítese, a qual finalmente dá à
luz outra sinLese. Nesse processo dialético,
o espírito alcança um entendimento
cada vez majs preciso sobre si mesmo,
culminando, segundo a filosofia de
Hegel, na compreensão c<0mpleta.

Tl A1

S1 / T2 A2

LEG E NDA
T=TESE
S2/T3 A3
A= ANTÍTESE
S=SÍNTESE S3/T4
184 GEORG HEGEL
ao longo do processo de avançou gradualmente até as formas
desdobramento dialético. Por outro coletivas de consciência. Ele fez isso
lado. no entanto, Hegel argumentava a fim de demonstrar que tais tipos
que esses desenvolvimentos não são de consciência se encontram
apenas interessantes fatos da lógica,
mas desenvolvimentos reais, que
externalizados em períodos
históricos ou acontecimentos
''
Cada estágio da
podem ser vistos em ação na história. particulares - por exemplo, nas
Por exemplo, um homem da Grécia revoluções americana e francesa.
história é um momento
antiga e um homem do mundo De fato, Hegel mencionou que em
necessário da ideia do
moderno obviamente pensam sobre certas épocas o espírito usa espírito do mundo.
coisas diferentes, mas Hegel afirmou individuas, como Napoleão Bonaparte, GeorgHegel
que suas próprias formas de pensar para forçar a história ao próximo passo
diferem, representando tipos de seu desenvolvimento -
diferentes de consciência - ou independentemente dos motivos dos
estágios diferentes no próprios individuos, que ignoram o
desenvolvimento histórico do modo pelo qual estão sendo usados
pensamento e da consciência. pelo espírito. O progresso que esses
A primeira grande obra de Hegel, indivíduos deflagram é sempre Essa ideia extraordinária - de que
Fenomenolog1a do espírito, fornece caracterizado pelo fato de libertar os a natureza da consciência tem
uma explicação do desenvolvimento aspectos do espírito (sob forma mudado através do tempo e de acordo
dialético dessas formas de humana) dos estados recorrentes da com um padrão visível na história
con sciência. O autor mapeou os opressão, superando tiranias que - significa que não há nada sobre os
tipos de consciência que um ser podem elas mesmas ser fruto da seres hu manos que não seja de
humano individual pode possuir e superação de tiranias anteriores. caráter histórico. Mais além, esse
desenvolvimento histórico da
1
consciência não pode simplesn1ente
ter acontecido ao acaso. Já que é um
processo dialético, deve em algum

/ sentido conter tanto um sentido


particular de direção quanto
uma finalidade. Hegel chan1a essa
finalidade de "espírito absoluto": com
isso. ele quer dizer um futuro estágio
de consciência que já não pertence
aos indivíduos, mas à rea hdade corno
um todo.
Nesse ponto de desenvolvimento,
o conhecimento seria completo -
como deve ser, de acordo com Hegel,
já que o espírito abrange. pela síntese
dia lética. tanto aquele que conhece
quanto aquilo que é conhecido. Além
disso, o espírito apreende esse
conhecimento como nada além do
que sua própria essência concluída: a

Napoleão Bonaparte, de acordo com


Hegel, personificava o Zeitge1st (espírito
da época) e foi capaz. por meio de suas
ações, de levar a história ao estágio
seguinte de seu desenvolvimento.
AERA DA REVOLUÇÃO 185
revelada como sendo sempre, quand9 é tanto pensamento quanto aquilo
apropriadamente compreendida, que é pensado.
espírito). A "totalidade do espírito". ou
Nesse estágio da natureza, começa "espírito absoluto", é o ponto final da
- uma dialética diferente: aquela da dialética de Hegel. No entanto, os
Do Absoluto deve ser dito própria consciência - das formas que estágios anteriores não são deixados
que é essen cialmente o espírito absoluto assume em sua para trás, por assim dizer, 1nas
resultado, que apenas no progressão dialética rumo à revelados como aspectos
fim é o que realmente é autorrealização. A explanação de insuficientemente analisados da
na verdade. Hegel sobre essa progressão começa totalidade do espíri to. De fato, o que
GeorgHegel com a consciência, que primeiro pensamos sobre uma pessoa
pensa em si como uma coisa individual não é um elemento
individual entre outros indivíduos, separado da realidade, mas um
ocupando um lugar separado da aspecto de como o espírito se
matéria ou do mundo natural. No desenvolve - ou como ele "extravasa
entanto, os estágios posteriores da no tempo". Assim , Hegel escreveu:
consciência não são mais os dos "A verdade é o todo. Mas o todo é
assim1lação completa de todas as indivíduos, mas dos grupos sociais ou somente a essência que se
formas de "alteridade" que sempre políticos - e assim continua a implementa por meio do seu
foram partes de si mesmo, embora dialética. aperfeiçoando-se até desenvolvimento". A realidade é o
sem saber. Em outras palavras, o alcançar o estágio de espírito espírito - tanto o pensamento
Espírito não existe simplesmente absoluto. quanto aquilo que é conhecido pelo
para abranger a realidade. pensamento - que sofre um processo
Ele existe para estar ciente de si Espírito e mente de desenvolvimento histórico. •
mesmo, como sempre sendo nada Na época em que Hegel escreveu,
além do que o movimento rumo à havia uma visão filosófica dominante
abrangência da realidade. Corno de que existem dois tipos de entes no
Hegel escreve na Fenomenologia do mundo: coisas que existem no mundo
espírito, "a História é o vir a ser que iisico e pensamentos sobre essas
sabe, e que se mediatiza - lé] coisas (estes últimos sendo algo como
espírito extravasado no tempo". retratos ou imagens das coisas). Hegel
afirmou que todas as versões dessa
Espírito e natureza distinção são equívocos, ao envolver
Mas e o mundo em que vivemos e . com um cenano
nosso com1Jrom1sso ' .

que parece ir por seu caminho um ridículo em que duas coisas são
tanto apartado da história humana? absolutamente diferentes (coisas e
O que significa dizer que a própria pensamentos), mas também de algum
realidade é histórica? De acordo modo similares (porque os
com Hegel, o que geralmente pensamentos são imagens das coisas).
chamamos de "natureza" ou "o Hegel disse que é somente
mundo" é também espírito. "A aparente a diferença entre os objetos
natureza tem de ser considerada um do pensamento e o próprio
sistema de estágios, um surgindo pensamento. Para Hegel, a ilusão de
necessariamente a partir do outro e d iferença e separação entre esses
sendo a verdade ilnediata do estágio dois mundos "aparentes" se mostra
do qual resulta." Hégêl afirmou, ainda, quando o pensamento e a natureza
que um dos estágios da natureza é a são revelados enquanto aspectos
A história alem ã tinha alcançado seu
progressão daquilo que é "apenas do espírito. Essa ilusão é superada no ponto final no Estado prussiano, segundo
Vida" (natureza como totalidade viva) espírito absoluto, quando vemos que Hegel. Porém, havia forte sentimento a
para aquilo que tem "existência como existe apenas uma reahdade: aquela favor de uma Alemanha unida,
espírito" (a totalidade da natureza do espírito, que sabe e reflete em si, e simbolizada pela figura da Germania.
186 . ' . .. -.· .. ,--
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EM CON'l..EXTO
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ÁREA
Metafísica
ABORDAGEM
Idealismo
~~====:::::;::=====:;.:;~

ANTES'
1690 John Locke t>ublica EnsaiG

" acerca tio entendimel'lto


humano, ex,,Plieanclo eomo toqo
,{Jpnheeímento ])rovérn da
- . ... .
-e~er1enG1a.

1781 A Critica dÇt razão pgra, ®.e


.IrhmanuelJCant.fillttôduz.,G:
&onceit0 de ''.ceisa. em ~:;if', ~Jift
Soho~errhauer usa c-óroo IiJ10hto
11 .de,pariiç'la para suq.,s ideia_?.
,
-DE:IP-OIS
ARTHUR SCHOPENHAUER (1788-1860) =
Finª.l da sêc~o XIX Friedricli -
.Nie~zsohe. :gr0pãe &r:io11ãe de
"vontadecâe 12oêfér".:.Rara e.~1icair,
as-motiv.aç&es !lurr:íanas.
Iníeio do seeulo XX O
psican,alista aiastríaaô·Sigmun,q
Freud·eZJ)loia oG&le está 'g)GI trâs
des ,çiesajqs h~a:n9JS-::b,ásicps_,

rthur Schopenhauer não se


alinhava com a tendência
dominante da filosofia
alemã do início do' século XIX.
Reconhecia (e idolatrava) Immanuel
Kant como urna grande influência,
mas rejeitava os idealistas de sua
própria geração, que sustentavam
que a realidade consiste
essencialmente de algo não material.
Acima de tudo, detestava o idealista
Georg Hegel pelo estilo literário seco
e pela filosofia otimista,
Usando a metafísica de Kant como
ponto de partida, Schopenhauer
desenvolveu sua própria visão de
mundo, que expressou em clara
linguagem literária. Aceitou a visão
kantiana d·e que o mundo se divide
AERA DA REVOLUÇÃO 187
Ver também: Empédocles 330 •John Locke 130-133 • lmmanuel Kant 164-171
• Georg Hegel 178-185 • Friedrich Nietzsche 214 -221

Minha versão do mundo é


limitada por...

...observações limitadas ... experiências limitadas


que posso fazer de um vasto de uma vasta Vontade
. universal, da qual minha
universo.
vontade é apenas parte. Arthur Schopenha.u er
Nascido numa família rica e
cosmopolita em Danzig
(atualmente Gdansk, Polônia},
esperava-se que Schopenhauer
Minha versão do mundo não inclui coisas se tornasse um comerciante
que não percebi, nem a Vontade com o seu pai. Ele viajou à
universal que não experimentei. França e à Inglaterra antes que
sua familia s e estabelecesse em
Hamburgo, em 1793. Em 1805,
depois da morte do pai
(possivelmente por suicídio),
julgou que poderia parar de
EU tomo os llmltas de trabalhar e ir para a
universidade, onde estudou
meu pl'6prlo campo de visão como filosofia e psicologia. Manteve
os limites do mundo. um relacionamento difícil com a
mãe, crítica contumaz de seus
atos e decisões.
Após comp]etar os estudos,
entre o que percebemos por meio dos próprio campo de visão como os
Schopenhauer lecionou na
sentidos (fenômeno) e as "coisas em limites do mundo".
Universidade de Berl im.
si" (númenos), mas queria exp1icar a A ideia de conhecimento limitado Alcançou fama como
natureza dos mundos fenomênico e à experiência não era inédita. O namorador e misógino, evitou o
numênico. antigo filósofo Empédocles tinha dito casamento e, certa vez, foi
que "cada homem acredita apenas condenad o por agressão a uma
Interpretando Kant em sua experiência", e no século XVII mulher. Em 1813, mudou-se
De acordo com Kant, cada um de nós John Locke afirmou que "nenhum para Frankfurt, onde passou o
constrói uma versão do mundo a partir conhecimento do homem pode ir resto da vida na companhia de
das nossas percepções - o mundo além de sua experiência". Mas a razão uma sucessão de poodles
fênómênico - , mas nunca que Schopenhauer forneceu para essa chamados de Atman ("alma" no
experimentamos o mundo nurnênico limitação era realmente nova, vinda hinduísmo e budismo) ou Butz
("du ende", em .alemao).
como ele é "em si". Então, cada um de de sua interpretação dos mundos
nós tem visão limitada do mundo, já fenom·ênico e numênico de Kant. A
Obras-chave
que as percepções são construídas a diferença importante entre Kant e
partir da informação adquirida por um Schopenhauer é que, para o último, o 1818 e 1844 O mundo como
conjunto limitado d e sentidos. fenornênico e o numênico não são vontade e representação
Schopenhauer acrescentou a isso que duas realidades ou mundos 1851 Parerga e paralipomena
"todo homem aceita os limites de seu diferentes, mas o mesm.o mundo, >>
188 ARTHUR SCHOPENHAUER
sentido de maneira diferente. Um como Kant, que o espaço e o tempo
mundo com dois aspectos. Vontade e pertencem ao mundo fenomên ico (são
Representação. Isso é mais facilmente conceitos dentro das nossas mentes,
evidenciado por nossos corpos: ora e não coisas fora delas}, e que a
percebemos como objetos Vontade do mundo não indica o
(Representações), ora tempo nem segue leis causais ou A base e o solo sobre
experimentamos a :partir de dentro espaciais. Isso significa que ela deve o qual todo o nosso
(como Vontade). ser atemporal e indivisível - e da conhecimento e aprendizado
Schopenhauer disse que um ato mesma forma devem ser nossas repousa, é o inexplicável.
de vontade, como desejar levantar um vontades individuais. Segue, então, Arthur Schopenhauer
braço, e o movimento resultante disso que a Vontade do universo e a
não estão em mundos diferentes - o vontade individual são uma única
numênico e o fenornênico -, mas são coisa, e o mundo fenomênico está sob
um mesmo acontecimento sentido de o controle dessa Vontade vasta e
duas formas diferentes. Um é imotivada.
experimentado a partir de dentro, o
outro observado a partir de fora. Influência oriental uma filosofia moral um tanto
Quando vemos algo fora de nós Nesse ponto do argumento, o surpreendente, considerando seu
mesmos, embora vejamos apenas sua pessimismo de Schopenhauer se caráter misantrópico e pessimista.
Representação objetiva (e não a sua revelou. Contemporâneos como Hegel Ele entendeu que, se pudermos
realidade interior ou Vontade), o viam a vontade como força positiva. Já reconhecer que nossa separação
mundo como um todo ainda tem as Schopenhauer enxergava a do universo é essencialmente uma
mesmas e simultâneas existências humanidade à mercê de u1na Vontade ilusão (porque as vontades
exterior e interior. universal despropositada e irracional. individuais e a Vontade do universo
Ela estaria por trás de nossos desejos são uma e única coisa), podemos
Vontade universal mais básicos, induzindo-nos a viver descobrir uma empatia com o mundo
Schopen hauer usou a palavra em constante desapontamento e e tudo o mais, e a bondade moral
"vontade" para representar uma frustração na tentativa de aliviar tais pode surgir de uma compaixão
energia pura que não tem direção anseios. Para Schopenhauer, o mundo universal. Aqui, novamente, o
ativa e mesmo assim é responsável não é bom nem ruim, mas sem pensamento de Schopenhauer reflete
por tudo o que se manifesta no significado, e os humanos que lutam a fi losofia oriental.
m.undo fenomênico. Ele acreditava, para encontrar a felicidade alcançam,
na mell1or das hipóteses, satisfação Legado duradouro
- e na pior, dor e sofrimento. Amplamente ignorado por filósofos
A única saída dessa condição alemães do seu tempo, Schopenhauer
miserável, de acordo com teve suas ideias ofuscadas pela obra
Schopenhauer, é a não existência ou, de Hegel. Contudo. inspirou escritores
pelo menos, uma privação da vontade e músicos. No final do século XIX. a
de satisfação. Ele propôs que o alívio primazia que ele con.feriu à Vontade
pode ser buscado por meio da tornou-se tema da filosofia novamente.
contemplação estética, especialmente Friedrich Nietzsche, em particular,
na música, a arte que não tenta reconheceu sua influência, e Henri
representar o mundo fenomênico. Bergson e os pragmatistas norte-
Aqui, a filosofia de Schopenhauer -americanos também devem algo à
ecoa o conceito budista do nirvana a nálise do mundo como Vontade. O
(estado transcendental livre do maior legado de Schopenhauer,
desejo e da dor): de fato, ele havia contudo, talvez esteja no campo da
Schopenhauer estudou o Bhagavad
Gita hindu, no qual Krishna, o cocheiro, estudado em detalhes pensadores e psicologia, em que suas ideias sobre
diz a Arjuna que o homem é escravo de religiões orientais. desejos básicos e frustração
seus desejos, a menos que consiga se A partir da ideia de Vontade influenciaram as teorias psicanalíticas
libertar deles. universal, Schopenhauer desenvolveu de Sigmund Freud e Carl Jung. •
AERA DA REVOLUÇÃO 189

LUDWIG ANDREAS FEUERBACH (1804-1.872)

ilósofo a len1ão do século humanidade). Não só nos iludimos


EM CONTEXTO XIX, Ludwig Feuerbach é em pensar que um ser divino existe
mais conhecjdo pela obra A co1no também esquecemos ou
ÁREA
essência do cristianismo (1841), que renunciamos ao que somos.
Filosofia da religião,
inspi rou pensadores revolucionários Perdemos de vista o fato de que tais
ABORDAGEM como Karl Marx e Friedrich Engels. virtudes j á existem em humanos,
Ateísmo O livro incorpora mlnito do não em deuses. Por essa razão,
pensamento de Georg Hegel, mas devemos focar menos em
ANTES enquanto este via um espírito integridade celestial e mais em
c .600 a.e. Tales e·0 primeiro absoluto como força-guia na justiça 11umana: são as })essoas
filósofo ocidental a ne,g ar que o natureza, Feuerbach acreditava que nesta vida, nesta Terra, que
universo deve sua existência a a experiência humana bastava para merecem nos-sa atenção. •
utnâéus. explicar a exist ência . Para
Feuerbach, os humanos não são
e.SOO a.e. Fundação da esoo1a
uma forma externalizada de um
indiana de filosofia ateísta
espírito absoluto, mas o oposto:
conbecicl.çi. como Carvaka.
criamos a ideia de u 1n esi:)írito
c.400 a.C. O antigo ftlósofo maior, um deus, a partir de nossos
grego Diágoras de Mel@s propõe próprios desejos e aspirações.
argumentos e.rn. defesa do
ateísmo. Imaginando Deus
Feuerbach sugere que, em nosso
DEPOIS anseio por tudo o que há de melhor
Meados do século XIX Karl na humanidade (amor, compaixão,
Marx usa o raoiocínio de bondade), imaginamos um ser que
Feuerbaclh. em s ua filosofia de incorpora essas qualidades no mais
Os israelitas da Bíblia, em sua carência
i;evoluçã0 política. alto grau possível e o chama1nos de certeza e reàfumação, cri.aram um fa lso
"Deus". A teologia (o estudo sob re deus - o bezerro de ouro - para venerar.
Fin.al do século XIX O
Deus) é, portanto, nada mais do que Feuerbach argumenta q ue todos os deuses
psicanalista Sigmund. Freud
antropologia (o estudo sobre a são criados do mesmo modo.
... é uma
ar©Urnenta que a religião
projeçã.o. dos desejos hum.anos.
Ver ta:mbé:m: Tales de Mileto 22·23 • Georg Hegel 178-185 • Karl Marx 196-203
190
EM CONTEXTO
=;;;:::::":::=;;;;;
ÁREA
Filosofia política
ABORDAGEM
Utilitarismo
ANTES
, ' 1651 Em Leviatã, Thomas
Hobbes diz que as pessoas são
"brutais'' e devem ser controlada;;
por um con.trato social,
1689 A obra Dois tratadl!Js sobre
o gôvemo, de John Locke,
examina a teoria do contrato
- social no contexte do empirisi;no.
JOHN STUART MILL (1806-1873) 1789 Jerem y Bentham defende
o "princípio da máxima
felicidade possível".
DEPOIS
1930 O e c onomista J .M. Keynes 1
influenciado por Mill, desen volve
t eorias econômicas liberais.
1971 JohnRawlspublica Uma
teoria de justiça, baseado na ide~a
-de que as leis devem ser aquelas
que t odo mundo aceitaria.

ohn St uart M ill nasceu numa


família de intelectuais e,
d esde cedo, esteve a par das
tradições britânicas da filosofia
surgidas no iluminismo do século
XVIII. John Locke e David Hume
haviam estabelec.ido uma filosofia
cujo novo empiris mo contrastava
completamente com o racion alismo
dos pensadores europeus
continentais. Mas no final do século
XVIII, as ideias românticas da
Europa começaram a influenciar a
fiilosofia moral e a política
britânicas. O produto mais ób vio
dessa influência foi o utilitarismo,
uma interpretação bem britânica da
filosofia política que moldara as
revoluções dlo século XVIII na
-
AERA DA REVOLUÇAO 1'91
Ver também: Th.o mas Hobbes 112-115 • John Locke 130-133 • Jeremy Bentham
174 • Bertrand Russell 236-239 • Karl Popper 262-265 • John Rawls 294-295

As decisõe s devem Indivíduos d evem ser


ser tomadas sob o princípio livres para fazer o que
do máxímo bem lhes proporcione prazer,
possível para o máximo ainda que isso possa
de pessoas possível. prejudicá-los . . .

John Stuart Mill


•.
John Stuart Mill nasceu em
Londres em 1806. Seu pai, o
filósofo e historiador escocês
Os indivíduos p odem James Mill, fundou o movimento
. .. mas eles não estão
escolher fazer coisas de "filósofos radicais" com
autorizados a fazer
que afetam seus próprios
corpos , m a s não o de
outra pessoa.
< coisas que prejudiquem
os outros.
Jeremy Bentham. John foi
educado em casa pelo pai, cuja
didática rigorosa começou com
aulas de grego quando o menino
tinha três anos de idade.
Após anos de estudo intenso,
Mill sofreu um colapso nervoso
aos vinte anos. Abandonou a
universidade para trabalhar na
Sobre seu Companhia das índias Orientais,
próprio corpo onde permaneceu até a
emente. aposentadoria, em 1857, uma vez
oindiVíduo que o ofício lhe oferecia sustento
é soberano. e tempo para es·crever. Durante
esse período conheceu Harriet
Taylor, defensora dos direitos
das mulheres - que, depois de
um relacionamento de vinte
anos, tornou-se sua esposa. Mill
Europa e na América. Seu criador. dog1nática do q ue a de Bentham atuou como membro do
Jeremy Bentham, amigo da família (que insistia que tudo fosse julgado parlame.n to britânico de 1865 a
Mil!, i nfluenciou a e ducação por s ua utilidade), ma s o empirismo 1868, colocando em prática sua
doméstica de Joh n. e o u tilitarismo de a1nbos instruiu filosofia moral e política.
seu pensamento. A filosofia moral e
Liberalismo vitoriano polít ica de Mill - menos radical do Obras·chave
Como fi lósofo, Mill estabeleceu para que a de seus antecessores - m irava
si a tarefa de sintet izar uma herança a reforma em vez da revolução, e 1843 Sistemas de lógica
1848 Princípios de economia
intelectual valiosa com o novo formou a base do libéralismo
política
romantismo do século X IX. Sua vitoriano britânico.
1859 Sobre a liberdade
abordagem é menos cétíca do que a Após completar sua primeira obra
1861 Utilitarismo
de Hum e (que argumentava que todo filosófica , o extenso Sistemas de 1869 A sujeição das mulheres
conhecimento vem da experiência lógica, em seis volum es, Mill voltou 1874 Sobre a natureza
dos sentidos e nada é certo) e menos sua atenção para a filosofia moral, »
192 JOHN STUART MILL
particularmente as teorias abstrato "cálculo de felicidade" (um
utilitaristas de Bentham. Ele tinha algoritmo para calcular felicidade),
se impressionado com a elegante mas Mill queria descobrir como efte
simplicidade do princípio da poderia ser implementado no mundo
"máxima felicidade possível para o real. Ele estava interessado nas
,
máximo possível de pessoas" de implicações sociais e políticas do
E melhor ser
Bentham, acreditando firmemente princípio, em vez de seu mero uso
para tomar decisões morais. Como a
um Sócrates insatisfeito
em sua utilidade. Mil! descreveu sua
legislação promotora da "máxi ma
do que um tolo satisfeito.
interpretação sobre como o
utilitarismo podia ser aplicado de felicidade possível para o máximo
John Stuart Mill
modo semelhante às "regras de ouro" possível de pessoas" realmente
de Jesus de Nazaré: tudo o que afetaria o indivíduo? E' possível que
quereis que os homens vos façam, as leis que buscam isso, ao instituir
fazei-o também a eles; e ama a teu um tipo de regra majoritária, ~ 'r
próximo como a ti mesmo. Isso, ele impeçam que algumas pessoas I' . • - • • •· •l

dizia, constitui "a perfeição ideal da alcancem a felicidade?


moralidade utilitarista". Mill julgou que a solução é a se1npre motivadas a agir não apenas
educação, e a opinião pública em favor do próprio bem-estar ou
Legislando pela liberdade trabalharem juntas para estabelecer felicidade, mas para o de todos. Ele
Mill apoiava o príncí:pio da felicidade uma "associação indi!ssolúvel" entre concluiu que a sociedade deve,
de Bentham, mas o considerava a felicidade de um indivíduo e o portanto, permitir a todos os
carente de praticidade. Bentham bem-estar da sociedade. Co1no individues a liberdade de buscar a
concebera a ideia como atrelada a um resultado, as pessoas estariam felicidade. Além disso , ele
acrescentou, tal direito deve ser
asseg-urado pelo governo, e a
legislação tem de proteger a
liberdade i!ndividual para buscar
objetivos pessoais. No entanto,

' -. alertou Mill, essa liberdade deve ser
' restringida no caso de a ação de uma
' pessoa violar a felicidade de outras.
Esse é conhecido como "princípio do
dano". Mim o sublinhou ao mostrar
que, nesses casos, "o próprio be1n
[de uma pessoal , físico ou moral, não
é uma garantia suficiente".


Quantificação da felicidade
Mil! voltou sua atenção para a
questão de como medir a felicidade.
Bentham tinha considerado a
dura.ção e a intensidade dos prazeres
em seu "cálculo da felicidade", mas
Mill julgou que ta1nbém é
importante considerar a qualidade

O bom samaritano ajuda seu inimigo.


A Bíblia ilustra a regra de Mill - tudo que
quereis que os homens vos façam, fazei-o
também a eles-, para elevar o nível de
felicidade de todos.
AERA DA REVOLUÇÃO 193
do prazer. Com isso. ele se referia à liberdade. é "soberano sobre seu
diferença entre uma simples próprio corpo e sua própria mente".
satisfação de desejos e prazeres Suas ideias deram corpo ao
sensuais e a felicidade alcançada liberalismo vitoriano. abrandando as
pela busca intelectual e cultural. ideias radicais que tinham
Na "equação da felicidade", ele conduzido a revoluções na Europa e
conferiu mais peso aos prazeres na América e combinando-as com a
intelectuais. mais elevados, do que noção de indivíduo livre da
aos físicos, mais básicos. interferência da autoridade. Essa.
Ahnhado com sua formação para Mill, era a base para a justa
empirista. MiU tentou identificar a governança e para o progresso
essência da felicidade. O que é isso, social, importantes ideais vitorianos.
ele perguntou. que cada indivíduo luta Ele acreditava que, se a sociedade
para alcançar? O que causa a A Sociedade Nacion a l Para o Voto deixasse o individuo viver da forma
felicidade? Ele decidiu que "a única Feminino foi organizada na Inglaterra em que o fizesse feliz, isso lh.e permitiria
evidência que é possivel de ser 1868. um ano após Mil! tentar assegurar atingir todo o seu pot encial. O que
tal direito. defendendo uma emenda à Lei
apresentada de que algo é· desejável é beneficiaria toda a sociedade, já que
da Reforma de 1867.
que as pessoas realmente a desejam". as realizações dos talentos isolados
Isso parece uma explanação um tanto contribuem para o bem geral.
insatisfatória, mas ele prosseguiu com Em seu periodo como parlamentar, Durante sua vida, Mill foi
a distinção entre dois desejos M11l propôs muitas reformas que só reconhecido como filósofo importante.
diferentes: desejos imotivados (coisas vingariam mu1to tempo depois. mas Hoje, muitos o consideram o arquiteto
que queremos que nos proporcionarão seus discursos sobre as aplicações do liberalismo vitoriano. Sua filosofia
prazer) e ações conscienciosas (coisas liberais de sua ftlosofta utilitária foram de inspiração utilitarista teve
q ue fazemos por senso de dever ou levados para um público amplo. Como influência direta no pensamento
caridade, com frequência contra nossa filósofo e político, argumentou social, político. filosófico e econômico
inclinação imediata, mas que por fim fortemente em defesa da livre até o século XX. A economia moderna
nos dão prazer). No primeiro caso. expressão, pela promoção dos direitos foi moldada por várias interpretações
desejamos algo como parte de nossa humanos básicos e contra a de sua aplicação, do utilitarismo ao
felicidade, mas no segundo desejamos escravidão - óbvias aplicações mercado livre, especialmente pelo
como meio para nossa felicidade , que práticas do utihtarismo. Fortemente economista britânico John Maynard
é sentida apenas quando o ato alcança influenciado pela esposa. Harriet Keynes. No campo da ética, :filósofos
seu fim virtuoso. Taylor-Mill, foi o primeiro parlamentar como Bertrand Russell, Karl Popper,
britânico a propor o voto feminino William James e John Rawls tomaram
Utilitarismo prático como parte das reformas de governo. Mil! como ponto de partida. •
Mill não era u1n filosófo puramente Sua filosofia liberal também abrangia
acaclêmico. Acreditava que suas a economia e, contrário às teorias
ideias deviam ser colocadas em econômicas de seu pai. ele defendeu
prática, e considerou o que isso uma economia de mercado livre. com
poderia significar em termos de intervenção do governo mantida num
governo e leg 1slação. Ele julgava nível mínimo.
tirânica qualquer restrição à Uma pessoa com crença
liberdade do indivídu o para buscar Revolucão suave tem poder social igual a
~ '
a felicidade, fosse a tirania da Mil! colocou o individuo, e não a 99 que só têm interesses.
maioria (exercida pela eleição sociedade, no centro de sua filosofia John Stuart Mill
democrática), fosse a t irania utilitária. Importante é que os
singular de um déspota. E sugeriu indivíduos sejam livres para pensar e
medidas práticas para restringir o agir como queiram sem
poder da sociedade sobre o interferência. mesmo q ue seus atos
individuo e para proteger os direitos os prejudiquem. Todo ind ivíduo,
individuais à livre expressão. escreveu Mil! no ensaio Sobre a
194
,.

S91REN KIERKEGAARD (1813-1855)

EM CONTEXTO
I
Quan do tomamos decisões,
AREA temos liberdade absoluta
Metafísica de escolha.
Percebemos que
ABORDAGEM podemos escolher fazer
Existencialismo nada ou fazer algo.

ANTES
1788 Immanuel Kant ress alta a Nossas mentes
importância da liberdade na cambaleiam ante o pensamen to
:filosofia moral em Crítica da de liberdade absoluta.
razão prática.
1807-22 Georg Hegel sugere Um sentimento de
apreensão ou angústia
uma consciência histórica,
acompanha o pensamento.
ou Geíst, que estabelece uma
relação entre a consciência
:humana e o mundo em que
A angústia é
a vertigem
€la vive.
da liberdade.
DEPOIS
1927 Martin Heidegger explora
os conceitos de Angst e de
'
culpa existencial na obra Ser e
filosofia de S0ren IGerkegaard inevitável) por meio da defesa de uma
tempo.
desenvolveu-se em reação ao abordagem mais subjetiva. Ele
1938 Jean-Paul Sartr-e lança as pensa mento idealista alemão desejava investigar o que "significa
bases da filosofia existencialista. que dominou a Europa continental em ser um ser humano", não com o parte
meados do sécl1lo XIX, de um grande sistema filosófico , mas
1946 Ludwig Wittgenstein
particularmente o de Georg Hegel. como indivíduo a utônomo.
reconhece a influência de
Kierkegaard queria refutar a ideia de Kierkegaard acreditava que nossas
Kierkegaard em sua obra
sistema filosófico completo de Hegel vidas são d eterminadas por ações, que
Cultura e valor.
(que definia a humanidade como parte são elas próprias determinadas por
de um desenvolvimento histórico escolhas, e o modo de fazer essas
AERA DA REVOLUÇÃO 195
Ver também: Immanuel Kant 164-171 • Georg Hegel 178-185 • Friedrich Nietzsche 214-221 • Martin Heidegger 252-255 •
Jean-Paul Sartre 268-271 • Simone De Beauvoir 276-277 • Albert Camus 284-285

escolhas é crucial. Como Hegel, ele as nossas escolhas morais, quando


considerava as decisões morais como co1npreendemos que temos a liberdade
uma escolha entre o hedorústico (que de tomar até as mais terríveis decisões.
gratifica a si mesmo) e o ético. Mas, Ele descreveu essa angústia como "a
enquanto Hegel julgou que essa vertigem da liberdade", e foi além ao
escolha era determinada em grande explicar que, embora ela cause
parte por condições históricas e pelo desespero, pode também nos livrar de
ambiente da época, Kierkegaard disse respostas impensadas. pois nos torna
que as escolhas morais são, livres e, mais cientes das escolhas disponíveis.
acima de tudo, subjetivas. E Tal angústia aumenta nossa
exclusivamente nossa vontade que consciência e senso de
determina nosso julgamento, ele dizia. responsabilidade pessoal.
No entanto, longe de ser uma razão
para a fe licidade, a liberdade total de O pai do existencialismo
escolha nos provoca um sentimento de As ideias de Kierkegaard foram
angústia ou apreensão. rejeitadas por seus contemporâneos,
Kierkegaard explicou esse mas se mostraram muito influentes
sentimento em O conceito de angústia. nas gerações posteriores. Sua Hamlet é flagrado em momento critico:
Como exemplo, ele citou um homem no insistência na importância da matar o tio ou deixar de vingar a morte
alto de um penhasco ou edifício. Se liberdade de escolha e em nossa do pai? A peça de Shakespeare
esse homem olha para baixo, sente dois demonstra a angústia da verdadeira
continua busca por significado e
liberdade de escolha.
tipos de medo: o medo de cair e o medo propósito forneceria a estrutura para
causado pelo impulso de lançar-se no o existencialismo. Essa filosofia
vazio. Esse segundo tipo de medo, ou desenvolvida por Friedrich Nietzsche o ato do nosso próprio nascimento.
angústia, surge a partir da e Martin Heidegger foi, mais tarde, Diferentemente de outros pensadores
compreensão de que ele te1n liberdade completamente definida por Jean- posteriores, Kierkegaard não
absoluta para escolher se pula ou não, e ·Paul Sartre. Ela explora as formas abandonou a fé em Deus, mas foi o
esse medo é tão atordoante quanto sua nas quais podemos viver com primeiro a reconhecer a percepção da
vertigem. Kierkegaard sugeriu que significado num universo sem deus, autoconsciência e a "vertigem", ou
sentimos a mesma angústia em todas onde cada ato é uma escolha, exceto medo, da liberdade absoluta. •

Seren Kierkegaard S0ren Kierkegaard nasceu em ano seguinte, dizendo que sua
Copenhague em 1813, no que se melancolia o tornava impróprio
tornou conhecida como era de ouro para a vida de casado. Embora
da cultura dinamarquesa. Seu pai, nunca perdesse a fé em Deus,
um rico comerciante , era pio e criticava continuamente a Igreja
melancólico, e o filho herdou esses nacional dinamarquesa por
traços, que iriam influenciar sua hipocrisia. Em 1855, caiu
filosofia. Kierkegaard estudou inconsciente na rua e morreu um
teologia na Universidade de mês depois.
Copenhague e frequentou
seminários de filosofia. Quando
-
recebeu uma herança considerável, Obras-chave
decidiu dedicar a vida a filosofar. --------------- •'
Em 1837, conheceu e apaixonou-se 184 3 Temor e tremor
por Regine Olsen e , três anos 1843 Ou isso ou aquilo
depois, ficaram noivos. 1844 O conceito de angústia
Kierkegaard rompeu o noivado no 1847 As obras do amor
KARL MARX 1818-1883
198 KARL MARX
importante sobre a natureza da
EM CONTEXTO sociedade através dos tempos.
' Abordagens anteriores da história
AREA tinham enfatizado o papel dos heróis e
Filosofia política
líderes individuais ou ressaltado o
A BOR DAGEM papel desempenhado pelas ideias, mas
Comunismo Marx focou numa longa sucessão de
conflitos de grupo, incluindo aqueles
ANTES entre antigos mestres e escravos, lordes
c.1513 Maquiavel fala da luta de medievais e servos, e empregadores
classes em Roma e nª modern.os e seus empregados. Foram
R enascença em DisCUisos sobre os conflitos entre essas classes. ele
a primeira década de Tito Lívio. afirmou, que provocaram muda.n ças
revolucionárias.
1789 A Revolução Francesa
fornece o modelo para a maioria
Manifesto comunista
d os argumentos ftlosóficos do
Marx escreveu o Manifesto com o
século XIX sobre revolução.
filósofo alemão Friedrich Engels,
1800 Georg Hegel desenvolve que ele tinha conhecido quando O deba te intelectual ara amplo na
uma teoria de mudança histórica ambos estudaram filosofia Alemanha na época em que Marx viveu.
acadêmica na Alemanha, no final da embora ele mesmo acreditasse que a
p or meio do conflito intelectual
tarefa da filosofia não era discutir ideias,
década de 1830. Engels contribuiu
DEPOIS mas provocar mudança real.
com ajuda financeira, ideias e
1880 Friedrich Engels tenta habilidade literária, mas Marx foi
desenvolver as teorias de Marx reconhecido co1no o gênio por trás ascendeu socialmente em geral para
numa filosofia madura , o da publicação conjunta. dirigir o próprio empreendimento.
m at erialismo b is tórico. Em seus manuscritos privados do Marx descreveu como a descoberta e
1930 O marxismo toma-se a começo e de meados da década de a colonização da América, a abertura
1840, Marx e Engels enfatizaram que a dos mercados indianos e chineses e
:filosofia oficia~ da Un iã o
q uestão central de sua atividade era o aumento do número de produtos
Soviética e d e muitos outros
mudar o mundo, e não interpretá-lo, que podiam ser trocados tinham, por
países comunistas.
como havia sido o objetivo de filósofos volta de meados do século XIX,
anteriores. Nas décadas de 1850 e levado ao rápido desenvolvimento do
1860, Marx aperfeiçoou suas ideias em comércio e da indústria. Os artesãos
complexa história da vários textos menores, incluindo o não produziam mais bens suficientes
espécie humana pode ser Manifesto comunista, panfleto de para as necessidades crescentes dos
reduzida a uma única cerca de 40 páginas. novos mercados, e então o sistema
fórmula? Um dos maiores pensadores O Manifesto procura explicar os de manufatura tin ha tomado set1
do século XIX, Karl Marx, acreditava valores e os p lanos políticos do lugar. Como o Manifesto relaciona,
que sim. Ele abriu o primeiro comunismo - um sistema de crenças "os mercados se mantiveram
capitulo de sua célebre obra, o proposto por um pequeno e crescendo, com a demanda sempre
Manifesto comunista, com a relativamente novo grupo de aumentando".
a legação de que toda mudança socialistas alemães radicais. O
histórica acontece como resultado de Manifesto alega que a sociedade tinha Valores da burguesia
um conflito constante entre classes se reduzido a duas classes em conflito Marx alegou que a burguesia. que
s ociais dominantes (ma is altas) e direto: a burguesia (a classe detentora controlava todo esse comércio, não
subordinadas (mais baixas), e que as do capital) e o proletariado (a classe deixou nenhuma ligação entre as
ra ízes desse conflito estão na trabalhadora). pessoas "a não ser o interesse próprio
economia. A palavra "burguesia" é derivada escancarado, a não ser o desumano
Marx acreditava que tinha do francês burgeois, ou burguês: o 'pagamento em dinheiro'"_ As pessoas
alcançado um insight excepcionalmente homem proprietário de negócios , que antes eram valorizadas pelo que eram,
AERA DA REVOLUÇÃO 199
Ver também: Nicolau Maquiavel 102-107 • Jean-Jacques Rousseau 154-159 • Adam Smith 160-163 • Georg Hegel 178-185
• Ludwig Andreas Feuerbach 189 • Friedrich Nietzsche 214-221

mas a burguesia "tinha reduzido o


valor pessoal a valor de troca". Valores
morais, reUgiosos e até sentimentais As pessoas se alinham
tinham sido esquecidos, enquanto em grupos ...
todo mundo (de cientistas e advogados
a sacerdotes e poetas) tinha se
transformado em nada mais do que
trabalhares assalariados. Onde havia
"ilusões" religiosas e políticas, Marx . . . com outros que ... contra aqueles
escreveu, a burguesia as "substituiu compartilham em conflito com
de seus interesses sociais seus interesses sociais
pela exploração escancarada,
e econom1cos.
A '

e econorrucos.
A -

desavergonhada, direta, brutal".


Decretos que antes protegiam a
liberdade do povo tinham sido
atropelados por uma "liberdade
irracional - o livre comércio''.
A única solução, de acordo com
' \

O status socioeconômico de
Marx, era que todos os meios de cada grupo é definido por sua
produção econômica (como terra, relação com a propriedade e
matérias-primas, ferramentas e os meios de produção.
fábricas} se tornassem propriedade
comum; então, todo membro da
sociedade poderia trabalhar de acordo
com sua capacidade e consumir de
acordo com sua necessidade.
O proletariado A burguesia ou
possui pou cas propriedades classe dominante possui
Mudança dialética ' . a maioria das propriedades
ou negocios.
A filosofia por trás do raciocínio de e dos negócios.
Marx so!bre o processo de mudança
provém em grande parte de seu
antecessor Georg Hegel, que tinha
descrito a realidade não como um
estado de coisas. mas como um >>

Quando os meios de produção mudam


(por exemplo, do agrícola para o industrial),
há revoluções e guerras .

De cada um, de acordo


com suas capacidades;
para cada um, de acordo
com suas necessidades.
A história é
Karl Marx um registro dessas
A classe dominante é
substituída por outra. lutas de classe e
substitulç6es.
200 KARL MARX
processo de mudança contínua. A A formação de classes
mudança era causada, segundo Hegel. Em épocas anteriores, os humanos
pelo fato de que toda ideia ou estado haviam sido inteiramente
de coisas (conhecido como "tese") responsáveis por produzir tudo de
contém dentro de si um conflito que precisavam (vestuário, alimento
interno (a "antit.ese"), que finalmente e habitação) para si mesmos. 011ando
as primeiras sociedades começaram
As ideias dominantes
força a ocorrência de uma mudança,
levando a uma nova ideia ou estado de a se formar, as pessoas passaram a
de cada época sempre
coisas (a "sintese"). Esse processo é contar mais umas com as outras. Isso
foram as ideias de sua
conhecido como dialética. levou a uma forma de "barganha", classe dominante.
Hegel acreditava que nunca descrita pelo economista escocês
Karl Marx
podemos sentir as co]sas no mundo Adam Smith, conforme as pessoas
como elas são, mas somente como elas trocavam bens ou trabalho. Marx
se mostram a nós. Para ele, a concordava com Smith que esse
existência consiste primordialmente sistema de troca levou as pessoas a
de mente ou espirita, então a jornada se especializarem em seu trabalho,
da história. através de incontáveis mas ressaltou que essa nova
ciclos dialéticos, é em essência o especialização (ou "ocupação") De acordo com Marx , houve
progresso do espírito, ou Geisc, ruino a também veio a defini-las. Oualciuer quatro grandes estágios na história

um estado de absoluta harmonia. E que seja a especialização ou humana, que ele entendeu como
aqui que Hegel e Marx se separam. ocupação, seja trabalhador agrícola baseados em quatro diferentes formas
Marx insistiu que o processo não é ou proprietário hereditário de terras, de proprieda·de: o s istema tribal
uma jornada de desenvolvimento ela veio para ditar onde essa pessoa original de propriedade comum; o
espiritual, mas de mudança histórica viveria, o que comeria e o que antigo sistema de propriedade
real Ele afirmou que o estado final. vestiria. Ta1nbém impunha com co1nunal e estatal (em que tanto a
livre de conflito, que está no fim do quem na sociedade ela compartilhava escravidão quanto a propriedade
processo. não é a bem-ave.n turança interesses e com quem seu interesse privada começaram); o sistema
espiritual hegeliana, mas a sociedade entrava em choque . Ao longo do feudal de propriedade; e o moderno
perfeita, onde todos trabalhariam tempo, isso levou à formação de sistema de produção capitalista.
harmoniosamente rumo ao bem-estar distintas classes socioeconôrnicas, Cada tlm desses estágios representa
de um todo maior. envolvidas em conflito. uma forma dlferente de sistema
econômico, ou "modo de produção'', e
as transições entre eles são marcadas
na história por acontecimentos
políticos turbulentos, como guerras e
revoluções, quando uma classe
governante toma o lugar de outra. O
Manifesto comunista popularizou a
jdeia de que, pela compreensão do
sistema de propriedade em qualquer
socieclade, em qualquer época
particular, podemos adquirir a chave
para compreender suas relações
soc1a1s.

A rica burguesia desfrutava do luxo no


final do século XVIII e no século XIX,
enquanto os trabalhadores a seu serviço,
na cidade ou no campo, sofriam de uma
pobreza terrível.
AERA DA REVOLUÇÃO 201
particular - a era é que define as Utopia marxista
pessoas. Alé1n de sua explanação geral acerca
A revisão da filosofia de Hegel por da história humana rumo à ascensão
Marx, de uma jornada do espírito para das classes burguesas e proletárias, o
uma jornada de modos de produção Manifesto comunista faz diversas
social e política, foi influenciada por outras alegações sobre política,
A abolição da religião
outro filósofo alemão, Ludwig sociedade e economia. Marx
como felicidade ilusória Feuerbach. Feuerbacb acreditava que a argumentou, por exemplo, que o
do povo é necessária para religião tradicional é intelectualmente sistema capitalista não é apenas
a felicidade real. falsa - não corroborada de modo algum explorador, mas inerentemente
Karl Marx pela razão - e contribui para a miséria instável em suas finanças, o que leva à
humana. Ele alegava que as pessoas recorrência de crises comerciais cada
criam deuses à sua própria imagem a vez 1nais severas, à pobreza crescente
partir do amálgama das grandes da força de trabalho e ao surgimento
virtudes da humanidade e, então, se do proletariado como a classe
aferram a esses deuses e religiões genuinamente revolucionária. Pela
inventadas, preferindo "sonhos" ao primeira vez na his tória, essa classe
Instituições culturais mundo real. As pessoas se alienam de revolucionár:ia representaria a vasta
Marx também acreditava que uma si mesmas por meio de uma maioria da humanidade.
análise da base econômica de comparação desfavorável entre seu De acordo com Marx, esses
qualquer sociedade nos permite ver próprio "eu" e um deus que elas tendem acontecimentos são sustentados pela
que, quando seu siste1n.a de a esquecer que haviam criado. natureza cada vez mais complexa do
propriedade se altera, também mudam Marx concordava que as pessoas se processo de produção. Marx previu
as "superestruturas" - política, leis, aferram à religião porque desejam um que, à medida que a tecnologia se
arte, religiões e filosofias. Estas se lugar em que o "eu" não é desprezado desenvolve, leva a um progressivo
desenvolvem para servir aos ou alienado, mas dizia que isso não se desemprego, alienando cada vez mais
interesses da classe governante, deve a a lgum deus autorit ário, mas a pessoas de seus meios de produção.
promovendo seus valores e interesses fatos materiais em suas vidas diárias, Isso dividiria a sociedade em dois
e desviando a atenção das realidades reais. A resposta para Marx não está grupos: de um lado um grande número
políticas. No entanto, mesmo essa apenas no fim da religião. mas na total de pessoas empobrecidas, de outro
classe governante não está, de fato, mudança social e política. alguns poucos detentores dos meios>>
determinando os acontecimentos ou
as instituições Hegel havia dito que
toda época é governada pelo Zeitgeist,
ou espírito da época, e Marx
concordava. Mas onde Hegel via o
Zeitgeist determinado por um espírito
absoluto que se desenvolve ao longo
do tempo, Marx o enxergava definido
por relações sociais e econômicas de
uma era. Estas determinariam as
ideias ou a "consciência" de indivíduos
e sociedades. Na visão de Marx, as
pessoas não deixam uma marca em
sua era, moldando-a de forma

A Revolução Industrial assistiu à


especialização entre os assalariados.
As pessoas se organizaram em grupos
ou classes, agrupados por status
socioeconómico similar.
202 KARL MARX
Rev olu ções i n s piradas pelo socialismo
varreram a Europa logo depois da
publicação do Manifesto comunista. Elas
"1 incluíram a Revolução de Fevereiro de
1 1848, em Paris.
11 •• , .

111 1~ r,; 111 expedientes de curto prazo nos


.... - q u ais o conflito econôm.ico mais
fundamental encon trava expressão.
Marx via os partidos e interesses
políticos como meros veículos para
os interesses das classes
dominantes, obrigadas a dar a
impressão de que atuavam pelo
interesse geral a fim de manter
o poder.

O caminho para a
revolução
A originalidade de Marx está em sua
combinação de ideias preexistentes,
em vez da criação de novas. Seu
sistema utiliza ideias de filósofos
idealistas alemães, especialmente
de produção. Seguindo as regras da entre a burguesia e a classe Georg Hegel e Ludwig Feuerbach; de
dialética, esse conflito resultaria numa trabalhadora assalariada se tornaria teóricos políticos franceses, como
revolução violenta para estabelecer evidente apenas quando a grande Jean-Jacques Rousseau; e de
uma nova sociedade sem classes. Esta massa do povo fosse destituída de economistas políticos britânicos,
seria a sociedade utópica, livre de propriedades, sendo obrigada a particularmente Adam Smith. O
conflitos, que marcaria o fim do vender sua mão de obra por salár ios. socialismo tinha se tomado uma
processo dialético. Marx julgou que A justaposição de pobreza de muitos doutrina política reconhecida na
essa sociedade perfeita não exigiria com a grande riqueza de poucos se primeira metade do século XIX, e dele
governo, apenas administração, e isso tornaria cada vez mais óbvia e o Marx extraiu vários insights sobre
seria realizado por lideres da revolução: comunismo, cada vez mais atraente propriedade, classe, exploração e
o partido "comunista" (forma como - raciocinou Marx. crises co1nerciais.
Marx se referia àqueles que aderissem No entanto, Marx não esperava
à causa revolucionária). Dentro desse que os adversários do comunismo
novo tipo de Estado (que Marx chamou desistissem de seus privilégios
de "ditadura do proletariado"), o povo facilmente. Em todos os períodos da
desfrutaria da democracia genuína e do história, a classe governante
controle social da riqueza. Logo depois desfrutou da vantagem de controlar
dessa mudança final do modo de tanto o governo quanto as leis como Um espectro ronda
produção para uma sociedade perfeita, um meio d e reforçar seu domínio a Europa - o espectro
Marx previu, o poder político chegaria econômico. O Estado moderno, ele do comunismo.
a um flm, porque não haveria razão disse, era na verdade um "comitê K.a rlMarx
para discordância política ou para administrar os interesses da
criminalidade. classe burguesa", e os esforços dos
grupõs excluídos para ter seus
Poder político próprios interesses respeitados
Marx previu que o resultado das (como a luta para estender o direito
intensas lutas de classe na Europa do voto) eram simplesmente
AERA DA REVOLUÇÃO 203
O conflito de classes estava no ar primordialmente agrícolas, suas ideias
quando Marx escreveu o Manifesto. ainda estão abertas a várias críticas.
Ele foi produzido pouco antes da Primeiro, Marx s-e mpre defendeu a
explosão de várias revoluções contra inevitabilidade da revolução. Essa era
as monarquias em muitas nações uma parte essen.cial da dialética, mas
europeias continentais, em 1848 e peca pelo simplismo, visto que a
1849. Nas décadas precedentes, um criatividade humana é sempre capaz
número significativo de pessoas de produzir uma variedade de
migrara do campo para as cidades em escolhas, e a dia1ética falha diante da
busca de trabalho, embora a Europa possibilidade de progresso pela
continental ainda não tivesse visto o reforma gradual.
desenvolvimento industrial ocorrido Em segundo lugar, Marx tendia
na Grã-Bretanha. Uma onda de a revestir o proletariado com
descontentamento dos pobres foi atributos totalmente virtuosos e a Karl Mar x
explorada por políticos liberais e sugerir que a sociedade comunista
O mais famoso pensador
nacionalistas, e as revoluções se daria origem a um novo tipo de ser
revolucionário do século XIX
espalharam pela Europa, embora, no 11u1nano. Ele nunca explicou de que
nasceu na cidade alemã de
fim, essas revoltas tenham sido maneira a ditadura desse
Trier. Filho de um advogado
derrotadas sem causar mudlanças proletariado perfeito seria diferente
judeu convertido ao
permanentes. de formas anteriores e brutais de cristianismo, Marx estudou
Entretanto, o Manifesto adquiriu ditadura, nem como ela evitaria os direito na Universidade de Bonn,
status icónico no século XX, efeitos corruptores do poder. onde conheceu sua futura
inspirando revoluções na Rússia, Terceiro, Marx raramente esposa, Jenny von Westphalen.
China e muitos outros países. O brilho discutiu a possibilidade de que Depois, frequentou a
das teorias de Marx provou-se falso na novas a1neaças à liberdade Universidade de Berlim, antes
prática: a extensão da repressão na pudessem surgir depois de uma de trabalhar como jornalista. A
Russia stalinista, na China de Mao revolução bem-sucedida: ele simpatia dedicada à democracia
Tsé-Tung e no Camboja de Pol Pot supunha a pobreza como única em seus textos levou-o à censura
trabalhou contra suas ideias políticas causa reall da criminalidade. Seus pela familia real prussian<;i., e ele
e históricas. críticos também alegam que ele não foi forçado ao exílio na França e
na Bélgica. Nessa época,
compreendeu suficientemente as
desenvolveu uma teoria única
Crítica ao marxismo forças do nacionalismo e que não
de comunismo em colaboração
Embora Marx não tenha previsto o explicou o papeil da liderança pessoal
com seu compatriota alemão
comunismo implantado de forma na política. De fato , o movimento Friedrich Engels.
bárbara nessas sociedades comunista do século XX produziria Marx retornou à Alemanha
cultos a personalidades poderosas durante as revoluções de
em quase todos os países onde os 184 8-49, que foram esmagadas.
marxistas chegaram ao poder. Marx morou no exilio em
Londres pelo resto da vida.
Inftuência duradoura Ele e a esposa viviam em
Apesar das críticas e c rises que as extrema pobreza. Quando Marx
teorias de Marx jprovocaram, suas morreu apátrida aos 64 anos,
ideias foram muito influentes. Como apenas onze pessoas o velaram
crítico poderoso do capitalismo ém SéU funeral.
comercial e como teórico econômico e
socialista, Marx ainda hoje é
Obras·chave
considerado relevante para a política e
Os Estados marxistas do século XX se 18 4 6 A ideolog:ia alemã
autopromoveram como utopias. Geraram a econon1ia. Muitos concordam com o 18 47 Miséria da tilosotia
uma proliferação de pinturas e estátuas filósofo russo-britânico do século XX, 18 48 Manifesto comunista
glorificando as realizações de seus Isaiah Berlin, que o Manifesto 1867 O capital: volume 1
cidadãos felizes, recém-libertados. co1nunista é "uma obra de gênio". •
204

-
DEVE OCIDADAO, POR UM
MOMENTO SE UER, RENUNCIAR
'
ASUA CONSOIENCIA
EM FAVOR DO LEGIS OR?
HENRY DAVID THOREAU (1817-1862)

uase um século depois de contemporâneo Karl Marx e com o


EM CONTEXTO
ÁREA
1 J e an-Jacques Rousseau
afirmar que a natureza era
espírito revolucionário da Europa da
época, que exigia ação violenta. Mas
essencialm ente benig na, o filósofo foram posteriormente adot adas por
Filosofia política
norte-americano Henry Thoreau numerosos líderes de movimentos de
ABORDAGEM desenvolveu a ideia, argumentando resistência, como Mahatma Gandhi e
Não conformismo q ue "todas as coisas boas são Martin Luther King.•
selvagens e livres" e que as leis do
AN'IES hom em suprimem em vez de
c.340 a.e. Aristóteles afirma proteger as liberdades civis. Ele
que a cidade-estado é mais julgava que os p artidos políticos
importante do que o indivíduo. eram necessariamente parciais e
1651 Thomas Hobbes diz que que suas políticas com frequência
uma sociedade sem governo iam contra nossas crenças mora is.
Por essa razão, acreditava q ue era
forte tende à anarquia.
dever do i ndivíduo protestar contra
1762 Em O contrato social as leis injustas . alegando que aceitar
Jean-Jacques Rousseau propõe passivam ente essas leis dava-lhes
o governo pelavontade do povo. fundamento.
Em seu ensaio Desobediência civil,
DEFOIS escrito em 1849, Thoreau propõe o
190'7 Mahatma Gandhi çita d ireito do cidadão à objeção
Thoreau como influência em sua conscienciosa por meio da não
campanha de resistência cooperação e resistência não violenta
passiva na África do Sul. - que ele pôs em prática ao recusar-se
a p agar taxas que apoiassem a gue rra
1964 Martin Luther King ganha A cam panha d e desobediê ncia civil de-
no México e perpetuassem a
o Prêmio Nobel da Paz por sua Mahatma Gandhi contra o domínio
escravidão. As ideias de Thoreau britânico na Índia incluiu a Marcha do Sal
campanha para acabar com a
contrasta vam de man eira de 1930, feita em protesto contra as injustas
disc.riminação racial por meio da
pronunciada com as de seu leis de controle d a produção de sal.
desobediência civil e da não
cooperação. Ver também: Jean-Jacques Rousseau 154-159 • Adam Smith 160-163 • Edmund
Bur!ke 172-173 • Karl Marx 196-203 • Isaiah Berlin 280-281 • John Rawls 294-295
~~~~~~~~~~~~~~~~-
AERA DA REVOLUÇÃO 205

CHARLES SANDERS PEIRCE (1839-1914)

hátlés San.dérs Péircê foi significado de um conceito é o efeito


EM"CONTEXTO cientista, lógico e fi lósofo da sensorial de seu objeto, é conhecida
r , ciência, pioneiro do co1no máxima pragmática e tornou-se
AREA movimento filosófico conhecido como o principio fundador do pragmatismo:
Epistemologi:a
pragmatismo. Profundamente cético a crença de que a "verdade" é a
ABORDAGEM em relação à:s ideias metafísicas - descrição da realidade que melhor
Pragmatismo como a de que há u m mundo real além funciona para nós
do mundo que sentimos - . certa vez Uma das coisas fundamentais
ANTES ele convidou seus leitores para julgar o que Peirce tentava realizar era
Século XVII J0lin LóGke q ue está errado na seguinte teoria: um mostrar que muitos debates na
desafia o rac~onalismo ao traçar diamante é realmente macio e ciência, filosofia e teologia não têm
a .orig.em .cte·nossas ideias nas somente se torna duro quando tocado. sentido. Ele afirmava que m uitas
impressões dos séntid0s. Peirce argumentou que não há vezes são debates sobre palavras. e
"falsidade" em tal pensamento, porque não sobre a realidade, uma vez que
Século XVIII Immanuêl Kant
não há 1ueios de refutá-lo. No entanto, neles nenhum efeito sobre os
argumenta qu~ a ewecula9ão
afirmou que o significado de um sentidos pode ser especificado. •
sobre 0 que estâ alé m da nossa conceito (como "diamante" ou "duro")
experiência é sem sentido. é derivado do objetú ou da qualidade
DEP OIS com os quais o conceito se relaciona e
1890 William J ames e John dos efeitos quê ele te1u sõbre nôSSóS
D ewe.y adotam a filosofia do sentidos. Se pensamos no diamante
J)ra§matis mo como "macio até ser tocado" ou
"sempre duro" antes da nossa Nada é vital para a ciência;
1920 Os posit~vü;:;tasJógicos em experiência, portanto, é irrelevante. nada pode ser.
Viena formulam a teoria d a Sob ambas as formulações, o Charles Sanders Peirce
verificação - o significado de diamante é sentido do mesmo modo e
uma afirmação é o método pelo· pode ser usado da mesma maneira. No
quatela é verificada. entanto, a primeira teoria, inuito mais
difícil de ser absorvida, é de menor
1980 A versão de pragmatismo
valor para nós. Essa ideia, de que o
de Richard Rórty afuma qrre..a
IJi:óJ)ria noção de verdadeo pode
Ver também: John Locke 130-133 • Immanuel Kant 164-171 • William Jan1es
ser dispensada. 206-209 • John Dewey 228-231 • Richard Rorty 314 -319
206
EM CONTEXTO
ÁREA
Epistemologia
ABORDAGEM
Pragmatismo
ANTES
1843 O Sistema de lógica
dedutiva eindutiva, deMill, estuda·
os meios pe1os quais chegamos .a
acreditar que algo é verdadeiro.
1870 Charles Sanders Peirce
descreve sua nova :filosofia
pragmatista em Como tornar
claras ãs nossas ideias.
DEPOIS
1907 A evolução criadora, deHerui
WILLIAM JAMES (1842-1910) Bergson. desoréve a realidade
como fluxo, e não como estado.
1921 Bertrand Ru ssell explora a
realidade como pura experiência
em A .análise da .mente.
1925 John Dewey desenvolve
uma versão de pragmatismo ~
chamada ínstrumentalismo - ,
em Experiência e natul"eza.

o longo do século XIX,


quando os Estados Unidos
come çaram a se desenvolver
como nação independente, os filósofos
da Nova Inglaterra, como Henry David
Thoreau e Ralph Waldo Emerson,
conferiram um olhar
reconhecidamente americano às
ideias românticas europeias. Mas foi a
geração seguinte de filósofos, que
viveu quase um século depois da
Declaração de Independência, que
surgiu com algo de fato original.
O primeiro deles. Charlés Sanders
Peirce, p ropôs uma teoria de
conhecimento que chamou de
pragmatismo, mas s ua obra mal foi
notada na época. Coube a seu amigo
de toda a vida, Willia m James,
AERA DA REVOLUÇÃO 207
Ver também: John Stuart MilJ 190-193 • Charles Sanders Peirce 205 • Henri Bergson 226-227 • John Dewey 228-231 •
Bertrand Russell 236-239 • Ludwig Wittgenstein 246-251 • Richard Rorty 314-319

Se estou perdido
... que ela não leva em uma floresta e vejo ... que ela leva
a lugar algum. uma trilha, posso a comida e abrigo.
acreditar ...

Minha ação fez com


que minhas crenças
virassem realidade. Então, sigo a trilha
Então não faço e acho uma saída
nada, continuo perdido da floresta rumo
e morro de fome. à salvação.

afilhado de Ralph Emerson, defender e nossas ideias sobre o mundo mudaram


desenvolver as ideias de Peirce. constantemente, do pensamento de que
a Terra é plana até saber que ela é
Verdade e utilidade redonda, da suposição da Terra como
Fundamental ao pragmatismo peirceano centro do universo até a compreensão
era a teoria de que não adquirimos de que se trata apenas de um planeta no
O modo de classificar
conhecimento apenas observando, mas vasto cosmos. As antigas suposições
fazendo, e que contamos com esse funcionaram de forma adequada em sua
algo é apenas um modo de
conhecimento somente enquanto ele época, ainda que não fossem
lidar com ele para algum
nos é útil, no sentido de que explica verdadeiras, e o próprio universo não
propósito particular.
adequadamente as coisas para nós. mudou. Isso demonstra como o William James
Quando esse conhecimento não cumpre conhecimento, como ferramenta
mais essa função ou explicações explicativa, é diferente de fatos. Peirce
melhores tornam-no obsoleto. o investigou a natureza do conhecimen to
substituímos. Por exemplo, podemos dessa forma, mas James aplicaria esse
ver, ao olhar para a história, como raciocínio à noção de verdade. >>
208 WILLIAM JAMES
A ideia de uma Terra plana serviu
• como "verdade" por milhares de anos,
apesar do fato de que a Terra é uma
- ...__
esfera. James afirma que a utilidade de
uma ideia determina sua veracidade.

prática é o processo pelo qual e]a se


• torna verdadeira. James também julga
que a crença numa ideia é um fator
importante na escolha para agir sobre
ela, e dessa forma a crença é parte do
processo que torna wna ideia
verdadeira. Se sou confrontado com
uma decisão difícil, minha crença
numa ideia p articular me conduzirá a
uma rota de ação particular e, então,
contribuirá p ara seu sucesso. É por
causa disso que James definiu "crenças
verdadeiras" como aquelas que se
.
~
\ .- provam úteis a quem acredita nelas.
Novamente, ele foi cuidadoso para
Para James, a vercuade de uma ideia Essa interpretação da verdade não distingui-las dos fatos, os quais ele
depende do quanto ela é útil - ou seja, se apenas a distingue do fato, mas julgava que "não são verdadeiros. Eles
ela responde o que dela se exige. Se uma também leva James a propor que "a simplesmente são. A verdade é função
ideia não contradiz os fatos conhecidos verdade de uma ideia não é uma das c~enças que começam e terminam
- tais como as leis da ciêncja - e propriedade estagnada inerente a ela. entre eles".
proporciona um meio de prever as A verdade acontece a uma ideia.
coisas de forma precisa o suficiente Ela torna-se verdadeira pelos O direito de acreditar
para nossos objetivos, não pode haver acontecimentos. Sua veracidade é, de Toda vez que tentamos estabelecer
razão para não considerá-la verdadeira, fato, um acontecimento, um processo''. uma nova crença, seria útil se
da mesma maneira que Peirce Qualquer ideia, se trabalhada, é tivéssemos toda evidência e tempo
considerou o conhecimento como uma considerada como verdadeira pela ação disponíveis para tomar uma d ecisão
ferramenta útil, .independente dos fatos. que tomam os - colocar a ideia em ponderada. Mas em muitos momentos

William James Nascido em Nova York, William fisiologia na Universidade de


James foi criado numa família rica Harvard. Seu interesse crescente
e intelectualizada: seu pai era um em psicologia e filosofia levou-o
teólogo conhecido pela a escrever elogiadas publicações
excentricidade e seu irmão, Henry, nesses campos. Foi contemplado
tornou-se um autor célebre. Na com uma cadeira de professor de
infância, viveu por vários anos na filosofia em Harvard, em 1880,
Europa, onde seguiu uma paixão e lecionou ali até se aposentar,
pela pintura, mas, aos dezenove em 1907.
anos, abandonou-a pela ciência.
Seus estudos na Harvard Medical Obras-chave
School foram interrompidos pela
saúde frágil e pela depressão, que 1890 Os princípios de psicologia
iriam impedi·lo para sempre de 1896 A vontade de crer
praticar a med icina. Mas ele 1902 As variedades da experiência
:finalmente graduou-se e, em 1872, religiosa
assumiu o cargo de professor d e 1907 Pragmatismo
AERA DA REVOLUÇÃO 209
da vida não nos damos a esse luxo: ou No entanto, devemos abordar essa
não há tempo suficiente para investigar ideia com precaução: uma interpretação
os fatos conhecidos ou não há evidência superficial do que James afirmou pode
suficiente, mesmo assim somos dar a impressão de que qualquer crença,
forçados a uma decisão. Temos de não importando o quanto seja bizarra, se
confiar em nossas crenças para guiar tornaria verdadeira ao se agir sobre ela.
O métod o pragmático
nossas ações. James disse que, nesses Obviamente, não é o que ele quis dizer.
casos, temos "o direito de acreditar". Há certas condições que uma ideia tem
significa desviar os olhos
James explicou isso ao tomar o de cumprir antes de poder ser
dos princípios e mirá-los
exemplo de um homem com fome, considerada uma crença justificável A
nas consequências.
perdido na floresta. Quando ele vê uma evidência disponível deve pesar em seu William James
trilha, é importante para ele acreditar favor, e a ideia tem de ser provar
que a trilha vai tirá-lo da floresta e resistente a críticas. No processo de
levá-lo a uma habitação porque. se não influir sobre a crença. ela deve se
acreditar nisso, não seguirá a trilha e justificar continuamente por ineio de
permanecerá perdido e com fome. Mas sua utilidade em aumentar nossa
se seguir, se salvará. Agindo de acordo compreensão ou prever resultados. E,
com sua ideia de que a trilha o levará à mesmo então, é somente em retrospecto a noção racionalista de que o mundo
salvação, isso se torna verdade. Dessa que podemos dizer de maneira em mutação é de algum modo irreal, e
forma , nossas ações e decisões segura que a crença se tornou verdadeira também foi além, ao afirmar que "para
transformam nossa crença em uma por meio de nossa ação sobre ela. o pragmatismo, [a realidade! ainda está
ideia que se torna verdadeira. Por isso, em evolução", já que a verdade está
James enunciou: "Aja como se o que A realidade como processo constantemente sendo feita para
você faz fizesse diferença" -ao qual ele James era psicólogo, assim como acontecer. Esse "fluxo" de realidade
acrescentou uma concisa e bem- filósofo, e viu as implicações de suas tampouco é suscetível à análise

-humorada cláusula: "faz diferença''. ideias ,e m termos da psicologia empf rica. porque está em fluxo
humana, tanto quanto em termos da continuo e porque o ato de observá-lo
teoria do conhecimento. Ele afeta a verdade analítica. No empirismo
reconheceu a necessidade psicológica radical de James, no qual mente e
dos humanos de manter certas matéria são formados, a matéria final
crenças, em particular as religiosas. da realidade é pura experiência.
James considerou que, embora não
seja justificável como um fato, a crença Influência duradoura
num deus é útil para quem acredita O pragmatismo proposto por Peirce e
nela ao permitir que essa pessoa leve exposto por James estabeleceu a
uma vida mais realizada ou supere o América como um cent ro significativo
medo da morte. Essas coisas para o pensamento filosófico no
(realização existencial, confrontação século XX. A interpretação pragmática
destemida com a morte) tornam-se da verdade por James influenciou a
verdadeiras: acontecem como .filosofia de John Dewey e gerou uma
resultado de uma crença e das escola de pensamento "neopragmática"
decisões e ações nela baseadas. que inclui filósofos como Richard Rorty.
Ao lado dessa noção pragmática de Na Europa, Bertrand Russell e Ludwig
verdade, e muito conectada a ela. Wittgenstein se inspiraram na
James propôs uma espécie de metafisica de James. Seu traball10 na
metafísica que chamou de "empirismo psicologia foi igualmente influente e,
radical". Essa abordagem supõe que a muitas vezes, conectado com sua
A cr ença religiosa pode causar grandes
mudanças na vida de alguém, ta1s como realidade seja um processo dinâmico e filosofia, em especial o conceito de
a cura do doente numa peregrinação - ativo, da mesma forma que a verdade é "fluxo de consciência", que, por sua vez,
independentemente do fato de um deus um processo. Como os empiristas influenciou escritores como Virgínia
existir ou não. tradícionais antes dele. James rejeitou Woolf e James Joyce. •
212 INTRODUÇÃO

Principia mathematica,
Morte de Friedrich Edmund Husserl de Bertrand lRussell e A Revolução
Nietzsche, cuja publica Ideias para Alfred North Whitehead, de Outubro ocorre na
filosofia propôs que uma fenomenologia conduz os filósofos a Rússia, levando à criação
"Deus está morto". pura. um novo caminho analítico. da llnião Soviética.

1900 1907 1910-13 1917


1906 1908 1914-18 1921

Albert Einstein Henry Ford produz A Primeira Guerra Ludwig


introduz a Teoria da o Ford modelo T, Mundial leva ao Wittgenstein
Relatividade. o primeiro carro do colapso dos impérios russo, publica seu
mundo produzido alemão, otomano e Tratado
em série. austro-húngaro. lógico-filosófico.

·' )\,
o fim do século XIX, a Nova tradição analítica Frege, que u niu o p rocesso filosófico
filosofia mais uma vez Até certo ponto, as preocupações da lógica com a matemática. Suas
chegou a um momento tradicionais da filosofia - tais como ideias foram recebidas de maneira
decisivo. A ciência, com a teoria da perguntar o que existe - foram entusiástica por um filósofo e
evolução (1859) de Charles Darwin, respondidas pela ciência no começo matemático britânico, Bertrand
rejeitara a ideia do universo como do século XX. As teorias de Albert Russell.
criação de Deus, tendo a humanidade Einstein ofereciam uma explicação Russell aplicou os princfpjos da
como ápice de seu gênio criador. A mais detalhada sobre a natureza do lógica que Frege delineara a uma
filosofia moral e politica concentrou-se universo e a psicanálise de Sigmund análise completa da matemática em
no ser humano, com Karl Marx Freud proporcionou às pessoas uma Principia mathematica, que ele
declarando que a religião "é o ópio do ideia radicalmente nova sobre o escreveu com Alfred North
povo". Seguindo os passos de Arthur funcionamento da mente. Whitehead, para depois - num gesto
Schopenhauer. Friedrich Nietzsche Como resultado, os filósofos que revolucjonou o pensamento
acreditava que a filosofia ocidental, voltaram sua atenção para questões filosófico - aplicar as mesmas ideias à
com suas raízes nas tradições gregas de filosofia moral e política ou - a linguagem. O proc6sso da análise
e judaico-cristãs, estava mal partir do momento em que a filosofia linguística se tornaria o tema principal
preparada para explicar essa moderna se tomou a província de acadêmicos da filosofia britânica no século XX.
visão de mundo. Propôs, então, uma profissionais - para questões mais Um dos pupilos de Russell,
abordagem radical para encontrar um abstratas da lógica e da análise Ludwig Wittgenstein, desenvolveu o
significado na vida. que envolvesse linguís tica. Na vanguarda do trabalho do mestre em lógica e
rejeitar antigos valores e tradições. Ao movimento de análise lógica, que se linguagem, mas também fez
fazer isso, determinou a agenda de tornou conhecida como filosofia importantes contribuições em áreas
grande parte da filosofia do século XX. analítica, estava a obra de Gottlob tão diversas quanto percepção, ética
OMUNDO MODERNO 213

Karl Popper publica Jean-Paul Sartre


Josef Stálin A lógica da pesquisa toma-se um dos mais
torna-se cientifica, desafiando a ideia importantes filósofos
secretário-geral do de que a ciêneia sempre europeus com a obra
Partido Comunista Martin Heidegger avança de observações existencialista O ser e
na Rússia. publica Ser e tempo. repetidas até as teorias. o nada.

1922 1927 1934 1943


1923 1929 1939-45 1949

O psicanalista A quebra da bolsa de Mais de 60 milhões Os comunistas


Si9111und Freud Wall Street leva à depressão de pessoas morrem sob Mao Tsé-Tung
publica O ego e o id. econômica glob al. na Segunda Guerra proclamam
Mundial. a República
Popular da
China.

e estética, tornando-se um dos século XX devido a suas ligações com Na década de 1930, as democracias
maiores pensadores do século XX. o partido nazista durante a Segunda liberais europeias foram ameaçad as
Outro filósofo vienense, um pouco Guerra Mun dial, mas tem grande pelo fascismo, forçando muitos
mais jovem, Karl Popper, seguiu o importância para o desenvolvimen to pensadores a fugir do continente para a
e xemplo de Einstein e fortaleceu a do existencialismo e para a cultura do Grã-Bretanha e os Estados Unidos. Os
ligação entre pensamento científico final do século XX. filósofos voltaram sua atenção para
e filosofia. políticas liberais ou de esquerda em
Enquanto isso, na Alemanha, os Guerras e revoluções reação à opressão que sofreram sob
filósofos enfrentaram o desafio A filosofia foi afetada pelas grandes regimes totalitários. A Segunda Guerra
propost o pelas ideias de Nietzsche convulsões políticas do século XX Mundial e a Guerra Fria que a seguiu
com uma filosofia baseada na tanto quanto qualquer outra ativid ade influenciaram a filosofia moral da
experiência do indivíduo num cultural, mas também contribuiu para segunda metade do século XX.
universo sem Deus: o as ideologias que moldaram o mundo Na França, o existencialismo
existencialismo. A fenomenologia (o moderno. A revolução que criou a entrou em voga por conta de Jean-Paul
estudo da experiência) de Edmund União Soviética na década de 1920 Sartre, Simone de Beauvoir e Albert
Husserl lançou os fundamentos do teve suas raízes no marxismo, uma Camus, todos romancistas. Essa
que foi levado adiante por Martin filosofia política do século XIX. Essa tendência est ava e m harmonia com a
H eidegger, também muito teoria prevaleceu globalmente mais do visão francesa da filosofia como parte
influenciado pelo filósofo que qualquer religião especifica, de uma cultura essencialmente
dinamarquês S0ren Kierkegaard . dominando a politica do Partido literária. Ela também foi fundamental
A obra de Heidegger, produzida Comunista chinês até por volta de para a direção que a .filosofia europeia
nas décadas de 1920 e 1930, foi 1982 e substituindo filosofias tomaria nas últimas décadas do

amplamente rejeitada em meados do tradicionais na Asia. século XX. •
FRIEDRICH NIETZSCHE 1844-1900
216 FRIEDRICH NIETZSCHE

EM CON'l'EXTO
ÁREA O cristianismo diz
Ética que tudo neste mundo
é menos importante do
ABORDAGEM que o que está no mundo
Existencialismo