CONCEITOS BÁSICOS DE CIÊNCIA POLÍTICA

PODER E AUTORIDADE Segundo Max Weber (apud DREIFUSS, 1993), o conceito de poder diz respeito à capacidade de imposição da própria vontade, a despeito da resistência do outro, visando à consecução de um determinado objetivo ou fim estipulado pelo sujeito que impõe. O poder como fenômeno relacional Trata-se, portanto, de um fenômeno relacional, ou seja, de um fenômeno que não ocorre no vazio, uma vez que se origina do confronto de vontades e/ou interesses diversos e potencialmente antagônicos. O conceito weberiano de poder abrange, portanto, as noções de conflito e coerção. Para que a vontade de um prevaleça sobre a vontade de outro, deve haver uma expectativa de severas sanções em caso de desobediência ou rebeldia. Entendido em sua acepção política, o poder é a capacidade de impor a própria vontade a outrem, mesmo contra a vontade dessa outra pessoa. Sua característica é, portanto, a de um fenômeno relacional, que pressupõe ao lado do indivíduo ou grupo que o exerce, outro indivíduo ou grupo que é obrigado a comportar-se como aquele deseja. Isso posto, o poder não é uma substância, algo que se possa ter como um objeto, mas uma relação que se estabelece entre sujeitos ou grupos, que não depende para ser caracterizado apenas dos recursos materiais ou simbólicos ou da habilidade de quem pretenda utilizar esses recursos para exercer poder, mas sim de que efetivamente o sujeito ativo possa impor sua vontade ao sujeito passivo. A tipologia moderna das formas de poder As formas modernas de classificação do poder se baseiam nos recursos por meio dos quais o sujeito ativo da relação pode determinar o comportamento do sujeito passivo. Com base nesse critério, BOBBIO (1992) diferencia três grandes classes na esfera do poder, quais sejam: o poder econômico, o poder ideológico e o poder político. O poder econômico é aquele que se vale da posse de certos bens, necessários ou considerados como tais, numa situação de escassez, para induzir aqueles que não os possuem mas deles necessitam a manter um certo comportamento, consistente sobretudo na realização de um certo tipo de trabalho. Em princípio, sustenta o autor, todo aquele que possua abundância de bens necessários é capaz de determinar o comportamento de quem se encontra em condições de penúria, mediante a promessa de provisão desses recursos, ou a ameaça de interditá-los. O poder ideológico fundamenta-se na influência, ou seja, na capacidade que possuem certas idéias, formuladas de certo modo, expressas em certas circunstâncias, por pessoas com certo prestígio e difundidas mediante certos processos, de determinar a conduta de terceiros. Trata-se de um poder simbólico, associado à capacidade de produzir o conhecimento e difundir os valores que consubstanciam o processo de socialização necessário a coesão e integração do grupo. O poder político. Sustenta o autor que o poder político é aquele que se baseia na posse dos instrumentos mediante os quais se exerce a força física (as armas de toda a espécie e potência): seria o poder coator no sentido estrito do termo. O sujeito ativo é aquele que monopoliza os meios de violência (instrumentos, técnica e organização) e é capaz de usá-los para impor sua vontade ao sujeito passivo, sendo a ameaça do emprego da violência – e sua possibilidade real e latente -, a base do poder. Finalmente, o autor contextualiza a classificação, ao afirmar que todas estas três formas de poder fundamentam e mantêm uma sociedade de desiguais, isto é, dividida em ricos e pobres (poder econômico), sábios e ignorantes (poder ideológico), fortes e fracos (poder político), isto é, em superiores e inferiores. 1

De fato, as três formas de poder acima referidas, embora possam ser visualizadas nas relações entre dois indivíduos, interessam à ciência política na medida em que se expressam no contexto de um processo social, como poder de um grupo sobre outro, sejam quais forem os critérios adicionais que balizam a distinção entre esses grupos. Essa relação de desigualdade e oposição de interesses entre grupos promove um antagonismo permanente, cujo desfecho violento é sempre uma possibilidade real, eis que a força é o recurso a que recorrem todos os grupos sociais antagônicos para se defenderem dos ataques externos, ou para impedirem, com a desagregação do grupo, de serem eliminados. Na medida em que o antagonismo é constante, o poder político, como poder cujo meio específico é a força, de longe o instrumento mais eficaz para condicionar os comportamentos, é o poder supremo em qualquer sociedade, assim como as relações baseadas no antagonismo que estão balizadas pela ameaça do emprego da violência – ainda que em última instância -, são o núcleo da política. CONFLITO E CONSENSO Trata-se de uma relação social que envolve interação intensiva entre atores sociais (tanto individuais quanto coletivos), podendo apresentar comportamento violento ou não, incidindo sobre desavenças quanto ao acesso e/ou distribuição de recursos estratégicos em determina do espaço social (poder, riqueza, prestígio). Podemos identificar diferentes tipos de atores envolvidos no conflito, conforme sua densidade, agregação e complexidade. O conflito pode ser protagonizado por indivíduos, grupos (consumidores, minorias etc.), organizações (partidos, empresas, sindicatos etc.) ou mesmo coletividades inteiras (Estados, raça etc.). Os conflitos podem envolver atores de diferentes níveis (indivíduo x grupo; organizações x coletividade). Ao analisar as características objetivas do conflito, três dimensões salientam-se prontamente: o número de participantes, que pode se relativo e absoluto, sendo referente a quantidade de elementos envolvidos na confrontação; a intensidade do conflito, que pode gerar em torno de fins negociáveis, onde a regra é a barganha até obtenção do consenso, ou em torno de fins nãonegociáveis, quando então os impasses tendem a ser mais prolongados e o desfecho assume uma configuração de soma-zero; e os objetivos perseguidos pelos atores, que podem implicar em mudanças no sistema, de cunho incrementalista e/ou setorial, ou podem implicar em mudanças do sistema, implicando uma radicalização de posições e a ruptura com as instituições dominantes. Em que pese o conflito ser uma constante ao longo da história, podemos identificar duas teses dominantes e mutuamente excludentes acerca da natureza do conflito em sociedade: a tese da harmonia ou equilíbrio, que sustenta o caráter disfuncional e eventual do conflito; e a tese da coerção, segundo a qual o conflito é inerente à sociedade, que a partir dele organiza seu funcionamento e distribui seus papéis sociais. Solucionar o conflito seria, então, um dos grandes dilemas da sociedade moderna. Para ser suprimido, teríamos que bloquear sua expressão ou mesmo destruir os atores envolvidos no processo. Para resolver o conflito, seria necessário oferecer aos atores envolvidos a satisfação plena de suas necessidades, eliminando as causas da insatisfação. Usualmente, a saída encontrada passa por regular o conflito, institucionalizando os confrontos mediante regras aceitas por todos, mais ou menos estáveis, passíveis de modificação tão-somente com a anuência de todos os interessados. A solução do conflito, portanto, passaria pela busca e criação do consenso, entendido enquanto um acordo (ou convergência de valores e interesses), tácito ou expresso, sobre os princípios gerais de um determinado sistema social, o qual poderia garantir a coesão social pelo compartilhamento mínimo de regras e valores. Naturalmente, não existe um consenso absoluto em nenhuma sociedade atualmente conhecida, nem absoluto conflito, mas graus variados e variáveis de consenso e conflito. Para aqueles que preocupam-se com a governança democrática, o consenso principal, imprescindível para o funcionamento das democracias, dá-se pela adesão às regras do jogo que sustentam o sistema 2

representativo e suas práticas eletivas regulares e pluralistas (alternância no exercício dos cargos públicos decisórios, por exemplo). O consenso acessório, sobre objetivos específicos a serem alcançados (políticas setoriais, por exemplo), poderia ser construído por barganhas realizadas no quadro do consenso principal. Por outro lado, quanto mais firmemente estabelecido o consenso principal e mais numerosos os consensos acessórios, tanto menor a necessidade de recorrer aos mecanismos coercitivos de imposição das decisões públicas, menos fragmentada tende a ser o funcionamento do sistema político e menores os riscos de uma ruptura institucional. No sentido oposto, a perda do consenso tende a requer um incremente no uso da coerção, com os desgastes decorrentes, o estilhaçamento da ação política e a ruptura institucional. POLÍTICA Significado e definições clássicas Classicamente, a palavra política é originária do grego pólis (politikós), e se refere ao que é urbano, civil, público, enfim, ao que é da cidade (da pólis). Indica tratar-se, portanto, de uma atividade humana relacionada ao exercício do poder, eis que a cidade era o centro da vida política, e cidadão era um termo restritivo empregado para classificar os membros de uma elite que se dedicava aos assuntos de governo, filosofia, arte e guerra. As instituições ou espaços sociais da política: Estado, Governo e partidos A definição clássica do século XIX, considerando a política como a “arte e a ciência do Estado ou do governo”. Mesmo essa visão, todavia, aceita a importância de incluir algumas organizações ou fenômenos que se ligam ao Estado na condição de pré-estatais ou supra-estatais. Tradicionalmente incluem o estudo dos partidos, grupos de pressão, círculos militares e grupos informais que atuam próximos ao Estado, sobre ele exercendo ou tentando exercer influência (SCHMITTER, 1984). Essas primeiras abordagens em ciência política concentravam sua análise no Estado ou no Governo, enfatizando sua estrutura, funcionamento, modelo jurídico-formal, composição de seus membros titulares, mecanismos de interferência na sociedade, permeabilidade aos grupos externo e instituições associadas. Embora a preocupação com o Estado seja uma constante no pensamento político contemporâneo, as primeiras abordagens que enfatizavam o Estado e seus aparelhos eram usualmente restritivas, enfatizando os aspectos jurídico-formais do fenômeno político, fortemente influenciada por um viés jurídico – com desdobramentos de direito constitucional, teoria geral do Estado e de filosofia jurídica. A partir dos Recursos: ênfase na capacidade de impor comportamentos A definição da política a partir dos recursos enfatiza os meios utilizados pelos atores para imporem sua vontade aos antagonistas num contexto de conflito. Tende a buscar a especificidade da política em relação a outros fenômenos sociais a partir do suo de conceitos como poder, influência e autoridade (SCHMITTER, 1984). Poder Conceitualmente fundamentado pela teoria weberiana, segundo a qual o “meio decisivo da política é a violência” (WEBER, 1994), enfatiza a coerção e a monopolização da violência ou força física, bem como as lutas para obter, reter e exercer o poder ou resistir a seu exercício. Maquiavel (apud BOBBIO, 1987), considerado o fundador da ciência política moderna, foi o primeiro a exprimir com clareza a política como instância autônoma da moral, filosofia, direito ou religião, definindo-a exatamente como “a arte de conquistar, manter, expandir ou reaver o poder”, associando a figura do príncipe, como condutor do Estado moderno, ao político no sentido estrito.

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Essa concepção da política como instrumento de poder vai caracterizar o pensamento absolutista e permanece até hoje presente em abordagens moderna do conflito político. A concepção da política associada ao poder tende a dicotomizar as facções em luta em dois campos opostos e mutuamente excludentes. Caracteriza as abordagens clássica de Maquiavel e Weber, sendo modernamente utilizada, dentro de seus respectivos paradigmas, pelos marxistas e behavioristas. Autoridade Nessa segunda subcategoria, o foco do estudo da política estaria situado na disciplina, entendida como característica condicionadora e formadora de hábito, “de obediência de massa acrítica e não resistente”, possuindo traços de comportamento regrado, treinado e internalizado (DREIFUSS, 1993). Tipo específico de relação social. Trata-se do poder legítimo, isto é, revestido de consentimento, que, segundo Weber (apud DREIFUSS, 1993), se faz obedecer voluntariamente. Portanto, essa abordagem está optando por um tipo específico de relação social que combina ambos: o estudo da política seria o estudo das relações de autoridade entre indivíduos e os grupos, da hierarquia de forças que se estabelecem entre eles, e principalmente a capacidade de criar e manter a crença de que as repartições de poder e influência existentes são as mais apropriadas. Embora não enfatize as instituições, esse entendimento reconhece que, modernamente, o Estado ou governo ocupariam o ápice da estrutura social e autoridade, cabendo à ciência política explicar toda essa estrutura e as forças e influências respectivas que a compõem. O processo de tomada das decisões públicas ou alocação imperativa de valores Essa abordagem considera a política como um processo social, cuja especificidade estaria no uso dos recursos antes mencionados – poder, autoridade, influência – para formulação de linhas de conduta coletivas adotadas pelos atores. Essa abordagem se propõe a explicar porque uma determinada linha de conduta foi adotada (formulação, participantes, determinantes, resultados e impacto), num contexto de conflito envolvendo disputadas sobre a administração de bens escassos na sociedade. Para os autores que adotam essa aporte teórico, a ciência política deve compreender “o estudo da alocação autoritária ou imperiosa dos valores, de maneira que essa alocação seja influenciada pela distribuição e utilização do poder” (David Easton apud Schmitter, 1984). Ela fixa os limites do sistema político como todas as ações mais ou menos relacionadas com a formulação de decisões autoritárias ou imperiosas para uma sociedade. Se entendermos decisões “autoritárias ou imperiosas” como aquelas fundamentadas no poder extroverso do Estado, então a política volta a ser definida em termos de Estado, agora entendido como processo e não como instituição (SCHMMITER, 1984). Alguns teóricos que utilizam o decision-making approach, todavia, consideravam que o estudo do processo de tomada de decisões enquanto delimitação da política ultrapassa os limites da esfera pública, podendo ser também aplicada às decisões que tem reflexos indiretos sobre o Estado e a sociedade (CHILCOTE, 1997). Inspiradas pela análise sistêmica (CHILCOTE, 1997), essas abordagens consideram a existência de um sistema integrado de decisões, tanto públicas quanto privadas, que se influenciam reciprocamente e que dão origem aquilo que denominamos de política, a partir de uma dinâmica de estímulo-resposta, onde o Estado é o núcleo de tomada das decisões coletivamente relevantes, onde são processadas as demandas e formuladas as políticas públicas. As funções da política: lidando com o conflito e criando consensos Em sentido amplo, definir algo pela sua função quer dizer considerá-lo sob o aspecto da sua conseqüência ou conseqüências no sistema global do qual faz parte. O modelo funcionalista investiga o fenômeno político tendo como objeto de análise as conseqüências da atividade política para a sociedade global (CHILCOTE, 1997). 4

toda as formas de poder devem repousar sobre um princípio de legitimidade ou autoridade que forneça a base legal e moral para o seu exercício. Pode ocorrer enquanto obtenção de um “consentimento passivo” (por imposição carismática) ou enquanto “subordinação” (por imposição tradicional). Historicamente. conflituoso. de forma a realizar os objetivos coletivos. ou antes examinar sua estrutura e funções. DOMÍNIO Para Weber. e a teoria funcionalista do equilíbrio sustentada por Robert Dahl (apud CHILCOTE. Ao tratar da liderança e da ação política. considera que o desafio da política por uma classe ou grupo leva à busca de um novo equilíbrio. mas apenas o canaliza. 1998). o que existe um certo grau de integração e cooperação entre indivíduos e grupos. A legitimidade resulta. O sociólogo americano Talcott Parsons (apud SCHMITTER. haveria três formas de exercer. 1984) sugeriu que o subsistema político é responsável por processar as demandas dos vários grupos de interesses existentes no sistema global. Condição suficiente: reconhecimento recíproco pelos atores de um quadro de restrições mútuas. envolvendo antagonismo de interesses ou atitudes entre diferentes indivíduos ou grupos. Condições de para definir um fenômeno como político Condição necessária: caráter controverso. pode-se estudar o Estado. uma atividade necessária ao bom funcionamento do sistema global. baseada na autonomia dos subsistemas e no pluralismo organizacional. o que envolve a extração de “obediência”. legitimamente. o poder político (WEBER. Este reconhecimento pode estar baseado em crenças comuns (estrutura de autoridade) ou na simples prudência (antecipação do poder de retaliação do oponente). O estudo da política pode enfatizar os conflitos e a ruptura com a ordem estabelecida tanto quando pode enfatizar a integração e a assimilação dos conflitos para a manutenção do sistema estabelecido. por sua vez. a integração e o alcance do bem comum. de maneira que a política funcione para manter a paz entre os interesses conflitantes. sem que este conflito destrua uma das partes. 1998): Conflito: tipos. poder institucionalizado da sociedade. temos (COTTA. quanto como uma tarefa. A questão das necessidades ilimitadas versus escassez de recursos. padrão de atividade geralmente encontrado em qualquer sociedade (SCHMITTER. Qualquer fenômeno ou ato social é potencialmente político nesse sentido (COTTA. 1984). Pode-se ainda enfatizar os processos de decisão que nele ocorrem. 1994): a dominação tradicional. 1998). de uma classe economicamente dominante etc. A obediência. a dominação racional-legal e a dominação carismática. a política pode ser compreendida tanto como requisito do sistema. portanto.No entendimento funcionalista. pode ser obtida de várias formas. estrutura. Admite o caráter precário da resolução política. Por exemplo. da convicção de que o poder deriva do compartilhamento de valores e metas coletivas. em primeiro lugar. em “direção” e “comando”.) e como um meio de assegurar a manutenção da ordem social. Integração: autoridade. formulação de decisões e crenças comuns. fontes. Assim. 1997). como um instrumento de dominação (de uma elite dirigente. que leva os atores a respeitarem as regras do jogo (COTTA. padrões e intensidade. fica claro que Weber pensa. Assim temos que a função da política é resolver os conflitos entre indivíduos e grupos. isto é. eis que a mesma não põe fim ao conflito. isto é. 5 . o transforma em formas não destrutivas para os partidos e coletividade. de forma a garantir a manutenção do sistema.

para Weber supera as formas de obediência baseadas na tradição e no carisma e prepara o terreno para a emergência de um sistema representativo e de uma política racional e impessoal. Atualmente pode se aplicar a qualquer líder. Nesse caso a autoridade é estritamente pessoal. é.original. Assim temos (LEVI. consolidados geração após geração a ponto de serem “naturalizados” pelo uso e excluírem outros comportamentos do horizonte de possibilidades. mas é afetiva e devida ao carisma do líder • cabe ao líder carismático mandar e ao seguidor obedecer • o quadro de funcionários é escolhido pelo carisma. pode encontrar-se em conflito com as bases de legitimidade da sociedade em questão. por medidas e meios legais e racionais. o líder carismático e concebido em termos de messianismo religioso. de forma estereotipada. o carisma ou a legalidade. A autoridade do governante é pessoal. 1992. mas flui naturalmente sobre os atos do dominado. Lênin durante o período da Revolução Bolchevista. sendo um revolucionário. São características típicas da dominação carismática: • obediência é devida à pessoa do líder • essa obediência não se baseia na tradição ou em considerações de competência racional para ocupação de um cargo. por parte de um grupo dado de pessoas”. ou reconhecimento da autoridade. herói. ou carisma. exercida por um líder nato. 6 . Autoridade pessoal. não por capacidade técnica ou posição tradicional • não existem regras de competência técnica nem privilégios estamentais • inexistem regras para a administração. que a obediência ocorra enquanto disciplina. assim. não podendo ser herdada. seu campo de ação é a conversão e o uso da força: No modelo weberiano. em virtude do hábito. Moisés ao conduzir o êxodo do povo hebreu para fora do Egito. Trata-se de uma ordem social que é percebida pelos seus membros como tendo sempre existido. um comando receba obediência pronta e automática. que reivindique com êxito o direito de se fazer obedecer com base em alguma qualidade extraordinária que seja considerada única e intrínseca à pessoa dele. razão pela qual ele possui senso de missão sagrada e reivindica autoridade moral. Segundo Max Weber. sendo o status normalmente atribuído pelo nascimento. Dominação tradicional Nessa forma de dominação a legitimação que se baseia na autoridade do “eterno ontem”. a legitimidade. Disciplina é “a probabilidade de que. WEBER. portanto. sejam elas racionais ou tradicionais Exemplo: Subcomandante Marcos (líder zapatista mexicano). fundamentada nesses usos e costumes sedimentados pelas gerações. estando portanto revestida de uma força obrigatória. geralmente duradoura e historicamente constituída. Trata-se de uma relação essencial de comando e obediência. doada ou transmitida normativamente. santo ou gênio. é elemento da dominação que busca prolongar-se.Porém. Geralmente. podendo ter como fundamento a tradição. O conceito de dominação se refere a uma relação de poder em que a vontade do dominador não precisa ser cotidianamente imposta. sendo esta situação percebida por ambos como “normal”. A disciplina é constituinte necessária do consentimento ativo que um governo precisa obter. quando reivindica o uso do poder. vocação pessoal ou devoção ao líder. A disciplina. o fundamental para a política numa situação de dominação racional-legal e. de massas. dos hábitos arraigados. assim como o conjunto de funções que devem ser desempenhadas na sociedade por cada indivíduo. pois e considerada uma qualidade intrínseca ao dominador. 1994): Dominação carismática Legitimação baseada no extraordinário e pessoal dom da graça. essencial para a relação de autoridade (racionalmente e legalmente legitimada). ou seja. que é o poder revestido de consentimento. ou não. conformidade e obediência de seus seguidores. as obrigações e direitos dos legisladores não são claramente especificados.

vivendo em sociedades cada vez mais laicas e operando dentro de um modo de produção capitalista. 7 . que assim se apresentam. é característica de ordens sociais estabelecidas. que visam a atingir finalidades compartilhadas. ou pelo menos. São características típicas da dominação tradicional: • obediência é devida à pessoa do governante. não necessitando ter competência técnica e sendo seus poderes e atribuições dependentes da confiança do governante Dominação racional-legal A dominação é exercida em virtude da crença na validade do estatuto legal e da competência funcional baseada em regras racionalmente criadas. está associado ao processo de racionalização que acompanha a formação dos modernos Estados Nacionais. mas se baseiam . sem vinculação tradicional ou afetiva com os governantes • esses funcionários seguem urna hierarquia de cargos e um conjunto de atribuições (direitos e deveres) legalmente fixados • a vontade do governante somente é acatada quando embasada em atribuições legais. não às pessoas • o governante é obedecido em decorrência do cargo que ocupa. não nas suas características pessoais. Nesse tipo de dominação. poder de um patriarca. não por tradição ou por qualidades carismáticas • as pessoas que ordenam estão obrigadas a obedecer ao estatuto • os funcionários são profissionais selecionados por competência técnica.na tradição • a vontade do governante é a lei. temos o predomínio das regras generalizadas. sem vinculação com pessoas. assim como a racional-legal. exceto quando conflitante com a tradição • os funcionários são ligados ao governante por laços de :parentesco ou fidelidade pessoal. poder de um chefe tribal. que são caiadas ou modificadas por mudanças no estatuto. calcados em burocracias profissionais. que conferem uma autoridade impessoal decorrente de um cargo particular. A dominação tradicional. nem tampouco encobriu a mesma realidade. Compreende o triunfa da racionalidade como princípio ordenador do poder e da convivência social. Como modelo de dominação. Chefe de Repartição Pública. Delegado de Polícia. Exemplos: Diretoria de grandes empresas. TEMAS CENTRAIS DA TEORIA POLÍTICA CLÁSSICA O ESTADO MODERNO E A CONSTRUÇÃO DA ORDEM POLÍTICA Antecedentes históricos O Estado como ordem política da sociedade é conhecido desde a Antigüidade aos nossos dias. derivando do costume e da linhagem • as normas não são racionais. formal e claramente expressas. São características típicas da dominação racional-legal: • a obediência é devida ao ordenamento jurídico.Exemplo: direito divino dos reis. Os homens aceitam o exercício do poder como legítimo porque a formulação das ordens ou da política obedece a regras aceitas por todos. Presidente dos Estados Unidos. Se baseia na crença de que são legais e racionais as normas do regime. Reitor de Universidade. não ao cargo que ele ocupa • essa obediência se sustenta na tradição que ele encarna. Todavia nem sempre teve essa denominação. .

de maneira bem sucedida. Weber concebeu o Estado como sendo aquela comunidade humana que. de aderência imediata à ordem política ou de participação na cidadania.Estado remonta a Maquiavel. girando a sociedade em torno do meio rural e sendo a terra a principal fonte de riqueza. durante o apogeu da expansão. Esses nobres. A relação íntima entre poder . sistema de produção e de organização do poder baseado nos feudos. No Império Romano. grandes propriedades territoriais relativamente auto-suficientes que. tendo o privilégio de portar armas e de constituir exércitos privados2. aqueles que adotam uma abordagem jurídica tendem a considerar o Estado representa uma manifestação específica da Sociedade. Estado pode apresentar inúmeras “espécies” diferentes. independente do nome específico com que. pelo que esse Estado representa uma sujeição do poder ao direito. e mais tarde entre os germânicos invasores. controlando o aparato coativo e respondendo pela defesa do feudo. militares. quando este inaugurou O Príncipe com a frase famosa: “Todos os Estados. produção jurídica e prerrogativa de manter exércitos) e possuem hereditariamente o direito de governar. As relações sociais são essencialmente didáticas. detém a função de guerreiros. diferencia o Estado moderno que se constrói a partir dos Estados absolutistas de outras formações sócio-econômicas e político-militar que lhe antecederam.agora privatizada. o mesmo autor. “gênero”. ou que com. calcadas no relacionamento pessoal entre os agentes sociais. 8 . num contexto de economia essencialmente agrária e natural. caracterizada por um ordenamento jurídico carregado de imperatividade. principalmente. e são repúblicas ou principados”. um pacto em que um senhor feudal entrega parte de seu feudo a outro nobre em troca do pagamento de tributos periódicos em gêneros ou em espécie. o Estado se forma quando o poder assenta numa instituição e não numa pessoa. além de proprietários de terra e administradores da justiça. 1. de tal maneira que se existissem somente agregações sociais sem meios coercitivos não mais haveria lugar para o Estado. nomeado como organização de domínio e de poder. passaram a exprimir a idéia de Estado. havendo a auto-suficiência do feudo e uma troca complementar entre feudos de uma mercadoria por outra. segundo a qual todas as formações políticas são formações de força. 1994). seja conhecido a partir de sua configuração histórico-legal própria. bem como em troca do cumprimento de certas obrigações políticas e. então de uso corrente. Segundo essa concepção. todos os domínios que têm tido ou têm império sobre os homens são Estados. reivindica para si. principalmente pelo aspecto de personificação do vínculo comunitário. consolida-se o feudalismo. Entre os nobres a autoridade: se distribuí por meio das práticas de suserania e vassalagem. o qual é transmitido juntamente com a propriedade do feudo.. somente existindo onde for concebido como um poder independente da pessoa dos governantes (BONAVIDES. 1978). ele coexistiram. e nem mesmo para a política (WEBER. Com base nesse entendimento. 1994). embora afirmando que o Estado é tanto base e ápice quanto continente e conteúdo de dominação. Atualmente. Todavia. dentro de um determinado território.e Estado se encontra claramente expressa no pensamento de Max Weber. natural na medida em que essencialmente não-monetária.A polis dos gregos ou a civitas e a respublica dos romanos eram fozes que traduziam a idéia de Estado. Economia agrária por basear-se essencialmente na produção agrícola e na criação de gado. Idade Média e o feudalismo Durante a Idade Média. O emprego moderno do termo . isto é. o monopólio da violência física legítima (WEBER. Chega-se ao Estado moderno por uma operação jurídica de institucionalização do poder. os vocábulos Imperium e Regnum. considerando que o. são controlados por uma aristocracia de proprietários guerreiros (os senhores feudais) que detêm o controle dos meios de gestão coletiva (cobrança de tributos.

ou seja. A autoridade política é exercida em nome de princípios morais e religiosos. subordina a atuação do poder político aos interesses religiosos. baseadas no pacto de suserania e vassalagem (mediante o qual o suserano concedia ao vassalo. • predomínio do religioso sobre o secular. A revolução comercial A partir do século XIV. detendo assim o monopólio ideológico que permitia unificar a Europa em torno de uma visão cristã de mundo. bem como bibliotecas. tributos e prestação de serviços. e a política considerada urna faceta da existência subordinada aos ditames teológicos e morais do cristianismo. O uso de arados. • posse e isso privado dos instrumentos de gestão pública. o feudalismo entra em crise. junto aos mosteiros e catedrais. onde ficaram guardados os tesouros culturais do mundo grego-latino. Isso porque. eis que decorrente da propriedade do respectivo feudo. cavalos e trajes que eram imprescindíveis para o exercício das funções militares. 2. 3. implicando na fragmentação do exercício da autoridade política. Desde o século XII muitos servos abandonam os campos. podemos caracterizar o feudalismo por: • policentrismo. principalmente militares) e na relação de dependência e subordinação que prendia o servo de gleba à terra do senhor feudal. onde apenas o clero permaneceu letrado. interpretado e adaptado aos ideais cristãos. • economia rural. multiplicidade de centros de poder. por derradeiro. de pastagens para o gado de subsistência. detentora do dito poder espiritual. surgiram escolas para a formação religiosa. muitas vezes. Devido ao monopólio sobre o conhecimento exercido pela Igreja. a ação transformadora que gradualmente substituirá o feudalismo pelo capitalismo (ARANHA. natural e fechada. Essa posição era ao decorrente do processo de ruralização desencadeado pelas invasões bárbaras. é atribuição dos servos de gleba. em troca de homenagem. • relações de domínio essencialmente pessoais. ou seja. O clero. compram a liberdade e se ocupam com atividades artesanais e mercantis nos burgos. o poder espiritual da Igreja interfere na política e. de moinhos e outros instrumentos que pertenciam ao senhor feudal e eram utilizados pelos servos mediante o pagamento de tributos em parte da produção ou em dias de serviço nas terras de uso exclusivo do nobre. agrupamentos surgidos fora dos domínios feudais que vão produzir um renascimento urbano. associado ao crescente poder político oriundo da posse de terras e de sua capacidade de legitimar ou não o poder exercido pelos reis e seniores feudais. ou seja. com a riqueza concentrada na terra e o predomínio da produção agrícola voltada para a subsistência da unidade feudal. portadora de urna verdade revelada que deveria servir para explicar a natureza do mundo e definir comportamentos. Isso posto. constituí o corpo sacerdotal da Igreja Católica Romana. pagar-lhe tributos em moeda ou gêneros. 9 . devendo trabalhar um certo número de dias diretamente para o senhor. ou seja. o renascimento das cidades. . somente os nobres tem tempo e dinheiro para fazer frente ao longo treinamento e a aquisição de armas.uma parte do seu feudo. que provocou o colapso da educação escolar. sustentados pela posse de exércitos privados. 1993). Na Idade Média.A produção da riqueza. Caberá aos artesãos e comerciantes concentrados nesses núcleos urbanos’ em lenta mas constante expansão. ou seja. camponeses que por diversos caminhos ficaram dependentes das terras e dos instrumentos de produção3 do senhor feudal. aplicada de forma autônoma e não-coordenada por cada senhor feudal. por outro lado. de dizer o direito e de impor normas de conduta aos seus dependentes (vassalos e servos). e ainda prestar-lhe serviços domésticos. todas as atividades são percebidas como fundamentadas em algum princípio religioso. a faculdade de cunhar moedas. de cobrar tributos.

a circulação de mercadorias vindas do Oriente é dificultada.A monetarização da economia. o que acontece entrelaçado com o processo de expropriação histórica. faz parte da primeira abordagem. junto com a ampliação de seu âmbito e abrangência. Com a tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453 (marco cronológico para o início da Idade Moderna). ao lado da expansão da vida urbana. O estudo do Estado Moderno.como soberano. banqueiros e artesãos que viviam nas cidades) e no enfraquecimento social e econômico da nobreza. a saber . 10 . militares e legais. • o caráter impessoal das relações governante-governado. de forma a caracterizar-se. seja pelo contorno do continente africano. por uma vez constituído e aceito como tal. da desprivatização dos assuntos de interesse geral. a nova forma de organização política que emergiu na Europa entre os séculos XIII e XIX. isto é. da crise e transformação das sociedades medievais.demarcação de limites territoriais para o exercício desse poder. enfraquecia-se o poder secular da Igreja. os perpetua. cuja riqueza depende de rendas fixas oriundas da propriedade territorial e da agricultura. As noções de concentração. não respondendo perante qualquer outro poder. Significa o surgimento de novos mercados fornecedores de mão-de-obra e matéria-prima. 1993) considera que. e do cerceamento da gerência autônoma e arbitrária da emergente “coisa pública”. 1998): • a existência de um único centro de poder. (COTIA. BOBBIO (1987) trata a formação do Estado moderno como processo de concentração de meios gerenciais. • a. A expansão das relações capitalistas de produção gerou uma demanda pela racionalização das funções de. acima dos agrupamentos sociais diversos. ou sob a perspectiva sincrônica. a cobrança de tributos e o controle do aparato coativo. da neutralização ou erradicação da administração particular da justiça. Ambos os processos são descritos por Weber numa linguagem que evoca a análise e terminologia de Marx ao retratar a expropriação dos meios de produção que levam à formação do capitalismo moderno. Paralelamente. a ampliação quantitativa e qualitativa do comércio. Governo. a seqüência de acontecimentos que deles se desdobram e a sua específica interação são um fenômeno distintamente ocidental. o surgimento de um incipiente sistema bancário. centralização e despersonalização (ou configuração do espaço público) do poder é constante no entendimento moderno de Estado. cuja preocupação é analisar suas transformações ao longo da história da civilização ocidental. Surgimento e evolução do Estado moderno Pode-se estudar o Estado sob a perspectiva diacrônica. Todos esses fatores implicam na ascensão da burguesia (essa classe de comerciantes. a formação do Estado moderno é a história da ampliação do espaço público. impulsionando a formação daquilo que hoje conhecimento como Estado Nacional laico. O já citado Max Weber (apud DREIFUSS. de um ponto específico de análise. são fatores que. De outro ângulo. que monopoliza a produção do direito. seja pela travessia do Atlântico em direção às terras americanas. Esses fenômenos são os alicerces e viabilizadores do Estado moderno que. A formação desta estrutura se deve a três processos resultantes da dissolução do feudalismo. 1998): • a progressiva concentração e centralização do poder político • a afirmação do principio da territorialidade • a despersonalização da relação de mando político O Estado Moderno surgiu. a emissão de moeda. com a conseqüente separação dos possuidores individuais ou grupais de seus instrumentos privados de força. marcam a chamada Revolução Comercial. de cunho estrutural-funcionalista. portanto. que se interessa pelos elementos constitutivos do Estado a despeito do período histórico considerado. criando condições para a unificação dos múltiplos centros de poder então existentes. dando início ao Ciclo das Grandes Navegações. A emergência simultânea destes processos. em contraposição às relações pessoais de vassalagem do período medieval. Trata-se de uma forma de organização política cujas principais características são (COTTA.

1992) e da dominação (WEBER. por sua vez.Em outras palavras. agentes. podendo ser estabelecido do ponto de vista político. normatização e gestão. de seus detentores privados. poderíamos definir como território de um Estado aquele espaço geográfico em que esse Estado exerce sua soberania com a exclusão da soberania de qualquer outro Estado. portanto. os quais se tomam “públicos”. Na Antigüidade já se formulavam conceitos a esse respeito. benefício pessoal. Assim. portanto. isto é. incluindo turistas estrangeiros ou imigrantes ilegais. pela. em termos de combinar os conceitos trabalhados. enquanto seu emprego. Todos eles são separados de seus instrumentos particulares de violência. expropriação dos meios de violência. estatizados. jurídico e sociológico. onde o povo é a reunião da multidão associada pelo consenso do direito e pela comunhão da utilidade. 1993) aponta para o processo “estatuinte” do Estado (e para a sua reprodução enquanto entidade e . paralelamente à expropriação dos artesãos e camponeses de seus recursos e instrumentos de produção. como bem demonstram as colocações de Cícero.instância per se e para si). práticas regulatórias) e ideológico (crenças. Povo Por população podemos entender aquele conjunto. dos donos de recursos de exercício legal personalizado. agora intermediados e legitimados pelo Estado enquanto instância impessoal e pública. normas. marcado por diversas “expropriações históricas” concomitantes e acumulativas: dos possuidores de meios de força para. lei ou pelo poder econômico. e não simplesmente qualquer conjunto de indivíduos agregados de alguma maneira. jurídico-político (procedimentos. administração dos recursos coletivos e codificação ou normatização legal. representando a emergência do público frente ao privado. capacidade pública desses 11 . De acordo com os conceitos presentemente trabalhados. representações coletivas. sujeitas a sua soberania. dos códigos gerais contra os regimentos estamentais.a base geográfica do poder. o Estado culmina seu processo de infra estruturação material (os meios. e a transformação destas relações e posições dos dominados e dominadores para novas formas e situações. imagens que associam o Estado à Nação). como instrumentos e súditos dos possuidores. Elementos constituintes do Estado moderno Território Constituindo . Weber traça um paralelo de imagens e até de terminologia com Marx e Engels (apud DREIFUSS. pela. A formação do capitalismo e do Estado moderno seriam concomitantes. a relação dos possuídos pelas armas. ou seja. fica sujeito a normas socialmente inclusivas e despersonalizadas. Weber (apud DREIFUSS. por agentes. em princípio. temos que a Soberania pode ser entendida. dos proprietários de mecanismos de administração do social para fins privados. recursos:. da cidadania em relação à condição de súdito.1994). das relações impessoais de mercado em substituição -às relações pessoais de troca e clientelismo. de pessoas presentes no território do Estado e. Já a noção de povo pressupõe que os que vivem no território do Estado e lhe_ estão sujeitos possuem com esse Estado um vinculo a ele através da nacionalidade ou cidadania. como a racionalização jurídica do poder político (BOBBIO. no século XIX. compreende a história da. Trata-se de um dado qualitativo. época que serve de contextualização à produção intelectual de Weber. A formação do Estado moderno. Ao sublinhar. associando a legalidade com a legitimidade. servidores públicos e funcionários do Estado (não mais por donos de função ou recurso). E um dado essencialmente quantitativo. A gestão política é desprivatizada. o território do Estado é definido de maneira mais ou menos uniforme pelos autores examinados. 1993) para marcar o processo “estatuinte” do capitalismo moderno e de sua reprodução. Assim que temos um conceito jurídico de povo como aquele grupo humano presente no território do Estado e a ele vinculado pela cidadania. instituições).

cabia exclusivamente ao soberano. • Por legalidade entendemos um conceito jurídico. de forma a concentrar sua atenção na luta externa contra outros Estados. surgindo no final do século XVI precisamente para designar esse poder estatal. como a racionalização jurídica do poder político (BOBBIO. de nacionalidade. acha-se intimamente relacionada com a realidade primordial e essencial da política: a paz e a guerra. de dominação como uma relação de poder em que a vontade do dominador não precisa ser cotidianamente imposta. é colocado numa dimensão ética. que significa proceder de conformidade com o ordenamento jurídico vigente ou. que terminam sendo resolvidos essencialmente através da guerra ou da ameaça de guerra. no caso em tela. 1994). malgrado o surgimento e desenvolvimento de um sistema de tratados e convenções internacionais. Já um conceito mais sociológico. consequentemente.é a qualidade que propicia às partes componentes de qualquer sistema mudarem em conjunto. por sua vez. numa sociedade política e. todavia. Embora essa condição de instância última do poder institucionalizado esteja presente em várias formas de organização ao longo da história humana. eliminando principalmente todas as formas de organização militar não-estatal. Karl Deutsch. Governo. o termo Soberania como entendido hoje é contemporâneo do Estado moderno. ressalta Deutsch. traduzida por um conjunto correlato de direitos e deveres que os torna aptos a participar da vida política daquela sociedade. • Soberania externa: externamente. associando a legalidade com a legitimidade. sendo as relações hierárquicas de poder sancionadas pela lei. de conformidade com o ordenamento jurídico estabelecido pela Constituição do Estado. em “Política e Governo”. dos privilégios estamentais. portanto. cada soberano deve decidir sobre a guerra e a paz. com a formação dos grandes Estados territoriais.indivíduos. são permitidas unicamente forças armadas que dependam diretamente do soberano. Assim temos que a Soberania pode ser entendida. fundamentados na unificação e concentração do poder político. Na Idade Moderna. sujeito único e exclusivo da política. a tarefa de garantir a paz entre os súditos de seu reino e a de uni-los para a defesa e o ataque contra o inimigo estrangeiro. a Soberania pretende ser a racionalização jurídica do poder político. cuja ênfase é no aspecto histórico-político. capacidade dos sistemas de constituírem um conjunto de diversas partes que se influenciam mutuamente. 1992) e da dominação (WEBER. sendo esta situação percebida por ambos como devida. é um conjunto de unidade especializadas mediante as quais o poder extroverso do Estado se manifesta. a diferença entre esta e as demais associações humanas em cuja organização não se encontra este poder supremo. . das autonomias locais. esse mesmo povo. exclusivo e não derivado. Da coesão resulta a. portanto autoridade. A covariação. de dimensão jurídica. como conjunto de indivíduos ligados ao Estado por vinculo de obrigações e direitos que lhes permite participar da vida pública. Essa Soberania. mas flui naturalmente sobre os atos do dominado. • Por legitimidade. impõe a uma coletividade um conjunto de atribuições de comando e obediência que são regularmente aceitos como devidos e naturais. compreendemos um conceito político. Trata-se de um conceito que aproxima povo. explica que “um sistema político é um conjunto de unidades reconhecíveis que se caracterizam pela coesão e pela covariação”. portanto legítimos. compartilhando valores e interesses que sedimentam uma identidade coletiva. Dessa colocação podemos inferir a dupla face da Soberania: a interna e a externa. “Se uma unidade muda. por isso no novo Estado territorial. a outra muda também”. 12 . que o caracteriza como uma comunidade histórica. De fato. em termos de combinar os conceitos trabalhados. • Soberania interna: internamente o Soberano moderno procede à eliminação dos poderes feudais. uma vez que os Estados não tem acima deles qualquer poder maior que possa arbitrar os conflitos. único centro de poder. Governo e soberania MATTEUCCI (1992) define soberania como sendo o poder de mando de última instância. enquanto faculdade de mando de última instância. no sentido em que o poder consentido.

como a separação dos Poderes. separada da teologia e capaz por si mesma. isto é. metafísicos ou ideológicas. negando tanto o valor da especulação puramente racional quanto a base instintiva do comportamento. Empirismo pede ser entendido como a abordagem filosófica que considera que o único conhecimento válido é aquele oriundo da experiência. estabelece a ordem. buscam a construção de uma ética racional. o de fazer as leis. ou Poder Judiciário). essas funções ou poderes seriam três. todos os três autores. Para Montesquieu. (MATTEUCCI. como meio de prevenção contra a tendência natural que tem os homens de abusar de qualquer parcela de poder que lhe seja confiada. por tal termo entendemos uma escola que floresceu na Europa entre o começo do século XVII . mas sim um princípio metodológico fundamentado na racionalidade. LOCKE E ROUSSEAU Delimitação conceitual Em sentido amplo. acordo que assinalaria o fim do estado natural e o início do estado social e político. Não possuem as mesmas bases ontológicas. num acordo tácito ou expresso entre a maioria dos indivíduos. o Governo ou Administração Pública). seriam naturais e. Sua característica comum e a unidade metodológica (BOBBIO & BOVERO. Nesse aspecto. • o Poder Executivo das coisas que dependem do direito civil. prevê as invasões (seria o Poder Executivo em sentido estrito. mediante o qual ele faz a paz ou a guerra. mediante o qual pune os crimes e julga os dissídios dos particulares. precisamente porque fundada numa análise e numa critica racional dos fundamentos do poder. John Locke (1632-1704) e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). de forma que um poder controle e sirva de freio ao outro. inerentes ao ser humano e anteriores à constituição da comunidade política ou da sociedade. envia e recebe embaixadas. portanto. Num sentido mais estrito. 4. 13 . motivo pelo qual as funções devem ser confiadas à pessoas distintas. Governo. Por escola compreendemos não uma comum orientação política. que supõe permitir a redução do direito.Teoria da separação dos Poderes A teoria da tripartição de poderes consiste em propor. a qual sustenta precisamente a existência de um conjunto de direitos que. A busca dessa ética racional e universal implica na adoção das premissas da escola jusnaturalista. mediante o qual o príncipe ou magistrado faz leis para algum tempo ou para sempre. ou empirismo4. ou seja.e os fins do século XVIII. o autor considera que o exercício dos três poderes. poderia também evitar a tirania. com suas faculdades de estatuir e de impedir (le pouvoir arrête le pouvoir). soberania. a saber: • o Poder Legislativo. de garantir a legitimação universal dos princípios da conduta humana na comunidade política. e teve seus máximos expoentes em Thomas Hobbes (1588-1679). o poder de julgar e de dizer o direito (poder jurisdicional do Estado. mas o comum uso de uma mesma sintaxe ou de uma mesma estrutura conceitual para racionalizar a força e alicerçar o poder no consenso. o de executar as resoluções e o de julgar os dissídios. à semelhança de Maquiavel. pela mesma pessoa pode facilmente conduzir à opressão. aferido pelo sujeito a partir das impressões sensoriais provocadas pelo ambiente e da reflexão sobre essas experiências. ensejariam o Estado como um produto da vontade racional dos homens. 1992a). que os poderes ou funções que são inerentes ao exercício da Soberania estatal sejam exercidos por três órgãos distintos. 1994). compreende todas aquelas teorias políticas que vêem a origem da sociedade e o fundamento do poder político (chamado de imperium. Assim. Estado. e corrige ou ab-roga as que estão feitas. da moral e dá: política a uma ciência demonstrativa. Essa organização. • o Poder Executivo das coisas que dependem do direito das gentes. CONTRATO SOCIAL: HOBBES. ancoradas m premissas gerais indutivamente formulada com base na experiência concreta. potestas) num contrato.

corporação. naturalizava o Estado. pela ampliação sucessiva dos laços familiares. que á sociedade não só conhecesse o instituto privado do contrato. 14 .ordens do poder. O Estado era visto como o ápice de uma longa escala de grupos intermediários naturais (família. por conseguinte. oriunda de Aristóteles e amplamente recepcionada e desenvolvida pelos doutores da Igreja5’. Teólogos e filósofos ligados à Igreja Católica Romana. tradição ou de origem divida. disposta a discutir racionalmente a origem e os fins do Governo. mas soubesse usá-lo de forma analógica: entre os gregos. baseada em estamentos e na gestão privada da autoridade política. onde o Estado passa a ser cada vez mais concebido como máquina. 5. que houvesse uma cultura política secular. esses dois termos são de uso sistemático. que um processo bastante rápido de desenvolvimento político tirasse de sua base a sociedade tradicional . o conceito de estado natural e o conceito de estado civil. de contrapor. visto que a última era o desdobramento lógico e necessário da primeira.e eventual recaída do segundo para o primeiro -. isto é. 1992): Em primeiro lugar. tendo como fonte de legitimação a ordem natural das coisas estabelecida pela vontade divina. para poder assentar as premissas do fundamento racional do poder. Em segundo lugar.a sociedade que sempre existiu e que recebe. ainda que com interpretações conflitantes: o estado de natureza e o estado civil. a abordagem contratualista faz uso de dois conceitos fundamentais. Três foram as condições para a consolidação do pensamento político das teorias contratualistas. por exemplo. e vice-versa. Tal concepção orgânica. presentes em todos os autores abordados. Normalmente é apresentado como hipótese lógica negativa sobre como seria o homem fora do contexto social e político. no âmbito de um debate mais amplo sobre o fundamento do poder político (MATTEUCCI. a palavra koinonía indicava tanto uma associação econômica como política. podendo ser o estado de natureza visto como negativo face ao estrado civil. que seria justamente aquela condição da qual o homem teria saído.Em termos de modelo que explica o surgimento e a organização do Estado em sua época. em oposição à concepção orgânica própria da Idade Média. a finalidade é sempre dar uma legitimação racional às. não o aceitando passivamente por ser um dado da. as encíclicas papais e a especulação metafísica. O uso histórico permite interpretar o curso da história como o processo de passagem do estado de natureza para o estado civil . portanto. como algo que pode e deve ser artificialmente construído. enquanto uso axiológico se faz na medida que a cada um dos termos é atribuído um valor antitético em relação ao outro. Trata-se. no consenso entre os indivíduos. isto é.natureza das atividades produtivas e a natureza das relações de comando e obediência em que se fundamenta a distribuição de poder ria comunidade. impactada pelas concepções científicas da época.e instaurasse novas formas e novos processos de Governo. onde a associação era natural e a autoridade surge no pai (ou rei) e se delega aos escalões inferiores. mediante um pacto. Supõe que possa haver uma proximidade associativa entre a. negando qualquer dicotomia entre a sociedade natural e a sociedade civil. ao associar-se. comuna). Em todo o caso. escola de pensamento medieval que baseava-se na interpretação do direito romano e dá filosofia grega clássica segundo os textos bíblicos. com os outros homens. Segundo BOBBIO & BOVERO (1994). como dois momentos distintos ou como dois modelos antitéticos de representação das relações humanas. Essa concepção contratualista é construída no momento em que a cultura política sofre profundas modificações. sua legitimidade do peso do passado . representado na Europa pela consolidação do Estado Moderno sobre a sociedade feudal. em última instancia. servindo para compreender toda a vida social do homem. mostrando que ele se fundamenta. que desenvolveram a escolástica. O estado de natureza Elemento essencial da estrutura da doutrina contratualista é o estado de natureza. membros do clero ou não. Em terceiro lugar.

1992a): • a influência contemporânea da escola do direito natural (jusnaturalismo). fundamentado no contrato social instituído e instituidor da vontade geral). a guerra. todavia. segundo Hobbes. segundo Rousseau. para quem o estado de natureza é um estado pacífico e harmônico. a desídia. e de colocar assim o fundamento da obrigação política no consenso expresso ou tácito dos indivíduos a uma autoridade que os representa e encarna (caso de Locke e. a fim de ressaltar a idéia racional ou jurídica do Estado. repugnante.a distinção analítica entre três possíveis níveis explicativos (MATTEUCCI. o medo. Quanto ao segundo problema. por sua vez sucedido por um positivo (república. o isolamento. é necessário fazer um. com a qual o Contralualismo está estreitamente aparentado. pelo contrário. deve-se observar que Rousseau tem uma concepção triádica. os autores divergem quanto à avaliação da situação do homem antes da instauração do estado civil.) solitária. para.necessidade de legitimar o Estado. uma exigência sistemática. vêem no contrato um instrumento de ação política capaz de impar limites a quem detém o poder. problema. num período em que o exercício da força era por ele monopolizado. estão dominados pelo problema antropológico da origem do homem civilizado (Rousseau seria um desses).. Desses três níveis explicativos. • outros. quem a vida do homem no estado de natureza é “(. que considera que em princípio o estado de natureza pode ser pacífico. se nenhum poder superior assiste e regulamenta esses direitos. brutal. implica no surgimento de três problemas conceituais que vão receber respostas diversas dos autores contratualistas. do Estado tal qual deve ser. e colocando assim como base de toda a juridicidade o pacta sunt servanda. mas em guerra potencial.usando uma categoria tipicamente privada que evidencia a autonomia dos sujeitos. a barbárie. Isso se explica com base numa tríplice ordem de considerações (MATTEUCCI. a saber: • se o estado de natureza é uma realidade histórica ou hipotética • se esse estado de natureza é pacífico ou belicoso • se nesse estado de natureza o indivíduo se apresenta isolado ou já desenvolve formas de convivência social Para responder ao primeiro. seja suas imposições (as leis). todos eles presentes nos autores a serem abordados. • pacífico. Podemos basicamente indicar três abordagens: • hostil. mas que nele os direitos dos homens são sempre precários è a harmonia tende a perder-se. como é o Contrato. fazem do estado de natureza mera hipótese lógica.. seja. mísera. até certo ponto. onde um momento positivo (estado de natureza. referente ao momento anterior à constituição do Estado e englobando aquele conjunto de direitos imanentes ao ser humano (portanto naturais a ele).aí compreendido o público e o internacional . dado que nesse estado “o domino das paixões. este último sendo assimilado ao Estado da razão. em guerra efetiva. • a. a pobreza. seu aparelho repressivo. onde inexiste o conflito ou a escassez. num período em que o direito criado pela soberano tende a substituir o direito consuetudinário. o segundo reflete a predominância do elemento jurídico como categoria essencial da sintaxe explicativa: tratase de reconhecer no direito a única forma possível de racionalização das relações sociais ou de sublimação jurídica da força. • finalmente. a ignorância e a bestialidade” são os elementos que governam a relação entre os indivíduos. para.ao estado social é um fato histórico realmente acontecido. prescindindo totalmente do problema antropológico da origem do homem civilizado e do problema filosófico e jurídico do Estado racional. calcado na propriedade privada e no conflito). Hobbes). caracterizado pela igualdade e harmonia) é seguido por um momento negativo (estado civil. a de construir todo o sistema jurídico . • pacifico. 15 . o uso diverso e muitas vezes contraditório do termo “estado de natureza”. se o estado de natureza e pacífico ou hostil. • outro ainda.Locke. isto é. 1992a): • há os que sustentam que a passagem do estado de natureza . breve”.Ainda segundo BOBBIO & BOVERO (1994).

mediante o qual os indivíduos decidem de comum acordo viverem em sociedade. firmado pelos homens entre si. 16 . a capacidade de fazer as leis ode impor o seu cumprimento a todos os membros da comunidade. 1994): • pacto de união. • pacto de submissão. político e poder social. razão pela qual a vida em comum em suas múltiplas associações se dá em torno do indivíduo e não da coletividade. BOBBIO & BOVERO (1994) sustentam que a concepção contratualista não exclui o direito natural das sociedades naturais. os contratualistas querem legitimar o estado de sociedade (a civilização) ou modificá-lo com base nos princípios racionais onde o poder não assenta no consenso. os contratualistas concordam em considerar que não há uma tendência natural para a vida em sociedade. 1983). que é . Isso posto. baseada precisamente na família e na propriedade privada. sendo a base que constituí a sociedade civil. Assim. faz-se necessário conhecer antes abordar o jusnaturalismo. a fim de melhor garantir e tutelar os seus direitos naturais. mas não admite a sociedade política como extensão daquela. emancipação política apenas. ao qual era cominada a condição de escravo. dado que vêem no contrato a única forma de progresso: mesmo Rousseau. mantendo uma clara distinção entre poder. como a família. 1992a). • sociedade senhorial: baseada na ex delicto. O Jusnaturalismo sustentava que não apenas o Estado. um conjunto de escolas. a saber (BOBBIO & BOVERO. 1994): • sociedade doméstica: baseado no ex generatione. expresso ou tácito. a família e a propriedade privada (ROSS. entre o Governo e a sociedade civil (MATTEUCCI. de comum acordo.a obrigação mediante a qual o filho obedece os pais por ter sido por eles gerado. 1994): • que havia um conjunto de direitos naturais. mas a própria sociedade era constituída por. opondo-se às visões regressivas de uma idade de ouro baseada na harmonia e na abundância que seria anterior ao surgimento da família. o Jusnaturalismo não ignora os três fundamentos clássicos das obrigações6. referentes a dois momentos sucessivos (BOBBIO & BOVERO. mas tão somente como criação dos indivíduos. onde a obrigação do súdito de obedecer ao soberano nasce do contrato. decorrente da impossibilidade de cada um atender sozinho seus próprios interesses. ou a uma assembléia deles. • sociedade política: ex contractu. que sucede ao primeiro. ou seja. ou pacto societatis. comum a todos os autores. decorre de contrato. tipo diferente de associação (BOBBIO & BOVERO. no sentido. um pacto entre os indivíduos.de concederem à um deles.de direito que sustentava duas premissas básicas. mas tão somente a necessidade dessa vida. que deixa inalterada e até garante a estrutura social. da propriedade privada e do Estado. cada um disciplinador do exercício do poder em um. A doutrina jusnaturalista O modelo contratualista parte da premissa. todos os contratualistas vêem no contrato um instrumento de emancipação do homem. Malgrado essas diferentes interpretações. mediante o qual os indivíduos assim reunidos decidem. ou seja. que não eram oriundos do Estado nem de urna instância divina. que tende a considerar como degenerativa a sociedade de seu tempo em relação à felicidade inicial do estado de natureza. se submeterem a um poder comum. Para melhor compreender esse liame obrigacional que une os indivíduos na constituição da sociedade civil e legitima o exercício do poder pelo Estado. o qual dá origem à sociedade civil. Esse consenso por sua vez. sendo assim o contrato social desdobrado em dois tipos. a obrigação do escravo obedecer ao seu dono decorre de um delito cometido.Quanto ao terceiro problema. de que o princípio de legitimação das sociedades políticas é exclusivamente o consenso. oriundo este do pacto entre vontades livres e iguais. cuja fonte exclusiva de validade estava na sua conformidade com a razão humana • que o Estado como forma de comunidade humana politicamente organizada surge de um contrato entre os indivíduos. considera que o pacto social é inevitavelmente necessário após ter surgido a linguagem. visto que nem o vínculo doméstico nem o vínculo senhorial oferecem um modelo válido para a sociedade política.

o jusnaturalismo fundamenta juridicamente essa autoridade racional. passando pela redução de toda a forma de direito ao direito estatal. que deveriam servir-lhe de referência e limites. por exemplo. que compreende tanto o exercício quanto a titularidade do poder soberano. todavia. prescindindo de argumentos teológicos. características do Estado de Direito • laicização do Estado e subordinação do soberano às leis naturais que são as leis da razão • concepção antipaternalista do poder. dentro da concepção jusnaturalista. Assim. tende a optar por um modelo de dominação racional-legal. a doutrina jusnaturalista considera o Estado racionalmente concebido como a única entidade na qual o homem realiza plenamente sua própria natureza racional. Esses conceitos são oriundos do direito romano. A saída do estado de natureza para o estado social não se faz por utilidade. onde se entende que o pacto implica tão somente na concessão limitada do poder soberano. O Estado tem o valor intrínseco absoluto. Esse pacto de submissão. que passa a ser considerado como a somatória de cada indivíduo que o compõe. A lei. que a partir do jusnaturalismo passa a ser entendida como artificialmente criada a partir da racionalidade do Estado. Segundo os mesmos autores. Oriundo da filosofia de Emmanuel Kant. é precisamente o poder exclusivo de fazer leis. • uma concepção estatista da sociedade. das formas de dominação. motivo pelo qual o Príncipe recebe tão somente o exercício. ou seja. pois o que caracteriza o Estado. mas antes é um imperativo categórico. contudo. 6. Esses fundamentos são resgatados pelo jusnaturalismo.direito público (positivo). característica da forma burocrática de organização do Estado • relações impessoais entre funcionários e os súditos. pelas seguintes características: • primado da lei sobre os costumes e a jurisprudência • relações impessoais entre o Príncipe e os funcionários. já que o indivíduo não é livre senão no reino do Direito. segundo WEBER (1994). • concessio imperii. um dever moral que se impõe por si mesmo. enquanto geral e abstrata. representante da vontade geral (conceito muito trabalhado por Rousseau). considera a racionalização do Estado. ao mesmo tempo que aponta a existência de direitos anteriores e eticamente superiores ao direito positivo. 17 . ondeio direito privado (natural) é submetido ao . independentemente das preferências do sujeito ou de sua utilidade para o bem-estar público ou privado. 7. que se baseava na lex imperium. tendo sido largarmente adotados na Idade Média. romper completamente com os conceitos jurídicos romanos que regulamentam a própria noção de contrato. distinto do decreto do Príncipe.Todavia. de forma simplificada. dentro dos limites do Direito Esse modelo de Estado. WEBER (1994). Os limites da autoridade do poder soberano. do Estado. sempre permitiu duas interpretações antagônicas. e depois entre funcionários e cidadãos. se o Estado Moderno. tanto no tempo quanto no. mas sim de fazê-los livres. proposto pelo jusnaturalismo tem como bases duas concepções essenciais. emana do Legislativo. significa. Segundo BOBBIO & BOVERO (1994). mas não a titularidade desse poder. a saber (BOBBIO & BOVERO): • translatio imperii. onde a autoridade do Príncipe resulta de uma alienação total. ainda que não dependente de razões teológicas. a ponto de restar tão somente o direito natural do indivíduo (reconhecido e tutelado pelo Estado) inserido no direito estatal. pois é um ente moral. objeto. o Jusnaturalismo busca ultrapassar os limites do pensamento jurídico medieval sem. quais sejam: • uma concepção individualista do Estado. dentro do processo de’contínua cisão entre a Igreja e o Estado. são analisados a partir dos conceitos oriundos do contratualismo medieval. característica fundamental da formação do Estado Moderno. eis que ele busca formular precisamente uma teoria racional. que é direito positivado. onde o populus conferiu ao Príncipe o poder que originalmente somente o povo era titular. esse abordagens jusnaturalistaa permite compreender a lei como sendo o ato específico mediante o qual se explicita a racionalidade do Estado. cuja meta não é a de fazer os súditos felizes.

pois entende que o contrato social não aliena os direitos naturais para os outros. que quando ameaçado ou não suficientemente protegido ilide o pacto e confere ao indivíduo a prerrogativa de se defender como bem entender. é secundária. mediante as quais temos a constituição primeiro da sociedade civil. não defende uma alienação total. que são inerentes ao homem no estado de natureza. 1992a). ou a uma assembléia deles. 18 . eis que a única falta que impede a perfeição no estado de natureza é a de um juiz imparcial que possa julgar sobre a razão e o erro sem ser parte envolvida. para a sociedade ou Estado. ou seja. • modalidade única. O contratualismo moderno. no sentido de concederem a um deles. e não apenas o exercício destes. A extensão dessa alienação é. no que se refere à modalidade do pacto. 1994. num momento específico do tempo. agora podemos observar essas divergências no que diz respeito ao conteúdo da sociedade civil. Assim. visto que toda a renúncia que sustenta o contrato social tem por finalidade garantir a segurança da Própria vida. a saber (MATTEUCCI. multidão cede o direito de autogoverno a um terceiro (príncipe ou assembléia). expresso ou tácito. os indivíduos conservariam todos os direitos naturais menos um. se anteriormente observamos divergências dos autores acerca do estado de natureza. seguindo as premissas do jusnaturalismo. No que diz respeito ao objeto do contrato. apresenta divergências quanto ao modelo de realização e quanto ao conteúdo do pacto. • se o poder soberano é indivisível ou divisível. esse autor é o que concebe urna alienação mais total. a margem ou mesmo contra o Soberano. ente: indivíduos iguais e livres. a titularidade dos direitos naturais. l983): • Hobbes: Para esse autor. se nesse estado pudesse exercer a razão. firmado pelos homens entre si. Locke e Rousseau. se a transição entre o estado de. sendo uma inovação de Hobbes. este é sempre concebido como sendo a transferência de direitos naturais. que é. pois para esse autor o pacto de união supõe que cada um dos indivíduos que compõe a . a saber: • se o poder soberano é absoluto ou limitado. desde que todos os outros façam simultaneamente a mesma coisa. todavia. ROSS. portadores dos mesmos direitos naturais. Essas divergências se dão a partir de três problemas acerca da natureza do poder soberano e de suas relações com os indivíduos. que eliminou o pacto societal. Assim. o modelo contratualista parte da premissa.o de fazerem justiça por si mesmos. 1992a): • dupla modalidade. • Rousseau: Paradoxalmente. aquele desenvolvido por. a capacidade de fazer as leis e de impor o seu cumprimento a todos os membros da comunidade. Hobbes. que engloba também a liberdade pessoal. decorre do contrato. mediante um pacto de submissão pelo qual os indivíduos assim reunidos se submetem a um poder comum. a saber (BOBBIO & BOVERO. A historicidade do ato. Esse consenso por sua vez. tendo em vista que o contrato é concebido como uma necessidade da razão.A natureza do contrato: divergências e convergências Conforme anteriormente afirmado. mediante um pacto de associação. percebida de forma diversa pelos autores. não precisando derivar de um fato realmente ocorrido para ser válido (MATTEUCCI. • Locke: concebe uma alienação muito parcial dos direitos naturais do indivíduo em favor do Soberano. natureza e o estado civil ocorreu factualmente. na medida em que o autor considera o estado civil instituído para tutelar a propriedade. todavia. motivo pelo qual o contrato é a um só tempo um pacto de sociedade e de submissão. é transferido para o Soberano. sendo este o único bem inalienável. nós temos duas posições. eis que o contrato original é o único princípio de legitimação válido para o exercício racional do poder. a transferência total de direitos naturais ao corpo político tem a finalidade de fazer com que sejam dados a todos os membros desse corpo leis que cada um reconheça que teria imposto si próprio no estado de natureza. de que o princípio de legitimação das sociedades políticas é exclusivamente o consenso. seguido da constituição do Estado. comum a todos :os autores. roas para si mesmo.

conforme se considera como mal extremo a ser evita. Poder indivisível ou divisível Nenhum dos três autores admite a. 19 . leis civis por ele criadas nem pode ser submetido a julgamento por seus súditos. a obediência ao poder soberano e a liberdade dos súditos. que o contrato não consiste na. em primeiro lugar. em segundo lugar. na liberdade (BOBBIO & BOVERO. 8. duas posições surgem. mas que está acima das leis civis (aquelas consagradas pelo direito positivo). • contra a anarquia: Hobbes sustenta a obediência incondicional. paradoxalmente. dado que trata seus súditos não como homens racionais. para Locke. extravasa os limites do contrato social ou desrespeita os direitos naturais dos indivíduos. deve ser combatido como inimigo. ou a tirania (exacerbação do poder exercido pelo Soberano em detrimento dos direitos dos indivíduos) ou a anarquia (ampliação exacerbada da esfera de liberdade privada em detrimento do bem comum e da autoridade do Soberano): • o contra a tirania: Locke considera a tirania o primeiro mal. qual seja. Locke é mais abrangente. devendo os súditos desconhecer e resistir ao Soberano quando ele. nenhum dos três admite o Governo misto8. considera mau governo aquele que não é capaz de proteger os seus súditos. cuja obrigação perante o Soberano dura enquanto durar o poder deste de proteger os súditos. o que consistiria. Tampouco permite falar em despotismo. que não admite que o Soberano possa estar acima das leis civis. enquanto Hobbes tende a concentrar a soberania no Poder Executivo. que é o fundamento último de sua autoridade. na medida em que entende por obediência a submissão à lei que cada um prescreve para si mesmo. alienação dos direitos naturais em favor do poder assim constituído. visto que os três consideram que o Soberano não é obrigado a respeitar as. Poder soberano irresistível ou resistível Nesse aspecto em particular. Governo misto e tripartição de poderes soberanos do Estado são duas coisas diferentes: no Governo misto temos a divisão da soberania que repousa em entes distintos. visto que o Estado deve permanecer fiel aos princípios racionais que orientaram sua criação. Particularmente Locke e Rousseau consideram o Poder Legislativo superior aos demais. executar as leis e dizer o direito são exercidas mediante delegação por organismos independentes e harmônicos entre si. divisão da soberania. na tripartição de poderes. A posição de Rousseau é mais ambígua. Poder soberano absoluto ou limitado Hobbes e Rousseau defendem o caráter absoluto do poder. 1994). O que eles admitem é tão somente o exercício das funções soberanas do Estado (Executivo. contudo. Todavia. o mau governo é passível de resistência. e. que o usurpador não merece obediência e. temos um só ente soberano. visto considerar. geralmente representando diferentes categorias de cidadãos. sob pena de ruptura com o contrato e retorno ao estado de natureza. Posto diante do dilema fundamental para qualquer teoria racional do Estado.• se o poder soberano é irresistível ou resistível. mas ao mesmo tempo defende o dever de obediência absoluta. Essa colocação não permite inferir que o Soberano exerce poder ilimitado. defendendo abertamente o direito de insurreição quando as leis civis são violadas pelo Soberano. cada um dotado de soberania própria e distinta dos demais. de fazer leis. sendo limitado somente pelo direito natural. pois isso o colocaria em estado de natureza. Legislativo e Judiciário) por organismos diversos. equacionar dois bens fundamentais aparentemente contraditórios. o autor reafirma a liberdade como bem prioritário. admite. cujas funções típicas. mas como escravos.

podemos agora penetrar um pouco mais nos estudos clássicos já realizados sobre essa complicada problemática e a heterogênea rede de relações entre a esfera pública e a esfera privada. Há. o público não poderá se reduzir a construção de um poder comum entre todos os proprietários de terras que tenha apenas por objetivo garantir que as minhas propriedades continuem sendo minhas. temos. também.).. Por exemplo. o autor sé comunica com o público indiretamente através dos atores que traduzem a sua criação. PARTICIPAÇÃO É o público uma esfera? Uma esfera pública? Sobre qual conceito se constitui essa esfera? Podemos pensar na idéia neutra de um espaço? Se é um espaço. com bons atores é de graça. Vamos imaginar uma metáfora associando a idéia de público a um espetáculo teatral. essa governabilidade não pode estar implicada mima extensão ilimitada do eu.. CULTURA POLÍTICA.está sob a minha inteira governabilidade individual. toda uma organização que dá suporte ao espetáculo. Assim. a cultura e os interesses particulares que são apenas seus. Nesta perspectiva. independente de que venhamos ou não a concordar com algumas suas conclusões. ou seja. quando uma determinada parcela de atores buscam associar seus interesses particulares com o interesse público. o público é um espaço onde o ator se apropria do espaço do público. Veremos que num espetáculo de um lado existe os atores e de outro o público. pela bilheteria. universalizando para todos dá valores. uma absoluta substituição do público pelo privado. pela portaria. O primeiro é o de existir de um lado atores e de outro público. é? Geralmente para se ter acesso como público a um espetáculo. Também temos a. ou mais especificamente. mesma abordagem. o poder público não poderá atender apenas uma pequena parcela privada de interesses. do autor com o público através da trama desenvolvida pelos atores. atento mas espectador mais ou menos passivo em relação a trama que engendra o espetáculo? Os atores expressam um roteiro que podem possuir um ou mais autores. que. temos muitas vezes que pagar ingresso. numa sociedade com vários e diferentes privados. Assim. carregadores. segundo esses autores.. a idéia de público só tem sentido em contraste com a idéia de privado e viceversa. sob que regras constitui a sua ocupação? Estas regras dizem respeito a que atores? Exclui-se alguns? Poucos? Muitos? Quase todos? Que público participa do público? Quais meios tecnológicos são utilizados na sua constituição? Tratam-se de algumas perguntas. figura. outras ainda poderiam ser feitas e respondê-las não é uma tarefa tão fácil. utilizando nossa metáfora do espetáculo. se sou um grande proprietário de terras. para esses autores. Nessa pequena metáfora. cenários. por exemplo. do tipo: “minha” família. E essa questão que encontramos em Duarte (1965) quando esse autor constata a privatização da organização política nacional. O enredo. dos semi-artistas (maquiadores. Temos a figura do diretor. responsáveis pela limpeza. Nessa metáfora há claramente uma dissociação entre autor e ator. Uma posição geralmente muito utilizada nos estudos clássicos é a abordagem de contraposição. minha corporação2. etc. Dentro dessa . temos de um lado o privado. Isso demonstra que na construção de um espetáculo existe uma rede diferenciada de interesses e uma intrincada divisão de trabalho. estilistas. o público movido por um determinado interesse pode ser no máximo um bom espectador. não é obrigado compulsoriamente a assistir ao espetáculo. A construção de um poder público se expressa numa rede complexa de interesses privados. A partir dessas indagações. o que é meu. o roteiro deste espetáculo pôde ter um ou mais de um autor. raramente um bom espetáculo. Aqui. do que uma espécie de sindicato de proprietários de terras. sendo ao mesmo tempo ator e público.. bem mais abrangente. construtores de cenários. O público. já podemos detectar alguns problemas. Para dar lógica e beleza ao espetáculo.DISTINÇÃO PÚBLICO E PRIVADO. para esses autores. 20 .. Nesse espetáculo específico. existem vários suplementos (luzes. como um gerente capaz de dar eficácia na relação da criação. ainda temos os trabalhadores braçais. “meus e minhas” amigas. uma privatização do público. etc. elaboradores de cenários e de figurinos). “minhas” propriedades. de modo geral.

Em suma. bem como. neste sentido. concretamente. que descreveu um tipo de relação criado por mecanismos racionais e impessoais para os procedimentos e regras a serem executadas por uma moderna burocracia.principalmente . uma ruptura entre as esferas privada e a pública. Outro aspecto a ressaltar e que para alguns autores enfrentam também esta temática com diferentes nuanças. E possível um espaço público neutro capaz de possibilitar o trânsito de todos os interesses particulares e conflituosos? Os responsáveis pela construção e execução desta esfera pública não estão também sujeitos a interesses particulares e. não necessita de maiores explicações. portanto. do coronelismo. Aqui alguns autores criticam a perspectiva privatista do público por seus interlocutores não realizarem um devido corte. Esta questão está presente nos textos de Santos (1978) é do próprio Carvalho (1991). Encontramos também essa perspectiva muitas vezes é mareada por urna demarcação ética. A partir daí. cabe lembrar que existem outros autores que abordaram outras importantes questões sobre a construção de uma esfera pública no Brasil como. foram os responsáveis a darem suporte ao espetáculo que acabaram por privatizar o espaço público. onde a realização do público passa pela construção de uma racionalidade universal. 1978). e defendendo muitas vezes um ethos público marcado pela construção. sobretudo em seu brilhante trabalho “A Construção da Ordem”. discorrem pela sua não-realização concreta e histórica diante de uma esfera pública que já está dada heuristicamente e cuja única coisa da qual conhecemos é a sua não-realização histórica perfeita. Por fim. um estamento burocrático no Brasil privatizou o poder e determina as regras. abstrata e normativa tomada por uma projeção teórica e não-histórica concreta: Neste sentido. ele é o dono do poder público.pelas posições do cientista social alemão Max Weber. não teria Faoro uma boa dose de razão? Um outro ângulo de ver a questão sobre a mesma perspectiva encontramos em diversos autores assumem quando estes abordam a idéia de público como uma simples extensão do privado. Assumem. por exemplo: a construção do espaço público e a sua relação com a construção nacional ou mais precisamente com a própria construção 21 . não necessitaríamos de um suporte organizacional para sua realização? Aqui podemos inserir a preocupação teórica de Raimundo Faoro (1991) quando este afirma que.é uma projeção finalística. a crítica das manifestações privatistas da esfera pública no Brasil se dá pela ausência ou não desta moderna burocracia não permitindo a superação do patrimonialismo. etc. Estes autores estão influenciados . Outro aspecto fundamental a ser considerado é a relação da construção da esfera pública com as complexidades regionais desenvolvidas esta temática a que vamos nos ater com mais acuração neste texto foi mais explicitamente por Schwartzman (1975). a análise do próprio Raimundo Faoro (1991) que discorre sobre a incapacidade universal do estamento burocrático na constituição desta esfera pública racional. por decorrências históricas e culturais que se originam na especificidade da formação social portuguesa colonizadora. está muito clara nas abordagens teóricas das elites ou de circulação de elites no poder público. convida quem quer para os espetáculos. Muitos autores passam a. Para esses autores. A questão passa pela simples explicação de que a esfera pública é um recurso heurístico para a construção critica de uma realidade !imitante. ou seja. Essa posição é bem presente em Diniz e Boschi (1991) e também. principalmente em Carvalho (1980). não existe . implícita ou explicitamente a visão de que o espaço público deve possuir uma autonomia e regras próprias independentes do interesse privado.Outros autores se perguntam sobre quem dará o suporte organizacional e os meios para realização deste espaço público? A não ser que não exista mais a esfera privada e que toda ela tenha se fundido na esfera pública. onde o público como um não-privado deixou de existir. Esta perspectiva marca muito a obra de Uricoechea (O Minotauro Imperial. o público ou a esfera pública torna-se para muitos um dever ser sobre a realidade. Na complexa relação entre o privado e o público encontramos também posições de autores que discorrem sobre a incapacidade da realização de uma ordem burguesa e liberal no Brasil.considerar a esfera pública como um valor já dado: ela é simplesmente pública. onde se encontra implicitamente e no texto de Diniz e Boschi (1991).

complexa de heterogeneidade abordagens conceituais. que por imanência é progressista. A velha noção planificadora onde existe um Estado que é sujeito e uma sociedade que é objeto implicou uma relação autoritária com a sociedade civil. regular e tutelar a sociedade civil. de agentes econômicos oligopolizados e de uma burocracia estatal centralizada e competente o suficiente para dar “funcionalidade” e socializar os ganhos do processo de industrialização. e moderno pela sua própria natureza. De fato. as questões que abarcam esta temática são tantas que se faz necessário hierarquizar algumas delas para podermos melhor dar conta de alguns aspectos mais gerais e que julgamos mais relevantes. como se este fosse uma realização do não-mercado. desenvolvida em vários textos da historiografia política do Brasil que trabalharam temas como representação partidária. marcou profundamente a formação cultural do projeto de modernização industrial e inclusive a cultura política socialista do país. Neste sentido. certamente isto não ocorreu. Porém. Esta lógica. era necessário instaurar um regime político autoritário. A noção de que a sociedade civil é composta por bestas incapazes de um autogoverno está muito presente na cultura política brasileira. Um dos trabalhos mais criativos da política brasileira é a obra de José Murilo de Carvalho (1991). esta condensação de forças é produto de uma tríade pactualizada com um forte sindicalismo nacional. A social democracia viu no Estado um espaço com possibilidade de realizar uma condensação de forças capai de fundir o social no próprio Estado. até mesmo para ser democrata. O importante é termos claro de qual público e de qual privado estamos nos referindo? Pois não devemos nos esquecer nunca que estarmos diante de urna temática. sem ferir os interesses que pudessem decompor este pacto. questão essa desenvolvida por Oliveira (1990). entretanto. é significativa para desenvolvermos uma reflexão. O autor. O Estado foi. a questão democrática na relação com a construção da esfera pública.” (Santos. capaz de impor um controle total e absoluto ao “desenvolvimento moderno” frente ao arcaísmo vigente no país. Urna “racionalidade” capaz de impor. 1991) de que o povo assistiu bestializado a Proclamação da República (como se fosse uma parada militar da qual ninguém sabia o que estava acontecendo). liberalismo político no Brasil e outros.da nação brasileira. Esta fusão mecânica do público rio Estado permite indagar se a solução autoritária da esfera pública no Brasil não é muito mais uma consequência da ausência de urna sólida cultura democrática no país. p 107) (grifos do autor do trabalho) No Brasil. a posição dos comunistas no Brasil na tentativa da “conquista” do poder público. idéia que Carvalho (1991) questiona.) os objetivos visados pela nova versão do autoritarismo instrumental eram a intervenção do Estado. A idéia de Aristides Lobo (apud Carvalho. O Estado passa a ser um ente. A conseqüência desta lógica é a criação ilusória de uma racionalidade anticapitalista do Estado brasileiro. o trabalho de Wanderley Guilherme dos Santos é profundamente original. a questão social era uma questão do Estado. “Os Bestializados”. A decorrência deste fato é a necessidade de uma elite civilizada no Estado que tem como missão histórica salvar e civilizar o país.. a ponto de muitas vezes querer reduzir a estratégia política do socialismo a um simples ataque frontal ao Estado. Segundo os princípios dos liberais doutrinários. No Brasil. vem desta lógica imanente e progressista do Estado. Muito do viés do estatismo autoritário da cultura comunista e socialista. trabalhada por Pinheiro (1991). Neste sentido. para impor um novo perfil no processo político dá país. um dos motores fundamentais de realização de uma infra-estrutura industrial. o nacionalismo e o maior avanço possível em direção ao socialismo. indagando sobre o período de crise do governo Goulart comenta: “(.. 1978. os aspectos culturais do homem cordial brasileiro levantados por Holanda (1963). mas também para os socialistas autoritários. um regime forte seria um instrumento da modernização para uns e a consolidação da 22 . ainda que marcada por um determinado período histórico.

Discordamos dessa afirmação. porém esta esfera pública no Brasil sempre foi um espetáculo onde participava ativamente um público muito reduzido. DEMOCRACIA. como se existisse um único e uma única lógica de mercado através do qual. Apesar disto. Neste sentido. ficaria certamente em melhor posição para defender uma construção ampliada e democrática da esfera pública no Brasil em contraposição ao projeto neoliberal. O conceito de Santos (1978). do autoritarismo instrumental. com todas as letras. para amplas parcelas de urna economia clandestina e subterrânea impôs uma institucionalização do público que consagrou o que os autores chamam de “desigualdade estrutural” no acesso dos processos de tomada de decisões “públicas”. que normatiza impositivamente os conflitos sociais e que impede a construção de uma esfera pública democrática no país. O modo através do qual os canais se encontram fechados para os trabalhadores e. porém num indeterminado futuro próximo. estará impotente para responder com profundidade aos problemas levantados pelo neoliberalismo. discordamos do autor quando diz: “constituiria grosseira simplificação supor que a burocracia pública está aí para abandonar-se a dinâmica do privatismo” (Santos. (Fonte: http://www. devemos nos conduzir sobre esta vinculação com pressupostos mais convincentes em relação a essa autonomia do corporativismo estatal. pelo equilíbrio da oferta e da procura. segundo o autores. as coisas ficam no mínimo um pouco engraçadas. (Santos. Quais seriam estes pressupostos? Desenvolvê-los não é tarefa fácil. as preocupações de Duarte (1965) são importantes. historicamente determinados.humanas. p 116). Quando os neoliberais tupiniquins afirmam. Também discordamos de Carvalho (1980) quando defendeu impossibilidade de a elite política (mesmo a imperial) ser um mero reflexo dos interesses econômicos. “vamos privatizar o público no Brasil” (entendendo este apenas como ação econômica do Estado no mercado empresarial). problemas a que este último responde superficialmente.unisinos. que é a privatização da esfera pública no país. Retomemos a Nestor Duarte. mas por atentarmos para sua preocupação principal. um papel a ser realizado pelos partidos políticos. Não pretendemos simplificar a inexistência de lima esfera pública no país apenas pela confusão do público com o privado. É necessário proceder com maior cautela sobre estas afirmações. mesmo que Carvalho (1980) e Diniz e Boschi estejam tratando de períodos distintos. GOVERNABILIDADE Essas relações entre conflito e consenso terminam por balizar a lógica de ação política do governo atual. p 116). CULTURA POLÍTICA.a elite imperial. não pelo fato de universalizarmos simplificadamente o patrimonialismo para todas as regiões do país.democracia política para outros. no Brasil: transição apoiada em fundamentos macroeconômicos e construída em 23 . Longe de considerar o Estado um simples escritório gestor dos interesses privados. e suas decisões são processos de pressões estruturados em conflitos existentes na sociedade brasileira. se a cultura política socialista rompesse suas relações mal resolvidas com a democracia e sua rigidez moralista frente a idéia de mercado. Enquanto a cultura socialista estiver amarrada a uma racionalidade imanente da realização do não-mercado no Estado.htm) REPRESENTAÇÃO. As pistas dadas por Diniz e Boschi (1981) permitem afirmar que o corporativismo estatal tem uma autonomia muito mais relativa do que se supõe. E diz ser: “improvável que a visão estritamente capitalista venha se impor monoliticamente”. 1978. Como é possível privatizar ainda mais o público no país? Talvez. sobretudo. A própria articulação direta entre os interesses do corporativismo estatal com a sociedade civil impossibilitou e fragilizou as mediações intermediárias que seria. encontrar-se-ia a solução mágica da “nova” modernidade e do próprio fim da história. 1978.br/disciplinas/politica/publico/geralpub. Não cremos ser a burocracia ou a “elite” no Estado um ator com tanta autonomia assim. marca a predominância de uma racionalidade que separa meios de fins. entretanto pensamos que podemos seguir as pistas de Diniz e Boschi (1981) que elas poderão levar-nos a algumas novas revelações e distanciarmos em relação às proposições de Santos sobre a burocracia estatal e de Carvalho sobre.

Por sua vez. Porque. talvez o exemplo mais próximo seja o do diálogo aberto com as Centrais Sindicais. Mas será sobretudo caminho para tentar agregar valor político ao processo de governabilidade. ao lado . o governo atua em duas direções: de um lado. por meio de consenso. citado por Lijphart. Como disse um professor nigeriano. E favorecem a adoção de políticas de proteção do meio-ambiente de proibição da pena de morte e de assistência econômica às nações em desenvolvimento. Ao buscar consenso em instâncias sociais. no qual o autor analisa desempenho e padrões de governo em trinta e seis países. objetivos que requerem maior inclusão possível de grupos rivais nas decisões. Para alcançar níveis de sustentabilidade de desenvolvimento e inclusão social dentro de prazos relativamente curtos (primeira metade do mandato). Mas decisões rápidas não significam necessariamente decisões sábias. E a paciente consideração do governo em relação a problemas antigos e complexos. construir soluções não será apenas achar. Nesse sentido. Aqui. A imensa capacidade de escutar do presidente parece se refletir na postura ouvinte de sua equipe. A política do governo de produzir círculos de consenso pode se transformar. dispersar e limitar o poder de várias maneiras. No modelo de democracia majoritário o governo pode ser capaz de produzir decisões mais rápidas do que o governo no modelo de democracia de consenso. pode ser via para construir soluções pedagogicamente. ser o da participação dos governadores na reforma da Previdência. a qualquer custo.da estabilidade na economia. Lijphart defende que conciliação e acordo. a descoberta de espaços de concordância será mais construtiva do que a pressa que se obtém simplesmente com maioria na contagem de votos. mobiliza recursos sociais e políticos em beneficio da política de mudanças. na esfera participativa. O modelo majoritário é mais competitivo. fornece moldura para que sociedade e instituições engrossem seus anseios de avanço social em face do Congresso Nacional. saída para problemas de gestão política. o governo. no caso da gestão macroeconômica. E pode constituir também vetor de qualificação política em alternativas e contribuições ao debate. abordada por Arend Lijphart. é possível agregar mais harmonia como valor no resultado final. Nesse contexto. O modelo consensual apresenta como principais características: • Partilha do Poder Executivo por meio de gabinetes de ampla coalizão • Sistema multipartidário • Corporativismo de grupos de interesse • Bicameralismo • Rigidez nas alterações da Constituição • Independência do Banco Central Ao se observar o comportamento político do governo Lula. são mais importantes do que adotar decisões rápidas. política jamais deve constituir jogo de soma zero. No campo da manutenção da paz civil. De outro. 24 . em complemento da democracia representativa. em sociedades divididas. ao invés de maioria absoluta. amplifica a voz de segmentos da sociedade procurando gerar vínculos de lealdade. segundo Finer. as políticas apoiadas por amplo consenso têm mais probabilidade de se realizarem com sucesso e permanecer duradouramente do que as políticas impostas por governo “com grande poder de decisão” contra desejos de expressivos setores cia sociedade. Mas a dimensão da governabilidade envolve a questão das democracias majoritárias ou consensuais. em seu recente Modelos de Democracia. Por outro lado. E o modelo consensual é mais negocial.regras de governabilidade democrática. O autor acentua também que generosidade e benevolência são atributos de governo no modelo de democracia de consenso. vê-se que ele está mais próximo do modelo consensual. E o exemplo mais recente pode. conforme o espírito do modelo de democracia de consenso. da governabilidade e da inclusão social. porque proporciona participação mais ampla das pessoas na tomada de decisões e tenta melhor representar as minorias. Neste caso. O modelo de democracia majoritária concentra o poder nas mãos de pequena maioria ou de maioria simples. na linha defendida por Hirschman. política de consenso pode ser característica que se acrescenta a um perfil político. Na perspectiva do governo Lula. o modelo de democracia consensual tenta compartilhar.

talvez a melhor solução seja a divisão analítica de democracia em duas perspectivas (não mutuamente exclusivas): uma. a democracia consociativa caracteriza-se pela proporcionalidade na representação política e nomeações de serviço público e destinação de recursos públicos e o veto da minoria com relação a assuntos vitais para ela. Dentro dessa perspectiva. 25 . por parecer mais adequada a um estudo sobre a América Latina. . Para resolver esse impasse. como faz Augustin Cueva (1988): a democracia realmente existente necessitaria de qualificativos para dar-lhe um real conteúdo. E não poderia ser diferente. quando o que parece ocorrer é. de Di Palma (apud Moisés. esse sistema político faz parte do cotidiano das pessoas. Para elas. com uma profunda ligação orgânica de seus fundadores com o mundo em que viviam. estão as concepções que entendem democracia como princípios a serem seguidos ou respeitados. como. o questionamento das bases de legitimação da democracia em seu modelo liberal entre nós. uma dicotomia. ou não. e por não sugerir a existência de um gradiente de democracia. raciais ou regionais para permanecerem como uma única comunidade política democrática. democracia. As decisões sobre assuntos comuns são compartilhadas pelos representantes dos diversos segmentos. com base nessa concepção. uma vez que a invenção democrática foi fruto de um Misto de proposição intelectual normativa. a democracia liberal não é tão natural na América Latina. A idéia de arranjos consociativos de poder tem sido tratada na ciência política sobretudo por Arend Lijphart. na qual algumas regras. Não é sem fundamento. outra. o binômio democracia majoritária-consensual (ou consociacional) de Lijphart (1984). Assim. onde a democracia como regra tem se restringido aos seus procedimentos. que prioriza (ou centraliza a atenção em) o seu conteúdo. em numerosos textos. em princípio. defendendo a mesma perspectiva. democracia não poderia receber qualquer tipo de adjetivação: ou a sociedade seria democrática. Em um extremo da divisão conceituai realizada. através da sua vinculação com o Estado de Bem-Estar. entretanto. identificando possibilidades e limites na realidade. Por exemplo. Dessa forma. essa divisão analítica permite a constatação empírica dos paradoxos tratados neste trabalho.Enquanto estas funcionam como âncoras. e as demais decisões ficam no âmbito destes segmentos. política. argumentar em sentido exatamente inversa. procedimentos ou princípios estivessem sendo respeitados em detrimento de outros. mais que saber ou estudar como funciona uma democracia real ou procurar listar requisitos mínimos que a caracterizariam. portanto. aqui o surgimento do capitalismo se deu sem que existisse uma base social. importaria definir ou caracterizar os seus limites substantivos. mas fundamentalmente à qualidade a ela inerente. bem como a operacionalização do conceito de. como. é substancial e historicamente diferente. As duas características principais e complementares da chamada democracia consociativa são a formação de uma grande coalizão e a autonomia segmental. em que. Nos países que foram gestores e berço desta construção simbiótica de capitalismo e democracia. em realidade. a maioria leva tudo e seria difícil de aplicar em sociedades com as características acima arroladas. por exemplo. Dito de outra forma. Lijphart contrasta esse tipo de arranjo ao da democracia majoritária. de forma alguma se poderia pensar na existência de uma democracia relativa (eufemismo criado durante o regime militar brasileiro). Por outro lado. ou a divisão minimalista versus maximalista. através de um sólido processo de socialização política. a democracia não se limitaria à existência de determinadas regras. As interrogações sobre o que se entende por democracia e quais são as condições e vias possíveis para a sua consolidação nos países latino-americanos têm produzido debates em múltiplas dimensões. A realidade latino-americana. ao contrário do que acontece com os povos chamados desenvolvidos. procedimentos e ritos. A valorização do sistema democrático foi internalizada pelos cidadãos desses países. Essa divisão foi utilizada em detrimento de outras talvez mais usuais. Um dos centros das atenções dos estudiosos da política nas últimas décadas tem sido a democracia. a partir de uma perspectiva de Cultura Política. 1995). Consociativismo é a fórmula prática encontrada por países divididos por clivagens religiosas. que prioriza seus aspectos formais ou suas singularidades. a política de consenso opera como bússola. É possível. como a Inglaterra e os Estados Unidos. em certa medida idealista. econômica ou ideológica de cunho liberal. étnicas. Adicionalmente. por exemplo.

se estaria invertendo esta premissa. mas.sua estabilidade. cuja necessidade de resolução. Castro. Segundo Baquero e Prá (1992. se atender aos requisitos absolutos que enuncia. para o autor. o conceito de democracia estaria intrinsecamente ligado a uma opção social. ao vincular uma determinada forma (de adquirir o poder) a uma determinada função (tomada de decisões políticas). contudo. O termo forma é utilizado aqui como Bobbio (1989. Castro.Uma outra característica deste enfoque de democracia como conteúdo (na realidade. No outro Extremo da divisão proposta. a questão de forma toma relevância por ser um modo (institucional) de resolver uma função. p. que sintetizou o conceito de democracia em uma série de princípios. procurando considerá-la (alguns de modo explícito) como um método universal (Coutinho. Rebatizando-a de poliarquia. encontramos a democracia como forma. no entanto. A tese que embasa todo aquele trabalho é a de que existe uma relação causal entre a opinião da população e a possibilidade de. Joseph Schumpeter. É importante considerar que essa hipótese subverte o caminho usual da análise política até então: segundo ela. Desde o seu surgimento. Outro autor que se preocupou com a democracia enquanto forma foi Robert Dahl (1956). mas tão-somente considera sua existência ou não. bastando para tanto cumprir determinadas condições. 352). não um fim em si: ao serem enfatizadas a tecnologia eleitoral. 1996). limitando o conceito de democracia basicamente às suas regras. as instituições e os procedimentos formais. E conclui quando se refere ao método democrático.1980). Não existe em Downs espaço para qualquer tipo de debate sobre o conteúdo da democracia: uma sociedade é democrática ou não é. 1996. entre outros. Almond e Sidney Verba. O importante a ser considerado nesses autores é que. 23) . como socialismo e classes. enfatizando que não existe (. p. o que caracterizaria a democracia seria o método democrático. 26 . Dito de outra forma. utilizou conceitos de sociologia política que os autores clássicos desconheciam. lançada em 1963. Anthony Downs não postula a possibilidade de níveis de democracia. Downs. de sua parte. essencialmente como sua forma. não apenas por parte daqueles que não os aceitam. Assim considerada. em conseqüência. surgimento do sistema democrático e . todos eles contribuíram para a criação de uma concepção de democracia que a trata essencial ou principalmente em sua forma. por sua vez. com suas atitudes e ações (Baquero. aos seus procedimentos e aos seus ritos. p. de modo proposital ou não. Em seu trabalho. independe das regras que a sociedade adota para a sua consecução. das relações existentes entre as opiniões sobre a democracia e a estabilidade democrática. portanto. Diferentemente de Robert Dahl.que irá tratar a democracia.. escreveu um profundo tratado. Ou seja. ou seja. Será. o que a singulariza. Vale ressaltar que o conceito de Cultura Política foi originalmente introduzido pela obra fundacional The Cvic Culture: political atttitudes and democracy in five countries. outro autor . e não seus aspectos substantivos. fica implícita a necessidade de operacionalização do conceito de democracia. O pressuposto básico do conceito de Cultura Política é que existe um comportamento político e que ele pode ser conhecido pelo uso de pesquisas e técnicas especificas. manifesta ou latentemente. no qual realiza uma crítica à concepção clássica de democracia. o conceito e os pressupostos envolvendo Cultura Política têm sofrido uma série de críticas. 157-8) o empregou. as quais evidenciam que os procedimentos e as regras do jogo são. a democracia nada mais seria que um conjunto de regras (primárias ou fundamentais) que estabelecem quem está autorizado a tomar as decisões coletivas e com que procedimentos. Nesse sentido. p. para evitar premissas éticas.Anthony Downs (1957. em menor ou maior grau.) nenhuma razão geral contra ou a favor dele (Idem. o centro explicativo da política deixa de ser as instituições políticas e passa a ser o eleitorado. Em suma. de Gabriel A. 6). o conceito de Cultura Política se refere ao processo através do qual as atitudes dos cidadãos são estruturadas em relação ao sistema político. essas técnicas permitiriam o conhecimento do comportamento do eleitorado e. Assim vista. Dahl constrói uma definição de democracia que ao mesmo tempo a caracteriza e operacionaliza. ela existiria se uma série de condições fosse satisfeita. Para tanto. irá definir democracia pela enumeração de certas características. seu corolário) é o entendimento de que ela é um meio de resolução de problemas políticos.

1986). no entanto. Almond e Verba defendem a democracia liberal como modelo ideal de sociedade. 1989a. sempre esteve subjacente ao debate acadêmico sobre a democracia na América Latina a indagação sobre quais são os reais pré-requisitos para a sua instalação e estabilidade (Smith. 1995). permitiram que hoje se possa falar em uma teoria de Cultura Política que vai além da classificação proposta em 1963. 1971. apontando dessa maneira para á necessidade de existência de uma cultura cívica. Muller. um país com uma Cultura Política democrática é capaz de garantir (ou ao menos influir era) a manutenção 27 . não consegue dar conta das realidades não consideradas em The Civic Culture. E a principal e mais séria crítica diz respeito aos pressupostos da obra The Civic Culture: a postulação de um determinado tipo de Cultura Política como requisito necessário e absoluto para a constituição e consolidação da democracia. encontram relações de causalidade entre democracia e Cultura Política. 1989 (9). O fato de ser um assunto muito estudado não significa que haja consenso . de estudiosos que atuam no campo de conhecimento inaugurado por Almond e Verba. conclui que não se pode. Esse é o caso de Susan Tiano.em relação a importância da opinião pública para o estabelecimento e a manutenção de instituições políticas democráticas: além dos pesquisadores que não encontram evidencias de urna relação (causal ou não). Verba. a Cultura Cívica existente no Estados Unidos e na Grã-Bretanha (Pateman. Assim. passando pela teoria da dependência dos anos 70. para aqueles casos. a Cultura Política pode não ser determinante para a instalação de urna democracia. Inglehart. A partir de consagrado trabalho quantitativo no qual analisa a Cultura Política na Argentina e no Chile nos anos 60. tornando-os mais próximos da realidade latino-americana (Tumer. além de ser etnocentrista. 1988. mas a democracia não tem efeito na constituição de uma cultura cívica (Almond. coerente com a Ciência Política norte-americana da época do pós-guerra. e especialmente. duas posições. Seligson. autores que trabalham sob á concepção de que existe uma relação entre Cultura Política e democracia. em vez de enquadrar as diferentes sociedades em uma tipologia construída a priori. bem como a possibilidade e a disseminação de novos estudos empíricos. Além disso. Moisés. 1994). Há. Se. Partindo da hipótese de que o Chile teria uma Cultura Política mais democrática que a Argentina. há aqueles que simplesmente desconsideram a própria possibilidade de sua existência. Catterberg. de que a existência de uma Cultura Política democrática implique o estabelecimento ou a manutenção de urna democracia. E possível argumentar que talvez não se encontrem evidências empíricas. se as proposições de Almond e Verba não conseguiram dar conta das inúmeras realidades. Dito de outra forma: o conceito original. ela pode vir a ser o diferencial em caso de um retrocesso. uma série de autores advoga a necessidade de set feita uma adequação dos conceitos originais de Cultura Política. Em outras palavras. Mas. que parte do princípio de que a Cultura Política pode também ser influenciada pela democracia (Dahl. Uma entende que existe um caminho unilinear na relação entre democracia e Cultura Política: uma cultura cívica (no dizer de Almond e Verba) pode ter um efeito na democracia. 1995). a autora conclui que não houve diferenças estatisticamente significantes entre as atitudes de trabalhadores de ambos os países. Ainda que não haja um consenso na literatura pertinente. as quais pudessem sustentar a existência de uma relação entre estrutura e cultura (Tiano. estabelecer uma relação causal entre Cultura Política e estrutura política. Outra. Essa perspectiva não considera que as diferentes Culturas Políticas são fruto de diferentes experiências históricas e que não necessariamente caminham para a mesma conformação institucional. Dessa forma. o conceito de Cultura Política foi originado a partir de uma concepção normativa de sociedade baseada em um determinado tipo de experiência histórica vivenciada por determinados países. e que isto implicaria uma maior adesão à democracia pelos chilenos. em princípio.sobretudo. a evolução do debate teórico sobre o tema. Desde os estudos que pretendiam encontrar uma causalidade entre desenvolvimento econômico e construção da democracia na década de 60. inauguraram uma nova forma de analisar e explicar a política. entre os. os estudos de Cultura Política devem servir para que se construa uma compreensão da realidade que considere as. A partir daí. 1989). 1990. em função de questões históricas. 1995). no caso. diferentes experiências históricas. 1991. Dahl.

O conceito de hegemonia é pertinente porque incorpora a dimensão do poder ao debate da Cultura política.. parece. se permitem uma adequada descrição das constatações empíricas. paradoxos Uma explicação para ambos os paradoxos será encontrada na teoria de hegemonia de Antonio Gramsci. 12). deixam a desejar quanto à explicação da origem do paradoxo existente entre os apoios difuso e específico. Em outras palavras.das regras do jogo no caso de alguma tentativa de golpe ou de ruptura institucional. p. por outro lado. A hegemonia de uma classe. Subjacente a essa concepção. e de um apoio específico. vem a defesa de um tipo de sociedade que se constituiu a partir do advento do capitalismo na Europa. esse comportamento se constitui em dois paradoxos. 1995. e ritos . 1996. um modo de dominação mais eficaz que a coerção (Gramsci. Ao mesmo tempo. democracia e estabilidade na América Latina Pode-se afirmar que sempre esteve subjacente ao debate acadêmico a respeito da democracia na América Latina a indagação sobre qual ou quais são os reais pré-requisitos para a sua instalação e estabilidade. não nos dão uma explicação suficiente da essência do fenômeno. Podemos. uma vez que os problemas sociais não são resolvidos. Este privilégio à concepção minimalista como forma de garantir (ou propugnar) a estabilidade democrática se constitui em um paradoxo.é um valor em si.há a aceitação da democracia minimalista (ou existe um apoio difuso ao sistema). que é.uma forte adesão manifesta a questões ligadas aos procedimentos democráticos (democracia como forma) e uma fraca adesão aos valores democráticos (democracia como conteúdo) . Daí a necessidade de outro recurso explicativo. Castro. um bem a ser alcançado. há um certo desencanto com a possibilidade de consolidação da democracia. Baquero. Esse paradoxo . Esse polêmico conceito. por um lado. desconsiderar ou subvalorizar uma concepção de democracia como conteúdo (ou maximalista). Nó entanto. se pode. Essas caracterizações. considerar às avessas o argumento de que a crença na democracia seria um fator de sua estabilidade: o descompromisso da cidadania com a democracia abriria espaço para rupturas institucionais. intelectual e moral da(s) classe(s) (ou frações de classe) hegemônicas (dominantes) forma ou constitui um consenso (a partir dos valores dessas classes). Assim. que podem ser mais bem explicados através do recurso da teoria da hegemonia. E o paradoxo está justamente na aceitação (mesmo que pela passividade) de um sistema que não resolve os problemas sociais. na visão de Gramsci. construído a partir de Marx. 1995). Uma tentativa de explicação dos. O conjunto destas respostas indicava uma aparente contradição entre uma forte adesão a valores democráticos ligados à forma da democracia e uma baixa adesão ao seu conteúdo. Cultura política. 1968. . [1991]) ou como a manifestação da existência de um apoio difuso. sempre partiu da premissa ideológica de que a democracia entendida como as suas regras. vai além da caracterização e 28 . Esse debate. procedimentos.tem sido caracterizado pela literatura como uma dupla nacionalidade (Keller. 1996). na medida em que a função de liderança econômica. e utilizando as categorias de Easton. por um lado. ser fator da • construção e da consolidação do processo democrático em sua forma. social. através dá constituição de uma democracia minimalista (Moisés. usualmente não considerada nas análises. 1995). por outro lado. no entanto. Como se discutirá abaixo. por outro (Easton. O primeiro paradoxo se deve ao fato de que existe um descompasso entre as atitudes políticas ligadas à democracia como forma e as atitudes ligadas à democracia como conteúdo. possui uma relação dialética com o conceito de dominação. porque a instituição dos procedimentos democráticos formais não garante por si a adesão da população. fração de classe ou conjunto de classes no poder se manifestaria através do consentimento espontâneo dado pelas grandes massas da população à direção geral imposta à vida social pelo grupo dominante (15) (Gramsci. Castro. Este posicionamento a priori.

A tese pode ser resumida da seguinte maneira: é do interesse da fração no poder que os de baixo se mantenham como tal e. Como a exclusão social é inerente ao desenvolvimento do capitalismo dependente (Fernandes. Do ponto de vista de Gramsci. A explicação dos paradoxos a partir dessa perspectiva teórica se dá em dois momentos: no primeiro. por sua vez. os setores dominantes da sociedade – a fração no poder – constroem uma hegemonia que é simultaneamente a garantia e a justificativa de seu domínio. mas que interesses convergentes tendem a constituir ações políticas convergentes. utilizando-se para tanto de todos os meios disponíveis. há maior amplitude de ação ou de negociação. até (e principalmente. criando as condições para que se possam explicar as suas origens. para Gramsci) mecanismos de dominação ideológica. os setores hegemônicos constituem um sistema de crenças e de valores que passam a ser considerados senso comum. 1987). deveria se verificar quais os interesses da fração no poder que estariam em jogo. urna delas (ou várias. E uma das mudanças políticas seria justamente a progressiva ampliação da cidadania. desde a opressão física (através da repressão aos movimentos que possam de alguma forma ameaçar o poder da classse). econômico e social. Em outras palavras. se dá na ordem inversa de sua enunciação: primeiro cabe explicar. Essas contradições são explicadas com base nos interesses da fração no poder. são tomadas todas as medidas necessárias (violentas. Em conseqüência. os interesses hegemônicos. ou seja. os motivos da contradição existente num sistema que combina igualdade política com desigualdade social. A existência de urna sociedade que exclui econômica e socialmente. e. de orquestração da política. é a divisão da sociedade em classes antagônicas o que explica a origem da desigualdade social. Essas contradições podem ser resumidas nos dois paradoxos: o paradoxo das atitudes políticas e o paradoxo da democracia e da estabilidade na América Latina. em vários momentos. havendo disputa e confronto nos campos político. O paradoxo das atitudes políticas se deve à incoerência entre uma atitude política de apoio à enunciação genérica de um fenômeno ou assunto (apoio difuso) e urna atitude de refutação das suas manifestações concretas (apoio específico). O paradoxo da democracia e da estabilidade na América Latina se deve à contradição entre a defesa de um sistema que privilegia ou entende a participação política como um sinônimo de voto e a existência de uma sociedade que exclui pela desigualdade social. cabe identificar as contradições. fazendo uso dos mecanismos aos quais tem acesso. ao mesmo tempo em que essas crenças e valores. Dessa forma.. então. porém. ou uma fração de classe) detém g poder político. Numa sociedade de classes. No caso da sociedade capitalista. há maior possibilidade de haver mudanças políticas e sociais. para tanto. para. A explicação dos paradoxos. a fração no poder é ligada ao capital e aos seus interesses. Já foi dito que nenhum povo se deixa morrer de fome sem lutar. explicar como isso se reflete no comportamento. no sentido da dialética. os valores e crenças hegemônicos – que se manifestam na Cultura Política – são simultaneamente uma apreensão e uma construção dinâmica da realidade.descrição dos fenômenos do comportamento político ou da postulação de determinado tipo de Cultura Política. que não seriam explicadas em urna primeira abordagem. com base na teoria gramsciana. o mais fundamental de todos estes campos é o econômico: para defender a estrutura econômica em vigência. são constituintes da sociedade. criam um sistema de crenças e de valores adequado a tal finalidade. não implica urna atitude passiva por parte de quem é excluído. Segundo essa teoria. Desta forma. se for o caso). Se considerarmos que se trata do interesse de uma fração no poder ligada ao capital.político. Nos demais campos. contudo. setores da população cada vez maiores tendem a ficar à margem da distribuição da riqueza social. no segundo. a sua atuação mais ampla será no sentido de garantir a manutenção e a reprodução do capital. dentro do marco institucional da ordem capitalista (18). o conflito latente passa a ser manifesto. É claro que isto não implica uma visão simplista. a partir de determinada concepção de mundo. sem que haja modificação na estrutura econômica que fundamenta a 29 . com base em Mam e Lênin. no entanto.

o que na realidade ocorre é a manifestação dessa visão fragmentada da realidade. Por outro lado. ou seja. 1998). de uma democracia minimalista. De forma sintética. seja ação de atores individuais estrategicamente situados. RELAÇÕES ENTRE POLÍTICOS E BUROCRATAS Contexto Vamos entender que política consista no conjunto de procedimentos formais e informais que expressam relações de poder e autoridade e que se destinam à resolução pacífica. • resposta a uma situação de crise. tem alguma coisa em jogo. A explicação do segundo paradoxo é decorrente da anterior. dos conflitos quanto a alocação imperativa de valores (RUA. E é justamente este descolamento da democracia como forma da democracia como conteúdo que explica a baixa adesão aos valores democráticos verificada empiricamente: como o que surge originalmente entre nós é a defesa hegemônica das regras do jogo. mas pelo seu caráter imperativo) estão envolvidos em uma série de articulações que envolvem: • mobilização da ação política: seja ação coletiva de grandes grupos. os valores anteriores e basilares do jogo não são devidamente considerados. sendo seus interesses diretamente afetados pelas decisões e ações que compõem a política em questão. essa seria a explicação do paradoxo da convivência de um sistema político que inclui com uma estrutura econômica que exclui. 1995). podem ser identificados como sendo aqueles que tem algo a ganhar ou. Já foi mencionado acima que a fração no poder necessita manter-se enquanto tal e que a dominação através da construção de um consenso gerado pela hegemonia é mais efetiva que através da coerção (Gramsci. a saber: 30 . por poderem significar um questionamento ao modelo econômico. possuem é fragmentada. No âmbito do subsistema decisório. Dessa forma. Assim. A primeira distinção a fazer entre os atores políticos é que eles podem ser agrupados em dois grupos. segundo a concepção de . o que parece existir entre nós é urna cultura política autoritária que se funde coro a defesa hegemônica de procedimentos democráticos. que desconsidere as questões sociais.hegemonia. seja ação coletiva de pequenos grupos dotados de fortes recursos de poder. Atores políticos Atores políticos são aqueles elementos envolvidos em conflitos acerca da alocação de bens e recursos públicos. a serem obtidas com o tratamento daquele problema.exclusão. Usualmente. a compreensão da realidade que as classes subalternas. de maneira que o ônus de não resolver o problema seja mais que o ônus de resolvê-lo. ou seja. antevistas por algum ator relevante. . que implica dominação política pelos setores hegemônicos. haja vantagens. mas a sua dimensão pública é dada não pelo tamanha do agregado social sobre o qual incidem. os atores envolvidos na elaboração è aplicação das políticas públicas (que terem origem e amparo no poder público – não são privadas ou apenas coletivas. se constituindo em um dos fatores de alienação. quando os resultados dos surveys nos indicam atitudes políticas aparentemente incoerentes. Uma implicação direta disso é a defesa. passa a defender e a construir uma série de valores que sejam congruentes com a sua necessidade de defesa da ordem econômica.perder com tal política. o que cria uma barreira entre a concepção de mundo e a ação real. no dizer de Gramsci. Desta forma. Uma conseqüência dessa aparente contradição é um comportamento político que tem como limite os valores defendidos pelas elites políticas. • percepção de uma situação de oportunidade. calamidade ou catástrofe.

dependendo daquilo que esta em jogo e do custo do confronto entre os atores envolvidos. nem o outro lado perca tudo. maximizando lucros • a agência produz uma quantidade de serviços procurando maximizar a diferença entre os seus recursos orçamentários e os custos de produção dos serviços: a quantidade de serviços compradas pelo legislativo à agência não atinge a quantidade em que os benefícios se igualam aos custos de produção dos serviços • o comportamento burocrático é ineficiente. . onde se tem o jogo de soma-zero.) Dinâmica das relações entre os atores De maneira geral. • atuam na definição dos interesses dos membros. que são aqueles que se distinguem por exercer funções públicas e por mobilizar os recursos associados a essas funções. que trabalha com o paradigma do principal-agente. possuindo interesses próprios.políticos. sindicatos. e devem contar com recursos privados para fazer valer seus interesses (empresários.• atores públicos.burocratas. que são aqueles atores cuja posição resulta de mandatos eletivos. onde um não ganhe tudo. valendo a lógica da persuasão e desfrutando o conhecimento técnico de um papel relevante. na qual. todavia chegar a um processo de acomodação. INTERMEDIAÇÃO DE INTERESSES ENTRE ESTADO E SOCIEDADE Conceito Ocorre intermediação de interesses quando estamos diante de organizações que possuem as seguintes características: • ultrapassam o nível da mera representação. • atores privados. de tal maneira que ele possa a vir a ser um aliado num momento posterior. dado que o tamanho de urna agência (em termos de seus recursos) não se determina no ponto em que beneficias e custos marginais se igualam (como numa firma particular que atua no mercado). muitas vezes de forma unilateral e imperativa. que devem sua posição à ocupação de cargos que requerem conhecimento especializado e se situam em um sistema de carreira pública. consumidores etc. Alguns autores contemporâneos apontam a tendência demonstrada pelas burocracias de extrapolar seus limites e ampliar desordenadamente sua participação no orçamento. • jogos: são situações onde a lógica é vencer o adversário em uma situação específica. • debates: são situações onde cada um dos atores procura convencer o outro da adequação das suas propostas. para que um ator ganhe. 1998): • lutas: ocorrem usualmente no contexto de uma arena redistributiva. 31 . que são aqueles que não mantêm vinculo com o Estado. de tal maneira que o que vence é aquele que se mostra capaz de transformar o adversário em um aliado. o outro tem de perder. podendo ser assim explicitado: • o comportamento burocrático é explicado a partir da interação em forma de monopólio bilateral entre agência (agente: oferta serviços) e o legislativo (principal: compra os serviços da agência) • a agência tem vantagens sobre o principal em função da assimetria de informações que a beneficia • a agência tem por objetivo aumentar seu beneficio. podemos observar que a dinâmica das relações entre os atores tende a assumir um de três padrões (RUA. ao mesmo tempo em que procuram indevidamente atuar no processo decisório. sem eliminá-lo totalmente do processo. controlando recursos de autoridade e informação. onde pode-se diferenciar dois subgrupos: . pode-se. cuja atuação é condicionada pelo cálculo eleitoral e pelo pertencimento a partidos políticos. O modelo básico que expressa essa teoria foi desenvolvido por Niskanen.

acompanhando a transformação do Brasil rural. Do ponto de vista econômico. • as unidades clientelistas disputam freqüentemente o controle do fluxo de recursos dentro de um determinado território. sobre os membros da sua categoria Análise da situação brasileira Segundo NUNES (1997). principalmente em sociedades capitalistas periféricas. • as unidades constitutivas do clientelismo são agrupamentos. sob o governo de Getúlio Vargas. No caso brasileiro. São elas: • o clientelismo • o corporativismo • o insulamento burocrático • o universalismo de procedimentos O clientelismo tem sua origem no modelo patrimonialista herdado de Portugal já na época colonial. ela ocorre numa atmosfera em que está ausente uma economia de mercado impessoal. as outras três instituições emergem nos anos 30. as práticas clientelistas tendem a coexistir com a representação partidária. não apenas sua dimensão enquanto produtores ou consumidores de bens e serviços (NUNES. • insulamento burocrático é uma forma mediante a qual as elites modernizantes tecnoburocráticas e empresariais promovem o desenvolvimento. • a participação em redes clientelistas não está codificada em nenhum tipo de regulamento formal. a saber: • clientelismo e o corporativismo são instrumentos de legitimação política. incluindo promessas e expectativa de retorno futuro.• assumem funções de governo privado. Clienteismo Do ponto de vista sociocultural e político. existem quatro padrões institucionalizados de relações ou “quatro gramáticas” que estruturam os laços entre sociedade e Estado no Brasil. 1997). • universalismo de procedimentos implica na afirmação lenta de um regime racional-legal e eventualmente democrático. o clientelismo é um sistema de controle do fluxo de recursos materiais e de intermediação de interesses. como a brasileira. Assim. caracterizado pelos seguintes aspectos: • não há número fixo ou organizado de unidades constitutivas. não-universalistas e marcadas pela dependência dos clientes. a vida urbana e o sistema de trocas específicas (caracterizadas pelo impersonalismo das relações de troca num contexto de mercado) inerente ao capitalismo. 32 . agrário e de administração ainda patrimonial em um Brasil urbano. Nas sociedades capitalistas sincréticas. envolvendo a pessoa toda daqueles que participam da troca. intermediação de interesses e alocação do fluxo de recursos materiais disponíveis. pessoais. com poder sobre a alocação de recursos. e algumas vezes legal. que determinam também a relação da maioria das lideranças partidárias com suas bases. isto é. as trocas em contexto clientelista são generalizadas e pessoais. industrial e de administração burocrática. pois aqueles que tem acesso a cargos públicos têm acesso a inúmeros privilégios através do aparelho do Estado. pirâmides ou redes baseados em relações pessoais que repousam em troca generalizada. • exercem controle social. desempenhando funções de controle político. daqueles recursos que são monopolizados pelo patrão. • os arranjos hierárquicos no interior das redes estão baseados em consentimento individual e não gozam de respaldo jurídico. caracteriza-se por um sistema de relações diádicas assimétricas. Cada uma dessas gramáticas cumpre uma função específica nas relações entre sociedade e Estado no Brasil. o clientelismo político se manifesta na impregnação do Estado por processos generalizados de troca de favores.

controladas • modelo foi concebido e implementado pelos. o qual detém. propõe. regimes autoritários. impediria justamente a formação de elementos de conflito. a prerrogativa de autorizar ou reconhecer a existência de organização e do monopólio por ela exercido. hierarquicamente ordenadas e funcionalmente diferenciadas. constitui por vezes um canal obrigatório de representação política. 33 . a luta de classes • no plano político. pelo contrário. No plano sócio-econômico. não-competitivas. onde a corporação não é apenas uma associação de indivíduos que exercem a mesma atividade profissional: • monopólio da produção: monopoliza a arte ou oficio e. que seria o gestor do conflito subjacente à sociedade industrializada ou em vias de desenvolvimento e o transformaria.Corporativismo Caracterização como mecanismo de intermediação de interesses Podemos caracterizá-lo como sendo um sistema específico de intermediação de interesses com as seguintes características (CARNOY. sendo delineadas pelo Estado O corporativismo também é urna doutrina. os conflitos entre partidos Corporativismo enquanto doutrina tende a ter como referência histórica uma forma idealizada da comuna medieval italiana. • essas unidades singulares são compulsórias. calcado no monopólio da representação de grupos funcionais produtivos. fixação de preços e critérios de qualidade e quantidade a ser produzida) • representação política: não raro. graças à solidariedade orgânica dos interesses concretos e às fórmulas de colaboração que daí podem derivar. • sua existência se sustenta na garantia de um deliberado monopólio de representação dentro de suas categorias respectivas. esse modelo teórico de corporativismo se apresenta. vedando-a aos estranhos • normalização econômica: detém poderes normativos em matéria de economia (determinação das normas de comércio. de quando em quando.dos anos 1930-1945. e organizado pela adoção de uma estrutura hierárquica de associações. O modelo corporativo. sendo por ele penetradas e. em troca da observância de certos controles na seleção de líderes e na articulação de demandas e apoios. 1994): • as unidades constitutivas estão organizadas em um número limitado de categorias singulares. conseqüentemente. são dependentes formal e materialmente do Estado. Segundo CARNOY (1994). Corporativismo estatal Trata-se de um sistema de intermediação de interesses. • essas unidades existem apenas enquanto são reconhecidas ou permitidas (senão criadas) pelo Estado. como fórmula contraposta ao modelo. usualmente. articulando as organizações de categoria em associações entre classes e prefixando normas obrigatórias de conciliação para os dissídios coletivos de trabalho. diretamente vinculadas ao Estado. a remoção ou neutralizarão dos elementos de conflito: • no plano econômico. a concorrência de mercado • no plano social. em uma eventual relação de força entre trabalho e capital. sindical. apresentando as seguintes características: • É uma doutrina que propugna a organização da coletividade baseada na associação representativa dos interesses e das atividades profissionais (corporações). a produção. O modelo clássico de corporativismo no século XX apresenta as seguintes características: • as associações. com base na doutrina social da igreja Católica e na ideologia fascista • essas organizações corporativistas resultaram das determinações governamentais.

1994): • associações têm autonomia e penetram o Estado • Modelo surgiu na vigência do Estado de Bem-Estar Social e da social-democracia européia. Corporativismo Societal e Estatal Corporativismo Número limitado de unidades Societal (Neocorporativismo) Estabelecido por processos de arranjo inter-associacional ou por “cartéis políticos” desenhados pelos participantes a fim de excluir aos recém chegados Estatal Estabelecido por deliberada restrição do Estado 34 . mediante sua inserção regulamentada no espaço estatal. 1997). também foram implementadas nos últimos anos. mediados por técnicos e consultores do Estado. caracterizado pelo fato de as organizações intermediárias serem livres para aceitar ou não suas relações com o Estado. incrementando o crescimento econômico e assegurando a harmonia das classes em face do conflito de classes. assim o trabalho organizado e os grupos de interesses de capitalistas interagem a nível de Estado. Preconiza a realização de uma democracia orgânica. 1994). vinculados a uma categoria específica. o modelo corporativista se apresenta como alternativa ao modelo representativo democrático. bem como disciplinar a burguesia. O exemplo mais marcante seriam as Câmaras Setoriais.No plano político. ainda que mantendo uma identidade baseada nas funções exercidas pelo indivíduo enquanto membro de uma categoria funcional e não enquanto cidadão participante de um mercado eleitoral (CARNOY. foi implantado no país na década de 30. são tidas como características específicas do neocorporativismo (CARNOY. A intervenção do Estado na economia é corporativista na medida em que ela envolve o trabalho organizado na elaboração do Estado. ainda que respaldadas pelas políticas governamentais A despeito da tradição de corporativismo estatal caracteerístico da sociedade brasileira. significa a integração da classe trabalhadora organizada ao Estado capitalista. que teriam a função de coordenar as instâncias representativas do empresariado e dos trabalhadores de setores produtivos específicos. Neocorporativismo ou corporativismo societal Seria um tipo específico de intermediação de interesses. a partir das políticas de Estado de corte keynesiano • resultaram da dinâmica da própria organização dos interesses. reconhecidas ou permitidas (senão criadas) pelo Estado e que tinham a garantia de um deliberado monopólio de representação dentro de suas categorias respectivas. hierarquicamente ordenadas e funcionalmente diferenciadas. O corporativismo no Brasil é um mecanismo que serve ao propósito de absorver de forma antecipada o conflito político através da incorporação e da organização do trabalho. evitando seu acesso direto aos quadros dirigentes do Estado (NUNES. onde o indivíduo não terá valor coro entidade numérica. não-competitivas. através da intermediação de interesses. mas como portador de interesses precisos e identificáveis. incorporar de forma controlada as massas de trabalhadores urbanos em expansão. ou corporativismo societal. buscando. ou corporativismo estatal. em troca da observância de certos controles na seleção de líderes e na articulação de demandas e apoios. num contexto de capitalismo monopolista avançado combinado a um sistema de bem-estar social. formas de corporativismo societal. Esse corporativismo. Nas sociedades capitalistas modernas o neocorporativismo. compulsórias. O modelo corporativo então adotado previa que os sindicatos deveriam estar organizados em um número limitado de categorias singulares. ou neocorporativismo. Nesse contexto.

podendo se imaginar um contínuo que vai do insulamento total a um alto grau de penetração pelo mundo político e social. uma máquina burocrática efetiva é a chave para a capacidade estatal de intervenção. s. 1997). resguardando estas organizações contra tradicionais demandas burocráticas ou redistributivas. à medida em que a capacidade estatal de implementar suas preferências aumenta. prestação de serviços essenciais e/ou aquisição da capacidade privada de autorizar Como resultado das tendências oligárquicas internas ou de acordos voluntários externos entre as associações Como resultado de processos intrínsecos de extensão e/ou consolidação burocrática Por meio de acordos voluntários sobre os respectivos “territórios” e de declarações de não intervenção Concedido como questão de necessidade política imposta a partir de baixo aos funcionários públicos Independentemente conquistado Produto de um consenso recíproco sobre procedimentos e/ou metas Resultante da erradicação. por meio de pressão social. Para ele. Alberto Tossi.Unidades singulares Unidades obrigatórias Unidades não-competitivas Unidades hierarquicamente ordenadas Unidades funcionalmente diferenciadas Reconhecimento das unidades pelo Estado Monopólio representativo Controles à seleção de dirigentes e articulação de interesses Resultante da cooptação espontânea ou da eliminação competitiva pelas associações sobreviventes Obrigatórias de facto. 35 . Para EVANS (1993). das associações múltiplas ou paralelas Obrigatórias de jure. Há duas características do processo de insulamento que devem ser entendidas: • grau de insulamento: nem todas as agências insuladas o são no mesmo grau. O insulamento burocrático significa. imposta pelo Estado. a penetração crescente da sociedade civil pelo Estado ativa reações políticas e aumenta a probabilidade de que interesses societais procurem invadir e dividir o Estado. resultando que. supervisão dos deveres contratuais. Introdução aos modelos de intermedciácão de intereses. o insulamento burocrático é o processo de proteção do núcleo técnico do Estado contra a interferência oriunda do público ou de outras organizações intermediárias (NUNES. sua capacidade de formulá-las independentemente declina. por meio do código trabalhista ou de outra autoridade oficialmente decretada e exclusivamente concedida Como resultado da contínua interposição da mediação.l. a partir de SCHMITTER (1992) CAPITAL SOCIAL.d. a redução do escopo da arena em que interesses e demandas populares podem desempenhar um papel. AUTONOMIA E INSERÇÃO Na linguagem da teoria organizacional contemporânea. Esta redução da arena é efetivada pela retirada de organizações cruciais do conjunto da burocracia tradicional e do espaço político governado pelo Congresso e pelos partidos políticos. arbitragem e repressão estatais Como resultado da centralização e dependência administrativa decretadas pelo Estado Por meio de enquadramento de categorias ocupacional-vocacionais estabelecido pelo Estado Outorgado a partir de cima pelo Estado como condição para a formação de associações e sua contínua operação Dependentemente concedido Produto de uma imposição assimétrica dos “monopólios organizados da violência legítima” Fonte: Elaborado por RODRIGUES.

ou não. Ou seja. normas de confiança e reciprocidade contidas numa comunidade que facilitam a produção de capital físico e capital humano. Coréia do Sul e Taiwan. cujas características envolvem a tradição weberiana relacionada à meritocracia. 1993. como é o caso da grande maioria dos países do Terceiro Mundo. Os estudos sobre desenvolvimento têm retomado a importância do papel do Estado em induzir esse desenvolvimento ou em bloquear suas possibilidades. Todavia. Nesses estudos. Para Putnam (2000 apud CAMARGO. as associações civis contribuem para à eficácia e a estabilidade do governo democrático. Para esse autor (PUTMAN. EVANS (1993) desenvolveu o conceito de autonomia inserida (embedded autonomy) para determinar a situação em que o núcleo técnico é suficientemente insulado para formular projetos próprios a partir de decisões técnicas não-clientelistas (sem vinculação direta ou subordinação à partidos ou outros grupos de interesse).). O caso brasileiro é um intermediário. pois. EVANS et al 36 . Onde essa combinação era positiva. Segundo Putnam (2000). o autor defende a noção de complementaridade entre a burocracia de Estado e as iniciativas coletivas. ou mesmo do insucesso. 1997): • agências e grupos competem entre si pela alocação de valores alternativos.• continuidade do insulamento: nem todas as agências que foram insuladas permanecerão assim com o passar do tempo. ou não. foi negativa também a curva do desenvolvimento. aqui se encontram características de autonomia inserida. na África (Evans. 1996). os estudos também identificam o desempenho pífio do Estado em outros países como um dos elementos importantes na cadeia de causas do fracasso nos níveis de desenvolvimento. isto é. conforme o ambiente operativo toma-se menos complexo ou os objetivos são atingidos. níveis altos de desenvolvimento encontrou na abordagem centrada no conceito de autonomia _de Estado. e ao mesmo tempo possui uma série de canais ou redes de contato com grupos e organizações socialmente relevantes. são os que melhor demonstram o papel central desempenhado pela burocracia do Estado. Essa linha de estudos privilegia a identificação dessa presença como fator explicativo para o sucesso ou insucesso de políticas públicas. a fim de subsidiar suas decisões e angariar apoio político e outros tipos de recurso para implementar os projetos formulados. a hipótese focal é de que instituições fortes condicionam os melhores resultados nos níveis de desenvolvimento industrial dos países. com o objetivo de garantir a efetividade dos projetos.1995). Ao contrário. Mais ainda. Além desse. mas também de relações de captura do serviço público. no caso italiano. laços de confiança consubstanciados em maior participação nas associações cívicas. carreiras de longo prazo. Com isso. ou até mesmo séculos.d. os estudos de Putnam colocam um grau de inexorabilidade da condição de subdesenvolvimento daquelas regiões que não possuem capital social. a existência de capital social. s. Em situação oposta. eis que (EVANS. Nos casos estudados. senso de dever e lealdade. • partidos políticos são bajulados para proteger projetos no Congresso. como é ocaso do Zaire e Nigéria. onde a combinação foi negativa. de capital social em determinada região ou país. segundo Evans. • coalizões políticas são firmadas com grupos e atores fora da arena administrativa. uma resposta às causas do sucesso. Como a existência de capital social em dada comunidade ou sociedade é algo que se constrói em anos. um outro foco de pesquisa vem ocorrendo e está associado à presença. a análise do sucesso dos países que alcançaram. ou melhores a de países europeus –. foi também positiva a curva de desenvolvimento. Em resposta. NUNES. Japão. Os casos acerca das experiências recentes dos países do sudeste asiático. o processo de insulamento não é de forma nenhuma exclusivamente técnico e apolítico. está correlacionada. aí incluso o Brasil. elas podem ser desinsuladas. que atingiram um rápido desenvolvimento econômico – há menos de trinta anos ostentavam indicadores-sociais parecidos com os verificados na África e hoje possuem indicadores iguais. e explica o alto nível de desempenho econômico alcançado pela região norte em relação ao sul do país. capital social pode ser definido como um conjunto de laços e. a variável considerada é a atuação do Estado e de sua máquina burocrática como ator na elaboração de políticas públicas e seu grau de inserção e conexão com a estrutura social circundante (autonomia inserida) combinada com de burocracia “weberiana”.

Pior. podendo explicar o êxito ou fracasso dessas políticas.(1996) apontam para a possibilidade de indução na construção desse capital social. as propostas que surgiram no bojo dessas teorias conduziram a privatização indiscriminada de empresas estatais. Essas abordagens que apregoam o resgate da centralidade do papel do Estado no. mercado) um amplo campo para comportamentos de captura e carona. de uma perspectiva teórica que privilegia o papel das instituições públicas no desenvolvimento capitalista. este artigo se sustenta na premissa de que. daí ela pode estar bem fora do alcance da maioria dos grupos. o que o tomaria elemento crucial a ser mobilizado na implementação de políticas públicas. o capital social é promovido e o desempenho é positivo ao desenvolvimento. de transferência de atividades para a esfera privada na maioria dos países do Terceiro Mundo. a manutenção das relações entre o aparato do estado e as pequenas empresas locais dos municípios e vilas rurais acabaram produzindo uma boa base de sustentação para a transição de um regime para economia orientado pelo mercado. Capital social pode ser entendido como o conjunto de normas de reciprocidade. os autores mostram como uma relação sinérgica (ação simultânea de diversos órgãos para a realização de uma função) entre Estado e sociedade pode produzir capital social. esperando ser trazida para a vida pelos empreendimentos institucionais. destruíram porções significativas de capital social e desmantelaram conhecimentos técnicos estabelecidos. Combinando o conceito de autonomia inserida com a abordagem históricocultural de capital social. informação e confiança presentes nas redes sociais informais desenvolvidas pelos indivíduos em sua vida cotidiana. o Estado tanto pode construir ou dar as bases para a construção de capital social como pode. O conceito incorpora diversas tradições sociológicas. O autor trata ambos os conceitos sob a abordagem institucional da ciência política. O conceito de capital social tem sido amplamente utilizado na sociologia norte-americana para demonstrar a importância das redes sociais informais na construção de relações sociais e de formas de sociabilidade nas quais interesses pessoais e coletivos se imbricam. pois. por um instante. Não sem efeito que. A perspectiva da construtibilidade é mais otimista. Evans et al (1996) apontam. Além disso.). [. Para CAMARGO (s. dois conceitos são fundamentais para esta reflexão.] Se as possibilidades de construção existem. destruir o que existia ou o que foi construído. Sinergia torna-se uma possibilidade latente para a maioria dos contextos. em importante indicador de participação política através do estabelecimento ou consolidação de relações de confiança entre sociedade e Estado. mas cujos resultados pouco contribuíram para a redução dos comportamentos associados ao clientelismo. o caso da Rússia pós-socialista que. por exemplo. A existência desse “capital” se constituiria. resultando em numerosos benefícios diretos ou indiretos.d. para tanto. No caso chinês. A abordagem teórica adotada neste artigo parte do pressuposto de que as instituições importam no estudo das possibilidades de desenvolvimento dos países. desenvolvidos por Evans et al (1996). desenvolvimento industrial (econômico) são uma resposta às teorias que vêem na relação entre Estado e sociedade (negócios. e para cujos efeitos perversos conduziram a propostas de redução do papel do Estado ao mínimo possível Maxfreld. facilitando as transações no mercado. o setor público deve incorporar a construção de civismo comunitário como elemento do seu trabalho. em sociedades nas quais prevalecem instituições fortes. Se sinergia é um resultado que depende da existência anterior de configurações sociais e culturais-historicamente enraizarias em culturas e sociedades particulares.. o de autonomia inserida e capital social. elas deverão ser exploradas (Evans et al. dependendo de sua ação. sendo determinante na compreensão da ação social. Contrariamente ao ponto de vista segundo o qual as instituições apenas importam para reduzir as incertezas. 1997: 189-190): Assim. igualmente.. desenvolvida por Putnam. ao contrário da China. destruiu a antiga associação de carpinteiros após a venda da estatal de reflorestamento para empresas estrangeiras produzindo efeitos perversos do ponto de vista econômico. e em complemento e em crítica a Putnam. Parte-se.1997). os autores vêem nas instituições públicas um papel central nessa empreitada. estando presente no pensamento de Durkheim através do estudo da interiorização das normas sociais e sua 37 .

s. a obtenção de empregos pela indicação de conhecidos para ocuparem postos de trabalho disponíveis. assume nova dimensão na recuperação das conseqüências positivas da sociabilidade e das relações não monetárias presentes na sociedade (Portes.1996).d. a partir dos anos 80.funcionalidade. que tenderia a reproduzir para as crianças as limitadas 38 . as relações pessoais continuariam a ser determinantes na construção da sociabilidade.). utiliza o conceito a partir de uma crítica às teorias das desigualdades raciais e às políticas delas decorrentes nos EUA. O conceito. de um conjunto de obrigações mútuas entre as pessoas. Para ele.1993a. em Tönnies na análise do papel integrativo da comunidade. os atores podem ter acesso direto a recursos econômicos (através de acesso privilegiado a mercados. diferente dos outros. dessa forma. que integra o próprio cerne dessas relações. Apesar de enfatizar a intercambialidade das diferentes formas de capital (econômico. James Cóleman (1988. na igreja. Como exemplo.l. seria composto por redes sociais informais entre.d. a atividade produtiva.1995. como capital econômico. Tal como outras formas de capital. Glenn Loury (1981). Todavia ele é pensado. Entretanto. caracterizado pela pobreza. pressupõe que o indivíduo participe de redes relativamente amplas. por exemplo. a resolução de questões individuais nos problemas do cotidiano. a partir do capital social. positividade. e por formas de sociabilidade representadas pela vida associativa na família. que em linhas gerais. 1990) e Robert Putnam (1993. Apesar de não se constituir propriamente numa novidade teórica. Sim. refere-se a relações entre pessoas. O fato de estar fora das redes é um fator negativo desse capital. a quantidade e qualidade dos recursos. já que estas terminam por limitar o acesso de outras pessoas a seus recursos. o capital social seria produtivo mas. pelo acesso à informação) e aumentar seu capital cultural (idem). não necessariamente percebidas imediatamente. definem capital social por sua função. em Simmel na caracterização da sociabilidade na metrópole. Em outras palavras.l. a continuação de negócios em determinados ramos e mercados. Estas favorecem. na escola e no trabalho. incorporando uma variedade de relações presentes na estrutura social que facilitam ações dos indivíduos participantes dessa estrutura. relações estas que podem ser utilizadas de forma positiva na implementação de programas sociais. o que depende de sua inserção na estrutura de classe que vai estabelecer a qualidade dos benefícios recebidos. pelo environment em que vive a população negra. Entre os autores considerados pioneiros na utilização do conceito na sociologia atual. o capital econômico (trabalho humano acumulado) seria a base dos outros capitais. de relações mais ou menos institucionalizadas de compromisso e reconhecimento mútuo. o segundo. entretanto. Primeiro. As redes sociais pressuporiam a observância de normas de reciprocidade e confiança. cultural e social). daí serem consideradas um capital disponível na sociedade. a primeira análise sistemática do capital social foi realizada por Bourdieu (1936). em Marx na compreensão da construção da solidariedade de classe. Mesmo com a crescente racionalização da vida moderna. que define o conceito como o agregado do atual ou potencial recurso ligado à posse de uma forte rede social. para ficarmos apenas nos clássicos. Os benefícios que revertem pela participação em um determinado grupo são tornados possíveis pelas bases da solidariedade. que favorecem o acesso a recursos presentes na sociedade. Segundo Portes (199S apud LIMA. legais ou não. Outro autor. as proibições legais contra a discriminação racial no emprego e a implementação de programas de oportunidades iguais não eliminariam as desigualdades. portanto. indivíduos. primariamente. na estrutura social como recurso que pode ser utilizado na realização de seus interesses. 1998 apud LIMA. o economista Glenn Loury (1981). Sua função estaria em seu valor para os atores. O capital social pode ser decomposto entre dois elementos: o primeiro deles seria o conjunto das próprias relações que permitiriam aos indivíduos reivindicar os recursos comuns aos participantes. existira urna circularidade em que.). quatro são considerados referências obrigatórias: Pierre Bourdieu (1986). restringindo o acesso de parceiros de fora das redes construídas na comunidade. em Weber na explicação do sentido da ação. s. seria inerente às relações entre as pessoas e não necessariamente positivo para todas elas. podemos citar ramos de negócios controlados por grupos étnicos que monopolizam o comércio de determinadas mercadorias em algumas cidades. facilitando.

Como base de sua análise teve a pesquisa realizada com estudantes secundários. no desenvolvimento da teoria sociológica. confiabilidade das estruturas. que caracterizaria o trabalho da maioria dos sociólogos. Sua principal virtude estaria no principio da ação entendida como maximização utilitária. constituem-se em importante forma de capital social no interesse da coletividade. capital social é um recurso presente na ação. predominante entre os economistas. Coleman examinou algumas formas que o capital social assumiria: obrigações e expectativas. Como exemplo. As obrigações e expectativas constituem o relacionamento entre os indivíduos e podem ter uma analogia com o capital financeiro. numa perspectiva alternativa 39 . Uma delas. fazendo com que um mesmo indivíduo aja diferentemente em estruturas sociais diversas. políticas públicas voltadas ao interesse do conjunto da sociedade. segundo. sua utilização vincula o funcionamento das instituições econômicas e políticas a questões culturais constituídas a partir da interação social dos indivíduos. ano bom funcionamento das instituições democráticas. 1990). As normas e sanções sociais. todavia é custosa.oportunidades econômicas e culturais dos pais. pelas fracas conexões dos jovens. gerando graus de confiança desiguais e aumentando os riscos desse “capital”. constituindo-se. embora rejeitando o individualismo extremo presente nela. Por outro lado. em que procurava identificar a influência dos estudantes mais velhos sobre os mais jovens em questões de participação social. até a norma externa imposta pela efetiva repressão de atitudes individuais que vão contra os interesses da comunidade. de componentes das duas correntes: a aceitação do princípio da ação racional ou ação propositiva e a tentativa de apresentar como este princípio. Em sua concepção. Para ele. existiriam duas grandes correntes intelectuais na descrição e explanação da ação social. em determinado contexto social. ou seja. para que funcione. essa forma de capital social dependa da confiabilidade no meio social circundante. liderança e participação em clubes recreativos. as informações que são trocadas entre familiares e conhecidos sobre empregos e oportunidades diversas. negros com o mercado de trabalho e falta de informação sobre oportunidades. de diversas gerações. regras e obrigações. Nesta perspectiva. Coleman cita a uma notícia de jornal que é passada a um amigo que não tinha prestado atenção a algo que lhe seria importante. significando que essas obrigações serão pagas. A principal virtude dessa corrente estaria na habilidade de descrever a ação em seu contexto social e explicar a ação como constrangida e direcionada pelo contexto social. veria o ator com objetivos independentes e inteiramente voltados aos seus. pela sua repressão direta ou constrangimento de comportamentos. considerava o atar socializado e a ação determinada por normas sociais. o ponto de partida da teoria sobre o capital social é a teoria da escolha racional. assim. Em outros termos o capital social depende da estabilidade das instituições e sua ruptura implica na perda desse capital. Em Coleman (1988. Ou ainda. por exemplo. quando efetivas. Em outros termos. canais de informação e normas sociais. interesses privados. de atividades mutualistas (na provisão de bens escassos). Constitui-se em instrumento eficaz na manutenção do controle social agindo. Destaca ainda a importância da construção de uma sinergia Estado-Sociedade. na inibição do crime. A informação é considerada uma forma de capital social por ser concernente às relações sociais. e na chamada boa governança. provendo a base . defendendo a inclusão. através das trocas permanentes entre os indivíduos. pode contar não somente com a ação de indivíduos em contextos particulares. podem facilitar o desenvolvimento de movimentos sociais (pela aplicação das normas ou por sua abolição). o que.para a ação social. introduzindo a estrutura social no paradigma da ação racional. Na análise de fenômenos macro-sociais. O uso das informações e sua manutenção nas relações fazem com que estas possam ser utilizadas para diversos propósitos. na Chicago nos anos 60. o acesso diferenciado aos bens materiais e simbólicos decorre das limitadas redes sociais e. exigindo atenção permanente. com o fim das regras e normas aceitas socialmente. A outra corrente. conseqüentemente. Por norma social entende-se desde a norma interiorizada no sentido durkheimiano. As estruturas sociais funcionam distintamente. de fato e a garantia que mantém essas relações. A aquisição dessa base. do baixo capital social dessa população. mas também no desenvolvimento da organização social..

No espectro político que vai da direita. boa parte das políticas desenvolvidas pelos países foi de um esforço para reduzir o papel do Estado. EVANS et al (1996) sustentam a idéia do o papel central das instituições na formação de capital social. por meio de uma sinergia na relação entre Estado e sociedade. essa relação poderia ser uma ameaça à autonomia do Estado e às normas sociais. existentes na sociedade. à esquerda em autores como Burawoy (1997) e Evans (1997). Evans defende a opinião das esferas pública e privada. quando na implementação de programas de desenvolvimento social. Um requisito fundamental para o estabelecimento dessas relações é a existência de instituições fortes e autônomas. s. formais e informais. mas de cooperação e confiança. passando por recomendações do Banco Mundial acerca de políticas de desenvolvimento. Desse modo. nem o mercado. Seguindo essa perspectiva. do ponto de vista público. com o conceito de autonomia inserida. para a qual evitar essa captura significava a diminuição do papel do Estado na economia. o Estado assume papel central por meio de uma burocracia forte na características descritas por Max Weber. da existência de instituições sólidas inseridas no cotidiano da sociedade e conectadas a demandas sociais cotidianas. ocorre quando combina-se uma forte tradição burocrática entre os agentes públicos com uma relação. de captura do agente público em beneficio do privado. Assim. Esta combinação. a possibilidade de captura é o horizonte apregoado pela literatura correspondente à abordagem da escolha racional. entre coesão burocrática interna e inserção do Estado. a qual representa a existência da combinação da burocracia weberiana com uma intensa conexão com a estrutura social circundante (EVANS. normas de confiança que facilitam a coordenação e cooperação para benefícios mútuos.). s. Essa é a realidade de quase todos os países do terceiro mundo. Assumir a centralidade do papel do Estado no fomento de uma relação sinérgica com o mercado e a sociedade representa ir de encontro a dois desígnios negativos defendidos pela literatura recente sobre o papel do Estado e sua relação com o mercado. nem o Estado. A melhor medida da relação entre Estado e capital privado.às análises que privilegiam ora a atuação estatal. não de captura. Isso porque. ora a atuação do mercado no estudo do desenvolvimento sócio-econômico. contudo. Enquanto Weber afirmava que essa relação seria uma ameaça à autonomia do Estado e das normas sociais. Com isso. é chamada por Evans de “autonomia inserida”. . O primeiro deles é que essa aproximação entre ambos conduziria a um comportamento. por meio da intervenção direta do Estado.). Os resultados dessa política. nem a sociedade perdem suas características.d. Contra essa predestinação.d. Evans afirma que a relação “sinérgica” (ação simultânea de diversos órgãos para a realização de uma função) entre o público e o privado é essencial para otimizar a própria intervenção do Estado na formulação de políticas e na estruturação do mercado. Ao contrário de Weber. 2001 apud CAMARGO. e possui inserção no setor privado quando se estabelecem laços e normas informais de confiança que asseguram cooperação para o alcance dos objetivos de política econômica (FERNANDES. no qual o Estado é visto como grande vilão. o Estado é dotado de autonomia porque exerce a autoridade por meio de um rígido aparato burocrático. atestam a ineficácia dessa medida. civil no planejamento e execução de políticas públicas. dada sua história de ausência desse componente. Essa centralidade apoia-se na autonomia do Estado. Essa “mobilização” refere-se à utilização dos recursos organizacionais e associativos. apontado por PUTMAN (1996). defende EVANS et al (1997) a possibilidade de construção de ambientes institucionais propícios para produção de capital social. em autores como Fukuyama (1995). é a inexorabilidade da condição de sociedades sem capital social em permanecer infinitamente na situação presente. e de uma burocracia coesa e coagida pelo “espírito de corpo” seria possível fornecer os bens públicos. Um segundo desígnio. junto ao setor privado. como afirmava Weber. 40 . Nesse sentido. 1995: 50 apud CAMARGO. principalmente em países do terceiro mundo. visando o desenvolvimento industrial. Contudo. onde são escassas as redes. a “mobilização” do capital social de uma comunidade ou sociedade passou a ser considerada um fator positivo no fortalecimento da participação popular nas instituições políticas num contexto de crise das utopias e de pensamento único.

O modo de produção da vida material. não do desenvolvimento geral da mente humana ou do conjunto das vontades humanas. mas ele evolui no sentido de mediar as contradições entre os indivíduos e a comunidade e. enquanto que. não representa o bem-comum. os instrumentos de produção. relações de produção que correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A ascensão do Estado como instância que detém o monopólio legítimo do exercício da violência física em seu território se coaduna perfeitamente 41 . real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas definidas de consciência social. portanto. onde os donos da riqueza produtiva alocam seus recursos na procura de lucros. . A consciência humana que guia e até mesmo determina essas relações individuais é o produto das condições materiais – o modo pelo qual as coisas são produzidas. não fica claro até onde e de que forma o Estado age nos interesses da burguesia “em seu conjunto como um todo”. mas antes é uma instituição socialmente necessária. Entende Marx que. tornando-se uma instituição de classe. necessárias. visto que sua intervenção (e não neutralidade) no conflito é vital e se condiciona ao caráter essencial do Estado como meio de dominação de classe.. Assim. o capitalismo. Ocorre que o Estado expressão política da classe dominante sem ser originário de um complô de classe. como modo de produção específico surgido a partir da desarticulação da sociedade feudal. uma vez que a comunidade é dominada pela burguesia. a base. assim o é a mediação pelo Estado. na sociedade burguesa. condiciona de forma geral. ao mesmo tempo. Assim.ECONOMIA CLASSES SOCIAIS E POLÍTICA A natureza e as funções do Estado no capitalismo Primeiro. de acordo com Mam. essa classe dominante estende seu poder ao Estado e a outras instituições.. Mais ainda. . onde os proprietários de força de trabalho são forçados a vender seus serviços para sobreviver. são privadamente possuídos e alocados para usos por seus proprietários • o mesmo é verdadeiro para a capacidade de trabalhar. e um mercado de trabalho. no capitalismo há um mercado de capital. exigida para cuidar de certas tarefas socialmente necessárias para a sobrevivência da comunidade. surgindo da contradição entre os interesses de um indivíduo e o interesse comum de todos os indivíduos. 1994): • a riqueza produtiva. e independentes de sua vontade. o processo de vida social. porque a burguesia tem um controle especial sobre o trabalho no processo de produção capitalista. emerge das relações de produção. concebeu o Estado como um instrumento essencial dá dominação de uma classe sobre a outra na sociedade capitalista. dominada pela burguesia. político e intelectual”. A soma total dessas forças de produção constitui a estrutura econômica da sociedade.) Na produção social de sua vida. Uma vez que desenvolveu a formulação da sociedade capitalista como uma sociedade de classes. Marx defendia que o Estado. chamada de força de trabalho • alguns proprietários da força de trabalho não possuem os instrumentos de produção que lhes possibilitariam satisfazer suas necessidades. Se nas primeiras obras Marx via a sociedade burguesa como aquela em que a sociedade civil está separada da sociedade política. Na significa que o Estado seja um complô de classe. é capaz de utilizar seus poderes sobre a propriedade privada na busca desses interesses. mas é a expressão política da estrutura de classe inerente à produção. 1994). distribuídas e consumidas (CARNOY. O terceiro ponto fundamental na teoria do Estado de Marx é que. A forma do Estado. o fundamento da luta de classes permite compreender o Estado como uma instituição com vínculo de classe. o Estado representa o braço repressivo da burguesia. os homens entram em relações determinada. emergindo das relações de produção. Todavia. Dessa forma. seguiu-se necessariamente a sua visão de que o Estado é a expressão política dessa dominação. Marx considerava as condições materiais de uma sociedade como a base de sua estrutura social e da consciência humana. “(. Em segundo lugar. tem as seguintes características (CARNOY.

atrapalhando os burgueses individuais que apenas querem explorar outras classes e desfrutar da propriedade. de forma a possibilitar que um grupo use o poder repressivo concentrado no Estado contra os outros grupos. nas teorias marxistas. O Estado seria um instrumento da classe capitalista. A condição normal de autonomia: abdicação/abstenção Nessa condição a burocracia do Estado tem alguma autonomia frente à burguesia devido a aversão inerente desse classe em atuar diretamente no aparelho do Estado e devido ao conflito de interesses entre os capitalistas individuais (exigindo uma burocracia independente que pode atuar. Disse temos (CARNOY. • irrelevância: ele é irrelevante. Autonomia do Estado A noção de autonomia do Estado pressupõe que em algum momento ele pede ser capturado. segundo a qual a burguesia tem a importância econômica e a capacidade organizacional necessárias para conquistar e exercer o poder de Estado. no sentido de que o Estado se toma autônomo apenas sob certas condições. fraco ou disfuncional quando não pode fazer muito. a classe dominante conquista o Estado e manda diretamente. a própria relação entre Estado e sociedade – se em condições históricas particulares o Estado é autônomo ou instrumental – e explicado pelas relações de classe. em outras classes. • uma função secundária de repressão. igualmente poderoso. Trata-se da constatação que o aparecimento das divisões sociais leva à separação do poder de coerção em relação ao corpo geral da sociedade. por interesses privados e expressar diretamente esses interesses. 1995): • autonomia: o Estado é autônomo quando formula suas próprias metas e as realiza face à oposição. Nessa perspectiva. Assim. Essa autonomia seria explicada pela teoria da abdicação/abstenção. . Hei aqui duas questões. seja em busca de: seus próprios objetivos ou de objetivos alheios. 1994. então. isto é. o Estado se torna independente da sociedade. inerente a toda a sociedade. Se alguma dessas condições é violada. os capitalistas esperam que seja possível tratar de seus 42 . como executora. visto que esse aparelho coativo por ele monopolizado atua como força repressiva para manter sob controle os antagonismos de classe. Essa visão das relações entre Estado e sociedade civil. • instrumentalização: ele e instrumental quando age efetivamente como agente de alguns interesses externos. a imposição das leis. o custo de participação na luta pelo poder político e seu eventual exercício é alto. Todavia. suas políticas não refletem sistematicamente os interesses da classe dominante Todavia. pois seu surgimento é identificado como parte da divisão do trabalho. 1995): • quando o Estado é instrumental. apresenta a seguinte estrutura (PRZEWORSKY. para toda a classe capitalista). PRZEWORSKY. 1995): Se a classe economicamente dominante é capaz de se organizar politicamente e não encontra oponentes igualmente poderosos. dois desdobramentos em termos de funções que são exercidas pelo Estado: • uma função primária de jurisdição e legislação da sociedade. Dessa forma. podemos observar três situações específicas no que diz respeito as relações entre o Estado e a sociedade civil (PRZEWORSKY. sempre que essa classe pudesse se organizar politicamente e sempre que ela não se defrontasse com um oponente. interesses da classe economicamente dominante ditam o que o Estado faz • quando o Estado é autônomo.com seu caracter classista. como parte do aparecimento das diferenças entre os grupos na sociedade e da falta de consenso social. qual seja. a autonomia é sempre relativa.

quando a luta de classes é “congelada” pela incapacidade de qualquer classe em demonstrar seu poder sobre o Estado. a burguesia atribui a tarefa de gerenciar os negócios políticos da sociedade a uma burocracia (que pode ou não ser originada socialmente dos quadros burgueses). Na verdade. reduzida cada vez mais ao estado de um estrato social que atua como agente da classe dominante (PRZEWORSKY. Nesse caso. como instituição. Em tempos excepcionais. como mediador entre elas. Seriam situações específicas. 43 . não são capazes de conquistar o poder (PRZEWORSKY. tema de seu livro “O 18 Brumário de Luís Bonaparte” (1852). 1995). explica porque. Embora a burocracia. quando nenhuma classe tem poder suficiente para governar através do Estado. argumentando que há exemplos históricos. quando a burguesia é fraca. A questão da democracia Marx observou duas facetas na questão da democracia. a fraqueza de seus oponentes. enquanto conjunto de burocratas individuais. tendo assumido o governo depois que todas elas mostraram sua incapacidade de dominar a se esgotaram no processo. 1994). em que a burguesia concede sacrificar seu poder político para manter seu poder econômico e social. é o próprio Estado que domina. mas esta burocracia – em contraposição às primeiras formações sociais – está subordinada à sociedade e à produção burguesas. Para Marx. conseqüentemente de impostos públicos e para a própria elevação do Estado e expansão militar. mas tem suas ações determinadas pelas condições da luta de classe e pela estrutura de uma sociedade de classes. ele depende da burguesia dominante para a acumulação de capital. 1994). Nesse modelo de Estado autônomo. o Estado bonapartista surgiu num período excepcional e se constituiu numa exceção à forma “normal” do Estado burguês. Tais períodos são caracterizados pelo equilíbrio das classes em luta. a burguesia abdica da luta pelo poder político e o Estado se torna autônomo. Assim. as possibilidades de autonomia podem aumentar. coerentemente com seu conceito da natureza de classe do Estado. as classes umas contra as outras onde nenhuma delas tinha forças para reconquistar o poder. Essa condição histórica excepcional permite que a burocracia amplie sua autonomia frente ao controle de classes. Marx argumenta que Luís Bonaparte. O exemplo histórico comentado por Marx seria o bonapartismo. Ainda. . Então. Nessa análise do Império de Luís Bonaparte (1852-1870). está. onde analisa uma forma de governo onde a burguesia se deixa levar quando se vê na emergência de uma crise (CARNOY. a burguesia abdica do poder ou se abstém de tomá-lo porque percebe que seus interesses são melhor servidos se permanecer fora da política (PRZEWORSKY. se o Estado autônomo não muda a configuração do poder econômico. Nesses casos. adquire uma certa autonomia. mais precisamente o golpe de Estado de Napoleão III. seja autônoma frente à burguesia. abrindo mão da representação parlamentar e seus partidos políticos. jogou. de tal forma que o poder de Estado. 1994). o Estado não é instrumento da burguesia. Marx volta a sua conceituação original.negócios privados com sucesso sob a proteção de uma ditadura. nas condições normais do Estado burguês. mas a ambigüidade está justamente na duplicidade desta questão. O equilíbrio de classes é uma condição necessária para a autonomia do Estado: quando a burguesia é forte. ao deixar intocadas as relações de produção. deixando o controle básico dos meios de produção em mãos burguesas.. A condição excepcional de autonomia: equilíbrio de classes A autonomia do Estado frente aos interesses de classe resulta do equilíbrio de classes: esta é a explicação marxista ortodoxa da autonomia expandida do Estado (CARNOY. visto que as duas faces correspondem às duas classes fundamentais que lutam no interior do quadro político de uma sociedade de classes (CARNOY. não sendo dominada por nenhuma classe dominante da sociedade civil. a força de seus oponentes explica porque os custos da luta pelo poder são altos. 1995). 1995). o Estado serve a classe capitalista passivamente.

parlamento. os capitalistas subjugam a economia. pode desenvolver. Os exemplos incluem o comunismo primitivo. já que existem constrangimentos estruturais isto é. e por decorrência o Estado. são para ela recrutados por sua educação e suas relações. o capitalismo. Até a Grande Depressão. Não exista. incluindo prédios e maquinários. manipulando o capital.Assim. na sociedade capitalista. Mas como resultado de seus novos poderes adquiridos. que agora tinham boas razões para tentar influir no Estado. os neomarxistas como Offe e O’Connor concluíram que é possível um fracasso na reprodução – diagnóstico partilhado pelos neoliberais. • meios de produção: as ferramentas. Permeado por interesses privados. mas não intervinha. das massas no Estado. rapidamente perdeu sua capacidade de resistir às pressões de grupos privados. incluindo a extensão das formas democráticas da esfera política para toda a sociedade. A questão da classe dominante Desde que não fica claro. em Marx. naquela época. que interesses privados buscassem controlar o Estado. • poder econômico global: através de seu controle dos meios de produção. o feudalismo. os prédios e o maquinário com os quais os trabalhadores produzem bens materiais para si próprios e para a sociedade. Os conceitos mais utilizados • modo de produção: a mistura das forças produtivas e relações de produção entre as pessoas na sociedade numa determinada época da história. em particular para a acumulação e a legitimação. Estado e economia é obtida mediante o estudo das contribuições de autores neoliberais (ou próximos ao neoliberalismo).manobra do Estado que nenhum governo. a tecnologia e as habilidades de trabalho. razão para. o Estado apenas garantia a operação do mercado. impelindo-as aos extremos democráticos de controle popular a partir da base. • determinação estrutural: o Estado é um instrumento da classe dominante porque. Outra perspectiva pára a relação entre classes sociais. 1994): • origem social. legislativo e judiciário tendem a pertencer à mesma classe ou classes que dominam a sociedade civil. temos que as formas democráticas (eleições. adotando o comportamento e interesses da classe dominante. estruturas previamente construídas que limitam a margem de. Nesse momento.socialismo e o modo de produção asiático • relações de produção: a divisão do trabalho que coloca em movimento as forças produtivas e cuja atividade está relacionada à propriedade e à posse dos meios de produção. mesmo quando não tem sua origem nessa classe. o Estado passou a gerar massivas ineficiências à medida em que respondia a pressões conflitantes. Veio então a Revolução Keynesiana: o Estado adquiriu a capacidade de administrar a economia. pôde evitar ou ignorar. a exemplo de Jalnes Buchanan e Mancur Olson. a saber (CARNOY. a terra.. existe a luta para dar às formas democráticas um novo conteúdo social ou de massas. seus seguidores têm oferecido várias respostas para explicar porque o Estado deveria ser considerado como um instrumento da classe dominante. • forças produtivas: a capacidade produtiva. não pode ser diferente. dada a sua inserção no modo capitalista de produção. a classe dominante é capaz de influenciar as medidas estatais de uma maneira que nenhum outro grupo. 44 . dos membros do sistema de Estado: as pessoas que estão nos mais altos postos dos ramos executivo. multiplicidade de partidos políticos e garantias constitucionais) podem ser instrumentalizadas e utilizadas pela classe dominante como meio de oferecer a ilusão de participação. no caso Buchanan e Olson. Por outro lado. até que ponto o Estado é um agente da classe dominante. enquanto o poder econômico da classe dominante garante a reprodução das relações entre capital e o trabalho na produção. o. que responderam com uma revolução contra o Estado.

necessariamente. uma fazendo lobby a favor e outra contra urna certa tarifa. a partir de apropriação dos excedentes do consumidor. a eficiência não sofre com pela intervenção governamental. gerando ineficiência pela transferência de renda fora do equilíbrio competitivo de mercado. portanto analisa o próprio processo de construção e manifestação de preferenciais eleitorais e seus impactos: na organização dos grupos de interesse e no processo decisório que ocorre a nível governamental. podemos entender que a falácia da composição sustenta que a ação coletiva não é o resultado da mera agregação das preferências individuais. e no final o Governo decide não introduzir essa tarifa. por outro lado. o comportamento dos burocratas (profissionais. todos desperdiçam recursos tentando influenciar o Governo. a lógica da ação coletiva não corresponde aos mesmos padrões de comportamento que regem a racionalidade individual. políticos eleitos e auxiliares nomeados) seria do tipo rent seeking. ou voltado para obtenção de renda. duas conclusões: • as burocracias são inexoravelmente ineficientes. expressa pela falácia da composição. uma vez que tendem a alocar recursos não de acordo com a lógica de máxima eficiência alocativa do mercado. no caso específico desses grupos governamentais.Buchanan desenvolve seu trabalho de análise da crise do Estado contemporâneo a partir da Teoria da rent seeking society. grupos de pressão. ao menos nos grandes agregados. mas que o comportamento do indivíduo em coletividade. gastos eleitorais. visto que ela é simplesmente um desperdício de recursos.) Esse autor que a intervenção governamental gera rendas.monopólicas. agregam para definir a supremacia do mercado sobre a regulamentação pública. Basicamente. ambos profundamente ligados ao paradigma da Escolha Racional. Duas outras razões ainda se. de ampliar seus benefícios e reduzir seus custos. são propensas à expansão de seus próprios recursos. Dessa concepção essencial da natureza humana decorre e da constituição do Governo decorre. mas recursos foram desperdiçados na tentativa de influenciar sua decisão: a própria possibilidade de intervenção é unia causa de desperdício. A postura do autor pede ser exemplificada da seguinte maneira: se duas indústrias gastam recursos com gentilezas a burocratas governamentais. Essa abordagem considera que o mercado é sempre mais eficiente para alocar os recursos do que o Governo. mas de acordo com embates políticos. • as burocracias. formado por indivíduos que. Além disso tudo. motivo que orienta seu comportamento e suas decisões frente ao eleitorado. ela será desperdiçada em atividades improdutivas. na medida em que eles se utilizariam do poder extroverso do Estado precisamente para obter rendas extramercado. assume urna racionalidade peculiar. em última análise. são tão propensos a maximizar os próprios benefícios pessoais quanto quaisquer outros indivíduos. a saber: • que todos os indivíduos tendem a agir no sentido de maximizar sua própria utilidade. que expressa diferentes estratégias para maximizar o interesse de cada um frente às interações que 45 . Essa dura crítica baseia-se em dois postulados essenciais. Sua principal contribuição teórica foi o desenvolvimento dessa diferenciação. sejam eles políticos eleitos ou burocratas nomeados. inspirada por Krueger e Tullock. trabalho com o problema sobre a formulação de decisões coletivas. Para ele. a saber: • as rendas monopólicas gastas pelo Governo • os recursos desperdiçados na tentativa de influencias o governo para fornecer rendas monopólicas (lobby. de forma a ganhar mais. segundo a qual não há espaço para a política. dado que o Governo se absteve de interferir. Essa busca de renda. Olson. ou seja. Se os próprios governantes se apropriam dessa renda. • que o Governo é. Isso posto. corrupção etc. provocaria uma alocação ineficiente de recursos. aqui entendidos tanto os burocratas profissionais de carreira quanto os políticos eleitos e seus assessores nomeados.

mesmo que os interesses de cada um sejam coincidentes e não-competitivos. que sozinho agiria no sentido de proteger seus interesses. Esses são apenas alguns dos exemplos de como a reação aos agregados modifica os comportamentos individuais. • O problema do carona: trata-se de uma decisão que envolve o interesse de agir frente ao custo de participação. agindo isoladamente e supondo um comportamento não-cooperativo por parte dos demais.mas a impossibilidade de compartilhar informações e de prever o comportamento dos demais leva cada membro. inviabilidade ou desespero. Para melhor exemplificar a lógica dessa ação coletiva. o autor examina três situações específicas e as estratégias que se podem adotar em cada uma delas. . deixando que os outros membros do grupo resolvam o problema. busca na verdade induzir outros membros do grupo a assumirem o custo e os riscos do empreendimento coletivo que. prefere não agir. provocando um resultado diverso daquele que decorreria da ação isolada de cada membro do grupo. vai beneficiar o agente que se propõe “a jogar tudo para. certo de que será beneficiado pela ação dos demais mesmo sem atuar. o indivíduo. obtendo o mesmo benefício sem custo algum. sempre dentro do princípio do sujeito racional maximizador dos próprios benefícios. uma vez realizado. • O jogo da galinha: uma situação em que a retirada súbita e explícita da cooperação. a adotar uma atitude nãocooperativa. sob a alegação de desinteresse.. Nessa situação. que leva a uma perda de eficiência e a diminuição dos benefícios que cada um poderia auferir. 46 .o alto”. • O dilema do prisioneiro: ocorre numa situação em que a cooperação produziria o máximo de benefício possível para cada membro individual do grupo.ocorrem no grupo e que podem modificar os comportamentos que seriam adotados isoladamente.