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) talvez venha a se con-


verter no mais importante dentre os clássicos .so-
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"0 fascismo foi a principal invençã'ilRlli lítica do século XX e também a origem


de boa parte de seus sofrimentos. Comotentar compreendersua importância
e seu horror? Seria ele uma filosofia, um movimento, uma experiênciaestéti
ca? O que faz com que Estados e Nações se tornem fascistas?
0 aclamado historiador Robert O. Paxton demonstra que, para compreen
dermos o fascismo, temos que examina-lo em ação -- levando em conta o
que ele fez, e não apenaso que ele dizia ser. Exploraas falsidadese as
características em comumdo fascismo; a base social e política que permi
tiu que prosperasse;seus líderes e suas lutas internas; as diferentes formas
pelas quais se manifestou em diferentes países -- Fiança, Grã-Bretanha, os
Países Baixos, o Leste Europeu e até mesmo na América Latina, como tam
bém na ltália e na Alemanha; de que forma f
Holocausto e, por fim, se o fascisl ind

P342ai
f

ISBN 978-85-7753-0144

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obert O. Paxton, professor emérito
de História Contemporânea da
Columbia University, em Nova York
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e especialista em Europa durante a
Segunda Grande Guerra, durante muitos
anos ministrou cursos universitários sobre A ANATOMIA DO FASCISMO
o fascismo
Quantomais lia e discutia o tema com
seus alunos mais perplexo ficava. Embora
um grande número de monografias bri
Ihantes tratasse de forma esclarecedora
aspectosespecíficosda ltália de Musso-
lini, da Alemanhade Hitler e de outros
casos semelhantes, as obras, comparati
vamente, Ihe pareciam abstratas, estereo-
tipadas e anêmicas
0 presente livro representa uma tenta
uva de trazer a literatura monográfica para
mais perto das discussões sobre o fascis-
mo em gerale de apresenta-lode uma
forma que leve em conta suas variações e
sua complexidade.Tenta descobrir como
ele funcionava. E por essa razão que se
centra mais nas ações dos fascistas que [LIVRO ESGOTADO. DIGITALIZADO SEM FINS COMERCIAIS]
em suas palavras, ao contrário da prática
&
F\ comum. Além disso, um tempo maior que
o normalé dedicado
a seusaliadose
cúmplices,e às maneiraspelas quais es-
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ses regimes interagiam com as socieda-
des que pretendiam transformar.
V Estaobra é um ensaio,não uma ena
clopédia. O autor optou por uma linha
analítica que permite uma comparação
entre movimentos e regimesde graus de
desenvolvimento equivalentes que ajudam
ao leitor a perceber que o fascismo, longe
de ser estático, era uma sucessão de pro
cessos e escolhas: a busca de seguidores
a formação de alianças, a disputa pelo
er e seu exercício
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ê A ANATOMIA DO FASCISMO

Tradução: Patrícia Zímbres e Rauh Zímbres

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'bw. 20600034633

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© RobertO. Paxton

Projeto gráÊco e diagramação: Gregolin

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

P366a

Paxton, Robert O.(Robert Owen), 1932


A anatomia do fascismo
/ Robert O. Paxton ; tradução de Patrícia Zimbres e Paula Zimbres - São Paulo
Paz e Terra, 2007.
]

Para Saram
Tradução de: The anatomy of fascism
Incluibibliograâa
ISBN 978-85-7753-014-4

1. Fascismo. 2. Fascismo - Europa. 1.Título.

rr)'n. R?n q3q


07-0024
07 0024 CDU: 321.74

EDITORA]HZ E TEiIRA S/'A


Rua do Triunfo, 177
Santa [figênia, São Pau]o, SP CEP 01 2] 2-010
Te].:(O11)33378399
E-mail: vendas©apazeterra.com.br
nome Page: www.pazeterra.com.br

2007
Impresso no Brasil / Printed in Brazíl
SUMÁKiO

Prefácio 11

CAPITULOI TntrnH..r.;n
y" 13

A invenção do.fascismo
As imagens do.fascismo 23

Estratégias 37
).

Para onde vamos a partir daqui?

CAPITUL02 A criação dos movimentos fascistas 51

O contexto imediato 57
Raízes intelectuais, culturais e emocionais

As precondiçõesde longo prazo 79


Precursores 83
Recrutamento

Entendendoo.fascismopor meio
de suasorigens 97

CAPITUL03 O Enraizamento 101

Oslascismos que deram certo


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8 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 9

,r
(1) O Vale do PÓ, Itáiia, í 920-1 922 /06 ,acomodação, entusiasmo e terror 224

(2) Schleswig-Holstein, Alemanha, Á "revolução' .fascista $


234
1928-1933
Um.fascismo maloÍlrado: Fiança,
CAPITUL06 O longo prazo: radicalização ou entropia? 245
}924 1940 Qual é o motor da radicalização?
Uma tentativa de explicar o Holocausto 260
outros.fascismos.fracassaúos

Comparações e conclusões
/32 A radicalização italiana: ordem interna,
Etiópia e galé 270
CAPITUL04 A chegadaao poder 151 Kig:lexõeslinais
Mussolini e a Marcha sobre Romã /5/
Hitler e a"conspiração peia escada
CAPITUL07 Outras épocas, outros lugares 283

dosliindos" O.fascismo ainda é possível?

A Europa Ocidental desde1 945 288


O que não aconteceu: eleição, golpe
O Leste Europeu pós-Soviético 308
de Estado e triunfo solo
o.fascismo.fora da Europa 312
A.formaçãode alianças
O que os.fascistas tinham a (oferecer
ao establishment 173 CAPITUL08 O que é o íhscismo? 335
/

A crise pre-:fascista /76 InterpretaçõesconPitantes


Fronteiras 353
Revoluçõesapósa ascensãoao poder:
Alemanha e Itália /78 O que é o.Fascismo? 358

Comparações
e alternativas
363
Ensaio bibliográfico
CAPITUL05 O exercício do poder 197 Índice onomástico 407

A natureza do governo.fascista: o

"Estado dual" e a in#ormidade dinâmica Í97


A queda-de-braço entre os.fascistas e
os conservadores 213

A queda-de-braço entre o Líder e o Partido 2/7


A queda-de-braço entre o Partido e o Estado 220
PREFÁCIO

Durante muitos anos,ministrei cursos universitários sobre o fascismo,


às vezes como seminário de pós-graduação, outras, de graduação. Quanto
mais lia e discutia o tema com os alunos, mais perplexo eu ficava. Emll)ora
um grande número de monografias brilhantes,tratasse de forma esclarece-
dora de aspectos específicos da ltália de Mussolini, da Alemanha de Hitler
e de outros casossemelhantes,as obras sobre o fascismocomo fenómeno
genérico, comparativamente, me pareciam abstratas, estereotipadase anê-
micas.
O presente lido representa uma tentativa de trazer a literatura mo-
nográfica para mais perto das discussõessobre o fascismo em geral e de
apresenta-lo de uma forma que leve em conta suasvariações e sua compõe
xidade. Ele tenta descobrir como o fascismo funcionava. E por essarazão
que se centra mais nas ações dos fascistasque em suaspalavras, ao contrário
da prática comum. Além disso,um tempo maior que o normal é dedicado
a seus aliados e cúmplices, e às maneiras pelas quais os regimes fascistas
interagiam com as sociedadesque eles pretendiam transformar.
Esta obra é um ensaio,não uma enciclopédia. Muitos leitores, prova'
veemente, verão seus temas favoritos serem tratados aqui com maior brevi-
dade do que gostariam. Espero que o que escrevi os induza a outras leitu-
ras. Esseé o propósito dasnotas e do amplo ensaiobibliográ6co crítico.
Tendo trabalhado nessetema em diversas ocasiões,ao longo de muitos
anos, minhas dívidas intelectuais e pessoais são mais numerosas que o nor-
12 A ANATOMIA DO FASCISMO

mal. A FundaçãoRockefeller me permitiu redigir o rascunho dos capítulos


naVilla Serbelloni, às margens do Lago Como, onde os partisansmataram l
Musso[ini, em abri] de ]945. A Eco]e des Hautes Etudes en Sciences So-
ciales de Paria, o lstituto Universitário Europeo de Florença, e algumas
universidades americanas permitiram me testar algumas dessas idéias em INTKOnUÇÃO
suassalasde aula e auditórios. Toda uma geraçãode alunos da Columbia
University questionou minhas interpretações.
Philippe Burrin, Paul Comer, Patrizia Dogliani e Henry Ashby Turner
Jr. generosamente comentaram uma versão anterior deste trabalho. Carol
Gluck, Herbert S. Klein e Ken RuofFleram partes do manuscrito.Todos
me salvaramde erros embaraçosos,e aceitei a maior parte de suassuges
tões. Caso eu tivesse acolhido todas, este livro provavelmente seria melhor. A íxllrrXTr-Àrl Tlr) rAçrlçXXr)
lqrfJLV UV X UV U rXV
Agradeçotambém a ajudade diversostipos prestadapor Drue Heinz, Stu-
art G. Woolf, Stuart Proílit, Bruce Lawder, Carão Moos, Fred Wakeman, O fascismo foi a grande inovação política do século xx, e também a
Jeíh'ey Bale, Joel Colton, Stanley Hoffmann, Juan Linz e às equipes de re- origem de boa parte de seus sofrimentos. As demais grandes correntes da
ferência dasbibliotecas da Columbia University. Os erros que permanece cultura política do Ocidente moderno o conservadorismo,o liberalisiho
ram são de minha exclusiva responsabilidade. e o socialismo-- atingiram forma madura entre fins do século xvin e mea-
E, sobretudo, SarahPlimpton foi firme em seu estímulo e sábiae cri- dos do século xix. Na década de 1890, contudo, o fascismo não havia ainda
teriosa em sua leitura crítica . sido imaginado. Friedrich Engels, no prefácio de 1895 para a nova edição
de d /uta de c/essesna Franç:a, de Karl Marx, deixa claro que acreditava que a
ampliação do eleitorado, fatalmente, traria mais votos para a esquerda. Se
Robert.O.Paxton gundo a llirme crença de Engels, tanto o tempo quanto os números estavam
do [ado dos socia]istas."Se ja crescentevotação socia]ísta]continuar assim,
ao fina[ deste século ]o sécu]o xix], nós [os socia]istas]teremos conquistado
a maior parte dos estratos médios da sociedade, os pequenos burgueses e
os camponeses, transformando-noi na força decisiva do país." "Os conser-
vadores", escreveuEnge]s, "já haviam percebido que a legalidade trabalhava
contra e]es. Ao contrário, "nós ]os socialistas] , sob essa legalidade, :adquiri-
mos músculos rijos, faces rosadas, e a aparência de vida eterna. A eles [os
conservadores] nada resta a fazer senão encontrar, eles também, brechas
t
nessalegalidade"..' Embora Engels previsse que os inimigos da esquerda

1. Friedrich Engels, 1895, prefácio a Karl Marx, The ClassStrugglesin France


(1 848-1850), em TheMaré-EngeJs
leader. ed. Robert C. Tucker, 2. ed. , NovaYork: WW
Norton, 1978,p. 571.
14 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O.PAXTON ' 15

acabariam por lançar um contra-ataque, ele, em 1895, não poderia esperar unidade do Estado.Antes de 1914, de modo geral, íoi a esquerdaque se
que esseataque viria a conquistar o apoio dasmassas.Uma ditadura anties- apropriou do simbolismo do.Bascas
romano. Marianne, o símbolo da Repú-
querdista cercada de entusiasmo popular essafoi a combinação inespe blica Francesa, foi muitas vezes retratada, no século xíx, postando o.fauces,

rada que os fascistasconseguiriam criar no curto espaçode uma geração. para representar a força da solidariedade republicana contra seus inimigos
Os vislumbres premonitórios foram poucos. Um deles partiu de um aristocratas e clericais.' nascesfiguram com proeminência no Sheldonian
jovem aristocrata francêsde índole ínquisitiva, Alexis de Tocqueville. Em- Theater da Universidade de Oxford, de autoria de Christopher Wren, e
boraTocqueville tenha encontrado muito o que admirar em suavisita aos também no Lincoln Memorial deWashington ( 1922), bem como na moeda
EstadosUnidos, em 1831, preocupou-se com o fato de que, numa demo- norte americanade um quarto de dólar cunhadaem 1932.s
cracia, a maioria detinha o poder de impor conformidade pela pressão se Os revolucionáriositalianosusaramo termo.#ascfo
em fins do sécu-
cial , na ausênciade uma elite social independente. lo xlx, para evocar a solidariedade e o compromisso dos militantes. Os
camponesesque se insurgiram contra os senhoresde terra na Sicília, em
O tipo de opressãocom o qual sãoameaçadosos povos democráticos 1893-1894, denominavama si mesmos de os FusoSfcf/iam.Quando, em
não se parecerá com nada antes visto no mundo; nossos contemporâneos fins de 19 14, um grupo de nacionalistasde esquerda,aosquais logo veio a
não encontrariam em sua memória imagem que a ele se assemelhasse.Eu se juntar o pária socialistaBenito Mussolini,õtentou levar a Itália a partici-
mesmo busco em vão uma expressão que reproduza com exatidão a ideia que par da Primeira Guerra Mundial do lado dos Aliados, eles escolheram um
formo dele e que o contenha. As velhas palavras despotismo e tirania não são nome cujo fim era comunicar tanto o fervor quanto a solidariedade de sua
adequadas.A coisa é nova e, portanto, tenho que tentar defini la, já que não campanha:O FascioRivoluzionario d'Azione Interventista (A Liga Revo-
sou capazde nomeá-la.2 lucionária de Ação Intervencionista)'.' Ao fim da Primeira Guerra Mundial,
Mussolini cunhou o termo.#ascfsmo para descrever o estado de ânimo do
Uma outra premonição veio na undécimahora e partiu de um enge- pequenobando de ex-soldadosnacionalistase de revolucionários sindica:
nheiro francês transformado em comentador socia], Georges Sore]. Em listas pró-guerra' que vinha reunindo a seu redor. Mesmo então, ele não
1908, Sorel criticou Marx por não ter percebido que "uma revolução al-
cançadaem tempos de decadência" poderia "tomar como ideal uma volta 4. Ver Maurice Agulhon, Maríanne au cambar:l,'imagerie et /a s7mboJiquerépub/icaine
ao passado,ou até mesmo a conservação social".' de /789 à /880. Paria; Flammarion, 1979, p. 28-9, 108-9, e .Warfanneau pouroir.Paras:
Seuil, 1989,p. 77, 83.
A palavra#ascismotem origem no.Baseioitaliano, literalmente, um feixe
5 . Simonetta Falasca Zamponi, fascisr Specrac/e:Tbe destbefícs o# Poker in Massa/ini's
ou maço. Em termos mais remotos, a palavra remetia ao.#sceslatino, um /[aJg.Berkeley: University of California Press, 1997, p. 95-9.
machado cercado por um feixe de varas que era levado diante dos magis- 6. Mussolini ha\ ia sido figura de destaque na alarevolucionária do Partido Socialista
trados, nas procissõespúblicas romanas, para significar a autoridade e a Italiano, hostil ao reformismo e desconfiadadas concessõesfeitas pela ala parlamentar
do partido. Em 1912, com apenas29 anos, ele se tornou editor do jornal do part:ido,
dvan i. Foi expulso do partido no outono de 19 14 por sua maioria pacifista, por defender
a entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial.
2. Alexis deTocqueville, Democrac7
fn .4merfca,traí . , ed. e antro. de Harvey C. Mans-
fleld e Delba Winthrop. Chicago; University of Chicago Press, 2000, p. 662, v. 11,parte 7. Píerre Milza, MussoJini.Pauis:Fayard, 1999, p. 174, 176, 189, Já em 191 1, Mus
4,cap.6. ' solini chamavade.#ascfoo grupo socialista liderado por ele. R. J. B. Bosworth, Musgo/ini.
3. GéorgesSorel, RePections
on rlo/ente.Cambridge: Cambridge Uníversity Press, Londres:Arnold, 2002,p. 52
1999,P.79-80. 8. O termo é explicado nas p. 17-18.
16 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBE]RT O.PAXTON 17

possuíao monopólio da palavra.Baseio,


que continuou sendo de uso geral técnica das fábricas", e a "expropriação parcial de todos os tipos de rique
entre grupos ativistas de diversos matizes políticos.' za", por meio de uma tributação pesadae progressiva do capital, o confisco
Oficialmente, o fascismonasceuem Milho, em um domingo, 23 de de certos bens da Igreja e de 85 % dos lucros de guerra.':
março de 1919. Naquela manhã, pouco mais de cem pessoas,:'entre elas O movimento de Mussolini não se restringia ao nacionalismo e aos ata-
veteranos de guerra, sindicalistasque haviam apoiado a guerra e intelec- quesà propriedade, masfervilhava também de prontidão para atosviolen-.
tuais futuristas,'' além de alguns repórteres e um certo número de me- tos, de antiintelectualismo, de rejeição a soluções de compromisso e dé
ros curiosos,encontraram-sena salade reuniõesda Aliança Industrial e desprezo pela sociedadeestabelecida, características essascomuns aos três
Comercial de Milão, cujasjanelas se abriam para a Piazza San Sepolcro, grupos que constituíam a massade seusprimeiros seguidores-- veteranos
para "declarar guerra ao socialismo (. . .) em razão de este ter-se oposto ao de guerra desmobilizados, sindicalistas pró-guerra e intelectuais futuristas.
nacionalismo". i2 Nessa ocasião, Mussolini chamou seu movimento de nasci Mussolini - ele mesmo um ex-soldado que se gabavade seus quarenta
di Combattimento, o que significa, aproximadamente, "fraternidades de ferimentos'' -- esperavavoltar à política como líder dos veteranos.Um
combate" sólido núcleo central de seusseguidores provinha dos Arditi unidades de
O programa fascista, divulgado mesesmais tarde, era uma curiosa mis- combatentes de elite, calejadospor experiência de linha de f'rente, e que se
tura de patriotismo de veteranos e de experimento social radical, uma es- sentiam no direito de governar o país que eles haviam salvo.
pécie de "nacional-socialismo". Do lado nacionalista, ele conclamava pela Os sindicalistas pró-guerra haviam sido os companheiros mais próxi:
consecução dos objetivos expansionistas italianos nos Bálcãs e ao redor do mos de Mussolini durante a luta para levar a ltália à guerra, em maio de
Mediterrâneo, objetivos essesque haviam sido frustrados mesesantes, na 1915. Na Europa anterior à Primeira Guerra Mundial, o sindicalismo era
Conferência de Pazde Paria. Do lado radical, propunha o sufrágio feminino o principal rival da classetrabalhadora do socialismo parlamentar. Embo-
e o voto aos dezoito anos de idade, a abolição da câmara alta, a convocação ra, por vo]ta de ] 914, a maioria dos sindicalistasestivesseorganizadaem
de uma assembleiaconstituinte para redigir a proposta de uma nova cons- partidos eleitorais que competiam por cadeirasno parlamento, estesainda
tituição para a Itália (presumivelmente sem a monarquia), a jornada de mantinham suas raízes sindicais. Os socialistas parlamentares trabalhavam
trabalho de oito horas, a participação dos trabalhadores na "administração por reformas pontuais, enquanto esperavampelos desdobramentos históri-
cosque tornariam o capitalismoobsoleto, tal como profetizado pelos mariÍ
xistas, ao passo que os sindicalistas, desdenhando as concessõesexigidas
9. Depois da derrota dos exércitos italianos em Caporetto, em novembro de 1917, pela açãoparlamentar, e também o fato de a maioria dos socialistasestar
um grande grupo de deputados e senadoresliberais e conservadores formou um.#scio comprometida com a evolução gradual, acreditavam que poderiam derru-
par/amentare di dlBesanaziona/e, que buscava mobilizar a opinião pública em defesa dos
bar o capitalismo com a força de sua vontade. Concentrando-se na meta
esforçosde guerra.
10. A lista se expandiu mais tarde, com acréscimosoportunistas, quando pertencer
ao grupo dos f\mdadores T os sansepoJcristi passou a ser vantajoso. Renzo de Felice,
,russo/inii] rira/uzionario, ] 883- / 920. Turim: Einaudi, 1965, p. 504. 13. Texto de 6 de junho de 1919, em De Felice, Massa/inii/ rivoJuziongrfo,
p 744-
11. 0 termo é explicado na p. 18. 45 . Versões inglesas em Jeffrey T. Schnapp, ed. , d Primor oÍ /ta/ian Fascfsm. Lincoln, NE:

12. Uma versão em inglês dos discursos proferidos por Mussolini naquele dia floi University of Nebraska Press, 2000, p. 3-6, e Delzell, p. 12-3.
pub[icada em Char]es F. De]ze]], Medifer/aneanEascism,
/ 9] 9-/ 945. NovaYork: Harper & 14. Mussolini chegou a essenúmero auto-engrandecedor contando cadaum dos es-
Row, 1970, p. 7 1 1. Os relatos mais completos são De Felice, Musgo/infi/ rira/uzionario, tilhaços, grandes e pequenos, que o feriram em fevereiro de 1917, durante um exercício
p. 504-9, e Milza, Massa/ini,p 236-40. de treinamento com um lançador de granadas.
18 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBE]RT O.PAXTON 19

revolucionária final, mais que nasreivindicações corriqueiras de cadasetor Em 1914, eles haviam ansiado pela aventura da guerra, e continuaram a
da classetrabalhadora, eles seriam capazesde formar "um grande sindicato" .anuirMusso]iniem ] 9] 9
e provocar a queda do capitalismo de um só golpe, numa gre'ç'egeral de Uma outra corrente intelectual que fornecia recrutas a Mussolini con-
proporções monumentais. Após a derrocada do capitalismo, os trabalhado sistia daqueles que criticavam as vergonhosas concessõesdeitaspelo par- y

res organizados internamente em seuspróprios sindicatos permaneceriam lamentarismo italiano, e que sonhavamcom um "segundo Risoqimento". ';
como as únicas unidades funcionais do sistema produtivo e do sistema de O primeiro Rísorgimenfo,a seu ver, havia deixado a Itália nas mãos de uma
trocas, numa sociedadelivre e coletivista.'s Em maio de 1915, quando a oligarquia estreita, cujos insensíveisjogos políticos não conduziamcom o
totalidade dos socialistasparlamentarese a maioria dos sindicalistasitalia- prestígio cultural da Itália, nem com suasambiçõesde Grande Potência.
nos opunham-se veementemente à entrada da ltálía na Primeira Grande Era hora de concluir a "revolução nacional" e de dar à Itália um "novo Esta-
Guerra, uns poucos espíritos ardorosos, reunidos em torno de Mussolini, do", capazde convocar líderes enérgicos,cidadãosmotivados e a comuni-
concluíram que a guerra levaria a Itália para mais perto da revolução social dade nacional unida que a Itália merecia. iVíuitos.dessesdefensores de um
do que aconteceriase o paíspermanecesseneutro. Eleshaviam se tornado "segundo Risoqimento" escreviam para a revista cultural florentina Z. a moca,
os "sindicalistas nacionais".iú da qual o jovem Mussolini era assinante,e com cujo editor, Giusepe Pre
O terceiro grupo ligado aosprimeiros fascistasde Mussolini era com- zzolini, ele se correspondia. Após a guerra, a aprovação da revista conferiu
posto de jovens intelectuais e estetas antiburgueses,como os futuristas. respeitabilidade ao movimento fascista nascente e difundiu entre os nacio-
Os futuristas eram uma associaçãolivre de artistas e escritores que apoia- nalistas de classe média a aceitação de uma "revolução nacional" radical. '$
vam os"ManifestosFuturistas"de Filippo TomasoMarinetti, o primeiro Em 5 de abril de 1919, pouco depois da reunião inaugural do fascis-
dos quais fora publicado em Paris, em 1909. Os seguidoresde Marinetti mo, realizadana PiazzaSan Sepolcro, um grupo de amigos de Mussolini,
repudiavamo legado cultural do passadoreunido nosmuseuse nasbiblio- incluindo Marinetti e o chefe dosArditi, FerruccioVecchi, invadiram o es-
tecas e exaltavam asqualidades libertárias e vítalizantes da velocidade e da critório do jornal socialistadvantf,em Mi]ão, do qual o próprio Musso]ini
violência. "Um carro de corrida é mais belo que aVit6ria de Samotrácia."'' havia sido editor, entre 191 2 e 1914. Eles destruíram todo o equipamento.
Quatro pessoasforam mortas, inclusive um soldado, e trinta e nove ficaram
15. Uma útil introdução ao sindicalismo é Jeremy Jennings, Syndica/ismin France;d feridas.:' O fascismoitaliano, dessemodo, irrompeu na história por meio
Srud7o#/dias.Londres: Macmillan, 1990. O sindicalismo revolucionário era mais atraen de um ato de violência contra não apenaso socialismo como também con:
te para os trabalhadores fragmentados e mal organizados da Espanhae da Itália do que
tra a legalidade burguesa, em nome de um pretenso bem nacional maior.
para os numerosos e bem-organizados trabalhadores do norte da Europa, que obtiveram
O fascismo recebeu seu nome e deu seus primeiros passos na Itália.
ganhos com a legislação reformista e com greves táticas em apoio a reivindicações espe'
cínicasao local de trabalho. Na verdade, ele deve ter atraído mais intelectuais do que tra- Mussolini. entretanto. não era um aventureiro solitário. Movimentos se
balhadores. Ver Peter N. Stearns, Raro/ufionay Syndica/fsmand FrencbZ,apor;Causewftbout meliantes vinham surgindo na Europa do p6s-guerra, independentesdo
Rege/s.New Brunswick. NJ: Rutgers ].Jniversity Press, ] 971 .
16. Zeev Sternhell et al. TbeBirra o#Fuscist
/deo/ogr.Princeton: Princeton University
Press, 1994, p. 160ff; David Roberts, TAeSyndicaJistbraditfon and /[a/ian Fascfsm.Chapel 18. O primeiro Msoqimento,ou renascimento, inspirado pelo nacionalismo huma-
Hall; University of North Carolina Press, 1979; Emilio Gentile, Le origina de//'idem/agia nista de Giuseppe Mazzini, havia unido a Itália entre 1859 e 1870.
Jascísta.Bari: Laterza, 1975, p. 134-52. 19 . Emilio Gentile, // mito de//ostaff nutro da//'antigio/ifffsmo a/.fascismo.
Bati : Later-
17. Publicado no diário parisiense LeFiguroem 15 de março de 1909. Citado aqui a za, 1982; Walter Adamson, dran -tarde F/orence;From Modernlsmto Fuscism.Cambridge,
partir de Adrian Lyttelton. ed. , /ta/ian Fuscisms; From Farelo [o Gente/e. NovaYork: Harper MA: HarvardUniversityPress,1993.
Torchbooks,1973,p.211. 20. De Felice, Musgo/infi/ rira/uzionarfo, p- 52 1.
20 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBElqT O.PAXTON 21

fascismo de Mussolini, mas expressando a mesma mistura de nacionalismo, tendas no interior da nação".22O romancistaThomas Mann, em 27 de mar-
anticapitalismo, voluntarismo e violência atavacontra seusinimigos, tanto ço de 1933, dois meses após Hitler ter se tornado Chanceler da Alemanha,
burgueses quanto socialistas. (Tratarei de maneira mais completa, no capí- anotou em seu diário que ele havia testemunhado uma revolução jamais an-
tulo 2 , da longa lista dos primeiros fascismos). tes vista, uma revolução "sem idéias que a embasassem, contrária às idéias,
Pouco mais de três anos após a reunião da Piazza San Sepolcro, o Par- contrária a tudo o que há de mais nobre, de melhor, de mais decente, con-
tido Fascistade Mussolini ocupavao poder na ltália. Onze anosmais tarde, trária à liberdade, à verdade e à justiça". A "ralé comum" havia tomado o
um outro partido fascistatomou o poder na Alemanha.2'Não demorou poder, "cercada de grande Júbilo por parte das massas".:;
muito para que a Europa, e até mesmo outras regiões do mundo, fervilhas- Em seu exílio interno em Nápoles, o eminente filósofo-historiador e
sem com aspirantes a ditador e marchas de esquadrõesque acreditavam liberal italiano, Benedetto Croce, observou desdenhosamente que Musso-
estar trilhando o mesmo caminho para o poder que Mlussolini e Hitler. Em lini havia acrescentadoum quarto tipo de mau governo -- a "onagrocracja",
outros seis anos, Hitler havia jogado a Europa numa guerra que acabaria o governo dos asnos zurrantes aos três famosos tipos descritos por Aris-
por tragar grande parte do mundo. Antes de ela chegar ao 6lm, a humanida- t6teles: a tirania, a oligarquia e a democracia.24.Croce, mais tarde, concluiu
de havia sofrido não apenasasbarbaridades costumeiras dasguerras, desta que o fascismo fora apenasum "parênteses" na história italiana, o resultado
vez alçadasa uma escalasem precedentespela tecnologia e pela paixão, temporário de um declínio moral agravadopelos deslocamentosda Pri-
mas também a tentativa de extinguir, por meio de um massacreem escala meira Grande Guerra. Fríedrich Meineke, historiador alemão de tendência
industrial, todo um povo, suacultura e suaprópria memória. liberal, pensou de forma semelhante, após Hitler ter levado a Alemanha
Ao ver Mussolini-- ex-mestre-escola,boêmio, escritor menor e, em à catástrofe, que o nazismo havia surgido de uma degeneraçãomoral na
épocas anteriores, orador e editor socialista -- e Hitler -: ex-cabo do exérci- qual técnicos ignorantes e superficiais, os MacÀrmenscben,apoiados por uma
to e estudante de arte fracassadoL, cercados por seusrufiões encamisados, sociedade de massassedenta por excitação, haviam triunfado sobre os hu:
governar Grandes Potênciaseuropeias, muitas pessoaseducadase sensíveis manistas equilibrados e racionais, os Ku/turmenscÀen.:5 A solução, na opinião
supuseram, simplesmente, que "uma horda de bárbaros (. . .) armou suas de ambos os autores, era restaurar uma sociedade onde o governo estivesse
nasmãos dos "melhores"
21. Há um intenso debate sobre se o Partido Nazista era "f'ascista"ou se ele era
algo suí generis. Mais adiante, explicaremos por que consideramos o nazismo uma forma 22. Palaxl'asdo próprio Mussolini, zombando da incapacidade de seusinimigos de
de fascismo. Por ora, observamos simplesmente que Hitler mantinha um monumental compreender "a nobre paixão da juventude italiana". Discurso proferido em 3 de janeiro
busto do Doceem seu gabinete na sede do partido nazista,na CasaMarrom , em Munique de 1 925 , em Eduardo e Dui]io Susme], eds. , Opera Omnia dí ]3enito Mussolinf. Florença; La
([an Kershaw, f]it/er /889-]936: Hubrfs. NovaYork; Norton, 1999, p. 343). Mesmo no Fenice,1956,v.xxi, 238fT.
auge do poder nazista, quando a maior parte destes preferia não dar precedência à Itália 23. Thomas Mann, Diárias / 9/ g-/ 939, seleçãoe prefácio de Herman Kesten, trad.
ao rotular a Alemanha de "fascista", Hitler ainda definia a si mesmo como "sincero admi- do alemãopor Richard e ClaraWinston. NovaYork: H. N. Abrams, 1982, p. 136 e se-
rador e discípulo" de Mussolini. Uma carta contendo essestermos, remetida ao nuca em guintes. A repugnância que Mann sentia pelo "barbarismo" nazista não o impediu de
2 1 de outubro de 1942, no ügésimo aniversário da Marcha sobre Romã, foi publicada coMessar,em 20 de abril de 1933, um "certo grau de compreensão da rebelião contra o
em Meir Michaelís,"I rapporti fra fascismoe nazismoprima dell'a\ vento di Hitler aJpo' elemento judeu" (p. 153).
tere(1922-1933)", MvfstaS trica /ta/lama,-v.
85, n. 3, p. 545, 1973.A análisemaisrecente 24. Citado em Alberto Aquarone e Maurizio Vernassa,eds., // regime.fascista.
Bolo-
dos laços existentes entre Hitler e Mussolini é de Wolfgang Schieder, "The German Right nha: ll Mulino, 1974, p. 48.
and Italian Fascism",em Hans Mommsen, ed. , 7'heThird ReicbBetween
Usfon'and Rea/ig: 25 . Fríedrich Meinecke, Die deutscbe Karasrropbe. Wiesbaden : Brockhaus, 1946, trad .

Nen'Perspectives
on GermanHfstory.Oxford; Berg, 2001, p. 39 57. como 7heGermanCatasrropbe.
Cambridge, MA: Harvard University Press,1950.
r

22 AANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 23

Outros observadores,desdeo início, perceberamque a questãoera É objetivo deste livro propor uma nova maneira de encarar o fascismo,
mais profunda que a ascensãofortuita de meliantes, e mais precisa que a l de modo a resgatar o conceito para usos significativos e explicar melhor seu
decadênciada antiga ordem moral. Os marxistas,as primeiras vítimas do fascínio, sua complexa traJetória hist(trica e seu horror fundamental.
nazismo, estavam acostumados a pensar a história como o desdobramento
AS IMAGENS DO FASCISMO
grandioso de processos profundos, por meio do entrechoque de sistemas
económicos.,Mesmoantesde Mussolini ter consolidadopor completo seu
poder, os marxistas já tinham pronta sua definição para o fascismo, "o ins- Todos têm certeza de que sabem o que o fascismo é. Na mais expli-
trumento; da grande burguesia em sua luta contra o proletariado, sempre citamente visual de todas as formas políticas, o f'ascismose apresentaa
que os meios legais disponíveis ao Estado mostram-se insuficientes para n6s por vividas imagens primárias: um demagogo chauvinista discursan-
conto-lo".2õ No tempo de Stálin, essadefinição enrijeceu-se numa formula do bombasticamentepara uma multidão em êxtase; fileiras disciplinadas
férrea, que se transformou na ortodoxia comunista vigente por meio sécu- de jovens desfilando em paradas;militantes vestindo camisascoloridas e
lo: "0 fascismo é a ditadura explícita e terrorista dos elementos mais rea- espancando membros de alguma minoria demonizada; invasões-surpresa
cionários, mais chauvinistas e mais imperialistas do capital financeiro".27 ao nascer do sol e soldados de impecável forma física marchando por uma
Ao longo dos anos, muitas outras interpretações e definições viriam cidade capturada.
a ser propostas,mas, até hoje, mais de oitenta anosapósa reunião de San Se examinadas mais de perto, entretanto, algumas dessas imagens fk

Sepolcro, nenhuma delas alcançou aceitação universal como sendo uma milhares podem induzir a erros irrefletidos. A imagem do ditador todo-po
explicação totalmente satisfatória para um fenómeno que, aparentemente, deroso personaliza o fascismo, criando a falsa impressão de que podemos
surgiu do nada, tomou múltiplas e variadas formas, exaltou o ódio e a vio compreendo-lo em suatotalidade examinando o líder, isoladamente. Essa
lência em nome da superioridade nacional e, entretanto, conseguiuatrair imagem, cujo poder perdura até hoje, representa o derradeiro triunfo dos
estadistas,empresários, profissionais, artistas e intelectuais de prestígio e propagandistas do fascismo. Ela oferece um álibi às nações que aprovaram
cultura. No capítulo 8, após termos alcançado uma maior compreensão de ou toleraram os líderes fascistas, desviando a atenção das pessoas,dos gru-
nosso tema, irei reexaminar essasmuitas interpretaç(ies pos e das instituições que lhes prestaram auxílio. Necessitamosde um mo-
Além disso. os movimentos fascistasvariaram de forma tão evidente delo mais sutil do fascismo, que examine as interações entre o Líder e a
de um contexto nacional para outro que há quem chegue a duvidar de que Nação, e entre o Partido e a sociedade civil.

o termo.fascismodefato signifiquealgoalém deum rótulo pejorativo.Esse As imagens das multidões cantando hinos alimenta a suposição de que
epíteto é usado de forma tão vagaque praticamente qualquer pessoaque alguns povos europeus eram, por natureza, predispostos ao fascismo, e res-
detenha ou alegue autoridade já foi tachada de fascista por alguém. Talvez, ponderam a ele com entusiasmo devido a seu caráter nacional. O corolário
como fazem os céticos, fosse melhor simplesmente descartar o termo." dessaimagem é uma crença condescendente de que o fascismo foi gerado
pelas mazelasda história de determinadas nações,2P
crença essaque se con-

26. Resolução da Internacional Comunista, em julho de 1924, citada em David Be-


etham, ed . , Marxlsts in Face o#Fascism:Wrifings by Marxfsts on Enscfs-mFrom tbe/nrerwar Period.
29. Algumas obras dos anos 1940, coloridas com propagandado período da guerra,
Manchester: University of Manchester Press, 1983, p. 152-3. viam o nazismo como um desenvolvimento lógico da cultura nacional alemã. Ver, entre
27. Roger Grirfin, ed., Éuscfsm.
Oxford: Oxford University Press, 1995, p. 262 outros,\N. M.. McGovem , FromLuther to Hitler: TheHistory ofFascist Nazi PoliticasPhilosophy.
28. O maior cético é Gilbert Allardyce, "What Fascismis not: Thoughts on the de- Boston : Houghton Mifnin, 1941 ; e Rohan d' Olier Butler, llb&-Raalwf..NatünaLSílciaZisa,
flation of a concept", ÃmericanHistorfca/Rerfew,v. 84, n. 2, p 367-88, abr. 1979. NovaYork: E. P Dutton, 1942. O principal exemplo h'ancêsé Edmond-JoachimVermeil,
24 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O. PAXTON 25

verte num álibi para os paísesespectadores: isso jamais aconteceria aqui. no capítulo 8. Dessemodo, é problemático considerar o anta semitismo
Para além dessas imagens familiares, num exame mais cuidadoso, a reagi exacerbadocomo a essênciado fascismo."
dade fascistatorna-se ainda mais complexa. Por exemplo, o regime que alma outra característica supostamente essencialdo fascismo é seu âni-
inventou a palavrafascismo a ltália de Mussolini mostrou poucos sinais mo anticapitalistae antiburguês.Os primeiros movimentosfascistasos-
de anta-semitismo até ter ocupado o poder por dezesseis anos. Na verdade, tentavam seu desprezo pelos valores burgueses e por aqueles que queriam
Mussolini contava com o apoio de industriais e proprietários de terra ju- apenas"ganhar dinheiro, dinheiro, imundo dinheiro".ss Atacavamo "capi-
deus, que, nos primeiros tempos, Ihe forneceram ajuda financeira.30 Alguns talismo financeiro internacional" com quase a mesma veemência com que
de seusamigos mais próximos eram judeus, como o militante do Partido atacavam os socialistas. Chegaram a prometer expropriar os donos de lojas
FascistaAmo Finzi, e ele teve uma amantejudia, a escritora Margherita de departamentos em favor de artesãospatrióticos, e os grandes proprietá-
Sarfatti, autora de suaprimeira biograHlaautorizada.:' Cerca de duzentos rios de terras em favor dos camponeses."
judeus participaram da Marcha sobre Romã.3: Por outro lado, o governo Quando os partidos fascistaschegaram ao poder, entretanto, eles nada
colaboracionista ü'ancês deVichy (1 940 1944), encabeçado pelo Marechal fizeram para cumprir essasameaçasanticapitalistas. Puseram em prática
Pétain, era agressivamenteanta-semita,embora, sob outros aspectos,pres- com extrema e eficaz violência suas ameaças contra o socialismo. Brigas
te-se mais à classificaçãode autoritário33 que de fascista, como veremos de rua em que os fascistasdisputavam território com jovens comunistas

I'd//emagne;Estaid'exp/icatfon.Pauis:Gallimard, 1940. O exemplo contemporâneo mais 34. Paraalguns autores, o anta-semitismo é o cerne da questão; eu o vejo como ins
deprimente é Daniel Jonah Goldhagen, file/er's Wi//ing Execufoners.Nova York: Knopf, trumental. Hannah Arendt, .Origenso/'Lota/frarianism, ed. rev. NovaYork: Harcourt, Brace
1996, deprimente porque o autor deturpou um valioso estudo sobre o sadismo do baixo andWorld, 1966, entende que as raízes do totalitarismo surgem da fermentação de uma
escalão dos responsáveis pelo Holocausto e o transformou assim numa demonização pri mistura de anta-semitismo,imperialismo e uma sociedadede massaatomizada.Ela não
motiva de todo o povo alemão, camuflando o fato de que muitos dessescúmplices eram acreditava que a Itália de Mussolini fosse totalitária (p. 257 9, 308).
não-alemães,e também que havia alguns alemãesde índole humanitária. 35. Otto Wagener, chefe do Estado-Maior dos SAe chefe do departamento de po-
30. Alexander Stílle, Benevo/enteand Betraga/;Fira /[a/ian Jen'isbEami/iesUnderFascfsm. lítica económica do NSDAP até 1933, citado em Henry A. Turner, ed. , fIlE/er aus ndcbster
NovaYork: Penguin, 1993, oferece exemplos interessantesde judeus ricos que atuavam Nlíbe.Frankfurt am Main: Ullstein, 1978, p. 374. Wagener quase se tornou minisb-o da
como financiadores emTurim e Ferrada, embora também houvesse judeus nas fileiras da Economia em junho de 1933.Ver capítulo 5, p. 243.
resistência antifascista, notadamente no movimento Giusfizia e J.ibertà.Quando foram 36. No Ponto 17 de seus25 Pontos, divulgados em 24 de fevereiro de 1920,lls
decretadasasleis raciais italianas, em 1938, um em cada três judeus italianos adultos era nazistasprometiam a redistribuição das terras (Jeremy Noakes and Geoffrey Pridham,
membro do Partido Fascista(p. 22). Nazism / 9/ 9 ] &45, v. ]: The Rija to Pon'er, ] 9 í 9-/ 934. Exeter: University of Exeter Press,

31. Philip V. Canistraroe Brian R. Sullivan,// DucekOtherWoman.


NovaYork: Mor 1998, p. 15). Esseé apenasum dos 25 Pontos "inalteráveis" que Hitler, mais tarde, alte-
row- 1993: rou de forma explícita quando,após 1928, passoua dedicar maior atençãoao recrutar
32 . Susan Zuccotti, The /ta/ians and tbe Ho/ocaust: Persecution, Rescue, Sorrira/.; Nova para seu movimento camponeses dedicados à agricultura familiar. A ordem de 6 de mar
York: BasicBooks, 1987, p. 24. ço de 1930, que "completava" o Ponto 17 e aGirmax-aa inviolabilidade da propriedade
33. As ditaduras autoritárias governam por meio de forças conservadoraspreexis- agrícola privada(com exceção de propriedade de judeus) está em Hit/er Redes,ScbrÚen,
tentes (as igrejas, os exércitos, os interesses económicos organizados) e buscam desmo ,4nordnungen,
Eebruar/ 925 blslanuar / 933, editado pelo Institut ftir Zeitgeschchte. Mu-
balizar a opinião pública, ao passo que os fascistasgovernam por nleío de um partido nique: K. G. Saur,1995, v. m, parte 3, p. 115-20. Uma versãoem inglêsapareceem
único e tentam gerar entusiasmo público. Discutiremos essadistinção mais detidamente Normal Baynes, ed., TheSpeecbesq/]dog'Hft/er.Oxford: Oxford UniversityPress,1942,
no capítulo 8,p.358-362. v.l,P. 105. '
26 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBEltT O.PAXTON 27

constavam entre suas mais poderosas imagens de propaganda." Ao tomar contudo, referiam-se a ser débil e individualista demais para fortalecer a
o poder, proibiram as greves, dissolveram os sindicatos independentes, re nação, e não a roubar a classe trabalhadora do valor agregado por seu tra-
duziram o poder de compra dos saláriosdos trabalhadorese despejaram balho. O que o fascismo criticava no capitalismo não era sua exploração,
dinheiro nas indústrias armamentistas, para a imensasatisfaçãodos patrões. mas seu materialismo, sua indiferença para com a nação e sua incapacidade
Diante dessesconflitos entre palavrase atos, no que se referia ao capi- de incitar asalmas." Em um nível mais profundo, elesrejeitavam a ideia de
talismo, os estudiosos chegaram a conclusões opostasi.,Alguns, tomando que as forças económicas são o motor básico da história. Para os fascistas, o
literalmente as palavras, consideram o fascismo uma forma radical de anti- capitalismo falho do período do entreguerras não necessitavaser reordena-
capitalismo.38 Outros, e não apenas os marxistas, adotam a posição diame- do em seusfundamentos. Suasmazelaspoderiam ser curadaspela simples
tralmente oposta, de que os fascistasvieram em socorro do capitalismo em aplicaçãode vontade política para a criação de pleno emprego e produti-
apuros, dando sustentação,por meio de medidas emergenciais, ao sistema vidade.': Uma vez no poder, os regimes fascistasconfiscaram propriedade
vigente de distribuição da propriedade e de hierarquia social. apenasde seusopositores políticos, dos estrangeiros e dos judeus. Nenhum
Este livro adota a posição de que o que os fascistas.,fzeramé, no míni- deles alterou a hierarquia social, exceto para catapultar alguns aventureiros
mo, tão informativo quanto o que disseram. O que disseramnão pode ser a posições de destaque. No máximo, eles substituíram as forças de merca-
ignorado, é claro, pois nos ajuda a entender o fascínioexercido por eles. do pela administração económica estatal, mas, em meio às dificuldades da
Mesmo em sua forma mais radical, contudo, a retórica anticapitalista do Grande Depressão,a maior parte dos empresários, de início, apoiou essa
fascismo era seletiva. Ao mesmo tempo em que denunciavam as finanças medida. Seo fascismoera"revolucionário", ele o era num sentido especia!,
especulativasinternacionais (juntamente com todas as outras formas de bem distante da acepçãoque se costumava dar a essapalavra entre 1789 e
internacionalismo, cosmopolitismo' ou de globalização), respeitaram as 1917, de uma profunda subversãoda ordem social e da redistribuição do
propriedades dos produtores nacionais, que deveriam vir a se constituir na poder social, político e económico.
base social de uma nação revigoradaàj9; Suasdenúncias contra a burguesia, ~:'\ No entanto, o fascismono poder de fato instaurou algumasmudanças
profundas o suficiente para serem chamadas de "revolucionárias", se nos
dispusermos a dar a essetermo um outro significado. Em seu desenvolvi-
37. Eve Rosenhaft, Bcating tbe Enscists?
7be German Communisrsand Poli ica/ rfo/anca, mento máximo, redesenhouasfronteiras entre o privado e o público, redu-
/ 929-/ 933. Cambridge: Cambridge University Press, 1983. O hino nazista,"HorstWes-
sel Lied" (Cançãode HorstWessel), falavada memória de uln jovem rufião nazista morto
numa briga dessetipo, omitindo o fato de que o motivo da briga foi uma rixa com sua a base da renovaçãoda nação, ver Sternhell et al., Birra, p. 12, 106, 160, 167, 175,
senhoria..Ver Peter Longerich, Die braunenatal//one;Gescbicbre
der SH.Munique: C. H. 179. 182. 219
Beck,1989,p. 138. 40. Os autores, que confundem essasduas formas muito diferentes de ser antibur
38. "Se ha\ ia uma coisa com a qual todos os fascistas e nacional socialistas concor: guês, simplesmente fazem uma leitura desatenta. Um exemplo recente é a afirmação
davam, era sua hostilidade ao capitalismo".. Eugen Weber, Harieties
o/'Fascism.
NovaYork : do grande historiador da Revolução Francesa,François Furet, em repúdio a sua própria
Van Nostrand, 1964, p. 47. beber notou, é claro, que o oportunismo limitava o efeito juventude comunista, de que tanto o fascismo como o comunismo surgem de uma auto
prático dessahostilidade. Ver também EugenWeber, "Revolution? Counter Revolution? aversão comum entre os burgueses jovens. Ver 7'he Passa-g oÍa« ///usion;7he /dea o#Comm«-

What Revolution?",./Duma/o#Conremporary Hfstory, v. 9, n. 2, p. 3-47, abr. 1974, , reedi- nism in tbe 7iwenrfetb Cenfury. Chicago; University of Chiçago Press, 1999, p 4, 14.
tado em Walter Laqueur, ed. , Euscfsm:A leader'sCuide.Berkeley; Los Angeles: University 41 . T. W Mason,"The Primacy of Politics'4 Poliücs and Economicsin National
of California Press, 1976, p. 435 67., Socialist Germany", em Jane Caplan, ed., Nazism,Fascismand rbeMor&ingC/ass;Essays
by
39. Sobreo fato de Mussolini, bem cedo, ter abandonadoo termo proletaria- 7}m MaJoR.Cambridge: Cambridge University Press, 1995, p. 53-76. (Publicado pela
do, substituindo-o por "forças produtivas", para designara camadasocial que seria primeira vez em alemão em Das.4r#umenr,
v. 41 , dez. 1966)
ROBERT O.PAXTON 29
28 A ANATOMIA DO FASCISMO

Sobre uma coisa, entretanto, os fascistas tinham clareza: não se situa-


zindo drasticamente aquilo que antes era intocavelmente privado.Transpor
mou a prática da cidadania, do gozo dos direitos e deveres constitucionais vam no Centro.Tinham um desprezo absoluto pela suavidade,pela compla-
à participação em cerimónias de massade afirmação e conformidade. Re- cência e pelas soluções de compromisso do Centro (apesar de os partidos
formulou asrelações entre o indivíduo e a coletividade, de forma a que um fascistas,na sualuta pelo poder, terem precisado se aliar às elites centristas
indivíduo não tivesse qualquer direito externo ao interesse comunitário. contra o inimigo comum representadopela esquerda).Seudesdémpelo
Ampliou os poderesdo executivo -- do partido e do Estado na buscapelo parlamentarismo liberal e pelo displicente individualismo burguês, assim
como o tom radical dos remédios preconizados por eles para a fraqueza e a
controle total. Por fim, desencadeou emoções agressivas que, até então,
desunião nacionais, sempre se chocava com a facilidade com que estabele
a Europa só havia testemunhado em situações de guerra ou de revolução
social. Essastransformações muitas vezes causaram conflito entre os fkts- coam alianças pragmáticas com os conservadores nacionais contra a esquer-
cistas e os conservadores radicados nas famílias, nas igrejas, na hierarquia da internacional. O ápice da reação fascista ao mapa político definido em
relação à esquerda e direita foi alegar que eles o haviam tornado obsoleto,
social e na propriedade.Veremos adiante,*: ao examinarmos mais a fundo a
complexa relaçãode cumplicidade, acomodaçãoe ocasionaloposiçãoque não sendo "nem de esquerda nem de direita", havendo transcendido essas
divisões arcaicas e unido a nação.
ligava os capitalistas aos fascistasno poder, que o fascismo não é apenas
uma forma mais truculenta de conservadorismo, apesarde ter preservado Uma outra contradição entre a retórica e a prática fascista diz respeito

o regime vigente de propriedade e de hierarquia social. à modernização: a passagemdo rural ao urbano, do artesanato à indústria,
Ê difícil situar o fascismo no tão familiar mapa político de direita es- a divisão do trabalho, as sociedades seculares e a racionalização tecnológica,

querda. Será que mesmo os líderes dos primeiros tempos saberiam fazê-lo? Os fascistasmuitas vezesvituperavam contra as cidades sem rosto e contra
o secularismo materialista, exaltando uma utopia agrária livre do desenrai-
Quando Mussolini reuniu seus amigos na Piazza San Sepolcro, em março
de 1919, ainda não estavabem claro se pretendia competir com seus an- zamento, dos conflitos e da imoralidade da vida urbana.# ~'
tigos companheirosdo Partido SocialistaItaliano, à esquerda,ou ataca-los
frontalmente a partir da direita. Em que ponto do espectropolítico itajíano tembro de 1914, deu início a uma longa evolução ideológica, mas que Mussolini sempre
se encaixada aquilo que ele, às vezes, ainda chamava de "nacional-sindica- ha\ ia sido um socialista"herege", mais nietzscheanoque marxista (Leorigfnf de]/'ldeo/oyfa
lismo"?'; Na verdade, o fascismo sempre manteve essaambiguidade. .fascista(/ 9/8-/ 925), 2. ed. Bolinha: ll Mulino, 1996, p. 61- 93). Bosworth, Mossa/ini,p.
107, concorda no que diz respeito ao momento da mudança, mas suspeitaque Mussolini
era um oportunista, para quem o socialismo representava apenasum meio convencional
de ascensãopara um arrivista provinciano. O centro da questãoé como interpret'r a
42 . A questão da "revolução fascista" é discutida em maiores detalhes no capítulo 5 ,
continuidade de seu compromisso verbal com a "revolução", assunto que retomaremos
P.'237 247
mais adiante.
43. O momento em que Mussolini abandonouo socialismoé uma questãomuito
44. Essacorrente era mais forte entre os nazistas(por exemplo,Walther Darré)
discutida. Seuprincipal biógrafo italiano, Renzo de Felice, acredita que Mussolini ainda
se considerava socia]ista em 1919 (Massa/fni i/ rira/uzionarfo, p. 485, 498, 5]9). Milza, e entre os fascistasda Europa Central que na Itália, embora Mussolini exaltassea vida

em Musgo/ini,crê que ele deixou de se considerar socialistano início de 1918, quando camponesa e tentasse manter os italianos em suas terras natais. Paul Comer, em "Fascist

mudou o subtítulo de seu jornal // Papo/od'/ra/ía de "diário socialista"para "diário para Agrarian Policy and the Italian Economy in the InterwarYears", em J A Davas,ed. , Gra-
guerreiros e produtores", mas que, mesmo em 1 9 19, ainda não havia optado claramente msciand /rala's PassireRei'o/utlon. Londres: Croom He]m, ] 979, p. 239-74, desconfia que

pe[a contra-revo]ução (p. 2 10, 228) . Sternhe]] et a] . , Hirta, p. 2 ] 2 , acredita que o fracasso
essaatitude visavaprincipalmente manter os desempregados longe das cidades, e que não

da SemanaVermelha (junho de 1 9 14) nas cidades industriais do norte da Itália "pâs Him ao prejudicava de forma alguma a política económica que favorecia os grandes proprietários
de terra. Alexander Nützenadel, landwfrtscha#t,Sraat,und 4urar&ie;Àgrarpo/itt&imlascbis-
socialismo de MussoJini". Emilio Gentile diz que a expulsão de Mussolini do psl, em se-
30 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 31

E, no entanto, os líderes adoravamseuscarros,45aviõesvelozes4õ


e di- A melhor solução não é a de estabeleceropostos binários, mas sim
fundiam sua mensagem usando técnicas de propaganda e de cenografia ful- de acompanhara relação entre a modernidade e o fascismo ao longo de
gurantemente modernas. Tendo chegado ao poder, eles aceleraram o ritmo sua complexa tralet6ria histórica. Essa relação apresentou variações ex-
industrial a fim de rearmar o país. Por essarazão, é difícil postular que a pressivasem seusdiferentes estágios.Os primeiros movimentos fascistas
essência do fascismo se reduza a uma reação antimodernista47 ou a uma exploraram os protestos das vítimas da industrialização rápida e da globa-
ditadura da modernização.4; lização os perdedores da modernização usando, sem dúvida alguma,
os estilos e astécnicas de propaganda mais modernos.'9 Ao mesmo tempo,
um número surpreendente de intelectuais "modernistas" via como estética
[iscben/ra/ien,Bibliothek des DeutschenHistorischen Instituts in Rom, Band 86. Tübin
e emocionalmente agradáveis a combinação fascista de uma aparência Àígb-
gen: Max Niemeyer Verlag, 1997, 45ff, acredita que, mesmo antes de chegar ao poder,
tecÀcom ataquesà sociedademoderna, bem como o desprezopelo gosto
Mussolini queria completar o Msorgfmenrocom a integração dos camponeses.
45. O nuca dirigia seu próprio carro esportivo, um Alfa Romeo vermelho (Milza, burguês convencional.s' Mais tarde, ao chegar ao poder, os regimes fascis-
,Massa/ini,p 227, 3 18), algumas vezes acompanhado de seu Hi]hote de leão. Hitler adorava tas optaram decididamente pelo caminho da concentração e da produto:
quando seu motorista dirigia a toda velocidade numa potente Mercedes, que a empresa vidade industrial, pelas vias expressass'e pelos armamentos. A pressa em
vendeu a ele pela metade do preço, a t:ítulo de publicidade. Ver Bernard Bellon, Metades se rearmar e em se lançar em guerras expansionistas rapidamente fez que
fn Peace
andWar.NovaYork: Columbia University Press, 1990, p. 232.
fosse deixado de lado o sonho de um paraíso para os tão sofridos artesãose
46. Hitler deslumbrava o público fazendo entradas espetaculares nos comícios dei
camponeses que haviam formado a base de massasdo fascismo nos primeil
totais, chegandode a\ ião. Mussolini era piloto praticante. Durante uma visita oficial à
Alemanha, ele assustouHitler, insistindo em assumir os controles do Condor oficial do ros tempos do movimento Sobraram apenasalguns albergues da juventude
Fi;crer. Milza, Massa/ini, p. 794-95 . A ltália fascista investia pesadamente na aviação como de telhados de colmo, as l.ederbosen
que Hitler usavanos fins de semanae
forma de conquistar prestígio, e bateu recordes mundiais de velocidade e distância nos
anos 1930.Ver Claudio C. Segre, /ta/o Bambo;Fuscist
l!#e. Berkeley: University ot' Calif'or
nia Press,1987, parte ll, "The Aviator". Parao líder fascistabritânico Mosley,outro pi social corrente" do regime, quando o Fifbrer tinha que "levar em consideração os pontos
loto, ver Colin Cook, "A FascistMemory: Oswald Mosley andthe Myth of the Airman", de vista de seusparceiros de aliançaconservadores"(p. 47 8, 502). Artigos partindo
European Rerfen'o#Hisrory,v. 4, n. 2, p. 147-62. 1997. dessamesmaperspectiva foram reunidos em Michael Prinz e Rainer Zitelmann, eds.,
47.,Na literatura mais antiga, dois tipos de abordagem tendiam a colocar a revolta Nationa/Jazia/ismus und Modernizierung. Darmstadt: WissenschaftJiche Buchge sellschaft,
contra a modernidade no cerne do nazismo: os estudos sobre a preparação cultural, 1991

como George L. -Messe, The CrisesoÜGerman Ideoloãy: Intellectual Ori8ins o#the Third Reich. 49. A. F. K. Organski, "Fascism and Modernization", em Stuart J. Woolf, ed. , Natura
NovaYork: Grosset and Dunlap, 1964, e Fritz Stern, 7bePoli fcso#Cu/fura/Despafr.Berke- o/'Fascfsm.
NovaYork: Random House, 196$, p. 19-41, acredita que o fascismoé mais
ley e Los Angeles: University of California Press, 1961 ; e os estudos sobre os ressenti- provável no vulnerável ponto intermediário da transição a uma sociedadeindustrial,
mentos da classe média baixa, como Talcott Parsons,"Democracy and social structure quando as muitas vítimas da industrialização podem fazer causa comum com o que restou
in pre nazi Germany", em Parsons,Essays
in Socio/oyica/
Theory.
Glencoe, IL: Free Press, da elite pré-industrial.
1954, p. 104-23 (ong. pub. 1942), e Heinrich A. Winkler, Mi elstand,Demo&ratfeund 50. Uma lista parcial incluiria Ezra Pound,T. S. EJiot,WI B.Yeats,Wyndham Lewis
Nariona/sozfa/ismus.
Colónia: Kiepenheuer & Witsch, 1972 . A Ttálianão possui literatura e Gertrude Stein, que, empregaram técnicas literárias experimentais para criticar a so-
equivalente -- uma diferença importante. ciedade moderna.
48 . A. James Gregos, /[a/ian Fnscismand Deve/opmenra/Dfctarorsbip. Princeton : Prince 5 1 . Mussolini tinha suas autosr/ade, Hitler suas .4urobahnen, que serviam tanto para

ton University Press, 1979 ; Rainer Zitelmann , Hit/er; Se/bstverstdndnis


einescepo/utiondrs, criar empregos quanto para fins simbólicos. Ver James D. Shand, "The Reichsautobahn:
nova ed. ampl. Munique: F. A. Habig, 1998. Zitelmann admite que ele fala de um Hitler Symbol of the Third Reich",./Durma/o#Conrempo'aryf/isroy, v. 19, n. 2, p. 189 200, abr.
que poderia ter existido, casotivesse vencido a guerra, e não da "realidade económica e 1984
COBERTO.PAXTON 33
32 A ANATOMIA DO FASCISMO

da modernidade alternativa fascista. A "limpeza étnica" nazista tomou como


asfotografias de Mussolini, de peito nu, trabalhando na colheita de grãos,
baseos impulsos purificadores da medicina e da saúde pública do século xx,
como símbolos da nostalgia rural dos primeiros tempos'"
a ânsia dos eugenistas em erradicar os defeituosos e os impuros,s' a estética
Apenas acompanhando o itinerário fascista como um todo poderemos
do corpo perfeito e uma racionalidade científica que rejeitava os critérios
chegar a uma conclusão sobre sua ambígua relação com a modernidade,
morais.s' Já foi sugerido que os antiquados poyromsteriam levado duzentos
que tanto perturba aqueles que buscam uma essênciaúnica para o fascismo.
anos para completar o que a tecnologia avançadaatingiu em três anosde
Algumas pessoas percorreram esse itinerário em suas própr:as carreiras Holocausto.:s;
individuais. Albert Speer aliou-se ao partido em janeiro de 1931, como
A complexa relação entre o fascismo e a modernidade não pode ser
discípulo de Heinrich Tessenow,do Instituto de Tecnologia Berlim-Cear
resolvida de uma só vez, nem com um simples sim ou não. Ela tem que ser
lottenburg, que "não era moderno, embora, em alguns sentidos, fosse mais
moderno que os demais", em razão de sua crença numa arquitetura orgâni-
sierungn , em }úommsen , Der Narlonalsozialismus UTld die Deutsche GesellschaP: Ausgewàhlte
ca e simples.s: Speer, em 1933, passou ; projet'r paisagens urbanas monu-
.4u#sdrze,
edÍ.:Lutz Niethammer e Bernd Weisbrod. Reinbeck bei Hamburg: RowohltTas-
mentais para Hitler e acabou, entre 1942 e 1945 , no comando do poderio
chenbuchVerlag, 199 1, 405ff; "Noch einmal: Nationalsozialismus und Modernisierung",
económico alemão, como ministro dos armamentos. Mas o que essesre
Gescbicbteund Gele/lscba#t,
v. 21, n. 3, p. 391-402, jul.-set. 1995 ; e "Modernitãt und
gamesbuscavamera uma modernidade alternativa: uma sociedadetecnica Barbarei:AmmerkungeílauszeithistorischerSicht,"em Max Miller e HansGeorgSoe-
mente avançada, na qual as tensões e as cisões da modernidade houvessem ftner, eds. , Modemitãt und Barbarei; Soziologische Zeitdiagnose am Ente des 20. Jahrhunderts.

sido sufocadas pelos poderes fascistas de integração e de controle:" Frankfurt ãm Main: Suhrkamp,1996,p. 137 SSI
Muitos viram no ato máximo da radicalização dos tempos de guerra -- a 56. Os americanos, os britânicos e até mesmo os suecos foram importantes pio-
neiros da esterilizaçãoforçada, seguidosde perto pelos alemães.Ver Daniel Kevles,/n
matança de judeus -- a negação da racionalidade moderna e um retorno à
tbe Nana o#Eugenics:Genericsand tbe Uses?/'Human Herediíy. NovaYork: Knopf, 1985. O
barbárie.ss Mas é plausível perceber esseato como expressão enlouquecida racismo.biológico era muito mais fraco na Europa católica do sul, embora MussoJini
tenha anunciadouma política de "higiene social e purificação nacional lpr?/í/assim"
em
suaprincipal declaraçãopolítica posterior ao estabelecimentoda ditadura, o "Discurso
52. O estudo clássico desse processo, no caso da Alemanha, é David Schoenbaum,
do Dia da Ascensão", de 16 de maio de 1927. Sobre as políticas de "purificação" médica
Hit/er's Sacia/ Raro/utfon: C/assand Status in Nazi Germana,] 933-/ 939 (NovaYork: Double-
da Alemanha nazista e a promoção, na Itália fascista, de /a razza e /a srirpe (raça e linha-
day, 1966). $o caso da Itália, ver a abrangente análise detém Mason, "ltaly and Moder
gem), compreendidasem termos culturais e históricos, ver o EnsaioBibliográfico, p.
nization", Hjstorymor&shop,
v. 25, P. 127-47, primavera de 1988. 393 396
5 3. Albert Speer, /nsíde tbe Thírd Reicb; Memolrs. NovaYork: Macmillan, 1970, P. l l
57. Essatese foi defendida de forma provocativa pelo falecido Detlev Peukert, "The
Genesisof the 'Filial Solution' ftom the Spirit of Science",emThomasChilders e Jane
54. Jeffrey Herf, Reactionary Modernism;Zechno/OW-
Cu/cure,and I'o/itfcs fn teimar and
Caplan, eds., Relva/uarfngrheThfrd Reicb(NovaYork: Holmes and Meter, 1993), p. 234
tbe7hird ReicÀ.Cambridge: Cambridge University Press, 1984, vêm ambasreconciliadas
52 . Ver também Zygmunt Bauman, Modernig and rbe Ho/ocausr. Tthaca, NY: Cornell Uni-
numa tradição cultural alemã que usa atecnologia para administrar astensões da moder-
versity Press, 1989, p. 149: "Considerada uma operação complexa e proposital, o Holo-
nização.De acordo com Henry A. Turner, Jr., "Fascismand Modernization", Mor/df'o/itics
caustopode ser \isto como o paradigmado racionalismo burocrático moderno. Quase
24, n. 4, p. 547 64, julho 1972, reeditado emTurner, ed. , ReappraisaJs
o#Eascism.
Nova
tudo foi feito para atingir resultados máximos com um mínimo de custos e esforços"
York: Watts: 1975, p. 117-39, o nazismoinstrumentalizou a modernidade de forma a
\

58. P Sabinie Maré Silvers,"[)estroying the innocent with a c]earconscience:A


criar uma utopia agráriaantimodernano leste conquistado. t ''
sociopsycholog) of the Holocaust", em Joel E. Dimsdale, ed . , Survivors,
rfctíms,and Pe/pe-
55 . Hans Mommsen vê o nazismo como uma "modernização simulada", a aplicação
trators:Essags
in rbe À'azi Ho/ocaust.Washington: Hemisphere Publishing Corp. ? 1980, p.
de técnicas modernas para a destruição irracional e para o desmantelamento deliberado
do Estado moderno. Ver Mommsen, "Nationalsozialismus als Vorgetáuschte Moderna 329-30, citado em Bauman, Modernfty and tbe f/o/ocaust, p' 89-90. ]$j:l:;==::;=:'/ .r

çq.zW
34 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O. IHXTON 35

desenvolvida no desenrolar da história da conquista e do exercício do poder damente, podiam ser vistos até mesmo Como aceitáveis, ,masque, cumula
tivamente, acabaram por se somar em monstruosos resultados finais.
pelos fascistas.ssO trabalho mais satisfatório sobre o assunto mostra como
os ressentimentos antimodernistas foram canalizadose neutralizados, pas' Por exemplo, consideremos as reações dos alemães comuns aos acon-
tecimentos da crista//nacbt( Noite dosVidros Quebrados)-.Na noite de 9
se a passo, em legislações específicas, por forças pragmáticas e intelectuais
de novembro de 1938, incitados por um discurso incendiário do ministro
mais poderosastrabalhando a serviço de uma modernidade alternativa."
da Propaganda nazista, Joseph Goebbels, dirigido aos líderes partidários, e
Temos que estudar a totalidade do itinerário fascista-- de que forma exer-
reagindo ao assassinatode um diplomata alemão, em Paras,por um jovem
ceu sua prática antes que possamos comp'eendê-lo com clareza.
judeu polonês enraivecido por seus pais imigrantes terem sido, pouco an-
Um outro problema das imagens convencionais do fascismo é que elas
enfocam os momentos mais dramáticos do seu itinerário -- a Marcha sobre tes, expulsos da Alemanha, militantes do partido Nazísta promoveram um
Romã, o incêndio do Reichstag, a crista//nacbt -- e omitem a textura sólida grande quebra-quebra nascomunidadesjudaicas da Alemanha. Incendiaram
centenasde sinagogas,destruíram mais de sete mil lojas de propriedade de
da experiência cotidiana, e também a cumplicidade das pessoascomuns
no estabelecimento e no funcionamento dos regimes fascistas.Eles jamais judeus, deportaram cerca de 20 mil para campos de concentração e mata-
teriam crescido sem a ajuda das pessoascomuns, mesmo das pessoascon- ram no ato noventa e um. Uma multa de um bilhão de marcos foi imposta
vencionalmente boas. Jamais teriam chegado ao poder sem a aquiescência, coletivamente aosjudeus da Alemanha, e seusreembolsos de seguros foram
ou mesmo a concordância ativa das elites tradicionais -: chefes de Estado, confiscados pelo Estado alemão, a título de compensação por danos inci-

líderes partidários, altos funcionários do governo:F muitos dos quais sen- dentais causadosa propriedades de não-judeus. Hoje está claro que muitos
tiam uma aversão enfastiadapela crueza dos militantes fascistas Os exces- alemãescomuns ficaram indignados com as brutalidades cometidas sob suas
sos do fascismo no poder exigiam também uma ampla cumplicidade entre janelas.': No entanto, essedesagrado generalizado foi passageiro,não pro
os membros do esfab/isbment: magistrados, policiais, oficiais do exército, vocando efeitos de longo prazo. Por que não houve açõesjudiciais ou inqué
ritos administrativos, por exemplo? Sepudermos entender por que razão o
homens de negócios.Para entender plenamente como funcionavamesses
regimes, temos que descer ao nível das pessoascomuns e examinar as es- sistemajudicial, as autoridades religiosas e civis e a oposição civil não agi-
ram de modo a pâr freio a Hitler, em novembro de 1938, começaremosa
colhas corriqueiras feitas por eles em sua rotina diária. Fazer essasescolhas
entender oi círculos mais amplos de aquiescência individual e institucional,
significavaaceitar o que parecia ser um mal menor, ou desviar o olhar de
em meio aos quais uma minoria militante foi capaz de se ver sulicientemen:
alguns excessosque, a curto prazo, bão pareciam tão nocivos, e que, isola-
te livre de restrições de qualquer natureza, a ponto de tornar-se capazde
praticar genocídio em um paísaté então sofisticado e civilizado.
59. Essa questão é analisada criticamente por Carl Levy, "From Fascism to 'post-
Fascists': ltalian Roadsto Modernity", e Mark Roseman,"Nationa! Socialism and Moder-
nization", em Richard Bessel,ed. , Fuscist/ra/y and Nazi German.Cambridge: Cambridge 61 . A Krfsra//nacbf foi a primeira e a última chacina coletiva de judeus praticada
pelos nazistas nas ruas de cidades alemãs = o último massacre e o início do Holocausto
University Press,1996, p. 165-96 e 197-229. Detlev K. Peukertentreteceuessestemas
(Bauman,Modernftyand[ÀeHo/ocausr,
p. 89). Sobre a reação do público, verWilliam S.
de forma prolífica em sua excelente obra TheWeimarRepub/ic;FheCriseso#C/assica]Moder-
Allen, "Die deutscheÕffentlichkeit und díe Reichsla:istallnachti&
Konflikte zwischen
nfty (trad .'do alemão por Richard Deveson). NovaYork: Hi]] andWang, 1991..
Wertheirarchie und Propagandaim Dritten Reich", em Detlev Peukert e Jürgen Reu-
60. Um brilhante exemplo é Tim Mason, "The Origens of the Law on the Organi
\ecke, eds. , Die ReÍhenjast geschlossen: Beitràge zur Geschichte des Allta8s unterm Nationalso-
za-tion of Nationa] Labour of 20 January 1934; An Investigation into the Relationship
Between 'Archaic' and 'Modem' Elements in Recent Germany History", em Caplan, zia7ismus.
Wuppertal: Harnmer, 1981, p. 397 412, e os estudossobre a opinião pública
citadosno capítulo 9.
Nazism, Fascfsmand theWor&ing C/ass,p. 77-1 03.
A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 37
36

ESTRATÉGIAS
Essassãoperguntas difíceis de responder, e nos levam para bem longe
dasimagens simplistas de líderes solitários e de multidões gritando "vivas"
Revelam também algumas das dificuldades surgidas na busca por uma es- Os desacordos quanto a como interpretar o fascismo partem de estra-
sência única, o famoso "mínimo fascista", que, supostamente, nos permiti- tégias intelectuais profundamente diversas. Quais partes do elefante de
ria formular uma definição clara e geral do fascismo. vemos examinar? Onde, na experiência moderna européía e americana,
As definições são inerentemente limitantes. Delineiam um quadro es- devemosprocurar para encontrar as sementesdo fascismoe vê-lasgermi-
tático de algo que é mais bem percebido em movimento, e mostram como nar? Em que tipos de circunstâncias ele cresceu com mais vigor? E quais as
"estatuária congelada"': algo que é mais bem entendido se examinado como pectos da experiência fascista, exatamente, expõem de maneira mais clara
um processo. Com muita freqüência, sucumbem à tentação intelectual de a natureza desse complexo fenómeno: suas origens? seu crescimento? seu
tomar como constitutivo o que não passamde declaraçõesprogramáticas, comportamento após chegar ao poder?
e de identificar o fascismomais com o que ele dissedo que com o que ele Se perguntadas sobre o que vem a ser o fascismo, a maioria das pessoas
fez. A procura pela def\naçãoperfeita, reduzindo o fascismo a uma sentença diria, sem hesitar: "é uma ideologia"." Os próprios líderes nunca deixaram
cada vez mais precisa, parece calar as perguntas sobre sua,origem e trajetó- de afirmar que eram profetas de uma ideia, ao contrário dos materialistas
ria de desenvolvimento, mais que abrir espaçopara elas. E um pouco como liberais e socialistas. Hitler falava sem cessar de me/ranscbauung,ou visão de
observar as figuras de cera do Museu MadameTrussaud em vez de pessoas mundo, uma palavra inadequadaque ele conseguiu trazer à atenção de todo
vivas, ou pássarosemoldurados em vidro em vez de pássarosvivos e soltos o mundo. Mussolini jactava-sedo poder do credo fascista.'sSegundoesse
em seu habitat.
enfoque, um fascista é aquele que abraça a ideologia fascista-- uma ideologia
É claro que o fascismonão deve ser discutido.semque, em algum sendo mais que simples idéias, mas todo um sistema de pensamento subor-
ponto do debate, se cheguea um conceito sobre o que ele vem a ser. Este dinado a um prometode transformação do mundo." Já setornou quaseauto-
livro pretendechegara tal conceitoao final de suajornada,e nãopartir mático que livros a esserespeito concentrem seufoco sobre os pensadores,
de um já pronto Proponho deixar de lado, por agora, o imperat:vo de se asatitudes e os padrões de pensamento que hoje chamamos de fascistas.
chegar a uma definição, e examin8arem açãoum conjunto central de mo- Aparentemente faria sentido que "começássemospor examinar os pro-
vimentos e regimes que, de modo geral, sãoconsideradosfascistas(com a gramas,as doutrinas e a propagandade alguns dos principais movimentos
ltália e , Alemanha como os elementos predominantes de nossaamostra).
fascistas,passandoentão às políticas e ao desempenhona prática dos dois
Irei examinar sua trqet6ria histórica como uma série de processos que se únicos regimes fascistasdignos de nota"." Dar precedência aos programas
desenrolam ao longo do tempo, e não como expressõesde uma essência
fixa.ó3Partiremos de uma estratégia, e não de uma definição.
corria se o risco de banalizar o regime nazista. Ambos os artigos, e outras discussões es-
clarecedoras,foram reeditados em Baldwin, ed. , Re«,or&fng
rbe Fase(ver nota anterior) .
62. Martin Broszat,"A Controversy about the historicizatión of National Socia- 64. "0 fascismo é um gênero de ideologia política (. . .)" (Roger Griflin, 7he A'ature og'

lism", em Peter Baldwin, ed., Ren'or&ing rbe Pas : HÍ ]er, [be Ho/ocausr, and the Historíans
Euscism.
Londres: Routledge, 1991 , p. 26). Por trás do fascismo"reside um corpo coerente
Debate.Boston: Beacon Press, 1990, P. 127. de pensamento" (Reger Eatwell, Fuscfsm:JHisrory.Londres: Penguin, 1996, p. xvn)
63. Tentar "historicizar" o fascismo faz disparar alarmes. Quando Martin Broszat 65. Por exemplo, Schnapp,Primor,p. 63.
defendeu que o nazismo fossetratado como parte dahistória, e não abstratamente,como 66. Uma introdução útil à evolução dos significados de ideologia, termo criado du-
rante a Revolução Francesa, é AndrewVincent, Modem Po/trica/ /deo/oyies,2 . ed. Oxford ;
imagem emblemática do mal ("Plãdoyer ftir eine Historisi$Tung des Nationalsozialis
Blackwel1,.1995.
mus", Mer&ur,v. 39, n. 5, p. 373-85, maio 1985), o historiador israelense Saul Friedlân-
der alertou que, ao traçar continuidades e perceber normalidades entre fitos criminosos, 67. Payne,fíisrory.p. 472
38 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 39

significapartir do pressupostoimplícito de que o fascismoera um "esmo", numa luta darwiniana com outros povos, e não à luz de algum tipo de razão
abstrata e universal.
como os demaisgrandessistemaspolíticos do mundo moderno: conserva-
dorismo, liberalismo, socialismo. Geralmente aceito sem questionamento, ,/
esse pressuposto merece exame. Nós [fascistas]não pensamosque a ideo]ogia sejaum problema a ser re
Os outros "ismos" foram criados numa época em que a política era um volvido de forma a entronizar a verdade. Mas, nessecaso,será que lutar por
acordo entre cavalheiros,conduzido por longos e eruditos debatesparla- uma ideologia significa lutar por uma mera aparência?Semdúvida, a não ser
mentares entre homens cultos, que apelavamnão apenasà razão de seus que a consideremos segundo seu singular e eficaz valor histórico psicológico.
interlocutores,
mas também a seus sentimentos. Os "ismos" clássicos eram A verdade de uma ideologia reside em seu poder de mobilizar nossa capaci-
fundamentados em sistemas 61os6ficoscoerentes, formulados no trabalho dade para os ideais e para a ação. Sua verdade é absoluta na medida em que,
ao viver dentro de nós, ela seja suficiente para exaurir essascapacidades.'9
de pensadoressistemáticos.E natural que, ao tentar explica-los, parta-se
do exarüe de seusprogramas e da filosofia que os embasava.
O fascismo,ao contrário, era uma invençãonova, criada a partir do A verdade era tudo aquilo que permitisse ao novo homem (e a nova
mulher) fascistadominar os demais, e tudo o que levasseo povo eleito ao
zero para a era da política de massas.Ele tentava apelar sobretudo às emo- triunfo.
ções, pelo uso de rituais, de cerimónias cuidadosamente encenadas e de
O fascismo não repousava na verdade de sua doutrina, mas na união
retórica intensamente carregada. Uma inspeção mais minuciosa mostra
mística do líder com o destino histórico de seu povo, ideia essarelacio
que o papel nele desempenhado pelos programas e doutrinas é fundamen-
talmente diferente dessemesmo papel no conservadorismo, no liberalismo nada às idéias românticas de florescimento histórico nacional e de génio
e no socialismo. O fascismonão se baseiade forma explícita num sistema individual artístico ou espiritual, embora, em outros aspectos,negassea
exaltação romântica da criatividade pessoal desimpedida." O líder queria
filosófico complexo, e sim no sentimento popular sobre as raçassuperio-
levar seu povo a um campo mais elevado da política, campo esse que podia
res, a injustiça de suas condições atuais e seu direito a predominar sobre
ser experimentado de forma sensual: o calor de pertencer a uma raça agora
os povos inferiores. Esse regime não recebeu embasamento intelectual de
um construtor de sistemascomo Marx, ou de alguma grande inteligência plenamente conscientede suaidentidade, destino histórico e poder; o en-
tusiasmo de participar de uma vasta empreitada coletiva; a gratificação de
crítica, como Mill , Burke ou Tocqueville.68
deixar-se submergir numa onda de sentimentos coletivos e de sacrificar as
De forma extremamente dessemelhante aos "ismos" clássicos, a ver-
próprias preocupaçõesmesquinhasem favor do interessegrupaJ;e a emoü
dade do fascismo não dependia da correção de nenhuma das proposições
ção do domínio.Walter Benjamin,o crítico cultural e exilado alemão,foi
apresentadasem seunome. Ele é "verdadeiro" na medida em que ajuda a o primeiro a observar que o fato de o fascismo ter deliberadamente substi-
realizar o destino de uma raça, ou povo, ou sangueeleito, engalfinhado
tuído o debate ponderado pela experiência sensorial imediata transformou

68. Hein Kamp#("Minha Luta") , de Hitler, serviu de texto básico para o nazismo. C6 69. A. Berte]à, dspertiidem/oyfci
de]./ascismo.
Turim, 19 30, citado em Emilio Gentile,
pias primorosamente encadernadas eram dadas de presente a recém casados e exibidas "Alcuni consíderazioní sull'ideologia del fascismo", Storia contemporânea,'
v. 5, n. 1, p.
em lares nazistas.Trata-se de uma coleção poderosa e consistente, porém bombástica e 117, mar. 1974. Agradeço a Carlo Motespela ajuda na tradução dessadifícil passagem:
auto indulgente, de fragmentos autobiográflcos e reflexões pessoaissobre raça, história 70. lsaiah Berlin associou explicitamente fascismo e romantismo em "The essenceof
e natureza humana. Para os escritos doutrinários de Musso]ini, ver capítu]o ] , p. 40 e a European Romanticism", em Henry Hardy, ed., 7bePokero#/deus.Princeton: Princeton
nota a seguir. University Press, 2000, p. 204.
ROBERT O.:PAXTON 41
40 A ANATOMIA DO FASCISMO

a política em estética. E o ápice da experiência estética fascista, advertiu Hitler apresentouum programa (os 25 Pontos de Fevereiro de 1920)
Benjamin em 1936, seria a guerra. '' e o proclamou imutável, embora passando por cima de muitos de seus
Os líderes fascistasnão faziam segredo de não terem um programa. dispositivos. Embora os aniversários do programa fossem celebrados, ele
Mussolini exaltava essa ausência; "Os nasci di Comia isento", escreveu ele era menos um guia para a açãodo que um sinal de que o debate haviasido
encerrado dentro do partido. Em suaprimeira fala pública como chanceler,
nos "Postulados do Programa Fascista"de maio de 1920, "não se sentem
Hitler ridicularizou aqueles que diziam : "mostrem-nos os detalhes de seu
presosa qualquertipo particular de forma doutrinária". '' Poucosmesesan-
tes de setornar primeiro ministro da Itália, respondeu dó forma truculenta programa. Sempre me recusei a aparecer diante deste Ho/&e fazer promes'
sasbaratas".7/
a um crítico que exigia saber qual era seuprograma:'"Os democratasdo //
A relação especial do fascismo com a doutrina teve diversas conse-
Mondoquerem saber qual é o nosso programa? Nosso programa é quebrar
os ossosdos democratas do // Mondo. E quanto antes, melhor".'s "0 punho qüências.O que contava era o zejo incondicional dos fiéis, mais que sua
é a síntesede nossateoria",74afirmou um militante da décadade 1920. concordância intelectual.78 Os programas eram informais e fluidos. A re
lação entre os intelectuais e um movimento que desprezava o pensamento
Mussolini gostava de declarar blue ele próprio era a definição do fascismo. A
vontade e a liderança de um nuca era o que um povo moderno necessitava, era ainda mais desconfortável que a sabidamente espinhosa relação entre o
não uma doutrina. Foi s6 em 1932, após ter estado no poder por dez anos, comunismo e seuscompanheirosde viagensintelectuais. Muitos dos inte-
e quando quis "normalizar" seu regime, que Mussolini formulou a doutrina lectuais associadosaos primeiros tempos do fascismo afastaram-seou pas'
fascista,num artigo (parcialmente redigido pelo filósofo Giovanni Gentile) saram para a oposição, após os movimentos fascistas, vendo-se bem-suce
dados,terem feito as concessõesnecessáriaspara conquistar aliados e:subir
para a Encíc/opedia
/fa/lama.7sO poder vinha em primeiro lugar, a doutrina,
ao poder, ou quando este revelou seu brutal antiintelectualismo. A medida
depois. Hannah Arendt observou que Mussolini "foi provavelmente o pri-
meiro líder a conscientemente rejeitar um programa formal , substituindo que formos prosseguindo,encontraremos alguns dessesintelectuais rene
6
gados.
o unicamente por liderança inspirada e ação". '
A radical instrumentalização da verdade adotadapelos fascistasexplica
7 1.Walter Benjamin, "The Work ofArt in the Age of Mechanical Reproduction", pu' por que razão eles nunca se deram ao trabalho de escrever obras casuísticas
blicado pela primeira vez em ZeitschrjDtlürSozfa!#orschung,
v. 5, n. 1, 1936, reeditado em nas ocasiõesem que alteravamseu programa, o que aconteciacom
Benjamin, /]Juminations.NovaYork: Schocken, 1969. Ver especialmentep.241 -2 , em que frequência e sem o menor escrúpulo. Stálin gastou muito tempo escrevendo
Benjamin cita Marinetti sobre a beleza da recém terminada Guerra da Eti6pia: "(.. .) [a para provar que as políticas ditadas por ele, de algum modo, estavamem
guerras enriquece um campo florido com as orquídeasde fogo das metralhadoras(. . .)" conformidade com os princípios de Marx e de Lênin. Hitler e Mussolini
72 . Delzell, .Mediferrarlean
Eascism,
p. 14.
73 . Citado em R J. B. Bosworth, The/[a/fan Dicfarorship;Z'robJems
and Perspecri"'s
fn rhe
/nferpretarion o#Musso/fnf and Fascfsm.Londres: Arnold, 1998, p. 39.
74. Emilio Gentile, Storia de/ partira.fascista / 9] 9-] 922; /Worimentoe mi/azia. Bari= mais os fatos concretos da política da época do que o magma incoerente das ideologias
passadas"
(p. 18).
Laterza, ] 989, p. 498.
75. "La dottrina del fascismo", Encic/opedfafta/lama(1932), v. xiv, P' 847-5 1. Uma 77. Max Domarus, Hit/er Speecbes andProcJamatfons,
/ 932-] 945. Londres: L. B. Tau-
rus, 1990, v. 1, p. 246 (10 de fevereiro de 1933).
versão em inglês teve ampla divulgação; Benito Mussolini, The DoutrineoÍ Fascfsm.
Flo
78. Leszek Kolakowski percebeu, com exemplar clareza, a fora)a como uma ideo
rença: Vallecchi, 1935 , e edições posteriores. Uma versão em inglês recente é JeffreyT.
logia fechada e totalizadora serve para calar perguntas críticas em "Why an Ideology is
Schnapp,ed., Prfmer,p 46 61
Always Right", em Kolakowski, Modernity on End/essbrio. Chicago: .University of Chicago
76. Arendt, Orlgíns,
n. 39, p. 325. Cf. Sa]vatoreLupa, /]Jascismo;
Z,apo/'ti'a in un
Press, 1990.
reg fmetara/etário. Romã: Donzelli, 2000: "0 que determinou o composto fascista foram
42 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O. PAXTON 43

jamais se preocuparam com justificações teóricas dessanatureza. Das B/ut Embora o estudo da ideologia fascistaauxilie na elucidação do prin
ou /a razza determinaria quem tinha razão. Isso não significa, contudo, que copio e do fim, ele é bem menos útil quando se trata de entender as fases
as raízes ideológicas dos primórdios dos movimentos fascistas não sejam médiasdo ciclo fascista.Com vistasa se tornar um ator político importan-
importantes .Temosque determinar exatamenteem que ahistória intelectual te, conquistar o poder e exercê-lo, os líderes lançaram se à construção de
e cultural de seus fundadores pede contribuir para nossa compreensão do aliançase a soluções de compromisso político, pondo de lado, assim,partes
fascismo, e em que ela não pede. de seu programa e aceitando a defecção ou a marginalização de alguns de
Os intelectuais dos primeiros tempos exerceram influências impor- seusmilitantes de primeira hora. Examinaremmais de perto essasexperiên-
tantes e de diversos tipos. Em primeiro lugar, mudaram a abrir espaço para cias nos capítulos 3 e 4.
os movimentos fascistas,enfraquecendo o apego das elites aos valores do Nenhuma estratégia correta para o estudo do fascismo pode deixar de
Iluminismo, até então amplamente aceitose aplicadosde forma concreta lado a totalidade do contexto no qual ele se formou e cresceu.Alguns en-
no governo constituciona] e na sociedade]ibera] . Os intelectuais tornaram foques partem da crise para a qual ele era uma resposta, correndo o risco
possívelimaginar o fascismo.O que Roger Chartier tinha a dizer sobre a de transformar essacrise numa causa.Uma crise do capitalismo, segundo
preparação cultural como a "causa" da Revolução Francesaestá extrema- os marxistas, deu origem ao fascismo. Incapazes de assegurar a contínua
mente correto também no caso do fascismo: "atribuir 'origens culturais' expansão dos mercados, o acessocada vez mais amplo às matérias-primas
à Revolução Francesa de modo algum determina as causas da Revolução, e a mão-de-obra sempre barata e obediente, por meio da operação normal

mas assinala algumas das condições que a tornaram possível porque conce- dos regimes constitucionais e do livre mercado, os capitalistas viram se
bível".79 Por 6lm, os intelectuais mudaram a pâr em marcha uma transfor- obrigados, segundoos marxistas, a encontrar novas maneirasde alcançar
mação emocional de dimensões sísmicas,na qual a esquerdadeixava de ser essesobjetivos pela força.
o único recurso para os ofendidos e para aquelesinebriados por sonhos de Outros vêem a crise fundadora como causadapela incapacidadedo
mudança. Estado e da sociedadeliberal (na acepçãode liberalismo como /aissez:Pi-
As basesideológicas do fascismo reassumem importância central em de, corrente àquela época) de lidar com os desafios do mundo p6s 1914.
seus estágios finais, como acompanhamento e guia para a radicalização dos Guerras e revoluções haviam gerado problemas que o Parlamento e o mer-
tempos de guerra. Uma vez que, no campo de batalhae nos territórios cado -- as principais soluçõesliberais -- ao que parece, não sabiamcomo
inimigos ocupados,o núcleo central dos fascistasradicaishavia se tornado resolver: as distorções das economias de comando central dos tempos de
independente de seus aliados conservadores, seu Ódio racial e seu desprezo guerra e o desemprego em massadecorrente da desmobilização; a inflação
pelos valores liberais e humanistas se reafirmaram nas matançasocorridas fora. de controle; o agravamento das tensões sociais e uma corrida à revo-
na Líbia, na Etiópia, na Polânia e na União Soviética.80 lução social; a extensão do direito de voto a massasde cidadãosincultos,
sem qualquer experiência de responsabilidadecívica; o acirramento das
79. Roger Chartier, TheCu/cura/OrigensoÍ[Àe FrancaRaro/urion,traduzido do francês paixões pela propaganda de guerra; e as distorções do comércio e das tro-
por Lydia G. Cochrane. Durham, NC; Duke University Press, 1991 , p. 2. casinternacionais provocadaspelas dívidas de guerra e pela flutuação das
80. Essacombinação pode surpreender, masa brutalidade das campanhasafricanas moedas. O fascismo propôs novas soluções para essesdesafios. Examinarei
de Mussolini, ressaltada pelas pesquisas recentes, deve ser vista como aspecto central de essaquestão crucial mais adiante, no capítulo 3.
seu regime. Mussolinúnda mesma forma que Hitler, utilizou-se de camposde concen Os fascistasodiavam os liberais tanto quanto odiavam os socialistas,
tqação e de limpeza éülica e usou gases tóxicos, coisa que Hitler nunca ousou fazer. Ver
mas por razões diferentes. Para eles, a esquerda socialista e internaciona-
capítulo 6, p. 276-278, e as notas 63 e 68.
44 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 45

lista era o inimigo, e os liberais eram os cúmplices do inimigo. Com seu As comparações,como nos lembrava Mat.c Bloch, são extremamente úteis
governo não-intervencionista, suacrença no debate aberto, seu pouco con- para trazer à tona as diferenças.83 E para isso que eu as uso. Não terei muito
trole sobre a opinião das massase sua relutância a recorrer ao uso da força, interesse em encontrar semelhançasa fim de determinar se um regime
os liberais, aos olhos dos fascistas,eram guardiões da nação culposamente específico se enquadra na definição de algum tipo de essênciafascista. Esse
incompetentes no combate à luta de classesdesencadeadapelos socialistas. tipo de taxonomia, de uso tão geral na literatura sobre o fascismo, hão nos
Os próprios liberais de classemédia, temerososda ascensãoda esquerda, leva muito longe. Buscarem,da forma mais precisa possível, as razões para
ignorando o segredo do apelo às massase tendo que enfrentar asimpalatá- os diferentes resultados. Os movimentos que deliberadamente se denomi-
veis escolhas a eles apresentadas pelo século xx, com freqüência estiveram navam fascistas,ou usavamMussolini como modelo, existiram em todos
tão dispostos quanto os conservadores a cooperar com os fascistas. os paísesocidentais após a Primeira Grande Guerra e, em alguns casos,
Todas as estratégias para entender o fascismo têm haver com a grande também fora do mundo ocidental. Por que razão movimentos de inspiração
diversidade de casos nacionais. A principal questão, aqui, é se os fãscismos semelhante chegaram a resultados tão diferentes em diferentes sociedades?
são mais díspares que os demais "iscos As comparações, usadas dessa maneira, serão uma das estratégias centrais
deste trabalho.
Este livro toma a posição de que eles o são, porque rejeitam qualquer
valor universal que não o êxito dos povos eleitos em sualuta darwiniana
PARA ONDE VAMOS A PARTIR DAQUI?
por primazia. Nos seusvalores, a comunidade vem antes da humanidade, e
o respeito aos direitos humanos e aos procedimentos legais foi suplantado
pelo serviço ao destino do Ho/&
ou da razza.8'Cadamovimento nacionalfas- Perante a grande variedade de fascismose à dificuldade de definir o
cista, portanto, dá expressãoplena a seupróprio particularismo cultural. "mínimo fascista",três tipos de reaçãotenderam a ocorrer. Como vimos
Diferentemente dos outros "iscos", não é um produto de exportação: cada já de partida, alguns acadêmicos, exasperados com o desleixo com que o
movimento guarda ciumentamente sua receita de renascimento nacional , e termo costumavaser usado,negam que ele tenha qualquer significado. Eles
os líderes fascistasparecem sentir pouco ou nenhum parentesco com seus chegaram, com toda a seriedade, a propor limita-lo ao caso particular;' de
primos estrangeiros. Fazer funcionar uma "internacional" fascista mostrou Mussolini. 'Se seguíssemosseu conselho, chamaríamos o regime de Hitler
ser uma tarefa impossível.82
de nazismo. o de Mussolini de fascismo, e cadaum dos demaismovimentos
Em vez de levantarmos as mãos para o alto em desespero diante das assemelhados por seu próprio nome. Trataríamos cada um deles como um
disparidades radicais do fascismo, é melhor fazer essacircunstância negativa fenómeno separado.
trabalhar a nosso favor. Pois a variedade convida a comparação. Sãopreci-
samente as diferenças que separavam Hitler de Mussolini, e ambos, por 83. Marc Bloco,"Towardsa comparativehistory of europeansociety",em Bloco,
exemplo, do messianismo religioso da Legião do Arcanjo Miguel, de Cor- l.and andWor&in ,Medieva/Europe:Se/ectedPape/s,trad . J. E. Anderson. Berkeley e Los Ange-
neliu Codreanu, na Romênia, que tornam interessanteessacomparação. les: University of California Press, 1967, p. 58 (ong. publ 1928).
84. Ver nota 28. Vários acadêmicosimportantes, notadamente Sternhell e Bracher,
acreditam que "uma teoria geral que busque combinar fascismo e nazismo (...) não.é
81. "0 conceito fascista da vida (. ..) afirma o valor do indivíduo apenasna medida possível" (Sternhell, Birtb; p. 5). Seuprincipal argumento é o de que o racismo biológico
em que seusinteressescoincidem com os do Estado". Mussolini, "Doctrine", em Schna é de importância central no nacional-socialismo e fraco no fascismo. Este livro defende
que todos os fascismossemobilizam contra alguminimigo, sejaele interno ou externo,
pp, Primar,p. 48 .
82. Michael A. Ledeen, Unirersa/Fuscism.NovaYork: Howard Fertig, 1972. mas que é a cultura nacional que fornece a identidade desseinimigo.
ROBERT O. PAXTON 47
46 A ANATOMIA DO FASCISMO

cerne mítico, em suasvárias permutações, é uma forma palingenéticade


Este livro rejeita um tal nominalismo. O termo.fascismo deve ser resga-
ultranacionalismo populista".sõ
tado do usomalfeito que vem tendo, e não jogado fora em razão desseuso.
Pretendo deixar de lado, pelo menos por um momento, tanto o
Ele continua sendo indispensável. Precisamosde um termo genérico para
bestiário quanto a essência.Ambos nos condenam a uma visão estáticae
o que é um fenómeno geral, na verdade, a novidade política mais impor-
tante do século xx: um movimento popular contra a esquerdae contra o a uma perspectiva que convida a encarar o fascismo de forma isolada. Em
vez disso, o examinemos em ação, desde seus primórdios até o cataclismo
individualismo liberal. Ao contemplar o fascismo,vemos como o séculoxx
contrastou com o séculoxlx, e o que o séculoxxl tem que evitar. final, no interior da complexa teia de interações com a sociedadepor ele
formada. Os cidadãoscomuns e os detentores do poder político, social,
A grande diversidade de fascismos que já observamos não ê razão para
abandonarmoso termo. Não duvidamos da utilidade de comunismo
como cultural e económico que ajudaram ou não opuseram resistência ao fascismo
fazem parte dessahistória. Ao chegarmos ao final, seremos mais capazesde
termo genérico em razão da profunda diferença verificada entre suasdiver-
dar uma definição correta.
sas manifestações,como, por exemplo, na Rússia,na Itália e no Camboja.
Nem descartamoso termo /ibera/esmo
devido à política liberal ter assumi- Necessitaremos de uma compreensão clara dos dois principais parcei
ros de coalizãodos fascistas,os liberais e os conservadores.Uso aqui o
do formas díspares na Inglaterra Vitoriana, com seu livre-comércio e suas
leituras da Bíblia; na França daTerceira República, com seu protecionismo termo /ibera/esmo em seu sentido original, tal como usado à época em que o
fascismo se insuf'giu contra ele, e não na acepçãoamericana atual do termo,
e seu anti clericalismo; ou no agressivamenteunido Reich alemão de Bis-
mark. Na verdade, o /Ibera/esmoseria um candidato à abolição ainda melhor já mencionadaanteriormente. Os liberais europeus de inícios do século
xx se aferravam ao que fora progressista um século antes, quando a poeira
que o.fascismo,agora que os americanosvêem a extrema esquerdacomo
da Revolução Francesaainda não havia baixado de todo. Ao contrário dos
"liberal", enquanto a Europa chama de "liberais" os defensoresdo livre
conservadores, eles aceitavam as metas revolucionárias de liberdade, igual-
mercado e do ]aissez:paire,
tais como MargaretThatcher, Ronald Reagane
dade e fraternidade, embora aplicando-as de modos mais adequados a uma
GeorgeW Bush. Nem o termo.fascismo chega a confundir tanto.
classemédia educada. Os liberais clássicosinterpretavam a liberdade como
Uma segunda reação foi a de aceitar a variedade do fascismo e compilar
a [iberdade individua] pessoa],preferindo um governo constituciona] limi-
uma lista enciclopédica de suasmuitas formas.8sAs descriçõesenciclopé
dicasfornecem detalhes informativos e fascinantes,mas nos deixam com tado e o /aissez:cafre
económico a qualquer tipo de intervenção estatal, quer
mercantilista, como em princípios do séculoxix, quer socialista,como em
algo semelhantea um bestiário medieval, com uma xilogravura de cada
criatura, classificadapor suaaparênciaexterna, contra um fu ndo estilizado épocasposteriores. Por igualdade,eles entendiam as oportunidadestorna-
das acessíveisaos talentosos por meio da educação; aceitavam a desigual-
de ramos ou pedras.
dade de desempenho e, portanto, de poder e riqueza. A fraternidade, viam
Um terceiro enfoque trata essavariedadeusandode uma estratégia
como a condição normal dos homens livres (e tendiam a encarar os assun-
evasiva, construindo um "tipo ideal" que não corresponde a qualquer caso
tos públicos como negócios de homens), não necessitando,portanto, de re-
exato, mas que nos permite postular uma espécie de "essência"composta.
forço artificial, uma vez que os interesses económicos eram naturalmente
A definição concisado fascismo como "tipo ideal" que, em tempos recen-
harmâniços e a verdade viria à tona num livre-mercado de idéias. É nessa
tes, obteve a aprovaçãomais generalizadaé de autoria do acadêmicobri-
acepçãoque, neste livro, uso o termo /ibera/, nunca na acepçãoamericana
tânico Roger GrifHn: "0 fascismo é um género de ideologia política cujo

85 . A análise mais impressionantemente erudita é Payne, fíistory.


86. Grifnth, Natura,
p. 26
48 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 49

de extremaesquerda.
Os conservadoresqueriam ordem, tranquilidade e as mília nobre da Sicília, O l.eopardo:"Se queremos que as coisaspermaneçam
hierarquiasherdadasdo berço e da riqueza. Eles repudiavamtanto o entu- como são, as coisas terão que mudar".;'
siasmo de massasdo fascismo quanto o poder total a que estes aspiravam. Os fbscismosque conhecemoschegaram ao poder com o auxílio de
Queriam obediência e deferência, não perigosas manifestaçõespopulares, ex-liberais amedrontados,tecnocratasoportunistas e ex-conservadores,e
e pretendiam limitar o Estado às funções de "guarda noturno", encarrega-
governaram conjuntamente com eles, num alinhamento mais ou menos
do da manutenção da ordem, enquanto as elites tradicionais governavam desconfortável. Acompanhar essascoa]izões verticalmente, ao longo do
por meio da propriedade, dasigrejas, dos exércitos e da influência social tempo, como movimentos que se transformaram em regimes; e horizon-
herdada.;;' talmente, no espaço,à medida que elas se adaptavam às peculiaridades dos
De modo geral, os conservadores europeus, em 1930, ainda rejeitavam ambientes nacionais e às oportunidades de momento, exige algo mais elas
os princípios da Revolução Francesa, preferindo a autoridade à liberdade, borado que a tradicional dicotomia movimento/regimes. Proponho exa-
ahierarquia à igualdadee a deferência à fraternidade. Embora muitos deles minar o fascismo em um ciclo de cinco estágios:(1) a criação dos movi-
tenham visto os fascistascomo úteis, ou mesmo essenciais,em sualuta pela mentos; (2) seu enraizamento no sistema político; (3) a tomada do poder;
sobrevivência contra os liberais dominantes e uma esquerda em ascensão, (4) o exercício do poder; (5) e, por íim, o longo período de tempo durante
alguns tinham aguda consciência de que seus aliados fascistas seguiam uma o qual o regime faz a opção ou pela radicalização ou pela entropia. Embora
agendadiferente e sentiam uma aversãodesdenhosapor essesforasteiros cada um desses estágios seja um pré requisito do estágio seguinte, nada
rudes.*' (quando o simples autoritarismo era o bastante, os conservadores exige que um movimento fascista venha a passar por todos eles, ou mesmo
o preferiam. Alguns delesmantiveram suapostura antifascistaaté o fim. A que se mova numa única direção. A maioria dos fascismos sofreu interrup-
maioria dos conservadores, entretanto, estavaconvicta de que o comunis- ção, alguns recuaram e, às vezes, características de diversos estágios perma-
mo era pior. Sedispunham atrabalhar com os fascistascasoa esquerdamos- neceram inoperantes por longo tempo. Embora a maioria das sociedades
trasse ter possibilidade de triunfar. Fizeram causacomum com os fascistas modernas tenha gerado movimentos fascistas durante o século xx, poucas
no espírito de Tancredi, o recalcitrante jovem aristocrata, personagem do delas chegaram a ter regimes fascistas. Apenas na Alemanha nazista o regi-
grande romance de Giuseppe di Lampedusa sobre a decadência de uma fa- me fascista aproximou-se dos horizontes extremos da radicalização.
Separar os cinco estágios oferece uma série de vantagens, permitindo
uma comparaçãoplausível entre movimentos e regimes de graus de desen-
87. "0 Estado fascista não é um 'vigia noturno ( . . .) é uma entidade espiritual e mo-
volvimento equivalentes e mudando-nos a ver que o fascismo, longe de ser
ral cujo propósito é o de assegurar a organização política, jurídica e económica da nação
(. . .) Transcendendo a breve existência do indivíduo, o Estado representa a consciência estático, era uma sucessãode processos e de escolhas: a busca de seguido:
imanente da nação". Mussolini, "Doctrine", em Schnapp,P'fm'r, v. 58. res, a formação de alianças, a disputa pelo poder e seu exercício. É por essa
88. Um exemplo muito bem articulado foi o Friedrich Percyval Reck-Malleczewen, razão que as ferramentas conceituais que iluminam um estágio podem não
Diary ?/'a ,Wanin Descair,trad. do alemão por Paul Rubens. Londres: Macmillan, 1970 funcionar tão bem para os demais. É chegadaa hora de examinar cada um
(ong. pub. 1947), em que lamenta a transformação da Alemanha, a partir da Época desses estágios, um por um.
de Bismarck, num "formigueiro superdesenvolvidoindustrialmente" (p. 119). Reck-
Malleczewenreservou seu ataque mais cáustico a Hitler, chamadoo de "cigano de
topete" (p. 18), "Gengliis Khan dos legumes crus, Alexandre abstémio, Napoleão seM
mulher" (p. 27) . Ele foi executado pelos nazistasno início de 1945.Ver também o diário
do patrono das artes pacifista Harry Kessler, 7he Diárias oÍ a Cosmopo/otan. Londres: 89. Giuseppedí Lampedusa, 7beJ.eopard,
trad. do italiano porArchibald Colquhoun
Weidenfeld and Nicolson, 1971. NovaYork: Pantheon, 1950, p. 40.
2
A CRIAÇÃO DOS
MOVIMENTOS FASCISTAS

Se alguma coisa começa quando adquire um nome, podemos datar


com precisão o início do fascismo. Ele começou numa manhã de domingo,
em 23 de março de 1919, na reunião realizada na Piazzade San Sepolcro,
em Milho, já descrita no capítulo 1. Mas os nasci/[a/lani dí Combattimento
de
Mussolini não estavamsozinhos.Algo de mais amplo vinha acontecendo.
Totalmente independentes de Mussolini, grupos semelhantes vinham-se
congregando em outros lugares da Europa.
A Hungria era outro ambiente fertil para essetipo de crescimento es-
pontâneo não copiado de ninguém que ainda não se chamavafascismo,
mas que com este guardava uma forte semelhança. A Hungria havia sofrido
as perdas territoriais mais calamitosas entre todos os países que participam
ram da Primeira Grande Guerra -- piores ainda que as perdas alemãs.Antes
da guerra, o país era parceiro governante da poderosa Monarquia Dual
da Áustria-Hungria, ou seja, o Império Habsburgo.A metade húngarado
império :J-o reino da Hungria governavasobre um mundo multilíngüe
de eslavosdo sul, romenos, eslovacose muitos outros, entre os quais os
húngaros desfrutavam de uma posição privilegiada. Durante os meses finais
da Primeira Guerra, o Império Habsburgo se dissolveu à medida que as
nacionalidadesque o compunham reivindicavam independência. A Hungria
-- um dos maiores beneficiários do império multinacional -- tornou-se o
grande perdedor nessadissolução.Os aliadosvitoriosos vieram a amputar
70% do território húngaro anterior à guerra e quasedois terços de suapo'
52 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT 0.:PAXTON 53

pulação,por meio do punitivo Tratado deTrianon, assinado,sob protesto, A contra revolução húngara teve duas faces. Sua liderança máxima era
em 4 de junho de 1920. ocupada pela elite tradicional, da qual fazia parte o último comandante
Durante os dias caóticos que se seguiram ao armistício de novembro da marinha austro-húngara,o almirante Miklós Horthy, que surgiu como
de 1918, quando os povos'süditos da metade húngara do Império Austro a figura dominante. Participavam também aqueles que acreditavamque a
Húngaro romenos, eslavosdo sul e eslovacos-- começaram a governar autoridade tradicional já não era suficiente para lidar com a situaçãode
seuspróprios territórios sob proteção aliada, um nobre progressista e li- emergência pela qual passavaa Hungria.-Um grupo de jovens oficiais, lide
vre-pensador, o conde Michael Károlyi, tentou salvar o Estado húngaro rados pelo capitão Gyula Gõmbõs, fundou um movimento com muitas das
característicasdo fascismo.
por meio de reformas de grande efeito. Károlyi apostou na possibilidade de
que o estabelecimento de uma democracia plena em uma Hungria cedera Os oficiais de Gõmbõs pretendiam mobilizar uma base de massaspara
uva, cujos povos-súditos desfrutariam de amplos poderes de autogoverno, um movimento militante de renovação nacional, diferente tanto do libe-
iria amenizar a hostilidade dos Aliados e conseguir que eles acatassemas ralismo parlamentar (pois a democracia do conde Károlyi estava agora tão
fronteiras históricas da Hungria. Károlyi perdeu essaaposta. Os exércitos desacreditadaquanto o soviete de Kun) quanto de uma ditadura obsoleta
francesese sérvios ocuparamo terço meridional da Hungria, enquanto os que governasse de cima para baixo. Seu Comitê Antibolchevique era viru-
exércitos romenos, com o apoio dos AIlados, ocuparam as vastasplanícies lentamente anti-semita (não apenas BÓIAKun, mas também trinta e dois de
daTransilvânia. Essasanexaçõespareciam ser de caráter permanente. Inca- seusquarenta e cinco comissários eram judeus). : Os oHlciaisde Gõmbõ não
paz de persuadir as autoridades francesas a pâr fim a elas, o conde Károlyi, queriam restaurar a autoridade tradicional, mas substituí la por algo mais
em fins de março de ] 9 19, renunciou ao tênue poder que detinha. dinâmico, com raízesno nacionalismo popular e naspaixões xen6fobas,e
Uma coalizão socialista-comunista assumiu então o poder em Budapeste: expressoem símbolose mitos tradicionais húngaros.2Por algum tempo, o
Encabeçada
por um intelectualrevolucionáriojudeu, BolaKun, o novo go- almirante Horthy e os conservadores conseguiram governar sem ter que
verno, por um breve período, angariou o apoio até mesmo de alguns oficiais recorrer aos jovens oficiais, embora Gõmbõs tenha servido como primei-
do exército, prometendo que a Hungria teria melhores chancesde sobrevi- ro-ministro sobHorthy entre 1932 e 1935 e estabelecidouma aliançacom
ver com a ajuda da Rússiabolchevique que com a dos Aliados. No entanto, Mussolini visandoa se contrapor ao crescentepoderio alemão.
Lênin não estavaem condições de socorrer a Hungria, e embora o governo Na metade austríacada monarquia Habsburgo, os nacionalistasalemães
de Kun tenha conseguidoreconquistar parte dos territórios ocupadospe- sentiam se alarmados, já antes da Pri meiga Guerra, com os ganhos dos tche
los eslovacos, ele, simultaneamente, adotou medidas socialistas radicais. Kun cos e de outras minorias no tocante a uma maior autonomia administrativa

proclamou uma república soviética em Budapesteem maio de 19 19, e a dita- e linguística. Mesmo antes de 1914, eles já vinham desenvolvendo uma
dura do proletariado em 25 de junho. cepavirulenta de nacionalismo de classetrabalhadora. Os trabalhadores de
Diiinte dessacombinação sem precedentes de problemas de desmonte língua alemã passaram a ver os de língua.tcheca como rivais nacionais, e não
territorial e de revolução social, as elites húngarasoptaram por combater como companheirosproletários. Na Boêmiados Habsburgo,àsvésperasda
mais os segundosque os primeiros. Elas instalaram um governo provisório na Primeira Grande Guerra, a nação já suplantava a classe.
cidadeprovincianade Szeged,no sudoesteda Hungria, então sob ocupação
francesa e sérvia, e nada fizeram quando os romenos, em inícios de agosto de
1. Joseph Rothschild, East Centra/ Europe Befn'eerztbe bwoWor/dWars. Seattle; Londres:
19 19, avançaram para ocupar Budapeste, de onde Kun já havia fugido. Seguiu-
University ofWashingtonPress,1974, p. 148.
se uma contra-revolução sangrenta, com cerca de cinco a seismil vítimas, dez
2. Para leituras suplementares sobre essee outros paísesdiscutidos nessecapítulo,
vezesmaior que o número de pessoasmortas pelo regime soviético. ver o Ensaio Bibliopráülco.
ROBElqT O.PAXTON 55
54 A ANATOMIA DO FASCISMO

os líderes alemãescantavam vitória até semanasantes. Uma calamidadetão


Os nacionalistasalemãesdo Império Habsburgo, a partir de Ginsdo
inacreditável era fácil de ser imputada a traidores. O vertiginoso colapso do
século xlx, baseavam-se no pangermanismo populista de .Georg von Schõ-
alcançaram destino alemão, que despencou da valente Grande Potência de 1914, para
nerer, do qual tratarei com maior detalhelogo a seguir.:Eles
tornou se o derrotado perplexo e faminto de 19 18 , destroçou o orgulho e a autocon-
o(ier político de fato na capital, Viena, quando Kart Lueger
fiança nacionais.Wilhelm Spannaus,mais tarde, descreveu o que sentiu ao
prefeito, em 1897. Lueger embasou solidamente seu longo mand ,o numa
voltar para suacidade natal em 192 1, apóslecionar por anosnuma escola
mistura populista de anti-semitismo, combate à corrupção, defesa dos arte alemã na América do Sul:
sãose dos pequenos lojistas, em s/oganse canções chamatívas e na eficiência
dos serviços municipais.
Foi pouco depois da insurreição Spartacus ocorrida na Renânia: pratica-
Adolf Hitler, um jovem semrumo e pretensoestudantede arte, ori-
mente todos os vidros dasjanelas do trem em que voltei para a Alemanha es-
ginário de Linz, a 80 quilómetros rio acima, embebeu-seda atmosferada tavam quebrados, e a inflação atingia proporções fantásticas. Eu havia deixa-
Viena de Lueger.' E :1lenão foi o único. O Partido dosTrabalhadoresAle-
do aAlemanhano augedo poderio e da glória do Reich Guilhermino. Voltei
mães, de orientação:nacionalista, encabeçado por um advogado deViena e
Dieta para encontrar a Pátria em ruínas, transformada em república socialista.'
por um ferroviário, já havia conseguido,em 1911, três cadeirasna
Austríaca. Ressuscitado em maio de 1919 como o Partido Nacional-So-
Spannaus viria a setornar o primeiro cidadãorespeitávelde suacidade
cialista dosTrabahadores Alemães, ele começou a usar a Ha&enlreuz,ou
a se fi]iar ao Partido Nazistae, como líder intelectual (ele era proprietário
suástica, como seu símbolo.s . .
da livraria local), ele levou consigo muitos outros cidadãos.
Veteranos que não tinham para aonde ir, suasunidades se desfazendo,
para movimentos anti-socialistasde basepopular, que tinham como meta
sem conseguir encontrar trabalho e nem mesmo comida, eram presa fácil
o renascimento nacional. Os alemãeshaviam sido abaladosaté a medula
para o extremismo, tanto de esquerdaquanto de direita. Alguns se volta-
pela derrota de 1918. O impacto emocional f'oi aindamais severoporque
ram para a Rússiabolchevista em buscade inspiração, como aconteceu, por
exemplo, na breve República Soviética de Munique, na primavera de 19 19
3. Ver capítulo 2, p. 88. Outros agarraram-seao nacionalismojá disseminadopelo movimento de
4. Brigitte Hamann, Hif/er's henna:'4 Dfctafor'sdppre"ticeshp',Trad. do alemão por propagandados tempos de guerra, a Frente Patriota. Alguns dessesvetera-
ThomasThornton. NovaYork: Oxford University Press,1999 (ong. pub. 1996), é a
nos nacionalistasjuntaram-se às unidadesmercenárias (os Frei&orps),cons-
abordagemmais detahada. William A. Jenks, Hennaand theYoungHit/er. Nova York: Co
zumbia University Press, 1960, evoca o ambiente.
tituídas sob o comando de oficiais do exército, para lutar contra aquilo que
5. A suástica,símbolo que toma como base o sol, que representava,entre outras eles viam como os inimigos internos da Alemanha. Em janeiro de 1919,
coisas, a energia ou a eternidade, era amplamente utHizada nas antigas culturas cristãs eles assassinaram os líderes socialistas Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht
hindus, budistas: ameríndios e do Oriente Médio.Trazida para a Europa em üns do,século na Berlim revolucionária. Na primavera seguinte, derrubaram os regimes
xlx por espiritualistas e médiuns, como a celebrada Madame Blavátsky, e por apostolos socialistas em Munique e em outras cidades da Alemanha. Outras unidades

6. William Sheridan Allen, Tbe Nazi Sefzure o#Pon'er;The Experiente oÍa Sfng/e Zon'n,
/ 922-/ 945. Ed. rev. NovaYork: FranklinWatts, 1984, p. 32 . Spannausjá havia se tornado
Allworth 2001, e seuslaçoscom o nazismosãotraçadospor NicholasGoodrick-Clarke,
admirador do precursor do nazismo, Houstrln Stewart Chamberlain, quando morava no
The Occult RootsoJNazism; SecretAryan Culta and Their !nOuence on Nazi Ideolo8y: TheArioso- exterior.
pbfstso#.4ustriaand Germana.NovaYork: NovaYork University Press, 1996.
ROBERT O.,PAXTON 57
56 A ANATOMIA DO FASCISMO

fevereiro de 1920, Hitler deu ao movimento um novo nome o National-


de Frei&orps
continuaram a lutar contra os exércitos soviético e polonês ao sozialistische Arbeiterpartei(NSDAP, ou o partido "nazi", abreviando) -- e
longo dãsaindanão demarcadasterras do Báltico atébem depois do armis- apresentou um programa de vinte e cinco pontos que misturava nacionalis-
tíciodenovembrode 1918.' ':; . - .,.. mo, anti semitismo e ataquesa lojas de departamentos e ao capital inter-
. O caboAdolf Hitler,: de volta ao serviçoativo no iv L-omanaouus naciona[. No ]' de abri] que se seguiu, deixou o exército para se dedicar
em tempo integral ao NSOAP. Cada vez mais, ele era reconhecido como seu
líder. seu Fiíbrer. :'
À medida que se acalmavao tumulto do pós guerra imediato, essas
seitas nacionalistas e ativistas passaram a enfrentar condições menos hospi-

ex=,=,:u!=uu'i=#=«==:1;T:14 taleiras na Europa. Os governos, gradualmente, estabeleceram um tênue


ponto de apoio na legitimidade. ;As fronteiras foram demarcadas.O bol

movimento e membro de seucomité diretor. . . '


t chevismo foi contido dentro de seulugar de origem . Uma certa aparência
de normalidade de tempos de paz foi retomada na maioria dos paísesda
Europa. Mesmo assim, os fascistasitalianos, os oficiais húngaros e os na-
cional-socialistas austríacos e alemães continuaram existindo. Movimentos
similares surgiram na França'' e em outros lugares. Eles, claramente, ex-
Em inícios da década de 1920, Hitler foi colocado no comando aa pro- pressavamalgo de mais duradouro que um espasmonacionalista momentâ-
neo acompanhandoo paroxismo final da guerra.

0 CONTEXTO IMEDIATO

O espaçopolítico:2 para um ativismo nacionalista de massasmobiliza-


'7. Sobreos Freikorps, ver Robert G. L.Waite, %anguard
o/Nazism. Cambridge, MA: do tanto contra o socialismoquanto contra o liberalismo era apenasvisível
deforma vagaem 1914,tornando segigantescodurantea Primeira Guer-
ra Mundial. Não que aquele conflito tenha gerado o fascismo, o que fez foi

10. Hitler adotouo título "Fübrer",e tambéma saudação


"Hei/",do líder pan-ger-
mânico Georg von Schõnerer,muito influente na Viena do pré guerra. Kershaw,Hit/er.
v.i, P 34
l l .Ver capítulo3, p. 121-124.
12 . Juan J. Linz em "Politicas Spaceand Fascismas a Latecomer", em Stein U. Lar-
sen, Bernt Hagtvet e Jan Petter Myklebust, Who Mera tbe Fnscis s Sacia/ Roots ?/'European
Euscism. Bergen: Universitetsforlaget, 1980, p. 153 89, e "Some NotesToward a Compa

v.l.P. 156.
$ rative Study of Fascismin Sociological Historical Perspective", em Walter Laqueur, ed.
Fascism:
P. 3 121
.4 leader's Cuide.Berkeley e Los Angeles: University of California Press, 1976,
58 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 59

abrir vastasoportunidades culturais, sociaise políticas para ele. Cultural- Antes de 1914, nenhum europeu vivo poderia ter imaginadotanta
mente, a guerra desacreditouas visõesde futuro otimistas e progressistas, brutalidade naquela que era vista como a região mais civilizada do globo. As
lançando dúvida sobre os pressupostos liberais relativos à harmonia huma- guerras haviam-se tornado raras, localizadas e curtas na Europa do século
na natural. Em termos sociais, disseminou legiões de veteranos inquietos xlx, e lutadas por exércitos profissionais que pouco cobravam da sociedade
civil. A Europa havia sido poupadade conflitos semelhantesà Guerra Civil
(acompanhadosde seusirmãos mais novos),': que buscavammaneiras de
expressar suaraiva e seudesapontamento sem levar em conta leis ou regras americana, ou à guerra da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai)
contra o Paraguai, que reduziu à metade a população paraguaia entre 1864
morais ultrapassadas.Politicamente, o conflito gerou tensões económicas
e sociaisque excediam em muito a capacidadedas instituições existentes e 1870. Quando, em agosto de 1914, um insignificante conflito nos Bálcãs
-- quer liberais ou conservadoras -- de soluciona las.
fugiu do controle, transformando-se numa guerra total entre as Grandes
A experiência da Primeira Grande Guerra foi a mais decisivadaspre- Potências europeias, e quando essaspotências conseguiram prolongar por
condições imediatas do fascismo.A bem-sucedida campanha a favor do in- mais de quatro anos a matança de toda uma geração de jovens, pareceu a
muitos europeus que sua própria civilização, com suaspromessasde paz e
gressoda Itália na guerra, em maio de 19 15 (o "maio radiante" da mitologia
fascista)foi a primeira ocasião em que foram reunidos os elementos funda- de progresso, havia fracassado.
dores do fascismoitaliano. "0 direito à sucessãopolítica pertence a nós", A Grande Guerra, além disso, durou muito mais do que a maioria
proclamou Mussolini na reunião inaugural dos nascidí Combatfimento, em das pessoashavia imaginado possível em paísesurbanizados e industriais.
março de ] 919, "porque fomos nós que empurramos o paíspara a guerra A maior parte dos europeus dava como certo que populações altamente
e o levamosa vitória". n diferenciadas, comprimidas em grandes cidades e dependentes de trocas
A Grande Guerra f'oi também, deve-seacrescentar,a raiz de muitas maciças de bens de consumo seriam simplesmente incapazesde suportar
outras coisasviolentas e iradas no mundo do pós-guerra, do bolchevismo à anos de destruição maciça. Apenas as sociedade primitivas, pensavam eles,

pintura expressionista. Na verdade, na opinião de alguns autores, a Primei- conseguiam suportar guerras de longa duração. Contrariando todas as ex-
ra Grande Guerra, em si, basta para explicar tanto o fascismo quanto o bol- pectativas, os europeusdescobriram, a partir de 1914, como mobilizar a
chevismo.'sQuatro anosde matançaem escalaindustrial alteraram pouco produtividade industrial e a vontade humana para longos anos de sacriHcio.
do legado europeu, nada sobrando de suascertezas quanto ao futuro: Da mesma forma que a guerra de trincheiras se aproximou do limite da
resistência humana, os governos dos tempos de guerra aproximaram-se dos
limites da arregimentação da vida e do pensamento.''
13. Aqueles que tiveram sua adolescênciamarcadapela guerra, mas que não com- Todos os governos beligerantes passarampela experiência da manipula-
bateram de fato, ou por serem jovens demais ou por terem sido consideradosHlsicamen-
ção da opinião pública. A tentativa alemã de motivar toda a população civil
te inaptos, tendiam a se tornar fascistasparticularmente fanáticos. Joseph Goebbels, o
na Frente Patriótica foi um dos exemplos mais coercivos, mas todos os go-
ministro da Propagandade Hitler, não participou da guerra devido a uma deformidade
vernos trabalharam no sentido de moldar o conhecimento e asopiniões de
no pé Ralf Georg Reuth, Goebbe/s.
Trad. do alemãopor Krishna Winston. NovaYork:
Harcourt Brace, 1990, p. 14, 24. seus cidadãos. Também as economias e as sociedades de todos os países em
14. Charles F. Delzell, ed. , MediterraneanFuscism.NovaYork: Harper & Row, 1970,
P 10

15 . Por exemplo, François Furet, The f'assina o/'an ///usion: The /dea oÍ Communísm in ] 6. Elie Halévy, L'Eredes[yrannies.Paris: Gallimard, 1938, traduzido para o inglês
como Tbe Era crngrannies: Essa7son SociaJfsm andWar. Trad. Robert K. Webb. Garden City,
[he ãwentietbCentury.Chicago: University of Chicago Press, 1999, p- 19, 163, 168. Linz
observa, em "Political Space",p. 158-9, que os paísesque se mantiveram neutros na NY: Anchor Books, 1965 , foi quem observou pela primeira vez que foi durante a Primei-
ra Guerra Mundial que os Estados modernos descobriram seu potencial de controlar a
Primeira Guerra Mundial apresentaram baixos índices de fascismo, assim como a maior
parte dos paísesvitoriosos. A Espanha,entretanto, havia sido derrotada em 1898. vida e o pensamento.
60 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O.PAXTON 61

guerra passarampor profundas transformações. Os povos europeus haviam Agravando essastensõessociais e económicas, a guerra, além disso,
sofrido suaprimeira experiência prolongada de serviço nacional universal , aprof\andou as cisões políticas. Como a guerra de trincheiras havia sido uma
racionamento de alimentos, de energia e de roupas, e também de adminis- experiência brutalizante, excedendo qualquer expectativa prévia, mesmo
tração económica em escalaplena. Apesar dessesesforços sem precedentes, a partilha mais eqüitativa das cargas bélicas havia dividido os civis dos sol-
entretanto, nenhum dos paísesbeligerantesatingiu seusobjetivos. Em vez dados, a frente de batalha da frente doméstica. Os que haviam sobrevivido
de uma guerra curta com resultados claros, essacarnificina longa e intensiva às trincheiras não perdoavam aquelesque para lá os haviam enviado.Ve.
de mão-de-obra terminou em exaustão mútua e em desilusão. teranos calejados na violência afirmavam seu merecido direito a governar
A guerra colocou um desafiotão tremendo que mesmo os paísesmais o país pelo qual eles haviam derramado seu sangue.'; "Quando voltei da
bem integrados e mais bem governados mal conseguiram fazer face às ten- guerra", escreveuItalo Bambo, "como tantos outros, eu odiavaa política e os
sõespor ela causadas.Os paísesmal integrados e mal governadosforam políticos que, em minha opinião, haviam traído asesperançasdos soldados,
totalmente incapazes de enfrenta-las. A Grã-Bretanha e a França alocaram submetido a ltália a uma paz vergonhosa e à humilhação sistemática dos ita
material, conferiram deveresàs pessoas,distribuíram o sacrifício e mani- lianos que mantinham o culto aos heróis. Lutar, batalhar para voltar à terra
pularam as notícias de maneira apenassatisfatória o bastante para manter a de Giolitti, que transformou em mercadoria todos os ideais?Não. Melhor
lealdade da maioria de seuscidadãos. Já o recém-unificado Império Alemão seria negar tudo, destruir tudo, para reconstruir tudo a partir das funda-
e a monarquia italiana não se saíramtão bem . O Império Habsburgo esfacç- ções".:9 Balbo, que em 19 19 era um veterano desmobilizado de vinte e três
lou-se nas nacionalidades que o compunham. A Rússia czarista mergulhou anos, de convicções anta-socialistas, embora mazzinianas, que s6 havia pas-
no caos. Os países deslocados, onde um campesinato sem-terra ainda era sadonas provas de Direito na quarta tentativa e que, por algum tempo, ha-
numeroso, e onde uma classemédia privada de direitos ainda carecia das via trabalhado como editor de um jornal semanal publicado pelos soldados,
liberdadesbásicas,polarizaram se para a esquerda(como ocorreu na Rús- Z.'dJpino,tinha poucasperspectivas, até ser contratado, em janeiro de 192 1,
sia). Aqueles que possuíamuma grande, embora ameaçadaclassemédia, como secretário remunerado do.#ascfo de Ferrada.20Ele estavaa caminho de
incluindo os produtores rurais dedicadosà agricultura familiar, polariza- se tornar um dos braços direitos e rivais potenciais de Mussolini.
ram-se contra a esquerdaem busca de novas soluções.'' Enquanto a Europa curava seusferimentos, os grandesprincípios da
Ao fim da guerra, os europeusviam-sedivididos entre um velho mundo ordem mundial :- o liberalismo, o conservadorismoe o comunismo-- dis-
que não podia ser revivido e um novo mundo sobre o qual eles discordavam putavam influência. Os liberais (aos quais se juntaram alguns socialistas de
acerbamente. Ã medida que as economias de guerra eram desmontadas mocráticos) pretendiam organizar o mundo do p6s-guerra com baseno
de forma demasiadamenterápida, a inflação dos tempos da guerra fugiu
ao controle, zombando dasvirtudes burguesasde frugalidade e poupança.
18. Mussoliní queria que a Itália, depois da guerra, fosse governada por uma trio:
Uma população que havia aprendido a esperar soluções públicas para os cerocrazfa,ou "trincheirocracia", um governo formado por veteranos da linha de frente.
problemas económicos via-se agora mergulhada na incerteza. l // Papo/od'/[a/ia, 15 dez. 1917, citado em Emilio Gentile, Storia de/ Partfto Fascista,19/9-
/ 922: Movimento e mf/azia. Bari: Laterza, 1 989, p. 19. Ver, também, Gentile, 7he Sacra/f-
zalfon o#Po/itfcsin Fuscist/ta]7. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1996, p. 16-7
17. Gregory M . Luebbert, l.iberaJism,
Eascism,
or Socfa/Democracy. NovaYork: Oxford É claro que os veteranos enraivecidos se voltaram tanto para a esquerda quando para a
University Press, 1991, oferece a mais fundamentada entre as análisescomparativas de direita. Ver o Ensaio Bibeiográflco para uma bibelograria.
alguns dessesdiferentes resultados,:que, na opinião de Luebbert, dependem de os agri- 19. Giorgio Rochat, /ta/o Bambo. Turim: UTET,1986, p. 23.
cultores familiares se aliarem à classemédia (produzindo óu o liberalismo ou o fascismo) 20. Claudio Segrà,/[a/o Ba/bo;H EascistLide.Berkeley; Los Angeles: University of
ou aos socialistas (produzindo a social-democracia ). California Press, 1987, p. 28-34, 41-7.
62 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 63

princípio da autodeterminação das nações. As nacionalidades satisfeitas, Rússia o primeiro Estadosocialista e nos partidos comunistasde todo
cadauma em seu próprio Estado, coexistiriam em tal harmonia, segundo o mundo. O projeto de Wilson, em tese, teria sido colocado em vigor pe
a doutrina liberal, que nenhuma força externa seria necessáriapara asse [os tratados de paz de 19]9-1920. Na prática, contudo, e]e foi parcia]-
gurar a paz. Os idealistas, embora ma] concebidos os ]4 Pontos de janeiro mente modificado numa direção conservadora pelos interessesnacionais
de 19 18 , propostos pelo Presidente dos EstadosUnidos, \Voodrow Wilson , das Grandes Potências e pelos duros fatos da contestação das fronteiras
nacionaise étnicas.Em vez de um mundo ou de nacionalidadessatisfeitas
foram a expressão mais concreta dessa doutrina.
Os conservadores pouco disseram em 1918, mas, silenciosamente, ou de poderes dominantes, os tratados de paz criaram um mundo dividido
tentaram restaurar um mundo no qual asforças armadasregulariam asrela- entre, de um lado, as potências vitoriosas e seus Estadosclientes, artifi-
ções entre os Estados. O primeiro-ministro francês, Georges Clemenceau, cialmente inchadosde modo a incluir outras minorias nacionais (Poli)nia,
e seuchefe de gabinete, o general Ferdinand Foch, tentaram (com algum Tchecoslováquia, lugoslávia e Romênia) e, de outro, os Estadosderrotados
grau de desacordo mútuo com relação a até que ponto eles poderiam ir) e vingativos (os Estados perdedores, Alemanha, Áustria e Hungria, e a Itália
estabelecer a supremacia militar francesa permanente sobre uma Alemanha insatisfeita).Dilaceradaentre um wilsonismo distorcido e um leninismo
enfraquecida. frustrado, a Europa, após 191 9, fervilhava de conflitos não-resolvidos, tan
O terceiro contendenteera o primeiro regime socialistaa funcionar to territoriais quanto de classe.
no mundo, instaurado na Rússiapela Revolução Bolchevique de novembro Essefracasso mútuo abriu e.spaçopolítico para um quarto princípio
de ]917. Lênin exigia que os socialistasde outros paísesseguissemseu de ordem mundial. A nova formula dos fascistas,tal como a dos conser-
bem-sucedido exemplo, abandonandoa democraciae criando, segundoo vadores,prometia resolver os conflitos territoriais permitindo que os for-
modelo bolchevista, partidos ditatoriais conspirat6rios capazesde dissemi: tes triunfassem. Diferentemente dos conservadores,contudo, os fascistas
nar a revolução nos Estados capitalistas mais avançados.Por algum tempo, mediam a força dos Estadoscom basenão apenasem seu poderio militar,
ele foi seguido por alguns socialistas democráticos do Ocidente, que não mas também no fervor e na unidade de suaspopulações: Eles propunham
queriam perder o tão esperadotrem revolucionário. Enquanto os liberais superar os conflitos de classe integrando a classe trabalhadora à nação, pela
pretendiam manter apaz satisfazendoasreivindicações nacionais, e os con- persuasão se possível, e pela força se necessário, e também se livrando dos
servadoresqueriam conserva-lapor meios militares, o objetivo de Lênin "forasteiros" e dos "impuros"- Os f'ascistas não tinham qualquer intenção de
era estabeleceruma sociedadecomunista mundial que transcenderiade manter a paz. Eles esperavamque as inevitáveis guerras permitiriam que as
forma total os Estados nacionais.2' raças superiores prevalecessemsobre asdemais, enquanto asraças divididas
Nenhum dessescamposalcançoutotal sucesso.Em fins de 1919, o e "mestiçadas", os povos irresolutos, tornar-se-iam seus servos.
projeto de Lênin viu se confinado à Rússia,apósliberais e conservadores, Como veremos a seguir, o fascismo tornara-se concebível já antesde
agindo em conjunto, terem esmagadoos breves regimes soviéticos locais 1914. Mas ele ainda não era factível em termos práticos, até que a Grande
instaladosem Budapestee em Munique, e também algumasinsurreições Guerra jogou a Europa em uma nova era. A "época" do fascismo, para citar
ocorridas na Alemanha e na Itália. Esseprometo,entretanto, sobreviveu na o título em alemão da obra clássicado fi16sof'o-historiador Ernst Noite, de
1963, O.fascismo
emsua(lpoca22
teve início em 1918.

21 . Armo J. Mayer enfatizou essadisputa em Tbe Po/inca/ Origensc!/'tbeNen' Dip/o


maey,] 9/ 7-] 9/ 8. New Haver:Vale Unixersity Press, 1959, e Tbe PoJiricsandDip/omacyog 22. Ernst Noite, Der EnscÀfsmus
iz] sefnerEpocbe.Munique: PaperVerlag, 1963. Trad.
Peacema&ing; Containment and Counferrevo/ution at Hersai]/es, / 9/ g- / 9 / 9. Nova York: Knopf, para o inglês como TbreeFaces
o#Euscism.
Trad . LeilaVennewitz. NovaYork: Holt, Rinehart
1967 and Winston. 1966.
64 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 65

RAÍZES INTELECTUAIS, CULTURAIS E EMOCIONAIS mente a juventude rebelde, chocando seus pais. Ao mesmo tempo, seus
escritos continham uma boa quantidade de matéria-prima para as pessoas
inclinadas a se inquietar com a decadência da sociedade moderna, com
A forma pela qual os europeus perceberam a provação da guerra em
meio à ruína de 1919, obviamente, foi moldada por uma preparação men- o heróico esforço de vontade necessáriopara reverter essadecadência,e
com a influência perniciosa dos judeus. Nietzsche, ele mesmo, desprezava
tal prévia. As precondições mais profundas do fascismo residem na revolta
de fins do sécu]o xix contra a fé ]ibera] na liberdade individual, na razão, o patriotismo e os anti semitasque ele via a suavolta e imaginavaseu su-
na harmonia humana natural e no progresso.Bem antesde 1914, valores per-homem como um "espírito livre, inimigo de grilhões, o não-adorador,
antiliberais haviam entrado na moda, tais como o nacionalismo, o racismo e o morador das florestas".24 Sua prosa incandescente exerceu uma pode
uma nova estética do instinto e da violência, que então passaram a fornecer rosa influência intelectual e estética em todo o espectro político, sobre
nacionalistas ativistas como Mussolini e Maurice Barras e não-conformistas
o húmus inte]ectua] e cu]tura] no qual o fascismo pede germinar.
como Stefan George e André Gide, sobre nazistase não nazistas,e sobre
Um ponto de partida possível são as leituras dos primeiros fascistas.
Mussolini era um leitor sério. O jovem mestre-escolae organizadorsocia- váriasgeraçõesde iconoclastasfranceses,de Sartre a Foucault."Os textos
lista italiano não lia tanto Marx, masprincipalmente Nietzsche, GustaveLe de Nietzsche fornecem uma verdadeira mina de ouro de possibilidades,as
mais variadas".25
Bon e Georges Sorel . Hitler absorveu, mais por osmose, o febril nacionalis-
Georges Sorel (1847-1922) exerceu sobre Mussolini uma influência
mo pan germânico e o anta-semitismode Georg von Schõnerer,de.Hous
mais direta e mais prática. Engenheiro francês aposentado e teórico social
ton Stuart Chamberlain,2s do prefeito Lueger e das ruas de Viena, alçados
amador, Sorel era fascinado por sua busca de causascapazesde despertar
em suamente a puro êxtasepela músicade RichardWagner.
Friedrich Nietzsche ( 1844f:1900) foi tantas vezes acusadode ser o pro' "nas profundezas da alma um sentimento do sublime proporcional às con-
dições de uma luta gigantesca", de modo que "as nações europeias, entor-
genitor do fascismo que seu caso merece particular cuidado. Criado para
pecidas pelo humanitarismo, possam recuperar sua energia de antes".:' A
ser pastor luterano,; o jovem Nietzsche perdeu a ü e tornou se p'ofessor
princípio, ele encontrou os melhores exemplos no sindicalismorevolucio-
de filologia clássicaquando ainda extraordinariamente jovem. Durante o
restante de seusanos úteis (ele sofreu um colapso mental permanente aos nário, que já encontramoscomo o primeiro lar espiritual de Mussolini. O
sonho sindicalista de "urn grande sindicato", cuja greve geral de escalagi-
cinqüenta anos, talvez causadopor sífilis) investiu todo o seubrilho e toda a
gantescaarrasada a sociedadecapitalista em "uma grande noite", entregan-
suaira no ataque à pequena-burguesia, com sua complacência e seu confor-
mismo pio, tíbio e moralista, em nome de uma pura e rija independência
de espírito. Em um mundo onde Deus estavamorto, o Cristianismo era 24. Friedrich Nietzsche, TeusSpo&eZararbustra.Trad. R. J. Hojlingdale. Baltímore:
fraco, e a Ciência, falsa, apenasum "super homem" espiritualmente livre Penguin,1961,p.126.
25. Steven E. Aschheim, "Nietzsche, Anta Semitism, and Mass A/lurder". em Asch:
seria capaz de desembaraçar-se das convenções para lutar e viver segundo
heim, Cu/luteand Carascropbe.
NovaYork: NovaYork University Press,1996, p. 71 . Esse
róprios e autênticosvalores. De início, Nietzsche inspirou principal-
lúcido relato dos sucessivos Nietzsches, desde o protonazista de 1 945 até o Nietzsche de
espírito livre, defendido porWalter Kaufmann nos anos 1960, até o Nietzsche descons-
23 . Paraessebritânico de nascimento, apóstolo de uma Alemanha menos materia- trutivista de hoje, é desenvolvido em Aschheim, Tbe N'ierzscÀe
LeHacyin German.Berkeley
lista e racialmente mais pura, genro de Wagner, ver Geoffrey G. Field, Evange/lsto/'Raça e Los Angeles: University of California Press, 1992.
26. Georges Sorel, Ref?ectfons on }'fo/ente. Cambrídge: Cambridge University Press,
The Germanicrfsion o#Housron Srewart Cbamber/ain. NovaYork: Columbia University Press,
1981 1999,P. 159.
66 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 67

do o controle aossindicatos,era o que Sorel chamavade um "mito" um tendo, aliás, sofrido pessoalmente suas conseqüências, seu trabalho ajudou
ideal estimulante, capazde instigar as pessoasa um desempenhoalém de a minar a convicção liberal de que a política significava indivíduos livres es-

suascapacidadescotidianas. Mais tarde, ao final da guerra, Sorel concluiu colhendo asmelhores políticas pelo simples exercício da razão.:PSuasdes-
cobertas -- principalmente as de Freud -- foram difundidas e popularizadas
que fora Lênin quem melhor personificara esseideal. Ainda mais tarde, ele,
após 19 18, por meio das experiências diretas de guerra, tais como traumas
por um breve período, impressionou-secom Mussolini(que, por suavez,
foi o mais bem-sucedido de seus discípulos).:' emocionais adquiridos no campo de batalha, para os quais foi inventado o
)
termo "neurose de ç,uerra
Também importantes para o ataque fascista à democracia foram os teó-
No extremo inferior da escalaintelectual, uma multidão de escrito-
ricos sociais que levantaram dúvidas pragmáticas quanto à viabilidade dessa
forma de governo relativamente jovem . Mussolini freqüentemente se refe res populares retrabalhavam um repertório de temas já existentes -- raça,
ria à l.a py'cbo/ogle des.#ou/es
(A psicologia das massas), 1 895 , de Gustave Le nação, vontade, ação --, transformando-os em formas mais rígidas e mais
Bon. Le Bon lançou um olhar cínico sobre a maneira pela qual as paixões agressivas,como o onipresente darwinismo social.30A raça, até então um
termo bastante neutro, usado para designar um agrupamento animal ou
surgiam e se fundiam em uma massade pessoasque, então, podiam ser
facilmente manipuladas.:' Mussolini, além disso,matriculou-se nos cursos humano, recebeu, em 6ns do século xix, uma forma mais explicitamen-
de Vilfredo Pareto na Universidade de Lausanne, em 1904, na época em te biológica e hereditária. Um primo de Charles Darwin, FrancisGalton,
que ele vivia no exílio para fugir ao serviço militar italiano. Pareto (1 848- sugeriu, em 1880, que a ciência deu à humanidade o poder de aperfeiçoar
1923) , filho de um mazziniano exilado na França e de mãe francesa, era um a raça, incentivando "os melhores" a se reproduzirem, e cunhou para suas
economistaliberal a tal ponto frustrado com a disseminaçãodo protecio- idéias o termo "eugenia".3: A nação que antes, para nacionalistas pro:
nismo, em fins do séculoxix, que construiu toda uma teoria política sobre gressistascomo Mazzini, era a basepara o progresso e a fraternidade entre
as maneiras pelas quais as regras superHlciais da democracia eleitoral e par- os povos foi transformada em um conceito mais excludente, figurando
lamentar eram inevitavelmente subvertidasna prática pelo poder perna' em uma hierarquia que davaàs "raças superiores" (como os arianos, uma
nente das elites e pelos "resíduos" irracionais dos sentimentos populares. invenção da imaginação antropológica do século xix):: o direito de dominar
os povos "inferiores". A vontade e a ação tornaram se virtudes em si, inde
No topo da escalaintelectual,o principal acontecimentoteórico de
fins do século xlx foi a descoberta da realidade e do poder do subcons-
29. O relato clássico dessamudança é H. Stuart Hughes, Consciouçrless
and Socieg;Tbe
ciente no pensamento humano e do irracional nas açõeshumanas. Embora
Reconstructior]
g/'EuropeanSacia/Tbougbt,/890 / 930. NovaYork: Random House, 196 1.
Bergson e Freud não tivessem absolutamente nada a ver com o fascismo, 30. A luta biológica como chaveda história humana, de importância central na visão
de mundo de Hitler, era menos influente na ltália, embora alguns nacionalistasitalianos
27. Zeev SternheJIcom Mano Sznaydere Maia Asheri, 7'heBirth ofFuscíst/deo/OW- tenham chegado,por meio de Hegel e Nietzsche, a um ideal paralelo de basecultural, a
Princeton: Princeton University Press, ] 994, trata de forma aprofundadado uso que competição entre as vontades nacionais. Ver Mike Hawkins, Sacia/ Darwinism in European

Mussolini fez de Sorel. Os comentários favoráveisde Sorel sobre o fascismoforam redu anddmericanrhougbt. Cambridge: Cambridge Uhiversity Press, 1997, p. 285 9.
3 1. Daniel Kevles, /n tbe Narre o/'Eugenics: Genetics and tbe Uses ç:/'Human /íeredíty.
zidos, pela pesquisa acadêmica recente, a referências passageirasem 1920- 1 92 ] .Ver J. R.
NovaYork: Knopf, 1985. O próprio Galton não defendia a ideia de impedir que os'jin
Jennings, GeorgesSoro/; The Characrer and DeT'e/opmento#His 7'hought. Londres: Macmillan ,
fervores" se reproduzissem .
1985 ; Jacquequlliard e Shlomo Sand, eds. , GeorgesSafe/ en son remos' Pauis: Seuil, 1985;
32 . Léon Poliakov, The dryan Wlpb;d History o# Racfst and Nationa/ist /deus in Europe.
Marco Gervasoni, Georges
Safe/;Una biogr.!/iaiate//effua/e.filão: Unicopli, 1997.
28 . Suzanna Barrows, Distorring /Vfrrors:rfsions ogthe Cron'dfn l.ate NineceenthCentury Trad. do francêspor Edmund Howard. NovaYork: BasicBooks, 1974.A razzacultural-
France.Nen Haven:ValeUniversitl' Press,1981. hist6rica da retórica nacionalista italiana não era menos agressivamentecompetitiva.
ROBERT O. IHXTON 69
68 A ANATOMIA DO FASCISMO

Em meados do século xix e a partir de então, o medo da desintegração


pendentemente de qualquer objetivo especí6lco,sendo associadasà luta das
social era uma preocupaçãoprincipalmente conservadora.Após a turbu-
"raças"pela
supremacia." . . ..'' :.
lenta décadade 1840, o polemísta vitoriano Thomas Carlyle perguntou-se
Mesmo apósos horrores de 19 14- 19 18 terem tornado mais difícil pen-
que força seria capazde disciplinar "as massasempanturradasde cerveja

:i
humanas. Se a nação, ou o ROJA,
ii
31:1:1:;11ilB
era o ápice das conquistas humanas, a vio-
e de insensatez", à medida que um número cada vez maior de pessoasdo
povo ganhavao direito de voto.;' O remédio proposto por Carlyle foi o
de uma ditadura militarizada do bem-estar social, administrada não pela
classedominante de então, mas por uma nova elite composta por capitães
lência exercida em seu nome era enobrecedora. Além disso, alguns estetas
da indústria de índole altruísta e outros heróis naturais da ordem de Oliver
da violência encontravam beleza no extremo da vontade e da resistência
Cromwell e Frederico, o Grande. Os nazístas,mais tarde, reivindicaram
masculinas exigido pela guerra de trincheiras."
O século xx trouxe consigo novas formas de angústia, para.as quais Carlyle como seu predecessor.37

o fascismo não tardou a prometer remédios. Procurar medos talvez seja O medo do colapso da solidariedade comunitária intensificou-se ha
Europa de fins do século xlx, sob o impacto do crescimento urbano, dos
uma estratégiade pesquisamais frutífera do que uma busca literal pelos
conflitos industriais e da imigração. O diagnóstico das mazelasda comu:
pensadores que "criaram" o fascismo. Um desses medos era o do colapso
da comunidade sob a influência corrosiva do livre individualismo. Antes nidade foi um projeto de importância central na criação da nova disciplina
mesmo da Revolução Francesa, essapossibilidade já inquietava Rousseau." da sociologia. Émile Durkheim (1 858-1917), o primeiro catedrático em
sociologia francês, diagnosticouque a sociedademoderna sofria de "ano:
mia" o vagar a esmo de pessoassem vínculos sociais -- e refletiu sobre a

i::iif;:u;='z==
: H iUH
1959, p. 62- 3. Ver também o marquês de Moras, citado na p. 90. À esquerda os anar-
substituição da solidariedade "mecânica", os laços formados no interior das
comunidades naturais das aldeias, das famílias e das igrejas, pela solidarie
dade "orgânica", os laços criados pela propaganda e pela mídia modernas,
que os fascistas(e também os publicitários) mais tarde iriam aperfeiçoar.
quistas que defendiam a propaganda do ato também valorizavam a ação em si mesma. O
poeta anarquista LaurentTailhade respondeu ao bombardeia da Câmara dos ueputaaos O sociólogo alemão Ferdinand Tõnnies lamentou a suplantação das socie
da França, ejn dezembro de 1893: "0 que importam essesvagosseres[os feridos], se o dades tradicionais e naturais (Gemeinscba@en)
pelas sociedadesmodernas,
mais diferenciadas e impessoais (Gele//scba$ten) em seu livro GemeinscÀa#t
und Gese]/scba#t( 1887), e os nazistas tomaram emprestado dele o nome para

efeitos enobrecedores do combate após a Primeira Guerra Mundial. A literatura pró


dadana"vontade geral", e não na maioria das vontades individuais, faz dele um ancestral
guerra era bem menos comum que seu oposl:ot como, por exemplo, a J ocaçao dos do fascismo.
horrores do combate nas trincheiras, de Erich Mana Remarque, em Nada de moroha
36. J. Salwyn Schapiro, "Thomas Carlyle, Prophet of Fascism", /Duma/o/' Modero
.frente ocídenta/ ( 1927). Gangues nazistas interrompiam projeções do filme feito a p=rtn
do romance de Remarque. Jünger (1 895- 1998) tinha uma relação hostil com o nazismo, Hfstory,v. 17, n. 2, p. 103, jun. 1945.Ver, de forma mais geral, Chris R.Vanden Bossche,
Cara/e and rbe Searcb.Prdutboriíy. Columbus: Ohio State University Press, 1992.
mas nunca se opas seriamente a ele posição nada incomum entre os intelectuais dessa
37. Theodore Deimel, Car/g/e und der N'aflora/soziaJismus (Würzburg, 1937), citado
e
em Karl Dietrich Bracher, Wolfgang Sauer e Gerhard Schulz, Dfe nationa/sozfa/istfscbe
,UachtegrelÓung.
Colónia e Opladen:WestdeutscherVerlag, 1960, p. 264 e nota 9.
Secker andWarburg, 1952, a ideia de Rousseau, de que a soberania popula' deve ser fün-
ROBERTO:pAXTON 71
70 A ANATOMIA DO FASCISMO

as "comunidades do povo" (Ho/&sgemeinscba#t) que queriam criar. Vilfredo ras, e também com a frustração dasreivindicações nacionaisque se segui-
Pareto. Gaetano Mosca e Roberto Michels, sociólogos de inícios do século ram à Primeira Grande Guerra. Na paisagemmental fascista,os inimigos
xx. contribuíram de forma mais direta para as idéiasfascistas." internos aumentavamproliflcamente em número e em variedade,à medida
Uma outra angústiado século xlx era a decadência:o pavor de asgran- que o ideal de um Estado nacional homogêneo tornava mais suspeitasas
desnaçõeshistóricas estarem fadadas,por culpa de seuprcprio comodismo diferenças.As minorias étnicas, na Europa Ocidental, incharam a partir da
década de 1880, em razão das crescentes levas de refugiados que fugiam
e complacência,a taxas de natalidade cadavez menores39e a uma dimi-
nuição de suavitalidade. A mais conhecida dessasprofecias de declínio, dos poyromsda Europa Oriental.': Os subversivos políticos e culturais so-
cialestasde vários matizes: artistas e intelectuais de vanguarda-- descobriam
cujo título todos conheciam, embora poucos tenham-se aventurado por sua novasmaneirasde desafiaro conformismo comunitário. A cultura nacional
prosa, era Der t/ntegangdesdbend/andes (O declínio do Ocidente), 19 18, de
Oswald Spengler. Spengler, professor secundário de história alemã, argu- teria que ser defendida contra eles. Joseph Goebbels declarou, em uma ce

mentavaque as culturas, ta] como os organismos,têm ciclos de vida, pas rimânia de queima de livros realizadaem Berlim, em 10 de maio de 1933,
sando de uma idade heróica e criativa, a"Idade da Cultura", a uma corrupta que "a era do extremo intelectualismo judaico havia agora terminado, e que
"Idade da Civilização", quando as massasdesenraizadase amontoadasem o sucessoda revolução germânica havia novamente aberto caminho para
o espírito alemão".42Apesar de Mussolini e seus amigos de vanguardase
cidadesperdem contato com o solo, pensamapenasem dinheiro e tornam-
se incapazesde grandes atos.A Alemanha, portanto, não estava.sozinha em preocuparem menos que os nazistascom o modernismo cultural, esqui
seu declínio. No segundo volume dessaobra, datado de 1922, ele sugeriu drões fascistasitalianos queimavam livros socialistas em fogueiras.
A descoberta do papel desempenhado pelas bactérias no contágio, pelo
que um "cesarismo" heróico talvez ainda fosse capaz de salvar a Alemanha.
A modernização, como temia Spengler, vinha destruindo tradições enraiza- biólogo francês Louis Pasteur,e dos mecanismosde hereditariedade, pelo
das. e o bolchevismo levaria essadestruição ainda mais longe. Ele pregava monge austríaco Gregor Mendel, na década de 1880, tornou possível ima-
uma revolução espiritual , que revitalizaria a nação sem alterar suaestrutura ginar novascategoriasde inimigos internos: os portadores de doenças,os
social. 40 impuros, os que sofriam de doençashereditárias, os insanose os crimino-
Os inimigos eram um componente central das angústias que contribu- sos. Na Europa, a urgência em purificar a comunidade por meios médicos
foi muito mais forte no Norte protestante que no Sul católico. Essaagenda
íram para inflamar a imaginaçãofascista.Os fascistasviam inimigos tanto
influenciou também os Estadosliberais. Os EstadosUnidos e a Suéciali
dentro quanto fora da nação. Os Estados estrangeiros eram inimigos jã co-
nhecidos, embora o perigo representado por eles parecessese intensificar deraram a campanhade esterilização forçada de infFatores contumazes (no
com o avançodo bolchevismo, com a exacerbaçãodos conflitos de frontei- caso americano, principalmente de abro americanos), mas a Alemanha f'oi
muito além, com o programa de eutanásiamédica mais maciço de que se
tem notícia."
38 .Ver capítulo 1 , p. 37, 39. Stephen P.Turner e Dírk Kásler, eds. , Socio/OW Responda
[o Enscfsm.
Londres: Routledge, 1991 , nas p. 6 e 9, há uma reflexão sobre a ligação entre
41 . Michael R. Marrus, Tbe Unwanted; European ReÓugees
in tbebwentietÀ Centra/y.Nova
a sociologia e o fascismo.
39. Foi o censo de 1891 que revelou aos francesesque suapopulação não estai a se York: Oxford University Press,1985, explora o surgimento, a partir dos anos 1880,da
consciência sobre a questão dos refugiados.
reproduzindo, sendo essaa primeira vez que a questão assumiu importância central num
42. (;oebbeJs
Redes,v. T( 1933 1939), ed. Helmut Heiber. Düsseldorf: DrosteVerlag,
grande Estado europeu Mais tarde, ela veio a se converter em uma das preocupações
mais fundamentais dos fascistas. 1971,P. 108.
40. H. Stuart Hughes, Osga/dSpeng/er;,4
Critica/ Estfmate.NovaYork; Scribner, 1952, 43. Michae] Burleigh, Dearb and Z)e/ire/anca:Eutbanasia fn GermazW,
c. /900-/ 945.
Cambridge; Cambridge University Press, 1995.
reeditado por Greenwood Press, 1975.
ROBEIRT O.:PAXTON 73
72 A ANATOMIA DO FASCISMO

A Itália fascista,ao contrário, embora promovendo o crescimento da As angústias fascistasquanto à decadência e à impureza não apontavam,
razza. entendida em termos histórico-culturais,'K não foi muito tocada pela necessariamente,para a restauração de alguma antiga idade de ouro. lsaiah
moda norte-europeia e americanade purificação biológica. Essadiferença Berlin certamente exagerou quando viu como precursor do fascismoJoseph
teve como basea tradição cultural. A direita alemã, tradicionalmente, era de Maistre, da França da Restauração,não tanto por sua convicção relativa
vêi/&iscb,dedicada à defesa de um "povo" biológico ameaçado por impurezas à depravação humana e à necessidade de autoridade quanto por sua obses-
estrangeiras, cisões socialistas e complacência burguesa.'s O novo nacio- sãocom "sangue e morte", seu fascínio pela punição e suaprofecia de uma
nalismo italiano era menos biológico e mais político em sua determina sociedadetotalitária.47 Mas de Maistre oferecia apenassoluções antiquadas:

ção de "repetir" o Rfsogimento,que havia sido corrompido pecosliberais e a autoridade ilimitada da Igreja e do rei. Zeev Sternhe]] propôs que ashere
smassocialistas se encontravam nas raízes do fascismo, embora não sendo as
enfraquecido pelos socialistas.Ele a6lrmavao direito dos italianos, como
únicas,é claro.48Outros elementos do universo mental fascista unidade
"naçãoproletária", a uma fatia das colóniasdo mundo. Se era verdadeque
nacional, participação dos cidadãos-- tiveram origem nos valores liberais.
todas as nações, fossem quais fossem seusapetrechos democráticos superHi'
dais, eram na verdade governadaspor uma elite, como, ao final da Primei- O lugar ocupado pelo fascismo na tradição intelectual europeia é ob-
ra Guerra, vinham afirmando aos italianos os sociólogos Vilfredo Pareto, jeto de acaloradapolêmica. Duas posições extremas se configuravam. Zeev
Sternhell via-o como uma ideologia coerente, que representava"uma pa'te
GaetanoMosca e o desiludido emigrante alemão e socialistaRoberto Mi-
chels, então a ltália deveria providenciar a criação de uma nova e valorosa integrante da cultura europeia".'9 Segundo HannahArendt, o nazismo"nada
devia a qualquer parte da tradição ocidental, a]emã ou não, católica ou pro'
elite, capazde governar o novo Estadoe liderar a opinião italiana, usando
de "mitos". se necessário." testante, cristão, grega ou romana ( .- .) Ao contrário, o nazismo, na verdade,
representou o colapso de todas as tradições alemãs e europeias, tanto as
Os fascistasnecessitam de um inimigo demonizado contra o qual mo-
boas quanto as más (. . .) baseando-se no fascínio pela destruição como ex-
bilizar seus seguidores, mas, é claro, o inimigo não tem necessariamente
periência de fato, e sonhando o sonho estúpido de produzir o vazio".se
que ser judeu. Cada cultura especifica seu próprio inimigo nacional. Em
Em apoio à tese de Sternhell, por volta de 1914, todo um repertório
bora, na Alemanha, os estrangeiros, os impuros, os contagiosos e os sub
de temas havia se tornado disponível ao fascismo na cultura europeia a
versivos muitas vezes se mesclassem na imagem demonizada do judeu, os
ciganos e os eslavostambém eram alvos de ataque. Os fascistas americanos
47. lsaiah Berlin, "Joseph de Maistre and the Origens of Fascism", em Henry Hardy,
demonizaram os negros e, algumas vezes, os católicos, além dos judeus. Os
ed. , The Crooled 7}mber oÍ Humanity; Cbaprers ;n tbe History oÍ /dias. Nova York: Knopf,
fascistasitalianos demonizaram seusvizinhos eslavosdo sul, especialmen
1991 , p. 91 - 174 (citações das p. 1 1 1 e 174)- Um breve rascunho preliminar desse ensaio
te os eslovenos, como também os socialistas que repudiavam a guerra de
aparece em Berlin, Freedom and /ts Betraga/: Six Enemies o#Human Liberta- ed. Henry Hardy.
renascimento nacional. Mais tarde, foi fácil a eles acrescentar à sua lista os Princeton: Princeton University Press, 2002, p. 131-54.
etíopes e os líbios que eles tentaram conquistar na África. 48. Sternhell, gíria.
49. Sternhell, Birra, p. 3. Sternhell fala aqui apenasdo fascismo italiano; ele explici-
tamenteexclui o nazismode suaanálise.Em um outro registro, o brilhanteDaráConfí-
44. Ver o Ensaio Bibliográfico, p. 394. nent,de Mark Mazower. NovaYork: Knopf, 1999, defende que os valores não-democráti-
4-5. aCorRe L. M.asse, The Crtsis ofGerman ideoloÉiy:Inteitectual Origina ojthe Third cos"não eram mais estranhos à tradição jeuropéial que os democráticos" (p. 4 5, 396).
Reis/z.
NovaYork: Grossetand Dunlap, 1964; Fritz Stern, 7bePo/ffics?fCu/fura/ Descair. 50. Hannah Arendt, "Approaches to the German Problem", em Essa7sin Undersran

NovaYork; Doubleday, 1961 . ding. NovaYork: Harcourt Brace, 1994 (ong. publ. 1945, p. 109). Agradeço a Michae]
46. Ver capítulo 1, nota 19. Burleigh por essa citação.
ROBERTO.PAXTON 75
74 A ANATOMIA DO FASCISMO

primazia da "raça", da "comunidade", ou do "povo" (o Ho/&,para os alemães) cooperou brevemente com o nazismo em meados da década de 1920, an-
sobrequalquerdireito individual; o direito das raçasmais fortes de lutar tes de se tornar um áspero opositor de esquerda.O teórico austríacodo
por essaprimazia; a virtude e a beleza da açãoviolenta em favor da nação; corporativismo, Othmar Spann,entusiasmou-secom o nazismoem 1933,
o medo da decadência nacional e da impureza, o desprezo pelas concessões; mas a liderança nazista considerou sua forma de corporativismo demasia-

o pessimismo quanto à natureza humana. damente antiestatista, e Spann foi preso por ocasião da tomada da Austria,
em ] 938.ss
No entanto, seria equivocado construir uma espéciede teleologia in-
telectual que, partindo do movimento fascista, faz uma leitura retroati Na Itália, GaetanoMosca,que influenciou os fascistascom suaanálise
va, arrebanhando seletivamente todos os textos e afirmações que parecem da inevitável "circulação das elites", até mesmo nas democracias, foi um dos

apontar para ele. Um pedigreelinear, levando diretamente dos pensadores senadoresque enfrentaram Mussolini em 192 1, tendo também assinadoo
Mania'estoAntifascista de Croce, em 1925 . Giuseppe Prezzolini, cujo sonho
pioneiros ao fascismoem suaforma acabada,não passade pura invenção.
Para começar, é impossível ter uma visão integral daqueles que, no século de repetir o Risor#fmentohavia inspirado o jovem Mussolini,s' assumiuuma
xix e em princípios do século xx, se rebelaram contra o liberalismo con postura reservada e partiu para lecionar nos Estados Unidos.
formista, como Nietzsche, e contra o socialismo reformista, como Sorel, A preparação intelectual e cultural pode ter tornado possível imaginar
o fascismo, mas ela não o causou. Mesmo para Sternhell, a ideologia fas-
se escolhermos a dedo os trechos que parecem pressagiar o fascismo. Os
paMleteiros fascistasque os citaram estavam deturpando fragmentos fora cista, que, segundo ele, já havia atingido sua forma plena em 19] 2, não foi
de contexto. o único fatos na f'armaçãodessesregimes. Foi por meio de escolhase atos
Antifascistas também se inspiraram nessesautores. Até mesmo alguns que os regimes fascistas foram incorporados às sociedades.ss
autores alemãesde tendência rZI/&iscÀrepudiaram o nazismo. Oswald Spen- Na verdade,os teóricos intelectuais e culturais que algumasvezessão
gler, por exemplo, apesardo entusiasmo nazistapor sua obra, sempre se citadoscomo os criadores do fascismoexplicam melhor o espaçodeixado
recusou a endossar o nacional-socialismo. "0 entusiasmo", escreveu ele em aberto para ele do que o fascismoem si. Esclarecemde forma direta asfra-
1932, ao que tudo indica tendo Hitler em mente, "é uma carga perigosa quezas dos rivais do fascismo -- o liberalismo burguês antes em ascensão e o
no caminho da política. O desbravadorde caminhos tem que ser um he- poderoso socialismo reformista da Europa anterior a 1914. Escolhase atos
rói, não um tenor heróico".s: O poeta Stefan George, cujo sonho de uma concretos foram necessáriospara que essadoutrina pudesseganhar vida,
comunidadepurificada de camponesese artistas e liderada por uma elite explorar essasfraquezas e ocupar esses espaços'
Uma outra dificuldade encontrada na tentativa de rastrear as raízes
culta era atraente para alguns nazistas,recusou a presidência da Academia
intelectuais e culturais do fascismo é que os casosnacionais apresentam
Alemã. Horrorizado com a violência grosseira das Brigadas de Assalto (as
Sturmabtef/ungen, ou SA),George partiu para um exílio voluntário em Zuri- grandes variações. Isso não deveria surpreender, por duas razões. Alguns
que, onde morreu em dezembrode 1933.52Um de seusantigos discípulos, ambientes nacionais, principalmente as democracias bem-sucedidas, mas
o coronel conde Klaus Schenk von Stauffenberg, tentou assassinarHitler também paísesextremamente problemáticos como a Rússia, onde discor-
em julho de -1944. Ernst Niekisch (1899-1967), cuja radical rejeição da
sociedade burguesa associava-se a um apaixonado nacionalismo alemão, 53.Ibid., 136.
54. Capítulo 1, p. 18- 19.
55. Sternhell, Birtb, p. 231 : "Mussolini chegou a um acordo com as forças sociais
5 1 . Hughes, Speng/er,p. 156.
52. Herman Lebovics,Sacia/Conservatfsm
and tbeMija/e Classes
fn Germana.
/ 9/4 existentes"; Emi]io Genti]e, Le origina de]/' ídeo/agia.fascista (/ 9 / &- / 925). 2 . ed. Bolinha;
/ 933. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1969, p. 86, 107. 11Mulino, 1996,p. 323.
ROBERTO.PAXTON 77
76 A ANATOMIA DO FASCISMO

fascismo no decorrer da década de 1920. Seus defensores demonstravam,


dâncias e ressentimentos geravam uma polarização à esquerda, ofereciam
tão bem quanto o futurismo de Marinetti, que era possível ser rebelde e
poucas brechas para a penetração do fascismo. Além do mais, os fascistas
vanguardistasemter que engolir o nivelamento, o cosmopolitismo, o pack
cismo, o feminismo e a gravidade da esquerda.
movimento, apenasselecionavamaquelesque melhor serviam a seusfins a
Mas as mudançasintelectuais e culturais que contribuíram para que o
partir dos repertórios culturais de cadapaís.A maioria dessessímbolos e
mitos não tem vínculos inerentes ou necessárioscom o fascismo. O poeta fascismo se tornasse concebível, e, portanto, possível, foram, ao mesmo
futurista russo Vladimir Maiakósvski, cujo amor pelas máquinas e pela ve tempo, mais largas e mais estreitas que o fenómeno em si. Por um lado,
muitas pessoasparticiparam dessascorrentes sem se tornarem partidárias.
locidade se equiparava ao de Marinetti, encontrou uma válvula de escape
em seu fervoroso bolchevismo. . . O escritor britânico D. H. Lawrence, numa carta a um amigo, soavacomo

De qualquer modo, não são os temas específicosdo nazismo ou do um fascistadosprimeiros tempos, vinte mesesantesde eclodir da Primeira
fascismoitaliano que definem a naturezadessefenómeno, e sim a função Grande Guerra: "Minha grande religião é uma crença de que o sangue e a
atribuída a eles. Os fascismos procuram em cada cultura nacional os temas carne sãomais sábiosque o intelecto. Podemos errar em nossasmentes,
mais capazesde mobilizar um movimento de massasde regeneração,.uni- maso que o nossosanguesentee crê é sempreverdade".s' Mas, quando a
constitucionalismo guerra começou, Lawrence,casadocom uma alemã, horrorizou-se com a
ficaçãoe pureza, dirigido contra o individualismo e o
liberais e contra a luta de classesde esquerda. Os temas que atraem os fas- matança e declarou-se contrário à guerra por razões de consciência.
cistasde uma tradição cultural podem parecer simplesmentetolos a uma Por outro lado, o fascismosó veio a atingir seudesenvolvimentopleno
outra. Os enevoadosmitos n6r(iscosque emocionavamnorueguesese ale após seus praticantes terem discretamente fechado os olhos a alguns de
mãessoavamridículos na Itália, onde o fascismorecorria principalmente a seusprincípios originais, na tentativa de ingressar nas coalizõesnecessárias
uma romanftà ensolarada.só à luta pelo poder. Uma veztendo chegadoao poder, como veremosa se
No entanto, nos paísesonde o fascismo atraiu intelectuais, isso aconte guir, minimizaram a importância, marginalizaram ou chegarammesmo a
ceu geralmente em seusprimeiros estágios. Sua hospitalidade latitudinal a descartar algumas das correntes intelectuais que os haviam ajudado a abrir
freqüentadoresintelectuais dosmais variadostipos atingiu o máximo nessa caminho.
epoca, antes de seu ânimo antiburguês ser comprometido por suíl.busca de Além do mais, se,na buscade suasraízes, enfocarmos apenasos por
poder' Na décadade 1920, pareciaser a.própria essênciada revolta contra tadores cultos do intelecto e da cultura, estaremos ignorando o registro
o enfadonhoconformismo burguês..O movimento vorticista, fundado em mais importante: as paixões e emoções subterrâneas. Uma nebulosa de
Londres, em 1913, pelo poeta americano Ezra Pound e pelo escritor e atitudes vinha-se configurando, e nenhum pensador jamais reuniu um
pintor canadense-britânico Wyndham Lewis,s7 chegou a simpatizar com o sistemafilosófico completo em apoio ao fascismo.Mesmo os acadêmi-
cos que se especializam na busca de suas origens intelectuais e culturais,
56. Romke Visser,"FascistDoctrine and the Cult of Romanità",.Journa/oÍ Con- como George Mosse, declaram que a instalação de um "estado de espírito.
remporaryJíis ory, v. 27, n. 1, p. 5 22, 1992. O aniversário de 2 mil anos do imperador é mais importante que "a procura por algunsprecursoresindividuais"."
Augusto foi a resposta de Mussolini ao Reich de Mil Anos. Ver Friedemann Scriba,Áu
ouse's im Scbwarzbemd?Die Mostra .4ugusteade//a Romanftà in Rom ] 937/38. Frankfurt am
58. Carta a Ernest Collings, 17 de janeiro de 1 91 3, em Tbe Portal/e D. H. J.awrence.
Main: Lang, 1995, resumido em Scriba, "Die Mostra Augustea della Romanità in Rom
NovaYork:Viking, 1947, p. 563.
1937/38", em Jens Petersen eWolfgang Schieder, eds:, Fascbfsmus
und GeseJJscba#f
in /ta-
59. Mosse,Crises,
p 6. Cf. Emilio Gentile, Storiade/partftolnscisra,
] 9/ 9-/ 92] ;/Ho-
/ien; Sraat,Wirtscha#t,
Ku/tur. Colónia: SH-Verlag, 1998, P. 133-57.
rimentoe mi/izía. Bati: Laterza, 1989, p. 5 18: "Mais que uma ideia ou uma doutrina", o
57. Fredric Jameson, Fub/es oÍ 4ggression: }V:yndham Len'is, The Modernfst as Fuscist.
fascismo representa "um novo estado de ânimo" (sfato '/'animo) .
Berkeley; Los Angeles: University of California Press, 1979 .
ROBERTO.PAXTON 79
78 A ANATOMIA DO FASCISMO

8 a superioridade dos instintos desse líder sobre a razão abstrata e uni-


Também nessesentido existe um vínculo mais plausível entre o fascismo
fascista versal:
e um conjunto de "paixões mobilizadoras" que plasmaram a ação e a beleza da violência e a eHcáciada vontade, quando voltadaspara o
do que entre ele e uma filosofia explícita e plenamente.consistente.No êxito do grupo;
fundo. existe um nacionalismo apaixonado.Aliado a ele, há também uma e o direito do povo eleito de dominar os demaissemlimitações de qual-
entre os
visão conspirat6ria e maniqueístada história como uma batalha quer natureza,sejamelasimpostaspor leis humanasou divinas, essedirei
campos do bem e do mal, entre os pu'os e os corruptos: da qual a propr:a to sendodeterminado pelo critério único do valor do grupo no interior de
comunidade ou nação é sempre vítima. Nessanarrativa darwiniana, o povo uma luta darwiniana
eleito foi enfraquecido pelos partidos políticos, pelas classes sociais, pelas
minorias inassimiláveis, pelos grupos que vivem de rendas, debilitados por As "paixões mobilizadoras" do f'ascismo são difíceis de serem tratadas
uma vida excessivamentefácil, e pelos pensadoresracionalistas, a quem em termos históricos, pois muitas delas sãotão velhas quanto Caem.Parece
faltava o necessário senso de comunidade. Essas"paixões mobilizadoras", incontestável, contudo, que elas foram agudizadaspela febre do naciona-
em geral dadascomo certas e nem sempre discutidas explicitamente como lismo exacerbadoanterior à Primeira Guerra e pelas emoções suscitadas
proposições intelectuais, constituem-se na lava emocional que lançou as por essaluta. O fascismo era uma questão mais visceral que cerebral, e um
fundações do fascismo: estudo de suasraízes que trate apenasde pensadorese escritores perde de
vista seus impulsos mais poderosos.
B o sentimento de uma crise catastrófica, além do alcance de qualquer
das soluções tradicionais; AS PRECONDIÇÕES DE LONGO PRAZO
e a primazia de um grupo, com relação ao qual aspessoastêm deveres
eriores a quaisquer direitos, sejam eles individuais ou universais, e a As transformação de mais longo prazo nas estruturas políticas, sociais
subordinaçãodo indivíduo a essegrupo; e económicas fundamentais também contribuíram para abrir camirüo para
e a crençade que o próprio grupo é uma vítima, sentimentoesseque
o fascismo.Como apontadoao início, foi um movimento político retarda-
serve como justificativa para qualquer ação, sem limites legais ou morais,
tário.õ' Ele seria simplesmente inconcebível antes que um certo número de
contra seusinimigos, tanto externos quanto internos;"
precondições básicas viessem a ser instauradas.
8 o pavorda decadênciado grupo sobos efeitos corrosivosdo liberalis-
mo individualista, do conflito de classese dasinfluências alienígenas; Uma dessasprecondições necessáriasfoi a política de massas.Como
e a necessidadeda maior integraçãode uma comunidademais pura, por um movimento de massasdirigido contra a esquerda, o fascismo não po-
meio de consentimento, se possível, ou da violência excludente, se neces- deria ter existido antes de os cidadãos comuns terem passado a participar
sário: da política. Alguns dos primeiros desvios nos trilhos que levaram ao fascis-
e a necessidadeda autoridade dos líderes naturais (sempre do sexo mas- mo, na Europa, foram causadospelasprimeiras experiênciasduradouras
culino), culminando num chefe nacionalque é o único capazde encarnar de voto universal masculino, ocorridas após as revo]uções de ] 848.ó2Até
o destinodo grupo;
6 1. Linz, "Political Space and Fascism"
62. Durante a RevoluçãoFrancesade 1789-18 15, o direito de voto foi exercido
pela totalidade dos cidadãosde sexo masculino numa única eleição: a da Convenção,em
26 de agosto de 1792. Mesmo então, os cidadãoselegiam assembleiasprimárias que por
sua vez, numa segunda etapa, escolhiam os deputados. A Constituição de 1793 instaurou
jun. 1998 , com respostasem v. 103, n. 4, out. 1998. E claro que essavitimação também
o sufrágio masculino direto, mas ele nunca foi aplicado. O sufrágio masculino na Europa,
pode ser autêntica.
A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 81

aquela época, tanto os conservadores quanto os liberais haviam tentado que vinham desbravando o território que, mais tarde, os fascistasiriam do-
limitar o direito de voto aos ricos e aoseducados-- os cidadãos"respon minar. Preferindo manipular um eleitorado de massasa priva-lo de direitos
sáveis,capazesde escolher entre questõesde princípios amplos". Após as civis, se afastaramtanto dos conservadoresquanto dos liberais, e também
revoluções de 1848, embora a maioria dos conservadorese dos liberais da política tal como então praticada, na forma de debates cultos entre notá-
mais cautelososhouvessetentado limitar o direito de voto, algunspolíticos veis, escolhidos por um público deferente para governar em seu nome.
conservadores mais ousados e inovadores preferiram correr o risco de acei- Diferentemente dos conservadorese dos liberais mais cantos, os fas
tar o eleitorado de massase tentar maneja ]o. cistas nunca pretenderam deixar as massasfora da política. Queriam atraí-
O aventureiro Luís Napoleão foi eleito presidente da SegundaRepúbli- las, disciplina las e energizá-las.De qualquer forma, ao final da Primeira
ca Francesaem dezembro de 1848 pelo voto universal masculino, usando Grande Guerra, já não havia como voltar atrás, retornando a um sufrágio
restrito. Em quase todos os países,homens jovens haviam sido convocados
de imagens simples e daquilo que hoje é chamado de "reconhecimento de
nome" (seu tio foi Napoleão Bonaparte, o imperador que abalou o mundo) . a morrer pela pátria, e seria difícil negar a qualquer deles o direito à cidada-

Confrontado com uma legislatura liberal (na acepçãonovecentistado ter nia. Também as mulheres, cujos papéis sociais e econâmícos a guerra havia

mo) que, em 1850, tentou cassaros direitos políticos dos cidadãospobres ampliado enormemente, receberam o direito de voto em muitos países
e itinerantes, o presidente Luís Napoleão defendeu ousadamenteo sufrágio do Norte europeu (embora ainda não na França, na Itália, na Espalha e na
universal masculino. Mesmo apóster-se sagradoimperador Napoleão mem Suíça). Embora os fascistaspretendessem restaurar o patriarcado na família
um golpe de estado militar, em dezembro de 185 1, permitiu que todos os e nos locais de trabalho, preferiram mobilizar as mulheres simpatizantes a
cidadãos de sexo masculino votassem na eleição de um parlamento fantas- priva-las de direitos, pelo menos até que tivessem condições de abolir as
ma. Indo contra a preferência dos liberais por um eleitorado restrito aos eleições por completo.'s
cidadãoseducados,o imperador foi o pioneiro no uso de s/ogans e símbolos A cultural política europeia também teve que mudar, antesde o fascis
mo se tornar possível. A direita teve que reconhecer que já não conseguia
simples, usadospara atrair os pobres e os incultos."
De forma semelhante,no novo Império Alemão concluído por ele em
1871 , Bismarck optou por manipular o voto amplo em sualuta contra os li- jante eleição de Luís Napoleão como presidente da França, em dezembro de 1848, criou
berais. Seria absurdo chamar de "fascistas" a essesautoritários,@ mas é óbvio problemas para Kart Marx, que esperavaum resultado diferente para o desenvolvimento
económico e a polarização de classesda França dos anos 1840. Em O Dezoitode Brumário
de l.u/s Napa/eão(1850), Maré chegou à explicação de que um impasse momentâneo
na verdade, só teve início em 1848, embora tenha começado mais cedo na maioria dos entre duas classesde forças equilibradas a burguesia e o proletariado = havia dado uma
estados americanos. excepcional margem de manobra a um líder individual, embora as qualidades pessoais
63. Um reexame recente da dramatizaçãoque o imperador criava em torno de si desselíder fossemmedíocres (Marx usou algumas de suasmais ricas invectivas contra o
detestado Luas Napoleão, a "farsa" que se seguiu à "tragédia"), permitindo a ele governar
próprio é David Baguley, Rapo/eon//r and His Regime;.4nExtraraganza.Baton Rouge, LA:
Louisiana State University Press, 200 1. independentemente dos interesses de classe. Essaanálise foi retomada nos anos 1920
64. Na época do auge do fascismo, vários autores detectaram elementos fascistas pelo austríaco August Thalheimer e por outros pensadores marxistas, para explicar o
inesperado sucessodos ditadores populares após a Primeira Guerra Mundial. Ver Jost
no Segundo Império de Napoleão ITI, entre eles, J. Salwyn Shapiro, em Libera/ismand
Düllfer, "Bonapartism, Fascism , and National Socialism",Journa/ oÍ Conremporary Hfsro/y,
tbe Cba//erige
d'Fuscism.NovaYork: McGraw-Hil1, 1949, P. 308-3 1. Trata se aqui de uma
v. ll,n.4,p.109-28,out. 1976.
extrapolação excessivada de6miçãode Fascismo,ainda que as estratégiaspolíticas adota
65. Jili Stephenson, Homemin Nazi Sociey. Londres: Croom Helm, 1975, reeditado
daspor Luís Napoleão depois das revoluções de 1848 -: propagandaeleitoral de massas,
crescimento económico Rlnanciadopelo Estado, aventuras estrangeiras -- representem em 2001 ;Victoria de Grazia, How EascismRu/edWomen.Berkeley; Los Angeles: University

um precursor signi6lcativodas formas mais tardias de ditadura de basepopul;'' A triun of Califomia Press, 1992, p. 30, 36 8. Paraoutras obras, ver o Ensaio Bibliográfico.
82 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBElqT O.FAXTON 83

evitar a participação na política de massas.Essatransição foi tornada mais 19 14, boa parte dos seguidores tradicionais da esquerda estavadesiludida
fácil pela gravitaçãode um número cadavez maior de cidadãosde classe com aquilo que eles viam como as concessõesfeitas pelos socialistaspar:
média para asHleiras conservadoras, à medida que suaslimitadas reivindi- lamentares de tendência moderada. Após a guerra, em busca de algo mais
caçõespolíticas eram satisfeitas,e que as novase ameaçadorasreivindica- intransigentemente revolucionário, eles se bandearam para o bolchevismo,
ções socialistas tomavam forma. Por volta de 1917 (se é que não antes) o ou, como já vimos, para o fascismo, pela via do nacional-sindicalismo.
projeto revolucionário era imediato o suficiente para alienar grande parte É óbvio que, após 191 7, a esquerda já não estava mais reunindo forças
da classemédia da filiação esquerdistade seus avós que, em 1848, eram e esperando por seu momento, como acontecia antes de 19]4. Ela, então,
democráticos. Os conservadores, então, puderam começar a sonhar com o ameaçavamarchar por todo o mundo à frente da Revolução Bolchevista,
controle de maiorias eleitorais . que àquela época parecia irresistível. O medo provocado na totalidade das
As esquerdas democráticas e socialistas, ainda unidas em 1848 , tiveram classesmédia e alta pela vitória de Lênin, na Rússia,bem como o esperado
que se cindir antes de o fascismo se tornar possível . A esquerda, além disso, sucessode seusseguidores na Alemanha mais industrializada, sãode impor-
teve que perder sua posição de recurso automático para todos os defenso- tância crucial para que se compreenda a busca aterrorizada por algum tipo
res das mudanças -- os sonhadores e os revoltados, tanto de classe média novo de reaçãoao bolchevismo, ocorrida entre 1918 e 1922.
quanto de classetrabalhadora. O fascismo, portanto, seria inconcebível na Os alarmes de incêndio disparados pelo bolchevismo transformaram
ausência de uma esquerda socialista madura e em expansão. Na verdade, em emergências asdificuldades que, a partir da Primeira Grande Guerra,"
eles só conseguem encontrar seu espaçoquando o socialismo se torna po- já abalavamos valores e instituições liberais. As três principais instituições
deroso o bastante para ter tido algum tipo de participação no governo, liberais o parlamento, o mercado, as escolas-- lidaraih mal com essas
tendo assimdesiludido parte de sua clientela de classetrabalhadorae de emergências. Os representantes eleitos lutavam para encontrar o mínimo
intelectuais. Dessemodo, podemos situar o fascismo no tempo, não apenas de terreno comum exigido pelas difíceis escolhaspolíticas a serem feitasl
após a instauração irreversível da política de massas mas também numa fase As teses relativas à capacidadede auto regulação do mercado, mesmo se
avançada desse processo, quando os socialistas já conseguiam participar do verossímeis no longo prazo, soavam ridiculamente inapropriadas perante
governo.-- e assim sofrendo desgaste. os deslocamentos económicos imediatos, nacionais e internacionais. O en-
Esselimiar foi cruzadoem setembrode 1899, quandoo primeiro so- sino gratuito, por si s6, já não parecia bastar para promover a integração
cialista europeu aceitou um cargo num gabinete burguês, para ajudar a dar de comunidades abaladaspela cacos'antade interesses discordantes, pelo
sustentação à democracia francesa ameaçada pelo caso Dreyf'uss, atraindo pluralismo cultural e pelos experimentos artísticos. A crise dasinstituições
assim a hostilidade de alguns dos puristas morais de seu movimento.ó' Em liberais, contudo, não afetou todos os paísescom a mesma intensidade e,
no próximo capítulo, examinarei asdiferentes experiências nacionais.
66. No governo francês formado pelo democrata moderado Waldeck Rousseauem
PRECURSORES
setembro de 1899, para corrigir a injustiça jurídica cometida contra Dreyfus, e também
para defender a República contra o ódio dos nacionalistas, o socialista moderado Alexan-
dre Millerand aceitou o Ministério do Comércio, da Indústria e dos Serviços Postais.Na Já observamos que o fascismo fbi inesperado, não tendo sido uma pro
fotografia oficial do gabinete, ele aparecesentado ao lado do ministro da Guerra, general
jeção linear de qualquer das tendências políticas do século xrx. Ele não é fa
Gallif'et, que havia reprimido violentamente os revolucionários parisiensesem 187 1. Al-
cilmente compreensível em termos dos grandes paradigmas novecentistas
guns socialistas, já relutantes em defender Dreyfüs por ele ser rico e judeu, acreditavam
que a pureza do movimento vinha em primeiro lugar, ao passoque outros, reunidos em
torno de Jean Jauràs, davam primazia à defesa dos direitos humanos. 67. Ver capítulo 2, p. 57-62
84 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBElqT O.PAXTON 85

liberalismo, conservadorismo e socialismo. Não havia nem palavras nem cimento da deferência social, que há muito garantia a eleição praticamente
conceitos para descrevê-lo, antes de o movimento de Mussolini e outros da automática dos representantes de classealta para o parlamento, abrindo
mesma espécie serem criados, na esteira da Primeira Guerra Mundial. assim caminho para o ingresso das camadas mais modestas na política: lo-
No entanto, houve indícios premonit6rios*; Em fins do século xlx, jistas, médicos e farmacêuticos do interior, advogados das pequenas cidades
aconteceram os primeiros sinaisde uma "Política num NovoTom":68 a cria- -- as "novas camadas" (couve//es coucÀes), que, no famoso episódio de 1874,
ção dos primeiros movimentos populares voltados para a reafirmação da foram chamadasà participação por Léon Gambetta, filho de um quitandei-
primazia da naçãosobre todas as formas de internacionalismo ou de cos ro imigrado da ltália, que logo viria a se tornar o primeiro chefe de gover-
mopolitismo. A década de 1880 -- quando a depressão económica e a am- no de origem socialhumilde de toda a história da França.
pliação da prática democrática ocorreram simultaneamente -- foi um limiar Não possuindo fortuna pessoal, essesnovos tipos de representantes
de importância vital. eleitos viviam de seusalário de parlamentar,tornando-se assimos primei-
Aquela décadaconfrontou a Europa e o mundo como um todo com ros políticos profissionais.õ9Faltando-lheso reconhecimento do nome he.
nada menos que a primeira crise da globalização. Os novos navios a vapor reditário dos "notáveis" que até então haviam dominado os parlamentos eu-
tornaram possível trazer trigo e carne baratos para a Europa, provocando a ropeus, essesnovos políticos tiveram que inventar novos tipos de redes de
falência de fazendasde agricultura familiar e de grandes propriedades aris- apoio e novos métodos para atrair eleitores. Alguns deles construíram má-
tocráticas, e despejando nas cidades grandes levas de refugiados rurais. Ao quinas políticas baseadasem clubes sociais de classe média, como a Franco-
mesmo tempo, as estudas de ferro acabaramde destruir o que restavado Maçonaria (como fez o Partido Radical de Gambetta, na França); outros,
trabalho artesanalde qualidade,ao levar mercadoriasindustrializadaspara tanto na Alemanha quanto na França, descobriram o poder de atraçãodo
anti-semitismo e do nacionalismo.70
todas as cidadeseuropeias. Nessemesmo mal-escolhido momento, um nú-
mero inédito de imigrantes começou a chegar à Europa ocidental não A intensificação do nacionalismo, ocorrida em fins do século xrx,
apenaspequenos agricultores vindos da Espanta e da Itália, mas também atingiu até mesmo as fileiras dos movimentos trabalhistasorganizados.Já
judeus de cultura exótica, fugidos da opressãodo Leste Europeu. Esses mencionei, ao início deste capítulo, a hostilidade entre os assalariadosde
choquesformam um pano de fundo para algunsdos acontecimentosda língua alemã e os de língua tcheca da Boêmia, no que era então o Império
década de 1880, que agora podemos perceber como um tatear inicial em Habsburgo. Já antes de 19]4, era possível fazer uso dos sentimentos na-
direção ao fascismo.
As experiênciasconservadorasfrancesae alemã de manipular o voto
69. A análise clássicadesse desenvolvimento é de Max Weber, "Politik als Beruf"
universal masculino, que já mencionei antes, foram ampliadas nessadéca-
( 19 ] 8). Os parlamentares começaram a ser remunerados na Fiança em 1848 , na Alema-
da. A Terceira Lei da Reforma Britânica, de 1884, praticamente duplicou nha em 1906 e, por último, entre as grandes potências europeias, na Grã-Bretanha em
o eleitorado, para incluir a quase totalidade dos homens adultos. Em todos 19 10. A Constituição dos Estados Unidos, de 1787, estabelecia remuneração aos senado-
essespaíses,na década de 1880, as elites políticas viram-se obrigadas a se res e deputados (Artigo 1 , Seção 6).

adaptara mudançasna cultura política que tiveram como efeito o enfraque- 70. Um excelente relato sobreessatroca de geraçõesno Partido Liberal Alemão
ocorrida nos anos 1880 é Dan White, d SpJinteredParly: Nationa/ liberaJism ín Hessenand
tbe Reich,/ 867-/ 9/ 8. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1976. Para a trança,
68. Termo de Carl Schorske para o movimento nacionalista alemão de Georg von ver Michel Winock. Nationa/fsm.,4ntisemitism,and Enscismfn France.Stanford, CA: Stanford
Schõnerer, criado na zona fronteiriça da Boêmia, durante os anos 1880. Schorske, Ffn-de- University Press, 1998, e Raoul Girardet, Mlpbeset -mpbo/oyies
politfques.Paris: Seuil,
1990
siàc/emenda.
NovaYork: Knopf, 1980, cap. 3.
86 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 87

cionalistas para mobilizar hostilidade entre diferentes segmentos da classe à República do que contribuiria para reforma-la. Em janeiro de 1889, após
trabalhadora, e mais ainda após a Primeira Guerra. Boulanger ter ganhado uma eleição suplementar em Parascom a grande
Por todas essasrazões, a crise económica da década de 1880, como a maioria dos votos, seuscorreligionários insistiram para que ele liderasse
primeira grande depressãoa ocorrer na era da política de massas,conferiu um golpe de estado contra a República Francesa, já então cambaleante sob
vantagem à demagogia. Qualquer declínio no padrão de vida, portanto, o impacto de escândalosfinanceiros e da depressãoeconómica. No mo-
traduzia se rapidamente em derrotas eleitorais para os governantes e em mento do clímax, entretanto, o homem providencial fraquejou. Ameaçado
vitórias para os arrivistas políticos, prontos a atrair os eleitores irados com pelo governocom um processojudicial, ele fugiu para a Bélgicaem I' de
s/oyanssumários. abril, onde mais tarde veio a cometer suicídio sobre o túmulo de suaaman-
Diversos e notórios movimentos populistas e nacionalistasde basepo- te. O boulangismoacaboumostrando ser puro fogo de palha.'' Mas,pela
pular surgiram na Europa durante a décadade 1880. A Fiança, precoce em primeira vez, na Europa, haviam sido reunidos os ingredientes de um mo-
tantos experimentos políticos, foi pioneira também nesse. O glamuroso vimento de massaspopulista e de índole nacionalista,formado em torno
general Boulanger, nomeado ministro da guerra em janeiro de 1886 pelo de uma 6gura carismática.
governo de tendência moderadamente esquerdista de Charles de Freyci- Em 1896, na França, ingredientes semelhantes misturaram-se às emo:
net, era adorado em Paras por ter enfrentado os alemães e tratado seus çõespopulares despertadascontra o capitãoAlfred Dreyfuss, um oficial da
soldados com consideração, e também porque sua barba loura e seu ca- atava injustamente acusado de espionar para os alemães. O caso convul-
valo negro faziam esplêndida figura nas paradas patrióticas. O general foi sionou a Françaaté 1906. O campo anti-Dreyfuss convocou em defesada
exonerado do cargo de ministro em maio de 1887, contudo, em razão de autoridade do Estado e da honra do exército, tanto conservadores quanto
seu linguqar excessivamente bélico durante um período tenso nas relações alguns esquerdistasinfluenciados pelas formas tradicionais do anticapita-
com a Alemanha. Sua remoção para um posto provinciano desencadeou lismo anta-semitae do nacionalismojacobino. O campo pró-Dreyfuss, em
uma manifestação popular de proporções gigantescas, quando seus íãs pa- grande parte de esquerdae de centro, defendia um padrão universal para
risienses deitaram-se sobre os trilhos para bloquear a partida de seu trem. os direitos do homem. A naçãotem precedênciasobre qualquer valor uni-
Boulanger, anteriormente, havia mantido laços estreitos com a esquerda versal, proclamou o antidreyfusista CharlesMaurras, cujo movimento dc-
moderada anticlerical (os "radicais", na terminologia política francesa da tfon Françaíseé às vezes considerado como o primeiro fascismo autêntico.72
época), mas agora ele se permitiu tornar se o centro de uma agitaçãopoli Quando ficou provado que um documento usado para incriminar Dreyfuss
tica que se alimentava tanto da esquerdaquanto da direita. Embora ele con-
tinuasse a apoiar propostas radicais tais como a abolição do senado eleito 71. Odile Rudelle, l,a Répub/iquealiso/ue,/ 870-/ 889. Paria: Publications de la Sor-
por voto indireto, suadefesade mudançasdrásticasna constituição assumiu bonne, 1982, p. 164 75, 182 90, 196 223, 228-34, 247-56, 262-78; Christophe Pro-
um sabor de conspiração urdida por um homem providencial. chasson,"Les années 1880: Au temps du boulangisme", em MichelWinock, ed. , fíis ocre
Quando o governo, alarmado, expulsou Boulangerdo exército, o ex- de /'extreme drofce ez]France. Paras: Seuil, 1993 , p. 5 1-82 ; eWilliam D. Irvine, 7Ze Bou/anger
dWafrReconsidered.NovaYork: Oxford University Press,1989.
general viu-se livre para se dedicar a suasrecém-adquiridas ambições polí-
72 . Ernst Noite retrata a Action Françaisecomo a "primeira face",em seu Tbe7bree
ticas. Sua estratégia foi a de concorrer em todas as eleições suplementares, faceso#Fnscism. NovaYork: Hojt, Rinehart, andWinston, 1966. Os argumentosque sus-
que ocorriam sempre que uma cadeiraparlamentar vagava,por motivo tentam sua tese são o nacionalismo, o anta semitismo, o antiparlamentarismo e o ocasio-
de morte ou renúncia. Boulanger mostrou exercer forte atração sobre os nal anticapitalismo do movimento, juntamente com seu culto àjuventude e à ação.O que
distritos de classetrabalhadora. Tanto os monarquistas quanto os bonapar- enfraquece sua argumentação é a defesa, feita por Maurras, da restauração da monarquia
tistas deram-lhe dinheiro, por acreditar que seu êxito causaria mais danos e da Igreja católica como explicação para o "declínio" da Fiança.
88 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBE]RT O.PAXTON 89

havia sido forjado, Maurras não se abalou .Tratava-se, disse ele, de uma "fal- É plausível afirmar que o primeiro exemplo concreto do "nacional-
sificação patriótica", um.jaux patrfotfque.
socialismo", na prática, foi o Cera/eProudbon,na França de 19 11, um grupo
A Áustría-Hungriafoi um outro ambienteondeos movimentospre- de estudosque tinha como objetivo "unir os nacionalistase os antide
cursores desbravaramcom êxito o terreno do nacionalismo populista. mocratas de esquerda"em torno de uma ofensiva contra o "capitalismo
Georg von Schõnerer (1842-1921), apóstolo do pangermanismo e rico judeu"." O grupofoi criadopor GeorgesValois,antigomilitanteda,4c-
proprietário de terras de Sudetenland,no extremo ocidental da Boêmia, [fon F/ançaísede Charles Maurras, que rompeu com seu mestre para se
concentrar de forma mais atavana conversão da classetrabalhadora do
conclamou os germanófonos do Império Habsburgo a trabalhar pela união
marxismo ínternacionalísta ao nacionalismo. No entanto, ainda era cedo
com o Império Alemão e a lutar contra a influência católica e judaica.'3Já
mencionei a forma pela qual Karl Luegerfoi eleito prefeito de Viena em demais para congregar mais que uns poucos intelectuais e jornalistas a
1897, triunfando contra a oposição do imperador e dos liberais tradicio- favor deValois e do "triunfo dos valores heróicos sobre o ignóbil materia-
nais, e governando de forma invencível até suamorte, em 1910, com uma lismo burguês que hoje sufoca a Europa (...) je] o despertar da Força e
mistura pioneira de "socialismo municipal" (fornecimento público de gás, do Sanguecontra o Ouro". "
água, eletricidade, hospitais, escolas e parques) e de anti-semitismo." O termo naciona/-socio/isco,ao que parece, foi inventado pelo autor
Também alguns políticos alemães fizeram, nessamesma década de nacionalista francês Maurice Barras, que, em 1896, descreveu o marquês
1880, seus experimentos com o anta-semitismo.Adolf Stõcker, o pastor de Moras, um aventureiro aristocrático, como "o primeiro nacional-so-
protestante da corte, usou-o em seu Partido Social Cristão, numa tentativa cialista"." Moras, após fracassar como criador de gado em North Dakota,
de atrair para o conservadorismo eleitores das classestrabalhadoras e da voltou a Pauisem inícios da década de 1880 e organizou um bando de
classemédia. Uma nova geraçãode liberais, tendo suasorigens fora dos desordeiros anta-semitasque atacavamlojas e escritórios de propriedade
antigoscírculos de aristocratase de grandesproprietários rurais, e na falta de judeus. Como pecuarista, recrutava seguidoresentre os trabalhadores
dos velhos mecanismos de def'esasocial, usou o anti-semitismo como um dos abatedouros de Paras,que atraía com sua mistura de nacionalismo
novo meio de controlar a política de massas.75
Mas, na política alemã, essas anticapitalista e anta-semita.:' Seus pelotões usavam roupas e chapéus de
experiências de anta-semitismo explícito haviam-se tornado insignificantes caubói, que o marquês havia descoberto no Oeste americano, e que (num
em inícios do século xx. Essesprecursores mostraram que, embora muitos modesto exagero de imaginação) antecederam as camisaspretas e mar
dos elementos do fascismo posterior já existissem, as condições não esta- Tons como o primeiro uniforme fascista.Moras matou num duelo um
vam maduras para que eles fossem reunidos e conquistassemum número oficial judeu muito benquisto, o capitãoArmand Meyer, nos primeiros
signinlcativo de seguidores." dias do caso Dreyfuss, e foi morto por seus guias tuaregues no Sahara,

'71. Zeev Sternhe]\ , La Droite révo]utionnaire, 1 885- ] 914: Les oligines.françaises dujas-
73. Além da obra de Schorske citada na nota 68,,ver John W Boyer, Politica/ Radi-
calism in Late Imperial Vienna: Origens o#the Christian Social Movement, 1 849: 1 897. Ck)icago: cfsme.Paras:Seui1,1978, p. 391-8.Ver, também, Sternhell, Birra, p: 86, 96, 123-7.
78. Valois, citado em Sternhell, /.a Droite révo/utionnafre,
p- 394.
University of ChicagoPress,198 1.
79. Oração fúnebre de Maurice Barres para o marquês de Moras, in Barras, Scenes
74. John W Boyer, Cu/fure and Po/ética/Crisesfn henna; Cbrfstian Socialismin Poder,
et docirfnes du naciona/isme. Paria: F. Juven, 1902, p. 324 8.
/ 897- / 9 / 8. Chicago: University of Chicago Press, 1995.
80. Sobre asbizarras aventuras de Moras, ver Robert F. Byrnes, Hntisemitfsmfn Mo-
75 . White, Sp/infered Parir.
76. Richard S. Levy, The Dom#aJ]ogtbe dali-Semitic Po/i ica] Partiesin /mperia/ Ger- demFrance.New Brunswick, NJ: Rutgers University Press, 1950, p. 225-50, e Sternhell,
mana. New Haven:Vale University Press, 1975. [.a Z)roi eréT'o/uífonnai/e,
p- 67, 69, 178, ] 80-4, 197-220.
90 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 91

em 1896, durante uma expedição que visava"unir a trança ao lslã e à focam a Alemanha em primeiro lugar.87Talvez o primeiro fenómeno que
Espanha".8:"A vida s6 tem valor através da ação", proclamou ele. "Tanto possa ser funcionalmente relacionado ao fascismo seja a Ku Klux Klan ame-
pior se ação for mortal."82 ricana. Logo apósa Guerra Civil, alguns ex-oficiais confederados, temendo
Alguns italianos vinham avançandona mesmadireção. Discípulos ita- o direito de voto concedido aos abro-americanosem 1867 pelos recons-
lianos de Sarei encontraram na nação o tipo de mito mobilizador que a trucionistas radicais, criaram uma milícia para restaurar uma ordem social
revolução proletária não vinha conseguindo fornecer.s3Aqueles que, tal subvertida. A Klan representava uma alternativa à sociedade civil, paralela
como Sorel, pretendiam preservar a pureza de motivação e a intensidade ao Estado legal, que, aos olhos de seus fundadores, deixara de defender os
de envolvimento que o socialismo oferecera nos seus tempos de oposição legítimos interessesda comunidade. Por adotar um uniforme (túnica bran-
perseguida, juntaram-se então aos que desprezavam as concessõesdo so- ca e capuz), e também devido a suastécnicas de intimidação e a suaconvic
cialismo parlamentar e os que se sentiam decepcionadoscom o fracasso ção de que a violência era justinlcada pela causado destino de seu grupo,**
dasgrevesgerais que culminou na terrível derrota da "semanaverme- talvez seja possível afirmar que a primeira versão da Klan no Sul americano
lha" de Milho, em junho de 1914. Eles achavamque o produtivismo;' derrotado foi uma impressionante prévia de como os movimentos fascistas
e uma guerra expansionistapara a ltália "proletária" (como ocorreu na viriam a funcionar na Europa do entreguerras. Afinal, não é de surpreender
Líbia, em 19 11) poderiam substituir a greve geral como o mito mobiliza- que as democracias mais precoces - os Estados Unidos e a França -- tenham
dor mais eficaz para a mudança revolucionária na Itália. Uma outra pedra gerado as primeiras reações à democracia.
fundamental foi lançada para o edifício a ser construído pelos fascistas: Hoje, podemos perceber essesexperimentos como arautos de um
o projeto de reconquistar a clientela socialistapara a nação,por meio de novo tipo de política que estavapor vir. Aquela época, entretanto, pareciam
um heróico "nacional sindicalismo" anti-socialista. aberrações pessoaiscriadas por aventureiros. Eles ainda não eram percep'
Em vista dessesmuitos precursores, surgiu um debate quanto a que tíveis como exemplos de um novo sistema. SÓem retrospecto se tornam
país teria dado origem ao primeiro movimento fascista. A França é uma visíveis a essaluz, após todas as peças terem-se juntado, um espaço ter sido
candidata freqüente.85 A Rússia já foi proposta.8ó Poucos são os que co, aberto e um nome ter sido inventado.

RECRUTAMENTO

8 1. Sternhell, la Droire, p. 2 18.


Em nosso relato dos primeiros movimentos fascistas, encontramos
82. Byrnes, Hntfsemitfsm,p. 249.
83. Sternhell,Bfrtb, p.'13 1-59. David D. Roberts, "How Not toThink about Fascism
com freqüência veteranos amargurados. O fascismo teria permanecido
and Ideology, TnteIJectualAntecedente, and Historical Meaning", Journa/ o/' Confemporary
Hisfory, v. 35, n. 2, abr. de 2002, confere aos italianos mais autonomia intelectual que 87. George L. Mosse aponta para "valores e idéias particularmente alemães" e "de
Sternhell . senvolvimentos especificamente alemães""formulados em épocasmuito anteriores" em
84. Sternhell mostra que Mussolini, baseando se em autores nacionalistas e sindica- seu estudo sobre os precursores culturais do nazismo, The Criseso#German/deo/qgy,p' 2,
listas, havia chegado a uma posição pró-produtivista já em janeiro de 1914. Birra, p. 12, 6, 8, masele não confere prioridade a eles.
160, 167, 175, 179, 182, 193, 219, 221 88. Da\id M. Chalmers, Hooded.4mericanfsm: 7he First Centuryo/ rbe Ku K/ux K/an,
85. Ver capítulo 3, nota 46. /&65-/965. 3. ed. Durham, NC: Duke Universíty Press, 1987, cap. 1 . As semelhanças
86. Hans Rogger, /en'isb Po/ides and ngÀt- ng Pofiticsin /mperia/ Rússia. Berkeley; entre o Klan virulentamente anta-semitaressurgido nos anos 1920 e o fascismo são ex
Los Angeles: University of Calífornia Press, 1986, p. 2 13 , chamaa União do Povo Russo ploradas por Nancy Maclean, Bebind rhe Mass oÍ CbivaJry;7be MaÉing o# tÃe SecondK/an.
que surgiu como reaçãoà revolução de 1905 , de "o primeiro fascismo europeu" NovaYork: Oxford University Press,1994, p. 179-88.
ROBERT O..PAXTON 93
92 A ANATOMIA DO FASCISMO
ê

Os primeiros partidos fascistas,contudo, não recrutavam em todasas


apenascomo mais um grupo de pressão para os veteranos e seus irmãos
classes sociais na mesma proporção. Logo se notou que eram basicamente
mais jovens, contudo, se ele não tivesse conseguido atrair recrutas de mui-
de classemédia, a ponto de serem percebidos como a própria corporiHl-
tas outras extrações.''
caçãodos ressentimentosdessaclasse.9s Mas, afinal, todos os partidos são
Acima de tudo, os primeiros fascistaseram jovens. Muitos da nova ge-
em grande parte de classemédia. Num exame mais minucioso, o fascismo
ração estavam convictos de que os homens de barbas brancas responsáveis
mostrou atrair também integrantes e eleitores de classealta.9'
pela guerra, que ainda se agarravam a seus cargos, nada entendiam de suas
Inicialmente também conquistou mais seguidoresde classetrabalhadora
inquietações, quer tivessem lutado na guerra ou não. Jovens que jamais
do que se costumavapensar, embora sempre em proporções menores que
haviam votado antesreagiram com entusiasmoà nova espéciede política
sua participação na população.'S A relativa escassez de fascistas de classe tra-
anta-política do fascismo."
balhadora não se devia a algum tipo de imunidade proletária aos apelos do
Diversas características distinguiam os fascismos mais bem sucedidos
nacionalismo e da limpeza étnica. A melhor explicação é a "imunização" e a
dos partidos de antes. Ao contrário dos partidos de classemédia, liderados
"profissão de fé":P' aqueles que, há gerações, já estavam profundamente en-
por "notáveis",que condescendiamem contactar seu público apenasem
gatados na rica subcultura do socialismo, com seus clubes, seusjornais, seus
tempos eleitorais, os partidos fascistasarrastavam seus membros numa in-
sindicatos e reuniões, simplesmente não estavam abertos a outra lealdade.
tensafraternidade de emoçãoe esforço.9'Diferentemente dos partidos de
Os trabalhadores de fora da comunidade socialista eram mais recepti
classe socialistas ou burgueses -: eles conseguiram concretizar seu sonho
vos. Ajudava se eles tivessem alguma tradição de açãodireta e de hostilida-
de congregar cidadãosde todas asclassessociais. Essascaracterísticas eram
de ao socialismoparlamentar: por exemplo, os trabalhadoresfura-greves
atraentes para muitos."
dasmarmorarias da tradicionalmente anarquista Clarrara,P7ou os marinhei-

89. Na realidade, muitos veteranos voltaram-se para a Esquerda,e os veteranos re-


93. A clássicaqualif\cação do fascismo como "extremismo de centro" é de Seymour
presentavam apenas um quarto dos membros da SA . Peter H. Merk] , "Approaches to Po
liticalViolence: T'he Stormtroopers, 1925- 1933", em Wolfgang J. Mommsen e Gerhard Martin Lipset, Po/itfca/Man (ver capítulo 8, p. 347 e nota 28).
94. Richard F. Hamilton, W%oHotel./brHit/er? Princeton; Princeton University
Hirschfejd, eds. , Sacia/ Protest,Mo/ente and horror in Nínereentb and bwenrieth Cer7turyEurope.
Press, 1982, p. 90, 112, 198, 228,413-8.
NovaYork: St. Martin's Press,para o German Historical Institute of London, 1982, p-
95. Thomas Childers, 7heNazi morar:
TheSoc;a/Foundations
?fFascfsm
in Germana-
/ 9/ 9-
379. Muitos eram maisjovens, como observamosanteriormente.
90. Bruto Wanrooil , "The Rise and Fala of Fascism as a Generational Revolt",./Durma/ /933. Chapel Hall: University ofNorth Carolina Press, 1983, p. 108 12, 185-8, 253-7;
Jürgen Falter, Hir/ersWEfh/er.Musique: C. H. Beck, 1991 , p. 198-230. A SA era composta
o#Conremporary
History, v. 22, n. 3, 1987.
9 1. Em um artigo semanal,"The Transformation of the Western European Party em grande parte de desempregadosde classetrabalhadora (ver o Ensaio Bibliográfico).
Em 192 1, o Partido Fascistaafirmava que 15,4% de seusmembros eram trabalhadores.
System", em Joseph La Palombara e Myron Weiner, eds. , Politica/ Furriel and Politica/ De-
Salvatore Lupo, //.fascismo:J.a po/ética in un redime lota/ffario. Romã: Donzelli, 2000, p- 89.
ve/opmenr.Princeton: Princeton University Press,1966, p. 177 210, Otto Kircheimer
96. W O. Burnham. "Politicas Imnlunization and Politicas Confessionalism: The
inventou a útil distinção entre "partidos de representaçãoindexidual", que existem ape-
United Statesandteimar Germany", /ourna/ (Z/'/nrerdiscip/inaryHfstory, v. 3, p. 1-30, ve-
nas para eleger um deputado "notável"; "partidos de integração", que incentivavam a par
rão 1972; Michaela WI Richter, "Resource Mobilization and Legal Revolution: National
ticipação atavade seusmembros; e "partidos de base ampla", que recrutavam em todas
SocialistTacticsin Franconia", em Thomas Childers, ed. , 7beEormatfon?/'tbe Nazi Constí-
asclasses sociais. Os socialistas criaram os primeiros partidos de integração. Os partidos
[ueny'.Totowa, NJ: Barnes and Nobre, 1986, p. 104-30.
fascistas foram os primeiros a ser simultaneamente partidos de integração e partidos de
97. Trabalhadores, com 6'eqüência desempregados, eram a categoria social mais
base ampla.
92 . Melitta Maschman, Áccount Renderem;ÁDossier on /Uy Formei Se8 Londres: Abe- numerosa no.Baseiode Carrara. O ras local, Renato Rica, embora próximo dos pro-

lard Schuman, 1965, p. 4, 10, 12, 18, 35 6 e 175, relembra a alegria de escaparde seu prietários das minas, apoiou uma greve de quarenta dias em fins de 1924, o que não se
constituiu num caso isolado nos primeiros tempos do regime fascista. Lupo, //.fascismo,
sufocante lar burguês e ingressar na comunidade interclasses de Bund deutscher Mádel.
94 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO:PAXTON 95

ros genovesesorganizados pelo capitão Giuseppe Giulietti, que seguiu pri- emoções no seu âmago leva muitos a acreditar que recrutava apenas os per-
meiro a D'Annunzio e depois a Mussolini. Os desempregados,também, turbados emocionais ou os sexualmente anormais. Examinarei algumas das
haviam se afastadodo socialismo organizado (o qual, nas condições duras e ciladas da psico-história no capítulo 8. Tem que ser repetidamente ressalta-
competitivas da depressãoeconómica, parecia valorizar mais os trabalhado do que o próprio Hitler, apesarde tomado por Ódios e obsessõesanormais,
res empregados que os desempregados). Estesúltimos tendiam a sejuntar era capaz de decisões pragmáticas e escolhas racionais, sobretudo antes de
mais aos comunistas que aos fascistas, entretanto, a não ser que estivessem 1942. Concluir que o nazismo ou outras variantes do fascismo são formas
votando pela primeira vez, ou que pertencessem à classemédia.w8Um en de distúrbiosmentais representaum duplo perigo: oferece um álibi para
raizamento na comunidade paroquial talvez explique a menor proporção multidões de fascistas"normais" e nos deixa despreparados para reconhecer
de católicos que de protestantes entre o eleitorado nazista. a extrema normalidade do fascismoautêntico. A maioria dos líderes e mi-
Condiçõesespeciaispodiam atrair os proletários para o fascismo.Um litantes era composta de pessoasbastantecomuns, colocadasem posições
terço dos membros da União Britânica dos Fascistas,provenientes dos bair- de extraordinário poder e responsabilidadepor processosperfeitamente
ros dilapidados do Leste de Londres, eram trabalhadoresnão qualificados compreensíveis em termos racionais. Colocar o fascismo no divã pode nos
ou de baixa qualificação, recrutados com baseno ressentimento que sen- fazer enveredar por um caminho equivocado. As suspeitas sobre a sexuali-
tiam com relação aos imigrantes judeus recém-chegados, na decepção com dade perversa de Hitler não se baseiam em provas consistentes,'': embora
a incompetência do Partido Trabalhista ou na raiva aos ataquescomunistas ele. notoriamente. não fosse um homem de família convencional.Tanto
ou judeus àsparadasda UBF.99A Cruz de Setashúngara conquistou um terço homossexuais(como Ernst Rõhm e Edmund Heines) quanto hom6fobi-
dos votos na pesadamente industrializada região central de Budapeste (ljha cos (como Himmler) eram figuras proeminentes na fraternidade masculina
Csepel) e obteve êxito em algumas zonas mineradoras rurais, na falta de
que era o nazismo. Mas não há provas de que a proporção de homossexuais
uma alternativa esquerdista plausível para um voto de protesto antigover- fosse maior entre os nazistas que entre a população em geral . Essaquestão
nista. 100
não foi levantada com relação ao fascismo italiano.
Uma questãofortemente polêmica é se o fascismo, ao recrutar seus Os líderesfascistaseramarrivistasde um tipo novo Em ocasiões
an-
militantes, apelavamais à razão que às emoções.''' O evidente poder das
teriores, recém chegadosjá haviam ascendido à liderança nacional abrindo
caminho à força. Muito antes do fascismo, soldados calejados, que lutavam
p 89, 201; Adrian Lyttelton, 7beSefzure
ogPoder.Eascism
in /[a7g./9/ 9 / 929. NovaYork: melhor que os aristocratas, haviam-se tornado indispensáveis aos reis. Uma
Scribner's, 1973 , p. 70 1 , 168, 170; Sandro Setta, RematoMcci; Da//o squadrfsmoa]/ Repub-
b/icaSacia/e/[a/fado. Bolonha: ll Mulino, 1986, p. 28, 81 100.
98. Childers, 7beNazi Hotel,p. 185; R. 1. McKibbin, "The Myth ofthe Unemployed: cional entre os recrutas nazistas, que se flliaram, segundo Brustein, porque acreditavam
Who Did Vote for the Nazis?", .4ustra/lan/Duma/ ogPo/i icsand Hístory, ago. 1969. que o programa dos nazistasera o que oferecia as melhores soluções para os problemas
99 . Tholllas Linehan , Easc/.ondon.#or Mos/ey: Tbe British Union o#Eascfsts fn Easr London da Alemanha. Os métodos e os dados desta obra foram questionados.
andSoutbwest
Esses,] 933-/940. Londres: Frank Cass,1996, p. 2 10, 237 97. A BUF rece 102 . lan Kershaw, Hit/er: Hubris, p. 46, não encontra nenhuma prova convincente de
beu sua maior onda de filiações como reação aos contra ataques comunistas e judeus na homossexualidade. Frederick C. Redlich, M . D. , /íft/er: Diagnosiso#a DestructireI'rapa'r
Batalhade CableStreet(p. 200) (ver capítulo3, p. 132). NovaYork: Oxford, 1998, consideraHitler vítima de fortes repressões,possivelmente
100. Miklós Lackó, .4rrowCross
,Men,Nationa/Sacia/fsts.
Budapest:Studia Historica baseadasnuma deformidade genital, e, possivelmente, também como homossexual la-
Academiae Scientiarum Hungaricae n. 61, 1969; Gyõrgy Ránki, "The FascistVote in tente, embora "ele representassemuito bem o papel de heterossexual". Lotear Machtan
Budapest in 1939", em Larsen et al., Whomeratbe Fascfsfs,p. 401 16. vasculhou todos os registros procurando por provas da homossexualidade de Hitler e
101 . William Brustein, The Logic o# Evi/: 7Êe Sacia/ Origens o/'tbe Nazi Parir, /925- encontrou vestígios sugestivos (porém menos provas do que ele esper'*'a) em The Hidden
/ 933. New Haver:Vale University Press, 1996, é o maior defensor da ideia da escolha ra- Hif/er.Trad. do alemão por John Brownjohn. Oxford: PerseusBooks, 2001.
96 A ANATOMIA DO FASCISMO
ROBERTO.PAXTON 97

forma posterior de recrutamento político veio de jovensde origem mo- mesmo, embora por um breve período, um músico, como Arturo Tosca-
destaque alcançaramêxito com a ampliaçãoda política eleitoral, no século níni. '06Afinal, o que unia a todos eram valores, mais que um perfil social:
xíx. Podemos pensar no político francês Léon Gambetta, já mencionado,
desprezo pela cansadapol ítica burguesa, hostilidade com relação à esquer-
filho de um quitandeiro, ou no filho de um comerciante atacadistade cer-
da, nacionalismo fervoroso e tolerância à violência, quando necessário.
veja, Gustav Stresemann, que se tornou o principal estadista da Alemanha
Jáfoi dito que um partido político é como um ânibus:aspessoasestão
11
deWeimar. Um outro tipo de recém-chegados bem-sucedidos dos tempos sempre entrando e saindo. À medida que formos prosseguindo, veremos
modernos foram os mecânicos habilidosos em novasespecializações(pen como a clientela fascistase alterou ao longo do tempo, dos radicaisda fase
demosnaqueles fabricantes de bicicletas de grande capacidadeempresarial, inicial para os carreirístas das épocasposteriores. Aqui, também, não po-
Henry Ford, William Morras e os irmãosWright).
demos perceber o fenómeno em sua totalidade examinando apenasseu
Mas muitos desseslíderes eram marginais de uma maneira nova. Eles começo.
nao se pareciam com os intrusos de eraspassadas:os soldadosda fortuna,
os primeiros políticos parlamentaresque ascenderamsocialmente, ou os ENTENDENDO O FASCISMOPOR MEIO DE SUASORIGENS
mecânicos hábeis.Alguns eram boêmios, intelectuais marginalizados, dile-
tantes, especialistasem nada além de manipular multidões e atiçar ressenti- Neste capítulo, examinámos as épocas, os lugares, a clíenteja e a re
mentos. Hitler, estudante de artes fracassado;Mussolini, mestre-escola de
t6rica dos primeiros movimentosfascistas.Agora, vemo-nosforçados a
profissão,mas,principalmente, revolucionário inquieto, expulso da Suíçae admitir que essesprimeiros movimentos não contam a história toda. Os
do Trentino por subversão; Joseph Goebbels, bacharel desempregado com primeiros fascísmos iriam ser transformados pela própria empreitada de
ambições literárias; Hermann Goering, um ás dos campos de batalha da tentar ser mais que uma voz marginal. Sempre que se tornavam candidatos
Primeira Guerra, que depoisficou semrumo; Heinrich Hímmler, estu-
mais ativos ao poder, esseesforço os transformava em algo gritantemente
dante de agronomia que fracassoucomo vendedorde fertilizantes e como
diferente do radicalismo dos tempos iniciais. A compreensão dos primeiros
criador de galinhas.
movimentos nos fornece apenasuma visão parcial e incompleta do fênâ-
No entanto, os primeiros militantes eram diversificados demais, quan- meno como um todo.
to a origem social e nível de escolaridade, para se encaixarem no rótulo E curioso ver a quantidade desproporcional de atençãohistórica dada
genérico de arrivistas marginalizados.'': Lado a lado com brigões de rua aos primórdios do fascismo. Há diversas razões para tal. Uma delas é a
com ficha policial, como Amerigo l)umini'" ou Martin Bormann, pode sempre latente (embora enganosa)convenção darwinista, de que, se estu
mos encontrar um professor de filosofia, como Giovanni Gentíle, i05ou até darmos as origens de algo, entenderemos seu projeto interno. Uma outra
razão é a disponibilidade de uma profusão de termos e artefatos culturais
103. Ver Mlchae\ bater, TheNazi Parti:Á SactcilPr($1eqf.Members
and Leaders,] 919- dos primeiros tempos, que são boa matéria-prima para os historiadores. As
/ 945. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1983, p. 194 8 . Talvez Kater superes questões mais sutis, mais secretas e mais sórdidas, de como negociar acor
time a solidez social dos líderes nazistasna Alemanha do período da Depressão. '
104. O supostoassassino
de Matteotti.
105 . Giovanni Gentíle, filósofo idealista de prestígio, obcecado com o imperativo 106.Toscanini, candidato na chapa fascistade Milho, em 1919, não demorou a rom
unidade nacional por meio de um Estado forte, foi o primeiro ministro da Educação per com o partido. Em 193 1, após ser atacadopor um jornal fascista,que o acusoude ser
de Mussolini e aplicou reformas que eram ao mesmo tempo elitistas e estatistas.Ele foi
"um espetapuro que paira acima da política em nome de um (. . .) estetismo decadente",
executado pelos partisans em 1944. Suamais recente biografia é Gabriele Turi, Gioranni ele aceitou um cargo em NovaYork. Harvey Sachs,Musicin Eascfst /taJg.Londres: Weiden-
Gerzrf/e:Una bioyra#a. Florença: Giunti, 1 995.
feld andNicolson, 1987,p. 2 16
98 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O. PAXTON. 99

dos para chegar ao poder e exercê-lo, por alguma razão, parecem (equivo- Por fim, as comparações não nos levam muito longe com relação aos
cadamentel) um assunto menos fascinante. primeiros estágios, uma vez que todos os países onde havia política de mas-
Uma razão sólida e pragmática para tantas obras sobre o fascismo se saspossuíram,em algum momento posterior a 1918, ensaiosde movi-
concentrarem nos movimentos originais é que a maioria nunca passoudes- mento fascista. As comparações não mostram que o mapa da criatividade
se ponto. Escrever sobre o fascismo na Escandinávia, na Grã Bretanha ou intelectual não coincide com o mapa do êxito fascista. Alguns observadores
nos PaísesBaixos, ou até mesmo na Franca, significa, necessariamente,es- afirmam que ele f'oí inventado na Fiança, e lá atingiu a plenitude de seu
crever sobre movimentos que nunca se desenvolveram muito além da fun desenvolvimento intelectual.' '' Mas, na França, não chegou sequer perto
dação de um jornal, da realização de algumas manifestações, de discursos do poder até depois da derrota militar, em 1940, como veremos em maior
nas esquinas das cidades. rosé Antonio Primo de Rivera na Espanha, Mosley detalhe mais adiante.
na Grã-Bretanha e os movimentos francesesde discurso mais ousado se- O primeiro a submetero fascismoaoteste dasurnasfoi Mussolini.Ele
quer chegarama participar de um processoeleitoral. '" imaginou que seu "antipartido" anta-socialista,mas também antiburguês,
Se nos concentrarmos nos primeiros tempos, estaremos seguindo vá- atrairia todos os veteranosda Itália. e também seusadmiradores, conver
rias trilhas falsas,que colocam intelectuais no centro de uma empreitada tendo seus Enscfdf Combattfmentonum partido de massas de abrangência
cujas principais decisões foram tomadas por homens de ação sequiosos por ampla. Concorrendo ao parlamento por Milho, em 16 de dezembro de
poder. A influência dos companheiros de viagem intelectuais diminuiu pau 1919, com baseno programa original de SanSepolcro, com suamistura de
latinamente no decorrer dasfasesde enraizamento e de governo do ciclo mudanças internas radicais e nacionalismo expansionista, ele recebeu um
fascista, embora algumas idéias tenham-se reafirmado na fase da radicali- total de 4.796 votos num eleitorado de 3 15. 165.''' Antes de se tornar um
zação (ver capítulo 6). Além do mais, se nos concentrarmos nas raízes. es- concorrente de peso na vida política italiana, ele teria que fazer ajustes.
taremos colocando ênfaseequivocada na retórica antiburguesa do fascismo Para entender o fascismo como um todo, teremos que gastar tanta
primitivo, bem como na suacrítica ao capitalismo.Estaríamosprivilegian- energia em suasformas posteriores quanto em suasformas iniciais. As adap
do o "movimento poético" de JoséAntonio Primo de Rivera, que exigiria tações e transformações que marcaram o caminho seguido por alguns fascis-
"sacrifíciosduros e justos (...) de tantosde nossaprópria classe",e que mos na suajornada, passandode movimento a partido, de partido a regime,
"atingiria tanto os humildes quanto os poderososcom seusbenefícios",:" e até seu paroxismo 6na], irão ocupar boa parte do restante deste ]ivro.
"grande fascismovermelho de nossajuventude", como Robert Basillach
lembrava-se dele, com nostalgia afetuosa, pouco antes de sua execução por
traição em fevereiro de 1945, em Paria.i09

107.Vercapítulo3,p. 103-105.
108. Discurso de 29 de outubro de 1933, em HughThomas, ed.,.#)séHntonioPrimo
de&vera: Se/ectedW/ilfngs. Londres: Jonathan Cape, 1972, p. 56 7.
109. Ver capítulo 3, nota 82. A]ice Kap]an nota, em TheCo]/aboraror.Chicago: Uni
versity of Chicago Press,2000, p. 13, que o fascismode Brasillach'l)aseavase nos pontos
de referência e no vocabulário de um crítico literário imagens, poesia, mitos com
pouca ou nenhuma referência à política, à economia ou à ética". 1 10. Ver capítulo 3, notas 46 e 47.
1 1 1 . Gentile, Scoria de/ Panito Eascisra, p. 57
3
0 ENRAIZAMENTO

OS FASC]SMOSQUE DERAM CERTO

No período entre as duas guerras mundiais, quasetodas as naçõesdo


mundo e, com toda a certeza, todas as que possuíam política de massas,
produziram algumacorrente intelectual ou algum movimento ativista pró-
ximo ao fascismo. Movimentos praticamente onipresentes, embora eféme-
ros em suamaioria, como os CamisasCinzentas da lslândia,' ou a Nova
Guarda de New SouthWales, na Austrália,: não despertariam nosso urgen
te interesse, caso alguns exemplares de sua espécie não tivessem crescido a
ponto de se tornarem grandes e perigosos. Uns poucos movimentos alcan-
çaram um êxito muito superior ao do tipo mais comum, com seusoradores
de esquina e seus valentões truculentos. Ao se tornarem os porta-vozes de
queixas e interessesde monta, e também capazesde recompensar ambições
políticas, lançaram raízes no interior dos sistemas políticos. Poucos dentre
eles chegaram a desempenharpapéis de importância na vida pública. Esses
fascismosbem-sucedidosabriram espaçoem meio a outros partidos e gru-
pos de interesses adversários e conseguiram convencer pessoasinfluentes
de que, mais que qualquer outro partido convencional, seriam capazesde
representar seus interesses e sentimentos e de realizar suasambições. Os

1. A Gudmundsson, "Nazism in lceland", em Stein U. Larsen, Bernt Hagtvet e Jan


Petter Myk[ebust, eds. , Wbo Mera [be Fuscisrs: Social Roots o#Europ'an Fascfsm. Bergen: Uni-
versitetsforlaget, 1980, p. 743-5 1. Seu número de filiados atingiu o augeem 1936.
2. Keith Amos, TbeNen'Guard.WoT'ement,
/ 93/ / 935. Melbourne: Melbourne Uni-

«W '-« , ~ 9nG . gq;Z.râ


102 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O.PAXTON 103

arrivistas confusos dos primeiros tempos converteram-se em forças po A prática demonstrou que o anticapitalismo fascistaera altamente sele-
líticas sérias, capazesde competir em pé de igualdadecom os partidos e tivo.s Mesmo em suaforma mais radical, o socialismo desejadopelos fascis-
movimentos estabelecidos há mais tempo. Seu sucesso influenciou sistemas tas era um "nacional-socialismo", que negava o direito à propriedade apenas

políticos inteiros, dando-lhes um tom mais intenso e agressivoe legitiman aosestrangeiros e aosinimigos (inclusive os internos) . Valorizavam os pro-
do expressõesabertas de nacionalismo extremo, de ataques à esquerda e dutores nacionais.ÓSobretudo, foi oferecendo um remédio eficaz contra a
de racismo. Esseconjunto de processos de que forma os partidos fascistas revolução socialistaque o fascismo encontrou seu lugar na prática. SeMus
conseguiram lançar raízes é o assunto do presente capítulo. solini, em 1919, conservavaalgum resquício de esperançade fundar um
Ao alcançaremêxito em suaparticipação na política eleitoral e na po socialismoalternativo, em vez de um anti socialismo, ele logo abandonou
lítica de grupos de pressão, os jovens movimentos fascistasviram-se obri- essaideia, ao perceber o que funcionava e o que não funcionava na política
gados a dar um foco mais preciso a suas palavras e a seus atos. Tornou-se italiana. Os insignificantes resultados eleitorais obtidos por ele em novem-
mais difícil para eles manter sua independência inicial, que lhes permitia bro de 1919, em Melão, com seu programa de nacionalismo esquerdista,
mobilizarum largo espectrode queixasheterogéneas
e dar voz aosres- serviram para que aprendessebem essalição.'
sentimentos isolados de todos (exceto dos socialistas) os que se sentiam As opçõespragmáticasfeitas por Mussolini e por Hitler foram mo-
prejudicados e não-representados. Tiveram que fazer opções e, abrir mão tivadas por sua sede de êxito e poder. Nem todos os líderes fascistasti-
dos reinos amorfos do protesto indiscriminado para situar-se num espaço nham tantas ambições. Alguns preferiam manter "puros" os seus movimen-
político definido, ; onde poderiam alcançar resultados práticos e positivos. tos, mesmo ao preço de permanecerem à margem da vida política. José
Para estabelecer relações de trabalho efetivas com parceiros de peso, torna- Antonio Primo de Rivera, fundador da FalangeEspanhola,via como sua
ram-se úteis de maneiras mensuráveis. Foi lhes necessário oferecer a seus missãoreconciliar trabalhadores e patrões, por meio da substituição do ma-
seguidores vantagens concretas e engajar-se em ações específicas, onde os terialismo o erro fatal tanto do capitalismo quanto do socialismo pelo
beneficiários e as vítimas eram Óbvios. idealismo.a serviço da Nação e da Igreja, embora suamorte precoce, em
Essasmedidas mais precisasobrigaram os partidos fascistasa tornar novembro de 1936, ante um pelotão de fuzilamento republicano, o tenha
mais claras suas prioridades. Nessa fase, passa a ser possível submeter a salvado dasduras escolhasque teria que ter feito após a vitória de Franco.8
retórica fascista ao teste da prática fascista. Podemos descriminar o que era Charles Maurras, cuja dctfon Françafsefoi uma pioneira do nacionalismo
realmente importante. A retórica radical nunca desapareceu,é claro: em
junho de 1940, Mussolini ainda conclamava a "ltália Fascista e Proletária"
5.Ver capítulo 1, p. 25 28.
e os "CamisasNegras da Revolução"à luta contra as "democraciaspluto
6. Sternhe]] consideraa distinção entre produtores e parasitassociais"um elemento
críticas e reacionáriasdo Ocidente."+ No entanto, assimque os partidos
essencialno surgimento da síntese fascista". Zeev Sternhell et al. TbeBirfb oÍ rbe Fascisf
começaram a lançar raízes na prática política concreta, a natureza seletiva /deo/oyF:From Cu/fura/ Robe//ionto Po/ir;ca/ levo/urion. Princeton: Princeton Universíty
de suaretórica antiburguesa se tornou mais clara. Press,1994,p. 106.
7.Vercapítulo2, p. 100.
8 . "0 socialismo (. . .) foi uma reação legítima à escravidão liberal", disse José An-

3.Vercapítulo2,nota 12. tonio no discurso de f\Jndaçãoda Falange,em 29 de outubro de 1933. Mas o socialismo
4. Discurso de 10 de junho de 1940, em Renzo de Felice, Massa/inii/ Dure, v. n: l.o tinha os defeitos do materialismo, do espírito de vingança e da luta de classes, e deveria
stato rota/itario, /93ó-/ 940. Turim: Einaudi, 198 1, p. 841 -2. Uma versão em inglês pode ser substituído por um idealismo mais elevado,"nem de direita nem de esquerda",cons-
ser encontrada em Charles F. Delzell, MedfterraneanFascfsm.
NovaYork: Harper & Row, tituído em torno da nação e da Igreja.Texto em inglês em Delzell, Mediferranean Fascism,

1970,P. 213-5. P 259 66. /


104 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBElqT O.PAXTON 105

populista antiesquerdista, permitiu por uma única vez, em 1919, que seus oferecendo uma nova forma de vida pública um "antipartido"'' capaz
seguidores concorressem a cargos e]etivos, quando seu principa] lugar-te- de congregar a nação inteira, opondo-se tanto ao liberalismo parlamentar,
nente, o jornalista Léon Daudet e uns poucos simpatizantesprovincianos com seu incentivo às facções, quanto ao socialismo, com sua luta de classes.
foram eleitos para a Câmara dos Deputadosda França.A Croix de Eeu,do José Antonio descreveu sua Falange Espanhola como "um movimento, não
coronel François de la Roque desprezavao processo eleitoral, embora seu um partido na verdade, poder-se-ia até mesmo chama-lo de um 'anti-
sucessorde tendência mais moderada, o Parti Socfa/Français,tenha passado, partido'(...) nem de esquerda nem de direita".': É verdade que o NSDAP,
em 1938, a lançar candidatos nas eleições suplementares.PFerenc Szálasi, de Hitler, denominou-seum partido desdeo início, masseusmembros,
o ex-oficial do exército que liderava a Cruz de Setas húngara, recusou-se a que sabiam não tratar se de um partido como os demais, chamavam-no de
voltar a concorrer ern eleições apósduasderrotas, preferindo um filosofar "o movimento" (dfe Ben'gang). A maioria dos fascistas chamava suas orga
nebuloso às manobras para chegar ao poder. nizações de movimentos,'; campos,'', bandos,'S rassemb/ementa,'' ou.#sci:
Hitler e Mussolini, ao contrai'io, não apenas sentiam-se destinados a irmandades que não atiçavamgrupos de interessesuns contra os outros,
governar, como não compartilhavam dessesescrúpulospuristas quanto a afirmando unir e revigorar a nação.
concorrer naseleiçõesburguesas.Ambos lançaram se com uma impres- Os conflitos quanto a que nome os movimentos deveriam dar a si pró-
sionante habilidade tática, e seguindo rotas bastante diferentes, que desco- prios eram relativamente triviais. Concessões e mudanças de gravidade
briram por tentativa e erro a se transformar em participantes indispensá- muito maior estavam envolvidas no processo de se transformar num ator
veis na competição pelo poder político em seusrespectivos países. de peso na arena política, uma vez que esseprocesso implicava se unir aos
Como era inevitável, tornar-se um ator político bem-sucedidoimpli- próprios especuladores capitalistas e políticos burgueses cuja rejeição fazia
cavaperder seguidores, tanto quanto conquista-los. Até mesmo o simples parte do apelo do movimento inicial. O fato de que os fascistasconsegui-
passode formar um partido podia parecer uma traição aospuristas de pri- ram preservar parte de suaretórica antiburguesa e algum resquício de aura
lt meira hora. Quando Mussolini, em fins de 1921, decidiu transformar seu "revolucionária" ao mesmo tempo que formavam alianças políticas pragmá
movimento num partido, alguns de seusseguidores iniciais, de índole mais tecas constitui um dos mistérios de seu sucesso.

idealista, viram essadecisão como uma queda na arena suja do parlamen- Para alcançar êxito na arena política era necessário mais do que escla-
tarismo burguês.'' Converter-se num partido implicava colocar o discur- recer prioridades e tecer alianças.Era preciso também oferecer um novo
so acima da ação, os acordos acima dos princípios, e os interesses con \
correntes acima da nação.Os primeiros fascistasidealistasviam se como 1] Emi[io Genti[e, J.eorigine de]/'idem/agia.fascista
(/ 9/ 8-/ 925), 2. ed. Bolonha; ll
Mulino, 1996, p. 128-33: "L'antipartito"
12 . Delzell, .Mediterranean
Énscfsm,
p. 263
9. A enérgica atividade e]eitora] de Hitler e Mussolini contradiz o argumento de 13. Por exemplo, o Movimento Nacional Socialista de Adrian Anton Mussert (Na-
alguns de que issobastaria para fazer de La Rocque um não-fascista.Ver o Ensaio Biblio tionaal Socialistische Beweging) nos PaísesBaixos.
gráfico,p.400-402. 14. Por exemplo, o Campo Polonês de Unidade Nacional.
10. A proclamação de que o fascismo havia se transformado num partido. contida 15. Por exemplo, oVlaamsch Nationaal Verbond da Bélgica de língua flamenga e o
no Novo Programa do Panito Nazionale Fascista,7-10 de novembro de 192 1, está pu Verband van Dietsche Nationaal-Solidaristen (Verdinaso) dos Países Baixos.
blicada em Delzell, MediterraneanFascfsm,p. 26-7. Sobre a oposição interna, ver Adrian 16. Por exemplo, o RassemblementNational Populaire de Marcel Déat, na Parasda
Lyttelton, TbeSeizureo#Pon'er.
NovaYork; Scribner's, 1973, p. 44, 72-5, e Emilio Gentile, ocupaçãonazista de 1941 - 1944, e a Nasjonal Samling, deVidkun Quisling, na Noruega.
'The Problem ofthe Party in Italian Fascism",./Durma/
o#Confemporary History, v. 19, n. 2, O general De Gaulle provocou estupefação,em 1947, ao chamar seu novo movimento
p. 25 1 -74, abr. 1984. de Rassemblement du Peuple Français.
106 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 107

estilo político que atraísseeleitores que haviam chegadoà conclusão que duns de seus seguidores das zonas rurais da ltália setentrional: o squadrismo.
a política havia-se tornado suja e fútil. Posar de "antipolítico" muitas vezes Foi ali que algunsde seusdiscípulos mais agressivosformaram esquadrões
funcionava com pessoascuja grande motivação política era o desprezo pela armados, asSquadred'dzione,aplicando astáticas que haviam aprendido em
política. Em situaçõesem que os partidos existentesestavamrestritos a seustempos de soldado, de atacar os que, a seu ver, eram os inimigos inter
demarcaçõesde classeou de filiação doutrinária, como no casodos marxis nos da nação italiana. Marinetti e alguns outros amigos de Mussolini deram
tas, dos pequenos proprietários e dos partidos cristãos, os fascistas podiam o exemplo, com seuataque ao .4t'amei, em abril de 1919.'*
exercer atraçãoprometendo unir o povo, e não dividi-lo. Onde os partidos As Squadreiniciaram suacarreira no caldeirão nacionalistade Trieste,
existentes eram dirigidos por parlamentares que pensavamprincipalmente um porto poliglota do Adriático, tomado da Austria-Hungria pela Itália
em suaspróprias carreiras, os fascistaspodiam atrair idealistas colocando nos termos do acordo posterior à guerra. Para estabelecera supremacia
se como um "partido de engajamento",onde quem davao tóm eram os italiana nessacidade cosmopolita, um esquadrão fascista, em julho de 1920,
militantes dedicados,e não políticos carreiristas.Em situaçõesem que um incendiou o Hotel Balkan, onde a Associação Eslovena tinha sua sede, e in-
único clã político vinha, há anos,monopolizando o poder, o partido podia timidou eslovenos nas ruas.

se colocar como o único caminho não socialistapara a renovaçãoe a ins- Os CamisasNegras de Mussolini não foram os únicos a usar de ação
tauração de uma nova liderança. Foi usando de todos essesmétodos que os direta em prol de objetivos nacionalistasna Itália do pós-guerra. O rival
fascistas,na década de 1920, foram os pioneiros na criação dos primeiros mais sério de Mussolini era o escritor e aventureiro Gabriele [yAnnunzio.

partidos europeus de "frente ampla" e de "engalamento", '' facilmente dís- Em 1919-1920, D'Annunzio era, de fato, mais célebre que o líder da mi-
tinguíveis de seusdesgastadose estreitos rivais tanto pela amplitude de sua núscula seita fascista. Já era famoso na ltália não apenaspor seus poemas
basesocialquanto pelo intenso ativismo de seusmilitantes. e peças teatrais bombásticas e por sua vida extravagante, mas também por
Aqui, a comparação torna-se mais delicada: apenas algumas sociedades comandar ataquessobre território austríaco durante a Primeira Grande
passaram por um colapso dos sistemas existentes severo a ponto de levar Guerra (nos quaisele perdeu um olho).
seus cidadãos a buscar soluções em pessoas oriundas de fora desses siste- Em setembrode 19 19, D'Annunzio liderou um bando de nacionalistas
mas. Em muitas oportunidades, o fascismo não conseguiu se estabelecer; e de veteranos de guerra num assaltoao porto adriático de Fiume, que
em outros, isso sequer foi tentado de fato. A instauraçãobem-sucedida,na os autores do tratado de paz de Versalhes haviam dado ao novo Estado da
Europa do entreguerras, ocorreu apenas em alguns poucos casos. Neste lugoslávia. Proclamando Fiume a "República de Carnaro", D'Annunzio in-
capítulo, proponho-me a discutir três dessescasos:dois bem-sucedidose ventou a teatralidade pública que Mussolini, mais tarde, faria sua: discursos
um fracassado.Estaremos então em melhores condições de perceber cla bombásticos proferidos de uma sacadapelo Commandante,uniformes e pa'
ramente as condições que mudaram os movimentos fascistasa se implantar radas em abundância, a saudação romana de braço estendido e o grito de
no sistema político. guerra sem sentido, "eia, eia, a/a/à
Como a ocupaçãode Fiume acabou por se transformar numa situa-
(1) OValedoPÓ,Itália, 1920-1922 ção internacional embaraçosa para a Itália, D'Annunzio
desafiou o governo
de Romã, e os mais conservadores dentre seus partidários nacionalistas o
Após o desastrequase terminal das eleições de novembro de 1919 abandonaram.O apoio ao regime de Fiume passoua vir, cadavez mais, da
Mussoliní foi salvo do esquecimento por uma nova tática inventada por al esquerdanacionalista. Alceste de Ambris, por exemplo, um sindicalista in-

17.Ver capítulo 2, nota 91 18.Vercapítulo1,p. 18-21


108 AANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 109

tervencionista e amigo de Mussolini, redigiu suanova constituição, a Carta cinqüenta e sete anos. Uma vez tendo assumido o poder, foi fácil para Mus
de Carnaro. O Fiume de D'Annunzio transformou se numa espécie de re- solini compra-lo com o título de Príncipe de Monte Nevoso e um castelo
pública populista marcial, cujo chefe extraía apoio diretamente da vontade no Lago Guarda, livrando-se assim dele.:' O fracasso de D'Annunzio é uma
popular, manifestadaein comícios de massa,e onde os sindicatos tinham advertência aos que gostariam de interpretar o fascismo principalmente
assento lado a lado com a administração em "corporações" oficiais suposta- em termos de suasexpressõesculturais. teatro não era o bastante.
mente responsáveispelo gerenciamento conjunto da economia. Uma "Liga Acima de tudo, Mussolini superou D'Annunzio porque serviu não ape
de Fiume", de caráter internacional, tentou reunir os movimentos de li nas aos interesses nacionalistas, mas também aos interesses económicos e
bertação nacional de todo o mundo, postando se como rival da Liga das sociais. SeusCamisasNegras estavam prontos para entrar em açãotambém
Naçoes . 19 contra os socialistas,e não apenascontra os eslavosdo sul de Fiume e de
Mussolini expressouapenasum brando protesto quando o velho mes- Trieste. Desde 1915 os veteranos de guerra odiavam os socialistas por sua
tre das soluções políticas, Giovanni Giolitti, mais uma vez eleito primeiro postura "antinacional" durante a Primeira Guerra. Os grandesproprietá-
ministro da ltália aosoitenta anos,negociouum acordocom a lugoslávia, rios de terras doVale do PÓ,daToscana,de Apúlia e de outras regiões de
em novembro de 1920, que transformou Fiume em cidade internacional, latifúndios odiavam e temiam os socialistaspor seu êxito em organizar os
enviando então, no Natal, a marinha italiana para dispersar os voluntários braccianti, ou camponeses sem-terra, nas suas reivindicações por melhores
de lyAnnunzio. Isso não significava que Mussolini não tivesse interesse em saláriose condições de trabalho, ao final da guerra. No squadrismo,esses
Fiume. Uma vez no poder, ele forçou a lugoslávia a reconhecer a cidade dois ódios concluíram.
como italiana, em ] 924.:' Mas as ambiçõesde Mussolini foram beneficia Após sua vitória nas primeiras eleições do p6s-guerra, em novembro
daspela humilhação de D'Annunzio. Adotando muitos dos maneirismos de 1919, os socialistasitalianos usaramseurecém-adquirido poder nosgo-
do Commandante, conseguiu atrair de volta a seu movimento muitos dos vernos locais para estabelecer controle de fato sobre o mercado dos salá-
veteranos da aventura de Fiume, inclusive Ajceste de Ambris. rios agrícolas. No Vale do P6, em 1920, todos os fazendeiros que precisa-
Mussolini obteve êxito onde D'Annunzio fracassou,e isso deveu-sea vamde trabalhadoresparao plantio ou a colheita tinham que visitar a Bolsa
mais do que mera sorte ou estilo. Era suficientemente sedento de poder de Mão-de-Obra socialista.As Bolsasde Mão-de-Obra tiraram o máximo
para entrar em acordoscom políticos centristasimportantes. D'Annunzio, proveito de sua nova posição de influência, obrigando os fazendeiros a con-
em Fiume, apostou num tudo ou nada, e estava mais interessado na pureza tratar trabalhadorespelo ano inteiro, e não apenaspor períodos sazonais,
de seus gestos que na substância do poder. Além disso, em 1920, ele já tinha e com melhores salários e condições de trabalho. Os fazendeiros passavam
por dificuldades financeiras. Haviam feito investimentos consideráveis an-
19. Paraa ópera cómica, porém extremamente séria, de D'Annunzio d Repúb/icade tes da guerra, para transformar os pântanosdo Vale do P6 em terras cul-
Cancro, ver Michael A. Ledeen, Tbe FfrstDure.Baltimore e London: Johns Hopjdns Uni- tiváveis, e suas safras comerciais rendiam pouco dinheiro nas condições
versity Press,1977, e Jota Woodhouse,Gabrie/eD'dnnunzio.Defiantdrcbange/.Oxford; difíceis da economia italiana do p6s-guerra. Os sindicatos socialistas, além
Clarendon, 1998. Pierre Milza, Musgo/ini.Paris: Fayard,1999, p. 242-50, e Michel Os
disso, prejudicaram o statuspessoaldos proprietários de terras como se-
tenc, /nte//actuais
fta/tensetlascísme.
Paria: Payot, 1983, p. 122, eíltre outros, mostram
nhores de seus domínios.
como a fama de D'Annunzio chegoua ofuscarMussolini em Hmsde 1919 e inícios de
1920

20. Depois da SegundaGuerra Mundial, a Itália derrotada não tinha poder para 21. Monte Nevoso,montanhapróxima a Fiume, que ficou com a ltália nos termos
impedir que a lugosláviarecuperasseFiume. Rebatizadacomo Rijeka, é atualmente o do acordo de 1920, poderia ser considerada uma conquista de D' Annunzio. Seu castelo,
principal porto da República da Croácia, após o ülm da lugoslávia. 11Vittoriale, é atualmente local de peregrinação nacionalista.
110 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBElqT O.PAXTON lll

Amedrontados e humilhados, os proprietários de terras do Vale do P6 próprio monopólio sobre o mercado de trabalho agrícola. Dando a uns
procuravam desesperadamentepor apoio,22que eles não encontraram no poucos camponesesum pequeno pedaço de terra doado por proprietários
governo italiano. As autoridades locais ou eram socialistas elas próprias ou de visão, eles persuadiram grandesnúmeros de camponesessem-terra a
estavam
poucoinclinadasa seindisporcomossocialistas.
O primeiro-mi abandonar os sindicatos socialistas.Terra era o desejo mais caro de todos
nistro Giolitti, um verdadeiro praticante do liberalismo /aissez=#aire,
recu os camponeses doVale do P6, que ou possuíam muito pouca (como os pe
sou-se a usar as forças armadas do país para pâr flm às greves. Os grandes quenos proprietários, os meeiros ou os arrendatários) ou nenhuma (como
fazendeiros sentiram-se abandonadospelo Estado liberal italiano. os diaristas). Os socialistas não tardaram a perder o controle sobre essas
Faltando lhes a ajuda das autoridades públicas, os grandes proprietá categorias de trabalhadores rurais, não apenas por terem se mostrado in-
rios de terra do Vale do PÓvoltaram-se para os Camisas Negras em busca capazesde defender suasconquistas do p6s-guerra, mas também porque
de proteção. Felizes por terem agora uma desculpa para atacar seusantigos seu objetivo de longo prazo, as fazendascoletivas, não era atraente para os
inimigos pacifistas, as Squadrefascistas,em 2 1 de novembro de 1920, inva pobres rurais famintos por terra.
derama prefeitura de Bolonha, onde asautoridades socialistashaviam içado Ao mesmo tempo, os squadrisfitiveram êxito em demonstrar a inca-
uma bandeira vermelha. Seis pessoasforam mortas. Dali, o movimento pacidadedo Estado de proteger os proprietários de terras e de manter a
rapidamente se espalhou por toda a rica região agrícola do baixo delta do ordem. Chegaram a suplantar o Estado na organização da vida pública e a
rio PÓ. Squadristi vestidos de camisas negras lançavam ataques noturnos às infringir seu monopólio do uso da força. Ao tornarem-se mais ousados, os
Bolsasde Mão-de-Obra e àsrepartições socialistaslocais, que eram saquea- Camisas Negras ocuparam cidades inteiras. Uma vez instalados em Ferrara,
das e incendiadas, e espancavam e intimidavam os organizadores socialistas. forçaram a cidade a instituir um programa de obras públicas. Em inícios de
Suaforma favorita de humilhação era administrar dosesincontroláveis de 1922, os esquadrõesfascistase seustruculentos líderes, como Italo Balbo
óleo de rícino e raspar metade de um altivo bigode latino. Nos seispri- em Ferrara. e Roberto Farinacci em Cremona chamadosde ras,como os
meiros meses de 1920, os esquadrões destruíram 17 jornais e gráficas, 59 pequenos chefes etíopes constituíam o poder de fato no Nordeste da Itá-
Casas do Povo (as sedes socialistas), 1 19 Câmaras de Trabalho (as agências lia, com o qual o Estadotinha que se haver,cuja boa-vontadeele não podia
de emprego socialistas), 107 cooperativas, 83 Ligas de Camponeses, 151 dispensar e sem o qual era-lhe impossível funcionar normalmente.
clubes socialistas e 15 1 organizações culturais.23 Entre I' de janeiro e 7 de Os proprietários de terras não foram os únicos a ajudar os Camisas
abril, 102 pessoasforam mortas: 25 fascistas,41 socialistas,20 policiais e Negras do Vale do P6 a esmagaro socialismo. A polícia local e os coman-
16outras.:' dantes do exército emprestavam a eles armas e caminhões, e alguns dos
O êxito dos CamisasNegras no Vale do P6 não se baseouapenasna integrantes mais jovens de seusquadros juntavam-se às expedições. Alguns
força. Os fascistas, além disso, davam a alguns camponeses o que estes mais chefes de polícia locais, ressentidos com as pretensões dos novos prefeitos
queriam: trabalho e terra. Virando a mesasocialista,estabeleceramseu socialistase de suascâmarasmunicipais, fechavamos olhos a essasincur
sões noturnas, chegando até a fornecer veículos.
Embora os fascistasdo Vale do PÓ ainda defendessem algumas políti-
2 2 . As principais autoridades estão listadas no ensaio bibliográfico.
23. A. Rossi IAngelo Tascas, 7Aemse o#/ta/fan Fnscism,trad. Peter e Dorothy Waite.
casque faziam lembrar o radicalismo inicial do movimento -- obraspúbli-
NovaYork: Howard Fertig, 1966, p. 119-20 (ong. pub. 1938), dados retirados de fontes cas para dar trabalho aos desempregados, por exemplo , os squadristi, de
do Partido Fascista. forma geral, eram vistos como o braço armado dos grandesproprietários
24. Christopher Seton-Watson, /la]7 FromLibera/ism[o Eascism.
Londres: Methuen, de terras. Alguns idealistasdos primeiros tempos do movimento 6lcaram
1967,p. 572,nota 2.
112 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O.PAXTON 113

horrorizados com essatransformação.Eles lançaramum apelo a Mussolini de 1919, em Melão. Podemos acompanhar sua evolução nessaguinada à
e à liderança de Milho para que se pusessefim a essedesvio em direção à direita nas posiçõesfascistaspor meio dos discursos e dos programas do
cumplicidade com os poderosos interesses locais. Barbatto Gatelli, um dos período 1920- ] 922 .29A primeira ideia a desaparecer foi a rejeição da quer
desiludidos, queixou-se amargamente de que o fascismo havia perdido seus ra e do imperialismo, característica do fascismo original o "pacifismo das
ideais originais, transformando-se "no guarda-costasdos exploradores". trincheiras" tão generalizado entre os veteranos quando suaslembranças do
Ele e amigos seus tentaram organizar um movimento fascista rival e funda combate ainda estavam frescas. O programa de San Sepolcro aceitava a Liga
ram um jornal (Z.'/deaFascista),na tentativa de recuperar o antigo espírito, das Nações e seu "postulado supremo (...) da integridade de todas as na-
mas Mussolini tomou o partido dos squadristi.:sOs puristas acabaram por ções" (embora af\amando o direito italiano a Fiume e à costa da Dalmácia).
deixar o partido ou dele serem expulsos. Foram substituídos por 61hos dos A Liga desapareceu do programa em junho de 1919, embora os fascistas
proprietários de terras, por policiais jovens, oficiais do exército da ativa e ainda defendessem a substituição do exército proílissional por uma milícia
da reservae por outros partidários do squadrísmo. D'Annunzio, por quem defensiva e a nacionalização das fábricas de armamentos e munições. O
algunsdos idealistasdesapontadosqueriam substituir Mussolini, vociferou programa do Partido Fascistatransformado, de novembro de 192 1, ataca-
que o fascismo passara a significar "escravidão agrária". 26Essanão foi a pri- va a Liga da Nações acusando-ade parcialidade, af\rmava o papel da ltájia
meira nem a última vez que os movimentos fascistasperderam parte de sua como um 'l)astião da civilização latina no Mediterrâneo" e da fta/ianità no
c[iente[a original e recrutaram uma nova,27no processode se posicionar mundo, pedia o desenvolvimento das colónias da Itália e defendia um gran-
para lançar raízes num espaçopolítico lucrativo.
de exército permanente.
Como vimos no capítulo anterior, os primeiros fascistashaviam sido As propostas radicais dos primeiros tempos, relativas a nacionalizações
recrutados entre os veteranos radicais, os nacional-sindicalistas e os inte-
e tributação pesada,foram diluídas em 1920, restringindo-se agora ao di-
lectuais futuristas jovens descontentes de convicções antiburguesas, que reito dos trabalhadores de defender metas estritamente económicas, embora
desejavammudança social acompanhadade grandeza nacional. Em muitos
não metas "demagógicas".Por volta de 1920, a representação dos trabalha-
casos, era apenas o nacionalismo que os separava dos socialistas e da ala ra-
dores na administração das fábricas ficou limitada a assuntos de pessoal. Em
dical do novo partido católico, o Parfito Fofo/are/ta/cano(Fofo/ari).:* Na ver
1921, os fascistasrejeitaram a "tributação progressiva e confiscat6ria", con-
dade, muitos deles eram provenientesda esquerda,como o próprio Mus
siderando-a"demagogiafiscal que desencorajaa iniciativa", e colocarama
solini. O squadrismo alterou a composiçãosocial do movimento em direção
produtividade como a meta maior da economia.Ateu convicto, Mussolini,
à direita. Filhos de proprietários de terras e até mesmo alguns criminosos
em 1919, havia pedido o conülsco de todos os bens pertencentes a comu-
ingressaram em suasfileiras. Mas o fascismo ainda preservava sua qualidade
nidades religiosas e o seqüestro de todas as receitas das sés episcopais Em
jovial: o novo fascismo continuava representando a revolta de uma geração
contra os mais velhos. seu primeiro discurso na Câmara dos Deputados, em 2] de junho de 1921,
contudo, afirmou que o catolicismo representava .a"tradição latina e imperial
Mussolini optou por adaptarseumovimento às oportunidadesque sur-
de Romã" e pediu que as divergências com oVaticano fossem sanadas.Quanto
giam, em vez de aterrar-se ao malfadado fascismo nacionalista de esquerda
à monarquia,dec]arouem 19] 9 que "o atualregime 6'acassouna ltália". Em
1920, ele amenizou seurepublicanismo inicial, reduzindo-o a um agnosticis-
25. Pau] Comer, Easclsm
in cerrara.Oxford: Clarendon, 1976, p. 123, 223
26. Seton-Watson,
/rala.»rom
Z.ibera/ism
[o Fascfsm,
p. 6 16.
27.Ver capítulo 3, p. 104-105. 29.Traduções para o inglês destes textos estão disponíveis em Delzell , Mediterranean
28.Ver capítulo 4, p. 152-153. Fascism,p 7-40.
\

114 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBEltT O. PAXTON 1 15

mo que favoreciaqualquer regime constitucional que melhor servisseaos to, essesresultados mostraram que Mussolini havia se tornado um elemen-
interesses morais e materiais da nação. Num discurso de 20 de setembro de to de importância vital na coalizão anti-socialista italiana no nível nacional.
1922, negou publicamente qualquer intenção de questionar a monarquia Essefoi o primeiro passoem direção ao poder nacional, que então passou
ou a casade Sabóiaentão reinante. "Eles nos perguntam qual o nossopro a ser o único princípio norteador de Mussolini.
grama", disseMussolini. "Nosso programa é simples. Queremos governar A transformação do fascismo italiano desencadeadapor seu êxito no
» 30
a itaiia Vale do P6, em 1920- 1922, demonstra por que é tão difícil encontrar uma
Muito depois de seu regime ter ingressadona normalidade rotineira, "essência" fixa nos primeiros programas fascistas, ou nos jovens rebeldes
Mussolini ainda gostavade se referir à "revolução fascista".Mas ele queria antiburgueses dos primórdios do movimento, e por que temos que acom
dizer a revolução contra o socialismo e o liberalismo flácido, uma nova ma- panhar a trajetória do movimento à medida que ele encontravaespaçopo'
neira de unir e motivar os italianos e um novo tipo de autoridadegoverna lítico e se adaptava. Sem a transformação doVale do P6 (que teve paralelos
mental capazde subordinar asliberdades privadas às necessidadesda comu- em outras regiões onde o fascismo conquistou o apoio dos proprietários
nidade nacional e de organizar o assentimento dasmassasao mesmo tempo de terras locais, como aToscanae aApúlia):', Mussolini teria permanecido
que deixavaintacta a propriedade. O ponto principal é que o movimento como um obscuro e fracassadoagitador de Milho.
fascistafoi remodeladono processode crescerno espaçoentão disponível.
O anti-socialismojá presenteno movimento inicial tornou-se um elemento (2) SchleswiÉl-Holstein,
.Alemanha,
1928-1933
central, e muitos idealistasantiburguesesforam deixados de fora ou expeli-
dos. O radical idealismo anticapitalista do jovem Fascismofoi diluído, e não O Schleswig-Holstein foi o único Estado (Z.and)alemão a dar aos nazis-
devemos deixar que sua presença conspícua nos textos mais precoces nos tas uma maioria incontestáve] numa e]eição livre: eles obtiveram 5 1% dos
confundam quanto ao que ele veio a ser mais tarde, quando já em ação. votos na eleição parlamentar de 3 1 de julho de 1932. Portanto, nos ofere
Por volta de 1921, o poder de fato do fascismo no Nordeste rural da ce um óbvio segundo exemplo de um movimento fascista se convertendo
Itália principalmente na Emitia-Romanae naToscana havia-setornado num ator político de primeira importância.
tão substancial que o movimento não mais podia ser ignorado pelos políti O movimento fascista alemão não conseguira se estabelecer durante
cos do país. Quando o primeiro-ministro Giolitti preparava novas eleições a primeira crise do p6s-guerra, no período de 1918-1923, quando a san-
parlamentares para maio de 192 1, lançando mão de todo e qualquer recur- grenta repressão exercida pelos FreiÉorpssobre o soviete de Munique e ou-
so que pudesse reduzir a grande votação alcançada em novembro de 1919 tras insurreições socialistas lhes ofereceram uma brecha. A oportunidade
pelos socialistase pelo Fofo/ari, ele incluiu os fascistasde Mussolini em sua seguinte veio com a Depressão. Tendo-se saído muito mal nas eleições de
coalizão eleitoral, lado a lado com os liberais e os nacionalistas. Graças a 1924 e 1928, usandode uma estratégiaurbana,o Partido Nazistase voltou
esseacerto, trinta e cinco candidatosdo PNFforam eleitos para a Câmara para os fazendeiros.;: Essafoi uma boa escolha. Em nenhum lugar a agri-
italiana na chapade Giolitti, inclusive o próprio Mussolini. Essenúmero cultura havia prosperado durante a décadade 1920, porque os mercados
não era muito alto, e muitos contemporâneos pensavamque o movimento mundiais estavaminundados de novos produtos vindos dos EstadosUnidos,
de Mussolini era incoerente e contraditório demais para durar. s' No entan

32. Frank Snowden, Tbe Fuscist Raro/ution in nuscany. Cambridge: Cambridge Uni:

30.Ibid.,p. 39. versity Press, 1989, e Fascism


and GreatEstaresin the Southofltaly: Apulia 1900-1922
3 1 . Muitos observadores contemporâneos manifestaram dúvidas semelhantes. Ren- Cambridge: Cambridge University Press, 1986; Simona Colarizi, Dopoguerraelascismoin
zo de Felice, ed . , //Jascísmo;le fnterpretazionf def contemporanefet deg/i storici, ed. rev. Bari; Pug/iar/ 9/ 9-] 926), Bari: Laterza, 1971 .
Laterza.1998. 33 . Ver as obras citadas no Ensaio Bibliográfico.
r

116 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O.PAXTON 117

da Argentina, do Canadá e da Austrália. Os preços agrícolas despencaram C)scriadores de gado do Schleswig-Holstein representavam apenasum
ainda mais em fins da década de 1920, mesmo antes do crashde 1929, que componente o mais bem-sucedido deles da vasta torrente de reivindi-
foi apenaso golpe final nos agricultores de todo o mundo. cações particulares e, às vezes, incompatíveis que Hitler e os nazistas con-
Na arenosa região pecuarista do interior do Schleswig Holstein, seguiram reunir em uma onda eleitoral de grandes proporções, entre 1929
próxima à fronteira dinamarquesa, os fazendeiros, tradicionalmente, ejulho de 1932 . O crescimento da votação nazista, de nono partido alemão
apoiavam o partido nacionalista conservador (o DNvp).:' Ao final da em 1928,para primeiro, em 1932, mostra até que ponto Hitler e seuses-
décadade ]920, perderam a fé na capacidadedos partidos tradicionais e trategistas lucraram com o descrédito dos partidos tradicionais, inventando
do governo nacional de vir em seu socorro. A República de Weimar era novas técnicas eleitorais e dirigindo apelos a grupos específicos.'s
triplamente amaldiçoada a seus olhos: era dominada pela distante Prússia, Hitler sabiacomo trabalhar um eleitorado de massas.Jogavahabilmen-
pela pecaminosae decadente Berlim e pelos "vermelhos", que pensavam te com os ressentimentos e os medos dos alemães comuns em incessantes
apenasem comida barata para os trabalhadores urbanos. Como o colapso reuniões públicas, apimentadas por esquadrõesarmados e uniformizados,
dos preços agrícolasposterior a 1928 obrigou-os a contrair dívidas e pela intimidação física de seusinimigos, pelo entusiasmo das massasexcita-
a executar hipotecas, os criadores de gado de Schleswig-Holsteín, em das, pelos discursos inflamados e pelas entradas espetaculares, de avião ou
desespero,abandonaramo DNVPe recorreram ao Landbund, uma violenta em velozes Mercedes de capota abaixada. Os partidos tradicionais aferra-
liga camponesade auto-ajuda. Suasgreves localizadascontra os impostos e vam-se obstinadamente aoslongos discursos eruditos, apropriados apenasa
seusprotestos contra os bancos e os intermediários não deram resultado, um.pequeno eleitorado composto de pessoascultas. A esquerdaalemã tam-
por falta de apoio organizadoem escalanacional.Dessemodo, em julho bém adotou saudaçõese camisas,sómas não era capazde ampliar seu recru-
de 1932, 64% do voto rural do Schleswig Holstein foi para os nazistas.Ê tamento muito além da classetrabalhadora. Enquanto os demais partidos
provável que os pecuaristas, mais uma vez, tivessem se voltado para uma identificavam-se firmemente com um único interesse, uma única classeou
r

nova panaceia {seu compromisso com o nazismo Ja começara a se esvanecer um (ulico enfoquepolítico, os nazistasconseguiramprometer algumacoisa
nas eleições de novembro de 1932) se a nomeação de Hitler para o cargo de a todos. Eles foram o primeiro partido alemão a se dirigir a diferentes cate
chanceler, em janeiro de 1933 , não houvesse congelado a situação. Borlas profissionais com discursos talhados sob medida para cada uma delas,
O primeiro processo que podemos observar aqui é a humilhação dos não se importando se essesdiscursos fossem contraditórios entre si.37
líderes políticos e das organizações existentes, no bojo da crise da Depres- Tudo isso custava dinheiro e, muitas vezes, já foi dito que os empre
sãomundial de 1929. Espaçofoi aberto por suaimpotência ante o colapso sários alemães pagaram a conta. A versão marxista ortodoxa dessa opinião
dos preços, aos mercados superabastecidos e ao seqüestro de fazendas pe- afirma que Hitler foi virtualmente criado pelo empresariado,como uma
los bancos, que eram então vendidas para o pagamento de dívidas. espéciede exército anticomunista privado. De fato, é possível encontrar
empresários alemães (geralmente pequenos empresários) que se sentiram
34. O estudo clássico sobre a conversão de Schleswig Holsteín ao nazismo foi exe-
cutado como um doutorado em ciência política, por Rudolf Heberle, no momento pre- 35. Quanto às obras sobre o eleitorado nazista e sobre os membros do partido, ver
ciso em que os nazistaschegavamao poder. Forçado a se exilar logo em seguida,Heberle o EnsaioBibliográfico.
publicou sua tese em versão resumida como From Democrag' to Nazfsm: Á Rqiona/ Case 36. Philippe Burrin, "Poings levas et bus tendus", em Enscisme,nazfsme,aurorlrarfsme.
Srudgon Po/i ica/ Partfesfn Germana.Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1945 . Paras: Seuil, 2000, p. 183-209, mostra que a esquerda alemã foi a primeira a ingressar
nesse domínio.
O texto integral acabousendopublicado na Alemanhacomo J,andbevõ/&erung
und Natio-
nalsozialismus: cine soziologische Untersuchung der politischen Willensbildun8 in Schleswig-Mais 37. Thomas Childers, "The Social Languageof Politics", dmericanf/fstorfca/ Revien',
tefn, / 9/ 8 bis / 932. Stuttgart: DeutscheVerlags-Anstalt, 1963. v. 95,n.2,p.342,abr.1990.
r'
118 AANATOMIADOFASCISMO ROBEllT O.PAXTON 119

atraídos pelo nacionalismo expansionista e pelo anta-socialismo de Hitler, recrudesceuem fins de 1932, quando o partido promoveu a aprovaçãode
e que foram enganadospor seusdiscursos cuidadosamentetalhados para leis que visavam a abolir todos os cartéis e cooperou com os comunistas
agradam'às audiências empresariais, minimizando o anta-semitismo e supri- numa greve de funcionários do sistemade transportes, em Berlim. Algu-
mindo qualquer menção às cláusulasradicais dos 25 Pontos. O empresário mas empresas importantes, como a 1. G. Farben, não fizeram praticamente
siderúrgico Fritz Thyssen, cujo livro, redigido por um escritor profissio- nenhuma contribuição aosnazistasanteriormente a 1933.'' Uma parcela
nal, Eu paguei/íft/er (1941) forneceu munição à tese marxista, foi uma importante dos fundos nazistas, por outro lado, provinha da venda de in-
exceção,tanto em termos de seuapoio precoce ao nazismoquanto de seu gressos para comícios e de panfletos e souvenirsnazistas, como também de
rompimento com Hitler e seuexílio, em 1939.38Outro empresáriofamo pequenas contribuições."
se, o velho magnata do carvão Emil Kirdorf, flliou-se ao Partido Nazista Dessaforma, Hitler, emjulho de 1932,construiuo nazismocomo o
em 1927, mas o abandonou raivosamente em 1928, em razão dos ataques primeiro partido de baseampla de toda a história alemã, e o maior que
nazistas ao sindicato dos carvoeiros, passandoentão a apoiar o DNvpcon- já existira naquele país. SuasBrigadas de Assalto inspiravam medo e ad
servador. em 1 933.39 miração, por sua disposição a espancar socialistas , comunistas, pacif\stas e
Um exame cuidadoso dos arquivos das empresas mostra que a maio estrangeiros. Ação direta e eleitoralismo eram táticas complementares, e
ria dos empresáriosdiversificava suasapostas,contribuindo com todas as não contraditórias. A violência violência seletiva contra os inimigos "an
formações eleitorais anta-socialistasque demonstrassem alguma capacida- tinacionais", vistos por muitos alemães como não pertencendo ao rebanho
de de manter os marxistas fora do poder. Embora algumasfirmas alemãs ajudou a conquistar os votos que permitiram a Hitler fingir que estava
tenham feito contribuições 6nanceiras aos nazistas,suascontribuições aos trabalhando pelo poder por meios legais.
conservadores tradicionais eram sempre maiores. Seu favorito era Franz Uma das razões pelas quais os nazistas conseguiram suplantar os parti-
von Pappen. Quanto Hitler se tornou importante demais para ser ignora- dos liberais de classemédia foi a opinião de que os liberais haviam fracas-
do, eles se alargaram com o tom anticapitalista de algunsde seusassocia- sado na administração das duas crises gêmeas enfrentadas pela Alemanha
dos mais radicais, como Gotdried Feder, obcecado por taxas de juros; ou em fins da décadade 1920. Uma das crises foi o sentimento de humilha-
o "bolchevique de salão"Otto Strasser(como ele foi chamadopor Hitler, çãonacionalcausadopeloTratado deVersahes,que deixou muitos alemães
num momento de irritação); ou de uma organizaçãode lojistas anti-semitas profundamente abalados.A questão polêmica da execução do tratado agu-
de tendências violentas, a Liga Combatente da ClasseMédia Comercial. dizou-se novamente em janeiro de 1929, quando uma comissão internacio-
Até mesmo o chefe do aparato administrativo do Partido Nazista, Gregor nal chefiada pelo banqueiro americano Owen D. Young, lançou uma nova
Strasser,emboramais moderadoque seu irmão Otto, chegoua propor
medidas radicais de geração de empregos-" O radicalismo nazista de fato
1966; Peter D. Stachura, GregosStrasserand tbe Risoo#NazfsmLondres: Allen and Unwin.
38 . Henry A. Turner, Jr. , German Big Business and [Àe Mse o#H;crer. NovaYork: Oxford 1983. ParaOtto Wagener,ver capítulo 1, p. 25-28, capítulo 5, p. 245 247, e as notas
University Press, 1985, p. 54, 339, 350. A obra deTurner é referência devido não apenas correspondentes.
a seu incomparável conhecimento sobre os arquivos empresariais alemães, mas também 41 . Peter Hayes, /ndusty' and /deo/OW:/. G. Enrbenfn tbe Nazi Era. Cambridge: Cam-
porque ele entendia que a parcela de contribuições feitas pelos empresários aos nazistas bridge University Press, 1987, p. 61 8. Daimler, por outro lado, era um grande apoia-
s6 pode ser avaliadaem comparação à de outros grupos políticos. dor. Bernard Bellon, .Mercedes
in Peace
andMar.NovaYorktl 'Columbia University Press,
39. Turner, GermanBig Business,p. 95, 3 12. 1990, p. 2 18, 2 19, 264. Ambos lucraram enormemente com o regime nazista.
40. Reinhard Kühnl, Die nafiona/cozia/istiscbeLince / 925 bis / 930, Marburger Abhan 42. Horst Matzerathe Henry A. Turner,"[)ie Selbst6manzierung
der NSOAP
1930-
dlungen zur Politischen Wissenschaft, Band 6. Meisenheim am Glan: Verlag Anton Hain , 1932", Gescbichre
undpese//soba/i,
v. 3, n. l p. 59-92, 1977.
120 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O.PAXTON 121

tentativa de resolver o problema do pagamento pela Alemanha de indeni- UM FASCISMO MALOGRADO: FRANÇA, 1 924- 1 940

zaçõespela Primeira Grande Guerra. Quando o governo alemãoassinouo


Plano Young, em junho, os nacionalistas alemães o atacaram asperamente Após a Primeira Grande Guerra, nem mesmo as naçõesvitoriosas es
por continuar reconhecendoo dever alemão de efetuar pagamentos,em tavam imunes ao vírus do fascismo. Fora da ltália e da Alemanha, contudo,
bora o montante houvesse sido reduzido. A segunda crise foi a Depressão embora os fascistasfizessem barulho e criassem problemas, não chegaram
que teve início em 1929. O colapso económico da Alemanha foi o mais perto do poder. Isso não signiílca que devamos ignorar essesoutros casos.
catastrófico dentre os de todos os grandespaíses,privando de emprego um Os movimentos fracassadostêm muito a nos dizer sobre o que era necessá
quarto da população. Todos os partidos antagónicos ao sistema uniram-se rio para lançar raízes e ter êxito.
nas críticas à República de Weimar, por ela não ter conseguido lidar com A França oferece um exemplo ideal. Embora, para muitos, ela secarac-
nenhuma das duas crises. terize pela Queda da pastilha, pelos Direitos do Homem e pela Marselhesa,
Interromperem temporariamente a história em julho de 1932, quando muitos foram os monarquistase nacionalistasautoritários francesesque
o Partido Nazista era o maior de toda a Alemanha. detendo 37% dos votos. jamais aceitaram a república parlamentarista como a solução certa para /a
Os nazistasnão haviam conseguido maioria nasurnas eles nunca viriam a grandenation. Quando a república, durante o entreguerras, lidou mal com a
consegui-la mas haviam-se tornado indispensáveis à coalizão não socialis- tripla crise do perigo revolucionário, da depressão económica e da ameaça
ta que pretendia governar com maioria popular, e não por meio de poderes alemã, essedescontentamento enrijeceu-se em franca hostilidade.
discricionários de emergência, como vinha acontecendo desde a queda do A extrema direita ampliou se, na Fiança do entreguerras, em reação
último governo normal, em março de 1930 (no próximo capítulo, exami- ao sucesso eleitoral alcançado pela esquerda. Quando uma coalizão de cen-
naremos mais de perto essaquestão). tro-esquerda, o Carte/ desGaucÀes,saiu vitoriosa na eleição parlamentar de
O fascismo, no entanto, ainda não subira ao poder na Alemanha. Em 1924, GeorgesValois,que já encontramos no capítulo 2 como o fundador
novembro de 1932 , a votação nazista caiu nas novas eleições parlamentares. do Cera/eProudhonpara os trabalhadores nacionalistas, em 191 1,'3 fundou
O Partido Nazista estavaperdendo seurecurso mais precioso: o ímpeto. o Faisceau,
cqo nome e comportamento foram copiados diretamente de
O dinheiro estavachegando ao fim. Hitler, apostando tudo em seu cargo Mussolini. PierreTaittinger, um magnata do champanhe, formou oleunesses
de chanceler. recusou ofertas menores de vir a se tornar vice-chanceler Patriotiques,de índole mais tradicionalmente nacionalista. E a nova Federa-
num governo de coalizão.A liderança e as fileiras do partido tornaram-se ção Nacional Católica assumiu uma postura apaixonadamente anta republi-
inquietas, à medida que aschancesde obter empregos e cargos começavam cana sob a liderança do general Noél Curriàres de Castelnau.
a escassear. Gregor Strasser,chefe administrativo do partido e líder da ala Na décadade 1930, sob as garrasda Depressãoe à medida que a Ale
anticapitalista do movimento, foi expulso em razão de ter entrado em ne- manha nazista desmontava as salvaguardas do acordo de paz de 1918, e
gociações pessoais com o novo chanceler, o general Kurt von Schleicher. a maioria de centro-esquerdada Terceira República (renovada em 1932)
O movimento poderia ter acabadocomo uma nota de pé de página na viu-se comprometida por episódios de corrupção política, uma nova safra
história, se não houvessesido salvo, nos primeiros dias de 1933, por polí- de "ligas" de extrema direita (que rejeitavam o nome de partido) passoua
ticos conservadores que pretendiam roubar seus seguidores e usar a força florescer. Numa manifestação de rua maciça, realizada em 6 de fevereiro
política dos nazistaspara seuspróprios fins. O caminho específico pelo qual de 1934, à frente da Câmara dos Deputados, onde dezesseispessoasforam
os fascistaschegaram ao poder, tanto na Itália quanto na Alemanha, será o
assuntodo próximo capítulo. Mas não antes de termos examinado um ter
cedro caso, o fracasso do fascismo na França. 43. Ver capítulo 2, p. 87-90
/

122 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O. PAXTON 123

mortas, eles provaram ser fortes o suficiente para derrubar um governo nado" a linguagem e asatitudes da vida pública francesa. Ele sustentavasua
francês, mas não fortes o suficiente para instalar outro em seu lugar. teserotulando de fascistasuma ampla gama de críticas levantadascontra a
No período de intensa polarização que se seguiu, fbi a esquerda que maneira com que a democracia era conduzida na França na décadade 1930,
conseguiu as maiores votações. A coalizão da Frente Popular, reunindo so- apresentadas por um largo espectro de comentaristas franceses, alguns dos
cialistas, radicais e comunistas, venceu as eleições de maio de 1936, e o pri- quais expressaram alguma simpatia por Mussolini, mas praticamente ne
meiro-ministro Léon Blum baniu asligas paramilitares em junho, algo que nhuma por Hitler.'7 A maioria dos estudiosos franceses, e também alguns
o chanceler alemão Heinrich Brünning não conseguira fazer na Alemanha estrangeiros, é de opinião de que a categoria "fascista" de Sternhell era de
de quatro anos antes. masiadamentefrouxa, e que suasconclusõesforam exageradas.';
A vitória da Frente Popular foi apertada, entretanto, e a presençade Não basta, é claro, computar o número de intelectuais franceses
um judeu apoiado por comunistas no cargo de primeiro ministro levou a proeminentes que falavam uma língua que soavafascista, juntamente com
extrema direita a um paroxismo de indignação. Sua verdadeira força, na as coloridas legiões de movimentos que pontificavam e realizavammani-
França da década de 1930, vem sendo objeto de um debate particular- festações na França de 1930. Duas questões podem ser levantadas: seriam
mente intenso.44Alguns estudiosos afirmaram que a França não possuíaum essesmovimentos tão significativos quanto eram ruidosos, e seriam eles
fascismo endógeno, mas, no máximo, uma leve "caiação" que respingava fascistas?E importante notar que quanto mais um movimento francêsimi-
dos exemplos estrangeiros sobre a tradição bonapartísta nativa.'s No extre- tasseo modelo hitlerista ou (com maior frequência) mussolinista, como fez
mo oposto estãoos que consideram a França"o verdadeiro berço do fas a minúscula So/idarité Française,com seus camisas azuis, ou o Parti Popa/gire
cismo".'6Vendo essaextrema direita inegavelmenteruidosa e robusta, e a Français de Jacques Doriot,'9 de localização bem precisa, menos sucesso

facilidade com que a democracia foi subjugada após a derrota francesa, em ele alcançava,ao passoque o único movimento de extrema direita que se
1940, Zeev Sternhell concluiu que o fascismo,a essaépoca,havia"impreg aproximou do statusde partido de massasde baseampla entre 1936 e 1940,
o Parti Sacia/Françaisdo coronel François la Roque, tentava assumir uma
aparênciamoderada e "republicana"
44. As obras mais respeitadas estão listadas e discutidas no Ensaio Bibliográfico, p.
397-403
Qualquer avaliaçãodo fascismona Françatem que girar em torno de
La Roque. Seseusmovimentos eram fascistas,então o fascismo era podero-
45. Rena Rémond, [es DroitesenFrance,4. ed. Paris:Aubier, 1982, p. 168, 195 230,
é a clássica defesa dessa posição. O termo "Roman whirewasb"aparece na p 206. Jean
Plumyàne e Raymond Lasierra, l.es.#ascismes.français.
Paras:Seuil, 1963, afirmaram de 47. Zeev Sternhell, NeitberleÓtnor Rigbt; Euscist/deo/OWfn France.Berkeley: Univer-
forma ainda mais peremptória que "o fascismo foi, num primeiro momento, um fenó- sity of California Press,1988.
meno estranho à França" (p. 15), e que alcançou ali apenasuma "presença irrisória" (réa/fré 48. Ver o Ensaio Bibliográ6lco, p. 399 400. Um dos autores da décadade 1930 ci-
dérisoireJ
(p. 7). tados por Sternhell o processou num tribunal francês por difamação, tendo conseguido
46. Zeev Sternhell et ai. Birtb, p. 4. Ver também Sternhell, la DroiEer(Iro/utionnaire: ç,anhode causa.
Les originem.Pançaises du.fascismo. Pauis: Seuí1, 1 984. Ernst Noite fez da Action Française, 49. Pode-seconsiderar que o PPF tinha raízes em Saint Denis, subúrbio parisiense
de Charles Maurras, uma das "três faces do fascismo" (Tbree FacesofFuscism,cap 2, nota de classetrabalhadora,onde a popularidade conquistadapor JacquesDoriot, quando
66) . George Mosse argumentou, em Massasa,zdMan; Nationa/ísr Perceprlons
o#Rea/ity.Nova aindajovem comunista,sobreviveua suatransiçãopara a extrema-direita, em 1936. O
York: Howard Fertig, 1980, p. 1 19K, 164, e em Zon'ardtbe Fina/ So/ution:,4History o/ partido tinha outras baseslocais fortes em Marselha, onde o militante do PPF Simon
EuropeanRacism.NovaYork: Howard Fertig, 1975, p. 157, que, em 1900, o racismo ha Sabiam foi eleito prefeito (ver Paul Jankowski, Communism and Co//aboratfon; Simon Sabiam
via a\alçado mais na Fiança e em Viena. Bernard Henri Lévy, L'/d(lo/oyfe.#rar7çaise.
Paria: andPo/itfcsin .Marsef//e,
/ 9/ 9-/ 944. New Haven:Vale University Press, 1989, e naArgélia
Grasset, 198 1, é polêmico. Francesa.
124 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBEltT O.PAXTON 125

se na França da década de 1930; se eles não o eram, o fascismo restringia-se e à justiça social sob um líder forte, mas escolhido nas urnas. Essaguinada
então a um fenómeno marginal. La Roque, um oficial do exército de car- para o centro foi entusiasticamenteratificada por um rápido crescimento
reira proveniente de uma família monarquista, assumiu,em 1931, a Crofx nos quadrosdo partido. Às vésperasda guerra, o PSFera, provavelmente,
de Feu,uma minúscula associaçãode veteranos condecorados com a Croixde o maior partido da França. Contudo, na ausência de resultados eleitorais e
Guerrapor heroísmo em combate, transformando-anum movimento polí- de confirmação dos númerosrelativos à circulação de seusjornais, é mui
to difícil medir as dimensões de qualquer dos movimentos franceses de
tico. Atraiu uma filiação mais ampla e denunciou a fraqueza e a corrupção
do parlamento, advertiu contra o perigo do bolchevismo e defendeu um extrema direita. As eleições parlamentares marcadas para 1940, nas quais

Estado autoritário e mais justiça para os trabalhadores integrados numa era esperado que o partido de La Roque obtivesse bons resultados, foram
canceladas pela guerra.
economiacorporativista. Suaforça paramilitar, chamadade Bispos(da pa
Em 1938 e 1939, à medidaque a trança recuperavaum pouco de
lavra francesadisponib/e,ou disponível, pronto), realizou carreatasmilita
calma e estabilidade sob um enérgico primeiro-ministro de centro-esquer-
ristas em ]933 e 1934. Ela se mobilizava com precisão para buscar, em
da, Édouard Daladier, todos os movimentos de extrema direita perderam
locais remotos, ordens secretas para /e /our/ (o dia D) e /'berre H (a hora
terreno, com exceção do mais moderado deles, o pspde La Roque. Após
H), treinando, ao que parece, para usar de força contra uma insurreição
comunista." a derrota de 1940, foi a direita tradicional, não a direita fascistaque esta-
beleceu e liderou o governo colaboracionistade Vichy.s' O que restavado
A esquerda,inquieta com as notícias de supostasmarchasfascistasse
fascismo francês acabou caindo no mais total descrédito após suas folias na
bre Romã, Berlim, Viena e Madri, rotulou de fascistaa Croixde Eeu.Essa
Paris ocupada de 1940-1944, a soldo dos nazistas. Por toda uma geração,
impressão foi reforçada quando essaorganizaçãoparticipou de uma marcha
a partir da liberação de 1945, a extrema direita francesa ficou reduzida às
sobre a Câmarados Deputados, em 6 de fevereiro de 1934. O coronel La
dimensões de uma seita.
Roque, contudo, manteve suas forças numa rua lateral, separadadas de-
O fracasso do fascismo na Fiança não se deve a algum tipo de alergia
mais, e em todas as suas declarações públicas dava a impressão de disciplina
misteriosa,S: embora a importância da tradição republicana para o senti-
e ordem estritas, mais que de uma descontrolada violência de rua. De fbr
mento de si da maioria do povo francês não possaser superestimada.Ape
ma incomum para a direita francesa,rejeitava o anta-semitismo,chegando
sar da devastaçãocausadapela Depressão, ela foi menos severa na França
mesmo a recrutar alguns patriotas judeus eminentes (apesar de suasseções
da Alsácia e da Argélia serem anta-semitas).Embora encontrando o que que na ]nglaterra e na Alemanha, paísesde maior concentraçãoindustrial.
elogiar em Mussolini(exceto aquilo que ele via como um estatismo exces- A Terceira República, apesar de todas as turbulências, nunca chegou a um
impasse ou a um estado de total paralisia. Na década de 1930, os conserva
sivo), manteve o antígermanismo da maioria dos nacionalistasfranceses.
Quando, em 1936, o governo da Frente Popular dissolveua Croix de
Feue outros grupos paramilitares de extrema direita, o coronel La Roque 5 1. Ver o Ensaio Bibliográfico, p- 401 . O coronel De La Rocque apoiou a "Revolu-
criou em seu lugar um partido eleitoral, o Parti Sacia/ Français (Psp). O PSF ção Nacional" do Marechal Pétain e a colaboração neutra com a Europa de Hitler, em
abandonou os comícios paramilitares e deu ênfaseà reconciliação nacional 1940- 1942, semrepresentar, no regime deVichy, o papel que ele julgava merecer; alguns
membros do PSF partiram imediatamente para se juntar à França Livre, em Londres, e
La Rocque, após 1942, passou a transmitir informações para Londres. Ele foi preso e
50. A Croix de Feu não usa\a camisas coloridas, mas desfilava com boinas e meda- deportado pelos nazistasem 1943, morrendo pouco depois de sua libertação,.em 1945
lhas.Agradeço ao professor SeanKennedy por suacontribuição quanto a esseponto. Este 52. Serge Berstein, "La France allergique au fascisme", rlngrfême siêc/e; Recue

debate é mais aprofundado no Ensaio Bibliográfico, p. 399-401 d'Histoire, v. 2, p. 84 94, abr. 1984.
126 AANATOMIA DO FASCISMO ROBEIRT O.PAXTON 127

dores tradicionais jamais chegaram a se sentir ameaçados a ponto de terem Também na trança, nos verões de 1936 e 1937, abriram-se oportu
que pedir auxílio aos fascistas. E, por íim , nenhuma personalidade proemi- nidadesde açãodireta que guardavamuma semelhançasuperficial com as
nente chegoua dominar o pequenoexército de cbe#s
fascistasrivais, a maio- ocorridas no Vale do P6. Greves maciças da mão-de-obra rural que tuba
ria dos quais preferia uma intransigente "pureza" doutrinária às negociações Ihava nas grandes fazendasdas planícies setentrionais da França, ocorridas
com os conservadores praticadas por Mussolini e por Hitler. nos momentos vitais do processo produtivo a moagem da beterraba para
Podemos colocar mais carne sobre os duros ossosda análise se exame a fabricaçãodo açúcar,a colheita da beterraba e do trigo -- criaram pânico
narmos mais de perto um dessesmovimentos. Os CamisasVerdes, na dé- entre os proprietários. Os CamisasVerdesorganizaramvoluntários para
cada de 1930, eram um movimento de fazendeiros do Noroeste da França trabalhar nas colheitas, fazendo lembrar o socorro prestado pelos Camisas
abertamente fascista, ao menos em seusprimeiros tempos, que teve êxito Negras aosfazendeiros doVale do P6. Também eles possuíam um fino senso
em conquistar para ação direta alguns fazendeiros amargurados, mas que teatral: ao final do dia, se reuniam num monumento aosmortos da Primei-
fracassouem construir um movimento permanentee em se disseminar ra Guerra, ]á colocando um feixe de trigo.
para mais além do noroeste católico e assim tornar se um competidor de A açãodireta dos voluntários de Dorgàres não levou a parte alguma,
escalaverdadeiramentenacional.s3E importante investigaro fascismorural e essesminúsculos grupos que guardavamuma certa semelhançafamiliar
na França, uma vez que foi entre os fazendeiros que os fascismos italiano e com os squadristide Mussolini nunca chegarama exercer poder local de
alemão começaram a se estabelecer.Além disso, num país em que mais da fato na França. Uma das principais razões para tal é que o Estado francês
metade da população era rural, o potencial para o fascismo francês residia tratava de forma muito mais agressiva que o italiano qualquer ameaça a suas
naquilo que ele seria capaz de fazer no campo. Assim sendo, é curioso que safras.Até mesmo a Frente Populalrde Léon Blum enviavaimediatamente
todos os estudos anteriores sobre o fascismo francês tenham examinado suasforçaspoliciais sempreque ocorria uma greve de trabalhadoresrurais
apenas os movimentos urbanos. na época da colheita. A esquerdafrancesasempre deu alta prioridade ao
Em inícios da década de 1930, abriu-se espaço para o fascismo na Fran abastecimento das cidades, desde 1793, quando o Comité de Segurança

ça rural porque tanto o governo quanto as organizações de agricultores Pública de Robespierre enviava"exércitos revolucionários" para requisitar
tradicionais, como ocorrera em Shleswig-Holstein, estavam desacreditados grãos.s' Os fazendeiros franceses tinham menos medo de serem abando-
por suatotal impotência perante o colapso dos preços agrícolas. nados pelo Estado que os proprietários do Vale do PÓ, e sentiram menos
O líder dos CamisasVerdes, Henry Dorgàres (o pseudónimo de um necessidadede uma força substituta de manutenção da ordem.
jornalista agrícolaque descobriu o próprio talento para incitar Ódio entre Além do mais, no decorrer da década de 1930, as poderosase conser-
os fazendeiros nos dias de mercado), elogiou abertamente a Itália fascista vadoras organizações de ruralistas franceses souberam se defender melhor
em 1933 e 1934 (embora tendo mais tarde criticado seuexcessode estatis- do que os fazendeiros de Shleswig-Holstein. Elas organizaram bem-sucedi-
mo) e adotou um certo número de maneirismosfascistas:as camisascolo- das cooperativas e forneceram serviços essenciais, ao passo que os Camisas
ridas, a oratória inflamada, o nacionalismo, a xenofobia e o anta-semitismo. Verdes nada ofereciam além de uma válvula de escapepara o ressentimen-
No auge da forma em 1935, era capaz de reunir as maiores multidões já to. Ao final, os CamisasVerdes foram marginalizados. A virada crucial veio
vistasnas sofridas cidades de mercado rural francesas.

54. Richard Cobb, Tbe Peop/es' '4rmfes: 7he .4rmées Révo/utlonnaires, /nstrument oÍ tbe

53. Robert O. Paxton, Peasant Fnscism in France. Nova York Oxford University berrar in the Departments, dóri/ / 793 [o F/orça/ cear //. New Haver: Vale University Press,
Press, 1997 1987
H'l
128 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O.PAXTON 129

em 1937, quandoJacquesLe Roy Ladurie, presidente da poderosaFedera- OUTKOS FASCISMOSFRACASSADOS


ção dos Fazendeiros Franceses(FédérationNafiona/edesExp/oitantsJgrico/es
FNEA,),que anteriormente havia ajudadol)orgàres a mobilizar multidões Fora a Itália e a Alemanha, apenas um número bastante limitado de na-
rurais, concluiu que seria mais eficaz construir um poderoso /obbyde fa ções ofereciam as condições que permitiram ao fascismo conquistar amplo
zendeiros, capazde influenciar a partir de dentro a administração estatal. apoio eleitoral, lado a lado com seus ávidos e conservadoresparceiros de
O poder das visceralmente conservadoras organizações rurais tais como coalizão. Logo após a Alemanha, quanto ao êxito eleitoral, vinha o Partido
a FNEA
e o forte movimento cooperativista sediado em Landerneau, na Bre- da Cruz de Ferro Movimento Hungarista, de Ferenc Szálasy,que obteve
tanha era tamanho, que pouco espaçorestou para os CamisasVerdes. cercade 750 mil votos num eleitorado de 2 milhões naseleiçõeshúngaras
Isso sugere que não é fácil para intrusos fascistasforçarem entrada num de maio de 1939.s' O governo, entretanto, já estavanas mãos firmes da
sistema político que esteja funcionando toleravelmente bem. S6 quando o ditadura militar conservadora do almirante Horthy, que não tinha intenção
Estado e as instituições existentes fracassam gravemente é que são abertas de compartilhar o poder nem necessidadede fazê lo. O outro sucessoelei-
toral do Leste Europeu foi a Legião do Arcanjo Miguel, da Romênia que,
oportunidades a recém chegados.Uma outra falha de Dorgêres e de seus
concorrendo sob o lema "Todos pela Pátria", foi o partido com o terceiro
CamisasVerdesfoi sua incapacidade
de criar asbasesde um partido de
melhor resultado nas eleições gerais de 1937, com 15,3% dos votos e 66
frente ampla. Embora Dorgàres fosse um gênio em atiçar o ódio dos fazen
cadeiras legislativas, num total de 390.s'
deiros, ele quase nunca se referia às dificuldades da classe média urbana.
O fascista campeão das urnas na Europa Ocidental, pelo menos por
Sendo essencialmente um agitador ruralista, tendia a ver os comerciantes
um breve período, foi o movimento Rexista de Léon Degrelles, na Bélgica.
das cidadescomo parte do inimigo, mais que como parceiros de aliança
Degrelles começou organizando estudantes católicos e administrando uma
potenciais num fascismo plenamente desenvolvido.
editora católica (Christus Rex), desenvolvendo a partir daí ambições mais
Uma outra razão para o fracasso de Dorgàres foi que grandes áreasda amplas. Em 1935 , lançou se numa campanha visando persuadir os eleitores
Fiança rural estavam fechadas aos CamisasVerdes em razão de um antigo belgasde que os partidos tradicionais (inclusive o Partido Católico) esta
apego às tradições da Revolução Francesa, que havia dado aos camponeses a vam mergulhadosem corrupção e rotina, num momento que exigia ação
propriedade plena de seuspequenos lotes de terra. Embora os camponeses enérgica e liderança vigorosa. Nas eleições parlamentares de maio de 1936,
do sul e do sudesterepublicanos da França fossem capazesde indignação os rexistas concorreram com um símbolo simples, mas eloquente: uma
violenta, seuradicalismo era desviado do f'ascismopelo Partido Comunista, vassoura.Votar nos Rex significavavarrer os velhos partidos. Eles também
que alcançavabastante sucesso entre os pequenos fazendeiros franceses das conclamavam pela unidade. Os velhos partidos dividiam a Bélgica, pois
regiões de tendência tradicionalmente esquerdista.ss Desse modo, a França atraíam eleitores com baseem identificações étnicas, doutrinárias, ou de
rural, apesar de ter sofrido intensamente com a Depressão da década de classe.O Rex prometia como faziamtodos os demaismovimentosfas
1930, não era um ambiente onde um forte fascismo francês pudesse vir a cistas eficazes congregar cidadãos de todas as classes num "rassemb/ement"
germinar. unificador, e não num "partido" divisivo.

56. Isso,entretanto, resultou em apenas31 cadeirasno Parlamento,num total de


55. Laird Bosta,e]],
Ruía/ Commt/nis/n
in France,/ 920 / 939. ]thaca,NY: Corne]] Uni 259. lstvan Deák, "Hungary", em Rogger e Weber, EuropeanRigÀt, p. 392
versity Press, 1998; Gérard Belloin, Renaudlean; Le [ribun despagsans.Paria: Editions de 57. EugenWeber, "The Men of the Archangel", /Durma/q/'Contemp"ay' History, v. l ,
I'Atelier, 1993 n. 1, p. 101-26,1966.Vercapítulo4, p. 166-167.
130 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBEIRT O.PAXTON 131

Esses apelos surtiram efeito num país afligido por divisões étnicas e os maiores dotes intelectuais e os melhores vínculos sociais dentre todos os
lingüísticas, agravadaspela depressãoeconómica. Os rexistas conquistaram chefesfascistas.Como um jovem e promissor ministro no gabinete do go-
11,5% do voto popular em maio de 1936 e 2 1 cadeirasnum total de 202 na verno trabalhista de 1929, ele, em inícios da décadade 1930, apresentou um
legislatura. Contudo, Degrelle não conseguiu manter sua votação de base ousadoplano de combate à Depressão,que transformavao império numa
ampla. O esfab/isbmentconservador se uniu contra ele, e os líderes da Igreja zona económica fechada e previa gastos (incorrendo em déficit, se necessá
o repudiaram. Quando Degrelles concorreu numa eleição suplementar, em rio) com obras públicas para a geração de empregos e crédito ao consumi-
Bruxelas,em abril de 1937, a totalidade da classepolítica, dos comunistas dor. Quando os líderes do PartidoTrabalhista rejeitaram essaspropostas tão
aoscatólicos, se uniram em torno de um jovem oponente de grande popu heterodoxas,Mosley pediu demissãoe fundou seu próprio NewPara em
laridade, o futuro primeiro ministro Paul van Zeeland, e Degrelles perdeu 1931, levando consigo alguns Membros do Parlamento de esquerda.No
sua cadeira no parlamento.s; entanto, o Novo Partido não conseguiu votos nas eleições de 1931 para o
A rápida ascensãode Degrelles e seu igualmente rápido declínio mos- Parlamento. Uma visita a Mussolini convenceu o frustrado Mosley de que o
tram como é difícil para um líder fascista manter intacta a boina, apóscon- fascismo era a onda do futuro, e o caminho a ser seguido por ele próprio
seguir reunir um voto de protesto heterogêneo. A rápida canalização de A British t/néone/' Fasclsts,
de Mosley (outubro de 1932) conquistou,
votos para um novo partido de base ampla pode ser um fluxo de mão dupla. em seusprimeiros tempos, algunspartidários importantes, como lorde
O inchamento fabril de um partido pode ser seguido por um colapso igual- Rothermere, editor do Dai/gMai/, um jornal popular de Londres. O movi-
mente rápido, caso ele não tenha se estabelecido como capaz de representar mento de Mosley despertou repulsa, contudo, quando, em junho.de 1934,
algunsinteressesimportantes e de recompensarpolíticos de carreira am- seus guardas vestidos de Camisas Negras expuseram e espancaram adver
biciosos. Uma única grande votação não bastavapara enraizar um partido sários num grande encontro público realizado no pavilhão de exposições
f'ascista. de Olympía, em Londres. A Noite das FacasLongas, de Hitler, ocorrida ao
Outros movimentos fascistasda Europa Ocidental alcançarammenos final daquele mesmo mês, provocou a saída de 90% dos 50 mil integrantes
sucesso eleitoral. O DuEcÀ Nartionaa/ Socfa/istiscÀe Ben'egfng (NSB) conseguiu do BUF,ó'inclusive a de lorde Rothermere. Ao final de 1934, Mosley assu-
7,94% dos votos nas eleições nacionais de 1935, mas decaiu rapidamente a miu uma postura ativamente anta-semita e mandou seus Camisas Negras
partir de então.s9O Nasyona/Sam/íng,de Vidkun Quisling, recebeu apenas se pavonearempelas ruas do East End de Londres, onde compravambriga
2,2%dos votos na Noruega, em 1933, e 1,8% em 1936, embora, no por com judeus e comunistas, conquistando assim uma nova clientela entre os
to de Stavanger e em duas localidades rurais, sua votação tenha chegado a trabalhadores não qualificados e os lojistas em dificuldades daqueles bair
%
12%.óo ros londrinos.A Lei da Ordem Pública,aprovadalogo apósa "Batalhade
A União Britânica dos Fascistas,de sir Oswald Mosley, foi um dos fra- CableStreet", com os antifacistas,ocorrida em 4 de outubro de 1936, proi-
cassosmais interessantes, e não apenaspor Mosley, provavelmente, possuir biu uniformes políticos e privou o BUFde seusespetáculospúblicos, mas
o movimento voltou a crescerpara cercade 20 mil filiados por ocasiãoda
58. J.-M. Etienne, Le mout'ement
rexistejusqu'en/940, Paria, 1968, p. 53 8; Daniêle campanhacontra a guerra, em 1939. Os CamisasNegras, a violência e a
Wallef, "The Composition of Christus Rex", em Larsen et al. , eds. , Who fere [Áe Fuscists, aberta simpatiapor Mussolini e Hitler (ele casou-secom Diana Mitland na
P 517
59. Herman van der Wusten e Ronald E. Smit, "Dynamics of' the Dutch National
SocialistMovement(the NSB), 1931 35", em Larsenet al., WhoWere
fbeFuscists,
p. 531. 61. Gerry Webber,"Patternsof Membership and Support for the British Union of
60. Sten Sparre Nilson, "Who Voted for Quisling?", em Larsen et al. , eds., }+üoMero Fascista",./Durma/o#ConremporaryHistory, v. 19, p. 575-600, 1 984. Ver o Ensaio Bibliográ-
rbeEascists,
p. 657. fico para mais leituras.
r
132 A ANATOMIA DO FASCISMO
ROBERT O.PAXTON 133

presençade Hitler, em Munique, em 1936) alienaram Mosley da opinião a riqueza, o fervor e a celebridade da revolta intelectual contra os valores
pública britânica, e a gradual recuperação económica de após 193 1, sob um
liberais clássicos, em inícios do século xx, pareciam, com base unicamen-
governo nacional de aceitaçãoampla, uma coalizão dominada pelos conser-
te na história inte]ectua], fazer do país um dos melhores candidatosao
vadores, deixou a ele pouco espaço político.
sucessodo estabelecimentode movimentos fascistas.õ2
Já vimos por que
Alguns dos imítadores europeus do fascismo, no decorrer da década
razão isso não aconteceu.'3 Na verdade, todos os países europeus produzi-
de 1930, eram pouco mais que movimentos-sombra, como os Camisas
ram pensadorese escritores nos quais podemos hoje discernir uma forte
Azuisdo coronel O'Dufry, na Irlanda,emborao poetaW B. Yeatstenha
corrente de sensibilidadefascista. É difícil argumentar, portanto, que um
concordado em escrever para eles seu hno, e ele tenha enviado trezentos
país fosse mais "predisposto" que outro a, por meio de seus intelectuais,
voluntários para auxiliar Franco na Espalha. Muitas dessastênues imitações conferir um papel de importância a essespartidos.
demonstraram que não bastavavestir uma camisa colorida, marchar pelas
O anta-semitismo merece menção especial. Não está claro que a pre
cidades e espancar alguma minoria local para atingir o sucesso de um
paraçãocultural sejao fator que devapreponderar na previsão de qual país
Hitler ou de um Mussolini. Era necessáriohaver também uma crise de
tenderia a levar ao extremo a adoção de medidas contra os judeus. Se, por
dimensões comparáveis, a abertura de um espaço político semelhante
volta de 1900, nos fossepedido que identificássemosa nação europeia
a mesma habilidade na construção de alianças e um grau comparável de
onde a ameaça do anta-semitismo parecia mais aguda, quem teria esco-
cooperação por parte das elites existentes. Essasimitações nunca foram
lhido a Alemanha?Foi na Françaque, após 1898, durante o furor do'caso
além do estágio in icial e, portanto , nunca passaram pelas transformações dos
Dreyfuss,lojas de judeus foram saqueadas,
e foi naArgélia francesaque
movimentos bem-sucedidos. Permaneceram "puras" e, conseqüentemente, judeus foram assassinados.«Graves incidentes anta-semitasocorreram na
insignificantes.
Grã-Bretanhana virada do século,óse também nos EstadosUnidos, como
COMPARAÇÕES E CONCLUSÕES o notório linchamento de Leo Frank em Atlanta,óó para não falar dos países
que, tradicionalmente, eram centros de violência anta-semitaendêmicae
fanática, como a Polânia e a Rússia,onde a própria palavra pogromfoi in-
Os movimentos fascistasdifundiram-se tão amplamente em inícios do ventada.
lo xx que não podemos aprender muito sobre sua natureza a partir do
simples fato de terem sido fundados. Eles cresceram em ritmos diferentes Na Alemanha, ao contrário, o anti-semitismo organizado, vigoroso na
décadade 1880, perdeu força como tática política nas décadasanteriores à
e tiveram diferentes graus de sucesso.Uma comparaçãode seus êxitos e
fracassossugere que as maiores diferenças não residiam nos movimentos
em si, mas também, e em medida significativa, nas oportunidades a eles 62. Ver notas 45 47 anteriores.

oferecidas. Para entender os estágios posteriores do fascismo, temos que 63.Vercapítulo3, p. 121 129
64. O relato maiscompleto é o de Pierre Birnbaum, 7be.4nti Semitic.Uoment;.4
botar
olhar além dos próprios partidos, examinando os ambientes que ofereciam
o#Franain / g98. NovaYork: Hall andWang, 2002.Ver, também, StephenWilson, /deo/OW
(ou não) espaço e os tipos de auxílio que estavam (ou não) disponíveis. and Experiente:Jnclsemitismfn Franceat [be 7}me oÍ[Àe Dre7Óus
IWair. Rutherford, NJ: Fair-
A história intelectual , de importância vital para a formação inicial dos leigh Dickinson Universíty Press, 1982
movimentos fascistas, nos a:budabem menos nesse estágio. O fascismo per- 65 . Panikos Panayi, ed. , Racha/rfo/erre in Brirain, / &40 / 950, ed. rev. Londres; Nova
maneceu marginal em algumas naçõesque, à primeira vista, pareciam ter York: Leicester University Press, 1 996, p. 1 0- 1

66. Albert S. Lindemann, Tbe ./ew dccused; 7bree Hntisemitic l#airs Dr(:#iis, Bei/ís,
um forte preparo intelectual e cultural para ele. Na Fiança, por exemplo,
Fran&. Cambridge: Cambridge University Press, 1991
134 A ANATOMIA DO FASCISMO
ROBERT O.PAXTON 135

Primeira Guerra.67Após a guerra, o avançodos judeus em carreirascomo chegar à arena pública com a maior facilidade em países onde os governos
o ensino universitário tornou-se mais fácil na Alemanha de Weimar que funcionavam mal ou simplesmente não funcionavam. Um dos lugares co-
nos EstadosUnidos de Harding e Coolidge. Mesmo a Alemanha Guilher muns dasdiscussõessobre essemovimento é que ele lucrava com a crise
mina talvez tenha sido mais aberta ao avançoprofissional dos judeus que do liberalismo. Espero aqui transformar essaformulação vagaem algo mais
os Estados Unidos deTheodore Roosevelt, com exceções importantes, tais concreto.
como o oficialato. O que as comparaçõesrevelam com relação à Alemanha Às vésperas da Primeira Grande Guerra, os grandes Estadosda Euro-
Guilhermina não é que nela os anta-semitas e os que se rebelavam contra a pa ou eram governados por regimes liberais ou pareciam estar a caminho
modernidade fossem mais numerosos e mais poderosos que em outros Es- deles. Os regimes liberais garantiam a liberdade tanto para os indivíduos
tados europeus, mas sim que, numa crise política, o exército e a burocracia quanto para os partidos políticos rivais, e permitiam que os cidadãostives
alemãeseram menos sujeitos a supervisão jurídica ou política.õ8 sem influência na composição dos governos, de forma mais ou menos di
No entanto, há conexões entre a preparação intelectual e o sucesso reta, por meio daseleições. Os governos liberais também concediam uma
posterior do fascismo,e temos que ser muito precisosquanto a que cone- grande medida de liberdade a cidadãose a empresas. Esperava-seque a
xões são essas.O papel dos intelectuais teve importância fundamental em intervenção governamental se limitasse às poucas funções que os indivídu-
três pontos já sugeridos no capítulo 1: no descrédito dos governos liberais os não podiam desempenhar para si próprios, tais como a manutenção dá
anteriores; na criação de novos p(1)1osexternos à esquerdade mobilização ordem e a condução da guerra e da diplomacia. Queria se que os assuntos
da raiva e dos protestos (até então monopólio da esquerda);e em tornar económicos e sociais fossem entregues ao livre jogo das escolhas individu
respeitável a violência fascista.vemos também que estudar a preparação ais no âmbito do mercado, embora os regimes liberais não hesitassemem
intelectual e cultural dos setores das antigaselites que estavamdispostos proteger a propriedade da ameaçados protestos trabalhistas e da competi
a colaborar com o fascismo (ou, pelo menos, a cooptá-lo). À entrada do ção estrangeira. Essaespécie de Estado liberal deixou de existir durante a
séculoxx, os Estadoseuropeuspareciam-semuito entre si em termos do Primeira Guerra, pois uma guerra total s6 podia ser conduzida pela coor-
crescimento exuberante das críticas antiliberais. Diferiam, contudo, nas denação e regulamentação maciças por parte do governo.
precondições políticas, sociais e económicas que parecem distinguir os Es- Após o término da guerra, os liberais esperavamque os governos re
tados onde o fascismo, excepcionalmente, foi capaz de se estabelecer. tomassem as políticas liberais. O esforço do combate, entretanto, havia
Uma dasprecondições mais importantes era a fragilidade da ordem criado novos conflitos, novas tensões e novas falhas de funcionamento que
liberal.õ9 Os fascismos começavam em quartos de fundo e cresciam até exigiam a continuaçãoda intervenção do Estado.Ao final da guerra, alguns
dos Estadosbeligerantes haviam sofrido um total colapso. Na Rússia (um
Estado que, em 19] 4, era apenas parcialmente liberal), o poder foi tomado
S7. Richard S. Leva, TheDon,nfall ofthe Ántisemitic PoliticasPartiesin Imperial Germana.
New Haven:ValeUrliversity Press,1975. pelos bolcheviques. Na ltália e, mais tarde, na Alemanha, foi tomado pelos
68. É comum que esteargumento sejareforçadopelo notório confronto entre ci- fascistas.No entreguerras, governos parlamentares foram substituídos por
vis e militares, ocorrido em 1913, em Zabern (ou Saverne),na Alsácia, embora David regimes autoritários na Espanha,em Portugal, na Polânia, na Romênía,na
Schoenbaum, em Zabern / 9/3. Boston: Allen and Unwin, 1982, acredite que o resultado
final , em que os civis acabaram por conseguir algum grau de justiça, não faz da Alemanha
um caso realmente excepcional .
tendam a explicar tudo por meio das açõesdo líder fascista).A obra básicasobreesse
69. Curiosamente, os acadêmicos sempre deram pouca atenção à questão vital de assunto é Juan Linz e Alfred Stepan, eds. , The Brea&downo#Democratic Rqfmes. Baltimore
como os regimes liberais vieram a fracassar(talvez porque os estudiososdo fascismo e London: Johns Hopkins University Press, 1978
\

136 A ANATOMIA DO FASCISMO


ROBERT O.PAXTON 137

lugoslávia, na Estânia, na Lituânia e na Grécia, para mencionar apenas os Os fascistas,rapidamente, tiraram partido da falta de habilidade dos
casoseuropeus' O que havia dado errado na receita de governo liberal? centristas e conservadorespara manter o controle sobre o eleitorado de
Não devemos ver essasituaçãocomo uma simples questão (ie idéias. massas. Enquanto os dinossauros notáveis desprezavam a política de massas,
O que estavaem pauta era uma técnica de governo: o poder em mãos os fascistas mostravam.como fazer uso dela em prol do nacionalismo e do
dos notáveis, onde os bem-nascidos e bem-educados podiam contar com o anta-esquerdismo. Ganharam acesso às massas por meio de excitantes es-
prestígio social e a deferência para garantir suaconstante reeleição. Com a petáculos políticos e de técnicas de publicidade espertas, criaram maneiras
nacionalização das massas", contudo, o governo dos notáveis passou a ser de disciplinar essasmultidões pela organização paramilitar e pela liderança
etido a graves pressões.'o Após 19] 8, os políticos, inclusive os anui carismática, e prometeram a substituição das eleições incertas por plebis-
esquerdistas,foram obrigados a aprender como lidar com o eleitorado de citos sim ou não.72Enquanto os cidadãos de uma democracia parlamentar
massas,sobpena de.virem a fracassar.Nos paísesonde o voto popular era votavam para escolher uns poucos concidadãos seus para representa-los,
novo e desorganizado, como na Itália (onde o voto masculino un 'ersal só os fascistas expressavam sua cidadania de forma direta, participando de
foi instauradoem 1912): e.no Estadoprussianointerno à Alemanha(onde cerimónias de assentimentode massa.A manipulação da opinião pública
o antigo sistemaeleitoral de três classes,naseleiçõeslocais, só foi abolido por meio da propaganda substituiu o debate sobre questões complexas por
em 1918): muitos políticos à moda antiga, fossem eles conservadoresou um pequeno grupo de legisladores que (segundo os ideais liberais) eram
liberais, não faziam a menor ideia de como atrair uma multidão. Mesmo supostamente mais bem informados que o grosso dos cidadãos. E possí-
na França. onde os conservadores, ainda no século xix, haviam aprendido a vel que o fascismo de fato oferecesseaos oponentes da esquerdanovase
domar pelo menos o segmento rural do eleitorado de massasexplorando eficazes técnicas para controlar, gerenciar e canalizar a "nacionalização das
o prestígio social e as tradições de deferência, eles, após 1918, tiveram massas", num momento em que a esquerda ameaçava reunir a maioria da
dificuldade em compreender que o antigo prestígio deixara de fmcionar.
população em torno de dois pólos não nacionais: a classe e o paciHismo
Quando o conservador nacionalista Henri de Kérillis tentou lidar com os internacionalista.
novos desafios da política de massas criando um "Centro de Propaganda Podemos perceber a crise do liberalismo de após 19 18 também de uma
para os Republicanos Nacionais", em 1927, conservadoresde mente estrei-
segundamaneira,como uma "crise de transição", um trecho atribulado na
H

ta zombavam dele, dizendo que seusmétodos eram mais apropriados para


vender uma nova marca de chocolate que para fazer política.7] ' I'
72. O Plebiscito, termo da república romana para designar uma decisãotomada
por voto popular, foi introduzido na vida política modernapela RevoluçãoFrancesa.Em
Woi'ementa in Gemia r sse,f 7he Nariona/]zarion og tbe .Visses. Po/inca/ SWmbo/ism and .Vais 1791, quando Luasxvi foi julgado e executado, foi apresentadauma proposta de apelo
Fertig''1 975 . íy'J'om 'n' /vara/eoníc Wars rbrougÁ [Ãe Third ReicÀ. NovaYork: Howard a toda a população, que, porém, não foi concretizada, e essetipo de votação aparece na
Constituição natimorta de 1793. O general Napoleão Bonaparte foi quem definiu sua
forma moderna, em 1800, ao pedir a toda a população masculinaque votassesim ou
não sobre a con6lrmação de seus poderes ditatoriais como primeiro-cônsul. O Plebiscito
contrasta com a clássicapreferência liberal pela eleição de representantes, uma minoria
de homenscultos que dividiriam o poder com o governante.Napoleãovoltou a se utili-
zar do plebiscito para legitimar a adoção do título Imperador Napoleão i, e seu sobrinho,
Napoleão ui, fez o mesmo. Hitler e Mussolini adotaram o plebiscito napoleónico sem
qualquer modi6lcação.
F'

138 AANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O.PAXTON 139

jornada em direção à industrialização e à modernidade. Parececlaro que liberal perpetuar a ordem intelectual e cultural tradicional.74Os fascistas
as nações que demoraram a se industrializar sofreram maiores tensões que ofereceram aos defensores dos cânones culturais novas capacidades propa
a Grã-Bretanha, o país pioneiro da industrialização. Para começar, o ritmo gandísticas,aliadasa uma total e inédita falta de escrúpulos em fazer uso
era mais rápido para os retardatários; e além disso, a força de trabalho, a delas.

essasalturas, já estava muito mais fortemente organizada. Não é necessário Talvez não seja absolutamente necessário escolher apenas um dentre
ser marxista para perceber a crise do Estado liberal em termos de uma essesvários diagnósticos dasdificuldades enfrentadas pelos regimes liberais
transição difícil para a industrialização, a não ser que se injete inevitabili- da Europa apóso fim da Primeira Grande Guerra. A Itália e aAlemanha, de
dade no modelo explicativo. Os marxistas, até data bastante recente, viam fato, parecem se encaixar em todos os quatro. Elas estavamentre os últi-
essacrise como um estágio inelutável no desenvolvimento do capitalismo, mos grandes Estados europeus a aprender a conviver com um eleitorado de
quando o sistemaeconómico já não conseguefuncionar sem o reforço da massas:a Itália em 1912, e a Alemanha, de forma plena, apenasem 1919.
disciplina da classetrabalhadora e a conquista, pela força, de recursos e A RÚssia,uma outra recém-chegada à política de massas,como cabia a uma
mercados externos. Podemos afirmar, de maneira menos radical, que os sociedadeainda menos desenvolvida, onde nem mesmo a classemédia ha
recém-chegados simplesmente deparavam com maiores níveis de tumulto via adquirido plenos direitos políticos. Em termos industriais, a Itália como
social, que exigiam novas formas de controle. "a menor de todas as grandes potências",'s tinha-se lançado, a partir da,
Uma terceira maneira de ver a crise do Estado liberal é encarar de uma décadade 1890, a uma sôfregatentativa de emparelhar-se rapidamente aos
perspectiva social essemesmo problema da industrialização tardia. Alguns demaispaíses.A Alemanha, com toda a certeza, já era uma nação altamente
Estados liberais, segundo esta versão, não eram capazesde lidar nem com industrializada em 1914, embora tivesse sido a última das Grandes Potên
"nacionalizaçãodas massas"nem com a "transição para a sociedadein- das a se industrializar, o que só aconteceu após a década de 1860 e, depois
dustrial", porque sua estrutura social era demasiado heterogênea, dividida da derrota de 191 8, a que mais necessitava de reparos e reconstrução. Em
entre grupos pré'industriais que não haviam ainda desaparecido artesãos, termos de estrutura social, tanto a Itália quanto a Alemanha continham
grandesproprietários de terras, arrendatários e, por outro lado, as novas grandes setores pré-industriais (embora o mesmo acontecesse na França e
classesindustriais, empresárias e trabalhadoras. Segundoessaleitura da cri- na Inglaterra) ." Os conservadores culturais de ambos os paísessentiam-se
se do Estado liberal, nos países onde as classes médias pré-industriais eram intensamenteameaçadospelos experimentos artísticos e pela cultura po-
particularmente poderosas, elas conseguiam bloquear a resolução pacífica pular; aAlemanhadeWeimar foi, de fato, o epicentro do experimentalismo
das questões industriais e fornecer capital humano para o fascismo, a fim de cultural do p6s-guerra.''
salvar os privilégios e o prestígio da velha ordem social.7:
Uma outra "tomada" da crise da ordem liberal enfoca a dolorosa tran
74. José Ortega y Gasset, 7be Raro/t oÍ tbe Messes.NovaYork: Norton, 1957 (arie.
siçãopara a modernidade em termos culturais. Segundoessaleitura, a alfa- pub. 1932).
betização universal, os meios de comunicação de massasbaratos e a invasão 75. R. J. B. Bosworth, /ta#;Tbe Z,easr
o/'rheGreatPowers:
/ta/fan ForefgnPo/ic7Be»retbe
de culturas alienígenas(tanto internas como externas ao país), no início Ffrsr Mor/dWnr.Cambridge: Cambridge University Press, 1979. Sobre asrelações entre as
do século xx, fizeram com que se tornasse mais diííci] para a inte]/igentsia tentativas da Itália de alcançar os outros paísesindustrializados e a política, ver Richard
A. Webster, /ndusrría/ /mperia/ism fn /ta/g. / 908-] 9/ 5. Berkeley; Los Angeles: The Univer-
sity of Califomia Press, 1975.
76. Amo Mayer, Tbe Persiscence
o#cbeO/d Regime;Europe to tbe GreatWar, NovaYork:
73. Ver as idéias de Jürgen Kocha, a que se opas GeofTEly, no Ensaio Bibliográfico, Pantheon,1981.
p' 374. Ver, também, as teorias de "não-contemporaneidade" discutidas no capítulo 8 , p. 77. Muitos alemãesprovincianos sentiam-seofendidos pela liberdade que ascidades
<44 44A
alemãs de Weimar ofereciam aos estrangeiros, aos rebeldes artísticos e aos. homosse-
n /

140 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O.PAXTON 141

Nesseponto, temos que acrescentaruma advertênciacontra a inevi- Aqui também, o encaixe não é preciso, pois o fascismo floresceu também
tabilidade. Identificar as crises dos regimes liberais como de importância em Estadosameaçadosmais pela divisão étnica que por conflitos de classe
crucial para o êxito do fascismosugere o funcionamento de algum tipo de a Bélgica, por exemplo.
determinismo ambiental. Seo ambiente for propício, segundo essamaneira Em ambientes onde um grande campesinato sem terra acrescentava
de pensar, acaba-sechegando ao fascismo. Pref\ro deixar espaço em nossa grandes contingentes ao movimento revolucionário, e onde grandes seg-
explicação para as diferenças nacionais e para as escolhas humanas. mentos da classemédia ainda lutavam pelos direitos mais elementares (e não
Mais a curto prazo, os Estados europeus, a partir de 19 14, haviam pas- em defesade privilégios estabelecidos),como na Rússiade 1917, os protes-
sado por experiências nacionais muito diferentes. A mais Óbvia delas é que tos de massaconcentraramse à esquerda.O comunismo, e não o fascismo
alguns paíseshaviam ganhado a guerra, enquanto outros a haviam perdido. foi o vencedor.A Rússiarevolucionária teve pelotões antibolcheviquesque
Dois mapasda Europa ajudam a explicar onde o fascismo cresceria de for- se assemelhavam aos Frei&orpsalemães,78mas uma sociedade onde os cam
ma mais grave. O êxito fascista segue de perto, embora não exatamente, o poneses sem-terra eram em número muito superior aos da insegura classe
mapa da derrota na Primeira Grande Guerra. A Alemanha, com sua lenda média não poderia fornecer uma massade seguidores ao fascismo.A Rússia
da facada pelas costas, foi o caso clássico. A ltália, de forma excepcional, chegoubem perto de uma ditadura militar em julho de 1917, quandoo ge
havia pertencido à aliança vitoriosa, mas não havia conseguido a expansão neral LavaGeorgyevich Kornilov tentou marchar sobre Moscou, e esseseria
naciona[ com a qual contavam os nacionalistasita]ianos que haviam ]evado um desfecho provável se o bolchevismo tivesse 6'acassadona Rússia.
o país à guerra. A vitória, a seusolhos, fora uma rft orla mutf/ata.A Espa- Uma tipologia das crisesque poderiam ter oferecido uma abertura
nta havia permanecido neutra em 1914- 1 91 8, mas a perda de seu império ao fascismo não é o bastante. Uma consideraçãoigualmente importante
na Guerra Hispano-Americana de 1898 marcou com humilhação nacional é a capacidadedos regimes liberais e democráticos de reagir diante dessas
toda a geração que se seguiu. A direita radical espanholacresceu em parte crises. A metáfora de Léon Trotsky do "portão menos barricado" funciona
devido ao medo de que a nova república fundada em 1931 estaria permi- tão bem para o fascismo quanto, na opinião deTrotsky, para o bolchevismo.
tindo que os movimentos separatistasda Catalunhae do PaísBascoassu- Trotsky usou essametáfora para explicar como aconteceude o bolche
missem vantagem. Na Espanha, contudo, a derrota e o medo da decadência vismo ter feito sua primeira investida ao poder num país relativamente
levaram à ditadura militar de Franco, e não ao poder para o líder da falange não industrializado, e não, como esperavamos marxistas de índole mais
fascista,JoséAntonio Primo de Rivera.O fascismonuncaé o resultado literal, em países altamente industrializados, com poderosas organizações
inevitável. de classetrabalhadora, como a Alemanha.790 fascismo, além disso, foi,
O êxito do fascismotambém seguiu bem de perto um outro mapa: o historicamente. um fenómeno característico de Estadosliberais fracos ou
dastentativas de instaurar uma revolução bolchevique ou do medo dessas fracassados,e de sistemascapitalistas tardios ou avariados, e não dos triun-
[1 tentativas durante o período em que parecia provável que o comunismo
viesse a se espalhar além de sua base de origem, a Rússia. A Alemanha, a Itá- 78. Sobre asunidades voluntárias formadas em torno do general Kornilov, ver Or-
lia e a Hungria, apósa guerra, escaparampor pouco da "ameaçavermelha". lando Foges,J PeopJe's
7iragedy;d
Historyofthe RussianRapo/utfon.
NovaYork:Viking, 1997,
n. 556-62.
79. "A história move ge ao longo das linhas de menor resistência. A era revolucio-
xuais. Peter Gay, WefmarCu/fure:Tbe Outsideras/nsider. NovaYork: Harper & Row 1968, nária atacou através dos portões menos barricados". Léon Trotsky, "Reflections on the
é o mais rico relato da reviravolta ocorrida na vida cultural alemã após 19 19, e da reação Course of the Proletarian Revolution" (191 9), citado em lsaac Deutscher, Tbe Propber
suscitada por essa mudança. ,4rmed:Zrots]y.
/ 879-] 92] . NovaYork:Vintage, 1965, p. 455.
/

142 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBElqT O.PAXTON 143

jantes. A allirmativa fteqüente de que ele brota de uma crise do liberalismo público, e os conservadores,incapazesde abolir a sociedadede massase a
poderia ser corrigida para especi6car as crises ocorridas nos liberalismos política de massas,teriam que aprender a maneja-las.
fracos ou fracassados. Também os liberais, como já vimos, tinham a sua solução: retornar à
Há diversaspistas falsasna compreensãousual de por que esseregi- doutrina novecentista da onipotência do mercado. Os mercados não-regu
me se enraizou em alguns lugares e não em outros. Procurar tendências lados funcionavam tão mal nas economias distorcidas pela guerra e pelas
fascistasno caráternacionalou naspredileçõeshereditáriasde um povo pressõesrevolucionárias que até mesmo os liberais queriam algum grau
especíílcoé se aproximar perigosamentede um racismo às avessas.80 No de regulamentação -- mas não o bastante para satisfazer a todos os seus se
entanto, é bem verdade que a democracia e os direitos humanos eram mais guidores.Vimos antes como o Estado liberal italiano perdeu legitimidade
frágeis em algumas tradições nacionais que em outras. Enquanto na França entre os proprietários de terras do Vale do PÓpor não tê-los protegido
e na Inglaterra a democracia, os direitos dos cidadãos e o estado de direito contra a esquerda.Convictos de que a ordem pública estavaausente, os
eram historicamente associados à grandeza nacional, a muitos alemães eles proprietários de terras reuniram uma força vigilante privada, na forma do
pareciam artefatos importados. A associaçãoda República de Weimar com squadrisíoo.Os liberais ofereciam a pálida formula de Mills, de "um mercado
a derrota e a humilhação nacional, aliados à ineficácia política e económica de idéias" à pessoascujos ouvidos ressoavam com a propaganda de guerra
e a libertinagem cultural, destruíram sua legitimidade aos olhos de muitos e da revolução. Mas a própria Europa liberal havia violado seusprincípios,
alemães mais antiquados. ao deixar-se levar pela barbárie de uma longa guerra que ela foi incapaz de
E legítimo perguntar por que razão os clamores do mundo pós-1918 administrar.
não puderam encontrar expressão em uma das grandes famílias ideológicas Quanto à esquerda,uma nova era vinha-se abrindo na história da dissi-
do séculoxix -- o conservadorismo,o liberalismo e o socialismo-- que até dência europeia. No século xix, sempre que surgiam protestos ou ressenti-
tempos tão recentes haviam oferecido toda uma gama de escolhaspolíticas. mentos, a esquerdaconvertia se em seu porta-voz de modo mais ou menos
O esgotamento das opções políticas mais antigas, que à essaépoca pareciam automático. Em meadosdo século xix, a esquerdaainda era uma família
incapazesde dar expressão satisfatória a todos os sentimentos do p6s-guer- ampla: podia incluir nacionalistase anti-semitas, artesãose trabalhadores
ra, é uma parte importante da história. Os conservadoresteriam preferido industriais, democratasde classemédia e defensoresda propriedade cole
uma so]uçãotradicional para as tensõesdo mundo pós-1918: tranqüilizar uva. Era a coalizão de praticamente todos os descontentes. Em 1919, a es-
as multidões superexcitadase devolver as questõespúblicas à elite de ca- querdajá não podia mais desempenhar essepapel. Após 1880, à medida que
valheiros. Essasolução, entretanto, era impensável após tanto engalamen- suasorganizaçõesiam sendo disciplinadas e domesticadas pelo marxismo,
to emocional na propagandados tempos de guerra e na rejeição a ela. O ela tentou expelir a velha xenofobia de classe trabalhadora que antes havia
mundo do p6s-guerra imediato foi um momento de intenso engajamento tolerado. Principalmente na décadade 1920, reagindo à lavagemcerebral
patriótica da guerra e esperandoansiosamentepela revolução mundial, a
esquerda não tinha lugar para a Nação no interior da causarevolucionária
80. Ver capítulo 1 , nota 29, com referência a obras desse tipo sobre a Alemanha. internacional.
A teoria de que o curso da história alemã representou um "caminho especial", ou Son- Os socialistas não-comunistas, algo manchados por sua participação
derwq, que incorporava uma particular propensão ao fascismo, vem sendo fortemente
no governo dos tempos da guerra e por parecerem ter perdido o navio
criticada nos últimos tempos. Para uma recapitulação recente, ver Shelley Baranowski,
revolucionário em 1917, eram agoramenos capazesde provocar calafrios
"East Elbian Landed Elites and Germany's turn to Fascism:The Sonderweg Controversy
Revisited", EuropeanHfstory Qyarter0', v. 26, n. 2, p. 209-40, 1996. nos jovens. No século xix, os zangados e os descontentes normalmente vol-
144 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBElXT O.PAXTON 145

tavam-se para a esquerda, como também aqueles que se sentiam inebriados vir a se tornar uma potência local no Vale do PÓ. O Partido Nazista, após
pelo êxtase insurrecional expressono Estudo Revolucionário, de Chopin, 1928, ampliousuacapacidade
de atrair fazendeirosdesesperados
com a
no B/íss.was in t/zat dama to be a/fve, but [o Z,e.youngwas verá beaven. ("Era puro perspectiva de ir à falência e perder suasterras. Mas tanto Mussolinjl quanto
contentamento estar vivo naquele amanhecer, mas ser jovem era o paraí- Hitler souberam perceber o espaço disponível a eles, e estavam dispostos a
so.") , de Wordsworth,8' e em ,4 Raro/ração
/iderando o pol'o, de Delacroix. A acomodar seusmovimentos para que eles coubessemnesse espaço-
entrada do século xx, a esquerda já não tinha mais o monopólio dos jovens Esse espaço, em parte, era simbólico. O Partido Nazista, desde os pri-
que queriam mudar o mundo. Após a Primeira Guerra Mundial, aquilo que meiros tempos, moldou suaidentidade reivindicando as ruas como terri-
o autor francês Robert Brasillach chamou de "o grande fascismo vermelho" tório seu e lutando com as gangues comunistas pelo controle dos bairros
de suajuventude:: já podia competir com o comunismo em oferecer abri- operários de Berlim.': O que estavaem questão não eram apenasalguns
go aos indignados, a experiência de êxtase nas barricadas, a sedução das metros de área urbana. Os nazistasqueriam aparecer como a força mais
possibilidades inexploradas. Os jovens e intelectuais, animados pela febre vigorosa e ef\caz no combate aos comunistas e, ao mesmo tempo, demons-
da insurreição, mas que ainda se apegavam à Nação, encontraram um novo trar que o Estado liberal era incapaz de manter a segurançapública. Os
lar no fascismo. comunistas, ao mesmo tempo, tentavam mostrar que os social-democratas
Antes de o fascismopoder vir a se tornar um concorrente sério, um estavammal equipadospara lidar com a situaçãoincipientemente revolu-
chefe teria que assumir o papel de "congregador" o único capaz de afastar cionária, que necessitavade uma vanguardade luta. A polarizaçãoera do
os rivais e reunir numa única tenda todos os descontentes (não-socialistas) . interesse de ambos.
Pois o problema, inicialmente, não era a falta de Fübrers,mas um excesso A violência fascistanão era nem aleatória nem indiscriminada. Portava
deles.Tanto Hitler como Mussolini tiveram que enfrentar rivais nos pri- um conjunto de mensagenscodificadas: que a violência comunista estava
11 em ascensão,que o Estado democrático vinha reagindo a ela de forma inep-
meiros tempos. D'Annunzio, como vimos, sabiacomo dramatizar um gol-
pe, mas não como forjar alianças. Os concorrentes de Hitler na Alemanha ta, e que apenasos fascistaseram fortes o suficiente para salvara naçãodo
derrotada não sabiamemocionar multidões nem construir um partido de terrorismo antinacional. Um passo essencialna marcha dos fascistaspara a
baseampla. aceitaçãoe o poder foi persuadir os conservadores e os integrantes da clas-
Um "chefe" bem-sucedido teria que saber rejeitar a "pureza" e acei- se média, defensores da lei e da ordem, a tolerar a violência como um mal
tar as concessões e os acordos necessários para que o partido pudesse se necessário ante as provocações esquerdistas.8' Ajudava, é claro, o fato de
encaixar nos espaçosentão disponíveis. O Partido FascistaItaliano, tendo que muitos cidadãos comuns nunca temeram que essa violência se voltasse
descoberto que não poderia manter suaprimeira identidade de movimento
nacionalista de esquerda, porque, nessalinha, o espaçocobiçado por ele já
estavaocupado pela esquerda, passou pelas transformações necessáriaspara 83. Eve Rosenhaft, Beating rbe Fascista?Tbe German Communists and Po/ética/ mo/ente,
/ 929-/ 933. Cambrídge; Cambridge University Press, ] 983.
84. Foi a tentativa de Ernst Noite, de junho de 1986, de retomar justamente essa
81 . The Pre/ude, Livro xl. ideia, a de que a violência nazista foi apenasuma resposta à provocação representada pela
82. Na prisão, enquanto esperavasua execução (fevereiro de 1945), Brasillach es- violência do comunismo soviético (o "ato asiático"), que fez explodir a furiosa "contro-
creveu nostalgicamente sobre "o magnífico esplendor do fascismo universal de minha vérsia dos historiadores" na Alemanha.Ver Charles S. Maier, The Unmasterab/ePost;History,
juventude (.. .) essaexaltaçãode milhões de homens,catedraisde luz, heróis tombados Ho/ocaust, and German Nationa/ /dentily. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1988,

1]
em combate, a amizade entre os jovens das nações despertas". Rena Rémond, Lesdroites p. 29- 30, e Peter Baldwin, Rewor&fngfÀeFase:Hit/er, [ÀeHo/ocaust,and tÀeHfsroríans'Debate.
enFrance.Paris: Aubier Montaigne, 1982, p. 458 9. Boston: Beacon Press, 1990.
146 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 147

contra eles próprios, por terem sido convencidosde que ela era reservada apenascomo o triunfo do herói d'annunziano. Foi parte do génio fascista
aos inimigos nacionais e aos "terroristas" que faziam por merecê-la." apostar que muitos burgueses (ou burguesas) ordeiros extrairiam alguma
Os fascistasincentivaram a distinção entre os membros da Nação que satisfaçãovicária de uma violência cuidadosamente seletiva, dirigida apenas
mereciam proteção e os forasteiros que mereciam tratamento bruto. Um contra "tel'roristas" e "inimigos do povo"
dos casosmais sensacionaisde violência nazista, antes de sua subida ao po- O clima de polarização ajudou os novos partidos fascistasde baseampla
der. fbi o assassinatode um trabalhador comunista de descendênciapolo- a conquistar muitos dos que se haviam desiludido com os antigos partidos
nesa, na cidade de Potempa, na Silésia,por cinco homens da SA,em agosto deferentes (Àonoratioren).Isso, é claro, implicava riscos. A polarização, sob
de 1932. A notoriedade de caso deveu-se a que as sentenças de morte dos certas condições, poderia carrear para a esquerda a massados protestado
assassinos,por pressão dos nazistas, foram reduzidas para prisão perpétua. res, como ocorrera na Rússia, em 191 7. Hitler e Mussolini entendiam que
O teórico do partido, Alh'ed Rosenberg, aproveitou a ocasião para ressaltar embora o marxismo, àquela época, atraísseprincipalmente os trabalhado-
a diferença entre a "justiça burguesa", segundo a qual "um comunista polo- res de colarinho azul (e não todos eles), o fascismo tinha maior capacidade
nês tem o mesmo peso que cinco soldados alemães", e a ideologia nacional- de atrair um apoio mais amplo, vindo de todas as classessociais.Na Europa
socialista, segundo a qual "uma alma não se iguala a outra alma, uma pessoa ocidental pós-revolucionária, o clima de polarização trabalhou a favor do
fascismo.
não se iguala a outra';. Na verdade, prosseguiuRosenberg,"não existe lei
como taP'.8õA legitimação da violência contra um inimigo interno demoni- Um artiflício usadopelos partidos fascistas,mastambém pelos revolu-
zado nos traz para bem perto do cerne do fascismo. cionários marxistas que haviam pensado seriamente na conquista do poder,
Para alguns, a violência fascista era mais que útil: era bela. Alguns ve eram as estruturas paralelas. Um partido externo à situação que aspire ao
teranos de guerra e alguns intelectuais (Marinetti e Ernst Jünger eram am- poder monta uma organizaçãoque copia as agênciasgovernamentais.O
bos) permitiam-se a estética da violência. A violência, muitas vezes,era Partido Nazista,por exemplo, possuíasuaprópria divisão de política ex-
atraente a homens jovens demais para terem-na visto de perto em 1914- terna que, ao início, logo depois de o partido ter alcançado o poder, tinha
191 8, e que sentiam que haviam sido roubados de suaguerra. Era atraente que dividi-lo com a agência oficial de Relações Exteriores. Após seu chefe,
também para algumas mulheres.87 Mas é um erro ver o sucesso fascista Joachim von Ribbentrop, ter se tornado ministro das Relações Exteriores,
em 1938, a divisão de política externa do partido passoua, cadavez mais,
85. No caso dos nazistas, essaquestão foi examinada com mais cuidado por Eric suplantar os diplomatas profissionais do Ministério. Uma "organização pa-
A. Johnson, Nazi berrar:Tbe Gestapo,Jen's,
and Ordinary Germana.NovaYork: Basic Books, ralela" de particular importância foi a polícia do partido. Os partidos fas-
1999. Cf. P. 262: "(A) população alemã comum (...) não percebia a Gestapo ( . .) como cistasque aspiravam ao poder tendiam a usar suasmilícias para contestar o
uma terrível ameaçapessoal".Ver,também, Robert Gellately, Bac&fng
Hif/er; Consent
and monopólio estataldo uso da força física.
Coercionín Nazi Germana.
NovaYork: Oxford University Press, 2001 . As estruturas paralelas desafiavam o Estado liberal ao afirmar que eram
86. Citado em lan Kershaw, Hfr/er / 899-/ 936: Hubris.NovaYork: Norton, 1999, p
capazesde fazer algumascoisasmelhor que ele (como zurrar comunistas,
383. Os assassinosPotempa foram soltos assim que Hitler assumiu o governo. Ver Paul
Kluke, "Der rali Potempa", nerte#aÀrsAeÓtelür
Zeítgescbicbte,
v. 5, p. 279 97, 1957, e Ri-
por exemplo). Após chegar ao poder, o partido podia substituir asestrutu-
chard Bessel, "The Potempa Murder", Centra/ European History, v. 10, P. 241 -54, 1977. ras do Estado pelas suas estruturas paralelas.
87. Denise Detragiache, "ll fascismo feminile da San Sepolcro all'afFare Matteotti Iremos reencontrar as estruturas paralelas em nossa observaçãodos
(1919 1925)", StoriaContemporânea,
v. 14, n. 2, p. 211-50, abr. 1983. De acordo com processosde ascensãoao poder e de exercício do poder. Elas sãouma das
Julie V. Gottlieb, FeministFuscism;Homem
in Britafn's FascisrMovement,/ 923-1 945. Londres: característicasdefinidoras do fascismo. Os partidos leninistas fizeram o
Tauris. 2001. 10% dos candidatos da União Britânica dos Fascistaseram mulheres, e as
mesmo durante a conquista do poder, mas ao chegar lá, o partido único
fascistasbritânicas tinham um gosto especial por espancar mulheres comunistas.
r

148 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 149

eclipsou por completo o Estado tradicional. Os regimes fascistas, como a acreditar que é possível prever com exatidão onde o fascismo tende a
veremos no capítulo 5 , mantiveram tanto as estruturas paralelasquanto o surgir, crescer e chegar ao poder. Mas isso significaria cair na cilada do
determinismo. Permaneceo elemento da escolha humana. Não é de forma
Estadotradicional, sempreem permanente tensão,o que fez que seu fun-
cionamentofossemuito diferente da forma com que o regime bolchevista alguma certo que uma nação equipada com todas as precondições venha
operava. de fato a se tornar fascista.Apenas a interpretação marxista "vulgar" agir
O sucessofascista dependia tanto de seusaliados e cúmplices quanto ma que o capitalismo acabaráencontrando dificuldades e, inevitavelmente,
das táticas e qualidades do movimento em si . A ajuda prestada aos squadrisfi terá que adotar uma formula fascista para salvar a si próprio, e até mesmo
os marxistas mais sofisticados deixaram de acreditar nessainevitabilidade.
de Mussolini, no Vale do P6, por elementos da polícia, do exército e das
administrações municipais já foi mencionado. Sempre que as autoridades Como veremos no capítulo seguinte, foram necessáriasdecisõesto
públicas fechavam os olhos às ações diretas dirigidas contra os comunistas madas por indivíduos poderosos para que as portas fossem abertas para o
ou socialistassem se preocupar muito com questõesde escrúpulos, uma fascismo. Essafoi a precondição fína] e essencial para seu êxito: que os res-
porta se abria para o fascismo.Nesseponto, o devido processolegal, fosse ponsáveis pelos processos decisórios estivessem dispostos a dividir o poder
ele administrativo ou penal, era seupior inimigo. com os fascistas que os desafiavam .
No casoitaliano, o velho negociador centrista, Giovanni Giolitti, deu
mais um passoem direção à legitimação de Mussolini. Seguindoa consa
gradatradição parlamentar italiana do [rarl$ormismo,;* ele trouxe Mussolini
para a sua coalizão centro-nacionalista, nas eleições de 192 1, para que o
ajudasse a derrotar os socialistas e o Papo/arí. Mussolini que, quando jovem
socialista, se recusara a se deixar cooptar, aceitou alegremente, já como
fascista, embora essegesto seu tenha despertado alguma oposição entre os
puristas do partido. As trinta e cinco cadeirasconquistadaspor Mussolini
trouxeram-lhe a dádiva da respeitabilidade. Ele, nessemomento, colocou-
se como disponível a todos os construtores de coalizões anti-socialistas.
Trazer novos partidos para dentro do sistema costuma ser uma medida
política de extrema sensatez,masnão quandoisso recompensaa violência
e uma determinação implacável de abolir a democracia
Tendo reunido um catálogo de precondições, de raízes intelectuais e
de pré-requisitos estruturais de mais longo prazo, podemos ser tentados

88.ZralÉormismo
(o termo foi usadopelaprimeira vezpelo primeiro-ministro Depre
tis, em 1876) era a domesticação política de partidos contrários ao sistema, trazendo-os
para dentro. Aplicado aos socialistaspor Giolitti, o tra!#ormfsmoprovocou a cisão entre
os socialistas parlamentares reformistas e os intransigentes, a exemplo dos sindicalistas
revolucionários(como o jovem Mussolini). Depois do sucessoobtido com ossocialistas,
Giolitti sentiu-se tentado a usar o trasÉormismo
com os fascistas.
4
A CHEGADA AO PODER

MUSSOLINIE A MARCHA SOBREROMÃ

O mito de que os fascistasde Mussolini conquistaram o poder graças


unicamente a suas façanhasheróicas é pura propaganda das mais bem-
sucedidas,é claro, pois muitos ainda hoje acreditam nela. Uma vez que a
"Marcha sobre Romã" de Mussolini está por trás do generalizado equívoco
sobrea chegadaao poder dos fascistas,visto por muitos como uma "toma-
da do poder", temos que analisar esse acontecimento despindo-o de sua
mitologia .
No decorrer de 1922 , os squadristi exacerbaram sua atuação, passando
de saquese incêndios de sedessocialistas locais, escritórios de jornais, bol-
sasde trabalho e residências de líderes socialistas para a ocupação violenta
de cidades inteiras, sem que as autoridades opusessem resistência séria a sua
ação. Retomaram Fiume de suaadministração internacional em 3 de março
e atacaram Ferrara e Bolonha em maio, expulsando os governos socialistas
locais e impondo seu próprio programa de obras públicas. Em 12 de julho,
ocuparam Cremona, atearam fogo nas sedesdos sindicatos socialista e ca-
tólico e destruíram a casade Guido Miglioli, um líder da esquerdacatólica
que havia organizado os trabalhadores das fazendas leiteiras da região. A "co-
luna de fogo" que atravessoua Romagnachegou a Ravenaem 26 de julho.
Trento e Bolzano,com suasminorias de língua alemã,foram "italianizadas"
em inícios de outubro. Os CamisasNegras haviam alcançado um ímpeto tal
que a capital, Romã, não poderia deixar de ser a próxima meta.
ROBERT O.PAXTON 153
152 AANATOMIA DO FASCISMO

Quando o Congresso Fascistaanual reuniu-se em 24 de outubro, em de liberais (na acepçãodo termo vigente àquela época) e de conservadores
tentou, após 1919, governar sem uma maioria sólida
Nápoles suaprimeira investida no sul do país Mussolini estavadisposto
Como vimos no último capítulo, a solução adotadapelo primeiro-mi-
a ver até onde essaonda poderia leva-lo. Ordenou que os CamisasNe
nistro Giolitti foi incluir os fascistasem sua cédula (o "Bloco Nacional")
gras tomassem prédios públicos, confiscassemtrens e se reunissem em três
nas novaseleições de maio de 1921. Essafoi a primeira de úma série de
pontos em torno de Romã. A "Marcha" foi liderada por quatro militantes
medidas de suma importância, por meio das quais o estai/fsÀmentitaliano,
que representavam as diversas cepas do fascismo: Italo Balbo, veterano de
visando sua própria sobrevivência, tentou cooptar a energia e os números
guerra e chefe dos squ dristf de Ferrara; o general Emilio de Bono; Michele
Bianchi. ex-sindicalistae fundador do intervencionista Fascfode Milho, em fascistas.Em tempos normais, as tentaçõesdo poder poderiam ter "trans-
formado" os fascistas,da mesmaforma como haviam domesticado e divi-
1915 ; e CesareMana delVecchi, o líder monarquista do fascismopiemon-
dido os socialistas antes de 1914, mas, em 1921, a Itália não vivia tempos
tês. O próprio Mussolini, prudentemente,esperou no escritório de seu
normais.
jornal, em Milho, não muito longe de um possível asilo na Suíça,no caso
de as coisasdarem errado. Em 27 de outubro, os squadristi,semencontrar Quando o governo do bem-intencionado, porém oprimido, lvanoe Bo-

oposição, tomaram agênciasde correios e estaçõesde trem em várias cida- nomi, integrante da centro esquerdade Giolitti, perdeu o voto de confian-
des do norte da ltália. ça em fevereiro de 1922, demorou três semanas para que se encontrasse
um sucessor.Por fim, Luigi Facta, um auxiliar ainda mais subalterno de
O governo italiano estavamal-equipado para fazer face a esse desafio.
Na verdade,um governo de fato praticamente deixara de existir em teve Giolitti, assumiu relutantemente o cargo de primeiro-ministro. Seu go-
reiro de 1922. Vimos no último capítulo como, no p6s'guerra, os sonhos verno perdeu a maioria em julho de 191 9. Quando a emergência ocorreu,
Facta governava apenas na qualidade de encarregado.
111 de mudanças profundas levaram ao parlamento italiano uma grande maio-
111
ria esquerdista nas primeiras eleições rea]izadas após a guerra, em ] 6 de Mesmo assim, o primeiro-ministro adotou vigorosas medidas defensi-
novembro de 1919. Mas essamaioria de esquerda,fatalmente dividida em vas. Com a aprovação do rei, Facta já havia reforçado a guarnição de Romã
duas facções irreconciliáveis, não foi capaz de governar. O Panito Socialista com cinco batalhões dasdisciplinadas tropas alpinas. Então ordenou que os
Italiano (psi), de orientação marxista, detinha cerca de um terço das cadei- policiais e os funcionários das estudas de ferro fizessem parar os trens fas-
ras. Muitos dos socialistas italianos os "maximalistas" -- estavam hipnoti- cistasem cinco pontos de inspeção e começou os preparativos para impor
a lei marcial.
zadospelo êxito bolcheviquena RÚssiae sentiamque secontentar com me
Enquanto isso, Mussolini discretamente deixou a porta aberta a um
ras reformas significava trair aquele momento de oportunidade. Um outro
terço da câmaraitaliana correspondia ao novo partido católico italiano, pai acordo político. Diversos políticos antigos e experientes tentavam desa-
tivar a crise, "transformando"Mussolini num mero ministro de mais um
dos poderososdemocrata-cristãos do período posterior a 1945, o Panito
gabinete de coalizão liberal-conservadora. Giolitti, o velho negociador,
Fofo/are/ta/lado (ppi), e alguns de seusmembros queriam reformas sociais
radicaisdentro de um contexto católico. Os católicos, mesmo aquelesque era, de modo geral, visto como o salvador mais plausível (havia expulsa-
do D'Annunzio em 1920 e incluído Mussolini em suachapaeleitoral em
defendiam reformas profundas na propriedade dasterras e nasrelações de
classena Itália, discordavam apaixonadamente dos marxistas ateus com res- 1921), mas não tinha pressaem reassumir o poder, e Mussolini preferiu
peito à religião nas escolas. Nenhuma aliança era, portanto, possível entre não assumir compromissos em suasreuniões com os representantes de
as duasmetadesdo que se poderia ter constituído numa maioria progres- Giolitti. Mais à direita, o nacionalistae antigo primeiro-ministro Antonio
sista. Na ausênciade outras alternativas factíveis, uma coalizão heterogênea Salandratambém ofereceu cargos no gabinete ao partido de Mussolini.
154 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 155

Quando os squadristi começaram a se mobilizar, essasnegociações encon- No último minuto, o rei Vittorio Emmanuel lii retrocedeu, e decidiu
travam-se paralisadasem razão de rivalidades mútuas, da recusa da maioria não assinar o decreto de lei marcial do primeiro-ministro Facto, recusan-
dos socialistas a apoiar um governo "burguês", da indecisão quanto a incluir do-se a desmascararo blefe de Mussolini e usar a força a seu dispor para
ou não Mussolini, e da calculada hesitação deste último. expulsar os Camisas Negras de Romã. Rejeitou a tentativa de última hora
Os socialistasderam sua contribuição à emergência. Embora, em 28 de Salandra,de formar um novo gabinete conservador sem Mussolihi que,
de julho, quase a metade dos deputados socialistas,liderados por Filip- a essasalturas, já havia recusado a oferta de coalizão apresentada por Salan-
po Turatti, tivessefinalmente concordado em apoiar um governo centrista dra. Em vez disso, o rei ofereceu o cargo de primeiro-ministro diretamente
sem Mussolini, caso fosse possível forma-lo, a outra metade os expulsou ao jovem líder fascistaque viera do nada.
do partido por traição de colaboracionismode classe.O único consensoa Mussolini chegou a Romã, vindo de Melão, na manhã de 30 de outu-
que a esquerda italiana conseguiu chegar foi uma greve geral marcada para bro, não à frente de seusCamisasNegras, masno vagão-dormitório de um
31 de julho. Embora proclamada como uma "greve pela legalidade", que ti- trem. Apresentou-se ao rei em roupas inconvenientes, vestindo fraque e
nha como objetivo reinstaurar a autoridade constitucional, teve o efeito de uma camisapreta, num reflexo indumentário de suasituaçãoambígua:em
inflar a reputação de Mussolini como um bastião da contra-revolução. Seu parte candidato legal a um cargo público e, em outra, o líder de um bando
rápido fracasso, além disso, deixou à mostra a fragilidade da esquerda. de revoltosos. "Majestade, perdoe minha vestes", consta que ele, de modo
As medidas de emergência do primeiro-ministro Facta quase consegui- mendaz, teria dito ao rei . "Venho dos campos de batalha."
ram bloquear a marcha fascistaem outubro. Quatrocentos policiais para- Por que razão o rei socorreu Mussolini de sua imprudente e temerária
vam o trens que traziam 20 mil CamisasNegras em três pontos de inspeção jogada?Com grande sagacidade,Mussolini havia confrontado o soberano
CivitaVecchia, Orte e Avenzzano. Cerca de 9 mil CamisasNegras que se com uma difícil escolha. Ou o governo teria que usar a força para dispersar
haviam esquivado àsinspeções, ou que haviam prosseguido a pé, formaram os milhares de CamisasNegras que convergiam para Romã, correndo um
uma multidão heterogênea diante dos portões de Romã na manhã de 28 de risco considerável de derramamento de sangue e de amargas dissensões
outubro, ' mal-armados, vestindo uniformes improvisados, com pouca co- internas, ou aceitaria Mussolini como chefe de governo.
mida e água, e vagando sob uma chuva desalentadora. "Na história antiga e A explicação mais plausível para o rei ter preferido a segunda opção é
moderna, não houve assaltoa Romã que tenha falhado tão miseravelmente a de uma advertência (da qual não sobreviveu registro histórico) que Ihe
em seu inicio. '
teria sido feita, em particular, pelo comandante em-chefe do exército, ma-
rechal Armando Diaz, ou talvez por algum outro militar de alta patente, no
1. Apesar de algunsautores fascistasafirmarem que 50 a 70 mil CamisasNegras sentido de que, caso astropas recebessemordem para bloquear os Camisas
convergiram para Romã em 28 de outubro, e embora o rei Vítor Emanuel m tenha, mais
Negras, correr-se-ia o perigo de elas virem a se juntar a eles. Segundo uma
tarde, mencionado o número de 100 mil pessoasparajustificar sua relutância em ordenar
outra teoria, o rei temia que casotentasseusar a força contra Mussolini,
a repressão da marcha, estimativas cautelosas sugerem que apenascerca de 9 mil Camisas
Negras estavamde fato presentes nos portões de Romã na manhã de 28 de outubro. O seu primo, o Duque de bosta, de quem se dizia ser simpático aos fascistas,
general Emanuele Pugliese, comandante da 16' Divisão de Infantaria sediadaem Romã, poderia apoia-los e apresentar suaspretensões ao trono. É provável que
tinha a sua disposição9.500 soldadosexperientes,trezentos cavalarianos,mais de ll nunca venhamosa saber ao certo. O que parece seguro é que Mussolini
mil policiais. Contava com a vantagem de que suasforças eram bem alimentadas e bem havia suposto corretamente que o rei e o exército não tomariam a difícil
armadas, e com linhas internas de comunicação e defesa. Antonino Répaci, La .Uarcia su
Rama.Nova ed. Milho: Rizzoli, 1972, p. '}4-1, 461 -4.
2. Martin Broszat em Kolloquien des Instituts Mr Zeitgechichte, Der fta/ienfscbe curto, mas bem informado relato em inglês em Christopher Seton-Watson, /taJy.#rom

Eascbísmus.
Proa/eme
undFo/scÀungsrendenzen.
Munique: Oldenbourg, 1983, p. 8 9. Há um Z,ibera/ism
[o Fascism.Londres: Methuen, 1967, p. 617-29
ROBElITO.PAXTON 157
156 A ANATOMIA DO FASCISMO

demais países, com exceção da RÚssia, as elites tradicionais encontraram


decisãode usar de força contra seus CamisasNegras. Não foi o poderio
maneiras menos tumultuadas de restabelecer a estabilidade e de recuperar
fascista que solucionou a questão, mas sim a relutância dos conservadores
de testar o próprio poderio contra o deles.A "Marcha sobre Romã" foi um alguma aparênciade normalidade após o terremoto da Primeira Guerra.'
Os outros movimento fascistasprecoces, todos eles produtos de crises,
blefe gigantesco que acabou funcionando, e que ainda funciona na ideia que
o grande público faz da "tomada do poder" pelos fascistas. minguaram e foram reduzidos à insignificância apóso retorno à vida nor-
mal, aolongo dadécadade 1920.
Foi apenasem 3 1 de outubro, com Mussolinijá instauradono cargo,
Mas, antes disso, Hitler, iludido pelo mito de Mussolini, buscou tam-
que cerca de 10 mil CamisasNegras, já então alimentados e providos de
bém realizar sua"marcha". Em 8 de novembro de 1923, durante um comí-
roupas secas,receberam, como prémio de consolação,a permissãopara
cio nacionalista realizado numa cervejaria de Munique, o Bürgerbrãukeller,
realizar uma paradapelas ruas de Romã, onde provocaram incidentes san-
Hitler tentou seqüestrar os líderes do governo bávaro e força-los a apoiar
grentos.S Naquela mesma noite, o primeiro ministro despachou seus em
baraçososesquadrõespara fora da cidade em cinqüenta trens especiais. um golpe de Estado contra o governo nacional de Berlim. Ele acreditava
que caso tomasse o controle de Munique e declarasseum novo governo
Mussolini, mais tarde, fez tudo o que pede para estabelecero mito de
nacional, os líderes civis e militares da Bavária seriam forçados pela opinião
que seusCamisasNegras haviam tomado o poder por suaprópria vontade
pública a apoia-lo. Estavaconvencido também de que as autoridades mili-
e por suaprópria força. O primeiro aniversáriodo que supostamenteteria
tares locais não se oporiam ao golpe nazista,porque o herói da Primeira
sido sua chegadaa Romã foi comemorado em 1923 com quatro dias de
Guerra, o general Ludendorff, marchava a seu lado.7
festejos, e aqueladata 28 de outubro foi convertida em feriado nado
Hitler subestimoua fidelidade dos militares à hierarquia de comando.
nal. .Elatornou-se também o primeiro dia do Ano Novo fascista,quando
um novo calendáriofoi introduzido em 1927.' No décimo aniversário,em O ministro-presidente da Bavária, o conservador Gustav von Kahr, deu
outubro de 1 932 , uma exposição naciona], a Mostra de]/a Alvo/uzione Fascista,
ordem para que se pusessefim ao golpe de Hitler, usando a força, se ne
cessário.Em 9 de novembro, a polícia atirou nos integrantes da marcha
teve como atração principal os feitos heróicos dos "mártires" da marcha.s
de Hitler, no momento em que se aproximavam de uma praçaimportante
H.ITLER E A "CONSPIRAÇÃO PELA ESCADA DOS FUNDOS" (possivelmentereagindoa um primeiro tiro partindo do lado de Hitler).
Quatorze golpistase quatro policiais foram mortos. Hitler foi detido e
mandado para a prisão,; juntamente com outros nazistas e simpatizantes.
Foi apenasna Itália que o fascismo chegou ao poder no primeiro ímpe-
to, nos dias turbulentos que se seguiramà Primeira Guerra Mundial. Nos O augusto general Ludendorff foi liberado ao ser reconhecido. O "Gol-
pe da Cervejaria" de Hitler foi debelado de forma tão ignominiosa pelos
governantes conservadores da Bavária que ele decidiu nunca mais tentar
3. Essaparadafoi o objeto de muitas fotografias que pretendem representar a"Mar chegar ao poder pela força. Isso significava permanecer, ao menos super'
cha sobre Romã". Ver capítulo 4, p. 183- 1 84 para os incidentes então ocorridos.
4. Começa assim o anoV da era fascista,em 28 de outubro de 1927. Emilio Genti-
6. A reestabilização da Europa após a Primeira Guerra Mundial teve sua mais lúcida
le, The Sacra/izarior] o#Po/itfcs in Fuscisr/fa/g. Cambridge, MA: Harvard University Press,
análise em Charles S. Maier, Recasting Bour#eoisEurope. Princeton: Princeton University
1996,P. 90 8.
Press. 1975.
5. Mabel Berezin, Ma&ing rbe FascistSeP Tbe Po/fraca/Cu/lura oÍ/nrerwar /ta/g. Ithaca,
7. Harold J. Gordon Jr., Hit/er and[be BeerHa// Purscb.Princeton: Princeton Uni-
NY: Cornell University Press,1997,p. 80, 109, 111 2, 150; essaexposiçãofoi repetida
versity Press, 1972
em 1942, em comemoração ao vigésimo aniversário (p. 107). Ver, também, Roberta Sa-
8 . Foi enquanto servia na Prisão de Landsbergue, no ano seguinte, que Hitler escre-
zzivalli, "The Myth of Squadrismo in the Fascist Regime", /Durma/o#Cor7temporary
Histoy',
veu MeanKamp#("Minha Luta") e começou a criar sua própria imagem mítica.
v. 35, n. 2, p. 131-50, abr. de 2000.
158 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O.PAXTON 159

ficialmente, dentro da constitucionalidade legal, embora os nazistasnunca noYoung,um acordo internacional pelo qual os alemãesse comprometiam
tenham desistido da violência seletiva, que era de importância central para a dar continuidade aos pagamentos das reparações pela Primeira Grande
a atraçãoexercida pelo partido, nem das insinuaçõesquanto a objetivos Guerra, feitos aosAliados, embora então com taxas de juros menores. Em-
mais amplos apósa subida ao poder.9 bora a diplomacia alemã tivesse conseguido reduzir os montantes a serem
A oportunidade de Hitler surgiu com a crise seguinte: o crasheconó- pagos, a confirmação do princípio da reparação contido no PlanoYoung
mico dos anos 1930. A medida que milhões de pessoasperdiam seus em- provocouindignaçãoem todo o país.Em outubro, veio o crashde'Wall
pregos, os movimentos fascistasde todos os paísesrecuperaram o ímpeto. Street. Em 1930, à medida que o desemprego crescia vertiginosamente, o
Os governos de todas as orientações, as democracias de forma mais pública governo teve que decidir se deveria ampliar os benefícios de desemprego
e ruidosa que os demais, viram-se paralisados por dificílimas escolhas. O (como queriam os socialistas e os católicos de esquerda) ou equilibrar o or
modelo italiano fez com que os movimentos fascistasnovamentepareces- çamento para satisfazer os credores externos (como queriam a classemédia
sem plausíveis como um novo meio de fornecer o assentimento das massas e os conservadores). Uma escolhaclara, embora impossível de ser feita por
para a restauraçãoda ordem, da autoridade nacional e da produtividade qualquer das maiorias existentes na Alemanha.
economica. Quandoo governo do chancelerHermann Müller caiu, em 27 de mar-
O sistemaconstitucional da Repúblicade Weimar nunca alcançarale ço de 1930, o sistema de governo alemão viu-se prisioneiro de um impasse
gitimidade geral na Alemanha. Muitos alemãesainda o viam como o fruto terminal. Müller, um socialistareformista, vinha presidindo o paísdesde
do domínio estrangeiroe da traição interna. A democraciade Weimar pa- junho de 1928, por meio de uma Grande Coalizão de cinco partidos, que
recia uma vela que queimava em ambas as extremidades. Desgastado tanto incluía os socialistas,o Partido Centrista Católico, o Partido Democrático
à direita quanto à esquerda por nazistas e comunistas que se opunham ao moderado e centrista e o Partido do Povo, internacionalista mas conser-
sistema, um centro cada vez mais mirrado via-se obrigado a formar coa- vador. A Grande Coalizão durou mais que qualquer dos outros governos
lizões heterogêneas, juntando parceiros incompatíveis, como socialistas e da República de Weimar, vinte e um meses (de junho de 1928 a março de
moderados partidários do /aissez:paire,clericais e anticlericais, em sua mal- 1930).''
fadadatentativa de construir uma maioria no parlamento. Em vez de ser um sinal de força, contudo, essalongevidade apontava
Um sistema político que obrigava uma tal cacofbnia de partidos a tra- para a ausênciade alternativas. Profundos desacordos quanto às políticas a
balharem juntos fatalmente viria a se deparar com di6culdades em chegar serem adotadas, que já tornavam difícil a tarefa de governar nos primeiros
a um consensoquanto a questões sensíveis,mesmo em tempos tranqüilos. dias da Grande Coalizão, nos tempos relativamente calmos de junho de
Após 1929, os governos alemães viram-se obrigados a fazer opções políti 1928, tornaram-na impossível, dois anos mais tarde, quando a Depressão
cas e económicas cada vez mais divisivas. Em junho daquele ano veio o Pla- havia jogado milhões no desemprego. A esquerda queria aumentar os im-
postos para manter o pagamento dos salários desemprego; ós moderados
e conservadoresqueriam diminuir os gastos sociais para reduzir os im-
9. "Nós queremostomar o poder de forma legal. Mas o que vamosfazer com postos.A Grande Coalizão soçobrou nessesrochedos dos direitos sociaise
esse poder quando o conquistarmos, isso é problema nosso". Goering, no ReicÀstag,
5 de fevereiro de 193 1, citado em lan Kershaw.Hif/er, / &83-/ 936; Hubris.NovaYork: dascargastributárias. Após março de 1930, nenhuma maioria parlamen-
Norton, 1998, p. 704, nota 201 . Hitler ameaçou, durante um julgamento em Leipzig,
em 25 de setembro de 1930, que, uma vez no poder, ele "deixaria (...) as cabeças 10. A média era de apenas oito meses e meio. Karl Dietrich Bracher; Gerhard
rolarem". Max Domarus, Hit/er's SpeecÀes
andProa/amations,
] 932-/ 945. Londres: 1.B. Schulz;WolfgangSauer,Die natfonalsozia/fsfiscbe
Macbteqre!$ung.
Frankfurt am Mein;
Tauris,1990,p.244. Berlim;Viena: Ullstein, 1962, v. 1,p 32
160 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBElqT O.PAXTON 161

$
tar conseguiaser construída na Alemanha. O sindicalista católico Heinrich A coisamais próxima a um putscÀa acontecer na República de Wei-
Brünning governavacomo chancelersemmaioria, confiando ao presidente mar, em inícios da década de 1930, não partiu dos nazistas, mas sim de seu
Hindenburg a assinatura das leis aprovadas sem o voto maioritário, nos ter- predecessor conservador, o chanceler Franz von Papen. Em 20 de julho de
mos dos poderes de emergência a ele conferidos pelo Artigo 48 da Consti- 1932, Von Papen depôs o governo legitimamente eleito do Estado (l.and)
tuição. A partir de então, os alemãestiveram que suportar quasetrês anos da Prússia uma coalizão de socialistas e do Partido Católico Centra.sta
desse canhestro governo de emergência sem maioria parlamentar, antes -- e convenceuo presidente Hindenburg a usar seuspoderes de emergên-
que Hitler tivesse sua chance. Numa curiosa ironia, a chegada de Hitler ao cia para dar posse a uma nova administração estadual encabeçadaporVon
poder pareceu permitir, enfim, o retorno a um governo de maioria. Para os Papen.Esseato poderia, de forma legítima, ter desencadeadouma forte
conservadores,Hítler caiu do céu, porque, como chefe de um partido que, reação por parte da esquerda.Os líderes do spD,contudo, impedidos por
desdejulho de 1932, era o maior da Alemanha, ele criou a possibilidadede suasfortes convicções legalistas, por sua idade avançada,'' e por percebe
uma maioria parlamentar que excluíssea esquerda. rem a futilidade de usar a greve como arma num tempo de desempregoem
No momento em que o impasseparalisou o sistemapolítico alemão, massae, talvez, por temerem, e com razão, que qualquer açãopartindo da
em 27 de março de 1930, o Partido Nazista ainda era bastante reduzido esquerdapudesseter o efeito perverso de jogar um número aindamaior de
(com apenas2,8% do voto popularnaseleiçõesde maio de 1928). Mas alemães nos braços dos nazistas, restringiram sua reação a um vão processo
a agitação nacionalista dirigida contra o Plano Young, somada ao colapso judicial contra o chancelerVonPapen.Ao não oferecer oposiçãode fato ao
dos preços agrícolas e do emprego urbano, catapultou o, nas eleições de ato ilegal de Von Papen,em Julho de 1932, os socialistas ainda então o
setembro de 1930, de 12 para 107 cadeiras -- o que já fazia dele o segundo segundo maior partido da Alemanha -- viram diminuídas suas chances de
maior partido do país.A partir de então, qualquer maioria parlamentar na agir contra Hitler, que evitou qualquer ataque frontal à legalidade até de
Alemanhateria necessariamenteque incluir ou os socialistasou os nazistas. pois de se ver inabalavelmenteinstalado no controle, o que veio a ocorrer
A esquerda (mesmo na suposição de que socialistas,comunistas e católicos na primavera de 1933.':
de esquerda fossem capazesde superar seus paralisantes antagonismos a Os comunistas seguiram uma lógica totalmente diversa, com baseem
ponto de conseguir governar) foi imediatamente excluída pelo presidente sua convicção de que a revolução social estava próxima. Dessaperspecti-
Híndenburg e por seus assessores. va, o êxito dos nazistaspoderia de fato vir em auxílio à causacomunista,
O mito do golpe fascistana Itália iludiu também a esquerdaalemã, aju- desencadeando um movimento pendular, primeiro para a direita e depois,
dando a gerar a fatal passividadeque dominou o Partido SocialistaAlemão inexoravelmente, para a esquerda. Os estrategistas do KPD,firmemente fo-
(Sozialdemokratischen
ParteiDeutschlands SPD) e o Partido Comunista Alemão calizadosna revolução que estava a caminho, viram os esforços do spDde
(Kommunistischen
Partem
DeutschlandsKPO)em fins de 1932 e inícios de 1933. salvar a democracia de Weimar como "objetivamente" contra-revolucioná-
Ambos esperavamuma tentativa de golpe por parte dos nazistas,embora rios, e denunciaram os socialistas como "fascistas sociais". Convencidos de
suas análises da situação fossem totalmente díspares quanto a outros as-
pectos. Para o spn, a esperadainsurreição nazista seria o sinal para que os 11. Enquanto os nazistase os comunistas eram os partidos mais jovens em 1932,
socialistas passassemà ação sem incorrer no ânus da ilegalidade, como já o spD era o que tinha a liderança mais velha. Richard N. Hunt, German Sacia/ Demos/acX,
haviam feito, com sucesso, por ocasião de uma greve geral contra o "Putsch /9/8-/933. Chicago: Quadrangle, 1970, p. 71 2, 86, 89 91, 246.
Kapp" de 1920, quando unidades do Frei&orps tentaram tomar o poder. Nes ] 2 . Erich Mathias e Rudolf Morsey, eds. Das onde der Parteíen.Düsseldorf: Droste,
se estado de espírito, eles não souberam identificar o momento oportuno 1960, ainda é importante fonte de referência quando se trata da reação dos partidos po-
de lançar uma contra ofensiva a Hitler. líticos à chegada de Hítler ao poder. Em ing]ês, Donna Harsch, German Socfa] Democrac7
and tbe Mse o#Pv'azism.
Chapel Hill: University of Nórth Carolina Press, 1993.
r
162 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O.PAXTON 163

que o spDnão era menos inimigo que os nazistas,e competindo com os dadosamentesuasvítimas. O apogeuda violência de rua veio após 16 de
nazistas pela mesma militância volátil (em especial os desempregados), o junho de 1932, quando o chancelerVon Papen revogou a proibição aos
KDPchegou a colaborar com os nazistasnuma arriscada greve contra o sis- uniformes da SA,decretadapor Brünning em abril. No decorrer de várias
tema de transportes de Berlim, em novembro de ] 932. A última coisa que e repugnantessemanas,103 pessoasforam mortas e centenas de outras,
os comunistas alemães estavam dispostos a fazer era ajudar o spo a salvar as feridas . :'
instituições democráticas.IS Mussolini não havia apostado tanto em suas negociações pelo poder,
O sucessoeleitoral de Hitler -- muito maior que o de Mussolini per- recorrendo, mais do que Hitler, à violência escancarada. Muitas vezes nos
mitiu-lhe uma maior autonomianasbarganhas com ospolíticos estabeleci- esquecemosde que o fascismo de Mussolini foi mais violento que o na
dos, de cujo auxílio eles precisavam para chegar ao poder. Mais ainda que zismo durante suajornada em direção ao poder. Apenas em 5 de maio de
na Itália, uma vez que a máquina governamental alemã emperrou depois de 1921, dia de eleições, 19 pessoasforam mortas e 104 ficaram feridas em
1930, a responsabilidade por encontrar saídasestavaem mãos de uma meia episódios de violência política na Itália. '5 Embora as estatísticassejam pou
dúzia de homens: o presidente Hindenburg, seu filho Oskar e outros asses- co con6láveis,estimativasplausíveisquanto ao número de mortes devidas
sores íntimos, e os dois últimos chanceleres de Weimar, Franz von Papen e à violência política na Itália entre 1920 e 1922 falam de seiscentosfascistas
Kurt von Schleicher.A princípio, tentaram deixar de fora o rude ex-cabo e 2 mil antifascistas e não fascistas, seguidas de mais um milhar destes últi-
mos entre 1923 e 1926.'ú
austríaco. Devemos recordar que, na décadade 1930, ainda se esperava
que os ministros de um gabinete fossem cavalheiros.Trazer para dentro O expediente encontrado por Von Papen, de convocar novas eleições

do governo fascistasgrosseirosfoi um ato que davaidéia do grau de seu para 6 de novembro, teve como efeito uma certa redução na votação nazis
desespero. ta (com vantagem para os comunistas, mais uma vez), mas em nada contri-

O aristocrata católico Franz von Papententou, como chanceler (de buiu para tirar a Alemanha do impasseconstitucional. O presidente Hin-
julho a novembro de 1932) governar sempolíticos, por meio de um assim denburg, em 2 de dezembro, substituiuVon Papen por um oficial graduado
do exército, considerado mais tecnocrático que reacionário, o general Kurt
chamado Gabinete dos Barões, composto de técnicos especialistas e de per-
von Schleicher. Durante suas breves semanas no poder (de dezembro de
sonalidadeseminentes externas à política. Sua arriscada jogada de realizar
eleições nacionais em julho permitiu que os nazistas viessem a se tornar o 1932 a janeiro de 1933) Von Schleicher elaborou um vigoroso projeto de

maior partido do país. Von Paperstentou então trazer Hitler para o gabinete
como vice-chanceler, um cargo sem autoridade, mas o líder nazista possuía 14. Kershaw, Hf /er;Hubris, p. 368.
15. Emilio Gentile, Storfa de/ panito.fascista, /9/9 /922; Movimento e mi/azia. Bari
perspicácia política e coragem de jogador suficientes para não aceitar nada
Laterza, 1989, p. 202
menos que o cargo máximo. Essa decisão forçou Hitler a passar a primavera 16. Jens Petersen estima que cerca de 10 mil foram mortos e 100 mil foram feridos
de 1932 no suspensede uma esperaagoniada,tentando acalmar seusmiai em todas as formas de conflito civil na Itália, nos anosiniciais da décadade 1920. Kollo
tantes inquietos e sedentospor cargos, enquanto jogava sua cartada final. quien des Instituts ftir Zeitgeschichte, Der ita/ienfscÀe EuscÀismus, p. 3 2 . Adrian Lyttelton
Com a intenção de aprofundar a crise, os nazistas(como os fascistas estima que, apenasem 1921, entre 5 e 6 mil pessoasmorreram na Itália, em decorrên-
haviam feito antes deles) intensificaram atou de violência, escolhendo cui- cia da violência fascista.Ver Lyttelton, "Fascism and Violence in Post-War ltaly: Political
Strategy and SocialConflict", em Wolfgang J. Mommsen e Gerhard Hirschfeld, eds.,
Sacia/ Protest, Ho/ente and berrar in Nfneteen b and 7iwentieth Cenfury Europe. Londres: Mac
13. Conan Fischer, Tbe GermanCommunisfsand tbe Rfse of Nazism.Nova York St millan; Berg Publishers para o German Historical Institute, 1982, p 262; ver, também,
Martin's Press, 1991 . Ver p. 177 para a greve dos transportes. ' JensPetersen,"Violence in Italian Fascism, 1919 1925", p. 275-99 (esp. p. 286-94).
164 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBElqT O.PAXTON 165

geração de empregos e melhorou as relações com o movimento traballlista novembro de 1932. Nas eleições parlamentares de 6 de março de 1933,
organizado. Esperando obter a neutralidade dos nazistas no parlamento, com Hitler já como chancelere o Partido Nazistano comando da totalida-
cortejou Gregor Strasser,chefe da administraçãodo partido e líder de sua de dos recursos do Estado alemão, seus resultados foram significativos, mas
ala anticapitalista (Hitler nunca esqueceu e nunca perdoou a "traição" de ainda insuficientes 43,9%.'9 Mais que um em cada dois alemãesvotaram
Strasser). contra os candidatos nazistas, naquela eleição, desafiando a intimidação das
Nesseponto, Hitler encontrava-se em sérias dificuldades. Nas eleições Brigadas de Assalto. O Partido FascistaItaliano conseguiu 35 cadeiras num
de 6 de novembro, suavotaçãohavia caídopela primeira vez, prejudican- total de 535 , na única eleição parlamentar livre da qual chegou a participar,
do seu recurso mais precioso o ímpeto. Os cofres do partido estavam em 15 de maio de ]921 .20
praticamente vazios. Gregor Strasser não era o único membro da direção No outro extremo, nem Mussolini nem Hitler chegaramao poder por
do partido que, exausto com a estratégiade tudo ou nada de Hitler, vinha um golpe de Estado. Nenhum deles tomou o poder pela força, mesmo que
considerando outras opções. ambostenham usado de força antes de tomar o poder, com o fim de de
O líder nazistafoi socorrido por Franzvon Papen. Ressentidopor Sch sestabilizar o regime existente, e ambos viriam novamente a usar de força,
leicher ter tomado seu lugar, von Papen,em segredo, armou um acordo já no poder, para transformar seusgovernos em ditaduras (como veremos
segundo o qual Hitler seria chanceler, e ele, Von Papen, vice-chanceler, logo a seguir). Até mesmo os autores mais escrupulosos falam de sua "to
cargo a partir do qual Von Papenesperavacomandar a situação.O idoso mada do poder",:' mas essaexpressão descreve melhor o que os dois líderes
Hindenburg convenceu a seu filho e a seus assessoresíntimos de que Sch- fascistasfizeram após chegar ao poder, do que a forma pela qual eles lá
leicher planejavadep8-1o e instalar uma ditadura militar e, persuadido por chegaram.
Von Papende que não restava outra opção conservadora, nomeou o gover- Tanto Mussolini como Hitler foram convidados a assumir o cargo de
no Hitler Von Papenem 30 de janeiro de 1933.'' Segundoa conclusãode chefe de governo por um chefe de Estado no exercício legítimo de suas
Alan Bullock, Hitler haviasido alçado ao poder por uma conspiração"pela funções oficiais, e apósconsultas a autoridades civis e militares. Ambos,
escada dos fundos".';
portanto, tornaram-se chefes de governo em meio a situaçõesque, pelo
menos na superfície, pareciam representar o exercício da autoridade cons-
O QUE NÃO ACONTECEU: ELEIÇÃO, GOLPE
DE ESTADO E TRIUNFO SOLO titucional, pelo rei Victor Emanuel lli e pelo presidente Hindenburg. As
duas nomeações foram feitas, deve-se acrescentar, em condições de crise
extrema, crise essaque os fascistashaviam alimentado. Mais adiante, exa-
Os eleitores alemãesjamais deram aosnazistasuma maioria no voto
minarei o tipo de crise que abre caminho para o fascismo.
popular, como algumas vezesainda é afirmado. Como vimos no último
capítulo, os nazistasde fato chegarama ser o maior partido no Reichstag
alemão nas eleições parlamentares de 3 1 de julho de 1932, com 37,2%) dos 19. Bracher et al. Die naliorlaJsozfa/istfscbe
MacbteqrejBung,p 93
votos. Mais tarde, caíram para 33, 1% , nas eleições parlamentares de 6 de 20. Luigi Salvatorellie Giovanni Mira, Storiad'/[a/ia ne/p"todo Fascista.
Turim: Ei-
naudi, 1964, p. 1 37-8. A eleição subseqüente, realizada em 6 de abril de 1924, com os
fascistasjá no poder, não obedeceu aosprocedimentos normais, conforme veremos.
17. O mais recente e mais convincente relato das escolhasnadainevitáveis por meio 21 . Adrian Lyttelton, The Sefzure o#Pon'er: Enscismin /ta/g. /9/ 9 /929. 2. ed. Prin-
das quais Hitler se tornou chanceler é Henry A. Turner, Jr. , Hit/erk Thirty Dais to Po«'er. ceton: Princeton University Press,1987, ainda é a análisemais esclarecedora.A frase
Boston: Addison Wesley, 1 996. também aparece no título da obra clássica de Bracher et al'. Dfe nationalsozia/fstiscbe Wa-
18. Bullock, Hit/er,p- 253, 277. chtergre!fun8.
166 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 167

A verdadeé que, até hoje, nenhumainsurreiçãogolpista contra um Es- confisco das propriedades de judeus, desorganizando a tal ponto o Estado
tado estabelecidolevou fascistasao poder. Ditaduras autoritárias por diver- e a economia romenos que Antonescu, com a aprovação de Hitler, passou,
sas vezes esmagaram tentativas desse tipo.:: Isso aconteceu por três vezes em janeiro de ] 941 , a cortar os poderes de Horia. Uma revolta e um po-
com a Legião do Arcanjo Miguel, na Romênia, o mais arrebatadamente re grom de larga escala, lançados pela legião em 2 1 de janeiro, foi esmagado de
ligioso de todos os partidos fascistas,e um dos mais prontamente dispostos forma sangrenta por Antonescu , no "exemplo mais extremo":' de repressão
a assassinarjudeus e políticos burgueses. Numa Romênia pessimamente conservadora ao fascismo.Antonescu liquidou a legião e substituiu o Esta
governada por uma oligarquia estreita e corrupta, a legião tinha uma fervo- do Legionário Nacional por uma ditadura militar pró-germânica, embora
rosa ligação com seus seguidores do povo, até então, em sua maioria, cam- nao fascista.25

poneses apolíticos que se fascinaram com o juvenil Corneliu Codre.anu e Outras tentativas fascistasde golpe não alcançaram resultados melho-
por seusdiscípulos, que, a cavalo, visitavam aldeias remotas, paramentados res. Embora o golpe tentado pelo Partido NazistaAustríaco em 25 de julho
de CamisasVerdes e portando estandartes religiosos e patrióticos.23 de 1934 tenha conseguidoassassinaro chanceler Engelbe,rtDollfuss, seu
Após um período particularmente estéril de rivalidades entre os mem- sucessor,
Kart von Schuschnigg,
reprimiu o nazismona Austria e gover-
bros do parlamento e de clientelismo, o rei Carol da Romênia assumiu po- nou por intermédio de um único partido clerical-autoritário, a Frente da
deres ditatoriais em fevereiro de 1938. Em novembro, tendo tentado sem I'ãtria.
sucessocooptar a cadavez mais violenta legião para a seu movimento ofi- Ainda que os conservadoresfossem capazesde aceitar a violência pra-
cial, a Frente de Renascimento Nacional, Carol mandou prender Codreanu ticada contra os socialistase os sindicalistas, jamais tolerariam a violência
que, em seguida,foi morto, juntamente com alguns correligionários seus, contra o Estado. De seu lado, a maioria dos líderes fascistashavia reconheci-
"numa tentativa de fuga". O sucessorde Codreanu, Horia Sima, respondeu, do que a tomada do poder em oposição direta aosconservadores e militares
em janeiro de 1939, com uma insurreição que foi firmemente reprimida só seria possível com a buda das ruas, e em condições de desordem social
pela ditadura real. capazesde levar a ataquesinconseqüentesà propriedade privada, à hierar-
Carol abdicou em setembro de 1940, após os alemãesvitoriosos terem quia social e ao monopólio estatal da força armada. Caso os fascistasdeci-
forçado a Romênia a ceder território para a Hungria e a Bulgária. O novo dissem recorrer à ação direta, portanto, estariam arriscando dar vantagem a
ditador romeno, o general (mais tarde marechal) lon Antonescu, numa ou seusprincipais inimigos, a esquerda, ainda poderosa nasruas e nos locais de
tra tentativa de congregar os seguidores populares da legião, transformou- trabalho na Europa do entreguerras.:óTáticas dessetipo alienariam também
a no único partido do "Estado Legionário Nacional", criado por ele em 15 os próprios elementos de que os fascistasiriam mais tarde precisar para o
de setembro de 1940. Horta Soma,o novo e impetuoso chefe da legião, planejamento e a execução de uma expansão nacional agressiva o exército
montou uma polícia e organizaçõestrabalhistas"paralelas"e deu início/ao e a polícia. Os partidos fascistas,por mais profundo que fosseseudesprezo
pelos conservadores, não viam perspectivas de futuro em se alinhar com
grupos que quisessemdestruir asbasesdo poder conservador
22. Stanley Payne, d /íistory o/'Enscism,/9/4-/945. Madison: University of Wis
consin Press, 1995, considera que os regimes autoritários "serviam mais como barreira
do que como uma instigaçãoao fascismo"(p. 312), que "paradoxalmente(...) exigia a 24. Payne, Hísrory, p 395
liberdade política para ter uma chance de conquistar o poder" (p. 252). Ver, também, p. 25. O título de "conducaror",
ou líder, dado a Antonescu, fazia parte desseverniz
250. 326. 395-6. 492 . superficial de aparato fascista.
23. Obras que tratam dessee de outros movimentos discutidos neste capítulo estão 26. Pouco antes, uma greve geral promovida pelos sindicatos trabalhistas alemães
listadas, e muitas vezes comentadas, no Ensaio Bibliográfico. havia frustrado o Kapp Putsch, em 1920.
ROBERT O.PAXTON 169
168 A ANATOMIA DO FASCISMO

Uma vez que a rota fascistaem direção ao poder sempre passoupela uniformizados da SA.Em julho de 1932, contudo, quando Franz von Paper
cooperação com as elites conservadoras, pelo menos nos casos até hoje substituiu Brünning no cargo de chanceler, ele suspendeuessaproibição,
ocorridos a força dos movimentosfascistas,em si, é apenasuma das como já vimos antes, e os nazistas,excitados pela perspectiva de vingança,
variáveis determinantes da sua chegada (ou não) ao poder, embora de im desencadearamo período mais violento da crise constitucional de 1930-
portância vital. Como já vimos, os fascistaspossuíam números e músculos 1932. Na Itália, embora alguns chefesde polícia tenham tentado pâr freio
a ofereceraosconservadores
rehns de crises,tanto na Itália quantona ao comportamento transgressor dos fascistas,27os líderes nacionais, em
momentos decisivos,como já sabemos,preferiram "transformar" Mussoli-
Alemanha. Igualmente importantes, contudo, foram a disposição das elites
conservadoras a trabalhar com eles; uma flexibilidad: recíproca de parte ni a disciplina-lo. Os líderes conservadores de ambos os paísesconcluíram
dos [íderes fascistas;e a urgência da crise que os levou a cooperar entre si. que aquilo que os fascistastinham a oferecer superavaem muito as des-
E, portanto, de importância fundamental examinar os cúmplices que vantagens de permitir que essesrufiões se apossassem do espaço público
prestaram auxílio nos momentos vitais. Manter os olhos f'ixos apenasno da esquerda usando de violência. A imprensa nacionalista e os dirigentes
líder fascista durante sua chegada ao poder seria sucumbir ao feitiço do conservadores de ambos os paísesforam consistentes em seu uso de dois
"mito do Fübrer"e do "mito do Doce", de forma que daria a eles imensa pesos e duas medidas no julgamento da violência fascista e da violência de
es(luerda .
satisfação.Temos que dedicar ao estudo de seus indispensáveis aliados e
cúmplices o mesmo tempo dispensado aos líderes fascistas; e aos tipos de Quando um sistemaconstitucionalse vê refém de um impasse,e as
situações nos quais os fascistas foram ajudados a chegar ao poder o mesmo instituições democráticasdeixam de funcionar, a "arena política" tende a
tempo dedicado ao estudodos movimentos em si. se estreitar. O círculo dos responsáveispelos processos decisórios pode se
ver reduzido a uns poucos indivíduos, talvez a apenasum chefe de Esta-
A FORA\4AT'Ã0 DE AI IAN('AS do acompanhado de seus assessorescivis e militares mais imediatos.:' Nos
capítulos anteriores deste livro, tivemos que examinar contextos muito
Ao ingressarpara valer na disputa pelo poder, os movimentos fàscis amplos a fim de entender a fundação e o enraizamento do fascismo.No
tas maduros viram-se obrigados a se engajar profundamente no processo estágio em que o colapso do regime democrático finalmente abre caminho
de formação de aliançascom o estai)/isbment. Os conservadoresitalianos para que o líder fascista apresente seriamente suas pretensões ao poder,.a
e alemãesnão criaram Mussolini e Hitler, é claro. embora, muitas vezes. concentração da responsabilidade nas mãos de uns poucos indivíduos de
tenham deixado impunes assuastransgressõesda lei. Após os fascistase os importância-chave exige algo próximo a uma perspectiva biográfica -- com
nazistas,por meio de diferentes combinações de atração eleitoral e intimi-
daçãoviolenta que vimos no último capítulo, terem se tornado importan- 27. O exemplo maiscélebre era Cesari Mora, o rigoroso e ascético chefe de polícia
de Bolonha, que não tolerava a desordem provocada nem pelos socialistas e nem pejos
tes demais para serem ignorados, os conservadorestiveram que decidir o
fascistas.Com os poderes de emergência sobre o Vale do PÓque Ihe foram conferidos
que fazer com eles. em novembro de 192 1 . Mori tentou manter a ordem , mas sua própria polícia uniu-se aos
Principalmente, os líderes conservadorestiveram que decidir se de- fascistas,e ele foi transferido e em seguida exonerado. Mais tarde, Mussolini o enviou à
veriam tentar cooptar o fascismoou empurra-lo de volta à marginalidade. Sicília para reprimir a Máfia. Christopher Duggan, Eascfsm
and rbe Ma/ia. New Haven:Yale
Uma decisãode importância crucial foi se a polícia e os tribunais deveriam University Press,1989, p. 122-4 ss
obriga-los a respeitar a lei. O chanceler alemãoBrünning tentou conter a 28 . Juan J. Linz, "Crises,Breakdown, and Reequilibration", em Juan J. Linz e A]Ê'ed
violência nazistaem 1931-'1932.Proibiu, em 14 de abril de 1932, as ações Stepan , eds. , 7'he Brea&don'n oÍ Democratic Rqimes. Baltimore: Johns Hopkins University
Press,1978,p. 66,70,78.

IHI
170 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBElIT O.PAXTON 171

o devido cuidado, é claro, para não cair na cilada de atribuir tudo apenas O financiamento do fascismo italiano foi menos estudado. Quando
ao líder fascista. Mussolini rompeu com os socialistas,no outono de 1914, editores de jor
A colaboração conservadora na chegada do fascismo ao poder foi de nais nacionalistase industriais, bem como o governo francês, passarama
diversos tipos. Em primeiro lugar, havia a cumplicidade com a violência financiar seunovo jornal, o // Papo/od'/[a/ia, masseu propósito era levar a
fascista contra a esquerda. Uma das decisões mais fatídicas, no caso alemão, ltália à guerra.29 As razões para o auxílio financeiro prestado ao squadrfsmo
fbi a suspensãoda proibição das atividades da SA,assinadapor Von Papen por proprietários de terras, pelos militares, e por alguns funcionários pú-
em ] 6 de junho de 1932. Õs squadristide Mussolini seriamimpotentes sem blicos são suficientemente claras.
a vista grossa e até mesmo a ajuda direta da polícia e do exército italianos. O período mais ou menos longo durante o qual fascistase conservado
Uma outra forma de cumplicidade foi a concessãode respeitabilidade.Já res forjaram um acordo de divisão do poder foi uma época tensa para am'
vimos como Giolitti ajudou Mussolini a se tornar respeitável ao incluí-lo bos os lados, tanto na Itália quanto na Alemanha. Essasnegociaçõesprome
em suacoalizãoeleitoral, em maio de 192 1. Alfred Hugenberg, executivo tiam , na melhor dashipóteses, produzir um acordo "não-ideal" para ambos.
da Krupp e líder do partido que competia de forma mais direta com Hi- Diante das alternativas, contudo a esquerdano poder, ou uma ditadura
t[er, o Partido Nacional A]emão (DeutschnationaleVolksparteiDNvp),alternava militar que provavelmente excluiria tanto os parlamentares conservadores
atacar o arrivista nazista e aparecer em comícios a seu lado. Um desses quanto os fascistas ambos os lados estavam dispostos a fazer os acertos
comícios, realizadosem Bad Harzburg, no outono de 1931, levou o públi necessários e aceitar uma segunda opção.
co a acreditar que os dois haviam formado uma "Frente Harzburg". Mas, Os partidos fascistasforam então atraídos a ingressar numa cumpli-
enquanto Hugenberg ajudava a tornar Hitler mais aceitável, os f\nados do cidade cadavez mais profunda com seus novos aliados, o que implicava o
DNvpbandeavam-se para os nazistas, tão mais excitantes. risco de dividir os partidos e alienar alguns de seuspuristas. Esseprocesso
Vimos no capítulo 3 que os nazistasreceberam menos auxílio financei- de "normalização", já evidente nos estágios anteriores de enraizamento,
ro do empresariado do que secostuma crer. Antes do acerto final que colo- foi então intensificado, porque o que estavaagora em jogo era muito mais
cou Hitler no poder, asgrandes empresasalemãspreferiam em muito um substancial,já que o acessoao poder havia se tornado plausível. O líder do
sólido e confiável conservador como Von Papenao desconhecidoHitler, partido fascista, engqado numa promissora negociação com os conservado-
com seusassessoreseconómicos malucos. Nos tensos mesesfinais, enquan- res que detinham o poder, reformou seu partido de forma mais radical que
to Hitler recusava todas as ofertas menores, apostando tudo ou nada no nunca. Ele fez o queWólfgang Schieder chama de um HerrscÀa$ts&ompromiss,
cargo de chanceler, e quando o radicalismo do partido ressurgiu na greve um "pacto para o poder", no qual as áreasde concordância sãoidentificadas
dos transportes de Berlim, o dinheiro escasseou.O NSOAP quasefoi à falên- e os idealistas incómodos são deixados de lado. ;o
cia apósa decepcionanteeleiçãode novembro de 1932. Um banqueiro não Hitler e Mussolini fizeram seusHerrscÀ(!$ts&ompromiss
a partir de posi-
tão importante de Colónia, Kurt von Schrõder,atuou como intermediário ções de força de certo modo diferentes. A importância do squadrísmopara
nas negociações entre Hitler e Von Papen, mas as contribuições do em-
presariadosó se tornaram um recurso importante para Hitler apósele ter
assumido o poder. Então, é claro, o jogo virou. Os empresários contribuí- 29. William A. Renzi, "Mussolini's Sources of Financial Support, 1 914-1 91 5",. fÍfs-

ram com imensas quantias para as recém-empossadas autoridades nazistas tory, v. 56, nl 187, p. 186 206, jun. 1971.
30 . Kolloquien des Instituts fíir Zeitgeschichte, Der ila/ienfscbeEascÀismus,
p' 62 . Cf.
e passaram a se acomodar a um regime que viria recompensar ricamente
o termo semelhante"compromisso autoritário" para as escolhasde Mussolini, no importan
a muitos deles, com contratos de vendade armamentos,e a todos eles, ao
te artigo do falecido Massimo Legnani, "Systema di potere fascista,blocco dominante,
quebrar a espinhado movimento trabalhista organizado na Alemanha . alleanze sociali", em Angelo del Boca et al. // rqimelascista, p 41 8-26.
172 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O.PAXTON 173

o êxito de Mussolini, e a relativa insignificância de seu partido eleitoral, instinto de jogador intactos, apesardo enfraquecimento de seu poder de
significou que Mussolini devia mais aos ras, seuschefetes regionais do que barganha, Hitler apostou tudo no cargo de chanceler.
Hitler devia à SA.Hitler, portanto, tinha um pouco mais de liberdade de Os conservadores, também, resolveram jogar alto, quando um acordo
ação em suas negociações, mas mesmo ele não estava totalmente livre das com um partido fascista bem sucedido passou a parecer possível: o poder
dificuldades causadas pelos militantes de seu partido. com uma basede massastornou-se então uma meta alcançável a eles, tam
O período de negociaçõescom os líderes conservadoresvisando o bém. Chegou a haver competição entre os conservadoresque tentavam
acessoao poder é um tempo arriscado para um líder fascista.Enquanto ele conquistar o apoio da totalidade ou de parte do movimento fascista (alguns
barganha em segredo com a elite política, seus seguidores esperam ansiosa- deles tentando apoderar-sede uma ala ou da base). Na Alemanha, Schlei
mente do lado de fora, acusandoo de estar traindo seusprincípios. cher competia comVon Papen,ambostentado atrelar o arisco cavalonazis-
Em fins de 1920, Mussolini, já engajado em negociaçõessigilosas com ta a suacarroça, como Giolitti competirá com Salandra,na Itália.
os líderes partidários, desapontou alguns de seus militantes ao não ir em Nada houve de inevitável na chegadaao poder de Mussolini ou de Hi-
socorro de D'Annunzio, em Fiume, à época do Natal, e por ingressar na tler. Um exame mais cuidadoso de como chegaram a se tornar chefes de
coalizãoeleitoral de Giolitti, em maio de 192 1. Em agostodo mesmo ano, governo é um exercício de antideterminismo. E bem possívelque uma
s6 conseguiu debelar uma rebelião aberta, que teve como motivo seu "pac- série de fatores -- a superficialidade dastradições liberais, a industrialização
to de pacihcação"firmado com o inimigo tradicional, os socialistas, ao re- tardia, a sobrevivência das elites pré-democráticas, a força dos levantes re
nunciar temporariamente à liderança e desistir do pacto. volucionários, o espasmo de revolta contra a humilhação nacional tenham
Hitler também provocou conflitos internos a seupartido sempre que contribuído para a magnitude da crise, reduzindo as alternativas disponí-
parecia estar próximo de fechar um trato relativo à obtenção de poder. O veis, tanto na Itália quanto na Alemanha. Mas os dirigentes conservadores
ex-capitão do Frei&orpsWalterStennes, então no comando da SAde Berlim rejeitaram outras possibilidades-- governar em coalizão com a esquerda
e do leste alemão, contestou a busca do poder por meios legais na qual moderada, por exemplo, ou governar sob poderes de emergência outorga
Hitler estavaengqado. Em setembro de 1930, os integrantes das Brigadas dos ao rei ou ao presidente (ou continuar a faze-lo, no casoda Alemanha).
de Assalto de Stennes estavam tão exasperados com o adiamento da recom- Optaram pela alternativa fascista. Os líderes fascistas,de sua parte, conse-
pensa,com a longajornada de trabalho não remunerado, e com o fato de guiram a "normalização" necessáriaao compartilhamento do poder. Não
estarem subordinados aos quadros não militares do partido que ocuparam e tinha que ter acontecido assim.
destruíram os escritórios do Partido Nazista em Berlim . Quando se recusa-
ram a obedecer asordens de Hitler de submeter-se à proibição da violência O QUE OS FASCISTAS
TINHAM A
de rua, em fevereiro de 1931, este expulsou Stennes da SA.Os militantes OFERECER AO ESmBL/SHMENr

indignadosocuparamnovamentea sededo partido em abril de 1931, e


Hitler teve que usar de todos os seus poderes de persuasãopara pâr fim à Numa situação de impasse constitucional e de crescente ameaça re
revolta. A SAfoi expurgada de quinhentos militantes radicais. Hitler chegou volucionária, um movimento fascistabem-sucedido pode trazer recursos
aindamais perto de perder controle sobre o Partido Nazistaao anal de preciosos a uma elite vacilante.
1932 , como vimos antes, quando os votos começaram a diminuir, o dinhei- Os fascistaspodiam oferecer uma base de massasgrande o su6lciente
ro minguou e algunsmilitantes de maior importância passarama procurar para permitir que os conservadores formassem maiorias parlamentares ca-
futuros mais promissoresem governosde coalizão.Com suavontadee seu pazes de decisões vigorosas, sem ter que recorrer aos inaceitáveis parceiros
174 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 175

de esquerda.Os trinta e cinco deputadosde Mussolini não pesavammuito cismo.s' Quanto ao partido Nazista, seu próprio nome proclamava que
na ba[ança,masa contribuição potencial de Hit]er foi decisiva.E]e tinha a ele era um partido de trabalhadores,um drbefterpartei. Mussolini esperava
oferecer o maior partido alemão aos conservadores, que não haviam apren atrair para seu partido seus antigos companheiros socialistas.Os resul-
tados não foram os melhores. Todas as análises da composição social dos
dido a lidar com a política de massas,introduzida repentinamente em seu
paíspela constituição de 1919. No decorrer da décadade 1920, o único priTneiros partidos fascistaschegam à mesma conclusão: embora alguns
partido não-marxista a conseguir construir uma basede massasna Alema- trabalhadores tenham sido atraídos, sua participação nos quadros parti-
nha foi o Zentrum(o Partido do Centro), um partido católico que, por meio dários era sempre menor que na população em geral. Talvez essespoucos
de suasraízes na vida paroquiana, contavacom um quadro de 61iadosativa- trabalhadores fascistastenham bastado. Se os partidos fascistas eram ca
mente engqado e proveniente de todas as classessociais.O Zentrumtinha pazesde recrutar alguns trabalhadores, a violência, então, poderia tratar
amplo acessoà classetrabalhadora por intermédio dos sindicatos católicos, dos retardatários. Essaformula de dividir para conquistar era muito mais
mas, como partido de filiação religiosa, via limitado seu recrutamento, o eficaz que qualquer coisa que os conservadores tinham a oferecer.
que não aconteciacom Hitler. Como detentor do maior partido, Hitler Uma outra oferta sedutora era a de superar o clima de desordemque
permitiu aos formadores de alianças conservadores escapar dos poderes os próprios fascistashaviam contribuído para criar. Tendo deixado à solta
seusmilitantes com o fim de tornar impraticável a democraciae desacre
de emergência presidenciais que eles já vinham suportando há três anos e
ditar o Estado constitucional, os líderes nazistase fascistasposaramentão
formar uma maioria parlamentar que excluíssea esquerda.
Os fascistasofereciam mais que meros números. Ofereciam rostos jo como a única força não socialista capazde restaurar a ordem. Essanão foi a
vens e frescos a um público cansado de um estai/isÀmentenvelhecido que última vez que os líderes capitalizaram essaambigüidade: "Estando no cen-
havia criado uma grande confusão. Os dois partidos mais jovens da Alema- tro do movimento", HannahArendt escreveu,em uma de suaspenetrantes
nha e da ltália eram os comunistas e os fascistas.Ambos os paísesdesejavam observações,"o líder pode agir como se estivesseacima dele".32As condi-
ardentemente uma liderança nova, e os fascistastinham a oferecer aos con- ções que os fascistas colocavam para entrar num acordo não eram altas. Al-
servadoresuma fonte dajuventude. Ofereciamtambém um outro modo de guns conservadores alemães inquietavam-se com a retórica anticapitalista
engajamento um forte compromisso e uma disciplina rígida, numa época brandida por alguns intelectuais nazistas,;: da mesma forma que os conser-
em que os conservadores temiam a dissolução dos vínculos sociais. vadores italianos inquietavam-se com os ativistas do trabalhismo fascista,
como Edmondo Rossoni. Mas Mussolini há muito havia se bandeadopara
Haviam também encontrado uma formula mágica para afastar os tra-
balhadoresdo marxismo. Muito tempo depoisde Marx ter afirmado que a o "produtivismo" e para a admiração pelo herói industrial, enquanto Hitler
classetrabalhadora não tinha pátria, os conservadores não haviam encon- deixou claro, em sua famosafala ao Clube dos Industriais de Düsseldorf,
trado meios de refuta lo. Nenhuma das tentativas novecentistas a de. em 26 de janeiro de 1932, bem como em suasconversasparticulares, que
também na esfera económica ele era um darwinista social.
gerência, a religião, a escolarização -- haviam funcionado. Às vésperas da
Primeira Grande Guerra, a 4ctfonFrançaise havia alcançadoalgum grau de
sucessoem converter uns poucos trabalhadores ao nacionalismo, e a ines- 31. Capítulo 2, p. 89-90.
32. Hannah Arendt, Origenso#Zoca/ifarianism,
2. ed. ampliada. NovaYork: Meridian
perada ampla aceitação, por parte dos trabalhadores, de seu dever patri6
Books,1958,p.375.
tico de lutar por seu país, ao início da Primeira Guerra, profetizou que, no
33 . Henry A.Turner, Big Business and be Rfse o#fíirJer. NovaYork: Oxford University
século xx, a Nação seria mais forte que a Classe. Press, 1985, p. 95-9, 113 5, 133 42, 188, 245, 279-81, 287, mostra que a apreensãoda
Fascistas de todos os países souberam tirar partido dessa revelação. maior parte dos empresários quanto ao radicalismo económico dos nazistas cresceu em
Já mencionei o Cera/eProudÀon
francês, como um dos precursores do fas 1932
176 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBEltT O.PAXTON 177

Mesmo que, para chegar a um acordo, fosse necessário admitir esses leveis por meio da política partidária tradicional; um impassedo governo
arrivistas grosseiros ao primeiro escalãodo governo, os conservadores es- constitucional (gerado, em parte, pela polarizaçãopolítica que os fascistas
tavam convencidosde que manteriam o controle do Estado.Nunca se ou haviam ajudado a instigar); o crescimento rápido da esquerdamilitante,
vira falar de pessoassurgidas do nada vindo a chef'iar governos europeus que ameaçavasurgir com a principal beneficiária da crise; e dirigentes con-
Ainda era normal na Europa, mesmo após a Primeira Guerra e mesmo em servadores que se recusavama trabalhar até mesmo com os elementos re
democracias, que os ministros e os chefes de Estado fossem membros cul- formistas da esquerda,e que se sentiam ameaçadosem suacapacidadede
tos dasc]assessuperiores, com longa experiência na diplomacia e na admi- continuar a governar contra a esquerda sem receber novos reforços
nistração. O primeiro primeiro-ministro de classebaixa, na Grã-Bretanha, É de importância essencialque nos lembremos que a possibilidadede
foi Ramsey Maca)onald, e]eito em 1924, e e]e ]ogo assumiu a aparência, a uma revoluçãocomunistapareciamuito real na Itália de 1921 e naAle
fala e o modo de agir de um patrício, para grande desgostodos militantes manha de 1932. A Itália acabavade passar pelo biennio fosso, os dois "anos
do PartidoTrabalhista,que o ridicularizavam como o "Gentleman Mac". O vermelhos" que se seguiram à primeira eleição do p6s-guerra, realizada em
presidente Friedrich Ebert da Alemanha ( 19 19- 1925), seleiro de profissão, novembro de 1919, na qual o Partido SocialistaItaliano (psl) triplicou sua
havia alcançado prestígio numa longa carreira de funcionário e deputado do votação de antes da guerra, conseguindo quase um terço das cadeiras par
Partido Socialista.Hitler e Mussolini foram os primeiros aventureirosde lamentares e passando por uma onda de fervor "maximalista". A posse de
classe baixa a chegar ao poder em grandes países europeus. Até hoje, a Re- prefeitos socialistasem inúmeras localidades foi acompanhadapor maciços
pública Francesajamais teve um chefe de Estado,e teve apenasalgunsmi- confiscos de terra e por greves, culminando na espetacular ocupação das
nistros soda/oufsiders,como, digamos, HarryTruman. Mas ascircunstâncias fábricas de Turim, em setembro de 1920. Como pano de fundo, assoma-
estavam longe de serem normais na Itália de 1922 e na Alemanha de 1933. va o exemplo da Rússia,onde a primeira revolução socialista a ter êxito
Um ingrediente central dos cálculos dos conservadoresera que o cabo aus- em todo o mundo davatodos os sinais de estar gerando outras. Sabemos
tríaco e o agitador novato e ex-socialistaitaliano não teriam a menor ideia hoje que os socialistas"maximalistas"italianos e o novo Partido Comunista
do que fazer com um cargo de primeiro escalão. Seriam incapazes de gover- Italiano não tinham a menor ideia do que fazer em seguida. O medo de
nar sem o savoir:Paire
dos cultos e experientes líderes conservadores. uma revolução comunista imaginada, no entanto, bastavapara mobilizar os
Em suma, os fascistas ofereciam uma nova receita de governo, con conservadores tanto quanto uma revolução de fato o faria. Como observou
tando com o apoio popular, semimplicar numa divisãodo poder com a Frederico Chabod, o medo que a classemédia tinha do comunismo atingiu
esquerda, e sem representar qualquer ameaça aos privilégios sociais e eco- o auge na Itália após a onda "maximalista" já ter acalmado. :'
nómicos e ao domínio político dos conservadores.Os conservadores,de Na Alemanha, após 1930, apenas os comunistas e os nazistas vinham
suaparte, tinham em mãos as chavesdasportas do poder. aumentando suas votações.3STal como os nazistas, os comunistas alemães
tiravam partido do desempregoe da opinião geral de que os partidos tra-
A CRISE PRÉ FASCISTA dicionais e o sistema constitucional haviam fracassado. Sabemos, com base

Ainda que as duas crises em meio às quais os dois líderes fascistasalcan-


çaram o poder os choques imediatamente posteriores à Primeira Guerra 34. Federico Chabod, d Fíistoryo#/ta/iar] Fascism.NovaYork: Howard Fertig, 1975,
e a Grande Depressão fossem de naturezas diferentes, tinham elementos p. 43 (ong. pub. 1950). "0 medo também pode ser retrospectivo'
35. O KPDera o (bico partido alemão cujos votos cresceramininterruptamente
em comum. Ambas confrontavam os governos com problemas de desloca-
de dezembro de 1924 (9%) a novembro de 1932 (17%), quando a votação do spDtinha
mentos económicos e de humilhação por estrangeiros, que pareciam inso
caído do augede 30%, em 1928, para cerca de 21%.
178 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 179

em documentosdo partido Nazista apreendidospela polícia alemã em castasnão controlavam plenamente. Tendo chegado ao primeiro escalãodo
1931 os "documentos Boxheim" , que os estrategistas nazistas, como governo numa situaçãode quaselegalidade,Mussolini e Hitler passarama
muitos outros alemães, esperavam uma revolução comunista e planejavam deter apenasos poderesoutorgados a um chefe de Estado nos termos da
uma açãodireta contra ela. Os líderes nazistas,em 193 1, pareciam conven Constituição. De maneira mais prática, seu poder, em seusprimeiros dias
cidos de que usar a força para seopor à revolução comunista era suamelhor no cargo, era limitado pelo fato de terem que governar em coalizão com
chance de alcançar uma ampla aceitação em todo o país. seus aliados conservadores. Embora os partidos fascistas tenham ocupado
Nessascircunstâncias, o governo democrático funcionava mal. Embora alguns cargos de grande importância nesses governos, eles detinham ape
o parlamento italiano nunca tenha chegadoa uma situaçãode impassetão nas uma minoria das pastas ministeriais.3'
completa quanto a que atingiu o governo alemão, a incapacidadedos diri- Não tardou para que ambos os líderes transformassem esseponto de
gentes políticos de ambos os paísesde resolver asdificuldades que então se apoio em ditadura escancarada.Controlar por completo o Estado,trans
apresentavam ofereceu ao fascismo a indispensável brecha.
formando um cargo semiconstitucional em autoridade pessoalilimitada:
Tanto os fascistasitalianos quanto os alemãeshaviam feito tudo o que
essa foi a real "tomada do poder". Isso era diferente de ascender a um cargo.
podiam para fazer que a democraciafuncionassemal. Mas o impassedas
A principal linha de açãoeram os atos maciçamente ilegais praticados pelos
constituições liberais não foi algo provocado unicamente pelos fascistas."0
líderes fascistas.Os aliados continuavam sendo de importância crucial, mas
colapso do Estado liberal", diz Roberto Vivarelli, "ocorreu independente agora bastava que eles aquiescessem.
mente do fascismo".sõÀquela época, era tentador ver o mau funcionamen-
Nem mesmo Hitler veio a se tornar ditador da Alemanha de repente.
to dos governos democráticos, após 1918, como uma crise sístêmicaque
A princípio, acreditavaque o melhor artifício para conseguir maior ande
marcavao fim histórico do liberalismo. A partir do rellorescimento da de-
pendência com relação a seusparceiros de coalizão seria uma nova eleição,
mocracia constitucional ocorrido após a Segunda Guerra Mundial, pareceu
na esperança da maioria esmagadora que até então ele nunca alcançara. No
mais p[ausíve[ vê-]a como uma crise circunstancial provocada pe]as tensões
da Primeira Grande Guerra, pela súbita ampliação da democracia e pela entanto, antes que a eleição pudessese realizar, um golpe de sorte colo-
Revolução Bolchevique. Seja qual for nossa interpretação do impasse do cou nasmãos de Hitler uma desculpapara que ele, de dentro do governo
governo democrático, é muito pouco provável que um movimento fascista e sem sombra de oposiçãonem da direita nem do centro, desseo que foi
possa chegar ao poder sem ele. virtualmente um coar d'état. Essegolpe de sorte foi o incêndio que des-
truiu o prédio do Reichstag,em Berlim, em 28 de fevereiro de 1933.
REVOLUÇÕES APÓS A ASCENSÃO AO PODER:
ALEMANHA E ITÁLIA
37. O gabinete de Hitler, em 30 de janeiro de 1933, possuía apenasdois outros na
zistas:o ministro da Economia,Walter punk, e o ministro do Interior, Hermann Goering
Os conservadores alçaram Hitjer e Mussolini a cargos de governo de
(posto de importância vital, uma vez que era ele quem controlava a polícia; Goering foi
forma quaseconstitucional, no âmbito de uma coalizãoque os líderes fas- também ministro-presidente do maior Estado da Alemanha, a Prússia). O gabinete de
Mussolini, em 30 de outubro de 1922, possuía apenastrês outros fascistas,juntamente
36. Roberto Vivarelli, em Kolloquien des Instituts für Zeitgeschichte, Der fta/ienis- com sete ministros de outros partidos (um liberal, um nacionalista,três democratase
cbeFascÀísmus,
p. 49. VivareJli refletiu mais longamente sobre essesdois processosem // dois papo/ari (democratas-cristãos), dois militares e o filósofo Giovanni Gentile). Musso-
Ja//isentode/l.ibera/fumo.
Bolinha; ll Mulino, 1981. A relaçãoentreo fascismoe a Itália lini, que assumirapessoalmenteo comando dos importantíssimos ministérios do interior
Liberal foi analisada mais recentemente por Paul Comer,The Road to Fascism:An Italian e das relaçõesinternacionais,tinha mais poder, dentro de seu governo inicial, do que
Sondern'q?Contemporary
EuropeanHistory, v. 2, n. 2, p. 273-95, 2002. Hitler. Ver LFtelton, Seizure,v. 96, 457.
180 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O.PAXTON 181

Por muito tempo se acreditou que os próprios nazistashaviam provo- O presidente Hindenburg já havia autorizado novas eleições. Ql4ando
cado o incêndio para, em seguida, colocar a culpa num jovem comunista serealizaram, em 5 de março, entretanto, apesardo terror nazistadirigido
holandês,um pouco retardado, que foi encontrado no local, Marinus van contra os partidos e os eleitores de esquerda, o partido de Hitler ainda
der Lubbe, a fim de persuadir a opinião pública a aceitar medidas antico- não havia alcançado a tão desejada maioria. Mais um passo seria necessário
munistas extremas. Hoje em dia, a maioria dos historiadores acredita que antesque Hitler pudessefazer o que queria. Os nazistaspropuseramuma
Van der Lubbe de fato ateou o fogo, e que Hitler e seuscorreligionários, Lei Capacitadora,que permitia a Hitler governar por decreto por um pe
tomados de surpresa,realmente acreditaram que um golpe comunista havia ríodo de quatro anos,sem ter que responder nem ao Parlamentonem ao
começado.38 Um número suficiente de alemãescompartilhou dessepânico, presidente, após o qual ele prometia se aposentar. Seu título oficial era um
dando aos nazistasuma liberdade de movimentos quase ilimitada. esplêndido exemplo de grandiloqüência nazista: a "Lei para Aliviar o Sofri-
O que aconteceu a seguir foi, de modo geral, apresentado como a ver- mento do Povoe do Reich", ou LU.4'A constituição exigia uma maioria de
sãode Hitler, uma vez que o chancelerpassouà açãocom notável rapidez e dois terços do Parlamento para uma tal delegação de poderes Legislativos
autoconlliança,a 6m de tirar partido do generalizado medo do "terrorismo" ao Executivo.
comunista. O que merece a mesma ênfase foi a disposição dos conservado Embora a maioria dos alemães ainda tivesse votado em outros partidos
res alemães a dar a ele passe livre, e das organizações da sociedade civil a naseleições de 5 de março, Hitler alcançouessamaioria de dois terços a
responder a seus apelos. Enquanto as ruínas do Reichstag ainda fumegavam , favor da Lei Capacitadoraem 24 de março de 1933, no que foi ajudado
o presidente Hindenburg, em 28 de fevereiro, assinouum "Decreto para a pela prisão dos deputados comunistas. Os votos não nazistasmais decisivos
Proteção do Povo e do Estado" usando os poderes de emergência conferidos partiram do Zentrumcatólico e dos nacionalistas de Hugenberg. O Vaticano
a ele pelo Artigo 48 . O Decreto do Incêndio do Reichstag suspendeutoda a concordou, refletindo a convicção do papa Pio xl de que o comunismo era
proteção jurídica aosdireitos de liberdade pessoal,de expressão,de reunião pior que o nazismo, e também sua indiferença pelas liberdades políticas
e de propriedade, permitiu às autoridades deter suspeitosde "terrorismo" (ele pensavaque os católicos deveriam trabalhar no mundo através de esco-
(isto é, comunistas)de forma indiscriminada e deu ao governo federal o las e da "Ação Católica" organizações de base estudantil e trabalhista --e
controle sobre o poder de polícia dos governos estaduais. não por meio de eleiçõese de partidos políticos). Hitler pagou suadívida
Depois disso, poucos alemãesestavampreparados para resistir, na ausên em 20 de julho, assinandocon.]o Vaticano uma concordata que prometia
cia de qualquer ajuda da polícia, da justiça ou de outras autoridades, quando tolerância para com o ensino católico e as atividades da Ação Católica na
os CamisasMarrons irrompiam em tribunais e expulsavam advogados e ma Alemanha, contanto que essasorganizaçõesse mantivessemfora da política .
gistrados judeus,;P ou saqueavam os escritórios e os jornais esquerdistas. Hitler agora estavalivre para dissolver todos os outros partidos políti-
cos (inclusive o Zenrrum católico) nas semanas que se seguiram e estabele

3 8 . Fritz fobias, Der Reicbstagsbrand: Z,agendaund Wir&licb&eit. Rastatt-Baden: Grote,


1962; e Hans Mommsen, "The Reichstag Fine and Its Political Conde quences", em Halo 40. Um professor de francês em Dresden,Vector Klemperer, anota\ a regularmente
Holborn, ed. , Repub/fcto Refcb;Tbe Ma&fng oÍ rbe Nazi levo/utior7. Nova York: Pantheon: exemplos da degradaçãoda linguagem nazista,que ele chamavade LTI, J,fnguaãertii /mpe-
1972, p. 129-222; e em Henry A. Turner, Jr., Nazismar7dfbe Tbird Refcb. Nova York: rii, "língua doTerceiro Império", a grandiloqüência bombástica, porém vazia, tão cara aos
Franklin Watts, 1972, p. 109-50 (ong. pub. 1964). propagandistas nazistas, e não mais específica ao fascismo: Kjemperer, Tbe J.anguageo#tbe
39. SebastianHaffner, DeÉyingHif/er; 4 Memoir.Trad. do alemão por Oliver Pretzel. Third Reicb:l.r7, Z.ingua bertii /mperii:d Pbf/o/ogfst'sNofebool. New Brunswick, NJ : Athlone,
NovaYork: Farrar, Strausand Giroux, 2002, oferece uma assustadoradescrição de cenas 2000. Klemperer é mais conhecido por seu comovente diário sobre suapermanência na
dessetipo testemunhadaspor um jovem magistrado que mais tarde veio a emigrar. Alemanha, como judeu casadocom uma mulher não-judia.
182 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBEllT O.PAXTON 183

cer uma ditadura de partido único. Seuscúmplices conservadores estavam do partido e o esfab/isÀment
conservador nunca ficou tão definitivamente
dispostos a fazer vista grossaà "revolução de baixo para cima", posta em resolvida quanto na Alemanha nazista. Durante quase dois anos, Mussolini,
açãoem caráter não-oficia], na primavera de ] 933, por ativistas do Par- aparentemente,conformou-se em governar como um primeiro':ministro
tido Nazista contra judeus e marxistas, e até mesmo ao estabelecimento comum num regimeparlamentarista,em coalizãocom nacionalistas,
li-
do primeiro campode concentraçãoem Dachau,próximo a Munique, em berais e uns poucos Fofo/ari. Seu governo seguia políticas conservadoras
março de 1933, destinadoaos inimigos políticos, contanto que essesatos convencionais na maioria das áreas, tais como a deflação e o equilíbrio or
ilegais fossem cometidos contra os "inimigos do povo". Hitler, quasesem çamentário ortodoxos postos em prática pelo ministro das FinançasAlber-
to de Stefani.42
ser notado, conseguiu, por iniciativa própria, estender a Lei Capacitadora
por mais cinco anos, quando ela veio a expirar em 1937, e novamente em No entanto, nunca deixou de haver o risco de a ameaçada violência
1942 , dessa vez por prazo indeterminado, sob a justificativa da guerra. Ele squadristafugir ao controle de Mussolini. Muitos CamisasNegras queriam
pareciaquerer acobertar suaditadura com o verniz legalista que a Lei Ca- uma "segunda revolução"'3 que reservasse apenas a eles todos os empregos
pacitadora conferia àsarbitrariedades do regime. e todo o espólio do poder. Sua marchasobre Romã, em 31 de outubro de
A conquistado poder mudavaum líder fascistaa dominar seupartido, 1922, levou a uma escalada de violência que causou sete mortes, dezessete
casos de ferimentos e danos substanciais a diversos jornais de oposição,
masmesmo apósjaneiro de 1933, os conflitos de Hitler com o seupartido
não haviam terminado. Alguns dos zelotes do partido acreditavamque o antes que o nuca conseguisse despachar os Camisas Negras para fora da
êxito de Hitler no estabelecimento de uma ditadura nazista significava que cidade, naquela mesma noite.# A partir de então, sempre que eles sentiam
que Mussolini estava "normalizando" demais, os frustrados squadristi não
eleslogo teriam acessoilimitado a empregose a todo o espólio, numa "se-
gunda revolução". Ernst Rõhm, líder da SA,pressionou Hitler para que este demoravam a enviar a ele uma mensagem,como ocorreu em Turim, em
18-21 de dezembro de 1923 (pelo menos onze mortos), e em Florença,
convertesse os CamisasMarrons numa força armada suplementar, projeto
esseque alarmou o exército regular. Hitler resolveu a questãode uma vez em janeiro de 1925 (vários mortos, inclusive um deputado socialistae um
por todas na "Noite das FacasLongas",ocorrida em 30 junho de 1934, procurador de oposição).
mandando assassinarRõhm e outros líderes da SA.e também. fato esseme- Embora Mussolini às vezestentasseconter seusindisciplinados segui-
dores, ele, em diversas ocasiões, soube tirar partido de suaspressões. A lei
nos conhecido, alguns conservadores recalcitrantes (inclusive vários inte-
eleitoral deAcerbo foi aprovadapela câmarabaixa em 23 dejulho de 1923,
grantesda equipe do vice-chancelerVon Papen), além de outros notáveis
enquanto os CamisasNegras patrulhavam as ruas do lado de fora, e Mus-
que o haviam ofendido, como Gregor Strasser,o general Von Schleicher
(juntamente com suamulher), Gustavvon Kahr, o líder conservadorbáva- solini ameaça'ç'a "permitir que a revolução seguisseseu curso", caso a lei
fosse rejeitada.'s Quando o senado a aprovou em 18 de novembro daquele
ro que havia bloqueado o caminho de Hitler em 1923, e treze deputados
do Reichstag.O tota] dasvítimasficou entre ] 50 e 200.'' Essalição estar mesmo ano, essabizarra legislação dava dois terços das cadeiras ao maior
partido, na condição de que ele conseguissemais de 25% dos votos, o ou-
recedora, aliada ao espólio dasvitórias nazistas,fez com que os indecisos
entrassem na linha e assim permanecessem a partir de então.
42 .Ver capítulo 6, p. 253-254.
A revolução de Mussolini após suachegadaao poder foi mais gradual, e
43. Adrian Lyttelton, "Fascism:The SecondWave",emWalter Laqueure George
a luta pela preponderância entre os três contendentes o líder, os fanáticos L. Messe, eds., /nternationa/Fascism;/920-/945. NovaYork: Harper, 1966, p. 75-100,
reeditado pelolouma/ ofContemporaryHistory, v. 1, n. 1, 1966.
41 . O índice oficial de mortes foi de oitenta e cinco, cinqüenta delasde membros da 44. Pierre Milza, Massa/ini.Paras:Fayard,1999, p. 307.
SA,mas jamais será possí\el chegar a um cálculo excito. Kershaw, Hft/er; Hubris, p. 5 17. 45.Ibid.,p. 331
184 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O.PAXTON 185

tro terço sendo distribuído proporcionalmente entre os demais partidos. Após vários meses de impasse, enquanto os aliados conservadores de
Na eleição seguinte,realizada em 6 de abril de 1924, com pressãofascista Mussolini titubeavam, e a oposição se retraía num contraproducente boi-
sobre o eleitorado, a chapa "Nacional" (o Partido Fascista mais os naciona cote às atividades parlamentares,'7 os ras pressionavam Mussolini. Em 3 1 de
listas) recebeu64,9% dos votos, ficando assimcom 374 cadeiras.Mesmo dezembro de 1924, decepcionados com a aparente falta de determinação
assim, ela não alcançou maioria nas regiões do Piemonte, da Ligaria, da de seulíder, trinta e três cônsules da Milícia Fascista(na qual Mussolini ha
Lombardia e do Vêneto. A partir de então Mussolini desfrutou sempre de via transformado os squ dristi, numa tentativa de controle), dirigiram-se a
um parlamento dócil e de uma aparênciade legitimidade, embora seu regi seu gabinete e o confrontaram com um ultimato: caso o Dure não liquidasse
me não pudesseser considerado "normal". a oposição, a Milícia o faria sem ele.
Esse período de seminormalidade chegou ao Hm em razão de um Ciente da hesitação de seus oponentes e temeroso de uma revolta dos
chocante incidente de retomada do squadrfsmo, o assassinatode Giacomo ras,Mussolini decidiu se.Num agressivodiscurso proferido em 3 de janei-
Matteotti, o eloqüente secretário da ala reformista do Partido Socialista ro de 1925, aceitou"plenaresponsabilidade política, moral e históricapor
Italiano. Em 30 de maio de 1924, Matteotti apresentou à câmaraprovas de- tudo o que aconteceu"e prometeu agir de forma vigorosa. Unidadesmo-
talhadasda corrupção e dos atosde ilegalidadeperpetrados pelos fascistas bilizadas da Milícia já haviam começado a fechar jornais e organizaçõesda
nas recentes eleições para o parlamento. Dez dias após seu discurso, o líder oposição e a prender adversários. Nos dois anos que se seguiram, o parla-
socialista foi capturado numa rua de Romã e jogado dentro de um carro mento dominado pelos fascistas, pressionado por diversos atentados contra
que esperavanasredondezas. Seu corpo foi encontrado várias semanasde- a vida de Mussolini, aprovou uma série de Leis para a Defesado Estado,
pois. Testemunhas oculares tornaram possível rastrear o carro, e ficou claro que fortaleciam o poder da administração, substituíam prefeitos eleitos por
que pessoaspróximas a Mussolini haviam cometido o assassinato. Até hoje funcionários nomeados para o cargo (podestà),submetiam a imprensa e o
não se sabeao certo se a ordem partiu pessoalmentede Mussolini, ou se a rádio a censura, reinstituíam a pena de morte, davam aos sindicatos fascis-
iniciativa foi de seussubordinados. De qualquer forma, a responsabilidade tas o monopólio da representação trabalhista e dissolviam todos os partidos
última de Mussolini ficou clara. O assassinato
chocou a maioria dos italia
;.

com a exceção do PNP.Em inícios de ] 927, a Itália havia seconvertido numa


nos, e conservadores importantes, que antes haviam apoiado Mussolini, ditadura de partido único. Os conservadores,de modo geral, aceitaram o
agora pediam um novo governo impoluto." golpe interno de Mussolini, porque asalternativas pareciam ser a continua-
A indignação causada pelo assassinato de Matteotti ofereceu ao rei e ao ção do impasse ou a admissão da esquerda no governo.
estai/isbmenrconservador sua melhor oportunidade para afastar Mussolini
do cargo. Mais uma vez, eles tinham diversos caminhos abertos à sua fren- COMPARAÇÕES E ALTERNATIVAS
te. Contudo, optaram por não questionar a responsabilidade de Mussolini
a ponto de ter que adotar medidas para remova lo do cargo, temerosos de Nesse terceiro estágio, as comparações adquirem relevância muito
que assimagindo estariam abrindo caminho para o recrudescimento do maior que no segundo.Inúmerosmovimentos fascistasem seu primeiro
caos ou para um governo de esquerda.

47. Essegesto infrutífero foi chamado de "SecessãoAventiniana", em referência aos


46. Entre eles, Salandra,Giolitti e o poderosoMilan Corriere della Será,maso representantesda plebe romana que se refugiaram da opressão patrícia na Colina Aven-
Vaticano e alguns industriais alertaram que a remoção de Mussolini só viria a aumentar a tina, em 494 a.C. Divididos entre socialistas,Fofo/arf e alguns liberais, eles pediam um
desordem. Seton-Watson, /tafg.p. 653-7. retorno à legalidade mas não conseguiam chegar a um acordo sobre como agir.
186 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 187

estágio, encontrando pouco espaço onde crescer, permaneceram fracos Uma outra rota fascistapara o poder foi na esteira de um exército
demais para despertarem o interesse de aliados ou de cúmplices. Alguns vitorioso. Mas isso aconteceu com muito menos freqüência do que seria
poucos conseguiram se enraizar, mas não conseguiram travar as amizades de se esperar.Os desastradossoldadosde Mussolini ofereceram-lhe pou
com membros influentes da elite, que seriam necessáriaspara que eles pu- casoportunidades de criar fantochesem outros países.Hitler teve muitas
dessemse ver em condições de competir por cargos eletivos. Apenas uns oportunidades dessetipo, masele, de modo geral, não confiava nos fascistas
poucos deles chegaram de fato ao poder. Dentre os que lá chegaram, alguns estrangeiros. O nazismo, como receita para a unidade e dinamismo nacio-
se associaram,como parceiros menores, a regimes autoritários que não nais, era a última coisa que desejava para um país que ele havia conquistado
tardaram a amordaçá-los ou destrua-los. Foi apenasna Alemanha e na Itália e ocupado. O nazismo era o pacto privado do Ho/&alemão com a história, e
que os fascistas,até hoje, tomaram asrédeas de fato. Hitler não tinha a menor intenção de exporta-lo.si Hitler, além disso,por
As parcerias minoritárias com regimes autoritários mostraram ser de- muito tempo, e contrariando a lenda popular, foi um governante pragmáti-
sastrosaspara os movimentos fascistas.Papéissecundáriosnão combina co, com um f\no sensoprático. Para manter na linha os povos conquistados,
vam com as extravagantespretensõesfascistasde transformar seuspovos os partidos fascistaslocais Ihe seriam muito menos úteis que astradicionais
e redirecionar a história. De seu lado, os parceiros conservadorestinham elites conservadoras.
em péssima conta a violência impaciente dos fascistas e seu desdém pelos Vidkun Quisling, o líder fascistanorueguês,cujo nome forneceu o
interesses estabelecidos, uma vez que, nesses casos, tratava-se de movi- próprio termo para um governante-fantoche, na verdade, tinha pouca au-
mentos fascistasque haviam preservado muito da radicalizaçãosocial de toridade na Noruega ocupada. Embora, durante a década de 1930, o Nago-
sua primeira etapa. na/ Sam/ing(NS)de Quisling mal tenha conseguido 2% do voto popular, ele
Járelatamos a supressãosangrentade um aliado fascistade importância aproveitou a oportunidade da invasãoalemã, em 9 de abril de 1940, e a
secundária por um ditador autoritário, na extinção da Legião do Arcanjo saídado rei e do Parlamento de Osso,para declarar seupartido no poder.
Miguel pelo ditador romeno marechal Antonescu, em janeiro de 1944.48 Apesardo ideólogo nazistaAlfred Rosenbergo apoiar, autoridades alemãs
Como veremos no capítulo 6, os ditadores ibéricos, Franco e Salazar,redu- mais responsáveis sabiam que ele despertava apenas repugnância na Nome
ziram à impotência os partidos fascistas,embora de forma menossangren- ga e, seis dias depois, Hitler concordou em alijá lo.
ta. O ditador brasileiro Vargastolerou um movimento fascistapara depois O of\cial nazista JosephTerboven governou a Noruega como ReicÀsÊom-
esmaga-lo.4PDe modo geral, nenhum tipo de regime conservador bem es- míssar,auxiliado, após setembro de 1940, por um conselho de Estado no
tabelecido ofereceu condições favoráveispara que os fascistasalcançassem qual o NSdetinha dez dastreze cadeiras,excluindo o próprio Quisling.Ter-
o poder. Ou eles reprimirem o que viam como fomentadores de desordem boven permitiu que Quisling continuassea construir o NS(o Único partido
ou apropriaram-se das causas fascistas e de seus seguidores.s' Se os conser
autorizado) e, em I' de fevereiro de 1942, outorgou-lhe o título de "mi-
vadores fossem capazes de governar sozinhos, era isso que eles faziam.
nistro-presidente".' Mesmo então, Quisling não possuía autoridade inde
pendente, e Hitler negou seudesejo insistentemente expresso de um papel
48.Vercapítulo4, p. 166 167. mais independente para a Noruega na Europa nazista. O governo-fantoche
49.Vercapítulo7, p. 318 319. de Quisling enfrentou crescente resistência, tanto atavaquanto passiva
50. Uma interessante proposta de criar uma outra categoria intermediária entre o
conservadorismo e o fascismo,de regimes conservadoresque reprimem os movimentos
fascistasde base,masque tomam de empréstimo algunsde seusrecursos,é Gregory J.
51. "Oponho me totalmente a qualquer tentativa de exportar o nacionalsocialis-
Kasza,"Fascism from Above? Japan'sKa&usÃinRight in Comparative Perspective", em
mo". Hir/er'sTab/eTa/&.Trad. Norman Cameron e R. H. Stevens.Londres:Weidenfeld
Stein Ugelvik Larsen, ed. , EascismOutsfdeEurope.Boulder, CO: Social Science Monogra
phs, 2001 , p. 183-232.Ver também a nota 22 deste capítulo. and Nicolson, 1953, p. 490 (entrada por 20 de maio de 1942)
188 AANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O. PAXTON 189

A Holanda ocupada, cuja rainhaWilhelmina havia estabelecido um go- O principal papel conferido por Hitler aos fascistaslocais dos países
verno no exílio em Londres, era governadapor uma administraçãocivil ocupados foi o recrutamento de voluntários nativos para ir congelar e mor-
encabeçadapelo advogado nazista austríaco Arthur Seyss-lnquart, com o rer na frente russa.Tanto o belga Léon Degrelless3quanto o fascistafrancês
líder fascista holandês, Anton Mussert, desempenhando um papel de me- Jacques Doriots' prestaram esse serviço a Hitler.
nor importância. O movimento fascistadinamarquêsera quaseinvisível Hitler também não tinha interesse em promover movimentos fascistas
antes da guerra. Seu líder, Fritz Clausen não desempenhou nenhum papel nos Estados satélites. Mantinha estreitas relações pessoais com o marechal
após1940. O rei Christian x permaneceuno cargo, como símbolo da con Antonescu, que havia esmagado o fascismo romeno.55 As trinta divisões ro-
tinuidade nacional, enquanto seu ministro Scaveniusfornecia os produtos menas de Antonescu que serviam na frente russa o ajudaram muito mais
agrícolas que a Alemanha exigia, chegando mesmo a assinar o Pacto Anta que os passionais Legionários de Horta Soma.Deixou a Eslováquia, que
Comintern.
surgiu pela primeira vez como Estado independente quando ele dividiu a
A Fiança foi a conquista mais valiosa do exército alemão e, com a neu Tchecoslováquia,em maio de 1939, para o Partido Popular Eslovacodo
tralidade francesa, seusprodutos e sua força de trabalho eram recursos in
padre JosefTiso, embora este fossemais clérico autoritário do que fascista.
dispensáveis para a máquina de guerra do Reich, Hitler não estava disposto
O partido, naquela época sob a liderança do padre Andreas Hlinka, havia
a colocar essesrecursos em risco, dando poder a um dos insigni6cantes recebido até um terço dos votos no período do entreguerras e, mais tarde,
e barulhentos chefetes fascistas franceses que já encontramos no capítulo
prestou-se a ajudar na deportação dos judeus.
anterior. O FÜÀrerteve a sorte de a derrota de maio de 1940 ter desacredi
Hitler também julgou mais simples e barato não ocupar a Hungria,
tado aTerceira República Francesaa tal ponto que a Assembleia Nacional
deixando-a sob o poder do almirante Horthy, que, de modo geral, havia
Francesa,
em 10 de junho de 1940,votou por conferir plenospoderesa
governado em linhas tradicionais e autoritárias desde I' de março de 1920.
um herói da Primeira Guerra de 84 anos, o marechal Philippe Pétain, que,
O exército alemãosó entrou na Hungria em 22 de março de 1944, quando
em junho, haviasurgido como o principal defensor da proposta de colocar
os nazistas suspeitaram que Horthy estaria negociando com os exércitos
flm à luta. Pétain instalou uma capital provisória em Vichy, no sul ocupado,
e governou por meio de poder pessoalautoritário, com o apoio dos servi- aliados,já então a caminho. Foi apenasna situaçãomais extrema, quando
ços estatais franceses tradicionais, do esrabJisbmenr
económico e social, dos astropas soviéticasentraram em território húngaro, em 16 de outubro de
militares e da Igreja Católica Romana. Fez o possível para cooperar com 1944, que Hitler substituiu Horthy pelo líder do movimento húngaro Cruz
as autoridades da ocupação nazista da metade setentrional da França, na de Setas,Ferenc Szálasi.A Hungria fascistateve vida curta, pois logo foi
esperançade encontrar um lugar adequadona nova Europa sob domínio derrotada pelo avanço dos exércitos soviéticos.
alemão, que, segundo ele acreditava, era permanente.
Hitler manteve na folha de pagamento nazista, em Paras,alguns fascis 5 3. Aproximadamente 2 .500 belgas serviram na Rússia com a Légion Wallonie, de
tas franceses, caso viesse a precisar pressionar Pétain com um rival. Mas foi Degrelle, em 1943 e 1944; cerca de 1 . 100 dos 2 mil enviados à frente de batalha em no
vembro de 1943 morreram, inclusive seu comandante, Lucien Lippert. Martin Conway,
apenasnos últimos dias da guerra, quando o vento mudou de direção, e os
Co//aboration in Be/Piam. l.éon De#re//e and tbe Rexist Movement. New Haven :Yale University
notáveis conservadores que, no início, haviam apoiado Vichy começaram
Press,1993,p. 220,244.
a abandona-lo, que alguns dos fascistasda época anterior à guerra, como 54. O único líder fascistaeuropeu que lutou pessoalmente na frente oriental foi Jac-
Marcel Déat, encontraram lugar no governo de Vichy.s' ques Doriot, que acompanhou cercade 6 mil outros francesesna semi-oficial Légion des
Volontaires centre le Bolshevisme.Philippe Burrin , La dérire.#nscfste:
Dorfot,Déat,Beqery

France:O/d Guard and New Ordem2 ed. NovaYork: Co


52. Robert O. Paxton, mcÀW / 933- / 945. Paria: Seuil, 1986, p. 43 1.
lumbia University Press, 2001, p. 267, 325 55.Ver capítulo4, p. 166-167
190 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O.PAXTON 191

Os nazistas não permitiram que os fascistas nativos assumissem o po- de 1940, se tornaram muito conspícuos,embora permanecendona condi-
der nos Estadosclientes da Croácia,pois esteseram uma criação nova, ção de externos ao sistema. Aqui, as comparações nos permitem perceber
ainda sem uma elite governante instalada no poder e que, na verdade, es- reais diferenças na natureza do ambiente político e nas possibilidades de
tavalocalizadana zonade influência italiana. Em maio de 1941, quando o aliançasque distinguem dos demais os paísesonde o fascismo deu certo. O
exército alemão dominou e dividiu a lugoslávia,o Ustasa,um movimento que distinguia a Alemanha e a Itália, onde o fascismo chegou ao poder, da
terrorista-naciona]ista de antes da guerra, e seu ]íder de longos anos, Ante trança e da Grã-Bretanha,onde os movimentos fascistaseram altamente
Pavelic, tiveram permissão para tomar o poder no recém-independente visíveis, mas fracassaram em suastentativas de se aproximar do poder?
Estado da Croácia. Até mesmo os observadores nazistas ficaram choca- Examinámos o caso h'ancês no capítulo 3. Os movimento radicais de
dos com caótico banho de sangueno qual o Ustasamassacrouum número direita alguns deles autenticamente fascistas chegaram a prosperar na
que, em estimativas sóbrias, chegou a 500 mil sérvios, 200 mil croatas, 90 França, mas a maioria dos conservadores, na década de 1930, não se sentia
mil muçulmanosbósnios, 60 mil judeus, 50 mil montenegrinos e 30 mil suficientemente ameaçadapara chamar por seu socorro, nem eles chega
eslovenos.s' Nenhum dessesfantoches nos Estados ocupados ou satélites ram a se enraizar de maneira forte o bastante para se impor como parceiros
foi capaz de sobreviver sequer por um momento após a derrota de seus políticos.s8A British Uniono/'Euscisrs
teve em sir Oswald Mosley um líder
protetores do Eixo. Na Espalha e em Portugal, ao contrário, os regimes brilhante, enérgico e -- num caso excepcional -- socialmente bem coloca-
autoritários continuaram a funcionar após 1945 , evitando cuidadosamente do, que de início conquistou um importante apoio na imprensa, masque
qualquer sinal de parafernália fascista. ofendeu os conservadorescom a violência de rua contra osjudeus e acabou
O fato de Quisling e de Szálasiterem sido levadosao poder em situa- encontrando pouco espaçopolítico, na medida em que, entre 1931 e 1945,
ções extremas não dependia muito de seu apoio local e, na verdade, era os conservadores mantiveram uma folgada maioria.
sinal de que Hitler havia talhado em suapolítica preferida de persuadir os Na Escandinávia,os partidos social-democratas conseguiram incluir os
dirigentes tradicionais dos paísesocupados a colaborar com as autoridades interesses da agricultura familiar e da classe média baixa em suascoalizões
nazistas. Os fascismos da ocupação sem dúvida são interessantes a der de governo, impossibilitando aosfascistasa conquista de um grande eleito
rota e a colaboraçãotrouxeram para primeiro plano todos os perdedores rado e fazendo-ospermanecer como partidos minúsculos."
do sistemaanterior e deixaram à mostra todas as linhas de falha e todos Um exame comparativo do acessodos fascistas ao poder nos ajuda a
os antagonismosda comunidade política ocupada mas é duvidoso que identificar algumas maneiras de enfocar os que não são de tanta utilidade.
possamos chama-los de fascismos autênticos, pela simples razão de eles As teorias da agência, por exemplo, apresentam mais de um defeito greve
não terem sido livres para perseguir ideaisde grandezanacionale de ex- Reduzem a história da chegadados fascistasao poder aos atos de um único
pansionismo.' '
grupo de interesses,os capitalistas. Negam qualquer tipo de apoio popular
Podemos aprender muito mais sobre o fascismo a partir de outros tipos autónomo ao fascismo, partindo do princípio de que se trata apenasde uma
de fracasso, como o dos movimentos da direita radical francesa, que, antes criação artificial.
As comparaçõessugeremque o êxito dos fascistasna suaascensãoao
56. John R. Lampe, yug's/aria as History: ZwiceTbereWasa Counfry. 2. ed . Cambridge: poder depende menos do brilhantismo dos intelectuais e das qualidades
Cambridge University Press, 2000, p. 440. '
57. Burrin, La Dérivelasciste,p. 45 1-4, chama os ultracolaboradores 6'anceses, como
53.Vercapítulo3,p. 121 129.
Déat e Doriot, de fascistas"secundáriosou derivados",porque eles não tinham a ânsia i9. deter Ba\dwin, The Politico a4Social Soiidarity: Class Bases ofthe European Welfare
pela expansãobélica, comum a Mussolini e a Hitler.
Skate.Cambridge: Cambridge University Press, 1990.
192 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O.PAXTON 193

dos chefes fascistas que da profundidade da crise e do desespero dos aliados O fato de Hitler e Mussolini terem chegado ao poder em aliança com as
potenciais. Embora a história intelectual seja indispensável para explicar a poderosaselites tradicionais não pode ser visto como uma peculiaridade da
perda de legitimidade do antigo sistema nos primeiros casosonde o fascis história alemã ou italiana. É difícil acreditar que os partidos fascistaspudes-
mo conseguiu se enraizar, ela pouco nos iluda neste estágio.Tem pouco a sem ter subido ao poder de alguma outra forma. É possível imaginar outros
dizer para explicar que tipos de espaçopolítico foram abertos durante as cenários para sua chegada ao poder, mas eles são sempre implausíveis. O
crises que antecederam o fascismo crises de impasse constitucional, de cenário Kornilov já mencionado no capítulo 3 merece consideração.
avanço da esquerda e das angústias dos conservadores e por que foi o fas- O general Lava Geogyevich Kornilov, nomeado comandante-em-chefe dos
cismo que veio a preencher esseespaço,e não alguma outra coisa. exército russosem agostode 1917, julgou o regime de Alexander Kerensky
Sob que condições esse espaço político disponível ao crescimento ineficaz diante das crescentes pressõesrevolucionárias um ambiente po-
do fascismo se abriu o suficiente para permitir-lhes acessoao poder? No lítico clássico para uma reação fascista ou autoritária. Kornilov enviou suas
capítulo anterior, discuti alguns dos ambientes mais gerais. No presente tropas para marchar sobre a capital, mas elas foram detidas pelas forças
capítulo, enfoco as condições mais específicas do colapso da legitimidade bolcheviquesantes mesmo de chegar a Petrograd. Se o general Kornilov
democrática e da paralisação dos regimes parlamentaristas. Mas por que ra- tivesse tido êxito em sua missão, o desfecho mais provável teria sido uma
zão, nessascircunstâncias, os conservadores não optaram por simplesmen simples ditadura militar, pois a democracia ainda era demasiadamente nova
te esmagara esquerdausando de força armada e instalar uma autocracia, na Rússiapara gerar a mobilizaçãocontra revolucionária de massascarac
eliminando assimo espaçoaberto às promessasfascistasde atrair parte da terística de uma reaçãofascista a uma democracia social fraca, prestes a ser
esquerda e intimidar a parte restante? derrubada.pelo bolchevismo.
De fato, foi assim que alguns governos procederam. Essaé a manei- Não somos obrigados a acreditar que os movimentos fascistass6 possam
ra mais normal, principalmente fora da Europa. Na Europa, o chanceler chegar ao poder numa reedição exata do cenário enfrentado por Mussolini
austríacoEngelbert Dollftlss instaurou um regime católico-autoritário e e por Hitler. Tudo o que é necessáriopara se encaixar em nosso modelo
esmagou a resistência socialista bombardeando um bairro de classetuba é polarização, impasse,mobilização de massascontra inimigos internos e
Ihadora de Viena, em fevereiro de 1934, ao mesmo tempo que mantinha externos e cumplicidade por parte das elites existentes. Nos Bálcãs,na
encurralados os nazistas austríacos. O general Francisco Franco esmagou a década de 1990, algo de muito semelhante ao fascismo foi produzido por
esquerda e a república espanhola por meio de insurreição armada e guerra um cenário muito diferente, uma mudançade curso efetuadapelos líderes
civil, deixando, apóstomar o poder, pouco espaçopara o pequeno parti- já no poder. Os ditadores p6s-comunistas aprenderam a jogar com as car-
do fascista espanhol, a Falange. Essa opção violenta, entretanto, significa tas do nacionalismo expansionistacomo substituto para o desacreditado
devolver à esquerdaas ruas, a classetrabalhadora e os intelectuais esclare comunismo. Quando o ditador sérvio SlobodanMilosevic, usandode dan-
cidos, e exige um governo baseadoem força explícita. Os conservadores ças,cantose s/oyans,mobilizou o patriotismo de seupovo, primeiramente
alemãese italianos queriam tirar partido e usara seupróprio favor o poder contra os vizinhos da Sérvia e, em seguida,contra os ataquesaéreosaliados,
que os fascistastinham sobre a opinião pública, nasruas e nos setores na ele estavaconseguindo unir uma população contra inimigos internos e ex-
cionalistas e anti-socialistas da classe média e da classe trabalhadora. Ao que ternos a favor de uma política de limpeza étnica com um grau de crueldade
tudo indica, acreditavam que era tarde demais para a desmobilização polí- que a Europa não via desde ] 945.
tica da população, que teria que ser conquistada para a causanacionalista e É também concebível que um partido fascista possa subir ao poder
anti-socialista, uma vez que já era então impossível reduzi-là novamente à por meio de eleições livres e competitivas, embora, como já vimos antes,
posiçãode deferênciatípica do séculoxlx. nem mesmo o Partido Nazista,de longe o partido fascistade maior êxito
194 A ANATOMIA DO FASCISMO ~ ROBERT O.PAXTON 195

eleitoral, chegou a conseguir mais de 37(% dos votos numa eleição livre. terreno comum o HerrsÀ(!PtsÊomprommiss
de que fala \Azolfgang Schierer. "
O Partido fascista italiano alcançou votações muito menores que as dos na- Nesse estágio, como também no estágio do enraizamento, expurgou e ci
zistas. A maioria dos partidos fascistas alcançou pouco ou nenhum sucesso sõesdeixaram de lado os militantes puristas dos primeiros tempos, que
eleitoral e, consequentemente,não possuíampoder de barganhano jogo pretendiam reter parte do antigo radicalismo social.
pa'lamentar. Tudo o que eles podiam fazer era desacreditar o sistema parla- Vale a pena o exercício de imaginação histórica de nos lembrarmos das
mentarista, tornando impossívelum governo ordeiro. Mas essetiro podia outras opções abertas aos principais aliados e cúmplices do fascismo. Dessa
sair pela culatra. Se os fascistasparecessemestar mais provocando desor forma, estaremos fazendo o que se espera que os historiadores façam: res-
taurar a abertura do momento histórico com todas as suasincertezas. O
dem do que bloqueando o comunismo, perderiam o apoio dos conservado-
res. A maioria dessesmovimentos, portanto, viu-se reduzida a propaganda que mais poderiam as elites políticas da Alemanha e da Itália fazer? Na Itá-
e a gestos simbólicos. Foi dessaforma que a maior parte deles permaneceu lia, uma coalizão dos Papo/arisocial-católicos e dos socialistas reformistas
à margem, sem espaço político. teria assegurado
a maioria no parlamento.Essaaliançaexigiria muita per
suasãoe muita adulação, uma vez que questões de relações Igreja-Estado e
Num exame mais cuidadoso, é claro, vemos que o êxito eleitoral não
de ensino religioso separavam os dois partidos. Sabemos que essacoalizão
era a precondição mais importante para a chegada do fascismo ao poder.
não foi tentada nem era desejada.Na Alemanha, um governo parlamentar
A paralisação
ou o colapsode um Estadoliberal existenteera de maior
com os social-democratase os partidos de centro seria uma possibilidade
importância. É essenciallembrar que tanto na Alemanha quanto na Itália,
o Estado constitucional havia deixado de funcionar normalmente muito aritmética, que, no entanto, s6 se converteria numa possibilidade real se
houvesseuma forte liderança presidencial. Uma alternativa viável em am-
antes de os fascistasserem levadosao poder. Ele não foi derrubado pelo bos os países poderia ter sido um governo de técnicos e especialistas não-
partido fascista,apesar de este ter contribuído para leva-lo ao impasse.
partidários, para lidar de maneira não facciosa com a crise da autoridade
Havia deixado de funcionar porque fora incapaz de lidar com os problemas
governamental e das instituições. Isso, também, nunca foi tentado. No
em pauta naquele momento que incluíam, sem dúvida alguma, o pro- casode termos que desistir de um governo constitucional, sabemoshoje
blema de uma oposição fascista agressiva. O colapso do Estado liberal foi, que preferiríamos um governo militar autoritário a Hitler. Maso exército
em certa medida, uma questão independente da ascensãodo fascismo. Este alemão não tinha essaintenção (ao contrário do que aconteceuna Espa
explora a brecha, apesar de não tê-la causado. nha) e optou pela alternativa fascista.Na ltália, o exército não se oporia ao
No estágioda subidaao poder, quando as elites se decidiram por fascismo porque seus comandantes temiam ainda mais a esquerda.
cooptar o fascismo, as funções do fascismo maduro tornaram-se ainda mais Em ambos os casos,é útil perceber que as elites políticas fazem es.co-
claras:em termos imediatos, seupapel era o de romper o bloqueio da po- ]hasque talvez não sejam sua primeira opção. Elas prosseguiram, de esco-
]ítica nacional por meio de uma solução que excluísse os socialistas. Num [ha em escolha, ao longo de um caminho de opções cadavez mais estreitas.
prazo mais longo, deveria angariar o apoio das massaspara a defesa da se A cadaentroncamento da estrada, optaram pela solução anti-socialista.
ciedade nacional, visando unificar, regenerar, rejuvenescer, "moralizar" e Funcionamelhor ver a subidados fascistasao poder como um proces'
purificar a naçãoque muitos viam como fraca, decadentee poluída. se: aliançassãoformadas, escolhassão feitas, alternativas sãofechadas.'' As
A transformação que entrevimos no segundo estágio, quando os par-
tidos fascistas passaram por mutações que lhes permitiram se encaixar no
60.Vercapítulo4, p. 172
espaçodisponível, foi então ampliada e completada na passagemdo ní- 61 . Um arguto relato da açãodos conservadoresna ltália, em 1920-1922,em ter
vel local para a arena nacional. Os fascistase seus aliados negociaram urn mos do estreitamento das alternativas, é Paolo Farneti, "Social Conflict, Parliamentary
196 AANATOMIA DO FASCISMO

autoridades, de posse de alguma liberdade de manobra, escolhem a opção


fascista de preferência a outras. Nem a chegadaao poder de Mussolini nem 5
a de Hitler foram inevitáveis.õ2Nosso modelo explicativo tem que deixar
espaço também para a sorte, boa ou má, dependendo de nosso ponto de
vista. Mussolini poderia ter sido repelido em outubro de 1922, ou removi- 0 EXERCÍCIO DO PODER
do em junho de 1924, se o rei, os líderes políticos estabelecidose o exérci-
to tivessem, de forma resoluta, tomado as medidas que estavam dentro de
sua competência legal. A sorte de Mussolini foi que o rei optou a seu favor.
Hitler também se beneficiou com alguns golpes de sorte. O FÜÀrertirou
partido da rivalidade deVon Papene Schleicherpelo poder, e também da
A NATUREZA DO GOVERNO FASCISTA: O
recusapor parte dos conservadoresalemãesde aceitar como concidadãos
"ESTADO DUAL E A INFORMIDADE DINÂMICA
os socialistas reformistas. Foi Von Papen que tomou a decisão de fazer de
Hitler chanceler,porque estaera a melhor maneira de eliminar tanto seu
rival Schleicher quanto a esquerda moderada. As crises do sistema político Os propagandistasdo fascismo queriam que víssemoso líder sozinho
e económico abriram espaço para o fascismo, mas foram as infelizes esco- em seu pináculo, e nisso eles alcançaramnotável êxito. Sua imagem de
lhas de uns poucos dirigentes poderosos que de fato instalaram os fascistas poder monolítico foi mais tarde reforçada pelo respeito aterrorizado que,
nesse espaço. durante a guerra, os Aliados sentiam pelo ídolo nazista, e também pelas
alegaçõesdas elites conservadoras da Alemanha e da Itália, já no p6s-guer-
ra, de que elas haviam sido vítimas do fascismo, e não suascúmplices. Essa
imagem permaneceaté hoje na ideia que a maioria das pessoasfaz do do
mínio fascista.
No entanto, observadoresperspicazeslogo perceberam que as dita-
duras fascistasnão eram nem monolíticas nem estáticas.Nenhum ditador
governa sozinho. Ele tem que conseguir a cooperação ou, pelo menos, a
aquiescência das agências decisórias do poder organizado -- os militares, a
polícia, o Judiciário, o primeiro escalão do serviço público e também dãs
poderosas forças económicas e sociais. No caso especial do fascismo, tendo
precisado das elites conservadoras para que lhes abrissem asportas, os no-
vos líderes não podiam simplesmente deixa-las de lado. Em alguma medida,
pelo menos, foram obrigados a compartilhar o poder com o estai)/hÀment
Fragmentation, Institutional Shot, and the Ride of Fascism:Italy", em Juan J. Linz e Al-
conservador preexistente o que fez com que as ditaduras fascistasfossem
fted Stepan, eds. , Tbe BreaÀdowno#DemocratfcRegimes:Europe.Baltimore: Johns Hopkíns
fundamentalmente diferentes, em suasorigens, em seu desenvolvimento e
University Press,1978,p. 3-33.
62. "Essasforam as condições que fizeram que a vitória fascistafosse possível", es- em sua prática, da ditadura de Stálin.
creveAdrian Lyttelton, "mas elasnão Hlzeramque ela fosseinevitável" (Sefzure,
p. 77) .Ver, Em conseqüência, jamais houve um regime fascista ideologicamente
também, Turner, Hit/er'sTbirty Dais. puro. De fato, essapureza mal parece possível.Todasas geraçõesde estu-
198 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBEIRTO.PAXTON 199

diosos do fascismo notaram que essesregimes baseavam-seem algum tipo do Estado fascista, deu ênfase às "forças centrífugas" e às "tensões" com que
de pacto ou aliança entre o partido fascista e as poderosas forças conserva Mussolini se via confrontado, num regime que, "quinze anosapós a Mar-
doras. Em inícios da décadade 1940, o social-democratarefugiado Franz cha sobre Romã", ainda possuíamuitas características derivadas do Estado
Neumann af'armou,em sua obra clássicaBebemotÀ, que um "cartel" formado liberal .6Os importantes estudiosos alemães do fascismo italiano, Wolfgang
pelo partido, pela indústria, pelo exército e pela burocracia, governavaa Schieder e Jens Petersen, falam de "forças opostas" e "contrapesos",' e Má-
Alemanha nazista, unido apenaspelos objetivos de "lucro, poder, prestígio ximo Legnani menciona as "condições de coabitação cooperação" estabe
e, principalmente,medo".' Em fins da décadade 1960, o liberal modera- decidasentre os integrantes do regime.8 Até mesmo Emilio Gentile, ansioso
do Karl Dietrich Bracher interpretou que "o nacional-socialismosurgiu e por demonstrar o poderio e o êxito do impulso totalitário na Itália fascista,
chegou ao poder em meio a condições que permitiram uma aliançaentre admite que o regime se constituía numa realidade "composta", na qual as
as forças conservador-autoritárias e as forças tecnicistas, nacionalistas e "ambições de poder pessoalde Mussolini" contrapunham-se em "constante
ditatorial-revolucionárias". 2 Martin Broszat referia se aos conservadores e tensão"tanto às"forças tradicionais" quanto aos"intransigentes do partido
nacionalistas do gabinete de Hitler como seus"parceiros de coalizão". 3 Em Fascista", estes últimos também cindidos por uma "luta surda" (sordd /orfã)

fins da décadade 1970, Hans Mommsen descreveuo "sistemade governo" entre suasdiferentes facções.9
nacional-socialista como uma "aliança" entre as elites fascistas em ascensão Essacona\guraçãocomposta significa também que os regimes fascistas
e os membros dos grupos dirigentes tradicionais, "entrelaçados (. ..) apesar não eram estáticos. É um erro supor que, assim que o líder alcança o poder,
das diferenças" num projeto comum para colocar de lado o governo parla- a história chega ao 6lm, sendo substituída por teatralidade ostentatória.''
mentar, restabelecer um governo forte e esmagaro "marxismo".4 Ao contrário, a história dessesregimes que conhecemos foi repleta de con-
A natureza composta do governo fascista italiano foi ainda mais flagran- flitos e tensões. Os conflitos que já observamos no estágio do enraizamento
te. O historiador Gaetano Salvemini, de volta do exílio, recordou a"ditadu se acirraram quando chegou o momento de distribuir o espólio dos cargos
ra dualística" do Duree do rei.s Alberto Aquarone, o proeminente estudioso
6 . A]berto Aquarone, ].'organizzazione
de]/oStatolota/it(iria. Turim : Einaudi, 1965, p
1. Franz Neumann, Bebemorb;The S ructure and Practfce oÍ Nationa/ Sacia/ism, / 933- 271, 302. Segundo a descrição jocosa de Curzio Malaparte, tratava-se de "um governo
/944. 2. ed. NovaYork: Oxford University Press, 1944, p. 291, 396-7. liberal administrado por fascistas"(p. 247) .
2 . Karl Dietrich Bracher, The German Dfctatorsbip: Tbe Origens, SrrucEure, and ZIZ?&cls
# 7. Wolfgang Schieder,"Der Strukturwandel der faschistischen PartemItaliens in der
Phase der Hemchaftsstabilisierung", em Schieder, ed. , Fuscbismus a/s cozia/e Ben'eWung
Natfona/ Sacia/ism.Trad. do alemão por Jean Steinberg. NovaYork: Praeger, 1970 (ong.
pub. 1969),p.492. Deutscb/andund /[a/ien fm Heg/eicb.2. ed. Gõttingen: Vandenhoeck und Ruprecht, 1983,
3 . Mártir Broszat , The Hitler Skate:TheFoundation and Development ojthe Infernal Struc p. 71 , 90. Essesargumentos são retomados por Jens Petersen e Wolfgang Schieder em
fure o# tbe Tbird Reicb.Trad. do alemão por John WI Hiden. Londres: Longman, 1981 Kolloquien des Instituto ftir Zeitgeschchte, Der ita/fenfscbeFascfsmus:
Proa/eme
undEuro
(ong. pub. 1969), p. 57. chungstendenzen.
Munique: Oldenbourg, 1983.
4. Hans Mommsen, "Zur Verschrãnkung traditionellen und faschistischenFührun 8. Massimo Legnani, "Sistema di potere fascista, blocco dominante, alleanze socia-
gsgruppe in Deutschland beim Ubergang von der Bewegungszur Systemphase",em Der li: Contributo a una discussione", em Angelo Del Boca, Massimo Legnani e Mano G.
Nariona/cozia/ismus
unddfedeutscbe
Gele//scÀa#t,
ed. Lutz Niethammere BerndWeisbrod Rossi, eds., // regime.#ascis
a: Storia e storioyr.da. Bari: Laterza, 1995 , p. 414-45 (citação
para o sexagésimoaniversário de Mommsen. Reinbeck bei Hamburg: Rowohlt, 199 1, p. da n. 415).
39 66 (citações das p. 39, 40, 50). 9. Emilio Gentile, J.arfa ita/canaa/ fofa/frarismo:// carrito e /o stato ne/ rqfme.fascista.
5. "Sulle origina del movimento fascista", Occidenre,v. 3, p. 306, 1954), reed. em Romã: La Nuova Italia Scientifica, 1995, p. 83, 136, 180.
Operedf GarranoSa/veminf,v. Vl; Scritri su/.fascismo,
v. in. Turim: Giulio Einaudi, 1974, p. 10. Conclusão instigada por alguns estudos culturais, que examinam o aparato pom'
439. Salvemini enfatiza aqui as raízes múltiplas e os sucessivosestágiosdo fascismo. posa sem avaliar sua influência. Ver discussãomais completa no capítulo 8, p. 354-357.
200 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 201

e optar entre diferentes cursos de ação. O jogo f\ca mais pesado à medida dos militantes do partido e do suposto "destino" do Ho/&,da razza, ou do
que a adoçãode determinadas políticas passaa se traduzir em ganhos e povo eleito. O Estadonormativo e o Estado prerrogativo coexistiam numa
perdas tangíveis. Os conservadores tendem a se retrair a um autoritarismo cooperação conflituosa, embora mais ou menos competente, conferindo ao
mais tradicional e cauteloso, respeitador da propriedade e da hierarquia regime suabizarra mistura de legalismo': e de violência arbitrária.
social, enquanto os fascistaspressionam adiante em direção a uma ditadura Hitler nunca aboliu formalmente a constituição redigida em 19 19 para
populista, dinâmica e niveladora, pronta a subordinar todos os interesses a República de Weimar, e nunca chegou a desmontar por completo o Esta-
privados aos imperativos do engrandecimento e da purificação nacionais. do normativo na Alemanha, embora recusasse a se deixar cercear por ele.
As elites tradicionais tentam manter os cargosestratégicos;os partidos Por exemplo, Hitler jamais permitiu que fosse apresentadauma proposta
querem preenchê-los com novos homens, ou contornar as basesdo poder de ]ei sobre a eutanásia,temendo ter as próprias mãos atadaspor normas
conservador com "estruturas paralelas"; e os líderes têm que resistir aos e burocracia.'s Após o incêndio do Reichstag,como vimos no capítulo an-
desafios lançadospela elite e pelos fanáticos do partido. terior. foi conferida a Hitler a autoridade de pâr de lado qualquer lei ou
Tanto na Itália quanto na Alemanha, essaslutas oscilaram entre acirra- direito em vigor, casoisso fossenecessáriopara lidar com qualquer situação
mento e amenização, com resultados variados. Enquanto o regime fascista percebida como uma ameaçaà nação partindo do "terror" marxista. Após a
italiano decaiu,cedendoespaçoparaum poder autoritário e conservador,a primaverade 1933, foi autorizadarepressãopolicial e judiciária irrestrita,
Alemanha nazista se radicalizou a ponto de chegar a uma situação de licen- caso a segurança nacional parecesse exigi-lo, apesar de o Estado normativo
continuar existindo.
ciosidade irre6'eada. Mas os regimes fascistas nunca foram estáticos. Temos
que ver seu domínio como uma infindável luta pela primazia interna a uma Com o passardo tempo, o Estadoprerrogativonazistausurpou as
coalizão, exacerbada pelo colapso das restrições constitucionais e do estado funções do Estado normativo e contaminou seu trabalho,:' de forma que,
de direito, e acirrada por um clima de generalizado darwinismo social. mesmo dentro dele, a suspeita de emergência nacional era o bastante para
Alguns comentaristasreduziram essaluta a um conflito entre o partido
12. A coexistência, no regime nazista, de grande meticulosidade jurídica e de ilega-
e o Estado. Uma das primeiras e mais sugestivas interpretações do conflito
lidade ostensivajamais deixa de provocar espanto. Ainda em dezembro de 1938, alguns
partidcF-Estadofoi a ilustração, fornecida pelo acadêmicorefugiado Ernst judeus, vítimas da violência nazista individual e não-autorizada, conseguiram fazer que
Fraenkel, daAlemanha nazistacomo um "Estadodual". SegundoFraenkel,~ seus agressores fossem presos pela polícia alemã e punidos por tribunais alemães, justo
no regime de Hitler, um "Estadonormativo", constituído pelasautoridades no momento em que cresciaa violência autorizadacontra os judeus. Como relembrou
um sobrevivente, anos depois, "os crimes não-oficiais eram proibidos no Terceiro Rei
legalmenteconstituídase pelo serviço público tradicional, disputavao po-
ch". Eric A. Johnson, Nazi berrar;TheGestapo,Jews,
and Ordfnary Germana.NovaYork: Basic
der com o "Estado prerrogativo", formado pelas organizações paralelas do Books,1999,p.124-5.
partido. :' A percepção de Fraenkel é fecunda, e me calcarei nela. 13. lan Kershaw. Hit/e, / 936-/ 945; Nemesis.
NovaYork: Norton, 2000, p. 253.
De acordo com o modelo de governançanazistaproposto por Fraenkel , 14. Não se deve pensar que a permanência, na Alemanha nazista, de um "Estado
o segmento"normativo" do regime fascistacontinuou a aplicar a lei em con- normativo" seja motivo para exonerar de culpa todos os seus í\mcionários, que, na prâ'
üca (especialmente após o início da guerra), podiam agir com.tanta crueldade e arbitra-
formidade com o devido processolegal, e os funcionários dessesetor eram
riedade quanto as agências"paralelas". Ver, por exemplo, Nikolaus Wachsmann, "'An-
selecionados e promovidos com base nas normas burocráticas de compe- nihilation Through Labour' : The Kílling of State Prisoners in the Third Reich", ./furna/
tência e antigüidade. No setor "prerrogativo", ao contrário, nenhuma regra of .ModemHistory, v. 71 P. 627 8, 659, set. 1999. Muitos exemplos são apresentados
se aplicava, com a exceção dos caprichos do governante, da gratificação também em Robert Gellately, Bac&ingHit/er. NovaYork: Oxford University Press, 2001 .
A antiga distinção entre o exército profissional "correto" e a ss criminosa, distinção essa
que visa a autqustificação, também foi desmentida por Omer Bartov, nas obras citadas
1 1 . Ernst Fraenkel, TAe Dua/ Skate. NovaYork: Oxford. 1 941 no capítulo 6,nota 79.
202 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBElqT O.PAXTON 203

permitir que o regime passassepor cima dos direitos individuais e do devi- A luta pelo domínio nasditaduras fascistas,entretanto, implica mais
do processolegal.'5 Após o início da guerra, o Estado prerrogativa nazista do que Estadoe partido, ou Estado normativo e prerrogativo. A imagem
alcançoualgo próximo a um domínio total. As instituições normativas se de Estado dual de Fraenkel é incompleta. Nos regimes fascistas,elementos
atrofiaram no país e mal chegavam a funcionar nos territórios
ocupados da externos ao Estado também participam dessaqueda-de-braço pelo poder.
antiga Polânia e da União Soviética, como veremos com mais detalhes no Os regimes fascistasalemão e italiano substituíram por suaspróprias orga-
próximo capítulo. nizaçõescentros de poder tradicionalmente independentes, como os sindi-
A Itália fascistatambém pode ser vista como um Estado dual, como catos, os clubes da juventude e as associaçõesde profissionais e produtores.
já vimos anteriormente. Mussolini, entretanto, conferia um poder muito Os nazistas chegaram mesmo a tentar impor um bispo "germano-cristão
maior ao Estadonormativo do que Hitler. '' A propagandafascistacoloca- e sua própria doutrina às igrejas protestantes. " Essesregimes, no entanto,
va o Estado,e não o partido no cerne de suamensagem.Não sabemosao nem sempreconseguiamengolfampor completo a sociedadecivil.
certo por que razão Mussolini subordinou seu partido ao Estado, mas há CaraFriedrich e Zbigniew Brzezinski, os fundadores do "modelo to
diversas explicações possíveis. Ele possuía menos liberdade de ação, menos talitário", cunharam o termo "ilhas de separatismo" para descrever os ele
ímpeto e menossorte que Hitler. O presidenteHindenburg morreu em mentor da sociedadecivil que sobrevivem dentro de uma ditadura totalitá-
agosto de 1934, deixando Hitler sozinho no controle. Mussolini teve que ria.z: Essasilhas de separatismo,como, por exemplo, asparóquiascatólicas
arcar com a presença do reiVítor Emanuel níaté o flm, e foi o rei que aca- -- por menos dispostasque estivessema se opor frontalmente ao regime,
bou por depâ-lo, em julho de 1943. Além disso,Mussolini talvez temessea fora algumas objeções a atos específicos --:2 podiam possuir resiliência or-
rivalidade dos indisciplinados chefetes de seu partido ganizacional e lealdade emocional suficientes para resistir à infiltração do
Mesmo assim, o Estado fascista italiano continha importantes elemen- partido.:: Não temos que aceitar o modelo totalitário em suaíntegra para
tos prerrogativos: suapolícia secreta(a OVRA),
'' suaimprensa controlada, ver utilidade na metáfora dasilhas de separatismo.
seusbaronatos económicos (o iRI,'; por exemplo) e seusfeudos africanos, Hitler e o Partido Nazista gradualmente dominaram todas essasilhas
onde chefespartidários como Italo Bolbo podiam se pavonearà vontade e de separatismo internas ao Estado e à sociedade alemã, num processo que
ter poder de vida ou morte sobre os povos nativos. Em fins da décadade
1930, a participação na guerra fortaleceu o Estadoprerrogativo italiano.í9 20. Dons L. Bergen, 7iwistedCross:The German Cbrfstian Morement in the 7hird Reich.
Chapel Hill: University of North Carolina Press, 1996; para três "teólogos (luteranos)
1 5 . Sobre a utilidade do Estado de emergência para os ditadores, ver Hans Momm- inteligentes, bem intencionados e respeitáveis", cujo nacionalismo os reconciliou com
sen, "Ausnahmezustandals Herrschaftstechnik des 'NS Regimes", em Manfred Funke, o regime,ver Robert P.Ericksen,Theo/ogians
Undertíit/er. New Haven:YaleUniversity
ed. , Hit/e/, DeutscA/and und dle .WãcÀre.Düsseldorf: Droste. 1976. Press, 1985, citação na p. 198.
16. Emilio Gentile, "The Problem of the Party in Italian Fascism",Journa/o#Contem- 2 1 . Carl J . Friedrich e Zbigniew K . Brzezinski , nota/itarian Dicfarorsbip and'4utocracy
poraryHisrory, v. 19,n. 2,p. 251 74,abr. 1984. ' ' 2. ed. NovaYork: Praeger, 1965, cap. 6.
22. Para um vivido exemplo de como os católicos alemães rejeitavam algumas
17. Ainda não se sabe ao certo o que signiHlcavamessasiniciais, se é que elas sigiufi
cavam alguma co:sa. Sobre obras sobre a OVRAe as agências fascistas de repressão, ver o práticas nazistasespecí6lcas,que invadiam o "terreno" pjlroquial, mas sem questionar o
EnsaioBibliográHlco,
p. 381-382. ' ' ' próprio regime,ver JeremyNoakes,"The Oldenburg Crucifix Conflict", em PeterD.
18 . O /stitufo p" /a Ricostruzione /ndustria/e, companhia estatal criada em janeiro de Stachura, TbeSbapingo#the Nazi Skate.Londres: Croom Helm, 1978, p. 210 33.
1933 , para socorrer os bancos e as indústrias à beira da falência. Ver Marco MarafHI. Poã- 23 Martin Broszattomou de empréstimoo termo médicoalemãoResistenz
para
expressar um tipo de impermeabilídade negativa à influência nazista (como no casodas
Bol.-h, n M«li-, 1990 e'd.d.//'imp""p"bZ'/i«
day/i«-l Zr«'' aW/f
--f Cí-q-«.. Igrejas, por exemplo), que não deve ser confundido com o mais ativo Widerstand,
ou
19. Gentile, l.a via ita/fado, p 185: a "aceleração do processo totalitário". Gentile oposiçãopositiva. Paraessadistinção, ver lan Kershaw, The Nazi Dicratorsbíp;Proa/ems
and
nao usa, entretanto, o modelo do "Estado dual" Perspectfves
o#/nterpretation.
Londres: EdwardArnold, 1989, p. 151
204 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 205

os propagandistas do partido chamavam, eufemisticamente, de G/eicÀscÀa/- No processo muito mais lento da consolidação do domínio fascista na
runs: coordenação,ou nivelamento. Um excessode simplificação muito ltália, apenas os sindicatos, os partidos políticos e a mídia .foram forçados a
comum faz com que esseprocesso pareça tanto inevitável quanto unilinear. "entrar na linha" por completo. A Igreja Católica foi a mais importante das
Organizações económicas e sociais solidamente estabelecidasnão podiam ilhas de separatismona ltália fascista e embora, por um breve intervalo,
ser tão facilmente eliminadas, entretanto, mesmo na Alemanha nazista. O em 193 1, o regime tenha-se imiscuído nos movimentos de juventude e nas
G/eicÀscÀa/tuna
poderia envolver negociaçõesde parte a parte, como tam- escolas da Igreja, acabou por perder essabatalha.:7 Os clubes estudantis fas-
bém a força. Alguns grupos e organizações souberam subverter a partir de cistas da Itália, os Gruppi Universitária Fascista(GUF)foram silenciosamente
dentro as instituições nazistas, ou "apropriar-se" delas para seus próprios "dominados" por seus integrantes, que passaram a usá-los para seus pró'
fins.:' Outras, de maneira discreta, masobstinada, continuaram a defender prios fins extrafascistasou mesmoantifascistas,28
como aconteceutambém
uma autonomia parcial, embora aceitando alguns dos objetivos do regime. com a organização recreativa fascista, o Boro/afora. '
Os cidadãos alemães podiam até mesmo tirar partido pessoal do pa- Todasessaspersistentes tensõesinternas aosregimes fascistasopunham
vor despertado pela Gestapo, denunciando à polícia secreta um rival, um entre si os quatro elementos que, conjuntamente, forjaram essasditaduras
credor,um genitor ou até mesmoum cônjugeinsatisfatório.2s
As frater- a partir de sua conflituosa colaboração: o líder fascista, seu partido (cujos
nidades das universidades alemãs são um bom exemplo de sobrevivência. militantes exigiam empregos, prerrogativas, aventurasexpansionistase o
O nazismo era tão atraente aos estudantes que, mesmo antes de 1933, sua cumprimento'de algumas cláusulasde seu programa radical original), a
organização nacional havia sido dominada por ativistas do partido. Espe- máquina estatal (funcionários como os policiais, os comandantes militares,
rar-se-ia, portanto, que, apósjaneiro de 1933, as fraternidades houvessem os magistrados e os governos locais) e, por fim a sociedade civil (os deten-
desaparecido sem protestos no G/eicbscba/tuna.Apesar das tentativas do re- s de poder social, económico, político e cultural, como as associações

gime de transformar os clubes de duelo "reacionáríos" em KameradscÀaÓíen profissionais, os grandes empresários e grandes agricultores, as igrejas e os
(centros sociaise de treinamento) do partido, entretanto, as fraternidades líderes do conservadorismo político) .:' Essa quádrupla tensão conferiu .a

continuaram existindo em caráter não-oficial, em parte porque poderosos essesregimes suacaracterística mistura de atavismo febril e informidade.3'
oficiais nazistaspertencentes às associaçõesda "velha guarda" ou de ex-alu-
nos as defendiam, e em parte porque os alunos tornaram-se cada vez mais ton University Press, 1985, p. 168, 175-86, 201, 228. Abundantes detalhes podem ser
encontrados em Helma Brunck, Die deutscbe BurschenscbaÓí
fn der teimar Repub/i&und fm
apáticos à propaganda do partido.:'
Nationa/sozialismus.
Munique : Universitas, ] 999.
27. Ver mais a respeito no capítulo 5, p. 23 1-232 e capítulo 6, p. 255-257.
24. Alf Lüdtke, em Herrscba#í a/s Jazia/er Praxis, Verõffentlichen des Max-Plancklns- 2 8 . Tracy Koon , Be/ieT'e,Obey,Figa ; Po/inca/ Sacia/ization o/Youtb in Eascis /taJg. Chapel
tituts Mr Geschichte,#91 . Gõttingen:Vandenhoeck
e Ruprecht, 1991,p. 12 4, tirou o Hill: University ofNorth Carolina Press, 1985 , p. 248, apresenta exemplos relativos aos
conceito de "apropriação" de MaxWeber, Marx, E. P Thompson e Pierre Bourdieu. Eu o anos de guerra. Agradeço a Luciano Rebay por suas lembranças pessoais quanto a esse
tirei da minha experiência pessoal, quando, aos treze anos, ajudei meus colegas a subver- Ponto.
ter um bem intencionado acampamento escoteiro de fim de semana,num episódio mais 29.Vercapítulo5,p. 208-209.
parecido com Lord o/'tÀe. Pies. 30. Michael Burleigh e WoKgang Wippermann, The Razia/ Seara.Germana / 9]3-
25 . Obras importantes tratando do incentivo às denúncias pelos regimes fascistas, /945. Cambridge: Cambridge University Press, 1991 , p. 353, nota 1, apresentam, de
bem como da preocupação destes com as denúncias falsas, são citadas no Ensaio Biblio- forma convincente, um estudo de naturezamais antropológica, sobre a maneira como os
gráfico, p. 381-382. regimes fascistasinteragiam com os grupos sociais e profissionais.
26. Geoffrey G. Goles,"The Riseof the NS Students'Association",em PeterD. 3 1. Hannah Arendt, Origina, p. 389-90, 395, 398, 402 . Ela credita "informidade" a
Stachura, ed. , SÀaping,p. 160-85, e Srudenfsand Nationa/ SociaJism.Princeton: Prince- FranzNeumann,Behemotb.
Broszatretomou o termo em Tbefíít/er Skate,
p' 346. Salva-
206 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBElqT O.PAXTON 207

A tensãoera permanente dentro dos regimesfascistasporque nenhum a quem os líderes partidários estavam subordinados.:' O nuca não tinha a
dos grupos concorrentes poderia dispensarpor completo os demais. Os menor intenção de permitir que os ras voltassem a tentar controla-lo.
conservadores hesitavam em se verem livres do líder fascista, por medo de A organização paralela mais bem-sucedida do fascismo italiano não
assim estar permitindo que a esquerda ou os liberais retomassem o poder. :: ameaçavao Estado, mas invadia o terreno da recreação e do lazer, área até
Hitler e Mussolini, por seu lado, precisavamdos recursos económicos e então deixada à livre escolha individual, aos clubes privados ou às paróquias
militares controlados pelos conservadores.Ao mesmo tempo, os ditadores católicas.Na prática, o Boro/adoronem de longe atingiu os objetivos que
não podiam se dar ao luxo de enfraquecer demais seusbarulhentos parti- declarava ter, de construir a nação e criar o "novo homem" (e a "nova mu-
dos, para não minar suaspróprias basesde poder independente.Nenhum lher") fascista.Italianos comuns, que nada queriam além de assistirfilmes
dos contendentespodia destruir os demais de forma direta, por medo de e praticar esportes, acabarampor se apropriar da organizaçãoa partir de
perturbar o equilíbrio de forças que mantinha a coalizãono poder e a es- dentro. O Boro/ai'oro,no entanto, foi a tentativa mais ambiciosado regime
querda alijada dele.;;
fascista de penetrar na sociedade italiana até suas aldeias rurais, para lá
Nessasprolongadas lutas pela supremacia no governo, as organizações competir pela autoridade com o patrão local ou com o padre.'s
paralelas desenvolvidas pelos fascistasdurante o período de enraizamento O Partido Nazistacompetiacom asagênciastradicionaiscom um rol
desempenhavampapéis complexos e ambíguos. Representavam um recur- semelhante de organizações paralelas. O partido possuía sua própria força
so valioso para o líder que pretendia levar vantagem sobre os bastiõescon- paramilitar (a SA),seu próprio tribunal partidário, suaprópria polícia par-
servadores,em vez de ataca-losfrontalmente. Ao mesmo tempo, contudo, tidária e seu próprio movimento da juventude. O departamentode polí-
elas forneciam aos militantes radicais mais ambiciosos uma base de poder tica externa, de início confiado à chefia de Alfred Rosenberg, e mais tarde
autónoma, a partir da qual eles poderiam pâr em cheque a supremacia do entregue à equipe pessoal de Joachim von Ribbentrop (os Ribbentrop de
líder.
Dienstelle), interveio ativamente nas questões relativas às populações es-
Na Itálía, o Partido Fascista,de início, duplicou cadanível da autorida-
trangeiras de língua alemã da Áustria e do Sudetenlandtcheco.36Após a
de pública com uma agênciado partido: o dirigente do partido local flan-
chegada do Partido Nazista ao poder, as organizações paralelas ameaçaram
queava o prefeito nomeado (podestà), o secretario regional do partido (#ede-
usurpar as funções do exército, do ministério dasrelações exteriores e de
rate) flanqueava o chefe de polícia, e assim por diante. Assim que seu poder
outras agências.Num desdobramento à parte, de natureza bastante sinistra,
seviu consolidado, Mussolini declarou : "a revolução terminou" e, de forÍna
a polícia política foi destacadados ministérios do interior dos Estadosale
explícita, converteu o chefe de polícia na "autoridade mais alta do Estado",
mães e centralizada passo a passo, até chegar a ser a notória Gestapo (GeAeí-
meStaatspo/izei),
sobo comandode um nazistafanático, Heinrich Himmler.
tore Lupa, //.#asclsmo:
J.apoJilicain un rqime rota/it(iria. Romã: Donzelli, 2000, aponta o A duplicação dos centros de poder tradicionais pelas organizaçõesparalelas
"furor de moto perpétuo"daItália fascista,citandoArendt (p. 30). do partido foi uma das principais razões da "informidade" já mencionada
32. Essefato talvez explique a curiosa hesitaçãodo rei e dos líderes políticos con- antes e das caóticas linhas de autoridade que caracterizaram o governo fas
servadores e liberais em destituir Mussolini após o assassinatode Matteotti, em junho de
cista e as distinguiram das ditaduras militares e dos governos autoritários.
1924.Ver capítulo 4, p. 183-186.
33. JensPetersenchega aoponto de falar de um sistemaefetivo de "controle mútuo
entre os poderes" na Itália fascista. Kolloquien des Instituts für Zeitgeschichte, Der ita/ie- 34. Circular de 5 de janeiro de 1927, citada em Aquarone, Z.'organizzazíone,
p' 485-8
nfscbeEuscbismus,
p' 25. O sistema nazista era mais dominado por Hitler e pelos ativistas 35. Ver a esclarecedoraobra deVictoria de Grazia, The Cu/fureo#Consent; MassOqa
do partido, mas veja Edward N. Peterson, Tbelímits o#Hit/er'sPane/.Princeton : Princeton nization oÍleisure in Fascist/tala. Cambridge: Cambridge University Press, 1981.
University Press, 1969. 36. Broszat, TheHft/er Skate,p. 218 9
208 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 209

Paracomplicar ainda mais, os regimes fascistaspermitiram que os par- dosconservadores,nuncase viu totalmente livre, até o momento em que a
tidos fossem invadidos por oportunistas, deixando então de ser os clubes guerra se tornou total, em 1942 , da necessidade de aplacar os proprietários
privados de "antigos combatentes". O Parffto Nazfona/e Eascfsta(PNF)italiano dasfábricas de munições, os oficiais do exército, os profissionais especialis-
abriu suasportas em 1933, na tentativa de fascistizara totalidade da po- tase os líderesreligiosos e até mesmo a opinião pública.
pulação.A partir de então, a filiação ao partido passoua ser exigida para o No entanto, os líderes fascistasdesfrutavam de uma espécie de supre
ingresso no serviço público, inclusive nos cargos de magistério. M ussolini macia que não era exatamente semelhante à liderança de outros tipos de
esper;va que a filiação fortalecesse o descompromissado espírito cívico dos regime. O FÜÀrere o nucanão podiam alegar a legitimidade dasurnas ou
italianos, que tanto o aborrecia,37mas, ao que parece, o que aconteceu foi da conquista. Essalegitimidade se baseavano carisma," uma misteriosa co-
o exato oposto. Quando a filiação se viu transformada numa boa jogada municação direta com o Ho/&ou com a razza, que dispensa a mediação de
carreirista, os cínicos passaram a dizer que a sigla PNr significava "per neces- padres ou de chefetes partidários. Esse carisma é semelhante ao "estrelato"
sit(à.#amig/iate".
38A filiação ao Partido Nazistacresceuem 1,6 milhões entre dascelebridades da era da mídia, elevado a uma potência mais alta por sua
janeiro e maio de 1933. Apesar de o alistamento partidário ter então sido capacidadede ditar a guerra e a morte. Baseava-sena reivindicação de um
fechado a fim de preservar sua identidade de elite seleta, muitos oportunis- statusúnico e místico, colocando o líder como a encarnaçãoda vontade
tas receberam permissão para se filiar a ele.39 do povo e o portador do destino dessepovo' Uma pitada de carisma não
Na interminável disputa interna pela preponderância que marcou os é desconhecidaentre os ditadores tradicionais, é claro, e até mesmo al-
regimes fascistas, o líder às vezes conseguia submeter seus aliados á políti- guns líderes democraticamente eleitos, como Churchill, De Gaulle, e os
cas não desejadaspor eles, como Hitler fez em grau significativo. Em ou- dois Rooseveltso possuíam.Stálin, com certeza, tinha carisma,como de
tros casos,asforças conservadorase os burocratas conseguiam manter uma monstrou a histeria pública vista em seu funeral. Mas Stálin compartilhava
boa dosede poder independente, como ocorreu também na Itália fascista seupapel de portador do destino histórico com o Partido Comunista, que
suficiente para convencero ateu Mussolini a dar à Igreja Católica o tra- tornava possível a sucessão, mesmo que as intrigas palacianas e os assassina-
tamento mais favorável que ela havia recebido desde a unificação italiana, tos se multiplicassem antesque o sucessorpudessesurgir. Mas o domínio
para força-lo a sacrificar seus amigos sindicalistas às pretensões do empre fascistadepende do carismade forma mais crua que os demais, o que ajuda
sanado de mais autonomia e privilégios" e, ao final, para removê-lo do po- a explicar por que, até hoje, nenhum regime fascista conseguiu passaro
der em julho de 1943, quando a aproximação dos Aliados os convenceu de poder para um sucessor.4sTantoHitler quanto Mussolini possuíam carisma,
que o fascismo não mais servia aos interesses da Nação.'' Até mesmo Hitler,
por mais fácil que fossepara ele passarpor cima de muitas das preferências 42. O termo foi inventado por MaxWeber, que fazia distinção entre autoridade bu-
rocrática, patriarcal e carismática, sendo as duasprimeiras estáveise baseadasna raciona-
37. Gentile, La via ita/fama, p- 177, 179, 183. lidade econâmíca, em suasdiferentes formas, e a terceira, instável e externa a qualquer
38. Martin Clark, Modem/tafg. /97/-/ 982. Londres: Longman, 1984, p. 237. estrutura formal ou a qualquer racionalidade económica. O carisma dependedo líder ser
39. Broszat,Hit/erSkate,
p. 199 201 visto como dotado de poderes pessoais extraordinários, que têm que ser constantemente
40. A literatura sobre essaquestão polêmica é analisadano Ensaio Bibliográfico, corroborados pelos resultados obtidos por ele. Weber derivou o termo da palavra grega
P. 384-386. para o conceito cristão de graça.Ver FromMaxMeter;Essaysin Socio/cg»trad., ed. e antro.
41. R. J. B. Bosworth, Tbe/[a/ian Dicrarorsbip.Londres: Arnold, 1996, p. 31, 81, de Hans H. Gerth e C. Wright Mills. NovaYork: Oxford University Press, 1946, P. 79-
observaque não há nenhum estudo semelhante ao Z,imfts,de Peterson, que analiseo pro- 80. 235-52. 295-6.
cessode tomada de decisõesna Itália fascistae os limites ao controle total que Mussolini 43. Os oficiais do Partido FascistaItaliano chegaramde fato a discutir asquestões
afirmava ter. constitucionais envolvidas na sucessãodo Z)uce.Eles debatiam, por exemplo, se o título
ROBERTO.PAXTON 211
210 A ANATOMIA DO FASCISMO

embora. no casode Mussolini, o fato de sua vitalidade ter diminuído quan- detentores tradicionais do poder social, económico, político ou cultural.
do chegou à meia idade, e também seu flm vergonhoso, tenha feito com Com basenessarealidade, foi proposta uma interpretação que veio a se tor
que a maioria das pessoasesquecesseo magnetismo que um dia exerceu, nar muito influente, a da governança fascista como uma "poliocracia", ou o
até mesmo fora da Itália.« governo de uma multiplicidade de centros de poder relativamente autóno-
O carismanos ajuda a entender diversas características curiosas da lide- mos. convivendo em meio a intermináveis tensões e rivalidades mútuas.48
rança fascista.A notória indolência de Hitler,'s longe de tornar o nazismo Na poliocracia,o famoso"princípio da liderança"cascateiaao longo da
mais morno, deixou seus subordinados livres para competir quanto a quem pirâmide social e política, criando uma legião de pequenosFiíbrerse nucas,
levaria o regime a uma radicalização cadavez mais extrema. Um líder ca- num Estadohobbesiano de guerra de todos contra todos.
rismático também é imune àscríticas inesperadamentedifundidas contra o Essatentativa de entender o caráter complexo da ditadura fascistae
governo, que não demoraram a surgir tanto naAlemanha quanto na ltália." suainteração com a sociedade,inteiramente válida em si, acarreta riscos
Ao mesmo tempo, a liderança carismática é quebradiça. Promete ao Ho/Ê de dois tipos. Primeiramente, faz com que seja difícil explicar a energia
ou à razza, como uma vez observou Adrian Lyttelton, "uma relação privile demoníaca desencadeadapelo fascismo: por que a "poliocracia" não teve
geadacom a história".47Tendocriado expectativastão altas,um líder fascista o efeito de simplesmenteproduzir um impasse,deixando a todos de mãos
incapaz de produzir os triunfos prometidos arrisca-se a ver sua magica se atadas?Além disso, em suasversõesextremas, ela nos faz perder de vista
dissipar ainda mais rapidamente que um presidente ou um primeiro-minis- a supremaciado líder. Num acaloradodebate que teve lugar na década
tro eleito, de quem se esperamenos. Mussolini, para seu grande desgosto, de 1980. os "intencionalistas" defenderam a centralidade da vontade do
descobriuessaregra em julho de 1943. ditador, enquanto os "estruturalistas" ou "funcionalistas" afirmavam que a
Estudar o exercício fascistado poder, portanto, não é apenasuma ques- vontade do ditador não poderia ser aplicada sem vínculos múltiplos com o
tão de explicitar a vontade do ditador (como os propagandistasafirmavam, Estado e com a sociedade. Ambas as visões eram facilmente caricaturáveis
e os "intencionalistas"irrefletidos parecem acreditar). Esseestudo signifi- e. muitas vezes,foram levadasa extremos. O intencionalismo funcionava
ca examinar as infindáveis tensões entre o líder, seu partido, o Estado, os melhor para a política externa e militar, onde tanto Hitler quanto Musso-
lini desempenharampapéis diretamente ativos. A questão de maior carga
seria transmitido juntamente com o cargo, ou se ele pertencia pessoalmerltea Mussolini. emocional no debate intencionalista-estruturalista foi o Holocausto, onde
Gentile, l,a via ita/lapa, p 1 14-6. Somente Hitler estavaautorizado a mencionar sua pr& a enormidade do resultado parecia exigir a presença de uma igualmente
pria sucessão.
VerZitelmann,SeJbstt'ersr:índnis,
p. 393, 396
44. Sobre os muitos admiradores americanos de Musso]ini, nos anos ] 9 10, ver John
48. O termo foi usado pela primeira vez em 1969, por Broszat, Hit/er Skate,p- 294,
p. Diggins, Musgo/iniand Enscfsm;
Tbemew.»rom
Ámérica.Princeton: Princeton University
e foi desenvolvido por Peter Hüttenberger, "Nationalsozíalistische Polykratie", Geschícbre
Press, 1971. Sobre seus admiradores britânicos, como George Bernard Shaw e o ex-
undGeseJJscb.!/},
v. 2, n. 4, p. 417-72, 1976. Ver ainda Hans Mommsen em muitas obras,
primeiro-ministro David Lloyd George e muitos outros europeus, ver Renzo de Felice,
/russo/ini i/ Dure, v. 1: G/í anui de/ consenso,/ 929-1 936. Turim: Einaudi, 1974, p. 541 87 entre elas FromWefmarto .4uscbwitz.Cambridge: Cambridge University Press, 1991 ; e

45. Ver capítulo 5, p. 213-216. Gerhard Hírschfeld e Lothar Kettenacker, eds., Der Fübrersfaat:Mlpbos und Rea/ifãt. Stutt-
46. Os melhores estudossobre a opinião pública na Alemanhanazistae na Itália gart; Klett-Cotta, 1981. Paracomparaçõesinteressantes,ver Philippe Burrin, "Politique
fascista são discutidos no Ensaio Bibliogránlco, p. 388 391 . Joseph Nyomarkay, CAarisma et société: Les structures du pouvoír dans I'ltalie fascíste et I'Allemagne nazie", .4nna/es;
Economias, socférés,vivi/isafions, v. 43 , p. 6 15-37, 1 988 . Sobre a aplicabilidade desse concei-
andFuctfona/ism
in fbe Nazi Parly.Minneapolis: University of Minnesota Press, 1967, ar-
to à Itália fascista, o debate em Kolloquien des Instituts für Zeitgeschichte, Der itaJieniscbe
gumentava que o governo carismático impedia que as facções do partido se reunissem
numa verdadeira oposição. Fuscbísmus,
é esclarecedor, especialmente os comentários de Jens Petersen e Wolfgang
Schieder.
47. Kolloquien des Instituts für Zeitgeschichte, Der ita/ienlscbe FascÀismus,
p' 59.
212 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBEltTO.PAXTON 213

enorme vontade criminosa. Examinarem


mais de perto essaquestãono pró- dinâmica fascista, são sustentáveis.Na década de 1990, os trabalhos mais
ximo capítulo. convincentespropuseram explicaçõesde mão dupla, que davama devida
Um dos grandes problemas para os intencionalistas era o estilo pessoal importância à competição existente entre os integrantes do nível médio
do governo de Hitler. Enquanto Mussolini mourejava por longas horas do governo, para saber quem se antecipada aos desejos mais íntimos do
em sua mesade trabalho, Hitler continuava a se permitir o diletantismo líder e "trabalharia" para leva-los adiante, e também ao indispensável papel
indolentee boêmio de seustemposde estudantede arte. Quandoseus desempenhado pelo líder no estabelecimento de metas, na remoção das
auxiliarestentavamatrair sua atençãopara assuntosurgentes,Hitler limitações e na recompensa aos correligionários mais zelosos.s'
freqüentemente mostrava-se inacessível. Passavamuito tempo em seu
refúgio na Bavária e, mesmo quando em Berlim, negligenciada questões da A nlIEDA-DE-BR ACO ENTRE OS FASCISTAS
E OS CONSERVADORES
maior urgência. Submetia seus convidados a jantares com monólogos que
iam até a meia-noite, acordava ao meio-dia e dedicava suastardes a paixões
pessoais,como fazer,com seujovem protegido Albert Speer,planos para a Quando Adolf Hitler tornou-se Chanceler da Alemanha, em 30 de ja
reconstrução de suacidade natal de Linz e do centro de Berlim num estilo negro de 1933, seus aliados conservadores, encabeçados pelo vice-chan-
monumental compatível com o Reich de Mil Anos. Após fevereiro de 1938, celer Franz von Papen,juntamente com os líderes conservadorese nacio-
o gabinete deixou de se reunir. Alguns ministros jamais conseguiamver o nalistas que apoiavam o "experimento Hitler", esperavam manobrar sem
Fübrer. Hans Mommsen chegou ao ponto de chamar a Hitler de um "ditador grandes dificuldades o chefe de governo novato. Conf\avam que seusdiplo-
fraco". Mommsen nunca teve a intenção de negar a natureza ilimitada do mas universitários, sua experiência em questões públicas e seu refinamento
mal definido e aleatório exercício do poder de Hitler, masobservou que o mundano lhesconfeririam uma fácil superioridade sobre os toscosnazistas.
regime nazista não era organizado segundo princípios racionais de e6ciência O chanceler Hitler fascinada as massas,pensavam eles, enquanto o vice
burocrática, e que suasurpreendente explosão de energia assassinanão foi chancelerVon Papen governaria o Estado.
produzida pela diligência de Hitler.'9 No capítulo 6, levarei adiante o exame Os aliadosconservadoresnão eram os únicos a pensar que o nazismo
do mistério da radicalização fascista. não passavade fogo de palha. A Internacional Comunista tinha certeza de
Nem uma versão extrema da visão intencionalista, de um líder todo que a guinadapara a direita dada pela Alemanha, sob Hitler, acabariapor
poderoso governando por si s6, nem uma versão extrema da visão estou produzir uma contrária em direção à esquerda, assim que os trabalhadores
turalista, de que as iniciativas vindas de baixo são o motor principal da alemães entendessem que a democracia era uma ilusão e abandonassem os
social-democratas reformistas. "A calmaria que se seguiu à vitória do fascis-
mo é apenas temporária. Inevitavelmente, e apesar do terrorismo fascista, a
49. Hans Mommsen foi quem usou pela primeira vez o termo "ditador 6'aco", em
maré revolucionária voltará a crescer na Alemanha (. . .) O estabelecimento
BeamtenEum
im Dritten Relcb.Stuttgart: DeutscheVerlagsAnstalt, 1966, p. 98, nota 26.
Em muitos escritos posteriores sobre o sistema nazista de governo (Herrscba#tsyscem),
explícito de uma ditadura fascista,que vem destruindo todasas ilusõesde
Mommsen deixa claro que consideraque Hitler possuíapoder "ilimitado", a um grau
mocrátícas dasmassase libertando-as da influência dos social-democratas,
raro na história", lhas que o exercia de uma maneira caótica, que privava a Alemanha irá acelerar o progresso da Alemanha em direção à revolução proletária".s'
nazista das principais características de um Estado, ou seja, a liberdade de avaliar as op
ções e escolher entre elas de forma racional. Ver, por exemplo, Mommsen em "Hitler's
50. ]an Kershaw, Hlt/er /889-]93ó: Hubris. Nova York: Norton, 1999, cap. 13,
Position in the teimar System", Fromteimar [oduscbwirz. Princeton: Princeton Universo
'WorkingTowardthe Fuhrer",p. 527-91.
ty Press, 199 1 , p. 67, 75 . Para a progressiva "Entstaat/ícbung" (perda de "estatalidade") do
5 1. Rundscbau,a publicação de língua alemã da Internacional Comunista, em 11 de
sistema nazista, ver Mommsen, "Nationalsozialismus als vorgetãuschte Modernisierung"
abril de 1933, citada em Julius Braunthal, Hfstory oÍ [Àe /nternafiona/, / 9/4-/ 943. Nova
em Lutz Niethammer e Bernd Weisbrod, eds. , Der Nationa/soziaJismus und dfe deuEscbe
Ge
York: Praeger, 1967, v. 11, p. 394.
se//scÀa#t:dusgewàb/tedt!#sarze.
Reinbeck bei Hamburg: Rowohlt, 1991 , p. 409 .
214 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBE]RT O.PAXTON 215

Contrariando as expectativas tanto da direita quanto da esquerda, Hi atacou abertamente a arbitrariedade nazista, hum discurso proferido na
tler não tardou a firmar uma autoridadepessoaltotal. O primeiro período Universidadede Marburg, em 17 dejunho de 1934, o texto circulou rapi-
do governo nazistaassistiu ao G/eicÀscba/tuna,
a tentativa de colocar na linha damentepor todo o país.Hitler mandou prender o autor dos discursosde
não apenasos inimigos potenciais, mas também os colegas conservadores. Von Papen, Edgar Jung, proibiu a publicação do discurso e mandou fechar
As chavespara o sucessode Hitler foram a superioridade de suaaudácia, o gabinete do vice-chanceler. Jung e outras pessoas intimamente associadas
de seu ímpeto e de suaagilidade tática, suahábil manipulação (como vimos a Von Papenestavamentre os assassinados na "Noite das FacasLongas",
no capítulo anterior) da ideia de que a iminência do "terror" comunista jus- que veio a ocorrer duassemanasmais tarde, em 30 de junho de 1934. Os
tificava a suspensãodo devido processo legal e do estado de direito, e sua cautelosose os ambiciososrodearam as poças de sanguee continuaram a
disposição a cometer assassinatos. tratar de suasvidas.s' O próprio Von Papenpartiu docilmente em julho,
O domínio de Hitler sobre seus aliados conservadores já estava clara para assumir o cargo relativamente modesto de embaixador na Áustria. O
mente estabelecido em inícios do verão de 1933. Em 14 de julho, quando jogo conservador chegou ao fim quando o presidente Hindenburg morreu,
o Estadode partido único ficou estabelecidoem lei, "uma luta aberta e 'le- em 2 de agosto.
gal' contra a supremaciado nacional-socialismodeixou de ser possível".s: As manobrasdefensivasdos conservadoresvoltaram a ocorrer em
A partir de então, a luta dos conservadoresse converteu numa açãode 1938, quando alguns deles discordaram do ritmo e dos riscos da cada vez
retaguardaem defesada autonomia dos núcleos de poder que ainda lhes mais agressivapolítica externa de Hitler. Esseconflito terminou em feve-
restavam contra a intromissão das organizações paralelas do Partido Nazis reiro de 1938, com a exoneração, em circunstâncias humilhantes, dos che-
ta. Isso significava defender o exército contra a SA,os governos estaduais fes do Comando Geral e do Comando do Exército, os generais Blomberg e
(Z'and)contra os líderes regionais do partido (Gau/Citar),o serviço público Fritsch, falsamenteacusadosde comportamento sexualimpróprio. O ex-
e as associaçõesprofissionais contra os militantes inexperientes, as igrejas cabo assumiu pessoalmente o alto comando militar (Ober&ommando
derWebr-
contra as tentativas nazistasde criar uma "Cristandade Germânica", e os macÀt, OKW) e passou a exigir um juramento pessoal de seus generais, como
interesses empresariais contra a ação da ss. o &aiser6lzeraantes dele. Alguns oficiais de alta patente quiseram resistir
A principal esperança dos conservadores de manter Hitler sob controle à perda de autonomia do exército, mas eles não agiriam sem o apoio dos
era o presidente Hindenburg e o vice-chancelerVon Papen.S3A idade avan- altos comandantes.55 A subordinação do exército a Hitler foi ainda maior
çada e a saúde delicada de Hindenburg o fragilizavam e faltava aVon Papers a do que fora ao Êafser.
energia pessoal e também a equipe administrativa independente necessária Simultaneamente, o Ministério das Relações Exteriores foi colocado
para bloquear a penetração nazista nasagênciasestatais,principalmente de- sob o controle do partido. O diplomata de carreira Konstantin von Neurath
pois de ele ter sido substituído por Goering como ministro-presidente da
Prússia,o maior Estadoalemão,em 7 de abril de 1933. QuandoVon Papen
54. Albert Speer,logo no início de suabrilhante carreira como o arquiteto de Hi
tler, tendo sido encarregadode converter o gabinete do vice-chancelerna sededo SA,
52 . Karl Dietrich Bracher,Wolfgang Sauer e Gerhard Schulz, Die nationa/cozia/isticÀe recordou se de ter que desviar o olhar de uma grande poça de sanguecoagulado no chão
,Macbfe/gre!$ung.
Colónia; Opladen: WestdeutcherVerlag, 1960, p. 2 19 do gabinetede Herbert von Bose, assistentede Von Papen.Speer,/nsidetbe 7bird Reicb.
53. Uma excelente introdução sobre as complexas atitudes dos conservadorescom Trad. do alemão por Richard e ClaraWinston. NovaYork: Macmillan, 1970, p. 53.
relaçãoa Hitler, e sobresuaincapacidadede o controlar, é JeremyNoakes,"German 55. Uma análise recente dessacomplexa questão é Gerd p. Ueberschãr, "General
Conservatives and theThird Reich: An Ambiguous Relationship", em Martin Blinkhorn, Halder and the Resistanceto Hitler in the German High Command, 1938-1940", Euro-
ed. , Fascista
and Conserraflves.
Londres: Allen and Unwin, 1990, p. 71-97 pearl History (2yarfer/g, v. 1 8, n. 3, p. 32 1-41 , jul. 1988.
216 AANATOMIA DO FASCISMO ROBElqTO.PAXTON 217

afastadodo cargo de ministro das RelaçõesExteriores em 5 de fevereiro de Como o regime de Mussolini não conseguiu desenvolver a força alcan
1938, e os diplomatas alemães foram submetidos à humilhação de ver sua çadapelo de Hitler, ele muitas vezesé visto como menos que totalitário.s'
altiva corporação passar a ser controlada pelo líder da organização paralela No entanto, os mesmos elementos disputavamo poder na Itália fascistae
do partido, Joachimvon Ribbentrop, um homem cqa principal experiên na Alemanha nazista:o líder, o partido, a burocracia estatal e a sociedade
cia internacional, antes de 1933, havia sido a de vender champanheale- civil. O quediferiu foi o resultado,umavez que o poder foi distribuído
mã falsificada na Grã-Bretanha. Sob o comando de Ribbentrop, os postos entre esseselementosde forma bastantediferente. Não confiando nos mi
diplomáticos no exterior passarama ser preenchidos principalmente por litantes do partido, Mussolini trabalhavapara subordina-lo.sa um Estado
antigos integrantes da SA.s' todo-poderoso. Ao mesmo tempo, era forçado peias circunstâncias a di-
A partir da derrota do nazismo em 1945, os conservadores alemães vidir o poder máximo com o rei, e a aplacar a Igreja Católica, muito mais
tentaram exagerar sua oposição a Hitler e a hostilidade deste em relação a forte na Itália. Os militantes do partido revidaram com acusaçõesde que o
eles próprios. Como já vimos, entre os nazistas e os conservadores havia auge estaria permitindo que os aliados conservadores (/iancÀqgfatori, lite
discordâncias autênticas, pontuadas por claras derrotas dos conservado- ralmente, flanqueadores)diluíssemo movimento.s*
res. Em cada momento decisivo, entretanto a cada recrudescimento da C) resultado final, na Itália, foi o que alguns chamaram de "uma ver
repressão antijudaica, a cada novo corte nas liberdades civis, a cada nova sãomais dura da Itália liberal".s9 Essavisão subestima tanto as inovações
infração das normas legais, a cada aumento da agressividadeda política introduzidas pelo partido na organização do Estado e na propaganda, em
externa, e a cada avanço da subordinação da economia às necessidades da especial em suasrelações com a juventude e a capacidade de Mussolini para
autarquiae de um rearmamento apressado a maioria dos conservadores atouarbitrários, demonstradaprincipalmente durante a Guerra da Etiópia,
alemães (com algumas honrosas exceções) engoliram suasdúvidas a respei- como também o grau de tensão existente entre o auge, o partido e as elites
to dos nazistasem favor da supremaciade seusinteressesem comum. conservadoras,na versão italiana do Estado dual.
Os conservadores conseguiram colocar obstáculos a uma única política
nazista: a eutanásia das pessoas ditas inúteis, questão que discutirem mais A QUEDA-DE-BRAÇO ENTRE O LÍDER E O PARTIDO
amplamente no próximo capítulo. No mais, embora asinstituições e orga-
nizações conservadoras tentassem salvaguardar sua classe e seus interesses Na propagandafascista, e também na imagem que a maioria daspesso
as fàz dos regimes fascistas, o líder e o partido fundem-se numa manifesta-
pessoais, elas raramente desafiavam o regime em si. Alguns conservadores,
como os que se reuniam em torno de Helmut von Moltke em suaproprie- ção única da vontade nacional. Na realidade, existe também entre eles uma
tensão permanente. O líder fascista, ao tentar firmar as alianças necessárias
dade campestre em Kreisau, opunham-seao regime por razõesmorais e
intelectuais, e pensavamsobre a forma que uma novaAlemanha tomaria para chegar ao poder, inevitavelmente negligencia algumas de suaspromes-
depois da guerra. Mais perto do final, quando eles finalmente entenderam
que Hitler estavalevando a Alemanha à aniquilação, alguns oficiais de alta 57. Arendt, por exemplo (ver capítulo 8, nota 34). Emilio Gentile, pelo contrário,
insiste,emla viaira/lamaa/ totalitarismo,
p. 67, 136, 180, 254, que o regimefascistaas
patente e funcionários do primeiro escalãoda administraçãopública che
pirava à construção de um Estado completamente totalitário, embora até ele reconheça
garamperto de formar uma resistênciaefetiva ao regime nazista,e quase
que, na prática, essetotalitarismo foi sempre"incompleto". O totalitarismo é discutido
conseguiram assassinarHitler em 20 de julho de 1944. no capítulo 8.
58. Adrian Lyttelton, Sefzure,p 127, 273
56. Norman Rich, Hit/er'sWardims, v. 11:The Esfablisbmento#tbeNen' Ordem,
NovaYork: 59. "Radicais" citados por Clark, Modem /raJy,p 259. Clark considera preciso esse
juízo, com relação àsinstituições políticas de cúpula, mas a6rma que muitas outras coisas
Norton, 1974, p. 60, 278. Com essasindicações, Ribbentrop defendia seu império tanto
na Itália fascista eram novas
contra o corpo diplomático quanto contra os agentesde seu arqui-rival, Himmler.
218 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBElIT O.PAXTON 219

sasdas primeiras campanhas, desapontando assim alguns de seus seguidores O problema para os regimes fascistas problema que os ditadores tradi-
originais. cionais nunca tiveram que enfrentar era como manter a energia do partido
Mussolini teve que enfrentar tanto os partisansdo squadrismo radical, em ponto de fervura sem perturbar a ordem pública nem incomodar seus
como Farinacci, quanto os entusiastasdo "sindicalismo integral", como Ed- aliados conservadores. A maioria dos radicais do Partido Nazista foi impe
mondo Rossoni. Embora Hitler sempre tenha exercido um controle maior dida de causartranstornos ao regime pelo controle exercido pessoalmente
sobre seu partido que Mussolini, até mesmo ele viu se, muitas vezes. con- por Hitler, pelos triunfos internos e externos do regime e, mais tarde, pela
frontado por dissensões,até que acabou por afoga-lasem sangue,em junho válvula de escapeda guerra e da matança de judeus. A ocupação da Europa
de 1934. Antes de chegar ao poder, os partidários de um autêntico "soda Ocidental forneceu oportunidadesgratificantes de espoliação.':Na frente
lismo germânico", uma "terceira via" intermediária entre o capitalismo e o oriental, as coisasforam muito mais longe: lá, o partido aplicou com sanha
marxismo, que já encontramos antes,õ' criaram para Hitler situações cons- assassinaa política de ocupação, como veremos no próximo capítulo.
trangedoras junto aos empresários que ele desejava cortejar. Havia também Mussolini também dominava seupartido, embora enfrentando desa6los
os que se impacientavam com suaestratégia de tudo ou nada, como Walter muito mais abertos e prolongados. Os líderes do Partido Fascista,especial-
Stennese Gregor Strasser.Como já vimos, Hitler não hesitou em expulsá- mente os ras locais, cujas façanhasda época do squadrismolhes haviam con-
los do partido.''
ferido um certo poder autónomo, freqüentementeexpressavam
seu des-
Nos primeiros diasdo governo de Hitler, surgiu um conflito quanto à contentamento por ele. Essastensões tinham duas fontes: uma de natureza
"segunda revolução", uma nova onda de mudanças radicais que eni:regada funcional, no sentido de que as responsabilidadesde Mussolini como líder
aos"velhos lutadores" o espólio dos cargos e das posições de comando. Na partidário eram diferentes das dos raslocais e, portanto, via as coisasde
primavera de 1933, os militantes do partido celebraram sua chegadaao outra forma; e outra de naturezapessoal,no sentido de que Mussolini era
poder dando prosseguimentoa suasaçõesde rua contra a esquerda,con- mais inclinado a "normalizar" as relações com os conservadores tradicio-
tra a burguesiamoderada e contra os judeus. O boicote às firmas de pro- nais que alguns de seuscoléricos seguidores. Como já vimos, o movimento
priedade de judeus, organizado pela militante Liga Combatente da Classe e seu líder se desentenderam em 1921 com respeito à transformação do
Média Comercial, na primavera de 1933, foi apenasum dos exemplos mais movimento em partido e, em agostodaquele mesmo ano, os rasforçaram
gritantes da "revolução de baixo para cima". Hitler, entretanto, precisavade Mussolini a desistir de sua intenção de entrar num pacto de pacificação
calma e de ordem, e não de desa6osao monopólio estatal da violência-# os com os socialistas.
líderesdo partido, no verão de 1933, anunciaram"o fim da revolução" Após a subida ao poder, essasdivergências tornaram-se ainda mais agu-
A aspiração de uma "revolução" permanente ainda existia dentro da SA. das.Os militantes do partido sentiram-sefrustrados com os dois primeiros
contudo, despertando preocupação na comunidade empresarial. O desejo anosdo governo de Mussolini( 1922- 1924), que foram dominados por uma
da SAde se tornar a força armada do novo regime causouprofunda apreen-
sãono alto comando do exército. Hitler resolveu essasquestõesde maneira 62 . O confisco de obras de arte nos territórios conquistados, tanto para os líderes
muito mais brutal e conclusiva que Mussolini, na "Noite das FacasLongas" nazistas, pessoalmente, como para os museus nacionais alemães, deu ao profeta místico
Essalição não passouem branco para outros potenciaisoponentes. e subempregado Alfted Rosenberg uma ocupação, após 1939. As rivalidades e as dispu
tas por cargosque ocorriam em torno de Rosenbergforam um exemplo importante
para o desenvolvimento da interpretação "policrática" do governo nazista.Ver Reinhard
60. Ver capítulo 3, p. 1 17- 1 19.
Bo\lmus , DasAmt Rosenberg
und reineGegner:Zum Machtkamd'im nationalsozialistichenHerrs-
61.Ver capítulo 3, p. 121-123, e capítulo 4, p. 172-173.
cha#tssWstem.
Stuttgart: DeutscheVerlags-Anstalt,1979
220 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBElqT O.PAXTON 221

coalizão moderada. Vimos no capítulo 4 como, em dezembro de 1924, os De modo geral, os regimes fascistae nazistanão tiveram grandespro-
militantes do partido incítaram-no a pâr flm a seusseismesesde indecisão blemasem estabelecercontrole sobre o serviço público. Em grande medi-
após o assassinatode Matteotti e escolher a saída agressiva, estabelecendo da, protegeram o território dos servidores públicos da intrusão do partido,
o governo de partido único.ÓS deixando intacta suaidentidade profissional. Os servidores públicos, em
Necessitandode um forte apoio de seupartido ao instaurar suanova geral, nutriam grande simpatia pela inclinação dessesregimes à autoridade
ditadura, Mussolini, em fevereiro de 1925, nomeou o mais intransigente e à ordem, como também por sua oposição ao parlamento e à e.squerda,
dospartidários do squadrfsmoviolento, Roberto Farinacci,rasde Cremona, e tinham grande liberdade de açãoperante as restrições legais.'sAs vezes,
como secretário do Partido Fascista.A nomeação de Farinacci parecia sina- eliminar judeus ajudava a ascensão na carreira.
lizar uma escaladada violência voltada contra os adversários,da intromis A polícia era a principal agência,é claro. A polícia alemãnão tardou a
sãodo partido no serviço público e da adoção de políticas radicais nasáreas ser retirada da esfera do Estado normativo e trazida para a área de influên
social, económica e de política externa.« Farinacci, contudo, foi demita cia do Partido Nazista, pela via da ss.Himmler, que contava com o apoio
do apenasum ano depois. Novas erupções de violência, como oito outros de Hitler em suasdisputas com rivais e com o Ministério do Interior, que
assassinatosocorridos em Florença, em outubro de 1925, "na frente dos tradicionalmente controlavaa polícia, foi promovido, em abril de 1933, de
turistas", foram vistos como intoleráveis e, além disso,veio a público que comandante político da polícia da Bavária (onde instalou o primeiro campo
a tese de Direito apresentadapor Farinacci havia sido plagiada. O partido, de concentração,em Dachau) a chefe de todo o sistemapolicial alemão,
daí em diante, teve uma série de secretários mais maleáveis, que, embora em junho de 1936.ó'
tendo ampliado seutamanho e alcance,tornaram-no inquestionavelmente Esseprocesso foi facilitado pela hostilidade que muitos policiais ale-
subordinado ao l)uce e à burocracia estatal. No próximo capítulo, voltarei mães sentiam pela República de Weimar, com sua"indulgência com os cri-
a tratar da perene tensãoentre os instintos normalizadoresde Mussolini e minosos",ó' e pelos esforços do regime em melhorar a imagem da polícia
seus periódicos episódios de radicalização. aos olhos da população. Em 1937, a celebração anual do "Dia da Polícia" foi
prolongada de um dia para sete.ó: De início, a SArecebeu a delegação como
A QUEDA-DE-BRAÇO ENTRE O PARTIDO E O ESTADO uma polícia auxiliar na Prússia, mas essaprática foi interrompida em 2 de
agostode 1933,'9e a polícia não veio a sofrer novasameaçasde ser diluída
Tanto Hitler como Mussolini tinham que fazer a máquina da Estado pelos militantes do partido. E]a desfrutavade um papel privilegiado, estan
trabalhar para eles, fosse por persuasão fosse pela força. Os militantes do do acima de qualquer lei e atuandocomo o árbitro máximo de suaprópria
partido desejavampâr de lado os burocratas de carreira e tomar para si espécie de "j ustiça policial" ilimitada.
todos os cargos. Os líderes quasenunca cederam a essareivindicação.Já
vimos como Hitler sacrificou a SAem favor do exército, em junho de 1934. 65.Ver o Ensaio Bibliográfico, p. 282-283
66. Hans Buchheim, "The SS 'lnstrument of Domination", em Helmut Krausnick,
De forma semelhante, Mussolini evitou que a Mi/aziainvadissea esferapro-
Hans Buchheim. Martin Broszat e Hans Adolf Jacobsen, eds., 4natomy o# rbe SS Skate.
fissional do exército italiano, exceto com relação ao serviço nas colónias.
Trad. do alemão por Richard Barry, Marian Jackson e Dorothy Long. NovaYork: Wãlker,
1968, p. 127 301, estudo do sistemapolicial nazista preparado para o julgamento de um
63.Ver capítulo 4, p. 185 186. grupo de guardasdo campo de extermínio de Auschwitz, em 1963, que cont:inuasendo
64. Emi]io Genti]e, ]e origina de]/'idem/oyialnscista (/9/8-/925). 2. ed. Bolinha: o relato mais respeitado.
11Mulino, 1996, p. 335-48 ("Farinacci e I'estremismo intransigente"). Em inglês, ver 67. Gellately, BacêingHft/er, p. 34-6, 87-9, 258.
Harry Fornari, Massa/ini'sGad8y: coberto Farinacci. Nashville, TN: Vanderbilt University 68.Ibid., P.43.
69.Ibid., P. 31.
222 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 223

Enquanto a polícia alemã era comandada de forma mais direta pelos ponente de saúdepública que agradavaa muitos profissionais de medicina.
dirigentes do Partido Nazista do que qualquer outra agênciaestatal tradi- Por longo tempo, os cruéis experimentos praticados em prisioneiros pelo
cional, a polícia italiana ainda era encabeçadapor um ftlncionário público, Dr. Josef Mengele passaramuma impressão distorcida da medicina nazista.
e seu comportamento não era menos profissional ou partidário que nos Não era mero sadismo,embora tenha causadomuito soh-imento. Ela se de

governo anteriores. Essafoi uma das diferençasmais profundas entre os dicou a amplas pesquisas sobre saúde pública básica. Os cientistas alemães,
regimes nazista e fascista. O chefe da polícia italiana durante a maior parte por exemplo,foram osprimeiros a associarde forma conclusivao fumo e
do período fascistafoi o funcionário público civil Arturo Bocchini. Havia o amianto com o câncer.7s
Aperfeiçoar a raçasignificavatambém incentivar
também uma polícia política, a OVRA,maso número de inimigos políticos famílias numerosas, e os regimes fascistasf'oram particularmente laborio-
executados pelo regime foi relativamente pequeno. sos no desenvolvimento de uma ciência demográfica a serviço da pr6-na
Um outro instrumento de importância central para ao exercício do talidade. Veremos, no próximo capítulo, como, na Alemanha pressionada
poder era o judiciário. Embora, em 1933, pouquíssimosjuízes fossem pela guerra, o aperfeiçoamentoda raça acaboupor levar à esterilização
membros do Partido Nazista,70a magistratura alemã era esmagadoramente de pessoascom problemas congênitos de saúdee à eliminação das"bocas
conservadora.Ao longo da décadade 1920, elajá haviaestabelecidopara inúteis" os doentes mentais e incuráveis e daí ao genocídio étnico. Os
si um sólido histórico de penas mais duras para os comunistas que para os administradores nazistasse orgulhavam do cuidado cientí6co e burocrático
nazistas.Em troca de uma invasãorelativamentelimitada em sua esfera com que essasquestõeseram tratadas, de forma tão diferente dos desorde
nados pogromsdos eslavos, e recompensavam os médicos e os profissionais
profissional, os juízes não hesitaram em fundir suasassociaçõesa uma orga
de saúdepública com vastaautoridade sobre essesprogramas. Foram mui-
nização nazistae aceitaram entusiasticamente o poderoso papel conferido ã
tos os que participaram voluntariamente da "matança medicalizada".74
eles pelo novo regime.7' O judiciário italiano sofreu poucas alterações, uma
Um "número espantoso" de profissionais de assistênciaà infância, can
vez que a interferência política já era a norma sob a monarquia liberal. Os
fados dasquerelas ideológicas que, nos tempos da República de Weimar,
juízes italianos, de modo geral, simpatizavam com o regime fascista devido
opunham as agênciaspúblicas àsprivadas e as religiosas às laicas, chegando
a seu compromisso com a ordem pública e a grandeza nacional.72
a praticamente paralisar toda a área,já tendiam, após toda essaexperimen
Os profissionais de Medicina, que embora não fizessem parte do Esta-
tação, retornar à autoridade parental e à disciplina, e saudaram o nazismo,
do em sentido estrito, eram de importância essencialpara o bom funciona-
em ] 933, como um novo começo."
mento do sistema,cooperaram com o regime nazistacom surpreendente
boa vontade. A intenção nazista de aperfeiçoar a pureza biológica da "raça"
73. Robert N. Proctor, Tbe Nazi Waron Cancer.Princeton: Princeton University
(a cultura italiana era bem diferente neste particular) continha um com Press, 1999, mostra que a campanhaantitabaco dos nazistastinha suasfontes tanto em
pesquisasmédicas de alto nível conduzidas na Alemanha quanto na hipocondria pessoal
70. Apenasum entre os 122 juízes pertencentesaos diversostribullais da Corte de Hitler, e em suasexcentricidades alimentares (vegetariarlo, ele chamavacaldo de car
Suprema da Alemanha era social-democrata, e apenasdois eram membros do Partido ne de "chá de cadáver").
Nazista. A maior parte deles era nacionalista e conservadora. Ingo Müller, Hir/er's /usrice: 74. A expressão "assassinatomedícalizado" está em Robert Jay Lifton, Tbe Nazi Doc-
The Couroso#rhe7'hird Refch.Trad. Deborah Lucas Schneider. Cambridge, MA: Harvard [ors: Medica/ Ki//ing and rbe PsWcbo/cg)/
ofGenocide. NovaYork : Basic Books, 1986 , p. 14. Ver,
University Press, 1991, p. 37. também, Michael Kater, DocforsUnderHft/er. Chapel Hijl : University of North Carolina
7 1 . Lothar Gruchmann,./ustiz im Dritren Refcb:.4npassung und UnterwelÓung in der Hra Press.1989.
Gifrrner.2. ed. Munique; Oldenbourg, 1990. 75 . Edward Rosé Dickinson, 7be Po/itics q/'German Chf/dWelÉnre.#romtAe Empire [o tbe
72. Guido Neppi Modona, "La magistratura e il fascismo", em Guido Quazza, ed., cedera/Repub/fc.Cambridge, MA: Harvard University Press, 1996, p. 204-20, citação na
Fascismoe sociefà fta/fada.Turim: Einaudi, 1 973, p. 125 81 . P. 211
224 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBElqT O. PAXTON 225

O conflito partido-Estado foi a áreade tensão mais fácil e definitiva- O padrão de violência do fascismo italiano foi o oposto do padrão nazis
mente resolvida pelos governos fascistas.O Estado nazista, em particular, ta. Mussolini derramou mais sanguepara chegar ao poder do que Hitler,';
fluncionou vigorosamente até os últimos dias, numa consciente e deter mas sua ditadura, depois de então, foi relativamente branda. A principal
minada rejeição de qualquer indício do colapsoda autoridade pública que forma de punição aplicada aos dissidentes políticos era o envio forçado para
haviaocorrido em 19 18. aldeias remotas nasregiões montanhosasdo sul.'P Cerca de dez mil adver
sários sérios do regime foram presos em campos ou em ilhas costeiras. En
ACOMODAÇÃO, ENTUSIASMO E TERROR tre 1926 e 1940, o regime sentenciou à morte apenasnove opositores.8'
Mastemos que evitar a crençacomum de que a ditadura de Mussolini
O modelo do Estadodual é incompleto também numa outra dimen foi mais cómica do que trágica. Sua ordem de mandar matar na França, em
são: deixa de fora a opinião pública. Não basta estudar as maneiras pelas 1937, os irmãos Roselli, os eloqüentes líderes do principal movimento de
quais um regime fascista exercia autoridade de cima para baixo; temos que resistência democrática, o Giustizia e Liberta, e também o notório assassinato
examinar também como ele interagia com seu público. Seria verdade que do deputadosocialistaGiacomo Matteotti, em junho de 1924, mancharam
a maioria da população apoiava de forma consensual,e até entusiástica, de sangue,e de forma indelével, o seu regime. A justiça fascista,embora
os regimes fascistas,ou ela foi obrigada a se submeter pela força e pelo menos malévola que a nazistaem muitas ordens de magnitude, proclamou,
terror? O modelo do terror vem prevalecendo,em parte porque serve de de forma não menos ousada, a "subordinação dos interessesindividuais aos
álibi aos povos em questão. Mas estudos recentes tendem a mostrar que jinteressesl coletivos",': e não devemos esquecer a espetacular crueldade
o terror era seletivo e que o consenso era alto, tanto na Alemanha nazista das conquistas coloniais italianas. 82
quanto na Itália fascista.
Nenhum dessesregimes era concebível sem o terror. A violência nazista 78. Ver capítulo 4, nota 16.
79. O relato clássico dessa experiência é Carão Levi, Cbrist Stoppedat Ebo/i. Nova
era onipresente e tornou se a]tamente visível após 1933. Os campos de York: Farrar. Straus.1963.
concentração não eram segredo, e as execuções de dissidentes eram para 80. Entre 1926 e 1943, o b/ibuna/eSpecia/e
per /a D!lesaDeJ/oStalo investigou21
ser conhecidas por todos.76A divulgação da violência nazista, contudo, mil casose condenou cerca de 10 mil pessoasa algum tipo de sentença de prisão (Jens
não significa que o apoio ao regime ocorresse sob coação. Uma vez que Petersen, Kolloquien des Instituts für Zeitgeschichte, Der itaJieniscbeEascbismus,
p. 32).
Os dados quanto à pena de morte, que na maior parte dos casos envolvia separatistas
essa violência era dirigida contra os judeus, os marxistas e gs "associais"
croatas e eslovenos, são de Petersen, sendo confirmados por Guido Melis em Raffaele
marginalizados (homossexuais, ciganos, pacifistas, os congenitamente Romane[[i, ed. , Storia de]/ostato ita/famada//'unfrà a oygi. Romã: [)onzelli, 1995, p. 390
insanos ou deficientes, ou os criminosos contumazes, grupos esses dos Entretanto, a Itália tinha mais de cinqüenta campos de prisioneiros em 1940- 1943, sen-
quais muitos alemãesqueriam mesmo se ver livres), os alemães,com do o maior deles Ferramonti diTarsia, na Calábria. Ver Bosworth, DictarorsÀfp,p. 1; e J.
Wa[ston, "History and Memory of the ]ta]ian Concentration Camp", Historfca] /Durma/, v.
h'eqüência, sentiam se mais contentes do que ameaçados por ela. Os
40, P. 169 83,1997.
demais logo aprenderam a guardar silêncio. SÓbem ao final, quando os 8 1 . Pao]o Ungari, HIÓredo Ronco e ]'fdeo/agia giuridfca de/.fascismo. Brescia: Morcellia-
Aliados e os russos já se aproximavam, e as autoridades passaram a atacar no, 1963, p. 64. Rocco, simpatizante nacionalista, já havia adotado tal posição antesde
qualquer pessoa suspeita, o regime nazista voltou sua violência contra os 1914, quando era um jovem professor de Direito.
alemães comuns.77 82. Embora Hitler hesitasseem usar gás letal nas operações de guerra, Mussolini
usou esserecurso contra os líbios e os etíopes. Ver Angelo del Boca, / Gasdí Musgo/ini
//.fascismoe /a guerra d'EEiopia. Romã: Editore Riuniti, 1996. Mussolini também enviou
76. Gellately, Bac&fngHit/er, p. vii, 5 1-67, 75, 80 83, 263 membros da tribo Senussi,da Líbia, para campos de concentração. Quanto a outras obras
77. Ver capítulo 6, nota 77. sobre o império co]onia] italiano, ver o Ensaio Bibliográfico.
226 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 227

Da mesma forma que noTerceiro Reich, a violência fascistaera dirigi- uma vida normal. A erradicação das organizações trabalhistas autónomas
da seletivamente contra os "inimigos da nação" os socialistas, os eslavos permitiu aos regimes fascistastratar com os trabalhadores no nível indivi-
do sul e os povos africanos que se interpunham à hegemonia italiana no Me- dual, e não mais de forma coletiva.'s Não tardou para que essesúltimos,
diterrâneo. Conseguia, portanto, inspirar mais aprovação do que medo. desmoralizados pela derrota de seus sindicatos e partidos, se dispensassem,
Ê óbvio que a dicotomia popularidade-terror é demasiadamente
rí- privados de seuslocais costumeiros de socializaçãoe com medo de confiar
gida. Nem mesmo o nazismo dependia apenasda força bruta. Uma das em quem quer que fosse.
notáveis descobertas dos estudos mais recentes é que um aparato policial Ambos os regimes fizeram algumas concessões aos trabalhadores o
pequeno bastavapara impor sua vontade. A Gestapo era tão bem suprida terceiro mecanismo da "contenção" do trabalhismo, segundo Mason. O re
de denúncias feitas por cidadãos zelosos (ou invejosos) que podia funcionar gime não optavasimplesmentepor silencio-los, como tende a ocorrer nas
com a razão de um policial para cada10 ou 15 mil cidadãos,*;um número ditaduras tradicionais. Após a chegadaao poder, os sindicatos oficiais passa'
muito menor que o exigido pela STASI, da República DemocráticaAlemã do ram a deter o monopólio da representação trabalhista. A FrenteTrabalhista
pos-guerra. Nazista tinha que preservar sua credibilidade, dando alguma atenção real
Os aspectos mais interessantes da história localizam-se entre os dois às condições de trabalho. Lembrando-se da revolução de 191 8, o Terceiro
extremos da coerção e da popularidade. Pode ser esclarecedor examinar a Reich estava disposto a fazer absolutamente qualquer coisa para evitar o
maneira pela qual os regimes fascistaslidavam com os trabalhadores, que desemprego e a escassezde alimentos. À medida que a economia alemã se
eram, sem dúvida alguma, o segmento mais recalcitrante da população. aqueciacom o rearmamento, houve até mesmo alguns pequenos aumentos
E claro que tanto o fascismo quanto o nazismoalcançaramalgum sucesso salariais. Mais tarde, na época da guerra, a chegada de trabalho escravo, que
nessaárea. SegundoTim Mason, a maior autoridade em assuntosrelativos promoveu muitos trabalhadoresalemãesao statusde mestre, ofereceuuma
aos trabalhadores alemães na época do nazismo, o Terceiro Reích "conti satisfacão adicional.
nha" os trabalhadores alemães de quatro maneiras: terror, divisão, algumas Mussolini orgulhava-se particularmente do tratamento dispensado
concessõese mecanismos de integração, tais como a famosa organização de aos trabalhadores por sua constituição corporativista. A Carta do Trabalho
lazer Força através da Alegria (Kra#t durcb Fraude)." (1927) prometia que trabalhadores e patrões sentar-se-iam juntos na "cor-
Que não haja dúvida de que o terror esperavapelos trabalhadores que poração" de seu ramo da economia e afogariam a luta de classesna desco
opusessemresistênciadireta. Em ] 933, eram os quadrosdds partidos se berta de seusinteressesem comum. Quando, em 1939, uma Câmaradas
cialistas e comunistas da Alemanha que enchiam os primeiros campos de Corporações substituiu o parlamento, a impressãopassadafoi de grande
concentração, antes dosjudeus. Como os socialistase os comunistas já esta- imponência. Na prática, contudo, os Órgãoscorporativos eram adminis-
vam divididos entre si, não foi difícil para os nazistas criar uma nova divisão trados pelos empresários, e as seçõesdos trabalhadores eram separadase
entre os trabalhadores que continuavam a resistir e os que desejavamlevar excluídas do convívio com as oficinas."
A quarta forma de "contenção" citada por Mason os mecanismos
83. Johnson, Nazi berrar,p. 46-7 e 503-4. Colónia, com três quartos de milhão de integrativos -- era uma especialidade dos regimes fascistas. Os fascistas
cidadãos (sem contar a população de trabalhadores estrangeiros) tinha sessenta e nove
oficiais da Gestapo, em 1942. Para o importante papel das denúnciasvoluntárias no po
liciamento nazista, ver o Ensaio Bibliográfico, p. 38 1-383. 85 . Giulio Sapelli, ed. , La c/asseope'aia durante i/.fascismo. Milão: Annali della Fon-
84. Tim Mason, "The Containment of theWorking Class", em Jane Caplan, ed. , Na- dazione Giangiacomo Feltrinelli, 20' ano, 1979- 1980, defende o mesmo argumento em
zism, Fnscfsm, and tbe Wor&ing C/ass: Essags by 7fm Mason. Cambridge: Cambridge University relacão à Itália.
Press,1995,p. 238. 86. Ver o Ensaio Bibliográfico.
228 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBElIT O.PAXTON 229

eram mestres na manipulação da dinâmica de grupos: grupos de jovens, cinco minutos parafulmina-lo,89submeteu-se,em 1925 , a um casamento
associaçõesrecreativas, comícios do partido. A pressãoera particularmente religioso tardio com sua companheira de longos anos, Rachele Guidi, e ao
poderosa nos pequenos grupos. Neles, a maioria patriótica controlava os batismo de seusfilhos. Nas eleições para o parlamento de 24 de março de
não-conformistas pelo sentimento de vergonha ou da intimidação direta, 1929, o apoio explícito da Igreja ajudou a chapa fascista (não havia outras)
obrigando-os, no mínimo, a ficar de bocafechada. SebastianHaffner lem- a alcançar 98% dos votos." No longo prazo, o fascismo pagou um alto pre
bra-se de como o seu grupo de juízes estagiários foi enviado a um retiro, no ço pelo auxílio prestado pela Igreja na obtenção desseconsenso: quando a
verão de 1933, onde essesjovens altamente cultos e preparados, a maioria lebre do dinamismo fascistase cansou, a tartaruga da vida paroquianae da
deles não nazistas,viram-se transformados num grupo coeso por meio de cultura católica seguiu caminho, devagare sempre, até vir a se converter,
marchas, cantos, uniformes e exercícios militares. Resistir parecia não fa após 1945, na basedo governo democrata-cristão italiano.
zer sentido, e certamente não levaria a parte alguma que não à prisão e ao Um outro ingrediente da popularidade de Mussolini nos anos inter-
fim de uma tão sonhadacarreira. Por fim, com espanto, pilhou a si próprio mediários foi sua vitória sobre a Etiópia, no verão de 1936, que acabou
erguendo o braço cingido por uma braçadeira com a suástica, na saudação sendo o último de seus êxitos militares. A aprovação pública ao regime
nazista . ' ' fascista italiano s6 veio a declinar quando a política externa expansionista
Essasdiversas técnicas de controle social efetivamente funcionavam. de Mussolini começou a produzir derrotas. A necessidadeque o Docetinha
Mussolini contou com amplo apoio, de 1929 até pelo menos a época de de demonstrar uma "relação especialcom a história" exigiu que montasse
sua vitória na Etiópia, em 1936.88A conciliação com a Igreja Católica foi uma política externa de grande dinamismo. No entanto, começando com
de importância central na obtenção desseapoio. Os Tratados Lateranos, a derrota de sua força armada "voluntária" pelos republicanos espanhóis e
firmados por Mussolini e pelo papa Pio xí, em fevereiro de 1929, puseram pelos voluntários internacionais, em Guadalajara, nas montanhas situadas
fim a quase sessenta anos de conflito entre o Estado italiano e o Vatica- à nordeste de Madre, em março de 1937, a política externa passoua trazer
no, estabelecendoo reconhecimento mútuo e o pagamento,pela Itália, de mais humilhaçãoque reforço ao regime de Mussolini.':
uma indenizaçãosubstancialpor seu cona\scode terras papais na década Também o regime nazista,em meados da décadade 1930, desperta-
de 1870. A ltália reconheceu o Catolicismo Romano como "a religião da va um considerável entusiasmo popular na Alemanha. O pleno emprego,
maioria dos italianos". O antes anticlerical Mussolini, que na juventude somadoa uma longa série de vitórias não sangrentasna política externa,
havia escrito un:l romance intitulado .4 amantedo cardea/e, com 21 anos, fizeram subir essaaprovaçãomuito acima dos '}4-% que os nazistashaviam
num debate com um pastor suíço, havia dado a Deus caso ele existisse alcançado nas e]eições de março de ] 933. Embora os alemães resmungas-
sem muito contra asrestrições e os racionamentos, e embora a eclosão da
87. SebastianHaffner, Deóying/íft/er. NovaYork: Farrar, Straus, Giroux, 2000, p. guerra, em setembro de 1939, tenha sido recebida de forma sombria,': o
257 ss. Hallher fugiu para a Tnglaterra em 1937 e escreveu estas memórias um ano de-
pois 89. Bosworth, Musgo/íni,
p 62
88 . Não era essaa opinião predominante na Itália, durante os primeiros vinte anos
90. Essa votação foi mais um plebiscito que uma eleição: os cidadãos só podiam
posteriores à libertação, quando prevalecia uma visão um tanto exageradada resistência
italiana. Quando Renzo de Felice defendeu o consensoem MussoJinii/ Dure,v. i: GJíamai votar "sim" ou "não" para a totalidade da chapa. Mesmo assim, 89,63% dos que tinham
def consenso.Turim:Einaudi, 1974, ele provocou uma violenta polêmica. Os mecanismos direito ao voto participaram, e destes, apenas 136. 198 (2%) votaram "não"
foram decifrados por Phi[jp V Cannistraro, La.fabbriccade] consenso; Euscfsmoe massmedia. 91. Ver as obras de MacGregor Knox discutidas no Ensaio Bibliográfico, p' 393
394
Bari: Laterza, 1975, e os resultados verificados por Colarizi, I'opinione dq/i fta/fanf. Para
síntesesmais recentes, ver Patrizia Dogliani, /[a/ia Fascista/ 922-/ 940. Milho: Sansoni/ 92 . Marlis Steinert, Hit/er's War and the Germana. Athens, OH: Ohio University Press,

RCS, 1999, cap. 3, "L'organizzazione del consenso' 1977


230 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 231

culto a Hitler permanecia imune a críticas, que eram reservadasaos altos plices ou vítimas de seu regime.9óAo final, as mulheres conseguirames-
funcionários do partido e aos burocratas. capar dos papéis reservados a elas pelo fascismo e pelo nazismo, não pela
Os regimes fascistasalcançaram um particular sucessoentre a juventu- resistência direta, mas simplesmente sendo elas mesmas, e auxiliadas pela
de. A chegadados fascistasao poder desencadeouuma onda de choque por sociedadede consumo moderna. Os estilos de vida da Era do Jazz mostra-
toda a sociedade italiana, que chegou a cada bairro e a cada aldeia remota. ram ser mais fortes que a propaganda do partido..'Na ltália fascista, depois
Os jovens italianos e alemãestiveram que enfrentar a destruição de suas da Primeira Guerra, Edda Mussolini e outras jovens modernas fumavam e
organizações sociais (caso eles viessem de famílias socialistas ou comunis- afirmavam seu estilo de vida independente, da mesma forma que as jovens
tas), e também a atraçãode novasformas de sociabilidade.Havia a forte de todos os outros países,embora participando também das instituições do
tentaçãode se acomodar,de se sentir parte de algo maior, de alcançarpo regime.P' A taxa de natalidade italiana não subiu sob o comando do Dure.
sições de prestígio nas novas organizaçõesrecreativas e de juventude (que Hitler não pede cumprir sua promessa de retirar as mulheres da força de
discutiremde forma mais completa a seguir).9; Sobretudo quando o fascis- trabalho quando chegou a hora da mobilização total para a guerra
mo ainda era novo, juntar-se a seus esquadrões em marchas uniformizadas As relações dos intelectuais com essesregimes foram mais conflituosas
era um modo de os jovens se declararem independentes de seussufocantes do que haviam sido com os movimentos fascistasdos primeiros tempos-
lares burgueses e de seus tediosos pais.9' Alguns jovens italianos e alemães, Eles tinham boas razões para se sentirem desconfortáveis sob o comando
que de outra forma seriam capazes apenas de feitos bastante modestos, de antigos brigões de rua, que desprezavam"os professores que examinam
encontravam satisfaçãoem exibir poder sobre as outras pessoas.'s Mais que as coisasatravésde lentes, os idiotas que levantam objeções irrealistas a
qualquer outro movimento político, o fascismofoi uma declaraçãode re- cadaafirmação de doutrina".98 E ainda mais porque essesregimes não viam
belião juvenil, embora fossemuito mais que isso. a arte como o território da livre criatividade, mas sim como um recurso
Não se poderia esperar que homens e mulheres reagissemda mesma nacional, sujeito a um estrito controle por parte do Estado.Uma vez que,
forma a regimes que conferiam alta prioridade a devolver as mulheres a supostamente, os líderes possuíam poderes mentais super'humanos, os mi-
suasesferas tradicionais de trabalhos domésticos e maternidade. Algumas litantes fascistaspreferiam resolver questõesintelectuais por meio de um
99
reductio ad ducem.
mulheres conservadorasaprovaram. O voto feminino para Hitler foi sübs-
tancíal (embora impossível de ser medido com precisão), e os estudiososjá Os regimes fascistastambém possuíamo poder de recompensar os
debateram acaloradamente se asmulheres deveriam ser vistas como cúm intelectuais mais tratáveis e celebrados com cargos e honrarias. Nos casos
em que o regime se dispunhaa dar uma razoávelmargem de manobra aos
93. O filme alemão Die Kfnder aus Nr. 67 (As crianças do n' 67), 1980, mostra de
96. Sobre a vastíssima literatura existente acerca desse e de outros debates sobre as
forma sutil como os meninos e as meninas de um prédio de apartamentos de classetra
balhadora em Berlim, na primavera de 1933, se adaptaram à Juventude de Hitler, que mulheres no fascismo, ver o Ensaio Bibliográfico, p. 385-387
acabarade se tornar obrigatória, sob as influências múltiplas da atração, da pressãodos 97. A jovem sorridente de uniforme fascistae fumando um cigarro, mostradana
colegas, dos valores dos pais e da coerção. capa deVictoria de Grazia, Hon' FascismRu/edWomen.Berkeley; Los Angeles: University of
94. As memórias de Melitta Maschmann. dccount Renderem.
Londres: Abelard Schu California Press, 1992 , demonstra perfeitamente essaambigüidade.
man, 1965, é eloqüente quanto a esseponto. 98. M. Caril, Fascismo
intransigente;Contributo a]/alondazlone dí un rqime. Florença:
95. Um jovem alemãoadmitiu, "E muito bom poder bater semter que apanhar". R. Bemporad e Fig1io, 1926, p. 46, citado em Norberto Bobbio, "La Cul-tura e il Fas-
Michael Burleigh, 7'heThfrd Reicb:dNeu'History. NovaYork: Hill andWang, 2000, p. 237. cismo", em Guido Quazza, ed., fascismoe societàitaliana. Turim: Einaudi, 1973, P. 240,
nota l.
O breve ensaioficcional de Jean Paul Sartre "L'enfance d'un chef" evocade forma plau
sável a trajet6ria de um adolescente brigão rumo ao fascismo. 99.Ibid.,p. 240.
Y
232 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 233

intelectuais, como ocorreu na Itália fascista, uma vastagama de reações era de intelectuais emigraram, entre eles alguns não-judeus (Thomas Maná
possível.Alguns críticos liberais e socialistasrejeitavam o regime de forma foi apenaso mais célebre deles). O físico Max Plank conseguiu continuar
total, arriscando a prisão'" ou até mesmo a morte''' , e logo veio a se juntar trabalhando na Alemanha, defender algum grau de independência para si
a essegrupo a intocável eminência liberal, Benedeto Croce. No outro ex- e para seus colegas e preservar o respeito da comunidade científica inter-
tremo, uns poucos intelectuais de genuíno valor, como o filósofo Giovanni nacional.'" Outros intelectuais de grande renome entre eles o filósofo
Gentile, '" o historiador Gioachino golpe e o demógrafo-estatísticoCorra- Martin Heidegger, o sociólogo Hans Freyer,''; e o jurista Carl Schmitt''9
do Ginii03 ofereceram seu entusiástico apoio ao regime. encontraram terreno comum com o nazismo a ponto de aceitar incum-
Mussolini nunca precisou reprimir com severidade a vida cultural bências oficiais. Dentro do espectro que ia da conciliação e da acomodação
porque a maioria dos intelectuais aceitavaalguma medida de conciliação à reticência discreta, aditado pela maioria dos intelectuais, algumas posi-
com seuregime, mesmo que apenasparcial e ocasionalmente. Noventa dos ções permanecem obscuras até os dias de hoje: seria verdade que o físico
signatários
do Mazlj#esto
dos/zlte/actuais,
de Croce,lançadoem 1925, mais Werner Heisenberg,ganhadordo Prêmio Nobel, de fato fragilizou a partir
tarde, em 193 1, escreveram para a Encic/opedia /ta/lama oficial. 'o' Quando, de dentro o programa alemão de energia nuclear, como ele afirma ter feito,
durante o ano letivo de 1931-1932, os professores universitários foram ou esseprograma na verdadefracassoudevido à insuficiência de verbas,à
obrigados a prestar juramento ao regime, apenas 1 1 entre os 1 .200 se re- alteração de prioridades e à partida de físicos judeus importantes, como
cusaram . ''5 Foi apenas depois de 1938 , quando aprovada a legislação racial, Lise Meitner, e também ao erro de cálculo do próprio Heisenberg, que
da qual tratarei no próximo capítulo, que um número significativo de inte- superestimou a quantidade de plutânio necessáriapara a operação de uma
lectuais italianos decidiu emigrar. pilha atómica?' ''
C)sintelectuais enfrentavam pressões mais intensas na Alemanha nazis Mesmo que o entusiasmopúblico nunca tenha chegadoa ser total,
ta. Os ideólogos nazistas tentaram reformular todo o pensamento, como, como os fascistashaviam prometido a seus aliados conservadores, a maioria
por exemplo, na criação da Físicaalemã, que pretendia suplantar a Física dos cidadãos dos regimes fascistasaceitavam as coisastal como elas eram.
judia de Einstein,'" e com o "Cristianismo Germânico", destinadoa pu- Os casos mais interessantes são os das pessoasque nunca se aliaram ao
rificar a doutrina cristã das influências judaicas. Um número substancial
] 07. John L. Heilbron, The Di/ermas alar Uprigbr Man; Max P/anel as Spo&esmanlor

100. Por exemplo, o médico e pintor CarãoLevi, cujo Cbrist Sfopped


at Ebo/i,escrito GermanScíence.
Berkeley; Los Angeles: University of California Press, 1986
durante seu "con6mamento"em uma cidade do sul, é uma das obras-primas da literatura 108. Jerry Z. Muller, 7he Otber God tear Euiled:Hans Frg" and the Deradica/izarion o#
italiana moderna. German Conservarism. Princeton: Princeton University Press, 1987

101. Por exemplo, os irmãos Rosselli, Giovanni Amendola e Píero Gobetti. 109. Carl Schmitt (1888-1985) argumentava que as complexas sociedades mo
102.Ver capítulo 2, nota 105 dernas exigiam um "Estado total", capaz de tomar decisões de maneira eGlcaz.Um bom
103. Sandrine Bertaux, "Démographie, statistique, et fascisme: Corrado Gim et começo para a extensa literatura sobre o assunto é Richard Wolin, "Cara Schmitt, Po-
I'lstat, entreScienceet Idéologie",Romã,Moderna
et Contemporânea,
v. 7, v. 3, p. 571-98, litical Existentialism,and theTotal State",emWolin, TheherasoÍ Cu/lura/Critfcism;
Tbe
set. dez.1999 Fran&$urt Scboo/, Exfstentia/ism, Poststrucrura/ism. Nova York: Columbia University Press,

104. GabrieleTuri, ///ascismoe i/ consenso


deg/iiate//ettua/f.Bolonha: ll Mulino, 1980, 1992,P.83-104.
1 10. Mark Walker, German Naliona/ Socialism and fbe Qyest.for Nuc/ear Poder, / 939-
p. 59, 63. Os fascistasradicais protestaram contra sua participação.
105. Bobbio,"La Cultura", p. 112. Três deles também contribuíram com a Encic/o J949. Cambridge: Cambridge University Press, 1989, apresentaargumentosconvm
pédfa . Turi , //.fascismo,p. 63. centes em defesa do último caso;Thomas Powers, Heisenberg's
War;The SecretHfstory o#rbe

106. Monika Renneburg e Mark Walker, eds., Scfence,


bechno/OW-
and Narfona/Sacia GermanBomb.NoxaYork: Knopf, 1993, demonstra mais simpatia pela supostarelutância
/ism.Cambridge: Cambridge University Press, 1994. de Heisenberg.
l

234 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBElqT O.PAXTON 235

partido, e que chegavam a ter objeções quanto a determinados aspectos do tribuição da propriedade e a hierarquia económica e social (numa oposição
regime, masque optaram pela conciliação porque asrealizações do partido diametral à acepção que o termo favo/raçãoassumiu a partir de 1 789)
vinham ao encontro de algumasdascoisasdesejadas,e também porque as O âmbito da "revolução" fascista foi restringido por duas ordens de

alternativas pareciam ainda piores. O eminente regente sinfónico Wilhelm fatores. Para começar, mesmo em sua forma mais radical, os primeiros
Furtwãngler foi penalizado, após a guerra, por ter sido fotografado ao lado programas nunca atacaram a riqueza e o capitalismo de forma tão direta
de um sorridente Hitler, mas, na verdade, suasrelações com o regime na- quanto uma leitura mais apressadapoderia sugerir. : ' ' Quanto à hierarquia
zista eram complicadas. Furtwãngler nunca se aliou ao partido. Tentou, em social, o princípio de liderança do fascismo efetivamente a reforçava, em-
bora os fascistas colocassem algum grau de ameaça à posição social herda-
dois tensos encontros cara a cara, convencer o FÜArera relaxar sua proibi-
ção da música judaica e o banimento de músicos judeus. Foi exonerado de da, ao defender a substituição da desgastadaelite burguesapelos "novos
algumas de suasfunções de regência por insistir em tocar a música atonal homens". Os poucos e verdadeiros oufsidersfascistas, geralmente iam para
de Hindemith. Entretanto, concordavacom o pressupostonazistade que as organizações paralelas.
c( O alcance da transformação operada pelo fascismo foi ainda mais li-
a música surge de forças profundas e secretas, enraizadas no povo e na na-
mitado pela exclusãode muitos militantes radicais durante o período do
ção"--'j ' em especial na nação alemã. Para ele, era impensável abandonar a
enraizamento e da chegada ao poder. Uma vez que os movimentos fascistas
Alemanha ou cessarsuasatividades musicais. De fato, gozou de privilégios
sob o nazismo, pois embora Hitler tivesse conhecimento de suasobjeções, passaramdos protestos e da manipulação de ressentimentos, os mais di-
versos, para a conquista do poder, com inevitáveis alianças e conciliações,
eje também conhecia música o suficiente para perceber que Furtwjjngler
suasprioridades mudaram na mesma medida que suasfunções.Tornaram-
era o melhor regente da Alemanha. ' ':
se muito menos interessados em reunir os descontentes que em mobilizar e
Aceitando acomodações desse tipo, os regimes fascistas foram capazes
unificar as energias nacionais para o renascimento e o engrandecimento do
de preservar a lealdadede nacionalistas e conservadores que não concorda -
país.Isso os obrigou a quebrar muitas daspromessasfeitas, durante os anos
vam com tudo o que o partido vinha fazendo.
do recrutamento de militantes, que se sentiam descontentes com a situação
A "R EVOI l lr'A0" Faça'loTA
social e económica. Os nazistas,particularmente, quebraram aspromessas
feitas aos pequenos camponeses e artesãos, que eram a base principal de seu
eleitorado, para passara defender a urbanização e a produção industrial. ' :'
A retórica radical dos movimentos fascistasiniciais levou muitos ob
Apesar de suas freqüentes menções à "revolução", os fascistas não que
servadores daquela época e de tempos posteriores a supor que, uma vez no
riam uma revolução socioeconómica. Queriam, sim, uma "revolução da
poder, fariam mudanças de caráter fundamental na vida nacional . Na práti
alma" e uma revolução na posição ocupada por seu povo na hierarquia do
ca, embora os regimes fascistastenham de fato realizado algumas mudanças poder mundial. Pretendiam unificar, revigorar e dar mais poder a suanação
de dimensões estarrecedoras, deixaram em grande medida intactas a dis- decadente,ou seja,reafirmaro prestígioda romanità,ou do Ho/&
alemão,
ou do hungarismo, ou do destino de algum outro grupo. Paratal, julgavam
111. Um dos "Dez Princípios da Música Alemã" enunciados quando Goebbels esta-
precisar de exércitos, de capacidadeprodutiva, de ordem e dapropriedade.
beleceu o Reichsmusikkammer em 15 de novembro de 1933. No entanto, Furtwãngler
Forçar à submissãoos elementos produtivos tradicionais de seupaís,talvez;
rejeitou os demais princípios, que diziam que o judaísmo e o atonalismo eram incompa-
tíveis com a música alemã.

1 12 . Ver Robert Craft, "The Furtwangler Enigma", Nen'hora Revfen'o#Boo&s,v. 40, n. 113.Vercapítulo1, p. 25-28
16, P. 10-4, 7 out. 1993. 1 14.Ver capítulo 1 , nota 52
236 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 237

transforma-los, sem dúvida; mas não aboli-los. Precisavamda força desses Os fascistasalegavamque a divisão e o declínio de suascomunidades
bastiões do poder estabelecido a fim de expressar a unidade e a vitalidade haviam sido causadospela política eleitoral e, principalmente, pelos prepa
renovadade seuspovos, tanto internamente quanto no cenário mundial. rativos da esquerdapara a guerra entre asclassese a ditadura do proletaria-
Queriam revolucionar suasinstituições nacionaisno sentido de infunde-las do. Comunidadestão prejudicadas,pontificavam os fascistas,nãopoderiam
de energia, unidade e força de vontade, masjamais pensaramem abolir a ser unificadas pelo jogo naturalmente harmónico dos interesseshumanos,
propriedade ou a hierarquia social. como os liberais acreditavam.Elas teriam que ser unificadaspela açãodo
A missão fascista de engrandecimento e purificação nacional exigia Estado, usando de persuasão e organização, se possível, ou da força, se ne
mudanças na natureza da cidadania e na relação dos cidadãos com o Estado cessário.Essatarefa exigia aquilo que o sociólogo francês Émile Durkheim
que foram as mais fundamentais já vistas desde as revoluções democráti- chamou de "solidariedade orgânica", diferente da "solidariedade mecânica"
cas dos séculos xvnt e xix. O primeiro e gigantesco passo foi subordinar o Para tal, os regimes fascistas criaram uma série de agências voltadas para a
indivíduo à comunidade. Enquanto o Estado liberal baseavase num pacto formação e a moldagem do corpo de cidadãos numa comunidade integra-
firmado entre seuscidadãosvisando a proteger os direitos e as liberdades da de lutadores disciplinados e calejados. O Estado fascista davaparticular
atenção à formação da juventude e esforçava-se ao máximo para preservar
individuais, o Estado fascista corporificava o destino nacional, a serviço do
qual todos os membros do grupo encontravamsuamais alta realização.Já um ciumento monopólio dessafunção (questão que levou os regimes fas-

vimos que ambos os regimes encontraram alguns intelectuais não-fascistas cistase a Igreja católica a freqüentes conflitos) .
de renome que estavam prontos a apoiar essapostura. Os regimes fascistaslançaram-seà construção do novo homem e da
Nos EstadosFascistas,
os direitos individuais não tinham existênãa au- nova mu]her (cada qua] na esfera que ]he era própria) Era a desafiante
tarefa dos sistemas educacionais fabricar "novos" homens e mulheres, que
tónoma. O estado de direito o RecÀtsstaat,o état de draft desapareceu
seriam simultaneamente lutadores e súditos obedientes. Os sistemas edu-
juntamentecom o princípio de devidoprocessolegal,por meio do qual cacionais dos Estados liberais, além de sua missão de auxiliar os indivíduos
os cidadãostinham asseguradoo tratamento igualitário pelos tribunais e
a realizar seu potencial intelectual, já tinham o. compromisso de moldar
pelas agências estatais. Um suspeito inocentado por um tribunal alemão
seuscidadãos. Os Estadosfascistaspuderam utilizar os quadros e a estru
poderia ser novamente detido por agentesdo regime às portas do tribu
tura educacionaisjá existentes, introduzindo apenas uma alteração na ên-
nal, e enviado a um campo de concentração sem necessidadede qualquer
fasee passandoa privilegiar os esportes e o treinamento físico e militar.
tipo de processo legal. ' '5 Um regime fascista podia, de forma discricionária
Algumas dasfunções tradicionais das escolasforam absorvidas, sem dúvida
e irrestrita, prender, despojar de propriedades e até mesmo matar seus
alguma, pelas organizações paralelas do partido, tais como os movimentos
habitantes.Tudo o mais empalideceperante essatransformaçãoradical na
de juventude de filiação obrigatória. Nos Estadosfascistas,todas as crian
relaçãodos cidadãoscom o poder público.
çaseram automaticamentematriculadas em organizaçõesdo partido, que
A partir daí, soacomo um antíclímax dizer que essesregimes não con- estruturavam suasvidas desde a infância até a universidade. Cerca de 70%
tinham mecanismos que permitissem aos cidadãosescolher seusrepresen- dos italianos de idade entre seis e 21 anos, nas cidades setentrionais de
tantes ou de alguma outra forma exercer influência sobre as políticas ado- Ttirim, Gênova e Milho, pertenciam a alguma organização de juventude,
tadas. Os parlamentos perderam poder, as eleições foram substituídas por embora essaproporção fossebem menor no sul não-desenvolvido. ' '' Hitler
plebiscitos sim ou-não e por cerimónias de afirmação, e foram conferidos
aos líderes poderes ditatoriais quase ilimitados. 1 16. As organizações jovens do Partido Fascista se espalharam por toda a nação
depois de 1926, quando foram unificadas pelo Ministério da Educação,passandoa cona
115.Ver Gellately, BachngHir/er, sobre a "justiça policial", p. 5, 34 50, 82, 175, 258 tituir a Opera Nazionale Balilla (ONB),batizada em homenagem a um jovem que morrera
238 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBEIÀTO. PAXTON 239

tinha uma determinação ainda maior de apartar os jovens alemães de seus própria essênciado fascismo.':' Esseé um aspectofundamental dasinten-
socializadores tradicionais os pais, os professores e as igrejas e também sasdiferenças existentes entre o fascismo e o conservadorismo autoritário,
de seus divertimentos espontâneos costumeiros. "Esses rapazes", disse ele que são ainda maiores no caso do liberalismo clássico.
ao Reichstag em 4 de dezembro de 1938, "ingressam em nossa organiza- Não havia espaço, nessa visão de unidade nacional obrigatória, para in-
ção aos dez anos de idade e, pela primeira vez, recebem uma lufada de ar divíduos livre-pensadores nem para subcomunidades independentes e au-
fresco. Então, quatro anos mais tarde, eles passam do./ungvo/& à Juventude tónomas. As Igrejas, a Franco-Maçonaria, os sindicatos ou centrais de base
de Hitler, e lá n6s os mantemos por mais quatro anos. Depois, estamos classistae os partidos políticos, todos eram suspeitosde estar subtraindo
ainda menos dispostos a devolvê-los às mãos daqueles que criam nossas algo à vontade nacional.' :' Aqui residiam as razões de infindáveis conflitos
barreiras de classee de status.Ao contrário. nós os levamos imediatamente com os conservadores, e também com a esquerda.
para o Partido, para a FrenteTrabalhista, para a SA,ou para a ss(. ..) e assim Perseguindo sua missão de unificar a comunidade no interior de uma
por diante."''' Entre fins de 1932 e inícios de 1939, a Hit/er/ugendampliou esfera pública de peso assoberbador, os regimes fascistas dissolveram os sin-
o número de seusfiliados na faixa entre dez e dezoito anos de 1% para dicatos e os partidos socialistas.Essaamputaçãoradical daquilo que havia
87% .':; Quando já vivendo no mundo, os cidadãosde um Estado fascista sido a representação normal dos trabalhadores, engastadacomo era num
viam o regime controlando até mesmo suasatividades de lazer, como no projeto de realização nacional e de economia controlada, alienou a opinião
Dolo/avaro italiano e na Kra#t áurea Fraudealemã. pública num grau menor do que teria acontecido numa situação de pura
Na verdade, essesregimes tentavam redesenhar de forma tão radical as repressãomilitar ou policial, como ocorre nasditaduras tradicionais.E, na
fronteiras entre o privado e o público que a esfera privada praticamente de- verdade, os fascistas alcançaram algum grau de sucesso em reconciliar uma

sapareceu.Robert Ley, chefe do Departamento do Trabalho Nazista disse parcela dos trabalhadores com um mundo sem sindicatos nem partidos so-
que, no Estadonazista,o único indivíduo privado era alguém que estivesse cialistas, aqueles trabalhadores para quem foi fácil substituir a solidariedade

dormindo. ' '9Segundoalguns observadores, essatentativa de fazer com que proletária pela identidadenacional antagânicaa outros povos'
a esfera pública engolisse a esfera privada por completo consiste, de fato, na As inquietações com a degenerescênciacultural eram uma questão de
tamanha importância que alguns autores chegaram a coloca-la como seu
ponto central . Todos os regimes fascistas tentaram controlar a cultura na-
na resistência a Napoleão. A ONB aceitava meninos e meninas (separadamente e não a to cional de cima para baixo, puriílcá la de influências estrangeirase transfor-
dos) de idades entre oito e dezoito anos; as crianças podiam começar aos seis anos, como ma-la num veículo da mensagem de unidade e revivescimento nacionais.A
"wolf cubs". A ONBfoi reorganizada, sob o controle do Partido Fascista, em 1937, como
decodificação das mensagens culturais expressas nas cerimónias, nos filmes,
Gioventú Italiana del Littorio (Gil)(o /iEtorio, ou lictor, era o oficial que carregava as.#nsces

na frente dos magistrados nas procissõescívicas do Império Romano). A Gil passoua ser nas apresentações teatrais e nas artes visuais se converteu , nos dias de hoje,
cada vez mais militarizada (para os meninos) sob o lema "Acreditar, Obedecer, Lutar", na área mais ativa da pesquisa sobre o fascismo. i22A "leitura" da arte cénica
e tornou se obrigatória em 1939. Os estudantes universitários pertenciam aos Gruppi fascista, por mais engenhosa que seja, não deve nos levar a pensar que esses
Universitária Fascista.Ver o Ensaio Bibliográfico para as obras relevantes.
117. Jeremy Noakes e Geofhey Pridham, eds., Nazism/9/9-/945, v. 2: Skate,Eco-
non7. and Sociely, / 933- /939:,4 Z)ocumentary leader. Exeter: University of Exeter Press, 120. Mabel Berezin, Ma&ingtbe FascfsrSeF Ithaca; Londres: Cornell University
1984,doc.n.297,p.417. Press. 1997.
118. Karl-Heinz Jahnkee Michael Buddrus, Deutscbe/ugend/ 933-/ 945; ride Doeu 121. É neste ponto que Rousseaue seu temor em relação às facçõestorna-se um
mentatfon.Hamburgo: VSA-Verlag,1989, p. 15. possível precursor remoto do fascismo.
119. Citado em Arendt, Origens,p. 339. Ela acreditava nele. 122.Ver o Ensaio BiblíográHlco, p 390 391.
A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 241

regimes tenham conseguido estabelecer de fato uma homogeneidade cul- cas estavamsujeitas a prioridades políticas, e não a razões de economia
tural monolítica. A vida cultural continuou sendo uma complexa colcha de Tanto Mussolini quanto Hitler tendiam a pensar que a economiapodia ser
retalhos de atividades oficiais, de atividades espontâneastoleradas pelo re- ditada pela vontade do governante. Mussolini, em dezembro de 1927, re
gime e até mesmo de algumas ilícitas. Dos filmes produzidos sob o regime tornou ao padrão ouro e subiu a cotação da lira a 90 para a libra britânica,
nazista90% eram entretenimento leve, sem conteúdo de propagandaex- por razões de prestígio nacional e indo contra as objeções de seu próprio
plícita (não que fossem inocentes, é claro). ':' Alguns poucos artistas judeus ministro das finanças. ':'
que gozavam de proteção especial permaneceram na Alemanha nazista até Para a maioria dos empresários, o fascismo não seria a primeira esco
uma data surpreendentemente tardia, e o ator e diretor Gustav Gründgens, Iha, mas a maior parte deles o preferia às alternativas que pareciam pro:
abertamente homossexual, permaneceu trabalhando até o fim .':' váveis nas condições excepcionais de 1922 e 1933 o socialismo ou um
Em nenhum domínio as propostas do fascismodos primeiros+empos sistemade mercado de mau funcionamento. Dessaforma, a maioria deles
diferiram mais da prática efetiva dos regimes fascistasque nas políticas eco- concordou com a formação do regime e se adaptou a suasexigênciasde
nómicas. Essafoi a área em que ambos os líderes fizeram as maiores con demitir judeus dos cargos de gerência e aceitar controles económicos one-
cessõesa seus aliadosconservadores.Na verdade. a maioria dos fascistas rosos.Com o correr do tempo, a maior parte dos empresáriosalemãese
sobretudo depois de chegarem ao poder viam as políticas económicas italianos se adaptou bem a trabalhar sob essesregimes, pelo menos aqueles
meramente como um meio de atingir asgrandes metas de unificação, ener- que lucravam com os frutos do rearmamento, da disciplina trabalhista e do
gização e expansão comunitária. ':5 A política económica tendia a ser impul- considerável papel confiado a eles na administração da economia. A famosa
sionada pela necessidade de preparar e lutar a guerra. A política sobrepqou organizaçãoeconómica corporativista de Mussolini era comandada,na prá-
a economia. '''
tica, por grandesempresários.
Muita tinta já foi gasta na discussão da hipótese de o fascismo represen- Peter Hayes coloca a questão em termos sucintos: o regime nazista
tar uma forma de capita]ismo emergencia] , um mecanismo inventado pelos e o empresariado tinham "interesses convergentes, mas não idênticos".i28
capitalistas por meio do qual os fascistas seus agentes -- disciplinariam a As áreasde consensoincluíam a disciplina da força de trabalho, contratos
força de trabalho de uma forma que estaria muito além das capacidadesde lucrativos de compra de armamentos e estímulo à criação de empregos
uma ditadura tradicional. Atualmente, já ficou su6cientementeclaro que os
As principais áreas de conflito incluíam os controles económicos impostos
empresários apresentavam frequentes objeções a aspectos específicos das
pelo governo, as limitações ao comércio internacional e os altos custos da
políticas económicas, algumas vezes com êxito. Mas as políticas económi-
autarquia a auto-suficiência económica pela qual os nazistas esperavam
superar ascarênciasde produtos que haviam feito aAlemanha perder a Pri-
123. Glenn R. Cuomo, ed. , Nationa/ SociaJistCu/fura/PoJicy.NovaYork: St. Martin's
meira Grande Guerra. A autarquia exigia substitutos caros Ersarz para
Press,1995,p. 107.
124. Alan E. Steinweis, "The Purge ofArtistic Lide", em Robert Gellately e Nathan essesprodutos anteriormente importados, como petróleo e borracha.
Stoltzfus,eds., Soda/Outsiders
in Nazi Germana.Princeton: Princeton University Press,
2001,P. 108-9. 127. Sergio Romano, GiuseppfHoJpiet /'/taJie. moderno: Flnance, industrie et Etat de /'êre
125. A discussão geral mais esclarecedora é Charles S. Maier, "The Economics of gio/fttienneà /a DeuxfàmeGuerraMordia/e. Romã: École Française de Rome, 1982, p. 141.-
Fascismand Nazism", em Maier, /n SearcÀ
o#Stabi/ily. Cambridge: Cambridge University 52; Jon S. Cohen, "The 1927 Revaluationof the Lira: A Study in Political Economy",
Press, 1988. EconomiaHistory ReT'iew,
v.25, p. 642, 654, 1972
126. T. W Mason, "The Primacy of Politics: Politics and Economics in National So 128. Peter Hayes, /ndustry and /deo/OW;/. G. Eurbenin tbe Tbird Refcb.Cambridge:
cialist Germany", em Caplan, ed. , Nazism. Cambridge University Press, 1987, p. 120
242 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERT O. PAXTON 243

Os controles económicos prejudicavam as pequenas empresas, e tam- tuos sem fins lucrativos, organizados no âmbito de cada setor da economia
bém as que não estavam envolvidas com o rearmamento. Os limites ao co os seguros T'ó/&iscÀ. Embora os radicais tenham conseguido encontrar al-
mércio internacional criavam problemas para asfirmas que antes auferiam guns nichos para as companhias de seguros públicas nos empreendimentos
grandeslucros com a exportação. O grande conglomeradoquímico 1. G. da ss nos territórios conquistados e na Frente Trabalhista, os empresários
Farben é um excelente exemplo: antes de 1933, a Farben havia prosperado do setor privado souberammanobrar com tamanhahabilidade dentro de
com o comércio exterior. Após 1933, os diretores da empresaadaptaram um sistemaque os desagradavaque acabaramcom 85% dos negóciosdo
se ao regime de autarquia e aprenderam a crescer poderosamentecomo ramo, incluindo os segurosda negADAde Hitlqr, da Karinba//, de Goering,
fornecedores do rearmamento alemão.i29 e das fábricas movidas a trabalho escravo, entre elas Auschwitz. ';:
O melhor exemplo dos custos da substituição de importações ík)i o de Em geral, os radicaiseconómicos do movimento nazistarenunciaram
Hermann GoeringWerke, instalado parafabricar aço a partir dos minérios (como Otto Strasser), perderam influência (como Wagener) ou foram as-
de qualidade inferior e do carvão marrom da Silésia. Os fabricantes de aço sassinados (como Gregor Strasser) . Os "sindicalistas integrais" italianos ou

foram forçados a financiar essaoperação,à qual eles colocaram vigorosas perderam influência (como Rossoni) ou deixaram o partido (como Alceste
objeções . ' " de Ambris) .

Os empresários talvez não tenham conseguido tudo o que queriam da No curto prazo, como as economias liberais vinham naufragando nos
economia de comando nazista, mas conseguiram muito mais do que os ra primeiros anos da década de 1930, as economias fascistas podiam parecer
dicais do Partido Nazista. Em junho de 1933, Otto Wagener, um "velo mais capazesque as democráticas de desincumbir se da dura tarefa de re
lutador" que havia se tornado chefe da divisão de política económica do conciliar suaspopulaçõescom uma redução do consumo pessoala fim de
partido, e que levava o seu nacional-socialismo a sério o bastante para que- permitir um maior nível de poupançae investimento, principalmentena
rer substituir o "espírito egoístado lucro individual pelo esforço comum a área militar. Mas sabemos que essaseconomias nunca atingiram as taxas de
serviço dos interessesda comunidade" parecia ser um nome provável para crescimento da Europa do p6s-guerra nem da Europa de antes de 1914, e
o cargo de ministro da Economia. Herrmann Goering, o líder nazistamais nem mesmo alcançaram a mobilização total para a guerra, conseguida de
próximo do empresariado, conseguiu eliminarWagener de forma extrema- forma voluntária e tardia por alguns dos regimes democráticos. Isso torna
mente hábil, mostrando a Hitler que Wagener vinha fazendo campanha em difícil aceitar a definição de fascismo como uma "ditadura desenvolvimen-
meio às lideranças nazistas para ser nomeado para o cargo. Hitler, que se tista", adequadaa paísesde industrialização tardia. ';: Os fascistasnão que-
enraivecia com qualquer tentativa de intromissão na sua autoridade de no
mear ministros, expulsou Wagener do partido e nomeou para o cargo o Dr. 13 1. Geram D. Feldman. ,4//ianzand tbe German/nsuranceBusiness,
/ 933-] 945. Cam

Kurt Schmitt, dirigente da Allianz, a maior companhiade segurosalemã. bridge: Cambridge University Press, 2001 . Para o campos, ver p' 409-15. A citação de

O radicalismo económico nazistanão desapareceu, contudo. Os empre Otto Wagenerfoi retirada de seudiário, /íitler ausNlícbsre
Nabo,ed. Henry A . Turner, Jr.
Frankfürt am Main: Ullstein, 1978, p. 373-4. O fielWagener nuncadeixou de acreditar,
sários da área dos segurosprivados nunca deixaram de ter que lutar contra
mesmo depois de 1 945, que os verdadeiros ideais "nacional socialistas" de Hitler haviam
astentativas dos nazistasradicais de substituir essessegurospor fundos mú
sido sabotados pelos Nazistenreacionários a sua volta (p. xi). Para a aversão de Wagener
ao"dinheiro sujo", ver capítulo 1, p. 25-28.
129. Essa evolução é analisada de forma primorosa por Hayes, /ndusfry and /deo/OW. 1 32 . John SI Cohen, "Was ltal ian Fascism a Developmental Dictatorship?", Economia
130. Gerhard Th. Mollin, Monranlonzerne und Driftes Refcb: Der Gqensatz zwfscberz Hls ory Rerieu',2' série, v. 41 , n. 1, p. 95 113, fevereiro de 1988, compara os índices de
Monopolindusttie und Befehlwirtschaft in der deutschenRüstung und Expansion 1936- 1 944. crescimento da Itália. Para mais informações sobre a interpretação do fascismo como
Gõttingen:Vandenhoeck e Ruprecht, 1988, p. 70 ss., 102 ss. e 198 ss. "ditadura desenvolvimentista", ver capítulo 1, nota 49 e capítulo 8, p. 346-348 .
244 A ANATOMIA DO FASCISMO

riam desenvolver a economia, e sim preparar-se para a guerra, mesmo que,


para tal, necessitassemacelerar a produção de armamentos 6
Os fascistasprecisavam fazer algo a respeito do Estado do bem estar
social. NaAlemanha, os experimentos da República deWeimar com a segu-
ridade social mostraram-se demasiadamente caros após o baque da Depres-
0 LONGO PRAZO:
são de 1929. Os nazistas enxugaram esses programas e os perverteram por
RADICALIZAÇÃO OU ENTROPIA?
meio de formas de exclusão racial. Mas nenhum dos dois regimes tentou
desmontar o Estado do bem estar social (como os meramente reacionários
teriam feito).
O fascismo foi revolucionário em suas concepções radicalmente novas
da cidadaniae dasformas de participação individual na vida comunitária.
Foi contra revolucionário, contudo, com respeito aosprojetos tradicionais
F
da esquerda,tais como as liberdades individuais, os direitos humanos. o
devido processo legal e a paz internacional . Os regimes fascistasjamais podiam se acomodar desfrutando conforta-
Em suma,o exercício do poder, tanto na Itália de Mussolini quanto na velmente do poder. O líder carismático tinha que fazer promessasespetacu-
Alemanha nazista,implicava uma coalizão formada pelos mesmos elemen- lares: unificar, purificar e energizar sua comunidade; salva la da frouxidão
tos. Era o pesore]ativo conferido ao líder, ao partido e às instituições tra- do materialismo burguês, da confusão e corrupção da política democrática
dicionaisque distinguiam um casodo outro. Na Itália, o Estadotradicional e da contaminaçãopor culturas e povos estrangeiros; evitar a ameaçada
revolução da propriedade com uma revolução de valores; resgatar a comu-
acabou conquistando a supremacia sobre o partido, em boa medida porque
nidade da decadência e do declínio. Havia oferecido soluções drásticas para
Mussolini temia seus seguidores de militância mais intensa, os ras locais e
essasameaças:violência contra os inimigos, tanto internos quanto exter
b.
seussquadrisri. Na Alemanha, o partido veio a dominar o Estado e a socie-
nos; a total imersão do indivíduo na comunidade; a purificação do sangue e
dade civil, particularmente apóso início da guerra
da cultura; os estimulantes empreendimentos do rearmamento e da guerra
Os regimes fascistasfuncionavamcomo um epóxi: uma amálgamade
expansionista. Assegurava a seu povo uma "relação privilegiada com a his-
dois agentes muito diferentes entre si, o dinamismo fascista e a ordem con teria"
ria
servadora, ligados pela inimizade em comum pelo liberalismo e pela es Os regimes fascistas tinham que passar a impressão de forte ímpeto a
querda e pela disposiçãocompartilhada de destruir a qualquer preço seus chamada "revolução permanente": a fim de cumprir essaspromessas. Não
inimigos comuns.

1 . Adrian Lyttelton, em Kolloquien des Instituto für Zeitgeschichte, Der itaJieniscbe


Eascbismus:
Proa/eme
undEurscbungsfendenzen.
Munique: Oldenbourg, 1983, p. 59.
2 . Giuseppe Bottai, "La rivoluzione permanente", em Criticalascista, l ' de novembro
de 1926, citado em Alexander Nützenadel, "Faschismusals Revolution? Politische Spra
che und revolutionãrer Sul im Italien Mussolinis", em Christof Dipper, Lutz Klinkham-
mete Alexander Nützenadel, eds. , Europàiscbe Sozfa/gescbichre: Festschr!/i:#ürWo!$pang Scbie
der.Berlim: Duncker & Humblot, 2000, p. 37. EssaspalavraslembramTrotsky,porém
Bottai, ex-esquadristaque se tornou burocrata, explica que, no caso do fascismo,ao
246 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 247

conseguiriam sobreviver sem essaimpetuosa e inebriante arrancada. Sem Sempre que Hitler o pressionava a agir, contudo, o cauteloso caudiJJo
uma espiral cada vez maior de feitos cadavez mais ousados, essesregimes pediaum preço absurdamente
alto em troca de suaparticipaçãomilitar
arriscavam-sea cair em algo semelhantea um autoritarismo morno.' Com plena a favor do Eixo. Poucos dias depois de se encontrar com Franco em
e[a, se ]ançaram ao paroxismo f]na] de autodestruição. Hendaye, na fronteira franco-espanhola, em 23 de outubro de 1940, Hitler
Os regimes fascistasou parcialmente fascistasnem sempre conseguem dissea Mussolini que preferiria arrancar três ou quatro dentes a ter que
manter esseímpeto. Diversos deles às vezesvistos como fascistasoptaram passaroutras nove horas barganhandocom aquele "porco jesuíta".' Após
deliberadamente por amortecer esse entusiasmo. "Normalizaram-se", tor o terrível derramamento de sanguede 1936-1939, Franco queria ordem
nando se assim mais autoritários do que fascistas. e tranquilidade, e o dinamismo fascista não combinava com seu tempera'
O ditador espanhol Francisco Franco, por exemplo, é muitas vezes mento reservado.
considerado fascista em razão de suaconquista armada do poder na Guerra O regime de Franco possuíaum único partido a Falange-- que, en-
Civil Espanhola,com a ajuda explícita de Mussolini e de Hitler. Na verdade, tretanto, por não ter "estruturas paralelas", carecia de poder autónomo.
ajudar os republicanos espanhóisa se defender contra a rebelião de Franco, Embora suafiliação tenha alcançadoquase l tnilhão durante o período das
depois de julho de 1936, converteu-se na primeira e na mais emblemática vitórias alemãs,entre 1941 e 1942, e tenha oferecido um útil apoio à dita-
cruzada antifascista. Após sua vitória, em março de 1939, Franco desenca dura em suascerimónias, o caudi]/o não dava a ela nenhuma participação na
deou uma repressão sangrenta que pode ter matado até 200 mil pessoas,e formulação das políticas e na administração.
tentou isolar seuregime tanto dastrocas económicasquanto da contamina A eliminaçãodo carismáticolíder da Falange,JoséAntonio Primo de
çãocultural proveniente do mundo democrático.'Virulentamente hostil à Rivera, no início da Guerra Civil, como já mencionado no capítulo 3, aju
democracia, ao liberalismo, ao secularismo, ao marxismo e, especialmente, dou Franco a estabelecer a supremacia das elites estabelecidas e do Estado
à Franco-Maçonaria, Franco juntou-se, em abril de 1939, a Hitler e a Mus
normativo. A partir de então, soubeexplorar a multiplicidade dos partidos
solini como signatário do Pacto Anticomintern. Durante a luta pela trança, de extrema-direita e a inexperiência do sucessorde JoséAntonio, ManDeI
em 1 940, ele tomou Tanger. Parecia ansioso por uma expansão territorial
Hedilla, para reduzir aindamais a influência fascista.De modo hábil, diluiu
aindamaior à custada Grã-Bretanha e da Françae também por se tornar
a Falangenuma amorfa organizaçãode frente ampla, que incluía tanto os
"parceiro militar pleno do Eixo".s
fascistasquanto os monarquistas tradicionais, a FalangeEspanholaTradício-
nalista e as Juntas de Ofensiva Nacional Sindicalista.Seu líder foi conde
contrário dasrevoluções anteriores, "revolução permanente" significavamudançano lon- nado à "impotência como um elemento decorativo do séquito de Franco".7
go prazo sob direção estatal.Jeremy Noakes faz uma elegante avaliaçãodesseassuntono
Quando Hedilla tentou reafirmar suaautoridade independente, em abril de
caso da Alemanha em "Nazism and Revolution", em Noel O'Sullívan, ed. , Raro/utionary
rbeory and Po/ética/Rea/ity. Londres: Wheatsheaf, 1983, p. 73 100.Ver também a opinião 1937, Franco mandou prendê-lo. A domesticação da Falange tornou fácil
de Arendt no capítulo 5, p. 124. para Franco dar um feitio mais tradicional a suaditadura, com um mínimo
3. A definição dessetermo se encontra no capítulo 8 , p. 358-362. de entusiasmo fascista, que era o que ele claramente preferia, certamente
4. Para uma brilhante interpretação que classifica como fascistaa Espanhade Fran depois de 1942 e talvez ainda antes.
co (pelo menos até 1945), com base em seu espírito vingativo assassino,sua busca pela
pureza cultural e seu sistema económico fechado, ver Michael Richards, 1 7}meo#SI/ente:
Ciri/War andtbe Culrureo#Repression
in Franco'sSpain,/ 936- / 945. Cambridge: Cambridge da maior parte dos biógrafos, Franco estavaativamente comprometido com sua parceria
University Press, 1998. com o Eixo, pelo menosaté 1942
5. A mais recente e mais completa biografia é Paul Preston, Franco.NovaYork: Basic 6. lan Kershaw, fíit/er / 936-/ 945; Nemesis.NovaYork: Norton, 2000, p. 330.
Books, 1994 (citação na p. 330). De acordo com a descrição de Preston, mais do que a 7. Preston,Franco,p- 267.
248 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBElqT O.PAXTON 249

Após 1945 , a Falange tornou-se uma desbotada associaçãode solidarie- aflições do conflito de classes,o dr. Salazar chegou a se opor ao desenvolvi-
dade cívica, geralmente chamada simplesmente de o Movimiento.Em 1970, mento industrial de seupaísaté a décadade 1960. Seuregime não apenas
seupróprio nome foi abolido. Àquela época, a Espanhafranquista há muito era não fascista, mas também "voluntariamente não totalitário", preferindo
havia se tornado um regime autoritário dominado pelo exército, pelas au- deixar que os cidadãosque se mantivessemfora da política "vivessempor
toridades públicas, pelo empresariado, pelos proprietários de terras e pela hábito".iÍ
Igreja, tendo qualquer colorido fascista deixado de ser visível.: No outro extremo, apenasaAlemanhanazistapassoupor radicalização
Portugal, cqo ineficiente regime parlamentaristahaviasido derrubado plena. Uma guerra de extermínio vitoriosa no leste ofereceu uma liberda-
por um golpe militar em 1926, passoua ser governado, a partir de inícios de de ação quaseilimitada ao "Estado prerrogativo" e a suas"instituições
da década de ] 930, por um recluso professor de economia de visão inte- paralelas", livres das poucas restrições que ainda provinham do "Estado
gristamente católica,Antonio de Oliveira Salazar.O dr. Salazar,mais ainda normativo", tais quais elas eram. Na "terra de ninguém" composta pelos
que Franco, tendia a um quietismo cauteloso. Quando Franco submeteu a territórios conquistados, naquilo que fora a Polânia e as regiões ocidentais
seucontrole pessoalo partido fascistaespanhol,Salazaraboliu por comple- da União Soviética. os radicais do Partido Nazista sentiram-se à vontade
to, em julho de 1934, a coisa mais próxima a um partido fascista autêntico para realizar suasfantasias máximas de limpeza étnica. A extrema radica
que existia em Portugal, os camisas-azuisnacional-sindicalistasde Rolão lização permanece latente em todos os fascismos, mas as circunstâncias da
Preto. Os fascistasportugueses, queixava-se Salazar,estavam sempre "fe- guerra, e particularmente as dasguerras de conquistavitoriosas, fornece
bris, excitados e descontentes (. . .) sempre gritando diante do impossível: ram-lhe os meios para sua expressão total.
Maisl Maisl".9 Salazar preferia controlar seu povo por meio de instituições Os impulsos de radicalizaçãonão estavamausentesna ltália de Mus
"orgânicas"tradicionalmente poderosasem Portugal, como a Igreja. solini. Dilacerado entre a necessidadeperiódica de insular novo vigor nos
Quando a Guerra Civil irrompeu na Espanta vizinha, em 1936, a au- CamisasNegras, que então já se adentravam em anos, e a morosidade nor-
toridade "orgânica" deixou de ser suf\ciente. O dr. Salazartentou a ex- malizadora de seusparceiros conservadores, o regime fascista seguiu uma
periência de um "Estado Novo", fortalecido por mecanismos tomados de trajet6ria irregular. Mussolini havia popularizado o termo "totalitarismo",
empréstimo ao fascismo,inclusive as organizaçõestrabalhistascorporati- e continuavaa adornar suaoratória com apelos bombásticosà açãoe com
vistas,um movimento de juventude (a MocidadePortuguesa)e um "parti- promessasrevolucionárias.Na prática, contudo, ele ia e vinha, soltando os
do único" vestido de camisasazuis, a Legião Portuguesa, :oque não detinha radicais do partido nas ocasiõesem que isso beneficiaria suaposição de po-
sequer um mínimo de poder. Rejeitando o expansionismo fascista, Por der, mas, com maior freqüência, mantendo-os sob rédea curta, quando seu
tugal permaneceuneutro durante a SegundaGuerra Mundial e em todos governo precisava de condições estáveis e de um Estado não ameaçado
os conflitos subseqüentes,até se decidir por lutar contra o movimento de Tendo sido um jogador ousadodurante a "tomada do poder", acabou
independência de Angola, em 1961 . Na esperançade poupar Portugal das se revelandoum primeiro-ministro que preferia a estabilidadeà aventu-
ra. Sua tendência à normalização, que se manifestou pela primeira vez em

8. StanleyG. PaJ'ne,Fascismfn Spain, / 923-/ 977. Madison: University of Wisconsin


1921, com a proposta de um pacto de pacificaçãocom os socialistas,iria
Press,1999,p.401,451 ss.
aumentar com a idade, tanto pela força das circunstâncias como também
9. Antonio Costa Pinto, Sa/azar'sDictatorsbip and EuropeanFnscism.Boulder, CO: por predileçãopessoal. Como vimos no capítulo 4, Mussolini, no decorrer
Social Science Monographs, 1 995, p. 161.
10. Antonio Costa Pinto, Tbe B/ue SAírEs:PorrugueseEnscistsand tbe New trate. Boulder,
CO: Social Science Monographs, 2000. 11. CostaPinto,Sa/azar's
Dictaforsbfp,
p. 204
250 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBElqT O.PAXTON 251

dos dois primeiros anos depois de assumir o cargo em 1922 , tentou conter tom, se infiltrasse na burocracia e dominasse o processo de formulação das
o aventureirismo do partido e o poder rival dos ras,afirmando a primazia políticas do país.
do Estado. Se recusou a pâr em xeque os amplos poderes da monarquia, Contudo, quando Mussolini despediuFarinacci pouco maisde um ano
da Igreja e de seusparceiros conservadores. Sua política económica de li depois, em abril de 1926,'' substituindo-o por AugustoTurati, de tempe-
matou-se, naqueles primeiros anos, ao mesmo /aissez:pairedos regimes libe- ramento menos obstinado, estavanovamente fortalecendo o Estado nor-
rais. O primeiro de seusministros das finanças(1 922- 1925) foi o professor mativo à custa do partido. Foi nessaépoca que, de forma altamente sig-
de economia(e militante do partido) Alberto de Stefani,que reduziu a nificativa, ele confiou a polícia italiana a um servidor público de carreira,
intervenção do Estadona economia, cortou e simplificou os impostos, di- Arturo Bocchini, e não a um militante do partido à moda de Himmler. O
minuiu as despesaspúblicase equilibrou o orçamento. É bem verdadeque fato de a importantíssima força policial ser operadacom baseem princípios
De Stefani, comprometido não apenascom o livre comércio, mastambém burocráticos (promoção de profissionais treinados com base no critério
com o ideal fascistade estímuloà energiaprodutiva,enraiveceualguns de antigüidade, respeito pelos procedimentos legais, pelo menos nos casos
empresários ao cortar tarifas de importação, como, por exemplo, a que não-políticos) e não como parte do Estado prerrogativo dotado de poder
protegia a onerosaprodução local de açúcarde beterraba. De modo geral, ilimitado e arbitrário constituiu-se no principal ponto de divergênciaentre
entretanto, mostrava "uma inconfundível tendência pró-empresariado". ': o fascismo italiano e a prática nazista.
Um outro ciclo de radicalização e normalização seguiu-se ao assassina- Em 1928, Mussolini exonerou o antigo militante sindicalista Edmondo
to do líder socialistaGiacomo Matteotti.i3 A primeira reaçãode Mussolini Rossoni da liderança dos sindicatos fascistas, pondo lim às tentativas des-
à saraivadade críticas que se seguiu a esseato foi intensificar a "normali- te de fazê-los participar de fato na formulação das políticas económicas,
zação": ele nomeou para o importantíssimo Ministério do Interior, com e de dar-lhesrepresentação
paritária à do patronatonum conjuntoúnico
seupoder de supervisãosobre a polícia, Luigi Federzoni, chefe do Partido de organizações corporativistas. Após a saída de Rossoni, o monopólio da
Nacionalista, que havia se fundido ao Partido Fascistaem 1923. Depois de representaçãotrabalhista pelos sindicatos fascistasfoi tudo o que restou do
passarseismesestentando se esquivar dos ataquesprovenientes não apenas "sindicalismo fascista".Trabalhadores e patrões passarama se enfrentar em
da oposição democrática, mas também de alguns de seusaliados conserva- organizações separadas, e os representantes dos sindicatos foram banidos
dores, e parecendo paralisado e incerto, o nuca foi forçado pela pressão dos das o6cinas. A forma pela qual o tão alardeado "Estado Corporativista" de
radicaisdo partido como vimos no capítulo 4 a levar a cabo, em 3 de Mussolini se desenvolveu a partir de então se resumiu, na verdade, ao re-
janeiro de 1925, o que se constituiu num um golpe de Estadopreventivo, e forço do "poder privado" dos empregadores sob a autoridade do Estado.'5
a dar início ao longo processo que, de forma espasmódica,viria a substituir
o regime parlamentarista por aquilo que ele (com algum exagero) chamava 14.Ver capítulo 5, p. 22 1-224. Depois de dez anos de ostracismo político, Farinacci
de um Estado"totalitário". A nomeaçãode um dosmilitantes fascistasmais voltou a ter destaquedurante a Guerra da Etiópia, onde se tornou notável por ter explo-
intransigentes, Roberto Farinacci, para o cargo de secretário do Partido dido suaprópria mão enquantopescava
com granadas.Ele continuou mantendoafável
intimidade com o auge, sempre o instando a um maior radicalismo, até se deparar com a
Fascistaparecia confirmar suaintenção de permitir que o partido desseo
desaprovação da Alemanha em 1943.
15 . O subtítu]o do ]ivro de Roland Sarti(nota 12 anterior) é "A Study in the Expan

12. Ro]and Sarti, Fascismand tbe /ndustria/ J.jade/sbipin /ra]g. ] 9] 9-] 940: 4 Scudgin sion of Private Power Under Fascism" [Um estudo sobre a expansãodo poder privado
the Expansion o#Private Poder andar Fascism.Berkeley: University of California Press, 197 1 , sob o fàscismol. Uma visão geral do sindicalismo fascista é Adolfo Pape, "ll sindacato
P. 51 fascista", em Angelo del Boca, Massimo Legnani e Mano D. Rossi, // rqime.fascista:Srorfa
13.Ver capítulo 4, p. 183-186. e storfoyraPa.Bari: Laterza, 1995, p. 220-43.
252 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBElqT O.PAXTON 253

O passodecisivo de Mussolini rumo à normalização foi o Pacto La- se seguiram: a "revolução cultural" de 1936-1938, a guerra europeia em
terano de 1929, firmado com o Papado.'' Embora essetratado proibisse 1940 e a república-fantoche de Sala, sob a ocupaçãonazistado período
qualquer atividade política católica na Itália, seus efeitos de longo prazo 1943 1945.
foram favoráveis à Igreja. De qualquer forma, o PapaPio xi, de índole nada
democrática, não tinha grande apreço pelos partidos políticos católicos, QUAL É O MOTOR DA RADICALIZAÇÃO?
tendo forte preferência por fomentar as escolas e a Ação Católica uma
rede de associações de jovens e de trabalhadores,destinadaa transformar Esta breve análise da hesitação de Mussolini entre a normalização e a
a sociedade a partir de dentro.'' Desse momento em diante (apesar de um radicalização sugere que o líder, isoladamente, dirige o andamento das coi-
entrevero com fascistasfanáticos que resolveram perturbar os programas sas,posição essaque, nos debatesda década de 1980, veio a ser chamadade
de juventude católicos, em 193 1), as organizaçõesde baseda Igreja viriam "intencionalismo".2: E Óbvio, entretanto, que as intenções do líder pouco
a sobreviver ao fascismo e dar sustentação ao longo domínio do Partido signiülcavama não ser que os oficiais de polícia, os comandantes militares,
Democrata Cristão, já na época do pós-guerra. '' Mussolini havia então re- os magistrados e os servidores públicos estivessem dispostos a obedecer as
cuado muito em direção a um regime autoritário tradicional, no qual a suasordens. Contemplando Hitler e suanotória indolência, alguns estudio-
monarquia, o setor privado organizado,o exército e a Igreja Católica pos- sosforam levados a propor que os impulsos à radicalização devem ter vindo
suíam amplas esferas de responsabilidade autónoma, independentes tanto de baixo, partindo das iniciati'ç'asde militantes subalternos h'ustrados por
do Partido Fascistaquanto do Estadoitaliano. emergências locais, e con6lantes de que o Fiíbrer acobertaria seus excessos,
À medida que envelhecia, é provável que Mussolini preferisse governar tal como ele haviafeito com os assassinatos
de Potempa.Essaposiçãoera
dessa maneira, mas ele sabia também que a geração mais jovem começa chamada de "estruturalismo" nos debates da década de 1980.
va a se impacientar com seu regime maduro. "Estávamos espiritualmente Não temos que aceitar o absurdo do "estruturalismo" puro para 'econhe
equipados para sermos esquadrões de assalto", queixava-se o jovem fascista cer que, além dos atose daspalavras do líder, os regimes fascistasabrangem
Indro Montanelli, em 1933, "mas o destino deu a nós o papel de guardas os impulsos radicalizadores vindos da base, o que os diferencia nitidamente
suíços da ordem constituída". '9 Essafoi uma das razões pelas quais Musso das ditaduras autoritárias tradicionais. Já aludi anteriormente à incitação
lini, em 1935, optou pelo que, para um regime fascista,era o clássico"ca deliberada de expectativasde dinamismo, excitação, ímpeto e risco, que
minho avante": a guerra de agressãona Eti6pia. Irei, mais adiante, examinar eram inerentes à atração exercida pelo fascismo. Era perigoso abandonar
em maior deta]he:' a espiral descendente das aventuras radicalizadoras que por completo essasexpectativas,pois isso significaria corroer a principal
fonte de poder autónomo do líder, independente das antigaselites.
16.Ver capítulo 5, p. 231-232. O partido e os militantes eram, em si, uma poderosaforça a favor
17. Pio xi já haviaaceitadoa dissoluçãodo problemático Panito Popolarede Dom do prosseguimento da radicalização. Nenhum regime era autenticamente
Luigi Sturzo, em 1926. Ele negociou uma série de concordatas com ditaduras europeias, fascistase não contassecom um movimento popular que o auxiliassea
inclusive com a Alemanha nazista, em que aceitavaa dissoluçãodos partidos catóJecosem
troca da continuidade da Ação Católica e das escolasparoquiais.
chegar ao poder, monopolizasse a atividade política e, quando já no poder,
18. Obras sobre as relações entre a Igreja e o Estado italiano são listadas no Ensaio desempenhasse um papel importante na vida pública, com suasorganiza-
Bibliográfico. çõesparalelas. Já conhecemos a gravidade dos problemas que o partido po-
19. Citado em Ruth Ben-Ghiat, Eascfst,Modernitíes;/ra/g. / 922-/945. Berkeley; Los
Angeles: University of California Press, 2001, p. 13.
20.Ver capítulo 6, p. 261-262, 274 282. 21.Ver capítulo 5, p. 213 216
254 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 255

dia causar para o líder. Seusmilitantes calejados na batalha eram sedentos partido, Hitler explorou seus impulsos radicais para engrandecer a si pró-
por recompensasimediatas empregos, poder, dinheiro de maneira que prio perante as antigas elites e, após o banho de sangue de junho de 1934,
prejudicavam a necessáriacooperação entre o líder e o estai/isÀment.Caso ele raramente precisou refreá lo. Uma outra explicação já sugerida para a
radicalização
é a naturezacaóticado poder fascista.Ao contráriodo que
o líder fraquejasse,seusantigos companheirosde partido poderiam, fácil
mente, transformar-se em rivais na disputa do cargo supremo. afirmava a propaganda dos tempos da guerra, e desmentindo também uma
Nenhum líder fascista, nem mesmo Hitler, deixou de ter problemas indelével imagem popular, aAlemanha nazista não era uma máquina azeita
da e de funcionamento impecável. Hitler permitia que as agênciasdo par-
com seu partido, como vimos no capítulo anterior. Ele precisavamantê-
tido competissem com as repartições estatais mais tradicionais, e nomeava
lo na linha, embora não pudesse prescindir dele, pois o partido era sua
lugares-tenentes leais para funções superpostas às do Estado, colocando-os
principal arma na suapermanente rivalidade com as antigaselites. Hitler
uns contra os outros. As lutas "feudais":' que se seguiram pela supremacia
solucionou seus conflitos com o Partido Nazista com força e brutalidade
interna ao partido, e entre este e o Estado, chocaram os alemães que se or-
características mas não devemos imaginar que o tenha feito sem tensão,
gulhavamdo serviço público de seupaís, com suatradição de funcionários
ou que mantivesse sempre o mais perfeito controle.
magnificamente bem-treinados e independentes. Fritz-Dietlof, conde Von
TambémMussolini não relutava em derramar sangue,como mostram
os assassinatosdos irmãos Rosselli e de Matteotti. Mas foi s6 sob o tacão do der Schulenburg,um jovem oficial prussiano que, inicialmente, sentiu-se
atraído pelo nazismo, lamentou, em 1937, que "o poder estatal antes uni-
exército alemão que ousou executar os militantes rebeldes de seu próprio ficado foi cindido em uma série de autoridades distintas: partido e organi-
partido, em 19'+4.2zAs vezes cedia a eles, como aconteceu em novembro
zações profissionais trabalham nas mesmas áreas e se superpõem sem uma
de 1921, quando desistiu de suaproposta de pacto de pacificaçãocom os
divisão clara de responsabilidades". Ele temia "o fim do verdadeiro Serviço
socialistas,apósquatro mesesde violentos debatesno partido, e também
Público e o surgimento de uma burocracia subserviente"."
quandoassumiupoderesditatoriais, em janeiro de 1925. Com h'eqüência,
Vimos no capítulo anterior como o boêmio e auto-indulgente Hitler
tentava canaliza-los, como na ocasião em que nomeou Farinacci secretário
gastavao mínimo de tempo possível com as tarefas de governo, pelo menos
do partido, em 1925, ou quandodesviou asenergiasde um outro raspode-
até a guerra começar. Proclamava suasvisões e seus ódios em discursos e
roso, Italo Bambo,paraa força aéreae parao império africano. cerimónias, e permitia que seusambiciosos subordinados procurassem pela
Não muito diferente de Mussoliní em seu período /aissez:cafrecom Al- maneira mais radical de pâ los em prática, numa competição darwiniana
berto de Stefani, Hitler nomeou como seuprimeiro-ministro das finanças por atenção e por recompensas. Seuslugares-tenentes, conhecendo bem
o conservador Lutz Graf Schwering von Krosigk.:; Durante algum tempo, suasvisões fanáticas, "trabalhavam emdireção ao Führer",2ó que, basicamen-
o Fübrerdeixou a política externa em mãos dos diplomatas de carreira (com te, s6 precisavaarbitrar entre eles.Mussolini, muito diferentede Hitler
o aristocrata Constantin von Neurath como ministro das RelaçõesExte- em sua dedicação ao árduo e monótono trabalho de governar, recusava-se
riores), e o exército nasmãos de soldadosprofissionais.Mas a tendência
de Hitler a encolher o Estadonormativo e expandir o Estadoprerrogativa
24. Robert Koehl, "Feudal Aspects of National Socialism", dmerican Po/itfca/ Scfence
era muito maisconstanteque a de Mussolini.No total comandode seu
Revien',v. 54, p. 921 33, dez. 1960.
25. Jeremy Noakes e Geofftey Pridham, Nazism/ 9/ 9-/ 945, v. 2: Skate,Economy
and
22.Ver capítulo 6, p. 282 283. SocieW.
] 933-] 939; 4 Documenrary
Render.Exeter: University of Exeter Press,1984, p.
231-2
23 . Schwerin von Krosigk permaneceu no cargo até o fim, ainda que suaautoridade
tenha diminuído. 26. Ver capítulo 5, nota 50.
256 A ANATOMIA DO FASCISMO ROBERTO.PAXTON 257

a delegar e suspeitava de seus auxiliares mais competentes um estilo de guerra, tanto em termos materiais quanto psicológicos, e não usar essafor
governo que produziu mais inércia que radicalização. ça produziria, mais cedo ou mais tarde, uma fatal perda de credibilidade.
A guerra forneceu ao fascismo seu mais claro impulso radicalizador. A inclinação de Mussolini para a guerra não era menos clara. "Quando
Seria mais exato dizer que a guerra desempenhou um papel circular nos re- acabarmos com a Espalha, pensarei em alguma outra coisa", disse a seu
gimes fascistas.Os primeiros movimentos fundamentavam-senuma exal genro e ministro da RelaçõesExteriores Galeazzo Ciano. "0 caráter do
tação da violência, que foi agudizadopela Primeira Grande Guerra, e a luta povo italiano tem que ser moldado na luta".2PEle aclamavaa guerra como
mostrou ser de importância essencial para a coesão, a disciplina e a energia a única fonte de progresso humano. "A guerra é para os homens o que a
explosiva dos regimes fascistas.Uma vez iniciada, a guerra gerou tanto a maternidade é para as mulheres".:'
necessidadede medidas ainda mais extremas quanto a aceitaçãopopular Menosde um ano apósse tornar primeiro ministro, em agostode
dessasmedidas. Parece ser uma regra geral que a guerra seja indispensável à 1923, Mussolini fez suaestreiana política externa com o incidente de Cor-
manutenção do tânus muscular do fascismo (e, nos casosque conhecemos, ou, um espetacular exemplo de bravata fascista. Após um general italiano
a causa de seu fim). e outros integrantes de uma comissão italiana que tentava arbitrar uma
Parececlaro que tanto Hitler quanto Mussojini optaram deliberada- disputa de fronteiras entre a Albânia e a Grécia terem sido mortos, ao que
mente pela guerra por vê-la como um passo necessário para a realização do tudo indica por bandidos gregos,Mussolini enviou ao governo grego uma
pleno potencía]de seusregimes. Queriam usá-laparaenríjecer a sociedade lista de exigênciasexorbitantes. Quando as autoridades gregashesitaram,
do país e para conquistar mais espaçovital. Hitler disse a Goebbels que "a asforças italianas bombardearam e ocuparam a ilha de Corfu.
guerra (. ..) tornou possívelpara nós a soluçãode uma série de problemas O auge começou os preparativos para invadir a Eti6pia em 1933- 1934.
que jamais poderiam ser solucionados em tempos de normalidade".:' Essadecisãofatídica -- que o alinhavairrevogavelmente a favor de Hitler
Hitler buscou deliberadamente o confronto. Ele queria a guerra? A. J. e contra a Grã-Bretanha e a França nasceu tanto de uma necessidade de
P.Tay]or afirmou em ] 962 que, em setembro de 1939, Hitler viu-se obri- reanimar o dinamismo fascista quanto dos tradicionais sonhos imperiais
gado a entrar numa guerra que não queria, e que fbi o primeiro-ministro nacionalistas, e também do desejo de vingança pela derrota soh'ida pela
britânico Neville Chamberlain quem tomou a decisão fatal de desencadeá- Itália na Eti6pia, em Adwa, em 1896. Em inícios da décadade 1930, o re
la, ao estender a garantia militar à Po18nia,em março de 1939.28O revisto gamefascistada Itália enfrentavauma crise de identidade. Estavano poder
nismo de Taylor foi útil, pois forçou um exame mais atento dos arquivos. A havia uma década. Os Camisas Negras estavam se tornando complacentes,
conclusãomais convincente, contudo, é que embora Hitler possanão ter e as fileiras do partido haviam sido abertasa todo o tipo de recém-chega-
querido a prolongada guerra de duasfrentes na qual acabou se envolvendo, dos. Muitos jovens estavam atingindo a maioridade sem ter consciência dos
é bem provável que quisesseuma guerra localizada,curta e vitoriosa na heróicos primeiros tempos, e vendo os fascistas apenas como carreiristas
acomodados.
Polânia ou, pelo menos, ele queria passara impressãode ter conseguido
o que pretendia por meio de uma demonstração de força. Cada fibra do re- Mais tarde, quando a guerra na Europa se aproximava, embora fosse
gime nazista havia sido empregada na tarefa de preparar a Alemanha para a claro que Mussolini(ao contrário de Hitler) queria um acordo negociado

27. Tbe Goebbe/sZ)iaries,ed. Louis Lochner. Nova York: Doubleday, 1948, p. 314 29. Ga]eazzoCiano, Dfary / 937 ] 943. NovaYork: Enigma, 2002, p. 25 (texto de 13
(texto de 20 de março de 1943). Hitler referia-se à questão dos judeus. de novembro de 1937).
30. Bruno Biancini, ed. , Dizionarfo MussoJiniano.
Milho; Ulrico Hoepli, 1939, p. 88
28. A. J. p. Tay]or, Origina o/ tbe SecaraMor/dWar.NovaYork: Atheneum, ] 962, p.
210-2, 216-20, 249 50, 2