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o LUCIANO TRIGO libido (pára Marx, por exemplo, era a ..conquista de ambos os sexos, que de-; defendendo o lado errado..Passa en-
o luta -de classes). Ou ,a de que é uma ve ser exercida com consciência 'e tão a Criticar o "caráter da socieda-
uando escrevi o artigo "Um "idéia enferrujada" considerar obsce- responsabilidade, e não .é isto o que de", que exalta as popozudas e as
tapinha não dói" já espera no seja o que for. Não, professora, a se 'vê, nem o que se ouve (quem já es- transforma em celebridades instantã-
va despertar reações indig- obscenidade existe, e quando ela en- cutou a letra da "Máquina do sexo", neas. Ora, é outra forma de dizer o
nadas e ser chamado de re- volve meninas de 14 anos alguma coi- de um certo "Bonde do Careca"; sabe que eu disse: qüe vivemos num impé-
trógrado. A primeira sur- sa vai mal. • disso). As meninas que estão latindo rio do efêmero, em que as aparências
presa foi ver minha caixa de correio certo que cada época teve o seu e levando tapas na cara não estão valem mais que o caráter etc.
a eletrônico abarrotada de mensagens tapinha, mas tambémé Certo que ca-. exercendo liberdade alguma, estão Já em-suas referências à qualidade
5.. elogiosas e descobrir que o texto co- _ da ,época teve .seus limites -- e eles * apenas sendo tratadas como lixo e 'musical. do funk, a professora revela,
meçou a circular pela Internet, por . são fundamentais, ao contrário do. aderindo à submissão e à inferioridà- ela sim, uma série de preconceitos. A t
iniciativa dos leitores, incluindo ado-' ,que Angela parece preconizar. de que suas mães e avós levaram dé-': música de Peninha gravada .por Cae-
Jescentes. , A.:articulista, em seguida, destila . cadas para supetar. Estão abrindo. tano é belíssima; bem coma "Amor 1
s Nem tudo está perdido, pensei, um ódio e .uma revolta - mão cre sua dignidade love yoü" (e MO "Baby 1 love yoin,
quando veio a segunda surpresat-.ar espantosos só porque como seres humanos e de Marisa Monte.
a rea06 indignada não de um "tigrãO" escrevi "moça de famí- se deixando reduzir a Diante de tantos equívocos come-
ou de um membro da comunidade . lia" em. rhe. ártigO-,'ex.̀= As- menmas 'que uma bunda e Om par dê 'tidos' por uma-professora, fica mais I
funk, mas de uma mulher, e ainda por pressão'que, ao que'pa- peitos, muitas vezes si- fácil entender por que chegamos a
cima professora. rece, é hoje politica- estão latindo e liconados. este ponto. O que será de nossas
- Já que o debate cresceu — até por• mente incorreta. Estra- Sobre a forma "ge- crianças nas salas de aula?
torça do noticiário nos últimos dias,. nho o estado R que che- levando tapas não nial" com que Nelson A resposta já começa a aparecer.
dando conta de estupros e outras gamos: à Professora Rodrigues abordou o Um tal funqueiro mirim chamado Jo-
1 barbaridades supostamente cometi- não se incomoda vendo estão exercendo tema do "tapinha", a nathan, de apenas 7 anos, já quer "pe-
a das nos bailes funk — julgo conve- uma adolescente latir professora deve estar gar um filé com pcipozão".
niente fazer alguns comentários so- ao ser chamada de ca- liberdade alguma se referindo a unia en- Vou- concluir citando o e-mail que
trevista em que pergun- recebi de um leitor: "Depois a gente
bre o artigo "Tapa de pelica", que em chorra, mas ,se escan
taram ao dramaturgo se não entende O motivo do aumento
alguns momentos se -dirige direta- daizacom a expressão
toda mulher góstava de dos índices de violência contra a mu-
)- mente a mim ("Logo o senhor!" e cot- ' "moça det família", co- lher e por que ela é tão desrespeitada
sas do gênero, como se a autora me mo se fosse uma ofensa ou ingamen- apanhar, e ele respondeu: "Não, só as
to. Lamento informar à professora normais. As neuróticas reclamam." É na sociedade. Será que não é óbvio?"
i- conhecesse). Você, mulher, que está lendo isso, le-
a A professora Angela Carneiro gasta qüe existem, sim, •moças de família, um direito da professora concordar
vante-se e lute. Não seja uma cachor-
é os dois primeiros parágrafos para de-. da mesma forma que existem "tchu- com isso, mas eu discordo. Acho, na ra! Um tapinha dói, sim. Exija respei-
fender algumas premissas falsas. Por chucas" e "cachorras". Vou além: as melhor das hipóteses, engraçado,
to antes que nós, homens, acredite-
;. exemplo, a de que a dança só serve que são sabem que são, e as que não exótico, folclóxico, se for levado na mos que é Isso mesmo que vocês
- para expressar, um "desejo horizon- são sabem'que não são. E isto não é brincadeira. Levada a sério, a decla- querem. E lembrem-se sempre da ca-
tal". Não, professora, a dança é uma preconceito. ração de Nelson Rodrigues .é muito
Aliás, ao me acusar de "preconcei- triste, e não tem nada de genial. A da vez mais pertinente frase de Oscar
arte que expressa muitas outras coi-
Wilde: "Todo crime é vulgar, como to-
sas, e nem sempre a vontade de ir pa- to hipócrita sobre a diferença entre a não ser, talvez, para masoquistas.
Do meio para o fim, o artigo de An- da vulgaridade é criminosa."
ra a cama. Ou de que é somente a li- liberdade sexual do homem e da mu-
bido que móve o mundo. Não, profes- lher", a professora mais uma vez se gela Carneiro perde força, como se
LUCIANO TRIGO é jornalista.*
sora, o motor da história não é só a equivoca. A liberdade sexual é uma ela própria percebesse que estava

; Um tapin
LUCIANO TRIGO
.o3. I G-1.50

acho que neste processo foi junto a motivo,de. escândalo hoje pode ser mundo regido pelas aparências e pe-
nossa capacidade de indignação. Ti- assiMilado, maquiado e até incenti- lo dinheiro, onde um' carro Importa-
heguei a uma conclusão veram o mesmo destino, para o bem vado Pela mídia, em horário nobre. do vale mais que a honestidade e o
neste carnaval: sou mesmo ou Para o, mal, diversas conquistas . Um exemplo desse.-fenômeno é o caráter?.
ti de defender uma so-
Não se ira
um homem do século pas- das feministas, que depois 'de luta- novo status de Uma Variação da pro- .o fato é que
sado. Depois de ouvir pela rem durante déCadas 'contra a. opres- * fissão mais antiga do mundo: a garo- ciedade repressiva, mas
milésima vez refrões como "Um ta- sãO do macho,, devem estar vendo, ta de prOgrama. ,Hoje, a julgar pela essa total ausência de freios explica
pinha não dói", "Vou te jogar na ca- 'consternadas, suas filhas embarca-. mídia, esta é Uma atividade natural,chorras" a proliferação de orgulhosas "ca-
, que não contraria as- e "preparadas" em todas as
ma e te dar Muita pressão" e "Entra e rem no bonde do Ti;
sai, na porta da frente e na portá de grão'. É- Intrigante, normas da vida em so- frestas do tecido social. É claro que
trás", acompanhados de coreogra- aliás, a inexistência • :ciedade nem estigma- elas sempre,e4si1ram, mas antes pe-
tsoluta de reação, por U que no' passadoi, -, tiza quem R. pratica lo menos havia um .'pudo,!:;_.em rela-
fias para lá de sugestivas,--,a sensa- ,
çãO que tenho é de" que chegamos ao ;parte das-mulheres -• • - • , . Sem alicerces morais, .-ção-.;às aparências .que as confinava
era-motivo de sem noção de certá e simbolicamente a uma margem, a
limite da baixaria. Simplesmente, ,pensantes-do país ao
'processo em curso. de • • errado e com exem- 'uma periferia simbólica da vida ‘co-
não temos mais para onde ir.
Sei que o fenômeno do funk é in- vulgarização radical escândal hóje pios. como este, o que tidiana. Numa palavra: havia vergo-
teressante do ponto de vista antro- da imagem feminina, Impedirá uma menina nha..
pológico e sociológico, que ele refle- ,- que já ultrapassou to-- pode áer até • bbnita de usar seu cor- - Este pudor e esta vergonha desa-
te um entrelaçamento positivo entre dos 'os limites da Ima- po Para ascender $o- pareceram, e hoje a cidade mais. pa-
-.incentivado cialmente, num mundo rece um faroeste, e sua vida noturna
morro e o asfalto, uma diluição ginação.,
,Mas O mais intrigan- que a estimula perma- o cenário de uma caça desesperada
promissora das fronteiras entre as nentemente a se trans- ao prazer e à grana. E isto durante o
classes sociais, etc. Mas gostaria que te mesmo' é- a questão-. formar num bem de ano inteiro: o Carnaval só torna mais
alguém intelectualmente "prepara- moral, ou melhoi a.au- para que ela própria possa evidente essa dinâmica. Um tapinha
.do" me dissesse o que passa pela ca- sência da moral como' questão. Não consumo-
beça de Uma adolescente de família; se trata mais de uma inversão de va- consümir longe, outros bens? Ou, para nãO •pôde não doer., Mas o que ele repre-
Irmos tão, o que a convencerá senta é doloroso, pelo menos para
que rebola e responde "Au, aur lores, mas da eliminação tátal de-
quando ouve o refrão "Cachorra!" qualquer valor relacionado.à condun de que o.sexo deve ser vinculado ao , alguém do século passado.
A virada do milênio jogou muita . ta sexual: todo comportamento é le- amor, e não transformado num ins- -LUCIANO TRIGO .é jornalista.
coisa na lata de lixo da História, e gitimado, e' o que no passado era trumento de exploração mútua, num