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Porque falharam (desta vez) os "coletes amarelos" em Portugal

PAÍS

Porque falharam (desta vez)


os "coletes amarelos" em
Portugal
Poucas centenas de pessoas aderiram a um protesto que juntou
muitos milhares nas redes sociais. O que falhou parece óbvio,
explicam os organizadores. Mas os tempos estão de feição par…

Paulo Pena com David


Mandim e Paula Sofia Luz
Q uando os planos da realização televisiva se abrem, a
realidade aumenta. Em plano fechado, vêm-se caras, ombros,
olhos com raiva. Quando as câmaras mostram o contexto - por
21 Dezembro 2018 — 17:33

exemplo, a Praça do Marquês do Pombal, em Lisboa, com a sua


estátua e as duas rotundas - vê-se melhor a situação. Trinta ou
quarenta cidadãos, vestindo coletes amarelos, tentam cortar o
trânsito. Uns sentam-se no chão, outros empurram a polícia, outros
gritam "vergonha".

À volta desta manifestação, o dobro, ou o triplo, de polícias, de


mãos dadas, observam o protesto que prometia "parar Portugal"
mas não chegou a ter expressão, em nenhum dos 25 lugares
escolhidos pela organização.

Esta versão portuguesa dos "coletes amarelos" nasceu nas redes


sociais - e foi lá que começou a definhar. Ainda não eram 10 horas e
já o fracasso levava os organizadores a declarar que "o povo é
covarde", usando as teclas temerárias do WhatsApp. O resto das
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redes sociais ia gozando a situação com aquele sarcasmo habitual
Porque falharam (destanestas
vez) ossituações.
"coletes amarelos"
O trânsitoem Portugal
está melhor, gracejavam uns. Outros
partilhavam o vídeo de Idris, jogador de futebol do Boavista,
que vestiu um colete amarelo para que os manifestantes o
deixassem passar o cordão que o separava do treino da equipa,
no Porto.

O desânimo dos organizadores


"Pá, o pessoal teve medo", conclui Maria João Oliveira, a motorista
do Montijo que se tornou uma das (poucas) vozes do movimento
que aceitaram dar a cara e falar aos jornalistas.

Maria João entrou na organização do protesto quando esta já estava


em marcha, sendo adicionada como administradora do evento inicial
pelo grupo do Bombarral. Acontece que, no fim-de-semana, o grupo
desmobilizou e o evento - que contava com cerca de 50 mil adesões
- acabou por ser eliminado, o que valeu ao Facebook acusações de
censura. Foi a mesma Maria João que publicou um vídeo, no
sábado, explicando que os manifestantes em causa nada
tinham a ver com a extrema-direita ou especificamente com o
PNR. Mas nessa altura já era do domínio público que havia
movimentos infiltrados, ou que vários elementos da
organização do protesto partilhavam nas suas páginas
pessoais sites de movimentos extremistas, memes alusivos a
Salazar ou ao tempo do fascismo. E essa terá sido uma das
causas para afastar deste protesto quem genuinamente pensava
juntar-se e manifestar-se pelo aumento do salário mínimo, pelo fim
da corrupção na classe política, por mais justiça social.

Entre os diversos grupos de WhatsApp destaca-se o dos "coletes


vermelhos", que ameaçavam nos últimos dias "entrar em ação no
dia 22 se no dia 21 os coletes amarelos não vingarem", como
parece ser o caso. E é aí que reina a maior desilusão. O grupo tem
cerca de 50 membros, todos furiosos com o falhanço.

No Bombarral, onde tudo começou - como o DN tem vindo a


reportar - o grupo acabou por se desmembrar, com a saída do
principal mentor. Filipe Ferreira, o cavaleiro tauromáquico que
decidiu criar o evento depois de pagar o IMI, saiu do grupo no
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domingo passado, acusado de ter prestado declarações ao DN.
Porque falharam (desta vez) os "coletes amarelos" em Portugal

Claques, nacionalistas e lesados do BES


No Porto, alguns dos manifestantes acreditam que é preciso
continuar. "Vontade há, mas era preciso as autoridades baixarem a
guarda. É muita polícia", disse ao DN Luís Pereira, um dos mais
ativos a liderar a marcha com pouco mais de 100 pessoas que
seguiu do nó de Francos, local inicial da concentração, até à
Avenida dos Aliados, atravessando a cidade com a PSP a fazer uma
caixa de segurança em volta do grupo. Luís tem experiência em
"assumir um cortejo destes", já que integra a claque do
Leixões. De resto, os cânticos futebolísticos ecoaram logo cedo
e no grupo de coletes amarelos havia ainda, segundo Luís
Pereira, elementos dos Super-Dragões e de claques do
Boavista. "Quando os grupos das claques se unirem todos,
ninguém vai parar este movimento", antevê.

Carminda Silva, já na idade de reforma, também fez o percurso


a pé pelo Porto. Viajou de Esposende e resumiu de forma
positiva a iniciativa. "Para primeiro dia foi muito bom", diz a
mulher que "há cinco anos anda na luta". É uma das lesadas do
BES e o primeiro motivo que aponta para ali estar é esse: "Fui
roubada pelos banqueiros que têm uma vida de luxo à custa de
quem trabalha." Não era a única vítima das falências de bancos a
estar de colete amarelo. Manuel Sousa, 67 anos, saiu de casa "em
Monção às quatro da manhã para estar no Porto com uma bandeira
francesa na mão. Para quê? "Denunciar a corrupção e e exigir que
me devolvam as minhas economias", explicou o emigrante, com 48
anos de vida em Paris, que é um dos lesados do BES e do BANIF.

Outro caso é o motorista de transportes internacionais Helder Rios,


41 anos. Viu em França a revolta dos 'gilets jaunes' e depois de ler
no Facebook a iniciativa em Portugal aderiu com entusiasmo. No
terreno esperava mais. "Podia estar melhor isto. Muitos não
acreditavam que é possível. Em França, conseguiram", disse. Ao
lado, vários jovens já começavam a entoar cânticos de cariz
nacionalista enquanto agitavam bandeiras nacionais. "Portugal é
nosso é há-de ser" era um dos slogans ouvidos, tal como "Portugal,
Portugal" ou, numa variação curiosa, "O povo unido jamis será
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vencido".
Porque falharam (desta vez) os "coletes amarelos" em Portugal

O vírus da desinformação
Esta foi a primeira experiência - mas não será com certeza a
última - de uma manifestação deste tipo. Quem a convocou,
desta vez, terá concluído que é fácil fazer o mais difícil: criar a
sensação de que vai acontecer e tem significado. As redes
sociais já rivalizam com a televisão enquanto principal meio de
acesso à informação dos portugueses. O Facebook (de longe o
mais frequentado), o Twitter e o WhatsApp são, também, a própria
mensagem. Este protesto que juntou poucas centenas de pessoas
em todo o país, esta sexta-feira, 21, agregou mais de 50 mil
pessoas "virtuais". Da mesma forma, a "informação" que os juntou é
aquela que consegue mais impacto entre os milhões de utilizadores
das redes: a que revolta, enraivece, indigna.

Nas páginas anónimas que lideram, semana após semana, os


rankings de partilhas no Facebook, a corrupção, o crime e a injustiça
são quotidianos. Longe dos olhares de muitos - jornalistas, políticos,
analistas - ali se criam e crescem grupos fechados que multiplicam a
raiva, o desespero, o cinismo. "Estado=ladrão" é o resumo deste
programa político crescente, numa faixa usada por dois dos
protestantes dos "coletes amarelos". Basta ler o que lá está, na
página do protesto: mensagens anti-elite, anti-imigração, anti-
política.

Muitas destas crenças são falsas. As "mordomias" dos deputados,


por exemplo, que se baseiam na convicção de que os
parlamentares portugueses são dos mais bem pagos da Europa, é
facilmente contrariada pela realidade: os salários dos deputados
portugueses são muito mais baixos (em alguns casos menos de
metade...) do que em França, Chipre, Alemanha, Finlândia, Bélgica,
Itália, Irlanda, Áustria, Holanda, Dinamarca, Luxemburgo, Suécia e
Reino Unido.

No início, uma das reivindicações do movimento era o


cancelamento do Pacto Global para uma Migração Segura,
Ordenada e Regular, da ONU, assinado em Marraquexe por
António Costa, no início de dezembro. Para Portugal, os
refugiados são um problema tão grave como, por exemplo, o
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número de praticantes de saltos de esqui. Durante a crise que
Porque falharam (destaabalou
vez) os a
"coletes
Europa,amarelos"
chegaramemao
Portugal
país menos de 1700 migrantes.
Quase metade saiu, entretanto, do país.

Mas a forma como estas convicções alastram é conhecida. Surgem


associadas à ideia de que vivemos num "sistema" dominado por
"corruptos", gerido por "ladrões". O tema é "popular", garante gostos
e partilhas, torna-se "viral", como agora se diz para comparar a
difusão destas mensagens políticas com uma epidemia de gripe.

Há um fundo de verdade neste mundo de desinformação, como é


regra. Há um descontentamento óbvio, mesmo que não seja o que
os criadores deste protesto apresentam. O IVA da eletricidade é
muito alto, de facto. A pobreza, a desigualdade, a precariedade
laboral, existem. O debate político é codificado e muitos dos seus
protagonistas parecem ignorar a forma como são avaliados pelos
cidadãos. A "polarização" - a forma como se tornam irredutíveis as
crenças - está no seu auge.

E depois há a rapidez. Os coletes amarelos de França podem ter


começado com a criação de um grupo no Facebook criado por um
emigrante português. Da mesma forma, vários dos manifestantes
franceses participaram na organização do protesto português -
lançando ideias no Facebook e no WhatsApp. O mundo virtual é
uma aldeia. E não será por acaso que surgem, por toda a Europa,
no Brasil, nos EUA, nas Filipinas e em tantos outros lugares,
movimentos "populistas", líderes autoritários, projetos nacionalistas.

PA R T I L H A R

COMENTÁRIOS
MENU  12 27 comentários Ordenar por Principais

Porque falharam (desta vez) os "coletes amarelos" em Portugal


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Pedro Leal Narciso Narciso


Os Portugueses: Sentem-se, Explorados, Enganados, Roubados, Pelos
Governos, Partidos Políticos, PSD - PS. É Inadmissível, Milhares de
Trabalhadores, Descontaram, Mais de 40 Anos, Para a Segurança Social,
Idosos, Recebem Reformas de Pobreza, Miséria; Foram Congeladas,
Estão Muito Abaixo do Ordenado Mínimo Nacional, 427,39 euros.

Esperam Justiça a Reposição e Actualização das Reformas. Aumentou a


Desigualdade nas Reformas, os Impostos Aumentaram Inflacionados,
Discriminação Social. Milhares de Euros, São Dados à Santa Casa da
Misericórdia em Subvenções, Quando Ela Tem Um Património de Milhões,
… Ver Mais
Gosto · Responder · 3·1h

Ondina Sousa
Mentira! Sentem que lhes está a ser devolvido o que foi cortado
nos ordenados e o que foi o enorme aumento de impostos da
legislatura anteiror! É isto o que sentem os que vivem do trabalho!
Estamos em recuperação! Haja seriedade!
Gosto · Responder · 1 h

Isabel Brito
Ondina Sousa, não se nota nada! Devo estar a precisar de mudar
de óculos!!!
Gosto · Responder · 1·1h

José Brito
Isabel Brito É melhor, é!
Gosto · Responder · 47 min

Mostrar mais 1 resposta neste tópico

Ondina Sousa
Tanto interesse nos coletes!
Gosto · Responder · 2·1h

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