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Implicação e Sobreimplicação*

René Lourau

Os usos epistemológicos, sociológicos, psicológicos da noção de implicação


podem ser rastreados, por exemplo, em Bastide (1950), Piaget (1950; 1977), Devereux
(1967; 1980), Lourau (1969; 1981; 1987; 1988), Bohm (1980; 1987), Morin (1982;
1986). Ao mesmo tempo, porém, o termo implicação, proveniente dos campos do
direito e da matemática, é freqüentemente empregado fora de qualquer contexto teórico.
Há alguns anos, tem compartilhado uma nebulosa ideológica com palavras como
“compromisso”, “participação”, “investimento afetivo”, “motivação” etc.
O presente texto não pretende sintetizar as contribuições dos autores acima
citados, nem explana as teses de quaisquer outros, ainda que pesquisadores em
sociologia de campo, antropologia ou análise institucional. Limita-se a tentar explicar
uma deriva “utilitarista” da noção de implicação.
“Implicação” produz suas metástases não apenas nos âmbitos da formação e da
saúde, ou mesmo do trabalho social, nos quais, invertendo uma fórmula aplicada aos
países do leste europeu, por vasto tempo sob domínio comunista, se pode dizer que a
ideologia foi substituída pela psicologia. Muitos outros campos sócio-profissionais são
afetados. O termo implicação se insinua nos jargões midiáticos, políticos, empresariais.
A própria comunicação, hoje, se resume a um “implicar-se” na utilização de uma
máquina “interativa”. Em última análise, muitos não se comunicam mais, bem ou mal,
como vocês e eu: implicam-se.
A origem deste uso voluntarista, produtivista, utilitarista, supostamente
pragmático, do termo implicação encontra-se, talvez, numa mescla de influências
cristãs, existencialistas, fenomenológicas, psicologistas. “Eu me implico”, “ele não se
implica o suficiente” são fórmulas que equivalem a versões novas de outras, velhas: “eu
me comprometo”; “ele não se compromete realmente”.
Tais fórmulas constituem juízos de valor sobre nós mesmos e sobre os demais,
destinados a medir o grau de ativismo, de identificação com uma tarefa ou instituição, a
quantidade de tempo/dinheiro que lhe dedicamos (estando lá, estando presentes), bem
como a carga afetiva investida na cooperação. É uma espécie de virtude teologal: a
“presença no mundo”. Depois do protestantismo, o catolicismo social a tem preconizado
a fim de reduzir a distância hierárquica entre o clero e o povo de Deus, entre os patrões
*
Implication et surimplication. Revue du MAUSS (Mouvement Anti-Utilitariste dans les Sciences
Sociales), nº. 10, 4º trimestre, 1990. Tradução: Ana Paula Jesus de Melo
e os operários, entre os grandes proprietários e os trabalhadores agrícolas. Tal é o
substrato teológico desta ideologia. Porém, não nos surpreendamos que a este se
mesclem também, tanto no Ocidente quanto no Oriente, elementos não diretamente
religiosos: o sincretismo é um fator de êxito para o implicacionismo.
A inflação do implicacionismo torna cada vez mais difícil o uso da noção de
implicação no quadro teórico que, para certo número de investigadores, permanece
sendo o da análise institucional. Foi neste quadro que nasceu o conceito de implicação,
sob a influência da contra-transferência institucional em psiquiatria e sob o efeito da
intervenção socioanalítica. Muitos outros investigadores utilizam implicação como uma
noção errática, sem nexos com uma teoria englobante. Inclusive aqueles que se referem
eventualmente a Devereux, ou a certa variante da fenomenologia moderna, nem sempre
escapam à deriva solitária do conceito.
Caso se tratasse somente de uma discussão semântica, não falaríamos mais do
tema. Talvez até buscássemos outra palavra, outro representante da coisa, outro
significante (segundo a lingüística saussureana), ou outro representamen (consoante a
semiótica de Peirce). Mas se significantes e representamen geralmente admitem
manuseios sem grandes protestos (“democracia”, “ordem”, “progresso”, “liberalismo”,
“socialismo”, “revolução” etc.), exigem do investigador um tratamento menos brutal. Se
o investigador leva a sério não os seus resultados mais, ou menos insólitos, mas sua
neurose explicativa e, mais ainda, sua neurose de comunicação, não se pode permitir
impor um sentido às palavras da tribo a fim de gemer quando a mesma continua a usar
tais palavras conforme os pesos e as estratégias dos intercâmbios cotidianos teleguiados
pela Bolsa de Tóquio ou de Nova Iorque. A deriva de sentido é parte do trabalho do
conceito, já que o conceito, como a madeira de construção, “trabalha”. O sentido que
tratamos de estabelecer, para além das exortações mágicas dos sociólogos neo-
positivistas, não é “puro”, contrariamente ao que sustentava Mallarmé  “dar um
sentido mais puro às palavras da tribo”  em seu famoso Toast Funèbre. O sentido que
tratamos de estabelecer é diverso. Está ajustado a uma estratégia. Encontrar outra
palavra ou, em último caso, um signo abstrato, um sinal, como o signo matemático da
implicação  e, por que não, o da inclusão , constitui um deslocamento da questão, não
uma melhor resposta.
A carga semântica da palavra é a presença ativa, chamativa e obscena, de seu
devir, de sua relação com o jogo de forças e formas sociais (institucionalização). É

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quase impossível analisar o devir sem tentar descrever em que ele nos analisa – ele, o
analisador de todas as coisas, o parteiro da contradição permanente, que integra tanto os
fazedores de anjos e as técnicas contraceptivas quanto a nova tecnologia da procriação
artificial e os novos Prometeus de avental branco. Semelhante trivialidade, bem
teorizada por filósofos árabes na Europa medieval, parece ser ignorada pelos modernos
partidários do cientificismo, hoje na crista da onda.
A gênese teórica do conceito de implicação, aquilo que lhe permite surgir
atualizado como elemento de uma teoria das ciências sociais, não oferece dificuldades
insuperáveis. O mesmo não ocorre, todavia, com a gênese social do conceito.
Expondo brevemente a instabilidade ideológica do implicacionismo, indiquei o
tom. Toda uma investigação, de resto apaixonante, deverá ser levada a cabo para
descrever a gênese social e, concomitantemente, corrigir, e mesmo invalidar, aquilo que
surja como excessivamente esquemático no esboço que ora apresento. A gênese social
do conceito de implicação obriga a sociologia, se esta não quiser permanecer um
discurso semi-filosófico acerca do social, a receber em pleno rosto as contradições mais
desagradáveis e nos obriga a moderar nosso otimismo profético. Da mesma forma
pensa Jacques Guigou (1987):

A crescente velocidade com que se institucionaliza a investigação exige uma


espécie de censura burocrática a tudo aquilo que, pertinente à vida cotidiana
dos investigadores, constitui-se em parasita segundo a lógica dita
“científica”.

Assinalando que a “síndrome da implicação afeta a tal ponto os investigadores


das ciências sociais e seus mestres, que a mais completa confusão se tem difundido a
propósito deste conceito”, Guigou põe em evidência o seguinte paradoxo: enquanto o
implicacionismo e o modismo da implicação fazem furor, a investigação se burocratiza,
fechando-se cada vez mais em segredos. Logo, se o sistema fala de implicações, é para
impedir que sejam desveladas. “Implique-se, reimplique-se, porém não analise suas
implicações”, faz dizer Guigou ao sistema. De fato, a forma pronominal, reflexiva, do
verbo “implicar” designa não somente aquela virtude teologal a que antes nos referimos,
mas principalmente o sobretrabalho exigido pela produção de uma mais-valia, de uma
rentabilidade suplementar. Por sobretrabalho compreendemos algo diverso daquilo que
seria simplesmente o dever do cidadão perante o Estado, o qual consiste, para os

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cristãos, no exercício correto de um ofício, a fim de provar que não estão fora deste
mundo. Reportamo-nos, então, ao que Jules Celma (1971) chama “exploração da
subjetividade”, que sucede a exploração da objetividade do homem no trabalho alienado
 forma de sobre-exploração e sobre-repressão, no sentido marcusiano.
Autorizamo-nos a propor o termo sobreimplicação para designar esta deriva do
conceito de implicação, relacionada à subjetividade-mercadoria.
A implicação é um nó de relações; não é “boa” (uso voluntarista) nem “má” (uso
jurídico-policialesco). A sobreimplicação, por sua vez, é a ideologia normativa do
sobretrabalho, gestora da necessidade do “implicar-se”.
O útil ou necessário para a ética, a pesquisa e a ética da pesquisa não é a
implicação  sempre presente em nossas adesões e rechaços, referências e não
referências, participações e não participações, sobremotivações e desmotivações,
investimentos e desinvestimentos libidinais... , mas a análise dessa implicação.
Um cidadão que participa de quinze associações e vota regularmente não está
mais “implicado” nem “se implica” mais do que o que somente faz parte de duas
associações e jamais vai depositar seu voto nas urnas. A respeito do primeiro, podemos
dizer que é mais participativo, mais comprometido. Contudo, as implicações do não-
participacionista não são menos fortes do que as do participacionista. Ambas devem ser
analisadas. O absenteísmo e o abstencionismo não revelam ausência de implicação:
configuram atos, comportamentos, assunções de posturas éticas, políticas. A deserção e
a defecção são tão significativas  conforme assinala Hirshmann  quanto o ato de
tomar a palavra participativamente, nele incluída a contestação participativa ou a
participação contestatária. Se a participação e o compromisso com certos setores da vida
social (não necessariamente com todos) podem simbolizar adesão, integração ou
identificação, a deserção e a defecção podem, por sua vez, simbolizar uma desafetação
 força altamente instituinte, como temos podido observar, há um ano, nos países do
leste europeu. Em um antigo estudo (1969), tratei de mostrar como a ideologia
participacionista, bastante ativa imediatamente após os movimentos de 1968, orientava-
se no sentido de retomada das rédeas depois da grave crise de desafetação que atingira
grande parte do sistema institucional. Durante as duas décadas transcorridas desde
então, a obsessão com o “retorno aos valores seguros” dá provas da profundidade da
desafetação e da necessidade de uma constante propaganda em favor da
sobreimplicação.

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Assim, a oposição entre o aspecto ativo (ativista) da sobreimplicação e o aspecto
passivo da implicação (sempre já existente) é mera aparência que convém superar. A
sobreimplicação e o ativismo, uma vez analisados, apresentam aspectos extremamente
passivos: submissão a ordens explícitas ou a consignas implícitas da nova ordem
econômica e social, ávida por preencher as grandes brechas produzidas tanto pela
desafetação quanto pela institucionalização, maior ou menor, do desemprego. A
implicação, por sua vez, deve ser analisada individual e coletivamente, o que supõe uma
atividade intensa e, muitas vezes, penosa. Apesar de nada haver nela de essencialmente
passivo, uma dificuldade quanto a sua análise, conforme assinala Guigou, é que a
implicação se encontra camuflada pela sobreimplicação, mantida à sombra desta última.
Sem dúvida, a sobreimplicação também interfere na análise da implicação
quando isolamos um dos campos de análise, psicologizando-o, por exemplo. Ainda que
de modo confuso e sem grandes teorizações, Devereux teve consciência disso ao falar
em “situação de observação”. Quando a relação com o objeto ocupa todo o espaço e
esvazia os outros campos de implicação (Manero, 1987) existentes  como a
encomenda, a instituição, a relação com a teoria, a relação com a escritura ,
psicologiza-se e se sobreimplica um campo. A autonomização de outro campo – o da
análise da encomenda social, por exemplo – leva-nos a subestimar os demais, desta vez
por um efeito de sociologização. Deste modo, pode-se chegar a negar a existência de um
ou outro campo; por exemplo, o libidinal, o da relação com o objeto, ou mesmo aquele,
igualmente obscuro e determinante, da relação com a escritura.
O nível ou campo de análise mais imediatamente objetivo  pertencer a
determinada classe, estatuto, etnia etc.  não deve ser hipostasiado sob pena de deixar
escapar outros níveis ou campos de análise da implicação. Tampouco convém lançar
mão da explicação multiuso através do imaginário, ainda que o imaginário não esteja
ausente, em absoluto, quer da implicação quer dos insigths sobreimplicacionais.
No velho vocabulário marxista-militante, a fim de exorcizar seu vergonhoso
pertencimento ao “outro lado da Fenda” (como diria Jack London), os intelectuais
inventaram o conceito tipicamente teológico de “posição de classe”, mágico resultado
de seu “compromisso”. Esta posição imaginária  genitora de falsa consciência, no
sentido de Mannheim ou de Gabel  evitava enfrentar a análise das implicações reais.
Isto foi denunciado com veemência por uma célebre terrorista, Ulrike Meinhof, às
vésperas de sua morte (1976-77). Como o marxismo institucional, ou mesmo terrorista,

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já não pode decentemente recorrer à noção de “posição de classe”, as novas roupagens
do implicacionismo estão dispostas a rejuvenescer as velhas extravagâncias
“progressistas”. Da perspectiva de uma sociologia da intelligentsia temos o direito,
como tratei de o fazer (Lourau, 1981), de definir o intelectual por seu rechaço a analisar
suas implicações  rechaço dissimulado, mais uma vez, sob a retórica da
sobreimplicação, da participação na universalidade do “progressismo”.
A sobreimplicação é o plus, o ponto suplementar que o docente atribui ao
trabalho do aluno se encontra esmero em seus cadernos (foi assim que minha filha
trouxe para casa, triunfalmente, um 21 sobre 20 em matemática, matéria em que ela já
brilhava). A sobreimplicação é composta igualmente de virtudes exigidas dos
empregados, hierarquizadas em grades de avaliação. O comitê da empresa TF1, cadeia
de televisão privatizada, sob o comando do rei do concreto Francis Bouygues,
promoveu um sistema sobreimplicacionista de qualificação que compreendia, além de
“Coragem-tenacidade-vontade de êxito”, a rubrica “Implicação-estado de ânimo”
(Libération, 5 de fevereiro de 1988, p. 7). O projeto de grade de avaliação de Bouygues
mostra bem que se trata de exigir um suplemento de espírito, garantia de um
sobretrabalho diretamente produtor de identificação com a instituição e indiretamente
produtor de mais-valia em favor do empregador  e não em favor do trabalhador
coletivo, cuja cooperação repousaria minimamente, ainda e sobretudo, na resistência. É
a autogestão ou a co-gestão da alienação.
A situação de desafetação silenciosa (no sentido em que Bernanos falava de
“apostasia silenciosa”, a propósito de seus correligionários cristãos), embora vise ao
instituído, é também diretamente produzida pelo instituído. Quem, afinal, fabrica a
soropositividade do desemprego gigantesco senão o sistema político-econômico e sua
filosofia “liberal”, que transcende a questão da felicidade, denegando-a com uma força e
uma violência equivalentes às que exercia a dominação teocrática? Eis o que se deve
dissimular e ocultar a todo custo, através da nova “exploração de subjetividade”. Não
tão nova assim, aliás, se pensarmos nas Cruzadas, nas guerras modernas baseadas no
recrutamento obrigatório e na obrigação de patriotismo, nos velhos totalitarismos
vampirizadores da subjetividade como são os do século XX: “Por trás da
sobrepolitização nazi ou estalinista se produz e reproduz o recalcamento sistemático da
política”, assinala J. M. Vincent (1987). A sobreimplicação não é uma ferramenta de
sobrepolitização total, mas pode se transformar nisso. Já não é a psicologia (o
psicanalismo) que devém ideologia, é o inverso: “A ideologia tornou-se a psicologia de

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dezenas de milhões de trabalhadores, kolkhozenos, agrônomos, docentes, médicos e
dirigentes”. Nesta enumeração ao estilo Prévert, Leonid Abalkine, alto burocrata da
pesquisa na URSS, desastradamente esquece... os pesquisadores (Le Monde, tradução de
um trecho de Komsomolskaia Pravda, fevereiro, 1989).
Esta OPA1 da ideologia sobre o psiquismo se manifesta em muitos setores.
“Impregnados de harmonia evangélica e contestatária, os dominicanos do Cervo
mostram um sorridente desapreço pelo que tacham de juridismo ou formalismo (...). A
única coisa que importa é participar, com recíproca confiança, da equipe fraternal dos
religiosos e laicos que anima a Casa”. É assim que Michel Carrouges, especialista em
“máquinas celibatárias”, descreve, divertindo-se, o bem conhecido convento-editora-
centro cultural (1974).
Partido, Igreja... e a empresa? “Na fábrica, o nós é utilizado em um sentido que,
bizarramente, é quase o oposto do que se encontra no dicionário: esta pequena palavra,
que habitualmente remete a uma idéia de comunidade, adquire um valor de advertência
na boca de um dirigente e marca a diferença que o deve distinguir dos outros”, observa
o húngaro Harastzi (1970).
Os outros, os operários, dizem “eles” para designar os supervisores, empregados
de escritório e dirigentes, dentro ou fora da fábrica. O “nós” está carregado de uma
encomenda de sobreimplicação. Apela à submissão dos operários através da ficção de
uma comunidade não mais evangélica, mas... comunista.
Abandonemos a Hungria dos anos 1970. Voltemos a Paris, anos 1980. Peter
Halbherr desenvolve uma enquete na sede francesa de uma famosa multinacional
dedicada a técnicas de comunicação. Um de seus informantes, há muito “gerente” da
empresa, descreve sua carreira, à primeira vista aberrante, mas, na realidade,
absolutamente típica do modo como a empresa manipula a sobreimplicação de seus
executivos. “Em cada período ele avançava rapidamente, com uma mobilização máxima
de seu potencial de trabalho (sublinhado por mim, René Lourau), para ser
imediatamente recolocado em um novo ponto de partida, mais modesto, que permitia
um novo avanço rápido”. O “ritual de avaliação” é repetitivo e estressante. “A
implicação do empregado nesse jogo é total e, neste sentido, trágica”. Para Peter
Halbherr, trata-se de “loucura institucional” (1987). Em estudo anterior sobre a mesma
empresa, realizado pela equipe de Pagès (1979), pode-se ler: “As políticas de TLTX vão

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N. do T. - Offre Publique d’Achat, que reporta ao momento em que uma empresa quer comprar as ações
de outra para obter seu controle.

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muito além de ‘tratar bem o pessoal’, que continua sendo a regra da empresa clássica;
tais políticas se apóiam em uma filosofia da qual pretendem se afastar: não se contentam
em dar para desculpar a exploração, elas exigem”. Casos recentes, muitas vezes
trágicos, de dissidência de executivos licenciados são analisados, pelos atores ou por
testemunhas, em termos de vampirização. O contexto é descrito por Rank Xerox como
de “euforia e mobilização permanentes”. Um engenheiro da IBM, antes de se suicidar,
fala de “mutação da personalidade”. A seleção dos futuros executivos “de alto
potencial” induz à criação de um “organograma bis” para os indivíduos que sabem
rentabilizar seu estresse e possuem um “ânimo” forte.
Do ponto de vista da análise institucional, a sobreimplicação não só produz
sobretrabalho, estresse rentável, doença, morte e mais-valia, como também cash-flow 
benefício absolutamente nítido consagrado ao reinvestimento e, portanto, ao
crescimento indefinido da empresa-instituição. As relações sociais produtivas são
“cash-flowizadas”. A lealdade à empresa, que Hirshmann compara à lealdade que os
Estados Unidos esperam de seus cidadãos, não é também uma forma de cash-flow? É o
que sugere Eric Burmann: “Antes, o cidadão devia servir fielmente ao Estado, fiador da
ordem social capitalista; agora, deve estender tal civismo à sua atividade no seio da
empresa, em seu trabalho. Os direitos do homem nunca foram outra coisa senão o
direito que garante os privilégios sociais. O dever das massas dominadas era respeitar
passivamente esses privilégios, erigidos, de modo falacioso, em direitos naturais. Hoje
elas devem promovê-los” (texto datilografado, transmitido pelo autor, 1987).
O implicacionismo da sobreimplicação é a performance ergológica ou desportiva
(ou mesmo artística), o neo-stakhanovismo que, no Japão, resulta não somente nos
círculos de qualidade como forma de recuperação do sobretrabalho intelectual e físico
da base, como igualmente, na recente legislação japonesa, na instituição do karoshi 
reconhecimento de morte por excesso de trabalho.
A morte por trabalho não deveria espantar os pesquisadores sobreimplicados no
trabalho do conceito de implicação!

* * * * *

Eu estava trabalhando em Moisés e o monoteísmo, de Freud, quando


determinada manhã, ao despertar, peguei no ar esta palavra, “sobreimplicação”. Ela
estava a ponto de se desvanecer, como já se desvaneciam as linhas memorizáveis de

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meu sonho. Somente mais tarde novas associações substituiriam as que ainda flutuavam
ao despertar.
Na véspera da noite do sonho, eu recebera a fotocópia de um manuscrito de
Fernand Deligny, Tentatives d’approche du tacite, cuja leitura me emocionara tanto
quanto a releitura de Moisés. Impressionara-me particularmente a insistência de Deligny
em evocar o “on2” como um embreador “indefinido” de tudo o que é tácito, ou
tacitamente óbvio, na comunicação instituída. Não sei se eu conhecia, à época, o Diário
clínico de Ferenczi; em todo caso, pouco tempo depois, a “intropressão” do adulto sobre
a criança se harmonizaria, para mim, com a idéia de uma enorme carga de on pesando
sobre as crianças autistas, bem como sobre todos nós, animais infantis desnaturalizados.
Tal é o contexto de descoberta  se o termo não parecer ambicioso em demasia 
da noção de sobreimplicação e também a origem do desdobramento do implicacionismo
em dois conteúdos contraditórios e dialeticamente vinculados. A sobreimplicação do
velho Freud em seu laborioso e caótico ensaio sobre as fontes do monoteísmo e o
caráter sumamente problemático de um pai da religião judaica produziram em mim,
desde as primeiras leituras, uma verdadeira irradiação de angústia, de angústia de morte.
O velho pai  e meu próprio pai, falecido em 24 de dezembro de 1986  atormentado
por seus melhores filhos, Jung, Adler, Rank, Reich e, inclusive, Ferenczi; em seguida,
preocupado com a ascensão do nazismo; logo perseguido, exilado e morrendo longe de
sua Viena; ele (e nenhum outro) podia, na velhice, descer à arena e afrontar, até a morte,
o Nome do Pai. Ferenczi, o filho querido e insuportável, acabara de morrer. Porém de
Freud a Ferenczi, de Ferenczi a Balint, de Balint a Devereux, a cadeia austro-húngara, a
cadeia bohemiana se prendia, para mim, ao elo Deligny.
Da clínica stricto sensu à clínica social, e da clínica social à análise institucional
da pesquisa, uma continuidade tenta se estabelecer, quiçá retorcida qual o anel de
Moebius. Com interlocutores diversos, na França e no exterior, experimentei a
performance relativa do conceito de sobreimplicação, o qual ajuda a deixar para trás a
velha/nova problemática “subjetivismo/objetivismo” em que se refugiam as variedades
de fenomenologismo ou de suposto “anti-positivismo”.
Com a sobreimplicação, apreende-se o vínculo entre subjetivismo e
instrumentalismo. Neste sentido, o implicacionismo do sobretrabalho é paradigmático.
No que concerne à pesquisa ou ao “trabalho intelectual” em geral, somente forneci

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N. do T.- On equivale ao se, partícula indeterminadora do sujeito em português: fala-se, canta-se, deixa-
se...

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breves indicações, que é preciso retomar, sistematicamente, para averiguar de que modo
o rechaço puro e simples da análise da implicação (que define o “intelectual”) se liga ao
suposto pragmatismo do implicacionismo.

1987-1990

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