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O CONTROLE

DA MENTE
T í t u l o o r ig in a l:

aákn and Civilization: Control of the Mind

publicado em 1961 pela


M cGraw-H ill Rook Company , I nc.,
N ew Y ork, E . U , A .

Copyright ( c ) 1961 hy McGraw-Hill Book Co., Inc.

Capa de
ÉRICO

Revisão tipográfica de
R eyitex

1963

Direitos para a língua partuguêsa adquiridos por

Z A H A R E D I T O R E S
R u a M é x ic o , 31 — R i o d e J a n e i r o

que se reservam a propriedade desta tradução

Impresso nos Estados Unidos do Brasil


Printed in the United States of Brazü
ÍNDICE

F a r tic ipa n te s ................................................ 7


P r efá cio ............................................................................................................................... ®
I ntrodução ........................................................................................................................ 13

PRIMEIRA PARTE

A M ENTE E SU A IN T E G R A Ç Ã O .................................... 17

A s B a s e s F is io ló g ic a s d a M e n t e — W ild e r P e n f ie ld .......................................... 19
A s p e c t o s B io q u ím i c o s d a A t iv id a d e C e r e b r a l — H o lg a r H ydén ............. 34
O P a p e l d a E x p e r i ê n c ia — D o n a ld O . H eb b .................................................... 39
O P a n o - d e - F u n d o F ís ic o d o s P ro c e sso s M e n t a is —Debate ......................... 72
A s P o s s ib ilid a d e s H u m a n a s — A ld o u s H u x l e y ............................................... 79

SEGUNDA PARTE

A IN F L U Ê N C IA D A S D R O G A S S Ô B R E O IN D IV ÍD U O ... 95

L i m it e s Q u ím ic o s d a P s ic o f a r m a c o lo g ia — S e y m o u r S. K e t y ..................... 97
R e a ç ã o I n d i v i d u a l à s D r o g a s — J a m e s G . M il l e r ........................................ 111
A s D r o g a s e o C o n t r o le d a M e n te — J o n a t h a n O . C o le ........................... 130
H o r iz o n t e s d a P s ic o f a r m a c o lo g ia —Debate ............................................................... 141

TERCEIRA PARTE

A M ENTE E A SO C IE D A D E ......................................... 151

A E x p e r iê n c ia d a H i s t ó r i a R e c e n t e — H . S t u a r t H u g h e s ........................... 153
A M o tiv a ç ã o H u m a n a n u m a S o c ie d a d e R i c a — C . A . M a c e .................. 164
O I n d iv íd u o e a I n f lu ê n c i a d a R e l i g i ã o n a S o c ie d a d e — M a r t in C .
D *A r c y , S. J ............................................................................................................................ 164
A s p e c t o s d o P r o c e s so C r i a d o r — A r t h u r K o est le r .......................................... 20 9
D e c is ã o I n d i v i d u a l e D e c is ã o e m G rupo — Debate ..................................... 231
QUARTA PARTE

O IM P A C T O D A T E C N O L O G IA SÔ BR E A M ENTE .... 23 9

O C o n t r o le d a M e n t e p e l a R e a l i d a d e : C o g n iç ã o H u m a n a e S o lu ç ã o d e
P r o b le m a s — H e r b e r t A . S im o n ........................................................................ 241
A E d u c a ç ã o P o lít ic a e o C o n t r o le d a M e n t e — W illia m E . P o rter . . . 2 55
A C o m u n ic a ç ã o e a M e n t e — H a r o l d D . L a ssw ell .................................. 2 7 2
O P r o g r e s so d a C iv iliz a ç ã o — Debate ........................................................................ 2 9 2

QUINTA PARTE

R E S T R IÇ Ã O E L IB E R D A D E DA M ENTE ...................... 303

R e s t r iç ã o d a M e n t e — Debate ....................................................................................... 305


L ib e r d a d e d a M e n te — Debate ....................................................................................... 3 38
Participantes

Francis C. Brown, p r e s id e n t e da Donald O. Hebb, p r o fe s s o r d e P s i­


J u n t a D ir e t o r a d a S c h e r in g C o r ­ c o lo g ia , U n iv e r s id a d e d e M c G ill,
p o r a t io n ; p r e s id e n t e d a F u n d a ­ M o n t r e a l, C a n a d á .
ç ã o S c h e r in g , B lo o m fie ld , N o v a
Je r s e y . H. Stuart Hughes, p r o fe s s o r de
H i s t ó r i a , U n iv e r s id a d e d e H a r -
Jonathan O. Cole, c h e fe d o C e n tr o
v a r d , C a m b r id g e , M a s s a c h u se tts .
d e S e rv iç o d e P s ic o f a r m a c o lo g ia ,
I n s t it u t o N a c i o n a l d e S a ú d e , S e r ­ Aldous Huxley, e sc r ito r , L o s A n ­
v iç o d e S a ú d e P ú b li c a d o s E s t a ­ g e le s, C a lif ó r n ia .
d o s U n id o s , B e t h e s d a , M a r y la n d .
Holgar Hydén, p r o fe s s o r e d ire ­
Padre Martin C. D*Arcy, S. J . , ex-
t o r d o D e p a r t a m e n t o d e H is to -
- d ir e t o r d e C a m p io n H a ll, O x ­
lo g ia , F a c u ld a d e d e M e d ic in a d a
fo rd ; p r o v in c ia l da P r o v ín c ia
U n iv e r s id a d e d e G õ t e b o r g , S u é ­
I n g lê s a da S o c ie d a d e d e Je su s,
I n g la t e r r a . c ia.

William R. Dennes, p r o fe s s o r d a Seymour S. Kety, c h e fe d o L a b o r a ­


C a d e ir a M ills d e F i lo s o f i a I n t e ­ t ó r io d e C lín ic a d o I n s t it u t o N a ­
le c t u a l e M o r a l e P o lít i c a C iv il, c io n a l d e S a ú d e M e n t a l, B e t h e s ­
U n iv e r s id a d e d a C a li f ó r n i a , B e r- d a , M a r y la n d .
k e le y , C a lif ó r n ia .
Arthur Koestler, e sc r ito r , L o n d r e s ,
Seymour M. Farber, v ic e -d e ã o p a r a
I n g la t e r r a .
o C u r s o d e E x t e n s ã o d e M e d ic i­
na e C iê n c ia s M é d ic a s, C e n tr o David Krech, p r o fe s s o r d e P s ic o lo ­
M é d ic o d a U n iv e r s id a d e d a C a ­ g ia , U n iv e r s id a d e d a C a lif ó r n ia ,
l ifó r n ia , S a n F r a n c isc o , C a li f ó r ­
B e r k e le y , C a lifó r n ia .
n ia .

Robert M. Featherstone, p ro fesso r Harold D. Lasswell, p r o fe s s o r d e

e d ir e t o r d o D e p a rta m e n to de D ir e it o e C iê n c ia P o lític a , E s c o ­

F a r m a c o lo g i a , E s c o la d e M e d ic i­ la d e D ir e it o d e Y a le , U n iv e r s i­
n a d a U n iv e r s id a d e d a C a l i f ó r ­ d a d e d e Y a le , N e w H a v e n , C o n -
n ia , S a n F r a n c is c o , C a lif ó r n ia . n e c tic u t.
Seymour M. Lipset, p ro fesso r d e John B. de C. M. Saunders, d ir e ­
S o c io lo g ia , U n iv e r s id a d e d a C a ­ t o r d o C e n tr o M é d ic o d a U n iv e r ­
lif ó r n ia , B e r k e le y , C a li f ó r n i a ; sid a d e d a C a li f ó r n i a ; deão da
p r o fe s s o r - v is it a n te de C iê n c ia E s c o la de M e d ic in a : p r o fe s s o r
P o lít ic a d a U n iv e r s id a d e d e Y a le ,
d e A n a t o m ia e d e H is t ó r ia e B i ­
N ew H aven, C o n n e c tic u t , em
b lio g r a f ia M é d ic a s, S a n F r a n c is ­
1960-61.
c o , C a lif ó r n ia .
C. A. Mace, p r o f e s s o r d e P s ic o lo g ia
da U n iv e r s id a d e de L o n d res, Glenn T. Seaborg, c h a n c e le r da
L o n d r e s , I n g la t e r r a . U n iv e r s id a d e d a C a li f ó r n ia , B e r ­
k e le y , C a lif ó r n ia .
James G. Miller, p r o fe s s o r d e P s i ­
q u i a t r ia e P s ic o lo g ia , d ir e t o r d o
Alexarider Simon, p ro fe sso r e d i­
I n s t it u t o d e P e s q u is a s s ô b r e S a ú ­
r e t o r d o D e p a r t a m e n t o d e P s i­
d e M e n t a l, U n iv e r s id a d e d e M i-
q u i a t r i a d a E sc o la d e M e d ic in a
c h ig a n , A n n A r b o r , M ic h ig a n .
da U n iv e r s id a d e d a C a lif ó r n ia ;
Wilder Penfield, d o In stitu to N e u ­ s u p e r in t e n d e n t e m é d ic o d o I n s ­
r o ló g ic o d e M o n t r e a l, M o n t r e a l, t it u t o N e u r o p s iq u i á t r ic o Lan-
C an adá. g le y P o r t e r , S a n F r a n c isc o , C a l i ­
William E. Por ter, p r o fe s s o r de fó r n i a

Jo r n a l i s m o , U n iv e r s id a d e E sta ­
d u a l d o Io w a, C id a d e d e Io w a, Herbert A . Simon, p r o fe s s o r de

Io w a . A d m in is t r a ç ã o ; v ic e -d e ã o d a E s ­
c o la d e A d m i n i s t r a ç ã o I n d u s t r ia l
Karl H. Pribram, p ro fe sso r d e P si­
p ara G rad u ad o s, I n s t it u t o de
q u i a t r ia e P s ic o lo g ia d a E s c o la
T e c n o lo g i a C a r n e g ie , P it t s b u r g h ,
d e M e d ic in a d a U n iv e r s id a d e d e
P e n s ilv â n ia .
S t a n f o r d , S t a n f o r d , C a lif ó r n ia .

Leo C. Rosten, e s c r ito r , p r o fe sso r - Roger H . L. Wilson, s u b c h e fe d o


- v is it a n t e d e A s s u n t o s G o v e r n a ­ C u r s o d e E x t e n s ã o d e M e d ic in a ,
m e n t a is d a U n iv e r s id a d e d a C a ­ C e n tr o M é d ic o d a U n iv e r s id a d e
lifó r n ia , B e r k e le y , C a lif ó r n ia , da C a li f ó r n i a , San F r a n c isc o ,
1960-61. C a lif ó r n ia .
Prefácio

U convite bíblico para raciocinarmos juntos, nunca es­


quecido de qualquer das ciências, tem especial importância
e premência para aquelas que, em nossa época, se ocupam da
mente. Na última década, aproximadamente, foram várias as
contribuições destacadas para o conhecimento do funciona­
mento do cérebro, e que transformaram nosso conceito da pes­
quisa psicológica. Desde seu nascimento, a psicologia moderna
tem, mais ou menos conscientemente, tomado a física como mo­
delo e procurado unificar-se através dêle. A maioria dessas
contribuições, como o presente volume mostra claramente, se
originou em campos de estudo que pouco tempo atrás teriam
sido considerados como totalmente estranhos à psicologia. A
eletrônica deu-nos o computador como um modêlo do processo
de raciocínio humano, a pesquisa das drogas abriu possibili­
dades de uma abordagem farmacolôgica do estudo da função
cerebral, e a histologia nos promete o conhecimento preciso e
cientifico da função cerebral no nível fisiológico. Já não há
qualquer esperança de uma ciência unificada, tal como esperá-
vamos: devemos começar a considerar a psicologia como uma
constelação de ciências mais ou menos semelhante às ciências
biológicas. Ao mesmo tempo, essas disciplinas em evolução têm
unidade de tema: dirigem-se, todas, ao conhecimento de uma
função orgânica. Ã medida que se organizam, porém, uma
coisa vai ficando clara: essa organização deve incluir um excep­
cionalmente grande número de canais através dos quais as dis­
ciplinas se comuniquem.
Mas a psicologia moderna tem de enfrentar outra dificul­
dade. Tôda ciência, mais cedo ou mais tarde penetra áreas que
10 O C O N TR O LE DA M E N T E

suscitam problemas básicos de valor. Outras ciências podem,


geralmente, elidi-los, limitando-se a um papel puramente ins­
trumental — como devem ser usadas suas descobertas é ques­
tão que deixam às outras ciências. A psicologia não se pode
valer desse recurso, pois se ocupa do único órgão do mundo
que faz êsses julgamentos de valor. O psicólogo está, portanto,
num dilema: não pode, conscienciosamente, fazer por si mes­
mo êsses julgamentos, nem isolar seu campo de pesquisa dos
processos judicativos nêle implícitos. Que fazer, então f Não
existe no momento resposta para esta pergunta. Mas há pelo
menos uma atitude possível: ampliar os debates interdiscipli­
nares de forma a deles participarem os que se interessam espe­
cialmente pelos problemas relacionados com os julgamentos de
valor — teólogos, filósofos, artistas, por exemplo.
Êste livro, e o simpósio que relata, teve como objetivo ini­
ciar uma discussão menor, técnica, e um debate maior, filosó­
fico. Sabemos que é imperfeito, como todo início. Não estão
nêle incluídas todas as vozes que merecem ser ouvidas sobre o
assunto, e talvez as discussões não tenham focalizado os proble­
mas com a penetração possível. Mas os participantes do de­
bate são, sem exceção, personalidades de relêvo nos seus res­
pectivos campos com valiosas contribuições a fazer. E um dos
problemas que temos a enfrentar é o de aprender a falar jun­
tos. Serão necessários muitos simpósios semelhantes, na Univer­
sidade da Califórnia e em outros lugares, para que se domine
com proveito a arte difícil de conversar proveitosamente com
os que se ocupam de outras disciplinas.
Um defeito dêste livro, a que foi impossível fugir, é o de
não mostrar adequadamente as proporções significativas que
teve o debate entre as diferentes disciplinas, no simpósio. Sua
última sessão foi totalmente dedicada a uma série de debates
entre grupos de três membros, reunidos simultâneamente em
salas diferentes. Êsses grupos de discussão foram informais e
estabeleceram um intercâmbio de observações muito significa­
tivas com os assistentes presentes. O problema do espaço, po­
P R E FA C IO 11

rém, tornou infelizmente necessário resumir essas discussões.


Devemos lamentar, particularmente, a impossibilidade de
apresentar neste volume, adequadamente, a contribuição do
público a êsses problemas que são, de certa forma pelo menos,
os de toda a humanidade.
Na organização de um empreendimento dêsse vulto, inevi­
tavelmente incorremos em dívidas que não podem ser pügas,
nem mesmo pelo agradecimento público. Seria imperdoável,
porém, deixar de reconhecer o quanto deve todo o simpósio a
Francis C. Brown, Presidente da Fundação Schering e da Com­
panhia Schering, cujos tato e percepção foram tão preciosos
quanto a assistência financeira prestada, através da Fundação.
É particularmente oportuno que uma realização deste tipo te­
nha sido apoiada por uma companhia de produtos farmacêu­
ticos — a Schering — que tem contribuído substancialmente
para o bem-estar físico e mental do homem moderno.
Seria impertinente e impossível tentar determinar a impor­
tância da contribuição de John B. de C. M. Saunders, Diretor
do Centro Médico de San Francisco, da Universidade da Cali­
fórnia, a essa primeira tentativa de uma abordagem nova a um
dos problemas centrais do homem. E creio que numerosas pes­
soas, dentro ou fora da Universidade, que prontamente sacrifi­
caram muitas de suas horas à discussão dos problemas do sim­
pósio, durante os anos de seu planejamento, se sentiram re­
compensadas pelo fruto de suas sugestões. O pessoal da Divisão
de Extensão do Centro Médico de San Francisco, da Univer­
sidade da Califórnia, sabe perfeitamente o quanto dependemos
dêle, para que sejam necessários os nossos agradecimentos.

S e y m o u r M . F arber

R oger H . L . W ilso n
Introdução

E ste tr a b a lh o tev e o rigem num debate, no C entro M é­


dico de San Francisco, da U niversidade da C alifórnia, sôbre
os efeitos farm acológicos de certas drogas sôbre a mente. Os
recursos técnicos e o engenho do quím ico m oderno proporcio­
naram ao médico, tanto o pesquisador como o clínico, num e­
rosos com postos quím icos novos, de estrutura diversa e variada,
que influem no sistem a nervoso central, p ara deform ar, ace­
lerar ou deprim ir o estado m ental e as características de com­
portam ento do indivíduo. O debate acentuou que m uitos dês-
ses agentes quím icos possuem um a ação altam ente seletiva
sôbre determ inadas e distintas partes do sistem a nervoso — a
tal ponto que perm item , pelo exam e de sua influência sôbre
hom ens e anim ais, a classificação em ordem e qualidade. Êsses
agentes quím icos oferecem, portanto, por um a consideração das
relações entre a estrutura quím ica e a ação biológica, a possi­
bilid ade de se obter um a gran d e variedade de drogas que in flu ­
enciam a atividade específica do cérebro. N a verdade, como
êsses agentes podem intensificar ou d im inuir m ütüam ente seus
efeitos, ter ações sem elhantes e evidenciar a polaridade em seus
efeitos sôbre o cérebro, existe a grande possibilidade de se con­
seguir toda um a escala de agentes quím icos que podem ser
usados p ara o contrôle da m aior parte das atividades da mente.
Essas considerações, além disso, cham am a atenção para o fato
de que tais agentes começam a proporcionar um instrum ento
de excepcional im portân cia p ara o fracionam ento, ou disseca­
ção, d a função nervosa n a prim eira fase, ou analítica, que é o
pré-requisito p ara um ataque objetivo ao m aior dos proble­
m as da biologia do homem, ou seja, o da relação entre a
m ente e o cérebro. O progresso realizado nos últim os dez anos,
neste e em cam pos afins d a neurofisiologia, neurobioquím ica,
neuroendocrinologia e outros, foi enorme, devolvendo aos
cientistas a confiança e o otim ism o de que, apesar das grandes
dificuldades, estão iniciando um a abordagem que m odificará
14 O C O N TR O LE DA M E N T E

m uito os num erosos sistem as explicativos da natureza da m ente


e perm itirá um prim eiro passo, reduzido que seja, no sen­
tido de um conhecimento autêntico das relações entre mente-
-cérebro, que, como W illiam Jam es disse há cêrca de 60 anos,
constituirá a “realização científica que obscurecerá tôdas as
realizações p assadas” .
A pesar do recente otim ism o com que se considera estarem
os biólogos e pesquisadores m édicos no um bral de um m elhor
conhecimento da m ente como expressão da atividade cerebral,
há, especialm ente entre os m édicos ponderados, um profundo
sentim ento de inquietação. A hum an idade tem ao seu alcance
drogas capazes de produzir, de um lado, o estado de paz e tran-
qüilidade, ataraxia, tão procurado pelos filósofos epicuristas,
e, do outro, os estim ulantes psíquicos que podem provocar as
fantasias do gênio literário ou as visões do m ístico. Infeliz-
mente, um núm ero cada vez m aior de pessoas em nossa socie­
dade busca, através dêsses agentes, a tran qü ilid ad e às expen-
sas da vida real, ou como um a fuga à realidade. Com o o pro­
fessor W aggoner, d a U niversidade de M ichigan, disse recente­
mente, “com o uso generalizado dessas drogas certas pessoas
podem perder a iniciativa e a capacidade de reação necessárias
a um a cultura em regim e de concorrência, e em gran de parte
provocadas por um a ansiedade salu tar” . T em os à nossa dispo­
sição, p ara usar prudente ou im prudentem ente, um núm ero
cada vez m aior de agentes que influenciam os sêres hum anos.
Com o exem plo da possível m agnitude do problem a, b asta lem ­
brar as enormes e perm anentes conseqüências do m ais antigo
agente cerebral introduzido na vid a social do hom em na espe­
rança de controlar a tiran ia d a m ente e da m em ória — o ál­
cool. A ssim as novas técnicas criam com plicações sociais, éticas
e religiosas de grande alcance. H oje, é possível agir direta­
m ente no indivíduo, p ara m odificar seu com portam ento, ao
invés de, como no passado, agir indiretam ente pela m odifica­
ção do meio. Isso constitui, portanto, o que A ldous H uxley
cham ou de “A R evolução F in a l” , ou seja, a aplicação, aos pro­
blem as hum anos, da tecnologia, tanto no nível social como
in dividual. H uxley considera possível que — através da “ tecni-
zação” da persuasão pelos m eios psicobiológicos e pelos m éto­
dos farm acológicos, bem como por outros recursos psicológicos
como as comunicações em m assa — dentro de um a geração, apro­
xim adam ente, se criem para sociedades inteiras um a espécie de
inofensivos cam pos de concentração da mente, nos q u ais as pes­
INTRODUÇÃO 15

soas terão perdido suas liberdades, desfrutando um a ditadura


sem lágrim as.
Sob esse aspecto, a “ tecnizaçarf’ cria, portanto, um a am eaça
a toda a nossa cultura e é capaz de zom bar da civilização oci­
dental e d a tradição dem ocrática. Sir Charles Snow, professor
da U niversidade da C alifórn ia, cham ou a atenção p ara o abis­
m o crescente que se está desenvolvendo com a revolução cien­
tífica. A centuou que o laço de um a linguagem comum entre
a ciência e as hum anidades rompeu-se, aum entando ràpida-
m ente o desconhecim ento m útuo e fazendo-nos correr o risco
grave de perder a plenitude dos benefícios d a ciência pela ne­
gativa do valor cultural do passado. N ovas técnicas de com u­
nicação devem ser postas em prática p ara ligar a distância
crescente entre os dois m undos, hoje distantes: a cultura cien­
tífica e a cultura hum anística.
Parece, assim, im portante e desejável que se realizem con­
ferências periódicas, em escala m aior e m ais representativa, reu­
nindo-se os estudiosos de várias disciplinas científicas e os lí­
deres de religião, filosofia, govêrno, história, direito e com u­
nicações, p ara exam in ar as perspectivas presentes e alertar-nos
quanto aos problem as do futuro, sugerindo ain da m edidas
adequadas. P ara in iciar essa conversação, o problem a do con-
trôle d a mente pareceu de prim eira im portância.
T alv ez não tenha sido im próprio escolher um centro m é­
dico p a ra essa conferência. O m édico, pelo seu preparo e tra­
dição, sem pre foi um hom em de dois m undos. Suas raízes são
científicas e suas realizações são hum anísticas. Profissional­
mente, conhece tanto a ciência como a arte d a m edicina. É ao
m esm o tem po filho de A poio e de Asclépio. É hom em de
m uitas personalidades — sociais, históricas, políticas, cultu­
rais — pois tem de guiar, aconselhar, organizar, promover,
proteger e restabelecer a saúde da com unidade, em bora, acim a
de tudo, seu problem a seja o do indivíduo. Foi o que disse um
dos mestres da m edicina, C laude Bernard: “La Science c’est
nous; Vart c'est m o i O m édico tem, porém , um a longa expe­
riência desses debates, pois naquele outro sim pósio im ortal, o
de Platão, lá estava o m édico Erixím aco.
Se bem me lem bro, Schelierazade conta nas M il e U m a
N oites a história de um jovem que ganhou um a pena m ágica,
m uito bon ita e m aravilhosa. Para proteger êsse presente pre­
cioso, usava-o no chapéu. Q uase a perdeu, porém, certo dia,
16 O C O N T R O LE DA M E N T E

quan do se distraiu ouvindo um convincente orador num a praça.


A partir de então, ad qu iriu o hábito de levar a m ão à pena,
m uito em bora seu chapéu não estivesse na cabeça, e acabou
descobrindo que o gesto, sòzinho, encerrava as mesmas proprie­
dades m ágicas. Parece-me que a paráb ola se refere à eterna
vigilância necessária à preservação de um a m ente livre.
Saudam os o grupo de destacados estudiosos aqui repre­
sentados, e voltam os, agora, nossa atenção p ara o exam e que
fazem das forças que influem na mente, em nossa sociedade
de hoje.
Êsse debate inicial bem poderia ser anunciado com as p a­
lavras de Francis Bacon, em seu Proficience and Advancement
of Learning: “O prim eiro artigo sôbre a cultura da m ente
considerará as naturezas ou disposições diversas do h om em . . .
de form a que um a análise artificial [isto é, científica] e acurada
da m ente e da natureza do hom em possa ser f e i t a . . . ”

J ohn B. de C. M. S a un d ers .
PRIMEIRA PARTE

A MENTE E SUA INTEGRAÇÃO

Coordenador, A lex a n d er S im o n

O sim pósio começou com um a série de três estudos


sobre problem as neurológicos, histológicos e psicológicos,
oriundos das tentativas de definir o conceito de mente ou
de exam in ar os numerosos e intrigantes corolários da
mente. Os participan tes se ocuparam particularm ente dos
m éritos do m onism o ou pluralism o em relação com o pro­
blem a mente-corpo, com as bases físicas da m em ória e
outros processos m entais, com o p ap el das emoções no
funcionam ento da m ente e com a relação entre a m ente
e a experiência. D epois da apresentação dos estudos, seus
autores se reuniram com um m oderador de debates para
exam inar as questões suscitadas pelo exam e que fizeram
do assunto. Êsse debate foi adaptado e incluído no texto.
N u m a sessão noturna, o escritor A ldous H uxley
ocupou-se do am plo tema “As Possibilidades H um anas” ,
vistas à luz do pensam ento m oderno. Seu trabalho ver­
sou principalm ente sobre possíveis conseqüências, a longo
prazo, sociais e individuais, das realizações m odernas sô-
bre a religião, fisiologia, farm acologia, psicologia e outras
áreas correlatas.
W lL D E R P E N F IE L D

As Bases Fisiológicas da Mente

( ^ er t a n o it e , em fins do século
X V III, um a italian a estava de pé na sua cozinha vigiando as
pernas de um a rã que preparava p ara o jan tar. “V eja como
os m úsculos se m ovem ”, disse ao m arido. “Sempre parecem
estar vivos, quando os penduro no fio d e cobre.” O m arido
olhou. E ra professor de C irurgia na U niversidade de Bolonha,
m as o conhecemos m elhor como o descobridor da eletricidade
— L u ig i G alvani. Foi assim que, há 200 anos, tudo começou:
a extrem idade seccionada do nervo da rã estava em contacto
com o fio de cobre, e a corrente elétrica produzida pelo con­
tacto passava pelo nervo indo até o m úsculo. Em conseqüên-
cia, êste se contraía e se distendia.
G alvani* não com preendeu, a princípio, de onde vinha a
energia, m as, com a a ju d a da m ulher, descobrira a chave da
transm issão pelo nervo e d a ação p elo músculo. E ra a base
de todo o m ovim ento anim al, reflexo e voluntário, n a rã ou
no homem. D esde a época do m édico grego Galeno, 16
séculos antes de G alvani, os homens julgavam que havia um
espírito, ou animaJ dentro do corpo, qu e transm itia mensagens
m isteriosas p ara a m ão, o pé e a língua, movimentando-os.
M as daquele m om ento em diante as correntes elétricas ex­
plicariam tudo — como a rã pode p u lar à aproxim ação de um
perigo, como podem os colocar um pé à frente do outro para
an dar ou correr, ou como m ovim entam os a boca e os músculos
d a respiração, p ara falar, como movemos os olhos para ler,
como voltam os a cabeça p ara ouvir. M as não explica como a
20 O C O N TR O LE DA M E N T E

rã tinha consciência do perigo, nem explica como pensamos.


Foi isso o que me pediram que explicasse, no início dêste
sim pósio.
T o d o s êsses m ovim entos corporais, alguns dêles sujeitos à
vontade e outros involuntários, são executados como m ecanis­
mos motores estim ulados por um potencial elétrico que corre
através dos nervos até os m úsculos, e dêsses novam ente de volta
ao sistem a nervoso central, localizado na m edula espinhal, e
ao cérebro. M ais ainda, sabem os agora que são potenciais elé­
tricos que partem dos órgãos sensoriais — o olho, o nariz, o
ouvido, a lín gua e a pele — ao longo dos nervos até o cérebro.
T ô d a a inform ação sensorial transm itida pelo corpo e pelo
m undo à nossa volta se concentra no cérebro.
Assim, a neuropsicologia, explicando-a, fêz desaparecer a
m isteriosa anima, o espírito dos dias antigos. M as, e os intan­
gíveis que permanecem, a m ente, a consciência, a alm a ? N ão,
essas coisas a ciência não explicou ainda. É possível que nunca
as explique. Até agora, um a conclusão parece clara ao neuro-
fisiologista: não há nenhum indício de atividade m ental a
não ser através de algum a ação cerebral.
E o que é ação cerebral ? — poder-se-á indagar. É o deslo­
cam ento de potenciais elétricos ao longo de circuitos form ados
por feixes de fibras nervosas dentro do cérebro. Essas fibras
nervosas são ram ificações de células nervosas vivas que form am
a m assa cinzenta do cérebro, localizada nos núcleos do centro
do cérebro, e constitui o córtex cerebral que cobre os hem isfé­
rios. Acredita-se que existam 12 bilhões de células num cérebro
hum ano. As fibras nervosas que partem dali são capazes de
conduzir correntes, e cada um a dessas células é capaz de pro­
duzir um a pequena quan tid ade de energia elétrica, dentro de
si. Essa energia pode intensificar, bloquear ou alterar as cor­
rentes que passam e repassam .
T iv e como professor Sir Charles Sherrington, na época o
grande líder dos neurofisiologistas. Eis com o êle descreve o
sistem a nervoso do homem p ara o grande público:
I m a g in e m u m e s q u e m a d e li n h a s e p o n t o s n o d a is r e u n id o s n u m a
e x t r e m id a d e , c o m o u m n ó e m a r a n h a d o — o c é r e b r o — e n o o u t r o , ser-
p e n t in a n d o a t é u m a e sp é c ie d e h a s te , a m e d u la e s p in h a l. I m a g in e m q u e
a a t iv id a d e n e sse e s q u e m a é e v id e n c ia d a p o r p e q u e n o s p o n t o s lu m in o s o s .
A lg u n s p o n t o s e s ta c io n á r io s b r i lh a m r it m ic a m e n te , m a is r á p i d o o u m a is
devagar. O u t r o s sã o p o n t o s m ó v e is, e n c a d e a d o s n u m a li n h a e m sé r ie ,
A M E N T E E SUA IN TEGRA ÇÃ O 21

c o m v e lo c id a d e s d ife r e n te s . A s lu z e s e s t a c io n á r ia s r ít m ic a s e s tã o n o s
n ó d u lo s . Ê ste s sã o i g u a i s o b je t iv o s p a r a o n d e c o n v e rg e m , c o m o ju n ç õ e s
d e o n d e d iv e r g e m , a s li n h a s d e lu z m ó v e is. S u p o n h a m o s q u e e s c o lh e ­
m o s a h o r a d o so n o p r o f u n d o p a r a n o ssa o b s e r v a ç ã o . E n t ã o , s ò m e n te
n o s lu g a r e s e s p a r s o s e a f a s t a d o s os n ó d u lo s se a c e n d e m e o s p o n t o s l u m i ­
n o so s c o n t in u a m c o r r e n d o . A g ra n d e peça em a ra n h a d a p erm an ece, n a
s u a m a io r p a r t e , t o ta lm e n t e e s c u r a . O c a s io n a lm e n te , a lg u n s p o n t o s a li
se a c e n d e m o u se m o v e m , m a s lo g o d e s a p a r e c e m .
S e c o n t in u a r m o s a o b s e r v a r , v e re m o s q u e d e p o is d e c e rto te m p o
o c o r r e u m a s ú b it a e im p r e s s io n a n t e m o d ific a ç ã o . N o gran d e e m aran h a­
d o , q u e p e r m a n e c ia e sc u r o , a c e n d e m -se m ir ía d e s d e lu z e s, c o m o se a a t i v i ­
d a d e d e u m d ê sse s p o n t o s s ú b it a m e n t e s e g e n e r a liz a sse . A g r a n d e c a m a d a
s u p e r io r d a m a ss a , o n d e n ã o v ía m o s q u a s e lu z n e n h u m a b r i l h a r o u m o v e r-
se , to r n a - se u m fa is c a r d e p o n t o s lu m in o s o s e d e lu z e s q u e se m o v im e n ­
t a m . É c o m o se a v ia lá c t e a in ic ia s s e u m a d a n ç a c ó sm ic a . R à p id a m e n t e ,
a m a s s a se t o r n a u m t e a r e n c a n t a d o , o n d e m ilh õ e s d e fu s o s lu m in o s o s
te c e m u m d e s e n h o in c o n st a n t e , s e m p r e c o m u m s e n tid o , e m b o r a s e m p r e
p a s s a g e ir o . O c é r e b r o d e s p e r t a , e c o m ê le v o lt a a m e n te .

Foi em 1950 que recebi o prim eiro convite p ara participar


de um sim pósio sobre o cérebro e a mente. Foi n a série de
program as da B B C denom inada “A Base Física da M ente” .
Cientistas e filósofos dêle participaram . Os cientistas eram
todos m édicos — dois fisiólogos, dois anatom istas, um p siqu ia­
tra, um neurologista e um neurocirurgião. F alaram prim eiro,
e os três filósofos foram os últim os, podendo assim ouvir, se
achassem conveniente, o que os médicos disseram, sem ana após
sem ana, antes de chegar sua vez.
O sim pósio foi aberto por Sherrington, que com pletara en­
tão 93 anos. A o encerrar sua palestra, observou que há dois
m il anos A ristóteles “in dagava como a mente se prende ao
corpo” .
V ejam os agora, o que disseram os filósofos, que talvez te­
nham do problem a um a visão, como outra qualquer, de leigos
em neurofisiologia. A. J . Ayer, professor de Filosofia no Uni-
versity College, em Londres, citou a seguinte observação feita
por A drian, psicólogo de C am bridge:
A p a r t e d o q u a d r o d o c é r e b r o q u e se m p r e e s ta r á f a lt a n d o é, n a t u ­
ral m e n te , a p a r t e q u e t r a t a d a m e n te , a p a r t e q u e d e v e e x p lic a r c o m o
u m a fo r m a p a r t i c u l a r d e i m p u ls o s n e rv o so s p o d e p r o d u z ir u m a id é ia :
m i, in v e r s a m e n te , c o m o u m p e n s a m e n t o p o d e d e c id ir q u a l a c é lu la n e r ­
vosa (ju c d e v e e n t r a r e m a ç ã o .

D epois dessa citação, Ayer afirm ou então que se fosse aban ­


donado o an tigo conceito de Descartes, de que mente e corpo
22 O C O N TR O LE DA M E N T E

são separados, o problem a se tornaria filosófico, deixando de


ser um a questão de preocupação científica. E continuava:
O q u a d r o q u e n o s p r o p o r c io n a r a [os c ie n t ist a s ] é o d e m e n s a g e ir o s
v ia ja n d o a t r a v é s d o c é r e b r o , a t é u m a e n t id a d e m is t e r io s a c h a m a d a a
m e n te , re c e b e n d o o r d e n s d e la , e p a r t in d o n o v a m e n te . M a s c o m o a m e n te
n ã o te m p o s iç ã o n o e s p a ç o — é, p o r d e fin iç ã o , u m a c o is a q u e n ã o p o d e
t e r p o s iç ã o n o e s p a ç o — n ã o h ã s e n tid o , lit e r a lm e n t e , e m se f a l a r d e
s in a is fís ic o s q u e a a t in g e m .

A interpretação que o filósofo dá a êsse problem a parece


lógica. É de im pressionante sem elhança ao m étodo de Sócrates,
que costum ava deixar a seus discípulos o problem a de resolver
um a situação que êle próprio m ostrara ser absurda. M as nesse
caso, os neurofisiólogos já reconheceram a natureza da incoe­
rência. Ai se põe o problem a.
As “m ensagens que viajam pelo cérebro” jam ais atingem
um lugar, para que possam os saber onde se encontra a mente.
Digam os, antes, que correntes elétricas passam através de cir­
cuitos diferentes do cérebro, e que há um a m odificação sim ul­
tânea nas form as do pensam ento consciente. A passagem das
correntes e a m odificação concom itante do pensam ento são,
aparentem ente, idênticas no tempo, mas pelo que podem os de­
term inar, não há na realidade um encontro. Estam os come­
çando a saber onde se faz a ação cerebral, m as não conhecemos
nenhum “onde” relativo à mente. N em podem os saber, ainda,
qu al o prim eiro a ocorrer — a m odificação do pensam ento ou
o m ovim ento da corrente. O problem a a resolver é o seguinte:
qu al a natureza da m en te? Com o se une à ação dentro do
cérebro ? Dizer que essas coisas constituem um a unidade, não
um a dualidade, talvez não corresponda à realidade, e pode im ­
pedir o progresso da pesquisa.
G ilbert Ryle, professor de F ilosofia M etafísica de O xford,
usou o sarcasmo, ao invés da lógica socrática, n a sua colabo­
ração ao sim pósio, encerrada com a seguinte advertência:
“A s d e n o m in a ç õ e s mente e matéria a p a g a m a s v e r d a d e i r a s d ife r e n ç a s
q u e n o s d e v ia m in te r e s s a r . O s t e ó ric o s d e v e m a b a n d o n a r e s s a s d u a s p a ­
l a v r a s ................ mente e matéria s ã o e c o s . . . [d o s a r g u m e n t o s d a f ilo s o fia
d o p a s s a d o ] ."

N enhum dêsses filósofos sugeriu que p alavras deveriam os


usar ao falarm os dos homens e m ulheres cujo problem a do
cérebro-mente, ou da mente-cérebro, devemos con tinuar a es­
A M E N T E E SUA IN TEGRA ÇÃ O 23

tudar. N ão se deram ao trabalho de nos aconselhar franca­


m ente a abraçar o evangelho do m aterialism o, p ara o qu al
tudo é m atéria, energia e m ecanism o autom ático. (Isso estaria
de acordo com a filosofia de K arl M arx.) N em nos sugerem
ado tar os ensinam entos antigos do bispo de Berkeley, ( * ) de
que tudo é mente. Essa filosofia ecoa ain da nas teorias am e­
nas da C iência Cristã. Se adotarm os tal interpretação, pode­
remos ser forçados a aban don ar a ciência biológica, como des­
necessária — deixar tudo nas m ãos dos filósofos e de M ary
B aker Eddy. ( * * )
O Visconde Sam uel, o terceiro filósofo, deu a devida con­
sideração aos fatos. A ssinalou que nem o m aterialista, nem
o idealista, conseguiram '‘conquistar a aprovação geral" du ­
rante a discussão do problem a:
T r a t a - s e d e u m d o s m a is a n t ig o s e f u n d a m e n t a i s p r o b le m a s d a f il o ­
s o f ia — a r e la ç ã o e n tr e a m e n te e a m a t é r ia . D u r a n t e s é c u lo s, filó s o fo s
d e e s c o la s d ife r e n te s fiz e r a m t e n t a t iv a s p a r a f u n d i- la s .
T o d o o e s fo r ç o d e f u n d i r a m e n te n a m a t é r ia , o u a m a t é r ia n a
m e n te , é o r e s u lt a d o d o q u e T . H . G r e e n d e n o m in o u d e " a n s e io f ilo s ó ­
fic o d a u n i d a d e ” ................. R e s t a - n o s a a l t e r n a t i v a d e c o n s id e r a r a e x is tê n c ia
d e u m a d u a l i d a d e e s s e n c ia l n a n a t u r e z a .

L o rd e Sam uel assim continuou sua exposição:


O D r . R u s s e l B r a i n [ n e u r o lo g is ta ] a f ir m a - n o s q u e " t o d o s o s e s tím u lo s
a t in g e m o c é r e b r o c o m o m a n ife s ta ç õ e s e lé t r ic a s ” ....................E s s a d is c u s sã o
a j u d o u a e s c la r e c e r to d o o p r o b le m a , e s ta b e le c e n d o q u e e la s n ã o c o n ­
v e r g e m p a r a o s p o n t o s e m q u e o s e s tím u lo s e x t e r n o s in c id e m s ô b r e o
s is t e m a n e rv o so , m a s s im p a r a o s p o n t o s o n d e a m e n te a c e ita e u t iliz a
o s d a d o s s e n s o r ia is p r o p o r c io n a d o s p e lo c é re b ro . M a s a d isc u ssã o n ã o
p ô d e e s c la r e c e r o q u e o c o r r e n e sse s p o n t o s , e p o r t a n t o , n ã o p ô d e n e m
m e s m o c o m e ç a r * a e x a m in a r c o m o se fa z a lig a ç ã o e n tr e o c é re b ro e a
m e n te .

E citou o que Sherrington escreveu:


A h ip ó t e s e d e q u e n o sso s e r c o n s iste e m dois e le m e n to s f u n d a m e n t a is
n ã o c o n s tit u i, a o q u e m e p a r e c e , u m a i m p r o b a b ili d a d e in tr ín s e c a m a io r
d o q u e a h ip ó t e s e d e b a s e a r - s e ê le a p e n a s e m u m e le m e n t o ............... T e m o s
d e c o n s id e r a r a r e la ç ã o d a m e n t e p a r a c o m o c é r e b r o n ã o a p e n a s c o m o
a i n d a n ã o r e s o lv id a , m a s s im c o m o c a r e n t e d e b a s e , p a r a c o m e ç ar.

(* ) George Berkeley (1865-1753) fundador do Berkeleinismo, que negava a


existência a tudo que não fosse a mente. (N. do T.)
( * * ) Fundadora da Ciência Cristã em 1886, segundo a qual todos os males
são produtos mentais, e só o estudo dos ensinamentos de Cristo poderá curá-los.
(N. do T.)
24 O C O N TR O LE DA M E N T E

E Sam uel concluía:


Ê sse , a o q u e p a r e c e , é o i m p a s s e e m q u e n o s e n c o n tr a m o s . A té
q u e a c iê n c ia e a f ilo s o fia n o s p o s s a m a j u d a r a s a i r d e s s a s it u a ç ã o , n ã o
p o d e m o s e s p e r a r r a c io n a li z a r p a r a n ó s o u n iv e r s o .

Devemos con tinuar aceitan do tal afirm ação. N ã o temos


bases p a ra com eçar a com preender a relação entre m ente e
cérebro. M as acredito que o entendim ento ocorrerá com o
progresso perm anente — não p ara nós, m as p a ra nossos su­
cessores.
Devo dizer, portanto, q u al a posição da fisiologia n a busca
dessa esperada base de entendim ento. A lguns dos participantes
do sim pósio podem conhecer m uito pouco sôbre o cérebro. A l­
guns são médicos, mas voltados p ara outros aspectos d a m edi­
cina. Sim plificando: lem bram-se de seus estudos de neura-
natom ia, e do que viram n a sala de dissecação. Im pressio­
naram-se com êsse grande órgão de côr creme, separado do
crânio por duas outras m em branas. Mater. H á, prim eira­
mente, a dura mater, consistente e brilhante, de um branco
prateado, logo abaixo do osso do crânio, e sob ela a delicada e
transparente pia mater, cobrindo as circunvoluções do cérebro
e ligan do as fissuras onde se pode ver o claro líqu id o cérebro-
-espinhal em que o cérebro está envolvido e no q u al flutua,
como num banho, dentro do crânio.
H ão de lembrar-se tam bém das artérias e veias q u e ali­
m entam o córtex, ou m assa cinzenta, de form a tão rica, e da
conform ação do cérebro. H á a fissura vertical, qu e recebeu o
nome de R olan do. A circunvolução à frente dela foi denom i­
n ada de motora, e controla o lado oposto d a face, o braço e a
perna. A convolução atrás da fissura é a sensorial, e está ligada
à sensibilidade seletiva no lado oposto do corpo, sem n ada ter
porém com a sensação de dor. O in fluxo dessa sensação p ára no
tálam o, bem dentro do cérebro, sem atin gir o córtex.
Os lobos occipitais n a parte posterior d a cabeça são deno­
m inados visuais, e o extrem o d a circunvolução do lobo tem po­
ral é a m argem da área auditiva, grande parte da q u al está
m ergulhada na profunda fissura de Sylvius. O cultas sob o cére­
bro estão pequenas áreas relacionadas com os sentidos do ol­
fato e do paladar. N o hem isfério esquerdo, a palavra fala está
escrita em dois lugares — n a parte posterior do lobo tem poral
e n a parte inferior do lobo frontal.
A M E N T E E SU A IN TEGRA ÇÃ O 25

Pavlov m ostrou que a rem oção de áreas do córtex fazia um


cão esquecer o que aprendera, e Lashley afirm ou que o rato
apren dia de nôvo, n ão im porta a parte do córtex que fôsse
extirpada, desde que restasse algum a coisa. Lashley passou a
vida procurando, inútilm ente, o engram a no cérebro anim al,
o traço do local d a m em ória, sabendo que devia existir em
algum ponto. N unca o encontrou.

Motora

FlC. 1

N o caso do hom em , os fisiólogos e anatom istas se satisfi­


zeram em seguir os feixes nervosos sensoriais d a pele, do òlho,
do ouvido e de outros órgãos dos sentidos na parte externa
do corpo, em sua m archa p ara o interior do corpo e dali p ara
o córtex. Seguiram as fibras m otoras desde o córtex até os
músculos no lado oposto do corpo.
O córtex cerebral foi o fim e o comêço, o cume, o lugar
m isterioso onde a m ente possivelm ente teria sua existência,
como os deuses no M onte O lim po. O que ocorria entre a
chegada das sensações e a emissão m otora, era um mistério.
Os neurologistas falavam vagam ente de "associação” de fibras
c|itc agiam de algum m odo ligan do as células nervosas do córtex
entre si.
26 O C O N TR O LE DA M E N T E

Farei, agora, um acréscimo a essa descrição que em parte é


um a hipótese, m as em parte está com provado. Prim eiro, as
trilhas das sensações não term inam no córtex. O cam inho pelo
qual se faz a transm issão das sensações vai até o córtex e dali
volta diretam ente aos centros talâm icos (Figura 2 ), onde ter­
m ina a trilha seguida p ela sensação de dor, diretam ente, sem
essa volta pelo córtex.

Sensorial molora

Fic. 2

Segundo, a corrente de im pulsos elétricos que controla os


m úsculos dependentes d a vontade não parte do córtex. Com eça
nalgum ponto próxim o, onde as trilhas sensoriais parecem ter­
m in ar na haste cerebral inferior (Figura 2 ). D ali vai às
circunvoluções m otoras do córtex, de am bos os lados, e em
seguida, aos músculos.
T erceiro, deve haver no que cham am os de parte superior
da haste cerebral (Figura 3) um sistem a de feixes nervosos e
células ligados sim ètricam ente ao córtex cerebral, de am bos os
lados. M uitas dessas ligações, como as hastes das folhas flu tu ­
antes das ninfáceas, suprem os folículos do córtex de controle
ou de conexão funcional.
Voltem os agora aos processos m entais cham ados de per­
cepção, m em ória d a experiência passada, m em ória das palavras,
A M E N T E E SUA IN TEGRA ÇÃ O 27

m em ória dos conceitos, interpretação da experiência presente,


a orientação e a focalização da atenção que seleciona e exclui
o m aterial p ara raciocínio, decisão e ação. T o d a s essas coisas,
êsses processos psicológicos, devem ser estim ulados pelas cor­
rentes coordenadoras e integradoras que atravessam as ligações
dêsse sistem a central. Se há realm ente um m ecanism o neuro-
nial que sirva efetivam ente como base do pensam ento cons­
ciente, deverá êle utilizar-se de tais caminhos.

Córtex cerebral Córtex cerebral

F ig. 3

Q uando há dano ou interferência na haste cerebral supe­


rior, provocado p o r concussão indireta ou dano direto ou pela
pressão de um tumor, ou de um “derram e” vascular, o resul­
tado é invariàvelm ente a perda de consciência. Se a atividade
n euronial que coordena e integra a ação cerebral, e torna pos­
sível o pensam ento consciente, ocorre neste local, então é de
esperar que realm ente se verifique essa perda de consciência.
Por outro lado, grandes áreas d o córtex podem ser rem ovidas
de um ou am bos os lados, sem perda de consciência.
Essas ligações que atravessam a haste cerebral superior e
unem os dois hem isférios, e que parecem indispensáveis ao ra­
28 O C O N T R O LE DA M E N T E

ciocínio consciente, podem ser cham adas de sistema centroen-


cefálico. A lguns de seus processos são conhecidos e outros ape­
nas deduzidos.
N ão se ju lg u e estar eu sugerindo que a haste cerebral é a
sede de um a entidade cham ada mente ou consciência. U m
destacado neurologista já incidiu nesse erro, e perdeu com ele
algum tempo. Isso seria tão errôneo quanto sugerir que a
consciência está localizada no córtex ou que tem esta ou aquela
localização. Só podem os supor o seguinte:
A ação funcional que ocorre nalgum a parte do córtex, de
um ou am bos os hem isférios, e em algum a parte da haste cere­
bral, torna possível os processos m entais conscientes, ou estados
d a mente. É através do sistem a centroencefálico de ligações
que a coordenação da ação cerebral se processa.
Em 1953, participei de um segundo sim pósio sobre o pro­
blem a do cérebro-mente. Denominava-se Sim pósio Lauren-
ciano sôbre os M ecanism os Cerebrais e a Consciência. Os par­
ticipantes eram todos m édicos de várias partes do m undo, in­
clusive o professor D on ald O. H ebb. Obtiveram-se progressos,
em parte pelo fato de qu e o sistem a de ativação reticular, sis­
tema êsse de fibras de ligação, havia sido descoberto recente­
mente no cérebro, e os responsáveis pela descoberta tam bém
estavam presentes: M oruzzi (P isa), M agoun (Los A ngeles), e
M orison (H arvard ).
A drian (C am bridge), que tam bém estava presente, m os­
trou que o sistema de ligações não só parece controlar o nível
geral de vigilância do córtex cerebral, m as tam bém provàvel-
mente tem “algum a coisa a ver com a direção da atenção, com
a atividade efetiva do cérebro consciente” .
H ugh lin gs Jackson, neurologista do século X I X , observou
que “não existe nenhum a entidade que se possa cham ar de
consciência; temos consciências diferentes a cada m om ento” .
M ais ou menos de acordo com essas diferenças que Jackson
im aginava, devemos supor que os circuitos do sistem a de inte­
gração são em pregados de m odo diverso. A form a de cons­
ciência difere, sem dúvida, porque os circuitos da haste
cerebral são diferentes e porque as áreas diferentes do cór­
tex cerebral são ativadas pelos “pontos lum inosos rítm icos em
séries de fagulhas móveis correndo de um lado para ou tro”
qu e Sherrington descreveu n a fantasia fisiológica do “ tear en­
A M E N T E E SUA IN TEGRAÇÃO 29

cantado onde m ilhões de fusos lum inosos tecem um desenho


inconstante, sem pre com um sentido, em bora sem pre passa­
geiro” .
T em p o houve em que o cérebro era considerado o “órgão
d a m ente”, funcionando como um todo durante os estados de
consciência. Êsse ponto de vista é hoje insustentável. O pro­
gresso m oderno do conhecimento levou-nos a um a localização
cada vez m aior das funções dentro do cérebro. T em os cons­
ciências diferentes a cada momento, e ao mesmo tempo, há um
pad rão diverso de ativação neuronial.
Q uando alguém usa palavras, p or exem plo — durante um
discurso, ou quan d o escrevendo, ouvindo alguém falar ou lendo,
ou ainda, em m om ento em que as palavras são usadas no pen­
sam ento silencioso — são sempre utilizadas as áreas da fala
no córtex cerebral esquerdo e nos núcleos talâm icos subjacen­
tes do hem isfério esquerdo, predom inante. É possível, porém ,
tocar piano com as duas mãos, dirigir um carro ou com pre­
ender um a experiência sem fazer funcionar o m ecanism o da
fala.
Com o neurocirurgião, ju lguei necessário em certos m o­
mentos, como deve ter ocorrido a m uitos outros neurocirur-
giões, rem over grandes partes do córtex cerebral de um dos
lados de um paciente, com êste ainda consciente, usando a
anestesia local. Desde que a haste cerebral não seja m olestada,
o paciente perm anece consciente e — o que é curioso — não
tem q u alq u er consciência de m odificação até voltar sua atenção
para um a proposição que ex ija o funcionam ento específico da
parte do córtex cerebral rem ovida. Poderá descobrir, então,
que não consegue sentir o que pega com a m ão esquerda ou
que, em bora ain da veja à direita, não consegue enxergar obje­
tos à esquerda. T a is fenômenos não são conseqüência de expe­
riência, m as parte de processos exigidos por tratam entos de
urgência.
Ju n g de Freiburg asseverou que o elemento essencial da
consciência é a focalização da atenção, a seleção de certas coisas,
como se um jato de luz as focalizasse. Agrada-me essa des­
crição, porque dá ao neurofisiologista algo que pesquisar: o
m ecanism o diretivo da atenção. Im aginem os que o holofote
esteja localizado na haste cerebral superior. Para focalizar a
atenção, certos circuitos do cérebro são, de algum a forma, esco­
lhidos e ativados.
30 O C O N TR O LE DA M E N T E

V ejam os, por m om ento, certas faculdades da mente. A


m em ória, por exem plo, que tem form as diferentes. Podemos
m ostrar que o hom em tem m ecanism os neuroniais que fun ­
cionam separadam ente p ara 1) a m em ória da experiência cor­
rente, 2) a m em ória das palavras, e 3) a m em ória das generali­
zações, ou conceitos. Essas separações podem ser dem onstradas
ocasionalm ente na m esa de operações, com o paciente consci­
ente e o cérebro exposto.
G rande parte da m assa cinzenta que cobre o lobo tem poral
pode ser denom inada córtex interpretativo (Figura 1). F un ­
cionalm ente, podem os considerar que pertence a um nível in­
tegrador diferente do nível do cham ado córtex sensorial e do
córtex m otor, porque trata dos registros da experiência que
já atravessaram a mente. Q uando um a leve corrente elétrica
é aplicada a essa área do córtex, o paciente pode, por exem ­
plo, exclam ar subitam ente: “Ouço m inha m ãe e meu irm ão
conversando/’ Nesse caso particular, q u an d o o cirurgião se
deteve e fêz perguntas, o paciente explicou que êles estavam
na sala de sua casa e êle, paciente, parecia estar ali também,
vendo e ouvindo as mesmas coisas que ouviu e viu nalgum
tem po passado. E não obstante, ao m esm o tem po tinh a cons­
ciência de estar n a sala de operações, na m esa de operações.
M uitas experiências diferentes foram relem bradas dessa
form a, pelos elétrodos, por vêzes de um passado recente, outras
de fatos remotos. Pode surgir, por exem plo, a lem brança de
um m om ento em que se ouvia um a orquestra, em que se ouvia
e via um pian ista num café, em que se m an tinha um a palestra
engraçada com am igos, em que se estava de pé n um a esquina,
ou num a sala de partos, e m uitas outras experiências pessoais.
Êsses lam pejos do passado são m uito m ais detalhados do
que seria possível obter pelo recurso volun tário à m em ória.
Por vêzes, ao invés dêsse tipo de lem brança de algum a experi­
ência, o paciente faz um a súbita reinterpretação do tem po
e da situação presentes, um a interpretação falsa. Pode, por
exem plo, dizer de repente: “Sinto como se tudo isso tivesse
acontecido antes”, ou “T en h o m êdo” , como se o am biente ad q u i­
risse, de um m om ento p ara outro, aspectos ameaçadores.
Concluím os disso ser possível ativar elètricam ente um a u n i­
dade funcional no córtex interpretativo que opere sob con­
dições norm ais como um reflexo subconsciente. T o d o s nós já
experim entam os o súbito sentim ento de já termos visto ou es­
A M E N T E E SUA IN TEGRA ÇÃ O 31

tado num lugar. D epois dêsse ato reflexo, volta-nos um pouco


de nosso passado. É evidente que em pessoas norm ais, quando
a experiência presente se assemelha espantosam ente à experi­
ência passada, êsse passado é autom ática e reflexivam ente evo­
cado. A pessoa só tem consciência da evocação depois que a
interpretação, m ostrando ser a situação conhecida ou perigosa,
se acende n a consciência. Isso ocorre antes mesmo que lem ­
branças sem elhantes e anteriores possam ser identificadas. A
pessoa sente apenas que o dado sobre o passado se coloca vo-
luntàriam ente à sua disposição. A pessoa ou o lu gar visto, tal­
vez há 15 anos, volta à nossa m em ória com o vigor suficiente
p ara poderm os observar as m odificações provocadas pelo tempo.
Trata-se, portanto, de um m ecanism o funcional unitário
localizado, pelo m enos em parte, no córtex. É o registro das
coisas focalizadas antes pela atenção, não as coisas ignoradas,
m as aquelas que, no passado, foram objeto de sua atenção. O
traço, engram a ou registro neuronial não está localizado no
córtex tem poral, creio, mas a algum a distância, onde pode ser
alcançado e ativado pelo córtex. Onde, exatam ente, não sabe­
m os ain da ao certo.
A fa la tem, igualm ente, um m ecanism o separado. Nesse
caso, a corrente elétrica pode ser usada de m odos diferentes,
antes para p aralisar do que p ara ativar. O m ecanism o córtico
da fala pode ser bloqu eado seletivam ente, quando se coloca
um elétrodo na circunvolução da fala (Figura 1). A corrente
interfere na sua utilização, m as o paciente não tem consciência
dessa interferência a menos que deseje falar. Descobre, então,
p ara sua surprêsa, que não consegue form ular as palavras. U m
paciente via um q u ad ro com um a borboleta quando o elétrodo
lhe foi aplicado à área d a fala. Ficou silencioso. D epois de
retirado o elétrodo, in dagou o que lhe ocorrera. Explicou que
não conseguia lembrar-se d a p alavra “ borboleta” , e por isso
tentou a p alavra “m ariposa” , mas tam bém essa não lhe vinha
à m em ória.
É evidente, portanto, que sua capacidade de reconhecer e
perceber a natureza do objeto que lhe era m ostrado estava in­
tacta. As lem branças dos conceitos de borboleta e m aripôsa
tam bém estavam intactos. D e algum a form a, dentro dos cir­
cuitos qu e form am a base da mente, êle apresentou êsses con­
ceitos, um após outro, ao m ecanism o d a fala, com resultados
negativos. E is aí um exem plo do funcionam ento do cérebro.
32 O C O N T R O LE DA M E N T E

A atividade cerebral acom panh ou o pensam ento até certo pon­


to, m as qu an d o as palavras foram convocadas, o cérebro falhou.
O paciente esperava u m a reação autom ática, esperava que a
palavra se acendesse em su a consciência reflexivam ente. Seus
lábios e sua lín gu a n ão estavam paralizados. E ra a idéia d a
p alav ra qu e não lhe ocorria.
H á, como podem os ver, m uitos m ecanism os dem onstráveis.
Fun cion am com os objetivos determ inados p ela mente, quan do
autom àticam ente convocados. Êsses m ecanism os, que estamos
com eçando a com preender, constituem parte, pelo menos, da
base fisiológica da mente. M as q u al o agente que convoca
tais m ecanism os, escolhendo êste e n ão aqu êle ? Será um outro
m ecanism o, ou haverá n a m ente algo de essência diferen te?
Chegam os assim ao que Sam uel cham ou de "p on to de con­
vergência”. N ão podem os considerá-lo com o um lu g ar espe­
cífico, m as m esm o assim vam os tateando de volta à idéia d a
vizinhança da ação cerebral. É o lim ite extrem o a que a ciência
nos pode levar, hoje. A vançará, nos próxim os anos, m uito
além , e acredito — em bora sem poder prová-lo que a verdade
"em parte conhecida” será revelada em sua plenitude ao ho­
mem, pela persistência de seu esfôrço. A lgum dia, "o universo
será racionalizado p ara nós” .
É fora de d ú vid a qu e estamos m ais perto dêsse objetivo
do q u e Aristóteles, e não obstante, apesar de todo êsse pro­
gresso, quan d o tentam os ver a ligação efetiva entre a form ação
dos padrões dos im pulsos elétricos no cérebro e um a m odifi­
cação n a m ente hum ana, continuam os nas trevas — tal como
Aristóteles, ao in dagar há tanto tempo, "com o a m ente se liga
ao corpo ?”
Concluindo, devemos dizer que ain da n ão há prova cientí-
tífica de qu e o cérebro pode controlar a m ente ou explicá-la de
form a cabal. As suposições do m aterialism o jam ais foram con­
substanciadas. A ciência n ão lança luzes sobre a natureza do
espírito do homem ou de Deus.
Os q u e estudam o cérebro podem , apenas, continuar pes­
quisan do seu m ecanism o com o espírito aberto. Devem lutar
p ara provar que o im pulso nervoso e o pensam ento são unos,
ou então, p ara descobrir a natureza da m ente como elem ento
separado, e com isso tornar científico o dualism o. Creio que
qu an d o os hom ens deixarem de "ver através de óculos escuros”,
passando a ver "frente a frente”, descobrirão q u e a verdade
A M E N T E E SUA IN TEGRAÇÃO 33

subjacente pode harm onizar as crenças divergentes. O m onism o


verdadeiro bem pode dar lugar ao que cham am os de m áquina,
m ente e espírito do hom em e de Deus.
E nquan to isso, devemos ir vivendo nossas vidas privadas —
leigos e cientistas, igualm ente. Devemos percorrer nosso cam i­
nho antes que a ciência encontre a resposta, e todo hom em de
pensam ento deve adotar, por si, um a fé pela q u al viva. Pode
escolher a m elhor entre as crenças antigas. Deve estabelecer as
suposições que considerar razoáveis sobre a criação do m undo
e da hum anidade.
N o verão passado, em Londres, no 300.° aniversário da fun­
dação da Royal Society, a m ais velha organização científica do
m undo, o seu presidente, Sir Cyril Hinshelwood, declarou:
P e lo q u e se p o d e j u l g a r , o n ú m e r o d e fié is é c o n s tit u íd o d e p r o p o r ­
çõ e s id ê n t ic a s d e c ie n t is t a s e o u t r a s p e s s o a s . E os c ie n t ist a s n ã o f o r a m d o ­
t a d o s d e b o n d a d e o u m o r a lid a d e .

A o procurar descrever a base fisiológica da m ente neste


grande sim pósio destinado ao estudo do controle da mente, m i­
nha tarefa é m ais ou menos como a do astrônom o convidado a
in au gu rar um a reun ião religiosa, descrevendo a obra divina no
espaço exterior. H á entre as duas coisas um a relação, m as esta
é difícil de definir.
Procurei an alisar o microcosmo de forças e estruturas do
cérebro hum ano. É m ais ou menos como o trabalho de Deus
com as estréias e planetas que se movem no espaço, e tão vasto,
em sua com plexidade, como aquêle sistema. N ão nos deve ins­
p irar menos respeito do que o m acrocosm o a que denom inam os
firm am ento.
H á, dentro de cada um de nós, um a m aravilha m aior do
que essa — o cérebro hum ano. Êle proporciona à m ente h u ­
m an a o espelho em q u e pode ver as estréias e o futuro. O ho­
mem pode, como fazemos aqui, exam inar a civilização que
criou. E finalm ente, utilizando o cérebro para estudar o cére­
bro, pode ter êxito onde a m áquina de calcular falh aria ine-
vitàvelm ente. Pode descobrir a natureza de sua própria mente,
e da m ente de Deus.
H olgar H ydén

Aspectos Bioquímicos
da Atividade Cerebral

O mundo exterior é conhecido


conscientemente através da parte sensorial do sistema nervoso
e as informações por ela recebidas são armazenadas pelos me­
canismos da memória, para utilização futura.
U m a longa evolução sofreram os processos bioquím icos que
hoje sabem os ocorrer no sistem a nervoso central. Ignoram os
até m esm o as características gerais dessa evolução, e que dizer
dos detalhes. Com o fundo p ara os resultados das experiên­
cias relativas aos processos bioquím icos em si, proponho-me
fazer algum as observações gerais e form ular algum as perguntas
que hoje é possível atacar.
O m om ento em que as células nervosas, ou neurônios, co­
m eçaram a se form ar e exercer um a atividade integrada como
um sistem a nervoso, ocorreu m uito cedo na história do desen­
volvim ento do homem. O s estím ulos externos que incidem
sobre o sistem a nervoso constituíram um pré-requisito, como
hoje, p ara a m anutenção d a função nervosa. U m estím ulo im u­
tável, por exem plo, é a força da gravidade, que m antém um a
alta atividade nos centros cerebrais sensíveis a ela, durante
todo o ciclo de vida. A lguns dos detalhes a discutirm os neste
trabalho tratam de processos que ocorrem nesses centros e sua
reação aos estím ulos necessários p ara que o sistem a nervoso
execute sua função. Êste últim o aspecto foi particularm ente
acentuado por Stanley-Jones. (1) Em nosso laboratório, vçrifi-
A M E N T E E SUA IN TEGRA ÇÃ O 35

camos que se um a pessoa fôr privada de um determ inado tipo


de estím ulo sensorial os neurônios que com preendem aquela
parte sensorial não se desenvolvem bioquim icam ente, em bora
possam parecer, estruturalm ente, os mesmos. N os coelhos n as­
cidos e criados em escuridão com pleta até 12 semanas, as cé­
lulas ganglionares da retina evidenciaram alto grau de defici­
ência de proteín a e ácido ribonucleico, e seu conteúdo de
água tinha aum entado, (2) havendo ain da deficiências de de­
senvolvim ento com pleto, do ponto de vista funcional.
O sistem a nervoso plenam ente desenvolvido está firm e­
m ente ancorado no m ecanism o de contrôle genético das células
do cérebro, que é tam bém parte do indivíduo e característica
da espécie. Sob êsse aspecto, podem os assinalar um a caracte­
rística ím par das células nervosas. As células som áticas se divi­
dem, algum as o fazem ràpidam ente em intervalos curtos, outras
a intervalos longos, m as todas se dividem . A característica
ím par das células nervosas é a de não se dividirem. À parte
o fato de que um certo núm ero de neurônios se atrofia na
velhice, o homem nasce e morre com as mesmas células ner­
vosas.
Por que as células nervosas diferem das outras ? U m a das
razões prin cipais é a necessidade de m anter as experiências
do arm azém da m em ória de cada neurônio prontas para uso
im ediato durante toda a existência. Essa tarefa especializada
das células nervosas se liga à form a intrincada, caracterizada
pelos processos longos e ram ificados, ad qu irid a pelos neurô­
nios durante sua evolução. Discutirem os, portanto, um pos­
sível m ecanism o da m em ória e seu substrato no neurônio.
O desenvolvim ento do cérebro hum ano, com seu grande
cérebro anterior, ou prosencéfalo, ocorreu durante 500 milhões
a um bilhão de anos. Isso significa que a pressão da m utação
deve ter sido elevada em nosso planêta, e o am biente ativo fa ­
vorável à seleção das m utações hom inídeas. Talvez um a faixa
de gran de intensidade de radiação passasse pela nossa Via-
-Láctea, duran te aqu ela fase.
A dependência em que o sistem a nervoso se encontra de
estím ulos exteriores p ara a m anutenção da função também sus­
cita a questão da utilização da energia dos neurônios e outras
células do cérebro — questão que, naturalm ente, tem im pli­
cações m uito m ais am plas. O desenvolvimento do cérebro hu­
m ano e as atividades m entais que disso resultaram podem ser
36 O C O N T R O LE DA M E N T E

consideradas como expressões de um a vida diferente neste p la­


neta, m as a energia m otora dessa vida, não obstante, pode ser
considerada como infinitesim al em com paração com o inter­
câm bio e a transform ação de energia que se processam no uni­
verso. Q uando os fótons dos sóis interagem com as p ar­
tículas planetárias, formam-se elétrons de alta energia. N a
passagem dêsses elétrons p ara a fusão final com os seus recepta­
dores, acom panhada de perda de energia, a vid a existe energè-
ticam ente como algo à m argem da estrada principal.
O tecido cerebral tem algum as propriedades altam ente es­
pecializadas. Os fenômenos elétricos associados aos im pulsos
nervosos são característicos dos neurônios, e m uito de nosso
conhecim ento sobre a função do cérebro é proveniente do
trabalho dos electrofisiólogos. U m a razão p ara o êxito dêsses
estudos tem sido a facilidade de acesso aos indícios caracte­
rísticos e ao fato de poderem êles ser traduzidos em form as
visuais. Os instrum entos de registro existem quase que desde
os dias de G alvani, e se tornaram aos poucos m ais aperfei­
çoados, com a passagem do tempo. Com o h á a tendência, na
biologia e m edicina, de aum entar a capacidade de solução dos
instrum entos para atin gir até o nível celular, o equipam ento
eletrônico p ara o estudo do potencial d a ação é hoje altam ente
com plexo.
O utra característica evidente das células do cérebro é sua
capacidade de produzir ácidos nucleicos e proteín a em grande
escala. Essa atividade parece ser tão característica dos neu­
rônios como a geração de potenciais bioelétricos, e está Inti-
m am ente ligad a às funções nervosas especializadas. Êsses pro­
cessos bioquím icos não são fáceis de estudar com o os fenôm e­
nos elétricos. Graças a m étodos novos, porém , estamos come­
çando a reunir m ais inform ações. As alterações quím icas que
acom panham a m aior atividade cerebral serão discutidas m ais
adiante, m as isso provoca a questão d a com plexidade estrutural
do tecido nervoso.
O cérebro é form ado de dois tipos prin cipais de células:
as nervosas, com seus processos, e as células da glia que envol­
vem as células nervosas. E n qu an to os neurônios não se divi­
dem, as células da glia o fazem. Elas são em núm ero dez vêzes
superior às células nervosas. Estão Intim am ente associadas às
células nervosas e m odificam sua atividade concom itantem ente
com as diferentes exigências funcionais. Em outras palavras,
A M E N T E E SU A IN TEGRA ÇÃ O 37

tam bém reagem aos estím ulos exteriores. A situação provoca


algum as perguntas claram ente definidas:

1) Por que as células nervosas n ão se d iv id em ?


2) Q ual é a fin alidad e d a elevada produção de proteína
nas células nervosas ?
3) Q ual a natureza e objetivo d a íntim a associação entre
as células nervosas e as células da g lia ?
4) Pode a transform ação m olecular no cérebro, em nível
celular, ser utilizada p ara m odificar a m en te? Essa
pergunta foi provocada em conseqüência de experiência
que fizemos p ara induzir a um a m odificação m olecular
no sistem a nervoso.

Em geral, a atividade sintética é elevada no sistem a ner­


voso central, tal como é a taxa dos processos m etabólicos, m as
as m odificações reativas não se distribuem uniform em ente pelo
cérebro. Isso é de esperar, q u an d o consideram os que o sistem a
nervoso se caracteriza por um a com plexidade estrutural sem
paralelos em nenhum outro órgão do corpo.
Partindo das experiências diárias, é claro que o sistema
nervoso pode fazer m uito m ais do que reagir a estím ulos com
reflexos e reflexos condicionados. K on rad L o ren tz (3 ) obser­
vou que a experiência se destina a provar a atividade reflexa,
o pobre cérebro não tem q u alq u er oportunidade de m ostrar
que pode fazer m ais do que reagir a um estímulo. Essa expe­
riência, em bora de êxito, apenas serve p ara confirm ar um a
hipótese.
Existe um a relação m orfológica íntim a entre as células
da glia e as células nervosas. Mesmo o longo processo condu­
tor, o axônio, é envolvido por um tipo de célula de glia, cha­
m ada de célula de Schwann, e nenhum a parte do neurônio
rica exposta. C ada parte dêle é coberta pelas delicadas m em ­
branas da glia ou sua superfície é tom ada pelas extrem idades
dos nervos de outro neurônio, form ando a cham ada sinapse.
A Figura 4 dem onstra esquem àticam ente essa relação íntim a
entre a glia e o neurônio.
Para proporcion ar inform ação inteligível pela análise bio­
qu ím ica e biofísica, os dois tipos de células devem, ser isola­
dos. As células nervosas e as células d a glia são recolhidas de
38 O C O N T R O LE DA M E N T E

■ r . ••

, .
v. **,/. ’ . ? . *■■.■;,víT*â

F ig. 4

tecido fresco e separadas um a da outra m anualm ente, sob o


m icroscópio. (4, 5) São necessários m ovim entos levíssimos e
precisos. Im aginem os que a linha traçada p ara escrever a letra
a não se desvie m ais de 20 mícrons quando um grande núm ero
é escrito; um trabalho de precisão sem elhante é necessário
p ara se obter células nervosas e células da glia vivas e frescas.
Podem ser cultivadas e subm etidas a vários tipos diferentes de
análises bioquím icas. Assim, por exem plo, as grandes m o­
léculas de ácido nucleico podem ser extraídas de cada célula,
e o total de ácido nucleico existente em cada célula pode ser
Fig. 5
40 O C O N T R O LE DA M E N T E

determ inado. C ad a am ostra de célula nervosa ou célula da


glia do mesmo volum e da célula nervosa pode ser colocada
num pequeno dispositivo cham ado “m icrodiver”, determ inan­
do-se assim sua atividade enzimática.
A figura 5 m ostra um a célula nervosa viva fotografada no
m icroscópio de contraste de fase. N o núcleo está o denso
nucléolo. Os processos dendríticos projetam -se do corpo da
célula. As densas partículas na superfície da célula representam
os pontos de contacto entre essa célula nervosa e m uitas ou­
tras, a cham ada sinapse. A F igu ra 3 dem onstra duas células
nervosas do mesmo tipo que as da Figura 2. Im ediatam ente
depois de isoladas foram fotografadas próxim as à absorção má-
o
xim a dos ácidos nucleicos, a 2 570 A. As áreas escuras dentro
da célula são ricas de ácidos ribonucleicos.
A Figura 6, fileira superior, m ostra três células nervosas
de D eiter dos núcleos laterais vestibulares da parte posterior
do cérebro. Foram dissecadas à m ão livre, libertadas da oligo-
dendroglia circundante e fotografadas no m icroscópio de con­
traste de fase. N a fileira inferior estão três coleções de células

Fig. 6
A M E N T E E SUA IN TEGRA ÇÃ O 41

da glia, que originalm ente cercavam a célula nervosa acima.


O volum e e peso dos dois tipos de am ostras são os mesmos.
O volum e varia m uito de um neurônio para outro. N o
caso de um neurônio de tam anho m édio, ou mesmo grande, o
volum e do processo condutor, o axônio, é m aior do que o
volum e de toda a célula nervosa, inclusive os seus processos.
O pêso da célula nervosa tam bém varia. Para a análise q u í­
m ica devem determinar-se quantidades como um m ilioné­
sim o de m ilionésim o de gram a; a m icrogram a é a unidade

F ig. 7

adotada. D evido à introdução de m étodos adequados, (5, 12)


as células nervosas que constituem um centro dentro do cére­
bro podem ser an alisadas estatisticam ente.
As células nervosas são caracterizadas pelos ácidos nuclei-
cos, dos quais há dois tipos: desoxiribonucleico ( d n a ) , típico
dos cromossomos e de efeito genético, e ribonucleico ( r n a ) ,
altam ente característico do corpo da célula nervosa. O r n a
intervém na síntese da célula proteínica e se m odifica rap id a­
mente com a variação na atividade cerebral. É composto de
q u atro bases nitrogenosas, cuja seqüência ao longo da espi­
nha dorsal das m oléculas as torna específicas.
42 O C O N T R O LE DA M E N T E

Os elétrons-m icrógrafos de alta resolução m ostraram que


num a célula nervosa precipitad a e extraída durante o trata­
m ento que precede a sua separação, o rna se situa próxim o
às m em branas delicadas, de três cam adas, na form a de pequenas
partículas. Essas estruturas com põem o cham ado retículo endo-
plásm ico, ou citom em branas.
Pelo que sabemos atualm ente, a síntese proteínica ocorre
nos pontos ricos de rna no citoplasm a, e o rna determ ina a
ordem na qu al os am inoácidos se colocam na m an ufatura da
proteína; assim, o rna controla essa especificidade. Êle existe
tam bém nos núcleos das células e é especialm ente sintetizado
e ativo nos pequenos nucléolos. Em bora seja verdade que o
dna genèticam ente ativo do núcleo, ligado aos cromossomos,
determ ina o tipo de célula quanto à sua atividade diária, o
papel im ediato na com plicada síntese proteínica é desem pe­
nhado pelo rna d a célula.

Q uadro 1
Conteúdo de RNA nos diferentes tipos de células nervosas

CONCENTRAÇÃO E PESO
RNA, POR VOLUME
MICROMICRO-
TIPO DE CÉLULA NERVOSA GRAMAS POR Células fix a ­ Células
CÉLULA, das pelo mé­
j r scas,
todo Carnoy,
valor médio %
%

Células ganglionares retínicas


do o lh o .................................... 20-110 1 ,2 - 2 ,0 —
Células ganglionares do núcleo
supra-ótico do coelho.............. 70 2,4 —
Células ganglionares espinais,
coelho........................................... 1070 — 0,5
Células do hipoglosso, coelho.. 200 3,5 1,5
Células da coluna vertebral, coe­
lh o ................................................. 530 2,5 —
Células da coluna vertebral, ho­
mem, 40-50 an o s...................... 670 — —
Idem, homem de 60-70 anos .. 540 — —
Células de Deiters, coelho
Tipo gran de............................... 1550 — 1,3
Tipo pequeno............................ 700 1,5
A M E N T E E SUA IN TEGRAÇÃO 43

O Q uadro 1 dem onstra os volum es bastante diferentes de


rna nos diversos tipos de células nervosas. Podemos acrescen­
tar que a oligodendroglia contém 125 m icrogram as de rna,
cm com paração com 1 550 m icrogram as por célula nervosa de
Dciters, determ inados à base do mesmo volume.

Q uadro 2
Células nervosas de Deiters e suas células oligodendroglias no
coelho; análise microeletroforética do RNA; célula nervosa, 1 550
micromicro gramas de RNA por célula, glia 125 micromicrogramas
de RNA por amostra; base de purina e piramidina como pro­
porção molar em porcentagem do volume.

CÉLULA NERVOSA GLIA P

A denina.................. 19,7 20,8


G uan in a................. 33,5 28,8 0 ,00 ix x x
C itosin a.................. 28,8 31,8 0 ,0 ix x
U racil...................... 18,0 18,6

O Q uadro 2 m ostra a com posição do rna encerrado nas


células nervosas de D eiters e em suas glias. O rna da célula
nervosa contém m ais guan in a e menos citosina do que a glia.
Finalm ente, p ara com pletar o qu ad ro das células nervosas
de Deiters, o Q uadro 3 nos proporciona inform ações sobre o
peso sêco, proteína e lípide p or célula.
Os grandes neurônios são, na verdade, as principais células
continentes de rna e proteína. A razão dessa especialização
parece ser obscura, à prim eira vista, particularm ente se esta­
belecermos com paração com outros tipos de células nas quais
a explicação é evidente. Comparem-se, por exemplo, o pân ­
creas e suas células. Estas produzem enzimas digestivas que
são proteínas especializadas. A função celular acom panha as
necessidades digestivas. Essas células contêm grandes concem
trações de rna. N a realidade, as células pancreáticas são as
únicas qu e podem com petir com as células nervosas em con­
centração de rna. Essa alta carga de rna é compreensível nas
células pancreáticas, tendo çm vista $ua intensa produção de
proteína.
44 O C O N T R O LE DA M E N T E

Ao estudarm os a utilização de energia do cérebro, podem os


dizer que a célula em geral obtém energia p ara seus processos
funcionais pela queim a de carbohidratos, lípides e aminoáci-
dos. Nesse processo, o hidrogênio e os elétrons são rem ovidos
do substrato e passam um a série de etapas, até que finalm ente
o hidrogênio, bem como os elétrons, são aceitos pelo oxigênio,
formando-se a água. A energia é obtida por êsse processo" e tem­
porariam ente arm azenada no trifosfato de adenosina (tfa ),
pronta p ara uso. Processo sem elhante é tam bém em pregado
pelas células cerebrais. D urante m uito tem po acreditou-se
que o cérebro queim asse apenas glicose. Sabem os agora, graças
ao trabalho de G eiger, entre outros, que o cérebro pode u tili­
zar prontam ente outras substâncias, presum idam ente os amino-
ácidos e lípides. M uitas enzimas são ativas quan d o o substrato

Q uadro 3

Exemplo da composição química da célula nervosa de Deiters: pêso


seco total, 21J700 micromicrogramas, volume 94,000 microns cúbicos
(extraído de Hydên, 25)

NUCLEO- CITO-
NUCLÉOLO DENDRITOS
PLASMA PLASMA

Pêso sêco to t a l. . . 10(W g 80(W g 2 0 ,8 0 0 ^ g


Pêso sêco por vo­
lum e..................... 0,38 nng/fj.3 0 , 2 1 ^ / ^ 0,23 ujug//x3 0,20-0,10^g/M3
T o t a l de R N A ___ — — 1,200/1//g lO O ^g
C o n ce n tra ç ã o de
R N A, pêso por
volum e................. 1,5% 0,5% 1,2-1,5%
C o n ce n traç ão de
R N A, percenta­
gem de proteína
sê c a ...................... 7%
Proteínas, to ta l. . . — 650 íijug 16 600 /i/ig —

C o n cen tração de
p ro teín a, pêso p/
volum e................. 16% 20%
Proteína, pêso por
pêso de c é lu la .. _ _ 7 5% _
Fração de lípide.. — 200/i/ig 4 200 nfig —
C o n cen tração de
lípide, pêso por
volum e................. — 5% 5% —
A M E N T E E SUA IN TEGRA ÇÃ O 45

é transform ado, a energia liberada, e o hidrogênio finalm ente


transm itido pela cadeia respiratória, passando paulatinam ente
de um receptor a outro- Situam-se todos em pequenas estru­
turas especiais, os m itocôndrios. O corpo da célula nervosa
e seus processos dendríticos possuem m aior capacidade do
m etabolism o d a glicose do que outras estruturas cerebrais. O
local da m aior atividade enzim ática parece ser o dos processos
dendríticos. (13) Serão apresentados, subseqüentem ente, certos
resultados obtidos p o r um a técnica na q u al um a única célula
nervosa é colocada num pequeno “ m icrodiver” com um volum e
de 1/100 de um a gota d ’água. O oxigênio é consum ido no caso
das enzimas respiratórias. Do consumo de oxigênio por hora e
por célula, podem os com putar a atividade de um a enzima. A
oxidase citocrôm ica é ativa na etapa final da cadeia respirató­
ria e sua atividade reflete, de m odo geral, o ritm o em que a
energia nas vias aeróbias é utilizada na célula nervosa.
O prim eiro grupo de experiências dem onstra que os fenô­
menos que acom panham a intensificação da atividade cerebral
nos neurônios sensoriais, mesmo nas condições comuns, são de
alta densidade. São as grandes células vestibulares localizadas
nas áreas basais do cérebro e pertencentes ao 8.° nervo.
As células da retina representam dois terços dos três m i­
lhões de quanta neurônicos que penetram no sistem a central
em cada m ilésim o de segundo, (14) mas de igual im portância
p ara nosso organism o são os estím ulos específicos que penetram
perm anentem ente através do órgão do equilíbrio — ou seja, do
8.° nervo, m ais especificam ente, da parte vestibular. A força
da gravidade se faz sentir sem cessar em toda parte dêste pla-
nêta e é de fun dam en tal im portância para perm itir ao sistem a
nervoso realizar todos os aspectos de sua função. Com o Stan-
ley-Jon e s ( l ) assinalou, os receptores sensoriais do aparato ves­
tibular do ouvido interno sensíveis à força da gravidade não se
adaptam , e são a fonte de energia m ais im portante para a
atividade neurônica intensificada.
N essas experiências, os anim ais foram subm etidos a estí­
m ulos adequados do 8 .° nervo, e a 25 m inutos diários, durante
seis dias, de estím ulo giratório com as inclinações de 120 graus
sobre a horizontal e 30 graus sobre a vertical. As grandes cé­
lulas nervosas vestibulares, as cham adas células de Deiters, e as
células da glia im ediatam ente à sua volta foram analisadas:
têm o m esm o volum e e pêso, e podiam , portanto, ser com­
paradas.
46 O C O N T R O LE DA M E N T E

Os diagram as da F igu ra 5 m ostram que sim ultâneam ente


com a intensificação da atividade há um a produção signifi­
cativa nas células nervosas de rna, proteínas, e enzimas respi­
ratórias, oxidase citocrôm ica e oxidase succínica. Os dados obti­
dos em nosso laboratório evidenciam a existência não só de
um a atividade intensificada d a enzima, mas tam bém um a pro­
dução de m ais enzimas proteínicas em ritm o m ais elevado.

RNA Proteínas

FlC. 8

Por outro lado, a glia qu e envolve as células nervosas reage


de form a oposta, caracterizando-se pelo decréscimo de rna e
a redução d a atividade enzim ática. Assim, qu an d o há um alto
nível de atividade e produção no neurônio, há um a b aix a ati­
vidade na glia. Com o as m odificações enzim áticas nas células
nervosas significam um aum ento de utilização de energia du ­
rante a produção de proteínas e rna, o decréscimo nas ativi­
dades enzimáticas, aeróbicas e respiratórias n a glia indica um a
especialização nos dois tipos de células.
A M E N T E E SUA IN TEGRAÇÃO 47

Parecia, portanto, conveniente que se procurasse ter certeza


que as células da glia podiam passar à utilização anaeróbica
de glicose, quando reduziam as atividades enzimáticas que apre­
sentavam utilização aeróbica de energia. (18) Verificou-se que
num a atividade neurônica intensificada, quando as células ner­
vosas aum entam a utilização da energia da cadeia respiratória,
sua atividade glicósica era reduzida (Figura 5, curvas pon ti­
lh adas). Êsse fenômeno é cham ado efeito de Pasteur, e supõe-
se ser causado por um a busca de fosfatos inorgânicos, onde
predom ina o processo respiratório e com isso inibindo a dege-
neração ferm entativa da glicose. (17) As células da glia, por
outro lado, aum entavam as atividades glicósicas quando as ati­
vidades da enzima respiratória se tornavam baixas.
A esta altu ra d a discussão, talvez seja oportuno considerar­
mos a im portância dos estím ulos adequados para a m anutenção
da função nervosa em outro nível.
T en d o em vista nossos resultados prévios sobre o sistem a
nervoso em desenvolvimento, devemos acentuar a im portância
da aplicação constante da gravidade e as modificações do equi­
líbrio para a m anutenção dos processos sintéticos e m etabólicos
nos centros cerebrais vestibulares. Através dêsses processos,
m uitas outras áreas sensoriais e m otoras do sistema nervoso são
influenciadas ou ativadas, especialm ente a cham ada form ação
reticular que in flui no nível de atividade do córtex. (15) N ão
é, portanto, difícil com preender o efeito deletério que a pri­
vação dêsse e de outros estím ulos tem sobre o funcionam ento
do sistem a nervoso.
Em experiências realizadas por H ebb e seus com panhei­
ros (16) sobre o efeito da privação sensorial no homem, o paci­
ente foi m ergulhado num tanque de água m orna, com um a
rou pa especial e um elmo de m ergulho. As fontes h abituais de
estím ulo visual e auditivo tam bém foram elim inadas. O p a­
ciente n ada experim entava, sentia-se descansado e adorm ecia.
Ao despertar, seus pensam entos fluíam em círculos repetidos
até se tornarem caóticos: o paciente perdia a orientação e
ocorriam alucinações.
N ossas pesquisas indicam haver um a relação bioquím ica
entre as células nervosas e as células d a glia. N as experiências
seguintes, portanto, os anim ais foram subm etidos a situações
de tensão, a um a atm osfera correspondente a sete m il metros
de altitude, ou seja, a um a tensão de redução de oxigênio (a
48 O C O N TR O LE DA M E N T E

atm osfera a tal altura corresponde a 8% de oxigên io). Nossos


resultados dem onstraram (Figura 6) que as células nervosas
eram sensíveis à falta d e oxigên io e reagiam a um a intensifica­
ção da atividade da enzim a respiratória de 300% , e tam bém
com um aum ento de 25% da glicose anaeróbica. Para m anter
o nível de energia necessário à realização de sua função, as
células tiveram de intensificar a atividade d a cadeia respira­
tória. N otàvelm ente, as células da glia não foram afetadas por
essa tensão de redução do oxigên io e perm aneceram nos va­
lores norm ais em relação à oxidase citocrôm ica e a capacidade
anaeróbica glicósica. (18)

F ig. 9

T en d o dem onstrado essa relação clara, resolvemos estudar


o com portam ento de um sistem a enzimático adequad o nos dois
tipos de células, do ponto de vista cinético. (19) Provam os que,
ao se elevar a atividade cerebral a um nível progressivam ente
m ais alto, a célula nervosa e sua glia reagem de form a dife­
rente. A reação enzimática na célula nervosa aum entava e se
tornava altam ente dependente da tem peratura, e sua energia
de ativação aum entava. N a glia, por outro lado, não ocorriam
tais modificações. Sem discutir os possíveis m ecanism os que se
ocultam atrás dêsse fenômeno, é suficiente n otar que a célula
carente de energia, q u e exige prioridade p ara seus processos,
é a célula nervosa. N a atividade contínua, o neurônio e sua
oligodendroglia parecem constituir um a sim biose m etabólica.
D o ponto de vista de energia, form am um sistem a acoplado.
A descoberta de um a relação m etabólica entre o neurônio
e a glia foi corroborada pelos estudos eletrofisiológicos. Svae-
A M E N T E E SUA IN TEGRA ÇÃ O 49

tichin e colaboradores (20-22) constataram um a relação inversa


dos potenciais de ação registrados dos neurônios e da glia na
retina do peixe.
R esum indo, podem os afirm ar que a glia e sua célula ner­
vosa parecem constituir um a unidade funcional. O neurônio
tem grande capacidade de produzir rna e proteínas com inten­
sificação das funções nervosas, que consome alto nível de ener­
gia. O neurônio é, de longe, o m aior conservador e produtor
de rna entre as células do corpo. É um a espécie de enorme
glândula-célula, produzindo rna e proteína em reação ao estado
funcional. Essa produção de proteína pode ser considerada

Fig. 10

um a característica do neurônio, como é o im pulso da produção


e condução. Os dados do m aterial de controle indicam que a
glia pode proporcion ar à célula nervosa compostos m uito ricos
de energia. D urante a atividade cerebral intensificada, as cé­
lulas da glia parecem dar priorid ade às células nervosas para
o abastecim ento de energia fàcilm ente disponível, através da
cadeia respiratória. A p róp ria glia recorre, então, para parte
da energia de que necessita, às vias anaeróbicas, e é possível
que tam bém decom ponha seus próprios lípides.
As atividades sintéticas alternam entre dois estados: baixa
atividade na célula nervosa contrastada com a alta atividade
na célula da glia, e vice-versa. T a l sistem a acoplado proporcio­
naria, do ponto de vista cibernético, um a considerável estabi­
lidade.
Vam os, agora, procurar sugerir um quadro geral da ati­
vidade nos com ponentes estruturais do cérebro, e as formas
O C O N TR O LE DA M E N T E

possíveis pelas quais os fenôm enos elétricos se relacionam com


alguns processos bioquím icos. Essas especulações baseiam-se
em resultados citofisiológicos. O problem a geral pode ser for­
m ulado da seguinte m aneira: percebemos o m undo exterior
e seus estím ulos com as partes sensoriais do sistem a nervoso
central, produzindo um a ‘‘m odificação pelo uso” no m ecanism o
da m em ória que arm azena as experiências acum uladas. As
indagações biológicas específicas são:

1) Q ual a razão da alta produção de proteína no neurô­


nio e seu notável conteúdo de rna ? Devemos lem brar
que a célula nervosa é a que m ais rna contém no
corpo celular.
2) Com o se liga a glia a êsses processos, interposta como
está entre a corrente sangüínea e os neurônios ?

Comecemos com o papel do rna no neurônio. U m a das


propriedades m ais evidentes do neurônio são os fenômenos
elétricos registrados quan d o em atividade. As correntes elé­
tricas qu e propagam os im pulsos nervosos são levadas pelos
íons de sódio e potássio. D uran te um potencial d e ação, ocorre
um a nova distribuição dos íons pela m em brana nervosa; a
distribuição origin al é rapidam ente restaurada por um m eca­
nism o bom beador da energia necessária. G ran de proporção das
reações biossintéticas é levada, através d o acoplam ento, ao fos­
fato nucleótico. Bem pode ser, prim eiro, que o rna fu n ­
cione como um a reserva, proporcionando à célula os nucleó-
ticos que participam dos processos geradores de energia neces­
sários para gerar os im pulsos nervosos. Segundo, pode ser que o
rna e a proteína produzidos dentro do neurônio sirvam como
substrato p ara o m ecanism o de aquisição e lem brança — isto
é, podem servir de m em ória. (25) A capacidade de trazer o
passado à consciência pode, sem dúvida, residir num m ecanism o
prim ário de validade biológica geral. U m elo firm e como o
m ecanism o genético é im portante, e especialm ente sob êsse
aspecto a m olécula do rna, com suas m últiplas possibilidades,
preencheria m uitos requisitos.
Até agora, somente diferenças quím icas quantitativas fo­
ram encontradas no dna de espécies diferentes, (23) mas a
com posição e estrutura gerais da m olécula parecem não dife­
rir. (24, 47) N ão obstante, em sua expressão funcional, o dna
A M E N T E E SÜ A IN TEGRA ÇÃ O 51

é específico. Isso significa que a capacidade genética da espé­


cie é lim itada pelo dna. Conseqüentem ente, o rna, através do
qu al o dna parece realizar seu efeito controlador a longo prazo
na célula, é tam bém um fator genético lim itador. A função
dos cromossomos e genes tam bém pode ser considerada em
têrmos de “m odificação pelo u so”, servindo a um m ecanism o da
m em ória. Portanto, a m em ória in dividual e as propriedades
inatas d a espécie podem ter um m ecanism o bioquím ico sim ilar.
A freqüência m odulada gerada num neurônio por um
estím ulo específico deve afetar a m olécula rna e induzir a um a
nova seqüência de resíduos nucleóticos ao longo da espinha
dorsal da m olécula. Essa nova distribuição dos componentes
perdurará, então. O rna foi especificado. (25) Isso leva tam ­
bém à especificação d a proteína que está sendo form ada com
a intervenção desse rna.
Por um a com binação dessa proteína específica com a m o­
lécula com plem entar, a substância transm issora nos pontos
de contacto com o neurônio seguinte, na sinapse, é ativada.
Isso perm ite à inform ação codificada passar a êsse neurônio
seguinte na cadeia. A razão da reação desse neurônio seguinte
é que a proteína, antes especificada através da freqüência m o­
du lada, agora reage ao mesmo tipo de pad rão elétrico, sem pre
que repetido. O rna específico e a proteína são produzidos
constantem ente no neurônio. D o ponto de vista estatístico,
podem os calcular que as m oléculas fornecem as necessárias pos­
sibilidades de perm uta p ara arm azenar as experiências me­
m oriais de toda um a vida. U m a verificação recente, feita no
laboratório de F. O. Schmitt, é sugestiva, quanto a isso. (26)
Verificou-se que as longas fibrilas no axônio term inavam em
espirais de pequenas m oléculas globulares. Schmitt é de opi­
nião que os filam entos crescem na extrem idade da ponta neu-
ron ial pelo acréscimo de novas m oléculas globulares. T a l cres­
cim ento exige grau m uito elevado de especificidade da seqüên­
cia de am inoácidos.
Êsse m ecanism o da m em ória não exige um a localização ri­
gorosa dos centros da m em ória dentro do cérebro. O mesmo
neurônio pode particip ar como um elo em m uitas rêdes neu-
roniais. As trilhas neurônicas podem crescer pela especificação
sucessiva das m oléculas de rna e das proteínas form adas; essas
vias serão com plicadas em sua form a, porém funcionarão den­
tro de prin cípio bàsicam ente simples.
52 O C O N TR O LE DA M E N T E

Poderiam os im aginar que um m ecanism o ligando os fenô­


menos elétricos do neurônio e glia com os processos b ioq u í­
micos operasse d a seguinte m aneira, como um a colaboração
bicelular:
Suponham os um aum ento de estím ulos neurais. Isso leva
a um a m odulação de freqüência produzida pelo neurônio. A
necessidade de energia do neurônio é aum entada. Afirma-se
que a energia necessária é fornecida através d a glia, que é um a
ligação num m ecanism o alim entador negativo, operando entre
os com ponentes — neurônio, glia e capilares — da form a se­
guinte:
A freqüência m od u lada do neurônio tem um a d u pla fina­
lidade. T ran sfere a inform ação específica ao neurônio seguinte.
Além disso, parte da saída vai p ara a glia. Esta se caracteriza
pelos potenciais de duração aproxim adam ente mil vêzes m aior
do que os registrados nas células nervosas. (27) Q uando a
freqüência neuronial é m odulada, um efeito de retenção sin­
croniza a baixa freqüência d a glia, sendo a diferença um m úl­
tiplo. Êssc acoplam ento entre as freqüências do neurônio e
da glia form a o sistem a de inform ação pelo q u al a glia fornece
ao neurônio os substratos, ao regular a produção de rna e
nucleótidos e a indução de enzima.
Poderia funcionar, então, o m ecanism o seguinte: o resul­
tado de nosso estudo cinético m ostrou que a energia da ati­
vação das células nervosas é aum entada com a duração dos
estím ulos interm itentes. Q uando o fluxo de im pulsos aum enta,
ocorre um a m odificação no m eio iônico na substância da cé­
lula. Isso influi nas correntes flutuantes existentes entre os
grupos básicos e seus respectivos prótons de proteína, tal como
m ostrou K irkw ood. (28) Se o local catalítico do com plexo
enzima-substrato se caracterizar por um a força de atração se­
m elhante e houver um a m odificação no m om ento do dipolo
na ativação do com plexo enzimático, então haverá tam bém
um a m odificação na energia evidente da ativação. Êsse racio­
cínio pode ser aplicado às m odificações n a dependência de
tem peratura e do ritm o das reações enzim áticas d as células
nervosas e d a glia. A interação com os grupos básicos da pro­
teína produz um aum ento na energia d a ativação devido a um
decréscimo no m om ento do dipolo do com plexo enzima-subs­
trato na sua ativação p ara o estado de transição. O aum ento
na energia e ativação foi o q u e registraram as nossas expe­
riências.
A M E N T E E SUA IN TEGRA ÇÃ O 53

A glia obtém a inform ação sobre a m aior necessidade de


energia d o neurônio através do m ecanism o de retenção de
fase e pode apressar o abastecim ento de substrato ao neurônio.
A pinocitose poderia ser um provável m ecanismo nesse pro­
cesso. H á am plos indícios de disposições estruturais em ele­
vada resolução no lim ite glia-neurônio que presum idam ente
constituem um a expressão de pinocitose. (29) Além disso, a
pinocitose foi observada em culturas de células da glia e ner­
vosas. (30-33) A pinocitose pode ser induzida pelo estím u­
lo. (34) Seria, portanto, um m ecanism o adequado à transfe­
rência de substratos p ara o neurônio e poderia ser disparado
pela retenção d a fase.
A concentração do substrato aum enta na célula nervosa e
pode com petir com o repressor em um local form ador de enzi­
m a (35), induzindo assim a um a form ação acentuada de enzima,
criando a entrada.
A relação funcional entre a glia e o neurônio poderia, en­
tão, ser form ulada em têrmos cibernéticos, como um meca­
nism o realim entador negativo, pelo qu al a glia age como doa-
dora de energia e reguladora de neurônios. A saída com preende
a freqüência m od ulada no neurônio, que influi na atividade elé­
trica da glia por um efeito de retenção de fase. Essa atividade
elétrica m odificada regula a entrada — a transferência de subs­
trato p ara o neurônio, e a indução de enzima e rna e síntese
nucleótica servindo à geração de im pulsos nervosos — além do
rna e da proteína que servem à memória.
Em todos os casos analisados, verificam os que o aum ento
da atividade cerebral, introduzido pelos estímulos produtores
de em oção — p o r exem plo, sons ou tons ou mesmo atividades
m otoras — se correlacionava com a produção de rna e pro­
teína, (25) e que a m odificação das atividades enzimáticas nos
neurônios e glia se correlacionava com m odificações opostas
nessas células. (4, 5, 19) Em pedaços m aiores de tecido cere­
bral, Geiger, (36) R ichter, (37) U n gar e outros, (38) e Palla-
din (39) encontraram provas de m aior m etabolism o de pro­
teína e rna, em conexão com os estím ulos elétricos do sistema
nervoso central. R ichter encontrou modificações sem elhan­
tes, em bora não tão pronunciadas, depois de situações de tensão
a que foram subm etidos alguns ratos.
A o considerarm os o problem a do controle da mente, veri­
ficam os que êsses dados dão m otivo à seguinte pergunta: seria
54 Õ C O N TR O LE DA M E N T E

possível m odificar o fundam ento da emoção e a experiência


subjetiva dos estím ulos produtores de emoção, induzindo m o­
dificações m oleculares nas substâncias biològicam ente ativas do
céreb ro ? O r n a , em particular, é o prin cip al alvo dessa espe­
culação, pois a sua m odificação m olecular pode levar a um a
m odificação da proteín a que se form a. Podem os form ular a
pergunta de m odo diverso, m odificando-lhe a ênfase: Perm i­
tem os dados experim entais, apresentados aqu i, m eios de alterar
o estado m ental por m odificações quím icas produzidas especi­
ficam ente ? J á se obtiveram resultados que apontam essa di-

20,soo
2,120

68

reção. Êsse trabalho foi realizado usando-se um a substância


den om inada triciano-am inopropano. A dm in istrada em peque­
nas doses, é um a substância atóxica que produz um a pequena
elevação de tem peratura e tem um efeito an titiroidal. ( * ) (40)
A dose de 20 m iligram as por q uilo produziu, em um a hora,
m odificações notáveis nos neurônios e glia. G renell e o au-
tor(41) verificaram que a quantidade de r n a , proteínas e lí-
pides livres aum entou em m ais de 25% em cada célula ner­
vosa e que o r n a por am ostra dim inuiu na glia em 45% . Em
seguida à adm inistração dessa substância durante seis dias, a
atividade enzim ática respiratória aum entou progressivam ente
em m ais de 700% . Verificam os em nosso laboratório um a m o­
dificação significativa na com posição da m olécula r n a produ­
zida em um a hora, nesse processo, como se vê pelo Q uadro 4:
a citosina dim inuiu nas células nervosas, m as aum entou —
proporcionalm ente — n a glia, onde a guan in a se reduziu. (48)

(*) O autor deseja agradecer à The Upjohn Company, Kalamazoo, Mi-


chigan, o fornecimento de amostras de triciano-aminopropano para essas expe­
riências.
A M E N T E E SUA IN TEGRAÇÃO 55

A F igu ra 9 nos dá exem plos de traços fotom étricos dos filam en­
tos microscópicos em que se realizaram as separações eletro-
foréticas.

Q uadro 4

Efeito do triciano-aminopr^pano na composição do RNA das células


nervosas de Deiters e suas células da glia: coelhos injetados com 20 milo-
gramoj quilograma e abatidos uma hora depois; bases de purina e pira -
midina como proporção molar em percentagem do volume; número de
análisest 233.

CÉLULA NERVOSA G L I A

Con­ Tra­ Con­ Inje­


P P
troles tados troles tados

A denina........ 19,7 20,5 — 20,8 20,1 —

G uanina........ 33,5 34,6 — 28,8 21,9 0,0i x x

C itosina........ 28,8 26,7 0,00i x x x 31,8 38,6 0 ,0i x x

U racil............ 18,0 18,2 — 18,6 19,4 —

As alterações m olares são de tal m agnitude que podem re­


fletir um aum ento ráp id o de um a determ inada fração de r n a
dentro das células, ou podem evidenciar que o triciano-ami-
n opropan ó % e pela inibição de um mecanismo de controle
celular na síntese do r n a . Pela técnica m icroeletroforética
estudam os outros casos nos quais a produção de r n a intensi­
ficada ocorre nas células nervosas em conseqüência de estí­
m ulos fisiológicos durante a regeneração, (42) ou como efeito
de drogas como o tofranil, (43) m as não comprovamos tal efei-
to. (**); G eige r(4 5 ) constatou que em seguida ao estím ulo elé­
trico ocorreu um a ráp id a m odificação nos nucleótidos, que pôde
extrair de partes do córtex cerebral. A isso se seguiu um au­

( * * ) Depois do simpósio, o autor verificou uma modificação na composição


das células nervosas e da glia depois da administração de tranilcipromina { 4 4 ) que
é inibidor da oxidase monoamínica. A modificação na base de RNA da composi­
ção das células nervosas ocorreu, porém, em sentido oposto ao que se constatou
após a aplicação do triciano-aminopropano nas células nervosas, mas semelhante
às modificações da glia: a guanina diminuiu e a citosina aumentou de modo
significativo.
56 O C O N T R O LE DA M E N T E

m ento no conteúdo de citidine e adenina do ácido nucleico.


Essas modificações, porém , foram reversíveis dentro de poucos
m inutos.
A aplicação de um a substância que m odifica a taxa de
produção e com posição do r n a , e provocando m odificações en-
zim áticas nas unidades funcionais do sistem a nervoso central,
tem aspectos tanto positivos como negativos. H á, hoje, provas
de que a adm inistração do triciano-am inopropano é seguida

Célula nervosa ae Deiters Oligodendroglia

Contrôle
Contrôle

A G

Experim ental Experim ental

~v x /Va /V=I ., ■ I ,'n ■'I ................


A G C U
F ig. 12

de um aum ento d a sugestionabilidade no homem. (46) Assim


sendo, um a m odificação clara de substância funcionalm ente im ­
portante como o r n a no cérebro podería ser utilizada para
condicionar. O autor não se está referindo especificam ente ao
triciano-am inopropano, mas a qu alq u er substância que pro­
voque modificações de m oléculas biologicam ente im portantes
nos neurônios e glia, e afete o estado m ental em sentido nega­
tivo. N ão é difícil im aginar os possíveis usos que o govêrno de
um E stado policial poderia dar a essa substância. Subm etería
durante algum tempo a população a condições difíceis. Su b ita­
mente, essas condições seriam elim inadas e, ao mesmo tempo, se
acrescentaria a substância aos reservatórios de abastecim ento
d ’água e os meios de com unicações em m assa seriam postos a
funcionar. Êsse m étodo seria m uito m ais barato e de possibi­
lidades m uito maiores do que o m étodo aplicado in dividual­
A M E N T E E SUA IN TEGRAÇÃO 57

mente, e por longo tempo, por Ivanov em R hubasjov, que


Koestler descreve em seu livro. Por outro lado, tam bém não é
difícil de im aginar um a contram edida p ara o efeito de um a
substância como o triciano-am inopropano.
N o aspecto positivo, há possibilidades criadas por essas
descobertas quanto ao estudo das doenças mentais. Êsse traba­
lho será especialm ente útil, por exem plo, se o defeito metabó-
lico estiver localizado na glia, fazendo com que os neurônios
sejam atingidos indiretam ente. Se tal fôr o caso, haverá a pos­
sibilidade de que o êrro possa ser corrigido pelo estím ulo da
produção de certas m oléculas de r n a o u proteínas nos neurô­
nios ou na glia.

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D o n a ld O . H e b b

O Papel da Experiência

JN ^L eu título deixa im plícito um con-


traste entre hereditariedade e am biente, razão pela qual me
parece oportuno prin cipiar esclarecendo um ou dois aspectos,
para evitar confusões. Pretendo an alisar o papel do m eio sen-
sorial ou perceptivo, distinto do m eio necessário ao cresci­
m ento dos ossos, fibras nervosas e órgãos sensoriais, e ao seu
funcionam ento. É evidente que o crescimento da mente e sua
estabilidade dependem das qualid ades genéticas de que o orga­
nismo é dotado ao iniciar sua carreira, mas sabemos tam bém
que a função m ental depende e&sencialmente de estím ulos
sensoriais, d a experiência do organism o através do olfato, au­
dição, tato, p alad ar e visão. São as im plicações dêsse fato que
nos propom os exam in ar agora, sob o ângulo da estabilidade
da m ente in dividual, e de sua relação com a sociedade.
O utro ponto a esclarecer: basta usar, por vêzes, a p ala­
vra “am biente” (ou, também, “hereditariedade” ) para provo­
car um estado de confusão que elim ina qualquer entendi­
mento. N ão pretendo opor hereditariedade a ambiente, ou
qu alq u er possibilidade de dividir os dotes hum anos para atri­
b u ir à hereditariedade esta parte e ao am biente aquela outra.
É um a confusão an tiga que ain da perdura, apesar das tenta­
tivas de análise esclarecedora que H aldane, do ponto de vista
da genética, e Beach, do ponto de vista da psicologia, fizeram
da falsa antítese do que é instintivo e do que é inteligente, ou
aprendido. Podem os distinguir conceitualm ente entre os fa-
tôres que contribuem p ara o prod uto final, como fiz acima,
60 O C O N TR O LE DA M E N T E

sem supor que atuem separadam ente, ou produzam resultados


finais, ou partes dos produtos, distinguíveis. M inha pergunta
é: no crescimento m ental, q u al o papel desem penhado pelo
fator dos estím ulos sensoriais, em sua colaboração com 1) o
fator genético e 2) o fator alim entar e básico do m eio físico e
quím ico ? E mais, q u al o papel do estím ulo sensorial na m a­
nutenção da função m ental, um a vez concluído o crescimento ?
D o ponto de vista de um ser sensível e inteligente, viven­
do no espaço interplanetário, independente das necessidades
físicas e quím icas do homem, os habitantes deste plan eta devem
parecer como ocupantes de um aquário, que agora, pela p ri­
m eira vez, estão na im inência de sair dêle, mas que, como os
peixes, precisam levar consigo um a parte do am biente físico,
em que vivem. O hom em não vive na superfície dêste pla-
nêta, realm ente, m as no fundo de um m ar de ar e sob pressão
m uito considerável. O peixe, p ara sair do aquário, teria de
construir um pequeno aq u ário cheio d ’água e conseguir im ­
pulsioná-lo p ara onde desejasse ir. O hom em , igualm ente,
tem não apenas o problem a de se livrar da gravidade terrestre,
mas de levar consigo m assa m uito m aior, conservando, para sua
utilização, um segm ento do am biente físico que lhe é vital.
As grandes m assas em jogo, envolvendo toneladas, p ara m anter
um espaço necessário a respiração de apenas um homem du ­
rante um a viagem , mesmo curta, fora do m ar de ar, tem sido
o prin cip al fator a im pedir a fuga.
Admite-se, atualm ente, que isso seja apenas parte do pro­
blem a. O am biente sensorial da terra, ao que parece, deve
tam bém ser sim ulado em certas proporções, p ara que o homem
no espaço continue sendo um homem, tal com o o conhecemos,
observador sensível, agente eficiente, pensador. Isso equivale
a dizer que a mente é função do am biente psicológico ou sen­
sorial, tal como m úsculos e ossos — e células do cérebro — são
resultado do am biente que os alim enta.
T alvez eu deva dizer que não há nenhum dualism o neces­
sário ao distinguirm os a m ente das células que constituem o
cérebro. U tilizo a denom inação p ara me referir a um a orga­
nização da atividade neural, um nivel m ais alto da função
cerebral. (Por outro lado, podem os n otar que isso é um a
hipótese apenas, cuja confirm ação — ou negação — final cabe
ao fu tu ro .) M inha sugestão é q u e essa organização, ou nível
de funcionam ento é realizada durante o crescimento apenas
A M E N T E E SUA IN TEGRA ÇÃ O 61

como um a função do com plexo de estím ulos sensoriais, e ainda,


que um a vez estabelecida, é m antida apenas na presença de
tais estímulos.
Concordo, im ediatam ente, que as provas dessa proposição
são incom pletas, e que estamos longe de poder especificar deta­
lhadam ente quais as características essenciais do am biente sen-
sorial que influem no desenvolvimento ou na m anutenção da
função m ental. As provas que temos, porém, nos indicam ex­
clusivam ente um a direção, e são suficientes para invalidar as
suposições clássicas — m as tácitas — sobre a natureza da mente.
Além disso, mesmo deixando de lado a possibilidade de ser
o homem exposto aos am bientes de M arte e da L u a, os indícios
m ostram claram ente novos conceitos da relação entre o homem
e seu m eio social, neste planêta, com implicações im ediata­
mente práticas.
A interpretação clássica a que me referi não seria fácil
de definir, talvez por não se tratar de um a interpretação
apenas, mas de m uitas, ou talvez porque se houvesse sido neces­
sário torná-la explícita, seus defeitos teriam sido percebidos e
ela posta de lado. Creio, porém , ser ju sto dizer que nossa ten­
dência é falar d a m ente como algo inteiram ente distinto dos
processos sensoriais, e considerar êsses últim os apenas como
fontes de inform ação, p ara serem ou não usados por ela, como
lhe parecer melhor. Supunha-se que toda a função do am bi­
ente sensorial era proporcion ar ao adulto um a orientação para
seu raciocínio ou ação. Recebesse ou não m inha m ente tal
inform ação, eu continuaria sendo eu, a m esm a pessoa, estivesse
ou não em com unicação com o meu am biente. Q uanto à evo­
lução d a criança, era ortodoxo, até mesmo para o behaviorista
clássico, com todo o seu am bientalism o, aceitar a noção de que
a capacidade intelectual era quase, ou totalm ente, inata, deter­
m in ada pela hereditariedade — em outras palavras, m ais ou
menos independente dos acontecim entos sensoriais durante o
crescimento. A ortodoxia, de sua form a peculiar, voltava-se
então p ara o extrem o oposto com relação aos traços da perso­
n alidade ou tem peram ento, considerados como resultado do
aprendizado.
M as como já disse, nenhum a dessas ortodoxias pode ser
aceita. V ejam os algum as das provas experim entais que nos pro­
porcionam , creio, um quadro m uito diferente da relação entre
o hom em e seu am biente, prim eiro quanto à dependência çm
62 O C O N TR O LE DA M E N T E

que a m ente ad u lta se encontra da experiência sensorial, e


segundo quan to à form a pela qu al o estím ulo sensorial in flui
na hereditariedade (e no am biente vital) p ara controlar o
curso e as proporções do desenvolvim ento m ental.
Tom em os, por exem plo, um jovem , vigoroso e sadio estu­
dan te de universidade, privando-o sim plesm ente das percep­
ções que são parte de sua vida habitual, dando-lhe conforto,
alim entando-o quan d o necessário, mas isolando-o do bom bar­
deio das inform ações sensoriais a que estamos norm alm ente
expostos durante todo o tempo, exceto quando dormim os. Êle
ficará encerrado em si mesmo, prêso a seus próprios pensa­
mentos. D urante algum as horas isso não constituirá para êle
m aior problem a. Pode ficar, como se diz, um pouco entediado,
m as será um tédio perfeitam ente tolerável. Sem ver nada, esten­
dido, no escuro, num a cam a confortável ou flutuan do em
água tépida, usando óculos especiais que im pedem a visão, sem
poder ouvir nada a não ser um zum bido contínuo (ou seja,
sem qu alqu er configuração ou significado sensorial), e sem
poder utilizar o tato, tendo as mãos revestidas de luvas iso-
lantes, que perm item o m ovim ento mas não a sensação tátil.
Está, portanto, literalm ente em contacto com seu m eio físico,
m as na realidade está com as percepções isoladas. Se não estiver
no escuro, e sim usando óculos especiais que adm item luz m as
n ão perm item a visão configurada — situação em que foi
feita nossa experiência — poderem os então dizer que o volum e
de estím ulos sensoriais do seu am biente não se reduziu — e que
êle perdeu apenas a variedade norm al dêsses estímulos.
D uran te algum as horas, portanto, o efeito disso é reduzido.
D epois de certo tem po, porém , surge um mal-estar, no íntim o
m esm o do indivíduo subm etido à experiência. Torna-se in ­
quieto e possuído de um sentim ento de infelicidade, e o m ais
im portante é a im possibilidade de seguir um raciocínio conti­
nuado. A lguns dos pacientes submeteram-se à prova pensando
em passar em revista seus estudos ou p lan ejar um a pesquisa
n a atm osfera de paz e m editação proporcion ada dentro do
cubículo experim ental. T iveram um gran de desapontam ento.
N ão só tornara-se difícil raciocinar sèriam ente, como se q u ei­
x aram freqüentem ente de ser im possível q u alq u er pensam ento
lógico.
Os testes de inteligência m ostraram m odificações já no
segundo dia, e depois que os pacientes se retiraram do isola­
A M E N T E E SUA IN TEGRAÇÃO 63

mento, houve perturbações acentuadas d a m otivação e dos h á­


bitos de trabalho que duraram de 24 a 36 e 48 horas. T in h am ,
naturalm ente, liberdade p ara aban don ar a experiência a q u al­
qu er mom ento, e m uitos o fizeram logo no início. Outros,
porém , atraídos pela rem uneração, que ju lgavam compensa-
dora, perm aneceram até que seus processos m entais sofressem
perturbações m ais profundas (a tolerância oscilou de algum as
horas apenas até o extrem o de seis d ias). M uitos tiveram com­
plicadas alucinações visuais, que não se relacionaram , porém,
com a identidade pessoal do paciente. O m ais significativo
no presente contexto foi a ocorrência, em cêrca de 8% dêles, de
súbitos e agudos colapsos emocionais, sob form as diferentes (por
exem plo, acessos de cólera, ataques de claustrofobia), que
encerraram bruscam ente a experiência, no que se relacionava
com êles; outros participan tes começaram a ju lg ar que tinham
dois corpos, que a cabeça se havia separado do pescoço, ou
que se tornara um a m ente im aterial vagando pelo espaço, total­
mente desligada do corpo.
A m ecânica da perturbação m ental está fora de nosso pre­
sente objetivo, m as podem os dizer de passagem que ela hoje
parece, com bastante certeza, envolver mecanismos prim itivos
da haste cerebral, de vigilância e consciência, cuja existência
foi deduzida por Penfield em 1936 e que foram objeto de
investigações intensivas durante os últim os dez anos, após a
dem onstração experim ental da ativação da form ação reticular
por Moruzzi e M agoun.
Os efeitos que descrevemos não são peculiares às condições
específicas das experiências pelas quais podem ser provocados
no laboratório, m as ocorrem, de certa form a, nas circunstân­
cias m ais norm ais das ocupações existentes. Essas circunstân­
cias “n orm ais” , porém , são sem pre aquelas nas quais o am bi­
ente sensorial, ou sua variabilidade, transformou-se no sen­
tido da m onotonia. O explorador ártico, particularm ente du ­
rante a longa noite polar, o m otorista de cam inhão que per­
corre longas distâncias seguindo a linha branca da rodovia
hora após hora, o m arinheiro solitário sem n ada p ara ver senão
seu navio im utável e a m onótona sucessão das ondas, o piloto
solitário das grandes alturas — todos esses experim entam um a
ou m ais form as de aberração m ental, tal como as sofridas pelos
pacientes subm etidos à extrem a m onotonia do isolamento das
sensações.
64 O C O N TR O LE DA M E N T E

N o problem a das viagens pelo espaço, é significativo que


entre as aberrações m ais extrem as estão as experim entadas pelo
piloto de avião de gran de altitude. “O fenôm eno do esgota­
m ento” , ou d a jm p tu ra , descrito por G raybiel e outros, é fun­
dam entalm ente um a perturbação d o eu, n a q u al o p ilôto pode
sofrer de um sentim ento agud o de estar isolado da existência,
de ter perdido a identidade pessoal e talvez se integrado no
aparelho ou mesmo no próp rio espaço vazio. O u pode sentir-
se separado do corpo e como um a m ente desligada com andando
o avião de um ponto no espaço, transform ado em algo do ta­
m anho de um brinquedo e seu corpo num boneco sentado
ju n to aos contrôles. H á indicações de q u e isso se tornaria
intolerável, se prolongado, ou só poderia ser suportado por
aquêles cujo funcionam ento m ental estivesse, de algum a form a,
significativam ente perturbad o e cujo julgam ento já não fôsse
digno de fé. Para o p ilôto no espaço interplanetário, eviden-
temente, o isolam ento e a m onotonia serão m uito m aiores, e
m ais prolongados. Êle não poderá, como os dem ais pilotos,
reaproxim ar-se da terra e com isso elim inar um a tensão in to­
lerável.

J á se afirm ou, ao ser êsse problem a discutido, que pode­


mos criar sêres hum anos num isolam ento relativo, de m odo que
se acostum em à m onotonia e n ão sofram ru p tu ra no espaço.
Isso me leva ao m eu segundo ponto: a sugestão não é psicolò-
gicam ente exeqüível, m esm o que fôsse socialm ente aceitável,
porque a inteligência não se desenvolve em condições m onó­
tonas, ou de isolam ento da percepção. V árias experiências nos
últim os anos m ostraram que a existência de um m eio norm al
— n orm al p ara a espécie — durante o crescimento, é essencial
para o desenvolvim ento das qualid ades potenciais norm ais. O
rato criado no isolam ento tem deficiências n a solução de
problem as e da aquisição de conhecimento (nas proporções
relativam ente m oderadas de isolam ento possíveis p ara a m a­
nutenção da vida, o aprendizado m ecânico pode p assar ina-
tin gido). O cão criado da m esm a form a é fisicam ente vigoroso
e sadio, m as intelectualm ente m uito prejudicado, e sua m oti­
vação e com portam ento social são realm ente anorm ais. N ão se
fizeram experiências sem elhantes com m acacos porque os pri-
m atas são de cuidado difícil e exigem longo tem po p ara o
crescimento. Foi possível, porém , criar chim panzés elimi-
nando-lhes a visão delineada das coisas, ou a experiência so-
A M E N T E E SUA IN TEGRAÇÃO 65

m estética (isto é, a experiência dos m ovim entos corporais, estí­


m ulos cutâneos etc.) e os resultados são m ais ou menos seme­
lhantes aos das experiências com os ratos e cães. N o setor da
experiência sensorial onde a restrição é aplicada o anim al
revela deficiências duradouras de percepção, e temos indícios
de que pelo menos parte dessas deficiências são perm anentes.
Em sum a, ao m am ífero criado com restrito acesso ao seu am ­
biente sensorial norm al falta inteligência na proporção do
grau de restrição sofrida e m ostra perturbações de m otivação,
ou de “person alidad e” .
É possível objetar-se que tudo isso se aplica aos anim ais,
e não ao homem. É certo que os elementos sistemáticos exis­
tentes resultam de experiências feitas com anim ais, pois não
seria possível fazê-las com sêres hum anos. M as não é verdade
que as conclusões não possam ser extensivas também ao ho­
mem, com as devidas cautelas. Em prim eiro lugar, os dados
hum anos de que dispom os, por pouco sistemáticos que sejam ,
revelam exatam ente a mesma história. O paciente congenital-
mente cego, operado de catarata depois de ter oito, dez ou
vinte anos de idade, m ostra defeitos de percepção essencial­
m ente idênticos aos d o chim panzé qu e cresceu sem ver direito,
levando-se em conta as diferenças do aprendizado verbal no
homem, o período de restrição m ais prolongado, e assim por
diante. H á tam bém várias análises de testes de inteligência
de pessoas qu e cresceram em isolam ento parcial do am biente
q u e levam à conclusão de q u e essas condições produzem defeitos
perm anentes de inteligência, tanto no homem como nos an i­
m ais inferiores.
Em segundo lugar, o homem é um m am ífero: seu cére­
bro é form ado exatam ente dentro do mesmo plan o básico que
encontram os no coelho, n o gato ou no macaco. T e m um a inte­
ligência m ais alta que o macaco, assim como êste tem inteli­
gência superior à do gato ou coelho, o que significa que deve­
m os ter cautela na aplicação de generalizações a outras de q u al­
q u er um a dessas espécies. M as q u an d o encontram os um a carac-
rística com um aos m am íferos, e particularm ente um a caracte­
rística que se intensifica ao passar das espécies inferiores às
superiores, é sem dúvida ju sto aplicá-la ao homem, para ver
se a êle se ad ap ta — i.e., se a tendência continua evidente ou
se a evolução no nível hum ano provocou, por qualqu er m o­
tivo, su a reversão, E se nesse ponto, finalm ente, descobrimos
66 O C O N T R O LE DA M E N T E

que a aplicação do prin cípio oriundo do estudo com parativo


esclarece o problem a hum an o e nos leva a ver o homem num a
perspectiva nova e m ais clara, então a objeção de que “os dados
sobre anim ais n ad a provam quanto ao hom em ,, pode ser posta
de lado como irrelevante (sem fun dam en to). Os dados sobre
os gatos n ada provam qu an to aos cachorros, e vice-versa. M as
o crescente conhecim ento dos gatos pode levar-nos a ver novos
princípios, um a nova ordem e sistema, no com portam ento dos
cães. É sem pre perigoso generalizar partindo de anim ais, para
chegar ao homem, m as é tam bém perigoso não tentar, sempre,
ver o homem sob a perspectiva do desenvolvim ento evolucio-
nário, quando procuram os princípios de com portam ento hu­
m ano, como um corretivo da m iopia inerente ao fato de consi­
derá-lo sui generis, sem relação com o que lhe está abaixo, ou
o antecede na escala filogenética.
A centuo tal aspecto porque desejo utilizar essa perspec­
tiva ao exam inar os m otivos hum anos quan to à sua relação com
a sociedade hum ana. A questão, nesse aspecto, é que os dados
sobre anim ais dem onstram que a inteligência, percepção, e a
capacidade de ajustar-se adequadam ente ao am biente se desen­
volvem no anim al superior sòm ente quand o êste ficou sujeito
a um grau norm al de variedade. Q uanto m ais b aix o o nível
de inteligência ou com plexidade da função cerebral, menos
verdade é isso.
Com relação ao “ controle da m ente”, portanto, um con­
trole com pleto (para não dizer supressão) seria obtido criando-
se as crianças num am biente radicalm ente lim itado. A dificul­
dade naturalm ente é a de que o adulto assim produzido não
seria de utilid ade para ninguém — um vegetal e não um homem,
tal como o conhecemos. Parece (e quanto a isso os dados sôbre
anim ais pouco nos podem esclarecer) que pela seleção de aspec­
tos do am biente, poderiam os m oldar o desenvolvim ento nesta
ou n aquela direção. É possível, talvez, que a criança pudesse
ser criada de form a a suportar um tipo de m onotonia, apenas
em determ inado setor da experiência hum ana, que não seria
tolerado pelas pessoas norm ais, formando-se dêsse m odo um a
classe de pilotos interplanetários. Mas, com isso estaríam os
correndo o risco de produzir deform ações im previstas da per­
sonalidade, de que tal piloto tivesse um com portam ento tão
anorm al que não lhe fosse possível perm itir a liberdade na
sociedade,
A M E N T E E SUA IN TEGRA ÇÃ O 67

O problem a da viagem espacial não é diretam ente rele­


vante ao nosso tópico, mas o utilizei como um elemento que
pode nos aju d ar a ver o problem a da mente de um ponto de
vista menos habitual, m ais desligado e menos antropocêntrico.
D a posição a que chegamos agora, vejam os novamente a ques­
tão da m otivação hum ana, a form a pela qual ela se relaciona
com a estrutura da sociedade civilizada, e a form a e a extensão
do controle exercido pela sociedade sobre a mente individual.
U m a característica destacada da experiência de isolam ento
foi a dem onstração de que o trabalho intelectual — a atividade
m ental iniciada de fora — é totalm ente essencial ao ser h u ­
m ano. Ora, de certa form a isso nada tem de novo, exceto por
dem onstrar como essa necessidade pode ser forte. M as temos
ocultado êsse fato a nós mesmos, em prim eiro lugar dando um
nome especial, “jo g o ”, ao trabalho feito pelo trabalho mesmo,
sem classificá-lo como trabalho, e em segundo lugar supondo,
quando surge a questão do homem que gosta de trabalho útil,
que gosta de seu em prego e não se deseja aposentar, que tem
um m otivo adquirido, resultado de um hábito há m uito esta­
belecido. Devido à com plexidade da experiência hum ana, é
difícil afastar de m odo final essas explicações ad hoc, em bora
no caso os dados com parativos sejam conclusivos. H arlow e
outros dem onstraram a existência de conhecimento e solução
de problem as sem objetivos práticos em m am íferos infra-hu-
m anos, p ara os quais o hábito não constitui explicação e não
existem fatores extrínsecos como a procura de prestígio ou
poder. A lém disso, em bora as com parações quantitativas exatas
nas diferentes espécies sejam difíceis, parece claro haver um a
tendência m ais forte no anim al superior, culm inando no ho­
mem, onde é realm ente m uito destacada — especialmente se
considerarm os como é preponderante o elemento intelectual
existente no “descanso” proporcionado pela leitura de um ro­
mance, por filme, ou por espetáculo esportivo.
U m a consideração estratégica no controle da mente, por­
tanto, é a necessidade insaciável que o homem tem de ati­
vidade intelectual, provocada pelo am biente mas condicionada
ao próprio homem. É naturalm ente evidente também a exis­
tência de m uita atividade intelectual a que êle se opõe: êle
se nega a trabalh ar quan d o isso lhe é im posto de fora para
dentro, quan d o não é de sua escolha, e especialmente quando
o trabalho é m onótono. Essa am bivalência nos leva a outro
68 O C O N TR O LE DA M E N T E

ponto no q u al os m otivos se desviam do quadro clássico da


natureza do homem: sua am bivalência com relação ao que é
atem orizador e horrorizante.

H á fenômenos fascinantes em tudo isso, e não me devo


deixar envolver pelos detalhes. T o d o s sabemos, naturalm ente,
que o homem evita a dor e assim, sendo inteligente, as situ a­
ções em que ela é provável, ou seja, as situações que produzem
mêdo. E não obstante o homem pode dar-se m uito trabalho
exatam ente p ara chegar a tais situações, indo do alpinism o até
as altas velocidades. E consideram os tam bém as perturbações
em ocionais que a m orte e a m utilação do corpo hum ano são
capazes de produzir, sim ultaneam ente com o fascínio que as
histórias e fotografias dessas coisas têm para o leitor de jo r ­
nais ou de romances, e a velocidade com que os abutres se
reúnem na cena de um desastre.

Os dados com parativos m ostram ser a am bivalência real


e profunda. O temor e o horror não são produtos de um apren ­
dizado ou de qu alq u er concepção abstrata da morte, m as um a
reação ao estranho, que tanto atrai como repele. T am bém
a susceptibilidade aum enta com a inteligência. C itando apenas
um exem plo, o m odelo de um a cabeça de barro é literalm ente
um objeto aterrador p ara o chimpanzé adulto, que apesar disso
não consegue afastar dela os olhos. Para o chim panzé de desen­
volvim ento m édio (seis anos) o objeto é fascinante, sem que
êle revele, porém, q u alq u er receio. P ara o chimpanzé de doze
a dezoito meses, não apresenta q ualquer interêsse. A suscepti­
bilid ade parece estar relacionada diretam ente com a com ple­
x idad e do m ecanismo do raciocínio, que cresce com a onto-
gênese (desenvolvim ento da inteligência no indivíduo) e da
filogênese (à m edida em que passam os das espécies inferiores
p ara as superiores). Em bora a situação que causa essas rea­
ções se m odifique com o aum ento da inteligência, de m odo
que o homem não se atem oriza, por exem plo, com o m odêlo
de um a cabeça, o núm ero e variedade das causas da pertur­
bação em ocional no hom em parece ser significativam ente
m aior do que no chimpanzé, e neste é sem idúvida m uito
m aior do que no cão. O homem é, portanto, em ocionalm ente,
o an im al m ais caprichoso e m ais inteligente.
Isso pode parecer, inicialm ente, um a proposição evidente­
m ente falsa, m as T h om p son e eu podem os m ostrar que a im u ­
A M E N T E E SUA IN TEGRAÇÃO 69

nidade evidente do hom em civilizado aos temores e ódios irra­


cionais se deve principalm ente ao seu êxito em constituir um
am biente no qu al as causas precipitadoras são pouco freqüen-
tes. Ou seja, a urban idade depende de um am biente urbano.
Isso significa não só que existe o controle do am biente físico
pela sociedade econom icam ente bem sucedida, mas que há
tam bém o controle, igualm ente im portante, do com portam ento
representado pelas regras do hábito, d a cortesia, da m oral e da
religião, obtidas principalm ente por vários recursos educacio­
nais, form ais ou inform ais, durante o crescimento, e com ple­
m entados na m aturidade pelo ostracism o ou pelos tribunais.
Vivemos, dia a dia, num m undo físico protegido, mas também
a m aior parte do tempo num m undo psicológico protegido,
consistindo do com portam ento ordenado de outros seres. O
que cham am os de “civilização” é um a form a de casulo para o
com portam ento que leva à ilusão de que o homem civilizado é,
por natureza, calmo, desapaixonado, lógico. É apenas um a ilu­
são, mas nela se baseia a m aior parte de nossas discussões sobre
como tratar os grandes problem as sociais.
O que estou dizendo significa que a civilização depende
de um controle geral do raciocínio, estabelecido na infância,
que m antém e é m antido pelo m eio social, consistindo do com­
portam ento dos m em bros da sociedade. A mente não é um
absoluto, com propriedades que se m antêm constantes em cir­
cunstâncias radicalm ente diferentes. Estam os falando, neste
sim pósio, sobre a m ente num meio social habitual, e m ais
particularm ente, num m eio ou am biente social que considera­
mos norm al. É fácil esquecer isso, e os m eios pelos quais se che­
gou a essa situação. O controle do pensam ento a que fazemos
objeções, a “ tirania sobre a mente do hom em ”, a que Jefferson
ju rou “hostilidade eterna”, é a única im posta por um agente
autocrático, e isso não inclui o controle, rigoroso e doutrin á­
rio, que a p róp ria sociedade exerce, por consentimento unâ­
nime, nos valores m orais e políticos. N ão quero dizer que
isso seja indesejável. Pelo contrário, pretendo que uma socie­
dade sadia deve exercer êsse controle, mas desde que possamos
ver o que estamos fazendo. N ão criamos crianças com a
m ente aberta p ara depois, quando puderem raciocinar, form a­
rem julgam entos próprios sobre a aceitabilidade do incesto, o
valor d a cortesia nas relações sociais, o valor do govêrno dem o­
crático. A o invés disso, dizemos às crianças como são essas
coisas, e na m edida em qu e temos bom êxito como pais e pro-
70 O C O N TR O LE DA M E N T E

fessôres, vemos que elas aceitam o que lhes dizemos, e fazem


disso parte de seus processos m entais, sem m aior necessidade de
policiam ento.
O problem a do controle do pensam ento, ou controle d a
mente, não é, portanto, como evitá-lo, considerando-o apenas
como um a influência m aléfica exercida sobre os inocentes pelos
estrangeiros, com unistas e outros homens igualm ente m alévolos.
T o d o s nós o exercemos, e no todo, somos m ais eficientes nisso.
Dêsse ponto de vista, o curso de um a civilização em desenvolvi­
m ento é, de um lado, um a crescente uniform idade de ob jeti­
vos e valores, e portan to tam bém de com portam ento social,
e de outro, um a crescente tolerância em ocional do estrangeiro,
daquele que difere de m im na aparência, crença ou ação —
um a tolerância que tem, não obstante, lim ites ain da estreitos.
Chegam os, assim, ao problem a do preconceito social, e
talvez pareça que nos estam os afastando da área de nossa com ­
petência. Q uero acentuar, porém , que a interpretação h abi­
tual dêsse problem a — a noção de que o preconceito surge, em
prim eiro lugar, da pressão econômica e por isso tem de ser
apren dido — é inteiram ente in fundada psicologicam ente. As
tentativas de tratar o assunto sob êsse pon to de vista são total­
mente sem esperanças de êxito. Ao invés disso, estamos tra­
tando com a reação de surprêsa do m am ífero perante o que
lhe é estranho, acerca da qual, infelizmente, ain da sabem os
m uito pouco. N ão são as coisas conhecidas que provocam essa
reação — evidentemente, deve haver um a m istura de elementos
fam iliares e não fam iliares, m as ninguém apresentou ain da
um a explicação ad eq uad a ou um a afirm ação satisfatória sobre
as condições em que ocorre ou deixa de ocorrer.
V oltando ao m eu argum ento prin cipal, portanto, posso
resum ir dizendo que os últim os quinze anos, aproxim adam ente,
deram-nos um a nova com preensão dos problem as relacionados
com a m otivação hum ana e a relação com plexa da m ente para
com seu meio. O hom em não é, intrinsecam ente, am ante das
coisas fáceis, e talvez infelizmente, tam bém não é am ante d a
paz, pelo menos não perm anentem ente. É certo que não
tem o instinto de fazer a guerra, como disseram os estudiosos
clássicos, m as tam bém não há q u alqu er garan tia intrínseca
de que não se lançará à guerra a que suas susceptibilidades em o­
cionais o podem levar com facilidade. Até certo ponto, êle
gosta de luta, e de provocar a luta, e o problem a da organ i­
A M E N T E E SU A IN TEGRA ÇÃ O 71

zação social pode proporcionar-lhe oportunidades suficientes


de participar de lutas individualm ente, da experiência que ne­
cessita pela sua p róp ria natureza, sem fazer com que isso resulte
num a desordem social e em problem a p ara outros. O controle
do pensam ento e do com portam ento que a sociedade tem ne­
cessidade de estabelecer e m anter p ara continuar existindo,
deve basear-se num a com preensão autêntica da m otivação e
das necessidades em ocionais, e não de noções ao estilo de Rous-
seau, sobre o selvagem nobre m al orientado pelo conheci­
mento, ou sobre o êrro fundam ental de que o homem é essen­
cialm ente um anim al racional.
O Pano-de-Fundo Físico
dos Processos Mentais
Transcrição dos debates formais, mas espontâneos, sôbre os
trabalhos imediatamente precedentes. Foram feitas apenas pe­
quenas adaptações quando a continuidade e a claridade o exi­
giram. Os organizadores dêste livro julgam que a espontaneidade
do debate dá um valor particular à forma em que foi mantido.

Moderador: K arl H. P ribram


Participantes: Donald O. H ebb, H olgar H ydén,
WlLDER PENFIELD.

D r . P r ib r a m : Professor H ebb, pode­


ría ter a bondade de responder às perguntas do Dr. Penfield
sôbre a relação entre a m ente e o cérebro, mais ou menos como
o fêz no prim eiro capítulo de seu livro sôbre psicologia ? Isso
proporciona, creio, um qu ad ro m uito bom da form a pela
q u al os psicólogos tratam esse problem a, tanto de um m odo
filosófico como de um m odo experim entalm ente científico.
Prof. H e b b : Foi um a pergun ta m uito com plicada, e creio
que todos concordarão. E stou convencido de que parte d a
dificuldade, no caso, está n a tentativa de fazer com que a ci­
ência opere de um m odo que ela norm alm ente não opera
— ou seja, d an d o respostas finais. O m étodo científico,
ao que me parece, começa norm alm ente isolando um pedaço
que possa digerir e deixando p ara um a próxim a vez o resto.
H á um m étodo científico cham ado de hipótese nula, no q u al
se form ula a proposição não porque se acredite nela, mas tal­
A M E N T E E SUA INTEGRAÇÃO 73

vez porque não se acredite, e se espere m ostrar finalm ente


qu e leva ao absurdo. E u diria que, nessa base, poderia­
mos adotar a hipótese de um m onism o completo. N ão me
im porta seja êle cham ado de idealism o ou m aterialism o, pois
me parece que, em am bos os casos, trata-se de um m onism o
com pleto. M as podem os form ular, apenas p ara argum entar, a
hipótese do m onismo, e os que acreditam no dualism o aceitarão
tal suposição com o objetivo de dem onstrarm os o seu absur­
do. Os que têm convicções opostas procurarão m ostrar que a
hipótese é válida. Parece-me que não estamos em condições
de ser dogm áticos sobre um problem a como esse, do dualism o
ou monism o, mas p ara iniciar, podem os concordar, sem dú­
vida, com um a hipótese de argum entação.
Dr. P r ib r a m : A pergunta seguinte é sobre a relação entre
a contribuição do professor H ebb e a do Dr. Hydén — o pro­
blem a da m em ória. Seria possível discutir aq u i o m odêlo su­
gerido pelo Dr. H ydén, e como êle se relaciona com alguns
m odelos que o professor H ebb nos apresentou, sobre os pro­
cessos da m em ória e as seqüências de fases no cérebro ?
Dr. H y d é n : U m dos aspectos é o de que a m em ória, o
aprendizado e a lem brança têm m ecanism os que duram toda
um a vida; isso se liga ao fato de que as células nervosas n ão
se dividem . U m segundo aspecto é o de que as estruturas dos
neurônios são com plicadas. Com relação ao nível m olecular,
o fato é que há m uito pouca coisa, à parte da síndrom a de
K orsakoff, que se possa dizer sôbre a localização rigorosa das
propriedades definidas do sistema nervoso. Lembro-me das
experiências do Dr. Lash ley com ratos. Rem oveu m ais de 80%
de seu córtex, e ain da assim podiam fazer a experiência de per­
correr o labirin to, com a conclusão, portanto, de que a capaci­
dade de lem brar isso estava localizada em outras estruturas,
ou que o córtex deixado era suficiente. Chegamos, assim, às
condições hum anas e aos graves defeitos de m em ória da sín­
drom a de K orsakoff, que atraíram bastante interêsse, recente­
mente. H averá algum a razão para acreditar-se que o m eca­
nismo da m em ória p ara todo sistem a nervoso deva ter um a lo­
calização m ais rigorosa no cérebro ?
Dr. P e n f ie l d : Creio que o Dr. H ydén nos apresentou, bri­
lhantem ente, a base do m ecanism o da memória, sempre que
exista organizadam ente. N o homem certamente é possível
74 O C O N T R O LE DA M E N T E

identificar diferentes organizações, diferentes departam entos da


m em ória, como a m em ória das palavras. Certam ente, é um a
organização próp ria, e sem dúvida depende da lem brança e
de alguns dos elem entos que nos dem onstrou ele.
T em os certeza, hoje, de que um a lesão b ilateral da circun-
volução hipocâm pica nos dois lados de um homem produzirá
um efeito estranho sobre a m em ória. Certas coisas serão con­
servadas. Por exem plo, se o homem ganh a sua vida cortando
e fazendo luvas, continua a fazer isso. Isso é um a form a de
m em ória, e a m em ória das habilidades m an uais não é p reju ­
dicada. O homem pode lembrar-se dela enquanto mantiver,
sua atenção focalizada num a certa situação, mas quando a trans­
fere para outra, ela desaparece. Os registros recentes desa­
pareceram , algo no m ecanism o da m em ória foi perdido com a
perda da circunvolução hipocâm pica e do que nela existe de
disposição m ecânica. O engram a, que existe n algum a parte,
não pode estar ali. N ã o pode estar ali, deve estar n algum a
outra parte — e creio que um a das razões pelas quais Laslney
não achou foi a de estar fazendo seus cortes no lu gar errado.
N ão digo que êle pudesse ter feito os cortes na estrutura se­
paradam ente, onde está situado o registro. Estou falan do na
presença de dois discípulos de Lashley e o faço com m uita hesi­
tação.
Dr. Pribram: Creio que a interpretação errônea de
Lashley se deve a duas coisas: prim eiro, m á interpretação de
seus próprios dados, e segundo, má interpretação, pelos outros,
de suas palavras. Prim eiram ente, êle não disse que todas as
partes do cérebro eram idênticas. T in h a consciência do fato
de que o extremo dianteiro e o extremo posterior do cérebro
têm funções diferentes.
Dr. Penfield : Sabia êle disso, quan d o jovem, em M inne­
sota ?
Dr. Pribram: J á o sab ia em 1934, quando respondeu a
um a nota do Journal of Psychology, sobre a interpretação dad a
por Fred M ettler ao problem a. Em 1934 publicou-se um a carta
na qu al Lashley dizia m ais ou menos assim : “Sim, eu não
quis dizer, naturalm ente, que o córtex m otor e o lobo occiptal
são equivalentes.” Falou, realm ente, da equivalência da função
cerebral dentro de um a área lim itada conservando o mesmo
mecanismo, m as houve um engano que Lash ley cometeu, e que
A M E N T E E SU A IN TEGRAÇÃO 75

foi assinalado por H unter. Q uando se percorre um labirinto,


o problem a pode ser resolvido por m uitas form as diferentes,
como m ostrou o professor Hebb. O am biente não é apenas parte
dos processos pelos quais vivemos, mas também parte do pro­
cesso da m em ória, como sabem m uitos dos senhores que levam
listas no bôlso p ara não se esquecer de onde têm de ir em
seguida. Assim tam bém o rato, mesmo quando privado de um a
parte de seu córtex, pode usar um m ecanismo diferente para
resolver o mesmo problem a. Parece-nos equivalente, a nós, de
fora, mas saber se a equivalência está no labirinto ou no cére­
bro, tem grande im portância p ara nós, que nos interessamos
pela função cerebral. N ão terá, além disso, m aior im portância,
desde que com preendam os que o rato não tem apenas um
naco de qu eijo dentro da cabeça.

Prof. H e b b : D esejava algum as inform ações sobre o meca­


nism o da m em ória do Dr. Hydén. N ão percebi claram ente
se êle disse que a m odificação do rn a determ inaria m odifica­
ção nas relações entre os neurônios e que um a m em ória m odi­
ficada poderia consistir de relações entre neurônios, ou se
acentuou que a m odificação se fazia essencialmente dentro de
um a única célula.
Dr. H y d é n : Sugeri que as m odificações se faziam do hiper-
-rn a de um neurônio particular, que então dava origem a um a
proteína, tam bém especializada, e que a reação ou não do neu­
rônio seguinte ao estím ulo dependería de estar êle ou não, por
sua vez, especificado em relação à produção de rna e da pro­
teína. C aso negativo, o neurônio seguinte não reagirá ao estí­
m ulo.
Prof. H e b b : N o curso do aprendizado, ninguém conseguiu,
pelo que sei, evitar a conclusão de que o conhecimento envolve
m odificações da prob ab ilid ad e de transm issão nas sinapses. A
isso se cham ava de resistência sináptica, que é um a redução
pela transm issão — um a denom inação pouco adequada. M as
o processo de aprendizado, ao que me parece, tem de im plicar
no qu an to do problem a de transm issão, indo, num a direção
ou noutra, a cam inho da sinapse. Se bem entendo, sua pro­
posta seria que essa m odificação pode constituir o mecanismo
da m odificação da sinapse ?

D r. H y d é n ; Sim , é isso mesmo.


76 O C O N TR O LE DA M E N T E

Dr. Pribram: C on cordaria o senhor, D r. Penfield, em que


em bora deseje destronar o córtex cerebral, não quer porém
lançá-lo fo ra ?

Dr. Penfield : Sim, concordo plenam ente que o m ecanis­


m o que exam inei é um m eio de utilizar o córtex cerebral, m as
creio que temos de reconhecer que com a m odificação na cons­
ciência pessoal, de m om ento a momento, h á um a m odificação
com pleta — ou apenas um a m odificação — n a estrutura d a ati­
vidade dentro do cérebro. Creio que devemos deixar claro
que falam os sobre m uitas coisas diferentes, quan d o nos ocupa­
mos d a m em ória. N a m aioria dos casos, a m em ória — por
exem plo, como percorrer um labirin to ou cantar um a canção
— é u m a generalização de m uitas experiências diferentes. Q ual­
quer dos presentes que saiba cantar um a canção m uito provà-
velm ente não se lem brará de um m om ento particular em que
tenha ouvido essa canção, e portanto sua m em ória é um a gene­
ralização dela — deixando de lado, no m om ento, o labirinto.
M as êste m ecanism o dem onstrado pelo estím ulo do córtex in-
terpretativo é algo de totalm ente diferente. Parece que as
experiências visuais e auditivas em conjunto são registradas
exatam ente como ocorrem e perm anecem por vinte anos. Q ue­
ro fazer-lhe um a pergunta, Dr. Hydén. A credita que as evi­
dências psicológicas e quím icas possam explicar o fato de
que, de algum a form a, um a seqüência de neurônios, que é se­
gu id a durante um período de tempo, deixa as células altera­
das perm anentem ente e que essa seqüência não tem influência
em nenhum a outra ?
D r. H ydén: Entendo o que quer dizer — que a com utação
ocorrida num a m olécula num m om ento particular em que é
im pressionada com um estím ulo específico, se conserva por
longo tem p o ?
Dr. Penfield : E talvez seja resistente a todas as o u tras?

Dr. H ydén: E que tam bém é resistente ? E u diria da rege­


neração do neurônio que quand o se corta um a gran de parte
do neurônio, se os m étodos são bastante sensíveis, devemos per­
ceber se as seqüências no rna são as mesmas de antes. O que
fizemos é determ inar as proporções m olares das bases consti­
tuintes do rna que se form a durante a regeneração. O pedaço
cortado é, de fato, m aior do que o pedaço deixado, Êle sç
A M E N T E E SUA IN TEGRAÇÃO 77

regenera, e no caso em que assim fizemos, o rna aum entou


m uito durante os dois prim eiros meses. Partim os com 500
m icrom icrogram as e analisam os isso com eletroforese, obtendo
a ordem das proporções m olares em todo o processo. M as isso
não exclui, naturalm ente, um a m odificação, pois esta pode
ser de outro tipo. N o fin al das contas, mesmo 500 m icrom icro­
gram as são um a expressão estatística de várias frações d o rna
num a célula. T om an d o, porém, um a posição firme, eu diria
que se o rna no todo pode servir como um substrato para um
m ecanism o de aprendizado e lem brança, então deve haver m o­
dificações residuais. N ão podem os alterá-lo por qu alqu er outro
estím ulo externo. D o ponto de vista das permutações, isso tem
de ser estável.

U m dos presentes: Qual o papel do hipotálamo, em seu


esquema, em relação com a parte posterior do cérebro ? Êle não
tem nenhum papel ?
D r. Penfield : O tálam o certam ente que sim, mas o h ipo­
tálam o, creio que pode ter algum papel, na atividade da m e­
tade posterior superior do cérebro, no sentido de um a ligação
entre os dois lados. M as em sua m aior parte o hipotálam o é
antes um órgão separado, ao que me parece, para ser usado e
agir em m om entos específicos. N ão sei como separar o h ipo­
tálam o do tálam o, exatam ente.
U m dos presentes: É o neurônio de uma das áreas senso-
riais igual ao neurônio das áreas motoras ?

D r. Penfield : A s ligações de um neurônio é que deter­


m inam a sua função, m ais do que sua form a e tamanho. Pro­
gredim os m uito, desde os conceitos de há 20 ou 30 anos, em
relação à citoarquitetura.

U m dos presentes: O Dr. H ydén sugere a possibilidade de


que a natureza b ioquím ica do im pulso nervoso varie com as
diferenças entre os estím ulos que iniciam êsse im pulso ?

Dr. H ydén: N ão totalm ente. E u não disse que cada es­


tím ulo deixa um a im pressão bioquím ica especial.

Prof. H ebb : A lguns dos neurônios sensoriais têm fre-


qüências diferentes p ara diferentes séries de acontecimentos.
78 O C O N T R O LE D A M E N T E

J á se m ostrou que as m esm as fibras respondem diversam ente


ao frio e ao calor. Isso tem relação direta com sua hipótese —
ou é um neurônio capaz de apenas um a configuração bio­
quím ica ?
Dr. H yden: Se considerarmos a freqüência modulada como
informação registrada, e se o neurônio possinático deve encer-
rá-la neste código de informação, então temos de fazer tal su­
posição.
Dr. Pribram: Devemos lem brar que m uitas conversações
podem ser realizadas sim ultâneam ente nos fiõs telefônicos. A
com posição quím ica e a estrutura física dêsses fios não se m o­
dificam , m as o transm issor de freqüências pode levar várias fre-
qüências m oduladas e reproduzir diferentes vozes. As noções
que debatem os aqu i não estão, portanto, fora do âm bito da
engenharia m oderna.
A ld o u s H uxley

As Possibilidades Humanas

G ostaria de iniciar com um a per-


gu n ta m uito sim ples e aparentem ente absurda: p ara que
servem as pessoas ? N u m país totalitário, creio que me
diriam servirem p ara carne de canhão, num caso extremo, ou
então, p ara o fortalecim ento do Estado e a consolidação do
poder dos que estão controlando o govêrno do Estado. Certos
elementos em nossa cultura ocidental nos levam a afirm ar que
o hom em existe com o objetivo de consum ir um a quan tidade
cada vez m aior de m ateriais insubstituíveis, num ritm o cada
vez m ais rápid o, m ergulhando tam bém cada vez m ais na carên­
cia. Pessoalm ente, n ão considero nenhum a dessas explicações
do qu e seja o hom em como correta. Com um ato de fé, e
creio ser um ato de fé partilh ado pela m aioria das pessoas
preocupadas com a dign idade e a liberdade hum anas, acredito
qu e o hom em existe com o objetivo de realizar o m áxim o
possível de suas possibilidades positivas dentro de um a socie­
dade estável, m as flexível. É êsse o conceito fundam ental que
sublin ha todo o nosso conceito dem ocrático ocidental da vida.
N ão é um a proposição da razão, é um a proposição de senti­
m ento e fé, e partirei dela como de um axiom a.
F orm ularei ou tra pergun ta: que teria acontecido a um a
criança com, digam os, o quociente de inteligência de Isaac
New ton, se tivesse nascido num a fam ília das cavernas da era
paleolítica superior, h á 15 ou 20 m il anos ? Os biólogos nos
asseguram q u e as m odificações biológicas nos sêres hum anos,
desde aq u ela época, têm sido m uito pequenas. O equipam en­
to nato dessa criança teria sido provàvelm ente tão bom como
hoje, m as qu e condições teria p a ra realizar suas possibilidades ?
80 O C O N TR O LE DA M E N T E

A resposta é que essas condições seriam incrivelm ente reduzi­


das, e que pela natureza m esm a das coisas, ela jam ais viría a
ser m ais do que um caçador ou um coletor de alim entos, situa­
ções essas em que toda a sua cultura se baseava, e mesmo que
tivesse o gigantesco quociente de inteligência de Isaac Newton,
jam ais iria além do estreito horizonte que os habitantes das
cavernas eram capazes de perceber.
É extraordinário, quando nisso pensamos, que com o mes­
mo equipam ento nato de que dispunha o hom em no fim da
era paleolítica, tivéssemos podido realizar um núm ero imenso
de possibilidades hum anas. A o invés de se lim itar a ser um
coletor de alim entos ou um caçador, o hom em de nossa m o­
derna cultura paleolítica pode escolher várias coisas diferentes,
e por isso, decerto, devemos ser devidam ente gratos.
Exam inem os agora, rapidam ente, a relação entre os in di­
víduos e a cultura em que vivem. N ossa definição de cultura
será, creio, a de um a m áqu in a que torna possível aos seres hu­
m anos desenvolverem suas potencialidades. Evidentem ente,
fora de um a cultura organizada é virtualm ente im possível, até
m esm o p ara o ser hum ano m ais bem dotado, desenvolver e rea­
lizar o que existe nele em estado latente. Essa condição, po­
rém, é parad oxal, porque a cultura não é apenas um a m áquina
que nos aju d a a realizar potencialidades, m as tam bém um a m á­
q u in a para impedir-nos de realizá-las — e pode, além disso, ser
um a m áq u in a p ara nos aju d ar a realizar as potencialidades mais
indesejáveis. N ão devemos esquecer que em bora os sêres hum a­
nos sejam perfeitam ente capazes de serem hum anos, po r vêzes
quase angelicais, são tam bém perfeitam ente capazes de serem
como bêstas e m uito piores que bêstas. T ê m havido culturas
que não só im pediram os sêres hum anos de realizar seus fatôres
desejáveis como realm ente estim ularam os mais indesejáveis.
É, portanto, parad oxal que sejamos tanto beneficiários
como vítim as de nossa cultura. Podem os usar um a an alogia e
dizer que a graça de um a dançarina é função do esqueleto, que
os m úsculos são m antidos em seus lugares pelo esqueleto e é
graças a êle que os m ovimentos graciosos podem ser realizados,
m as a artrite da avó da dançarina — isso, tam bém , é função d o
esqueleto. O mesmo ocorre com a cultura — essa estrutura fix a
dentro da qual, e com a q u al podem os desenvolver potenciali­
dades, m as que, por se tratar de um a estrutura fixa, pode tor-
nar-se en ferrujada e paralisar-nos com pletam ente, im pedindo-
A M E N T E E SUA IN TEGRAÇÃO 81

nos de ultrapassar-lhe os limites. T em os, de algum a form a, de


estabelecer um a sociedade bastante estável e rígid a para sus­
tentar o ser hum ano e permitir-lhe apoiar-se nessa rigidez, m as,
ao m esm o tempo, suficientem ente elástica p ara perm itir-lhe ir
além de seus limites, pois sòmente transcendendo os lim ites da
cultura em q u alq u er dad o m om ento pode-se conseguir um p ro ­
gresso.
Ao exam inarm os retrospectivam ente a história, vemos que
esse progresso tem sido constante, m as obtido freqüentem ente
às expensas dos indivíduos que o realizaram . N o fin al das con­
tas, temos apenas que observar o que aconteceu a Sócrates e
Jesus, p ara entenderm os como é extrem am ente perigoso trans­
cender as lim itações da cultura em que se vive. N ão obstante,
êsse progresso tem de ser feito, e portanto devemos, ao que
me parece, tentar constituir um a cultura que com bine as q u a­
lidades da estabilidade e flexibilidade, perm itindo o progresso
com m enos sacrifício. N osso dever é fazer com que a cultura
não tenha bolsões do que se poderia cham ar de m aldade cole­
tiva, a que as pessoas se devam conform ar. Pràticam ente todas
as culturas tiveram êsses bolsões, e creio que estamos, talvez,
em m elhor posição p ara com preender hoje tal fato devido à
extensão dé nosso conhecim ento das culturas anteriores e das
culturas contem porâneas de teores diversos. Indubitàvelm ente,
os historiadores do futuro — se tivermos um futuro — ao exa­
m in ar nossa época apontarão, por exem plo, a cultura do n a­
cionalism o, que é, creio, a religião do século X X , pela qu al
os homens se dispõem a lu tar e morrer. E a apontarão como
um dos mais. surpreendentes exem plos de loucura coletiva a
que as pessoas se conform aram , m as isso, como digo, é o p ara­
doxo d a cultura e sociedade, e temos de agir dentro dessa es­
trutura d a cultura. D esnecessário dizer que sòmente num a cul­
tura perfeita poderem os obter o m ais alto desenvolvimento do
indivíduo, m as é fora d e dúvida que n ão atingirem os um a cul­
tura perfeita dentro de um espaço de tempo previsível, e não
pretendo ser utópico e falar de coisas fora do tempo, mas sim
ser utópico e falar de coisas que podem ocorrer no lugar em
que nos encontram os, na época em que vivemos. O que se
po deria fazer, den tro das lim itações da cultura em que existi­
m os hoje ?
Exam inem os os vários fatores que condicionam a existên­
cia hum ana. O hom em é um ser an fíbio m últiplo vivendo em
m uitos m undos ao m esm o tem po: vive no m undo do individual
82 O C O N T R O LE DA M E N T E

e no m undo d a sociedade, no m undo de sím bolos e no m undo


d a experiência im ediata, no m undo" da hereditariedade e dos
valores culturais adquiridos, e tudo o que acontece a um ser
hum ano tão com plexo deve necessàri? mente ter causas m úl­
tiplas, sendo necessário pensar sem pre nos problem as hum anos
em termos de tôdas essas causas, ao mesmo tempo. Devemos
atacar tôdas as frentes sim ultaneam ente, pois, d e outra forma,
não haverá possibilidade de êxito em nossos esforços. A super-
sim plificação hum an a pode ser considerada como o pecado
origin al do intelecto. T end em os todos a supersim plificar, por­
que não gostam os do esforço de pensar em têrmos da causação
m últipla. N ão obstante, ao tentar resolver qu alq u er problem a
hum ano, temos de pensar nesses têrmos. Com o a enferm eira
Cavei ( * ) disse poucos m om entos antes de ser executada, “ o p a­
triotism o não b asta” . N ão sòmente o patriotism o não basta
— a política não basta, o direito não basta, a ciência não basta,
a religião não basta, em sum a, sòm ente a totalidade é bastante.
Isso, creio, deve ser acentuado enfàticam ente: temos em todos
os m om entos de pensar em têrmos dessa causação m ú ltipla ao
nos ocuparm os dos problem as que devem ser enfrentados em
todos os níveis sim ultâneam ente.
Q uanto aos fatores hereditários poderiam os, naturalm ente,
falar utòpicam ente sôbre o que fazer pela criação seletiva.
Indubitàvelm ente, como o professor H erm an M ueller freqüen-
temente m ostrou, m uito se poderia fazer p ara m elhorar a raça
hum ana, m as no m om ento n ão sabem os o bastante de genética
hum ana para adotarm os tal política, e m esm o que soubésse­
mos bastante, é claro que o clim a da opinião pú blica é tal
que ela não poderia ser realizada atualm ente, e por isso, ao
invés de discutirm os tal questão, direi sim plesm ente, que, com
o tipo de raça hum ana que temos atualm ente, há m uito a fazer
p ara realizar as possibilidades ain da latentes. Vim os o que se
fêz nos últim os 15 000 anos, e suponho firm em ente qu e m uito
m ais ain da pode ser feito, pois a velocidade das coisas chegou
a êsse ponto.
H á, porém , outros fatôres hereditários a considerar. Creio
que um dos m ais im portantes, em q u alq u er estudo da realiza­
ção das possibilidades hum anas, é o das diferenças hum anas. Os
sêres hum anos são suficientem ente parecidos p ara os classificar­

ia E n ferm eira in glêsa executada pelos alem ães em 1915, çojno espiã. Sen
nom e com pleto: E d ith Cavei. (N . d o T . j
A M E N T E E SUA IN TEGRA ÇÃ O 83

m os como m em bros d a m esm a espécie, m as tam bém são suficien­


tem ente diferentes p ara os identificarm os individualm ente. As
diferenças são tão im portantes quanto as semelhanças, e isso,
m e parece, é algo que temos de reconhecer e levar em conta.
N u m a sociedade totalitária há um esfôrço real p ara uni­
form izar as pessoas, m as em nossa sociedade, felizmente, her­
dam os um sistem a que nos perm ite boa m argem de flexib ili­
dade, e avançarem os m ais nessa direção, creio, se adm itirm os
qu e todo ser hum ano tem o direito a um físico e um tem pera­
m ento próprios, e o direito a desenvolver-se dentro das linhas
qu e lhe são n aturais, e que não deve ser forçado, por nenhum a
m oda cultural, a ad o tar form as de existência que não lhe con­
vêm. As diferenças nas potencialidades hum anas foram reco­
nhecidas, naturalm ente, p ela religião tradicional. H á idéias
diferentes que distinguem as várias grandes religiões do m un­
do. N o cristianism o, por exem plo, temos o M estre ideal, a
M aria ideal, o trabalho ideal e a contem plação ideal. N a tra­
dição hindu temos, creio, um a divisão m ais realista dos ideais
num sistem a tripolar: há a idéia de B akti, a dedicação a um
ideal; de K arm a Yoga, a procura de um ideal de trabalho de­
sinteressado; e o ideal d e Dhyam a Yoga, a contem plação e a vida
intelectual, e êsses três conceitos foram reconhecidos pelos seus
valores próprios, sendo portan to errôneo insistir em que as
pessoas n aturalm ente inclinadas n um a direção sejam obrigadas
a se conform ar com os ditam es de pessoas de tem peram ento
diferente. O D r. Freud, por exem plo, disse categòricam ente
que a extroversão era a única atitude de um homem sádico —
isso porqu e êle p róp rio era agressivo e sofredor. M as quem
tenha nascido com um tem peram ento diferente sabe m uito
bem que essa atitu d e não constitui p ara todos a atitude norm al.
H á m uitas pessoas p a ra as q u ais a extroversão em ocional agres­
siva é extrem am ente desagradável. São, por natureza, in tro­
vertidas e devem poder cultivar seu dom especial. “É preciso
de um tudo p ara fazer o m undo” , e não temos o direito de
im por um a form a especial de ideal, ou um horizonte determ i­
n ado po r nosso tem peram ento natural, a outras pessoas.
Poderem os até m esm o verificar que será útil, com o tem­
po, desenvolver m étodos de educação diferentes p ara pessoas
nos lim ites extrem os das variedades de temperamento. J á re­
conhecemos ser útil ter form as de educação diferentes para
pessoas com um quociente de inteligência excepcionalm ente
84 O C O N TR O LE DA M E N T E

alto, ou excepcionalm ente baixo, e poderiam os obter m ais de


nosso potencial n atu ral se criássemos os jovens p or processos
levemente diversos, segundo o tem peram ento e a constituição
com que nascem. L an ço a idéia como um a possibilidade.
Passemos agora ao que podem os cham ar de aspecto fisio­
lógico do problem a: o que farem os fisiològicam ente, no nível
corporal, para aju d ar as pessoas a realizar suas possibilidades ?
Para começar, há a questão da nutrição. O Dr. Ansel Keyes
m ostrou que nos Estados U nidos 40% de todas as calorias
consum idas têm a form a de gorduras, e conseqüentem ente a
taxa coronária é de 40 vêzes a do Ja p ão , e um a percentagem
m uito grande da população tem excesso de peso. Parece-me per-
feitam ente claro que, se assim é, não estamos fazendo tudo o
que podem os p ara liberar as potencialidades latentes dos se­
res hum anos — estamos bloqueando a realização de algum as
dessas potencialidades alim entando-nos de form a errada. E
acredito que esse problem a cham ará cada vez m ais a atenção
na proporção em que aum enta o núm ero de m ortes por a ta ­
ques do coração. Sem dúvida a questão d a nutrição se tor­
nará de grande im portância nos países prósperos do Ocidente.
Intim am ente relacionado com o problem a d a nutrição e
sua capacidade de nos aju d ar ou nos prejudicar, está a questão,
já ventilada, dos m étodos farm acológicos de m odificar a mente.
Afirma-se que os russos estão trabalhan do intensam ente nos
m eios farm acológicos de estim ular a inteligência — ou seja, de
tornar as pessoas m ais capazes de atenção prolongada, de tra­
balho concentrado, provàvelm ente de prescindir do sono. Se
todos esses fatores puderem ser realizados por meios farm aco­
lógicos sem perturbar sèriam ente o corpo como um todo, sem
dúvida m elhorarão a q u alid ad e d a inteligência, e evidente­
mente um dos potenciais m ais im portantes, e pelo qu al lutam os,
é o de um a inteligência m aior.
D evia ter dito isso antes: é claro que as duas grandes coi­
sas pelas quais lutam os são o aperfeiçoam ento da inteligência
e o aprofundam ento e am pliação dos sentim entos de am izade
e am or, e a redução das potencialidades de violência e agressão,
profundam ente enraizadas nas pessoas. T em os dois objetivos
positivos e um negativo, e em relação à inteligência, parece
que algo se pode fazer, com os recursos farm acológicos, p ara
m elhorar a inteligência, no seu todo. O que o Sr. Brown m en­
cionou há pouco como um a possibilidade, um a possibilidade
A M E N T E E SU A INTEGRAÇÃO 85

política, surge neste contexto. É claro que se êsse m étodo fôsse


desenvolvido, podería ser usado p ara consolidar as instituições
dem ocráticas, distribuindo-se a todos o produto destinado a
m elhorar a inteligência, ou podería ser usado p ara aum entar
a distância entre a elite e as massas, se distribuído apenas a pe­
quena m inoria. É um exem plo típico de como o progresso
tecnológico pode ser aplicado em nível político, para o bem
ou p ara o m al.
Chegam os agora aos problem as educacionais, e êsses, creio,
são m ais interessantes. A educação, em sua m aioria, existe
apenas no nível verbal. Certas artes liberais na Idade M édia
eram inteiram ente verbais, e havia apenas duas das artes que
im plicavam em algum a coisa não-verbal: a da astronom ia —
e mesmo esta, durante a Idade M édia, foi extremam ente verbal,
tudo ilustrado um pouco num livro. A outra era a arte da
m úsica, n aquela época considerada m ais um a ciência do que
um a arte. O restante d as sete artes liberais era totalm ente
verbal, e até hoje, em bora tenha havido considerável m odifi­
cação, a m aior parte de nossa educação se faz essencialmente no
nível verbal.
U m a coisa que se poderia fazer nesse nível — e que não
fazemos atualm ente, em bora nos pudesse aju d ar a ser m ais
inteligentes e a evitar alguns dos erros de com portam ento m ais
desastrosos a que os sêres hum anos estão sujeitos — seria ensi­
nar às crianças as lim itações da linguagem . Êsse ensinam ento
pode com eçar m uito cedo e prosseguir por toda a vida adulta
— que o abuso d a linguagem , quando usado sistem aticam ente
em conjunto com os m odernos m étodos de comunicações pelo
rádio, pode ser im ensam ente poderoso na criação e na liber­
tação das potencialidades m ais indesejáveis no homem. H itler
em suas norm as de propagan da, dizia, especificamente, que
“nos devemos lim itar a slogans m uito simples, e poucos; ja ­
m ais adm itir qu e o outro lado possa ter razão; jam ais adm i­
tir a existência de meio-têrmo; as coisas têm de ser pretas ou
brancas, m uito boas ou m uito más, e isso deve ser repetido
incessantem ente” . Com essa fórm ula simples, êle pôde, como
sabem os, in flu ir em toda um a nação e arrastá-la consigo du­
rante vários anos.
M inh a im pressão é a de que devemos utilizar os notáveis
progressos d a análise lingüística, realizados no século X X . Êles
se situam entre os m ais im portantes esforços intelectuais do
86 O C O N TR O LE DA M E N T E

século, e não vejo razão pela q u al a sim ples aplicação de tais


progressos não deva ser ensinada desde a infância, a fim de
que as pessoas possam distinguir entre a p rop agan d a que visa
criar reflexos condicionados, e a p rop agan da que visa propor­
cionar m ateriais p ara a escolha racional. H á um a profunda
diferença entre as duas.
Infelizm ente há dificuldades consideráveis na form a de se
introduzir essa análise lingüística na educação. H á um inci­
dente patético, sobre êsse assunto, que merece ser lem brado.
Em 1957 o filan tropo bostoniano, Sr. Eilene, criou um instituto
a que deu o nome de Instituto da A nálise da Propaganda. Foi
n a época em que a p rop agan d a nazista estava em seu auge, e o
instituto realizou um bom trabalho de análise dos absurdos d ia­
bólicos que eram transm itidos pela rádio nazista, e publicou
vários folhetos interessantes. E m 1941, porém , quando os
Estados U nidos estavam na guerra e todo o O cidente também,
todos os países em pregavam o que se denom inava, elegante­
mente, de “guerra psicológica”, e os processos de an alisar a p ro­
pagan d a não pareciam m uito oportunos. Conseqüentem ente,
o instituto foi dissolvido em 1941. Isso ilustra claram ente os
perigos inerentes a tal processo. É claro que q u alq u er análise
séria da linguagem , ensinada a grande núm ero de crianças, é
em si mesma, profundam ente subversiva. Subverte a pu blici­
dade, subverte todos os tipos de noções políticas e m ilitares, é
extrem am ente perigosa. H ouve m uitas objeções, antes mesmo
do aparecim ento da guerra psicológica, afirm ando que essas
noções tornariam cínicos os jovens etc., e a atividade foi consi­
derada como antiam ericana. É possível que seja. É um a ati­
vidade antitudo. E la se opõe a qu alqu er form a de m á u tili­
zação organizada da linguagem , da qu al dependem tantas de
nossas conformações sociais. N ão obstante, parece-me que,
de um m odo ou de outro, é m uito im portante d ar aos jovens
consciência d a natureza e das lim itações da linguagem .
Desnecessário dizer que nos poderiam os alon gar sôbre o
assunto, e há um aspecto que desejo focalizar, ainda, antes de
passar a outro ponto. L i, há três meses, o pequeno livro do
professor Breuner, in titulado The Process of Education, no
q u al êle resum ia um a conferência de um a sem ana sôbre mé­
todos educacionais, realizada em H arvard em 1959. O que
me interessou nesse livro, particularm ente, foi o fato de que
todos os capítulos, ou quase todos, term inavam com a m esm a
A M E N T E E SUA IN TEGRA ÇÃ O 87

frase, “m as devemos fazer m ais pesquisas” . A im pressão total


que se tinha da sua leitura era de que os seres hum anos educam
crianças, nos últim os três ou quatro m il anos, sem saber o que
estão fazendo, ou pelo menos sem q u alq u er precisão, sendo
evidente que há m uito a aprender sobre o que se deve trans­
m itir, como transm itir, e em que fases do desenvolvimento da
criança. Creio não haver dúvida de que m uito m ais se poderá
fazer dentro dêsse cam po convencional de educação, no nível
verbal.
Parece-me que devemos pensar na educação, agora, tam ­
bém no nível não-verbal: devemos pensar na possibilidade de
treinar diretam ente a mente-corpo que tem de se subm eter ao
aprendizado e viver. N ão fazemos isso, freqüentem ente, no
m om ento. Concentramo-nos principalm ente no nível verbal
e não fazemos m uito pelo estranho organism o anfíbio e m ú l­
tiplo que possuím os. H á um a frase notável de Spinoza, que
parece ain da m ais notável quando pensam os na extraordin á­
ria abstração de sua obra: “Ensinem os o corpo a fazer m uitas
coisas, isso nos aju d ará a aperfeiçoar a mente e a chegarmos
ao nível intelectual de pensam ento.” Parece-me um a frase
de im ensa im portância. Se substituirm os a palavra “corpo”
pela palavra “organism o”, e a palavra “m ente” pela palavra
“m ente-corpo”, ela se poderá transform ar no lem a de um ram o
inteiram ente novo da educação, o do treinam ento deliberado
da mente-corpo, que terá então de se utilizar de seus conceitos
e suas palavras.
É ain da mais im portante que esse treinamento se faça
deliberadam ente, m uito em bora o progresso da tecnologia te­
nha afastado num erosas ocasiões nas quais, no passado, os sêres
hum anos eram convidados, ou mesmo obrigados, a usar m ão e
m ente na m ais estranha coordenação. A palavra “obra-mestra”
originou-se no trabalho feito por um aprendiz no fim de seu
aprendizado. E ra sua tese, que, quan d o aprovada por seus
mestres e pelos colegas dêste, lhe perm itia tornar-se também
um mestre. A verdadeira essência das técnicas antigas era o
uso de ferram entas extrem am ente sim ples para fazer coisas
m uito com plicadas, sim plesm ente por um a extraordinária
h abilidad e da m ão, a coordenação do olho, da mente e da m ão
a um grau de virtuosidade por vêzes inacreditável. B asta ver
os instrum entos m ais prim itivos, d e pedra e m adeira, e as fer­
ram entas feitas pelos selvagens, p ara com preender a habilidade
enorm e necessária à produção de tais objetos. H oje, a situação
88 O C O N T R O LE DA M E N T E

é exatam ente oposta. T em os ferram entas extrem am ente com­


plicadas p ara fazer não só as coisas com plicadas, m as tam bém
as m uito sim ples. T em os h o je um núm ero im enso de m áquinas
que podem ser usadas p o r pessoas inexperientes, e as correspon­
dentes organizações tam bém a prova de erros, mas um a m á­
qu in a ou um a organização dessas é im une a m ais do que aos
erros, é im une tam bém à espontaneidade, a virtuosidade e à
inspiração.
N u m a sociedade em que a colaboração com plexa e deli­
cada d a mente, ôlho e m ão deixou de ser necessária, passando
mesmo a ser indesejável, creio ser m uito im portante pensar no
treinam ento deliberado d a mente-corpo. N o passado, pode­
riam os d eixar que os acidentes contribuíssem , em grande parte,
p ara o desenvolvim ento d a tecnologia, m as*h o je a tecnologia
aboliu, em m uitas esferas, a necessidade de coordenação com­
p lexa e bela, sendo ain da m ais necessário, por isso, como acon­
selha Spinoza, ensinar o corpo a fazer m uitas coisas.
V ejam os algum as das coisas que podem ser feitas com a
mente-corpo. A m ais básica de nossas faculdades, p ara usarm os
um a p alavra antiga, é a d a percepção. N ossos pensam entos,
sentim entos, vontades — baseiam-se todos n a percepção, e esta
pode ser b oa e discrim inadora, m as pode ser tam bém precária
e insuficiente. N ão nos em penham os em treinar a percepção.
Fazemos m uito, parece-me, n a esfera d a m úsica, p ara treinar
os sentidos auditivos, m as fazemos m uito pouco em relação aos
outros sentidos. H á m u ito a dizer do treinam ento sistem á­
tico d a percepção e outras form as de consciência, que eu d aria
o nom e de hum anidades não-verbais. Proporcionam os o en­
sin o das hum anidades verbais, e consideram os que isso, d e al­
gum a form a, com pensará a especialização no cam po científico,
mas o que n a realidade fazemos é apenas tentar com pensar um a
especialização, em termos de sím bolos, com ou tra especialização,
em têrmos de símbolos. Sou favorável ao estudo das h um an i­
dades, m as não creio que isso seja bastante. Parece-me neces­
sário acrescentar-lhes estudos das hum anidades não-verbais, co­
m eçando com o preparo da percepção.
N ão posso entrar, aqui, em detalhes, m as um considerável
trabalho experim ental foi realizado neste cam po. O professor
Sam uel Renshaw , d a U niversidade d e O hio, p o r exem plo, fêz
m uito pelo treinam ento d á percepção visual, p alad ar e mesmo
m em ória — e teve bastante êxito, utilizando m étodos enge­
A M È N T Ê E SÜ A IN TEG kA Ç A O 89

nhosos, de vários tipos. Evidenciou-se que, ao darm os às cri­


anças em nível elem entar o treinam ento d a percepção, m elho­
ram os sua inteligência, seu interêsse pelo que fazem, su a cap a­
cidade de leitura, de aprender aritm ética, e como prestam m ais
atenção, tam bém m elhoram os seu com portam ento na escola.
O professor H oyt Sherm an, colega de Renshaw na U niversidade
de Ohio, m ostrou tam bém que êsses m étodos p ara aum entar
a velocidade e a capacidade de discrim inação da percepção vi­
sual são de grande im portância no estudo d a arte. J á são num e­
rosos os indícios de que se nos dedicarm os sistem àticam ente a
êsse tipo de ensino d a percepção farem os m uito p ara m elhorar
a q u alid ad e da inteligência.
H á um livro, relacionado com êste assunto, que recomen­
do aos interessados: Gestalt Therapy, de Pearls, Effelein e
G oodm an, publicado h á cêrca de oito ou nove anos. Contém
grande qu an tid ad e de m aterial precisam ente sobre êsse proble­
m a de desenvolver a percepção, desenvolvendo a consciência
do que está ocorrendo interiorm ente e exteriorm ente. T rata-se
de um a terapêutica pela sim ples razão de que nesse contexto
podem os defin ir a neurose como o não viver aq u i e agora, como
o viver n algum ponto do passado ou nalgum ponto m uito
além do H ades, ou no futuro. O treinam ento d a percepção é
o treinam ento p ara nos d ar consciência desta flor aqui, dêste
copo ali — e isso, em si, é terapêutico. N ão é simplesmente um a
questão de terapia, porém ; creio ser um a questão de invenção
e da arte de viver em geral.
Os m étodos descritos em Gestalt Therapy não são com ple­
tam ente originais. E m nosso século, um dos m ais famosos psi-
coterapeutas europeus, o Dr. R oger Vitos, utilizou-se exata­
m ente dêsse tipo de ensino d a consciência e teve resultados tão
bons, senão m elhores, que os obtidos com outros métodos.
Além disso, encontram os um a atitude semelhante em certos
textos orientais antigos. Surpreendi-me, outro dia, ao encon­
trar um texto sânscrito, talvez de m il ou dois m il anos de idade,
na form a de um diálogo entre Siva e sua esposa Barvati. Esta
lhe in daga: “ Q ual o segredo de teu divino modo de consci­
ência ?” , e Siva responde dando-lhe um a lista de 112 exercícios
de consciência, extraordin àriam en te com pletos e complicados.
Cobrem todos os cam pos d a experiência hum ana, ensinando a
consciência de tudo, da oração, do espirrar, comer, am ar, n a­
dar, de tudo. É curioso que êsses processos antigos tenham sido
90 O C O N TR O LE DA M E N T E

com pletam ente negligenciados, que possam os encontrar in di­


víduos e culturas inteiras que desenvolveram técnicas m uito
im portantes, mas que posteriorm ente foram totalm ente esque­
cidas, apesar de conservarem ain da um enorme valor.
T a n to na Gestalt Therapy como nos textos sânscritos há
m uitos exercícios im aginativos que poderíam ser usados com as
crianças, cuja im aginação, livre e extrem am ente poderosa, po­
dería ser de im ensa aju d a na elim inação de todos os temores
e problem as obsessivos, perm itindo-lhes tratar a vida m ais inte­
ligentem ente. Vi jogos de im aginação, como são cham ados, se­
rem usados com m uito êxito pelas mães. (H á um curioso Ii-
vrinho, Imagination Game por um autor cham ado D eM ille.)
Correspondi-m e recentemente com pessoas na A ustrália que es­
tão fazendo a m esm a coisa nas escolas e na terapia, utilizando
êsse imenso poder de im aginação p ara o aperfeiçoam ento da
qu alid ade de vida na criança, e p ara os que se interessam pela
im aginação em relação com a arte, recom endo um livro notá­
vel de Sir H erbert Reed, Art as an Education, trabalho sur­
preendente que contém m uitas sugestões valiosas sobre as for­
m as pelas quais a im aginação pode ser usada como m eio de
realizar nossas possibilidades.
A o passarm os dêste cam po de m elhorar a inteligência e a
consciência, dessas técnicas p ara entender e p ara com plem entar
o velho preceito de "Conhece-te a ti m esm o”, quero assinalar
o fato, curioso e deprim ente, de que particularm ente em
nossa civilização estamos capacitados a p rop or ideais m uito
altos e profundos conselhos m orais, sem poderm os prop or­
cionar os m eios de com plem entar os ideais ou obedecer aos con­
selhos. Vim os dizendo "Conhece-te a ti m esm o” há m uito, m uito
tempo, mas jam ais organizam os, com o os sânscritos fizeram,
112 exercícios p ara nos conhecermos a nós mesmos. Encon­
tram os, assim, freqüentem ente, em nossa civilização essa curiosa
suposição de que as exortações e os m andam entos nos aju darão,
em si mesmo, a obedecer as exortações e fortalecer nossas boas
intenções. N a verdade, porém , isso não ocorre, e temos de
propor ao mesmo tem po os m eios p ara realizá-los.
Passemos agora do reino do conhecim ento e d a consciência
para outro reino im ensam ente im portante: como aum en tar o
am or no m undo ? Com o despertar nos indivíduos o seu p o ­
tencial de am or e amizade, como podem os fazer algo de cons­
trutivo sobre as potencialidades de violência e agressão ?
A M E N T E E SUA IN TEGRA ÇÃ O 91

E aqu i voltam os a encontrar outro fato estranho. E m bora


todas as grandes religiões tenham insistido na im portância do
am or — a caridade cristã ou a com paixão universal budista —
m uito pouco se fêz p ara sugerir os m eios pelos quais o am or
pode ser realizado em escala m ais am pla e de m odo m ais pro­
fundo. É estranham ente irônico que o único povo a tentar
criar deliberadam ente em suas crianças um a predisposição para
a amizade seja, pelo que sei a tribo extrem am ente prim itiva e
pequena, descrita por M argaret M ead, na N ova G uiné, os
A rapesh. Êsse povo utilizou o m elhor m étodo pavloviano pos­
sível para criar predisposições p ara o am or universal. A mãe,
ao alim entar o filho, o acaricia para que ele experim ente tanto
o prazer de comer como o de ser acariciado e estar em contacto
com a mãe. A o mesmo tempo, ela esfrega a criança nos outros
m em bros da fam ília, ou em quem esteja por perto, mesmo nos
anim ais domésticos, m urm urando “Bom , bom ” . A criança, a
princípio, n aturalm ente não com preende a palavra, mas sem
dúvida com preende o tom de voz. E logo que aprende a
falar sabe que o sentido da palavra “ bom ” está associado a
essa experiência extrem am ente agradável de ser alim entado,
acariciado e posto em contacto com outros sêres hum anos e
anim ais. Segundo M argaret M ead, o m étodo é extrem am ente
eficiente. O povo é excepcionalm ente cordial, e é curioso e
irônico que tenha cabido a êsse povo prim itivo, de um a área
rem ota da N ova G uiné, a invenção de um a form a efetiva de
criar um a predisposição p ara a amizade.
H á, tenho certeza, m uitas outras coisas que poderão ser
feitas p ara estim ular a am izade nos jovens, e há naturalm ente
o problem a da predisposição negativa. O professor G ordon
A llport, que m uito tem escrito sobre o assunto, não se m ostra
particularm ente otim ista, em bora diga que m uito se pode fazer
com a predisposição n a terapia in dividual, mas evidentemente
a psicoterapia in dividual não pode ser aplicada a milhões de
pessoas, e os outros m étodos não são tão eficientes. É possível
que tenham os de com eçar num nível profundo como o dos
Arapesh, antes de têrmos esperanças de superar a predisposição
negativa.
H á, evidentem ente, im pulsos profundos de agressão em
m uitos sêres hum anos, e há o fato desanim ador de que êsses
sentim entos produzem dividendos psicológicos m ais altos, por
assim dizer, do que os sentim entos dóceis e cordiais. Proporcio­
92 O C O N TR O LE DA M E N T E

nam im pulsos m aiores. W illiam Jam es resum iu isso m uito


sucintam ente, ao afirm ar: “ A m aldição agita, a bênção acal­
m a.” As pessoas gostam de ser agitadas, gostam de am aldiçoar.
Em conseqüência, um dos problem as mais graves que enfren­
tamos é como encontrar um a saída para algo que evidente­
mente m uitos acham n atu ral e agradável e que não provoque
grande m al ao m undo, m as que se violentam ente reprim ido
provocará m uito m al ao indivíduo ? N o nível fisiológico, su­
ponho que o problem a se relacione com o fato de têrmos um
sistem a glan d u lar adm iràvelm ente adaptado à vida no período
paleolítico, m as não m uito bom para a vida de hoje. Assim,
temos a tendência de produzir m ais adren alin a do que seria
conveniente, e ou nos suprim im os e transferim os p ara nosso
interior essas energias destruidoras, ou não nos suprim im os e
começamos a atacar pessoas e a perturbar toda a estrutura so­
cial. O problem a é encontrar m odos pelos quais nossas ten­
dências agressivas possam ter um escoadouro e não nos p reju d i­
quem, nem prejudiquem outras pessoas.
Êsse problem a foi discutido, em um de seus aspectos, por
W illiam Jam es, no ensaio “O Equivalen te M oral da G uerra” .
Êsse estudo m ostra o desejo de ação heróica ou a necessidade
de sentir que se está trabalhan do por um a causa m aior do que
a pessoal, e sugere que isso pode ser canalizado em linhas pací­
ficas, talvez por interm édio de um recrutam ento p ara a ação
social criadora. É um a form a m uito lim itada de nos livrar­
mos de tendências agressivas, m as creio que sugere a atitude
a ser adotada. T em os de encontrar form as pelas quais êsses
sentim entos negativos possam ser liberados sem causar danos
sérios a nós e aos outros, e parece-me que ain d a aq u i podere­
mos apren der m uito com o que outras culturas fizeram. N ão
precisam os voltar aos prim itivos — em bora êles tenham um a
grande contribuição a fazer, neste cam po. Se rem ontarm os mes­
mo aos gregos, veremos qu e m uitas coisas sensíveis foram feitas.
Os gregos utilizaram sua razão p ara enfrentar o irracional, e
essa é um a das grandes utilizações da razão, um a esfera em
q u e ela deve ser aplicada em suas form as m ais sutis. T em os de
aceitar o fato de que o hom em tem im pulsos irracionais e
freqüentem ente destruidores, e que estabelecemos, de form a ra­
cional, m eios pelos quais tais im pulsos possam ser canalizados,
de m odo a não provocar danos. U m dêsses m eios é, evidente­
mente, o processo totalm ente ineficiente d e pregar sermões e
estabelecer m andam entos. Isso não tem utilid ade. O que os
A M E N T E E SUA IN TEGRAÇÃO 93

gregos fizeram foi criar m étodos pelos quais as tendências p u ­


dessem ser satisfeitas por um a ação violenta, mas inofensiva.
T o d a a tradição, na religião grega, das danças coribáticas, é
interessante. E las eram utilizadas tanto p ara diagnosticar como
terapêuticam ente: os médicos e sacerdotes observavam, prim ei­
ro, como os pacientes reagiam a certos tipos de m úsica e m ovi­
m ento, e em seguida receitavam determ inadas danças. N ão
há dúvida de que grande parte do que hoje cham aríam os de
síndrom es da an gústia era elim inada com êxito por m eio
dessas danças.
Em época m ais rem ota, havia as orgias dionisíacas, que tam ­
bém aju dav am a elim inar m uitas das tendências agressivas.
Devo confessar que, a ju lg ar pelas Bacantes de Eurípides, iam
um pouco longe — as m ulheres observavam os homens infelizes
serem despedaçados, m em bro por m embro. M as creio que
talvez encontrassem algum a satisfação com efeitos menos pe­
nosos sobre seus m aridos, e creio que dentro dessas linhas há
técnicas valiosas p ara nos livrarm os de tendências violentas,
profundas, poderosas e anti-sociais nos homens. Os m étodos
destinados a isso estão aí, e podem ser em pregados com êxito.
É significativo, neste contexto, que D ionísio fôsse cham ado
L ú cio, o Lib ertad or. N a realidade, libertava as pessoas de
todas as form as de estados em ocionais perturbadores, e tam ­
bém lhes possibilitava livrarem-se das frustrações e da agressão
de form a relativam ente inofensiva.
Isso basta, quanto ao problem a de am or e ódio, mas quero
referir-me brevem ente a outro aspecto dêle: como realizam os
nossas boas intenções ? São P au lo disse: “ O que devia fazer,
não faço, e o qu e não devia fazer, faço.” Isso, naturalm ente,
acontece com todos nós. Estam os constantemente fazendo o
que não era m elhor fazermos, e constantemente deixam os de
fazer aq u ilo que seria m elhor fazermos. T om am os boas reso­
luções, m as não sabem os como colocá-las em prática, e a téc­
nica im em orial de pregar sermões e d ar ordens não funciona
bem. M esm o a técnica de recom pensar ou punir nem sempre
funciona bem. T alvez existam técnicas m ais eficientes. U m a
delas, parece-me, é a técnica descrita num livro do professor
C ornell H u tt, Auto-conditioning, que é sim plesm ente um a des­
crição d a auto-sugestão, e de um a form a m uito branda de auto-
-hipnose. É um m étodo extrem am ente eficiente sob m uitos
aspectos, e não vejo absolutam ente razão pela qu al as crianças
não devam aprender êsse m eio m uito sim ples de praticar suas
94 O C O N T R O LE DA M E N T E

boas intenções e talvez tam bém de elim inar alguns de seus so­
frim entos menores. M uitos dentistas que trabalham com cri­
anças sabem que um pouco de sugestão pode afastar a dor como
que por encanto. T en h o um am igo oriental que é médico, e
que enquanto estudava no O riente M édio, estudava tam bém
com os Dervishes. É capaz de coisas extraordinárias, como dei­
tar-se num a cam a de pregos e fincar estiletes enormes através
dos braços ou dos m úsculos do peito. R epete sem pre um a
frase de que gosto m uito: a dor é apenas um a opinião. Êle
prefere não ter essa opinião. E u gostaria m uito de poder não
ter a opinião da dor em certos m omentos, m as há m uitos in dí­
cios de que é relativam ente fácil para m uitas crianças não terem
a opinião da dor. Isso tam bém é algo a aprender, e que, parece-
me, podería ser de enorm e valor no aperfeiçoam ento d a q u a­
lidade da vida e em p ossibilitar a realização de potencialidades
desejáveis.
Em conclusão, quero dizer que há um m aterial imenso,
m aterial de outras culturas e outras épocas, m aterial de tra­
balho em pírico realizado p o r pessoas m uito distantes entre si
e freqüentem ente esquecidas — trabalho qu e gozou de fam a
considerável e está agora totalm ente esquecido. H á também
m uitas coisas que foram descobertas p or pessoas a quem con­
sideram os charlatães ou m istificadores. M esm o assim, é m uito
necessário exam inar-lhes o trabalho. N o fin al das contas, a
verdade vive no fundo de um poço, que pode ser extrem am en­
te barrento, m as m uito freqüentem ente a verdade está ali, e não
devíamos hesitar m uito em, pelo menos, descer p ara ver. As
provas em píricas têm sido encontradas em m uitos lugares não
acadêm icos, e um a de nossas grandes fundações bem podería
dispender alguns m ilhões de dólares para criar um a equine
p ara exam in ar tôdas essas várias e diversas técnicas de reali­
zar as potencialidades hum anas desejáveis — examiná-las, prová-
las, ver se funcionam , se funcionam tão bem quanto se supõe,
determ inar o princípio subjacente nas várias técnicas e fin al­
mente form ular os meios pelos quais técnicas e princípios pos­
sam ser aplicados na educação geral em todos os níveis, desde
o jard im de infância até a universidade. M inha im pressão é
que se fizéssemos isso, d en tro d e cinco ou dez anos teríam os
encontrado um a q uan tid ade enorm e de m aterial valioso que,
se aplicado ao nosso sistem a educacional, m uito contribuiría
p ara m elhorá-lo e p ara despertar a inteligência, a cordialidadç
e a capacidade criadora entre os seres hum anos.
SEGUNDA PARTE

A INFLUÊNCIA DAS DROGAS


SÔBRE O INDIVÍDUO

Coordenador, R obert M. F eatherstone

O sim pósio passou de um a discussão geral d a mente


p ara a questão m ais específica do uso de drogas para m o­
dificar o funcionam ento d a mente, tom ando como ponto
de referência as proporções em que elas podem alterar
a estrutura quím ica, a ação física ou o com portam ento
geral do indivíduo. A discussão foi sobre as características
das drogas existentes até seu efeito sobre o sistem a nervoso,
as diferenças significativas na reação individual à sua ap li­
cação, e o nível de precisão que pode ser obtido na sua
utilização. Deu-se particular atenção às questões técnicas
ligadas ao “controle do pensam ento” e à crença popular
de que a utilização de drogas pode facilitar o contrô’e tirâ­
nico de grandes m assas de seres hum anos por um a pe­
quena elite.
N os debates que se seguiram à apresentação dos tra­
balhos, deu-se considerável atenção à necessidade de estru­
turar cuidadosam ente as pesquisas futuras em psicofarma-
cologia, e à relação entre os debates anteriores sobre a
atividade cerebral e m odelos de cérebro e as descobertas da
psicofarm acologia.
S e y m o u r S. K e t y

Limites Químicos da Psicofarmacologia

E ntendo que m inha contribuição, ao


apresentar o im portante cam po d a psicofarm acologia, deve ser
um a tentativa p ara relacionar os elem entos fisiológicos, b io­
quím icos e experim entais determ inantes do com portam ento,
com os possíveis m ecanism os da ação das drogas. Para isso,
creio ser conveniente lem brar um prin cípio m uito im portante
d a farm acologia, ain d a n ão superado, pelo que sei. É, sim ­
plesm ente, o prin cípio de qu e nenhum a droga introduz um a
função nova num organism o, m as sim plesm ente acentua, inibe
ou m odifica, de algum a form a, função já existente. N ão po­
dem os esperar que as drogas introduzam nada de nôvo na
mente ou no com portam ento, m as apenas que acentuem ou
suprim am funções d e com portam ento já presentes.
Será útil, ao pesquisarm os as possíveis bases da ação das
drogas sôbre o cérebro e a mente, têrmos um m odêlo teórico
de como fun cion a o cérebro. Esbocei, n a F igu ra 1, um m o­
dêlo dêsses. C om o é apenas um m odêlo, n ão m e preocupei com
a necessidade de relacioná-lo com os fatos reais, em bora deva
dizer que êsse diagram a me satisfaz, pelo menos por encerrar
alguns dos conceitos h abitu ais em n eurofisiologia e neuroquí-
m ica. É bastante rudim entar, mas nos próxim os m il anos,
m ais ou menos, esperam os completá-lo com m uitos detalhes.
G ostaria de discutir êsse esquem a em têrmos dos conceitos
correntes no estudo do cérebro. T em os aqui alguns sím bolos
de entradas sensoriais. A câm ara de televisão é um exem plo
de um m odêlo m ecânico de um dêsses transform adores senso­
riais, Essas entradas sensoriais alim entam o sistem a nervoso
98 O C O N T R O LE DA M E N T E

com um volum e enorme de dados, tão grande que podería es­


gotar dentro em pouco o m ais com plexo sistem a nervoso e
qualqu er m ecanism o de arm azenam ento de inform ações. Creio
poderm os dizer que em q u alq u er m om ento de nossa v ida acor­
dad a somos bom bardeados pelo menos por dez m ilhões de dife­
rentes inform ações sensoriais, e no curso de toda um a exis­
tência êsse núm ero se torna fantàsticam ente alto. Deve haver
algum a form a de seleção, no cérebro, e por isso ele e os órgãos
sensoriais criaram algum processo de redução de dados que
serve p ara digerir, condensar e codificar êsse gigantesco vo­
lum e de inform ações, antes de utilizarem-se dêle. Êsses m eca­
nismos de redução de dados são os próprios órgãos sensoriais,
localizados em diferentes lugares dentro do cérebro. O processo
de redução de dados é m odulado, por sua vez, por fatores como
atenção, m otivação, estado de espírito, experiência passada. Os
dados que transpõem os reduzidores p ara serem arm azenados
ou usados pelo resto do cérebro dependem , em gran de parte,
do estado de espírito, atenção e experiência passada. U m a cri­
ança que ouça falar do teorem a de Pitágoras n ão o com pre­
ende nem se lem brará dêle, até ser m ais velha e ter experi-
A IN F L U Ê N C IA DAS DROGAS SO BR E O INDIVÍDUO 99

ência m ais adequad a, quan d o poderá, então, codificá-lo nalgum


conceito significativo.
Se restabelecem os a visão de um a pessoa cega de nascença
— o que por vêzes a cirurgia consegue — ela não se recorda da­
quilo que prim eiro seus novos olhos veem. D e fato, com toda
probabilidade, nem mesmo vê tais coisas. N ão as vê nem lem ­
bra até que tenha aprendido, vivendo com essas novas expe­
riências, a form a pela q u al podem ser codificadas.
De qualqu er m odo, a inform ação reduzida é então levada
ao cérebro, e in diquei um a versão bastante sim plificada da
m em ória, na form a de um gravador, onde tal inform ação pode
ser guardada. T am b ém pode ser transm itida diretam ente, ou
em época posterior, a outro sistema, o com putador. A parte
do cérebro que recebe êsse nom e toma a inform ação que chega,
já codificada, e com para-a à experiência passada, que tem ex­
cepcional h abilidad e de recordar. T e n d o por base esta infor­
m ação presente e a passada, pode tom ar decisões em relação
à ação — decisões sobre agir ou não agir, e como agir. T a l ação
é realizada por m eio de vários program as de com portam ento,
arm azenados à base das informações inatas (instintivas) ou
adquiridas.
J á acentuei que existem programas de com portam ento, de
preferência a com portam entos individuais. Assim como as
inform ações idos sentidos são resum idas, codificadas e elètri-
cam ente transm itidas dentro do cérebro, assim o com portam en­
to tam bém é codificado e tratado da m esm a form a. O cére­
bro sofreria gran de pressão se tivesse de atender constante­
m ente ao m ovim ento de cada m úsculo que participa de todo
aspecto do com portam ento. A o invés disso, o sistema nervoso
tem dentro de si certos program as de atividade — levantar-se
pela m anhã, vestir-se, barbear-se, ir p ara o escritório, alm oçar,
afastar-se de um a situação, procurar outra situação. Essas coi­
sas são tôdas pequenos program as incrustados no sistema ner­
voso, de m odo que o com putador, tendo tom ado decisões, sim ­
plesm ente põe em ação um program a, e o program a em si,
sem i-autom àticam ente, se encarrega da execução, a partir d a­
quele ponto.
Êsse com plicado m ecanism o, como todos os outros com pu­
tadores, necessita de energia, e por isso temos, dentro do pró­
prio sistem a nervoso, um a produção de energia que abastece
todos êsses com ponentes. G ostaria de m encionar certas dis­
100 O C O N TR O LE DA M E N T E

tinções entre êsse d iagram a e o sistem a nervoso real, tal como


o conhecemos.
Em prim eiro lugar, trata-se de um esquem a apenas para
o com portam ento do sistem a nervoso, e não das sensações. Po­
demos im agin ar vários aperfeiçoam entos p ara êsse diagram a,
correspondentes às m ais com plexas form as de com portam ento
— decisões, julgam entos etc. O que não pude introduzir nêle,
c que pelo menos p ara m im parece impossível, é o sentim ento
e a consciência. Ignoro onde ocorrem nesse sistema, e não
conheço nenhum diagram a físico-quím ico p ara o sentim ento;
portanto, subscrevemos im ediatam ente a filosofia d u alista que
o Dr. Penfield descreveu antes, com tanto brilho, e adm itim os
im ediatam ente que a física, quím ica e biologia e farm acolo­
gia em bora possam estabelecer estruturas p ara o com porta­
mento, não podem explicar o sentim ento.
H á outras diferenças entre êsse diagram a ou qu alq u er ou ­
tro que possam os conceber, hoje, e o que realm ente ocorre no
sistem a nervoso. Êsse m odêlo é predom inantem ente eletrô­
nico, baseado na experiência feita com com putadores fabrica­
dos pelo homem. O cérebro — e isso é interessante — é tanto
um a m áqu in a quím ica como física ou eletrônica. N ão com ­
preendemos exatam ente como o cérebro, por m eio de pro­
cessos quím icos, pode fazer o mesmo que um a câm ara de tele­
visão ou um com putador ibm faz com válvulas eletrônicas,
condensadores e resistência. Isso, naturalm ente, será um dos
grandes problem as da neurofisiologia: explicar como proces­
sos quím icos podem realizar êsses fenômenos notáveis.
Além disso, na m aioria dos sistem as eletrônicos o abaste­
cim ento de energia é claram ente isolado no fundo do gab i­
nete, enviando-a p ara os vários componentes. N o caso do
cérebro, a energia está intim am ente ligad a a cada um dos
componentes. C ada neurônio aparentem ente tem seu abasteci­
m ento próprio, e é capaz de com unicar suas necessidades atra­
vés de certas trilhas quím icas, e como o cérebro é m ais um ins­
trum ento quím ico do que eletrônico ou físico, suas ações po­
dem ser in fluenciadas por outras substâncias quím icas, a que
cham am os drogas. Seria tolice de nossa parte pensar que lan ­
çando um pouco de lsd , ou de M iltow n n um ap arelh o de tele­
visão, pudéssem os in flu ir na im agem — não obstante, é exata­
m ente o que esperamos, em relação ao cérebro hum ano. E po­
dem os fazê-lo sim plesm ente devido à trem enda im portân cia que
A IN F L U E N C IA DAS DROGAS SO BRE O INDIVÍDUO 101

os processos quím icos têm no cérebro, ao contrário de sua rela­


tiva fa lta de im portância nos com putadores feitos pelo homem.
O problem a que passo a exam inar é onde, na quím ica do
cérebro, as drogas podem agir e onde, na realidade, agem, de
acordo com o que sabem os atualm ente. G ostaria de começar
com o m ais violento e fundam ental dos processos quím icos,
ou seja, os relacionados com o fornecim ento de energia, a sim ­
ples criação da energia dentro do cérebro p ara sua utilização
em configurações m ais com plexas.
O Q uadro 1 apresenta alguns dados obtidos por meus co­
legas e p o r m im , h á alguns anos, sobre o fluxo sanguíneo e,
o que é m ais im portante, sobre o consumo de oxigênio pelo
cérebro hum ano consciente. Foram colhidos em jovens sadios,
e vemos q u e o cérebro, em circunstâncias norm ais, utiliza oxi­
gênio na proporção de 3,3 m ililitros de oxigênio para cada
100 gram as, por m inuto, o que no caso de um cérebro de pêso
m édio corresponde a 46 m ililitros de oxigênio por m inuto,
p ara o cérebro como um todo. Isso, como se percebe, é um a
considerável fração d a totalidade de consumo de oxigênio pelo
corpo, em condições basais. N a realidade, representa cêrca de
20 ou 25% do total do m etabolism o basal do corpo. O con­
sum o de glicose pelo cérebro, nas m esmas circunstâncias, tam ­
bém foi m edido, e revelou ser de 5,4 m iligram as, ou 76 m ili­
gram as de glicose por m inuto p ara todo o cérebro, o que cor­
responde a 4 gram as de glicose, ou um a colher de chá de
glicose por hora, como o alim ento que proporciona energia
ao cérebro.

Q uadro 1

Circulação e metabolismo cerebral, valôres normais,


em jovens sadios

PARA TODO O
POR 1 0 0 g
CÉREBRO, POR
POR MINUTO MINUTO

Fluxo sanguíneo....................... 54 ml 750 ml


Resistência vascu lar............... 1,6 unidades 0,115 unidades
Consumo de oxigênio............. 3.3 ml 46 ml
Consumo de glicose................ 5.4 mg 76 mg
Quociente respiratório............ 0,99 0,99
102 O C O N TR O LE DA M E N T E

O quociente respiratório do cérebro está m uito próxim o


de 1, e se expressam os essas quantidades em m oléculas-grama,
ao invés de m ililitros ou m iligram as, veremos o que se sabe
já há algum tem po, ou seja, que p ara cada m olécula-gram a
de glicose que desaparece no cérebro, seis m oléculas-gram a de
oxigênio são utilizadas. É exatam ente o volum e necessário para
queim ar a glicose com pletam ente em água e b ióxid o de car­
bono, com a liberação de certa q uan tid ade de energia.
Isso tornou possível calcular-se pela prim eira vez as neces­
sidades totais de energia p ara o cérebro hum ano consciente,
que se constatou ser, de form a bastante notável, 20 watts. Ve­
mos aqu i outra diferença notável entre o cérebro hum ano e
q u alq u er com putador que possam os im aginar. Os com puta­
dores de hoje utilizam m ilhares de watts p ara realizar suas
funções bastante lim itadas.
É tam bém im portante assinalar que a glicose é ain da o
alim ento básico do cérebro, q u e se singulariza por ser capaz
de utilizar apenas a glicose com o energia norm al, em circunstân­
cias norm ais, e m uito m ais de 95% da energia u tilizada pelo
cérebro provêm da glicose. É possível, naturalm ente, e em
condições especiais, que os tecidos nervosos utilizem , em ráp i­
dos períodos de tempo, outro alim ento, como aos am inoácidos
e os ácidos gordurosos, diretam ente; no curso da utilização
d a glicose, naturalm ente, os átom os de carbono d a glicose se
in tercam biam com vários outros com ponentes do cérebro, m as
o fato é que p ara a consciência hum an a a glicose parece essen­
cial. T em os poucos indícios de que outras substâncias possam
tomar-lhe o lu gar n a prod ução de energia.
N o Q uadro 2 vemos um a relação de condições nas quais
o abastecim ento de energia do cérebro sofre a interferência
de algum processo generalizado, físico, ou o que é m ais im ­
portante, quím ico ou farm acológico. N essas diferentes situ a­
ções podem os ver em q u e proporções a utilização geral de
energia pelo cérebro é reduzida. N a psicose senil, ela cai
de 80% em relação ao valor norm al; n a hipoglicem ia in-
sulínica, qu an d o a glicose do sangue cai consideràvelm ente,
há um a redução de 20% n a utilização de energia do cé­
rebro. N a com a insulínica, onde o açúcar do sangue cai
ain da m ais b aixo e o cérebro recebe m uito pouca glicose, o con­
sum o de energia cai em cêrca de 50% dos seus valôres n or­
m ais. N a com a alcoólica e n a anestesia cirúrgica, temos agentes
A IN F L U E N C IA DAS DROGAS SO BR E O INDIVÍDUO 103

Q uadro 2

Consumo cerebral de oxigênio e estado m ental

PERCENTAGEM
CONDIÇÃO DO NORMAL

Psicose senil.................................................. 82
Acidose diabética......................................... 82
Hipoglicemia insulínica.............................. 79
H ipoterm ia artificial................................... 67
Anestesia cirúrgica...................................... 64
Com a insulínica........................................... 58
Com a diabética............................................ 52
Com a alcoólica............................................. 49

farm acológicos que dim inuem o abastecim ento de força ao


cérebro e a utilização geral de oxigênio. M as com o é evidente
pelo diagram a do com putador, o abastecim ento de energia
é apenas um im portante fator de lim itação no com portam ento
e n a consciência, havendo m uitas outras coisas que ocorrem ào
com portam ento, ou m ente hum ana, que m uito pouca relação
têm com êsse abastecim ento de energia.
O Q uadro 3 m ostra um a série de situações nas quais h á
graves perturbações no pensam ento, ou alterações d a eficiência
dos processos m entais, m as pequenas modificações nas necessi­
dades gerais de energia. O sono norm al, p o r exem plo, está
associado' exatam ente ao mesmo uso geral de energia que pre­
dom in a no estado desperto. Parece haver um a m odificação n a
distribuição d a energia no sono, de m odo que os diferentes
circuitos são postos em atividade, a o invés de q ualquer m odi­
ficação geral n a energia total. Vemos, assim, que o sono é
totalm ente diverso d a anestesia.
* N a esquizofrenia h á exatam ente o mesmo consumo de oxi­
gênio pelo cérebro como nas condições norm ais. D e fato,
podem os concluir p o r essas observações que é necessária a mes­
m a dose de oxigênio p ara form ularm os um pensam ento racio­
n al qu an to um irracional. E drogas como o l s d produzem
um a psicose tóxica que se assem elha à esquizofrenia em certas
fases, sem qu e se associe tam bém a qualquer m odificação no
abastecim ento geral de energia.
104 O C O N TR O LE DA M E N T E

Q uadro 3

Consumo cerebral de oxigênio e estado mental

PERCENTAGEM
CONDIÇÃO
DO NORMAL

Sono norm al................................................. 97


Esquizofrenia................................................. 100
Psicose provocada pelo L S D .................. 101
Aritm ética m ental....................................... 102
A n gústia......................................................... 118
Infusão de epinefrina (adrenalina)........ 122

A aritm ética m ental não está ligad a a q u alq u er m odifica­


ção na utilização geral do oxigênio, e isso é perfeitam ente com ­
preensível. O com putador, quer trabalhe num com plicado
problem a aritm ético ou perm aneça inativo, consome a mesma
energia, assim como o receptor de televisão não usa m ais ou
menos energia de acôrdo com a im portância do program a em
que está sintonizado.
H á dois estados m ais ou m enos associados, a an gústia e a
infusão de epinefrina, em que parece haver u m a elevação sig­
n ificativa no total de energia u tilizada pelo cérebro. Exceto
no estado de angústia e nas convulsões, n ão conhecemos con­
dições nas quais h aja um aum ento n a utilização geral de ener­
gia. N ão conheço nenhum exem plo no q u al a crescente u tili­
zação forçada de oxigênio pelo cérebro aum ente a q u alid ade
ou a qu an tid ad e do raciocínio. N ão acredito, portanto, que
seja provável m elhorar a função m ental através de drogas que
agem sôbre o fornecim ento geral de energia, tal como não é pos­
sível m elhorar a q u alid ade d as anedotas da televisão fornecen­
do-lhe m ais corrente.
Até agora, ocupei-me do consum o geral de energia do
cérebro, m as na realidade sabem os que êste não é um a
m assa gelatin osa hom ogênea. É antes um com plexo de ór­
gãos altam ente organizado — n a realidade, é a estrutura m ais
altam ente organizada que conhecemos no universo. Com o o
fornecim ento de energia do cérebro não está fixad o num lugar,
m as sim distribuído por todo êle, é de esperar que varie notà-
velm ente nos seus diferentes pontos.
A IN F L U Ê N C IA DAS DROGAS SO BRE O INDIVÍDUO 105

F ig. 14

A F igu ra 14 é um auto-radiogram a d o cérebro de um gato


subm etido ao gás radioativo em vida e no q u al as densidades
obtidas correspondem ao flu xo sanguíneo n aquela região, com
vida. T em os razões consideráveis p ara acreditar que o fluxo
sanguíneo no cérebro é sensivelm ente regulado pelo consumo
de oxigênio, de m odo que de certa form a a figura representa
um m apa do consum o de oxigênio das várias partes do cérebro
num gato não anestesiado. H á ali diferenças notáveis. Po­
dem os ver o alto m etabolism o do córtex cerebral. N a reali­
dade, se olharm os cuidadosam ente, podem os mesmo ver que
certas partes do córtex cerebral se tornam ain da m ais evi­
106 O C O N T R O LE DA M E N T E

dentes. C orrespondem aos centros visuais, e o auto-radiogram a


foi tirado de um gato cujos olhos estavam abertos durante a
inalação. Se o gato não vê, êsses centros visuais não aparecem
tão intensam ente, e se o an im al é subm etido a um a luz forte
e súbita durante o processo, há ain da m aior intensificação da
pressão do sangue, e presum idam ente, do fornecim ento de
energia p ara aquela região particular.
M esm o no nível regional, o abastecim ento de energia para
o cérebro ou p ara q u alq u er de seus com ponentes é apenas um
fator de lim itação, e raram ente um fator de determ inação do
com portam ento. Estam os interessados, no m om ento, em obser­
var alguns dos outros aspectos do cérebro, p ara ver como os
processos bioquím icos podem m odular alguns dos aspectos
m ais sutis do com portam ento. A transm issão pela sinapse é
um processo quím ico que im plica na transm issão d a inform a­
ção de um a parte do sistem a nervoso a outra. A sinapse ocorre,
naturalm ente, no sistem a sensorial, dentro do m ecanism o do
com putador, e em todo o percurso, e essas sinapses ou junções
entre células nervosas podem ser m oduladas pelos processos
quím icos e farm acológicos. É possível que as várias sinapses
no sistem a nervoso revelem um a reação seletiva a várias drogas,
e é altam ente provável que m uitas das ações diferenciais das
drogas dependam de sua ação diferencial em sinapses várias.
N a fase atual de nosso conhecimento, sabem os m uito m ais
sobre a form a pela q u al as drogas atuam nas sinapses periféricas
do sistem a nervoso do que sobre sua atuação no sistem a ner­
voso central. N a realidade, tôda a ciência da sin aptologia cen­
tral desenvolveu-se apenas nos últim os anos, e esperam os que
nos próxim os 20, 50 ou 100 anos ela venha a realizar progres­
sos consideráveis. Nossos m ecanism os têm em si um processo
que ain d a não apareceu nesse diagram a, e é um processo de
disposição de ânim o. Seria m uito oportuno im por, sôbre êste
instrum ento rudim entar, um m ecanism o delicado, sutil, du ra­
douro, p ara m odelar aspectos inteiros do com portam ento, e
é êsse o processo a que denom ino de estado de ânim o. É im ­
portante, quand o nos interessam os por algu m a coisa, ou esta­
mos felizes ou temos mêdo, que diferentes tipos de redução de
dados ocorram , que diferentes mecanismos de arm azenam ento,
talvez, sejam postos em atividade, e que valores diferentes
sejam atribuídos a essas entradas no com putador. O estado
de ânim o pode ser o processo do cérebro m odulado pelas rea­
A IN F L U Ê N C IA DAS DROGAS SO BR E O INDIVÍDUO 107

ções quím icas e onde, na realidade, no m om ento temos algum as


inform ações sugestivas.
D o ponto de vista d a neurofisiologia, parece que o estado
de ânim o pode ser estabelecido por um a parte do cérebro
cham ada sistem a lím bico, oriun da do antigo cérebro do olfato
ou rinencéfalo dos anim ais inferiores. N o sistem a lím bico
certos agentes estão distribuídos de form a bastante selecionada,
como as am inas biogênicas, recentem ente descobertas. Os dois
prim eiros a serem isolados e m elhor estudados são a seroto-
nina e a norepinefrina. Verificou-se recentem ente que êsses
com postos m odificam sua concentração em reação à ação de
certas drogas que m odificam o com portam ento. Com a reser-
pina, por exem plo, q u e é deprim ente, a serotonina e a norepi­
nefrina sofrem acen tuada qu eda no cérebro. N o caso de outros
compostos, como os inibidores de oxidase m onoam ínica, ipro-
niazida e outros m ais novos, bloqueadores da enzima que des-
trói essas am inas, a concentração de serotonina e norepinefrina
se eleva no cérebro. Êsses grupos de drogas estão associados
a certas configurações características do com portam ento — a
reserpina com a depressão, os inibidores de oxidase m onoa­
m ínica com a ativação, excitação ou euforia — e m uito se
especulou, tentando relacionar as concentrações dessas am inas
biogênicas com tais tendências de ânim o específicas.
B asta dizer que, na atu al fase de nosso conhecimento, é d i­
fícil aceitar q u alq u er dessas hipóteses com o um a explicação de
todo o fenômeno. Com o a reserpina causa um a queda tanto na
norepinefrina e n a serotonina, e a iproniazida causará um a ele­
vação em am bas, é difícil atrib uir a ação dessas drogas a um a ou
outra dessas am inas. N a realidade, se reunirm os tôda a infor­
m ação de que dispom os, parece haver um a certa convergên­
cia predom inante que sugere, talvez, ser a queda na seroto­
n ina m ais intim am ente relacionada com a ação deprim ente da
reserpina, e a elevação da norepinefrina m ais intim am ente as­
sociada aos aspectos excitantes dos inibidores da oxidase m o­
noam ínica. H á m uitas exceções a essas regras gerais, e creio
ser ju sto dizerm os q u e no m om ento não conhecemos as bases
de ação das am inas no cérebro, nem sua influência no com­
portam ento, em bora tenham os razão p ara acreditar que pro-
vàvelm ente êsse p ap el é im portante. N ão temos informações
de qu e as am inas até agora descobertas — serotonina, norepi­
nefrina, triptam ina, gaba são as únicas, ou mesmo as m ais
im portantes. H á, provàvelm ente, dezenas de outras am inas no
108 O C O N TR O LE DA M E N T E

cérebro, m uitas das quais poderão ter relações muito, m ais ín­
tim as com o com portam ento e o estado de ân im o do que as
até agora isoladas e estudadas.
Considerem os o sentim ento sexual um a form a de estado
de ânim o — de certa form a êle a é, pois pelo sentim ento fe­
m inino ou m asculino podem os determ inar, em gran de parte,
as reduções, côm puto e com portam ento dos dados sensoriais
— e m encionem os as recentes experiências feitas por M ichael e
H arris no In stituto M audsley, em Londres, nas quais as subs­
tâncias quím icas produziram ou elim inaram o com portam ento
sexual. G atas castradas, qu e n ão evidenciam norm alm ente um
com portam ento fem inino, receberam estím ulos de pequenas
quantidades de horm ônios sexuais fem ininos introduzidas nos
locais adequados do cérebro, e revelaram configurações de com­
portam en to sexual nitidam ente fem ininas. Isso não acontece
quan do essas substâncias são introduzidas, nas mesm as q u an ti­
dades, em outras partes do cérebro, ou q u aisq u er outras partes
do corpo. Conhecemos tam bém outros trabalhos n a Suécia em
que as injeções de soluções de sal em certas partes d o hipo-
tálam o produziram um a reação típica de sêde em anim ais,
que passaram a beber grandes quan tid ades de água.
Chegam os, finalm ente, ao processo de arm azenagem de
inform ação no cérebro, qu e é sem dúvida um processo quím ico
ao contrário da versão bastante sim plificada de um a arm aze­
nagem física no gravador de fita. O Dr. H ydén já nos propor­
cionou um a hipótese im aginosa de com o se pode realizar a ar­
m azenagem de inform ação no cérebro, tendo por base a síntese
proteínica. Creio ser ju sto dizer que tal síntese representa hoje
o processo quím ico m ais am plam ente aceito, pelo q u al a in for­
m ação pode ser guard ad a no cérebro. A m olécula de proteína
é a única que conhecemos, atualm ente, encerrando bastante
flexibilidade e diversidade p a ra perm itir os códigos trem enda­
m ente com plexos que têm de ser conservados.
H á drogas que interferem com a síntese proteínica no
cérebro e experiências recentes, ain da não divulgadas, de adm i­
nistração dessas drogas a anim ais m ostraram q u e é possível re­
tardar o conhecimento de novas inform ações sem perturbar o
com portam ento do anim al ou sua capacidade de lem brar infor­
mações antigas. Isso apóia, em bora não prove, a hipótese de
que o arm azenam ento pela proteína, ou síntese proteínica, se
relaciona com o processo da m em ória.
A IN F L U Ê N C IA DAS DROGAS SO BRE O INDIVÍDUO 109

G ostaria de resum ir, assinalando que os efeitos das drogas


de que falam os, juntam en te com a m aioria dos efeitos de outras
drogas, são m oduladores do com portam ento ain da m uito im ­
perfeitos. N ão podem estabelecer nôvo com portam ento. A
razão é que o com portam ento hum ano é, em grande parte,
determ inado pela p róp ria inform ação arm azenada e presente
n a entrada sensorial. N ão conheço nenhum a form a pela q u al
um a droga possa m odificar a inform ação arm azenada, com
nenhum objetivo útil. Pode, naturalm ente, apagá-la, su pri­
mi-la, pode talvez acentuar certas partes dela, m as não é pro­
vável que se descubra um a droga capaz de afetar a inform ação
arm azenada de form a discrim inatória e significativa. M esmo
n a experiência relativa ao com portam ento sexual que m encio­
nei acim a, a substância quím ica, horm ônio sexual fem inino
sobre o cérebro, desperta um com portam ento instintivo e apren­
dido. N ão se consegue um com portam ento m asculino num a
gata castrada estim ulando o cérebro com o horm ônio sexual
m asculino, porqu e o cérebro do anim al não aprendeu a com­
portar-se como macho. O m áxim o que se pode esperar obter
é com portam ento fem inino num a gata.
N enhum a droga pode substituir as escolas, p ara transm i­
tir conhecim ento ou atitudes no cérebro das crianças. As dro­
gas podem em botar a mente, e quando a mente está pertur­
b ad a pela doença ou p ela confusão, podem aju d ar a estabilizá-
la, suprim in do a atividade anorm al. T alvez seja possível, a l­
gum dia, m elhorar a m ente aum entando a eficiência de al­
guns dos processos quím icos do cérebro — m as não devemos
ser m uito otim istas q u an to a essas possibilidades. Conheço
poucas drogas capazes de m elhorar as funções normais, mesmo
em outros aspectos do corpo.
Conhecemos m uito m ais sobre a ação do m úsculo e a ação
do coração, do que sôbre a ação do cérebro. H á m uito tempo
estudam os a farm acologia dêsses órgãos, mas é interessante no­
tar q u e não há ain d a um a droga capaz de m elhorar a função
do coração norm al ou que se possa dar, sem prejuízo, a um
atleta, com a garan tia de que m elhorará sua atuação. Em
outras palavras, nesses aspectos relativam ente sim ples da ação
corporal, as drogas parecem capazes de rem ediar defeitos, su­
prim in do atividades anorm ais ou acentuando a atividade nor­
m al, m as não parecem , ainda, capazes de m elhorar a atividade
norm al, Creio ser isso razoável, pois a natureza se ocupa do
110 o CONTROLE DA MENTE

hom em a algum as centenas de m ilhares de anos m ais do que


os farm acólogos, e tem tid o oportun idades m uito m aiores de
descobrir possibilidades.
M uito m ais poderosas do que as drogas, nos seus efeitos
sobre o com portam ento, são as inform ações adqu iridas através
da experiência e d a educação e arm azenadas no cérebro. N a ­
q uela área, ain d a hoje, estão as potencialidades do bem e do
m al. É por isso que espero ansiosam ente pelo que o restante
do sim pósio nos vai dizer. Parece-me que nas áreas das ciências
sociais e das ciências políticas temos m ecanism os m uito m ais
eficientes p ara o controle d a m ente do qu e n a farm acologia.
Se chegarm os a perm itir que se crie um a situação na q u al um a
droga possa ser distrib u ída a grandes populações com o objetivo
de lhes controlar a mente, parece-me que então o contrôle da
mente já estará, apenas por isso, realizado, e que a droga
em si não precisará ser m ais do que um m edicam ento inócuo,
destinado a sugestionar.
J a m es G. M il l e r

Reação Individual às Drogas

T
X homas J efferson foi um a das m uitas
pessoas que se preocuparam com o controle da mente. (1) Em
seu m onum ento, em W ashington, há as seguintes palavras:
“Ju rei perante o altar de D eus hostilidade eterna contra toda
form a de tiran ia sobre a m ente do hom em .” N o entanto, as
form as de tiran ia qu e controlavam a m ente hum ana n a época
de Jefferson eram m u ito diversas d o controle hoje possível.
Jefferson conhecia a escravidão e a degradação das m ulheres,
o ostracism o, tortura e a Inquisição, e tinha plena consciência
d o contrôle que era possível com o m achado do carrasco. E
m uito em bora compreendesse que a pena é m ais poderosa do
que a espada, não podería ter dem onstrado, como Stuart
Chase, (2) a tiran ia das palavras no pân tano sem ântico da
linguagem tom um . N em podería ter assinalado, como
W horf, (3) o contrôle q u e sôbre nosso com portam ento verbal
exerce a p róp ria estrutura da língua que falam os. N a época
de Franklin , com seu p ap agaio e sua chave, teria sido m ais
fantástico do que q u alq u er ficção científica de Ju les Verne
im agin ar a possível tiran ia exercida sôbre o cérebro pelo
eletrochoque e pelos elétrodos im plantados, a autotraição do
“ detector de m en tiras” , ou o im pacto sutil, m ais poderoso, de
num erosas drogas psicoativas. O que N oé e seus filhos des­
cobriram sôbre o álcool e o que M arco Polo disse ao m undo
ocidental sôbre os opiatos era tudo o que Jefferson sab ia de
psicofarm acologia.
Jefferson e os outros fundadores dos Estados U nidos não
tinham dúvidas sôbre a natureza do homem. P ara eles, era
112 O C O N TR O LE DA M E N T E

claro que o hom em tinh a certos direitos inalienáveis, em­


bora a C onstituição e a C arta de D ireitos não esclareçam se
alguns dos ataques hoje possíveis com as novas tecnologias
constituem infrações dêsses direitos inalienáveis. Assim como
o direito civil inglês faz do lar de cada hom em um castelo,
tam bém a tradição ju ríd ica anglo-saxônica garante ao homem
a intocável santidade da solidão, dentro de sua p rópria expe­
riência subjetiva. É a “paz” que não se ousa perturbar. Essa
experiência, ou “a m ente”, é, na expressão de W hitehead, (4)
o pólo subjetivo que constitui a visão interna do pólo ob je­
tivo, exterior. O m undo físico, inclusive o cérebro, as glân ­
dulas endocrínicas, e o resto do corpo, pertencem ao pólo
objetivo. Sua estrutura e funcionam ento podem ser exam i­
nados e experim entados. Com o o cérebro, sede da m ente h u ­
m ana, existe no m undo externo, está sujeito a im pactos do
exterior, e como nosso contrôle dos vários tipos de m an ipu la­
ção física e quím ica progrediu, a potência dêsses im pactos au ­
m entou.
O hom em é um sistem a aberto, com entradas, circuitos e
saídas de energia, form as específicas d a m atéria, inclusive vários
compostos quím icos, e inform ação, no sentido d a m oderna
teoria da inform ação m atem ática. (5) E ntre êsses fluxos, o
homem se com porta de form a a m anter em equilíbrio um
núm ero de variáveis em diferentes subsistem as de seu orga­
nismo total. Reconhecendo isso, podem os colocar em cate­
gorias as várias entradas de energia que afetam o seu com por­
tamento.
H á as transmissões de inform ação. A lgum as chegam ao
organism o através dos genes, inform ação essa que, parece, é
arm azenada n algum a configuração quím ica ou física d a subs­
tância conhecida como d n a . Aí estão os padrões herdados que
condicionam o desenvolvim ento individual. São as plantas da
construção d o cérebro, com seu labirin to de ligações e centros.
Êsses elementos herdados são tam bém im portantes n a função
de determ inação, como alguns dos padrões estáveis do com por­
tam ento relacionado com as espécies, e a que dam os o nome
de instinto. O conceito que Ju n g tinha da herança de certas
idéias, os arquétipos de um inconsciente d a raça (6) não nos
parecem hoje tão incríveis com o há um a década. P ara os con­
tem porâneos de Jefferson, o im pulso genético origin al era im u­
tável. H oje, porém , já está ficando claro que se a inform ação
genética é arm azenada em estruturas quím icas ou disposições fí­
A IN F L U E N C IA DAS DROGAS SO BRE O INDIVÍDUO 113

sicas de m oléculas quím icas, então as forças quím icas ou físi­


cas podem m odificar tais padrões. Q uais os resultados bizarros
que podem advir de tais m odificações, ainda não sabemos,
m as o teratom a, o óvulo frustrado, o m onstro anencefálico. e
outros defeitos congênitos dão-nos o que pensar.
H á, tam bém , a inform ação ad q u irid a através do sistem a
nervoso, após o nascim ento, e a que cham am os de experiência.
O nde é arm azenada a m em ória dessa experiên cia? T e m o
rna q u alq u er participação nessa arm azenagem ? É, como acre­
ditam certos autores, codificada como um a mensagem num a
fita m agnética nas fibrilas das células nervosas ? A b ioq u í­
m ica e biofísica estão hoje m ais próxim as da resposta a tais
perguntas do que há alguns anos, mas ain da não encontraram
as soluções. Com o, porém , a m em ória é arm azenada n algum a
parte, seja nos circuitos reverberativos ou em algum vestígio
m ais perm anente, pode, potencialm ente, ser alterada por meios
físicos ou quím icos.
Vendo o ser hum ano, portanto, como um sistem a delim i­
tado mas aberto, no espaço e no tempo, sabem os que através
de tal sistem a devem flu ir continuam ente a energia, a m atéria,
a inform ação genética e a inform ação experim ental. U m m í­
nim o irredutível de funções é necessário p ara a continuação da
vida, e todos os anim ais superiores têm subsistem as especializa­
dos, diferentes nas diversas espécies, que realizam essas ativida­
des. A inform ação flu i através dos m uitos canais do com plexo
sistem a de com unicações d o organism o p ara coordenar seus sub­
sistem as e perm itir que êle se adapte ao ambiente. A pesquisa
dem onstrou que deve haver um a taxa m ínim a de fluxo cons­
tante através do sistem a de inform ação, vinda do exterior, para
que êle esteja perfeitam ente ajustado. O m eio flutua, e as
grandes m odificações nos im pulsos por êle proporcionados po­
dem provocar tensões, produzindo o com portam ento patoló­
gico, seja q u an d o o im pulso-inform ação é inferior àquela taxa
(ou privação sen sorial) ou quando o im pulso-inform ação é
excessivo. (7) E m am bos os casos, as características funcionais
do sistem a nervoso podem ser alteradas.
D a m esm a form a, num único canal, ou grupo de canais,
um im pulso energético ou quím ico — um a droga — pode de­
form ar a m ensagem de m odo m ais ou menos específico, ou d i­
m inuir-lhe a precisão reduzindo a força de transmissão com a
interferência quím ica. A lterando as características físicas dos
114 O C O N T R O LE DA M E N T E

canais de com unicação neurais, seja pelas entradas de energia


como fluxos de eletricidade através dos elétrodos, ou entradas
de m atéria como os vários com postos quím icos, podem os afetar
as funções do cérebro e o com portam ento correlato.
Q uanto m ais conhecemos sobre o m etabolism o dessa rêde
de processam ento de inform ações cham ada cérebro — um vasto
com plexo de equilíbrios m útuos m antido por m uitas reações
de substratos com enzimas — m ais percebem os com o em m uitos
pontos seria possível fazer com que drogas participassem dessas
reações, bloqueando-as, alterando sua velocidade, ou deform an­
do-as de q u alq u er outro m odo. H á m uitos m odos de fazer com
que os diabinhos m oleculares se ponham a agir. Q uando a
neuropsicofarm acologia ap rofu n d ar o conhecim ento qu e tem
de tudo isso, será possível que determ inadas categorias de con-
portam ento possam ser influenciadas de form a previsível pela
adm inistração de certas quan tid ades de com postos adequados,
que m odificam as características funcionais em locais parti­
culares d a rêde de neurônios. N ão devemos ignorar, apressa­
dam ente, a fôrça atu al dessa técnica farm acológica p ara a pes­
quisa fundam ental sobre o com portam ento, bem como sua
influência potencial, qu an d o nosso conhecimento estiver m uito
m ais avançado, no controle d a ação e da experiência hum ana.
As experiências p ara dem onstrar o m últiplo efeito possível das
drogas em nossos pensam entos, sentim entos e ações continuam
sendo realizadas.
D uran te longo tem po o m undo supôs que os indivíduos
reagiam de form a bastante diversa em relação às drogas. De
Quincey, porém , nas Confissões de um Comedor de Õfrio, (8)
inform ava que podia beber m ais de um a p in ta de láudan o —
um a tintura de óp io a 10% — diàriam ente. Isso seria ap ro xi­
m adam ente equivalente a 5 gram as de m orfina por dia, ou
como disse êle, a dose com um de hospital p ara 320 pacientes
adultos. H á quem possa tom ar dez coquetéis num a festa e sair
dirigin do seu carro, enquanto outros perdem o conhecim ento
depois de tom ar dois. E m bora a m aioria das pessoas sofra
efeitos sedativos com o nem butal, há quem se excite. Insig­
nificantes partículas de poeira, ou de pólen, que não afetam a
m aioria das pessoas, podem estim ular os centros nervosos do
espirro de algum as poucas pessoas, provocando espasm os inten­
sos. Q uais as causas dessas diferenças in dividuais d e com por­
tam ento ?
A IN F L U E N C IA DAS DROGAS SO BR E O INDIVÍDUO 115

P ara começar, há vários fatôres constitucionais, como por


exem plo, o sexo. Os investigadores m ostraram que os homens
e as m ulheres reagem de form a diferentes às drogas. M arquis,
Kelly, M iller, G erard e R ap p ort, (9) por exem plos, verificaram
que doses de 800 m iligram as de m eprobam ato aum entava a
atividade vasom otora e o suor nas fêmeas, m as não nos machos.
Em relação à população total, parece não haver efeitos signi­
ficativos de drogas sôbre o suor, m as quando essa população
era dividida pelo sexo, surgia um a acentuada diferença.
H á tam bém im portantes diferenças de idade. A reação
das crianças aos barbituratos, por exem plo, é totalm ente d i­
versa d a reação dos adultos, mesmo quan d o as dosagens são ade­
qu adas ao pêso corporal.
O fator do pêso corporal é im portante. N ão havendo d i­
ferença nas dem ais condições, um homem de 150 quilos pode
absorver doses m uito m aiores de drogas em seus volumosos
depósitos de gordura, e em outras partes do corpo, do que um
hom em de 50 quilos.
As drogas tam bém podem afetar atipicam ente os in diví­
duos devido às alegrias. U m tranqülizador que não teve efeitos
desfavoráveis, exceto um torpor ocasional, em 10 000 pacientes,
pode causar ao 10 001.° m anchas purpúreas por todo o corpo,
ou pode p reju d icar de form a séria e perm anente o funciona­
m ento de seu fígado. A trás dêsses efeitos m arginais estão as
alterações n a sensibilidade e nas experiências sensoriais ante­
riores do paciente.
H á, portanto, efeitos idiossinerásicos, como as conhecidas
ações do nem butal e seconal sôbre certos pacientes que tomam
um a cápsula pretendendo ter um sono tranqüilo, e ao invés
disso passam toda a noite acordados. T a is reações podem estar
ligadas à interação entre o estado m etabólico particular do sis­
tem a nervoso no m om ento e o nível da droga, m as o meca­
nism o através do q u al isso se processa não é perfeitam ente co­
nhecido.
A lém dessas explicações constitucionais p ara os desvios
entre um hom em e outro n a reação às drogas, outras causas
ocorrem durante a vida. U m a delas é o conhecido fenôm eno
d a tolerância pelo uso continuado e crescente, com o tempo.
O fum an te pode consum ir doze charutos por dia, m as o não-
-fum ante sentirá náuseas com algum as baforadas de um sim ples
116 O C O N T R O LE DA M E N T E

cigarro. A. E. H ousm an ju lg o u que a tolerância às drogas


merecia um poem a (10):

H a v i a u m r e i n o O r ie n t e ,
o n d e é c o m u m , n u m b an q u e te ,
a c a r n e e o v in h o e n v e n e n a r ,
p a r a c o m isso o s r e is m a t a r .
J u n t o u o r e i t u d o q u e a te r r a
d e v e n e n o so e m si e n c e r r a ;
e d i a a d i a o fo i p r o v a n d o
e à m o r te a o s p o u c o s sc h a b it u a n d o .
E c a lm o , r in d o , c o m a le g r ia
a o s b r in d e s s e m p r e r e s p o n d ia .
D e r a m - lh e a r s ê n ic o n a c a r n e ,
e ê le a c o m e u c o m t ô d a a r te .
E s t r i q u in i n a n o s e u v in h o ,
e ê le o b e b e u c o m u m so r r iso .
C o m e u e b e b e u e n q u a n t o o lh a v a m
e t o d o s p á lid o s fic a v a m .
— E s s a h is t ó r i a a lg u é m c o n to u .
M it r íd a t e s , s ó o te m p o m a to u .

Com o os cavalos que pastam próxim o às fábricas cie arsê­


nico, M itrídates desenvolvera a tolerância ao arsênico, estriqui­
nina e outras delícias*
O utra razão p ara as diferentes reações às drogas está nas
patologias que surgem durante a vida. C in qüen ta unidades
de insulina não causam no indivíduo norm al a m esm a reação
dos diabéticos. Podem provocar tonteiras e confusão do cho­
que insulínico nas pessoas norm ais, m as n ão têm efeito sôbre
a experiência subjetiva de um paciente que sofra de um a pro­
dução in ad eq u ad a de in sulin a e a tome sim plesm ente para
m anter seu equilíbrio fisiológico. Quem está bom não nota
nenhum a m odificação depois de tom ar 'uma aspirina, m as
quem está doente poderá m elhorar d a dor de cabeça. D a
m esm a form a, verificam os pela pesquisa que certos tranqüili-
zantes não agem sôbre pessoas norm ais, ao passo que a m esm a
dose freqüentem ente alivia a an gústia nos pacientes neuró­
ticos.
O caráter d a patologia p siquiátrica tam bém pode m odi­
ficar a reação às drogas, de paciente a paciente, H im w ich
disse (11):
A IN F L U E N C IA DAS DROGAS SO BRE O INDIVÍDUO 117

U m p a c ie n t e re c e b e o m a io r b e n e fíc io d e c e rto a g e n te t r a n q ü iliz a d o r


e u m s e g u n d o p a c ie n t e , d e u m o u t r o ....................A lg u m a s d r o g a s c o m o o
a z a c ic lo n o l p o d e m p r o v o c a r m e lh o r a d a p t a ç ã o s o c ia l, d e fo r m a q u e a
a t m o s f e r a d o h o s p i t a l se t o r n a m a is c o r d ia l, e s p e c ia lm e n te e n tr e p a c ie n t e s
a p e n a s le v e m e n te p e r t u r b a d o s . A e sc o lh a d e u m a d r o g a t r a n q ü iliz a n t e
d e v e s e r f e it a e m p lr ic a m e n t e — q u a l a m e lh o r p a r a c a d a p a c ie n t e
só é p o s s ív e l s a b e r p e lo p r o c e sso d e e lim in a ç ã o .
A s m e lh o r ia s m a is d r a m á t ic a s s ã o c o n s ta n te s n o s p r im e ir o s a t a q u e s
a g u d o s o u n o s p a c ie n t e s c rô n ic o s q u e d e s e n v o lv e r a m u m a e x a c e r b a ç ã o
a g u d a d e su a doen ça. E m n o sso h o s p it a l, p o r é m , a s d r o g a s t r a n q u il i ­
z a n te s t a m b é m b e n e f ic ia r a m a c e n t u a d a m e n t e o s p a c ie n t e s c o m e s q u iz o ­
f r e n ia d e lo n g a d u r a ç ã o ..................M a s a s m e lh o r ia s fo r a m c o n s t a t a d a s p r in ­
c ip a lm e n t e e m p a c ie n t e s c o m p r o c e sso s e s q u iz o fr ê n ic o s a t iv o s e e v id e n ­
te s — o s q u e t in h a m a lu c in a ç õ e s e d e lír io s , o u e r a m h ip e r a t iv o s , a g it a d o s
e te n so s. O s e sq u iz o fr ê n ic o s b lo q u e a d o s , r e t a r d a d o s e a p á t ic o s s ã o o s m a is
d ifíc e is d e se r e m a j u d a d o s . . .
T a m b é m o s p a c ie n t e s s e n is q u e s ã o ir r it á v e is , b r ig õ e s e a p r e e n s iv o s
m o s t r a m m e lh o r ia s m a is a c e n t u a d a s q u e o s p a c ie n t e s c o m s in t o m a s n e g a ­
tiv o s, a p á t ic o s , a l h e i a d o s ................ T a m b é m a s d e p r e ss õ e s d e s a c o m p a n h a d a s
d e a n g ú s t ia e te n s ã o s ã o m e n o s su sc e tív e is d e m e lh o r a r c o m o a g e n te
p s ic o fa r m a c o ló g ic o .

À m edida que se acum ulam os dados das pesquisas, au ­


m entam os indícios de que as diferenças de personalidades ex­
plicam m uitas variações nas reações às drogas, particular­
mente as que são psicoativas. R esum in do essas pesquisas, disse
U h r (12):
K o r n e t s k y e H u m p h r i e s (13) e s ta b e le c e r a m re la ç õ e s e n tr e q u a t r o su-
b e s c a la s d o L e v a n t a m e n t o M u lt ifá s ic o d a P e r s o n a lid a d e , d e M in n e s o ta , c o m
a t u a ç ã o d e p a c i e n t e s ...................A p s ic a s t e n ia e a e s c a la d e d e p r e s s ã o p re -
v ia m , c a d a q u a l , m o d ific a ç õ e s n o s r e la t ó r io s s u b je t iv o s d o e fe it o d e 2 0 0
m ilig r a m a s d e d o r p r o m a z i n a ....................K o r n e t s k y e H u m p h r i e s (14) d e r a m
m a is in d ic a ç õ e s d e d ife r e n ç a s e n t r e p a c ie n t e s n a s s u a s re a ç õ e s g e r a is à s
d ro g a s.
K e lly , M ille r , M a r q u is , G e r a r d e U h r , (1 5 ) u s a n d o 6 8 v a r iá v e is d e
p e r s o n a lid a d e o b je t i v a m e n t e m e n s u r á v e is .................... d e t e r m in a r a m p r im e ir o
s u a s in te r - r e la ç õ e s p o r m e io d e u m a a n á lis e d e f a t o r , e e m s e g u id a c o r r e la ­
c io n a r a m 2 0 v a r iá v e is s e le c io n a d a s c o m o s e fe it o s d e d r o g a s e m 4 0 d a s
m e d id a s d e c o m p o r t a m e n t o t o m a d a s . N ã o e n c o n tr a r a m c o r r e la ç õ e s m u it o
m a is s ig n ific a t i v a s d o q u e se p o d e r ía e s p e r a r c o n ta n d o a p e n a s c o m a
s o r t e e p o r is s o c o n c lu ír a m q u e a s r e la ç õ e s in d i v i d u a i s s ig n ific a t iv a s n ã o
p o d ia m s e r e s t a b e le c id a s , s e r v in d o p o r é m p r o v e ito s a m e n t e d e h ip ó te s e p a r a
e s tu d o s d e c o m p r o v a ç ã o . K le r m a n , D iM a s c io , R in k e l e G r e e n b la t t (16)
d e t e r m in a r a m q u e a a ç ã o s e d a t iv a d e d r o g a s a m e a ç a v a o ego n o s p a c ie n t e s
a t lé tic o s , e x t r a p u n it i v o s , m a s t in h a u m e f e it o d e r e d u z ir a a n g ú s t ia n o s
p a c ie n t e s p a s s iv o s , i n t r a p u n i t iv o s e a n g u s t ia d o s .
E lls w o r t h e C la r k (1 7 ) v e r if ic a r a m q u e a v a r i a b i lid a d e d e s u o r p a l ­
m a r in d ic a v a , s ig n ific a t iv a m e n t e , m e lh o r ia s u b s e q ü e n t e n o s ín d ic e s d e c o m ­
p o r t a m e n t o d e p a c ie n t e s q u e t o m a r a m r e s e r p in a , d o r p r o m a z in a o u a m ­
118 O C O N T R O LE DA M E N T E

b o s. H e lle r , W a lt o n e B la c k (1 8 ) c o m p r o v a r a m q u e a d iv is ã o d o s p a c ie n t e s
e m d o is t ip o s d e p e r s o n a li d a d e — o s h is t é r ic o s e o s d is t ím ic o s ( a n g u s t ia d o s )
d e E y se n c k — lh e s p e r m it i a s a b e r q u a i s o s p a c ie n t e s q u e s o f r e r ia m r e d u ­
ç ã o d e te n sã o ( m e d id a p e lo s ite n s e s c o lh id o s n o L e v a n t a m e n t o M u lt ifá s ic o
d a P e r s o n a lid a d e , d e M in n e s o ta ), e m c o n s e q ü ê n c ia d o m e p r o b a m a t o . N ã o
c o n s t a t a r a m e fe it o s d e s s a d rogai e m t o d o o g r u p o d e p a c ie n t e s e n e n h u m
e fe it o d e n t r o d o s g r u p o s d a E s c a la d e A n s ie d a d e M a n ife s t a , d e T a y l o r ,
o u n a e s c a la d a d o r d e c a b e ç a .
U m a p e r c e n t a g e m s u r p r e e n d e n t e m e n t e g r a n d e d o s e s t u d o s q u e te n ­
t a r a m c o r r e la c io n a r a p e r s o n a li d a d e d o p a c ie n t e c o m s u a r e a ç ã o a o t r a t a ­
m e n to p e la s d r o g a s d e u r e s u lt a d o s p o s itiv o s . A s d ife r e n ç a s e n tr e p a c ie n t e s
p o d e r ia m c o n s tit u ir , n o f u t u r o , p o n t o c r u c ia l n o e s tu d o d e r e s u lt a d o s o p o s ­
to s d e la b o r a t ó r io s d ife r e n te s , o n d e , in e v it à v e lm e n t e , p o p u la ç õ e s d if e r e n ­
tes s ã o t r a t a d a s e e x a m in a d a s .

O utros pesquisadores verificaram que dividindo os paci­


entes em têrmos de suas características de personalidade escla­
reciam os efeitos das drogas. Schneider (19) descobriu num es­
tudo que ao separar seus pacientes em dois grupos distintos
pelo nível de funcionam ento num dia de controle — os que
apresentavam reações sim páticas centrais aum entadas versus
reações sim páticas centrais reduzidas, os que se condicionam
fàcilm ente versus os que n ão se condicionam e os que reagem
rápidos versus os qu e reagem lentos — o volum e das m odifi­
cações de atuações depois da adm inistração das drogas tinha
relações clara com o nível de funcionam ento antes d a droga.
Shagass e K eren yi(20) determ inaram que o um bral do efeito
sedativo do am obarbital, ou seja, a dosagem intravenosa n a
q u al a velocidade é aum en tada e a on da cerebral frontal é
claram ente intensificada, tinha correlação evidente com a in-
troversão, m edida pelas escalas S e R de G uilford e com a ten­
dência histérico-obsessional.
K ubie, (21) pelas suas observações clínicas, deduziu as rela­
ções entre o que cham a de “posição em ocional central da per-
son alidad e” e as reações a um a droga psicoativa como o álcool.
Diz êle:
A m e s m a d r o g a a f e t a o s h o m e n s d e f o r m a s m u i t o d ife r e n t e s o u p o d e
a lt e r a r u m h o m e m e m s e n tid o s d iv e r s o s e m o c a s iõ e s d ife r e n t e s — a s d if e ­
r e n ç a s q u e to d o s c o n h e c e m o s e n t r e o h o m e m q u e b r i g a q u a n d o b ê b a d o
e o d e ia e d e s c o n fia d e to d o s, t o r n a n d o - s e i s o la c io n is t a e o h o m e m q u e
r i e b r in c a e se t o r n a g r e g á r io ; o h o m e m q u e c h o r a s ô b r e s u a c e r v e ja ,
o h o m e m q u e se t o r n a e r ó tic o e o h o m e m q u e se t o r n a i m p o t e n te , o
h o m e m q u e se t o r n a h e t e r o s s e x u a l e o h o m e m q u e se t o r n a h o m o s s e x u a l
o u a in d a o h o m e m q u e so b a in flu ê n c ia d o á lc o o l p a s s a d e u m a d e s s a s
fa s e s p a r a o u t r a . D a m e s m a f o r m a o u t r a s d r o g a s p o d e m l i b e r a r o u t o r n a r
m a n ife s t a s c e r t a s p o s iç õ e s a f e t iv a s c e n t r a is la t e n te s .
A IN F L U Ê N C IA DAS DROGAS SO BR E O INDIVÍDUO 119

Q uando o superego, p o r vêzes definido como a parte da


personalidade que é solúvel no álcool, relaxa sua ação inibi-
dora sob o efeito de drogas, as diferenças entre um hom em
e outro se tom am evidentes. Freqüentem ente, as pessoas in i­
bidas que não podem , em circunstâncias ordinárias expressar
seus sentim entos, usam drogas como o álcool ou o sódio pen-
total em pequenas doses com o desculpa p ara atitudes m uito
m ais audaciosas do que o álcool ou o pentotal ingeridos ju s­
tificariam .
A inform ação arm azenada n a m em ória dos pacientes pela
experiência tem m uito m ais relação com os sintom as especí­
ficos produzidos pelas drogas psicoativas. Em bora um psico-
tom im ético como o LSD-25 possa provocar a psicose tóxica
em qu alq u er homem, as fantasias que desperta, de form as di­
versas, em cada pessoa, devido à sua experiência anterior, são
únicas. É por isso tam bém que os pacientes reagem de form a
diversa ao mesmo gru po de testes de Rorschach. E m conse-
qüência, como G ottschalk e seus colaboradores m ostram , (22)
a introspecção e a associação livre podem ser usadas como ins­
trum entos de alta sensibilidade p ara an alisar os efeitos das
drogas. Isso, porém , só ocorre se o observador estiver treinado
na auto-observação. O entrevistador pede ao paciente para
discutir q u alq u er experiência interessante ou dram ática de
su a vida e em seguida registra a resposta no gravador, estu­
dan do depois a transcrição datilografada. A análise detalha­
d a de am ostras dêsse discurso proporciona índices razoàvel-
m ente precisos d a intensidade relativa de um estado psicoló­
gico com plexo ou do grau de alienação social e desorganização
pessoal do paciente. T am b ém o ritm o com que as palavras
são ditas na livre associação difere significativam ente na adm i­
nistração de um a droga estim ulante como o pip rad ol e a adm i­
nistração de um a droga inócua.
Os sonhos são outra form a de experiência subjetiva cujo
conteúdo é determ inado pelas lem branças armazenadas. Whit-
m an, Pierce e M aas (23) com pararam os sonhos tidos sem a
ingestão de drogas e os ocorridos sob o m eprobam ato. H ouve
a c e n tu a d a s, diferenças in dividuais entre os sonhos de vários
pacientes, m as tanto êstes quan to os pesquisadores constataram
que os sonhos tinham um m aior sentido de movimento e um
m aior sentim ento de dependência com o m eprobam ato do que
qu an d o nenhum a droga era m inistrada.
120 O C O N T R O LE DA M E N T E

U m a das m ais conhecidas diferenças de personalidade en­


tre os pacientes é a distinção entre aqueles cu ja reação é m o­
dificada pelos rem édios inócuos e os qu e n ão sofrem tal in flu ­
ência. N ão há dúvida de que êsse fenôm eno ocorre. U m
estudo de Beecher sobre o assunto (24) inform ava que os re­
m édios inócuos têm um efeito m édio de 32% . T am bém podem
apresentar efeitos laterais tóxicos e subjetivos. K urland, num a
pequen a am ostra de estudos psiquiátricos (25) descobriu que a
reatividade provocada pela droga inócua varia entre 4 e 52% .
N ão encontrou nenhum a pesquisa sobre a utilização de drogas
inócuas em que n ão ocorresse algum a m argem de atividade.
Lasagn a, Von Felsinger e Beecher (26) descobriram que as rea­
ções atípicas ao m edicam ento inócuo e ao tratam ento pelas
drogas surgiam com m ais freqüência em pessoas cu ja estrutura
de personalidade era in ad eq u ad a p ara su portar as tensões diá­
rias, e que eram im pulsivas, hostis, angustiadas e temerosas de
perder o autocontrole. T ro u to n (27) verificou que os paci­
entes sensíveis à droga inócua eram m ais velhos, freqüenta-
dores conscientes da igreja, com m ais aceitação d a dor e do so­
frim ento do que os não-sensíveis de todo e os testes de Rors-
chach indicaram que os sensíveis eram menos m aduros e m ais
dependentes dos estím ulos externos do que os não-sensíveis. J u l­
gou que os introvertidos tendem a ad q u irir reações ao m edi­
cam ento inócuo com m ais facilidad e e perdem essa reação m ais
prontam ente do que os extrovertidos. Fischer e D lin (28) estu­
daram 74 pacientes com sintom as psicossom áticos, classificados
com o psicósicos, neuróticos severos e neuróticos brandos. Os
que reagiam negativam ente à droga inócua excederam aos qu e
reagiam positivam ente no gru po psicósico, sendo aproxim ada­
m ente iguais em núm ero aos do grupo de neuróticos severos e
os que reagiam positivam ente eram m ais num erosos no grupo
dos neuróticos brandos.
É evidente, portanto, que a personalidade e as diferenças
de diagnóstico têm profu n d a significação ao se explicar porque
várias pessoas reagem de form as diferentes aos m edicam entos
inócuos.
D e tudo isso, pode-se concluir que tanto os fatôres consti­
tucionais como as influências adqu iridas durante a vida, in­
clusive as sensibilidades, tolerâncias e diferenças de personali­
dade contribuem p ara a diversidade dos efeitos das drogas sô-
bre cada um de nós. T a is influências n ão estão sob nosso con-
A IN F L U E N C IA DAS DROGAS SO BRE O INDIVÍDUO 121

trôle voluntário. N ão se trata de um a questão de vontade.


U m paciente neurótico tom ou um tablete de clorprom azina
e um a g arrafa de cerveja e em seguida dirigiu seu carro im-
prudentem ente. T e r ia desejado infrin gir a lei, seria culpado
de dirigir com perigo p ara o u tro s? Su a defesa alegou q u e a
droga e o álcool se haviam com binado p ara provocar resul­
tados im previstos. A essa com binação o cientista podería acres­
centar a consideração dos determ inantes constitucionais e expe-
rienciais de sua personalidade. A ciência e o direito ain da não
chegaram a um acôrdo sôbre com o tratar esses casos e, como
poderem os ver, êsse desentendim ento se reflete de form a dra­
m ática nos regulam entos de conduta p ara os m ilitares quando
prisioneiros de guerra.
M ais fundam ental do que as variedades de reações provo­
cadas pelas drogas em cada pessoa é o fato de que, num sen­
tido profundo, não há diferenças entre nós. N o film e Quero
Viver, a m ulher condenada estava n a câm ara de gás quando
um dos guardas, procurando ser hum ano, disse-lhe o que de­
via fazer depois que as bolas quím icas fossem lançadas no
ácido. “R espire profundam ente, assim será m ais fácil” , disse
êle. A prisioneira olhou-o cinicam ente e indagou: “ Com o é
que você s a b e ? ” O gu ard a concluira, pela observação fre-
qüente, que em tais situações todos são iguais. Os navios bri­
tânicos no século X V I sem pre ficavam longe da costa o mesmo
núm ero de dias, sem frutas ou verduras frescas, quando seus
m arinheiros com eçavam a apresentar o escorbuto. A deficiên­
cia de ácido ascórbico se evidenciava em todos, capitão e tri­
pulação. Cinco m inutos sem oxigênio e ficamos inconscientes.
C inco m inutos debaixo d ’água e estamos afogados. O cérebro
é um órgão delicado, protegido pelo crânio, pelo fluido em
que flu tu a e por artérias duplas que o abastecem de oxigênio.
M as não tem m ecanism os de defesa contra o cianido ou a ano-
x ia, contra os im pactos dos tranqüilizantes, dos estim ulantes ou
dos psicotom im éticos.
Q ue significa tudo isso p ara os que pensam em utilizar-se
de drogas p ara arrancar inform ações, confissões ou m odificar
a opin ião dos outros ? O s prisioneiros de guerra são reserva­
tórios potenciais de inform ações que, se com unicadas ao ini­
m igo, poderão beneficiá-lo. Suspeitos de crimes podem ter
arm azenadas inform ações que a polícia deseja. Podem as dro­
ga s psicoativas a ju d a r na obtenção dessas informações ? Gotts-
122 O C O N T R O LE DA M E N T E

chalk, (29) que exam inou cuidadosam ente o que existe sôbre
o problem a, afirm a:
“Estudos e relatórios que tratam da validade do m aterial
extraído de inform antes relutantes, sejam crim inosos ou paci­
entes sob experiência, indicam que não existe nenhum ‘sôro da
verdade' que possa forçar o inform ante a relatar tudo o que
sabe. As provas experim entais e clínicas indicam que não só
o psicopata crim inoso inveterado m ente ou deform a a verdade
sob a in flu ên cia d a droga, m as tam bém que o in divíduo rela­
tivam ente norm al e bem ad ap tad o pode, sob o efeito de certas
drogas, disfarçar com êxito dados exatos. O s indivíduos menos
bem ajustados, os perseguidos pelo com plexo de cu lp a ou de­
pressão ou os sugestionáveis que são influenciáveis e se am e­
drontam com facilidade, todos êsses são m ais passíveis de re­
velar informações. M as podem , por vêzes, deform ar inconscien­
temente a inform ação e apresentar fantasias como fatos. A
ação anestesiante da droga, como n a narcose com barbituratos,
pode interferir na função cerebral e provocar a apresentação de
m aterial de fantasia como se fôsse fato ou alterar as form as de
verbalização, de m odo a torná-las ininteligíveis. Seria m uito di­
fícil, nessas circunstâncias, que o interrogador distinguisse
qu an d o o conteúdo verbal passa d a realidade p ara a fantasia,
q u an d o o inform ante está sim ulando um a narcose profunda,
quais as histórias contadas sob narcose são verdadeiras e q u an ­
do a falta de inform ação im portante, em alguém sob a in flu ­
ência de droga, pode significar que o inform ante nada tem
a dizer.
O s b a r b i t u r a t o s tê m t id o s u a u t il i d a d e p a r a se c o m p r o v a r s e a p e s s o a
fin g e i g n o r a r u m i d i o m a . . .
S e m c o n tr o le a d e q u a d o d e s e u e s tu d o , u m a u t o r p r e t e n d e q u e a
m e t a n fe t a m in a p r o d u z u m a n e c e s s id a d e t ã o fo r t e d e f a l a r q u e o c rim in o s o
q u e s im u la a a m n é s ia o u o c u lt a in fo r m a ç õ e s v ita is n ã o se p o d e c o n te r , e
a c a b a se t r a i n d o . . .
A s d r o g a s p s ic o to m im é t ic a s e a lu c i n o g ê n i c a s ................. p o d e m t e n d e r
a p r o d u z ir u m e s ta d o d e a n g ú s t i a o u t e r r o r n a m a io r i a d o s p a c ie n t e s e
a p r o v o c a r d e fo r m a ç õ e s d a p e r c e p ç ã o e d e s o r ie n ta ç ã o p s ic ó s ic a . Seu u so
c o n s t it u i u m a a m e a ç a d e f in i d a a o s p a c ie n t e s m e n o s v e r s a d o s e m m e d ic in a ,
is to é, c o n s t it u i u m a a m e a ç a d e to r n á - lo s lo u c o s. Q u a n d o o p a c ie n t e n ã o
e s tá s o b a in flu ê n c ia d e t a is d r o g a s , é p o s s ív e l a r r a n c a r d ê le in fo r m a ç õ e s
v it a is , c o m o p r e ç o p a r a c e ssa r a a p lic a ç ã o d a d r o g a . O p a c ie n t e e s c la r e ­
c id o , p o r é m , n ã o p r e c is a r ia se n tir - s e a m e a ç a d o , p o i s o e fe it o d ê sse s a g e n te s
a lu c in a t ó r io s é p a s s a g e ir o n a s p e s s o a s n o r m a i s . . .
H á p o s s i b ili d a d e d e q u e o s t r a n q ü iliz a d o r e s p o s s a m t e r u t ilid a d e
em in fo r m a n t e s e s c o lh id o s q u e s e ja m a lt a m e n t e a g i t a d o s e p e r t u r b a d o s ,
A IN F L U E N C IA DAS DROGAS SO BR E O INDIVÍDUO 123

c q u e p o d e r ía m d a r a in fo r m a ç ã o q u e p r e fe r ir ía m c o n se rv a r, e m t r o c a d a
t r a n q ü ilid a d e q u e e x p e r im e n t a m c o m t a l s e d a t iv o . S o b a in flu ê n c ia d e
t a l d r o g a , o in fo r m a n t e m e n o s p e r t u r b a d o e m o c io n a lm e n t e p o d e r ia c o n s ­
t a t a r q u e p o d e d o m in a r s u a s a n s ie d a d e s e m a n t e r s u a r e s o lu ç ã o d e c o n ­
t in u a r e m s ilê n c io . T u d o i s s o n ã o p a s s a , p o r é m , d e e s p e c u la ç ã o a e x ig ir
p e s q u is a s e e x p e r iê n c ia s .

G ottschalk relaciona outras utilizações possíveis p ara as


drogas, em tal situação, e conclui:
C o m b in a d a s c o m a s m u i t a s o u t r a s te n sõ e s q u e o c a t iv e ir o r e ­
p r e s e n t a p a r a o i n d iv íd u o , a s d r o g a s p o d e m c o n s t it u ir fa t ô r e s d e s t in a d o s
a e n fr a q u e c e r a r e s is tê n c ia d e u m in fo r m a n t e p o t e n c ia l. M a s , p o r m u it o s
m o t iv o s , a u t iliz a ç ã o d e d r o g a s p e lo in q u i s id o r n ã o lh e a s s e g u r a r e s u lt a d o s
v á lid o s. O s e fe it o s d a s d r o g a s d e p e n d e m e m g r a n d e p a r t e d a c o n s t it u i­
ç ã o d a p e r s o n a li d a d e e d a s it u a ç ã o fís ic a d o in fo r m a n t e , e d a s r e la ç õ e s q u e
o in q u is id o r p u d e r e s ta b e le c e r c o m ê l e .................. M e sm o n a s c o n d iç õ e s m a is
f a v o r á v e is a in fo r m a ç ã o o b t i d a p o d e r ia e s t a r c o n t a m in a d a p e la f a n t a s ia ,
d e f o r m a ç ã o e m e n t ir a , e s p e c ia lm e n te q u a n d o se a p lic a m a s d r o g a s a l u d -
n o g ê n ic a s o u s e d a t iv a s .

O Presidente Eisenhower determ inou oficialm ente, por um


decreto de 17 de agosto de 1955 (30) que, se capturado, o p ri­
sioneiro de guerra norte-am ericano só devia inform ar seu nome,
pôsto, núm ero e d ata do nascimento. Determinou-se que essa
era a alternativa p ara: 1) perm anecer em silêncio; 2) expres-
sar-se livrem ente sobre qu alq u er coisa, exceto informações m i­
litares que pudessem aju d ar o inim igo ou observações des­
leais ou traiçoeiras; 3) dizer qu alq u er coisa que desejasse, fi­
cando o govêrno incum bido de divulgar am plam ente que ne­
nhum a declaração de seus prisioneiros de guerra, controlados
pelo inim igo, pode ser tida como válida, porque prestada sob
pressão.
A o térm ino da guerra da Coréia, a opinião pública am e­
ricana ficou surprêsa ao saber que alguns dos soldados am eri­
canos presos capitularam à ideologia com unista. Com um a
tradição de um N ath an H ales, ( * ) que desejava ter m ais de
um a vida p ara d ar ao seu país, e de um a M arinha onde ja ­
m ais houve um m otim , o público am ericano se envergonhou
daquele fato. As forças arm adas não se entendiam sobre a
m elhor form a de tratar o problem a. O general W illiam P.
D ean adm itiu ter considerado, quan d o na prisão, a possibili­
dade de suicídio, e qu e assinara dois docum entos que poderíam

(*) Patriota americano executado pelos inglêses durante a Revolução Ameri­


cana. (N, do T.)
124 O C O N TR O LE DA M E N T E

ser usados pelo inim igo com objetivos propagandísticos. Disse


que preferia m orrer a ser novam ente aprision ado pelos norte-
-coreanos — e não obstante, recebeu do Presidente a M edalha
do Congresso. O coronel Schwable, dos fuzileiros navais, po r
outro lado, foi subm etido à corte m arcial p or ter assinado um a
única confissão.
D epois disso, tivem os o decreto presidencial m andando a
cada prisioneiro “resistir a todos os esforços inim igos contra
êle” . O m ilitar am ericano devia ter a resistência e a fôrça p ara
suportar q u alqu er tentativa subversiva. Até que ponto isso
se harm oniza com as tendências da psicofarm acologia ?
Olds (31) m ostrou que os ratos pressionarão ávida e repeti­
dam ente durante m inutos ou horas, um a haste que injeta em
seus cérebros um a quan tid ade m ínim a de várias substâncias ati-
vantes. Preferem fazer isso a comer, beber ou satisfazer-se sexu­
almente, portanto o prazer que experim entam deve ser grande.
N ão sabemos com certeza se os sêres hum anos reagiriam do
mesmo m odo que os anim ais. M as supom os que sim. O que fa­
ria um recruta am ericano, se prêso, em circunstâncias seme­
lhantes ?
As organizações farm acêuticas continuam pesquisando n o­
vas drogas p ara acrescentar à nossa atualm ente variada coleção
de com postos, cada q u al de efeito diferente, cada q u al capaz
de estim ular ou deprim ir um subsistem a especial. Os m étodos
de tortura, de arrancar inform ações, de provocar com porta­
m entos previsíveis, estão-se tom an do cada vez m ais sutis e efi­
cientes. Provàvelm ente con tinuarão a ser aperfeiçoados.
N osso atu al código de com portam ento das forças m ilitares
não está preparad o p ara o progresso técnico que pode ser obti­
do n a lavagem do cérebro, nem o está o conceito ético h ab i­
tu al do hom em comum. Felizm ente, estam os e é possível que
continuem os durante alguns anos, na idade do T N T da lava­
gem do cérebro, e não nos um brais de um a possível idade
atôm ica nesse setor.
U m oficial não ordenaria a um soldado anestesiado que
ficasse em posição de sentido. É m ais do que evidente ao bom
senso que, por patriota que fosse, êle não o podería. A situ a­
ção poderá não ser m uito diferente, nos m étodos quím icos fu ­
turos de lavagem do cérebro. A m agnitude de sua influência
sobre as ações poderá ser tão grande a ponto de an ular q u al­
quer diferença individual, q u alq u er superioridade m oderada
de resistência que um soldado dedicado e disciplin ado pudesse
A IN F L U Ê N C IA DAS DROGAS SO BRE O INDIVÍDUO 125

ter em relação a outro menos dedicado. Se isso ocorrer, nossos


regulam entos atuais não protegem efetivam ente a inform ação
localizada no cérebro do prisioneiro contra a destruição pelas
drogas ou de lhe ser arrancada.
É interessante notar que as drogas psicoativas podem mes­
m o no futuro ser usadas como contra-armas contra a técnica
fisiológica do controle por terceiros. Kristofferson e Corm ack,
por exem plo (32) verificaram , confirm ando dados obtidos por
vários outros investigadores, que o m eprobam ato pode elevar
a linha básica da reação epidérm ica galvânica ao detetor de
m entiras, e que, portanto, as reações em ocionais serão m ais d i­
fíceis de perceber, por êsse m étodo. Foram estudos de la b o ­
ratório, mas parecem confirm ar a opinião de alguns m oradores
da N ova Inglaterra. Em dezem bro de 1957, um fazendeiro de
Newbury, em V erm on t(33) que era geralm ente desprezado
pelos vizinhos pela sua violência, espancou um de seus em­
pregados. Poucos dias depois o fazendeiro desaparecia e se­
m anas m ais tarde seu corpo era encontrado am arrado com um a
corda, boiando no rio Connecticut. M uitos ju lgaram que fosse
um “ lincham ento d e branco” , que seu últim o ato de b ru tali­
dade p ara com o em pregado tivesse levado os vizinhos a se
reunirem p ara matá-lo. Os investigadores percorreram a re­
gião, subm etendo m uitos dos vizinhos ao detetor de mentiras.
Segundo inform ações do rádio, descobriram que vários dos in ­
terrogados se haviam preparado, tom ando tranqüilizantes, para
derrotar o detetor. U m a descoberta relativam ente recente do
controle fisiológico da m ente foi, no caso, neutralizada por um a
invenção* ain da m ais nova, a droga que pode in fluir até nas
reações epidérm icas galvânicas do homem.
O princípio ético seguinte pode ser aplicado a todas as
form as de controle da mente, seja pelas drogas, pela percepção
sublim inal, pelos elétrodos, pela persuasão disfarçada d a p u ­
blicidade, ou pela religião antiga: tôda pessoa adulta, en­
qu an to vestida e em seu estado norm al, deverá ser inform ada
e dar o consentim ento voluntário antes de ser subm etida a
essas forças. O san tuário fin al de su a liberdade deveria ser o
direito d e decidir submeter-se ou não à aplicação de tais forças.
N in guém deveria ser obrigado a isso senão pelos processos de­
m ocráticos h abituais do Estado. E mesmo o Estado deveria
hesitar em ap licar tais técnicas, porque a adoção de m uitas
dessas influências sobre a m ente acabará por levar ao totalita­
rism o final.
126 O C O N T R O LE DA M E N T E

M as, paradoxalm en te, devido ao h alo de m istério que cerca


essas técnicas de controle, tem havido com freqüência um a
cautela excessiva que leva mesmo a seu afastam ento do temá-
rio das discussões. N o m undo real, as tentativas de convencer
as pessoas pela conversação e p or outros recursos que não a vio­
lência física não constituem n ada de novo. A essência do pro­
blem a é que essas técnicas se estão tornando cada vez m ais
com petentes e precisas, de um lado, e a diferença entre a in­
form ação prestada livrem ente e a pressão física através de dro­
gas e eletricidade está desaparecendo. A elim inação de todo
estím ulo sublim in al pelas rêdes de televisão, tanto nos Estados
U nidos com o na Inglaterra, é um exem plo de um repúdio
apressado. O estím ulo sublim in al provàvelm ente não funcio­
naria bem na televisão, e havendo advertência prévia ao público,
que m al poderia cau sar? T alvez utilizá-lo com advertência
seja quase um a contradição com seu nom e e ninguém o dese­
ja ria fazer. M as em relação aos esforços p ara controlar a
mente, não há nada m ais errado do que o prin cípio em que
se fundam enta a form a m ilenar de influência quím ica utilizada
pelas m ulheres — o perfum e — que todas sabem ser m ais efetivo
se fôr sublim inal.
Podem as drogas afetar a m ente e condicionar o com por­
tam ento ? A resposta é, evidentemente, sim, m as um sim con­
dicional. M arco Polo (34) ficou sabendo que o ópio podia
influenciar as ações, quan d o teve inform ações que Alo-edin, o
Velho da M ontanha, na terra de A laú, cêrca de 1260, atraía
seus jovens guerreiros p ara o paraíso na terra com o ópio. N in ­
guém pode negar a influência que as drogas são capazes de
exercer sôbre a nossa conduta. Até agora, os efeitos são gros­
seiros, relativam ente desconhecidos, lim itados, m as a últim a dé­
cada viu um progresso nesse sentido m uito m ais acentuado do
que em q u alq u er outro período de tempo. T em os hoje m uito
m ais anestésicos do que na época de W illiam M orton e Craw-
ford Lon g, descobridores do em prêgo anestésico do éter na dé­
cada de 1840. Purificam os a cafeína e sintetizam os a dextroan-
fetam ina que nos pode m anter acordados e alertas. T em os d ro­
gas que dim inuem os sintom as neuróticos e drogas que neu­
tralizam os sintom as psicósicos, bem como drogas que os pro­
vocam tem poràriam ente. Estam os com eçando a com bater, com
eficiência, mesmo as depressões m ais profundas.
Essas drogas poderíam servir p ara escravizar o homem, m as
tam bém p ara aum entar sua liberdade. A escolha é a essência
A IN F L U E N C IA DAS DROGAS SO BRE O INDIVÍDUO 127

d a liberdade. O homem que vivia n um a povoação de pionei­


ros no século passado tinha poucas limitações, m as não dispu ­
nha tam bém de m uitas alternativas de escolha. H oje, quem
vive em W ashington ou San Francisco ou Chicago ou Boston
pode escolher entre sinfonia, ballet, conferência, cinema, tele­
visão, ou sim plesm ente ficar em casa todas as noites da sem a­
na. A liberdade se expande à m edida que as possibilidades
de escolha aum entam .
A pesquisa das drogas poderá levar a um a nova tirania,
m uito além da im aginação de Jefferson, capaz de controlar os
atos hum anos pelos processos quím icos. M as isso não fará do
homem, necessàriam ente, um boneco. N a verdade, como m eio
de libertá-lo das doenças e como meio de talvez, algum dia am ­
pliar-lhe as possibilidades, as drogas podem aum entar o número
de alternativas de escolha, e com isso sua liberdade e in d i­
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A IN F L U Ê N C IA DAS DROGAS SO BRE O INDIVÍDUO 129

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A C lin ic a i S t u d y ” , Amer. J. Med. Sei., 19 5 6 , 2 3 2 : 5 0 4-512.
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d e n ), G a r d e n C ity , N . Y ., D o u b le d a y a n d C o m p a n y , I n c ., 1958, p á g s .,
48-51.
J o n a th a n O . C o l e

As Drogas e o Controle da Mente

r
V > omo
me solicitaram que escrevesse
um trabalho sôbre a relação entre a psicofarm acologia e o com­
portam ento hum ano, p ara um a conferência que focaliza o con-
trôle da mente, devo concluir que os organizadores desta con­
ferência acreditam , explícita ou im plicitam ente, que as drogas
podem ser usadas para controlar a mente. A hipótese altern a­
tiva, naturalm ente, seria a de que o gru p o organizador acre­
d ita que as drogas podem ser utilizadas para estim ular a li­
berdade da mente. E xam in arei as provas relacionadas com
am bas as hipóteses.
Creio, tam bém , ter sentido nesta conferência a suposição
im plícita de que o controle d a m ente é m au, e a liberdade da
m ente é boa. B. F. Skinner, p ai do estudo objetivo do com por­
tam ento, pôs sèriam ente em dúvida essa suposição, (7) acredi­
tando que o com portam ento pode ser controlado com efici­
ência, ou está em vias de ser controlado com eficiência, e que
é dever de nossa sociedade tentar ativam ente êsse contrôle de
m odo a obter os efeitos q u e considerarm os desejáveis, antes
que algum outro grupo se torne m ais eficiente e consiga dirigir
o com portam ento hum ano em sentidos que consideram os inde­
sejáveis. Supõe êle que o com portam ento hum ano pode ser
controlado de m odo efetivo e preciso, e que alguém , nalgum a
parte, nos Estados U nidos ou no m undo ocidental, é capaz de
form ular julgam entos de valor sôbre o com portam ento que é
bom e deve ser estim ulado, e o com portam ento que é m au e
deve ser suprim ido. Isso, naturalm ente, com plica tôda a ques­
tão. Devemos considerar que as drogas podem ser usadas p ara
A INFLUÊNCIA DAS DROGAS SOBRE O INDIVÍDUO 131

fa cilitar o contrôle do “bom ” com portam ento e a abolição do


“m au ” com portam ento, bem como a possibilidade de que pos­
sam ser usadas pelos inim igos de nossa sociedade p ara su pri­
m ir o com portam ento desejável e estim ular o com portam ento
indesejável. Podem as drogas fazer isso ?
P ara responder a essa pergun ta com plexa, seria necessário
defin ir q u a l o com portam ento m au e q u al o com portam ento
bom. Isso me parece difícil, exceto em situações clínicas, e
portanto recuarei p ara um a pergunta m ais simples, sôbre a
possibilidade de utilizar drogas p ara o contrôle de qu alqu er
com portam ento, observando de passagem os efeitos nos extre­
mos que m uitas pessoas unânim em ente consideram como evi­
dentem ente desejáveis ou indesejáveis. Skinner prefere, n atu ­
ralm ente, limitar-se ao com portam ento notório. Para as fina­
lidades desta conferência, porém , devemos considerar tam bém
os fenôm enos subjetivos m enos fàcilm ente observáveis, com o o
tem peram ento, a criatividade, a im aginação etc.
Supondo que se desejasse controlar ou libertar a mente,
influenciar o com portam ento, que tipo de drogas se usaria
com essa fin a lid a d e ? Os agentes psicofarm acológicos existen­
tes se enquadram per feitam ente em cinco grupos. Prim eiro,
temos os prin cipais tranqüilizantes, (3) que incluem a clorpro-
m azina e vários outros derivados de fenotiazina, reserpina, uns
poucos alcalóides de R au w olfia correlatos e alguns compostos
m ais novos, com o haloperidol, quim icam ente não relacionados
com os outros dois grupos m as que parecem partilh ar algum as
de suas propriedades. Essas drogas são relativam ente eficien­
tes p ara o contrôle dos sintom as d a esquizofrenia e outros esta­
dos psicóticos.
O segundo gru p o consiste de tranqüilizantes e sedativos
m enores, (3) e nêle estão incluídos compostos como o meproba-
m ato (E quanil, M iltow n) e m etam inodiazepoxida (L ib riu m ),
que podem ser eficientes no alívio à angústia neurótica em ní­
veis de dosagens que não produzam efeitos indesejáveis de se-
dação, e sedativos como os barbituratos e os brom idos, cujas
propriedades sedativas clinicam ente indesejáveis podem ser m ais
fortes do que suas propriedades am enizadoras da angústia.
O terceiro grupo é o das drogas estimulantes, inclusive a
anfetam ina. (4) Essas drogas provocam a euforia em certos
indivíduos. T am b é m aum entam o estado de alerta, reduzem
a q u eda do rendim ento do trabalho resultante d a fadiga, em
132 O CONTROLE DA MENTE

determ inadas condições, provocando p or vêzes agitação, taqui-


cardia e outros indícios relativam ente indesejáveis do estím ulo
do sistem a nervoso centrai.
O quarto grupo é o das drogas antidepressivas, (4) inclu­
sive a iproniazida (M arsilid ) e outros inibidores da oxidase
m onoam ínica, e a im ipram in a (T o fra n il). Essas drogas têm
efeitos com provados no alívio dos síndrom as depressivos. Em
contraste com os estim ulantes, agem lentam ente, exigindo apro­
xim adam ente duas sem anas p ara que os efeitos clínicos dese­
jáveis se m anifestem . Os inibidores da oxidase m onoam ínica
parecem partilhar, com os estim ulantes, alguns dos efeitos eu-
forizantes em determ inados indivíduos, e capacidade de apres­
sar o tem po d e reação, aum entar a prod utividad e verbal e esti­
m ular, de outras form as, o organism o. A im ipram in a não p a­
rece possuir essas propriedades.
O quinto grupo é das drogas psicotom im éticas, inclusive
com postos m ais velhos como a m escalina e o LSD-25, e com­
postos m ais novos e m ais variados, como Sernyl e D itram e
psilocibin.
É possível que outras classes ou tipos de drogas, com efei­
tos diferentes, m ais discretos, m ais específicos, ou m ais va­
riados, sejam descobertas no futuro próxim o. Com o todos
os tipos novos de droga que existem foram identificados como
tendo propriedades singulares apenas sôbre o homem, à base
de seus efeitos observados em pacientes hum anos, e não como
conseqüência de extrapolações bem planificadas dos efeitos
em anim ais p ara os efeitos no homem, é difícil prever quais
os tipos de drogas o futuro nos trará. A firm o, com algum a
relutância, ser im provável, no m om ento, que quaisquer com­
postos quím icos com efeitos identificáveis específicos e previ­
síveis em pacientes hum anos possam ser obtidos tendo por
base a experiência em anim ais, apenas. Em sum a, mesmo que
me parecesse possível identificar no homem as funções psico­
lógicas e de com portam ento que eu, o u q u alq u er pessoa, possa
desejar controlar, ou libertar, não quero acreditar que a tenta­
tiva racion al e enérgica de criar um a droga qu e tenha êsses
efeitos específicos possa ser particularm ente proveitosa. Isso
não equivale a dizer que as investigações, no homem, de com ­
postos que revelem novos e diferentes efeitos neurofarm acológi-
cos e sôbre o com portam ento, nos anim ais, não levem à desco­
berta de drogas com novas e surpreendentes propriedades clíni­
A INFLUÊNCIA DAS DROGAS SOBRE O INDIVÍDUO 133

cas, m as duvido que, nesta fase do nosso conhecimento, a desco­


berta de tais com postos possa ser procurada sistem àticam ente.
É possível, decerto, que tendo identificado determ inada droga
com determ inadas propriedades específicas e desejáveis nos
anim ais possam os, exam inando-se os com postos correlatos, des­
cobrir outra d ro ga com determ inada propriedade em grau m ais
acentuado, e sem efeitos indesejáveis. Considerando, porém , o
estado presente do desenvolvim ento das drogas, parece m ais
adequado ocuparm o-nos daquelas que já conhecemos, ao invés
de especularm os ain d a m ais sobre os possíveis efeitos de drogas
que poderíam ser descobertas p ara controlar funções m entais
específicas.
O médico, particularm ente o psiquiatra, usa habitualm ente
os qu atro prim eiros dos cinco grupos de drogas acim a m encio­
nados para o controle da mente. A m aior parte das provas
existentes sobre a capacidade que têm as drogas de controlar
a m ente ou o com portam ento vem exatam ente dessa utiliza­
ção clínica. O m édico n ão se preocupa, habitualm ente, m uito
com a ética social no controle do com portam ento, pois m uitos
pacientes o procuram pedindo que seu com portam ento, senti­
m entos ou pensam entos sejam controlados. O utros pacientes,
n aturalm ente, lhe são levados por parentes ou pela sociedade
porque consideram que seu com portam ento necessita ser con­
trolado. T a l necessidade é, por vêzes, até mesmo atestada le­
galm ente por um tribunal, e o paciente é internado num hos­
p ital p ara tratam ento, até que o com portam ento anorm al esteja
sob controle. Os m édicos têm hoje um a am pla experiência na
utilização dessas drogas p ara controlar o procedimento, e creio
qu e a m aiorià dêles concordará em que a m argem de confian­
ça que se pode ter em sua atuação específica deixa m uito a
desejar.
Doses m aciças de um barbitu rato ou de um anestésico fa­
rão, naturalm ente, q u alq u er pessoa dorm ir, e doses adequadas
de um a droga com o M etrazol produzirão convulsões em q u al­
quer pessoa. M esm o se nesses extremos temos resultados bem
precisos, há um a considerável variedade individual nas doses
necessárias p ara prod uzir tais efeitos profundos.
A lém disso, nossas drogas clinicam ente m ais eficientes, co­
mo as fenotiazinas e os antidepressivos, parecem produzir efei­
tos totalm ente diferentes em indivíduos psiquiàtricam ente do­
entes e nas pessoas norm ais. Assim, um a dose de clorproma-
zina que torna relativam ente calm o um esquizofrênico agitado
134 O CONTROLE DA MENTE

e reduz seus delírios e alucinações, aum entando a clareza dos


processos de raciocínio, deixará a pessoa norm al fatigada, le­
tárgica, sonolenta e sentindo-se m iserável. Os dados sôbre os
efeitos dos antidepressivos m ais poderosos em pessoas norm ais
são poucos, m as parece provável que eles tenham efeitos m uito
menos intensos e m uito menos desejáveis do qu e nas pessoas
sèriam ente deprim idas.
As fenotiazinas e os alcalóides de R au w olfia poderíam ,
sem dúvida, ser utilizados p ara o controle do com portam ento
em pessoas norm ais, com a aplicação de doses bastante gran ­
des p ara produzir, na realidade, um a camisa-de-fôrça quím ica
em que a pessoa teria seus m úsculos tão enrijecidos pelos efeitos'
da droga, sem elhantes à doença de Parkinson e suas energias
tão reduzidas pelas propriedades energéticas, que ficaria im po­
tente para a m aioria dos atos comuns. M as creio que a u tili­
zação de drogas p ara provocar estados passageiros de in capa­
cidade física tem m enos interêsse, nesta conferência, do que
sua utilização como produtores de alterações, menos dram áticas
m as socialm ente m ais expressivas, no pensam ento e no com por­
tamento.
Os tranqüilizantes e sedativos brandos podem provocar,
em algum as pessoas, um a redução da angústia, quando esta
existe em grau perceptível, e a an fetam in a pode im pedir a
ocorrência de decréscimo n a atuação em conseqüência de fa­
diga, em tarefas m onótonas como p ilo tar avião ou observar
a tela de radar, além de produzir um a euforia m oderada e
certa intensificação na capacidade de falar sôbre determ inados
assuntos. Os sedativos e tranqüilizantes brandos podem pro­
duzir decréscimos passageiros na capacidade psicom otora, e
Beecher (2) constatou recentemente que o efeito dos barbitu-
ratos nos atletas prejudicava a atuação atlética e provocava
nêles o sentim ento de estarem atuando m uito m elhor do que
habitualm ente. Em bora se acredite que os estim ulantes tam ­
bém podem causar algum a alteração na capacidade de ju lg a ­
mento, isso ain da n ão foi claram ente com provado.
T o d o s os agentes psicotom im éticos podem realm ente in­
fluir no com portam ento, mesmo que seja apenas pelos seus efei­
tos laterais autônom os. Sem yl (6) pode produzir com pleta anes­
tesia em dosagens adequadas, ao passo qu e D itran (5) parece
ser o m ais capaz de produzir delírio severo e intenso com acen­
tu ada perturbação do pensam ento, e alucinações visuais e au ­
ditivas, além de com pleta perda de contacto com a realidade.
A INFLUÊNCIA DAS DROGAS SOBRE O INDIVÍDUO 135

O problem a dos agentes psicofarm acológicos existentes


como instrum entos a serem usados p ara contrôle da m ente é
que, m esm o do ponto de vista do psiqu iatra praticante, não
são com pletam ente satisfatórios. Em bora as fenotiazinas e as
drogas antidepressivas possam ter resultados surpreendentes e
m esmo um a aparente cura com pleta em alguns pacientes, êstes
são habitualm ente um a m inoria. H á geralm ente um a propor­
ção m aior deles que evidencia algum a m odificação no sentido
desejado, e são classificados, então, como “pacientes que apre­
sentaram leves m elhoras” . H á sem pre um grupo, freqüente-
m ente entre 20 a 30% , que nenhum a m elhora apresenta, ou
mesmo cujo estado se agrava. Agravar-se, neste sentido, sig­
nifica um m ovim ento na direção oposta à desejada. Até hoje,
os médicos não têm conseguido prever quais os pacientes que
reagirão e que form as tom arão essas reações. Por isso, mesmo
que estivéssemos apenas tentando controlar a mente de um
grupo hom ogêneo de pacientes psiquiátricos com um a droga
que fosse bastante conhecida, o efeito desejado não seria pro­
duzido em todos os pacientes, e não poderiam os planejar espe-
cificam ente que um determ inado efeito surgiría num deter­
m inado paciente.
Com os estim ulantes e sedativos suaves, é grande a difi­
culdade de prever seus efeitos sobre pacientes ou pessoas nor­
m ais. A lguns pacientes se tornam mais ativos, estim ulados
e eufóricos q u an d o recebem sedativos; algum as pessoas nor­
m ais ju lg am desagradáveis os efeitos d a anfetam ina e não expe­
rim entam q u alq u er euforia. N as crianças hiperativas, hiperci-
néticas, a an fetam in a freqüentem ente tem efeito tranqüilizante
e m oderador, e conheci pacientes adultos deprim idos que to­
m avam benzedrina à noite p ara dorm ir.
Particularm ente nas pessoas norm ais e nos neuróticos há
indícios consideráveis de que as expectativas individuais, as in­
fluências do m eio e a atitude do m édico podem alterar, signi­
ficativam ente, a eficiência da droga. N um estudo-pilôto recente­
m ente feito na U niversidade de D enison em colaboração com
o Centro de Psicofarm acologia, sôbre a reação de estudantes
norm ais à d-anfetam ina, sob certos aspectos psicológicos houve
um a tendência p ara os pacientes que acreditavam estar to­
m ando d-anfetam ina e que n a realidade estavam a aparentar
as reações típicas d a droga, tanto no estado de ânim o como no
estado psicom otor, ao passo que pacientes tratados com Dexe-
136 O CONTROLE DA MENTE

drin a, m as que acreditavam estar recebendo um barbiturato,


revelaram tendências de reações ao barbitu rato, pelo m enos em
alguns aspectos da atividade psicológica. Êsse estudo está em
processo de ser repetido p ara ver se tais tendências prelim i­
nares se confirm am . E m bora pesquisas posteriores possam m os­
trar que as com binações específicas d e influências sociais e
efeitos farm acológicos podem constituir m étodos m uito pode­
rosos para produzir tipos específicos de resultados, não tenho
conhecim ento de indícios fortes de que isso realm ente ocorra.
M uito se discutiu, nos últim os anos, sobre a capacidade
dos agentes psicotom im éticos, particularm ente o LSD-25, mes-
calin a e psilocibin, de prod uzir o que se pode descrever, no
contexto desta conferência, como um a 'lib e rtaçã o ” da mente.
As experiências visuais e auditivas se podem tornar m ais vivas,
e im pulsos dram áticos d a fantasia, aterrorizantes ou agradáveis,
podem acom panhar a adm inistração dessas drogas. As prod u ­
ções artísticas das pessoas subm etidas às drogas despertaram
interêsse. Êsses estados de consciência m odificados têm tam ­
bém sido seguidos, ao q u e se inform a, d e m odificações pro­
fundas e duradoras no funcionam ento d a personalidade e na
sintom atologia psiquiátrica. (1)
D uas perguntas se im põem : Prim eiro, essas drogas psico-
tom im éticas "libertam ” a mente, de algum a form a útil, du ­
rante o período de sua atividade farm acológica ? Segundo,
terão um efeito útil na alteração do funcionam ento psicoló­
gico depois de elim inados os efeitos agudos da droga ?
A prim eira pergunta é difícil de responder. É possível
que a produção artística, a poesia, ou as histórias concebidas ou
escritas sob a influência de um agente psicotom im ético possam ,
em certas pessoas, ser superiores às produzidas num estado livre
de drogas, ou anterior à droga. T en h o dúvidas, pois é im pro­
vável que q u alq u er interferência no funcionam ento do cérebro
seja capaz de produzir um m elhoram ento na atuação de um a
pessoa norm al, m as acredito qu e a questão seja passível de
um teste científico. U m a série de produções artísticas, por um a
série de artistas, feitas nos estados pré-droga, durante a droga
e pós-droga, poderia ser ju lg a d a por outros artistas não in for­
m ados das condições de produção. Se a obra produzida sob
a influência de um a droga como o LSD-25 fôsse ju lg ad a supe­
rior, isso constituiría realm ente um indício bastante ponde­
rável.
A INFLUENCIA DAS DROGAS SOBRE O INDIVÍDUO 137

Devemos notar, porém , que o am biente, inclusive as expec­


tativas das pessoas que adm inistram a droga e d a pessoa qu e a
recebe, tem no caso um papel bastante forte. Existe m esm o
o que acredito ser um efeito “geom étrico” artificial sôbre a
reação ao LSD-25. (1) Estudiosos pesquisando n a C osta Leste,
por exem plo, como M alitz e Klee, não parecem obter de seus
pacientes m u ita coisa relacionada com a fantasia bizarra. Pa­
cientes ocasionais podem tornar-se paranóides, e a m aioria
experim enta ilusões visuais e efeitos laterais autônom os, mas
nenhum deles teve auto-revelações ou q u alq u er outra experi­
ência pessoal dram ática. H artm an e Chandler, e outros pes­
quisadores na área de L os Angeles, p o r outro lado, parecem
poder provocar na m aioria dos pacientes fenômenos cósmicos,
como a união com o sol ou a m orte e renascim ento, com faci­
lidade relativa. O utros investigadores, como Jackson e Savage,
inform am resultados semelhantes, em bora menos dram áticos.
Com o parece im provável que os pacientes d a Costa Oeste sejam
orgânicam ente diferentes dos pacientes d a Coste Leste, é m ais
razoável supor qu e algo na situação em que os testes são ap li­
cados provocam essa acen tuada diversidade de reação. A um en­
tará realm ente o LSD-25 a sugestibilidade do paciente ? Será
o fenôm eno da Costa Oeste inteiram ente provocado pelos m é­
dicos, ou devido a diferenças culturais nas expectativas dos
pacientes, ou terão os investigadores d o Leste de algum a
form a conseguido criar um a situação na qu al os im pulsos da
fan tasia e as experiências em ocionais dram áticas são efetiva­
mente, e talvez inconscientemente, reprim idas ?
Gomo possível evidência adicion al em favor do LSD-25
com o instrum ento p ara provocar a reação desejada pelo mé­
dico, podem os n otar a utilização feita por A bram son como
m étodo p a ra levar os pacientes a vencer sua resistência, de um a
form a psican alítica aprovada, com um a ausência quase com­
pleta de produções fantasiosas ou m ais exóticas.
V ejo as pesquisas recentes do LSD-25 e da psicoterapia com
sentim entos m istos. A droga pode realm ente perm itir aos pa­
cientes novos conhecimentos de seus problem as e pode fazer
com que seu com portam ento se altere de form a surpreendente,
m as sinto-me em dúvidas se atribuir isso a um a “libertação” d a
m ente provocada pela droga ou a um a experiência m ística pro­
vocada pelo m édico, sem elhante à conversão religiosa. Q ual­
quer dos dois efeitos poderia ser terapêuticam ente válido, mas
toda a questão está agora tão carregada de emoção, e portanto
138 O CONTROLE DA MENTE

carente de pesquisa adequadam ente controlada, que torna im ­


possível um a conclusão firme. T am bém me preocupo com a
possibilidade de que episódios psicóticos prolongados sejam
precipitados pelos agentes psicotom im éticos, com a possibili­
dade de tentativas de suicídio e outras atitudes anorm ais du­
rante o estado provocado pela droga.
R esta, ainda, a possibilidade desagradável de que os agen­
tes psicotom im éticos ou outras drogas possam tornar os in di­
víduos abertam ente suscetíveis de obedecer às exigências de
outra pessoa, e portan to de serem tais drogas utilizadas como
instrum entos p ara m odificar a fidelidade ou as atitudes m o­
rais ou ain da as convicções políticas. Certam ente, essas drogas
podem ser usadas p ara in capacitar passageiram ente as pessoas,
m as poderão ser em pregadas p ara estabelecer o controle a lon­
go prazo sôbre a m en te? A literatura científica que existe so­
bre o assunto não é inform ativa. T a n to os relatórios clínicos
como experim entais tratam principalm ente de pacientes volun­
tários ou pacientes subm issos, e não conhecemos nenhum a
tentativa experim ental de alterar especificam ente as convicções,
atitudes ou percepções duran te ou depois da experiência com
a droga psicotom im ética. Os pacientes com esquizofrenia crô­
nica mostram-se m uito resistentes a revelar quaisquer efeitos
subjetivos do LSD-25, m as é im possível dizer se tal resistência
é proveniente de um a vontade íntim a de evitar a reação.
O utras drogas, como barbitúricos endovenosos ou derivados
de anfetam ina, podem certam ente alterar o com portam ento
verbal, aum en tar o desejo de falar e a expressão em ocional,
e ocasionalm ente perm itir ao paciente recordar-se de expe­
riências reprim idas ou falar de assuntos que antes consciente­
m ente evitava m encionar. As proporções em que tais processos
são úteis fora da situação de com bate da neurose são difíceis
dizer. O fato de que três drogas diversas, como sódio am ital,
desoxiefedrina e LSD-25, sejam usadas p ara facilitar a psico-
terapia, aum entando a expressão em ocional e ativando m ate­
rial inconsciente, é, em si, evidência da confusão nessa área da
p siqu iatria prática.
Em resum o, acredito que as drogas não sejam , em si mes­
mas, instrum entos úteis p ara controlar a mente, nem sejam
particularm ente adequadas p ara libertá-la, se a preocupação
fundam ental fôr a experiência subjetiva, as atitudes ou convic­
ções de pessoas relativam ente norm ais. Certas drogas, como
A INFLUÊNCIA DAS DROGAS SOBRE O INDIVÍDUO 139

o LSD-25 e a psilocibin podem despertar experiências bizarras


e talvez com pensadoras, m as usualm ente sòmente se os pacientes
estiverem interessados em tais experiências, ou se estas forem
esperadas pelos que adm inistram a droga. Barbitúricos ou esti­
m ulantes (ou álcool, tam bém ) podem aum entar as revelações
em ocionais e prom over m aior capacidade de falar, mas como
sempre, as drogas provàvelm ente estarão apenas facilitando a
expressão de emoções ou pensam entos já presentes no in di­
víduo.
D rogas com o a fenotiazina ou os antidepressivos são, fre-
qüentem ente, eficientes na alteração dos sintom as psiquiátricos
em alguns pacientes (não todos) com os sintom as devidos.
Êsses efeitos clínicos, por lim itados que sejam, são os fenô­
menos m ais próxim os dos efeitos específicos de drogas no com­
portam ento e no funcionam ento psicológicos, m as limitam-se
a indivíduos psiquiàtricam ente doentes, e não têm nenhum a
aplicação evidente no contrôle do pensam ento ou com porta­
m ento de pessoas norm ais.
Doses bastante grandes de q u alqu er um dos agentes psico-
farm acológicos dêsses cinco grupos podem perturbar ou elim i­
n ar o com portam ento hum ano, incapacitando de form a geral
os pacientes que as recebam, m as não há nenhum m otivo real
p ara acreditar que êsses efeitos agudos sobre a mente dos pa­
cientes seriam duradouros.
R esta a p ossibilidade de que um a droga, ou drogas com bi­
nadas com um a situação estruturada, isto é, algum a form a de
program a de lavagem do cérebro, possa tornar essa droga m uito
m ais eficiente e possa reduzir o tem po ou esforço necessário
p ara produzir o efeito desejado.
E m bora as pesquisas publicadas, mesmo tendo apenas vaga
relação com êsse últim o problem a, sejam quase totalm ente ine­
xistentes, não vejo razão p ara acreditar que qualqu er droga
seja m ais eficiente do que as pressões sociais e psicológicas, ou
a tortura física, p ara produzir m odificações n o indivíduo.
A grande variedade de reações aos agentes psicofarmaco-
lógicos em pessoas norm ais e em pacientes torna im provável
que um a droga isolad a seja um au xiliar digno de confiança em
q u alq u er program a plan ifiçad o de contrôle em m assa do pen­
sam ento, em bora aceite a possibilidade de que tentativas in di­
viduais de contrôle do pensam ento possam ter algo em co­
m um com a psicoterapia, e que os praticantes experim entados
140 O CONTROLE DA MENTE

aessa m agia negra possam encontrar drogas que sirvam aos


seus objetivos.
A lém disso, parece-me im provável que se possam usar m é­
todos correntes p ara obter um a nova droga com q u alq u er efeito
específico e constante, seja sôbre a liberação ou o controle dos
processos m entais hum anos, em bora confiantem ente espere que
novos tipos de drogas, com efeitos diferentes sôbre o fun cion a­
m ento do cérebro e o com portam ento, sejam reveladas pelos
atuais m étodos de pesquisas.
Em sum a, os atu ais agentes psicofarm acológicos, em bora
freqüentem ente úteis, qulm icam ente, têm efeitos relativam ente
não-específicos e m uito variáveis sôbre o com portam ento h u ­
m ano. Q ue parte dessa variedade se pode atrib uir às diferen­
ças físicas e psicológicas existentes nos sêres hum anos, e que
parte é produzida pelo am biente e pelo com portam ento da
pessoa que adm inistra a droga, é im possível avaliar. As difi­
culdades de criar e an alisar os efeitos das drogas p ara o con­
trole dos estados psiquiátricos clínicos são m uitas. As d ificu l­
dades em criar e ou av aliar as drogas p ara o contrôle do fun­
cionam ento m ental ou p ara libertação do funcionam ento m en­
tal nos sêres hum anos parecem ser insuperáveis.

R EFERÊN CIA S

(1) A bramson, H . A ., (e d .) T h e U s e o f L S D ' in P s y c h o te r a p y , Transactions


of a Conference on d-Lysergic Acid Diethylamide (.LSD-25), P r in c e t o n ,
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(2) Beecher, H . K ., e Smith, G . M ., A m p h e t im in e , S e c o b a r b i t a l a n d A th -
t le t ic P e r fo r m a n c e . III. Q u a n t i t a t iv e E ffe c ts o n J u d g e m e n t . / . Amer.
Med. Ass., 1 72: 1 629-1632, 1960.
(3) Cole, J . O ., Klerman, G . L ., e Jones R . T . , D r u g T h e r a p y , e m E . J .
S p ie g e l (e d .) Progress in Neurology and Psychiatry, v o l. X V . N . Y o r k ,
1960.
(4) Cole, J . O ., Jones, R . T . , e Klerman, G . L ., D r u g T h e r a p y , e m E . J . ,
S p ig e l, idem, idem, v o l. X V I , N . Y o r k , 1961.
(5) G ershon, S ., e O lariu, J . f J B 3 2 9 : A N e w P s y c h o to m im e t ic , I t s A n ta -
g o n is m b y T e t r a h y d r o a m i n a c r in a n d I t s C o m p a r is o n w ith L S D , M es-
c a lin e a n d S e rn y l, ]. Neuropsychiat., 1960, 1: 2 8 3 -2 9 2 .
(6) L uby , E . D ., Coher, B . D ., R osenbaum, G ., Gottleib, J . S., e Kelley,
R ., S t u d y o f a N e w S c h iz o p h r e n o m im e t ic D r u g — S e rn y l, A M . A,
Arch Neurol. Psychiat., 1 959, 8 1 :3 6 3 -3 6 9 .
(7) S kinner, B. F ., F r e e d o m a n d t h e C o n t r o l o f M e n , Amer. Scholar, 25:
47-65.
Horizontes da Psicofarmacologia
T r a n s c r i ç ã o d o d e b a t e fo r m a l, m a s e s p o n t â n e o , d o s t r a b a lh o s
im e d ia t a m e n t e p r e c e d e n te s. F o r a m fe it a s a p e n a s p e q u e n a s a d a p ­
ta ç õ e s, o n d e a c o n t in u id a d e e a c la r e z a o e x ig ia m . O s o r g a n i­
z a d o r e s a c r e d it a m q u e a e s p o n t a n e id a d e d a d is c u s sã o t e m p ar­
t ic u la r v a lo r p a r a o s e m in á r io , n a f o r m a e m q u e é a p r e s e n t a d a .

Moderador: D avid Krech


Participantes: Jonathan O . Cole, Seymour S.
Kety, James G . M iller.

Dr. K r e c h : A o ouvir a leitura dos trabalhos precedentes,


aprendi três leis d a psicofarm acologia, cada q u al representan­
do, realm ente, um sum ário de cada orador. Eis as m inhas três
prim eiras leis de psicofarm acologia: a prim eira, que repre­
sen ta o que o D r. Kety disse, é a de que não há generalizações
sobre o contrôle bioquím ico do com plexo m ente qu e possam
ser, hoje, feitas. A segunda lei, que representa, creio, a con­
tribuição do D r. M iller, é a de que h á m uitas exceções p ara as
generalizações estabelecidas n a p rim eira lei. A terceira, que
represen ta a contribuição do D r. Cole, é a de que a prim eira e
a segunda leis se aplicam apenas a casos extremos de patologia,
exceto qu an d o não se aplicam . Creio ter resum ido fiel, em­
bora in adequadam ente, a posição de meus três colegas. D e­
sejo, agora, fazer-lhes um a pergunta específica, provocada por
algu m a coisa que o Dr. Cole disse no fim de sua exposição, e
qu e o D r. Kety sugeriu e com a q u al concordaria, e que certa­
mente terá tam bém a concordância do Dr. M iller. O problem a
a que me refiro é o de que nosso trabalho nesse cam po é, nos
m uitos sentidos da palavra, um a espécie de reação histérica.
142 O CONTROLE DA MENTE

T em os experim entado ao acaso — e por vêzes nem tão ao acaso


— todas as novas drogas. N ão demos bastante atenção à pes­
quisa básica p ara verificar como o sistem a nervoso trabalha,
e q u al o papel dos vários com postos quím icos no cérebro. M ais
ainda, os pesquisadores dêsse cam po pouca atenção deram ao
com portam ento. É m uito interessante que se procure fazer algo
preciso sobre a bioquím ica e a neurologia, m as qu an to ao com­
portam ento, os pesquisadores fazem um a destas duas suposições:
consideram o com portam ento tão com plexo e sutil que não há
u tilidade em tentar analisá-lo cientificam ente, ou supõem que
êle seja tão sim ples que q u alq u er pessoa possa dizer quando o
homem está desequilibrado ou não, quando um a droga tem
um efeito bom ou m au, ou quando liberta a mente ou a li­
mita. É claro que não aceito nenhum a dessas suposições. Essa
pesquisa ocasional que experim enta drogas em fragm entos do
com portam ento explícito e im plícito, ao acaso, em alguns pa­
cientes e em alguns hospitais, não nos levará, parece-me, a resul­
tado algum . Portanto, m inha pergun ta é a seguinte: não lhes
parece que, antes de começarmos a dedicar tanto tem po à psico-
farm acologia, devemos em pregá-lo antes n aq u ilo que eu pre­
firo cham ar de psicobioquím ica — a pesquisa básica nas rela­
ções entre os processos bioquím icos no sistem a nervoso e o
com portam ento, tom ando am bos sèriam ente, como cientistas
sérios ?

Dr. C ole : Posso fazer um a objeção ? Creio que o tra­


balho d a bioquím ica do cérebro, o efeito das drogas no cé­
rebro e sua correlação com o com portam ento são bons e neces­
sários. M as creio que a distância entre a aplicação experim en­
tal e a clínica das drogas é ain d a tão grande que não podem os
deixar que as drogas sejam adm inistradas a gran de núm ero
de pacientes durante os próxim os dez anos, esperando obter
com isso um conhecimento preciso do que ocorre no cérebro,
produzindo finalm ente um a psicofarm acologia racional. H á
indícios prelim inares de algum a form a de ligação entre as duas.
Conheço dados prelim inares sôbre os efeitos dos inibidores da
oxídase m onoam ínica em pacientes deprim idos q u e parecem
indicar que a m aioria dos pacientes que se tornam menos depri­
m idos tam bém sofre inibição real das enzimas da oxídase m ono­
am ínica no sangue, enquanto os que não evidenciam nenhum a
m odificação da depressão tam bém não revelam inibição efe­
tiva d a ação dessa enzima. H á, portanto, pontes que e st|q
A INFLUÊNCIA DAS DROGAS SOBRE O INDIVÍDUO 143

sendo construídas. M as creio ser necessário um trabalho clí­


nico cuidadoso, descritivo, em pregando tanto a descrição p ara
criar hipóteses com o técnicas maciças, semelhantes às dos
com putadores, p ara analisar os dados obtidos. Isso nos perm i­
tiría, por exem plo, prever, em bases em píricas, m as acurada­
mente, qu ais os pacientes que reagirão a determ inadas drogas
e quais os que n ão reagirão, deixando de lado, no m om ento,
o sistem a nervoso central, até que possa ser explicado m elhor
pelos cientistas básicos.

Dr. M iller : T en h o certeza, D r. Cole, que o D r. Krech não


pretende sugerir q u e cessemos de tratar os pacientes até a
época em que possam os com preender a bioquím ica do com por­
tam ento. M as quero discordar d a su a opinião, porque sinto
que um a das áreas d a psicofarm acologia que está sendo in ade­
quadam ente expressa e defendida é exatam ente esta a que
ele se referia, e que a prim eira preocupação deveria ser no sen­
tido do desenvolvim ento de m edidas do com portam ento q u an ­
titativas e m ais precisas. Acentuo, portanto, a necessidade de
que isso seja feito tanto em anim ais como em sêres hum anos,
p ara que possam os começar a estabelecer as correlações ade­
qu adas entre a bioquím ica e o com portam ento. Estou p arti­
cularm ente interessado em ver a aplicação em m assa da psico­
lo gia na clínica, o m ais rapidam ente possível, pois estou con­
vencido de que há um a série de m edidas ao nosso alcance, hoje,
superiores às estim ativas e impressões d o clínico. T a is m edidas
não estão sendo aplicadas em todos os casos em que poderíam
ser úteis. Considero o papel d o psicólogo clínico cum o psicó­
logo experim ental na clínica im portante como elemento para
m edir as dim ensões fundam entais do com portam ento. A pesar
dessa im portância, porém , parece-me que ele constituiu um
elem ento au x iliar independente das impressões clínicas e das
estim ativas feitas pelo clínico. T rata-se de um a das maiores
necessidades que temos no mom ento. N ão devemos deixar de
tratar os pacientes, m as devemos procurar conseguir um pouco
m ais disso q u e defendo.

D r. K ety : Q uero discordar apenas de um a palavra na


pergun ta do Dr. K rech: a p alavra “ antes” . C reio ter ele dito
que antes de com eçarm os a dedicar tanto tem po ao estudo dos
efeitos clínicos gerais dessas drogas nos pacientes, deveriamos
estudar os parâm etros básicos bioquím icos, neurofisiológicos e
144 O CONTROLE DA MENTE

psicológicos de qu e tais efeitos dependem . Se ao invés de “an ­


tes” disserm os “ju n tam en te”, eu estarei de acôrdo. Faço o b je­
ção à palavra “ antes” p o rq u e ela deixa im plícito que de a l­
gu m a form a sabem os onde encontrar as respostas e, como sabe­
mos disso, evidentem ente deveriam os atacar essa área. N a ver­
dade, a terapia racional pelas drogas, em bora a defendam os,
é antes exceção do que regra no desenvolvim ento da farm a­
cologia. A q u in id in a não foi descoberta p o r um bioquím ico
ou um farm acologista, nem menos por um médico, m as sim
p o r um paciente. A d igitalin a foi descoberta por um a p ar­
teira. Isso não significa que devemos apoiar parteiras e pacien­
tes com exclusão de bioquím icos, m as não devemos desconhe­
cer as possibilidades de entender a ação das drogas, ou pelo
m enos de conseguir novas drogas, graças aos tipos m ais sim ples
de em pirism o. Se tivéssemos esperado até obter a in sulin a pelo
conhecim ento de sua ação no corpo, não a teríam os, porque os
bioquím icos ain da não sabem como se faz a redução do açúcar
no sangue pela sua influência. Será necessário, no caso do
cérebro, m uito m ais tem po p ara com preender o m ecanism o
básico dêsses agentes. Parece-me, porém , qu e m esm o as obser­
vações em píricas podem ser m elhoradas, podem tornar-se m ais
econôm icas à base de experiências cuidadosam ente controladas
— m esmo em têrmos da totalidade d o hom em , e não apenas da
sinapse. Concordo, e plenam ente, com sua preocupação m an i­
festada pelo fato de m aior atenção estar sendo dad a hoje aos
aspectos bioquím icos e biofísicos, em contraposição aos aspec­
tos do com portam ento. Os bioquím icos que estudam a ação
cerebral de alguns dêsses agentes são extrem am ente cautelosos
no contrôle das enzimas, de seus substratos, das dosagens, d a
concentração dêsses agentes, e em seguida preparam relatórios
sobre o com portam ento em têrmos de m edidas as m ais cruas
e m ais sim ples. Creio certam ente que o trabalh o realizado pelo
Dr. Krech está sendo tam bém feito por todos os estudantes do
com portam ento tão m inuciosos nesse cam po quan to os b ioq u í­
micos no seu.

Dr. M iller : Creio que estamos tratando aqu i de um pro­


blem a sôbre o qu al não devemos m oralizar, pois a bioquím ica
está recebendo um a atenção cada vez m aior, e em ritm o cada
vez m ais intenso. N ão me parece que ela deva parar, m as sim
que devemos considerá-la um dos m uitos exem plos, n a histó­
ria da ciência, do interesse pelo desenvolvim ento de um cam ­
A INFLUÊNCIA DAS DROGAS SOBRE O INDIVÍDUO 145

po em conseqüência da dispon ibilid ade de instrum entos que


possam dar os fatos com precisão. Tom em os, por exem plo,
o cam po dos com putadores. M atem àticam ente, n ada de nôvo
êles representam , e não obstante a sim ples existência desses ins­
trum entos, que são sim plesm ente m ais rápidos, com um a capa­
cidade de m em ória m aior e outras poucas características ine­
xistentes nas m áquinas de calcular anteriores, resultou no flo­
rescim ento de várias atividades baseadas nêles, nenhum a das
quais é fundam ental ao desenvolvim ento da ciência. É, por­
tanto, responsabilidade dos que se interessam particularm ente
pelo aperfeiçoam ento de m edidas rigorosas p ara o com porta­
m ento conseguir os instrum entos e farram entas, p ara que nos­
sas atividades se possam expan dir. Q uando tivermos essas fer­
ram entas e instrum entos, n ão creio que haverá a m enor difi­
culdade em conseguir o apoio e o interêsse necessários a êsse
trabalho.

Dr. K r e c h : Fiz um a afirm ação bastante extrem ada por


duas razões. Prim eira, a estrutura d e m inha personalidade é
tal que gosto d as afirm ações extrem adas, o que é, no m eu en­
tender, um acidente genético. M as há outra razão, fria e cal­
culada, e, p ara dizer sim plesm ente o que penso, gostaria de
citar um a m áxim a de m inha sogra. Q uando ela quer induzir
as pessoas a reduzir a tendência de aplicar castigos corporais
às crianças, diz: “Se ju rar que jam ais aplicará a um filho
seu, em q u alq u er circunstância, um a palm ada, um a chinelada
ou um beliscão, você lhe dará palm adas, chineladas e belis­
cões do m esm o je ito .” A plico o mesmo princípio na m inha
afirm ação de que é m uito im portante que tenhamos, prim ei­
ram ente, departam entos de psicobioquím ica, antes de têrmos
outros departam entos de psicofarm acologia, e assim por diante.
Poderem os, então, ter um núm ero razoável, pois hoje h á um
núm ero bastante elevado de departam entos de farm acologia
nos Estados U nidos. Q ualquer faculdade de m edicina que se
preze tem um departam ento dêsses. H á vários departam entos
ou grupos de psicofarm acologia. M as conheço apenas um a
com issão, n um a universidade, que realm ente se ocupa d a psico­
bioquím ica, e não tenho certeza de que ela esteja ligad a à
psicofarm acologia. N ão conheço nenhum departam ento de
psicobioquím ica. Portanto, é evidente que a prim eira coisa a
fazer é criá-los. Perm itam -m e um a outra pergunta. O uvi as
discussões d e ontem e de hoje como psicólogo, e não apenas
146 O CONTROLE DA MENTE

como “acetilcolenologista” . F iq u ei surprêso com um a coisa.


Devemos discutir, aqui, o controle da mente. O ra, a palavra
“m ente”, pelo m enos p ara certas pessoas, desperta conotações
de pensam ento — o que os psicólogos costum am cham ar de co­
nhecimento. A palavra “m ente” não significa necessàriam ente
apenas patologia, não significa necessàriam ente apenas angús­
tia, n ão necessàriam ente apenas frustração e gritos e correrías
pelas ruas inteiram ente n u; a p alav ra “m ente” significa pensa­
m ento, convicção, criação, e assim p o r diante, e, ao exam in ar a
m aioria dos trabalhos sôbre os efeitos das drogas no com por­
tamento, surpreendo-me com o que se poderia cham ar de anti-
intelectualism o entre os pesquisadores. Êles n ão se interessaram
pelos efeitos das drogas n a m ente do ponto de vista do conheci­
m ento ou intelectual — interessaram-se pelo efeito das drogas
no sentido em ocional, de estado de ânim o ou patológico. Creio
que isso reflete a preocupação dos pesquisadores com os esta­
dos patológicos, p orqu e êles são, em sua m aioria, homens de hos­
pitais e médicos profissionais. Se tivéssemos, porém , um depar­
tam ento de psicobioquím ica, a situação seria diferente. M as
num certo sentido ela tam bém reflete — e aq u i d igo nova­
m ente mea culpa — a atitude qu e m e parece parcialm ente ve­
rídica em relação à psicologia am ericana. E sta tem sido real­
mente antiintelectual, se tem ocupado m ais com a personalida­
de e o com portam ento, m as relativam ente pouco com o conhe­
cimento, o pensam ento, a solução de problem as. N ão lhes
parece que temos no caso tôda um a área d a m ente q u e está
sendo esq u ecid a?

Dr. K ety : Concordo plenam ente, e gostaria de saber por


que ocorreu êsse antiintelectualism o. Creio qu e os psicólogos,
os atuais e os seus antecessores, são em gran d e parte responsá­
veis por isso. H ouve um a escola de psicologia, n a escola beha-
viorista, bastante doutrin ária em sua abordagem , que afirm ava
que, sendo o com portam ento extrínseco a única coisa que* se
podia estudar cientificam ente, só êle existia, e portan to que a
mente, m entalism o, proteção e sentim entos eram fenômenos
subjetivos inadequados às m ensurações experim entais e que o
m elhor era não comentá-los. O uvim os, por isso, os partid á­
rios dessa corrente falarem dos aspectos m ais sensíveis e sutis
d a criatividade hum ana, m as sem discutir jam ais a consciên­
cia, e sem m encionar jam ais a m ente — com o se fôsse um a
p alavra feia — m as falarem apenas como se ela fôsse com por­
A INFLUENCIA DAS DROGAS SOBRE O INDIVÍDUO 147

tam ento, o que evidentemente não é. N a verdade, a mente


significa várias coisas diferentes e o Dr. Krech as abrangeu na
su a definição. Se pensarm os nela como um a com putação com­
plexa, como o processo de pensam ento, de adaptações, de ava­
liações, estaremos pensando apenas num aspecto da mente.
Por outro lado, podem os vê-la como o aspecto subjetivo dêsses
processos, como sentim ento, consciência e sensação. Creio haver
m u ita confusão n a história da filosofia e nosso pensam ento
h oje não se dispõe a separar essas coisas. O m onista pode ex­
plicar os prim eiros aspectos d a mente, ou seja, a com putação,
o julgam en to etc., e em bases m ecânicas. Se isso é tudo o que
entende por mente, poderá ser perfeitam ente feliz na sua filo­
sofia m onista. M as se realm ente reconhece os outros aspectos,
a q u alid ad e subjetiva, pessoal, d a consciência e do sentimento,
então creio que terá de adm itir que a filosofia m onista dificil­
m ente poderá abranger tudo isso num a interpretação meca-
nicista. Q uero expressar plen a concordância com o que disse
o Dr. Krech. Creio que podem os e devemos falar sobre a
m ente e tôdas as suas sutilezas, todos os fenômenos e epifenô-
menos, e devemos estar prontos a estudar a m ente e suas rela­
ções com a m atéria. H á um a psicofarm acologia, há um efeito
da droga sobre a mente, e isso não se afasta da afirm ação cien­
tífica. É algo que pode ser estudado com a m esm a eficiência,
em bora talvez com m ais dificuldade, que o efeito de um a droga
num a sinapse.

D r. M iller : M ais um a vez, concordo, e desejo apoiar essa


op in ião d e , que não se fêz bastante nessa área particular, seja
em psicologia ou, o que é m ais im portante ainda, no cam po da
p siqu iatria. A preponderância d a patologia n a p siqu iatria tem
sido total, tal com o na psicologia. M as creio que a razão his­
tórica talvez seja a falta de instrum entos adequados. A in-
trospecção não constitui um instrum ento m uito bom p ara o
estudo do pensam ento, do raciocínio, da solução de proble­
m as, e dos cham ados processos m entais superiores. Creio que
estam os m ais ou m enos com o no período de 1790; com a revo­
lução e a idade d a razão se aproxim an do. Se puderm os esperar
alguns anos, haverá um a m odificação total, porque a sim ula­
ção, pelos com putadores, dos processos internos da “m ente” se
está colocando ràpidam ente em prim eiro plano. T e m havido
várias conferências e trabalhos sôbre o assunto, m as não cons­
tatei ain d a um a única sim ulação de processos não-racionais, ou
148 O CONTROLE DA MENTE

afetivos. É m uito d ifícil p a ra quem se utiliza dos com putadores


tratar de processos não lógicos. Segundo, é difícil im a­
gin ar como prep arar um program a p ara o com putador que si­
m ulasse a teoria da revisão, por exem plo, ou outras noções de
afeto que temos no m om ento. Creio que poderá, e será feito.
M as me parece provável que, com os com putadores hoje exis­
tentes, a próxim a área de atenção nos processos d a m ente dará
um a im portância enorm e aos processos cognitivos, e não ap e­
nas ao aprendizado, m as tam bém à apercepção e outras coisas
aq u i m encionadas. Será êsse o nosso provável cam inho, no
futuro.
Dr. K ety : A credita realm ente que num futuro previsível
poderá haver num com putador a sim ulação d o sentim ento ?
Dr. M iller : Sim , se elim inarm os o contexto subjetivo da
palavra “sentim ento” .
Dr. K rech: H á poucos mom entos, defendi-me de certos
com entários contrários à m inha posição. A gora, desejo defen­
der-me contra os com entários que concordam com a m inha
posição.
Dr. M iller : P ara proteger-nos de nossos am igos.

D r. K rech: Alegro-m e qu e o Dr. K ety ju lg u e q u e devemos


estudar a consciência. N a realidade, sab ia disso antes qu e
ele dissesse, pois conheço um artigo seu sôbre o assunto, extre­
m am ente interessante, pu blicado em Science, em dezem bro de
1960. Alegro-me, portanto, que. êle tenha concordado que de­
vemos prestar atenção à cognição e ao pensam ento, m as dis­
cordo dêle quand o afirm a que isso nos leva necessàriam ente a
um a filosofia dualista. Creio que os psicólogos adotam a posi­
ção do professor H ebb, e eu aceito a hipótese m onista como
argum entação. M as n ão m e sinto absolutam ente im pedido de
trabalh ar com sentimentos, pensam entos, fantasias, criativi­
dade etc. Portanto, eu e o Dr. Kety devemos ser colocados jun-,
tos na defesa de um trabalho m ais intenso em relação ao pen ­
sam ento, tanto pelos farm acologistas com o pelos psicólogos.
M as nos distanciam os no que se relaciona com a posição mo-
nista-dualista.
T e n h o porém , D r. M iller, u m a op in ião pouco otim ista do
com putador como m odêlo do cérebro. C reio que o m elhor
m odêlo do cérebro é o próprio cérebro, e sabem os que êle não
A INFLUÊNCIA DAS DROGAS SOBRE O INDIVÍDUO 149

é um com putador. Conhecemos um pouco d a bioquím ica, an a­


tom ia e eletrofisiologia d o cérebro, e sabem os que tais coisas
são diferentes d aq u ilo que ocorre dentro de um com putador.
Assim, quand o peço m aior investigação do pensam ento, senti­
m ento etc., não estou pedindo m aiores estudos sôbre o com pu­
tador, m as sim m elhor observação de pessoas norm ais, de como
pensam e resolvem problem as. A* m aioria das pessoas não an da
p o r aí carregando frustrações, m as sim resolvendo problem as.
Alegro-me novam ente por estar com o Dr. M iller quan to à
necessidade de m aior pesquisa sôbre o pensam ento, e sei que
êle concordará com isso, pois tem, com seu grupo, realizado pes­
quisas do m aior interêsse sôbre os problem as do raciocínio. M as
tenho um a opinião pessim ista sôbre a últim a m oda em psico­
logia.
Dr. C ole : Creio que um a das outras razões pelas quais
não houve um a pesquisa intensa sôbre o efeito das drogas no
pensam ento e no conhecim ento é o fato de não serem elas m ui­
to eficientes nessa área. Seus efeitos evidentes m ais surpreen­
dentes, pelo menos, são sôbre a sintom atologia, sôbre o sono
e o estado de alerta, ou coisas semelhantes. Posso estar errado,
mas se as drogas tivessem m ais eficiência em alterar a capaci­
dade de decisão ou a inteligência, alguém teria constatado êsse
fenôm eno em plricam ente em seus estudos.
Dr. M iller : É certo que as drogas afetam os processos
cognitivos. M as, com o o LSD-25 ou o álcool em quantidade
su ficie n te,tê m efeitos negativos sôbre tais processos. Os efeitos
do álcool sôbre os processos de raciocínio, quando objetiva­
m ente m edidos, nos proporcionam um a bela curva. M as sabe­
m os disso há m uito tempo. Sabem os tam bém que o álcool pre­
ju d ica a eficiência d a transm issão de inform ação, provocando
respostas erradas, de form a sistem ática. M as não há n ada de
nôvo nisso. O que temos de fazer é encontrar algum com posto
quím ico que transm ita a m ensagem com sua m olécula. A
m olécula passa então a incorporar-se ao R N A , e, quan do poste­
riorm ente recorrem os ao R N A , obtem os ali um a m ensagem d i­
ferente d a qu e existia originalm ente. A inda não chegamos a
êsse ponto.
U m dos presentes: G ostaria de in dagar aos debatedores se
consideram a experiência m ística transcendental das drogas
psicotom im éticas — LSD , por exem plo — um a deform ação alia­
150 O CONTROLE DA MENTE

da à alucinação ou delírio de um paciente enfêrmo, ou se cons­


titui um a nova form a intuitiva de conhecim ento. Será um a
experiência real, ou a deform ação de algum a coisa prèviam ente
existente na m ente ?
Dr. K e t y : A pergun ta que procurarei responder é se acre­
ditam os que as drogas psicotom im éticas provocam novos con­
ceitos ou objetos da percepção no cérebro ou na mente, ou se
provocam apenas deform ações de inform ações já existentes. A
única resposta é q u e não posso im agin ar um m ecanism o pelo
q u al um a pequen a m olécula, como o L SD ou a m escalina, possa
introduzir nova inform ação no cérebro, pois pelo que sabemoè
essa inform ação fica arm azenada de um a form a com plexa, sis­
tem ática e altam ente organizada. Portanto, teremos de res­
ponder que essas drogas podem apenas m odificar ou deform ar
inform ações adqu irid as antes. N ão podem criar n ad a de novo.
U m d o s p r e s e n t e s : Que acha do am adurecim ento e d a
ordenação da inform ação ?
Dr. K e t y : Certam ente, a ordenação d a inform ação é algo
que se processa juntam en te com a sua aquisição, e que é tam ­
bém determ inado genèticam ente, biològicam ente, experim ental­
mente. H á fatores d e crescimento generalizados e locais, bio­
quím icos e cronológicos, que podem m od u lar um a codificação
ordenada e contínua, e que, se desordenados, podem ser res­
ponsáveis pelas alterações no funcionam ento da codificação.
Creio tam bém que os fatôres experim entais podem preju dicar
a ordenação desses fenômenos, de m odo que, de um a form a ou
de outra, a codificação se faz errôneam ente.
Dr. K r e c h : C oncluindo, temos três resum os de nossas
constatações. Prim eiro, renunciam os ao nosso antiintelectua-
lism o e, como pesquisadores, vam os estudar a cognição e a
vida intelectual do homem. Segundo, vam os criar vários de­
partam entos de psicobioquím ica; terceiro, o estudo do papel
da acetilcolina merece alta prioridade.
T E R C E IR A PARTE

A MENTE E A SOCIEDADE

Coordenador, G lenn T . Seaborg

A s duas prim eiras fases do sim pósio se ocuparam princi­


palm ente d a m ente vista de dentro, da form a pela q u al as vá­
rias ciências veem o funcionam ento da m ente e os problem as
resultantes dêsse pon to de vista- N a T erceira Parte, o sim pósio
passou da m ente como um processo p ara a discussão da m ente
como conteúdo, à form a pela q u al o pensam ento hum ano é
condicionado p ela sociedade hum ana, e ao mesmo tempo a con­
diciona. Deu-se, como sempre, destaque à possibilidade de
controle do pensam ento hum ano e aos fatôres relevantes à
criação dêsse controle. O problem a é exam inado històrica-
m ente, psicològicam ente, teològicam ente, e em suas influências
sôbre o processo criador.
N o debate que se seguiu, dedicou-se atenção à possibili­
dade de ap roxim ar a visão am pla do com portam ento hum ano,
com um ente associada ao estudo das hum anidades, com a pers­
pectiva m ais lim itad a do cientista que realiza experiências.
G ran de parte d a discussão se relaciona com os padrões sociais
e culturais que surgem à m edida que as sociedades passam de
um estado de penúria, no q u al a subsistência é a atividade
prin cipal, p ara a condição de um a sociedade rica, em que a
iôrça m otora da atividade hum ana já não é a sobrevivência.
H . St u a r t H ug h es

A Experiência da História Recente

A s técnicas de contrôle do pensa-


m ento e lavagem do cérebro, que parecem distinguir de form a
tão característica a experiência d a história recente, em contra­
posição aos séculos passados, não são novas como se costum a
pensar. Pressões do m esm o tipo — em bora não d a m esm a in­
tensidade — sem pre foram exercidas sobre os sêres hum anos,
m esm o em sociedades qu e n ão se consideravam autoritárias.
N em são essas pressões tão totais e irresistíveis com o a im ­
prensa p o p u lar nos procura fazer crer: mesmo nas situações
m ais extrem as, perdura certa m argem de autonom ia. A novi­
dade nas técnicas contem porâneas do contrôle da m ente é a
universalidade de sua aplicação e o esfôrço de arrancar de suas
vítim as um a concordância consciente e sincera.
U m breve exam e dos prin cipais regimes autoritários dos
últim os cento e cinqüenta anos nos m ostrará como se intensifi­
cou essa pressão oficial. Nós, historiadores, adotam os h abitu al­
m ente como início do autoritarism o m oderno o estabelecimento
do governo bon apartista na França, em 1799. E assim fazemos
porqu e o regim e napoleônico nos proporciona o prim eiro exem ­
plo im portan te de um rígido contrôle oficial reimposto a um a
sociedade qu e já experim entara a liberdade intelectual e o
prin cípio de um a dem ocracia. Êsse regim e não podería des*
fru tar do povo que governava o m esm o consentimento ingênuo
em qu e se ap o iav a a autoridade tradicional firm ada num a
legitim idade secular. A nova autoridade teve de manufaturar
essa concordância, através de um a m istura cie contrôle policial
e m an ipulação em ocional.
154 O CONTROLE DA MENTE

D o ponto de vista de nossa experiência das técnicas auto­


ritárias nas últim as q u atro décadas, os m étodos de N apoleão
são, realm ente, os d e um am ador. N o começo d o século X I X
a F ran ça estava m uito perto de um a sociedade tradicional —
seu nível de alfabetização era m uito baixo, as linhas divisó­
rias entre as classes m uito agudas, e o sistem a de com unica­
ções m uito rudim en tar — p ara perm itir q u alq u er m obili­
zação em grande escala do ap oio popular. Evidentem ente, ja ­
m ais ocorreu a N ap o leão apelar sistem àticam ente p ara as m as­
sas in articuladas, pelas quais tinha, de q u alq u er m odo, apenas
desprêzo. N o sistem a bon apartista, a m aioria das com unidades
cam ponesas da França (que era ain da um país essencialm ente
agrícola) só estava su jeita ao poder do govêrno im perial no qu e
se relacionava à coleta de im postos e recrutam ento de soldados.
São estas as form as h abitu ais pelas quais um a autoridade
central, com espírito rotineiro, se faz sentir nas áreas distantes
sob seu controle nom inal. A novidade do período napoleô-
nico estava apenas no gran de núm ero de recrutados e no con-
seqüente afastam ento da totalidade d e grupos de idade do seio
da população, p ara prestar serviço m ilitar em terras distantes.
N os exércitos de Bonaparte, pela prim eira vez n a história
européia, a gente com um teve o sentim ento de “participar ati­
vam ente da transform ação do m un d o” (1 ). Sob o dom ínio
de N apoleão, o serviço m ilitar, tradicionalm ente considerado
como um castigo vindo do alto, passou a ser autênticam ente
popular. A m pliou horizontes, despertou o orgulho nacional,
proporcionou a prin cip al via p ara m obilidade social ascenden­
te. A glória e o sofrim ento m ilitar, até a p róp ria derrota, eram
os pilares da atração d o bonapartism o, tanto durante o rei­
nado do im perador com o depois de sua queda. N a geração de
paz entre W aterloo e o advento de N ap o leão III, os veteranos d o
G rande Exército continuaram sendo os líderes d a op in ião entre
o cam pesinato: um nariz ou um a orelha congelados na am ar­
ga retirada de M oscou eram a m ais alta m arca de distinção
e m otivo do m aior orgulho. A qui, no início mesmo d a expe­
riência do autoritarism o m oderno, encontram os um de seus
paradoxos centrais — sua capacidade de fazer com que o povo
ame aq u ilo que m ais o fêz sofrer.
À parte sua m obilização de entusiasm o, qu ase acidental,
pelo serviço m ilitar, N ap o leão pouco fêz p ara conquistar o
apoio ativo de seus súditos. Seus m étodos — com o a censura d a
A MENTE E A SOCIEDADE 155

im prensa — não eram m uito diversos da supervisão policial


comum nas m onarquias tradicionais. N a França bonapartista,
tal pressão era quase igualm ente esporádica como ineficiente.
A única atitude n apoleônica de cunho realm ente m oderno foi
a hostilidade d o im perador aos intelectuais: dificultou o pen­
sam ento especulativo e procurou canalizar o talento p ara a
ciência e a tecnologia. Su a época foi estéril nas belas-letras,
m as de progresso n a ciência aplicada.
A atitude dos intelectuais tem sido o problem a crucial do
autoritarism o m oderno. A pressão crescente que sôbre êles se
exerce é o indício isolado m ais claro do aperfeiçoam ento das
técnicas de contrôle do pensamento. N a época de N apoleão,
era relativam ente fácil vencer a resistência dos intelectuais: a
sim ples am eaça de perder o favor oficial habitualm ente bastava.
O único escritor que causou realm ente preocupações ao im pe­
rador foi M adam e de Staêl, m as sua influência se lim itava
a um círculo literário e ideológico especial. Era um indício
da m udança dos tem pos — e com ela um a m elhoria na situação
social e na independência financeira dos intelectuais — o fato
de que o sobrinho de N apoleão, N ap o leão III, tivesse verifi­
cado a im possibilidade de dom inar os homens de letras do
país. O árbitro suprem o dêsses círculos, a A cadem ia Francesa,
foi um a cidadela da oposição durante todo o seu reinado. N a
verdade, a conversão fin al do Segundo Im pério a um a m onar­
q u ia quase-parlam entar foi, em grande parte, conseqüência da
in capacidade evidenciada do im perador de conquistar o apoio
d a elite intelectual da França.
Com o Itália fascista, a A lem anha nazista e a R ússia so­
viética, chegam os a m undos diferentes, em relação à relativa
b ran du ra e polidez dos dois N apoleões. O autoritarism o do
século X X se distingue agudam ente do autoritarism o do século
X I X pela am plitud e de seu contrôle e o rigo r de seus métodos.
Com os novos m eios de com unicação em m assa à sua disposição,
os ditadores de nosso tem po tentaram doutrinar tôda a popu la­
ção sob seu dom ínio — algo que até mesmo na época de N a­
poleão III, há um século, era um a im possibilidade técnica. E
tornaram-se tam bém m ais rigorosos no tratam ento daqueles
aos quais os m eios de com unicação modernos deram nôvo
potencial — os intelectuais profissionais.
Estarem os errados, porém , se considerarm os êsses regimes
autoritários d a E u ro p a como sociedades absolutantente fechadas.
156 O CONTROLE DA MENTE

O fascim o, tanto italian o como alem ão, tolerava tôdas as for­


m as de centros de autoridad e autônom os e de concorrentes
em fidelidade — m ais particularm ente, os grandes negócios e
a religião organizada. N a Itália, M ussolini jam ais procurou
dom inar totalm ente os intelectuais: deu um a situação especial
de im unidade priv ilegiad a ao p rin cip al filósofo do país, Be-
nedetto Croce, e parece não se ter em penhado em en quadrar
um dos m ais influentes dos escritores italianos, L u ig i Piran-
dello. As universidades estavam cheias de espíritos indepen­
dentes, que só ocasionalm ente — como no juram en to exigido
aos professôres em 1931 — eram obrigados a ap aren tar fideli­
dad e ao regime. N a A lem anha, os intelectuais sofreram m ais,
porém mesmo ali, quem fêz apenas um m ínim o de concessões ao
nazism o ou se m anteve calado qu an to a assuntos controversos,
pôde, em m uitos casos, atravessar a tem pestade. N a R ú ssia so­
viética não há centros autônom os de lealdade, como os que, nos
Estados fascistas, davam conforto e abrigo aos intelectuais dissi­
dentes: o partido com unista realizou logo o m onopólio do sen­
tim ento organizado, q u e nem m esm o o nazism o pôde conseguir
N ão obstante, na R ú ssia soviética o contrôle intelectual jam ais
foi total. Os altos e baixos, as alternações entre o rigor e a tole­
rância no tratam ento oficial de figuras de grande im portância
criadora como Prokofieff, Eisenstein e Pasternak revelam a in­
decisão da parte do próp rio regim e — a falta de segurança na
delim itação de até onde ir no condicionam ento da expressão
criadora.
T o d o s êsses sistem as autoritários europeus parecem céticos
quan to à possibilidade de realm ente m od ificar a m ente das
pessoas. Sem dúvida, viram os intelectuais com desconfiança.
A terrorizaram e perseguiram os intelectuais. Aprisionaram -nos
ou os levaram ao exílio ou o$ reduziram ao silêncio, àq u ilo
que os alem ães cham am de "em igração interior” . Por vêzes,
com o nos prim eiros anos do regim e soviético, exploraram o
talento da intelligentsia até que pudessem preparar um a in-
telligentsia própria. M as essas ditaduras européias raram ente
procuraram , de form a consciente, converter os intelectuais,
levando-os a abandonar um antigo sistem a de valores p ara
adotar um nôvo.
Essa, ao que me parece, a grande inovação da técnica a u ­
toritária feita pela C hina com unista, hoje. O esfôrço de
converter — antes lim itado aos dissidentes dentro do próprio
Partido, como nos expurgos de M oscou em 1930 — se estendeu
A MENTE E A SOCIEDADE 157

a tôda a classe intelectual. A gran de cam panha chinesa da


reform a de pensam ento de 1948-1952 não teve precedentes na
história hum ana, pelo seu alcance e intensidade. Assim como
o objetivo era singular, tam bém os métodos em pregados, as
pressões psicológicas e o estím ulo do entusiasm o nas “ univer­
sidades revolucionárias” especialm ente organizadas constituí­
ram novidade em relação à experiência dos regimes au toritá­
rios. Com o disse R obert Ja y Lifton, cujo estudo publicado
recentemente é básico n o assunto: (2)

E m b o r a a r e f o r m a se v a lh a d a h a b i li d a d e p s ic o ló g ic a t a n to d a C h in a
t r a d ic io n a l c o m o d o c o m u n is m o o c i d e n t a l . . . e la d e s p e r t a a t e n d ê n c ia
i n q u is it o r ia l d e a m b o s o s m u n d o s. D e cad a u m a das d u as gran d es cor­
r e n t e s c u lt u r a i s a c e n t u a m o q u e é m e n o s lib e r a l. O d o g m a t is m o in q u is i-
t o r ia l, a m a n i p u la ç ã o h a b i li d o s a e o e n tu s ia s m o se c o m b in a m n e la p a r a
p r o d u z ir u m a q u a l i d a d e te r r ív e l.
[O r e s u lt a d o te m sid o ] o m a is c o m p le to e m a is a t e r r o r iz a d o r t ip o
d e p r e s s ã o m e n ta l. C o m o u m a d a s v ít im a s d o c o n tr ô le d o p e n s a m e n t o
q u e ix o u - s e , s u a a v ó “ p o d i a m e o b r i g a r a fa z e r c o is a s q u e e u n ã o d e s e ja v a ,
m a s j a m a is m e p ô d e o b r i g a r a d iz e r q u e e ssa s c o isa s e r a m b o a s ” .

É isso o que querem os dizer — ou provàvelmente deveria­


mos dizer — quando denom inam os de “ totalitárias” certas for­
m as de contrôle dos sêres hum anos. A ausência dessa capaci­
dade de forçar as pessoas a dizerem — e, o que é m ais im por­
tante, a acreditarem — que o m al é o bem tem sido a razão
pela q u al um a m in oria dos que estudam os o assunto nos
recusam os a aplicar o adjetivo “ totalitário” a sociedades como
a A lem apha nazista e a U n ião Soviética, e que nos tem im pe­
dido, n a verdade, a utilizar a palavra em qualqu er situação.
N as três décadas que foram de 1920 a 1950 acreditam os que o
totalitarism o tenha sido um a aspiração, e não um a realização
prática. E ra um p ad rão “id eal” p ara ju lg a r a conduta dos
Estados totalitários, e não u m a descrição de condições reais.
T estem unh os eloqüentes sobre as m argens de autonom ia que
perduram m esm o n a extrem a situação clássica de contrôle
terrorista podem ser encontrados nas m em órias dos sobreviven­
tes dos cam pos de concentração, que registraram as lutas inter­
nas entre os elem entos crim inosos e políticos, entre os próprios
prisioneiros, e os escoadouros que essas lutas proporcionavam
aos indivíduos de fôrça m oral e de agilidade para que pre­
servassem um a pequen a área de auto-expressão não pertur­
bada. (3)
158 O CONTROLE DA MENTE

Com a C hina com unista parecemos encontrar algo m uito


diferente. A reform a do pensam ento chinês com bina “a força
ou coação externa com um apêlo ao entusiasmo intimo pela
exortação evangélica”, em escala e em nível de intensidade
m uito superiores aos regim es autoritários do passado: R ealiza
um assalto sistem ático à identidade interna de suas vítimas,
alternando a pressão violenta e a persuasão, levando-as à con­
fusão m ental que ap aga as linhas entre a verdade e a m en­
tira, entre o bem e o m al, entre o eu íntim o e a pressão ex­
terna, até que por fim com preendem que a única saída para
a salvação é a aceitação do m undo de seus torturadores. M ao
T se-T u n g descreveu o processo com grande sim plicidade: (4)

O p r im e ir o m é to d o é d a r a o s p a c ie n t e s u m p o d e r o s o e s tím u lo , g r ita r -
lh e s : “ V o c ê s e stã o d o e n t e s 1", p a r a q u e se a s s u s t e m e s u e m b a s t a n t e . E m
s e g u id a , se r ã o c u id a d o s a m e n t e t r a t a d o s .

N ão é verdade, porém , que o tratam ento dado aos inte­


lectuais pelos com unistas chineses seja totalm ente sem pre­
cedentes. Podem os encontrar paralelos, com o sugeri ain da há
pouco, nos expurgos de M oscou na época de 1930 e n a con­
denação do C ardeal M indszenty pelos com unistas húngaros,
um a década m ais tarde. Êsse paralelo pode servir p ara nos
lem brar que o mesmo tipo de poder irresistível e oculto que
está agora sendo atribuíd o aos governantes d a C hina era antes,
em bora em escala menor, atrib uíd o à inquisição do com unism o
europeu.
Sem pre que havia um dos grandes julgam entos, a im ­
prensa e até mesmo certos “peritos” faziam regularm ente es­
peculações sôbre os m eios diabólicos em pregados p ara arran­
car confissões dos acusados. E essas confissões — pelos seus
detalhes e pela aparente sinceridade com qu e eram feitas —
pareciam exigir um a explicação sensacional. Com eçava a
circular, invariavelm ente, o boato de que um a nova droga
m isteriosa havia paralisad o as faculdades críticas do acusado.
N enhum a dessas afirm ações foi jam ais provada. As provas são
esm agadoras: os com unistas europeus arrancaram confissões
sim plesm ente alternando o terror e a persuasão, e a farm aco­
logia não teve nisso q u alq u er participação.
O que levou Zinoviev e B u k arin e M indszenty e todos os
outros a “confessar” parece ter sido um a com bin ação d a am eaça
de tortura, a esperança de salvar a vida se cooperassem , e o
A MENTE E A SOCIEDADE 159

desejo de dar fim a um sentimento esm agador de solidão pes­


soal concordando com o que lhes era pedido. O mesmo deve
ocorrer com as vítim as da reform a chinesa do pensam ento.
Com o provaram os pesquisadores d o Dr. Lifton, os m an ipula­
dores chineses das alm as hum anas não dispõem de poderes
ocultos. N ad a têm a acrescentar às técnicas de controle do
pensam ento já existentes, nem se serviram m uito da prática
e da teoria anterior. Sim plesm ente desenvolveram seus m é­
todos pragm àticam ente, praticando-o durante tôda um a ge­
ração. Com o povo tradicionalm ente dedicado a relações hu­
m anas cuidadosam ente ordenadas, estabeleceu um a sucessão
particularm ente eficiente de apelos convencionais e pressões, ao
alcance de quem esteja preparado p ara n ão se deter diante de
nada, n a m an ipu lação do pensam ento dos seres hum anos.
Em sum a, apesar de certa violência ou am eaça de violência,
os com unistas chineses exploraram sistem àticam ente o senti­
mento de culpa q u e existe com m uita freqüência na estrutura
psicológica d a m aioria dos intelectuais. Procuraram agir sôbre
o elem ento im placàvelm ente punitivo que existe na consciên­
cia in dividual. A negação do am or — a am eaça de expulsão de
um consenso de valores com uns — são as características centrais
de um processo que parece m isterioso, m as é na realidade bas­
tante simples. Q uando os pais a êle recorrem, em suas relações
com os filhos, damos-lhe o nom e de “ chantagem em ocional” .
Nesse processo, a confissão ocupa o lu gar crucial. Para os que
carregam um forte sentim ento de culpa — a m aioria das pes­
soas, entre nós, tem êsse sentim ento — o desejo de confessar
é intenso. N ão tanto pela substância do que é confessado, mas
pela purgação da alm a. O processo é, portanto, aproveitar-se
dêsse sentim ento de culp a e dirigi-lo p ara os canais escolhidos
pelo inquisidor. E a form a de fazer isso é pela intensificação
do sentim ento de culpa até que qu alqu er via de escape pareça
preferível ao perm anente sofrim ento emocional, e em seguicla
passar a um a técnica de persuasão, m ostrando onde está o ca­
m inho p a ra o “p erd ão” .
D ois outros paralelos, um tom ado do passado europeu,
e outro à p róp ria h istória recente dos Estados Unidos, m os­
trarão, creio, a u niversalidade dessas pressões emocionais.
O prim eiro é a experiência da Inquisição, no período que
foi do século X I I I ao X V II. N a sociedade tradicionalista da
E u ro p a M edieval, o problem a do contrôle do pensamento era
160 O CONTROLE DA MENTE

m ais sim ples do que num E stado au toritário contem porâneo.


E ra como se toda a p o p u lação articulada pertencesse ao p a r­
tido que encarnava a ideologia predom inante — um a situação
a que a A lem anha nazista ou a R ú ssia soviética jam ais preten­
deu, e da q u al a C hina com unista se está apenas aproxi­
m ando. N a sociedade m edieval não havia o conflito de ideo­
logias: a única concorrência ao cristianism o católico vinha de
um a fé anim ista entre os camponeses e dos excessos satânicos
do subm undo literário que, de qu alq u er m odo, estava conven­
cido de sua próp ria danação. Assim, a reform a do pensam ento
se processou dentro dos lim ites d a cultura cristã: dirigia-se
m ais especialm ente aos que haviam caído em heresia.
Os grandes julgam entos ideológicos daqueles séculos — da
condenação dos T em p lário s no início d a fase ao julgam en to de
G alileu, em seu térm ino — tiveram certas características co­
m uns que nos surpreenderam pelo que encerram de m oderno.
H ouve a alternação conhecida entre a violência (ou am eaça de
violência) e a prom essa de salvação (ou am o r). H ouve a insis­
tência do tribun al de que a conform idade aparente não era bas­
tante — exigia-se tam bém a aceitação íntim a pela vítim a. O
ato final de reconciliação sim bolizava um a perda com pleta de
identidade pelo próp rio sofredor — a entrega sincera de seu
corpo e alm a às m ãos de seus carrascos. G eorge Orw ell resum iu
o processo nas últim as linhas de seu 1984: “Ê le amava o Irm ão
M aior.”
Q uando passam os da sociedade fechada dos fins d a Idade
M édia n a E u ro p a p ara a sociedade aberta d e nosso país, hoje,
o paralelo pode parecer, na realidade, m uito am plo. Evidente-
mente^ os Estados U nidos não têm um a religião ou um partido
dom inante em sua cultura. M as temos algo que em m omentos
de crise funciona de m odo com parável — o consenso maciço
da classe m édia que é por vêzes cham ado de bipartidarism o, e
por vêzes “m odo am ericano” . A época de crise m ais recente foi
entre 1950 e 1954, quando o Senador M cCarthy estava no auge,
e um a h orda de precursores e im itadores lhe reforçavam a au to­
ridade. D uran te êsse período, a “heresia” ideológica foi tem-
poràriam ente elim inada nos Estados U nidos. O u seja, a dis­
cussão pú b lica e livre de problem as realm ente prementes e con­
troversos quase desapareceu por com pleto.
D o ponto de vista do que estam os debatendo aqui, o que
há de m ais interessante na era de M cCarthy, na história am e­
A MENTE E A SOCIEDADE 161

ricana, foi o êxito relativo obtido pelo contrôle do pensam ento


sem recurso a q u alq u er tipo de violência. M cCarthy e seus emu-
ladores não tinham a autoridade dos tribunais ou da polícia a
seu serviço, exceto em proporções m uito lim itadas. Em sua
m aior parte eram inquisidores por sua próp ria vontade, arro-
gando-se um poder inform al de base legal freqüentem ente m u i­
to precária. Podiam atem orizar testemunhas, aterrorizá-las com
am eaças que pareciam ain da piores porque vagas, m as evidente­
m ente não as pod iam subm eter a torturas físicas, ou ao m êdo
d a m orte. E ain da assim levaram hom ens ao desespêro, ao
suicídio, ou aos divãs dos psiquiatras. E mesmo os qu e não
foram por êles diretam ente am eaçados ficaram , habitualm ente,
reduzidos ao silêncio.
A conclusão parecia inevitável. A violência física é de gran ­
de aju d a no contrôle do pensam ento, m as não lhe é essencial.
As reflexões sobre a era de M cCarthy nos sugerem que a confor­
m idade generalizada de princípios da década de 1950 foi pro­
vocada m uito m ais pelas pressões em ocionais e psicológicas do
que por um m êdo realista de perder o emprêgo. A perda do
am or, a expulsão do consenso nacional — em sum a, o ostracism o
social — foram as am eaças que realm ente tiveram eficiência na
fase in quisitorial de nossa história recente — isso, e a exploração
sistem ática do sentim ento de culpa que deu gum e a tais arm as.
Se pesquisasse bastante em suas m em órias, a m aioria dos inte­
lectuais am ericanos de im aginação e autenticidade que viveu
entre 1930 e 1940 poderia encontrar algum pecado ideológico
de que se envergonhar — e isso bastava para M cCarthy e seus
seguidores.
H avería pouca utilid ad e em lem brar êsse mom ento negativo
de nosso passado recente, se isso n ão nos proporcionasse algo de
positivo. A Am érica, no final, sobreviveu a M cCarthy. Em têr-
m os do debate livre e espontâneo, ain da não voltam os ao nível
d a década de 1930, m as estamos a cam inho dêle. Se, como argu­
m entei, as m áquin as básicas do contrôle do pensamento são
antes a pressão em ocional do que a física, então há esperança
de auton om ia p ara a m ente hum ana, não só em nosso país,
onde a violência física está quase totalm ente ausente, mas mes­
m o nos Estados autoritários, onde ela constitui um a realidade
sem pre presente.
Voltem os os olhos, m ais um a vez, p ara o m ais extrem o caso
de contrôle do pensam ento conhecido na história recente —
162 O CONTROLE DA MENTE

a China com unista. Os d ad os d o Dr. L ifto n sugerem claram ente


que o êxito das técnicas chinesas de reform a intelectual não é,
no final das contas, tão origin al quanto parece. Entre chi­
neses e entre ocidentais que foram subm etidos ao “ tratam ento
com pleto”, seja na prisão ou em universidades revolucionárias,
os recuos e defecções têm sido freqüentes. E stá longe de haver
certeza de que o assentim ento dem onstrado inicialm ente pelos
que assim foram convertidos tenha sido duradouro. Q uando
em 1956, em seguida ao “slogan” de M ao, “que floresçam cen­
tenas de flores, que centenas de escolas do pensam ento se emu-
lem ”, os com unistas chineses fizeram experiências com o rela­
xam ento da supervisão ideológica, e o resultado disso evidente­
mente constituiu p ara êles um choque. A elim inação súbita
dos controles provocou um a torrente de críticas: todas as dú ­
vidas e ressentimentos que haviam sido m antidos em segrêdo,
sob a superfície, durante o evidente período de êxito da refor­
ma do pensam ento, vieram à tona, e os contrôles tiveram de ser
restabelecidos novamente. (5)
O trabalho de L ifto n sugere tam bém que as vítim as dos
processos de reform a, mesmo as que se “form aram ” com êxito
na prisão ou nas universidades revolucionárias, puderam , em
m uitos casos, conservar intacto algum aspecto de seu pensa­
m ento que lhes era particularm ente precioso. Sacerdotes ca­
tólicos, p o r exem plo, conseguiram preservar sua fé. E xem ­
plos com paráveis de outros países e outras épocas não vêm à
lem brança. Podemos pensar em G alileo m urm urando “Eppure
si muove” (E no entanto, se m ove) — pouco depois de ter sido
obrigado a negar sua nova cosm ologia, ou no caso do expurgo
de M oscou. B ukarin vencendo a lu ta p ara m anter um pouco
de sua honra revolucionária intacta. (6) T a is exem plos nos
lem bram que mesmo os extremos rigores da reform a de pensa­
m ento contem porânea estão com preendidos p ela experiência
hum ana do passado, e que se os recursos dos inquisidores são
m uitos e astutos, tam bém o são os recursos e evasões a que a
m ente hum an a pode recorrer em sua decidida lu ta pela li­
berdade. (7)
Por isso, parece-me que o estudo do contrôle d a mente
deve ser com plem entado pela investigação de com o a sua auto­
nom ia pode sobreviver e na realidade sobrevive. Precisam os
conhecer m ais sôbre os pontos fracos e os pontos a que nos po­
dem os apegar. Precisamos estudar os episódios de oposição à
A MENTE E A SOCIEDADE 163

tirania, como os m ovim entos de resistência d a II G uerra M un ­


dial. Deveriam os procurar conhecer m elhor o ferm ento que
está surgindo entre os jovens da E u ropa oriental e até mesmo
da p róp ria U n ião Soviética. O resultado, creio, seria dar-nos
nova fé n a in destrutibilidade d a mente hum ana em penhada
num a lu ta m ortal com os opressores que, sob disfarces diferen­
tes e sob diferentes rótulos ideológicos, se têm m anifestado em
todas as épocas.

R E F E R Ê N C IA S

(1) M oraze, C ., L a France Bourgeoise, P a r is , 19 4 6 , p á g . 9 7.


(2) L ifton, R . J . , Thought Reform and the Psychology of Totalism: A
Study of “Brainwashing” in China, N . Y o r k , 19 6 1 ., p á g s . 2 98-398.
(3) V e r , p o r e x e m p lo , E u g e n K o g o n , The Theory and Practice of Hell, N .
Y o r k , F a r r a r , S t r a u s s e C o ., 1950.
(4) L ifton, op cit., p á g . 13, 6 6 , 380-381.
(5) Ibid., p á g s . 4 1 1 -4 1 4 .
(6) M erleau-Ponty, M., Humanisme et Terreur: Essai sur le Problème
Communiste, P a r is , 1 9 4 7 , p á g s . 71-75.
(7) V e r , p o r e x e m p lo , o e n s a io e s p e c u la t iv o d e D a v id R i e s m a n , “ S o m e
O b s e r v a tio n o n th e L i m i t s o f T o t a l i t a r i a n P o w e r ” — The Antioch
Review, v e r ã o , 1 9 5 2 , p á g s . 155-168.
C. A. M ace

A Motivação Humana
Numa Sociedade Rica

«I^oderíamos dizer que as ciências, com o


os homens, costum am voltar as costas aos seus m ais cordiais
vizinhos e cultivar, ao invés dêles, os que m enos parecem expe­
rim entar sim patia por elas. É assim que os psicólogos buscam
a sociedade dos fisiologistas, estes se voltam p ara os bioqu ím i­
cos, os quím icos freqüentam os físicos e êstes se associam com
os m atem áticos. H á, realm ente, razões m uito boas para que
os estudiosos de um a disciplina procurem trocar pontos de
vista com os de outras, e não há dú vida de que os grandes
progressos na psicologia ocorreram desde que essa disciplina
pretendeu ser um a ciência biológica voltada p ara a fisiologia,
e n a verdade p ara a física e a m atem ática, no que se relaciona
com m odelos e princípios explicativos.
H á, porém , m otivos p ara que os psicólogos olhem para
trás, p ara ver o qu e está ocorrendo nas outras ciências que
se ocupam do homem, especialm ente do hom em nas com uni­
dades civilizadas avançadas. N a sociologia e na economia, são
lançadas de quando em vez idéias que podem com plem entar e
corrigir as noções baseadas no estudo das sociedades prim itivas
e espécies subhum anas. H á, por exem plo, duas idéias na teo­
ria econômica recente e contem porânea que podem ter in flu ­
ências im portantes na psicologia. H á alguns anos, o econo­
m ista R ostow descreveu, n um a feliz m etáfora aeronáutica, a
“arran cada”, ou seja, a transição de um país de um a fase está­
A MENTE E A SOCIEDADE 165

tica pré-industrial p a ra um a condição de crescimento in dus­


trial. ( * ) M ais recentemente, G alb raith entusiasm ou o m undo
intelectual com sua análise da transição da sociedade pobre
para a sociedade rica. Am bos os conceitos podem receber um a
conotação psicológica. H á, realm ente, um a “ arrancada” evi­
dente na evolução hum ana, e a distinção entre a pobreza e a
riqueza é tanto psicológica quanto econômica.
A riqueza é, naturalm ente, um conceito relativo. A pe­
n úria ab so lu ta pode ser defin ida pelo psicólogo como o estado
no q u al 100% d a vida consciente do hom em e 100% de sua
energia são em pregados num a atividade custosa p ara assegurar
o m ínim o essencial à sobrevivência. A riqueza absoluta, por
sua vez, pode ser defin ida como o estado no q u al o hom em não
precisa gastar q u alq u er m om ento de su a vida em atividades
destinadas a garantir-lhe a subsistência. As proporções de
abundância ou pen úria podem ser definidas em têrmos d a
percentagem dessa “energia gasta n o trabalho”, sendo “ traba­
lho”, por sua vez, definido em têrmos de atividades que os ho­
m ens não desejam executar sim plesm ente p ara sua satisfação,
m as às quais são levados p ela necessidade de viver. D urante
m uitos séculos, e em m uitas sociedades, m uitos homens desfruta­
ram da riqueza quase com pleta. G albraith se ocupa, porém, do
aum ento da riqueza relativa na vida de grande núm ero de pes­
soas na m oderna civilização industrial.
A “arran cada” da pen úria terrestre p ara a abundância
aérea tam bém é relativa. Em condições de penúria extrema,
todos os esforços se dirigem p ara o equilíbrio entre a receita
e a despesa. D epois d a arrancada, e quando as duás colunas do
orçam ento já se equilibram , há períodos de inatividade a en­
frentar — m ais prolongados ou menos prolongados — ao longo
do cam inho. A transição pode ser, como fenômeno psicoló­
gico, tão dram ática como o fenôm eno biológico d a m etam or­
fose, e a com preensão dessa transição é essencial à compreensão
d a m otivação e dos incentivos hum anos na sociedade rica. O
que torna a transição dram ática é que essa arrancada não é
apenas um a libertação das necessidades biológicas, mas tam ­
bém o comêço da descoberta de modos de atender a necessi­
dades psicológicas bem delineadas. A transição da penúria
p ara a abundância pode talvez ser interpretada em têrmos da

(*) No livro E ta p a s do D esenvolvim ento Econôm ico, publicado por esta cditôra
na Biblioteca de Ciências Sociais. (N. dos E.)
166 O CONTROLE DA MENTE

transição de um estado d a natureza p ara um estado de graça,


considerando-se “ a graça” , hoje, como o “ viver graciosam ente” .
Essa condição im plica, em têrmos d a con jun tura contem po­
rânea, em boas instalações, m áquinas de lavar, apartam entos
de ar condicionado. Significa m ais do que isso, porém : sig­
n ifica boa com ida e boa b ebida degustadas em com panhia de
am igos, num a bela sala; significa diversões variadas e de
todos os gêneros — num a frase, aqu ilo que os filósofos, durante
séculos, cham aram de “boa v id a” .
M uito há ain da a fazer pelos psicólogos, sociólogos, antro­
pólogos e historiadores, p ara descrever e explicar as m uitas e
variadas concepções de “b oa v id a”, nas diferentes épocas e lu ­
gares. A essência d a questão é a explicação da arrancada psico­
lógica, isto é, a transição d a barbárie p ara a civilização. O
fato secundário de que a transição possa ser grad u al não obs-
curece o fato prim ord ial de que ela não é apenas a m ais d ra­
m ática, m as tam bém a m ais im portante transição na história
hum ana.
Sua natureza dram ática foi encerrada num trecho do Le -
viathan, de H obbes, pu b licad o em 1651:
. . . t o d o h o m e m p r e t e n d e q u e s e u c o m p a n h e ir o o t e n h a n a m e s m a
c o n ta e m q u e ê le se c o n s id e r a . A q u a l q u e r in d íc io d e m e n o s p r ê z o , o u d e
in d ife r e n ç a , t e n t a n a t u r a lm e n t e , n a m e d i d a e m q u e p o d e (o q u e , e n tr e
o s q u e n ã o tê m p o d e r c o m u m p a r a m a n t ê - lo s q u ie t o s , é o b a s t a n t e p a r a
q u e se d e s t r u a m u n s a o s o u t r o s ) e x t r a i r m a io r v a lo r d e s e u s c o n c o r r e n te s ,
p e lo d a n o ; e d o s o u t r o s , p e lo e x e m p lo .
A s s im é q u e n a n a t u r e z a d o h o m e m e n c o n tr a m o s trê s c a u s a s p r in c i­
p a i s d e c h o q u e . A p r im e i r a , a c o n c o r r ê n c ia ; a s e g u n d a , a d e s c o n fia n ç a ;
a te r c e ir a , a g ló r ia .
A p r im e i r a fa z o s h o m e n s lu t a r e m p e lo g a n h o ; a s e g u n d a , p e la
s e g u r a n ç a ; a te r c e ir a , p e la f a m a . A p r im e i r a u s a v io lê n c ia p a r a se
t o r n a r s e n h o r a d e o u t r o s h o m e n s, m u lh e r e s , c r ia n ç a s e a n im a is ; a s e g u n ­
d a , p a r a d e fe n d ê - lo s; a te r c e ir a , p a r a o b t e r c o isa s se m i m p o r t â n c ia , c o m o
u m a p a la v r a , u m so r r iso , u m a o p i n i ã o d ife r e n te , o u q u a l q u e r o u t r o in d íc io
d e v a lo r iz a ç ã o , s e ja d ir e t a m e n t e a s u a s p e s s o a s , s e ja p e lo r e f le x o e m s u a
f a m í lia , s e u s a m ig o s , s u a n a ç ã o , s u a p r o f is s ã o o u s e u n o m e .
T o r n a - s e p o r t a n t o e v id e n te q u e d u r a n t e o t e m p o e m q u e o s h o m e n s
v iv e m s e m u m p o d e r c o m u m p a r a m a n t ê - lo s so b r e c e io , e s tã o n a c o n ­
d iç ã o c h a m a d a G u e r r a , e e ssa g u e r r a , é a d e t o d o h o m e m c o n tr a o u t r o
h o m e m . P o is a G u e r r a n ã o c o n siste a p e n a s n a b a t a l h a , m a s n u m e s p a ç o
d e t e m p o e m q u e a v o n t a d e d e l u t a r e m b a t a l h a é c o n h e c id a s u f ic ie n t e ­
m e n te . E p o r t a n t o a n o ç ã o d e t e m p o d e v e s e r i n t e g r a d a c o m o d a n a t u ­
re z a d a g u e r r a , ta l c o m o o c o r re c o m a n a t u r e z a d o c lim a . P o is a n a t u r e z a
d o m a u t e m p o n ã o e s tá n u m a o u d u a s p a n c a d a s d e c h u v a s , m a s n a r e u ­
n iã o d e m u i t a s c h u v a s . A s s im a n a t u r e z a d a G u e r r a n ã o c o n s ist e n a
A MENTE E A SOCIEDADE 167

lu t a r e a l, m a s n a d is p o s iç ã o c o n h e c id a , d u r a n t e to d o o t e m p o cm q u e nflo
h o u v e r a f ir m a ç ã o e m c o n t r á r io , d e lu t a . Q u a lq u e r o u t r o t e m p o à VAI,
O m e s m o q u e o c o r re , p o r t a n t o , n o t e m p o d a G u e r r a , q u a n d o to d o
h o m e m é o I n im ig o , o c o r r e t a m b é m n o t e m p o e m q u e o h o m e m v ive «cm
o u t r a s e g u r a n ç a q u e n ã o s e ja a s u a p r ó p r i a fô r ç a e s u a in v e n ç ã o lh e
p r o p o r c io n a r á t u d o . E m t a is c o n d iç õ e s, n ã o h á l u g a r p a r a a in d ú s t r ia ,
p o r q u e o f r u t o d e s t a é in c e r to , e c o n s e q ü e n te m e n te n e n h u m a C u lt u r a
sô b re a T e r r a . N e n h u m a n a v e g a ç ã o , n e n h u m u s o d e m e r c a d o r ia s q u e
p o d e m s e r im p o r t a d a s p e lo m a r , n e n h u m le v a n t a m e n t o d e e d ifíc io s, n e ­
n h u m in s t r u m e n t o d e m o v im e n t o , e d e re m o ç ã o d a s c o is a s q u e p o s s a m
e x ig ir fô r ç a , n e n h u m c o n h e c im e n to d a fa c e d a T e r r a , n e n h u m e s tu d o
d o T e m p o , d a s A r te s , L e t r a s , n e n h u m a S o c ie d a d e . E o q u e é p io r d e
t u d o , c o n ín u a lu t a e p e r ig o d e m o r t e v io le n ta . E a v i d a d o h o m e m ,
s o lit á r io , p o b r e , p r e c á r i a , e m b r u t e c id a e c u r t a .

Dizer que o hom em pode escapar d a necessidade biológica,


ou transcendê-la podería parecer um a afirm ação extrem am ente
exagerada. P ara d ar m ais plausibilid ade a essa afirm ação, é
necessário recapitularm os ràpidam ente os prin cipais pontos do
prim eiro capítulo de um a m oderna e representativa introdução
à psicologia, e em seguida, sugerir as form as pelas quais o se­
gu n do capítulo deve ser revisto.
O prim eiro capítulo afirm a que o homem (ou q u alqu er
organism o) é um a espécie de m áquina. O aparato m ecânico
é um a reunião de instrum entos de dois tipos: 1) instrum entos
p ara recolher sinais do am biente (bem como instrum entos se­
m elhantes p ara receber sinais oriundos do interior da m á­
q u in a ) e 2) instrum entos que reagem a êsses sinais de form a
adequada, prin cipalm en te pelos m ovim entos dos membros. O
prim eiro tipo de instrum ento pode ser com parado a um m icros­
cópio, ao telescópio e ao equipam ento de radar. O segundo
pode ser com parado a ferram entas como m artelos, alicates etc.
Êsses dois tipos de instrum entos são ligados por um sistema de
com unicações que com preende os equipam entos como elemen­
tos variáveis, form ulações hipotéticas, reuniões de células, sis­
temas de arm azenagens e — segundo certas opiniões — de gno-
m os e fantasm as q u e dirigem o processo e podem intervir de
form a agitadora. Essa análise desconhecerá tais mecanismos
de controle, concentrando-se nos dois tipos de instrumentos
diretam ente em pregados nos processos ligados â “en trada” e
“saíd a".
O com portam ento d a m áquin a é dirigido normalmenie,
em bora talvez nem sempre, p ara a consecução de m i o s o b je ­
tivos. Com o a psicologia é um a ciência biológica, os fins para
168 O CONTROLE DA MENTE

os quais o com portam ento é dirigido são os fins biológicos da


autopreservação e d a perpetuação da espécie. Q ue significa essa
definição d a m otivação hum an a ? N u m sentido bastante co­
m um d a expressão “d irig id o ”, o com portam ento h abitu al não é
d irigid o sim plesm ente dessa form a. T om em os por exem plo a
perpetuação d a espécie. Indaguem os de alguém : Você se pre­
ocupa com a perpetuação da espécie ? Indaguem os dos histo­
riadores: Q uais as provas históricas de que os homens se te­
nham preocupado com a perpetuação d a esp écie? Os histo­
riadores responderão: “O s fundadores de algum as fam ílias no­
bres realm ente desejaram perpetu ar suas fam ílias, construíram
palácios suntuosos, pretendendo que fossem ocupados pelos
seus descendentes p or m uitas gerações. Entre as pessoas co­
m uns, porém , a am bição de perpetuar a espécie teve papel
m uito lim itado.” Poderiam os acrescentar que ela tam bém tem
um papel m uito lim itado n a vida do hom em com um de hoje.
H á um a form a totalm ente diferente e m uito m ais esclarecedora
de descrever como ocorre o processo de perpetuação d a espécie.
Em sua Wealth of Nations, A dam Sm ith apresentou a teoria
interessante de que, n a busca de seus interesses privados, os
homens necessàriamente, pela interferência de um a m ão oculta,
prom ovem o bem-estar da sociedade. Em outras palavras, que
o hom em e a sociedade são constituídos de tal m odo que, per­
m itindo-se ao hom em seguir seus im pulsos egoístas, êle é levado
a prom over o bem d a sociedade, como efeito im previsto e não-
-intencional. O prin cípio pode ser aplicado de m odo m ais
am plo. Poderiam os argum entar com lógica igual, senão m aior
que ao seguir seus im pulsos os homens são levados a perpetuar
a espécie, efeito êsse tanto im previsto como não-intencional.
O m esm o argum ento pode ser aplicado ao prin cípio biológico
da autopreservação. E m bora h a ja ocasiões em q u e o hom em
age conscientemente p ara salvar a pele, n a m aioria dos casos os
atos que realm ente conduzem a autopreservação não são m oti­
vados po r um objetivo tão abstrato. D an d o rédea aos seus ape­
tites, o hom em é levado a alim entar seu corpo. Essa an alogia é
aplicável a seus atos em geral. E m bora h a ja exceções bem
conhecidas, num a proporção surpreendente as fantasias que o
hom em tem são exatam ente as que lhe convêm.
D e m odo geral, as descrições abstratas dos im pulsos, ins­
tintos ou tendências que buscam fin alidad e são incorretas e
podem induzir a êrro. Elas incluem têrmos abstratos como
autopreservação, sexo, realização, poder, e assim p o r diante.
A MENTE E A SOCIEDADE 169

O que o hom em deseja é sempre concreto e específico. T orna-


se necessária um a nova abordagem do estudo da m otivação
hum ana, e não há outra m elhor do que a sugerida pela per­
gun ta de G ard n er M urphy: “Com o chegamos a desejar o que
desejam os ?” (1)
H á duas questões relacionadas com isso: Q ue desejam os ?
E como desejam os o que desejam os? Devemos distinguir
entre o que o hom em faz, e que pode ser descrito de m uitas
form as, e o que o homem está procurando fazer, o que não
pode ser descrito de tantas form as. É estranho, em bora m uito
significativo, que os psicólogos tenham ju lgad o impossível con­
cordar sobre os m otivos, im pulsos ou m etas básicas das ativida­
des dos anim ais e homens. Parte d a explicação está em que as
finalidades do com portam ento que se dirige p ara m etas especí­
ficas não se definem por abstrações como sexo, poder, realiza­
ções, ou outras. T a is m etas podem ser definidas — e esta é a
prin cipal hipótese de nosso trabalho — apenas da form a pela
q u al os etologistas especificam o com ponente perceptivo dos
m ecanismos liberadores inatos. O que liberta o com porta­
mento instintivo pode ser um estím ulo sensorial relativam ente
sim ples, como um a m ancha de côr, ou pode ser um a configura­
ção bastante com plexa de estím ulo.
Sugerim os que p ara cada p e r c e p to (*) liberador deve h a­
ver tam bém um a m eta perceptual, um a experiência sensorial ou
perceptiva que acom panhe ou siga a reação conclusiva. Êsse per-
cepto diz ao organism o, an im al ou homem, um a vez conseguido
o que deseja, o qu e estava tentando obter. O percepto especi­
fica o que o hom em quer fazer, ser, ou ter — digam os, subir o
m onte Everest, ser um D on Ju a n , ter um a lancha veloz. Q uan­
do o hom em finalm ente obtém o que deseja, atingiu de fato
o objetivo p articular especificado no percepto — ou seja, a
percepção do m undo do alto do Everest, o percepto de um a
situação social tal com o se apresentava a D on Ju a n , o percepto
do m undo como visto de um a lancha, que em si é sentida
como u m a “possessão” .
P ara m elhorar o que tradicionalm ente se considera como
m etas do em preendim ento hum ano, devemos especificá-las em

(*) Ou p ercept , em inglês, que o Webster define como “ objeto percebido, im­
pressão significativa de qualquer objeto recebido pelo uso dos sentidos’. A forma
“ pecepto é registrada no V ocabulário F ilo só fico de Carlos Lopes de Mattos (S.
Paulo, 1957) como “o conteúdo da percepção e equivalente à forma inglésa
p e r c e p r . (N. do T.)
170 O CONTROLE DA MENTE

têrmós de m etas perceptuais, ou tal como os etologistas espe­


cificam os perceptos liberadores, ou da form a p ela q u al os
psicólogos dedicados às experiências vêm, há anos, especificando
os estím ulos “equivalentes” que liberam determ inada reação.
J á em 1929 K. S. Lashley publicava um trabalho im portante
que encerrava um a figura ilustrando “os estím ulos equiva­
lentes p ara o hábito de pular, no rato” . D izia Lashley (2):
O s a n i m a i s ................ f o r a m t r e in a d o s p a r a p u l a r n u m a p la t a f o r m a
p i n t a d a d e p r ê t o e c o m u m a b e ir a d a b r a n c a , v is t a c o n t r a o f u n d o d a
s a la . O a p a r e c im e n t o d a p l a t a f o r m a f o i e n t ã o m o d if ic a d o , c o m o s e m o s t r a
n a s ilu s t r a ç õ e s su c e s siv a s , c o lo c a n d o - se b io m b o s d e p a p e l ã o à f r e n t e d e la ,
o u s u b s t it u in d o u m b io m b o g r a n d e , b r a n c o , n o q u a l e s ta v a m p r e g a d a s
f ig u r a s d e p a p e l . O s a n i m a is p u la v a m p a r a q u a l q u e r r e t â n g u lo h o r i­
z o n t a l, p r ê t o o u b r a n c o , m a s n ã o p u la v a m p a r a u m r e t â n g u lo v e r t ic a l
o u u m a f ig u r a p la n a . P a r e c e c la r o q u e n o c a so o e s t ím u lo n ã o p o d e s e r
a t r ib u íd o à e x c ita ç ã o d e t a is e t a is c é lu la s d a r e t in a . O e le m e n t o c o m u m
às v á r ia s s itu a ç õ e s é a p r o p o r ç ã o d o o b je t o , v is to c o n t r a u m f u n d o q u e
v a r ia v a .

Estím ulos equivalentes neste caso são, p or definição, todos


os estím ulos que despertem a reação de pular, no rato. Se in­
dagam os quais as características comuns dos estím ulos que pro­
vocam essa reação, temos, à luz dos fatos experim entais, d e pro­
curar um a fórm ula bastante com plicada de todas as com bina­
ções de prêto, linhas e áreas nas quais a dim ensão horizontal
predom ina sôbre a vertical, e assim por diante, como acim a se
descreveu. É dessa form a que tanto os perceptos liberadores
como os perceptos-meta devem ser definidos — ou seja, como
objetivos do com portam ento dirigido p ara metas.
A descrição prelim inar do m aquinism o do com portam ento
dirigido a m etas deve ser, agora, am p liad a pelo m esm o processo.
A parte receptiva d o m aquinism o recolhe d o m eio sinais com­
plexos que funcionam como liberadores, ou seja, que instigam
a atividade da parte das ferram entas do organism o, as partes
usadas nas atividades que os organism os executam . Os efeitos
dessas operações se refletem, pela realim entação, no cam po per-
ceptivo. O processo é continuado e pode ser redirigido ou va­
riado p o r tentativa e êrro até que se apresente a situação m ais
satisfatória — isto é, a m eta é alcançada — a com ida é degus­
tada, o perigo evitado, as exigências territoriais aten didas, os
adversários postos em fuga, a n am orada é conquistada.
N o estado natural — o estado anterior à “ arrancada” —
tanto os perceptos liberadores como os perceptos-m eta estão
A MENTE E A SOCIEDADE 171

ligados às necessidades biológicas: os prim eiros são sinais de pe­


rigo ou privação, os segundos indicam o desaparecim ento do
perigo e a provisão do essencial à vida. D epois da “arrancada",
com o as necessidades já estão atendidas, não há necessidade
de atividade m ais custosa. O que ocorre então ? Os dados
m ais relevantes são oriundos dos estudos em píricos de M unn,
M cC lelland e outros, m as não podem os nem mesmo resumi-los
aqui. Inform ações relevantes existem tam bém nos registros e
nas observações sôbre história n atural relacionados com povos
ricos em todos os tem pos — potentados orientais, os senhores
m edievais, os m agnatas d a indústria.
A o discutirm os o estado que se segue à “ arrancada", pode­
m os com eçar com um exem plo sim ples, o do gato dom esti­
cado. A v id a do gato é quase um p aradigm a da vida abun ­
dante. T o d a s as necessidades básicas do anim al são satisfeitas
qu ase qu e antes de serem experim entadas: está protegido con­
tra o perigo e o m au tem po, dão-lhe com ida e bebida antes que
possa ficar com fome. Como, então, passa ele o tem po ?
Poderiam os ser tentados a dizer que, depois de comer e
beber, êle se enrosca n a alm ofad a e vai dorm ir, e continua dor­
m indo até ser despertado p o r pequenos im pulsos interoceptivos
que indicam a necessidade de outra refeição, que o gato come
com a m esm a despreocupação. Essa descrição do com porta­
m ento em condições de abundância poderia ser considerada
como indício com probativo da hipótese freudiana de que toda
a atividade se dirige à anulação dos estímulos, e que o estado
verdadeiram ente norm al do organism o é o estado do sono. Os
estím ulos são fôrças que perturbam o sono. Sòmente a dor
física ou o sofrim ento do desejo não satisfeito nos m antém
acordados.
A teoria de Freud, pelo qu e nos parece, deve estar errada,
É claro, até m esm o n o nível de observação da história natural,
que um a vez satisfeita suas necessidades básicas, o gato dom és­
tico n ão se enrosca p ara dorm ir im ediatam ente. Passeia pelo
jard im , pu lan d o sobre passarinhos e cam undongos. A vida
d o gato dom éstico é um a ilustração sim ples d a reversão d a
relação meios-fim, qu e se segue à transição p ara a abundância.
N o estado d a abundância, êle vive p ara m atar. O fenômeno
é ain da m ais acen tuad o no cão dom esticado. Q uando suas
necessidades básicas foram atendidas, êle vive p ara caçar. M as
n ão caça apenas p ela caçada. Vive em parte p ara desfrutar
172 O CONTROLE DA MENTE

as relações sociais com o hom em : não lhe basta sair p ara pas­
sear precisa ser levado a passear com alguém .
O princípio im portante sobre a atividade num estado de
abundância é visto com m ais clareza no caso do hom em num a
sociedade rica. O hom em rico n ão precisa trabalhar, não
precisa se em penhar em nenhum a atividade penosa. Q ue lhe
resta fazer ?
De m odo geral, restam duas atividades ao homem rico:
pode jo g ar e pode cultivar as artes. “Jô g o ” é um conceito m al
definido, m as no contexto presente a palavra é u sada p ara tôda
a atividade realizada pelo prazer que proporciona, sem q u al­
quer preocupação u tilitária. Podem os contrastar da seguinte
m aneira o trabalho e o jogo: o trabalho é a atividade na qu al
o esforço se dirige p ara a produção de algum a utilid ade pelos
meios m ais sim ples e fáceis. O jogo é a atividade d irig id a p ara a
consecução de um a finalidad e inútil, por processo difícil. C o­
m o pardigm a do trabalho poderiam os indicar a produção de
um objeto útil como o autom óvel, e da form a m ais simples.
Com o parad igm a do jo g o poderiam os tom ar o esfôrço ridículo
de lançar um a pequena bola num buraco que não lhe é m uito
m aior, por m eio de instrum entos inadequados, em vista das
obstruções deliberadam ente criadas para tornar a operação o
m ais difícil possível. A atividade aparentem ente in útil dos gol-
fistas pode ser classificada dentro d a fórm ula d a reversão da
relação meios-fim. O objetivo, colocar a b ola dentro d o pe­
queno buraco, é tom ado como um m eio p ara o verdadeiro fim,
que é desfrutar o prazer d a atividade em si.
O gozo da atividade pela atividade é o que a diversão tem
em com um com o gozo das artes. Êste tom a duas form as: a
satisfação p rin cip al do artista criador que produz objetos belos
a serem adm irados por si e pelos outros, puram ente pelo prazer
que despertam , e a satisfação relativam ente m enor dos que
adm iram o trabalho produzido pelos artistas criadores. A van­
tagem do artista é a de desfrutar tanto a atividade criadora
como o objeto criado.
Se a arte pode ser defin ida em têrmos d a satisfação pro­
porcionada por algum a coisa em si mesma, sem considerações
de sua utilid ade econômica ou biológica, o jogo pertence às artes.
O jogo em tôdas as suas form as — gôlfe, futebol etc. — se coloca,
na h ierarquia, no cume, ou perto dêle, em qu e estão a música,
escultura, poesia. Essa classificação é, na verdade, reconhecida
na linguagem diária. N ão nos espantam os quando alguém
A MENTE E A SOCIEDADE 173

classifica a esgrim a como um a arte, nem quan d o descreve a


cozinha como um a arte. N o sentido literal do têrmo “ arte”,
a vida dos ricos é lim itada (se fôr possível a palavra “ lim itada”
nesta conotação) ao cultivo d as artes. N ad a há a fazer, para
êles, senão se enroscarem p ara dorm ir.
Provas práticas dessa tese poderíam ser obtidas em estudos
em píricos im portantes como os de M cC lelland e outros, divul­
gados sob o nome de “T h e Achievement M otive”, e de estudos
m ais lim itados, com o os feitos no Birkbeck College, sob a
denom inação "A spiration s of Y oung Persons in the T ransi-
tion from School to W ork” . O instrum ento m ais útil para
obter inform ações significativas das aspirações hum anas e das
fontes de satisfação é o teste de projeção. Entre suas lim i­
tações está a de não poder ser usado p ara estudar as pessoas
m ais ricas, pois estas, por m otivos óbvios, não se subm etem a
outros testes que não os aplicados pelos seus psiquiatras. H á,
porém , m uitas pessoas ricas que não sentem necessidade de
consultar um psiquiatra. O estudo dessas pessoas, como o es­
tudo dos anim ais em seu am biente natural, deve constituir por
algum tem po ainda, senão p ara sempre, no cam po da história
natural, os cam pos não-experim entais da ciência. Assim como
o cientista tem de esperar a ocorrência espontânea de determ i­
n adas condições m eteorológicas, tem de esperar tam bém a ex­
pressão espontânea de certos tipos de m otivação hum ana, como
por exem plo, nos escritos autobiográficos. O exem plo seguinte
é um trecho d a au tob iografia de um m em bro representativo
da rica sociedade inglêsa no período eduardiano:
C r e io q u e s e r i a v e r d a d e d iz e r q u e te n h o e x p e r im e n t a d o m a is s a t is fa ç ã o ,
u m s e n t im e n t o m a is v iv o , d o p r a z e r d e v iv e r, c o m t ô d a s a s f a c u ld a d e s e m
p l e n a a t iv id a d e , q u a n d o c a ç a n d o a n im a is e p á s s a r o s , d o q u e e m q u a l q u e r
o u t r a a t iv id a d e . P e lo p r a z e r q u e p r o p o r c io n a , ju n t a m e n t e c o m o a u g e
d a s a t is f a ç ã o e s té t ic a , n ã o c o n h e ç o n a d a q u e se c o m p a r e a e s p r e it a r u m
gam o. O d i f íc i l e s fô r ç o fís ic o , o c o n s ta n te e x e r c íc io d a h a b i lid a d e e d a
e s p e r t e z a , a g r a n d e b e le z a d o s p a n o r a m a s v is to s d o a lt o , a s c ô re s s u t is e
s e m p r e m u t á v e is d a s m o n t a n h a s e sc o c e sa s, a s o lid ã o e o silê n c io , s e c o m ­
b in a m p a r a e x a l t a r o e s p ír i t o a o a u g e d a fe lic id a d e . A e m o ç ã o d a c a ç a
à r a p o s a é e x t a s i a n t e , m a s isso r a r a m e n t e m e o c o r r e u , e o p r a z e r é m a is
fís ic o d o q u e e s té t ic o . A c a ç a d o g a lo s ilv e s t r e é s u p e r io r , p o is a s m o n ­
t a n h a s e s tã o n o v a m e n te p r e se n t e s , c o m a s d o c e s i n flu ê n c ia s c o m o a s d a s
P lê ia d e s . A s m o n t a n h a s t a m b é m p a r t ic i p a m d e c e rto s t ip o s d e p e sc a , e
fa z e m d e s s a d is t r a ç ã o u m m o m e n t o m e m o r á v e l p a r a o h o m e m . M as há
u m a s a t is f a ç ã o p r o f u n d a e t r a n q ü ila e m q u a l q u e r m o n t a n h a , e m e s p e r a r
so b o s u a v e so l d e d e z e m b r o , a p a r e c e r u m a g a lin h o la e n tr e a s á r v o r e s
a n t ig a s .
174 O CONTROLE DA MENTE

T rê s aspectos podem os n otar n a citação acim a, qu e con­


substanciam a nossa tese. Prim eiro, observe-se a gran de seme­
lhança entre a vid a de um gato dom esticado e a de um cava­
lheiro inglês: livre d a necessidade de conquistar os elementos
essenciais da vida, am bos já não m atam p ara viver, m as vivem
p ara m atar. Segundo, observe-se a associação da q u alid ade do
prazer entre o esporte e a experiência estética — o prazer que
o caçador do gam o tem n ão só n a sua arte, m as tam bém no
cenário em que essa arte é praticada. O terceiro ponto de inte-
rêsse é a transferência do exercício de um a h abilid ad e do tra­
balho p ara o esporte considerado um fim em si mesmo.
A transição d a sociedade de pen úria p ara a sociedade de
abundância pode ser descrita d e outro m odo. Q uando os ho­
mens já não são obrigados a trabalh ar p ara satisfazer suas ne­
cessidades, e quan d o o trabalho se transform a em jogo, a m á­
q u in a começa a operar de m odo diferente. Itens que surgem
no cam po de percepção podem d eixar de ser tratados como si­
nais ou sim plesm ente como liberadores, e se tornam ao invés
disso objetos de interêsse em si — por exem plo, o perfum e
de um a rosa ou o canto de um pássaro. Os instrum entos de
reação podem , então, funcionar não apenas p ara produzir um
percepto-m eta, significando a realização de u m a fin alidade bio­
lógica determ inada inatam ente, m as tam bém o gozo d a ativi­
dade em si. E m outras palavras, o organism o joga. Êsses
instrum entos tam bém funcionam p ara criar novos perceptos
que despertam satisfação em si mesmos. O u seja, funcionam
na prática de um a arte. Isso pode tom ar a form a sim ples e
prática de, digam os, fazer jardin agem , cujo objetivo é criar um
cam po de percepção m ais satisfatório do que o produzido pela
natureza, se entregue a si m esm a. As árvores podem ser plan ­
tadas n ão pelos seus frutos, m as pelas suas flôres. As casas
são construídas não apenas p ara a proteção contra os elementos,
mas tam bém com o objetos da percepção visual, desfrutada como
tal. O homem d eixa de edificar como sim ples construtor, e
torna-se arquiteto. Isso acontece depois que as necessidades
biológicas foram atendidas, em todos os sentidos e em todas as
form as de exercício dos m úsculos. Podem os ilustrar êsse ponto
com os seguintes exem plos de atividades do hom em civilizado.
Comecemos com um exem plo elementar, a transform ação
d a fom e e sêde em atividade gastronôm ica do hom em civili­
zado. Os ricos só sentem fom e e sêde por acidente, ou qu an d o
A MENTE E A SOCIEDADE 175

deliberadam ente se em penham em ficar com fom e e sêde pelo


exercício adequado ou pela autoprivação. N orm alm ente,
comem e bebem antes de ter fom e ou sêde. N in guém pode
dizer que se coma caviar p ara m atar a fome ou beba conhaque
p ara acabar com a sêde.
Tom em os, por exem plo as atividades físicas do hom em
civilizado. Subir um a m ontanha ou disputar um a p artid a
de golfe são atos biològicam ente inúteis. Os que se comprazem
nisso racionalizam tal com portam ento (o que é in ú til) di­
zendo-se que tais atividades são boas para a saúde. Os bio-
logistas e alguns psicólogos apoiaram essa racionalização, afir­
m an do que tôdas essas atividades devem ter algum a função
biológica.
H á num erosas atividades do hom em civilizado p ara as
quais não é possível encontrar nenhum a justificação biológica
plausível. Im aginem os como racionalizar, por exem plo, o fato
de tocar gaita de fole (atividade sem dúvida boa p ara os p u l­
mões, m as existem exercícios respiratórios ain da m elhores).
H erbert Spencer ju lg av a que a audição de m úsicas m arciais
facilitava a circulação do sangue. Presum idam ente, existem
explicações sem elhantes p ara as reações hum anas à “M archa F ú ­
nebre” ou à “ Á rea d a Q uarta C ord a” . M as há claram ente m uito
a fazer ain d a p ara d ar validade a essa teoria estética.
V ejam os o sexo. Poderiam os ser tentados a dizer que Sig-
m und Freud, F ran k Beach e A lfred Kinsey sabem, coletiva­
mente, quase tudo sôbre os “fatos d a v id a”. Bem pode ser
assim. N ão obstante m uitas atividades e relações hum anas
supostam ente “explicáveis” pela referência ao sexo continuam
sendo enigm as biológicos, ou talvez absurdos biológicos. H á,
naturalm ente, um a seqüência de com portam ento a se observar
nos an im ais e nos homens, através da q u al certos sinais esti­
m ulantes instigam as ações que habitualm ente têm efeito im ­
previsto e inintencional na perpetuação d a espécie. N ão
obstante, as relações sexuais n um a com unidade m oderna, civi­
lizada, onde existe a instituição da fam ília, só m uito tênue­
m ente se relacionam com a preocupação d a reprodução.
As form as de com portam ento comumente atribuídas ao
instinto sexual e à busca de objetivos são extraordinàriam ente
com plexas no caso de sêres hum anos e, de certa forma, nos ani­
m ais inferiores. Os sinais estim ulantes que instigam a êsse com­
portam ento são tam bém excepcionalm ente complexos. M uitos
176 O CONTROLE DA MENTE

biólogos e psicólogos escreveram sobre a fôrça do sexo, em vir­


tude d a q u al q u alq u er m acho d a espécie é atraído por q u al­
quer fêm ea, e vice-versa, M as quais são os fatos ? H á, n atu ral­
mente, pessoas de am bos os sexos p ara as q u ais isso pode ser
exato. M as tais pessoas são exceções. A verdade é que hom ens
e m ulheres que vivem nas sociedades civilizadas são lentos e
m inuciosos n a escolha dos com panheiros, e m uitos perm anecem
solteiros a vida toda. O hom em pode ser tão exigente n a esco­
lha de um a m ulher como de um carro. A m ulher pode ser
tão exigente na escolha de um m arido com o de um chapéu.
T a n to homens e m ulheres são m uito exigentes em relação
às q u alidades que não têm significação biológica evidente. F a ­
lando apenas biologicam ente, por exem plo, por que razão
deseja o rapaz que a m ôça seja b o n ita ? Por que espera a
m oça que êle seja bonito ? Q ual a significação biológica d a
exigência de que ela seja um a an fitriã de espírito, anim ada,
interessada em futebol, viagens e outros assuntos em que êle
tam bém esteja interessado ? E q u al a significação biológica
do desejo dela de que êle seja talentoso para o esporte ou p ara
a m ú sica? T a is exigências revelam que o sexo tornou-se sufo­
cado p o r um a variad a coleção d e m otivos sociais, estéticos e
outros, que possuem pouca, se algum a relação com o sexo.
H á num erosas form as de relações sociais com um ente q u a ­
lificadas como m odificações do sexo, que se isolaram das exi­
gências biológicas da procriação. N a verdade, m uitas são so­
cialm ente aceitas, em bora sejam biologicam ente absurdas,
como a hom ossexualidade. Podem , na realidade, ser aceitas
como form as elegantes de vida. Exem plos disso são as afei­
ções tipo D arby e Jo an , ( * ) as am izades consideradas e acatadas
a despeito de sua possível função biológica. C ontribuem para
a abundância social que consiste em levar um a vida elegante.
Cedo ou tarde poderá ser necessário enfrentarm os o fato
de que m uitas das m ais im portantes satisfações hum anas, espe­
cialm ente os prazeres conhecidos na vida civilizada, são pro­
vocadas por atividades biologicam ente sem significação. Q uan ­
do convidado a m ostrar a utilid ade de tais atividades, do ponto
de vista biológico, somos obrigados a responder que não têm

(*) Personagens de uma balada intitulada “The Happy Old Couple” , atribuída
a Prior, e celebrados pela sua longa felicidade conjugal. Acredita-se que tenham
vivido realmente na Inglaterra, no Yorkshire. (N. do T.)
A MENTE E A SOCIEDADE 177

nenhum sentido. O hom em tem outras necessidades distintas,


além das fisiológicas ou biológicas — as necessidades psicoló­
gicas. A autopreservação procura conservar um a variável bi­
dim ensional: o prolongam ento d a vida com um certo padrão,
ou seja, a vida que tem qu alid ade e duração, ao mesmo tempo.
O que os homens procuram preservar e m elhorar é seu padrão
e estilo de vida.
Os argum entos teóricos deste trabalho, com preendendo
tam bém a sua prim eira parte, podem ser assim resum idos:

1) A transição do estado n atural p ara um a espécie de es­


tado de graça, o processo de tornar-se civilizado, é um fenôm eno
im portante na psicologia hum ana. Êsse processo pode ser com ­
parado com o treinam ento e dom esticação de animais, A tra­
vés da dom esticação, os anim ais selvagens passam a ter afeição
pelo homem e gostar de seus hábitos. D a mesma forma, usan ­
do as palavras que um teólogo usaria, no processo de civilizar
o homem, D eus o dom esticou. O hom em passou a am ar a Deus
e os processos de Deus.
2) A condição essencial da transição p ara a civilização foi,
prim eiro, o atendim ento das necessidades da vida, para que o
hom em (como o gato dom esticado) não precisasse trabalhar
p ara sobreviver, mas pudesse desfrutar tranqüilam ente a exis­
tência.
3) N essas condições, há um a reversão de meios e relações
característicos do estado de natureza. O homem já não come
p ara viver, vive p ara comer. O hom em já não constrói para
viver, vive p ara construir. J á não m ata p ara viver, vive para
m atar. O que faz, já não o faz porque tenha necessidade, mas
porque isso lhe dá prazer.
4) Essa reversão das relações provoca a reorganização dos
instrum entos do organism o. Os sinais já não são recebidos
como sinais p ara ações necessárias à autopreservação. São des­
frutados pelo prazer que provocam .
5) A atitude sugerida exige um a reinterpretação do com ­
portam ento qu e visa a um objetivo. As metas do com porta­
m ento hum ano não podem ser definidas em têrmos de abstra­
ção. Seus sentidos são expressos em têrmos de perceptos obje­
tivos que só podem ser definidos m ais ou menos como se defi­
nem os perceptos liberadores nos mecanismos liberados inatos,
178 O CONTROLE DA MENTE

Se o argum ento teórico que acabam os de expor é válido,


deve ter im plicações com a psicologia aplicada, especialm ente
em relação à m otivação in du strial num a sociedade autom atizada
e rica. Os que se ocupam da adm inistração in dustrial n a Grã-
-Bretanha se preocupam com os efeitos do estado do bem-estar
social, particularm ente o pleno-emprêgo, com a m otivação do
trabalhador. E fazem bem . D esde o início da R evolução In ­
dustrial, a filosofia d a adm inistração tem sido a filosofia da
prom essa e da am eaça, considerando que os m otivos básicos
do hom em são a am bição e o medo. Essa filosofia está refle­
tida no trecho de H obbes que citamos. A quela filosofia, for­
m ulad a em 1651, perdurou até hoje, pràticam ente, no espírito
dos diretores de emprêsas — tem agora três séculos de idade.
C om o todas as idéias rígidas e errôneas, provoca qu ase inevi-
tàvelmente reações igualm ente simples e igualm ente errôneas.
A antítese dessa filosofia pode tom ar a form a de um a ten­
tativa de conceber um a ordem in dustrial com um conseqüente
sistem a de m otivação baseado no am or fraterno. A reação se
reflete no socialism o utópico e nas experiências patéticas ten­
tadas, de tempos em tempos, p ara a realização dessas aspira­
ções em pequenas sociedades baseadas no prin cípio do com u­
nism o idealista. N a realidade, porém , o colapso da filosofia
d a prom essa e da am eaça ocorreu de form a m uito diversa,
m enos pela pressão direta de filosofias e ideologias do que pelos
processos m ais práticos da ciência em pírica. As religiões, as
filosofias sociais e éticas, e as ideologias têm tratado, em geral,
a m otivação social sob duas rubricas generalizadoras: o con­
ceito d o amor, ou benevolência (para usar um a denom inação
an tiq u ad a e menos em otiva), e o conceito de dever, ou obri­
gação. E m outras palavras, a m otivação social tem assum ido
duas form as, o ataque à consciência e ao coração. M as am bos
os tipos de m otivo foram tratados de form a m u ito abstrata e
generalizada.
A m or, benevolência, altruísm o, fraternidade entre os ho­
mens — q u alq u er que seja o nom e — têm sido considerados co­
m o um sentim ento im parcial e englobador; a evidente im ­
possibilidade de realizar os sonhos utópicos, p o r sua vez, levou
à reação de cinism o e desilusão. A correção de am bas as op i­
niões extrem as se vem fazendo lenta, m as firm em ente, através
de estudos variados e isolados, pelo nosso entendim ento do
papel das “afeições” na m otivação hum ana, em situações con-
A MENTE E A SOCIEDADE 179

eretas. Psicólogos industriais contribuíram p ara êsse progres­


so, notadam ente a obra de Elton M ayo, n a experiência Haw-
thorne, que focalizou a atenção sobre a “organização in form al”
dos grupos de trabalho e a lealdade real dos grupos. Os
psicólogos clínicos, como M oreno, levantaram um m apa das
fôrças dêsses grupos. Freud e os “psicólogos das profundidades”
estudaram em geral a história n atu ral das afeições e as reper­
cussões, n a vida do adulto, d as relações em ocionais entre pai
e filho. Bow lby levantou indícios m ostrando que traços ire-
qüentem ente tom ados como inatos (por exem plo, a disposição
de am ar ou não am ar e ser egoísta) podem , n a verdade, ser
efeitos das relações entre m ãe e filho. O utros pesquisadores
encontraram provas de que as relações fam iliares podem refle­
tir-se, m ais tarde, nas relações entre colegas de trabalho.
Êstes e outros estudos serviram p ara corrigir o conceito
m uito abstrato e generalizado das afeições hum anas. L em ­
braram -nos de que o cristianism o começa com o am or ao pró­
xim o, não com o am or ao hom em que m ora no fim da rua.
M ostraram -nos que o calor radian te d o coração hum ano varia
inversam ente com o quadrado da distância social, por assim
dizer. Os que dão sua atenção sem preconceitos à história na­
tural das afeições naturais, sabem ser evidente que se trata
de um a tolice dizer qu e o hom em é levado apenas pelo inte-
rêsse próprio, apenas pela am bição e temor. Por m aiores que
sejam as necessidades financeiras do homem, êle quase sempre
terá algum dinheiro p ara o am igo q u e esteja em pior situação.
H á exem plos de m ineiros, que dão a p róp ria vida p ara salvar
a de seu colega. E m bora a m otivação dêsses sacrifícios heróicos
possa ser difícil de com preender, êsses incidentes realm ente ocor­
rem. T a is im pulsos generosos operam n a indústria como
em outras áreas, m as não m e parece adequado aproveitá-los ou
considerar sua presença como autom ática. N ão seria realista
nem psicológico esperar que o honesto bom beiro, em pregado
leal de sua firm a, m em bro de seu sindicato, e até um pouco
socialista, evidenciasse um am or im parcial e universal. Êle
não poderia, m esm o que desejasse, sentir a m esma preocupação
pelo seu patrão, pelo seu sindicato ou pelos seus antípodas
selvagens, do que a afeição experim entada pelo com panheiro
dedicado que trabalh a a seu lado. O am or fraterno não pode
ser fabricado, nem ser provocado pela m anipulação de “pres­
sões ocultas” . É fruto de relações hum anas civilizadas e sub­
prod uto de um a sociedade rica. Q uando as necessidades bási­
180 O CONTROLE DA MENTE

cas estão atendidas, quan d o o homem se sente seguro — em o­


cionalm ente e financeiram ente seguro — fica m ais disposto a
partilh ar com outros dos bens de que dispõe, tal como a cri-
ança rica divide com m ais facilidade as balas que tem. E
há form as boas e m ás de “estragar” os adultos.
O estudo objetivo d a m otivação nas situações industriais
parece corrigir n ão só os conceitos não-realistas e não-psicoló-
gicos d as afeições n aturais m as tam bém os conceitos não-rea­
listas e não-psicológicos d o sentim ento de obrigação. Freud
deu-nos boas razões p ara concordar que a “consciência” nem
sem pre é a voz de Deus. D e acordo com êle, é a voz do p ai
ou da im agem d o p ai que nos move um dedo reprovador du ­
rante toda a nossa vida. M as é tam bém a voz d a m an ada p ri­
m itiva, um a espécie de op in ião p ública prim itiva. N a situ a­
ção industrial ela é, por assim dizer, um a espécie de delegado
interior que representa a vontade do sindicato ou de um grupo
de trabalhadores. É ain da a m esm a voz que diz ao trabalhador
que se trabalhar dem ais será um “ puxa-saco” , que se não tra­
balh ar o suficiente será um “fazedor de cera”, se falar dem ais
será “lin guaru d o”, se não acom panhar seu gru po será um “fura-
-greve” .
E m bora tenham os feito grandes progressos em nosso co­
nhecim ento d o poder d a m otivação social, devemos nos m an­
ter em gu ard a contra possíveis erros. Se o receio do tra­
balh ador de ser dem itido pelo patrão é substituído pelo re­
ceio de “receber o gelo” dos com panheiros, n ão teremos feito
progresso m uito notável. A lealdade de grupo não basta para
assegurar as relações in dustriais harm oniosas, qu an d o se faz
em bases puram ente em ocionais. Precisa ser consolidada pelo
esclarecim ento d a inteligência. Precisamos estender nosso co­
nhecim ento à vida intelectual do grupo e ao papel d a racio­
n alidade nas relações hum anas. Precisam os, ainda, corrigir
o equ ilíbrio com preendendo m elhor o que se pode cham ar de
“ terceiro m otivo” .
P ara explicar o que se entende p or êsse nôvo tipo de m o­
tivação, tomemos o exem plo d e um destacado m édico cham ado
a realizar um a operação difícil, e que a executa com h ab ili­
dade consum ada. Por que realiza êle essa operação ? E por
que a realiza bem ?
Parte dessa m otivação é, evidentemente, o pagam ento que
recebe. Até mesmo o m édico gosta de ser pago, e sem dúvida,
quanto m aior o pagam ento, m ais êle gosta, especialm ente q u an ­
A MENTE E A SOCIEDADE 181

do sabe que o paciente pode pagar. M as dizer que o pag a­


mento é seu prin cip al m otivo seria um absurdo, pois o médico,
Nabemos, operaria com a m esm a atenção se seu paciente fôsse
m endigo usufruindo os serviços de algum a entidade ou orga­
nização de assistência.
Poderiam os ser tentados a dizer que ò m édico é m ovido
pelo forte desejo de aliviar o sofrim ento. Essa afirm ação cons­
tituiría sem dúvida, um a observação correta no necrológio de
qu alqu er médico, m as não representa um a análise psicológica
completa. Os m édicos partilham , evidentemente, o desejo na-
lural e hum ano, existente em todos, de aliviar o sofrim ento,
mas devemos distinguir a execução de um dever profissional
da filantropia. A verdade é que o médico realiza a operação
pela satisfação pessoal de executar um a tarefa. Em outras p a ­
lavras, executa essa tarefa da m elhor form a possível devido a
um elemento em sua personalidade que o leva a sentir que se
vale a pena fazer o seu trabalho, então êste deve ser bem feito.
Não o faz por interêsse pessoal, no sentido exato do têrmo.
N ão o faz por interêsse pelo bem-estar do próxim o; pode acre­
ditar sinceram ente que seria m elhor tanto p ara o próprio p a ­
ciente infeliz como p ara os outros, que estivesse morto. Êle
faz a operação p ela operação — é êsse o terceiro motivo.
Gomo podem os denom iná-la — a essa execução de um a
tarefa pelo orgulho artesanal que d esp erta? Essa m otivação
adicion al pode ser considerada como um motivo “profission al”,
m as essa denom inação poderia levar a êrro. É certo que po­
dem os vê-la n a atuação das pessoas que têm um a profissão.
M as um a vez que a observemos nesse caso, poderemos também
observá-la em m uitas outras circunstâncias. N os anos que se
seguiram im ediatam ente à I I G uerra M undial, era comum
ouvir, na Inglaterra, queixas dos operários em construção de
estarem sendo obrigados a executar um trabalho de condi­
ções inferiores, ab aixo do nível a que estavam habituados.
D evido ao seu orgulho com o pad rão artesanal a que haviam
tradicionalm ente atingido, estavam descontentes por ter de
realizar um trabalho pobre com m aterial precário, de lhes ser
n egada a op ortun idade de exercer plenam ente sua habilidade.
Essa afronta ao orgulho artesanal não significa, naturalm ente,
que deixassem de lam entar outras imperfeições — queixavam-
se tam bém dos salários e das condições de trabalho. M as o
que nos interessa, aqui, é o fato de se queixarem pela frustra­
ção de realizar um bom trabalho.
182 O CONTROLE DA MENTE

N o presente contexto, o aspecto de m aior interêsse é o


de que o crescente predom ínio do terceiro m otivo constitui
um a outra característica d a transição da penúria p ara a
abundância. N ão é o caso, naturalm ente, do hom em que passa
do prim eiro p ara o segundo motivo, em seguida p ara o ter­
ceiro. É antes p orqu e a m otivação se torna cada vez m ais
com plexa. Bem pode ser verdade que no estado n atu ral ou
de pen úria o hom em seja m otivado principalm ente pelo inte­
rêsse. À m edida qu e as necessidades básicas vão sendo solucio­
nadas, êle pode d ar rédea às suas afeições naturais. N o estado
de abundância, suas motivações são ain da m ais complexas*,
N aturalm en te continua zelando pelos seus interêsses, m as co­
m eça a ser generoso, e no estado de m aior abundância, o ter­
ceiro m otivo pode tornar-se o mais poderoso.
Em sua vida útil n a m oderna sociedade civilizada, o
hom em passa por três fases. N a prim eira, trabalha porque
é obrigado •— tem de atender às suas necessidades básicas.
Está próxim o do estado natural, talvez m otivado em alto grau
pela avareza e p ela preocupação. T ra b a lh a p ara viver. N a
segunda fase, acom panhando seu progresso, a m otivação se m o­
difica. As necessidades básicas foram atendidas. O esforço é
m an tido pelo desejo de um a m elhoria m ais ou menos objetiva
dos padrões e estilos de vida. Finalm ente, na terceira fase,
à m edida que o hom em se aproxim a d o alto de sua carreira,
h á um a nova transform ação de m otivação — m odificação ge­
ralm ente ignorada p orque continua trabalh an do como antes
e insiste em trabalh ar mesmo quando seus colegas são de o p i­
n ião que êle se devia aposentar.
A relutância em aposentar-se não tem sido bem com preen­
dida. É atribuíd a ao hábito obsessivo, à vontade de não ab rir
m ão do poder. Certam ente, êsses fatôres existem , m as há outro,
talvez de m aior im portância. O hom em tornou-se sujeito à lei
d a reversão da relação meios-fim. Antes, trabalhava p ara viver
no padrão de vida a que aspirava. A gora, vive p ara trabalhar.
O trabalho tornou-se um jogo, um a atividade que produz sa­
tisfação em si mesma. Isso ocorre, evidentem ente, com cien­
tistas e artistas, m as não é menos verdade no m undo dos ne­
gócios, nem dos técnicos e dos artesãos.
H á, portanto, um elemento tranqüilizador p ara os que
vêem com pessim ism o as perspectivas d a autom ação, através
d o q u al m aior abundância será assegurada a todos pelo trabalho
A MKNTK K A SOCIEDADE 183

ilc mis poucos que, graças aos recursos científicos e tecnoló­


gicos, produzem e m antêm as m áquinas. Êsses cientistas e
hVuims serão suficientem ente bem m otivados pelas recompen-
síis langívcis de suas tarefas, sua posição e a satisfação de fazer
hem essas tarefas. Os que forem deslocados pela autom ação
os homens relativam ente sem habilitações e que não se pos­
sam reeducar — tendo suas necessidades atendidas pelos que
Hc (onLentam com o trabalho pelo trabalho, encontrarão outras
atividades dignas também em si. A abundância é o solo em
que floresce a perfeição. O cientista, o artista e o diretor de
em prêsa — cada qual é, em si, um perfeccionista. Q uando os
homens trabalham apenas porque precisam — isto é, quando
trabalham p ara viver — não é de surpreender que trapaceiem
no trabalho. Q uando, porém, vivem p ara trabalhar, são inevi­
tavelmente im pelidos a fazer suas tarefas da m elhor form a pos­
sível. Os trabalhadores habilitados serão am antes da profissão
cm suas atividades; os trabalhadores não habilitados, os des­
locados, se tornarão como tais nas ocupações recreativas a que
se dedicarem , criando pom bos melhores, ou melhores cães, ou
cultivando orquídeas, ou a dança, ou procurando aperfei­
çoar-se em outros objetivos biològicam ente inúteis, m as atra­
vés deles gozando a vida. É sob as condições de abundância
que o homem se revela tal como é: um perfeccionista incor­
rigível.
As opiniões expressas neste trabalho não constituem, acre­
dito, apenas especulações de gabinete. Êste trabalho terá sido,
pelo menos, um a reinterpretação dos dados em píricos reuni­
dos pelos psicólogos perfeccionistas e dedicados à experiência,
bem como pelos etologistas e teóricos da m otivação. N o espaço
de que dispunh a, pude form ular, de form a m uito sim plifi­
cada, algum as conclusões. As correções às objeções a essa tese
otim ista e sim plificada, bem como as restrições, condiciona­
mento e apresentação de novos dados ficam reservados a
algum a outra ocasião.

REFERÊN CIAS

(1) L ashley, K . S ., Human Potentialities, L o n d r e s , 1960.


(2) L ashley, K . S ., “ N e r v o u s M e c h a n is m in L e a m i n g ” , Foundations of Ex
perimental Psychology, C la r k U n iv e r s it y P r e ss, 1929-, c a p . 14.
M artin C. D ’A rcy , S. J .

O Indivíduo e a Influência
da Religião na Sociedade

J N Í o prefácio a êste sim pósio a re-


ligião foi classificada como um a das forças m ais intangíveis q u e
controlam nossos pensam entos e emoções. D esejo dizer algum a
coisa sobre o papel que ela desem penhou e desem penha na
ascensão e queda das sociedades e na v id a do indivíduo. Q ue
ela tem desem penhado certo p ap el durante toda a longa his­
tória d a raça hum ana é o q u e todos têm de adm itir, pois os
registros históricos e artísticos mostram -na com o a m ais do­
m inante e condicionadora de todas as influências, n as socie­
dades antigas. A B íb lia nos proporciona os exem plos m ais
conhecidos de sua influência num a raça, mas isso tam bém ocor­
reu na história d a fn d ia, B abilôn ia, G récia e R om a, M éxico
e Peru, p ara tom arm os alguns nomes ao acaso. T em p lo s e está­
tuas o confirm am ; os m arinheiros podiam ver de longe a está­
tu a dourada de Palas Atená, em Atenas, e as tribos se reuniam
nos santuários de seus deuses p ara consolidar a unid ade e re­
novar a fôrça. As peregrinações a M eca e o zêlo ap aixon ad o
dos m uçulm anos, a lu ta das Cruzadas e das guerras religio­
sas posteriores, o pap el desem penhado pelo clero ortodoxo nas
questões nacionais e a in spiração de G andh i, tudo isso testem u­
nha a influência contínua da religião.
Êsses exem plos típicos deixam claro, desde logo, outro
ponto, ou seja, que a religião tem despertado tal p aixão que
o bem e o m al se alternam em sua história, em proporção que
A MENTE E A SOCIEDADE 185

tem feito m uitos escritores abom inarem sua presença: Tan-


tum religio potuit suadere malorum. Lucrécia e m uitos outros
detestavam o que viam na religião, e a força m esm a dêsse ódio
m ostra a sua potência. Sem dúvida os homens de m en tali­
dade elevada podem se desgostar do que consideram hipo­
crisia da religião, e sua ocasional resistência às pesquisas e
descobertas racionais, m as essas razões não explicam plena­
m ente o debate ap aixon ad o a favor e contra a religião, que se
está sem pre travando. É a influência endêmica, a p aixão do
ódio e do am or que a religião desperta, que faz com que a
interpretação m arxista dêsse fenômeno pareça destituída de
profundidade. A religião não é apenas um ópio p ara os infeli­
zes, um ideal im agin ário p ara ilum in ar os que não têm opor­
tunidade de u sufruir os bens dêste m undo. E la se equ ipara
ao sexo em seu poder de in flam ar as emoções e m odificar os
homens, e devemos buscar um a explicação parcial dessa in ­
fluência na natureza do próprio homem.
A lgum as das melhores análises da religião nos perm item
ver a fonte de sua vitalidade e influência duradouras. Seu
denom inador com um , segundo Sertillanges, está na necessidade
que tem o hom em de entrar em contacto com aquela “m is­
teriosa realidade, de que sentimos depender nossa vida pes­
soal e a existência do m undo que nos cerca” . E continua, di­
zendo que desejam os conhecê-la, conquistar sua proteção, e
encontrar nela um a finalidade e um a felicidade. A m istura de
têrmos abstratos e pessoais é aqu i um pouco confusa, mas de­
vido à transcendência e ao caráter m isterioso do que é adorado,
essa m istura talvez seja natural. Cícero, por exem plo, num a
definição bem conhecida, fala do poder divino que cerca a
vida hum ana — virtus quaedam divina vitam humanam con-
tinet. E la faz com que a m ente dos homens se volte para as
im agens dos deuses e o pensam ento de um a providência. N ão
é m uito diversa a afirm ação de Joseph M aréchal de que
em bora não possam os ter intuição d a realidade divina ela
é percebida no m ovim ento mesmo de nosso ser na direção de
sua fonte, sentim os Deus pela ausência e falta: “Como
alguém que conhece a água pela sêde, Deus é previsto por nós;
temos d ’Êle um sentim ento profético” . M aréchal não diz que
a existência de D eus não pode ser m ostrada pela mente — ele
é um dos que acreditam que a razão não é im potente frente
ao m istério de D eus — m as ressalta o que todos parecem res­
186 O CONTROLE DA MENTE

saltar, o que G ratry, por exem plo, nos diz, que “a fonte de
nosso interêsse e nosso poder de passar do finito ao infinito
está num sentim ento d o D ivino. É o cham ado do infinitam ente
desejável e cognoscível, que não é um quadro, um pensam ento
ou um sentim ento preciso, m as um a disposição de agir, de
agir num a aliança prim ord ial e m etafísica da alm a com Deus,
um a disposição pressuposta em todo ato racional e livre” .
O conceito que O tto faz do núm ero se enquadra, em parte,
neste quadro, e o m esm o ocorre com a linguagem quase exis­
tencialista do filósofo francês L ou ise L avalle, de que “Deus é
a plenitude frente a q u al n ad a sou, e sem a q u al eu não exis­
tiría nem sentiría m inha insuficiência” . T illich descreve o
Negus como a causa últim a. U m pouco fora dêsse coro, m as
dign a de citação por in clu ir características até agora não m en­
cionadas, está a op in ião de W hitehead, de que a “religião é
um a fôrça purificadora, um a vida interior cuja virtude prin ­
cipal é a sinceridade; é um sistem a de verdades gerais que
transform a nossa condição e personalidade h um an as” . E m bora
seja um a definição deficiente sob m uitos aspectos, ela nos
explica por que a religião é essencial ao ser hum ano, seja
na sociedade ou individualm ente. Q uando, ainda, êle m en­
ciona a solidão, lem bra a relação prim ord ial entre o eu e
Deus, e o anseio de um A gostinho de unir-se a Deus. A re­
ligião é evidência do fato de que o hom em não se pode elevar
à perfeição que busca pelo sim ples esforço hum ano, mesmo
que conte com a cooperação geral da hum anidade. H á um
cordão um bilical que o liga a Deus, há nêle um a fraqueza que
jam ais pode superar totalm ente, e há um objetivo p ara o q u al
se dirige e que lhe prom ete um am or m uito m ais alto que o
seu próprio.
Se isso se aproxim a d a verdade, então há tanta coisa encer­
rad a na religião que estarem os fechando os olhos se a classi­
ficarm os sim plesm ente como um daqueles receios que tão fre-
qüentem ente a acom panham , ou seja, superstição, m agia, ani-
mismo, feitiçaria, culto das serpentes, o m au-olhado e a m a­
cum ba. Estas coisas são como um a doença no corpo hum ano,
e seus feiticeiros são p ara a religião o que os charlatães p ara
a profissão m édica e os Paracelsos p ara o verdadeiro cientista.
C on tinuam conosco, em bora tenha sido n atural seu m aior
êxito em m om ento em que as explicações razoáveis dos fenô­
m enos n aturais não podem ser dadas. M esmo em épocas p ri­
m itivas houve, como afirm am M ercia E liade e outros an tropó­
logos, indícios de um a religião autêntica. Cercadas por fôr-
ças que não podiam entender, como um a natureza ora am iga,
ora inim iga, as tribos viviam um a vida m ais com unal e faziam
d a idéia divin a um a deidade sectária e protetora. Pela m ás­
cara podiam personificá-la e obter fôrça com ela, e n a dança
podiam passar da precária condição p ara a sua vida im ortal.
E liade insiste em que os prim itivos acreditavam num estado
paradisíaco, num d ia ou m om ento que transcendia o tempo,
e na presença do divino, especialm ente no centro do m undo
conhecido ou n a cidade ou no alto da m ontanha. Seja isso
verdade ou não, é inegável que a religião era a fôrça form ativa
e dom inante, m antendo os homens juntos num a unidade-semi-
m ística e aju d an d o o desenvolvimento da consciência indivi­
dual.
Com a crescente m aturidade, a idéia de Deus tam bém se
tornou m ais clara, e como na ín d ia e na G récia, grandes lite­
raturas nasceram lado a lad o com a religião e a filosofia.
P ara com preender, porém , as linhas seguidas pelas grandes re­
ligiões devemos dizer algo m ais sôbre a anatom ia espiritual
do homem. A d istinção entre o dinam ism o m asculino e fe­
m inino, o animus e a anima, existente e influente em todo
indivíduo, tem aq u i seu lugar. O animus, que é positivo pro­
m otor da vida, preservador dela, é o que o dr. K urt G oldstein
m enciona em The Organism, quando escreve que “ um orga­
nism o é governado pela tendência a realizar, o tanto quanto
possível, sua capacidade individual, sua natureza no m u n d o .. .
. . . Essa ten d ên cia..............é o im pulso básico, pelo q u al a
vida do organism o é determ in ada” . O segundo dinam ism o, a
anima, errôneam ente lim itado por Freud a um a liberação da
tensão na libid o e à desintegração no inorgânico, está por trás
dos fenôm enos do instinto gregário, do abandono sexual, do
auto-sacrifício, do êxtase. É evidentemente m anifesta em m ui­
tos fenômenos religiosos. N a Ín dia, como A rthur Koestler
m ostrou recentemente, a Y oga é um “condicionam ento siste­
m ático do corpo à sua p róp ria destruição” . E ainda: “o transe
de sono sem sonhos ou visões d o sam adhi é um a hom enagem
ao thanatos — um exercício d e morte, enquanto se prepara
p ara o sam adhi final, em que se consum a” . Por outro lado,
o Zen-Budismo, afirm a êle, em bora utilize técnicas que podem
suprim ir a autoconsciência, ou usar sua próp ria linguagem ,
em bora procure atirar-se p o r cim a do precipício, é m anobrado
188 O CONTROLE DA MENTE

de form a m asculina pelos japonêses e subconscientem ente


transform ado num aliad o do esclarecim ento e da yida. O velho
livro nos diz que:
S ó e x is te a m is é r ia , e n ã o o m is e r á v e l;
N ã o e x is te o a t o r , a p e n a s o a t o ;
O N i r v a n a e x is te , m a s n ã o o h o m e m q u e o p r o c u r a ;
O C a m in h o e x is te , m a s n ã o o v i a ja n t e q u e o p e r c o r r e ;
M a s p o d e o c o r r e r q u e o d in a m is m o d o a b a n d o n o
e a m o r t e s e ja m s u t ilm e n t e e x p lo r a d o s ,
p a r a a u m e n t a r a c o n c e n tr a ç ã o d o g u e r r e ir o ,
d o h o m e m d e n e g ó c io s e d o g o v e r n a n t e fo r te .

Seja com o fôr, grande parte do que nos m ostram os escri­


tos, a técnica e o com portam ento oriental indica o predom í­
nio do dinam ism o fem inino. O eu atrapalh a, é um a ilusão,
e sòm ente quando afastado haverá a luz d a plenitude em
algum a consciência cósm ica ou superior ao eu. Q uando um a
convicção religiosa desse tipo penetra a consciência e a m ente
individual, e é estim ulada pelas técnicas há m uito aperfeiçoa­
das da autonegação, toda a atitude do hom em p ara com a
sociedade e o indivíduo é afetada. A vid a in dividual passa a
ser considerada barata, as m ultidões ficam à mercê de um
tirano, e há m anifesta indiferença às condições difíceis de vida.
O utros tratarão dêsse aspecto da religião e poderão avaliar as
técnicas utilizadas p ara condicionar a m ente e prepará-la p ara
um a form a de suicídio, por isso não preciso me deter sobre
êsse ponto.
N o Ocidente, o dinam ism o oposto predom inou. O bserva­
mos sua existência na lu ta pela vida, em todas as form as de
desenvolvim ento, e nas am bições de cada pessoa. É sinônim o
da physis de Aristóteles, ou a natureza em seu processo de se
tornar algum a coisa, o hom em desenvolvendo sua p rópria per­
feição de mente e corpo. Seu ideal está na im agem de A poio,
onde a perfeição da saúde corporal e a form a atlética acom pa­
nham a razão e o autocontrôle. Está no pólo oposto d a lo u ­
cura ou do êxtase de um D ioniso. Em si, é indiferente ao bem
m oral, em bora traduzam os a palavra grega que significa “exce­
lência” com o “virtude” . Os fracos tom bam frente aos fortes
num a com petição de m orte, provocada por êsse dinam ism o.
Evidencia-se na am bição in disfarçada ou no auto-interêsse
esclarecido; pode sancionar o poder pelo poder, ou atin gir o
A MENTÈ E A SOCIEDADE 189

alto hum anism o d e um Goethe. E n qu an to o ardor fem inino


Hui facilm ente p ara os quadros religiosos, a tendência oposta
cria um a form a de vida p róp ria e tem, pela educação e pelo
ireinam ento, colocado a arte de viver dentro de padrões m o­
rais e religiosos.
N o equilíbrio entre essas forças prospera a civilização, e é
nesse balanço ou tensão que a religião tem um a função ne­
cessária. Q uando W hitehead disse que ela tem um poder p u ­
rificador e dava estrutura à vida p o r um sistema de verdades,
transform ando a personalidade, estava descrevendo essa fun ­
ção. Sem dúvida, se qu alqu er dêsses dois dinam ism os predo­
m ina, o resultado pode ser desastroso, pois a cultura passa ao
racionalism o estéril ou ao barbarism o obscurantista. Além
disso, dentro de um a cultura, a religião pode ser usada para
fins maléficos. Com o a energia da m atéria m al aplicada, a
emoção religiosa m al ap licad a tem efeitos catastróficos. A lguns
dos piores costum es d a história — sacrifícios hum anos, pros­
tituição sagrada, o sati ( * ) foram provocados por essa emoção
religiosa sem freios. N ão é de surpreender que tenha sido
igualada ao sexo como o mais forte de todos os im pulsos da
natureza hum ana. O autor d a Crucifixion of Man tinha os
olhos nos horrores com etidos em nome da religião, e G ibbon
pôde considerá-la responsável pelo declínio e queda de R om a.
Por outro lado, um D ante pôde vê-la como a expressão da
vontade de Deus, que visa à nossa paz.
Êste não é o lugar p ara nos determos sobre os fracassos da
religião, pois ela não poderia ser um fator do bem tão pode­
roso se não pudesse ser tam bém objeto de perversões. Q uando
adequadam ente apresentada, proporciona um a filosofia da
vida, ou seja, um sistem a de verdades e um ideal que podem
transform ar a personalidade. É o sal que d á sabor à civiliza­
ção ao afirm ar claram ente que o homem não constitui um
produto ocasional da terra, e tem altos destinos. Se afastarm os
a verdade sobre D eus e Su a providência, Seu am or e o que nos
ensinam ser a beleza das relações pessoais, essas emoções subli­
m adas na religião se apegarão a algum falso deus ou ideal, o u
ascendência n acional, ou ao sonho de um a sociedade sem classe.
A totalidade d a vida — seus prazeres e objetivos, sua gran ­
deza new toniana, seus m istérios e êxtases — é com prim ida num

(*) Costume indiano de queimar a viúva com os restos mortais de seu marido.
(N. do T.)
190 O CONTROLE DA MENTE

program a que dentro em pouco rom pe as com portas. A reli­


gião cristã, p ara tomá-la como paradigm a, perm ite que tudo
o que é hum ano cresça e se desenvolva, e esta é um a das
razões pelas quais ela vem exercendo tal influência na história.
Com o Friedrich von H ügel argum entou, ela perm ite a exube­
rância dos sentidos e se regozija pela sua beleza, ela representa
a razão e a luz fria da razão na ciência e filosofia, e finalm ente,
estim ula, dentro do contexto dos outros dois, o lado im agina­
tivo e intuitivo do homem, qu e o leva à poesia e ao m isticism o.
Sem estas partes do hom em em cooperação livre, há o fracasso
da religião e da cultura. Pasternak, vivendo num a sociedade
atéia, é testem unho disso. F oi forçado ao exagêro ao olhar
em volta, de si, m as o que diz tem m ais de um pingo de ver­
dade. A história, afirm a êle no Doutor Jivago, se centraliza
na m orte e em seu m istério, com a fin alidad e de superá-la.
O cristianism o proporciona resposta pela sua m ensagem de
am or e seus dois ideais de personalidade livre e de vida como
sacrifício (os dois dinam ism os d a auto-realização e auto-sacri-
fíc io ): “ Os antigos tinham o sangue, a b ru talid ad e e a cruel­
dade e o bexigoso C alígula, que não podia fazer idéia d a infe­
rioridade do sistem a d a escravidão. T in h a a eternidade pre-
tenciosa e m orta dos m onum entos de bronze e das colunas de
m árm ore. Sòm ente com a vinda de C risto puderam os homens
respirar livrem ente.”
T o d o s concordarão que Pasternak é, aq u i, in justo para
com m uitos grandes hom ens e mulheres que viveram antes do
cristianism o, m as m uito se deve desculpar ao poeta que vive
entre C alígulas bexigosos e observa o trabalho escravo. Seu
espírito voltou-se p ara os prim órdios do cristianism o e a força
que a religião tinha nos prim eiros tempos. J á m encionei a
influência geral da religião nas sociedades prim itivas, e quando
o cristianism o surgiu teve um efeito sem elhante ao descrito por
Pasternak. O m undo estava doente. L u tav a p ara libertar-se
da idéia de que a m orte era o fim de tudo e de que o homem
era a vítim a do destino. A doutrin a cristã traz nova espe­
rança e um sentim ento das prerrogativas e do destino do in di­
víduo. Poucos negarão que, por m uito m al que alguns de
seus representantes tenham agido e por mais proibitivos que
algum as das últim as doutrinas possam ser consideradas, ela
deu lu gar ao desenvolvimento do indivíduo e da sociedade n a
q u al o indivíduo podia trabalhar com outros, com ju stiça e
caridade. H ospitais, universidades ç a carta do D ireito Çom uin
A MENTE E A SOCIEDADE 191

foram criação dos clérigos, e a escravidão lentam ente desa­


pareceu, à m edida que os ideais de liberdade e fraternidade
penetravam na mente do homem. O que havia sido um u n i­
verso fechado, tornou-se um m undo aberto, quando o Deus
vivo tomou o lugar do destino ou da necessidade como poder
controlador e providência.
Iríam os m uito além dos lim ites dêste trabalho se procurás­
semos m ostrar a influência das idéias religiosas na sociedade
ocidental. Podemos, porém, estabelecer um a distinção entre
sua influência geral por m uitos séculos e a influência lim i­
tada que hoje exerce. T a n to as sociedades como os indivíduos
estão condicionados em graus e proporções diferentes. O utrora
a religião ocupava a posição m ais destacada, mas isso já não
acontece, e as atividades hum anas são hoje tão num erosas e
com plicadas que a vida sim ples de religião, como a de alguns
prim itivos, é im possível. Devemos distinguir o que pode ser
classificado como a vaga ou clara visão do m undo, ou atitude
que os sêres hum anos aceitam e adotam . A criança está cons­
tantem ente sujeita a um a barragem de impressões e com elas
estabelece um entendim ento orgânico e m ental, assum indo um a
atitude e um a vida que lhe são estabelecidas num contexto
predeterm inado. É êsse o seu “ m undo”, um m undo de con­
tornos vagos e em ocionalm ente agradável, tem ido ou desagradá­
vel. C ada indivíduo tem seu m eio próprio. O homem pode ser
otim ista, indiferente ou cético quase sem o saber, e enten­
der-se com seu destino ou providência. Essa atitude, porém,
não é necessàriam ente fixa. N o passado, ela era habitualm ente
religiosa. Segundo, a criança se ad ap ta ao am biente real no
q u al vive, ào sofrer as influências dos pais, dos com panheiros,
do país onde vive, de sua língua, tradições, alim entação. N ão
podem os d eixar de ser filhos de nosso tempo, diferentes sob
m uitos aspectos dos que viveram em gerações passadas e países
diversos. Os im igrantes nos Estados U nidos costum avam ver
com sentim entos confusos a ráp id a am ericanização de seus
filhos. Êsse tipo d e condicionam ento aum entou sob um aspecto
e dim in u iu sob o outro. As velhas distinções de casta ou
classe dim inuíram , m as em seu lu gar surgiram o funcionário
burocrata, o jo g ad o r profissional, o especialista na indústria ou
na logística, o professor universitário, o técnico de engenha­
ria, o perito em física. C ad a um dêles tem um m odo pessoal
de ver o que se passa à sua volta. N enhum a dessas atitudes
é p u ra e im poluta, e depois de certo tempo, o clim a difuso
192 O CONTROLE DA MENTE

d a cidade m oderna e da vida capitalista cria a inquietação,


e os jovens são levados a um revolta parcial.
Isso nos conduz a um terceiro tipo de atitude, que se
baseia de certa form a n a iniciativa e na decisão pessoais. Po­
dem os chamá-lo o m om ento de decisão, ou a adoção de um a
filosofia de vida pessoal. T o d o s os padrões aceitos são passí­
veis de revisão, pois há um a lei do tédio e da redução, dos
lucros. Até a religião, quando baseia sua causa na razão e
no bom-senso, deve esperar êsse tipo de revolta e m odelar ade­
quadam ente sua política, como H ans Sachs aconselhava ao
M estre C antor fazer. M as em nossos dias, a atração da reli­
gião — e alguns diriam o perigo — é o condicionam ento in fe­
liz a que todo jovem se tem de submeter. Êles se sentem como
Laocoonte prêso entre os anéis de um a enorm e serpente. O
conhecimento e as técnicas avançaram m uito, depressa dem ais
e tudo pode ser feito h oje em escala tão gran de que o in d i­
víduo perde a significação. Sòm ente um sentim ento cristão
im pede a sua escravização ou sua utilização como um in stru­
m ento perecível. N ão preciso deter-me neste com plicado ma-
quinism o do E stado e da indústria, dos grandes negócios, da
burocracia. M ais atem orizador p ara os que têm de enfrentar
um longo futuro é a intrusão no recinto, outrora sacrossanto,
da pessoa hum ana, a supressão do trabalho especificam ente
hum ano pelas m áquinas de cálcular, pelas m áquinas ciberné­
ticas, pelas novas técnicas p ara m edir a inteligência e o traba­
lho hum anos. A in da p io r é a am eaça de que os cidadãos
venham a perder sua vida privada qu an d o os instrum entos
puderem ler o que estão pensando e novas drogas de tal form a
lhes m odificar o caráter que êles se tornem servos irreconhe­
cíveis e voluntários dos que m andam no Estado.
Decepcionados pelo que está ocorrendo e pela crescente
im personalidade d a existência hum ana, m uitos reagiram ado­
tando o que se tornou conhecido pelo nom e geral de existen-
cialism o. Essa doutrina leva a sério a velha afirm ação de que
o hom em só pode ter certeza da morte. É o destino hum ano.
A m eaçado pela extinção, o hom em in d aga p o r que isso deve
acontecer, e o que é o homem, p ara que tenha êsses sonhos e
essa experiência decepcionantes. Pondera se haverá q u alq u er
sentido na vida, quem é êle, e o que deveria estar fazendo.
As sensações que acom panham êsse estado de espírito são a
angústia, o temor, a náusea, a solidão e a nostalgia. O que
A MENTE E A SOCIEDADE 193

aum enta o tem or é o espetáculo dos m uitos que perderam , re­


centemente, suas alm as — o espetáculo d a juventude hitlerista
curvando-se ante seu ídolo, o Führer, dos que eram levados
aos fornos dos cam pos de concentração, e das hordas que se
reúnem em tom o dos q u e são ávidos de poder, ou dos que
têm panacéias p ara a salvação do homem.
É nessa crise que a religião volta a encontrar seu papel
e sua função, depois de ter sido ignorada p or um a sociedade
excessivamente confiante em sua força e virtude. A condição
diagnosticada como existencialism o é semelhante àquele pro­
testo religioso dos salm os e outros escritos religiosos. '‘O que
é o homem, p ara que te ocupes dele ?” “Das profundezas lan­
cei a ti m eu grito.” A religião traz de volta a perdida estru­
tura da vida e dá sentido às vozes confusas que soam n a alm a.
Q uando o senso, a razão, a emoção e as aspirações são reuni­
dos, a confiança é restaurada não só em geral, m as na signi­
ficação da realização individual. Além disso, o espectro da
m orte desaparece. A qui, então, devem estar os efeitos saudá­
veis d a religião. D igo saudáveis porque o homem hoje não
se ad ap ta tão fàcilm ente à vida como nos tem pos prim itivos.
H á m uitos interêsses em concorrência, m uitos negócios que
não podem ser fàcilm ente traduzidos num contexto religioso.
É por isso que m esm o entre os praticantes assíduos e fiéis da
religião, esta parece apenas um fator em suas vidas. T eriam
de ser santos p ara ver tudo, como o faziam os prim itivos, atra­
vés dos olhos d a fé. E sta começa como um a espécie de catali­
sador decisivo e estabelece um novo sistem a de idéias, m as isso
não se en quadra n a categoria que m encionei prim eiram ente.
Com o todos os outros fatores assinalados acima, a religião
aju d a a condicionar a sociedade e o indivíduo. Resta-nos agora
in dagar de que form a particular, e por que m étodo esse con­
dicionam ento é provocado. U m a resposta parcial já foi dada
nas afirm ações sóbre a qu alid ad e propiciadora de vida da fé,
qu an d o razoável e rica de aspirações. P ara têrmos prova disso,
basta olhar à volta e considerar a fé e a esperança que p arti­
ciparam da criação de tantos m onum entos da arte, da filosofia
e d a ascensão social. M ais relevante p ara o problem a que de­
batem os, porém , são os m étodos e meios que a igreja, em par­
ticular a Igreja C atólica, usou p ara instilar em seus conversos e
adeptos o conhecim ento e am or do D eus dos cristãos. Êsses m é­
todos são vistos m elhor na educação dos jovens e nas regras im ­
194 O CONTROLE DA MENTE

postas aos cristãos. E nesse ponto enfrento um a dificuldade.


H á m uitos cristãos, sob nomes diversos, e diferem em propor­
ções não pequenas q u an to aos ensinam entos e interpretações.
Evidentem ente, q u an d o São Bern ardo levou um grupo de jovens
am igos para um lu gar solitário nas m ontanhas cham adas G a ir-
vaux, ensinando-lhes a pensar, na m edida do possível, apenas
nas coisas divinas e a considerar o m undo como um a distra­
ção de suas preces, tratava-os de m odo m uito diverso do ado­
tado por um a freira que ensine num a escola p aro qu ial de
Chicago. M uitos dos que descendem espiritualm ente dos re­
form adores do século X V I m antêm a crença de que a raça
h um an a foi corrom pida radicalm ente pelo pecado original, ao
passo que os católicos acreditam que a natureza hum ana per­
m aneceu radicalm ente boa, em bora não esteja m ais de acôrdo
consigo m esma e influenciada na direção do egoísm o e do sexo.
A im portância excessiva atribuíd a a um ponto pode vir a pre­
ju d icar o sentido sim ples de algum a doutrin a, e temos conosco
sem pre, é bom lem brar, os que são puritanos por disposição e
os que são tolerantes e bondosos em seus julgam entos. A lguns
fazem de Deus um m onstro, outros o transform am num p ai
bem hum orado.
O êrro de ênfase pode ser m uito p reju d icial e provocar
a an tipatia em relação à religião ou ao divã do psiqu iatra, e
tem sido afirm ado que gran de parte do poder exercido pelas
Igrejas C alvinista e C atólica vem d o fato de terem paralisado
a m ente dos jovens com advertências contra o pecado e am eaças
de punições de um D eus irado. Êsses ensinam entos eram, tal­
vez, m ais adequados a um a idade m ais bruta, q u an d o os guer­
reiros n ão se interessavam p o r deuses mansos, m as hoje devem
constituir exceção. A autoridade, no m om ento, está fora de
m oda, e a opinião geral é contra a punição dos jovens. A
B íb lia, não obstante, oferece provas abundantes da necessidade
de m anter vivo o verdadeiro sentido de Deus, e um verdadeiro
sentido de Deus como a reverência e temor: Initium sapientiae
timor dominu
É possível m anter o equilíbrio entre a reverência e o am or
e a alegria, m as todos devem estar presentes p a ra que sintam os
Deus. A atitude da Ig reja C ristã é freqüentem ente m al inter­
pretada. O m êdo é apenas um elem ento subsidiário no ensina­
m ento cristão, que é, no fin al das contas, um Evangelho, isto
é, boa nova, notícias de grandes alegrias. A verdadeira reli­
gião é um a exclam ação de alegria pela libertação do espírito
A MENTE E A SOCIEDADE 195

e a prom essa de viver no auge de um im pulso, na presença do


am or absoluto. T ã o grande é êsse tesouro, que não deve ser
perdido, e por vêzes meios drásticos são usados para im pedir
a sua perda. T a is meios são adotados especialm ente para os
sim ples e fracos, as crianças do Evangelho, que n ão devem ser
escandalizados. A dm itam os agora q u e p ara protegê-los a Igreja
por vêzes possa parecer desaprovar o que é inofensivo aos adu l­
tos. O que é bom em si nem sem pre é oportuno, como já
vimos, em nossos dias, na concessão extrem am ente ráp id a de
com pleta liberdade dem ocrática a tribos ain da m ais amantes
d a vingança contra seus vizinhos do que da liberdade.
O objetivo da religião cristã é produzir personalidades li­
vres, pois sòmente pessoas podem adorar em verdade e amor.
Portanto, se exam inarm os m ais d e perto os métodos seguidos
pelo ensino, veremos que gran de ênfase é atribuída à razão e
à capacidade de decid ir p or si m esmo o que é digno de ser feito
dentro da ordem divina d a providência. A mente deve estar
preparada p ara ter um a resposta p ara as principais questões
provocadas pela vida, e a vontade tam bém deve ser discipli­
n ada p ara tolerar tanto o fácil quan to o difícil, o aventuroso
q u an to o rotineiro. A alm a trava conhecimento com o m is­
tério, com a realidade transcendente pela qual sua per­
feição in fin ita mede a pessoa e a coloca em condições de
com preender sua próp ria posição. U m herói ou a potência
dem oníaca tem sido, desde os tempos imemoriais, um dos
m eios de conseguir o m elhor dos jovens. É êle a figura legen­
dária que freqüentem ente se coloca em m eio às brum as da
história do nascim ento de um a cidade, tribo ou fam ília — os
deuses domésticos, A nquises e Enéias, que tanto significavam
p ara os rom anos; A braão e Moisés, que foram fontes de inspi­
ração e esperança p ara os judeus, e os levaram a aguardar um
herói ain da m ais m aravilhoso no M essias; Cristo, que é para o
cristão um a figura histórica, um homem e m ais do que homem,
ou herói, porque é o Logos, a sabedoria de Deus e o amor.
que faz as estréias. V iver à luz dêsse ser, aprender seus cam i­
nhos e amá-lo não pode, em hipótese algum a, ser considerado
como um condicionam ento perigoso da mente. É m ais provável
q u e isso libere a m ente e a faça m archar p ara a perfeição.
M as podem os dizer que a prática cristã, em bora tenha
altos objetivos, caiu tam bém m uito baixo, e tem havido mais
do qu e rum ôres de com o os jesuítas, por exem plo, tentaram
196 O CONTROLE DA MENTE

controlar a juven tude. H á, realm ente, outro tipo de contrôle


que é inescrupuloso e m ortal. Ouvim os contar histórias dos
q u e sofreram esse contrôle sob H itler e às m ãos das au torida­
des soviéticas. Conhecemos o bastante sobre êsses m étodos p ara
que consideremos plausíveis tais histórias, e h á o receio n atu­
ral de que à m edida que novas descobertas se forem fazendo
na ciência e m edicina, m ais fácil seja despersonalizar o in d i­
víduo hum ano e su bstituir suas características fam iliares por
outras que não conhecemos. H á m uitas artes novas de per­
suasão atrás das artes h abitu ais de adu lterar a história e de
fazer prop agan d a — novas pressões sôbre os nervos, novas
form as de perseguição na célula e drogas p ara transform ar o
m ártir num instrum ento dócil de um p artido ou um ditador.
N ão terão os ensinam entos católicos descido po r vezes
a um a espécie de lavagem do cérebro, e não terão os jesuítas
até mesmo afirm ado que se um a criança de quatro anos lhe
fôr posta às mãos, farão dela o qu e desejarem ? Posso dizer
apenas qu e essa afirm ação seria m onstruosam ente tôla, consi­
derando-se que tantos produtos d a educação jesuítica se torna­
ram em críticos, m oderados ou im oderados, dos próprios je ­
suítas. Se exam inarm os o livro em que todos os m étodos je ­
suítas e suas técnicas se baseiam , o fam oso livro dos Exercícios
de Inácio de Loyola, veremos que falta base a tal acusação.
Os Exercícios são o que, n a cristandade ocidental, m ais se apro­
xim a das técnicas elaboradas no Oriente. N o O cidente a
Regra de São Benedito estabeleceu o pad rão de com porta­
m ento religioso entre os religiosos católicos, e m uitos livros
espirituais o seguiram , n a Id ad e M édia. N ão seria exagero,
porém , dizer que Santo In ácio iniciou um preparo m ais cien­
tífico da vid a espiritual, e os Exercícios são tão m inuciosos e
práticos como os m anuais m ilitares. N in guém poderia dizer,
porém , que determ inam um condicionam ento da m ente ou
pressionam indevidam ente a vontade. Santo In ácio utiliza
o que poderiam os considerar de recursos teatrais p ara atin gir
seus efeitos — quan d o m an da o praticante m editar sôbre o
pecado e a morte, sugere que o jeju m e a escuridão podem
aju d ar a m ente — mas o objetivo final dessas m editações e
exercício é prop iciar a livre escolha, sem o pêso dos sentim en­
tos preguiçosos e da vontade obstinada. Com eça com um a con­
sideração perfeitam ente racional, que pretende ser lògicam ente
convincente, e a m aior parte do livro é tom ada pelas m edita­
ções sôbre os esplendores do Cristo com o exem plo e in spira­
A MENTE E A SOCIEDADE 197

ção. A dm itam os que nas regras escritas p ara os próprios je ­


suítas a obediência é pregada como virtude, e p ara os que
não são jesuítas certas im agens usadas, como a de um cadáver,
ou a de um a vara na m ão do mestre, podem parecer extrem a­
das. N ão o são, contudo, no contexto de tôda a regra, que se
baseia no amor, e em vista da vocação livrem ente escolhida do
jesuíta, pronto a aceitar q u alq u er dever que a m aior glória
de Deus exija.
U m pouco depois de Santo Inácio, dois místicos carm e­
litas espanhóis, Santa T eresa e São Jo ã o d a Cruz, explora­
ram m ais cientificam ente as regiões superiores da oração. A
m aioria das grandes religiões teve seus cam inhos místicos, e
um a filosofia clara da ascensão se encontra no neoplatônico
Plotino e ao mesmo tem po nos escritos hindus. São Jo ã o da
Cruz, porém , é m inucioso e exato, e em seus ensinam entos os
sentidos e o pensam ento conceituai sofreram bastante, ficando
apenas aqu ilo que outro au tor cham ou de espírito. O
que parece à prim eira vista um m étodo de destruir o eu,
acaba sendo a sua entronização em m eio às cham as do am or.
N em nesses m ísticos espanhóis, nem nos exercícios de Santo
Inácio, portanto, há q u alq u er perda de personalidade. M uito
ao contrário, e Von H ü gel tinha razão ao contrastar um santo
m ístico como C atarin a de G ênova com um caso psicopata.
Êste últim o se vai estreitando à m edida que o interêsse pelo
ego enche o horizonte da m ente do paciente; o santo e o m ís­
tico verdadeiro, p o r outro lado, se tornam m ais generosos no
pensam ento e no sentim ento, até que seu m undo se identifica
com o d a hum an idade: “ Quem sofre, que eu tam bém não
sofra ?” A lém disso, há indícios de que o sentimento m oral e
religioso é de tal form a parte da personalidade que não pode
ser elim inado com êxito. Os pacientes hipnotizados são, ge­
ralm ente, dóceis às sugestões e às ordens recebidas. Se, porém,
u m a ordem se choca contra um a convicção m oral profunda,
surge a resistência. O mesmo ocorre com os pacientes subm e­
tidos a drogas ou a pressões contra a sua vontade. Em bora
possam estar fora d e si, jam ais cedem, porém, à .tentativa de
privá-los de seus valôres m orais e religiosos. Os que se em pe­
nham em m od ificar tais valôres têm de disfarçar seus ob jeti­
vos ou atacar essas convicções indiretam ente. A tinta da reli­
gião dá cor a tôda a pessoa, com o se esta estivesse constituída
de tal m odo que seu eu gozasse de um a com unicação com
Deus, ou desfrutasse algum a relação fin al e radical com Êle.
198 O CONTROLE DA MENTE

Se assim é, então a religião não devia ser ignorada em


nenhum debate sobre o sentido e a base do eu, e deveriam os
esperar que ela constituísse um a chave p ara preservar a per­
sonalidade contra a am eaçada invasão pela lavagem do cérebro
e das drogas. O teólogo ou filósofo não pode tom ar o lugar
do m édico e do psiquiatra. Pouco m ais pode fazer além de
proporcion ar a base, e m esm o aí é prejudicado pela varie­
dade de religião e de ensinamentos. Segundo algum as reli­
giões, não há nenhum a pessoa autêntica a preservar. Por
isso, me lim itarei à religião cristã. M esmo nesta, há diferen­
ças que atingem nosso julgam ento do caráter do indivíduo. O
im perador Ju lia n o e m uitos rom anos do últim o im pério acusa­
ram o cristianism o de se opor aos deveres nacionais e de apres­
sar a dissolução do im pério, devido às preocupações com o
outro m undo. Essa acusação foi repetida de form a m ais elo-
qüente por Nietzsche em sua diatribe contra a m entalidade
servil dos cristãos e sua preocupação com o outro m undo.
M uitos dos cristãos prim itivos, vivendo durante a época da
perseguição e esperando um fim rápido p ara o m undo, pouca
atenção dedicavam à vida m undana à sua volta. N ão obstante,
o cristianism o sempre conseguiu com binar o ideal do outro
m undo com a obrigação de usar a capacidade n atural na
execução das tarefas terrestres e o am or ao próxim o. O cristão
não considera essas finalidades diversas como contraditórias;
elas proporcionam aq u ela tensão que dá plenitude à vida, e
enfrentando desafios e superando resistências, leva ao p ro ­
gresso não só do indivíduo, m as tam bém d a sociedade.
A filosofia que sublin ha essa atitude considera o hom em
como m ais do que um organism o m aterial vivo. Ê le está no
horizonte de dois m undos: coloca à sua fente um ideal espi­
ritu al que deve ser realizado através de seu organism o físico,
e seu papel é o de fazer com que a razão controle os senti­
m entos e paixões e sublim e os desejos e am ores baixos, num a
form a de am or hum ano m ais alto, que se aproxim a do divino.
Portanto, toda pessoa é d a m aior im portância, é única. O
Ocidente tem levado tão a sério êsse ensinam ento que o valor
do indivíduo tornou-se a ped ra fun dam en tal do progresso
social, juríd ico e político.
N esse momento, porém , um a grande interrogação surgiu
em m uitas mentes, provocada pelo que está acontecendo à
nossa volta e pelo que se está preparan do nos laboratórios.
A MENTE E A SOCIEDADE 199

Ju lgam o s todos que nossa m ente funciona pelas suas próprias


condições. A linguagem evidencia isso, bem como os ju lg a ­
m entos sobre o com portam ento, nos tribunais. M as os psiq u ia­
tras pretendem , h á m uito, p ôr em dúvida essa liberdade e os
m odernos filósofos em píricos n ão podem encontrar um lugar
p ara o eu no seus sistemas. O Dr. K u rt G oldstein, em seu
The Organism, dá-nos valiosas inform ações sobre o organism o
como um todo e sobre a constância relativa desse organism o.
A firm a q u e apesar de m uitas m odificações que o caráter do
hom em pode sofrer e dos desdobram entos e do declínio no
curso d a vida individual, mantém-se um a constância relativa.
“Se não fôsse esse o caso, jam ais seria possível falar de um
organism o definido, como tal. N ão seria possível falar do
organism o definido, de qu alq u er m odo.” Eis aí algo de relati­
vam ente im utável no indivíduo, adm itindo G oldstein, em
ou tra passagem , que “ toda a atividade criadora se origin a do
im pulso vivo do organism o de enfrentar, de form a produtiva,
o am biente”, e que “ tôda consciência é um pré-requisito a
fim de que a produtividade possa encontrar sua m anifesta­
ç ã o ...............É a consciência final que determ ina a direção” .
Apega-se, porém, à idéia de que é um a abstração pensar n a
consciência mais organism o. M as podem os in dagar como o orga­
nism o cria padrões que levem e tornem permissível àq u ilo que
organiza a vida abrir m ão de si m esm a por um ideal ?
A ustin Farrer, em conferências pronunciadas em G ifford,
em 1957, exam ina os argum entos a favor e contra a existência
do eu e da liberdade. A ssinala que, quando levanto a pena ou
penso em voz alta o que escrevi, não há um a boa razão para
supor que em cada um a dessas ações ou atitudes o papel do
cérebro se m odifica radicalm ente. A ação é controlada pelo
cérebro, m as a ação está no órgão, é a mão, ou a bôca. É um a
parte de m im que estou usando, e tenho consciência do que
pretendo, ao usá-la. Q uando executam os um projeto ou inten­
ção, freqüentem ente im provisam os e continuam os sem um
plan o predeterm inado, de form a que é quase im possível pensar
no ato intencional como prefigurado no funcionam ento do
cérebro. A lém disso, nas form as m ais altas de organização, há
presente um poder real de encantar as formas inferiores. Os
padrões m enores são postos a trabalhar segundo padrões m ais
am plos. A atividade de determ inado padrão de ação e a tran­
sição de um p ad rão p ara outro vai além das leis físicas. A
nossa vida intencional é que lhe d á o tom. A ação nervosa em
200 O CONTROLE DA MENTE

si não tem nom e próprio, é identificada apenas com o as confi­


gurações físicas correspondentes às ações hum anas comuns. A
ação de nossa intenção independe de qu alq u er teoria p u ra­
m ente física. Pequenos atos fisiológicos são feitos sem corre­
lação com as intenções hum anas conscientes, e estas ocorrem
sem os correspondentes atos nervosos. As regularidades são evi­
dentes. As pequenas energias físicas, naturalm ente, funcionam
regularm ente, e devemos lhes ser gratos por isso, pois seria um a
deficiência séria se não pudéssem os ad q u irir hábitos corporais,
com o andar, falar e ler, sem que nos tivéssemos de preocupar
com êles.
F arrer reconheceu que os seres hum anos são, até certo
ponto, resultado d a educação, condições físicas, intçjrêsse e
superstição e preconceito. Êsse condicionam ento, porém , d eixa
um a m argem de aspiração que se volta p ara o objetivo da esco­
lh a criadora, e é esta que prom ove o progresso na apreciação
dos valôres e a flexib ilid ad e dos princípios, até modificá-los.
A m áq u in a eletrônica, p or exem plo, pode fazer m aravilhas
dentro de lim ites definidos, m as n ão m odifica sua base de ação,
nem se arrepende de sua m issão destruidora, imolando-se com
o m ergulho nas entranhas de um vulcão.
P. F. Strawson, em sua valiosa análise de Individuais,
apó ia de certo m odo o argum ento de Farrer. N ão podem os
evitar, diz êle, o retorno à idéia prim itiva d a pessoa. A m aioria
dos em píricos lim ita a conotação de pessoa. Devemos dizer,
po r exem plo, “Eu sou calvo, eu estou com frio”, bem como “Eu
vejo um a aranha no teto” . T a is fatos explicam por que o su ­
jeito de um a experiência deve escolher um corpo de outro e
dar-lhe um nome. Strawson insiste, porém , q u e essa lim itação
do significado de pessoa não é definitivo, pois não explica po r­
que a experiência deve ser determ inada a qu alq u er sujeito,
porque o eu ou o sujeito da referência e as características
corpóreas devam ser atribuíveis à m esm a coisa. Isto é, não
explica o uso da p alavra “eu ”, ou como q u alq u er outra p a ­
lavra tem determ inado uso. Ou seja, não explica o conceito
que temos de pessoa.
O problem a da pessoa será evidente se fizermos a supo­
sição, como já a fizeram m uitos e ain d a a fazem, de que
a pessoa é um a espécie de com posto, tendo de um lado o ego
ou a consciência pura, su jeito da experiência, e do outro um a
substância com atributos físicos. M as se começarmos do prin-
A MENTE E A SOCIEDADE 201

t ípio com tal idéia ou conceito, jam ais poderem os chegar a


essa idéia de um a pessoa com posta. Se o ego, o sujeito puro,
vem prim eiro, não podem os pensar absolutam ente em outros
sujeitos da consciência, cada qual distinguível e identificável.
Deveriamos apegar-nos ao nosso ego num solipsism o inevitável,
esse poço onde o m oderno filósofo positivista sabe q u e está
sempre em perigo de cair. Ja m ais poderiam os atrib uir nossa
experiência como tal a q u alqu er sujeito, exceto a nós mesmos.
Pior ainda: não poderiam os fazê-lo nem conosco mesmo,
porque não nos poderiam os identificar com os outros. Isso
significa que o sujeito puro, ou ego, não pode existir como
conceito prim ário, de que nos possam os valer para explicar-
nos, explicar os outros, como pessoa. O conceito de pessoa ( * )
deve ser lògicam ente anterior ao da consciência individual.
Esta últim a pode ter um a existência lògicam ente secundária,
pois falam os de um a pessoa m orta, um corpo, e falam os de
um a pessoa desencarnada, que conservou a qu alid ade lógica
da in dividualidade por ter sido um a pessoa.
N ão considero esta análise com pleta, porque pressupõe
que não possam os ir além da atribuição da pessoa ao que
é a consciência do sujeito e o corpo. T em porém o m érito de
elim inar alguns preconceitos sobre o significado do eu e
reunir no eu hum ano tanto a mente como o corpo. É essa
noção do eu que constitui atualm ente m otivo de tanta
preocupação, devido ao poder espiritual sôbre os outros que
nossos am os se estão cada vez m ais arrogando. Êsse sentido
do eu deve ser cuidadosam ente distinguido de outro sentido
que se está tornando m uito comum, tanto em publicações
científicas como n a linguagem usual. Neste últim o sentido,
pessoa e personalidade significam pouco m ais do que caráter,
e psicólogos como Block e Petersen deram a um artigo o
nome de “A lguns C orrelatos de C onfiança na Personalidade”
etc., e Ja n e t A. T a y lo r escreve sôbre “U m a Escola de Per­
sonalidade ou d a A ngústia M anifesta” . T am bém Freud tem,
com o todos sabem , sua linguagem do ego e do superego, e
Ju n g estabeleceu algum as distinções próprias que, não obstante,
podem os argum entar, im plicam num eu permanente, subsis­
tente, que é até m esm o um a anima naturaliter Christiana.
Desde a época de Descartes tem havido a tendência de
tratar o eu como um a m ente num a m áquina, o que Ryle

(•) Straw son con sidera pessoa aq u êle q u e é consciente e corporal.


202 O CONTROLE DA MENTE

cham ou de “ fantasm a na m áq u in a” . E ssa tendência antecede


Descartes de m uito, talvez porque a presença do elem ento
espiritual em nós seja tão notável, e porqu e seja tão fácil
form ar um qu adro dêle como se estivesse aprision ado no corpo,
ou governando-o, ou amando-o e desprezando-o ao mesmo
tem po. Êsse raciocínio platônico e oriental dificilm ente pode
explicar as incursões da m edicina e da farm acologia no que
considera como estritam ente lim itado ao espírito. À religião
católica, por su a vez, em parte devida à dissem inação das
perspectivas aristotélicas, as descobertas d a m edicina e d a far­
m acologia não causam gran de alarm a. A teoria d a interação
íntim a entre alm a e corpo adm ite tais descobertas. Se a aim a
tem a form a do corpo, e o ser hum ano se define em têrmos
de sua existência essencial como corpo e ao mesmo tem po
mente, o que afeta ao corpo terá de afetar a mente, e m ente
e cérebro devem funcionar juntos. A dificuldade, no caso, é
ju stificar a alta condição da alm a e sua independência rela­
tiva do corpo. É m ais difícil encontrar um eu, e um eu que
não esteja com pletam ente dom inado pelas suas atividades orgâ­
nicas. Por que, n a verdade, procurar algo além d o q u e os
psicólogos cham am de caráte r?
A razão é qu e o com portam ento orgânico em si não re­
vela toda a história, não constitui um a explicação: deixa ain da
o m istério do eu, que existe na in dividualidade preciosa de
cada pessoa que conhecemos e am am os, e não explica os extre­
m os de aspirações e os atos que constituem a vida m ais valo­
rizada pelo homem. H á um a relação, sempre, entre o espí­
rito e o corpo nesta vida, m as tal relação deve levar em
conta as aspirações de que o hom em se m ostrou capaz. P ara
esclarecer a situação, Farrer nos d á um a alegoria — a de tocar
o violino. A m úsica destinada a êsse instrum ento deve ser
produzida pessoalm ente, com liberdade, m as não pode exceder
os lim ites de sua capacidade, e por m ais com petente que seja
o violinista, se afrouxarm os as cordas, êle não poderá tocar
afinadam ente, ou se abrirm os buracos na caixa do in stru­
m ento, êste perderá a ressonância. “A certa altura, teremos
atin gido um grau de interferência tal que êle n ão poderá re­
produzir n ada que se assemelhe à m úsica. Assim como certas
pessoas enlouquecem , e todos nós m orrem os, m uito em bora
Deus possa colocar novos instrum entos em nossas m ãos.”
Poucas pessoas se surpreendem de não p od er pensar bem q u an ­
d o têm um a dor de cabeça, e desde o início d a história os
A MENTE E A SOCIEDADE 203

homens têm constatado o efeito dos ferimentos e doenças


sôbre a m ente e o caráter. N ão há nada de novo, portanto,
na inform ação de qu e as drogas podem enlouquecer o homem
ou reduzi-lo à condição de docilidade. O tipo de resposta
aristotélica abrange tal situação; e dêsse ponto de vista, a so­
lução em têrmos d a glân d u la pin eal sempre pareceu ridícula.
A estrutura aristotélica tem, porém, m uitas variedades.
Tlá filósofos que procuram m aiores possibilidades na sugestão
de Bergson, de que o cérebro é m ais um instrum ento protetor
e econômico do que criador. D urante todo o dia somos bom ­
bardeados com impressões, m ilhares e m ilhares delas, à me­
dida que vam os encontrando um a realidade sempre variada.
Se não fôsse o nosso cérebro como um a m áquina secretarial
modêlo, escolhendo o que nos é adequado e deixando passar
apenas o que podem os controlar, jam ais nos desenvolveria­
mos e chegaríam os a ter um a mente flexível e ordenada. O utra
im agem do cérebro é a de um a conversação telefônica. A reali­
dade atinge nossa consciência, m as p ara que possam os infor­
má-la a nós mesmos, necessitamos de um cérebro. Êle nos
perm ite falar conosco, ser não apenas consciente, m as semi­
consciente. Q uando a conversa se interrom pe, devido a um
golpe, um a doença, continuam os conscientes, m as incapazes
de apreender nossos pensam entos e de submetê-los à nossa
vontade. O pensam ento está ali, tal como o sonho que desa­
parece ao acordarm os, ou os velhos que não se podem lem­
brar im ediatam ente do que acabaram de dizer.
H á outra op in ião a ser m encionada p ara neutralizar o
que m uitos receiam esteja acontecendo hoje: o advento de
um a era de hom ens padronizados, que se poderia considerar
como um a revolução na adm inistração, e na qual a falsa-bur-
guesia privilegiada das subutopias contem porâneas exerce um a
influência im pessoal e padronizadora sôbre um proletariado
cada vez m ais iludido e mais rico. Acontecerá algo pior do
que isso ? Será o hom em tão orgulhoso quanto Jú lio César,
para se tornar tão gentil qu an to um pom binho, e um A braham
L in coln , p ara revelar os hábitos de um Al Capone ? Acredi­
tando que exista a m ais íntim a un ião entre o caráter e o eu,
n ão deverá haver tam bém um eu inviolável que continue o
m esmo apesar de tôdas as m odificações a que se tenha de
subm eter ? U m eu estático, im utável, está fora de dúvida, mas
o psicólogo deve exam in ar q u alq u er tipo de eu. Ê le poderá
204 O CONTROLE DA MENTE

dizer que não existe necessidade de inventar tais hipóteses,


pois tudo que acontece na experiência pode ser suficiente­
m ente explicado sem o acréscimo dêsse eu.
U m a das respostas a isso está em apontarm os a falh a fatal
n a m aterialização d a m ente ou d a vontade. J . B. S. H ald an e
viu de pron to essa falha. Se a mente fôr determ inada pela
m atéria e não p ela verdade, então n ada que eu disser terá
valor como verdade. R epetin do as palavras de H aldane, “p ara
fu gir dessa necessidade de serrar o galh o em que estou sen­
tado, por assim dizer, sou obrigado a acreditar que a m ente
n ão é totalm ente condicionada pela m atéria” . De fato, às
operações d a m ente não podem ser colocadas na m esm a ca­
tegoria d a m atéria. U m a hipótese n ebular e as estréias não
são o mesmo tip o de m aterial. A m esm a paisagem pode ser
pin tad a repetidas vêzes e ser im agin ada por pessoas diferentes
sem que n ada lhe aconteça, tal como a terra existia m uito
antes de Platão ou Aristóteles julgarem que conheciam algum a
coisa sôbre sua natureza. Aristóteles falava d a espécie, do
gênero e da relação entre êles, mas jam ais pôde um gênero
devorar um a espécie, com o um gato devora um rato. N em
tôdas essas operações, a que cham am os m entais, são atos de
alguém ou algum a coisa, e o efeito não pode ser superior à
causa.
Se exam inarm os a natureza dessas operações do espírito,
veremos ain da m ais claram ente que a presença de algum eu,
atuante e subsistente, é necessária. Em cada julgam ento, fa ­
zemos um a afirm ativa, e um a afirm ativa é m ais do que um a
conclusão: é um a concordância, o que significa estarmos d i­
zendo aqu ilo que é nosso, significa que nos estamos com ­
prom etendo e p o r vêzes nossa vida futura. N os tribunais, ju ro
dizer a verdade, e isso é, p ela sua p róp ria essência, um ato
pessoal, pelo qu al sou responsável. (N um a análise m ais pro­
fun da, podem os m ostrar que em cada afirm ação existe um
ato de auto-identificação.) K an t tentou reduzir essa afirm a­
tiva a um a simples unidade form al, m as isso é negado pela
aclam ação com que todo ato original ou expressão, ou tra­
balh o de arte, é saudado, e m ais tarde aceito como nosso. O
que ocorre com o julgam ento, ocorre tam bém com a ação e
a decisão. Q ualquer análise que om ita a form a especial pela
q u al adotam os um a alternativa, ou escolhemos um a hipótese
entre várias ao nosso alcance, será incom pleta. É assim que
A MENTE E A SOCIEDADE 205

nos desenvolvemos e nos tom am os nós mesmos, e realizam os


as coisas a que aspiram os, e tôda a linguagem que usam os
na descrição dêsse processo envolve a presença de um eu subsis­
tente. Pode ser cham ado de eu existencialista, qu e tem
preocupações consigo e o desejo de con tinuar vivendo, apesar
da an gústia h abitu al da vida e da escolha. N u m trabalho lido
na Sociedade A ristotélica, P. T . G eath assinalou que há afir­
mações nas q u ais a palavra “existe” é um predicado real.
Q uando Ja có exclam a, n a B íb lia, “Jo sé não está e Sim eão não
está”, seria absurdo dizer que Ja có ao pronunciar tais p ala­
vras n ão estivesse falan do sôbre Jo sé e Simeão, m as sobre a
utilização de seus nomes. A lém disso, no caso a referência a
um nome não adm ite nenhum a qualificação tem poral — os
nom es n ão têm tem po verbal.
O poeta G erard H opkins, que não era m au filósofo, cha­
m ou ao eu de infinitesim al positivo. Êle tinha iim sentimento
excepcionalm ente agudo de si mesmo, tanto do que era como
caráter e como ser sin gular e subsistente. H á em suas notas o
seguinte trecho:
V e jo - m e t a n to c o m o h o m e m e c o m o eu m e sm o , a lg o m a is d e t e r m i­
n a d o e d is tin to , m a is d i s t i n t o e m a is a lt o q u e q u a l q u e r c o is a q u e p o s s o
v e r ; p e r c e b o - m e c o m o m e u s p r a z e r e s e o b je t iv o s , m e u s p o d ê r e s e m in h a s
e x p e r iê n c ia s , m e u s d e s e r t o s e c u lp a , m in h a v e r g o n h a , m e u se n so d e
b e le z a , m in h a s ir a s , e s p e r a n ç a s , te m o r e s e to d o o m e u d e s tin o , m a is im p o r ­
t a n t e p a r a m im d o q u e q u a l q u e r o u t r a c o is a q u e v e jo . E quan do p er­
g u n t o d e o n d e v e m t o d o ê sse e x i s t i r — tã o ric o , tã o c la r o e im p o r t a n t e
— n a d a m e p o d e r e s p o n d e r . E isso q u e r fa le eu d a n a t u r e z a h u m a n a o u
d e m in h a i n d i v i d u a li d a d e , d e m e u se r.

Isso é ain d a m ais autêntico nas experiências da mente


e da autoconsciência:
Q u a n d o c o n s id e r o m e u se r, m in h a c o n sc iê n c ia e m e u s e n tim e n to d o
e u , o g ô s t o d e m im m e s m o , o eu e o mim a c im a d e t ô d a s a s o u t r a s c o isa s,
e q u e é m a is p e r c e p t ív e l q u e o p e r f u m e d a f ô lh a d a n o g u e ir a o u a c â n ­
f o r a , e é in c o m u n ic á v e l a o u t r o h o m e m , q u a lq u e r q u e s e ja o p r o c e sso
a d o t a d o ................... n a d a m a is n a n a t u r e z a se a p r o x i m a d e t a l te n sã o , t a l
c la r id a d e , t a l a u t e n t i c i d a d e — d o q u e ê sse se r e u p r ó p r io .

H opkin s explica êsse ser distintivo como um a form a de


elem ento positivo que todo eu tem desde o início, um infinitesi­
m al positivo ou vontade, que tem form as e inclinações pró­
prias. D esde o início, segue sua linha, que não pode ser pre­
vista com certeza. Essa liberdade é sem pre integrada, de
206 O CONTROLE DA MENTE

form a a tornar a experiência do eu na natureza determ inada


p ela hereditariedade e pelo am biente, Essa natureza é a área
de sua atividade, a m atéria de que é m odelado, a E sparta lhe
dad a p ara adornar. T a l eu está presente no sono ou no estado
desperto, e mesmo se seu cam po de operações fôsse m odificado
pelas drogas, con tinuaria havendo não sòmente o mesmo corpo,
a m esm a linguagem , algum as m em órias e idéias semelhantes,
m as o sujeito ativo subsistente que dá sentido às m odifica­
ções. O eu preserva a identidade, que norm alm ente é vista
pelos que am am a pessoa. Em assuntos sem im portância, o
traço distintivo pode ser apagado e reconhecido apenas pelos
afetivam ente próxim os, ou pode ser alto e distinto como o de
D ante ou Shakespeare, determ inado como o de W inston Chur-
chill. Em nossa liberdade, estamos sem pre criando e com isso
sendo o que poderiam os ser, m as das m uitas coisas que po­
deriam os ser, o que nos tornarm os é o fruto de nossa liber­
dade e m uito nosso. Êsse eu, em bora se sinta à vontade no
corpo e seja uno com êle, é representado de sua m elhor m a­
neira no que é nôvo e recente, e na descoberta das verdades
e na escolha do am or. É tam bém êsse eu que, como E. I. W atkin
diz na Philosophy of Form, “ tem um a orientação radical da
vontade no sentido da eternidade e do m undo do espírito
— em ú ltim a análise, no sentido de Deus, distinto dos im pu l­
sos psicológicos inferiores dos quais lu ta p ara se livrar” .
H á um sentido, portanto, no q u al o eu pode suportar
m uitos ataques contra si e continuar sem pre existindo, em
crescimento ou declínio, a despeito d as m odificações do
corpo, das doenças e dos defeitos do cérebro, ou do condicio­
nam ento de suas disposições pelas drogas. Em sua Autobio-
graphy, o falecido Edw in M uir escreveu:
C o m p r e e n d í q u e a i m o r t a li d a d e n ã o é u m a id é i a o u c re n ç a , m a s u m
e sta d o d e ser n o q u a l o h o m e m m a n té m v iv a e m s i s u a p e r c e p ç ã o d a
u n iã o e lib e r d a d e i lim it a d a q u e p o d e a p e n a s d e le v e a p r e e n d e r n o te m p o .
m u it o e m b o r a s u a c o n s u m a ç ã o e s t e ja a lé m d o t e m p o ............... C r e io q u e d e v e
h a v e r u m a m e n te d e n tr o d e n o s s a m e n te q u e n ã o p o d e t r a n q ü iliz a r - s e
a t é q u e te n h a s o lu c io n a d o , m e s m o c o n tr a n o s s a v o n t a d e c o n sc ie n te , os
p r o b le m a s n ã o re s o lv id o s d e n o sso p a s s a d o . E l a p r o v o c a a c o n t e m p la ç ã o
in te n s a .

Compare-se isso com o que M arion Chase observou de


seus pacientes m entalm ente doentes: ao serem convencidos a
tentar suas danças terapêuticas, êles por vêzes gritavam : “Êste
sou eu.” U m belo problem a é criado p ara o psicólogo e o
A MENTE E A SOCIEDADE 207

lógico pela observação feita por um a velha que estava fora


<!e si, quando um am igo foi visitá-la: “Você não devia ter
vindo, pois estou fora de m im .”
Falham -nos as im agens p ara descrever a com plexidade do
tiu que é fundam entalm ente simples, pois se dissermos que
há um eu dentro do eu, estaremos dan do um a im agem falsa
de um a relação sin gular que não tem correspondência rem ota.
Má êsse eu-existente, e n ão pode ter de si um a visão exata
sem o m undo externo p ara mantê-lo em contacto com a terra
c a crítica e o idealism o dos outros, p ara melhorar-lhe os
padrões. Com o diz um dos personagens de Mother and Son
de Com pton-Burnett: “Você pode fazer o que quiser com a
solidão. E la não trata você em pé de ig u ald ad e/' G ilbert
Chesterton disse certa vez: “ O espelho é um a coisa m aravi­
lhosa, m as não tão m aravilhosa quanto um a jan ela.” Alguns
são cham ados a viver a vida das virgens vestais, m as m uita
solidão, na m aior parte das vêzes, leva à idiotice, às aberra­
ções, e aos erros de conceito qu an to à natureza. Somente
pelo contacto com outros e vivendo na presença dos que são
dignos de adm iração dos outros, podem os m odificar aquêles
dois dinam ism os qu e já m encionei, transform ando o centrí­
fugo em generosidade e entrega aos outros, e afastando o
centrípeto d a autoglorificação e d o anseio de poder, levando-o
para o respeito próprio, a honra e a integridade.
Em nossos receios do que pode acontecer-nos e aos que
vierem depois de nós, no que se relaciona com abuso de dro­
gas e lavagens do cérebro, esquecemos qu e não sòmente tais
receios foram com partilhados no passado pelos que pensaram
nos envenenadores da renascença, os feiticeiros, os filtros am o­
rosos, e tam bém por m uitos que foram, em tôdas as gerações, ilu­
didos em m aior ou m enor escala em sua idéias sôbre si mesmo.
H averá sem pre D on Q uixotes, M alvólios e Peer Gynts. H oje
a m áscara é o sím bolo do que as pessoas inseguras de si pre­
tendem ser. Com o Yeats escreveu em 1909, “creio que toda
a felicidade depende d a energia p ara assum ir a m áscara de
algum outro eu; que toda a vida alegre ou criadora é um
renascim ento de algum a coisa qu e não é o próprio eu, algum a
coisa que n ão tem precedentes, criad a num mom ento e per-
pètuam ente renovada” . Felizmente, na m aioria dos casos, não
nos enganam os tani.A sôbre nossas características. Ao ju lg ar­
mos quem somos, nós rgim os, usando outra im agem bíblica,
208 O CONTROLE DA MENTE

como os que se olham no espelho, “com o um hom em ”, com o diz


São T ia g o em sua E pístola, “olhando seu rosto n atural no espe­
lho, pois êle se olh a e se afasta, e se esquece d o hom em que
é ”. A in da m ais comumente, vê um rosto que não é ab solu ta­
m ente o seu, um rosto que se adequaciona aos seus desejos
ou é deform ado pelos seus receios.
O problem a criado pelo poder de transform ação das d ro ­
gas não é totalm ente diverso do problem a de nosso eu autên­
tico e de nosso em penho em nos encontrarm os e integrar
nossa personalidade. A essência d a questão está em sermos
capazes de ir além das impressões superficiais e dos padrões
pelos quais vivemos, e sermos honestos e sinceros, firm es e
am antes. A religião talvez nos possa aju d ar aqui, prin cip al­
mente. Sócrates reconheceu que a verdadeira sabedoria que
tão poucos possuem depende do preceito “Conhece-te a ti
m esm o” . É essa form a de sabedoria que a religião cristã
considera como a base da virtude e do desenvolvim ento in di­
vidual, afirm ando que sem hum ildade não é possível haver
progresso. A hum ildade tem sido classificada como o conhe­
cim ento d a verdade acêrca de nós m esmos e a aceitação dêsse
conhecim ento. T alvez seja m elhor dizer, q u an d o o apêlo ao
autoconhecim ento parece im por a questão, que a hum ildade
é o reconhecim ento do que somos à luz do, e em com para­
ção com, o p ad rão absoluto d a justiça e do am or divinos. O
efeito disso se vê nas Confissões de Santo Agostinho, ea
piração na frase de São Paulo, de que “Posso fazer t
n*A quêle que m e fortaleceu” . O eu perm anece in conspectu
Dei.
Arthur K o estler

Aspectos do Processo Criador

M e u o b jet iv o é m ostrar qu e arte e


descoberta têm m ais pontos de contacto do que se supõe ge­
ralm ente, e isolar o denom inador comum. Pretendo abordar
o problem a pela porta dos fundos d o hum or, pois a arte cô­
m ica é o único dom ínio da atividade criadora em que o estí­
m ulo em alto nível de com plexidade produz um a reação m a­
ciça no nível reflexivo, que pode ser usada como um índice.
Permitam-me citar um exem plo.
U m m arquês, n a corte de L u ís X V , penetrou no quarto
da m ulher e encontrou-a nos braços de um bispo. D epois de
um m om ento de hesitação, dirigiu-se à jan ela e começou a
fazer gestos de quem está abençoando o povo nas ruas. “ Que
fazes ?” , gritou a m ulher espantada. “M onsenhor está fazendo
o que me cabe”, respondeu o m arquês, “portanto, faço o que
cabia a êle.”
C on tada de form a m ais sucinta, a história cria um a certa
tensão que cresce com o avanço d a narrativa. (Figura 15,
esquerda.) N ão atinge, porém , jam ais a um clím ax. O gesto
inesperado do m arquês corta-lhe a evolução lógica, e a ten­
são se explode no riso. O fator crucial é o com portam ento
do m arquês, ao mesmo tem po inesperado e perfeitam ente
lógico, m as de um tipo de lógica — a divisão do trabalho e o
quid pro quo — n ão habitualm ente aplicado a êsse tipo de
situação.
D evo passar dêsse exem plo sim ples p ara a generalização
seguinte, que procurei desenvolver noutro trabalho. (Í8)
210 O CONTROLE DA MENTE

T o d a s as experiências que tendem a produzir riso têm um ele­


m ento com um : a percepção de uma situação ou idéia, P, em
dois contextos associativos, ou ordens Ft e Ft autoconscientes,
mas habitualmente incompatíveis (F igu ra 15, centro.) U sarei
a palavra “ordem ” bastante vagam ente, no mom ento, para
defini-la m ais adiante. O centro P, o fato m ental em que
as duas m olduras se encontram , vibra em dois com prim entos
de ondas diferentes, ou no dizer de H ebb, particip a sim ultâ­
neam ente de d uas seqüências de fases independentes. (13)
E n qu an to essa situação excepcional perdura, o acontecim ento
não se associa apenas com um p ad rão de com portam ento, mas

Tempo

F ig. 15

é bissociado. Uso êsse neologism o p ara distin guir entre a


h abilidad e rotineira de pen sar em sistem as fechados (2) de
um lado, e o ato criador, de outro. Êste últim o, pelo que
acredito, é baseado nos estágios transitórios de equilíbrio
instável qu e a palavra bissociação procura significar. O ato
criador pode levar à integração d as estruturas antes se­
paradas; voltarei a êste ponto quand o chegarm os ao processo
da descoberta. N o m om ento, interessam-me os processos em
que as duas ordens preservam sua identidade separada —
m esm o que entrem freqüentem ente em contacto. A figu ra 15
(direita) representa o que acontece q u an d o um a n arrativa
oscila constantemente, digam os, entre o m undo fantástico de
D om Q uixote (Fx) e o universo real e objetivo de Sancho
Pança (F2).
Vejam os alguns dos tipos m ais comuns de hum or. N o
trocadilho um único som é bissociado em dois sentidos dife­
rentes. N as várias form as de gracejo um a palavra ou situ a­
ção serve de base, e o mesmo ocorre n a com édia de erros.
Em tôdas as form as de disfarce o personificador é percebido
A MENTE E A SOCIEDADE 211

sim ultaneam ente como dois sêres, êle próprio e algum outro.
Isso se aplica aos anim ais de W alt Disney, que se com portam
como sêres hum anos; aplica-se às crianças que brincam im i­
tando os adultos; aplica-se aos artefatos que im itam a vida
(Punch e Ju d y ) e aos sêres hum anos que se com portam como
artefatos (como os pedantes semelhantes aos robôs, ou a ví­
tim a d a brincadeira em que se afasta a cadeira onde estava
sen tada). N a teoria de Bergson, essa dicotom ia particular
— "o m ecânico incrustado no vivo” (3) — cobre todos os tipos
de com icidade. Em nossa teoria, ela é apenas um exem plo
especial encerrado num a lei m ais geral.
N o hum or visual, a form a m ais sim ples de caricatura é o
espelho deform ador, que reflete o corpo alongado ou com­
prim ido, como se fosse apenas um a superfície elástica. O cari­
caturista, porém , deform a seletivamente, pelo exagêro e sim ­
plificação dos traços relevantes. O resultado é, ao mesmo
tempo, visualm ente convincente e biològicam ente impossível,
um a confrontação m aliciosa de percepto e conceito (a “narra­
tiva” , no caso, é evidentemente com prim ida num a ráp id a per­
cepção v isu al). A sátira é um a caricatura verbal da sociedade.
P ara a discussão de outros tipos do cômico, devo referir-me,
novam ente, a um trabalho anterior.
Para dar um exem plo detalhado, a pedra de tropêço de
tôdas as teorias do cômico é a côcega. Essa provoca o reflexo
que leva o paciente a retorcer-se, um im pulso de retirar a
parte em que ela é provocada, um m ecanism o inato de defesa
p ara escapar a um ataque hostil a um a das áreas vulneráveis do
corpo, não h abitualm ente exposta a ataques — a sola dos pés, o
pescoço, os sovacos, a barriga, os costados. Cócegas num a
criança só provocarão o riso se a segunda condição fôr preen­
chida — deve com preender que se trata de um a agressão fin­
gida, um afago disfarçado. As m ães e am as sabem que gri­
tos com o "p ik a b u ” ou “bou-au” são tão eficientes como a im i­
tação de um rugido de leão, feita por um com ediante. O
elem ento de surprêsa tam bém é im portante; os que são peri­
tos em fazer cócegas não deixam que a vítim a perceba onde
se fará a pressão. Experiências realizadas em Yale com crian­
ças de menos de um ano m ostraram que elas riam 15 vêzes
m ais q u an d o as cócegas eram feitas pelas mães do que quando
feitas por estranhos. O falso ataqu e só provocará o riso quando
a criança o reconhece como tal. Mesmo com a m ãe, há um
212 O CONTROLE DA MENTE

leve sentim ento de incerteza e apreensão, e é precisam ente


essa tensão entre d uas cócegas que se relaxa no riso que acom ­
pan h a a contorsão. A ssim o processo se en quadra na classi­
ficação de um a personificação cômica. O fazedor de cócegas
representa um agressor, m as sabe-se ao m esm o tem po que
não é um agressor. N a adolescência, os elementos eróticos
podem substituir a apreensão infantil, e as cócegas podem-se
tornar um pretenso ataq u e sexual. A lém disso, em todas as
outras form as d o cômico, o riso pode tornar-se um a reação
condicionada a certos estím ulos padronizados.
A sú b ita bissociação de u m fato em duas m olduras de
organização m ental habitualm ente incom patíveis é um a con­
dição necessária do cômico. O elem ento a ser acrescentado
p ara torná-la ao mesmo tem po necessária e suficiente é um
grão de adrenalina. O hom em qu e escorrega n um a casca de
b an an a — o protótipo d a teoria do riso de Bergson — é um a
figura cômica, m as se transform a im ediatam ente num a figura
patética se, na m ente d o espectador, a m alícia agressiva é
substituída pela identificação com passiva. O m esm o se aplica
a D om Q uixote e a toda qu alq u er outra categoria de cômico.
H á apenas um passo do sublim e ao ridículo, m as esse passo
é reversível — e é surpreendente que nenhum teórico d a arte
se tenha lem brado de fazer tal reversão. Isso explica a razão
de abordarm os nosso tem a pela porta dos fundos, pois ten­
tarei m ostrar que há um a correspondência entre hum or e
arte, em todos os seus aspectos — q u e os mesmos padrões
dissociativos provocam as experiências côm ica e estética, se­
gun do o tipo de em oção despertado e o processo pelo q u al
ela se descarrega.
Os reflexos característicos d a com édia e d a tragédia são
o riso e a lágrim a. O riso dá a im pressão de um a detonação
súbita: explode energias que se tornaram excessivas devido à
transferência do pensam ento de um contexto associativo para
outro. O pensam ento é capaz dêsses saltos, e em oção não é
— quero dizer, o tipo agressivo-defensivo d a em oção que p ar­
ticipa do cômico. Age com o um a caixa de ressonância das
cordas córticas do pensam ento. O sistem a adrenalino-sim pá-
tico, com seu m aquinism o glan d u lar e visceral, tem um a ação
m ais m aciça, persistente e adun ada, do que os processos cog­
nitivos no neocórtex. N u m a palavra, êsse tipo de emoção tem
inércia m aior do que o pensam ento. Em conseqüência, a sú ­
A MENTE E A SOCIEDADE 213

bita transferência p ara um tipo de lógica diferente dissocia


a emoção da cognição, e a em oção aban don ada pelo pensa­
mento se descarrega pelos canais de m enor resistência, no
reflexo d a gargalh ada.
N a n arrativa cômica prolongada, a oscilação d a atenção
entre duas ordens resulta num a descarga contínua de tensão
redundante, que se transform a em diversão apenas. O riso é
um reflexo sensorial que emerge num nível evolucionário
onde a razão ad q u iriu certo grau de autonom ia, em relação
ás pressões utilitárias d a emoção.
O caráter reflexivo do riso foi dem onstrado por Duchen-
ne, (6) C harcot e Richet. (26) D uchenne utilizou correntes
galvânicas p ara enervar o zigom ático m aior, e variando a inten­
sidade da corrente, produziu expressões faciais corresponden­
tes a tôda a escala que vai do sim ples sorriso até a gargalhada,
lim itadas à m etade enervada da face, perm anecendo a outra
m etade inexpressiva. As séries de fotografias que R au lin tirou
de crianças subm etidas a cócegas e de histéricos a quem as
cócegas eram transm itidas pela sugestão m ostraram o reflexo,
desde a leve contração até o paroxism o d a convulsão. Sobre
as razões dessas contrações m usculares específicas, servindo
como canal de m enor resistência, Freud sugere o seguinte (7):
P e lo q u e s e i, o s e s g a r e s e c o n to rsõ e s d o c a n t o d a b ô c a q u e c a r a c t e ­
r iz a m o r is o , a p a r e c e m p e la p r im e i r a vez n a c r ia n ç a s a t is f e it a e s a c ia d a ,
q u a n d o d e ix a , a d o r m e c id a , o s e i o ................... Ê sse se n tim e n to p r im o r d ia l d a
s a t is fa ç ã o l i g a d a a o p r a z e r p o d e te r c r ia d o o so r r iso , q u e s e r á s e m p r e o
fe n ô m e n o b á s ic o d o r is o , c o m a lig a ç ã o p o s t e r io r c o m o s p r o c e sso s a g r a ­
d á v e is d a d e s c a r g a (e lim in a ç ã o d a te n sã o ).

A ação respiratória do riso, com suas repetidas exalações


explosivas, parece destinada a elim inar a tensão excedente
num a espécie de ginástica respiratória, e os gestos vigorosos e
o bater nas coxas evidentem ente têm a mesma função.
Poder-se-ia ob jetar que a leve m alícia provocada por um a
p ia d a ou um a caricatura não seria suficiente p ara colocar em
m ovim ento o m ecanism o ad-renal sim pático. M as o riso par­
tilh a do caráter anacrônico d e outras reações do sistema
nervoso autom ático aos estím ulos que outrora foram biolò-
gicam ente relevantes (como por exem plo, arrepiar a pele pela
ação do m êdo ao ouvir algum ruído estranho, q u e fazia nossos
cabelos do corpo, há m uito desaparecidos, se eriçarem em
defesa contra algu m an im al h ostil). Essas reações inatas
214 O CONTROLE DA MENTE

podem ser cham adas de “excessos do corpo” e parecem capazes


de ser provocadas p or certos estím ulos em doses quase ho­
m eopáticas. O utros fatores que facilitam o riso são o con­
dicionam ento e a natureza socialm ente contagiosa das dem ons­
trações emotivas.
A lágrim a, ou o choro, tam bém é um reflexo de descarga
que alivia a emoção. M as prim eiram ente a secreção das lá­
grim as é ativada pelo sistem a parassim pático. Segundo, os
soluços — inspirações curtas, profundas, seguidas de longas
expirações de suspiros — são exatam ente o oposto d a ação respi­
ratória no riso. Terceiro, o riso tende a produzir gestos exage­
rados e intensificar o tono m uscular, inclusive a contração
coordenada de 15 m úsculos faciais; no chôro, o tono m uscular
é reduzido, o corpo se curva, a expressão se abate, a cabeça
cai para a frente. Finalm ente, na tensão do riso há um a explo­
são súbita; no chôro, ela é exaurida de form a gradual, qu e
não perturba a unidade do pensamento e da emoção. A des­
carga em ocional d o chôro é destituída da qualid ad e galvânica
presente na fome, ódio e mêdo. Ao invés de provocar ativi­
dade m uscular, ele tende à aquiescência e catarse, b aix a a res­
piração e o pulso, neutraliza a excitação ad-renal, e em casos
extremos, produz estados que se assem elham ao transe e à
coma.
Situações típicas, que produzem emoções desse tipo são a
audição de m úsicas de M ozart, a contem plação de paisagens
m ajestosas, estar enam orado ou aflito. C ada um a dessas ati­
vidades — ou m elhor diriam os, passividades — pode causar
um acúm ulo d e em oção e seu transbordam ento em lágrim as,
enquanto o corpo se acalm a e se reduzem as tensões. O de­
nom inador com um dessas experiências heterogêneas é o sen­
tim ento de participação ou identificação: o eu é sentido como
parte de um todo — que pode ser a N atureza, H um anidade,
laço pessoal ou a anima mundi. Por vêzes, isso é acom panhado
de um a sensação de expansão e despersonalização d a cons­
ciência — o “sentim ento oceânico” de Freud — na q u al o eu
parece dissolver-se como um grão de sal num b ald e d'água.
Denom inarei essas emoções de participantes ou autotranscen-
dentes (A T r), N ão pretendo com isso dar-lhes q u aisq u er im ­
plicações m ísticas, m as sim plesm ente significar que nesses esta­
dos em ocionais é necessário comportar-se como parte de um a
entidade real ou im aginária que transcende os lim ites do eu
individual, ao passo que nas emoções tipo fome, ódio, m êdo,
A MENTE E A SOCIEDADE 215

o ego é sentido como um a unidade em si mesmo e um valor


decisivo. Por isso, tais emoções poderiam ser cham adas de emo­
ções auto-afirmativas (AA).
Extrem os à parte (por exem plo, ataques de raiva ou
transe religioso), o com portam ento emotivo é um composto
no q u a l participam am bos os tipos de emoção. N o am or —
sexual ou m aternal — o elemento A A agressivo ou possessivo
e o elem ento identificador A T r podem reforçar-se m ütuam ente.
N a anim osidade contida, êles se inibem : N o explorador e cien­
tistas, a am bição é bem eq u ilibrad a com a dedicação. N as
crises de fanatism o, a devoção a um credo serve como cata-
lisadora para o com portam ento destruidor. M esmo a ativi­
dade elem entar d a alim entação tem um conteúdo A T r —
expresso na crença m ística dos prim itivos de que partilh ariam
das q u alidades do an im al ou inim igo devorado, n a com unhão
com o deus m orto (Zagreu, O rfeu, a E u caristia), e nos rituais
da convivência. Lem bram os novam ente os vários m odos de
interação entre os dois ram os do sistema nervoso autônom o
— antagônica, sinergética, catalítica ou com pensatória, segundo
as circunstâncias (8, 10) — e o têrmo "am bivalên cia” parece
um a sim plificação excessiva.
As emoções A T r não são sem pre agradáveis, naturalm ente.
O prazer e o desprazer parecem form ar um a escala indepen­
dente de valôres afetivos, im postos a ambos os tipos de em o­
ção (como os valôres brilhantes se im põem à côr) indicando
satisfação ou frustração do im pulso emotivo. C horar de afli­
ção, por exem plo, pode ser considerado como expressão da
frustração d e um laço A T r.
E m outro trabalho, já m encionado, referi-me a certos argu­
m entos biológicos em defesa desta classificação e sugeri que
as emoções A A e A T r poderiam ser correlacionadas em pro­
cessos de distinção de estrutura e integração de função em
evolução biológica. Seja com o fôr, e independentem ente
dessas especulações, a hipótese d a natureza ‘‘polarizada” das
emoções se baseia em fenômenos, observáveis e freqüentem ente
descritos, d o com portam ento em ocional comum, tal como a
proxim idade d o trágico e do cômico. N o presente estado de
confusão d a sem ântica da emoção, parece que os critérios a
serem aplicados a um a nova hipótese classificatória são o seu
valor heurístico e sua com patibilidade com os dados neurofsio-
lógicos. Q uanto ao prim eiro, a hipótese parece d ar lugar a um a
216 O CONTROLE DA MENTE

interpretação un ificada das atividades criadoras num contínuo


único. Q uanto aos segundos, a correlação entre as emoções
AA e o sistem a nervoso sim pático parece estar firm em ente
estabelecida e se torna m ais específica nos detalhes pelas re­
centes tentativas de discrim inar entre os processos horm onais
n a raiva e no medo. (10, 11) Seria tentadora a suposição de
um a correlação sim étrica das emoções A T r com o sistem a ner­
voso parassim pático, m as o problem a é cheio de arm adilhas.
H á m ais de 30 anos, C anon (4) escrevia: “ O sim pático é como
os pedais alto e baixo, m odulando todas as notas juntam en te;
os enervam entos cranianos e sacros são como claves separadas.1'
Desde então, tornou-se m ais evidente, para a psicologia, o
contraste anatôm ico e fisiológico entre os dois ram os de sis­
tema nervoso autônom o, a tal ponto que “ a raiva é cham ada
a reação m ais adrenérgica e o am or a m ais colinérgica” . (15)
O utra correspondência entre os padrões de com portam ento
emotivo e os m odos de interação entre os dois ram os do sis­
tem a nervoso autônom o surgiu qu an d o se m ostrou qu e o
sistem a vagoinsulínico pode agir em circunstâncias diferen­
tes, como in ibidor ou agente catalítico no processo de u tili­
zação da glicose e pode ain da produzir efeitos posteriores su-
percom pensatórios. (8, 10) H ebb (13) sugeriu que se estabe­
leça a distinção entre duas categorias de emoções, “aquelas
em que a tendência é m anter ou aum entar as condições de
estím ulo originais (emoções agradáveis ou in tegrado ras)", e
“aquelas nas quais a tendência é abolir o reduzir o estím ulo
(raiva, mêdo, desgosto) ” . E n quan to a segunda tem um efeito
desintegrador sobre o com portam ento cortical, a p rim eira não
o tem. A lguns anos m ais tarde, 0 1 d s(2 1 , 22) e outros demons-
traralh a existência de sistem as emotivos “positivo" e “negati-
tivo" pelos estím ulos elétricos, e m ostraram ainda m ais que
eram ativados respectivam ente pelos centros do sistem a ner­
voso parassim pático e sim pático, no hipotálam o. T ô d a s essas
indicações parecem apon tar na m esm a direção, m as não são
suficientem ente precisas p ara nos perm itir, nesta altura, a
coordenação das emoções A T r com o sistem a parassim pático.
N ão se pode considerar que o rato de Olds, que se estim ulava
a si mesmo, por exem plo, evidenciasse q u alqu er tipo de em o­
ção participatória — m as é apenas um rato, não poderiam os
esperar encontrar um elemento platônico no seu im pulso se­
x u al. Finalm ente, podem os repetir que nem as emoções A T r
nem as reações parassim páticas são sem pre agradáveis (9,10,12);
A MENTE E A SOCIEDADE 217

a única descrição que não nos leva a contradições parece


ser a de que o prazer e o desprazer (desconfôrto, frustra­
ção, em contraposição à dor) são sinais especialm ente co­
dificados indicando o progresso ou quaquer outra coisa no
sentido da satisfação n a necessidade em ocional — que parece
resolver o p aradoxo de N eum an, de que “o sadista é a pessoa
que é bondosa p ara o m asoquista” .
R esum indo, os im pulsos provocados pelas emoções AA
tendem p ara a atividade m uscular evidente; os gerados pelas
emoções A T r parecem ser consum idos no com portam ento in ­
terno, nos processos viscerais e glandulares, com a tendência
geral p ara a aquiescência e a catarse. As prim eiras agem atra­
vés de um m aquinism o coordenado, maciço; as segundas não
têm aparato fisiológico com parável à sua disposição, e acim a
de tudo, não tendem a se desentrosarem do processo de conhe­
cimento. Q uando a cadeira do professor cai com êle, acon­
tece um a d e duas coisas. Se m inha atitude para com êle é
dom inada p ela agressão e preocupação, a emoção seguirá seu
curso e a súbita derrubada da autoridade pela gravidade fará
com que ela explod a num a gargalhada. Se, porém , m inha
atitude fôr de identificação com passiva, será im ediatam ente
transferida p ara o novo cam po de com portam ento do pro­
fessor, e sua figura se tornará objeto de com paixão ansiosa.
A raiva é im une ao raciocínio, mas a sim patia permanece
presa a um entendim ento, qu aisqu er que sejam as surprêsas
por êle provocadas. Essa distinção adquire um a im portância
básica quan d o as emoções A T r são lançadas nos mesmos p a ­
drões bissociativos que expus antes.
O oposto de personificação cômica é a ilusão dramática.
Trata-se d a presença sim ultânea e da interação, n a mente, de
dois universos, um real e o outro im aginário. T ran sp o rta o
espectador do presente trivial p ara um cam po rem oto do inte-
rêsse pessoal. Isso se obtém p ela atração de heróis e vítim as
com os q u ais o espectador se identifica em graus variáveis,
esquecendo suas próp rias preocupações. Assim, a ilusão excita
as emoções A T r e inibe ou neutraliza as emoções AA. Mesmo
q u an d o o m êdo e a raiva são despertados no espectador, são
emoções indiretas experim entadas por substituição, pela sua^
identificação com o herói, em si mesma um ato de autotrans-
cendência. As emoções indiretas assim provocadas encerram
um elem ento dom inante de sim patia, que facilita a catarse —
218 O CONTROLE DA MENTE

Agressão a Identificação .
dissociação, integração,
detonação ▼ catarse ~
Personificação Ilusão
Com édia T ragéd ia
Coincidência Destino
C aricatu ra R etrato de caráter
T rocadilho Assonância, rim a
Sím ile cômico M etáfora, im agem *
S á tira Alegoria
Hom em e artefacto Títeres do destino

F ig. 16

de conform idade com a definição aristotélica — “ através de


incidentes que despertam horror e piedade p ara realizar a
purgação dessas emoções” .
O enredo de um dram a ou rom ance é, de m odo geral,
baseado em situações ou em personagens. N o prim eiro caso,
o entrelaçam ento de sua cadeias causais independentes num
acontecim ento focal cria a coincidência ou o desentendim ento
ou o conflito, conform e o caso, que constituem os sus tentáculos
d a tragédia e da com édia. N o segundo caso o conflito é entre
tem peram entos incom patíveis, ou escalas de valores ou códigos
de com portam ento, e se trava dentro d a m esm a pessoa ou
entre diferentes pessoas, ou entre o herói e a sociedade. E m
todas essas variantes, o autor objetiva ob rigar seu público a
aceitar am bas as ordens em conflito como válidas dentro de
seus próprios têrmos de referência, o que leva a um choque
na m ente do espectador, entre duas identificações sim ultâneas
e incom patíveis.
N ão há uma divisão precisa entre a caricatura e o retrato;
os desenhos de personagens características de D aum ier e L e o ­
nardo podem ser classificados sob q u alq u er um a das duas de­
A MENTE E A SOCIEDADE 219

nominações, dependendo d a atitude de sim patia ou decisão.


A técnica de acentuar aspectos relevantes pelo exagero e sim ­
plificação é com um a am bas; o artista a denom ina estilização.
Q uando Picasso acentua os olhos e m em bros d e suas figuras
de um a form a qu e é biològicam ente impossível e não obstante
visualm ente convincente, opera, como o caricaturista, através
da bissociação de m olduras perceptíveis e conceituais. Em ­
prega o têrmo “ conceituar' sem precisão, significando que o
artista im põe um filtro seletivo F 2 ao seu cam po visual (Fi­
gura 15); vê nos têrmos de seu meio de expressão — pedra,
barro, carvão, pigm ento — e nos têrmos de sua preferência em
contornos ou superfícies, ângulos ou curvas, estabilidade ou
movim ento. Além disso, na pin tura de um a paisagem êle trans­
põe o espaço experim entado p ara os limites da m oldura, pelo
que a razão entre a visão focal e periférica é aum entada em
cêrca de cem vêzes, o qu e pode constituir um a das razões pelas
quais a natureza é m uito m ais bon ita nos cartões postais. O
homem sem pre viu a natureza através de algum a m oldura —
m itológica, antropom órfica, ou m etafísica. U m hexágono na
prancheta de desenho não nos surpreende como belo, nem o
floco de neve. M as qu an d o descobrimos que o floco de neve é
feito de desenhos hexagon ais perfeitos, m aravilham o-nos da “sa­
bedoria da natureza".
A rima é o trocadilho glorificado, a confluência de dois
fluxos de pensam ento ritm icam ente homogêneos. Desenvolveu-
se do ritm o, pela aliteração e assonância, como a m elodia
prim itiva cresceu das percussões não m oduladas. A função do
ritm o, segundo Yeats, é “acalentar a mente, levando-a a um
transe acordado". Segundo R ichards, (27) “ não só percebe­
mos a m elodia, como nos deixam os levar por ela". Com o o
tantã do X am ã, a b atid a rítm ica desperta ressonâncias arcaicas.
O mesmo ocorre com a rim a. E la ecoa a tendência d a repeti­
ção da linguagem dos prim itivos e das crianças (da-da, ma-ma)
e a tendência associativa provocada pelo som, que se reflete
na predom in ância dos trocadilhos no hum or ju ven il e nos so­
nhos freudianos. O s pacientes de L u ria e V inogradova (20),
que norm alm ente associavam as palavras pelo sentido, quando
ficavam sonolentos com o hidrato de cloral, voltavam a asso­
ciar pelo som.
O utro caso sem elhante é o paciente de F o e r ste r(l) que
du ran te u m a operação de um tum or no terceiro ventrículo
220 O CONTROLE DA MENTE

foi acom etido de um ataque de trocadilhos aparentem ente m a­


níaco, m as que n a realidade encerrava um pedido ao cirurgião
p ara que procedesse cuidadosam ente. Q uando este pediu um
Tupfer (tam pão) o paciente gritou: T-upfer, Hupfer, Huepfer,
huepfen Sie m al ............. A o ouvir a p alavra Messer, ele com e­
çou a dizer: Messer, messer, Metzer. Sie sind ein Metzer, ein
Metzel, das ist ja ein Gemetzel, metzeln Sie dochnicht so messen
Sie doch, sie messen ja nicht Herr Professor, profiteor professus
sum, profiteri. Essas reações dependiam d a m an ipulação do
tum or e só poderíam ter origem no terceiro ventrículo. O p a ­
ciente agia, com o os poetas, sob o controle dual de níveis
diferentes na h ierarq u ia neural.
Isso se aplica não somente ao pensam ento condicionado
pelo ritm o e rim a, m as tam bém às fontes da fantasia poética.
O pensam ento pictórico precede o pensam ento conceituai; as
frases poéticas são projeções do pensam ento conceituai n a
velha “ linguagem de figu ras” do b o x ím an e(1 9 ) e d a pessoa
adorm ecida. O ato criador envolve sem pre um a regressão a
níveis mais antigos n a hierarquia m ental, enquanto um pro­
cesso sim ultâneo continua paralelam ente no nível m ais alto e
m ais articulado — lem bra o m ergulhador com o tubo respi­
ratório. Ou, em outras palavras, a arte bissocia as ordens da
experiência comum, diária, com as ordens de m aior potencial
emotivo, processo que facilita a catarse, o térreo da corrente
emotiva. A o mesmo tempo, a transposição da experiência fa ­
m iliar a um a estrutura diferente faz com que apareça sob um a
luz nova e significativa, e essa ocorrência sim ultânea da ilumi­
nação intelectual e da catarse emocional, que são aspectos com­
plem entares do processo bissociativo, parecem ser a essência d a
experiência estética.
Parece-me que esse processo é tam bém a essência d a desco­
berta científica. Q uando um dado d a experiência é ab ru p ta­
m ente transferido de seu contexto h abitu al F t p ara um nôvo
contexto F 2, será percebido de ân gulo diferente e a atenção
se pode fixar sôbre algum aspecto seu, irrelevante nos têrmos
de referência de F x, m as relevante nos têrmos de F 2. A m odi­
ficação de ênfase, ou efeito de deslocamento, é um a caracterís­
tica crucial do ato bissociativo em todos os três dom ínios d a
atividade criadora. O chimpanzé Sultão, de Koehler, descobriu
a confecção de ferram entas quando, pela prim eira vez, arran ­
cou um galho de um a árvore e o usou como instrum ento p ara
A MENTE E A SOCIEDADE 221

derrubar um a banana. E m sua ordem h abitual F x o galho


era visto como parte de um todo visual e funcional, a árvore.
Mas Sultão se ocupava em procurar um a bengala, e essa ocupa­
ção criou a ordem F 2, de form a que quand o seu olhar caiu
sôbre o galho, a atenção foi deslocada para um aspecto antes
não observado e irrelevante, sua sem elhança com um a bengala.
() ram o foi arrancado de sua contextura e transform ado em
parte de outra contextura. Assim, quando Sultão descobriu a
semelhança oculta entre o ram o torcido e a bengala reta, con­
firm ou a velha afirm ação de que a descoberta consiste em ver
uma an alogia que ninguém viu antes. E isso, naturalm ente, se
aplica igualm ente às descobertas do poeta e do hum orista.
A essa altu ra torna-se necessário d ar um sentido m ais pre­
ciso ao têrmo “ordem ” . U m a ordem de com portam ento, n a
hipótese presente, é d efin ida como a h abilidade in ata ou ad q u i­
rida, governada p o r um código de regras invariáveis. A aranha
comum tecerá sua teia em três, quatro ou m ais pontos de apoio,
mas os fios radiais sempre cruzarão os laterais em ângulos
iguais: a atuação se ad ap ta assim às condições do meio, m as
não obstante é governada por um código fixo. O pian ista que
transpõe um a m elodia p ara um tom diferente, o jogado r de
xadrez, o físico, todos evidenciam um a estratégia flexível,
em bora obedeçam às regras do jôgo.
A p alavra “código” não é usada como um a m etáfora, mas
para referir-se a um esquem a de organização neural. A dife­
rença entre o conceito de “ordens de com portam ento” e velhos
am igos com o Aufgabe “m eio”, “ tendência determ inativa” ,
Gestalt etc., está no postulado d a h ierarquia dos códigos que
governa os princípios do com portam ento em todos os níveis,
isto é, lim itam os graus de liberdade às variações possíveis de
estratégia den tro dos confins de regras invariáveis. U m a ordem
(por exem plo, um a h abilid ad e verbal não é definida pela
som a total dos com ponentes (palavras, unidades sintáticas) colo­
cados a seu serviço no passado, m as pelo seu código. N as várias
afasias e desordens semelhentes, não é êsse ou aquêle com po­
nente de um a h abilidad e que está afetado, m as o com utador
central q u e governa toda essa habilidade. Igualm ente, en con-
tinuante cette phrase en français e voltando p ara a lín gua que
estou usando, m ilhões de conjuntos neurais são sim ultânea­
m ente afetados p ela “ torsão do com utador” . O mesmo se aplica
aos testes verbais de dizer sinônimos, antônim os etc., ou p a ­
222 O CONTROLE DA MENTE

ciente de Foerster e aos pacientes das experiências de L u ria e


V inogradova, que passaram da associação sem ântica p ara a
fonética.
Inversam ente, um com ponente (por exem plo, um a p ala­
vra) é um m em bro de várias ordens de referência governadas
p o r diferentes códigos. M etafòricam ente falan do, é m em bro
de vários clubes, m as prefere uns a outros, onde a atm osfera
é m ais fam iliar ou m ais repousante do que os clubes governa­
dos pelos códigos m ais form alistas. O esforço de concentração
num processo de raciocínio com plexo, continuado, talvez se
apliqu e na inibição dos im pulsos em ordens com potenciais de
energia superiores. D o ponto de vista d o neurofisiologista, um
m odêlo de código apresenta o mesmo problem a provàvelm ente
não m aior do que o m odêlo de um sim ples traço. Por outro
lado, a abordagem m od ificad a pode sim plificar alguns aspectos
d a neuropsicologia do pensam ento.
Q uando a m esm a tarefa é repetidam ente executada em
condições fixas, a h abilid ad e tende a degenerar em autom a-
tismo. Inversam ente, um am biente m utável tende a criar a fle­
xibilidade. M as a variação pode chegar a um ponto que a
situação, em bora ain da se assemelhe sob alguns aspectos a
outras situações encontradas no passado, encerra um a caracte­
rística nova que torna im possível resolver o problem a dentro
dos confins d a ordem de com portam ento aplicada a essas situa­
ções passadas. Se tal ocorrer, a situação fica bloqueada — em ­
bora o paciente só perceba isso depois de certo tem po, ou
m esmo nunca.
U m a situação b lo qu ead a aum enta a tensão do im pulso
frustrado. Q uando tôdas as tentativas foram feitas, o pensa­
m ento passa a correr em círculos, e as tentativas desordenadas
surgem acom panhadas do com portam ento de ira — ou um a
fú ria de obsessão criadora. A essa altura — o “período de
incubação” — toda a personalidade, até as cam adas não verbali­
zadas e inconscientes, se torna saturada com o problem a, de
form a que em certo nível do sistem a nervoso perm anece ativa
m esm o quando a atenção se ocupa de coisa com pletam ente
diferente — como o chim panzé olhando p ara a árvore, ou
A rquim edes observando a água do banho elevar-se, deslocada
pela imersão de seu corpo, ou Darw in lendo o ensaio de M althus
sobre a população, enquanto buscavam um a causa para a se­
leção natural. Assim, um acontecim ento favorável eventual
A MENTE E A SOCIEDADE 223

pode proporcionar a oportun idade de que um a nova ordem


in cida verticalm ente, por assim dizer, sobre o problem a b lo­
queado no velho contexto horizontal.
N os casos que mencionei, a oportunidade consistiu em
atingir um centro, acentuando com isso a fusão entre duas
ordens antes separadas. M as m uitas outras oportunidades oca­
sionais na história hum an a devem ter passado despercebidas.
Para que a fusão se realize, é necessária um a outra condição,
que podem os cham ar de amadurecimento. O am adurecim ento
do chimpanzé p ara a sua descoberta é proporcionado pela agi­
lid ad e m an ual dos prim atas, sua coordenação ocular e m otora,
e assim por diante. O cão pode levar a bengala entre os dentes,
m as jam ais aprenderá como usá-la. Assim, a probabilidade
estatística de um a descoberta relevante é m aior na proporção
em que cada um a das habilidades estiver consolidada e fôr
m ais intensa. Isso pode explicar o recente fenômeno das des­
cobertas sim ultâneas e do desenvolvim ento independente das
mesm as técnicas e estilos de arte em diferentes culturas.
M as o papel do acaso é subordinado. N a pesquisa de um a
nova ordem p ara liberar a situação bloqueada, a mente não
tateia de todo no escuro; freqüentem ente, ela procede num a
direção vagam ente percebida, gu iada pelas analogias não ver­
balizadas nascentes que são m ais ou menos assim: “Algo me
lem bra de algum a coisa, m as eu não sei o que me lem bra de
que e por quê.” Essa aproxim ação m útua dos dois processos
m entais n a solução de um problem a, descrita, por exemplo,
por Polya, (24, 25) lem bra um a das sugestões de K apper sobre
a neurobiotáxis. (16) D e qu alqu er m odo, a pressão criadora
parece estabelecer gradientes de energia no inconsciente. A
intuição pode ser com parada a um a corrente imersa, da qual
sòm ente o prin cípio e o fim emergem d a superfície. O m er­
gu lh ador desaparece num extrem o d a cadeia e, como se por
m ilagre, surge no outro extremo, porque teve a orientação
subm arina dos elos invisíveis.
A natureza desses elos é revelada pela linguagem d o so­
nho, qu an d o os códigos do pensam ento disciplinado são sus­
pensos, e o flu xo de associações vaga livremente, pela sua pró­
p ria gravidade em ocional, de um a ordem para outra, cada vez
qu e um m otivo adequad o surge. D aí o predomínio, no sonho*
de padrões bissociativos conhecidos — o trocadilho, o desloca­
m ento de ênfase, disfarce, d u p la identidade, descoberta de se-
224 O CONTROLE DA MENTE

m elhanças ocultas. M as desde que os códigos de raciocínio este­


jam adorm ecidos, não há justaposição sim ultânea de ordens
lógicas, ao passado que, acordado, os mesmos processos bisso-
ciativos produzirão efeitos cômicos, trágicos ou ilum inadores.
U m cabo de vassoura que sirva de sím bolo fálico é, n o final de
contas, um trocadilho ótico — um a form a visual bissociada
com dois contextos funcionais — tal como a descoberta do chim ­
panzé de que o ram o é um a bengala, ou a de New ton de que
a lu a é um a m açã que cai. Assim, no sono as técnicas criado­
ras se refletem de cabeça p ara baixo, como se fossem árvores
refletidas num lago. A região m ais fértil parece ser a fron-
tei-hipnagógica, onde as ordens do racionalism o funcionam , em ­
bora enevoadas bastante p ara perm itir um a liberdade de pen­
sam ento sem elhante à do sonho. (Cf. 23, 12)
Isso leva a outro aspecto do processo criador. O código
de regras que governa a execução das habilidades funciona em
nível inferior de consciência do que a p róp ria execução. O
parado xo das centopéias se aplica não apenas às habilidades
m otoras, como an dar de bicicleta, m as tam bém às habilidades
de percepção e raciocínio. N a conversação comum, as regras
de gram ática, sintaxe é de lógica funcionam ab aixo do nível
consciente porque foram aprendidas “de ouvido”, assim como
o cigano aprende a tocar o violino sem conhecer as notas m u­
sicais. D aí a dificuldade de precisar as regras que definem
nosso pensam ento; a análise sem ântica é um processo perfeita-
m ente estéril p ara isso. M as quando dois universos de dis­
curso subitam ente se encontram no ato criador, o que se con­
siderava como certo d eixa de sê-lo, e as suposições im plícitas
são trazidas à claridade. Assim, a descoberta consiste freqüen-
temente em revelar o que sempre existiu, m as se ignorava
(como o elevar-se do nível d a água quando entram os no banho)
ou estava m ascarado sob preconceitos ou falácias estruturados
na contextura dos esquem as ortodoxos. C ad a ato criador tem
seu lado destruidor: rom pe códigos de com portam ento e p a­
drões de pensam ento que estão obsoletos e recondiciona os
dados d a experiência em novos padrões. É um reculer pour
mieux sauter, um a diferenciação com o condição de reintegra­
ção, um a form a suave de tratam ento de choque. Erneste
Jones (15) observou que o gênio criador parece ser um a m is­
tura de ceticismo e credulidade. E n aturalm ente tem de ser:
não deve aceitar nada como certo e deve ver çam çlos nas for­
m as das nuvens.
A MENTE E A SOCIEDADE 225

A súbita ilum in ação do ato criador é habitualm ente se­


gu id a pelo trabalho laborioso de elaboração e verificação. Se
tudo vai bem, as duas ordens, depois de sofrerem certas m o­
dificações, acabarão p or se fun dir n um a única, Q uando duas
ondas se encontram , temos a interferência. Q uando duas
ordens de referência se interpenetram , adquirim os novos co­
nhecim entos pela síntese m ental — e isso, parece-me, é a essên­
cia do conhecim ento livre, em contraposição ao condiciona­
m ento estereotipado, sendo o fator diferencial o am adureci­
m ento do organism o p ara aquela particular síntese. Q uando a
criança faz a descoberta fundam ental de que tudo tem um
nome, a atribuição de etiquêtas verbais às coisas se torna um a
rotin a e por vêzes um a obrigação, porque os objetos sem nome
passam a parecer incom pletos, como m oléculas de valência
livre num cam po integrado. N ão o encadeiam ento de refle­
xos ou a associação de conceitos individuais, mas a integração
dos subtodos autônom os, ou padrões de com portam ento inatos
ou adquiridos, parece ser o m étodo pelo qu al o sistem a ner­
voso som a 1 e 1 n a h ierarqu ia integradora d a evolução m ental.
O sentido d e um conceito é definido pelos seus contextos, e
não o oposto. N ão é um átom o m ental, mas sim algo seme­
lhante ao elétron de Schroedinger, um a m ancha que percorre
um a escala de ondas.
R esum in do: o pensam ento rotineiro, segundo as regras
codificadas determ inadas pela experiência passada, pode resol­
ver problem as apenas dentro de sua ordem de referências. O
pensam ento criador, por sua vez, envolve um “pensam ento
lateral” (12) em plano diferente. N as várias form as de arte,
os dois planos sem pre perm anecem num a justaposição viva
sem se fundirem — o que proporciona um a nova dim ensão à
experiência. N as artes da ciência, emocionalmente, neutras,
tornam-se finalm ente integrados num nível m ais com plexo de
h ierarquia. Essa diferença se reflete no progresso quase linear
da ciência, em contraste com as características quase intempo-
rais d a arte, sua reform ulação contínua de certas experiências
em ocionais básicas em nova linguagem , mas sem efeito cum ula­
tivo.
C ham ando a ciência de arte em ocionalm ente neutra, não
quero significar a ausência d a emoção, que seria o equiva­
lente da apatia, m as a fusão, particularm ente bem equilibrada
e integrada de emoções que constituem a fôrça im pulsionadora
226 O CONTROLE DA MENTE

da exploração e d a pesquisa. O im pulso explorador é um a


m istura de m otivos de auto-afirm ação como a am bição, com ­
petição, necessidade financeira e por outro lado, a absorção
desinteressada e autotranscendente nos m ilagres e m aravilhas
da natureza, digam os, baseada num ato de fé — a crença de
que há um a harm onia das esferas, um a lei e um a ordem cós­
m icas p ara serem reveladas e receberem um nome. Assim, há
dois lados na m anifestação da emoção no m om ento da desco­
berta: prim eiro, a explosão triun fal da tensão auto-afirm adora,
que se tornou subitam ente redundante, precisam ente como na
anedota e precisam ente pelas mesmas razões — por isso, p u la­
mos do banho e saím os correndo pelas ruas, rindo e gritando
Eureka! — e em segundo lugar, a catarse grad u al do com po­
nente autotranscendente, devido ao fato de que o problem a
p articular está “preso”, isto é, colocado n um a ordem m ais geral
de um a estrutura m ais am p la — tal como a tensão artística é
canalizada pela transferência p ara um a ordem de m aior capa­
cidade em ocional. O ideal grego de beleza era o corpo de pro­
porções geom étricas perfeitas, o ideal de verdade p ara o físico
é a teoria do cam po unificado — am bos pretendem prender
experiências particulares num contexto universal.
Chegam os assim a um a espécie de tríptico, os três painéis
m ostrando um a correspondência horizontal, pon to por ponto,
de padrões lógicos, e im pondo-lhe um espectro em otivo con­
tínuo, desde as artes agressivas até às neutras e integradoras —
um a espécie de contínuo bidim ensional dos processos criado­
res. O pólo à esquerda, nas figuras 2 e 3, representa a des­
carga súbita, o da direita a catarse gradual. A continuidade
entre os painéis d a esquerda e o central pode ser dem onstrada,
por exem plo, pela passagem grad u al da anedota grosseira até
o espírito sutil no epigram a, depois n a m etáfora ou parábola.
Q uanto m ais sutil a anedota, m ais ela se ap roxim a dos enigm as
em que as caricaturas do New Yorker costum am se transfor­
m ar. Q uando “vemos” a anedota, a voltagem agressiva ou
sexual que ela encerra é detonada num a risada, ao passo que
a satisfação intelectual proporcion ada pela solução do enigm a
desaparece lentamente, como na descoberta. As form as supe­
riores da arte, que antes sugerem do qu e afirm am , tam bém
falam em enigmas. E temos um a transição sim ètricam ente con­
trária p ara a extrem idade direita do espectro, partindo das
form as altam ente intelectualizadas da arte na direção das m ais
sensuais e emotivas, term inando com a beatitude d o sentim ento
A M E N T E E A SOCIEDADE 227

*4* JL
sjs ±
Trocadilho A nagram a, Assonância,
palavras cruzadas rim a
Espírito E pigram a Parábola
Sátira Crítica social A legoria
Símile cômico A nalogia oculta Im agem poética
Deslocamento cômico M odificação d a M odificação do filtro
ordem conceituai perceptual
Dcsm ascaram ento Suposições im plícitas Fauvism o
reveladas
Coincidência D etonador acidentai Deus ex m achina
de ação
Personificação Em patia Ilusão
Im itação por Investigação do Títeres do destino
m ecanismos mecanismo hum ano
C aricatura Esquem a Retrato

F ig. 17

oceânico, livre do pensam ento — a nuvem d o desconhecido.


C itando outro exem plo, a com paração bergsoniana do que é
mecânico e do que é vivo se transform a no painel neutro, o
assunto das ciências biológicas e da indagação filosófica sôbre
a vontade livre e o determ inism o. N o painel à direita, temos
o hom em como o títere trágico de seus deuses ou cromosso­
mos. A com édia de personagens se transform a na análise do
personagem , e em seguida do dram a — tendo a terapia psico-
dram a como o últim o elo. A continuidade e a ordem espacial
dos três painéis são evidenciadas pelo fato de que em tôdas as
línguas indo-européias, “gracejo” vem de “graça” com um senti­
do origin al de ingenuidade, derivado de videre de veda, conhe­
cimento. Por outro lad o do tríptico, a flexibilidade dos limi-
228 O C O N TR O LE DA M E N T E

Fic. 18

tes entre ciência e arte, no xadrez ou arquitetura, n a psiq u ia­


tria ou historiografia é igualm ente evidente. Os pré-socráticos
escrevem sua filosofia e sua ciência em versos; adjetivos como
“belo”, “elegante”, “espirituoso” se aplicam a todos os três do­
m ínios. Os painéis deviam , na realidade, constituir um semi-
cilindro oco, para indicar que podem os ir por atalhos do trá­
gico ao cômico, diagonalm ente, sem passar pela zona neutra.
Finalm ente, a técnica do caricaturista, de exagerar as ca­
racterísticas relevantes e sim plificar ou ignorar o resto, é ap li­
cada pelo cientista sem pre que desenha um gráfico ou um
m apa topográfico, ou constrói um m odêlo. C ad a representa­
ção esquem ática ou sim bólica é um a caricatura não em ocional
A M E N T E E A SOCIEDADE 229

d a realidade e o tipo de m odelo resultante depende m uito do


tem peram ento de seu autor. H á, decerto, o critério d a veri­
ficação, mas isso é questão de gradação.
Podem os verificar um a previsão, m as não a teoria sôbre a
q u al esta se baseia. Considerem os, por exem plo, as previsões
precisas feitas pela astronom ia babilônica e ptolem aica ou as
que são baseadas no poço de contradições que é a física m o­
derna. T em os, com isso, um a curva contínua de verificação
crescente, nesse sentido lim itado, do efeito de um a anedota ou
poem a, vagam ente previsível, passando pela historiografia, as
ciências sociais, a psicologia, a biologia, até a física m atem á­
tica, onde a curva se torna um a assíntota — ou pelo menos assim
esperamos. M as perm anece um a curva contínua que não m os­
tra onde o gracejo se transform a em graça, nem onde a ciência
p ára e começa a arte.

R E F E R Ê N C IA S

(1) A s s o c ia ç ã o d e P e s q u is a s S ô b r e D o e n ç a s N e r v o s a s e M e n t a is , The Hypo -


thalamus and Central Leveis of Autonomic Function, B a lt im o r e , T h e
W illia m s & W ilk in s C o m p a n y , 1 940, v o l. X X
(2) Bartlett, S i r F ., Thinking: An Experimental and Social Study,
L o n d r e s , G e o r g e A lle n & U m v in , L t d a ., 1958.
(3) Bergson, H . L ., Le Rire, 15.a e d ., P a r is , F . A lc a n , 1916.
(4) Cannon , W . B ., Bodily Changes in Pain, Hunger, Fear and Rage, 2 .a
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& C o m p a n y , I n c ., 1950.
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(7) Freud, S., Gesammelte Werke, L o n d r e s , I m a g o P u b li s h in g C o m p a n y ,
1940, v o l. V I.
(8) G ellhorn, E ., Autonomic Regulations, N o v a Y o r k , In te r sc ie n c e P u -
b lis h e r s , I n c ., 1943.
(9) G ellhorn, E ., Physiological Foundations, N ova Y ork, In te r sc ie n c e
P u b lis h e r s , I n c ., 1953.
(10) G elhorn, E ., Autonomic Imbalance, N o v a Y o r k , In te r sc ie n c e P u b lis h -
c rs, In c ., 1957.
(11) Gellhorn, E ., R e c e n t C o n t r ib u t io n s f o r t h e P h y sio lo g y o f th e E m o ­
tio n s , Psychiatric Research Reports of the American Psychiatric Asso-
ciation, ja n e i r o , 1960.
(12) H adamard, J . , The Psychology of Invention in the Mathematical
Field, P r in c e t o n , N . J . : P r in c e t o n U n iv e r s it y P r e ss, 1949.
230 O C O N T R O LE DA M E N T E

(13) H ebb, D . O ., The Organization of Behavior, N o v a Y o r k , J o h n W ile y


& S o n s , I n c ., 1949.
(14) H ebb, D . O ., “ T h e P r o b le m o f C o n s c io u n e ss a n d I n t r o s p e c t io n " , e m
Brain Mechanisms and Consciousness: A Symposium, O x fo r d , B a s il
B la c k w e ll & M o tt , L t d ., 1954.
British Med J 1956 (4 ):8 .
(15) Jones, E ., “ T h e N a t u r e o f G e n iu s ” ,
(16) Kapers, A ., et al., The Evolution of the Nervous System in Inverte-
brates and Man, N o v a Y o r k , T h e M a c M illa n C o m p a n y , 1936.
(17) Koehler, W ., The Mentality of Apes, L o n d r e s , K e g a n P a u l, 1925.
(18) Koesteler, A ., Insight and Outlook N o v a Y o r k , T h e M a c M illa n
C o m p a n y , 1949.
(19) Kretschmer, E ., A Textbook of Medicai Psychology (t r a d . e in t r o ­
d u ç ã o d e E . B . S t r a u s s ) , L o n d r e s , H . M ilf o r d , 1934.
(20) L uria, A . R ., e V inogradova, O . S ., “ T h e O b je t iv e I n v e s t ig a t io n o f
th e D y n a m ic s o f S e m a n t ic S y s te m s ” , British J. Psychol, m a io d e
1959.
(21) O lds. J . , S t u d ie s of N e u r o p h a r m a c o lo g ic a ls b y E le c t r ic a l a n d C h e ­
m ic a l M a n i p u la t i o n o f th e B r a in in A n im a is w ith C h r o n ic a lly Im -
p la n t e d E le c t r o d e s , Proceedings of the First International Congress
of Neuro-Pharmacology, A m s t e r d a m — L o n d r e s — N o v a Y o r k — P r in -
c e to n , E ls e v ie r P u b li s h in g C o m p a n y , 1959.
(22) O lds, J., “ P o sit iv e E m o t i o n a l S y ste m s S t u d ie d by T e c h n iq u e s o f S e lf-
s t im u la t i o n ” , Psychiatric Research Reports of the Psychiatric Asso-
ciation, ja n e i r o d e 1960.
(23) P oincaré, H ., “ M a t h e m a t i c a l C r e a t io n ” , e m The Creative Process:
A Symposium, B e r k e le y , C a li f .: U n iv e r s it y o f C a li f ó r n i a P r e s s, 1952.
(24) Polya , G ., “ W ie S u c h t M a n d i e L o s u n g M a t h e m a t is c h e r A u fg a b e n ? ” ,
Acta P s y c h o l 1 938, I V : 2 .
(2 5 ) P olya, G ., H o w to Solve It, 5 .a e d ., Princeton, N . J.: P r in c e t o n U n i ­
v e r s it y P r e s s, 1948.
(26) R aulin , J . M ., Étude Anatomique Psycho-physiologique et Patholo-
gique sur le Rire et les Exhilarants, P a r is , J . B . B a lliè r e & F ils , 1899.
(2 7 ) R ichards, I . A ., Principies of Literary Cristicism, L o n d r e s , K e g a n
P a u l, 1924.
Decisão Individual
e Decisão em Grupo
T r a n s c r i ç ã o d o d e b a t e f o r m a l, m a s e s p o n t â n e o , d o s t r a b a lh o s
im e d ia t a m e n t e p r e c e d e n te s. F o r a m f e it a s a p e n a s p e q u e n a s a d a p ­
ta ç õ e s, o n d e a c o n t in u id a d e e a c la r e z a o e x ig ia m . O s o r g a n i­
z a d o r e s a c r e d it a m q u e a e s p o n t a n e id a d e d a d is c u s sã o te m p ar­
t ic u la r v a lo r p a r a o s e m in á r io , n a f o r m a e m q u e é a p r e s e n t a d a .

Moderador: Seymour M. L ipset


Participantes; M artin C . D ’A rcy, S. J . , H. Stuart
H ughes, A rthur Koestler, C . A . M ace.

Prof. L i p s e t : Em seu nôvo livro Two Cultures, G . P.


Snow descreveu o problem a d a causa da presum ida ausência
de diálogo entre os que se ocupam ou se interessam m ais pelas
disciplinas hum anísticas e os que se dedicam às ciências n a­
turais ou físicas. U m dos objetivos dêste sim pósio é reunir
homens que se ocupam das hum anidades, inclusive da religião
e das ciências sociais e os que se ocupam das ciências bioló­
gicas e m édicas. C reio que êste debate nos perm itirá começar
um diálogo direto, focalizando algum as das questões que Sir
C harles Snow acha que devem ser discutidas por essas duas
classes de cientistas, p ara que possam os resolver os principais
problem as políticos e sociais de nossa era. Creio que o Sr.
K oestler e o professor M ace procuraram aproxim ar o m undo da
ciência e o m undo das hum anidades nos estudos e conceitos
que em itiram . M as creio que um a das form as pelas quais po­
deriam os in iciar esta discussão seria aceitando o desafio pro­
posto pelo pad re D'Arcy, à m aioria daqueles que se têm ocupa­
do, de um a form a ou de outra, do estudo extremam ente cien­
tífico do com portam ento hum ano. Disse êle que tentando
232 0 C O N TR O LE DA M E N T E

explicar o com portam ento hum ano, particularm ente o com­


portam ento d a m ente e do cérebro em conceitos m aterialistas,
e lim itando nossas variáveis a fatores m ais ou menos m ensu­
ráveis e quantitativos fisicam ente, estamos deixando de lado
a essência do ser hum ano. H á outra coisa no processo da
razão, na pessoa e na alm a que presum ivelm ente não pode ser
m edida. Creio que ao não considerarm os a verdade com o um a
variável, violentam os o entendim ento de como se com portam
as pessoas e do que as faz agir desta ou daq u ela forma.
Prof. M a c e : A nalisando o assunto que viemos debater,
a decisão in dividu al e a decisão em grupo, sinto-me n atu ral­
m ente predisposto a p artir dos problem as menores, dos prob le­
m as que podem ser atacados nos laboratórios e nas comissões
de experiência. H á m uitas sugestões nos trabalhos de grupos
e no estudo da com binação de grupos e das diferentes abor­
dagens que se aproxim am m ais d o problem a filosófico nas
comissões constitucionais. Sou de op in ião de que n ada ocorre
na m ente in dividual que não ocorra tam bém na mente coletiva
de um grupo, como um a comissão. O pior tipo de com issão,
parece-me, é o hom ogêneo. Idealm ente, ela exige dois tipos
de m em bros: o que eu cham aria d e m em bros criadores e os
m em bros críticos. A m elhor form a de pensam ento ocorre
tanto no in divíduo como no grupo, na situação em que as
atividades criadoras e críticas se com binam adequadam ente.
Creio que os problem as de que se ocuparam o pad re D'Arcy
e A rth ur Koestler se centralizam d e preferência no tipo de
pensam ento criador. M as os pensadores criadores n ão estão
em melhores condições quan d o são apenas pensadores criado­
res. Refiro-me novam ente à comissão. U m a comissão de adm i­
nistração, por exem plo, exige hom ens de visão, pessoas criado­
ras cheias de idéias, m as tam bém pessoas de vôos rasteiros, con­
tadores cuidadosos e pessoas que calculam e dizem: “T e n h a
cuidado, você não pode fazer isso/' Parece-me que tendo um
grupo ou comissão com posta totalm ente de gente criadora, o
navio dentro em pouco perderá o rum o; m as tendo u m a
comissão com posta totalm ente de contadores cautelosos, êle j a ­
m ais será lançado. Creio ser êste o ponto de p artid a p ara a
consideração das form as m ais am plas do pensam ento criador,
de que se ocupam o pad re D ’Arcy e A rthur Koestler.
Prof. H u g h es : Im pressionou-m e o fato de que padre
D ’Arcy n ão divergiu d a m aioria dos oradores tanto qu an to
A M E N T E E A SOCIEDADE 233

pretendia. Se n ão me engano, estam os usando quatro ou cinco


(êrmos, que podem ser associados a signos iguais e o vocabulá­
rio depende, em proporções consideráveis, de ser a pessoa re­
ligiosa ou não. A alm a é igual ao eu, igual ao espírito, igual
ao ser hum ano. Parece-me que, a grosso modo, estamos usando
essas denom inações como intercam biáveis, os religiosos ado-
lando certa term inologia e os não religiosos, outra. D iria que
houve duas afirm ações básicas até agora neste sim pósio, evi­
denciando que, num sentido ou noutro, concordam os todos
com o pad re D'Arcy. A prim eira foi a observação introdu­
tória do Dr. Penfield de que a m ente e o cérebro são diferentes
e que ninguém ainda, como Freud e m uitos outros afirm a­
ram, foi capaz de estabelecer a ligação exata entre os dois.
() cérebro é a m atéria-prim a, a m áqu in a da mente, m as como
a mente opera o cérebro, ninguém sabe. A outra afirm ação
hiisica foi que as drogas agem sobre o cérebro, mas não sabe­
mos como agem sôbre a mente. Parecem tem apenas um a
reação fisiológica sôbre o cérebro em têrmos de torná-lo m ais
lento ou retardar algum processo fisiológico, intensificando
outros, e em casos extremos os elim inando totalm ente, mas
não afetam o cérebro no sentido de criar pensam entos novos.
Talvez confundam o pensam ento, mas não introduzem ele­
mentos novos. T a l como entendo, não foi ainda inventada a
droga que possa d ar um a idéia nova ao cérebro e que essas
idéias se propaguem à mente. Portanto, o que eu cham aria de
interpretação espiritual de nossos debates parece ser a concor­
dância de quase todos, e a dicotom ia entre mente e cérebro
não constitui um obstáculo sério.
Prof. L ipset : Sr. Koestler, q u al a sua op in ião ?
K oestler: Creio que o professor L ipset foi m uito m ode­
rado, ao estabelecer um paralelo entre a guerra fria das hum a­
nidades contra as ciências, e a tensão entre am bas e a religião.
A relação entre a religião e as hum anidades de um lado, e a
ciência, do outro, é n a realidade um problem a triangular, mas
podem os tratá-lo como se fôsse um só, aqui. Q uando estuda­
mos os criadores, sejam poetas ou cientistas, como um a con­
vicção religiosa, verificam os que essa convicção agiu com o m o­
tivação — e qu an d o digo “religiosa” entendo a classificação
num sentido m uito am plo. U m exem plo clássico é o de
Jo h an n es K epler. Pretendia descobrir a ín d ia e encontrou a
América. Q ueria provar que a disposição dos planêtas obedecia
234 O C O N TR O LE DA M E N T E

a certas regras geom étricas, e a certas regras m usicais, a “har­


m on ia das esferas” . O ra, n ada disso acontece, m as ao perse­
guir êsse objetivo, êle descobriu outras verdades novas. Por­
tanto, deixem os sossegadas as convicções m ísticas do indivíduo.
A psicoterapia há m uito qu e as aceita. Por outro lado, não
devemos adm itir que a religião dogm ática interfira num
m undo qu e não é o seu, criando a discórdia. Antes de G alileu,
quando os prin cipais astrônom os d a E u ro p a eram padres je ­
suítas, êles não procuravam descobrir o lu g ar onde ficavam
os anjos, m as an alisavam a astronom ia dentro das prem issas
m atem áticas. N ão falsearam o jôgo. Estabeleçam os, portanto,
a coexistência pacífica entre os dois dom ínios e no intercâm ­
bio in dividual, nunca devemos tocar as convicções profundas
do próxim o. Iria ain da m ais longe: não devemos nem mesmo
tocar as convicções religiosas profundas do ateu. V i pessoas
de convicções m aterialistas que, ao se com provar a possibili­
dade de um a percepção extra-sensorial, reagiam de um a form a
que era quase como um a perd a de fé e um colapso nervoso.

Padre D 'A r c y : A credito firm em ente que cada um a deve


ocupar-se de seu terreno, e que deve haver, dentro dêle, plena
liberdade. Q uem fôr sincero em sua convicção e sincero em re­
lação à teoria da vida que defende, insistirá em dizer: “Saúdo
todo o conhecimento e toda descoberta d a ciência, dentro de
seus lim ites.” O que considero sem pre um grande perigo é
que possam os ser condicionados apenas p ela descoberta, de
nos ocuparm os de tal m odo de um cam po particular que êle
se torne todo o nosso universo. Assim como tratam os os mé­
todos m atem áticos, assim devemos tratar as coisas qualitativas.
D uran te algum tempo, tratam os com as coisas m ateriais, ou
seja, com a parte séria; portanto, dentro da linh a de raciocí­
nio qu e adotam os, estamos certos. E u d iria que a crença na
religião cristã pode ser provada pela razão e tem autentici­
dade própria. M as os dogm as reais que surgem de um senti­
m ento não são passíveis de indagações científicas. N em têm
os homens d a religião qu alq u er direito de interferir nos pro­
blem as científicos. O caso de G alileu foi de um a com pleta
loucura. A credito na teologia m ais do que ela deve ser — não a
teologia dogm ática, mas a que pertence à hum anidade, que po­
dem os considerar, tal como a crença na providência, constata­
ção do cuidado de Deus com os seus filhos, e na existência
do além-túmulo. T u d o isso não me parece ser dogm ático, m as
A M E N T E E A SOCIEDADE 235

pertencer ao cam po do pensam ento. Poderão ju lg ar que me


engano, m as não receio debater êsse ponto de vista.
Prof. M a c e : E u d iria qu e os tipos m ais eficientes de
grupos de pensam ento são os que apresentam as diferenças m ais
contrastantes. Creio ser m uito im portante ter conferências de
que participam cientistas, filósofos e pensadores religiosos.
Conferências dêsse tipo dão a tais grupos mistos tem po de esta­
belecer um a form a q u alq u er de com unicação.

Padre D ’A r c y : A teologia, até recentemente, foi consi­


derada um a parte da filosofia. Aristóteles só passou à m etafí­
sica depois de ter tratado do m undo físico. Ju lg o u necessário
(jue o pensador pensasse com seus próprios pensamentos. Acre­
dito que toda disciplin a tem sua área especial. M as a filoso­
fia religiosa dá um retrato com pleto do m undo, que nenhum a
outra filosofia pode dar. Essa filosofia explica problem as como
os levantados pelos existencialistas sôbre a morte, acêrca da
preocupação, sôbre os objetos de nossas buscas, o fim da vida
c quais são os valôres. D ou um exem plo. F u i educado em
O xford, com filósofos rigorosam ente analíticos, que diziam :
“ Esta é a noção do dever que n ada m ais pode explicar”, por­
que já sabíam os o que era o dever e q u al era o conhecimento.
Portanto, era inútil falar disso. Sem pre me pareceu que havia
nisso um a falha. Podem os dizer a nós mesmos, por exem plo,
“Sei que é errado mentir, sei que é errado ser in justo” , e se
isso não tem sentido, não será então apenas um sentimento,
c assim sendo por que deveria eu seguir um código m oral ?
Mas se tivermos todo um universo construído para apoiar
nossa opinião e um a teoria da vida que o comprove em tôdas
as formas, então teremos um a filosofia da vida.
Prof. L ipset : A ntigam ente, a religião tratava a ciência ou
os assuntos de que a ciência se ocupava, de um a form a que já
não adota hoje. Por exem plo, a religião estudava antigam ente
n astronom ia, física e outras questões semelhantes. A razão
pela q u al o padre D*Arcy reagiu tão veementemente é o fato
de haver um conflito m oral entre certas suposições concernen­
tes ao com portam ento hum ano e a m otivação inerente a q u al­
quer pensam ento religioso, e a form a pela qual os farmacólo-
gos, cientistas sociais ou psicólogos, analisam o com portam ento
hum ano, em p articu lar o estudo da mente. Ao tratar do pro­
blema, creio que de certa form a o pad re D ’Arcy — que tem
236 O C O N TR O LE DA M E N T E

todo o direito d e recusar essa m inha hipótese, se assim o de­


sejar — está considerando certas variáveis e fazendo certas su ­
posições sobre os fatôres que afetam a m ente e o raciocínio,
fatores esses ignorados pelos cientistas sociais, farm acólogos,
quím icos e fisiólogos que tratam dos processos m entais. O ra,
devem e podem essas suposições ser introduzidas no estudo ?
D a m esm a form a, o professor L eo Strauss, filósofo político,
argum entou que um dos problem as com as análises d a ciência
social, ou as soluções com as decisões de gru p o discutidas pelo
professor M ace, é que os cientistas sociais desconhecem a ver­
dade. O professor Strauss concorda em que a verdade é ’ um
fator d a determ inação de q u alq u er situação e que se o histo­
riador, sociólogo ou psicólogo desejar explicar como e p o r que
as pessoas se com portam , deve supor que um a pessoa racional
escolhería m uito m ais provàvelm ente o que o professor Strauss
cham a de solução “verdadeira" p ara q u alqu er problem a. Seria
a solução m ais de acordo com a lei d ivin a ou natural, ou que
perm itisse a ad ap tação a um a determ in ada situação. £ le e
alguns de seus discípulos intelectuais criticaram as cham adas
ciências do com portam ento por ignorarem a verdade como
um a variável. H á um a divisão real entre filósofos e teólogos,
por falarem em grande parte p ara si mesmos, e os cientistas
por ignorarem sim plesm ente o problem a, de m odo geral. Pode
estar enganado, m as pareceu-me que de certo m odo o padre
D ’Arcy reagiu fortem ente contra isso, hoje. Estarei certo ?
Padre D ’A r c y : S ou m uito com bativo. Sim , concordo ple­
nam ente com o qu e disse. F ui educado na filosofia an alítica
d a velha O xford. T iv e como professor W ilson, o hom em m ais
capaz que conheci. O que a sua escola preten dia era encon­
trar incoerências lógicas no cientista que fugisse ao cam po
das afirm ações científicas. Lembro-me, p o r exem plo, de um a
carta escrita ao Times de Londres, na q u al dizia: “É tem po
já de que todos aceitem como certa a inexistência da verdade
absoluta.” Para assinalar essa incoerência lógica, escrevi um a
carta dizendo: “Seria favor elim inar a prim eira parte da
frase.” Em outras palavras, a p ró p ria afirm ação era form ulada
com o um absoluto: dizia-se ser verdade absolu ta a inexistência
da verdade absoluta. Nesse sentido, é im possível ter um a v a­
riável, é im possível q u alq u er afirm ação.
U m dos presentes: Q uero referir-me a uma expressão do
professor Mace, “ atividade biológica in ú til” . Q uais seriaip. as
A M E N T E E A SOCIEDADE 237

(onseqüências p ara o organism o, à luz das experiências de iso-


lumento, se tal organism o, ao invés de se em penhar nessa ati­
vidade inútil, n ada fizesse?

Prof. M ace: N ão me agrad a a form a pela q u al a per­


gunta é feita. Prefiro respondê-la de form a diferente. N ão
disse nada sobre atividade biológica inútil, creio que posso
;i firm ar que todo ato tem um objetivo, um a finalidade, um a
utilidade. O que pretendí dizer é que os objetivos n ão são
lim itados ao que se cham a habitualm ente de sobrevivência:
há todas as form as de atividades biològicam ente inúteis. Elas
não conduzem à autopreservação, nem à preservação d a raça
nem ao que habitualm ente se classifica d e necessidade bioló­
gica do homem, m as são objetivos. Q uis acentuar que falta-nos
tanto um a categoria d e objetivos, que poderiam os cham ar de
objetivos psicológicos, ou que teremos de am pliar e liberalizar
o conceito de objetivos biológicos. Pereceu-me que talvez a
forma mais sim ples fosse definir as finalidades biológicas como
bidim ensionais: n ão apenas a prolongação da vida como tal,
mas a prolongação d a vid a que tenha um a certa qualidade.
No nível hum ano, essa q u alid ad e da vida é provàvelm ente
m uito m ais im portante do que a duração da vida. E m outras
palavras, a m aioria dos sêres hum anos preferiría ter um a vida
mais curta, de m elhor qualid ade, do que um a vida m ais longa
de q u alid ad e inferior. Se os farm acólogos puderem produzir
um a droga que nos faça dorm ir suave e confortàvelm ente por
íí()0 anos, não me sentirei m uito entusiasm ado com a pers­
pectiva.

U m dos presentes: Sr. Koestler, referindo-me ao seu con­


ceito de auto transcendência — que implica na fusão do eu em
algo maior que o próprio eu, gostaria de saber se não há
nisso um elemento de religião.

K oestler: Fiz um a advertência específica p ara n ã o . se


(ornar essa denom inação em q u alq u er sentido místico. Usei a
expressão num sentido puram ente técnico. O indivíduo se
com porta como se o valor suprem o fosse não êle mesmo, m as
como se êle fôsse parte de um a unidade m ais alta, seja ela a
sociedade ou a am ad a ou a anima mundi, ou Deus ou Atm a.
Q ualqu er desses que escolha, não tem im portância neste con­
texto.
QUA RTA PARTE

O IMPACTO DA TECNOLOGIA
SOBRE A MENTE

Coordenador, William R. Dennes

N a q u arta e últim a fase do simpósio, foram focali­


zados os problem as particulares que o progresso tecno­
lógico m oderno criou para os estudantes da mente e de
seu funcionam ento, com ênfase especial nas proporções
em que o contrôle do pensam ento hum ano estava im plí­
cito nessa inovação tecnológica. Os pontos principais
an alisados nos trabalhos foram a significação das novas
técnicas p ara o processam ento de informações, especial­
m ente o potencial enorm e d a m áquin a eletrônica de
calcular, a relação entre os meios de dissem inar em m assa
a inform ação e o contrôle da mente, particularm ente na
esfera política, bem com o o significado da ideologia,
com seus m itos concom itantes, sobre o desenvolvimento
do pensam ento hum ano e da capacidade de ser o pensa­
m ento controlado p ela sociedade.
O debate centralizou-se n a im portância do efeito
das m áquinas de calcular na investigação futura dos pro­
cessos de pensam ento hum ano e algum as das utiliza­
ções dadas habitualm ente às m áquinas de calcular em si­
tuações sociais ou políticas.
I I k r b e r t A. S imon

O Controle da Mente pela Realidade:


Cognição Humana e Solução
de Problemas

T
J L r a t a r e i , nestas notas, do im pacto
da tecnologia no conhecim ento d a mente e de seu funciona­
mento. A conclusão central é m uito sim ples, e talvez seja
melhor que eu a apresente, prim eiram ente, e procure m os­
trar, em termos gerais, o que ela significa: na atualidade, com
os com putadores eletrônicos com uns e de finalidades gerais,
podem os sim ular m uitos tipos de raciocínio hum ano. Sim u­
lando êsse raciocínio, podem os proporcionar um a explicação
para vários procejssos im portantes qu e ocorrem no cérebro
qu an d o o pensam ento se está fazendo.
O que entendemos por “ explicação” , neste contexto ?
Com o podem os explicar o pensam ento hum ano ou os proces­
sos qu e se realizam no cérebro hum ano, simulando-os com
um com putador eletrôn ico? Podem os explicar os fenômenos
cm m uitos níveis. Trata-se de um processo perfeitam ente nor­
m al nas ciências naturais. N a genética, por exem plo, o tra­
balho pioneiro de M endel explicou a freqüência estatística de
certas variedades de plan tas em têrmos do cruzamento das
plantas-m ães. Sòm ente m uito depois de M endel, os mesmos
fenôm enos foram explicados no nível seguinte, pelos m eca­
nismos biológicos subjacentes, os genes e os cromossomos.
Assim, a explicação do que vemos ocorre prim eiro çm nível
242 O C O N T R O LE DA M E N T E

m acroscópico ou rudim entar, sendo seguida depois de m uitas


gerações pela explicação do m esm o com portam ento num nível
biológico, em têrmos de estruturas biológicas e seus processos.
Os mesmos fenôm enos podem ser agora explicados num ter­
ceiro nível, que ouvim os discutido aqui, um nível de explica­
ção em que cromossomos e genes obedecem às leis da quím ica.
(Q uadro 1.)

Q uadro 1

Níveis de explicação na genética, química e psicologia.

PSICOLOGIA DO
NÍVEIS GENÉTICA QUÍMICA
PENSAMENTO

N ív e l 1 M e n d e l: e s t a t í s t i c a R e a ç õ e s m o le c u la ­ P ro c e ssa m e n to d e
d a v a r ie d a d e res i n fo r m a ç õ e s
d a s p la n ta s
N ív e l 2 G en es e c ro m o sso ­ T e o r ia a tô m ic a N e u r o fisio lo g ia
m os
N ív e l 3 B io q u ím ic a d o i F í s i c a n u c le a r B io q u ím ic a d o p r o ­
genes ce sso c e re b ra l

Igualm ente, a ciência da quím ica tinha, a princípio, teo­


rias quím icas expressas em equações quím icas que descreviam
as reações moleculares. A quím ica tinha explicações para o
que ocorria no tubo de ensaios em têrmos de equações q u í­
micas, m uito antes que soubéssem os o que tais equações signi­
ficavam quanto à estrutura do quadro planetário do átom o.
Som ente depois que M endeleyev reuniu essas equações de
form a ordenada, e m ostrou que as num erosas regularidades
podiam ser codificadas pela tábua periódica dos elementos,
é que começamos a ver as possibilidades no nível de expansão
seguinte. V árias gerações depois, a quím ica passou do nível
atôm ico, com o quadro do átom o como um pequeno sol cer
cado de planêtas eletrônicos, para o nível subatôm ico, ou
nuclear, de explicação.
Vemos, portanto, que os níveis de explicação são bastante
conhecidos da ciência, e pretendo ocupar-me aqu i de um dêsses
níveis — o do processam ento de inform ações. Indicarei como
podem os explicar o pensam ento hum ano reduzindo-o a um a
O IM PA C T O DA T E C N O LO G IA SO BR E A M E N T E 243

série de processos de inform ação ou processos de m an ipu la­


ção de sím bolos, se preferirem . T a is processos são presum ida-
mente realizados pelo órgão biológico que denom inam os cé­
rebro e pelos elementos neurológicos no cérebro. Portanto, no
nível inferior ou m ais fundam ental — a denom inação que
preferirem — é de presum ir que pretendam os um a explicação
neurofisiológica do pensam ento, que nos diga como o cérebro
executa os processos de inform ação que estamos postulando
no nível superior. Esperam os, como já ouvimos, que no futuro
possamos explicar, por sua vez, os mecanismos e os processos
neurológicos em têrmos dos respectivos processos quím icos, ou
seja, pela bioquím ica do cérebro.
Falo agora, porém , da explicação do pensam ento hum ano
em têrmos dos processos de inform ação. Se conseguirmos pro­
porcionar essa explicação, criarem os a h abitu al divisão d o tra­
balho nas ciências. Será de esperar que nossos am igos d a neu-
rofisiologia, por sua vez, reduzam êsses processos de inform a­
ção a processos e m ecanism os neurológicos. H á, no m om ento,
apenas alguns indícios do que se poderá fazer nessa redução.
Finalm ente, esperam os que nossos am igos bioquím icos propor­
cionem o outro elo entre o nível neurológico e o nível ain da
m ais fundam ental, o quím ico.
Vim os que a idéia de construir teoria partindo do alto
para b aixo não é estranha às ciências; já dei dois exem plos
pelos quais o com portam ento rudim entar foi, de certo modo,
explicado m uito antes que tivéssemos idéia d a existência de
nível m ais m icroscópico. M uito antes de têrmos qualquer in dí­
cio direto da existência de genes e cromossomos, vendo-os
através do m icroscópio eletrônico, tínhamos a prova in direta
de sua existência, p orq u e certas ervilhas tinham determ inadas
cores e certas m oscas de frutas apresentavam determ inadas de­
formações, ao nascerem. Antes de têrmos qualqu er prova di­
reta, pelo m icroscópio eletrônico, ou q ualquer outra, da exis­
tência dos átom os ou de sua estrutura planetária, tínhamos
a prova in direta dessas coisas. Os quím icos e físicos haviam
afirm ado sua existência tom ando por base o com portam ento
do m aterial observado no laboratório. Assim, tam bém nesse
caso esperávam os obter algum as noções dos mecanismos su b ja­
centes pelo estudo do com portam ento rudim entar e através
do desenvolvim ento teórico, nesse nível de processamento de
inform ações, ou de m an ipulação de símbolos.
244 O C O N TR O LE DA M E N T E

De certo m odo, estamos num a posição peculiar na psico­


logia, porque, em contraste com os outros exem plos citados,
já temos provas diretas da natureza dos m ecanism os subjacen­
tes. O estudo do cérebro como órgão biológico se vem fazendo
há séculos. Sabem os como são algum as de suas estruturas, co­
nhecemos m uitos dos processos qu e nêle se desenvolvem, e
portan to podem os esperar que a árdua tarefa de ligar os ní­
veis biológicos e os de processam ento de inform ações da teo­
ria psicológica possa ser um problem a menos difícil do que
o enfrentado pelos quím icos e geneticistas, que realm ente não
dispunham de provas diretas da natureza dos elementos su b ja­
centes.
Onde entra, em tudo isso, o com p u tad o r? Falei de pro­
cessos de inform ação ou de m an ipulação de sím bolos, m as não
falei de com putadores. O com putador nos proporciona as fer­
ram entas essenciais p ara estabelecer e testar a teoria a que me
refiro. Assim como m uitos progressos nas ciências tiveram de
esperar a invenção do telescópio ou do m icroscópio — a his­
tória das ciências fisiológicas e biológicas poderia ser escrita,
em grande parte, nos têrmos do desenvolvim ento dos instru­
mentos de observação e de análise —, nessa área o estudo
de algo tão com plexo como o pensam ento hum ano teve de
esperar até que existissem instrum entos à altu ra d a com plexi­
dade do assunto. Parece que o com putador eletrônico é êsse
instrum ento.
Em prim eiro lugar, o com putador é um instrum ento que
facilita nossa form ulação da teoria. E sta é m ais fàcilm ente
apresentada, na verdade, como um program a p ara um com ­
pu tador digital. Explico, pela an alogia, tal afirm ação. N a
física, quando querem os explicar algum a coisa — por que os
planêtas giram em torno do sol com determ inado ritm o — for­
m ulam os algum as equações diferenciais. Estas são a teoria, e
fazemos previsões da teoria integrando as equações, m anipu-
lando-as de form as várias, e dizendo: “se os planêtas estão neste
m om ento aqui, então, segundo essas equações, estarão ali
am an hã” . M as, a teoria se expressa m ais acuradam ente, m ais
rigorosam ente, n um a série de equações diferenciais — a se­
gu n d a lei de New ton, a equação de M axw ell, e assim por
diante.
D a m esma form a, a teoria do processam ento d a inform a­
ção se expressará como um program a p ara um com putador
que faça um a descrição rigorosa dos processos que o m eca­
O IM PA CTO DA TECN O LO G IA SO BRE A M E N T E 245

nismo executa quando realiza a atividade que cham am os pen ­


sar. E p ara com provar essa teoria, fazemos o equivalente de
integrar equações, a fim de prever onde as coisas estarão den­
tro de um m inuto, se estão agora num determ inado ponto.
U sam os o com putador como um instrum ento que pode sim ular
o organism o pensante — que se pode com portar com o o orga­
nism o pensante, realizando as instruções da teoria, ou seja,
cum prindo o postulado no program a do com putador. Assim,
usam os o com putador, de um lado, como base p ara a form ula­
ção d a teoria na linguagem form al, e usam os o com putador
como um estágio posterior p ara testar a teoria. Porque a teo­
ria é com plicada, é m uito difícil perceber o com portam ento
que ela prevê. A form a m ais fácil — e quase que a única — de
ver êsse com portam ento é ligar o com putador e observar o que
faz, se realm ente sim ula o pensam ento hum ano como a teoria
afirm a e prediz que sim ulará.
M ais adiante, procurarei explicar um pouco m ais con­
cretamente o que entendo por um program a, m as creio que
os senhores já tiveram um exem plo ou referência de um pro­
gram a num a palestra anterior. U m program a é um a seqüência
— freqüentem ente m uito com plicada e ram ificada — de instru­
ções, que diz: “se o sistema está aqui agora, então fará isto,
isso e aquilo, e, quando atingir sua nova posição n o mom ento
seguinte, fará outra coisa” , e assim por diante. O program a dá
um a série de instruções p ara o sistema seguir, tal como a
equação diferencial dá instruções p ara serem seguidas pelo
sistem a físico.
Observa-se que não estou falando em an alogia simples
entre o com putador e o cérebro — não falo em neurofisiologia.
Se abrirm os o com putador para olhar como é por dentro, ve­
remos que difere m uito do cérebro hum ano, pelo menos das
fotografias de cerébro hum ano que tenho visto. É m uito dife­
rente, e todos os indícios são de que o com putador é organi­
zado no nível de “ferragens”, de form a m uito diversa.* Por­
tanto, não falo em an alogia entre a estrutura do cérebro e a
estrutura d o com putador.
N a F igu ra 19 temos um ser hum ano, digam os um aluno
de universidade no laboratório psicológico, que constitui o ser
hum ano sôbre cujo com portam ento temos o m aior conheci­
m ento no m om ento. A í está nosso aluno, e à sua direita
temos um com putador que já recebeu um program a. Êsse pro­
246* O C O N T R O LE DA M E N T É

gram a é escrito n a lín gu a do com putador, que nos perm ite


descrever alguns processos básicos de inform ação, processos
elem entares para a m an ipulação de sím bolos. Assim, temos
alguns processos de inform ação elem entares que nos perm i­
tem escrever êsse program a geral p ara a solução de problem as,
destinado ao com putador. Antes disso, fizemos um pequeno
trabalho no com putador de m odo que êle é capaz de executar
tais processos de inform ação elementares. Dem os ao com pu­
tador o que se cham a de linguagem de processam ento de in for­
m ação.

C o m p o rtam e n to _ Compare-se o traço _


h u m a n o n a s o lu ç ã o SG P Teoria do
d e p r o b le m a s com protocolo
processamento
de
inform ações

P r o c e s so s d e
in fo r m a ç ã o
e le m e n t a r e s
Linguagem do
Neuro-
Nenkuma processamento
fisiologia -
correspondência ’de informação
S iste m a “ F e rrag en s” para o
direta d o c o m p u ta d o r
n e r v o so computador
neste nível
Fic. 19

A teoria afirm a que o com portam ento do pensam ento


hum ano, o que êsse alun o faz quand o enfrenta problem as no
laboratório, se explica p or um program a idêntico ou, m ais
m odestam ente, sem elhante ao program a que demos ao com pu­
tador. Estam os afirm ando que o aluno faz o que faz porque
tam bém êle é governado por um program a de processos de
inform ação elementares arm azenados em seu cérebro. Decerto,
ninguém escreve um program a d e processo de inform ação p ara
êle. Sublinhando êsses processos de inform ação elem entar estão
alguns processos neurofisiológicos e, além dêsses, a estrutura
biológica a que cham am os cérebro.
N ão estamos prop on d o um a an alogia em nível neuroló­
gico ou biológico: estamos falan do d o g rau em qu e podem os
O IM PA C T O DA TE C N O LO G IA SO BRE A M E N T E 247

escrever um program a p ara um com putador que, quando o


confrontem os com os mesmos problem as experim entados pelo
ser hum ano no laboratório, produzirá todas as fases do mesmo
flu xo de com portam ento verbal do estudante quando enfrenta
tais problem as, e portanto podem os prever seu com portam ento
se ligarm os o com putador um pouco antes que o estudante
inicie seu trabalho.
Com provam os a teoria com parando a m archa do com pu­
tador, tècnicam ente cham ada de traço dos processos principais
do com putador, com a verbalização do estudante, registrada
num gravador, pois lhe pedim os que pensasse alto ao resolver
seu problem a. É essa a base prin cipal p ara a com provação de
um a teoria dêsse tipo.
C om o temos neste cam po, ao contrário do que acontecia
no passado à quím ica e à genética, m odos diretos de observar
o cérebro e seus processos — m odos descritos pelos que me
antecederam no sim pósio —, temos outra form a de confrontar
a teoria de processam ento da inform ação com a prova. A
teoria afirm a que o ser hum ano se com porta de um a certa
form a devido à estrutura de seu program a de processo de
inform ação, o que presum idam ente im plica em algo m uito
geral sobre como deve ser a neurologia subjacente, q u al o
gênero de coisas que ali encontraremos. M ais cedo ou m ais
tarde, o neurologista com provará se o cérebro realiza os pro­
cessos de inform ação, ou não. T erem os então a confrontação
neurológica dessa teoria com as provas, tal como, clepois da
descoberta d o m icroscópio eletrônico, tivemos a confrontação
direta d a teoria atôm ica com a prova daquele instrum ento e
de outros q u e nos perm itiram observar níveis menores. N o
m om ento, porém , nossa teoria é com provada principalm ente
pela confrontação com o com portam ento hum ano e obser­
vando se êsse com portam ento pode ser previsto ou não. Assim,
a teoria explica certo as espécies de pensam ento complexo,
de solução de problem a, de aprendizado, m em orizando o com­
portam ento e m ostrando como êsse com portam ento pode ser
sintetizado através de sistem as organizados ou program as de
processos de inform ação elementar.
D arei, agora, alguns detalhes sobre um exem plo dessa
teoria. E como exem plo entendo um program a que pretenda
explicar um a área do com portam ento do pensamento hum ano.
E xiste atualm ente pelo menos m eia dúzia de program as de
248 O C O N T R O LE DA M E N T E

com putadores qu e pretendem ser teorias ou explicações das


várias áreas do processo de pensam ento hum ano. F alarei de
um dêles, e m encionarei apenas dois ou três.
O program a p articu lar qu e desejo descrever é o solucio-
nador geral do problem a, o SG P, form ulado por um grupo con­
ju n to RAND-Carnegie T ech , constituído em 1956. (4, 5) ( * )
A nalisem os um a pessoa que tenha à sua frente um problem a
relativam ente novo, ou seja, um problem a n um a área em que
já n ão disponha de um a solução padronizada. Prim eiro, ca­
racterizarei o problem a abstratam ente: o estudante está co­
locado n um a situação, ou situação A ; sua tarefa é m odificar
aqu ela situação p ara a situação B. Pode realizar um a série
de operações Q p ara m odificar a situação. N o sum ário temos
A, querem os B, temos operações Q e desejam os transform ar
A em B, usando Q.
Essa form ulação abstrata cobre um a am pla escala de assun­
tos, tanto os gerais e diários como os de laboratórios, que cha­
m am os de problem as. Por exem plo, ao descobrir um a prova
para um teorema m atem ático, recebemos certos axiom as e
outros teoremas. O objeto que devemos encontrar é u m a série
de proposições lògicam ente encadeadas, a últim a d as q u ais é o
teorem a qu e estam os tentando provar. N ossa tarefa é trans­
form ar esses axiom as e teorem as na prova d o teorem a desejado.
A o com por um a sonata, tem os certos m eios m usicais à nossa
disposição, e o problem a consiste em escrever um a peça de
m úsica que tenha as características de um a sonata e seja agra­
dável de ouvir. A o m over um a peça do xadrez, temos um a de­
term inada posição no tabuleiro, e gostaríam os de ter outra po­
sição, preferivelm ente um a em q u e o adversário ficasse em
xeque-m ate. O problem a é realizar isso. O utro exem plo é o
problem a de chegsçr ao aeroporto — que todos conhecem.
O utro ain da é o velho problem a de como fazer com que os
canibais e os m issionários atravessem o rio sem que nenhum
dos m issionários seja comido. Podem os acrescentar à lista de
exem plos alguns problem as práticos. Ao investirm os cem m il
dólares em ações, temos cem m il dólares; desejam os, certamente,
ações que proporcionem um a renda proveitosa. Com o trans­
form ar êsses cem m il dólares em ações?

(*) Agradeço a cooperação de Allen Newell e J. C. Shaw. Essa descrição é


um resumo de nosso trabalho conjunto, mencionado com detalhes nas referên­
cias apresentadas no fim do presente artigo.
O IM PA CTO DA TEC N O LO G IA SO BR E A M E N T E 249

T o d o s êsses problem as se enquadram n um a fórm ula geraL


Creio poder dizer que todos são problem as que o SG P em
sua form a presente poderia resolver. Isso seria pretender m uito.
l)e fato, o SG P descobrirá realm ente provas p ara teoremas
m atem áticos em algum as áreas da lógica m atem ática; resolverá
o problem a dos m issionários e dos canibais. O utros program as
de com putadores de estrutura não m uito diversa poderão jogar
xadrez e produzir, senão sonatas, pelo menos m úsica com con­
traponto m ais ou menos no estilo de Palestrina. Program as
específicos dêsse tipo geral existem p ara am pla variedade de
tarefas, e o SG P trata apenas, n a verdade, de um a área lim i­
tada dessas tarefas.
Quero fazer outra observação antes de falar m ais um pouco
sobre o program a. H abitualm ente, im aginam os o com putador
como um instrum ento aritm ético, porque p ara isso os com puta­
dores foram inventados. A qui, porém, estamos tratando de
utilização não-num érica do com putador. Chegar ao aeroporto
não é um problem a aritm ético — pelo menos, não o resolvemos
habitualm ente colocando equações ou com putando números,
em bora possam os fazer algum a subtração, p ara saber de q u an ­
to tem po dispom os. Q uando usam os um com putador para
esse tipo de pesquisa, não usam os sua capacidade aritm ética.
Valemo-nos, ao invés disso, de processos gerais, de suas cha­
m adas instruções lógicas que qu alqu er com putador de fin ali­
dades gerais tem p ara a m an ipulação de símbolos. N a reali­
dade, podem os elim inar os processos aritm éticos rápidos do
com putador, e este con tinuará a se com portar da form a pela
q u al estam os descrevendo. Estam os usando o com putador como
um instrum ento não-numérico, m an ipulad or e processador de
sím bolos, p ara sim ular, da m elhor form a possível, os proces­
sos de m an ipulação de sím bolos que ocorrem no cérebro hu­
mano.
Por que denom inam os o program a que mencionei de so-
lucionador geral de problem as ? Se exam inarm os o conjunto
de instruções que encerra, e por m eio do qu al se propõe a
descrever como as pessoas atacam os problem as relativam ente
novos, veremos que tais instruções não fazem referência espe­
cífica a q u alq u er assunto. N ão são instruções para resolver
problem as de geom etria, nem para jog ar xadrez, ou para com­
por m úsica — m as p ara ir d aq u i p ara ali, dizendo em têr-
mos gerais q u ais são as form as de ir de um lu gar p ara outro.
250 O C O N TR O LE DA M E N T E

Se exam inarm os o program a SG P, veremos que tem a se­


guin te estrutura geral, e os ouvintes me perdoarão se antro-
pom orfizo um pouco, m as é a form a m ais fácil de descrever
o program a, e a descrição poderá ser colocada, com facilidade,
em seus têrmos adequados. De início, o program a diz: “Bem ,
eu tenho A e devo produzir B ; q u al a diferença entre ê le s?”
E xam in a a situação A, exam in a a situação B e encontra certas
diferenças entre A e B. Diz, em seguida, a si mesmo: “T en h o
agora essa diferença, D ; quais os operadores d e que disponho,
q u ais os m eios ao m eu alcance que têm qu alqu er relevância
nesse tipo de diferenças ?”
Se a questão é chegar ao aeroporto, então o problem a, a
“diferença”, é de distância geográfica. Estam os a cêrca de 15
m ilhas, suponham os, do aeroporto. Q uais os meios que temos
à nossa disposição ? Bem , temos as pernas, que não são m uito
relevantes neste problem a particular, há os ônibus, os táxis e
talvez mesmo helicópteros. São êsses os m eios disponíveis p ara
executar essa tarefa. Vam os tom ar um dêsses m eios e ver se o
podem os aplicar p ara produzir um a nova situação, que pode
ser a que procuram os, ou pode estar m ais próxim a dessa si­
tuação que buscam os do que a situação em que nos encon­
tramos. Com isso, criam os sim plesm ente um novo problem a
de ir de nossa nova situação A p ara o objeto desejado B, e
podem os aplicar o mesmo sistem a novam ente.
T rata-se de um exem plo sim ples de raciocínio sobre fins
e meios. Partim os com um fim, vemos sob que aspecto a situ a­
ção presente difere do fim, e indagam os de nós mesmos quais
os meios relevantes de que dispom os, tentam os aplicar alguns
dêsses meios e produzim os um a situação nova. Então nos in da­
gam os se estamos m elhor do que na prim eira situação. U m dos
meios de ir d aq u i ao aeroporto é tom ar um táxi, Se tom arm os
um táxi que nos deixará lá, teremos então o problem a de ir
do local onde o táxi nos deixou até o local de em barque em
nosso avião.
É um esqueleto supersim plificado do program a SG P. O
SG P tam bém inclui outros processos que dizem: “Bem , n ão
posso aplicar êste operador agora, m as talvez, se eu m odificar
algum a coisa, isso seja possível.” Por exem plo: “N ão podem os
encontrar um táxi, talvez se eu telefonasse à com panhia de
táxis — certamente, êles não atenderão — m as isso pelo menos
é um a possibilidade.” T alvez tenhamos de fazer algum as coisas
prelim inarm ente, antes de realm ente aplicar o operador.
O IM PA CTO DA TEC N O LO G IA SO BR E A M E N T E 251

Poderiam os, igualm ente, enfrentar um problem a que é


muito detalhado — um problem a m uito com plexo, m uito com­
plicado. Suponham os que temos não só de ir ao aeroporto,
mas de encontrar alguém que chegará num determ inado avião
c vai tom ar outro, e temos de m udar um a passagem , no inter­
valo. N ão procuram os tratar do problem a em todos os seus
detalhes, m as abandonam os parte dêstes e tratam os inicial­
mente do problem a de chegar ao aeroporto. D epois de chegar­
mos lá, nos preocuparem os com o resto. O program a SG P tem
recursos à sua disposição p ara tanto — p ara tom ar o problem a
original, aban don ar grande parte de seus detalhes, produzindo
portanto um a abstração — um a im agem do problem a, se pre­
ferirem —, resolvendo-o no espaço abstrato e recolocando os
detalhes.
D e certa form a, a teoria im plícita no SG P tem sido tes­
tada no laboratório psicológico, onde lhe foram subm etidos
problem as de vários setores, dando-se ain da problem as idên­
ticos aos estudantes, e com parando-se posteriorm ente suas so­
luções, passo a passo. A única afirm ação geral que posso fazer,
já que não há quase nenhum a teoria estatística relevante para
circunstâncias semelhantes, é que em certos casos é possível
estabelecer um paralelism o no com portam ento do com putador
c dos estudantes por períodos de tempo que vão até cinco m i­
nutos. O u seja, por cinco m inutos aproxim adam ente o com pu­
tador observará as mesmas coisas sobre o problem a, conside­
rará os mesmos subproblem as, seguirá os mesmos raciocínios
sem saída e retrocederá pelas m esm as razões do calculador hu­
mano. Nesses casos, o SG P freqüentem ente chegará à mesma
solução dos seres hum anos, e em certos casos será blefado e
não poderá resolver o problem a, pelas mesmas razões que le­
varão os estudantes a idêntica situação.
Observe-se que não estamos procurando, aqui, fazer com
que o com putador resolva os problem a bem, mas sim que
os resolva tal com o as pessoas, ou seja, por vêzes bem, por
outras vêzes m al. O program a deve sim ular tanto os fra­
cassos como os êxitos, p ara que constitua um a teoria do pem
sarnento hum ano.
Isso, quanto ao solucionador geral de problem as e ao pro­
gram a que o encerra. Com um pouco m ais de tempo, seria
interessante ver até que ponto os mecanismos que o Sr. Koestler
descreveu em seu interessante trabalho sobre os processos cria*
252 O C O N T R O LE DA M E N T E

dores são, n a realidade, sim ulados pelo SG P. Creio que p o ­


dería dar-lhes um exem plo de um a experiência aha — o
SG P não disse Eureka, mas creio que teve um a experiência
daquelas em que se diz claram ente aha.
Entre os outros program as dêsse tipo, existentes atualm en­
te, dois foram produzidos por homens que estão hoje nesta
universidade, podendo os interessados procurá-los diretam ente
p ara detalhes. U m program a denom inado P EM E, percebedor
e m em orizador elem entar, produzido, em sua prim eira versão,
pelo professor Edw ard Feigenbaum , (1) é um a teoria, tam bém
form ulada como um program a de com putador, dos processos
que os sêres hum anos usam nos tipos de tarefas de m em ória
m ecânica a que foram sujeitados pelos psicólogos, nos labo­
ratórios. T alvez algum dos presentes tenha participado de
semelhantes experiências. O paciente recebe certos estímulos,
habitualm ente na form a de sílabas sem sentido, devendo dar
um a resposta apropriada, que é tam bém , habitualm ente, sem
sentido. A experiência é feita sob diversas form as, inclusive
o cham ado m étodo de par-associação, e o cham ado m étodo de
antecipação serial.
O P E M E é um program a sim ulando o com portam ento de
pacientes de laboratório em experiências de m em ória m ecâ­
nica nas duas formas, a serial e a associativa, e em certos tipos
de experiência dêsse gênero geral. O que fazemos com o
P E M E no m om ento é tentar repetir com êle algum as das expe­
riências psicológicas clássicas sobre a m em ória m ecânica.
Acontece que o program a, em bora não construído com êsse
objetivo, pode sim ular alguns dos processos evidentem ente
usados pela criança ao ad q u irir a linguagem oral, e posterior­
m ente quando está aprendendo a ler. Podem os realizar a se­
gu in te experiência: apresentam os ao P E M E alguns estím ulos
que acreditam os representar ou sim ular certos objetos caracterís­
ticos do am biente — digam os, bolas e gatos. Ao mesmo tempo,
apresentam os ao PEM E reações a êsses estímulos, na form a de
fonem as ou seqüências de fonemas, sílabas orais. Ou seja,
apontam os para um objeto, por exem plo um objeto peludo
que conhecemos como gato, e ao m esm o tem po apresentam os
ao P E M E a sim ulação dos fonem as orais de gato. D epois de
algum as tentativas, quan d o apenas o objeto é apresentado, o
com putador responderá “gato ” com os fonem as adequados.
(N ão pronunciará a palavra oralm ente, m as im prim irá os fo-
O IM PA C T O DA TE C N O LO G IA SO BR E A M E N T E 253

ncmas.) Pouco depois, apresentam os como estím ulo a palavra


impressa “ga to ” e como reação o fonem a oral “ga to ” . D epois
de algum as tentativas o com putador pode, quan d o a palavra
escrita G A T O é apresentada, produzir como reação os fonem as
ele “gato” . Apresentam os então ao com putador a palavra oral
“ gato” e um a série de objetos do m eio, ou sim ulações de o b je­
tos do meio, e à prim eira tentativa, sem necessidade de repe­
tição, o com putador selecionará o objeto peludo. Poderá m os­
trar, na realidade, o gato, evidenciando que n ão só aprendeu
a pronunciar a palavra correspondente à palavra impressa, mas
tam bém qu e conhece o “sentido” da expressão. Se quiserem
i irar as aspas d a p alavra sentido, podem fazê-lo. Pessoalmente,
inclino-me a isso, m as não pretendo, no m om ento, argum en­
tar sobre o assunto.
Finalm ente, há alguns outros program as que sim ulam
outras form as de com portam ento hum ano: um program a do
professor Feldm an (2) sim ula algum as das experiências psico­
lógicas clássicas em escolha binária, ou a cham ada experiên­
cia de refôrço parcial, conhecida provàvelm ente dos presentes.
H á alguns program as organizados por H ovlan d e H u n t (3),
em Yale, que parecem sim ular m uito bem certas form as sim­
ples de conceitos hum anos, em laboratórios.
V ou concluir e resumir. T o d o s sabem os que o com puta­
dor eletrônico está com eçando a ter enormes efeitos em nossa
economia, pelo autom atism o — que talvez fosse o assunto que
os organizadores do sim pósio desejavam que eu abordasse.
A o mesmo tempo, o com putador nos proporciona um nôvo
e poderoso instrum ento p ara a com preensão d a mente hum ana.
T em os agora pelo menos um a prim eira aproxim ação de um a
teoria do pensam ento claram ente defin ida e comprovável, em­
bora ain da precariam ente. D entro em breve poderem os obe­
decer ao velho m andam ento do “ Conhece-te a ti m esm o”, e
com isso poderem os usar m ais am plam ente os tremendos po-
dêres, sôbre o hom em e sobre a natureza, que o rápido pro-.
gresso da tecnologia nos está proporcionando.
R efletin d o sôbre as im plicações d a sim ulação pelo com pu­
tador, desejo que nos lembremos do seguinte: o poder de com­
preender a m ente pela sua im itação de form a algum a reduz a
dignidade d o hom em . N ossa dignidade não reside no fato de
que n ão nos conhecemos, que somos misteriosos. O homem
n ada tem realm ente a perder, e poderá ter m uito a ganhar
254 O CONTROLE DA MENTE

pela com preensão de si mesmo, e êsse lucro potencial pode


servir para m oderar os temores, q u e todos nós por vêzes experi­
m entam os e p o r vêzes m anifestam os, despertados pela visão
de um robô que im ita a natureza um pouco fielm ente dem ais
p ara que nos sintam os satisfeitos.

R EFER ÊN C IA S

(1) F eigenbaum , E ., T h e S i m u la t i o n o f V e rb a l L e a rn in g B e h a v io r , Pro-


ceedings of the 1961 Western Joint Computer Conference, Los A n­
g e le s, 9 a 11 d e m a io d e 1961, p á g s . 121-132.
(2) F eldman , J . , S i m u la t i o n o f B e h a v io r in th e B in a r y C h o ic e E x p e r i-
m e n t, id e m , id e m , p á g s . 134-144.
(3) H ovland, C . I ., e H unt , E . B ., P r o g r a m m in g a M odel of H u m an
C o n c e p t F o r m u la t i o n , id e m , id e m , p á g s . 145-155.
(4) N ew ell , A ., S haw, J . C ., e S imon , H . A ., R e p o r t o n a G e n e r a l P ro -
b le m S o lv in g P r o g r a m , e m Information Processing, Proceedings of
the International Conference on Information Proceedings, P a r is ,
U N E S C O , 15-20 d e ju n h o , 1959, p á g s . 2 5 6 -2 6 4 .
(5) N ew ell , A ., e S imon H . A ., T h e S i m u la t i o n o f H u m a n T h o u g h t , e m
Current Trends in Psychological Theory, P i t t s b u r g h , U n iv e r s it y o f
P it t s b u r g h P r e ss, 1 9 6 1 , p á g s . 152-179.
W lLLIA M E . PORTER

A Educação Política
e o Controle da Mente

H Á UM GRANDE BENEFÍCIO mÚtUO


para os m édicos e os que não o são, em encontros como êste.
Os não-médicos adquirem , pelo reflexo, o brilho dos homens
de paletó branco, e seus estudos vagos quase que se trans­
form am num acréscimo ordenado do saber, quando se levan­
tam de suas cadeiras de braço p ara ficar de pé junto à pia do
laboratório. Os médicos, por sua vez, têm a lucrar um pouco
com a am pliação dos horizontes, livrando-se da acusação de sem­
pre buscarem a verdade no fundo de um tubo de ensaios.
M as partilham os de algo m ais do que o desejo de m elho­
rarm os m ütuam ente nossas posições. Os homens que traba­
lham tanto nas ciências m édicas como nas ciências do com­
portam ento são considerados, geralm ente, como donos de se­
gredos que não possuem. São os que melhor aproveitam , no
século X X , os benefícios da dúvida.
Os não-médicos lucram m ais. É certo que nossa sociedade
tem um a fé notável na m edicina como ciência. Parecemos
acreditar, como o povo, que se introduzirm os o dinheiro num
orifício, a cura nos é entregue autom àticam ente, e que há um a
relação quantitativa. É um endôsso surpreendente de um a
aplicação do m étodo científico, bem como do em pirism o des­
preocupado que o pode acom panhar.
A sociedade fêz, porém , um elogio ain da m aior ao acredi­
tar, com insistência, na existência de algo com o a m anipulação
em m assa d a m ente, e que as opiniões e atitudes podem ser
256 O CONTROLE DA MENTE

m odificadas e controladas com determ inados objetivos por


aquêles que estão a p ar disso. É um a idéia inteiram ente irra­
cional, encontrada tanto entre os ingênuos com o entre os re­
quintados. O pesquisador médico, ao relatar a ação de um a
droga num anim al de laboratório que passou a vida sòzinho
num a pequena gaiola de arame, fará pesadas restrições à sua
descoberta, afirm ando haver m uitos elementos variáveis que
escapam ao seu controle — e êsse mesmo hom em poderá acei­
tar, sem discutir, que a ascensão e o dom ínio do fascism o
foram principalm ente obra de prop agan distas que levantaram
aros através dos q u ais o povo alem ão e italian o não po dia
d eixar de pular.
Parte da crença nesse tipo de poder deve ter surgido q u an ­
do se com provou, p ela prim eira vez, ser possível aperfeiçoar o
hom em e em parte em conseqüência da com provação da causa
e efeito n a ciência aplicada. Se o hom em pode lançar um
objeto no que há 20 anos era o vazio inviolado, e fazê-lo sur­
gir e desaparecer com a exatidão do sol, sem dúvida pode ser
capaz tam bém de controlar as opiniões e o com portam ento de
outros homens. N egar isso é negar o racionalism o que tem
sido o prim eiro artigo de fé, de um a form a ou outra, d o pen­
sam ento ocidental, h á quase 300 anos.
H á outro tipo de argum ento a favor do contrôle mani-
pulativo d a mente, nascido d a decepção. Se nossa in capaci­
dade de construir um a sociedade que jam ais produza o sofri­
m ento ou a crueldade puder ser atrib u íd a aos vilões que
p u x am os cordéis psicológicos que nos movem contra nossa
vontade, isso nos servirá de consolo. Se os am ericanos verifi­
cam qu e são im populares no estrangeiro, consolam-se atri­
buindo isso à p rop agan d a com unista. T a l sentim ento é, pro-
vàvelmente, m uito vago p ara ser considerado um a racionaliza­
ção — será antes um a form a de analgésico intelectual. Pare­
cemos ter um interêsse quase m órbido em nos convencermos
de qu e somos realm ente m eros peões nas m ãos de hom ens
calculistas e enganadores.
O terreno em que êsses hom ens trabalham é vasto e m al
definido: vai desde a “argum entação p esada” de Jo sep h Goeb-
bels, até a lavagem do cérebro de soldados nos cam pos de p ri­
sioneiros d a Coréia d o N orte. Com o a única coisa que dá
unidade ao conceito é a idéia de pessoas sendo forçadas a ati­
tudes ou atos contra sua vontade, seu estudo adequado deve
O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 257

abranger m uitas disciplinas e m uitos métodos. Êste trabalho


trata apenas de um a parte desse com plicado conceito público.
Considero a expressão “educação política” como um a referên­
cia ao processo de provocar m odificações de atitu de ou ação
que afetam a relação entre o indivíduo e seu govêrno, ou
entre governos. Considero, ain da mais, que êste tipo de per­
suasão, essa form a de construir a opinião pública, está ligada
aos m eios de com unicação da massa. Assim, é dos efeitos das
comunicações da m assa sobre a vida política que êste trabalho
se ocupará. Comecemos com um exam e sum ário do que sabe­
mos sobre a natureza e as dimensões dêsses efeitos.
O que sabem os pouco ju stifica qu alqu er receio do con­
trole d a m ente coletiva, se tal coisa existe. A verdade é sim ­
ples. Se o contrôle d a m ente faz com que as pessoas tomem
certas atitudes contrárias às suas conclusões racionais, seus de­
sejos reais e suas convicções m orais, não houve ainda exem­
plos com provados do contrôle d a m ente pelas comunicações da
m assa. Se o contrôle d a mente significa a direção funcional de
um a sociedade p ara objetivos contrários à sua herança inte­
lectual e suas crenças coletivas, não tem havido exem plos de-
m onstráveis do contrôle coletivo da mente.
N ão se deve tom ar isso como um a afirm ação de que tôdas
as pesquisas em comunicações n ão tenham chegado a nenhum
resultado. M uito se aprendeu sobre várias coisas. Alguns con­
ceitos significativos sôbre a prop agan da e sôbre o que eu pelo
menos ch am aria d e educação política foram expostos por
Lassw ell em princípio d a década de 1930. Sofreram um a inves­
tigação e um a docum entação substanciais. M uito se aprendeu
sôbre o com portam ento dos eleitores e as fontes de influência
sôbre êle — por exem plo, os laços de fam ília e grupo são extre­
m am ente im portantes, e a influência pessoal m ais im portante do
que os m eios de com unicação. H á um grande volum e de in­
form ações sôbre os hábitos dos leitores, ouvintes e espectadores
— po r exem plo, como nossa tendência é prestar m ais atenção ao
que reforça as nossas convicções, e não ao que as contradiz.
H ouve levantam entos e análises com plicadas da opinião pú-
plica sôbre, literalm ente, m ilhares de questões. A lgum a coisa
de significativo, pelo menos, foi aprendido sôbre os efeitos de
certos tipos de m ensagens em situações específicas e controladas
— como, por exem plo, as tentativas de mover as pessoas através
de m ensagens atem orizantes, freqüentem ente faz apenas com
que elas evitem tais mensagens.
258 O CONTROLE DA MENTE

O progresso m ais im portan te talvez seja o obtido n a área


em que a m atem ática e a com unicação se encontram — na
teoria da inform ação, n a arm azenagem e lem brança d a infor­
m ação e na análise geral e ráp id a de dados. T u d o isso per­
m itiu utilização notável de um m odesto increm ento do conhe­
cim ento fundam ental. (E significou também, naturalm ente, o
aparecim ento de um grupo de subespecialistas em com unica­
ções que dificilm ente consegue comunicar-se com quem quer
que seja.) O artifício habitualm ente denom inado de “m á­
qu in a do povo” do Sr. Kennedy é um bom exem plo dêsse casa­
m ento entre a m atem ática e a m áquina. Consiste, na reali­
dade, de um sistem a de arquivam ento m aciço de centenas de
m ilhares de entrevistas, um a form a de consultar a opinião pú­
blica passada sôbre m uitos problem as. D entro dêsse contexto,
o progresso é de grande im portância. As previsões passaram
a ter m elhor base no conhecim ento, a síntese de possíveis rea­
ções pode considerar um núm ero m aior de variáveis e o pre-
visor — que é um homem, ou um grupo de homens — está
m elhor equipado que antes p ara seu ato de fé. M as continua
ain da sendo um ato de fé — estam os a longa distância d a “p a ­
tologia social” que R u d o lf Virchow ju lgava ver do auge do
entusiasm o do século X I X n a confiança da ciência.
O sum ário das dim ensões de nosso conhecim ento foi esta­
belecido por Jo sep h K lap p er n um livro recente, denom inado
The Effects of Mass Communications. Êsse volum e é um exam e
sucinto da m elhor pesquisa realizada até hoje, ou, como diz
seu subtítulo, “ a eficiência e lim itações dos m eios de com uni­
cação em influenciar opiniões, valôres e com portam ento do
pú b lico”. N a term inologia da literatura m édica, é um a expo­
sição com a extensão de um livro e de q u alid ad e excelente.
K lapp er não se refere aos cinco pontos que apresentam os
como sum ário, mas sim a um a série de generalizações sôbre o
assunto. Com o generalizações são extraídas de pesquisas, m as
tam bém incluem um pouco de síntese e um a intuição bem
fundada. K lap p er as considera como “ tentativas de explicar
a ordem das verificações obtidas pela pesquisa” . Por êsse m o­
tivo, parecem-me constituir um a análise particularm ente lú ­
cida d a situação nesse setor. São as seguintes (1):
1) A s c o m u n ic a ç õ e s d a m a s s a h a b i t u a lm e n t e n ã o se rv e m c o m o c a u s
n e c e s s á r ia e s u f ic ie n t e d o s e fe ito s s o fr id o s p e lo p ú b lic o , m a s a n t e s c o m o
fu n ç õ e s em. m e io e a t r a v é s d e u m a c o n e x ã o d e fa t o r e s e in flu ê n c ia s .
O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 259

2) Ê sse s fa t ô r e s s ã o t a is q u e t ip ic a m e n te fa z e m d a s c o m u n ic a ç õ e s
d a m a s s a u m a g e n te a u x i li a r , m a s n ã o a c a u s a ú n ic a , n u m p r o c e sso d e
r e fo r ç a r a s c o n d iç õ e s e x is te n te s . ( Q u a lq u e r q u e s e ja a c o n d iç ã o e m q u e s ­
tã o — in te n ç õ e s e le it o r a is d o p ú b lic o , s u a t e n d ê n c ia c o n tr a o u a f a v o r d o
c o m p o r t a m e n to d e lin q ü e n t e , s u a o r ie n t a ç ã o g e r a l p a r a a v id a e s e u s p r o ­
b le m a s — n ã o o b s ta n te s e ja o e fe it o e m q u e s t ã o so c ia l o u in d iv id u a l, o s
m e io s d e c o m u n ic a ç ã o p r o v à v e lm e n t e m a is os r e fo r ç a r ã o d o q u e m o d i­
fic a r ã o .)
3) Q u a n d o a s c o m u n ic a ç õ e s d a m a s s a f u n c io n a m a se rv iç o d a m o d i­
fic a ç ã o , u m a d a s d u a s c o n d iç õ e s e x i s t i r á p r o v à v e lm e n t e :
a) o s fa t ô r e s m e d ia d o r e s s e r ã o i n o p e r a n te s e o e fe it o d o s m e io s d e
c o m u n ic a ç ã o s e r á ................d ir e t o , o u
b ) o s fa t ô r e s m e d ia d o r e s q u e n o r m a lm e n t e fa v o r e c e m o r e fô r ç o ...
. . . e s t a r ã o , ê le s m e sm o s, p r o v o c a n d o u m a m o d ific a ç ã o .

4) H á c e r t a s s itu a ç õ e s r e m a n e sc e n t e s e m q u e a c o m u n ic a ç ã o d a m a s s a
p a r e c e p r o d u z ir e fe ito s d ir e t o s , o u r e a liz a r d ir e t a m e n t e , e p o r si m e s m a ,
c e r ta s fu n ç õ e s p s ic o fís ic a s .
5) A e fic á c ia d a c o m u n ic a ç ã o d a m a s s a , s e ja c o m o a g e n te a u x i l i a r
o u co m o a g e n te d e e fe it o d ir e t o , é a f e t a d a p e lo s v á r io s a s p e c t o s d o s m e io s
e d a c o m u n ic a ç ã o e m si m e s m a , o u d a s it u a ç ã o em q u e se fa z a c o m u n i­
c a ç ã o (in c lu s iv e , p o r e x e m p lo , a s p e c to s d e o r g a n iz a ç ã o t e x t u a l, a n a t u ­
re z a d a f o n te e d o m e io d e c o m u n ic a ç ã o , o c lim a d e o p i n i ã o p ú b lic a
e x is te n te , e o u t r o s s e m e lh a n te s ).

N ão parece haver necessidade de cometer a m odéstia ou


hum ildade dessas conclusões. Os lucros foram pequenos, mas
sua acum ulação foi considerável. T alvez os pesquisadores da
psicofarm acologia possam sugerir novos caminhos. Espero não
parecer grosseiro, m as apenas antiquado, ao dizer que vejo
com certo tem or a possibilidade de um a bom ba de clorproma-
zina. T alv ez a de hidrogênio fosse m elhor.
E nquan to isso, devemos continuar agindo; devemos atacar
o problem a d a educação política que temos à frente. Com isso,
seremos constantem ente lem brados de alguns aspectos fun da­
m entais bastante óbvios p ara serem considerados como frutos
da pesquisa. A dem ais, tais aspectos condicionam toda a pes­
q u isa sôbre a in fluên cia e prop agan da política, e sua com­
preensão é o prim eiro passo p ara a sofisticação.
O prim eiro aspecto fundam ental é a ligação inevitável
entre o que poderem os cham ar de fatos e sua exploração com
objetivos políticos. T o m an d o um exem plo evidente, o esforço
dos Estados U n idos p ara convencer politicam ente as nações
african as e asiáticas tem de enfrentar o fato de que êste país
tem um a h istória de atitudes de discrim inação contra os ne­
260 O CONTROLE DA MENTE

gros. O orador m ais habilidoso não pode n eutralizar êsse fato


p ara as pessoas de côr em outros países, ou fazê-las acreditar
que isso não tem im portância. Podem os procurar, com m ais
êxito, m ostrar as perspectivas favoráveis e esperar pelos efeitos
do tem po e da inconstância da m em ória. Podem os beneficiar-
nos a custa de outros, como os episódios ocorridos n a Á frica
do Sul, p ara dem onstrar que a situação não é exclusivam ente
am ericana — pelo menos, até que alguém tente integrar outra
escola em New O rleans. M as devemos com eçar com o fato de
que a situação existe.
É m ais ou m enos o que acontece aos soviéticos, que têm
de viver com o fato d a supressão da H ungria. As circuns­
tâncias variam um pouco, no caso. Com o têm o controle com ­
pleto dos canais form ais da divulgação de inform ação em seu
país e nos satélites, os soviéticos puderam im pedir que os deta­
lhes d a história atingissem pelo menos seu próprio povo, pelo
menos durante algum tem po. A verdade, porém , acaba sur­
gindo, e as ficções que êles se em penharam em fazer crer —
como a independência da T checo-Êslováquia e d a A lb ân ia —
continuam ficções.
T ô d a grande potência n acional tem um verdadeiro catá­
logo de fatos que provocaram o ódio e a desconfiança de
outras nações, bem como um a lista do que a faz respeitada e
copiada. Q uanto m aior a potência, m ais extensas e dram áti­
cas são essas relações.
É dêsses acontecimentos, dessas atitudes, das reputações
assim firm adas, que trabalham os incum bidos da educação
política, da persuasão ou da propagan da. A p rop agan da eficaz,
n a realidade, podería ser considerada como a arte de explorar
ou reduzir os fatos em questão. U m acontecim ento que se de­
senrola no m om ento em que êste trabalho era preparado m os­
trava os soviéticos agindo d a form a clássica. U m a inform ação
oriun da dos Estados U n idos insinuava que Israel estaria prepa­
rando, com a aju d a francesa, um a arm a atôm ica. O s Estados
U nidos expressaram sua preocupação e pediram inform ações. Os
soviéticos exploraram o fato em várias direções sim ultâneam en­
te — para estim ular o alarm a e a beligerância entre os árabes,
para sugerir a Israel que os Estados U nidos estavam interfe­
rindo em seus negócios internos, e aos franceses que um pre­
sum ido aliado, sempre altivo, os estava insultando diretam ente.
T o d as essas explorações tiveram, em proporções variadas, certo
O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 261

êxito. M as nenhum a delas teria sido possível sem a realidade


ou, pelo m enos nesse caso, sem um fac-símile convincente da
realidade.
U m aspecto dessa relação entre a realidade e o efeito merece
com entário. A realidade pode ser deform ada por um a m entira,
mas só tem grande efeito quando a m entira é tom ada pela
realidade. U m a das prim eiras e m ais conhecidas pesquisas
sôbre os efeitos d a com unicação da m assa (2) se refere à adap­
tação radiofôn ica feita por Orson W elles de um a história de
H . G . W ells, q u e levou os cidadãos m ais im pulsivos do Con-
necticut às ruas com suas espingardas p ara com bater um a
invasão por M arte. E ra, naturalm ente, um a ficção, e se o fato
tivesse sido claram ente com preendido o pânico não teria ocor­
rido. M as o ponto é irrelevante: o que produziu o pânico foi,
na realidade, um a invasão por M arte, e num certo sentido o que
o Sr. C an trill estudava não era o rádio, como arm a psicoló­
gica, m as a variedade de m odos pelos quais as pessoas podem
reagir a um a tal invasão. A m entira cuidadosam ente elabo­
rada, grande ou pequena, tem sido de grande im portância na
persuasão e controle político, m as su a utilização efetiva deve
seguir m ais ou menos as mesmas regras da exploração dos
fatos.
A questão da m entira nos leva ao segundo dêsses aspectos
contextuais fundam entais. H abitualm ente, há um inevitável
contexto m oral dentro do qu al se faz a tentativa de exercer
influência. N ão me refiro ao vago horror que certo tipo de
hum anistas profissionais sente à sim ples idéia da persuasão
calculada, m as aos problem as práticos da decisão. Suponh a­
mos, por exem plo, que o govêrno dos Estados U nidos saiba que
a in tran qüilid ade está chegando ao ponto explosivo nalgum
país da órbita soviética. A inform ação falsa de um choque e
a prom essa de aju d a im ediata aos rebeldes, no caso de um a
revolta, seriam bastante p ara provocar a explosão. Essa revolta
seria um a gran de vantagem p ara os Estados Unidos, pois cus­
taria aos soviéticos um satélite ou os obrigaria a usar a fôrça,
o que in dign aria o resto do m undo. De qualquer form a, os
Estados U n idos teriam a ganh ar — pelo menos, em têrmos ime­
diatos. M as ganh ariam sacrificando m ilhares de pessoas, que
m orreríam p ara p ossibilitar um golpe de propaganda. N ão
seria um preço excessivo ? A resposta não se encontra na pes­
qu isa, é essencialm ente um a questão de m oral. E questão de
m oral, em bora m u ito m enos evidente, é o seguinte exem plo:
262 O CONTROLE DA MENTE

como a aceitação p ú b lica é cada vez mais im portante para a


adoção de um a política externa (vejam-se, por exem plo, os pro­
nunciam entos determ inados pelo interêsse do consum idor norte-
-americano, feitos pelos Estados U nidos, no caso de Suez), até
onde deveria ir nosso govêrno n a tentativa de convencer seus
cidadãos de que um regim e au toritário no exterior serve a
nossos interêsses, suprim in do os comunistas, se conform a com
a nossa im agem de um govêrno legal ? A pergun ta parece
retórica, mas não tem essa intenção. Evidentem ente, várias res­
postas serão dadas. U m delas poderia ser a afirm ação de que
os Estados U nidos não devem apoiar o Estado policial em
nenhum a de suas form as. T a l decisão teria bases evidente­
m ente m orais. O utra solução possível seria m entir, procurando
convencer os am ericanos e o resto do m undo que tal regim e
é na verdade fiel aos conceitos ocidentais e tradicionais da
dem ocracia. T am b ém essa decisão se faria dentro de um
contexto m oral, em bora menos total do que o anterior. A vio­
lação da m oralidade convencional na dissem inação de um a
m entira seria ju stificad a p ela alegação de que a necessidade é
extrem a e im ediata, e que a oposição faz coisas piores diària-
mente. U m a terceira possibilidade seria a de um a decisão o
m ais distante possível do contexto m oral, algo assim como:
“ Precisam os dêsse sujeito; vam os usá-lo o m ais discretam ente
possível, e não falar nem pensar nêle.” M as — e os senhores
m e perdoarão pelo que, em m inhas palavras, lhes possa lem ­
brar a lógica elem entar apren did a na escola — a tentativa de
um a decisão sem elhante fora do contexto m oral é, em si, um a
questão de m oralidade. N as questões que afetam a persuasão
e o controle da mente, as únicas decisões que podem ser to­
m adas em bases am orais são as pequenas decisões.
N em a ciência nem o cientificism o pode proporcion ar
um a saída. O cientista freqüentem ente se declara desinteressado
dessas questões e terá suas razões p ara isso. A difícil acum ula­
ção do conhecimento já constitui um a obrigação suficiente
para qualqu er homem, e por vêzes ela se pode fazer num con­
texto am oral — ao qual, de form a bastante interessante, o ad je­
tivo “p u ro ” é por vêzes aplicado. Os grandes problem as sur­
gem quand o o conhecimento tem de ser aplicado a algo além
dos objetivos im ediatos e pragm áticos. O cientista pode de-
clarar-se desinteressado e continuar sendo um homem excep­
cionalm ente útil, e a sociedade lhe será grata. Será ain da m ais
grata, porém , quando êle se decide a participar.
O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 263

H á ligações íntim as entre a m oralidade e os objetivos


sociais, e entre êsses dois e as questões políticas, e ain da entre
todos êles e a educação política, tal como a concebemos aqui.
H á indícios de que nosso m aior problem a futuro na edu­
cação política estará no fortalecim ento de nossas próprias ins­
tituições. Precisam os de m ais vitalidade política, de direção
m ais específica, de um a m oralidade política m ais claram ente
definida. Essas coisas poderão ser consideradas boas em si
mesmas, m as há ain da razões funcionais p ara sua justificativas.
Se nos preocupam os em in fluir no desenvolvimento político
das novas nações, se nos em penham os na difusão daquilo que
acreditam os ser o ideal dem ocrático, necessitamos de objetivos
e com promissos políticos m ais claros. U m a coisa que tem sido
repetidam ente dem onstrada na pesquisa das comunicações é
que o específico é m ais fàcilm ente com preendido do que o
geral, e a idéia precisa é transferida de um a mente para outra
com m ais facilidade que a idéia vaga. Q uanto mais claros “os
com prom issos dos Estados Unidos, m ais compreensíveis serão
p ara o resto do m undo e p ara seus próprios cidadãos.
Infelizm ente, isso significa algo m ais do que sim plesm ente
traçar um a lista de frases sedutoras p ara serem traduzidas com
a m esm a facilidade em aram aico e urdu. A participação de
grande parte da sociedade é necessária, porque, se a sociedade
tem atitudes que contradizem as afirm ações de seus propagan-
distas, o povo com m ais facilidade acredita no ato do que na
afirm ação. Isso parece deixar-nos a noção evangèlicam ente
sim ples de qu e a única form a de m elhorar nossa persuasão po­
lítica é m elhorar a sociedade, pelo menos em sua política.
E isso talvez esteja agora fora de nosso alcance, ou de
q u alq u er dem ocracia ocidental industrializada. Como m uitos
autores assinalaram , não temos m ais nenhum entusiasm o pro­
fundo pelo tipo de debate de problem a contra problem a, ética
contra ética, q u e faz os m issionários, que faz o povo tom ar
partido, e term ina com um com promisso nacional. O últim o
desses debates foi talvez o que focalizou o chamado “isolacio-
n ism o” . Isso, há vinte anos. Desde então, temos evidenciado
pouca disposição de discutir. A inda temos valores morais, um a
espécie de diluição autoconsciente da ética protestante, mas
tais valores parecem , com m ais freqüêcia, um a relação de
coisas que não devem ser feitas — êles não nos im pulsionam
para a frente. T em os evidentemente um grande consenso
264 O CONTROLE DA MENTE

q u an to às circunstâncias gerais em qu e desejam os viver, m as


isso não constitui u m a idéia clara dos objetivos nacionais.
T em os problem as m an ufaturados, e com certos indícios de ten­
são, nas cam panhas eleitorais, m as os candidatos e seus estra­
tegistas devem adm irar-se de que alguém os esteja ouvindo.
Sou um leitor cuidadoso de The Guardian (o antigo
Manchester Guardian) e a prin cip al razão disso é que as 1 000
ou 1 500 palavras dedicadas às questões norte-am ericanas cada
sem ana freqüentem ente me parecem m ais sensatas do que o
núm ero correspondente de páginas de nossas publicações. H á
momentos, porém , em que The Guardian parece espetacular­
m ente desligado da realidade, como ocorreu p or exem plo com
um editorial escrito pouco depois da eleição de Kennedy (e
significativam ente escrito em M anchester, e não por um cor­
respondente do jo rn al nesta região). O artigo se ocupa­
va do m andato de Kennedy, regozijando-se com o fato de terem
os am ericanos escolhido a N ova Fronteira. N ão im porta que
a vitória fôsse apertada, dizia The Guardian, pois na realidade
o povo, esfregando as m ãos ju n to dêsse fogo reanim ado, re­
jeito u sua curiosa passividade dos últim os anos, e os Estados
U nidos vão, novam ente, agir. E m outras palavras, os edito-
rialistas acreditavam qu e os am ericanos haviam votado princi­
palm ente nas idéias qu e Kennedy expressara em seus discursos.
H á algo de m aravilhosam ente infantil nisso e seria m uito de
desejar que a política am ericana ain da funcionasse dessa form a.
M as não funciona, ao que tudo indica. A análise dos re­
sultados de novem bro de 1960 começou quase sim ultâneam ente
com as prim eiras notícias d a votação. D uran te a noite, os p ro ­
fundos pensadores oficiais da televisão falaram de votos rurais
e urbanos, e, um pouco m ais cautelosam ente, dos votos dos
negros e dos católicos. E u, pelo menos, n ão me lem bro de um a
única palavra sobre o program a do candidato. Desde a eleição,
a organização G allu p em itiu um a série de inform es sôbre o com ­
portam ento eleitoral de m uitos grupos. N enhum dêsses in for­
mes se referiu à aprovação ou rejeição dos program as de ne­
nhum dos candidatos.
Isso não equivale a dizer que pesquisas ain da não divul­
gadas não possam in dicar algo sôbre a im portância dos pro­
blem as. N em que os candidatos se desinteressaram pela luta
de idéias, nem que realm ente, em retrospecto, esta cam panha
tenha apresentado pelo menos um a distância m aior, em seus
n IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 265

iiN|Kí<:tos fundamentais, das campanhas de 1948, 1952 e 1956. O


ponto interessante é que ninguém parece mesmo considerar a
possibilidade de que a Nova Fronteira ou a velha tenha qual­
quer coisa a ver com o resultado.
A falta de diferença real entre os partidos políticos am e­
ricanos é um velho m otivo de hum or, e parece haver um a cres­
cente tendência d a natureza em im itar a arte. A p olítica na
Inglaterra se vem revestindo tam bém da m esm a aparência,
r creio ver indícios disso nos com entários britânicos sobre a
divisão dentro d o p artido trabalhista, n a questão do desar­
m amento unilateral. F ora do grupo de Cousin e Foot, h á evi­
dentemente pouco debate sobre o desarm am ento u nilateral
como política n acional — m as há um a grande discussão sobre
as conseqüências dêsse problem a p ara o partido trabalhista e
para a política britânica em geral. O leitor despreocupado dos
jorn ais inglêses se sente tentado a generalizar, afirm ando que
mais palavras foram escritas durante os últim os seis meses
sôbre a questão do controle sindical d a delegação parlam entar
irabalhista, do que sobre as conseqüências da renúncia às
arm as atôm icas p ela G rã-Bretanha. E nquan to isso, a distân­
cia intelectual entre os trabalhistas e os conservadores dim in u i
cada vez m ais. E se torna tam bém cada vez m ais difícil ver
uma alternativa p ara o degaullism o, ou o que seria dos social-
dcm ocratas se batessem A denauer.
As questões políticas básicas já não nos entusiasm am m uito,
no Ocidente, e particularm ente nos Estados Unidos. Isso é
sem dúvida um a sim plificação, e deveriam os suspeitar dela,
apesar de nos ser tão fam iliar (travei contacto com ela quando
a biblioteca p ública de m inha pequena cidade de Kansas com­
prou um exem plar de Oswald Spengler). A lgum as das distin­
ções se apagam inevitàvelm ente qu an d o são decididas as gran ­
des questões políticas: os derrotados se aproxim am das coisas
que deram a vitória aos vencedores. O u talvez exista um ciclo
(seria possível argum entar a favor de um círculo completo
desde a época Sp en gler), e o Senador Goldw ater é o pri­
m eiro item lançado p ela onda do futuro. H á razões igual­
m ente convincentes, porém , p ara acreditarm os que as dem ocra­
cias altam ente industrializadas chegaram a um planalto no
q u al os im pulsos básicos em favor da m odificação desaparece­
ram porqu e já n ão podem os im aginar um a sociedade m uito
m elhor do que esta. T alvez estejam os num a espécie de arm adi­
266 O CONTROLE DA MENTE

lha de veludo, de que nenhum a sociedade pruden te desejaria es­


capar. T em os, nos Estados U nidos, um a liberdade notável como
indivíduos, e estam os isentos do govêrno autoritário. T em os
um nível de conforto pessoal da m aioria d a população que vai
além dos sonhos do século X IX . T em os um a sociedade que
está longe de ser sem classes, m as n a q u al um alto grau de
m obilidade e m ovim ento de classe a classe é possível. A fir­
ma-se constantem ente que somos frouxos, m aterialistas, que
nos faltam idéias, m as p ara que sermos duros ? Q uais os ideais
bastante universais p ara nos com overem ? A injustiça, o so­
frim ento, a pobreza continuam existindo, em pequenas doses; e
não são tão esm agadores que sua visão se torne intolerável.
(Indagam os, incidentalm ente, se parte do declínio da q u ali­
dade, bem como da quantidade, dos estudantes de m edicina
não será atribuível à convicção de que as grandes batalh as já
foram vencidas.)
A vida que levamos como m em bros desta sociedade repre­
senta o resultado d o ilum inism o e do aparecim ento do racio-
nalism o e secularism o que o acom panharam . R epresenta tam ­
bém um a realização notável, quan d o exam in ada sob perspec­
tiva. N o que se relaciona com o bom govêrno dos homens,
nossa situação é m uito sem elhante à im aginada pelos homens
do século X V III, arm ados com as novas ferram entas intelec­
tuais e um grande evangelism o secular. Q uando os desencan­
tados nos pressionam p ara avançarm os, somos como crianças
que, tendo saciado a fome, ouvem a recom endação de lim par
os pratos porque os pratos vazios são bonitos. Q uando nos
dizem que a satisfação é um a ilusão e a com ida é falsa, respon­
demos tranqüilam ente que parece atender às finalidade dos
homens e culturas em toda parte. Os m uçulm anos aspiram
canetas esferográficas, Chevrolets e m onogam ia; e até mesmo
os m arxistas chineses, cujo sistem a de valores é o mais diam e­
tralm ente oposto ao nosso, medem suas realizações pelos nossos
padrões — alcançar os ingleses em cinco anos e os am ericanos
em dez.
N ão se trata de um a situação em que se criem questões
políticas de significação. N um a frase de um novo livro de D a­
niel Bell (3) que focaliza detalhadam ente esses problem as, ela
significa o fim de um a ideologia. O problem a de como rom ­
per êsse torpor agradável cria questões subsidiárias de consi­
derável atualidade, com eçando com esta: por que tentar ? N ão
é isso que estávamos querendo ?
O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 267

E a resposta in icial é, pelo menos, que estamos obrigados


a isso. O sistem a que representa o m aior rival p ara a demo*
cracia ocidental tem sua energia provocada pelos m ilhões, li­
teralmente, de pessoas ain da fam intas, passando frio, e doen­
tes, p ara as quais o argum ento da fom e tem ain da um apelo
irresistível. T a l sistema, ou am ontoados frouxos de sistemas,
pode esmagar-nos — ou, nas palavras de um dos nossos críticos
m ais destacados, enterrar-nos.
O utra parte da resposta está no fato de ser relativam ente
fácil convencer pessoas a aban don ar opiniões não m uito enrai­
zadas. É um truísm o das pesquisas de comunicações que as
opiniões superficiais podem ser freqüentem ente m odificadas,
ao passo que as paixões profundas jam ais, ou quase nunca, o
são. À m edida que aum enta nossa falta de preocupação com
o aparato intelectual e espiritual que produziu esta sociedade,
nossa vulnerabilidade à persuasão em benefício de outros sis­
temas aum enta. O sistem a dem ocrático necessita d o exercício
da dialética. Teve-o outrora, e com isso dom inou o m undo
ocidental.
Estas são respostas parciais, pois as respostas funcionais
têm de vir de um a participação da totalidade do povo. Elas
representam o aguçam ento do sentido de finalidade, valôres e
objetivos nacionais. E como esta reunião não tem por tema a
fin alidade nacional, será conveniente adotarm os aq u i o ponto
de vista im ediato e clínico — o estabelecim ento de um estado
de alerta. A tarefa im ediata da educação política através das
comunições em m assa deve ser o desenvolvimento de um a vida
política m ais an im ada e um senso m ais profundo de partici­
pação.
É essa a precondição p ara m elhorar o que já temos, para
nos protegerm os, ou enfrentarm os o Arm agedon. Pode haver
algum a coisa de surpreendente na idéia de que a m aior neces­
sidade d a educação política não está na conquista dos povos
não-com prom etidos, ou no que quer que se entenda pela frase
gran diosa “a b atalh a pela m ente dos homens”, mas em m elho­
rar nossa p róp ria participação n aquilo que já temos. M as o
sentim ento de surprêsa é um excelente exem plo da sintom a­
tologia da aflição.
D espertar novas preocupações é cada vez mais difícil. O
conforto contribui p ara essa dificuldade, bem como o meio
cheio de diversões engenhosas quç tornam possívçl m anter a
268 O CONTROLE DA MENTE

espírito ocupado com o trivial durante todo o dia. O mesmo


ocorre com alguns dos instrum entos que teremos de aprender
a usar com m ais eficiência. Com o um único e sim ples exem ­
plo, tomemos um aspecto da televisão como um fator na vida
política. A idéia de confrontos, frente a frente, dos candidatos
a presidente, em condições que os colocam pràticam ente ao
lado de tôda a população, é em ocionante até mesmo p ara a
im aginação m ais prosaica. M as êsse confronto pode represen­
tar m ais um a corrupção do que um fortalecim ento da partici­
pação política. A pesquisa tem m ostrado repetidam ente que a
com unicação frente a frente é a m ais eficiente; mas, o vídeo
da televisão dá um a reprodução enganosa d a situação frente
a frente, o que significa que o espectador pode reagir em têr-
mos de sua quím ica pessoal. E certas pessoas são m uito m ais
sim páticas do qu e outras na televisão: as idiossincrasias pessoais
sem im portância podem adqu irir grande influência. É possí­
vel, por isso, que m uita gente em novem bro tivesse votado no
sorriso de Kennedy ou contra seu sotaque de M assachusetts.
O u votado no hábito que tem N ixon de dizer “permitam-me
deixar isso claro como o cristal” ao abordar um tem a que com
tôda objetividade ap artid ária podería n ão ser exatam ente
claro, ou contra sua aparên cia cansada no prim eiro debate. A
idéia de que a presidência possa ter sido decidida por ju lg a ­
m entos cum ulativos sobre tais tolices é confrangedora, m as a
possibilidade é real. H á pesquisas que sugerem ter a influên­
cia do Senador M cCarthy com eçado a declinar com a trans­
m issão, pela televisão, das audiências do Senado, porque o
público sentia que um hom em como Jo sep h W elch não podia
representar senão as fôrças do bem.
Êsse processo de form ação de atitude era quase im possí­
vel há cem anos. O eleitor de 1860, p a ra pensar além do seu
m eio geográfico e da herança fam iliar, era obrigado a voltar-se
p ara a secessão ou a escravidão. Sua im pressão dos candidatos
com o personalidades era necessàriam ente tão vaga — e tão fà-
cilm ente m an ipulad a pelos partidários dêsses — que a quím ica
pessoal se tornava inútil. Fazer com que votemos pelo ju lg a ­
m ento analítico, e não pela reação às sardas de alguém , é evi­
dentem ente a responsabilidade de nossa educação política no
futuro. E é tam bém um item num a lista longa e com plexa.
Creio que o trabalho mais útil, num a reunião como esta,
é o qu e revela inform ações novas e significativas resultantes de
O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 269

um a pesquisa cuidadosa, e talvez seja a esperança dessas in­


formações que despertou tanto interêsse por êste sim pósio. H á
uma segunda ordem de utilid ade no exame m etódico e no
sum ário do m aterial já conhecido. O nível seguinte, em ordem
decrescente de im portância, é a discussão que não traz n ada
de novo como inform ação, mas que focaliza problem as e pede
mais pesquisas e m ais exames. H á outros níveis, de certo, m as
eu gostaria de, ao encerrar, colocar êste m onólogo n aquela m o­
desta terceira categoria. Para fortalecerm os a participação de
nossa sociedade na vida política, precisam os pesquisar a epis-
tem ologia e din âm ica d a persuasão da massa, através d a com u­
nicação da massa. Precisam os encontrar m ais respostas e desen­
volver novas técnicas.
Assim , por exem plo, comprovou-se pela investigação que o
debate político tende a se fazer principalm ente ao longo de
linhas sim páticas, partidárias. O s dem ocratas conversam com
os dem ocratas, os republicanos falam aos republicanos, em
orgias de reforço. Com o fazer p ara desenvolvermos um a análise
m ais real e in dividu al dos problem as e can d id atos?
H á certos indícios, e m u ita teoria, de que a com unicação
de m assa in fluen cia em duas etapas — ou seja, influencia certas
pessoas-chave, centenas de m ilhares delas talvez, que por sua
vez influenciam o resto. H á provas razoàvelmente convincen­
tes de que líderes da opinião estão m ais expostos aos meios de
com unicação da m assa: são ouvintes, leitores, espectadores mais
freqüentem ente. M as como se utilizam dessa experiência adi­
cional, de qu e form a se pode levá-los a utilizá-la m ais efeti­
vam ente ? H á provas de seu papel, freqüentem ente crítico, na
m odificação d a op in ião ou num movimento que leva à ação
— m as q u al a sua capacidade no outro sentido, de resistir à
m odificação ?
H á m uitas provas experim entais de que a inform ação
pode ser transm itida sem que se m odifiquem atitudes, mesmo
q u an d o seu objetivo é modificá-las. Que influência tem isso
sobre a velha noção de que a dem ocracia funciona m elhor
quando o povo conhece os fatos e form ula sôbre êles sua opi­
nião p róp ria ?
H á m ostras de que em certos assuntos basta que o indi­
víduo receba determ inado volum e de inform ação para se sen­
tir bem inform ado, sem levar em conta o conteúdo da infor­
m ação. Os estudantes estrangeiros que vêm aós Estados U n i­
270 O CONTROLE DA MENTE

dos, por exem plo, freqüentem ente declaram que não fizeram
qu alq u er esfôrço particular p ara ad q u irir inform ações sobre
o país, po rq u e já o conheciam bem, através do cinem a e de
suas publicações — quand o tal m aterial na realidade nenhum a
relação tem com o que os estudantes precisam conhecer fun ­
cionalm ente. O correrá o mesmo em relação à exposição aos
discursos políticos ? Se ocorrer, que podem os fazer q u an to a
isso ?
H á centenas de perguntas semelhantes, as quais a inves­
tigação sistem ática pode d ar respostas, que por sua vez pro­
vocarão um a indagação ain da m aior: como colocar em funcio­
nam ento esse conhecim ento num sistem a de com unicação d a
m assa que está, em sua m aior parte, nas mãos particulares e é
operado principalm ente p ara lucro ?
N em todos concordarão com esta op in ião sobre os possí­
veis frutos da pesquisa, como alguns dos senhores sabem. D e
m eia duzia dos hom ens que se distinguiram na curta história
das pesquisas da com unicações da m assa, um a abandonou,
considerando-a m orta. Ju lg a que seus conceitos se colocaram
num planalto estéril há vários anos, que a m aioria de seus
m étodos não passa de um a pretensão. A m aioria dos que
realizam pesquisas em comunicações, ou se valem de seus re­
sultados, discorda dêle. M as sua dram ática retirada teve um a
finalidade. Indiretam ente, cham ou a atenção p ara o fato de
ser ridiculam ente evidente que a com unicação se faz sem pre
em torno de alguma coisa, e, na m aioria dos casos em q u e ela
tem um significado real, é essa coisa que tem im portância, e
não os detalhes da transm issão e recepção. M uitas das pesqu i­
sas do com portam ento procuram com preensivelm ente lim itar
as áreas de investigação a proporções praticáveis. N o passado,
freqüentem ente essa lim itação chegou ao ponto de considerar
o conteúdo apenas um a variável e o contexto algo que se pode
ignorar porque não figura nos côm putos.
H á indícios de descontentam ento geral com essa form a de
trabalho no cam po do estudo do com portam ento. O casional­
mente, encontram os algum pesquisador social desencantado,
que desoladam ente se classifica como m em bro da escola dos
“valores aparentes” — ou seja, quan d o fazemos um a pergunta,
acreditam os na resposta que nos dão. A som bria p aixão pela
quantidade, que atin giu o ponto em que todo elemento pos­
sível era reduzido a núm eros e o que restava era considerado
O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 271

como estrutura teórica e posto em equação, parece estar desa­


parecendo. E até mesmo o pesquisador m ais rotineiro está
começando a perceber que dizer que um homem “se orienta
no sentido dos sím bolos” ou é “lim itado pela cultura” não
constitui necessàriam ente um a descrição com pleta de seus m o­
tivos e interêsses, ou a explicação de seus atos e palavras. Pode
haver mesmo o sentim ento de existir algo m ais im portante do
que o m étodo, m ais significativo do que os dados em tôda
ciência que tem como m atéria básica o organism o hum ano. É
sem dúvida um velho refrão hum anista, m as talvez tenhamos
finalm ente aprendido o bastante p ara saber o que ele quer
dizer.
Para desenvolver um a form a de vida m ais exigente para
esta sociedade, o que estamos aprendendo sôbre a form ação
e m odificação de atitude, sôbre o que persuade e o que é re­
jeitado, será im portante. M as conceito de nós mesmos num
contexto m undial, nossas intenções e nossas ações serão m ais
im portantes. É de esperar que essas coisas se intensificarão com
a aju d a de novos conhecimentos, que terão de ser proporcio­
nados, porém , por um tipo especial de homem, hoje raro: o
cientista-como-filósofo, ou pelo menos o cientista-como-mora-
lista.
T u d o isso nos levou bastante longe da im agem suscitada
pela expressão “controle d a m ente” . É agradável, pelo menos
para mim, que assim tenha sido, porque “contrôle” suben­
tende a elim inação dos im ponderáveis e desconhecidos. Se e
q u an d o êstes forem reduzidos à insignificância em nosso enten­
dim ento do homem, a dinâm ica de nossa vida intelectual será
tão enfraquecida quanto o são os problem as políticos num a
sociedade que vive no conforto. Sob êsse aspecto, a caça pode
ser m ais im portante do que a prêsa, e os desconhecidos ainda
nos podem salvar.

REFER ÊN CIA S

(1) K lapper J . T . , The Effects of Mass Communications. G le n c o e , 111., T h e


F r e e P r e s s , 1 960, p á g . 8.
(2) Cantrill, H ., The Invasion from Mars. P r in c e to n , N . J . , P r in c e to n
U n iv e r s it y P r e s s, 1940.
(3) Bell, D ., An End of Jdeology. G le n c o e , 111., T h e F r e e P r e ss, 1960.
H aro ld D . L a ssw ell

A Comunicação e a Mente

l~~^!i hábito hoje referirmo-nos à enor-


me rêde de instalações e atividades de jo rn al e televisão como
com unicação “da m assa” . H á alguns anos, cientistas e leigos
falavam dos meios de “opinião p ú b lica”, tendo como protó­
tipo, na im aginação, o jorn al opinativo. A passagem de “p ú ­
blico” p ara “m assa” reflete m ais do que a extensão d a palavra
alem ã para “m ultid ão” . Os alem ães tam bém falam de “p ú ­
b lico” e “opinião p ú b lica”. Em parte, a m odificação reflete
a agitação e p rop agan da dos ativistas políticos e, especialm ente
no cam po comuno-bolchevista, com a fin alid ad e de despertar
nas “m assas” a “verdadeira consciência de classe”. A transfe­
rência deve tam bém um pouco aos hom ens de negócios, que
aprenderam a usar os instrum entos proporcionados pela “re­
volução nas com unicações” p ara o im pacto da repetição sôbre
a propensão aquisitiva do consum idor. N a m ente dêsses co­
m unicadores m odernos surgiu a im agem do alvo dos m eios
de circulação da m assa como um homo sapiens padrão, cu ja
sapiência poderia ser seduzida pelas reiteradas declarações de
caráter utilitário em favor de credos ou m ercadorias.
Essa repetição freqüentem ente não consegue conquistar
adeptos nem influenciar clientes. T em os que levar em conta
o dinam ism o das pessoas, m esm o qu an d o elas são a m assa.
G oebbels não era o único a acreditar que a m aior capacidade
de m an ipulação era perceber o descontentam ento antes que êle
se revelasse, mesmo na consciência individual, e proporcionar-
lhe escoadouros em harm onia com os objetivos adm inistra­
tivos.
O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 273

O m odêlo estereotipado do hom em d a m assa expressou a


estim ativa am bivalente que o m an ipu lad or faz de si e de seu
objeto. Sua am bivalência tinha algum a coisa a ver com a im a­
gem que o escravo fazia do senhor, ao q u al controlava desco­
brindo-lhe o estado de ânim o antes que êsse se expressasse em
exigências concretas, ou a atitude d a m ulher ou m ãe arguta
que percebe a nota de fadiga, fom e ou irritação antes que seu
m arido ou filho lhe dê um a ordem . N ão é por acaso que
os m anipuladores evidenciam m uitos traços, como a em patia e
a sutileza em ocional, que definim os em nossa cultura outrora
“m asculin a” com o afem inados, ou pelo menos fracos.
Referim o-nos, n a realidade, ao caso particular do laço que
prende q u alq u er m an ipu lad or ao seu objeto. Ê le é lim itado,
até m esm o am eaçado, bem como facilitado pelas predisposi­
ções do com panheiro, seja êste homem, anim al ou coisa. B asta
pensar no im pacto do an im al de laboratório sôbre o cientista
(até mesmo aos m an eirism os); no escultor e seu m árm ore, m a­
deira ou plástico; no m ecânico e seu m otor; no planificador e
seu com putador. As m atrizes da interação são o homem-
-homem e homem-natureza; quand o os recursos naturais são
transform ados em m aterial cultural, temos, por exem plo, as
relações hom em -planta, homem-edifício, homem-instrumento e
hom em -m áquina, pares e m últiplos.
O ato d e in stigar a independência de um alvo desperta na
m ente do m an ip u lad or angústias profundas. N o objeto alvo
êle vê o ego com o podería ser, e, n a realidade, com o o nível
m ais íntim o de auto-estim ativa. E m certo sentido, tôda pessoa
é sem pre fraca, dependente e portan to sujeita à m anipulação.
Por isso, a “ an gústia da m an ip u lação” é o destino de todo
homem. N ossa civilização é um a cultura caracterizada pelas
angústias de m an ipulação de todos os que desem penham um
pap el profission al na estratégia, e dos m ilhões que percebem,
com graus diferentes de clareza, que constituem os alvos estra­
tégicos.
A im agem estereotipada do hom em da m assa foi, a prin ­
cípio, corroborada pelas m uitas características realistas da re­
volução das com unicações m odernas. A nova tecnologia na
realidade favoreceu a repetição e a parte estandardizada do
am biente de m ilhões de pessoas. A atenção dos habitantes de
N ova York ou Podunk foi, de certa form a, padronizada pelos
repetidos símbolos-chave, slogans e imagens. Os fabricantes
274 O CONTROLE DA MENTE

e distribuidores se lançaram em todas as direções, através dêsses


novos canais, p ara am p liar seus mercados territoriais. A an á­
lise confirm ou a interdependência de zonas de atenção, sen­
tim ento e opinião pública, e de áreas de atividade como mer­
cados e arenas. O público local verificou ser im possível não
p artilh ar das crenças, fidelidades e convicções das com unidades
m aiores. A participação se expressava pela opinião pública,
registrada em com prom issos partidários, ou de grupos de pres­
são, sobre problem as controversos.
O im pacto padronizador dos meios de com unicação foi
tão evidente que restrições im portantes foram ignoradas, ou
m anifestadas sotto voce. N ão obstante, lado a lado com os
meios de com unicação gerais, outras redes de divulgação se
foram organizando. T a is canais visavam não à com unidade em
sua totalidade, mas aos elementos constituintes dentro das
com unidades. M esmo um levantam ento superficial m ostra que
toda instituição social se reflete na im prensa especializada: a
política, a econômica, a religiosa, a educacional, a sanitária, a
fam iliar, a honorífica, a científica. Essas rêdes especiais bus­
cam as predisposições diversas encontradas em cada localidade.
Solapam a padronização da vida e perm item aos grupos e indi­
víduos locais encontrar outros com que p artilh ar valores, ne­
cessidades, esperanças e identidades. D aí o m édico num a aldeia
isolada poder manter-se em contacto com seus colegas, o clé­
rigo distante manter-se em contacto e continuar a especular
sobre questões teológicas, o banqueiro da cidadezinha poder
acom panhar tendências e considerar projeções que afetem o
m ercado local. Em princípio, o m undo sim bólico do m orador
dessa pequena cidade pode abranger o globo e penetrar no
espaço sideral. A generalização adequada seria a de que a
diversificação, e não a padronização, é o efeito líqu ido da re­
volução nas comunicações.
U m m om ento de reflexão nos sugere que deve algo a in da­
gar sobre êsse quadro. Pelo menos na atualidade, a mente do
homem dificilm ente escala as alturas da universalidade e da
diferenciação. N em o homem d a m assa parece ser tão recepti­
vam ente padronizado como a im agem origin al sugeria.
Com o explicar o fracasso dos processos de universalização
em atin gir realm ente a universalidade ? Explicam os a fôrça
dos fatores restritivos analisando a significação da form a pela
q u al os novos padrões são iniciados. Os padrões potencial­
O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 275

m ente universais têm um início p aroquial. Isso d á às confi­


gurações locais a possibilidade de lim itar um novo p ad rão ou
de facilitar-lhes a difusão. O resultado depende das expectati­
vas das vantagens líquidas nesses contextos.
Considerem os a tecnologia d as comunicações dêsse ponto
de vista. O tipo de im pressão móvel foi inventado na China
e introduzido na E u ro p a quando estávamos capacitados a se­
guir-lhe o curso subseqüente de difusão e restrição. O tipo
móvel possibilitou acelerar a produção de livros impressos, fo­
lhetos, panfletos e publicações periódicas. Os passos nessa di­
reção foram recebidos de form a diferente nos diversos meios
atingidos. Os escribas e ilustradores de m anuscritos freqüen-
temente consideravam a nova técnica como um a am eaça à h a­
bilidade m an ual nas artes de com unicação, e agiam de acôrdo
com essa opinião. A êles se uniam os conhecedores da arte,
que ridicularizavam a falta de gosto dos novos produtos. Os
negociantes, enfrentando a onda de anúncios de seus com pe­
tidores, podiam lam entar a inovação, em bora a contragosto
ajudassem sua difusão, fazendo êles tam bém anúncios. Perce­
bendo que as opiniões subversivas e as notícias inconvenientes
eram divulgadas na im prensa burguesa, os governantes lim i­
taram a liberdade com m edidas destinadas a m onopolizar ou
su jeitar o nôvo m eio de com unicação à censura rigorosa. As
autoridades eclesiásticas a prin cípio se afastaram da im prensa,
m as acabaram reconciliando-se com ela e a utilizando em obje­
tivos de p rop agan d a sagrada. As classes superiores lam enta­
ram o fato de as bibliotecas privadas se estarem tornando m ais
comuns, reduzindo com isso os privilégios de sua posição social.
Estudiosos, cientistas e médicos adotaram , com m aior ou
m enor rapidez, os novos m étodos de publicação, segundo as
necessidades da ilustração e da saúde. As fam ílias verificaram
que os laços do parentesco eram sutilm ente am eaçados pela
concorrência de pessoas e de grupos distantes, com os quais
seus filhos estabeleciam contacto em conseqüência do nôvo
m eio de com unicação. Em sum a, todos reagiam à inovação
introduzida paroquialm ente, adotando estratégias nas quais
se refletiam suas esperanças sobre o significado da inovação
em sua posição presente e futura, dentro das estruturas da
instituição de valores da sociedade. Isso é certo tanto ao fa­
larm os de valores e instituições econômicas, como de govêrno,
direito, política, igrejas e outras entidades de princípios éticos;
de grupos artesanais ou profissionais ou artísticos, de univer­
276 O CONTROLE DA MENTE

sidades, jorn ais ou outros m eios de esclarecim entos; de estru­


turas sociais de classe ou casta, instituições de segurança e
saúde; ou de círculos de afeição de fam ília e amizade.
N otam os, incidentalm ente, que um a inovação pode ser
com entada em têrmos universais sem superar as resistências
locais à sua difusão. L o u v ar a im prensa como m eio de escla­
recim ento universal não é realizar um ato universal, m as usar
um têrmo de referência universal num contexto local. É um
acontecim ento aldeão, e as reações dependem das predispo­
sições locais.
A difusão da inovação ou seu controle p ara objetivos p a­
roqu iais ou universais depende da estrutura da predisposição
do m eio onde a inovação ocorre, e no q u al é introduzida com
sucesso. E la se move ao longo de um a rota de difusão poten­
cial na m edida em que as graduações sucessivas d a expectativa
são favoráveis. Essas rotas se expandem em zonas de difusão,
na m edida em que as graduações sucessivas dentro de cada
zona são favoráveis.
Desde o início dos registros arqueológicos, a com unidade
m u n dial foi, e continua sendo, dividida em sociedades cultural­
m ente distintas que resistem aos m uitos fatôres que contri­
buem p ara a universalização de um a ideologia ou de um sis­
tem a de contrôle qu e podería construir um a estrutura real­
m ente glob al da ordem pública. A arena m undial, por exem ­
plo, perm anece dividida em cam pos apreensivos e hostis, em­
penhados n um a corrida arm am entista até então in im agin ada
em proporções e em perigo.
A análise precedente n ão significa que os novos in stru­
m entos de com unicação, mesmo paroquialm en te introduzidos,
não tenham qu alq u er efeito sobre a distribuição dos valôres e
instituições. É com patível com a análise verificar que a tecno­
logia da com unicação m odificou um pouco as perspectivas e
operações locais. Os estudiosos concordam de m odo geral que
a im prensa estim ulou o crescimento do E stado nacional como
unidade dom inante do m undo m oderno. Os Estados nacio­
nais surgiram não às expensas de um E stado m undial que fu n ­
cionasse realm ente, m as pela destruição das unidades locais.
O foco de atenção das aldeias e cidades foi padronizado a um
ponto, através de um a zona que se irradiava ao longo de rotas
vindas de um centro populoso. U m centro grande passou a
dom inar nacionalm ente. N algu m a zona lim ítrofe, porém, cen­
O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 277

tros de igual projeção entraram em contacto e foram incapazes


de penetrar m ütuam ente nos respectivos territórios com fôrça
suficiente p ara controlar a atenção. Evidentem ente, os meios
de com unicação estim ulavam a centralização translocal, mas
os processos de centralização se equilibraram em lim ites aquém
da universalidade. As áreas de atenção, sentimento e opinião
foram lim itadas pelas predisposições que favoreciam as zonas
concorrentes. D aí os processos universalizantes estim ulados
pelo fato de os m eios de com unicação terem sido bloqueados,
resultando disso o desenvolvim ento de zonas de inclusividade
interm édia.
Os com ponentes com unicativos do processo social form a­
ram um equilíbrio relativam ente estável em torno dos centros
m etropolitanos e das capitais dos Estados da nação. Estabilizar
é consolidar um a rede capaz de m anter a vigilância do meio
externo dos Estados, de assistir à ação coletiva em relação
ao am biente e de transm itir m ensagens escolhidas à geração
que surge. C ad a subcom unidade possui um a rêde de com uni­
cação que executa funções equivalentes em referência a outras
subcom unidades, constituindo seu am biente dentro do orga­
nism o político m ais am plo. A lém disso, cada grupo dentro de
cada com unidade tem um a rêde que executa as funções de
vigilância de outros grupos, de m obilização e orientação da
ação grupai, e de transm issão aos que agirão no futuro. De­
signam os os grupos componentes segundo os processos de insti­
tuição de valor nos quais executam papéis especiais (poder,
govêrno, saúde, econom ia etc.). É tam bém certo que cada
in divíduo ad qu ire um a rêde de com unicação que lhe possi­
b ilita m anter certa vigilância de seu am biente, form ular e
gu iar sua p o lítica pessoal, e arm azenar inform ação p ara utiliza­
ção futura.
A estabilização inclui a lingua, sistem a de signos falados
em pregado em todas as rêdes ou na qual todos os signos usados
na transm issão de fragm entos de inform ação em qu alqu er rêde.
podem ser traduzidos. Os dialetos se distinguem pelo uso das
subcom unidades, e as gírias ou jargões, pela utilização por
grupos especializados.
A estabilidade de com unicação tam bém exige a estabiliza­
ção de simbolos, ou seja, sistem a de expectativa, procura e iden­
tificação. As expectativas partilh adas por vários grupos in­
cluem a com preensão com um do passado e do curso provável
zn O CONTROLE DA MENTE

dos acontecim entos futuros. A procura con jun ta é a preferência


e as volições em relação ao resultado do processo social. As iden­
tificações conjuntas pelas identidades são os sím bolos conjun­
tos de referência ao “eu ”, ao “ou tro”, a indivíduos e grupos
de referência incluídos ou excluídos da com panhia do ego
prim ário.
Essas perspectivas, q u an d o relativam ente estáveis, compren-
endem o mito p artilh ad o pelos elementos da elite do Estado n a­
cional, e por m uitos, e presum ivelm ente a m aioria dos com po­
nentes do povo em geral. O m ito estabelecido é a ideologia; os
m itos não estabelecidos entre a elite são a contra-ideologia.*
D entro de um a ideologia, distinguim os a doutrina, com ­
posta das afirm ações m ais gerais d a filosofia; as fórmulas, ou
as determ inações de conduta, e o folclore, ou as versões popu-
larm ente aceitas d a norm a e da experiência.
O m ito (inclusive ideologias e contra-ideologias) de q u al­
q u er nação estável é especializado segundo os componentes
da instituição de valores do processo social. Por exem plo, o
m ito do poder inclui a filosofia política, os códigos de leis e
as lendas políticas populares. O m ito da riqueza inclui as dou­
trinas do capitalism o, socialism o, cooperação e outras, as pres­
crições de condutas apropriadas aos participantes na estrutura
do m ercado e as lendas econômicas populares. O m ito ético
inclui as doutrinas teológicas e éticas das organizações eclesiás­
ticas, as prescrições do direito canônico e os costumes p o p u la­
res. O m ito d a afeição inclui a filosofia d o am or e am izade, a
determ inação da vida fam iliar e fraternal e conceitos p o p u la­
res de tais questões. O m ito do esclarecim ento pode agru par
as doutrinas científicas sobre a natureza e sociedade, as pres*
crições sobre a conduta de pesquisas científicas e históricas
e as suposições populares sobre a estrutura prática do m undo.
O m ito da h abilidad e com preende doutrin as sobre a excelên­
cia nas artes, artesanatos e profissões, determ inações sobre os
códigos de conduta e histórias populares sobre o assunto. O
m ito do bem-estar com preende as doutrinas sobre a integridade
e desvio psicossom áticos, prescrições sobre a conduta dos que
se em penham no cuidado, tratam ento ou prevenção e histó­
rias populares sobre saúde, segurança e conforto. O m ito do
respeito com preende as doutrinas de classe e casta sociais, pres­
crições que articulam os m odos d e conduta de classe, as im a­
gens e padrões populares.
O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 279

A estabilização do m ito ou de seu com ponente se explica,


ao que nos parece, pelo postulado de elevar ao m áxim o um a
de suas form as. O pad rão do m ito supera os padrões alterna­
tivos; os que o aceitam devem ter a esperança de um a posição
de valor m ais alta do que se tivessem aceitado a alternativa.
Sob o aspecto do valor-indulgência, é um a questão de lucro
esperado ou perd a bloqueada, e sob o aspecto do cálculo de
valor-privação, de perda esperada ou de lucro bloqueado.
P ara tornar-se estável, o m ito deve, portanto, receber re-
fôrço de valores qu e sustentam o sistem a de expectativas o
bastante p ara im pedir a transferência p ara os m itos concorren­
tes.
É evidente que quan d o exam inam os um m ito estabilizado
estam os descrevendo um a relação de equilíbrio de extraordi­
n ária com plexidade. U m a rêde de canais existe e é regular­
mente usada; os sistem as de signos servem a determ inados
canais e proporcionam um a linguagem de referências para d ia­
letos e jargões; os sistem as de sím bolos com preendem mitos
gerais e especializados, com o com ponentes ideológicos e contra-
-ideológicos. Os m itos são m antidos pelas expectativas de van­
tagens apoiad as pelas indulgências de valores suficientes para
perpetuar o sistem a de expectativa. A im plicação é que o fluxo
d a técnica no processo social, distinto do m ito, é adequada­
m ente dividido em fases, e daí que o fluxo total de atividade,
tanto colaboradora como com unicativa, atingiu a estabilidade.
U m a vez estabilizado o m ito ou seu componente, não é
difícil ver como se perpetua de um a geração a outra. A se-
qüência d a socialização através da q u al passam as crianças e
jovens ao se m overem na escala na direção da m aturidade, é
organizada de tal form a que a articulação do m ito é “ aprovada”
em têrmos de m uitos valôres, e as falhas na articulação são
pu n idas nos m esm os têrmos. D ecorar e repetir a D eclaração
de Independência ou trecho da B íb lia traz como recom pensa a
afeição, respeito e possível estim ativa de excelência e m orali­
dade (h abilidade, in tegridade) e um flu xo contínuo de outros
benefícios (com ida e outros confortos associados ao bem-estar,
brinquedos e outras evidências de riqueza, oportunidades de
novo acesso a fontes de esclarecimento, um a participação nas
decisões ad equad as à id a d e). As punições seguem à recalci-
tração, e especialm ente as observações contrárias à própria ideo­
logia. São as punições d o bem-estar (castigos corporais), ou
280 O CONTROLE DA MENTE

da afeição e respeito (expressões de desprêzo), de integridade


(denúncia), de h ab ilid ad e e riqueza (negativa de brinquedos e
m esadas), de esclarecim ento (negativa de livros) e exclusão de
consultas no autogovêrno.
U m a vez estabelecido, o m ito se interioriza de m odo que
a consciência, bem como o eu consciente, proporciona in du l­
gências à conform idade e punições à não-conform idade. O
sistem a inconsciente, p o r exem plo, im põe caracteristicam ente
sentim entos de correção ou culpa (retidão), de orgulho ou
hum ilhação (respeito), de am or ou indiferença (afeição), de
euforia ou an gústia (bem -estar), de contentam ento pela exce­
lência ou a satisfação negativa (h abilid ad e), de com preensão
ou desorientação (esclarecim ento), de em pobrecim ento ou enri­
quecim ento (riqueza), de dom ínio ou subordinação (poder).
O sistem a interno é m antido pelo equilíbrio apropriado de
valor ou punição no nível adulto, nas fases inicial, m édia e
final d a linh a de vida.
É evidente que um m ito estabilizado contribui p ara a esta­
b ilid ade da sociedade, padronizan do o uso da m ente in divi­
du al em fases sucessivas dos processos coletivos. Considere­
mos o processo n acional de decisão: passa através d e fases de
inteligência, recom endação, prescrição, invocação, aplicação,
estim ativa e conclusão. Tom em os, por exem plo, a inform ação:
as estruturas form ais incluem a observação m ilitar, diplom á­
tica, econôm ica e cultural, e a descrição das atividades de
outros Estados nacionais. Os indivíduos que agem como obser­
vadores e relatores iniciais, tendo incorporado o m ito, estão
de tal form a m odificados que se dispõem a ver os acontecim en­
tos através da tela seletiva ad qu irid a no curso da assim ilação
do m ito. O estudo com parativo d a inform ação dem onstra
am plam ente as uniform idades resultantes da socialização da
criança, mesmo para a padronização do êrro. Incluo os erros
de percepção adquiridos, como a subestim ativa da capacidade
de voar dos japonêses, que atingiu dim ensões grotescas entre
as fontes de inform ação ocidentais antes da II G uerra M un ­
dial, e a subestim ativa com um e fantástica da capacidade de
certos povos d e ad qu irir a civilização industrial. M esmo quan do
esses erros de percepção não deform am as observações feitas
pelas testem unhas diretas, quase certam ente serão reinstalados
na fase interpretativa d o processam ento dos relatórios de in ­
form ação.
O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 281

Provàvelm ente, a lim itação m ais traiçoeira im posta pelo


m ito é a que incide sobre a im aginação de alternativas. Isso
se evidenciou claram ente entre os estrategistas qu e executam
um a função de recom endação e prom oção, m as ocorreu em
todas as fases subseqüentes de decisão. O resultado é em ba­
raçar o curso de ações possíveis a legisladores, policiais, juizes,
inspetores e todos os outros participantes, oficiais ou não, do
processo total.
O lado negativo das uniform idades de um m ito estabi­
lizado é claram ente indicado pelo q u e dissemos: os m itos
prejudicam a criatividade, freqüentem ente colocam a percepção
errônea no lugar da realidade. Vim os acim a que a estabiliza­
ção do m ito no nível nacional bloqu eia a universalidade po­
tencial da ordem pública e a diversificação da realização hu­
m ana em p lan o global.
Q uando revemos a estabilização do m ito na perspectiva do
homem como espécie biológica, seus im pactos positivos e ne­
gativos são confirm ados de m odo surpreendente. Parece que
a estabilização do m ito é um a estratégia espontânea (e par­
cialm ente d eliberada) pela q u al a hum anidade tem procurado
m anter a capacidade sim bólica de excesso do hom em sob con-
trôle. Dizem-nos qu e o cérebro é hoje m ais ou menos como
há dezenas de m ilhares de anos, q u an d o os sêres hum a­
nos estavam organizados em grupos relativam ente pequenos.
As pequenas sociedades aprenderam a estratégia fundam ental
pela q u al a pluripoten cialidad e do hom em pode ser en qua­
drada em configurações lim itadas qu e um a determ inada so­
ciedade seja capaz ou esteja disposta a tolerar. A estratégia
básica é reduzir ou im por lim itações à criança. Concorda-se
geralm ente que um processo educacional é indispensável à do­
m esticação d a destrutividade do homem. O u, na verdade, à
realização d e um eu genuinam ente hum ano, ou, ainda, indis­
pensável um estím ulo social suficiente p ara ad q u irir a lingua­
gem, e portan to os instrum entos do pensam ento complexo.
Crianças não estim uladas se tornam selvagens semi-articulados,
como Ferdin an d d a Sicília o com provou pela experiência, há
algum tem po. U m a vez m odificadas as predisposições básicas
p ara que se conform em aos limites d o m ito (e da técnica), o
in divíduo é suficientem ente estim ulado, no resto de sua vida,
a partilh ar a m aioria das m ás percepções da realidade, as iden­
tificações p aro qu iais e as orientações de valôres d a sociedade
de qu e é parte.
282 O CONTROLE DA MENTE

Executan do a estratégia d a lim itação, a m aior tática aberta


às pequenas sociedades era, e é, a adm inistração do contágio
psíquico, que era realizado pela participação do grupo nos
ritos expressivos de m itos. A cerim onialização, ritualização,
danças orgíacas, cantos, jogos, dram atização — todos êsses nomes
representam um a atividade com ponente pela qu al a receptivi­
dade prim itiva do hom em era originalm ente integrada na esta­
bilidade sim bólica, com unicativa e colaboradora. As subjeti-
vidades do indivíduo eram disciplinadas pelo m odêlo necessá­
rio para sustentar a eficiência das chaves p ara a realização de
atividades coletivas, como as guerras com grupos de outros
hom ens, proto-homens e anim ais, a construção de abrigos, a
coleta ou dom esticação de plantas e anim ais, a plantação e a
colheita, o cuidado das crianças, e a disposição dos mortos.
Em tudo isso continuou havendo um preço fantástico —
a perda da capacidade sim bólica não usada pelo homem.
Com o explicação — e ju stificativa im plícita — podem os dizer
que, devido à vacilante estrutura da vida social, foi im prati­
cável a qu alqu er grupo, nôm ade ou fixo, enfrentar as diversi-
dades do im pulso e d a idéia que continuavam surgindo à su­
perfície d o notável cérebro do homem. Evidentem ente, a cul­
tura tinha de proteger-se contra o cérebro até que, pelo acrés­
cim o gradual, ela estivesse suficientem ente forte e esclarecida
para perm itir aos que se identificavam com os seus padrões
dar um a latitude m aior à potencialidade hum ana.
D uran te os prim eiros 400 ou 500 m il anos, a capacidade
do hom em p ara com os sím bolos encontrou, na realidade, um a
expressão im pressionante. Êle viveu em centenas e m ilhares de
sociedades prim itivas, cada um a das q u ais suficientem ente iso­
lada de outras, perm itindo que seus m em bros desenvolvessem
form as de vida diversas. M as dentro de qu alq u er gru po p ar­
ticular, a norm a era insistir na conform idade aos padrões esta­
belecidos. As variações penetram pela corrente cultural, e não
pela inovação deliberada. Para estim ar a m agnitude das reali­
zações prim itivas do homem, temos de exam in ar a am ostra im ­
pressionante de culturas que hoje existem , ou que foram reve­
ladas pelos arqueólogos.
A espécie hum ana realizou um avanço form idável n a
cultura, quan d o conseguiu inventar as cidades, ocorrência si­
m ultânea nos vales do N ilo, d o T igre-Eufrates, e provável­
O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 283

mente do Indo. Segundo G ordon C h ild e ( *) é possível per­


ceber o caráter im pulsionador dêsse acontecimento, observan­
do-se as seguintes inovações ligadas à cidade: o Estado, ou a
organização da sociedade num a base de residência, ao invés de
parentesco; códigos jurídicos; im postos sistem áticos; obras pú ­
blicas m onum entais; a arte da escrita; o início da aritm ética,
geom etria e astronom ia; especialistas técnicos integralm ente
dedicados à sua atividade, como no trabalho d o m etal.
A espécie hum an a pôde, então, expressar-se por m eio de
um a com plexa divisão do trabalho dentro do que se poderia
tornar, em princípio, um a com unidade universal. A o invés
do m ecanism o das sociedades geogràficam ente segregadas, tor­
nou-se possível libertar a criatividade do homem em m ilhares
de novas direções, e com unicar, arm azenar e utilizar as reali­
zações, feitas em ritm o m uito m ais acelerado, do hom em civi­
lizado.
M esm o o registro do homem civilizado e urbanizado, por
im pressionante que seja, produziu apenas um a liberação p ar­
cial da capacidade hum ana. A estratégia fundam ental da res­
trição continua. As táticas, porém, se m odificaram . Confiam os
menos no m ecanism o do contágio psíquico para d irigir e lim i­
tar a criatividade hum ana do que nas duas rêdes enormes e
especializadas: os sistemas de educação e os sistemas de com u­
nicação instantânea. É certo que grupos e situações prim árias,
face a face, continuam a ter um papel decisivo e que os sen­
timentos com uns são provocados e orientados pelas rêdes, m as
novos fatôres surgem quan d o as situações prim árias são colo­
cadas em cadeias com plexas e em zonas, em áreas de âm bito
n acional e form adas pela coalizão de Estados.
H istòricam ente, a ênfase foi colocada no elemento destrui­
dor d a predisposição hum ana. Até que ponto é possível mos­
trar que m uita ira crônica e interm itente e m uito negativism o
são frutos das frustrações d a capacidade im postas pelos proces­
sos de educação ? Provocam a interferência nos im pulsos repe­
tidos de utilização a capacidade latente, mal-estar e desespêro ?
As m odernas oportun idades de com unicação intensificam os
níveis de pressão interior, apelando p ara capacidades que a

(*) Cf. com os dois livros de Gordon Childe publicados por esta editôra:
E volução Social (Biblioteca de Ciências Sociais) e O Q ue Aconteceu n a H istó ria,
particularmente o capítulo 5, “A Revolução Urbana na Mesopotâmia” (Biblioteca
de Cultura Histórica). (N. dos E.)
284 O CONTROLE DA MENTE

civilização ain d a n ão se sentiu capaz de estim ular e expressar


criadoram ente ? So b esse aspecto, como sob m uitos outros,
nossa época pode ser tom ada pelas ansiedades d a transição
que m arcam o aparecim ento d e níveis de cu ltu ra m ais avan­
çados.
P ara o futuro, a indagação será se a educação e a com uni­
cação poderão con tribuir para um a d u p la liberação do hom em :
liberação d a fidelidade estreita e d a expectativa de violência, e
liberação d as restrições qu e surgem das angústias prejudiciais
das gerações mais velhas, incertas da adequação d a cultura à
atividade criadora do homem, particularm ente tal com o sé
m anifesta nas crianças e jovens. U m a revolução plenam ente
consum ada nas comunicações, se ocorrer, elim inará tôdas as
predisposições que bloqueiam o cam inho p ara a universalidade
e a diversidade. A lu ta preventiva d a cultura contra o cérebro
se desviará p ara o realism o e a criação.
Devemos, prim eiro, atacar a expectativa otim ista de que é
apenas um a questão de tem po e paciência q u e as tendên­
cias universalizantes ocorram , vindas de fora. O terreno
dessa esperança é que no curso d a evolução social e política
do hom em as unidades tenham crescido, e que a cobertura po­
tencial pelos meios de com unicação englobe todos os setores.
C ham am os a atenção, antes, p ara as conseqüências restritivas
d a introdução p aro q u ial de form as potencialm ente universais,
e fizemos com entários sobre a subordinação d as possibilidades
universais aos objetivos de Estados nacionais e de coalizões de
Estados. F alta m ostrar m ais expllcitam ente que, ao se am p lia­
rem as unidades políticas, os fatores m esquinhos podem tornar-
se m ais fortes, e não enfraquecerem . C onsiderando o desenvol­
vim ento meteórico d a tecnologia da destruição, é concebível
— senão, na realidade, provável — que a catástrofe universal
im peça a ordem universal.
M encionei a tendência de voltar o foco de atenção p ara
os lim ites internos de um corpo político am pliado. Por exem ­
plo, à m edida que o m undo soviético cresce territorialm ente, a
percentagem da população que vive parte de sua vida no
exterior é reduzida. As barreiras às viagens e às com uni­
cações autênticas im pedem o acesso dos cidadãos soviéticos
ao m undo lá fora, e ao povo que vive fora dos países soviéti­
cos. Com o declina essa experiência do estrangeiro, o foco de
atenção se torna relativam ente estabilizado p ara se conform ar
O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 285

às divisões políticas d a arena m undial. N essa fase, a estrei-


teza de vista é redefinida e intensificada p ela expansão.
H á nisso tam bém um m ecanismo mais sutil. U m “efeito
de auto-referência” opera quan d o os estrangeiros se encontram,
já que as novidades nos padrões de com portam ento perturbam
ou chocam os com ponentes conscientes ou inconscientes da
personalidade. D aí a atenção ser focalizada interm itentem ente
sobre o “eu” e o “outro”, e, durante as prim eiras fases desse
ajuste, a identidade distintiva do eu é tipicam ente reafirm ada
e acom panh ada pelas afirm ativas de valor e superioridade.
É im portante reconhecer que o resultado a longo prazo
da auto-referência difere d a fase antiga, e produz, caracteris-
ticamente, um a am pliação dos sistemas do eu. O mecanismo
constitui um a reação tem porária e parcial que perm ite ao eu
estreito familiarizar-se com um contexto mais am plo, e portanto
redefinir — e freqüentem ente am pliar — os lim ites de identifi­
cação.
N esta era técnico-científica, é oportuno indagar se os ins­
trum entos de com unicação podem tornar com pulsória a aten­
ção universal ou colocá-la no âm bito da escolha voluntária, livre
do perigo sério d a vigilân cia local e d a sanção negativa. Po­
demos im aginar atos de recepção e transm issão tão pequenos
em tam anho e fôrça que possam ser espalhados em toda parte,
atrás dos lim ites do Estado nacional e da coalizão de Estados
— ou instrum entos de com unicação de fôrça tão irresistível
qu e desafiem as interferências técnicas ?
Q ualq u er que seja o futuro d a tecnologia das com unica­
ções, o problem a da com petência do cientista social é o de que
os focos diversificados de atenção, sempre que compreendidos,
provocam diversidade de procura, de expectativa e identidade.
A o calcular o equ ilíb rio dos fatôres que afetam o m undo,
n ão subestim am os a im portância dos elementos que contri­
buem p a ra o fanatism o local. O estudo das revoluções reli­
giosas e seculares testem unha a passagem d a “ideologia” para
a “fraseologia” . Q uer a ideologia utópica tenha apoio do pro­
letariado “interno” ou “ externo”, as prim eiras fases do movi­
m ento proporcionam recom pensas p ara os agitadores e organi­
zadores do protesto. U m a vez derrubada a ordem existente e
instalados um a nova elite e um novo sistema de símbolo, m odi­
fica-se o equilíbrio de valôres e punições. As oportunidades fa­
vorecem os adm inistradores dos assuntos civis, m ilitares e poli­
286 O CONTROLE DA MENTE

ciais. A reiteração frenética do m ito triun fan te é cerim oniali-


zada, especializada, desvitalizada. Se os níveis de consum o se
elevam, e o p ad rão de renda é antes grad uado do que bifurcado,
o fanatism o esfria.
Estam os interessados num conjunto m ais sutil de fatôres
que influem no destino do fanatism o. O prim eiro é form ação
científica do espírito. A ciência e a tecnologia m odernas difu n ­
diram-se da E u ro p a ocidental como um a colcha de retalhos,
com o se podería prever pelo p ad rão de difusão já discutido.
D a m esm a form a, a abordagem científica passa do exam e dos
fenômenos físicos p ara o estudo dos fenômenos dos signos e sim ­
bólicos, e portanto, com o tempo, as ideologias se tornam vul­
neráveis à investigação com parativa. Isso é verdade apesar do
fato bem conhecido de que a pessoa que estuda as estréias,
o átom o ou a célula não está necessàriam ente qualificada p ara
abordar a investigação dos fenômenos sim bólicos e do com­
portam ento, seja objetivam ente, seja com ingenuidade. O
p ad rão científico é, porém , capaz de ser universalizado além
dos m oldes reduzidos de q u alq u er cientista específico, de q u a l­
quer especialidade científica ou subgrupo de problem as. .
A esta altura, não será prático fazer m ais do que algu ­
m as sugestões sôbre os processos existentes, ou que podem ser
reinventados nos vários contextos p ara desenvolver o estudo
com parativo da ideologia. T a is processos diluem ou im pedem
a devoção inquestionável a q u alq u er constelação particular
de doutrina, fórm ula ou lenda.
U m a grande contribuição é a análise do conteúdo mani­
festo das afirm ações qu e exem plificam os sistemas ideológicos.
O cam inho, então, está livre p a ra a descoberta de como o con­
teúdo m anifesto se relaciona com o contexto dos m ovim entos
sociais onde surgem. C ertas ideologias pretendem proporcio­
n ar orientação p ara indivíduos e grupos, n a solução de pro­
blem as, sendo portanto pertinente com pará-las segundo as
questões a serem solucionadas (das quais me ocuparei m ais
ad ian te), em bora sem procurar esgotar cada assunto, e que
podem ser as seguintes:

1) Q uais os objetivos de valôres propostos p ara os homen


na so ciedad e? Note-se, qu an to a isso, que as doutrinas arti­
culadas em W ashington, M oscou, L on dres e outros centros
de çüte são notavelm ente uniform es no seu com prom isso com
O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 287

a dignidade hum ana, contrapondo-se à indignidade; são, por


exem plo, contrárias ao ideal do dom ínio do m undo por um a
super-raça.
a) São os objetivos de valores justificados pela referência
a um a fonte transem pírica — a Vontade Divina, por
por exem plo — ou postulados em têrmos de experiên­
c ia ? Se assim fôr, que processos são propostos para a
interpretação d a experiên cia?
b) São as categorias gerais de valor especificadas em têr­
mos de práticas institucionais dogm àticam ente afirm a­
das ou consideradas como abertas à in d agação? Os
valores são especificados dogm àticam ente, por exemplo,
quando padrões institucionais são considerados apenas
como padrões pelos quais os objetivos podem ser reali­
zados plenam ente. N as ideologias contem porâneas, o
“socialism o” e o “capitalism o” são freqüentem ente tra­
tados dessa form a, e não apresentados como sugestões
sôbre as disposições institucionais pelas quais os valo­
res podem ser m elhorados nos vários contextos sociais.
Igualm ente, o “governo presidencialista” ou o “parla­
m entarism o” podem ser apresentados como superiores
“p o r defin ição” .

2 ) C om o é apresentado o passado ? Por exem plo, é a


história vista como um a linh a reta de evolução na direção do
objetivo procurado ? É cíclica e sem tendência discernível ? É
o progresso hum an o considerado como possível ou im possível ?
3) Com o são explicadas as m odificações so ciais? Por
exem plo, q u al o papel atribuíd o à crença num a ideologia ? De
qu e fatores se considera depender a ideologia ? Q uais as con-
seqüências sociais atribuíd as à crença (ou descrença) ?
4) Com o é o futuro p ro je ta d o ? É o objetivo “desejável”
considerado “inevitável”?
5) Q uais as prin cipais estratégias políticas propostas ?
Q ual o pap el atribuíd o à coação ? Com o se organiza o pro­
cesso de decisão p ara a adoção de decisões coletivas ?

Os m étodos postulados pela m atem ática e lógica, quando


aplicados às ideologias, descrevem as estruturas form ais com
288 O CONTROLE DA MENTE

precisão, e d aí perm itirem às questões contextuais um a form u­


lação em têrmos definidos. As questões formais incluem :
1) Q uantos níveis de abstração são em pregados na for­
m ulação da ideologia ? N o nível mais inferior, os têrmos rece­
bem, ou podem receber, definições funcionais que sejam usa­
das p ara relacionar o sistem a form al com situações concretas.
2) Q uan tas expressões-chave (definidas, in defin idas) são
usadas em cada nível ? O sistem a pode ser organizado p o r um
têrmo-único, dois-têrmos (ou) p o r níveis de têrmos-múltiplos.
3) São as distinções estabelecidas expllcitam ente entre as
proposições que form ulam norm as de preferência e determ i­
nação e as que designam acontecim entos? Q uanto a isso,
as afirm ações am bíguas são evidenciadas. Assim p o r exem plo
um a afirm ação pode ser cham ada de “lei da n atureza”, sendo
obscuro se o autor da afirm ação pretende fazer um a afirm a­
ção de fato ou não. Se verificam os que êle continua, e lam enta
a violação da suposta lei, classificam os a afirm ação com o am bí­
gua. Por vêzes as referências a fatos são m anifestas, m as o
exam e m ais detalhado m ostra q u e seu au tor u sa a form a de
fato p ara afirm ar um a preferência. Isso é considerado como
um a am bigüidade, como no caso em q u e o futuro é tido po r
“ inevitável” , e não como “provável” .
4) N a form ulação de declarações norm ativas-prescritivas,
quais as polaridades usadas ? As declarações prescritivas esta­
belecem norm as de conduta. A análise m ostra que se fazem
em pólos opostos, que podem servir de gu ias (e de racion ali­
zações) p ara a escolha.

A pertinência d a investigação científica na tarefa de loca­


lizar ideologias no contexto é bastante clara. Q uando a ideolo­
g ia A é com parada no contexto com a ideologia B, ou o subpa-
drão 1 da ideologia A é com parado como o subpadrão 2 do
mesmo sistema, surgem as seguintes perguntas: quais os fatô-
res que explicam a invenção, difusão ou restrição de cada ideo­
logia ou subpadrão ? Q uais os fatôres do processo social atin­
gidos pela invenção, difusão ou restrição?
A essa altura, surgem questões verificáveis, com o por
exem plo sob qu e com binações de fatôres de am biente, agindo
sôbrç quais com binações de fatôres predisposicionais, se torna
O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 289

m ais provável um determ inado m odo de reação. Q uais as cons­


telações de circunstâncias que podem levar os indivíduos à
consciência (isolados, ou em situações coletivas) d a solução de
afirm ações contraditórias n a ideologia com qu e se identifica­
ram e se interessam p o r e la s? Q uando ignoram êles as afir­
mações contraditórias de fato ou contradições m anifestas nas
norm as prescritivas ?
Sabem os, pelo estudo com parado da história das prescri­
ções religiosas, legais e políticas, que qu alqu er sistem a sintá­
tico pode ser, e provàvelm ente tem sido, usado p ara ju stificar
m odos de conduta contraditórias. Em situações de tempo-espaço
lim itadas, porém , as form ulações sintáticas são aplicadas a
questões concretas segundo as exigências, expectativas e iden­
tificações de valôres que se localizam . T o d o s os sistemas sin­
táticos podem ser interpretados universalm ente, m as são invo­
cados em contextos estreitos, p ara proporcionar resultados lo­
calizados. T o d o s os sistem as sintáticos são potencialm ente
equivalentes (intercam biáveis) no nível de abstração m ais ge­
neralizado, mas os sistemas rivais são tratados como não-equi-
valentes enquanto as expectativas locais sejam de que as afir­
mações de não-equivalência proporcionam vantagens líquidas
para seus form uladores.
A indagação científica força continuam ente o foco da aten­
ção sobre as contradições evidentes entre um a ideologia, tal
como transm itida m ais geralm ente, e a form a pela qu al é invo­
cada ou ad ap tad a a circunstâncias concretas. D o ponto de vista
não-enfático, isso constitui certamente um a grande contribui­
ção da indagação científica, pois executa um a função estim a­
tiva que perm ite aos indivíduos agirem isoladam ente ou em
conjunto, na reespecificação dos objetivos de valor para o fu ­
turo. Essa com paração perm anente d a ideologia convencional
com os resultados de análises funcionais cuidadosam ente defi­
nidas e de processos em píricos é um a contribuição fundam en­
tal p ara a ciência do hom em e sociedade.
N ão pretendo passar em revista o estado presente da pes­
quisa sobre a dinâm ica da ideologia. O ponto im ediato é que
a difusão da civilização m oderna leva consigo propensões a
aplicar as estruturas de referência científicas a todos os fatos,
e, em bora fatôres estreitos possam combinar-se para im pedir e
deform ar a aplicação, a predisposição existe sempre que existe
a ciência. E isso n ão estim ula os fanáticos.
290 O CONTROLE DA MENTE

O utra predisposição alim entada pela civilização m oderna


pode ser considerada como um fator favorável à universali­
dade. H á razões p ara sugerirm os que a civilização da m áquin a
cultiva experiências com uns que estabelecem as bases da arte
universal. Experiências paralelas através de linhas d e frontei­
ras predispõem ao contágio psíquico de epidem ias transnacio-
nais. A pesar de todas as barreiras, temos evidências de que
até certo ponto os instrum entos de com unicação m odernos já
estão a considerável distância no cam inho d a transform ação
do globo num a gran de aldeia, cujos habitantes partilh am de
m uitos sentimentos expressos e fortalecidos pelos padrões co­
m unicáveis de expressão estética.
T en h o em m ente a m úsica e a dança, e especialm ente o
jazz, que não é o único a penetrar a cortina m etálica do m undo
soviético, e que proporciona um a oportun idade universal para
a identificação entre os jovens criados em civilizações m oder­
nas ou sociedades prim itivas e pequenas. O ritm o, som, e m o­
vim entos do corpo possuem um a atração relativam ente uni­
versal, e o jazz tem em si elementos epidêm icos. N a m edida
em que ocorre o afastam ento d a ligação com as ideologias tra­
dicionais, ou recém-estabelecidas, há a possibilidade da desco­
berta e afirm ação de m odos de expressão estética. N u m m undo
cansado da palavra, há um a fom e latente de liberdade de dis­
curso argum entativo, exortador ou mesmo descritivo. A expe­
riência estética proporciona a retirada a m om entos de intim i­
dade dentro do ego, sem o sentim ento de haver perdido a con­
vivência. A experiência estética, rean alisada p or Cassiver e
Suzanne Lan ger, em bora ligad a às vísceras, é tam bém da mente.
É a sim bolização do afeto, e a disposição sim bólica é perce­
b id a com o um a form a de estilo. U m ataq u e de cólera não é
arte, m as alusões a êle podem tornar-se arte qu an d o os sím ­
bolos e signos alusivos transformam-se em estilo.
N ão podem os prosseguir m ais nesse tema, no momento,
mas o indício im ediato é o de q u e as barreiras tacanhas são
perm eáveis de dentro e de fora pelos com ponentes científicos
e estéticos de um a civilização universalizadora.
N ão devemos desprezar as estratégias abertas às elites po­
líticas que se consideram am eaçadas pelo afastam ento das li­
gações com a estreiteza de visão de qu e depende o seu poder.
N a proporção em que êsse afastam ento cria um vazio do poder,
é provável que os elementos p aroquiais se aproveitem dç sua
O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 291

existência. Sob a provocação perm anente, estratégias extre­


m adas e perigosas podem ser im aginadas p ara contrabalançar
os efeitos universalizadores e diversificadores da comunicação.
A doutrinação sim bólica pode, em si, ser aban don ada como
m eio prin cip al de estabilizar o sistem a de ordem pública. A
guerra quím ica e biológica pode ser lançada contra os adversá­
rios cuja capacidad e de sentir ou expressar oposição ficaria per­
m anentem ente prejudicada. É a som atização da aquiescência.
N ão é dem agogia — é antes a som atarquia, ou dom ínio pelos
bioquím icos no lu gar da m an ipulação d o signo e sím bolo. A
ciência, cegamente, descobre novos m eios de intensificar a ce­
gueira — ou de criar a visão.
N ão está no âm bito de nossas discussões presente prever o
resultado da lu ta incessante dos fatores paroquiais contra os
universalizantes na com unidade m undial. Devemos ter como
certo que as elites políticas, apreensivas, procurarão m anter
suas posições de poder. M as as perspectivas da elite sofrem
transform ação. E os potenciais universalizadores e diversifi­
cadores da com unicação m oderna, em bora presos pelas influên­
cias tacanhas e perturbados pelas apreensões antigas sôbre o
cérebro, são perpètuam ente rejuvenescidos pelos padrões cien­
tíficos e estéticos que não se podem separar da civilização a
cujo contexto estão indissolúvelm ente ligados.
O Progresso da Civilização
T r a n s c r i ç ã o d o d e b a t e f o r m a l, m a s e s p o n t â n e o , d o s t r a b a lh o s
im e d ia t a m e n t e p r e c e d e n t e s. F o r a m fe it a s a p e n a s p e q u e n a s a d a p ­
ta ç õ e s, o n d e a c o n t i n u i d a d e e a c la r e z a o e x ig ia m . O s o r g a n i­
z a d o r e s a c r e d it a m q u e a e s p o n t a n e id a d e d a d is c u s s ã o te m p a r ­
t ic u la r v a lo r p a r a o s e m in á r io , n a f o r m a e m q u e é a p r e s e n t a d a .

M o d e ra d o r : L eo C. R osten
P a rtic ip a n te s : H arold D. L asswell , W illiam E. P orter ,
H erbert A. S im on .

Prof. R o s t e n : G ostaria de contar-lhes um a história p ara


ilustrar o papel do cientista social. O D estino veio à T e rra
certa vez, e, chegando a um a ilha, convocou três homens e lhes
perguntou: “O que fariam se eu dissesse que esta ilha será
in un dada am anhã por um a grande m aré?” O prim eiro homem
respondeu: “Iria im ediatam ente comer, beber, am ar, e fazer
todas as coisas que não fiz antes,” O segundo disse: “L ev a­
ria m eus entes queridos p ara a gruta sagrada e faria sacrifí­
cios e rezaria p ara que, ao sermos afogados, estivéssemos pre­
parados p ara entrar no paraíso.” O terceiro hom em assim se
expressou: “Convocaria im ediatam ente todos os nossos homens
m ais inteligentes e com eçaria a estudar como poderiam os viver
debaixo da água.”
N ão pretendo sugerir que o cientista social seja o últim o
homem. M as o cientista social estuda o hedonista, o m ís­
tico e o cientista. Procura obter dados significativos sôbre
o que são estas pessoas, como trabalham e qu ais as conseqüên-
cias de seu trabalho. O bom cientista social executa essa ta­
refa com um a com paixão neutra pelo destino d o homem. T i ­
O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 293

vemos, ao qu e m e parece, um exem plo adm irável de como a


com binação do alheam ento e da penetração pode in flu ir
nos problem as relacionados com as possibilidades do ser hu­
m ano, tanto individualm ente como em grupos. Professor Si-
mon, acredita o senhor que os instrum entos com putadores arti­
ficialm ente construídos possam reproduzir tôdas as atividades
cerebrais e em ocionais da vida íntim a d a im aginação, que são
hoje consideradas peculiares ao h om em ?

Prof. S im o n : A o responder um a pergunta como esta, creio


que o cientista deve estabelecer certa distinção entre o que
deve ser investigado e quais os processos com pensadores para
essa investigação. T e m de fazer um a distinção entre o tipo
de afirm ativa que deseja fazer a si mesmo e o tipo de afir­
m ativa que ju lg a poder com provar com dados e que portan to
se to m a parte do acervo público d a ciência. Parece-me que
a m otivação que in spira as pessoas dedicadas ao tipo de tra­
balho que descreví é a noção de que podem os explicar e com ­
preender por essa form a de sim ulação de um a parte sem pre
crescente da atividade m ental hum ana. Até o momento, o
m aior progresso se fêz em relação à atividade cognitiva, na
qu al os com ponentes em ocionais e de atitudes são, n a reali­
dade, m uito reduzidos. M inha convicção é de que êsse tipo de
explicação se estenderá m uito pela área do em ocional e do
afetivo. N ão posso ver n ada que tenha surgido ainda nesta
explicação que sugira um a linh a lim ítrofe, e suspeito que a
exploração irá m uito longe, na verdade, antes de encontrar
tal linh a — se é que ela existe. Isso é realm ente tudo o que
temos a dizer sôbre o presente. N ão temos de especular se existe
o lim ite, nem nos com portam os de m odo diverso n a investiga­
ção, se acreditarm os ou não na existência de tal limite.

Prof. R o s t e n : Professor Por ter, ao discutir a educação


política o Senhor falou, preferencialm ente, do desenvolvimento
de um a vida p olítica m ais intensa e de um sentido m ais pro­
fun do de participação. Q uero perguntar-lhe se podem os rom ­
per as m itologias existentes e afirm ar que num certo sentido
talvez n ão seja desejável im por às pessoas a necessidade de
um com prom isso político se, na realidade, elas não o desejam .
A suposição de igualdad e é digna de consideração, ou seja,
a de que a dem ocracia não é necessàriamente o sistem a em
que todos p articip am politicam ente nas mesmas proporções,
294 O CONTROLE DA MENTE

m as no q u al todos têm a escolha de fazer o que puderem e


quiserem , d a m elhor form a.

Prof. P o r t e r : Creio que a resposta a essa pergun ta rela­


ciona-se essencialm ente com assuntos terrivelm ente confusos.
A certa altura, é im possível n ão se form ular com prom isso com
o conceito d a função do homem. Isso de certa form a se rela­
ciona com os gatos m aravilhosos do professor M ace e suas ati­
vidades biológicas. Ê le reafirm ou que tais atividades não eram
destituídas de objetivo. Os gatos tinham objetivos próprios,
m uito em bora êstes em n ada contribuíssem p ara proporcionar
m elhor abrigo ou m ais alim ento ou atendessem a outras ne­
cessidades. Suponho q u e tenho um ponto d e vista quase senti­
m ental e hum anístico, que me diz qu e a inteligência do hom em
deve sem pre funcionar num contexto sim plesm ente porqu e êle
a tem. É um a observação terrivelm ente pouco científica, m as
creio que a investigação científica nos leva, cada vez m ais, ao
ponto em que êsses valores se tornam cada vez m ais im por­
tantes. A sociedade na q u al há liberdade bastante apenas para
nos perm itir cuidar de nossos lim itados setores m e parece ter­
rivelm ente m açante.

Prof. R o s t e n : G ostaria de contar um a história p ara mos­


trar como os jovens são prejudicados pelo nosso sistem a edu­
cacional. Sempre fui m au estudante de m atem ática, com a su­
posição de que, se no final das contas, eu somo 2 + 2 e en­
contro 4, e Einstein som a 2 + 2 e acha 4, que utilidade há
nisso ? Ocorreu-me, porém , ao observar m eus filhos, como é
in epta a nossa form a de transm itir e com unicar, e certa vez
disse a um m atem ático: “Por que vocês adiam o ensino da
álgebra para o curso secundário, qu an d o as crianças estão m a­
duras para êle desde o qu arto ano p rim ário ?” Ê le recebeu
isso como um indício de m inha insuperável candura, e disse:
“ Que tolice !” Eu respondí: “Q uando vocês ensinam a tabu-
ada de m ultiplicar ao Joãozin ho, dizem: Joãozin ho, q u an to é
2 vêzes 2 ? São 4. Dizem então: 4 vêzes 2 igual a 8. E depois:
Joãozin ho, 2 vêzes quan to é igual a 12 ? E a essa altu ra Jo ã o ­
zinho trava conhecimento com um a das grandes invenções d a
m ente hum ana, o conceito do x. 2 x igu al a 12. M as não fa­
zemos isso. Sim plesm ente o forçamos a reprim ir a consciência
dêsse tremendo salto conceituai.” Por isso, fiquei particular­
m ente satisfeito quan d o K arl Pribram me disse que as crian­
O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 295

ças estão recebendo tais ensinam entos, atualm ente, m uito m ais
cedo do qu e antes.

Professor Lassw ell, podería prestar alguns esclarecimentos


sobre sua participação na fam osa “m áquin a do povo”, usada
na cam panha presidencial ?

Prof. L a s s w e l l : M inha participação nesse em preendi­


mento, que foi adequadam ente descrito pelo professor Porter,
é parte de m inha preocupação em colocar à disposição da co­
m unidade a m ais recente inform ação existente — à base da
q u al se possam calcular as estratégias e esclarecer os objetivos.
H á grande possibilidade de m elhorar o fluxo de informações
sob o foco da atenção do povo de nossa com unidade. O pro­
blem a é colocar êsse fluxo de inform ação ao alcance dos que o
desejam m an ip u lar e dos que são os alvos dessa m anipulação.
H á um a gradação contínua: passam os parte do tempo m an ipu­
lando outros, o resto do tem po somos m anipulados por ter­
ceiros. Isso significa que podem os desejar fazer com que nossa
sociedade coloque à disposição dos que têm a iniciativa e a
finalidade as mesmas inform ações, e ao mesmo tempo. Foi
essa um a das razões da m inha participação ativa nesse tipo de
inovação.
Prof. Porter: Alguns estudiosos se interessam pela idéia
de controle legal d a obscenidade. O u seja, a base sobre a qual,
sem violar nossos princípios, presum ivelm ente fortes, de liber­
dade de expressão, seja possível controlar a publicação de m a­
terial abertam ente obsceno. U m dos argum entos superficiais
sempre levantados é a causalidade e a provocação — deliqüên-
cia e assim p o r diante. M as não há qualquer prova de que
assim seja. H á algum a tese defensável de que um a cultura
tenha o direito de proteger seus padrões éticos ?

Prof. L asswell: U m a das interpretações mais im portan­


tes dêsse problem a seria incluir, no processo de form ação de
decisão num a cultura como a nossa, a pergunta: “Q ue tipo de
homem, e dentro de que processo social, desejam os obter nos
anos futuros ?” E se form ularm os tal indagação, um a das per­
gun tas subseqüentes será: “ Q ual a relação da definição de p a­
lavras com o 'obscenidade' e a caracterização do tipo de ho­
m em e do tipo de interação, o contexto social do homem, que
aceitam os ?” Prim eiro, exam inem os as definições em têrmos da
296 O CONTROLE DA MENTE

form a pela q u al falam os de objetivos e fatos, e, então, d a form a


pela q u al falam os dos acontecim entos im ediatos. Eu d iria
que se considerarm os “obscenidade” dentro de certos padrões,
então toda com unidade podería dizer: “N ão desejam os sêres
hum anos ou um processo social caracterizado por certas for­
m as de expressão.” N essas circunstâncias, seria inteiram ente
procedente dizer: “ N osso objetivo é um hom em livre da obsce­
nidade. Querem os um hom em que não precise da obsceni­
dade.” Inversam ente, se definim os a obscenidade de form a m ais
interessante — como certas pessoas o fazem — o problem a será:
“Q ual a m argem de obscenidade que desejam os perm itir ao
nosso hom em ?”

Prof. R o s t e n : Sobre a obscenidade, não conheço n ada m e­


lhor p ara indicar a tacanhez de atitudes e a proporção de cer­
tos valores do que a história do m odêlo que foi ao estúdio do
artista, p ara posar p ara um “n u ”, e começou a despir-se. O
artista, porém , disse: “ N ão precisa despir-se, tenho um a dor
de cabeça horrível. Vam os tom ar um a xícara de café, e você
poderá voltar am anhã.” O m odêlo vestiu-se novamente, e es­
tava tom ando café com o artista q u an d o se ouviram passos
na escada. “M eu Deus, é m inha m ulher”, disse o pintor. “T ire
a roupa, depressa.” Parece-me que o Professor Lassw ell dese­
ja ria um a sociedade n a q u al a obscenidade pudesse estar ves­
tida ou despida, segundo a inclinação das pessoas.

Prof. S i m o n : U m a pergun ta me vem perseguindo desde


que ouvi as observações do professor Porter. U m dos grandes
tem as presentes em quase todos os trabalhos aqu i apresenta­
dos tem sido a relação entre a razão e a emoção. T em em os o
controle da mente ou outra q u alq u er coação da razão, em bora
nossos temores tenham sido m uito aliviados pelo qu e se disse
das comunicações em m assa. Por determ inados m otivos, coloca­
mos a razão num alto nível, na mente. Parece-me que isso foi
form ulado de m odo diverso pelo professor Porter, quando fa­
lava sobre o efeito da televisão na cam panha política, a reação
do povo aos fatos políticos e o problem a de escolha política.
Pergunto se êle não gostaria de fazer m ais alguns com entários
sobre a questão. Por que é m elhor p ara nós ju lg a r as cam ­
pan has políticas em têrmos dos cham ados “ problem as” do que
em têrmos da reação quím ica do corpo às características de per­
sonalidade de um determ inado candidato, visto n a televisão ?
O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 297

G ostaria tam bém de pergun tar ao professor Porter se acredita


serem nossos julgam entos sôbre os problem as m ais dignos de
fé como previsão d a política que será adotada p or um govêm o
sob determ inado presidente, do que o nosso julgam ento de um
candidato baseado na observação próxim a de suas reações
como ser hum ano subm etido a um a variedade de situações im ­
previstas.
Prof. P o r t e r : U m a das razões por que suponho haver
algo de louvável na análise e escolha racional entre alternati­
vas está no fato de ser eu, essencialmente, um hom em an ti­
quado, d a escola racion alista do século X V III. Acredito haver
m elhor resposta p ara o fato de que essas reações frente a frente
são, freqüentem ente, idiossincrasias. Conseqüentem ente, creio
que no processo de argum entação e exam e racional chegamos a
algo que se ap roxim a d a verdade, e que tem certa aplicação
universal. Q uando fazemos um julgam ento em base diferente,
porém, somos m ais superficiais. N osso julgam ento pode estar
relacionado com algum a coisa totalm ente irracional, de form a
que nossas possibilidades de chegarm os à resposta correta são
poucas. Isso, naturalm ente, cria o problem a da resposta certa
— que, de certo m odo, é a pergunta do professor Simon. M as
em têrmos de tentarm os im aginar como algum as figuras polí­
ticas reagirão em determ inada situação, como assinala êle, esta­
mos fazendo um a escolha entre a form a pela q u al reagirão
pessoalm ente, do ponto de vista de sua personalidade, e a form a
pela q u al reagirão do ponto de vista das linhas básicas de seu
pensam ento e de sua posição.
Prof. R o s t e n : N ão resisto a acrescentar um a nota his­
tórica. Fran klin R oosevelt foi eleito em 1932, em parte de­
vido ao orçam ento equilibrado. O que me surpreendeu nos
debates de televisão durante a últim a cam panha presidencial
foi que, no esforço de cada candidato de se apresentar como
pessoalm ente agradável, o Sr. N ix on cometeu o êrro fatal de
tentar mostrar-se superior, agindo com o se fôsse igual. O fato
de qu e o público n ão tenha aprendido n ada sôbre a form a
pela q u al os hom ens agem, sob pressão, sugere certas conclu­
sões sôbre a estrutura d a personalidade.

Prof. L a s s w e l l : In dago se o professor Porter e o professor


Sim on acreditam haver form a de organizar nossas com unica­
ções m elhor d o q u e as em pregadas até hoje. Estam os m uito
298 O CONTROLE DA MENTE

im pressionados pela televisão como m eio d e com unicação d a


m assa, pela im prensa com circulação gigantesca, e assim po r
diante. N ão poderá o trabalho que realizam os até hoje possi­
b ilitar idéias criadoras sobre novos canais de com unicação ou
novas com binações de circulação de inform ação que coloquem
ao alcance de m ais participan tes em nossa sociedade os dados
que são esclarecedores p ara êles e tam bém pertinentes à estru­
tu ra política ?
Prof. Porter: A credito que existe essa possibilidade. G os­
taria de ver os m eios de com unicação em m assa agindo intima-s
m ente ligados aos especialistas do com portam ento que estudam
a form ação da op in ião pú blica e problem as semelhantes. G os­
taria de ver os cientistas sociais organizarem parte de seu m a­
terial de form a a torná-lo realm ente em ocionante. A pesquisa
indica haver possibilidade de organizar tal m aterial. H á o
problem a de transm itir o gênero de inform ação que o p ro ­
fessor Lassw ell m encionou — inform ação produzida pela “m á­
q u in a do povo” do Sr. Kennedy. É p ara m im u m a idéia b as­
tante entusiasm adora a de que não só os presum íveis m an ipu ­
ladores, mas tam bém seus alvos, tenham acesso à m esm a in for­
m ação. Deveriam os fazer com que nossos m eios de com unica­
ção em m assa adotassem esse conceito. Creio haver tam bém
um grande p ap e l p ara o govêrno n a organização de certas for­
m as de com unicação em m assa que n ão recebem atenção de­
vida, no sistem a atual.
Prof. R osten: Interesso-me sem pre p ela defesa das com u­
nicações em m assa. C erta vez um grupo de estudantes m e in da­
gou sobre as lim itações da im prensa. Disse-lhes: “Vocês não
preferiríam m uito m ais um sistem a em que o povo votasse ?”
R espon deram : “D e certo.” “Procurem então um a banca de
jorn ais e fiquem observando a votação. C ad a pessoa que com ­
pre um jorn al ou revista está votando a favor de um e contra
outro.” A lim itação, porém , está em que só podem os escolher
um entre os existentes. A resposta real aos m uito otim istas
sobre o estado d a im prensa é dizer que é bom , a esta altura,
têrmos talentos para ela. N a m aravilhosa form ulação de Alice
no País das Maravilhas: “N ão é tanto que o público goste do
que lhe dão, m as sim qu e é necessário dar-lhe o de que gosta.”

U m dos presentes: Professor Porter, q u al a sua opinião


sôbre a crescente com plexidade dos problem as sobre os quais
O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 299

o público tem de tom ar decisão, e sobre as conseqüências dessa


decisão? É possível que essa com plexidade m esm a destrua a
capacidade do público de tom ar partido, de descobrir um pró
e um contra aceitáveis ?
Prof. Porter: D iria em resposta que os grandes proble­
mas críticos não são, freqüentem ente, assim terrivelm ente com ­
plexos, em bora possam ter m anifestações complexas, questões
de como proceder, em detalhes. Por exem plo, o agravam ento
do problem a de Berlim poderia ser m uito com plexo. N a essên­
cia do problem a, um a vez estabilizada a inform ação científica,
creio haver tôda um a escala de problem as nos quais as decisões
básicas são essencialmente simples, m uito em bora suas ram ifi­
cações possam ser complexas.

U m d o s p r e s e n t e s : Professor Sim on, no fin al de seu tra­


balho, o Senhor deixou im plícito qu e a dignidade e a estatura
do hom em não seriam dim inuídas por q u alq u er explicação
de seus processos m entais ou de com portam ento em têrmos
m ecanicistas. Sua dignidade não se baseia, e não se deve ba­
sear, no mistério. Em que se deve ela basear, se é que real­
mente existe ?

Prof. Simon: Q uando me refiro à dignidade do homem,


penso estar usando apenas um a palavra p ara indicar o con­
ju n to de opiniões que temos a nosso próprio respeito como
indivíduos, como m embros de um a espécie, e como pessoas
que vivem num universo grande e com plicado. Creio referir-
me ao conjunto de convicções que temos sôbre isso, às con­
vicções básicas que parecem dar sentido, tornar agradável e
valiosa a totalidade de nossa atividade.

U m d o s p r e s e n t e s : A lei determ ina limites, assim como os


pais determ inam lim ites aos seus filhos. Isso, de certo modo,
está certo; dá estabilidade a um a sociedade e constitui um a
proteção p ara os tím idos. M as creio, ao mesmo tempo, que
devíam os respeitar os que, de m odo responsável, vão além dos
lim ites d o qu e é aceito, p ara que tais limites venham a ser
am pliados.

Prof. R osten: I sso não difere das observações do Sr.


Koestler sôbre o que há de sagrado na experiência mística
individual, ou a m ente nlo-convencional e n|o-conform ada.
300 O CONTROLE DA MENTE

Prof. S im o n : Concordo em que sem pre lutam os com êsse


equilíbrio entre a exigência de conform idade e a perm issão da
criatividade.
Prof. R o s t e n : Lem bro-m e de um a das m uitas histórias
apócrifas relativas a W inston Churchill. A o ser ju lg ad o um
dos crim inosos de guerra, um general alem ão, transpirou que
C hurchill havia con tribuído com m il libras p ara sua defesa.
Q uando lhe pergun taram como êle, arquiin im igo dos nazistas,
p o dia contribuir p ara a defesa deles, deu um a explicação que
considero do nível de um a declaração de Jo h n Stu art M ill.
D isse: “N ão tenho a m enor indicação se o general fulano é
inocente ou culpado dos terríveis crimes pelos qu ais está sendo
ju lgado. N ão foi p or isso que dei o dinheiro. Fiz tal contribui­
ção para assegurar que a ju stiça inglêsa não tenha de que se
envergonhar, jam ais.,,

Prof. P o r t e r : Professor Sim on, desejo referir-me a um


aspecto focalizado pelo Senhor neste debate — o de que nada
lhe indica a existência de q u alqu er barreira entre o q u e se
podería cham ar de extrem o criador do espectro de Koestler
e o extrem o m ecânico d e que o senhor se ocupa atualm ente.
N ão representarão os program as colocados nesses instrum en­
tos, na realidade, a p ercep ção? São resultantes da percepção
do ser hum ano. Se supuserm os que com um a estrutura in fi­
nitam ente com plicada essas m áquinas sejam essencialmente ca­
pazes de tôdas essas atividades m entais, não significaria isso
qu e o organism o hum ano é tam bém lim itado às coisas que
pode apreeender pela percepção ?

Prof. S imon: Sim.

Prof. R o s t e n : N ão concordaria o Senhor, Professor S i­


mon, que no contexto a afirm ação do professor Lassw ell sobre
a am pliação d a perspectiva estreita e a ru p tu ra dos m itos, rea­
lizada pela análise sistem ática com parada, represente, pelo
menos, a am pliação d a capacidade d e prod ução hum ana na
com unicação bem como na percepção ? N ão concorda, em
outras palavras, que as pessoas perceberão m ais na realidade,
se estim uladas e instruídas devidam ente ?

Prof. S imon: Q ualquer progresso no conhecimento que


tenha realm ente m odificado, de form a radical, a com preensão
U IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE A MENTE 301

que o homem tem de sua relação com o universal foi um a


am pliação, e constituiu tam bém um a m odificação m uito pe­
nosa, frcqüentem ente, da percepção. A revolução que tirou a
T erra tio m eio do universo e a colocou como um plan êta do
Sol Ibi uma m odificação radical da perspectiva do homem. A
revolução que fêz do hom em um a espécie evoluída de outras
espécies foi outra dessas m odificações. Q ualquer passo dado
na direção da explicação, bioquím ica ou outra, do que ocorrer
no cérebro hum ano m odifica realm ente o conceito que faze­
mos da posição do homem no m undo. Se acreditarm os que
o conhecimento é a liberdade em qualquer sentido, isso é
mais do que um slogan. Significa realm ente m ais do que liber­
dade; não significa um a ausência do problem a.
Prof. R o s t e n : N ão posso resistir à tentação de assinalar
epie sòmente em fins do século X I X os artistas ousaram fazer
o que as crianças sem pre tinham feito, m as no que eram re­
prim idas pelos pais e pelos professores de arte realistas. E ra
colorir as sombras. J á não podem os olhar p ara um a paisagem
ou um vaso de frutas como se fazia antes dos impressionistas.
Foi sòmente com Cézanne que alguém teve a ousadia de dizer:
“ Por que temos sem pre de olhar p ara o quadro ? Por qu e não
pode êste parecer vir em nosso sentido, e não o oposto ?” Se
isso ocorre no fenôm eno rudim en tar e evidente d a visualiza­
ção, podem os perceber como seria m uito m ais verdadeiro em
lênnos d a conceitualização e da organização da im aginação,
na interinfluência entre esta e a razão.
G ostaria de concluir esta reunião com um a história que
ilustra a capacidade do hom em de ser im previsível em relação
;is experiências, seja n a farm acologia ou n a construção de com ­
putadores. U m hom em levou o filho ao psiquiatra e disse:
"ftstc m enino precisa de tratam ento.” O psiqu iatra prontificou-
se a submetê-lo a um a prova sim ples. Desenhou um círculo no
cpiadro-negro e in dagou: “ M eu filho, o qu e vê você no
círculo ?” R esp on deu o rapaz: “V ejo dois rinocerontes se
am ando.” O p siqu iatra, que era um m aterialista dialético,
indagou: “Em que pensou você, quan d o eu desenhei êste
circulo ?” O rapaz respondeu novam ente: “ Ora, é fácil: em
dois elefantes se am ando.” O psiqu iatra voltou-se para o pai
do m enino e disse: “Seu filh o está sèriam ente perturbado.” E
o pai retrucou: “C om o pode dizer isso ? F oi o senhor mesmo
(piem desenhou essas figuras indecentes.”
Q U IN TA PARTE

RESTRIÇÃO E LIBERDADE
DA MENTE

Coordenador, J o h n B. de C. M . Sa u n d ers

A o térm ino das sessões gerais, os participantes do sim pósio


foram divididos em seis grupos de debate, cada q u al em pe­
nhado n a discussão das questões que constituíram os temas
principais do sim pósio, a restrição e a liberdade da mente.
Os debates foram feitos de m odo a proporcionar um fundo
variado a cada grupo, e de revelar opiniões diversas sobre os
problem as focalizados. D epois das discussões sôbre a restrição
da mente, a com posição dos grupos foi m odificada para novo
debate sôbre a liberdade da mente.

A extensão das discussões não perm ite que sejam repro­


duzidas integralm ente, m as cada debate em grupo foi regis­
trado, condensado e adaptado, sendo êsse sum ário que apre­
sentam os a seguir. N ão se pode esperar, naturalm ente, um a
organização rigorosa dos fatos e idéias, como ocorre num a
apresentação form al. Os organizadores, porém, ju lgam que a
significação das idéias que surgiram compensa a desvantagem
inerente à transcrição, por escrito, de observações verbais fçitas
ad hoct
304 O CONTROLE DA MENTE

Os sum ários representam o esfôrço com binado de várias


pessoas. P aul C lifton preparou o m aterial. Os registros dos
debates foram feitos pelas seguintes pessoas:

R o b e r t R . A lford , P r o fe s s o r d o D e p a r t a m e n t o d e S o c io lo g ia d a U n i ­
v e r s i d a d e d a C a li f ó r n i a , B e r k e le y .

M a lc o lm A . B rown , P sic ó lo g o d o S t a t e M e d ic a i F a c ilit y , V a c a v ille ,


C a lif ó r n ia .

P r ic e C harlson , D o u t o r e m F ilo s o f ia , P r o fe s s o r A s s is te n te d o D e p a r ­
t a m e n to d e F i lo s o f i a d a U n iv e r s id a d e d a C a lif ó r n ia .

D o n a ld G. L angsley , P r o fe ss o r d e C lín ic a P s i q u iá t r ic a , L a n g le y ,
P o r t e r N e u r o lo g i c a l I n s t it u t e , S a n F r a n c isc o .

D a v id M atza, P r o f e s s o r A s s is te n te d o D e p a r t a m e n t o d e S o c io lo g ia
d a U n iv e r s id a d e d a C a lif ó r n ia , B e r k e le y .

G e r a ld A. M endelsohn , P r o fe s s o r A s s is te n t e d o D e p a rta m e n to de
P s ic o lo g ia , U n iv e r s id a d e da C a lif ó r n ia , B e r k e le y .
Restrição da Mente

A d is c u s sã o , n e ste p r im e ir o g r u p o , tev e d o is te m a s b á sic o s:

1) A d ife r e n ç a d e p o n t o s d e v is ta sô b r e a r e la ç ã o e n tr e a
m e n te e o c é re b ro , e x p r e s s a p e la te se d o P r o fe ss o r S im o n s ô b r e
a s p o t e n c ia lid a d e s h u m a n a s d a s m á q u in a s , e p e la p r o p o s iç ã o d o
D r. P e n f ie ld s ô b r e a s i n g u la r i d a d e d o h o m e m .

2) A s im p lic a ç õ e s d e n o s s a s o c ie d a d e r ic a , u m a a m p lific a ç ã o
d a te se d o P r o fe s s o r M a c e .

Registrador; M alcolm A . B rown

Membros: C . A . M a c e , W ilder P enfield , H erbert A . S im on .

O professor mace iniciou o debate


com a op in ião de que a mente h um an a devia limitar-se às fun ­
ções que as m áquinas não podem executar. N ão se preocupava
com a possibilidade d e que as m áquinas possam, algum dia,
fazer tudo o que a m ente pode fazer hoje. Citou o caso simples
de como é m uito m ais proveitoso fazer as operações elemen­
tares d a m atem ática no papel, e não de cabeça. D a mesma for­
ma, argum entou, não deve haver objeções fortes p ara se trans­
ferir p ara as m áquinas um grande núm ero de problem as, espe­
cialm ente os m ais difíceis. Fêz, contudo, a advertência de que
as m áquinas cada vez m ais eficientes não deviam poder privar
os seres hum anos d a necessidade de pensar. N inguém devia tor­
nar-se tão dependente das m áquinas a ponto de perder a sua
faculdade de indagar.
O professor Sim on respondeu que sua preocupação com os
com putadores autom áticos, em bora diferente da preocupação
306 O CONTROLE DA MENTE

do D r. Penfield com a com preensão dos m ecanism os do cére­


bro, se dirigia a objetivos m ais ou menos semelhantes. Expres­
sou seu antigo interêsse na questão da provável divisão de tra­
balhos entre as funções d a mente hum an a e as funções da m á­
quina. Confessou-se pouco disposto a abrir m ão do uso de
sua mente. A o com entar as observações do professor M ace
sobre o excesso de confiança nas m áquinas, alud iu à possível
atrofia das capacidades cerebral e m uscular do homem, tal como
ocorre com o gato dom esticado, se as m áquinas vierem a predo­
m inar. >
O Dr. Penfield expressou surprêsa ante a convicção do pro- m
fessor M ace de que as m áquinas viriam , algum dia, a fazer
tudo o que a m ente hum an a faz. O com putador não foi, cer­
tamente, o prim eiro instrum ento mecânico inventado pelo
hom em que despertou a suposição de que viria a realizar as
funções e habilidades básicas do homem. U m a capacidade do
hom em jam ais seria substituíd a pelas m áquinas: a de fazer
novos com putadores p ara realizar tarefas m aiores e melhores.
Expressando o ponto de vista oposto, o professor Sim on afir­
m ou defender exatam ente a proposição que, para o Dr. Pen­
field, jam ais poderia ser realizada. D esenvolvendo sua tese
sobre a sin gularidade do homem, o Dr. Penfield afirm ou q u e
nenhum a m áquin a jam ais poderia ter a m esm a capacidade de
in iciativa, característica do homem. A ssinalou, de form a hu­
m orística, que em bora não fosse inconcebível que a m áq u in a
adquirisse o senso de hum or, duvidava q u e um com putador
pudesse algum d ia ter os mesmos caprichos im previsíveis da
m ulher. A creditava o professor Sim on sèriam ente que os
com putadores poderíam algum d ia dirigir a evolução científica
de novas espécies ? R espondendo, o professor Sim on afirm ou
que deixara im plícito precisam ente isso, no trabalh o q u e apre­
sentara ao sim pósio. A vançando m ais os seus argum entos, re­
feriu-se à probabilidade de qu e um a nova m utação biológica
d a espécie hum ana viesse a existir algum dia, que tomasse a
form a de um m ecanism o com as propriedades dos organism os
auto-subsistentes.
O professor M ace ped iu aos dois outros m em bros do grupo
que enumerassem as tarefas que não poderíam ser realizadas
pelas m áquinas e explicassem porquê. H avia certos problem as
que não poderíam ser feitos pelas m áquinas devido à ausên­
cia de inform ação — por exem plo, q u al seria a próxim a jo g ad a
de K ru sch ev? Além do m ais, toda m áq u in a até então cons­
RESTRIÇÃO E LIBERDADE DA MENTE 307

truída teve de receber dos sêres hum anos seus processos lógicos
e m atem áticos. Finalm ente, a natureza m esma da novidade
pressupunha certas situações inteiram ente imprevisíveis. Êsse
princípio era o pressuposto básico d a teoria da evolução emer­
gente.
O professor Sim on declarou que já existem m áquinas que
podem m odificar suas reações no curso de um a adaptação a
um am biente em m odificação. Essas m áquinas podiam sim ular
o pensam ento hum ano, em bora não funcionassem de m odo
mecânico predeterm inado, nem fôssem dadas a tentativas de
acertar, indiscrim inadas. Pela m odificação de suas próprias
reações na adaptação, elas sim ulavam a faculdade m ental do
homem, capaz de m an ip u lar sím bolos.
Q uando o Dr. Penfield objetou novamente que nenhum a
m áquina poderia ter a capacidade de iniciativa característica
do homem, o professor Sim on respondeu que nossa capacidade
hum ana de iniciativa era determ inada pelas células e genes
biológicos, tal como as ações dos com putadores eram predeter­
m inadas pelos mecanismos inerentes. M encionou o caso de
um a m áq u in a feita na IB M por A rth ur Sam uels que começou
pela m anhá a aprender a jo g ar xadrez e à noite era capaz
de jo g a r m elhor do que Sam uels. Acrescentou que m ui­
tas m áquinas já possuíam a capacidade de desenvolver órgãos
sensoriais pela exposição repetida a um am biente em m odifi­
cação. Descreveu as tartarugas produzidas por Grey W alter,
capazes de d ar voltas à sala e renovar o abastecim ento de com­
bustível sem pre que este se esgotava, voltando sòzinhas ao
circuito elétrico que as alim entava.
P ara desenvolver a tese das potencialidades hum anas das
m áquinas, conform e o Dr. Sim on, Dr. Penfield pediu-lhe então
que explicasse com o os três níveis de explicação mencionados
em seu trabalho — processam ento de inform ação, processa­
mento neurológico e processam ento quím ico — eram análogos
às funções m entais dos sêres hum anos. O professor Sim on res­
pondeu que o com portam ento hum ano poderia, em últim a
análise, ser descrito em têrmos dos program as cujos padrões
funcionavam a um nível de existência mais ou menos m icros­
cópico. Segundo essa opinião, m ente e cérebro eram indistin­
guíveis, e sòm ente os agentes d a im plem entação, que consistiam
nos padrões dêsses program as, tinham a única significação de­
term inante. E m outras palavras, o professor Simon endossava
308 O CONTROLE DA MENTE

a interpretação m ecanicista do com portam ento hum ano, que


reduz o problem a mente-cérebro a um m onism o m aterialista.
O professor M ace assinalou que o professor Sim on espo­
sava um conceito behaviorista d a experiência hum ana, e que,
portanto, restringia o com portam ento hum ano aos fatores que
poderiam ser percebidos diretam ente pelos sentidos. T a l ati­
tude afastava a possibilidade de que um ser hum ano experi­
m entasse a dor, porque a dor era um aspecto do com porta­
mento hum ano — como tantos outros fenôm enos psicológicos
subjetivos — não diretam ente observável pelos sentidos objeti­
vos. Os anim ais não eram sim ples autôm atos destituídos de
sentimentos, como Descartes acreditava. O professor Sim on
respondeu que não partilh ava da opinião de Descartes e que
acreditava experim entarem os anim ais coisas que as m áquinas
não podiam experim entar.
Em resposta a um a pergunta feita por um espectador, o
Dr. Penfield fêz algum as observações sobre sua opinião a res­
peito da relação entre mente-cérebro. A creditava que a ação
cerebral, que consiste essencialm ente de potenciais elétricos
que percorrem o cérebro, acom panha sem pre a atividade men­
tal. N ão havia q u alq u er evidência de que a m ente ou espírito
pudesse funcionar sem um a atividade cerebral concom itante.
U m a opinião du alista d e que m ente e cérebro são totalm ente
separados, conseqüentem ente, devia ser m an tida até o d ia em
qu e nosso conhecim ento do segundo fosse tão grande qu e p u ­
déssemos reduzir todos os fenômenos m entais a ações cerebrais
específicas. O Dr. Penfield referiu-se à sua experiência com o
hom em que não p o d ia pron unciar a p alavra “borboleta”, q u an ­
do lhe m ostraram um a borboleta e pediram que dissesse o que
era. N ão pod ia dizer a palavra porqu e houvera um bloqueio
d a parte do cérebro correspondente, e d a conseqüente capa­
cidade de dizer o nom e do objeto conceitualm ente — em bora
continuasse perfeitam ente capaz de reconhecê-lo. O professor
Sim on disse que p o d ia reproduzir a aíasia verbal na su a m á­
q u in a PEM E. O D r. Penfield respondeu q u e a m áq u in a p o d ia
produzir apenas um a reação autom ática, e não um a reação
genuinam ente conceituai.
O professor M ace, apoian do o ponto de vista do Dr. Pen­
field, indagou se a m áqu in a po d ia perceber a côr. De um
lado, a m áquina p o d ia d istinguir entre q u alq u er grad u ação do
espectro de cores; do outro, era duvidoso q u e pudesse experi-
UKSTRIÇAO E LIBERDADE DA MENTE 309

m enlar as mesmas sensações q u alitativas que acom panham


a experiência de um objeto colorido, tal como a percebe a
mente hum ana.
O restante d a sessão foi dedicado principalm ente à dis-
i UNNtU) de m uitos problem as provocados pela an alogia do pro­
fessor M ace entre o gato dom esticado e a sociedade abastada
de hoje e de am anhã. O professor M ace disse q u e seu inte-
lêssc original no gato dom esticado fôra estim ulado pela sua
participação pessoal em pesquisas em píricas sobre a natureza
diiN emoções de alegria expressas pela pessoa m édia. Essas expe­
riências m emoráveis tiveram, freqüentemente, a form a m ais
urbana e não fisiológica — como, por exem plo, a prim eira vez
c|iie mna m oça foi ao Sadler’s W ells Ballet, ou a ocasião em
que o pai de um a m ôça voltou p ara casa, depois de passar
longo tempo no hospital. A pesquisa em pírica dem onstrou
a com plexidade extraordin ária de nossos motivos diários, e
Ilustrou, segundo lhe parecia, o ridículo de tentar reduzir os
molivos básicos aos motivos rudim entares do sexo, fome, sobre­
vivência e outros semelhantes.
C) l)r. Penfield observou que a m aioria das pessoas tinha
mu im pulso distinto no sentido d o altruísm o, um a considera­
ção básica e preocupação com o bem-estar dos outros. Con­
cordando plenam ente, o professor M ace acrescentou, especlfi-
tiimentc, que o terceiro m otivo básico na sociedade abas-
Iml a — ou seja, além dos m otivos do jo g o e do cultivo das
ui lcs — cra, altruisticam ente, aju d ar o próxim o. O Dr. Pen-
IIrld comentou que a m aior satisfação que o homem pode expe­
rim entar é a realização de um a tarefa que se tenha impôsto,
por tóda a vida.
O professor Sim on indagou sôbre o predom ínio da m elan­
colia cm nossa m oderna sociedade abastada. Inclinava-se a
julgar que sua origem podería ser atribuíd a a um a falta básica
de sentido nas características d a vida diária daqueles que, gra­
ças â. fortuna, dispunham de m uito lazer. T am bém fêz inda­
gações sôbre a significação da busca de posição num a socie­
dade abastada. A creditava que essa busca podia ser associada
á serpente no Paraíso, tentando-nos a um nível de aspiração
tão acim a de nossas circunstâncias presentes que éramos inca­
pazes de aceitar a situação existente. N um a sociedade rica,
pensava êle, a m aioria das pessoas devia ser capaz de obter
um êxito m oderado a m aior parte do tempo, de ser razoável­
310 O CONTROLE DA MENTE

mente feliz, de asp irar a um a m édia de cêrca de 10% m ais


de renda do qu e realm ente ganhava. A m enos que pudessem
dar às suas aspirações lim ites razoàvelm ente atingíveis, jam ais
poderiam ser capazes de voltar à inocência feliz do Paraíso.
O professor M ace expressou a op in ião de qu e a transição
grad u al p ara um a sociedade autênticam ente rica, sem dúvida,
ocorrería no futuro. Ju lg a v a as pessoas hoje m uito inclinadas
a se preocuparem com os perigos da vida em geral e com os
perigos de nossa civilização m oderna em particular. A preocupa­
ção atual com a existência da busca de posição na sociedade
dem ocrática lhe parecia exagerada. O que ela realm ente re­
presentava era um a form a de m otivação do poder que esca­
para, no momento, ao controle. N a realidade, porém , as so­
ciedades eram, e deviam ser, hierárquicas, e a pessoa m édia
tinha um quadro relativam ente claro do ponto qu e preten dia
atin gir na hierarquia. Partilh ando d o otim ism o do professor
M ace sobre a sociedade realm ente abastada, o Dr. Penfield
aplau diu os m éritos da com petição social. Disse que na G récia
an tiga surgiu, dos padrões de concorrência socialm ente im ­
postos, um conceito d a excelência d a perfeição in dividual que
se tornou um a fin alid ad e cultural intrínseca em si mesma.

A d is c u s sã o d o s e g u n d o g r u p o se fêz e n tr e u m filó s o fo e
m o r a li s t a ( p a d r e D ’A r c y ), u m p s i q u i a t r a in t e r e s s a d o e m p e s q u is a
f a r m a c o ló g ic a (D r . C o le ) e u m p s ic ó lo g o in te r e s s a d o n a r e la ç ã o
e n t r e a m o d if ic a ç ã o q u í m ic a d o c é r e b r o e o a p r e n d iz a d o (D t .
K r e c h ). A s q u e s t õ e s s u g e r id a s p e lo s p r e se n t e s a o s trê s m e m b r o s
d o g r u p o t r a t a r a m p r in c ip a lm e n t e d o s s e g u in t e s p r o b le m a s :

1) S u b s t i t u i ç ã o d o c é r e b r o p e l a s m á q u i n a s
2 ) D u a lis m o - m o n is m o , r e la ç ã o m e n te - c é r e b r o .

3) P e r ig o d o c o n tr o le d a m e n te .

Registrador: D onald G . L angsley


Membros: J onathan O. C o le , M artin C. D ’A rcy , S . J .,
D avid K rech .

O s presentes ao debate desejavam saber não só se os


com putadores poderiam substituir o cérebro, m as se tais m á­
quinas n ão poderiam mesmo superar a capacidade h um an a d o
RESTRIÇÃO E LIBERDADE DA MENTE 311

pensam ento. O Dr. Krech disse que os cientistas freqüentemen-


te em pregavam m odelos para com preender os vários fenômenos,
e o uso do com putador como m odêlo poderia sim ular certos
processos do pensam ento, sim ples ou mesmo com plexos. T a l
m odêlo, porém , não substituía o cérebro nem m ostrava, ne-
cessàriamente, como ele funcionava. Para compreendê-lo, seria
necessário um m odêlo m uito m ais próxim o da anatom ia, qu í­
mica e fisiologia do cérebro. O com putador que sim ula os vá­
rios fatos executados pelo cérebro não poderia ser considerado
como equivalente da mente hum ana.
U m dos presentes indagou: “Com o opera a mente cria­
dora ? Com o o cientista pesquisador tem idéias ?”
O Dr. C ole respondeu que a criação de novas teorias cien­
tíficas resultava da síntese, dentro do cérebro do cientista, de
suas observações e deduções. A o invés de usar técnicas do
com putador, o observador agia como o próprio com putador.
O Dr. Krech acreditava na inexistência de algo como um m é­
todo científico. A ssinalou que o cientista em pregava qualqu er
m étodo que funcionasse, e que “o cientista produtivo com bina
a intuição do poeta com a persistência do guarda-livros” . Em
outras palavras, sua intuição precedia as provas pela m etodo­
logia científica. O Dr. Cole assinalou que am bos os aspectos
da criatividade científica eram im portantes e se com binavam
m elhor n um a única pessoa.
“ H averá um a fonte criadora da q u al os cientistas obte­
nham suas idéias?” — indagou alguém entre os presentes. A
essência da pergun ta era, naturalm ente, se a fonte criadora
era interna ou externa. O Dr. Krech e o Dr. Cole observaram
am bos que as inform ações chegam ao cérebro hum ano através
de vários órgãos sensoriais e que toda ela tinha de ser sinteti­
zada de um a m aneira criadora; freqüentemente, a idéia resul­
tante se expressava como um “pressentim ento” intuitivo, com­
parável à an alogia do m ergulhador ajudad o pela corrente sob
a água, já m encionada no sim pósio. Ambos julgavam que o
processo criador vinha de dentro. O padre D ’Arcy manifestou
sua convicção de que a criatividade era algo m ais do que o
sistem a nervoso central. C itou o crítico de arte Gom brich,
p a ra quem a in spiração vem não só da realidade, m as da se­
leção e do acréscim o íntim o. O padre D'Arcy ju lgava que a
m ente tam bém cresce pelas esperanças e desejos; o sistema
nervoso central realizava as “instruções da m ente” .
312 O CONTROLE DA MENTE

U m dos presentes indagou: “São a m ente e o cérebro a


m esm a coisa ? Se a m ente é algo mais do que o cérebro, o que
é então ?” U m dos presentes, com entando a necessidade de
coerência no estudo dos sêres hum anos, sugeriu que a posição
do padre D ’Arcy era mais coerente, do nível celular ao nível
individual. O utra pessoa pediu que o grupo de debate fizesse
observações sobre a questão do dualism o contra o m onism o.
O cientista e o filósofo não concordam nessa área: a posição do
cientista era a de que ninguém p o d ia estudar ou necessària-
mente com preender a som a total do com portam ento hum ano,
ao passo que o filósofo acreditava que um a pessoa era perfei-
tamente capaz de com preender o qu adro geral, desde que ti­
vesse o conhecimento p ara distinguir entre a m adeira e a
árvore.
N a opinião do Dr. Cole, o estudo do com portam ento h u ­
m ano exigia o estudo de aspectos discretos, da an alogia da
célula no m icroscópio. O padre D ’Arcy concordou que o p ri­
m eiro princípio da investigação era dividir a fim de dom inar,
advertindo em bora que, ao dividir em partes p ara m edir, deve
haver a cautela de não se perder de vista o todo. O D r. Krech
respondeu que a pergunta legítim a p ara o cientista era: “O
que é o cérebro?”, ao invés de “O que é o hom em ”. Pronti­
ficou-se, porém , a assum ir a posição altern ativa e assinalou
que, ao estudar a cebola, podem-se rem over sucessivas cam adas
até chegarmos ao “n ad a” . O Dr. Krech argum entou: “Per­
tenço a essa escola da cebola d a ciência.” Disse q u e q u alq u er
sistem a científico coerente com a realidade tinha um a alta
probabilidade de estar errado. Parecia-lhe q u e o m undo era
dem asiado com plexo p ara ser explicado por um a única filo­
sofia universal, abrangendo todos os fenômenos. “O cientista
vive de surprêsas, e estas não lhe faltam atualm ente.” O Dr.
K rech interpretou a tarefa do cientista como a de “separar o
que a natureza colocou ju n to ”.
M uitas perguntas revelavam um receio im plícito de q u e o
cientista pudesse, realm ente, vir a “controlar a m ente”, algum
dia. M uitos dos presentes acreditavam que o controle do pen ­
sam ento já existia ou que o controle da m ente era im inente.
N enhum dos m embros do grupo de debate partilh ava de tais
receios. Os dois cientistas concordavam que o contrôle total
da m ente pelas drogas ou por q u alq u er outro processo conhe­
cido da ciência não era possível no m om ento, e nenhum dêles
esperava ouvir falar disso no futuro próxim o. O padre D ’Arcy
RESTRIÇÃO E LIBERDADE DA MENTE 313

ju lgava, por m otivos filosóficos e religiosos, que a m ente não


podería ser realm ente controlada.
O Dr. K rech assinalou que p ara atin gir o com pleto con­
trole d a m ente deveriam os saber m ais sôbre as características
sociais, psicológicas, neurológicas, bioquím icas, fisiológicas e
anatôm icas do que sabem os hoje. “O que cham am os mente é
uma função de num erosos fatôres. Q uando tivermos esse co­
nhecimento, estaremos tam bém livres d o receio do controle da
m ente.” O padre D'Arcy disse que antes de com parecer ao
sim pósio visitara um farm acólogo cuja opinião filósofica lhe
parecera m uito confortadora. O conceito que o farm acólogo
tinha da interrelação entre corpo e alm a (o eu) era de que
seria possível realizar m odificações passageiras n a mente, mas,
q uaisquer qu e fôssem as m odificações que as drogas pudessem
despertar no tem peram ento ou disposição, a existência em si
11 ão sofria modificações.
U m dos presentes in dagou se a tecnologia podería ou não
vir a destruir o m undo. O Dr. K rech respondeu que não acre­
ditava em nenhum controle da m ente por um a droga mágica.
Sugeriu que a guerra term onuclear era um a preocupação m uito
m aior do que o controle da mente. O padre D ’Arcy m anifestou
dxividas de que a hum anidade desejasse continuar vivendo sem
uma filosofia que lhe proporcionasse serenidade de alm a.
O utra pergun ta indagava se o controle d a mente, ru di­
m entar como existe hoje, podería ser aperfeiçoado. Deveria
ou não haver lim itações ao uso de drogas, e estariam os cien­
tistas dispostos a estabelecer os lim ites ? O Dr. Krech e o Dr.
Cole afirm aram , ambos, que não conhecem nenhum cientista
favorável ao controle da mente. O Dr. Krech declarou: ‘'Co­
nheço cientistas que desejam com preender melhor a mente e
curar as doentes. A com preensão da física atôm ica é brinquedo
de criança, com parada com a compreensão dos brinquedos in­
fantis.” C ontinuou, explicando a dificuldade de estudar todos
os variáveis com plexos do com portam ento hum ano. O Dr.
Cole acreditava que a mente seria extremam ente difícil de
controlar de q u alq u er m odo, m as que se o controle se tivesse
de fazer, m uitos outros fatôres além das drogas estariam envol­
vidos nisso.
O utra pergunta foi se as drogas poderíam prejudicar a
capacidade criadora de pessoas m entalm ente doentes. O Dr.
Cole respondeu que se a pessoa estivesse doente a ponto dè
314 O CONTROLE DA MENTE

necessitar de agentes psicofarm acológicos, essa doença é que


lhe podería p ertu rb ar a capacidade criadora.
U m com entário final, feito p o r um dos presentes, sugeria
que a escolha d a p alavra “ controle” nesse debate sôbre a mente
talvez fosse infeliz, e que, n a realidade, se estavam discutindo
influências quím icas, culturais, filosóficas e m orais sôbre a
mente. Assinalou-se que há m uitos aspectos de nossa cultura,
bem com o de nossos pontos de vista éticos e filosóficos, que
influenciam a mente, m as que não os devemos temer. Suge­
riu-se que um estudo m ais adequado que o do contrôle total
da mente (tão repugnante era sem elhante conceito) seria o
estudo dos vários fatores que influenciam o com portam ento.

O t e r c e ir o d e b a t e fo i m a is u m a t e n t a t iv a d e r e d u z ir a s d is ­
t â n c ia s e n tr e a s d u a s c u lt u r a s , a c ie n t ífic a e a h u m a n ís t ic a , p e la
d is c u s s ã o d a r e s t r iç ã o d a m e n te . O s s e g u in te s a s p e c t o s f o r a m
e x a m in a d o s p o r u m g r u p o f o r m a d o d e u m h is t o r ia d o r (p r o fe s s o r
H u g h e s ) u m e n s a ís t a e r o m a n c is t a ( A ld o u s H u x le y ), u m p s i q u i a ­
t r a e p s ic ó lo g o (D r . P r ib r a m ) e u m h is t o r i a d o r d a m e d ic in a (o
d ir e t o r S a u n d e r s ):

1) A n a t u r e z a d a m e n te
2) A s r e s t r iç õ e s d a i m a g i n a ç ã o p e la r a z ã o n u m a s o c ie d a d e
r a c io n a l
3) A r e la ç ã o e n t r e a s d r o g a s e o p r o c e sso d e c r ia ç ã o
4) O p a p e l d a s d r o g a s n a s o c ie d a d e s a d ia .
5) A r e s t r iç ã o d a li b e r d a d e d a m e n te i n d i v i d u a l p e la s p r e s ­
sõ e s c o n fo r m is ta s d a s o c ie d a d e .

Registrador: P rice C harlson


Membros: H . Stuart H ughes, A ldous H u xley , K arl H . P ribram ,
J ohn B . de C . M . S aunders.

O diretor Saunders, ao iniciar a discussão dos problem as


associados à restrição d a mente, acentuou a m agnitude do
assunto, os num erosos aspectos que apresentava, a dificuldade
de interpretar até m esm o um tem a como a natureza da mente,
seus limites e as influências sôbre êle. Estas eram, de certa
form a, partes da m ente in cluídas na estrutura d a sociedade;
RESTRIÇÃO E LIBERDADE DA MENTE 315

instituições bélicas, m orais, políticas e religiosas; e os sím ­


bolos e cerim oniais de um a determ inada civilização e período
da história. T a is influências poderíam ser cham adas partes
da mente porque se relacionavam com nossos m otivos e com­
portam ento. Além disso, a mente era dinâm ica. Com as m u­
danças dos tempos, a natureza d a m ente tam bém se m odifi­
cava.
O problem a da restrição da im aginação pela razão num a
sociedade racional foi analisado pelo professor Hughes. Em
seu trabalho, prèviam ente preparado, deixou de tratar, como
êle mesmo disse, do perigo d a restrição d a fantasia e da
im aginação no m undo contem porâneo, acentuado por A ldous
H uxley. Desenvolvendo seu tema, disse considerar como um a
am eaça à im aginação o desenvolvimento de processos racio­
nais na lógica e nas ciências, com a tendência conseqüente de
as instituições sociais suprim irem a atividade im aginativa que
caracterizava a infância. Sugeriu que poderiam os aprender
m uito sôbre a liberdade da m ente observando as crianças brin­
carem com palavras. Sua conversa era, freqüentem ente, cor­
tada pelos adultos, e essa supressão do jôgo verbal abafava
um a possibilidade de especulação. O problem a qu e enfren­
tamos é com o m anter um a civilização racional, técnica, e
mesmo assim estim ular a im aginação hum ana.
A razão e a im aginação não eram incom patíveis, sugeriu
o Sr. H uxley. Caracterizou a vida im aginativa com as palavras
do W ordsworth: a criança via a vida como um sonho emocio­
nante. Infelizm ente, a educação tendia a esm agar a interpre­
tação im aginativa da criança, m as a educação poderia ser reor­
ganizada. Assim, o problem a era descobrir como mover-se li­
vrem ente entre os dois m undos d a razão e im aginação.
O Dr. Pribram sugeriu que o problem a se aproxim ava um
pouco m ais da solução — pelo menos agora reconhecíamos a
sua existência, pois, até q u e o Sr. H uxley e outros no-lo assina­
lassem, n ão lhe conhecíamos a existência. U m a expressão m e­
lh or p ara “com unicação im aginativa dentro de um a socie­
dade”, o D r. Pribram sugeriu, poderia ser “com unhão” . M as
em bora a experiência d a com unhão na sociedade tenha seus
méritos, ela era tem ida, e com boas razões, por causa de duas
características: a com unhão era contagiosa e era um a condição
transitória. Tornavam -se necessárias lim itações adequadas,
m uito em bora pudesse ser ú til p ara estim ular a fantasia.
316 O CONTROLE DA MENTE

O problem a, concordaram os m em bros do grupo de de­


bate, era como estim ular a im aginação dessa form a controlada.
Q uando começa essa q u alid ad e d a im aginação in fan til a ser
substituída pela racion alid ade e por que algum as pessoas con­
servam o dom d a im aginação durante toda a vida ? Concor-
dou-se tam bém que, em certos cam pos de pesquisa, pelo menos,
a im aginação era tão necessária quanto a razão, e que em m ui­
tos homens o interêsse em am bos era conservado durante tôda
a vida — por exem plo, os m atem áticos freqiientem ente eram
tam bém músicos. N ão obstante, era convencional supor que
a lógica e a im aginação sejam incom patíveis.
O professor H ughes disse que o “salto intuitivo” — como
o súbito flam ejar de um a cham a — caracteriza a descoberta
científica autêntica, e sugeriu que êsse salto im aginativo no
escuro seja seguido de um a com provação racional, científica,
da percepção, p ara determ inar-lhe o valor. As m áquinas
podem aliviar o peso de algum as tarefas de nosso cérebro —
como já afastaram de nossos om bros algum as tarefas físicas
— deixando-nos com isso o cérebro livre p ara realizar trabalho
m ais im aginativo. As m áquinas aju d ariam , assim, a intensifi­
car a atividade im aginativa no m undo prático e adulto d a rea­
lidade cotidiana.
O Dr. Pribram observou que o professor H ughes parecia
supor que a fantasia era sempre agradável. Pelo contrário,
a fantasia era, em grande parte do tem po, penosa, e requeria
um a grande dose de esforço. As cham adas tarefas rotineiras
eram um a form a de proteção contra a tensão da atividade da
im aginação. A lém disso, a atividade im aginativa poderia ocor­
rer mesmo durante a execução dêsse trabalho.
À repetida advertência do Dr. Pribram de que a fan ta­
sia era passageira, H uxley respondeu que as experiências ti­
nham valor em si, e que não precisam os dar valor a um m odo
de vida apenas pelas expressões criadoras que deixa atrás de si.
E ra possível, argum entou êle, existir um a situação em que a
sociedade pudesse ter um m áxim o de experiências valiosas, sem
deixar contudo nada de perm anente p ara o historiador. Con­
cordou em que nem todos os resultados do trabalho criador
são bons. U m a vez realizada a obra da im aginação, devemos
decidir qual parte dessa produção vale a pena guardar.
O diretor Saunders levantou o problem a d a possibilidade
de estim ular o processo criador p ara produzir resultado de
alta qualidade, e se as drogas poderiam ser usadas com essa
RESTRIÇÃO E LIBERDADE DA MENTE 317

finalidade. O Dr. Pribram respondeu q u e eram necessárias


disciplina e preparação p ara que o uso de drogas produzisse
a experiência desejada, e que o efeito das drogas dependia das
expectativas existentes no organism o. O Sr. H uxley acentuou
a im possibilidade de prever o resultado criador.
A discussão passou então à questão do papel que as dro­
gas poderiam desem penhar num a sociedade sadia. O grupo de
debate ju lgou aconselhável que as drogas sejam receitadas pelos
médicos. E m bora concordasse que a proibição de drogas en­
cerrava o perigo da exploração crim inosa — ou seja, a necessi­
dade de drogas poderia ser usada p ara obter lucros —, os aspec­
tos psicológicos da ingestão de drogas pareciam m uito com pli­
cados. O café e o álcool, e a form a pela qu al funcionavam em
diferentes sociedades, serviram de analogia. Consideraram-se
as atitudes tom adas pela sociedade p ara com um a droga im por­
tante na m ensuração dos efeitos dessa droga sobre o com por­
tamento.
O debate passou às questões da restrição social sobre a
mente. O professor H ughes indagou o que se poderia fazer
na “guerra fria” com patível com nossa sociedade aberta. Ê le
mesmo respondeu que devemos fazer menos, e não m ais, na
“guerra fria” , a m enos que estejam os dispostos a m odificar o
caráter m oderado e tolerante de nossa sociedade. Sua q u ali­
dade essencialm ente não-agressiva não era m uito com patível
com o heroísm o e a guerra. Devemos, sugeriu, fazer da liber­
dade o centro da questão.
O professor H ughes e o D r Pribram debateram se seria
m elhor fazer da liberdade a questão ou perm itir que as ques­
tões fossem confusas e ocasionais. O Dr. Pribram ju lgou que
a defesa d a liberdade tinha o perigo de levar a um a rigidez
de política, e possivelm ente à guerra, ao passo que as ques­
tões ocasionais perm itiam um diálogo entre todos os lados e
reduziam as tensões. O professor H ughes argum entou que
nós e os com unistas concordam os em princípio sobre a liber­
dade. O necessário era reconhecer, da parte dos comunistas,
que a liberdade era exeqüível. C itou as m odificações do ponto
de vista d a Ig reja C atólica R om ana, através dos séculos, d a
intolerância para a tolerância, e atribuiu tal m odificação às
críticas constantes do protestantism o.
O Sr. H uxley, considerando as pressões opostas de restri­
ções e liberdade, observou que era característico de um a ciyi-
318 O CONTROLE DA MENTE

lização técnica exigir de seus cidadãos que sejam “hom ens de


organização”, e que êsse estado de coisas, em bora lamentável,
era inevitável. O Dr. Pribram viu o problem a da liberdade na
sociedade como questão de decisão individual. E ra possível
escolher ser livre em público ou em particular. Poder-se-ia
viver püblicam ente num a situação de conformismo, m as em
particular ter pensam entos próprios. A liberdade interna po­
dería envolver o uso de drogas. A consecução da liberdade
externa por vezes exigia um a m odificação do meio.
O professor H ughes disse que a história m ostrou a exis­
tência de três form as básicas de sociedade: tradicionalista,
in dividualista e conform ista. T rad icion alism o e conform ism o
diferiam pelo fato de que os m em bros de um a sociedade tra­
dicionalista, ao contrário dos m embros de um a sociedade con­
form ista, não sofriam nenhum a tensão na situação, que acei­
tavam sem críticas. O indivíduo desfruta hoje de m ais liber­
dade do que na m aioria dos períodos anteriores da história.
O Dr. Pribram acrescentou que o in dividu alista não era mais
livre do que o tradicionalista, sendo tiranizado pelo eu, e não
pela sociedade. Seu conform ism o era “ dirigido para dentro” .
O objetivo ideal, concordaram todos os m em bros do grupo, era
o equilíbrio entre a liberdade e a restrição, tanto in dividual
como social.

O s m e m b r o s dío q u a r t o d e b a t e f o r a m u m p s ic ó lo g o c u j a d es-
c r ia ç ã o d e s u a e x p e r iê n c ia c o m o s e fe it o s d o i s o la m e n t o n o i n d i ­
v í d u o d e s p e r t o u g r a n d e in te r ê s s e n o s im p ó s io ( p r o fe s s o r H e b b ) ,
u m a u t o r q u e se o c u p o u p a r t ic u la r m e n t e d o p r o b le m a d a r e la ç ã o
e n tr e o i n d iv íd u o e a s o c ie d a d e ( A r t h u r K o e s tle r ) e u m au to r
c o m a m p lo c o n h e c im e n to d e m u i t o s a s p e c t o s d o c o m p o r t a m e n t o
d a s o c ie d a d e c o n t e m p o r â n e a ( p r o fe s s o r R o s te n ).

G r a n d e p a r t e d o d e b a t e d e se n v o lv e u - se e m tô r n o do p ro ­
b le m a g e r a l d a r e la ç ã o e n tr e o i n d i v íd u o e a s o c ie d a d e , e , a o
e s c la r e c e r a lg u m a s d a s id é ia s m a is im p o r t a n t e s f o c a liz a d a s no
s im p ó s io , o s m e m b r o s d o g r u p o d e d e b a t e a n a lis a r a m o s s e g u in t e s
p r o b le m a s :

1) O b s c e n id a d e

2) P r e c o n c e it o e t o le r â n c ia , e m e s p e c ia l, o s e fe it o s d o i s o l a ­
m e n to s ô b r e o in d iv íd u o
RESTRIÇÃO E LIBERDADE DA MENTE 319

3) A s n e c e s s id a d e s d e in fo r m a ç ã o d e u m o r g a n is m o c o m ­
p le x o

4 ) O s e fe it o s d a p u b li c i d a d e s o b r e a m e n te

5) A im p o r t â n c ia d o s m ito s p a r a a s o c ie d a d e

Registrador: D avid M atza


Membros: D onald O. H ebb , A rthur K oestler ,
L eo C. R osten .

O Sr. Koestler disse que a definição de obscenidade era


relativa, e não absoluta, e que essa definição dependia com­
pletam ente das condições predom inantes num a determ inada
sociedade num determ inado m om ento. U m prisioneiro de pe­
n itenciária ao ler a descrição de um a refeição constituída de
vinhos e pratos escolhidos ju lg a ria tal descrição profunda­
mente obscena. Igualm ente, num a sociedade em que a liber­
dade de relações sexuais exista, mas onde a alim entação esti­
vesse cercada de tabus, a descrição de um a refeição num ro­
mance poderia ser análoga a alguns dos incidentes sexuais em
Lolita.
O professor H ebb declarou que antes de se poder afirm ar
a existência de um a obscenidade, o elemento do desejo do
proibido devia ser acrescentado ao aparecim ento da angústia
m encionada. A obscenidade, na sua opinião, está n a fronteira
entre o proibid o e o perm itido. A variação na definição era
outro exem plo d a am bivalência característica da espécie h u ­
m ana: o que era obsceno p ara uns não o era p ara outros.
Focalizando novam ente o preconceito e a tolerância, o
professor R osten in dagou do professor H ebb: “O senhor disse
realm ente que o prin cip al elemento determ inativo do precon­
ceito era um a espécie de receio inato do estranho, e não algo
que é transm itido ?” O professor H ebb respondeu que a supo­
sição com um era a de que o preconceito estava enraizado na
econom ia e os padrões determ inados pela rivalidade econô­
m ica eram então transm itidos pelos mecanismos do conheci­
m ento. T a is suposições, porém , pareciam infundadas. Em ­
bora existisse sem dúvida um elemento de transmissão, essa
transm issão poderia ser m uito ráp id a e baseada em incidentes
im possíveis dç evitar. E ra difícil, talvez impossível, ensinar as
320 O CONTROLE DA MENTE

crianças a evitar coisas m uito m ais perigosas do que tom ar


um a atitude de preconceito. O preconceito não lhe parecia
um a coisa com pletam ente estranha, que envolvesse m êdo e
hostilidade, m as sim algo que com binava o fam iliar e o estra­
nho. Em sum a, ele sentia que nossa reação às coisas diferen­
tes ou estranhas era antes essencialm ente n atural, e não apren ­
dida.
A m pliando a discussão até a esfera social, o professor Ros-
ten levantou o problem a do que cham ou de “preconceito ao
inverso”, ou seja, “o preconceito da tolerância” . Ilustrou seu
sentido pela referência à sua participação num a comissão que*
devia nom ear um hom em p ara um posto adm inistrativo. U m
dos nomes indicados era o de um negro. O professor R osten
foi contra, exclusivam ente por ju lg a r qu e a pessoa n ão era bas­
tante inteligente, m as que apesar disso os dem ais m em bros
da com issão acusaram -no de ter preconceito contra o homem
devido à sua cor, o que n ão era verdade. “É o que entendo
por preconceito ao contrário.”
O professor R osten com entou ain da que o grau de reação
ao estranho e desconhecido varia acentuadam ente entre pes­
soas. Seu filho, por exem plo, quan d o criança reagia ao estra­
nho com grande ansiedade, ao passo que sua filha, ao invés
de temer o estranho, parecia encantar-se com a novidade. Con­
cordando com a proposição d a variação in dividual, o professor
H eb b indagou se aq u ilo não representava exatam ente o que
cham ava de “zona de risco diferente” p a ra cada criança.
O Sr. Koestler, em bora concordando que havia diferenças
individuais, indagou se não era possível a generalização de que
ninguém resistiría à retirada perm anente das forças que afir­
m am a identidade. O professor H ebb objetou que, do ponto de
vista prático, a pesquisa não podería ser levada até aqu êle
ponto. Referiu-se aos estudos sobre isolam ento que realizara,
durante os quais a percepção dos pacientes havia sido isolad a
de tal m odo que êles não podiam explorar o m eio am biente.
Em bora alguns dêsses pacientes fossem levados, pelo interêsse
financeiro, a perseverar nas experiências o m aior tem po pos­
sível, nenhum dêles pôde tolerar o isolam ento por m ais de
cinco dias, e sòmente uns poucos o toleraram tanto tempo.
V oltando ao assunto do preconceito, o Sr. K oestler expres­
sou a opin ião de que isso envolvia a am bivalência entrç a fas­
RESTRIÇÃO E LIBERDADE DA MENTE 321

cinação com o nôvo e o receio dêle. O preconceito era causado


não pela sim ples novidade, m as por um a deform ação e m utila­
ção do fam iliar. O “m onstro” pod ia ser tom ado como protó­
tipo dessa deform ação: representava a m utilação de um objeto
fam iliar ou h abitu al — p o r exem plo, um adulto com um a ca­
beça de pato, ou um cão com um a cabeça de gato. Voltando
ao problem a do isolam ento, o Sr. Koestler observou que as
experiências de “isolam ento do corpo” referidas pelo professor
H ebb eram o tipo de alucinação procurado pelos místicos.
Os m ísticos esforçavam-se para elim inar o m undo. Para isso,
tentavam fechar todos os contactos corporais. O objetivo dessas
técnicas era atingir a condição produzida na experiência do
isolam ento. O professor Rosten indagou como um iogue teria
reagido à experiência d o professor H ebb. Poderíam a expe­
riência e preparo ensinar alguém a resistir a pressões dêsse
tipo ? O professor H ebb pensava que tal capacidade pudesse
ser inculcada, m as indagava qu an to tem po perduraria. O
Sr. Koestler disse que, depois de quinze anos de experiência,
o iogue po d ia entrar num transe que durava cêrca de 36
horas.
O professor R osten narrou, então, um a experiência pessoal
que confirm ava as observações do Sr. K oestler sôbre o m êdo dos
m onstros? F alo u das entrevistas que m anteve com psiquiatras
para colhêr inform ações a serem utilizadas num livro de histó­
rias infantis que estava escrevendo. Resolveram , em conjunto,
inventar um a situação em que um a criança ia ter um irmão.
N a história que resultou dessa situação, havia um sonho no
q u al a criança im aginava o irm ão como um com panheiro fan ­
tástico de brincadeiras — que voava pelo ar e era sob todos
os aspectos um a figura notável. As crianças adoravam a histó­
ria, e pediam que fôsse repetida. As mães que não estavam
grávidas tam bém aprovavam a história. N as m ães grávidas,
porém , a história despertava ansiedade sôbre possíveis defor­
mações do filho que ia nascer. O que queria m ostrar, disse o
professor Rosten, era que a recom binação estranha do que
era h abitu al encontrava reações diferentes em pessoas em
situações diferentes.
O professor R osten form ulou, então, um a pergunta cor­
relata: em bora um dos trabalhos tivesse afirm ado que as so­
ciedades reduziam ao m ínim o a introdução do nôvo, não de­
veremos nós aum en tar a tolerância a o que se afasta e se desvia
322 O CONTROLE DA MENTE

do padrão, p ara aum en tar nossa capacidade de nos m odificar­


mos ? Êsse problem a estava relacionado com a im portância das
restrições sociais ap licadas em tôdas as sociedades, O professor
R osten pediu ao Sr. K oestler p ara com entar a observação ante­
rior, distinguindo entre d uas form as de elem ento religioso —
dogm a e m isticism o. E m resposta, o Sr. Koestler disse que, se­
gu n do sua afirm ação, os cientistas freqüentem ente tinham
como m otivo coisas totalm ente não-científicas — p o r questões
de superstição ou m isticism o. C itou K epler como exem plo e
disse qu e n ão devemos jam ais interferir com as crenças irra­
cionais das pessoas, pois essa irracion alidade pode ter conse-
qüências altam ente afortunadas. A atitude p ara com o dogm a,
porém , deveria ser totalm ente diversa. O dogm a im pede a
procura de um objetivo que nos interesse, q u alq u er que seja
a m otivação. Por exem plo, devem os perm itir ao ateu que seja
um ateu, em bora o ateísm o possa transformar-se num a supo­
sição ain da m ais racion al do que o teísmo. U san d o o m odêlo
proposto p o r Sim on e outros interessados nas an alogias entre
a m ente e o com putador eletrônico, poderiam os pensar que
o ateísm o requer a suposição de que o ser hum ano era “pro­
gram ad o” , m as não havia “ program ador” . D e qu alq u er m odo,
jam ais deveriam os interferir com a esfera p articular da ativi­
dade hum ana — em bora, naturalm ente, sem pre o fizéssemos,
acrescentou. O professor R osten disse que, mesmo na com u­
n idade dos intelectuais, haviam lim itações à liberdade h u ­
m ana. N ovas idéias eram freqüentem ente m al recebidas. Sua
opinião era de que um m odêlo sim ples e útil do homem ver­
dadeiram ente civilizado era aquêle em que o homem insistisse
na capacidade de tolerar idéias intoleráveis.
O professor H ebb in dagou então do professor R osten se
êle toleraria o nazismo, fascism o e a sugestão de incesto. N ão
havería lim ites ao que se podería to lerar? N ão era sadia a
cultura que propusesse certas restrições e perm itisse a liber­
dade além dêsses limites ? D efinindo sua posição na questão
da tolerância, o professor R osten disse que toleraria q u alq u er
coisa — particularm ente na esfera política — que permanecesse
no reino das palavras. A organização da violência, porém , era
questão totalm ente diversa. Isso era, naturalm ente, m uito sim ­
ples. D isse que em relação a incidentes m ais com plexos deve­
riam os lem brar as conseqüências de gritarm os: “F o g o !” num
cjnçm a cheio, em contraste com o mesmo grito em circunstân-
RESTRIÇÃO E LIBERDADE DA MENTE 323

cias m enos perigosas. A segunda hipótese poderia ser perm i­


tida, a prim eira não.
U m dos presentes observando que o cérebro parecia fun ­
cionar de m odo relativam ente desorganizado quando isolado
de um flu xo padronizado de inform ação, e que tal situação
parecia ocorrer principalm ente nas form as m ais elevadas, in da­
gou se as necessidades de inform ação se tornam diferentes à
m edida qu e os organism os ficam m ais com plexos. O Sr.
Koestler respondeu que um princípio semelhante se aplicava
certamente ao caso das sociedades. O Ja p ã o , por exem plo,
estêve isolado d as relações internacionais por cêrca de 250 anos.
Os resultados foram exatam ente os que um neurologista po­
deria ter previsto. O professor H ebb não tinha certeza até
que pon to a an alogia era válida. A s necessidades d a sociedade
sem d ú v ida se tom av am diferentes qu an d o a sociedade passava
a ser m ais com plexa. Ju lg a v a que, em certos níveis de com­
plexidade, a introdução d a não-estabilidade poderia tornar-
se necessária.
U m dos presentes indagou ao grupo de debate a opinião
sobre os efeitos d a publicidade na mente. H avería nisso con­
siderável restrição ou con trôle? O professor Rosten revelou
o fato interessante de que os estudos m ostravam serem m odes­
tos os efeitos da publicidade. O êxito ou fracasso de um único
anúncio, ou de tôda um a cam panha, era pràticam ente im pre­
visível. Pouco se sab ia sôbre os critérios que determ inaram ou
in fluenciaram o êxito ou o fracasso. Igualm ente, na tentativa
feita por H ollyw ood p ara m an ufaturar ou criar novas estréias,
não havia pràticam ente form a algum a de prever o resultado.
M uitas estréias atin giam grande altura sem qu e se esperasse, e
m uitas das tentativas m ais estudadas de criar um a nova estréia
fracassaram com pletam ente.
Form ulan do um a pergun ta sôbre a análise feita pelo Dr.
Lassw ell sôbre os m itos, um d os presentes pediu aos membros
do gru po de debates que fizesse observações sôbre a constitui­
ção de um a sociedade sem mitos. O Sr. Koestler respondeu
que tal sociedade sofreria de deficiência de estímulos.
O professor H ebb acreditava que os m itos integram um a
sociedade e que m uitas das fontes de identidade hum ana têm
nêles suas raízes. O professor R osten disse que os mitos tinham
im portantes funções sociais e psicológicas e acrescentou que a
vida seria im possível se disséssemos sem pre a verdade.
324 O CONTROLE DA MENTE

P o n to s d e v is t a c o m p le m e n t a r e s f o r a m e x p r e ss o s n e s te q u in t o
d e b a t e p o r u m h is t o lo g is t a a u t o r d e p e s q u i s a s d è b a s e e m g e n é ­
t ic a (D r . H y d é n ), u m c lín ic o (D r . K e ty ) e u m e s tu d io s o d o d i ­
re ito (p r o f e s s o r L a s s w e ll). I n te r ê s s e c o n s id e r á v e l fo i d e s p e r t a d o
p e lo d e b a t e d o t r a b a lh o d o D r . H y d é n sô b r e o s c o n s tit u in t e s d a s
c é lu la s c e r e b r a is e o s e fe it o s d a s d r o g a s s ô b r e o c é re b ro . O s assu n ­
t o s g e n é t ic o s a n a lis a d o s f o r a m d e s d e a s n o v a s f o r m a s d e v id a
p o s s ív e is a t é a t r a n s fe r ê n c ia d e tr a ç o s d a m e m ó r ia , o s e fe ito s d a s
d r o g a s n o c o m p o r t a m e n t o e a q u e s t ã o d e a lt e r a ç õ e s p o s it iv a s d o
c é r e b r o p r o v o c a d a s .p e la s d r o g a s . O s a s s u n t o s d e b a t id o s f o r a m :

1) P r o g r e s so s re c e n te s n a g e n é t ic a

2) O v a lo r d a li b e r d a d e d a m e n te

3) O e fe it o d a li b e r d a d e m e n t a l n a p e s q u is a c ie n t ífic a , i n ­
c lu s iv e a i n t r ig a n t e q u e s t ã o d a e v id e n te in c o e r ê n c ia d o
p r o g r e ss o c ie n t ífic o na R ú ssia , ap e sa r da r e s tr iç ã o da
li b e r d a d e
4) C o m p a r a ç ã o e n tr e a e fic iê n c ia d e u m a s o c ie d a d e t o t a li­
t á r i a e u m a s o c ie d a d e liv r e

5) A li b e r d a d e d e c r ia ç ã o n a R ú s s i a

6) O s li m it e s d o q u e o h o m e m p o d e ap ren d er.

Registrador: Gerald Mendelsohn


Membros: Holgar H ydén, Seymour S. Kety,
H arold D . L asswell.

O debate começou com observações do Dr. H ydén sôbre


as conseqüências de certos trabalhos recentes em genética. A ssi­
n alou que as experiências de W eiss indicam que o D N A ti­
n ha um a função controladora n a síntese dos constituintes d a
célula, especificam ente das células cerebrais. Com o a n atu ­
reza da m olécula de D N A era singular p ara cada espécie, essas
descobertas despertavam a possibilidade de m em órias serem
determ inadas filogenèticam ente. O Dr. H ydén deixou claro,
porém , que sua suposição era apenas especulativa.
In dagado pelo Dr. Kety se, ao construir um m odêlo do
organism o hum ano, ele gostaria de colocar um m ecanism o para
a transm issão dos traços da m em ória, o D r. H ydén respondeu
que a ação desse m ecanism o n ão seria diversa d a ação do
D N A po r êles descrita. A m bos concordaram em que essa trans­
RESTRIÇÃO E LIBERDADE DA MENTE 325

m issão seria apenas de características relativam ente gerais.


Fossem ou não possíveis as m em órias filogenéticas, a herança
genética determ inava a capacidade do cérebro, lim itada se­
gun do seu substrato.
O Dr. Kety comentou que parecia um a pena que os tra­
ços de m em ória ad q u irid o s — como os dos homens destacados,
por exem plo Einstein — não pudessem ser transm itidos a outras
pessoas. E m bora o hom em pudesse ter certa habilidade de se
com portar sem aprender — isto é, instintivam ente —, a esm a­
gadora proporção das inform ações era adquirida. Parte dessa
inform ação p o d ia ser transm itida verbalm ente, mas não nas
proporções que seria de desejar. O Dr. Kety concordou com a
observação de um dos presentes, porém, de que a transferên­
cia em pírica lim itaria a liberdade de cada geração sucessiva,
e seria por isso indesejável. Isso respondia, de certo m odo, a
pergun ta por que não se encontrava n a natureza um processo
genético de transm issão do conhecimento: isso teria levado a
um a m argem m enor de experiências e a um desenvolvim ento
m ais lento d a espécie.
Seguiu-se então a especulação sobre as possíveis novas for­
m as de vida. O D r. H ydén assinalou que o homo sapiens era
apenas um dos m uitos casos especiais de vida; o ser hum ano
era anim ado, p o d ia falar e cruzar-se. Supondo que existisse
outro tipo de organism o anim ado com capacidade semelhante,
a expectativa biológica seria de um a agressão constante entre
as du as espécies. Q ual, então, seria o resultado da existência
sim ultânea dêsses dois organism os ? O professor Lassw ell disse
que a possibilidade de criação de nova form a de vida era um a
contingência que certos pesquisadores tinham em mente. Q uais
as alternativas, ao se especular sobre a form a d a futura v id a ?
Querem os realm ente vida ? O u o m ais alto nível de vida seria
a capacidade de renunciar à obrigação de viver? Supondo-se
um acôrdo sôbre a preferência pela vida, deveriamos seguir o
precedente divino e criar um a nova vida num a form a o m ais
próxim o possível d a atu al im agem do homem ? Ou, transcen­
dendo essa lim itação, deveriam os criar algo m elhor ? Se tom ás­
semos essa ú ltim a atitude, quais seriam as possibilidades?
C on cordou com a suposição de que, se fôssem criadas outra for­
m as não-hum anas de vida com plicada, ocorrería o antagonism o
entre o hom em e tais formas. O problem a, em suma, é se de­
sejam os tratar com essa nova form a de vida.
326 O CONTROLE DA MENTE

Várias perguntas dos presentes indagavam como, à b ase.de


nosso atu al conhecim ento sobre genética e farm acologia, p o ­
deriam os provocar m odificações nos seres hum anos. H ouve
acordo entre os m em bros do grupo de debate de que era im pos­
sível provocar, com drogas, m odificações positivas no cérebro
(ou “m ente” ). O Dr. Kety disse qu e em bora tivéssemos de
aceitar o fato evidente de que as drogas podiam in flu ir no
estado de ânim o, atenção e atividade m otora, de m odo geral,
o com portam ento hum ano era m uito m ais afetado pelas infor­
mações d a experiência acum uladas. N ão p o d ia im aginar um a
droga que provocasse m odificações positivas, introduzindo in ­
form ações arm azenadas; era claro, porém , que havia m uitos
m ecanismos que exercem efeitos sôbre o com portam ento, atra­
vés da experiência. E m bora pudéssem os ter receios da am eaça
das drogas à liberdade da mente, o perigo que apresentavam
era altam ente teórico, particularm ente se com parado às res­
trições sociais e culturais. As forças que tendem à conform i­
dade — juram entos de lealdade, por exem plo — podiam in flu ir
na liberdade da m ente e exercer um efeito m uito m ais pode­
roso no com portam ento do que q u alq u er droga. R espondendo
a um a pergunta, o Dr. Kety expressou a opinião de que a
am eaça de perder o em prêgo produzia m odificações no com­
portam ento m uito m ais sutis que as efetuadas por q u alq u er
substância farm acológica.
D iscutindo a genética d o problem a, o D r. H ydén exam i­
nou a possibilidade de se transm itirem modificações pelo uso
de drogas. D isse que experiências n a H olan d a e França h a­
viam m ostrado ser possível provocar m odificações som áticas
antes da fecundação, mas que as m odificações observadas ocor­
reram em células não reprodutivas — em outras palavras, que
não eram transmissíveis. As substâncias quím icas podiam pro­
vocar as m utações ou aumentar-lhes a freqüência, m as sabia-se
que a m aioria das m utações possíveis num a espécie já havia
ocorrido nos últim os cinco m ilhões d e anos. A resposta à per­
gu n ta form ulada, então, era pela im probabilidad e de que p u ­
déssemos produzir um a m odificação transm issível pela ação
das drogas.
O Dr. Hydén respondeu a várias perguntas sôbre seu tra­
balho, tendo o efeito de um a droga, por êle descrita, no com­
portam ento despertado grande interêsse. Os p siquiatras que
haviam usado a droga, inform ou o Dr. H ydén, com provaram
RESTRIÇÃO E LIBERDADE DA MENTE 327

que ela tornava os pacientes m ais sugestíveis; isso era, porém ,


um a afirm ação prelim inar baseada apenas em impressões clí­
nicas, e pouca coisa de concreto havia a inform ar. Pelo menos
m ais seis meses de trabalho pelos p siquiatras serão necessários
p ara um m elhor conhecimento dos efeitos da droga sobre o
com portam ento.
A convicção ocidental de que a liberdade d a mente era
boa e qu e sua restrição era m á foi então focalizada. Em res­
posta a um a pergun ta do Dr. Kety, o professor Lassw ell co­
m entou que havia duas interpretações dessa questão. A p ri­
m eira era a dos “zeladores” d a cultura. Su a reação era tran-
sem pírica: acentuava a vontade de Deus ou categorias m eta­
físicas semelhantes. Su a argum entação centralizava-se na crença
de que D eus criou o hom em com um propósito divino, que
o homem, devido à sua natureza finita, não pode com preender
totalm ente. Parte dessa suposição é de que o hom em tenha
recebido a liberdade de várias esferas, e, conseqüentemente, a
restrição nessas áreas era contrária à vontade de Deus.
O segundo argum ento era em pírico: m ostrava as conse­
quências da restrição, reveladas pela história. Os hom ens que
acreditavam na liberdade sustentavam que as conseqüências da
restrição eram negativas em termos da utilização das potencia­
lidades hum anas. O sistem a de castas, por exem plo, im punha
lim itações às ordens superiores da hierarquia, bem como às
inferiores. O professor Lassw ell concluiu que, de m odo geral,
em bora grande parte da inform ação de que dispom os seja insa­
tisfatória, n ão obstante, a inform ação satisfatória tendia a con­
firm ar a suposição de que a liberdade era um bem.
O Dr. Kety incluiu o fundam ento lógico-científico aos
dois argum entos hum anísticos do professor Lasswell, para for­
m ar um a trindade em apoio à crença ocidental de que a li­
berdade era um bem. A rgum entou que a criatividade e a li­
berdade de fazer experiências eram talvez parte da natureza
da vida. A reprodução exigia a m istura de padrões genéticos,
levando a novas pessoas — cada q u al diferente da outra e de
seus ancestrais tam bém . Por êsse tipo de experiência a espécie
m elhorava e com petia adaptando-se. Além disso, as m utações
produziam novos indivíduos com traços imprevisíveis. A m aior
parte dessas m odificações era precária, m as por vezes surgia
delas um prod uto superior. O Dr. Kety expressou a opinião
528 Ò CONTROLE DA MENTÉ

de que, em geral, a liberdade de oportun idade p ara fazer expe­


riência levou ao aperfeiçoam ento d a espécie.
Q ue efeito exercia a restrição d a m ente sôbre a pesquisa
científica ? Êsse problem a foi levantado pela seguinte e inte­
ressante pergunta, form ulad a por um dos presentes ao debate:
“O pensam ento é lim itad o na U n ião Soviética, e não obstante
a ciência russa é considerada pelo menos tão avançada quanto
a nossa. Com o se resolve essa evidente contradição ?”
O Dr. Kety declarou que tal incoerência tam bém o in tri­
gava. E m bora suas reflexões fossem fruto de impressões, pois
jam ais visitara a R ússia, citou o lisenkoísm o e a adulação de*
Pavlov na neurofisiologia russa como exem plo de lim itações na
ciência biológica, in stituíd a por m otivos políticos. As opiniões
de am bos êsses cientistas eram usadas em apoio do m aterialism o
dialético, e, conseqüentem ente, era heresia discordar de q u a l­
quer um dêles.
O Dr. H ydén disse que, em bora as im pressões do Dr. Kety
fôssem exatas em relação à situação predom inante na R ússia
até alguns anos atrás, nos últim os cinco anos ocorrera um a
m odificação notável do sentido de m aior liberdade de pensa­
mento.
“A qu alid ad e da ciência m elhorou em relação ao grau de
liberdade ?”, indagou um dos presentes. O D r. H ydén disse
ser difícil responder a tal pergunta, pois a taxa de acum ulação
de inform ação em todas as partes do m undo era exponencial.
O Dr. Kety observou que não aprendem os a considerar a cin­
d a em si, tal como fazemos com os dad os por ela proporcion a­
dos. N ão havia indícios dem onstrando um a correlação entre
um m aior grau de liberdade e a q u alid ade d a pesquisa. Com o
diretor de um departam ento, era de op in ião que nos Estados
U n idos o m elhor trabalho era feito pelos cientistas que tinham
liberdade de escolher as áreas de investigação que preferiam .
N as outras sociedades, porém , era possível que um cientista
com petente trabalhasse com igual eficiência num projeto de­
term inado.
O professor Lassw ell assinalou que os fatôres sociológicos
afetavam , de form a significativa, os níveis de realização cien­
tífica. As restrições políticas prejudicavam a coleta de dados
nesse setor. Seria extrem am ente difícil, por exem plo, obter
inform ações relacionadas com a ciência russa. O utra d ifi­
culdade era a indisposição de m uitos cientistas de com preender
RESTRIÇÃO £ LIBERDADE DA MENTE 329

os fatores que podiam in fluir na questão. Assim, éram os for­


çados a usar dados anedóticos para nossos julgam entos. Deve­
riam os estar m elhor inform ados sobre os fatores de classe, os
interesses especializados e outras influências que atingem os
níveis de realização na ciência. T am b ém tínham os necessi­
dade de m elhor base em pírica p ara a generalização sôbre a
criatividade científica.
Dirigindo-se ao professor Lassw ell, o D r. Kety disse recear
que o totalitarism o fôsse m ais eficiente do que a dem ocracia
na execução de um a tarefa específica. Conseqüentem ente, de­
veriam os preocuparm o-nos com o fato de que nos próxim os
50 a 100 anos o totalitarism o estará obtendo avanços tão gran­
des no preparo de pessoas capazes p ara as ocupações técnicas,
regulando a econom ia nacional etc., que poderá vencer a
disputa com a liberdade.
O professor Lassw ell respondeu que não havia base para
afirm ar que o totalitarism o fôsse um sistem a m ais eficiente.
Em bora se supusesse com um ente que as motivações da elite
eram altam ente focalizadas em tais regimes, o totalitarism o do
século X X era na realidade o produto de revoluções nas quais
poucas pessoas tom am as decisões. Assim, existia o problem a
de distinguir entre a m odificação revolucionária ráp id a e o
totalitarism o. Supúnham os que as palavras “com unism o”, “ca­
pitalism o”, “ totalitarism o” tinham referências em píricas. Isso
n ão ocorria, e e os problem as de aplicar tais rótulos eram m uito
com plicados. U m a expressão como “regime m ais totalitário
da C h in a” era pouco adm issível, no sentido crítico. E ra um
“ truque dialético” e não um a variável fidedigna.
E m bora apoian do a posição do professor Lassw ell, o Dr.
Kety receava que a liberdade da m ente pudesse não ter a
força de resistir ao desafio de um a abordagem diferente, mais
disposta e, além disso, menos preocupada com o destino final
da hum anidade. E m bora não desejasse, ain da não estava con­
vencido de que a suposição d a m aior eficiência do totalitarism o
fôsse falsa. O professor Lassw ell respondeu com um exem plo
baseado em sua participação em sessões onde pessoas diferentes
se reuniram p ara um a exam e de suas posições. A pesar das d i­
ferenças de form ação e das lim itações de tempo, puderam che­
gar a um acordo sôbre certos princípios básicos e, particular­
mente, p artilh ar d a pressuposição contra a coação, em favor dos
níveis m édios de liberdade.
330 O CONTROLE DA MENTE

U m dos presentes prestou alguns esclarecim entos sobre as


condições atuais na R ússia. Disse que, segundo um refugiado
russo que conhecia, o sistem a soviético era igual ao nosso, exceto
pelo fato de ter um grau m ais alto de especialização. As pes­
soas dos níveis m ais altos gozavam da m esm a liberdade que
os am ericanos, m as as pessoas dos níveis inferiores não podiam
ter tanta independência como nos Estados U nidos. Em geral,
porém , todos os níveis d a sociedade russa estavam satisfeitos.
A relação d a arte e d a ciência, especialm ente na R ússia,
foi o tem a de um a ou tra pergunta. Afirm ou-se q u e a pesquisa
básica nas artes era rigorosam ente controlada na R ússia. Como,*
segundo o Sr. Koestler, a criatividade nas artes exigia as m esmas
faculdades e a m esm a atitude p ara com a vida que se observava
nas ciências, não podería o grupo de debates passar do estado
das questões artísticas n a R ússia p ara o estado das questões
científicas ? O Dr. K ety concordou com a prem issa de que os
mesmos fatôres sublin ham tanto a criatividade artística como
a científica. M as a ciência era pragm ática, e, com tal, tinha
um critério objetivo de valôres, ao passo que os padrões da
arte, ligados como estavam à cultura, eram mais subjetivos.
Podia, portanto, ser pouco realista fazer com parações entre as
artes am ericana e russa. A lém disso, em bora a ciência e a arte
soviéticas estivessem lim itadas pelo govêrno, os artistas oci­
dentais tam bém haviam sido objeto de restrições que, senão
tão evidentes, eram talvez tão im portantes quanto as restri­
ções russas. O apoio financeiro a um artista era tão im por­
tante quanto o social.
O debate encerrou-se com um a pergun ta feita ao Dr. Kety:
podería concluir-se que qu an to m ais se sabe menos se pode
aprender ? Sua resposta inicial foi a de que não conhecemos a
capacidade do cérebro, tendo o Dr. H ydén acrescentado que o
núm ero de m em órias que o hom em pode ad q u irir durante a
existência teria de ser pequeno, com parado com a capacidade
de seu sistema biológico. V oltando à questão da criatividade,
o Dr. Kety assinalou que se supunh a consistir ela em dar
novas form as à inform ação já aprendida. Se a inform ação
era na realidade a m atéria-prim a da criação, qu an to m ais sou­
béssemos, maiores as possibilidades criadoras.
HMIMIV'ÃO E LIBERDADE DA MENTE 331

N o s e x to d e b a t e , o s d ife r e n te s p o n t o s d e v is t a d e u m s o c ió ­
lo g o (p r o fe s s o r L i p s e t ) , u m p s i q u i a t r a e p s ic ó lo g o (D r. M ille r ) e
u m p r o fe s s o r d e jo r n a lis m o (p r o fe s s o r P o r t e r ) f o r a m m a n ife s ta -
ilos n a d is c u s sã o d o s s e g u in te s a s s u n t o s :

1) O s “ s e n tim e n to s ” d o s c o m p u ta d o r e s

2) O u s o d o s m e io s d e c o m u n ic a ç ã o d a m a s s a p a r a f in a ­
l i d a d e s p o lít ic a s
3) A d i v u lg a ç ã o d e c o n fe r ê n c ia s c ie n t ífic a s p e l a i m p r e n s a
p o p u la r
4) O t r a b a lh o d o D r . P e n f ie ld s ô b r e a le m b r a n ç a d a s “ m e ­
m ó r ia s ” p e l a a p lic a ç ã o d e e lé tr o d o s n o c é re b ro .

Registrador: R obert R. A lford


Membros: Seymour M. L ipset, James G. M iller,
W illiam E. Porter.

A afirm ação do professor Sim on de que o com putador


podia na realidade “sentir” foi objeto de um a pergunta feita
mi Dr. Miller, na q u al se indagava se a afirm ação não parecia
um pouco de ficção científica. O D r. M iller respondeu que a
questão se tornava m etafísica, e não científica, quando for­
m ulada nesses têrmos. A m aioria dos program as de com puta­
dores que sim ulavam o com portam ento hum ano tratava dos
processos cognitivos; essa atitude continuaria sendo adotada
porque os com putadores eram sim plesm ente m áquinas racio­
nais. O problem a não pod ia ser afastado dizendo-se que êles
não “sentiam ” . A única form a científica de conhecer os senti­
mentos íntim os de um ser hum ano ou de um com putador seria
pela analogia. A subjetividade dos com putadores não podia
Ncr penetrada, tal com o n ão po d ia a subjetividade dos sêres
humanos. Senão pela p róp ria pessoa. A lfred N orth W hitehead
acreditava que tôdas as coisas vivas, até a ameba, tinham subje-
lividade, e que era im possível dividir os objetos m ateriais cla-
ramente em vivos e não-vivos. Portanto, era difícil saber onde
a subjetividade — e portan to o sentimento — começava e ter­
m inava. T alvez fosse m ais seguro supor a existência de subje­
tividade em tudo.
A idéia de que o com putador possa “sentir” foi apenas
urna analogia. E ra conveniente supor que havia processos den­
tro dele aos q u ais não tínham os acesso direto, A natol R apo-
332 O CONTROLE DA MENTE

po rt se expressara claram ente sôbre êsse dilem a da subjetivi­


dade n um a referência à existência do livre arbítrio: Se a
pessoa previa seu próprio com portam ento, e se com portava da
form a prevista, êle concluía que essa pessoa tinha livre arb í­
trio. Se porém previa o com portam ento de outra pessoa e essa
outra pessoa se portava da form a prevista, a prim eira pessoa
p o d ia concluir que o com portam ento d a segunda era prede­
term inado. N a realidade, porém , não havia diferença lógica
entre a base das duas previsões. Q uando um a m áq u in a p a ­
recia agir como se estivesse “tom ando decisões,,, era realm ente
difícil saber o que estava ocorrendo dentro dela.
O Dr. M iller acrescentou que os processos afetivos eram
diferentes dos processos cognitivos. Podería o com putador si­
m u lar processos em ocionais, isto é, p o d ia “sentir”, na an alogia
em q u e stã o ? N as proporções em que as emoções podiam ser
descritas como processos neurológicos, era possível sim ular êsses
processos com o com putador. O sistem a nervoso é extrem a­
m ente com plexo, com posto de ram os sim páticos e parassim pá-
ticos, num a com plicada relação com o sistem a endócrino. A
inform ação neurológica e quím ica atravessa os vários sistemas,
o córtex, o h ipotálam o e assim por diante. Êsse quadro neu­
rológico geral nos diz como as emoções são transm itidas. H á
um “refluxo” de informações. O fluxo com plexo que constitui
a em oção pode ser sim u lada pelo com putador. N ão sabíam os
precisam ente se o com putador “sentia”, tudo o que sabíam os
é que sim ulam os nêle processos análogos aos processos neuro­
lógicos do ser hum ano.
Seria possível encontrar elos entre as emoções e os m eca­
nism os de transm issão? Em outras palavras, podiam as inten-
sidades das emoções ser sim uladas ? Essas perguntas foram fei­
tas pelo professor Porter. O Dr. M iller respondeu que n ada se
conhecia ain da sôbre ligações, que certas drogas sabidam ente
produziam mêdo, m as n ão conhecemos como as drogas se li­
gam à emoção, e se realm ente a distinção entre os processos
neurológicos e a “em oção” era possível.
U m dos presentes in dagou se o com putador evidencia a
autoconsciência elem entar, como parecia estar im plícito no
q u e se afirm ara. O Dr. M iller respondeu que certam ente o
au tor d a pergunta reconhecia que todos nós projetam os nossas
próprias emoções nos outros. N o que se relacionava com o com­
putador, sim plesm ente não sabíam os o que se passava dentro
RESTRIÇÃO E LIBERDADE DA MENTE 333

dêle. O professor Porter lem brou um artigo da revista Time


no qual se discutiram os “estados de ânim o” do com putador,
explicando como se “cansavam ” e dem onstravam outras carac­
terísticas aparentem ente “hum anas” .
Q ue pap el poderia um a organização como a R ád io da
E u ropa L ivre desem penhar na divulgação d e in form ações?
Suas ligações com o govêrno não faziam dela um a sim ples
agência de p ro p a g a n d a ? Essas perguntas foram form uladas
ao professor Porter, que respondeu ser de opinião que quais­
quer m eios de acesso à inform ação eram bons, fôssem ou não
patrocinados pelo govêrno. A idéia do contrôle pelo govêrno
repugnava a certas pessoas porque deixava im plícita a possibi­
lidade do contrôle do pensam ento. N ão obstante, a possível
influência dos m eios de com unicação da m assa na opinião p ú ­
blica não devia ser exagerada. N a Grã-Bretanha, a B B C criara
o T erceiro Program a na esperança de que o bom-gôsto se dis­
seminasse pela popu lação através do rádio, mas, na realidade
isso não ocorreu.
In dagaram ao professor Porter se a R ád io da E u ro pa Livre
estava incum bida de um a linha defin ida de prop agan da; res­
pondeu que não tinha certeza. E ra fora de dúvida que ela
seguia de perto a posição do D epartam ento de Estado. Segundo
a lei, necessitava de aprovação p ara as políticas que adotava,
pois suas transmissões refletiam m uito aproxim adam ente a p o ­
sição dos Estados Unidos.
A pergun ta seguinte foi form ulada ao professor Lipset:
o Presidente Kennedy usou com putadores p ara sim ular as pre­
disposições eleitorais do povo. N ão se aproxim ava isso do
tipo de m an ipulação que interferia com a liberdade da
m en te? O professor L ip set explicou que êsse com putador
(cham ado de “m áqu in a do povo” ), sim ulava os hábitos de vo­
tação da popu lação total. As atitudes do passado e várias ca­
racterísticas da população que já se sabia afetar o com por­
tam ento eleitoral foram colocadas no com putador. N ão havia
nenhum perigo m oral ou político nessa m áquina, pensava êle,
desde que todos os lados tivessem acesso à inform ação. Se
tanto m an ipulad ores como m an ipulados soubessem o que es­
tava ocorrendo, a questão se tornava um assunto público. O
m onopólio de inform ação por um dos lados, porém, era preju­
dicial. O D r. M iller declarou qu e m uitos levantam entos de
hábitos de com pras eram m antidos em segrêdo. N enhum a in­
334 O CONTROLE DA MENTE

form ação se divulgava, nem p ara os concorrentes, nem para o


público. E ra isso le gítim o ? O professor Porter disse que não
fazia objeções a isso, quan d o aplicado ao m undo dos negó­
cios. N a política, seria diferente, m as não acreditava ser real­
mente possível ocultar n ada, em política, exceto num a situa­
ção totalitária. Perguntaram ao Dr. M iller se lera um artigo
pu b licado na revista Harpefs sobre o problem a da religião n a
últim a cam panha eleitoral. N ixon concordava com a posição
adotada po r Kennedy na questão religiosa, e procurou dim i­
nuir-lhe a im portância, porque ju lg av a que ela só podería
favorecer Kennedy. O Dr. M iller respondeu que isso não ocor­
rera na cam panha de 1928, com H oover e Smith. N aq u ela
eleição, o problem a religioso aju d av a H oover. Isso m ostrava
que as questões determ inantes do papel das comunicações da
m assa (e a direção de sua in fluên cia) variavam de acôrdo
com o clim a da opinião, na época. Provàvelm ente tinham
tão pouco efeito direto que o sigilo não im portava.
O professor L ip set acrescentou que, de q u alq u er form a,
a “m áquina do povo” incluía um núm ero m uito reduzido de
variáveis, devido à prem ência de tempo. In cluía tam bém dados
da época de Eisenhower. T a is eleições poderíam não ter sido
suficientem ente representativas das lealdades políticas estáveis
para proporcionar previsões certas. N a cam panha seguinte, pro­
vàvelm ente am bos os lados teriam acesso às inform ações que
existissem.
O Dr. M iller indagou se a negativa do Secretário de im ­
prensa de Kennedy, Pierre Salinger, de que ele usara um a “m á­
quin a do povo” se baseava na atitude pública em relação à
possível m anipulação. O professor L ip se t era de opinião q u e a
sim ulação de atitudes públicas podería fàcilm ente ser classi­
ficada de m anipulação, em bora N ixon n ão pudesse levantar
a questão porque os republicanos haviam recorrido aos pes­
quisadores do m ercado. O Dr. M iller disse que a próp ria de­
nom inação “m áquina do povo” era sintom ática, pois indicava
m anipulação.
O professor L ip se t disse que os políticos am ericanos esta­
vam, no momento, atrasados em relação aos europeus, na u ti­
lização de técnicas “m odernas” de cam panha como os com pu­
tadores. O Chanceler Adenauer, da A lem anha O cidental, m an­
tinha contactos diretos com as agências de levantam ento da
opin ião pública, e costum ava mesmo fazer m odificações num
MK.HTKIÇAO E LIBERDADE DA MENTE 335

(II n<-urso,
<lc acordo com as reações a outro discurso feito dias
ttnics. Os analistas alemães calculavam que um a oscilação de
10 ;i 15% nas atitudes públicas podería ser resultado da sen-
nlhil idade de A denauer aos ventos d a opinião. Indagou-se se
Uno era ou n ão m anipulação. O professor L ip set foi de opinião
dr que não se tratava de m an ipulação ilegítim a, m as sim ples­
mente de sensibilidade.
Perguntaram ao professor Porter se considerava as com u­
nicações da m assa realm ente adequadas p ara a tarefa que lhes
m m petia. R espon deu que certas atitudes populares devem
existir, para qu e as comunicações da m assa tenham eficiência.
O professor L ip set acrescentou que quanto m ais o povo sou­
besse mais difícil seria m an ipular. N as áreas da vida ou do co­
nhecimento em que pouco se sabia, ou onde o conhecimento
não era difundido, o m onopólio dos canais de com unicação
podia realm ente afetar a opinião de m odo decisivo. As m odi­
ficações d a opinião am ericana sobre o regim e de T i to, na
Iugoslávia, eram um exem plo, porque um a pessoa m ediana
pouco conhecia sôbre o regime, e o quadro apresentado pela
nossa im prensa foi quase uniform e em determ inados mom en­
tos. E ra relativam ente fácil m odificar a im agem típica de T ito
de um herói antifascista durante a guerra (quando o viam
como o George W ashington da Iugoslávia) para a de um stali-
uista m aléfico, e novam ente p ara a im agem de um herói que
rom pera com seus patrões russos.
O Dr. M iller declarou que o assunto era m ais com plexo.
Os partidos políticos utilizavam fatos verificáveis, e não meras
íicções. Podiam , porém , dar m ais relêvo a um a série de fatos
do qu e a outra. A isso não se p o d ia considerar simplesmente
como m anipulação. O professor Porter foi de opinião que as
implicações dessa situação eram as de que os meios de com uni­
cação da m assa tinham im portância real nos períodos caóticos,
quando a opinião pública não estava estabilizada. N atu ral­
mente, qu an d o existia o caos, era m uito tarde p ara a com uni­
cação d a m assa fazer algum a coisa nesse sentido.
N o debate do im pacto que algo fam iliar ou aceito pode
ter sôbre a op in ião pública, o Dr. M iller disse que as vozes
de Edw ard R . M urrow e A rthur Godfrey eram as vozes “ofi­
ciais” escaladas durante a II G uerra M undial p ara anunciar
um ataque inim igo ao país. Foram escolhidas porque se con­
siderou que o povo acreditaria nelas. O professor Lipset disse
336 O CONTROLE DA MENTE

que êsse problem a d a confiança relativa nos diferentes m eios


de com unicação ou pessoas era im portante, e pouco conhecido.
N in guém parecia saber p or que os europeus tinham m ais con­
fiança nos locutores da B B C que nos da Voz da América. O
professor Porter ju lg av a que a confiança n a B B C era um le­
gado histórico. Em 1940 e 1941 a B B C dissera a verdade sôbre
os danos causados pelos bom bardeios na Inglaterra, e sôbre
outras notícias d a guerra, enquanto todos os outros m entiam .
Os locutores d a B B C teriam m erecido a confiança mesmo que
falassem com pesado sotaque húngaro, porque falavam a ver­
dade.
U m dos presentes disse qu e o tom frio de voz cultivado
pelos locutores d a B B C poderia ser usado p ara m uitos ob jeti­
vos, um a vez criada a confiança. A m esm a voz calm a transm i­
tia m uitas histórias fictícias, com finalidades m ilitares. O pro­
fessor Porter disse que não tinha dúvidas quanto a isso.
O Dr. M iller declarou que a cobertura d ad a pela im prensa
ao sim pósio fora irresponsável. M uitas diferenças de opinião
que na realidade não existiam haviam sido noticiadas apenas
por manchetes. Sentia que parte dessa irresponsabilidade p o d ia
ser conseqüência d a incapacidade profissional d a parte dos
jornalistas, e que era tão im portante elevar-lhes os salários
quanto os dos professôres. Discussões infindáveis sôbre a éti