You are on page 1of 579

5-"

-
r
ih
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

- :')
■'■'
■ ■ >J

QtUntoM
e tqi '- a
- • -
hei
- .
TRABALHOS DO AUCTOR

A Constituição riograndense.
Riogrande do Sul. Descripeão physica, histórica e econômica.
Pátria ! Livro da mocidade destinado a s~>us jovens patrícios do
Brazil, especialmente do Riogrande do Sul.
•-
A ENTRAR PARA O PRELO :

Constituição riograndense. Confrontos e annotações.


Geographia riograndense para escolas.

EM PREPARO :

Republica brazileira. Homens e factos segundo as lendas cor-


rentes e a historia imparcial.
Diurnal civico.
Jornadas de antanho.
Da monarchia pura na evolução peninsular e brazileira.
Riogrande do Sul. Segunda edição, refundida e completa.
Historia da revolução riograndense (1835-1845).
Leal conselheiro do governantes e governados.

Pt»
ALFREDO VARELA
LENTE DA FACULDADE LIVRE DE DIREITO

DIREITO CONSTITUCIONAL
BRAZILEIRO
REFORMA DAS INSTITUIÇÕES NACIONAES

Faute.-d'envisager les choses sous


Jeur vrai point de vue. au lieu
d'éclaircir la Politique, bien des
penseurs n'ont fait que rendre
obscurs ses principes les plus
simples et les plus évidents.
D'Holbach, Politique naturelle, di-
scour, I,'§1.
Legisladores ! el tiempo de dar una
base fija y eterna a nuostra lle-
publica ha llegado.
Larrazabal, Vida de Bolivar, v o l . l .
pag. 610.

SEGUNDA EDIÇÃO

RIO DE JANEIRO
LIVRARIA H. GARNIER
71, Rua do Ouvidor, 71

i9 2
Ç) °
>
Dedico este livro á memória de minha avó, D. Maria Perpetua
Dutra Varela, senhora de peregrina formosura moral, a cujo santo
influxo devo o amor á ordem, que me guiou ao escrevel-o.
Possa elle, de par com o justo zelo de uma sã liberdade, infundir
idéas mais conservadoras em nossa revolta sociedade brazileira, —
como a firme adhesãõ da nobre velhinha á monarchia sob que se
educara, cooperou para corrigir meus sentimentos republicanos,
expurgando-os de todo vão revolucionarismo.
Rio-de-Janeiro, 1898.
PREFACIO

Quando, em 1899, vciu á luz a primeira edição do Direito


Constitucional Brasileiro, escrevi eu para 0 Paiz uma ligeira
noticia sobre o valente e prolundo trabalho de Alfredo Varela,
na qual, entre outras cousas, disse o seguinte :
« Obra para políticos e estadistas, quenão para estudantes
ou para os simples misteres didacticos, o Direito Constitu-
cional Brasileiro merece leitura attenta de todos os nossos
intelle ctuae s, especialmente dos nossos homens públicos. Ha
n'ella todo um problema de política scientifica, applicado á
nacionalidade brasileira, ou antes, estudado ayravez da his-
toria geral e da do nosso paiz. Vê-se bem, atravez e no fundo
das allegações e affirmações do autor, uma prcqccupação de
escola philosophica, cujos pontos de vista se quer defender e
firmar. Mas a verdade é que tal preoecupação não é aprioris-
tica e caprichosa, p>ois que o escriplor baseia-se nos factos
históricos para induzir as leis e nunca nas hypotheses philo-
sophicas para deturpar os factos. Consequentemente a obra e
digna de ser meditada. Certo não nos sentimos ainda dispos-
tos a aceitar muitas das suas conclusões, algumas das quaes
nos parecem.prematuras e outras até perigosas na época que
vamos atravessando. Mas nem por isto o livro de Alfredo
Varela deixa de ser um bellissimo attestado de talento, de
estudo, e sobretudo de altruistica preoecupação patriótica e
véhémente ardor civico... Até o presente, sobre o nosso direito
X PREFACIO

constitucional, apanhado no seu conjunclo hislorico-philo-


sophico, nada se escreveu de mais consciencioso e profundo
do que o livro do joven e illustre rio-grandcnse ! »
Não tenho que me desdizer de tal juizo, e posso hoje feliz-
mente confirmal-o nas proprias paginas do Direito Constitu-
cional Brasileiro, honra que eu tenho na conta das maiores
que me pudessem ser conferidas.
E já agora seja-me licito, antes de folhear novamente o
volume que tenho á vista, 1er, com os olhos da memória,
algumas linhas desse outro livro que cada homem traz dentro
de si, que é a obra suprema de toda a gente, porque é escripla
no correr da vida com os batimentos do próprio coração : o
livro das recordações pessoaes sempre saudoso e eterna-
mente inédito. Nesse meu livro intimo tem Alfredo Varela uma
pagina, que eu quero juntar ás do seu opulento e brilhante
trabalho de publicista.

Conheci A. Varela no Recife, ha doze ou treze annos. Era o


momento agudo e brilhante da propaganda republicana em
minha terra natal. (Quem dera que esse momento se tivesse
eternisado!) Redigia eu, em companhia de Maciel Pinheiro,
O Norte, diário de combate ás instituições políticas vigentes
então, e ao redor desse órgão da imprensa anti-monarchica
vinham grupar-se, a um tempo ouvindo, estudando e aconse-
lhando, todas as consciências limpas, todas as vontades enér-
gicas c todas as intelligencias esclarecidas —• especialmente
dos moços que cursavam a Faculdade de Direito daqueüa
cidade. Um dever elementar de verdade e de justiça manda
consignar que d'entre esses moços se destacavam, pela exube-
rância do ardor civico, os estudantes da colônia rio-grandense
do sul, cuja syrnpathica e efficaz solidariedade com os esforços
dos propagandistas republicanos de Pernambuco devo recor-
dar nesta oceasião com grata sinceridade.
Ora, um desses moços rio-grandenses era Alfredo Varela,
hoje autor do Difeito Constitucional Brasileiro. No meio das
preoecupações e das lutas do momento era elle um collabo-
BREFACIO XI

rador singular, de uma physionomia intellectual e pratica


Ioda á parte. Não era o homem das ruas, dos meetings, das
audacias materiaes, das agitações subversivas; era o correli-
gionário convencido e firme, dedicado e severo, estudioso e
calmo, que previa, que discutia, que doutrinava, e que, \á na-
quelle tempo, doutrinava com a orientação e a firmeza de
agora.
De resto não era\n essas as características únicas de sua
individualidade; faz-se mister acerescentar que elle impunha-
se aos que o conheciam, não só pela faceta politica do seu eu
intellectual como pela correcta lapidação de sua personalidade
moral, toda su'ieila ao honesto regimen que seu dogma phi-
losophico lhe impunha. E esse dogma era-lhe já então forne-
cido pela extraordinária e podewsa construcção do maior pen-
sador dos tempos modernos, quero dizer de Augusto Conde.
Tive um dia a prova do apuro, senão do exaggero, dessa
correcção de A. Varela, riumfacto mínimo que entretanto não
me passou despercebido, porque me revelou, como numa
refulgencia, de relâmpago, todo um cosmos psychico, digno
de observação e analyse.
Conversávamos nós dois, após um encontro casual, sobre
vários aspecos das cousas e das pessoas da capital pernambu-
cana, e não sei que observação oceorreu a Alfredo Varela sobre
alguma ou algumas de taes pessoas. A' observação do meu
1
companheiro respondi accentuando certo traço que me
parecera ter sido esboçado por elle. A conversa continuou e
pouco depois despediamo-nos.
No dia seguinte recebi uma longa carta de Varela, na qual
era retomada a nossa conversa no ponto mesmo da obser-
vação cujo traço eu accentuara, aliás sem intenção deprimente
para quem quer que fosse. Communicava-me o meu escru-
mdoso amigo que, reconstituindo, como costumava fazer
todas as noites ao recolher-se, o assumpto e os lermos de
mas conversações durante o dia, notara que rCum ponto de
lossa confabulaçãê — exactamente a tal observação que eu
iccentuára — parecia ter havido de minha parte uma como
elada insinuação que repugnava ao seu caracter. E delicada

\\
-- -,

XII PREFACIO

e amigavelmente, mas também um tanto amargamente, pe-


dia-me Varela que eu eliminasse do meu espirito a imaginaria
suspeita, contida talvez em minhas palavras. Expliquei-me
depois com o meu amigo e pjerdoei-lhe a pequena injustiça
que me fora feita,sobretudo pelo ensejo que ella me proporcio-
nara de ver, na trama de sua fibra essencial, o rico estofo
intimo do caracter daquelle meu nobre correligionário, que,
na edade em que os moços soem ser superficiaes c levianos,
submettia os seus menores actos a um rigoroso exame de
consciência diário.
Quem assim procedia — e naturalmente ainda procede,
quaesquer que sejam as modificações secundarias que o
tempo e os attritos sociaes possam ter trazido ao seu orga-
nismo moral — é capaz de ter idéas profundas, sólidas e
firmes, impulsionadas por generosos surtos de coração e des-
tinadas a uma fecunda realisação pratica. E de tal natureza
são, na sua maior parte, as idéas que encerra o Direito Cons-
titucional Brasileiro.
Disse em um dos trechos acima citados da noticia publicada
n'0 Paiz que sobre o nosso direito publico-constitucional,
apanhado no seu conjuneto historico-philosophico, nada se
escrevera até hoje, entre nós, de mais consciencioso e pro-
fundo do que este livro de Alfredo Varela.
Assim é, a meu ver, sem embargo das restricções que faço
a algumas das idéas do autor, já nas regiões abstractas da
doutrina, já principalmente no terreno da applicação. Grande
contentamento experimentaria eu si me sobrassem tempo e
espaço para analysar todas as idéas geraes e particulares
contidas no Direito Constitutional Brasileiro e dar longa-
mente sobre todas ellas minha desvaliosa opinião; privam-
me, porém, da primeira condição o meu afanoso cuidar de
outras obrigações, e da segunda a 2^opria -natureza desta
ligeira apreciação, necessariamente synthetica, que não se
destina senão a frisar ou a pôr em relevo os traços domi-
nantes e originaes da obra que a provocoti.
Dominantes c originaes — acabo de dizer : devia escrever
somente dominantes, pois originaes (entenda-se em nosso
PREFACIO XIII

tempo e em nosso meio) são todas as notações capitães do


magnífico tratado de direito e política, cujas vibrantes paginas
tenho ante os olhos.
Os traços dominantes, as linhas matrizes, do Direito Cons-
titucional Brasileiro estão principalmente contidos no Dis-
curso Preambular e no Livro 7, intitulado Reformas constitu-
cionaes do Brasil. K ahi que A. Varela assenta princípios car-
deaes de sua orientação sociológica e de sua comprehensão
da Política.
No Discurso um estylo a um tempo claro, sóbrio e incisivo
e uma argumentação vigorosa, lógica e suggestiva, oferecem
ao espírito do leitor a quadro das escolas ou theorias c[ue têm
dividido os publicistas e homens do governo sobre a cons-
trucção do mcchanismo político das nações. A luta das ideas e
das pretensões extremas entre autoritários e cgualilarios,
entre partidários do autoritarismo puro e da democratia abso-
luta ou do direito divino dos reis e da soberania popular, é
desenhada com uma nitidez e uma verdade notáveis. Inter-
corre a analyse da theoria do equilíbrio ou da systematisação
do conflicto entre egualitarios e autoritários, e vem afinal a
explanação da doutrina adoptada pelo autor, que é radical-
mente contraria ás idéas hoje correntes.
Em o Livro I, consagrado ás reformas constitucionaes, no
mesmo estylo e com argumentação tanto ou mais cerrada que
a do Discurso, o autor da obra enfrenta o seu problema ca-
pital, a questão precipua do seu trabalho, sua these funda-
mental, emfim, que é da revisão da Constituição republicana
para pôl-a de accordo com os antecedentes históricos de nossa
nacionalidade.
Pela simples indicação dos respectivos assumptos, vê-se
quanto ha de novo, de audaz, de momenloso e de serio, nos
dois alludidos capítulos do Direito Constitucional Brasileiro.
Nos demais capítulos (livros, na technologia do autor) ha
apenas o desenvolvimento e o estudo das questões ou pro-
blemas particulares contidos nas duas grandes theses ini-
ciaes.
Entretanto, sob certo ponto de vista, isto c, no ponto de vista

c
XIV FPRE ACIO

critico de noso direito consticional positivo, é essa a parte


mais importante da obra, pelo conhecimento nella revelado
da historia e do mechanismo da lei básica de 24 de Fevereiro,
pela riqueza de factos e ideas que encerra, pela corajosa con­
vicção com que ahi são abordadas matérias da ordem destas :
— o conceito de federação e os moldes em que foi elle vasado
pela Constituinte; a questão da unidade ou pluralidade do
Direito nacional; a, distribuição e discriminação das rendas
da União e dos Estados; as criticas da theoria clássica da divi­
são e harmonia dos poderes e do regimen parlamentar; os
problemas eleitoral ou do voto e da estabilidade governativa
ou do prazo mais ou menos longo para o exercido do poder
supremo ; o processo de decretação das leis, posta de lado a
acção e funcção legislativas das assembléas ou parlamentos; a
administração da justiça e a constituição dos tribunaes; a
extensão do direito de cidadania; a these da liberdade espi­
ritual cm suas varias modalidades; a questão, emfim, da
defesa social nos seus aspectos politico e jurídico.
As soluções a que o autor chega no estudo de todos esses
assumptos — como sejam (cito apenas as principaes) a remo­
delação dos Estados pela reducção do numero das unidades
politico — administrativas componentes da Federação; a
diversidade de legislações baseada nas necessidades ou fata­
lidades geographic as, ethnicas, econômicas e outras das diver­
sas zonas do paiz; a designação do chefe do Estado pelo
seu antecessor para servir senão vitaliciamente ao menos
durante o maior prazo possivel; o voto directo do povo para a
discussão e aprovação das leis; a abolição do jury e o alarga­
mento do juizô arbitrai; o cerceamento do direito de natura­
lisação; a extineção radical dos privilégios acadêmicos e in­
dustriais desde os diplomas s científicos officines até a facul­
dade exclusiva da União para emittir moeda ; a censura ao
nosso Código Penal por ter eliminado a pena de morte; —
tudo isso constitue, como já deixei dito, uma série de desas­
sombrados corollarios dos culminantes theoremas politicos
assentados nos dois primeiros capítulos do Direito Consti­
tucional Brasileiro.

•■;
PREFACIO XV

Mas quaes são, em ultima analyse, esses thcoremas ?


Alfredo Varela deu-lhes a demonstração, sem se preoccupar
com o respectivo enunciado; acredito, porém, que os resul-
tados a que chegou tal demonstração podem ser expressos
nos termos seguintes :
i° — A idéa de que o principio da autoridade ou o poder
supremo dos Estados é uma delegação do povo, realisada pelo
arbítrio deste, é uma idéa falsa ; o povo não institue governos
nem governa, porquanto sua competência é apenas negativa.
£°— Está errada desde 1822 a evolução politica brasileira,
cuja formula não foi achada e traduzida nem pela Consti-
tuição monarchica de 1824 nem pelo novo apparelho insti-
tucional de 1891.
Estas heterodoxas e afoitíssimas theses, capazes de estar-
recer o mais solerte dos nossos doutores em consliluciona-
lismo, são vigorosamente discutidas e defendidas pelo autor
desta obra, abeberado, aliás, nas mais puras fontes da publi-
cista antiga e moderna.
Na explanação da primeira declara-se o autor filiado á
escola histórica e, auxiliando-se do critério por esta fornecido,
assevera : que « a fatalidade, creando-nos falliveis e capazes
do mal, tornou necessário, indispensável, um poder que con-
tenha nossos Ímpetos e reprima nossas acções perniciosas,
esse poder surgindo por isso espontaneamente, nunca ao
impulso da vontade popular » : que « assim como é absurdo
sujeitar o povo em absoluto á soberania do governo, absurdo
é também subalternisar este, erguendo o indivíduo á con-
dição de soberano » : que « na trama das sociedades o go-
verno é um composto de órgãos, um apparelho cujas funcções
são determinadas, não por si, nem por ninguém, mas pela
natureza das cousas, tendo o povo sua funeção especial, inde-
pendentemente de sua vontade e que o aperfeiçoamento do
organismo politico lhe destribuiu na era moderna; » que « o
Poder tem de ser uma força independente do povo e que a
funeção suprema do governo é governar, isto é, manter a or-
dem material ; » que « o erro da escola autoritária é negar

d
XVI PREFACIO

toda e qualquer competência ao povo e o da escola opposta é


reconhecer-lhe competência para tudo ; » enfim, que « o povo,
considerado em massa, não foi dotado da faculdade de crear,
dispondo todavia de aptidões para criticar, isto é, que o povo
tem competência negativa mas não positiva. »
Perlustrando a materia da segunda das theses propostas e
depois de algumas considerações theoricas aferidas sempre
pelo padrão da escola histórica, Alfredo Varela affirma : —
que « nossas tentativas de reforma constitucional, de -1824
para cá, peccam pela base » ; que « a legislação constituinte,
a partir da independência, não corresponde ás necessidades
do Brasil nem lhe é adaptável, porquanto a situação política
de Portugal esboça por inteiro, no áureo período da monor-
chia florescente (culminado em 1481, sob João 2o), a fôrma de
governo moderno » ; que « a revolução portugueza de 1820,
inspirada nas idéas anarchicas em voga, foi uma perturbação
que juntou seus máos effeitos aos que já eram sentidos, e
antes que fossem eliminados de todo os do absolutismo até
ahi dominante » ; que alcançando a evolução portugueza no
próprio instante anterior ao grito emancipador do Ypiranga »
o que os constituintes brasileiros de 1824 tinham a fazer era
o seguinte : « mantidas as cortes para o voto dos subsidias,
reforçar-lhes estas attribuições, completando-as com as de fis-
calisar a applicação d'elles, reunindo-se para isso periodica-
mente ; despojado o chefe do Estado das funeções de ordem
espiritual, limitar seu papel á simjjles manutenção da ordem
material, ficando-lhe o direito de traduzir essa ordem num
corpo de leis approvadas ou reclamadas pelo povo ; instituir
para guarda dessas leis uma magistratura seriamente orga-
nisada e responsável, juntando a isso um conjuneto de garan-
tias inãividuaes salvaguardando plenamente a actividade
humana em qualquer terreno ; » que, como a Constituição
monarchica de' 1824, a Constituição republicana de 1891 phan-
tasiou obra nova em desaccordo com a tradição nacional,
seguindo em tudo o mesmo irracional procedimento de seus
antecessores imperiaes ; » finalmente que assim « mal conce-
bida, a Carta vigeiite não corresponde á constituição histo-
PREFACIO XVII

rica da nacionalidade portugueza, de que proviemos, antes a


contraria profundamente. »
Está ahi nessas duas séries de affirmações, todo o espirito,
toda a substantifique moelle do Direito Constitucional Brasi-
leiro.
A theoria geral de direito publico, ou melhor, a orientação
juridico-politica, que levou o illustre publicista rio-grandense
a taes conclusões, será uma extravagante novidade digna de
repudio immediato e absoluto, alguma cousa de filiavel ás
concepções degeneradas e malsanas estudadas por Nordau
e Pompeyo Gener?
Não ; Alfredo Varela pôde estar em erro ; mas o seu erro,
então, terá raizes nas mais amplas e mais ricas leivas da
gleba philosophica em que fecundamente mourejaram he-
róicos servidores do pensamento occidental, durante sécu-
los.

A formidável crise occidental — digamos antes humana —


de 1789 foi o ponto de partida da reorganisação das socie-
dades politicas modernas sobre as bases da reacção indivi-
dualista objectivada calma ou ruidosamente, mas sempre
efficaz e tenazmente, já nas obras dos pensadores como Mon-
tesquieu, Rousseau, Condorcet, Kant, Fichte e economistas
progonos ; já na explosão proselytica da Reforma religiosa e
no notável surto politico do Agreement of the people dos sol-
dados de Cromwell e da constituição das primeiras colônias
inglezas da America do Norte.
Desencadeado aciuelle grosso tufão demolidor do velho
regimen, as novas construcções politicas tiveram de vergar
á rajada violenta das reivindicações do indivíduo contra a
sociedade, do povo contra a autoridade. E atravez e após os
avanços e recuos, as curentas audacias e as tergiversações
theoricas e praticas da grande Revolução, a verdade é que
um facto supremo e fecundo ficou evidenciado e a impôr-se,
não simplesmente á França mas a todas as nações cultas da
Europa e respectivos prolongamentos americanos : — em-
quanto reis e olijgarchias passavam a ser vistos microscopi-

':\
•':

XVIII PREFACIO

camente, sociedades « povos passavem a ser olhados como


macrocosmos, onde se condensavam as aspirações e as rega-
lias das cellulas componentes do corpo social, isto é, dos indi-
víduos. E como objecticação política desse phenomeno uma
série de conceitos intangíveis para os contemporâneos ficou :
— a soberania do povo delegada aos parlamentos, por isso
mesmo preponderante entre os vários ramos do poder pu-
blico, com a correspondente theoría da divisão dos poderes ;
o systema representativo com todos os seus corollarios elei-
toraes e parlamentares, etc...
Foram taes conceitos que deram a nota característica das
revoluções parciaes subsequentes, reorganisadoras das velhas
nações européas e das novas nacionalidades americanas ;
foram elles que afeiçoaram as novas constituições ibéricas e
as do Brasil e da America latina do Sul e do Centro. Quer isto
dizer que Jean-Jacques Rousseau, com a sua theoría funda-
mental da soberania popular indivisível, absoluta e inalie-
nável, opposla á soberania real, absoluta, de procedência
divina; Montesquieu, com o seu presupposto inglez da divi-
são e contrabalançamento dos poderes ; — modificados para
mais ou para menos, no correr dos tempos, pelas idéas de
Condorcet, Kant, Fickle, Adam Smith e discípulos e dos puri-
tanos inglezes, sectários do livre-exame religioso, emigrados
para a America do Norte — foram os vencedores occasionaes
na tremenda luta travada entre o velho e o novo regimen e
conseguiram traçar e alumiar até hoje a trajectoria do mundo
político.
Do papel de cada um desses fabricadores de theorias e de
systemas políticos dá uma idéa resumida e nítida Henry
Michel, nos seguintes termos :
« W. Penn e os seus companheiros de trabalhos reivin-
dicam a autonomia da crença pessoal; Montesquieu o livre e
seguro goso para o indivíduo de seus bens e de sua pessoa ;
Rousseau e Condorcet querem que o cidadão tome parte pes-
soalmente por um acto de sua vontade na creação do Estado ;
liant e Fíchte lhe revelam, e ao homem mesmo, a essência
de seu direito ; Smith liberta a actividade de cada traba-
PREFACIO XIX

lhador das peias que durante tanto tempo à constran*


geram » (i).
Entretanto, por maiores, mais gloriosos e mais pujantes
que sejam os nomes citados e os movimentos sociaes que
com elles se conjugaram, não ha negar que muitas outras
individualidades, em maior numero e não menores nem
menos gloriosas e imponentes pelo seu amplo descortino phi-
losophico e pelo raio de sua acção pratica, contribuiram para
a installação e o advento de novo regimen, filiando, talvez
mais sensatamente, suas concepções ás condições ou pre-
ceitos de estática política, ministrados pelo passado humano,
ou antes pelos velhos pensadores cujas theorias fecundou o
poderoso gênio de Aristóteles.
Abstrahindo de Bossuet, talvez o mais completo represen-
tante, no século XVII, do systema de idéas de que é synthèse
o celebre principio da razão do Estado, outros grandes espí-
ritos, agindo dentro mesmo do fervente cadinho libertário do
século XVIII, enunciaram e defenderam conceitos e sys-
temas políticos essencial e radicalmente différentes dos que
vieram a vencer na explosão final do século e que pouco antes
haviam fructificado na America do Norte, mercê do individua-
lismo sectarísta dos puritanos emigrados. Quero faltar dos
theoristas do Despotismo intelligente ou esclarecido — for-
mula política a que prestaram inolvidavel e fecundo con-
curso os encyclopedislas do tempo. Si foi no Systema Social
de D'Holbach que essa doutrina attíngiu ao seu mais alto
grão de expressão, é preciso entretanto convir em que suas
raízes beberam seiva no humus intellectual de grande parte
dos pensadores coetaneos. Folheando o bello livro de II. Mi-
chel, atraz citado, tem-se uma documentação completa desse
facto.
Voltaire, por exemplo, que pertence ao numero dos allu-
didos pensadores, philosophou em política de modo tal que
Sorel, em sua obra sobre a Europa e a Revolução, poude dizer
1
A obra de H. Michel é abundante de idéas no tocante á historia das
theorias sociaes e políticas. Intitula-se L'Idée de l'Etat, e a ella devo
uma grande parte dos subsídios de que necessitei para este estudo.

%
XX PREFACIO

d'elle o seguinte : « Espera tudo do Estado e, no fundo, não


trabalha senão para o Estado ; seu idéal é o despotismo tem-
perado pela tolerância e pelas luzes. » De resto, é sabido que
elle admirou e cortejou os governos fortes como os de
Luiz XIV, Frederico H e Catharina da Russia, que escreveu
esta phrase : « Nós somos todos egualmente homens mas não
membros eguaes da sociedade » e que ainda com relação á
egualdade política escreveu que ella não 6 o annullamento da
subordinação.
O substraclum das idéas políticas' de D'Holbach, dos eco-
nomistas Quesnay, Bandeau, Mercier de la Rivière, e Dupont
de Nernour, de Turgot, de Mirabeau, de Saint-Lambert, e
ainda de Leibniz, de Wolf, de Hume, dos juristas Recearia e
Filangierd, como de Diderot, D'Alcmbert, Helvetius, Raynal
e outros, — não é différente do das de Voltaire.
O autor de L'Idée de l'Etat résume assim a doutrina polí-
tica contida no livro de D'Holbach : « A opinião ; depois
um governo forte dirigido pela opinião ; em fim, um povo
dócil que se deixa guiar para a felicidade porque sabe que
se lhe fará tomar o caminho mais curto para chegar a ella.
Os philosophos fazem a luz que guiará a marcha da huma-
nidade ; os principes a levam á frente dos povos. »
Os economistas physiocralas citados, por seu turno, com-
batem Montesquieu, atacando duramente a separação dos
poderes e o systema dos contrapesos ou das contraforças que
consideram como inicio de « uma guerra surda e continua »
na ordem social. Para elles ha uma « ordem essencial » das
sociedades que é « geral tanto quanto natural; » os indiví-
duos não fazem as leis « declaratorias da ordem social » —
limitam-se a ser portadores d'ellas e é por isso que se diz
de quem faz as leis que é legislador e não legisfactor ; a neces-
sidade âas cousas quer que um poder forte surfa para asse-
gurar aos indivíduos o g os o de todas as vantagens ligadas
á vida social. Bandeau diz que só á « vontade soberana »
compete dictar a lei e Quesnay acerescenta que a vontade
sob eram deve ser « única. » Mercier de la Rivière explica
que o despotismo legal provem do « ascendente da eviden-
PREFACIO XXI

cia » e que dessa natureza é o despotismo de Euclydes sobre


os espiritas quanto ás verdades geométricas que nos trans-
mitliu — o que quer dizer que o despotismo legal é muito
différente do despotismo arbitrário.
Para caracterisar, no assumpto, o modo de pensar do
philosopha inglez Hume, basta observar que sea compatriota
Leslie Stephen definiu-o « um partidário do despotismo intel-
ligente à la française- »
Quanto a Leibnitz, não é preciso, para dar a nota de sua
concepção do Poder publico, recorrer ao que d'elle disse
Pfleiderer : « que seu idéal seria o governo de Frederico II ;
é sufficienle notar que seu discipulo Wolf, discorrendo sobre
a maneira de reger um Estado, fel-o de forma a autorisar
Henry Michel a dizer que elle escreveu, não o código, como
D'Holbach, mas o vade mecum do regimen do Estado de
politicia, que é, como Bhintschli denomina, a theoria do des-
potismo esclarecido.
Dos demais autores acima referidos poderiam ser citados
pensamentos e trechos, subordinados todos ao mesmo ponto
de vista, que aliás foi dominante na Europa até ás vésperas
da Revolução Franceza e continuou a fazer-se sentir atravez
e até ao fim de toda a crise revolucionaria. A notável obra de
A. Sorel, a que já fiz alkisão, não deixa duvida alguma a
esse respeito e demonstra 7nesmo que a influencia desse
ponto de vista affectou não só o Edito do Grão Duque de
Toscana, de 1790, e o Código Prussiano de 1794, como a
Instrucção promulgada em 1768 por Catharina II para reger
os trabalhos da Commissão encarregada de fazer um Código
para o império da Russia.
E' certo que a corrente individualista impulsionadora da
Revolução e por ella propria impulsionada depois, supplantou
o pensamento director da theoria do despotisme éclairé,
filiação natural do regimen da razão de Estado, solidamente
ligado ao apparelho governamental dominante no século XVII
—a Monarchia administrativa.
Mas será egualmente certo que o movimento de idéas repre-
sentado pelos theoristas do Estado de policia tenha cessado

••
XX.I PREFACIO

de todo durante o primeiro quartel do século que surgiu


quando mal se apagavam os clarões ensangüentados da tre-
menda commoção occidental ?
Respondem negativamente os trabalhos de publicistas fran-
cezes como Saint-Martin, De Maistre, Bonald, Ballanche,
Lamennais (os chamados theocratas) e mais do suisso Luiz
de Haller, dos inglezes Bentham e Burke e dos allemães Savi-
gny e 11 cg ei.
« Si se considera o pequeno numero de annos que scparam_
a Revolução em seu apogêo da Restauração triumphadora
(1792-1825), fica-se admirado de que um intervallo de tempo
tão curto tenha visto se produzir uma reacção política tão
completa. E por mais flagrante que pareça, a reacção política
é menor ainda do que a reacção nas ideas e nas doutrinas.
Os theocratas levantam-se sobretudo contra a idéa de que o
homem seja capaz de inventar a sociedade política ou o quer
que seja de outra; elles reintegram no thcsouro das noções
communs a idéa do Deus creador de que a philosophia do
século XVHI tendia a libertar-se, desligada como estava da
metapliysica e contente de saudar a Providencia, no mundo
moral. Bentham levanta-se contra a idéa de um Direito- Natu-
ral, de essência insondavel e mysteriosa ; elle reintegra no
espirito de seu tempo as tendências realistas que o idealismo
da Revolução tinha eclipsado. Burke e Savigny levantam-se
contra a idéa de arranjar ou organisât a priori a sociedade
poliüca; elles reintegram os elementos empíricos, e em
primeira linha a idéa do crescimento espontâneo, da vida
das instituições. Hegel, emfim, que em tantos pontos repete
seus jnedecessorcs e seus contemporâneos, occupa-se mais
particularmente de refutar a doutrina do direito de Kant e
de Rousseau e exalta o Estado o mais possível. O circulo
fecha-se, aprisionando, por assim dizer, o pensamento liberal
e individualista » (1).
Para o fim que tive em vista quando reportei-me a todo o
notável movimento de idéas, cujos lineamcntos geraes ficam
1
Henry Michel : ob. cit; pag. 165 e 167.
PREIACIO ^ ^ SXII1

esboçado*, não me é precisoér adeante. Antes convém parar


e mesmo retroceder até ao ponto de partida : o livro actual c
de pensador brasileiro, que me está oceupando.
Abra-se nesta, naquella e naquclla outra pagina a presente
obra de A. Varela e ver-se-ha que os autores que elle cita de
preferencia para a comprovação de suas theses de direito
publico e de politica, são : Bonald, D'Holbach, de Maislrc,
Bernai, Aristóteles, Hume, Turgot, Quesnay, Mercier de Ia
Rivière, etc., e que destes os quatro primeiros são os que
mais subsídios fornecem ás suas concepções fundamentaes.
Não cito o seu mestre supremo e supremo orientador —
Augusto Comte — porque Varela leve o cuidado de utilisar-se
directamente o menos possivel das opiniões do moderno
Aristóteles francez, autor do Curso de Philosophia Positiva,
da Politica Positiva e da Synthèse Subjectiva. Seria, de facto,
épatant pour le bourgeois procedimento diverso.
O corollario inilludivel do facto apontado é que os dados
theoreticos do despotismo esclarecido em voga no se
culo XVIII e os da escola theocratica de princípios do
século XIX, corrigidos pelo espirito scientifico da escola
histórica,, esteiam a doutrina capital do autor deste sincero
e pensado livro que, como o de Montaigne, é un livre de
bonne foy-
Terá Alfredo Varela seguido o bom caminho ? Terá achado
a rola segura e direita que conduz á Verdade? Não sei;
mas lance-lhe oulrem a primeira, pedra por se haver trans-
viado ; eu é que, si não me atrevo a acompanhal-o, muito
menos me animo a aconsclhal-o a caie mude de rumo. O que
sei é que o valente escriptor do Direito Constitucional Brasi-
leiro não viaja só : fazem-lhe companhia gloriosos espiritos
de élite, muitos dos quaes santificados pela morte que os.
immorlalisou (i) e outros ainda vivos, aspirante» á immorta-
1
Seria u;na grave injustiça ninha não recordar aqui urn patrício
morto, honra dos intellectuaes da geração a que pertenço, que, inspirado
provavelmente na nesma corrente de idéas dos mestres do autor deste
livro, foi talvez- o primeiro entre nós a procurar determinar a formula
da eivilisação brasileira com um moderno critério /dstoricophilosophico,

T
XXIV PREFACIO

lidade dos velhos proceres, (cita das bênçãos da humanidade


reconhecida.
£" que as sementes lançadas á terra, do pensamento pelos
semeadores de antanho, cuja nobre tarefa indiquei, não se
cslerilisaram inteiramente. A reacção presidida por de
Maistre, Savigny, Burke e Hegel não foi esmagada em abso-
luto pela pressão das Constituições individualistas, arranjadas
no correr do século ultimo, segundo o modelo Rousseau-Mon-
tesquieu.
Pelo menos é isso que tem sido demonstrado e o está sendo
cada vez mais, pelo espirito das escolas philosophicas e prin-
cipalmente econômicas dos últimos cincoenta annos.
D'entre essas escolas, do grupo das segundas, uma se
destaca, que tem um caracter ao mesmo tempo econômico
e politico, e que serve hoje de programma de governo a bom
numero de estadistas europeus, principalmente allemães :
—' é o socialismo de Estado, ou se quizerem o socialismo de
cadeira (kateder socialism) proclamado em 1872 pelo Con-
gresso de Eisenach.
Pois bem; o socialismo de Estado afigura-se a muitos
jéÊitores como uma simples volta ao systema do despotismo
BHarecido. Um desses autores escreve a respeito as seguintes
palavras : « Tem-se reconhecido, nas ideas dvreitoras do
socialismo de Estado, as do despotismo esclarecido. O
melhodo é o mesmo ; a inspiração idêntica; os resultados se
valem. »
Será essa a tendência que virá finalmente a triumphar, ou
será vencedora outra, a ella contraria ? Impossível é, a meu

que é inteiramente semelhante ao de \arela. Refiro-me a Annibal Fal-


cão, fallecido ha um anno apenas, e que foi um dos mais lúcidos e bem
apparelhados espíritos que me tem sido dado conhecer- Quem ticer a
curiosidade de* procurar nas 'paginas do Diário de Pernambuco o seu
magnífico trabal/io lido no Recife em 27 de Janeiro de 1883 e intitulado
Formula da civilisacão brasileira, deduzida da apreciação dos seus elemen-
tos essenciaes définivamente reunidos pela luta hollandeza, ha de conven-
cer-se da justiça da referencia que aqui deixo e que é uma legitima
homenagem de conterrâneo admirador e de antigo companheiro de lutas
abolicionistas e republicanas.
PREFACIO XXV

ver, jazer a respeito um prognostico com um certo grão de


segurança.
O problema não é.positivamente o contido na luta que vae
travada de longa data entre o individualismo e o socialismo ;
estes termos são estreitos, ainda que indiquem a face, talvez
preponderante, da questão. O problema, na hypothèse, —
e é esse problema que palpita nas dobras das paginas e nos
intersticios das linhas do livro de A. Varela — é o de saber
si todo o possante movimento reductor senão demolidor do
principio de autoridade, como o entendeu o velho regimen,
deve ser considerado, no seio da civilisação geral e no decurso
da evolução humana, um simples parenthesis, ou si ao con-
trario é com elle e por elle que se pode traçar a directriz defi-
nitiva das energias sociaes. E como no combate individual e
popular contra o velho principio de autoridade os arsenaes
que fornecem as armas até hoje vencedoras foram os da sobe-
rania popular, da egualdade política, da declaração consti-
tucional de direitos, do conslitucionalismo representativo,
do suljragio universal, do regimen parlamentar — a questão
está em saber si todos esses conceitos e instituições corres-
pondem á corrente normal da evolução política ou são mm
desvio d'ella.
Alfredo Varela, quer com relação ao caso occidental no
seu conjuncto, quer com relação ao caso particular brasi-
leiro, sustenta resolutamente a ultima hypothèse.
Já deixei dito que não me atrevo a acompanhar o meu
velho confrade e amigo nesse modo de ver. Acho-o pelo menos
prematuro e tenho sérias duvidas a respeito, — duvidas que
me são suggeridas exaclamente pelas mesmas ideas philoso-
phicas fundamentaes em que commungamos ambos. For-
mularei uma. que considero capital, e que é a seguinte :
A escola histórica secundada e desenvolvida neste ponto
pela Philosophia Positiva ensina-nos que as sociedades vistas
no espaço ou no tempo, estudadas pelos methodos de obser-
vação e filiação, isto é, no momento actual ou na historia
inteira, não são produetos de uma vontade arbitraria, indi-
vidual ou collectiva. As leis que .as regem são fataes como
**
XXVI PREFACIO

os respectivos phenomenos e apenas modificaveis parcial e


secundariamente pela acção consciente das minorias intel-
ligentes, guiadoras dos povos. Por outro lado, um estado social
dado ou uma phase histórica determinada é sempre o pro-
dueto necessário de um antecedente lambem dado ou deter-
minado. Si a archigonia ou geração espontânea é duvi-
dosa em biologia, menos ainda é admissível em sociologia.
São verdades essas que hoje não admiltem contestação.
Assim sendo, não me parece razoável considerar como mero
desvio anarchic o do curso da evolução um movimento ou,
uma serie de movimentos convergentes que vêm fazendo a
sua trajectoria desde o levantamento e libertação das com-
munas, em pleno antigo regimen, até á constituição das
novas nacionalidades organisadas nos moldes democráticos
e representativos.
E vem aqui a propósito materialisar ou concretisar minha
duvida no phenomeno da revolução de 1820 em Portugal, que
o autor desta obra reputa perturbação desastrosa da evolução
política portugueza e consequentemente brasileira.
Foi, por ventura, aquella revolução um caso portuguez
isolado ou mesmo um simples caso politico ibérico, sem
antecedentes, sem filiação ? E' licito responder negativamente.
O próprio autor do Direito Constitucional Brasileiro filia-a
« ás idéas anarchicas em voga, » isto é, a todo o movimento
de reorganisação social e de conslitucionalismo democrático
que agitava a Europa e a America desde fins do século pas-
sado. E eu estou ainda inclinado a pensar que a transfor-
mação reclamada e operada por aquelle suceesso revolu-
cionário foi uma conseqüência natural e por isso mesmo
forçada da conquista dos foraes e do ascendente gradual na
peninsula, como em todo o Occidente, do elemento burguez.
O caso da independência brasileira nos moldes do novo
regimen instituído na metrópole foi, portanto e por sua vez,
um phenomeno natural e lógico do inilludivel processo de
filiação ethnica e histórica.
£' presumindo a concessão da necessária venia por parte
PREFACIO XXVII

de A. Varela que opponho este ligeiro embargo á sua erudita


licção.
Mais numerosos e. mais profundas reservas faço eu a muitas
doutrinas e criticas do autor, enunciadas na parte especial do
seu trabalho — a que estabelece as reformas de que, a seu
ver, carece a nossa Constituição de 24 de Fevereiro.
Áccentuarei antes de tudo a minha antipathia pela idéa de
revisão actual do nosso Estatuto institucional. Já em um tra-
balho parlamentar tive oceasião de externar minha opinião
a respeito (1) e a mantenho até hole, sem que me tenha de
modo algum abalado em outro sentido a recente e apaixonada
campanha que a propósito se travou na imprensa jornalís-
tica — prestigiada, aliás, por alguns dos nomes mais cotados
em nosso mundo intellectual e politico. Apresso-me, porém,
a declarar que se tivesse de ser revisionista hoje, sel-o-hia com
o autor deste livro : para uma revisão radical, dentro de uma
concepção de republica, tal qual elle a propõe, salvo os
detalhes. Uma revisão constitucional dessa natureza eu a
comprehendo ; o que não posso comprehender nem me aba-
lançaria a justificar, são os paliativos parlamentaristas —
universalmente desacreditados — as meias medidas ano-
dinas como a suppressão do cargo de Vice-Presidente, etc...
Entre os detalhes a que acabei de alludir e com que não
concordaria, preciso apontar alguns, aliás dominantes na
questão pela sua, generalidade. Principio por discordar de
Varela no seu modo de entender e de praticar a federação.
Parece-me que elle confunde federação com confederação,
Estado federativo com Confederação de Estados, — os Bun-
destaat e Staatenbund, da technologia jurídica allemã- E íal
confusão não se justifica, conforme já tive oceasião de allegar,
sem contestação, em notável assembléa scienlifiea (2).
1
Foi por oceasião de, na qualidade de membro da Commissião de
Constituição, legislação e justiça da Câmara dos Deputados, em 1898,
ter de relatar um parecer sobre um projecto regulando o estado de
sitio. Esse parecer publicado no Diário do Congresso, teoe a honra de ser
reproduzido pela revista de jurisprudência O Direito, naquelle mesmo
anno.
2
Yid. actas do Congresso Jurídico Sul-Amcrieano, de 1900, e para

V
XXVI II PREFACIO

Outra minha discordância capital é relativa á questão da


unidade ou pluralidade do direito obfectivo, isto é, da unifor-
midade ou não da legislação (substantive law, na phraseologia
de Bentham) em um estado federativo como é o Brasil nos
moldes da Constituição de Fevereiro. E em meu pensar não
só deve ser um direito chamado substantivo em nosso paiz e-
em qualquer Estado, por mais federalisado que este seja,
como também devem fazer um corpo só o direito substantivo
e o adjtctivo. Sc logicamente a lei precede ao processo, histo-
ricamente a actio precedeu ao jus e basta isto para provar,
senão evidenciar, a ligação visceral, placentaria mesmo, de
um e outro direitos.
Feitas eslas resolvas a que eu estava obrigado, posso de
consciência limpa e contente, com um enthusiasmo racio-
cinado e calmo, para o qual não contribuiu na minima parte
minha amizade sincera por Alfredo Varela, repetir que este
trabalho do foven escriptor rio-grandense é para a publicis-
tica nacional um mimo regio ; para os velhos mestres do
direito politico-administr ativo um rico manancial de ensi-
namentos úteis ; para os moços que agora surgem, para a
nova geração ávida de renome e de gloria, e sonhadora de
grandezas e bem estar para a Pátria — uma fecunda fonte
de inspiração jurídica c cívica.

Setembro 1901.
J. IZIDORO MARTINS JUNIOR.

illuêtração do assumpto a obra de L. le Far : Etat fédéral et Confédéra-


tion d'Etats.
DISCURSO PREAMBULAR
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZ1LEIRO

DISCURSO PREAMBULAR

11 y a des temps où le génie poli-


tique consiste à ne point craindre
ce qui est nouveau, en respectant
ce qui est éternel.
LAVELEYE,
Le Gouvernement dans la démo-
cratie, voi. I, pag. 371.

Destruída de todo a ordem medieval, os politicos até ahi em


harmonia, rompem lucta que se torna cada vez mais fera e
exclusivista : a sociedade inteira é um pavoroso campo de
batalha. Como ninguém cede de suas pretenções, vae em cres-
cente empenho, augmenta de encarniçamento : em vão se
espera um termo feliz á secular discórdia!
Os campeões das prerogativas regias sustentam-nas como
de direito divino ; os representantes da multidão avançam
resolutos á conquista dos direitos populares.
O povo, dizem os primeiros, é rebanho que precisa da soli-
citude directora do pegureiro : desconhece o que lhe convém,
apaixona-se, quando devera pensar; em tudo assemelha-se
ao infante, dócil em conduzir, quanto arrebatado se o deixam
guiar-se pelo próprio alvedrio. 0 Rei é seu mentor natural ;
oriundo de família que tem por privilegio o uso do sceptro,
desde o berço recebe as lições da experiência governativa,
4 DISCURSO PREAMBULAR

herda qualidades de mando, traz o cérebro conformado ás


funcções da futura dignidade. Senhor do throno, por direito
e sem combate, está isempto dos radicaes e ásperos senti-
mentos que brotam nalma com a lucta pela supremacia, qual
se dá no regimen democrático. Imparcial, porque paira acima
dos partidos, e independente délies, por força age sempre de
conformidade com o bem dos subditos, mesmo porque não
teria interesse em proceder de outra maneira. O exemplo de
déspotas coroados não infirma o exposto : muito extensa é a
lista dos bons monarchas, para que taes excepções possam
passar como regra geral.
Sem instrucção e tirocinio, o povo nem conseguiria estabe-
lecer as normas legislativas mais convenientes, nem os
melhoramentos materiaes necessários a seu meio, nem a paz
entre os elementos diversos da sociedade : mais preparado
para este árduo papel, o Rei em si reúne tudo quanto é mister
para o bom effeito delle.
Uma benéfica providencia dispoz as cousas com summa
sabedoria : a tribu humana, desde que surge, nós a vemos
dividida entre os que nasceram para mandar e os que nas-
ceram para obedecer.
Não ha fugir.
O progresso consiste, pois, não em alterar esta gerarchia,
que tem raizes na natureza, mas em proceder de fôrma a con-
seguir-se que os primeiros se devotem aos segundos e que
estes lhes retribuam com o mais respeitoso amor e digna sub-
missão. Esta verdade colhida no estudo dos factos, desvenda-
nos toda a profundeza do que a Biblia proclamou ha
milhares de annos : Paz na Terra aos homens de boa vontade !
No dia em que se voltarem uns para os outros, animados
de mutua sympathia, de commum accordo operando as refor-
mas necessárias, — no seio da ordem restaurada, renascerá
a venturosa concórdia antiga.
Somos iguaes, respondem os arautos da autonomia popu-
DISCURSO PREAMBULAR 5

lar. A natureza deu-nos idênticos direitos : répugna ao espi-


rito moderno que possa alguém ver a luz com mais regalias do
que outros. Os privilégios realengos firmou-os a violência,
em épocas em que madornavam os povos. 0 rebanho neces-
sita de pastor porque jamais lhe será dado attingir o grau de
intelligencia e experiência deste em escolher e procurar
aquillo que mais falta lhe faz. O povo, pelo contrario, dispõe
de faculdades análogas ás dos reis e adquire como estes o
habito de governar. Quem lhe será mais propicio, quem inter-
pretará mais fielmente seus interesses e aspirações ? Se em o
noviciado politico por vezes afasta-se do bom caminho, o erro
é partilha dos mortaes, e disto se não segue que sempre faça
ruim uso da liberdade.
Acreditar que o sangue destine a uns para o dominio e a
outros para a sujeição, fora admittir que a natureza é de
alguns mãi carinhosa e de outros madrasta severíssima,
quando seus favores dispensa-os ellaa todos indistinctamente.
Aprende-se a governar, governando : esta alta experiência
haurenvna os homens no exercício quotidiano das funcções
políticas.
0 progresso resume-se em submettel-as á concorrência
universal : administre aquelle que mais garantias de êxito
consiga offerecer. Fora estúpido tolerar que o accaso decida
nesta importante questão, o simples bom-senso commum indi-
cando que cumpre escolher o mais apto.
Familiarisado com as conveniências geraes da sociedade,
que são as suas proprias, ninguém como o povo traduzil-as-á
em leis mais adequadas, ninguém mais opportunamentc
operará as reformas, ninguém fundará com maior solidez a
paz, pois, sendo soberano, tudo regula conforme a seu bem,
supprimindo portanto os motivos de conflicto.

Este debate enche a historia moderna. Jamais chegam a


aecordo os contendores. — Recebe a sociedade violento
6 DISCURSO PHEAMBULAR

impulso para traz, se triumpham os paladinos do auctorita-


rismo puro. Desencadeia-se a anarchia, impera a desordem,
se a victoria cabe á democracia absoluta.
Num ou noutro caso, o regimen que teve supremacia não
chega a equilibrar-se : oscilla instável até que de novo reco-
meça a refrega entre as forças que pretendem conservar
intacta a trama das instituições, e as forças que planejam
modifical-a ou substituil-a por outra.
Estará fadada a sociedade a viver neste combate perma-
nente, numa lueta exclusivista que lhe não deixa tréguas em
que possa gosar da fecunda e doce paz de outrora ?
Ha escola que sustenta o paradoxo, e faz consistir o ideal
do aperfeiçoamento politico na systematisação e persistência
desse terrível conflicto. Para ella, o equilibrio entre essas
duas forças é a formula da harmonia futura : manter diante
um da outra, o poder e a soberania popular, contendo-se
mutuamente.
Cifra-se o que préconisa em o absurdo mecânico de dispor
uma força para certa determinada acção e dispor em sentido
contrario uma outra que tenha o emprego de paralysar-lhe
de todo a energia. Construir uma locomotiva para que opere
o movimento social e unil-a a uma outra que trabalhe con-
junetamente, mas em rumo opposto ! Assim evita-se que em
caminho desencarrilhe o apparelho, é o que se allega da
parte dos entendidos, sem comprehenderem estes que tal
receio acaba por annullar a tracção ou reduzil-a ao minimo,
quando mais pratico fora aperfeiçoar a primeira machina,
imprimir-lhe manejo intelligente, de modo a evitarem-se os
desastres, sem prejuiso de sua marcha e actividade.
Apregoando-se mais radical do que a anterior, a segunda
escola que figuramos em contenda, procura apenas substi-
tuir no engenho politico o antigo motor julgado imprestável,
por um a que attribue qualidades excepcionaes : — segundo
ella, o povo succède ao Monarcha, sendo-lhe transferidos
DISCURSO PREAMBULAR 7

todos os privilégios de que o costume investia a este. Assim


como o Rei se julga omnipotente, omnisciente, soberano, o
povo se reputa com faculdades discricionárias, dotado de
infusa sabedoria, superior a tudo na Terra : impondo-se
como herdeiro universal da realeza, em vez de invalidar attri-
butos magestaticos que o espirito dos tempos rcpelle, dá-
lhes novo e mais alto vigor, incorporando-os a si!
Não se nota que por esta fôrma o problema não fica resol-
vido, pois mudar a sede do absolutismo não é supprimil-o,
como se tem em vista...
Uma outra escola ainda, a escola histórica, julga haver meio
de pôr um termo á secular disputa, estudando com sincero
animo imparcial o que ha de rasoavel nas resistências da
auctoridade e nas reclamações do elemento popular.
Do duplo estudo da natureza humana e das leis que presi-
dem á evolução social, segundo este novo critério, conclue-
se que a lucta é travada até a hora presente por causa das
pretenções exclusivas que exaltam os contendores. Começa-
remos a entrever a solução á tremenda pendência, no instante
em que um dos rivaes se capacite de que hoje, nem é possí-
vel governar negando-se os governantes a receber inspirações
das justas conveniências populares, nem é praticavel que
estas conveniências aspirem ser satisfeitas, dispensando a
ajuda do governo, e pretendendo vãmente substituir sua
acção pela iniciativa dos indivíduos.
O erro origina-se da illusão em que vive o povo, de que pode
a seu bel prazer eliminar a auctoridade, fazendo-íhe as vezes
a acção da soberania popular, directamente ou por via de
representantes : nasce o erro do presupposto em que está
a auctoridade, de que pode, por si e segundo seu arbítrio,
dirigir a vasta communhão dos homens1.
1
Sophocles teve idéa clara da solidariedade fatal entre os diversos
elementos componentes do organismo collectivo, quando disse : « É direito
aos que dominam que rasteja a inveja. No entretanto, os pequenos sem os
8 DISCURSO PREAMBULAR

A verdade é que « um poder necessariamente conservador


não pode agir senão por meio de uma força necessariamente
conservadora. Ora, uma força necessariamente conservadora
da sociedade deve ser uma força necessariamente indepen-
dente dos membros da sociedade ; porque uma força que deve
necessariamente reprimir a vontade do homem1 deve ser
necessariamente independente dessa mesma vontade2, » inspi-
rando-se sempre, todavia, no que ella reclama de justo e con-
forme ao bem commum, — accrescentamos.
Desconhece-se que a fatalidade, creando-nos falliveis e
capazes do mal, tornou necessário, indispensável, um poder
que contenha nossos Ímpetos destruidores e reprima as acções
perniciosas, — e que esse poder surge por isso esponta-
neamente, nunca ao impulso da vontade popular3.

grandes são para o Estado um fraco baluarte: o fraco obtém seu êxito com
ajuda do forte, e o grande precisa de ser sustentado pelos pequenos. » —
Theatro, coro de Ajaas.
4
Isto é, quando essa vontade seja contraria ao bem social.
* Bonald, Théorie du pouvoir, vol. I. pag. 173.
3
Extranho é que escriptores democratas de nosso tempo se mostrem tão
alheios aos princípios que regulam a materia, admittindo o arbítrio popular
em assumpto de fôrma e origem de governos, quando já no século ultimo
pensador existia que se pronunciava desta maneira : « As necessidades
obrigam os homens a viver em sociedade. A vida social os põe em situação
de satisfazel-as melhor : em favor dessas vantagens, cada um é forçado a
sacrificar ao bem-estar e ao mantenimento do todo, o exercicio illimitado
de sua vontade, de suas forças ou faculdades : em uma palavra, sua indc-
pedencia. Renuncia por seu próprio bem ao direito de seguir em tudo os
impulsos dos próprios desejos: seu interesse o leva a deixar-se guiar pelas
vontades do corpo de que é membro ; sem isto a sociedade não tardaria a
destruir-se pelo choque continuo de todas as vontadas particulares.
Cumpre, pois, que cada indivíduo seja contido por uma força geral.
Cumpre que submetta sua vontade pessoal ã da sociedade : os benefícios
que esta lhe proporciona, dão-lhe o direito incontestável de conter ou dirigir
as paixões dos que fazem parte do grêmio, de prescrever limites á liberdade de
cada um, e de os forçar a contribuírem para a segurança e bem-estar de
seus semelhantes. Mas, como pode a sociedade exprimir sua vontade ?
Esta vontade se não pode tornar sensível senão estabelecendo uma auclori-
dade que tenha o direito de commandar a todos e de os obrigar a exe-
cutar suas ordens. Aquelleou aquelles que são depositários desta auetoridade
representam, pois, a sociedade inteira ; qualquer que seja a fôrma de seu
governo, é delia mesma que o soberano houve sempre o direito de commandar
DISCURSO PREAMBULAR 9

0 que esta pode fazer é influir sobre elle de sorte que sua
acção se modifique e se conforme com as aspirações geraes
da sociedade.
Assim como fora absurdo sujeitar o povo em absoluto á
soberania do governo, absurdo também subalternisar este,
erguendo o indivíduo á condição de soberano.
Admira que neste século de sciencia, em o qual não é licito
ignorar que todos os phenomenos se acham submettidos á leis
naturaes immutaveis, haja ainda quem fale em soberania
real ou popular... SOBERANA É TÃO SOMENTE ESSA INTANGÍVEL
SUPREMA ORDEM UNIVERSAL, cujo arranjo não nos é dado
alterar1.
Incapaz de mudal-a o Monarcha mais absoluto, o povo mais
voluntarioso do Universo. Exemplifiquemos.
— As leis históricas que dirigem o movimento da civili-
sação occidental, preparam o surto, em nossos dias, de um
governo pacifico, baseado na industria. Bonaparte, com um
poder immenso, imagina pôr-se em antagonismo com seu
tempo, resuscitando o despotismo militar, e vê cair sua obra,
como se fora, « um edifício de neve sobre um solo ardente!2 »
a seus membros : em uma palavra, não c senão com seu consentimento que
se pode tornar seu orgam.— » D'Holbach, Politique naturelle, discour III, g 2o.
Já mesmo em pleno século 17° um espirito illuminado proclamara :
« Cumpre reconhecer que o asar não conduz os acontecimentos, mas que
o caracter dos homens regula muitas vezes sua fortuna, e que a duração
de sua prosperidade é a de sua virtude. (Freinshemius, Supplementos a
Quinto Curcio, livro 1, capitulo I). » Grande verdade que a valente intelli-
gencia de De Maistre ousara sustentar ao tempo que a França inteira, con-
vencida de que era senhora de seus destinos, julgava podia caprichosamente
fazer c refazer governos: «Rien ne marche au hasard; le monde politique
est aussi réglé que le monde plrysique ; mais comme la liberté y joue un
certain rôle, nous finissons par croire qu'elle y fait tout. » — Carta citada
por Pompery no prefacio das Soire'es de S. Pétersbourg.
1
Calderon nos sublimes versos de« La vida es sueho, » bem mostra recon-
hecer — na época do apogeu do absolutismo monarchico — a relatividade
do poder que possuem os potentados de qualquer espécie :
Sueha ei Rey que es Rey, y vive
Con este engano mandando,
Disponiendo y gobernando. {Teatro, vol. I, pag. 92).
* Bonald, Théorie du pouvoir, vol. I, pag. 316.
10 DISCURSO PREAMBULAR

— A situação do Mundo tornara indispensável a vinda


de um novo culto, succedaneo do paganismo decadente.
Juliano, dispondo do summo poderio imperial, sonha reerguer
os deuses, perseguindo atrozmente os christãos, e toma a
crença dos christãos vulto maior do que nunca !
— A ordem natural quer no governo, como acima se diz,
certas condições de independência, para que possa realisar
sua missão. O povo francez entendeu-o diversamente : frag-
mentou o poder, cnfraquecendo-o e tirando-lhe todo prestigio.
A lei da necessidade, qui a encore plus de force que la volonté
et même le penchant1, fez surgir pouco tempo depois Bona-
parte, que funda um governo forte, rompendo a Constituição
directorial, bem succedido ahi, por agir de conformidade com
a natureza das cousas, quanto foi desastrado ao contrarial-a,
restaurando o império militar!
— Em 1848, esse mesmo povo decreta que a Republica
será eterna, e três annos depois ruia ella, porque seus orga-
nisadores mais uma vez haviam violado as leis históricas, eri-
gindo um governo desprovido daquellas condições e requi-
sitos que são da propria essência de todo governo!
— A escravidão era incompatível com o systema industrial
moderno. Achando inevitável sua queda, os representantes
do povo entre nós legislaram a 28 de setembro 1887, de modo
que se extinguisse lenta e gradualmente. Pois no anno
seguinte foram constrangidos pela Coroa, a seu turno impel-
lida por um grupo de propagandistas, a decretar a abolição
immediata, contra a patente vontade do eleitorado nacional!
0 estudo dessa ordem suprema, cuja harmonia as leis
naturaes nos manifestam, revela-nos que não ha sociedade
sem governo. « Muito ao contrario do que pensam illusos
legisladores, elle não é creado por nossa vontade e surge pela
força dos acontecimentos. Quando julgamos erigil-o por
1
Mademoiselle Lespinasse, Lettres choisies; a 78".
DISCURSO PREAMBULAR li

nosso livre alvedrio, nada mais fazemos que regularisar o


poder preexistente : eis em que consiste a illusão1. » — E'
certo que ha sociedades onde vemos o poder como que disse-
minado na massa da tribu : o conjuncto dos indivíduos deli-
bera, põe em pratica o que resolveu, e até mesmo julga e dis-
tribue penas. Este, porém, é um estado social informe, aná-
logo a organismos rudimentares cujo único tecido tem pro-
priedades múltiplas : serve-lhes para assimilar os alimentos,
assim como para determinar e operar suas limitadas acções,
realisar os movimentos que a vida de relação torna neces-
sários.
Ainda que pareça extranho, ha por ahi quem aspire a rein-
stituir essa organisação primitiva, elementar, entendendo que
o regimen que lhe corresponde, a democracia preconisada
de Rousseau, é a obra prima, em materia politica. Não ha
mente sadia, no entretanto, que admitta este retrocesso2.
Assim como no organismo animal a marca da preeminencia
na escala zoológica é aferida pela especialisação das diffé-
rentes funcções de que é dotado, assim também no organismo
collectivo tanto mais perfeito é elle, quanto mais suas neces-
sidades são satisfeitas por orgams diversos, quanto mais
completa é a discriminação funccional.
Considerado á luz do principio da igualdade, o infusorio,
que não dispõe de nenhum orgam especial, até mesmo para a
digestão, « amorpho c homogêneo3, » de tecido uniforme-
mente idêntico, — é o organismo por excellencia. No entanto,
que estéril e escravisada existência a delle !...
1
Do auetor, A Constituição riograndense, pag. 20.
s
Ha auetores que sustentam ser a realeza, e não a democracia, o regimen
primitivo. Basta para comprovar o asscrto acima esta citação, relativa á
Persia antiquissima, que é qualificada no Vencüdad como sendo o paiz
« onde o povo se governa sem reis (fargard I, versículo 78). »
Procopio, como vemos em Letourneau {Sociologie, pag. 514), diz que os
slavos
3
estreiaram na vida social, formando reduzidas tribus democráticas.
Lamarck, Philosophie zoologique, vol. I, pag. 273.
12 DISCURSO PREAMBULAR

Vede agora a estructura complicadissima do homem : que


admirável economia a de seu organismo, cada orgam com um
papel determinado, submettidos todos elles a uma ordem
inviolável, sob a supremacia do tecido mais eminente, o tecido
intra-craneano, — e no entretanto o homem tão livre!...
Eis, pois, tudo bem claro : nem a igualdade produziu lá um
organismo autônomo, nem aqui a gerarchia de tecidos e
orgams desiguaes gerou um sêr tyrannicamente sujeito : dif-
férentes, mas synergicos, os orgams todos concorrem, sob o
impulso de um délies, para a harmonia vital.

Na trama das sociedades o governo é um composto de


orgams, um apparelho cujas funcções são determinadas, não
por si, nem por ninguém, mas pela natureza das cousas1 ; o
povo tem do mesmo modo um funcção especial, independen-
temente de sua vontade, e que o aperfeiçoamento do orga-
nismo politico lhe distribuiu na éra moderna.
Imaginae que um grupo de indivíduos resolve emprehen-
der longa viagem de recreio. Adquirem elles um barco, com-
binando com o capitão as condições em que desejam o pas-
sadio, assim como querem seja a viagem, se á grande ou
regular velocidade, pela costa ou amarados. A' bordo, cae
tudo sob o mando e vontade do capitão, que dirige o navio,
de conformidade com sua experiência e arte de navegar.
Pois este capitão imaginário symbolisa o papel do governo
no movimento social : os viajantes representam o povo. Cabe
a este, como aos viajores, exprimir o que deseja que se faça,
1
Tinham clara noção disto Cromwell e San Marlin, justificando a geração
de seus governos. Aquelle investiu-se do titulo de Protector, « em nome do
exercito, das três nações, e da necessidade dos tempos » (Despois, Révolu-
tion d'Angleterre, pag. 130) ; este, promulgando o Estatuto provisório que
lhe confere o titulo de Protector de Ia libertad del Peru, declara na secção
2a, art. Io « La suprema potestad directiva reside por ahora en el Protector,
sus facultades emanan dei império de Ia necessidad, de la fuerza y de
Ia exigência dei bien publico. » — Documentos para Ia historia de Ia oida
publica del Libertador Bolivar, vol. 8, pag. 141.
DISCURSO PREAMBULAR 13

e fornecer os recursos necessários para este effeito : nunca,


porém, houve passageiro algum que pretendesse substituir
sua ignorância ao tirocinio do commandante, nunca nenhum
pretendeu impor-lhe que desprezasse os ensinamentos da
arte náutica, passando a nortear o barco segundo o parecer
e arbitrio de gente que nunca botou a mão ao leme e que por
accaso se acha embarcada.
Continuemos o simile. O capitão, em viagem, mostra-se
inepto; em vez de conduzir os itinérantes aos pontos apra-
zados, leva-os a outros, ou é causa de que sossobre a embar-
cação. — Os viajantes, em cada uma dessas hypotheses, ou
cuidam da destituição do commandante, no primeiro porto em
que pode haver outro, e, se é em alto mar, influem para que
o immediato tome conta da direcção, ou, na segunda hypo-
thèse, promovem a responsabilidade do culpado, —mas nunca
nenhum dos viajores (a não ser em caso excepcional) pretende
pôr-se no lugar do capitão e substituil-o.
Calcule-se ainda que, em vez de aceitarem o commandante
existente no barco, os planejadores da viagem tenham a fan-
tasia de proceder á eleição da pessoa que deva ter o governo
do lenho, e escolham um dentre os que pela primeira vez
embarcam. — Estamos a ouvir o mais fanático adepto da
sabedoria popular garantir que o naufrágio é infallivel...
Pois se para este simples mister de dirigir um navio se
requer certa somma de conhecimentos especiaes, como se pre-
tende que o vulgo, a generalidade dos homens, escolha quem
deva encaminhar a vasta e complexa existência collectiva, ou
tente a propria multidão governar-se por si mesma, —
quando, no feliz dizer de Cervantes1, los ofícios y grandes car-
gos no son otra cosa sino un golfo profundo de confusiones ?
Nunca. Esta comparação tem o mérito de discriminar
patentemente o papel de cada um, fazendo comprehender que

* Quixote, parte 2*, cap. XLII.


14 DISCURSO PREAMBULAR

a intervenção do povo sempre tem um caracter negativo,


jamais positivo1.
Fazel-o intrometter-se directa e positivamente no estabele-
cimento das leis reguladoras da marcha social, na escolha dos
que devam capitanear a jornada, ou convencel-o de que todas
as pessoas são aptas para isto, quando sabemos que tout
esprit n'est pas propre aux mêmes exercices2, é fazer-lhe o
maior desserviço e cooperar para que se perpetue este estado
informe e desordenado, esta babel politica em que niguem se
entende : — nas chronicas bíblicas a confusão proveiu de se
não terem os homens contentado com os dons immensos da
Terra e pretenderem escalar o Géo : no Mundo actual origina-
se da estulta pretenção que nutre o povo, de fazer para si a
conquista do poder, descontente com o que lhe coube em par-
tilha nos negócios humanos3.

O poder, visto sua missão, tem de ser uma força indepen-


dente do povo. Do concurso de ambos no mantenimento da
ordem, resulta, porém, a harmonia social. Segue-se que tanto
a escola democrática, como a auctoritaria, tem rasão em
1
A' vivaz intelligencia de Desmoulins não escapou a clara distincção do
valor verdadeiro e real da intervenção popular nos negócios politicos. « Em
toda a parte, diz elle, o maior numero é liberto por poucos ; mas a arte do
Legislador que quer manter esta libertação consiste cm interessar a multidão
nos mantenimento da obra da minoria. » — Œuvres, vol. I, pag. 52.
3
Thomaz A' Kempis, Imitation de Jésus-Christ, trad. Corneille, cap. 19
Ha real pressentimento destas verdades em muitas paginas dos escri-
ptores de hoje. Borgeaud, em sua obra sobre o Estabelecimento e revisão das
constituições, deixa patente que lhe não escapou o que ha de fundamental
na questão, a Na ordem politica, diz elle, o problema capital da época, cujos
humbraes já ultrapassamos é a conciliação do direito do indivíduo, procla-
mado pela Revolução, com a necessidade social, que cada dia se nos revela
mais claramente. A seiencia estabelece cada vez mais a grande lei da soli-
dariedade, a dependência estreita em que cada um, seja quem for, está para
com o conjuneto. O sentimento do justo évolue, sua base torna-se mais larga,
seu objecto mais alto. O que nossos pais chamavam as liberdades naturaes,
os direitos do homem o do cidadão, esses direitos anteriores, superiores ao
Estado, cuja proclamação devia custar tantas lagrimas e tanto sangue, são
hoje considerados, pela escola que se agiganta e se impõe á geração nova,
como tendo o caracter de funeções (pag 417). »
DISCURSO PREAMBULAR 15

parte : o desaccordo está em se não terem discriminado as


espheras de acção do povo e do governo : até a hora presente,
os rivaes no pleito, em vez de transigir, procuraram sempre
eliminar um ao outro.
Quaes as funcções que, de conformidade com a natureza
das cousas, cabem ao governo ? — A funcção suprema do
governo é governar, isto é, manter a ordem material. Ora, a
ordem mantem-se por meios diversos, e assim como em
qualquer arte, ninguém melhor do que o iniciado nella pode
conceber as obras correspondentes, assim também na arte
politica, que tem por fim governar, ninguém melhor do que os
detentores do poder traçaria planos conducentes a esse alto
objectivo.
O artista, porém, quando trabalha de conta própria, ima-
gina o que bem lhe parece : faz hoje, por exemplo, a estatua
do magnânimo Danton, como amanhã poderá decidir-se a
cinzelar a do feroz Robespierre. Se trabalha, no entretanto,
estipendiado por alguém, o artista cinge-se ao que lhe eneom-
mendaram : neste caso só lhe fica o arbítrio de idear livre-
mente, não qualquer obra, mas sim aquella de que foi incum-
bido. — A esse alguém que ahi suppomos encommendando a
obra de arte, fica igualmente uma certa parcella de arbítrio
(não o de impor um modelo ao artista, o que fora absurdo),
mas de recusar a encommenda, se lhe não saiu a gosto, e exi-
gir outra, ou procurar novo artista que lhe satisfaça melhor
os desejos.
Da mesma sorte, o governo, outrora, assim como adminis-
trava a seu talante, era também arbitrariamente que concebia
a obra governativa. Nos dias de hoje, entretanto, em que elle
vive com os recursos e apoio da sociedade, e em que tem como
fim realisar a obra da harmonia publica, conforme o bem
dessa mesma sociedade e aspirações communs delia, — o
governo réalisa a obra politica de que está encarregado, por
planos seus, por via das leis que elle mesmo traça, mas con-

ç;
16 DISCURSO PREAMRULAR

formando o pensamento e labor governativos aos desejos da


communidade : quando falha nesse tentamen e a opinião publi-
ca repelle o que praticou, seu dever é recomeçar e se isto
impossível, se lhe faltam aptidões para conceber a cousa de
outra forma, deixa o lugar, por si ou compellido, a quem
melhor inteprete o que a sociedade reclama.
Mas, admittir que o povo possa fazer por iniciativa sua a
obra de arte ou governar, eis o absurdo, eis para que lhe fal-
lecem capacidades.
Qual, em summa, pois, a competência do povo ? — O erro
da escola auctoritaria consiste em negar-lhe toda e qualquer
competência : o erro da escola opposta, em reconhecer-lhe
competência para tudo.
O -povo tem competência negativa, mas não positiva1. Em
outras palavras : o povo, considerado em massa, não foi
dotado da faculdade de crear, dispõe, todavia, de aptidões
para criticar.
Expliquemo-nos :
Se á generalidade dos homens (ou a um grupo eleito por
elles, como no systema representativo), incumbirmos da
factura de uma lei qualquer, facilmente verificar-se-á que ou
a elaboram inçada de defeitos, ou deixam de elaboral-a por
inépcia. — Apresentae, no entretanto, a peça legislativa já
prompta a esses mesmos indivíduos, ainda ha pouco inaptos
para redigil-a, e vel-os-eis aprecial-a com o commum bom-
senso, dizendo se ella satisfaz ás aspirações geraes, se está
de accordo com as necessidades a que deve attender.
Dê-se ao povo ou a uma parte delle, o encargo de estatuir
sobre quaes as normas que regulem a união conjugai em
nosso meio : sem duvida nenhuma deixal-o-iamos perplexo,
escolhendo-o para tal empreza. Se houver, comtudo, um legis-
lador bastante insensato que offereça á publica apreciação

* Vide no appendice a nota A-


DISCURSO PREAMBULAR 17

um projecto a respeito, no qual se restabeleça a polyandiia,


como vinculo matrimonial substitutivo do que hoje aceitamos,
ninguém creia que falte ao povo critério sufficiente para des-
cobrir que essa clausula viciosa da lei projectada é antino-
mica com os nossos progressos moraes e incompatível com a
instituição da família no Brazil.
Outro gênero de exemplos :
Projecta construir grande ponte pensil a administração de
um paiz. Se nelle houver velieidades democráticas de em tudo
appellar para os conselhos e planos oriundos da sabedoria
popular, a ponte ficará para as kalendas gregas, ou só depois
de muitos annos de tentativas conseguirá seu intento, saindo-
lhe a obra, como tudo que é feito por via de ensaios, cheia de
imperfeições. Agora, se ordena que se faça por mão de pes-
soal apto e bem dirigido, logo que seja entregue ao transito,
observareis que a população circumvisinha, com o uso da
ponte, descobrirá quaes os defeitos que tem : se a largura é
insufíiciente para o movimento local, se a madeira da super-
structura é bastante rija para supportar a passagem dos
grandes vehiculos, e até, pela sua ílexão visível, se será arris-
cado atravessal-a com um trem de peso excepcional.
Igualmente no traço de uma linha-ferrea, o conselho do pove
seria nullo, pelo menos insufficientissimo. Adoptado, porém,
certo rumo para ella, o povo apontará logo as lacunas do
plano ou os erros com que se o combinou, já por passar a via
em terrenos estéreis, despresando-se os cultivados, já por não
estabelecer estações nos pontos do maior transito e commer-
cio, etc.
Destes vários exemplos, conclue-se que o povo sabe cri-
ticar, sabe dizer o que é que não quer : agora, saber crear ou
fazer, e precisamente, claramente, saber o que quer, isso
nunca.
A adopção desta theoria explica certos factos, obscuros
para muitos.
18 DISCURSO PREAMBULAR

— 0 povo assistiu bestialisado, como se disse, ao extraor-


dinário acto de 15 de novembro ? — Não. A propaganda de ha
muito lhe fazia esperar e desejar a Republica.
Porque não a proclamara já, sendo o Império em ruina,
como era? — Não sabia como, nem porque havia de substi-
tuil-o. No momento em que a revolução veiu a fundar o novo
regimen, o povo tacitamente aceitou as novas instituções,
como fora aceito o Império, em 1822.
—Têde em 1831 : o federalismo foi ahi a ardente aspiração
nacional ; faltando um homem que o puzesse em pratica, os
brasileiros suspiraram por elle até 1889. Todos comprehen-
diam, no entretanto, que a Acto addicional proporcionava
ao paiz remédio insufficiente...
Pelo mesmo motivo, o generalissimo Deodoro decretando
a suspensão da Lei orgânica do paiz, o povo de Rio-de-janeiro
conservou-se tranquillo, pois não soube apreciar o alcance da
medida. Quando viu começarem as perseguições, por effeito
desse acto, rompeu em acerba critica e dispoz-se á revolta.
0 povo não é capaz de julgar absíractamente, e sim concre-
iomenie.
Esta formula resume, em termos mais genéricos, os princí-
pios expostos.
A conseqüência ultima a tirar é que a ordem social, em vez
de depender da submissão absoluta do povo ou da subalterni-
sação da auctoridade, resulta sempre de concurso livre de
ambos no obra do bem commum : o governo da sociedade ha
de obter-se por uma TRANSACÇÃO1, que definindo os deveres,

1 Devotamento dos fortes pelos fracos e veneração dos fracos pelos fortes,
definiu o philosopho republicano, formula esta já pressentida por Plutar-
cho, ao explicar o nome dado aos senadores romanos. « Parece mais fun-
dadamente, diz. que Romulo lhes deu esse nome, porque pretendia, como e'
j usto, que os mais rico^ e mais poderosos tivessem um paternal desvelo
pelos pobres e pequenos ; e que os pequenos, bem longe de temer os grandes
e de amoíinar-be com as suas honras e preeminencias, os acatassem e
recorressem a elles com toda a sorte de doçura, de amisade e confiança,
DISCURSO PREAMBULAR 19
tanto da auctoridade, como do povo, limite a esphera de acti~
vidade política de cada um, para que o abuso se torne impôs»
sivel1.
Acertava, portanto, Cicero quando se pronunciou por um
governo mixto;2 o que não soube definir em sua Repu-
blica foram as condições que tornam possivel esse governo.
E' o objecto do presente livro. Estudando a Constituição
entre nós em vigor, faremos resaltar quaes são ellas e como
foram respeitadas pelos organisadores da Republica.
dando-lhes o nome de pais e tendo-os verdadeiramente nessa conta. » Vidas
dos homens illustres, vol. I, pag. 229.
Esta' ahi toda a solução da difficaldade.
Vide no appendice a nota B .
1 Ingram define o problema po lesta fôrma : « A consideração dos inte-
resses, como perfeitamente disse Georges Elliot, deve ceder a primazia á
das funcçoes. A velha doutrina do direito, que era a base do systema da
liberdade natural, prestou seu serviço temporário ; deve subsliluil-a uma
doutrina de dever, que fixe dentro de limites positivos a natureza da
cooperação social de cada classe e de cada membro da communidade, e as
regras que regulamentem seu exercício justo e benéfico. » — Histoire de
l'économie politique, pag. 347.
2 « Por todas as razões, julgo a realeza muito preferível ao governo
dos grandes ou ao do povo ; mas, a realeza mesmo cede a prima/.ia em meu
espirito a uma constituição que reuna o que as outras tem de melhor, e que
allie em uma justa medida as vantagens daquelles três systemas. Desejaria
que o estado tivesse a magestade de um Rei ; que nello influíssem os grandes,
e que certas cousas ficassem reservadas ao julgamento e vontade do povo.
Esta fôrma de governo tem, primeiro, a vantagem de garantir uma grande
equidade, beneficio de que um povo livre não pode ser privado por muito
tempo : ella, em segundo lugar, gosa de condições de estabilidade, emquanto
que as outras estão prestes sempre a alterar-se, a realeza inclinando-se
para a tyrannia, o poder dos grandes para a olygarchia facciosa, e o do povo
para a anarcliia, » — Da Republica, liv. I. c a p . 45.
« As leis (segundo um outro antigo, Hippodamo) serão estáveis, se o
Estado for de uma natureza mixta e composta de todas as outras consti-
tuições políticas, bem entendido, áaquellas que são conformes a' ordem
natural. » — João Francisco Lisboa, Obras, vol. I. pag. 458.
_
LIVRO I

Reformas constitucionaes no Brazil

1« ii
LIVRO I

Un grand nombre de tâtonne-


monts dans les ténèbres et de pié-
tinements sur place. TARDE.
Les transformations du pouvoir,
pag. 8.

Assentamos no Discurso anterior que todas as cousas e


phenomenos estão sujeitas a uma ordem certa inalterável,
do quê se infere que as constituições politicas das sociedades
são independentes da vontade dos homens, florescendo hoje,
decaindo amanhã, por circumstancias diversas e por força
da evolução propria dessas mesmas sociedades, em virtude
de leis naturaes que presidem ao desenvolvimento délias.
Se é immutavel a acçâo das leis naturaes que regem a
ordem universal, vanissimo tentamen dos indivíduos é agi-
tarem-se no empenho de melhorar sua propria sorte, vanis-
simo tentamem parece até este do auctor, dando-se ao trabalho
de demonstral-o : fataes como são essas leis, a despeito de
qualquer estulta resistência, verificar-se-ão eternamente,
admitiam isto os indivíduos, ou não.
Seria este o conselho da prudência, se as leis naturaes
fossem, como nós, intelligentes, mas não é assim, e por
isso precisam de ser completadas pela vontade dos homens.
Obedecendo á lei natural, os graves convergem para o centro
da Terra, e por essa rasâo despenham-se os rios, das alturas
sobre os planos inferiores. Por si só este facto em nada nos
aproveita se a iniciativa esclarecida do indivíduo dispuzer
24 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

porém, juncto ao ponto em que as águas se precipitam, uma


roda de moinho, vereis que a acção até ahi inutil da lei da
gravitação, lhe fornece uma preciosa força, fecunda em
resultados sem conta' na industria.
Alhures tivemos occasião de precisar este duplo caracter
da lei natural, da forma que segue :
« Não penso como um distincto contemporâneo : tenho
para mim que as idéas, por boas que sejam, nada valem,
sem homens capazes de pôl-as em pratica. E' certo que
vingam fatalmente aquellas que estão de accordo com as leis
naturaes da organisação das sociedades, as que satisfazem
ás necessidades sociaes, mas não é menos verdadeiro que
seu advenimento depende dos agentes humanos, quanto ao
tempo maior ou menor cie sua realisação.
A lei natural é cega, ha mister de ser completada pela von-
tade do homem. Especialmente no campo abraçado pela
sociologia, em que sua acção é menos rigorosa, a marcha
dos phenomenos a que ella preside, é precária e contingente,
á guisa do caudal de um rio, cujo movimento é perturbado
pelas tortuosidades do alveo. Desviada em variadissimos
meandros, a corrente redemoinha ; apressa-se, depa-
rando-sc-lhe recto caminho desaffrontado ; retrograda ás
vezes, para depois adiantar, vencido o tropeço encontrado ;
perde-se nas entranhas da Terra, para resurgir alem, como
succède ao Guadiana, — e recomeçar o curso e as mesmas
peripécias.
A lei sempre se verifica : o caudal desusa até equilibrar-se,
mas que tempo perdido em giros e voltas!... Assim a evo-
lução humana abandonada a si mesma, desajudada do con-
curso directo dos indivíduos.
0 braço intelligente canalisa o rio, endireita-lhe as mar-
gens, normalisa-lhe o escoamento : elle precipita-se célere,
encaminha-se rectilineamente, sem desaproveitar uni ins-
tante. — Eis a acção do homem ; sua vontade completa as
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 25

leis naturaes '• empresta-lhe sua intelligencia e a energia de


seu caracter, até o coração parece transmittir-lhes, che-
gando-se a suppôr que são as leis naturaes que nos servem,
por amor de nós, e não elle, o homem, que as aproveita em
nosso beneficio.
Dahi a importância que nós, os republicanos da escola
histórica, ligamos aos homens superiores, como agentes que
são da evolução social.1 »
Segue-se que a attitude mental de quem pretenda reformar
a constituição política de um paiz, deve ser, não a de idear o
mais bello plano, com os dados desta ou daquella philosophia,
para substituir o que existe ; mas, sim, observar qual a
constituição histórica da sociedade correspondente e, conhe-
cida esta, adoptar, como critério, uma sã philosophia, não
para descobrir a melhor fôrma de governo, e sim aquella que
lhe seja adaptável, isto é, uma philosophia que lhe ajude a
desvendar o que a constituição referida tem de immutavel e
o que tem de modificavel. As instituições que tal estudo nos
revele serem impereciveis e da essência mesma da propria
sociedade, cumpre que as respeitemos no plano innovador :
aquellas que têm caracter transitório e cuja opportunidade
passou, é dever nosso eliminal-as, ficando-nos ainda o arbí-
trio de melhorar as primeiras, dentro dos limites de variação
dos phenomenos respectivos. Esta mesma limitada inter-
venção tem cie ser pratica, para que nos aproveite : jamais
tentaremos realisar o ideal do aperfeiçoamento concebivel
para cada caso : tão somente o que for apropriado ás cïr-
cumstancias do meio politico sobre que agirmos. Esta é a
única racional attitude de um espirito reformador, este o cri-
tério que deve inspirar seus labores.
Taes considerações deixam patente quanto errou o Legis-
lador constituinte de 1824. Em vez de aperfeiçoar o que
1
Estudo biographico publicado na Federação de Portoalegre, n. 161,
de 1891.
26 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

existia, fantasiou obra nova, em desaecordo com a tradição


nacional. 0 resultado é que a Carta do Império nunca foi
observada, como se collige dos próprios annaes parlamen-
tares, pejados de lamentações sobre o constante sacrifício
do fantástico equilíbrio dos poderes, cuja divina serenidade
antegosavam tão ingenuamente os doutores constitucionaes
do tempo de D. Pedro.*
Os constituintes de 1891 seguiram em tudo o mesmo
irracional procedimento de seus antecessores imperiaes.
Para elles a nacionalidade brasileira continuava a ser cousa
análoga a esse barro de que se servem os estatuarios, muito
susceptível de receber a fôrma que a imaginativa lhes sugge-
risse : tomaram do modelo norte-americano, imitaram-lhe os
contornos, e eis ahi como surgiu de ponto em branco a
Constituição de 24 de fevereiro.
Não somente não se pensou em estudar se poderia
servir-nos, como ninguém quiz verificar se promettia aquella
precisa estabilidade, condição por excellencia de todo
governo. Dahi a instável situação da Republica, que espíritos
superficiaes attribuem só aos defeitos de seus administra-
dores e ás discórdias civis.
Erro palmar. Como querem que manobre vantajosamente
e supporte a tempestade com êxito, o barco de pequeno
porte, com a mastreaçâo inadequada de um grande veleiro?
Assim deslocado seu centro de gravidade, o equilíbrio é-Ihe
1
O único espirito que vislumbrou certas condições da construcção
politica a fazer-se, foi José Bonifacio. — Tal a cegueira daquellcs homens,
que chamaram á sua a « época constitucional, » como se antes o Brazií
não estivera constituído !...
Interessante e' que a celebrada reforma constitucional repetia obra já
feita na antigüidade, sem nenhum resultado pratico. Como agora e' de moda,
restringiu-se então o poder do chefe do Estado. « Algum tempo se governou
Athenas com estes reis tão subordinados aos vassallos, que só o nome
tinham de reis : porem, os inconvenientes foram tantos, que em breve tempo
se vieram a persuadir não terem acertado no governo que escolheram, eque
não era possível haver ENTRE MUITOS governo permanente, e util ao povo. »
— Parado, Arte de reinar, liv. I, disc. II.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 27

impossível. Mude-se embora a marinhagem, pilotos e capitão,


por outros mais hábeis, pouco importa : o mal está no mons-
truoso feitio da embarcação.
« Acontece que em toda sorte de mudanças, os homens,
quasi constantemente compellidos de affeição e zelo, se pro-
põem por objecto o bem-publico, 1 » e por isso são de des-
culpar nossos organisadores de 1824 : o pendor da época
era esse copiar servil umas constituições escriptas de
outras, não se tendo ainda por guia a sciencia hoje fundada
dos phenomenos sociaes. Os de 1891 não podem merecer
igual indulgência, pois a esse tempo sabiam elles que não ha
phenomeno que brote ao accaso e sem dependência de uma
lei natural : sabiam, portanto, que nossa efíiciencia, no ter-
reno politico, como em outro qualquer, é limitada.
Mais ainda ; uma larga experimentação estava feita : em
sessenta-e-sete annos o molde politico adoptado não nos
dera, nem paz, nem liberdade legal, nem auetoridade, e sim
vinte-e-quatro annos de desordem, e depois o arbítrio ou a
licença, o poder-publico inteiramente desmoralisado, —
tanto assim que caiu ao simples impulso de 420 revolucio-
nários, na madrugada de 15 novembro.3
Dir-se-á que a Constituição de Í824 naufragou porque
tinha na cimeira o brasão imperial, mas este argumento só
consegue impressionar o audictorio de um tribuno dema-
gogo, não áquelles que se não satisfazem com simples cha-
vões oratorios : — a Republica que ahi está, no que diz res-
1
Davila, Histoire des guerres civiles en France, v. I, pag. 9.
1
A propósito ^ de erro igual ao nosso, perpetrado em França, diz o
barão de Fontarèches :
« Pourquoi le gouffre des révolutions qu'on avait cru fermé reste-t-il
toujours ouvert? Pourquoi n'y a-t-il pas un seul des Etats encore debout
parmi tant de récentes ruines, qui ne se sente plus ou moins menacé par un
péril plus ou moins prochain, plus ou moins difficile à conjurer? N'a-t-on
pas fait fausse route depuis soixante ans ? Ne s'est-on pas constamment
trompé sur le pouvoir et sur la liberté et au lieu de les concilier, ne les
a-t-on pas posés dans un antagonisme funeste? — Monarchie et liberté,
pag. 3. (Nota da 2* edição).
28 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

peito á organisação do poder­publico, vale tanto como a


monarchia constitucional creada por D. Pedro : vale menos
até, porque introduziu em nosso meio politico um novo j
germen de conflicto, com a electividade do chefe do Estado.
Não fosse a grande conquista da liberdade espiritual e |
profissional, e diríamos afoitamente que para isto valait pas
la peine assurément de changer de gouvernement.x
« Um dos grandes signaes de loucura que Democrito
achava nos homens, \é que elles se não dignam de instruir­se
no que se fez antes délies, e que a longa idade do Mundo
lhes é lição inutil, porque não se servem delia como deveriam,
para aproveitar com tantos e grandes exemplos de que a His­
toria conserva a lembrança, e para tirar do que aconteceu,
conjecturas do que ha de ainda acontecer, 2 » e este desatino
continua, a ser a causa dos mais graves desastres, hontem
como hoje.
Pois então de nada nos serve a penosa experiência im­ ■ ^
perial? ■ <
« Experiência, bradava o divino Milton : quanto te devo a
ti, ó de todos os guias o melhor! Não te seguindo, eu teria
ficado immerso na ignorância ; tu abres o caminho da sabe­ ',';
doria, e dás accesso ao pé delia, a despeito do segredo em * f
que se retrae, 3 » e nós despresamos a mestra sublime :
depois dessa dura prova, insistimos em manter o disforme
engenho governativo que ahi tivemos, apenas limitando­nos a
substituir a hereditariedade regia pela escolha popular do
representante supremo do Estado?! Mas se essa propria"
panacea experimentáramos ha tanto?! — O que foi a
Regência senão uma Republica tal qual o modelo4 de 1­891?
Em quê fundamentalmente differem?
1

Não nos referimos á reforma descentralisadora, porque nada prova que
não
5
a obtivessemos com a propria monarchia.
3
Dacier, prefacio ás Vidas dos homens illustres, de Plutarcho, pag. 9.
Paraíso perdido, canto IX.
* Quanto á organisação do poder­publico, queremos dizer.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 29

Esse governo, no entretanto, não se recommendou nem


por sua muita estabilidade, nem por ser adequado á cardeal
funcção de manter a ordem publica, pois viveu périclitante
entre dissensões civis, e acabou as mãos de um indispensável
golpe-de-estado...1
Porque repetir, pois, o ensaio delle, depois de irremessi-
velmente condemnado quarenta-e-nove annos antes?
*< A experiência tem mostrado que dão más provas os
ensaios intermediários, as constituições bastardas que, pelo
caminho da mentira, propellem para as tyrannias hypocri-
tas. 2 »
Nossas tentativas de reforma constitucional, de 1824 para
cá, peccam, pois, pela base.
Vejamos o que seria ella, se nos houvesse guiado um cri-
tério mais positivo.
Considerando que a legislação constituinte, a partir da
independência, não corresponde ás necessidades do Brasil,
jiem lhe é adaptável, esqueçamos por momentos o que a res-
• peito foi estabelecido, e alcancemos a evolução portugueza
J no próprio instante que antecedeu ao grito emancipador do
Ypiranga, lançando sobre ella uma rápida vista retrospec-
tiva, até remontarmos á constituição definitiva da monar-
chia.3
Entregue o governo do districto portucalense ao conde
• ' Tal como o fraco Directorio, no IS brumario. Tem de perecer o go-
verno inapto a manter a ordem, porque « sem ordem, a administração não
e' mais que um cahos : nem ha finanças, nem credito publico ; e com a
fortuna do Estado, afunda-se a dos particulares. » — Napoleão I, Messages
et discours politiques, pag. 77.
5
Michelct, Histoire de la Révolution, vol. II, pag. 169.
3
« Nous considérons les phénomènes sociaux comme assujettis à des
lois invariables de succession ; de telle sorte que l'avenir peut se prévoir
d'après l'étude philosophique du passé ; de manière à concevoir le présent
' comme l'intermédiaire déterminé entre deux termes connus. D'après cela,
• le cercle général de l'action politique se trouve nettement placé. » —
P.'Laffitte, Histoire de VHumanité, discours d'ouverture, pag. 23.
30 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Henrique c deste passando á esposa, a infanta D. Thereza, e


depois ao filho, D. Affonso I, firmou­se com tão glorioso
Principe a independência nacional. Apertado seu domínio em
estreitos limites, intentou dilatal­o á custa dos sarracenos,
senhores de todo o sul da peninsula, e para essa banda
voltou as armas e o esforço. Com o fito de interessar os
fidalgos que o seguiam, nesta árdua empreza, foi­lhes conce­
dendo as novas conquistas, e como era difficíl fazer chegar
a acção de sua auetoridade áquelles apartados termos,
com. as terras confiou aos grandes, da nobreza e do clero, a
inteira jurisdicção, obrigando­os apenas á homenagem e ser­
viço militar.
■%ssim veiu a estabelecer­se em Portugal uma semelhança
de governo feudal. Mas, como faltavam no Reino as condi­
ções que o fizeram florescer noutra parte da Europa, e che­
gando a seu fim a guerra contra os mouros, que até então
cooperara para coordenar as forças sociacs do paiz, estas
ficaram sem ponderação, entregues a si mesmas, de fôrma
que com as primeiras discordancias havidas, abriram lucta
seria, sempre antes evitada : « as partes monarchica e aris­
tocrática da constituição feudal não tendo para contraba­
lançadas nenhuma força intermediária, penetravam­se mu­
tuamente e se combatiam sem cessar.1 »
Nos conílictos travados, de nobres en Ire si e com o Rei,
uns e outros, apoiados nos elementos de que dispunham,
tinham como amparar­se dos golpes do contrario e defen­
der­se efficazmente ; a plebe essa achou­se desprotegida de
1
Robertson, Histoire de Charles­Quint, vol. 1, pag. 30. No estudo das
tradições políticas da Mãi­patria, deveríamos ir mais longe na Historia,
abrangendo o período romano, e assim outras comprovações eram apon­
tadas, relativas ao nosso modo de ver. — Ninguém ignora que as Hespa­
nhas, como nenhuma outra parte de suas dependências, diz Mommsen, pre­ ­
parou a grande obra da Cidade immortal, a romanisação do Occidente. « Già
sotto Ia Repubblica, Ia civiltà indígena e la fenicia s'erano dischiuse a quella
dei popolo dominatore, cosi neU'Impero in nessuna provincia più che in
questa il romanesimo venne con maggior vigoria favoreggiato dall'alto in
basso. » — Le prooincie romane, vol. 1, pag. 67.
DIREITO CONSTITUCIONAL BKAZILEIKO 31
seus naturaes defensores, á mercê das vicissitudes das
guerras intestinas. O Rei, então, foi-lhe verdadeiro libertador;
em troca de sua adhesão, deu elle ao povo assistência bené-
fica e tutelar, começando a campanha emancipadora das
tyrannias locaes, que findou com o jugulamento dos feuda-
tarios por João II, em 1481. — E' a época da constituição
definitiva da realeza progressista.
Firmadas as instituições, eis, summariamente, o que
eram :
Na cuspide do edifício politico, o Rei governando, isto é,
mantendo a ordem material e, portanto, definindo as regras
que a regulam, por via das quaes elle se obtém, em uma
palavra, legislando ; assim como, por meio de um corpo de
juizes ou magistratura, punindo os infractores das leis, os
perturbadores da ordem. Ao lado delíe, auxiliando-o em seu
grande mister, as três ordens da nação, a nobreza, clero e
procuradores do povo, determinando quaes os impostos e
taxas que o Rei podia fazer cobrar, para sustento da gover-
nação. — Como se vê, nesta quadra da vida política portu-
gueza já se tinha esboçado plenamente a estruetura governa-
mental moderna.
De facto, com as invasões barbaras se perdera o fio da
tradição governativa : no clan, o chefe ou Rei presidia
apenas ás deliberações dos guerreiros : revertera-se á demo-
cracia primitiva.1 A posterior organisação feudal pouco
mudou disto, pois as curias ou concilios, em que o Rei se
reunia com os proceres, barones, palatii majores, conti-
nuavam a absorver toda a actividade administrativa.2
i E', mutatis mutandis, a reproducção da scena política da realeza
romana, deseripta fielmente por Fustel de Coulanges. — Cité antique,
liv. IV, cap. VII.
Essa quadra anterior ao feudalismo é análoga igualmente á democracia
grega. Como nesta, os homens livres ou de armas eram iguaes, deliberando
em commun nas assembléas, e vivendo do trabalho escravo. Para diante, o
feudalismo conserva ainda laivos de democracia, como acima se vê.
* Coelho da Rocha Ensaio sobre o governo e legislação de Portugal,
pags 18 et 49.
32 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

A competência entre esses nobres e o Rei teve como resul-


tado o crescente augmente do poder deste e correlativa
annullação das assembléas de grandes senhores ; as func-
ções governativas até ahi repartidas e disseminadas na
massa dos feudatarios vieram a especialisar-se, cada qual
passando a ser desempenhada pelo orgam mais apropriado.
E' preciso dizer-se que antes da éra que estudamos, já o
mundo occidental, no centro do Império romano, traçara,
como antes insinuamos, os lineamentos do apparelho gover-
nativo que só em 1481 vingava, em Portugal, concebendo-se-o
até muito mais perfeito do que ora surgia.
Mas, esse ensaio tinha que naufragar com a entrada das
hordas germânicas, porque os elementos políticos em que
havia de firmar-se, permaneciam ainda indefinidos.
Succedeu o que a um systema íluvial em começo, baixas
as margens de suas diversas correntes e os alveos ainda mal
abertos, — com um repentino augmente lde volume das
águas : sae tudo dos deites, confundem-se, num mesmo mar,
tributários e curso principal, o rio e seus afíluentes. Passa
a inundação, refluem elles para suas madres, reproduz-se o
quadro anterior da physionomia local : continuam de novo a
marcha as torrentes ha pouco misturadas. — Se mais pro-
fundo fora o sulco de cada uma, o extraordinário pheno-
meno elevar-lhes-ia o nivel respectivo, sem jamais junctal-as
daquella maneira.

Dissemos que a situação política de Portugal esboça por


inteiro, no áureo periodo da monarchia florescente, a fôrma
do governo moderno, e assim é. x
Vemos ahi que a sociedade saiu daquelle estado de confusão
primitiva, que é característica dos organismos inferiores.
Os orgams adequados ás différentes funcções fundamen-
taes do corpo social, se formam e se estructuram.
!
Vide no appendice a nota C.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 33

Não é só, porém, a especialisação de funcções que marca


o aperfeiçoamento dos seres organisados. E' o consensus de
suas varias partes, a synergia com que se movem todas, sob
a direcção de uma délias : — o mais perfeito organismo é
esse em que todos os orgams mais intimamente se subor-
dinam ao cérebro.
Ora, o poder representado pelo Rei assume, a partir de
João II, papel culminante, e supremacia indiscutível sobre os
outros orgams da constituição nacional. Desde ahi, não ha
mais energias perdidas em conflictos ou divergências : o
governo marcha sem embaraços, guiando magestosamente o
reino de Affonso Henriques para seus altos destinos. —
Também é este o período do mais alto prestigio da realeza :
respeitada no exterior, temida dos grandes, era objecto de
ardente amor popular.
E' uma lei biológica, que também podemos verificar no
campo social, a seguinte : a forma exterior desenha-se mais
rapidamente do que as condições de estructura.1 A do go-
verno da Mãi-patria era marcada de ha muito emquanto que
suas disposições internas permaneciam ainda rudimentares.
Por isto a sociedade política inclinava a descaminhar-se,
sempre que um grande abalo a impellia para rumo diverso
do antes seguido, como succedeu no século decimo-quinto :
aquella constituição veiu a ser alterada seriamente, com os
descobrimentos longínquos.
As terras encontradas canalisaram para o erário regio
thesouros incalculáveis, podendo-se assim dispensar o con-
curso das Cortes, por meio de cujo voto se obtinham as
novas tributações necessárias. Sem a íiscalisação, ainda que
indirecta, destas, e dos grandes vassallos, devorados da sede
de enriquecer nas índias, a realeza descambou para o abso-
lutismo.
1
Meckel, Traité general d'anatomie comparée, vol. VII, page 370.
3

fs
34 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Mas, sabemos que todo estado estático1 tende a per-


sistir espontaneamente, sem nenhuma alteração, resistindo
ás perturbações exteriores, e que, portanto, a constituição
natural da sociedade portugueza restaurar-se-ia tal qual era,
no dia em que desapparecesse o elemento perturbador que a
desfigurara. Isto estava a succéder, pois os recursos prove-
nientes das índias orientaes se haviam esgotado e os que se
tiravam do Brazil estancar-se-iam breve, com a próxima e
inevitável independência dellc. Reconstituída assim, e limi-
tada a si mesma a Pátria portugueza, a propria evolução
nacional indicaria com o tempo as reformas que deveriam
ser feitas, de modo que o governo real pudesse ficar na
altura de seu papel, em a moderna idade.
Uma nova perturbação, infelizmente, junetou seus maus
effeitos aos que já eram sentidos, e antes que fossem elimi-
nados de todo os da primeira : o absolutismo até ahi domi-
nante. Referimo-nos á revolta de 1820, inspirada nas idéas
anarchicas em voga.2
No ataque que esta rebellião promoveu contra o despo-
tismo, confundiu-se o abuso da auetoridade existente com o
que era o justo papel delia, segundo o systema constitucional
anterior aos descobrimentos ; e o pendor de todos foi de
mudal-a. Não se comprehendeu que assim como em as enfer-
midades individuaes « a therapeutica no fundo consiste for-
çosamente em uma modificação de regimen,3 » a thera-
1
E (fynamico também, porque esta lei natural regula igualmente os casos
de movim.ento.
1
Alexandre Herculano diz das revoluções chamadas constitucionaes, qual
a de 1820, que foram « revoluções copiadas servilmente de typos extranhos,
potentes para derribar e impotentes para reconstruir; revoluções sem auto-
nomia que alteraram as manifestações exteriores da sociedade, mas que,
politicamente, a deixaram immovel no seu viver ou antes no seu agonisar
intimo. » - - Historia de Portugal, vol. IV, pag. 441.
Sylvestre Pinheiro Ferreira, estadista portuguez, ainda que advogasse
em seus escpiptos, a causa da regeneração política da monarchia, qualifi-
cou a do anno acima citado de « a nossa fatal revolução. » — Cartas sobre
a revolução do Brazil (a 2a).
3
Audiffrent, Des maladies du cerceau et de l'innervation, pag. 86.

*.
DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO 35

peutica social deve consistir em uma simples modificação do


regimen politico, não em substituil-o por outro, pois uma
absoluta mudança de regimen só em poucos casos e lenta-
mente o podem fazer os indivíduos, e da mesma sorte as
sociedades.
Isto se tentou, no entretanto. E' que do mesmo modo que
ha épocas em que floresce a praga dos medicos charlatães
e impõem estes a seus clientes o uso de maravilhosas pana-
ceas curativas ou a practica de uma hygiene violenta, que
põe em perigo a vida, pelas alterações radicaes que introduz
no estado habitual do organismo ; ha períodos em que gosam
do maior prestigio certos doutores constitucionaes, análogos
na sciencia áquelles : — estes, como os primeiros, prescrevem
remédios estupendos, específicos de efficacia garantida para
qualquer doença social. Agora o que preconisavam, para
conter a exuberância do poder que possuía o Monarcha, em
vez de ser um regimen próprio a restituil-o ás justas propor-
ções normaes e impedir-lhe que de futuro se avolumasse
novamente ; preconisavam anemisal-o até o extremo de ficar
imprestável e inútil. O processo para obter-se este resultado
pensou-se que era dispor os elementos políticos da nação
portugueza á guisa do que se via na Inglaterra, e disto tra-
tava-se quando o Brazil se declarou independente!
Tivéssemos nós a ventura de que José Bonifacio decretasse
por si, livremente, as leis da nova Pátria, e seu espirito pre-
parado pela cultura da sciencia, houvera comprehendido que
o Legislador tinha de cingir-se ao seguinte : reatar o fio da
evolução, restituir á pureza antiga a constituição da monar-
chia, aperfeiçoando-a depois paulatinamente, conforme o exi-
giam as novas condições da existência moderna.1
1
Assignale-se o que diz o grande Herculano, historiador-philosopho de
nossa raça e espirito de rara clarividencia :
« E' assim que pela Historia o passado serve de lição ao futuro e que a
restauração de certas doutrinas ou de certos princípios i obliterados, não
por falsos, mas por mal desenvolvidos, em vez de ser um passo retrogado,
36 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Para attender a este desideratum, a obra era simples.


« Uma situação dada resulta de tudo o que a precedeu :x »
bastava, pois, precisar ainda mais perfeitamente o papel
dos orgams do apparelho politico e definir com rigor as
faculdades de cada um. Mantidas as Cortes, para o voto dos
subsídios, cumpria, reforçar esta attribuição, completando-a
com a de íiscalisar o emprego délies, reunindo-se ellas para isso
periodicamente. Despojado o chefe do Estado de funcções de
ordem espiritual, que lhe não competem, cumpria limitar seu
papel á simples manutenção da ordem material ; como para
isto é mister traduzir o que é essa ordem, num corpo de leis,
elle continuaria a estabelecel-as, mas agora ficando ao povo
o direito de rejeital-as ou reclamar outras; e como ainda
para que a ordem seja effectiva, é preciso punir os que a
violem, aliaz sem o arbítrio que se introduzira, cumpria
crear pessoal independente e adequado a esta árdua missão,
— uma digna magistratura, seriamente organisada e res-
ponsável. Junctasse-se a esta simples reforma um conjuncto
de garantias individuaes, salvaguardando plenamente a acti-
vidade humana, em qualquer terreno, e teríamos ahi a verda-
deira Constituição do Brazil.2
Mas, ninguém pensou que era este o caminho racional. 0
pendor do tempo inspirava erradamente os homens mais
pode significar um verdadeiro progresso, restabelecendo-os na essência,
mas applicando-lhes formulas novas accordes com a sua índole ou com as
modificações aconselhadas pela experiência dos séculos. — Historia de
Portugal, vol. IV, pag. 438. »
i P. Laffitte, obra citada, pag. 24.
Duelos, já em 1743, mostrava reconhecer esta filiação irrecusável do pre-
sente ao passado, como se vê no volume das Considérations sur les
mœurs, appendice, Mémoire sur les druides, pag. 286.
a
Mais ou menos, o plano regenerador de Turgot em França. — Turgot,
Œuvres, vol. II; Robinet, Danton homme d'État, pag. 34. No pensar de
Macaulay, este o único meio de evitar o cataclysmo que se seguiu :
« Nous doutons fort que Louis XVI eût pu suivre aucune marche de nature
à conjurer une grande convulsion. Mais si un tel résultat pouvait être
atteint, c'était, nous en sommes certain, par la marche que conseillait
M. Turgot. » — Essais /ùstoriques, trad, francesa, vol. II, pag 417.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 37

conservadores, e o resultado é esse que recebemos como


expolio da monarchia, em 1889.
Apesar, no entanto, da amarga experiência, os consti-
tuintes da Republica ainda reincidiram no erro, persistindo
em manter o falso critério de 1824. Incrivel cegueira!
Mal concebida, a Carta vigente não corresponde á constitui-
ção histórica da nacionalidade portugueza, de que proviemos,
antes a contraria profundamente. Quer dizer que o Brazil
viverá em estado de continua instabilidade, ató que consi-
gamos desenleiar-nos dos elementos que perturbam o pro-
gresso de nossas naturaes instituições.
Podíamos bem ter previsto que esta seria a conseqüência
de recairmos no erro. A lei natural dil-o bem claro : as modi-
íicações quaesquer da ordem universal limitam-se á inten-
sidade dos phenomenos, cujo arranjo é inalterável. Tudo,
pois, que pretenda alterar a ordem política natural serve
apenas para perturbal-a, e emquanto durarem os effeitos de
semelhante impensada tentativa, é precária a estabilidade
dessa mesma ordem.1 Agora, tudo que tenha por fim
modifical-a, adaptando-a a melhor funccionamento, isto sim
é muito praticavel, como seja, por exemplo, attribuir maior
ou menor força ao governo, conforme as condições da época ;
maior ou menor latitude á influencia do povo, na critica e
apreciação das leis ; maior ou menor independência aos
1
Ha exemplo frisante na historia brazileira. A Carta de 1821, violando as
leis naturaes, fragmentou o poder, distribuindo-o entre a Coroa, a Assemblea
geral e a magistratura. Todavia, nossas chronicas registram os raptos ora-
torios, as apostrophes demagógicas dos prohomens da monarchia, denun-
ciando constantemente o poder pessoal, as chamadas invasões da Coroa,
objecto de uma geral condemnação, muitas vezes injusta.
Circulo vicioso. Ou o poder seria de todo absorvido pelo executivo, ou o
seiía pela assemblea (e teriamos assim uma invasão tão illegal como a
outra), ou o seria pelo ramo judiciário, com iguaes conseqüências. Fragmen-
tado e repartido é que elle não podia ficar. A culpa, portanto, não era do
Imperador e sim de quem lhe pedia que governasse, sem lhe querer dar
elementos para isso : ou deixava-sc ficar inerte c fora aceusado de nullo
ou faria o que fez, a despeito da Carta, e irresponsavelmente.
38 DIBEITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIKO

juizes, etc., etc. Mas, repetimos, jamais alterar, como se pra-


ticou entre nós, o poder que a natureza fez uno, — tentativa
que, alem de vã, e essencialmente perturbadora.
No estudo das varias secções da Constituição federal
pesquisaremos até onde foi bem orientado o espirito inno-
vador, aie onde elle violou a ordem fundamental da conecti-
vidade brazileira.
LIVRO II

Da organisação federal

^
LIVRO II

Bonum appello, quidquid secun-


dum naturam est; quod contra,
malum: nee ego solus, sed tu eliam,
Chrysippe, in foro, domi.
CICERO.

0 federalismo é \ desde 1831, a mais ardente e mais


generalisada aspiração do Brazil. Nos trabalhos de reforma
constitucional posteriores á revolução do anno citado, chegou
a adoptal-o a Câmara temporária e, se não é a resistência da
Câmara vitalícia, de ha muito vigorava no paiz. Tão accen-
tuadas eram as tendências reformadoras no sentido da ampla
autonomia provincial, que monarchistas sinceros da ordem» de
Saraiva e Nabuco, preconisavam os moldes federativos, como
sendo condição de salvamento para o Império, nos últimos
annos delle.
Bem andou, pois, o'Governo provisório, fírmando-o em seu
primeiro acto legislativo : de quantas medidas expediu, esta
foi a que mais applausos teve.
Thaïes de Mileto, antes de serem escravisados os ionios,
deu-lhes conselho que « estabelecessem em Teos, no centro
da Ionia, um governo geral para toda á nação, sem prejuiso
do governo das outras cidades, que não deixariam por isso
de seguir seus usos, como se fossem cantões différentes, o
que, demais, não impediria as cidades de continuarem a
1
Vide no appendice a nota D.
42 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

governar-se interiormente pelas leis particulares de cada


uma, como se fossem Estados separados.x »
— Foi sobre um largo plano análogo ao do grande geo-
metra grego que se estabeleceu o federalismo em 1889, ele-
vando-se as antigas províncias a Estados soberanos.3
A Assembléa constituinte restringiu a « soberania » que
assim lhes fora outorgada, cedendo ao pendor centralista
que arruinara a monarchia : restaurou laços de dependência
já rotos e incompatíveis com o systema aceito. Esta obra de
reacção acha-se compendiada no capitulo Io da Carta de
24 fevereiro de 1891, que analysamos.
Tal como foi consagrado em lei, corresponde o regimen
federativo á situação presente do Brazil, e fundou um sy-
stema estável?
Vejamos.
0 regimen federativo tem applicação em sociedades cujas
différentes partes não marchem no mesmo sentido, ou com
a mesma velocidade, caso em que se incumbe a um governo
central a funcção de presidir e coordenar todas as tendências
convergentes da mesma sociedade, respeitando suas diver-
gências legitimas, que passam a ser attendidas pelos
governos locaes das varias regiões em que se divide o paiz
respectivo.
Esta definição marca mui claramente qual a latitude das
attribuições que competem ao poder central. Tanto maiores
serão ellas quanto mais avultado for o numero de pontos de
convergência entre as diversas porções do Estado, que se
organisa : tanto mais limitadas serão, quanto mais conside-
rável for a somma dos interesses divergentes.
Applicando este 'critério á doutrina sanccionada pela Cons-
tituinte, verificamos que está ella em desaccordo com o prin-
cipio gerador do systema federativo, pois confere ao governo
1
Herodoto, Historia, liv. I, cap. CLXX.
* Decreto n. 1, de 15 de novembro de 1889.
DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEISO 43

central faculdades que não correspondem a interesses geraes


da communhão brazileira, continuando, portanto, a florescer
a tendência separatista, a lucta pela autonomia, que tornará
precária e instável a nova ordem de cousas.
Não ha fugir. O Brazil, como unidade politica, tende a
desapparecer, em virtude de uma lei de mecânica, genera­
lisada para toda classe de phenomenos pelo maior pensador
do século, que é esta : Um systema qualquer mantém sua
constituição activa ou passiva, quando seus elementos expe­
rimentam mutações simultâneas e exactamente communs.
Ora, a mais ligeira inspecção de nossas actuaes condições
convence logo ao espirito observador que os elementos que
compõem o systema nacional, não seguem a mesma derrota,
e, quando isto succède, não o fazem ao mesmo tempo, o que
o avisinha dia a dia de uma próxima dissolução, se opportu­
namente uma saudável reforma não adaptar o apparelho
politico ás funcções a que é destinado, e ás condições actuaes
da nacionalidade.
E' fácil comprehender isto.
Vede um regimento de infanteria, em columna de ataque.
O systema que constitue é perfeito, emquanto todos seus
membros seguem no mesmo rumo e a passo igual. Se os
commandantes das varias fracções mudam o objectivo da
operação ou se uns entendem avançar a passo accelerado e
outros não, o maravilhoso conjuncto desapparece como por
encanto : o regimento quebra sua unidade, debanda, deixa
de existir.
E' o que ameaça dissolver a America portugueza, onde
hoje ha zonas abrangendo mais de um Estado, que evoluem
harmonicamente, é certo : o todo, porém, mal se conserva
unido, por effeito ainda da lei da inércia.
Um simples relance de olhos por sobre este immenso ter­
ritório deixará convencido do que affirmamos todo aquelle
que estude os factos sem ■parti pris, sem ideas preconce­

t
44 DIREITO CONSTITUCIONAL BBAZILEIRO

bidas. Ha por todo elle tendências diversas, interesses anta-


gônicos, aspirações incombinaveis, pensares que se excluem.
Quanto áquelle primeiro ponto, quem não vê que o Ama-
sonas e Pará formam um grupo cujas tendências se con-
fundem, e que por isso taes Estados se unem cada vez mais?
Quem não percebe que Pernambuco attrae para si os visi-
nhos Estados do Riogrande do Norte, Parahyba e Alagoas?
Que Sergipe gravita para a Bahia? Que o Rio-de-janeiro,
Minas, S. Paulo, Goyaz, Espirito-santo, marcham para idên-
tico destino? Que o Paraná, S. Catharina e Riogrande se
approximam pela historia e natureza, não havendo antago-
nismos que os separem?
Estudemos as divergências que só o factor economico-
flnanceiro faz nascer.
— A prosperidade da Amasonia procede da industria
extractiva. Essa vasta região é pobre de outras. Uma tarifa
protectora faz-lhe pagar exhorbitancias, por gêneros que
talvez daqui a um século não produza, visto ser ali muito
lucrativa aquella sorte de actividade.1 No entretanto, essa
mesma tarifa sabe-se que fomenta o progresso industrial de
Pernambuco, Bahia, e especialmente de S. Paulo, Rio-de-
janeiro e Riogrande do Sul.
— Este ultimo Estado já produziu maravilhosamente o
trigo, chegando a exportal-o para o Brazil todo e até para
Portugal. Uma taxa favorável sobre trigos estrangeiros levan-
tava outra vez a proveitosa industria, mas quanto ia pesar
sobre as classes desfavorecidas do Rio-de-janeiro, onde a
carestia já é medonha!... Idêntico effeito teria na capital-
federal um imposto sobre gado platino, utilissimo aliaz á
criação mineira.2
1
Estava este livro a entrar no prelo, quando appareceu a mensagem ulti-
ma do governador do Pará. Como se sabe, o chefe do futuroso Estado levanta
nesse papel a bandeira livre-cambista, em nome dos interesses de sua terra
natal. Não é preciso commentar... (Nota da 1.» edição).
1
E muito nocivo á industria riograndense cie carnes conservadas {xarqué),
que emprega muito gado da Republica oriental.
DIKEITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 45

— Os Estados nortistas productores de sal reclamam uma


forte contribuição sobre o de origem extranha, o quê decre­
tado muito prejudicaria á fabricação do tassalho riogran­
dense, cujo preparo não dispensara o sal de Cadix, até que
se consiga fazer análogo no Brazil.
— Um tratado de commercio protegendo a entrada de
banhas dos Estados­unidos e a saida, para esse paiz, do
café, beneficiaria muito a S. Paulo, Minas, Rio­de­janeiro,
Bahia e Espirito­santo, soffrendo profundamente com tal con­
venção o Riogrande do Sul, sendo da mesma fôrma em detri­
mento deste Estado qualquer trato commercial que facilite a
importação das carnes do Prata, trato por outro lado util á
Bahia, Pernambuco, etc, cujos assucares assim poderiam
em compensação obter vantajoso consumo nos paizes ribei­
rinhos, do grande estuário.
— Os Estados do Riogrande do Sul, S. Paulo, Amasonas,
Pará, exportam mais do que importam, o primeiro podendo,
alem disso, servir de modelo por sua escrupulosa gestão da
fazenda publica, e no entretanto, perdem capitães enormes
em differenças de cambio, devido isto á deplorável situação
do thesouro federal. — Por outro lado, uma alta no cambio
salvava o centro e arruinava a exportação de Estados para
os quaes a baixa representa uma verdadeira prime d'expor­
tation.
Que complicações origina a absurda pretenção de satis­
fazer ao mesmo tempo a tão différentes interesses, vemos que
é fácil de comprehender...
E note­se que até aqui consideramos apenas um aspecto
da questão. Se attentarmos para o que diz respeito ao estabe­
lecimento das leis, perceberemos que a marcha dos Estados é
igualmente discorde.
— O lentíssimo movimento de negócios do Piauhy, Goyaz,
Parahyba, não reclama, por exemplo, o mesmo rápido pro­
cesso de transmissão de immoveis, que exige a célere activi­


46 DIREITO CONSTITUCIONAL BKAZILEIRO

dade do meio paulista. A lei, todavia, deve ser por certo refor-
mada só quando não corresponda mais ao estado das relações
que tem de regular. Xotemos que seria oportuno fazel-o em
S. Paulo, mas que naquelles Estados perturbava, sem van-
tagem nenhuma, hábitos adquiridos, que cumpre manter
estáveis quanto possível.
— As operações que têm por base o empréstimo hypo-
thecario, num grande centro como o Rio-de-janeiro, em o
qual os contractadores são pouco ou nada conhecidos uns
dos outros, convém que sejam rodeadas de mais completas
formalidades do que em praças como, por exemplo, Floria-
nópolis ou Curityba. 0 que lá, porém, salvaguarda os inte-
resses das partes, aqui pode ser um embaraço inutil, uma
despeza supérflua.
— A liberdade de testar desde muito é urgente no Rio-
grande do Sul, trazendo-lhe entre outras vantagens a de
diminuir talvez a extrema divisão dos prédios rústicos, ao
passo que em S. Paulo agora apenas é que seria opportuna,
pois antes o regimem vigente prestou o bom serviço de faci-
litar o fragmentamento de descommunaes latifúndios.
— A pena é não somente um recurso de defeza da socie-
dade, é também um processo de melhoramento moral, pelo
temor que inspira. Em paiz em que o furto do gado é raro,
como no Amasonas, não ha conveniência de que a pena seja
de extrema severidade, necessária, aliaz, no Riogrande e
Pernambuco, onde é esse delicto o mais commum.
— 0 contrabando entrou nos costumes do penúltimo Es-
tado e nelle precisa ser perseguido sem piedade, atten-
dendo-se sobretudo ao facto de florescerem nessa região as
qualidades de caracter indispensáveis a uma industria tão
aventurosa. Tal rigor seria excessivo em Goyaz.
— 0 pernambucano é rixento, brigador; o mineiro, sereno,
pacifico. A rebellião daquelle punir-se-á com a indulgência
DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO 47

que a deste deve merecer, desde que sabemos positivamente


só fortes motivos o induzirão a desrespeitar a ordem?
Actos administrativos que certas circumscripções da Repu-
blica acolhem com sincero applauso, determinam violentos
protestos de outros.
— S. Paulo, ávido de immigrantes, apoia qualquer inicia-
tiva do governo central, tendo por fim promover a entrada
délies. Os Estados do norte, cujo clima não é propicio aos
forasteiros, que não recebem trabalhadores europeus, revol-
tam-se vendo os gastos excessivos pagos por todos, em bene-
ficio dos Estados do sul.
— À União incumbe-se de construir vias-ferreas, mas só
as do « plano geral. » Justo seria que as obras respectivas
fossem realisadas pelos Estados que lucram com ellas. No
entretanto, o Piauhy, longe de cujos sertões passam todos os
trilhos da viação federal, paga os encargos delia, tanto como
o Estado de Minas, que ha muitos annos vive enriquecendo
com o auxilio de sua linha mais importante.
— A cabotagem nacional fomenta a industria das cons-
trucções navaes na costa oceânica. Em que aproveita com
ella, porém, Minas e Goyaz, que, todavia, pagam por isso
fretes muito altos, resultantes desse monopólio, sem o lucro
ou compensação que obtêm os Estados de beira-mar?
E assim em outros casos.1
Intelectualmente falando, então, a marcha das varias
partes do Brazil não pode ser mais discorde do que é.
Compare-se o Estado de S. Paulo, aberto a todos os melho-
ramentos materiaes, á Parahyba, que nos deu hontem a
guerra dos quebra-küos. O emancipado Riogrande, com a
1
Por exemplo, o de impor tributos uniformes, sem attender á potência
tributável de cada região, quando se devera imitar, no possível, a indulgente
pratica assim descripta na Arte de reinar : « Dario Longimano, Rei dos
Persas, repartiu o Reino todo em vinte-e-quatro províncias, e conforme a
riqueza de cada uma lhe pediu certa quantidade de dinheiro para os negó-
cios públicos. » — Liv. II, disc. VIII.

îjb
48 DIREITO CONSTITUCIONAL ÏÏRAZILEIRO

Bahia, onde os bruxedos e amuletos gosam de mágico pres-


tigio, onde os reinos encantados passam como realidades
indiscutíveis e os messias fanatisam populações inteiras.
Faça-se um parallelo entre esse mesmo Riogrande e Minas :
aquelle desdenhando as explicações de origem theologica,
esta admittindo-as com a mais completa fé. Veja-se Sergipe,
preoccupado tão somente com as guerrilhas dos pretendentes
ao governo local, mas alheio a sorte do Mundo ; o Riogrande,
interessado pelos negócios do centro federal, pelos da
visinha Republica do Uruguay, como pelos da França, etc. ;
o Rio-de-janeiro vivamente impressionado com os destinos
de Cuba e da Grécia longínqua!...
Nestes termos, para que o laço federal possa durar, pri-
meiro a união ha de ser livre, segundo, ha de reduzir-se a
acção do governo central ao minimo possível, resumindo-se
a regular exclusivamente os interesses communs dos Estados
brazileiros.
Quaes são esses interesses?
— Os que decorrem de um passado commum, que estabe-
lece natural alliança entre elles, que os predispõe a trata-
rem-se como irmãos em suas relações, tanto internacionaes,
como industriaes, assegurando uns aos outros mutuo apoio
em qualquer calamidade, impedindo que sejam resolvidas
pela violência suas desavenças, e amparando-se reciproca-
mente em caso de perigo exterior ou interior.
Estes os fins, mas, para que a união federal seja pos-
sível e persista, tem que ser livre, já o dissemos, e ha de
impor tão somente condições aceitáveis por todos os Estados,
como sejam : 1.°, a de adoptarem a fôrma republicana; 2.°, a
de estabelecerem em suas constituições as garantias indivi-
duaes que decorrem da propria fôrma republicana (Consti-
tuição de 24 de fevereiro, arts. 63.° e 72.°).
Seria assim da competência da União providenciar sobre os
seguintes pontos, que passamos a mencionar :
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 49

Intervir nos Estados lart. 6.° et §§) : « 1.°, para repellir


invasão estrangeira, ou de um Estado em outro; 2.°, para
manter a fôrma republicana; 3.°, para restabelecer a ordem
e tranquillidade nos Estados, á requisição dos respectivos
governos; i-.°, para assegurar a excução das leis e sentenças
federaes. »
« Orçar a receita e fixar a despeza federal (art. 34.°, n. 1). »
« Contrair empréstimos, e fazer outras operações de cre-
dito (art. 34.° n. 2), » para attender aos serviços federaes.
« Legislar sobre a divida publica, e estabelecer os meios
para seu pagamento (art. 34.°, n. 3). »
« Regular o commercio do Districto federal, tanto interna-
cional, como com os Estados (art. 34.°, n. o). »
<( Legislar sobre navegação dos rios que se estendem a
territórios estrangeiros (art. 34.°, n. 6). »
« Determinar o peso, o valor, a inscripção, o typo e a
denominação das moedas (art. 34.°, n. 7). »
« Fixar o padrão dos pesos e medidas (art. 34.°, n. 9). »
« Resolver definitivamente sobre os limites do Districto
federal, e os do território nacional com as nações limi-
trophes (art. 34.°, n. 10). »
« Declarar guerra, se não tiver lugar ou mallograr-se o
recurso do arbitramento, e fazer a paz (art. 34.°, n. 11). »
« Resolver definitivamente sobre os tratados e conven-
ções com as nações estrangeiras (art. 34.°, n. 13). »
« Conceder subsídios aos Estados, » « em caso de calami-
dade publica (art. 5.° e 34.°, n. 14). »
« Fixar... as forças de terra e mar, » administrar a
marinha, e « legislar sobre a organisação do exercito e da
armada (art. 34.°, n. 17 e 18). »
« Conceder ou negar passagem a forças estrangeiras pelo
território do paiz, para operações militares (art. 34.°,
n. 19). »
« Mobilisar e utilisar o exercito e a guarda nacional ou
4

'i<
50 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIKO

milícia cívica, nos casos previstos pela Constituição (art. 34.°,


n. 20). »
« Declarar em estado de sitio um ou mais pontos do terri-
tório nacional, na emergência de aggressão pór forças estran-
geiras ou de commoção interna (art. 34.°, n. 21). »
« Regular as condições e o processo de eleição para os
cargos 'federaes em todo o paiz (art. 34.°, n. 22). »
« Crear ou supprimir empregos públicos federaes, fixar-lhes
as attribuições, e estipular-lhes os vencimentos (art. 34.°,
n. 25). »
« Organisar a justiça federal, nos termos do art. 55.° e
seguintes da secção in (art. 34.°, n. 26). »
« Conceder amnistia (art. 34.°, n. 27). »
« Commutar e perdoar as penas impostas, por crime de
responsabilidade, aos funccionarios federaes (art. 34.°,
n. 28). »
« Legislar sobre terras e minas de propriedade da União
(art. 34.°, n. 29). »
« Legislar sobre a organisação municipal do Districto
federal, bem como sobre policia e outros serviços que na
Capital forem reservados para o governo da União (art. 34.°,
n. 30). »
i< Submetter a legislação especial os pontos do território
da Republica necessários para a fundação de estabelecimentos
e instituições de conveniência federal (art. 34.°, n. 31). »
« Regular os casos de extradicção entre os Estados
(art. 34.°, n. 32). »
« Sanccionar, promulgar e fazer publicar as leis e reso-
luções » de caracter federal, « expedir decretos, instrucções
e regulamentos para sua fiel execução (art. 48.°, n. 1). »
(( Designar quem deva exercer o commando supremo das
forças de terra e mar dos Estados unidos do Brazil quando
forem chamadas ás armas em defeza interna ou externa da
União (art. 48.°, n. 3). »
DIREITO CONSTITUCIONAL BRÀZILEIRO 51

« Prover os cargos civis e militares de caracter federal


(art. 48.°, n. 5). »
<( indultar e commutar as penas nos crimes sujeitos á
jurisdicção federal (art. 48.°, n. 6). »
« Manter as relações com os Estados estrangeiros (art. 48.°,
n. 14). »
Todas as outras attribuições conferidas ao governo cen-
tral, são exorbitantes, e antinomicas com o systema federal.
E, se não, vejamos.
0 art. 6.°, n. 3, in-line, auctorisa a União a intervir nos
Estados para manter a « forma federativa, » isto é, para
manter a « união perpetua e indissolúvel das antigas pro-
víncias, hoje Estados unidos do Brazil (art. 1.°). » Ora, quem
diz federação, diz concurso livre : e como se impõe que seja
indissolúvel e perpetuo o que amanhã pode ser contra a von-
tade positiva e expressa de um ou de vários Estados?
Dois povos de motu-proprio combinam auxiliar-se mutua-
mente em tempo de guerra, mantendo-se accordes, sempre,
em suas relações internacionaes, e para satisfazer mais facil-
mente este compromisso, fundam um governo superior
commum : ha ahi federação. Mas, se um délies impõe essa
troca de auxilios ao outro, pode a situação resultante ter o
nome de federação : não o é, de facto, como vemos no caso
da Baviera, jungida á força ao Império germânico. — A
união ahi é filha da violência, e sabemos que fœderatio é
synonima de pactum, concórdia, amicitia.1
E' contradictoria, pois, com o principio federal, a doutrina
consagrada nos artigos 1.°. e 6.°, n. 2, in-fine. Mais ainda : é
vexatória, porque faz o Mundo pensar que a fraternidade
das populações brazileiras só se mantém por via da coacção.
Triste fraternidade seria essa!
E, no entanto, tem este fundamento legal a que liga nossos
Estados uns aos outros...
1
Quicherat, Thesaurus linguae latinae.

f
52 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILE1RO

Seja-nos licito perguntar aos republicanos deste paiz :


pretende-se que o Brazil viva da compressão e da violência?
— Fora erro palmar, porque só « a obediência voluntária
mantém e perpetua o governo.1 »
Depois, diante do próprio principio democrático, dominante
na Lei fundamental, se a grande maioria de um Estado quizer
separal-o da União, ha quem julgue legitimo impedil-o? —
Ninguém. E por isso vemos a antipathia universal com que foi
acolhida por todos a noticia da volta forçada da Alsacia-
Lorena â Pátria allemã.
Tal violência injustificável até mesmo em um paiz
unitário. 0 nobre republico dr. Antonio Ferreira França
apresentando em 1840 ás câmaras do Império o projecto de
reconhecimento immediato da independência do Riogrande,
promovida pela immensa maioria de seus habitantes, ou que
se decretasse um plebiscito para decidir da sorte dos
heróicos farrapos, fez, portanto, obra de sã politica, dessa
que « é fundada na moral e na rasão, » segundo o patriarcha
José Bonifacio.

Ao lado deste erro, vemos outros não menores.


E' assim que se dá competência ao governo central, para
instituir bancos de emissão. — Antes, porém, de emittir juizo
sobre esta importante these, entendemos que é opportuno
fazer notar quanta precipitação houve nos labores consti-
tuintes, falta que originou vários descuidos de importância,
na redacção da Lei orgânica de 24 de fevereiro.
Exemplo :
— O Congresso constituinte adoptou a Constituição já
publicada pelo Governo provisório, reservando-se o direito
de introduzir nella as modificações que julgasse convenientes.
Essa Constituição determinava, em seu titulo II, que os
Estados se organisariam sob um plano uniforme, mediante
'Aristóteles, Politica, livro VIII, cap. Ill, § 48.
DIKEITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 53

cerlas condições. Entre estas figurava a de terem necessaria-


mente assembléas legislativas, e em vista disto estabelecia
que (art. 4.°), para haver incorporação, subdivisão ou des-
membramento, de Estados, era indispensável o voto das
« respectivas assembléas legislativas. » À Constituinte jul-
gando ambiciosa a prctençâo de impor aquellas condições
aos Estados, supprimiu-as, deixando a estes a liberdade de
se organisarem conforme lhes aprouvesse.
Assim dispondo, porém, o Congresso não se lembrou de
que algum Estado poderia constituir-se adoptando, por
exemplo, o systema plebiscitario, que dispensa as corpora-
ções legislativas, e que, portanto, o artigo 4.° devia ter outra
redacção. — Estava já votado quando se resolveu sobre o
titulo II e não se cuidou de harmonisar os textos, confor-
mando-os com as varias conseqüências da doutrina aceita
pelo Legislador, sobre organisação estatual.
Outro exemplo :
0 artigo 8.°, § 3.°, da Constituição do Governo provisório,
auctorisava os Estados a « tributarem a importação de mer-
cadorias estrangeiras, quando destinadas a consumo em seu
território. » No artigo 9.°, porém, lhes prohibia « tributarem
de qualquer modo, ou embaraçarem com qualquer difücul-
dade, ou gravame, regulamentar ou administrativo, actos,
instituições ou serviços estabelecidos pelo governo da
União. » A Constituição manteve aquelle paragrapho, e modi-
ficou este artigo da seguinte maneira : « E' prohibido aos
Estados (art. 10.°) tributar bens e rendas federaes ou ser-
viços a cargo da União, e reciprocamente. » Ora, como na
Constituição de 22 de junho de 1890 (art. 33.°, n. 5), na de
24 de fevereiro (art. 34.°, n. 5) estabeleceu-se que á União
cabe <( regular o commercio internacional. » A primeira,
porém, impedia que os Estados annullassem esta faculdade,
(ao usarem do dispositivo do artigo 8.°, § 3.°) por meio da
doutrina do artigo 9.°, que lhes vedava, entre outras cousas,

2M
54 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIKO

« tributar de qualquer modo, ou embaraçar com qualquer


difíiculdade, ou gravame, regulamentar ou administrativo,
actos, etc, do governo da União. » Nesta hypothèse, os tra-
tados de commercio não podiam ser embaraçados pelos
governos locaes. A cousa, no entretanto, mudou de figura,
com a rejeição do artigo 9.° da Constituição de 22 de junho.
Manteve ella da referida Lei o numero 5 do artigo 33.°, que
trata das attribuições do Congresso, e lhe confere aquella
de regular o commercio internacional, mas esquecendo-se
que antes despresara o artigo em que os tratados de com-
mercio se tornavam inatacáveis pelos poderes estatuaes ; de
fôrma que estes, escudados do artigo 9.°, § 3.° (art. 8.°, § da
Constituição provisória), podem modificar taxas solemne-
mente combinadas em um pacto internacional.1 — Ou com o
artigo 9.°, se devera supprimir o 33.°, n. 5 (ambos da Cons-
tituição provisória), ou votando em favor deste, sustentar-se
aquelle ou outro equivalente.
Igual incohcrencia, por descuido, deu-se em o caso do
artigo relativo aos bancos emissores, de que antes falamos.
A Constituição provisória, no artigo 6.°, n. 6, declarava
da competência exclusiva da União « a instituição de bancos
emissores. » Ficou assim com o monopolio de regular a
materia.
Mas, a Constituinte veiu a adoptar entre os « direitos dos
cidadãos » o « livre exercício de qualquer profissão moral,
intellectual e industrial (art. 72.°, § 24.°), » sem restricções.
Logo, conclue-se que só por descuido, como dissemos,
deixou de eliminar o citado § 3.° do artigo 8.° da referida
Constituição provisória.2

Ainda que menos grave, foi erro de monta conferir-se á


1
Cumpre dizer que apontamos apenas a antinomia, não que não julgue-
mos a doutrina do artigo 9.°, § 3.% a maior garantia econômica dos Es-
tados.
2
Adiante trataremos mais detidamente desta questão.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 00

União a faculdade de « administrar o exercito (art. i.°, n. 4,


principio). » Bastava ter estabelecido que ao governo central
incumbiria « fixar annualmente as forças de terra etc. » e
« legislar sobre a organisação do exercito etc. (art. 34.°,
n. 17 c 18). »
Na confederação sueco-noruega o exercito de cada Estado
é absolutamente independente, cabendo apenas ao governo
central o commando supremo das forças de terra e mar.
Igual regimen vigora na Suissa. A Constituição da Allemanha.
o paiz dotado da mais poderosa organisação militar contem-
porânea, garante aos Estados confederados verdadeira auto-
nomia no que concerne ao exercito, salvo apenas algumas
restricções. — O commando geral cabe ao chefe supremo da
Germania, o Kaiser, assim como « a nomeação para todo com-
mando superior de um contingente e de todos os officiaes
destinados a commandar as tropas de contingentes de mais
de um Estado, e ainda os commandantes de praças.1 » Em
tudo o mais os Estados agem como soberanos.
Attribuição também incompatível com o .federalismo é a
consagrada no artigo 34.°, n. 23 : « Legislar sobre o direito
civil, commercial e criminal da Republica, e sobre o proces-
sual da justiça federal.2 »
A Constituição vigente definindo em secção especial as
garantias dos brazileiros, sob o pomposo titulo de « decla-
ração de direitos, » privou-nos de dois dos mais preciosos.
O primeiro é esse de concorrer livremente na obra legisla-
tiva; o segundo é o de usar amplamente do nosso credito, de
que fomos privados em parte, pelo nefasto systema bancário,
ora estabelecido.
1
O governo central é também quem determina o modelo dos uniformes e
fiscalisa a disciplina das tropas.
i
A diversidade no processo já era auctorisada nas Ordenações felippinas :
« Usança de qualquer villa, ou lugar, se guardará. Liv. I, tit. 18 § 34. »
« Os bons costumes acerca do ordenar dos feitos se devem conservar.
Liv. I, tit. 1, § 37. » « Se houver costume de se fazer mais de duas audiên-
cias cada semana, se observará. Liv. I, tit. 65, §4. »
56 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Examinemos o primeiro.
A lei, antes de o ser, foi preceito religioso. Aceito, prati-
cado regularmente, entra a formar costumes e hábitos, que
o legislador com o tempo define precisamente, crystalisa em
fôrmas perfeitamente determinadas : sua intervenção não
passa disto.
Se a lei é expressão dos costumes, ella será igual só onde '
os costumes forem iguaes.
Isto se dá no Brazil? — Não. Já o mostramos com abun-
dância de exemplos no Discurso preambular.x
Quid proficiunt leges, sine moribus? perguntava com rasão
o romano. E lei que não corresponde aos costumes, nunca é
observada, importando isso no descrédito das proprias leis.
Ha uma outra ordem de considerações que põe em evi-
dencia as vantagens da pluralidade legislativa.
1
« A unidade de legislação resulta da unidade de opiniões e de costumes.
Portanto, emquanto as opiniões e os costumes forem mais ou menos os mes-
mos em todos os Estados, a legislação será mais ou menos uniforme. E,
quando as opiniões mudarem, e com ellas os costumes, a pretenção de im-
por uma legislação uniforme só pode acarretar um dos dois resultados
seguintes :
Ou os Estados mais fortes imporão suas opiniões atrazadas ou anarchicas
e seus costumes aos mais fracos, apesar destes terem progredido mais, o
que impediria que os últimos reajam moral e intellectualmente sobre os
primeiros : ou os Estados mais fortes imporão pela violência os progressos
que houverem realisado, quando só deviam influir moral e intellectualmente
sobre os mais fracos.
Já tivemos um exemplo disso na desastrada, absurda e chimerica lei de
grande naturalisação, hoje desfeita aos pedaços, e que foi imposta ao Brazil
porque o Estado de S. Paulo a queria para si. — Pelo mesmo motivo, esta-
mos ameaçados de ver o divorcio erigido em lei, quando algum dos Estados
fortes mais favorecidos pela immigração protestante, julgar que tal medida
é necessária a seu progresso material.
Entretanto, uma sufficiente liberdade daria como resultado circumscrever
taes aberrações nos limites de alguns Estados.
A conseqüência em qualquer das hypotheses acima figuradas será desen-
volver os sentimentos de completa autonomia e as rivalidades quepodem tra-
zor justamente a ruptura do laço federal. Assim, a preoccupação empírica
de manter a unidade brazileira, violando as leis naturaes da organisação
humana, só poderá acarretar a quebra da mesma unidade. E' o caso da velha
sentença : por causa du rida perder todas as rasões de eicer. » — An-
naes do Congresso constituinte, vol. I, emendas do-> Srs. Miguel Lemos e
Teixeira Mendes.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 57

Como dissemos, a lei civil é expressão dos costumes, mas


estes costumes, visto que a sociedade caminha segundo leis
naturaes, têm origem nestas mesmas leis naturaes, donde se
segue que, em definitiva, as verdadeiras leis civis por força
se acham em concordância com aquellas, e tanto mais
quanto mais conhecidas forem as leis naturaes. Ora, as leis
naturaes são immutaveis, porém modificaveis. A realisação
destas modificações depende do modo por que se as concebe,
ponto este em que ha divergências de paiz a paiz, e até de
indivíduo a indivíduo. Emquanto a Humanidade não dispuzer
de um corpo de sábios, professando uma doutrina commum
e apta para prever as modificações necessárias ás leis polí-
ticas, esta operação ha de andar entregue ao empirismo :
viveremos fazendo ensaios, tentativas e experimentações.
Nestes termos, quanto menor for o campo da experimen-
tação, menores serão os prejuízos com as de nullo resultado
ou prejudiciaes. E, por outro lado, sendo diversos os ensaios,
mais facilmente se conhecerá qual o que corresponde melhor
a nosso objectivo.x
Este experimentalismo nas leis garantir-nos-á um duplo
resultado : primeiro, que o divorcio, por exemplo, adoptado
em S. Paulo, só ahi origine os males que costumam acom-
panhal-o ; segundo, que os outros Estados aprendam com a
experiência alheia, verificando se a reforma lhes convém ou
não. Ao passo que decretada para vigorar em todo o Brazil,
soffrerá elle todo igualmente, sem ficar ao povo esse meio de
comparar as vantagens ou desvantagens da instituição, a não
ser que recorra ao estrangeiro, onde a differença de condi-
ções sociaes muda os termos da questão.
A Assembléa constituinte seguiu nisto a tendência imperia-
lista de tudo uniformisar, reproduzindo o que fizeram paizes
cujas condições politico-sociaes eram diversas das nossas,
quando, a imitarmos algum, devíamos fazel-o estudando
1
Veja-se L. Donnât, La politique expérimentale, pag. 97.
58 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

aquelles que adoptaram instituições semelhantes ás que esta-


belecíamos. x
Na Austria-Hungria, com ser Império, nem por isso deixam
de ter os povos de lá foros mais liberaes. Os dois grandes
paizes da Coroa gosam de liberdade de acção em materia
legislativa.
« O poder legislativo pertencendo aos corpos representa-
tivos de cada uma das duas metades do Império, será exer-
cido por elles, no que diz respeito aos negócios communs,
por meio de delegações (lei cisleithanea, art. 6.°). » — Os
negócios communs são : os relativos ás relações estrangeiras,
certos negócios militares, finanças da Confederação, negó-
cios commerciaes, inclusive leis aduaneiras, regulamento da
moeda, das vias-ferreas communs, e o systema de defeza do
paiz (art. 1.° e 2.°).
O reino sueco-noruego é mais descentralisado ainda. Ahi
só as relações estrangeiras é que são mantidas por um
* Foi pena se não adoptasse ao menos o que propuzera a Commissão
incumbida pelo Governo provisório de preparar um projecto de Constitui-
ção : o Congresso « organisará (art. 33°, n. 12) no praso máximo de cinco
annos a codificação das leis eiveis, commerciaes e criminaes que devem
regular as respectivas relações de direito em todo o território nacional, bem
como a codificação das leis de processo, sendo licito aos Estados alterar as
disposições de taes leis em ordem a adaptal-as convenientemente ás suas
condições peculiares. Excedido este praso sem estar feito o trabalho de codi-
ficação, fica livre aos Estados organisar por si a codificação de suas leis. »
O sr. Guimarães Natal, entretanto, apresentou á Constituinte esta emenda
additiva : « Ao n. 24 do artigo 3D0 ., acerescente-se : sendo permittido aos
Estados, quanto águellas, alterarem-lhes as disposições de modo ü adap-
tal-as ás suas necessidades especiaes e interesses peculiares e próprios. »
Eis o n. 24 do art. 33° do projecto de Constituição, a que se refere a emenda :
« Codificar as leis civis, criminaes e commerciaes da Republica, e bem assim
as processuaes da justiça federal. » Interessante é notar que a Republica se
mostrou neste assumpto menos liberal do que o Rei absoluto : « Costume
longamente observado, dizem as Ordenações felippinas, prevalece ás leis
imperiaes, e faz cessar as outras leis, e direito. » Liv. Ill, tit. 64.
Nos foraes, « leys por que se governou o Reyno até o tempo dei Rey
D. Alfonso Segundo, que foy o primeiro (de que nos consta, diz auetor anti-
go) que fez ordenações, et leys geraes, » — a legislação era différente, con-
forme as localidades. — Monarchia lusitana, tom. I, liv. IX. Vide igual-
mente em Pereira e Sousa, Diccionario jurídico, a palvra lei.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIKO 59

governo comraum, o qual, nisto mesmo, só delibera por si ao


declarar guerra, ao tratar dos meios de sustental-a, e da
conclusão da paz. Em tudo o mais os dois reinos confede-
rados são absolutamente independentes.x
Na America do Norte, cada um dos Estados unidos livre-
mente legisla, de conformidade com seus costumes próprios.
As únicas restricções são as prohibitivas de que legislem sobre
bancarrotas, naturalisação, falsificações de moeda, pirataria
(art. 1.°. n. 4, 6 e 10, secção 8.a). Assim também na Suissa.2
As leis inglezas applicam-se á Inglaterra e paiz de Galles;
com algumas excepções na Irlanda. Na Escossia vigora a lei
feudal, na ilha de Man a legislação escandinava, nas ilhas
normaudas o Grande costumeiro deNormandia.3 As próprias
colônias do vasto Império britannico desfruetam, a maior
parte délias, de plena liberdade legislativa.4
E não admira isto, tratando-se de um povo liberal. Sob a
autocracia russa ha mais respeito ás inevitáveis e justas
divergências locaes em materia legislativa, do que na Repu-
blica federativa brazileira. « As leis têm vigor no Império, ou
de um modo uniforme e com toda sua força, ou com modifi-
cações em algumas de suas partes, conforme as localidades.
A extensão dessas modificações, os lugares a que são appli-
caveis, e o liame délias com as leis geraes, são determinados
por leis, ordenanças e oustavs particulares. » — Leis fun-
damentaes do Império russo, secção I.a, cap. VIII.5
E os brazileiros, do Riogrande ao Pará, vivem sujeitos á
uma lei commum uniforme... E não se percebe quanto é
tyrannico um semelhante regimen!
i Darcste, Les constitutions modernes, vol. 2.°, pag. 134. « Acto de união. »
s
Com restricções. Vide Daresle, vol. I, pag. 499.
3
Franqucville, Institutions de l'Angleterre, pag. 31i!.
1
Dareste, obra citada, pag. 605.
5
Segundo a lei que regula as relações entre os dois paizes da união
dinamarqueza-islandeza, cada um délies se reserva o direito de legislar livre-
mente dentro de seu território.
60 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Não menos extranha do que a anterior é a attribuição con-


stante do numero 3 do art. 35.°, o qual resa : « Crear insti-
tuições de ensino superior e secundário nos Estados. »
A Republica brazileira, no preâmbulo da Constituição,
declara que seu regimen interno é democrático. Em paiz
assim organisado, se o povo inteiro pensa uniformemente,
não ha prejuízo nenhum de que o governo se incumba, nunca
de regular, mas de subvencionar a instrucção secundaria ou
superior. Diante, porem, da discordância das doutrinas
aceitas, o governo tem de escolher uma para ser proíessada
nos estabelecimentos públicos. Ora, é licito á administração
declarar-se em favor de alguma, despresando outras,
seguidas por muitos cidadãos? E' licito constranger certa
parte da communidade a pagar impostos para estipendio de
doutrinas que repelle e que outra parte da nação préconisa?
— Admittil-o, fora decretar o mais iníquo despotismo.
O imposto, para ter caracter verdadeiramente republicano,
ha de ser justo, isto é, ha de reverter em beneficio directo ou
indireclo dos contribuintes. Que proveito retirará uma porção
destes, vendo-o applicado na diffusão de ensino que segundo
seu modo de sentir, é errôneo e inutil?
Pode-se dizer : com o tempo reconheceremos teve a vio-
lência a vantagem de fomentar o progresso das lettras. Mas,
onde o critério governativo para formular uma previsão
rasoavel de que esta ou aquella doutrina representa um
melhoramento ou a realidade scientifica, para que assim
imponhamos iguaes impostos a todos, com o fim de appli-
cal-os á divulgação da que for preferida?
Se ha debate de idéas, ou o governo, para não vexar, con-
serva-se neutro, ou, respeitando a igualdade que proclama,
protege a todas. Como isto, porém, é impossível, visto que
hoje, com a extraordinária divergência de opiniões, em cada
casa teria de crear um instituto scientifico, o melhor é
deixal-as em livre concorrência umas com as outras.

ètP - BIBLIOTECA
DIREITO CONSTITUCIQÎïAL BBAZILEIBO 61

Depois, um Congresso ou governo compõc-sc de indivíduos


preparados para resolver sobre estas cousas? Não, por certo.
— O assumpto presta-se a maiores explanações, que faremos
em outra parte. 1
Ainda que admittissemos competência no governo, para
regular o ensino secundário e superior, conviria investigar
se á União ou aos Estados devera ser commettida a funeção
respectiva. Basta reduzir o debate a estes termos, para ter-
minal-o immediatamentc, tendo em vista que nosso regimen
é o federativo : nenhuma federação moderna, a contar da
americana, attribue ao governo central poderes para isso ;
só o Brazil e a pseudo-confederação Argentina o toleram.
O que dissemos á pagina 56, a respeito das leis, applica-se
a este caso do ensino official : transferido aos Estados,
haveria larga experimentação de methodos e principios,
podendo-se assim desvendar mais facilmente quaes os oppor-
tunos e verdadeiros.
i Livro X.
LIVRO III

Base material da União

//
LIVRO III

Haverá maior disparate que a di\ 1-


sâo actual de rendas?
A. WERNECK,
Reforma do systema tributário,
pag. 18.

Definidas as bases políticas da federação, cumpre estudar


as de que depende sua existência material. Segundo o esta-
tuído na carta de 24 de fevereiro, as rendas federaes são as
marcadas nas disposições preliminares do titulo I :
« E' da competência exclusiva da União decretar : 1.°, im-
postos sobre a importação de procedência estrangeira ;
2.°, direitos de entrada, saída e estada de navios, sendo livre
o commercio de cabotagem ás mercadorias nacionaes, bem
como ás estrangeiras que já tenham pago imposto de impor-
tação; 3.°, taxas de sello, salvo a restricção 1 do art. 9.°,
§ 1.°; 4.° taxas dos correios e telegraphos federaes (art. 7.°,
ns. 1, 2, 3, 4). »
« E' da competência exclusiva dos Estados decretar im-
postos : 1.°, sobre a exportação de mercadorias da sua pro-
pria producção ; 2.°, sobre immoveis ruraes e urbanos ;
3.°, sobre transmissão de propriedade; 4.°, sobre industrias e
profissões (art. 9.°). »
« § 1.°, Também compete exclusivamente aos Estados
decretar : 1.°, taxas de sello quanto aos actos emanados de
1
Referencia ao sello dos actos emanados dos governos estatuaes c negócios
de sua economia, cujas taxas cabem aos Estados, como adiante se vê.
5

4*
"SPF^-"

f>6 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

seus respectivos governos e negócios de sua economia ;


2.°, contribuições concernentes a seus telegraphos e correios.
« § 2.°, E' isempta de impostos, no Estado por onde se
exportar, a producção dos outros Estados.
« § 3.°, Só é licito a um Estado tributar a importação de
mercadorias estrangeiras quando destinadas ao consumo em
seu território, revertendo, porém, o producto do imposto
para o thesouro federal (art. 9.°).
« E' prohibido aos Estados tributar bens e rendas federaes
ou serviços a cargo da União, e reciprocamente (art. 10.°). »
« E' vedado aos Estados, como á União : crear impostos
de transito pelo território de um Estado, ou na passagem de
um para outro, sobre produclos de outros Estados da Repu-
blica, ou estrangeiros, e bem assim sobre vehiculos, de terra
e água, que os transportarem (art. 11.°, n. 1). »
« Alem das fontes de receita discriminadas nos arts. 7.°
e 9.°, é licito á União, como aos Estados, cumulativamente
ou não, crear outras quaesquer, não contravindo o disposto
nos arts. 7.°, 9.° e li. 0 , n. 1 (art. 12.°). »
Esta discriminação de rendas é de certo tempo para cá
objecto de acerbas criticas da parte do grupo de politicos
sciente ou inscicntemente contrários ao federalismo. Pro-
clamam elles que sacrificou a União em favor dos Estados.
E' sem fundamento serio o que allegam, como o demons-
trara cabalmente o dr. Julio de Castilhos, em discurso pro-
ferido a 15 de dezembro de 1890, no seio da Constituinte.l
1
Assim declara pensar também o Presidente do Estado de S. Paulo, conse-
lheiro Rodrigues Alves, "" ex-ministro da fazenda. Diz s. exa em mensagem
de 1901 : « Tem-se attribuido a defeito de nosso systema tributário ou á
deficiente classificação de rendas adoptada pela Constituição da Republica a
maior somma de embaraços oceorridos para a solução daquella crise, a finan-
ceira, allegando-se que não foi a Uuião suficientemente dotada de recursos
para o custeio dos serviços federaes c satisfação dos encargos que oneram
o seu orçamento.
Em 1896, convindo que podia ter sido mais bem formulada a divisão das
rendas pelo Legislador constituinte, tive oceasião de alludir em documento
official — «à crença, habilmente explorada de que na partilha das rendas
DIREITO CONSTITUCIONAL BKAZILEIRO 67

« A União (dizia) nos termos de artigo 6.°, terá uma renda


ordinária calculada, no mínimo, em cerca de 139.000 contos
de réis.
Possuo a este respeito os dados mais positivos, extraidos
do orçamento do ultimo ministério da monarchia e dos rela-
tórios que os membros desse ministério tinham organisado.
Colligi esses dados, aos quaes accrescentei os dados e
informações que hão sido publicados no Diário official desde
15 de novembro. Fazendo os cálculos mais modestos, essas
rendas produzem cerca de 139.000 contos.
a feder ação ficara desprovida de recursos para occorrer ás suas despesas, »
— affirmando a improcedencia dessa apreciação.
A leitura reflectida dos orçamentos geraes convece-nos de que a Lei consti-
tucional não foi imprevidente e armou a administração de recursos suffi -
cientes para a satisfação de suas grandes responsabilidades. O ultimo orça-
mento do Império approvado pela lei n. 3396 de 24 de novembro de 1S88, orçou
a receita geral em 1-17.200:000$ e fixou a despeza para 1889 em rs.
153.148:4428297.
Para o exercício corrente, a receita foi orçada em 286.082:200$400, papel,
e 46.191:667$000, ouro, excluídos desta parcella os recursos provenientes da
emissão de funding loan, de accôrdo com o contractu de 15 de junho de
1808 ou a quantia cie 12.678:0745000.
A renda, como se vê, não tem sido escassa ou insufficiente. A grande fonte
de receita era então, como é actualmente, a que provêm dos direitos de impor-
tação, accresccndo que a renda interna tem-se desenvolvido largamente, e
nella estão os poderes federaes encontrando uma vasta area de tributação.
O que tem impressionado a alguus espíritos, em desfavor do regimen insti-
tuído pela Constituição, é o tumulto ou irregularidade observados na decre-
tação inter-estadual e a renda avolumada de exportação que tem feito crescer
a receita de alguns Estados onde a producção tem tido enorme desenvolvi-
mento.
Verifica-se, entretanto, por um estudo reflectido e consciencioso, que os
impostos attribuidos aos Estados ou já pertenciam ás antigas províncias, ou,
no consenso geral, deviam lhes ser transferidos e assim opinou a commissão
incumbida em 1883 de indicar uma melhor classificação de rendas em con-
seqüência dos movimentos que agitaram varias circumscripções do paiz nessa
época, por causa mesmo da questão dos impostos.
O que cumpre é respeitar a area assignada á União e aos Estados pelo
Legislador constituinte.
Quanto aos direitos de exportação não podem absolutamente servir de
base ás» finanças da União, e embora de caracter provisório e a tendência
para substituil-os, é na sua renda que os Estados encontram a quasi totali-
dade dos recursos de que vivem.
O mal não está na deficiência ou escassez da renda, qus não tem falta
está, sim, na desvalorisação da moeda. •»

fc
68 DIKEITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Ora, o orçamento das despezas geraes, no tempo do


Império, montava ao algarismo de 151,000 contos; mas, como
comprehendem todos os meus collegas, dessas despezas
muitas passam para os Estados, porque correspondem a ser-
viços que lhes devem ser devolvidos ; por isso, dei-me ao
trabalho também de colligir dados positivos a esse respeito,
e cheguei á conclusão de que são deduzidas do orçamento
geral a que alludo, despezas na importância de cerca de
22,000 contos. Ha, portanto, entre a renda minima dos
impostos do artigo 6.° e as despezas geraes da União,
deduzidas as verbas relativas a serviços devolvidos aos
Estados, um saldo liquido de cerca de 9.000 contos. l >>
E', todavia, innegavel que as rendas têm sido insufficientes,
apesar do vasto campo de tributação facultado ao Centro no
artigo 12.° e com que não contou em'seu computo o illustre
representante riograndense. Mas, devemos imputar a penúria
aos poucos recursos distribuidos á Federação, como inculcam
alguns, ou á gerencia até ha pouco mais que perdulária da
fazenda federal?
Quer-se agora á fina força obter mudança do systema
vigente, dizendo que o governo superior do Brazil precisa
de mais largos meios, poisque foram excessivamente favore-
cidos os Estados. Tanto valeria amanhã sacrificar a União,
quando se ache alliviada, a pretexto de que os Estados
caminham na maior parte (como já se antevê), para uma
ruina certa...
Cumpre resistir a esta fatalissima tendência dos espíritos.
Não confie ninguém nos financeiros que andam a dar voga á
perigosa doutrina. Os factos têm demonstrado que os pro-
cessos scientificos que conhecem, para endireitar a fazenda
publica, assemelham-se aos preferidos pelos ministros do
1
Para as despezas extraordinárias ou em caso de insufficiencia da renda
designada, o dr. Julio de Castilhos propunha a cobrança de uma quota pro-
porcional, sobre a renda dos Estados. — Annaes, vol, I, pag. 182. Vide
Story, Commentarios, § 935.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILE1RO 69

Rei Róruca e que um délies assim resumia : « Um paiz é


como um grão de sésamo, que nunca fornece óleo a não ser
que o prensem, que o cortem, que o queimem ou que o tri-
turem. 1 »
Não lhes bastando haverem exhaurido o grando sésamo
que destinou ao poder central a Lei das leis, premeditam
abocanhar aquelle que coube aos Estados, quando, nas con-
dições actuaes da publica economia, mal chega para estes,
como assaz o patenteia a completa pobreza de quasi todos.
A classificação de rendas que tantos debates provocou em
nossa primeira assembléa republicana, é irracional e ruinosa.
Irracional, porque (art. 12.°) faculta o estabelecimento de
taxas da União e dos Estados, incidindo sobre uma mesma
base, o que é desde muito condemnado ; ruinosa, pelas rasões
já expostas á pag. 44. A economia de Estados praticando
industrias tão dessemelhantes, como são os do Brazil, vê-se
de continuo ameaçada do mais completo derrocamento, em
um regimen como o que adoptamos.
E se não, considere-se nossa actualidade.
As tarifas protectoras fomentaram muita industria nova
em todo o paiz.Em compensação, as rendas federaes de-
crescem consideravelmente. Opina-se que isto é devido ás
exageradas taxas aduaneiras, e como remédio aconselham
os doutores na materia, que se moderem essas contribuições,
indo alguns ao extremo de affirmar que demos passo em
falso, que não temos industrias que mereçam protecção.
Se esta ultima doutrina é aceita amanhã pelo Congresso
federal, imagina-se com facilidade que vae succéder na
maioria dos Estados : o profundo abalo que não soffrerá sua
economia e qual a ruina de uma incalculável somma de inte-
resses, resultante da rebaixa na tarifa...
Fabricas que abastecem consideráveis mercados, culturas
i E. Burnouff, Introduction à l'histoire du bouddhisme indien, vol. III,
da Bibliothèque orientale, pag. 129.
70 DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO

promissoras de vasto consumo interior, industrias extra-


ctivas de largo vôo, — ver-se-ão assim paralysadas ou total-
mente perdidas!
E' verdade que temos na propria Lei fundamental expe-
dientes para evitar o desastre. Os Estados, com a faculdade
do art. 9.°, § 3.°, podem aparar o golpe assim vibrado á sua
industria. Mas, isso não basta. A do xarque, por exemplo,
vive do mercado brazileiro : se a tarifa geral baixa muito
ou supprime as taxas de importação desse producto, que
providencia fica ao Riogrande para impedir que o tassalho
argentino, cujo transporte e seguro são mais baratos e que
não sae gravado de impostos de exportação, lhe usurpe os
mercados do norte? — Nenhuma. Tem de cruzar os braços,
impotente!
Dir-se-á que a União jamais prejudicaria, sem necessi-
dade, uma zona da Republica, por beneficiar a uma nação
estrangeira. De certo, mas... e quando isto se lhe antolhar
de urgência, em vista da carestia de uma praça, como o
Rio-de-janeiro, por exemplo, ou quando lhe for imposto, por
quatro ou seis representações locaes, colligadas no seio do
Congresso?
Comprehende-se a unidade de tarifa aduaneira em um
paiz de industrias uniformes geralmente por todo elle ; mas,
no Brazil, em que são mui diversas, nunca o administrador
protegerá as de uma zona, que não prejudique as de outra.
Se estivéssemos na situação da Europa, ainda estas alter-
nativas de protecção ou abandono das industrias, seriam
de conseqüências menos funestas. Não é assim, porém. Nossa
actividade começa : a industria é débil, incipiente, e, por-
tanto, o menor abalo pode arruinal-a.
Se aos Estados coubesse perceber os impostos alfandegá-
rios, como em a Austria-Hongria, Allemanha, Suecia-
Noruega, cada um délies cuidaria de amparar suas industrias
respectivas, — bastando para mantar-se uma solida fraterni-
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 71

dade industrial entre as diversas circumscripções do Brazil,


se estabelecesse na Lei orgânica da federação que a pro-
ducção de um Estado seria sempre mais favorecida do que
a de extranha nacionalidade.

Passando aos Estados os impostos de aduana e não


devendo a União ter outra competência neste ponto senão a
definida no livro II, observamos que fica reduzida ás taxas
de entrada, saída e estada de navios, ao insufficiente imposto
do sello em negócios de caracter federal, e a outros que
venha a crear, insuíficientes também pelo facto de poderem
ser ao mesmo tempo explorados pelos governos locaes^
Como hão de manter-se os pesados onus da divida publica
e os encargos decorrentes da governação geral?
Antes de responder a esta pergunta, cuidemos de ver o que
estabeleceram a este respeito os paizes hoje sob o regimen
federativo.
Os systemas existentes reduzem-se a quatro, e são :
— O systema austro-hungaro, em que o governo supe-
rior da Confederação vota o orçamento geral, cabendo aos
Estados entrar cada um com seu quinhão respectivo para
attender-se ás despezas geraes communs : « As despezas
relativas aos negócios communs devem ser distribuídas entre
as duas partes da monarchia, segundo uma proporção que
será fixada, sob a approvação do Imperador, por um accordo
renovado a intervallos certos entre os corpos representativos
de cada uma délias
As vias e meios para o pagamento da quota-parte a cargo
de cada uma das duas partes do Império, são da competência
exclusiva de cada uma délias (lei cisleithanea, art. 3.°). »
— 0 systema sueco-noruego e hollandez-luxemburguez,
em que os Estados unidos votam de per si os orçamentos
particulares, nelles marcando a quota-parte com que coo-
peram para o mantenimento do governo commum.
72 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

— 0 systema do Império colonial britannico, em que as


colônias comprehendidas percebem suas rendas sem nada
contribuir para o governo supremo, o laço de união consis-
tindo na defeza commum e nomeação, pela Inglaterra, do
governador da colônia.1
— O systema allemão, segundo o qual o governo do
Império vota recursos para sustentar os serviços do orça-
mento geral, tendo privilegio de lançar taxas sobre impor-
tação e outras, mas cuja percepção é confiada aos Estados
federados : « O Imperador vela sobre a repressão das fraudes
por meio de funccionarios do Império, que elle juncta, de
accordo com a « Commissão das alfândegas e impostos » do
Conselho-federal, ao pessoal e á direcção das aduanas e
impostos de cada Estado (Constituição, art. 36.°). »
— O systema norte-americano, argentino e mexicano, aná-
logo ao allemão, com a differença de que as rendas federaes
são percebidas por funccionarios federaes. — A este systema
é igual o do Brazil : quer dizer que imitamos o mais atrazado
e centralista.

Julgando do mérito ou desvantagem de cada um desses


systemas, verificamos, pelas rasões expostas no livro ante-
rior, que os dois últimos são inapplicaveis ás condições
peculiares ao Brazil. 0 segundo só é adaptável a um paiz
monarchico, onde o amor e confiança a uma dynastia
bastem para manter a solidariedade nacional. O terceiro é
antes um pacto de alliança que uma federação. O primeiro
systema merece mais detido exame ; nós o reputamos o mais
apropriado ás circumstancias especiaes da Republica, apesar
dos muitos defeitos que lhe attribuem.
1
Cumpre notar que alem destas franquias em relação ao fisco ingle/.,
gosa^n os canadenses de outra : cada província do Dominion tem alfândegas
proprins, como se vê do art. 122.° do « Acto de união, * de 29 de março
de 1867. •
DIKEITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIEO 73

0 principal délies é que créa uma situação precária para o


governo federal, que, dizem, fica á mercê da boa ou má von-
tade dos Estados, podendo estes negar as contribuições com
que aquelle se mantém. Cita-se como exemplo o que suc-
cedeu com a primitiva Confederação norte-americana. Mas,
e o caso contrario da Austria-IIungria não é muito mais fri-
sante em favor de nosso systema? Não estão ali unidos dois
povos que chegaram a odiar-se?
Temos visto citar muitas vezes o episódio norte-americano,
sempre com o fito de provar a necessidade de fortalecer o
poder central e crear-lhe existência econômica independente
dos Estados, allegando-se que o esquecimento desta ultima
condição é que perdeu a Confederação de 1778. — As causas
deste aborto foram múltiplas.
Em primeiro lugar, cumpre que apontemos a defeituosa
instituição do governo central, que foi confiado a um Con
gresso. Ora, onde a auctoridade deixa de ser unipessoal,
ella é precária, fraca, indecisa.
Damna e impece
De muitos o primado : um só governe!x
« Depois, cada Estado podendo revocar livremente seus
delegados em qualquer tempo, devia resultar muitas vezes
a impossibilidade de reunir a maioria de nove votos exigida
para o caso de resoluções importantes, sem falar das fre-
qüentes ausências involuntárias desses delegados. Emfim, o
pacto federal só admittindo como valido o voto de um Estado,
com a condição de ser emittido por dois ao menos de seus
representantes, essas diversas circumstancias tofnavam a
acção do Congresso mais difficil do que antes, porque, até
1
Homero, Iliada, traducção Odorico Mendes.
O nosso Pereira e Sousa dizia : « ... Hum Reino dividido se destroc, e
só se conserva, e sustenta com concórdia, e união, e estas poucas vez* se
acham no governo de muitos, porque nem o Reino, nem o ^nor soffre
companhia. » — Diecionario jurídico, vide lei.
74 DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO

ahi, as deliberações eram tomadas, quaesquer que fossem,


por simples maioria.1 »
Prova que o facto dos Estados perceberem os impostos e
remetterem por si a sua quota-parte ao erário federal não é
que tornou insustentável a Confederação instituída pelos
« Artigos de 1778, » o exemplo apontado da Austria-IIungria,
e o da propria Allemanha : se lá lhes fosse licito negarem
contribuições, o mesmo se daria nestes paizes. Ora, no entre-
tanto, em ambos o governo central não dispõe de meios espe-
ciaes de coerção para submetter os récalcitrantes, pois que
o exercito se compõe de fracções pertencentes aos vários
Estados confederados.
A verdade é esta : a Confederação de 1778 naufragou prin-
cipalmente porque a compunham populações até ahi inde-
pendentes umas das outras, ciosas de amada autonomia que
muito haviam disputado á Inglaterra, e que conquistaram
sem sacrifício a esse novo poder soberano sobre todas. Com-
prehende-se que repugnância deveria inspirar áquellas repu-
blicas a idéa de reinstituir-se o governo em parte succedaneo
das odiadas attribuições até ahi commetidas á monarchia
ingleza, cujo domínio acabavam de combater com as armas
na mão...
A crise conseqüente á guerra da independência, que trouxe
um geral enfraquecimento dos Estados, é que deu victoria ao
grupo que pregava a necessidade de centralisação e alvi-
trara ser esse o meio de salvar o paiz. Como succède ao
enfermo sem esperanças, que aceita as indicações mais con-
tradictorias e violentas, ancioso de obter a perdida saúde,
assim os americanos submetteram-se aos conselhos de
Hamilton e Madison, apesar de sentirem quasi invencivel
aversão por sua therapeutica política.
4
Cíirliei', Republique américaine, vol. I, pag. 530. Vide em Paschal,
Digesto de direito federal, vol. I da trad, argentina, pag. 11, os « Artigos
de confederação. »
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 75

Deslindado este ponto e verificado que para a estabilidade


de um governo federal não é indispensável se incumba
elle de perceber por si os recursos necessários a seu orça-
mento particular; verificado também que a unidade adua-
neira é incompatível com o progresso das varias porções de
um grande paiz federado, — resta-nos indicar o regimem, con-
veniente ao caso, o qual não pode ser outro senão o austro-
hungaro.x Para tranquillisar os espíritos timoratos, receiosos
ainda, apesar do que antes se explanou, ha um meio de
conciliar as cousas, combinando praticas do systema
allemão, mais semelhante ao vigente entre nós, com o sy-
stema de autonomia aduaneira, do Império dos Hapsburgos.
Como na Austria-Hungria, convirá aqui estabelecer seja
votado o orçamento, mediante proposta do governo, por
delegados ou procuradores dos Estados, marcando-se de dez
em dez annos, por exemplo, a quota correspondente a cada
um délies.2 Os Estados encarregar-se-iam de determinar e
perceber os recursos necessários para cobrir o quantum que
a cada um coubesse nas responsabilidades communs, ainda
ad instar do que se faz naquelles reinos. Semelhantemente,
porém, ao que é de lei na Allemanha, o governo central
nomearia funecionarios incumbidos de fiscalisarem as arre-
cadações, podendo caber a cada um délies a direcção da rece-
bedoria central de cada Estado, até que fosse paga a quota-
parte devida.
Alem dessa, outra garantia se pode dar á União : consa-
gre-se em lei que sempre que o governo central represente
1
Em junho de 1835, o deputado Cornelio Ferreira França propoz para o
Império o systema que suggerimos, das quotas proporcionaes. — Datas e
fados relativos á historia política e financeira do Brazil, pag. 43.
1
A Austria entra com 68,6 0/0 de contribuições e a Hungria com 31,4 0/0.
A Confederação americana de 1778 adoptou como base da contribuição de
cada Estado o valor das terras cadastradas e das edificações nellas exis-
tentes. Nós poderíamos adoptar como base a população, ou, melhor, a
media das rendas nos dez annos anteriores á época em que se fixe o quantum
de cada Estado.
76 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

contra um funccionario do fisco, elle terá que ser suspenso,


immediatamente sujeito a processo e demittido, verificando-se
sua culpabilidade.
Desta sorte, o governo federal ficava seguro de não ser
privado de rendas ou fraudado, e os governos locaes livres
de qualquer ataque á vida econômica das circumscripções
que regessem.

Prende-se a esta questão uma outra de grande importância.


Decretado o regimen acima discutido, como regular o pro-
cesso para approvação de empréstimos necessários á vida
financeira da União? — Para aquelles que fossem precisos
como adiantamento de rendas, bastaria no orçamento geral
tivesse o governo auctorisação para isso, como hoje se
usa. Quanto aos outros, fora conveniente ainda imitar o que
se faz na Austria-Hungria, onde « tudo que concerne á con-
clusão do empréstimo, assim como o modo de empregal-o e
reembolsal-o, deve ser tratado em commum. Todavia, a
decisão sobre a questão mesma de saber-se se é opportuno
recorrer a um empréstimo commum, fica reservada á Legis-
latura de cada uma das partes do Império (lei cisleithanea,
art .3.°). »

A boa marcha administrativa de um paiz depende por tal


forma do modo por que são elaborados os orçamentos gover-
nativos, que julgamos da mais alta relevância discutir uma
reforma cuja opportunidade não escapa aos espíritos menos
previdentes. Referimo-nos ao delicado ponto do voto dos
orçamentos.
Deve ser annual, ou votado para um praso mais longo?1
0 suspeitoso instincto democrático das classes populares,
reagindo contra o estabelecido sob a velha monarchia,
regimen em que as Cortes votavam os impostos quasi sempre
i Vide no appendice a nota E.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 77

para todo o decurso de um reinado, entenderam ser mais


seguro sujeitar o governo a pedir todos os annos os recursos
de que precisasse. Salta aos olhos, porém, o inconveniente
e absurdo do novo systema. Obrigado o governo a gastar o
estrictamente calculado para cada anno, quantas vezes é
constrangido a parar uma obra urgente ou cuja paralysação
acarreta deterioramentos, só pelo facto de se lhe haver esgo-
tado a verba orçamentaria correspondente. Uma construcção
hydraulica sobre o mar grosso, por exemplo, suspensa por
esse motivo, que prejuiso talvez colossal não traz ao erário!
E do mesmo modo um edifício considerável, cuja erecção
se detém depois de certo ponto; o leito de uma grande via-
ferrea, etc,
No campo administrativo, pode-se sustentar, como axioma,
que sempre será muito imperfeito o governo que dependa de
orçamentos annuaes.
O inditoso quão illustre Balmaceda, cuja carreira política
eternamente attestará seu vasto patriotismo e alta capaci-
dade de estadista, — bem compi ehendeu este defeito de que
tanto soffrem as administrações modernas, e nos últimos
dias de sua preciosa existência propunha a divisão dos orça-
mentos em orçamento permanente e orçamento variável, x o
primeiro contemplando todas as despezas certas ou iramu-
taveis e o outro as que podessem ou devessem ser votadas
todos os annos, assim como as verbas para despezas extraor-
dinárias. Sentindo, ainda que vagamente, os males que
decorrem de tal regimen, o ex-chefe da nação aponta em
mensagem ao Congresso a necessidade de uma reforma,
dizendo : « Ainda não estão concluidos os exames e estudos
auetorisados pelo decreto n. 378 de 8 de agosto de 1896, para
escolha do local apropriado á installação do arsenal de
marinha, que tem de ser transferido desta capital.
A vigência dos créditos especiaes e extraordinários pelo
1
Alberto de La Cruz, Balmaceda, pag. -12.

[ |
78 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

limitado praso fixado na lei n. 2348 de 25 de agosto de 1873,


reputada ainda em vigor, quando os respectivos serviços
exigem prasos maiores para que possam ser executados, cria
embaraços de não pequena monta á publica administração.
Occorre-me suggerir o alvitre de estabelecer-se, em dispo-
sição especial, que taes créditos perdurarão até a conclusão
dos serviços a que forem destinados.1 »
Eleito para a legislatura de 1900-1903, poude o auctor,
logo depois da primeira edição deste livro, submetter ao
juizo da Câmara suas idéas a respeito de materia orçamen-
taria, e o fez nos projectos aqui reproduzidos, com os funda-
mentos que explanou ao justifical-os.
Copiamos do Diário do Congresso, de 1.° de setembro •
« O sr. Alfredo Varela — Sr. presidente, pedi a palavra-
para apresentar os seguintes projectos :

PROJECTO DE LEI — V

O Congresso nacional decreta :


Art. 1.° Compete privativamente ao Congresso nacional
orçar a receita, fixar a despeza federal annualmente e tomar
as contas da receita e despeza de cada exercício (Consti-
tuição, art. 34.°, § t.°).
Art. 2.° A receita será orçada para um período de três
annos, durante o qual nenhuma proposta para sua modifi-
cação poderá ser aceita, se a iniciativa não for provocada
em mensagem do ramo executivo do poder publico.
Paragrapho único. As tarifas aduaneiras serão votadas
para um período de seis annos. e dentro delle modificadas
unicamente nas condições deste artigo.
1
Mensagem do sr. dr. Prudente de Moraes, de 3 de maio de 1897.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 79

Art. 3.° As despezas publicas serão discriminadas em três


leis : a do orçamento das despezas permanentes, a do orça-
mento das despezas variáveis, a do orçamento das des-
pezas extraordinárias.
§ 1.° O orçamento das despezas permanentes comprehen-
derá as verbas que por sua natureza tenham esse caracter.
Uma lei especial dirá quaes essas despezas.
§ 2.° O orçamento das despezas variáveis comprehenderá
as que se não registrem na categoria do paragrapho anterior.
§ 3.° O orçamento das despezas extraordinárias, aquellas
que hajam sido auctorisadas por créditos especiaes e extraor-
dinários, para attender a serviços cuja execução exige praso
maior de um exercício; estes créditos vigorarão até a con-
clusão dos mesmos serviços.
Art. 4.° Nenhuma disposição alheia ás simples dotações
dos différentes serviços, ou aos impostos, poderá ser incluida
nas leis orçamentarias.
Art. 5.° Nenhuma disposição auctorisando o governo a
arrendar ou alienar bens do Estado, ou a contrair empré-
stimos, será incluida nas mesmas leis, sem a clausula da
posterior approvação do Congresso, a não ser que o acto
legislativo especifique as condições dentro das quaes poderá
fazer-se a operação, ou declare que se realisará mediante
concorrência publica.
Art. 6.° Se o Congresso dissolver-se ou chegar ao fim do
praso da prorogação, sem ter votado os orçamentos, enten-
der-se-á que adoptou os do anno antecedente, se forem
os da despeza, e o do triennio anterior, si fôr o da receita,
vigorando um e outro até que se votem novos.
Art. 7.° Quando a despeza não tenha sido prevista nas leis
de orçamento ou quando a verba não for sufficientemente
dotada, o governo solicitará do Congresso, se estiver a esse

!
80 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

tempo reunido, na primeira hypothèse, um credito extraor-


dinário, e na segunda, um credito supplementar.
§ t.° Os créditos extraordinários abertos pelo governo na
ausência do Corpo legislativo, devem subordinar-se aos
seguintes preceitos :
I. Serem as despezas inadiáveis.
II. Ser o decreto referendado pelo ministro, a cuja repar
tição pertence o serviço.
III. Haver assentimento do ministro da fazenda.
IV. Dar-se conta ao Congresso na primeira reunião.
§ 2.° Os créditos supplementares nas condições do para-
graphe antecedente, devem obedecer aos mesmos preceitos
e mais aos seguintes :
I. Ser a despeza urgente e estar o serviço incluído nas
tabellas que acompanham as leis orçamentarias. Serão con-
siderados motivos de urgência as calamidades publicas,
guerras, faltas de pagamentos cujo atraso importe em desaire
á nação.
II. Terem-se passado os nove primeiros mezes do exercício.
III. Não excederem de dous mil contos de réis em cada
exercício os créditos desta natureza, podendo em caso de
guerra subir aquella quantia a cinco mil contos.
Art. 8.° Não é permittido ao governo imputar a qualquer
rubrica dos orçamentos, despeza que nella não esteja com-
prehendida, segundo as tabellas explicativas da proposta e
as alterações nellas feitas pelo Corpo legislativo.
Art. 9.° 0 credito concedido para certo serviço não poderá
ser augmentado com a receita que delle provenha.
Art. 10.° A tomada de contas far-se-á dentro dos três pri-
meiros mezes de cada sessão legislativa. Para esse fim, será
apresentado ao Congresso, pelo ministro da fazenda, o ba-
lanço definitivo, comprehendendo as operações realisadas
DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO 81

nos doze mezes do exercício. 0 balanço conterá os seguintes


dados :
I. Na parte relativa á receita, a espécie de imposto ou
renda, a lei que a mandou cobrar, a importância arrecadada,
a que deixou de o ser, a discriminação da cobrança por
Estados e repartições.
II. No que diz respeito á despeza, o objecto delia, a lei que
a auctorisou, a quantia paga, a quem e por quem; o resto
a pagar, a discriminação dos créditos ordinários, especiaes,
extraordinários e supplementares ; os excessos de credito
ou de despeza em cada verba.
III.Os quadros demonstrativos da divida publica, activa e
passiva.
Art. 11.° Este balanço será apresentado com uma proposta
para a approvação das contas do exercício, fixando deliniti-
vamente, tanto a receita e despeza a elles pertencentes, como
aos anteriores. Na proposta justíficar-se-ão todos os excessos
de despeza e os motivos de não haverem sido realisados os
serviços convenientemente auctorisados.
Art. 12.° Approvando as contas, o Corpo legislativo delibe-
rará sobre os créditos complementares para as verbas exce-
didas, a que se refere o art. 7.°.
Art. 13.° 0 Congresso poderá, a todo tempo, instituir com-
missões de exame de qualquer das repartições publicas, para
obter esclarecimentos indispensáveis ao desempenho de sua
missão, consultando os documentos comprobatorios das
varias despezas.
Art. 14.° As contas administrativas são as que prestam os
funccionarios, de qualquer ministério, responsáveis pela
arrecadação, guarda e dispendio de dinheiros ou outros
valores pertencentes ao Estado.
6
82 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Art. 15.° Revogam-se as disposições em contrario. Alfredo


Varela, Marcai Escobar, Barbosa Lima. Sala das sessões,
31 de agosto de 1900.

PROJECTO DE LEI — B

O Congresso nacional resolve :


Art. i.° O orçamento das despezas permanentes com-
prehenderá as seguintes verbas :
a) Subsidio do Presidente e Vice-presidente da Republica ;
b) Despeza com o palácio presidencial ;
c) Subsidio a senadores e deputados ;
d) Honorários dos magistrados federaes ;
e) Vencimentos dos ministros e secretários de Estado ;
/) Idem dos membros do Tribunal de contas ;
g) Serviço da divida publica ;
li) Garantia de juros a estradas de ferro ;
i) Subvenção á companhias de navegação a vapor ;
/) Magistrados em disponibilidade ;
k) Pensionistas, aposentados e reformados.
Art. 2.° Revogam-se as disposições em contrario.
Sala das sessões, 31 de agosto de 1900. — Alfredo Varela,
Marcai Escobar, Barbosa Lima.

PROJECTO DE LEI — C

O Congresso nacional resolve :


Art. l.° O Congresso reunir-se-á a 1.° de junho de cada
anno.
Art. 2.° Revogam-se as disposições em contrario.
Sala das sessões, 31 de agosto de 1900. — Alfredo Varela,
Marcai Escobar, Barbosa Lima.


DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 83

PROJECTO DE LEI — D

0 Congresso nacional resolve :


Art. 1.° E' auctorisado o governo a distribuir a cada um
dos delegados fiscaes do Thesouro a quantia de um conto de
réis, a titulo de gratificação, pelo trabalho extraordinário de
seus relatórios anuaes.
Art. 2.° Não terão direito á dita gratificação os delegados
que até o fim do mez de junho, não houverem feito remessa
ao Thesouro dos relatórios a que se refere o artigo anterior,
e se estes não comprehenderem os dados completos do movi-
mento das delegacias.
Art. 3.° Revogam-se as disposições em contrario.
Sala das sessões, 31 de agosto de 1900. — Alfredo Varela,
Marcai Escobar, Barbosa Lima.

PROJECTO DE LEI — E

U Congresso nacional resolve :


Art. 1.° Os representantes eleitos para a commíssão de
tomada de contas, que dentro do praso do art. 10.° da lei A,
recebidos pela mesma os documentos necessários, não hou-
verem apresentado á casa do Congresso respectiva, o parecer
sobre as contas do anno financeiro anterior, incorrerão na
pena de serem declarados inhabeis para o alistamento elei-
toral, pelo tempo de sete annos.
Art. 2.° Se dentro dos dous primeiros mezes de cada sessão
legislativa, não fôr apresentado ao Congresso o balanço da
receita e despeza do anno antecedente, incorrerá o ministro
de Estado dos negócios da fazenda na pena da perda do cargo
e inhabilitação para qualquer outro emprego ou funcção
publica, durante um anno.
81 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Paragrapho único. Incorrerão os ministros de Estado na


mesma pena, se no praso a que se refere o art. 1.°, não hou-
verem feito ao Congresso a distribuição dos relatórios de suas
respectivas pastas.
Art. 3.° Se no mesmo praso, o presidente do Tribunal de
contas não tiver apresentado ao Congresso o relatório annual
sobre as contas da receita e despeza, incorrerá na pena de
perda da categoria de presidente do Tribunal, para ella não
podendo ser outra vez designado dentro em dous annos, e
multa correspondente a um terço dos vencimentos.
Art. 4.° As responsabilidades enumeradas na presente lei
não excluem outras definidas na legislação anterior.
Art. 5.° Revogam-se as disposições em contrario.
Sala das sessões, 31 de agosto de 1900. — Alfredo Varela,
Marcai Escobar, Barbosa Lima.

PROJECTO DE LEI — F

O Congresso nacional resolve :


Art. 1.° A commissão incumbida das funcções de que resa
o art. 5.° da lei n. 27 de 7 de janeiro de 1892, será a com-
missão de guarda da Constituição e das leis.
Art. 2.° Os membros da dita commissão que em tempo não
houverem denunciado qualquer infracção da Constituição e
das leis, serão, ipso facto, declarados inhabeis para o alista-
mento eleitoral por sete annos.
Art. 3.° Constituirá prova para os effeitos do artigo ante-
rior, o recibo exhibido por qualquer cidadão, de officio
entregue á Commissão, apontando a violação, e por esta não
sujeito ao juizo do Congresso.
Art. 4.° Revogam-se as disposições em contrario.
Sala das sessões, 31 de agosto de 1900. — Alfredo Varela,
Marcai Escobar, Barbosa Lima.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 85

PROJECTO DE LEI — G

0 Congresso nacional resolve :


Art. 1.° Para a effectiva investidura dos cargos ou funcções
adiante mencionadas, é obrigatória e indispensável a previa
declaração de bens que possuam os eleitos ou nomeados para
elles. As funcções são estas :
I. De Presidente ou Vice-presidente da Republica.
II. De ministros de Estado.
III. De ministros do Supremo tribunal e juizes seccionaes.
IV. De representantes ao Congresso nacional.
V. De membros do Tribunal de contas e directores de
secretarias de Estado.
VI. De empregados do fisco.
Paragrapho único. Aos ministros de Estado é facultado
assumirem o exercício do cargo antes de realisada a decla-
ração de bens, fazendo-a dentro de uma semana.
Art. 2.° Entregue o inventario ao Tribunal de contas, fará
o respectivo presidente publicar as declarações do mesmo,
mandando archivar o original.
Art. 3.° Caberá ao cidadão que houver contribuído para o
conhecimento dos delictos capitulados nos arts. 214.°, 215.°,
216.°, 219.°, 221.° e 222.° do Código penal, a metade da
importância das respectivas multas.
Art. 4.° Revogam-se as disposições em contrario.
Sala das sessões, 31 de agosto de 1900. — Alfredo Varela,
Marcai Escobar, Barbosa Lima.
« Indicamos que se façam no Regimento as seguintes modi-
ficações, de accordo com o disposto nos projectos de lei A e F,
ora apresentados á Casa :
— Accrescente-se ao art. 124.°

c<
86 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIEO

I. As emendas aos orçamentos da despeza, salvo o caso do


n. 3, serão aceitas somente quando propuzerem diminuição
das verbas consignadas para as différentes despezas.
II. Se o Governo em mensagem motivada, declarar-se con-
trario, a diminuição nunca será tal que reduza a dotação a
menos de dous terços da media dos dez últimos exercícios.
Se for despeza que não tenha variado, a reducçâo nunca se
fará de fôrma que impossibilite a continuação do serviço, isto
é, não poderá ir alem de um quarto da verba.
III. As emendas creando, augmentando ou supprimindo
despezas, só serão aceitas se forem apresentadas na confor-
midade das condições impostas no art. 127.°, e em pro-
jectos especiaes, declarando estes se são realisaveis com os
recursos ordinários do orçamento, ou com fundos especiaes
ou levantados por meio de operações de credito. As emendas
quaesquer ao orçamento da despeza permanente só assim
serão admittidas.
IV. As emendas ao orçamento da receita, na parte relativa
ás tarifas aduaneiras, serão submettidas á terceira discussão
no minimo, 60 dias depois de sua apresentação e publicação.
No art. 127.°, diga-se — em vez de terça parte dos mem-
bros presentes : — terça parte dos membros da Câmara, e
accrescente-se, depois de votadas, supprimindo-se o mais :
— pelas duas terças partes dos mesmos.
Accrescente-se ao mesmo artigo, no fim : — A terceira
discussão não poderá encerrar-se antes da votação do
parecer relativo ás contas da receita e despeza do exercício
anterior.
Acrescente-se ao art. 36.°, no fim :
Guarda da Constituição e das leis.
Sala das sessões, 31 de agosto de 1900. — Alfredo Varela,
Marcai Escobar, Barbosa Lima.
DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIEO 87

Eis os fundamentos da complexa reforma ideada :


« A verdadeira legislação dos povos é a legislação do
imposto, proclamou um dia, no alvorecer do século, a
brilhante intelligencia de Mirabeau. E na verdade, sua pri-
mazia fica logo manifesta, desde que consideremos ser a
outra supprivel pelos costumes. O imposto, não : ha de ter
boa instituição e regulamento. De outra sorte, o Estado é
profundamente opprimido, jazem na miséria os particulares.
Dae a um povo devorado de agitações políticas as liber-
dades indispensáveis ao progresso de sua actividade, uma
equitativa distribuição de impostos e um fiel emprego a elles,
e a questão das fôrmas de governo, que antes mais o apaixo-
nava, passa para o segundo plano, — entra a ser objecto não
mais de sua preoccupação ordinária e sim apenas o sereno
ideal da vida publica : a meta dos aperfeiçoamentos do appa-
relho politico, pensadamente, calmamente, paulatinamente
realisavéis.
Vede nosso adeantado systema constitucional. Julgais que
é um todo composto de peças inseparáveis? Que nada ahi
se possa retirar, sem que pereça a Republica? Engano! Man-
tende aquellas que firmam as garantias individuaes, ajustae
as que regulam o estabelecimento e applicação dos impostos,
e tudo o mais pode desapparecer, sem nenhum perigo social;
substituí o Presidente por um dictador ou por um chefe cie
Estado, que outro nome tenha, comtanto que o poder que lhe
confiem esteja na altura de sua missão, — e a machina nem
por isso quebra a unidade : em certos casos, ganhava até,
por certo, mais perfeita eurhythmia.
Se a preciosa liberdade é columna fundamental do Estado
republicano, a outra columna em que assenta é a da boa
legislação do imposto, e mais nesta do que naquella.
Já existiu a Republica sem a liberdade completa, mas com
o fiel emprego do que é de todos ao bem de todos : nunca
existirá onde, poderosa a liberdade, o suor do povo fique á
88 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

mercê dos governantes. Observação é esta de grande monta,


que nos leva a formular o seguinte postulado politico, da
mais alta relevância : não ha tyrannia possivel onde os
dinheiros do Estado estejam a salvo do arbítrio.
Dictadura! eis um vocábulo que a muitos aterra, sem com-
prehender-se que pode ser elle a denominação de um poder
imbelJe que nada tenha que assuste...
Que será ella, si o poder que assim se qualifica, não
houver o erário á sua discrição?
— Dictadura funestissima é a que vemos praticada mais
commummente do que pensam os que tão somente se con-
tentam com as palavras, e deixam de parte a essência das
cousas!
Apegam-se os homens ás rodas do engenho institucional,
como se ellas tivessem em si força immanente, despreoccu-
pados da que lhes serve de motor ; quando na justa regula-
risação desta (da que nos occupa), jaz a garantia do bom
funccionamento do apparelho. « Se, como disse o orador
que citamos, só a Constituição pode dar ordem ás finanças,
só as finanças podem fazer que se complete a obra da Cons-
tituição. 1 »
Não partilhamos desses irracionaes preconceitos e que-
rendo para nossa estremecida Pátria o que anhelavam os
dignos auctores da Lei fundamental, offerecemos á meditação
esclarecida do Congresso uma serie de medidas que asse-
gurem solidamente as liberdades nacionaes e dêm completa
execução ao systema constitucional, pelo bom e sabido
emprego do dinheiro dos contribuintes, no que depende tal
facto da intervenção do ramo legislativo do poder publico.
1
Nas finanças é quo a nação não pode admittir a dictadura, accrcscentava
Mirabeau, e « estaria armado de terrível dictadura o personagem politico
que não fosse obrigado a dar contas exactas das finanças aos legítimos fis-
caes. Fosse a sua a mais bella missão política e assignalada pelos mais

Í positivos milagres, isto não isemptaria do cumprimento desse dever aquclle a


quem a confiassem. »

— ****.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 89
Intervém elle nessa grande operação por meio do voto das
orçamentos, tomada de contas, e accusação dos responsá-
veis infiéis. Sobre isto providenciam o actual projecto A, e os
projectos que enumeramos com as lettras B, C, D, E, F, G, e
uma indicação das reformas decorrentes, no Regimento da
Câmara. Notae bem que todas as modificações tendem para
o mesmo alvo, completam-se mutuamente, formando um sys-
tema cujas varias partes não é licito separar.
Quanto aos orçamentos, a mudança é radical.
No projecto de lei A, o orçamento da receita, em vez de ser
annuo, é organisado para um triennio. Fáceis de mostrar as
vantagens da idéa.
A continua alteração do regimen tributário acarreta os
mais sérios prejuízos á economia da communidade. Não ha
calculo possível para firmar-se o computo da receita e des-
peza das famílias, dos indivíduos, em geral ; não ha nenhum
sobre que se possa regular o curso dos negócios, nenhum
que sirva de base para as varias combinações mercantis.
Ter-se-á mais claro conhecimento da gravidade do defeito,
considerando-se que a immensa maioria da nacionalidade se
compõe de contribuintes para quem um qualquer augmento
de imposto representa a mais profunda perturbação no orça-
mento de cada casa.
Sabendo por largo praso o que tem ao certo de pagar anno
a anno, a vida dos particulares procura accommodar-se ás
circumstancias e distribuir os haveres, de fôrma que a parte
destinada ao Estado, se se faz no começo com real sacrifício,
acaba por ser uma restricção que o habito torna insensível ;
agora o que lhes é insuportável é verem-se seguidamente
ameaçados de um accrescimo de despeza que não sabem de
ante-mão qual seja, para terem meças na economia.
No que respeita aos impostos percebidos, de conformidade
com as tarifas aduaneiras, sobe de ponto a importância do
successo : sua estabilidade é de cardealissima influencia nas

O
00 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

industrias nascentes do paiz, que vivem á sombra delia, e


para as relações do commercio interno e externo, aspecto
este que não julgamos necessário accentuar.
Ha um outro, porém, que é de summa relevância e sabe-
se quanto vale para o credito de uma nação o seguro conhe-
cimento dos recursos de que ella dispõe, para attender a seus
compromissos ; quanto mais dilatado for o período futuro
de que houvermos noticia, maior certeza teremos de sua sol-
vabilidade.
Nossos credores externos, a quem vivamente interessa o
estado dos recursos de que necessita o Brazil para atten-
del-os, vendo que o governo, por mais longo tempo, independe
da boa ou má vontade dos partidos ou facções, e se acha
apparelhado com a sufficiente auctorisação para haver os
meios com que salde os pagamentos de alem-mar, guardarão
com outra confiança os nossos títulos, e comprehende-se
facilmente a estabilidade e prestigio délies nas praças estran-
geiras, em virtude disto.
O orçamento da despeza, como até agora, c fixado annual-
mente, conforme estabelece a Lei suprema, mas soffre uma
divisão indispensável, quanto fecunda em benefícios admi-
nistrativos.
Despezas ha que representam verdadeiras obrigações de
honra, a que seria vergonha sem nome faltar.
Taes as consideram na Inglaterra, onde se dispensa o seu
voto annual e fazem parte das despezas que alli se registram
sob o nome de consolidadas.1 Achamos que tal pratica só
poderia dar lustre á nossa Republica, e propomos a adopção
de certas regras que tendam a estabelecer cousa equivalente
entre nós.
Assim as dotações correspondentes ao Presidente e seu
'- Discussion et contrôle des budgets dans différents pays. Correspon-
dance du Cobden-Club éditée par Probyn, pag. 154. Vide também Besson,
Le contrôle des budgets, pag. 403, Salerno, Scienza délie Jinanze, pag. 97,
Lombard©, Guida délia contabilità, pag. 79, e no appendice a nota F.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 91
substituto, ministros de Estado e do Supremo tribunal, juizes
federaes, membros do Tribunal de contas, subsidio dos repre-
sentantes, serviço da divida publica, juros de emprezas e
companhias subvencionadas, pessoal inactivo, etc, emfim
todas essas despezas que, por sua immutabilidade constante,
dispensarem discussão annua, entrarão a fazer parte do orça-
mento permanente.
Este orçamento continua, já o dissemos, a ser votado,
annualmente. Mas, como convém cercal-o de maiores garan-
tias de estabilidade, e persistência nas verbas respectivas,
indicamos que seu voto tenha mais rigorosa solemnidade e
peso e significação, pela forma que se vê no projecto de
reforma do Regimento.
Assim evitaremos levianas alterações, que só hão servido
para alarmar no exterior sem vantagem alguma os que têm
negócios comnosco. Nenhum chatim ousará mais impor-
tunar-nos continuamente, durante os labores orçamentários,
para saber do modo por que attenderemos aos credores
externos, qual succedeu em presidência anterior.
Ficarão sabendo, de uma vez para sempre, que no Brazil
contraímos compromissos, mas são elles sagrados para nós,
tanto que antes de outra cousa cuidamos logo de definir o
mais certo meio de satisfazel-os, no computo de nossas des-
pezas.
Todas as mais poderão ser incluídas no orçamento variável.
Algumas, porém, por sua especial natureza, indicamos
sejam comprehendidas em um orçamento a que damos o
nome de extraordinário ; referimo-nos áquellas que hão de
ser feitas com serviços ou obras que abracem mais de um
exercício.
Convém que esses créditos, conforme judicioso parecer do
exm. sr. ex-Presidente da Republica, em mensagem de
3 de maio de 1897, « perdurem até a conclusão dos serviços
a que forem destinados. »
92 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

No artigo 6.° do citado projecto A, suggerimos uma medida


de obvia conveniência : a da prorogação dos orçamentos,
se o Congresso dissolver-se, sem os haver em tempo
votado.
Deixa de funccionar esse ramo do poder publico pela super-
veniencia de uma temerosa peste, súbita invasão da capital
por hostilidade de paiz estrangeiro, repentina explosão de
guerra civil que impeça se aggremie o Corpo legislativo : —
é prudente deixar o Governo funccionando sem os devidos
orçamentos, armado, portanto, de poderes discricionários?
Por certo que não.
Se ha caso em que deva ter continua observância o pre-
ceito attribuido a um soldado heróico — confiar, desconfiando
sempre — é este da gestão dos dinheiros públicos. E com
esta referencia tocamos em ponto delicado, que é, por assim
dizer, um dos polos de noso projecto.
No art. 5.° proscrevemos as latas auctorisações para dispor
o governo dos bens do Estado, tão de moda actualmente. Não
sabemos se esta restricção é agradável ou desagradável a
quem quer que seja : cumpre-nos dizer unicamente que o
moralisado emprego do que pertence á nação, exige que a
adoptemos. Nem ficaria bem que as solicitassem em outros
termos; nem que as solicitassem, deveríamos concedel-as :
é nosso direito e ponto capital do systema de nossas mais
preciosas attribuições.
Se é da escola que abraçamos com enthusiasmo, a aspi-
ração de retirar do Corpo legislativo algumas délias, que nos
não parecem compatíveis com a natureza da organisação
presidencial, longe estamos de querer ou admittir que o Con-
gresso seja despojado das proprias attribuições que lhe
cabem por sua funeção normal ; anhelamos até, sob este
aspecto, vcl-o reerguer-se e prestigiar-se, mantendo intan-
gível sua soberania, no voto das contribuições c dispen-
dios.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIEO 93

Não só nisto desejamos ver este orgam politico reassumir


seu papel constitucional, e aqui temos ensejo de fazer
menção de outro ponto importantíssimo de nossa reforma.
Em meio já do undecimo anno do regimen, os directores da
Republica ainda se não dignaram dizer-nos qual emprego se
tem dado aos dinheiros nacionaes, no largo periodo!... Parece
havermos retrogradado aos tempos do Rei absoluto, em que
era vedado aos subditos saber do caminho ou descaminho
dado ao copioso producto do imposto!.. Ë' preciso quanto
antes pôr um paradeiro a possíveis abusos, de ruinosissimas
conseqüências, reclamando annualmente as contas exactas
do que se houver gasto na governação do paiz.
Em verifical-o cuidadosamente está uma suprema garantia,
que devemos resguardar, com o mais subido zelo : que fora
rematada loucura dcspresar! 0 projecto A tem por fim dar
execução ao artigo constitucional prescrevente do minucioso
exame a praticar no modo por que se realisem as despezas, e
julgamos, de tão culminante importância se faça, opportuna-
mente, esse trabalho, cm todos os exercidos, que, no pro-
jecto E, propomos se comminem penas severas aos funccio--
narios federaes culpados de sua inexecução.
E' preciso responsabilisai' os que assim procederem, seja
o ministro ou o presidente do Tribunal de contas, e, como é
de equidade, também os representantes que se mostrem desi-
diosos na observância desse fecundo e sagrado dever. No
projecto D, auctorisa-se o governo a premiar a parte do pes-
soal da Fazenda que coopere para a prompta prestação de
contas.
Desta maneira, todos os annos ficaremos habilitados a
julgar do emprego que tem o producto dos impostos, cha-
mando a explicar-se o funccionario que íor infiel e casti-
gando-o severamente, sempre que não prove sua innocencia.
Já com o fito de restringir a esphera do arbítrio governa-
mental, no art. 7.°, § 2.°, n. 3, do projecto A, limitamos a

<\
94 DIREITO CONSTITUCIONAL BKAZILEIRO

2.000 contos de réis a verba dos créditos supplementares,


actualmente de 5.000.
Cumpre, a tempo, advertir que não nos parece possível
fazer opportunamente a tomada de contas, abrindo-se a
sessão annual do Congresso em maio. Com o presente sys-
tema de escripturação do Thesouro, é impossível exhibil-as
no praso desejado (art 10 do projecto A); até o fim de agosto
seria mais fácil de a levar a effeito, nos devidos termos.
A abertura do Congresso a 1 de junho, como propõe o pro-
jecto C, daria mais um mez ao governo para o consciencioso
preparo do balanço, sem nenhum prejuízo para os labores
daquelle ; terminariam assim em 30 de setembro as sessões
regulares, havendo três mezes de boa estação, caso devessem
ser prorogadas, pois só de fevereiro a março, raramente em
janeiro, o estio entre nós se mostra inclemente e penosa a
permanência na capital. Convém, pois, adoptar o expediente
suggerido, ou mudar a época do inicio do anno financeiro.
Ainda no louvável e são propósito de impedir continue o
arbítrio que tem campeado em nossa Republica, ousamos
apresentar o projecto de lei F, proporcionando meios que
tornem effectiva a responsabilidade dos infractores da lei,
enlhronisados ás vezes nos altos postos da governação.
Actualmente é impraticável. Esperar da expontânea ini-
ciativa dos parlamentos a promoção do castigo dos pode-
rosos, é desconhecer as concessões em que vivem e de que
vivem as classes politicantes, nas chamadas democracias do
século. E' mister compellil-os ao cumprimento do severo
dever constitucional. Para isso parece-nos prudente crear a
commissão de guarda da Constituição e das leis.
Acompanhando a marcha do governo e dos tribunaes,
exporá todos os annos ao Congresso o modo por que os pre-
ceitos legaes foram observados, para que resolva sobre as
providencias que melhor convenham. Se silenciar deante dos
abusos, soffram os representantes incumbidos da nobilissima
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 95

e garantidora missão, as conseqüências, a sua propria capitis


diminutio, requerida por qualquer cidadão : é a pena de uma
criminosa e imperdoável complicidade.
Se o Código penal (art. 207.°, ri. 6) declara prevaricação
do funccionario o « dissimular ou tolerar, os crimes e defeitos
offieiaes de seus subalternos e subordinados, deixando de
proceder contra elles, ou de informar á auctoridade superior
respectiva, quando lhe falte competência para tornar eff<-c-
tiva a responsabilidade em que houverem incorrido, » e
commina penas ao que nella incide; como admittir com-
mettam este feio crime e fiquem sem castigo os represen-
tantes da nação, supremos fiscaes do poder publico, quando
se furtem a um dos seus mais preciosos deveres constitu-
cionaes?!
Finalmente, para favorecer no Brazil a introducção de
nobres hábitos de alta moralidade, e estabelecer a publici-
dade dos actos privados que possam interessar á commu-
nhão, apresentamos o projecto de lei G, destinado a facilitar
o exame da vida dos homens públicos.
Passa a honradez de cada um délies a ser vista como na
casa de vidro de que falou Catão. A vantagem do alvitre é
evidente; se por um lado proporciona o alludido exame, por
outro garante o estadista dos botes da calumnia, da diffa-
mação traiçoeira e covarde, commum nos dias de hoje.
O ex-Governador de Pernambuco, dr. Correia de Araújo,
iniciou entre nós a declaração de bens, ao empossar-se do
exercício do cargo. Tão dignificadora pratica ninguém sus-
tentará que não convenha ser imitada largamente.
Temos agora a apresentar as reformas a estabelecer no
Regimento, decorrentes do conjuncto de projectos que sujei-
tamos aoi juizo do Congresso.
Quanto á restricção que propomos, da faculdade de iniciar
despezas, nada mais fazemos que seguir a corrente de pre-
cauções adoptadas por toda a parte, com o fim de evitar os
96 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

fataes esperdicios dos governos representativos. Vigoram na


Inglaterra, Canadá, Australia.
A Gamara dos communs, a 11 de dezembro de 1706,
decretou a seguinte severa disposição regimental : « Esta
Gamara não receberá nenhuma petição de nenhuma somma
relativa aos serviços públicos, ou não tomará conhecimento
de moção alguma tendente a votar um subsidio ou um
encargo sobre as rendas publicas, pagavel por meio do fundo
consolidado ou sobre as sommas que o Parlamento fornecer,
senão por especial recommandação da Coroa. »
E não ficou nisto. Assim ainda a Câmara podia désorga-
nisai' a fazenda publica, por via de despezas votadas em leis
especiaes.
A 20 de março de 1866, adoptou-se o seguinte preceito,
cassando-se de todo a iniciativa do Parlamento, em materia
de despezas; « A Gamara dos communs não admiltirá
nenhuma proposta tendente á obtenção de um credito qual-
quer para os serviços públicos, e não tomará em conta
nenhuma classe de moção implicando uma despeza a imputar
á renda do Estado, quer sobre os fundos constituídos em
dotações, quer sobre os fundos preparados pelo Parlamento,
— fora dos pedidos formulados pela Coroa.1 »
Na America ingleza, a exemplo da metrópole, o art. 54.° da
Constituição de 29 de março de 1897, diz : « Não será licito
á Câmara dos communs adoptar nenhuma resolução, moção
ou MU, dispondo de qualquer parte da renda publica, ou de
nenhuma taxa ou imposto, para um fim que não tiver sido
previamente recommendado por uma mensagem do Gover-
nador geral, durante a sessão. » Igualmente na Australia,
Constituição da Victoria, de 23 de novembro de 1855,
o art. 55.° dispõe : « A Assembléa legislativa não terá o direito
de propor ou formular um voto, uma resolução, um bill, tendo
por objecto a apropriação de uma parte do fundo consolidado,
1
Julio Roche, Finances et politique, pag. 70.

\
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 97

da renda ou de todos os outros direitos, contribuições, rendas


proventos e impostos, se ella não tiver sido previamente
recommendada por uma mensagem do Governador, etc. »
A França parlamentarista, por indicação do illustre econo-
mista Julio Roche, acaba de imitar estes paizes.
Não vamos tão longe, nem é possivel, porque a isso obsta
a Constituição.
Respeita nosso projecto a faculdade constitucional que tem
a Câmara de suscitar medidas que acarretem despezas,
rodeando apenas essa perigosa e funesta iniciativa daquellas
precauções que nos parecem de commum prudência, para
salvaguardar as finanças, de um acto nosso, leviano ou pre-
cipitado, que comprometta o equilíbrio orçamentário.
Não fosse o embaraço da Lei suprema, e devêramos ir
alem do que ora se propõe, pois que, como diz com rasão o
exmo. sr. Governador do Pará, em sua notável mensagem
do anno passado, « é da natareza do regimen presidencial
que caibam ao Executivo as medidas legislativas de caracter
administrativo. »
Se suggerimos reservas quanto á iniciativa de augmente
das despezas, parecem-nos justas as que no projecto dizem
respeito a impensadas diminuições : inepto espirito de eco-
nomia pode exceder-se a ponto de arruinar o que entende
precaver. Haja vista a avareza usada para com o exercito e
a marinha : poupança de vinténs concorrendo para o estrago
de artilharia e navios que custam milhões!
O praso de 60 dias marcado para que possam ter final
discussão as emendas da tarifa, mira dar tempo a que de todo
o paiz cheguem a esta Casa as reclamações dos interessados.
A disposição que impõe seja feita a tomada de contas antes
do voto definitivo dos orçamentos, entende assim compellir o
governo a dal-as em tempo ao Congresso. Seu moralisador
intento não precisa ser preconisado.
Como se vê, a reforma 6 vasta e complexa, quanto urgente.
98 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

No que concerne á divisão dos orçamentos, institue uma


pratica usual em certo modo na Inglaterra, com o fecundo
resultado que ninguém desconhece.
Suas vantagens não escaparam ao grande espirito de Ber-
nardo Pereira de Vasconcellos.
Desta maneira se exprimia elle na discussão da lei do orça-
mento, de l i de novembro de 1827 :
« Pretendo que a lei de finanças tenha dous titulos : que o
primeiro trate das despezas íixas e permanentes, em que
devem entrar os juros e amortisação da divida publica... e
que o segundo trate das despezas accidentaes e extraordiná-
rias... Esta divisão não só offcrece o meio mais próprio para
a discussão mas também facilitará muito a mesma discussão.
Com effeito, por este methodo se examina uma a uma as
despezas, tanto as indispensáveis, como as que o não são
tanto, mas que convém fazer. No primeiro anno haverá um
rigoroso exame das verdadeiras despezas do Estado e uma
apreciação das sommas indispensáveis para sua satisfação.
Estabelecida, porém, a differença do que é fixo e perma-
nente, do que não é senão temporário e accidental, estrei-
tar-se-á a discussão nos annos seguintes a um circulo muito
menos extenso, pois que só versará sobre o budget das des-
pezas extraordinárias, e sobre o pessoal e material da guerra
e marinha. Eis aqui qual é o meu plano para a lei das finan-
ças, ou budget. Tenho o prazer de ver que elle é o da Ingla-
terra, ha mais de 100 annos, e que o actualmente seguido em
França se lhe approxima, mas com grandes imperfeições. »
Cumprimos hoje, suscitando a reforma presente, os votos
do maior estadista do regimen extineto, depois daquelle
gigante que a primeira geração brazileira classificou de
Patriarcha da independência. Assim os republicanos do Rio-
grande, em vez de cego amor á novidade, mostram-se fieis e
zelosos continuadores da grande corrente conservadora do
antigo Reino a que pertencemos, e do Império. »
LIVRO IV

Do poder publico federal


■ * • -
LIVRO IV

Tu stiraa poi, che sia congiunto quello


Che non puó senza morte esser disgiunto.
LUCRECIO.
Delia natura délie cose, trad. Marchetti,
liv. I. vers. 591.

São orgams da soberania nacional o poder legislativo, o


executivo e o judiciário, harmônicos e independentes entre si
(art. 15.°), — diz a Carta de 24 de fevereiro.
Este dispositivo funda­se na famosa theoria da divisão
e equilibrio dos poderes, preconisada por Montesquieu, o
qual considerou sua applicação como conditio sine qua non
de todo regimen livre.
Julgou o celebre escriptor ter descoberto o remédio mila­
groso contra o despotismo, mas houve­se com rara modéstia,
declarando que o fora encontrar no meio politico britannico,
quando era, muito e muito, obra de seu pouco vulgar
engenho. Impressionado com o systema de pesos e contra­
pesos, destinados a dar estabilidade á machina complicada
da governação ingleza, o philosopho imaginou servira elle
alguma vez praticamente, pondo em jogo e regulando os
negócios do paiz que o concebera, e poz­se a idear cousa
semelhante para substituir o absolutismo regio, na Pátria e
em toda parte onde medrara. Viu um Rei, um grêmio de
nobres, outro de representantes do povo, e um corpo de magis­
trados, cada qual com uma certa somma de attribuições dis­
tinctas, na apparencia equivalentes em soberania ; e entendeu
que isto correspondia a uma espontânea e natural divisão da
antiga potestade regia em três poderes autônomos, con­
tendo­se uns aos outros, equilibrando­se de maneira tão per­

_ ■ ■ * ■
102 DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO

feita, que para sempre fica eliminada a tyrannia e garantida


a liberdade. x
Esta combinação, todavia, nunca existiu como pensou ver
Montesquiou, e seria absurdo que assim existisse : em um
systema de forças oppostas, ou se equilibram, ou opera-se
o movimento no sentido geral da acção da mais forte. Ora,
na hypothèse da lucta política ingleza, tinha de verificar-se
a segunda alternativa, pois que da primeira resultaria a para-
lysação : o não governo. E foi o que se deu.
Nunca houve equilíbrio e igual distribuição de força entre
os três poderes : houve lucta permanente, dominando agora
o Rei, agora o Parlamento.2
E' fácil demonstral-o.
Imposta a Magna-carta a João Sem Terra, este, ainda que
tendo diante de si a « Gommissão dos vinte-e-cinco barões, »
* N a explanação destas ideas, Montesquieu mostra-se muito contradictorio
a. Tudo estaria perdido, diz, se o mesmo homem, ou o mesmo corpo dos
principaes, ou dos nobres, ou do povo, exercesse esses três poderes : o de
fazer as leis, o de executar as resoluções publicas, e o de julgar os crimes
ou questões entre os particulares. — Na maior parte dos reinos da Europa,
o governo é moderado, porque o Principe, que tem os dois primeiros
poderes, deixa a seus subditos o exercício do terceiro. * » « Quando na
mesma pessoa ou no mesmo corpo de magistratura, o poder executivo é
reunido ao legislativo, não ha liberdade. * » Ora, se um governo que tem
em suas mãos os poderes executivo e legislativo é moderado, não é portanto
violento, e se não é violento, não attenta contra a liberdade.
Demais, Montesquieu define « a liberdade politica como sendo, em um
cidadão, esta tranquillidade de espirito que provém da opinião que cada um
tem de sua segurança; e para que se tenha liberdade cumpre que o governo
seja tal que um cidadão não possa temer outro cidadão. *» Logo, o governo
de um Alfredo Magno, « o mais illustre e maior dos reis, e o mais escla-
recido dos legisladores, * » sob cujo sceptro havia perfeita segurança e
respeito mutuo entre os cidadãos, — era um governo livre. ** E no entanto
os poderes executivo e legislativo estavam reunidos nas mãos do grande
Rei...
* Esprit des lois, liv. XI, cap. VI.
** Era, de certo, amigo da liberdade dos subditos o nobilissirao Rei, que assim uma
feita se manifestou : « Seria justo que os inglezes podessem ser tão livres sempre como
seus pensamentos. » — Hume, Histoire d'Angleterre, vol. I, pag. 169.
* O s philosophistas políticos de nossos dias já iniciam um significativo
recuo. P a r a Aumaître e outros não ha três poderes, ha dois : o executivo e
o legislativo.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 103

encarregados de íiscalisarem. a applicação da referida Carta,


no mesmo anno em que a promulgou, abriu lucta por
annullal-a. Succede-lhe Henrique III e o poder do Rei cresce
de influencia com a « Carta das liberdades » publicada pelo
regente Pembroke, em a qual se supprime a obrigação de
obter o consentimento do Conselho da monarchia, para a
imposição de taxas. Depois disso levanta-se a nobreza, usur-
pando a soberania e, com as « Provisões de Oxford,1 » sys-
tématisa seu superior dominio, logo decois supprimido pela
realeza, no campo de batalha de Evesham. Victoriosa a
monarchia, Eduardo I decreta os « Estatutos de West-
minster, » que igualam nobres e plebeus diante da lei com-
mum. Necessidades de dinheiro obrigam o Rei, porém, a
reunir o Parlamento (já com representantes do povo das
communas, como praticara Leicester), e a despojar-se de
attribuições magestaticas, admittindo que os membros da-
quella corporação, alem do voto dos subsídios, resolvessem
outros pontos, por ser « justo, dizia, que o que concerne a
generalidade seja approvado por ella. »
Taes affirmativas não impediram que o representante do
regio poder se esforçasse por outra vez recuperar os antigos
privilégios, dando estas manobras ensejo a novas revoltas,
que restauram a Magna-carta. Eduardo II despresa esta lei ;
levantam-se os barões e promulgam « Ordenações, » mono-
polisando em sua ordem os altos empregos da administração
civil e militar, ao quê o Rei nega assentimento, e ficam as
cousas como dantes, depois de luctas estéreis. Mas, a con-
tenda recomeçou, Analisando com a morte violenta do Prin-
cipe. Isto veiu a determinar a submissão do successor,
Eduardo III, indo em demasias taes os nobres que impuzeram
ao Rei que se seguiu, Ricardo ÍT, a tutella de quatorze barões.
1
Os nobres, lendo â frente Leicester, convocaram um Parlamento em
Londres, onde, pela primeira vez, appareceram representantes do povo das
communas.
104 DIEEITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Usurpada a Coroa por Henrique IV, com auxilio da aristo-


cracia, esta pega em armas contra elle pouco depois, sendo
vencida. O Rei, então, ideou dividir o elemento de tão cons-
tante opposição, nobres e povo, contrabalançando o poder
daqueiles pelo dos communs, que foram auctorisados a negar
subsídios, até que suas queixas tivessem sido attendidas
pelo governo, expediente que deu força a um novo inimigo,
sem no entretanto enfraquecer o outro, como se esperava.
Viu-se logo no começo da guerra das Duas rosas que os
communs, ainda que elevados pela casa de Lancastre, vol-
tavam-se contra ella, reconhecendo a de York.
Com aquelle privilegio, foram successivamente ganhando
outros, como o de legislar com o Rei e os lords, participar
do direito de votar a paz e a guerra, fiscalisar todos os ramos
da administração geral, assim como o privilegio de irrespon-
sabilidade pelas opiniões que emittissem no seio do Parla-
mento. Adquiriram taes prerogativas, que podiam, sendo
hábeis, exercer em tudo completa supremacia.1 — Mas,
surge Henrique VIII, que a reconquista para a Coroa, em
toda a plenitude, restaurando o absolutismo.
Sob a menoridade de Eduardo VI, o Parlamento renovou
suas pretenções, abolindo os privilégios que em tempo
daquelle (Henrique VIII), davam força de lei ás proclamações
do soberano e auetoridade de annullar as que fossem decre-
tadas até o vigésimo anno de cada Rei. O tutor Somerset,
porém, « não tinha intenção de renunciar ao exercício desse
poder arbitrário ou absoluto, que sempre fora ambicionado
pela Coroa e que é difflcil distinguir perfeitamente do poder
legislativo. Somerset continuou mesmo a exercer esta aueto-
ridade em algumas oceasiões consideradas mais impor-
tantes.2 » 0 poderio firmado por Henrique VIII conservou-o
ainda seu filho, como se viu na condemnação de lord
1
1
Bernai, Théorie de l'autorité, vol. I, pag. 287.
Hume, Histoire d'Angleterre, vol. VI, pag. 167.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 105

Seymour, que arrancou ao Parlamento : « era de ha muitos


annos maxima desta assemblea acquiescer em tudo que a
administração quizesse estabelecer, i » — Um anno antes da
morte de Eduardo VI definiram-se em lei os crimes de lesa-
magestade, a mais atrevida expressão da supremacia real.
Sucecdeu-lhe Maria, cujos excessos perseguidores lhe
grangearam o triste cognome de Sanguinária. Seu império
não respeitou nem os velhos usos que faziam depender da
nação o lançamento de novas contribuições. Isabel, continuou
a manter as prerogativas do throno, e sabe-se « com que
facilidade esta princeza absoluta curvou tudo sob seu
jugo. 2 » Com ella, as regalias da Coroa chegaram ao
pinaculo.
A casa de Stuart vai vel-as decair.
Já sob Jacques I o Parlamento contestava ao Rei a preroga-
tiva de dissolvel-o livremente. « Nenhuma questão podia apre-
sentar-se sob mais imponente aspecto, pois que de sua
solução dependia o subalternamento da Coroa ou das
Câmaras.

Emfim, os communs obtiveram um decreto em virtude do


qual não se podia de futuro proceder á novas eleições, sem
o consentimento expresso da propria Câmara.3 » Animados
com esta victoria, pretenderam chamar a si o poder de
legislar, que tinha o Rei, e tentaram varias outras reformas.
A Coroa, porém, ainda que fosse contra recente decreto, dis-
solveu as câmaras, e vendo que não conseguira subordinal-as
bem á sua pessoa, principiou a usar de expediente seguro
nos meios parlamentares : a corrupção.
A Jacques segue Carlos I, em cujo reinado triumphou por
completo o Parlamento omnipotente, que o grande Cromwell
annulla outra vez. Restaurada a monarchia, « restabele-
1
Hume, Idem, vol. VI, pag. 212.
s
Hume, Idem, vol. VII, pag. 156. Hallam, Histoire constitutionnelle, v.I,
p. 3315.
Bernai, Théorie de l'autorité, vol. I, pag. 303.

&
106 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIHO

ceu-se, com toda sua pompa, essa pretenciosa divisão da


auctoridade, essa pretensa ponderação dos poderes, e os
resultados foram ainda muito différentes do que se desejava.
Os reis e os parlamentos tinham até ahi incessantemente
vivido em combate, com alternativas de revoz e bom êxito ;
mas, como nenhum conseguira firmar sua preponderância,
nenhum também se considerou vencido. Esta lucta, sempre
indecisa, reaccendeu as animosidades e poz de novo as armas
em mão dos rivaes.

Apavora-se a imaginação com a idéa de tratar deste


período da historia da Inglaterra, e desenhal-o, período em
que se não vêm senão quadros de destroços humanos, bra-
mindo por vingança; mas, bem desejáramos, por meio de
um estudo profundo de tantos e tão dolorosos abortamentos,
contribuir para que os povos se curem de sua mania por este
systcma.1 »
Recomeçada a lucta, terminou pelo triumpho do Parla-
mento, depois do reinado ephemero de Jacques II, que reim-
puzera o absolutismo. — Para isso foi preciso uma mudança
de dynastia.
Nesse meio tempo, « o systema representativo attingiu a
perfeição, se se pode dar um nome divino ao sujeitamento ou
concórdia forçada de três poderes inimigos, sob a omnipo-
tencia de um só. 2 » O poder omnipotente de que se fala, é o
do Parlamento.
Onde, pois, a famosa divisão e equilíbrio dos poderes? —
Jamais rcalisada no terreno da pratica, vejamos theorica-
mente o que é.
Imaginar que é possível conseguir acção política efficiente,
dividindo o poder publico em um systema de três forças
iguaes, contrapostas umas ás outras, é, admittindo o absurdo,
1
Bernai, Théorie de l'autorité, vol. I, pag. 352.
* Bernai, Idem, vol. I, pag. 381.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEíllO 107

dar prova da mais completa incapacidade, para decidir em


questões desta ordem. Não 6 preciso saber mecânica ; da
comesinha observação dos factos se conclue que, no caso
figurado, o único resultado que se obtém é o equilíbrio, a
paralysação mutua dessas três forças. Para que podesse
haver acção effectiva e util, fora necessário tivesse uma
délias mais energia, e, nessa hypothèse, o equilíbrio preco-
nisado romper-se-ia, marchando o systema no sentido geral
da acção da força mais potente.
E' tal sobre o assumpto a obcecação dos homens políticos,
que julgamos conveniente precisar bem esta noção elementar,
dando, graphícamente, idéa clara delia.
Representemos a força do poder executivo pela linha AO,
a do legislativo pela linha BO, a do judiciário pela linha CO,

iguaes entre si e contrapondo-se para equilibrar-se, segundo


a theoria de Montesquieu. Duas hypotheses temos a consi-
derar : ou as três forças reagem umas contra as outras, on
duas dessas se combinam contra uma. Verificamos facilmente
que em qualquer das hypotheses se annullam por completo,
pois é sabido que se diversas forças applicadas sobre um
ponto se equilibram, uma qualquer dentre ellas é igual e
directamente opposta á resultante de todas as outras.
Se tomarmos para exemplo as linhas BO e CO, — como a
resultante de duas forças que concorrem em um mesmo ponto

Üo
108 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

é representada, em grandeza e direcção, pela diagonal do


parallelogrammo construído sobre as duas linhas que figuram
essas forças, teremos que a resultante eqüivale a uma

B\

força igual e contraria á força AO, e que, portanto, se


annullam. Logo, verificamos que, neste caso, o equilíbrio
do systema continua a ser perfeito.
Ora, se essas forças, pelo visto, empregam todas suas
energias em manter o equilíbrio do systema, segue-se que
nenhuma energia lhes fica para uma util acção politica. —
Não é preciso accentuar que o que dizemos sobre as
forças BO e CO em relação á força AO, pode-se dizer das
forças BO e AO em relação á força CO, etc...
E é este absurdo que pretendem fazer passar como um
maravilhoso engenho destinado a imprimir movimento regular
á associação politica, garantindo a liberdade em toda a ple-
nitude? — Nunca! Isto seria penhor apenas de repouso
eterno, de quietaçâo absoluta : o Nirvana!x
» Montesquieu reconhece candidamente quanto é contradictorio o systema,
mas persiste no erro, explicando-o de fôrma pueril : « Essas três forças
deveriam produzir repouso ou a inaceão. Mas, como pelo movimento neces-
sário das cousas, cilas são constrangidas a marchar, ver-se-ão constran-
gidas a concertar-se. (! ! !) »
DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO 109
A verdade é esta : a disposição concebida pelo constitu-
cionalismo á Montesquieu arvora em habil systcma de forças
o que é um meio de esperdiçal-as. Em vez de concorrerem
todas para o bem commum, para o fim do Estado, gastam,
no minimo, parte de sua energia, em contrariar o movimento
geral.
E' claro. Se considerarmos o caso das olygarchias, como o
da Inglaterra, o Parlamento gosa de mais prestigio e força.
Temos, então, assim o systema de forças :

A força BO, que representa o legislativo, agindo e annul-


lando as que se lhe contrapõem, por ser mais potente que a
resultante das outras duas, DO.
Se consideramos o caso dos governos pessoaes, qual o da
Allemanha, temos :

D
110 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIEO

A acção do executivo predominando, por ser mais enérgica


do que a resultante das forças combinadas que têm o legis-
lativo c o judiciário, e, portanto, nessa ou noutra hypothèse,
perdido o equilíbrio do systema!
Só vemos ahi um resultado apreciável e é que, em qual-
quer das hypotheses, o movimento da força que governa 6
contrariado inutilmente por outras forças e, portanto, que
ha energias que se perdem em vencer resistências inúteis.
Não é curial que em lugar desse disparatado arranjo, fora
melhor combinar as cousas de geito que todas as forças polí-
ticas concorressem para a boa direcção da sociedade? — 0
contrario entendeu-se na Inglaterra e ali vigora a cerebrina
divisão dos poderes : o equilíbrio délies, porém, é que não
existiu nunca.
Eis o que não distinguira Montesquieu.
O philosopho francez não distinguiu também que a fra-
gmentação do poder, observada por elle no meio britannico,
era conseqüência transitória de circumstancias cspeciaes do
paiz e nunca expressão de uma tendência qualquer da ordem
política.
Seu compatriota Montlosier apanha e define bem a origem
<ào erro : « E, primeiro, que significa esta locução : os três
poderes? Entenderemos que exprime existirem três poderes
independentes e soberanos? Seria preciso consequentemente
admittir três Estados distinctos... Fala-se também em
diversos poderes em um Estado, ainda que na realidade e
pela natureza mesma de um Estado, não possa haver senão
um só... Uma pretensa habilidade fez imaginar que a sepa-
ração dos poderes é elemento essencial de boa constituição.
Homens políticos acreditam que um Estado, para ser perfei-
tamente feliz, deva ser fragmentado. Um constante equivoco
faz confundir os poderes com as funcções, e a distincção com
a separação. » Raboisson, com igual critério, diz que os cha-

*
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 111

mados « três poderes são funcções do mesmo poder sobe-


rano. * »
Apesar da extraordinária influencia do Espirito das leis,
suas illusorias doutrinas a respeito do poder publico tiveram
refutadores em todo o começo do século xix, e no anterior.
Hoje é que a decadência das classes governativas e sua abso-
luta incapacidade para comprehenderem os phenomenos polí-
ticos, não lhes deixa ver outra saída para garantir-se a ordem,
senão esta de pôr em pratica a curiosa theoria de Montes-
quieu, já triumnhantemenle contestada pelos espíritos mais
fortes, contemporâneos e posteros do illustre pensador.
Pai grave declara que « legalmente, a Constituição ingleza
permittiria o despotismo ou a anarchia, se cada poder extre-
masse suas prerogativas. » Livingston julga que « o despo-
tismo é seu resultado lógico. » Quesnay dizia : « Em um
governo, o systema de contra-forças é uma idéa funesta...
As especulações que fizeram imaginar os contra-pesos, são
chimericas... Que o Estado romprehenda bem seu dever, e
então que se o deixe livre... Cumpre que o Estado governe
segundo as regras da ordem essencial, e, quando o fizer,
cumpre que seja todo-poderoso. » Mercier de la Rivière
affirma que « é physicamente impossível possa existir outro
governo senão o de um só. Um dos dois (poderes) terá a pw-
mazia ; assim, acontecerá necessariamente que essas duas
auetoridades se reunirão, confundindo-se em uma só ; o

i Não é menos claro Mirabeau : « Teremos breve oceasião de examinar


esta theoria dos três poderes, a qual exactamente analysada mostrará talvez
a facilidade do espirito humano em tomar palavras por cousas, formulas
por argumentos, e a se avesar a uma certa ordem de idéas, sem jamais ter
em vista a intelligivel definição do que elle aceiïou como axioma.» — Collecção
Vermorel, Discour sur le renvoi des ministres.
Entre nós é grande a este respeito a confusão nos espíritos. O primeiro
ministro da justiça do Governo privisorio, na exposição que antecede o pro-
jecto de lei organisando a justiça federal, declara que é ella org am de um
poder, no corpo social, mas pouco depois a eleva a poder soberano III —
Actos do Gooerno provisório expedidos pelo dr. M. F. de Campos Salles,
pag. 255 et 256.
112 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

poder legislativo tornar-se-á executivo, ou o poder executivo


tornar-se-á legislativo.x »
Turgot, já na época em que começaram a apparecer mar-
cadas sympathias, em certas rodas lettradas, pelo systema
norte-americano, filho desse outro, francamente pronun-
ciava-se assim : « Não estou contente, confesso, com as cons-
tituições até agora redigidas para os différentes Estados
americanos... Vejo, no maior numero délias, a imitação sem
motivo dos usos da Inglaterra. Em vez de concentrarem todas
as auetoridades em uma só, a da nação, estabelecem corpos
différentes, um corpo de representantes, um conselho, um
governador, porque na Inglaterra ha uma Gamara dos com-
muns, uma Câmara alta e um Rei. Procuram contrabalançar
esses différentes poderes, como se este equilíbrio de forças,
julgado necessário para compensar a enorme preponde-
rância da realeza, podesse ser de algum uso em republicas
fundadas sobre a igualdade de todos os cidadãos ; e como se
tudo que estabelece différentes corpos não fosse causa de
divisões! Querendo prevenir perigos chimericos, suscitam
perigos reaes... 2 » Rousseau faz resaltar mais ainda os
absurdos desta concepção metaphysica : « Nossos homens
políticos, lê-se no Contrai social, não podendo dividir a sobe-
rania quanto a seu principio, a dividem quanto ao objecto :
1
A tendência para a unidade do poder é tal que, como observa Mably,
ainda que o governo de Athenas fosse de facto democrático, elle de facto
inclinava para a monocracia, poisque o mais notável de seus grandes
homens tinha ahi toda a auetoridade e parecia ser o depositário da vontade
de todos os cidadãos. — Entretiens de Phocion ; o 30.°
* Œuvres completes, vol. II, pag. 806. Não se mostravam contentes também
certos dos fundadores da grande Republica. Veja-se o que diz Jefferson a
Madison em carta de 15 de março de 1789 : « O poder executivo não é nem
o único, nem o principal objecto de nossas apprehensões. A tyrannia do
legislativo ó muito mais de temer no momento, e isto será assim por muito
tempo ainda. » Madison, na Convenção de 1787, eis como se pronunciou :
« A experiência nos ensina que tem existido em nosso governo uma tendência
a dar toda a força á machina legislativa. Aquelles que nos Estados hão
exercido a auetoridade executiva não passam de simples zeros. As legisla-
turas são omnipotentes, Se não se descobrir um meio efíicaz contra a intrusão
délias em tudo, inevitável será uma revolução. »
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIKO 113

dividem-na em força e vontade, em poder legislativo e exe-


cutivo ; em direitos de estabelecer impostos, regular a jus-
tiça, decidir sobre guerra, em administração interior e poder
de tratar com o estrangeiro : ora confundem todas essas
partes, e ora as separam. Fazem do soberano um ser fantás-
tico e formado de peças ajustadas umas ás outras ; é como
se compuzessem o homem» de diversos corpos, destes, um
lendo olhos, outro braços, outro pés, e nada mais. Os pelo-
tiqueiros do Japão esquartejam, segundo se affirma, uma
criança aos olhos dos espectadores; depois, jogam ao ar
seus membros um após outro, fazendo surgir no chão viva
a criança, unidos de novo todos seus membros. Taes são as
ligeirezas de nossos prestimanos políticos ; depois de des-
membrarem o corpo social, em mágicas dignas de feira,
reunem-lhe as peças não se sabe como. — Este erro provém
de se não ter noções exactas da auctoridade soberana...1 »
Gondorcet de igual modo esfarela a incongruente lheoria, em
seu notável discurso pronunciado na sessão de 23 de feve-
reiro de 1793, como relator do comité de constitution da Con-
venção. Eis o trecho mais interessante dessa importante peça
politica : « Duas opiniões separam até aqui em dois campos
os publicistas. Querem alguns que uma acção única, limitada
e regulada pela lei, dê movimento ao systema social : que
uma auctoridade suprema dirija todas as outras, e não possa
ser detida senão pela lei, — cuja execução a vontade geral do
povo garanta frente á frente dessa auctoridade suprema, se
ella tenta arrogar-se um poder que não tem, se ameaça a
liberdade, os direitos dos cidadãos.
Outros, ao contrario, querem que princípios de acção,
independentes entre si, se equilibrem de alguma sorte, e
mutuamente se regulem ; que cada um délies seja contra os
outros o defensor da liberdade geral, e pelo interesse de sua
propria auctoridade se opponha á usurpação dos outros.
1
Livro II, cap. II.
S
1 11 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIKO

Mas, que seria então da liberdade publica, se esses


poderes, em vez de mostrar antagonismo, se reúnem contra
ella? Que será da tranquillidade geral se, por disposição dos
espíritos, a massa inteira dos cidadãos se divide entre os
diversos poderes, se \ ier a agitar-se pro ou contra cada um
délies?
A experiência de todos os paizes não tem provado, ou que
essas machinas tão complicadas se quebram por sua pro-
pria aeção, ou que ao lado do systema que apresenta a lei,
se forma um outro, fundado sobre a intriga, sobre a cor-
rupção, sobre a indifferença : que ha de certo modo neste
caso duas constituições, uma legal e publica, não existindo,
porém, senão no livro da lei; a outro secreta, mas real, fructo
de uma convenção tácita entre os poderes estabelecidos ?
Demais, um só motivo bastaria para nos inspirar uma
preferencia entre esses dois systemas. Essas constituições
fundadas sobre o equilíbrio dos poderes suppõem ou trazem
como resultado a existência de dois partidos ; e uma das
maiores necessidades da Republica franceza é que não exista
nenhum.1 »
Para Bcntham, « poderes separados e independentes não
formam um todo ; governo assim constituído não se poderá
manter. Se é necessário um poder supremo, ao qual sejam
subordinados todos os ramos da administração, haverá cli-
stineção nas funeções, mas nunca divisão de poder, porque
um poder só exercido segundo regras traçadas por um supe-
rior, não é um poder separado : é um ramo desse superior. »
Mas, não foram aquelles contemporâneos os únicos que rea-
giram contra o superficial enthusiasmo dos que se extasiavam
diante das praticas a que a revolução americana viera dar
uma certa popularidade. O democrata Anacharsis Cloots cora-
josamente as atacou em meio da grande assembléa franceza
de fins do século passado : « Quanto á formação do governo,
d
Moniteur n'imprimé, vol. 15, pag. 4G0.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 115

não ha francez que não rejeite indignado o systema ameri-


cano... Não ha. propriamente falando, senão um só poder : o
do Soberano. » Robespierre era deste mesmo parecer :
« Quanto ao equilíbrio dos poderes, isto só nos embaíu no
tempo em que a moda como que exigia esta homenagem á
nossos visinhos... Mas, este equilibrio não pode ser senão
urna chimera ou umflagello.»
D'Argenson e outros escriptores, assim como « todos os
economistas do século XVIII, repellem a separação dos
poderes.1 »
Escriptores mais modernos abundam nas mesmas idéas.2
Para Bonald, « a divisão e o equilibrio dos poderes, ou o
governo representativo, acaba necessariamente na anar-
chía.3 » « A unidade do poder é a segunda lei fundamental
das sociedades civis.* » « ...Sem unidade do poder geral não
ha sociedade política...5 » « Impedir-se-á, a oppressão publica
e o homem, depositário do poder do Estado, ver-se-á limitado
em sua vontade particular,6 não por equilibrios ou choques,
mas pela mesma maneira por que a vontade de Deus mesma
é limitada por leis ou regras necessárias, e que ella não pode
destruir.7 »
1
Saint Girons, Séparation des pouvoirs, pag. 109.
5
Entre a opinião dos modernos, convém citar uma realmente muito signi-
ficativa, a do brilhante parlamentar francez Paul Deschanel, presidente da
Câmara dos deputados : « La démocratie, là où elle est le plus en avance,
ne cesse de créer des organismes nouveaux. Il ne faut pas nous en plaindre ;
car la crise du régime parlementaire sévit partout, en Autriche et en Italie
aussi bien qu'en France. Et il est presumable qu'avant qu'il soit longtemps
les formes qui ont servi à nous gouverner jusqu'ici — monarchiques ou
républicaines — seront aux mécanismes plus scientifiques de l'avenir ce que
les diligences, les coches et les signaux de nos pères sont aux trains-éclair,
aux transatlantiques et aux téléphones. » — Discour de réception à l'Aca-
démie française, pag. 34.
3
Théorie du pouvoir, vol. I, pag. 111.
1
Idem, pag. 158.
5
Idem, pag. 165.
G
Isto é, deixará de ter arbítrio.
' Nota de Bonald : « Deus não pode mudar a essência das cousas ; tirar a
redondeza ao circulo, a igualdade dos ângulos de um triângulo equilatero,
etc. »— Théorie du pouvoir, vol. I, pag. 181.
lib DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO

Bonald não íica ahi nestas considerações sobre a questão ;


procura explicar o caso britannico pela seguinte fôrma :
« Deixei já entrever que a Inglaterra se acha em circunv
stancias que lhe são exclusivamente particulares : ousarei
desenvolver aqui uma opinião que não é, talvez, nem arro-
jada, nem nova.
Na Inglaterra, ha dois poderes, porque ha duas sociedades.
Ha uma sociedade política constituída ou monarchica, com
suas leis fundamentaes, sua religião publica, seu poder
único, suas distineções sociaes permanentes. Ha uma socie-
dade de commercio, a mais extensa do Universo, porque o
Estado é commerciante na Inglaterra, e não é propriamente
commerciante senão na Inglaterra. Nesta ultima sociedade,
o poder acha-se necessariamente separado do poder da socie-
dade política, porque nesta o poder é único : na outra elle é
collectivo, pela natureza mesma da sociedade commerciante.

Uma observação de peso e talvez decisiva é que só depois


que o commercio obteve na Europa grande favor, é que se
o tem querido fazer, por vezes contra a natureza, o fim e o
meio de todos os governos ; e que os políticos modernos hão
insistido sobre a necessidade do que elles chamam a divisão
dos poderes e a creação de um poder legislativo separado :
prova evidente de que é á reunião de uma sociedade commer-
ciante á sociedade política, que a Inglaterra deve esta legis-
lação particular que desconstitae a sociedade política, para
constituir a sociedade mercantil, que tira ao Monarcha o
poder de fazer, e não lhe deixa senão o poder de impedir,
que lhe dá a direcçâo da força publica e pode recusar-lhe
os meios de pôl-a em movimento, e que não concedendo assim
à vontade geral senão um poder negativo, a deixa em situação
de nunca preencher perfeitamente o fim de toda sociedade.
DIREITO CONSTITUCIONAL BBAZILEIRO 117

Termino por uma reflexão para a qual reclamo a mais


seria attenção.
0 Rei, na Constituição ingleza, tem o veto absoluto sobre
os actos do Parlamento, ou o poder de impedir que os actos
do Parlamento se tornem leis. Em uma sociedade em que
existem dois poderes, se ha um cuja natureza, e essência,
seja impedir, a natureza, e essência, do outro será — des-
truir ; porque um'podercuja essência é impedir, suppõe um
outro que deve essencialmente ser impedido. 0 poder do Par-
lamento é pois, necessariamente destruidor, poisque é pre-
ciso oppor-lhe um poder necessariamente coercitivo. 0 poder
do Parlamento é, portanto, activo, poisque tende a fazer ; o
poder do Rei não é mais que passivo, poisque não tende senão
a impedir que o outro possa fazer. 0 poder activo e destruidor
do Parlamento ha de cedo ou tarde sobrepujar o poder pas-
sivo do Monarcha, porque o podier passivo não pode anni-
quilar o poder activo, mas somente suspender sua acção.

A prova de que a Constituição da Inglaterra é insufficiente


para assegurar a conservação da sociedade, é que ahi se
torna preciso derogal-a todas as vezes que a segurança inte-
rior do Estado é ameaçada, e estender o poder geral, restrin-
gindo os poderes particulares : vê-se facilmente, porém, que
esta medida, ainda que indispensável, constitue um perigo
mais, poisque tem de ser votada, quasi sempre, por aquelles
mesmos cujo poder é necessário restringir, e que ella põe em
conflicto o poder geral e os poderes particulares.

As circumslancias que engendraram a Constituição ingleza


não existem noutra parte senão na Inglaterra.1 »
Eis o que escreve o celebre publicista Rittinghausen, adepto
da democracia pura : « 0 regimen representativo é um pro-
longamento da antiga feudalidade; só tem rasão de ser em
1
Théorie du pouvoir, vol. I, pag\ 451, 451 ct457.
118 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

um Estado composto de certo numero de federações, de cor-


porações que dão a seus deputados um mandato imperativo.

Nas eleições acontece por vezes que um homem muito dis-


tincte se ve preterido por um ignorante c isto porque a grande
maioria dos eleitores vota sem ter a possibilidade de apre-
ciar os méritos do candidato. A justeza desta observação é
provada pelo facto que aqui assignalamos : nos parlamentos,
as cinco sextas partes dos deputados compõem-se de homens
médiocres.
As grandes assembléas apresentam em todos os tempos e
em todos os lugares um perigo : o abandono das convicções
politicas suscitado pela ambição, desejo das riquezas e talvez
também pelo de tyrannisar seus semelhantes, sem incorrer
na minima responsabilidade.
Demais, são as assembléas legislativas a incarnação da
incapacidade e da má-vontade. Em tratando da legislação,
continuamente commcttem attentados contra as liberdades
do povo ou facilitam os dinheiros do pobre aos especula-
dores; em tratando da política, é pcor ainda. Atacam o direito
das nações, vendendo-se ao despotismo.
...0 systema traz em si o germen da morte, em França
suicidou-se... »
0 julgamento do republicano Sismondi não é menos expres-
sivo : « As constituições, diz, que a sciencia social reconhece,
são, pois, todas ellas, constituições mixtas, as únicas em
que a omnipotencia pode ser negada ao poder nacional ; não
quer dizer isto, como se affirma excessivamente hoje, que a
liberdade consiste em um equilíbrio entre os poderes, que
assegure sempre a cada um resistência igual a acção dos
outros. Os que comparam continuamente o governo a uma
machina, deveriam ser mais fieis á propria sciencia de que
vão tirar sua comparação, e lembrar-se que a conseqüência
de tal ponderação seria a immobilidade absoluta. Cumpre
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 11'.)

que a machina funccione ; é a primeira das necessidades da


ordem social. E' indispensável, não a separação dos poderes,
mas sua cooperação para um mesmo fim ; é indispensável,
não o equilíbrio das forças, mas sua união ; é indispensável,
emfim, que uma só vontade resulte sempre do choque e da
fusão das vontades diversas ; de tal sorte, porém, que todas
essas vontades tenham sido ouvidas, que todos os interesses
tenham sido consultados...1 » E acerescenta : « 0 systema
representativo começa a ser julgado por todos como uma
grande decepção; os ministeriaes vêm nelle uma commoda
forma de proteger seus commodos e proveitos; os liberaes,
uma cruel escamotagem para lhes arrebatar sua liberdade.2 »
« Quando procuramos conhecer a força e o espirito dos
interesses diversos que existem em uma nacionalidade, e o
meio de lhes dar uma acção proporcionada á sua impor­
tância, nós não nos propomos de nenhum modo a pôl­os em
opposição, armal­os uns contra os outros, como se tem feito
commummente, pretendendo estabelecer assim um equilíbrio
politico. A equivalência das vontades oppostas, se são
activas, nada mais produz que um combate, que gasta sem
vantagem as forças nacionaes ; — se são passivas, detêm o
governo na inactividade ; e uma nação precisa que seu
governo marche ininterruptamente. E' a reunião, é o accôrdo
dos interesses, das predisposições, das paixões, que o
Legislador deve ter em vista; é o concurso de todas as forças
com ofimde formar uma só força...3 »
Bernai, outro apologista da democracia pura, é mais
claro ainda : « Cormenin diz, falando da Republica franceza
de 1848, que o mal não estava na Constituição, mas sim, na
hostilidade existente entre a Assembléa e o chefe do poder
executivo. Como não viu que a Constituição repartia a aueto­
1
Constitutions des peuplets libres, pag. 37.
2
Idem, pag. 86.
'■ Idem, pag. 2S í.
120 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

ridade entre o Presidente e a Âssembléa, e como deixaria de


haver lucta, existindo dois rivaes, e se o poder, como todas
as cousas, tende para a unidade?
O mal está, pois, precisamente nesta combinação, que se
julga tão excellente, do equilíbrio dos poderes, a qual a
nenhum concede a preponderância, e faz da lucta a situação
normal do governo ; como se a lucta podesse jamais ser a
condição habitual de nenhuma instituição, corpo ou systema
da natureza.
O combate, para ser lógico, para ter uma significação,
deve determinar a victoria de um dos adversários ; ora, a
victoria de um é a submissão ou o anniquilamento do outro.
Combate sem tréguas e sem derrota, é, porém, um tormento
infernal, uma agonia que offende a rasão, que nossa ima-
ginação apavorada difficilmente concebe.
A lucta não é, pois, o estado normal, sim transitório, de
todos os systemas da natureza ; e, na ordem política, é extre-
mamente necessário abrevial-a.
Certos reformadores parlamentares parecem ter instincti-
vamente comprehendido esta verdade ; mas, como procedem
contra os dados da sciencia e contra a torrente da opinião,
que não ousam affrontar de viseira erguida, bordejam com
astucia e obram hypocritamente. Não se sentindo apoiados
do publico assentimento e prevalecendo-se tão somente
do estupor de uns e da indifferença dos outros, os emprehen-
dimentos de taes homens nada têm de novo, solido e durável :
empregam seu gênio em rebocar o vetusto castello gretado,
addicionando-lhe muitos ornatos architectonicos de vários
mestres e diversas escolas e, senhores por surpreza de todas
as entradas e saídas, esforçam-se em fazer acreditar que
assim por esta fôrma deram profundeza aos fundamentos e
solidez ás ruinas!1 »
« Que são, como se fizeram as constituições que presidem
1
Berna!, Théorie de l'autorité, vol. I, pag. 12.
DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIEO 121

agora aos destinos da Europa? São por accaso obra dos


melhores espiritos. Foram concebidas com independência,
na calma de uma situação tranquilla? São o frueto da
reflexão e da experiência? Não têm sido todas ellas redigidas
sob o terror das revoluções, sob a acção constrangedora dos
partidos?
Nada mais se faz, em geral, que copiar á toda pressa as
imponentes constituições dos Estados visinhos, pela rrfaior
parte derivadas da Carta ingleza, a qual, a seu turno, nada
mais é que uma mistura de diversas, formada ao accaso, em
calamitosas épocas différentes, — amalgama informe de
monarchia, feudalismo e democracia, cujo único agente é a
corrupção, cujo único resultado é a miséria da maioria, cujo
único porvir é a insurreição. Todas estas cartas indistineta-
mente só nos preparam catastrophes ; e, no entretanto, cada
vez que um throno se desmorona, mostramo-nos incorrigi-
veis e recorremos aos mesmos remédios.
Não se conhece outra cousa! dizem. Mas, se assim é,
porque desdenhar conselhos, e continuar a ter exclusiva con-
fiança nos mesmos personagens? Ignora-se que um simples
pastor por vezes tem indicado a senda da victoria? Não se
comprehende que esses personagens, auetoridades na ma-
teria, devem ao contrario inspirar-nos desconfiança, poisque
tendo sido os únicos até agora escutados, nos hão conduzido
de perigo em perigo, e se declaram alfim incapazes de
salvar-nos?1 »
Bernai, historiando os prodígios da Convenção por salvar a
França, nota que ella « governou só. » « livre da influencia
de rivaes, » e diz : « como não reconhecer, por esses resul-
tados, a vantagem da unidade do poder? » E, mais adiante,
acerescenta : « Esta immortal assembléa, todavia, não com-
prehendeu assaz que a unidade de acção constituirá o
segredo de sua força, e recaiu na mania dos precedentes
4
Bernai, obra citada, vol. I, pag. 39.

"ft
122 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

legisladores ; poz-se a recopiar a Constituição aristocrática


da Inglaterra. Este systema attraía na época a attenção da
Europa, pela novidade de sua contextura, e apparente liber-
dade que dispensa aos cidadãos. A Convenção decretou,
pois, uma nova lei fundamental, a Constituição do anno III,
pela qual a auctoridade ficou repartida entre dois poderes : o
legislativo, confiado a «lois grandes conselhos, um do qui-
nhentos membros, o outro de dusentos e cincoenta; o exe-
cutivo, a um directorio, composto de cinco membros.
Este mecanismo era ainda muito complicado ; a Consti-
tuição do anno III mallogrou as esperanças que fizera con-
ceber. Não somente enervava o poder, dividindo-o, mas ainda
subdividinclo-o : o legislativo em dois conselhos, o executivo
entre cinco directores e ministros responsáveis. Por conse-
guinte, não havia mais unidade : as divergências no modo de
ver as cousas degeneravam em dissensões, o poder experi-
mentava contínuos abalos, a corrupção infiltrava-se por todas
as partes, e o navio da Republica não governava mais.1 »
Derrocado o Império napoleonico, reincidiu-se na falta da
Convenção, observa ainda Bernai. Em vez de um regimen
reparador c fecundo, tornou-se, mutatis mutandis, ao que
em boa hora destruirá Bonaparte, ao « systema representa-
tivo, com seu cortejo cie ficções e rivalidades : 2 » esqueceu-se
que o poder agora restaurado, a realeza, não é officio de
vagabundo, que ella consiste toda na acção, como dissera
Diderot.:!
Da mesma sorte, os democratas, fundando a Republica
i Bernai, vol. I, pag. 226-
O 18 brumario era, pois, inevitável, dizemos nós. Bonaparte foi apenas
agente do u m a tendência da sociedade a reencetar sua natural marcha polí-
tica, qual era patente na Historia. — « Onde todos os homens querem
necessariamente dominar com vontades iguaes e forças desiguaes, ponderava
Bonald, o necessário que um só domine ou todos os homens se destruam. »
O erro de Napoleão foi, não de restaurar a unidade do poder, mas sim de o
ter empregado mal e retrogradamente.
5
Idem, vol. I, pag. 232.
3
Encyclopédie, artigo sobre a realeza.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIEO 123

em 1848, « acreditaram que só esse nome ia emfim realisar


a felicidade publica, e recaíram no fatal e perpetuo erro da
divisão dos poderes e da delegação. Confiaram o poder legis-
altivo a uma Câmara, o executivo a um Presidente. Pensavam
que fazendo emanar um e outro da eleição popular, os
tornariam mais efficazes ; ignoravam, porém, que os, poderes
irresponsáveis tendem irresistivelmente para o absolutismo :
os reis tanto como os olygarchas ou tribunos.1 »
Verdadeira lição de boa e sã política nos dá, pois, o
grande poeta italiano, quando diz, em versos harmoniosos e
sublimes :
Ove un sol non impera, onde i giudici
Pendono poi de' premi e delle pene,
Onde sian compartite opre ed uffici,
Ivi errante il governo esser conviene.
Deh ! fate un corpo sol di membri amici :
Fate un capo, che gli altri indrizzi e frene ;
Date ad un sol Io scettro e Ia possanza,
E sostenga di Re vece e sembianza. 3

A historia inteira do governo parlamentar na propria Ingla-


terra, diz Bernai, também « nos prova, uma vez mais, que
não ha nada que seja tão variável, tão inconstante, como um
systema politico fundado sobre o principio essencialmente
mobil do equilíbrio dos poderes. No pouco tempo que dura
1
Bernai, Théorie de l'autorité, vol. I, pag. 235.
Não precisamos accrescentar que, pouco depois, « a invencível natureza,
como opina Rousseau, retomou seu império » e o poder unificou-se, infeliz-
mente nas mãos de um chefe indigno. Tal ó, no entretanto, a necessidade
de semelhante operação que, ainda agora, um general frivolo quasi logrou
demolir a olygarchia franceza, favoneando as justas aspirações populares.
2
Tasso. Gerusalemme liberate/., canto I, 31.
Hobbes, no Leviathan, opina que sem a paz não ha segurança no Estado ;
que a paz não pode subsistir sem o commando, nem o commando sem as
armas ; que as armas não valem nada, se não ficam exclusivamente nas
mãos de uma só pessoa.
Tratando da auetoridade, diz Meng-Tsê : « On lui donne de la stabilité
par l'unité. » — Confucius et Mencius, Les quatre livres classiques de la
Chine, trad. Pauthier, pag. 222.
124 DIEEITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIEO

este equilíbrio, o attricto das rivalidades conjura contra elle


e não tarda a rompel-o ; e o rival, que vê a concha da domi-
nação pender de seu lado, aferra-se-lhe como um frenético,
desenvolvendo esforços para impedir que seus adversários
recuperem legitima parte de influencia no governo : quer
dizer que o vencedor (e ha sempre um, ou, se não, anarchia)
consagra sua preponderância ao violamento da Consti-
tuição". 1 »
« Nos estados despoticos a Constituição consiste em uma
só palavra : o Soberano, que se applica ao Monarcha, e
sabe-se o bastante para obedecer. Nelle reside a auctoridade.
Legisla, dirige e julga : 2 e a Constituição, mau grado seu
laconismo, é completa e não carece de ser escripta, fácil
tanto de reter na memória a lei do knut...
O parlamentarismo cae no excesso opposto. Seus partidá-
rios deslocam a auctoridade do santuário que lhe é próprio,
e não sabem depois onde collocal-a. Armam-na de tantas
garantias illusorias3 que a abatem, crendo fortalecel-a ;
agitam-se em todos os sentidos, falam muito, promettem
mais, submettem-na á acção da pilha e do magnetismo, e
acabam por ter, em vez de um athleta, um cadaver. Às leis
orgânicas decretadas por elles formam volumes e são, apesar
disso, insufficientes, porque todas as que estampam no fron-
tespicio de seus códigos, nunca definem bem o essencial, isto
é, a auctoridade.i »
Este auctor, que é, como foi dito, republicano ultra-radical,
não só condemna o regimen inglez, como a chamada « demo-
cracia representativa, » imitada daquelle. « Bastar-nos-á
lembrar que tal systema engendra toda a sorte de abusos.
1
Obra citada, vol. I, pag. 327.
* P o r sua única vontade e arbitrariamente, quer dizer Bernai, como se vê,
do que é citado deste auctor.
3
Aristoleles já dizia: « Acontece o mesmo com as constituições políticas :
quanto peores são, maiores precauções reclamam. » — Política, livro VII,
cap. IV.
* Bernai, obra citada, vol. II, pag. 274.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 125

Emquanto a Constituição pretende estabelecer o equilíbrio


e infalibilidade dos poderes, oppondo-os uns aos outros,
elles se esforçam, logo depois de instituídos, em romper
um e outra, cada qual em seu proveito, para tornar-se exclu-
sivo, absoluto; c assim é quasi impossível todo bom go-
verno. 0 Estado vive a soffrer abalos, terrores e revolu-
ções, e a prosperidade publica nada ganha que conlpense
isto. Porque desde que este equilíbrio illusorio, paradoxal,
é interrompido (e nunca dura muito tempo), aquelle dos três
rivaes que triumpha, tende a usurpar a preponderância, c
torna-se tão pernicioso, quanto o governo da aristocracia na
Inglaterra o tem sido para as classes mais numerosas da
sociedade britannica.1 »
Bluntschili, ainda que geralmente é victima de extranhas
confusões em se tratando de assumpto político, apanhou a
clara noção deste, comose vê á pagina 462 da Theoria geral
do Estado : « Tem-se considerado essas divisões como outros
tantos poderes iguaes. E' um erro que está em contradicção
com a natureza orgânica do Estado. Os membros de qualquer
organismo tem cada um seu valor, mas desigual. Um é supe-
rior, o outro subordinado ou coordenado, e a ligação e a
unidade mantêm-se assim em tudo. Do mesmo modo, dividir
os poderes do Estado e collocal-os entre si (não somente na
fôrma e na apparencia, como nos Estados-unidos), em um pé
de igualdade perfeita, fora destruir o corpo social. Separar
a cabeça do corpo, para tornar iguaes uma e outro, é matar
o homem. »
0 julgamento definitivo desta « anomalia política, » como
elle a chamava, deu-o Augusto Comte em seu celebre tra-
tado de Philosophia positiva : « Nenhuma subtileza meta-
physica poderá de hoje cm diante impedir que, sem uma
duvida qualquer, se reconheça, depois de cabal apreciação
histórica, que a constituição parlamentar propria á transição
1
Obra citada, vol. II, pag. 20G.
126 DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO

ingleza foi necessariamente o resultado espontâneo e local da


natureza excepcional que devia ter, nesse meio, a dictadura
temporal para que tendia em toda parte, na segunda phase
moderna, a decomposição geral do regimen catholico e
feudal, como antes expliquei. Sua origem effectiva, que uma
celebre aberração liga ás florestas saxonias,1 acha-se pois
immediatamente, como em qualquer outro caso politico, no
conjuncto da situação correspondente, convenientemente ana-
lysada desde a idade media. Aquelles que, contra toda pre-
scripção racional, se obstinassem em ver nella uma imitação
qualquer, seriam obrigados a ir procurar-lhe o typo real em
situações anteriores semelhantes, e achar-se-iam assim pro-
pellidos a fazer approximações muito afastadas das actual-
mente dominantes. E' fácil notar, com eífeito, que o regimen
veneziano, que se tinha caracterisado em toda a plenitude no
fim do século xiv, constitue por certo, em tudo, o systema
politico mais análogo ao conjuncto do governo inglez, consi-
derado na fôrma definitiva que teve três séculos depois : esta
semelhança necessária resulta evidentemente de uma igual
tendência fundamental da progressão social para a dictadura
temporal do elemento aristocrático. E' até mesmo incontes-
tável que, por causa da diversidade dos tempos, o typo
veneziano tinha que ser muito mais completo que o inglez,

i Voltaire não poupou esta frivola affirmativa de Montesquieu : « É


possível com effeito que a Câmara dos pares, a dos communs, a Corte do
almirantado, venham da Floresta-negra? Preferiria igualmente dizer que os
sermões de Tillotson e de Smalridge foram outrora compostos pelas feiti-
ceiras teutonicas, que julgavam dos successos da guerra pela fôrma por
que corria o sangue dos prisioneiros que ellas immolavam. As manufa-
cturas de panno da Inglaterra não foram também achadas nos bosques em
que os germanos gostavam mais de viver de rapinas, que de trabalhar,
como diz Tácito ?
Porque não ter achado antes a Dieta de Ratisbonna que o Parlamento de
Inglaterra nas florestas da AUemanha? Ratisbonna deve ter aproveitado
antes do que Londres de um systema achado na Gcrmania. » (Notado auetor.)
Boutmy, como Voltaire, combate as falsas filiações de certos historiadores
que seguem a corrente de Montesquieu, na sua obra Développement de Ia
constitution et de la société politique en Angleterre, pag. 9.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 127
por assegurar á aristocracia dirigente uma preponderância
muito mais forte, seja sobre o poder central, seja sobre o
elemento popular.

Demais, como quer que se julgue uma tal comparação,


que me pareceu apropriada para caracterisar bem minha
apreciação histórica do regimen inglez, ainda que eu exclua
toda idéa qualquer de effectiva imitação, — é incontestável
que (a despeito de vãs theorias tardiamente imaginadas
sobre a chimerica ponderação dos diversos poderes) a pre-
ponderância espontânea do elemento aristocrático deve ter
subministrado na Inglaterra, como em Veneza, o principio
universal de um tal mecanismo politico, CUJO MOVIMENTO REAL
SEGURAMENTE S RIA INCOMPATÍVEL COM ESTE FANTÁSTICO EQUI-
LÍBRIO. A esta condição fundamental de semelhante regimen
é preciso junctar duas outras muito importantes ainda mais
particulares á Inglaterra, e que ahi bastante têm contribuído
para o mantenimento desse systema excepcional, apesar da
activa tendência universal á decomposição completa do
antigo organismo, cuja existência, sobretudo e com espe-
cialidade, esse systema se destina a prolongar. A primeira
consiste na instituição do protestantismo anglicano, que
assegurava muito melhor a subalternidade permanente do
poder espiritual, do que o gênero de catholicismo próprio a
Veneza, e que, por conseguinte, devia fornecer á aristocracia
directora poderosos meios, seja para retardar sua annullação
na ordem privada, apoderando-se habitualmente dos grandes
benefícios ecclesiasticos, seja para consolidar seu ascendente
popular, imprimindo-lhe uma espécie de consagração reli-
giosa, — ascendente cujo decrescimento tinha, aliaz, de ser
inevitável. Quanto á segunda condição complementar do
regimen britannico, corresponde ella ao isolamento politico
eminentemente particular á Inglaterra, que ahi permittindo,
sobretudo na terceira phase moderna, o activo desenvolvi-
128 DIREITO CONSTITUCIONAL BKAZILEIRO

mento de um vasto systema de egoísmo nacional, tendeu a


ligar profundamente os interesses principaes das diversas
classes á manutenencia continua da política dirigida por uma
aristocracia assim erigida, para o futuro, em penhor perma-
nente da prosperidade commum, salvo a insufficiente sati-
sfação desde ahi concedida á massa inferior; uma semelhante
tendência habitual se manifestara antes também em Veneza,
mas sem poder evidentemente adquirir lá um igual ascen-
dente. Ainda que eu não deva, neste lugar, proseguir em
semelhante analyse, que cada pessoa poderá agora pro-
longar por si com facilidade, ella ficou já certamente assaz
caracterisada, para que de um modo directo comprehendam
todos aquelles que tiverem convenientemente estudado o con-
juneto do governo inglez, quanto esta constituição exce-
pcional da grande transição moderna deve ser encarada como
necessariamente especial, poisque repousa essencialmente
sobre condições puramente relativas á Inglaterra, cujo con-
junclo é todavia indispensável á existência real de semelhante
anomalia política.
Esta digressão necessária, que cuidei de abreviar quanto
possível, faz logo resaltar a frivola irracionalidade das vãs
especulações metaphysicas que inclinaram os principaes
chefes da Assembléa constituinte a proporem, como alvo e
termo da Revolução franceza, a simples imitação de um
regimen tão contradictorio com o conjuneto de nosso pas-
sado, quanto radicalmente antipathico aos instinetos ema-
nados de nossa verdadeira situação social.1 »
1
Philosophie positive, vol. 6, pag. 292.
Hume, « ingenuamente, » como observa Bernai, deixa transparecer o
motor oceulto do parlamentarismo : «E certo que esta faculdade (de negar
os subsídios, em caso do governo desattender ás câmaras) ainda que essen-
cial á existência dos parlamentos, presta-se por sua natureza facilmente
aos abusos, não só pela repetição immoderada e frivolidade dos requeri-
mentos e petições, mas ainda pela affectação com que se procura mostrar
interferência em verdadeiras minúcias da acção governativa.
Sob a apparencia de conselhos, as câmaras podem insinuar ordens, e
lamentando-se das calamidades publicas, podem desprestigiar o governo ;
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 129

Já ao vasto gênio de Aristóteles não escapara a indecli-


nável unidade da concepção governativa, implicitamente
determinada por elle neste trecho da Política : « Entretanto,
pode-se fazer a este systema politico uma primeira objecção
e perguntar se, quando se cuida de um tratamento medico,
não cumpre que nos conformemos com o determinado por
aquelle mesmo que está no caso de tratar e curar o homem
todas as medidas resolvidas sem sua approvação podem ser declaradas
como actos usurpadores ou oppressivos, que se tornariam outros tantos
pretextos para a recusa dos subsídios mais indispensáveis, até que o poder
real, forçado pela necessidade e joguete da intriga, se dobre a seus
caprichos.
A propria natureza do direito de petição demonstra evidentemente que não
pode ser limitado por uma lei. Com efíeito, é impossível prever qual será,
o gênero e o numero das necessidades que hão de apparecer, e em que ramo
da administração do Estado o Parlamento se immiscuirá. A natureza do
direito também faz comprehender que os membros do Parlamento procu-
rarão exercel-o em toda a plenitude, e nunca deixar ao Príncipe a minúma
parcella de auetoridade. Os fracos liâmes da delicadeza e do respeito ,não
bastam para refreiar o egoísmo, que calca freqüentemente aos pés os pre-
ceitos mais venerados da lei e da natureza.
As leis fundamentaes inglesas têm successicamente aceumulado, toda-
via, nas mãos da realeza, grandes sommas de dinheiro, de qut? ella
pode livremente dispor, para abrandar a opposição das câmaras, recor-
rendo ao interesse privado e á ambição pessoal de seus membros.
Emquanto a opposição se esforça por ter todos os ramos da admini stração
sob os olhos indagadores das câmaras, a Coroa reservou para si um
grande numero de empregos, pela promessa e distribuição dos quines ella
conserva ainda, apesar de decaída do antigo poderio, um justo peso na OÔ.
lança da Constituição. »
« Eis o systema representativo descripto pela penna de um de seus mais
illustres escriptores, acerescenta Bernai. Jamais cancro algum se ostentou
horrendo assim : elle mostrou sob o dedo de um consummado auetor
irrecusável, sua fibra violacea; o eixo sobre que se move, a mola que o
propelle, Hume vos indica qual é : a corrupção, nada mais que a corrupção!

, Eis como o systema representativo eleva á altura de um principio de


direito publico a corrupção dos legisladores e de todos os cidadãos ; e como
a sala do throno e os palácios do Império britannico se transformaram, ha
séculos, em vastos basares, onde a avareza e a ambição traficam interesses
do povo e dão ao Mundo o exemplo da immoralidade política.

E o peor é que esta immoralidade tem sua fonte nas proprias entranhas
do systema. »
Corrompido o pinta o grande Hume, de inutil o taxa Faguet, que aliaz
é parlamentarista : c Ce qui frappe tout d'abord et dont tous les yeux sont
y

*v
130 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

actualmente atacado de tal moléstia, isto é, o medico, 1 »


argumento que redunda, applicado ao ponto controvertido,
em reconhecer que, da mesma sorte, fora contradictorio ir
pedir os remédios para as doenças do organismo politico,
nao áquelle que se incumbe de velar pela saúde publica e
conhece toda a extensão do mal de que soffra, isto é, o
governo, e sim a uma outra entidade existindo por intermi-
tencias, alheia, portanto ás différentes phases da moléstia
social, entidade tumultuaria por sua natureza, incapaz de
apanhal-o em toda sua complexidade.a
frappés, c'est l'énormité effroyable du temps perdu par nos assemblées déli-
bérantes. Elles siègent à peu près huit mois de l'année, ne réussissent que
rarement à voter une loi et votent régulièrement avec six mois de retard
un budget qui n'est guère que la reproduction de celui de l'année précé-
dente. Dans aucune maison de France et probablement d'Europe on ne
perd plus de temps que dans le Palais-Bourbon.

a Que font-ils donc (nos représentants) de leurs huit mois de présence ?


Comme le personnage de la comédie, ils ne font rien, mais ils agissent. Ils
se démènent énormément sans aucun résultat. Ils interpellent. Ils parlent,
ils crient, ils vocifèrent sur les affaires quotidiennes. Ils semblent être
jaloux de la presse et n'avoir pas d'autre objet que de reproduire par la
parole le tableau que la presse donne au Monde par ses moyens particu-
liers. » — Problèmes politiques du temps présent, pag. 5 et 6.
E o parlamentarismo, que Tobias Barreto (Questões vigentes, pag. 215)
definiu « o grande desvario, o proton pseudos politico do século XIX, » é
preeonisado ainda hoje no Brazil como a maior garantia da liberdade...
Da que elle nos assegurava bem pudéramos dizer com o grande S. Ber-
nardo : « Ó liberdade mais servil que toda escravidão ! » Obras eompletas,
vol. II, p. 214.
Vide no appendice a nota G.
1
Política, livro III, cap. VI.
Platão é de igual pensar. — Republica, livro IV.
* « A legislação seria perfeita se abraçasse todas as relações de situação,
extensão, solo, clima, temperamento, gênio, costumes e idéas dos povos.
Muitas vezes essas cousas estão muito pouco de harmonia entre si; só,
pois, uma attenção continua da parte dos que governam pôde manter justo
equilíbrio no meio do conflicto das circumstancias que luetam sem cessar
umas com as outras. Se as leis de uma sociedade não podem ser sempre
as mesmas, se suas necessidades variam, o governo deve sem descanço
oecupar-se cm remontar uma machina cujas molas se gastam com o tempo;
deve substituir por novas aquellas que se tenham estragado.
Um antigo disse que aquelle que commanda a todos deve ser o mais
sábio de todos. As luzes que a experiência proporciona, dão um ascendente
necessário sobre o commum dos homens; esta superioridade, fundada sobre
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 131

« 0 que é dividido é sempre fraco, » pondera também o


principe dos pensadores, no livro VIII, capitulo V.
Digno desse brilhante engenho o parecer do sagacissimo
Cicero : « Como podeis hesitar em decidir qual o governo
que convém aos Estados? Não vedes que, em uma nação, se o
poder é dividido, não ha mais auctoridade soberana, porque
a soberania, se a dividem, anniquila-se?1 »
Thucydides põe na bocca de Pericles a opinião segundo a
qual os peloponesios eram em uma situação desvantajosa
diante dos adversários, na sua grande guerra, pela falta de
unidade do poder, « que impede de executar cousa alguma
com celeridade.2 »
Plutarcho faz notar que « o que muito contribuiu para a
perda dos romanos, foi a multidão dos chefes, » durante a
entrada dos gaulezes, e mostra que a Pátria foi salva pela
concentração do poder, sob a fôrma dictatorial, com o
grande Camillo.3 »

a utilidade, confere, por assim dizer, aos cidadãos mais experimentados e


mais virtuosos, o direito de dirigirem os que são menos instruídos. Comman-
dai' é sempre um beneficio ; é guiar os passos dos cegos e dos fracos.
A sociedade não pode, sem nisto achar vantagens, consentir em submetter
sua conducta aos que a governam. Assim a política suppõe reflexões mais
profundas, visão mais larga e uma experiência mais consummada que a
do vulgo oecupado em trabalhos que o impedem commummcnte de meditar.
As nações estando, como se sabe, sujeitas a erros, a accessos de enthu-
siasmo, a preconceitos que tendem muitas vezes á sua ruína, a sorte délias
é deplorável, sem duvida, quando aquelles mesmos que governam se acham
inebriados por idéas falsas, que os cegam. A política deve ser calma,
isempta de paixões e preconceitos; sem isto uma nação, cega, não é condu-
zida senão por cegos que caminham para sua perda. » — D'Holbach, Poli-
tique naturelle, vol. I, discurso 7o, § XI.
E é este, todavia, o estado mental e moral dos politicos, no mundo
moderno : cegos e transviados, que ahi vão arrastando as nações para um
horrível abysmo !
Essa fecunda política de que nos fala D'Holbach, « calma isempta de
paixões e preconceitos, » é totalmente desconhecida de todos elles, e de
facto, impraticável dentro de um regimen em que não existe completa
unidade governativa.
1
Da Republica, liv. I, cap. 38.
1
Guerra do Peloponeso, liv. I, cap. 141.
1
Vidas dos homens illustres, vol. II, pag. 266.

*
132 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

0 mesmo pensar transparece neste trecho de Tito Livio :


« No exercito romano os dois cônsules gosavam de igual
poder ; mas a deferencia de Agrippa, centralisando a aucto-
ridade nas mãos do collega, estabeleceu essa unidade tão
necessária ao êxito das grandes emprezas.1 »
Seneca (cita o auctor da Arte de reinar, liv. I. disc. 2°,)
« reprehende á Marco Bruto por matar a Julio Cesar, dando a
rasão que o melhor estado da Republica é quando se governa
por um só Principe, o que teve principio em Julio Cesar. »
Tácito declara que « em um poder partilhado por diversos,
de commum o accordo não se obtém.2 » « Porque, diz o Rei
Affonso o Sábio, segun natura, ei senorio no quiere com-
panero, nin Io ha menester ; como quier que em todas guisas
conviene que aya homes buenos, y sabidores, que le acon-
sejen, y ayuden.3 »
O grande Richelieu deixa ver bem claro esta mesma idéa
em seu admirável Testamento politico : « Depois de ter exa-
minado e reconhecido as qualidades necessárias nos que
hão de ter emprego no ministério de Estado, não posso pre-
scindir de observar que, assim como a pluralidade dos medicos
causa algumas vezes a morte do enfermo, em vez de ajudar
á sua cura; assim o Estado terá, antes prejuiso, que van-
tagem, se os conselheiros forem em grande numero.4 »
... Dum terra frelum, ierramque levabit
Aer, et longi volvent Titana labores,
Noxque diem coelo totidem per signa sequetur,
N U L L A F I D E S R E G N I SOCIIS. O M N I S Q U E P O T E S T A S

IMPATIENS CONSORTIS ERIT. Nec gentibus ullis


Credite ; nec longe fatorum exempla petantur :
Fraterno primi maduerunt sanguine mûri.
1
Historia de Roma, liv. Ill, cap. 20.
[ * Obras, Annaes, liv. XIII, cap. 2o.
3
Navarrete, Conservation de monarquias, pag. 23 ; Código de Ias parti-
das, part. II, tit. I, lei I.
* Parte 1", secção VI.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 133

Nec pretium tanti tellus pontusque furoris


Tune erat : exiguum dominos commisit asylum. !

A unidade de poder é uma lei fundamental, e prova-o a


propria transformação por que passa a parlamentar Ingla-
terra. O poder ali, outrora em mãos do Rei, esfarelou-se,
passando ás dos barões e communs. Mas se aquelle, o Rei,
desapparece como roda inutil, se aquelle orgam se atrophiou,
falto de exercício, a funcçao que lhe cabia determina a for-
mação de outro orgam mais apto, no organismo politico : as
funcções governativas disseminadas no corpo nacional, espe-
cialisam-se, concentram-se de novo em um orgam único,
capaz de preenchel-as cabalmente como o Rei antigo.
Esvae-se o poderio do testa-coroada e surge paulatinamente
o do ministério, depois o do primeiro ministro ou chefe do
gabinete... que, com o andar dos tempos, reconquista para
a auctoridade todas as attribuições que tinha antes, restau-
rando em seu favor a somma de poder em tempos idos con-
ferida ao Monarcha.
Na Grã-Bretanha, actualmente, todos os chamados poderes
acham-se reunidos em um só poder : o do chefe do minis-
tério, que legisla, administra, e até decreta orçamentos...
TAL GOVERNO É, mutatis mutandis, TÃO ABSOLUTO COMO O
DOS REIS ANTERIORES AO ADVENTO DO PARLAMENTARISMO!2
De facto :ficoua seu alvedrio a decisão sobre orçamentos,
porque as câmaras os votam sempre, taes quaes os apre-
senta, entendendo que o governo é expressão da vontade da
i Pliarsalia, liv. I. Todos os grandes poetas pressentiram esta verdade
eterna : que o mando se não pode dividir. Veja-se com que energia Klops
tock se manifesta pela bocca de Adramalech : « Melhor não existir que
partilhar o poder supremo!... » — Messiada, canto TI.
* Aliaz, esta feição do regimen fora prevista por aquelle agudissimo
engenho de Hume. « A monorchia absoluta, diz, e' pois a morte mais feliz,
a verdadeira euthanasia da constituição ingleza. » Esta maravilhosa previ-
são do philosopho esta' perfeitamente confirmada nos dias de hoje : o pri-
meiro ministro e' um Monarcha absoluto. — Hume, Œuvres philosophi-
ques, vol. VI, pag. 83.
134 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

maioria e, portanto, julgando ser contradictorio negar-lhe


cousa alguma do que pede, isto é, do que a propria von-tade
da maioria reputa indispensável; ficou sob sua influencia a
administração da justiça, por nomear o respectivo pessoal e
fiscalisal-o; ficou-lhe a faculdade legislativa, porque as leis
emanam hoje do seio do gabinete.
Esta ultima affirmativa, por extranha que pareça aos ingê-
nuos adoradores do equilíbrio dos poderes — esse mons-
truoso deus tricephalo da mythologia política — não é menos
incontestável do que as outras.
Ninguém vê isto, por um muito vulgar erro de lógica que,
segundo o naturalista G. Leroy procede do seguinte : « Co-
meça-se por suppor existente o estado que se examina, e as
reflexões do observador não conseguem abraçar senão a obra
de sua imaginação, que pode estar muito afastada da natu-
reza.1 »
Vamos citar em apoio do que ousamos affirmar sobre o
regimen inglez, algumas paginas dignas de meditada leitura,
do perspicaz cscriptor dessa nação, Sumner Maine, cuja
auctoridade nesta materia é indiscutível.
« Chegamos aqui, diz elle, em seu interessante Ensaio
sobre o governo popular, ao grande paradoxo moderno da
Constituição ingleza. Ao passo que a Câmara dos communs
assume a fiscalisação de todo o poder executivo, cila aban-
dona ao governo executivo a parte mais importante do tra-
balho legislativo, porque é no seio mesmo do gabinete que
começa a obra effectiva da legislação. Os ministros, apenas
repousados das fadigas, hoje muito serias, de uma sessão que
dura até quasi principio de setembro, reunem-se em conselho
de gabinete no mez de novembro, e, no decorrer de algumas
sessões que se prolongam apenas a pouco mais de uma quin-
zena, determinam os projectos legislativos que serão submet-
tidos ao Parlamento. Essas propostas, esboçadas no máximo
1
Lettres d'un physicien de Nuremberg ; a Io.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRArZILEIRO 135

(comprehende-se facilmente) por um simples traço de penna,


— são em seguida confiadas ao redactor official do governo.
Ora, em toda obra legislativa, o trabalho consiste por tão
grande parte em manipulações de miudezas e em adaptar á
leis preexistentes as innovações cuja idéa-mãi é mais ou me-
nos vaga, que nos não enganamos muito provavelmente attri-
buindo as quatro quintas partes de cada texto legislativo ao
consummado jurista incumbido de dar uma forma apresen-
tavel aos projectos de lei do governo. Segundo o numero de
medidas que saem de suas mãos, fabrica-se o programma dos
bills, que é annunciado no discurso da Rainha; e, nesse
momento, a legislação ingleza tem entrada em outra scena.

Todo bill que o ministério apresenta ao Parlamento (e sabe-


mos que todos os bills importantes são apresentados sob seu
patrocínio) deve passar na Gamara dos communs sem modi-
ficação substancial, de outra maneira os ministros demittem-
se, e as conseqüências mais graves podem seguir-se, até nas
partes mais longínquas de um Império que se estende aos con-
fins da Terra. Deste modo, é preciso á fina força abrir
caminho ao bill do governo atravez da Câmara dos communs,
usando-se para isto do grande vigor que dá ao partido uma
severa disciplina ; assim como é de uso que a lei saia desta
prova com quasi a mesmissima feição que lhe fora dada pelo
governo executivo. Deveria ella, então, como de direito, ser
discutida minuciosamente pela Câmara dos lords, mas, esta
praxe da legislação ingleza tende a tornar-se puramente nomi-
nal, e a deferencia que lhe mostra a Coroa não é mais desde
muito que simples questão de fôrma. E' pois ao governo exe-
cutivo que cabe a honra de ser auetor da legislação ingleza.
Eis porque vamos expender uma conclusão extraordinária, e
é que : o povo cujos costumes constitucionaes suggeriram a
Montesquieu seu famoso axioma sobre a distineção dos pode-
res executivo, legislativo e judiciário, falseou completamente


136 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

essa lheoria em menos de um século. 0 poder executivo legal


tornou-se a verdadeira fonte da legislação, emquanto que a
legislatura legal immiscue-se incessantemente no governo
executivo. (Pag. 330 a 332, trad, franceza.) »
Como se deu na operação legislativa esta reversão ás fôr-
mas regulares do organismo politico?
— E' que « se o Legislador, errando o alvo, consagra um
principio différente daquelle que se funda na natureza das
cousas, o Estado ver-se-á incessantemente agitado até que
tal principio seja destruído ou mudado, e que a invencível na-
tureza haja readquirido seu império, » — verdade esta que
Rousseau apanhou, mas cujas conseqüências não soube de-
duzir, como judiciosamente observa Bonald.
Assim é, e assim será. Por fim, as legitimas « exigências
sociaes hão de impor-se aos estadistas, seja qual for o apego
destes a formulas abstractas.x » A experiência, como « essa
preciosa lança de ouro, que tinha o poder de deitar por terra
os cavalleiros que tocava,2 » desmoronará todas as fantasias
dos políticos ainda filiados á exhausta metaphysica.

Superficiaes na discussão desta these constitucional, os


parlamentaristas ainda por cima se não mostram conse-
qüentes em sua applicação.
Proclamam a necessidade da divisão de poderes e os bara-
lham incoherentemente na pratica. Nossa Constituição, por
exemplo, confia ao poder legislativo attribuições puramente
administrativas, da competência indiscutível do executivo,
e assim outras da competência do judiciário, como sejam as
de :
« regular a arrecadação das rendas federaes (art. 34.°,
n. 4) ; »
1
Ingram, Histoire de l'économie politique, p a g . 348.
* Ariosto, Orlando furioso,canto VIII.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 137

« legislar sobre o serviço dos correios e telegraphos fede-


raes (n. 15) ; »
« adoptar o regimen conveniente á segurança das fron-
teiras (n. 16) ; »
« legislar sobre a organisação do exercito e da armada
(n. 18) ; »
« declarar o eslado-de-sitio e conceder amnistia (n. 21 e
27) ; »>
« crear e supprimir empregos públicos federaes e fixar-
lhes as attribuições (n. 25) ; »
« legislar sobre policia, e demais serviços que na capital
forem reservados para o governo da União (n. 30) ; »
« funccionar como tribunal de justiça ^arts. 29." e 33.°) ; »
« interferir na nomeação de magistrados e ministros diplo-
máticos (art. 48.°, n. 12). »
Não fica nisto a confusão : o Vice-Presidente da Repu-
blica, representante do poder executivo, preside e dirige os
trabalhos de um dos ramos do legislativo ( art. 32.°) : nos
impedimentos ou em caso de morte do Presidente e Vice-Pre-
sidente, succedem-lhes o Vice-Presidente do Senado ou o
Presidente da Câmara (membros do poder legislativo), ou o
Presidente do Supremo tribunal, — o mais alto representante
do poder judiciário! (Art. 41.°, §§ 1.° e 2.°)
Quantas contradicções !
« Não somente enervaram o poder dividindo-o, mas ainda
subdividindo-o, » como se vê do art. 16.°, e seu primeiro
paragrapho, da Carta de 24 de feveiro : »
« O poder legislativo é exercido pelo Congresso nacional
com a sancção do Presidente da Republica. » « O Congresso
nacional compõe-se de dois ramos : a Câmara dos deputados
e o Senado.* »
4
O notável voto em separado do dr. Julio de Castilhos, representante do
Riogrande do Sul, na « Commissão dos vinte-e-um, » nomeado pelo
Congresso constituinte para dar parecer sobre o projecto de Constituição
offerecido pelo Governo provisório, declara-se em favor da unidade do
Corpo legislativo.

%\
138 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Gomo observa Turgot, em carta ao dr. Price, nos Estados-


unidos imitou-se a Inglaterra, ao constituir o apparelho gover-
nativo : no occidente, em toda parte imitou-se a União norte-
americana.
Havia ali duas câmaras ? — Era forçoso estabelecel-as em
todos os paizes chamados constitucionaes ! Ninguém com-
prehendeu que a servil imitação dos americanos dera* em
resultado introduzir no apparelho governativo dessa (Repu-
blica um orgam inadequado ao novo regimen e particular á
evolução britannica... « Que se olhe.para a Inglaterra, dizia
Rabaut Saint-E'tienne : a Gamara alta nada mais representa
que um vestígio do governo feudal. »
De facto : a Gamara dos lords é a velha assembléa dos
nobres : a curia de plena idade media, por quasi toda a
Europa amalgamada com os representantes do clero e procu-
radores do povo, formando os chamados Estados gemes,
Côrles ou Dietas, cuja funcção normal foi o voto dos impostos.
Curioso é ver neste século de anomalias políticas, o paiz
onde foram copiar modernamente a instituição de uma
segunda Câmara, esforçando-se por eliminal-a e já de facto
havendo-o conseguido, pois a auctoridade da Câmara alta é
hoje puramente nominal; ao passo que nos paizes em que se
introduziu este enxerto anglo-saxonio, se apegam a elle com
um irracional empenho!
A dualidade de câmaras, dizem, garante maior peso nas
deliberações, evitando actos precipitados de conseqüências
irremediáveis. Mas, isto conseguir-se-ia da mesma sorte, for-
mulando praxes que demorem o voto de toda e qualquer
medida e só dêm azo áquellas de serem adoptadas, quando
perfeitamente maduras. Dispensaríamos assim grande numero
de homens validos, cuja actividade teria melhor applicação,
ao mesmo tempo que o erário era muito menos onerado —
vantagem de monta, em paiz pobre e individado como o nosso.
Uma « Gamara alta, segundo nos parece, actua sobre a
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 139

Gamara baixa, tornando-a mais circumspecta em suas propo-


sições e resoluções, e a constrange a consultar a opportuni-
dade e não somente a lógica,» opina o escriptor Saint Girons.1
Mas, Stuart Mill replica : « Tenho como de pouco valor o
freio que pode impor uma segunda Câmara, » opinião esta
que corroboram exemplos de muita actualidade.
0 Senado imperial era ultimamente o iniciador das medidas
mais radicaes e>quem dava impulso á Gamara dos deputados.
Para comprehender-se que o caracter conservador que é
de uso attribuir á Câmara alta, não depende das instituições
e das intenções do Legislador constituinte, basta olhar para
o Senado de Washington, cujas imprudências e demasias se
têm tornado proverbiaes. Fossem os governos seguir-lhe os
ímpetos e estava a União compromettida em mais de uma
aventura : citemos só a idéa de intervenção americana em
negócios de Creta, a pretexto de defender christãos, e por
ahi se poderia imaginar a desponderação que reina em o
Senado, nessa câmara que Madison sonhou capaz de « pro-
ceder com calma, com mais systema e sabedoria, que o ramo
popular da legislatura.3 »
« Onde a necessidade de dois ramos para a legislatura ? E'
para que um contrabalance o poder do outro ? perguntava
Paterson, na Convenção americana.

As delegações dos Estados sãO' outros tantos contrapesos,


umas para com as outras. Nenhum outro modo de ponde-
ração é necessário. » « Este raciocínio foi logo refutado, diz
Carlier,3 fazendo-se notar que toda assembléa legislativa
precisa que lhe ponham freio á omnipotencia, e não
o pode ter em seu próprio seio. E' preciso pois dividir
1
Séparation des pouvoirs, pag. 182, nota.
J
Carlier, Republique américaine, rol. 2o, pag. 38.
3
Idem, vol. II, pag. 15.
140 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRf»

a legislatura em dois ramos, para amparar as minorias con-


tra o despotismo das maiorias. »
E no caso em que um só partido domine nas duas câmaras,
onde a garantia ideada? Senado e Câmara orientaes não pa-
trocinaram com igual ardor todas as pretenções e violências
de Maximo Santos ? Senado e Câmara da França não se com-
binaram para comprimir o boulangismo, que representou,
quando menos, aspirações de uma minoria tão respeitável
como outra qualquer? Senado e Câmara chilenos não se levan-
taram contra Balmaceda, defensor da lei e da Constituição :
junctos não inundaram de sangue o paiz, amordaçando os
legalistas que não foram trucidados? Senado e Câmara da
Argentina e Venezuela unidos não apoiaram os ignominiosos
governos de Juarez Celman e Gusman Blanco, com elles
explorando escandalosamente essas duas nações?
A divisão do Congresso, portanto, não impede os desman-
dos da omnipotencia parlamentar. Esta evita-se é mar-
cando na lei, com rigor e precisão, quaes as limitadas attri-
buições da assembléa : sempre que forem illimitadas, a
tendência para o abuso será fatal.
« Guarda-te de cultivar diversos campos, diz a sabedoria
chineza. Porque se o tentas, as forças te faltarão, e teu campo
descuidado se cobrirá de hervas damninhas que matarão a
boa semente.* » Este conselho, observado discretamente no
terreno politico, premune contra todo o mal que se busca
evitar com inúteis palliativos : o segredo está em cada orgam
do apparelho governativo restringir-se á acção que lhe com-
pete e a que deve attender exclusivamente.
A solução consiste em limitar2 o nunca em dividir a acção
* Chi-King, canto VII.
* Noutros termos : em estabelecer perfeitamente a responsabilidade, pois,
como diz C. Nordhoff, « o maior e mais perigoso defeito de um governo é
ter sua responsabilidade mal definida. » — Política para os jovens ameri-
canos, trad, do dr. Fernando Abbott, pag. 38.
A brilhante intelligencia de Mirabeau alcançou logo que no estabeleci-
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 141

do Congresso, o quê será fonte e origem de conflictos, em caso


de desavença,1 inutil estorvo, em caso de harmonia de pen-
sar, como perfeitamente observa Sieyès : « Para quê duas
câmaras? Se ha accordo entre ellas, uma é inutil; se se divi-
dem, ha uma que não somente não representa a vontade do
povo, mas que a impede de prevalecer...2
<( 0 Corpo legislativo, segundo Destutt de Tracy, deve ser
essencialmente uno, a deliberação em seu próprio seio, e sem
combater contra si mesmo... Todos esses systemas de oppo-
sição e equilíbrio nada mais são, repito, que vãs macaquices
ou real guerra civil. »
Emfim, o espirito de Franklin define com sufficiente clareza
o absurdo desta dualidade, dizendo : « Um governo com duas
câmaras faz-me o effeito de uma carreta com duas parelhas,

mento da responsabilidade está a chave de tudo : « Jamais une nation no


sera libre que toute la hiérarchie sociale ne soit comprise dans la respon-
sabilité. » Discour sur la responsabilité de tous les agents de l'autorité,
collecção Vermorel.
1
« Ce n'est pas tout. De cette complication désordonnée dans le méca-
nisme du régime parlementaire, résulte un danger bien autrement grave
encore. Ce danger réside dans la possibilité d'une compétition de pouvoir
entre les deux chambres. N'est-il aucune question sur laquelle le pays lui-
même ne puisse être divisé ? Ne peut-il se produire aucun incident qui
mette aux prises les diverses nuances d'un parti ? Cela étant, qui donc
pourrait répondre qu'un conflit ne s'élèvera pas entre les deux chambres?
Certaines passions violentes, souvent l'influence d'un homme, peuvent se
f airejour dans l'une et devenir entre elles une cause d'antagonisme capable
de jeter le désordre dans le pays lui-même, de telle sorte qu'on se trouve-
rait, quoique pour d'autres raisons, dans la situation qui serait celle pro-
duite par deux assemblées ayant des origines contradictoires.
T utes ces considérations sont suffisantes, je le crois, pour faire rejeter
sans hésitation l'idée d'une seconde Chambre, comme ne pouvant, de toutes
manières, qu'aboutir à une situation grosse de périls et de calamités. »
— Antonin Dubost, Des conditions de gouvernement en France, pag. 370.
s
Com muito acerto diz Rousseau : « Si elles sont toujours séparées, elles
manqueront de concert, et bientôt se contrecarrant mutuellement, elles use-
ront presque toutes leurs forces les unes contre les autres, jusqu'à ce
qu'une d'entre elles ait pris l'ascendant et les domine toutes : ou bien si
elles s'accordent et se concertent, elles ne feront réellement qu'un même
corps et n'auront qu'un même esprit... » — Considérations sur le gouver-
nement de Pologne, cap. VII.

%l
142 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

uma adiante e outra da parte de traz, puxando os cavallos em


sentido contrario.x »

E' de indeclinável necessidade que o Congresso annual-


mente se reuna, adoptado o duplo orçamento por nós pro-
posto á pagina 77 deste livro?
Julgamos que não.
Dir-se-á : e não é perigoso que fique sem uma severa fisca-
lisação, exercida regularmente todos os annos, o emprego dos
dinheiros públicos ?
Cumpre na verdade que haja a maxima vigilância neste
ponto, que é de summa importância para a perfeita garantia
da liberdade dos cidadãos.
Julgamos, porém, teria muita rasâo de ser o allegado, se
não existisse um Tribunal de contas, que é muito sufficiente
para praticar essa indispensável íiscalisação, no intervallo
de tempo em que não haja sessões do Congresso.
Não é esta funcção cardeal de taes corporações ?
Por certo que sim.
Facultando-se-lhe, então, o poder de convocar por si o
Congresso, sempre que, depois de impugnados, persista o
governo em fazer gastos que excedam as verbas orçamenta-
rias, fora dos casos previstos em lei, — parece-nos que seria
inutil determinar funecione a Assembléa nacional muito se-
guidamente.
Já o vae comprehendendo assim o espirito pratico dos
3
A unidade di> câmaras foi adoptada na Allemanha, Ausüia-Hungria,
Grécia (o Senado foi supprimido em 1864), Servia, S. Salvador (o Senado
foi supprimido em 1888), Honduras, Costa-rica, Bolivia (o Senado foi sup-
primido em 1899j, Transwaal, Oraage, Republica dominicana, Egypto,
e cantões suissos de Berna, Genebra, Schwiz, Unterwalden (baixo), Glaris,
Zug, Friburgo, Basiléa, Saint-Gall, assim como no Luxemburgo, Oidem-
burgo, Brunswick, Saxe-Weimar, Saxe-Meiningen, Saxe - Altenburgo,
Saxe-Coburgo, Saxe-Gotha, Anhalt, Schwarzburgo-Rudolstadt, Schwarz-
burgo-Sondershausen, Reuss, Schaumburgo-Lippe, archiducado d'Austria
(abaixo do Enns), Croácia, e no Ontario.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 143
norte-americanos. A Carta constitucional da Pennsylvania, no
artigo 4." de seu capitulo 2.°, estabelece a convocação da
Câmara, de dois em dois annos.
Da mesma fôrma, o « Acto constituindo um Conselho federal
na Australia, » qual se vê no artigo 4.°, copiou o que a res-
peito se consagrara na lei orgânica daquelle Estado.
Isto, porém, não é ponto de grande importância.
Comtanto que o governo disponha de recursos certos, com
que possa attender ás despezas permanentes, no decurso de
uma governação, ou, pelo menos, em vários exercícios, não
é cousa de que valha muito a pena fazer grande cabedal.
E' certo que esse uso acarreta inutilmente dispendios muito
consideráveis ao paiz, mantidos os actuaes subsídios, ou aos
congressistas, se a funcção que lhes é commettida for gra-
tuita.
Continuando a ser de lei a reunião annual da Câmara, é de
muita prudência decretar que só se pagará o subsidio durante
o praso da sessão ordinária, e nunca em tempo das proroga-
tes.
Os encantos da vida na capital da Republica e a falta de
occupações rendosas nos Estados, predispõem singularmente
nossos representantes, exceptis excipiendis, a permanecerem
quasi o anno todo no Rio-de-janeiro, votando para isso suc-
cessivas prorogações onerosissimas.

0 systema seguido no Brazil para a composição do Congres-


so, é o da escolha por escrutínio directo do povo, como se faz
na Allemanha. Em os Estados-unidos e Republica argentina,
parte do Congresso (a Câmara) é eleita pelo povo, parte (Se-
nado), pelas legislaturas das circumscripções confederadas,
sendo também por esta forma compostas as « Delegações »
austro-hungaras, câmara central do Império dos Hapsbur-
gos. Na Suissa, o « Conselho nacional » é composto por meio
144 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

do voto universal ; o « Conselho dos Estados, » segundo o


modo que os mesmos Estados entenderem.*
Este systema de composição do « Conselho » suisso, o
mais liberal e conforme ao regimen federalista, devera ado-
ptar-se entre nós. — Qualquer subsidio ou auxilio pecunario
aos representantes convinha também que corresse por conta
dos Estados, isto no caso de vigorar essa perniciosa praxe,
que créa a classe dos políticos de profissão.2

* O conselho federal da Australia é composto desta segunda fôrma.


1
Na Inglaterra, Allemanha, Italia, Hespanha, Baviera, Saxonia, Bade,
os representantes ntão recebem subsidio. O Senado belga igualmente, e tam-
bém a Câmara da Bolivia.

LIVRO V

Do systema eleitoral

JO

%
LIVRO V

On va d'un pas plus ferme à sui-


vre qu'à conduire.
Imitation, trad. Corneille.

« A Câmara dos deputados compõe-se de representantes


do povo, eleitos pelos Estados e pelo Districto federal, me-
diante o{suffragio directo, garantida a representação da mino-
ria (Constituição, art. 28.°). » « 0 Senado compõe-se de cida-
dãos elegiveis nos termos do art. 26.° e maiores de 35 annos,
em numero de três senadores por Estado e três pelo Districto
federal, eleitos pelo mesmo modo por que o forem os deputa-
dos (art. 30.°). » « O Presidente e Vice-presidente da Repu-
blica serão eleitos por suffragio directo da nação, e maioria
absoluta de votos (art. 47.°). »
E', pois, em vigor no Brazil o systema da eleição directa'
pelo povo, generalisado no mundo moderno, com a decadên-
cia da arte política.1
Vimos já em outra parte, 2 que o povo não tem competen-
1
« O que se chama suffragio universal, diz Summer Maine em seu
Ensaio sobre o governo popular, pag. 55, desceu muito na estima não só
dos philosophos que se ligam á escola de Bentham, como até mesmo da dos
thericos a priori, que, depois de terem preconisado outrora o principio
segundo o qual elle era o accessorio obrigado de uma Republica ; acabaram
reconhecendo que na pratica se torna a base natural de uma verdadeira
tyrannia.
2
Discurso preambular.

Pc
148 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

cia positiva e sim negativa. Âppiicando ao caso vertente a


theoria, concluímos que elle jamais sabe determinar quaes os
homens que estão em condições de bem servir nas diversas
magistraturas. Agora, se ha quem designe um ou vários para
talfim,mais fácil lhe é conhecer se as pessoas apontadas offe-
recem todas as* garantias possíveis de uma boa escolha. A
nsão é obvia : como poderia o eleitor descobrir, no meio da
massa immensa dos homens, qual o que reúne a somma de
qualidades necessárias ao bom governante ?
Dir-se-á que a difficuldade é já vencida com a praxe actual
de se apresentarem ao povo os candidatos aos diversos car-
gos. Assim sabe em quem votar : compara uns aos outros e
decide-se pelo melhor.
Pecca pela base o systema. Está visto que só se animarão
a pleitear eleições aquelles que disponham da maior influen-
cia sobre as camadas populares, facto que poucas vezes se
combina com a competência política.
Erra-se, portanto, abandonando ao instincto popular o
descobrimento do indivíduo que deva governar ; erra-se, ad-
mittindo que escolha entre poucos, arbitrariamente predeter-
minados.
Qual então o processo a adoptar ?
Uma simples consideração fornecer-nos-á dados suficien-
tes para a solução do problema.
Se conduzirmos qualquer enfermo diante de uma assem-
bléa popular, á semelhança do que faziam na Grécia primi-
tiva,1 pedindo que por voto da maiora se decida quem é
capaz de cural-o ; por certo que deixamos perplexos os cir-
cumstantes. Se, ainda, apresentarmos um grupo de indiví-
duos para que entre todos se estabeleça este suffragio, desi-
gnando-se um délies, bem que sua perplexidade seja menor,
a assembléa não é capaz de escolher o mais apto para o

Herodoto, Historia, vol. I, § CXCVII.


DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIEO 149

effeito. Se, no entretanto, houver quem lhe designe pessoa


que julga com o pr< j,íiro preciso para o caso, uma de duas :
ou o povo aceita a indicação, por lhe parecer que nada tem a
oppor-lhe ou a rejeita, com um fundamento qualquer : por
exemplo, allegando que jamais essa pessoa patenteou capa-
cidade especial para curar, ou que sempre que o tentou, foi
com o mais nullo resultado .
Ticius nunca se deu ao trabalho de folhear os livros de
Hippocrates e de outros doutores, nem consta que se tenha
demorado á cabeceira de doentes; se alguém se lembra de
indical-o para assistir ao que soffre, — que vemos ? — A
assembléa, sem discrepância indisputavelmente, considera
absurdo pensar-se em ïicius, e rejeita por certo seu nome.
0 mesmo se dá no campo mais vasto da politica.
Caius é apresentado para servir em certa magistratura :
sabe-se que em tempo algum se occupou da funcção corres-
pondente a esse cargo, ou já preencheu-a desastrosamente,
ou é um homem de frágeis costumes, ou que cede a empe-
nhos, ou que é mau (a maledicencia jamais deixa ignoradas
estas cousas, tanto na aldêa, como na mais opulenta capi-
tal), e o povo com facilidade vê que lhe não pode con-
céder suffragios : repelle tal indicação. — Marcus é apon-
tado; deu já provas de competência, manteve-se com honra
em varias commissões, ou se ainda não teve ensejo de
mostrar-se qual é, nada ha que faça suppol-o inferior á
dignidade para que o designam : seu nome é acolhido com
enthusiasmo, no primeiro caso, e, no segundo, sem anti-
pathias, nem prevenções.
O que faz repellir Ticius e rejeitar Caius é essa compe-
tência negativa do povo, que antes reconhecemos.
Este facto, cuja observação fazemos agora no circulo da
escolha dos funccionarios, já fora reconhecido na opera-
ção de elaborar as leis.
Na democracia atheniense, a principio ficavam entre-

vi*
150 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILBIRO

gues ao acaso dos debates do Agora, votando cada qual


como entendia. Mais tarde, crearam-se os nomothetas, i
incumbidos de redigir as leis, para que o povo deliberasse,
sanccionando-as ou não. Em Lacedemonia, os spartanos
« exerciam unicamente o direito de admittir ou rejeitar as
propostas que lhe eram feitas pelo governo.2 » Em Roma,
as tribus nunca fizeram as leis; apenas, por via do plebis-
cito, aceitavam ou recusavam seu apoio a um projecto qual-
quer, da iniciativa de um dos cidadãos. A Lei constitucional
do anno I, restaurou em França esta praxe rasoavel e tão
conforme ã natureza das cousas.
Como bem observa Bernai,3 se admittimos a incompetência
positiva do povo para o menos, como a não admittir para o
mais. Ora, o voto directo das leis (diz elle) não exige as
medidas preparatórias e delicadas, indispensáveis na escolha
dos magistrados, por suffragio dos cidadãos.4 « As votações
que se praticam hoje, tendo todas em vista a escolha das pes-
soas, o mérito dos candidatos, SÃO AS MAIS DIFFICEIS PARA AS
MASSAS POPULARES. Com effeito, raramente acontece que as
pessoas aptas para o officio de legislador e para o governo,
tenham tido tempo e ocios para estabelecer ligações com um
grande numero de cidadãos, para ganhar a multidão.5 »
O bom senso pratico dos povos peninsulares descobrira
este escolho e o evitara em mais de um caso. E' assim que
em certos domínios da Hespanha, na constituição da munici-
1
Thucydides, livro VIII, § XCVII.
*3 Heeren, Histoire ancienne, pag. 210.
Importante a citação deste auctor, em apoio do systema, pois é elle um
dos theoristas da mais pura democracia directa.
* Théorie de l'autorité, vol. I, pag. 151.
* Idem, vol. I, pag. 150.
E essa a opinião do padre Parado, como se vê do seguinte trecho da Arte
de reinar (liv. V, disc. I) : « Entramos na mais difficultosa materia e mais
necessária a todo o governo politico, porque das pessoas mais que das leis
depende a felicidade da Republica e por maiores que sejam as prevenções
e diligencias, nunca podem ser bastantes p^ra de todo arrancar os affectos
humanos, de que depende a difficuldade que sempre houve de acertar assim
na escolha de ministros, como dos meios mais úteis ao bem commum. »
DIREITO CONSTITUCIONAL BKAZILEIRO 151

palidade, do cabildo, a escolha do pessoal obedecia á seguinte


praxe : cada cabüdante, ao expirar o mandato, escolhia seu-
subsütuto para o anno a seguir, sendo esta escolha sujeita á
confirmação do governador da província.1 Em Portugal e
Brazil-colonia, as câmaras municipaes eram eleitas pelos
homens bons? os cargos mais importantes, porém, das
ditas câmaras, os de juizes ordinários, seus presidentes de
direito, eram providos por eleição feita pelos referidos
« homens bons ou pessoas mais gradas de cada concelho,
mas confirmadas pelo Rei.3 »
1
Bauzà, Dominacion espa/ïola en el Uruguay, vol, II, pag. 640 ; Berra,
Bosguejo histórico de la Republica oriental, pag. 101 ; Gay, Historia da
Republica do Paraguay, pag. 591; Roscio, Breve noticia sobre as Missões,
§ 5o.
Na Republica neerlandeza, essas corporações escolhiam ellas proprias o
pessoal que as devia compor, o qual era de nomeação vitalícia. — Motley,
Histoire des Provinces-unies des Pays-bas, vol. I. pag. 15.
Faguet, brilhante escriptor democrata e parlamentarista, não julga mau
estesystemae até muito vantajoso, dentro de certos limites. É o meio, diz elle,
de fazer surgir os homens competentes que o suffragio universal jamais
elevaria ; por exemplo, o « homen de gabinete que não tem nunhuma espécie
de commercio com o forum, que é inteiramente desconhecido da multidão e
que não a conhece absolutamente. * »
O que opina a propósito da recruta de pessoal para as assembleas polí-
ticas tem ainda maior e mais seria rasão de ser na eleição do chefe do
Estado. Na escolha dos que compõem aquellas, se os comícios errarem
99 vezes em cem, assim rnesmo tudo não é perdido, e, ás vezes, pelo contra-
rio, o único eleito de competência terá indisputável supremacia entre as
nullidades que o cerquem e, ás claras ou com disfarce, dirigirá da melhor
fôrma o grêmio ; na eleição presidencial, um só erro, tudo compromette : é
forçoso supportar o incapaz que foi designado pelas urnas, durante todo o
período governamental.
O processo que precomsamos offerece segura solução ao debatido pro-
blema : a solução definitiva, ao mesmo tempo ordeira e liberal.
!
Ordenações felippinas, livro I, tit. 67.
3
Coelho da Rocha, Historia do governo e da legislação de Portugal,
pag. 120.
— Esta intervenção do governo superior na escolha do pessoal dos
cabildos e câmaras, nunca servilisou essas corporações incumbidas do go-
verno municipal ; antes deram sempre exemplo de autonomia, hoje dcsappa-
recida em grêmios oriundos de pura eleição directa e exclusiva do povo.
Vide tio appendice a nota H.
* Emile Faguet, de l'Académie française, Problèmes politiques du temps
présent, pag. 84.

??
152 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Temos ahi o germen do mais perfeito systema eleitoral,


systema que garante a espontaneidade do voto popular,
combinando-a com a competência natural e mais segura dos
que governam. Para que da combinação rasoavel da liber-
dade do suffragio com o principio da indicação resulte uma
profícua e boa fôrma de verificar eleições, julgamos que
convém inverter a posição dos que actuem nos comícios,
passando a iniciativa ao chefe do Estado, e a confirmação
ao povo, o qual tinha este papel na obra das leis, cm a pri-
meira Republica franceza, e o tem na Suissa.
Em poucas palavras : propomos que se applique á escolha
dos magistrados, o sábio processo adoptado para o voto das
leis, na Constituição do anno I c no regimen plebiscitario da
liberal Helvécia.
Reataríamos assim o fio da evolução histórica, restabele-
cendo o systema electivo que tanto cooperou para a gran-
deza da antiga Roma, pondo á testa dos negócios públicos
os varões mais eminentes, jamais ficando a sorte da mages-
tosa Republica sujeita aos azares de um voto anarchico que
arriscava entregar seus destinos hoje a um homem capaz e
amanhã a um inepto.
O systema não podia ser mais intelligente e pratico.
Os cônsules presidiam, como se sabe, aos comícios.
Quando se tinha de eleger os substitutos délies, « propunham
os candidatos » « e a assembléa só podia votar sobre esses
nomes. » 1 Deste modo cominou-se a liberdade do povo, a
1
Victor Duruy, Histoire des Romains, vol. I, pag. 117; Mommsen, Le
droit public romain, vol. Ill, pag. 143.
Em tempo de seu maior esplendor politico, a sabedoria romana negou
sempre ao numero a « indicação, » só lhe deixando a « confirmação, » na
escolha dos magistrados supremos. No época real, o Senado, quando
vacante o throno, nomeava um personagem especial, interrex, para o fim
exclusivo de escolher o novo Rei. Corporação ciosa de si e disposta em todo
ensejo favorável a aproveitar-se das circumstancias para engrandecer sua
influencia na ordem social, tanto reconhecia que offerece melhores condições
de bom êxito, a escalha feita por um, que ella propria deixou medrar em
seu seio a instituição do interregnum.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 153

quem fica assim o direito de recusar os candidatos, com a


intelligente indicação1 dos que governam, mais aptos cio que
ninguém para conhecer quaes os que mostram habilitações
para os différentes cargos.2
Alexandre Severo esboçou mais tarde, na escolha dos
governadores de província, uma pratica muito racional que
completava a « indicação. » Referimo-nos á publica apre-
ciação previa do mérito do candidato.a
Esse « poder bom, justo, digno de todos os desejos, que,
segundo o Avesta, é partilha do mais elevado,4 » esse poder
só assim vel-o-emos surgir.
Alexandre Magno, com um íilho, não o investindo do
império na hora da morte e destinando « ao mais digno »
a sua gloriosíssima successão, lançou no oriente, com ante-
cedência genial, os fundamentos do definitivo regimen das
idades futuras.

« Todo Estado, diz Aristóteles, compõe-se de dois ele-


1
A indicação do successor, pelo chefe de Estado em exercicio, reinstituida
por Nerva, deu á Roma imperial a serie gloriosa de seus melhores prin-
cipes, bastando citar entre elles o puro Marco Aurélio.
1
Montesquieu pressentia esta irrecusável verdade, dizendo que « quando
o povo dér seu suffragio... é preciso que o vulgo seja esclarecido pelos
principaes. » — Esprit des lois, livro II, cap. II.
3
« Alexandre Severo, antes de mandar os governadores das províncias,
espalhava seus nomes pelo vulgo, e se não se recebia com applauso a propo-
sição, mudava de parecer. » — Surmna política, offerecida ao Principe d.
Theodoro, por Sebastião Cesar de Meneses, bispo-conde de Coimbra, pag. 82.
Marco Aurélio introduzira regularmente outra instituição do maior effeito
pratico : a participação, no governo, do successor indicado, permittindo-lhe
fazer a tempo o indispensável tirocinio *.
Temos, pois, que o gênio politico dos romanos havia bosquejado por
inteiro o regimen republicano, isto é, o mais conveniente ao bem publico,
quando as invasões barbaras vieram perturbar o curso normal da evolução.
Veja-se no appendice a nota I.
* Carlos Magno a adoptou no quadro constitucional de seu famoso
Império, como historia o velho chronista seu contemporâneo, Eginhard, à
pag. 70 dos Annales. — Vide vol. Ill das Mémoires relatifs à l'histoire
de France.
* Yaçna XVI, 7.
154 DIREITO CONSTITUCIONAL BBAZILEIRO

mentos : qualidade e quantidade. Entendo por qualidade a


liberdade, a riqueza, a instrucção, a nobreza, e, por quanti-
dade, a superioridade cio numero no povo.1 » Dar influencia
preponderante áquella é fundar o domínio exclusivo da aris-
tocracia, das classes superiores ; attribuir a esta a funcção
privativa de votar só por si o preenchimento de todas as
magistraturas, fora estabelecer a tyrannia do vulgo ignaro,
a supremacia das multidões.3
> Política, liv. VI, cap. X, § 1.
No livro III, cap. VI, § I, encontra-se a perfeita opinião do extraordinário
philosopho. Commentando Solon, que achava se devia destinar á generali-
dade dos cidadãos o encargo de escolher os magistrados, diz Aristóteles :
« Entretanto, pode-se fazer a esse systema politico uma primeira objecção c
perguntar se, quando se trata de apreciar o mérito dum tratamento medico
se não cumpre confiarmos este exame áquelle mesmo que está no caso de
cuidar e curar o homem actualmentc atacado de tal doença, isto é, a um
npedico. Do mesmo modo cumpre proceder em todos os outros casos que
reclamam experiência e arte. Se, pois, é a medicos que um medico deve
prestar contas, é preciso também que nas outras profissões, cada um venha
â ser julgado por seus pares.

V Em segundo lugar, poder-se-ia, parece, applicar o mesmo raciocínio ás


eleições ; porque uma boa escolha só é possível aos que sabem. Cabe áquelles
que sabem geometria, por exemplo, escolher um geometra, e aos marujos,
escolher um piloto. Os ignorantes podem ás vezes immiscuir-se em certos
trabalhos e certas artes, mas, não o fazem melhor do que os conhecedores.
Não se dece, pois, conceder á multidão o direito de escolher os magistra-
dos... »
Foi de certo inspirando-se nessa opinião de que uma boa escolha sô e
possível aos que sabem, expressa pelo maior dos gregos, que o Rei da
Prussia nomeou Lagrange para succéder a Euler, o qual, diz Mirabeau,
« o tinha designado como o único homem capaz de marchar em sua es-
teira. » — Histoire secrète de la cour de Berlin, pag. 115.
2
Mais longe ainda vae Gibbon: « On applaudit de bonne foi à tout ce qui
concourt à enlever à la multitude le pouvoir dangereux et réellement idéal
de se donner un chef.
Dans le silence de la retraite on peut tracer des formes de gouvernement,
ou le sceptre soit remis constamment entre les mains du plus digne par le
suffrage libre et incorruptible de toute la société ; mais l'expérience a détruit
ces édifices élevés par une imagination fantastique, et nous apprend que
dans un grand État, l'élection d'un monarque ne peut jamais être dévolue à
la partie la plus nombreuse, ni même la plus sage du peuple. » —
Histoire de la décadence et de la chute de l'Empire romain, pag. 102.
E digno de commemorar-se o vigoroso esforço da igreja catholica para
imprimir um caracter verdadeiramente orgânico á eleição papal. Esta, que se
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 155

Com o systema que preconisamos verifica-se uma trans-


acção entre a « qualidade » e a « quantidade : » a primeira
dispondo de maior cabedal de instrucção e experiência gover-
nativa, indica os que devem merecer os suffragios ; a segunda
decide soberanamente, aceitando ou repellindo os indicados.
Nesta questão, eis o erro fundamental : os legisladores
attribuindo aos homens uma igual participação nos suffra-
gios, o fazerem por julgar que ha entre elles igualdade
absoluta.
E' preciso distinguir. Ha casos em que todos são aptos
para votar. Exemplo : um desconhecido pretende o posto
de chefe de um Estado ; todos os homens facilmente com-
prehendem que se lhe deve negar os suffragios. Imagine-se
agora que em vez de um anonymo qualquer, apresenta-se
aos comícios um fogoso orador patriota, acostumado a ele-
ctrisar as turbas e revestido desses attributos pessoaes que
as seduzem : é fácil ao povo discernir se deve ou não
prestar-lhe o concurso de seu voto?1
Este embaraço não escapou á summa perspicácia de*
Aristóteles : « Três qualidades são necessárias aos cidadãos
destinados ás magistraturas supremas : primeiro, um apego
sincero ao systema de governo estabelecido ; segundo, uma
muito grande capacidade para todos os negócios de que
ellas se occupam ; e terceiro, uma virtude e uma justiça que
estejam de accordo com a forma de governo, porque se o
fazia pelo povo, em 1059 passou a ser, conforme decidiu Nicolau II, obra
exclusiva dos cardeaes, ficando ao povo c clero romanos o direito apenas de
approvação. Esta ultima formalidade foi, porém, abolida por Alexandre III.
Consta que Leão XIII dará em forma testamentaria um aperfeiçoamento
definitivo á escolha dos chefes da igreja, elle próprio nomeando seu suc-
cessor.
1
Sobre a necessidade que o povo tem da assistência dos mais compe-
tentes, poderíamos dizer o que Bacon de seu methodo : « Quando se
quer traçar uma linha bem recta ou descrever um circulo perfeito, se nos
fiarmos em nossa mão somente, é preciso que esta mão seja bem firme e
destra ; ao passo que se se fizer uso de uma regua ou de um compasso, en-
tão a destreza torna-se de todo ou quasi inutil; dá-se absolutamente o mesmo
com o nosso methodo. — Novum organum, livro I, § LXI.

$
156 DIKEITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

direito não é o mesmo em todas as espécies de governo, é


fatal também que as noções de justiça sejam différentes.
Mas, quando todas essas qualidades não se acham reunidas
em um mesmo homem, fica-se enleiado ao escolher. Por
exemplo, se um cidadão tem talentos militares, e ao mesmo
tempo é vicioso e suspeito a seu governo, ou se aquelle que
é justo e devotado a seu governo, não dispõe de talentos mili-
tares, — como fazer a escolha? »
Sapiens vir suffragiis praeterilur, dizia Gicero e a sentença
patenteia quanto é árduo este problema!
Um exemplo de muita actualidade desenha assaz clara-
mente quanto é impossivel esperar só do instincto popular
a decisão sobre materia de tamanha relevância.
O sr. dr. Prudente de Moraes, por um conjuncto de cir-
cumstancias que é ocioso enumerar, podia-se prever como
infallivel que seria o alvo de todos os suffragios populares,
na ultima eleição presidencial : quem quer que se lhe oppu-
zesse, era certamente derrotado. Seu velho republicanismo,
apregoada austeridade e calma natureza, pareciam indical-o
como o mais próprio para iniciar um governo reparador,
depois da sangrenta e devastadora guerra civil. — Eleito
sem competidores, toma posse do governo e verifica-se que
de facto elle possue a maior parte daquellas qualidades que
o tornaram popular, mas, que desgraçadamente lhe faltam
outras essenciaes para a missão de que o incumbiram : tacto
na acção política, firmeza nos planos assentados, resolução
prompta, audácia no enfrentar as difficuldades, etc...
Não pode ser suspeito aos democratas o seu próprio pon-
tífice. Pois Rousseau implicitamente reconhece o grande mal
de deixar correr á revelia de quem está investido de toda a
responsabilidade administrativa, as eleições de magis-
trados : « ...A vontade geral, diz elle, é sempre reota e tende
sempre para a utilidade publica : mas não se segue disto
que as deliberações do povo tenham sempre a mesma re-
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 157

ctidão. 0 homem quer sempre seu bem, mas nem sempre


sabe qual elle é.1 »
Demais, é por accaso uma novidade no mundo politico
moderno o que propomos? — De modo nenhum : a indicação
faz-se, mas occultamente e sem responsabilidades para quem
a faz : eis tudo.2 A reforma proposta consiste em revestir de
garantias e tornar publico um acto até hoje clandestino.
Coube ao gênio politico do « primeiro dos pretos, » o
grande e inditoso Toussaint Louverture, a gloria immortal
de restabelecer, no século xix, o fecundo principio da
escolha do chefe do Estado, por via do eleitor mais capaz :
aquelle que detém o poder e que por isso, com mais calma,
mais estudo e mais tempo, apura ao certo qual de seus com-
patriotas o verdadeiramente apto para continuar a missão
de que se acha investido.3 Toussaint, todavia, deixara incom-
pleta a formula definitiva, no presente, da continuidade
governativa, sem ajunctar a indicação com a eleição, como é
mister, por emquanto ao menos, para corrigir o arbítrio nas
preferencias.
i Du contrat social, livro II, cap. III. — Mirabeau em seu Acis au peuple
marseillais, publicado na collecção Vermorel, volume III, pagina 60, diz
igualmente : « Cada um de vós nada mais quer que o bem, porque vós sois
todos gente honrada; mas, nem todos sabem o que é preciso fazer : enga-
namo-nos muitas vezes sobre nosso próprio interesse mesmo, e é porque eu
tenho refiectido muito sobre o interesse de todos, é para vos servir e vos
agradecer a confiança que em mim depositaes, que eu devo e vou dizer-vos
o que penso. »
!
« Quando a iei, diz Bernai, prohibe o exercício de um principio legitimo,
qualquer que elle seja, os povos o praticam illegalmente; ora, nada harnais
nocivo á ordem social que a infracção de uma lei má, a não ser o fazer
perfeitamente o contrario do que ella prescreve. O único remédio, nesta fu-
nesta alternativa, consiste em legalisar o que se não pode impedir ; con-
siste em extrair, depurar e favorecer tudo o que ha de perfeito, favorável ou
somente sympathico á nação, em um principio qualquer, e graval-o em seu
Código. »
Não ha fugir disto e é mais sensato obedecer ás tendências sociaes de
caracter fatal e irresistível, que loucamente contrarial-as, poisque, como
proclamava a poesia antiga nos Hymnos orphicos (o 2.°), « a dura Necessi-
dade domina todas as cousas ! »
Janvier, Les Constitutions d'Haïti, pag. 12.

w
158 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Reproduzida a idéa orgânica do insigne haityano no Con-


selho-de-Estado, pelo previdente Roederer, Bonaparte (que
meditava fundar uma dynastia, vendo ahi a instituição que
firmava a Republica franceza), impugnou-a,1 mas foi adop-
tada no senatus-consulto de 16 thermidor anno X, com a
clausula de que as indicações ficavam sujeitas a um voto
posterior confirmatorio, o do Senado.2
A Republica de Orange, em nossos dias (8 de maio de 1879),
foi a primeira a adoptar o principio da indicação, infelizmente
entregando esta altíssima incumbência ao orgam politico
menos adequado a ella : sua Lei fundamental estabeleceu que
a assembléa, o Wolkraad, indicará ao povo os nomes dos
que mereçam ser eleitos. Em todo caso, ficou ahi assignalada
a victoria do principio da indicação.3
0 Legislador constituinte do Riogrande do Sul deu um
passo para diante, ensaiando, de um modo mais normal,
ainda que com timidez, a fecunda praxe discutida acima.
Segundo a sua Constituição de 14 de julho, « dentro dos
seis primeiros mezes do periodo presidencial, o Presidente
escolherá livremente um Vice-presidente, que será o seu
immediato substituto no caso de impedimento temporário,
no de renuncia ou morte, perda do cargo e incapacidade
physica. Não poderá ser escolhida, sob nenhum pretexto,
pessoa da familia do Presidente, quaesquer que sejam a
natureza e o grau do parentesco. Tornando-a publica sem
1
De Beauvergier, Des Constitutions de la France et du système poli-
tique de l'Empereur Napoléon, pag. 194.
Era, como diz Thiers, o renovamento da instituição que havia dado ao
Mundo a benéfica suecessão dos Antoninos. — Histoire du Consulat et de
l'Empire, liv. XIV.
3
Laferrière et Batbic, Constitutions d'Europe et d'Amérique, pag.
LXXXVIII.
Vide no appendice a nota J.
3
Temos bello exemplo da combinação do processo eleitoral com o da
indicação, na historia antiga da Dinamarca. A assembléa da nação elegia o
Rei. Antes de morrer, Waldemar II designou seu filho Eric e foi aceito;
assim teve a Dinamarca um de seus melhores soberanos.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 159

demora, o Presidente não manterá a escolha, se contra ella


manifestar­se a maioria dos conselhos municipaes.1 »
Os democratas que se oppunham á Lei orgânica do Rio­
grande do Sul, com extraordinário alarido qualificaram estas
suas disposições de retrogradação positivista, introduzindo
uma praxe dictatorial. Já mostramos a legitima filiação do
que ali previdentemente se instituiu ; basta, porém, lembrar
que a origem mais immediata, neste ponto, da Constituição
riograndense, é a da muito democrática Republica franceza
de 1848, para que fique manifesto o nenhum fundamento de
seus accusadores.
Resava ella no artigo 70.° : « Il y a un Vice­président de
la République nommé par l'Assemblée nationale, sur la pré­
sentation de trois candidats faite par le Président dans le
mois qui suit son élection. Le Vice­président prête le même
serment que le Président. Le Vice­président ne pourra être
choisi parmi les parents et alliés du Président jusqu'au
sixième degré inclusivement.3 »
Manda a justiça reconhecer que os Constituintes do
extremo sul do Brazil foram muito mais liberaes do que os
da segunda Republica franceza, ainda por cima evitando
melhor do que elles a hypothèse do enthronisamcnto de uma
família, impossível no referido Estado, dentro do regimen
que lá vigora.

Porque ficou em meio caminho o Legislador riograndense,


porque não adoptou esse mesmo processo electivo para a
propria escolha do Presidente?
1
Os conselhos são independentes, em absoluto, do poder central do E s ­
tado.
s
A commissão de Constituição, de que faziam parte os prohomens da
democracia, Armand Marrast (relator), Lamennais, Victor Considérant, Gar­
nier Pages, Tocqueville, etc., propoz que a nomeação do Vice­présidente
fosse feita pela Câmara, por proposta do Presidente, sem exigência de apre­
seíitação dos três candidatos. — Dalloz, Recueil périodique de législation,
vol. de 1848, vide Constitution.

a{l~

160 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Nada mais sábio. A um perigoso systema directo, em que


a selecção (precisamente quando devera ser obra de serias
meditações!) é entregue ao accaso de um cego escrutínio ou
aos indignos pactos da intriga política, substituir-se-ia outro,
no qual é feita após maduro exame, — o povo, ao escolher
o Presidente, já lhe attribuindo a faculdade de designar
por elle o futuro chefe do Estado, sujeito sempre o acto á
approvação da communidade, garantia sufficiente contra
qualquer tendência abusiva.
Alem das vantagens apontadas, o systema da indicação
tem uma outra de capital importância.
Sabe-se que em Athenas o magistrado eleito pela sorte o
era sempre com a reserva do « exame de vida e costumes. »
Segundo os princípios eleitoraes da actualidade, não ha como
evitar que seja preferido, por exemplo, um Maximo Santos.
Com o systema proposto, isto evitava-se, pois ninguém assim
era suffragado, sem passar antes pela terrível prova do
livre exame, e publica discussão de sua vida e méritos.

0 voto do povo, quando se trate da escolha de magistrados


superiores ou de adoptar leis, deve ser dado sempre em
comícios, isto é, cumpre que vote por sim ou não, como em
Roma e Suissa, ou que seu silencio e abstenção sejam inter-
pretados por positiva acquiescencia, manifestando-se então
por voto directo sua repulsa?
Bernai, democrata puro, acha que « as abstenções devem
interpretar-se como votos affirmativos ou signaes de appro-
vação. * »
De facto, é este o modo mais rasoavel a adoptar para a
manifestação do voto, e o que menos prejudica ás popula-
ções, arredando-as do trabalho inutilmente : quando um can-
\El derecho, pag. 165.
É igualmente o opinião de Rousseau, que diz do silencio universal dever-
se presumir o assentimento do povo. — Esmein, Droit constitutionel, pag.
241, nota 2.\
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIEO 161

didato fôr de seu desagrado ou um projecto de lei lhe pareça


mau, terá nisto sufficiente incitamento para correr ás urnas
e oppor seu voto de maneira expressa e positiva, em um
ou outro caso.
Foi este o processo adoptado na primeira Republica fran-
ceza, quanto ao voto das leis. A Constituição de 1793,
art, 59.°, diz :
« Quarenta dias depois de ser enviada (ás communas) a
lei proposta, se, na metade e mais um dos departamentos, o
décimo das assembléas primarias de cada um délies, regular-
mente formadas, NÃO TIVER RRCLAMADO, O projecto é aceito e
torna-se lei.1 »
No Riogrande do Sul, estabeleceu-se este processo, não só
para a escolha do Vice-presidente, como antes se disse, mas
também igualmente para a adopção das leis. As formalidades
usadas são as constantes do capitulo IV da respectiva Con-
stituição :
« Art. 31.° — Ao Presidente do Estado compete a promul-
gação das leis, conforme dispõe o n. 1 do art. 20.°.
Art. 32.° — Antes de promulgar uma lei qualquer, salvo o
caso a que se refere o art. 33.°, o Presidente fará publicar
com a maior amplitude o respectivo projecto acompanhado
de uma detalhada exposição de motivos.
§ 1.° — O projecto e a exposição serão enviados directa-
mente aos intendentes municipaes, que lhes darão a possivel
publicidade nos respectivos municípios.
§ 2.° — Após o decurso de três mezes. contados do dia em
que o projecto fôr publicado na sede do Governo, serão
transmittidas ao Presidente, pelas auctoridades locaes. todas
as emendas e observações que forem formuladas por qual-
quer cidadão habitante do Estado.
i Laferrière et Batbie, Constitutions d'Europe et d'Amérique, pair.
XXXVI.
11

;. <të
162 DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEíRO

§ 3.° — Examinando cuidadosamente essas emendas e


observações, o Presidente manterá inalterável o projecto, ou
modiíical-o-á de accordo com as que julgar procedentes.
§ 4.° — Em ambos os casos do paragrapho antecedente,
será o projecto, mediante promulgação, convertido em lei do
Estado, A QUAL SERÁ REVOGADA, SE A MAIORIA DOS CONSELHOS
MUNICIPAES REPRESENTAR CONTRA ELLA AO PRESIDENTE.
Art. 33.° Os preceitos do artigo precedente não
abrangem as resoluções tomadas pela Àssembléa no uso da
competência que lhe é conferida nos artigos 46.°, 47.° e 48.°.!
Essas resoluções, qualquer que seja sua fôrma, serão pro-
mulgadas pelo Presidente como leis do Estado, nos termos
do artigo 31.°.
Art. 34.° — Não poderão ser objecto de lei as medidas de
natureza essencialmente administrativa, que serão decre-
tadas pelo Presidente sem observância do processo acima
estatuído. »

Falamos antes na conveniência que ha para a communhão


social em não arredar do trabalho, inutilmente, as popula-
ções laboriosas. Com esta preoccupação, o auctor offereceu
uma emenda ao projecto de lei eleitoral do Riogrande do Sul,
propondo se readoptasse o voto por procuração, que já
vigorara sob a Republica riograndense.
O Presidente daquelle Estado rejeitou a emenda, fun-
dando-se em que tal praxe viria promover, em maior escala
ainda do que hoje, as abstenções dos eleitores, já tão
communs.
Vemos, porém, que a s. exa. escapou aquella vantagem
principal do que lhe foi proposto. E' erro suppor que haja
tão somente indifferença política no retraímento eleitoral.
Com o suffragio universalisado, ora vigente, a immensa
1
Quanto aos orçamentos, etc.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 163

maioria dos votantes compõe-se de trabalhadores, e um dia


perdido em comicios e um de salário a menos no já me-
squinho orçamento de cada um délies. Tanto é verdade isto,
que as ausências são maiores nos escrutínios de importância
secundaria : o eleitor vendo que não vale a pena fazer o
sacrifício, abstem-se.
Alem da grande vantagem acima exposta, o voto por pro-
curação apresenta outra de incontestável magnitude, e é que
este expediente facilita a subordinação dos incompetentes
aos competentes : quem não sabe como deve escrever sua
cédula e tem confiança no critério de alguma outra pessoa,
manda-lhe poderes amplos, — pois que os cidadãos ficam
sempre com a faculdade de determinar ou não, em o instru-
mento procuratorio, como querem que o voto seja dado.

0 voto será secreto ou não? - « Sem duvida que quando o


povo dá seus suffragios, elles devem ser públicos... diz Mon-
tesquieu. x Na Republica romana, tornando-se secretos os
suffragios, destruiu-se tudo... » Esta funesta reforma veri-
ficou-se no anno 615 da fundação da gloriosa cidade, con-
sulado de Q. Calpurnius Piso e de M. Popillus Lenas, e sob
proposta do Tribuno Gabinius, reforma que tomou o nome de
lex tabellaria.
Cicero2 opina igualmente que « as leis que os tornaram
secretos nos últimos tempos da Republica romana, foram
uma das grandes causas de sua queda. »
« Todo o mal consiste no modo por que se fazem hoje em
dia essas votações, que se chamam secretas, e o remédio não
consiste em outra cousa senão na publicidade.
O systema de votações secretas é o mais apropriado para
a falsificação e a fraude : nelle cada um pode saber apenas
como votou, não, todavia, como votaram os outros, e estando
i Esprit des lois, livro II. cap. II.
2
Das leis, livro I e

M
164 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

de má fé o escrutinador, é mui difficil, senão impossível,


evitar a fraude e a falsificação.

Gonseguintemente, deve eliminar-se o voto secreto.


Cada votante deverá escrever e firmar seu voto em livros
que para o eifeito tenha o empregado incumbido do serviço
eleitoral. Esses livros devem estar sempre á disposição de
todos os que os sollicitem e logo que os exijam para pro-
ceder a qualquer exame. Depois de concluída a votação, em
cada localicade publicar-se-á por meio de cartazes e da
imprensa periodica, a lista dos nomes dos votantes e a
expressão de seus votos, com o numero total de cidadãos
comprehendidos em cada localidade, listas que serão remet-
ticlas á capital ou ao ponto em que se verifique o escrutínio
geral, que se fará com o resultado de todos os parciaes, e se
publicará igualmente também.
Desta sorte, cada particulrr pode fazer o escrutínio par-
cial de sua localidade, vendo as listas delia, e em cada loca-
lidade se pode fazer o escrutínio geral, vendo os resultados
parciaes de todas as outras, de modo que é impossível a
falsificação ou a fraude, e assegurando-se assim completa-
mente a certeza das votações.1 »
O voto era a descoberto na democrática Athenas e em
Sparta, Portugal e Brazil-colonia.2 Também o foi na Repu-
blica riograndense e vigora nesse mesmo Estado actual-
mente.3 Nem outra praxe pode admittir-se em um regimen
de responsabilidade, como é o republicano.
1
Bernai, El derecho, pag. 1GS.
2
Ordenações affonsina*, liv. I, tit. 23, § 13 e 46; Ordenações /elippinas,
liv. I, tit. 67, § 1.°.
3
Segundo a primeira Constituição republicana da França, o voto podia
ser secreto ou a descoberto, conforme quizesse o eleitor; Condorcet em seu
plano constitucional propoz que a guerra só se declarasse por decreto cuja
votação se faria por cédulas assignadas. — Robinet, Condorcet, sa vie,
son œuvre, pag. 256.
O reputado publicista argentino Alberdi, no projecto de Constituição que
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 165

Moralisa ella sobremaneira a funcção eleitoral, evita ver-


gonhosas fraudes e dignifica o cidadão, obrigando-o a ter a
coragem de sustentar suas proprias opiniões.
A maior objecção feita até hoje contra o voto a descoberto
limita-se a isto : « Dizem que o voto ás claras endireita o
caracter : mas, para mim, sem negar que nalguns casos
possa ter esse effeito, creio bem que em muitos outros, e em
maior numero, ha de aggravar o cynismo do indivíduo que
tiver de exhibir com desplante opinião que sabidamente não
é a sua.x » Para honra da Humanidade, a tribu miserrima
dos cynicos é restrictissima e não é unicamente tendo em
vista esses que se legisla; em tal caso mesmo, o voto a des-
coberto tem o mérito de servir para tirar a mascara á hypo-
crisia : ficam assim conhecidos os « cynicos. » 0 publico
despreso apontando-os á execração universal, castigal-os-á
de sorte que o numero de taes indivíduos tenderá sempre a
diminuir.3
As precauções de que se procura rodear a independência
do voto, bem mostram que é defficientissimo o processo elei-
toral, de uso por certo simplesmente transitório.
concebeu para essa Republica (artigo 80.°), estabelece o escrutínio por « cé-
dulas firmadas, » na eleição do Presidente e Vice-presidente. — Organisa-
tion de la Confederation argentina, vol. I, pag. 186.
1
Assis Brazil, Democracia representativa, pag. 70.
2
A « Liga de lavoura e da industria, » fundada a 10 de março de 1898 em
Barbacena, adoptou em seu programma o voto a descoberto, que Saraiva
propu/.era na Constituinte, e antes delle José de Alencar, em seu Systema
representativo, pag. 118. Aliaz, instituil-o obrigatoriamente será uma simples
volta á boa tradição do Império ; como se sabe, a lei chamada das câmaras
municipaes, de 14 de outubro de 1828, estabeleceu que, nas eleições de ve-
readores e juizes de paz, os votos se dessem em cédulas firmadas (art. 7.°) .
A Republica adoptou esta praxe, mas facultativamente.
A lei eleitoral do Folkething dinamarquez, sanccionada pelo Rei Chris-
tiano a V<t de julho de 1867 (§§ 36.° e 38.°), prescreve o voto ás claras.
Vide no ti m do volume a nota K.

05
LIVRO VI

A questão da estabilidade governativa


LIVRO VJ

... Où trouverait-elle donc enfin


celte fixité perdue, sans laquelle
l'existence même d'une nation est
sans cesse compromise?
B A R Ã O Î>E F O N T A R E C H E S .

Examinando o processo eleitoral mais próprio para fazer


surgir o chefe do Estado, cumpre estudar uma questão cor-
relata da maior importância : que tempo convém que durem
suas funcções? — Segundo a Constituição da Republica
(art. 43.°), « o Presidente exercerá o cargo por quatro annos,
não podendo ser re-eleito para o periodo presidencial imme-
diato. »
Bluntschli1 mostrando que « a época moderna manifesta
freqüentemente sua repulsão pelo principio da hereditarie-
dade política, » quanto a idade media o preferia, pondéra
que «'as duas tendências peccam por excessivas. A heredita-
riedade estreita e immutavel das relações sociaes entrava o
desenvolvimento da vida e a satisfação de desejos legítimos.
Reivindicam-se justamente os direitos da actividade indivi-
dual ; repelle-se com rasão a hereditariedade dos empregos
públicos que exigem ao mesmo tempo capacidade pessoal e
subordinação. Mas, por outro lado, erramos, quebrando
completamente as relações que unem o presente ao passado,
e que a hereditariedade mantém; erramos, aceitando uma vã
1
Théorie générale de l'État, pag. 407
170 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

mudança onde a estabilidade é necessária, em postos que são


column&s do Estado, precisamente por causa de sua perma-
nência, e que conservam, para transmittil-os ao porvir,
grandes interesses, nobres tradições, poderosas forças
moraes. Agir assim é levantar construcções sobre areia, é ir
de encontro á natureza orgânica do Estado, cuja existência
não muda em cada geração, e sim perpetua-se atravez dos
séculos.1 »
Estas judiciosas observações do reputado professor, insus-
peito aos democratas por sua origem suissa, merecem toda
a attenção e o maior estudo da parte de nossos contemporâ-
neos políticos, cuja actividade civica é completamente estéril,
devido isto, muito é muito, á instável situação em que se
acham de contínuo na agitada sociedade moderna. 0 precon-
d
Spencer diz a este respeito : « Se a successão por via da capacidade dá
plasticidade á organisação social, a successão por via da hereditariedade lhe
dá estabilidade. Nenhuma disposição regular poderia germinar em uma
communidade primitiva emquanto a funcção de cada unidade não depende
de outro titulo que não seja a capacidade, poisque, com sua morte, a Cons-
tituição política, no que concerne ao papel que elle ahi tinha, ha mister de
refazer-se. » — (Sociologie, vol. Ill, § 475).
Temos de Frederico o Grande da Prussia opinião que bem illustra esta
materia. « Il se trouve des princes, diz, qui donnent dans un autre défaut
aussi dangereux : ils changent les ministres avec une légèreté infinie, et ils
punissent avec trop de rigueur la moindre irrégularité de leur conduite.
Les ministres qui travaillent immédiatement sous les yeux du Prince,
lorsqu'ils ont été quelque temps en place, ne sauraient tout à fait lui dégui-
ser leurs défauts : plus le Prince est pénétrant et plus il les saisit faci-
lement.
Les souverains qui ne sont pas philosophes, s'impatientent bientôt, ils se
révoltent contre les faiblesses de ceux qui les servent, ils les disgracient et[
les perdent.
Les princes qui raisonnent plus profondément, connaissent mieux les
hommes; ils savent qu'ils sont tous marqués au coin de l'humanité, qu'il n'y
a rien de parfait en ce monde, que les grandes qualités sont, pour ainsi dire,
mises en équilibre par des grands défauts, et que l'homme de génie doit
tirer parti de tout.
C'est pourquoi (à moins de prévarication) ils conservent leurs ministres
avec leurs mauvaises qualités, et ils préfèrent ceux qu'ils ont approfondis, aux
nouveaux qu'ils pourraient avoir, à peu près comme d'habiles musiciens, qui
aiment mieux jouer avec des instruments dont ils connaissent le fort et le
faible, qu'avec de nouveaux dont la bonté leur est inconnue. » — Frédéric II,
Œuvres, Anti-MacMavel, cap, XXII.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 171

ceito fatal de que a garantia da liberdade é essa vã mudança


a que alludia Bluntschii, previne os espíritos contra a persis-
tência de todo poder, tornando de moda a freqüente substi-
tuição dos governantes, deplorável tendência que impossi-
bilita o fecundo desenvolvimento de uma acção sufficientemente
duradoura, e colloca os homens naquella triste disposição
d*alma que o grande Corneille pinta rom seu costumado
vigor :
Ces petits souverains qu'on fait pour une année,
Voyant d'un temps si court leur puissance bornée,
Des plus heureux desseins font avorter le fruit,
De peur de le laisser à celui qui les suit.
Comme ils ont peu de part au bien dont ils ordonnent.
Dans le champ du public largement ils moissonnent.
Assurée que chacun leur pardonne aisément.
Espérant à son tour un pareil traitement. l

Suppõe-se que o perigo está na longa permanência de um


mesmo homem no governo,2 quando está elle na latitude das
* Theatro, Cinna, acto II, scena I.
A propósito destes maravilhosos versos a collecção Régnier cita a seguinte
apreciação de Voltaire : « Quelle prodigieuse supériorité de la belle poésie
sur la prose ! Tous les écrivains politiques modernes ont délayé ces pensées :
aucun a-t-il approché de la force, de la profondeur, de la netteté, de la pré-
cision de ces discours de Cinna et Maxime? Tous les corps de l'État
auraient dû assister à cette pièce pour apprendre à penser et à parler. »
2
Isto é, suppõe tal o espirito ingênuo de alguns políticos, mas o movei
oceulto que propelle a reduzir o praso de todas as funeções e tornai-as
todas electivas, aqui fica bem patente : « Consumrmda a União (americana),
formaram-se immediatamente dois grandes partidos.
Todos os americanos se alistaram : todos se tornaram republicanos
ou democratas ; ninguém teve vontade ou liberdade de se conservar neutro.
São estes dois partidos que dispõem da eleição do Presidente e das
dos membros do Congresso ; empregam nisso extrema paixão, nada
omittem para chamar a si todos os interesses, e para isso servem-se de
todas as funeções administrativas federaes : o partido victorioso distribue-as
como salário aos políticos que lhe prestaram serviços Mas os políticos são
difíiceis de saciar, e o pecúlio de remuneração fornecido pelos lugares que
dependem do governo central não tardou que parecesse insufficiente. Foram,
pois, arrastados a metier mão nas funeções que dependem dos Estados.

&
172 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

funcções que lhe sejam commettidas : em quatro mezes de


domínio, Robespierre tyrannisou odiosamente, o que n&o fez
Washington nos oito annos de sua presidência. Porque? —
Porque (pondo de parte as qualidades pessoaes e a situação
de ambos) o segundo dispoz de um poder limitado e o do pri-
meiro não conheceu raias. Restrinja-se o papel do chefe
do Estado ao que deve ser, o não terá nunca meio algum
de impor arbitrariedades, por muito tempo que permaneça
no mais alto posto da governação. Nisto consiste o mais
efficaz expediente para evitar o despotismo.1
Em Roma, era de um anno apenas o poder consular, in-
cumbido da direcção da Republica, e, no entretanto, de que
extraordinária força se achava investido ! Em Athenas —
a chamada pátria da democracia — o « Conselho superior »
do governo da Republica era vitalício, mas nem por isso fora
possível aos homens que o compunham, abusar no curso
da mais longa existência, como, se o quizesse, o Consul
romano!...3
Não é o numero de annos da governação que propende
os chefes de Estado para o despotismo : sim o numero das
attribuições de que andam investidos, repetimos. Na Grécia
primitiva, ainda que diga Hesiodo procedem « os reis de

Para tornal-as mais adequadas ao uso que délias se queria fazer, o melhor
meio que se achou foi declaral-as todas electivas e encurtar o mais possível
o praso dos mandatos. Era o modo de mettel-as mais completamente no
jogo da política e renovar a todo o momento as disponibilidades, restaurar
o fundo de estipendio no orçamento eleitoral de cada partido. » — Boutmy,
Estudos de direito constitucional, pag. 219.
1
« Quando as instituições permittam o abuso, diz Bernai, as ambições
abusarão sempre ; quando não o permittam, não abusarão nunca. »
1
Sobre a auctoridade délies attribue Tito Livio estas palavras a Teren-
tillus Arsa : « O nome só (dos cônsules) é menos odioso (do que o dos reis',
mas, realmente, nós temos dois, revestidos de um poder absoluto, illimita-
do. » — Historia de Roma, liv. Ill, § IX.
« A magistratura suprema, que os eduos chamam Vergobr.et, é um cargo
annual, » diz Cesar, a mas dá o direito de vida e de morte. >> — Obra
completas, Guerra das Gallias, liv. I, § XVI.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 173

Zeus, x » o grande épico dos tempos heróicos nos mostra


que fundavam no apoio popular « sua força e poder :2 »
dispunham do sceptro a vida inteira, mas o mando délies
era brando, porque seu papel se cingia a uma simples ju-
dicatura nas contendas privadas, e á direcção militar em
tempo de guerra. Na antiga Caledonia vemos que a realeza
tinha o mesmo caracter e permanência ; a vitaliciedade não
tornou ali o governo mais áspero : pelo contrario, elle era
indulgente em excesso.3
Se passamos á vetusta índia, o chefe do Estado é Rei ali,
mas nada tem de tyranno. Rama é o puro e suave typo ideal
do Rei-pastor, « bemfazejo, e como que o pai e mãí dos sub-
ditos.4 » Na Germania-mater, Tácito nos diz que « os reis
não dispunham de um poder iIlimitado, nem arbitrário.5 »
« Não lhes era permittido nem punir, nem prender, nem ba-
ter em pessoa alguma, » e tal limitação em seu poderio impe-
dia-os de opprimir, apesar de sua qualidade de reis e chefes
perpétuos das nações teutonicas. Siegfried nos apparece, na
epopéa dos Niebehingen,6 como um Rei que ao « julgar ou
1
A thèogonia, trad. Lecomte de Lisle, pag. t>.
* Homero, Odyssea, canto VI.
3
Ossian, Poemas gaelicos, introducção de P. Christian, pag. IV.
Para que se avalie a liberdade garantida pela realeza e para que se veja
quanto a primeira, é compatível com o poder vitalício, estampamos
aqui este bello quadro dos costumes antigos : « O velho Rei Hring
levanta-se com sua cabelleira branca, e tocando a cabeça do cochino : —
Juro, diz elle, vencer Frithiof, por muito grande guerreiro que seja. Sede
em meu auxilio Freyr, e tu Odin, e tu poderoso Thor.
O estrangeiro ri sardonicamente. Um impeto de cólera anima-lhe o rosto.
Com a espada bate tão forte sobre a meza, que toda a sala retumba, e cada
guerreiro commovido, ergue-se de sobre seu assento. — E agora, diz elle,
ó Rei, escuta minha promessa. Conheço Frithiof: é meu amigo, e juro
defendel-o contra o Mundo inteiro. Para isto, tenho fé nas Nornas e em
minha boa espada. — O Rei sorriu e disse : Estrangeiro, tua linguagem é
arrogante, mas cada qual fala livremente na sala dos reis do Norte.» —
A saga de Frithiof, transcripta por Lacroix, canto XVII.
4
Ramayana, trad. Fauche, pag. 23.
5
Costumes dos germanos, cap. VII.
6
Canto XI.

<\°V
174 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

bem discernir o que cabia a cada um, costumava fazel-o com


grande equidade.1 »
Foi com o excessivo desenvolvimento2 que veiu a adquirir
o poder monarchico, que a tyrannia poude vingar, não por
sua estabilidade e persistência, como se julga.
« O que perdeu as dynastias de Tsin e de Sui é que em
lugar de se limitarem, como os antigos, a uma inspecção
geral, única digna do soberano, os principes quizeram go-
vernar tudo immediatamente por si mesmos. » Este sábio
parecer de um auctor chinez, citado por Montesquieu, prova
que ao philosopho francez não escapou a real solução do
problema, o que.ainda vemos confirmado pelo seguinte tre-
cho do Espirito das leis : « A democracia... e a aristocracia
não são estados livres por sua natureza : é a limitação do
poder que garante a liberdade politica.3
« Seria extranho, diz Aristototeles,4 que a natureza não
tivesse destinado certos homens a dominar e outros a não
dominar. » Se assim é, não se deve fazer esforço para sub-
metter a dominio todos os homens indifferentemente, só
aquelles, porém, destinados á dependência, conceito que o
grande pensador desenvolve em outra parte de sua Politica,
da maneira que segue : « Dissemos que não era seguramente
de equidade fazer perecer, nem exilar pelo ostracismo, um
homem de virtude tão eminente que se avantaje sobre a de
todos os outros ; nem pretender que elle obedeça quando
lhe chegue a vez, poisque não é próprio em a natureza hu-
1
Igualmente assim é a concepção da realeza medieval, conforme lemos
no Romancero del Cid, romance 6." :
Rey que non face justicia
Non debiera de reinare,
1
Maravilha que esse vicioso desenvolvimento se esteja reproduzindo outra
vez, no meio politico actual. Merece attenta leitura o que diz da absurda
ressurreição o provecto Leroy Beaulieu, no seu livro L'État moderne et ses
fonctions.
3
Livro XI, cap. IV.
* Politica, livro IV, cap. II, § 9.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIEO 175

mana que a parte domine o todo, e o todo é precisamente


aquelle que tem uma tão grande superioridade. Não ha pois
outro partido a seguir se não obedecer a um tal homem e
reconhecer-lhe um poder soberano, não por certo tempo,
mas para sempre.1 » E é este o critério antigo sobre o as-
sumpto. Referindo-se aos homens superiores, proclama So-
phocles que « elles são os chefes ; cumpre pois obedecer-
lhes. E porque não? continua elle. Em toda a parte o po-
derio e a força submettem-se á auctoridade.2 »
(( A Necessidade, diz a seu turno Horacio, determina, por
uma lei uniforme, a sorte dos illustres e dos humildes, e sua
urna immensa baralha todos os nomes ::! »
aequa lege Necessitas
sortiter insignes et imos ;
omne capax movet urna nonien.

A Bíblia é terminante a este respeito e declara : « Haverá


um rebanho e um Pastor.4
No animo de indivíduos em que a natureza imprimiu qua-
lidades de mando, a ambição, aliaz justa, arrasta para a
supremacia, e quanto mais lhes resistimos, tanto maior pre-
juiso soffre o meio social em que luctam, até que venham
a succumbir ou alcancem o almejado poderio. A ambição,
porem, esse fogoso sentimento que impelle as creaturas
a disputarem entre si primazias e honras, compõe-se de
dois instinctos elementares : o orgulho e a vaidade. Se
aquelle nos incita a combater pela posse do mando, conse-
guido este, mostra a experiência que o segundo instincto
nos propende a bem merecer os applausos e louvores dos
contemporâneos, e até mesmo dos posteros. Ora, se isto se
dá admittindo que o governante seja movido tão somente pelo
1
Obra citada livro III, cap. XI, § 13.
- Theatro, Ajax.
3
4
Horacio, Obras, Liv. Ill, ode I.
Evangelho de S. João, cap. X, versículo 16.

\CP
<1

176 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

egoismo, imagine-se quai a conseqüência, se alem da vai-


dade, os impulsos do altruísmo vibrarem em seu coração. —
0 estudo do espectaculo histórico offerece-nos muitos exem-
plos coníirmatorios da theoria.
Pisistrato, descendente de Godrus, entre outros, põe-se á
frente de uma das duas facções em que se dividiu Athenas.
Agita o Estado para poder impor-se-lhe. Emflm, « desce ao
mais baixo artificio para preparar seu poderio.1 » Consegue
o mando, mas é delle despojado, ainda que de novo o resta-
belece pouco depois, para perdel-o outra vez. « Depois de
onze annos de exílio, reentra em Athenas como vencedor
irritado. Foi com o sangue dos inimigos que cimentou seu
governo. Após ter immolado todos os rivaes de seu poder, fez
olvidar as crueldades que commettera, praticando uma
administração cheia de doçura. Deu exemplo de obediência
ás leis ; c menos Rei que primeiro cidadão, desfez por sua
equidade a vergonha da usurpação que perpretara.2 » O
governo de Pisistrato durou trinta-e-tres annos e foi um dos
mais fecundos que teve Athenas.
Não fosse a pertinaz ambição deste homen notável teimo-
samente contrariada, tivessem respeitado seu governo e as
facções tanto lhe não disputassem a supremacia, que os in-
stinctos violentos de Pisistrato dormitariam sempre, gosando
a celebre cidade, em vez de trinta-e-tres annos de paz e pro-
gresso, o tempo immenso consumido em contendas estéreis,
sangue, lucto, barbaras destruições.
Praticamente considerada a questão do governo, o que
mais importa, nem é que tenha sempre origem regular, nem
que dure pouco para que não perigue a liberdade, como é
de uso dizer : o que mais importa é que o poder tenha bom
emprego. Ora, isto depende muito principalmente de sua es-
tabilidade e permanência.
' Diderot, Encyclopédie, artigo sobre Pisistrato.
5
Idem, idem.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 177

Diz por isso muito bem o republicano Sismondi •} » Te-


nham certeza os povos que os principes2 não têm outro in-
teresse que não seja o interesse nacional, outra opinião que
não seja a opinião publica, e que esta é sempre conforme á
sabedoria, e então elles não mais terão motivos de pôr-se
em guarda contra os abusos do poder ou de despenderem uma
parte de sua força commun, empregando-a na opposição ás
vontades do director da força commum ; de se fatigarem
por introduzir na Constituição um equilíbrio que os enfra-
quece. Nós desconfiamos, e com rasòes ás vezes, do que o
governo quer fazer de nós por seu próprio interesse ; mas,
quanto a espécie humana seria forte, se executasse em com-
mum o que tivesse querido em commum, e que maravilhosos
progressos vel-a iamos conseguir, se não tivesse nunca ne-
cessidade de distinguir sua confiança no governo da con-
fiança que tem em si mesma ! »
Accrescenta este sensato publicista : « Dizemos a todos
que a constituição do poder social é a obra mais difficil da
sociedade, poisque tirando a força que tem da de todos, seu
destino o colloca, no entretanto, em opposição com todo o
mundo. Os povos em cujo seio este poder existe, nos quaes é
elle amparado por hábitos, affcições, respeito, devem per-
doar-lhe seus abusos e muitas fraquezas, antes de derrocal-o,
porque experimentariam o damno que causa á liberdade o
substituir-se o habito pela innovação, a affeição pelo temor,
e o respeito pelo calculo da utilidade.3 »

Audueza Palácio, ao expirar sua presidência de Venezuela,


desejoso de levar avante os patrióticos planos administrativos
a cuja execução se devotara, manifestou a amigos as inten-
1
Constitutions des peuples libres, pag. 186.
1
Sismondi, como Rousseau, dá ao governo « este nome genérico de
Principe ; e nós comprehendemos sob esse nome, diz elle, o homem ou os
homens que dirigem o emprego de todas as forças da sociedade. *
3
Obra citada, pap. 17S.
12
178 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

ções que linha de continuar no governo, a despeito do que a


lettra da lei prescrevia. Os políticos dividiram-se logo em con-
tinuistas e no continuistas, abrindo estes lucta armada contra
o Presidente, e conseguindo depol-o. Um diplomata nomeado
pelo seu successor e que também militara nas fileiras revolu-
cionárias, narrando peripécias da campanha, ao auctor destas
linhas, terminou : Sin embargo, Andueza Palácio es ei mejor
Presidente que ha tenido Venezuela.
Veja-se a triste conseqüência de um principio errôneo :
privado a paiz de seu « .melhor Presidende, » só porque se
entende que é da essência dos governos republicanos o an-
dar o poder de mão em mão, numa perpetua mudança de-
sastrosa, — um desses muitos idola theatri, de que nos
fala Bacon e que, segundo elle, constituem verdadeiras « ob-
sessões do espirito humano.x »
Uma pagina deste grande pensador inglez faz notar quanto
é preciosa a igual persistência de um mesmo critério na
vida governativa, quanto é nocivo na direcção de um paiz
não afinar em um só tom a harpa, e subir ora mui alto o dia-
pasão, ora mui baixo. « Nada, pondera o philosopho, en-
fraquece e arruina mais promptamente a auctoridade que
as variações de um governo que passa... de um extremo a
outro, apertando e afrouxando alternativamente a tensão da
força desta auctoridade.2 »
Ora, é o que habitualmente succède com estes curtos pe-
ríodos governativos, tão em voga hoje. Vive um paiz sem que
saiba nunca ao certo que deva fazer, em prejudicialissima
incerteza.3 Entre nós, poucos annos de tal regimen já nos
deram o governo de Deodoro, todo elle, como se diz, de altos
' Nocum organum, livro I, ij XXXIX.
s
Erísaios de moral e política, cap. XIX-
3
« Em um Estado em que o commando é confiado sú por certo tempo, as
cmprezas de um capitão, ainda que seja homem de bem, não serão menos
embaraçadas pela inveja dos cidadão&,do que pelos esforços dos inimigo.-.,»
santenceia Freinshemius nos Supplementot a Quinto Curcio, livro I, cap. VI.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 179

e baixos, oscillando sempre entre medidas de força e fictos


de fraqueza ; o de Floriano, de uma grande energia ; e o que
se lhe seguiu, que não primou por esta qualidade.
Vem a pello transcrever aqui algumas paginas de Ber-
nai, um dos mais ardentes propagandistas da democracia
pura. « De ha muito, diz elle, acredita-se na Europa que os
reis são a causa única dos males e do desgoverno das socie-
dades, tanto é o damno que lhes têm feito ; e que só com abo-
lir as monarchias e estabelecer as republicas, hão de ces-
sar, como por encanto, todos os males sociaes ; daqui pro-
vém que se chame Republica a todo Estado que seja gover-
nado sem reis ou monarchas, que tenha legisladores de
eleição popular, e nos quaes o chefe supremo seja também
de eleição popular, exercendo seu poder por pouco tempo.
E perfeitamente nisto, que se julga um bem, está o mal.
As republicas, com a eliminação dos reis ou magistratu-
ras hereditárias ou vitalícias, privam-se da grande vanta-
gem do enfreiamento das ambições, e com suas magistra-
turas de curto praso e de eleição popular as desencadeiam.
Desencadeadas estas por tal maneira (que é a mais peri-
gosa, porque desmoralisa as massas), não ha para quem ap-
pellar senão a dictadura arbitraria, e dessa dictadura á ver-
dadeira monarchia1 ou despotismo não ha mais que um
passo.
Esta ha sido a causa da perda de todas as republicas que
não têm sido democráticas. »
« Nada se tem aprendido, todavia, com tão eloqüentes li-
ções, e vemos, no entretanto, respeitáveis escriptores tor-
narem a propor, como panacea única de nossos males so-
ciaes, esses mesmos systemas republicanos que tão funes-
tos têm sido ás liberdades populares.
Hoje, comtudo, começa-se já a notar uma differença e é
1
Bernai dá o nome de monarchia ao governo absoluto, e de realeza ao
governo hereditário, cujo poder é limitado.

\C>
180 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

que, reconhecendo-se instinctivamente que só a democra-


cia 1 pode eliminar o canos em que nos achamos submer-
sos, appella-se para a Republica democrática.
Seja, porém, erro ou falta de meditação, ou, talvez mais
provavelmente, seja pelo,poder immenso da tradição, para
não dizer da rotina ; não se atrevem os modernos publicis-
tas a desprender-se do systema representativo, e, como que
para satisfazer ao habito ou para conservar illusões, dão á
Republica representativa o nome de democrática.
E' preciso protestar solemnemente contra semelhante
confusão.
Não é democrático nenhum systema em que não seja o
próprio povo quem approva ou desapprova, por si e em comi-
dos, as leis. Todos os outros systemas que adoptam esse
nome, nada mais fazem que usurpal-o.
Hoje se reconhece já a impossibilidade do pretenso equi-
líbrio dos poderes, o absurdo de sua divisão, a absoluta
necessidade de que a auetoridade seja una, mas proclama-se
como a ultima palavra da sciencia c a ancora única do porvir
das sociedades, uma Republica em que uma só assembléa,
composta de eleitos do povo, reuna toda a auetoridade ou
soberania, sem nenhum outro correctivo que não seja o de
terem que ser ou não reeleitos seus membros, ao expirar um
praso marcado.
A isto chama-se democracia.
Esse é um systema sem nome e que não pode ter outro
* Democracia, para este auetor, tem accepção muito différente da que é
vulgarmente aceita. Elle a entende, e assim nós, como Pericles, o qual,
segundo Thucydides, a definia da seguinte maneira: «A Constituição que nos
rege...recebeu o nome de democracia, porque seu fim é a utilidade do
maior numero e não a de uma minoria. »
É em sentido análogo que um eminente traduetor considera a política do
maior philosopho chinez como sendo « essencialmente democrática, istoe',
diz elle, tendo por fim a cultura moral e a felicidade do poço. » — Confu-
cius et Mencius, Les quatre livres classiques de la Chine, prefacio, pag. 11,
t r a d . Pauthier.
Vide no fim do volume a nota L.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 181

senão o de electocracia ou soberania dos eleitos, tão fictícia


ou perniciosa como qualquer outra.

Essas republicas representativas não têm sido nem serão


mais que o despotismo de uma assembléa; aqui, como
quando a delegação se faz em favor de um, o que estabelece
não é mais que o despotismo de um Presidente ou de um
Imperador.
Que differença pode haver entre essas assembléas e os
antigos e modernos imperadores electivos? Umas e outros
são igualmente soberanos, igualmente irresponsáveis. A única
differença é que estes exercem sua tyrannia por toda a vida,
e aquellas por tempo mais limitado.Todas, porém, são igual-
mente tyrannicas, todas inaceitáveis.

Concluiremos, pois, repetindo o que já foi dito. A Repu-


blica, só, por si nada significa. 0 QUE A DEFINE É SOMENTE O
SYSTEMA QUE ADOPTE ; não é efficaz senão o democrático, e
somente é democrática aquella em que o povo, por si,
approve ou dcsapprove suas leis em comicios.*
Todas as outras republicas são inaceitáveis.2 »
Mais adiante, diz ainda Bernai :
« A primeira questão que se apresenta depois de estabele-
cida a direcção suprema universal, é a de saber se essa
magistratura deve ser electiva ou hereditaria, vitalícia ou de
curta duração. Corta-se geralmente o nó gordio, dizendo
que não se pode pôr em duvida de que será electiva, porque
não se pode negar ao povo sua faculdade de eleger, mas a
isto é fácil dar uma resposta, mostrando que o systema here-
* A opinião de Penn é esta, exarada no preâmbulo do primeiro projecto
de Constituição da Pennsylvania : « ... é livre para o povo que o tem, todo
governo, não importa a sua fôrma, em que as leis governam e o povo toma
parte nellas ; tudo mais é tyrannia, oligarchia e confusão. » — Story,
Commentario? á Constituição dos Estados-Unidos, vol. I da trad, brazi-
leira, pag. 142. (Nota do auetor).
' El derecho, pag. 284 á 288.
182 DIREITO CONSTTTTTCIONAÏ. BRAZILEIRO

ditario não exclue o exercício da soberania publica, pois que


pode ser instituído por ella, como temos visto, ou confirmado
por seu assentimento ; e quem pode instituil-o, pode, se o
julgar conveniente, da mesma maneira derogal-o, quando
considere opportuno.
A lei que estabelece uma monarchia hereditaria fica tão
sujeita ás variações da vontade -publica, como qualquer
outra, e todas são revocaveis a seu arbítrio.

Partindo de tal conceito, vamos examinar se convém esta-


belecer este systema na democracia.
A lei da successão hereditaria no throno offerece grandes
vantagens e não menores inconvenientes.
Offerece a vantagem inapreciavel de encadeiar as ambições
dos particulares, por não poder ninguém aspirar a este posto
supremo ; mas tem o inconveniente, não menos attendivel,
de fechar a porta ao mérito, reduzindo a uma só família o
numero dos aspirantes. Encadeia as ambições dos particu-
lares, mas estimula a ambição dos principes da família, que,
assignalados ou excluídos de antemão, se são impacientes,
produzem transtornos e essas guerras de successão que têm
assolado o Mundo.
A successão hereditaria do throno offerece, demais, a van-
tagem de dar ao Rei todo o tempo necessário para instruir-se
nos vários assumptos de Estado, e adquirir a pratica indis-
pensável para a devida direcção dos vastos e complicados
ramos do governo e administração publica.

A monarchia hereditaria offerece ainda outra vantagem e


é que o preparo e estudo, transmittidos de pais a filhos,
podem produzir grandes benefícios sociaes ; esta vantagem,
todavia, traz comsigo o inconveniente de que esse preparo
pode fazer-se em beneficio tão somente da família reinante e
em prejuiso dos povos, sendo quiçá esta uma das causas por
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIEO 183

que as monarchias da Europa, tendo sido todas de origem


democrática, se converteram em absolutas.
Por ultimo, o systema hereditário offerece a vantagem de
rodear os reis daquelle respeito profundo que inspira a ele-
vação a um lugar inaccessivel ; mas, este exagerado res-
peito degenera em fetichismo. Os povos chegam até a consi-
derar os reis como sendo de sangue diverso do dos outros
homens, e os reis, ensoberbecidos, despresam o resto das
creaturas e as tratam e procedem a respeito délias em con-
formidade deste seu modo de pensar e sentir.
E' verdade que a democracia pode temperar e mesmo cor-
rigir alguns destes defeitos, só com a formalidade de sub-
metter todos os actos do Rei ao julgamento da opinião
publica, mas, comtudo, devemos investigar se ha outro sys-
tema que elimine taes vícios por completo e aproveite suas
vantagens, porque então este seria o preferível.
Acredita-se geralmente que a eleição popular é a panacea
de todos os males sociaes, c que, só com o facto de tornar
electiva a magistratura suprema e mais cargos públicos,
assegura-se a boa governação do Estado.
E' um erro. Já demonstramos que os eleitos do povo são
tão capazes de abusar como os próprios monarchas, se as
instituições o permittem, de onde se infere que o importante
são as instituições, NÃO AS ELEIÇÕES. * » « A prova está ahi á
1
El derecho, pag. 312 a 315.
Os romanos, eliminando os reis e fundando um governo oriundo da
eleição, julgaram por isso haver instituído a liberdade, engano patenteado
por Tito Livio : <r Esta liberdade consistiu a principio, antes na eleição
annual dos cônsules, que em um enfraquecimento qualquer do poderio
real. » — Historia de Roma, liv. II, § I.
Outro, de facto, e' o característico do systema republicano. Veja-se como
o definia o grande chefe do partido democrático norte-americano, o Presi-
dente Jefferson. Não disse estar elle no facto de instituir um governo do
poço pelo poço, nem no facto de surgirem todas as auctoridades por via
de eleição, e sim que « o verdadeiro principio do governo republicano
é o direito, que tem todo cidadão, de dispor de sua pessoa e propriedade. » —
Miss Martineau, De la société américaine, vol. I, pag. 60.
Esquece-se, diz Edmundo Scherer [Etudes sur la littérature contem
184 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

vista. As nações mudam continuamente de delegados, e o


desgoverno, o malestar, é sempre o mesmo.1 »
Este auctor, em sua obra sobre a Theoria da auctoridade,
desenvolve mais o seu pensamento sobre a grave questão. No
volume segundo, pagina 240, eis como se pronuncia : « Resta
discutir a duração da direcção uni-pessoal, se ella deve ser
conferida vitaliciamente ou por certo tempo. Todas as
escolas são unanimes em pretenderem seja temporária a
magistratura suprema, e custa-nos combater uma opinião
geralmente tão acreditada, mas as rasões que militam em
favor da duração por toda a vida, parecem-nos muito supe-
riores ás outras commummente apresentadas cm contrario.
Como varias sociedades se organisaram sob a fôrma de
republicas, pelo desgosto que lhes inspiravam os excessos
da realeza hereditaria — exemplo Roma, depois da expulsão
dos Tarquinios e a França, depois da conjuração de Luiz XVI
com as cortes do Norte contra seu povo — o poder monarchico
tornou-se odioso; e, por um sentimento de reacção, levado
até o excesso, não se teve a calma necessária para distinguir
e comprehender o que era preciso abolir no antigo regimen
e o que era preciso conservar. Os homens apressaram-se a
fazer o contrario de tudo o que tinha existido sob a monar-
chia... Ora, o Monarcha sendo coroado por toda a vida,
pareceu que isto era uma rasão peremptória para que o
director de uma Republica fosse nomeado por certo tempo
apenas.
Dá-se, para justificar a presidência temporária, um motivo
mais especioso, a nosso ver, do que solido. Allega-se que
ella frustra as intrigas que têm por objecto favorecer a
tyrannia, porque o instineto do homem o arrasta perpetua-
mente a adquirir a maior somma possível de gosos, e aquelle
poraine, vol. IX, pag. 258), que a maior necessidade de um povo não consiste
em exercer direitos políticos, mas sim em nicer sob um governo estável
e protector.
1
»
El derecho, pag. 217.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 185

que se vê elevado ao posto supremo de seu paiz, insaciável


em seus desejos, experimenta uma espécie de vertigem, e
procura augmental-os, — ainda que para isto seja preciso
attentar contra a liberdade de seus concidadãos. Ora, quanto
mais longo for o período da presidência, tanto mais aquelle
que a occupa terá tempo de augmentar o numero das crea-
turas que lhe fiquem dependentes, para ter facilidades de
urdir sua usurpação e meios de consummal-a.
Acredita-se mesmo que a realeza hereditaria torna a
tyrannia infallivel, e que é á elaboração insensível e lenta,
porém secreta, praticada ininterruptamente por uma suc-
cessão de principes, da mesma dynastia, que é devida a
degenerescencia das antigas democracias reaes europeas em
governos absolutos .ou de direito divino.
Mas, se a curta duração da magistratura suprema torna-se
um obstáculo aos desígnios malfazejos, não será ella também
um entrave á realisação dos melhores projectos? Se o eleito
da nação não tem assim tempo para consummar o escravisa-
mento de sua Pátria, tel-o-á para rcalisar as grandes refor-
mas que houver concebido?1
E' certo que o interesse primordial dos povos os leva,
primeiro do que tudo, a porem sua liberdade ao abrigo de
todo e qualquer attentado... Mas, é preciso convir que uma
mudança de direcção muito freqüente, contrariaria as van-
tagens desta preciosa liberdade, e que um systema que por
1
Leroy Beaulieu, no Economiste français de 1G de abril do corrente
anno, faz notar que « o Mexico gosa de melhor administração que os
Estados-unidos. » Devemos attribuir em grande parte esta vantagem á
estabilidade governativa de que ora frue aquella Republica e â permanência,
no posto supremo do Estado, de um mesmo Presidente, o illustre general d.
Porfirio Diaz, o qual terminando sua administração, foi reeleito, e ha dois
annos foi de novo reeleito por outros quatro annos, que tantos ali dura o
perio dopresidencial.
Sagrado hoje como o maior estadista de sua Pátria e um dos mais notá-
veis da America, o Presidente do Mexico, depois da primeira edição desta
obra, foi pela quarta vez designado cm comícios, para o mais alto posto do
paiz.

V*
186 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIEO

si mesmo embaraça o desenvolvimento de sua propria obra,


assemelha-se um pouco ao de Penelope, ou antes ao de
Saturno, parecendo-nos assaz afastado da perfeição.
Precisamos repetil-o ainda? — 0 perigo da tyrannia não
ameaça as sociedades em que as instituições democráticas
gosam de verdadeiro prestigio. Quando a nação se relaxa e
cessa de intervir na votação das leis, ou descuida-se de exigir
que ellas sejam fielmente cumpridas pelos grandes ou pelo
chefe do Estado, então as usurpações, e outros abusos,
tornam-se mais ou menos fáceis, sempre possíveis, e a maior
ou menor duração da magistratura suprema fracamente con-
tribue, em tal caso, para retardar o descrédito das insti-
tuições

Demais, toda gestão commercial ou outra qualquer exige


alguma habilidade, 6 evidente ; e esta habilidade não se
adquire em um dia. Quanto mais longa for a duração da
magistratura suprema, tanto mais provavelmente o perso-
nagem que delia estiver investido se tornará capaz de a bem
desempenhar. Mudar de director todos os annos ou todos
os três annos, é commcttcr a mesma falta que obrigar um
artesão a mudar de estado todos os mezes ou de três em
três ; não é este o meio, ainda mesmo nos trabalhos menos
complicados, de attingir á perfeição — E' ao exercício per-
severante e prolongado das artes, tanto quanto á intelligencia
natural e á emulação dos que as praticam, que são devidos
a maior parte desses engenhosos descobrimentos que aper-
feiçoam os productos e melhoram nosso bem-estar. Quanto
mais importante é uma gestão, tanto mais necessárias se
tornam a habilidade e a experiência em quem se acha á testa
da mesma. Quando, pois, se trata da direcção dos interesses
de todo um povo, quem poderia contestar a utilidade de ter-se
em mira a maior perfeição?
O governo do Estado é de importância tão transcendente,
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 187

para todos e para cada um dos cidadãos, que é quasi inge-


nuidade constatal-o aqui ; mas o que certos publicistas
parece que ainda não consideraram bem é a immensidade
de conhecimentos e, sobretudo, de tacto, indispensáveis ao
manejo dos negócios públicos. Ora, essas duas qualidades
só se podem aperfeiçoar conservando-se o homem no próprio
timão do Estado.

Emílm, os conhecimentos que a direcção suprema abraça


são tão numerosos, tão variados, tão delicados e tão tran-
scendentes, que a vida de um homem de Estado mal basta
para adquiril-os. Eis porque a idéa de restringir a curto
lapso de tempo a duração da mais alta magistratura,
parece-nos, em summa, mais prejudicial que util.
Alem de tudo, quantos cidadãos descobriremos perfeita-
mente possuindo de antemão essas qualidades, e que enco-
rajamento acharão aquelles que não as possuem, a emprehen-
derem sua abstracta e árida cultura, se elles têm certeza que
o tempo de seu mandato é apenas sufíiciente para adquiril-as
e que lhes será dado ganhar esta preciosa aptidão só no
momento em que a expiração de seus poderes lhes arrebata
o ensejo de fazerem o mais lisongeiro uso de suas attribui-
ções? — E' para evitar esse inconveniente que as republicas
modernas têm admittido a reeleição.
A magistratura suprema, por conseguinte, quando se
julgue opportuno tornal-a electiva, parece-nos dever ser
vitalícia.1 »
Motivo tinha, pois, o egrégio Bolivar, quando escreveu que
« o Presidente vitalício, com a faculdade de escolher seu suc-
cessor, é a mais sublime inspiração na ordem republicana.2 »
1
Théorie de Vautorité, vol. II, pag. 210 á 2 lã.
Era a opinião do grande Jose Bonifacio. Vitalício o chefe do Estado em
seu projecto de Constituição (art. 5o).
1
Documentos para Ia historia de Ia vida publica dei Libertador, vol. X,
pag. 311.
188 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Sem estabilidade, dizia elle, todo principio politico se cor-


rompe, e termina sempre no despotismo.1

Repellem o governo vitalício por sua longa duração os


democratas parlamentares... Pois um ministério apoiado
pela Câmara não pode persistir nos altos postos adminis-
trativos, por vinte, trinta ou mais annos?
Dir-se-á que assim é, mas que ha meio de apeal-o, logo
que commetta um excesso qualquer.
E' verdade ; comtudo prova isto apenas que o que convém
estabelecer é um fácil processo de coaretar o abuso.
E se com o nosso systema se instituir pratico e seguro
expediente de prompta eliminação, alem desta vantagem com
a de evitar o perigo das destituições oceasionadas por
momentâneos caprichos ou indignos manejos parlamentares,
e sim attendendo sempre á legitima opinião nacional?
« E' preciso não perder de vista esse meio termo, desco-
nhecido hoje pelas republicas que se afastam de seus pró-
prios princípios. Pois ha muitas instituições, na apparencia
democráticas... que arruinam as democracias...2 » A tempo-
rariedade da magistratura suprema é para o regimen repu-
blicano uma dessas : estraga-o para sempre, promovendo a
anarch ia e aluindo as mais apparatosas construcções polí-
ticas. Se pretendemos fundar um systema durável, se preten-
demos para sempre impossibilitar o advento da monarchia, é
preciso crear instituições que tenham para o povo as condi-
ções que a recommendam a elle e que fazem saudades ainda
de tal regimen : essas condições são a independência do
poder,3 sua estabilidade, e transmissibilidade regular. —
1
Documentos para Ia historia de Ia vida publica dei Libertador, vol. VII,
paff.
5
282.
Aristóteles, Política, livro 8, cap. 7, § 16.
3
Sumner Maine commenta cm seu Ensaio sobre o governo popular a
deplorável condição dos governos modernos. Quem estudar friamente a
historia, diz elle, notará, como um facto digno de nossa mais seria attenção,
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 189

Obtem-se isto com o systema que propomos, systema selecto


e extreme de radicalismos de escolas, — que funda afinal
esse governo mixto sonhado por todos os grandes pensadores
políticos e que deve reunir, segundo Cicero, o que as fôrmas
simples têm de melhor, c alliar cm uma justa medida as van-
tagens de todas ellas.
Thomaz Morus, na Utopia, dando o padrão do governo
perfeito, da Republica ideal, institue vitalícia, mas revocavel,
a magistratura suprema.
Talvez reminiscencia do celebre livro, talvez pressenti-
mento do regimen que convém á sociedade moderna, no ponto
de que tratamos, essa « famosa » emenda proposta na Consti-
tuinte de 1848, por Julio Grevy, e segundo a qual o Presi-
dente devia ser eleito por tempo ^Ilimitado, mas sendo sempre
revocavel.1 De facto, ahi está em germen o que se ha de esta-
belecer : cumpre decretar a vitaliciedade, com um limite
máximo de idade, attingido o qual cesse o exercício do mando,2
e manter a vigente faculdade de cassar os poderes do gover-
nante, sempre que abuse, por meio de efíicaz lei de respon-
que, desde o século em que os imperadores romanos viveram á mercè da
soldadesca pretoriana, o Mundo nunca viu falta de segurança igual á dos
governos cujos chefes se tornaram delegados das communidades. — Pag. 38.
1
A Constituição chilena de 23 de outubro de 1818 nomeava o grande
O'Higgins <t Director, » sem marcar praso a seu governo. Se saía do paiz,
era-lhe facultado designar, de accordo com o Senado, um substituto.
Compunha-se esta corporação de cinco senadores e cinco supplentes; o
Director os escolhia, com approvação do povo. — Amunategui, Dictadura
de O'Higgins, pag. 270 e 271.
Vide no appendice a nota M.
* Sessenta-e-quatro annos, por exemplo. Em tempo do Império, propoz-
se, como termo da vitaliciedade dos senadores, a idade de setenta-e-dois. As
Ordenações felippinas, sem distinguir casos, estabelecem : « Tendo alguém
idade de setenta annos é aposentado. » — Liv. 2o, tit. 51.
Entre os toltecas, os reis governavam cincoenta-e-dois annos, findos os
quaes abdicavam, elegendo-se outro. Nunca nenhum se rebeilou contra esta
lei racional. O illustre Mitl, porque « foi um Rei tão zeloso do bem publico
e tão popular, havendo cumprido seus 52 annos de governo, decidiram os
toltecas que continuasse nelle, por cujo motivo governou 59 annos, até que
morreu em 986, sendo sua memória tão grata ao povo que ainda para
honral-o, elevou ao throno sua viuva, a discreta Xiuhtlalzia. » — Verdía,
Historia de Mexico, pag. 11.
190 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

sabilidade, assim como por voto expresso dos eleitores recla-


mando nova eleição, depois de esgotado certo praso de
governo, para que dentro delle se possa apreciar da capa-
cidade do chefe do Estado — ad instar do que se faz na
Suissa para resolver sobre a opporlunidade das reformas
constitucionaes.1
Escolhido pela fôrma indicada no livro anterior, se o Pre-
sidente, depois, digamos, de cinco, seis ou sete annos,, mos-
tra incapacidade irremediável, bastará que a terça parte
dos governos dos Estados, ou que cincoenta, oitenta ou cem
mil eleitores reclamem nova eleição. Teríamos assim
rasoavelmente combinadas a estabilidade governativa e o suf-
ficiente respeito ás inspirações da opinião publica : o meio
de consultar, quando opportuno, os justos desejos populares.
Seria, pois, erro lamentável e não motivo de elogio o que
um ex-ministro e biographo de Balmaceda se afadiga por
justificar, dizendo que o grande chileno não tinha candidato
official para sua suecessão.2 Esse estadista, patriota
a valer, não podia ter menos solicitude pela sorte do governo
futuro de sua Pátria do que um Pedro Magno, e o impetuoso
governante da Russia assim mostra sua preoecupação pelo
vindouro destino do Império : « Não te peço que trabalhes,
peço-te que tenhas vontade. Sou homem, sou pois mortal ; a
quem deixarei o que hoje planto? — Se não mudas, desher-
dar-te-ei; não tenho poupado a vida por minha Pátria e sub-
ditos, crês, pois, que te pouparei a ti? Sê antes bom estran-
geiro que um egoísta.3 »
Entre os israelitas, cuja legislação fundamental procedia
1
2
Lei federal suissa de 17 de junho de 1874. Ver no appendice a notaN.
Banados Espinosa, Balmaceda, vol. I, pag. 319.
3
Carta de Pedro, o Grande, a seu filho Aleixo.
O Czar não ficou simplesmente na ameaça. « No mez de fevereiro de 1721,
Pedro fez apparecer um ukase, pelo qual annunciava que o soberano do
todas as Russias tinha o direito de nomear como successor ao throno quem
elle quizesse, e; no caso de achal-o incapaz, de o afastar do throno. » —
Solowieff, Histoire de Russie, pag. 501.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 191

de um propheta inspirado por Deus, segundo é crença


commum, o Juiz, chefe superior do paiz, era funecionario
vitalício.
Em Genebra, logo que decaiu a auetoridade episcopal, com
o governo popular se estabeleceu que os conselhos dire-
ctores da Republica, seriam igualmente vitalícios.1
Na poderosa Republica hollandeza, o governo supremo
cabia a um Pensionario. « Sua commissão, diz a Encyclo-
pedia,2 não é para mais do que cinco annos, depois dos
quaes se delibera se será reeleito ou não. Não ha exemplo,
verdadeiramente, de que tenha sido revocado ; a morte é
somente a causa que põe termo á suas importantes fun-
cções. » « O mais velho dos De Witt governou a Republica
dez-e-sete annos, com sabedoria, com gloria.3 »
Na Islândia, « o magistrado supremo, o que tinha o titulo
de Presidente, chamava-se Lõgsõgumadr ou publicador da
lei. Era nomeado pelo povo, e geralmente mantido em suas
funeções toda a vida.4, »
Esta instituição é a mais apropriada ao destino do Estado
e o único meio de pôr termo a terríveis conflictos, conforme
pensa Aristóteles e está de accordo o Alcorão. -< Gomo é pre-
ferível que as cousas sejam quaes são, evidentemente que, na
sociedade civil, seria melhor também que os mesmos homens
ficassem sempre no poder, se isto fosse possível.5 » O livro
sagrado do mahometismo prega : « O' crentes! obedecei a
Deus, obedecei ao apóstolo e áquelles dentre vós que exercem
a auetoridade. Submettei vossos litígios a Deus e ao apóstolo,
se acreditacs em Deus e no dia derradeiro. Isto é o melhor.
E' o melhor meio de pôr termo ao DEBATE. 6 »
i Bodin, Da Republica, liv. II, cap. VI.
%
3
Artigo sobre o Pensionario.
Mirabeau, Adresse aux bataoes, colleceão Vermorel. vol. II, pag. 116
*5 Lacroix, Régions circumpolaires, pag. 2SS.
6
Política, liv. II, cap. I, § 6.
Alcorão, rV, 6á.
192 DIREITO CONSTITUCIONAL BKAZILEIRO

Em submettermo-nos livremente e dignamente está, na ver-


dade, todo o problema. Feliz o povo que o comprehende.
Qu'il est bon d'obéir ! que l'homme a de mérite,
Qui d'un supérieur aime à suivre les lois,
Qui ne garde aucun droit dessus son propre choix,
Qui l'immole à toute heure, et soi-même se quitte !

L'obéissance est douce, et son aveuglement


Forme un chemin plus sûr que le commandement,
Lorsque l'amour le fait, et non pas la contrainte ;
Mais elle n'a qu'aigreur sans cette charité,
Et c'est un long sujet de murmure et de plainte,
Quand un joug n'est souffert que par nécessité. l

Hamilton propoz o systema da presidência vitalícia aos


americanos,2 Bolivar o fez mais tarde ao Alto-Perú.3 Esta
1
Thomaz A'Kempis, obra citada, liv. I, cap. IX; trad. Corneille.
1
Boutmy, Direito constitucional, trad. L. de Mendonça, pag 174. Vide
no appendice a nota O.
3
« O Presidente da Republica vem a ser em nossa Constituição, como o
Sol, que, firme em seu centro, dá vida ao Universo. Esta suprema auetori-
dade deve ser perpetua, porque nos systemas sem gerarchias, necessita-se,
mais do que em outros, de um ponto fixo ao redor do qual girem os magis-
trados e os cidadãos, os homens e as cousas. Dae-me um ponto fixo, dizia
um antigo, e mocerei o Mundo. Para Bolivia, esse ponto é o Presidente
vitalicio.

Sua duração é a dos presidentes do Haity. Adoptei para a Bolivia o exe-


cutivo da Republica mais democrática do Mundo.
A ilha de Haity (permitta-se-me esta digressão) achava-se em insurreição
permanente : depois de ter experimentado o Império, o Reino, a Republica,
todos os governos conhecidos e alguns mais, viu-se forçada a appellar para
que a salvasse, ao illustre Pétion *. Confiaram nelle, e os destinos do Haity
não vacillaram mais. Nomeado Pétion Presidente vitalicio com faculdades
para escolher o successor, nem a morte deste grande homem, nem a suc-
cessão do novo Presidente, causaram o menor perigo no Estado : tudo tem
marchado sob o digno Boyer com a calma de um reinado legitimo. Prova
triumphante de que um Presidente vitalicio, com direito de escolher o suc-
cessor, é a inspiração mais sublime na ordem republicana.

No governo dos Estados-unidos se tem observado ultimamente a praxe do


nomear o primeiro ministro para succéder ao Presidente. Nada é tão con-
veniente em uma Republica, como este methodo : tem a vantagem de pôr á
cabeça da administração um sujeito experimentado no manejo das cousas do
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 193

saudável reforma foi repellida porque os povos estão ainda


imbuídos do falso preconceito de que seu maior inimigo é o
governo, quando « é erro /revolucionário, diz Laboulaye,
tratar como inimigo o poder executivo. » « Na theoria nova,
accrescenta Henrique Taine, referindo-se ao Contracte social,
é contra o gendarme que todos os princípios são promul-
gados, todas as precauções se tomam, todas as descon-
fianças se despertam. Em nome da soberania do povo, arre-
bata-se ao governo toda auctoridade, toda prerogative, toda
iniciativa, toda força. 0 povo é soberano, e o governo não é
mais que seu caixeiro : menos que um caixeiro : seu

Estado. Quando entra a exercer suas funeções, vae formado, leva comsigo
a aureola da popularidade, e uma consummada pratica. Apoderei-me desta
idea e a estabeleci como lei.
O Presidente da Republica nomeia o Vice-presidente, para que administre
o Estado e o succéda no mando. Com esta providencia evitam-se as eleições,
que produzem o grande flagello das republicas, a anarchia, a qual é... o
perigo mais terrivel dos governos pooulan s

O Vi ce-presidente deve ser o homem mais puro : a rasão é que se o pri-


meiro magistrado não escolhe um cidadão muito recto, deve temel-o como
a inimigo encarniçado e suspeitar até de suas secretas ambições. Este Vice-
presidente ha de esforçar-se por merecer, em troca de bons serviços, o
prestigio de que necessita para desempenhar as mais altas funeções, e
esperar a grande recompensa nacional, o mando supremo.
Sendo a herança o que perpetua o regimen monarchico, e o torna quasi
geral no Mundo, quanto mais util não é o methodo que acabo de propor
para a suecessão com o Vice-presidente ! Que fossem os principes hereditá-
rios escolhidos pelo mérito e não pela sorte, e que em lugar de se deixarem
ficar na inacçáo e na ignorância, se puzessem á testa da administração,
seriam sem duvida monarchas mais esclarecidos e fariam a dita dos povos.
Sim, legisladores, a monarchia que governa a Terra tem obtido seus títulos
de approvação da herança, que a faz estável, e da unidade, que a faz forte.
P o r isso ainda que um Principe seja u m menino mimado, enclausurado em
seu palácio, educado pela adulação e conduzido por todas as paixões ; este
Principe... manda ao gênero humano, porque conserva a ordem das cousas
e a subordinação entre os cidadãos, com um poder firme e uma acçào con-
stante. Considerae, legisladores, que estas grandes vantagens se reúnem no
estabelecimento de um Presidente vitalício e de um Vice-presidente heredi-
tário. » — Documentos para Ia historia de Ia vida publica dei Libertador,
Mensagem apresentando o projecto de Constituição para a Bolivia, vol. 7.
p a g . 343 et 343.
*V'idc no appendice a nota P .
13
194 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

criado.1 » « A Revolução, no pensar de Saint-Girons, em


vez de impor sábios limites ao poder executivo, annullou-o.2 »
Citemos, porém, o republicano Sismondi, que aprecia
mais completamente este erro fatal. « Desta vigilância attri-
buida aos deputados do povo e da lembrança também de unia
antiga lucta que, quasi em todo o lugar, arrancou successi-
vamente aos depositários do poder, as garantias da nação,
originou-se um preconceito perigoso, que todos os escri-
ptores polemistas da Europa tendem hoje a vulgarisar : que
o poder executivo é um inimigo que cumpre combater, que
ha opposição constante entre o governo e o povo, entre o
Principe e a liberdade. Os legisladores nunca tendo instituído
o poder, este jamais poude ser o orgam da vontade nacional,
o verdadeiro representante do povo ; tem havido um trabalho
constante de todos os amigos da liberdade, senão para o
destruir, ao menos para o contrariar e limitar. Sua acção
ha sido ininterruptamente contida, retardada, reduzida a
caminhar por vias indirectas ; sua propria existência por
vezes tem sido posta em perigo, e os depositários do poder,
constrangidos em suas vontades, tendo a ameaça por segu-
rança, o amor próprio humilhado, vem a conceber tanto ódio
aos amigos da liberdade, quanto estes desconfiam délies...
Cumpre, no entretanto, que o governo caminhe ; de todas
as necessidades do estado social é esta a primeira. Tal neces-
sidade prevalece sobre o descontentamento e a desconfiança.
— Veiu-se a concluir disso que a lucta entre o Principe e o
povo era da essência do governo livre ; que era necessária
uma opposição para vigiar a administração, para critical-a,
para lhe não dar tempo de descançar, afim de impedir que,
por vergonha, se desvie muito, ou para surprehender no
nascedouro projectos culposos. Mas cumpria também que a
administração triumphasse constantemente da opposição até
1
Saint Girons, obra citada, pag. 264.
2
Idem, pag. 264.
DIBEITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO VJü

o momento em que esta podesse derrocal-a ; que tivesse uma


força propria para resistir a esses ataques diários ; que fosse
cercada de riquezas, pompa e immensa clientela, não para
attingir o bem nacional, mas sim para não succumbir ás
primeiras investidas dos deputados nacionaes. No systema
dos legisladores modernos, os Estados pagam os gastos de
uma certa espécie de gladiadores, os gladiadores parlamen-
tares, cujos combates servem tanto para modificar a Consti-
tuição, como outrora os do circo para defender a antiga
Roma.
Quando uma cousa existe desde certo tempo, o homem
chega logo a crer que ella existe por lei da necessidade.
Surgem sempre rasões engenhosas, rasões plausíveis, para
persuadir que o effeito do accaso que se tem sob os olhos,
eqüivale em vantagens á mais sublime das combinações da
intelligencia humana. Todos os publicistas modernos olham o
governo como o inimigo nato da liberdade ; mas não julgam
que nisto haja mal. Cuidando apenas de dirigir, com maior
ou menor ardor, seus ataques contra esse governo, chegaram
a prestigiar a opinião de que quanto menos governado é um
Estado, tanto mais prospéra.

No entretanto, mostrou-nos a antigüidade, vimos na media


idade, e (em certos pontos ao menos) vemos de novo, entre
os anglo-americanos, Estados em que... a vontade do Prin-
cipe é uma com a do povo; em que não se organisa
nenhuma opposição, em que nenhuma força publica se
despende vãmente em luctas que nem mesmo se sabe o que
são ; em que o governo, não tendo interesses separados dos
de sua nação, não tem armas que sejam exclusivamente do
governo; em que seu poderio, emfim, é igual ao da commu-
nidade, para fazer o que esta quer, e nullo para fazer o que
ella não quer.
Não nos daremos por vencido, senão quando houver quem

v\*
196 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

ouse negar que tenham existido governos taes como esses


que apontamos. Na sciencia que abordamos, os factos, mais
ainda que as thcorias, ficam sujeitos ao império das paixões,
são dcsnaturados pelos olhos que os observam. Basta-nos
que a imaginação possa conceber uma Constituição em que
o Principe sempre obedeça á vontade nacional, para investi-
garmos se ella não merece a preferencia sobre as constitui-
ções em que é da essência do systema que o Principe lucte
contra essa mesma vontade. À lucta constantemente empe-
nhada entre os representantes do povo e o Principe, nutrindo
ódios intestinos, preparando resistências á acção legitima
de todos os poderes, paralysando as forças nacionaes — que
se consomem todas em opposição umas contra as outras —
6 devida ao abuso que se tem feito, de constituições fundadas
sobre o systema do equilíbrio. As mesmas observações appli-
cam-se á lucta da imprensa contra o poder social, á sua cri-
tica de tudo que existe, a seus ultrages contra quem quer
que commande. — Pode deparar-se-nos um determinado
estado social em que o mal seja necessário, é extranho erro,
comtudo, que se confunda esse mal com o bom.

Mais de uma nação européa, adoplaudo as instituições


britannicas, pareceu ter esquecido qual foi o fim destas ;
não perceberam que transportavam, para seu seio, os
baluartes dos direitos que um povo livre queria conservar.
em torno de abusos que um povo recem-liberto queria
destruir.1 »
i Obra citada, pag. 191.
Sismondi termina esta pagina, expondo claramente a absurda imitação do
regimen inglez. De facto, na Grã-Bretanha apenas se pretendeu instituir
um systema de defezas efficazes em volta dos cidadãos, contra os abusos
resultantes do governo estabelecido. Ora, nós pretendemos mais alguma
cousa hoje : não é só pôr a salvo de qualquer ataque as garantias de que
gosamos, mas impedir que taes ataques se dêm, supprimindo os abusos em
que se estribam os homens para pratical-os.. Para isso são inefficazes as
praticas inglezas : vivem para evitar os abusos; as que devemos estabelecer
agora cumpre que tendam a acabar com elles.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 197

Sismondi julga, todavia, que ha preconceito tão somente


neste antagonismo ahi vivaz; ha também motivo menos jus-
tificável, dizemos nós : ha expedientes de ambição insatis-
feita e ha corrupção política. Comprehende-se que a fre-
qüência das eleições augmenta o numero de probabilidades
de apanhar em uma délias o mando cubiçado, de novas
rações na distribuição dos despojos em cada um dos trium-
phos obtidos. Na União norte-americana, diz Boutmy, « para
tornal-as (as funcções politicas) mais adequadas ao uso que
délias se queria fazer, o melhor meio que se achou foi decla-
ral-as todas electivas e encurtar o mais possível o praso dos
mandatos. ,Era o modo de mettel-as mais completamente no
jogo da política e renovar a todo momento as disponibili-
dades, restaurar o fundo de estipendio no orçamento eleitoral
de cada partido.1 »
Eis a miséria que se esconde atraz da apregoada conve-
niência publica de renovar continuamente os detentores do
poder!
Queremos pôr termo ao exame desta materia, citando a
propria opinião do Federalista, cujos auctores não inspiram
de certo a minima suspeita a nossos democratas.
« Ha muito quem pense, diz elle, que a energia do poder
executivo é incompatível com a indole do governo republi-
cano. Como a energia do poder executivo é um dos principaes
caracteres de uma boa Constituição, como esta circum-
stancia é tão essencial á segurança da sociedade contra os
ataques estrangeiros, á firme administração das leis, á pro-
tecção da propriedade contra as tentativas dos poderosos
para transtornar o curso ordinário da justiça — como, final-
mente, o vigor do poder executivo é que mantém e segura a
liberdade contra a fúria das facções c contra os projectos
da ambição, é muito de desejar para os amigos das fôrmas
1
Pag. 220, da obra já citada a este respeito, em a pag. 171 do presente
estudo.

«N
11)8 DIREITO CONSTITUCIONAL BKAZILEIRO

republicanas que esta idéa seja sem fundamento ; porque,


SEM QUE SEUS PRÓPRIOS PRINCÍPIOS PADEÇAM CONDEMNAÇÃO IRRE-
PARÁVEL, não é possível admittü-a. Não ha ninguém que não
saiba quantas vezes a Republica romana se viu forçada a
procurar no poder absoluto de um só homem, revestido do
titulo formidável de Dictador, refugio contra as intrigas dos
que aspiravam á tyrannia, contra sedições intestinas ou
contra inimigos externos que ameaçavam igualmente a segu-
rança de Roma ; mas inutil parece corroborar esta doutrina
com exemplos. Poder executivo sem força suppõe fraca exe-
cução das leis e do governo ; e execução fraca é o mesmo
que má execução : logo um governo mal executado, SEJA ELLE
QUAL FOR EM THEORIA, não pode deixar de ser mau na pratica.
Todo homem rasoavel deve conhecer a necessidade de asse-
gurar ao poder executivo força sufficiente : resta saber os
meios de obter esse fim, como elles devem accommodar-se
ao gênio republicano e se foram bem escolhidos na Consti-
tuição que se propõe.
A energia do poder executivo consiste na sua duração, na
sua unidade, na sufficiente extensão de seus poderes, nos
meios de prover a suas despezas e necessidades ; e a segu-
rança do governo republicano funda-se na responsabilidade
dos funccionarios e na influencia rasoavel da vontade do
povo.l »

« Já temos visto que a duração das funcções é um dos


meios mais necessários para dar á auctoridade executiva
energia sufficiente. Este meio refere-se a dois objectos :
o primeiro é a firmeza pessoal do magistrado no emprego
de seu poder constitucional; o segundo é a estabilidade do
systema de administração estabelecido debaixo de seus aus-
pícios. ORA, QUANTO MAIS PROLONGADA FOR A DURAÇÃO DO
EMPREGO, TANTO MAIS PROBABILIDADE HAVERÁ DE OBTER ESSAS
1
Federalista, trad, brazileira, cap. LXX.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 199

VANTAGENS. 0 valor que os homens ligam áquillo que pos-


suem, está sempre em proporção com a certeza ou incerteza
da posse : donde se segue que menos aferro devem ter e
menos sacrifícios devem fazer por aquillo que lhes dér inte-
resses precários e incertos, do que por aquillo de que
tiverem titulos seguros e duráveis. Esta verdade não é menos
applicavel aos privilégios políticos, á honra e confiança
publica, do que á propriedade particular ; e jâ daqui pode
inferir-se que o magistrado que tem a consciência de que em
muito pouco tempo deve deixar o seu emprego, nem pode
sentir por elle grande interesse, nem pode ter a coragem de
exercitar com independência a sua auctoridade, se para isso
for preciso expor-se á censura ou desaffeição, embora passa-
geira, de uma parte da sociedade ou unicamente da facçAo
dominante no Corpo legislativo...1 »
« Uma outra desvantagem de um Presidente eleito pelo
povo por um termo fixo, pondera Laveleye,2 é a instabili-
dade das idéas, a falta de espirito de continuidade. No fim
de tempo muito curto a administração muda, um novo espi-
rito preside á direcção do Estado. Este inconveniente é de
tão grande monta que nos Estados-unidos tende-se cada vez
mais a reeleger o Presidente cujo governo termina, afim de
evitar essa brusca mudança.3 »
Já antes apreciamos este grave defeito dos systemas hoje
mais recommendados pela superficialissima opinião áos poli-
ticantes; vejamos agora se o remédio que actualmente se
aponta é o mais próprio.
Em um trabalho publicado em 1896 sobre a Constituição
4
Capitulo LXXI.
5
Des formes de gouvernement, pag. 68.
3
Laveleye accrescenta, no Gouvernement dans la démocratie : « Il est
absurde de ne pouvoir conserver un fonctionnaire au moment où il vient de
faire preuve de dévouement et de capacité. C'est surtout dans la République
qu'il faut s'efforcer de maintenir l'esprit de suite, parce qu'il y fait ordinai-
rement défaut. Tout changement de Président agite le pays, et cette agita-
tion périodique doit être évitée. » — Vol. I, pag. 318.
200 DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO

riograndense, o auctor mostrou-se muito apologista da ree-


leição, como se vê da pagina 42 e seguintes do opusculo.
Tratava-se, porém, de defender o que estava feito e por
isso preconisamos tanto o principio da reeleição, entendendo
não ser opportuno indicar no momento ,um outro mais van-
tajoso do que esse. No citado opusculo, todavia, dizemos
que « tudo indica que, se um homem revela qualidades exce-
pcionaes no posto supremo do Estado, ahi o devemos con-
servar emquanto se mantenha na altura do cargo, » e é isto
o que o bom senso manda. E' verdade que a reeleição é pro-
fícuo correctivo no regimen em que a magistratura superior
é de curta duração, mas o melhor é logo estabelecer um prin-
cipio mais lógico, qual o da vitaliciedade pura e simples, ou
combinada com a reeleição, como propomos.x

As reformas suggcridas no presente capitulo, contrariam,


sabemos, os mais arraigados preconceitos. Nisto, como em
tudo, « a néscia, a infeliz espécie humana, como accentuou
a encantadora Lespinasse, é bem difficil de governar, sobre-
tudo quando nos esforçamos por tornal-a melhor e mais
ditosa.2 »
Mas, cumpre insistir : a obra é de salvação.
* Muito conveniente nos governos temporários, o propn principio da
reeleição, desperta fortes opposições no seio da actual democracia. O julga-
mento de Lamartine nada tinha, pois, de severo. « Eis o que são, dizia, essas
leis de inveja e exclusão : ellas dizimam os homens capazes, consolam as
mediocridades, c arruinam o paiz ! »
De facto, tudo se origina nos mais baixos sentimentos : tudo vem de que
« o oleiro tem inveja do oleiro, » como escreveu Hesiodo nos seus Trabalhos
e os dias. (Trad. Leçon te de Lisle, pag. 58).
— O praso de cada governação é de cinco annos no Chile, de seis na
Argentina, e Colombia, de sete em França; é vitalício nas republicas de
Breme, Lübcck e Hamburgo.
A reeleição vigora em França, Eslados-unidos, Mexico et Orange; a Cons-
tituição do Chile, de 1833. também a admittia.
s
Lettres choisies ; a 80*.
LIVRO VII

Da decretação das leis

v<í>
•:: " * f

LIVRO VJI

Le Roi faisait les lois, l'opinion


publique les sanctionnait, mais
le pouvoir de gouverner ne tire
pas sa force du pouvoir législatif.
MIRABEAU.
Collecçâo Vermorel,vo\.l,pag. 48.

E' ponto que apaixona os theoristas, este da forma por


que devem fazer-se as leis. Antes que abordemos directamente
a questão, é opportuno precisar com rigor os termos da
mesma.
Que significação tem, na ordem política, o que chamamos
— lei?
Lei é a expressão dos princípios que regulam a convi-
vência social.
Ora, o objecto da arte politica é o harmonioso manteni-
mento dessa convivência, e como em toda arte concebe
melhor uma obra quem tem de executal-a, segue-se que em
principio ao governo deve caber a elaboração das leis. 1 —
Incumbir a uma corporação de estabelecel-as e a uma enti-
dade différente, de as fazer observar, é cousa que nem
1
Assim foi sempre no antigo Reino portuguez. Traçadas segundo as
ordens do Rei, as ieis promulgavam-se em cortes, mas sem intervenção
destas; tinham apenas o direito de pedir ao chefe do Estado que as fizesse,
e de reclamar que a decretação e revogação fosse praticada em qualquer caso,
no seio da dita assembléa.—Barros, Historia da administração publica em
Portugal, vol. I, pag. 540 ; Amaral, Memórias para a historia da legis-
lação e costumes de Portugal, mem. 5.*, no vol. VI, das Mem. de litt. da
Acad. das Sciencias de Lisboa. Martins Junior sustenta outra opinião, na
sua brilhante Historia do direito nacional, pag. 86.

^
204 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

merece ser examinada, se considerarmos devidamente a


natureza desta funcção.
Todo governo, porém, está sujeito a abusar e instituir leis
em seu favor e em desaccordo com as conveniências publicas,
ou negar-se a estabelecer as que sejam reclamadas pela opi-
nião. Para evitar este duplo mal, toda lei deve ser confirmada
pelo povo, que opporá seu veto ás que merecerem seu re-
pudio, a iniciativa de propol-as devendo caber ao governo,
como a qualquer cidadão.1
Este o verdadeiro systema republicano, isto 6, o que mais
consulta o bem commum e a opinião publica : o mais natural
e espontâneo, o único que supprime privilégios e monopólios
incompatíveis com a liberdade.
« Para que a auctoridadc publica e a democracia sejam
uma verdade, diz Bernai, é preciso que o povo mesmo in-
stitua suas leis, isto é, que não seja lei senão aquella que
tenha sido expressa e directamente approvada por elle em
comicios e por suffragio universal.

Na democracia não 6 obrigatória nenhuma disposição que


não seja votada e approvada dessa maneira. O que quer
dizer que na democracia o publico tem direito de sancção e
de veto. — Alem desse, tem o de iniciativa para a proposta
1
Tratando do « poder legislativo, » diz D'Holbach, no discurso III, £ III,
de sua. Política natural : « E' pelas leis que o soberano exprime a vontade
geral. Assim o poder legislativo é da essência da soberania. Quando as leis
tendem ao bem-estar e á segurança da sociedade, devem ser encaradas como
a expressão do voto de todos; mas quando o soberano em suas leis nada
mais consulta que seus próprios desejos, interesses e paixões, ellas não são
mais que a expressão das vontades do soberano, e não a das dos particulares
da sociedade : a opinião, a força e o habito podem de certo fazel-a dobrar-
se á suas ordens; jamais porém, a rasão as olhará como verdadeiras leis;
esse nome não cabe senão ás vontades que obrigam ou ligam a sociedade ;
ella não pode ser ligada senão por via de regras conformes ao fim da asso-
ciação ; sem isto ver-nos-iamos reduzidos a suppor que a sociedade, submet-
tendo-se á auctoridade soberana, renuncia á sua natureza, e consente em
privar-se da felicidade. » Este desvio do soberano, de que nos fala o philo-
sopho, seguramente evita-se com o veto popular, acima apontado.
DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO 205

de leis, porque, sem elle, sua liberdade ficaria imperfeita e


incompleta.
Com a sancção c o veto não terá as leis que não quizer ;
poderia carecer, porém, das que quizesse, e tão importante
é ter estas, corno não ter aquellas.
Desta maneira, e só desta maneira, a democracia fica essen-
cialmente constituída.
Na democracia é necessário que as leis sejam propostas
aos comícios, para terem approvação, mas ainda que se dê
a inciativa aos cidadãos, podendo cada um propor todas as
que julgue convenientes a seus interesses ; deve existir, com-
tudo, UM PODER INDICADOR que, dedicando-se ao estudo desses
interesses, tenda a harmonisal-os e não espere que se pro-
duza a iniciativa publica em sentidos diversos. Quer dizer,
um poder que cuide do estudo das leis convenientes, as pro-
ponha depois de estudal-as, e, depois de approvadas, cuide
de,seu cumprimento.x »
Esse poder não pode ser outro senão o chamado poder
executivo, isto é o próprio governo, conforme,pensou também
Alberdi, notável publicista liberal da Republica argentina :
« Hay muchos puntos en que Ias facultades especiales dadas
ai poder ejecutivo pueden ser ei único medio de llevar á cabo
ciertas reformas de larga, difícil y insegura ejecucion, si se
entregan á legislaturas compuestas de ciudadanos mas pra-
cticos que instruídos, y mas divididas por pequenas rivali-
dades que dispuestas á obrar en el sentido de um pensa-
miento comum. Tales son las reformas de las leyes civiles y
comerciales, y en general todos esos trabajos que por su
extension considerable, Io técnico de Ias matérias y la neces-
sidad de unidad en su plan y ejecucion, se desempefiam mejor
y mas pronto por poças manos competentes que por muchas
y mal preparadas.3 »
i El derecho, pag. 286.
2
Alberdi, Organization de la Confederation argentina, vol. I, pag 104.


200 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Ainda vemos no Espirito das leis este lugar, em apoio da


theoria : « Nalgumas republicas antigas, em que o povo em
corpo tinha a faculdade de debater os negócios públicos, era
natural que o poder executivo os propuzesse e os debatesse
com elle; sem o quê, haveria nas resoluções, uma extranha
confusão.1 »
Os reis da idade media respeitaram sempre o direito dos
subditos de consentirem ou não que a lei se decretasse.2 O
chefe do Estado gosava da iniciativa no estabelecimento da
legislação, mas seus projectos tinham que ser submettidos
aos homens livres, nos champs de mars ou champs de mai.
Os documentos mais antigos demonstram que só o absolu-
tismo posteriormente estabelecido, ora em favor dos prin-
cipes, ora em favor dos corpos representativos, desconheceu
esta velha garantia popular. O preâmbulo de varias leis
prova exuberantemente o que dizemos.
A reforma da lei salica traz em seu cabeçalho : Clodoveus
una cum francis pertractavit ut ad títulos aliquid amplias
adderet. Do reinado de Childeberto é conhecida a addição
feita ao celebre documento : Childebertus tractavit cum {rancis
suis. As collecções antigas da lei dos allemães manifestam
ser a seguinte a sua origem : Quoe temporibus Clotarü regis,
una cum princibus suis, id est 34 episcopis, cfr 34 ducibus,
et 72 comitibus, vel cœtero populo constitua est.'3 Vê-se
1
Livro XI, cap. VI.
1
O grande código de leis islandezas foi obra de Ulfliot, e adoptado em
assembléa popular. « Em 1118, o Lõgsõgumadr Bergthor introduziu nelle
melhoramentos importantes, tirados do Gragas, famoso código noruego, e,
em 1280, a legislação de Jonsbok (assim chamada do Presidente Jon, que
trouxera da Noruega o novo código) foi adoptada de igual modo. » — La-
croix, Régions circumpolaires, pag. 288.
A legislação mosaica teve iniciativa do propheta e approvação dos hebreus,
como se vê deste versículo, a.ttribuido a Jehovah : « Eis as leis judiciaes, que
tu proporás ao povo. » — Diblia, Êxodo, cap. XXI, vers. I.
Fustel de Coulanges, em sua monumental obra Institutions politiques de
l'ancienne France, volume sobre a Monarchia francesa, pag. 99, sustenta,
sem fundamento serio, doutrina contraria. Vide nota Q, no fim do volume.
3
Code de l'Humanité, vol. VIII, pag. 567.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 207

também na lei de Thierry, • para os bávaros, revista por Chil-


deberto e Clothario : Hoc decretam est apud regem & prin-
cipes ejus, & apud cunctum populum christianum, qui intra
regnum Mervengorum constant. « O Rei Dagoberto, diz a
Encyclopedia,1 fez melhorar o estylo dessa lei por quatro
personagens distinctos da época, Claudio, Chaude, Indo-
magno e Agilulfo. » No prefacio do dito remodelamento, ainda
se repete aquella, declaração de que o estatuto referido é obra
do Rei, de seus principes, e de todo o povo christão que
compõe o reino dos Merovingios.
Emfim, todas as leis da época, quando não trazem as for-
mulas citadas, usam de uma assim : Placuit alque convenu
inter francos & eorum proceres; ita convenu & placuit leudis
nos tris.
O próprio Carlos Magno, ao propor as modificações á lei
salica, não se julgou desobrigado de sujeitar a reforma á
approvação do povo, fazendo baixar uma ordenança, incor-
porada á lei, em que dizia : Ut populus interrogetur de capi-
tulis quoe in lege noviter addita sunt, & postquam omnes
consenserint suscriptiones vel manu firmationes suas in ipsis
capitulis faciant. Do mesmo modo varias capitulares de
Carlos, o Calvo, trazem a declaração de terem sido feitas ex
consensu populi & constitutione regis.

Na democracia atheniensc, qualquer cidadão iniciava a


lei. O « Conselho dos quinhentos » (um dos que governavam
a nação) interpunha seu parecer, sobre ella, e o povo deci-
dia, adoptando-a ou não. Em Roma, a lei, no periodo real,
emanava do Soberano, sacerdote máximo, e era sujeita á san-
cção popular. Sob os cônsules, era da iniciativa livre de qual-
quer filho da portentosa cidade e confirmada ou rejeitada em
comícios; ou era obra do Senado, que tinha poder de dar-lhe
1
Vide lei.
2U8 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

vigor por um anno : « não se tornava perpetua senão pela


vontade do povo.1 »
A primeira Republica franceza (Constituição do anno I)
instituiu um systema análogo : as leis eram propostas pelo
Corpo legislativo e publicadas em todas as communas. Se
quarenta dias depois, na metade dos departamentos e mais
um, o décimo das assembléas primarias de cada um délies
não tivesse reclamado, o projecto era aceito e tornava-se lei.
Havendo reclamação, o Corpo legislativo convocava as ditas
assembléas primarias e estas decidiam da sorte do projecto,
dando seus suffragios por sim ou não.2
Na Suissa, é a Assembled nacional quem propõe, discute e
vota as leis, mas se 8 cantões ou 30,000 eleitores reclamarem
sejam submettidas á votação popular, sempre se procede a
esta ceremonia; em caso de tratar-se de materia relativa á
« revisão constitucional, a consulta ao eleitorado é obriga-
tória. 3 »
Aquelle systema tinha, e tem este, o defeito capital de mono-
polisar ainda nas mãos de um corpo collectivo a obra legis-
« Montesquieu, Eêprit des lois, liv. II, cap. II. Mommsen. Le droit
public romain, vol. VI (1.* parte), pag. 372. Corpus juris cioilis, Digesto,
liv. I, tit. II, fr. 8, Pomponio.
* Eis os próprios artigos da Constituição referida :
Art. 19. — Les suffrages sur les lois sont donnés par oui ou non.
Art. 56. — Les projets de loi sont précédés d'un rapport.
Art. 57. — La discussion ne peut s'ouvrir, et la loi ne peut être provisoi-
rement arrêtée, que quinze jours après le rapport.
Art. 58. — Le projet est imprimé et envoyé à toutes les communes de la
République sous ce titre : Loi proposée.
Art. t»9. — Quarante jours après l'envoi de la loi proposée, si dans la
moitié des départements, plus un, le dixième des assemblées primaires de
chacun d'eux, régulièrement formées, n'a pas réclamé, le projet est accepté
et devient loi.
Art. 60. — S'il y a réclamation, le Corps législatif convoque les
assemblées primaires.
s
Signorel, Le referendum législatif, pag. 226.
Este processo legislativo tem raizes no mais remoto passado das
instituições livres da Suissa. Quando se fundou o regimen republicano em
Genebra, no segundo quartel do século 16°, reservou-se para o povo, não o
poder de legislar, mas « l'homologation des lois, traictés de la paix et de
la guerre, » relata Bodin, no liv. II, cap. VI, de sua famosa Republica.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 209

lativa. Agora somente, no Estado do Riogrande do Sul, res-


tabeleceram-se os verdadeiros princípios, restaurándo-se a
liberdade legislativa, qual existiu em Roma, dando como
fructo, nessa immortal cidade, a mais bella das legislações.
E' certo que na egrégia capital do Lacio, qual dissemos,
havia um Senado também com faculdades de decretar leis,
mas, se com o systema que preconisamos, tem-se meio
seguro de obter uma excellente legislação, para quê manter
ainda uma corporação legislativa completamente dispensável,
ainda que seja composta de representantes ou procuradores
do povo? « O menos que podem ser esses procuradores é
serem inúteis... e as rodas inúteis devem ser supprimidas da
machina, pois servem só para complical-a, para tornar dif-
ficil seu funccionamento, e mais fácil seu desarranjo e
ruina.1 »
Tem muita applicação aqui as seguintes considerações
formuladas em o capitulo LXX do Feder alista : « Numa
empreza em que concorrem muitas pessoas, todas da mesma
dignidade e com auctoridade igual, sempre ha de haver
perigo de differença de opiniões.

?são é raro que se rejeite um projecto, só por se não ter


tido parte nelle ou porque foi obra de pessoas que se não
estima : e quando uma vez a desapprovação se chegou a
enunciar, transforma-se a opposição em necessidade do
amor-próprio, e a honra mesmo parece interessada no trans-
torno de uma operação que offende nosso amor-próprio e
contraria nossos sentimentos. Quantas vezes as pessoas
imparciaes não têm deplorado os mais terríveis excessos,
nascidos só desta causa! Quantas vezes os maiores interesses
da sociedade têm sido sacrificados á vaidade ou obstinação
de homens assaz poderosos para interessar muita gente nas
suas paixões e nos seus caprichos! »
1
Bernai, El derecho, pag. 296.
1-1

^
210 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

No Brazil, após a nossa primeira edição, temos a regis-


trar uma assignalada victoria do principio liberal. A propria
Câmara dos representantes, modificando em 1900 o regi-
mento, consagrou entre as regras de nosso processo legis-
lativo, por iniciativa do auctor desta obra, a publica dis-
cussão dos projectos de códigos de leis da Republica, e a
alteração dos mesmos por via de emendas de iniciativa par-
ticular.
Dado o atraso do meio politico onde surgiu a reforma, o
passo foi gigantesco. Até ahi a formação das leis era mono-
polisada exclusivamente pelo Congresso, com audiência do
ramo executivo do poder publico. O parecer dos entendidos
que não pertencessem ao grêmio privilegiado, como do
povo em geral, unicamente se fazia ouvir, na proposta de
leis ou do que conviesse modificar nellas, por meio de petição
(artigo 72.°, § 9.°, da Carta de 24 de fevereiro) ; jamais,
porém, na discussão e alteração dos projectos, e, muito
menos, na sancção e veto absoluto, como é de uso no Rio-
grande.
Agora, das operações legislativas em que os particulares
possam e devam intervir, só nos falta conquistar estas duas
ultimas. Obtido isto, desapparecerá, por inutil e perturba-
dora, a presente competência do Congresso no acto do esta-
belecimento das leis, reservando-se todos os seus desvelos
para outra funcção muito mais effîcaz e muito mais de
aecordo com a natureza intrínseca desse grêmio. « O prin-
cipal papel do Parlamento, disse com grande acerto o depu-
tado francez Raphael Georges Lévy.1 é o de collaborar na ges-
tão da fortuna nacional, e delle se não deveria afastar, limi-
tando assim o seu campo de acção.2 »

Qual é esse preconisado systema riograndense?


1
Revue des Deux Mondes, de 15 de novembro de 1899.
* Vide no appendice a nota R.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 211

Assim o define a Constituição de 14 de julho :


« Art. 31.° — Ao Presidente do Estado compete a promul-
gação das leis, conforme dispõe o n. 1 do artigo 20.°.
Art. 32.° — Antes de promulgar uma lei qualquer, salvo
o caso a que se refere o artigo 33.°, o Presidente fará
publicar,1 com a maior amplitude, o respectivo projecto,
acompanhado de uma detalhada exposição de motivos.
§ i.° O projecto e a exposição serão enviados directamente
aos intendentes municipaes, que lhes darão a possível publi-
cidade nos respectivos municípios.
§ 2.° Após o decurso de três mezes, contados do dia em
que o projecto fôr publicado na sede do governo, serão trans-
mitidas ao Presidente, pelas auctoridades locaes, todas as
emendas e observações que forem formuladas por qualquer
cidadão habitante do Estado.
§ 3.° Examinando cuidadosamente essas emendas e obser-
vações, o Presidente manterá inalterável o projecto, ou modi-
flcal-o-á de accordo com as que julgar procedentes.
§ 4.° Em ambos os casos do paragrapho antecedente, será
o projecto, mediante promulgação, convertido em lei do
Estado, a qual será revogada, se a maioria dos conselhos
municipaes representar contra ella ao Presidente.2 »
1
A Constituição actual da Pennsylvania (art. 8.', cap. I l l ) também p r e -
screve a publicação previa dos projectos de lei, trinta dias antes de sua
apresentação.
3
Vide no appendice a nota S.
O systema riograndense já pode ser julgado concretamentc, pelos fructos
que tem produzido. Eis a valiosa opinião de uma das mais nobres e
intelligentes figuras do Parlamento imperial e hoje ornamento do Senado
da Republica.
« Exm. ST. marechal Frota. — Venho reiterar os agradecimentos que já
dei verbalmente á v. ex. pela offer ta que me fez do código do processo
criminal do Estado do Riogrande do Sul, que v. ex. tão dignamente
representa no Senado federal.
Uma segunda leitura mais meditada desse importante monumento
legislativo confirmou o juizo, que delle havia feito quando o li nas colum-
nas da folha officiai que o publicou. — Se já não fosse tão illustre e
conhecido o nome do Presidente do Riogrande do Sul, o código do processo

*
212 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

A competência do governo para dirigir o trabalho legisla-


tivo é por tal fôrma irrecusável que, como vimos em o livro
IV, pagina 139, na propria Inglaterra parlamentarista, ape-
sar das seculares luctas em contrario, voltou a ser a única
que de facto influe na formação das leis.iE' que se na organi-
sação política de um paiz « o legislador, enganando-se, acei-
ta um principio différente daquelle que nasce da natureza das
cousas... ver-se-á decaírem as leis insensivelmente, a Con-
stituição alterar-se, o Estado em agitações incessantes, até que
seja destruído ou mudado, e que a invencível natureza tenha
reassumido seu império.l » Foi o que se deu na Inglaterra :
violentou-se a natureza e ella reagiu, reassumindo já seu im-
pério, inda que apparentemente pareça ter triumphado princi-
pio diverso daquelle que a ordem natural das cousas faz vingar.
« A união dos poderes legislativo e executivo, não é só ine-
vitável, é conveniente, diz Bernai.2 » Isto, porém, é taxado
de dictadura, quando, como explica Mirabeau, « o poder de
governar não tira sua força do poder legislativo, » e tal tem
sido a grande accusação feita ao systema riograndense, aná-
logo ao que preconisamos. Vamos ver, no entretanto, que
com as praxes verdadeiramente presidenciaes, o chefe do
Estado — apenas — preside aos trabalhos legislativos, mas
que é a communidade social que se incumbe de fazel-os. Va-
mos ver que as diversas operações legislativas de que têm sido
encarregados os congressos ou parlamentos, se lhes são re-
tiradas, adoptando-se fôrmas muito mais liberaes, não pas-
sam para o chefe do Estado, como se suppõe, e sim para o
povo. Eis o erro de muitos.
De facto, sob este regimen, o povo, empregando palavras
criminal, que elle acaba de dar ao Estado, seria sufficiente para recommen-
dal-o ao respeito e á gratidão de seus concidadãos.
Aceite v. ex. a segurança da alta estima com que tenho a honra de ser.
De v. ex. collega attencioso e amigo agradecido. — A. O. Gomes de
Castro, 9 de novembro de 98. »
1
1
Contract social, livro II, cap. XI.
El derecho, pag. 24 í.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIEO 213

de Zoroastro, pode dizer do primeiro magistrado da nação :


é unicamente « o promulgador, o guarda de minha lei.x »
A funcção legislativa exercita­se geralmente por via de sete
operações différentes, a saber : a iniciativa da proposição.
a publicação, a discussão, a alteração dos projectos, a re­
dacção definitiva, a approvação, a sancção, o veto suspen­
sivo, o veto absoluto, a promulgação, a iniciativa da revo­
gação.
Convém comparar e ver a quem são commettidas estas va­
rias operações, no systema proposto e no vigente em nosso
Brazil, e para que o parallelo seja mais perfeito, estendamos
a comparação até o regimen extincto e ao da Inglaterra, que
tanto exaltam os soi­disant conservadores nacionaes.2
4
Avesta, fargard II.
E' digno de mencionar­se aqui um insuspeito parecer do exmo. sr. Presi­
dente da Republica, ex­ministro da justiça no Governo provisório. Em
discurso, assim pronunciou­se no Senado federal, a propósito de uma
tentativa de interpretação do art. 6o da Carta federal :
« Na Constituição do Riogrande do Sul eu vejo perfeitamente represen­
tado o pensamento, o principio fundamental da fôrma republicana federa­
tiva; quanto ás funcções legislativas, estão ellas caracterisadas pela votação
dos impostos e das leis de meios em geral, o que constitue e caractérisa
o systema representativo. » (Xota da 2." edição).
* Temos conhecimento a' ultima hora de uma significativa adhesão ás
idéas que propagamos. Como se sabe, desses conservadores, os partidários
da monarchia fazem questão capital de que seja restabelecido no Brazil o
systema parlamentar.
Pois bem, e' do seio dos próprios mais aferrados amigos do regimen
extmcto, que se levanta resolutamente uma voz em nosso apoio : já se vê
que não pode ser mais imparcial... E' nada menos que o sr. dr. Cândido de
Oliveira, chefe reputadissimo entre seus correligionários, prestigioso advo­
gado do foro fluminense, conselheiro do Império e membro do gabinete
deposto pela revolução de 15 de novembro, — quem comnosco, despresando
rodeios, capitula de incompetentes os parlamentos, para as grandes obras
legislativas.
Diz s. exa. : <■< Para emprehendimento de tal ordem é menos apto o
processo parlamentar.
Em assumptos que entendem com a quasi transformação do direito orgâ­
nico de um povo, a lei sac, por assim dizer, prompta da mão do jurisconsulte,
que a elaborou, e das commissões que a reviram.
As câmaras votam quasi por acclamação, aceitando ou rejeitando o arte­
facto dos homens da sciencia. » — Parecer da commissão da Faculdade
livre de direito do Rio­de­janeiro sobre o projecto do código civil [Diário
official de 13 de agosto de 1901).

^
Quadro da marcha da funcção legislativa
NO SYSTEMA NO SYSTEMA NO SYSTEMA NO SYSTEMA
PROPOSTO BRAZILEIRO DO IMPBRIO INGLEZ

A iniciativa da proposição
E' livre : compete ao E'inonopolisadapclo Con- E' monopolisada pelo po- Idem.
chefe do Estado, como a gresso. der executivo c Parlamento.
qualquer cidadão.
s
A publicação
Compete ao chefe do Es- Idem. 1 Idem. Idem.
tado.
A discussão
E' livre : compete á na- E' monopolisada pelo Con- E' monopolisada pelo po- Idem.
ção inteira. gresso. der executivo e Parlamento.

A alteração dos projectos '


E' livre : compete á na- E' monopolisada pelo Con- E' monopolisada pelo Par- Idem.
ção inteira, assim como ao gresso c chefe do Estado2. lamento, ministério e chefe
chefe do Estado. do Estado3.
A redacção definitiva
E' obra de um : o chefe E' obra de muitos : uma E' obra de muitos : uma E' obra de um : o redactor
do Estado. commissâo do Congresso. commissâo do Parlamento. official, nomeado pelo go-
verno.
A approvação
Competi ao povo *. E'privilegio do Congresso. | E' privilegio do Parla- Idem.
A sancção
Compete ao povo *. E* privilegio do chefe do | Idem. Idem.
Estado.
O veto suspensivo
Compete ao chefe do Es- I Idem, I Idem, Idem.
tado \
O veto absoluto
Compete ao povo . 8
Não existe. Compete ao chefe do Es- 1 Idem,
tado.
A promulgação
Compete ao chefe do I Idem. I Idem. Idem.
Estado.
A iniciativa de revogação
E' livre : compete ao chefe E' monopolisada pelo Con- I.' monopolisada pelo Par- Idem.
do Estado, como a qualquer gresso. lamento o poder executivo.
cidadão.

1 Ou o mondas.
2 No systema brazileiro actual, o chefe do Estado, de fado, propõe alterações aos projcclos de lei, quando fundamenta seus vetos.
Depois da primeira ediçfio desta obra, igualmente os particulares podem propor emendas, em se tratando dos códigos de leis da
Republica braziloira, conforme se vê da pagina 210.
! Neste systema, como no inglcz, o ministério podo apresentar «Iterações aos projcclos, no decurso da discussão parlamentar,
como o chefe do Estado também as propõe, ao fundamentar os vetos.
4 A approvação e sancção reduzem-se a uma só operação, no systema riograndonse, que imitamos; a approvação ou sancção ò
tácita, e sua negação compete aos conselhos municipaes, corporações verdadeiramente populares.
5 Neste systema, como se disse, o veto suspensivo é praticado em relação ás emendas apresentadas pelo povo em geral : não
concordando com ellas, o chefe de Estado mantém o projecto primitivo. Neste caso, se o povo nao recusar sancção ã lei, o veto das
emendas é approvado; no caso contrario, c preciso recomeçar o trabalho legislativo, com um novo projecto.
6 No systema riograndonse, o veto absoluto é opposto pelos conselhos municipaes.
216 DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO

Da mais rápida inspecção deste quadro resalta logo que


a única operação legislativa que sendo sob a Republica e sob
o Império commettida a uma commissão do Congresso ou do
Parlamento, foi no systema deste livro e no riograndense
transferida para as attribuições do chefe do Estado, é a da
redacção definitiva da lei, e mais nada. Para justificar a con-
veniência da reforma, baste assignalemos ser tão necessá-
rio garantir unidade á obra legislativa, que a propria Ingla-
terra parlamentarista adoptou, com o correr do tempo, a
praxe de designar o governo, o ministério, um redactor offi-
cial para as leis que tem de submetter ao voto do Parlamen-
to. — Não pode, portanto, a nova praxe que propomos des-
pertar prevenções entre os democratas, pois vigorou em
Athenas ; nem entre os parlamentaristas, que a estão vendo
praticada na Grã-Bretanha.
Resalta ainda do quadro, e nisto apreciamos o espirito
livre do systema proposto, que a iniciativa da proposição
e revogação das leis, a discussão, emenda, approvação e
sancção, e veto absoluto, que eram até agora monopólio dos
congressos ou parlamentos e dos governos, são restituidas
ao povo, restaurando-se no assumpto a liberdade por com-
pleto, e extinguindo-se para sempre esses atrasados, esses
funestos privilégios ainda hoje existentes sob seus derra-
deiros disfarces.
Mas, estudemos uma por uma as innovações introduzidas
no trabalho legislativo, pelas normas presidenciaes, que
indicamos.
A INICIATIVA DA. PROPOSIÇÃO. — E' o restabelecimento do
systema atheniense e romano, mais livre do que o da Suissa,
onde se exige, para que haja consulta ao povo, um requeri-
mento assignado por 30,000 cidadãos ou pelos governos de
8 cantões, nas leis ordinárias, e por 50,000 cidadãos, nas
reformas constitucionaes, ao passo que no systema proposto
basta seja a iniciativa de uma só pessoa, como em Athenas
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 217

e Roma, ou do chefe do Estado, como também se permittia


nas duas cidades referidas.
A iniciativa deste, do chefe do Estado, na proposição das
leis, era de uso no extincto Império, e o é ainda na Inglaterra,
Bélgica, Hollanda, Prussia, Saxonia, Italia, Hespanha, Dina-
marca, Rumania, França, Suissa, Hungria, Bavíera, Sué-
cia, Noruega, Argentina, Mexico, Servia, Grécia, Bade, "Wur-
temberg, sendo privativa do chefe da nação em Portugal, Aus-
tria, Luxemburgo e no Estado do Orange.
Ainda que contestada pelos espíritos superficiaes, a com-
petência do chefe de Estado no que concerne á proposição
das leis, é tão conforme á natureza das cousas, que insensivel-
mente e por meios indirectos tem sido e vae sendo reconhe-
cida no regimen publico de varias communidades. E' assim
que no « Estado de New York en 1872, imitado, en 1873, pelo
de Michigan, em 1875, pelo do Maine, e em 1881, pelo de New
Jersey, » « o governador foi incumbido de designar elle pró-
prio um certo numero de pessoas, que deviam formar uma
commissão extra-parlamentar1 para reforma constitucional,2 »
o que eqüivale a dar competência legislativa ao governador,
não só porque escolhe pessoal, de accordo comsigo, como
pode constantemente influir sobre elle. Mais longe ainda
foi o « Conselho nacional » da Suissa, em 1869, anno em
que o « governo foi convidado pelas câmaras a formular
propostas, tendo em vista pôr a Constituição de harmonia
com as necessidades de nossa época, 3 » o que o governo
referido fez, apresentando trese emendas que, aceitas pela
legislatura, foram repellidas em plebiscito popular. Ainda
assim o dito « Conselho » entendeu que devia de novo ap-
pellar para a capacidade do governo e convidou-o outra vez
a elaborar um projecto constitucional, que de facto o execu-
1
Não já para as leis ordinárias, observe-se bem.
*3 Borgeaud, Etablissement et révision des constitutions, pag. 216.
Idem, idem. pag. 358.
218 DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO

tivo submetteu ás câmaras a 4 de junho de 1873, reforma


aceita por ellas, sendo o governo incumbido de apresentar
essa reforma ao voto popular, que também a approvou.1
Ha quem receie desta intervenção do chefe do Estado na
apresentação de leis, temendo suas demasias. No entretanto,
«< não ha quasi quem ouse mais, em nossos dias, susten-
tar que a vontade de um paiz pode ser absorvida pela de um
homem; acontece ainda, porém, que se sustente que ella é ne-
cessariamente idêntica á dos representantes ou dos delegados
do suffragio universal. A experiência contemporânea dá a
esta theoria o desmentido mais completo. O exemplo do povo
suisso rejeitando, em 1872, uma Constituição que seus man-
datários tinham adoptado, por uma maioria de mais de dois
contra um, no seio de uma legislatura eleita para preparar
essa Constituição, é bem comprovante. Tal facto está longe
de ser o único : em um quadro dos innumeraveis plebiscitos, a
que tem dado lugar a revisão das constituições, nos Estados
da União americana e nos cantões helveticos, a lista dos
votos negativos vê-se que é mais ou menos igual á das
aceitações.3 »
1
O poder executivo, no cantão de Genebra, pode até deliberar por si em
materia legislativa, desde que o Grande-conselho o convide a fazel-o. —
Constituição, art. 51, in-fine.
De facto, o chefe do Estado, neste caso, nada mais é que um funecionario
análogo ao « relator, » incumbido de preparar os assumptos sobre que se
devia deliberar, nas assembléas do povo grego. — Aristóteles, Política,
livro VI, cap. XII, § 8.
* Borgeaud, obra citada, pag. 412.
No projecto da commissão nomeada pelo Governo provisório para
formular uma Constitução politica para o Brazil, em o artigo 11°, consigna-
va-se : « O Presidente da Republica, alem de poder iniciar um projecto de
lei perante a Câmara dos deputados, tem a faculdade de propol-o a' opinião
nacional dispersa, publicando-o com uma exposição de motivos. Findo o
praso de três mezes após o projecto ter podido chegar aos pontos mais
remotos da União, o Presidente da Republica submettel-o-a', modificado ou
não, a' Câmara dos deputados, onde seguira' os tramites legaes, podendo
cada uma das câmaras approval-o em uma so' discussão. »
Assignavam o projecto Saldanha Marinho, Rangel Pestana, Santos Wer-
neck, Américo Braziliense e Magalhães Castro.
O dr. Julio de Casülhos propoz no Congresso constituinte fossem

"-
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 219

Tanto tem adiantado a idéa de dar maior amplitude á ini-


ciativa em materia de legislação, fazendo-se ouvir a opinião
geral e popular, que recentemente o Rei da Bélgica se decla-
rou por uma reforma que introduzisse a consulta ao povo,
cuja opportunidade seria alvitrada pelo governo.1 Se na
Suissa, todavia, a iniciativa, no campo dos negócios federaes,
é restricta a um grande grupo de indivíduos, nos cantões vi-
gora principio mais liberal : nos regidos pela democracia
pura (Unterwalden, etc.), a iniciativa é da competência de
qualquer cidadão.
Segundo a Constituição do Estado da Paraná, decretada a
4 de julho de 1891, « as leis tem origem em projecto apresen-
tado á Assembléa por qualquer representante, em represen-
tação enviada por um terço dos conselhos municipaes, em
proposta do Presidente do Estado. (Artigo 21.°). »
A DISCUSSÃO. — A discussão livre diante do povo, como em
Athenas e Roma, igualmente é restabelecida, com a differença
que ali á discussão publica seguia-se o voto, systema que
tinha um inconveniente parecido ao hoje tão condemnado nos
congressos, e é que os suffragios podem ser arrancados pelo
prestigio de uma palavra eloqüente, ao passo que no systema
proposto a discussão se opera com muita calma, na imprensa,
nas sociedades políticas, nas reuniões populares, mas o voto
sendo dado muito depois, com a serenidade de animo neces-
sária a essa augusta funcção. Tal systema de discussão foi
« publicados com antecedência de três mezes, pelo menos, os projectos de
lei que o Presidente houvesse de offerecer ao Corpo legislativo. »
A Carta fundamental da Pennsylvania, modificada em 1683, estabeleceu,
por proposta de Penn, que « todos os projectos de lei a submetter a' Legis-
latura seriam communicados ao povo em cada condado, vinte dias antes da
reunião da Assembléa geral, afim de que os cidadãos [freem) podessem
discutil-os. »
Na Utopia de Morus, as leis discutem-se diante do povo e são a elle
submettidas.
1
Borgeaud, obra citada, pag. 133.
E tamanho empenho mostrou o Rei, que fez insinuar aos políticos abdi-
«aria, não sendo aceita a reforma.

^
220 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

consagrado e estabelecido no liberal Código orgânico de 1793,


em França, e ultimamente no Riogrande do Sul.
Este innovamento de ha muito era indicado pelos espíritos
mais .preparados . A commissão nomeada pelo Governo pro­
visório para elaborar um projecto constitucional já tentara,
como dizemos em nota, um ensaio, facultando ao executivo a
proposição de leis diante do povo, abrindo­se a propósito
franca discussão publica.
De facto, nas assembléas legislativas não ha nunca uma
verdadeira discussão scientifica : ha torneios,em que os tri­
bunos, sempre cuidadosos dos effeitos oratorios, descuram
muitas vezes da essência das,questões em debate, quando
não a esquecem de todo, perdendo­se o encadeamento das
idéas, em meio do entrecruzar dos apartes e choque das opi­
niões. Pode por accaso o pensamento creador ser ouvido
por entre essas tristes refregas parlamentares, sopradas
quasi sempre pelo orgulho incapaz e a vaidade mórbida,
paixões que (usando da phrase do divino Milton) « mantém
uma anarchia infinita no seio do tumulto das eternas guerras,
e se sustentam da confusão?1 » Um animo imparcial, contem­
plando nossos congressos e parlamentos, nas horas em que
uma discussão irrita os chamados representantes do povo,
ouvindo as interrupções contínuas ao orador, a acrimonia
com que se trocam palavras que mais parecem destinadas a
ferir como flechas envenadas, do que a convencer, a violên­
cia sem nome das phrases provocadoras ; e vendo os olhos
a fusilarem ameaças, o agitar das mãos, os punhos cerra­
dos convulsivamente, ■— lembra­se daquelles versos do
Dante : 2
Diverse lingue, orribili favelle,
Parole di dolore, accenti d'ira,
Voei alte e fioche e suon di man con elle...
1
Paraíso perdido, canto II.
5
Divina commedia, Inferno, canto III.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIEO 221

E desde logo comprehende que imperdoável imprudência é


o intento de produzir em um meio tempestuoso assim a legis-
lação de uma nacionalidade !
« Duas cousas, diz Thucydides, parecem-me contrarias á
sabedoria das deliberações, a saber : a precipitação e a cóle-
ra. Uma provêm da leviandade, a outra da teimosia e da igno-
rância. 1 »
E' por isso que, em todos os tempos, os grandes monu-
mentos legislativos foram concebidos, não em assembléas, e
sim na serena calma dos gabinetes de trabalho dos juriscon-
sultes, e homens de estudo.
Accresce que restringir a discussão das leis ao estreito cir-
culo dos designados nas eleições, é manter odioso monopólio,
a pretexto de que são elles os representantes da vontade po-
pular. Engano! Nada mais ha nisto que derradeiros vestígios
de instituições obsoletas : o monopólio de discutir e fazer leis
conferido a uma corporação electiva pertence ao numero
desses odiosos privilégios das corporações, infensas á liber-
dade moderna. Como caíram os privilégios das outras, cairá o
dessa, estejamos seguros e certos.
« Que ninguém se engane, diz Sismondi, a verdadeira dis-
cussão, a discussão seria, a que faz penetrar a luz e a ver-
dade em todos os espíritos pensadores, é a que se sustenta
por meio dos livros.2 E' aquella em que os auetores se pre-
param por estudos profundos, por prolongadas reflexões ;
aquella a que elles ligam sua responsabilidade moral e de
que fazem depender suai reputação ; aquella que se dirige á
intelligencia e não ás paixões dos leitores ; aquella que fôrma
sua opinião pelo estudo e não pelo habito de ouvir repetir a
mesma cousa.3 » E continua : « Nada diremos da extrava-
gância de pedir a uma assembléa numerosa, a uma con-
* Guerra do Peloponeso, livro III, § XLII.
5
Ou impressos de menor vulto, como os folhetos, boletins e manifestos
políticos, etc.
3
Constitutions des peuples libres, pag. 352.
99 > DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

venção, uma obra de gênio, concebida de um jacto, formando


urn todo completo e proporcionado em suas varias partes,
quando na pratica acharíamos esta mesma assembléa pouco
apropriada para redigir uma simples mensagem,1 tanto as
' Sighele, em seu muito interessante opusculo Contro il parlamenta-
rismo demonstra quanto desce o nivel intellectual de um grupo de homens,
todos elles de um certo valor, considerados singularmente, desde que se
reúnem para deliberar junetos. Cita elle a opinião de Maupassant em apoio
da these. « Que de fois j'ai constate, diz este, que l'intelligence s'agrandit et
s'élève dès qu'on vit seul, qu'elle s'amoindrit et s'abaisse dès qu'on se mêle
de nouveau aux autres hommes ! Les contacts, tout ce qu'on dit, tout ce
qu'on est forcé d'écouter, d'entendre et de répondre, agissent sur la pensée.
Un flux et reflux d'idées va de tête en tête, et un niveau s'établit, une
moyenne d'intelligence pour toute agglomération nombreuse d'individus. Le»
qualités d'initiative intellectuelle, de réflexion sage et même de pénétration
de tout homme isolé, disparaissent dès que cet homme est mêlé à un grand
nombre d'autres hommes. » Mas, convém reproduzir alguns trechos do
próprio Sighele :
« Formato una volta il Parlamento esso funziona, ancora e sempre, a
base di psicologia collectiva. E il livcllo intellettuale di chi Io compone, già
basso, scende ancor piu per Ia legge che abbiamo enunciata. Gli uffici, le
giunte, le commissioni — piecoli parlamenti nel grande — moltiplicano le
probabilità di risultati mediocre e di doloroso sorprese. La ragione política
fa spesso passare sotto la sua bandiera il contrabbando di mol ti illogicitá o
di molti ingiustizie. Si sopprimono o si modificano degli articoh di legge
— senza pensare che questi sono in relazione con oltri che andrebbero alia
lor volta soppressi o modificati ; si approva talvolta tutto un progetto sol
perché una parte è ottima e deve essere approvata. E non manca imi —
nei momenti solenni — l'appello ai grandi nomi e alie grande idealità delia
Pátria, per strapparc ai sentimento, e per conquistare d'assalto, un'appro-
vazione che il raziocinio forse si riliuterebbe di dare.
« Ne segue che il Parlamento puó in molti casi paragonarsi a un filtro a
rovescio : i progetti di legge. anzichè migliorarsi, peggiorano, attraver-
sando tutte quelle fasi cui si vogliono assoggettare.
« Vedete, per esempio. Un tc»to di legge arriva in discussione. Non sara
certamente un capolavoro, e si puó —a questo propósito — deplorare che i
progetti non siano affidati a uno specialista delia materia. * Ma, ad ogni
modo, il testo di legge è stato redatto da persone competenti e présenta
una certa coesione. Ebbene : immediatamente Ia pioggia degli emendamenti
si rovescia su quell'infellice progetto : alcuni, forse, inspirati dal desiderio
sincero di megliorare Ia legge, i più, certo, dettati da dei secondi fini poli-
tici, e che prendono insidiosamente prêtes to da questa legge per tendere
un trabocchetto in cui cadra il ministero. La seduzione, una frase felice, Ia
pressione di qualche giornale. Ia necessita momentânea di non scontenta'
gli avversari, mille motivi estranei all'oggetto vero, delia discussione, pos-
sono far adottare un primo emendamento. Il giorno dopo, dei motivi d'altro
ordine, ne faranno accogliere un secondo spesso contraddittorio ai primo,
votato da deputa ti assenti il giorno innanzi e non al corrente pereió delia
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 223

concessões mutuas que seus membros devem fazer á opi-


niões divergentes, trazem embaraços não só ao pensamento,
como também á redacção. (Pag. 392.) »
A ALTERAÇÃO DOS PROJECTOS. — Neste ponto o systema pro-
posto consagra verdadeira conquista popular, completamente
nova : a alteração dos projectos cie lei ou emendas, mono-
pólio de poucos até hoje, passa a ser uma attribuição de
todos os que se julgarem capazes de exercel-a : — é mais
um privilegio de corporação que se supprime.
Em todos os tempos, este direito de alterar os projectos de
lei não foi só monopolisado pelos parlamentos ou congressos,
e sim de companhia com os governos. Curioso é notar, no
entretanto, que ao ser promulgada a Constituição do Rio-
grande, se extranhasse que essa faculdade fosse reconhecida
como cabendo também ao Presidente do Estado. Curioso,
dizemos, porque sempre e até hoje os governos usaram
delia : — sob o systema parlamentar, por meio dos minis-
tros, com assento nas câmaras, e por meio dos fundamentos
que dão a seus vetos, nos quaes, de facto, os chefes de
Estado propõem verdadeiras emendas : sob o systema presi-
dencial até agora praticado, por via desta segunda fôrma
exclusivamente. Que, havia, pois, que extranhar no mante-
nimento de uma justa attribuição, tanto mais que não é pri-
discusMonc. E cosi di seguito, fino ai momento in cui la legge non sara
che un insieme confuso di articoli eterogenei, un mostro... » — Pagina 32.
* In Australia, per citarc un caso relativamente recente, si affídò Ia
redazione dei progetto di códice di procedura pénale ad un illustre procedu-
rista, e questo progetto riusci ottimo, appunto perché era dovuto a una
mente unica e forte.
Confirma esta observação o seguinte facto citado por um escriptor illustre.
« Não ha muito que o liei Luiz da Bavicra dizia a um dos seus confi-
dentes : F requente mente tenho notado nas nossas legislaturas un pheno-
mena que me afflige, e para que não acho explicação nem remédio. Muitas
vezes me tem acontecido consultar um por um os mais notáveis mem-
bros do Parlamento sobre objectos granes, antes de offerecel-os à Assem-
bléa, por querer aproveitar-me das luzes de todos elles. Cada um
délies, tratado em teparado, discorre com muito acerto sobre o assumpto,
e me parece mui rasoacel. Vae o negocio ás câmaras, entra em discussão,
cotam todos sobre elle... e o resultado é um absurdo!! » — Noco prin-
cipe, pag. 126. No mesmo sentido, vide Boinvilliers, A quoi servent les
parlements, pag. 51.
224 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

vativa, o Presidente propondo modificações como qualquer


cidadão?
A REDACÇÃO DEFINITIVA. — Só a incurável rotina democrá-
tica deixaria entregue até hoje a uma commissão, obra que
exige a mais perfeita unidade de vistas. Perfunctorio exame
de nossas instituições legislativas (as da propria Constituição
mesmo) patenteia as muito crassas incoherencias, anti-
nomias flagrantes, que abundam em todas ellas, devidas em
boa parte á redacção collectiva, as quaes obrigam o poder
publico, apesar de continuas reclamações, injustas geral-
mente, a fazer verdadeiras modificações, ao regulamentar as
leis, como o único meio de reparar as incongruências que
têm.1
Ao espirito pratico dos inglezes não escapou quanto era
absurda a pratica, e dahi a nova que estabeleceram de
incumbir a uma só pessoa, da escolha do governo, a redacção
das leis. Ora, neste caso é melhor estatuir logo, como no
systema proposto e no riograndense, que a redacção defini-
tiva seja da competência do governo. Evita-se assim, uma
vez por todas, essas constantes reclamações de violação do
pensamento legislativo, ao fazerem-se os regulamentos.
O primeiro systema exhibe aqui uma de suas grandes van-
tagens, e mostra-se muito superior ao da propria Inglaterra,
que já era por si o melhor que antes existia.
A vantagem consiste em que segundo o methodo deste paiz,
redigida a lei pelo preposto do governo, o mesmo governo
lhe dá sancção, ao passo que o que preconisamos offerece
maiores garantias á liberdade : completa a lei, segundo as
praxes antes apontadas, a sabedoria política institue uma
precaução liberal que será sempre eterno embaraço a qual-
quer tyrannia, mandando que^a lei seja submettida, não ao
pla-cet do poder, mas á sancção popular.
1
Veja-se o que se passou com o rcgulame to do decreto n. 1030, no
anno de 1897.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 225

E por fim : censura-se commummente o governo por dar


approvação a um projecto de lei, com muitos defeitos. Mal se
sabe que elle por vezes não lhe oppõe um veto formal, porque,
ainda que inçada de imperfeições, a lei corresponde assim
mesmo a urgente necessidade inadiável. — Reformada a
Constituição conforme indicamos, este inconveniente ficava
para sempre afastado.
Sismondi, com sua natural lucidez, condemna as absurdas
praxes usuaes. « A experiência, diz elle, mostra-nos que não
pode ter peor destino o trabalho de redacção das leis do que
incumbir delle uma assembléa. Este trabalho reclama um
espirito de conjuncto, uma coordenação de pensamentos,
que só é dado esperar de um só indivíduo ; reclama, alem
disso, um conhecimento pratico das necessidades immediatas
do governo, que forçará a confiar sua redacção ao ministro
encarregado de as fazer executar.

DE FACTO, TODAS AS LEIS SÃO PREPARADAS E PROPOSTAS (na

Inglaterra) POR UM DOS MEMBROS DO GOVERNO E SUSTENTADAS


COM TODA A AUCTORIDADE DE QUE DISPÕE O MINISTÉRIO. 1 »
A APPROVAÇÃO. — A approvação das leis no mundo grego
e romano foi quasi sempre obra do povo. O absolutismo regio
usurpou esta prerogativa dos cidadãos, com o andar dos
tempos. Aberta a lucta, em 1789, entre a Assembléa nacional
e a realeza, triumphando a primeira, em vez de restituir ao
povo o que de ha tanto lhe pertencia, arrancou o privilegio
das mãos do Monarcha, mas o manteve em seu favor. A Con-
venção, mais cohérente, consagrou no Estatuto do anno I
que o povo « delibera sobre o estabelecimento das leis
(artigo 10), » retrogradando, porém, no anno III, restabe-
leceu essa já obsoleta corporação política com privilégios
legislativos, a quem é commettida a approvação das leis até
hoje.
1
Constitutions des peuples libres, pag. 16-1.
15

v^
226 DIEEITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIEO

Nos Estados-unidos, entretanto, no que diz respeito á ma-


teria constitucional, o uso da approvação popular tinha sido
experimentado desde muito antes da grande crise franceza,
Coube a honra da iniciativa ao Estado de Massachusetts, que
restaurou o costume antigo, imitando-o logo o New Hamp-
shire, onde dois projectos de Constituição foram successiva-
mente submettidos ao povo, em 1779, em 1781 e 1783. O
mesmo processo adoptou-se em New-York (1821), Pennsyl-
vania (1838), Maryland (1851), seguindo-se-lhes a Georgia,
Carolina meridional, Missouri, Arkansas, emfim todos os
Estados, menos o Delaware, sendo o ultimo a admittir a
approvação popular o Vermont (1870). — Depois(do Enabling
act de 1858, ficou estabelecido como principio da legislação
federal que /nenhum território seja elevado á categoria de
Estado, sem que sua Constituição passe pela prova do vere-
dictum popular : ' é a victoria completa do principio, em
materia constitucional.
Fundamentando a adopção do placüum popular, na Penn-
sylvania, são de registrar-se as palavras de um discurso do
jurisconsulto Thomaz Earle : « Se daes somente á maioria da
Legislatura o direito de revisar á sua vontade (a Lei orgânica),
sem submetter suas emendas á ratificação do povo, haverá,
eu o creio, um grande perigo, porque a experiência demonstra
a propensão da maioria, nas assembleas restrictas por
eleição, para atropellar os direitos do povo em sua genera-
lidade. »
A approvação popular foi também modernamente restabe-
lecida na Suissa, a principio só nos cantões onde vigorava a
democracia pura, e também no de Genebra. Supprimida pelo
Acto de mediação napoleonico, com a queda do déspota foi
sendo restaurada, de forma que depois do anno de 1857, não
ha um só cantão,que a não adopte. Por fim a lei federal con-
sagrou-a, ainda que para esse effeito seja preciso requeri-
i Borgeaud, obra citada, pag. 214.
DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIEO 227

mento assignado por 30.000 eleitores ou pelos governos de


8 cantões.
No Riogrande do Sul adoptou-se principio mais liberal
ainda : a approvação do povo é sempre indispensável e obri-
gatória.
A SÂNCÇÃO.— O systema proposto funde esta operação na
anterior : o povo approva e saneciona ao mesmo tempo.
A saneção, em todas as constituições modernas, é privi-
legio do chefe do Estado. Só a do Riogrande do Sul com-
metteu-a exclusivamente á communidade social, despojando
dessa culminante prerogativa o supremo representante do
poder publico. E' de pasmar, pois, que acoimem de « dicta-
dura » o governo daquelle Estado, pelo facto de simplesmente
presidir ao trabalho legislativo, quando a mais decisiva ope-
ração na factura de uma lei, é propriamente a « saneção, »
e esta. assim como outras, foi ali attribuida ao povo. Ora,
como se sabe, é « a saneção, diz Laband, que dá valor á lei...
é o que a torna obrigatória. »
Ainda que fosse o chefe do Estado o incumbido de todas as
operações essenciaes á formação de uma lei, bastava que o
povo dispuzesse da saneção, para que fosse impossível qual-
quer prepotência, em materia legislativa, — quanto mais
que no Riogrande, o que eram attribuições da corporação
legislativa passou, não para o governo, sim para o povo.
Nisto ainda restabeleceu esse progressista Estado as
normas liberaes de Athenas e Roma, e o fez mais perfeita-
mente do que a Suissa, onde a saneção (confundida ahi
também nesse caso com a approvação) cabe ao povo, é ver-
dade, mas sendo para isso preciso que o requeiram 30.000 ci-
dadãos ou 8 cantões, como já foi dito.
O VETO ABSOLUTO. — O veto absoluto existiu em Roma e
ahi foi creado sob duas fôrmas : ou como attribuição do
Tribuno, que appondo sobre uma lei a palavra veto ou inter-
cedo, a annullava completamente ; ou como attribuição do

^
228 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

povo, que, depois de um anno de promulgada, podia, por


seus suffragios, repellir uma lei do Senado.
Na .época moderna, em França, o veto passou a ser uma
prerogativa do antigo Parlamento de justiça, anterior á Revo-
lução, o qual se oppunha á lei que lhe parecia inconveniente,
negando-se a dar-lhe registro, formalidade indispensável
para que tivesse vigor. Na Inglaterra, monopolisada a legis-
lação pelo Parlamento, o veto passou a ser prerogativa do
Rei, pratica que se generalisou em quasi toda a Europa.
O veto absoluto mantem-se ainda no ultimo paiz citado,
Hollanda, Prussia, Italia, Hespanha, Portugal, etc... A Con-
stituição riograndense transfere essa prerogativa do chefe do
Estado, para o povo, transformando-a, no mais seguro e
solido escudo da liberdade, no que concerne á legislação. —
Este o systema preferível e o que propomos : com o veto em
suas mãos está o povo armado de tudo que lhe é preciso para
efficazmente embaraçar qualquer projecto de lei iniquo ou
que pretenda fundar instituições tyrannicas.
A INICIATIVA DA REVOGAÇÃO. — A iniciativa da revogação é
commummente privilegio dos congressos ou parlamentos, e
dos chefes de Estado. O único paiz em que foi conferida ao
povo é a Suissa, isto \ mesmo mediante condições espe-
ciaes, como ser necessário um requerimento assignado por
50.000 cidadãos, e a iniciativa só valer em materia constitu-
cional.
Não ha rasão para admittir a livre iniciativa em materia
mais relevante, e repudiar o principio na que é de caracter
mais secundário. Em a reforma que preconisamos, a inicia-
tiva da revogação caberia ao povo, sem restricções, mediante
o voto expresso de certo numero de cidadãos, qual se usa na
Helvécia. Fica}assim garantido de não ter entraves de um
exagerado conservatisme) governamental, o legitimo pro-
gresso legislativo.
LIVRO VIII

Dos Juizes
LIVRO VIII

La justice a évidemment pour but


d'assurer l'intérêt public et de main-
tenir la société civile.
HOME.
Em Sa vie, sa philosophie, de
Huxley, pag. 276.

Nos mais remotos tempos, os crimes que interessavam


aos indivíduos em particular, eram punidos pelo prejudicado,
ou parente, se succumbia : os que interessavam só á família,
eram punidos em seu seio : o patriarcha é ahi o juiz ; os que
interessavam á communidade de famílias, eram punidos pelos
chefes das mesmas, os anciãos, em commum assembléa. Ao
sair a sociedade desse estado quasi informe, a selecção
guerreira dando primazia a um dos principaes ou Rei, tal
personagem se incumbe ás vezes da funcção de castigar,
outras vezes ainda a desempenham os velhos ou patriarchas.
E' de certo esse estádio indeciso em que a auctoridade de
julgar oscilla, como faz notar Grote, x pairando hoje nas
mãos do Rei, amanhã na dos pais de família, e que descrevem
Homero e Hesiodo : « Os anciãos no Agora apoiados nos
sceptros dos arautos, erguem-se e pronunciam, um após
outro, suas sentenças.2 » « Os reis prudentes, no Agora
fazem restituir a seus povos todos os bens que lhes tenham
arrebatado ; elles o conseguem facilmente por meio de per-
suasivas palavras. E se um délies caminha nas ruas da
1
Citado por Spencer, na Sociologie, vol. Ill, § 523.
1
Obras, canto XVII da Iliada.

:
v
' 232 DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO

cidade, — como um deus, aplaca por sua magestade, e


brilha em meio da multidão. d »
A esta phase, em que a realeza se desenha com suave con-
torno, moderada e equanime, segue-se outra, em. que pro-
curando firmar sua auctoridade, é vencida ou victoriosa.
Se triumpha, absorve por inteiro o poder de julgar, qual
vemos nos reis como o de Macedonia, entre outros, « que
dispensava directamente a justiça. - » Se vencida, decaem
as formas políticas nascentes, retrogradando a prerogativa
á multidão dos chefes ou a todos que iam á guerra. Assim
a vemos na Grécia posterior aos tempos heróicos. A neces-
sidade de praticas regulares modificou, porém, com o tempo,
tai estado de cousas, introduzindo o uso de designar pessoal
destinado ao mister de juiz.
Em Roma, o poder de julgar bipartiu-se, ficando na alçada
do Rei certos crimes, e outros na do povo, que escolhia os
magistrados na ordem senatorial. Com o advento da Repu-
blica, o povo manteve sua prerogativa, a do Rei passando
aos cônsules. No anno 630 da fundação de Roma, os juizes,
por proposta dos Gracchos, passaram a ser escolhidos na
order-1 eqüestre.
Mais tarde, Drusus fez que se repartissem esses cargos
entre cavalleiros e senadores, Sylla restabelecendo poste-
riormente os privilégios exclusivos de julgar que tinha esta
segunda ordem, reforma depois alterada por iniciativa de
Cotta, o qual propoz que os juizes fossem tirados dentre os
senadores, cavalleiros e thesoureiros do Estado. Cesar
privou os últimos de semelhante direito, e Antonio instituiu
decurias de senadores, cavalleiros e centuriões, incumbidos
de julgar. Emfim, o Império fundou uma organisação regular
e fixa. {
1
Theogonia, trad. Leconte de T.isle, pag. 6.
- Plutarcho, Vies des hommes illustres, trad. Dacier, vol. IX, pag. 79.
É desse typo a feição dos juizes de Israel.
DIEEITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO 233

0 Principe é o pretor perpetuo, e como tal chefe supremo


da justiça. Não podendo decidir por si os múltiplos negócios
deste ramo da administração, « estabeleceu que se poderia
sempre appellar para seu tribunal, mas confiou o encargo
de distribuir justiça a um prefeito do pretorio, sob a preemi­
nencia do qual foram constituídos diversos graus de juris­
dicção. l »
Com as invasões barbaras recaíu­se na informidade pri­
mitiva : a multidão dos guerreiros arrogou­se o direito de
(( decidir, por suffragios livres de todos os membros da com­
munidade, sobre a administração da justiça, escolha dos
magistrados, e sobre os grandes interesses da guerra ou da
paz.2 » « O domínio das multidões, diz Hauriou, é um caso
de parada na organisação social. » Aqui felizmente, como o
reconhece o notável historiador citado acima, a parada não
foi longa e começou logo a esboçar­se no quadro da confusão
selvagem, o orgam da justiça, conforme se vê desta pas­
sagem : « Em tempo de paz, os germanos não reconheciam
nenhum chefe supremo. A assembléa geral, comtudo, no­
meava principes, para administrarem a justiça, ou antes para
accomodarem os litígios em seus respectivos districtos.3 »
O estabelecimento do Império carolíngio fortaleceu e coor­
denou a evolução orgânica da funcção judicial. Carlos
Magno « dispensou os homens livres de assistirem ás sessões
do Gebotene Dinge,i » passando dos magistrados populares
para um jury de melioribus, presidido pelos condes de dis­
tricto, « os negócios em que se tratava da vida, da liberdade,
» Laffite. Grands types de l'Humanité, vol. II, pag. 513.
O Imperador delegava o poder de julgar não só ao prefeito do pretorio,
mas lambem ao prefeito da cidade e aos governadores. —■ Veja­se Momm­
sen, Le droit public romain, vol. V, pag. 256.
!
Gibbon, Décadence de l'Empire romain, vol. I, cap. IX ; Bondois, His­
toire des institutions et des mœurs de la France, 1* parte, cap. III, § VIII.
3
Gibbon, Décadence de l'Empire romain, idem; Bondois, Histoire des
institutions et des mœurs de la France, idem.
A
H. Spencer, Sociologie, vol. III, § 524.
234 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

dos immoveis, ou dos escravos de um indivíduo, » assim


como as « appellações das jurisdicções inferiores, ' » insti-
tuição completada mais tarde (ao saber o grande Imperador
dos abusos dos condes) com os mis si regii, « que davam cor-
reição de condado em condado, informavam-se dos abusos
e da má gerencia da justiça, apressavam sua execução, e
destituíam os juizes inferiores culpados de malversações.2 »
Completa a organisação feudal, « os tribunaes do Rei,
como suas leis, foram annullados. :! » Os condes deixaram
de ser officiaes da Coroa, e passaram a gosar, nos feudos,
dos « direitos de justiça.4 »
Decaindo este systema político, operou-se uma reacção em
favor da jurisdicção real, começada em França com audácia
por Felippe Augusto, que em ordenança de 1190 fundou as
justiças reates, á cuja frente poz um pessoal todo de sua
nomeação, os chamados bailios ou senescaes. O código dos
Etablissements* de Saint-Louis alargou o raio de acção da
justiça superior, sendo « a corte territorial declarada incom-
petente em muitos casos chamados reaes.'á»
Ao tempo do santo Luiz, a influencia do Rei como juiz é tal
que de,todas as parles da França se appella para seu tri-
bunal. O Soberano ahi dispensa a justiça por officiaes seus,
mas também por si. « Maintes fois, diz Joinville, ay veu que
le bon saint, après qu'il avait ouy messe en esté, il se allait
esbattre au bois de Vincennes et se seoit au pied d'un chesne
et nous faisait seoir tous emprez luy ; et tous ceux qui
avoyent affaire à luy venoient à luy parler. ° »
1
Hallam, L'Europe au Moyen âge, vol. I, pag. 320.
2
Idem, vol. I, pag. 322.
3
Idem, pag. 324.
* Idem, idem.
5
Idem, idem. Vide também em Chermel, Dictionnaire des institutions,
mœurs et coutumes de la France, a palavra Roi.
0
Christâo ardente e R e i , S. Luiz observava com apuro o pensamento da
Bíblia : « Rex qui judicat in veritate pauperes, thronus ejus in œternum fîr-
mabitur. » — Provérbios, cap. XXIX, vers. 14.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIKO 235

Dentro de pouco, porém, descobriu-se que « a verdadeira


funcção do Principe era de estabelecer juizes, e não de julgar
elle próprio, l » principio já pressentido, para o fim do feu-
dalismo, segundo se vê em Hallam,2 no preceito que deter-
minava não podia o senhor feudal distribuir justiça em pessoa,
sendo obrigado a confiar essa funcção a seus bailios ou a
seus vassallos. O Rei deixou de fazer por si os julgamentos
e foi organisando, sob a inspiração dos jurisconsultes vulga-
risadores da legislação romana, uma magistratura regular,
com um tribunal superior, que em França teve o nome de
Parlamento de justiça, vingando para o fim desta monarchia
outro principio fundamental : o da independência dos juizes,
pela vitaliciedade do cargo.
Em nossa evolução, que é a da peninsula ibérica, a marcha
foi a mesma. A assembléa militar era a principio nas Hespa-
nhas a corte de justiça, existente mais tarde ainda com esta
feição : « O modo com que se julgavão as causas confor-
mandose com a ordem dos Foraes de cada huma das terras,
era fazerse junta da gente principal daquella terra ante o
Governador, Conde, Rico Homem, ou Adiantado, que naquelle
tempo se chamava ás vezes, Tyuphado, & pelos mais votos
se tomava assento no que convinha fazerse. ! » Depois, com
o influxo do feudalismo, repartiu-se entre o chefe do Estado
e os grandes o poder de julgar, mas persistindo sempre no
seio dessa organisação, como em posterior periodo sob a
crescente auetoridade da realeza e em face das justiças sola-
rengas, — laivos da democracia barbara, nos « juizes ordi-
nários de eleição do povo, os quaes, diz Coelho da Rocha,
1
Esprit des lois, liv. XI, cap. XI.
2
Obra citada, vol. I. pag. 326.
3
Da monarchia lusitana, vol. I, liv. IX, cap. VII.
Guardam as chronicas os seguintes exemplos : o 1°., de tempo anterior á
D. Thereza, demanda entre Flamula Ketas e Adosinda Ketas (1071); o 2°., da
época do governo desta Princeza, questão entre Froyla Belindez e Toda
Viegas (1120) ; o 3°., do reinado de Alfonso Henriques, anno de 1132, caso
constante de uma escriptura do mosteiro de Pedroso.
236 DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO

tomavam conhecimento e decidiam em primeira instância as


contendas das partes em conselho dos homens-bons, l » que
distribuíam a justiça de par com os ricos-homens ou
senhores das terras.
<( A incerteza e as injustiças eram taes, diz o jurisperito
citado,2 que nas primeiras cortes geraes de 1211 foi neces-
sário decretar o estabelecimento de juizes certos ; e foi esta
uma das obrigações que D. Affonso expressamente jurou em
Paris antes de tomar conta do governo. Destes juizes recor-
riam as partes ou directamente para os reis, que costu-
mavam viajar as províncias ; ou para os magistrados regios
(sobre-juizes, tadelantados, maiorinos, e finalmente correge-
dores), os quaes eram principalmente incumbidos de zelar a
jurisdicção real, fazer a policia das províncias, cohibir os
excessos dos poderosos e emendar as injustiças.
O processo, ainda que variasse conforme os différentes
foraes. comtudo era tão singelo, como as leis : tudo se plei-
teava de plano e verbalmente, e os concelhos dos homens-
bons ou jurados decidiam segundo os usos ou foraes, ou o
seu bom senso.
Pelo meado desta época, porém, o direito romano e o cano-
nico vieram fazer uma completa alteração no systema antigo.
A multiplicidade dos negócios e o intrincado das leis pedia
que da judicatura ,se fizesse um emprego especial. Em lugar
dos juizes eleitos pelo povo começaram desde D. Affonso IV
a ser nomeados pelo Rei, com o nome de juizes-de-fóra. »

Vê-se desta exposição que onde impera a desordem pri-


mitiva, a justiça é confiada a todos indistinctamente. Evolue
a sociedade, aperfeiçoa-se a sua organisação, e gradualmente
o poder de julgar destaca-se da multidão : especialisa-se a
funcção, vae se formando um orgam adequado a ella, e por
1
Coelho da Rocha, obra citada, artigo II, § 64,
1
Idem, idem.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 237

fim sua estructura delinea-se precisamente no apparelho


governativo. — A passagem da justiça, das mãos do povo
para as de um pessoal de reconhecida competência, é, por-
tanto, um progresso notável no sentido de uma boa organi-
sação social.
Muito é de extranhar, pois, que os fundadores do Império
restabelecessem o systema do jury, que se disse ser uma
liberdade importada da Inglaterra, quando existiu no seio da
civilisação portugueza, desde seu começo. Mais de extra-
nhar ainda é que os ^republicanos tivessem mantido esse
obsoleto e imprestável processo de julgar, quando as cir-
curnstancias pediam em todos os casos « se íizesse da judi-
catura um emprego especial. »
0 jury ê uma fôrma rudimentar persistente em meio da
sociedade moderna : é um caso de archaismo politico.
Na lueta do fim do século passado e principio deste,
contra o absolutismo real, foi acolhido em toda parte como
uma garantia da liberdade. No entretanto, diz Marchionni,
« seria extranha illusão o não ver que o fanatismo do pri-
meiro^momento deu logar a impressões diversas e contrarias,
tanto que não sei dizer se são em maior numero hoje os apo-
logistas ou seus adversários.x »
Comprehende-se, como Bentham mostra, que o jury possa
passageiramente ser uma garantia contra a prepotência,
num paiz dominado pelo despotismo, mas « em uma organi-
saçâo judiciaria não inspirada na idéa de defeza contra a
tyrannia, oceorrem meios mais simples e mais directos que
não sejam tribunaes compostos de juizes momentâneos, isto
é, que o jury, bom para um povo não inteiramente emanci-
pado ou temeroso da estabilidade de suas livres instituições,
não o é mais para um povo verdadeiramente livre.2 »
« A gabada presumpção de imparcialidade do jury a que
* La ri/orma giudisiaria in Italia, pag. 18.
' Idem, pag. 19.

V
238 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

ficará reduzida onde exista um conílicto de interesses entre


varias classes sociaes ; onde esteja em jogo uma paixão ou
um preconceito popular; quando uma classe tenha pretenções
sobre o resto da communidade?
Em todos os casos cm que a irritação popular mostra já ter
condemnado aquelle que se trata de julgar? — Quaes serão
os benefícios da gabada independência do jury, se elle não
souber manter-se superior ao clamor publico? E será de
esperar que, na generalidade ou na maior parte, os juizes
populares se mostrem habilitados com os estudos indispen-
sáveis para definir as questões em que o facto se identifica e
confunde com o direito? Não pode haver hesitação possível
na escolha entre juizes que resolvem as controvérsias sciente
e conscientemente, e aquelles que em geral as resolvem com
a devida consciência, mas junetamente com ignorância e
juizos preconcebidos. Favorecei a independência dos juizes
togados de modo que seu cargo, estabilidade e carreira não
fiquem sujeitas á damno ou incommodo em sua sorte, por
effeito de uma pronuncia que sòe desagradavelmente, não
importa a quem, — e tereis feito tudo que humanamente é
possível fazer, de forma que não sejam negadas ás popula-
ções o supremo bem de uma justiça intelligente e imparcial.
Pouco se deve contar com os regulamentos judiciários, por-
quanto darão também má prova de si optimos regulamentos,
onde não sejam confiados á execução de magistrados doutos
e verdadeiramente independentes.
Já no Congresso jurídico de 1872, Adriano Mari, relator
da secção nomeada para indicar as mais urgentes reformas
a fazer no regulamento judiciário, chama o jury uma planta
exotica, não acclimavel na Italia. « Os vicios e defeitos do
<( jury, disse, são muito intrínsecos e orgânicos para que os
« possamos reparar. Será sempre absurdo confiar a defeza
« da sociedade, e a pesquiza da verdade nos juizos crimi-
« naes, ao instineto, á impressão e ao sentimento do juiz
DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIEO 239

« popular, em vez de o ser á rasão ajudada da lógica, da


« experiência e da doutrina, que possue o magistrado. Para
« attender ao desdobramento do debate, para encaminhar­se
« direitamente no meio do alternamento das provas, e para
<( saber distinguir a verdade no contraste dos argumentos
« adduzidos pela aceusação e defeza, — não basta uma
« commum inteiíigencia, e antes é preciso um critério espè­
ce ciai que só adquire, com estudo e experiência, o magis­
« trado. O jurado não affeito áquella tensão de espirito neces­
<( saria para acompanhar bem um debate que algumas vezes
« se protrae por muito tempo; não habituado a recolher em
« rápida synthèse os factos e as circumstancias que passam
« diante de si, — ou se perde nos meandros da prova, ou des­
te cuida­se por fadiga, e espera para formar juizo o resumo
« do presidente. — Allega­se contra os magistrados a sus­
« peita de que por habito de julgaf as causas penaes, sejam
« muito inconsiderados na condemnação. Mas, do habito de
« julgar não se pode tirar outra honesta inducção a não
<• ser a de haver­se adquirido assim uma mais alta habilidade
« em descobrir o crime ou a innocencia. E, depois, porque
« ter sempre os mesmos magistrados julgando causas
« penaes? A aversão do geral das pessoas ao officio de juiz,
« parece argumento irrefutável para demonstrar que a insti­
« tuição não ganhou a consciência de nossas populações.1 »
Marchionni, aos juizos daquelle douto congressista, acere­
scenta : « Os inconvienentes são muitos e entre os principaes
avultam a interminabilidade de certos debates e as apparen­
cias theatraes de outros ; mas o mais grave é a falta de fé
na seriedade da justiça por este modo administrada. E ha
falta de fé porque se vê a cada passo absolvido um aceusado
notoriamente réu, só porque aquelle que sustenta a defeza
soube fascinar a imaginação dos juizes improvisados, e quem

1
Marehionni, obra citada, pag. 21.

', ■
240 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZlLEIÍtO

sustenta a accusação não soube contrabalançar o effeito


daquellas impressões. As absolvições não merecidas são fre-
qüentíssimas, e estas são de temer-se ; não as condemnações,
que de condemnações escandalosas se ouve raramente
falar.1 »

O principio em que se funda o jury é absurdo : suppõe a


intelligencía dos homens igual, e, por isso, conta a opinião
de cada um como se fossem todas de idêntico valor. Ora,
como diz Ariosto, « os vôos c o alcance do espirito são diffé-
rentes entre os mortaes.2 »
Portanto, como contar votos que deveriam ser pesados?
Vota sunt ponderanda, sed non numeranda, podemos dizer
destes, como de todos os votos, e tal systcma de apural-os,
adoptado na antiga dieta madgyar,3 inda que em desuso hoje
nas assembléas, é o único aceitável e racional.
Como admittir que o voto de onze profanos em jurispru-
dência possa vingar em detrimento do voto sciente e con-
sciente de um jurisconsulte, collega daquelles num conselho
de jurados? Como admittir se veja preterida uma intelligencía
superior, por outras de mesquinho porte?'*
Se ha instituições que devam imitar-se dos tempos primi-
tivos da civilisação peninsular, não é essa do jury, e sim a
dos « árbitros escolhidos pelas partes,5 » da época dos
godos, ja admittida no Código commercial.1'De facto, como
observa um grande pensador brazileiro, « uma causa é
1
Obra citada, pag. 23.
2
Orlando furioso, canto VI.
3
Hauileville,/ns!;tíaíío/is de l'Autriche, pag. 26.
4
Partidário do jury, José de Alencar, entretanto, assim constatava sua
decadência entre nós : « Pode-se affirmar que o jury no Brazil é apenas tole-
rado, quer pelo governo, quer pela população, todos o aceitam como um
sacrifício pesado feito á Lei fundamental. » — Esboços jurídicos, pag. 8.
s
Coelho da Rocha, obra citada, § 34.
0
A instituição dos árbitros escolhidos pelas partes já existira igualmente
na Grécia antiga, como se vê em Barthélémy, Voyage du jeune Anachar-
sis en Grèce, cap. X V I .
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 241

sempre um longo e terrível exercício de más paixões, um


funesto cultivo do ódio. Ha a maior conveniência em evital-as
sempre que for possível. Isto se consegue por meio de árbi-
tros, cujas decisões serão sempre executadas pela policia,
quando for mister. »
A Constituição riograndense adoptou esse modo de julgar,
da fôrma que se vê no artigo 61.°, que diz : « A decisão das
causas em que não forem envolvidos menores, orpham ou
quaesquer interdictos, poderá ser proferida em juizo arbitrai,
se assim accordarem os interessados. »
Enfim, seja qual for a estructura que os directores da
sociedade intentem ciar ao poder publico, tenham sempre em
vista os povos que « a verdadeira Constituição liberal está
nos códigos civis e criminaes, e a mais terrível tyrannia a
exercem os tribunaes, por meio do terrível instrumento das
leis. De ordinário, o executivo não é mais que o depositário
da cousa publica; os tribunaes, porém, são os árbitros das
cousas proprias, das cousas dos indivíduos. O ramo judicial
do poder contém em si a medida do bem ou do mal dos cida-
dãos : e se ha liberdade, se ha justiça, na Republica, sâo
distribuídas por este ramo do poder. Pouco importa ás vezes
a organisação política, comtanto que a civil seja perfeita,
que as leis se cumpram religiosamente e se tenham por in-
exoráveis como o Destino.1 »
1
Mensagem de Bolivar, no vol. 7, pag. 315, dos Documentos para Ia
historia dei Libertador.
Nada mais, nada menos do que assegurou á sua Pátria o grande Monarcha
da Prussia. « Frederic (o Grande) avait rendu les tribunaux si indépendants,
que, pendant sa vie, et sous le règne de ses successeurs, on les a vus souvent
décider en faveur des sujets contre le Roi, dans des procès qui tenaient à
désintérêts politiques. (Mad. de Staël, De l'Allemagne, pag. 77). » Sob este
aspecto, como sobre outros, mais republicano o rcgimen publico daquelie
paiz, em tempo do glorioso Principe, do que o de muitos Estados que assim
se denominam.

16

&
LIVRO IX

Da cidadania
LIVRO IX

Pátria è uma sociedade de homens


vivendo em união.
S. AGOSTINHO.
Cidade [de Drus., liv. I, cap.XV

0 titulo de cidadão é cm toda parte o orgulho dos homens,


e foi sempre recebido de extranhos como uma rara dádiva
honrosa, de concessão excepcional. Entre nós, imitando-se
praticas que fizeram dos Estados-unidos uma nacionalidade
de gente collecticia e que afogaram os povoadores puritanos
na enxurrada das levas immigratorias, x malbaratou-se o que
1
Outro exemplo das pátrias fundadas com toda a sorte de immigrantes
ahi está na maravilhosa creação do industrialisme moderno, a Australia.
Eis traçado por mão de inglcz um ligeiro retrato desse mui singular paiz :
« . . . O estado da sociedade desconcertou-me. Os habitantes parecem-
me perigosamente divididos sobre quasi tudo. Aquelles que por sua
posição, deveriam observar a conducta mais digna de respeito, levam uma
vida tal que a gente honrada não os pode quasi freqüentar. Ha muito ciúme
entre os filhes dos emancipados (*) ricos e os colonos livres ; os primeiros,
consideram os últimos como aventureiros. A população inteira, ricos e
pobres, não tem senão este ideal : ganhar dinheiro. Nas classes mais eleva-
das só se fala em uma cousa : a lã e a creação dos carneiros. A vida domes-
tica c ahi quasi impossível

Com estes hábitos, considerando o pouco trabalho intellectual que ha na


colônia, parece-me que as virtudes sociaes só podem degenerar. » — Darwin,
Voyage d'un naturaliste, pag. 474.
Mais adiante, e despedindo-se desse continente, dirige-lhe o naturalista
a seguinte zombeteira despedida : « Adeus, Australia ! Nada mais és que um
infante ainda, sem duvida reinarás, porém, um dia no hemispherio meri-
dional ; és muito grande e muito ambiciosa para que se te possa amar, e não
és ainda bastante poderosa para que se te respeite. Deixo-te, pois, sem pesar
e sem saudades. » — Pag. 482.
(*} Os ex-presidiários.
246 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

S. Paulo. Depois que perdeu sua antiga homogeneidade, o


civismo paulista, outrora vivido, degenerou em subalterna
preocupação de supremacia material. Não fosse a mocidade
acadêmica de vários pontos que se reúne ali na capital, e a
atrevida conducta dos italianos na questão dos protocollos,
não encontraria digna reacção da parte dos nacionaes. O
governo do Estado chegou a tal fraqueza que, sob a impo­
sição da colônia daquella nacionalidade, não se pejou de
privar de direitos constitucionaes os fdhos do paiz, prohi­
bindo a venda de uma certa musica, a que fora dada o nome
de Menelick!
E' verdade que S. Paulo não é hoje o mesmo de annos
atraz : que o progresso material teve impulso vigoroso do
braço estrangeiro, que esta rico e faustoso. Mas, basta isso?
Não! devemos comprehender a Pátria com a mesma intuição
moral do poeta portuguez, que disse, dominado de santa
indignação, ferido nalma pelo lamentável espectaculo que offe­
rece hoje seu nobre paiz : « Não visiono a Pátria ideal numa
Carthago sumptuosa, baluartes e docas, fabricas e casernas,
torpedos e túneis, alcouces e bancos, chaminés e prostíbulos,
■— um monstro de gula, assente em lama, coberto de ferro,
digerindo ouro.
O que são pátrias? — Aggrupamentos humanos, que afíi­
nidades de sangue, vaevens históricos e rasões geographicas
tornaram em corpos sociaes, em organismos conscientes e
collectivos.

Ofimde uma nação é derramar justiça, divulgar virtudes,


crear formosura, produzir sciencias... Não se pesam nações
em balanças de pesar libras... Quando uma Pátria se resume
num bando de interesses guardados por policia, eu não lhe
chamo Pátria, chamo­lhe cadaver, monturo, esterqueira,
foco de infecção. »
No entretanto, é desgraçadamente essa visão de uma Gar­
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 245

só nosso devia ser, mostrando-se ao Mundo o desapreço em


que tínhamos esse nobre titulo, na indifferença com que o
oiïerecemos a quem o quiz receber.
Pátria não é só o ajunctamento de indivíduos vivendo em
um mesmo território, sob um mesmo governo. Pátria é isso,
quando ha entre os que habitam a mesma zona, uniforme
sentimento de apego a ella, convergência de esforços para o
bem da communidade, intima ligação entre os indivíduos, de
fôrma que o mal de um seja o de todos, que cada um deseje
para os outros o bem de que frue : a perfeita fraternidade,
forte e solidaria, que a sociabilidade helvetica definiu em sua
formosa divisa — UN POUR TOUS, TOUS POUR UN.1
Não é isso. que fundaremos com esta miserabilissima dis-
posição que nos leva a repartir corn extranhos quaesquer,
nosso patrimônio civico. 0 que estamos creando é uma vasta
feitoria para exploração universal do solo brazilciro : Pátria,
não! Essa vae morrendo ás mãos dos chatins políticos, para
dar passo a um triste aggregado de todas as nações : espécie
de navio, corsário, onde a sede do ganho juncta gente de toda
procedência.
Não ha nativismo pessimista nesta afArmação que fazemos.
Escriptor que tem voga entre alguns de nossos philosophistas
daquclla roda, faz a mesma observação : « Quanto mais os
emigrantes, diz elle, se tornam numerosos, tanto mais enfra-
quecem a estructura das divisões em cujo seio vão viver. A
organisação social que admitte estrangeiros tem por força
que relaxar-se ; a influencia délies age como dissolvente das
organisações ambientes.2 »
E assim é. Temos já exemplo cm casa, no Estado de
» E' o que perfeitamente pressentiu Mirabeau. A reunião dos homens em
communidade, « por mais que digam o contrario alguns modernos, sustenta
o brilhante orador, depende mais das relações moraes, que das conveniên-
cias physicas, porque aquellas são absolutamente necessárias para determi-
nar, regular e conservar estas. »— Des lettres de cachet et des prisons d'Etat,
collecção Vermorel, vol. I, pag. 169.
1
H. Spencer, Sociologie, vol. III, § 497.
■'ïW*'

DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 247

thago sumptuosa que entontece nossos directores. E' isso


que querem, e é para conseguil­o que mercadejam o titulo
de cidadão !
O critério cavalheiresco cede assim lugar ao critério sim­
plesmente utilitário, comprehendendo­se a vida em tudo ao
inverso do que definia o Romancer o dei Cid :l
... Si la renta es buena
Muy mejor es ei estado.

<( Os políticos gregos que viviam sob o governo popular não


reconhecem outra força que o possa sustentar senão a vir­
tude. Os de hoje não nos falam senão de manufacturas, com­
mercio, finanças, riquezas, e até mesmo de luxo. Quando
essa virtude cessa, a ambição entra nos corações que a
podiam receber, e a avareza entra em todos. Os desejos
mudam de objecto : deixa­se de amar o que se amou; era­se
livre sob as leis, e se o quer ser indo de encontro a ellas;
cada cidadão é como um escravo escapo da casa de seu
senhor; o que era maxima chama­se rigor; o que era regra
chama­se constrangimento; o que era attenção chama­se
temor. E' a frugalidade que é avareza, e não o desejo de ter.
Outrora os bens dos particulares constituíam o thesouro
publico; mas nessa época o thesouro publico torna­se o patri­
mônio dos particulares. A Republica é um despojo; e sua
força não é mais que o poder de alguns cidadãos e a licença
de todos.2 »
Leia­se opinião insuspeita sobre o destino de nossa Pátria,
a persistir a mania immigrantista. Ninguém dirá que falam
as Gassandras do nativismo...
« 0 futuro do Brazil, diz Oliveira Martins, 3 seria extrava­
gante. Estalagem aberta a todos os povos europeus, afas­
* Romance 33.°.
!
Montesquieu, Esprit des Lois, liv. Ill, cap. III.
3
O Brasil e as colônias portuguesas, pag. 161.
248 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

tados pela raça e pelos costumes, incapazes de formarem


fundidos o corpo de uma população homogênea, o Império1
fraccionar-se-ia fatalmente em um systema de nações minús-
culas néo-portuguczas, e néo-suissas, néo-allemãs, néo-
inglezas, etc, como são em embrião as colônias germânicas
actuaes. Poderia ter ganho com isso o desenvolvimento da
riqueza, mas o futuro da nação ficaria gravemente abalado,
e por fim certamente perdido.
Do seio do Brazil se tem ouvido os protestos contra esta
política errônea, já decadente. Esses protestos, num sen-
tido, são inúteis, porque a força das cousas resiste por si só
com energia aos planos que a contrariam; mas o grito do
Brazil para os brazileiros tem para nós o alto merecimento
de demonstrar um facto, de resto já de ha muito provado :
a existência de uma consciência collectiva, de um sentimento
definido do futuro nacional. — « Ao cabo de alguns annos,
« que será deste nosso Brazil latino, catholico, na presença
« desse outro Brazil germânico, protestante, em hábitos, em
« indole, cm tudo completamente repulsivo, antagônico ao
« Brazil a que pertencemos? »
Fácil é diagnosticar o que seria.
0 futuro certo, seguro, consistente e verdadeiramente
grande do Império está no desenvolvimento homogêneo da
sua população.

Imaginar possível que no Brazil entrem annualmente


dusentos ou tresentos mil europeus de qualquer raça é uma
illusão; desejal-o é um erro deplorável. Mais vale o caminhar,
segura e normalmente, do que a precipitação cheia de riscos.
E' dissolvente para a organisação interna de uma nação o
ingresso abrupto, a infusão precipitada de elementos que,
alem de excessivos para as forças de absorpção do povo
1
Esse livro e' anterior d proclamarão da Republica.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 249

nacional, forçosamente tem de ser por natureza rebeldes e


até insusceptiveis de assimilação. E' melhor a immigração
lentamente natural que se proporciona ás forças do paiz e se
funde, do que a irrupção turbulenta de massas famintas e
desmoralisadas. Por brilhantes que pareçam exemplos como
os da Australia, o facto é que mais de um observador per-
spicaz descobre ahi motivos para eventuaes crises futuras.
O progresso de uma nação diffère essencialmente da explo-
ração de um território concedido. Numa empreza o futuro é
vitalício, o ponto de vista é apenas o lucro. O Brazil não é
uma concessão dada, é uma nação crescente. 0 acanhado
critério exclusivo do lucro das lavouras e do commercio não
basta : é mister porém que subordinadamcntc esse critério
concorra para a construcção firme e duradoura do Estado. »
E' preciso produzir, produzir muito, dizem, e para isso
importamos o colono.
Mas quem sustentou por accaso que o fim da sociedade
seja esse ?
Aclmitlindo que sim : o colono faz questão da cidadania ?
Quer logo ser considerado brazileiro ? — Não, que isso não
é cousa de que se decida com a leviandade de que deram
mostra lamentável nossos legisladores.
Gomo e porque somos brazileiros ?
Eis nossa genesis, traçada com admirável precisão :
« Nas primeiras gerações os colonos vindos para a Ame-
rica não se podiam, senão considerar como exilados nesta
parte da Terra. As difficuldades, porém, do regresso ao solo
natal e o lentidão das communicações com esta os foram
confinando a contragosto na nova região.
Ao conjuneto dessas circumstancias, outras vieram jun-
ctar-se em relação aos seus descendentes. Para estes a
imagem da metrópole tornou-se vaga. A cultura intellectual
capaz de avivental-a não existia em quasi toda a parte. Em
certos lugares, as perseguições religiosas (é o caso dos
250 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Estados-unidos da America do Norte) faziam olhar para a


Europa como a Pátria dos tyrannos. Todas as emoções fortes
da infância, todas as imagens habituaes, toda a actividade
quotidiana, toda a acção continua do meio material se con-
centravam na America, enfraquecendo o élo forçado que
prendia as novas gerações á metrópole. 0 novo solo tornou-se
cada dia, mais sagrado á proporção que nelle se foram incor-
porando os restos dos progenitores. Dentro de algumas gera-
ções a propria lingua se modificara e só restava da Mãi-patria
a bandeira e a lembrança, de mais em mais remota.
A esses motivos de differenciação junctaram-se as luctas
entre os colonos c os cidadãos europeus ; luctas que a degra-
dação moral de ambos tornava a cada momento mais
odientas, não tardando que, em vez de um só povo, exis-
tissem dous — um dos oppressores er outro dos opprimidos.
Chegadas as cousas a este ponto, só restava a separação
e foi o que se deu.
Tal é o histórico essencial dos povos americanos ; tal é
a genesis dos cidadãos brazileiros. Procurando destacar
destes factos o que ha de fundamental, reconhece-se que as
pátrias brazileiras exigiram para se formar a seguinte con-
dição : localisação no solo da America de gerações succes-
sivas. De sorte que o brazileiro não foi o portuguez nem o
africano que para aqui vieram, nem tão pouco o fetichista
(selvagem) que aqui encontraram os nossos antepassados. O
brazileiro foi o descendente directo ou fundido desses três
elementos, e para o qual se tinham formado tradições dis-
tinctas das dos troncos de onde provieram. As pátrias brazi-
leiras são as cidades construídas por essas gerações succes-
sivas ; cidades por meio das quaes cada brazileiro se sente
preso ao conjuncto dos outros povos que formam com ellas
a Humanidade.
Ninguém ficou, portanto, cidadão brazileiro porque quiz ;
ficou brazileiro porque a evolução o fez. O brazileiro pode
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 251

ser ingrato, pode renegar a Pátria, mas lhe é tão impossível


apagar o cunho que ella lhe imprimiu, como é impossivel
fazer parar a Terra.
A' vista do que precede podemos encarar systematicamente
a questão da instituição da Pátria, o que é imprescindivel
para resolver o problema da grande naturalisação. Com
effeito, só uma concepção systematica desse ente collective»
permitte determinar as condições em que um homem se torna
o cidadão adoptivo de uma Pátria.
Toda associação, conforme proclamou Aristóteles, tem
por característica a divisão dos officios e a convergência dos
esforços.
Um conjuneto de entes, em que todos fazem a mesma
cousa, por mais numeroso que seja, não constitue uma asso-
ciação, isto é, um ente sujeito a leis especiaes, diversas das
que regem os elementos componentes do acervo.
A espécie humana, por sua constituição cerebral, só pode
formar três espécies de associações verdadeiramente dis-
tinetas, se bem que ligadas entre si de um modo indissolúvel :
essas três associações são a família, a Pátria e a igreja. Cada
uma délias suppõe condições objectivas, isto é, materiaes,
subjectivas, isto é, relativas aos membros que a compõem.
Antes, porém, de reconhecer os caracteres distinetivos
das três, cumpre examinar as condições fundamentaes com-
muns. Consistem estas na convergência sufíiciente dos sen-
timentos '• dos actos e das opiniões dos membros compo-
nentes.
Nenhuma família, nenhuma Pátria e nenhuma igreja pode
persistir e desenvolver-se sem um certo accordo affectivo,
intellectual e pratico. Existem, porém, neste accordo as
seguintes distineções :
Na família a harmonia essencial é do sentimento, por ser
este o elemento preponderante na sua constituição. A família

A-
252 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

pode persistir apesar de profundas divergências nas opiniões


e de graves dissentimentos práticos.
Na Pátria o accordo essencial consiste na actividade.
Assim como a família repousa essencialmente na união
conjugai, união na qual o homem e a mulher procuram,
antes de tudo, as doçuras que só pode proporcionar uma
amisade imperturbável ; assim também a Pátria repousa
essencialmente na união das famílias tendo por objecto
capital assegurar as condições materiaes da existência
domestica da conectividade.
De sorte que como na familia o que se procura é o amor,
todo o objectivo dos membfos que a compõem resume-se em
amar e sentir-se amado ; e a mais leve quebra da affeição
tende a dissolver a união domestica mais facilmente do que
profundas divergências intellectuaes e graves dissentimentos
práticos.
Na Pátria, pelo contrario, como o objectivo é, sobretudo,
o concurso activo para proporcionar a todos, os gosos da
familia, a estabilidade da união civica é compatível com pro-
fundas discordancias affectivas e intellectuaes. Desde que
todos estão de accordo em trabalhar pelo bem estar mate-
rial da conectividade e a defendcl-a contra os ataques
internos e externos que ameacem a sua destruição, a união
pode persistir e desenvolver-se. Mas é indispensável que os
cidadãos tenham a certeza de que todos os outros estão dis-
postos a tudo sacrificar, mesmo a familia, por esse bem
estar e essa defeza commum.
Do que precede, conclue-se, que a união civica não pode
ser sufficicntemente enérgica sem que cada cidadão offereça,
ao conjuneto dos outros, garantias que os convençam da
existência fatal de taes disposições.
Os cidadãos de uma mesma Pátria não se podem conhecer
todos uns aos outros : a confiança civica, portanto, não pode
ser individual, tem de ser forçosamente collectiva. Sendo
DIEEITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 253

assim, como estabelecer tal confiança, base da verdadeira


fraternidade patriótica, senão apoiando-a em condições cuja
influencia seja fatal, isto é, independente da vontade do
cidadão, salvos os casos de monstruosidades? São essas con-
dições naturaes de amor pela Pátria que definem os requi-
sitos para ser-se reconhecido cidadão.
Bastam as considerações precedentes para comprehen-
der-se o fundamento da regra universal que faz cidadãos de
cada Pátria os filhos de cidadãos dessa Pátria, onde quer que
tenham nascido, e os descendentes de estrangeiros, porém
nascidos na referida Pátria, desde que assim o declarem.
Com effeito, é fatal que todo homem ame a Pátria de seus
•\js e procure tudo sacrificar para o seu engrandecimento.
"nor da Pátria, nesses casos, é o prolongamento do amor
terno, c é por isso que Augusto Comte propõe que se
de no futuro a denominação de Pátria por matria.
Em segundo logar, é fatal que o homem ame a cidade em
>,je nasceu, onde viveu, e onde seus pais foram acolhidos,
quer a tivessem procurado fugindo á miséria, quer perse-
guidos pelas vicissitudes políticas, etc.
Mas, neste segundo caso, como o coração se divide fatal-
mente entre o amor da cidade de nossos pais, e o amor da
cidade em que nascemos, o homem torna-se principalmente
o cidadão da Pátria que seus pais lhe tiverem ensinado a
preferir. Nos nossos tempos de egoismo, essa preferencia em
naturezas médiocres e viciosamente educadas pode conduzir
até ao despreso pela cidade hospitaleira. E' isto o que
demonstra a observação commum.
Eis porque se torna necessário que o homem livremente
declare a qual das suas pátrias naturaes prefere consagrar
sua actividade systematica.
As mesmas considerações demonstram que só excepcional-
mente um estrangeiro adquirirá pela Pátria em que se hos-
pedou, os profundos sentimentos de apego, de veneração e
254 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

dedicação, que são os elementos constituvos do civismo. Só


actos decisivos permittem reconhecer em um extranho taes
requisitos. Assim, a longa moradia, o casamento com pes-
soas da nacionalidade em que se vive, o nascimento de filhos
nessa nacionalidade, são indícios mais ou menos véhémentes
de sympathia por uma Pátria que nos acolheu. Mas nenhum
desses factos constitue uma condição para amar fatalmente
e dedicar-nos fatalmente por essa Pátria com a predilecção
que o civismo suppõe.
Portanto, nenhum desses factos nos auctorisa a consi-
derar concidadãos nossos os estrangeiros que comnosco con-
vivem, sem ao menos exigir que assim o declarem. Accrescr
que não podemos ter plena confiança na dedicação por noc
Pátria, por parte de pessoas que, para essa dedicação,
garam imprescindível renegar a cidade de seus pais e e,i
no goso de regalias, que mesmo aos cidadãos brazileiros
excepcionalmente podem tocar, como sejam os car^
públicos quaesquer. Garibaldi dedicou-se pela França o
bateu-se pela Republica riograndense, como pelejou pela do
Uruguay, sem fazer-se nem francez, nem riograndense, nem
uruguayo; conservou-se sempre italiano. Esse é o typo do
verdadeiro patriota, do homem que tem o coração assaz
grande para amar as pátrias todas amando ainda mais a
sua. 1 »
A concessão de cidadania devera limitar-se aos casos
seguintes, enumerados pelos auctores da representação antes
citada :
Art. — São cidadãos brazileiros :
I. Os filhos de pais ou mais brazileiros em qualquer parte
em que nasçam e os filhos de pais ou mais estrangeiros, nas-
cidos no Brazil, que optarem pela nacionalidade brazileira,
1
Annaes do Congresso constituinte. Rasões contra a lei de grande natu-
ralisação, por Miguel Lemos e R. Teixeira Mendes.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 255

na época de sua emancipação, segundo as leis nacionaes dos


respectivos progenitores.
II. Os estrangeiros, quer residam ou não no Brazil, que
prestarem serviços relevantes á Humanidade1 ou especial-
mente á Republica brazileira, ficando entendido que não per-
derão por isso os foros de sua nacionalidade.
III. Os estrangeiros que tiverem residido continuamente no
Brazil pelo menos tantos annos quantos contarem de domi-
cilio em seu paiz natal, e que assim o solicitarem.
1
Mais de um paiz da Europa tem concedido cartas de naturalisação,
como honra excepcional, por serviços prestados á Humanidade; um parente
do auctor, Hector Varela, mereceu essa distineção cm França.
LIVRO X

Da l i b e r d a d e

I 17


LIVRO X

E' preciso pregar incessante-


mente aos povos os benefícios da
auctoridadc, e aos reis os benefícios
da liberdade.
J. DE MAISTRE.

Tratamos até agora da critica dos elementos com que se


pretendeu fundar a ordem]social e mostrando que eram in-
sufficientes para garantil-a, apontamos que estructura de-
viam ter. A ordem, porém, nâo vive sem o progresso, e este
se firma com a liberdade.
Toda construcção política a que se queira dar aquella so-
lidez da perfeita estabilidade, tem de ser argamassada segun-
do os melhores preceitos conservadores, mas ha de a archi-
tectura ser de forma que, dentro delia, o povo sinta que fo-
ram reduzidos ao minimo possível os constrangimentos im-
postos xá pacifica desinvolução de sua actividade.
Está nisto toda a solução do problema politico que com-
move o mundo moderno : o consórcio da ordem inabalável
com a plena liberdade. O systema que o garantir terá posto
fim a uma contenda já secular, que custa ao gênero humano
rios de sangue e dolorosas desillusões.
« Qual o fructo de tantos sacrifícios feitos pela Humani-
dade nesta ultima época? pergunta Antonio Lcocadio de
Guzman.x — Os povos têm vencido em um ponto, em outro
1
Ojeada ai proyeto de Constitution que ei Libertador ha presentado a
Ia Republica de Bolivia. — Lima, 1826.

v>a>
200 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

têm vencido os thronos : o mundo civilisado apresenta-se


dividido em dois partidos numerosos ; e quando um e outro
tem por objecto a perfeição social, oppõe-se um ao outro
no que diz respeito aos meios de a conseguir. Na Europa
sacrifica-se tudo á solidez dos governos, e na America cede
tudo a liberdade do povo. Ali ha reis e direito de successâo
hereditaria, aqui republicas e eleições populares : lá manda
sempre um só, aqui multiplicam-se os canditatos : acolá
tudo é de um, aqui tudo é da multidão.
0 europeu diz-nos : « Não toleramos tumultos, nem essas
freqüentes sedições, que perturbam tão a miúdo a tranquil-
lidade publica e ameaçam em seu retiro ao cidadão pacifico ;
não queremos ver o magistrado aggredido pela audácia' de um
aspirante perverso, nem ver nossa deshonra impressa, nem
que se analyse nossa condueta privada ; não soffremos- que
se insulte impertinentemente ao verdadeiro mérito, nem que
demagogos ambiciosos comprem sua elevação a expensas da
ordem e do socêgo publico ; não temos um governo débil, que
mudando de mãos a cada instante, muda também sua polí-
tica, seus princípios e seus agentes; emfim, não queremos
para nossos filhos um horisonte manchado com as celagens
escuras da anarchia. » — O americano orgulhoso da liber-
dade que aquelle não tem, lhe responde : « Não supporto,
como tu, que um homem se intitule meu amo ; que suas
baionnetas me cerquem a cada momento ; que minha casa, o
santuário de meus filhos, seja sua e não minha, que pre-
tenda saber os segredos de meu coração e regular minha
cabeça pela sua ; que me prive da expressão de meus senti-
mentos; que eduque meus filhos á seu bel-prazer; que dis-
ponha de minha propriedade a se arbítrio; não quero ser
julgado por um subalterno vendido, que precisa condem-
nar-mc para ser mantido em seu posto ; faço que minha
Pátria tenha leis e que não esteja sob a influencia de um
homem coroado; não sairei três vezes cm minha vida para
DIREITO CONSTITUCIONAL BKAZILEIRO 261

matar homens em guerras injustas, nem serei nellas uma


victima inutil e miserável; emflm, tenho pelejado quinze
annos, havendo dado meu socêgo, minha propriedade, meu
sangue, em troca da liberdade de que góso : meus pais e
meus irmãos deram-me tudo isto com suas vidas. Pôr de lado
agora o fructo de tantos sacrifícios! Não : antes o Sol deixará
de estender sua luz sobre a America, e o Céu deixará de
cobril-a, do que a liberdade, de brilhar em nossas casas,
em nossas cidades, em nossos campos, e na fronte de cada
um de nós. »
Eis aqui a grande contenda de nossos dias e a linguagem
de seus dois partidos : pode assegurar-se que é a maior que
tem agitado a Humanidade. Milhões de seres que têm o
patrimônio da experiência e a escola de muitos séculos, crôm
que para a sociedade ser feliz devem sacrificar tudo á solidez
de seus governos ; e milhões de homens por outro lado, que
conhecem demasiadamente bem o despotismo, julgam que
tudo deve ceder á liberdade do povo. 0 mundo civilisado
acha-se dividido em dois hemispherios que poderíamos
chamar o da liberdade e o da estabilidade. No entretanto,
nem um nem outro são felizes : a Europa satisfeita com cen-
surar a America, pela debilidade de seus governos e vicios
de sua liberdade, não pensa cm desterrar os abusos vergo-
nhosos do poder monarchico ; e esta, occupada em criticar
da outra, por admittir dynastias hereditárias, pela confusão
de seus poderes e nullidade individual, tão pouco procura
corrigir o erro de seus systemas.

Solidez no governo e liberdade para o povo, são os polos


que podem sustentar a sociedade. Mas, por que fatalidade é
que os homens empenhados em fugir de um extremo não se
querem deter senão no outro? Porque não concorremos em
bom numero ao ponto medio da distancia que ha entre
I ambos... para que desde ahi... possamos convidar os homens
262 DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO

dos dois lados a viverem, como nós outros, livres e Iran-


quülos? Eu o sei e atrever-me-ei a dizel-o : é porque ninguém
tinha explorado esse meio termo, e, procurando a felicidade
social, sempre temos terminado nossa carreira caindo nos
extremos. »
« Em toda ordem social bem regulada e estável, diz a seu
turno Fontarèches, x o poder e a liberdade são dois elementos
indispensáveis, que jamais se devem combater, porque o
poder sem a liberdade perece cedo ou tarde por seus próprios
excessos ou por falta de apoios, como a liberdade, sem um
poder forte posto ao abrigo de seus ataques, degenera
sempre em licença e acaba nas revoluções. »
Em nossa Constituição, já vimos que pouco se fez para
este indispensável consórcio entre os elementos que sus-
tentam a ordem e os que promovem o progresso : a auctori-
ridade creada é frágil, a liberdade não foi sufficientemente
garantida, ainda que para attender a esta segunda condição
do problema politico, muito se tivesse feito na Carta de
24 de fevereiro. Ficou, porém, imperfeita a liberdade, e nós,
os adeptos da escola histórica, assim como desejamos um
governo forte, queremos o povo livre : ha existentes ahi,
ainda, odiosos constrangimentos e verdadeiras usurpações
io poder publico. >
Estabeleçamos uma ampla liberdade, abroquelada por uma
administração respeitável, e teremos posto fim ás revoltas e
tyrannias.
Como já fizemos notar, deseja-se a curta permanência de
uma mesma pessoa na posse do poder, porque nisto se vê
a garantia da liberdade popular.
A liberdade não depende de tal condição, antes pelo con-
trario. Imagine-se um regimen em que todas as liberdades
sejam de commum pratica, e o governo não tenha poder para
offendel-as, limitando-se a sua acção effectiva ao manteni-
' Barão de Fontarèches, Monarchie et Liberte, pag. 9.
DIREITO CONSTITUCIONAL BKAZILEIRO 263

mento da ordem material e pouco mais : que importa para a


liberdade que esse governo seja permanente?1
Tornar intangíveis os foros populares, eis o árduo pro-
blema. Para isso basta deflnil-os claramente na Lei, sem
admittir excepções, desenvolver com a educação civica um
ardente amor a elles, e reduzir quanto possível a acção abu-
siva da auctoridade publica.
Agora, antes de tudo, é preciso ter ema profunda con-
vicção, e é que a liberdade mais depende dos indivíduos que
da lei escripta.
Por isso, com muita agudeza de espirito Augusto Comte
dizia em carta a Stuart Mill : « Je conçois très bien les vœux
importants qui terminent votre lettre sur l'imminent besoin
d'étendre à l'Angleterre la pleine liberté d'exposition et de
discussion, qui existe maintenant ici pour jamais. Toutefois,
je ne puis, à cet égard, m'empêcher de penser que la vraie
liberté ne se concède pas : elle se prend.2 »

Em meio da diversidade immensa de opiniões, o governo,


para não ser desacatado e favorecer a formação de uma
legitima opinião publica, ha de ser neutro, absolutamente
neutro, restringindo-se seu papel a prevenir os conflictos
possíveis e a castigar os auetores dos que não possam ser
evitados, e a alguns poucos actos mais, alheios á actividade
particular. Com que direito, por exemplo, intervir o governo
no ensino, dando preferencia a doutrinas que uma parte da
« Diz por isso muito acertadamente D'Holbach .: « ... Se a nação
é governada com justiça, se gosa de segurança, se suas terras são bem
cultivadas, se as posses são bem garantidas a seus proprietários, se só a lei
tem o direito de punir e de limitar a liberdade; e as necessidades naturaes
do maior numero são satisfeitas, — realisaram-se os votos da sociedade,
ella nada mais tem a pretender. » — Politique naturelle, discour III,
§ XVII.
2
Lettres d'Auguste Comte à Stuart Mill, pag. 434.
Aristóteles fazia esta distineção : « Certos indivíduos nada mais têm que
o corpo de um homem livre, emquanto que outros têm a alma.»—Política,
livro I, cap. II, § 14.
264 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIEO

sociedade aceita, mas outra repelle, por insignificante que


seja esta, visto que o modo de pensar de um só indivíduo é
tão digno de respeito como o de cem ou mil?
Depois, que competência tem o governo para esta eminente
funeção?1 Qual o critério com que ha de escolher o pessoal
para a fundação de uma academia? Se dispõe de capacidade
tal como a de um jurisconsulto, admittamos, pode escolher
os lentes de uma faculdade de direito, mas e as de medicina
e engenharia ? Responde-se que confiará esse mister a um
clinico de nomeada ou a um provecto engenheiro. Mas, entre
muitos especialistas de valor, como preferir entre dois que
representem escolas scientificas oppostas?
Trata-se da fundação de um instituto de baeteriologia,
novíssimo invento do parasitismo acadêmico : o governo vê
de um lado Koch sustentando o papel primacial do micróbio
na geração das doenças, do outro proclamar doutrina
contraria o luminoso Peter : por qual se ha de decidir, se
lhe é impossível julgar por si do valor da argumentação do
primeiro ou do segundo?
Trata-se de crear um instituto vaccinico : com que direito
1
Apreciando o projecto do abbade de Saint Pierre para reformar as aca-
demias, diz Moiinari : « Este projecto do bom abbade tem sido, em Igrande
parte, realisado. Fundaram-se academias de medicina por toda a parte, e se
tem feito servirem os mortos em proveito da saúde dos vivos. A arte de
curar ganhou com isto, sem duvida nenhuma; mas, não teria ganho ainda
mais se as academias de medicina se houvessem constituído extremes de
qualquer patronato governamental? Esses círculos scientistas não se têm
tornado muicommummcnte camarilhas, dentro das quaes rcsuscita o velho
espirito de exclusão e egoísmo das corporações de outrora, cm cujo seio
os homens se oecupam mais de estender e fortificar as restricções que ob-
struem as avenidas da profissão de medico, que de aperfeiçoar a arte medica?
Se pois algum emulo do abbade de Saint-Pierre idéie formular um
novo projecto de aperfeiçoamento da medicina, que seja ao menos sem a
intervenção do governo. » — L'abbé de Saint-Pierre, sa vie et ses œuvres,
pag. 150.
« Mesmo nos paizes em que a liberdade de imprensa é completa, a immis-
cuição do governo no domínio da instrucção publica, diz a seu turno Novi-
cow, traz como resultado o predominio dos methodos mais rotineiros. Dahi
uma lentidão extrema no progresso mental. » — Gaspillages des sociétés
modernes, pag. 325.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 265

o governo adoptará officialmente esta medicação, se ha


brazileiros que não crêm em sua efficacia? E, se impõe a
vaccina, porque não impõe, pelas mesmas rasões de utilidade
geral, as injecções seqwardinas, ou quantidade certa de ali-
mentação, sabendo-se que os excessos de meza occasionam
immenso numero de doenças, nos dias de hoje? Porque não
impõe uma vestimenta, mais adequada aos rigores tropicaes
do que a commummente usada?
Cumpre que nossos compatriotas se convençam de que o
característico do regimen republicano é antes de tudo a
inexistência de privilégios e monopólios, como de imposi-
ções de qualquer natureza : é a livre concorrência no ter-
reno moral, no cias ideas, no da industria ou das profis-
sões, seja qual for. O privilegio das academias é resto
ainda dos privilégios de corporação próprios á idade media.x
Naquelle tempo também havia regras e aprendizado obriga-
tório para todas as artes, assim como privilégios : pen-
teavam-se os cabellos conforme as regras da corporação, e
um cabelleireiro julgar-se-ia deshonrado e considerava a
sociedade abalada até os fundamentos, se lhe dissessem que o
diploma da companhia era dispensável para o exercício da
respectiva profissão : os estatutos da corporação em França,
datando de 14 de março de 1674, nos artigos 8 a 15, deter-
minam seriamente as condições da aprendizagem e as exi-
gidas para obter-se a entrada no grêmio, assim como o res-
pectivo doutorado !
Todavia, a intervenção do Estado neste terreno, desde o se-
* Essas, como as corporações que exploram hoje o ensino, davam motivos
de conveniência social aos seus privilégios exclusivistas, mas o que temiam
eram os concorrentes, como explica Dellebona : « ... Quando più tarde, per
le angherie dei feudatari, cominció 1'esodo de' servi verso le castella e le cittá,
gli artigiani, nello intento di porsi alio schermo di questa straordinaria
affluenza di bra ceia, non indugiarono di organizzarsi in compagnie serrate,
negando Fingrcsso in esse ai nuovi venuti. » — Délie crisi economiche
pag. 43.
Agora, como antes, a mesma cousa se dá nas profissões liberaes, com o
fito de afastar Os competidores.
266 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

culo 18.° que se considera cousa muito funesta. Os privilégios,


segundo a Encyclopledia, fazem com que o publico seja muito
mal servido. « Les maîtrises, 1 en effet, pouvant s'obtenir par
faveur et par argent, et ne supposant essentiellement ni capa-
cité, ni droiture dans ceux qui les obtiennent ; elles sont
moins propres à distinguer le mérite...2 » Àccrescentando
que foram estabelecidas « pour constater la capacité, » mas
que « même rien ne contribue davantage à fomenter l'igno-
rance, la mauvaise foi, la paresse dans les différentes pro-
fessions. 3 »
Esta questão do ensino official nem merece debate, com a
longa experiência que temos : basta que haja franqueza nos
diplomados, basta que desterrem a habitual hypocrisia, para
que todos opinem pela suppressão de tal inutilidade. Se
outros são incapazes de sentir nobres impulsos de respeito á
verdade, o auetor quer para si esse mérito e declara : que
saiu da academia ignorando absolutamente as matérias do
curso jurídico que freqüentou, e menos preparado do que
qualquer pobre rábula de aldeia. No entretanto, o ensino
official conferiu-lhe pergaminho privilegiado, em que se o
declara sabedor daquillo que desconhecia!
Não extranha, comtudo, este facto quem sabe o que são
nossas academias. 0 auetor conheceu um lente em S. Paulo
cuja insensatez ultrapassava todas as raias, qual se pode
verificar em uma cerebrina e ridicula narrativa de viagem a
Goyaz; um outro, que tramsformara a cathedra em pelou-
1
Assim eram chamados os graus de completo aprendizado em todas as
profissões : maítre-ès-arts, maítre-ès-lettres, maítre-barbier-chirurgieit, —
este o do antepassado que de certo renegam nossos orgulhosos cirurgiões de
hoje.
2
Artigo sobre maîtrises.
3
Leia-se agora a opinião de um homem de hoje, Gabriel Monod, relator
do inquérito parlamentar sobre o ensino em França : « La liberte d'enseigne-
ment, apròs avoir été longtemps considérée par l'Université comme un péril,
n'est pas loin d'être tenue par elle comme un dogme de la religion libérale
qu'elle professe en majorité, et comme une des conditions mêmes du progrès
scolaire et du progrès scientifique. » — Faguet, obra citada, pag. 242.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIEO 207

rinho injurioso de todos os que com elle não commungavam


em um falso catholicismo de seu uso, perdendo a cabeça
sempre que se punha a falar nos philosophos modernos, de
quem tratava revelando deplorável e tristíssima ignorância ;
outro, um infeliz padre ensandecido, tal qual um seu colloga
do Recife, de cuja inopia intellectual poderíamos apontar
factos inacreditáveis ; outro, ainda nesta ultima faculdade,
que repetia como um phonographo as apostilhas de seu ante-
cessor, etc...
E não se julgue que isto só se vê nas escolas de direito.
Quanto á polytechnica, basta somente considerar os que
délias saem, no tocante a estradas de ferro...
Durante a guerra do Paraguay, Osório, detido por um arroio,
perguntou a/ seus engenheiros em que tempo lhe construíam
uma ponte, necessária para a passagem do exercito. Puze-
ram-se elles a pesar todos os dados do problema, selon Vaca-
démie, e depois de muitas lucubrações, declararam que só no
praso de quatro dias podiam dar prompta a obra. O general
achou muito e incumbiu de fazel-a a um coronel gaucho, o qual,
em poucas horas, preparou uma ponte que deu seguro passo
ao exercito, apesar da cousa ser impossível para a sciencia e
arte officiaes! Outra feita, um engenheiro encarregado de
construir certa linha telegraphica no Riogrande do Sul, rece-
bendo ordem de fazer entrar o fio em linha recta pela rua
principal de uma cidade, levou dias imaginando o caso, não
lhe encontrando solução. Um auxiliar, completamente alheio
ao negocio, foi quem rematou a obra, servindo-se para isso
tão somente do que seu bom senso pratico lhe indicou.
As de medicina não andam longe das outras, e muitos que
nellas se formam, podiam dizer com Sganarello : « Non, vous
dis-je ; ils m'ont fait médecin malgré mes dents. l »
1
Não nos podemos furtar ao desejo de reproduzir aqui o que diz em seguida
o terrível Sganarello por conta de certos medicos : « Je ne m'étais jamais
mêlé d'être si savant que cela... Je ne sais pas sur quoi cette imagination leur
est venue; mais quand j'ai vu qu'à toutes forces ils voulaient que je fusse
*

268 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIKO

Quantos ha que da doença apenas poderão responder com


a seriedade desse tal personagem de Molière : « Nous autres
grands médecins, nous connaissons d'abord les choses. Un
ignorant aurait été embarrassé, et vous eût été dire : C'est
ceci, c'est cela ; mais moi, je touche au but du premier coup,
et je vous apprends que votre fille est muette, — e pergun-
tando-se-lhe quai a causa do mal, proseguia : — Il n'est
rien de plus aisé; cela vien de ce qu'elle a perdu la parole.1 »
O grande recurso com que a ignorância se encobre é a
geringonça scientifica de que fala ainda Molière : « c'est de
savoir cinq ou six grands mots de médecine pour parer les
discours et se donner l'air d'habile homme.3 »
De facto, em geral, entre nós, como em toda parte, os
medicos « chegam-se aos doentes para receber os seus hono-
rários, e receitar-lhes remédios. — O publico é accommoda-
ticio : os medicos não respondem por suas acções a nin-
guém ; e desde que sigam a corrente das regras da arte, não
ha que preocupar-se com o que possa succéder.3 »

O ensino official, alem de tudo que foi ponderado, traz


como conseqüência uma imposição que fere de frente a liber-
dade. De facto : como constranger a pagar impostos para
médecin, je me suis résolu de l'être aux dépens de qui il appartiendra.
Cependant vous ne sauriez croire comment l'erreur s'est répandue, et de
quelle façon chacun est endiablé à me croire l'habile homme. On me vient
chercher de tous côtés. » Discurso que Sganarello termina, accrescentando :
« Je trouve que c'est le métier le meilleur de tous ; car, soit qu'on fasse bien,
ou qu'on fasse mal, on est toujours payé de même sorte. La méchante
besogne ne retombe jamais sur notre dos ; et nous taillons comme il nous
plaît sur l'étoffe où nous travaillons. Un cordonnier, en faisant des souliers,
ne saurait gâter un morceau de cuir qu'il n'en paie les pots cassés; mais ici
l'on peut gâter un homme sans qu'il en coûte rien. Les bévues ne sont point
pour nous, et c'est toujours la faute de celui qui meurt. Enfin, le bon de
cette profession est qu'il y a parmi les morts une honnêteté, une discrétion
la plus grande du Monde; et jamais on n'en voit se plaindre du médecin
qui l'a tué. » — Molière, Œuvres, acto III do Médecin maigre lui..
1
Médecin malgré lui, acto II.
2
Idem, acto III.
3
Malade imaginaire, acto II.
o

DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 269

sustentar o dito ensino, a uma parte da população que não


acredita na effícacia da sciencia professada nas academias
do governo, e até a julga nociva?
Adam Smith critica com seu natural bom senso todo estudo
com estipendio do Estado. Faz notar que nas universidades
em que é interdicto ao professor receber honorários ou retri-
buição dos alumnos (e são assim todas as universidades offi-
ciaes), o ensino é descurado. « Neste caso, seu interesse (o do
professor) acha-se em opposição tão directa quanto possível
com seu dever. 0 interesse de todo homem é de passar a vida
a seu gosto o mais que possa, e se seus emolumentos devem
ser exactamente os mesmos, ou cumpra ou não algum penoso
dever, é certamente de seu interesse (ao menos no sentido
commum que se dá a essa palavra) negligenciar de todo esse
dever, ou então, se está sob os olhos de alguma auetoridade
que lhe não permitta agir assim, de observal-o com todo o
descaso e toda a indolência que essa auetoridade quizer per-
mittir-lhe. Se naturalmente elle é dotado de actividade e ama
o trabalho, seu interesse é de empregar essa actividade e
esse trabalho em alguma cousa de que possa tirar vantagem,
mais do que o cumprimento de um dever que nada lhe pode
produzir.
Se a auetoridade a que elle está sujeito pertence á corpo-
ração, collegio ou universidade, de que é membro, e cujos
outros membros são como elle pessoas que ensinam ou deve-
riam ensinar, é provável que façam todos causa commum
de modo a se tratarem uns aos outros com mutua e grande
indulgência, a que cada qual consinta voluntariamente que
seu visinho seja negligente para com seus deveres, comtanto
que se lhe deixe também por outro lado a faculdade de negli-
genciar os seus. Ha vários annos já que, na universidade de
Oxford, a maior parte dos professores públicos abandonaram
totalmente até mesmo a apparencia de ensinar.
Se a auetoridade a que estiver submettido é menos pessoa

^
27U DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

da propria corporação de que ó membro, do que pessoa


extranha a ella, tal como, por exemplo, o bispo da diocese,
o governador da província ou talvez algum ministro de
Estado, nesse caso, verdadeiramente, não ó tão provável que
se o deixe despresar de todo seu dever. Entretanto, tudo que
o podem obrigar a faizer superiores taes como estes, é
estar com os alumnos um certo numero de horas, isto é,
dar-lhes um certo numero de lições por semana ou por anno.
Mas de que gênero serão essas lições? Isto é que dependerá
sempre da actividade e zelo do mestre ; e essa actividade,
esse zelo, estarão sempre em proporção com os motivos que
o levarem a ter um e outro. Alem disto, uma jurisdicção
extranha tal como aquella, está sujeita a ser exercida ao
mesmo tempo com ignorância e com capricho. Por sua natu-
reza, ella é arbitraria e repousa sobre a discrição das pes-
soas que délias se achem investidas, as quaes, não assis-
tindo em pessoa ás lições do professor, talvez mesmo não
entendendo nada das sciencias que ensina, quasi não estão
em estado de o exercer com discernimento ; e, depois, devido
á importância ligada aos grandes postos, essas pessoas são
no commum dos casos bastante indifférentes quanto ao modo
por que exercem essa jurisdicção, e estão quasi sempre dis-
postas á reprehender o professor ou a tirar-lhe seu emprego
levianamente e sem motivo rasoavel. Uma tal jurisdicção
degrada necessariamente aquelle que a ella está submettido,
e em vez de ter o lugar que devera ter entre as pessoas mais
respeitáveis da sociedade, acha-se por isso collocado na
classe envüecida e despresada. Um protector poderoso é a
única salvaguarda que elle pode ter contra os maus trata-
mentos a que está exposto a cada passo ; e para obter essa
protecção, o talento ou a exactidão que o professor porá no
exercício de sua profissão é um meio muito menos seguro
que uma submissão absoluta á vontade de seus superiores,
e a disposição constante de sacrificar a esta vontade os
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 271

direitos, o interesse e a honra da corporação de que é


membro. Não ha ninguém que observando durante algum
tempo a administração de uma universidade franceza, não
tenha tido ensejo de notar os effeitos inevitáveis de uma
jurisdicção exterior e arbitraria deste gênero.
Tudo o que obriga um certo numero de estudantes a per-
manecer em um collegio ou universidade, independentemente
do mérito ou da reputação dos professores, tende mais ou
menos a tornar esse mqrito ou essa reputação menos neces-
sária.
Quando os privilégios dos graduados em artes, direito,
medicina e theologia podem obter-se só por uma perma-
nência de certo numero de annos nas universidades, elles
attraem necessariamente uma quantidade qualquer de estu-
dantes a essas universidades, independentemente do mérito
ou da reputação cios mestres. Os privilégios dos graduados
são uma espécie de estatutos de aprendizagem, que têm con-
tribuído para aperfeiçoar a educação, precisamente como os
outros estatutos de aprendizagem contribuíram para aper-
feiçoar as artes e manufacturas.1 »
A isto acerescenta ainda o grande economista : « A disci-
plina dos collegios ou universidades, em geral, não é insti-
tuiria para a utilidade dos alumnos, mas muito pelo interesse
ou, dizendo melhor, para a commodidaïle dos mestres. Seu
objecto é manter a auetoridade do professor em todas as cir-
cunstancias, e (seja qual for o modo por que proceda, ou
observe seus devores ou os esqueça) obrigar os alumnos,
em todos os casos, a conduzirem-se a seu respeito como se
elle ensinasse com o maior talento e a mais perfeita exa-
ctidão. Tal disciplina parece suppor do lado do mestre toda
a sabedoria e virtude possíveis, e da parte dos estudantes
uma extrema inépcia e completa falta de rasão. Não creio,
no entretanto, que haja exemplos de que quando os profes-
4
Ric/iesse des nations, ediçjlo J. Garnicr, vol. Ill, pag. 13S.

. s
272 • DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

sores cumpram realmente seu dever, os escolares descu-


rcm o seu. Não lia nunca necessidade de constrangimento
para obrigar a assistir lições que merecem ser ouvidas, como
se vê bem por toda a parte em que se dão taes lições. x »
Considerando ainda o valor do ensino official, diz o notável
escossez : « E' muito de notar-se que essas partes da in-
strucção para que não ha instituições publicas, são em geral
as que se ensinam melhor. Quando um joven vae a uma
escola de armas ou dansa, nem sempre, é verdade, chega a
perfeitamente dansar ou fazer uso das armas, é raro, porém,
que não aprenda a dansar ou a jogar as armas.

Mas, dir-se-á talvez, as partes da instrucção ensinadas


commummente nas universidades, não o são, na verdade,
muito bem ; entretanto se não o tivessem sido por meio dessas
instituições, o mais das vezes ellas não teriam sido de todo
ensinadas, e então o publico, tanto como os particulares,
viriam a soffrer com esta lacuna de partes importantes da
instrucção.2 » A esta objecção, suggerida por si mesmo,
rebate A. Smith mostrando o nullo valor das doutrinas que
professam as universidades de seu tempo, eivadas de um
ontologismo tenebroso e retrogado, — tal qual como as de hoje.
« As mudanças, diz elle, que as universidades da Europa
introduziram no antigo curso de philosophia, foram todas
ideadas para tomal-a conforme ao estudo dos ecclesiasticos,
e para fazer desse curso uma introducção mais conveniente
aío estudo da theologia. Mas tudo que ahi se junetou em sub-
tilezas e sophismas, tudo o que essas mudanças ahi intro-
duziram de moral ascética e de doutrina casuística, não con-
tribuiu para tornal-a mais propria á educação da generali-
dade dos homens, isto é, mais propria para aperfeiçoar os
predicados do espirito ou as tendências do coração.
1
Volume citado, pag. 110.
' Vol. Ill, pag. 112.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 273

Esse curso de philosophia é o que se continua ainda a


ensinar na mór parte das universidades da Europa, com
maior ou menor cuidado e exactidão, segundo o estatuto de
cada uma deltas é de natureza a tornar esse cuidado e essa
exactidão mais ou menos necessárias aos mestres. Em
algumas das mais ricas e mais dotadas de fortes recursos, os
professores se contentam com ensinar algumas passagens e
alguns fragmentos desalinhados desse curso viciado, e ainda
de ordinário os ensinam elles muito superficialmente e muito
negligentemente.1
As reformas e progressos que têm aperfeiçoado, nos
tempos modernos, vários ramos da philosophia, não têm
sido, pela mór parte, obra das universidades, ainda que sem
duvida ellas tenham trazido algumas. Em geral, até, as uni-
versidades têm mostrado muito pouca diligencia em adoptai'
essas reformas, depois de apparecidas ; e varias dessas
sociedades scientistas têm preferido continuar durante muito
tempo como santuário onde os systcmas desacreditados e
os preconceitos caducos acham ainda refugio e protecção,
depois de terem sido expulsos de todo outro canto do Mundo.
As universidades mais ricas e mais favorecidas de rendas têm
sido geralmente as mais tardias em adoptar as reformas e
as descobertas novas, e são ellas as que têm mostrado mais
resistência a toda mudança um pouco considerável no plano
de educação já estabelecido. Essas reformas inîroduziram-se
menos difficilmente em algumas universidades mais pobres,
em as quaes os professores são obrigados a ter mais em
conta as opiniões correntes no Mundo, visto como a maior
parte de sua subsistência depende da reputação que
tenham.3 »
4
Em nota a esta parte, pondera A. Blanqui : « Hoje que a philosophia é
ensinada muito compendiosamente e muito seriamente, estamos mais
adiantados ? »
2
Obra citada, vol. Ill, pag. 119.
As imperfeições do estudo official notados ha tanto pelo celebre economista,
persistem até hoje. Ve a se no appendice a nota T.
18

V>A
274 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

A antigüidade grega e romana, faz notar A. Smith, não


possuiu ensino de Estado, e nem por isso houve falta da indis-
pensável illustração nas différentes classes sociaes. « Não se
terá duvida em concordar que os talentos civis e militares
dos gregos e romanos eram pelo menos iguaes aos de qual-
quer nação moderna. Nós somos até, por preconceito, leva-
dos a exagerar o mérito dos daquelles. Ora, exceptuando-se
o que diz respeito a exercidos militares, não parece que
o Estado tenha tido o menor trabalho para formar esses
grandes talentos.... Não faltaram, todavia, como sabemos,
mestres para ensinar, para instruir a gente que o podia ser,
dessas différentes nações, em toda arte e toda sciencia que
em seu estado social lhe fosse agradável ou necessária. A
procura de taes ensinos produziu o que produz sempre, o
talento de os dar ; e nós vemos que a emulação, fructo neces-
sário de uma concorrência illimitada, ahi elevou esse talento
a um alto grau de aperfeiçoamento. Pela attenção que exci-
tavam os antigos philosophos, império que exerciam sobre
as opiniões e princípios de seus auditórios, faculdade que
possuiam de imprimir um caracter e um tom particulares á
conducta e ás conversações desses ouvintes, — parecem elles
ter sido extremamente superiores a qualquer de nossos
mestres modernos.
Hoje em dia, a actividade dos professores públicos é mais
ou menos embotada pelas circumstancias, que os tornam
mais ou menos independentes do bom êxito e renome que
obtenham no exercício de sua profissão. Os honorários fixos
que recebem, põem ta'mbem o professor particular que pro-
cura entrar em concorrência com elles, sob o mesmo pé em
que estaria um mercador que quizesse commerciar sem boni-
ficação, concorrentemente com outros que ganham uma,
bem importante, em seu commercio. Se vende suas merca-
dorias quasi pelo mesmo preço que elles, não pode tirar o
mesmo proveito ; então a pobreza e a miséria, ao menos,
DIREITO CONSTITUCIONAL BKAZILEIRO ' 275

talvez a ruina ou a bancarrota será sua sorte. Se tenta


vender suas mercadorias muito mais caro, certamente elle,
terá tão limitado numero de compradores que sua situação
em nada melhorará. Demais, os privilégios dos graduados,
em muitos paizes, so necessários o ao menos extrema-
mente vantajosos a quasi todos os homens das profis-
sões scientistas, isto é, á maior parte daquelles que têm
necessidade de uma educação scientista. Ora, não se podem
obter esses privilégios senão seguindo as lições dos profes-
sores do Estado. Acompanhe-se muito embora, com a maior
assiduidade, a melhor instrucção ao lado de um mestre par-
ticular, não será isto nunca um titulo para pretender adquirir
esses privilégios.

Um homem que possue verdadeiramente algum talento


não teria meio menos honroso e menos lucrativo para empre-
gal-o, do que o professorado particular. Segue-se disto que o
estipendio das escolas e collegios tem prejudicado não
somente á actividade e pontualidade dos professores públicos,
como também tem tornado quasi impossível encontrar bons
mestres particulares.
Se não existissem instituições publicas para educar, não
se ensinaria então nenhuma sciencia, nenhum systema ou
curso de instrucção de que não houvesse alguma procura,
isto é, nenhum que as circumstancias do tempo não tor-
nassem ou necessário ou vantajoso ou conveniente de
aprender. Um mestre particular não se julgaria nunca obri-
gado a adoptar, para o ensino de uma sciencia reconhecida
util, qualquer systema envelhecido e totalmente desacredi-
tado, nem a ensinar sciencias geralmente consideradas como
um puro amontoado de sophismas e insignificante palavrorio,
tão inutil quanto pedantesco. Taes systemas, taes sciencias
não podem viver senão no seio dessas sociedades erectas em
corporações para educação ; sociedades cuja prosperidade e
276 DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIEO

relida são, em grande parte, independentes de sua reputação


»»e totalmente de sua industria. Se não houvesse instituições
publicas para educação, não se veria um joven filho-familia,
depois de haver terminado o curso de estudos mais completo
que o estado actual das cousas comporta, e o ter seguido
com applicação e as melhores disposições, •— trazer para a
sociedade a mais perfeita ignorância de tudo que é assumpto
ordinário de conversação entre pessoas dignas e gente bem
educada.l »
As rasões do notável economista Dunoyer, um dos espíritos
mais liberaes do século, em favor da liberdade de ensino,
não são menos completas. « Ha paizes, diz elle, em que a
pessoa publica é assaz prudente para não querer ser a fia-
dora da capacidade de quem quer que pretenda exercer uma
arte, e assaz justa ao mesmo tempo para não ousar sub-
metter o estudo e a pratica dessa arte a regulamentos arbi-
trários. Em Genebra, se não estou mal informado,2 é medico
quem quer, ou, antes, quem pode. A Republica não impõe a
ninguém a obrigação de collar graus, de pagar diplomas.
Ella deixa aos particulares o cuidado de procurarem por si
quem mereça sua confiança, e quer que aquelles que têm
necessidade de obtel-a se dêm ao trabalho de a merecer.

As cousas entre nós são muito différentes. Os exames são


obrigatórios... a sociedade não tolera que um homem se
torne medico, cirurgião, officier de santé, pharmaceutico,
herbolario, sem ter-se a mesma sociedade assegurado, como
se suppõe, que elle adquiriu os conhecimentos requeridos.
Ainda mais : não crendo que lhe baste conhecer sua capaci-
dade, pretende ainda ella propria doufcrinal-o, e decide de
ante-mão sobre tudo que lhe é preciso para vir a ser hábil
em sua arte. Assim, um joven não se pode entregar ao estudo
i Obra citada, vol. Ill, pag. 121.
2
A liberdade de ensino em Genebra é completa, e illimitada, podemos
dizer em apoio do texto.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 277

da medicina... se não apresenta seu attestado do registro


civil, o consentimento dos pais, folha-corrida da policia,.
diploma de bacharel-em-lettras ou sciencias. A sociedade lhe
escolhe professores ; determina o que lhe deverão ensinar...
Elle é obrigado a seguir essses professores e não outros ;
fazer-se doutorar por elles tão somente : só aquelles que a
sociedade revestiu do gorro quadrado e samarra, têm a vir-
tude de fazer medicos e auctoridade sufficiente para pronun-
ciar o solemne dignus es inlrare. Que o neophyto disponha
de poucos ou de muitos meios, é-lhe preciso sempre, antes
que o reconheçam capaz de exercer a medicina, tantos annos
de estudo, tantos de matrículas, tantos de exames em latim,
tantos de exames em francez, tantos de theses, — nem mais
nem menos. As regras para ser licenciado officier de santé,
ou pharmaceutics, são um pouco différentes, um pouco menos
rigorosas; e como se a medicina exigisse menos habilidade
em um espaço circumscripta que em um território muito
extenso, é preciso, cousa singular, menos formalidades para
adquirir o direito de a praticar em um só departamento, que
para! o de a exercer na França inteira. 0 officier de santé, a
quem só se auetorisa exercer seu officio no departamento
para que foi licenciado, é submettido por isso a provas menos
longas, menos multiplicadas c menos custosas.1
Não ha, apressemo-nos a dizel-o, a mais leve objecção a
fazer contra o alvo a que a sociedade se propõe, por via de
taes regulamentos. Este alvo não é somente muito licito,
mas muito louvável. A sociedade quer impedir, cousa muito
justa seguramente, que a saúde e a vida dos cidadãos jamais
possam ser objecta das especulações da ignorância e do
charlatanismo. Não pode haver duvida possível senão sobre
a sabedoria dos meios que ella escolhe para chegar a esse
1
Este exemplo dado por Dunoyer mostra assaz a irracionalidade do
ensino official, em a nação mais civilisada do Mundo. Imagine-se o que
será elle no Brazil ! . . .

,>
278 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

fim; é, julgo, muito licito ter duvidas sobre este ponto.


Não se pode negar que não haja para a auctoridade algum
perigo e alguma conseqüência ridícula, em pretender deter-
minar o que constitue a sciencia, o que faz que um homem
seja um pharmaceutico, um cirurgião, um medico instruído,
e em que condições ou segundo que fôrmas, será reconhecido
como capaz de exercer a pharmacia, a cirurgia ou a medi-
cina. E' isto, não ha duvidar, um resto do regimen a que
estavam submettidas as antigas corporações de officios,
regimen cujos abusos não consistiam somente em preten-
der-se determinar legislativamente os processos da arte, mas
ainda pretender-se traçar as regras segundo as quaes um
homem poderia tornar-se artesão, os graus por que fora pre-
ciso passar, a obra-prima que precisava fazer para conseguil-o.
A pretenção é absolutamente a mesma aqui, e não é nem mais
justa, nem mais rasoavel. Ninguém se pode enganar quanto
á vaidade das provas a que são submettidas as artes de que
nos occupamos. Boas, como meio de pôr em concorrência
forçada os recipiendarios, ellas não offerecem, alem disso,
senão uma garantia muito insufficiente da capacidade
destes. Já se viu por accaso alguém determinar-se na escolha
de seu medico, de seu cirurgião, pela consideração do
diploma?
Mas, que pretendeis então? perguntar-se-á. Quereis que se
não tome nenhuma precaução? Esperareis, para punir um
charlatão, um empírico, que, por uma serie de erros mortí-
feros, tenha arruinado a saúde ou destruído a vida de um
numero de homens maior ou menor?
Longe disso! Quem poderia conceber uma idéa tão leviana
dos deveres da sociedade? A sociedade não pode permittir
que ninguém comprometia por sua imprudência a saúde ou
a vida de quem quer que seja. Aquelle que ouse, sem preparo
sufficiente, exercer artes tão perigosas como a cirurgia, a
medicina, a pharmacia, e expõe-se assim voluntariamente
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 279

a commetter os erros mais fataes á saúde, á vida de seus


semelhantes, se torna culpado só por isso, e pode ser justa-
mente perseguido e castigado. Com mais forte rasão sem
duvida o poderá ser se essa temeridade tiver acarretado
sinistros resultados a alguém ; mas o poderia ser antes
mesmo que resultassem taes conseqüências? 0 único que se
pode exigir é que o inculpado prove, diante do juiz, que não
abordou levianamente a pratica de sua arte, que não empre-
henüeu senão aquillo que podia emprehender, o juiz apre-
ciando, pelos testemunhos produzidos e verificações feitas,
se não ha com effeito censuras a fazer-lhe... Não é preciso
dizer que se deveria pôr tanta maior severidade nesta verifi-
cação quanto fossem de uma natureza mais grave os factos
que a provocassem.
Em geral, quanto mais delicada e perigosa é uma arte, tanto
mais a sociedade deve, por sua vigilância e severidade de
suas repressões, inclinar aquelles que a querem exercer a
não se entregarem inconsideradamente ao exercício dessa
arte. Mas o perigo que a arte délies apresenta é motivo para
que a sociedade se arrogue o direito de doutrinal-os, de os
examinar, de se constituir juiz de sua capacidade e de
assumir assim sobre si a responsabilidade do saber dos
proíissionaes e de seus actos? Seguramente não. Ha nos
poderes que cila se arroga a este respeito tanta temeridade
quanta injustiça. Digo injustiça, porque a sociedade excede
aqui evidentemente seu direito e porque obedece raramente
nesta usurpação a pensamentos bem desinteressados. Digo
temeridade, porque ella é mediocremente propria para in-
struil-os, sobretudo quando se incumbe exclusivamente disso,
porque dando-se como íiadora da capacidade dos proíissio-
naes, garante aquillo que não pode garantir, dá ao publico
uma falsa garantia, dispensando-o de ter o necessário discer-
nimento e previdência, e faz com que os que exercem a arte
deixem de ter aquelle cuidado e receio que é prudente que
'280 DIKEITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

tenham. Quanto mais delicada 6 uma arte, tanto mais com-


pleta devera ser a responsabilidade de seus agentes, e tanto
mais-, por isso mesmo, se lhes deveria deixar a escolha dos
meios de instrucção, a escolha dos professores e dos
methodos. Não se pode quasi duvidar que as escolas livres,
cujo êxito seria inteiramente subordinado ao mérito, á pro-
priedade, á conveniência do ensino que espalhassem, dispen-
sariam uma instrucção mais solida e mais sã do que o podem
fazer faculdades privilegiadas, — escolas que não temem
concorrência, que estão sempre seguras de ter alumnos,
porque se tornaram necessários os graus que ellas conferem
e porque só ellas têm o direito de conferil-os, escolas em que
as sollicitaçõcs c o empenho tanto contribuem para fazer
professores, como o mérito : em que se não é interessado em
ter suecessores mais hábeis, nem em cumprir melhor seu
dever do que aquelles que o cumprem de maneira insuffi-
ciente : em que os professores mais hábeis e mais zelosos
não são nem mais galardoados, nem gosam de retribuição
melhor do que os negligentes e os incapazes. Tive oceasiâo
outrora de examinar o regimen de nossas faculdades, e
revendo agora minhas conclusões, depois de vinte-e-oito
annos passados, não fico convencido de que fossem inexactas.
As faculdades, por sua natureza, certamente são a parle
mais difficil de defender de um systema nascido da inter-
venção abusiva da commun idade, e que poderíamos consi-
derar vicioso em todo seu conjuneto.
Não somente o privilegio exclusivo de fazer medicos, dado
a certos estabelecimentos, pode impedir que a arte medica
seja bem ensinada, mas pode impedir ainda que seja bem
aprendida. Quando é o diploma que faz o medico, natural-
mente as pessoas limitam-se a fazer o que é preciso para
obter o diploma. Ora, dizei-me se esse titulo, mesmo justa-
mente concedido, offerece uma garantia da capacidade pra-
tica daquelle que o traz? Não fiz notar já que se o pode con-
DIREITO CONSTITUCIONAL BKAZILEIRO 281

seguir sem ter visto um doente, sem ter feito por si mesmo
nenhuma observação sobre o homem vivo, sem ter o menor
conhecimento tcchnico nem das enfermidades, nem da arte
de as curar? Que grande mal haveria pois em deixar de ser
obrigatória a apresentação de diplomas?
Tudo me leva a pensar que haveria, ao contrario, grande
proveito em que se não ligasse a elles nenhum privilegio
legal, nenhum valor official. Quanto menos possível fosse o
ser medico pela simples obtenção do diploma, tanto mais
obrigados se julgariam todos a procurar sel-o pelos conhe-
cimentos próprios. 0 aspirante a esta profissão não sendo
mais admittido a justificar sua capacidade por via de titulos,
ver-se-ia obrigado de certo a procurar justifical-a por outra
maneira. Não desdenharia elle os diplomas, sem duvida. È'
ao contrario muito provável que os procuraria, tanto mais
quanto tendo deixado de ser obrigatórios, e podendo ser
mais facilmente recusados, ganhariam maior fama e adqui-
ririam um valor mais considerável ; como, porém, por si sós
não constituiriam um titulo, veríamos fazer maiores esforços
para dar-lhe por completo esta significação. Fora preciso
trabalhar seriamente para ser capaz, e em seguida mostrar
por suas obras que se o é realmente. Como todas as outras
classes de artistas, o joven medico esmerar-se-ia, sobretudo,
em offerecer como fiança da capacidade que tivesse, sua pra-
tica, seus casos de êxito, seu renome, e isto valeria bem a
segurança que pode offerecer o diploma.
O verdadeiro effeito dos diplomas e certificados officiaes
é permittir áquelles que os trazem, que commettam impune-
mente erros que, em um systema de liberdade e responsa-
bilidade, poderiam ter muito mais serias conseqüências,
pondo-se, portanto, maior cuidado em não commettel-os. No
systema estabelecido, pode um homem tornar-se culpado
clinicando sem titulo, logo que tenha o descuido de não se
conformar com algum regulamento ; mas, observando o que

£
282 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

manda a universidade e a policia, uma vez preenchidas todas


as formalidades ofíiciaes, nada mais ha que temer da propria
leviandade e ignorância, e os mais grosseiros erros, os mais
deploráveis equívocos, não expõem a quem os commetteu a
ser punido, a não ser em casos extremamente raros. x Não
seria assim, no mesmo grau ao menos, num regimen em
que não se pudesse ser medico, cirurgião, pharmaceutico,
senão com os riscos e responsabilidades correlativas ; e
aquelle que, apresentando-se como capaz de exercer essas
profissões delicadas, se houvesse exposto por estouvamento,
ignorância ou charlatanismo, a causar algum grande mal,
poderia ser muito justamente punido e raras vezes o deixaria
de ser. Ora, eu não tenho duvidas de que taes castigos, justa-
mente applicados, não garantam melhor os cidadãos do que
todas as medidas preventivas ; e que uma ordem de cousas
em que a sociedade, renunciando emfim a essas medidas,
deixe a cada um a responsabilidade de seus actos, não offe-
reça aos homens que se queiram entregar á pratica da arte
1
No Brazil não o seria nunca. Temos exemplo no caso seguinte, oceorrido
em uma cidade do Sul. Uma pobre mulher, assustada com inesperado
crescimento no volume de seu ventre, consulta certo cirurgião muito conhe-
cido por incurável mania operatoria. Diagnostica sem demora existência
de grande tumor no ovario, dando um nome muito arrevezado á cousa, o
que mais ainda contribuiu para augmentai' o terror da infeliz. A muito
custo, o medico decidiu-a a submetter-se a uma operação. Marcado o dia, e
com a presença de seis collegas, o nosso doutor chloroformisa a paciente.
Depois de rápido inspeccionamento, um dos que assistiam, receioso de
maguar o responsável pelo que se ia fazer, ousa timidamente ponderar-lhe:
« O collcga procedeu a delido exame nesta mulher ? Não se tratará de uma
prenhez ?» — « Estou tão convencido do acerto do diagnostico, retorquiu o
outro, que... » E metteu o escalpello no ventre da victima.
Pouco depois verificava-se o pasmoso acerto do diagnostico: o tumor
extraído era uma criança de sete mezes !!!
« Macerado, » diz o magarefe, e brutalmente joga o recém-nascido para
dentro de um balde, onde solta o primeiro vagido lamcntoso. Emquanto a
sollicitude enternecida de um collega presta os primeiros soccorros ao
infante, o operador, perturbado, não tendo podido descollar completamente
a placenta, usa dos ferros e vibra um tremendo golpe nas entranhas daquella
desgraçada, que suecumbe após insuperável hemorrhagia.
E este sujeito, por ser diplomado, não incorreu em nenhuma sorte de
responsabilidade, praticando o assassinato que acabamos de descrever...
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIEO 283

medica melhores meios e motivos de bem preparar-se para


ella, do que nenhuma outra.1 »
Vejamos ainda o parecer de outra grande auetoridade, o
economista Courcelle Seneuil. Diz elle : 2
<( Temos muitas vezes falado da necessidade de supprimir
em nosso paiz os privilégios conferidos pelos diplomas, mas
ainda não tínhamos insistido nas considerações que nos
levaram a essa conclusão. Parecia-nos que entre economistas
não era possível haver discussão nem duvida alguma sobre
tal assumpto, como não houve, no fim do século passado,
quando a Àsscmbléa constituinte decretou a igualdade dos
direitos e a liberdade do trabalho.
Vemos, porém, que, ao contrario, se ninguém toma fran-
camente a defeza desses privilégios, é porqKt ninguém os
sente compromcttidos nem mesmo atacados perante a opinião
publica. Apesar de terem já perdido em grande parte a antiga
popularidade, elles estão ainda com vida, e formam, por
assim, dizer, o coração de umai organisação social que quasi
não se ousa considerar em seu conjunto e cujos defeitos sen-
timos sem nos dar conta disso. Convém pois insistir ; mas
não dissimulemos que pedir a abolição desses privilégios é
abrir uma longa campanha sobre uma questão que para a
França c justamente a questão social por excellencia, a que
todas as outras estão ligadas.
I. — 0 PRIVILEGIO. Quando temos tocado nesta questão,
alguns homens instruídos e estimaveis nos têm dito por
vezes : « Ha um equivoco de vossa1 parte. Não existem taes
privilégios nos diplomas conferidos pelas escolas, porque
todo o mundo é admittido a concorrer para os graus universi-
tários e para as escolas polytechnica, militar, de marinha,
agronomia, etc. Alem disso, pode-se ser official do exercito
1
De Ia liberte du travail, liv. IX, cap. II.
s
Dos privilégios conferidos pelos diplomas, trad, brazileira.
284 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

ou da armada sem ter passado pelas escolas respectivas ;


engenheiro do Estado sem ter passado pela escola de pontes
e calçadas, agrônomo sem ter passado pela escola agronô-
mica. Logo, repetimos, não ha privilégios. »
Se se quer sustentar que não ha um privilegio absoluto,
um monopólio perfeito em beneficio dos alumnos saídos desta
ou daquella escola, concordamos de boa vontade. Mas ha um
privilegio positivo e muito real, isto é, um arranjo artificial
que dá a certas pessoas vantagens consideráveis sobre os
seus concorrentes, sem que essas vantagens resultem de
nenhum merecimento actual. Tal qual como no fisco. Ao lado
da prohibição absoluta que detém na fronteira as mercado-
rias estrangeiras, ha os impostos elevados, que, ou não
as deixam entrar, ou apenas lhes permittem entrar por
pequenas quantidades. Os impostos elevados, como as prohi-
bições, constituem uma vantagem em beneficio do produetor
indígena, vantagem que afinal é o consumidor quem paga.
Do mesmo modo os privilégios escolares dão a quem os
possue vantagens reaes sobre os que não têm um diploma,
como faziam no antigo regimen Iodos os privilégios que atten-
tavam contra a liberdade do trabalho.
Imaginemos que um homem de quarenta anos, por um
motivo qualquer, queira ser commerciante, industrial, agri-
cultor, ou pass'ar de um emprego industrial para outro. Elle
pode fazel-o sem encontrar em sua passagem nenhum obstá-
culo artificial ; apresenta-se livremente cm uma concorrência
aberta para todos, e, se dá boas contas de si, sae-se bem da
empreza. Ahi, sim, não ha privilegio.
Supponhamos agora que esse mesmo homem queira ser
advogado ou magistrado. Objectar-lhe-ão logo que elle não é
formado em direito. « Que importa? dirá elle talvez. Eu sei
tudo o que precisa saber um advogado ou um juiz. Podeis
examinar-me, se duvidaes. » « Não, responde-se-lhe; é pre-
ciso o diploma. Para conseguil-o, basta obter primeiro o de
DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO 285
bacharel em lettras, depois provar por meio de matrículas
que frequentastes trez annos a faculdade de direito e que
tostes approvado em taes e taes exames. Podeis fazel­o como
qualquer outro, porque não ha nenhum privilegio em nossa
terra. Somos todos livres e iguaes perante a lei. E' um gosto
contemplar nosso adiantamento ! » Haveis de convir em que
tal resposta mais pareceria um gracejo.
Se também, por hypothèse, um Brunei ou um Stephenson,
depois de ter executado no estrangeiro trabalhos admirados
por todos, pretendesse entrar para a corporação das pontes
e calçadas afim de fiscalisar o calçamento das ruas de Pariz,
levantaríamos os hombros sem lhe dar resposta. O mesmo
acolhimento daríamos ao militar que tivesse como Selves
exercido os cargos mais elevados, que tivesse ganho bata­
lhas, e que pretendesse ser capitão em F rança. Ha, pois,
ahi, um privilegio positivo incontestável.
E' verdade que todos os francezes podem concorrer para
os privilégios de que nos oecupamos, e isto basta ás paixões
igualitárias, sempre mais ardentes do que esclarecidas. —
Ahi, dizem* ellas, não ha castas. —■ Muito bem. Mas não fica
sendo por isso menos certo que nas carreiras em que se entra
por meio do diploma ou do titulo escolar, aquelles que pas­
saram na adolescência pelas provas respectivas têm sobre
seus concorrentes uma vantagem toda artificial, cujos effeitos
se fazem sentir durante a vida inteira.
Ha um principio, muito mais respeitado que qualquer
artigo de fé, que aggrava e de alguma sorte multiplica esses
privilégios : é aquelle segundo o qual, na gerarchia das func­
ções publicas, exige­se que se passe pelas funeções infe­
riores para chegar ás superiores. Tal principio constitue
também um privilegio; mas esse está de tal modo nos cos­
tumes que passa despercebido. Não se vê diffcrença alguma
entre os privilegiados e os não privilegiados, porque as vistas
só se dirigem para a distancia que separa um posto do posto
286 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

superior ou inferior. Mas, por isso, o privilegio não deixa


de existir.
Ha no que foi exposto, sem duvida alguma, privilégios
absolutamente contrários ao principio da liberdade do tra-
balho. Todo economista pode, pois, condenal-os como injustos,
a priori, e sem mais exame. Entretanto, como poderia alguém
tentar defendel-os, baseando-se no principio lato e superior
da utilidade publica, é nesse ponto de vista que convém exa-
minal-os.
li. — PRIVILÉGIOS DIVERSOS. Estudemos primeiro o privi-
legio mais espalhado e mais inoffensivo em apparencia, o do
bacharelado em lettras. E' o objectivo de todas as familias
abastadas e o de um grande numero de familias pobres.
Todas vêm nelle a chave, por assim dizer, das profissões
mais disputadas, porque são julgadas mais nobres do que as
outras, e das profissões dirigentes, porque o exercício dessas
profissões constitue uma verdadeira superioridade social.
Quaes são as condições e os effeitos desse privilegio ?
A primeira condição é passar por um exame. Este exame
tem um programma, cuja fôrma tem sido mudada muitas
vezes nestes sessenta anos, mas cujo fundo continua sempre
o mesmo e comprehende na realidade as matérias do ensino
dos lyceus.
0 primeiro effeito é submetter todos os jovens candidatos
a um ensino uniforme, segundo programmas impostos pelo
Estado. E' um bem ou um mal essa uniformidade?
Nós pensamos que é um mal, e bem funesto, porque, qual-
quer que seja o programma, e mesmo que elle fosse infini-
tamente superior ao que é, seria sempre imperfeito sob
algum aspecto. Ora, se todos os moços recebem o mesmo
ensino, elles serão fatalmente attingidos pela mesma imper-
feição, e não poderão corrigir-se por influencia reciproca. Se,
por exemplo, o ensino é Litterario demais, fomentará em
quem o receber hábitos de contemplação ociosa, o culto da
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 287

palavra elegante, da phrase bem torneada, sem consideração


pelas idéas que exprime a palavra ou a phrase. Se é uma
philosophia de convenção que lhes ensinam, elles nem sus-
peitarão sequer que exista outra. Se é uma historia falsifi-
cada e mentirosa, fundada sobre um ponto de vista pueril do
destino humano, ficarão quasi todos persuadidos que tal
historia é verdadeira.
Em uma palavra, como o ensino é de alguma sorte o molde
que dá forma ás idéas das gerações que se erguem, toda
imperfeição no ensino tem como effeito necessário uma incor-
recção mais ou menos considerável nos hábitos e no discer-
nimento dos moços, uma espécie de mania mais ou menos
grave. Se o ensino fosse variado, esses desvios não seriam
os mesmos em todos os mancebos, e uns poderiam corrigir
os outros, a exemplo do que se passa nos hospícios de alie-
nados, onde se evita sempre reunir os doentes que têm a
mesma fôrma de loucura. Mas com o ensino uniforme não ha
correcção possível : o erro dos governos pode viciar profun-
damente uma serie de gerações e, por conseguinte, a propria
nação. Quando as cousas chegam a este ponto, o remédio só
pode vir de fora. Mas então elle custa caro, se não for mortal.
O ensino uniforme é pois já de si um grande mal, insepa-
rável do privilegio. Com effeito, emquanto existir o privilegio,
a uniformidade é necessária, e é debalde que se decreta a
liberdade de ensino. Como pode existir essa liberdade, se a
distineção social está ligada a tal ensino e se aquelles que o
não receberam são excluídos das carreiras mais honoradas?
Eis o que a esse respeito diz o sr. Juíio Simon : « Como não
hão de os moços querer ser bacharéis se seus pais o
ordenam? E como não hão de os pais ordenal-o? A sociedade
os obriga a isso, porque ella não reconhece por filhos senão
os que são bacharéis. Isso não quer dizer que haja no
Mundo o habito de se tirar gloria de tal titulo, mas ha uma
infinidade de postos que não se pode transpor sem elle... o
288 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

pai que não tiver fortuna e não se preoccupar de fazer de seu


iilho um bacharel, condemna-o de ante-mão a não ser jamais
nem professor, nem advogado, nem magistrado, nem auditor
no conselho de Estado, nem empregado do ministério da
fazenda, nem medico, nem alumno da escola de Saint-Cyr ou
da/ poly technicalx »
De facto, emquanto houver um privilegio na entrada das
profissões mais invejadas, o ensino que o confere será dispu-
tado a todo preço : qualquer outro, seja mil vezes melhor,
será sempre desdenhado. A liberdade de ensino não passará
de chimera emquanto não for abolido o privilegio inhérente
ao diploma escolar.
O segundo effeito do privilegio é corromper o ensino que
conduz a elle.
Com effeito, o exame necessário para alcançal-o domina
todo o ensino secundário, tornando-se o objectivo e o fim de
tal ensino. Mettem-se as crianças no lyceu, ou alhures, não
para que se instruam, mas para que sejam bacharéis. As
famílias não têm, nem podem ter outro alvo.
Eis, portanto, as crianças e os adolescentes entregues aos
estudos que conduzem ao diploma desejado. E' de crer que
os que dirigem esses estudos tenham vistas mais elevadas e
aspirem a ciar um ensino util, próprio para desenvolver o
espirito e o caracter dos alumnos, preparando-os para a
vida. Sem duvida que, tomando a serio o programma, elles
imporão fortes estudos a seus discípulos. De facto, com que
fim derramar por toda a mocidade de uma nação um ensino
uniforme, senão porque se o considera excellente ou pelo
menos porque se deseja propagar certas idéas, certos senti-
mentos, certos hábitos?
Entretanto, cousa bem extranha á primeira vista, preoc-
cupações tão elevadas não se encontram naquelles que
ensinam. O fim dclles 6 o mesmo das familias, fabricar
1
La ré/orme de l'enseignement secondaire, pag. 17.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 289

bacharéis. E não pode ser de outro modo, porque os lyceus


seriam abandonados se fizessem menos bacharéis que as ins-
tituições particulares ou que os collegios dos jesuítas. Dá-se
o mesmo com os collegios particulares, leigos ou congrega-
cionistas. Todos, quer queiram, quer não, soffrem a lei que
lhes impõe a concorrência e esforçam-se por conformar a
offerta com a procura. E desse modo o privilegio, estabele-
cido a pretexto de garantir bons serviços nesta ou naquella
profissão, torna-se para todo o mundo o próprio objectivo do
ensino. A esse respeito, o testemunho unanime dos escri-
ptores mais auctorisados não nos deixa conceber duvida
alguma. Pode-se ver, por exemplo, nos livros dos srs. Cournot
e Julio Simon, como se é conduzido, pela força do privilegio,
a transformar o ensino serio em simples preparação para o
exame.
<( Formar-se-á o habito, diz Cournot, de pôr de lado
durante o curso toda questão que não será apresentada no
exame final, e o grau de importância que se liga a outras
será fixado, não pelo valor intrínseco ou pela utilidade peda-
gógica, mas pela influencia que possa exercer sobre esse
exame, que os regulamentos e a observação diária permittem
conhecer de antemão. Dessa maneira todos os estabeleci-
mentos de instrucção secundaria serão forçados a imitar os
processos dos preparadores de exame, e os estabelecimentos
que forem submettidos a uma direcção mais conscienciosa,
ou os que forem contidos pela fiscalisação official, não serão
certamente os que hão de acreditar-se mais pelos successos
na provo, que constitue a principal, senão a única1, preoccu-
pação das famílias. Debalde a auctoridade imporá pro-
grammas de estudos, explicando bem que não devem ser con-
fundidos com programmas de exames : estes acabam subju-
gando os outros e tornam-se de facto os reguladores dos
estudos.î »
1
Des institutions d'instruction publique en France, pag. 181.
19
290 DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO

Eis ahi em que dá, graças ao privilegio, esse ensino que


(( tira dez annos de vida a todo aquelle que é ou quer ser um
burguez. »
Vejamos agora que garantias offerece á sociedade esse
exame final, decisivo, cujo bom êxito é o prêmio de dez annos
de labores.
Parece que é uma cousa muito simples constatar em um
exame se o candidato possue ou não estes ou aquelles conhe-
cimentos exigidos pelo programma. Mas na pratica surgem
logo as difficuldades, sempre graças ao privilegio.
Com effeito, não renuncia facilmente á suas esperanças
uma familia que tenha sustentado durante dez annos os
estudos de um menino, que tenha fundado no successo do
exame final todos os votos, todos os projectos amontoados
sobre a! cabeça desse menino. Quem se sae mal da primeira
prova, tenta segunda, terceira. Como perder dez annos de
vida? Como renunciar. a essa superioridade social tanto
tempo esperada, tanto tempo sonhada? Insiste-se pois com
bom fundamento nas tentativas, e essa obstinação natural,
legitima mesmo até certo ponto, acaba ás mais das vezes por
triumphal*.
Em primeiro lugar, em todo exame, a parte da sorte é
sempre bastante grande. O examinando pode ser apenas
capaz de responder a uma só pergunta e ser talvez essa a
única que lhe dirijam, assim como pode também estar habi-
litado para responder a todas as questões excepto justamente
aquella que lhe for dirigida. Quanto mais vasto fôr o pro-
gramma, tanto mais considerável é a parte aleatória do
exame. Basta, pois, aventurar muitas vezes para que numa
délias se consiga o successo.
O sentimento que a seus juizes inspira por fim a persis-
tência do candidato, augmenta ainda as probabilidades em
favor deste. Diante dessa obstinação, os juizes, lembrando-se
dos dez annos perdidos para chegar a tal prova, dos sacri-
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 291

ficios feitos pela família, da immensa vastidão do programma


cujas exigências talvez um só sobre mil dos candidatos
poderia satisfazer, da multidão dos que já foram diplomados
sem ter mais merecimento... acabam cedendo.
Poucas palavras diremos sobre a industria dos prepara-
dores de exame. Ella consiste em estudar, em todas as suas
minúcias, a arte de fazer um exame, e de o fazer com bom
êxito mediante apenas algumas phrases ; a estudar, por
exemplo, o fraco de cada examinador, para que o alumno,
convenientemente adestrado, proceda de conformidade, e
obtenha o privilegio com o menor dispcndio possível de
sciencia. Citemos o próprio testemunho délies e vejamos se
confirma ou infirma o dos homens competentes acima refe-
rido. Um prospecto recente (1891) de um desses prepara-
dores contêm o seguinte :
« Meu ensino aproveita a todos os candidatos, mas sobre-
tudo aos que ainda não começaram seus estudos clássicos,
ou aos que foram mais ou menos mal succedidos nelles, e
que, urgidos pelo tempo, tenham grande interesse em acabar
com seus exames o mais depressa possível.
« Todos os annos, muitos candidatos aos bacharelados,
depois de um ou mais insuccessos, renunciam a um grau que
consideram, sem rasão alguma, como estando muito acima
de sua intelligencia ou de sua coragem.
« Convido todos os moços desta categoria a virem pro-
curar-me antes de romper definitivamente com seus estudos.
Nove vezes sobre dez, eu terei o prazer de lhes fazer obter,
com rapidez inesperada, o diploma que desejam.
« Quanto aos alumnos que fizeram regularmente suas
classes, e que são de fosca media, não precisam mais que
seguir documente meus conselhos, para ficarem ao abrigo de
qualquer desastre.
« P. S. — Na minha humilde opinião, noventa candidatos
sobre cem, sob uma direcção intelligente, devem, em pouco

<*
292 DIREITO CONSTITUCIONAL BRA.ZILEIRO

tempo, tirar o bacharelado, cuja difíiculdade é muito mais


apparente que real. »
Não é preciso accrescentar mais nada a esta citação para
julgar das garantias que o diploma offerece á sociedade.
Desde que o privilegio se torna o objectivo do ensino, este
baixa por uma necessidade fatal. O estudo e o trabalho já
não são os únicos meios de attingir o alvo ; ha outros menos
penosos e portanto preferidos; acaba-se por se ver no
estudo só o esforço que custa, o trabalho que dá, e se o aban-
dona com desdém. Uma vez que esse despreso do trabalho
e do real saber tem invadido a mocidade toda, é impossível
trazel-a a uma apreciação mais exacta e mais sã ; os hábitos
de preguiça, uma vez formados, prevalecem fatalmente, e os
examinadores são forçados a ceder á dupla pretenção de
obter-se o privilegio e de se não estudar.
Todas as medidas regulamentares têm sido improficuas
para deter esta decadência. 0 sr. Cournot, que as estudou
muito bem, diz com verdade : « Sejam quaes forem a natu-
reza das provas e as disposições pessoaes dos juizes, o dia-
pasão destes abaixa-se necessariamente com o dos candi-
datos. Quando o numero das reprovações attinge a proporção
de 30 ou 55 por cento, os juizes sentem bem que é preciso
parar ; que a corda arrebentaria á força de ser esticada. E
assim elles approvam com dôr, visto a dureza dos tempos,
candidatos que elles reprovariam pela metaae, se não sen-
tissem as mãos atadas. Cumpre também levar em conta ao
pobre candidato, a perseverança com que elle se tem apre-
sentado a exame quatro, cinco, seis vezes. Ante uma vontade
tão tenaz, de arranjos de família que parecem tão firmemente
assentados, não ha outro remédio senão levantar um veto
que não passa, no fim de contas, em taes condições, de um veto
suspensivo. Estando as cousas neste pé, claro é que quanto
maior numero de candidatos que a( prova escripta tiver afas-
tado, tanto mais indulgência terá de haver na oral;e, em geral,
DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIEO 293

que toda medida adoptada para distender uma corda que


parece frouxa demais, obrigará a afrouxar outras. Ver-se-á
assim que a relação media entre as admissões e as recusas
varia muitíssimo pouco, apesar da mudança dos regimens e
da diversidade das combinações regulamentar es.1 »
Portanto, em definitiva e em realidade, segundo a con-
fissão dos homens cuja posição, cujas luzes e cujo caracter
mais auetorisam a dizer a verdade, as provas pelas quaes se
conquista um privilegio de tanta monta, como o do bachare-
lado em lettras, são irrisórias e não offerecem garantia
alguma da capacidade do privilegiado. Vale bem a pena, na
verdade, oecupar tantos professores e mestres de estudos,
absorver dez annos da vida de tantos mancebos, prival-os
dos exercícios do corpo e muitas vezes da saúde, para
alcançar este resultado : um privilegio concedido a quem não
merece, um titulo de sabedor a quem nada sabe, e a quem se
inspirou despreso e aversão pelo estudo! Que triste lição de
moral pratica! Sim, que poderia fazer de peor quem quizesse
corromper a mocidade, o professorado, e, em summa, a
nação toda?
Se passarmos agora ao estudo dos concursos mediante os
quaes se entra para as escolas que conferem privilegio,
vamos achar as mesmas tendências, os mesmos abusos. 0
acaso em primeiro lugar. Eis o que nos diz o sr. Julio Simon :
« À saúde do candidato, e mesmo a do juiz, a disposição
actual e o temperamento de ambos; a sorte nas questões,
porque pode-se saber todas excepto a proposta, o conhecer
essa e ignorar a maior parte das outras; o modo de propol-as,
porque depende do examinador fazer um problema difficil
da questão mais simples. Quem pode pensar em tudo isso
e não convir em que o concurso... pouco mais vale que a
sorte para a escolha dos capazes?3 » 0 sr. Cournot diz-nos o
* Des institutions d'instruction publique en France, pag. 182.
* Réforme de l'enseignement, pag. 28.

&
294 DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO

seguinte : « Entre os examinadores e os preparadores de


exames se estabelece uma lucta cuja victoria deve caber por
fim aos que são superiores pelo numero, pela continuidade
dos meios de acção, e que são estimulados pelo aguilhão do
interesse privado.1 » De facto, e para tudo resumir numa
palavra, quando o interesse privado se acha em lucta com o
interesse publico ou reputado tal, é sempre o primeiro que
triumpha. E' por isso que, apesar do augmento do numero
dos concorrentes e da multiplicidade das precauções regu-
lamentares, o nivel dos estudos tende a baixar nas escolas
privilegiadas, exactamente como nos candidatos ao diploma
de bacharel. O privilegio énerva e corrompe o ensino, que se
torna, por sua vez, corruptor para a mocidade.
« Essa educação, que não merece tal nome, diz com rasâo
o sr. Julio Simon, rebaixada á categoria de simples prepa-
ração para o exame, de puro enchimento, que só tem por fim
fazer um estudante da escola de Saint-Cyr ou da polytechnica,
ou fazer tirar bem ou mal um diploma de bacharel, que só
mira isso, que tudo sacrifica a esse objectivo, não somente não
eleva muito o alumno que foi bem suecedido, mas perde o
que foi mallogrado : este fica sem collocação, cheio de vai-
dade, incapaz, todo vasio : porque essa sciencia que nem
sequer lhe serviu para fazer um exame, sairá de sua memória
em poucas semanas, sem que mereça entretanto deixar sau-
dades. Não se fica impunemente passivo durante dez annos
da vida, inutilisando o corpo pela immobilidade e o espirito
pela inércia.3 »
Taes são os resultados geraes e constatados dos privilégios
que combatemos, e que é inutil examinar em detalhe, em
suas differenças. Só consideramos aqui seus caracteres com-
muns e seus effeitos sobre o espirito da nação.
Em ultima analyse, todos esses privilégios são fundados no
i Des institutions d'instruction publique, en France, pag. 182.
2
La ré/orme de l'enseignement secondaire, pag. 20-21.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 295

sophisma capcioso, em virtude do qual os indivíduos que pre-


tendem exercer certas funcções, devem apresentar ao publico
garantias de capacidade. Acabamos de ver, com os testemu-
nhos mais auctorisados, que taes garantias actualmente não
existem : um pouco de reflexão nos mostrará que ellas não
podem existir, e que se o diploma garante alguma cousa, é
antes a incapacidade.
Com effeito, para obtel-o é preciso passar por exames e
concursos da ordem daquelles que conhecemos, que só
podem versar, c de facto só versam sobre a instrucção. Vimos,
porém, que, pela natureza das cousas, esses exames e esses
concursos tendem a fazer da instrucção um simples exercicio
de memória, a pôr de lado a que é positiva e seria, a dar ao
espirito hábitos maus.
Mas, admittindo mesmo que se pudesse corrigir esse vicio,
nem por isso seriam menos viciosas essas provas, porque,
na melhor hypothèse, ellas só poderiam constatar a instrucção
dos candidatos, sem nada dizer sobre o seu caracter e cri-
tério. Entretanto, são sobretudo estes dois attributes que
fazem o homem, como o attcstam todos aquelles que têm
vivido e administrado, seja o que fôr.
E' verdade que nem o caracter e nem o critério podem ser
materia de um exame ou de um concurso como esses que
conhecemos, e que mesmo não estão ainda formados na idade
em que se dão essas provas. Mas é justamente por isso que
devemos condemnar, sem excepção nem reserva, esses pri-
vilégios conferidos desde a adolescência a indivíduos que
ainda estão em formação. Concedidos sem merecimento, elles
inclinam os agraciados a não procurarem merecer as posi-
ções a que aspiram, e afastam no futuro a concorrência
daquelles que desenvolveram suas faculdades mais tarde ou
de outro modo. Não é isto incitar os diplomados á preguiça
e prival-os do estimulo que poderia ser-lhes mais util para a
educação do caracter e do critério?

v^
296 DIKEITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Inconveniente por si mesmo, o privilegio é tanto mais pre-


judicial quanto mais cedo for conferido, porque mais cedo
enfraquece os effeitos salutares da concorrência. E' real-
mente uma singular maneira de querer descobrir a capaci-
dade, procural-a por meio de tal regimen, não só impotente
para constatal-a, mas que até impede que ella exista!
III. — PRIMEIROS EFFEITOS DO PRIVILEGIO. São pois os mais
deploráveis possíveis os effeitos que os privilégios inhérentes
aos diplomas exercem não só sobre aquelles que os disputam,
e portanto sobre o ensino, mas também sobre aquelles
que os desfructam, e sobre os serviços que elles prestam.
E sobre aquelles que supportam a carga, a massa dos cida-
dãos que a pobreza priva do ensino secundário, que effeitos
exercem elles? O desanimo, a inveja, o ódio. 0 desanimo
resulta de cada qual ser excluído injustamente de uma con-
corrência a que tem todo o direito. A inveja e o ódio são
inspirados pelos successos sem mérito, pelo orgulho sem
capacidade, a que as instituições nacionaes têm conferido
uma superioridade social toda artificial, que a utilidade
publica de modo algum justifica.
Sem perceberem distinctamente em que consiste o privi-
legio, os excluídos o sentem e o detestam ; porque, apesar
do que se possa dizer em contrario, elles comprehendem bem
que esses privilegiados constituem uma classe separada da
nação, uma aristocracia, no mau sentido da palavra. Não é
propriamente uma casta; porque as vantagens artificiaes não
resultam só do nascimento, mas muito pouco falta quando o
privilegio começa aos quinze annos e dura toda a vida.
Formam uma corporação á parte, animada de um espirito
particular, um mandarinato muito semelhante ao da China,
e cujos títulos disseminados em diversas leis e regulamentos
estão inscriptos muito claramente na opinião. E' verdade
que, com as perturbações políticas e a confusão que dahi
resulta, pocle-sc, sem ter privilegio, subir muito por meio das
"PHI ":

DIREITO CONSTITUCIONAL BKAZILEIRO 297

relações, da cabala e do partidarismo. Um homem vimos


nós, que nunca tendo podido ou querido ser bacharel, chegou
até a ser ministro da instrucçâo publica. Mas esse facto iso-
lado foi considerado um escândalo. Aliaz, todos encaram como
superiores as funcções submettidas ao privilegio, e como
inferiores as funcções livres. Em nossas assembléas polí-
ticas, quem é que não reconhece nos diplomados uma supe-
rioridade que recusa aos outros? Qualquer advogado, medico,
engenheiro, militar, pode falar de tudo, mesmo do que mais
ignora, sempre haverá quem o escute. Mas um agricultor,
um industrial, um negociante, esses, como não são diplo-
mados, sempre se suppõe que nada sabem do que é alheio
á sua profissão.
O que ha de mais curioso é que quando se quiz semear
a discórdia na sociedade franceza e descobrir nella classes
inimigas, foi-se resuscitar a velha e d'ora-avante inexacta
distincção entre ricos e pobres, e procurou-se excitar os ope-
rários contra os patrões, e vice-versa, tomando-se assim por
classes différentes o que não passava de empregos diversos
na mesma funcção, ao passo que se desconhecia a separação
odiosa que acabamos de assignalar. E' uma prova de que
aquelles mesmos que se dizem ou se crêm innovadores
sabem mais repetir do que observar. Elles estabeleceram
uma questão social que não existe e desconheceram a verda-
deira questão social.
Com effeito, se os operários, os assalariados, e os pobres,
em geral, têm verdadeiro motivo de queixa contra a nossa
organisação social, é sobretudo por serem de facto excluídos
das profissões mais preferidas. Se um operário, depois de
ter sido lenhador como Lincoln, pretender como Lincoln ser
advogado, e depois presidente da Republica, elle não o con-
seguirá. Será repellido primeiro pelos regulamentos relativos
ás inscripções, pelos privilégios de diploma, e emfim pelo
despreso que a ordem dos advogados vota a todo aquelle que

^V
298 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

tem exercido funcções industriaes. Assim na realidade, em


França um operário nunca pode vir a ser advogado, nem
medico, nem funccionario publico. São profissões burguezas,
tidas como superiores ás do emprezario industrial e ás do
proletário. Ha nisso um classificação, bem marcada, tão
injustificável quanto odiosa.
Quando se reflecte sobre esta questão, vê-se logo que a
ella estão ligados todos os abusos que se deploram, e que é
impossível fazer uma reforma seria, isto é, duradoura e
fecunda, emquanto existirem privilégios para os diplomados.
Como se ha de, por exemplo, regenerar o ensino, se o privi-
legio impõe a uniformidade e o faz degenerar em simples pre-
paração para o exame? Parece-nos absolutamente impos-
sível. E emquanto não se fizer a reforma do ensino, a sciencia
das cousas será preterida pela das palavras, a memória
levará a palma ao raciocínio, serão mantidos todos os pre-
conceitos do especialismo.
Inversamente, se os privilégios forem supprimidos, a
questão se simplifica. 0 ensino clássico, não trazendo mais
nenhuma vantagem artificial a quem o recebe, fica valendo
pelo que é na realidade : será procurado ou despresado con-
forme for considerado util ou prejudicial a juizo dos moços
ou de suas famílias. E elle poderá ser melhorado, modificado
de mil maneiras, porque então a liberdade de ensino será
uma realidade. A iniciativa particular não tardaria a mostrar,
pela experiência e pelos resultados, qual seria o ensino mais
conveniente ás sociedades modernas.
IV. — O PRIVILEGIO IMPEDE A REGENERAÇÃO DO ENSINO. A
opinião está muito pouco preparada para esta reforma impor-
tante. Todos sentem o mal, mas muito poucos sabem em que
consiste, e mesmo a maior parte dos que o sabem recusam
manifestar francamente sua opinião com receio de ficar iso-
lados. Toda a gente está de accordo em que o nosso ensino
secundário é detestável, igualmente despresado por profes-
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 299

sores e discípulos. Entretanto ninguém ousa, ninguém sabe


reformal-o. As tentativas de melhoral-o que se tem feito
nestes quarenta annos, e que têm sido bem numerosas, têm
falhado todas sem excepção.
E porque? Porque todas conservaram o privilegio. Apenas
tendiam, pela maior parte, a augmentar o programma do
bacharelado. Ora, como o tempo ficava sempre o mesmo,
como as faculdades dos alumnos continuavam a ser sempre
as mesmas, a extensão do programma não podia ter outro
resultado senão obrigar, com rigor maior, a sacrificar tudo o
que não levasse directamente ao fim, — o diploma. Foi assim
que, tendo-se desenvolvido o ensino da historia, ficou redu-
zido a decorar nomes e datas, e ao enunciado summarissimo
dos principaes acontecimentos. Introduziu-se a historia
natural, mas caíu-se logo nas nomenclaturas. Para evitar a
economia política que se impunha, quiz-se ensinar a estatís-
tica, não a estatística comparada e racional, mas o detalhe
dos algarismos. Nós vimos perguntar a um candidato
« quantos carneiros havia no condado de York. » Deplorou-se
a insufficiencia dos estudos geográficos, e obrigou-se logo
os alumnos a aprenderem detalhadamente o curso dos
menores rios, e a successão das estações de estradas de
ferro. A' proporção que o programma se extendia, o ensino
se abaixava mais. As questões dos examinadores se tornavam
mais minuciosas até se transformarem em perguntas cie algi-
beira, como dizem os estudantes em sua giria. Agora supri-
miu-se o programma e dividiram-se as provas, mas não
cremos que se tenha melhorado.
Pediu-se a liberdade do ensino secundário, e ella foi decre-
tada. Seus effeitos podiam ter sido bons ou maus para este
ou aquelle estabelecimento, mas foram nullos no que diz res-
peito ao interesse publico. Nem melhor nem mais abundante
ficou sendo o ensino, e porque? Porque tinha de dar sempre
no diploma.
300 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Talvez se pudesse conseguir, com tempo, melhores resul-


tados da liberdade no ensino superior. Mas quando se agita
esta questão, não se tem precisamente em vista a liberdade,
pretende-se cousa muito différente, — a attribuição para as
faculdades mantidas por corporações religiosas, de confe-
rirem os graus universitários.
Sc o grau fosse o que devia ser, um titulo nú, uma espécie
de marca da fabrica, como os diplomas, das escolas de artes
e officios, de architectura, do commercio, 1 não haveria rasão.
para levantar objecções. Mas é que esses graus conferem um
privilegio civil, e não são ambicionados senão por causa
desse privilegio.
A questão, posta francamente, consiste pois em saber se
convém conceder a estabelecimentos particulares o poder de
conferir um privilegio civil, com vantagens reaes e vitalícias,
ou se esta faculdade deve ser reservada ao governo.
Posta a questão nestes termos, c desprendida de todas as
nevoas em que a envolve uma controvérsia que não se dis-
tingue nem pela clareza nem pela boa fé, não ha margem
para nenhuma discussão. Com cffeito, admittida a legitimi-
dade do privilegio, é preciso, tanto quanto possível, que as
condições do concurso para obtel-o sejam as mesmas para
todos os candidatos. Ora, o melhor meio de conseguir esse
resultado é submetter todos os concorrentes ao julgamento
dos mesmos examinadores, sendo os exames feitos segundo
um programma unico. Alem disso, é evidente que uma
excepção ao direito commum, tão considerável como os pri-
vilégios conferidos pelo diploma, só o poder soberano é com-
petente para pronuncial-a, e só a auctoridade civil pode
regularmente conferir tantas vantagens.
Concedendo-se ás faculdades particulares, congregacio-
* Depois de escriptas estas linhas, essas escolas e algumas outras conse-
guiram privilegio para seus alumnos, sem augmentar as habilitações délies.
Também as condições do bacharelado têm sido retocadas muitas vezes.
Mas, no fundo, nada mudou.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 301

nistas ou não, aquillo que se chama a collação dos graus


universitários, e que não é mais do que uma collação de pri-
vilégios civis, uma concorrência se estabelecerá logo entre
essas faculdades e as do Estado. — Tanto melhor, dir-se-á!
— Sim, se se tratasse de saber qual das faculdades concor-
rentes daria o melhor ensino. Mas nisso não se pensará. 0
que se procurará saber é qual délias tem o maior numero
de alumnos. Evidentemente será aquella que der mais gra-
duados, mais bacharéis, por exemplo, isto é, aquella onde
os graus forem concedidos com maior facilidade ou menos
trabalho.
A concorrência versará sobre qual será capaz de formar
bacharéis mais ignorantes. Seria talvez, no estado actual de
nossos costumes, o meio mais pratico e mais seguro de
acabar de desacreditar o ensino universitário. Collocando-nos
neste ponto de vista, sim, teríamos justos motivos de nos
felicitar se fossem concedidas taes attribuições ás faculdades
livres. Mas não vamos até ahi. Basta que constatemos uni-
camente que tal innovação seria o melhor processo que se
poderia empregar para rebaixar o ensino, que já está tão por
baixo.
Supprimi, porém, os privilégios, e vereis como a questão
muda de aspecto. Logo conhecereis a utilidade que haveria
em que as faculdades particulares pudessem conferir os
graus universitários. Então, com effeito, o objectivo da con-
corrência seria outro, seria mostrar qual das faculdades
daria o melhor ensino, o ensino mais util, o preferível, em
summa, pela sociedade. Não sendo mais viciada pelo privi-
legio, a concorrência exerceria sobre o ensino os excellentes
effeitos que exerce na industria e no commercio. Cabendo
desse modo a preferencia ao mais digno, todos se esforça-
riam por merecei-a, e assim o ensino se aperfeiçoaria em
todas as suas partes, sem que o legislador tivesse necessi-
dade de se oecupar com isso.

£
302 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Supprimai» os privilégios ligados aos diplomas, e con-


cedam ás faculdades particulares, congreganistas ou não, o
direito de os conferir; será isto uma reforma excellente. Mas
emquanto não supprimiren essas vantagens artificiaes, 6 o
Estado, é só o Estado que pode dal-os, se se quer conservar
alguma lógica nas leis e algum trabalho util nos estudos.
V. — GOMO ABOLIR os PRIVILÉGIOS. Vamos agora á pratica.
Como abolir os privilégios conferidos pelos diplomas? Será
possível supprimil-os de uma pennada, um bello dia1, como o
fizera a Revolução? Pensamos que sim. Estamos persuadidos
que os serviços prestados pelas profissões privilegiadas nada
perderiam com o regimen da liberdade. Entretanto, os pre-
conceitos inspirados e alimentados pelo habito do privilegio
têm hoje tanta força em nossa infeliz Pátria, que mal se
ousaria aconselhar ao legislador mais audaz que restabele-
cesse simplesmente o direito commum, que consiste na liber-
dade do trabalho e na igualdade do concurso.

VI. — CONCLUSÃO. Recapitulemos e concluamos :


Os graus da universidade e os exames finaes de certas
escolas conferem a certos adolescentes privilégios pelos
quaes só elles podem exercer certas profissões, com exclusão
de todos os outros cidadãos, ou pelo menos com mais facili-
dades.
Esses privilégios são contrários aos princípios da liber-
dade do trabalho e da igualdade na concorrência, sobre os
quaes repousa a^ sociedade moderna. Cream uma classe e
quasi uma casta, cuja superioridade é toda artificial, admit-
tida a gosar sem merecimento, a subir sem passar pela prova
da concorrência, e, por conseguinte, a viver e a se desen-
volver contra a justiça.
Esses privilégios são concedidos mediante exames e con-
cursos que nenhuma garantia dão da capacidade dos privi-
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 303

legiados, e que attestam quando muito um certo grau de


cultivo da memória. Nenhuma reforma pode ser feita para
melhorar taes exames e concursos. E' uma verdade que a
experiência confirma, e que será fácil de prever...
A reforma é impossível por outro motivo, porque taes
provas só podem referir-se ao saber mnemonico do indi-
víduo, ficando nullas no que diz respeito ao caracter e ao dis-
cernimento, que são elementos mais importantes.
Como todos os privilégios, os dessa espécie têm como
resultado fomentar a preguiça e a vaidade naquelles que os
possuem, e o desanimo e a inveja nos que são excluídos.
Tendem, por conseguinte, a destruir o estimulo util e a
semear a discórdia entre os cidadãos.
Alem disso, corrompem o ensino, donde excluem toda ini-
ciativa individual, impondo a uniformidade. Corrompem-no
ainda fazendo-o degenerar em simples preparação vã para o
diploma, não, como se pensou, por accidente ou imperfeição
do systema, mas por necessidade fatal, tão imperiosa que
todos os esforços dos ministros para ampliar e elevar o nível
do ensino só têm conseguido sua reducção e seu rebaixa-
mento.
Taes privilégios impedem que a liberdade de ensino pro-
duza seus fruetos naturaes, e, emquanto subsistirem, não se
poderia conceder a collação dos graus ás escolas extra-offi-
ciaes, porque essa concessão só traria como resultado pre-
cipitar a decadência e a ruína dos estudos. Ao contrario,
com a supressão dos privilégios, tal faculdade, livremente
exercida, poderia ciar os melhores fruetos. »

A brilhante argumentação de Smith. Dunoyer e Courcelle


Seneuil, atacando o ensino officiai, rue pela base os privilé-
gios profissionaes. Nosso Legislador constituinte, com uma
clara noção de seu papel neste particular, firmou a inteira
liberdade profissional no dispositivo do artigo 72.°, § 24.°, da
304 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Constituição : « E' garantido o livre exercício de qualquer


profissão moral, intellectual e industrial. »
Infelizmente, o sophisma até hoje se compraz na inobser-
vância do preceito. Convém, pois, estudar com mais detença
este ponto.

Uma das causas de confusão e erro, ao examinar-se os


artigos duvidosos da Carta constitucional, é a falta de um
rigoroso estudo determinante do critério interpretativo que
deve presidir a taes labores.
Comprehende-se que, se fica á mercê do modo de ver pró-
prio de cada um, a intelligencia das doutrinas que o Con-
gresso constituinte prescreveu, ao exercer r sua suprema
funeção, este os interpretará em um sentido, aquelle em
outro : — o parlamentarista, de maneira sympathica a seu
systema ; o presidencial, de maneira a que ganhe vigor o
opposto; o monarchista, de maneira a dar-se ás instituições a
feição do passado ; o republicano, a firmar cada vez mais as
que préconisa ; o auctoritario, a fortificar o poder, condição
de ordem social, e o demagogo, as franquias do extremo
radicalismo, dissolvente e anarchisador.
Não ha meio de estabelecer uma interpretação racional,
entregando tal mister ao livre exame individual.
Um exemplo torna claras estas idéas.
Decretou a Bahia, decretou o Ceará, impostos de impor-
tação sobre mercadorias produzidas em outros Estados. Os
partidários da liberdade commercial profligaram-nos como
sendo uma demasia ; os que julgam usarem os governos
locaes de um direito legitimo, defendem a imposição. Domi-
navam os primeiros no Supremo tribunal c vingou ali a dou-
trina por elles esposada, nos vários accordams conhecidos
sobre esta materia. — Fossem em maior numero os adeptos
da outra escola e triumphava o principio opposto...
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 305

Ora, a Lei suprema do paiz não pode ter dois sentidos. A


interpretação do Estatuto fundamental não deve ficar sujeita
a estas alternativas e fluctuações.
Para evital-as, é preciso, em vez de inquirir qual o pensa-
mento particular de cada pessoa sobre esta ou aquella these
incerta, definir qual o pensamento imperante e victorioso na
Constituinte, a respeito do ponto, que tem de ser interpretado.
Trata-se, digamos, de um principio de liberdade : investigar
primeiro se a tendência da Assembléa foi de restringir as
liberdades ou amplial-as. Trata-se do federalismo : se foi de
applical-o com o máximo ou com o mínimo desenvolvimento.
Trata-se da auetoridade : se foi de enfraquecel-a ou dar-lhe
maior e mais forte realce.J Trata-se das funeções do Con-
gresso nacional : se foi de as cercear ou de alargal-as.
Definida a tendência do Congresso constituinte neste ou em
eada um destes casos, a orientação dominante em suas deli-
berações deverá servir de critério nas controvérsias elucida-
tivas da Lei suprema : tal a padrão, a pedra de toque em
que se deverá aferir da legitimidade de uma interpretação
qualquer.
Parai bem encaminhar a que ora se inicia, cumpre inda-
guemos in 'primo loco qual o pensamento do Legislador, no
que diz,respeito á liberdade. — Sustentamos que foi seu
intuito dar-lhe a maxima amplitude possível. E' o que se vae
demonstrar.
A Constituição ad referendum, adoptada pelo Governo pro-
visório a 23 de outubro de 1890, estatuía varias restricções
anti-liberaes, decretando a inelegibilidade para o Congresso
nacional, dos religiosos regulares e seculares, bem como dos
arcebispos, bispos, vigários geraes ou foraneos, parochos,
coadjuetores e de todos os sacerdotes que exercessem aueto-
ridade nas suas respectivas confissões (art. 16.°, n. l.°) ;
declarando inalistaveis como eleitores os religiosos de ordens
monasticas, companhias, congregações ou communidades de
20
306 DIKEITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

qualquer denominação, sujeitas a voto de obediência, regra


ou estatuto, que importe a renuncia da liberdade individual
(art. 70.°, n. 4.°) ; impondo a condição de observância dos
limites postos pelas leis de mão-morta, para as associações
religiosas poderem adquirir bens (art. 72.°, n. 3.°) ; prohi-
bindo a fundação de novos conventos e mantendo a exclusão
da companhia dos jesuítas (72.°, n. 8.°).
Pois bem : o Legislador supprimiu todas essas restricções,
como incompatíveis com o novo regimen, e, não só repelliu
as mencionadas restricções constantes da Constituição pro-
visória, como não admittiu nenhuma outra que limitasse a
liberdade dos cidadãos, que a dita Lei já consagrava, apre-
sentadas em diversas emendas, no correr dos debates. — As
do sr. Lopes Trovão, estendendo aquella prohibição de alis-
tamento eleitoral comminada aos membros das associações
religiosas, até mesmo ás associações de caracter civil sujeitas
á voto de obediência; do sr. Gabino Besouro, ampliando a
inclegibilidade dos sacerdotes, até mesmo daquelles que não
exercessem auctoridade nas suas respectivas confissões ; do
sr. Amphilophio de Carvalho, permittindo relações de depen-
dência de um culto ou igreja para com o governo dos Estados,
a qual punha em perigo a liberdade espiritual, — foram desde
logo rejeitadas.
Mas, não ficou nisso o Legislador. Aperfeiçoando as liber-
dades garantidas na Lei-magna provisória, oppondo-se á
adopção de preceitos que tendiam a desfigural-a, foi mais
alem, e definiu alguns outros, com o firme empenho de
assentar um regimen decididamente livre.
E' assim que aquelle Estatuto incumbindo ao Congresso
ordinário de animar no paiz o desenvolvimento das lettras,
artes e sciencias, bem como a agricultura, industria e com-
mercio (art. 34.°, n. l.°), a Constituinte, sempre ciosa da
liberdade, estabeleceu que b fizesse « SEM PRIVILÉGIOS que
tolham a acção dos governos locaes (art. 3o.°, n. 2.°). »
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 307

E' assim que a Constituição de 23 de outubro (art. 72.°,


n. 2.°), declarando que « a Republica não admitte privilégios
de nascimento, desconhece foros de nobreza, não créa titulos
de fidalguia, nem condecorações, » a Assembléa constituinte
decretou medida mais radical, prescrevendo que a Republica
« extinguia as ordens honoríficas existentes e todas as suas
prerogativas e regalias, bem como os titulos nobiliarchieos
e de conselho (art. 72, n. 2.°). »
Coroando essa magestosa serie de franquias da Lei pro-
visória c outras novas de sua iniciativa, a Assembléa com-
prehendeu entre nossos dictâmes constitucionaes, um que
poz o mais perfeito remate ao capitulo de nossos liberrimos
foros. O representante do Riogrande do Sul, dr. Julio de Cas-
tilhos, havendo proposto o additivo : « E' garantido o direito
de todas as profissões de ordem moral, intellectual e indus-
trial, » a « Commissão dos 21 » adoptou francamente o prin-
cipio, e, por temer seguramente qualquer sophistica inter-
pretação, deu-lhe a luminosa expressão constante do ar-
tigo 72.°, § 24.° : « E' garantido o livre exercício de qualquer
profissão moral, intellectual e industrial. »
Se a esta simples resenha ajunctarmos a enumeração dos
dispositivos liberaes da Constituição citada, que a Assembléa
republicana referendou ; as seguranças prodigalisadas á
liberdade dos cidadãos ; o systema judiciário ideado para a
guarda de seus direitos ; a responsabilidade do poder-publico
que estatuiu, para evitar c castigar as demasias governa-
mentaes contra a autonomia individual, — concluiremos sem
esforço que a tendência dominante no Congresso constituinte,
foi a de firmar a liberdade, alargar o seu raio de acção,
garantil-a em toda a plenitude.
Isto posto, temos aqui o critério interpretativo da Consti-
tuição, no que concerne á liberdade : SEMPRE QUE HOUVER
DUVIDA RELATIVAMENTE A' LATITUDE QUE LHE DEU O LEGIS-
LADOR, A INTERPRETAÇÃO HA DE SER AMPLIATIVA.

N*
308 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Appliquemos agora com sinceridade as conclusões da


investigação feita.
A' luz do critério inspirador das votações do Congresso, o
texto do artigo 72.°, § 24.°, consagra a liberdade profissional
sem limites ou ella deve ser entendida na forma restricta da
legislação anterior, já de si viciosa e illegal?
Enunciar a questão, depois do que foi exposto, é resol-
vel-a : se o Congresso rejeitou, sem exceptuar nenhuma,
todas as restricções que a Constituição ad referendum impu-
zera á liberdade e alargou o circulo da que já esse projecto
incluía, como concluir que aquella que o mesmo Congresso
estabeleceu — sem condições — no texto controvertido, tenha
o estreito campo a que á fina força a querem reduzir?!
O pensamento do Legislador ahi está evidente, manifesto,
patentissimo, no curso dos debates. Elle, como que para
excluir futuras duvidas e impedir qualquer tentativa de
coarctar o que a Àssembléa liberalisara, cuidou de deter-
minar, no artigo 78.°, claramente, nitidamente, precisa-
mente, a verdadeira doutrina legitima, nos casos duvidosos,
definindo qual a insophismavel formula de interpretação da
Lei orgânica brazileira, — formula a que chegáramos pelo
processo inductivo, como antes se viu :
« A especificação das garantias e direitos expressos na
Constituição não exclue outras garantias e direitos NÃO ENU-
MERADOS, mas resultantes da fôrma do governo que ella esta-
belece, e dos princípios que consigna. »
— Para bem comprehencler essa definição constitucional
e saber a que garantias e direitos allude, precisamos estudar
a seguinte these da maxima relevância :
Qual a forma de governo que a Constituição estabelece?
O governo eliminado a 15 de novembro de 1889 tinha como
característico o privilegio : o que o substituiu teve nome
diverso, naturalmente porque acabou com elle e apresenta
uma feição diametralmente opposta ao do que regia o paiz.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 309

Ora, se clirainanos o privilegio dynastico um dos mais


rasoaveis — e não exigimos habilitação legal, preparo espe­
cial, carta official, para que um brazileiro se dedique á trans­
cendente profissão de governar o Estado ou á mais alta
magistratura federal, se consagre ás mais altas e compli­
cadas funcções políticas, se empregue no supremo e elevado
mister de curar do que convém ao vasto organismo nacional ;
— difficilmente se comprehende que o Legislador, x com um
flagrante illogismo, impuzesse condições ao exercício das
simples profissões de ordem inferior, em cuja pratica é tão
fácil instituir uma previdente responsabilidade, aliaz mui­
tíssimo árdua de conseguir naquelle primeiro caso.
0 característico do regimen republicano é a livre concor­
rência que garante a todos, em face de todas as funcções
privadas ou publicas.
Logo, alem das garantias e direitos expressos na Consti­
tuição, foram por ella assegurados aos brazileiros todos os
outros até agora excluídos por privilégios antes em vigor,
salvo os ainda mantidos expressamente, e só esses.
Está nessa hypothèse a liberdade profissional? ■— Nós o
negamos redondamente.
Outra, de facto, não pode ser a interpretação. Se o Legis­
lador tivesse por mira, como se diz, permittir apenas que
« toda pessoa legalmente habilitada possa exercer sua pro­
fissão sem peias e livre de leis que lhe coaretem a liberdade,
comtanto que não prejudique direitos alheios, » interpretação
errônea, mas que também era corrente no tempo do Império,
nada tinha innovado e consagraria a doutrina da Carta de
25 de março de 1824 : « Nenhum gênero de trabalho, de
industria, de cultura ou de commercio pode ser prohibido
quando não seja opposto á moral publica, á segurança ou á
saúde dos cidadãos. »
1
Non debet, cui plus licet, quod minus est non licere, Dig. lib. L, tit.
XVII, 21, Ulpianus lib. 27 ad Sabinum.

?
310 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Se esse fosse seu pensar, o Legislador não despresaria um


texto que, pelo menos, se prestara a ser assim interpretado,
para decretar outro que se presta a uma comprehensão radi-
calmente opposta.
Mas, muito ao énvez disto, o que pretendeu visivelmente
foi livrar a Lei suprema do escandoloso sophisma e flagrante
violação, communs no regimen transacto, a propósito da
liberdade profissional.
Na verdade, muito a despeito do bello paragrapho 16.° do
artigo 179.° da Carta promulgada por D. Pedro e que só elle
bastava para eterna gloria deste illustre Principe : « Ficam
abolidos todos os privilégios que não forem ligados essen-
cial e inteiramente aos cargos, por utilidade publica, » e seu
decorrente, não menos bello : « Todo o cidadão pode ser
admittido aos cargos públicos civis, politicos ou militares,
sem outra differença que não seja a dos seus talentos e vir-
tudes, » continuaram em vigor os privilégios dos que se
muniam de habilitação officiai para o exercício das profissões
liberaes, capeiosamente fundando-se os medicos diplomados l
na doutrina do artigo 179.°, § 24.°, que reputavam prohibitiva
de toda e qualquer medicina extra-official, como se ahi o
Legislador não se houvesse apenas limitado a vedar « o
gênero de trabalho ou industria » em opposição com « a
moral, segurança e saúde dos cidadãos! »
Não era o caso evidentemente do advogado sem carta...
Era, porventura, o do curandeiro?
Sim, tão somente quando exercesse sua arte ou trabalho,
inc;dindo na hypothèse que o mandava excluir. Exemplo :
1
O exemplo destes induziu os diplomados em direito a reclamarem para
si a manutenção do privilegio. Curioso é que aquelles ainda a pretendiam
fundar na doutrina do art. 179°, § 24°, « segurança e saúde dos cidadãos ; »
os bacharéis em quê? —Nós piamente o ignoramos...
« A nação o que quer, disse Cândido Mendes, é possuir hábeis juriscon-
sultes, tanto importa que tenham obtido carta, nas academias, como que se
façam por si sós. » Leia-se o discurso deste abalisado jurisperito, membro
illustre do partido conservador e do Senado imperial, em a nota Uno appendice.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 311

Prova-se que um individuo, diplomado ou não (a Consti-


tuição imperial nunca o distinguiu), procura alliviar uma
mulher dos incommodos e perigos do parto, com offensa de
sua integridade physica, inhabilitando-a para a geração
(rasão de ordem moral) ; prova-se que um outro vende incau-
tamente a qualquer pessoa grandes porções de um tóxico
violento (rasão de segurança dos cidadãos) ; prova-se que
um terceiro receita para o tratamento da alopecia, uma loção
com forte dose de cantharidas (rasão de saúde dos cidadãos) :
— tem lugar a prohibição taxada na lcttra do artigo 179.°,
§ 24.° \
Nunca, porém, desse texto concluir que a Constituição da
monarchia privilegiava os medicos officiaes ou outros quaes-
quer diplomados : a interpretação assim é capciosa e inte-
resseira.
Foi para não deixar nenhuma ensancha a qualquer tenta-
tiva liberticida, que a Constituinte procurou dar á formula que
adoptou, a limpidez crystalina que tem. Mesmo assim, os
monopolisadores intentam empanar a pureza daquelle su-
blime canon constitucional!
Nestes termos, é evidente que o artigo 72.°, § 24.°, não
pode ser entendido da fôrma acanhada por que o pretende o
sophisma dos interessados na manutenção do privilegio pro-
1
Esta interpretação não é somente nossa : é do grande estadista da regên-
cia, Bernardo Pereira de Vasconcelios, que em seu projecto de código
criminal não considerou crime o exercer a medecina, sem carta. Tão libe-
ralmente entendia o art. 179% § 24°, pensando haver esse texto abolido toda
classe de monopólios, que, na sessão de 15 de maio de 1830, impugnou até
omonopolio postal que o Estado se arrogara, nestes termos : « Acho que
se devem examinar estes actos, que são contra a Constituição, Estas instru-
cções (as relativas ao decreto sobre a administração do correio) não revo-
garam só leis existentes, mas também a Constituição, com aquelle principio
que firmou o estabelecimento do monopolio, de que ninguém pode remetter
suas cartas senão pelo correio, isto contra um artigo expresso da Consti-
tuição, que permitte a todo o cidadão o exercício e trabalho que bem lhe
parecer, comtanto que se não opponha á saúde e segurança do Estado.
E estará este monopólio estabelecido nas excepções da Constituição ? — D
certo que não. »
Vide no appendice a nota V.

s£"
312 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

fissional, e sim de modo totalmente contrario e liberalissimo,


— julgamento que se conforma com as auctorisadas regras :
Benignius leges interpretandae sunt, quo voluntas earum
conservetur (DIG. 1. 1.°, t. Ill, 18 Celsus lib. XXIX diges-
torum). Semper in dubiis benigniora praeferenda sunt. (DIG.
1. 50, t. XVIÍ, 56 Gaius lib. 3 de legatis ad edictum urbicum).
In re dubia benigniorem interpretationem sequi non minus
justius est quam tutius (DIG. 1. 50, t. XVII, 192 Marcellus
lib. 29 digestorum § 1). E sobretudo estas : Expressa nocent,
non expressa non nocent (DIG. 1. 50, t. XVII, 195 Modestinus
ib. 7 differentiarum). Nulla juris ratio aut aequitatis beni-
gnilas patitur, ut quae snlubriter pro utilitate hominum intro-
ducunlur, ea nos duriore interpretations contra ipsorum
commodum producamus ad servitatem (DIG. 1. 1.°, t. III,
25 idem lib. 8 responsorum).x
1
Vem a ponto citar aqui alguns trechos de notável discurso do dr Esme-
raldino Bandeira, lente da Faculdade de direito do Rio-dc-Janeiro, que
representa com brilho excepcional no Congresso, o Estado de Pernambuco.
« Votaria por esse concurso ou exame, se entre nós fosse observado o
salutar preceito do art. 72.", § 24.°, da Constituição, que garante, contra os
sophismas possíveis, o livre exercício de todas as profissões honestas.
(Apartes).
« Sim, devo esta declaração á Câmara : sou um franco partidário da liber-
dade profissional e acredito que essa grande conquista sociológica está expres-
samente consignada em nossa lei básica. (Apartes.)
« Conheço os argumentos contrários que se costumam oppor á affirmativa
que acabo de fazer e, cousa curiosa, foi a fraqueza desses próprios argumen-
tos que mais concorreu para a opinião que sobre o assumpto tenho hoje
firme e arraigada.
« E a propósito da aceitação que entre nós têm tido os sophismas oppos-
tos á lettra expressa daquellc texto constitucional, pude verificar a justeza do
conceito de conhecido pensador inglez, quando constatou que — o homem de
espirito recebe muitas vezes a credito um erro vulr/ar e não cuida abso-
lutamente de submettel-o a exame.
« Muitos são os argumentos que eu poderia produzir em favor de minha
maneira dever sobre a questão ; muitos e de natureza différente.
a Assim é que sob o ponto de vista rigorosamente jurídico, logo se me
depara o seguinte preceito, até hoje incontestado : AS RKSTIUCÇOES AO DIREITO
COMMUM, OS P R I V I L É G I O S , NÃO SE SUPPÕBM — NÃO SE INDUZEM NEM SE D E D U -
ZEM ; OU VÊM EXPRESSAMENTE CONSIGNADOS NA L E I , OU NÃO EXISTEM A B S O -
LUTAMENTE.
« Ora, nenhuma restricção ha na mesma Constituição ou no próprio texto
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIEO 313

— Estas citações fazem-nos entrar de cheio no campo da


hermenêutica, e ahi perguntamos : qual o elemento de inter-
do art. ?2.°, § 24.', que a todos assegura o livre exercício de qualquer profis-
são moral, intellectual e industrial.
« Logo, a exigência de um diploma acadêmico, como condição sine qua
non para o exercício dos cargos da magistratura, do ministério publico, da
advocacia, da medecina, e demais profissões intellectuaes, ê inaceitável, por
isso que importaria cm uma restricção ao direito commum do todos os cida-
dãos brazileiros, assegurado amplamente pela Constituição ; porque valeria a
creaeão de um privilegio em favor de certas classes sociaes, sem declaração
expressa de tal privilegio e de tal excepção na lei básica da Republica.
« Ainda pelo citado texto constitutional as profissões moraes e intellectuaes
foram equiparadas ás industriaes.
« Mas, ao passo que para o exercício destas ninguém exige diplomas aca-
dêmicos, esses mesmos diplomas são por muitos exigidos para o exercício
daquellas.
« Palpável contradicção.

« . . . Corri relação á advocacia, entre nós se verifica a mais curiosa e a


mais illogica das contradições, pois que se permitte a qualquer indivíduo
(muito de propósito digo indivíduo e não cidadão) diplomado ou não, o exer-
cício da advogacia criminal, e só aos diplomados em direito se consente ad-
vogar no cível e commercio !
E' que, incontestavelmente, para muitos, a vida, a liberdade e a honra
valem menos que a propriedade.

« Não ha como illudira questão o não posso ser acoimado de suspeito me


externando nesse sentido, corno me tenho externando, porque sou um bacha-
rel formado como toda gente.
UM SR. DEPUTADO — Toda gente ?
« O SR. ESMERALDINO BANDEIRA — Sim, toda gente ; pois quem ha por
ahi que não saiba direito?
« Todo o mundo é doutor. (Riso).
« E entre os diplomados não sou o único que assim entende o texto consti-
tutional: alem de outros, me oceorrem ã lembrança os nomes de Ubaldino
do Amaral, Carlos de Carvalho, Aureliano de Campos, L. Teixeira, A. Tupi-
nambá, tão justamente reputados nas lettras jurídicas.
« Que fique, porém, consignada de vez esta verdade : que aquelles que
pugnam pela liberdade profissional de forma alguma confundem-na com o
charlatanismo e com a ignorância audaciosa.
« Muito ao contrario, a dispensa do diploma acadêmico é plenamente com-
pensada pela demonstração continua da competência profissional.
« O titulo implica uma supposição de saber ; a liberdade profissional exige
provas positivas desse saber.
« A liberdade do exercício, longe de prejudicar, aperfeiçoará pela concor-
rência todas as profissões de que trata a nossa Lei fundamental e concorrorá
para tornar verdadeira a responsabilidade criminal dos ineptos e culpados,
hoje tão protegidos pelos privilégios das classes a que pertencem. » — Sessão
da Câmara dos deputados, de 27 de outubro de 1900.
314 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

pretação que justifique o parecer dos monopolistas ? — Dos


três enumerados pelo douto Paula Baptista : grammatical,
lógico e scientifico, o primeiro jamais lhes serviu de argu-
mento, da mesma fôrma o segundo ; só no terceiro, e deste
apenas na historia da lei, fundaram suas pretenções expolia-
doras.
Quanto ao elemento grammatical, não ha duvida, con-
fessam : é claro o texto em questão. Reconhece-se ahi que é
livre o exercido das profissões, não distinguindo o Legis-
lador se trata de profissões diplomadas ou não, e onde a
lei não distingue, nos é vedado fazel-o : Ubi lex non distin-
gua, nee interpres distinguer•e potest.
Neste terreno não ha margem para discussões, tal a
lucidez, o brilho, o esplendor, da declaração constitucional,
o que seria sufíiciente para obstar qualquer tentamen inter-
pretativo em um paiz respeitador da lei, pois, como é de
regra, interpretatio cessât in Claris.
Isto sabem a fundo nossos doutores e jurisprudentes
desde a academia, onde lhes ensinou o mestre citado que
« uma vez que as noções proprias e regular es dos termos
removem toda a duvida, mostrando o verdadeiro sentido da
lei, SERIA ABSURDO DEIXAR ESTE SENTIDO, por Conjecturas já
então arriscadas e fataes ao principio da fixidade das leis,
sem a qual não haverá certeza na legislação. » — Herme-
nêutica juridica, pag. 385, nota.
Lex est quod lex voluit.
Mas (allega-se), o que está escripto não é o pensamento do
Legislador.
Admittamol-o por um momento e assim passemos a consi-
derar o caso á luz do elemento lógico.
O Legislador ao estabelecer o livre exercido de que fala o
artigo analysado, facultou-o a todos os profissionaes ou uni-
camente e exclusivamente aos profissionaes diplomados?
O facto não se presta a conjecturas, como succède em leis
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 315

antigas, de cuja origem certa e segura genesis pouco


sabemos, e principalmente da inspiração sob que agiram
seus auctores : .só por illações mais ou menos fundadas
podemos conhecel-a. Aqui, não ; é nosso contemporâneo o
auctor do texto controvertido ; familiar nos é sua opinião.
Ainda ha pouco em uma epístola que foi traduzida na Europa
e serviu de base, diz-se, á discussões de um congresso scienti-
fico, o dr. Julio de Gastilhos, x que é o representante a que allu-
dimos, manifestou mais uma vez suas liberrimas idéas, con-
trarias á minima regulamentação das profissões, — idéas
inteiramente postas em pratica no Riogrande do Sul, sem
prejuiso algum, particular ou social, até a hora presente.
Verificado assim o que havia tido em mente o Legislador e
que ha perfeita identidade entre o espirito e a lettra da lei,
« conhecidos estes motivos, conhecidos estão os effeitos, que
ella tem de produzir, e para cujo fim foi feita, 2 » — que
duvida pode restar no animo de juizes imparciaes, como já o
tem mostrado um délies, em luminosíssimas sentenças?!
— Mas... e o elemento histórico? retorquem ainda os inte-
ressados. Ah, ahi é que fica bem patente o verdadeiro sentido
do texto!
Estudemos com sincera inteireza o que nos diz a historia
da lei.
Para reproduzir com fidelidade os fundamentos da argu-
mentação dos adversários da liberdade, seja-nos permittido
transcrever as allegaições essenciaes do mais activo paladino
do monopólio, o dr. Isaias Guedes de Mello.3
* Antes de ser apresentada pelo dr. Julio de Castilhos a idéa da liberdade
profissional, o fora pela commissão incumbida pela Governo provisório de
elaborar o projecto de Constituição. E' um outro elemento valioso para inter-
pretar-se o que depois foi aceito e faz parte da Lei fundamental. Veja-se o
parecer de um dos membros da dita Commissão, cuja importância não é
preciso encarecer, em a nota V, no appendice.
* O citado Paula Baptista, pag. 411.
3
Liberdade profissional. Noticia sobre o elemento histórico, por I. G. de
Mello, 1894.

^
310 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Sustenta' o intelligente advogado que a Assembléa consti-


tuinte, havendo rejeitado as emendas que ao additivo do
dr. Julio de Castilhos apresentaram vários representantes,
todas declarativas da dispensabilidade do diploma para o livre
exercicio das profissões, ipso fado devemos concluir que o
seu pensamento foi estabelecer que « a liberdade profis-
sional devia continuar a ser entendida como no regimen
extincto,1 » isto é, com restricções.2
E' uma perfeita erronia : as limitações da liberdade é
mister que sejam expressas, para terem valor legal. Demais,
essas emendas foram rejeitadas por « inúteis e ociosas, . »
bem patente fica isto diante do que já expuzemos.
Alem disso, interpretar de tal modo os debates da pri-
meira Assembléa republicana, é mcthodo que pode arrastar
nossos famosos interpretes a escandalosos absurdos. E, se
não, vejamos :
O clr. Epitacio Pessoa apresentou um additivo ao ar-
tigo 10.°, n. 3, da Constituição ad referendum : « E' vedado
aos Estados, como á União, pres'crever leis retroactivas ; »
assim redigido : « salvo para eliminarem ou minorarem
penas. » O additivo foi rejeitado.
Segundo a comprehensão dos interpretes a que estamos
combatendo, resulta desse voto a atroz conseqüência de
suppor-se que a Constituinte decretou que um condemnado
continuará a soffrer uma penalidade que a propria legis-
lação veiu a supprimir ou julgou excessiva!...
O dr. Francisco Badaró apresentou igualmente uma addi-
tivo, mandando acerescentar no artigo 54.° : « A Constituição
6 a lei suprema da Republica; nenhuma lei pode derogal-a.
Em caso de conflicto entre uma lei anterior ou posterior, o
4
O referido folheto, pag. 28.
* Note-se que no próprio regimen da Ordenação, as restricções não iam
longe. Medite-se este texto : « Os boticários podem fazer mezinhas, sem
medico ou cirurgião, se seguirem livros. » — Liv. V, tit. 89.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 317

juiz deve applicar a Constituição. » 0 Congresso também re


jeitou essa proposição.
Porventura concluiremos dahi que a repulsa do additivo
importa em admittir-se o disparate de que qualquer lei pode
derogar a Constituição ou que, no referido caso de conflicto,
o juiz poderá deixar de applical-a? — Vejam-se os absurdos
effeitos de tão peregrina hermenêutica!
Não; o Legislador, nestes, como no caso da liberdade pro-
fissional, repelliu as emendas ou additivos, por julgal-os dis-
pensáveis : esclarecer um texto claríssimo, a seu vêr fora
redundância imperdoável.
Até aqui nos havemos limitado a acompanhar os raciocí-
nios dos partidários do privilegio, no próprio e único terreno
em que se encastellam : o elemento histórico, a genesis da
Jei. Mas, nós o temos feito em homenagem ao publico brasi-
leiro, a quem desejamos esclarecer de todo, evidenciando as
msophismaveis bases de nossa convicção : nunca pelo mere-
cimento da argumentação dos pareceres até hoje publicados,
sustentando doutrina contraria, pois facilimo fora fulminal-a
com a simples citação de um voto da Àssembléa republicana,
que constitue solemne e formalissima declaração constitu-
cional, a respeito da liberdade das profissões, — voto este
que com uma singular constância os propugnadores do pri-
vilegio têm deixado sempre de citar... Humana malícia ou
teimosa inadvertencia o certo é que elles, tão apressados
em fazer uma rebuscada historia da lei, nunca se esquecem
de cuidadosamente enumerar as diversas emendas que não
foram aceitas e que, segundo pensam, confirmam a theoria
interpretativa que adoptaram, deixando, todavia, de citar a
acto legislativo que precisamente elucida e liquida a questão.
Ponhamos de parte as occultas intenções dos homens,
ponhamos de parte a extranhavel deslembrança que, por
muito persistente, poderiam alguns taxar de suspeita, e his-
toriemos os factos.

V
318 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Já o Congresso, por sua « Commissão dos 21 » havia admit-


tido a doutrina do artigo 72.°, § 24.°, quando em sessão de
7 de janeiro de 1891, anniversario do celebre decreto 119 A,
do Governo provisório, que fundava em nosso paiz a mais
ampla liberdade espiritual, o dr. Demetrio Ribeiro, represen-
tante do Riogrande do Sul, apresentou á Casa a seguinte
moção :
« Considerando que a política republicana se baseia na
mais completa liberdade espiritual ;
Que OS PRIVILÉGIOS CONCEDIDOS PELO PODER CIVIL aos
adeptos de qualquer doutrina, alem de iniquos, por um lado,
e humilhantes, por outro, sempre tem servido para retardar
o natural advento das ideas e opiniões legitimas, que pre-
cedem á regeneração dos costumes ;
Que as crenças religiosas destinadas a prevalecer não
carecem de apoio temporal, como a Historia o demonstra;
Que, em face da crise espiritual que caractérisa a phase
actual da sociedade, É INÚTIL E VEXATÓRIA A ATTITUDE TUTELAR
DO PODER PUBLICO em relação ás CONCEPÇÕES THEORICAS, theo-
logicas, METAPIIYSICAS ou SCIENTIFICAS :
Que nas reformas políticas devem ser ponderadas as con-
dições materiaes, em que se acharem os serventuários das
funcções que forem eliminadas :
O Congresso nacional, reunido em sessão, no 1.° anniver-
sario do decreto que instituiu a separação da Igreja do
Estado, resolve louvar aquelle acto governamental, afir-
mando desta arte sua effectiva solidariedade com o principio
politico da COMPLETA separação entre o espiritual e o tem-
poral, E SUAS CONSEQÜÊNCIAS PRATICAS.
Sala das sessões, 7 de janeiro de 1891. — Assignado,
Demetrio Ribeiro. »
Eirn seguida, pediu a palavra o deputado mineiro dr. Fran-
cisco Badaró, que advogava tenazmente a necessidade do
consórcio da igreja catholica com a Republica, e protestou
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 319

contra essa e contra todas as t moções análogas que viessem a


ser apresentadas, mas a Assembléa, julgando soberanamente
que taes princípios carcleaes do systema politico proclamado
a 15 de novembro, não podiam soffrer contestações em um
congresso republicano, encerrou immediatamentc a discussão
e approvou a proposta, por immensa maioria.
Onde vae buscar novas a r m a s agora o sophisma? — 0
próprio baluarte em que se recolhera, está por terra : o pró-
prio elemento histórico, — lealmente — considerado, exclue
a viciosa interpretação monopolista.
O texto acima, pela primera vez citado, é d'ora em diante o
único elemento interpretativo aceitável, pois consubstancia
de modo inilludivel o pensamento do Legislador : repelliu
elle TODOS os PRIVILÉGIOS CONCEDIDOS PELO PODER CIVIL AOS
ADEPTOS DE QUALQUER DOUTRINA, COllSidcrOU INUTIL E VEXA-
TÓRIA A ATTITUDE TUTELAR DO PODER PUBLICO em relação ás
concepções THEORICAS, theologicas, ntetcephysicas ou SCIEN-
TIFICAS, e affirmou SUA INTEIRA SOLIDARIEDADE COM o PRINCIPIO
DA COMPLETA SEPARAÇÃO ENTRE O ESPIRITUAL E o TEMPORAL, E
SUAS NATURAES CONSEQÜÊNCIAS PRATICAS. *

i Quaes são as conseqüências praticas do principio politico da completa


separação entre o espiritual e o temporal ? — O domínio espiritual compre-
hende as doutrinas, o temporal tem sob sua jurisdicoão unicamente os actos
que se relacionam com a existência material da sociedade. Aquelle não pode
abraçar directamente o que se passa na vida civil ; a este é vedado immis-
cuir-se no debate ou concorrência das opiniões, idéas ou princípios. Resulta
da fundamental distineção ahi feita, que ao Estado moderno incumbe apenas a
ordem material, consequentemente cabendo-lhe garantir, com a mais perfeita
neutralidade, que seja livre, seguro, tranquillo, imperturbado, esse debate,
essa concorrência. Se tal 6 a missão do poder temporal, segue-se que tudo o
que diz respeito aos vários cultos seguidos pelos cidadãos, ensino das diffé-
rentes escolas, profissões que escolham, etc, são outros tantos departa-
mentos a que é alheia a competência do Estado e que caem na esphera da
auetoridade espiritual.
Esta, porém, até ha pouco unida ao governo civil, pedia-lhe a saneção da
força para regular aquellas questões. Separada uma do outro, desappareceu
a violenta intervenção do Estado, ficando, portanto, livres de qualquer coa-
cçào a pratica dos cultos, a faculdade de ensinar, a manifestação do pensa-
mento por qualquer fôrma, o direito de associação ou reunião, o exercício
das profissões : eis as conseqüências praticas do acto legislativo do governo

^
320 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Que mais precisamos saber, para nos convencermos de que


não soffre restricção alguma a liberdade profissional e de
que se a Constituinte rejeitou as emendas elucidativas do
artigo controvertido, é porque as julgava ociosas, visto haver
definido clara e positivamente o seu pensar, em solemne
moção anterior, — se podesse haver duvida seria, em face
das terminantes expressões do texto constitucional?!
E' o caso de dizer que — legem habemus : não mais
discutir.
— No entretanto, para de antemão tolher qualquer novo
tentamen do sophisma, cabe aqui analysar o texto contestado,
diante de outros aspectos do elemento scientifico : o direito
natural, o publico, a moral, a materia sobre que versam as
leis, e a ligação entre ellas, segundo as instituições de direito
a que pertençam.
O direito natural, como expressão de um direito primitivo
impresso pelo creador na creatura, é doutrina que o critério
moderno repelliu do domínio da sciencia.
Podemos, todavia, dar-lhe uma feição consentanea com
esta, se o considerarmos como o corpo de ideas que define
as condições existenciacs da sociedade humana, e neste caso
se confunde com o que chamamos sociologia.
Assim visto, é o direito natural o archetypo do direito civil,
da revolução, sanecionado pela Constituinte, que estabeleceu o definitivo
divorcio entre o espiritual e o temporal.
Que o pensamento do Congresso foi de eliminar TODOS os privilégios quaes-
quer, nós o verificamos ainda no facto que a moção acima commémora,
pois o decreto de 7 de janeiro de 1890, não somente estabeleceu a liberdade
religiosa, como pensam algums : « PROHIBIU á auetoridade federal, assim
como à dos Estados federados, CREAR differenças entre os habitantes do
pais, ou nos serviços sustentados á custa do orçamento, P O R MOTIVO DE
CRENÇAS, ou OPINIÕES PIIILOSOPHICAS ou religiosas (artigo 1°\ »
O illustre representante da Bahia, dr. Augusto de Freitas, notável pelo saber
jurídico, brilhante intelligencia, eloqüência seduetora e persuasiva, susten-
tava o monopólio dos diplomados. Depois que meditou sobre os termos da
moção Demetrio, com a mais nobre franqueza nos fez a declaração de que
sincerarnentente não se podia, diante delia, sustentar a opinião contraria
á plena liberdade.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 321

o ideal para que tende e que procura realisar atravez dos


séculos. Quando, pois, haja silencio na lei civil, próprio é
guiarmo-nos pelos dictâmes da lei natural. Na hypothèse, tem
lugar a pergunta : é uma condição existencial da sociedade
que se exija dosprofissionaes uma habilitação legal previa,
para o exercício das respectivas profissões? — « Não è a
natureza que decidirá... podemos dizer com Bonald,l porque
é muda sobre esta grande questão ; não é pois uma lei fun-
damental. Qualquer opinião que se suscite sobre ella, terá
partidários e adversários, é uma opinião a discutir; pode-se
hoje ter uma e amanhã outra... Não ha, pois, nada de neces-
sário nesta lei ; não é, portanto, uma lei fundamental. »
Basta, porém, voltar os olhos sobre o passado do gênero
humano, para offerecer-se uma negativa contestação ao que-
sito : a Humanidade dispensou-a sempre e nem por isso
perigou jamais sua existência. Admittia-a certo tempo e a
tal processo, de transitório effeito nas artes e officios, renun-
ciou logo.
Gonclue-se que, diante do direito natural, não ha excusa
para o privilegio, e igualmente em face do direito publico,
demonstração que nos dispensamos de estabelecer agora,
por já ter sido feita, neste próprio estudo.
A moral, tanto como as doutrinas anteriores, o repelle. O
principio que domina na civilisação christã é esse que nos
legou a sabedoria chineza pela bocea de Confucio, e que os
fundadores do catholicismo aproveitaram : Faze aos outros
o que queres que te façam.
Vejo o soffrimento alheio, lembro-me de um meio de sup-
primil-o ou mitigal-o, e tal caridade, que eu desejaria para
mim, deixarei de praticar, porque o Estado me o impede?!...
Estude-se a hypothèse de uma povoação sem diplomados
(ha tantas no Brazil), invadida de uma terrível peste.
Privar-se-á uma pessoa do lugar, mais esclarecida do que as
í Théorie dupouooir, vol. I,
âl
322 DIREITO C0N8TITUCI0NAI BRAZILEIRO

outras, de acudir aos atacados, com as medicinas que


conhece? — Nunca : a moral ordena-lhe o contrario.
Admitte-se que a Lei suprema da Republica esteja em
desaccordo com a moral?!
Vejamos a materia sobre que versam as leis. « As leis, diz
o hermeneuta, em relação ás diversas matérias sobre que
versam, não exprimen mero arbítrio; mas um systema sábio,
com princípios e meios adaptados a lins certos... Estes prin-
cípios fundamentaes, meios e fins, são outras tantas regras
de interpretação, ou meios scientificos de distinguir o sen-
tido anormal do perfeito ou normal. Assim, a interpretação,
que der á lei commercial um sentido desastroso ao credito,
será anormal, etc... »
Diante desta lição, convém apenas perguntar : pode ser
normal o sentido que os monopolistas querem dar á lei de
liberdade inscriptano artigo 72.°, § 24.°, sentido que a destroe
ou, pelo menos, a cerceia?
Interpretatio illa sumenda quœ magis convenu subjectœ
materiœ, é a regra inilludivel!
Se encararmos o assumpto sob o aspecto da ordem geral
que domina todas as leis, veremos que « quanto á materia de
seu especial e exclusivo domínio, » as disposições relativas
á liberdade foram, na Constituinte, dignas da mais perfeita
approvaçâo e ampliadas em seus termos, repellindo ella toda
e qualquer innovação tendente a renovar privilégios, — como
íicou patente na primeira parte desta demonstração.
A boa hermenêutica, como se viu, põe o mais decisivo
remate á controvérsia : sob os auspícios da Republica brazi-
leira gosam todos os cidadãos de illimitada liberdade profis-
sional.
— Liquidada a questão no terreno jurídico, é opportune
estudal-a á luz da conveniência social.
Já provamos que não é indispensável á sociedade a preco-
nisada exigência da habilitação legal. Mas, dizem, não é
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 323

imprudência sem nome deixar a saúde e vida dos indivíduos


á mercê da ignorância ou charlatanismo?
Aqui a solução da questão depende de uma outra, preli-
minar : o diploma por si elimina, naquelle que o traz, a igno-
rância ou a tendência para o charlatanismo? — Respondemos
que não, e é fácil de proval-o :
1.° Mostrando, quanto á ignorância, a clinica de muitos
de nossos diplomados : um conhecemos nesta cidade, que
capitulou de manifestação syphilitica, na presença da esposa
de um cavalheiro, o apparecimento de certo parasita, a tricho-
phicia circinata cruris, que não conhecia, mostrando-se
assim alheio á noções vulgares de sua arte, como a rudimen-
tares preceitos da ethica medica ;* outro, que operou uma
inditosa mulher que o esculapio dizia ter volumoso fibroma
no utero, quando o que veiu a extrair foi uma criança de sete
mezes, facto descripto em. a nota da pagina 282; outro, que
encaminhando-se á casa de um distincto e talentoso funccio-
nario da Republica, para fazer na digna esposa desse nosso
illustre concidadão, trabalho cirúrgico análogo ao do caso
anterior, deparou-se-lhe a sua quasi victima livre do tumor
e... do medico, por um simples aborto, e seja dito de pas-
sagem que se trata aqui de um reputado lente ; outro, que
compondo um braço quebrado, o fez com tamanha perícia
que, ao retirar o apparelho, deu com a mão do infeliz operado
em posição inversa da natural, sendo preciso de novo que-
brar o braço para endireital-o ; outro, que forneceu attestado
de óbito por febre amarella em um acesso de lethargia, vivo
até hoje estando o morto, medico em o Estado do Rio-de-
janeiro; —
2.° Mostrando, quanto ao charlatanismo, que é immensa a
dynastia dos Purgons, dos diplomados que alardeiam suas
maravilhas curativas e usam de praticas que repugnariam a
i Este mesmo doutor, tratando de uma conjunctivae, usa de certo cáustico
em dose tal, que cegou instantaneamente a pobre creatura que lhe caiu
em mãos, joven senhora da capital federal.

<*
324 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

um curandeiro de consciência. 0 próprio Koch não noticiou


ou deixou noticiar no Mundo inteiro os prodigiosos effeitos
de sua tuberculina? Quantos não se pejam de insinuar a seus
clientes os expontâneos agradecimentos de que andam cheios
os jornacs, com os elogios mais bombásticos, ridículos, indis-
cretissimos, ou não publicam annuncios-reclamos de uma
vergonhosa indignidade, propondo até a cura de secretas
fraquezas!...
Desfeita esta duvida, tem-se clara a solução do problema :
se a saúde e vida dos cidadãos pode ser posta em perigo
pela ignorância e charlatanismo, tanto do diplomado como
daquelle que o não é, o que cumpre é estabelecer a respon-
sabilidade de todos os que se dediquem á arte de curar. Nada
mais lógico e simples.
De facto, como ensinava o insigne jurista sergipano Tobias
Barreto, ao Estado pouco interessa o saber se attentamos
contra a integridade do indivíduo com uma faca, um pau,
um veneno ou uma outrai droga qualquer, imprópria para o
uso a que a destinaram : — para elle o que importa é o feri-
mento, a mutilação, o estrago feito em qualquer cidadão, ou
sua morte culposa por vontade, erro ou descuido de alguém :
não a arma ou o meio com que se praticou o attentado. A
arma ou o meio, no máximo, entra no processo como escla-
recimento, para determinar circumstancias que occorrem no
crime.
Quanto ao homicídio, por exemplo, o código penal (titulo X,
capitulo I) não liga importância ao facto material do instru-
mento do crime, apenas considerando (artigo 39.°, § 2.°) o
emprego do veneno e substancias anesthesicas, como uma
circumstancia meramente aggravante. Quanto ás simples
lesões corporaes (titulo X, capitulo V, artigo 303.°), apenas
define : « Offender physicamente alguém, produzindo-lhe dòr
ou alguma lesão no corpo, embora sem derramamento de
sangue. » — Isso é o que importa ao Estado. As outras
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 325

penas que consigna o titulo III, artigo 156.°, são, pois, alem
de inconstitucionaes, exorbitantes dos poderes naturaes do
Estado.
Tanto é verdade que a exigência de habilitações legaes
nada tem com a saúde dos cidadãos e delia se cuida como
cousa á parte, é que o código impõe penas para um e outro
caso, em separado : « Pelos abusos commettidos no exercício
illegal da medicina em geral, os seus auctores soffrerão,
alem das penas estabelecidas, as que forem impostas aos
crimes a que derem causa (artigo 156.°, § único). Se o Legis-
lador do código houvesse isto decretado com o puro zelo da
« saúde publica, » elle ter-se-ia limitado a comminar as penas
da ultima parte do paragrapho, pois de outras não precisa
para resguardal-a ; como, porém, quiz proteger o mono-
pólio, dando á cubiça o colorido do bem-publico, aproveitou
o ensejo para aggravar odiosas penas impostas aos que com-
mettam delictos contra as pessoas, no exercício da medicina.
Resulta de tal instituto jurídico o seguinte absurdo : que o
simples assassino, o que calmamente concebe o crime e o
réalisa, é passível de uma só pena ; o cidadão que, por inex-
periência, engano ou ignorância, — na humanitária pratica
de curar — mata ou lesa a outrem, é passível de dupla pena :
a lei o considera mais criminoso do que aquelle scelerado!
A que deploráveis contrasensos conduz os homens o triste
desejo de assegurar un mal entendido interesse!...
Não! a saúde publica não exige uma excepcional garantia
contra os curandeiros : sim, contra todos os que lhe tragam
prejuisos, qual se define em outros artigos do Código. Isto
lhe basta.*
4
Demais, a repressão da chamada pratica illegal da medecina é irreali-
savel. Como responsabilisar o chefe de familia que, no recesso do lar, admi-
nistra drogas aos doentes de sua familia ? — Impossível ! Ora, se este se
livra das penas da lei, é justo punir a outros, porque commcttem o mesmo
delicto ás claras, quando « a lei, segundo a Constituição, é igual para todos,
quer proteja, quer castigue ?» — Não é do mesmo modo impraticável, se o

s*
326 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Esta a doutrina que sustentamos. E', no entretanto, na


questão da arte de curar que o preconceito se mostra mais
emperrado. Porventura não deu seus mais difficeis passos a
medicina antes de existirem as academias officiaes?
Esse venerando'Hyppocrates, citado em todas as theses de
doutorado, não foi um simples curandeiro? E, todavia, quem
mais serviços prestou á arte?
Diocles, continuador do grande clinico de Cos, Praxagoras,
« o primeiro que percebeu que o pulso pode fornecer signaes
preciosos nas doenças, x » Erasistrato e llerophilo, cujos des­
cobrimentos anatômicos tamanho valor tiveram na evolução
da sciencia, assim como outras grandes figuras da escola de
Alexandria ; Asclepiades, a quem a arte deve a distincção
entre as doenças agudas e chronicas, Celso, vulto notável da
medicina antiga, Galeno, a primeira figura da arte na antigüi­
dade depois de Hippocrates, Aly Abbas, dentre os arabes, —■
não brilham como fulgurantes astros da vasta constellação
dos medicos notáveis, que jamais defenderam theses e obti­
veram graus acadêmicos? Não são todos elles curandeiros
illustres, bemfeitores da Humanidade e factores admiráveis
da arte que hoje se quer manter em odioso privilegio?
Morreu accaso a geração dos homens por faltarem
escolas officiaes? — Não! que as conhecemos de hontem e a
marcha do Mundo ia adiantada quando surgiram.
— Neste assumpto deve ter muito peso o parecer dos pró­
prios medicos, não o dos que que pugnam pelo privilegio, por
ser parcial e suspeita, mas a dos que se não arreceiam da
concorrência e aceitam a plena liberdade, repellindo o mono­
polio.
Um délies, eminente pelo talento e saber, assim se mani­
festa :
curandeiro allega que interveiu, que « praticou o crime, para evitar mal
maior, » facto este que o Código (art. 32°) declara não ser criminoso?
* Broussais, Examen des doctrines médicales, vol. I, pag. 71.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 327

« Mais do que qualquer outra profissão, a arte de curar


exige a mais completa liberdade. Longe de despresar a con-
corrência dos empíricos honestos, todo digno medico deverá
abster-se de invocar contra elles toda e qualquer repressão
legal e apenas deverá esforçar-se por substituil-os na con-
fiança dos doentes. Só uma apreciação defeituosa do estado
da opinão poderá levar os governos a manter uma protecção
muitíssimas vezes immerecida e que o que pode retardar é
a regeneração da medicina. »
« E' pela auctoridade de sua palavra, é pela sua conducta e
devotamento que um verdadeiro medico conseguirá pôr de
lado os curandeiros quaesquer. Longe de repudiar os resul-
tados da medicação empírica, da qual nasceu, como não ha
duvidar, a arte medica, deverá elle, pelo contrario, apro-
priar-se de todos os que se acharem devidamente confirmados
pela experiência. Não ha de esquecer também que é a esta
que a medicina deve os seus meios mais efficazes. A medi-
cação especifica, isto é, a crença espontânea na existência
de um remédio correspondente a cada moléstia, ainda conta
partidários no próprio seio das faculdades mais afamadas.
Sem estar a este respeito mais adiantados que os medicos
fetichistas, pretos ou chinezes, os nossos modernos doutores,
se considerarmos apenas os resultados, são bem inferiores,
pelo contrario, aos seus primitivos confrades, que sabem sin-
ceramente fazer partilhar aos doentes a confiança que elles
têm nos meios que empregam. Tal é, certamente, em nossos
dias, a origem do êxito incontestável obtido por alguns char-
latães indignos.1 »
No seio do corpo medico brasileiro já se manifestou uma
generosa reacção contra o privilegio. 0 dr. Bagueira do
Carmo Leal, em um folheto profusamente espalhado, declara
com franqueza « que a existência de uma medicina official
importa na confusão dos poderes espiritual e temporal, pela
* Audiffrent, Appel aux médecins, pag. 158 et 159.
328 DIKEITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

invasão do governo no dominio daquelle, julgando e impondo


doutrinas médicas ; que o monopolio medico vae de encontro
á liberdade de profissões, principio fundamental do regimen
republicano; que a sciencia deve impor-se pela demon-
stração, e perde sua dignidade, tornando-se suspeita, quando
quer impor-se pela força ; que o academicismo não tem uma
theoria exacta das funcções do cérebro, nem por conseguinte
de sua pathologia, nem das relações do physico e do moral
do homem, e mostra desconhecer a indivisibilidade da natu-
reza humana pelo cultivo exagerado das especialidades ; que
o mesmo academicismo não tem uma theoria exacta da natu-
reza das moléstias, em geral, de seu modo de invasão e pro-
pagação, nem possue meio algum infallivel para as impedir
ou debellar ; que não é justo conferir o monopolio de curar
a quem desse modo está longe de executar cabalmente o que
propõe ; que esse monopólio embaraça o progresso da
sciencia, pois tende a suffocar qualquer theoria, verdadeira
ou falsa, que surgir fora das academias ; que o emprego
habitual dos medicamentos sendo baseado somente na effi-
cacia manifestada em casos parecidos, e não havendo theoria
acadêmica alguma que explique exactamente a sua acção,
fica a therapeutica official reduzida ao puro empirismo, e não
é justo que se proteja certos empiricos de preferencia a
outros ; que, sendo assim, os medicos diplomados, tanto
como os não diplomados, podem apresentar resultados the-
rapeuticos valiosos, o que, aliaz, é universalmente reconhe-
cido, não tendo outra origem a arte de curar ; que, a pretexto
de saude publica, o verdadeiro fim da guerra aos curan-
deiros é afastar a concorrência para melhorar a situação
material dos medicos, embaraçada pelo seu numero exces-
sivo ; que a perseguição aos curandeiros não afastará sua
concorrência, pois não haverá lei nenhuma capaz de impedir
os cidadãos, mesmo os ricos e lettrados, e até medicos, de
procurarem seus conselhos ; que a saude publica nada lucra
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIEO 329

com essa perseguição, accrescendo que mais perigoso que o


livre exercício da medicina é armar com o diploma indivíduos
incompetentes ; que, finalmente, havendo charlatanismo tanto
entre os diplomados, como entre os medicos sem diploma,
o monopólio em vez de afastal-o, só consegue previlegial-o. »
E'digno de ler-se igualmente o que a este respeito escreveu o
dr. Jayme Silvado, clinico nesta capital : « Aquelles que comba-
tem o nosso modo de encarar a questão da liberdade clinica
pensam ou fingem pensar que os curandciros pullulariam no
dia em que fosse explicitamente decretada essa liberdade. E'1
que elles ignoram ou fingem ignorar que a liberdade que pedi-
mos não exclue a responsabilidade; pelo contrario. O Legisla-
dor ao lado da liberdade clinica deve collocar a responsabili-
dade pelos abusos ou mesmo pios crimes que porventura
venham a ser praticados. Admittindo mesmo que o numero dos
curandeiros augmentasse, ainda assim a objecção não proce-
dia, porque só a posteriori se poderia dizer se a sociedade viria
a perder ou a ganhar com esse augmento, mas temos rasão
para crer e para sustentar que, ao contrario, o numero
délies diminuiria, porque, ao inverso do que agora se dá,
elles teriam de assumir a responsabilidade dos seus actos, o
que tornaria o exercício da clinica muito mais serio. Como as
cousas tem estado, os medicos sem diploma escapam á res-
ponsabilidade, porque é-lhes muito fácil usar de subterfúgios
tendentes a evitar a fiscalisação. Havendo liberdade com a
obrigação de assignar suas prescripções, a fiscalisação se
tornaria mais fácil e os abusos mais facilmente seriam repri-
midos. Com a manutenção do privilegio estes abusos se dão
muito facilmente e a cada artigo do regulamento é opposto
um novo artificio, illudindo assim ás previsões legaes. E'
assim que nada se oppõe a que os curandeiros tenham
medicos diplomados servindo de testas de ferro. E este facto
já se tem verificado entre nós por mais de uma vez.1
1
O sr. Eduardo Silva tinha um medico a seu serviço, em S. Paulo.

£
330 DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO

Dissemos acima que só a posteriori se poderia affirmar


que a sociedade ganharia ou perderia com o augmento dos
medicos espontâneos. E' a verdade. Aquelles que combatem
os medicos sem diploma partem de uma supposição falsa,
crendo que elles sempre são prejudiciaes e julgando-os de
antemão criminosos só porque exercem a medicina sem au-
ctorisação legal. Ora, temos rasão para garantir que entre
elles ha ou pelo menos têm havido muitos homens úteis e que
os medicos diplomados estão a todo instante utilisando-se do
estudo desses humildes servidores da Humanidade que, ob-
scuros e quasi sempre illettraclos, têm ás vezes um poder
observador notável. Nos lugarejos do interior, onde os
medicos officiaes muitas vezes não querem viver, elles a
todo momento prestam serviços, ás vezes os mais desinte-
ressados, por pura vocação medica e por altruísmo.
E não ha com certeza nenhum medico official bastante
ousado para negar o conhecimento pratico que esses homens
obscuros têm das propriedades curativas das nossas plantas,
entre as quaes ha modificadores therapeuticos dos mais pre-
ciosos. Qual é o medico clinico do interior que desconhece
no carimbamba pelo menos estes conhecimentos? E não é da
pratica do carimbamba que as plantas medicinaes passam
para a pratica do medico official? Quem revelou aos medicos
diplomados as propriedades therapeuticas do jaborandi, da
quina, das varias euphorbias purgativas, cla ipecacuanha, do
pau pereira, do jacaratiá e de mil outras? Ainda mais. O
medico diplomado não se dedignou de aprender com o curan-
deiro a tratar com resultado admirável as victimas de certas
moléstias, entre outras a denominada hypoemia intertropical
ou melhor anchylostomiase. Por ahi se vê que o medico espon-
tâneo pode prestar serviços e que não é justo accusal-o de
antemão. Torne-se elle culpado e o rigor da lei punil-o-á,
como a qualquer criminoso. Aquelles a quem elle lesar serão
os primeiros a accusal-o, apontando-o á justiça.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 331

Vê-se assim que não ha inconveniente em ser livre o exer-


cício da clinica. O dever do governo é cumprir a lei, man-
tendo o preceito constitucional. Entretanto, se as acutori-
dades, violando a nossa lei fundamental, perseguirem os
medicos não diplomados, nenhum proveito dahi tirarão,
porque não é com regulamentos e com arbítrios de hygie-
nistas inquisitoriaes que se muda a natureza humana. E con-
tinuará a ser medico quem quizer. E cada um continuará a
ter a liberdade de consultar a quem quer que lhe inspire
confiança. »
Numa celebre discussão scientiíica ultimamente travada no
Rio-de-janeiro, alguém fez referencia á auctoridade de certa
pessoa, allegando que essa era um medico, e a isto respondeu
o abalisado Barata Ribeiro, professor illustre da Escola de
medicina : « Pode s. exa. ser doutor em medicina E NÃO SER
MEDICO, pode ser medico E NÃO SER CLÍMCO, pode ser clinico
E NÃO SER CIRURGIÃO. ))

Quanto aos medicos, eis, pois, liquidado o ponto : uma


das mais elevadas summidades da sciencia official declara
alto e bom som quanto ha que distinguir entre os verdadeiros
medicos e os simples diplomados com o titulo de doutores
em medicina.
Duclaux, reputado director do instituto Pasteur de Pariz,
apontando os vícios do ensino official, só vê um remédio para
os males resultantes dessa medicina praticada em virtude de
diploma « arranjado com uma bagagem scientifica sufficiente
apenas para os exames, » — na mais ampla liberdade de
ensino E DE PROFISSÃO. Cabanis, o grande physiologista,
dizia : « Os medicos de Cos bem longe estavam de suppor
que a medicina podesse ser professada do alto de uma
cathedra e distante dos objectos sobre que tem de agir. A
verdadeira maneira de a ensinar é ensinal-a ao pé do leito
dos enfermos. Sob os olhos do professor, e quasi sem sua
participação, se formam jovens medicos cuja instrucção é

v':
332 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

tanto mais solida quanto é ella feita a expensas da natureza.


Neste exercício continuo de sua propria sagacidade e discer-
nimento, em face de quadros abrangendo um complexo de
factos, contraem o habito de melhor os ver : repulsa por
todo raciocínio que lhe seja alheio. » De facto, bem se pode
definir com Baglivio : ars medica tola est in observalionibus.
Quanto ás outras profissões, da do engenheiro é dis-
pensável falar : a do diplomado em direito está no mesmo
caso. Diremos, entretanto, que é menos sustentável ainda a
exigência de um preparo official, quer para o exercício dos
cargos da magistratura, quer para a advocacia. Baste "dizer
que, a aceitar-se a pretensa necessidade de um diploma para
que se possa obter um lugar entre os juizes, nosso Rebouças,
um jurisconsulte de justa fama, não poderia vestir a toga em
nenhum dos tribunaes do paiz!... Baste dizer que a tolerar-se
a peregrina interpretação que impõe exhibam as cartas os
advogados, para serem admitlidos no foro, Luiz de Miranda,
o notável jurisperito cearense, teria de fechar sua procura-
dissima banca, ou, então, ir pedir um certificado a lentes que
se lhe não emparelham no saber jurídico, ou provisionar-se,
sujeitando-se ao julgamento de juizes que deveriam talvez
aprender com elle!...
(( As pretenções exclusivistas imperaram também em
outras artes, » 1 constata Dunoyer, e acerescentamos : impe-
raram igualmente nas industrias. As necessidades do pro-
gresso, todavia, supprimiram-nas todas, como antagônicas
com o livre desenvolvimento humano : o privilegio retrogrado
fere sua derradeira batalha defendendo o monopólio das pro-
fissões liberaes, o ultimo a resistir, muito breve vencido de
todo, e para sempre, em o nosso Brazil.

Profissão ha entre nós que o Legislador constituinte, por


motivo já exposto, deixou sob o regimen da mais estúpida e
i De la liberté du travail, livro IX, cap. II.
DIKEITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 333

funesta dependência : a profissão bancaria. Pelo artigo 34.°,


§ 8.°, ficou estabelecida em favor do Congresso federal a
faculdade de « crear bancos de emissão, legislar sobre ella e
tributal-a. »
Justifica-se a intervenção do governo em assumpto desta
ordem, sustentando que ella é indispensável para evitar-se o
abuso nas emissões. Em primeiro lugar, julgaríamos suffi-
cientemente esclarecido o ponto em questão, com os dados
fornecidos pela propria experiência de casa e dos visinhos,
limitando-nos a citar os tristes exemplos do Brazil1 e Argen-
tina, para que assim se verifique a fiscalisação official em
nada haver impedido o abuso, antes haver cooperado muito
para elle. Em segundo, bastar-nos-ia jogar com os factos que
nos fornece também a experiência de paizes da Europa, como
por exemplo a Grã-Bretanha, pois, no dizer de Wilson, em
meiados do século, a Escossia, onde vigora a liberdade ban-
caria, gosava proporcionalmente de uma circulação fidu-
ciaria muitíssimo inferior á da Inglaterra, que mantém ainda
o monopólio bancário. Em terceiro, é fácil provar que o abuso
nas emissões só se dá propriamente e justamente quando o
governo se immiscue nesses negócios.
Cada mercado emprega uma certa somma de numerário
1
Apesar de suas intimas relações com o Estado, o primeiro banco do
Brazil alargou de tal forma a sua circulação, que esta subia cm 1829, anno
em que o mandaram liquidar, a 21.574:920$, sendo seu « fundo metálico dis-
ponível, de 1.315:439$ e em carteira 3.302:7308 ! » — Castro Carreira, Historia
financeira do Brasil, pag. 691.
Como se vê, desde o inicio da circulação bancaria no paiz, a acção do
governo só nos têm dado desastres. Para liquidar essa primeira que tivemos,
foi em 1835 onerada a nosso Pátria « com a importância de cerca de 19.000
contos de papel circulante, » como faz notar Cândido Baptista de Oliveira á
pagina 59 de seu S y sterna financial do Brasil. Dahi para cá os erros têm
continuado, a ponto de estarmos em vésperas de uma catastrophe, e com a
circulação depreciadissima, a despeito das famosas vantagens da interven-
ção officiai... (Nota da I a edição).
Livro apparecido em 1877 no extremo norte da Republica, traça um quadro
expressivo das tristes conseqüências do papel-moeda de curso forçado : uma
antevidencia maravilhosa da situação actual ! — MartinusHoyer, Estudos de
economia política, pag, 100.

V1
334 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

para operar as transacções sobre os productos permutaveis


do paiz. Se por effeito de emissões de papel bancário, a
somma da circulação vier a exceder á que é necessária para
as transacções normaes do paiz, — que vemos? — Como não
é de uso ter o capital desaproveitado, immediatamente a
somma disponível é enviada a outro mercado, e como não
pode ir o papel bancário x porque não encontraria fácil acei-
tação, é em espécies que se opera a sangria, para evitar os
maus effeitos dessa plethora nos canaes da circulação.
Se ainda novas emissões vierem reproduzir o phenomeno,
ir-se-á assim successivamento verificando a mesma saída de
metaes, até seu quasi total desapparecimento e substituição
pelo papel. No dia em que se chega a este termo, toca-se ao
limite das emissões : — toda outra que se intente ingerir nos
canaes da circulação, tendo de ficar inactiva por desneces-
sária para as transacções do mercado, e não podendo o
excesso ter emprego no exterior, — volta immediatamente ás
caixas dos bancos, mantendo-se assim sempre em o nivel
normal a circulação publica.
« Examinem-se todas as combinações imagináveis, e reco-
nhecer-se-á sem difficuldade que os bilhetes de banco, 'desde
que sejam sempre pagaveis á vista e ao portador, jamais po-
dem exceder uma certa somma em um determinado mer-
cado, nem deixar um instante de ter um valor exactamente igual
ao da moeda metálica. Por conseguinte, o governo nada tem
que fazer para regular um valor que acompanha- constante-
mente o da moeda metálica, já definido na lei, nem para limitar
emissões já limitadas pela natureza das cousas, e o credito,
util em principio, pelo qual o publico empresta aos ban-
queiros uma certa somma de moeda metálica necessária ás
permutas, lhes permitte que transformem em capital produ-
ctivo de renda um capital que nada produzia. »
Só a acção nociva dos governos é que pode conseguir
4
Clare, VA B C des c/ianges étrangers, pag. 198.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 335

manter em um mercado uma excessiva circulação fiduciaria,


dando curso forçado aos bilhetes.
« Sujeitando todo banqueiro á obrigação de trocar seus
bilhetes immediatamente e sem condição de espécie alguma,
no acto de serem apresentados, pode-se sem temor de com-
promelter a segurança geral, deixar a seu commercio, a
todos os respeitos, a maior liberdade possível. »l
« E' desnecessário que o Legislador emprehenda regular
os bancos a seu bel prazer, limitar-lhes a acção, prescrever
as operações que devam fazer e as de que se devam abster,
submettel-os emfim a regras excepcionaes, como é de uso
fazer em quasi toda parte.2 Longe disto, toda tentiva desse
gênero é sempre seguida de funestos effeitos. Estudae a his-
toria dos bancos, e vereis que os males muito reaes que elles
têm por vezes infligido aos povos, procedem, como de uma
fonte envenenada, da acção illegitima que os governos
exercem sobre os bancos.
Menos util ainda é limitar-lhes o numero, porque esse
numero deve ser tão somente regulado pelas necessidades, e
taes necessidades não é dado a ninguém conhecel-as de
antemão; só a experiência 6 que as revela e os aconteci-
mentos que as attestam. Em geral, convém que essas insti-
tuições se multipliquem, porque, quanto mais numerosas
forem, tanto menos sensíveis serão as faltas particulares ;
mas, em vão tentaria um governo precisar a este respeito a
justa medida : elle iria necessariamente alem ou ficaria
aquém : haveria abafamento cie um lado, perigo do outro.
Quanto ao principio adoptado em alguns paizes, e particular-
mente em França, de só admittir um banco, armado de um
* Adam Smith, Richesse des nations, vol. II, pag. 73.
3
« D'autant plus, accrescenta Courcelle Seneuil, que le Législateur, igno-
rant le plus souvent en quoi consiste le commerce de banque, et toujours les
conditions de ce commerce dans le pays où il établit ses règlements, ne peut
jamais imposer que des règles négatives, des restrictions qui gênent, en pure
perte pour le public, la liberté du banquier. »

#
336 DIEEITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO

privilegio exclusivo, não julgo preciso dizer o que cumpre


pensar de tal cousa.
A instituição dos bancos devera ser, pois, de direito com-
mum : ella não deve ser nunca nem mais constrangida, nem
estorvada, nem limitada, do que a de qualquer uma casa com-
mercial.1 »
Conta Laveleye que « depois do descobrimento dos placers
da Australia e California, Miguel Chevalier deu um grito de
alarma : « o Mundo ia ser inundado de ouro. » A Bélgica pro-
curou logo impedir a invasão, detendo-o na fronteira.
« Nossos ministros bravamente cumpriram seu dever.
Defenderam o território passo a passo. 0 medonho metal
amarello foi implacavelmente proscripto...
0 ouro francez, todavia, infiltrou-se na circulação. » 3
Julgam inconsiderados estadistas ser-lhes possível intervir
no jogo dos factos econômicos, modificando-os ao sabor da
fantasia theorica de cada um. — Illusões, que o progresso
scientifico de ha muito desvendou e que a experiência gover-
nativa irá aos poucos dissipando.
Poderoso ministro, o grande Pombal,3 erradamente en-
tendeu um dia prohibir se exportasse do Reino o ouro e,
comtudo, continuou a escoar-se para o exterior...
Explicam o facto as sentenciosas palavras do embaixador
lord Tirawley ao monarcha portuguez : « Vossa magestade
prohibiu a exportação do ouro, a cousa é impraticável.
Podeis, senhor, opprimir vossos subditos, não, porém, impor
limites á suas necessidades. »
Manter livre de peias quaesquer o curso dos phenomenos
1
Coquelin, Le crédit et les banques, pag. 225.
Veja-se no appendice, nota X, larga dissertação sobre o assumpto, e
projecto que apresentamos á Câmara do Congresso nacional, com a assi-
gnatura de alguns dos mais distinctos collegas.
1
La monnaie et le bimétallisme international, p. 12.
3
Cornes, Le marquis de Pombal, esquisse de sa cie publique, pag, 58.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 337

que estudamos, é, como disse Bastiat, solucionar o problema.


« Os interesses são harmônicos, » accrescentava elle.1
Sim, harmônicos todos os interesses legitimos!

Liberdade que precisa ser expressamente firmada é a de


dispor dos próprios bens, sem outras limitações que não
sejam as de ordem moral. Ainda que o Legislador constituinte
estatuísse que « o direito de propriedade mantem-se em
toda sua plenitude, salva a desapropriação por necessidade
ou utilidade publica (artigo 72.°, § 17.°), » continuam em vigor
os artigos da antiga legislação, restringindo esse direito, e
privando o povo brazileiro da liberdade das transmissões
hereditárias. Ora, o próprio texto do artigo citado é bastante
claro e não admitte sophismas : a única restricção que ao
« direito de propriedade » se impoz, foi a desapropriação,
mantido em tudo o mais.
Quando a lettra expressa da Lei constitucional não o tivesse
estabelecido, como de facto estabeleceu, a simples interpre-
tação nos facultava mais esta liberal garantia, poisque, já o
mostramos, em questões de liberdade, a interpretação tem de
ser ampliativa e nunca restrictiva. Odiosa restringenda, favo-
rabilia ampliando,.
Em face, pois, do claro dispositivo do artigo 72.°, § 17.°,
como em face da boa hermenêutica, as vigentes restricções
á liberdade de testar são nullas e constituem manifesto
attentado a um direito constitucional, garantido em « toda a
plenitude, » como se disse, pela Lei orgânica da Republica.
Quando não bastasse para proval-o o que foi allegado, ahi
está o texto luminoso, insophismavel, do artigo 78.°. Deixa elle
patente, se o combinarmos com a doutrina do artigo 72.°,
§ 1.°, 2 que o Legislador constituinte só admittiu em relação á
4
Harmonies économiques, pag. 14.
* « Ninguém pode s?r obrigado a fazer, ou deixar de fazer alguma cousa,
senão em virtude de lei. »
22

~
338 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

liberdade, RESTRICÇOES EXPRESSAS, consagrando o generoso


principio de que as liberdades, ainda que não expressas, mas
resultantes da natureza do regimen politico, têm inteiro
vigor : « A especificação das garantias e direitos expressos
na Constituição não exclue outras garantias e direitos não
enumerados, mas resultantes da fôrma do governo que ella
estatue e dos princípios que consigna. »
Ora, a Republica é, antes de tudo, o regimen da liberdade :
a Constituição, portanto, assegura aos brazileiros todas as
garantias e direitos delia decorrentes : não somente as
expressas na Lei fundamental, como as implícitas.
— A Constituição não só firmou de modo claro a liberdade
das disposições testamentarias, em homenagem aos princí-
pios republicanos, como também consultando os interesses
sociaes que se relacionam com a herança.
« A interdicção da liberdade de testar, diz Léon Donnât, 1
traz comsigo duas conseqüências desastrosas. De um lado,
contribue para destruir a iniciativa dos cidadãos ; de outro,
é um grande obstáculo a que reconheçam o caracter social
da riqueza aquelles que a possuem.2 E' em grande parte
devido ao facto dos anglo-saxões gosarem de liberdade nesta
materia, que sua actividade é tão grande, seu trabalho tão
fecundo, sua industria tão florescente, seu commercio sem
rival, etc... »
Dunoyer, ainda que partidário extremado da igual divisão
dos bens entre os herdeiros, opina que nem por isso se deve
negar o pleno direito dos pais de familia, de disporem do que
' Lois et mœurs républicaines, cap. VII.
* Definindo o este « caracter social da riqueza, » diz o auctor, no mesmo
capitulo, § 2 : « Creio na conveniência de uma distribuição voluntária da
riqueza. Creio que a fortuna é uma funcção social e não uma reserva desti-
nada a satisfazer os gosos egoístas da preguiça e do orgalho. »
Já a sabedoria romana reconhecera de facto o caracter social da riqueza,
como se vê da seguinte nobre sentença : Expedit enim reipublicœ ne quis
re sua male utatur. As nossas Ordenações felippinas dizem : « Usar mal
do que tem não deve ninguém. » — Liv. IV, tit. 107.
DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO 339

é seu, como lhes aprouver. O que a lei deve fazer, segundo


elle, é consagrar a partilha assim como prefere, para os casos
de morte ab intestato, mas deixando a cada qual liberdade
de repartir, conforme entenda, o que lhe pertence.
(( O pai, diz o distineto economista, ou deva a fortuna á
überalidades de sua família ou á de amigos, ou somente ao
seu trabalho, é perfeita e devidamente o proprietário delia ;
é proprietário não do quarto, do terço, da metade, mas de
tudo ; elle o é, com exclusão da sociedade, que, suppondo
seus bens legitimamente adquiridos, nada tem que ver com
o que elle possue, e só pode reclamar o preço da protecçâo
que lhe garante a posse dos mesmos bens;1 elle o é em
relação a seus filhos, para com os quaes sem duvida tem obri-
gações, mas que não são por isso proprietários de seus bens,
e por tal modo senhores de antemão da successâo que essen-
cialmente lhe não seja dado até de prival-os delia : elle o é
ainda em seus últimos momentos e com exclusão de todo o
mundo. »3

O que dizemos da liberdade de testar, dizemos igualmente


da liberdade de adoptar, que lhe é correlativa.3 Reputamos
insustentáveis, diante da theoria exposta sobre a liberdade
1
Isto ó, os impostos correspondentes.
1
Obra citada, livro X, cap. III.
Solon instituirá a liberdade de testar.
Platão, no livro XI das Leis, estababelece que um pai tendo diversos
filhos, escolha um para succeder-lhe em sua porção de bens, e Montesquieu
acha que essa era uma boa lei. — Esprit des lois, liv. V, cap. V.
« Nos primeiros séculos de Roma, o pai podia privar os filhos da totali-
dade de seu patrimônio, por überalidades feitas a terceiros : seu direito de
dispor do que lhe pertencia não tinha nenhum limite. » — Malécot et Blin,
Droit féodal et coutumier, pag. 314.
Com o tempo, modificou-se este regimen, no direito cesareo, qual se vê da
Novella XVIII, cap. I.
No mundo moderno, e' interessante a reforma de Pedro, o Grande.
Estatuiu em 1714 o morgadio russo, em que todos os bens passam ao filho
mais velho ou águelle que o pai escolhe. — Solowieff, Histoire de Russie,
pag. 477.
L. Donnât, obra citada cap. VIII.

#'
340 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

de testar, e diante da amplitude liberal do regimen republi-


cano, as restricções mantidas a respeito da adopção.
A doutrina do musulmano, affirmando que Allah « não fez
que os filhos adoptivos sejam como os nossos próprios
filhos, »x é repellida pelo pensamento moderno.

Ë' phenomeno curioso, e prova que o povo deseja vaga-


mente uma cousa, mas nunca sabe bem o que quer, como
antes fizemos notar, — que derramando muito sangue em
prol das liberdades, tenha deixado geralmente em olvido
aquella que garante a expressão de todas as outras : a liber-
dade de legislar. Senhor de influir directamente na elabora-
ção da lei e estando em seu alvedrio approval-a ou rejei-
tal-a, fica o povo habilitado a impedir efficazmente qualquer
machinação liberticida c a premunir-se em tempo contra
qualquer bote de despotismo, nesse terreno.
Conscios disto, os fundadores da primeira Republica fran-
ceza fizeram um ensaio de liberdade legislativa, como se viu
no livro VII.
Dominada dois annos depois a Convenção,pelos que prepa-
ravam o caminho a Bonaparte, deixou vingar outra vez o
retrogrado principio do privilegio, incompatível com o século
e com a Republica, estatuindo-se no anno III novo monopolio
legislativo, em favor das câmaras ou conselhos clectivos. Esta
usurpação perpetrada impunemente em França, assignala
quanto já era em declínio ali o antes vivaz espirito de defeza das
franquias populares ; viu-se, sem protesto, supprimir de todo a
liberdade legislativa, restabelecer um atrasado processo de
formar as leis, e não se deu um passo para impedil-o...
Este exemplo de fatal incúria foi imitado em toda a parte,
poisque no mundo moderno os povos marcham geralmente
gravitando em forno da França : — Paris é a columna de fogo
guiadora da civilisação occidental.
1
Alcorão, cap. XXXIII, versículo 4.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 341

Desta sorte, vemos já no fim do século 19°, em meio das


luctas constantes por manter sólidas as liberdades publicas,
olvidar-se aquella de que promanam as demais e que melhor
e mais pratica e mais forte barreira pode oppor á tyrannia!
Modernamente, coube á Suissa restituir ao povo, e ainda
não por completo, a participação que lhe compete no estabe-
lecimento das leis.
Em época posterior, só no Brazil vimos fazer-se um esforço
em favor da liberdade legislativa, ainda que de modo muito
timido, cabendo a honra da iniciativa á commissão nomeada
pelo Governo provisório para elaborar um projecto de Lei
orgânica da Republica, exemplo que foi seguido no acto con-
stitucional do Estado do Paraná, de 4 de julho de 1891, e na
Constituição de 14 de julho, x do Riogrande do Sul, Estado
este onde firmou-se melhor ainda do que em França no
começo do século, melhor ainda do que na Suissa, a verda-
deira liberdade legislativa.
Infelizmente, a União brazileira manteve No odioso regimen
do monopólio : recebemos a lei de um grupo de privilegiados,
sem o direito de fazer uma observação ou emenda, sem o
sagrado direito de aceitar ou rejeitar, conforme nos pareça
justa ou injusta!...
Parece incrível, mas é a verdade : gosamos neste ponto
de menos liberdade que nossos avoengos wisigodos, aos
quaes o Rei mais poderoso não impunha leis : só vigoravam
ellas com o assentimento geral.

Definindo a liberdade conforme o faz o amplo liberalismo


racional de nossos tempos, precisamos salientar quanto é
incompativel com os princípios firmados pela sciencia mo-
derna, a illimitada liberdade que préconisa o espirito meta-
physico.
Se lhe répugna a vida social na conformidade da archaica
1
Também de 1891.
342 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

concepção indiana (infelizmente prestigiosa ainda hoje!) que


captiva o homem e o « impossibilita de mover-se, de pre-
tender a pratica de qualquer acção ou pensamento livres,
sem que se sinta preso por todos os lados na malha da lei
brahmanica,1 » também lhe merece o maior desapreço qual-
quer sorte de licença.
Os limites de amplitude da liberdade dependem das condi-
ções da ordem (cosmologica e da organisação social : nada
pode fazer o homem desde que vá seu tentamen de encontro
ás leis naturaes que presidem aos vários phenomenos. Em
uma formula mais restricta : nada lhe é licito fazer que vá
de encontro ás conveniências sociaes, assim como nada lhe é
licito contra a liberdade de seu semelhante.,
Desta ultima concepção origina-se, na ordem política, o
preceito da responsabilidade : — todo aquelle que usa da
liberdade attentando contra o bem social ou contra a liber-
dade dos outros, é sujeito a uma sancção penal : e quem
diz liberdade diz responsabilidade.
E' este,um principio que, em geral, não soffre contestação.
Ha um ponto, porém, em que o interesse partidário e parti-
cular tem offerecido resistência anarchica, pretendendo
manter a licença mais descarada, sem correctivo de classe
alguma. Referimo-nos á liberdade de expressão : entende-se
hoje em dia que ella consiste em poder-se livremente, sob a
capa do anonymato, injuriar, profanar a honra alheia, calum-
niar a salvo.2 — 0 Legislador constituinte tornou facilmente
praticavel entre nós a responsabilidade correlativa, abolindo
de modo expresso e terminante o anonymato.
1
Max Müller, Histoire des religions, pag. 307.
* « Mais, monsieur le marquis, est-ce qu'il est permis aux avocats de
calomnier tant qu'il leur plaît? Est-ce qu'il n'y a point de justice contre e u x ? »
pergunta um personagem de Diderot. * Imagine-se qual não seria seu com-
mentario, se ao atrevimento dos advogados daquelle tempo comparasse a
afouteza habitual nos jornalistas de hoje!
* Œuvres choisies, vol I, pag. 338.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 343

0 sophisma dos interessados intenta manter o regimen


contrario, attentatorio dos direitos dos cidadãos, mas não vin-
gará tal offensa, á Lei suprema do pàiz. 0 texto que prohibe
entre nós o anonymato pode ser comprehendido unicamente
da fôrma por que o foi já em França (lei Tinguy) e como o é
na Republica de Orange.1
A exemplo do que fizemos á pagina 213, inserimos em
seguida um quadro expondo as garantias obtidas pelo prin-
cipio da liberdade, no regimen proposto e nos que lhe são
comparados naquelle outro.
1
Uma lei deste paiz determinou em 1896 que os artigos de imprensa tra-
gam o nome do auctor, por extenso, e a residência delle. Vide o notável
parecer do deputado Anisio de Abreu, propondo um projecto de lei sobre
o caso.
Quadro das limitações á acção do poder publico
NO SYSTEMA NO SYSTEMA NO SYSTEMA NO SYSTEMA
PROPOSTO BRAZILEIRO DO IMPFRIO INGLEZ

QUANTO A'S LIBERDADES ESPIRITUAES


Liberdade religiosa
0 Estado não tem, nem Idem. 0 Estado impõe um culto, 0 Estado tem um culto,
pode impor um culto. e apenas tolera outros. mas não o impõe e dá liber-
dade aos outros.
Liberdade de expressão
0 Estado não pode impor Idem. 0 Estado impõe restri- Idem.
nenhuma rcstricção. j cções.
Liberdade de ensino
0 Estado não pode ensi- 0 Estado pode ensinar] Idem, 0 Estado subvenciona,
nar sciencia, arte ou pro- sciencias, artes e profissões. em parte, e fiscalisa, tão
fissão. somente.
QUANTO A'S LIBERDADES CIVIS
Liberdade legislativa
0 Estado não pode impor 0 Estado impõe legislação Idem, Idem.
legislação, nem restringir elaborada por uma corpo-
a livre cooperação de todos ração que monopolisa o
na obra legislativa. trabalho legislativo *.
Liberdade profissional
0 Estado não pode regu- 0 Estado dá liberdade á 0 Estado não pode regu- 0 Estado,ainda que confe-
lamentar o exercício de todas; o exercício da de lamentar o exercício de rindo alguns privilégios aos
profissão alguma. banqueiro depende de au- nenhuma profissão honesta, medicos, deixa livre o exer-
ctorisação do Congresso. cício das profissões liberaes.
Liberdade de reunião
O Estado não pode impor Idem. O Estado pode impor algu-1 O Estado não impõe ne-
nenhuma restrict; ão. mas restricções. | nhuma restricção.

Liberdade de transito
O Estado não pode impor Idem. O Estado pode impor algu- Idem.
nenhuma restricção. I mas restricções.

Liberdade de accesso aos cargos


O Estado não pode impor O Estado impõe condições, Salvo quanto ao posto su- Idem.
outras condições que não exigindo titulos de capaci- premo, o Estado não impõe
sejam as virtudes, talentos dade especial, para a admis- condições, que não sejamos
e capacidade. são em certos cargos. talentos e virtudes.

Liberdade de usar do próprio credito


O Estado não pode impor O Estado, em certos casos, O Estado não pode impor O Estado impõe condi-
nenhuma condição, nem impõe condições para o ex- condições, nem regulamon- ções para o exercício desta
regulamentar o exercício ercício desta liberdade. tar o exercício desta liber- liberdade.
desta liberdade. dade.
Liberdade de dispor dos bens
O Estado não pode impor Idem. * Idem. * Idem.
nenhuma restricção, nem
durante a vida dos cidadãos,
nem quando disponham
dos bens para depois da
morte.

1 Houve modificação no sentido liberal, depois de nossa primeira edição. Vide pagina 224.
* Apesar de haverem sido conservadas as inconstitucionaes restricções da antiga legislação portugueza.
LIVRO XI

A questão da defeza social


LIVRO XI

La discorde en fureur frémit de


toutes parts.
RiciNE, Théâtre, Esther, vers. 33.

Em uma epoca de pleno vigor da ordem, acatada por todos


a auctoridade, o próprio prestigio natural que tem, dispensa
meios extraordinários para o fim de manter-se em toda a ple-
nitude e efficazmente a mais completa defeza social. Entre-
tanto, é de notar que, ao passo que em tempo da maior
pujança da potestade regia, o Estado dispunha de vasto
arsenal de protectoras cautelas, agora, que o prestigio da
auctoridade é quasi nullo e a anarchia sobe como um desse?
maremotos do Extremo-oriente, sinistramente devastadores,
— vê-se ella desarmada por completo, sem dispor de meios
adequados para erguer barreiras ante os Ímpetos desordeiros
de uma sociedade convulsa...
Extranha incoherencia de funestissimos resultados!
Hontem, quando se não discutia o poder e ninguém o ata-
cava, era elle coberto de uma invulnerável couraça, tinha á
mão terríveis instrumentos repressores ; hoje, que,vive em
lucta aberta com a demagogia, e as paixões desbridadas de
uma sociedade sem religião e sem costumes, — desco-
brem-no, fica á mercê de todos os botes, arrancam-lhe do
DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO 349

braço tudo o que pode servir para escudal-o, deixando apenas


ao poder frágeis armas imprestáveis!
Fundada a Republica, quando era de esperar que medidas
profícuas reforçassem a auctoridade, decaída sob o velho
regimen, o Governo provisório reforma o código criminal
antigo, instituindo um outro que foi qualificado como obra de
(c escandalosa benignidade, x » esquecido da lição do poeta :

Chè già non é Ia disciplina intera,


Ov'uom perdono e non castigo aspetti.
Cade ogni regno, e ruinosa è senza
La base dei timor ogni clemenza.2

Todos sabem que um poder novo é sempre fraco e que,


1
« La pena dee contrapporre Ia forza dello Stato alia forza dell'individuo,
diz Pessina em o primeiro volume de seu Diritto pénale, § 144", e, portanto,
a força repressora do Estado deve estar em proporção com a que possuem
os indivíduos para agir ou reagir contra elle ; nas épocas de desordem
social e revoluções, em que a acção dos indivíduos augmenta, deve crescer
também e proporcionalmente a do Estado.
Isto tem que ser assim e neste caso não ha rasão para q u e i x a s . . . « Il se
trouve des maux dont chaque particulier gémit, et qui deviennent néan-
moins un bien public, quoique le public ne soit autre chose que tous les
particuliers. Il y a des maux personnels qui concourent au bien et à l'avan-
tage de chaque famille. Il y en a qui affligent, ruinent ou déshonorent les
familles, mais qui tendent au bien et à la conservation de la machine de
l'État et du gouvernement. » — La Bruyère, Les Caractères, cap. X .
E' esta igualmente a doutrina de Spencer, como se vê do volume III da
Sociologie, pag. 317 : « Puisque la conservation de la Société a la préémi-
nence sur celle de l'individu, puisqu'elle en est la condition, il faut, dans
l'étude des phénomènes sociaux, interpréter le bien et le mal plutôt dans
leur sens primitif que dans leur sens moderne, et par suite considérer
comme relativement bon ce qui permet à la société de survivre, quelques
grandes que soient les souffrances infligées aux individus. »
Um de nossos melhores poetas, Jose Basilio de Gama *, resumiu em
lúcido verso a boa doutrina :
Ao bem publico cede o bem privado.
Mas, não quizemos os brazileiros respeitar estas tradições conservadoras
e preferimos garantir com a lei a licença vergonhosa que ahi se ostenta e
desorganisa o Estado. Pode este dizer-lhes como o personagem dos Niebe-
lungen (canto XVI) : « Vós vos feristes a vós mesmos! »
!
Gerusalemme liberata, canto V.
* Uruguay, canto II.

x*
350 DIKEITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO

portanto, débil esse elemento de coordenação social, as rela-


ções que elle abraça haviam de sentir o effeito desse estado
precário do governo, augmentando o raio da acção illegal e
delictuosa. — Pois é,essa quadra que julgam momento asado
para supprimir as penas mais efficazes e diminuir todas as
outras : abre-se quasi um universal jubileu mosaico em bene-
ficio dos maus!1
Oriundo de uma revolução, o Governo provisório devia
temer-se do exemplo que dera, e prevenir os maus effeitos
da tendência natural que se havia de manifestar em favor de
um processo que alcançara tão extraordinário êxito em 15 de
novembro. — Pois, no entretanto, os crimes,no código antigo
capitulados de sedição e rebellião, que tinham, segundo esse
texto, castigos exemplares, passaram em o novo a ser consi-
derados unicamente passíveis de penas levíssimas!2
1
O escriptor Frederico Lacroix attribue as desordens da Republica
islandeza á certas lacunas nas instituições do paiz : « Se a liberdade e os
direitos de cada um gosavam no código de Ulfliot de garantias sufficientes,
de outro lado se haviam negligenciado muito as leis repressivas. O poder
executivo não fora investido da força necessária para conter as ambições
individuaes e castigar as infracções ao pacto fundamental. Tinha-se garan-
tido muito ao indivíduo, e não assaz á sociedade. Desse vicio orgânico,
que deixava a auctoridade superior desarmada diante das facções, devia
necessariamente resultar cedo ou tarde um desencadeamento de paixões
brutaes, e uma lucta perigosa entre os poderes constituídos e os indivíduos
cujas idéas delictuosas os arrastavam a se insurgirem contra a communi-
dade. » — Régions circumpolaires, pag. 289.
i
Ora, nesta questão da segurança e defeza do Estado, todo espirito
conservador tem de concordar com o que nos ensina Bacon, nos Essais de
morale et de politique, cap. LV : « No que diz respeito ao Principe ou ao
Estado, os juizes devem antes de tudo ter presente esta conclusão das Doze
Taboas : « Que a salvação do povo seja a suprema lei, » e aceitar como
principio que se as leis não tendem para esse objecto, devem ser encaradas
como regras capeiosas e falsos oráculos. »

ü s juizes devem lembrar-se também que o throno de Salomão era susten-


tado por leões... Assim que os juizes sejam l e õ e s . . . Que vigiem continua-
mente para impedir que se não ataquem os direitos da soberania. Emfim.
os juizes devem ter noção bem clara de seus direitos c prerogativas, para
não ignorarem que seu dever lhes manda, que seu direito lhes permitte
fazer um prudente uso e uma judiciosa applicação das leis. E' neste sentido
que devem praticar estas palavras do Apóstolo, referindo-se á lei superior
DIKEITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 351

Não só isso. A amnistia, que no regimen anterior competia


ao chefe do Estado, em casos urgentes, passou a ser attri-
buição exclusiva das câmaras, o que quer dizer que poderá
ser concedida por estas inopportunamente e em contrario da
acção repressora da auctoridade publica, como tem succe-
dido e se tornou de moda : — epílogo natural de todas as
tentativas sediciosas posteriores ao advento da Republica.1
Ora, a attribuição constitucional de conceder amnistia não
pode ser da competência do Congresso, e o deixamos demons-
trado alhures : « Um exemplo torna muito clara a proposição.
Depois das derrotas de Inhanduhy e Restinga, as forças fede-
ralistas, esmagadas, corridas e sem esperança, asylando-se
na Republica do Uruguay, pensou-se em amnistiar aquelles
fugitivos, com o intento de lhes provar que eram perseguidos
por sua attitude rebelde, mas sem haver ódio da parte dos
á todas as leis humanas : Sabemos que a lei é boa, mas cumpre que se use
delia legitimamente ».
« Não é possível, diz outro auctor *, que haja tranquillidade no Estado,
sem que a auctoridade do Principe esteja segura; e para que a auctori-
dade do Príncipe esteja segura, é preciso que ou não tenha inimigos, ou que,
no caso de tel-os, os reduza á impossibilidade de fazerem mal. »
Foi esta alta concepção dos deveres para com o Estado que salvou a
França, durante sua grande crise política de fins do século passado,
concepção assim definida pelo grande Carnot : « Je puis donc conclure sur
ce qui vient d'être dit par ces deux maximes générales qui établissent
clairement en politique la différence du juste et de l'injuste : 1.°, Toute
mesure politique est légitime dès qu'elle est commandée par le salut de
l'Etat; 2.°, tout acte qui blesse les intérêts d'autrui, sans nécessité indispen-
sable pour soi-même, est injuste. » — Rapport de Carnot, fait dans la séance
du 14 février 1793, sur la réunion du pays de Monaco, etc. Moniteur
réimprimé, du 17 février 1793.
1
« Nada anima tanto o espirito de revolta como a esperança da impuni-
dade; e pelo mesmo motivo o temor do castigo o debilita á proporção. » —
Federalista, cap. XXVII.
Aconselha o grande poeta latino que « os filhos da Pátria se não acostu-
mem á guerra e nem voltem contra o seio delia os seus esforços,**», e nós,
em vez de empregarmos a maxima diligencia para que seja eternamente
seguido o nobre ensinamento, nós o fazemos despresar, animando ao crime,
com essas vergonhosas e communs annistias, decretadas como complemento
das continuas revoltas que arruinam o Brazil!...
* Gama Castro, Novo principe, pag. 173.
** Eneida, liv. VI, vers. 833 e 834.

•^
352 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

repressores, tanto que se cuidava agora de abrir-lhes uma


porta por onde podessem reentrar no grêmio nacional. A
occasião parecendo dar aso a esse acto de misericórdia,
encetaram-se discussões a respeito, no Congresso. Mas,
quando se adoptou a medida, quando a amnistia foi aceita,
já não era propicio o momento para decretal-a : os revolucio-
nários tinham de novo invadido o Riogrande, levantavam
outra vez armas contra a lei, e o que fora uma concessão de
clemência á gente foragida no estrangeiro, os invasores con-
sideraram um acto de fraqueza, de transacção, originado
dessa sua ulterior attitude ameaçadora. Se o governo tivesse
a faculdade de providenciar livremente sobre amnistia,
tinha-a concedido no instante em que os rebeldes, tomados de
pânico, fugiam ao castigo inevitável, e, talvez, então, tivesse
dado algum fructo o acto de esquecimento ; ou, á vista da
arrogância presente e da reincidência dos sublevados, dei
xaria de a conceder, poupando um desaire á auctoridade.1 »
Quando pediram ao illustre e glorioso libertador do Mexico,
Benito Juarez, que decretasse medida dessa ordem em favor
de Maximiliano e seus dois generaes, prisioneiros dos trium-
phadores, respondeu o benemérito estadista : « ...han pade-
cido mucho por la inflexibilidad del gobierno. Hoy no pueden
comprender la necesidad de ella, ni la justicia que Ia apoya.
Àl tiempo está reservado apreciaria. La ley y la sentencia
son en ei momento inexorables, porque así Io exige Ia salud
pública. »
Hoche pensava mais austeramente ainda, definindo com
este rigor o dever que impõe a defeza social : « C'est servir Ia
liberté que de la restreindre chez qui la réclame pour l'op-
primer.2 »
E' a applicação do conceito de Thomassin, citado por
J. de Maistre : « Rien n'est plus conforme aux canons que le
' Constituição riograndense, pag. 26.
* A. Sorel, Bonaparte et Hoche, pag. 330.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 353

violement des canons, qui se fait pour un plus grand bien


que l'observation même des canons. (Du Pape, pag. 138.) »
Não foi menos imprevidente nosso Legislador constituinte
supprimindo a pena de morte. Necessária e , indispensável
até mesmo em quadras normaes, foi verdadeira loucura
abolil-a no período actual, em que a sociedade vive sacudida
por todas as mais violentas paixões. Sem este freio salutar,
a população brazileira havia de despenhar-se nas demasias
que temos presenciado.1
(( Não consiste a clemência em perdoar geralmente a todos,
antes é espécie de crueldade, como disse Seneca, a qual se
divide em dois gêneros : um é o excesso no castigo, outro a "
falta na execução da justiça quando convém ; porque tanta
crueldade 6 perdoar aos malfeitores, como castigar os inno-
centes. Um é acto de injustiça, de outro nascem infinitas
injustiças : que da clemência imprudente e commum a todos
tomam licença os criminosos e malfeitores, para a seu salvo
executarem seu rigor e má inclinação contra os justos e inno-
centes : e assim como é acto de virtude perdoar a culpa, que
nasce da fraqueza, assim é vicio ser clemente com os cruéis,
quando o prejuízo dos offendidos está de permeio, e o
exemplo do perdão pode facilitar outros a peccarem.2 »

A clemência mata,
Se do perdão de um assassino trata ! 3

Inepto sentimentalismo piegas que se dilue em ternuras


diante dos criminosos e vê sem uma lagrima as muitas vi-
ctimas que fazem, levantou campanha contra a pena de morte
e conseguiu eliminal-a de quasi todas as legislações mo-
dernas. Felizmente, o bom senso pratico dos governantes, as
4
Leia-se o sensato Urtis, Nécessité du -maintien de la peine de mort.
'3 Padre Parado, obra citada, liv. II, disc. X.
Shakespeare, Obras dramáticas, vol. Ill, pag. 200.
23

^
354 DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO

necessidades da defeza social, produziram já uma forte


reacção contra esse falso humanitarismo, restaurando-se
aquella pena indispensável. Na verdade, Alphonse Karr, com
um traço de seu engenhoso espirito, mostrou bem por onde
deveria.começar a reforma : « Querem supprimir a pena de
morte? perguntava elle. — Pois comecem os assassinos. »
Somente nossos bacharéis, alheios na maioria a estudos
sérios e todavia monopolisando a direcção dos negócios
públicos no Brazil, deixar-se-iam arrastar ainda hoje pelos
frágeis adversários da pena de morte, hoje em dia que os
criminalistas de mais forte capacidade preconisam o valor
pratico desse gênero de castigo.
Em se tratando da defeza social, é preciso desterrar todo
e qualquer sentimentalismo.
Nunca esquecer a severa mas saudável doutrina tradi-
cional, que diz serem « os bons offendidos, aonde os maus
são soffridos ; » que « o castigo dos maus, e prêmio dos bons,
são exemplos, que facilitam os bons costumes;J » e que « ha
matérias que sem o ultimo rigor não podem ter cura. 2 »
A sabedoria sdas idades mais remotas eis como pontificara
pela veneranda bocca de Manú : « 0 castigo é um governador
activo ; é o verdadeiro administrador .dos negócios públicos...

A raça inteira dos homens é mantida na ordem pelo castigo.

Corromper-se-iam todas as fiasses, quebravam-se todas


as barreiras, só havendo confusão entre os homens, se a
punição deixasse de ser infligida ou o fosse injustamente ;
mas quando a Pena, de fronte negra e olho inflammado,
avança para destruir o crime, se o juiz é justo, o povo é
salvo. »
1
Ordenações felippinas, liv. II, tit. Ill, in princip., e liv. I, tit. I, § 45,
in fin.
s
Monarchia lusitana, vol. V, liv. XVI, cap. LI.
DIREITO CONSTITUCIONAL BKAZILEIRO 355

Quando a acção castigadora da sociedade deixa de ter


vigorosa energia e debilita-se, quando os instrumentos de
que dispõe para sua defeza, são imbelles e frágeis, — comba-
lida até os fundamentos a sociedade descae prestes para
irremediável anarchia, precursora fatal da dissolução e da
morte.

^
-..
APPENDICE

^
APPENDICE

Nota A
A' pagina 16 :
O conselheiro Sylvestre Pinheiro Ferreira, como verificamos em
leitura posterior á primeira edição desta obra, entrevia a distincção
feita á pagina 30. « Os povos, diz elle, resignam-se, conformam-se
ou folgam com as leis e regimen, que entre elles o encadeamento de
successos sempre locaes, sempre emanados de um ou poucos indiví-
duos, poz em execução. Assim os povos querem a continuação do
que por longa experiência sabem, que contribue para a sua felici-
dade... não querem o que por experiência sabem, que faz a sua des-
graça.
Mas os povos espalhados pela extensão de qualquer paiz o mais
limitado não falam entre si, não tratam, não deliberam : a maior e
maxima parte dos indivíduos de que elles se compõem, quando
fosse possível concorrerem, não tem os mesmos conhecimentos
nem a força de rasão precisa para deliberar, escolher ou querer o
que de futuro melhor puder clonvir ao seu bem commum. * E por-
tanto sempre que se disser, que — os povos querem certas e deter-
minadas innovações no seu modo de governo em existência — asse-
vera-se uma cousa falsa e absurda.* Sempre que se disser, que
elles desejam mudar de estado em geral, emtanto e' verdade em-

* O grvpho aqui é nosso.


360 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

quanto se quer dizer com isso, que desejam em geral a reforma dos
males e abusos que são inhérentes a qualquer governo. Mas esta
verdade e' tão trivial e insignificante, que jamais pode ser neste sen-
tido, que se diz os povos querem. » — Cartas sobre a revolução do
Brazil ; a 18.\

Nota B
A' pagina 19, nota :
» Na essência de todas as associações humanas, em todas as épo-
cas e por toda a parte actuam dois princípios : um de ordem moral,
intimo, subjectivo ; outro de ordem material, visível, objectivo. E' o
primeiro o sentimento innato da dignidade e liberdade pessoal ; é
o segundo o facto constante e indestructivel da desigualdade entre
os homens. As revoluções interiores das sociedades, as suas luctas
externas, as mesmas mudanças lentas e pacificas da sua indole e
organisação constituem phases mais ou menos perceptíveis, do as-
cendente que toma um ou outro desses dois princípios em lucta per-
petua entre si. Cavando até o âmago de qualquer grande facto his-
tórico, lá vamos encontrar esse perpetuo combate. As conquistas,
o despotismo, as oligarchias, seja qual for o seu nome, são mani-
festações diversas do predomínio do mesmo principio de desigual-
dade, quer este se estribe na força bruta, quer na destreza e intelli-
gencia, quer na propriedade : as resistências, felizes ou infelizes,
das nacionalidades ou das democracias.
Emquanto não degeneram em exclusão e na tyrannia do maior
numero, são manifestações dos sentimentos da dignidade e liber-
dade humanas, do principio subjectivo ou de consciência.
Factos amb'os innegaveis e indestructiveis, a grande questão so-
cial é equüibral-os, 1 e não tentar o impossível, pretendendo annul-
lar um ou outro ; porque foi Deus quem estampou um na face da
terra, ao passo que escrevia o outro no coração do homem.
A inutilidade dos esforços deste século para assentar a sociedade
1
Os grypnos sü.o nossos.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIKO 361
em novas bases, a freqüência dos terríveis abalos- que agitam a
Europa tentando regenerar-se não procedem, porventura, senão
do exclusivo dos partidos que representam as duas ideas, da nega-
ção da legitimidade com que mutuamente se tratam. Sobranceiras
ao immenso campo de batalha onde se disputa o futuro, duas tyran-
nias esperam que se resolva a contenda para ver qual délias se
assentará no throno do Mundo.
A democracia absoluta, que desmente a lei natural das desigual-
dades humanas, ou a oligarchia oppressora e materialista que se ri
das aspirações do coração, que não crê na consciência das multi-
dões, que confunde o facto da superioridade com o direito de oppri-
mir as classes populares, cujos membros são para ellas simples
machinas de producção destinadas a proporcionar-lhe os commodos
e gosos da vida.
Seja, porém, qual for o desfecho do combate, a paz que resulta
do triumpho exclusivo de um dos princípios nunca será duradoura ;
por que esse triumpho importa a condemnação de uma lei eterna,
que não é licito offender impunemente : NUNCA A LIBERDADE E A PAZ
PODERÃO SUBSISTIR EMQUANTO CONCESSÕES MUTUAS NÃO TORNAREM
POSSÍVEL A COEXISTÊNCIA, A SIMULTANEIDADE DOS DOIS PRINCÍPIOS.
A historia dos successos políticos, que não é senão o resumo das
experiências do gênero humano, quer se refira á vida interna, quer
á vida externa das nações, cifra-se em descrever phenomenos mais
ou menos notáveis dessa lucta interminável. A' conquista emprc-
hendida ou realisada pelo mais forte corresponde a resistência ou a
reacção do mais fraco ; ao despotismo de um as conjurações de mui-
tos ; á oppressão oligarchica a revolução democrática.
Nenhum, porém, desses factos traz uma situação definitiva.
Na conclusão da peleja em que um dos princípios triumpha abso-
lutamente, começa a preparar-se a victoria do principio adverso.
Deste modo a historia encerra um protesto perenne da liberdade
contra a desigualdade, digamos assim, activa, e ao mesmo tempo
attesta-nos que todos os esforços para substituir por uma igualdade
absoluta têm sido inúteis e que esses esforços ou degeneram na
tyrannia popular, no abuso da desigualdade numérica, ou fortifi-
cam ainda mais o despotismo de um só, ou o predomínio tyrannico
das olygarchis da intelligencia, da audácia e da riqueza.

**
362 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO
Allumiada pelo clarão do evangelho triumphante, a idade media,
época da fundação das modernas sociedades da Europa, offerece
no complexo das suas instituições e tendências o começo de solução
ao problema que o mundo antigo não soubera resolver.
Causas diversas prepararam, durante os séculos xiv e xv, o esta-
belecimento das monarchias absolutas, que impediram o desenvol-
vimento lógico daquellas instituições, na verdade barbaras e in-
completas, mas que, apesar da sua imperfeição e rudeza, continham
os elementos do equilíbrio entre a desigualdade e a liberdade.
Longe de negar ou condemnar com cólera infantil as differenças
de intelligencia, de força material e de riqueza entre os homens ou de
tentar inutilmente destruil-as, a democracia da idade media, repre-
sentante do principio de liberdade, confessava-as plenamente, acei-
tava-as até em demasia ; mas, por isso mesmo, mostrava instinctos
admiráveis em organisar-se e premunir-se contra as tendências
anti-liberaes dessas superioridades. Foram semelhantes instinctos
que produziram os concelhos ou communas ; esses refúgios dos
foros populares, essas fortes associações do homem de trabalho
contra os poderosos, contra a manifestação violenta e absoluta do
principio de desigualdade, contra a annullação da liberdade das
maiorias. Em nosso entender, a historia dos concelhos é em Portu-
gal, bem como no resto da Hespanha, um estudo importante, uma
lição altamente profícua para o futuro : porque estamos intima-
mente persuadidos de que, depois de longo combater e dolorosas
experiências politicas, a Europa ha de chegar a reconhecer que o
único meio de destruir as difficuldades da situação que a affligem,
de remover a oppressâo do capital sobre o trabalho, questão su-
prema a que todas as outras nos parecem actualmente subordina-
das, é o restaurar, em harmonia com a illustração do século, as
instituições municipaes, aperfeiçoadas sim, mas accordes na sua
indole, nos seus elementos, com as da idade media. Sem ellas o pre-
domínio do despotismo unitário, do patriciado do capital e da força
intelligente, QUE SOB O MANTO DA MONARCHIA MIXTA DOMINA HOJE A
MAIOR PARTE DA EUROPA, ou da democracia exclusiva e odienta,
expressão absoluta do sentimento exagerado de liberdade, QUE
AMEAÇA DEVORAR MOMENTANEAMENTE TUDO, não SÔO a UOSSOS Olhos
senão formulas diversas de TYRANNIA, mais ou menos toleráveis,
DIREITO CONSTITUCIONAL BBAZILEIRO 363

mais ou menos duradouras, mas incapazes de conciliar definitiva-


mente as legitimas aspirações da liberdade e dignidade do homem
em geral com a superioridade indubitavel daquelles que, pela ri-
queza, pela actividade, pela intelligencia, pela força, emfim, são os
representantes da lei perpetua da desigualdade social. » —
Alexandre Herculano, Historia de Portugal, vol. Ill, pag. 223.
Vide a nota H.

Nota C
A' pagina 32 :
Ha de causar extranhezas no meio republicano o modo por que
nos referimos a monarchia tradicional. A ignorância democrática
entende que aquillo foi um regimen todo de atraso, violências e ar-
bitrio, confundindo lamentavelmente o periodo de decadência com
o de seu florescimento regular, e como se podessemos explicar os
progressos da sociedade actual sem fazer justiça ás instituições do
passado!...
Pois mesmo tendo diante dos olhos o espectaculo do derrocamento
da monarchia antiga, que descambara para o despotismo, espiritos
houve que jamais se illudiram, confundindo cousas tão distinctas,
como é de uso fazer hoje nas rodas lettradas de nossos politicantes.
Como se vae ver de uma lição do eminente Montesquieu, a monar-
chia não era o arbitrio : este fructificou ao contrario quando o
declínio da ordem medieval deixou os testas-coroadas com um
poder absoluto, sem o contrapeso do poder espiritual. Ainda assim
prestaria immensos serviços, se opportunas reformas, nunca fei-
tas, a preparassem para o papel que lhe cabia na idade moderna.
Tentaram-se tardiamente essas precisas reformas, porém, como
foram, incompatíveis com a organisação social, o resultado é que o
arbitrio, de que se temem tanto nossos democratas, se enthronisou
mais do que nunca.
O arbitrio real encontrava diques a sujeital-o, na resistência das
cortes, das grandes corporações do Estado, dos conselhos munici-

^
364 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

paes, etc. — O arbítrio dos parlamentos hoje campeia omnimodo :


uma compacta maioria faz o que quer.
Leia-se o que escreveu Montesquieu, de cujo liberalismo ninguém
duvida : « La nature de la monarchie consiste en ce que le
Monarque est la source de tout pouvoir politique et civil, et qu'il
régit seul l'Etat par des lois fondamentales ; car s'il n'y avait dans
l'Etat que la volonté momentanée et capricieuse d'un seul sans
lois fondamentales, ce seraient un gouvernement despotique, eu
un seul entraîne tout par sa volonté : mais la monarchie commande
par des lois dont le dépôt est entre les mains des corps politiques,
qui annoncent les lois lorsqu'elles sont faites, et les rappellent
lorsqu'on les oublie. »
Esta monarchia definida pelo philosophe em vez de aversão, de-
verá merecer o eterno reconhecimento dos republicanos dignos de
tal nome, e hão de imital-a elles no que tinha de essencial, quando
intentem estabelecer o regimen moderno, sob pena de ser fragilima
sua obra política.
Reflictam os republicanos brazileiros : cumpre-lhes cooperarem
para que tenha o paiz um governo em tudo conforme ás legitimas
tradições nacionaes, ou a restauração do Império é breve um facto!
Nada o poderá evitar, e por muitos annos duradouro será elle, se
reinstituir, com os aperfeiçoamentos opportunos, a antiga monar-
chia limitada, da grande época portugneza.
Viverá vida ephemera, pelo contrario, se reensaiar a chamada
monarchia constitucional, caindo logo esta para ceder outra vez o
lugar á Republica, — de igual duração por certo se persistir a ce-
gueira dominante nos círculos democráticos.
Assim oscillará o Brazil, de reacções monarchicas a desordens
republicanas, 'até que reencete a marcha de sua evolução natural e
se reconstitua, mutatis mutandis, de accordo com o nosso passado,
consorciando a ordem com a liberdade, — qual aconselha este livro.
Adopte-se esse governo liberal e forte, de que necessitamos, e a
anarchia presente será dentro em pouco jugulada, podendo-se delle
dizer como o poeta sagrado : l « O' mortaes, contemplai-o, pondo a
ordem na confusão, dando fôrma ao cahos ! »
* Rig-ceda, hymno VI, versículo 3.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 3G5

Este milagre vemos repetir-se na Historia mais de uma vez : basta


para isso que surja um poder tão enérgico quanto a situação o exige.

Nota D
A' pagina 41 :
Do que o auctor escreve sobre o systema federal não se segue que
seja muito apologista delle : aceita-o como uma fôrma transitória,
por julgar impossível hoje a permanência da integridade do Brazil,
sob o regimen unitário!
Theoricamente, muito ao contrario do que pensam nossos demo-
cratas, esta segunda fôrma é bastante preferível, poisque uma fede-
ração ha mister de maior numero de homens de capacidade, para
as múltiplas governações, e taes homens são raros, rarissimos.
Se já não é fácil achar os precisos para o limitado pessoal de um
governo unitário, imaginemos quando se trate de vinte-e-um go-
vernos!
Veja-se o Brazil : salvo honrosas excepções, nos Estados imperam
mediocridades ou nullos.
Assim agora pronunciando-se não é incohérente o auctor : boa
ou má, cumpre confessar, a federação impunha-se, e julgamos ter
demonstrado que só alargando ainda mais as franquias que trouxe,
poder-se-á manter a unidade do Brazil.
Aquella phrase de Diderot : « Se concontrer, c'est s'affaiblir, * » tem
perfeito emprego no que respeita aos elementos componentes da
administração de paizes qual o nosso.
Mas... não ha que saber aqui de opiniões : ha que reconhecer uma
irresistível tendência nacional, uma inilludivel necessidade im-
posta pelas circumstancias, e, como diz o melodioso poeta devo-
rado por essa grande tormenta política do fim do século 18.°, 2 Ia
Nécessité traîne, inllexible et puissante :
1
Citada por Avenel, Anacharsis Cloots, vol. I, pag. 11.
* A. Chénier, Œuvres, pag. 208.

Y*
36G DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Nota E
A' pagina 76 :
Na Inglaterra, como na Allemanha e Prussia, é dô uso o que pro-
pomos sobre o modo de fazer os orçamentos.
«... Une fraction notable des dépenses et des recettes n'est pas
soumise annuellement à la Chambre : ce sont les recettes et les
dépenses du fonds consolidé. Les dépenses de ce fonds sont celles
que l'on a considérées jadis comme ne pouvant être refusées sans
qu'une atteinte grave fût portée au crédit anglais et à l'organisation
nationale.
Ces dépenses concernent la liste civile, la dette publique, les trai-
tements diplomatiques et les grandes cours de justice, certaines
pensions et quelques autres services auxiliaires.

A ces dépenses sur le fonds consolidé, il est pourvu par des im-
pôts permanents, qui durent tant qu'ils n'ont pas été abrogés par
une loi spéciale, et sur lesquels le Parlement n'a pas à se prononcer
à chaque session. » — Leroy-Beaulieu, La science des finances,
vol. II, pag. 61. »
Achamos de muita actualidade o que a respeito do trabalho orça-
mentário escreveu o economista Julio Roche, no Figaro, de Pariz, e
o transcrevemos aqui, de uma traducção da Gazeta de noticias, do
Rio-de-janeiro.

« A LIGA DOS CONTRIBUINTES. — O mal é sabido : exagero e pro-


gressão constante das despezas publicas, gravando os custos geraes
da produção ; acarretando dahi uma inferioridade certa para a in-
dustria, agricultura e commercio da França, na lueta dos povos nos
mercados do Mundo ; paralysando antecipadamente o credito nacio-
nal, pela enormidade da divida publica, no dia em que se tivesse de
recorrer a elle em tempo de guerra ; aggravando as condições de
existência para todos os cidadãos, mais ainda para os pobres que
para os ricos, pelos mil incidentes dos phenomenos econômicos que
fazem fatalmente recair sobre os consumidores todo o peso dos
DIEEITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 3ti7 '

encargos públicos ; conduzindo-nos dess'arte, em definitiva, a uma


decadência e a uma ruina inevitáveis.
A causa do mal? Igualmente conhecida, reconhecida e procla-
mada unanimemente : a creação incessante, pela Câmara dos depu-
tados, de novas causas de despezas.
Logo, o remédio é evidente.
Urge que a Câmara não possa mais crear nem augmentai*
nenhuma despeza.
A Câmara é eleita para vigiar, fiscalisai", os pedidos do governo ;
para defender os dinheiros dos contribuintes ; para fazer econo-
mias, não para dar o exemplo da prodigalidade ! Volte, pois, nova-
mente ao seu lugar!
— Perfeitamente! se me objecta a cada momento ; mas então é .
preciso rever a Constituição.
— De modo nenhum! Não ha necessidade de pôr em movimento
todo este apparelho tão complicado. Basta que a Câmara dos depu-
tados da Republica franceza inscreva no seu regulamento a dispo-
sição que a Câmara dos communs da Inglaterra inscreveu no seu,
ha cerca de dusentos annos.
Eis o que importa demonstrar da maneira mais categórica, por-
que a regra ingleza pode ser considerada, não como a única, mas
como uma das principaes causas da prosperidade das finanças pu-
blicas do Reino unido.
Aqui está o seu texto primitivo, espontaneamente votado pela
própria Câmara dos communs, que reconheceu a sua necessidade
para defender-se contra os seus próprios excessos, no dia 11 de
dezembro de 1706, no reinado da rainha Anna, em plenas difficul-
dades da guerra de successão da Hespanha :
« Esta Câmara não receberá nenhuma petição para nenhuma
somma relativa aos serviços públicos, ou não tomará conhecimento
de nenhuma moção tendente a votar um subsidio ou um encargo
sobre as rendas publicas, pagavel por meio de fundos consolidados
ou sobre as sommas que o Parlamento fornecer, — senão por espe'
ciai recommendação da Coroa. »
Assim nada mais formal, mais claro. Todos os casos são previs-
tos ; todas as precauções tomadas. Nenhuma frincha por onde possa
introduzir-se o espirito de cortezania eleitoral com o seu cortejo de

/ v^°
368 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

larguezas financeiras. O orçamento es lá blindado. A Câmara nada


pode despender.
Não pode senão economisar ; e, como tende sempre a servir-se
dos seus direitos e não lhe resta senão um em materia financeira,
que é o de recusar ao governo o dinheiro que este lhe pede, ella
vale-se délie. Ella defende, como um cão fiel, e mesmo um tanto
irritação, a bolsa dos seus eleitores — em vez de a pilhar.
Mais ainda : nenhuma proposta do governo, acarretando uma
despeza qualquer, poderá ser examinada e votada no momento em
que é apresentada. Tem de ser adiada para a discussão em data
ulterior ; e, antes da discussão ou votação, é preciso que tenha sido
examinada pela Câmara, organisada em commissão. Tal é o pro-
cesso que o Parlamento estabelecia, em 29 de março de 1707, para
completar a decisão do anno precedente.
Assim, nenhuma possibilidade de surpreza, nenhum excesso
irreflectido. Em França, a cada momento, de improviso, com
urgência, votam-se medidas acarretando despezas consideráveis,
até mesmo por proposta de um simples deputado !
Pois bem. Isso não pareceu ainda sufficiente a esses deputados
do verdadeiro regimen parlamentar ; comprehendendo que deter-
minar as depezas a fazer, escolher os objectos a que se deve consa-
grar os recursos de que se dispõe, constitue essencialmente a obra
governamental, — levaram mais longe a restricção da iniciativa da
Câmara dos communs.
O preceito de 1706 comportava uma excepção ; a Câmara, ciosa
da « supremacia do poder civil sobre o poder militar, » suspeitosa
sempre do poder excutivo sob o ponto de vista de abusos possiveis
da força, reservava-se o direito de fixar cila mesma os créditos
destinados á milicia não arregimentada.
Uma commissão especial os determinava, communicando a sua
resolução á commissão de despezas, e então somente a Coroa apre-
sentava o seu pedido. Com o tempo reconheceram-se os inconve-
nientes de um tal systema, que dispersava as despezas militares,
confundindo as responsabilidades, e, a 9 de fevereiro de 1863. espon-
taneamente, a Câmara decidia que os ministros da Coroa agiriam
sós desde então, nessa como em qualquer outra materia, sob sua
inteira responsabilidade.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 369

Finalmente, considerando demasiado lata a formula de 1706, que-


rendo impedir toda a iniciativa parlamentar susceptível de acarretar
uma despeza não somente por via orçamentaria, mas também de
modo indirecte ; por lei especial, por medida de principio, a Câmara
dos communs votou em 20 de março de 1866 uma nova « ordem, »
ao mesmo tempo mais geral e mais precisa, concebida nestes
termos :
« A Câmara não admilürá nenhuma proposta tendente á obtenção
de um credito qualquer para os serviços públicos, e não tomará em
conta moção nenhuma implicando uma despeza a imputar á renda
do Estado, quer sobre os fundos consolidados, quer sobre os fundos
constituidos em dotações, quer sobre os fundos preparados pelo
Parlamento — fora dos pedidos formulados pela Coroa. »
Desta vez, não ha realmente mais possibilidade de imaginar um
subterfúgio, um giro qualquer permittindo aos deputados invadirem
as funeções governamentaes em materia de despezas ! A iniciativa
parlamentar fica rigorosamente bloqueada. Acabaram-se as gra-
ciosidades.
Um exemplo, entre outros, bastará para mostrar-vos até onde
vae o rigor do principio. Em 1857, a 8 de dezembio, a Rainha pedira
por mensagem uma pensão de mil libras esterlinas para sir Henry
Havelock, em recompensa dos serviços prestados ao paiz por esse
bravo general. Um dos membros da Câmara quiz pôr a reversibili-
dade desta pensão sobre o filho do titular : o presidente recusou-lhe
a palavra, declarando que não podia auetorisar a discussão de seme-
lhante emenda.
Mais recentemente, em 27 de março de 1886, por oceasião da dis-
cussão do orçamento, um deputado, o sr. H. Vicent, tendo apre-
sentado uma moção não comportando nenhum credito, nenhuma
despeza, mas affirmando em principio « a necessidade e urgência
de um augmento de credito para manutenção dos voluntários, afim
de obter desta instituição todos os serviços que ella pode prestar e
assegurar o seu desenvohimento » — o primeiro ministro, que
naqueíla época era o sr. Gladstone, declarou irregular semelhante
moção e fez com que fosse immediatamente posta de parte.
« O papel constitucional da Câmara, disse, não é de augmentar as
despezas, senão, ao contrário, de as reduzir. »
24

\*
370 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Estaes ouvindo, srs. deputados francezes ? « O papel da Câmara


não é de auymenlar as despezas, mas de as reduzir! » Palavras
essas que deveriam ser gravadas em lettras de ouro gigantescas
no frontispicio do palácio Bourbon.
Seria uma bella economia !
E accrescentava o sr. Gladstone :
» E' ao poder executivo que compete examinar e determinar as
propostas necessárias para as despezas militares, como para todas
as outras despezas. E' ao Parlamento que está reservado o direito de
aceitar, recusar ou emendar essas propostas : mas a Constituição
não lhe permitte attribuir á defeza do paiz sommas mais conside-
ra\eis do que as pedidas pelos ministros. »
Nada é, pois, mais constante, mais firmemente estabelecido e
conservado que este preceito salutar tão eloqüentemente recordado
pelo sr. Gladstone.
Seus resultados são brilhantes, sobretudo comparados aos do
» regimen parlamentar » francez. Para não considerar senão um
período assa/ breve e recente, 1874, os encargos annuaes da divida
publica eram na Inglaterra, de 680 milhões de francos, em cifra
redonda ; — em 1898 são apenas de 630 milhões de francos ; — por
conseqüência ha uma diminuição de 50 milhões por anno. E ainda
cumpre não esquecer que os 630 milhões de 1898 comprehendem
166 milhões de amortisação.
Na França, em 1874, os encargos annuaes da divida publica total
eram de 1,180 milhões ; no orçamento de 1899 estão previstos em
1,248 milhões : seja um augmento de 68 milhões annualmente.
Mas isso não passa de uma apparencia. O augmento real é muito
mais elevado, pois em 1874 os 1,180 milhões comprehendiam ao
menos 215 milhões para amortisação ; logo, encargo liquido, apenas
965 milhões ; ao passo que em 1899, os 1.248 milhões não compre-
hendem mais de 96 milhões de amortisação; restam, como encargo
liquido, 1,152 milhões. Mas, a partir de 1874, as três conversões da
renda operadas em 1883, 1887 e 1894 provocaram uma diminuição de
108 milhões por anno nos juros da divida consolidada. Os encargos
líquidos de 1874 (965 milhões) deveriam, pois, estar hoje diminuídos
desses 108 milhões, e por conseqüência reduzidos a 857 milhões.
Ora. cm Vez de apresentarem tal diminuição, elles elevam-se a
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 371

1,152 milhões : seja uma differença de 295 milhões, que se acham


actualmente no orçamento, que não deviam ali estar — e que consti-
tuem o augmento real dos encargos annuaes da nossa divida
publica.
Assim, :
De 1874 a 1878, em vinte e quatro annos, na Inglaterra 50 milhões
para menos ; em França 295 milhões para mais ; é uma differença
de 345 milhões por anno em prejuiso dos productores francezes, em
sua situação econômica geral comparada á dos inglezes.
Taes são, sobre um ponto apenas do orçamento, as conseqüências
vantajosas do systema inglez e desastrosas do systema francez.
Por este exemplo pode-se julgar do resto.
Os anglo-saxões, tão ciosos da sua independência, dos seus direitos
individuaes, ao mesmo tempo tão práticos, de tal maneira compre-
henderam a necessidade do principio consagrado pela Câmara dos
communs desde 1706, que o inscreveram textualmente na propria
Constituição das principaes colônias da Grã-Bretanha.
Assim, na Constituição da America ingleza do norte, « repousando
sobre os mesmos princípios que a do Reino-unido » e decretada em
29 de março de 1897, lê-se o art. 54.°, concebido nestes termos : « Não
será licito á Câmara dos communs adoptai* nenhuma resolução,
moção ou bill, dispondo de qualquer porção da renda publica, ou de
nenhuma taxa ou imposto, para um flm que não tiver sido previa-
mente recommendado por uma mensagem do governador geral,
durante a sessão. »
Da nlesma forma, e já antes, os enérgicos e ardentes cidadãos da
colônia da Victoria, dotados de um espirito tão democrático e tão
audacioso, haviam cuidadosamente inserido na sua Constituição de
23 de novembro de 1855 o artigo 57.°, cujo texto é o seguinte, rigoro-
samente conservado a partir de então, atravez das diversas revisões
constitucionaes feitas : « A Assembléa legislativa não terá o direito
de propor ou formular um voto, uma resolução, um bill, tendo por
objecto a apropriação de uma parte do fundo consolidado, da renda
ou de todos os outros direitos, contribuições, rendas proventos e
impostos, se ella não tiver sido previamente recommendada por
uma mensagem, etc. »
Eis ahi como procedem as nações, a> raças mais livres do Mundo.

«
312 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZlLEIRO

mas também as mais dignas da liberdade, pelo uso que delia sabem
fazer, em proveito da prosperidade publica, bem como em proveito
dos interesses individuaes.
E agora, contribuintes francezes, conhecendo o remédio, a vós
cumpre dizer se quereis extirpar o mal, ou se preferis que o cancro
continue ! »
Parte das idéas advogadas por Julio Roche e que também pre-
gamos, já se acham consignadas na ultima lei orgânica do Districto
federal, como se vê dos pontos que gryphamos, em a nota N.
E' muito de consignar-se a recente adhesão do Jornal do com-
mère io do Rio-de-janeiro ao programma do economista francez. O
vulgarisado periódico assim se manifesta, em o numero de 16 Je
fevereiro : 1
d Se o Congresso na próxima sessão ajudar o governo, é de esperar
que a situação melhore ainda mais. Infelizmente, as sessões legisla-
tivas têm sido esterilissimas. Perdidos em divagações politicas os
primeiros mezes do período marcado para seus trabalhos, as
câmaras têm abusado das prorogações remuneradas, para votar os
orçamentos á ultima hora de roldão.
Essa condueta tem levantado não só grande malquerença contra
os representantes da nação, que em uma época de penúria consomem
quantia considerável do Thesouro, como também tem creado serias
dilliculdades ao governo, que não tem tempo para preparar-se, como
ainda agora aconteceu, afim de arrecadar do melhor modo cs
impostos novos e providenciar sobre outras alterações dos ser-
viços.
A Câmara actual se recommendaria d estima 'publica se cerceasse.
em disposição regimental, a liberdade de augmentar as despezas
do Estado e reduzisse para a futura legislatura o subsidio dos repre-
sentantes da nação. Esse acto, estendido proporcionalmente aos
vencimentos do Presidente e Vice-presidente da Republica, produ-
ziria o bom effeito de demonstrar aos contribuintes que os seus man-
datários são os primeiros a se sujeitarem ás contingências da
situação que atravessamos. »

i 1899.
DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO 373

Nota F
A' pagina 90 :
Leia-se este parecer de um parlamentarista : « Vi sono nello Staío
certe funzioni le quale non potrebbero cessare senza portar seco
la cessazione dello Stato stesso, vi sono certe spese la cui uniforme
e costante esecuzione é conncssa colle condizione piú vitali per
l'esistenza dello Stato, per la prosperità e la sicurezza della nazione.
Ricordiamo fra queste spese e funzioni, solo in via d'esempio, il
servizio del debito publico e délie pensioni, il trattamento degli
impiegati, il servizio di publica sicurezza interna, Fesercizio dei mezzi
di communicazione, l'esercito, la flotta e molti altri ancora. Questi
servizii — qualunque sia la forma di governo, qualunque sia il
nome delle persone che stanno a capo deiramministrazione, —
hanno un tal carattere di necessita e quindi stabilità che riusci-
rebbe assurdo il volerne anche per un solo istante sospeadere l'atti-
vità : ebbene, il bilancio dovrebbe essere indiscutibile per questo
servizii essenziali o meglio per la parte stabile di essi e non dovreb-
bero sottoporsi a discussione se non le variazioni che il potere ese-
cutivo credesse di dovervi introdurre. Per tal modo sarebbe conce-
pibile, al meno parzialmente, anche il rifiuto del bilancio, perc'-iè-
nella peggiore ipotesi lo stato procederebbe nella sua amministra-
zione secondo le norme del bilancio antecedente. L'esempio del-
l'lnghiltcrra e quel che più conta, la pratica cfiectiva dei moderni
parlamenti dovrebbe incoraggiare i legislatori a proclamare statuta-
riamente Ia distinzione fra entrate e spese intangibüi e le entrate e
spese discutibili o variabili. Non ultimo vantaggio di tal distinzione
sarebbe anche un risparmio preziosissimo di tempo per le assemblée
parlamentari e 1'altro di redurre ai veri casi di straordinaria ecce-
zionalità Ia concessione dei bilanci provisori. » — Roncali, Scienza
finanziaria, pag. 86.
374 DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIBO

Nota G
A' pagina 130, nota :
O seguinte telegramma, passado em dezembro de 1900 a' Noticia,
do Rio-de-janeiro. patenteia a justeza de taes julgamentos e bem
mostra o que e ' e o que vale essa olygarchia parlamentar britannica,
apresentada ao Mundo como o modelo dos governos :
« Londres, 11 de dezembro. — Mr. Barthey. membro da Câmara
dos communs, apresentou hontem uma moção em que se lamen-
tava o facto de grande numero de membros da família Salisbury
occuparem actualmente posições na administração dos públicos
negócios, accrescentando-se que a Câmara veria com satisfação
modificar-se essa situação anormal. Posta a votos, foi a moção
rejeitada por 220 votos contra H8. Outra moção, prohibindo que os
ministros tivessem interesses pecuniários em emprezas commer-
ciaes e industriaes que mantêm relações com o governo, foi igual-
mente rejeitada por grande maioria. »
Veja-se agora um episódio interessante da vida parlamentar ita-
liana, outro modelo do gênero, relatado em telegramma do mesmo
anno, ao Jornal do Brazil, da capital federal :
(( Milão, 3 de janeiro. — O jornal Tempo publica uma carta
que o general Mirri, actual ministro da guerra, dirigiu em 1894,
quando era governador da Sicilia, ao procurador-geral Venturini.
pedindo a libertação do homicida Saladino, que devia servir ao
governo para sustentar a eleição do candidato situacionista Abel
Damiani. »
Pode descer mais a. chamada burguezocracia ?
No Chile, onde sacrificaram o eximio patriota Balmaceda, para
enthronisal-o, o parlamentarismo apresenta agora (1900-1901) um
curioso aspecto. Com o annuncio da próxima eleição presidencial,
surgem dois candidatos : Montt, pelos conservadores, Riesco, pelos
liberaes. Apesar de parente do segundo, o Presidente Errazuriz quer
manter-se neutro no pleito e por isso procura organisar um minis-
tério sem côr partidária. Mas... o Parlamento é liberal, quer a seu
turno um gabinete que favoreça a Riesco e como o Presidente se não
DIBEITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 375

conforma com isso, assistimos seis mezes ao triste espectaculo de


um paiz em completa acephalia, paralysados todos os ramos da
administração, pois que nenhum politico ousa formar ,um minis-
tério, diante da resoluta attitude das câmaras.
Telegrammas de 2 de maio de 1901 annunciam que o sr. Zafíartú
conseguiu combinar um gabinete com a maioria parlamentar : o
Presidente capitulara ?
Quer assim a « democracia representativa » descaradamente sa-
crificar o principio fundamental do systema : a liberdade dos suffra-
ges'?... Faziam crer os ideólogos que o parlamentarismo fora creado
como sendo a mais segura barreira contra as usurpações do execu-
tivo : no Chile vemos invertidos os papeis, o Parlamento preme-
ditando atropellar a liberdade eleitoral e o executivo servindo de
broquel ao voto popular.
Em face do exposto, seja-nos licito perguntar : em quê vae dar o
famoso engenho politico destinado a fazer contrapeso ao despo-
tismo ?

Nota H
A' pagina 151, nota 3.» :
« O município., em parte nenhuma, talvez, durante a idade meaia,
teve mais influencia no progresso da sociedade, foi mais enérgico e
vivaz do que em Portugal. 1 »
Em um manifesto eleitoral do sr. almiranie Ignacio Joaquim da
Fonseca, demos com o conceito acima estampado do eminente Her-
culano, quando já estava quasi prompta a primeira edição deste
livro ; e como dava a auctoridade de um grande nome ao que dizemos
em a nota 2.» á pagina 160, reencetamos a leitura da monumental
obra do historiador, cujo primeiro volume folheáramos na quadra
acadêmica.
E' de calcular o profundo desvanecimento com que na Historia de
Portugal se nos deparou uma para nós muito honrosa conformidade
i Historia de Portugal, vol. IV, pag. 4.

f
376 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

de pensamentos, em varias de nossas apreciações e do venerando


escriptor portuguez.
Haja vista o que assignalamos em a nota B e outras que na pre-
sente edição junctamos ao corpo desta obra.

Nota I
A' pagina 153, nota 3. a :
Leia-se o caloroso parecer de Machiavel, esse mestre na arte de
governar, em favor da indicação do successor :
« Porque foram maus, exceptuando Tito, os imperadores que
receberam o Império por herança? Porque foram bons todos os que
o tiveram por adopçâo, exemplo os cinco imperadores a partir de
Nero até Marco Aurélio? Porque emfim cae o Império em ruinas no
momento em que é entregue a herdeiros ? — Que um Príncipe
ponha os olhos nos tempos que correm entre Nero e Marco Aurélio,
compare esses aos que os precederam e seguiram, e que escolha em
seguida a época em que houvera querido nascer, aquella que esco-
lheria para commandai1. » — Discurso sobre Tito Livio, citado por
Ferrari, no prefacio do Principe.

Nota J
A pagina 158, nota 2.a :
Com a regressão ás fôrmas primitivas de supremacia bastarda
do numero, o primordial processo consular de eleições, transfor-
mou-se, no andar dos tempos : o consul foi obrigado a fazer a apre-
sentação nos comicios de todos os nomes de candidatos que sur-
giam, escolhendo dentre esses o povo.
As convulsões sociaes que se seguiram, impuzeram, todavia, a
volta aos bons princípios : <( o poder de um só tornou-se condição
DIREITO CONSTITUCIONAL E-RAZILEIRO 377

de paz no mundo romano, » 1 e a continuidade da mesma acção


governativa, antes obtida pelos cônsules com a indicação de seus
substitutos, conseguiu-se agora pela regência vitalícia de um func-
cionario, Princeps, continuada ininterruptamente por um succes-
sor, que elle designa.
De novo triumphava a indicação.
Os ethiopes, conforme observou frei João dos Santos (Ethiopia
oriental, vol. I, pag. 54), « não escolhem para Rei o principe mais
velho nem mais chegado, senão o mais prudente e esforçado. Esta
escolha ordinariamente está na vontade do Rei vivo o qual em sua
vida vae logo pondo os olhos em quem tem partes para poder reinar
e a esse favorece mais, tratando com elle as cousas do governo e
mostrando que este lhe ha de succéder no Reino, pelo que é de todos
venerado e temido. »
As antigas constituições da Russia estatuem que « o Czar podia
escolher livremente quem elle quizesse para seu successor. »
O systema da indicação foi igualmente ensaiado no antigo Im-
pério germânico, como se vê desta lição de Robertson : 2
« Em 1024, cpoca posterior aos pretensos regulamentos de
Otham III, Conrado II foi eleito por todos os chefes, e sua eleição
foi approvada pelo povo. (Struv. Corp. pag. 284.) Sessenta-mil pes-
soas assistiram, em 1123, á eleição de Lothario III. Foi nomeado
pelos chefes, e a nomeação foi approvada pelo povo. (Struv. Ibid,
pag. 357.) O primeiro escriptor que menciona os sete eleitores é Mar-
tim Polonus, que vivia sob o reinado de Frederico II ; morreu
em 1250. li' de observar-se que em todas as eleições antigas de que
falei, os príncipes que gosavam de mais poder e auetoridade, obti-
nham de seus compatriotas o direito de indicar a pessoa a quem
desejavam que se deferisse o Império, e o povo livremente appro-
vava ou rejeitava a escolha. »

• Tácito, Historias, liv. I, cap. 1.


A opinião do historiador-philosopho ó a mesma do Corpus juris cioilis :
« Assim como a faculdade de constituir as leis ultimamente competia á pou-
cas pessoas... tornou-se preciso que um só regesse a Republica, porque não
podia o Senado governar bem a todas as províncias igualmente, etc. »
Digesto liv. I, tit. II, De origine juris et omnium magistratura, et suc-
cessione prudentum, fr. 11, Pomponio.
'Histoire de Charles-Quint, vol. II, pag. 297.
378 DIREITO GONSTITTJCIONAL BEAZILEIRO

Em Portugal, até a época da segunda dynastia, foi de uso nos


testamentos dos reis, a « designação do seu successor. » « Nem se
encontra outra innovação, diz Coelho da Rocha, 1 mais do que a
pratica de reconhecer e fazer jurar pelos Estados em vida dos reis
o sucessor da Coroa , muitas vezes ainda ao collo das amas ; aíim
de dar estabilidade ao governo e inocular nos povos o habito do
respeito e da obediência. » — Não se deu, aliaz, a innovação que
imagina o douto jurista portuguez : a pratica citada e' oriunda do
Império romano, como notamos antes, e corrente no tempo em que
florescia.
(( Henrique VIII, diz Macaulay, obteve do Parlamento um acto
que lhe dava o poder de dispor da Coroa por testamento. »
« Eduardo VI, sem ser a isso auctorisado pelo Parlamento, arrogou-
se a mesma competência. » E a grande Isabel, accrescenta o notá-
vel escriptor, inclinou o mesmo Parlamento a estabelecer como
regra que o soberano reinante podia modificar a ordem de successão
no throno, com o assentimento dos estados do reino.
0 acto constitucional do Protectorado, instituído por Cromwell,
(( deu-lhe o direito » de designar o successor. 2
Garantindo assim a continuidade governativa, assegurando sua
perfeita estabilidade pelo estabelecimento do poder vitalício, e man-
tendo escrupuíosamente a mais completa liberdade espiritual, o
arrojado estadista inglez traçou com a clarividencia do gênio as
verdadeiras condições fundamentaes do regimen moderno.
A exemplo do glorioso Protector, Toussaint e os legisladores do
anno VIII, como já dissemos, estabeleceram a presidência vitalícia,
com a livre nomeação do successor, e como os actos que promul-
garam, assim a Constituição de 1807, e também a de 1816, que deu
vinte-e-cinco annos de paz e prosperidade ao Haity. Neste paiz a
Constituição de 1846 e a modificação constitucional de 1859 firmaram
ainda o principio da vitaliciedade, mas sem garantir ao chefe do
Estado o direito de indicar o substituto, faculdade esta restabelecida
na Constituição de Dessalines.
Segundo a Constituição de 23 de outubro de 1822, feita sob inspi-
ração de 0'Higgins, estadista da independência e libertador do
1
Coelho da Rocha, obra citada, pag. 9S. No mesmo sentido Brandão,
Monarchia lusitana, vol. V, liv. XVI, cap. V.
2
Guizot, Richard Cromwell, vol. I, pag. 2.
DIREITO CONSTITUCIONAL BBAZILEIBO 379
Chile, em caso de morte, até nova eleição, governava uma regên-
cia, nomeada pelo Director, em documento antes depositado nos
archfvos nacionaes.
Todas estas leis orgânicas, porém, admittiram a pratica da
nomeação do successor, determinando que fosse conservada em
segredo até o fallecimento do governante, e só a do Haity, de 1816,
facilitava a rejeição do designado, quando não fosse do agrado
da nação (artigo 166).
Um Rei da China, relata a Encyclopedia, deu exemplo memorável
em favor deste systema. «.Não achando seu filho digno de succeder-
lhe, fez que passasse o sceptro a um ministro, e disse : Prefiro que
meu filho esteja mal e meu povo esteja bem, a que meu filho esteja
bem e meu povo esteja mal. 1 »
Outro soberano do Oriente, « Pharnaces. Rei dos Parthas, ainda
que tinha muitos filhos, respeitando mais ao bem commum dos vas-
sallos, que ao interesse de seus próprios filhos, deixou o reino a seu
irmão Mithridates por ser pessoa de grande virtude, e valor.
O mesmo fez Roboão. com o fim de reparar seus erros, que deram
em resultado a divisão das tribus, de doze ficando-lhe duas apenas.
Para manter o governo. « não achou melhor remédio que escolher
para successor de seu Reino o filho mais prudente, ainda que na
idade não fosse o primeiro, entendendo que mais lhe convinha
seguir a rasão de Estado de se conservar, que a justiça de dar o
reino ao mais velho na idade. »
O grande orgam inglez Daily Mail, a propósito do attentado
contra Mac Kinley. suggère aos norte-americanos a conveniência
de instituírem que os presidentes da Republica « indiquem seus suc-
cessors. (Numero de 8 de setembro de 1901.) »

Nota K
A' pagina 165, nota 2.a :
0 Jornal do commercio do Rio-de-janeiro publicou a 12 de de-
zembro de 1898, as considerações que abaixo reproduzimos, acom-
1
Vide legislado?^.
380 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

panhando uma noticia de periódico francez sobre a comedia elei-


toral no Extremo-oriente. Em toda a parte os mesmos funestos re-
sultados, apesar de todas as cautelas moralisadoras, como no caso
que se vae 1er, e nossos frivolos democratas ainda esperam a rege-
neração política da Pátria, por via do desastroso systema eleitoral
directo, vigente na actualidade !
Eis o escripto a que nos referimos :
« As ELEIÇÕES NO JAPÀO.— Se a Europa enviou para o Japão os
beneficios incontestados da sua civilisação, também lhe metteu em
casa os seus vicios e maus costumes.
E' o que aconteceu com o systema eleitoral adoptado por aquelle
paiz. Delle surgiu immediatamente o cortejo de corrupções e de im-
moralidades, que infelizmente costuma acompanhar as eleições
nos povos mais adiantados da Europa e da America.
De Toldo escrevem para o Jornal dos debates o seguinte :
« A cam'panha eleitoral foi das mais tranquillas, e, graças ás enér-
gicas medidas do governo, não temos que deplorar os actos de vio-
lência que até hoje têm earaeterisado as eleições japonezas.
Mas se por este lado, as medidas governamentaes produziram
salutar effeito e mereceram o applauso de todos, não se pode dizer
o mesmo com respeito ao decreto para prevenir a corrupção eleito-
ral. O pensamento delle é louvável ; o governo quiz pôr termo ás
detestáveis praticas de corrupção e de venalidade, que deshonram
as eleições.
As regras, ahi estabelecidas, eram severas, e prohibiam tudo o
que parecesse com qualquer manobra do candidato, para attrair os
votos dos eleitores. Não foi tanto contra as prescripções restrictivas
do decreto que a opinião publica protestou ; mas contra os abusos
commettidos á sombra délias pelos agentes da auetoridade.
Não ha duvida que a applicação do decreto deu origem a excesso
de zelo.
Assim, por exemplo, foi processado um candidato, porque tomou
uma chicara de chá em casa dos eleitores. Um outro facto mostrará
a paixão com que certos agentes do governo applicaram a lei.
No districto de Kiobashi, em Tokio, os partidários'do sr. Nooka-
yawa redigiram uma circular convidando os eleitores a votarem
por este politico. Tinha 200 assignaturas.
ÎHREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO 381

Entre ellas descobriu-se a de um Tsonchida. que declarou não


haver auctorïsado ninguém a pôr ahi o seu nome. Immediatamente
abriu-se um inquérito judicial contra os outros 199 signatários, o
qual deu em resultado privar estes do voto, sem prejuiso das penas,
a que estarão sujeitos nos processos ulteriores! Para explicar este
zelo intempestivo do procurador imperial de Tokio, é preciso dizer
que o adversário do sr. Nockayawa era precisamente o vice-minis-
tro da justiça!
« Poderia citar ainda muitos outros factos, uns mais extraordi-
nários que outros porque as queixas abundam, e em todas as pro-
víncias deram-se abusos semelhantes. Os jornaes da opposição
queixain-se, com rasão, de que a maioria dos actos de severidade
fora applicada entre todos os candidatos, que não fazendo parte do
kensei-to são considerados, comtudo, adversários possiveis do go-
verno. Nestas condições não admira que a opinião publica não
aceite de bom grado a applicação desta lei draconiana.
De modo que a lei moralisadora, nas mãos do governo, converteu-
se em instrumento de perseguição e de violências contra os seus
adversários politicos.
A opposição apenas obleve 37 deputados contra 252 govcrnamen-
taes. »

Nota L
A' pagina 180, nota:
Estas distincções vão ganhando terreno. Ultimamente, nos aponta-
ram trecho de outro escriptor, bastante expressivo :
« Les Espagnols, en colonisant les deux Amériques, y avaient ap-
porté les institutions, les mœurs, les traditions de la mère patrie.
Or, l'Espagne est, de tous les pays de l'Europe, celui qui jouissait
des libertés civiles les plus étendues et où le sentiment de l'égalité
est le plus généralement répandu. C'était et c'est encore le pays le
382 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

plus réellement démocratique, dans le seul sens que l'on puisse,


selon nous, attacher réellement à ce mot.
La démocratie, en effet, telle que l'on entend généralement aujour-
d'hui cette démocratie qui vise à supprimer toutes les hiérarchies
sociales, N'EXISTE PAS ET NE SAURAIT EXISTER. Et (sans entrer dans
des démonstrations abstraites) cela est si vrai dans la pratique que
l'histoire nous apprend que les démocraties les plus vantées,
n'étaient que des aristocraties déguisées et relatives. La démocra-
tique Athènes, elle-même, avait des ilotes dans les habitants déshé-
rités de Mégase. » — Considérations historiques et politiques sur les
républiques de la Plata dans leurs rapports avec la France et l'An-
gleterre, par M. Alfred de Brossard, pag. 59 et 60.

Nota M
A pagina 189, nota 1.» :
Livio i\linguzzi, superficial em seus juizos, mostra segura obser-
vação no que emitte sobre este assumpto. « Quanto alia persona del
Presidente, diz elle, la immutabilité del termine (immutabilidade
absoluta, é bem de ver) Io tiene necessariamente ai potere, qua-
íunque sia Ia prova che cgli vi faccia. Quanti rimpianti, quanti
rimorsi forse, scrive Caro (La vraie et la fausse démocratie, « Revue
des deux mondes. » 1 giugno 1870), quando la volonté del popolo s:
sia legata ad un capo incapace, o peggio ancora capace di malvagi
disegni contro la sovranità nazionale? Chè se invece si abbia un
Presidente accetto al Congresso ed al paese, al termine dei suo uffi-
cio è egli pure obbligato a cedere il potere quantunque soddisfi gene-
ralmente. È ben vero che puo essere rieletto, ma in tal caso la con-
tinuazione dei suo ufficio che dovrebbe avvenire de piano è per lo
meno, come osserva Freeman, messa a repentaglio ed il paese è co-
stretto a sottostare ail' eccitamento e scompiglio délia elezione presi-
denziale ; senza poi dire che aï nuovo termine il Presidente è co-
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 383

stretto inesorabilmente a scendere dal governo anche se potesse


rendere grandi servigi ed il paese fosse contento deli' opera sua.
Rispetto alie condizioni politiche poi Ia stabilitá dei termine non ò
meno dannosa, poichè anche per esse può accadere che il cambia-
mento succéda quando non sia necessário e che quando sarebbe
necessário od utile non si verifichi. » Pag. 152.
« Può darsi per esempio che Ia elezione prisidenziale cada nel
mezzo di una guerra civile, o quando Io Stato sia impegnato in una
impresa bellicosa o quando per la sua política abbía massimo
bisogno dl raccoglimento e di quiete. II cambiamento di governo è
sempre funesto in quel momento, perché i nuovi governanti potreb-
bero avere altre idee e certo hanno minore conoscenza delle quis-
tioni. E momorabile su questo punto il motto semplicissimo di Lin-
coln, che non è a meta dei guado che conviene mutare i cavalli.
Dannosa dei pari è Ia perturbazione che ne avverrà in paese, stante
che non si può sperare che Ia prudenza riesca ad evitaria. L'esempio
delia rielezione di Lincoln può ammaestrarci in propósito ; delia
quale cosi narra Duvergier De Hauranne 1 testimone oculare. « I
partiti si agitano si combattono si assorbono nelle loro ambizioni
« rivali, e durante questo tempo il bene publico è messo in obblio.
« La nazione divisa in due campi nemici, lascia fin anche Ia cura
« delia propria difesa ; ed accade perflno che i partiti scorgano degli
<( alleati nei nemici publici, e che godano delle loro vittorie come di
a tante probabilità di successo. Non dico dei democratici che sono
« troppo facilmente i segreti amici dei Sud ; ma conosco dei zelanti
« partigiani delle Unione, de gV abolizionisti radicali che si conso-
« lano degli ultimi disaslri sperando che possano cacciare via Lin-
(( coin delia presidenza e aprire Ia porta ai generate Fremont. In un
(( meeting radicale avvenuto Paîtra sera si sono occupati più d'in-
« giurare il Presidente che di portar soccorso alla Pátria minac-
« ciata... Giammai elezione è stata cosi pericolosa ne divisione
« cosi profunda tra i partiti ; giammai presidenza ha avuto al suo
d finire maggiori cause di debolezza allora appunto che si faceva
(( sentire maggiore il bisogno délia sua forza. » — Minguz/i. governo
de gabinetto e governo presidenziale.

* Huit mois en Amérique, vol. II.


384 DIREITO CONSTITUCIONAL BÊAZILEIRO

Nota N

A' pagina 190, nota 1.» :


Assignala uma grande victoria dos bons princípios pregados neste
livro a recente reforma das instituições do Districto federal, promul-
gada a 23 de dezembro de 1898.
O systema adoptado para o governo do antigo Municipio-neutro
era análogo ao que vigora na Republica, e deu ahi o resultado de
arruinal-o totalmente.
O remédio para que se appellou e o que, mais completo, rege-
nerará o Brazil inteiro.
Basta 1er o artigo 2.° da nova lei para comprehender-se o immenso
triumpho obtido sobre a rotina democrática.
Consta que ao Presidente actual cabe a gloria da iniciativa, facto
que, a ser verdadeiro, como cremos, vem comprovar mais uma vez
a nullidade das assembléas legislativas.
Não é que nellas faltem de todo pessoas capazes : é que o meio,
como adverte Sighele, apouca os homens. Já este phenomeno obser-
vara Solon.
O grande atheniense, em avançada idade, teve occasião de ver o
que um homem de gênio fazia desse povo grego, ao qual attribuira
papel preponderante no seio do Estado : — era um titere, nas mãos
do grande Pisistrato.
Indignado contra um facto tão natural, o sublime velho dirige a
seus concidadãos uma patriótica elegia, cujo enérgico final assim
traduziu Alexis Pierron : x « Si vous endurez ces maux par votre
lâcheté, n'accusez pas les dieux de votre malheur. Ces hommes, c'est
vous qui les avez faits si grands, en leur donnant ces appuis ; et voilà
pourquoi vous êtes dans ce honteux esclavage... Vous ne regardez
qu'à la langue, qu'aux paroles d'un homme artificieux ; mais vous
ne voyez nullement la façon dont il se gère... Chacun de vous en par-
ticulier marche sur les traces du renard; mais, réunis, vous n'êtes
qu'une troupe imbécile. »
1
Histoire de la litce'mture grecque, cap. VIII.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 385
Eis os artigos principaes da nova lei :
(( Art. 2.° O Presidente da Republica nomeará o Prefeito, QUE SERÁ
CONSERVADO NO DESEMPENHO DE SUAS FUNCÇOES, EMQUANTO BEM
SERVIR ; derogadas, no que forem contrarias a esta, as disposições
dos arts. 18.° e 23.°, da lei n. 85, de 20 de setembro de 1892.
O Presidente sujeitará essa nomeação á approvação do Senado
federal, no praso de 10 dias, da sua data ; e, na ausência do Con-
gresso no mesmo praso, depois da sua reunião. »
(( Art. 3.° O veto opposto pelo Prefeito ás leis e resoluções do Con-
selho, na fôrma do art. 1.° da lei n. 493, de 19 de julho de 1898, será
submettido ao conhecimento do Senado, qualquer que seja a natu-
reza daquelles actos.
E' derogado o § 2.° do citado artigo.
§ único. Se entenderá approvado o veto, se a decisão do Senado,
rejeitando-o, não reunir dous terços de votos dos senadores pre-
sentes. »
« Art. 9.° A iniciativa da despeza, bem como a da creação de
empregos municipaes e do recurso a empréstimos e operações de
credito, compete ao Prefeito.
§ 1.° Exercer-se-á essa iniciativa apresentando o Prefeito ao Con-
selho municipal o projecto annual do orçamento da despeza e as
demais propostas, financeiras ou administrativas, que as necessi-
dades do serviço lhe aconselharem.
§ 2.° Deliberando sobre a lei de orçamento, o Conselho não poderá
fazer nenhum augmento ou diminuição de ordenado, nenhuma
creação ou suppressão de emprego, nem votar disposições dt
caracter permanente, sem proposta do Prefeito. »

Nota O
A' pagina 192, nota 2.a :
« Quant à la durée des fonctions du Président, les idées étaient
très divergentes et les systèmes bien contradictoires. Les uns
demandaient que ce haut fonctionnaire fût nommé à vie, c'est-à-dire
till good behaviour, ou tout au moins pour une longue durée. Un
25

s
386 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

court terme de mandat, disaient-ils, rendrait la présidence sans


attrait pour les hommes éminents ; elle ne serait recherchée que
par des gens cupides, plus soucieux des avantages matériels que
du respect d'eux-mêmes. Le temps manquerait aux esprits même
les mieux doués, pour réaliser pendant une courte présidence
quelque entreprise féconde. S'ils en faisaient l'essai, ils n'en auraient
que la responsabilité ; l'honneur du résultat resterait à leur succes-
seur chargé de compléter l'œuvre commencée. » — Carlier, La Répu-
blique américaine, vol. 11, pag. 87.

Nota P
A' pagina 193, nota :
Esta lisonjeira opinião de Bolivar sobre Pétion é partilhada por
um escriptor francez de nossos dias, Bonneau. « Organiser, diz elle,
une société pour des hommes qui, naguère, étaient exclus de la vie
sociale ; régler la liberté pour un peuple qui ne l'avait jamais
connue ; conférer les droits de citoyens à des esclaves récemment
émancipés ; assimiler dans la même unité nationale une masse
profondément ignorante et une minorité intelligente, éclairée, initiée
à tous les secrets de la civilisation ; réaliser la fusion de deux classes
dont les intérêts étaient, il est vrai, solidaires, et qui appartenaient
par leurs mères à la même race, mais qui se rattachaient par leurs
pères à deux races hostiles ; tel était le problème à résoudre. Il se
trouvait posé pour la première fois depuis le commencement du
Monde, et de sa solution dépendait l'existence d'une nation destinée
à devenir en Amérique le point de départ d'une civilisation nou-
velle.
C'était à Pétion qu'était réservé l'honneur de présider à cette œuvre
de réparation, de conciliation, de progrès et d'avenir ; disons mieux,
c'était à lui qu'il était donné de l'accomplir. » — Haïti, pag. 112.
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 387

Nota Q
a
A' pagina 206, nota 2. :
Fustel de Coulanges sustenta doutrina contraria ao texto e dis-
semos que sem fundamento serio, porque se limitou a' simples pes-
quisa nos documentos, e ainda que estes não faltem, como citamos,
isto não basta, e e' antes fonte muito capaz de inclinar a errôneas
inducções. De facto, saidos da barbarie, em face de uma pomposa
civilisaçâo que se apressavam a imitar em tudo que lhes era pos-
sivel, os homens oriundos da Germania e senhores então do occi-
dente, reproduziam naturalmente, nos seus actos legislativos, as
fôrmas externas usuaes entre os romanos, sendo dessa origem cer-
tamente todo o pessoal capaz de os redigir nesse tempo. Tanto mais
é de crer que isto assim se desse, quando facilmente se comprehende
o prestigio que taes fôrmas deviam ter diante de chefes guerreiros
cujo poderio se via ampliado nas expressões communs da chancel-
laria cesariana.
Não so' nos documentos devera ficar o brilhante espirito inves-
tigador de Fustel de Coulanges, sobretudo tratando-se de época em
que havia tamanha falta délies, e cumpria-lhe estudar o assumpto
explorando sociedades em análogo estádio de cultura.
Como muito bem sentenciou Robertson, « os homens collocados
nas mesmas circumstancias, apresentarão os mesmos costumes e
se mostrarão sob a mesma fôrma. »
Os germanos, inda que um pouco mais civilisados, viviam a vida
daquelle estado social em que se encontravam as tribus americanas
da época do descobrimento.
Comparem-se as descripções de Cesar (liv. VI, cap. XXIII) e Tácito
(cap. VII, n. 11) ás de Azara (vol. 1, §§ 20, 54, 111, da Description del
Paraguay o rio de la Plata), Garay (Historia del Paraguay, introd.
n. 5), Gabriel Soares (cap. CLI et CLXIV), e as conclusões não serão
em desaccordo comnos^o.
A' auctorisada opinião de Fustel de Coulanges oppomos a não
menos competente de A. Thierry. Vide Œuvres, lettre XXV sur
l'histoire de France, cuja opinião e' mais ou menos igualmente a
de Guizot, na Histoire de la civilisation en France, vol. 11, pag. 255.

#
388 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

Nota R
A' pagina 210 :
Em data de 25 de maio, apresentamos, com a assignatura de vários
collegas da representação riograndense, o projecto n. 30 de 1900
relativo á adopção do código civil, assim justiíicando-o :
<( O elevado tentamen de dotar a Nação brazileira com um código
civil ha de ser posto em pratica e realisado com aquella meditação e
estudo que requerem obras de tal magnitude, ou dará fructo imper-
feitissimo. Julgar que possa ter bom exito o propósito de obter sua
adopção do Congresso, pelo processo ordinário de legislar, é des-
conhecer que precisa um instituto dessa ordem revestir-se da mais
completa unidade, moldar-se no mais rigoroso systema, fazer-se
com a mais segura coordenação. E isso se não pode conseguir por
meio de um debate parlamentar, conforme usamos, em o qual se
perde quasi sempre o primitivo producto do pensamento creador,
nos remodelamentos parciaes de desconnexas emendas, quebrada
a harmonia do plano originário com a adjuncção de accessorios
dispares. Assim, teriamos, em vez da genesis fecunda de uma legis-
lação primorosa, o parto horripilante de um monstro, informe aggre-
gado de partes heterogêneas : encontradas theorias e ideas, que
mutuamente se repellem.
Este o motivo por que nenhuma concepção do gênero da que nos
occupa jamais se operou pelas normas em pratica no seio das assem-
bléas. Se por accaso alguma vingou em taes grêmios, é que alcan-
çara o decidido patrocínio de qualquer personalidade politica de
alto relevo, que emprega seu valimento para que saia do tumulto
parlamentar, pura e escoimada de defeitos inhérentes aos trabalhos
collectivos.
O espirito pratico dos inglezes ha muito descobrira o mal, e bus-
cou-lhe efficaz remédio : ali, hoje em dia., o Parlamento vota e
retoca, mas a obra legislativa é de facto quasi exclusiva producção
de um redactor official, jurisconsulto notável, nomeado pelo
governo.
O illustre publicista argentino Alberdi, um dos mestres da
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 389
geração constitucional das províncias unidas do Prata e intransi-
gente adversário do dictador Juan Manuel de Rozas, opinava que
em muitos pontos um processo especial « es ei único medio de llevar
á cabo ciertas reformas de larga, difficil é insegura ejecucion, si se
entregan á legislaturas compuestas de ciudadanos mas practicos
que instruidos, y mas divididas por pequenas rivalidades que dis-
puestas á obrar en el sentido de un pensamiento comun. Tales son
las reformas de las leyes civiles y comerciales, y en general todos
esos trabafos que por su extension considerable, Io técnico de las
matérias y la necessidad de unidad en su plan y ejecucion, se desem-
penan mejor y mas pronto por poças manos competentes que por
muchas y mal preparadas. »
A prudência, que deve presidir a toda seria resolução, aconselha
ainda se encare intelligentemente outro aspecto da questão. Importa
não prescrever um código que deva ser logo reformado, que deva
ser logo invalidado por um dilúvio de leis extravagantes. Cumpre
que tenha uma indispensável fixidez relativa, ao menos por algumas
décadas. Para que assim seja, é mister consagre elle as aspirações
do presente e do mais proximo futuro.
Pensam os legisladores actuaes do Brazil que todas as leis e n
vigor hoje a codificar definitivamente — algumas vetustissimas,
outras adoptadas por frágil amor á novidade — estão nesse caso,
sem exceptuar-se uma só ? Não é de boa cautela indigar se o povo
está conforme com ellas, antes de lhes imprimir a forma solemne
da codificação ? Não é de provido conselho ouvir a respeito o pare-
cer dos doutos, não só os da capital federal, como os jurisconsultes
do paiz inteiro?
Convidada a nação a pronunciar-se sobre as instituições do direito
civil, como o foi em 1890, para dizer sobre o direito politico pelo
orgam da Constituinte, não garantiríamos á obra actual uma feição
mais duradoura, assentando sua legitimidade no expresso apoio da
nacionalidade em peso ? Não lhe daríamos assim uma feição mais
popular e livre, consultando, pelo significativo modo apontado, a
universalidade da opinião brazileira ?
Sujeito a estas liberrimas e racionálissimas praxes, o código
entrava em vigor, não ha duvida, com o immenso prestigio que lhe
adviria de uma positiva e patente aceitação de todos os nossos

$
390 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

patrícios, e, portanto, revestido de uma ampla auctoridade, o que


tanto coopera para a segurança, para a consolidação das novas crea-
ções jurídicas.
Vista a questão nestes termos, é obvia a opportunidade de deli-
berar a respeito, antes do advento a esta Casa, do projecto de código
que nos vae ser confiado pelo governo.
E' o que se intenta no presente alvitre de resolução.
Indicamos, antes de tudo, que se adie a discussão no Congresso
para o anno vindouro. De consciência pode alguém pronunciar-se
em tão grave materia, sem maduro exame ? — Só a irreflexão
lograria aconselhal-o, pois é este um dos pontos da complicada e
desenvolvida contextura das sociedades modernas, das quaes, dizia
abalisado estadista do Império, o visconde de Uruguay, se não
puderem organisar sem trabalho, sem ordem, sem viethodo, sem
estudo, sem persistência, sem tempo.1
Depois do sufficiente período proposto, estaremos em situação de
deliberar com o necessário conhecimento de causa, sobretudo,
depois do largo debate, instituído diante de todo o paiz, qual esta-
belece a projectada resolução.
Instaurando-se esta franca discussão com a maxima publicidade
possível, de sul a norte a Republica é ouvida. Desde o mais modesto
burgo até a mais opulenta cidade, o território, onde quer que as
attenções e desvelos dos particulares se voltem para os negócios
públicos, transforma-se n'uma vasta officina legislativa : todas as
intelligencias são postas a concurso, todas as illustrações em con-
tribuição : o bom senso geral e o saber jurídico do Brazil cana-
lisam-se dos mais diversos rumos do horisonte pátrio, para uma
confluência commum, o Congresso, e ahi, discriminadas as cor-
rentes espúrias, e prestes a extinguir-se, das que se avolumam com
os mais puros caudaes, traduzindo o pensamento nacional domi-
nante, — teremos seguro guia, ao fixar as instituições civis de nossa
terra.
A consulta previa, que propomos no art. 2.°, parece-nos a mais
adequada a esse fim, a que desentranha dos mais recônditos e
remotos, como dos mais próximos pontos do paiz, as inclinações,
1
Ensaio sobre o direito administrativo, vol. I, pag. 7.
DIREITO CONSTITUCIONAL BBAZILEIRO 391

desejos e anhelos da alma brazileira. Conhecidas assim, manifestas


suas aspirações, fácil se nos torna a empreza : como dignos legis-
ladores republicanos, o que nos cumpre é conformar a nossa á von-
tade de todos, pelo conveniente processo indicado no art. 3o. Aberta
uma ampla discussão no seio do Congresso, reunido em commissão
geral, para poderem ter audiência os jurisconsultos notáveis da
Pátria e collaborarem no magno trabalho, completar-se-á de tal
modo um consciencioso estudo, uma cuidadosa analyse do plane-
jado instituto. Depois disto, uma só discussão publica — mais des-
tinada a solemnisar o ucto, do que a elucidal-o, — e uma só votação,
bastariam para assentar uma circumspecta e sabia deliberação.
Finalmente, propomos que se admitia uma constante cooperação
do autor do Projecto de código civil nas différentes phases da ope-
ração legislativa, para que a architectura que ideámos não perca o
seu estylo próprio e systema : a unidade que deve caracterisar as
fundações desta natureza.
O Congresso nacional resolve :
Art. 1.° No exame, discussão e votação do Projecto de código civil,
a convite do governo, organisado pelo dr. Clovis Bevilacqua, obser-
var-se-ão as regras adiante estabelecidas.
§ único. Impresso e distribuído, iniciar-se-á a discussão do pro-
jecto, dentro de um anno.
Art. 2.° No inlerregno, o governo fará profusa distribuição de
exemplares do Projecto, com a respectiva introducção ou exposição
de motivos, enviando-o a todas as municipalidades da Republica e
aos cidadãos que o sollicitarem.
§ I o , os chefes dos governos municipaes annunciarão, por edital,
a recepção do projecto, convidando os municipes a formularem as
emendas e observações que julguem convenientes ;
§ 2o, seis mezes após a publicação do edital, serão transmittidas
ao governo da Republica, pelas auctoridades locaes, as emendas e
observações apresentadas ;
§ 3o, examinando-as detidamente, o governo incorporará ao pro-
jecto aquellas que julgue procedentes, ou o manterá inalterável ;
§ 4o, em ambos os casos do paragrapho antecedente, será o pro-

#
392 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

jecto enviado de novo á Câmara, com as emendas não incorporadas,


em appenso.
Art. 3.° Decorrido o praso do art. Io, o presidente da Câmara
declarará que, estando distribuido, ficará sobre a meza, afim de
receber as emendas, durante sete dias, terminados os quaes o pro-
jecto, com essas emendas, e as de que resa o artigo anterior, § 4.°,
será remettido á commissão respectiva, para dar seu parecer, dentro
do praso de um mez, ouvido o auctor do projecto.
§ único. Apresentado o parecer á meza, irá logo a imprimir e.
distribuido, será a Câmara convocada a reunir-se em commissão
geral, para julgar do parecer, podendo tomar parte no debate u
auctor do projecto ou outro qualquer jurisconsulte que o requeira
á meza, ou esta convide.
Art. 4.° Encerrados os trabalhos da commissão geral, será lavrado
o parecer definitivo e presente á Câmara na sessão immediata, pas-
sando por uma só discussão e votação, ambas por titulos, no decurso
das quaes a meza não poderá aceitar emendas.
Ari 5.° Ao proceder á redacção final do código civil, conforme o
vencido, a respectiva commissão ouvirá o auctor do mesmo.
Art. 6.° Revogam-se as disposições em contrario.
Alfredo Varela, Barbosa Lima, Aureliano Barbosa, Cassiano do
Nascimento, Soares dos Santos.
A leitura da indicação produziu a maior extranheza. Ninguém
quasi admittia que podesse ter entrada no quadro das instituições
nacionaes o systema abi instituido da livre apreciação publica dos
projectos de lei. Comtudo, a carinhosa, incessante defeza do pro-
posto, e propaganda de suas vantagens no seio da Câmara, modifi-
cavam breve o pensar geral, tanto que o ministro do interior, man-
dando, muito particularmente, recado a' commissão de Constitui-
ção e Justiça, com a recommendação de que fosse o projecto rejei-
tado in limine, e nem se lhe desse parecer, deu-o esta favorável á
idéa fundamental da reforma.
O parecer, largo e interessante, opinava pela adopção de um sub-
stitutivo. Depois de abundantíssimas considerações, terminava as-
sim o illustre relator, o reputado representante mineiro Alfredo
Pinto :
DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO 393
« Analysado com particular attenção o mesmo projecto e confron-
tadas as suas disposições, deprehende-se que a commissão age cons-
titucionalmenfe," modificando, como faz, a sua estructura.

A commissão, porém, julga de elevado alcance e mesmo de har-


monia com o regimen democrático que á discussão do código civil
preceda um estudo mais amplo e a critica dos competentes livre-
mente se manifeste.
A Câmara poderá, então, discutir serenamente o assumpto e a
critica fundamentada dos jurisconsultes do paiz, os applausos que,
certamente, colherá o douto professor da faculdade do Recife, secun-
darão o prestigio do Parlamento na realisação da obra em que se
empenhou o governo.
Não é possível que o código civil brazileiro seja equiparado, na
discussão parlamentar, a outro qualquer projecto que occupe a at-
tenção da Câmara e tenha de ser submettido ás disposições com-
muns do regimento.
Deixar á mercê de intermináveis debates, de criticas menos auste-
ras, de doutrinas oppostas e de escolas scientificas heterogêneas, a
discussão de um código, no qual se condensam as garantias da
família, da propriedade e das obrigações que mantêm os homens
em sociedade, é construir um edifício informe e frágil que ao pri-
meiro impulso ruirá por terra ; é, de alguma sorte, justificar as
objecções da escola histórica pregadas pelo immortal Savigny,
quando apontava aos seus contemporâneos o caracter arbitrário e
falso das codificações, como transgressoras do desenvolvimento
histórico do direito.
A commissão, portanto, em face dos exemplos colhidos em paizes
cultos, dos precedentes do Congresso que discutiu já o projecto do
código civil do A. Coelho Rodrigues e o código penal; tendo em
vista, principalmente, o oceorrido em idênticas circumstancias na
Suissa e na Allemanha, chamando em seu auxilio o procedimento
da Constituinte brazileira, quando occupou-se do Estatuto de 24 de
fevereiro : formulou um substitutivo, que submette á considera-
ção da honrada commissão de policia, cuja competência está deter-
minada pelo art. 148.° do regimento da Câmara.
Só assim poderá a Câmara, com acerto, examinar o projecto,
394 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

que lhe será em breve enviado e guardar o systema inteiro do


código, systema que, no dizer do maior dos nossos jurisconsultes —
Teixeira de Freitas — depende muitas vezes de uma só disposição.

Substitutivo ao projecto n. 30 de 1900


Art. 1.° Na discussão e votação do Projecto do código civil serão
observadas as seguintes disposições regimentaes :
§ 1.° Impresso e distribuído o projecto, será iniciada a sua discus-
são na próxima sessão da actual legislatura.
§ 2.° No interrègne, a meza fará enviar exemplares do projecto ás
seguintes corporações e auetoridades, convidando estas a remet-
terem no praso de seis mezes, á secretaria da Câmara, as emendas
e observações que julgarem convenientes :
a) Supremo tribunal federal e juizos seccionaes, que igualmente
serão convidados, a mandar affixar por editaes e publical-os nas
folhas ofíiciaes, avisando do praso os inleressados que queiram
formular emendas ou observações ;
b) Tribunaes superiores do Districto federal e dos Estados ;
c) Faculdades de direito ;
d) Governadores ou presidentes dos Estados ;
e) Instituto da ordem dos advogados brasileiros ;
f) Jurisconsultes que julgar conveniente ouvir.
§ 3.° Iniciados os trabalhos da sessão ordinária, nos termos do
§ 1.°, o presidente da Câmara declarará que, estando distribuído o
projecto, ficará sobre a meza, afim de receber as emendas, durante
dez dias, terminados os quaes, o projecto com essas emendas e as
que resa o § 2o, depois de impressas, será submettido a uma com-
missão de vinte-e-um representantes.
§ 4.° A commissão será nomeada pelo presidente da Câmara e de
fôrma que todos os Estados e o Districto federal tenham nella repre-
sentação.
§ õ.° Na sua primeira reunião a commissão elegerá, por escrutí-
nio secreto e maioria absoluta de votos, o seu presidente e um rela-
tor.
§ 6.° As decisões da commissão, que funecionará em dias desi-
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 395
gnados, serão sempre tomadas por maioria absoluta de votos e os
debates devidamente stenographados e publicados no Diário do Con-
gresso.
§ 7.° A commissão poderá' ouvir no decurso de seus trabalhos a
quem entender conveniente.
§ 8.° O parecer sobre o projecto será apresentado á Câmara no
praso de um mez e contemplado na ordem dos trabalhos, seis dias
após a sua publicação.
Art. 2o. Haverá' uma só discussão e votação do projecto, ambas
por títulos, no decurso das quaes a meza não aceitara' emendas.
§ único. Nenhum deputado, mesmo o relator do parecer, poderá
falar mais de uma vez sobre o projecto.
Art. 3.° A redacção final do código civil, conforme o vencido, será
procedida pela commissão dos 21.
Rio, 10 de agosto de 1900.-J. J. Seabra, presidente, Alfredo Pinto,
relator, Teixeira de Sá, Asevedo Marques, F. Tolentino, Rivadavia
Corrêa, Luiz Domingues, Anisio de Abreu, Frederico Borges. »
Apesar do correcto proceder da commissão, o ministro descançou,
certo de que uma idéa qual essa, ferindo de frente os preconceitos
reinantes e suggerida por deputado novato, não vingaria, sobretudo
depois de conhecido, como já era, o pensamento governativo a res-
peito.
Nenhum, na verdade, o prestigio do iniciador da reforma, mas
essa affection agissante de que fala o poeta francez, tão fecunda em
seus effeitos, elle a tinha por seu programma politico, no mais su-
bido grau, e isto lhe valeu.
A 10 de outubro, é submettido o projecto á deliberação da Câmara
e obtém 94 votos a favor : 3 apenas contra. Não havia numero na
Casa, nem o houve até o dia 17.
No immediato, procede-se a uma segunda votação, ainda sem
resultado, pela continua falta de freqüência, mas verificamos com o
maior pasmo se haverem manifestado 54 deputados contra e 49 a
favor!...
Alarmados com o quasi êxito que conseguíramos a 10, altos per-
sonagens haviam feito o trabalho necessário para o mallogro de
nossos propósitos, — o que então nos foi communicado, assim

o
396 DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO

como a indébita interferência do ministro, facto a que antes alludi-


mos.
Interpellamos immediatamenle o leader que agia na Câmara por
designação do governo, inquirindo das rasões porque votava agora
contra uma medida a que ja havia dado seu apoio. Teve a insigne
coragem de affirmar que se não julgava obrigado por seu primeiro
voto...
Nosso rompimento com elle foi immediate e ruidoso.
Desmacaradas assim as baterias, o leader continuou com o maior
empenho o trabalho de arregimentação contra o projecto, ao passo
que o ministro do interior e o Presidente da Republica auxiliavam-
no efficazmente, fazendo cabala directa juncto de vários represen-
tantes, a ponto de um dos grandes apologistas da reforma, deputado
de certo grande Estado do norte, bandear-se na ultima hora para
os arraiaes do governo, que nos combatia.
Chega o dia 19. Cedinho o chefe nominal da maioria percorre as
bancadas, onde eram vistos apenas os mais assíduos e matinaes
freqüentadores das sessões ; a constância do adversário não esmo-
recera, porém, e ali estava a disputar o terreno ao confiado repre-
sentante máximo da situação no seio do Congresso.
Annuncia-se o escrutínio, suscitando-se logo uma questão de or-
dem. O brilhantíssimo espirito de Barbosa Lima, o formidável
braço forte do projecto, em breves palavras assignala mais uma
vez a importância do que iam os votar. O leader Dino Bueno apro-
veita o ensejo e fala, dando assim o mot d'ordre aos amigos do
governo.
Contados os votos, sabe-se que a Câmara sagrara nossa inicia-
tiva, dando-lhe 64 : a cabala official conseguira tão somente 44. —
Exigindo esta que se verifique o suffragio, temos ahi 70 votos do
nosso lado e 38 de outro.
Uma estrondosa victoria!
A liberdade de intervir directamente a communidade social na
elaboração das leis que a devem reger, dera nesse dia um passo
decisivo : a idéa fundamental de nosso plano, a apreciação publica
dos projectos legislativos, assim aceita, garantia direitos de cidade,
no quadro das instituições nacionaes, ao liberrimo systema riogran-
dense, — o que fora nosso principal escopo.
DIBEITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIKO 397

E não ficou no facto transitório da adopção do código civil o


trmmpho obtido : TODOS OS códigos da Republica serão sujeitos ao
mesmo processo, conforme emenda que (com o fito de não despertar
a hostil vigilância de certas pessoas da Câmara, sempre preveni-
das com tudo que é de iniciativa da bancada do extremo-sul) roga-
mos apresentasse o nosso distincte amigo dr. Esmeraldino Ban-
deira, e que elle teve a nimia gentileza de patrocinar, com aquelle
patriotismo e competência que fazem do illustre deputado pernam-
bucano uma das mais notáveis figuras do Congresso actual.

Nota S
A' pagina 211, nota 2.a :
Eis todos os artigos da Constituição do Riogrande, a que se allude
no texto :
» Art. 20.° — Como chefe supremo do governo e da administração,
compete ao Presidente, com plena responsabilidade :
1.° Promulgar as leis que, conforme as regras adiante estabeleci-
das, forem da sua competência. »
« Art. 33.° — Os preceitos do artigo precedente não abrangem as
resoluções tomadas pela Assembléa no uso da competência que lhe
é conferida nos arts. 46.°, 47.° e 48.°.
Essas resoluções, qualquer que seja a sua fôrma, serão promul-
gadas pelo Presidente como leis do Estado, nos termos do art. 31.°. »
d Art. 46.° — Compete privativamente a Assembléa :
1.° Fixar annualmente a despeza e orçar a receita do Estado, re-
clamando para esse fim, do Presidente, todos os dados e esclareci-
mentos de que carecer.
2.° Crear, augmentar ou supprimir contribuições, taxas ou im-
postos, com as limitações especificadas na Constituição federal e
nesta.
3.° Auctorisar o Presidente a contrair empréstimos e realisar ou-
tras operações de credito.

£
398 DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIBO

4.° Votar todos os meios indispensáveis á manutenção dos ser-


viços de utilidade publica creados por lei, sem intervir por qualquer
fôrma na respectiva organisação e execução.
5.° Determinar a mudança temporária ou definitiva da capital do
Estado.
6.° Resolver sobre os limites territoriaes do Estado, na fôrma do
art. 4.° da Constituição federal, não podendo dispensar a informação
do Presidente.
7.° Processar o Presidente e concorrer para o seu julgamento,
conforme dispõe o art. 21.°, nos crimes de responsabilidade, e inter-
vir no processo quanto aos crimes communs, na fôrma do art. 23.''
8.° Fazer a apuração da eleição do Presidente e receber délie a
declaração a que se refere o art 16.°.
9.° Fixar o subsidio do Presidente e o dos representantes
Ari 47.° — Só á Assembléa compete lançar impostos :
I — Sobre exportação ;
II — Sobre immoveis ruraes;
III — Sobre transmissão de propriedade;
IV — Sobre heranças e legados;
V — Sobre títulos de nomeação e sobre vencimento dos f mc-
cionarios do Estado.
l.° A exportação de productos do Estado e transmissão de pro-
priedade deixarão de ser tributadas, logo que a arrecadação do
imposto chamado territorial estiver convenientemente regula-
risada.
2.° Também compele exclusivamente á Assembléa crear : taxas
de sello quanto aos documentos sem caracter Federal e quanto aos
negócios da economia do Estado.
3.° Compete exclusivamente ao municipio o imposto da décima
urbana.
Art. 48.° — Poderá a Assembléa tributar a importação de mer-
cadorias estrangeiras destinadas a consumo no território do Estado,
revertendo a renda do imposto para o thesouro federal, quando a
tributação tiver por effeito collocar em condições de igualdade,
quanto aos onus fiscaes, os productos da industria riograndense e
os similares estrangeiros .
DIREITO CONSTITUCIONAL BKAZILEIRO 399
Art. 49.° — Dos decretos e resoluções que a Assembléa adoptar no
estriclo uso das attribuições definidas neste capitulo, a sua meza
dará conhecimento authentico ao Presidente, a quem cumprirá
dar-lhe execução, como leis do Estado. »

Nota T
A' pagina 273, nota 2.a :
Lê-se no Jornal do commercio, do Rio :
O Direito de curar. — Parece opportuna a publicação do artigo
abaixo, traduzido do « Homoeopathic World, » de 2 do cor-
rente anno, como um elemento para regular a decisão do mesmo
assumpto — a liberdade profissional, garantida pelo preceito cons-
titucional, e esclarecer o Congresso, na resposta á « interpellação
Ellis. » Cumpre notar que o alludido artigo tem as honras de « artigo
de fundo, » em revista dirigida pelo sr. John C. Clarcke, que é Aí.
D., isto é, charlatão diplomado secundum legem. Eis o artigo :
« Com todas as suas incoherencias e anomalias, a lei ingleza, no
que se refere á medicina, não é destituída de um certo abono de senso
commum. O Medical act que agora fingem existir na legislação, cer-
cou de vários privilégios aquelles que com êxito venceram os diffé-
rentes estágios da instrucção medica ; porém não prohibiu, fazendo
disso crime, que um de fora dê auxilio curativo a outrem, ou mesmo
que soffra accusação por assim proceder. Pelo que respeita á compo-
sição, dispensação e administração de drogas, a Sociedade dos phar-
maceuticos tem a faculdade de proceder contra quem infringir seus
direitos commerciaes a esse respeito ; porém onde não se trata de
drogas, a Sociedade nada pode e o insuecesso do caso contra cs
'assistentes do fallecido Harold Frederic mostra que um novo perigo
ameaça os interesses mercantis da profissão.
Faz-se agora nova tentativa de interpretar o Medical act do modo
que signifique elle que só as pessoas devidamente qualificadas, cujos
nomes figurarem no Registro, tenham o direito de tratar medica-
mente; ou, em qualquer caso, de o fazer « para lucro. » Que tal não

r^
400 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

é a significação do Medical act, que não ha legislatura que tenha


probabilidade de assim o emendar, é a opinião daquelles que no as-
sumpto podem formal-a com calma. O que o Medical act fortemente
quer que fique bem claro é que não deve haver simulação : qualquer
pessoa que allegar possuir títulos ,que não possua, está sujeita á
prova, E isso é muito direito. Alem disto não cremos que a lei
possa ir.
Pode parecer duro que, depois que um homem passou pela pro-
funda e severa instrucção requerida para a approvacão dos exames
modernos, encontre á sua frente alguém que nada disso teve que
vencer. De outro lado, pode-se dizer que, se a pessoa que alcançou
as honras acadêmicas, que está investida de todos os privilégios que
confere a collocação no Registro medico — se essa pessoa não pode
competir com outra que não dispõe de semelhante vantagem, então
é claro que « falta » alguma cousa na instrucção acadêmica, e que o
remédio é alterar esta, e não alterar a lei.
A quê, com effeito, monta o ensino das escolas hoje em dia? Avia
um grande numero de altamente instruidos pathologistas, anato-
mistas, physiologistas e mecânicos cirúrgicos ; porém aquillo que
não pode e não pretende fazer é aviar homens QUE CURAM. OS livros
e as prelecções muito dizem sobre o « tratamento » das moléstias,
porém muito pouco ou nada sobre o modo de curar os pacientes.
Isso pode ser assaz satisfatório para o espirito acadêmico, porém
o instineto publico acredita em remédios, e, se o professor os não
suppre, o publico procurará as suas curas alhures. E na nossa opi-
nião a lei tem rasão em conceder grande liberdade a este respeito :
embora em casos de resultados infelizes se deva seguir um inqué-
rito, sendo punidos os responsáveis, dada a prova da negligencia ou
mal-praxis á parte de que tratou o paciente. Isto apenas é o que
requer uma consideração rasoavel da segurança publica, MAS NADA
MAIS DO QUE ISTO : não nos parece necessário extinguir o direito de
curar.
Não ha medico de grande experiência que não confesse que, em
materia de medicina, como distineta da cirurgia, o ensino das esco-
las é quasi inutil, onde não é capaz de de s encaminhar. O actual pre-
sidente do Real collegio dos medicos, como um de seus recentes
predecessores, não se cansa de proclamar que a medicina não é
DIREITO CONSTITUCIONAL BBAZILEIRO 401

sciencia, isto é, não é a sciencia da cura. Esse o apreço em que elles


próprios têm o ensino de suas escolas. O verdadeiro « curador »
nasce, não se faz. Para esse, o ensino das escolas é de suprema im-
portância como andaime, porém jamais se lembraria elle de fixar a
sua residência em tão aérea estructura. Tem de construir a sua pro-
pria arte com o auxilio delia. Esse o seu verdadeiro uso.
A rasão pela qual o diplomado custa tanto a aprender a arte de
curar é que é ou muito curto de vista ou muito indolente para se
capacitar de que a informação interna nunca fará um artista me-
dico, porém somente as faculdades mentaes innatas e bem desen-
volvidas, capazes de apanhar e pôr em pratica a vasta provisão de
recursos medicos, que lhe estão á mão. »

Nota U
A' pagina 310, nota :
« Sessão de 14 de janeiro de 1850. — Continua a discussão da reso-
lução que habilita a Ignacio Accioli de Cerqueira e Silva a advogar
ern todo o Império, independente de licença dos presidentes das
relações, como se fora bacharel formado ou doutor em sciencias
jurídicas e sociaes. ficando para esse fim dispensado o § ?.° do
art. 2.° da lei de 22 de setembro de 1828.
O sr. Cândido Mendes de Almeida — Sr. presidente, eu não posso
deixar de dar o meu voto a favor desta resolução, porque me parece
que não é justa, mas até mui necessária. Aqui se disse que esta
resolução não era necessária, porque abundavam os advogados na
Bahia e no Império, e não havia motivo para dispensar-se numa lei :
disse-se mais que a dispensa era prejudicial porque, alentando a con-
corrência dos advogados práticos no paiz, ia-se de alguma sorte de-
sanimar os pais de familias a mandarem seus filhos estudar nos
cursos jurídicos ; e, em terceiro lugar, creio que se disse que a
resolução era uma traição, que se fazia á classe dos bacharéis for-
mados, a quem se tinha concedido o privilegio de advogar no
Império, fazendo-se entrever um futuro risonho, ao mesmo tempo
2G

#
402 DIKEITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO

que com a dispensa da lei, ia-se augmentar a concorrência ; em


quarto lugar, que era damnosa aos cofres públicos, porque não
estavam os advogados práticos sujeitos aos mesmos onus que os
bacharéis formados.
Eu creio que ha mais terror pânico na opposição que se fez a
esta resolução, do que verdadeira justiça. Disse-se que a dispensa
da lei não é necessária, porque existem muitos advogados no
Império : me parece que isto provaria de mais, porque todos os dias
observo augmentar-se o numero dos bacharéis formados, filhos das
nossas academias, como das estrangeiras, e comtudo, ninguém
clama pelo encerramento délias a beneficio da classe.
Esta resolução não vae desanimar os pais de familias a mandarem
seus filhos estudar nas academias, porque elles sabem que o advo-
gado pratico ainda com esta dispensa não tem as vantagens que
tem o bacharel formado, logo que sae da academia : o bacharel for-
mado está habilitado a advogar em qualquer parte do Império, com
um anno de pratica no foro pode entrar na magistratura, e está
habilitado para ser empregado em todos os mais ramos do serviço.
Alem disto, ha uma grande differença entre o bacharel formado
e o advogado pratico ; o advogado pratico applicando-se ao estudo
da jurisprudência, tem contra si três grandes difíiculdades : a l. a é o
estudo da jurisprudência, que depende de muitos conhecimentos
anteriores, que alem disto, se torna um grande labyrintho para
quem não é guiado pelo fio guiador dos mestres da sciencia; em z n
lugar, se ha quem deva temer a concorrência é antes o advogado
pratico do que o bacharel formado, porque tem de luctar com o
numero, talentos e orgulho de uma classe preponderante, e para isso
é mister muita coragem; e em 3.° lugar, o advogado pratico, para
obter licença para assignar o seu nome como advogado, como deseja
o pretendente, precisa adquirir grande nome no Império, como juris-
consulte, para alcançar esta licença do Corpo legislativo. Quem não
tiver dado provas de abalisados conhecimentos como jurisconsulte,
não tem probabilidade alguma de alcançar uma resolução como a
que se discute. Portanto, o argumento apresentado de que os pais
de familias não mandarão seus filhos ás academias jurídicas unica-
mente pelo receio da concorrência, não tem valor algum, porqae
não existe fundamento para este receio. Parece-me até mesquinho
DIEEITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 403

e anti-generoso que se não conceda licença para advogar a um


cidadão que, como este, tem grandes conhecimentos e uma repu-
tação firmada como jurisconsulte. Quando apparecem homens nas
circumstancias do sr. Acciolli, a classe das advogados, quando o
não procure attrair a seu seio, porque um homem instruído honra a
qualquer classe, deverá, ao menos, não lhes fazer opposição, pelo
menos em attenção á utilidade que possa tirar délies o paiz, que
nada perde em possuir homens habilitadas na jurisprudência,
sejam elles ou não filhos da academia.

O Legislador quiz que se estabelecessem academias jurídicas


porque houvesse no paiz homens entendidos no conhecimento das
leis, donde se pudesse escolher bons magistradas e bons defensores
do direito dos cidadãos, etc. Logo, pois, que apparecer um cidadão
que está nas circumstancias de ser um illustrado jurisconsulte, não
vejo rasões para que se lhe negue o fazer parte da classe dos advo-
gados. O PUBLICO GANHA COM isso. Sou informado que este
sr. Accioli, que eu não conheço, é CONSUMMADO JURISCONSULTO E
GRANDE LITTERATO.
Ainda ha uma rasão pela qual me parece que a classe dos
advogados não devia fazer opposição a esta resolução ; e é que lhes
deve ser mui lisongeiro que homens nas circumstancias deste
cidadão, aspirem, como uma grande honra, a fazer parte dessa
classe, depois de aturados estudos e sacrifícios, — o que o mais sim-
ples bacharel formado obtém : conviria mostrar mais generosidade
com esses cidadãos, mesmo em attenção á propria sciencia, que foi
fundada, NÃO POR BACHARÉIS FORMADOS, mas POR HOMENS QUE NUNCA
TIVERAM CARTAS E PERGAMINHOS. OS fundadores de modernas consti-
tuições, os que fizeram a Constituição dos Estados-unidos, os antigos
legisladores e jurisconsultes não eram todos bacharéis formados ;
aquelles que fizeram a nossa Constituição me parece que não eram
todos bacharéis formados. Finalmente, ainda não sei porque não
se deixa a um homem que tem adquirido a reputação de jurisconsulto
consummado, de fazer apenas parte daclasse dos advogados, quando
os bacharéis formados têm um vasto campo para oecupar todas os
empregos do Brazil. Creio que se considerarmos este negocio só pelo
lado do bem-publico, adquire-se alguma cousa com a acquisição de

£
404 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

um jurisconsulte, embora feito com sacrifício fora das academias, e


esse sacrifício creio que deve ter sua recompensa. Disse-se alem
disto, que era um traição que se faz á classe dos advogados, porque
contando elles com um futuro lisongeiro, este fica compromettido
com a concorrência das advogados práticos. Eu não vejo nisto
nenhuma traição, porque a nação o que quer é possuir hábeis juris-
consultos, tanto importa que tenham obtido carta nas academias-,
COMO QUE SE FAÇAM POR si sós. Se ha de alguma sorte traição, per-
mitta-se-me que diga, é da parte dos bacharéis formados, porque a
nação, quando fez abrir duas academias juridicas, foi com o fim
de que aquelles que fizessem os estudos juridicos fossem, como
magistrados ou como advogadas, beneficiar o paiz, derramando por
todo elle suas luzes : mas o que eu desgraçadamente observo c que
os bacharéis formados se apinham nas cidades mais populosas, nas
capitães, nenhum vae para o interior, enchem-se de extraordinário e
não justificado orgulho, solicitando os primeiros empregos, e assim
o povo do interior fica sempre sujeito aos rábulas c privado das
suas luzes. Seria mui conveniente que os bacharéis formados fossem
habitar todos os pontos do nosso paiz, que se acha tão atrasado, paru
impedir que viessem reclamações destas. Hoje no interior do Brazil,
ainda acontece o mesmo que no tempo da colônia, os rábulas são
os que vivem nesses foros, é com quem o povo se acha, porque
os srs. bacharéis formados ostentam tamanha altivez que se julgam
rebaixados advogando nas nossas villas. Entretanto, elles é que
tratam de defender com mais afinco os priviligios da classe, quando
um advogado pratico, com sacrifícios e mérito próprio alcança
créditos de jurisconsulte ! Isto é o que se chama trair o privilegio
que se concedeu aos formados nas academias. Ora, quanto ao pre-
juízo que tem os cofres públicos por não pagar um ou outro advo-
gado pratico a quantia de 500$000 de matrículas nas academias,
creio que nisto não se deve falar, logo que a nação lucra com este
cidadão, que com todo o sacrifício se fez jurisconsulte e litterato de
nome. Voto por esta resolução E POR TODAS QUE FOREM SEMELHANTES
A ESTA, porque entendo que o paiz lucra com isto. »

E' lida, apoiada, e entra em discussão a segunte emenda do sr. Pa-


checo : K Se passar a resolução, acerescente-se : Sujeitando-se em
qualquer das academias juridicas do Império a exame das matérias
DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO 405

que se ensinam no 3.° e 4.° annos, e do 5.° na parte relativa á pra-


tica do processo, pelo quê o governo lhe fará passar diploma para
poder advogar em todo o Império, pagando pelo dito diploma os
direitos que pagam as cartas das bacharéis formados em direito. —
Salvo a redacção. »
O sr. Cândido Mendes de Almeida — Eu me opponho a esta
emenda, porque me parece injusto estabelecer uma condição para
o sr. Acciolli, ao passo que outros tem obtido licença para advogar
em todo o Império, sem esta clausula. Devia se ter feito isto no seu
principio ; mas logo que não se estabeleceu este exame para o
sr. Rebouças, não ha rasão para a elle sujeitar o sr. Acciolli.
NÃO É POR TAES EXAMES QUE SE PODE CONHECER DA HABILIDADE DOS
JURISCONSULTOS, porque nós sabemos como se fazem os exames
entre nós : o que observo é que ha toda a benignidade nos exames,
especialmente para advogar, e assim facilmente se obteriam
diplomas. O sr. Acciolli tem já adquirido créditos de jurisconsulte,
e se tem este credito, não ha rasão, não ha necessidade de sujeital-o
a um exame a que se não sujeitam outros ; por isto voto contra a
emenda. » — Annaes da Assembléa geral legislativa, sessão de
H de janeiro de 1850.

Nota V
A" pagina 311, nota :
CONSULTA. 1.° Quaes os direitos que tem o dr. Eduardo Silva pela
Constituição federal, art. 72, § 24, para exercer seu poder curativo,
que consiste na transmissão e exteriorisação dos fluidos por meio
da apposiçâo das mãos sobre o paciente, sem uso de qualquer meio
cirúrgico ou therapeutico ?
2.° Os arts. 156 usque 158 do código criminal não estão, ipso facto,
revogados pela Constituição federal em sua l. a parte?
Alcançam elles ao poder curativo do dr. Silva, caso não estejam
revogados, não dando elle medicamentos nem praticando ramo
algum medico official, etc.?
406 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIKO

3.° A Constituição e regulamento estadoaes de S. Paulo não estão,


ipso facto, em antinomia á Constituição federal, em face da expressa
disposição do cit. art. 72, § 24?
4.° O tratamento empregado pelo dr. Eduardo Silva pode ser con-
siderado MAGIA, soRTiLEGio, ESPIRITISMO etc., art. 157 do código cri-
minal?
A. MAURITY CALIMERIO.
S. Paulo, 30 de setembro de 1898.

PARECER. A disposição do art. 72, § 24, da Constituição de 24 de


fevereiro me parece bastante clara.
A1 parte a minha opinião de longos annos e sustentada na com-
missão que organisou o projecto da Constituição federal entregue
ao Governo provisório no dia 24 de maio de 1890, entendo que a
expressão « livre exercício de qualquer profissão moral, intellec-
tual e industrial » não admitte duvida quanto á liberdade que tem
o brazileiro ou estrangeiro de exercer qualquer profissão de ordem
moral, intellectual e industrial.
Desde o começo da execução da nossa Lei fundamental assim me
parecia.
Esta opinião correspondia perfeitamente á corrente liberal a que
obedecera a organisação das novas instituições jurídicas.
E' sabido que na commissão encarregada de formular o projecto
de Constituição federal, segundo o decreto n. 29 de 3 de dezembro
de 1889, três projectos foram apresentados como systematisação de
idéas dos seus auctores, membros da mesma commissão, para
base de estudo commum.
No projecto dò illustre dr. Américo Brasíliense, no titulo — Decla-
ração de direitos e garantias, encontra-se esta formula : « E1 permit-
tido todo o gênero de trabalho, industria ou commercio, uma vez
que se não opponha á moralidade, segurança e saúde publica. »
No de sr. dr. José Antonio Pedreira de Magalhães Castro havia
esta disposição : « Art. 17.° Todos os que residirem ou estiverem no
território dos Estados-unidos do Brazil têm direito imprescriptivel :
§ 4.° — A' liberdade de industria e trabalho sem detrimento e pre-
juiso da moralidade, segurança e hygiene publica. Todos podem
adoptar a profissão, o officio e o meio de vida que mais lhes con-


DIREITO CONSTITUCIONAL BEAZILEIRO 407

venham, desde que sejam honestos e licitos : nenhuma prohibição


se fará senão em vista de damno causado a terceiro e aos direitos
e interests da sociedade. »
O projecto do dr. Antonio Luiz dos Santos Werneck, adoptado
por mim para base de discussão, trazia esta formula bastante sim-
ples :
« E' permittida a liberdade do trabalho, da industria e do com-
mercio e garantida a propriedade. »
No seio da commissão dos cinco, a do decreto de 3 de dezembro,
depois da divisão dos poderes e suas attribuições, da classificação
das rendas e da autonomia municipal, foi este um dos assumptos
mais debatidos. Eu e o dr. Santos Werneck éramos pela ampla liber-
dade e julgávamos perigosas ao principio liberal e democrático as
restricções dos drs. Américo Brasiliense e Magalhães Castro, com-
quanto este houvesse estabelecido como correctivo — « nenhuma
prohibição se fará senão em virtude de damno causado ao direito
de terceiro ou ao interesse da sociedade. »
O venerando dr. Saldanha Marinho se mostrava mais favorável
á opinião do dr. Magalhães Castro, adoptado a citada restricção.
Prevaleceu, porém, o principio liberal expresso na formula mais
simples e o art. 89.°, § 4.°, do projecto ficou assim redigido :
(( A presente Constituição garante a todos os brasileiros, cidadãos
brasileiros e estrangeiros, a inviolabilidade dos direitos individuaes
e civis que têm por base a liberdade, a segurança e a propriedade,
nos termos seguintes :

§ 8.° TODOS PODEM ESCOLHER E SEGUIR A PROFISSÃO QUE MAIS LHES


COXVENHA. »
Como preceito constitucional ficou, pois, victorioso o principio da
liberdade de prolissão sem as restricções da lei fundamental do
império e sem as idéas restrictivas ou explicativas daquelles dous
profectos.
A Constituição do império havia adoptado o principio liberal, mas
com a regulamentação por interesse dos « costumes públicos, da
segurança e saúde das cidadãos. »
Era este o texto :
408 DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO

« Nehhum gênero de trabalho, de cultura, industria ou commercio


pôde ser prohibido, uma vez que não se opponha aos costumes pú-
blicos, á segurança e saúde dos cidadãos ».
Esta disposição quasi que reproduzida no projecto do dr. Amé-
rico Brasiliense e como que paraphraseada no do dr. Magalhães
Castro, não figura no projecto apresentado ao Governo Provisório.
Este projecto tomou a formula mais simples, sem restricções de es-
pécie alguma, sem as prevenções regulamentares, sem proposições
explicativas.
No projecto apresentado ao Congresso pelo Governo provisório
nada ha a respeito do assumpto ; ou porque escapasse no estudo
e revisão daquelle, ou propositalmente, o certo é não ter apparecido
nesse documento official nenhum artigo nem paragrapho relativo
a tão importante questão.
Na commissão dos 21, saída do seio do Congresso constituinte,
ella voltou a debate.
Uma emenda do dr. Julio de Castilhos ao art. 72.° do projecto do
governo, mandava accrescentar :
d § E' garantido o direito de todas as profissões de ordem moral,
intellectual e industrial. »
§ E' garantida também a liberdade de testar ficando amparada a
subsistência material dos pães, da esposa, das filhas solteiras e dos
filhos menores de 21 annos. »
A primeira parte da emenda foi acceita, mas assim modificada
pela commissão :
» E' garantido o livre exercício de qualquer profissão moral, intel-
lectual e industrial. »
Posteriormente foram apresentadas outras emendas e, rejeitadas
ou prejudiciadas, ficou prevalecendo a formula simples, concisa,
clara e ampla que traduzia o pensamento do illustre representante
do Riogrande do Sul.
Coordenarei entretanto as outras emendas.
Logo no começo da discussão o Apostolado positivista, em uma
bem fundamentada representação, suggeriu ao Congresso algumas
emendas ao projecto do Governo provisório. Relativamente á liber-
dade de profissão lembrava o seguinte :
(( Nenhum gênero de industria, commercio ou trabalho pode ser
DIREITO CONSTITUCIONAL BRAZILEIRO 400

prohibido ou regulamentado ; portanto, não se poderá fazer lei de


locação de serviços, nem marcar dias ou horas de descanso, nem
outras medidas semilhantes ».
Ao § 2.° do art. 72.° offereceu mais a seguinte emenda :
<( A Republica não admitte privilégios philosophicos, scientificos,
artísticos, clínicos ou theoricos, sendo LIVRE no Brasil o EXERCÍCIO
DE TODAS AS PROFISSÕES, independentes de qualquer titulo escola-
stico, acadêmico ou outro, seja de que natureza for ».
Esta emenda ligava-se á disposição relativa á liberdade de opi-
niões. As ideas do Apostolado positivista deram origem ás emendas
do dr. Julio de Castilhos que acima aamos e a estas outras :
« Ao art. 71.° § 24.° (então do projecto revisto pela commissão do
Congresso), accrescente-se :
« Independentes de títulos e diplomas de qualquer natureza, abo-
lindo-se desde já todos os privilégios que a elles se liguem ou dima-
nem. — Alcindo Guanabara, Raymundo Bandeira, Annibal Falcão,
Demetrio Ribeiro ».