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“No princípio era o Verbo...

” 1

“No princípio era o Verbo...”

Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia que geraram


contradições e erros grosseiros.

Ezequiel Lourenço & Eliezer Lucena de Castro

Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia.


“No princípio era o Verbo...” 2

ÍNDICE

INTRODUÇÃO

IDENTIFICANDO O LEITOR DO ESTUDO PROPOSTO

A VERSÃO DA BÍBLIA QUE SERÁ UTILIZADA

O QUE NÃO SÃO ERROS BÍBLICOS?

Zacarias, Filho de... Quem?

ERROS BÍBLICOS

Quatorze gerações?

Suínos maratonistas.

A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém.

OS ERROS DE TRADUÇÃO PARA A LÍNGUA PORTUGUESA

Erros de tradução não-intencionais.

Erros de tradução premeditados.

DIFERENTES FORMAS NARRATIVAS DO MESMO EPISÓDIO

A cura da sogra de Pedro.

CONTRADIÇÕES BÍBLICAS

O batismo de Jesus, a voz dos céus e João Batista.

ALTERAÇÕES BÍBLICAS

É possível Jesus ter ficado irado?

ACRÉSCIMOS BÍBLICOS

OMISSÕES BÍBLICAS

Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia.


“No princípio era o Verbo...” 3

INTRODUÇÃO
“SOLA GRATIA, SOLA FIDES, SOLUS CHRISTUS, SOLA SCRIPTURA” Qual
cristão protestante nunca ouviu falar destas afirmações? A tradução é: Somente a Graça,
Somente a Fé, Somente Cristo e Somente a Escritura. Estes são os princípios que regiam
os Reformadores Cristãos Protestantes no Século XVI. Os cristãos protestantes sempre
defenderam a Bíblia. Para um cristão protestante a Bíblia é “a suprema autoridade em
matéria de vida e doutrina”, de modo que qualquer controvérsia deve ser julgada apenas
pela Bíblia, pois “só ela [a Bíblia] é o árbitro de todas as controvérsias”. O princípio de
SOLA SCRIPTURA e a sua aplicação através dos tempos têm levado muitos cristãos
protestantes a acreditar na afirmação dos teólogos e dos religiosos de que a Bíblia é
*inerrante. Este Estudo tem como objetivo fornecer subsídios para que o leitor possa
desmistificar esta antiga crença muito arraigada na mente de grande parte da população
evangélica brasileira.
*O termo inerrante é utilizado para fortalecer a idéia de que a Bíblia é a “palavra escrita de Deus” e, portanto, não contém qualquer tipo de erro.
As citações em letras itálicas, deste primeiro parágrafo, foram retiradas do texto SOLA SCRIPTURA de autoria de Alderi Souza de Matos publicado no site
www.monergismo.com .

A grande diferença entre este Estudo e os demais estudos do gênero está no fato de
que não buscamos, apenas, apontar as contradições e os erros bíblicos. Existem centenas
de livros, artigos e até sites na Internet especializados em identificar contradições e erros
bíblicos, e que procuram mostrar ao leitor e ao navegante virtual que a Bíblia é um livro
que contém erros como qualquer outro livro. Da mesma forma, também, existem centenas
de livros, artigos e sites na Internet que defendem a inerrância bíblica e a fé dos cristãos
protestantes. Respeitamos e honramos os especialistas em Crítica da Bíblia e os
*apologéticos, não apenas pelo tempo dispensado em suas pesquisas, mas também pelo
brilhante trabalho deixado para os demais pesquisadores. Este Estudo, no entanto, busca ir
além da identificação dos erros bíblicos ou simplesmente da crença cega na *apologética
pregada pelos religiosos. Buscamos mostrar para o leitor o que motivou as contradições e
os erros bíblicos identificados e também fornecer subsídios para que o leitor possa formar
sua própria opinião e, até mesmo, buscar resoluções para o problema da contradição e do
erro bíblico. O respeito que nutrimos pelo trabalho dos especialistas em Crítica da Bíblia e
pelos apologistas é o mesmo respeito que temos pela fé do leitor deste Estudo. Este
respeito não nos permite emitir opiniões pessoais, mas apenas fornecer informações que
levem o leitor a formar sua própria opinião.
*Apologética: Matéria estudada nas Escolas de Teologia que trata da defesa da fé cristã. *Apologéticos: Especialistas na matéria de apologética.

É um grande desafio que aceitamos de bom grado mesmo sabendo que o assunto
suscitará opiniões firmes, calorosas e apaixonadas por parte do leitor que, em sua maioria,
é um cristão religioso que deposita nas palavras da Bíblia a maior parte de sua fé. O leitor
não deve acreditar em nada do que escrevemos, mas anotar todas as citações e argumentos
usados para comparar, meditar, pesquisar e ao final formar sua própria opinião a respeito
do assunto abordado. Teremos o maior prazer em sermos questionados e confrontados
pelos leitores deste Estudo. Como somos pesquisadores, e aprendemos a cada dia, estamos
Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia.
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abertos e prontos a aceitar opiniões divergentes, desde que fundamentadas de forma


coerente.

Esperamos que ao final deste Estudo o leitor se torne um melhor cristão. Um cristão
consciente de sua fé religiosa, possuidor de um senso crítico com relação ao texto bíblico e
à história cristã, um cristão curioso pela literatura de pesquisas religiosas, mas
principalmente que se torne um cristão tolerante, que saiba respeitar os demais seres
humanos que professam credos religiosos diferentes do seu.
Indicamos a leitura do Livro “O que Jesus disse? O que Jesus não disse?” de Bart D. Herman e, também, o “Manual Anti-Missionários” do grupo Judeus pelo
Judaísmo. São bons exemplos de Especialistas na Crítica Bíblica do Novo Testamento.

A VERSÃO DA BÍBLIA QUE SERÁ UTILIZADA


Há textos bíblicos que nos deixam confusos, para não dizer: perplexos. Não pelo
conteúdo, que pode ser erótico “Como és bela, quão formosa, que amor delicioso! Tens o porte da palmeira, e teus seios são os
cachos. Pensei: Subirei à palmeira para colher dos seus frutos!...” Cant 7:8e9 ou terrível, “...Vai pois agora, e fere a Amaleque, e destrói

totalmente a tudo o que tiver, e nada lhe poupes; porém matarás a homem e mulher, meninos e crianças de peito...” 1Sm15:3 mas pelos erros,
contradições, revisões e até acréscimos. A quantidade de erros, contradições, acréscimos e
revisões da Bíblia passam das centenas de milhares. Por este motivo vamos abordar apenas
alguns trechos da Bíblia, mas saiba o leitor que toda a Bíblia não está imune a um olhar
mais aguçado. É sensato usar um “comparativo” para podermos afirmar que um
determinado trecho bíblico está errado ou contraditório, este “comparativo” tem que ser
aceito pelo leitor como válido ou então será estupidez de nossa parte utilizá-lo. O único
“comparativo” aceitável pelo leitor como válido para nossa argumentação é a própria
Bíblia, e será a Bíblia a eleita no nosso Estudo como “comparativo”. Já para a afirmação
de que trechos foram editados ou acrescentados, vamos utilizar as Bíblias, os Códices e os
Manuscritos mais antigos e confiáveis que dispomos hoje, sempre citando a fonte para que
o leitor possa fazer a anotação e posterior comprovação da informação.

Existem hoje, no Brasil, diversas versões de Bíblias Cristãs Católicas e Evangélicas.


Como nosso Estudo é voltado para a parcela da população que faz, ou já fez, parte de
Igrejas Evangélicas Pentecostais ou Neo-Pentecostais, vamos nos ater às versões
evangélicas da Bíblia sem deixar de aproveitarmos as traduções e comentários de algumas
das versões das Bíblias Católicas, que são melhores e mais confiáveis que as versões
evangélicas. As traduções mais conhecidas e utilizadas pelos evangélicos brasileiros são as
versões João Ferreira de Almeida e Nova Versão Internacional. Para padronizarmos
nosso Estudo vamos utilizar a versão João Ferreira de Almeida que é a mais conhecida e
utilizada pelos cristãos protestantes brasileiros. Entretanto, como veremos adiante, as duas
versões evangélicas citadas possuem muitos erros de tradução para a Língua Portuguesa.

O ideal seria o leitor ter um conhecimento mínimo do hebraico, grego e latim para
poder ler os Manuscritos mais antigos, como isto é inviável num curto prazo, indicamos
para o leitor deste Estudo a BÍBLIA DE JERUSALÉM. Trata-se da melhor tradução da
Bíblia em língua portuguesa disponível hoje no Brasil. É uma Bíblia de Estudo que teve o
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“Velho Testamento” traduzido do hebraico e o “Novo Testamento” do grego por


tradutores cristãos de corrente católica e protestante. Conta com notas marginais bem
elaboradas, além de introduções que trazem ao leitor da Bíblia informações preciosas
quanto aquele texto sagrado. É claro que existem palavras mal traduzidas que
comprometem o entendimento do texto, mas a incidência destas traduções mal elaboradas
é muito menor que as demais Bíblias em língua portuguesa. A BÍBLIA DE JERUSALÉM
contém todos os livros da fé judaica, todos os livros da fé protestante e todos os livros da
fé católica. Enfim, é uma BÍBLIA.

PODE PARECER ERRO BÍBLICO... MAS NÃO É.


Antes de analisarmos os ERROS BÍBLICOS devemos saber o que NÃO É UM
ERRO BÍBLICO. É uma tarefa difícil, uma vez que a quantidade de ERROS BÍBLICOS é
tão séria e abundante que chega a ser difícil identificarmos uma informação verdadeira
numa passagem bíblica que a grande maioria dos especialistas afirma categoricamente ser
um ERRO BÍBLICO, inclusive com bons argumentos e textos antigos.
ZACARIAS, FILHO DE... QUEM?

Vamos analisar primeiramente o possível erro bíblico mais comentado entre os


pesquisadores. Este suposto erro está registrado no Evangelho de Mateus quando o autor
narra os homicídios de Abel filho de Adão e de Zacarias filho de Berequias, que
supostamente morreu entre o santuário e o altar:
“...para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de
Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e o altar.” Mt 23:35

O leitor deve estar se perguntando onde está o erro bíblico? O autor do Evangelho
de Lucas também registrou esta passagem:
“...desde o sangue de Abel até ao de Zacarias, que foi assassinado entre o altar e a Casa de Deus. Sim, eu vos afirmo,
contas serão pedidas a esta geração.” Lc 11:51

Notamos, no entanto, que o escritor do Evangelho de Lucas não menciona a


paternidade de Zacarias. Mas, o escritor do Evangelho de Mateus o identifica como sendo
“filho de Baraquias”. Mas, segundo a Bíblia, o único Zacarias assassinado entre o
santuário e o altar foi o filho do sacerdote Joiada:
“...O Espírito de Deus se apoderou de Zacarias, filho do sacerdote Joiada...Conspiraram contra ele e o apedrejaram, por
mandado do rei, no pátio da Casa do Senhor...” 2Cr24:20e21

Sabemos que as palavras registradas nos Evangelhos são atribuídas a Jesus. Logo as
duas principais questões, com relação a este erro específico, levantadas pelos especialistas
em Crítica da Bíblia são:
1) Jesus não tinha qualificação plena para pregar as Escrituras e comentava assuntos
dos quais não tinha conhecimento; e
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2) Se Jesus tinha qualificação para pregar e conhecia as Escrituras, então as palavras


registradas não são palavras de Jesus, mas do autor do Evangelho que não conhecia as
Escrituras.

A solução encontrada pela grande maioria dos especialistas em erros bíblicos


(inclusive pelos comentaristas da Bíblia de Jerusalém) está numa análise “poética” do
trecho mencionado que nos mostra que o seu primeiro autor — qualquer que seja ele —
era um bom conhecedor da Bíblia Hebraica, pois naquela Bíblia a ordem dos livros é
iniciada em Gênesis e encerrada em Crônicas, logo o assassinato de Abel filho de Adão é
o primeiro a ser narrado contra um justo, enquanto que o assassinato do justo Zacarias
filho de Joiada é o último. O erro em questão teve início na diferença das Bíblias utilizadas
pelos primeiros cristãos. Hoje, quando um cristão se refere a qualquer assunto contido na
Bíblia, ele usa o termo “do Gênesis ao Apocalipse”. No Século I EC, todos os judeus da
Palestina, Jesus, seus apóstolos e os primeiros cristãos palestinos usavam a Bíblia
Hebraica enquanto que os judeus helenizados e os cristãos gentios utilizavam a
Septuaginta LXX que tinha a ordem de seus livros iniciada em Gênesis, mas encerrada em
Zacarias, o filho de Baraquias. Esta não é uma solução encontrada apenas por nossos
brilhantes especialistas, mas é uma tendência natural de todos que praticam a leitura crítica
dos textos bíblicos. O autor do Evangelho dos Hebreus corrigiu este texto deixando claro
que o Zacarias morto entre o santuário e o altar era filho de Joiada.
Agora que já analisamos o possível ERRO BÍBLICO e a boa solução encontrada por
alguns dos especialistas mais conceituados do mundo acadêmico, vamos tomar a liberdade
de caminhar em uma direção oposta. A afirmativa de que o autor do Evangelho de Mateus
realmente transmitiu que o Zacarias morto entre o santuário e o altar fosse mesmo o filho
de Baraquias. Para tanto vamos fornecer um pouco de informação judaica ao leitor deste
Estudo:

Uma antiga lenda judaica narra o possível assassinato do líder dos essênios, o
“Mestre da Justiça”, conhecido também pelo pseudônimo de “Zacarias filho de
Berequias”, que também era um sacerdote da ordem de Zadoc.

O historiador judeu Flávio Josefo nos conta o assassinato de um Zacarias filho de


Bariscaeus, seu contemporâneo, que foi assassinado no Templo pelos zelotes após um
fictício julgamento em 68 EC.
“ Por fim, aqueles tiranos, cansados de derramar tanto sangue, fingiram querer observar alguma forma de justiça e tendo determinado matar Zacarias, filho
de Baruque (Baraquias), porque, além de sua ilustre origem, sua virtude, sua autoridade, seu amor pelos homens de bem e seu ódio pelos maus, tornavam-no
temível a eles mesmos e suas grandes riquezas eram um grande incentivo para sua ambição. Escolheram setenta dos mais notáveis dentre o povo que
constituíram aparentemente juizes, mas sem lhes dar, na verdade, poder algum. Perante eles, acusaram-no de ter querido entregar a cidade aos romanos e ter
tratado a esse respeito com Vespasiano. Não se encontrando prova alguma, nem pelo menos a mínima probabilidade desse pretenso crime, não deixaram de
afirmar que era verdadeiro e queriam que o testemunho que eles davam fosse suficiente para condenar o acusado.
Zacarias facilmente compreendeu que aquele julgamento era uma hipocrisia que iria terminar com sua prisão e depois com sua morte. Mas, embora não visse
esperança alguma de salvação, nada diminuiu da firmeza de sua coragem. Começou por censurar com desprezo os seus acusadores e o expediente tão vergo-
nhoso de que se serviam para ocultar a verdade, com tão visíveis calúnias. Destruiu depois em poucas palavras os crimes de que o acusavam e os fez recair
sobre eles mesmos; disse-lhes como e qual fora, desde o princípio até então, a concatenação de crimes, que se sucedendo, uns aos outros, haviam produzido
aquele amontoado de tudo o que a injustiça, o furor e a impiedade podem cometer de mais horrível, e terminou deplorando aquele estado, mais infeliz do que se
poderia imaginar, a que sua pátria se encontrava reduzida. Palavras tão generosas acenderam tal raiva no coração dos zelotes, que nada lhes pôde impedir de
matar Zacarias, naquele mesmo instante, embora quisessem dar àquele julgamento uma aparência de justiça, até o fim, e ver se aqueles que eles haviam
escolhido para juizes, teriam bastante coragem para não temer fazê-lo, numa circunstância em que eles não podiam agir sem correr risco da própria vida. Assim
permitiram a esses setenta juizes que se pronunciassem e não havendo um só deles que não preferisse se expor à morte do que ao remorso de ter condenado um

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homem de bem, pela maior de todas as injustiças, todos a uma voz declararam-no inocente. Ao ouvirem tal sentença os zelotes soltaram um grito de furor. Sua
raiva não pôde tolerar que aqueles juizes não houvessem compreendido, que o poder que lhes haviam dado era imaginário, e do qual não queriam que eles
fizessem uso algum; dois dos mais ousados daqueles homens atiraram-se sobre Zacarias e o mataram no meio do Templo, insultando-o ainda, depois de morto,
dizendo com a mais cruel de todas as zombarias: "Recebe esta absolvição que nós te damos e que é muito mais garantida que a outra". Lançaram em seguida
seu corpo numa vala comum que estava abaixo do Templo. Os setenta juizes foram expulsos indignamente a golpes de espada para fora do Templo, não porque
um sentimento de humanidade os havia isentado de manchar as mãos no sangue daqueles homens, mas para que se tendo espalhado por toda a cidade fossem
como outras tantas testemunhas, cuja deposição já não poderia permitir a ninguém duvidar de que a capital de um reino outrora florescente, não estava
reduzida à escravidão.”
GUERRAS JUDAICAS LIVRO IV – CAPITULO 19

Os rabinos que escreveram o Talmude deixaram registrada a lenda da morte de um


justo, sacerdote, profeta e juiz chamado Zacarias morto no átrio dos sacerdotes na época
de Nabucodonozor. Segundo os rabinos, o sangue do justo Zacarias borbulhava depois de
derramado da mesma forma que o sangue do justo Abel.
Estes relatos judaicos acerca da morte de um Zacarias filho de Baraquias são extra
bíblicos e inspiraram alguns escritores cristãos ávidos por consertar o possível erro bíblico
analisado. O trabalho literário de São Efraim (373 EC) intitulado “Comentários dos
Evangelhos de São Efraim” e o trabalho literário de São Serapion (385-395 EC) intitulado
“Vida de João Batista” são bons exemplos das antigas tentativas de acomodação do
possível erro bíblico analisado. Segundo estes trabalhos, Zacarias filho de Baraquias, que
era o pai de João Batista, foi morto no Templo quando os soldados foram inquiri-lo sobre
seu filho João Batista que tinha menos de dois anos de idade e, portanto, deveria ser morto
de acordo com o decreto de Herodes.

Há, também, a possibilidade levantada por alguns estudiosos de que Jesus fosse um
essênio e estivesse reclamando a morte do “Mestre da Justiça” que foi o líder maior dos
essênios.

ERROS BÍBLICOS
Vamos iniciar o Estudo com o tema “ERROS BÍBLICOS” e depois
“CONTRADIÇÕES BÍBLICAS” que são os assuntos mais fáceis do leitor pesquisar, pois
os erros e as contradições estão em sua própria Bíblia. Não iremos abordar todos os erros
bíblicos, mas apenas alguns para que o leitor tome familiaridade com o assunto. Depois
que o leitor tiver analisado, neste Estudo, alguns erros bíblicos saberá identificar
facilmente outros erros não abordados aqui.

Se o leitor tiver a oportunidade de ler uma das Bíblias pessoais de um pesquisador


poderá tomar um susto! As Bíblias dos pesquisadores são verdadeiras “cadernetas de
anotações”, têm rabiscos, anotações, setas de indicação, correções, nomes de livros,
lembretes, etc. Quando a Bíblia de um pesquisador não tem mais condições de ser usada, o
pesquisador vai até uma livraria e compra outra Bíblia que terá o mesmo fim que a
primeira. Temos uma imensa facilidade de comprar e trocar Bíblias. Nas prateleiras de
qualquer grande livraria existe uma centena de versões de Bíblias à nossa escolha. Mas
esta não era a realidade dos cristãos até a Idade Média. As Bíblias eram todas manuscritas
e o trabalho era realizado por *copistas que eram contratados para reproduzir o texto
bíblico. Esta realidade só foi alterada com a invenção da imprensa e com o lançamento da
primeira Bíblia impressa da História, a Bíblia de Gutenberg. Por isso os erros bíblicos são,
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em geral, provenientes de *copistas cristãos inexperientes que acrescentaram aos “textos


originais” anotações equivocadas que foram escritas pelos primeiros leitores nos “textos
originais”. Alguns erros bíblicos são, também, provenientes de “complementações” em
manuscritos recebidos para cópia em que estavam faltando letras, palavras e até
parágrafos. Existem, ainda, erros bíblicos que são de responsabilidade dos próprios autores
dos textos bíblicos, que inadvertidamente copiaram erros ou tiveram acesso a documentos
não confiáveis. É importante não confundir ERROS BÍBLICOS com ACRÉSCIMOS
BÍBLICOS, assunto que abordaremos mais adiante.
* Os copistas eram profissionais, ou voluntários, que copiavam manualmente textos e livros, tanto religiosos como seculares, eram também chamados de
escribas. No judaísmo, apesar da Bíblia impressa ser amplamente utilizada nos lares, ainda existe a figura do escriba chamado em hebraico de “sofer” que
copia manualmente os livros e os documentos religiosos para as sinagogas. Nas sinagogas e lares judaicos, os livros e documentos religiosos escritos pelo
“sofer” são analisados frequentemente para evitar e corrigir erros.

QUATORZE GERAÇÕES?
Um erro bíblico muito discutido está num pequeno comentário do Evangelho de
Mateus, neste comentário — de apenas um verso — o suposto autor conta as gerações da
linhagem de Jesus e registra um cálculo equivocado. No próprio texto do Evangelho de
Mateus, as gerações da volta do exílio até Jesus somam treze gerações, um número que
não confere com o número registrado, mas que muitos cristãos tentam adequar com
argumentos e até com malabarismos bíblicos, mas as regras matemáticas são exatas e não
aceitam adequações:
De sorte que todas as gerações, desde Abraão até Davi, são catorze; desde Davi até ao exílio na Babilônia, catorze; e desde
o exílio na Babilônia até Cristo, catorze. Mt 1:17

A contagem das gerações de Abraão até Davi está correta (segundo o texto bíblico),
são exatamente quatorze gerações. Entretanto, a contagem dos descendentes de Davi até o
exílio na Babilônia e também depois do exílio fica comprometida pelo fato de haver a
omissão de parentes no texto do autor do Evangelho de Mateus, uma omissão no verso 9,
outra no verso 11 e ainda mais outra no verso 12. Para compreendermos o erro bíblico
proposto também teremos que analisar os versos citados e suas fontes primárias:
Uzias gerou a Jotão; Jotão a Acaz; Acaz a Ezequias; Mt 1:9

Diferente do autor do Evangelho de Mateus, o escriba de I Crônicas 3:11e12


registrou que Ocozias gerou a Joás, Joás gerou a Acaz, Acaz gerou a Amazias, Amazias
gerou a Azarias e Azarias gerou a Joatão. Para complicar a conta, os escribas de II
Crônicas e de II Reis registraram que Ocozias gerou a Joás (2Cr 22:11 e 2Rs 11:2), Joás
gerou a Amazias (2Cr 25:25 e 2Rs 12:22), Amazias gerou a Ozias (2Cr 26:1 e 2Rs 14:21)
e Ozias gerou a Joatão (2Cr 26:23 e 2Rs 15:7).
Josias gerou a Jeconias e a seus irmãos, no tempo do exílio na Babilônia. Mt 1:11

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Também diferente do autor do Evangelho de Mateus, o escriba de II Crônicas


registrou que Josias gerou a Joacaz [também chamado Joanã] (2Cr 36:1) que foi
constituído rei em Judá, este reinou por três meses e foi deposto pelo rei do Egito que o
levou cativo e entronizou Eliaquim [também chamado Joaquim], também filho de Josias
para governar sobre Judá e Jerusalém. Eliaquim gerou a Jeconias (2Cr 36:8) que assumiu
o trono quando Eliaquim foi deposto por Nabucodonozor e levado cativo para Babilônia.
Segundo, ainda, o escriba de II Crônicas o último rei de Judá foi Sedecias irmão de
Jeconias e filho de Eliaquim.
Depois do exílio na Babilônia, Jeconias gerou a Salatiel, Salatiel gerou a Zorobabel, Mt 1:12

Se nós ignorássemos (o que não podemos) as omissões dos versos 9 e 11 de Mateus


1, e corrigíssemos o verso 12 de acordo com a redação do escriba de I Crônicas 3:17 a 19,
então a conta equivocada de Mateus 1:17 estaria resolvida (este argumento é muito usado
pelos apologéticos). O registro do escriba de I Crônicas afirma que Salatiel gerou a
Fadaias e Fadaias gerou a Zorobabel (ICr 3:17a19). Mas, há uma contradição nos
registros do “Antigo Testamento” que confirma a informação do autor do Evangelho de
Mateus, nestes registros os escribas de Esdras e Ageu afirmam que Salatiel gerou a
Zorobabel (Esd 3:2 e Ag 1:1).
Os especialistas em erros bíblicos e os críticos em geral levantam a possibilidade do
autor do Evangelho de Mateus não fazer a pesquisa correta antes de escrever a genealogia,
ou pior, fazer a pesquisa correta e omitir algumas gerações para que houvesse um
“número cabalístico” em torno da figura de Jesus.

O autor do Evangelho de Mateus incluiu o Registro da Genealogia de Jesus com a


finalidade de mostrar ao leitor a “pureza da dinastia real” de Jesus. Diferentemente da
genealogia registrada no Evangelho de Lucas, que passa apenas pelo Rei David, esta
genealogia é a linhagem direta de todos os reis de Judá, desta dinastia deveria sair
também o Rei Messias esperado pelo Povo de Israel. Quem escreveu a nota marginal (que
deu origem ao erro bíblico analisado) tentava mostrar, sem sucesso, uma possível
coincidência mística numérica de gerações que, se melhor pesquisada antes de ser escrita,
não existiria e se os primeiros escribas fossem mais atenciosos, também não.

OS SUÍNOS MARATONISTAS

Este erro bíblico seria cômico se não fosse trágico. Já ouvimos professores e
pastores tentando explicar o inexplicável, e alunos e fiéis tentando compreender o
incompreensível. Trata-se do desembarque de Jesus na margem do Lago da Galiléia na
cidade de Gadara quando foi recebido por dois homens possessos de espíritos impuros. Na
narrativa bíblica Jesus expulsou os espíritos, que antes de saírem pediram permissão para
entrar numa manada de porcos que pastava ali próximo, ao entrar nos porcos os espíritos
causaram um ataque de loucura nos suínos que correram, precipitaram-se no mar e
morreram afogados. Vamos ler a passagem bíblica:
Tendo ele chegado à outra margem, à terra dos gadarenos, vieram-lhe ao encontro dois endemoninhados, saindo dentre os
sepulcros, e a tal ponto furiosos, que ninguém podia passar por aquele caminho. E eis que gritaram: Que temos nós
contigo, ó Filho de Deus! Vieste aqui atormentar-nos antes de tempo? Ora, andava pastando, não longe deles, uma grande
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manada de porcos. Então, os demônios lhe rogavam: Se nos expeles, manda-nos para a manada de porcos. Pois ide,
ordenou-lhes Jesus. E eles, saindo, passaram para os porcos; e eis que toda a manada se precipitou, despenhadeiro abaixo,
para dentro do mar, e nas águas pereceram. Mt 8:28a32

O episódio dos porquinhos seria compreensível, se não fosse um pequeno detalhe:


Gadara fica, na melhor das hipóteses, há 12 km do Lago da Galiléia. Este é um erro que
aqui no Brasil é classificado como “NASCIDO NO BERÇO”, ou seja, o erro é
provavelmente do autor do Evangelho de Mateus que passou para o seu texto informações
equivocadas. Mas o mais interessante é que o autor do Evangelho de Mateus utilizou o
Evangelho de Marcos para compor seu trabalho. Então o erro deve estar também no
Evangelho de Marcos. Vamos analisar a passagem no Evangelho de Marcos?
Entrementes, chegaram à outra margem do mar, à terra dos gerasenos. Ao desembarcar, logo veio dos sepulcros, ao seu
encontro, um homem possesso de espírito imundo, o qual vivia nos sepulcros, e nem mesmo com cadeias alguém podia
prendê-lo; porque, tendo sido muitas vezes preso com grilhões e cadeias, as cadeias foram quebradas por ele, e os grilhões,
despedaçados. E ninguém podia subjugá-lo. Andava sempre, de noite e de dia, clamando por entre os sepulcros e pelos
montes, ferindo-se com pedras. Quando, de longe, viu Jesus, correu e o adorou, exclamando com alta voz: Que tenho eu
contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes! Porque Jesus lhe dissera: Espírito
imundo, sai desse homem! E perguntou-lhe: Qual é o teu nome? Respondeu ele: Legião é o meu nome, porque somos
muitos. E rogou-lhe encarecidamente que os não mandasse para fora do país. Ora, pastava ali pelo monte uma grande
manada de porcos. E os espíritos imundos rogaram a Jesus, dizendo: Manda-nos para os porcos, para que entremos neles.
Jesus o permitiu. Então, saindo os espíritos imundos, entraram nos porcos; e a manada, que era cerca de dois mil,
precipitou-se despenhadeiro abaixo, para dentro do mar, onde se afogaram. Mc 5:1a13

A passagem do Evangelho de Marcos torna


o assunto mais complexo. O texto em questão é
incrivelmente diferente do texto do Evangelho de
Mateus. No texto do Evangelho de Marcos há um
homem possesso enquanto que no Evangelho de
Mateus existem dois homens possessos, no texto
do Evangelho de Mateus os porcos tiveram que
correr 12 km, pois estavam na cidade de Gadara,
enquanto que no texto do Evangelho de Marcos a
cidade é Gerasa o que torna os porquinhos
corredores em verdadeiros suínos maratonistas,
pois tiveram que correr 50 km antes de pularem
no Lago da Galiléia. Para compreender melhor o
que estamos escrevendo, o leitor pode ver o mapa
da região na época e tirar suas próprias
conclusões quanto à distância.

Mas como encontrar o motivo que gerou o erro bíblico analisado, já que é
impossível que os porcos tenham percorrido 50 km, ou mesmo 12 km? O leitor pode ficar
espantado se nós começarmos as perguntas de outra forma: Houve mesmo este episódio?
Havia quantos homens possessos? Qual a cidade em questão? Qual evangelista está
correto?
Mas vamos, primeiramente, partir da suposição de que o episódio narrado nos
Evangelhos Sinóticos ACONTECEU e só depois analisar uma segunda hipótese. Então
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vamos continuar nossa suposição pelo Evangelho de Mateus que narra o acontecimento na
cidade de Gadara. Mas, por que o Evangelho de Mateus? Será a pergunta do leitor. Porque
a cidade de Gadara está mais próxima do Lago da Galiléia. Jesus e seus discípulos
desembarcaram na margem do Lago da Galiléia e quando estavam andando encontraram
um cemitério ali próximo com dois homens possessos, o restante da história nós já
conhecemos e o texto de Mateus diz ainda que o episódio deu-se fora da cidade o que
reforça a nossa suposição. O texto de Mateus é mais fácil de ser aceito e até preferível se
formos usar a lógica. Mas, o texto do Evangelho de Mateus não é o texto mais antigo dos
Evangelhos Sinóticos a relatar o acontecimento. O texto mais antigo é do Evangelho de
Marcos que, seguindo a tradição cristã primitiva, afirma que havia apenas um homem
possesso, na Cidade de Gerasa e que os porquinhos morreram no Lago da Galiléia. Como
observamos, o autor do Evangelho de Mateus tentou “consertar” as informações do
Evangelho de Marcos, transferindo o episódio da cidade de Gerasa para uma cidade mais
próxima do Lago da Galiléia que é a cidade de Gadara tornando o acontecimento mais
plausível. Com esta alteração no episódio proposto pelo autor do Evangelho de Mateus o
“problema” estava resolvido. Entretanto, alguns anos depois, outro autor, o autor do
Evangelho de Lucas começou a escrever seu Evangelho. O autor do Evangelho de Lucas
usou diversos documentos e Evangelhos da época para compor seu Evangelho, inclusive
os Evangelhos de Marcos e de Mateus. Quando chegou a passagem por nós analisada ele
escreveu:
Então, rumaram para a terra dos gerasenos, fronteira da Galiléia. Logo ao desembarcar, veio da cidade ao seu encontro
um homem possesso de demônios que, havia muito, não se vestia, nem habitava em casa alguma, porém vivia nos
sepulcros. E, quando viu a Jesus, prostrou-se diante dele, exclamando e dizendo em alta voz: Que tenho eu contigo, Jesus,
Filho do Deus Altíssimo? Rogo-te que não me atormentes. Porque Jesus ordenara ao espírito imundo que saísse do homem,
pois muitas vezes se apoderara dele. E, embora procurassem conservá-lo preso com cadeias e grilhões, tudo despedaçava e
era impelido pelo demônio para o deserto. Perguntou-lhe Jesus: Qual é o teu nome? Respondeu ele: Legião, porque tinham
entrado nele muitos demônios. Rogavam-lhe que não os mandasse sair para o abismo. Ora, andava ali, pastando no monte,
uma grande manada de porcos; rogaram-lhe que lhes permitisse entrar naqueles porcos. E Jesus o permitiu. Tendo os
demônios saído do homem, entraram nos porcos, e a manada precipitou-se despenhadeiro abaixo, para dentro do lago, e se
afogou. Lc 8:26a33

Como podemos notar no texto do Evangelho de Lucas, o autor preferiu a


informação do Evangelho de Marcos — que a cidade era Gerasa — e a reproduziu da
mesma maneira, pois, embora o texto de Mateus seja mais plausível a tradição da época
confirmava o texto de Marcos. Entretanto, o autor do Evangelho de Lucas, também tentou
“consertar” a passagem registrada pelos autores dos Evangelhos de Marcos e Mateus e
trocou a “corrida de suínos” por outra corrida, a “corrida do possesso”. Neste texto, quem
saiu da cidade até o lago foi o homem possesso e não os porquinhos. Temos então na
Bíblia três textos que tratam do mesmo assunto e trazem três informações conflitantes.
Orígenes, um dos primeiros padres da Igreja Cristã primitiva, vislumbrou o
problema e conjecturou a possibilidade dos três Evangelhos estarem errados. Para
Orígenes o motivo do erro seria de origem dos primeiros copistas, que copiaram o
Evangelho de Marcos e leram a cidade de “Gergesa” como sendo “Gerasa”. A cidade de
Gergesa ficava nas margens do Lago da Galiléia. A conjectura de Orígenes é mais
plausível que a do autor do Evangelho de Mateus e foi imediatamente aceita pelos escribas
cristãos de sua época que passaram a informar nos manuscritos posteriores que a cidade
era “Gergesa” e os habitantes eram os “gergesenos”. Hoje, muitas versões das Bíblias
Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia.
“No princípio era o Verbo...” 12

trazem esta informação, inclusive a primeira versão Revista e Corrigida de João Ferreira
de Almeida que é muito utilizada no meio evangélico.

O leitor agora deve estar se perguntando: Será que o texto do Evangelho de Mateus
está errado? Será que errados estão os textos dos Evangelhos de Marcos e Lucas? Será que
todos estão errados e o correto é a conjectura de Orígenes? Vamos continuar...
Dos textos considerados canônicos, os estudiosos e pesquisadores preferem o texto
do Evangelho de Marcos, quando analisam a História, e o texto dos Evangelhos de Mateus
e de Lucas, quando analisam os ditos de Jesus.

O texto do Evangelho de Marcos é escrito de uma forma clara e concisa e tem um


estilo literário-religioso próprio que surpreende o leitor. No Evangelho de Marcos, quando
se desenrola a narração dos episódios eles ganham vida e um episódio reflete significados
no outro. Este estilo é conhecido como “molduras”, ou seja, o autor inicia a narração de
um episódio, interrompe inicia e conclui a narração de outro episódio para só então voltar
à primeira narração continuá-la e concluí-la. O autor do Evangelho de Marcos escreve
sobre o episódio de Jairo que foi buscar Jesus para curar sua filha doente, logo o autor
muda a narrativa para contar sobre uma mulher que tinha um fluxo de sangue, após
concluir a narrativa do episódio da mulher, o autor do Evangelho de Marcos retoma o
episódio da filha de Jairo para continuá-lo e concluí-lo Mc 5:21a43; no mesmo estilo foi
escrito o episódio da missão dos doze discípulos, alternado com um comentário sobre
Herodes e a retomada do episódio dos discípulos Mc 6:7a30; o episódio da conspiração
dos principais dos sacerdotes alternada com o episódio da unção em Betânia e a retomada
do episódio da traição de Jesus Mc 14:1a11; o episódio da figueira estéril, alternado com a
expulsão dos vendedores do Templo e a retomada do episódio da figueira Mc 11:12a21; e
o episódio de Pedro no interior da casa do sumo sacerdote alternado com o episódio do
julgamento do Sinédrio e a retomada do episódio de Pedro negando Jesus Mc 14:53a72 só
para citarmos alguns exemplos do estilo literário do autor do Evangelho de Marcos.
Supondo que o episódio dos porquinhos tenha realmente acontecido, então o tema
que estamos analisando foi, inicialmente, escrito no mesmo estilo literário de todo o
restante do Evangelho. Mas, por que o texto do Evangelho de Marcos deixa parecer que há
um erro geográfico na narrativa? Segundo os comentaristas da Bíblia de Jerusalém, os dois
episódios narrados naquela “moldura” do Evangelho de Marcos “são episódios distintos”,
ou seja, aconteceram separadamente e é possível que em locais e dias diferentes. As
redações atuais dos dois episódios parecem ter sido “juntadas” quando as primeiras
transcrições do Evangelho de Marcos começaram a ser realizadas. Os primeiros copistas
parecem ter revisado e editado o texto para corrigir uma possível falta de letras ou palavras
no manuscrito que possuíam o que desfigurou a “moldura” e, consequentemente, acarretou
um erro nas cópias posteriores. Como os autores dos Evangelhos de Mateus e Lucas
utilizaram o texto revisado de Marcos, copiaram um erro (que os autores dos Evangelhos
de Mateus e Lucas, e até mesmo o padre Orígenes tentaram consertar) e a atenção do leitor
que deveria estar voltada para uma lição moral e ética ligada à morte dos porcos foi
transferida para a imaginação popular de uma hilária maratona suína. Voltamos a afirmar
que o Evangelho de Marcos é o melhor dos Evangelhos Sinóticos quanto ao estilo
Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia.
“No princípio era o Verbo...” 13

literário, mas em todos os trechos que este Evangelho recebeu acréscimos, revisões ou
edições o resultado foi sempre triste.
Além do trecho analisado, Mc 4:10a12 e Mc 16:9a20 são bons exemplos de acréscimos, revisões e edições que geraram erros grosseiros. Mas estes trechos nós
vamos analisar mais adiante.

A outra hipótese é de que O EPISÓDIO NÃO ACONTECEU. Apesar dos cristãos


de nossos dias crerem que o episódio foi real, o episódio em questão do Evangelho de
Marcos, de acordo com esta segunda suposição, é um Midrash. O Midrash é uma alegoria
judaica escrita com a finalidade de transmitir ao leitor judeu observações rabínicas sobre
Moral, Ética e a Lei Judaica. Observando por este ponto de vista, tudo o que foi narrado
pelo autor do Evangelho de Marcos está correto e a distância das cidades em relação ao
Lago da Galiléia não faz diferença alguma, pois tudo é uma questão alegórica.

Para compreender este episódio de forma alegórica, o leitor deve ter em mente que
este Evangelho foi escrito para uma platéia judaica. Logo o texto do Evangelho de Marcos
deve ser lido com “olhos judeus”, ou seja, é necessário para o leitor conhecer as práticas e
as crenças judaicas citadas no episódio, caso contrário, a interpretação do Midrash poderá
ser prejudicada ou — muito pior — ser interpretada como literal. A interpretação de um
Midrash é subjetiva, portanto vamos relatar as práticas e as crenças judaicas e, ao final, o
leitor irá fazer sua própria interpretação.

Um judeu religioso não tem como prática visitar o cemitério, salvo prescrição da Lei
Judaica. Uma das crenças judaicas com relação aos espíritos dos mortos é que eles existem
e que, inclusive, podem ouvir nossas conversas dirigidas a eles, pois passam a existir no
nosso mundo, porém em um outro plano espiritual. Depois da morte, o espírito da pessoa
destaca-se do corpo e, após o período de luto, retorna a Deus. Neste episódio que estamos
analisando, os espíritos chamados pelos cristãos de “demônios” são para os judeus,
espíritos de pessoas que não tiveram uma vida honesta, justa e pautada pela obediência aos
Mandamentos da Lei de Deus e por isso estão atormentados e não retornaram a Deus.
Estes espíritos atormentados freqüentam as residências em que moravam e os cemitérios
em que seus corpos estão enterrados. Às vezes se apoderam do corpo de pessoas ou até de
animais que ficam então possessos. Para realizar o exorcismo, a religião judaica sugere
que haja um número mínimo de dez pessoas sendo um deles um rabino praticante da Lei
que fará a conjuração do espírito, perguntando o seu nome, o que quer ou precisa para
finalmente exorcizar o espírito do corpo da pessoa ou animal possesso. Quando o rabino
exorciza um espírito, ele ordena que o espírito saia de perto de qualquer cidade, povoado
ou vila e siga em direção ao deserto, floresta, abismo ou mar. Outra possibilidade é
ordenar ao espírito que retorne a Deus. O exorcismo no judaísmo é visto como um ato de
extrema misericórdia para com o possesso e também para com o espírito. Já os
“demônios” são crias de Lilith, a primeira mulher de Adão. Lilith teve filhos-demônios
com Adão, com Asmodeu o chefe dos demônios, com os anjos e até com seus próprios
filhos-demônios. Os demônios e os anjos não precisam de corpos, pois podem se
materializar e adquirir qualquer forma, e por este motivo os demônios nada tem haver com
o episódio narrado. A cidade de Gerasa fazia parte de DECÁPOLIS, as dez cidades
habitadas por gentios na Palestina. As cidades de Decápolis eram frequentemente usadas
pelos galileus como passagem para Jerusalém, pois quando os samaritanos não impediam
Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia.
“No princípio era o Verbo...” 14

os judeus de atravessarem seu território, os judeus se recusavam a atravessar o território de


Samaria, daí o motivo de tantas travessias de Jesus e seus discípulos no Lago da Galiléia.
Os gentios estavam dominando a Judéia política, econômica e militarmente e chama-los de
cães ou de porcos era uma prática comum entre aqueles judeus. Ter a possibilidade de
imaginar uma Legião Romana correndo do Rei-Messias judeu e por fim se afogando
exatamente de onde vieram (o Mar) era o ponto alto para qualquer platéia judaica do
primeiro século.

A resposta para o erro encontrado deve ser precedida pela escolha de uma das duas
suposições que mostramos ao leitor. A diferença entre a interpretação literal e a
interpretação de um midrash é que na primeira opção a resposta é objetiva, enquanto que
na segunda opção a resposta é subjetiva. Entretanto, dependendo da escolha do leitor, a
resposta suscitará outro problema que o leitor deverá conviver com ele: Se a interpretação
literal for escolhida o leitor terá que reconhecer o erro bíblico, se a escolha for pelo
midrash então o leitor terá que reconhecer que o episódio não existiu como a maioria dos
cristãos acredita.

A ENTRADA TRIUNFAL DE JESUS EM JERUSALÉM


Uma das histórias mais belas contadas no “Novo Testamento” é a entrada triunfal de
Jesus em Jerusalém! Trata-se do episódio da jumenta e do jumentinho que são cobertos
pelas vestes dos discípulos e Jesus é colocado sobre os animais. Ao entrar na cidade de
Jerusalém, Jesus é aclamado pelo povo! Pelo motivo do episódio ser um dos mais bonitos
do “Novo Testamento” poucas pessoas percebem o óbvio. Vamos ler?
Ide à aldeia que está defronte de vós e logo encontrareis uma jumenta presa e um jumentinho com ela; desprendei-a e
trazei-mos. E, se alguém vos disser alguma coisa, direis que o Senhor precisa deles; e logo os enviará. Ora, tudo isso
aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta, que diz: Dizei à filha de Sião: Eis que o teu Rei aí te vem,
humilde e assentado sobre uma jumenta e sobre um jumentinho, filho de animal de carga. E, indo os discípulos e fazendo
como Jesus lhes ordenara, trouxeram a jumenta e o jumentinho, e sobre eles puseram as suas vestes, e fizeram-no assentar
em cima. Mt 21:2a7

Como podemos notar, o autor do Evangelho de Mateus colocou em sua narrativa


Jesus pedindo para que seus discípulos buscassem DOIS animais, pois ele precisava de
DOIS animais, para cumprir uma profecia que falava de DOIS animais, ao trazerem os
DOIS animais, os discípulos colocaram suas vestes sobre estes DOIS animais e Jesus se
assentou sobre os DOIS animais.

Este é um erro simples de ser resolvido: É óbvio que Jesus, eu, você e qualquer ser
humano só têm condições de sentar-se em um animal. Mas nós vamos nos aprofundar um
pouco mais neste assunto... Vamos começar conferindo o que escreveram os autores dos
Evangelhos de Marcos, Lucas e João:
Marcos 11:2a7 Lucas 19:30a35 João 12:14a15

e disse-lhes: Ide à aldeia que está dizendo: Ide à aldeia que está E achou Jesus um jumentinho e
defronte de vós; e, logo que ali defronte e aí, ao entrardes, assentou-se sobre ele, como está
entrardes, encontrareis preso um achareis preso um jumentinho em escrito: Não temas, ó filha de
jumentinho, sobre o qual ainda não que nenhum homem ainda Sião! Eis que o teu Rei vem
montou homem algum; soltai-o e montou; soltai-o e trazei-o. E, se assentado sobre o filho de uma
trazei-mo. E, se alguém vos disser: alguém vos perguntar: Por que o jumenta.
Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia.
“No princípio era o Verbo...” 15

Por que fazeis isso?, dizei-lhe que o soltais?, assim lhe direis: Porque o
Senhor precisa dele, e logo o Senhor precisa dele. E, indo os
deixará trazer para aqui. E foram, e que haviam sido mandados,
encontraram o jumentinho preso acharam como lhes dissera. E,
fora da porta, entre dois caminhos, quando soltaram o jumentinho,
e o soltaram. E alguns dos que ali seus donos lhes disseram: Por que
estavam lhes disseram: Que fazeis, soltais o jumentinho? E eles
soltando o jumentinho? Eles, responderam: O Senhor precisa
porém, disseram-lhes como Jesus dele. E trouxeram-no a Jesus; e,
lhes tinha mandado; e os deixaram lançando sobre o jumentinho as
ir. E levaram o jumentinho a Jesus suas vestes, puseram Jesus em
e lançaram sobre ele as suas vestes, cima.
e assentou-se sobre ele.

Apesar de haver uma importante divergência entre o autor do Evangelho de João e


os demais autores quanto à procedência do animal, é consenso entre os evangelistas que se
trata de apenas UM animal.

Entretanto, para sustentar sua tese, o autor do Evangelho de Mateus transcreve a


passagem do “Velho Testamento” que trata do assunto. Segundo o autor do Evangelho de
Mateus esta passagem bíblica diz o seguinte:
Ora, tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta, que diz: Dizei à filha de Sião: Eis que o teu Rei
aí te vem, humilde e assentado sobre uma jumenta e sobre um jumentinho, filho de animal de carga. Mt21:4e5

Será possível que o autor do Evangelho de Mateus está correto? Vamos verificar a
passagem bíblica citada pelo autor:
Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém: eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador, humilde, montado
num jumento, num jumentinho, cria de jumenta. Zc 9:9

Esta passagem que acabamos de ler é uma tradução realizada do atual texto grego e
também igual a do texto latim. Apesar de não ser necessário, quero que o leitor verifique
agora a mesma passagem traduzida direto do texto hebraico pela Bíblia de Jerusalém:
Exulta muito, filha de Sião! Grita de alegria, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti: ele é justo e vitorioso, humilde,
montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, filho da jumenta. Zc 9:9

O texto do profeta Zacarias, fala sobre “...um jumento, um jumentinho, filho da


jumenta...”. É óbvio que apesar de falar sobre o animal TRÊS vezes, trata-se de apenas
UM animal. O estilo literário utilizado pelo profeta neste episódio reproduz uma expressão
idiomática conhecida como “hebraísmo” que, aparentemente, o autor do Evangelho de
Mateus não conhecia.

Mas, nos perguntará o leitor, se Mateus sendo hebreu não tinha conhecimento do
hebraísmo como expressão idiomática, então como pode ele ter escrito este Evangelho?

Apesar de a tradição religiosa cristã identificar o Evangelho de Mateus como sendo


o primeiro Evangelho escrito, é consenso entre os pesquisadores não-religiosos que o
Evangelho de Mateus que possuímos não é o Evangelho mais antigo da Bíblia cristã, e
mais... também, não é o Evangelho de Mateus descrito por Pápias de Hierápolis, o
discípulo de João e companheiro de Policarpo, que viveu entre 70 e 140 EC.

Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia.


“No princípio era o Verbo...” 16

"Mateus reuniu, de forma ordenada, na língua hebraica, as sentenças [de Jesus] e cada um as interpretava conforme sua
capacidade". Pápias de Hierápolis

Alguns pesquisadores católicos não-religiosos chegam a conjecturar que esta


“reunião das sentenças de Jesus” citadas por Pápias é a famosa “*Fonte Q”, e o atual
Evangelho de Mateus é uma edição posterior traduzida, revisada e expandida destas
“interpretações” citadas por Pápias que ficou posteriormente identificada com o nome do
Evangelho de Mateus que é — ainda de acordo com esta conjectura — seu precursor.
Partindo desta conjectura, o autor do atual Evangelho de Mateus (ou Mateus grego) não era
judeu da Judéia, mas um judeu helenizado ou mesmo um cristão gentio. Em ambos os
casos o autor não tinha familiaridade com a expressão idiomática citada na “Bíblia
Hebraica” e utilizou muito a Septuaginta LXX de sua época para escrever suas citações.

O leitor do Estudo agora deve estar se perguntando: Será que a Septuaginta utilizada
por Mateus tinha este trecho escrito de forma errada? Para respondermos a esta questão
vamos recorrer ao Prof. Dr. Edson de Faria Francisco, da Universidade de São Paulo,
especialista em Manuscritos, autor do Manual da Bíblia Hebraica: Introdução ao Texto
Massorético – Guia Introdutório para a Bíblia Hebraica Stuttgartensia. 2. ed. São Paulo:
Vida Nova. Em seu trabalho o Professor Faria faz um duro comentário contra os primeiros
manuscritos da Septuaginta, chegando a afirmar que apesar da lenda dos 72 sábios judeus
contada por Flávio Josefo, “os primeiros tradutores da Septuaginta não sabiam ler
hebraico e muito menos escrever grego”.

Munido destas informações o leitor do Estudo poderá tirar as suas conclusões


quanto a quem foi o autor do Evangelho de Mateus, se ele “escreveu” errado o episódio
em análise ou se “copiou” a informação errada da Septuaginta LXX disponível e expandiu
o erro por todo o episódio.

Para finalizar o episódio... No Evangelho de Tomé no verso 47 Jesus diz: “...O


homem não pode montar em dois cavalos...”.
* A “fonte Q” ou “Evangelho Q” é um texto perdido. J. Hawkins e A. Harnack, foram os primeiros a identificar oficialmente esta fonte. Trata-se de uma tese
defendida por Hawkins e Harnack para explicar a existência de material em comum encontrado nos Evangelhos de Mateus e Lucas. A letra “Q” vem de
“Quelle”, palavra alemã para "fonte".
Indicamos o Livro “O evangelho perdido: livro de Q e as origens cristãs” de MACK, Burton L. – Imago, 1994.
Indicamos o Livro “O Quinto Evangelho A Mensagem do Cristo segundo Tomé” de Rohden, Huberto – Editora Martin Claret – 2001
Já o “Manual da Bíblia Habraica” do Prof. Dr. Edson de Faria Francisco é um livro extremamente técnico, voltado para um público acadêmico específico,
quando o leitor tiver um conhecimento mais sólido da Bíblia é importante te-lo na sua Biblioteca particular.

OS ERROS DE TRADUÇÃO PARA A LÍNGUA PORTUGUESA


Continuando com o tema ERROS BÍBLICOS, vamos abordar agora os ERROS DE
TRADUÇÃO PARA A LÍNGUA PORTUGUESA. As Bíblias existentes hoje no Brasil
trazem, basicamente, dois tipos de erros de tradução para a Língua Portuguesa: não-
intencionais e premeditados.
ERROS DE TRADUÇÃO NÃO-INTENCIONAIS

Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia.


“No princípio era o Verbo...” 17

Como o próprio nome define, estes ERROS DE TRADUÇÃO são aqueles em que o
tradutor não teve a intenção de transmitir um erro para o seu trabalho.

O ERRO DE TRADUÇÃO NÃO-INTENCIONAL mais comum e comentado entre


os pesquisadores é o Salmo 23:1. Neste Salmo está consolidada, na Língua Portuguesa, a
seguinte tradução: “O Senhor é meu pastor e nada me faltará”. Diante desta tradução o
leitor do Salmo é estimulado a depositar sua fé em Deus e ter a convicção de que nada
poderá faltar para aquele que tem Deus como seu pastor. Mas, a tradução correta é:
“YHWH é meu pastor e não me faltará”, ou seja, tudo poderá faltar na vida daquele que
tem Deus como pastor, menos o próprio Deus.

Outro texto com a tradução completamente errada está no Evangelho de João


Capítulo 6, verso 21: “...E, tendo navegado uns vinte e cinco ou trinta estádios, viram a
Jesus, andando sobre o mar e aproximando-se do barco; e temeram. 20 Mas ele lhes
disse: Sou eu, não temais. 21 Então eles de boa mente o receberam no barco; e logo o
barco chegou à terra para onde iam...” Neste episódio, Jesus sobe no barco junto com os
discípulos e chega à outra margem. Entretanto, a tradução correta é: “... Então eles
quiseram recebê-lo no barco; mas ele, imediatamente, chegou a terra para onde iam...”.
Erros como estes estão em todo o Texto Bíblico. Como podemos notar os tradutores
não tiveram a intenção de publicar os erros identificados, entretanto estes erros existem e
são suficientes para alterar o significado do Texto Bíblico.
ERROS DE TRADUÇÃO PREMEDITADOS

Existem muitos Erros de Tradução Premeditados na Bíblia. Queremos, no entanto,


mostrar apenas “uma palavra grega” que foi premeditadamente traduzida de forma errada
para não permitir que o leitor do Texto Bíblico saiba o seu real significado.

anomia = ANOMIA = transgressão da Lei = contrária a Lei = desprezo da Lei


= ilegalidade.

A Lei (nomia), tratada na Bíblia, é por implicação a Lei Mosaica, ou seja, a Torah,
ou PENTATEUCO, os cinco primeiros Livros da Bíblia.

Vamos analisar, nas colunas abaixo, os Textos Bíblicos que contém estes Erros de
Tradução Premeditados e como estes mesmos Textos Bíblicos ficariam se fossem
traduzidos corretamente.

Erros de Tradução Tradução Correta


Apartai-vos de mim, todos os que praticam a iniqüidade, Apartai-vos de mim, todos os transgressores da Lei,
porque o SENHOR ouviu a voz do meu lamento; Salmos 6:8 porque o SENHOR ouviu a voz do meu lamento; Salmos 6:8
Mas ele vos dirá: Não sei donde vós sois; apartai-vos de Mas ele vos dirá: Não sei donde vós sois; apartai-vos de
mim, vós todos que praticam a iniqüidade. Lucas 13:27 mim, vós todos que transgridem a Lei. Lucas 13:27
então, será, de fato, revelado o iníquo, a quem o Senhor então, será, de fato, revelado o transgressor da Lei, a
Jesus matará com o sopro de sua boca e o destruirá pela quem o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca e o
manifestação de sua vinda. 2Ts2:8 destruirá pela manifestação de sua vinda. 2Ts2:8

Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia.


“No princípio era o Verbo...” 18

Ora, o aparecimento do iníquo é segundo a eficácia de Ora, o aparecimento do transgressor da Lei é segundo a
Satanás, com todo poder, e sinais, e prodígios da mentira, eficácia de Satanás, com todo poder, e sinais, e prodígios
2Ts2:9 da mentira, 2Ts2:9

Na língua portuguesa os termos encontrados pelos tradutores para a palavra


ANOMIA foram, principalmente, INIQUIDADE (PERVERSIDADE na N.V.I.) e
INÍQUO (HOMEM MAL na N.V.I.). O motivo que levou os tradutores da Bíblia a terem
preferido “esconder” o real significado da palavra ANOMIA está no fato de que todos eles
foram influenciados pela doutrina antinomista, ou seja, a opinião teológica que Jesus
aboliu a Lei do Antigo Testamento e por isso, é necessário rejeitar tudo que se refere à Lei,
de todos os pontos de vista e de todas as maneiras possíveis.

DIFERENTES FORMAS NARRATIVAS DO MESMO EPISÓDIO


Antes de entrarmos no assunto CONTRADIÇÕES BÍBLICAS, precisamos saber O
QUE NÃO É UMA CONTRADIÇÃO BÍBLICA. Muitos amigos, colegas, pastores,
padres, religiosos em geral e até apologéticos nos advertem que as Contradições Bíblicas
são, na realidade, DIFERENTES FORMAS NARRATIVAS DO MESMO EPISÓDIO.

Para evitarmos este tipo de equívoco tanto na explanação de nosso Estudo como na
compreensão do leitor vamos, primeiramente, analisar o episódio da cura da sogra de
Simão que é um bom exemplo de DIFERENTES FORMAS NARRATIVAS DO MESMO
EPISÓDIO para só depois explicarmos o que são as CONTRADIÇÕES BÍBLICAS.
A CURA DA SOGRA DE PEDRO
Marcos 1:29a31 Mateus 8:14e15 Lucas 4:38e39
E logo, saindo da sinagoga, foram E Jesus, entrando em casa de Ora, levantando-se Jesus da
à casa de Simão e de André com Pedro, viu a sogra deste acamada, sinagoga, entrou em casa de Simão;
Tiago e João. E a sogra de Simão e com febre. E tocou-lhe na mão, e a sogra de Simão estava enferma
estava deitada com febre; e logo e a febre a deixou; e levantou-se, e com muita febre, e rogaram-lhe por
lhe falaram dela. Então, serviu-os. ela. E, inclinando-se para ela,
chegando-se a ela, tomou-a pela repreendeu a febre, e esta a deixou.
mão, e levantou-a; e E ela, levantando-se logo, servia-os.
imediatamente a febre a deixou, e
servia-os.

As pequenas diferenças encontradas nas narrativas dos autores dos Evangelhos de


Marcos, Mateus e Lucas não alteram o episódio analisado. Ao ler qualquer um dos textos
dos autores dos Evangelhos saberemos que: 1) o episódio ocorreu dentro da casa de
Simão; 2) a sogra de Simão estava com febre; 3) a febre era tão intensa que a mulher
estava deitada; 4) Jesus toma conhecimento da enfermidade da mulher; 5) Jesus cura
a mulher; 6) a cura foi imediata; 7) a mulher levantou-se; e 8) foi servir os visitantes.
Mesmo nestas DIFERENTES FORMAS NARRATIVAS DO MESMO EPISÓDIO
há contradições entre os textos, que felizmente não influenciam no desenvolvimento e na

Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia.


“No princípio era o Verbo...” 19

conclusão do episódio. Apesar de serem muito interessantes para pequenos estudos


específicos. Por exemplo:

1) Para o autor de Marcos, Jesus “precisou ser avisado” que a sogra de Simão estava
doente. Para o autor de Mateus, Jesus “viu” a situação da mulher.

2) No Evangelho de Lucas, os discípulos “rogaram” pela sogra de Simão. Nos


Evangelhos de Marcos e Mateus, Jesus curou a mulher por sua livre iniciativa.

3) Nos Evangelhos de Marcos e de Lucas, o episódio deu-se “depois que Jesus saiu
da sinagoga”. O Evangelho de Mateus nada diz a este respeito.

4) No Evangelho de Marcos, a cura da febre foi realizada quando Jesus “pegou a


mulher pela mão e a levantou”. No Evangelho de Mateus, Jesus “tocou” a mão da mulher
que ficou curada. Já no Evangelho de Lucas, Jesus “repreendeu” a febre da mulher da
mesma maneira que “repreendia” os espíritos impuros sem precisar sequer tocar na
mulher.

Este é um bom exemplo de DIFERENTES FORMAS NARRATIVAS DO MESMO


EPISÓDIO. Pois, apesar das pequenas contradições, a “espinha dorsal” do episódio foi
preservada.

CONTRADIÇÕES BÍBLICAS
A principal diferença entre a CONTRADIÇÃO BÍBLICA e as DIFERENTES
FORMAS NARRATIVAS DO MESMO EPISÓDIO, é que na CONTRADIÇÃO
BÍBLICA as diferenças de narração dos autores dos Evangelhos são tão grandes e
intransponíveis que não existe a possibilidade de sabermos onde está o equívoco. Em
outras palavras:
“A Contradição Bíblica é identificada quando um texto bíblico contradiz outro texto
bíblico de mesma grandeza e importância”.
Os episódios que iremos analisar são sempre formados por dois, três e até quatro
textos contraditórios. Para o leitor ter uma pequena idéia do pensamento dos pesquisadores
com relação às contradições bíblicas, a Introdução aos Evangelhos Sinóticos da Bíblia de
Jerusalém chega a nomear de “aberrantes” as contradições encontradas entre os
Evangelhos. Apesar de não existir uma terceira fonte bíblica para solucionar a contradição,
forneceremos ao leitor do Estudo textos da Igreja Católica, textos do Talmude judaico,
textos históricos, elementos arqueológicos e opiniões de especialistas bíblicos. Assim, o
leitor terá condições de formar sua opinião sobre as contradições bíblicas.

O BATISMO DE JESUS, A VOZ DOS CÉUS e JOÃO BATISTA.


Marcos 1:9 Mateus 3:13a17 Lucas 3:21e22 Atos 1:21e22 João 1:29a34
Naqueles dias, veio Por esse tempo, dirigiu- E aconteceu que, ao ser É necessário, pois, No dia seguinte, viu João
Jesus de Nazaré da se Jesus da Galiléia todo o povo batizado, que, dos homens que a Jesus, que vinha para
Galiléia e por João foi para o Jordão, a fim de também o foi Jesus; e, nos acompanharam ele, e disse: Eis o
batizado no rio Jordão. que João o batizasse. estando ele a orar, o céu todo o tempo que o Cordeiro de Deus, que
Logo ao sair da água, Ele, porém, o dissuadia, se abriu, e o Espírito Senhor Jesus andou tira o pecado do mundo!
Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia.
“No princípio era o Verbo...” 20

viu os céus rasgarem-se dizendo: Eu é que Santo desceu sobre ele entre nós, É este a favor de quem eu
e o Espírito descendo preciso ser batizado por em forma corpórea começando no disse: após mim vem um
como pomba sobre ele. ti, e tu vens a mim? como pomba; e ouviu- batismo de João, até varão que tem a primazia,
Então, foi ouvida uma Mas Jesus lhe se uma voz do céu: Tu ao dia em que dentre porque já existia antes de
voz dos céus: Tu és o respondeu: Deixa por és o meu Filho amado, nós foi levado às mim. Eu mesmo não o
meu Filho amado, em ti enquanto, porque, em ti me comprazo. alturas, um destes se conhecia, mas, a fim de
me comprazo. assim, nos convém torne testemunha que ele fosse manifestado
cumprir toda a justiça. conosco da sua a Israel, vim, por isso,
Então, ele o admitiu. ressurreição. batizando com água. E
Batizado Jesus, saiu João testemunhou,
logo da água, e eis que dizendo: Vi o Espírito
se lhe abriram os céus, descer do céu como
e viu o Espírito de Deus pomba e pousar sobre ele.
descendo como pomba, Eu não o conhecia;
vindo sobre ele. E eis aquele, porém, que me
uma voz dos céus, que enviou a batizar com água
dizia: Este é o meu me disse: Aquele sobre
Filho amado, em quem quem vires descer e
me comprazo. pousar o Espírito, esse é o
que batiza com o Espírito
Santo. Pois eu, de fato, vi
e tenho testificado que ele
é o Filho de Deus.

Notamos que nos Evangelhos de Marcos e Lucas, Jesus foi batizado por João
Batista. Como o Livro dos Atos dos Apóstolos foi escrito pelo mesmo autor do Evangelho
de Lucas, a informação é idêntica. As contradições só começam a aparecer quando lemos
o Evangelho de Mateus. Nesta coluna, o autor do Evangelho de Mateus faz uma ressalva
no batismo de Jesus. João Batista não queria batizar Jesus, e só o fez por ordem do próprio
Jesus.

É comum ouvirmos cristãos religiosos afirmarem que Jesus nasceu, cresceu e


morreu sem cometer pecados. Mas, diante da pregação de arrependimento de pecados
feita por João Batista, muitos leitores e até alguns pesquisadores chegam a conjecturar
que: Por Jesus ter sido batizado por João é óbvio que ele foi “tocado” pela pregação de
arrependimento de pecados.

A conjectura descrita acima não é nova e nem de nossa autoria. Esta conjectura data
já dos primeiros anos do cristianismo. É comum uma pessoa recém convertida ao
cristianismo iniciar seus estudos da Bíblia e começar a fazer perguntas sobre a nova fé.
Quando chega ao episódio do batismo de Jesus, a “antiga conjectura” aparece na mente de
muitos dos novos cristãos. O autor do Evangelho grego de Mateus e seus revisores
conheciam muito bem esta conjectura e resolveram o “problema” do batismo de Jesus
fazendo a ressalva que Jesus “ordenou” o seu próprio batismo. E João Batista que não
queria realizar o batismo... “obedeceu”.

É constrangedor, para um teólogo religioso, “explicar”, para um novo convertido,


que Jesus não foi tocado por nenhuma pregação de arrependimento de pecados. Para não
ter que “explicar” que Jesus foi batizado para remissão dos pecados, o autor do Evangelho
de João resolveu o “problema” de uma forma espetacular e surpreendente! Para o autor
deste Evangelho JESUS NÃO FOI BATIZADO!
Apesar da saída encontrada pelo autor do Evangelho de João ser mais “interessante”
para resolver o problema que estamos analisando, os teólogos preferiram outra narrativa.
Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia.
“No princípio era o Verbo...” 21

Segundo o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, promulgado, em 1992, pelo


Papa João Paulo II, a posição oficial da Igreja Católica Romana quanto ao episódio
analisado segue, exatamente, o texto do autor do Evangelho de Mateus: “Jesus Cristo, o
qual, no início da sua vida pública, se faz batizar por João Batista no Jordão”. Esta é,
também, a posição das Igrejas Cristãs Protestantes Tradicionais.
O maior problema em “eleger” o texto do autor do Evangelho de Mateus é que fica
caracterizado que houve uma “escolha” da narrativa que mais se “encaixa” na posição dos
religiosos. Esta prática é bem aceita pelos cristãos em geral, mas condenável pelos mais
esclarecidos. Futuramente, quando mudar a posição dos teólogos, o texto bíblico do
Evangelho de Mateus será descartado e outra narrativa que se “encaixe” melhor na nova
posição será “escolhido”.

Se o leitor está surpreso com estas pequenas contradições nas narrações sobre o
batismo de Jesus, então vai ficar estarrecido com as contradições da “voz” ouvida após o
batismo de Jesus.

Para o autor do Evangelho de Marcos, Jesus saiu das águas do rio Jordão e viu os
céus se abrirem e o Espírito de Deus descer sobre ele em forma de pomba. Segundo o
mesmo autor do Evangelho de Marcos, “foi ouvida” uma voz que falava com ele.
Para não prejudicar o entendimento do tema CONTRADIÇÕES BÍBLICAS não vamos abordar a frase ouvida, mas somente como ela foi ouvida. No tema
ALTERAÇÕES BÍBLICAS, voltaremos a analisar a frase em questão.

Para o autor do Evangelho de Mateus, Jesus também saiu das águas do rio Jordão e
também viu os céus se abrirem e o Espírito descer sobre ele em forma de pomba. Mas,
diferentemente do Evangelho de Marcos, o autor do Evangelho de Mateus deixa parecer
que a voz foi ouvida apenas por Jesus.

Para o autor do Evangelho de Lucas, Jesus também foi batizado e saiu das águas.
Segundo esta narrativa, os acontecimentos analisados só ocorreram quando Jesus estava
em oração já depois do batismo. Mas, ao contrário das outras narrativas, Jesus não viu os
céus se abrirem. As pessoas presentes ao batismo de Jesus é que tiveram a oportunidade de
ver os céus se abrindo e uma “pomba” descendo “em forma corpórea” sobre ele enquanto
ouviam uma voz dos céus.

Já para o autor do Evangelho de João nada que os demais autores escreveram


aconteceu, pois neste Evangelho a história do batismo não existe. João Batista é o dono da
voz que todos os presentes ouviram e que os autores dos demais Evangelhos a
identificaram como “vinda dos céus”. O Espírito descendo em forma de pomba sobre
Jesus é, nesta narrativa, uma “visão” de João Batista.
Mesmo diante das CONTRADIÇÕES BÍBLICAS existentes nos Evangelhos de
Marcos, Mateus e Lucas, todos eles narraram 1) o batismo de Jesus, 2) o céu se abrindo, 3)
o Espírito descendo em forma de pomba e 4) uma voz ouvida dos céus. Mas, as narrações
dos Evangelhos de Mateus e Lucas refletem apenas a cópia, revisão e expansão das
informações do Evangelho de Marcos do qual ambos são dependentes. Logo, há “apenas”

Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia.


“No princípio era o Verbo...” 22

duas narrativas contraditórias neste episódio, uma do autor do Evangelho de Marcos e


outra do autor do Evangelho de João.

Narrativas dos Evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas Narrativa do Evangelho de João

• Jesus foi batizado por João Batista • Jesus não foi batizado

• Os céus se abriram • Os céus não se abriram

• O Espírito de Deus desceu sobre Jesus em forma de • O Espírito de Deus que desceu sobre Jesus em forma
pomba de pomba foi uma visão de João Batista

• Foi ouvida uma voz dos céus • A voz era de João Batista

Ao analisar o episódio em questão com um olhar mais crítico, o leitor fica propenso
a aceitar que a narrativa do autor do Evangelho de João é mais plausível. Entretanto
devemos observar que, apesar de ser mais simples aceitar que a “voz divina” era na
verdade uma proclamação de João Batista e que o “Espírito em forma de pomba” era uma
visão contada por João Batista, para o autor do Evangelho de João, JESUS NÃO FOI
BATIZADO. O que causa não só uma CONTRADIÇÃO com todas as demais fontes
bíblicas, mas também com as fontes históricas.
Para compreendermos o episódio em análise e entendermos o motivo que levou o
autor do Evangelho de João a registrar uma narrativa tão diferente dos demais autores
evangelistas, vamos agora voltar nossa atenção para a história da figura central deste
episódio. E esta figura não é Jesus, mas sim João Batista.

Uma parcela significativa dos especialistas modernos em Manuscritos do Mar


Morto, tende a conjecturar, ou até mesmo aceitar, a hipótese do Movimento liderado por
João Batista ter sido um movimento planejado pela Comunidade de Qumrã, popularmente
conhecidos como “essênios”. Outros estudiosos acreditam que o “Movimento dos
Batistas” era um movimento independente da Comunidade de Qumrã e que qualquer
similaridade entre o movimento batista e a Comunidade dos Essênios era própria dos
movimentos populares de oposição político-religiosa da época.

Mas, a aceitação de que o Movimento dos Batistas fazia parte da Comunidade de


Qumrã tem como base as narrativas sobre João Batista que estão registradas nos
Evangelhos e sua correspondência com os mais antigos textos religiosos encontrados nas
cavernas do Mar Morto que pertenciam a Comunidade Essênia de Qumrã e que vamos
analisar agora com mais cuidado.

O autor do Evangelho grego de Mateus registrou que João Batista apareceu


pregando no deserto da Judéia sobre a vinda do Senhor e que estava, portanto, cumprindo
um oráculo de Deus revelado ao profeta Isaias sobre este acontecimento.

Quando o “Movimento dos Batistas” começou a crescer, despertou a atenção das


principais autoridades da Judéia. O autor do Evangelho de João registrou que uma
comissão de sacerdotes foi enviada para questionar João Batista sobre quem ele era.
Segundo o mesmo autor do Evangelho de João ele respondeu que não era o Messias, nem
Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia.
“No princípio era o Verbo...” 23

Elias e nem o Profeta. Diante das respostas negativas, os sacerdotes inquiriram mais
diretamente quem ele era, a única informação que João Batista deu foi de que ele era “a
voz que clamava no deserto”. Sabemos que os sacerdotes ficaram satisfeitos com a
resposta e foram embora.

Esta resposta dada por João Batista foi interpretada pelos cristãos através dos
séculos como uma afirmação clara e precisa do cumprimento da profecia de Isaias. Mas o
motivo dos sacerdotes terem ficado satisfeitos com a resposta de João Batista e não terem
ao menos questionado o pregador sobre a profecia para que pudessem dar uma resposta
mais detalhada e objetiva aos seus superiores nunca foi abordado satisfatoriamente pelos
estudiosos bíblicos... até a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto.

Vamos fazer agora um comparativo dos episódios dos Evangelhos de Mateus e João
com uma passagem dos Manuscritos do Mar Morto que trata do tema por nós analisado.

Mateus 1:1-3 João 1:19-23 MMM 1QS 8:12-14

Naqueles dias, apareceu João Este foi o testemunho de João, E quando essas coisas sucederem
Batista pregando no deserto da quando os judeus lhe enviaram aos membros da comunidade em
Judéia e dizia: Arrependei-vos, de Jerusalém sacerdotes e Israel, no tempo designado,
porque está próximo o reino dos levitas para lhe perguntarem: separar-se-ão da habitação dos
céus. Porque este é o referido por Quem és tu? Ele confessou e homens perversos e irão para o
intermédio do profeta Isaías: “Voz não negou; confessou: Eu não deserto preparar o caminho do
do que clama no deserto: Preparai sou o Cristo. Então, lhe Senhor, como está escrito: “No
o caminho do Senhor, endireitai perguntaram: Quem és, pois? deserto preparai o caminho do
as suas veredas”. És tu Elias? Ele disse: Não sou. Senhor, endireitai a estrada para o
És tu o profeta? Respondeu: nosso Deus”.
Não. Disseram-lhe, pois:
Declara-nos quem és, para que
demos resposta àqueles que nos
enviaram; que dizes a respeito
de ti mesmo? Então, ele
respondeu: Eu sou a voz do que
clama no deserto: Endireitai o
caminho do Senhor, como disse
o profeta Isaías.

Com base neste texto de Qumrã, percebemos que a resposta dada por João Batista
aos sacerdotes foi aceita por estes últimos sem maiores problemas, pois eles tiveram a
certeza de que aquele homem que pregava e batizava às margens do rio Jordão era um
membro da Comunidade Essênia de Qumrã. Esta Comunidade existia há pelo menos
duzentos anos antes de Jesus.

O autor do Evangelho de Marcos registrou, e hoje nós sabemos que, João Batista se
alimentava da mesma forma que os membros da Comunidade de Qumrã.

Marcos 1:6 MMM Documento de Damasco 12:14

Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia.


“No princípio era o Verbo...” 24

As vestes de João eram feitas de pêlos de camelo; ele E quanto aos gafanhotos, de acordo com suas diferentes
trazia um cinto de couro e se alimentava de gafanhotos espécies, ele os cozinhará vivos no fogo ou na água, pois
e mel silvestre. é isto que sua natureza exige.

Quanto ao batismo, João Batista pregava a necessidade da conversão e só então a


purificação através do batismo. Ou seja, havia a necessidade da pessoa reconhecer que
estava vivendo fora da Lei de Deus e mudar o seu estilo de vida, sem tal mudança a
purificação através das águas do batismo não faria sentido algum. O texto da Comunidade
de Qumrã também trata do assunto da mesma maneira que João Batista.

Marcos 1:5 MMM 1QS 5 : 13e14

Saíam a ter com ele toda a província da Judéia e todos Que eles não entrem na água, para usar a purificação
os habitantes de Jerusalém; e, confessando os seus dos santos, pois eles não serão purificados até que se
pecados, eram batizados por ele no rio Jordão. tenham convertido de suas transgressões.

A pregação de que o Dia da Visitação do Senhor estava próximo e com Ele viria
também uma nova ordem de vida através do derramamento do Espírito da verdade que
purificaria pelo fogo as pessoas escolhidas era uma pregação apocalíptica essênica, mas
foi creditada exclusivamente a João Batista pelos séculos seguintes.

Mateus 3:10ª11 MMM 1QS 4:20e21

Já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, Então, na hora da visitação, quando a verdade do
pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao mundo aparecer para sempre, Deus purgará com sua
fogo. Eu vos batizo com água, para arrependimento; verdade todos os atos dos homens, purificando, isto é,
mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do pelo fogo, para si próprio alguns homens a fim de
que eu, cujas sandálias não sou digno de levar. Ele vos remover todo espírito impuro do meio de sua carne, para
batizará com o Espírito Santo e com fogo. purificá-los com um Espírito Santo de toda prática
injusta, e para derramar sobre eles um espírito de
verdade como água purificadora.

O leitor vai se questionar: Se João Batista era um membro da Comunidade de


Qumrã por que despertou tanto interesse nos sacerdotes da época?

A questão não é simples de ser respondida, mas vamos tentar... Todos os


pesquisadores e especialistas no assunto sabem que a Comunidade dos Essênios era
famosa pelo seu sectarismo. Os essênios se auto-intitulavam “filhos da Luz”, “seguidores
do Caminho”, “os eleitos”, ou mesmo “herdeiros da Nova Aliança”. Eram observadores
rigorosos da Lei de Moisés, principalmente os mandamentos relacionados à pureza e não
aceitavam em suas reuniões religiosas qualquer pessoa que não fosse da Comunidade dos
Essênios.

Os sacerdotes enviados para inquirir João Batista sabiam destes pormenores e foi
exatamente a prática daquele essênio em pregar para todos os que o quisessem ouvi-lo que
chamou a atenção das autoridades civis e religiosas.
João Batista pregava para os judeus, nos moldes dos antigos profetas, a proximidade
da vinda do Rei Messias que assumiria o trono de seu pai David e governaria Israel. Ele
era receptivo a qualquer pessoa que tivesse esperança no juízo final, mesmo publicanos e
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“No princípio era o Verbo...” 25

soldados. Quanto ao posto de Sumo Sacerdote e o sistema religioso do Templo, João


Batista (assim como os Essênios), era muito crítico, pois os ocupantes do posto de Sumo
Sacerdote não eram descendentes de Sadoc conforme determinava o Profeta Ezequiel (Ez
43:19) e o sistema de sacrifícios não poderia ser oficiado uma vez que o sacerdócio, o

Templo, a cidade de Jerusalém e a Nação estavam impuros, além de que aqueles


sacrifícios não estavam produzindo um verdadeiro arrependimento e conversão do
sacrificante e também não permitia o acesso aos mais pobres. A conversão pregada por
João Batista deveria produzir fraternidade e partilha de bens. Para João Batista o pecado
principal dos judeus era o de aceitar e se sujeitar a viver naquele impuro, injusto e corrupto
sistema político-religioso da época.
O historiador judeu Flávio Josefo fez um registro sobre João Batista em
“Antiguidades Judaicas” XVIII, 117, 119:
“...ele [João Batista] exortava os judeus a praticarem a virtude, a agirem com justiça uns com os outros e com
piedade para com Deus, para permanecerem unidos por um batismo... Quando muitos se uniram à multidão
que, comovida e em massa, se reunia em torno dele para o escutar, Herodes começou a temer que a grande
influência de João sobre o povo levasse a uma rebelião, pois todos pareciam comportar-se segundo seus
conselhos. Por isso, decidiu que seria melhor prevenir e livrar-se de João, antes que sua obra provocasse uma
insurreição...”

É compreensível que estas “diferenças” entre João Batista e a Comunidade de


Qumrã levaram uma grande multidão a seguir João Batista. Os sacerdotes do templo e o
rei Herodes, pela pregação de João Batista, estavam com os seus “dias contados”. No
entanto, Herodes foi mais rápido que João Batista e mandou matá-lo assim que o teve nas
mãos, evitando assim uma futura rebelião. Historicamente, a morte de João Batista teve
como causa a conhecida política de Herodes de eliminar todas as possíveis ameaças a seu
governo.
O episódio bíblico do banquete real de Herodes seguido da morte de João Batista,
narrado pelo autor do Evangelho de Marcos, é um Midrash. Anteriormente já explicamos
que Midrash é uma alegoria judaica escrita com a finalidade de transmitir com facilidade
ao leitor judeu observações rabínicas. A perseguição de João Batista por Herodíades é uma
alegoria da perseguição de Elias por Jezabel 1Rs19,1-3. Alegorias como esta tem como
objetivo apresentar João Batista como a reencarnação do profeta Elias, que segundo a
crença judaica não morreu e deve voltar para anunciar a Nação de Israel a chegada do
Messias.

Mas, se João Batista foi eliminado por Herodes por ter em sua pregação
“diferenças” com os Essênios, como podem alguns Pesquisadores e Especialistas
conjecturar ou até mesmo aceitar que João Batista era um membro da Comunidade de
Qumrã?

A Comunidade de Qumrã aguardava a manifestação do Reino e a chegada de dois


Messias. O Messias rei, da linhagem de Davi e o Messias sacerdote, da linhagem de Arão.
Estes Messias teriam como missão purificar, através do fogo e do Espírito, a Lei, o
Templo, o Sacerdócio e a Nação da profanação causada pela ocupação do Império
Romano. Os essênios tinham como missão converterem-se e se purificarem à Lei,
Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia.
“No princípio era o Verbo...” 26

converter e purificar o Templo, converter e purificar o Sacerdócio e, também, converter e


purificar a Nação. E é exatamente na conversão e purificação da Nação que entra a figura
de João Batista e o início da conjectura por nós analisada. A purificação, ou banho ritual é
o ato chamado pelos cristãos de “batismo” que João anunciava para a Nação de Israel às
margens do rio Jordão.
Agora que sabemos quem foi João filho de Zacarias conhecido como “O Batista”,
qual foi a sua mensagem e o seu papel desempenhado na História de Israel, vamos deixar
as conjecturas e passar a analisar qual a relação da Comunidade Cristã com esta
importante figura bíblica e o motivo que gerou a CONTRADIÇÃO BÍBLICA do episódio
do batismo de Jesus.
Segundo os autores dos Evangelhos Sinóticos Jesus também aderiu ao “Movimento
dos Batistas”, ou seja, tornou-se um discípulo. O autor do Evangelho de Marcos situa o
início da pregação de Jesus após a prisão de João Batista, o que demonstra o respeito que
Jesus tinha pelo seu Mestre. A pregação de Jesus é a mesma de João Batista o que nos
mostra que, no princípio, havia apenas UM movimento sem um novo líder definido.

Os seguidores de Jesus tinham a plena convicção de que Jesus era o Messias


anunciado por João Batista, mas foi somente após a sua morte que eles passaram a
identificá-lo publicamente como o Messias anunciado por João Batista. Mas,
diferentemente dos seguidores de Jesus, os discípulos do “Movimento dos Batistas” ou
essênios não conseguiam enxergar na pessoa de Jesus, os predicados necessários para que
ele pudesse assumir as funções do Justo Juiz que derramaria o Espírito e o fogo da taça da
ira de Deus sobre todos os inimigos de Israel e também sobre sua própria Nação. Com a
prisão e a morte de Jesus, todas as expectativas que os seguidores de João Batista ainda
pudessem nutrir pela pessoa de Jesus estavam frustradas definitivamente.
De posse destas informações já podemos voltar ao episódio da CONTRADIÇÃO
BÍBLICA analisada.
Dos quatro Evangelhos considerados canônicos, sabemos que o Evangelho de
Marcos é o mais antigo, escrito provavelmente na década de 60 do I Séc. EC, já o
Evangelho de João é o mais recente, apesar de conter algumas camadas mais primitivas
que o Evangelho de Marcos, foi escrito por muitos autores, em várias etapas e só foi
finalmente concluído na década de 10 ou 20 do II Séc. EC.

Notamos que existe um espaço de tempo de pelo menos meio Século entre a
finalização do Evangelho de Marcos e a finalização do Evangelho de João. O trabalho do
autor do Evangelho de Marcos é voltado para uma platéia judaica que vive um momento
singular em sua história, as Legiões Romanas estão para invadir a Judéia, os movimentos
apocalípticos fervilham neste momento histórico, a Comunidade de Qumrã ainda existe e
está preparada para a Guerra, a maioria dos seguidores dos ensinamentos de Jesus são
judeus e estão aguardando uma iminente intervenção Divina na História. Já o trabalho
final dos autores do Evangelho de João é voltado principalmente para gentios cristãos e
judeus essênios da Diáspora, a pregação de Paulo de Tarso obteve êxito entre os gentios,

Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia.


“No princípio era o Verbo...” 27

Jerusalém foi destruída, a comunidade dos nazarenos já não existe, os essênios da


Palestina foram destruídos, todos os apóstolos morreram, Tiago irmão de Jesus que havia
ficado no seu lugar foi morto, todos os descendentes da família de Jesus são perseguidos e
mortos pelos romanos, a maioria dos seguidores do cristianismo não são mais judeus e
Jesus ainda não voltou.
Já no final da análise do episódio desta CONTRADIÇÃO BÍBLICA, queremos
chamar a atenção do leitor para que observe nos Evangelhos, principalmente no Evangelho
de João, uma insistência crescente dos autores em mostrar um João Batista sempre
indicando para Jesus e dando testemunho dele como sendo o Messias. É um indício de que
o “Movimento dos Batistas” ou os remanescentes dos essênios continuava forte na época
em que os Evangelhos foram escritos. João Batista é sempre descrito, nos Evangelhos, de
forma negativa. Ele não é a luz, não é o Messias, não é o esposo, deve diminuir, nunca
operou milagres, o Messias passou adiante dele e antes dele já existia. Os autores dos
Evangelhos tinham em mente minimizar o grande líder do “Movimento dos Batistas”, mas
sem deixar de continuar convidando os seus discípulos a aderirem ao Cristianismo.

ALTERAÇÕES BÍBLICAS

É POSSIVEL JESUS TER FICADO IRADO?


Uma das piores e mais terríveis manipulações cometidas contra a Bíblia são as
“alterações”. O termo “alterar” significa: trocar uma palavra por outra palavra diferente,
com a finalidade de modificar o sentido de uma frase, parágrafo, e até mesmo de um texto
inteiro.
Existem muitas alterações nos textos bíblicos, mas neste pequeno estudo vamos
analisar apenas uma. Trata-se do episódio bíblico no qual Jesus cura um leproso. Neste
episódio, narrado no Evangelho de Marcos, Jesus é interpelado por um leproso que pede
para ser curado, Jesus movido de compaixão cura então o leproso.
O texto do Evangelho de Marcos nos trás a narrativa da seguinte forma:
A cura do leproso
40 Aproximou-se dele um leproso rogando-lhe, de joelhos: Se quiseres, podes purificar-me. 41 Jesus,
profundamente compadecido, estendeu a mão, tocou-o e disse-lhe: Quero, fica limpo! 42 No
mesmo instante, lhe desapareceu a lepra, e ficou limpo. 43 Fazendo-lhe, então, veemente advertência,
logo o despediu 44 e lhe disse: Olha, não digas nada a ninguém; mas vai, mostra-te ao sacerdote e
oferece pela tua purificação o que Moisés determinou, para servir de testemunho ao povo. Mc 1:40a45
O maior problema em identificar uma “alteração bíblica” é a necessidade de termos
em mãos um texto mais antigo do que o utilizado na tradução para a língua portuguesa. A
maior parte dos tradutores de Bíblias em língua portuguesa utilizou a Vulgata Latina ou o
Textus Receptus Grego abandonando a Vetus Latina, o Códice Vaticanus e o Códice
Sináiticus todos dos Séculos III e IV EC. Estes textos bíblicos são mais antigos e
confiáveis que a Vulgata Latina de Jerônimo do Século IV traduzida do hebraico e do
grego a pedido do Papa Damaso I ou o Textus Receptus Grego de Erasmo do Século XVI
Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia.
“No princípio era o Verbo...” 28

que sofreu pressões do Vaticano para ser modificado a partir da 2ª edição a fim de
concordar com a Vulgata Latina de Jerônimo.
O Texto Latim utilizado pelo Vaticano é um texto moderno, a escrita, as conjugações
dos verbos e a diagramação são melhores que os textos mais antigos. Mas, devido às
revisões sofridas para adequar os textos bíblicos ao pensamento dos exigentes teólogos
cristãos muitos textos foram modificados. Estas modificações alteraram até mesmo textos
inteiros.
Vamos ler como está escrito o mesmo episódio analisado, nas Bíblias traduzidas
diretamente dos textos gregos antigos.
A cura do leproso
40 Um leproso foi até ele, implorando-lhe de joelhos: “Se queres, tens o poder de purificar-me”. 41
Irado, estendeu a mão, tocou-o e disse-lhe: “Eu quero, sê purificado”. 42 E logo a lepra o deixou. E
ficou purificado. 43 Advertindo-o severamente, despediu-o logo, 44 dizendo-lhe: “Não digas nada a
ninguém; mas vai mostrar-te ao sacerdote e oferece por tua purificação o que Moisés prescreveu, para
que lhes sirva de prova”. Mc 1:40a44

Agora de posse das duas traduções podemos vislumbrar a “alteração bíblica”


proposta. O leitor nota que no texto latino e no texto grego moderno Jesus está
“profundamente compadecido” enquanto que no texto grego antigo Jesus está “irado”.
A pergunta: “poderia Jesus, sendo um Mestre extremamente bondoso, irar-se diante
de um pedido feito por uma pessoa ajoelhada e sofrendo de lepra?” foi feita não apenas
pelo leitor, mas por todos os teólogos, escribas, estudiosos e pesquisadores da antiguidade
e dos nossos dias também. Mas, vamos analisar uma segunda pergunta que poucas pessoas
se atrevem a fazer: Jesus alguma vez é encontrado irado nos Evangelhos? A resposta é
SIM, tanto nos textos latinos modernos quanto nos textos gregos antigos e nós vamos
analisar estes outros episódios para podermos compreender melhor o episódio do leproso.
A cura do homem que tinha a mão atrofiada
Marcos 3 : 1 a 5 Mateus 12 : 9 a 13 Lucas 6 : 6 a 10
1 De novo, entrou Jesus na sinagoga 9 Tendo Jesus partido dali, entrou na 6 Num outro sábado Jesus entrou na
e estava ali um homem que tinha sinagoga deles. sinagoga e começou a ensinar.
ressequida uma das mãos. 10 Achava-se ali um homem que Estava ali um homem que tinha a
2 E estavam observando a Jesus para tinha uma das mãos ressequida; e mão direita aleijada.
ver se o curaria em dia de sábado, a eles, então, com o intuito de acusá-lo, 7 Alguns mestres da Lei e alguns
fim de o acusarem. perguntaram a Jesus: É lícito curar fariseus ficaram espiando Jesus com
3 E disse Jesus ao homem da mão no sábado? atenção para ver se ele ia curar
ressequida: Vem para o meio! 11 Ao que lhes respondeu: Qual alguém no sábado. Pois queriam
4 Então, lhes perguntou: É lícito nos dentre vós será o homem que, tendo arranjar algum motivo para o acusar
sábados fazer o bem ou fazer o mal? uma ovelha, e, num sábado, esta cair de desobedecer à Lei.
Salvar a vida ou tirá-la? Mas eles numa cova, não fará todo o esforço, 8 Mas Jesus conhecia os
ficaram em silêncio. tirando-a dali? pensamentos deles e por isso disse
5 Olhando-os ao redor, irado e 12 Ora, quanto mais vale um homem para o homem que tinha a mão
condoído com a dureza do seu que uma ovelha? Logo, é lícito, nos aleijada: —Levante-se e fique em pé
coração, disse ao homem: Estende a sábados, fazer o bem. aqui na frente. O homem se levantou
mão. Estendeu-a, e a mão lhe foi 13 Então, disse ao homem: Estende a e ficou em pé.
restaurada. mão. Estendeu-a, e ela ficou sã como 9 Então Jesus disse: —Eu pergunto a
a outra. vocês: o que é que a nossa Lei diz
sobre o sábado? O que é permitido
fazer nesse dia: o bem ou o mal?
Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia.
“No princípio era o Verbo...” 29

Salvar alguém da morte ou deixar


morrer?
10 Jesus olhou para todos os que
estavam em volta dele e disse para o
homem: —Estenda a mão! O homem
estendeu a mão, e ela sarou.

O texto acima do Evangelho de Marcos mostra um Jesus irado com a platéia que se
recusava a reconhecer que a Lei judaica permitia ajudar ao próximo mesmo num Sábado e
que esta ajuda não era uma profanação do Sábado. Notamos, também, que o termo “irado”
do Evangelho de Marcos era incompreensível para os autores dos Evangelhos de Mateus e
Lucas que o deixaram fora de suas narrativas.
Segundo a Escola de Hillel: "É lícito violar um Shabat para que muitos outros possam
ser observados; as leis foram dadas para que o homem vivesse por elas, não para que o
homem morresse por elas." É lícito salvar vidas, aliviar dores, curar picadas de cobra e
cozinhar para os doentes (Shabat 18.3; Tosefta Shabat 15.14; Yoma 84b; Tosefta Yoma
84.15). A frase "o Shabat foi feito para o homem, e não o homem para o Shabat," também
aparece em material rabínico (Mekilta 103b, Yoma 85b). Além disso, os Rabinos da
Escola de Hillel frequentemente citavam Hoshea (Oséias) 6:6 para argumentar que ajudar
o próximo era mais importante que observar ritos e costumes (Suká 49b, Deuteronomy
Raba em 16:18, etc...).

Jesus abençoa as crianças


Marcos 10 : 13 a 16 Mateus 19 13 a 15 Lucas 18 : 15 a 17
13 Então, lhe trouxeram algumas 13 Trouxeram-lhe, então, algumas 15 Traziam-lhe também as crianças,
crianças para que as tocasse, mas os crianças, para que lhes impusesse as para que as tocasse; e os discípulos,
discípulos os repreendiam. mãos e orasse; mas os discípulos os vendo, os repreendiam.
14 Jesus, porém, vendo isto, irou- repreendiam. 16 Jesus, porém, chamando-as para
14 Jesus, porém, disse: Deixai os junto de si, ordenou: Deixai vir a
se e disse-lhes: Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis de vir mim os pequeninos e não os
pequeninos, não os embaraceis, a mim, porque dos tais é o reino dos embaraceis, porque dos tais é o reino
porque dos tais é o reino de Deus. céus. de Deus.
15 Em verdade vos digo: Quem não 15 E, tendo-lhes imposto as mãos, 17 Em verdade vos digo: Quem não
receber o reino de Deus como uma retirou-se dali. receber o reino de Deus como uma
criança de maneira nenhuma entrará criança de maneira alguma entrará
nele. nele.
16 Então, tomando-as nos braços e
impondo-lhes as mãos, as abençoava.

Neste episódio, Jesus fica “irado” com seus próprios discípulos que não queriam
deixar algumas crianças virem até ele. Mais uma vez os autores dos Evangelhos de Mateus
e Lucas não conseguem compreender a “ira” de Jesus e retiram o termo de seus
Evangelhos.
A alteração do termo grego orgh (orge) do Evangelho de Marcos que significa
“ira, raiva ou indignação” para um termo teológico mais aceitável
splagcnizomai (splagchnizomai) que significa “movido de compaixão,
profundamente condoído ou movido de amor” foi realizada no sentido de equiparar o texto
do Evangelho de Marcos ao pensamento dos cristãos gentios do Século IV. Mas, ao alterar
o termo “ira” do Evangelho de Marcos a interpretação de todo o episódio ficou
prejudicada.
Um Estudo das revisões, alterações e acréscimos da Bíblia.
“No princípio era o Verbo...” 30

Para os autores dos Evangelhos de Lucas, João e até mesmo do Mateus grego, que
escreveram para leitores gentios do Império Romano era complicado mostrar um Jesus
“irado”. “Ira”, “Raiva”, “Desespero”, “Medo” e tantos outros sentimentos comuns aos
seres humanos em geral são abandonados pelos autores destes Evangelhos que buscam
mostrar para o leitor um Jesus “Rei”, “Filho de Deus”, “Puro”, “Sem pecados” e, portanto,
acima destes “sentimentos humanos”.
Já o autor do Evangelho de Marcos, em algumas situações, nos mostra um Jesus
“irado”. Este é um estilo desconcertante do autor do Evangelho de Marcos. O Jesus do
Evangelho de Marcos sempre fica “irado” quando alguém o contraria ou quando alguém
duvida de sua boa vontade. Para este autor não há problema algum em exteriorizar os
sentimentos de Jesus para seus leitores judeus, mostrando assim, a condição humana de
Jesus.

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