PARTE I A VIRTUDE DA FÉ
O que é a fé? A virtude caracteriza-se uma extrema complexidade. Nas desenvolvidas não se apresenta a f é à dogmática, segundo a concepção da vida neotestamentaria constitui uma resposta do homem teologal reflexões luz da da fé por aqui

teologia mas interior. A fé

à revelação de

Deus em Jesus Cristo. E uma participação na vida de Deus, e uma experiência da vida divina em nós, que nos permite vermos a nós próprios e à realidade que nos rodeia, como com os olhos do Senhor. E a adesão à Pessoa de Cristo, nosso Mestre, nosso Senhor e Amigo que nos permite apoiarmo-nos nEle, Rochedo inabalável da nossa salvação, abandonandonos ao Seu infinito poder e ao Seu incomensurável amor. Face à fraqueza humana, a fé torna-se constante recurso à inesgotável Misericórdia divina e leva a esperar tudo de Deus. (cf. G. THILS, Sainteté Chrétiene, 359)

CAPÍTULO 1

CRER É PARTICIPAR NA VIDA DIVINA
São Tomás de Aquino diz que a fé nos aproxima do conhecimento de Deus. Com efeito, ao participarmos na vida de Deus, começamos a ver e apreciar tudo, como se o fizéssemos com os Seus olhos — omnia quasi óculo Dei intuemur (in Boeth. de Trinitate q.3,a.l). Semelhante participação na vida divina, por meio da fé, transforma-nos em homens novos, permite-nos entender a realidade de uma maneira renovada, proporcionando-nos uma nova visão de Deus e da realidade terrena que nos rodeia. Nesta realidade temporal começamos a tomar conhecimento da atuação da Causa Primeira: Deus. Descortinamos a Sua Presença e a Sua ação, tanto em nós, quanto no universo da natureza e na história. Damo-nos conta de que Ele é o Autor, o Criador de tudo, e de que aquilo que conhecemos apenas humanamente e de modo profano não é toda a realidade, mas apenas uma visão puramente exterior — a percepção das causas

segundas quais Deus Se serve.

das

A fé é uma virtude que torna possível o contato com Deus, constituindo, assim, o fundamento da vida sobrenatural; e, visto que se situa na base de toda a atividade sobrenatural, tudo se realiza por meio dela. A atividade da vida sobrenatural está, conseqüentemente, determinada pelos aspectos positivos e pelas deficiências da nossa fé. As dificuldades na vida sobrenatural derivam sempre de uma fraqueza da nossa fé. Mas esta é a virtude fundamental por nos oferecer a possibilidade de participarmos na vida divina: uma participação no pensamento de Deus, que é, por assim dizer, uma espécie de razão sobrenatural consentida nas faculdades naturais da alma. Assim, a fé torna-nos capazes de pensarmos como Deus, tanto no que diz respeito à nossa pessoa como a tudo aquilo com que contatamos. Crer significa, portanto, sintonizar e identificar o nosso pensamento com o de Deus. A diferença entre o conhecimento natural e o conhecimento procedente da fé náo consiste numa mera diferença de grau desse conhecimento, mas sim de natureza. A fé leva à união com o pensamento de Deus, à participação interior nessa luz em que o próprio Deus conhece a Si mesmo. Nesse sentido, conduz à contemplação e é uma

introdução ao futuro conhecimento de Deus na eternidade. Uma vez que é pela fé que tem início a nossa vida em Deus e na vida de Jesus Cristo, por essa mesma fé Ele gera em nós a Sua própria vida. O objetivo final da nossa fé é o de conformarmos os nossos pensamentos com os de Jesus Cristo e de Lhe permitir, a Ele que pela fé habita em nós, servir-Se de nós, pensar em nós e em nós viver. Graças à fé pode se produzir uma total transformação da nossa maneira de ver, de pensar, de sentir e de viver o que quer que seja. A fé muda a nossa mentalidade, impele-nos a colocarmos Deus sempre em primeiro lugar, leva-nos a orientar para Ele toda a nossa vida e a interpretar o mundo à luz divina. A partir daí todos os nossos juízos, apreciações, desejos e expectativas serão iluminados por essa luz e desse modo se concretiza aquela comunhão de fé que só há de alcançar a sua plenitude no amor. O mundo criado à nossa volta é como que a expressão de uma voz que nos fala. Se a nossa fé é fraca, essa voz produz em nós a dispersão, afasta-nos de Deus e leva-nos a centrarmo-nos em nós próprios. Mas, quando a fé cresce, dá-se o processo inverso: o mundo

torna-se sinal da Sua presença. que nos ama e nos cumula dos Seus dons. A fé permite que você descubra os sinais de Deus na Criação. O tempo mesmo é a Presença . não é fruto do poder dos homens. Viver em fé significa saber reconhecer essa amorosa Presença sempre gratificante. ajuda-nos a entrar em contato com Ele e transforma-se num lugar de encontro com Deus. que ilumina o mundo. Ele torna-se Presença viva e atuante na vida dos Seus discípulos e cada momento da vida é portador da Sua Presença. de distinguir a causa primeira das causas segundas e de ver que aquilo que se passa em seu redor. Graças à fé. O reconhecimento da Presença que nos ama Cada momento da nossa vida está impregnado da divina Presença. Além disso. a Luz que inteiramente ilumina a vida do homem. Assim.exterior começa a falar-nos de Deus. pouco a pouco. a atrair-nos para Ele. É a fé que lhe torna capaz de ultrapassar as aparências. oferece a possibilidade de acolher os acontecimentos como expressão da vontade de Deus e de vê-los como uma passagem de Deus na sua vida. Cristo torna-Se.

Deus dá a Sua graça em todos os momentos. E. "tudo é graça". é a Presença pessoal de Deus.escrita com "P" maiúsculo. Ele quer que tudo resulte para você num "capital" de . ao afirmar que "tudo é graça". não só o dom da existência. sejam eles fáceis ou difíceis. São Paulo diz que nós vivemos em Deus. que Se revela como Alguém que espera algo de nós. mas também o da respiração. Deus vem ao seu encontro sob a forma de um dom. e n'Ele nos movemos e somos (At 17. pois Deus é Amor. neste sentido. que vontade? Sempre a do nosso bem. Ora. A observação de Santa Teresinha do Menino Jesus. assim compreendido. significa que tudo o que possa suceder na sua vida está ligado a uma determinada forma de graça. do alimento. na Sua graça que você interpela e. Cada instante da sua vida é um momento de encontro com esta Presença que lhe ama. é a Presença de Cristo na nossa vida. Mas. Alguém disse que o tempo é como o sacramento do encontro do homem com Deus. portanto.28). da amizade — a graça de cada momento da vida. Deus Se manifesta a nós através da Sua vontade. d'Ele que recebemos. cada instante é um talento cristão já que há nele um chamamento dessa Presença.

concede uma oportunidade a você. desse modo. e ao Seu desejo de cumulá-lo de todo o bem. sempre e em toda a parte. Ele está bem presente na sua . como disse o Cardeal Stefan Wyszynski. O pecado em si nunca será uma graça. As conseqüências do mal podem mesmo dar. mas o momento em que foi cometido está cheio da graça de Deus. porque o Senhor. A graça é uma expressão do amor. Como é importante que você acredite nessa Presença constante que Se manifesta dos mais diversos modos! O momento presente. como fruto. e. Deus pode extrair o bem dele. Então. qualquer que seja ele. que está constantemente imerso no amor misericordioso de Deus. Cristo está junto de você e o ama.bem e até do próprio mal procura extrair algo de bom. Mesmo quando se trata de um pecado grave. que nunca o abandona. qualquer momento está ligado ao amor de Deus. é sempre portador do amor. porque está unido à Sua graça. mas na Sua onipotência e infinita misericórdia. por isso. Se você lembrasse e acreditasse de verdade. certamente não cairia mais. "tudo é graça" e tudo é um talento. Evidentemente que o mal não pode ser uma graça. Tudo o que lhe sucede está ligado ao amor de Deus por você. uma boa oportunidade de se alcançar a conversão.

com o Seu amor por você. desta maneira. Se. como na mental e na física. . E o Seu anseio é que tudo possa servir para o seu bem e que cada uma das suas faltas se converta numa "feliz culpa". não será apenas uma oração feita de palavras. considerasse todos os momentos da sua vida. tanto na vida espiritual. a sua oração se converterá em uma prece de fé. mas também de atenção. Se você souber ver Deus em tudo o que o rodeia. Cada momento da sua vida está impregnado do amor dessa Presença que constantemente o envolve. O tempo é o sacramento do seu encontro com Deus e com a Sua Misericórdia .vida. independentemente do que você faça. certamente nasceria em você uma prece espontânea que tenderia a tornar-se oração contínua. de louvor pelo universo: uma oração de ação de graças por tudo aquilo com que Deus lhe cumula. compreendendo que Deus está presente em nós. pois o Senhor está sempre ao seu lado e nunca deixa de amá-lo. Os sinais de Deus no mundo A fé nos permite reconhecer em toda a parte os vestígios da ação divina.

um outro modo de ver. Um homem de grande fé. não só os destinos de cada um de nós. mas também os das nações e do mundo. Que extraordinária fé . Ele está presente em tudo e tudo d'Ele depende. Nas Suas mãos encontram-se. Aquele que tudo mantém nas Suas misericordiosas mãos. A presença de Deus na História diz respeito tanto aos acontecimentos políticos. pois na realidade o protagonista é Deus. tudo conduzirá até ao fim na Sua infinita sabedoria e no Seu infinito amor. paz e convicção de que estamos constantemente envolvidos pelo amor de Deus. como aos assuntos familiares e profissionais. Fazendonos conhecer tudo isso.É pela virtude da fé que descobrimos serem apenas aparente. E é a fé que nos permite reconhecer Deus nos fenômenos da natureza. às questões sociais e econômicas. A fé constitui uma diferente visão do mundo.conforme crêem os homens -. paz essa que provém da firme certeza de que Aquele que é Poder e Amor infinitos. A fé nos dá segurança. os protagonistas da História . do Seu cuidado conosco e com o mundo que nos rodeia. a fé faz nascer em nós a paz interior. principalmente. foi São Francisco de Assis. aquilo que é difícil. nos quais constantemente podemos descobrir sinais da Sua ação. capaz de reconhecer em toda a parte a presença de Deus.

seja na nossa vida cotidiana. Alguma vez já aconteceu de. pela nossa irmã água". Tudo vem do Senhor: o céu límpido. passando por um campo ou por uma floresta. há em você algo dessa fé de São Francisco de Assis que em tudo via a ação de Deus. Tu. "Louvado sejas.irradia da sua atitude quando reza assim: "Louvado sejas. Tudo Lhe pertence. há também um dedo do Senhor e. Senhor. pelo nosso irmão vento. Senhor. Essa viva fé permite-nos descobrir as maravilhas divinas. pela nossa irmã lua e pelas nossas irmãs estrelas. você reconhecer nele uma carícia de Deus? Se sim. sentindo-se tocado pelo vento. Louvado sejas. o céu nebuloso e o mau tempo também. sem dúvida. Senhor. seja no mundo que nos rodeia. "Louvado seja. louvado sejas. que estás nesse vento. essa será a sua oração de fé. Mesmo o mau tempo e a chuva são maravilhas que o Senhor realiza para nós. Senhor. pelo nosso irmão vento e pelo nosso irmão ar". em mais de uma ocasião encharcou-lhe até os ossos. pois Tu és o nosso alento e o nosso ar". Pode se experimentar a presença do Senhor sobretudo em dias de grande . Na chuva que. Louvado sejas pelo ar refrescante que podemos respirar. se der conta disso.

Na parábola dos talentos. com os olhos da fé. E verdade que esta é uma maneira de olhar o mundo com a qual não estamos habituados. quando se mata a sede com água fresca. Os talentos Deus espera que nós procuremos ver todas as situações que vivemos e. é utilizada hoje em dia como um certo "valor" . Por isso São Francisco nos recorda que "a nossa irmã água" é símbolo da presença e da ação de Deus.calor. o patrão confiou a eles responsabilidades e ainda lhes deu uma oportunidade para trabalhar. nestas situações comuns do dia-a-dia. Deixando a um dos seus servidores dez talentos. Ele está presente nessa água e a consciência dessa Presença é já uma atitude de fé. A palavra talento. podemos sentir a ação de Deus que nos refresca e umidece os nossos lábios ardentes e ressequidos. que nos tempos de Cristo eqüivalia a um certo valor monetário. Jesus diz para que não nos fechemos ao conhecimento de Deus procedente da fé e adverte-nos contra a preguiça com que usamos todos os dons que Ele constantemente nos concede. em particular as difíceis. ao segundo cinco e ao terceiro um. contudo.

A boa saúde. no entanto. isso também seria um talento. É o que acontece na parábola dos talentos. Se. ou um matemático talentoso. etc. por exemplo. tudo é dom. você crê que não é capaz de rezar. Cristo dá-lhe mostras de confiança. O sentido da parábola dos talentos é.e mais ainda a falta dela. tanto podemos desperdiçar a saúde. Com efeito. mas ao mesmo tempo. por exemplo. puramente humano. isso também é um talento. Deus está lhe concedendo dons constantemente. O talento é um dom. de alguém que é um músico de talento. diz-se. como . e todo talento também é dom. Porém. não é indiferente a Ele o uso que faço delas. Ao entregar-lhe um determinado talento. no entanto. não as recebesse. O pensamento bíblico comporta. uma virada de cento e oitenta graus no nosso pensamento vulgar. muito mais profundo. é um talento mas à luz da fé. esperando que este venha render.intelectual. Talento não é apenas algo que recebemos de Deus. Se Ele lhe deu determinadas capacidades. Em ambas as situações Jesus lhe faz a mesma pergunta: "Que faz com esse talento?". Se. por exemplo. por assim dizer. uma oportunidade. uma matéria-prima. mas também pode ser a carência de alguma coisa. a falta dela também o é. ainda que julgue se tratar de .

Se você já experimentou um sentimento de horror. por exemplo. Que faz com eles? Se você desanima. Santa Teresinha do Menino Jesus sentia uma verdadeira repulsa pelas aranhas. É bem possível que tenha enterrado esse talento dizendo consigo: "Pois bem.uma infelicidade. desisto de rezar mais". No entanto. O homem de fé não pode deixar de notar o sentido mais profundo das suas próprias provações e. já que é assim. O que conta é o modo como enfrenta as dificuldades que acompanham a sua oração. significa que os enterra. Ela narrou o quanto teve de se dominar uma vez para conseguir limpar as aranhas no vão da escada . O mesmo pode suceder quando houver problemas em casa. tal situação também é uma oportunidade que lhe foi oferecida. por conseguinte. bem que se poderia extrair disso o seguinte: a incapacidade de orar deveria aumentar em você a fome de Deus e. ao temer o sofrimento ou a morte. oportunidades que o Senhor lhe oferece. constituir para você um meio de santificação. se desencoraja e cruza os braços. quando existir qualquer conflito familiar: são tantos outros talentos. de resto. a própria procura do profundo sentido dessas provas é por si mesma uma forma de render-se àquele talento.

Somente um dia. Deus há de perguntarlhe um dia. O que você poderá fazer com ele? Como o utilizará? Na realidade. se obteve bom resultado. isso quer dizer que nelas está escondido. tudo é graça. eis um talento ainda mais valioso. crianças pequenas a quem escapa a compreensão de inúmeras coisas. tudo deve servir para a sua santificação e. Se alguma coisa lhe saiu bem. ou as várias circunstâncias adversas . Se determinadas situações lhe provocam uma certa tensão. quando viermos à presença de Deus. VIL 1897). sem dúvida você fez uso de um talento. todo esse oceano de dons em que estávamos imersos. 13. como que encoberto pelas cinzas. E isso foi algo que a ajudou muito em seu caminho ao Senhor: talento confiado nas mãos dela que ela soube valorizar. No entanto. veremos e compreenderemos tudo.(cf. como .eis todo um conjunto de talentos. "O Caderno Amarelo". Os próprios insucessos constituem os tesouros mais inestimáveis que lhe são oferecidos na sua vida. Todos os talentos são preciosos. embora uns o sejam menos e outros mais. Conheceremos. muitas vezes estamos como cegos. um "diamante": o seu talento. todavia se apenas lhe surgem contrariedades. nesse sentido. então. da Madre Inês. Mesmo o sofrimento que lhe esmaga.

Deus vê a sua vida de modo totalmente diferente. é como se Deus lhe forçasse a acolher o seu dom. pois. Fé é participação na visão de Deus. A parábola dos talentos constitui um chamado bíblico à conversão. sendo por vezes abundantes já que é vontade de Deus que os faça render. dessas ocasiões. é como se Jesus tivesse facultado os Seus olhos. as graças difíceis são os mais preciosos talentos da sua vida. pelo contrário. deve vê-la com os olhos da fé. que ao regressar de uma viagem pediu contas aos seus servidores: "Como utilizaste aqueles insucessos da tua vida que te dei como oportunidades. Compreenderá. apenas nessa altura será capaz de compreender que toda a sua vida é um conjunto de oportunidades escondidas. como se observasse cada dia de toda a sua vida com o Seu . isto é. Só então perceberá que Deus lhe cumula continuamente de dons. que tudo é graça. Se tiver fé. Ao conceder-lhe graças difíceis. mas você. No entanto. em ordem a uma contínua transformação interior. que são por vezes tantas?". Você deve começar a olhar a sua vida de modo diferente.o senhor da passagem bíblica. resiste não querendo aceitá-lo. Ora. como talentos? Tens sabido tirar proveito como talentos.

por exemplo. Tudo comporta uma graça e. lhe concede. Se percebesse esses incontáveis talentos que Deus. a falta de saúde. Deus conta com a sua fé. nem rejeitará os Seus dons. à luz da fé. Somente aquele que crê. você se transformará interiormente. poderiam suscitar no seu coração a alegria de receber de Deus algo tão precioso. Quando nas suas difíceis provas reconhecer a cruz e. uma extraordinária confiança em você. é cruz. desse modo. pois somente à luz da fé será possível a você identificar os talentos que Ele lhe oferece. as situações de conflito e os insucessos. só então começará a compreender que o sofrimento. É um talento tudo aquilo que até agora aprendeu e fixou na mente. que não enterrará.olhar. mas é também um talento a sua fraca memória e o fato de esquecer de tantas coisas. vir nelas uma oportunidade para a sua transformação. tudo é graça. então. Ele manifesta. Só assim você será capaz de perceber as ininterruptas oportunidades de conversão e de santificação. Confia. é algo que. então essas provações hão de converterse realmente em dons para você. se quiser aceitar. Reconhecendo que todas as coisas são talentos que se deve pôr a render . sabe ser agradecido por tudo. nesse sentido. também talentos como. por isso mesmo. você nunca ficaria triste. de fato. E. sem cessar.

Amo tudo o que o Bom Deus me dá. o seu rosto ficará irradiante de alegria.VIII. ou seja. "Hoje foram muitos os padecimentos.897) . "Sim". mesmo o pecado. de preocupações." (cf. respondeu ela. Bastará que creia e que progressivamente se converta àquela fé que permite a você ver com os olhos de Jesus. uma grande queda. tudo se converte em bem. onde se oculte igualmente algum talento donde seja possível tirar proveito.." Assim sendo." disse Madre Inês à Santa Teresinha do Menino Jesus quando esta já estava gravemente doente. olhando para a sua vida. que disse: "Para os que amam Deus. Esta reflexão sobre os talentos entrelaça-se diretamente com os ensinamentos de São Paulo e retoma a tese de Santo Agostinho. "mas visto que os amo. se bem que seja uma ferida infligida a Jesus. O Seu olhar é de alegria porque espera que tudo isso venha a produzir frutos. e que fique cheio de alegria e de reconhecimento por tudo o que Ele lhe dá. pode também chegar a ser ocasião. 14. "O Caderno Amarelo" da Madre Inês. Ele. de conflitos.. de dificuldades quer na vida exterior quer na interior. de planos falhados. jamais Se entristece. até o pecado. porventura cheia de insucessos. que você possa tirar proveito.para o bem.

Tu a terias escolhido.. Obrigada. minha Mãe! Pela ortografia que nunca cheguei a saber. pela troça e pelas ofensas. pelos policiais e pelas duras palavras do padre Peyramale! Não saberei agradecer-te senão no Paraíso.Do mesmo modo. obrigada! Dou-Te graças. porque se tivesse existido na terra uma rapariga mais ignorante e mais parva. pela dor que senti quando o meu pai. pelas crianças a que se acudiu e pelas ovelhas guardadas. meu Deus! Pela boca a mais para alimentar que eu já era. pelos dias em que vieste e pelos outros em que não vieste! Pela bofetada da Sra. obrigada Jesus! . Pela minha mãe.. em vez de abraçar a sua pequena Bernadette. pela ruína do moinho. toda a vida de Santa Bernadette é testemunho da sua gratidão a Deus por todos os dons recebidos. pela má memória que sempre tive. pelo comissário.. Marcelle Auclair tomou a liberdade de coligir os seus pensamentos numa espécie de "testamento": "Pela extrema pobreza em que viveram o paizinho e a mãezinha. que morreu longe de mim. pelas ovelhas sarnosas. pelo procurador. pelo pão da amargura e da fadiga. Pailhasson..obrigada! Agradeço-te. por aqueles que me tinham por louca ou mentirosa e pelos que me julgavam ambiciosa. me chamou "Irmã Maria Bernarda".. Obrigada.. meu Deus. Virgem Maria. pela minha ignorância e pela minha patetice.

obrigada. Virgem Santíssima. 1957) .. obrigada! Graças por ter sido de tal maneira que a Madre Maria Teresa tenha podido dizer de mim: "Não há nenhuma como tu!". obrigada. pelo deserto das securas interiores. pela sua dura voz. meus ossos cariados.Agradeço-te por teres enchido de amargura este coração demasiado sensível! Pela Madre Josefina que disse que não sirvo para nada. a Bernadette que as pessoas olhavam como a um animal raro! Por este pobre corpo de meter dó. meu Deus! E. ao me verem.. obrigada! Pelo desprezo da Madre Mestra. M. por ter sido essa Bernadette tão insignificante e vulgar que. por ter te visto. por esta alma que me deste. as pessoas me diziam: "E ela é isto!". suores e febre. pela minha carne apodrecida. pelas minhas caladas ou gritantes dores. por esta doença que queima como fogo. Teus silêncios e Teus raios. Ed. Jesus!" (cf. por tudo.. AUCLAIR. aquela que ameaçavam de prisão. severidade e ironia e pelo pão da humilhação. Bernadette. por Ti ausente ou presente. Obrigada por ter sido Bernardette. Bloud et Gay. pelas Tuas noites e pelos Teus fulgores.Obrigada por ter sido tão privilegiada na censura dos meus defeitos que as outras irmãs tenham podido dizer: "Que sorte eu não ser Bernadette!".

sem perguntas sobre o futuro. como Maria. e também a do risco. Trata-se de uma resposta que leva sempre consigo a marca da aventura.CAPÍTULO 2 CRER É LIGARMONOS A CRISTO A fé. mas também uma ligação existencial à Pessoa de Cristo. não é apenas uma participação na vida divina. enquanto atitude de quem crê. A adesão a Cristo é a nossa resposta ao Seu olhar cheio de amor e ao Seu chamamento. como fim último e valor supremo. único Senhor e único amor. . Jesus quer que você se ligue a Ele sem pôr questões acerca dos pormenores e das conseqüências da sua decisão. por parte do homem. Ele quer que você. uma decisão de escolha consciente e a orientação da sua vontade para Cristo. O que requer.

Desse modo se inicia a comunhão pessoal com Deus. Escolher Cristo como supremo critério pressupõe também consentirmos que seja Ele próprio a nos moldar. que é íntima ligação a Jesus Cristo . o que . Também os Apóstolos. reside justamente nesse nada saber.responda "sim". tem necessidade da luz da fé. para seguirem Cristo. A adesão a Cristo constitui as primícias do amor que há de encontrar a sua realização na união da nossa vontade à Sua vontade. A nossa adesão a Cristo só será possível quando se der uma ruptura com tudo aquilo que exerce domínio sobre nós. único Amor . por isso mesmo. um total abandono. A adesão total a Cristo exige liberdade de coração.exige que nos voltemos para Ele como o valor supremo.exclusivo Mestre. manifestando-Lhe. O essencial do abandono de si próprio e da adesão a Jesus Cristo. desse modo. que é treva e que. "Ninguém pode servir a dois senhores" A fé. tiveram de abandonar tudo.

ou amará o outro". Não podeis servir a Deus e às riquezas" (Mt 6. Diz o Evangelho: "Ninguém pode servir a dois senhores. Quando se ama um senhor se tem ódio ao outro: "Dedicar-se-á a um e menosprezará o outro". um falso kyrios. um falso mestre. A relação entre Um e outro senhor é de radical oposição. suprema autoridade.Kyrios. acaba então por desprezar o outro. Isto o diz Jesus Cristo. sempre expostos à tentação de consentirmos numa certa transigência e de conciliarmos.24). O Evangelho indica claramente: "Ou odiará um. nos ligar a Cristo e continuar a servir a mamón (as riquezas). e não há um terceiro. Servir mamón. eqüivale a nos deixarmos prender pela dependência e servidão de qualquer bem ma- . "as riquezas". Se você é fiel a um. Existem dois senhores: Deus e as riquezas. ou há de odiar um e amar o outro ou se dedicará a um e desprezará o outro. portanto. É uma afirmação categórica! Não podemos. assim. o nosso único e verdadeiro Mestre . O outro é mamón. ou às "riquezas". porque. o que não é conciliável. Quem são esses "senhores" (no texto grego: kyrios)? Um deles é Cristo. "Ninguém pode servir a dois senhores".significa rejeitar a servidão de mamón (da riqueza que nos escraviza).

numa tal situação? Acaso você pode. odiámos mamón. Se serve os seus próprios apegos. mamón.terial ou espiritual. Se você ama os seus apegos e serve a eles. o nosso apego aos bens materiais ou espirituais. quer dizer. "as riquezas". Será possível falar-se no aprofundamento da sua ligação a Cristo.amamos de fato o nosso apego a esses bens e por isso odiámos a Deus. ou então — o que é mais difícil de declarar . isso significa que em oitenta por cento você odeia a Deus. da sua adesão a Ele. então. Podemos estar ao serviço de Cristo até certo ponto. Mas o serviço a um exclui o serviço ao outro: são incompatíveis. Não podemos conciliar essas duas realidades: servir a ambas ao mesmo tempo. num grau de oitenta por cento. somente em parte. nessa mesma medida você odeia a Deus. se surpreender por estar distraído durante a Santa Missa? Por certo procura . Isto é terrível. Evidentemente que o nosso serviço pode não ser o tempo todo. é chamado "senhor" ao qual podemos servir tal como servimos a um rei. por conseguinte. mas é impossível explicar o que nos diz Cristo de outro modo: trata-se de uma verdade bíblica. Ou servimos e amamos verdadeiramente a Deus e. "as riquezas". "as riquezas". Reparemos que mamón.

quando por exemplo você procura se concentrar no momento da Consagração.lutar decididamente contra essas distrações. A 'úlcera' está muito mais profunda. nas próprias "riquezas".21). As "riquezas" são o seu principal inimigo. saberá então qual é o seu tesouro. a raiz última do mal e a fonte das suas distrações. Eis a causa mais profunda. com maior freqüência. A análise da sua oração poderá ajudá-lo a identificar que gênero de caras de mamón se apresentam na sua vida. Eis porque a luta contra as distrações deve ser conduzida em dois níveis. . desviam você daquilo que sucede no altar durante a Consagração. A um nível imediato e direto. em mamou ou nos bens materiais. As suas distrações indicam o quanto de mamón e de apegos há dentro de você. no próprio mamón. "Porque onde está o teu tesouro y lá também está teu coração" {Mt 6. pensa durante a oração. Mas trata-se apenas de um combate aos sintomas. Se você tomar consciência daquilo em que. São elas que dispersam você durante a Santa Missa. Se são muitos. mas a causa deve ser procurada bem mais fundo: reside nos seus apegos.

kyrios designa o soberano e senhor absoluto. um tesouro. se houvessem depositado objetos preciosos. com o decorrer do tempo. quer o admitamos. Começaram a considerar-se que. dinheiro ou objetos valiosos.então não é de estranhar que seja difícil para você se concentrar durante a oração do Rosário. Não tinha então o sentido pejorativo que mais tarde adquiriu. Produziu-se. uma notável evolução no significado desse termo. Foi a primeira etapa daquela evolução: mamón. O Evangelho diz que. A palavra "riquezas". quer não. um bem material . significa sujeição do escravo ao seu senhor absoluto. as "riquezas" tornaram-se. em grego. ou durante a Santa Missa. em breve. A palavra "mestre" . Somos e ficaremos sendo propriedade do Senhor Jesus. somos absoluta propriedade do Senhor. em hebraico "mamón” significava. ou seja. e uma total dependência dele. um tesouro. podiase efetivamente esperar e contar com esse tesouro. colocados em depósito. A palavra douleuein — servir ao contrário.na língua original. ou durante a Adoração. sem dúvida. na sua origem. nas mãos de um banqueiro ou de uma pessoa de confiança.

uma estranha alienação: o homem passa a ser possuído pela coisa.digno de confiança. A palavra mamón (riqueza) começou como que a ter maiúscula e a indicar esse falso soberano e senhor. Todas essas ligações provocam a escravização. lhe enganará. você põe a sua esperança? Em quê confia? Quem é o seu Deus? Se firmou a sua esperança num falso deus. E isso será uma grande graça para você: algo começará a abalar os alicerces da sua confiança em mamón. a tudo aquilo que você faz. ao trabalho. E você? Em que coisa. mais cedo ou mais tarde. por exemplo. Tudo aquilo em que o homem depositava a sua esperança passava a ser um deus para ele. ser tanto bens materiais como espirituais. Na verdade. então. pois. Produziu-se. nas "riquezas". Pode. você experimentará a amargura da desilusão porque se trata de um senhor que. ser a paixão pelo dinheiro. o excessivo apego aos filhos. o tornam servo. o apego à sua tranqüilidade e mesmo à sua própria perfeição. Quais serão essas "riquezas" que prendem o seu coração? Podem. ou em quem. o homem apenas se deve apegar .

o stress. influencia o estado físico. está servindo mamón . a tristeza que acompanham a sua vida. a agitação. Assim. sinal de que há algo a que têm um enorme apego. pessoas que vivem num estado de permanente tensão. participam nessa grande liberdade da pessoa. Há. fecha-o a Deus e enfraquece a sua fé. Não só bloqueiam a sua caminhada para Cristo . por sua vez. como a mente e o corpo. por exemplo. as pessoas livres de todo o apego encontram-se cheias da paz de Deus. Não se conhece o rosto franzido ou tenso do homem totalmente livre de apegos. as suas próprias "riquezas"? A tensão. tanto o espírito. Pelo contrário. "as riquezas". Como fazer para reconhecer o seu próprio mamón."riquezas" escondidas sob uma determinada capa.a uma e única realidade: à vontade de Deus. Essa paz divina constrói e fortalece a saúde mental. a ansiedade. Mamón. que. pois o stress e as doenças da civilização são algo que desconhece. destroem sistematicamente o homem. são indicativos de que. Tudo o que exerce domínio sobre você. de uma forma ou de outra.

A oração só pode expandir-se num clima de liberdade. aquilo que constitui a sua maior inimizade. das "riquezas". Ele estará tirando de você tudo o que o escraviza. Ora. Na oração. na qualidade de discípulo de Cristo você é chamado à oração contemplativa. para que a sua prece possa algum dia tornar-se contemplação — um amoroso olhar lançado a Jesus Cristo. e suplica-Lhe que tenha compaixão de você. Somente a partir do momento em que começa a aceitar esse tipo de situações e a aceitá-las com serenidade e de bom humor é que você será cada vez mais livre. manchadas pelo apego de mamón.como impedem a sua adesão a Ele. contribuindo ainda para arruinar a sua saúde física e psíquica. mas também sujas. você se coloca diante do Senhor. aquilo que faz com que o seu coração não esteja disponível para acolher o Senhor. mostraLhe as mãos. não só vazias. E. Um outro claro sintoma dos seus apegos é a tristeza que você experimenta nas situações em que Deus o priva de alguma coisa. isto é. Todavia. seu Bem-amado — é indispensável a liberdade do coração. É por esta razão que Cristo tanto luta pela libertação do .

Mt 6. Ele apenas pode fazê-lo na medida da sua capacidade. Conseqüentemente todos os momentos difíceis. Crer é ver e compreender o sentido da vida segundo a perspectiva do Evangelho: o que mais importa é Deus. às "riquezas". Deus deseja inundar cada homem com o Seu amor.seu coração. e na medida em que consinta romper com os seus apegos.33). E Ele o faz por meio de vários acontecimentos. Em todas essas situações Cristo espera que você se esforce por purificar o coração manchado pelos apegos e pela submissão prestada a mamón. para Ele. são para você uma graça. antes de tudo. A sua vida deve estar orientada. através de dificuldades e tempestades. deve ser só para Ele. acreditando que tudo o mais lhe será dado por acréscimo (cf. permitindo que você passe por situações difíceis e através delas permite colaborar intensamente com a graça. . No entanto. todas as tempestades. para a procura e para a edificação do Seu Reino. O seu coração não pode estar dividido. uma passagem do Senhor Misericordioso que o ama a ponto de desejar oferecer por você esse dom magnífico: a plena liberdade de coração.

perseguindo os objetivos que queremos atingir. na procura de tudo o que nos é mais cômodo. Esta tensão advém do fato de girarmos sempre em torno da nossa própria vontade. Resiste.para dar-Lhe lugar. A vida interior desenrola-se numa contínua tensão entre a vontade de Deus e a vontade do homem. Vivermos unidos a Cristo eqüivale a submetermos a nossa vontade à d'Ele. A vontade de Deus e a nossa Fator decisivo para que um dia venha a ser possível o aprofundamento da nossa fé. quer tendo disso plena consciência. ao recusar submeter-se à vontade de Deus. indo no encalço dos nossos planos e desejos. quer de forma . O homem resiste ao aniquilamento dos desejos próprios. isso não coincida com a vontade de Deus a nosso respeito. E a fé que em nós produz esse esvaziamento onde Deus pode vir habitar. ainda que saibamos que. até à plena união com Cristo é o nosso desejo de cumprirmos em tudo a Sua vontade e o conseqüente consentimento de que seja crucificada a vontade própria.

Esse dispositivo permite evidenciar até que ponto nos procuramos a nós mesmos nos nossos desejos e nas nossas atividades. pois. só deseja o bem do filho. para realizar os nossos projetos e alcançar o fim em vista. que se traduz muitas vezes num mecanismo defensivo de racionalização. Por outras palavras.inconsciente. Um clássico exemplo que ilustra esse sistema de autodefesa é o da situação em que uma mãe procura defender o seu filho diante da sua nora. poderíamos dizer que. enquanto. sentindo-se mãe. Quando se desencadeia o mecanismo defensivo da racionalização a mãe está absolutamente convencida de que o único motivo da sua ação é o amor. inventamos uma teoria de autojustificação que nos deixa tranqüilos. Em que consiste tal mecanismo defensivo de racionalização? Inconscientemente justificamos a nossa atividade como sendo baseada em motivações que aceitamos. Julga que tem o direito de agir. Por isso será . O amor possessivo que geralmente se manifesta nesses casos permanece encoberto por esse mecanismo defensivo inconsciente e pela teoria subjetiva arquitetada para justificar o compor-tamento conseqüente. ao mesmo tempo rejeitamos as verdadeiras causas.

Quantas vezes construímos uma teoria com o único fim de justificar algum comportamento despropositado? Dizemos. Deveria. a determinados interesses nobres e." Você pode se entregar apaixonadamente a um suposto amor. devendo mesmo tomar mais o partido da sua nora que o do seu filho. Porque se trata. na realidade. no entanto. na pessoa do seu filho. de um dispositivo inconsciente é que o mecanismo defensivo de racionalização é uma "muralha" tão forte e inexpugnável. quem ela ama é. Se a vida de fé significa a aceitação de Cristo e acolhimento da Sua . não posso ocupar-me disso". a sua própria pessoa. haver um egoísmo latente e inconsciente na raiz de tudo isso. ao apostolado. É o egoísmo que faz com que a nossa vida interior decorra numa contínua tensão entre a nossa vontade e a vontade de Deus. prejudicaram-me. pondo em perigo a família. em vez disso. é preciso que me defenda. "Tenho esse direito. deixando o esposo tranqüilo. etc.quase impossível convencer uma mãe que se comporta de tal maneira de que. afastar-se e permanecer na sombra. por exemplo: "Preciso de descansar. antes de mais.

A união a Cristo e à Sua vontade implica que. causa da nossa desgraça e das nossas servidões. Corriam os tempos difíceis da reforma da Ordem Carmelita. A fundação de uma nova casa em outra localidade exigia que Santa Teresa. sendo uma ordem de clausura. de fato. entender bem que a procura da vontade própria é aqui o pior que pode acontecer. do Carmelo. pois as carmelitas reformadas. Uma vez. ditas "descalças". As irmãs viajavam habitualmente em carruagens com as cortinas cerradas. Teresa fundava um diferente ramo. nesse contexto.vontade importa. que Ele os contrarie. Santa Teresa d'Ávila deslocou-se a Sevilha com a finalidade de fundar naquele lugar um novo convento. não poderiam aparecer em . estivesse presente com um grupo de irmãs. A vida dos santos mostra-nos freqüentemente acontecimentos reveladores de como Deus contrariou os planos humanos. como superiora. a fim de que a vontade deles pudesse unir-se à Sua. consintamos que Ele deite por terra os nossos planos. a fonte do mal e do pecado. no caso da vontade d'Ele não coincidir com a nossa. reformado. E ela.

para chegarem à Igreja escolhida. Sucedeu. agrupou-se um grupo de curiosos. era necessário atravessar uma ponte. pois não queriam fazer sensação. Em volta da carruagem. após duas horas de espera. Teresa decidira que. entãoj necessário esperar. Ali. tentaram olhar o interior. no entanto. Mas este último. trouxeram a . fariam uma parada em uma Igreja. a ponte estava fechada. retomarem viagem. Era dia de Pentecostes. Foi. sentiam-se em segurança e esperançadas de chegar ao seu objetivo sem que ninguém as visse. tendo os guardas de vigia informado que precisavam pedir a chave ao alcaide. Entretanto. bem cedo. com o objetivo de não serem notadas e de. o Pe. Alguns. dormia e não toleraria que o acordassem por semelhantes motivos. Todavia rapidamente verificaram que. As irmãs tinham partido de manhãzinha. mais curiosos ainda.público. àquela hora. nem ser alvo de espetáculo. Finalmente. situada na periferia de Córdova. em seguida. Escondidas numa carruagem resguardada. que àquela hora matutina. Julian de Ávila deveria celebrar para elas a Santa Missa. durante a viagem. o Sol levantara-se já e começava a fazer muito calor.

que estava mesmo disposta a não ir à Missa e o mesmo tencionavam fazer as outras irmãs. havia na Igreja e no átrio uma enorme multidão. como é usual em tais dias. a solenidade do Pentecostes era uma festa de padroeiro e. Teresa confessaria que isso teria sido uma falta grave. de novo. apesar da multidão. com efeito. algo de inesperado. Verificou-se.chave e abriu-se porta. Só mais tarde. que nesta Igreja. a mas ser As horas passavam e Teresa. então. para empreenderem a travessia da Igreja repleta de gente. o seu refúgio onde se sentiam em segurança. . Quando por fim as partes salientes da carruagem foram serradas e as irmãs chegaram à Igreja. participassem na Missa. deu-se. Felizmente. Colocaram a carruagem em marcha. não cabia na ponte. Era demais! Santa Teresa refere no seu relato. foi ficando aflita. Abandonam. Julian ordenou às irmãs que. que desejara chegar cedo à Missa no dia de Pentecostes e tanto procurara que as irmãs pudessem chegar sem serem vistas. o Pe. por demasiadamente larga. aconteceu que.

uma das mais penosas da sua vida. Ao chegarem à saída. O Espírito Santo pode descer sobre o homem com uma graça que deite mesmo por terra os seus projetos. São as Suas grandes graças de despojamento. as irmãs tiveram de novo que atravessar a Igreja. debaixo da ponte {Fundações. O grande amor que Ele tinha por Teresa . Cap. Após a Santa Missa. que foi um dos seus maiores dissabores. Aquela contrariedade. ainda. dentro dela estava um calor de tal modo sufocante. depararam com um calor de tal modo insuportável que não foi possível continuar a viagem. pelo meio das pessoas alvoroçadas que as acotovelavam e empurravam. por outro lado. as pessoas reagiram como nas touradas. na solenidade da Sua Vinda! Mas ainda não ficariam por aí as dificuldades. Teresa confessará. sobre as religiosas cobertas com os seus véus e hábitos de lã grosseira. foi-lhe enviada pelo Espírito Santo. quando o público vê entrar o touro na arena. que habitualmente tinha um estilo pitoresco. que as religiosas passaram o resto do dia à sombra.Santa Teresa. Os cavalos recusavam-se a puxar a carruagem e. diria mais tarde que. Os seus planos tinham sido reduzidos a zero. XXIV).

. o importante é que algo perfeitamente linear se produziu: o Espírito Santo "desceu" sobre Teresa e as demais irmãs. Ela que planejara tudo tão bem e com tanta perfeição. e tendo-se submetido à vontade de Deus. arruinamos a nossa fé. arriscando-nos mesmo a perdê-la totalmente. pois aqueles planos não estavam conforme à vontade do Senhor. uniram-se mais profundamente a Cristo. a procura da nossa vontade.manifestarase no dia de Pentecostes no modo como a tratou. Buscando-nos a nós próprios. porque aceitaram a Sua ação. neste episódio. O Espírito Santo. o grande Construtor da nossa fé. para acolherem o poder d'Aquele que. tornando-as mais pobres espiritualmente. mais disponíveis. pois. despojou-as muito. Contudo. Os demolidores da Igreja O que mais impede a nossa total entrega a Cristo é a procura de nós mesmos. na liturgia da Igreja. é chamado o "Pai dos pobres". mas que Ele contrariou em tudo.

querendo assim intimidar os cristãos. depois de Alexandria.Comodiano . de 249a 251 [d. período no qual os cristãos puderam sair dos seus esconderijos e. Os documentos de Comodiano abrangem um período de vários anos depois do término das perseguições de Décio. sofreu grandes devastações. a maior e mais esplendorosa cidade do norte de África. a sétima na história da Igreja. Cartago. aparecer novamente à luz do dia. A perseguição de Décio. Durou dois anos a perseguição de Décio. Quando finalmente. Naquele tempo Cartago era.um asceta cristão que viveu em Cartago em meados do século III — deixou dois textos que tratam esta questão. por volta do ano 251. distinguira-se das outras no seguinte: ele não se contentava em condenar à morte mas. depois desses dois anos. mandava infligir torturas. com mais freqüência. "Instructiones" e "Carmen Apologeticum" sobre os quais vale a pena refletir. os cristãos voltaram a reunir-se como antes para celebrar a liturgia em comum. sem receio. e estendeu-se a todo o Império Romano. tal como outras cidades onde viviam cristãos. a Igreja recuperou a liberdade.CJ. Os escritos de Comodiano dão-nos a .

A segunda categoria pertenciam os lapsi. como catecúmeno. que decerto trariam . os mártires. ou homens decaídos . pois Décio preferira freqüentemente não os executar. Finalmente. os encontros dos cristãos e facilmente reparar nos mais ilustres. fazia penitência e sentia grande compaixão pelos outros lapsi. Comodiano escreve que ele próprio era um desses renegados e que. Podemos tentar reconstituir a situação na comunidade de Cartago imaginando como decorriam. torturá-los.os renegados que eram numerosos: eram os que não tinham conseguido resistir às terríveis torturas. os decaídos. a terceira categoria. em vez disso.imagem do que foi a comunidade cristã de Cartago na seqüência das perseguições de Décio. renegados que também se tinham penitenciado. nesse tempo. Eram três as categorias de pessoas que a integravam e nela se destacavam: A primeira era constítuida pelos simples fiéis — fideles que nos tempos de perseguição tinham conseguido escapar de Cartago refugiando-se em lugar seguro. mas. a dos mártires martyres — aqueles que haviam sobrevivido aos tormentos.

devido ao martírio suportado. os "martyres" (testemunhas). Podiam. considerados portanto.os lapsi que haviam sucumbido enquanto que eles. que as suas opiniões iriam ter particular peso. E. tinham perseverado. contudo. tendo estado dispostos a dar as suas vidas por Cristo. visivelmente marcados pelos sofrimentos suportados por Cristo. sobrevivido. possuiriam direitos especiais. os melhores fiéis. Pensavam que podiam se considerar melhores do que os fiéis . que semearam a confu- .aqueles que tinham fugido pois. Foi nessa situação. que alguns anos mais tarde se produziu na comunidade de Cartago. os melhores. que reivindicavam os seus direitos. foram justamente eles. facilmente sentir-se superiores aos renegados . também. como sabemos através de dados históricos. Comodiano continua escrevendo que tais mártires. uma vez que haviam oferecido a vida por Cristo. achavam que. haviam. Na origem das tensões então surgidas na comunidade de Cartago radicava-se a atitude dos mártires.nos seus corpos as marcas das torturas suportadas. o cisma de Felicissimus e de Novatus. eles não o tinham feito. Que comovente não seria a imagem oferecida por todos aqueles que.

E. para que se pusesse fim ao dilaceramento existente no seio daquela Igreja provocado pelos mártires. São Cipriano).são podendo até afirmar-se. Os melhores. que destruíam e demoliam a Igreja. que a Igreja cartaginesa foi destruída justamente pelos mártires. mas sim os mártires. que haviam traído a Cristo. sem nenhuma dúvida. mas que também eram detentores dos seus planos próprios e da sua vontade própria. aqueles que se julgavam tal. ou pelo menos. Aqueles mártires constituem para nós uma séria advertência. Nem mesmo a sua disposição interior de dar a vida por Cristo é . o oitavo. que depois do primeiro cisma de dimensão relativamente pequena. esses destruíam a Igreja de Cristo. E verdadeiramente impressionante! Não foram nem os renegados nem os fracos. deu-se um novo período de perseguições. por aqueles que se haviam disposto a dar a vida por Cristo. sob o Império de Valeriano (no qual ocorreu a morte do bispo de Cartago. A situação tornou-se de tal forma dramática. aquela Igreja viu-se ameaçada por um segundo cisma muito mais grave. então.

conforme o princípio segundo o qual cada um acaba por se tornar um santo bem diferente daquele que teria desejado ser. será algo bem diferente do que imaginamos. . e como tal. não a sua vontade. de que Deus contrarie por vezes a nossa vontade. à luz dos documentos que acima analisamos. pois não passam de planos ou pontos de vista meramente humanos. Será que nos podemos admirar. mas acima de tudo a de Cristo. você apenas pode aderir a Cristo na medida em que vá deixando despojar da sua vontade própria. Assim Deus. A humildade e o desejo deles de fazer. deve contrariar os nossos planos. pelo seu querer. princípio do amor. deve varrer a nossa visão das coisas como quem sopra um castelo de cartas. porque nos ama. Enfim. aquilo que irá nos mostrar.prova da sua total adesão a Ele. se sabemos que a procura dos meios para a realizar é fonte de grandes males e da nossa infelicidade? A fé é adesão a Cristo. é que vão comprovar a autenticidade dessa adesão. Ora.

. e abandonando-nos totalmente a Ele.CAPÍTULO 3 CRER É APOIARMONOS EM CRISTO E A ELE NOS ABANDONARMOS TOTALMENTE A fé é participação na vida divina. o que significa que. Baseando-nos em Cristo. adesão a Deus como único Senhor. O homem orienta-se naturalmente para a procura da sua própria segurança. o apoiar-se total e exclusivamente n'Ele. para a busca de apoio. exprimimosLhe a nossa absoluta confiança.

suscitam. dinheiro. que nos leva a procurar intensamente a segurança. O sentimento de segurança baseado nos bens materiais. quando contamos com certos conhecimentos e relações humanas que podem vir a servir à realização dos nossos projetos. com que possa contar e em quem confie. pode ser entendido objetivamente do seguinte modo: contamos com o que possuímos. prendese geralmente com a nossa orientação para o futuro. por exemplo. E essa angústia que se apodera de nós.por natureza. Apoiar-se em algo ou em alguém e ter a sensação de segurança. É também possível querer reforçar a própria segurança em sentido pessoal. capacidades e aptidões. o desaparecimento do apoio que nos descansava. . A sua ausência na seqüência de uma situação de risco. E tal a sua estrutura que o leva a querer ter um sistema que lhe garanta a segurança. ou alguém. a angústia. então. desejando qualquer coisa. O sentimento de segurança é a mais elementar e fundamental necessidade do psiquismo humano. A pessoa que for de forte ressonância psíquica procura até prever o que vai acontecer no futuro. é levado a confiar.

é bem certo que. com aquilo que possui ou com as relações que mantém com as pessoas a quem está ligado. conta com as suas capacidades. ou nas suas capacidades. Na nossa vida. seja ela de tipo material ou pessoal. No entanto. Pode também contar com o fator sorte. mais tarde ou mais cedo. E. inevitável que falharão. . a necessidade de nos sentirmos em segurança está constantemente presente. exercer domínio sobre o porvir. Não podem ser perfeitos. O estudante que se prepara para passar no exame baseia a sua segurança na memória que possui. estando assim na origem das crises. Quer. porque se baseiam unicamente nos nossos projetos ou cálculos. alimentando assim aquela procura de apoio e de segurança. nos conhecimentos que apreendeu.esforçando-se mesmo por desvendá-lo nos mínimos detalhes e por não ser apanhada desprevenida. ficará desiludido. mas procurará sempre apoiar-se em alguma coisa. desse modo. Se você confia nas próprias forças. então. todos os sistemas de segurança humanos são sempre deficientes.

(. uns magros tostões.doou tudo . da sua pobreza. É comovente a cena passada no átrio do templo.)... ver .Jesus Cristo . nascida da nossa fé na Sua palavra. de fato. na caixa uma após outra e Deus.43-44). na qual Deus observava os fiéis que colocavam os seus donativos na caixa das esmolas.ali sentado a um lado com os Apóstolos. A confiança total em Cristo. observando aqueles que faziam ofertas. no Seu poder infinito e no Seu infinito amor. todo o seu sustento" {Mc 12. .único apoio A fé consiste em nos firmarmos unicamente em Deus. Não podemos nos apoiar em nenhum dos Seus dons. No entanto. o Senhor fez-lhes notar: "Esta pobre viúva. devemos reconhecer que só Ele constitui a nossa verdadeira segurança. ofereceu tudo quanto possuía. Podemos admirar o gesto dela . Ao ver uma viúva depositar duas pequenas moedas. é a única resposta adequada ao Seu insondável amor por nós. Ouvia-se o tilintar das moedas que caíam.enquanto que os ricos se limitavam a dar uma pequena parcela do supérfluo..) doou mais do que todos os outros. Deus .Para que a nossa fé seja. mas apenas e exclusivamente nEle.. pois (. um total apoio e abandono a Cristo.

Podemos falar de um abandono análogo no caso da viúva de Sarepta que encontrou Elias. pois ficara sem dinheiro. Naquela mulher existia. sem sistemas de segurança. a daquela mulher! À pessoa desprovida de tudo. o seu único apoio. mas também podemos ser nós próprios a darmos esse passo. certamente. Foi esse o caso daquela viúva do Evangelho. sem mais nada para sobreviver. tudo o que tinha para viver. porque deu tudo e o fez livremente. Ela acabava de romper com o seu esquema material de segurança. uma fé a toda a prova. que de forma solene proclama estas palavras: "Em verdade vos digo ela deu daquilo que lhe fazia falta. tudo o que possuía. porque ela mesma se despojou de tudo. provocando desse modo o assombro do próprio Deus. Deus era tudo. Depuramo-nos. assinou a sua condenação à morte'." Inconcebível fé. Deus pode nos despojar dos nossos esquemas de segurança. Há que sublinhar que ela. restam apenas duas coisas: o desespero ou o total abandono a Deus proveniente da fé. ao dar tudo o que tinha.este gesto isoladamente é demasiado pouco. Para ela. assim. de forma ativa daquilo que constitui para nós uma servidão. A viúva tinha um .

um pedaço de pão" {lRs 17. Ficou. Que Deus faz com tais pessoas? Diz a Bíblia que pouco depois. se purifica por sua livre iniciativa. A viúva e o seu filho não morreram. Deus olha com . Elias repetiu o seu pedido: "Traz-mo". nem sequer com aquele punhado de comida.11).filho pequeno e naquelas terras a fome se alastrava. farei o que pedes e. ela era cada vez mais abundante. rompendo com o sistema de segurança que destrói a sua fé. por favor. das riquezas. Todas as suas reservas de alimentos eram apenas dois punhados de farinha ressequida e um pouco de azeite. Respondeu-lhe a mulher: "Sim. tendo acontecido o mesmo com o azeite. a quantidade da farinha começou a aumentar e que. sem nada. então. apesar de continuarem a consumi-la. em seguida. porque depois já nada mais lhe restaria. tendo-se entregue a Ele inteiramente. Tratava-se efetivamente da aceitação da morte. Deus não pode abandonar aquele que. eu e o meu filhinho morreremos". de que aquele era o último alimento que lhe restava. não havia nada com que pudesse contar. E foi em semelhante situação que Elias lhe disse: a Traze-rne. De nada serviram as explicações da viúva.

se quiseres. se você morrer de fome. em contrapartida. na citada cidade da índia. O homem que possui tal fé é capaz de dizer: "Meu Deus. se o desejas. esse estado de coisas é considerado quase normal. que gera santos. Na índia. se morrer à fome. Um seguidor do hinduísmo dirá que. isso significa que o mereceu. estou mesmo disposto a morrer. Quando a Madre Teresa de Calcutá deixou o convento das irmãs do Loreto para se dedicar aos moribundos. No contexto da religião hindu e segundo a lei de karma. uma só coisa lhe resta dizer: "Meu Deus. estou disposta a morrer". porque vulgarmente se olha com indiferença aos moribundos. tinha consigo uns escassos haveres pessoais e algum dinheiro. num breve trecho. E depois disso? Ao cair da noite. em Calcutá. porque creio que Tu me amas". . Mas.admiração. o milagre da fé humana e sobretudo dessa ousada fede criança que se expressa na renúncia integral a tudo. assim tão profunda. E esta fé. perto do templo de Kali. decerto que ninguém a ajudara. que. renascerá com uma existência melhor depois da morte. tudo distribuiu aos moribundos.

aquela por quem hoje o mundo tem tanta veneração e respeito. de um crer até à loucura. ou um terrível desespero ou uma heróica fé. E. restam somente o desespero ou a fé. numa total ausência de segurança no plano humano. Se não há em você a loucura da fé e se não confia até ao extremo no amor louco de Deus. depois de ter distribuído tudo. teve fé que Deus está sempre consigo. e a partir de então apenas n Ele se apoiará. Nada restava.Madre Teresa de Calcutá se deu conta de que não encontraria ninguém que desejasse ajudá-la mas. nem para algumas futuras postulantes. em tal situação. Quando se desmorona todo o nosso sistema de segurança. nem para si. nem para a multidão de moribundos que urgia socorrer. há total carência de apoios. se deitava morta de cansaço. o seu avanço pelo caminho da fé . ao mesmo tempo. nasceu a Madre Teresa de Calcutá. alguém que passou pela dificílima escola de aquisição da fé nas situações em que. Uma mulher de fé. humanamente falando. A escola de fé e de santidade para a Madre Teresa de Calcutá foram aqueles dias e noites em que. com a certeza de nada ter para o dia seguinte.

Ele tem. pois a tal situação está vinculada uma graça. Através do Primeiro Livro de Samuel. o direito de reclamar que Lhe entregue tudo. no sentido do total abandono. Você não pode apoiar nem nos Seus dons. você não pode se apoiar em mais nada senão em Deus. À luz da fé é bom que. Ao construir os seus sistemas humanos de segurança você impede o crescimento da sua fé. ou andará mesmo para trás. Na verdade. Esta só será aprofundada a partir do momento em que aceite que seja Deus o seu único fundamento e a sua única segurança.continuará a fazer-se a passo de tartaruga. a Arca da Aliança cai em mãos inimigas. sabemos que os filisteus se mobilizaram para lutar contra Israel e se travou uma luta em que os filisteus venceram . No Antigo Testamento. de vez em quando. depois de uma grande derrota. você sinta o chão fugir dos seus pés. nem mesmo em qualquer um dos sinais da Sua presença. Com efeito. na época dos Juizes^ nos são descritos os tempos das lutas entre os filisteus e os israelitas e como. tudo.

que se puseram em fuga para o seu acampamento. Poderíamos nos colocar a seguinte questão: Por que razão os israe- .' Os israelitas mandaram buscar em Silo a Arca da Aliança do Senhor Todo-Poderoso. Aconteceu que.10-11). a Arca da Aliança.os israelitas. Acompanharam-na também. disseram: ) ai de nós'" (cf. que tem o Seu trono sobre os querubins. pois caíram trinta mil da infantaria israelita. que fôssemos derrotados pelos filisteus? Vamos trazer de Silo. efetivamente. os filisteus atacaram e derrotaram os israelitas. todos os israelitas lançaram um forte brado a ponto de fazer estremecer a terra. os dois filhos de Eli. os anciãos de Israel disseram: 'Por que permitiu hoje o Senhor. tendo infligido a morte a quatro mil dos seus homens. Também capturaram a Arca da Aliança e mataram Hofni e Finéias. A derrota foi tremenda. quando a Arca da Aliança chegou ao acampamento. e trouxeramna. Quando os filisteus ouviram tal clamor. ISam 4. Hofni e Finéias. "Quando o exército israelita voltou para o acampamento. para que caminhe conosco e nos livre da mão dos nossos inimigos.2-8). Mas. ISam 4. os dois filhos de Eli (cf.

já que nos permite entender de maneira mais profunda o que significa apoiarmo-nos unicamente em Deus. o texto bíblico mostra-nos como aqueles israelitas. tendo mandado buscar a Arca da Aliança. Os israelitas ousaram fazer uma singular manipulação deste símbolo divino. que. ligando a essa Presença a esperança da vitória. o fato dos israelitas.litas sofreram tão desastrosa derrota? Na verdade. sinal da Presença de Deus no meio deles. Nesse contexto. apesar de quererem aparentemente fundar-se no Senhor. A Arca da Aliança não é Deus. tratavam de . Como interpretar. A época dos Juizes foi um período decadente na história do povo eleito. demonstraram que desejavam apoiar-se em Deus. então. símbolo da especial Presença de Deus? Esse texto é muito importante. Sabemos que havia muita perversidade na vida dos israelitas e também na dos filhos do sumo sacerdote Eli. mas apenas sinal da presença d'Ele. haverem sofrido tão grande derrota e terem mesmo perdido a Arca. não faziam caso de Deus.12). os quais "eram homens desonestos que não se preocupavam com Yahveh" (ISam 2. no fundo.

Todavia. Deus chamava aquele povo a apoiar-se exclusivamente n'Ele. apoio esse que não devia resultar senão da fé. nem apenas nos símbolos da Sua Presença. ensina-nos. a atitude de abandono. Pensaram que depois de terem trazido a Arca da Aliança. não nos Seus dons. como um bebê que . acabando por ser destruído. com o exemplo da Sua própria vida. Ele veio até nós sob a forma de uma criança. esse poder e esse amor não estão sujeitos a qualquer manipulação. que também era. apenas n'Ele. pois não era ele que devia constituir o fundamento dos israelitas. A atitude de abandono total Cristo que espera nos confiemos a Ele inteiramente. Ora. a vitória estava automaticamente assegurada. Ocorreu o mesmo no caso do Templo.manipular o símbolo da Sua Presença. no Seu poder e no Seu amor. para o povo eleito. um símbolo especial da Presença de Deus. a fé consiste em nos apoiarmos em Deus.

despojou-Se de tal modo dos Seus atributos e apresentou-Se ao mundo de modo tão vulnerável. Jesus torna-Se. desde o momento da Sua vinda ao mundo. E por que o Senhor Se despojou a tal ponto? Tente. Portanto. por nossa causa. se pela força houvesse suprimido a ocupação romana e se pela força. responder a essa pergunta. de vez em quando. Ele humilhou-Se tanto. para permitir a você se unir e confiar n Ele . igualmente. acaso seria mais fácil para você se entregar a Ele? O mais provável é que Lhe tivesse medo. seja ele verdadeiro ou aparente. o mistério de Belém o recorda que não se deveria ter medo de Deus. o despojamento extremo. você não deve sentir medo desse Jesus que chega até nós totalmente indefeso.por si só nada pode fazer e depende totalmente dos cuidados dos adultos. tivesse instaurado a justiça social. porque o homem sente medo perante a violência. Se Jesus Cristo tivesse chegado ao mundo com todo o Seu poder. mesmo quando usada em nome do bem. se houvesse eliminado o mal pela força. Se há na sua relação com Deus alguma parcela de receio. Porém. sem poder algum.

teve que desenraizá-lo. quer nos preceder no caminho da nossa renúncia às seguranças humanas. manifestou o Seu amor levado até à loucura. que parecia avançar por entre as trevas. Cristo. um homem que nada possuía à exceção de Deus.mais facilmente! Desse modo. apelando sempre para Ele. "riquezas". pois não sabia para onde se dirigia. mas elas não são o verdadeiro Deus. Quando Deus quis fazer de Abraão o nosso pai na fé. o verdadeiro e autêntico despojamento é o caminho da imitação de Jesus. e está tão empenhado por isso para que você rejeite . Ora o Senhor quer justamente defender você dessa falsa fé. pôr sempre em Deus toda a sua confiança. têm no Evangelho o nome de mamón. Os diferentes sistemas humanos de segurança. pois. Para nós. Abraão tornou-se um peregrino. nos quais você se apoia. A liberdade que advém do despojamento do nosso sistema de segurança^ conquista-se no deserto que liberta o homem. Ao deixar a sua terra e a sua casa tornava-se um homem despojado. Você pode crer nelas e fazer os seus planos baseando-se nelas. despojado e pobre. Devia.

Esta flor vive apenas um dia. Indiscutivelmente que. o verdadeiro Senhor. se você põe a sua esperança num falso deus. então. a sua confiança nesse falso deus há de cair por terra. Tudo aquilo em que depositamos a nossa esperança se converte para nós num deus e. esse em que confia e em quem deposita a sua esperança. quase insignificante. não tem fé ou então ela é muito fraca. mais cedo ou mais tarde. os quais se caracterizam pela maravilhosa e efêmera beleza. E surpreendente que Deus tenha criado . Cristo desenvolve o Seu pensamento utilizando imagens simbólicas. A pessoa que possui um falso deus. ele o desiludirá e. No Sermão da Montanha falanos sobre os 'lírios do campo'. forçosamente você experimentará o gosto da amargura e da desilusão. essa torna-se absurda. Ao dizer que não se pode servir a dois senhores'. com as quais nos ensina o modo como devemos confiar e chegar ao pleno abandono a Ele. os lírios do campo são as papoulas e as anêmonas.os seus falsos deuses. Se na sua vida há um falso deus no qual você se apoia. porque se trata de um falso senhor. Na Palestina.

enviando- . e compadeceuSe desse povo pecador que bradava contra Si. Jesus apela à conversão. Devemos ser como os lírios do campo e como as aves do céu. durante a caminhada para a terra prometida. A súplica contida no Pai Nosso. exorta-nos a que nos libertemos das tensões humanas. que Ele. da qual o próprio Jesus dirá "que ultrapassa a magnificência de Salomão".26-34). das preocupações inúteis e das vãs inquietações (cf. Encontramos aí uma direta referência àquela situação em que se encontrava o povo eleito no deserto. Por esse motivo existiam revoltas e desobediência. o verdadeiro Senhor. E sabido que o deserto cria situações difíceis. Como Deus cuida dessa flor revestindo-a de tão deslumbrante beleza! Aquelas flores são. Mt 6. tal como você. para que Deus se converta no nosso único apoio. segundo diz a Bíblia. Mais adiante. Mas o Senhor ardia de um amor zeloso. "Dai-nos o pão-nosso de cada dia". é um chamamento ao aprofundamento da nossa fé. ao falar das aves despreocupadas. cuida com amor. propriedade do Senhor.uma flor de tão curta vida mas espantosamente bela.

durante o tempo em que permaneceu no deserto. Tornou-se também evidente a cobiça deles. como medida de segurança para o dia seguinte. lhes houvesse dito: "Somente podereis recolher maná para o dia de hoje". a falta de confiança deles para com Deus. apareceu no dia seguinte apodrecido e infestado de vermes (cf. a continuação do milagre. O povo eleito não deveria assegurar-se do . que caía do céu. em nome do Senhor. Ex 16. a desconfiança e o desejo de criar para si sistemas de segurança que habitualmente se ocultam no mais profundo do seu ser. se bem que noutra dimensão: o maná recolhido para além das necessidades diárias. traduzida pelo desejo de acumular a maior quantidade possível de maná. Muitos não fizeram caso de Moisés e continuaram a recolher todo o maná que podiam. ainda que Moisés. Deu-se.14-21). no povo eleito. apesar dos milagres que aconteceram diante dos olhos deles. diariamen- Os períodos de deserto fazem vir à tona no homem o egoísmo. então.lhes te o maná. Veio a tona. aquele que não deveriam acumular.

quer dizer. mediante a acumulação de reservas. teve que combater o egoísmo humano. Deus vê-se forçado a destruir esse dom que roubamos . nem sequer à Sagrada Comunhão. Há somente uma coisa a que nos é permitido apegar e ao fazê-lo não cometemos apropriação: a vontade de Deus. Nós somos Sua propriedade. O Senhor. Não devemos apegar-nos a nada. Tu cuidas daquilo que é Seu. nem sequer perante um milagre. A maturidade da fé é a disponibilidade para entregar ao Senhor tudo o que Ele nos dá. no deserto. "Dá-nos o pão-nosso de cada dia? Dá-nos hoje. nem aos dons espirituais. Teve que lutar pela fé do Seu povo.amanhã de uma maneira tipicamente humana. Para além da vontade de Deus. visto que Deus o conduzira ao deserto precisamente para de tudo o despojar. Se nos apropriamos de alguma coisa. que fazia com que o povo eleito não quisesse confiar no Senhor. é o nosso total abandono nEle. para hoje e não para amanhã. tudo o mais são dons e meios que nos servem para alcançar o nosso objetivo. nem para todo o mês. mas não são o fim em si.

provando-nos pelo sofrimento. o amor que o penetra e em que você está mergulhado. O gesto das mãos vazias deveria estar também associado à sua expectativa do maior dos dons de Deus que é Ele próprio. ou seja. deve também acompanhar-nos em todos os momentos da nossa vida: na nossa atividade profissional. que somos impotentes. que o nosso gesto de mãos vazias pode ser dirigido a Deus. nada temos. Não é apenas nos assuntos espirituais. como era o caso de São Leopoldo Mandic. nos demonstrará que. expressão da nossa atitude de tudo esperarmos das mãos de Deus.ou. e que é Ele quem tudo nos dá. . Era esse gesto de uma fé extraordinária que fazia milagres no seu trabalho de confessionário. de nós próprios. no contato com os outros e na oração. Esse gesto. Esse gesto das mãos vazias por ele dirigido a Deus era expressão do seu desejo de não se apropriar de qualquer dos dons de Deus. tudo o que somos e possuímos. na educação dos filhos. Era extraordinariamente eloqüente o gesto de fé de São Leopoldo Mandic: o seu gesto das mãos vazias.

a irmã de Santa Teresinha do Menino Jesus. porém apenas na expectativa de que se realize a sua vontade: "Meu Deus. Apoiarmo-nos em Deus tem de ser decididamente um ato de abandono: "Senhor. num ato de autêntica confiança n Ele. Fez um barquinho de papel que colocou no centro de uma linda bacia com água. queria proporcionar-lhe uma alegre surpresa. a mim e àqueles a quem eu amo e. porque pode acontecer. Na vida interior e na nossa caminhada para Deus. Esse pequeno barco trazia dentro o Menino Jesus dormindo e a seguinte inscrição: "Abandono" (cf. deve fazer-Lhe total oferta de si mesmo. porque creio que Tu me amas e sabes melhor que ninguém o que me faz falta. "Manuscritos . Por ocasião do Natal de 1887. que confie em Deus. pelos quais Te suplico". Celina. confio que faça a minha vontade". Isso ainda não é mais do que uma egoísta procura de nós mesmos.Abandonarmo-nos a Deus Se você quer apoiar-se em Deus. que se faça como Tu queres. a confiança deverá traduzir-se num total abandono ao Senhor.

A água simbolizava as ondas da vida pelas quais Deus iria conduzi-las enquanto elas deveriam se abandonar ao Seu amor. tem uma grande profundidade. Não há outro caminho para alcançar a paz. ao pedires pela tua saúde. escrita por Celina a Teresinha no barquinho de papel. ao Seu amor. A teologia da vida espiritual afirma que a paz interior só nasce no homem quando este se abandona a Deus. pois essa doença é uma grande graça e ela submetendo-te à Minha vontade rapidamente te santifica". Para Teresinha e para Celina esta era a palavra que norteava a sua oração. de problemas e preocupações. Jesus disse: "Incomodas-me. senão o do pleno abandono à vontade de Deus. Significa a renún- .Autobiográficos" — Ms. Gertrudes.68r° — de Santa Teresa do Menino Jesus). Enquanto você não procurar abandonar-se ao Senhor estará inquieto e o seu coração se debaterá como a borboleta que voa ao redor da lâmpada. A Santa Gertrudes. cheio de inquietações.A. que rezava pela saúde de uma amiga. isto é. A palavra abandono.

se consciente- . Essa deformação pode ser originada pelo fato de ver Deus mais como um juiz e. Será possível experimentar receio de Deus. na esfera psicofísica. E nós. espontaneamente. a imagem deformada que muitas vezes fazemos d'Ele. Outra coisa é o medo instintivo. ter medo d Aquele que é o amor? Pode ser que você tenha receio de se abandonar a Ele. que estamos tão cheios dos nossos próprios planos e projetos. sentir receio d'Ele. Na nossa intenção de nos abandonarmos a Deus. saber que esse receio consciente de Deus. Contudo. por essa razão. escapando por isso mesmo ao nosso controle. temendo o que Ele possa vir a fazer de você. pode ser um obstáculo muito sério. significa o abandono de tudo para uma total entrega ao Senhor. enquanto a vontade e os planos de Deus são tantas vezes diferentes? É por isso que Deus nos deve alterar os planos. assim. no entanto. fere profundamente o Seu Coração. Mas deve. que nasce por si só. benditas porque originadas pelo amor que sempre quer o nosso bem.cia aos planos e idéias próprios. e essas contrariedades que se opõem aos nossos projetos são.

desse modo. mas é muito importante eliminar esse medo através de um ato consciente de abandono ao Senhor. uma grande infidelidade. porque Ele nos ama e de tudo se ocupa. de Santa Teresinha do Menino Jesus). nesse amor que incessantemente o envolve. a nossa alma e o nosso coração poderão começar a ser impregnados da verdadeira Paz. porque é na . Não podemos desfazernos dos perigos que geram o medo. Somente quando isso acontecer. nem fé no amor de Deus. algo que contrariava os seus planos. Quando São Paulo suplicou a Jesus que afastasse da sua vida uma grande dificuldade. Nesta curta frase está contido todo um programa! Abandonar-se ao Senhor significa não se preocupar com nada. é porque em você não há nem abandono. das pessoas. o Senhor respondeu-lhe: "Basta-te a Minha graça. Se. do mundo. na verdade. Santa Teresinha do Menino Jesus dirá sucintamente: "Há que se ser como uma criança e não se preocupar com nada" (Conselhos e lembranças. sente medo de Deus.mente você aceita o receio de Deus na esfera espiritual (nos pensamentos. na vontade) prova.

9). Mas a angústia pode ser um fator que conduza ao aprofundamento da nossa fé. por isso. A angústia é uma prova de fé e. num bom número de pessoas. Deus a permite para que a sua fé se aprofunde. O medo pode ser também um fator gerador de doenças e acaba por sê-lo. costuma até ser uma das causas das neuroses e das psicoses. . quase nunca. A confiança e a fé aperfeiçoam-se no meio das angústias. Que fará com ela? Aceitará ser esmagado sob o seu peso? Ou optará por se abandonar Aquele que é poder e amor infinitos? Tudo depende da nossa decisão. pelo menos. que o seu receio desempenha um papel relevante na economia de Deus: é necessário para provocar em você um ato de fé. Mas pode também ser o ponto de partida para um grande abandono. Tudo depende de você. portanto. Santa Teresa escreverá: A confiança e a fé aperfeiçoam-se na angústia.fraqueza que a Minha força se revela totalmente" (2Cor 12. Isto quer dizer. A angústia é um desafio que lhe é lançado. efetivamente. Na esfera dos sentimentos não somos capazes de nos libertar dos estados emocionais de angústia ou.

acontece. "Jesus fará tudo por mim". O Cristianismo é a religião da graça. a que nos abramos cada vez mais à Sua ação. Quando assim o for. escreveu Santa Margarida Maria. dizia Santa Teresinha do Menino Jesus" e. Ele não tentará forçá-la. no entanto. amo-os. devendo procurar ter uma tal abertura de coração que permita ao Senhor viver em nós em toda a Sua plenitude. como o fez com Maria. desejará e suprirá abundantemente todas as minhas faltas". uma religião que nos predispõe para que seja Cristo a agir em nós. na confiança e em total abandono ao Senhor. Em mim amará. mas apenas é o amor que . disse o Senhor com grande ardor: "Deixa-Me agir". O princípio fundamental da ação divina é que Deus não quer ser um intruso.como igualmente. com toda e qualquer tentação. O abandono a Deus é a suprema forma de confiança e de apoio no Senhor. "Já não desejo mais o sofrimento nem a morte". Se a porta do seu coração permanece fechada. que viveu na fé. A Santa Margarida Maria Alacoque. "desde que eu consinta que aja em mim. grande apóstola do Coração de Jesus. Ele poderá fazer de você a Sua obra-prima.

O Senhor chama-nos à conversão. sem que a isso as criaturas possam de qualquer modo obstar.. que comporta sempre dois elementos: convertermo-nos "de" e convertermo-nos "a".Cy3r°). quer dizer que Ele quer ser o seu único Senhor. Manuscritos Autobiográficos. já não tenho outra bússola!... Tomado de um amor cioso. Devemos afas- ." ^Manuscritos Autobiográficos" — Ms. Com ardor. O seu abandono a Deus e a aceitação da Sua vontade em todas as circunstâncias só serão completos quando você for capaz de dizer: amo tudo o que Deus me envia. Deus ergueu-a em Seus braços e lá a colocou (cf. Teresa reconhece que precisou de bastante tempo para atingir esse grau de abandono à vontade do Senhor. Ms. o seu único amor. agora só me guia o abandono. 83r° — de Santa Teresinha do Menino Jesus). O amor zeloso de Deus O Senhor foi tomado de um amor cioso por você. nada mais posso pedir do que o perfeito cumprimento da vontade do Bom Deus na minha alma. mas finalmente o conseguiu..me atrai.A.

Deus fez com que o seu "maná" apodrecesse. porém um Senhor que o ama. J Se você criou para si um sistema de segurança e se. por vezes. Você é propriedade do Senhor. Tudo depende d'Ele. com a sua casa que é Sua propriedade e com os seus filhos que Lhe pertencem. esse tempo que. com o seu trabalho que também depende d'Ele. Reconhecendo-O ou não. isto é. porque esse reino o destrói. com o seu corpo e alma. não se esqueça de que Ele o fez por amor. . tal como o seu tempo também Lhe pertence. em seguida. Lhe regateia como um avarento. Deus o despoja daquilo que o escraviza e que e sinal da sua falta defé no Seu amor y porque Ele é o único Senhor. da sua existência. o Seu Senhor e Senhor do seu "maná". do egoísmo que procura seguranças. isto é. do pão de cada dia. Ele continuará a ser o seu único Senhor. Devemos desviar-nos dos elementos destruidores que nascem no mais fundo do nosso eu. Ele não quer que você se perca no enganoso reino de um falso deus. com tudo o que possui.tar-nos de tudo o que nos afasta d'Aquele que é o único Senhor e a quem exclusivamente pertencemos.

como único amor. O homem que chega à união com Deus e à santidade é alguém que recebeu Cristo até às últimas conseqüências. Nas palavras "amor cioso" está contida toda a profundidade do amor de Deus. Há também que aceitar o Seu amor cioso. amor . amar não significa somente dar. recebê-Lo como único Valor e único Amor. um escravo não tinha tempo para si. e esse é o programa da nossa conversão.O Evangelho diz que não se pode servir a dois senhores. há que saber devolver-Lhe o que é d'Ele. mas até e em maior grau receber. No tempo da escravatura. Amar a Deus significa aceitar o Seu amor. zeloso de que você não se perca ao serviço dos falsos deuses. Ora. "Servir". mas por você. era o amo quem dispunha totalmente do seu tempo e para sempre. em grego. Há dois tipos dos que crêem: aqueles que acumulam méritos e aqueles que simplesmente procuram amar. acolher o amor da outra pessoa. significa viver em sujeição absoluta ao seu amo como um escravo. A Deus devemos dar tudo. porque se trata de um amor que é cioso não para Si. o Seu amor ciumento.

com freqüência. O Seu amor zeloso será por vezes difícil. Esse amor é o tormento de Deus. Ele lutará para possui-lo.zeloso e louco. mas o fará para o salvar. Deus terá que sacudi-lo. O Senhor arde num cioso amor por você. para que em definitivo você se abandone a Ele. porque às vezes você escapa das Suas mãos e caminha em direção ao abismo. que deseja protegê-lo de tudo aquilo que possa representar um risco para a sua liberdade ou para a sua fé. disso aperceba. é a ânsia que Deus sente por você. sem que. propriedade Sua. que é Seu filho. . Porém. ao Seu zeloso amor. terá que lhe dar graças "difíceis". de vez em quando.

"Introdução à Fé". toda a sua esperança está posta em Deus. O Seu . Walter Kasper escreve que segundo os sinópticos "a fé é o conhecimento da própria impotência e a confiança no poder divino que atua em Jesus" (cf. Aquele que crê nada espera de si mesmo. cap.V).CAPÍTULO 4 CRER E RECONHECER A PRÓPRIA FRAQUEZA E ESPERAR TUDO DE DEUS À luz da fé podemos descobrir a nossa fraqueza e assim esperar tudo de Deus.

poder será capaz de agir em nós. a das Bem-aventuranças. quando na fé reconhecermos a nossa fraqueza. pois nos seus corações há espaço para Deus. porque deles é o Reino dos céus' (Mt 5. bem como todos os outros dons espirituais e temporais necessários à sua vida. Bemaventurados sejam. "Bem-aventurados os pobres de espírito" Aquele que procura prioritariamente o Reino de Deus. "Bem-aventurados os pobres de espírito".3). mas é. há de encontrá-la. A estes pertence o Reino do Céu.São felizes porque verdadeiramente entram no Reino. que nada possuem e tudo esperam de Deus. em primeiro lugar. que não estão apegados a coisa alguma. E o Evangelho da alegria dos Bem-aventurados cujos corações estão inteiramente . A moral do evangelho não é apenas a dos mandamentos. tornando-nos. assim. pobres em espírito. aquele que procura a santidade. ou seja. E sobretudo a moral da primeira B em-aventurança: "Benditos os pobres de espírito. pois Deus habita neles.

na Bíblia. Deus concede-nos a graça do aprofundamento da fé. a sua impotência e incapacidade serão essa espécie de fenda através da qual poderá infiltrar no seu coração a graça da fé. a não lançar raízes na vida temporal. Através das nossas feridas. para o A sua fé é proporcional à sua pobreza de espírito. que sabe que as suas forças não lhe bastam. reconhecer a sua fraqueza e que há coisas das quais você não é capaz. Será uma experiência para fazer apelo à sua fé. apesar de ocupar o lugar mais elevado na escala social. por isso. A sua fraqueza. . Você deve.livres Senhor. a sua fé não pode desenvolver-se nem aprofundar-se. A palavra "pobre". O homem pobre de coração é aquele que vive despojado de toda a segurança. Se você se sente forte no que diz respeito às suas capacidades naturais. nem sempre designa a indigência no sentido material. o rei Davi. por exemplo. Tal homem está disposto a receber tudo de Deus. 'Pobre em espírito' era.

escreveu o seguinte: "Há uma quantidade tão incrível de luzes de graça penetrando mesmo a alma má e perversa. Esses não apresentam aquela abertura produzida por ferida dolorosa. sem beliscão. são fortes e autosuficientes. enquanto alcança vitórias inesperadas nas almas dos grandes pecadores.sábado. Daqui provém as numerosas falhas que observamos na eficácia da graça que. um ponto de sutura . nem sequer aquela dor jamais superada. Numa palavra: são adultos.escreve Péguy — "tornou-se para eles rija como couro e couraça lisa impenetrável. Descartes e a filosofia cartesiana . Mas. nunca foram feridos. repassar o que era impermeável. "A sua pele moral invariavelmente intacta" . 1 de agosto 1914). nem se viu tornar-se brando o que era duro. com freqüência fica inoperante naquelas pessoas 'de bem'" {Nota conjunta sobre M. nem por algum inesquecível tormento. que vemos salvo aquele que parecia perdido.. nada lhes falta.Charles Péguy. Acontece assim porque a essas pessoas "de bem". a esses adultos no sentido bíblico. um grande convertido dos nossos tempos. jamais se viu deixar-se impregnar o que era envernizado..

eternamente mal ajustado, a inquietação mortal, uma secreta amargura, uma ruptura inconfessável, uma cicatriz nunca fechada. Eles nem sequer apresentam essa abertura à graça que pode ser essencialmente o pecado. Como não estão feridos, não se encontram vulneráveis. Já que nada lhes falta, nada recebem. Como nada lhes custa, tampouco podem receber Aquele que é Tudo. O Amor de Deus não pode curar aquele que não apresente ferimentos. O bom samaritano levantou do chão aquele homem justamente porque ele jazia por terra. Foi porque a face de Jesus tinha sido suja, que a Verônica pôde limpála. Porém, quem nunca caiu", afirma Péguy, "nunca poderá ser levantado e, quem não está manchado não se tornará limpo" (ibid.) Aqueles a quem chamamos "pessoas como deve ser", os adultos, são impermeáveis à graça. Talvez na sua vida haja também algo dessa terrível ferida que não cicatriza, talvez haja um inesquecível tormento, uma dor pelo que passou, uma angústia de morte, talvez uma amargura dissimulada uma das muitas que o mundo proporciona - qualquer coisa que se desmoro-

nou. Você acha, então, que tudo acabou, quando na realidade se passa o contrário. Tudo isso deve ser para você um canal de graça. Deus permite que você sofra todas essas feridas e dificuldades para que se sinta fraco, e por meio dessa fraqueza, se abra à Graça. Quando o sofrimento dolorosamente o atingir, lembre-se que essa dor é bendita e que na sua carapaça blindada de pessoa adulta, irrepreensível, ela o ajuda a abrir espaço para a Graça. Tudo isso constitui para você uma oportunidade de aprofundar a fé. A sua fraqueza torna possível que, pela fé, o poder de Deus habite em você. Deus, para Se aproximar de você, tem que torná-lo mais fraco, para que precise d'Ele, e para que, pela fé e confiando cada vez mais, procure n'Ele o seu apoio. Deus tem que vergá-lo porque você é demasiado grande. Ora, o ferimento obriga a vergar. Daí que cada ferimento possa ser para você uma oportunidade de se tornar cada vez mais criança no sentido bíblico. As vezes são precisas tantas feridas para nos tornarmos "crianças" e podermos enveredar pelo "pequeno caminho".

O poder de Deus e a fraqueza do homem
Ao aproximar-Se do homem, Deus debilita-o. Faz exatamente o contrário do que poderíamos esperar. Parece-nos que somos nós que nos aproximamos d'Ele e que, assim sendo, deveríamos ser cada vez mais fortes e, por nós mesmos, resolver tudo cada vez melhor. No entanto, é Ele quem se aproxima de você, e ao aproximarSe, torna-o mais fraco, quer física, psíquica ou espiritualmente. Deus faz isso para poder habitar em você todo o Seu poder, porque é a sua fraqueza que abre espaço para Ele agir. Quando você está em situação de fraqueza, náo pode confiar nem acreditar em si mesmo e é então que a você é oferecida uma oportunidade de voltar e de se apoiar n'Ele. Com muita freqüência você se defende da maior das graças, a graça da fraqueza, apesar de São Paulo ter escrito: "'Basta-te a Minha graça, pois é na fraqueza que a Minha força se revela totalmente'. Por conseguinte, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas para que habite em mim a força de Cristo. (...) Pois quando me sinto fraco, então é

que sou forte" (2Cor 12,9-10). O seu poder e a sua força, mais tarde ou mais cedo, terão que ruir. Na realidade não há qualquer força que pertença a você, porque ela é um dom - um dom do qual você se apropria e que, por isso, lhe deve ser tirado. São Maximiliano Maria Kolbe, durante muitas das suas extraordinárias viagens apostólicas, sentia-se perfeitamente desamparado. As vezes encontrava-se em climas muito difíceis de serem suportados por seus pulmões doentes. Sofria muito o incômodo das viagens, sobretudo por mar, por causa da umidade que, muitas vezes, quase o impedia de respirar. Tudo isto, porém, não deteve o seu desejo de anunciar o reino da Imaculada no mundo inteiro, apesar de mais do que uma vez, ter sentido que não poderia sequer agüentar uma hora de barco. Dizia, então, à Virgem Maria: "Se não posso agüentar nem uma hora, como poderei dilatar o seu reino?". Verdadeiramente, aquela mesma fraqueza era toda a sua força. Se Deus quer servir-Se de você, o faz unicamente baseando-Se na sua fraqueza. Quando você procura ser

apóstolo apoiado na sua força e no seu poder, você se torna um contra-sinal. As pessoas não desejam o seu poder, a sua própria força, pois isso para elas se torna humilhante. Deus, tão pouco, necessita da sua força, para fazer de você um sinal e para Se servir de você, mas pelo contrário, precisa da sua fraqueza. Esta idéia foi exposta de uma maneira muito eloqüente já no Antigo Testamento, no exemplo de Gedeão (Jz 7,1-8,10). O adversário de Gedeão tinha um exército de 135 mil homens, enquanto Gedeão dispunha apenas de 32 mil, ou seja quatro vezes menos. No entanto, a história conhece vitórias obtidas apesar de proporções desfavoráveis. Para Deus, aquela desproporção apresentava-se, contudo, ainda pequena. Ordenou que fosse reduzido o número dos guerreiros de Gedeão. Numa primeira seleção a sua quantidade foi reduzida de 32 mil para 10 mil. A tropa de Gedeão é agora treze vezes menos numerosa. Na história da estratégia militar desconhecem-se vitórias alcançadas com tanta desvantagem, mas mesmo assim, o homem poderia ter atribuído o triunfo a si próprio, atribuí-lo à sua própria genialidade. Gedeão continuava a ser demasiadamente forte, continuava em condições de contar com as suas potencialidades. Deus, submeteu-o, ainda, a nova prova tendo ordenado que ficasse unicamente com 300

guerreiros. Nessa altura, já não se sabia se a situação era trágica ou cômica. Parece totalmente ridículo defrontar-se com um inimigo que é 450 vezes mais forte. A vitória só poderia ser obtida por Deus, porque já estava fora do alcance de Gedeão. Mas Gedeão combateu com aquele punhado de homens e venceu. Aquela esmagadora desproporção fez com que nem sequer sentisse a tentação de se julgar o autor da vitória. Toda a situação foi levada até ao absurdo, como se Deus sorrindo dissesse: "Vês, Gedeão, querias vencer graças à sua habilidade e à força do seu exército. Repara, ficaste com 300 homens para enfrentar 135 mil inimigos. Que te parece?". Gedeão confiou no Senhor, e obteve um triunfo sem precedentes na história. O Senhor guarda o Seu tesouro em frágeis vasos de argila, para que esse incomparávelpoder se reconheça vir de Deus e não de nós (cf. 2Cor 4,7). Deus despojou Gedeão do seu poder humano, tornou-o pequeno e fraco, fez algo que humanamente parecia um absurdo. Algo semelhante pode também ocorrer na sua vida. Se há em você esses 32 mil

Jesus tornou-se totalmente dependente já em Belém. Então você ficará realmente muito fraco. em que Ele — Deus — se torna totalmente dependente e Se apresenta na Sua impotência. Lá já se manifestava essa extrema impotência. porque Jesus não foi aceito pelos Seus. Essas serão devidas. o Senhor os reduzirá. mas ao poder de Deus. . no Calvário e no Santíssimo Sacramento. quase desfalecido. Se ser pobre significa estar em completa carência. primeiro a 10 mil e posteriormente a 300. Na vida de Jesus vemos três momentos nos quais a sua pobreza atinge o extremo. tendo de nascer em condições quase desumanas. como que atingido pelo fracasso: em Belém. Ser pobre significa ser dependente. náo ao seu poder.elementos de poder humano. mas graças a essa fraqueza poderá ir alcançando vitórias. A pobreza de Cristo A fé entendida como expressão da pobreza espiritual. encontra o seu modelo na Vida e na Pessoa de Jesus Cristo. podendo até dizer que chegou a haver fracasso.

Cada vez que você experimenta a sua incapacidade em situações em que se sente ultrapassado. mãos que haviam abençoado multidões. ensangüentadas. você está participando dessa total fraqueza de Jesus. O Calvário foi a segunda situação de despojamento de Jesus: e ele é de uma terrível eloqüência. porque as Suas mãos. Jesus guarda também silêncio quando nos . Tampouco pode servir-se dos pés. Jesus viu-se despojado de tudo. Naquele lugar tão pouco podia se valer de alguma coisa. agora estavam cravadas na Cruz. como sucedeu no Calvário. A outra expressão do despojamento de Jesus é o Santíssimo Sacramento. No Calvário. estão agora pregados. porque esses pés que haviam levado o amor e a Boa-nova a toda a parte. No Santíssimo Sacramento. O despojamento a que Jesus Se viu submetido. naquele lugar chegou ao extremo. Também aqui se manifestam a impotência e o aniquilamento. A Cruz é a expressão da loucura do amor de Deus. apesar de que se trata naturalmente de uma impotência e de um fracasso aparentes.

da Sua pobreza. Aqui vemos o impressionante mistério do despojamento de Cristo. são um escândalo para o mundo que desejaria antes um Deus cheio de poder visível.dirigimos a Ele. ela é o poder supremo. é o reconhecimento de que nada se possui e de que tudo é dom. pois. Reconhecer que tudo é dom A fé é o reconhecimento da fraqueza própria. Pode. do dom total de si mesmo ao homem. A Cruz foi. da Sua "kenosis". E esperar . fazer literalmente o que quiser. escândalo para aqueles que não crêem. Nessas três situações: Belém. o amor de Jesus chega à loucura. a fé. e continua sendo. mas para os que crêem. Calvário e Santíssimo Sacramento. a tal ponto que qualquer um pode retirá-Lo e trasladá-Lo aonde queira: pode recebê-Lo mas pode também profaná-Lo. ao extremo da pobreza. a Sua Cruz deve ser entendida como despojamento e pobreza. No tabernáculo permanece despojado. Também. O silêncio de Deus.a graça da fé. que faz em você o espaço para a graça . Mas é precisamente graças a essa loucura e a essa pobreza que Jesus traz para você a Redenção. a Sua impotência e o Seu "fracasso".

O dom deve ser sempre recebido com tal desprendimento que permita a sua restituição a qualquer momento. Estarmos sempre dispostos a entregar a Deus os dons recebidos é sinal de que não houve apropriação. O contrário da fé assim entendida é o orgulho. esperar todos os dons das mãos de Deus. Você está disposto a entregar em qualquer momento cada um desses dons? . Viver na fé é nascer de novo. o seu cônjuge. O homem orgulhoso considera todos esses dons como seus e apropria-se deles. estejamos prontos a devolvê-los. Somos obsequiados para que. nascer para a pobreza de coração.tudo. Trata-se de um admirável paradoxo. para a atitude de infância espiritual. ao aceitar os dons de Deus. o dom que devolvemos a Deus recebêmo-lo redobrado. o que você tem e o que faz tudo é propriedade do Senhor. os seus filhos. como se na sua vida não existisse esse constante dom de Deus. é expressão da verdade de que nada nos pertence. Considera que tudo depende de si. Evidentemente que a fé é algo difícil. Tudo é graça: a sua alma e o seu corpo. Então.

impressionados. . tem um epílogo. o que significaria que ocupava algum cargo importante (cf. Jesus diz: "E mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus" (Mc 10. Aquele jovem que parecia estar aberto a Deus era escravo das coisas temporais.25). perguntaram: "Quem poderá então salvar-se?" (Mc 10. Notemos que aquele jovem cumpria todos os mandamentos. O apego ao temporal. Isso significa que não basta cumprir os mandamentos. que os Apóstolos.26). São Lucas falando sobre Ele. Referindo-se a ele e a outros como ele. Jesus disse: "Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas" (Mc 10.23). Quando o jovem foi embora. Lc 18. E uma afirmação tão forte. disse que era pessoa ilustre. Tais circunstâncias têm a prerrogativa de criar obstáculo na relação entre o homem e Deus e podem revelar-se impedimentos de tamanhas proporções que muito dificultem a salvação da pessoa.18).O episódio do jovem que tristemente se afastou depois do Senhor lhe ter proposto a renúncia aos seus bens materiais. escravo do seu patrimônio e da sua situação social.

Trazia dois volumes dessa obra que acabara de publicar e que qualificou como opus vitae. àquilo que é apenas um dom Seu. mas sobretudo cheia de assombro: "Esta é a tua opus vitae. como se tivesse notado a inconsciência daquele homem e com a doçura de um pai. mas não é Ele próprio. a obra da sua vida. isto é.àquilo que Deus criou. A reação do Padre Pio foi aterradora. foi para isso que viveste? E a tua fé. onde está?" Em seguida suavizou o seu tom de voz. não só dificulta a nossa salvação. pode escravizar-nos a tal ponto que. Durante a confissão fez a apresentação da obra ao Padre Pio e pediu-lhe a bênção. perguntou: "Decerto investiste neste . Numa viagem que fiz a San Giovanni Rotondo encontrei um cientista que viajou comigo para visitar o Padre Pio e pedir-lhe a bênção para a sua obra. mas até a compromete totalmente. é a obra da tua vida?" Pegou nos dois livros e voltou a perguntar: "E esta a obra da tua vida? Quer dizer" disse quase gritando — "que viveste quase sessenta anos para escrever estes dois livros e que foi esse o objetivo da tua vida? Essa é a tua opus vitae e.

mas para o Senhor. será de fato a tua opus vitae. tivesse se transformado num momento de conversão na vida daquele cientista. Mas. obra tua?" O final daquela confissão foi também ao estilo do Pe. Pio. recebeu um dom admirável: um filho nascido tardiamente na sua velhice. não foi? Porventura passaste muitas noites em branco. Se tivesses feito o mesmo. Subiu uma vez mais a voz: "Se somente vieste por esse motivo. te dás conta de que te apropriastes de tudo? Tudo isso. Ele era um homem cheio de amor. podes ir embora!" O Padre Pio era rude. E a tua saúde? Pois. Esse amor do Pe.trabalho um grande esforço. mas na sua aspereza estava refletido o seu grande amor por cada homem e por cada penitente. Pio fez com que a comovedora conversa. Aquela foi a sua maior alegria. E tudo ao serviço da ambição de criar este tipo de opus vitae. Aquele homem começou realmente a pensar e a olhar o mundo de modo diferente. "o que significam os ídolos e os apegos. continuou. sofreste um enfarte. Repara". o amor é algo muito forte. Abraão. pois tinha recebido o maior tesouro para um ser humano: um . nosso pai na fé. porém. juntamente com a confissão. claro. tudo seria diferente.

ou até sido devorado por algum animal selvagem. ou que tivesse perecido numa luta. quando Deus pediu a Abraão a vida do filho. Ao ceder entregar o seu filho não só o recuperou mas. E. Pouco importa quais poderiam ter sido as circunstâncias da sua morte. seria tirado de Abraão. De fato. porque se interpunha entre ele e Deus. Os pais habitualmente apropriam-se dos seus filhos. um sucessor. e é possível que Abraão tivesse sucumbido a essa tentação. Mas. a apropriação de um dom eqüivale sempre à sua destruição. Isaac teria se tornado para Abraão um obstáculo ao seu total abandono a Deus na fé. fosse na seqüência de uma doença. ele imediatamente a cedeu. teria significado que Abraão se apropriara dele. ao mesmo . De uma ou de outra forma. A recusa de entregar o filho. que teria acontecido se Abraão tivesse decidido não entregar o seu filho? Se ele tivesse se revoltado e considerado que a ordem de Deus era demasiado cruel? Que teria então sucedido? Isaac teria morrido. Mas.filho. aceitou mesmo entregar da forma mais dramática aquele dom recebido. é como um golpe contra si mesmo e contra o próprio dom.

recebeu o dom multiplicado: a graça da santidade na qual o filho também participou. de maneira psicologicamente perfeita. a sua confiança em Deus foi posta à prova. No próprio início da história do homem. própria da criança. Era como se Deus perguntasse ao homem: "Confias em Mim? Tens. Não diz: . O que faz é semear a desconfiança. quando o primeiro casal humano foi submetido à prova da fé. damo-nos conta de que nas raízes do mal se situa a falta de simplicidade e de confiança em Deus.tempo. Assim foi desde a origem da humanidade. Abraão e Isaac são os primeiros santos patriarcas da Antiga Aliança. para Comigo. como só ele sabe fazer. a simplicidade e a confiança próprias da criança?". O texto bíblico diz-nos claramente que o homem foi atacado por Satanás precisamente nesse ponto. não incitou-os diretamente ao pecado. Satanás não persuadiu o primeiro casal humano da prática do mal enquanto tal. A semeadura da desconfiança Quando analisamos o mecanismo da formação do mal no homem.

O pecado da falta de confiança origina a insegurança e a ansiedade de que tanto se fala em psicologia e em psiquiatria e que são indicadas como algumas das principais causas do sofrimento humano. Na base do mecanismo do mal. O . Se existe. o medo e o sentimento de insegurança. como a inquietação. Se tenho falta de confiança em determinada pessoa. não podemos estar libertos de tudo o que deriva dele. pois. nem verdade. não há sinceridade. está a semeadura da desconfiança. como não estamos livres do pecado. desobedientes!". falta de confiança na relação com Deus. que tem grande repercussão psicológica. Também nós somos tentados pela semente de desconfiança. o homem sente-se como que enjaulado e o decorrer da vida no interior dessa espécie de "jaula" de insegurança torna-se uma coisa terrível."Sejam infiéis. Assim. Não! O que ele procurou foi convencêlos de que em Deus não há amor. O homem que não confia entra em estado de insegurança. que gerou o pecado original. essa como que se torna numa ameaça para mim e começo a ter-lhe medo.

Como lutar contra a angústia. somos participantes. algo que nos atinge particularmente. porque está atormentado pela angústia ligada ao próprio pecado. toda a sua vida deve ser orientada cada vez mais para uma maior abertura à ação salvífica de Cristo. a ansiedade e a insegurança tornam-se igualmente objeto da Redenção. estamos apenas a um passo da constatação de que merecemos a ansiedade contra a qual não lutamos. na qual. pela fé. que nos cerca por todos os lados? Se você se envolver em luta direta com ela. do mesmo modo que nos redimiu do pecado. Jesus redimiu-nos da ansiedade e da insegurança. acabará em .pecado destrói também o homem. Ao morrer na Cruz. então. Por isso. A Obra Redentora de Cristo. a falta desta é. Com efeito. Assim. Por conseguinte. Considerando que uma das necessidades psicológicas fundamentais do homem é a segurança. da Cruz flui incessantemente a graça para que você possa ser salvo do pecado e também da angústia. continua ainda hoje e abrange não só o nosso pecado mas também todo o seu contexto.

pois recebeu muito mais do que esperava. Você tem que acreditar que Jesus o redimiu de tudo aquilo que o ameaça. Um dia. dou-te: Em nome de Jesus Cristo Nazareno.6). devo somente ter disso plena consciência". que você é livre e deve dizer a si mesmo: "Não há nada que me possa ameaçar. pedinte. como a citada na Bíblia. quando São Pedro passava. Se bem que aquele pobre paralítico. como aquele . mas tinha muita esperança. o enfermo se levantou. Logo. mas o que tenho. disse. Decerto teria também muita daquela fé de criança. que está paralisado pela ansiedade e pela insegurança. encontrou um paralítico que pedia esmola: "Não tenho ouro nem prata. A f é é a aceitação. Só existe um caminho infalível: Abrir-se à ação redentora de Cristo. levanta-te e andar ( A t 3. porque Ele me salvou e me libertou de tudo. estava totalmente desamparado. é o processo de acolhimento da ação salvífica de Cristo.fiasco. por uma das portas do templo de Jerusalém. necessariamente curado de imediato. Você. não pode ficar. por meio de uma fé semelhante à de crianças.

esse lento levantarse é também fruto da Redenção de Cristo. Esse paralítico. então que. que simboliza a sua situação será. tomar consciência de que você não está só.6). Diga a Jesus: "Sei que queres purificar-me dessa espécie de lepra. Crer é difícil.doente do relato bíblico. até que possa erguer-se com firmeza. está junto de você. o seu Salvador. da intensidade da sua fé. No entanto. e também que já me redimiste dela. Ele obedecer-vos-iá* (Lc 17. De fato. a priori. mas gradualmente. diríeis a este sicômoro: Arranca-te e vai plantar-te no mar. neste caso. através duma interior atitude de criança impotente. mas mais difícil ainda é não acreditar. levantado cada vez mais alto. Cristo. Será preciso que tenha realmente uma confiança de criança. Procure opôr-se às angústias que o abatem. De fato. A sua cura dependerá. Procure o mais freqüentemente possível. apesar de aos olhos do mundo a fé ser algo "desvalorizado"." Você sabe que pode ser testemunha de um milagre? Recorde o que Cristo disse: "Se tivésseis fé do tamanho de um grão de mostarda. como . pela mão de Cristo. Você veria. a sua cura pode acontecer num só instante ou pouco a pouco.

atos de fé. Você veria que é ela que o abre à ação redentora de Cristo e que. O essencial do "pequeno caminho" de Santa Teresinha do Menino Jesus é a atitude de criança. livre de toda a espécie de medos graças à confiança própria da infância. em todas as situações. você deve permanentemente converter-se a essa mesma fé. Você foi criado para a liberdade e para a paz. então o "pequeno caminho". essa fé possui verdadeiramente o poder ilimitado de Deus. conhecerá o tranqüilo repouso da criança aconchegada nos braços de Seu Pai que o ama. de modo miraculoso. por meio da fé que abre você à Redenção realizada em Cristo.a semente de mostarda. Despertando no seu intimo. na origem da humanidade. Se. que sublinha a importância da . num ápice. que nascem com maior freqüência diante de situações ameaçadoras. como o mais minúsculo grão. Esse processo atinge maior profundidade através de atos de fé. pois ela é um processo contínuo. elimina a angústia. o pecado surgiu como resultado da semeadura da desconfiança. Então. você se sentiria um homem livre.

de uma situação em que teria sido fácil expôr-se à germinação da desconfiança: não confiar. porque a falta de confiança. a antítese daquele acontecimento. de todas as suas angústias existenciais ou psíquicas e. no entanto. mas revoltar-se. confiar como criança n Aquele a Quem tanto ferimos com o nosso pecado de desconfiança! . essa semente de desconfiança para com Deus. Abraão. constitui o antídoto que podemos aplicar e é. Se você confiar no Senhor. também físicas. Ele recebeu a ordem terrível de matar o seu próprio filho. é a origem de todos os seus pecados. mas a Bíblia fala-nos também da tremenda provação a que Deus submeteu Abraão. Como é importante uma confiança assim tão plena em Deus. Confia no Seu amor! A prova de fé a que foram submetidos os nossos primeiros pais não foi excessivamente difícil. por excelência. e apesar das trevas que o envolviam. poderá extirpar pela raiz aquilo que o destrói. Tratava-se. O programa do "pequeno caminho" atinge o mal na sua própria raiz. então. confiou. indiretamente.atitude de criança na confiança e no abandono a Deus.

não sei o que pretendes fazer comigo. Se você diz: "Tenho medo de tudo entregar a Deus". em certo sentido. mas de idêntica situação ligada ao amor infinito de Deus. Qual não será. tenha perdido a confiança em você. E. pois é como se Lhe dissesse: "Não confio em Ti. quando o homem O flagela com semelhante falta de confiança?! A desconfiança é. pois ela é a raiz e a própria causa do pecado. pela nossa desconfiança. as conseqüências vão surgir: ansiedade e sensação de insegurança e ainda o sofrimento delas resultante. a dor de Deus. se o seu inimigo conseguiu semear no seu coração a desconfiança. então você sabe bem como é doloroso. pior do que o pecado. Aquele que é o Amor. Se você não quer confiar." Se uma criança dissesse semelhante coisa a sua mãe lhe causaria grande mágoa. Serão as conseqüên- . esteja certo de que O estás ferindo como com uma bofetada. podemos imaginar como deve ser grande a dor infligida. não se tratando de uma mera situação de amizade humana lesada pela desconfiança. pois.Se porventura lhe sucedeu alguma vez que alguém a quem muito amava.

de fato. "Se não vos tornardes como crianças não entra- .cias desse mal a mostrar-lhe o quanto você se afastou de Deus. "É preciso aplicar o tratamento ao doente demoradamente". "até que aprenda a orar". oração da criança confiante que se abandona plenamente nos braços de Seu Pai. Szondi. O sofrimento. a ter atitude de criança. é reconhecer a própria fraqueza esperando receber tudo das mãos de Deus e equivale. porém. a angústia e a insegurança serão para você um incessante apelo à conversão. no mero recitar de uma prece. A pobreza de coração enquanto atitude de infância Crer. até que seja como um pequenino que com simplicidade se entrega nos braços do Seu amado Pai. antes de uma profunda atitude de oração. que carece de tudo e que não é capaz de nada. A criança reconhece. portanto. diz L. como já referimos. Está cheia de expectativas e acredita que há de receber tudo quanto necessita. Deverá carregar o fardo da angústia até que se converta. Não consiste.

é condição indispensável para entrar no Reino de Deus. A dimensão de infância da nossa fé eqüivale a que não nos apoiemos em cálculos vulgares. Deus é sempre jovem e a Igreja. Na medida em que você for criança será também jovem de espírito. . humanos. também o é. A conversão à atitude de criança. humilde. ou seja a espera de um milagre. esperando tudo do Senhor. literalmente tudo.reis no Reino dos Céus" {Mt 18. mas que. Uma pessoa pode ser já velha aos vinte anos. esperemos algo a que a criança chamaria surpresa. Aquele que é criança na perspectiva bíblica espera tudo de Deus. e por isso é que precisa de pessoas de espírito jovem.3). O estado de infância espiritual é absolutamente indispensável. terá que se realizar no Purgatório. mas também para a salvação. E preciso que algum dia você se torne criança. aquela criança capaz de crer em tudo. não apenas para a santificação. confiante. em vez disso. ou seja. permanecer jovem. Mas. pode também ter oitenta anos e graças ao espírito de infância. daí que precise que haja em você. instituída por Cristo. Se isso não acontecer aqui.

mas. "Tudo é possível para . habituado a calcular tudo.fechadas para que batamos como as crianças então estas haveriam de se abrir. Calcular e contabilizar continuamente . em você e através de você. na realidade Deus quer dar a você bem mais do que a lua. é como se Lhe amarrasse as mãos. Quando a criança quer entrar em casa o faz a todo o custo.se isto pode ou não ser bem sucedido. Crianças são também os "violentos" do Evangelho. a fazer o permanente balanço do positivo e do negativo.9). pois para Deus não há impossíveis. limita as possibilidades da ação de Deus. A criança quer a lua e está certa que a terá.são características próprias da velhice. se aquilo terá ou não hipóteses de êxito . Ora. de quem Jesus diz que arrebatam o Reino dos Céus (cf. Jesus disse: "Batei e abrir-se-vos-ã" (Lc 11.12). Mt 11. se você não tem atitude de criança. Se soubéssemos bater insistentemente às portas que encontramos cerradas . desfechando na porta socos e pontapés até que esta seja aberta. Deus precisa da sua fede criança para poder operar milagres.O "velho". Quer dar-lhe o Seu Reino. porque põe entraves ao Seu amor e à Sua misericórdia.

O Evangelho mostra-nos duas anunciações: a anunciação a Zacarias e a anunciação à Virgem Maria. mas a verdade é que. Isabel sua mulher dará à luz um filho" {Lc 1. uma vez que há nele algo da atitude de Zacarias. tanto em idade. ele reagiu como se não quisesse receber o filho: não acreditou no milagre.quem crê" {Mc 9. Quando o Anjo lhe anunciou: "O seu pedido foi atendido. de certo modo e antecipadamente. é para Deus algo terrível. doloroso para ele: o da privação da fala. incapaz de crer em milagres. "justo diante de Deus". Para que chegasse a crer. a nada a eficácia das suas orações. teve que ser atingido por outro milagre. Tudo é possível para aquele que é como a criança que Jesus aponta no Evangelho. como em espírito. Expôs um argumento . Tal velhice espiritual do homem. Rezava. Zacarias mostrou ser velho. ao mesmo tempo. não possuía descendentes e suplicava um filho.13).23). um homem que atava as mãos a Deus por não ser capaz de acreditar na possibilidade do milagre. O homem a quem falta a atitude de criança reduz. não acreditava sinceramente que Deus quisesse atendêlo. Aquele ancião irrepreensível.

Certo prior. pedir a Deus a chuva. que Deus por Ela pode fazer maravilhas. em tudo acreditou.18). que demonstrou de tal modo ser "criança" a ponto de estar disposta a aceitar tudo. numa cerimônia especial. Mas. Ela aceitou tudo. observou-lhes pertinentemente: "Vieram para pedir chuva. Maria está numa tal disponibilidade. . porque aquele que em seu espírito é criança "tem poder sobre Deus" isto é. onde estão os vossos guarda-chuvas?" A segunda anunciação é a Anunciação à Virgem Maria. Os pequeninos governam o mundo. que reunira os seus paroquianos para. Você já pensou alguma vez que o mundo é governado pelas crianças e não pelos velhos? Sim. porque a sua atitude para com Deus estava repassada daquele espírito de infância. Homem "velho" que perdera a fé no seu Deus! Também nós nos parecemos freqüentemente com Zacarias. conta A. Pronzato.contrário ao seu próprio pedido: "Sou velho e a minha mulher já de avançada idade" {Lc 1. que é o verdadeiro poder.

precisamente por isso. Pode-se dizer que você peca porque é "velho". Deus é jovem e quer. durante largo tempo ainda. a certa altura. Quando Pedro caminhava sobre as águas. tal é a . em direção a Jesus. Pôs-se a fazer cálculos em termos vulgares: "Avancei até aqui porque a superfície da água estava calma.. e porque deixou de ser "criança". mas vejo que se aproxima uma onda. porque a velhice espiritual bloqueia a sua abertura à graça e ata as mãos de Deus.Deus não lhe pode resistir. conceder-lhe a lua. continuará "velho" e. posteriormente. Ora. Se. Reagiu como um velho e. não pode resistir a um olhar de criança cheio de verdadeira fé. que foi essa neve senão a sonhada lua? Deus ama essa atitude de quem não estabelece limites.. à Santa Teresinha do Menino Jesus. Chegaram a lógica e os cálculos humanos e extinguiu-se a fé. Nesse mesmo instante. negará Jesus. Deus deu aquela neve no dia da sua tomada de hábito. serei capaz de continuar a avançar?". Pedro começou a afundar. deixou. de ser "criança". como por encanto.

Mas. espiritualmente. O próprio Deus Sefez criança em Jesus Cristo. Mas no momento em que você deixar de ser criança diante do Senhor. A experiência de Deus é a de uma realidade surpreendente e o homem que tenha aquela atitude de infância bíblica. Tal homem.a criança sabe acreditar. mas também na Cruz. na realidade. Esse Deus feito Menino deseja que a nossa fragilidade e a nossa fraqueza nos impulsionem a que em tudo nos abandonemos a Ele e . ao observar o universo.atitude da criança. é sempre capaz de se extasiar. onde estava totalmente indefeso e em tudo dependente dos homens. E isso aconteceu não apenas em Belém. Deus é sempre jovem e não acaba de surpreender o homem. trata-se de uma e mesma categoria de pessoas. você começará a retroceder e deixará de crer e de amar. já que os santos são. crianças. sobrevirá a crise na sua vida interior. consegue se maravilhar com tudo o que o rodeia. A criança desconhece os limites do possível. é perseverante até à loucura. Apenas dois tipos de pessoas acreditam em milagres: os santos e as crianças. aberta a tudo o que é novo .

como os trabalhadores da vinha que .18). Quase de imediato nos identificamos com ele. não desperta a nossa simpatia: é ciumento e impertinente para com o seu pai. trata-me como a um dos seus trabalhadores" (Lc 15. Voltou na esperança de que com seu pai viveria melhor. uma das três personagens do drama.. tanto mais que é o nosso "gênero". pois bem sabia que ele pagava aos seus empregados mais do que aquilo que ele recebia do patrão. A parábola do filho pródigo deveria chamar-se. Á nossa simpatia dirige-se para o filho pródigo regressado a casa.) já não sou digno de ser chamado seu filho. e dir-lhe-ei: (. "Levantarme-ei e irei ter com meu pai. Mas. parábola do pai misericordioso. A parábola do filho pródigo parece inacabada. Ele quer ser para seu pai alguém com quem se pode combinar o salário.o drama da sua atitude de mercenário.que elas nos conduzam a uma ilimitada confiança na Sua Misericórdia. de preferência. será que se trata realmente de um tipo de pessoa autenticamente bíblica? O Evangelho mostra que o seu regresso foi calculado.. Nela se delineia a continuação do drama do filho pródigo . O filho mais velho.

logo na primeira hora. decerto voltará a partir. ajustaram por uma quantia certa. Na parábola dos trabalhadores da vinha. mas na de mercenário. não notou a dor dele. não se sabe quantas. Mt 20. só foi capaz de ver a sua própria desgraça e empenhou-se em encontrar uma saída para ela. Esse enorme contraste. entre o seu próprio "eu" e o dom recebido. aqueles que se admiraram com a bondade do patrão foram os que trabalharam a última hora sem contrato e não aqueles que.1-16).ajustam com o patrão em trabalhar por um denário (cf. porque a admiração supõe contraste. se o regresso do filho pródigo não é feito em atitude de criança. A criança sabe que é um pequeno "nada" e que é constantemente cumulada de algo grande. geram a sua admiração. O filho que tem alma de mercenário é incapaz de se maravilhar com o amor. seu Portanto. . O filho pródigo não se deu conta da ferida feita a seu pai. uma e outra vez. Somente a criança como a citada na Bíblia é capaz de se maravilhar.

sem fazer caso de . quando. você contempla a Cruz e as chagas abertas de Jesus. aproximou-se d'Ele e. senão de novo O voltará a trair. a sua espontaneidade e a sua autêntica contrição.O homem só chega a ser cristão quando se torna "criança". quando começa a maravilhar-se com a loucura do amor de Deus. Para manifestar a Jesus o seu arrependimento. Será somente a partir do momento em que. crendo no Seu amor. consciente da miséria própria e da sua condição de pecador. Encontramos aqui um novo aspecto da infância cristã: uma certa identidade entre a criança e o pecador arrependido. No filho pródigo faltava esta contrição. A sua simplicidade. Vemos verdadeiro arrependimento na pecadora do Evangelho durante o seu encontro com Jesus na casa do fariseu Simão. isso ê a contrição. você procura beijar essas feridas que você mesmo provocou. Em que consiste a contrição? Trata-se do arrependimento. que você se volta para Deus em atitude de "criança" e. somente um tal regresso tem sentido. contrito. Não torne nunca a Deus como mercenário. beije as chagas de Jesus. seu Pai. testemunham a atitude da criança citada por Jesus. do pesar sentido diante da Cruz quando. em espírito.

e os santos. aos quais muito perdoou. náo aqueles que acumulam méritos e se esforçam por fazer contratos com Deus. . Porque. Lc 7. só a criança crê verdadeiramente.36). ungiu-O com perfume. Aqueles que verdadeiramente amam a Deus são os pecadores arrependidos. Não os mercenários. mas as "crianças". Eis a simplicidade.respeitos humanos. banhou-Lhe os pés com as suas lágrimas e secou-lhos com os seus cabelos (cf. na realidade. a espontaneidade e a contrição dos pecadores que possuem essa atitude de infância referida no Evangelho. porque uns e outros têm natureza de "criança" sabem maravilhar-se diante do amor de Deus e da loucura do Seu amor por eles. mas aqueles que crêem na Sua Misericórdia.

deveriam conduzirnos a apoiarmo-nos nEle. contendo em si a plena confiança. O Senhor destrói a nossa estabilidade e y servindo-se das situações difíceis. a confiarmos e a . sejam internas ou externas. põe em causa a nossa anterior confiança para proceder à sua dinamização através deste despojamento. deveriam tornar mais dinâmica a nossa adesão a Cristo. sendo um apelo à nossa conversão. As situações difíceis. é um processo sujeito a contínuas transformações. Esse processo realiza-se em nós por iniciativa de Deus e resulta da resposta do homem.PARTE II O DINAMISMO DA FÉ A fé entendida como expressão da nossa relação com Deus é um fenômeno dinâmico.

A nossa fé está sempre em mudança. Ele não quer que a nossa fé seja inerte. Surge assim uma questão muito importante: Estará a sua fé a aumentar ou a diminuir? A realidade é que nós não somos ainda tão crédulos e tão cristãos quanto havemos de vir a ser. Deus permite as situações difíceis que nos obrigam a optar constantemente. não podemos dizer que vivemos já o Evangelho. Do mesmo modo. Do mesmo modo que há um ano atrás a sua fé tinha outra intensidade. E por isso que. pode se tornar um talento enterrado. também daqui a um ano ela já será diferente. mas que tendemos a . na esperança de que ela se aprofunde e se dinamize. que conduzem quer à crise de fé quer à sua decisiva intensificação.esperarmos das mãos d'Ele. tudo Se a nossa fé não cresce. embora Deus não queira permitir isso. O dinamismo da fé torna-se efetivo em conseqüência das provas que polarizam as atitudes humanas.

.vivê-lo sempre cada vez mais.

enquanto dimensão da fé. A conversão.CAPÍTULO l A CONVERSÃO COMO DIMENSÃO DA FÉ A dimensão estável e fundamental da fé é a conversão. mas também o afastamento daquilo que está na sua própria . E ela que faz com que a nossa fé não permaneça estática e que possa sofrer um constante processo de aprofundamento. Afastar-se do mal não significa apenas o afastamento do pecado. No processo da conversão a pessoa afasta-se do mal e voltase para Deus. que eqüivale a uma mudança do pensamento e a uma manifesta mudança de atitudes. não é um ato único mas antes um processo.

após cada . segundo o princípio que diz que o alcançado hoje já não será suficiente amanhã. Felix culpa A nossa fé deve desenvolver-se num contínuo processo de conversão. ou de crerem demasiadamente pouco. que tinham acreditado n'Ele e retoma essa repreensão em diversas ocasiões. O Senhor criticava-lhes freqüentemente. o amor As repreensões que Jesus dirigia aos Apóstolos visavam quase sempre a falta de fé que neles via.origem: próprio. Cristo ressuscitou e isso quer dizer que não há derrotas definitivas na nossa vida. o fato de não crerem. que na sua forma atual deixará em breve de te servir. Depois de cada falta. Você também é convidado a questionar a sua fé. que não há nenhuma vida desperdiçada e que não há mal que sempre dure'. Podemos ver nisso um específico paradoxo bíblico: Jesus reprova a falta de fé precisamente àqueles que O haviam seguido. para que possa concluir que ela deve crescer continuamente. A Sua atitude de pôr em dúvida a fé dos Apóstolos tinha como objetivo a sua conversão.

" Deus não permitiria a existência do mal se dele não pudesse retirar o bem. à luz da fé. nos irá despertar e mostrar como nos ama Aquele que morreu e ressuscitou por nós. falta que nos vai mostrar. Uma "falta .fracasso ou cada pecado. Deus nos propõe continuamente uma maravilhosa reparação daquilo que o pecado destruiu. Deus pode fazer de cada uma das nossas faltas. Tudo pode se tornar ainda mais belo do que se não tivéssemos pecado. "O caminho da alegria"). à luz da fé. É aquilo que dizia o texto da antiga Liturgia do Ofertório: "O Deus. Todos os seus pecados se deveriam tornar culpas felizes. a paciência. que maravilhosamente criaste a dignidade da natureza humana e que de forma ainda mais maravilhosa a regeneraste. Deus oferece-nos um plano de Redenção melhor do que se não tivéssemos pecado. uma "felix culpa"— culpa feliz — falta essa que. "Você não entrará no Céu enquanto todas as suas faltas não se transformarem em culpas felizes" (Touis Evely. a ternura e a alegria com que o Senhor perdoa as nossas faltas. O nosso pecado pode ser a "falta feliz" de que nos fala a liturgia de Sábado de Aleluia.

é uma ferida feita ao Seu Amor. ao contrário. com efeito. a descoberta na fé. do amor e da alegria com que Jesus abre os braços para acolhê-lo. É uma descoberta. Pense que. Se à sua volta você vê predominar o mal e o pecado é porque a sua fé é unilateral. na fé. você se desencoraja e se fecha em si mesmo considerando que Jesus já não pode amá-lo porque você é mau. se todos os homens fizessem das suas faltas "culpas felizes" que oceano de Misericórdia poderia inundar o mundo! Como este haveria de mudar! Mas. Não percebe que esses pecados são uma ocasião para a Misericórdia divina Se derramar — e isso é o mais importante. Nesse desejo que Deus inspirara ao Pe. Essa é uma deformação do Seu rosto e uma deformação da sua fé. O Pe. da delicadeza. revelou certa vez que Deus lhe concedera a graça de sentir dentro de si um ardente desejo de conceder a absolvição. confessor de Carlos de Foucauld. Huvelin. da ternura.feliz" é. Huvelin exprimia-se justamente aquela constante e . da loucura de Deus: Deus que tanto o ama e tanto deseja perdoá-lo.

quando você pede perdão a Jesus e se volta para Ele. mas a corda tornou-se mais curta e você mais próximo do Senhor. é como se cortássemos a corda que simboliza esse laço. essa corda é novamente apertada. pois . é certo. poda sempre regressar. não importa em que medida. As conseqüências do mal O extraordinário amor de Deus para com os pecadores e a pedagogia que usa conosco estão bem evidenciados na parábola do filho pródigo.insaciável vontade que o Senhor tem de nos dar continuamente o Seu perdão. Ele pode permitir a sua queda. se a sua fé é inexpressiva e morna. mas pode consentir nas suas conseqüências. A sua falta torna-se uma "culpa feliz™. lembre-se de que Ele o espera. Alguém disse que a queda é uma ruptura do laço que nos liga a Deus. É por essa razão que você deve combater a tristeza. No entanto. Deus não quer o mal. Se você se afastou de Deus. Depois de cada queda. pois permite a Ele amá-lo. por meio do perdão. que você Lhe proporciona alegria quando regressa e pede perdão. Fica um nó.

encontramos o pai que ama e os dois filhos que não amam. sabendo assim . Vêmo-lo claramente no exemplo do filho pródigo» Nesta parábola de Jesus Cristo. trazem consigo o apelo à conversão. pois não se pode obrigar alguém a amar. Podemos. No nosso comentário podemos procurar fazer valer certos elementos que não estão diretamente na parábola. Sabemos quais foram as conseqüências da partida do filho. sabemos que foi caindo cada vez mais baixo e que a sua vida se foi tornando mais e mais penosa. Permitiu-lhe que tomasse o seu quinhão e partisse. por exemplo.estas trazem-nos a graça. supor que o pai tenha tomado conhecimento do que se passava com o filho mais novo pelos seus servidores. o pai não o fez. pois a sua atitude impertinente para com ele e o ciúme que mostra ter do irmão sobressaem no final da parábola. não por algum tempo. Vemos de forma nítida que o filho mais velho não ama seu pai. mas definitivamente. O filho mais novo também não tem amor a seu pai já que o deixou. Se bem que podendo ter-se oposto à partida do filho.

ou ainda o regresso à vida desregrada. Em resultado do mal cometido por aquele filho pródigo. Seria este tipo de ajuda que o pai poderia proporcionar repetidas vezes. o seu coração paternal devia arcar com o sofrimento infligido pelo filho. Suponhamos que. Pelo contrário.que ele quase morria de fome. mesmo que isso comporte algum risco. . que estava sem abrigo e que andava completamente perdido. o que lhe permitiria levar uma vida normal. com uma bolsa de dinheiro. ao amar o filho. o pai tenha decidido enviar um servidor seu. querendo poupar o filho de tal sorte e de tal humilhação. às claras ou em segredo. o pai não deveria protegêlo das conseqüências do mal que o próprio filho desencandeara. capaz de provocar o regresso do filho? Tudo parece indicar que não. com o amor que lhe dedica. Quer isto dizer que. esperar que o mal atinja o seu limite e que as suas conseqüências comecem a se fazer sentir. No entanto o pai. duas pessoas são "crucificadas": o pai. que sofre por causa da decadência e da queda do filho e o próprio filho que deve suportar as conseqüências das suas próprias quedas. deve esperar.

não apenas por uma queda moral das mais fundas. portanto. quando vê . o grau de baixeza da queda. mas também pela sua degradação física. não foi o amor ao pai que impeliu o filho pródigo a regressar à casa paterna. Só quando vê o pai correr ao seu encontro.São precisamente elas que. inclusive. Na verdade. as conseqüências do mal começaram a fazer efeito. Aquela referência simboliza. o filho teria aceitado. mas foi um vulgar e interesseiro amor próprio. pois lá servidores e operários eram melhor tratados do que na casa do seu atual patrão. comer as bolotas destinadas à alimentação dos porcos que. eram animais impuros. Nessa altura. O filho já se encontrava numa tal miséria que uma idéia friamente calculada lhe veio ao espírito: valia mais voltar à casa paterna. agindo sobre o amor próprio do filho. o cálculo frio de que essa idéia seria a melhor. o incitarão ao regresso. segundo a crença dos habitantes da Palestina. Sabemos que a um dado momento a medida atingiu o limite máximo e que a degradação do filho se traduziu. não para seu paiy mas para si mesmo. Na verdade.

as suas lágrimas de alegria. Por vezes.8). o Espírito Santo. quando se encontra nos seus braços. pela Sua vinda. Não se pode conhecer Cristo sem conhecer o homem Para que o nosso pecado se possa converter numa "falta feliz' é preciso primeiro reconhecer que o cometemos. o mal torna-se então uma " falta feliz”. convencerá o mundo do pecado (cf. Pelos seus efeitos. quando no dedo lhe é metido um anel e quando vê que o pai prepara um festim para celebrar o seu regresso surge então a oportunidade para que descubra o amor do pai. quando mais tarde é vestido com a mais bela túnica. Eis por que as conseqüências do mal poderão estar associadas à graça. Deus pode consentir que assim seja. Jo 16. só a queda e o sofrimento dela decorrentes são susceptíveis de produzir no homem a comoção e de o incitarem à conversão. para que as conseqüências do mal nos levem à conversão. . São João transmite-nos no seu Evangelho a promessa de Cristo de que o Paráclito.

Na homília proferida na Praça da Vitória. que desce sobre o mundo. no entanto. Se nos limitássemos a conhecer a realidade do pecado em nós. stress e tristeza. você pode vir a cair no . esta nos poderia destruir. falseada. Não basta. do amor de Deus por nós. à descoberta. por isso mesmo. seria inquietação. portanto. Isso significa que. é. Deste modo. a nossa vida seria um contínuo abatimento sob o peso do nosso mal. recebermos esta primeira graça do Espírito Santo. o Papa João Paulo II pronunciou estas memoráveis palavras: “Sem Cristo não é possível compreender. a nossa condição de pecadores. até ao fim. 2. a imagem que tem de si próprio estará incompleta e. Trata-se de uma graça preliminar e fundamental na vida interior que nos é concedida pelo Espírito Santo. para que possamos reconhecer os nossos pecados. por meio da fé. o homem" (Varsóvia. fazer-nos tomar consciência do nosso pecado. Devemos permanecer abertos aos outros dons do Espírito.79). em Varsóvia. Se o Espírito Santo lhe mostra que é pecador e se você não descobre Cristo que o ama.Uma das operações do Espírito Santo. se você não notar de que Cristo entrou na sua vida.VI.

abatimento. Para o homem, determinadas relações são de tal modo importantes que fazem parte da sua essência. Uma delas é a relação de amor. Sem Cristo não podemos conhecer a nós mesmos, já que sem Cristo não reconheceremos que somos amados e que fomos salvos e eleitos. Esta eleição, este amor, constituem uma parte essencial do nosso "eu" a que não nos podemos opor. Há ainda uma segunda vertente nesta verdade: não podemos conhecer Cristo sem conhecer o homem. Não podemos compreender quem é Deus, nem tão pouco crer na Sua grandeza e no Seu amor para conosco se não nos descobrirmos a nós próprios. Se Cristo o amasse por ser digno de ser amado nada haveria de particular nisso. Mesmo o homem descrente é capaz de amar aquele que é amável. O amor de Cristo, enquanto "ágape" de Deus, é um amor que desce das alturas e ama o que é indigno de ser amado, a fim de torná-lo digno. Quanto mais você reconhecer a sua condição de pecador e a confessar, tanto mais descobrirá Cristo e mais plenamente acreditará ríEle. Tal é o paradoxo da fé. Não se pode

conhecer Cristo sem conhecer o homem. E por isso que se pode dizer que somente os santos conheceram verdadeiramente a Cristo, porque se conheceram a si mesmos até ao mais íntimo do seu ser e deram-se conta da imensidão da sua condição de pecado. A descoberta dessa realidade permitiu-lhes deparar com a loucura de Deus que expressaram, várias vezes, em oração, deste modo: "Enlouqueceste, meu Deus, se a mim, tão grande pecador, me tens tão grande amor!". Chega assim aquele característico momento de deslumbramento que acompanha toda a vivência autenticamente religiosa. O homem que fez a descoberta da sua condição de pecador e que acreditou no Amor começa a compreender que Deus enlouqueceu verdadeiramente de amor por ele.

Como reconhecer o mal que existe em nós
O combate da fé7 entendido como processo de conversão, comporta em si a luta contra a agitação, a inquietação, o stress e sobretudo contra a tristeza. A tristeza é uma evidente manifestação do amor próprio que corta pelas raízes a fé e o abandono. Não se trata

somente daquela tristeza que nos invade no desenrolar das dificuldades temporais, quando somos privados, parcial ou totalmente, de algo, mas, mais ainda, se trata da melancolia que nos aflige em face das dificuldades espirituais; quando caímos, quando cometemos alguma infidelidade. A tristeza exerce um efeito paralisante sobre a nossa fé. Depois de uma queda não devemos ficar abatidos, pois causamos maior dor a Deus do que propriamente quando pecamos. Além disso, dizem os santos, que depois de termos caído devemos esperar receber ainda maiores graças do que antes da queda. A luta pela aceitação dos fracassos e insucessos da nossa vida deveria abarcar todas as situações, mesmo as mais insignificantes. Quando São Maximiliano Maria Kolbe jogava dama com os seus confrades preferia perder. Era o seu "agir contra, a sua maneira de se desligar do amorpróprio a fim de poder voltar inteiramente para o Senhor. Para não se entristecer com as suas imperfeições procure olhá-las à luz da fé na certeza de que Cristo o aceita tal como você é. Pode ir ao Seu encontro com todas as suas imperfeições e todas as suas fraquezas.

Ele reparará o que você fez de mal e suprirá todas as suas imperfeições. Diante de nós coloca-se um problema de extraordinária importância: devemos por um lado odiar o mal que há em nós mesmos e, por outro lado, temos que nos aceitar como somos. De fato, você não pode amar a sua própria imperfeição enquanto tal, a única coisa que pode amar nela são as suas conseqüências. Essas servirão unicamente para que você seja mais humilde, mais confiante e mais fiel. O fato de cometer pecados não deveria surpreendê-lo. Seria mais conveniente que, com espírito de humildade, se admirasse antes quando não os cometa. Se você se surpreende ou desanima com as suas quedas, isso prova que, em lugar de se deixar levar nos braços de Jesus, você colocou a sua confiança nas suas próprias forças. Na verdade, "num único ato de amor, mesmo não sentido, tudo é reparado", afirma Santa Teresinha do Menino Jesus {Carta à Celina 20.X. 1888). "Não nos devemos, pois de modo algum, desencorajar com as faltas próprias, já que as crianças caem com freqüência sendo embora demasiado pequenas para

muito se magoarem" {Caderno Amarelo, da Madre Inês 6.VIII.1897). Santa Teresinha do Menino Jesus gostava muito de confiar a Jesus as suas faltas e infidelidades. Dizia ela que desse modo procurava atrair a Sua misericórdia, dado que Ele veio para os pecadores e não para os justos. Como isto é importante para nós, que nos entristecemos com as nossas quedas! "Que importa, meu Jesus, se caio a cada instante, vejo nisso a minha fraqueza e para mim é grande ganho... Vedes assim do que sou capaz e logo sereis tentado a levar-me nos Vossos braços..." {Carta à Celina, 26.IV.1889). À medida que nos aproximamos do fim último, que é Deus, Ele parece estar cada vez mais longe. E normal e está certo. Vendo a distância que a separava de Deus, Teresinha, de modo algum, se entristecia: "Oh! Como sou feliz por ver-me imperfeita e por tanto precisar da Misericórdia do bom Deus na hora da morte!" {Caderno Amarelo, da Madre Inês 29.VII.1S97). Se você se sente fraco e pecador, então tem especial direito a estar

nos braços de Jesus, pois Ele é o Bom Pastor que procura as Suas ovelhas perdidas, fracas e desvalidas, as que não conseguem acompanhar o andamento do rebanho. Permita a Jesus que o tome nos Seus braços, consente que o ame, creia no Seu amor. Para ter direito a estar nos Seus braços importa que haja em você uma atitude de humildade, deve reconhecer e crer que é fraco e pecador. Mas, simultaneamente, tem que acreditar no Seu amor; deve acreditar que Jesus o toma nos Seus braços precisamente porque você é pecador, fraco e, que por si próprio, de nada é capaz. Será então a fé a gerar em você a gratidão pelo amor incessante que o Senhor lhe dedica - a você que é fraco, pecador e impotente - tanto na vida temporal como na espiritual.

O Sacramento da Conversão
Cada vez que você se aproxima com sincero arrependimento do Sacramento da Reconciliação, ao
qual podemos chamar também de "Sacramento da Conversão", é oferecida uma grande oportunidade para que a sua fé aumente. Acontece com freqüência na

a fim de observar para onde se orienta a sua vida. que você nem sequer se lembre de rezar pelo seu confessor ou diretor espiritual. devido à rotina. O exame de consciência deve constituir um profundo olhar dirigido ao seu interior. pode ter a certeza de que todos os seus outros pecados não são . Se você não fez ainda a sua opção por Jesus Cristo. este sacramento é também um canal particular de graça e de encontro com Jesus Cristo. É possível. verdadeiramente.nossa vida que o Sacramento da Reconciliação não desempenhe o papel que deveria ter. também. cada vez mais perfeito e como auxílio eficaz no desenrolar da sua conversão. para que ele possa ser para você um instrumento de Deus. O escolheu com radicalidade? E por aqui que deve começar a confissão dos nossos pecados. E é sobretudo disto que devemos confessar a nós mesmos: Quem é Jesus Cristo para você? Qual é a sua principal opção? Você está certo de que. o que é que para você tem maior valor e quem épara você Jesus Cristo. Talvez você não se dê conta de que. porque é isto o mais importante. ao hábito e à falta de preparação e de disposição interior. tal como a Eucaristia.

Os pecados podem ser de vários tipos: os pecados cometidos e os de omissão. em geral. precisamente ser acomodado e ter falta de radicalidade. a suscitar atos de arrependimento. que Ele não é tudo para você. E estes últimos são. os piores. essa realidade de que Jesus ainda não é para você o valor máximo. Entre eles encontra-se aquele que consiste em deixar Jesus. não Lhe conceder senão uma pequena parcela do seu coração. Como você se prepara para a confissão? A preparação direta para o seu encontro com Cristo deve consistir em primeiro lugar no arrependimento. O abandonar. E esse é o seu maior mal. Deveria dedicá-lo. o que eqüivale dizer que a sua fé continua frouxa. a mais importante é o ato de contrição.mais do que a conseqüência e o resultado do seu pecado fundamental. mas você tem que saber que esse é um tempo precioso. porque é o que melhor pode abrir você ao canal de graças que é o "Sacramento da Conversão". a . A contrição deve ser a sua atitude diante da Cruz. prioritariamente. ' Entre as cinco condições necessárias para uma boa Confissão. Pode acontecer que não dê o devido apreço ao tempo que antecede o Sacramento da Reconciliação.

o desejo de pedir perdão a Deus e de reparar o mal cometido. E. mas também sem alegria. Você não pode se converter enquanto não estiver plena e sinceramente arrependido. ao receber a absolvição. Uma tal pessoa. O seu arrependimento deve ser cada vez mais profundo. a confissão pode funcionar como uma "aspirina" específica para a dor de consciência. o homem centra a atenção em si próprio. . uma pílula que o apazigua e lhe restitui o bem-estar moral. Vai à confissão com a idéia de se purificar por lhe pesar o seu pecado e para estar de "bem" com Deus. uma atitude de quem está permanentemente centrado em si próprio. portanto. No primeiro caso. não toma Deus em consideração mas somente a sua própria situação. Existem dois tipos de religiosidade: uma delas poderia ser qualificada como "egocêntrica" e a outra "teocêntrica". Para tal homem. retira-se do confessionário sem tristeza. pois dele dependerá a eficácia do Sacramento da Reconciliação. pois há de continuar concentrada no mal que acaba de descarregar da sua consciência.dor por ter ferido o Senhor com o seu pecado.

Em verdade. encontramos muitos elementos da confissão.4). pois Judas reflete no que fez e toma consciência do mal Vjue praticou. não tanto no seu . pois ele atira aos sumos sacerdotes as trinta moedas de prata que deles recebera: não quer o preço do sangue. Quer mesmo mudar de atitude.Há mesmo a reparação do mal feito. Há o exame de consciência. Há também o arrependimento. a mais importante: a fé na Misericórdia de Jesus (Louis Evely. quando Judas afirma diante dos sumos sacerdotes: "Pequei ao entregar sangue inocente" (Mt 27. Apenas uma faltou. o que significa que também tem propósito de emenda. tão trágica e acaba no desespero e no suicídio. Precisamente por isso a "confissão" de Judas é tão triste. porque Judas arrependeu-se do que fez.Quando analisamos a pessoa e o comportamento de Judas depois de ter traído Jesus. todas as condições para uma confissão aparecem no comportamento e na atitude de Judas. A nossa confissão deve ser do tipo da de São Pedro que acreditou na misericórdia de Cristo e se centrou. "O Caminho da Alegria"). Há também a confissão dos pecados.

se assim não acontece. pelo arrependimento e pela contrição. pelo contrário. ides libertá-Lo da Cruz. O homem de religiosidade "teocêntrica' não se fixa tanto nos seus pecados mas." Se você feriu a Cristo. Ao aproximar-se do confessionário. você deve procurar receber o Sacramento da Reconciliação. através da fé. Talvez você também pense que a confissão existe para que se torne melhor e. toma-os como ponto de partida para. pensa. . sobretudo. Quer. mas no perdão. Algumas pessoas lastimam-se depois da confissão por não conseguirem corrigir-se.pecado. "Crucificaste Cristo" . as Suas chagas estão sangrando. mas para proporcionar a Jesus a alegria de formar em você o homem novo através das graças do sacramento. fazer a descoberta da Misericórdia de Deus. dessa maneira. que feriu Jesus e deseja renovar a amizade que voluntariamente lesou. Lhe proporciona grande alegria.dizia o Santo Cura d'Ars . dar a Cristo a possibilidade de ser perdoado e sabe que. se quer que elas sarem. Deve ir por causa d'Ele."mas quando vos ides confessar. não para obter a sua tranqüilidade interior.

mais cheio de luz. se bem que Deus sempre deseje continuamente perdoar-lo e perdoar-lo com alegria. Talvez pense ainda que. com efeito. para não mais voltar a precisar desse perdão. Deus que é Misericórdia. toma a iniciativa de se dirigir a Deus pedindo o Seu perdão. depois da confissão o mundo deveria ser outro. no entanto. . a fim de prescindir comodamente d'Ele. a sua própria perfeição. deve procurar ser melhor mas não se corrige. mas.considere que as suas confissões não têm sentido. significa que o seu objetivo não é tanto Deus e a Sua Misericórdia. mais vale não se confessar. quando há em você grande desejo de maior perfeição e se empenha muito em progredir. entre as pessoas que vemos retirarem-se dos confessionários. principalmente. que a sua fé é deficiente e que se confessa é para depois poder se sentir tão "bom" que Deus já não lhe fará falta. visto que não vê qualquer progresso. Quão pouco acreditamos nessa ânsia incontida de Deus de nos perdoar incessantemente! Como é raro encontrar. Mostra. Porém. uma cara que reflita alegria! E. De fato. resplandecente de fé na Misericórdia do Senhor.

o seu arrependimento não deve também parar de crescer. Se o seu arrependimento não tiver limites. todas as "confissões" terminam com uma festa: "No caso de Zaqueu. O publicano Mateus convida todos os seus companheiros. faz-se o Mestre convidado para jantar em sua casa. Mas. por essa razão. o pai preparou um vitelo gordo e música" (Louis Evely. Mas o arrependimento e a contrição nunca serão suficientes. Examine como são as suas confissões. O arrependimento é ato de humildade. Quanto mais pecador e pior que os outros você . Ele não pode curá-las. Para o filho pródigo. A humildade deve aumentar continuamente em você e. se não Lhe expõe as suas feridas.No Evangelho. a Misericórdia do Senhor também não os possuirá. o perdão vem sempre associado a uma manifestação de alegria. No Evangelho. A conversão vem determinada pelo arrependimento. todos os pecadores daquele meio e lhes oferece uma mesa farta. No Sacramento da Reconciliação encontramo-nos com Cristo desejoso de nos perdoar e de curar as feridas produzidas pelo nosso pecado. O Caminho da Alegria).

em si mesmo. tanto maior abertura terá para as graças e para a fé. pessoa "de bem". Quando o mencionamos. Para este homem ainda jovem. o seu enorme apego às riquezas e cargos. a pessoa do jovem rico. isto é. Os santos patronos do "Sacramento da Conversão" Um dos patronos do "Sacramento da conversão" é Zaqueu. O jovem rico não viu. o maior dos males. esta insólita figura nos vem também à mente. Uma vez que se tratava de alguém que cumpria os Dez Mandamentos. poderia porventura ter motivo para se sentir arrependido de alguma coisa? Contudo. O Sacramento da Reconciliação deve ser um sacramento esperado porque é um particular momento do nosso encontro com Cristo. para uma pessoa como ele. seria muito difícil entrar no Reino do Céu. devido ao forte contraste. era sem dúvida difícil ter uma verdadeira contrição. fica ferido. acrescido do fato de que não fizera ainda a opção radical por . Jesus disse que. O Amor quer ser esperado e quando o não é.sc sinta.

chefe de publicanos. não sabemos. mostra-nos o Evangelho um exemplo singularmente oposto. . dos colaboracionistas e ladrões.8). tanto a seus próprios olhos como aos dos demais. eis que eu vou dar metade dos meus bens aos pobres e se defraudei a alguém. Qual de nós seria capaz de entregar aos pobres metade dos seus bens e de compensar até ao quádruplo os prejuízos causados a alguém? Há nele a loucura da generosidade de um grande pecador arrependido que descobriu ser amado. restituo-lhe o quádruplo" (Lc 19. a visível dor de Jesus mostra bem a má condição espiritual daquele jovem. O que lhe aconteceu. E lícito empregar a seu respeito tais adjetivos já que Zaqueu. Zaqueu ficou. o de um patife e vigarista chamado Zaqueu. mas depois da sua partida. mais tarde. A par deste jovem "irrepreensível". ou antes. verdadeiramente. E. quando aquele grande pecador encontrou o olhar misericordioso de Jesus.Deus. se tornara digno de lástima. Como cumpria os mandamentos parecia-lhe que estaria "bem visto" diante de Deus. estremeceu de comoção e teve uma reação extraordinária: "Senhor.

Assim nos apresentam um homem "como deve ser". desce depressa. ele mesmo que tornou aquela iniciativa sem que a isso tivesse sido pressionado.5). aceitar um convite de alguém para sua casa significava estreitar com ele laços de relação espiritual. em lugar de ir tomar a sua refeição em casa de alguém honrado. se dirige ao chefe dos ladrões: "Zaqueu. têm o nome de 'zaqueus'.louco surpresa e de alegria. os candelabros laterais colocados em numerosas igrejas. No idioma polaco. Foi. pois. pois preciso de ficar em sua casa" (Lc 19. como por exemplo o jovem "irrepreensível". de Ao jovem "irrepreensível". E muito profundo o seu simbolismo já que nos recorda aquele acontecimento singular no qual Jesus. que não soube corresponder ao olhar afetuoso de Jesus e que tristemente se afastou. foi Jesus a aconselhar que se separasse de todas as suas riquezas. Não era apenas uma . enquanto que a Zaqueu nada disse. Naquele tempo. enquanto um chefe de ladrões se demonstrou tão sensível ao amor de Deus.

provavelmente. à sua família e ainda a todos aqueles que nela entravam e se sentavam à sua mesa. Talvez tenhamos. Jesus veio para estabelecer comunhão com eles.simples visita. publicanos e pecadores do seu gênero. por vezes. ao escolheres para Seu santuário. os acolher. consagrou-a com a Sua Presença. Deus visitou Zaqueu para levar à sua casa a salvação: à sua casa significava também ao próprio Zaqueu. Somente de um coração verdadeiramente arrependido Deus pode fazer o Seu santuário. nesse templo por Si consagrado. Jesus elegera Zaqueu. porém de entrar numa particular relação de intimidade com alguém. Ao entrar na casa daquele que era. portanto. o maior ladrão de Jerico. porque tinha intenção de estabelecer com ele uma singular comunhão pessoal. para aí. a casa e o coração de um ladrão." Mas assim é Deus: louco no Seu amor pelo homem. uma refeição ou uma recepção. A casa de Zaqueu tornava-se assim uma espécie de templo e de santuário. que mau gosto mostra ter. Não se tratava somente de comer. . vontade de dizer a Jesus: "Senhor Jesus. O coração de Zaqueu tornou-se santuário de Deus por ser um coração verdadeiramente contrito.

Naquele momento tomou plena consciência da sua completa condição de pecador e foi tomado de um profundo arrependimento. Foi essa atitude de . Através da sua constatação: "Recebemos o castigo que as nossas ações mereciam". como também significava para o condenado a privação de todos os seus direitos. o ladrão morria aceitando a sua sorte. Aquele homem estava. muito arrependido. não só uma condenação à morte física. Entre tormentos e aos olhos de todos. O que naqueles momentos se passou na alma daquele ladrão permanecerá para sempre em segredo. de fato. Um bandido. A sua "confissão" foi feita sobre a Cruz.Um outro patrono do Sacramento da Reconciliação é o "bom ladrão". indubitavelmente. desprezado pela opinião pública. é justo que assim seja". Não podemos entrever o extraordinário milagre da graça senão pelos seus efeitos. certamente se considerava pior do que os demais.41). A crucificação era. parecia querer dizer: "Sim. mereço-o. Ele mesmo reconhece as suas faltas quando diz: "Quanto a nós fez-se justiça pois recebemos o castigo que as nossas ações mereciam" {Lc 23.

lembrate de mim quando estiveres no seu Reino" {Lc23. A conversão à radicalidade O processo da sua conversão deveria conduzi-lo à radicalidade bíblica. forçosamente. E como teria que ser grande a sua fé. Para nos ensinar e melhor nos fazer compreender a importância da radicalidade da fé.15-16). a nossa fé é superficial. à radicalidade da fé a que Deus nos chama com as palavras do Apocalipse de São João: " Oxalá fosses frio ou quente! Mas como és morno e não és frio nem quentey vomitar-te-ei da minha boca" (Ap 3. A nossa conversão torna-se difícil porque nos nossos corações há muito pouca contrição e sendo ela pouca. já que havia sido capaz de reconhecer o Rei naquele Jesus a seu lado. espancado. São João da Cruz serve-se da imagem de dois . moribundo.contrição e de profunda humildade que tornou o seu coração receptivo a acolher de Deus o dom da fé.42). coberto de escarros e ultrajado: "Jesus.

Não procura o mais importante. na oração. Um deles está atado por um fio grosso e o segundo por um fino. quer lhe dar tudo. mas você deseja sempre demasiadamente pouco e pouco pede. Se.4). quando se quebrarem todas as ataduras. É por isso que Deus exige de nós também a radicalidade nas nossas súplicas. depois de ter atendido . em nós. O contrario de radicalidade é o ser conformista nos desejos. nas atitudes. Se pedimos "demasiadamente pouco" podemos não ser atendidos. a situação deles é praticamente igual. atinja a Sua plenitude. aquilo que lhe poderá conduzir à realização da finalidade da sua vida: que Cristo possa viver e reinar em você. 111. plenamente. já que nenhuma das aves pode voar.pássaros atados (cf A Subida do Monte Car me lo. Tudo deve servir a este objetivo. Deus é maximalista. Esse estado de coisas apenas sofrerá alguma alteração. De fato. Acaso você se dá conta do modo como amarra as mãos de Deus quando Lhe pede tão pouco e quando se contenta com esse pouco? Na nossa vida tudo deve estar subordinado a um objetivo único: que Cristo cresça em nós e.

Alguém disse que se você não procura em primeiro lugar o Reino de Deus. para que tenha fé. porque então todo o resto lhe será dado por acréscimo. 17.33). se o atendimento dessa súplica viesse a ser mais obstáculo que incentivo a seguir o Senhor até ao fim. mas você. É ainda convite a que sobre todas as coisas busque o Seu Reino.1896). Escrevendo sobre a radicalidade de Santa Teresinha do Menino Jesus. Cada problema que enfrenta. É o chamamento de Deus para que se converta. antes de tudo o mais "o Reino de Deus e a Sua Justiça e tudo o mais vos será dado por acréscimo" (cf.quer dizer. como poderia Ele atender tal oração? Deus está "louco". cada dificuldade. à habitação. quer darlhe o Reino. nada mais faz do que O impedir. ou seja todas as outras coisas. infinitamente mais. "Procurai primeiro" . Deus já nos parecesse desnecessário e. Mt 6. mesmo o resto. ao trabalho. não é mais do que um apelo de Deus a que deseje mais. quer dar-lhe tudo. Possuída no sentido de que está .uma súplica relativa à saúde. lhe serão tiradas. referia sua irmã Maria: "Estás possuída por Deus" {Carta de Maria. ao desejar tão pouco.IX.

Procure. sub data cit. para que você também seja "possuído" por Deus e possas então dizer. Ms.. a fim de que. relatado três vezes nos . seguindo as pisadas de Santa Teresinha: "Escolho tudo o que Vós quereis. de modo a que a radicalidade bíblica invada a sua vontade. como ela. querer mais. sempre mais. pois Deus é um Deus ciumento.. Ele que o amou até ao extremo quer que você se abra completamente ao Seu dom.desejosa de tudo entregar ao Senhor. Quando morreu." (ManuscritosAutobiográficos. na noite de 30 de setembro de 1897. para tudo lhe poder dar. à sua semelhança.A.nunca. viva da radicalidade bíblica. para que.10v°). sejas "possuído" por Deus. Santa Teresinha sofreu por você também também. nunca! Não encontro outra explicação disso a não ser meu ardente desejo de salvar almas" (Caderno Amarelo. O encontro de Jesus com o jovem rico. Santo Ambrósio acentua que Deus não olha tanto ao que Lhe oferecemos como àquilo que guardamos para nós. a exemplo de Teresinha. disse: "Nunca pensei que fosse possível sofrer tanto.).

não roubards. 'cumpre os mandamentos. Os discípulos estavam perfeitamente desconcertados com tais palavras. efetivamente. tudo isso tenho guardado desde a minha juventude'. Marcos e Lucas . diz Jesus. não levantards falso testemunho. depois vem e segue-Me \ Mas. Também nós . Mt 19.24). vai vende o que tens. (cf.foi.por Mateus. Jesus fitou-o com amor e respondeu-lhe: 'Uma coisa te falta. São Lucas transmite-nos algo ao mesmo tempo insólito e surpreendente: ao vê-lo.17-22. " Tendo-Se Jesus posto a caminho alguém veio correndo ao Seu encontro e tendo-se ajoelhado fez o seguinte pedido: 'Bom Mestre. dá o dinheiro aos pobres e terds um tesouro no Céu. ao ouvir tais palavras ensombrou-se-lhe o rosto e retirouse pesaroso. honra seu pai e sua mãe e ama o seu próximo como a ti mesmo'. que devo fazer para alcançar a vida eterna? —Se queres receber a vida eterna'. O homem retorquiu: 'Mestre. um encontro pouco vulgar.18-30) Na seqüência desta cena. pois tinha grande fortuna".Evangelhos . Não matarás. não cometerás adultério. Lc 18.16-22. Jesus diz: "Como é difícil aos que têm riquezas entrar no Reino de Deus” (Lc 18. Mc 10.

cumpria todos os mandamentos. deveria se tratar de alguém que ocupava . Podemos compreender que não basta cumprir os mandamentos da lei de Deus. mas que também nós nos empenhemos em responder a Cristo que nos chama à loucura de fé."Meus filhos. entrar no Reino dos Céus! E mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus".5 segs. Como refere São Lucas. como se torna difícil aos que possuem riquezas. Ao comentar este texto. Para isso requere-se uma conversão contínua a uma tal radicalidade. Repete Jesus aos Apóstolos: "Meus filhos" — em tom indulgente cheio de compreensão de quem sabe como aquilo devia ser difícil para eles . pois. Mesmo assim Jesus disse-lhe: "Como é difícil a quem possui riquezas entrar no Reino de Deus!" O texto é impressionante.por certo nos surpreendemos.24-26).1.).111. isto é. Santa Teresa d Ávila dirá que ao jovem rico faltou uma partícula de loucura (Mor. Estavam eles cada vez mais assombrados e diziam entre si: "Então quem poderá salvar-se?" (Mc 10. à radicalidade bíblica. com efeito. o jovem rico.

na hora da morte. desligar-se de tudo. Poderia surpeendernos que o Senhor exiga tanto de nós. significará um sofrimento terrível. Na sua situação. Renunciar a tudo. Mais tarde ou mais cedo. O momento mais difícil. quando tiver que deixar tudo. você deverá deixar tudo. Jesus diz: "Só aquele que tiver deixado tudo é que entrará no Reino do Céu". Todos nós somos chamados à loucura de fé. em boa verdade.provavelmente algum cargo de prestígio. mas essa divina exigência tem . semelhante gesto implicava resignar-se a que os demais o julgassem fora de si. Sem essa dose de loucura não podemos seguir o Senhor até ao fim. a tudo. nesse momento. O certo é que aquele jovem há muito cumpria os mandamentos. E de Sua vontade que desde já você deixe toda a sua "riqueza". No entanto. Não basta amar o próximo como a si mesmo. não necessariamente em sentido literal mas no sentido do desapego dela. Porém. pois necessário a ele que renunciasse a um bom número de coisas. Seria. Para ele não era assim tão fácil deixar tudo. o Senhor deseja poupá-lo de tal sofrimento. será no final.

Ela que deu verdadeiramente tudo a Deus e O seguiu até às últimas conseqüências.como objetivo a nossa liberdade e o nosso bem. o Seu divino todo. Mãe da nossa radicalidade. a Mãe do nosso abandono. E uma atitude que devemos aprender com a Virgem Maria. enquanto Ele nos dá o Seu maravilhoso todo. A loucura bíblica consiste em darmos a Deus tudo o que nos pertence e Ele dános em troca tudo o que é Seu. Ela. pois é Ela o nosso modelo. . Nós damos o nosso miserável todo.

Quando .CAPÍTULO 2 A "VIRTUDE" DO HUMOR A SERVIÇO DA FÉ Deus é infinitamente misericordioso. A Davi desculpou o adultério e o assassínio cometidos. torna-se a Seus olhos. é o fato de você se considerar alguém de grande importância. ridículo e absurdo. Há. e ao ladrão crucificado concedeu também o Seu perdão. uma coisa que impede Deus de derramar sobre você a Sua misericórdia e que Ele não suporta: é a sua intocável seriedade. Pode-se então dizer que condiciona Deus como que a cruzar os braços' porque com esse seu sentimento de importância. porém.4). perdoou ao publicano que era traidor e ganancioso. "Aquele que mora nos Céus ri-se" (SI 2.

O bom humor é o modo de ver a realidade pelo seu lado absurdo e incoerente. Temos mesmo um santo patrono do humor: Santo Thomas More. O jansenismo . B. sobre o humor enquanto comportamento religioso a serviço da fé e sobre a "teologia" do humor. acaba descobrindo como todas as suas pretensões de absoluta seriedade e de ser considerado aos olhos dos outros são verdadeiramente ridículas. Chesterton. Há também abundante literatura acerca deste assunto de autores como: G. ensinava . Escreveram sobre o valor religioso do cômico. F. Acontece que esta é muito necessária.K. para que em nós cresça a fé enquanto percepção do mundo na sua correta dimensão e nas suas justas proporções. Cornélio Jansen. O teólogo de Lovaina. Marshal. Sheed e ainda outros.você se vê à luz da fé. CS. A convicção da importância própria contrapõe-se fortemente a "virtude" do humor. heresia muito perigosa para a fé. Lewis.uma ameaça para a fé No século XVII apareceu o jansenismo.

Nas Igrejas influenciadas pelo jansenismo começou a reinar a tristeza. Segundo ele. Para poder recebê-la era necessária uma disposição que o cristão comum. normas de rigidez insuperáveis. mas somente por alguns eleitos. o terror. em geral. A Sagrada Comunhão tornava-se. . entre outras coisas. O homem começou a ter medo de Deus e só muito raramente ousava aproximar-se da Sagrada Comunhão. O jansenismo impunha. Esta visão pessimista da natureza humana associava-se à afirmação de que Cristo não morrera por todos os homens sem exceção. uma recompensa pela virtude e não um alimento para reforçar a fé e o amor. o medo. desse modo. Exigia-se total ausência de pecados mortais e veniais e um amor a Deus absolutamente puro. e uma delas referia-se à Sagrada Comunhão.então que o pecado original causava a completa corrupção da natureza humana tornando-se esta presa da concupiscência. não possuía. Deus apenas predestinava a Sua graça aos eleitos e destinaria os outros à condenação eterna.

na sua vida deveria predominar a tristeza motivada pela lembrança dos pecados cometidos. havia incluído no regulamento das suas pupilas a proibição de rir. Outra conseqüência do jansenismo é o terror a Deus. severo e implacável. Pelo contrário.A abadia cistercense de Port-Royal tornou-se o centro do jansenismo. por causa disso. O jansenismo foi repetidas vezes condenado pela Santa Sé. mas como um Senhor absoluto. mas Santa Teresinha de Lisieux sentiu ainda os seus efeitos na obrigatoriedade que tinha de solicitar uma autorização especial à superiora para receber com mais freqüência a Sagrada Comunhão. a irmã de Blaise Pascal. Naquele "Rosário" vinham salientados todos os atributos que separavam Deus do homem. Segundo as idéias jansenistas. Deus era apresentado. tão freqüente na vida dos cristãos . inacessível. o cristão tinha de ser um pecador em permanente penitência pelos seus pecados e. Uma das monjas compôs o "Rosário ao Santíssimo Sacramento” que exemplifica bem a atmosfera que reinava no convento. não como um Pai cheio de Amor e de Misericórdia. não podia permitir-se estar alegre. Mesmo um simples sorriso era mal visto. A superiora do pensionato feminino de PortRoyal.

desviando a atenção de si mesmo. A alegria cristã proveniente da fé é como um reflexo do amor de Deus. no qual podemos nos apoiar e abandonar. Quando você se depara com uma vaga de . aquele mal que o nosso arrependimento pode transformar em "falta feliz". Ora. Esta fé o leva a sorrir para Deus. O humor como "exorcismo" A "virtude" do humor. perante o próprio mal. é um recurso que no contexto religioso pode ter valor de "exorcismo". lhe permite viver na alegria que brota da fé. essa capacidade de ver o mundo sob o ângulo do absurdo. a viver no alegre gozo do Seu amor. A "virtude" do humor lhe permite combater o veneno da tristeza que Satanás se esforça por infiltrar na sua alma. pois era visto em Deus apenas um juiz a exercer a Justiça.contemporâneos. ao contrário. A fé assim vivida suprime também a atitude do fatalismo dramático. a fé cristã exprime-se mais plenamente na jubilosa descoberta do amor pessoal de Deus. Além disso. enquanto o induz também a olhar a sua seriedade com uma certa ironia e numa perspectiva de humor.

Não é permitido atingi-lo ou escarnecê-lo. quando. que é o seu próprio "eu". Também este é um ídolo mortalmente sério e intocável. não lute com o diabo. ou quando se vê atormentado por um turbilhão de pensamentos obsecantes. você repele o seu ataque do modo mais eficaz. então. porque suporto tão mal os meus fracassos e as minhas . tem horror da zombaria.tentações. Zombando do diabo. porque razão considero que os meus assuntos são os mais importantes. O sentido cristão do humor o ajudará também nos seus confrontos com o outro adversário. A zombaria é o golpe mais certeiro que você pode infligir a Satanás. Na luta contra o nosso "eu". menosprezá-lo. pois ele é mais forte que você. o humor tornase. mas também um ato de fé. Procure antes zombar dele. não só um método religioso. pois ele. que é de uma seriedade mortal. dizendo: na realidade sou um pequeno "nada". nem sequer suporta ser ofendido ou criticado. Porque faço. Um soberano absoluto. procura ver o seu "eu" em verdade. ao olhar para si mesmo. de mim o centro do mundo. Faça uso desse exorcismo que é o sentido religioso do humor. logo será compelido a afastar-se.

Cinza e pó O humor é um recurso terapêutico de valor religioso. O humor cristão é um processo eficaz para destronar o ídolo do seu "eu". me assustam e me atormentam são absolutamente ridículas. parecerá ridículo e despido de qualquer máscara. face à única realidade importante. Quando você se der conta da comicidade de situações nas quais o seu "eu" se instala no trono.dificuldades. Eis o motivo pelo qual o recurso religioso ao humor desempenha igualmente um importante papel na conservação do equilíbrio mental do homem. aquilo que o ameaça e angustia. ou ainda. A sua vaidade e o seu orgulho serão desmascarados e aquilo que em você é pretensão de grandeza. que é Deus. revestindo-me de uma seriedade mortal? Bastaria apenas olhar tudo isso com uma pitada de indulgência. graças ao qual você será capaz de dizer para si mesmo: "Que absurdo! . pelo menos por um certo tempo esse tipo de situações surgirão ridicularizadas e serão inofensivas a você. para ver que todas essas coisas que me preocupam.

nas suas justas proporções. Repare que você não é mais do que um pequeno grão de areia i( y como escrevia Santa Teresinha . Pode não ser fácil. pois a "virtude" do humor exige. essas duas realidades: Deus e você. Procure ver a sua vida à luz da fé. essa tática permitirá a você ver mais facilmente. verdadeiramente. com esse procedimento. nem importunarse ou inquietar-se. tudo isso não é mais que poeira e lixo. No fim das contas. mas ainda. procure fazer humor consigo mesmo. de você o centro do mundo. Terá também oportunidade de ver claramente que Deus é o que é. inúmeros desgostos. Por meio desse reconhecimento você é purificado do egoísmo e a sua fé sairá fortalecida. minha irmã" — exortava a Santa — "para que o grãozinho . por vezes. não só estarei acumulando.Preocupandome desmedidamente com coisas de nada. "Reza. Não faça.um nada pequeno com o qual não vale a pena ocupar-se excessivamente. em conclusão. arruinando a minha própria saúde. importante na sua vida. portanto. não se possui qualquer valor". autêntico heroísmo. Mas.

e o capacita. a política e tudo o que se passa no meio em que você vive. supremo valor. Tudo isso em comparação com Deus. simplesmente de bem pouca importância. É nesse espírito que começa a liturgia de Quartafeira de Cinzas. você poderá se abrir mais amplamente a Deus. Pó. para reconhecer que tudo o que se passa ao seu redor é. ( cf. Carta à Inês. criando em . tudo aquilo que muito acalenta. julho-agosto 1889) O sentido cristão do humor liberta você de si próprio. Permite reequacionar à luz da fé todos os seus valores. Permitirá a você desmascarar os valores ilusórios: o seu trabalho. Não só você é pó. portanto. tudo. os seus projetos e as suas dificuldades. à exceção de Deus.de areia se possa tornar um átomo. ainda. bem como o que o assusta. é em conclusão. algo ridiculamente insignificante. unicamente sensível. em cada Quaresma. Graças à "virtude" do humor. quando o padre impõe as cinzas sobre as cabeças dos fiéis dizendo: "Lembra-se de que é pó e em pó há de se tornar". ao olhar de Jesus". mas também é pó tudo aquilo a que está preso. cinza e pó.

cap. porque estará então mais apto a ver todo o resto nas suas devidas proporções: pó e cinza. sentiu-se repentinamente livre e foi como se o mundo inteiro se tivesse. flanqueadas por torres nos seus ângulos. "Quem viu o mundo inteiro suspenso pelo fio da misericórdia de Deus. A pessoa que viu a hierarquia completamente virada de cabeça para baixo.K. virado às avessas. Chesterton. viu-a à luz adequada. (G. Quem teve a visão da cidade natal de cabeça para baixo. deitou tudo aos pés do pai.você mais espaço para Ele. 5) O mundo de Francisco de Assis . A conversão de São Francisco de Assis pode também ser vista neste plano. esboçará sempre um ligeiro sorriso diante das suas prerrogativas". Será. Assis. contornada de muralhas.o seu país e a sua pátria eram em suma. então. viu a verdade. São Francisco de Assis. para seguir o chamamento de Deus. A sociedade de . possível a você ver tudo na perspectiva do absurdo. pequena cidade feudal rodeada por um fosso. de certa forma. Quando.

as forças humanas mostravam-se pequenas e insignificantes até à gargalhada. composta de vários grupos sociais subordinados uns aos outros e que se tomavam muito a sério: os notáveis da cidade. Da vontade de Deus jamais se pode rir. naquele tempo. tornava-se. Francisco compreendera que a realidade importante e digna de respeito para a qual valia a pena viver era uma só: Deus e a Sua vontade. aos olhos de Francisco todo esse mundo se inverteu por completo. com toda a confiança. ater-se àquilo que é verdadeiramente importante. estremecesse e se desmoronasse definitivamente. Tudo aquilo. E. só se pode amá-la. a burguesia e os camponeses. E preciso. de nobres. Em face de Deus. por assim dizer. num ápice. Bastou um gesto para que a importante Assis. Você cai . a nobreza. esse mundo respeitável de gente notável.Assis. encarado por Francisco na perspectiva do absurdo. como criança. Na base da maioria dos pecados reside a inabalável convicção da própria importância e uma seriedade imutável. apresentando-se-lhe como algo ridiculamente insignificante. de senhores. estava estruturada como uma rígida pirâmide. cinza e pó.

que reagiam com agressividade diante das críticas. graças a isso." (cf "Introdução à Fé" y cap. O farisaísmo é também uma negação da atitude de infância proposta no Evangelho. De tal forma estavam convictos da sua respeitabilidade e importância.no pecado porque se sente imensamente importante. O humor póe a descoberto o ridículo das nossas pretensões à importância. entre . O farisaísmo é o contrário da simplicidade que se caracteriza pela liberdade decorrente da vida e da visão de si próprio segundo a verdade. "A rejeição desta importância.escreve W. são das acusações mais sérias atualmente dirigidas aos cristãos. Kasper . Ao contrário. e tão agarrados à própria visão do mundo e de Deus."torna-nos aptos a viver uma existência serena e verdadeiramente humana. a falta de sentido de humor e a irritação que com freqüência a acompanham. permanece livre da convicção da própria importância. Devemos ter presente que o pecado contra o Espírito Santo consiste. segundo o humor cristão" . 7). que reconhece a própria fraqueza e que. Os fariseus eram também pessoas com um mortal sentido da sua importância.

permitindo-nos ver a realidade humana e a divina nas suas justas proporções. Esse distanciamento permite-nos reordenar os valores de modo a que a nossa vida e os nossos assuntos deixem de ser o mais importante.42). Permite ainda evitar a agitação. as preocupações exageradas. expressas no princípio paulino de que é preciso usar as coisas deste . a absorção excessiva pelo trabalho. em não haver por parte do homem. possibilitanos atingir um maior distanciamento. nem a de querer reconhecer a fraqueza própria.outras coisas. A fé sustentada pelo humor pode te levar aos cumes do desapego e da liberdade bíblica. para escutar o chamamento de Cristo: "Uma só coisa é necessária" (cf. um acrescido desprendimento. O sentido de humor sobrenatural. permite-nos assim viver mais segundo o Evangelho. Lc 10. O distanciamento em relação aos acontecimentos e a nós próprios. e abre caminho para uma liberdade maior. Graças à "virtude" do humor as derrotas e os fracassos não chegam a adquirir a dimensão de catástrofes. obtido graças ao sentido de humor. nem a vontade de reconhecer a verdade sobre si mesmo.

os que choram como se não chorassem. com a mínima coisa. falando de si própria. os que usam deste mundo. E imprescindível a todos os sensíveis. Exprimia dessa forma a sua "atitude de criança". como se não possuíssem. nos sentirmos ofendidos. que era um grãozinho de areia . e ainda por sermos extremamente sensíveis e susceptíveis no que nos diz respeito. São João da Cruz também o encoraja: "Procede de tal sorte que as coisas temporais não representem coisa alguma para ti e tu nada para elas" ("Avisos e Máximas — Ditos de Amor '92). atitude na qual não havia o mais leve vestígio daquela gravidade mortal que está na base de tantos dos nossos pecados.um ínfimo "nada". melindrados. os que compram. os que se alegram. como se dele não se usassem" (ICor 7. Dizia Santa Teresinha do Menino Jesus. o sentido libertador do humor que os libertarão de si mesmos. Para a pessoa . Com efeito. hiper-sensíveis e susceptíveis. a maior parte dos pecados que cometemos contra os nossos semelhantes advém precisamente do fato de.29-31). como se não se alegrassem.mundo como se não as usássemos: "Os que têm mulher vivam como se não a tivessem.

Procure observar-se a si mesmo. na verdade. desavenças e mal-entendidos com um pouco de humor. quanto haveria de crescer a nossa humildade. ao contrário. a nossa fé e o nosso amor! A luz da fé. deve ter um extraordinário sentido de humor. Se. esta a mais eloqüente expressão do Seu extraordinário sentido de humor? O santo patrono do humor Nos santos. e a tudo quanto o rodeia. com efeito só de uma realidade verdadeiramente importante não nos é lícito gracejar: de Deus. a "virtude" do humor atingia por vezes tão elevado grau de heroísmo que brilhava. como tantas vezes o que vive é digno de riso e de dó. Procure imitar Deus que.hiper-sensível em tudo o que lhe diz respeito. então. Você verá. pois. se deixássemos que se rissem um pouco de nós. pode converter-se num drama de enormes proporções. Tente encarar-se com um sorriso e ria de si próprio. com menor seriedade e mais à luz da fé. pro-curássemos reagir a todos estes conflitos. Basta pensar que Ele o escolheu como colaborador na grande obra que realiza. até o pormenor mais insignificante. Não é. mesmo em momentos de forte .

. A atmosfera era densa. em lugar de ser torturado acabasse por ser decapitado. senhor Tenente. mesmo na sua santidade. Que dito cheio de humor em face da sua própria morte! O rei Henrique VIII proibira-o de falar. tinha nas pessoas. Thomas More disse então ao oficial que presidia à execução com ar grave: "Ajude-me. Esse santo temia certamente as atrocidades e as torturas que lhe anunciavam. então. a subir. Um homem com autêntico sentido de humor religioso é até temido pelo diabo. Antes de subir ao cadafalso. Thomas More. decerto conheceu como nós as angústias que nascem subitamente na esfera psicofísica e das quais ninguém está livre. se cair ficarei desamarrado". imagina. humano como era. aproximou-se dele o filho banhado em lágrimas a pedir-lhe que o abençoasse. dificilmente suportável e para aliviar a tensão tornava-se necessário o recurso religioso ao humor. pois. e nem mesmo o nosso Salvador esteve. mais tarde. se bem que.sofrimento ou em face da morte. mesmo perante a morte iminente. porque sabia do impacto que alguém capaz de conservar o sentido de humor.

Era mesmo preciso ter uma alma de criança e agarrar com muita força a mão do Pai para ser capaz de brincar mesmo com a própria morte! Fê-lo um homem que para obter o sentido de humor. nem as murmurações. o condenado ajoelhou-se e depois de breve oração dirigiu-se ao carrasco dizendo-lhe serenamente: "Coragem. A vida de Sir Thomas). a nossa morte não tem importância. não tenhas medo de cumprir o seu dever. . bom homem. a sua reputação" (W. Roper. com efeito. assim. mesmo perante a morte. única realidade pela qual vale a pena viver. que se chama "eu". aos olhos de Deus. nem os suspiros. decerto rezara. freqüentemente.por Henrique VIII! Sem qualquer discurso. E que. Como tenho o pescoço curto toma atenção para não golpeares mal e perderes. Estas foram as derradeiras palavras de Thomas More. assim: "Peço-Te que me concedas uma alma que não conheça o aborrecimento. soubera ver-se a si próprio e à sua situação. Soubera gracejar consigo mesmo. sob o ângulo do absurdo. nem os lamentos e não permitas que gire demasiado em torno desse algo que sempre quer imperar.

" . Amém. para que saboreie nesta vida um pouco de felicidade e possa partilhá-la com os outros. concede-me o dom do sentido de humor.Senhor. Dá-me a graça de me conhecer por entre risos.

Deus não aceita que você se apóie na força das suas práticas. Deus quer que através das provações o homem seja despojado de tudo aquilo que. pelo crisol das experiências e das tempestades. A fé autêntica é a fé privada de todos os suportes naturais. a fé deve ser posta à prova. isto é. para a fé. deve passar pela peneira das provas. fundada unicamente na educação. as experiências sensitivas ou imaginativas: crer é alicerçar-se unicamente em Deus e na Sua palavra. cede perante as dificuldades. nos sentimentos e em certos hábitos.CAPÍTULO 3 AS PROVAS DE FÉ Para se fortalecer. os sentimentos. . A fé superficial. que não é o apoiar-se e abandonar-se exclusivamente a Ele. tal como a compreensão. é apenas um suporte. de tudo aquilo que não é a adesão autêntica a Cristo.

Ele permite. cuja diversidade depende da variedade de coisas em que esta se apóia para além de Deus. ou nas suas experiências. Se você alicerça a sua fé na compreensão natural. com o tempo. a um certo momento. autêntica e.nem nos seus sentimentos. Você deve passar por estas dolorosas purificações para chegar à fé pura. na satisfação e nas experiências de alegria que nascem da oração ou de outras práticas religiosas não poderá. leigos ou sacerdotes. Se acaso você baseia a sua fé em certas pessoas. no comportamento deles. à verdadeira contemplação. que a sua fé seja submetida a provas. virá o momento em que isso deverá vacilar ou mesmo desabar. portanto. então. será preciso que um dia desapareçam todas as luzes do seu entendimento e. A espera de Deus . aquilo em que acreditava começará a já não ter qualquer sentido. Se você a fundamenta nos sentidos. surpreender-se quando chegar o tempo em que experimente a secura e a rejeição dessas práticas.

Deus como que o provoca a despertar em si atos de fé. podem fazer crescer a nossa sede de Deus. O grau de intensidade dessa expectativa do Senhor testemunha a nossa fé no Seu poder e no Seu amor. quando não o é. Deus tem os Seus métodos para animar a expectativa da Sua vinda e das Suas novas graças. deve crescer continuamente. torna-se um amor desprezado.Colocando o homem perante situações difíceis. E um processo que se realiza não só graças ao seu esforço de esperar o seu Senhor. Deus pode. A nossa expectativa de Deus jamais seria suficiente. por exemplo. Deus não quer se apresentar a nós como um intruso. O Amor quer ser esperado e. Neste sentido a fé é uma expectativa. que nos levam a tomar consciência da nossa fraqueza. suscitar alguma inquietação . Porém. A intensidade da sua expectativa d'Aquele que deseja vir até você e que quer ser acolhido. Esses meios divinos podem dividir-se em duas categorias específicas: para despertar nos nossos corações o desejo da Sua vinda. pois é a graça que aumenta e que aprofunda a sua ânsia de Deus. mas é sobretudo resultado da Sua Graça. Tais situações.

um filho caído no álcool. A todos esses problemas ou dificuldades que Deus provoca. como o seu casamento à beira da ruína. quando você experimenta a sua incapacidade para resolver determinada situação e a desorientação que isso provoca. ou que tenha perdido a fé. os pecados que você continua a cometer. Pode também tratar-se de problemas de saúde. quando ela começa faltar. pode Ele permitir ou fazer mesmo. ou que porventura não tenha se casado na Igreja.estimulante ou uma necessidade muito forte. com que você passe por difíceis provas de fé nas quais se sentirá incapaz de enfrentar ou de resolver os seus problemas. ou ainda problemas familiares. pelo contrário. a você ou a algum daqueles que lhe são queridos. a fé expressa-se pelo desejo de Deus e o seu desenvolvimento manifesta-se num contínuo aumento da expectativa e da fome de Deus. Nesses casos. Poderão ser problemas de natureza moral. Outras vezes. naturalmente o predispõem muito mais a ansiar e a esperar a Sua vinda. ou permite que surjam . como por exemplo. É uma oportunidade que lhe é oferecida para desenvolver e para aprofundar a sua fé.

Quanto mais desnorteado e esmagado por toda a espécie de dificuldades. mais necessidade terá do médico. Deus. pode submeter-lo a provas muito difíceis. você conhecerá a chamada espiritualidade dos acontecimentos a lhe dizer que cada um deles é uma passagem de Deus e que determinadas passagens Suas destinam-se a despertar em você o desejo da Sua Presença. basta que creia no Seu Poder e no Seu infinito Amor. E que Deus pode querer o seu total desenraizamento para que. Quanto mais doente você se sentir.na sua vida. mais crescerá em você o desejo da vinda d'Aquele que pode ajuda-lo. . pode lhe retirar muitas coisas e lhe despojar totalmente. só d'Ele você possa esperar a ajuda salvadora. ao querer que você alcance toda a profundidade da fé. Basta que creia que Ele quer dar tudo aquilo de que você necessita. que envolve na graça da Redenção todos os seus problemas e o salva. podemos chamar "provas de fé" e a sua finalidade é a de suscitar em você um desejo ardente de Deus. da Sua ajuda e da Sua intervenção salvífica. carecido das seguranças humanas. Considerando todas essas coisas à luz da fé.

assim. O primeiro chamamento divino na revelação bíblica apresentou-se do seguinte modo: "Deixa a sua terra. havia de crescer a sua fé. precisou ter mais atenção à escuta da palavra de Deus.A fé de Abraão O santo patrono da nossa expectativa de Deus é o nosso pai na fé: Abraão. perto de Ur dos Caldeus. a sua família e a casa de seu pai e parte para o país que te indicar" (Gn 12. na história da humanidade. Nasce.1). Apareceu este na seqüência do chamamento pessoal de Deus e como resultado do . enraizado em Harã. Desse modo. E Abraão. progressivamente. após ter deixado a terra de seu pai. E. depois de se ter despojado de tudo aquilo que poderia constituir a sua segurança. fez como o Senhor lhe havia dito. a apoiar-se na vontade de Deus e a interrogar-se acerca do que Deus esperava dele. um fenômeno novo: o acontecimento da fé cristã. quando Abraão começou. Qual foi a atuação de Deus para suscitar em Abraão a atitude de expectativa? Foi a de desenraizá-lo.

pois Abraão era já de idade avançada. não era uma promessa clara. Precisamente nisto consiste a grandeza da fé de Abraão. Abraão teve que acreditar em . Abraão recebeu a promessa de um país.) para o país que te vou indicar". O nosso nascimento para a fé. Deus é o Deus da promessa e da bênção. mas Abraão não viu esse país. Diz Deus: "Parte (..despojamento existencial do homem. A realização desse nascimento será o resultado de contínuas provações e dificuldades que podem chegar a situações de risco e de falta de apoio. fazendo amadurecer o homem de fé. Do ponto de vista humano.. de uma descendência e de uma particular bênção de Deus. porque não existia nenhum país disponível à espera da sua chegada. mas entregou tudo nas mãos do Senhor. Abraão não sabia como se cumpriria a promessa de Deus. No entanto. tudo parece irreal. tampouco será um processo fácil. resultantes do despojamento. pois estava como que encoberta por uma certa escuridão. A fé de Abraão e o seu abandono a Deus nasceram do fundamento do seu desenraizamento e da sua perplexidade. A questão da sua descendência é também pouco clara e mesmo um pouco vaga.

de alguém muito querido e que. tanto mais Deus há de esperar e exigir de nós. Quanto mais uma promessa divina for desprovida de realismo. deveria constituir o seu maior tesouro e o seu maior valor. se manifestava impossível. Ao chegar à terra prometida. encarado humanamente. ou seja. O passo mais forte para o aprofundamento da sua fé deverá se produzir. Era uma situação incontestavelmente difícil. de uma ou de outra maneira. enfim. a situação provocada por aquela terrível ordem. de se decidir a mostrar que a . então. quando Deus lhe. do improvável. Tinha. Seria para ele um longo processo de crescimento contínuo na fé. do ponto de vista humano.algo que. pede o sacrifício do filho. Abraão não obterá de imediato a sua posse. permanecerá sempre um estrangeiro. A promessa feita a Abraão era tão pouco provável que este deve ter confiado em Deus como o Senhor do impossível. Abraão deveria estar suspenso na expectativa de que Deus fosse resolver. e tanto maior será o mérito da nossa resposta confiante. em condições dramáticas.

sua confiança era sem limites. As exigências colocadas por Deus à fé de Abraão, que atingiam profundamente os seus sentimentos paternais, para com o seu único e querido filho, feriam o seu maior amor, atingiram também fortemente os próprios fundamentos da sua fé de então. Com efeito, Abraão tinha acreditado que, daquele filho, viria a nascer numerosa descendência, o que fazia supor que o que Deus lhe estava a pedir parecesse ainda mais absurdo: aquele de quem haveria de nascer a numerosa descendência prometida deveria agora perecer. Deus fazia-lhe uma exigência tão grande porque lhe queria oferecer um dom extraordinário: queria elevar ao mais alto grau o seu abandono. A prova a que foi submetida a fé de Abraão, não era um teste, Deus sabia como ele reagiria, destinava-se antes a suscitar nele a confiança no meio da escuridão, e a fazê-lo avançar para Si na sua peregrinação de fé. As situações mais difíceis são assim particularmente privilegiadas, pois reclamam da nossa parte decisões amadurecidas. Ora, a fé desenvolvese através das decisões pelas quais o homem se submete a Deus na "obediência da fé" (cf Dei Verbum 5).

O mesmo acontecerá também na sua vida, pois Deus, porque o ama, quererá por vezes colocá-lo em situações difíceis. Ele permitirá, ou causará, que você se sinta muito mal em certas situações, que nelas se sinta em grande dificuldade, que não as possa solucionar e tudo isso para que comece a ansiar pela Sua vinda, e para que A deseje. E um meio de impedi-lo que fique em marasmo espiritual. As provas de fé que porventura venha a enfrentar serão assim um meio de forçá-lo a uma posição definida: ou você não responde às expectativas de Deus e a sua fé começará a retroceder ou, à semelhança de Abraão, tomará a decisão de segui-Lo nas trevas do abandono. Assim, a sua fé há de crescer e com ela crescerá também a sua sede de Cristo e da Sua Redenção, tal como a ânsia da Sua Graça. E o Espírito Santo poderá descer ao seu coração, proporcionalmente à intensidade da sua sede d'Ele.

As provas de fé na vida da Virgem Maria
Mãe A Igreja inicia o ano civil com um dia dedicado à de Deus.

Vem nos apresentar, no dia de Ano Novo, a figura daquela que nos "precede na peregrinação da fé" {Lumen Gentium 58). Dia após dia, na vida de Maria, cumpria-se a bênção pronunciada por Isabel: "Bendita Aquela que acreditou" (Lc 1,45). A Igreja vê nela o exemplo mais perfeito da nossa fé. A Virgem Maria vai adiante de nós, precede-nos "na peregrinação da fé", como se antecipasse os nossos passos e a nossa caminhada; mas Ela está constantemente junto de nós. No pensamento conciliar, a Mãe de Deus nos é apresentada como aquela que ocupa na Igreja o lugar mais elevado mas, simultaneamente, o mais próximo de nós. Neste sentido, se poderia dizer que chegamos a prejudicar a Mãe de Deus se nos limitamos a falar dos Seus méritos e a enaltecê-la, pois estamos, desse modo, a criar um distanciamento entre ela e nós. Fala-se demasiadamente nas suas glórias e extremamente pouco no fato de que Ela é o nosso caminho no contexto de uma vida centrada em Cristo, No caminho da fé a ser percorrido, Maria é o nosso caminho, no sentido de que nos precede e nos indica o itinerário. Tudo o que nós experimentamos, neste

caminho, ela já o viveu, razão pela qual a resposta aos nossos problemas, encontramos olhando para a sua vida. Quando nos limitamos a exaltar Maria e a falar dos méritos da Mãe de Deus fazemos do mesmo modo que os hagiógrafos procederam com os santos. Alguém disse que os santos sofreram mais com os hagiógrafos do que com os seus perseguidores, pois aqueles eliminaram da vida deles todo o traço humano, tornando-os, tantas vezes, figuras piegas e sem vida. Não basta, portanto, prestar homenagem à Virgem Maria, venerá-la e colocar-lhe uma coroa sobre a cabeça. Isso são, por assim dizer, "meios ricos", meios que ela nunca utilizou durante a sua vida. Amar a Virgem Maria significa imitá-la, segui-la, pois ela é aquela que nos precede, é para nós o modelo da fé. Se vemos que Deus reduz a nada os nossos projetos e nos conduz por um caminho diferente daquele que tínhamos imaginado, lembremo-nos que está agindo conosco como o fez na vida da Mãe de Deus. Também ela imaginara de maneira diferente o seu caminho de santidade e a sua missão. Aquela que renunciara a ser mãe foi chamada a

uma maternidade extraordinária e tal chamamento deitava por terra todos os seus projetos. Ao pronunciar o seu "sim" no momento da Anunciação, Maria não vislumbraria plenamente toda a extensão do seu consentimento. Mas isso não veio diminuir em nada o valor da sua aceitação, que toda a vida havia de confirmar num ininterrupto "Sim". Deus amou de tal modo a Virgem Maria que propositadamente escolheu um modo tão duro de a tratar. Sabemos que é assim que trata os Seus amigos, por ser esse o melhor método para moldar o homem à imagem de seu Filho. Vejamos como é que Deus modelou a fé de Maria, que tipo de "furacões" irromperam na vida dela e que difíceis provas foram as suas. A princípio, pouco depois do seu "fiat", depois de ter recebido o anúncio do Anjo de que havia de conceber e de dar à luz o Filho de Deus, deuse conta de que José nada sabia. Foi a primeira tragédia daquelas duas pessoas. Maria e José, não sabendo como fazer, devem ter sofrido muito. Devia ser perturbador para José tomar conhecimento de que Maria estava grávida e também para ela, logicamente, devia ser um tormento.

Naturalmente que Deus poderia facilmente explicar a José o que se estava a passar. Naqueles dias, a Virgem Maria punha-se, constantemente a seguinte questão: "Que devo fazer?" Decerto foi um período difícil e cheio de escuridão. A fé não anula a obscuridade mas, pelo contrário, pressupõe-na. Nesta realidade se oculta o sentido profundo da fé. A Mãe de Deus, vivendo na fé, passava, simultaneamente, por densas trevas. Era, portanto, submetida a provas de fé, muitas vezes, excepcionalmente difíceis. Uma delas foi o nascimento de Jesus em Belém. Naturalmente que para qualquer mãe prestes a dar à luz, o momento e o local do nascimento são da maior importância. A mulher que está para ser mãe quer dar à luz num bom local em condições dignas e isso é um direito fundamental. Maria não poderia ter tido o mesmo desejo também? No entanto, isso não lhe foi concedido. Uma vez que Jesus deveria nascer em Belém, não teria sido mais simples prevenir José? Com efeito, já que uma vez tinha recebido indicações durante o sono, não poderia recebêlas novamente: "Vai para Belém pois lá há de nascer o

os Anjos apareceram aos pastores que cuidavam dos rebanhos e não a Maria. então. Seria justamente por causa dessa situação que Jesus havia de nascer em circunstâncias em que era total a ausência de segurança humana. No momento do nascimento de Jesus.Menino"? Em vez disso. Uma prova de fé muito dura. mas em resultado de circunstâncias particulares originadas pelo recenseamento geral da população. Que fácil teria sido. Deus decide de maneira diferente. precisamente. ceder à tentação da incerteza e da angústia! Foi. Pouco depois. houve um novo "abalo de terra": a perseguição de Herodes. com a chegada dos Magos. será impossível a eles encontrar qualquer lugar. O Menino nasceria. naquele difícil contexto de prova de fé que o Menino veio a nascer. que poderia ter levantado a seguinte objeção: "Por que razão se . mensagem ou anúncio. em Belém. O Anjo apareceu à Virgem Maria apenas no momento da Anunciação e depois não voltou a haver qualquer outra informação. de fato. Por causa da multidão dos que chegaram.

mas que Maria guardava todas aquelas coisas no coração. aquele que foi pronunciado aos pés da Cruz. Diz-nos o Evangelho que quando o encontraram não foram capazes de compreender o que lhes dizia. Normalmente a pessoa de vida espiritual . ei-los obrigados a fugir para terras desconhecidas onde não tinham qualquer apoio humano.cala Deus? Por que não intervém para defender o Seu Filho? Por que parece impotente perante a tirania de Herodes?". se demorou no Templo sem prevenir os pais. a Mãe de Deus y tinha que aprender a interpretar de modo correto os acontecimentos. Por que Jesus não quer explicar-lhe nada? A razão está no fato de que ela. Deus nada Lhe simplificou na sua vida. Enfim. Maria passou por outra penosa prova de fé quando Jesus. Tudo deveria continuar a ser extremamente difícil! O "Sim" da Anunciação parece tão cheio de alegria e de facilidade em comparação com o último "Sim". aos doze anos de idade. E os momentos de trevas continuaram presentes na vida dela. devia aprender a "espiritualidade dos acontecimentos".

. O "fiat" de Maria aos pés da Cruz fez dela a Mãe da Igreja. que foi de todos o mais difícil. pronunciou um "Sim" que tem como que um duplo valor: . A Virgem Maria. Se o meu Filho querido deve sofrer e ser torturado. firme aos pés da Cruz."Que assim se faça em nós – n’LEle e em mim. Deus amou Maria de forma particular e excepcional e. declara-se pronta a fazê-lo. Este consentimento foi o supremo sacrifício. contudo. E bem mais difícil aceitarmos o sofrimento dos que nos são mais chegados e daqueles a quem mais amamos.muito avançada. que assim seja". a sua vida foi cumulada de tanto sofrimento! É precisamente assim que Deus trata todos os Seus amigos. quando se trata de oferecer-se e de se sacrificar a si própria. pelo contrário. pensa em como estás tão próximo daquela cuja vida foi tão difícil. A maternidade espiritual da Virgem Maria tem a sua origem neste "Sim". a Mãe de todos nós. Se você se sente completamente destroçado ou particularmente esmagado por qualquer acontecimento.

Há um relato bíblico que nos fala daquele encontro entre Jesus. Sendo este tipo de amor extremamente difícil de pôr em prática. não deseja sequer a mínima atenção para si.Quando Deus quer que não Lhe exijamos demonstrações da Sua ternura. Maria e alguns dos Seus familiares mais chegados. E esse é o amor ideal: quando o ser humano renuncia a si próprio para cuidar de outra pessoa. era o amor que Cristo exigia de Sua mãe.47). Jesus tratou. ajudando-o desse modo como pode. Vêm dizer-Lhe: "A Sua mãe e os Seus irmãos estão lã fora e querem falar-Te" (Mt 12. não o quer incomodar e procura por sua própria iniciativa encontrar todo o material necessário de que ele precise. trata-se. Sua mãe do modo como trataria unicamente alguém extremamente querido e digno da máxima confian- . Só pensa nele. Imaginemos um casal ideal. de uma Sua particular forma de amor e de confiança que Lhe permite agir livremente. que o ama muito. Sua mulher. na verdade. numa situação em que o marido se encontra muito ocupado por determinado trabalho. naquele momento. quando apagando-se.

desse modo. os despojamentos podem converterse em alegria e felicidade. contudo. Jesus parecer assim duro para com você.ça. Poderemos dizer que uma vida assim é muito difícil? Sim e não. cada vez mais ao divino exemplo: seu Filho. pois são ocasião de . recusar o encontro: "Quem é minha mãe e quem são os meus irmãos?" {Mt 12. assim.48). para a pessoa que ama a Deus e que vive em comunhão com Ele. Sabia que Cristo contava consigo e que não precisava de se sentir na obrigação de lhe manifestar atenções. por vezes. Cristo sujeitava continuamente Sua mãe a provas ligadas ao despojamento e ela continuamente respondia "Sim". assemelhando-se. prova do seu total abandono a Deus. Se. que confia que não O desiludirá e não O abandonará. Aparentemente. o seu total e desinteressado amor. isso quer dizer que muito o ama. Pareceu. provando-Lhe. Essa ambivalência deriva do fato de que. Para Maria aquela dureza era como que expressão da maior confiança que Seu Filho depositava nela. porém tratava-se justamente de uma das suas provas de fé. Cristo parece ter sido muito seco para com Sua Mãe. Maria nunca foi obstáculo à missão apostólica de Jesus.

Quer o silêncio. Se Ele não lhe dá sinais da Sua presença é porque deseja que confie. quer a ausência de Jesus são sempre apenas aparentes. à Santa Teresa d'Ávila Jesus disse o seguinte: "Nas ocasiões em que mais te parecia estares só. aconteceu que uma enorme multidão dos que O escutavam resolveram deixá-Lo porque lhes parecia que Jesus exigia . Com efeito.declarar a Deus o próprio amor e de Lhe manifestar a própria fidelidade. Certa vez. E precisamente quando você se sente muito só. Se. Certamente que. você passa por momentos penosos e difíceis nos quais Deus parece calar-Se. era quando Eu estava mais perto de ti". mais n'Ele. que o Senhor está mais próximo de você. quando tudo parece demasiadamente difícil ou quando experimenta alguma forma de despojamento. porventura. permanecendo aparentemente silencioso e ausente fesus se expõe a um grande risco. Muitos O abandonam em tais ocasiões. recorde que esse silêncio de Deus não é senão uma forma diferente da Sua palavra e que a Sua ausência é apenas outra forma da Sua presença que incessantemente o envolve. sempre.

demasiado. Afastar-se de Jesus na seqüência de uma prova de fé é um fenômeno que se repete freqüentemente. Algumas pessoas, confiando em Deus, saem dessas provas fortalecidas, enquanto outras, pelo contrário, se afastam. A atitude da Virgem Maria, face a provas de fé tão difíceis, é para nós como que um espinho na consciência. Na vida dela, todas as provas de fé contribuíram para um abandono a Deus mais profundo. Apesar de ter passado através de tantas provações, Maria jamais desiludiu Deus. Nela não houve divergência entre o modelo e a realização. O ideal de Deus realizou-se na vida dela em toda a plenitude, de tal forma que Maria se tornou obra-prima de Deus, a mais perfeita encarnação dos Seus desígnios. Nós, ao contrário, estabelecemos constantemente um divórcio entre a fé e a vida, entre o que dizemos e o que fazemos, entre o ideal e a sua realização. Na seqüência das provas de fé, retrocedemos ou nos afastamos mesmo. E neste contexto que podemos dizer que a Virgem Maria é, para nós, um 'espinho' na nossa consciência. Maria, modelo do abandono, pode ser chamada Nossa Senhora da

Aceitação, ou Mãe do Abandono, porque dizia sempre a Deus: "Que em mim se cumpra a Sua palavra". O acontecimento mais importante da história do mundo cumpriu-se nas trevas da noite em Getsêmani: esse acontecimento foi o "Sim" pronunciado por Cristo ao Pai. Também na sua vida, os acontecimentos mais importantes se dão quando você escolhe o caminho da aceitação, como a Virgem Maria. No caso dela, a aceitação abrangeu toda a sua vida e da mesma maneira tem que suceder na sua vida. As anunciações contínuas de que se compõe a sua vida devem ser compreendidas por você como apelos da graça de Deus e como provas de fé. O tempo é um valor inestimável pois é presença de Deus. O momento presente constitui para você um chamamento e uma prova para a sua fé, enquanto que para Deus é expectativa: "Me dirá sim?" O essencial do Cristianismo está em dizer continuamente a Deus: "Seja feita a Sua vontade."A Mãe de Deus repetia sem cessar estas palavras. Se poderá amar mais?

A Virgem Maria foi sempre cheia de graça e contudo nela a graça não cessava de crescer. A sua fidelidade e o seu abandono fizeram desta alma excepcional um receptáculo que, embora estando já repleto de graça, tinha capacidade para receber sempre mais. Não é porventura um paradoxo? Deus ampliava, incessantemente, o coração dela e cada nova prova de fé e cada um dos seus "sim" contribuíam para o seu crescimento em graça. A vida da Mãe de Deus, ainda que fosse simples e comum, foi santificada por esse contínuo "fiat". Se existe alguma distância entre nós e Maria é sempre por nossa culpa, pois somos nós que a tornamos distante e inacessível. E essa distância é denunciadora da nossa mediocridade, da nossa frivolidade, de sermos conformistas e de termos receio de nos abrirmos sem reservas à graça de Deus. E muito mais cômodo para nós dizer: "Ela foi concebida Imaculada, foi a Mãe de Deus, era diferente... Não estou à altura de imitá-la". Pensando deste modo buscamos pretextos e erguemos barreiras a Deus, que nos convida insistentemente a seguirmos as Suas pegadas.

Poderíamos querer perguntar qual a razão pela qual Jesus deseja tanto que sigamos o exemplo de Maria e que nos dirijamos a Ele percorrendo o caminho mariano. Encontramos uma das respostas a esta questão na radicalidade da Mãe de Deus - a radicalidade da entrega de si mesma a Deus - que Lhe permite entregar-Se a nós. O amor que Jesus dedicou a Maria foi extraordinário e excepcional. Amou-a mais do que a qualquer outra criatura precisamente porque ela soube dar-Lhe tudo. Tendo escolhido a virgindade, Maria veio a realizá-la não apenas no sentido da conservação da pureza em castidade, mas ainda no sentido do dom total de si mesma a Deus por amor e nisso consiste a realização da sua virgindade citada na Bíblia: uma virgindade que se exprime na firme vontade de viver em castidade para poder dar-se totalmente a Deus e viver assim exclusivamente para Ele. Aquela que desde o primeiro momento da sua existência se uniu com todas as forças da sua vontade e do seu amor ao Verbo Eterno, realizou na sua vida o mais alto ideal da virgindade. Maria, tendo-se oferecido a Deus, de modo perfeito e

sem limites, torna-se primeiro Esposa e, logo, Mãe do Verbo. Deus dá-Se à alma na medida em que esta se dá a Ele. Se considerarmos a dimensão do dom total que Maria fez de si mesma ao Verbo, não podemos, sequer, imaginar com que intensidade o Verbo a Ela Se entregou! Maria é o exemplo para aquelas almas que Jesus ama pela entrega total de si mesma. Se Jesus deseja tanto que nós também percorramos o caminho de Maria é porque quer que a nossa realização espiritual aconteça, modelando a nossa alma por aquele tipo de alma que Ele ama devido ao dom total de si. O Seu ardente desejo é o de encontrar almas que se assemelhem à Virgem Maria, no desejo de segui-Lo até às últimas conseqüências, permitindo-Lhe assim que derrame sobre elas as torrentes infinitas do Seu Amor e das Suas graças. O desejo ardente dessas almas é para Jesus "fome" que está sempre por saciar. Ele chama você a empreender o caminho de Maria para lhe revelar a imensidade do Seu desejo de você. Se quiser seguir o exemplo da Virgem Maria, se você se assemelhar

cada vez mais a ela, permitirá a Jesus, na medida do seu abandono, amá-Lo com o mesmo amor com que a amou. A Virgem Maria, apresentada como modelo da alma entregue a Deus sem reservas, exorta-O a realizar o ideal do radicalidade da fé.

As tempestades da vida
Tempos particularmente privilegiados para o crescimento da fé são os das tempestades que, por vezes, se abatem sobre a nossa vida. A tempestade no mar, descrita no Evangelho, simboliza de certa maneira a nossa situação quando nos momentos difíceis de provas de fé, variando o temporal de intensidade, temos a impressão que Jesus nos abandonou, que Se ausentou. Podem ser diversas as nossas tempestades: de tentações, de escrúpulos, de inquietações com o trabalho, tempestades que envolvem a saúde ou o trabalho profissional, ou ligadas a conflitos no matrimônio... Em face de uma tempestade há duas atitudes possíveis: a angústia, como foi o caso dos Apóstolos atemorizados; e a calma, simbolizada

Em cada situação de tempestade você deve imediatamente dirigir o seu olhar interior para o rosto sereno de Jesus. mas seria mesmo só cansaço? Se bem que na barca estivesse Jesus a dormir. Durante as nossas tempestades Deus parece dormir. pelo que. aos Apóstolos afigurava-se que tudo estava perdido. Jesus dorme. Numa situação que humanamente se apresenta trágica. Cada tempestade tem o seu sentido. O Senhor devia estar verdadeiramente fatigado. não te importa que pereçamos?" {Mc 4.38). tomados de forte tensão. A atitude de Cristo deve lhes ter parecido de tal modo estranha que até suscitou protestos: "Mestre. Eis que durante a tempestade se evidenciam duas atitudes: por um lado os rostos dos Apóstolos aterrorizados de medo e. pois é uma passagem de Deus que nos traz uma grande graça e. por outro lado. a calma estampada no rosto de Jesus adormecido. Poderíamos falar aqui de "teologia5 do sono de Deus.na pessoa de Jesus adormecido na barca. em que a barca batida pelas ondas está a ponto de afundar. em particular. de angústia e de pânico. a do abandono. . decidem acordá-Lo.

psíquica. mas isso não tem importância. Por meio da Sua atitude e do Seu repouso. Jesus não faz qualquer repreensão aos Apóstolos pelo fato de terem querido salvar o barco. se deva ficar na passividade. em que dormia profundamente. porque à barca em que Eu estou. acalmai-vos. E normal que nesta última sejamos freqüentemente sacudidos pelas inquietações. Esta é uma oração que se exprime pela calma em face do perigo. face a uma situação de perigo. quisera Jesus dizer-lhes: "Eu estou convosco. A atitude de fé é. ao mesmo tempo. O que é importante é que o medo que nasce na esfera emocional. mas também por gestos. nada pode suceder". como está carregada de sentido aquela atitude do sono de Jesus precisamente num momento dramático e de perigo iminente! Evidentemente que isto não significa que. uma oração de fé. reprova-lhes antes a falta de fé que os levou a sucumbirem à tentação do medo e até do pânico. O quietismo é contrário aos ensinamentos da Igreja. Na verdade. já que no âmbito psicofísico não podemos exercer uma direta influência. Deus não se manifesta apenas por palavras. .Na revelação bíblica. pela paz na esfera espiritual.

se arremessarem também contra a sua vida dirija o seu olhar para o rosto sereno de Jesus. Quando as tempestades. não devemos esquecer a contínua presença. o Senhor quer lhe dizer: "Esta tempestade há de passar. daquela que é a Mãe do nosso abandono. ou quando a nossa fé for posta à prova. com efeito. Se assim fizer. Peçamos-Lhe que nos ensine a viver num abandono como foi o Seu. deixando de confiar em nós próprios. A Sua presença é. nas coisas ou nas pessoas. apesar dos vários estados emocionais que possamos atravessar. a presença de um Amor e de um Poder infinitos. exteriores ou interiores.não contagie a nossa esfera espiritual. vai passar". pensamentos ou desejos. Aquele que é a nossa . Nos momentos de tempestade. que esse medo não provoque qualquer alteração na nossa atitude. compreenderá que você não está só e que com a Sua presença. para que. junto de nós. nos nossos atos. com certeza. possamos sempre ver junto de nós a presença de seu Filho. Só a fé na presença de Jesus junto de nós pode fazer com que permaneçamos tranqüilos.

Pecamos à Virgem Maria que. entrego-me a ti. nos abandonemos totalmente a Deus: "Mãe do Grande Abandono. perante alguma prova de fé . A inquietação proveniente da falta de fé Nem sempre as provas de fé têm como resultado a sua consolidação e dinamização.única segurança. Esses sintomas denotam a imaturidade da sua fé ou mesmo a ausência dela e. sem reservas". Fere-lo porque parece querer tomar nas próprias mãos as situações de . Defrontandose com as dificuldades. você resiste ao despojamento que estas implicam. na verdade. começará a vacilar e a sua vida passará a ser dominada pela inquietação. negações da própria existência de uma vida de fé. pela agitação e pelo stress. pela inquietação ou pela tensão.seja de um perigo ou de uma dificuldade — você se deixa dominar pela agitação. Se. sem dúvida. dá-se um retrocesso no seu abandono a Deus. a sua fé. seguindo o seu exemplo. você fere o amor de Cristo. Cada vez que.

consiste em confiar no Amor e no Poder infinitos de Deus. A fé. Por outras palavras. a dos seus sentimentos. Existem manifestamente no homem duas esferas que é preciso saber distinguir: a psicofísica e a espiritual. é como se pusesse Jesus de lado. Perante qualquer situação difícil ou perigosa. permanecer na esfera psicofísica você não fere Jesus.dificuldade para as resolver sozinho. como se Lhe dissesse: "Agora não posso contar Contigo. pois muitas vezes isso é impossível. Neste caso não se trata de eliminar o medo. ao stress e à inquietação. a inquietude e o nervosismo da esfera psicofísica. devo ser eu a resolver esta situação". O que se trata . invadam as suas faculdades espirituais — os pensamentos e a vontade — então sim. A partir do momento em que você cede à agitação. a inquietação e o stress invadem inicialmente a esfera psicofísica. e em você não há espaço para a fé. de fato. conta consigo mesmo. a agitação. Somente quando permite que essa inquietação e agitação provocadas por uma situação psicologicamente insuportável. pode-se falar em infidelidade e falta de fé. conducente à agitação ou à inquietude. Enquanto este tipo de tensão.

padecia de uma úlcera no estômago. que junto de nós está sempre Aquele que nos ama e de quem tudo depende. São Maximiliano Maria Kolbe. tendo então muito que lutar pela sua fé. o pânico na esfera espiritual. A virtude da coragem não consiste na total ausência de medo ou da inquietação na esfera psicofísica. de modo a que aí reine a paz decorrente da fé. na sua atitude. crendo que nunca estamos sós. o que nos leva naturalmente a pensar que a tensão nervosa não lhe foi desconhecida.é de evitar. freqüentemente associadas ao sofrimento. têm de ser aceitas por nós na consciência da proximidade de Cristo e na fé de que Ele há de sair vitorioso. Houve na sua vida períodos em que foi necessário impôr-se a calma em face do perigo. que é aquela que determina e forma as atitudes. Sabemos que também os santos se viram freqüentemente confrontados com as dificuldades. Devemos ter uma fé inabalável na presença junto de . Não é fácil conservar a paz. por exemplo. As graças difíceis das provas de fé. mas antes em não ceder a esses sentimentos. que depois de Sexta-feira Santa virá o Domingo da Ressurreição.

Poder. o passado já não lhe pertence. do stress. exprimem-se na vivência do momento presente santificando-o como momento de graça. entrega-te à Imaculada e fica tranqüilo". depois de deitar a mão ao arado. Vive como se se tratasse do seu último dia. Jesus diz claramente: "A cada dia hasta o seu cuidado" (Mt 6. só é seu o dia de hoje. não é apto para o Reino de Deus" (Lc 9. Deus não quer que se inquiete com o futuro. Deus não quer que olhe para trás. O amanhã é incerto. Maximiliano Maria Kolbe). No Sermão da Montanha. olha para trás. pois quase sempre cede às tentações.Strzelecka. "Quem. da agitação. desperdiça os dons que Ele deseja lhe conceder precisamente nesse momento. "Entrega-te inteiramente nas mãos da misericordiosa providência.62). por outras palavras. escreve São Maximiliano a um dos seus confrades (K.nós . . Se você se volta para o passado ou para o futuro e não vive a graça do momento. Alegria e Ressurreição.particularmente nos momentos das provações e de sofrimento d Aquele que é Paz. O dinamismo da fé e da nossa luta contra as tentações da inquietação.34).

Para melhor compreendermos este conceito podemos servir-nos de uma imagem fictícia. Deus espera que você coloque tudo em Suas mãos e se entregue mais a Ele até o abandono total. Nesse preciso instante. Porém. que o atormentam são também uma prova a que é submetida a sua fé. distraído com os que passaram e com os que chegam. do passado ou do futuro. A paz procedente da fé . Logo você se apressa a fixar os olhos nos que vão chegando e. pode acontecer que você fixe o olhar nos vagõezinhos que se afastaram e se dê conta sobressaltado que deixou passar muitos sem carregar. semelhante a uma parábola: Imagine estar numa estação que está no meio de um pequeno caminho de ferro e que à sua frente passa um interminável comboio com uma enorme quantidade de pequenos vagões. que você deve encher com pacotes que lhe estão próximos. passa diante de você mais um vagão que se afasta sem ser carregado. é horrorizado que vê a enorme quantidade que falta para encher. As inquietações.

Se as provas a que é submetida a sua fé fortalecem a sua adesão a Cristo e o seu desejo de se apoiar n'Ele. na rea- . As palavras: "a paz esteja convosco". duas espécies de paz. com efeito. bem como dois tipos de alegria: a paz e a alegria humanas. dessa forma que Cristo saudava os Seus discípulos ."Shalom". Durante a Ultima Ceia disse-lhes: "Deixo-vos a minha paz. mas a paz humana. porque. exprimem uma saudação muito íntima.27). O mundo também quer nos dar a paz. enraizado na fé. A nossa paz humana é como que uma esmola mendigada junto do próximo. você verá como na sua vida surgirá a verdadeira paz. também. caracterizadas pela caducidade e pela precariedade. Que coisas são a paz e a alegria humanas? Correspondem a algo que recebemos das pessoas. Assim era compreendida no Antigo Testamento. Não vo-la dou como o mundo a dá? (Jo 14. e a paz e a alegria de Cristo. que nascem em nós como algo duradouro. dou-vos a minha paz. Era. Existem. É uma saudação para desejar aquela paz que emana da comunhão íntima com Deus. em hebraico "shalom".

A paz abandona-nos porque perdemos essas ninharias que mendigamos. O medo e a angústia derivam da nossa procura da tranqüilidade humana e é conseqüência da perda dessas nesgas de serenidade mendigada que perdemos. procurando nós esse tipo de paz e de alegria é como se buscássemos uma esmola. não são mais do que ninharias. para que essa serenidade se desvaneça e a alegria se esfume. por perdermos . Outras vezes pode a angústia ser originada pelo receio de se perder a estima de alguém. Quando vem a faltar essa paz humana aparece o seu oposto: o medo gerador de doenças e de neuroses. por exemplo. alvo de alguma indelicadeza. de alguma maldade. que obtenha essas vulgares insignificâncias humanas que o enchem de satisfação. a paz mendigada que o mundo pode dar. sermos. pela falta de um complacente olhar. Como é precária! Basta um pequeno incidente.lidade. E nós queremos construir a nossa paz sobre isto! Pode até acontecer que alguém consiga alcançar o sucesso e a consideração dos outros. Mas essa é a paz humana. ou de um olhar de desconfiança. Esta bagatela de estima humana. este "retalho" de elogio. de aplauso ou de olhar complacente.

à mercê daquilo que o mundo nos possa proporcionar. E Ele que é a nossa paz. de par em par. a paz e a alegria nem sempre vêm de Cristo e nem toda a paz. diz-nos Jesus.14). muito instável. Ef 2. Se a minha alegria advém do fato de ter sido bem sucedido em alguma coisa.essa migalha de aceitação que conseguimos pelas nossas realizações. assim. ou ainda pelo medo de perder um sorriso de alguém. Expomo-nos. flui da Sua presença. a paz de Cristo. E um dom Seu. porque constantemente derivam do amor próprio. Aquela inquietação. A outra paz. significa acolher a Sua pessoa. significa abrir-Lhe. uma autêntica ninharia! Se corremos atrás desse tipo de paz e de alegria. as portas do nosso coração. encontramo-nos sempre diante de uma espécie de castelo de cartas' . "Dou-vos a Minha paz". trata-se. então. de uma alegria humana. Acolher a paz de Cristo por meio da fé. à mercê dos caprichos e dos humores dos nossos semelhantes. aquela tristeza são sempre más. concedida pela fé (cf. Porém. em suma. nem toda a alegria são boas.

Cristo é para você verdadeiramente o valor supremo? Na Cruz Ele salvou você e. Graças à Morte e à Ressurreição de Cristo essa serenidade e esse júbilo duradouros ficam. deu-lhe a possibilidade de conquistar a verdadeira paz e a verdadeira alegria. ressuscitando. a sua opção fundamental. ídolos e servidões a lhe prender.que ao mais leve sopro se desmorona. a tranqüilidade que o mundo proporciona. uma serenidade que não obtemos à partida. mas na meta. mas antes uma questão de escolha. A paz de Cristo deriva do processo de contínua eleição da Sua pessoa. Enquanto entre Deus e você se interpuser algo ou alguém. seja algo duradouro na nossa vida. A verdadeira paz é fruto da vida interior. você não poderá se unir plenamente a Ele. O mais importante é a sua escolha principal. Só se pode lastimar que os seus sofrimentos daí decorrentes sejam em vão. Ela não é tanto resultado de conquista nossa. por assim . no sentido da fé. não haverá em você paz. fruto da fé fortalecida pelas provas. Não poderá haver paz na sua vida enquanto nela existirem apegos. pois Deus não consentirá que a paz humana.

porque para colher verdadeiro proveito dos frutos da Cruz e da Ressurreição você deve optar por Cristo e pela Sua paz. Se você consentir. significa que você ainda não escolheu verdadeiramente o seu Divino Amigo. essa será a sua opção e a sua afirmação pela paz. Procure aprender a aceitação que é contínua escolha de Cristo. escolher. De qualquer modo. você não pode escolher a paz e a alegria se primeiro não escolher Cristo. dado que é Ele próprio que o ajuda a fazer essa escolha. . Mas.dizer. pela alegria e pela liberdade: é a sua opção pela fé. Se na sua vida surgem as neuroses. que a fé geradora de paz continua ainda a ser pouca. Esse há de ser o processo da sua aceitação de Cristo. e aceite. ao alcance da sua mão. E Ele que deita por terra os seus ídolos. a você compete. que a escolha por Cristo é ainda demasiado débil. o Seu amor. libertando-o de tudo o que o prende e escraviza. talvez cada vez mais persistentes. no entanto. Ao aceitar a Sua vontade escolhe. isso significa que em você continua a não haver suficiente vida interior.

Cristo de nada necessita para Si. na base de tal escolha deve situar-se qualquer coisa que definitivamente resulta ser essencial: a fé no Amor. o Seu amor. Se alguma coisa quer de você é sempre para seu bem. ao amar a Sua vontade. quer dizer. A criança não é capaz de querer o bem próprio e de tomar conta de sL Conosco acontece o mesmo. uma vontade que se manifesta.Porém. Você é como uma criancinha que não se apercebe daquilo que é verdadeiramente bom para si. queira o seu próprio bem. Que espera Jesus de mim. que quer Ele? O Seu desejo é que você. Ele é. Somente amando a vontade de Cristo. antes de tudo. Ele quer amálo e quer que aceite o Seu desejo. A criança de tenra idade deve ser levada a aprender a comer. não sabemos amar-nos a nós próprios. Cristo é alguém que espera de você alguma coisa. amando o Seu amor por nós e a Sua solicitude para conosco poderemos amar-nos pura e desinteressadamente. São os pais que a amam e cuidam dela. não sabemos o que é verdadeiramente bom para nós. porque a criança não sabe amar a si própria. Crer e amar Cristo significa amar . a vestir-se.

E deste modo que devemos fazer a nossa opção por Ele: amando o que Ele ama. é amar a Sua vontade. que nada nem ninguém nos poderá tirar. CAPÍTULO 4 . Escolher Cristo nas situações de prova a que é submetida a nossa fé confirma o nosso amor à Sua vontade: essa é a única coisa que nos dará a paz e a verdadeira alegria.o que Ele quer para nós.

Analogamente. uma missão especial. quando Deus Se lhe revela na sarça ardente e aí. por meio da fuga. o chama à particular missão de libertar o povo eleito. nem de um furacão. procura salvar a vida. Deus não Se manifesta a Elias no meio do barulho. Não Se revela num momen- . a história de Moisés inicia-se no deserto. E também no deserto que Elias se refugia quando.O DESERTO Na simbologia bíblica. Deus fê-lo caminhar durante 40 dias e 40 noites para finalmente Se lhe revelar numa delicada brisa e confiar-lhe. no silêncio do deserto. do fogo ou de um tremor de terra. em pleno deserto. o deserto é uma etapa no caminho para Deus que todos os que são chamados à fé devem atravessar. Fê-lo Abraão. mas no silêncio da natureza e no recolhimento do coração. quando foi necessário abandonar Harã para encontrar a Terra Prometida.

Acontece o mesmo com o deserto humano: pode manifestar-se . Pela boca do profeta Oséias. mas na quietude. um oásis. No início. livre das preocupações e do temor. não deve necessariamente aparecer de repente em toda a sua amplitude. deixando pouco a pouco.16). O deserto geográfico aparece gradualmente. a atrairei. pode se encontrar. maior lugar à areia e às dunas. fica face a face com Ele. A quantidade de árvores vai diminuindo cada vez mais. Deus fala de Israel como da Sua BemAmada. que por amor quer conduzir ao deserto: "Por isso. O simbolismo do deserto O deserto. O deserto realiza aquilo que pedia Santo Agostinho quando orava: "Senhor faz que Te conheça a Ti e que me conheças a mim". ou na sua forma. porque o deserto é um dom Seu. Deus conduz o homem ao deserto por amor. conduzi-la-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração" (Os 2.to de excitação. enquanto lugar geográfico e enquanto símbolo da situação do homem. quando Elias. de vez em quando. ou nas suas características.

quando Deus parece tê-lo abandonado. apenas com alguns dos seus elementos. O deserto entendido como prova de fé. entendido como chamamento a uma vida de fé. pode. Mas pode também aparecer gradualmente. O deserto pode ser "imposto" por Deus a uma pessoa ou mesmo a uma comunidade inteira. quando você não sente a Sua presença e seja mais difícil para você crer nela. O "deserto". identificar-se com qualquer tipo de situação difícil como. Pode acontecer que seja você mesmo a desejar uma situação de deserto para buscar o silêncio. por exemplo. quando Ele para lá os conduz.plenamente com um completo despojamento. isto é. sobretudo venha a encontrar . Aí encontrará então o seu adversário. com uma tempestade de tentações e com a particular presença de Deus misericordioso. uma doença. Todavia. o deserto também pode ser fruto de uma escolha. o despojamento e a presença do Senhor. por excelência. são os difíceis estados espirituais de aridez e secura. o sentimento de solidão que o deprime e outros. embora. por exemplo. as dificuldades decorrentes das nossas relações com os outros.

na qual você deverá fazer uma opção. Dê-Lhe graças pelas dificuldades. Deus lhe colocará numa situação difícil." O deserto pode dizer respeito a uma pessoa ou pode também envolver toda uma nação e ter assim caráter social. E. Uma só coisa é certa: uma vez que lá entrar. ao mesmo tempo. Você poderá entrar no mais fundo de si e descobrir a verdade sobre si mesmo. antes de iniciar a Sua vida pública. Durante quarenta dias padeci fome e também para Mim foi muito duro. Virá o tempo em que por meio de acontecimentos exteriores ou interiores. Do mesmo modo Jesus. você sairá modificado. por estar doente ou pela sua solidão. você não está só. Ele parece querer lhe dizer: "Repara. descobrirá o que é mais importante. Eu estive aqui antes. andou no deserto. a verdade sobre Deus.Deus. Você nunca está só. se neste momento você se encontra neste tipo de deserto. porém. . quem sabe talvez até de extrema dificuldade. Seguro é também que um dia você terá de entrar nele. Então. Procure acreditar no Meu amor. será necessário que se recorde que se trata de uma graça: a graça do deserto. deve agradecê-lo a Deus.

Os mantimentos e . Não sabem mais o que fazer e a única alternativa é esperar um eventual socorro. irão se perder não sabendo que direção tomar. A história desenrola-se como num filme. especialmente quando se perde a orientação. Procure ver que em tudo isso Deus está presente e o ama. um local onde se radicalizam atiudes. em breve. Durante o dia o calor é insuportável e à noite o frio é glacial. Projetam atravessá-lo de "jeep". transformando-se assim a aventura num drama. o deserto é atemorizador e apavorante. que planearam uma viagem ao deserto líbio. quem sabe por estar vivendo um pesadelo em casa ou no trabalho. Todas essas situações são elementos do deserto. ou ainda por ter dificuldades consigo mesmo.se você se sente incompreendido. grandes amigos. vejamos a história de quatro estudantes. Como se sabe. Oxalá fosse ou frio ou quente O deserto é um local de prova. E a primeira vez que se encontram no deserto e. Para mais facilmente compreendermos. De repente o "jeep" sofre danos.

Já não eram . três vivos e o corpo sem vida do quarto. Uma cena de horror! Quando mais tarde um helicóptero os descobre e recolhe. A uma dada altura foi necessário repartir a restante água pelas quatro pessoas. As emoções tomaram a dianteira. começou uma espécie de avalanche. a mão começa a tremer e parte da água derrama-se na areia. Provavelmente por causa da crescente tensão e do olhar dos outros. E a desgraça acontece. Subitamente a tensão nervosa dos quatro transforma-se em agressividade descontrolada e começam a acusá-lo: "Como pode entornar a água? Por sua causa morreremos!". O importante foi que entre eles algo de verdadeiramente horrível acontecera. Ela é já tão escassa que o olhar de todos se concentra nas mãos daquele que se prepara para a verter. E. isso não teve grande importância. imediatamente. A restante água acabou derramada pelo chão enquanto os corpos dos quatro amigos envolvidos em luta rolavam pela areia.a água daqueles companheiros vão se gastando rapidamente e a tensão entre eles começa a aumentar continuamente. já um deles não se podia erguer. Tinha sido estrangulado. Quando finalmente voltaram a si.

as camadas mais profundas do bem ou do mal. o constrangem a tomar decisões. revelando. ao mesmo tempo. Normalmente o homem vive de uma maneira muito superficial. a sua situação. A nudez do deserto despoja também o homem. mas o transforma interiormente. as situações de deserto. O dom do deserto permite-lhe vencer a tibieza. como se vivesse apenas à flor da pele.os mesmos. porém. da sua dureza de coração. perceberá de que coisas você é capaz. da sua fraqueza. Eis porque o deserto mostra como na verdade é o homem. Ao optar. vista à luz da fé. A situação do deserto traz à tona aquilo que no homem se encontra mais profundamente escondido. porque pensa ser aquele que . que não se manifestam plenamente senão em situações limite. é dramática. pouco antes. Aí o homem encontra-se face a face com a aterradora verdade daquilo que é sem a ajuda de Deus. porque aí se dissipam as ilusões e não existem esconderijos possíveis. se encontravam prontos a dar a vida uns pelos outros. porque o obriga a fazer opções. pois conhecerá mais de perto as duas realidades mais importantes: a realidade do inconcebível Amor e da infinita Misericórdia de Deus e a realidade da sua condição de pecador e da sua impotência. O deserto. da sua condição de pecador. No deserto líbio fora cometido um crime entre amigos que. Revela resíduos de paixões humanas e do mal. Só as situações difíceis. É no deserto que o homem se dá conta de que coisas é capaz. polarizando as suas atitudes. Enquanto você for um cristão tíbio. não só revela a verdade sobre você. para quem a vida corre sem problemas e tudo vai bem. põe a descoberto a sua miséria e revela a sua nudez.

Ao blasfemar. numa condição de ateísmo prático. Assim era também no deserto bíblico. Oxalá fosses frio ou quente! Mas. Os padres da Igreja afirmam que Deus conduz ao deserto para que o homem tenha fé ou se torne blasfemo. mas nunca a tibieza. Para Deus o estado de tibieza humana é inaceitável. A blasfêmia volta para você como um eco e você tem então uma oportunidade de reconhecer como é grande o mal que há em você e será então mais fácil se converter. seria preferível que você blasfemasse do que permanecer na tibieza. esse grande santo da Antiga Aliança. um povo ou uma comunidade inteira são introduzidas no deserto ressalta claramente nestas palavras do Apocalipse: "Conheço as suas obras e sei que não és frio . corno és morno e não és frio nem quente. ao menos. deverá introduzir-lo no deserto. claramente o seu mal.soluciona tudo e Deus deixa.1516). A razão suprema pela qual um homem. Por esse motivo. nem quente. A situação do deserto polariza as nossas atitudes. vomitar-te-ei da minha boca" {Ap 3 . desse modo. Muitos dos que estiveram com Moisés no deserto tornaram-se criminosos. . Também Moisés. mas muitos outros se santificavam. O dom do deserto não permite que se persista num estado de ateísmo prático. assim. desordeiros e adoradores de falsos ídolos. é algo abominável que não suporta em você. Ou a fé ou a blasfêmia. faz com que o homem não possa permanecer na tibieza. de ser necessário: está. mais tarde ou mais cedo. À luz da fé. mas que se torne quente ou frio. Muitos blasfemavam contra Deus. vê. se santificou no deserto.

embora possa também tornar-se um santo. para melhor ou para pior. O deserto . O deserto acentua as possibilidades de revolta. porque ali se produz uma evidente radicalização de atitudes. O deserto é um lugar privilegiado para Satanás já que ali o homem está em estado de fraqueza e sucumbe mais facilmente às tentações. portanto. Que você pode. Pode tornar-se um criminoso. pode encontrar-se na etapa do deserto. Muda.lugar de despojamento .A situação de deserto permite compreender como todo e qualquer juízo negativo a respeito de outra pessoa é absolutamente destituído de sentido. pode estar vivendo um período de provas. Eis uma razão pela qual é preciso acabar com a tendência para julgar os outros. Porventura. como no caso do bezerro de ouro. o povo eleito esteve sujeito a particulares tentações e a revoltas que levaram à infidelidade para com Deus. com efeito. Ao fazer a travessia do deserto. No deserto o homem muda. saber a respeito de alguém que surge no seu caminho e em quem julga ver tanto mal? E a situação existencial deste alguém que conta. torna-se diferente. Será de grande proveito para você combater a tendência de julgar os outros. O diabo explora essa situação.

No deserto tudo se reduz aos elementos essenciais e indispensáveis: o espaço. quer levá-lo a se submeter a uma vida dura. mas também é confrontado consigo mesmo. a areia. a se submeter a um processo de despojamento que resulta ser indispensável no caminho da fé e do total abandono a Deus. mesmo por uma caravana de milhares de homens. No entanto. Entrar no deserto significa despojar-se das coisas fundamentais. O despojamento. O deserto é o local e o tempo propícios à libertação dos apegos e dos próprios esquemas de segurança. o céu. Deus e o próprio homem.A simbologia bíblica do deserto está ligada. quer em certo sentido. Dado que não possui o que quer que seja que possa constituir uma . O homem é confrontado não só com a imensidão do céu e com a vastíssima extensão de areia. Essa distância podia ser vencida. ao chamar o Seu povo ao deserto. O deserto é. que vem gerar a fome e a sede. a caminhada do povo eleito durou quarenta anos. tanto físicas como espirituais. Deus. símbolo do despojamento. levá-lo a desistir da sua presunção de autosuficiência. São estas dificuldades que fazem vir à tona tudo o que no homem normalmente permanecia oculto em zonas muito profundas. O homem que caminha pelo deserto nada tem. faz com que entre essas sensações de caráter físico e aquelas que surgem na esfera espiritual exista uma estreita ligação. A distância entre o Egito e Canaã é de cerca de 400 quilômetros. em primeiro lugar. a terra. conhecer a fome e a sede. em cerca de duas ou três semanas. à vocação do povo eleito que devia sair do Egito e entrar na Terra Prometida. por excelência.

A medida que as misteriosas relações entre Deus e o homem se vão aprofundando. Tem de acreditar que Deus cuida dele continuamente. Deus espera que queira ultrapassar as suas possibilidades puramente humanas. O deserto é. não pôde. para se tornar sinal Seu e para que Deus seja nele uma presença viva no mundo. Deus espera que no deserto o homem tíbio. se torne ardente na sua fé e na submissão ao seu Senhor. Experimentam a necessidade de se apoiarem exclusivamente em Deus.segurança. que é insistente apelo a um dom de si próprio cada vez maior. porém. tendo recebido o maná do céu. Aqueles que fazem a travessia do deserto aprendem por experiência própria a contentar-se com o que Deus lhes dá e a tudo esperar d'Ele. se ele desejar progressivamente responder ao apelo do seu Senhor e abrir-se a esse amor que sente. Foi . o lugar onde nasce a fé e esta se aprofunda na medida do nosso despojamento. de fé débil. O povo eleito. Dia após dia deve confiar que o maná cairá de novo. O deserto é local de nascimento de uma fé cada vez mais dinâmica. portanto. que transforma a vida do homem. Quanto mais o homem aceitar ser despojado do seu "eu" e das suas seguranças mais Deus poderá descer a ele e tornar-Se o seu único apoio. porque Deus deseja ser tudo para aquele que peregrina pelo deserto. Daquele que O ama. Deus pode invadir mais o homem se o seu despojamento for crescente. que consinta em ser totalmente despojado do que é e do que possui. Deus reclama um despojamento sempre maior. viajando pelo deserto. a sua situação existencial é precária: falta-lhe tudo. acumulá-lo e fazer provisões para o dia seguinte.

com efeito. mas. pelas quais o Senhor Se tornou um dom para o Seu povo e o povo fez. Deus era visível e. simultaneamente. ao mesmo tempo ocultava-O a seus olhos. um tempo de claridade e de trevas. Foi para os israelitas. A nuvem. Deus. por seu lado. aí se consumaram as núpcias entre Israel e Deus. Deus responde com o milagre do maná e da água de que tanto careciam nesse momento. que simbolizavam tanto a presença como a inacessibilidade de Deus. permite-lhe conhecer a Sua divina Misericórdia. Permite-lhe experimentar a Sua particular Presença e Poder. O deserto . não só conhecer a verdade sobre si próprio. Ao povo que se revolta e peca. mas também a verdade a respeito de Deus que é Amor.graças ao despojamento do povo ocorrido no deserto que Deus pôde concluir a Aliança. O povo eleito era conduzido por Ele. Apesar da maldade humana se manifestar mais vincadamente no deserto. que indicava a presença de Deus. um voto de fidelidade a Ele.experiência do amor de Deus O despojamento a que o homem é submetido no deserto permite-lhe. Deus encontra-se aí presente de forma singular. . ao mesmo tempo. acima de tudo. mantinha-Se velado por trás da nuvem e do fogo. responde com amor e com paternal solicitude ao pecado e à fraqueza do homem.

de forma evidente. Experimentaram. Ele está. mas. quer por entre os horrores. formar verdadeiros discípulos de Cristo. No deserto é que você vai se dar conta de que Ele realmente nunca o abandona. na realidade. a sua própria miséria e em resultado disso conheceram muito fortemente a misericórdia de Deus. fortalecer a sua fé. Nunca como nessas ocasiões se encontra tão próximo. particularmente perto de você. a sua própria fraqueza e pecaminosidade. Eles experimentaram a ação de Deus. significa que Deus o chama. Ao entrar na Terra Prometida. O deserto existe para que você tenha oportunidade de se voltar para Aquele que é a própria misericórdia. A finalidade do deserto é de formar o homem.Deus tinha conduzido ao deserto uma multidão desorganizada. Foi na sua própria fragilidade que o povo eleito descobriu o verdadeiro mistério de Deus. E verdade que no deserto Deus Se oculta. . espera que Lhe estenda os seus braços confiantemente. que o convida a se lançar nos braços da Sua misericórdia. eliminar a sua mediocridade. quer por entre os fulgores e conheceram. simultaneamente. Somente espera que Lhe demonstre a sua fé. mas aqueles que o atravessaram tornaram-se homens novos constituindo já uma nação ligada a Deus por uma Aliança. o povo eleito constituía uma pequena comunidade enriquecida pela experiência do deserto. Se experimentar a fraqueza própria.

Você poderá olhar para os Seus olhos repletos de amor. reencontrará. deve se tornar definitivamente comunhão com Ele: "Amar a Deus". Por fim. Ela estará junto de você olhando-o com maternal solicitude. a grande ternura do Pai e a Sua extrema alegria pelo seu regresso. de desânimo e de ten-t ações. segundo o princípio de que somente o que é difícil e oferece resistência.A experiência de deserto o ajudará a sentir a necessidade de Deus e a reconhecer a sua completa dependência d'Ele. No deserto realiza-se a formação do homem.5-7). Perdoando. 11. O deserto não é uma pátria. No deserto da sua vida você encontrará sempre a Virgem Maria. diria São João da Cruz. Todos aqueles que procuram Deus devem passar por ele. que então nasce. Deus edifica ao mesmo tempo em você a humildade. o deserto não constitui somente o berço da sua fé. que lhe proporcionarão maior consciência da sua incapacidade e da sua impotência. mas torna-se a pátria da contemplação. forma o homem. Quando tiver descoberto a verdade sobre você mesmo e suplicar a Deus que o perdoe. "é por Ele despojar-se de tudo aquilo que não é Deus" (Subida do Monte Carmelo. O seu amor a Deus. um caminho que conduz ao conhecimento do Amor misericordioso de Deus. Aquela que é Medianeira de Todas as . pois a experiência do deserto está estreitamente ligada ao aprofundamento da nossa fé na Sua misericórdia. como o filho pródigo. mas somente um percurso. Serão os momentos cm que passa por difíceis horas de obscuridade.

O povo eleito não tinha a Virgem Maria. pronuncie o seu próprio "fiat". intercederá por você e esperará com emoção que.Graças. caminhará à sua frente. . Medianeira da Misericórdia. Ela. será a sua luz a lhe mostrar o caminho para o seu Filho. Mas você tem e por isso não caminhará só. Os períodos de escuridão do seu deserto serão iluminados pela Sua presença. que viveu tantos momentos difíceis. que também diga o seu "sim" e que veja Deus em todas as situações. a seu exemplo.

CAPÍTULO 5 OS MEIOS RICOS E OS MEIOS POBRES NA IGREJA Segundo Jacques Maritain. Maritain "On the Philosophy of History". por exemplo. os recursos de que a Igreja dispõe para fins espirituais podem se dividir em meios ricos . Um traço característico dos meios ricos é a influência que exercem sobre o amor próprio. Podemos chamar ricos aos meios que podem ser observados e formulados estatisticamente. 1957). um resultado palpável" (Ibidem). por sua própria natureza. etc. a arquitetura e a decoração das igrejas. Fazem parte de tais meios. J. as reuniões. Enquanto meios tipicamente deste mundo "requerem.rich temporal means — e em meios pobres — humble temporal means — (cf. os meios audiovisuais e de comunicação social. as procissões. Daí procede a perigosa tendência de . as organizações. através dos seus efeitos e resultados visíveis.

Nestes meios podemos observar o paradoxo singular do dinamismo da fé: quanto mais pobres. não morrer. insignificantes e menos visíveis são estes meios. Ele se esconde: é pobre em Belém. na Eucaristia. mais pobre ainda no Calvário pobre. um outro tipo de meios são os meios pobres. não contêm em si a menor necessidade de um triunfo temporal.nos apropriarmos dos resultados. Jesus vem até nós sob a aparência de uma criancinha inteiramente à mercê daqueles que a rodeiam. Levando tão longe a Sua pobreza e o Seu aniquilamento. Na Sua ação salvífica. Jesus pobre Estamos habituados a contar. Muito nos agradaria ver o triunfo e a vitória de Cristo. tanto maior a sua eficácia. Jesus escolhe. assim. os meios pobres e humildes. o que vem a gerar uma atitude de triunfalismo. da forma mais extrema. com os meios ricos. Para aquele autor. isto é. Nenhum sinal de poder acompanha o Seu nascimento. os meios pobres não se ligam a um sucesso palpável e. na nossa vida e na vida da Igreja. produzirá muito fruto" (Jo 12. despojados de tudo. caído na terra. Ao contrário dos ricos. a manifestação da Sua força e do Seu poder! Mas. Depende deles completamente. Estes são caracterizados pela marca da cruz e exprimem uma das mais profundas verdades bíblicas: "Se o grão de trigo. pelo contrário. . se morrer. fica só. acima de tudo.24). sublinha a importância dos meios pobres.

podia fazer com que as multidões Lhe rendessem a maior homenagem. em verdade vos digo: Se o grão de trigo caído na terra. às Suas palavras. não morrer.é incapaz de oferecer resistência a alguém. permitirá que riam d'Ele. quis deixar claro que a Ele tudo é possível. o Seu recurso aos meios ricos. Fê-lo para que os Apóstolos não caíssem na vertigem do Seu triunfo — como por vezes acontece — para que não se enganassem. Dá-Se a conhecer primeiramente na Sua pobreza. caíram por terra mostrando-lhes desse modo Jesus. em seguida. humildade e fraqueza. mas se morrer. Quando da Sua prisão. Mas. nem impor a Sua vontade. foi o triunfo de Cristo. que estendessem os mantos no caminho à Sua passagem. Quando os soldados chegaram ao Horto das Oliveiras. vemos ainda uma vez. houve o Tabor. que Lhe cuspam e gritem junto à Cruz: "Ah! Tu que destróis o Templo e em três dias o edificasy salva-te . que deve morrer para si mesmo. produzirá muito fruto" (Jo 12. os meios pobres. Assim Se manifestou no momento do Seu nascimento e assim será na Sua Paixão.6). se o quisesse. Na vida de Jesus houve milagres. Isso não significa que Jesus não tenha Se servido dos meios ricos. a Sua força e o Seu poder (cf. Mostra a você como deve ser despojado. que deve escolher os meios mais eficazes: os meios pobres. Mas trata-se do Domingo de Ramos e. é precisamente após esta entrada triunfal em Jerusalém.24). para prendê-Lo. fica só. A entrada triunfal em Jerusalém foi um meio rico. mas existiram. sobretudo. Jo 18. Jesus quis demonstrar que. não pode nem defender-Se. que Jesus pronuncia essas palavras que irão chocar um grande número de pessoas: "Em verdade.

mas que à luz da fé são considerados de outro modo. surgem aos olhos do mundo. como tal. A eficácia dos meios pobres flui da presença de Cristo na alma. "Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens" . Jesus aceita tudo isso com uma paz divina.diz São Paulo -"e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens' (ICor 1. na medida em que esta se entrega a Ele. se revelam determinantes dos destinos do mundo. são meios pobres.25). a sabedoria divina. desce da Cruz! (. . de mortificação do próprio "eu" e de total abandono a Deus. Os meios ricos são aqueles que. constituindo uma manifestação da verdadeira sabedoria. a Si mesmo não Se pode salvar!" {Mc 15. A eficácia dos meios pobres O sofrimento aceito por amor a Deus. na vida de oração. vistos à luz da fé. mas são estes meios pobres que. os joelhos doloridos durante a oração. servindo-Se justamente desses recursos pobres para a salvação do mundo. a anulação da vontade própria. a vida em recolhimento. A utilização dos meios ricos apenas poderá se revelar eficaz quando assente nos meios pobres: numa vida interior profunda. no silêncio e na contemplação. porque são os mais eficazes.) A outros salvou.29-31). O que é pobre aos olhos dos homens é rico aos olhos de Deus. Os meios mais ricos são... dos quais quase nada se sabe. pois. de acordo com o princípio de que Deus Se dá à alma.a ti mesmo. os meios pobres. pois não podem ser recolhidos em estatísticas sociológicas. as renúncias que fazemos e que ninguém conhece. São meios invisíveis.

São Maximiliano foi um homem de sucesso. imprensa católica. Sonhava ter uma emissora radiofônica. não podem ser arrebatados à Igreja. são suficientes o amor e a boa vontade. como por exemplo. no entanto. .diz São Tomás de Aquino "nasce da plenitude da vida contemplativa" (Summa Theologica. que haja. A falta deles é injustificável. de capacidade organizativa ou perseguições à Igreja. em certo sentido. A eficácia dos meios ricos no apostolado organizado. poder utilizar aviões e barcos a serviço da Imaculada. Ele mesmo distribuía nas ruas das cidades japonesas o que chamava de "balas". deriva da riqueza dos meios pobres e não o contrário. pois estes também terão de ser aproveitados para o serviço do Senhor. Não devemos desvalorizar os meios ricos. São Maximiliano Kolbe é. Os meios ricos podem sofrer restrições devido a fatores externos. 2.2. exemplares da "medalha milagrosa". Sonhava com eles e conseguiu que um milhão de exemplares do periódico "Cavaleiro da Imaculada 'se difundisse pelo mundo. Devemos. entre outras coisas. o patrono dos meios ricos. assim como as mais diversas formas de apostolado visível. Deus não quer nada que seja unilateral e quer. pois conseguiu ser bem sucedido em muitíssimas coisas. lembrar-nos de que a sua eficácia resulta da presença dos meios pobres. pois."A obra da vida ativa" . a falta de tempo. para que existam. Os meios ricos também são úteis à Igreja e não seria justo excluí-los. isto é. de forças físicas.188). Os meios pobres permanecem inexpugnáveis aos fatores externos. por isso.

um Centro de Apostolado Mariano {Niepokalanow) . na perspectiva humana. Você é capaz de reconhecer o valor dos . tendo caído gravemente doente. não serve para nada.confessou ele "quando se reconheceu que eu estava perdido e os superiores constataram que eu para nada servia. quando todos deixaram de contar com ele e ele se viu totalmente despojado. Crer é reconhecer o próprio nada e tudo esperar de Deus. o que o próprio São Maximiliano testemunhava: "Quando todos os meios fracassaram" . Aquele incontestável êxito era contudo obtido graças aos meios pobres. o experimentar da própria incapacidade junto com a atitude de esperar tudo da intervenção de Deus é o meio pobre por excelência. A eficácia do apostolado de São Maximiliano e do seu trabalho a serviço da Imaculada começou a manifestar-se nele e quando. é Deus quem nela alcança o sucesso. à imagem do grão de trigo que morre para dar fruto. torna-se instrumento mais eficaz nas mãos do Senhor. porque é Ele. perto de Varsóvia. a quem ele inteiramente se entregou.A Cidade da Imaculada . então a Imaculada tomou nas suas mãos este instrumento que já só servia para pôr de lado" (M. que tomou conta daquele pequeno "nada" para o utilizar na proclamação da glória de Deus e na conquista das almas. os seus confrades e superiores concluíram que devido à sua tuberculose aguda deixara de estar apto para o trabalho. quem vive e age nessa pessoa. Ora. "O Louco da Imaculada"). Winowska. Foi Maria.que se tornou motivo de admiração para toda a Igreja.Fundou. Um homem que. Este é o paradoxo de Deus. Fundou ainda centros parecidos em outros continentes.

talvez por entre lágrimas . Estão de tal modo escondidas que jamais se encontrará qualquer dado estatístico sobre elas.que O amas e que O queres amar? Quem pode saber quantas vezes venceu a si mesmo. enquanto Ele procurava. num momento crucial da sua vida. classificar ou avaliar. ou de especiais dificuldades. e implorava que deu não rejeitasse tudo isso. Talvez tenha mesmo experimentado um certo ressentimento se revoltando. todas as humilhações. se privou de algo. não obstante as experiências que atravesse.meios pobres na sua vida? Decerto Deus não lhe poupa tais ocasiões. dobrando a sua vontade? Estes são os meios pobres. inclusivamente. Qual de nós não conhece momentos de sofrimento. você disse a Deus . que tente sorrir na tristeza e que. tente olhar o mundo com . com alegria. lhe dar quase à força. Quero tudo o que esperas de mim". Quem pode saber que um dia quando o fardo era demasiado pesado. Portanto. você não deve esquecer como é importante que suporte. Quem poderá. os mais importantes para você. você disse a Deus: "Sim. períodos de deserto espiritual? Qual de nós não terá que lutar consigo mesmo ou com as condições externas nas quais lhe cabe viver? São coisas que não se podem ver. saber que um dia. que tanta importância tem na obra da salvação do mundo! Aquele a quem chamaram o "Mendigo Divino" conhece melhor do que ninguém o valor dos meios pobres. Quantas vezes Deus lhe deu oportunidade de utilizá-los? Talvez tenha desperdiçado tais ocasiões e recusado aceitar esses dons inestimáveis de Deus. de fato. quero. para a Igreja e para o mundo. os que atraem o poder do Senhor.

Quando você sofrer. sobretudo durante as suas inúmeras viagens pelo mundo. quando o Senhor lhe propor uma parte naquilo que há de mais precioso para a salvação das almas. na sua coroa de espinhos' que eram as críticas agressivas. No entanto. mas a preço dos "meios pobres". Você diz que reza por alguém que não crê. que reza fervorosamente pela conversão ou pela saúde de alguém. Aquele a quem chamaram de "louco da Imaculada" era louco na utilização dos meios pobres. Por vezes. Ele conhece todos os meios pobres que foram colocados à sua disposição e que você. atuam no plano da fé. tudo depende do que é a sua oração. principalmente durante as viagens em que — como escrevia nas suas cartas — não podendo quase respirar. Pensa em São Maximiliano.serenidade. Não há nada que Deus receba com ligeireza. muito tempo. nas profundezas do seu coração. no segredo do coração. pobre e modesto. mas que pode realmente fazer milagres. Chegava freqüentemente a ficar abafado com a falta de ar. poderia ser suficiente o seu "sim" dito com alegria: um meio simples. são um sinal da atuação do próprio Deus. . pensa em João Paulo II. que por si mesmos são ineficazes para alcançar qualquer objetivo. de pé na Igreja. decide acolher ou rejeitar. Os meios pobres. nem os joelhos que lhe doem quando reza. ficava completamente exausto. na fé em que o amor efetivamente triunfará. esse santo que obteve tantos sucessos. que se decide o destino daqueles que lhe são mais queridos e o seu próprio destino. no seu grande cansaço. nem as pernas cansadas quando tem de ficar. Ao mesmo tempo é aí.

Se. a contemplação. Cântico Espiritual. o silêncio. era uma vida oculta em Deus. Quer que viva da fé. não compreende o valor e o sentido dos meios pobres. como Ele amou "Até ao fim". nem mesmo diante dos pavorosos sofrimentos do seu Salvador. não pela Sua entrada triunfal em Jerusalém. do alto dessa Cruz junto à qual se encontrava Sua mãe que nunca retirou o seu "Sim". E do alto da Cruz que Cristo atrai tudo para Si. de que "uma migalha de puro amor" . mas pela Cruz e é do alto da Cruz que o convida para segui-Lo. a oração. o Cristianismo. Na sua vida não aparecem quaisquer meios ricos. mas sim a pobreza. que no seu coração prevaleça .Se você não compreendeu bem o valor dos meios pobres. A sua vida. a este modelo de vida. . Olhando a sua vida do ponto de vista humano. o abandono a Deus. significa que ainda não compreendeu verdadeiramente em que consiste. de fato. O Salvador o atrai. XXIX. não vemos nenhuma grande obra.2). para que o ame. a humildade."vale mais aos olhos de Deus e à alma e dá mais proveito à Igreja do que todas as outras obras juntas" (cf. marcada pela simplicidade e pela utilização dos meios pobres. não pode compreender a Cruz que está no centro da Igreja.o desejo de utilizar os meios pobres.como em Nazaré . Ela o convida também. A Virgem Maria é a padroeira dos meios pobres. a vida oculta. na sua mais profunda essência. a obediência. E da Cruz que flui incessantemente a graça divina da Redenção e da santificação do mundo.meio pobre . Ela quer que compreenda a verdade encerrada na constatação de São João da Cruz.

tendo deixado o exército sob a chefia do seu adjunto Josué. os israelitas tiveram de lutar contra os amalecitas. homem de oração. subiu ao cimo de uma colina para orar. um povo que dominava as pistas do deserto (cf. Aarão e Hur que o tinham acompanhado. teria se colocado a frente dos seus guerreiros tentando arrastá-los pelo exemplo. Moisés. raciocinando unicamente à maneira humana. Durante todo aquele dia o gesto das mãos erguidas para o Senhor acompanhou os israelitas em luta e quando a noite caiu. Moisés sabia a razão: Deus queria que continuasse a esforçar-se levantando constantemente os braços para Ele. segundo as regras da estratégia. o exército recuava. Retirou-se e. sabia qual o modo de assegurar a vitória ao seu exército. Quando os seus braços se abaixavam devido ao cansaço. homem de Deus. Assim se explicam os seus braços erguidos no cume da colina. para fazê-los combater valorosamente. quando estavam a caminho da Terra Prometida. Durante a sua travessia do deserto. Quando estes se lhe entorpeceram completamente.A vitória pela fé A cena da luta contra os amalecitas é um clássico texto bíblico que mostra à luz da fé o valor e o sentido dos meios pobres. procedeu de forma aparentemente absurda do ponto de vista humano e da estratégia militar. ao contrário. Moisés. Moisés. Se tivesse sido um estrategista. como homem de Deus que era. sabia bem quem é que decide a sorte do mundo e dos destinos das nações. Ex 17. ampararam-no. ciente de que o olhar deles lhe estava dirigido. Entre ele e o vale onde o combate se desenrolava estabelecera-se uma estreita ligação.8-13). a vitória lhes . voltados para o alto num gesto de fé.

Tu governas. toda a atenção dos jornalistas. um pobre meio que exprime a loucura de fé no infinito poder e no infinito amor do Senhor. não foi Josué que venceu. mas foi Moisés lá no alto. porque é Deus quem nele triunfa. as possibilidades de sucesso podem ser ridiculamente escassas. na Sua Ressurreição: "Se morrer. Qual de nós perderia tempo em olhar na direção daquele lugar perdido. No entanto. não existem impossíveis". é um gesto de fé. Senhor. fica só" e. Aquelas mãos de Moisés estendidas para o alto são como um símbolo mostrando que é Deus quem tudo decide. nem o seu exército combatendo no vale. ó Deus. mas para Ti. onde um homem solitário rezava? Contudo. cansados pelo esforço. foi a fé dele que venceu. os focos dos projetores haveriam de concentrar-se no local onde Josué chefiava o combate. "Tu estás presente. Para o homem. uma vez que se realiza por meio da participação na Morte de Cristo: "Se o grão não morrer.pertencia. A maternidade espiritual A maternidade espiritual torna-se efetiva graças aos meios pobres. Se semelhante cena se repetisse nos nossos dias. De Ti tudo depende. A participação na Morte de Cristo cumpre- . Pareceria que era ali que tudo se decidia. dará fruto em abundância". as câmeras de televisão. é precisamente o homem solitário que alcança a vitória. O gesto dos braços erguidos.

O apostolado é dar Cristo. Foi Pranzini. Um deles surgiu na sua vida quando ela tinha catorze anos. enquanto a participação na Ressurreição é o nascimento em nós do homem novo. apesar de ter sido condenado à morte. presente na alma daquele que se consagra ao apostolado: é cooperar para que Cristo nasça nas almas. que se exprime de modo mais pleno na utilização dos meios pobres. Quando Teresinha ficou sabendo. Na vida de Santa Teresinha do Menino Jesus houve dois grandes pecadores que tiveram um papel de particular importância. E Deus deu à Teresinha um sinal: no derradeiro momento antes da execução. formado à imagem de Cristo que é o Amor. disse emocionada à . A maternidade espiritual realiza-se graças à palavra viva que é fruto do contato contemplativo com Deus.se. pelo sacrifício e pelo sofrimento. Geramos almas para Cristo por meio da fé. o apostolado é uma maternidade espiritual: *Fui eu que vos gerei em Cristo Jesus pelo Evangelho" (1Cor 4. culpado pelo assassinato de três pessoas e que. aquele grande pecador arrebatou o crucifixo e por três vezes beijou as chagas do Salvador. muito particularmente. Teresinha não podia aceitar a idéia de que ele viesse a morrer sem se reconciliar com Deus e decidiu durante um mês e meio oferecer todas as suas orações e sofrimentos por intenção de Pranzini. Graças à fé. graças à oração de pleno abandono e ainda. pela aceitação do sofrimento (que infringe a morte ao egoísmo). Segundo São Paulo. primeiramente. não manifestava o mais leve arrependimento. Todavia.15). o nosso apostolado entendido como maternidade espiritual tornase uma participação na maternidade espiritual da Igreja.

aquele eminente sacerdote. no entanto. Este nome não figura na autobiografia. nem sequer na "História de uma Alma". Começou a percorrer as dioceses da França e. 8. Hyacinthe Loyson. até o Papa o felicitara pelos seus sucessos. Ela entendia que só a oração poderia não ser o suficiente. A uma dada altura. o maior dom para oferecer a Deus. era um excelente orador. nem na correspondência de Teresinha.Celina: "Ele é o meu primeiro filho". escreveria mais tarde: "Somente o sofrimento pode gerar almas para Jesus" (cf. de grande pregador que era. nas cartas a Celina. Pranzini era o protótipo de todos os pecadores pelos quais Teresinha desejava especialmente rezar e por quem queria oferecer o seu sofrimento.1895). segundo confessou Teresinha. extremamente inteligente. se revelou caso ainda mais dramático: o padre Hyacinthe Loyson.IV. Aquela que já aos catorze anos tinha tão clara noção da maternidade espiritual. Carta à Celina. tornou-se apóstata e o pior: apóstata militante. A outra figura de grande pecador foi um personagem que. É a partir das atas do processo de beatificação e de canonização que se soube o seu desejo de salvar aquela alma. se refere a um certo "lírio fanado e maculado" e de "um grande culpado" (Carta à Celina. 26. superior do convento de Paris. pois para salvar as almas era necessário colocar no prato da balança também o próprio sofrimento. carmelita descalço. VIL 1891). Só por duas vezes. . As suas conferências emocionavam os seus ouvintes por toda a França.

O Pe. escreve numa carta.apesar dos numerosos protestos. 8. a ponto de ninguém ousar pronunciar o seu nome. "sei que a sua culpa é grande e que ultrapassa provavelmente a de qualquer outro pecador. . é p a r a poder satisfazê-lo. que se Jesus dá determinado desejo. Foi tese sua. porém neste foram nove anos e parecia que isso não teria sido suficiente. com o coração a latejar de ardor. Mesmo assim. que a conversão do Pe. durante nove anos consecutivos ofereceu orações e sofrimentos por sua intenção. Loyson acabou sendo excomungado. o que explica o motivo de seu nome não figurar nos escritos de Santa Teresinha que. que sempre defendeu. Teresinha não perderia a esperança. bastara um mês e meio.. Pura e simplesmente não se falava dele. Confessou a Celina. entretanto.. "De certeza absoluta" . No caso de Pranzini. mas não é verdade que Jesus pode vir a fazer uma vez algo que ainda não tenha feito? E. "Querida Celina". Loyson era o seu maior desejo. carta essa que suscitou veementes protestos e grande indignação.). Mais tarde escreveu uma carta aberta na qual acusava a Igreja e o Carmelo. Continuou a combater a Igreja durante quarenta e três anos." (Ibid. VIL 1891). proclamava que a Igreja tinha abandonado o verdadeiro Evangelho. acaso teria colocado no coração destas suas pobres pequenas esposas um anseio que não tencionasse realizar?" (Carta à Celina. se não fosse esse o Seu desejo. No convento de Lisieux aquela luta aparecia como algo pavoroso.escreve — "que Ele deseja muito mais do que nós recolher no redil essa pobre ovelha desgarrada e virá decerto o dia em que lhe abrirá os olhos.

que quis oferecer a sua última comunhão por sua intenção." {Carta à Celina. não havia à sua cabeceira qualquer padre católico e . sabemos que antes da sua morte recebeu o manuscrito da "História de uma Alma" e que de um só fôlego leu esses escritos de Santa Teresinha. a fim de que este nosso irmão. Jesus amava de tal maneira Teresinha que daquela vez não se sentira na obrigação de lhe dar qualquer sinal. regresse vencido a refugiar-se sob o manto da mais misericordiosa das Mães. Loyson.. Em 1912. com a idade de oitenta e cinco anos. que qualificou como "loucos e impressionantes". 8VIL1891). Era tal o desejo que Teresinha tinha de salvar a alma daquele padre.. Aquele padre veio a morrer quinze anos depois da morte de Teresinha. "Não nos cansemos de rezar... a confiança opera milagres. que ela não deixaria de acreditar naquela conversão. n o dia da morte do Pe. Se bem que tivesse morrido com a consciência de que o Pe. por isso. mas os do nosso Esposo que são os 'nossos'. não conseguiu confessar-se. essa realidade não impediu que a sua fé permanecesse inabalável. as pessoas presentes ouviram estas suas últimas palavras: "Meu doce Jesus. o Senhor. Durante a sua penosa agonia. Sabia. além disso. filho da Santíssima Virgem." O último ato de amor dirigido a Jesus permite supor que se salvou graças às orações e aos sofrimentos .Quando nos debruçamos sobre a fé de Santa Teresinha podemos constatar que esta traduzia uma certeza: Ela sabia que Hyacinthe Loyson havia de se converter. N o entanto. Loyson não se convertera. não são os nossos méritos que oferecemos ao nosso Pai que está nos Céus.

"Só o sofrimento pode gerar almas para Cristo". Em virtude da nossa participação no sacerdócio real dos fiéis. constitui a nossa vocação. o meio mais eficaz. lhe permitem participar na maternidade espiritual da Igreja. o mínimo de nós mesmos e o máximo de Cristo — no sofrimento intensifica-se. sendo aceitas e oferecidas a Deus. as crianças rebeldes. que gera almas para Cristo. O homem receia o sofrimento. ao máximo. Ele também foi para Teresinha um filho espiritual. Nada há mais importante. os nossos sofrimentos e penas podem ser infrutíferos. Pense em quantas dificuldades há na sua vida: talvez a falta de saúde. No entanto. Pode se tratar mesmo de coisas pequeninas mas que. Somos chamados a conquistar e a gerar almas para Jesus. mas o sofrimento é. a maternidade espiritual. A mãe é a pessoa que gera a vida e depois a sustenta. embora não possa evitá-lo. O testemunho de João Paulo II . Somente quando os aceitamos e os unimos à Cruz de Jesus nos é permitido penetrar no extraordinário mistério da maternidade espiritual. a ação da Cruz. Com esta afirmação mostra-nos Teresinha em que consiste a maternidade espiritual. um conflito familiar. assim entendida. Também podemos realizá-lo pelo apostolado da palavra e da oração. ou qualquer outro pesado fardo espiritual que o oprima. do mesmo modo que não consegue obviar ao peso da vida cotidiana.de Teresinha. porque nela reside um maior despoja mento (meio pobre). sem dúvida. É a forma mais fecunda de apostolado.

nos anos sacerdotais. hoje cardeal. como que o . Não conhecemos os desígnios de Deus nem os Seus mistérios divinos. o sinal do sofrimento que se chama sacrifício. em inúmeros encontros em Roma e. Foi um consistório bastante singular. nem um título nem uma recompensa do trabalho desenvolvido pelo bispo. introduzindo assim naquele colégio um sinal particular. depois na passagem pelo Seminário Maior. Nessa ocasião a Providência divina provou o Monsenhor Deskur com a grave invalidez da qual ainda sofre. Dentre todos os cardeais nomeados atualmente. mas pessoalmente me é difícil resistir à convicção de que este sacrifício do arcebispo Andrzej. a quem referiu a respeito do Cardeal Deskur: "Unem-nos laços particulares desde o tempo de estudantes. o Papa João Paulo II impôs o barrete cardinalício ao arcebispo Andrzej Maria Deskur. que suscitou a comoção e a surpresa geral. no sofrimento do arcebispo Andrzej Deskur. Que motivo levaria o Papa a nomear cardeal um homem paralisado? A dignidade cardinalícia não é. apenas ele se apresenta como um inválido em cadeira de rodas. no último encontro antes do conclave.No dia 25 de maio de 1985. assim. quando na tarde do consistório. está estreitamente ligado ao conclave que se desenrolou em meados de outubro de 1978". desenvolvem funções muito importantes na Igreja. na Praça de São Pedro em Roma. Os cardeais. incapacitado de trabalhar? O mistério dessa nomeação foi discretamente revelado por João Paulo II. esclareceria o enigma dessa nomeação aos peregrinos da Polônia. de modo muito particular. sendo os primeiros conselheiros do Papa e os seus colaboradores diretos. Por qual razão terá sido nomeado cardeal um homem assim marcado pelo sofrimento. O Santo Padre vê. com efeito.

ao grande contributo que deu ao desenvolvimento daqueles meios de transmissão. que imediatamente depois da sua eleição. o cardeal Andrzej Maria Deskur tomou posse da sua Igreja titular. na sua convicção.ajudá-lo pelo sofrimento . Sabemos. aquele a quem o Papa. o Papa dirigiu os seus primeiros passos para a Clínica Gemelli. Na tarde de primeiro de junho. Ocupava-se. o valor do estigma do sofrimento de que foi vítima e que ele introduziu no Colégio dos cardeais. sublinhar o valor dos meios pobres. Tem-se a impressão de que ele queria. onde se encontrava então. gravemente doente. No entanto. tanto devia e a quem tinha sido dada a melhor parte . o cardeal celebrava a Santa Missa sentado. de resto. San Cesareo in Palatio. a mesma que o cardeal Wojtyla recebera em 1967. Na grandeza do sofrimento. o Santo Padre quase não se referiu aos seus méritos. No lugar do trono . Elevando o arcebispo à dignidade cardinalícia é como se. o arcebispo Andrzej Maria Deskur. com isso. portanto.preço dele. Deu grande contribuição à preparação de documentos eclesiásticos que deviam traçar a orientação da atividade dos meios de comunicação católicos. mas seguramente a mais eficaz. cardeal Wojtyla. trabalhando muitíssimo nesse campo. João Paulo II quisesse sublinhar o valor dos meios pobres. O cardeal Deskur tinha sido anteriormente presidente da Comissão Pontifícia para os meios de comunicação social. indiretamente.uma parte difícil. como aliás todos os meios pobres. da difusão e do funcionamento dos meios ricos na Igreja. ter podido tornar-se vigário de Cristo.

assinalado com o estigma dos meios pobres! É também no contexto da doutrina dos meios pobres que devem ser entendidas as palavras de João Paulo II relativamente ao atentado contra a sua vida. a ladear um altar. durante a audiência geral na praça de São Pedro. se referiu aos .cardinalício. em 4 de novembro de 1981. Que particular paradoxo: o presidente da comissão pontifícia para os meios ricos. permitiu que me encontrasse em perigo de morte. sem o sofrimento com o que foi marcada a sua vida? De novo o Papa. pronunciou estas significativas palavras: "Nos últimos meses. Cristo concedeu-me a graça de. atrair as multidões. Ao mesmo tempo. dirigindo-se aos milhares de peregrinos. Chama ele. a mim enquanto homem. seu dia onomástico. trata-se de uma graça simultaneamente concedida a toda a Igreja. A sua mão paralisada mal conseguia suster a cruz. a esse acontecimento. sem os meios pobres. uma graça particular. dar testemunho do Seu amor. mais baixo do que o habitual foi colocado uma cadeira de rodas. pelo sofrimento e pela ameaça caída sobre a minha vida e sobre a minha saúde. Ele concedeu. A 14 de outubro de 1981. Por acaso seria possível a João Paulo II exercer com tal eficácia a missão de pastor da Igreja. deu-me a possibilidade de compreender clara e profundamente que se trata de uma graça particular que. Considero-o realmente um dom particular e por ele dou. de modo muito especial. graças ao Espírito Santo e à Virgem Imaculada". Deus permitiu que eu experimentasse o sofrimento. Ao mesmo tempo. em virtude do meu ministério de sucessor de Pedro.

Vi com maior clareza. primeiro deve morrer". à luz das palavras que falam do grão.dramáticos dias do atentado: "O acontecimento de 13 de maio deu-me muito que ponderar. . que para poder dar fruto. a minha vida humana e cristã à luz do Evangelho.

de modo particular nos sacramentos da iniciação cristã. quem crê. confere ao crismado a força extraordinária do Espírito Santo e compromete-o a propagar e a defender a fé. a sua consagração fundamental — o oferecimento da pessoa humana a Deus e o seu chamamento à santidade. . A atualização da fé dá-se nos sacramentos. segundo sacramento de iniciação cristã. com toda a sua humanidade e com todo o seu cotidiano. Nele recebemos. O Crisma. Graças à fé podemos ver neles a ação salvífica de Cristo e acolhê-la. Se assim suceder. naquele que recebe o batismo. entra em relação com Deus. o dom da fé. Mediante a sua incorporação em Cristo realiza-se.PARTE III A ATUALIZAÇÃO DA FÉ A fé deve impregnar toda a nossa vida. O primeiro sacramento de iniciação cristã é o Batismo. com a vida sobrenatural. amplifica o dinamismo da fé.

Da Eucaristia. Sendo um contínuo processo de conversão. nós próprios nos oferecemos também. a fé é abertura incessante ao amor de Deus e um permanente acolhimento deste amor para levá-lo aos outros. por Jesus Cristo. o sacramento da culminação da fé e terceiro sacramento de iniciação.Na Eucaristia. sem os quais morre. podemos unir-nos de modo particular a Cristo Crucificado e Ressuscitado. na oração. se entrega a Deus que Se revela submetendo-Lhe razão e vontade na obediência da fé. durante a qual juntos oferecemos o sacrifício e juntos nos unimos a Cristo. E também necessário que a fé se exprima em atos de amor. voluntariamente. surge a comunidade da fé. no qual. diálogo esse inaugurado e desenvolvido por meio da fé. A fé realiza-se. O ponto mais alto da vida de fé é a participação no Sacrifício Redentor de Cristo. de modo muito especial. que ê um diálogo do homem com o Pai. . A fé desenvolve-se também graças àquela espécie de diálogo com Deus que é a escuta da palavra de Deus quando o homem. no Espírito Santo. na Oferenda de Cristo a Deus Pai.

pois tende à obtenção da plenitude de vida em Cristo" (Unitatis Redintegratio. o Concilio revela-nos verdades que ultrapassam o pensamento e a imaginação humanos. ao mesmo tempo. pois é a destruição. no homem. ao mesmo tempo.CAPÍTULO 1 O BATISMO O batismo. a fé cria a disposição que permite recebê-lo. No batismo morremos para o pecado. No pensamento Conciliar. Precedendo O batismo e sendo. E ainda o fundamento e o início deste processo. tanto o Sacramento do Batismo como os outros sacramentos são chamados Sacramentos da fé. daquilo que é mal por resgatar. asseguram o seu crescimento. pressupõem-na. tornando-se Seu verdadeiro adorador e filho adotivo. Diz-nos que naquele Sacramento se dá a nossa configuração e enxertia em Cristo Crucificado e Glorioso. Esta é uma morte autêntica. a via para este. "o princípio e o pórtico. tal como os outros sacramentos. . 22). é uma suprema forma de realização da fé. para lhe permitir renascer como filho de Deus. tornando-se assim uma nova criatura — participante da natureza divina e chamado à santidade. É também pelo batismo que o homem é consagrado a Deus. exprimem-na e. porque todos a requerem. Referindo-se ao batismo.

coparticipante no Seu ministério sacerdotal. Trata-se de uma morte autêntica. O batismo é a fonte da fé. o homem é incorporado no Corpo Místico de Cristo. a partir desse momento. entramos na Vida Nova. Este primeiro sacramento da Igreja é o prelúdio da nossa "vida escondida com Cristo em Deus". quando. E em virtude da Sua morte que.A expressão paulina. o batismo continua a ser. . É necessária uma fé profunda para compreender estas palavras de São Paulo: "Vós estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus" (Colò3). A imersão na Ressurreição de Cristo Morte e na Devido à pouca fé dos cristãos. detendo-se no significado do batismo que nos introduz na vida de Cristo. um sacramento por descobrir.Revela-nos que o homem recebe o dom da fé pelo batismo e. de esperança e de caridade. A partir daquele momento somos. com Cristo. "vós estais mortos". pelo batismo.3). sepultados para o pecado. para eles. Finalmente. tornando-se desse modo. para tudo o que não provém d'Ele. pois inaugura em nós a vida sobrenatural que é uma vida de fé. encerra a mesma idéia expressa pelo apóstolo na Carta aos Romanos. começa a participar no Sacerdócio Real de Cristo. escreve: "Ignorais que todos nós batizados em Jesus Cristo é na Sua morte que fomos batizados?" (Rom 6. embora ainda não o seja de um modo perfeito. profético e real. para o mal moral. pois todo o apego ao mundo e aos valores alheios a Deus.

o ser devorado por um monstro mítico ou o ser enterrado junto de cadáveres.deve morrer em nós. esta desenvolveu-se a ponto de chegar a formas extremamente dramáticas. A gênese no sentido espiritual toma a forma de uma espécie de iniciação. Muitas das representações desses ritos apelam a símbolos e a imagens particularmente impressionantes como. mas também espiritualmente. cujo impacto é susceptível de causar uma profunda impressão na imaginação humana. nestes sistemas não cristãos. baseadas no simbolismo da morte e de um novo nascimento. . O dramatismo desses ritos deriva da utilização da iconografia mais atemorizante da morte e. a sua passagem através de uma abertura circundada de fachos incandescentes. No Cristianismo.entendida como renascimento para a vida sobrenatural — realiza-se por meio de três Sacramentos: Batismo. o enterro do 'iniciado'. porque o significado dos sinais sacramentais ultrapassa todo o pensamento humano e toda a imaginação. Crisma e Eucaristia. o simbolismo mais esplendoroso da nova vida a receber. para que possamos transitar à vida nova. por outro lado. Tudo isto é calculado para provocar uma violenta comoção. Inútil no caso dos sacramentos. a iniciação faz apelo exclusivamente ao plano imaginário uma vez que pode se referir somente a esta. neles. Em algumas religiões não cristãs. iniciada pela Ressurreição de Cristo. O fenômeno do 'duplo nascimento' surge em todos os sistemas religiosos. apelam à fé e não à imaginação. O simbolismo e os sinais sacramentais. Com efeito. aliás. por exemplo. a iniciação . O homem nasce não só física. um choque. A referência à imaginação seria.

a sentir e a reagir à voz. por exemplo. a unção do Santo Crisma. o mundo acolheria com o maior assombro aquele acontecimento. sem a fé o homem é incapaz de compreendê-la e de abarcá-la. Sem dúvida. em última análise. uma nova é enxertada. Se algum cientista obtivesse êxito no transplante da vida animal em qualquer coisa que antes tivesse uma vida vegetal. No entanto. E a descoberta da nossa vocação à união com Deus e a vivermos com Cristo. ou do catecúmeno adulto. numa planta. Na vida levada até então. a vela e a veste branca. a pequena quantidade de água derramada na cabeça do recém-nascido. O batismo nos proporciona a participação nessa vida absolutamente nova que Cristo inaugurou na história do homem com a Sua Ressurreição. no batismo. Todas as vocações humanas encontram a sua origem nesta novidade. a ação salvífica de Cristo e de aceitá-la. quer se trate do estado . a presença operada pelo Sacramento do Batismo ultrapassa de maneira inimaginável semelhante transplante fictício de um novo tipo de vida. n’Ele. toda a vocação. vemos que estes não estão à altura de nos indicar a realidade que então se realiza. tal acontecimento apareceria como o maior milagre do gênero humano. é a santificação na verdade. uma espécie de novo organismo sobrenatural é incorporado à natureza humana.Graças ao batismo. As testemunhas de tal experiência certamente se espantariam ao se deparar com uma planta a ver. a ouvir. por exemplo. Só uma fé viva nos permite entrever. Se observarmos os sinais sacramentais. pois. A novidade dessa vida consiste na libertação da herança do pecado e da sua "escravidão".

começamos a morrer com Cristo para partilharmos com Ele os frutos da Sua Ressurreição. perdido devido à nossa infidelidade às graças batismais. da paternidade ou da maternidade. Na verdade. exprime a nossa própria resposta à Redenção. passando. ao mesmo tempo. em seguida. poderemos recuperar novamente aquele particular estado de pureza. No batismo realiza-se a consagração principal — a oferenda do homem a Deus. ao menos em parte. As graças do batismo nos são dadas para sempre. Esta consagração fundamental pode se realizar por meio das graças decorrentes da Redenção de Cristo e. tende à plena realização do Sacramento do Batismo. como Sua propriedade. Todo o nosso caminho de santificação não é mais do que a reaproximação ao estado de alma recebido no momento do batismo. mediante a nossa imersão na Morte e na Ressurreição de Jesus. por sucessivas etapas de purificação. então. a fim de que pela fidelidade àquelas graças extraordinárias e particulares possamos alcançar. Como a semente lançada à terra deve morrer para dar frutos de vida nova. freqüentemente desperdiçamos. também nós. . quando desejarmos caminhar para a santidade. mas nós as desperdiçamos habitualmente. Mas.sacerdotal ou da vida religiosa. pelo batismo. Devemos constantemente voltar às graças do Sacramento do Batismo. o estado de pureza de alma recebido no momento da iniciação batismal. que tem lugar no batismo. logo que cedemos ao mal. alcançamos um estado de pureza que.

25). sempre mais e mais. Devemos perder a nossa vida por causa de Cristo. "Quem perder a vida por Minha causa.20). a nossa santidade.O progresso na vida interior consiste no desejo. passar pela nossa morte. então. concedido no Sacramento do Batismo (Gravissimum Educationis. esforçando-nos por seguir. Eis por que a nossa "vida escondida. apenas pode se realizar na proporção da nossa morte em relação a tudo aquilo que nos separa de Deus. em Deus". 2) deve conduzir a um aumento progressivo da nossa ligação a Cristo. O "dom da fé". Temos de ser "sepultados" com Cristo. cada vez mais forte. pudermos dizer "Já não sou eu que vivo. em conformidade com a Sua vontade e com os Seus desígnios a nosso respeito. Ao perdermos a nossa vida por Cristo realizamos a nossa vocação de nos encontrarmos a nós próprios n Ele que é "toda a plenitude" (cf. O batismo se apresenta a nós. à semelhança de São Paulo. o Seu exemplo de forma cada vez mais plena no caminho concreto da nossa vida. graças essas que nos tornam semelhantes a Cristo por meio de uma vida vivida no espírito das Bemaventuranças. Este "perder a vida" tem já o seu início no Sacramento do Batismo e deve se realizar no desenrolar de toda a nossa existência. mas também como tarefa que somente terá o seu pleno cumprimento no momento da nossa união a Cristo. devemos. Col 2. não somente como algo já realizado. é Cristo que vive em mim” (Gal 2. ou seja. com Cristo. há de ganhá-la" (Mt 16.9). de deixar atuar as graças do batismo. A incorporação no Corpo de Cristo . quando.

. fora da qual não teria qualquer condição para se desenvolver. A fé que nasce do batismo provoca a saída do isolamento do próprio "eu" e a entrada na comunhão com Jesus e com todos aqueles que constituem uma parcela do Seu Corpo Místico. Muito freqüentemente. impossível perceber nossa pertença ao Corpo Místico de Cristo e viver essa pertença sem uma fé viva. por sua vez. Se. olham mas não vêem. nem compreendem. ao invés. estão bem mais interessados no comportamento da criança. Somente uma fé viva permite penetrar os simples sinais sacramentais e chegar à compreensão da inconcebível realidade que se consuma aquele momento. É. Nos termos das formulações do Concilio são os sacramentos da iniciação cristã que edificam o Corpo Místico de Cristo. o lugar da sua fé que é. do Filho e do Espírito Santo". no qual somos incorporados pelo batismo e em seguida fortalecidos pelo Crisma e pela Eucaristia. um fragmento da fé da Igreja. Inconscientes perante o acontecimento extraordinário que se vai produzir. tivessem fé. no entanto. as pessoas que rodeiam aquele que se vai batizar estão como cegas.A conseqüência salvífica essencial do santo batismo é a incorporação daquele que é batizado na comunhão eclesial. A Igreja torna-se. assim. se ai chorar ou se ficará sossegadinha. ficariam profundamente impressionados com a grandiosidade do acontecimento que se opera no momento em que a água escorre pela fronte do batizando e no qual se pronunciam as seguintes palavras: "Eu te batizo cm nome do Pai.

mas também toda a comunidade que. não só na palavra falada ou escrita e no bom exemplo. mas também para os outros. A sua fé pessoal. não só o recém-batizado. mediante uma maior fidelidade a Deus. aquele que recebe o seu primeiro sacramento da Igreja. Deus inunda de graças excepcionais. importante que todos nós recebamos esse grande dom de Deus.A falta de fé pode conduzir a uma compreensão mágica dos efeitos do Sacramento do Batismo ou a entendê-lo apenas como uma atividade eclesiástica puramente exterior. intensifica a nossa irradiação específica sobre os outros. pela oração e pela sua atitude de fé. Como fonte inesgotável de vida. porque a fé tem uma dimensão de comunhão. recebe no seu seio um novo membro santificado. Nenhum de nós recebe as Suas graças apenas para si mesmo. pelo pensamento e pelas obras de amor. e isso é concretizado. O Sacramento do Batismo é um fato importantíssimo para toda a comunidade paroquial. em profunda fé e gratidão. Pelo Sacramento do Batismo você entra na Comunhão dos Santos. cuja fonte é o batismo. não é algo que possa construir ou aprofundar unicamente mediante um diálogo íntimo com Jesus. por meio deste. deste modo. É. mas também independentemente da ação direta e da distância física. a graça de Cristo penetra todos os que pertencem ao seu Corpo Místico e também em todos atua o mesmo Espírito Santo. Na verdade. ao acolhê-lo. necessária para o seu nascimento e desenvolvimento. A comunidade mais próxima dos que crêem tem a obrigação de acompanhar. O crescimento em graça. propaga-as pela palavra. .

Enquanto membro do organismo místico da Igreja. Não se trata da simples recitação de orações. Para poder chegar a atuar nos outros. todos os obstáculos e distâncias. Basta que em você cresçam a fé. R. Cada um dos seus atos. mas da oração autêntica que. para o bem ou para o mal. a oração situa-se no contexto do sistema dos vasos comunicantes. a oração em si nunca é um ato solitário. Vencendo. o seu crescimento espiritual e a sua pureza de coração. você oferece a Deus em benefício dos outros. benéfica e redentora. você também pode enriquecê-la ou empobrecê-la com a sua oração de fé. bons ou maus. chega até Deus. II semi delia Chiesa). essas se tornam. Enquanto Corpo Místico de Cristo formamos um sistema de vasos comunicantes. a sua ajuda chega até onde nada mais pode ajudar (cf. assim. então. Guardini. Compreendida à luz da fé. as suas experiências dolorosas. a oração. enquanto expressão da realização da fé. no fato de que as graças decorrentes do sofrimento de alguém serem canalizadas também para outros? Quando. unindo-se aos sofrimentos de Cristo. Você já refletiu alguma vez na comunhão do sofrimento.Romano Guardini diria que "a oração dos outros lhe pertence também". Como tal. Esta realidade determina o caráter eclesial da oração e define a sua responsabilidade para com a Igreja e para com os outros. Ninguém é uma ilha solitária. tem uma dimensão social e produz uma certa pressão sobrenatural que age internamente nos outros. não precisa de ser nominativa nem de ter necessariamente uma índole concreta de intercessão. para eles uma força viva. a esperança e a caridade e que por meio . como de resto lhe pertencem também as suas ações.

um sistema de vasos comunicantes a família na sua qualidade de igreja doméstica. Se. das quais três se encontram fechadas à vida da graça. surgem laços recíprocos que variam na sua proximidade e na sua profundidade. a primeira procura converter-se a Deus torna-se para os seus familiares um canal de graça. do mesmo modo que se retiram as rolhas das garrafas com um saca-rolhas. possam experimentar os seus efeitos benéficos e salvíficos. Geralmente. Tomemos o exemplo de uma família de quatro pessoas. Se. de um deles para usá-lo como veículo de graças para os outros. porém. . aquela rolha é tecido vivo da personalidade humana.delas se intensifique a sua vida de oração para que. destruidor as. porque deseja que a decisão do homem a favor da fé e de uma experiência mais plena do amor seja tomada em liberdade. Ao seu alcance estão duas possibilidades de ação. E. No âmbito do Corpo Místico de Cristo assim compreendido. ou seja todo o Corpo Místico de Jesus. simultaneamente. O princípio físico dos vasos comunicantes pode ilustrar mais de perto o mistério dos laços recíprocos estabelecidos no contexto do Corpo Místico de Cristo. serve-Se. os outros. semelhantes a provetas hermeticamente fechadas. Continuemos a nos servir da imagem dos vasos comunicantes: a pessoa pode retirar as rolhas das "provetas" pela parte superior. porém. por exemplo. Isso Deus não quer. a feridas dolorosas e. de modo especial. quando Deus quer agir sobre um determinado grupo de pessoas. bem como a um constrangimento limitador da liberdade do outro. tal extração feita pelo alto estará sempre associada ao sofrimento. a Igreja. em certa medida.

o que será um forte indício de que a "pressão" da sua "proveta" tem de se tornar ainda mais forte. E em você que deve crescer a vida de Cristo a tal ponto que as graças e o bem recebidos provoquem a conversão dos outros. Tais são as conseqüências da sua pertença ao Corpo Místico de Cristo. porventura. por outro lado.Mas. Se. Será. . do Seu Corpo Místico. voltemos à imagem do sistema de vasos comunicantes. da sua proveta. em resultado de um aumento singular da pressão da graça no interior da proveta. provocará a conversão do casal. A reforma do mundo e a transformação dos outros começa em nós. o dom total de si mesmo. bebe e se embriaga. suceder também que esta forma de conversão dos outros resulte ineficaz. a mulher quer converter o marido que. Para começar. mais fiel será à graça e tanto mais a incidência da sua ação sobre os outros se revelará eficaz. deve principiar por si própria. é ela quem se deve converter. Deus a exigir de você uma vida interior mais intensa e talvez em absoluto. você se tornou membro do Cristo total. pois o mais importante é a intensidade da sua fé. mediante o batismo. as conseqüências da extraordinária verdade de que. Antes de começar a converter os outros. "o importante é o que tu és". se esforce por se converter. da sua adesão a Cristo. disse João Paulo II. desse modo. "Pouco importa o que fazes". Somente quando a graça crescer nela e a sua conversão se tornar mais profunda. Quanto mais o bem reinar em você. Deus prefere que aquelas rolhas sejam retiradas pela parte inferior. Pode. vinda de baixo. uma orientação radical da sua vida para a santidade. aquela força do bem crescente. por exemplo.

mais desejava assemelhar-se a Cristo. Chesterton que na história da Igreja a fé cristã conheceu. Outro golpe infligido à Igreja foi igualmente o aumento dos pregadores itinerantes. a gula. que sistematicamente criticavam os eclesiásticos. Os santos distinguem-se dos propagadores de heresias no pormenor destes últimos quererem converter os outros em vez de começarem por si próprios. Tendo como pano de fundo aquela enorme dissolução de costumes.Escreve G. Quanto mais Francisco se dava conta da corrupção e dos escândalos que o rodeavam. no mínimo. Pelo contrário. a embriaguez. era ele quem deveria tornar-se radicalmente pobre e puro. a corrupção. se o mal reinava ao seu redor. devia em primeiro lugar converter-se a ele próprio e não os outros. The Everlasting Man). Se um tal luxo e uma tal libertinagem reinavam à sua volta. Um desses períodos dramáticos de "morte lenta da Igreja" foi o tempo de São Francisco de Assis. assumindo a responsabilidade de tudo. puro. Para que o mundo se torne melhor esforçam-se por se converter a si mesmos. Dentre estas conta-se o movimento dos Albigenses e dos Valdenses que quase destruíram o Cristianismo. . Desta imagem particularmente lúgubre da Igreja do século XII dão testemunho as inúmeras bulas do Papa Inocêncio III que condenavam os abusos mais escandalosos como a usura. enquanto os santos dirigem o gume de toda a crítica contra a sua própria pessoa. cinco vezes uma morte aparente (cf. A sua opinião era a de que. a libertinagem. Francisco nunca criticava ninguém. freqüentemente tomados pela ganância das riquezas. e aos quais se contrapunham propagando modelos de pobreza contados na Bíblia. surgem na Europa grandes heresias fanáticas e agressivas. K.

o culpado era Francisco. você pertence ao Corpo de Cristo e foi inserido no sistema de vasos comunicantes desse Corpo. mas antes porque. o sonho no qual Inocêncio III vira uma figura semelhante a Francisco a amparar as paredes periclitantes da Basílica de Latrão. por você próprio. para a paróquia. Graças à luz da fé você toma consciência de que a transformação dos outros deve principiar sempre pela sua. a sua fidelidade é força para aqueles que você ama.e a história deu-lhe razão. Começa. e assim sendo era ele próprio quem deveria converter-se radicalmente . irmãos e amigos.e assim salvá-la. a sua santidade influenciou realmente outras pessoas que ele nunca chegou a conhecer. a Europa começou a levantar-se da sua queda. mas é também alimento para o seu marido. portanto.símbolo de toda a Igreja . filhos. para a Igreja ou para o mundo inteiro. desse modo. A sua santidade enriqueceu o mundo.humilde e pobre. Cada parcela de bem que realiza incide nos outros. que tanto precisa de convertidos e de santos. também chamada a "mãe e a primeira de todas as Igrejas" . esposa. e em especial precisa da sua conversão e da sua santidade. pelo batismo. . Com a força da santidade de Francisco. quando se tornou tão "transparente" ao Senhor que o rosto de Cristo podia refletir-Se nele. Cristo levantou a Sua Igreja da "morte" da fé. De fato. não tanto pelo fato de ter sido ele um homem que realizou o espírito do Evangelho de modo invulgar e heróico. Se o mundo era assim tão perverso. segundo o princípio dos vasos comunicantes. A luz da fé lhe permite descobrir que. Realizou-se. A Sagrada Comunhão que recebe não fortalece apenas a você. quando Francisco se converteu.

agradável a Deus" (Lumen Gentium. santa. torna-se verdadeiramente eficaz. 10).pela sua abertura a Cristo. com ele e por seu intermédio. quando nada quer conservar para si e consente em ser . através da sua santificação. O sacerdócio dos fiéis O sacerdócio universal dos fiéis procedente do batismo exprime-se.. a Igreja e o mundo. O Concilio Vaticano II confirma explicitamente que em virtude do santo batismo. os seus queridos. "Pela regeneração e pela unção do Espírito Santo. os fiéis obtêm a participação no sacerdócio régio de Cristo (Lumen Gentium. celebrada no contexto do sacerdócio universal dos fiéis. Deus quer que se santifique e que. de modo que ofereçam. porque não é somente alguém que coopera no sacrifício. igualmente. Ao celebrar a Santa Missa. no Sacrifício Eucarístico. apresentam o sacrifício de Cristo. de modo mais pleno. (.. o sacerdote não só representa Cristo. oferecendo-se. eles próprios a Deus. Durante a Santa Missa realiza-se uma particular assimilação do batizado a Jesus Cristo. sacrifícios espirituais. sejam santificados o meio em que vive. 26). mas ele próprio se torna dom propiciatório. mas também os fiéis que. A sua participação na Santa Missa. O sacerdócio universal dos fiéis prende-se ao chamamento a uma total entrega a Deus e à vocação para a santidade.) ofereçam-se todos os discípulos de Cristo como hóstia viva. em toda a sua atuação cristã. quando você se entrega realmente a Cristo e por Ele se entrega sem reservas ao Pai. os batizados são consagrados para serem edifício espiritual e sacerdócio santo.

Na sua primeira carta.. no México. O sacerdócio dos fiéis deve conduzi-lo a uma configuração sempre maior com Cristo. a exemplo da Virgem Maria cujo abandono. Deus. De fato. Pelo batismo fosse chamado à "contemplata aliis tradere" — a transmitir aos outros aquilo que está vivendo. deseja que você se faça dom total para Ele. propagá-la e defendê-la como verdadeiras testemunhas de Cristo.dever fundamental de todos os membros do povo de Deus".9). Na homilia pronunciada em 29 de janeiro de 1979. que a eficácia da sua ação apostólica decorre de uma profunda vida interior. I P 1. todos os fiéis são levados a confessar publicamente a fé que receberam de Deus por intermédio da Igreja. Você é. porque só assim poderá Ele Se dar plenamente a você e preenchê-lo com a Sua presença.) a fim de proclamardes por toda a parte o amor d Aquele que vos chamou das trevas para a Sua luz admirável (cf. cioso do Seu amor. você se torna participante no ministério profético de Cristo. pois. tornar-te dom total para o Pai. o Papa João Paulo II disse: "Em virtude do Sacramento do Batismo e da Confirmação. se tornou a fonte da sua maternidade espiritual em . porém. em virtude do batismo. o Santo Padre. Deve. chamado a exercer funções apostólicas e evangelizadoras. A presença sempre crescente de Cristo em você deve ser transmitida aos outros. porque chamados à evangelização . como Ele.. São Pedro liga o sacerdócio dos fiéis ao dever do apostolado e da evangelização: "Vós sois sacerdócio real (.despojado como Cristo. da vida de oração e do seu pleno abandono a Cristo Sacerdote. virginal e total a Deus. sem nada reter para si próprio. portanto. Lembre. Importa.

o batismo chamate. também a você. Gerando-o para a fé. . ao mesmo tipo de maternidade.favor das almas.

o Crisma realiza uma inserção ainda mais perfeita no Corpo Místico de Cristo. Mediante o Crisma recebemos a graça do Pentecostes . O Crisma é a "descida" solene do Espírito Santo sobre os batizados para conduzir à maturidade aquilo que. é um sacramento que determina e aprofunda o processo sempre crescente de configuração. também como estes. A confirmação. ou Crisma. vinculam-se mais perfeitamente à Igreja e recebem um especial vigor do Espírito Santo: ficam assim mais seriamente comprometidos a difundir e a defender a fé. como testemunhas verdadeiras de Cristo" (Lumen Gentiumy 11). um sacramento de iniciação cristã. Se o batismo incorpora o batizado na Igreja. tal como o Batismo e a Eucaristia.CAPÍTULO 2 O CRISMA O Sacramento da Confirmação. do crente com Cristo. os fiéis.a plenitude do Espírito Santo. as graças deste sacramento àquelas graças extraordinárias de que foram participantes os Apóstolos no dia de Pentecostes. "Pelo Sacramento da Confirmação. de uma . está estreitamente vinculado ao Batismo e à Eucaristia por ser. por palavras e obras. A Igreja compara. nos textos litúrgicos.

teve já o seu cumprimento no Sacramento do Batismo.vez por todas. . Fruto particular deste sacramento é o dom de uma fé amadurecida. concedida pelo Espírito Santo através das graças do despojamento.

quer elementos purificadores. ter acesso à plenitude da fé. pois. despojando-o das suas forças e do seu poder. verdadeiro rochedo da sua salvação. quer elementos atrativos. todavia esquecemos quase sempre que é Ele o principal construtor da nossa santidade. Disse São João da Cruz que Deus dedica maior amor a uma alma quando a despoja. pondo-o em verdade. então. Mas freqüentemente não compreendemos a atuação do Espírito Santo. cada vez mais. d'Ele. faz com que precises. ou seja. Despojarmo-nos significa criar em nós espaço para a fé que exige a humildade. Consolação. elementos do nosso despojamento. é Ele quem nos torna . E. Amor do Pai e do Filho.condição para alcançar a plenitude O aprofundamento da nossa fé realiza-se por meio da renúncia aos sistemas de segurança que possuímos e de tudo aquilo que suscita em nós uma sensação de força. caminho que compreende. em que Deus. Ele que realiza todo o processo indispensável para percorrermos o caminho de união com Deus. A graça do despojamento ê um dom particular do Espírito Santo que despoja o homem antes de descer sobre ele.O despojamento . E uma graça inestimável esta. o aproxima mais d'Ele e. Se você não encontra apoio em qualquer sistema de segurança. pois desse modo o homem pode. Deus pode atraí-lo de modo a que se apóie exclusivamente n Ele. O nosso despojamento é executado pelo Espírito Santo. de poder e de importância própria. Sabemos que Ele é Poder.

Jo 16. o Pai dos pobres. Se você se sente seguro de si. libertando-nos. O Seu dom consiste em nos despojar e em nos empobrecer ainda mais para nos tornar abertos ao Seu Poder e ao Seu Amor. o que eqüivale a dizer: concede-nos o dom da humildade.8). homens de pouca fé. transmite-nos a promessa de Cristo. pois. uma vez que pode então descer nesse vazio do nosso despojamento e enchê-lo com o Seu infinito Poder e com o Seu infinito Amor. no seu Evangelho. Um dos aspectos mais importantes deste despojamento por meio do qual o Espírito Santo nos prepara para a Sua "descida" é o despojamento da imagem falsa que temos de nós próprios. Pode porventura dizer-se que o Espírito Santo prodigaliza os Seus dons para nos tornar mais ricos? Decerto que não.pobres porque Ele é. uma das funções do Espírito Santo ao descer em nós no Sacramento do Crisma é a de convencer-nos do nosso pecado.pela Sua vinda há de convencer o mundo do pecado (cf. Só então Ele próprio Se tornará um dom para nós. Tratase de uma graça fundamental do Espírito Santo. é. Ele quem prodigaliza os dons. São João. se até agora não descobriu a sua condição de pecador e se. desse modo. pelos seus . através da qual podemos descobrir quem somos realmente. como dizemos na seqüência da Missa do dia de Pentecostes. da mentira. Portanto. reconhecermos que somos pecadores. pois isso estaria em desacordo com o Evangelho que define a riqueza como uma "maldição". de que o Consolador o Espírito Santo .

vem para aquele que no silêncio espera a Sua vinda. receoso e morno na sua fé. escravo. a princípio apenas lhe é proposto para que. se desenvencilha de tudo. você se põe à escuta de cada uma das Suas palavras no desejo de que Ele atue na sua vida. mediante a fé. não precisa do Espírito Santo. não consegue receber as graças inerentes ao Sacramento do Crisma. por conseguinte. como habitualmente. Não virá a você senão na . A humildade e a fé são dons fundamentais do Espírito Santo que nos abrem à Sua descida cada vez mais intensa e a receber o dom que Ele faz de Si próprio. você possa recebê-lo em perfeita liberdade. Se você não se sente pecador. significa então que. A atitude de presunção e de falta de humildade fecham a porta do seu coração à Sua vinda. De fato. na realidade.próprios meios. A eficácia do Sacramento do Crisma As graças próprias de cada sacramento não agem automaticamente. não pode desejar a intervenção salvífica do Espírito Santo na sua vida e. O Crisma não apaga os defeitos do caráter. não elimina as faltas originadas pelo seu temperamento nem substitui o seu esforço pessoal. sem se impor. das atenções humanas. O poder do Espírito Santo concedido no Sacramento da Confirmação. É com grande delicadeza que o Espírito Santo desce ao coração do homem. Depois de ter recebido este sacramento é possível que continue miserável. esta graça pode se deparar da sua parte com uma recusa ou com o desinteresse. Ele só vem quando perseverante na espera.

mediante o crescimento na humildade e na fé. você deve se colocar na presença de Deus em verdade. Antes de qualquer coisa é necessário que você se torne humilde. . de fato na sua vida algo extremamente importante: um novo processo da sua colaboração com o Espírito Santo que veio e que espera o seu coração inteiramente aberto à Sua descida. Senhor que dá a Vida. Para poder hoje responder mais uma vez a esta questão. e que inaugurou. em geral. lhe permite ter uma abertura cada vez mais ampla às graças do Crisma. projetado em linha reta. Trata-se de um sacramento que requer a sua cooperação. que hoje vais receber no Sacramento do Crisma. Imediatamente. está. que é também a verdade. fome da Sua presença e da Sua ação. antes da recepção do Sacramento do Crisma. Depois do Crisma você pode julgar que algo na sua vida religiosa teve o seu epílogo. para que nelas cresça completamente. assinalada por inúmeros altos e baixos. no decurso da renovação das promessas do batismo. Para atingir a maturidade da fé é preciso primeiro experimentar as conseqüências dos erros motivados pela sua imaturidade. que uma etapa já está vencida quando na realidade você está apenas no limiar do seu caminho para a plenitude da fé. O avanço para a maturidade da fé não é um movimento regular. a Igreja se dirige a você com a seguinte pergunta: "Crês no Espírito Santo.medida da fome que nasce no seu coração. pois só a partir desse momento a fé poderá crescer em você. O crescimento na humildade. do mesmo modo que O receberam os Apóstolos no dia do Pentecostes?".

a validade do sacramento não eqüivale à sua eficácia. você as renovou. você não deveria pôr em questão a sua fé? Como deve ser pequena a sua fé se não vive das graças decorrentes do Batismo e do Crisma! Contudo. . Ele está à porta e bate. nem da realidade desse seu 'segundo nascimento'. não podia ter consciência da grande transformação que se produziu em você. mais tarde. pode não acolher as graças a ele inerentes.27). mas não entrará se não for convidado. Ao falar da Eucaristia. e o que é que mudou na sua vida? Se você recebeu o batismo enquanto criança. As graças dos sacramentos são infundidas unicamente naqueles que não lhes opõem resistência. quando durante o crisma. no entanto. para se fechar a Ele. você recebeu a plenitude do dom do Espírito Santo. Se bem que o sacramento permaneça válido. isto é em verdade. As promessas batismais foram feitas em seu nome pelos pais e pelos padrinhos mas. O Espírito Santo precisa da sua abertura e da sua disponibilidade interior. São Paulo advertia: "Todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do Corpo e do Sangue do Senhor" (ICor 11. ou pior ainda. com espírito de humildade. portanto. que fiz do próprio Espírito Santo que recebi como um dom indizível? Para a pessoa que o recebe.Apreciando a sua vida. você deve se questionar freqüentemente: que fiz dos dons do Espírito Santo. Você é livre. poderá dizer que as pronunciou plenamente consciente de estar fazendo a sua opção por Cristo para Lhe pertencer completamente? Esforçando-se por perseverar na verdade. pode se tornar culpada por o ter recebido indignamente. a pessoa.

Em vez disso. as portas do seu coração. de par em par. mas estéril. eles poderiam ter compreendido o ensinamento de Cristo na Sua totalidade.mas pode também se decidir pela fé. Quando vier o Espírito da Verdade. eles compreendiam bem pouco do que Jesus lhes dizia. O dom do Espírito concedido aos Apóstolos Durante a Última Ceia. mas não as podeis suportar agora. As graças deste sacramento devem reviver e crescer em você ao longo de toda a sua vida . quando encontraram Jesus e O seguiram? Se assim tivesse sido. durante todo aquele tempo.a descida do Espírito Santo — você pode agora reparar esse estado de coisas por meio de uma melhor disposição interior.12-13). No entanto. A razão é que o Espírito não podia descer sobre eles num primeiro momento. porque o Espírito Santo não tinha ainda descido sobre eles. Na véspera da Morte de Cristo. Ele pode ressurgir. Ele guiar-vos-á para a verdade total" {Jo 16. se surge na pessoa a disposição necessária. os Apóstolos ainda não estavam aptos a receber todo o Seu ensinamento.até que chegue à plenitude da união com Cristo no Espírito Santo. Porque é que o Espírito Santo não veio sobre eles logo ao princípio. pela humildade e abrir-Lhe. disse Jesus aos Apóstolos: "Ainda tenho muitas coisas para vos dizer. Se você recebeu este sacramento com pouca fé. pois não . O Sacramento do Crisma recebido em pecado mortal ou sem fé é válido. sem se dar conta do extraordinário acontecimento .

o traçado deste processo pode ser visto nitidamente. E é inegável que. decerto. nem tinham uma fé autêntica — aquela fé que eqüivale a sentir-se impotente e a tudo esperar de Deus. Na alma de Pedro poderia ter despontado um sentimento de superioridade e de satisfação: . e em seguida ao abandono de Deus. recusou-se.Aquele não seguiu o Senhor. Pedro deixou a família e a profissão. pois tinha alguns pescadores ao seu serviço. tendo acontecido o mesmo com Tiago e João. Sabemos pelo Evangelho que deixaram seu pai Zebedeu. ao que se seguiu o espanto dos Apóstolos e a reação de Pedro: "Aqui estamos nós que deixamos tudo e Te seguimos" (Mc 10. um homem abastado. deixamos tudo. que provavelmente seria proprietário de uma empresa de pesca. por fim. não estavam ainda suficientemente despojados. Eis porque Jesus pensando nele declara: "E mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus" {Mc 10. Mas. a seguir o Senhor. de fato. o ofício e a sua segurança: deixaram tudo para seguir Jesus. Ele não queria abandonar tudo: rejeitou o despojamento. E indispensável que quem crê fique despojado dos seus sistemas de segurança. ou à dinamização da fé e a um reforçar da confiança n'Ele. mas. de fato.possuíam a disposição necessária para acolhê-Lo. Também eles tinham deixado a família. Ainda não havia neles a autêntica humildade. e era. O jovem rico que perguntou com tanto fervor a Jesus o que havia de fazer para ganhar a vida eterna. tal como acontece .25). O processo de despojamento conduz ou à revolta.28). Na vida dos Apóstolos. quanto a nós.

por exemplo. Também os Apóstolos. Foi a mãe dos dois. sentindo-se os melhores. a caminho de Jerusalém. pretenderem o castigo para os piores. eram já verdadeiros fariseus. o homem num primeiro rasgo de espontaneidade está pronto para entregar tudo ao Senhor. aqueles dois Apóstolos já tinham se apropriado dos primeiros lugares no reino de Jesus. E já um traço nítido de farisaísmo o fato de eles. quer atravessar uma aldeia samaritana. tendo tendência a voltar a se apropriar de tudo. que tinham abandonado tudo por Cristo. Então. mais tarde. de fato. Deste modo se vê como é possível deixar tudo para. parece provável que tenham até chegado a ter um certo ciúme de Pedro por ele ter sido distinguido dos outros. mas os habitantes não O acolhem por causa da aversão que tinham aos judeus. Tiago e João. Tinham construído a sua própria visão do reino de Israel e sonhavam fazer carreira. decerto com o conhecimento deles. demasiado seguros de si. como por exemplo. naquela situação em que Jesus. apesar de não o serem. Além disso. nem de fato. e melhor do que os . O farisaísmo deles mostra-se evidente.54). em seguida. que pediu que pudessem vir a sentar-se um à direita e outro à esquerda de Cristo. Pode acontecer que alguém deixe tudo para seguir o Senhor e se sinta depois superior. chamados "filhos do trovão" exclamaram: "Senhor queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?" (Lc 9. Em espírito. Nos seus desejos. nem de nome. João e Tiago. voltar a apropriar-se de tudo. sentiramse.freqüentemente.

naquele tempo. pelos fariseus e saduceus. na vida dos Apóstolos. um período cheio de alegria e de sonhos. ao poder do Pai dos pobres.24). mas isso eqüivale a deixar-se penetrar pelo veneno do farisaísmo. as etapas da sua reaproximação de Deus. testemunha das recentes tentativas de apedrejarem e de prenderem Jesus. porque tal pessoa é refratária ao Seu poder. para morrermos com Ele" (Jo 11. De início surgiu na vida deles a "primavera da Galiléia". que enquanto foram presas do espírito farisaico. quando no início dos conflitos com os fariseus suscitaram o receio e o medo . enquanto continuaram a apropriar-se dos dons recebidos. Poderia se pensar que tudo teria sido bem mais simples se.seriam aqueles os primeiros fulgores de purificações e as primeiras provas de fé na vida dos Apóstolos.16). o Espírito Santo esteve impedido de descer sobre eles. Vemos. diria visivelmente desencorajado e quase em desespero: "Vamos nós também. Foi então que Tome. já não eram os Apóstolos triunfantes da primavera da Galiléia! Agora começavam verdadeiramente a ter medo. que é espiritualmente rico. . de resto. Porém. Aquele que é luz . logo ao princípio. o Espírito Santo não descerá ao homem rico de espírito. o Consolador — Aquele que santifica e que endireita as veredas da alma humana. com o poder representado. O Espírito não poderá descer àquele que se sente seguro de si. do qual Jesus dirá: "Ai de vos os ricos" (Lc 6. Observamos claramente.outros. Foi o que sucedeu no caso dos Apóstolos. Aqueles. pois existiam conflitos abertos com a elite da nação.tivesse imediatamente descido e esclarecido os ensinamentos de Jesus. Só mais tarde algumas nuvens sombrias começaram a se evidenciar no horizonte.

Para os Apóstolos. gloriosa e como se não fosse deste mundo. este teste teve lugar na Sexta-Feira Santa. Alguém afirmou: "Se não passaste pelo teste do desespero.O despojamento mais completo e a prova mais dura de fé virão inesperadamente com a Paixão de Cristo. Se bem que o Evangelho não se refira explicitamente. foram completamente despojados. nenhuma esperança. Os dez dias decorridos entre a Ascensão e a descida do Espírito Santo também foram . que estava no meio deles. fariseus de espírito. quando puderam ver que Ele vivia. foi para os Apóstolos a noite total da purificação. não teria sido estranho esse sentimento de desespero. pode dizer-se que nada sabes". Não chegara ainda o termo das provações às quais os Apóstolos foram submetidos. Viram-no passar através de portas fechadas. não terminou ali a noite da sua purificação. Agora ela é distinta. que já não dava plena segurança nem estabilidade. tratava-se de uma outra forma de presença. a João. Porém. tudo se desmoronou. de pé junto à Cruz. graças à qual é consumada a Redenção do mundo. aquela "noite" viu-se iluminada pelo resplendor de Cristo ressuscitado. nada mais restava. de tal forma que chegaram a duvidar de que tratasse verdadeiramente do seu Mestre. dia da Paixão de Jesus. Também ele sentiria naturalmente que tudo se despedaçara. nada mais havia a esperar. ali. O Reino já não existia. somente sobrava o desespero. Sexta-feira Santa. Para eles. tudo caiu por terra. Foi então que eles. Já não era a anterior humanidade de Cristo. Jesus parecia-lhes um derrotado. Depois da Ressurreição.

modelo de espera da vinda do Espírito Santo. Eis como Garrigou-Lagrange descreve essa situação: "Nos meses precedentes. Os Apóstolos não se encontravam ali sozinhos.. na tarde da Ascensão. devem ler experimentado uma fortíssima impressão de solidão bem como uma impressão de deserto e de morte.. Permanece constantemente com eles. com a Sua presença. Careciam agora de todo e qualquer suporte.para os Apóstolos uma prova de fé e de um despojamento contínuo. sem qualquer sinal visível da humanidade de Jesus. como exemplo de fé e de perseverança na oração. está assim completamente despojada." (Les trois ages de la vie intérieure. a Virgem Maria estava com eles. desce sobre eles quando estavam assim despojados e no mais completo vazio. privados da Sua presença visível e da Sua palavra que os sustentava. a alumia. e agora decide deixá-los para sempre. Ele tornara-se a vida deles. Foi o que aconteceu naquele Cenáculo. a intimidade deles com Jesus crescia diariamente.. aqui embaixo.. E é então que o Espírito Santo. que como diz a liturgia é o Pai dos Pobres. Aquela que nunca tinha caído em desânimo e cuja fé nunca vacilara.II). Ensina a Teologia da vida interior que no decurso da "segunda noite". A jovem Igreja que nasce no Cenáculo. Nessa altura invade-os o Seu Poder e fortalecendo-os dessa maneira são enviados a conquistar o mundo para Cristo. aliás a mais penosa. despojados já de tudo. t. . Como deviam sentir-se sós e isolados. Os Apóstolos. esperam com Ela. Os Apóstolos. totalmente pobres. surge a Virgem Maria que. e que persevera em oração. Fora-lhes arrebatada a presença humana de Jesus que até então tinha sido o seu principal apoio.

25). dado que a Igreja é o Seu Corpo Místico. Amar como Cristo é amar até ao dar da própria vida. tece a descrição de um painel de mosaicos do século IV d. o bispo "gera-o" para a plenitude da vida cristã. Ao receber este sacramento estabelece-se um estreito vínculo pessoal entre você e o bispo que o ministra e que. na qualidade de dispenseiro do Sacramento do Crisma. que se encontra no Museu Bardo.C. em Tunis. A Igreja é nossa Mãe. porque entregandose à Igreja. Desajeitadamente. Tornando-se para você um canal particular da graça e dos dons do Espírito Saiu o..): "Que um cristão não pode olhar sem emoção. Você deve amai a I g r e j a como Cristo que "Se entregou por ela” (Ef 5. no seu livro "Noturnos". Se dela não temos uma visão sobrenatural isso é devido à atual secularização generalizada.Amar a Igreja Pelo Crisma você se une mais intimamente à Igreja. No Credo nós professamos: "Creio na Igreja universal". O sentido desta declaração d e v e refletir a atitude de entrega confiante à Igreja. (mosaicos. como se reproduzisse no desenho das . participa na maternidade sobrenatural da Igreja.. O estabelecimento de um vínculo espiritual entre o crismado e o bispo compromete-os no amor à Igreja. Os textos litúrgicos falam de uma marca espiritual que fica impressa na alma do crismado uma marca que exprime a íntima e perfeita ligação com Cristo e com a Igreja. Daniel-Rops. você se entrega a Cristo.

havia um local onde os próprios perigos tinham um sentido.. E nessa atmosfera de problemas e de riscos.. onde tudo era ordenado numa grande esperança. Será preciso muita imaginação para as compreender tal como as compreendia aquele longínquo irmão nosso em Cristo. naquele mundo sob ameaça. o de Juliano. estando a história como que opaca não se ousava perscrutar demasiadamente longe o horizonte da Promessa.suas pedras um qualquer 'graffiti' traçado por mão furtiva. representa este o pórtico e a co-lunata de uma daquelas basílicas constantinianas edificadas um pouco por toda a parte no Ocidente mediterrânico. E uma breve inscrição a elevar aquela humilde imagem à dignidade de um símbolo. nos escombros cercanos do Império. Havia também um lugar onde as piores . que é preciso ouvir pronunciar. que com a ajuda de pequenas pedras as traçou no cimento úmido? Estando o mundo cheio de incerteza. a soberania da Boa-nova. quando a revolução da Cruz começou a instalar. Não era ainda totalmente seguro afirmar-se por Cristo. Constantino havia já reconhecido o imenso fato histórico que representava o surgimento do Cristianismo e o seu desenvolvimento no universo de Roma. eram sinais. Porém. de que a anarquia política. Século IV! O tempo das grande lutas não chegara ao seu termo. onde se pressentia o porquê' e o como'. na doçura apaziguadora de uma oração. um feixe de confusos temores e de incertezas. a inquietação religiosa e o perigo bárbaro. Mas os retrocessos eram sempre possíveis. aquelas palavras consoladoras. deixa à nossa meditação estas duas inesgotáveis palavras: Ecclesia Mater. Existia no Império uma angústia crescente. o Apóstata. como o foi por exemplo. O mundo não optara ainda definitivamente entre o Panteão de múltiplo prestígio e a revelação do Deus vivo. naquela Cristandade de dor na qual o sangue dos mártires estava ainda fresco na areia dos anfiteatros.

as circunstâncias parecem ter se transformado. a Mãe-Igreja. houve uma realidade que sobreviveu a todas as vicissitudes da história e que para os milhões de homens do nosso tempo aparece exatamente como aos fiéis dos tempos heróicos nos atributos eternos da maternidade. a palavra "filho da Igreja" com a qual ele se auto-define.Papa (Papá) . ignorada. de forma confusa.acaso não exprimirá o eco dos mesmos sentimentos de filial afeição e de absoluta confiança exprimidos pela inscrição de África.) O mais ignorante dos cristãos sabe ainda que. Tinham-na dado por morta. para que logo se note que ela continua lá no . Mas basta que a humanidade sinta estremecer o destino pelas suas bases. caluniada. E o nome que chamamos à pessoa que a nossos olhos mortais personifica e representa a Igreja . Ecclesia Mater. No entanto. como nos primeiros tempos da nossa era. onde a fraternidade humana existia para além das barreiras de raças e de classes. Esse lugar privilegiado. ou abolida. através da sucessão de acontecimentos e incertezas humanas. do qual as colunas e as paredes da Basílica de Tabarkha são apenas a imagem visível. uma adesão bem diferente daquela que se consente aos filósofos ou aos sistemas.explosões de injustiça e de raiva cessavam.. relegada juntamente com as mais velhas indumentárias do passado. aquele lugar do qual o apóstolo dissera que havia de ser para sempre "a casa do Deus vivo".. épocas e impérios. aparece mais em evidência. as componentes do mundo pareciam não lhe deixar qualquer espaço. há mil e seiscentos anos: Mãe-Igreja? Igreja-Mãe. era a Igreja. é nas horas de inquietação e de ameaça que o seu papel. onde o amor era mais forte do que a morte'. traída até por aqueles que devem aos seus ensinamentos a dignidade de homens que reivindicam contra ela. exprime uma pertença de aspecto diverso daquela proporcionada pela formação humana e pelos partidos. Vários séculos decorreram. (.

a Mãe-Igreja. que já não sabe qual o sentido de uma vida que se lhe escapa e lhe foge.. e diante dele. Basta que uma guerra estoure para se ver reconhecido o seu poder. segura de si. oferece aos homens do século XX o que os do século IV já lhe pediam. a certeza de uma verdade sagrada. E.) Em face de um mundo que duvida de tudo.. olha-os com infinita piedade e murmura: 'Que importa que vos tivésseis afastado de mim se eu estava sempre perto de vós?'.seu lugar 'a cidade situada sobre a montanha e que se vê de todo o lado'. aquela lição de amor que ela própria . Basta que a civilização seja ameaçada. a começar de si próprio. que perecemos!'. Apesar de tudo a Mãe continua a estar sempre presente para acolher o filho pródigo..) Ela vive na convicção de que em nenhum coração humano há traição tão grande que a palavra "perdão" não possa aí encontrar o seu lugar. como nos tempos primitivos em que a Cruz conquistava o mundo. o que ela lhe repete é uma simples mas necessária lição. de possuir para além de todas as intenções sociais e políticas que lhe são atribuídas. E eis que precisamente. do fundo da sua maternidade. só ela dá a impressão de saber com exatidão para onde vai e. (. não procurando senão cada uma das partes opostas colher para seu proveito um irrevogável prestígio. voltando-se para aqueles que durante muitos anos fingiram não a conhecer.. Em face de um universo fustigado pela violência na qual o homem parece obcecado pela fatalidade lógica da própria vontade de destruição. para colocar ternamente aos ombros a ovelha negra do rebanho (. que o homem descubra nele. abismos que por si só cavou e o mesmo grito de súplica irromperá dos seus lábios como na noite da tempestade: 'Salva-nos. a Igreja.

na esperança e na caridade que o Espírito Santo infunde nos corações de todos os membros da Igreja. Você se interessa pela sua vida e a sente como "a sua Igreja"? O desejo de se unir cada vez mais a Jesus. Analogamente. (. Enriquecido com as graças que dele dimanam. até ao fim. irá encontrá-Lo plenamente no Seu Corpo Místico. inseridos pelo batismo no Corpo Místico de Cristo -sublinha o Concilio — e fortificados pelo poder do Espírito Santo no crisma. . O compromisso do apostolado O amor a Cristo. Se procurar Jesus. faz nascer o desejo de dar testemunho d'Ele.recolheu nas encostas das colinas da Galiléia e que o sangue de Deus selou no Calvário". Ao amá-Lo começará também a amar a Igreja.. que é o maior preceito do Senhor. como Ele o fez.) O apostolado exercese na fé. Recordando a obrigação que cada cristão tem de dar testemunho de Cristo. a sua vocação para a santidade e o seu amor à Igreja vinculamse fortemente com o chamado à ação apostólica. se a ama como Cristo a amou. Pelo Crisma ficou estreitamente vinculado à Igreja. são incumbidos pelo próprio Deus da ação apostólica. "Os cristãos.. intensificando-se graças à fé. interrogase então a respeito do seu amor por ela. até doar a própria vida. Já o mandamento do amor. fará crescer também a consciência de ser filho da Igreja. o Papa João Paulo II dizia que somente um amor firmado à Igreja pode sustentar aquele fervor de dar testemunho e que não se pode separar a fidelidade a Cristo da fidelidade à Igreja.

em partilhá-lo com eles. Você deve dar testemunho de tudo o que lhe foi concedido como dom. tornando mais profundo no seu coração o amor à Igreja. Daí que tudo o que você fizer deve contribuir para edificar e difundir o Reino de Deus. O seu apostolado deve exprimir-se numa atitude de serviço aos outros. Além disso. testemunho que deve sempre fluir da fé e do amor. isso seria enterrar o tesouro. Se procedesse assim. Você recebeu um tesouro e um extraordinário dom que não pode guardá-lo só para si. da sua diocese. a sua missão consiste em transmitir esse tesouro inestimável aos outros. testemunhar Aquele que morreu e ressuscitou por você e por todos aqueles a quem leva o Seu testemunho. com efeito. João Paulo II interpelou do seguinte modo a França: "Es fiel à graça do seu batismo?" A mesma questão é também dirigida a você: "Você é fiel à graça do santo batismo? Você é fiel às graças do crisma? Desenvolve-se em você o sentido de responsabilidade pelo rosto e pela vitalidade da sua Igreja. . Pelo contrário.estimula todos os fiéis a procurarem a glória de Deus e a vida eterna para todos os homens" (Apostolicum Actuositatem)”. Quanto mais dócil for ao Espírito Santo. tanto mais Ele reproduzirá em você a imagem de Cristo e. do que ama e de tudo aquilo que o Espírito Santo realiza em você. das descobertas que fez. da sua paróquia?" O rito do Crisma está diretamente ligado a formas concretas de testemunhar Cristo. sempre fortalecida pelo Espírito Santo. Você deve. Certa vez. fará com que seja fiel à vocação de apostolado.

"você entristece o Espírito Santo" (cf. aquela Paz que o mundo não lhe pode dar. E. se não procura escutá-Lo. na vigília da solenidade do Pentecostes. antes de tudo. mas também espiritual. Enquanto não descobrir o Espírito Santo e não se der conta que é Ele que continuamente o purifica e o renova. o Crisma permanecerá para você um sacramento desconhecido. rezando em você com palavras de criança. João Paulo II exclamou: "Que o Seu Espírito desça! Que venha a nós o Seu Espírito e que renove a face da terra. você não tem fé. anunciando-lhes a Boa-nova da salvação e do amor de Deus que você mesmo há de experimentar cada vez mais. Ef 4.30).você tem de Lhe suplicar a graça da fortaleza tão necessária para defender a fé e para empreender o labor do apostolado. fazendo-o correr em sua ajuda. que é Ele que forma em você a atitude filial para com Deus Pai. Somente por meio da fé lhe será possível divisar e acolher a Sua ação salvífica. habitualmente tênue. há de guiar o seu coração para os pobres. Se realmente vier a descobrilo. Ele há de cumulá-lo com a paz de Cristo. não só com socorro material. Se ao invés. mas até sufoca e abafa a Sua voz. Durante a primeira peregrinação à sua pátria. "Abba-Pai". Tal atitude é causa . Desta terra!" Com os olhos do corpo você não pode ver o Espírito Santo embora Ele esteja presente.

Amor que lhe é dirigido . O Espírito Santo deseja continuamente aprofundar esse encontro. é um autêntico encontro entre duas pessoas. que é o Espírito de Jesus. à contemplação e à santidade.recorda-lhe constantemente as palavras de Jesus. e sempre ao serviço da Igreja amada. e justamente desse modo. essa condição indispensável para a ação do Espírito Santo na alma do crismado. conduzir a alma a uma união com Cristo cada vez maior. E tão fácil abafar a Sua voz C desperdiçar esse dom inefável que lhe foi concedido no Sacramento do Crisma! A f é . Amor do Pai e do Filho .do Seu tormento — kénosis — do Seu aniquilamento no contato com você. posto que mais freqüentemente com a doçura da brisa sussurrante. . falando até por vezes com a violência do furacão. Ele.

fortalecem-na e exprimem-na (n° 59). permanece estéril. alimentam-na. que realiza precisamente através dos sacramentos. nos casos em que falta a fé. os se fé. se bem que atue por força intrínseca. mas. cujo poder se fundamenta sempre na força da fé.CAPÍTULO 3 A EUCARISTIA Entre a fé e os sacramentos existe uma estreita relação. A fé é sempre a condição preliminar que garante a eficácia dos sacramentos. A teologia dogmática sublinha que o sacramento. um grande número de cristãos não desenvolve espiritualmente devido à sua reduzida Falta-lhes um verdadeiro empenho na participação obra salvífica da Morte e Ressurreição de Cristo. "ex opera operato". Se bem que recebam com freqüência sacramentos. na se A expectativa da Eucaristia . o Concilio Vaticano II sublinha que os sacramentos não só pressupõem a fé naqueles que os recebem. mais ainda. Na "Constituição Sobre a Sagrada Liturgia".

Este advento eucarístico é. A Igreja pretende que cresça em nós a fome de Jesus. antes de mais. As graças do Natal atuam no nosso coração na medida em que estamos preparados e abertos para recebê-las. para poder atuar.o advento eucarístico. no quadro do ano litúrgico. Repare como a Igreja. Tal como a vinda de Jesus no Natal é precedida pela espera do Advento. "Que os céus. fé no amor de Jesus que o espera. se esforça no ano litúrgico por nos preparar para o acolhimento das graças do Natal. Se você não vive o Advento e se não espera Jesus. Como é importante que creia . Quer que. canta ela nas suas orações litúrgicas. a não lhe trazer resultados visíveis. requer abertura e disponibilidade interior.Talvez você estranhe por que a Eucaristia ou o Sacramento da Reconciliação continuem a não lhe transformar. na sua sabedoria. não podemos viver verdadeiramente o Natal. na medida da nossa fé. ou seja. Pois importa dizer que a graça. Esse nascimento sobre o altar deveria também ser precedido por um "advento" . a Sua vinda na Eucaristia deve igualmente ser antecedida pela espera. Jesus desce sempre de novo ao altar para lá voltar a nascer. não se surpreenda que. durante as quais reza incessantemente para que Jesus venha e desça à terra.8). de certa forma. o Natal se escape sem deixar em você qualquer rasto na alma. a fome da Sua vinda. das alturas derramem o seu orvalho" (Is 45. A esse objetivo dedica as semanas do A d v e n t o . Se não vivermos o Advento. uma atitude de fé. Jesus nasça de novo no decurso das celebrações do Natal e que venha até nós na medida em que dentro de nós cresça a fome e o desejo pela Sua vinda.

necessita apenas de um tipo de aceitação . os cristãos são loucos pelo fato de crerem que Deus Se tenha tornado num deles e que Se lhes entrega no Pão Eucarístico. te aceita e te ama". não procure encontrar essa compreensão junto dos homens. porque rapidamente conhecerá a decepção e a amargura. Segundo ele é pura e simples loucura. Pelo contrário. não és tanto tu que aceitas Jesus mas é antes Ele que te acolhe.C. que é Ele que deseja a celebração da Eucaristia. E com esta fé que você deve se preparar para a vinda de Cristo na Eucaristia. uma obra transbordante de ódio e de sarcasmo na qual ridiculariza os dogmas cristãos da Encarnação e da Redenção. . quer dizer. escreveu por volta do ano 178 d.que Jesus deseja vir ao seu coração. mas é Deus quem enlouqueceu no Seu amor pelo homem: a Eucaristia é a manifestação da loucura de Cristo. Aquele que o acolhe sempre. do Seu louco amor para contigo. Na sua idéia. Todavia. Ele te recebe tal como és. Disse João Paulo II: "Na Sagrada Comunhão. do Seu amor louco pelo homem. Esta opini ã o de Celso deveria ser apresentada ao inverso: não são os cristãos que são loucos pelo fato de acreditarem que Cristo Se lhes dá sob as Sagradas Espécies. Uma das necessidades psíquicas fundamentais da pessoa humana é a necessidade de aceitação e de amor.a aceitação de Cristo. na maior fonte de graças: o Santíssimo Sacramento. O filósofo pagão sincretista Celso. Recebe-te. a fé diz a você que. que Ele anseia o momento da comunhão para Se dar plenamente a você. verdadeiramente. troçando ainda da Santa Missa.

descobrirá que. o desejo. é que não poderá mais viver sem a Eucaristia. de um Amor que você não está sequer à altura de imaginar. Em qualquer momento.São Francisco de Sales esforçava-se por se preparar para a Santa Missa ao longo de todo o dia. Quando verdadeiramente acreditar no quanto Jesus o ama e o anseia. Uma mãe que espera o encontro com um filho que não quer regressar sofre na medida da intensidade do amor que lhe tem. respondia que estava se preparando para o Sacrifício Eucarístico. Quando existir em você a fome da Eucaristia e o . mesmo desenvolvendo as suas tarefas cotidianas. Quando você acreditar que Jesus o ama e que Ele o espera então. a fome e a sede da Eucaristia. Mas. É deveras importante que cresça em você a fé no amor de Cristo e a fé na Sua sede de Se encontrar com você na Eucaristia. como resultado dessa fé. quando descobrir o tormento que padece ao esperá-lo na Mesa Eucarística. se você retarda a Sua chegada. Deus no Seu amor louco por você. experimenta aquilo que em psicologia se designa por "tormento da espera". Só quando acreditar plenamente no amor infinito de Deus. se lhe perguntavam o que estava fazendo. O tormento que acompanha a espera de uma pessoa querida é tanto maior quanto mais o amor é desprezado. quando se trata do amor infinito de Deus. há de nascer em você o anseio ardente da Sua vinda. pense no tormento que experimenta quando Ele o aguarda em vão! A fé no Seu desejo de encontrá-lo protege você da rotina que é uma das maiores ameaças à sua fé.

Eucaristia . que são os sacramentos da fé. Em nenhum outro caso ela alcança um nível tão alto de consciência da união a Cristo Morto e Ressuscitado. "A liturgia reúne-nos todos na celebração explícita da nossa fé. em que juntos nos oferecemos e em que juntos comungamos no amor de Deus que reside em Cristo Jesus" (J.o culminar da fé Segundo São Tomás de Aquino. Le devenir de la Foi. Em parte alguma podemos participar de modo tão intenso na fé da nossa comunidade como nesse instante em que rezamos juntos. se associam à Paixão de Cristo. o Sacrifício Eucarístico só é eficaz para aqueles que. a rotina não poderá instalar-se. IV). A fé é participação na vida de Deus e realiza-se de modo particular nos sacramentos. Em parte alguma a fé da Igreja é tão completa como nesse instante. de modo particular no momento da Eucaristia. Na Eucaristia.desejo ardente do encontro com o Senhor. mais a Eucaristia se torna eficaz na sua vida. . cujo regresso à Igreja espera. Cristo o submerge no mistério da Sua Morte. Em virtude do sacerdócio universal e real somos chamados a unir-mo-nos a Cristo que Se sacrifica. por meio da fé e do amor. Pela Eucaristia você participa com a comunidade dos que crêem na Morte e na Ressurreição de Cristo. COLOMB. Quanto mais fé e amor houver em você. e com a mesma comunidade se submerge no mistério insondável da Sua Morte e Ressurreição. e a darmo-nos totalmente como Ele o fez.

Cada comunhão deveria reforçar a sua união à vontade de Cristo. O objetivo da Eucaristia é a conversão. diminuindo sempre mais. Graças à ação do sacramento e ao poder da Paixão salvífica de Jesus podem também realizar-se em você a Ressurreição e um novo nascimento. A imersão na Ressurreição de Cristo inicia o processo de nascimento do homem novo. para permitir a Cristo que reine no seu coração de uma vez por todas. pois. A Eucaristia é. para que a Sua vontade se torne para você o valor supremo. Se crer significa unir-se à Pessoa de Cristo. deve contribuir para dar a morte ao seu egoísmo a fim de que Cristo possa crescer em você. A união a Cristo significa entrar em comunhão com o dom que Ele faz de Si próprio e assim entregar a própria vida para colocá-la ao serviço da Igreja e dos irmãos. Cristo torna-Se o dom oferecido ao Pai por nós. Em virtude do sacerdócio universal e real dos fiéis somos também chamados a fazer oblação total de nós mesmos a Deus. o ponto culminante da fé. possa criar espaço para o serviço do próximo. Eis porque você não deve se surpreender que Jesus venha contrariar os seus planos. formado à Sua imagem. A Eucaristia deve prepará-lo para isso. a Eucaristia é o momento no qual o nosso acolhimento de Cristo e a nossa ligação a Ele encontram a sua expressão mais plena. Você deve se afastar da sua vontade. . de modo a que esta. Se você se aproxima da Sagrada Comunhão. faz para se converter. Durante a Eucaristia.concretizando assim a sua transformação e conversão: a morte do homem “Velho". juntamente com a oferenda que Cristo faz de Si.

da lepra do orgulho e da preocupação sobre si mesmo. requer de você uma atitude de criança impotente e pecador a. Por meio da fé você poderá receber os frutos da Redenção. da agitação. . Se crer é reconhecer a própria impotência e a condição de pecador para pôr toda a esperança em Deus. Procura participar na Santa Missa com a atitude do leproso do Evangelho e suplica a Jesus que o purifique da lepra do egoísmo. como alguém que não deseja nada mais do que a cura do seu mal. da incerteza e do stress. Com o aprofundamento da sua fé poderá se ver sempre mais em verdade. a Eucaristia. como é indigno de se aproximar da Eucaristia. de tudo aquilo que destrói a sua vida. as suas preocupações e as suas inquietações. da sua condição de pecador e da sua necessidade de Redenção. A Eucaristia há de. mas também a mental e a física. o sacramento da fé por excelência. da lepra da procura exagerada dos bens materiais porque tudo isso entrava o crescimento de Cristo em você. então. da inquietação e da tristeza. não só a espiritual. então. durante a Santa Missa você pode fazer a descoberta de si próprio. Reconhecerá. Graças à fé. mas ao mesmo tempo se dará conta de quanto precisa na sua vida da Sua ação salvífica.Dado que a fé se exprime na confiança e no abandono que depositamos em Cristo. porque descortinará a lepra do pecado que há em você. isto é. da fé em que Ele também o salvou da angústia. a Eucaristia deve ser o momento em que lhe confia todos os seus trabalhos. lhe dar a paz nascida da fé na força redentora do Sacrifício de Jesus.

quando tomou nas suas mãos o Corpo de Cristo. Sem dúvida que. da sua Missa Nova. estas lhe tremeram pois. Pense na profunda vivência que deve ter sido para um sacerdote a celebração da sua primeira Missa.O crescimento na fé lhe permitirá descobrir. repousa nos seus lábios. durante o Sacrifício Eucarístico. Eis a fé ainda não corroída pela rotina. crê que naquele momento Deus. porque permanece sempre a sua condição de . A "kénosis" de Cristo A fé permite a você tomar consciência de que as suas mãos e os seus lábios quando recebem Jesus. nesse momento. mesmo quando em estado de graça. Talvez os seu lábios também tremam ao receberem pela primeira vez o Corpo do Senhor. a hóstia foi (e é) Alguém. sempre. depois de se ter preparado e de ter recebido o batismo. recebe pela primeira vez a Eucaristia. Descobre quem Ele é e o que se desenrola sobre o altar. para ele. estão sempre sujos. entra em seu coração. pleno de temor e de majestade mysterium tremendum. Para evitar que a recepção cotidiana da Comunhão provoque a rotina que destrói a sua fé. Pense na primeira comunhão de um convertido que. de fato. encontrando-se em face de um insondável mistério. a presença real de Jesus e que se realiza a atualização do Seu Sacrifício Redentor. porque na sua fé bem viva. procura participar em cada Santa Missa como se fosse a primeira ou a última vez na vida.

o aniquilamento de Deus feito Homem. A Eucaristia é kénosis. Somos todos pecadores e todos indignos de receber Jesus. em lugar de abençoar. isto é. a suprema Santidade. fere. porque o que você diz. nesse sentido. porque é recebendo-a que você pode se tornar sempre mais digno. O Apóstolo São João escreve: "Se dissermos que não temos pecado. Fique. deste modo.Deus. pois. Jesus o espera com amor e quer vir ao seu encontro para transformá-lo e santificá-lo a fim de que você se torne cada vez mais digno da Sua vinda. às vezes.8). da Sua kénosis. tornando-se fonte de mal e de desgraça. Isto não quer dizer que deva deixar de receber a Eucaristia. conspurcados. Realmente recebe Cristo com os mesmos lábios que por vezes são capazes de matar com palavras. e limpe ainda a sua alma e o seu coração da lepra do pecado e do egoísmo. além do mais pelo fato de . É a fé que vai lhe dar luz para poder ver até que ponto a Eucaristia significa o aniquilamento de Cristo. consciente do fato de que os seus lábios estão sujos e espere que seja a Eucaristia que os limpe. enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não esta em nós" (Jo 1. Jesus deseja tanto que tal suceda que está disposto a pagar por isso o preço do Seu aniquilamento. Lábios pecadores que entram em contato com a suprema santidade . um termo grego que significa 'aniquilamento'. Você chega. Ele despoja-Se e aniquila-Se.pecador e as mãos e os lábios de um pecador são sempre indignos e. encontra-Se com a sua culpa e com a sua indignidade. porque Ele. ao conhecimento de um mistério que em teologia se denomina "kénosis".

é a solução para o problema da "kénosis" de Cristo. com coração de pecador. nem nunca estiveram impuras. você se aproximas d'Ele. resta um grande mistério. A presença oculta da Virgem Imaculada junto de nós. Se você quer evitar o aniquilamento a Cristo e quiser prestar homenagem à "kénosis" do Deus-Homem. eram e são sempre imaculadas . dignos de receber o Corpo de Cristo. peça à Maria que seja Ela a recebê-Lo em você. com a idéia de que a imagem do Salvador ficaria obscurecida. por isso. aumenta a Sua "kénosis".o pão e o vinho. Essa é . Ele priva-Se da homenagem e do respeito que Lhe são devidos e. de modo especial na Eucaristia. porque convidando-a a interpôr-se entre a sua pessoa e a de Cristo atenuas-Lhe a Sua "kénosis" o Seu aniquilamento. Pois só as mãos de Maria não estão. porque não vêem a necessidade de Maria se interpor entre nós e Cristo. quando graças à luz da fé você se der conta da santidade de Deus e da sua indignidade e condição de pecador reconhecerá que a situação é diametralmente oposta. São Luís Maria Grignion de Monfort aconselha que convidemos sempre a Santíssima Virgem a participar conosco na Eucaristia. Algumas pessoas dificilmente reconhecem a necessidade e a importância de um caminho mariano para Cristo.ocultar a Sua Majestade e a Sua Humanidade sob a aparência de um fragmento de matéria . Porém. quando com mãos e com lábios manchados pelo pecado.as únicas mãos e os únicos lábios humanos que são puros e imaculados. Quando você suplica à Virgem Maria que desempenhe o Seu papel de intermediária entre você e Cristo você se aproxima ainda mais d'Ele.

CAPÍTULO 4 A ESCUTA DA PALAVRA DE DEUS Da mesma maneira que há uma relação direta entre os sacramentos e a fé. ela também se verifica entre a fé e . ao desejar cumulá-lo com os frutos da Redenção. que reconhece a sua própria pecaminosidade e que crê que Ele o ama loucamente.uma atitude com que exprime simultaneamente. mesmo a preço de um inconcebível aniquilamento por você.

A Sagrada Escritura. à conversão e à realização dos seus ensinamentos na vida cotidiana. e. personalizada. e daí que a leitura eclesial da Sagrada Escritura seja e deva ser também objetiva. Numa relação deste tipo a Sagrada Escritura fica simplesmente reduzida a uma "coisa". Esta é. uma atenta escuta da palavra para vivê-la em cada dia. um mistério. segundo a definição de Gabriel Mareei.a palavra divina. Se ao ler a Sagrada Escritura você tem em vista o aprofundamento dos seus conhecimentos religiosos. uma resposta à palavra de Deus. isso significa que tem para com ela um relacionamento de caráter coisificado. trata-se de uma relação insuficiente. a palavra de Deus constitui a fonte fundamental do conhecimento objetivo de Deus. a Sagrada Escritura é um texto inspirado e revelado. Para a Igreja. Porém. quando aquele se torna num objeto de estudo ou num auxiliar de aprofundamento de um assunto que nos interessa ou para a solução de algum problema. mesmo se necessária. que deve converter-se numa vivência em fé. na verdade. Todavia. A leitura da Sagrada Escritura não só pressupõe a fé. mas estimula-nos à colaboração ativa. . razão pela qual. A relação "coisificada" e a relação personalizada" com a palavra de Deus A nossa relação com o texto escrito pode ser de dois tipos: coisificada. quando o texto se torna para nós. a nossa relação com ela deve ser prioritariamente “personalizada”.

pois a Sagrada Escritura é um livro cheio da presença de Deus. pela fé. A presença de Deus na Sua palavra A presença de qualquer pessoa estabelece em torno de si como que um raio de ação. da fé que Ele próprio lhe concedeu. enquanto que na mesa eucarística. se bem que de modo diferente.com efeito. A Igreja nos fala de duas mesas. celebrando o "Sacramento da fé". Folheando as páginas da Bíblia você se encontra com Cristo vivo e real. para nós. desejado ou incômodo. comporta a entrada num círculo de influência que pode ser. Na mesa da palavra os fiéis recebem. Há de ser um gesto diferente daquele que você faz para pegar em qualquer outro livro religioso. fato que não se verifica no caso dos objetos inanimados. por meio do dom da fé. é a presença de Deus. Tomando-a nas mãos você entra no raio de ação . Portanto. na Sagrada Escritura. é justa a afirmação de que é necessário aproximarmo-nos da Sagrada Escritura como mesa do Senhor. que é a Eucaristia. quando tomar nas mãos a Sagrada Escritura você deve fazê-lo com respeito. Assim. a revelação da palavra de Deus. na Eucaristia. não é "uma coisa" mas é "Alguém". A Sagrada Escritura é "alguém". É verdade que Cristo está presente no meio de nós de modo mais completo. com veneração e com profunda fé. os fiéis alimentam-se do Corpo e do Sangue do Senhor. O encontro com alguém é encontro com uma presença e. mas está também presente e vive.

Quando você entra numa relação pessoal com Cristo. A leitura da Sagrada Escritura é o fator fundamental que determina o seu crescimento na fé e. razão pela qual o contato com o texto revelado assume um significado particular: o de um encontro com Deus que o ama e que deseja i agir em você por meio da Sua graça. esse texto o penetra até ao fundo e você começa assim a verdadeira escuta da palavra de Deus. a verdade que o envolve e na qual está mergulhado. Ela torna-se para você um "mistério". Deveria aproveitar dessa forma de intimidade com o Senhor na esperança de que Ele lhe conceda a t graça da conversão. Graças a ela você começa a ver-se a si próprio e à realidade que o rodeia. Deus pretende conduzi-lo à finalidade mais importante: a conversão interior. porque desejará que sejam de acordo ao Seu ensinamento e aos Seus desejos. ou para resolver algum dos problemas que o inquietam. Através desse contato. isso se tornar necessário. portanto. por vezes.da Sua presença. por ela. começa a aprofundar o conhecimento do pensamento e dos desejos de Jesus. Na Sagrada Escritura você encontra o seu Senhor. apesar de. ler a Sagrada Escritura apenas para satisfazer a curiosidade. presente no texto inspirado. como se o fizesse com os olhos de . Disse São Jerônimo que "co desconhecimento da Sagrada Escritura é o desconhecimento de Cristo". também a sua participação na vida de Deus. começa a conhecê-Lo cada vez melhor. Uma escuta receptiva da palavra de Deus repercute-se nas suas escolhas e nas suas decisões. Você não deve.

tendo fé na Sua palavra. Cada palavra e cada gesto de Jesus. Revela-Se para criar entre Ele e nós uma relação de amor. chegue à Sua plenitude. possa significar a sua total transformação. conforme: o provérbio: "Dizme com quem andas. aos pensamentos e aos desejos de Jesus. com o tempo verá que eles também são os seus. A sua tarefa consiste em aprender a escutá-la e a permitir que o envolva porque Se trata de uma presença inefável que exige uma particular abertura de tal forma que. O contato com Cristo presente na palavra de Deus fará com que você se torne progressivamente um com Ele.Deus. bebendo avidamente o seu conteúdo. Deus se revela a nós para nos conduzir pelo conhecimento ao Amor. Desse modo se cumprirá o objetivo da sua vida: que Cristo possa crescer em você e que. são expressão do mistério da Sua presença. você se torna cada vez mais semelhante a Ele. imortalizados no Novo Testamento. qualquer coisa que possa ser descrita como transformação em Cristo. com o tempo. possamos aderir e abandonarnos a Ele. a fim de que. com espírito de fé. Se você se identificar. crescendo. Servindo-Se da palavra. você começa a ficar impregnado dele e a assimilar tudo aquilo que constituía e constitui a vida de Cristo. Permanecendo freqüentemente no ambiente da presença de Jesus. dizer-te-ei quem és". Colocando-se à escuta da palavra de Deus. O papel da palavra de Deus na oração . da Sua "Presença" com "EP" maiúsculo.

não cessa de procurar. pois. O simbolismo das parábolas de Cristo introduz-nos na órbita da Sua ação. você pode se lembrar da tempestade no lago de Tiberíades durante a . na sua vida as tormentas. ao ler a parábola do Bom Pastor. É. você pode se identificar verdadeiramente com uma daquelas ovelhas guiadas pelo Bom Pastor. Aquela parábola ensina-o a adotar a atitude do filho arrependido que aceita. um símbolo desenvolvido capaz de atrair e envolver o ouvinte. isto é. graças a isso que.A presença de Cristo na palavra divina tenderá a abraçar a sua vida interior e a sua oração. Do mesmo modo. Cristo utilizava com freqüência um gênero literário específico. cheio de assombro e de gratidão. as passagens lidas virão à sua memória durante a oração que começará assim a ser uma oração alicerçada na Bíblia e hão de aparecer também nos momentos de tomada de alguma decisão. a parábola. Deixar-se invadir por esta presença na leitura e na escuta da palavra de Deus fará com que os textos que medite deitem profundas raízes no seu coração. Ao encontrá-la. Acaso já se perguntou sobre o papel que ocupa a Sagrada Escritura na sua oração? Quando falava. por isso mesmo. Pode ainda identificarse com essa ovelha perdida que Cristo Bom Pastor tanto ama e que. alegremente a envolve nos Seus braços. quando surgirem. Mas caso aconteça de ter tido uma queda grave e que se sinta envolvido por densas trevas é possível que se recorde da parábola do filho pródigo que lhe permite crer uma vez mais que Deus o ama e que nunca deixou de amá-lo. a alegria do pai que perdoa. Ele o ensina de um modo extremamente simples e acessível o que é o amor e o que é a fé no amor. Mais tarde.

por exemplo. sentia crescer em si a consciência do grande amor de Jesus para com ele . Também presentemente./fl . A Sagrada Escritura meditada na oração o fará conhecer o incessante amor de Deus por você. estando Ele presente. A leitura da Sagrada Escritura há de formar em você uma imagem de Deus cada vez mais verdadeira e evitará que lhe suceda esse fenômeno tão freqüente da deformação do Seu rosto. porque Ele é Amor. O encontro com Cristo presente na palavra de Deus também o ajudará a descobrir Deus no mundo que lhe rodeia. mas está presente e. Tudo o que acontece pode ajudá-lo a viver na sua oração a palavra de Deus que lhe permitirá recuperar a paz interior. Jesus "dorme" na barca do seu coração.qual Jesus dormia tranqüilamente na barca dos Apóstolos sacudida pela tormenta. Ao vêlas. O murmúrio de um riacho na montanha recordava-lhe as palavras da Sagrada Escritura sobre a "água viva" que brota para a vida eterna (cf. nada de mal lhe pode suceder. as ovelhas faziam-no pensar no amor do Bom Pastor. talvez creia de modo insuficiente no Seu Amor porque você próprio também O ama pouco. Para São João Maria Vianney. Mas o seu amor por Ele deve crescer cada vez mais e por toda a sua vida. Ensinará você a interpretar os numerosos símbolos através dos quais é possível descobrir a Sua presença não só na natureza. nas suas tempestades. Talvez você tenha medo d'Ele.pastor da sua paróquia e para aqueles que o Bom Pastor confiara à sua solicitude e ao seu amor de pastor. mas também nos fenômenos da civilização e da cultura.

Quando se aproximaram os últimos tempos da Sua vida. a presença do Mestre na sua casa. Cada luz se tornava. Nós. quando Jesus os visitara. Marta e Lázaro. comportara-se como se estivesse diante do tabernáculo. refugiou-Se em Betânia. lhe agradava ver acesas as luzes da rua. pelo contrário. algum tempo antes.9).o Verbo feito Homem devia ser a Sua grande alegria. pois levavam-no a pensar na Sagrada Escritura e em particular no texto de São João que se refere a Jesus como a luz do mundo. para ele. Em Betânia. Jesus encontrava abrigo e repouso.37-39).42). Se você deseja que também a sua oração seja apoiada na Sagrada Escritura deve ser como Maria de Betânia. Maria. das casas e dos carros que passavam. que nos chegam por meio da Sagrada Escritura. Essa melhor parte ê estar junto a Cristo. consideramos que não temos tempo para ler a Sagrada Escritura. na casa de Maria. Alguém contava como. à noitinha. quase sempre atarefados e presos a tantos cuidados. símbolo de Cristo recordando-lhe Aquele que "vindo ao mundo a todo homem ilumina" (Jo 1. Precisamente ali. é sentar-se a Seus pés e escutar com fé as Suas palavras. Quando Marta atarefada pedira a Jesus para fazer notar a sua irmã que não a deixasse sozinha com o serviço doméstico recebeu a seguinte resposta: "Maria escolheu a melhor parte que lhe não será tirada (Lc 10. que escutava e contemplava Jesus .7. Maria tinha sentado aos Seus pés escutando atentamente todas as Suas palavras. assim. E ela sabia . Mas para Maria o mais importante era a Sua presença. sabendo que os fariseus O seguiam.

Socorrendo-nos do pensamento de Jean Guitton (em A Virgem Maria) seria apropriado chamar a Mãe de Deus "Virgem Meditante" -Virgo Meditans. Portanto você também. Se Jesus dedicou trinta anos da Sua vida à Maria. a presença divina de seu Filho. Nas páginas da Bíblia você encontra a presença de Jesus.que o lugar mais apropriado para estar era aos pés do seu Senhor. Durante trinta anos a Virgem Maria "absorveu". por assim dizer. Deveria querer imitar totalmente e até o fim a Virgem Maria na sua disponibilidade e abertura à grande obra de Cristo que consiste em moldar cada um de nós à Sua semelhança. desse modo. E este o motivo pelo qual a sua imagem é a reprodução mais perfeita da Face de Cristo e nisto consiste a sua grandeza. O conteúdo do Magnificat testemunha bem o quanto ela estava penetrada pela Bíblia. Ela absorvia continuamente os Seus pensamentos. devia deixar-se impregnar dos Seus pensamentos e dos Seus desejos para os poder viver no cotidiano. sempre cada vez mais uma só com o seu Filho. A Bíblia tem de se tornar para você um espaço de encontro com Aquele que o amou até ao limite e que . E um exemplo da oração fundamentada na palavra de Deus que para ela era "alimento" e fonte de oração. mostra o quanto Lhe importava criar aquela obra-prima. os Seus desejos e a Sua vontade. a reprodução mais perfeita da Sua Imagem. como a Virgem Maria. tornando-se.

como o fez com a Sua amada Mãe. CAPÍTULO 5 .deseja formar também em você o Seu Rosto.

ou simplesmente dependentes uma da outra.A ORAÇÃO COMO ATUALIZAÇÃO DA FÉ A fé e a oração não constituem duas realidades separadas. A oração constitui o encontro entre Deus e o homem na fé e é. a oração torna-se mais pura e mais ardente.como a Eucaristia e a palavra de Deus .conduzem o homem à transformação e à conversão. também a oração . Enquanto atualização da fé é marcada pelo dinamismo da conversão. nem tampouco coexistentes. a prece exprime o chamado existencial da pobreza espiritual e do vazio interior do homem que suplica ao Espírito Santo a graça de enchê-lo com a Sua presença e com o Seu poder. finalmente. O exemplo de Cristo . a oração é entregar-se e consagrar-se a Ele. para. À medida que a fé se desenvolve. A oração e a realidade da fé estão sempre muito estreitamente ligadas. uma vez mais. ser acolhido e transformado. uma forma de realização da fé. Se crer significa reconhecer a fraqueza própria e esperar tudo de Deus. Se a fé é aderir e abandonar-se a Cristo.

Cristo "desperdiça" trinta anos em Nazaré. Tudo se orientava para esse acontecimento da História do mundo que era a vinda do Messias. Também não somos capazes de compreender isso. Mas. abstendo-Se da ação. por fim. Aos olhos do mundo. Depois. Aquele que mais tarde diria "A messe é grande. Quando finalmente após tão longo período de expectativa. Jesus vem. vive isolado durante trinta anos. Aquele que havia de cumprir a obra da Redenção. já rezas te durante tantos anos!" No entanto.Quando lemos o Evangelho. O Evangelho produz uma reviravolta nos nossos conceitos humanos. Cristo aparece nas margens do Jordão para ser exaltado pelo próprio Espírito Santo e novamente o Seu comportamento nos desconcerta: Jesus retira-se e dirige-se para o deserto. todos aqueles anos parecem desperdiçados. A humanidade esperava-O há milhares de anos. revela-Se apenas aos pastores e aos três Reis Magos. pelo contrário. Quase nos agradaria agarrá-Lo pela mão e dizer-Lhe como certa vez o fez também o Apóstolo Pedro: "Senhor que fazes? Vais de novo rezar quando tanta gente te aguarda? Mas. ou pelo menos não age do modo esperado para o Messias. Se alguém é desejado durante milênios espera-se também que dê o máximo de si. Quando. Era precisamente o que Cristo também fazia. que na perspectiva do ativismo humano poderia parecer desperdício. .2). enquanto as multidões esperam. em breve reparamos que a Boa-nova nos desconcerta. O conteúdo do Evangelho difere de tal forma das nossas tendências naturais que nos parece ser um contínuo paradoxo. mas os trabalhadores são poucos" (Lc 10. termina aquele período de tempo.

ou . Para rezar.35). muito cedo. Basta pensar na grande necessidade de solidão no deserto de São João Batista. Cristo privava-Se do sono. Reparemos neste pormenor particular: "de manhã muito cedo". Depois de um dia assim tão fatigante. levantou-Se e saiu. nós quase teríamos vontade de exclamar: "Senhor. Estes momentos de deserto desempenharam um grande papel na vida dos santos. por que é que tens de rezar de noite. Significa que era ainda de madrugada.naquele momento deixa a messe e dirige-se ao deserto para rezar ininterruptamente durante quarenta dias. esqueces a saúde?" O dia de trabalho apostólico de Jesus devia ser extenuante. À tardinha ainda socorria gente da cidade e dos arredores trazendo os doentes e os endemoninhados. uma vez que as multidões não O deixavam de livre vontade. tem que aprender a valorizar os momentos de deserto na sua vida. desse sono já bastante reduzido. Aí se esconde uma indicação extremamente importante também para você: se quer que os seus contatos com os outros sejam frutuosos. Muito admirados. primeiro precisa aprender a estar em solidão. Jesus privava-Se ainda do sono. Quando falamos de como Jesus era constantemente assediado pelas multidões devemos também precisar que esse fato estava sempre relacionado com o Seu isolamento na oração. Não nos surpreende tudo isto? O evangelista Marcos escreve: "De manhã. Seria difícil dizer a hora que terminaria o Seu labor de cada dia. retirou-Se para um lugar solitário e ali Se pôs em oração" (Mc 1. Talvez por volta da meia-noite.

tem a impressão de que deve dar sempre mais. No entanto. Mas. não será o deserto da vida. já não tivesse precisão de rezar. então conhecerá outro tipo de assédio: o do egoísmo. todavia não há de ser um deserto vivificante como no caso de Jesus e dos santos.como foi decisivo na vida de Santo Inácio o período de Manresa. A prioridade da oração Aqui nasce. A. Ho voglia di pregare). Para se ser assediado pelos homens será sempre necessário um prévio encontro com Deus na solidão. situa-se na periferia das suas ocupações diárias? Como se passa o seu dia no que respeita ao recolhimento e como faz o seu exame de consciência. vivendo em tão estreita comunhão com o Pai. mas o da destruição" (cf. Porém. se você não se isola para se recolher e orar. uma pergunta fundamental: que espaço você concede à oração na sua vida cotidiana? Que lugar ocupa na lista das suas tarefas cotidianas mais importantes? Coloca-a à frente ou atrás de quê? Tem o primeiro lugar ou. esse olhar sobre si próprio na presença de . outrossim. Mas dar o quê? Pode-se pensar que Cristo. se o faz para fugir das pessoas. e se coloca. PRONZATO. ou ainda na vida de São Bento. Também este poderá ser para você um deserto. e. mesmo à custa do próprio sono. o tempo de eremitério em Subiaco. em vez disso. E sempre será do mesmo modo. para se esconder no mundo dos seus afazeres pessoais. Ele assim fazia. o homem moderno contaminado pelo ativismo.

As suas obrigações 'sufocam-te' a ponto de nem sequer poderes tirar tempo para a oração.Deus? A resposta a este tipo de questão trará à tona aquelas coisas que na sua vida parecem ser mais importantes do que Deus. onde posso encontrar o tempo para uma meia-hora de meditação. Dado que não podes fazê-lo. falava com o fervor e o ardor que lhe eram próprios a respeito da necessidade de uma meditação diária de meia hora. Com um dia assim tão cheio. 113). "efetivamente não te sobra tempo para uma meia-hora de meditação. se mal tenho tempo de ler o breviário?" "Tens razão". a catequese.. o almoço. mas hora e meia à meditação" (cf. A tardinha tenho as ocupações com os jovens que se prolongam mais ou menos até à meia-noite. Depois da conferência. Ho voglia de pregare. que em teoria tudo é claro e simples: é preciso fazer meditação. O cardeal Lercaro. visita aos doentes. Pronzato. A. durante a discussão. Obviamente que o cardeal não formulou esta resposta com o intuito de fazer uma observação brilhante . depois as confissões. um dos jovens padres levantou-se e disse: "Sem dúvida. então é preciso que dediques não meia-hora.. durante um encontro com sacerdotes. responde o cardeal. Eminência. mas quando? Porque o meu dia desenrola-se assim: levanto-me às 6h30min. o trabalho na secretaria paroquial e os encontros de caráter pastoral. depois as atividade com os rapazes do oratório. às 7 horas celebro a Missa.. arcebispo de Bolonha. E aí você pode imediatamente justificar que com a avalanche das suas obrigações é tremendamente difícil encontrar tempo para rezar.

tinha necessidade de um antídoto ainda mais poderoso. mas evidentemente que a sua fé é tíbia. é Ele quem decide." No entanto. Em face de um sacerdote agitado. não o faz porque considere você insubstituível. Quantas vezes Deus já . Pela sua atitude é como se dissesse: "Sou eu. que faço a história pelo menos no "meu terreno". você compreenderá que. tudo decide. Se o convida a colaborar no Seu trabalho. é Ele quem dá as forças necessárias para agir.e paradoxal. Ninguém pode dar aquilo que não possui. mas quis mostrar que a tragédia do nosso ativismo cristão consiste no fato de que as nossas atividades realmente nos sufocam. homem. Aquele jovem e zeloso sacerdote que tanto se sacrificava por Deus e pelas almas. aos jovens do oratório. Caso contrário. apenas tendo a impressão de dar alguma coisa aos outros embora isso não passe de uma ilusão. que visites os doentes e que confesses e que tenhas colóquios pastorais se tudo isso é como querer encher de água um passador". extenuado e num permanente corropio a recolher água num passador sem se dar conta de quem é que. Sou eu quem decide quem vai acreditar em Deus. quanto mais assoberbado pelas suas ocupações se veja. é exclusivamente do meu trabalho que depende a salvação dos outros. seria demasiado forte dizer que ele não tem fé. ou seja. nas atividades paroquiais ou noutro lugar. na realidade. fica vazio. tudo depende de Deus. Esforçando-se por ver à luz da fé. Aquele jovem padre que discutira com o cardeal Lercaro se poderia dizer: "Que importa que dediques tanto tempo aos trabalhos pastorais. tanto mais tempo deve dedicar à oração.

de fato. 13). torna-se inútil para o mundo. que tem em Suas mãos os destinos do mundo e de cada um de nós. A sua eficácia depende de algo passado na retaguarda. mas não obstante nas suas almas a semente de Deus germinou. testemunhas de que Ele pode salvar os homens sem que tenham recebido qualquer catequese. no entanto. é a oração. À Igreja e ao confessionário vêm. os seus joelhos doloridos por ter permanecido em oração demoradamente. enquanto discípulo de Cristo. como o Papa. porque se torna como sal insípido. Se o cristão. por exemplo. Se observou isso na sua vida recebeu uma grande graça. "O importante não é aquilo que faz" . Mt 5. por vezes. um homem de fé e de oração.mostrou que pode resolver tudo sem nós. Nós somos necessários a Deus somente na medida em que Ele o determine. . quer que participemos na obra da salvação do mundo. O importante é que seja. Se. A luz da fé. Deus não necessita da ingerência humana mas. cessa de ser um homem de oração. é preciso ir ao encontro d Aquele de quem realmente tudo depende. Entre todas as atividades que levamos a cabo é esta que deve ocupar o primeiro lugar. sobretudo. O contato com Deus determina o valor e o sentido do nosso trabalho. nós julgamos que tudo depende de nós e do nosso trabalho estamos recolhendo água com um passador. Quando nos encontramos sobrecarregados pelo trabalho é fácil esquecer que. Somos. pessoas que nunca escutaram uma única lição de catecismo. bom para ser pisado pelos homens (cf. apesar disso. a ocupação mais importante do nosso dia.disse João Paulo II ."mas aquilo que é".

O problema da relação entre a oração e a ação pode reduzir-se a esta constatação: todo o autêntico agir nasce da oração e da vida contemplativa. Rezando. mas adoramo-O em nome do mundo que não sabe. A oração e posteriormente as suas etapas específicas. porque a oração é sempre expressão dos laços que o unem a Deus. marcam. uma questão fundamental. não só prestamos homenagem a Cristo. damos-lhes Deus na medida em que O tenhamos previamente pedido de joelhos. importa sublinhar a prioridade da oração e do sacrifício em relação à ação. Às crianças que catequizamos. As distintas etapas do seu caminho para Deus estão determinadas pelos graus da sua oração. O mundo não necessita de corações e de almas vazias. É preciso aprender sempre de novo a rezar. Pois tudo o que é grande neste mundo provém do sacrifício e da oração. Você ê cristão na medida em que é capaz de rezar.O problema da oração é. na nossa vocação cristã. não pode ou não quer rezar. em casa ou na escola. Quando perguntamos qual é a relação existente entre a oração e a ação. A oração é constantemente uma tarefa a realizar. a sua proximidade ou o seu afastamento de Deus. O modo . Uma coisa é certa: se não rezamos ninguém precisará de nós. Formas de oração O problema da oração é um problema fulcral para todo o cristão. Em cada um desses níveis surge uma nova forma e um distinto modo de orar. ou definem.

sem renunciar ao seu esforço pessoal. Realizará.26-27) e sempre mais centrada nas tarefas do Reino: "Procurai primeiro o Seu reino e a Sua justiça e tudo o mais se vos dará por acréscimo" (Mt 6. deixe o cuidado de si mesmo e dos resultados da sua ação Aquele cuja vontade ê cumulálo de um amor sem limites." . Nesta forma de oração deveremos pôr. Ao fazermos oração verbal devemos nos lembrar de rezar por aquilo que Deus quer de nós.33).7). a nossa oração será cada vez mais simples. cada vez mais submetida à ação do Espírito Santo (cf. Quando se fala de prece vem quase sempre à idéia a oração da palavra. então. Rom 8. Devemos ir sempre mais além procurando desenvolver a nossa oração.como rezamos hoje. amanhã já não será o bastante. Se a fé transforma a nossa mentalidade e nos faz colocar Deus em primeiro lugar. então à medida que a nossa fé se desenvolva. exprimindo-Lhe a nossa gratidão ou pedindo-Lhe a santidade. A prece não pode ser um atropelo de palavras. A palavra "primeiro" toma neste contexto um significado fundamental. por muito falarem. o apelo de Jesus dirigido à Santa Catarina de Sena: "Pensa tu em Mim que Eu pensarei em ti. antes de mais. serão atendidos” (Mt 6. a tônica nos atos pelos quais nos humilhamos diante de Deus. na sua oração. Trata-se de colocar Deus em primeiro lugar e de que. Jesus adverte-nos claramente a que não rezemos como os pagãos que “pensam que. A fé tem uma influência determinante sobre a intensidade e o conteúdo da oração.

Para além da oração verbal. para a Eucaristia. para que isso possa vir a realizarse. se o nosso modo de meditar é repassado de um otimismo entendido no sentido sobrenatural é como se sintonizássemos os nossos pensamentos com os da própria Virgem Maria. requer vigilância e solicitude. quando você se prepara para a Sagrada Comunhão basta que nas horas que a precedem oriente a sua vontade e o seu pensamento. Procure. Se um dos princípios bíblicos é que 'rezemos sem cessar'. Do mesmo modo. na nossa vida. a nossa oração deve tornar-se mais simples. porque se a fazemos de uma maneira complicada não estaremos nunca em condições de rezar durante longo tempo. Por conseguinte. cheios de amor. que pode adotar a forma de súplica. E uma oração mais simples do que a oração da palavra. Apesar da oração mental ser qualquer coisa de muito simples. Tratase do momento de passagem à oração mental a que podemos igualmente chamar memória da presença de Deus. a Virgem Maria é a "Causa da nossa alegria". um fenômeno freqüente. O Senhor quer que simplifiquemos cada vez mais a nossa oração. A oração mental pode também ser uma expressão de fé que consista em conformar os próprios pensamentos com os de Jesus ou de Maria. exige muito menos esforço. pois. Pensamentos esses que deveriam ser repletos de serenidade e de alegria. Na nossa vida interior virá no tempo em que nos será mais fácil pensar em Deus do que rezar a Ele. existe ainda outra forma mais simples de contato com Deus. Basta que dirija a mente para Jesus para que compreenda que Aquele que o ama está perto de você. Verdadeiramente. para que se torne. de ação de graças ou de adoração. recordar-se e pensar sim- .

Nessa altura podemos adotar uma outra forma de oração: a oração do gesto. Se você está junto de uma pessoa a quem sente que deve entreter. podemos também orar por meio do silêncio. permanecer em silêncio diante do Santíssimo Sacramento. é uma forma de oração bastante avançada. Certas pessoas. Para muitos apresenta-se a dúvida de que talvez se trate de um desperdício de tempo. pois durante semelhante oração. no entanto. nada parece suceder. amando-O". Não obstante. que Ele ama aqueles que você ama e com quem se preocupa. Carlos de Foucauld escreveu que "rezar é olhar Jesus. Uma tal oração feita com fé lhe dará a paz interior. procurando para isso temas de conversa. Jesus deseja que também diante d'Ele saibamos guardar silêncio. significa que em maior ou menor grau se trata de uma pessoa estranha. Este tipo de oração pode adquirir a forma da chamada oração de simplicidade ou do simples olhar. que simplesmente O contemplemos para estar com Ele sem palavras inúteis. Pode acontecer que a oração de silêncio nos torne demasiado difícil. Trata-se de fato de um silêncio tão eloqüente na sua simplicidade que é um critério de proximidade entre duas pessoas. Conforme rezamos por meio de pensamentos e de palavras. O Senhor pode querer simplificar a nossa oração ainda mais. mesmo que à primeira vista nos . Podemos rezar com um simples sorriso. ou na presença da Santíssima Virgem. não aprovam esta forma de oração. Diante de alguém que nos é chegado podemos perfeitamente guardar silêncio sem que isso se torne embaraçoso. pode querer que guardemos um silêncio absoluto.plesmente no fato de que Jesus o ama.

"vendo-a tocar docemente a coroa de espinhos e os cravos do seu Jesus com a ponta dos dedos. com um ar um pouco surpreendido da minha admiração. Quando se ama alguém é tão fácil estreitar uma relação com um sorriso e dizer. enxugar-lhe as lágrimas dos olhos (cf. O seu sorriso diante de Deus e a alegria proveniente da fé são uma oração por excelência. relata Celina. estando já gravemente doente. Deus sabe que Lhe sorri e sabe porque o faz. Depois começou a limpar delicadamente as chagas das mãos e dos pés transpassados de Jesus. esse gesto simbólico com o qual podemos exprimir a alguém a nossa proximidade. Caderno Amarelo da Madre Inês 14. Com aquele seu gesto simbólico. o amor e a alegria. "Noutra altura". De fato. confessou: 'ArrancoLhe os cravos e tiro-Lhe a Sua coroa de espinhos'" . ter um significado diferente. 1897). o sorriso pode. desejar aliviar os sofrimentos do Senhor crucificado. ofereceram-lhe uma bela rosa do jardim do convento. disse-lhe: ‘Que fazes?’ Então. pois. Ela começou a tirar-lhe as pétalas uma por uma e com elas foi cobrindo o seu crucifixo cheia de piedade e de amor. tanta coisa! Então. como o de uma criança com seu pai ou com sua mãe. é uma espécie de símbolo que pode significar uma enormidade de coisas. confidenciou ela. em cada momento. Deus quer verdadeiramente que o nosso contato com Ele seja extremamente simples. por meio dele. Santa Teresinha de Lisieux mostra-nos ainda uma outra forma comovente de oração do gesto simbólico.pareça algo estranho. de se esforçar para exprimir tudo por palavras. por que não sorrir a Deus e à Virgem Maria? C) sorriso. Você não tem. a gratidão.IX. Cerca de duas semanas antes da sua morte.

que não estou à altura de ajudar esta pessoa aqui ajoelhada. bem como entre humildade e oração. sob os olhos. São Leopoldo Mandic de Pádua. Nada lhe posso dar.(Conselhos e Lembranças. as mãos vazias. Era a expressão de um particular amor para com Aquele que. com a consciência de que é um gesto de permanente súplica a Jesus. lhe seria impossível elevar ao Senhor uma súplica oral e simultaneamente escutar as confissões. grande confessor do seu tempo que passava diariamente horas a fio no confessionário. em diversas ocasiões. teria acabado por renunciar ao esforço. enche as minhas mãos com a Sua graça. Senhor. Aquela oração exprimia o seu desejo de aliviar os sofrimentos de Jesus crucificado. para que encha com a Sua graça as suas mãos vazias e se converta num instrumento da Sua ação. pondo as mãos nessa posição. A oração do homem pobre Existe uma estreita ligação entre a fé e a oração. 88). Você pode também rezar. Alguém disse que se aprende melhor a rezar precisamente a partir do momento em que se descobre que não se é capaz de o fazê-lo. Nada poderia substituir semelhante gesto. orava com o gesto das mãos vazias. Quando confessava tinha. E exatamente o contrário do que nos possa . com esta atitude do pobre de coração." Obviamente que se tivesse resolvido repetir constantemente aquelas palavras a Jesus. Além disso. era o Esposo da sua alma. querendo com aquele gesto dizer a Jesus: "Vê bem. pousadas nos joelhos. crucificado pelos pecados.

o cansaço pode se tornar essa matéria por meio da qual Deus modela em você a oração .) O Senhor vê a nossa fragilidade. será o próprio Espírito Santo a descer à nossa pobre alma para rezar em nós com "gemidos inefáveis" (Rom 8. e sem nada. quando é muito difícil rezar e quando você quer e não consegues fazer oração. rezar muito melhor com o seu coração atormentado. pois. Ele recorda-Se de que nós não passamos de pó" {Manuscritos Autobiográficos). por vezes. ser o cansaço.26). do que aquele cuja mente se deleita com claras noções e fáceis atos de amor. Na oração deveríamos mantermo-nos como pobres. dar graças por experimentálas.. mas não se esqueça de que elas são precisamente que farão da sua prece a oração de um homem pobre. Uma pessoa cuja memória e imaginação estão assaltadas por um sem número de pensamentos e de imagens inúteis e até nocivas pode. e se não soubermos rezar. Na verdade. (.. Deveria. sob essa pressão. Fome que nasce em nós muito mais profundamente que ao nível dos nossos sentimentos e das palavras. Santa Teresinha do Menino Jesus escreveu: "Devia estar desolada por adormecer (desde há sete anos) durante as minhas orações e as minhas ações de graças mas não. Você pode vir a experimentar diversas dificuldades durante a oração. por exemplo. você está a receber de Deus uma oportunidade excepcional para aprender.parecer. Penso que as criancinhas agradam aos seus pais tanto quando dormem como quando estão acordadas. Estas dificuldades podem ser de diferentes tipos e uma delas pode. O segredo da oração consiste na fome de Deus. não me sinto desolada. Portanto. Trata-se de experiências que nos fazem nascer no coração a chamada oração do homem pobre.

entre todos os presentes. o desejo de entrar em contato com Ele. aqueles que. não fomentam o orgulho. é a própria essência da oração — epor outro lado. E também disto que se trata na oração. tal como uma mãe recebe . Ele ama as oferendas pobres não querendo as flores mais belas. porque não alimentam o nosso orgulho. E este desejo que. que tenha grande vontade de rezar. do homem pobre de espírito. A sua oração pode não ser mais preciosa do que esse punhado de areia e. Deus. Alguém disse que. ter um valor inestimável só porque Ele. ter os resultados? Importante é que você deseje. Se a oração irrompe em você facilmente é também um dom de Deus que não pode ser desprezado. o Senhor. o Pai que o ama. que é uma expressão do seu anseio de Deus. na oração. Talvez você possa também tirar proveito de situações similares que converterão a sua oração na oração dum pobre. tanto melhor. as insignificantes. Ele a acolhe com enorme alegria. Deus prefere os pobres. a acolhe. por meio da oração você deve empreender a sua própria caminhada para Deus e é preciso que ame este modo de se aproximar d'Ele. de se abrir a Ele e de permitir que Ele. Quanto maior for a ânsia de Deus. no homem. que importância podem. reze em você. anseio este que por sua vez. é o fator essencial. No entanto. Deus aceitará todos os seus desejos mesmo que a você pareçam sem grande valor. as mais pequenininhas. pois. Então. mas preferindo as florinhas silvestres. o desenvolvimento apropriado da oração realizase num processo que comporta. o esforço que empreendemos para ir ao encontro de Deus.do homem pobre. no entanto. por um lado. Deus acolhe todos os seus dons mesmo que tenham menos valor do que um punhado de areia. o Espírito Santo.

porque não é o presente em si que conta. mas o gesto.uma simples florzinha do seu filho. tu que acreditaste. A oração assim feita será a melhor porque estará de acordo com a primeira Bemaventurança. na solenidade da Santíssima Virgem Maria. conservava-os e meditava-os no seu coração. salve. Ofereça sempre tudo ao Senhor. oferece-Lhe o seu "nada". O Rosário da Virgem Maria No primeiro dia do ano. a sua total impotência. Maria guardava-os na memória. Se não tem nada para Lhe oferecer. vazio no sentido de que clama pela vinda do Senhor. que ser Mãe significa ser uma memória viva. então desce a ela com o Seu poder. Durante a oração pode acontecer também que lhe pareça nada ter para oferecer ao Senhor. dolorosos e gloriosos. ó Maria. Os acontecimentos de seu Filho e os seus. fraco e pobre de espírito. guardar e meditar no coração os acontecimentos gozosos. pela descida do Espírito Santo. A oração do homem pobre é a oração de um homem que se encontra vazio. Tu és a memória da Igreja e a Igreja aprende de ti. bem-aventurados aqueles que rezam com a oração do homem pobre. João Paulo II rezava nestes termos: "Salve. De ti o evangelista diz: 'Maria conservava e meditava todas estas coisas no coração'. despojada das suas próprias forças. na basílica de São Pedro em Roma. Ela era memória na Igreja . se ponha à Sua disposição assim como és: pequeno. Bem-aventurados os pobres de espírito. Quando Deus vê uma alma assim. quer dizer. ó Maria.

primitiva e permaneceu memória por todos os séculos da história da Igreja". Amar o Rosário significa amar o Evangelho. isso significa que Ela rezava com aqueles acontecimentos. mas voltando em memória a tudo o que tinha sido importante na vida do Filho e na sua própria vida. Era como se rezasse o seu rosário. significa também amar Maria e todas as coisas que ela conservava e meditava no seu coração. Na sua vida houve a Anunciação. o reencontro de Jesus quando era um adolescente de doze anos. reza com a oração de Maria. as coisas que formavam o conteúdo da sua vida. a memória de cada um de nós que guarda aqueles acontecimentos. a Anunciação. O homem de oração contínua . sem desfiar as contas. Se você reza o Rosário. Ela revivia quer os acontecimentos jubilosos. Não era possível que Maria alguma vez pudesse esquecer o primeiro de todos aqueles acontecimentos tão importantes na sua vida. você se torna como que imagem da Mãe de Deus. porque a imita no guardar e no meditar os mistérios do Filho e da Mãe. assim. Se o Evangelho diz que ela guardava e meditava tudo no seu coração. Ela é a Memória da Igreja. Segundo as palavras do Santo Padre. Maria é a memória da Igreja. Era essa a sua oração. Cada um daqueles acontecimentos deve ser para nós algo vivo. Ao meditá-los você entra em contato com esses mistérios que. quer os outros ligados à Paixão e à Ressurreição de seu Filho. a Apresentação de Jesus no Templo. se convertem em canal de graça para você.

todavia manter-se acima deles sem se enterrar. pode. toda a luxúria e a efervescência dos instintos humanos e. A sua religiosidade caracterizava-se antes de mais por uma oração. que a sua fé não tenha sido submetida a provas de fé que não tenha tido que tomar decisões corajosas. pois que o pé não penetra. Por baixo de uma fotografia sua havia uma eloqüente inscrição: "Santidade sorridente". porque a santidade não é fácil.Um homem excepcional de oração foi Guy de Larigaudie. E preciso. . foi dirigente de um movimento francês para a juventude. de afirmação pelo mundo criado por Deus. descobri-la mesmo que manchada pela lama e elevá-la até Deus" (Etoile au grand largé). sobre a vastidão do pântano sem que o corpo resvale no lodaçal" (ibidem). como se caminhasse na superfície de um pântano enxuto. envolver por transportes de um regozijo de todo o ser. por amar a Deus de todo o coração. e de admiração pela sua beleza. É que. em automóvel. foi o primeiro a percorrer. cheia de fé. Naturalmente que tudo isto não significa que na sua vida não tivessem existido lutas e sacrifícios. a beleza de um corcel. Entre as suas anotações encontramos esta: "E preciso amar tudo: o desabrochar espontâneo da orquídea na selva. ao passar. Permanecer no amor de Deus como na pureza da manhã. se se ama Deus ama-se também o mundo. deixando-se. "Sentir dentro de si toda a lama. amar plenamente o próximo e o mundo. o trajeto França-Indochina. admirar toda a beleza. Parecia que Deus nada lhe tinha recusado: grande explorador de continentes. ao mesmo tempo. Era alguém que. o gesto da criança. a finura de humor ou um sorriso de mulher.

"Era seguramente uma mestiça. Que elas sejam a pureza e a graça das . fluía o ritmo do seu diálogo ininterrupto com Deus impregnado de fé. a dança e o canto. Mas não a fiz". de Lariguaudie. fazei que as nossas irmãs sejam harmoniosas de corpo. Guy de Larigaudie amava o risco. todos esses amplexos que por Seu amor não quis conhecer" (ibidem). de lábios carnudos e olhos imensos. "Aquelas belas estrangeiras não podiam compreender". sorridentes e que se vistam com gosto. o único capaz de preencher a enorme necessidade de amor que invade o coração do homem". confessa G. confessa ele. pedia: "Meu Deus. diz G. poderei oferecer a Deus como que num ramalhete. Era bela. chorando de desespero e de raiva. se nada mais tiver a apresentar. "Montei a cavalo e num desenfreado galope afasteime sem sequer me voltar. "que mesmo ao som das músicas de dança mais envolventes. Faz com que sejam sãs e que a sua alma seja transparente. Na realidade só havia uma coisa a fazer. Colhia todas as alegrias da vida mas. "Ela é possível. total. Na sua oração pela beleza. de uma beleza selvagem. de Larigaudie (ibidem). A pureza é possível se for construída sob o alicerce da oração. Tinha uns ombros magníficos e aquele tipo de beleza selvagem de sangues misturados. Creio que no dia do julgamento final. bela e enriquecedora quando se apóia numa base positiva: o amor de Deus. no decurso de tudo aquilo que experimentava e que vivia. o meu coração pudesse pulsar na cadência de uma oração bem mais forte do que o encanto e do que os atrativos delas" (ibidem). vivo. Era um excelente nadador e esquiador.

. foi única e exclusivamente por amor a Deus que. O tempo . ao ritmo de uma dança.. continua ele. De Taiti a Hollywood". (. Não pretendi colher qualquer dessas flores oferecidas ou apaixonantes de conquistar. sejamos uma fonte recíproca. as mais belas mulheres do mundo. o olhar de ternura que dá audácia e confiança. reprimindo o meu corpo. rapazes e moças. Falando sobre a Eucaristia dizia: "A Comunhão diária foi para mim. não de pecado.) Passeei pelo mundo como num jardim circundado de muros. Todas as barreiras cairão por terra e eu possuirei o Infinito" (ibidem). maternais. orações maquinais. ao ritmo das imagens ou da música. mas de enriquecimento. pelo vizinho da esquerda ou pela vizinha da direita. Mas há de chegar o dia em que poderei cantar o meu cântico de amor e de alegria. é possível rezar desfiando dentro de si. simples. Como era a oração de fé deste santo dos nossos tempos? "Ao assistir à peça teatral mais insípida.. outras pelo público que se diverte ou se aborrece. o banho de água viva que fortalece e distende os músculos. ao filme mais pungente. Fazei que nenhum mal se infiltre entre nós e que. no entanto.. os muros do jardim não fizeram mais do que recuar e eu permaneci sempre encarcerado. Renunciava não por razoes humanas. a refeição substancial antes do início da etapa. sem falsidade nem coqueterias.).nossas vidas rudes. pelo realizador ou pelos figurantes. tive nos meus braços. em cada manhã. manifestei indiferença" (ibidem). "nas praias de coral ou nas pontes dos paquetes. e. Que elas sejam conosco. lancei-me em busca de aventura nos cinco continentes (. Umas pelos atores.

assim passado não terá sido inútil" (ibidem). quase inconsciente.. fazendo a barba pela manhã. umas águas infinitamente calmas e transparentes que não podem ser atingidas nem pelas sombras nem . Ter sempre junto de si Deus.). amo-vos!'" (ibidem). contar a si próprio. mas peço-vos: tende piedade de mim'. (. por entre um canto. Esta oração. Ele encontra para si. mascando um talo de erva. nem mesmo nos momentos de exaltação do corpo ou da alma. por todo o corpo que nada mais se pode do que sussurrar maquinalmente e quase já sem o crer: 'Senhor. podemos repetir sem cessar a Deus. na praia ou deslizando nos esquis pela neve. de Lariguaudie. como um companheiro a quem nos confiamos. continua G.. amo-vos. mesmo na agitação da cidade ou na tensão de espírito de uma ocupação absorvente. Há certas tardes.. no fundo de mim mesmo.. apesar de tudo.) não se pode mais do que repetir aquela pobre frase. nem mesmo na sonolência do rodar de um comboio sobre os carris ou no roncar de uma hélice. muito simplesmente. nas quais a tentação do mal vos agarra com tanta força.. a cantar. toda a sua vida passada e os sonhos para os dias vindouros e desse modo falar ao seu Deus.) De tal modo me acostumei à presença de Deus em mim". nas quais sentado ao fundo de uma igreja incapaz de rezar (. E. a força nos momentos difíceis que exigem de forma particular a fidelidade ao Senhor. Existem. mesmo assim. "Há horas pesadas. à qual nos agarramos qual náufrago à tábua de salvação: 'Meu Deus. falar-lhe ainda a dançar de alegria em pleno Sol. que O amamos muito (. "Ceifando a golpes de chicote a cabeça das cenouras bravias. não termina nunca.. tão irresistivelmente. "que no fundo do meu coração há sempre uma oração que me aflora aos lábios. na oração.

20). será unicamente o maravilhoso desprender do grilhão que me acorrenta" (ibidem). não apenas na Eucaristia que atualiza a Sua obra salvífica. em toda a parte do mundo. Cristo assegurou-nos que estaria conosco todos os dias até ao fim dos tempos {Mt 28. a toda a hora.. mas também está presente no nosso próximo. (.) Toda a minha vida não foi mais do que uma longa procura de Deus. para mim. busquei as Suas pegadas e a Sua presença. Graças à presença do próximo na nossa vida. A morte.. a chegada à plenitude a que desde sempre aspirou. pois é ela que nos . não só na Igreja. A morte marcará para ele o fim dessa maravilhosa e embriagante aventura. o cotidiano converte-se num desafio à nossa fé. Por todo o lado. E está. CAPÍTULO 6 O AMOR ENQUANTO ATUALIZAÇÃO DA FÉ Num momento precedente à Sua Ascenção.40).pelos remoinhos da superfície. com o qual Ele Se quis identificar: "Todas as vezes que fizerdes algo a um destes pequeninos a Mim o fizestes" {Mt 25.

por exemplo. O primeiro conceito. e descortinar a presença de Deus oculta na outra pessoa. que o faz sentir-se bem. . "Eros". Deus revela-nos o Seu amor "ágape" — que nós recebemos pela fé. com os olhos de Cristo. Se alguém ou alguma coisa corresponde às suas expectativas. que remonta à Antigüidade. “Eros” e “ágape” dois tipos de amor que estão na base de dois gêneros de laços diferentes que possam sobrevir entre os homens. definiu o amor com a palavra "Eros".permite olhar o mundo. pois. Existem. se sente prazer na companhia de alguém ou em qualquer coisa. Esse amor é egocêntrico porque sempre se trata de você. O segundo conceito. transmitido por Platão. Trata-se de um amor emocional. tal como o apresenta o Cristianismo. para em seguida o transbordarmos aos outros. ou se lhe agrada possuir determinada coisa. o abandono de nós próprios a Deus adquire o seu justo caráter e a dimensão de dom recíproco. Dizia João Paulo II que. é o amor definido ainda em grego pela palavra "ágape". conseqüentemente. do seu prazer. no amor. tudo isso procede unicamente dos seus sentimentos puramente naturais e é o 'eros' platônico. em Platão é o afeto que deseja o que é digno de ser amado. Ágape Há duas espécies fundamentais de laços entre os homens e. Ama algo que lhe proporciona satisfação. pelo seu aspecto belo e estético.6) e no amor encontra a sua plena vida e convida à convivência. à "comunhão" com Deus e com os irmãos. A fé "atua pelo amor" (Gal 5. dois conceitos de amor.

segundo o próprio Evangelho e o pensamento de São Paulo.. Pertence à ordem natural das coisas procedentes de Deus embora tenha sido manchado pelo pecado original. E necessário purificá-lo e transformá-lo em amor sobrenatural. E um amor espontâneo que se dá porque é amor. tudo espera (ICor 13. E o que indica o célebre texto de São Paulo na sua Carta aos Coríntios: "O amor é paciente. inclina-se sobre todos nós que somos indignos e temos necessidade deste amor criador que produz o bem. não deve ser condenado nem destruído. que o Seu amor deve ser merecido. Por vezes pode parecer-nos que é preciso agradar a Deus.Este amor. Aquele que recebe de Deus graças excepcionais fica maravilhado porque o Senhor lhas quis conceder. mas unicamente para que o venha a ser. aquele amor tão essencialmente ligado à vida da graça e que.) tudo desculpa.. apesar do seu caráter interesseiro e da sua fugacidade. "Agape" é um amor criador. Deus é "ágape"— Ele é o amor que desce até ao homem e ama o que não merece ser amado.. tudo crê. "Ágape" deseja criar em você o bem. No entanto Ele o ama porque você é o Seu filho e não pelo seu valor. é serviçal. Mas isso só acontece porque o amor-ágape desce sobre os indignos. constitui o reflexo da caridade do próprio Deus.. designa-se pelo termo "ágape".. um bem cada vez maior. um Amor que ama. apesar das suas falhas e das suas limitações. na língua original grega.. (.. não se irrita não guarda rancor.. (.4-7).) não procura o seu interesse. "Agape" é o amor desinteressado que invade o homem. não porque você seja digno de ser amado. Um tal amor. . Segundo o conceito cristão. Deus é caridade e o Seu drama consiste em não poder derramar plenamente o Seu amor.

para que se possa ir tornando melhor. uma obra-prima do Seu Amor. feio ou bonito. tem de se transmitir. Para uma mãe que ama o seu filho. Este amor "ágape" cresce em você. Mesmo assim. não emocional. O amor. será sempre o mais bonito porque é seu filho. por você e em você. E muito . mas proveniente da ardorosa vontade de levar o bem aos outros. quer criá-lo dentro de você. sendo um bem. Assim. Pouco importa como possa ser esse outro. os laços inter-humanos criados por Ele são tão fortes que perduram para além da morte. E Deus procura sempre corações abertos em que possa. não pode ficar encerrado em você. "Ágape" é Cristo que vive em você e que. e manifesta-se com freqüência em pequenos pormenores como num simples gesto ou num olhar. da caridade desinteressada. quer descer para fazer de você. cheio de defeitos e de pecados ou sem eles. sem medida. deve transbordar. O homem dotado do amor. "Ágape" é um amor. de Deus.em não poder inundar a alma humana que Ele ama desmedidamente. é possível até que sejam muitos e que até você se sinta esmagado sob esse peso a ponto de não agüentar mais. desce até você e que você recebe pela fé. por mais feio que este seja.ágape. começa ele próprio a amar ou. Deus quer envolver-se no Seu Amor. amável ou simpático. pecador e indigno. O amor-ágape que das alturas. quer amar os outros. como resultado da descida de Cristo ao seu coração. é Cristo presente nele que começa a amar os outros. Pouco importa quantos defeitos você tenha. O que importa é que o Amor quer amá-lo. derramar esse Seu infinito amor. mais precisamente.

Isto pode suceder de repente ou como resultado de um processo que se vai intensificando com o tempo. onde surgem as emoções negativas. uma terceira variante. Acontece. Assim sucede. quando nada o atrai para tal pessoa. por exemplo. quando. normalmente. por exemplo. uma questão de sentimento. por esse motivo. você se sente bem com Deus. por vezes. a mais difícil.importante que você reparta esse amor com o calor do seu olhar. A alma pode ser inundada por sentimentos positivos. A primeira exprime-se nas relações que são norteadas por afetos positivos. podendo isso perdurar algumas horas. quando você nada sente. São três as variantes principais nas relações emocionais interpessoais. O sentimento de aversão pode manifestar-se tanto na relação com outra pessoa como nos contatos . criando-se uma espécie de vazio emocional. na aceitação. por fim. você quer estar na sua companhia. Na segunda variante. no apreço e no acolhimento constante e afetuoso do seu próximo. Do ponto de vista da psicologia pode se falar de uma certa desintegração emocional. cria comunidade entre as pessoas. O contato entre pessoas é. é também um amor que instaura a comunhão. Trata-se de um gênero de sentimentos positivos que podemos experimentar. alguém experimentar literalmente uma alegria esfuziante no contato com Deus. quer com as pessoas. Existe. quer nos contatos com Deus. O papel dos sentimentos "Ágape" não é só um amor criativo. alguns dias ou até meses. lhe agrada e. os sentimentos positivos podem desaparecer. quando alguém próximo se harmoniza com você.

. mesmo num bando de delinqüentes. por exemplo. Podem.com as coisas de Deus. por exemplo. pessoas que mantêm entre si um entendimento perfeito. De igual modo os sentimentos negativos podem aparecer nas relações com os outros. a razão da sua harmonia está na comunidade de interesses. difícil de suportar. ao nível dos laços naturais. você pode se confrontar com dificuldades no contato com Deus na oração. nem à confissão. Contudo. E algo que aparece freqüentemente durante os períodos de purificação. os sentimentos positivos naturais são muito instáveis. Encontramos. quando de repente algo deixa de atraí-lo naquele que antes lhe era muito chegado. nem à Eucaristia. de um grupo que se une solidariamente para lograr os seus fins. não há nada que me atraia à oração. Nasce então uma certo vazio emocional no relacionamento com os amigos e os conhecidos. Na relação com Deus manifesta-se numa certa aridez: não sinto nada no contato com Deus. Que se passa quando se desvanecem por completo? Surge a crise motivada por um vazio emocional crescente. Este gênero de sentimentos e de ligações podem formar-se em qualquer grupo humano. quando se desvanecem os afetos que você dedicava a outra pessoa. pela confissão ou pela Comunhão. O mesmo tipo de crise se desencadeia. aparecer no início do matrimônio e depois dissiparem-se. Pode acontecer que você sinta rejeição por estar na Igreja. freqüentemente. Os laços humanos baseados nos afetos positivos são laços naturais. A certa altura alguém chegado e amigo começa simplesmente a lhe causar irritação e se torna repulsivo para você. Pode tratar-se.

Finalmente. Nesse caso. então. é necessário heroísmo para se vencer a si próprio. quando na nossa . E mais necessário que procurem amar-se apesar dos seus defeitos e das suas disparidades e não que estejam idealmente de acordo e estejam sempre de harmonia entre si. Do ponto de vista da fé isso não é o ideal. aderem completamente. se quebram ou afrouxam. apenas de uma harmonia de sentimentos positivos. O mesmo sucede também na família. Mas é justamente então. há de passar a um superior nível de existência. juntando-se. A crise dos laços naturais Não há comunidade. que aparece a oportunidade para se estabelecerem ou aprofundarem os laços sobrenaturais. com os filhos. que se assemelham a duas metades de um todo que. puramente natural. com efeito. No matrimônio pode dar-se a situação em que os esposos se harmonizam perfeitamente. que não haja problemas entre eles. Trata-se. Não é ainda aquele amor cristão elaborado. na terceira situação. o amor ágape. aparece o afastamento emocional para as coisas de Deus. Do ponto de vista da fé podemos até dizer que. ou o afastamento em relação a alguém. quando deixam de existir as ligações naturais ou quando. quer simplesmente da comunidade de amigos ou de qualquer outro grupo. a mais difícil. quer se trate da conjugal. de certo modo. Não é indispensável que estejam numa concordância perfeita uns com os outros. que tenha grandes hipóteses de sobreviver se se basear exclusivamente num vínculo natural: mais tarde ou mais cedo acabará por se desintegrar ou. por vezes.

tenha experimentado tais momentos difíceis.vida se manifestam crises dessa natureza é sempre um bem. que se abre uma ruptura. você se esforça por Lhe continuar fiel. O matrimônio assim firmado em Deus é aquele que. mesmo assim. no caso concreto das purificações. uma fenda que há de tornar viável o nascimento e a fundamentação do vínculo e do amor sobrenatural. em Deus. quão preciosa a Eucaristia quando a ela nada o atrai mas. valiosa. pois é. a Reconciliação sempre que não sente vontade de a fazer. pois foi então que verdadeiramente o seu amor lançou raízes. torna-se de particular atualidade. Amor este que é obra de Cristo e cujo crescimento garante a sua mesma perenidade. Cristo o ama. já que disso decorre uma extraordinária oportunidade. às vezes. sem O atraiçoar e permanecendo sempre fiel. no matrimônio os mal-entendidos. Como é. apesar de tudo. E bom quando subitamente uma pessoa se nos torna menos simpática. . por vezes até violentas. o chamado de Cristo para colocar em prática o Evangelho. quando parece não O amar de iodo. que as crianças. tendo passado por essa espécie de desagregação. desentendidas. Abençoado aquele que. nessa altura. que surjam. desse modo. na sua relação com Deus. então. quando você não se sente nada unido a Ele. justamente. briguem. E que. por vezes. está lá e espera por você! A sua oblação aumenta na medida em que os laços naturais falhem porque o seu esforço é maior. forte em Cristo. menos agradável. acabou por se saber reintegrar a um nível superior. Ainda bem que entre nós se desencadeiam crises. você vai porque sabe que Ele. quando sente que alguma coisa o afasta para longe de Deus mas. Somente um tal amor é forte. O mesmo sucedendo na relação com Deus.

para nos repelir. porque criam melhores oportunidades para uma polarização das nossas atitudes. muitas vezes não é fácil. Você deve amar como Ele. para nós. Do ponto de vista da fé.34). esse outro. no duplo sentido da palavra. deves primeiro. para que você possa amar como Cristo. Será. com efeito. sobretudo para os que se afligem ao ver como a vida é. pela fé. O conhecimento teórico da pessoa de Cristo não basta. as pessoas que menos nos agradam são. "Dou-vos um mandamento novo: "Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei' (Jo 13. Por meio da fé. Permitir que Cristo ame em nós A especificidade do amor cristão é o cristocentrismo. parece por vezes fazer tudo para que nos afastemos dele. já que traz consigo o chamamento à superação dos laços naturais e para se elevar aos laços sobrenaturais: ao ágape. é precisamente então que. permitindo-nos ver que amar não eqüivale a gostar. descobrir o Seu Rosto desvendado na palavra revelada. tão dura. Cristo é o único e o supremo modelo do amor. para nós. o crescimento da fé a fazer aumentar em você o amor porque se fortalecerão os vínculos existenciais com o ideal personificado do amor que é Jesus Cristo. até as mais preciosas. Em primeiro lugar. por vezes. esse próximo constitui uma graça especial. conhecerá Aquele que é o modelo perfeito do amor e desejará amar . Mas. Toda via. O nosso próximo.Em tudo isso há uma grande esperança. que lhe permite se por à escuta do Verbo revelado e assim O conhecer e se ligar a Ele.

na confiança e no amor. Do seu grau de fé. mas na adesão a Ele. Pela fé. de criança impotente perante tudo o que diz respeito a Deus e aos homens. A imitação de Cristo não consiste na imitação superficial das Suas ações exteriores. dessa fé que lhe permite participar na vida de Deus. pela fé. a esperança e o amor como duas formas da sua realização. A fé possibilita a união a Cristo. Em nós tem que aparecer a atitude de infância.como Ele amou: até às últimas conseqüências. de maneira que a Sua vontade se torne também a nossa e que a Sua vida. você irá assimilando o Seu pensamento e os Seus desejos. Em segundo lugar o amor cristão é o amor de Cristo em nós. sentirmonos qual criança desamparada e impotente. Só este tipo de atitude exprime uma fé total na intervenção de Jesus. amar os outros com o Seu amor. ao nosso ambiente e à realidade que nos rodeia. a nossa Verdade e a nossa Vida. Ele é o nosso Caminho. perante a onda esmagadora de sentimentos negativos. a fé que penetra a totalidade da existência cristã contém em si. Ele pensa. como num todo. aprenderá a pensar como Ele. para que essa mesma fé se venha a fundir. em nós. Abandonar-se a Cristo mediante a fé é acolher o Seu amor que desce até nós. . Amar alguém por quem sentimos aversão não é coisa fácil. é permitir-Lhe que nos ame e que possa. Por isso devemos abrir-nos a Cristo e. vive em nós e em nós ama com o Seu amor. depende o nível do seu amor. a desejar o que Ele deseja e a amar como Ele ama. permite o abandono e a entrega a Ele. possa transparecer continuamente na nossa maneira de viver. reza. em nós e por meio de nós. Com efeito.

Descendo ao seu coração. no mínimo. amará mesmo aqueles que não nos são simpáticos. dá-nos também a liberdade. cumula-nos de graças e. o que à luz da fé significa desejar a sua santidade. pela fé. Não basta o cuidado das coisas terrenas da instrução. na medida em que formos pequenos e desamparados porque só assim estaremos em condições de acolher. você deve cair na conta de que realmente lhe falta o amor autêntico. Pela nossa vontade e graças a Ele. Se ama alguém preocupando-se exclusivamente com o seu bem-estar material e temporal. Somente uma tal atitude nos permite que passemos ao amor-ágape. por nosso intermédio. Só chegará a amar verdadeiramente quando . Encaradas nessa perspectiva. as dificuldades que surgem na nossa vida no relacionamento com os outros tornam-se oportunidade para nos abrirmos às graças e ao amor de Jesus que. quer amar cada vez mais e desejar-lhe o maior bem possível. liberta-nos. reparando quanto somos impotentes face às nossas emoções e vendo que tudo esperamos d'Ele. só Cristo c capaz de amar em nós. Mas essa presença realiza-se apenas na medida em que somos humildes. Cristo quer amar. quer dar-Se aos outros e desejar o seu bem. tendermos a uma tal libertação. desse modo.no fato de que será Ele que virá e. nas situações em que nascem e crescem as emoções negativas. deveríamos atingir a liberdade em relação às sensibilidades ou. ou cm que pelo menos desaparecem os sentimentos positivos. se inclina até nós como ágape de Deus. A presença de Cristo em nós traz-nos a conversão. da saúde e da existência material. isto é. Realmente. o amor de Jesus.

concretizada quer nos sacramentos quer na oração. Por você mesmo é. Quanto mais ama a Deus. permite-Lhe que o ame e que ame os outros por meio de você. Se não o transmite aos que lhe são queridos praticas um verdadeiro "roubo" espiritual. não se pode partilhar o que não se possui. e nesse amor O acolhe permitindo-Lhe viver e agir em você. O que o permite amar o próximo é a sua abertura à vinda de (Insto. incapaz de amar. Amar o próximo é dar-lhe Cristo. A luz da fé os bens espirituais são os mais importantes. E que. Aqueles que vivem ao seu redor têm direito a que. Mas.você próprio desejar a santidade e também quiser comunicar esse desejo aos outros. tanto maior será a sua capacidade de amar os outros. prodigalizar bens materiais. os outros têm direito a esses bens. Amar significa dar-se e transmitir o bem aos outros. no entanto. crescendo você na graça santificante e na aspiração à santidade. . abrindo o coração à descida do divino ágape. Não se pode amar o homem sem amar a Deus A verdade que é Cristo em nós a amar o nosso próximo. Na medida cm que acolher Cristo e se deixar envolver por Ele é que O poderá transmitir aos outros. na verdade. Não basta. causas um "prejuízo" espiritual. se converta para eles num canal puro da graça. de fato. leva-nos a concluir que não se pode amar o homem sem a Deus amar. Se ama Cristo e se disponibiliza para Ele. É Cristo que ama em você.

na realidade. pela Fé. Se não existe. cada recepção do Sacramento da Reconciliação. isto é. deve se ver em verdade e se perguntar se ama verdadeiramente. os seus pais. na medida em que você mesmo se converta a Deus. Cristo. mas Cristo a viver em você'. aspira santidade e consinta em 'não ser já você a viver. em você. E que de fato. as pessoas mais chegadas ou mais afastadas. Uma mãe que seja uma cristã "tíbia" e não tenha aderido ainda. pelo fato de não amar verdadeiramente Cristo. Se. da intensidade da sua fé e do seu amor a Deus. à luz da fé. a sua filha. mas sim do grau de graça santificante. a recepção dos outros sacramentos e cada oração são sempre simultaneamente um bem partilhado com os outros. rouba a essa criança as graças que desceriam sobre ela por meio das suas comunhões. você se torna para os que o rodeiam um "ladrão" em sentido espiritual. que é o único Amor e o único Bem. deseja nos amar sem limites e procura incessantemente almas . Decerto que está plenamente convicto de que ama o seu filho porque não só lhe assegura os bens materiais como.O seu crescimento em santidade torna-se. não pode amar completamente o seu filho. o dom mais precioso para os que lhe são próximos. cada participação na Eucaristia. Ele. mas também reza por ele. priva de graças também o seu filho que para ela é um tesouro. Todavia. Inconscientemente. Você deve pôr em questão o seu amor. Você ama o seu marido. não recebe a Sagrada Comunhão. deveria tomar consciência de que. da nossa íntima união no Corpo Místico de Cristo. vida interior nem crescimento da fé e do amor de Deus. o seu filho. em virtude do sistema de vasos comunicantes. o valor e a eficácia da sua oração não dependem dos sentimentos.

Ele mesmo a lhe mostrar o Seu "eu" ideal e ao mesmo tempo a realizá-lo. com o aprofundar da própria identificação com Cristo. Será. a sua "verdade" e a sua "vida" (cf. Se. . Essa não é uma atitude correta. No homem crente. você se abrir a Cristo. então. Cada um de nós tem uma certa visão de como quereria ser e do tipo de imagem e parecença com alguém que quereria ver realizada em si.nas quais possa transbordar a imensidade do Seu amor. o próprio Cristo a dar cumprimento à sua auto-realização. por outro lado. só os santos amam verdadeiramente os outros homens. que o homem não quer ser como é. Ele se torna no nosso ideal pessoal. Na realidade. pela fé. Jo 14. assim. sem dúvida. O conhecimento sempre mais perfeito de Cristo e a adesão a Ele geram em nós o desejo de nos identificarmos com Ele.6). porque se abriram totalmente a Cristo e. Cristo pode plenamente viver e amar. neles. que tem o seu "eu" que idealizou e que prefere ser alguém diferente daquilo que é. Esses desejos refletem o "eu" ideal. Será. Ele torna-Se o seu "caminho". O "eu" real. Demonstra. pode ser por vezes tão desagradável que alguns se ressentem consigo mesmos ou se irritam contra o seu "eu" real. Deste modo. A auto-realização em Cristo A psicologia fala do "eu" ideal e do "eu" real. a imagem do "eu" ideal aperfeiçoa-se sempre mais com a intensificação da vida interior. Não se pode amar o homem sem amar a Deus.

você se aproxima da verdade. na nossa relação com outrem. Tal é a economia divina e assim é também a minha estrutura mental. Durante a II Guerra Mundial muitas pessoas se viram subitamente colocadas diante do apelo ao amor heróico: ou agride ou é vencido. tudo corre pelo melhor e não vemos então nenhuma necessidade de heroísmo. Mi o me posso realizar senão graças àqueles que amo. a um amor de alto preço. apenas restaria negação do amor.29). então. Assim como estamos predestinados a ser a conformes à imagem do Seu Filho' (Rom 8. só Cristo pode ser o nosso verdadeiro ideal pessoal. convencidos de que não somos capazes de amar e será para nós nessa altura mais fácil compreender o sentido profundo das palavras de Cristo: . Nenhum de nós se pode realizar sem referência a outra pessoa. em situações menos dramáticas. sem o heroísmo. Cristo torna-Se o seu caminho e verdade. Seremos. sempre maior. ou abate ou é abatido. também a nós. que Deus nos convide. Por vezes. luz sobrenatural e Se revela a você cada vez mais plenamente. o nosso próximo é capaz de nos colocar numa tal situação que. Deste modo. à medida em que a imagem do seu "eu" pessoal se aproxima da imagem de Cristo. Porém.o nosso "eu" ideal. (lada um de nós somente encontra a sua realização quando ama. Sem essa referência você nunca poderá ser plenamente você. pois Cristo lhe confere uma. O crescimento na fé e a graça fazem sobressair mais o seu "eu" ideal. Tratavamse de situações excepcionais mas pode igualmente acontecer. E Ele próprio que fortalece a sua vontade para que possa formar o seu "eu" real a exemplo do seu "eu" ideal.

que viva em nós. essa expressão humana da vontade: "quero amar. nunca serei capaz de o aceitar. esse dá muito fruto. o meu "eu" tem de ser crucificado. quer ter tantos rostos quantos os homens sobre a terra. Mas sem a graça. é fraca. vós os ramos. Cristo é a nossa vida."Eu sou a videira. Sem Ele somos como sarmentos cortados da videira que logo secam. A vontade do homem é demasiado fraca para escolher o que lhe é difícil. só a graça me poderá tornar capaz disso. porque sem Mim nada podeis fazer" (Jo 15.13). A Igreja ensina-nos que não há amor sem a Cruz: para poder amar o próximo. Se alguém ainda não o experimentou. sem Cristo nada podemos fazer. quem está em Mim e eu nele. O homem não pode realizar-se sem Cristo. na medida em que deixamos que Ele ame em nós. na verdade.5). não sabe amar. A auto-realização de cada um de nós tem o seu cumprimento na medida em que nos abrimos a Cristo. E Cristo tem mesmo este desejo extraordinário: quer amar cada um de nós com especial amor. quero optar pelo bem". é Cristo que vive em mim" (Gal 2. que produz em nós o "querer e o agir segundo o Seu beneplácito" (Fil 2. A nossa vontade. que não . com efeito. certamente chegará o dia em que se convencerá de que. É Deus. graças à qual podemos eleger o bem e o amor.20). o que exige a superação do seu egoísmo. Ora. a ação da graça é tal que é o próprio Cristo que penetra o meu "quero". Se você se abrisse totalmente a Cristo poderias também dizer como São Paulo: "Já não sou eu que vivo.

A descoberta de Cristo nos outros não diminui absolutamente em nada o valor do próximo. é demasiado pouco para amar como Jesus amou. Associando-se à vontade desse homem.sabe morrer para si próprio. que haja nele mais e mais o bem. Ao amar Cristo amo ao mesmo tempo esse outro. Como sabemos. cada um de nós só é plenamente homem pelo amor. ama o meu próximo e eu amo no Seu amor. Porém. Trata-se de um fenômeno que não produz nem divisão. vós também vos deveis amar uns aos outros" (Jo 13. . Ora. num grau de cinco. me faz amar e crescer no amor. Cristo faz com que ele deseje sempre cada vez mais o bem. por exemplo. o meu "quero" pode ser. E embora a graça acolhida pelo homem se torne um bem seu. O amor é um ato da vontade. é o nosso desejo de dar aos outros o bem. setenta ou de cem por cento. Se o nosso desejo é o de realizarmos o amor a "dez por cento". já não a "cinco por cento" mas a sessenta por cento ou mesmo mais. isso é excessivamente pouco para estabelecer a harmonia entre as pessoas. E graças a Cristo que o outro me começa a fascinar porque se torna cada vez melhor e cada vez mais belo. cada vez mais. graças à presença de Cristo em mim. Deste modo se manifesta a vida de Cristo em nós. mas.34). Cristo insere-Se na nossa vida de modo tão perfeito que é Ele que. cada um de nós pode querer determinada coisa. pelo meu amor. pelo contrário. fortalecido pela graça de Cristo de tal modo que eu comece a querer pôr em prática o mandamento de Cristo: "Assim como Eu vos amei. é simultaneamente o bem de Cristo. nem alienação. para que possa cumprir-se o processo de integração das pessoas.

sobretudo no que se refere ao amor ao próximo que. Jesus disse: "Porque me chamas bom? Ninguém é . na medida em que queiramos que seja Ele a nossa vida. Sem uma vida vivida em verdade não se pode sequer falar de amor no sentido sobrenatural. chega a exigir autêntico heroísmo. quando peco. no entanto.eis porque Ele adota tantos rostos. é o amor do próprio Cristo em nós. Sós não somos capazes de responder ao apelo de Deus. reconhecendo a nossa fraqueza. O meu pecado e o meu coração fechado a Cristo alienam-me. Durante o Seu diálogo com o jovem rico. Esse amor. Se me fecho a Cristo torno-me triste. por vezes. a Verdade e a Vida". mau e. na medida em que. é a minha autorealização que se efetiva. Por si o homem tem uma inaptidão para o bem espiritual. é Ele quem realiza este "eu" ideal em cada um de nós. o de cada um de nós . não sabemos amar. de fato. E Ele vive em nós. esse não é o meu "eu" ideal.Se Cristo se torna o meu "eu" ideal. quando digo "não" a Cristo. nós O invocamos. isto é. Ao mesmo tempo. Se bem que a Igreja não diga que a natureza humana esteja corrompida. o meu. para nós tão difícil. vendo-nos na verdade. A nossa auto-realização encontra a sua concretização mediante a vida em verdade e pela resposta ao chamamento de Deus ao amor. E esta realidade maravilhosa é uma confirmação das palavras de Cristo: "Eu sou o Caminho. despojo-me do meu "eu" e torno-me progressivamente menos eu próprio. pelo menos deveríamos estar conscientes de que por nós próprios somos incapazes do bem sobrenatural. deprimido. não é assim que eu desejaria ser. Inversamente. Cristo é que é o meu "eu" ideal: o seu.

que posso ser eu mesmo. "Que tens tu que não hajas recebido?" (ICor 4. Quanto mais nos atribuímos as graças de Deus.7). porque não se pode falar de auto-realização em Cristo se não se vive em verdade. procure repetir muitas vezes no seu íntimo: "E graças a Ti. tanto maior é a nossa asneira. é graças a Ti que o meu cônjuge é tão fascinante. Se você deve se tornar semelhante a Cristo não pode haver em você mentira. Essa será uma expressão de humildade. é graças a Ti que as pessoas que encontro são tão boas". Se quisermos fazer antropomorfismo poderemos dizer que este é o Seu "ponto fraco". Devemos retornar constantemente a estas palavras. Deus é particularmente sensível no que diz respeito à verdade. Cristo diz: "Para isto nasci e para isto vim ao mundo. Todo o bem que há em nós vem de Deus. Se ela é tão importante é porque Deus está disposto a dar tudo àquele que não se apropria de nada. O fundamento da nossa auto-realização é a humildade. Cristo identifica-Se com a verdade e é intransigente no tocante à falsidade e à soberba.bom senão só Deus" (Mc 10. E é só então que Cristo vem.37). Tudo o que me atrai no outro . Para não atribuir a si próprio a ação de Cristo. Senhor Jesus. no que toca à apropriação daquilo que Ele realiza em nós. Falando de Si próprio. Para defender-nos desse erro Deus vê-Se obrigado a limitar as Suas graças.18). Se você vive na verdade e se reconhece que sem Cristo você nada pode é como se Lhe suplicasse: "Vem e vive em mim". a fim de dar testemunho da Verdade" (Jo 18.

de você. E extraordinário que tenhamos uma tão grande variedade de santos. uma obra-prima que há de atrair os outros. E temos também São Bento José Labre que morreu como indigente e mendigo. sem dúvida. um dia. um "brigão". . que não estava a ser ele próprio e que não passava de uma caricatura de homem. seria ceder à ilusão. Se pensarmos que alguém que nos fascina. Cristo quer justamente fazer de nós. devido ao bem sobrenatural que emana. Cada um de nós há de convencer-se um dia. rainha da Polônia. é digno de admiração. mas também pelo seu nível intelectual e espiritual. viu um frade e. era um modelo de elegância. Começou a sonhar tornar-se um homem normal. cobriu o rosto com um pano.homem pertence a Cristo e simultaneamente a essa pessoa. Decidiu converter-se. E São Camillo de Lellis foi. compreendeu que o que fazia era degradante. sentiu reviver nele o desejo de romper com tudo aquilo. quando se tornara já num alcoólico inveterado. de repente. desde jovem. do quanto é fraco e pecador. Por exemplo. Assim o tornará cada vez mais você mesmo e simultaneamente Cristo crescerá cada vez mais em você. Mas. alumiou-se nele uma fagulha de esperança: também eu poderei ser diferente. Santa Edwiges. Fascinava não só pelo seu delicado gosto estético. Foi então que Cristo consumou a sua auto-realização fazendo dele. não só uma pessoa normal. levava uma vida. pior do que a dos soldados expulsos da legião estrangeira. Cada um dos santos realizou a imagem de Cristo em si de uma maneira diferente. No entanto. mas ainda uma obra-prima porque o conduziu à santidade. Quando mais tarde perdeu tudo no jogo e ficou reduzido à mendicidade. um jogador de cartas.

verdade e vida.E assim que Cristo age conosco porque Ele quer ser o nosso tudo: o nosso amor. . o nosso caminho.

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