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FilosoFia no EnEm

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à filosofia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

FilosoFia no EnEm Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à filosofia ao longo das edições do

Brasília-DF

aGOsTO/2015

© INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA (INEP)

É permitida a reprodução total ou parcial desta publicação, desde que citada a fonte.

DIRETORIA DE AVALIAÇÃO DA EDUCAÇÃO BÁSICA (DAEB)

O conteúdo dessa obra é produto da Consultoria OEI, termo de referência 1180, realizada pela Drª Ester Pereira Neves de Macedo, cujo objetivo foi analisar a abordagem das questões de Filosofia no Exame Nacional de Ensino Médio nos anos de 1998 a 2011. O produto apresentado pela consultora foi avaliado e validado pela equipe técnica da Diretoria de Avaliação da Educação Básica – Inep.

ASSESSORIA TÉCNICA DE EDITORAÇÃO E PUBLICAÇÕES

REVISÃO

Amanda Mendes Casal

NORMALIZAÇÃO BIBLIOGRÁFICA Sâmara Roberta de Sousa Castro

DIAGRAMAÇÃO E ARTE-FINAL Raphael C. Freitas

EDITORIA

Inep/MEC – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira SIG Quadra 4, Lote 327, Edifício Villa Lobos, Térreo – Brasília-DF – CEP: 70610-908 Fones: (61) 2022-3070, 2022-3077 – editoracao@inep.gov.br

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

M141f

Macedo, Ester Pereira Neves de.

Filosofia no Enem : um estudo analítico dos conteúdos relativos à filosofia ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011 / Ester Pereira Neves de Macedo. – Brasília, DF : Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2015. 121 p.

ISBN : 978-85-7863-041-6

1. Exame Nacional do Ensino Médio. 2. Filosofia (disciplina). 3. Avaliação da Educação. I. Título. CDU 373.5:37.001.7

SUMÁRIO

SUMÁRIO A PRESENTAÇÃO ................................................................................................................... 5 INTRODU ÇÃO ...................................................................................................................... 7 1 PANORAMA DA F ILOSOFIA NAS P

A PRESENTAÇÃO ...................................................................................................................

5

INTRODU ÇÃO ......................................................................................................................

7

  • 1 PANORAMA DA F ILOSOFIA NAS P ROVAS DO E NEM ENTRE 1998 E 2011 ................

9

  • D ISTRIBUIÇÃO C RONOL ó GICA .....................................................................................9

A SPECTOS F ORMAIS ....................................................................................................

12

  • D ISTRIBUIÇÃO DE C ONTE ú DOS .................................................................................

14

P RIMEIRA M ATRIZ DE R EFER ê NCIA (1998-2008) ................................................

14

PCN (1999)

16

PCN+ (2002)

19

21

24

C OMPET ê NCIAS

25

H ABILIDADES

28

  • 2 A NÁLISE DOS I TENS DE F ILOSOFIA (1998-2003)

31

  • 1999 ...............................................................................................................................

34

  • 2000 ...............................................................................................................................

42

  • 2001 ...............................................................................................................................

51

3

A NÁLISE DOS I TENS DE F ILOSOFIA (2009-2011)

67

(A NULADA )

  • 2009 ..........................................................................................................

69

(A PLICADA )

  • 2009 ..........................................................................................................

72

  • 2010 ..................................................................................................

(1ª

A PLICAÇÃO )

75

  • 2010 ..................................................................................................

(2ª

A PLICAÇÃO )

91

  • 2011 ...............................................................................................................................

99

C ONCLUS õ ES

101

Q UADRO -R ESUMO

105

R EFER ê NCIAS B IBLIOGRÁFICAS

107

ANEXO

I: M ATRIZ DE C OMPET ê NCIAS E H ABILIDADES DO E NEM (1998)

109

ANEXO

II: PCN: C OMPET ê NCIAS E H ABILIDADES A SEREM D ESENVOLVIDAS

EM F ILOSOFIA (1999)

113

ANEXO III:

PCN+: E IXOS T EMÁTICOS EM F ILOSOFIA (2002)

115

ANEXO IV:

C ONTE ú DOS DE F ILOSOFIA DAS O RIENTAÇ õ ES C URRICULARES

PARA O E NSINO M ÉDIO : C I ê NCIAS H UMANAS E SUAS T ECNOLOGIAS (2008)

117

ANEXO

V: M ATRIZ DE R EFER ê NCIA

DE C I ê NCIAS H UMANAS

E SUAS

T ECNOLOGIAS (2009)

119

FILOSOFIA NO ENEM

  • 4 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

APRESENTAÇÃO

APRESENTAÇÃO O desenvolvimento de tecnologias de avaliação educacional requer a realização de estudos de cunho pedagógico

O desenvolvimento de tecnologias de avaliação educacional requer a realização de estudos de cunho pedagógico com fundamentação em dados empíricos. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), com dedicação espe- cial da Diretoria de Avaliação da Educação Básica (Daeb), vem incentivando a promoção de uma série de estudos que forneça evidências para orientar o aprimoramento metodológico de seus exames e avaliações, bem como para disseminar resultados de análises de cunho pedagógico que orientem professores, estudantes e pesquisadores sobre suas concepções teóricas. O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi instituído no final da década de 1990, modificou seu modelo em 2009 e tornou-se o principal mecanismo de seleção para o ingresso no ensino superior. Este estudo analisa, de forma abrangente, a incidência dos temas da disciplina filosofia – componente curricular da área de Ciências Humanas e suas Tecnologias – em questões dos testes do Enem de 1998 a 2011. Destaca a diferença de abordagem temática marcadamente entre as edições de 1998 a 2003 e as edições subse- quentes, principalmente a partir de 2008, com a publicação da Lei n° 11.684, de 2 de junho de 2008, que torna a filosofia disciplina obrigatória nos currículos do ensino médio, e a reformulação da Matriz de Referência do Enem em 2009. Cada um dos 22 itens de filosofia do Enem nesses 14 anos é analisado em termos de forma e conteúdo, considerando os preceitos dos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio – PCN (1999), das

FILOSOFIA NO ENEM

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5

APRESENTAÇÃO O desenvolvimento de tecnologias de avaliação educacional requer a realização de estudos de cunho pedagógico

Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN+ (2002) e das Orientações Curriculares para o Ensino Médio – Ocem (2008), além da distri- buição das habilidades do componente curricular de filosofia em relação às habilidades das matrizes de referência do Enem. Este texto visa a servir de recurso na elaboração, revisão e análise de itens de ciências humanas para o Enem, em particular itens na área de filosofia, apontando direções para futuras revisões da atual Matriz de Referência de Ciências Humanas e suas Tecnologias, de forma a fortalecer a reinserção e consolidação da filosofia como disciplina no ensino médio.

Frederico Neves Condé Doutor em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações (UnB) Diretor de Avaliação da Educação Básica (Inep)

FILOSOFIA NO ENEM

  • 6 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

INTRODUÇÃO

INTRODUÇÃO Este estudo analisa a abrangência e a recorrência dos temas de filosofia no Enem entre

Este estudo analisa a abrangência e a recorrência dos temas de filosofia no Enem entre 1998 e 2011. A primeira de suas duas seções apresenta um panorama geral das provas de ciências humanas nesses 14 anos e analisa a presença de itens de filosofia nelas. A segunda apresenta uma análise individual de cada um desses itens, tomando como parâmetro a Matriz de Referência do Enem, os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio – PCN (1999), as Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN + (2002) e as Orientações Curriculares para o Ensino Médio – Ocem (2008). Este trabalho tem como objetivo servir de recurso à elaboração, revisão e análise crítica do componente de filosofia do Enem. Além disso, as informações e observações aqui presentes visam a apresentar sugestões pertinentes para uma futura reelaboração tanto da Matriz de Referência quanto dos outros documentos curriculares.

FILOSOFIA NO ENEM

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7

INTRODUÇÃO Este estudo analisa a abrangência e a recorrência dos temas de filosofia no Enem entre

1 PANORAMA DA FIlOSOFIA NAS PROvAS DO ENEM ENTRE 1998 E 2011

DISTRIbUIÇÃO CRONOlógICA

1 PANORAMA DA FIlOSOFIA NAS PROvAS DO ENEM ENTRE 1998 E 2011 DISTRIbUIÇÃO CRONOlógICA A presença

A presença de filosofia no Enem é pequena e irregularmente distribuída. Nos 14 anos entre o surgimento do exame em 1998 e a prova de 2011, que é a mais recente anali- sada neste estudo, o Enem contou com 22 itens de filosofia. Numa distribuição regular, 22 itens em 14 anos resultariam na média de 1,57 por ano (1,37 por prova, se contarmos as duas aplicações tanto em 2009 quanto em 2010). No entanto, é significativo que 9 desses 22 itens (40%) tenham ocorrido no ano de 2010 (6 na primeira aplicação e 3 na segunda), enquanto 7 desses 14 anos não tenham contado com item algum de filosofia (1998, 2002, 2004, 2005, 2006, 2007 e 2008). O gráfico e a tabela a seguir mostram a distribuição dos itens de filosofia nesses 14 anos.

FILOSOFIA NO ENEM

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9

1 PANORAMA DA FIlOSOFIA NAS PROvAS DO ENEM ENTRE 1998 E 2011 DISTRIbUIÇÃO CRONOlógICA A presença
G RÁ f ICO 1 Quantidade de Itens de Filosofia em cada Prova do Enem –

G RÁ f ICO 1 Quantidade de Itens de Filosofia em cada Prova do Enem – 1998-2011

Fonte: Elaboração própria

TABELA 1 Quantidade de Itens de Filosofia em cada Prova do Enem – 1998-2011

 

1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

2005

Itens de

               

Filosofia

0

2

3

4

0

1

0

0

 
 

2006

2007

2008

2009a

2009b

2010a

2010b

2011

Itens de

               

Filosofia

0

0

0

1

1

6

3

1

Fonte: Elaboração própria

Temos, então, duas fases principais: 1999-2001 e 2009-2011, divididas por um período de sete anos (2002-2008) em que tivemos um único item de filosofia (2003). É interessante observar que marca o começo e o fim desse período de quase completa au- sência de filosofia no Enem a publicação dos PCN+ em 2002 e das Ocem em 2008. Seria possível supor que o lançamento dos PCN+ tenha dificultado a inclusão de itens de filosofia no Enem, ao passo que as Ocem tenham, por sua vez, ocasionado a retomada da elabo- ração de itens de filosofia. Todavia, como será apresentado de forma mais aprofundada, os itens de filosofia da segunda fase (2009-2011) têm em grande parte maior alinhamento com os PCN+ do que com as próprias Ocem. Visto isoladamente, o ano de 2010 poderia sinalizar a tendência a maior presença de filosofia na prova, ocasionada pelas Ocem de 2008 e pela nova matriz de 2009. Nos

FILOSOFIA NO ENEM

  • 10 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

outros dois anos desse núcleo – 2009 e 2011 –, porém, temos novamente uma questão de filosofia em cada prova. Proporcionalmente, uma questão por prova em 2009 e 2011 tem um peso menor que em 2003 uma vez que, com a mudança da matriz em 2009, o número total de questões e o número de questões da prova de ciências humanas, em particular, aumentaram: enquanto antes tínhamos 63 itens na prova, com número variável de ques- tões de ciências humanas, a partir de 2009 a prova passou a ter 180 questões, com 45 só de ciências humanas. Por mais que em 2009 tenhamos um único item em cada uma das provas, podemos ver nesses dois itens um retorno, ainda que tímido, da filosofia ao Enem, depois de pratica- mente sete anos. As provas de 2010 reforçariam tal ideia, porém, a prova de 2011 mostra uma queda quantitativa e qualitativa preocupante. Na análise que se segue, a referência a cada item dar-se-á no formato “prova. item”, em que “prova” é o ano da prova, considerando que 2009a e 2009b se referem, respec tivamente, à prova anulada e à prova aplicada em 2009. Da mesma maneira, a primeira e a segunda aplicação das provas de 2010 serão referidas como “2010a” e “2010b”, respectivamente. Os itens analisados e suas respectivas provas estão listados na tabela a seguir:

TABELA 2 Itens de Filosofia Analisados em cada Prova do Enem – 1999-2011

Prova

Cor da Prova

Nº de Itens de Filosofia

Itens

1999

Amarela

2

10, 31

2000

Amarela

3

4, 52, 53

2001

Amarela

4

18, 30, 31, 57

2003

Amarela

1

48

2009a

Branca

1

46

2009b

Azul

1

58

2010a

Rosa

6

27, 28, 34, 38, 42, 44

2010b

Azul

3

27, 34, 45

2011

Azul

1

2

Fonte: Elaboração própria

O Quadro-Resumo ao final deste estudo reúne os principais dados desta análise.

FILOSOFIA NO ENEM

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outros dois anos desse núcleo – 2009 e 2011 –, porém, temos novamente uma questão de

ASPECTOS FORMAIS

Quanto ao texto-base do enunciado, a distribuição entre fontes, bem como entre textos originais e textos adaptados, ocorre conforme o gráfico a seguir:

ASPECTOS FORMAIS Quanto ao texto-base do enunciado, a distribuição entre fontes, bem como entre textos originais

G RÁ f ICO 2 Quantidade de Itens de Filosofia de acordo com a Fonte do Texto-Base – 1998-2011

Fonte: Elaboração própria

Dos textos originais, 11 eram de filósofos, mas, nos anos recentes, estes têm perdido espaço para textos adaptados de manuais de filosofia. Essa mudança contraria a orientação do Guia de Elaboração e Revisão de Itens (GERI), publicado em 2008, que, no item 3, seção Etapas para Elaboração de Item, recomenda: “Dê preferência a fontes primárias, originais e sem adaptações” (Brasil. Inep, 2008, p. 10). É importante observar que com o passar dos anos a proporção entre textos originais e adaptados tem mudado de forma acentuada. Até 2000, todos os textos-base eram origi- nais, enquanto da segunda aplicação de 2010 até a prova de 2011 temos somente textos adaptados, conforme o gráfico a seguir:

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  • 12 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

G RÁ f ICO 3 Quantidade de Itens de Filosofia segundo Texto-Base (Original ou Adaptado) –

G RÁ f ICO 3 Quantidade de Itens de Filosofia segundo Texto-Base (Original ou Adaptado) – 1998-2011

Fonte: Elaboração própria

O próximo gráfico mostra essa mudança item a item:

G RÁ f ICO 3 Quantidade de Itens de Filosofia segundo Texto-Base (Original ou Adaptado) –
G RÁ f ICO 3 Quantidade de Itens de Filosofia segundo Texto-Base (Original ou Adaptado) –

G RÁ f ICO 4 Discriminação Item por Item de Filosofia segundo Texto-Base (Original ou Adaptado) – 1999-2011

Fonte: Elaboração própria

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13

G RÁ f ICO 3 Quantidade de Itens de Filosofia segundo Texto-Base (Original ou Adaptado) –

DISTRIbUIÇÃO DE CONTEúDOS

Primeira Matriz de Referência (1998-2008)

Ao analisar o conteúdo dos itens de filosofia do Enem nesses 14 anos, é importante ter em mente os documentos curriculares que norteiam esses itens. Os itens do primeiro grupo (1999-2003) seguem a Matriz de Referência de 1998, segundo a qual a prova con- tinha 63 itens, distribuídos em 5 competências e 21 habilidades (Ver anexo I). Na época da elaboração dessa matriz, o principal (senão único) marco sobre o ensino de filosofia no ensino médio era a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996, que exigia que ao final do ensino médio o aluno deveria dominar os conteúdos de filosofia e sociologia necessários à cidadania. Sem maiores especificações sobre o que seriam esses conteúdos, não houve, nessa primeira matriz, muito espaço para conteúdos especificamente filosóficos. Os dez itens de filosofia entre 1998 e 2003 se distribuem entre as quatro habilidades seguintes:

  • 18. Valorizar a diversidade dos patrimônios etnoculturais e artísticos, identificando-a em

suas manifestações e representações em diferentes sociedades, épocas e lugares.

  • 19. Confrontar interpretações diversas de situações ou fatos de natureza histórico-

geográfica, técnico-científica, artístico-cultural ou do cotidiano, comparando diferentes pontos de vista, identificando os pressupostos de cada interpretação e analisando a validade dos argumentos utilizados.

  • 20. Comparar processos de formação socioeconômica, relacionando-os com seu contexto

histórico e geográfico.

21.

Dado

um

conjunto

de

informações

sobre

uma

realidade

histórico-geográfica,

contextualizar e ordenar os eventos registrados, compreendendo a importância dos fatores sociais, econômicos, políticos ou culturais.

Dos dez itens de filosofia entre 1998 e 2003, quatro contemplavam a h19, três a h18, dois a h21 e um a h20, conforme o gráfico seguinte:

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  • 14 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

G RÁ f ICO 5 Quantidade de Itens de Filosofia conforme Habilidades da Primeira Matriz de
G RÁ f ICO 5 Quantidade de Itens de Filosofia conforme Habilidades da Primeira Matriz de

G RÁ f ICO 5 Quantidade de Itens de Filosofia conforme Habilidades da Primeira Matriz de Referência do Enem (1998) – 1999-2003

Fonte: Elaboração própria

Em termos cronológicos, essas habilidades foram bem distribuídas, conforme ilustra o gráfico a seguir:

G RÁ f ICO 5 Quantidade de Itens de Filosofia conforme Habilidades da Primeira Matriz de

G RÁ f ICO 6 Distribuição de Habilidades da Primeira Matriz de Referência do Enem (1998) entre os Itens de Filosofia – 1999-2003

Fonte: Elaboração própria

FILOSOFIA NO ENEM

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15

G RÁ f ICO 5 Quantidade de Itens de Filosofia conforme Habilidades da Primeira Matriz de

Nesse primeiro período, tivemos a publicação dos PCN (1999) e dos PCN+ (2002).

Não se percebe influência direta desses dois documentos na composição dos itens de filo-

sofia: de fato, como veremos abaixo, percebe-se uma influência maior desses documentos

nos itens do segundo grupo, que surgiram depois das Ocem de 2008 e da reformulação da

Matriz de Referência em 2009. No primeiro momento, portanto, a maior correlação que

se encontra entre os PCN e os PCN+ e os itens de filosofia no Enem é cronológica: itens de

filosofia começaram a aparecer no ano da publicação dos PCN (não há itens de filosofia

na primeira prova, em 1998) e deixaram de aparecer logo após a publicação dos PCN+ em

2002, ficando ausentes por seis anos até voltarem em 2009.

PCN (1999)

Os PCN listam três competências na área de filosofia: 1) Representação e comuni-

cação, 2) Investigação e compreensão e 3) Contextualização sociocultural (Ver Anexo II).

Dentro da primeira competência (Representação e comunicação), estão as seguintes

habilidades:

Ler textos filosóficos de modo significativo.

Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros.

Elaborar por escrito o que foi apropriado de modo reflexivo.

Debater, tomando uma posição, defendendo-a argumentativamente e mudando

de posição face a argumentos mais consistentes.

Dada a própria natureza da prova objetiva, as duas últimas habilidades (“Elaborar

por escrito

...

e “Debater

...

”)

não foram contempladas em nenhuma questão. Todos os

22 itens de filosofia do Enem no período em análise se enquadram em uma das duas

primeiras habilidades: 11 na primeira, 6 na segunda e 4 em ambas. Vale notar que os itens

que contemplaram ambas as habilidades ocorreram entre 1999 e 2001, e envolviam o

contraste de dois textos-base.

Todos os seis itens que compreendiam “Ler, de modo filosófico, textos de diferentes

estruturas e registros” atendiam também à segunda competência, “Investigação e

FILOSOFIA NO ENEM

  • 16 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

compreensão”. Isso se explica porque a habilidade envolvida nessa competência é “Articular

conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos nas ciências naturais

e humanas, nas artes e em outras produções culturais”, o que condiz com a leitura filosófica

de textos de diferentes estruturas e registros exigida pela primeira dessas habilidades.

Quanto à terceira competência, “Contextualização sociocultural”, observou-se,

da mesma forma, que 7 dos 11 itens que atenderam a essa competência eram os que

envolviam “Ler textos filosóficos de modo significativo”. A habilidade em questão aqui

consistia em “Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem

específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno sociopolítico, histórico

e cultural; o horizonte da sociedade científico-tecnológica”. As exceções foram 2001.30,

2009b.58, 2010a.38 e 2010b34: dois itens por envolverem a tarefa de articular e não de

contextualizar (2001.30 e 2010b34) e dois por não parecerem solicitar tarefa alguma além

da leitura e interpretação do texto.

Dos quatro itens que exigiram tanto a habilidade 1a) “Ler textos filosóficos de

modo significativo” quanto a 1b) “Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas

e registros”, três exigiram também a habilidade 2) “Articular conhecimentos filosóficos e

diferentes conteúdos e modos discursivos nas ciências naturais e humanas, nas artes e em

outras produções culturais” e a habilidade 3) “Contextualizar conhecimentos filosóficos,

tanto no plano de sua origem específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o

entorno sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico-tecnológica”.

Como expresso acima, o fato de utilizarem dois textos-base permitiu a esses itens atender

de forma coesa a todas essas quatro tarefas. Infelizmente, esses três itens ocorreram nas

provas de 1999 e 2000, não tendo ocorrido itens desse tipo desde então.

Como casos atípicos em relação às tarefas descritas segundo os PCN, temos dois

itens com propostas bastante interessantes, ambos pertencentes à prova de 2001: 2001.31

e 2001.57. O primeiro solicita que o respondente, tendo lido um texto de Hobbes e um

de dicionário de filosofia sobre guerra e paz, encontre a alternativa em que se defende a

invasão da Otan ao Iraque e à Síria na década de 1990. O item, dessa forma, trabalha com as

habilidades: 1a) “Ler textos filosóficos de modo significativo”, 1b) “Ler, de modo filosófico,

textos de diferentes estruturas e registros” e 2) “Articular conhecimentos filosóficos e

diferentes conteúdos e modos discursivos nas ciências naturais e humanas, nas artes e em

outras produções culturais”.

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

17

compreensão”. Isso se explica porque a habilidade envolvida nessa competência é “Articular conhecimentos filosóficos e diferentes

TABELA 3 Itens de Filosofia conforme as Habilidades dos PCN (1999) – 1999-2011

Item

1a

1b

2

3

1999.10

x

x

x

x

1999.31

x

x

x

x

2000.04

x

x

x

x

2000.52

x

   

x

2000.53

x

   

x

2001.18

x

   

x

2001.30

x

 

x

 

2001.31

x

x

x

 

2001.57

 

x

x

x

2003.48

x

   

x

2009a.82

 

x

x

 

2009b.58

x

     

2010a.27

x

   

x

2010a.28

x

   

x

2010a.34

x

 

x

 

2010a.38

x

     

2010a.42

 

x

x

 

2010a.44

x

   

x

2010b.27

 

x

x

 

2010b.34

x

 

x

 

2010b.45

 

x

x

 

2011.02

 

x

x

 

Fonte: Elaboração própria

O segundo item (2001.57) pede ao respondente que leia um texto de Shakespeare

e assinale a teoria científica descrita nele, no caso, a teoria heliocêntrica de Copérnico.

Trabalha, assim, com as habilidades: 1b) “Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estru-

turas e registros”, 2) “Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos

discursivos nas ciências naturais e humanas, nas artes e em outras produções culturais”

e 3) “Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem específica,

quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno sociopolítico, histórico e cultural;

o horizonte da sociedade científico-tecnológica”.

FILOSOFIA NO ENEM

  • 18 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

PCN+ (2002)

Os PCN+ acrescentam aos PCN algumas sugestões de conteúdo, que se dividem em

três eixos temáticos: I) Relações de poder e democracia; II) A construção do sujeito moral;

e III) O que é filosofia (ver Anexo III).

Dos 13 itens de filosofia elaborados após a publicação dos PCN+, 10 se encaixam no

eixo II, “A construção do sujeito moral”, sendo dois no tema 1 1 e oito no tema 3 2 , que, so-

zinho, teve mais que o dobro de itens que a soma de itens dos outros dois eixos temáticos.

Em segundo lugar veio o eixo I, “Relações de poder e democracia”, com dois itens no tema

  • 3 3 e um no tema 1 4 . O eixo III, “O que é filosofia?”, não teve item algum.

PCN+ (2002) Os PCN+ acrescentam aos PCN algumas sugestões de conteúdo, que se dividem em três

G RÁ f ICO 7 Quantidade de Itens de Filosofia segundo Eixos Temáticos e Temas dos PCN+ (2002) – 2002-2011

Fonte: Elaboração própria

Analisando os itens das provas anteriores à publicação dos PCN+, vemos que nesse

primeiro bloco o eixo I não teve ocorrência, ao passo que o eixo III, que não teve ocorrência

nas provas posteriores à publicação, teve apenas um item a menos do que o eixo II:

  • 1 Eixo II, Tema 1: “Autonomia e Liberdade”

  • 2 Eixo II, Tema 3: “Ética e Política”

  • 3 Eixo I, Tema 3: “O Avesso da Democracia”

  • 4 Eixo I, Tema 1: “A Democracia Grega”

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

19

PCN+ (2002) Os PCN+ acrescentam aos PCN algumas sugestões de conteúdo, que se dividem em três
G RÁ f ICO 8 Quantidade de Itens de Filosofia segundo Eixos Temáticos e Temas dos

G RÁ f ICO 8 Quantidade de Itens de Filosofia segundo Eixos Temáticos e Temas dos PCN+ (2002) – 1998-2001

Fonte: Elaboração própria

O gráfico item a item deixa bem clara essa mudança de foco temático:

G RÁ f ICO 8 Quantidade de Itens de Filosofia segundo Eixos Temáticos e Temas dos

G RÁ f ICO 9 Distribuição de Eixos Temáticos dos PCN+ (2002) entre os Itens de Filosofia – 1999-2011

Fonte: Elaboração própria

FILOSOFIA NO ENEM

  • 20 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

O gráfico anterior mostra que até 2001 os temas dos itens de filosofia das provas do

Enem oscilavam entre os eixos II e III, conforme a classificação dos PCN+. Após a publicação

dos PCN+ em 2002, a alternância com o eixo II se manteve; os itens do eixo III, porém,

deram lugar a itens do eixo I. O panorama geral da ocorrência dos temas relacionados aos

eixos temáticos dos PCN+ ao longo dos 14 anos do Enem fica da seguinte maneira:

O gráfico anterior mostra que até 2001 os temas dos itens de filosofia das provas do

G RÁ f ICO 10 Quantidade de Itens de Filosofia segundo Eixos Temáticos e Temas dos PCN+ (2002) – 1998-2011

Fonte: Elaboração própria

Ocem (2008)

Dos documentos oficiais analisados neste estudo, as Orientações Curriculares para

o Ensino Médio (Ocem) são menos representadas nas provas de filosofia do Enem. Isso se

deve em parte ao fato de as Ocem serem recentes, porém, em grande parte ao fato de o

exame, com seu foco em ética e cidadania, se alinhar mais aos PCN e PCN+ do que às Ocem.

Dos 12 itens de filosofia presentes na prova do Enem após a publicação das Ocem

em 2008, 7 se enquadram no conteúdo 22) “Éticas do dever; fundamentações da moral;

autonomia do sujeito”. Somente outros cinco conteúdos das Ocem foram abordados,

com um item cada: 18) “Vontade divina e liberdade humana”; 28) “Marxismo e Escola de

Frankfurt”; 30) “Filosofia francesa contemporânea; Foucault; Deleuze”. Um item, por seu

foco em despotismo e democracia (2010a.42), não encontra espaço nas Ocem.

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

21

O gráfico anterior mostra que até 2001 os temas dos itens de filosofia das provas do
G RÁ f ICO 11 Quantidade de Itens de Filosofia por Conteúdos das Ocem (2008) –

G RÁ f ICO 11 Quantidade de Itens de Filosofia por Conteúdos das Ocem (2008) – 2009-2011

Fonte: Elaboração própria

Seria possível supor que o motivo dessa discrepância é que as Ocem são recentes, mas,

na análise cronológica da ocorrência dos seus conteúdos nas provas do Enem, observa-se que

os itens anteriores a sua publicação distribuem-se mais regularmente por seus conteúdos do

que os itens posteriores: são dez itens distribuídos em quatro conteúdos, dos quais apenas

dois se enquadram no tema 22, tão predominante nos anos mais recentes:

G RÁ f ICO 11 Quantidade de Itens de Filosofia por Conteúdos das Ocem (2008) –

G RÁ f ICO 12 Quantidade de Itens de Filosofia por Conteúdos das Ocem (2008) – 1998-2008

Fonte: Elaboração própria

FILOSOFIA NO ENEM

  • 22 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

Isso ocorre porque, como veremos, com a publicação da nova Matriz de Referência

do Enem em 2009, o foco em ética e cidadania ficou mais evidente do que na matriz

anterior, em especial nas habilidades das competências 3 e 5.

Combinando os dois gráficos anteriores para que se tenha um panorama da ocor-

rência dos temas relacionados aos conteúdos das Ocem ao longo de 14 anos do Enem,

obtemos o seguinte gráfico:

Isso ocorre porque, como veremos, com a publicação da nova Matriz de Referência do Enem em

G RÁ f ICO 13 Quantidade de Itens de Filosofia por Conteúdos das Ocem (2008) – 1998-2011

Fonte: Elaboração própria

São 22 itens divididos em 8 conteúdos: 9 itens no conteúdo 22; 4 itens no conteúdo

20; e 3 itens no conteúdo 1. Um item não se enquadrou em nenhum conteúdo das Ocem e

22 de seus conteúdos não foram contemplados nas provas de filosofia do Enem no período

em análise.

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

23

Isso ocorre porque, como veremos, com a publicação da nova Matriz de Referência do Enem em
G RÁ f ICO 14 Quantidade de Itens de Filosofia por Conteúdos das Ocem (2008) –
G RÁ f ICO 14 Quantidade de Itens de Filosofia por Conteúdos das Ocem (2008) –
G RÁ f ICO 14 Quantidade de Itens de Filosofia por Conteúdos das Ocem (2008) –

G RÁ f ICO 14 Quantidade de Itens de Filosofia por Conteúdos das Ocem (2008) – Todos os Conteúdos – 1998-2011

Fonte: Elaboração própria

Segunda Matriz de Referência (2009)

Com a publicação da nova Matriz de Referência em 2009, a prova do Enem passou a

contar com 180 itens em vez de 63. A prova de ciências humanas, no novo modelo, passou

a ter 45 itens, divididos em 6 competências e 30 habilidades.

FILOSOFIA NO ENEM

  • 24 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

Competências

Os itens de filosofia na prova do Enem desde a publicação da nova matriz são os

mesmos doze posteriores à publicação das Ocem em 2008 (já que não houve itens de fi-

losofia na prova de 2008). Quanto às competências da nova matriz, elas se distribuem da

seguinte maneira:

Competências Os itens de filosofia na prova do Enem desde a publicação da nova matriz são

G RÁ f ICO 15 Quantidade de Itens de Filosofia por Competências da Segunda Matriz de Referência do Enem (2009) – 2009-2011

Fonte: Elaboração própria

Em termos de competências, as habilidades que atendem à disciplina de filosofia

se distribuem entre C1 (“Compreender os elementos culturais que constituem as identi-

dades”), C3 (“Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas

e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais”) e C5

(“Utilizar os conhecimentos históricos para compreender e valorizar os fundamentos da

cidadania e da democracia, favorecendo uma atuação consciente do indivíduo na socie-

dade”). Tendem a extrapolar o escopo da disciplina as competências C2 (“Compreender

as transformações dos espaços geográficos como produto das relações socioeconômicas

e culturais de poder”), C4 (“Entender as transformações técnicas e tecnológicas e seu im-

pacto nos processos de produção, no desenvolvimento do conhecimento e na vida social”)

e C6 (“Compreender a sociedade e a natureza, reconhecendo suas interações no espaço

em diferentes contextos históricos e geográficos”).

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

25

Competências Os itens de filosofia na prova do Enem desde a publicação da nova matriz são

Observamos no gráfico anterior uma clara predominância da C5 entre 2009 e 2011,

com 7 de 12 itens, seguida da C3, com 3 itens, e da C1, com 2 itens apenas. A C5, que exige

“Utilizar os conhecimentos históricos para compreender e valorizar os fundamentos da

cidadania e da democracia, favorecendo uma atuação consciente do indivíduo na socie-

dade”, é uma competência mais alinhada aos PCN de 1999 e aos PCN+ de 2002 do que às

Ocem de 2008.

Isso fica particularmente evidente se tentarmos ver como os itens do primeiro grupo

(1998-2008) se comportariam em termos da nova matriz. Por questão de uniformidade,

portanto, a cada item desenvolvido na matriz antiga, este estudo atribuiu uma habilidade

e competência da matriz atual. Tais escolhas são notadas e justificadas caso a caso na se-

gunda parte deste trabalho, que traz uma análise individual de cada item.

Observamos no gráfico anterior uma clara predominância da C5 entre 2009 e 2011, com 7 de

G RÁ f ICO 16 Quantidade de Itens de Filosofia por Competências Transpostas da Segunda Matriz de Referência do Enem (2009) – 1999-2008

Fonte: Elaboração própria

O gráfico 16 elucida que entre os itens do primeiro grupo há correspondência apenas

com as competências C1 e C3 da nova matriz, distintamente dos itens do segundo grupo,

em que predomina a C5, que contempla as questões de democracia e cidadania. Somando

a ocorrência das competências ao longo de 14 anos do Enem, vemos uma distribuição

equilibrada dos itens nessas três competências (sete ou oito itens em cada), conforme o

seguinte gráfico:

FILOSOFIA NO ENEM

  • 26 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

G RÁ f ICO 17 Quantidade de Itens de Filosofia por Competências da Segunda Matriz de

G RÁ f ICO 17 Quantidade de Itens de Filosofia por Competências da Segunda Matriz de Referência do Enem (2009) – 1999-2011

Fonte: Elaboração própria

Observando item a item, a diferença temática entre os dois blocos fica particular-

mente clara:

G RÁ f ICO 17 Quantidade de Itens de Filosofia por Competências da Segunda Matriz de

G RÁ f ICO 18 Distribuição de Competências Transpostas da Segunda Matriz de Referência do Enem (2009) por Item de Filosofia – 1999-2011

Fonte: Elaboração própria

Por mais que tal exercício de transposição seja anacrônico, já que as propostas dos

itens do primeiro grupo se norteiam por uma matriz própria, ele permite, primeiramente,

evidenciar a mudança de foco na segunda matriz acompanhando a ênfase dos PCN e PCN+

em cidadania e transdisciplinaridade. Em segundo lugar, analisar os itens da primeira fase

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

27

G RÁ f ICO 17 Quantidade de Itens de Filosofia por Competências da Segunda Matriz de

do Enem em termos da matriz atual é uma maneira de auxiliar os elaboradores de itens de

filosofia a vislumbrar modelos de itens que atendam a outras competências e habilidades.

Habilidades

Detalhando a distribuição de conteúdos em termos de habilidades, vemos que os 12

itens de filosofia que seguem a matriz atual distribuem-se da seguinte maneira:

do Enem em termos da matriz atual é uma maneira de auxiliar os elaboradores de itens
do Enem em termos da matriz atual é uma maneira de auxiliar os elaboradores de itens

G RÁ f ICO 19 Quantidade de Itens de Filosofia por Habilidades e Competências da Segunda Matriz de Referência do Enem (2009) – 2009-2011

Fonte: Elaboração própria

Temos em primeiro lugar, com cinco itens, a H23, “Analisar a importância dos valores

éticos na estruturação política das sociedades”. Em segundo lugar vem a H12, “Analisar o

papel da justiça como instituição na organização das sociedades”, e a H24, “Relacionar cida-

dania e democracia na organização das sociedades”, com dois itens cada. Aqui fica claro o

foco em ética e política que marca os itens de filosofia do Enem, especialmente nos últimos

anos. Em terceiro lugar, vem a H1 5 , a H3 6 e a H14 7 , com um item cada.

  • 5 H1: Interpretar historicamente e/ou geograficamente fontes documentais acerca de aspectos da cultura.

  • 6 H3: Associar as manifestações culturais do presente aos seus processos históricos.

  • 7 H14: Comparar diferentes pontos de vista, presentes em textos analíticos e interpretativos, sobre situação ou fatos de natureza histórico-geográfica acerca das instituições sociais, políticas e econômicas.

FILOSOFIA NO ENEM

  • 28 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

Mais uma vez, para deixar mais clara a diferença de conteúdos entre os dois períodos

do Enem e indicar modelos de como algumas habilidades da matriz atual podem ser tra-

balhadas pela área de filosofia, vale o exercício de analisar os itens da matriz anterior em

termos das habilidades da matriz atual. Tal transposição gera o gráfico seguinte:

Mais uma vez, para deixar mais clara a diferença de conteúdos entre os dois períodos do

G RÁ f ICO 20 Quantidade de Itens de Filosofia por Habilidades e Competências Transpostas da Segunda Matriz de Referência do Enem (2009) – 1999-2008

Fonte: Elaboração própria

Combinando os dois gráficos acima para que se tenha um panorama temático ao

longo de 14 anos do Enem, tendo como referência as habilidades e competências da matriz

atual, obtemos o seguinte gráfico:

Mais uma vez, para deixar mais clara a diferença de conteúdos entre os dois períodos do
Mais uma vez, para deixar mais clara a diferença de conteúdos entre os dois períodos do

G RÁ f ICO 21 Quantidade de Itens de Filosofia segundo as Competências da Segunda Matriz de Referência do Enem (2009) – 1999-2011

Fonte: Elaboração própria

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

29

Mais uma vez, para deixar mais clara a diferença de conteúdos entre os dois períodos do

Na seção que se segue, é oferecida uma análise individualizada de cada um dos 22

itens de filosofia da prova do Enem entre 1998 e 2011, justificando, quando for o caso,

cada uma das classificações e transposições, assim como os principais aspectos positivos e

negativos do item.

FILOSOFIA NO ENEM

  • 30 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

2 ANÁlISE DOS ITENS DE FIlOSOFIA

(1998-2003)

2 ANÁlISE DOS ITENS DE FIlOSOFIA (1998-2003) A análise dos dez itens de filosofia da primeira

A análise dos dez itens de filosofia da primeira fase do Enem seguirá o seguinte

formato: logo após a apresentação do item, serão dadas informações como as seguintes:

Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A

B

C

D

E

%

%

%

%

%

Em destaque, o gabarito do item.

Esse primeiro bloco de informações é retirado do relatório pedagógico do respectivo

ano. Entre os anos de 1999 e 2003, vemos uma queda na porcentagem de acertos, isto é,

os itens de filosofia foram ficando cada vez mais difíceis:

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

31

2 ANÁlISE DOS ITENS DE FIlOSOFIA (1998-2003) A análise dos dez itens de filosofia da primeira
G RÁ f ICO 22 Percentual de Acertos nos Itens de Filosofia – 1999-2003 Fonte: Elaboração

G RÁ f ICO 22 Percentual de Acertos nos Itens de Filosofia – 1999-2003

Fonte: Elaboração própria

Como os relatórios pedagógicos da segunda fase do Enem (a partir de 2009) não

tinham sido publicados à época de conclusão deste estudo, não fornecemos esse tipo de

informação em relação aos itens mais recentes.

Após a tabela com o percentual de respostas de cada alternativa, seguirá um quadro

como o seguinte:

h1998

19

Confrontar interpretações diversas de situações ou fatos de natureza histórico-geográfica, técnico-científica, artístico-cultural ou do cotidiano, comparando diferentes pontos de vista, identificando os pressupostos de cada interpretação e analisando a validade dos argumentos utilizados.

 

1a

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo. 3) Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem

PCN1999

3

específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno sócio-político, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico- -tecnológica

PCN+2002

III.2?

O que é filosofia? Filosofia e ciência

Ocem 2008

1, 29?

1) Filosofia e conhecimento; filosofia e ciência; definição de filosofia; 29) Epistemologias contemporâneas; filosofia da ciência; o problema da demarcação entre ciência e metafísica;

C2009

C1?

Compreender os elementos culturais que constituem as identidades

H2009

H1?

Interpretar historicamente e/ou geograficamente fontes documentais acerca de aspectos da cultura.

 

+

Tema: filosofia da ciência

 

Texto-base: citação dentro de citação

 

-

Enunciado: “pode-se afirmar que” Extensão das alternativas

FILOSOFIA NO ENEM

  • 32 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

O objetivo do quadro é oferecer um sumário para rápida referência. Nele encontram-se,

em primeiro lugar, a habilidade e a competência do item, conforme publicado no rela-

tório pedagógico. Em seguida, vem sua classificação quanto aos PCN. Esta e as informações

que se seguem são mais subjetivas, tendo sido atribuídas por este estudo e justificadas

caso a caso após o quadro. Em destaque, está a parte “anacrônica” da análise, ou seja,

como o item se posicionaria em relação a documentos que lhes são posteriores. O objetivo

desse exercício, como indicado anteriormente, é duplo: 1) indicar como os diferentes do-

cumentos acomodam diferentes tipos de itens; 2) oferecer aos elaboradores de itens mo-

delos de como outros temas e aspectos dos documentos podem ser abordados. O ponto

de interrogação que segue a classificação da parte anacrônica do quadro visa a indicar o

caráter subjetivo da classificação: é uma sugestão que este trabalho oferece de como ver o

item, e não um objetivo oficial do elaborador original.

Para cada item, houve o esforço de destacar pelo menos um aspecto positivo e um

negativo. Essa lista não visa a ser um rol completo de acertos e defeitos: o objetivo é ofe-

recer ao elaborador um ou dois exemplos claros de pontos que devem ser replicados e

pontos que devem ser evitados.

Após cada quadro, apresenta-se uma breve análise do item em questão, elucidando

em maior profundidade o que o quadro apresenta resumidamente.

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

33

O objetivo do quadro é oferecer um sumário para rápida referência. Nele encontram-se, em primeiro lugar,

1999

Prova Amarela – Item 10

Considere os textos abaixo.

(

)

de modo particular, quero encorajar os crentes empenhados no campo da filosofia para que

... iluminem os diversos âmbitos da atividade humana, graças ao exercício de uma razão que se torna

mais segura e perspicaz com o apoio que recebe da fé. (Papa João Paulo II. Carta Encíclica Fides et Ratio aos bispos da igreja católica sobre as relações entre fé e razão, 1998)

As verdades da razão natural não contradizem as verdades da fé cristã.

(São Tomás de Aquino-pensador medieval)

Refletindo sobre os textos, pode-se concluir que

  • (A) a encíclica papal está em contradição com o pensamento de São Tomás de Aquino, refletindo a diferença de épocas.

  • (B) a encíclica papal procura complementar São Tomás de Aquino, pois este colocava a razão natural acima da fé.

  • (C) a Igreja medieval valorizava a razão mais do que a encíclica de João Paulo II.

  • (D) o pensamento teológico teve sua importância na Idade Média, mas, em nossos dias, não tem relação com o pensamento filosófico.

  • (E) tanto a encíclica papal como a frase de São Tomás de Aquino procuram conciliar os pensamentos sobre fé e razão.

Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A

B

C

D

E

7

9

5

6

72

FILOSOFIA NO ENEM

  • 34 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

h1998

18

Valorizar a diversidade dos patrimônios etnoculturais e artísticos, identificando-a em suas manifestações e representações em diferentes sociedades, épocas e lugares.

 

II. Construir e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento para a compreensão de fenômenos naturais, de processos histórico-

 

II

geográficos, da produção tecnológica e das manifestações artísticas.

c1998

III

III. Selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações representados de diferentes formas, para tomar decisões e enfrentar situações-problema.

 

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo. 1b) Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros.

 

1a

2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos

1b

discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras

PCN1999

2

produções culturais.

3

3) Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico-tecnológica.

PCN+2002

III.1?

O que é filosofia? Filosofia, mito e senso comum.

Ocem 2008

14?

Teoria do conhecimento e do juízo em Tomás de Aquino.

C2009

C1?

Compreender os elementos culturais que constituem as identidades.

H2009

H4?

Comparar pontos de vista expressos em diferentes fontes sobre determinado aspecto da cultura.

 

+

Texto-base: comparar um texto contemporâneo com um texto clássico. Tema: filosofia da ciência, filosofia da religião, fé e razão.

 

-

Enunciado: “pode-se concluir que”.

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

35

h1998 18 Valorizar a diversidade dos patrimônios etnoculturais e artísticos, identificando-a em suas manifestações e representações

Análise (1999.10)

Este é um item típico da primeira fase do Enem (1999-2003), com algumas excelentes

características que infelizmente deixaram de ocorrer nos anos mais recentes. A primeira

delas é o tema “fé e razão”, uma questão clássica da filosofia, que, como parte da filosofia

do conhecimento como um todo, tem pouco espaço tanto na matriz antiga quanto na atual.

Na matriz antiga, é enquadrada na h18, que consiste em “Valorizar a diversidade dos patri-

mônios etnoculturais e artísticos, identificando-a em suas manifestações e representações

em diferentes sociedades, épocas e lugares”. É difícil ver exatamente como essa habilidade

se aplica à questão, a menos que se considere a relação entre fé e razão um patrimônio

etnocultural expresso em épocas diferentes em cada um dos textos.

O relatório pedagógico de 1999 aponta ainda que este item aborda as competências

II e III. A CII consiste em “Construir e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento

para a compreensão de fenômenos naturais, de processos histórico-geográficos, da pro-

dução tecnológica e das manifestações artísticas”. Mais uma vez, é preciso considerar o

debate sobre fé e razão como um processo histórico-geográfico ou uma manifestação ar-

tística para enquadrar o item nessa competência, o que não faz de todo jus à importância

filosófica deste tema.

A CIII, “Selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações represen-

tados de diferentes formas, para tomar decisões e enfrentar situações-problema”, por sua

vez, remete ao segundo mérito do item, que é o exercício de articular dados em textos e

contextos diferentes. De fato, a presença de dois textos clássicos no texto-base permite ao

item atender não só à CIII, mas também a quatro habilidades dos PCN de 1999:

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo – o texto de Tomás de Aquino

1b) Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros: o texto de

João Paulo II.

FILOSOFIA NO ENEM

  • 36 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

2)

Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos

nas ciências naturais e humanas, nas artes e em outras produções culturais – a

relação entre fé e razão nos dois textos.

3)

Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem espe-

cífica, quanto em outros planos – o pessoal-biográfico; o entorno sociopolítico,

histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico-tecnológica: a maneira

que a exortação do Papa João Paulo II, no final do século XX, retoma uma questão

filosófica central também na Idade Média, como mostra o texto de Tomás de

Aquino.

Usando esta questão para avaliar os documentos curriculares que vieram depois,

vemos que, por retomar uma questão canônica da história da filosofia, ela tem o perfil de

item das Ocem, enquadrando-se perfeitamente no conteúdo 14, “Teoria do conhecimento

e do juízo em Tomás de Aquino”. Por outro lado, nem os PCN+, de 2002, nem a matriz

de 2009 dão muita margem para o conteúdo da questão. Nos PCN+, o eixo mais próximo

seria o terceiro “O que é filosofia”, de cujos temas o mais próximo talvez seja o primeiro,

“Filosofia, mito e senso comum”, embora este seja um título extremamente problemático

para uma questão central tanto da filosofia do conhecimento quanto da filosofia da religião.

Este também é um ponto cego na nova Matriz de Referência. A habilidade mais pró-

xima para contemplar esse tipo de item seria a H4, “Comparar pontos de vista expressos

em diferentes fontes sobre determinado aspecto da cultura”, inclusa na C1, “Compreender

os elementos culturais que constituem as identidades”. Mais uma vez, classificar o debate

entre fé e razão como elemento da cultura simplesmente deixa muito a desejar não só em

relação ao debate em si, mas também quanto ao campo da filosofia do conhecimento e da

filosofia da religião como um todo.

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

37

2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos nas ciências naturais e humanas, nas

1999

Prova Amarela – Item 31

(

...

)

Depois de longas investigações, convenci-me por fim de que o Sol é uma estrela fixa rodeada de

planetas que giram em volta dela e de que ela é o centro e a chama. Que, além dos planetas princi-

pais, há outros de segunda ordem que circulam primeiro como satélites em redor dos planetas prin-

cipais e com estes em redor do Sol. (

...

)

Não duvido de que os matemáticos sejam da minha opinião,

se quiserem dar-se ao trabalho de tomar conhecimento, não superficialmente mas duma maneira aprofundada, das demonstrações que darei nesta obra. Se alguns homens ligeiros e ignorantes qui- serem cometer contra mim o abuso de invocar alguns passos da Escritura (sagrada), a que torçam o sentido, desprezarei os seus ataques: as verdades matemáticas não devem ser julgadas senão por matemáticos.

(COPÉRNICO, N. De Revolutionibus orbium caelestium.)

Aqueles que se entregam à prática sem ciência são como o navegador que embarca em um navio sem leme nem bússola. Sempre a prática deve fundamentar-se em boa teoria. Antes de fazer de um caso uma regra geral, experimente-o duas ou três vezes e verifique se as experiências produzem os mesmos efeitos. Nenhuma investigação humana pode se considerar verdadeira ciência se não passa por demonstrações matemáticas.

(VINCI, Leonardo da. Carnets.)

O aspecto a ser ressaltado em ambos os textos para exemplificar o racionalismo

moderno é

  • (A) a fé como guia das descobertas.

  • (B) o senso crítico para se chegar a Deus.

  • (C) a limitação da ciência pelos princípios bíblicos.

  • (D) a importância da experiência e da observação.

  • (E) o princípio da autoridade e da tradição.

FILOSOFIA NO ENEM

  • 38 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A

B

C

D

E

3

3

12

80

2

 

h1998

19

Confrontar interpretações diversas de situações ou fatos de natureza histórico-geográfica, técnico-científica, artístico-cultural ou do cotidiano, comparando diferentes pontos de vista, identificando os pressupostos de cada interpretação e analisando a validade dos argumentos utilizados.

 

III

III. Selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações representados de diferentes formas, para tomar decisões e enfrentar situações-problema.

c1998

IV

IV. Relacionar informações, representadas em diferentes formas, e conhecimentos disponíveis em situações concretas, para construir argumentação consistente.

 

1a

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo. 1b) Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros. 2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos

1b

discursivos nas ciências naturais e humanas, nas artes e em outras

PCN1999

2

produções culturais.

3

3) Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico- tecnológica.

PCN+2002

III.2?

O que é filosofia? Filosofia e ciência.

 
 

1

1) Filosofia e conhecimento; filosofia e ciência; definição de filosofia.

Ocem 2008

29?

29) Epistemologias contemporâneas; filosofia da ciência; o problema da demarcação entre ciência e metafísica.

C2009

C1?

Compreender os elementos culturais que constituem as identidades.

H2009

H4?

Comparar pontos de vista expressos em diferentes fontes sobre determinado aspecto da cultura.

 

+

Texto-base: textos clássicos. Tema: filosofia da ciência.

 
 

-

Extensão do texto-base.

 

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

39

Dados do item: PERCENTUAIS DE RESPOSTA A B C D E 3 3 12 80 2

Análise (1999.31)

Este item proporciona ótimo contraste com o item anterior, sendo também um

clássico da filosofia da ciência, com repercussões relevantes na filosofia da religião.

Como o item anterior, ele reflete um ponto cego tanto da matriz antiga quanto da nova,

no que diz respeito às questões de filosofia do conhecimento. Ele foi elaborado segundo a matriz

antiga conforme a h19, que prevê como tarefa “Confrontar interpretações diversas de situações

ou fatos de natureza histórico-geográfica, técnico-científica, artístico-cultural ou do cotidiano,

comparando diferentes pontos de vista, identificando os pressupostos de cada interpretação

e analisando a validade dos argumentos utilizados”. Temos, com efeito, neste item, um fato

que tem natureza não só técnico-científica, mas também profundamente filosófica, que tanto a

matriz antiga quanto a nova são incapazes de refletir. Na matriz atual, o único espaço para ele –

assim como para o item anterior – seria a H4, que solicita “Comparar pontos de vista expressos

em diferentes fontes sobre determinado aspecto da cultura”. Mais uma vez, reduzir o contexto

da revolução científica a um “aspecto da cultura” não capta a importância do tema.

O relatório pedagógico de 1999 aponta que este item corresponde às competências

III e IV. A CIII consiste em “Selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações

representados de diferentes formas, para tomar decisões e enfrentar situações-problema”.

Como este item contém dois textos clássicos da história do pensamento ocidental, é bastante

propício para exercitar essa competência, assim como a CIV, “Relacionar informações,

representadas em diferentes formas, e conhecimentos disponíveis em situações concretas,

para construir argumentação consistente”.

FILOSOFIA NO ENEM

  • 40 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

A presença de dois textos clássicos confere ainda ao item a possibilidade de trabalhar

quatro habilidades dos PCN de 1999. Uma vez que ambos os textos são simultaneamente

filosóficos e científicos, o item exercita tanto a habilidade 1a) “Ler textos filosóficos

de modo significativo” quanto a 1b) “Ler, de modo filosófico, textos de diferentes

estruturas e registros”. Pelo mesmo motivo, por serem textos de articulação entre

áreas de conhecimento, o item exige do respondente também a habilidade 2) “Articular

conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos nas ciências

naturais e humanas, nas artes e em outras produções culturais” e a 3) “Contextualizar

conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem específica, quanto em outros

planos: o pessoal-biográfico; o entorno sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da

sociedade científico-tecnológica”.

Já, ao avaliar os documentos curriculares posteriores a essa prova com base neste

item, nota-se que, ao contrário do item anterior, o tema aqui tratado tem um espaço mais

apropriado nos PCN+ e menos apropriado nas Ocem. Nos PCN+, ele se enquadraria no

segundo eixo, “O que é filosofia?”, no segundo sub-eixo, “Filosofia e ciência”, ao passo que

nas Ocem, se não fosse o elemento “contemporâneo”, o conteúdo 29 seria adequado, ao

abordar “Filosofia da ciência; o problema da demarcação entre ciência e metafísica”, mas,

como as Ocem incluem esse conteúdo no contexto de epistemologias contemporâneas, a

outra opção seria 1) “Filosofia e conhecimento; filosofia e ciência; definição de filosofia”,

que é um tanto quanto amplo.

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

41

A presença de dois textos clássicos confere ainda ao item a possibilidade de trabalhar quatro habilidades

2000

Prova Amarela – Item 4

“Somos servos da lei para podermos ser livres.”

Cícero

“O que apraz ao príncipe tem força de lei.”

Ulpiano

As frases acima são de dois cidadãos da Roma Clássica que viveram praticamente no

mesmo século, quando ocorreu a transição da República (Cícero) para o Império (Ulpiano).

Tendo como base as sentenças acima, considere as afirmações:

  • I A diferença nos significados da lei é apenas aparente, uma vez que os romanos não levavam em consideração as normas jurídicas.

    • II Tanto na República como no Império, a lei era o resultado de discussões entre os re- presentantes escolhidos pelo povo romano.

      • III A lei republicana definia que os direitos de um cidadão acabavam quando começavam

IV

os direitos de outro cidadão.

Existia, na época imperial, um poder acima da legislação romana.

Estão corretas, apenas:

  • (A) I e II.

  • (B) I e III.

  • (C) II e III.

  • (D) II e IV.

  • (E) III e IV.

FILOSOFIA NO ENEM

  • 42 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A

 

B

C

D

E

7

 

8

21

23

41

 

h1998

19

Confrontar interpretações diversas de situações ou fatos de natureza histórico-geográfica, técnico-científica, artístico-cultural ou do cotidiano, comparando diferentes pontos de vista, identificando os pressupostos de cada interpretação e analisando a validade dos argumentos utilizados.

 

1a

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo. 1b) Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros. 2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos

1b

discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras

PCN1999

2

produções culturais.

 

3

3) Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico-tecnológica.

PCN+2002

II.1?

Autonomia e liberdade.

 

Ocem 2008

22?

Éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do sujeito.

C2009

C3?

Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais.

H2009

H12?

Analisar o papel da justiça como instituição na organização das sociedades.

 

+

Texto-base: clássicos.

 
 

Formato “V ou F”.

 

-

Erro factual.

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

43

Dados do item: PERCENTUAIS DE RESPOSTA A B C D E 7 8 21 23 41

Análise (2000.04)

Apesar de também utilizar dois textos que poderiam ser considerados clássicos, este

item é inferior aos anteriores em muitos aspectos.

Primeiro, no aspecto factual: Cícero (106 a.C - 43 a.C) morreu mais de duzentos

anos antes do nascimento de Ulpiano (170 d.C - 228 d.C). Desse modo, é incorreto afirmar

que “viveram praticamente no mesmo século”. Tal afirmação, embora irrelevante, talvez

tentasse dar ênfase à diferença no teor das afirmações, justapondo-as como se fossem

cronologicamente mais próximas do que na verdade são, não atentando que na época de

Ulpiano o Império Romano – com seus quase duzentos anos – já estava bem estabelecido.

No aspecto formal, vemos a primeira de muitas questões de filosofia no formato

“verdadeiro ou falso”. As alternativas são confusas, o que explica em parte o baixo índice de

acerto da questão. A alternativa I carece de plausibilidade, e, pelo baixo índice de marcação

das alternativas A e B, podemos deduzir que ela foi facilmente eliminada.

Quanto ao conteúdo, vemos um tema que será bastante abordado em anos

mais recentes: o fundamento das leis. Na matriz antiga ele atendia à h19, “Confrontar

interpretações diversas de situações ou fatos de natureza histórico-geográfica, técnico-

científica, artístico-cultural ou do cotidiano, comparando diferentes pontos de vista,

identificando os pressupostos de cada interpretação e analisando a validade dos argumentos

utilizados”. Mais uma vez, é impreciso classificar o tema da fundamentação legal como fato

de natureza “artístico-cultural” ou “do cotidiano”, mas, dado o pouco espaço para questões

FILOSOFIA NO ENEM

  • 44 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

especificamente filosóficas na matriz antiga, a h19 realmente é a que mais dá margem para

esse tipo de questão. O relatório pedagógico de 2000 não indica a(s) competência(s) dos

itens desta prova, mas, por exercitar a h19, podemos inferir que este item, como o anterior,

trabalha as competências III e IV.

Como os itens anteriores, os dois textos permitem trabalhar quatro habilidades

dos PCN: 1a) “Ler textos filosóficos de modo significativo”, 1b) “Ler, de modo filosófico,

textos de diferentes estruturas e registros” e, por serem textos de articulação entre áreas

de conhecimento, o item exige do respondente também as habilidades 2) “Articular

conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos nas ciências naturais

e humanas, nas artes e em outras produções culturais” e 3) “Contextualizar conhecimentos

filosóficos, tanto no plano de sua origem específica, quanto em outros planos: o pessoal-

biográfico; o entorno sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade

científico-tecnológica”.

Comparando o tema deste item com os documentos curriculares que vieram depois,

vemos que os PCN+ abrem espaço para esta questão no segundo eixo “Construção do

sujeito moral”, dentro do tema “Autonomia e liberdade”. Nas Ocem ele entraria no âmbito

do conteúdo 22) “Éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do sujeito”; já

a matriz atual aborda esse tema na H12, “Analisar o papel da justiça como instituição na

organização das sociedades”, uma habilidade que tem sido de fato bastante recorrente em

anos recentes.

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

45

especificamente filosóficas na matriz antiga, a h19 realmente é a que mais dá margem para esse

2000

Prova Amarela – Itens 52 e 53

O texto abaixo, de John Locke (1632-1704), revela algumas características de uma

determinada corrente de pensamento.

“Se o homem no estado de natureza é tão livre, conforme dissemos, se é senhor absoluto da sua própria pessoa e posses, igual ao maior e a ninguém sujeito, por que abrirá ele mão dessa liberdade, por que abandonará o seu império e sujeitar-se-á ao domínio e controle de qualquer outro poder?

Ao que é óbvio responder que, embora no estado de natureza tenha tal direito, a utilização do mesmo é muito incerta e está constantemente exposto à invasão de terceiros porque, sendo todos senhores tanto quanto ele, todo homem igual a ele e, na maior parte, pouco observadores da equidade e da justiça, o proveito da propriedade que possui nesse estado é muito inseguro e muito arriscado. Estas circunstâncias obrigam-no a abandonar uma condição que, embora livre, está cheia de temores e perigos constantes; e não é sem razão que procura de boa vontade juntar-se em sociedade com ou- tros que estão já unidos, ou pretendem unir-se, para a mútua conservação da vida, da liberdade e dos bens a que chamo de propriedade.”

I tem 52

(Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1991)

Do ponto de vista político, podemos considerar o texto como uma tentativa de

justificar:

  • (A) a existência do governo como um poder oriundo da natureza.

  • (B) a origem do governo como uma propriedade do rei.

  • (C) o absolutismo monárquico como uma imposição da natureza humana.

  • (D) a origem do governo como uma proteção à vida, aos bens e aos direitos.

  • (E) o poder dos governantes, colocando a liberdade individual acima da propriedade.

FILOSOFIA NO ENEM

  • 46 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A

 

B

C

D

E

8

 

6

19

45

21

 

h1998

21

Dado um conjunto de informações sobre uma realidade histórico- geográfica, contextualizar e ordenar os eventos registrados, compreendendo a importância dos fatores sociais, econômicos, políticos ou culturais.

 

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo.

 

PCN1999

1a

2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos

2

discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras produções culturais.

PCN+2002

II.1?

Autonomia e liberdade.

 

Ocem 2008

20?

O contratualismo.

 

C2009

C3?

Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais.

H2009

H12?

Analisar o papel da justiça como instituição na organização das sociedades.

 

+

Texto-base: clássico.

 
 

-

Distratores C e E: ambíguos.

 

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

47

Dados do item: PERCENTUAIS DE RESPOSTA A B C D E 8 6 19 45 21

Análise (2000.52)

Este item trabalha a antiga h21: “Dado um conjunto de informações sobre

uma realidade histórico-geográfica, contextualizar e ordenar os eventos registrados,

compreendendo a importância dos fatores sociais, econômicos, políticos ou culturais”.

Difícil identificar qual a realidade histórico-geográfica em questão, já que a saída do estado

natural para a vida em sociedade e o estabelecimento de governos, foco do contratualismo,

não se baseiam em fatos históricos, mas em justificativas teóricas.

A temática é a mesma do item anterior, a fundamentação do sistema legal, inserindo

o item no eixo II, tema 1, dos PCN+, que trata de autonomia e liberdade, porém, desta

vez, essa temática é abordada no âmbito do contratualismo, que se tornará recorrente nas

edições mais recentes do Enem. O item trabalha a H12 da matriz atual “Analisar o papel da

justiça como instituição na organização das sociedades”. É um tópico canônico com lugar

bem definido também nas Ocem, já que o conteúdo 20 é dedicado ao contratualismo.

Por utilizar um texto só, de um filósofo, este item trabalha somente duas habilidades

dos PCN, quais sejam: 1a) “Ler textos filosóficos de modo significativo” e 2) “Articular

conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos nas ciências naturais

e humanas, nas artes e em outras produções culturais”.

A extensão do texto-base talvez seja responsável em parte pelo baixo percentual de

acerto deste item e do próximo, que utiliza o mesmo texto-base. O enunciado tem uma

proposta clara, porém, uma contextualização maior poderia direcionar melhor o aluno. As

alternativas A e B são mais curtas e mais facilmente elimináveis. Os distratores C e E são

mais ambíguos, e tiveram alta atratividade.

FILOSOFIA NO ENEM

  • 48 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

I tem 53

Analisando o texto, podemos concluir que se trata de um pensamento:

  • (A) do liberalismo.

  • (B) do socialismo utópico.

  • (C) do absolutismo monárquico.

  • (D) do socialismo científico.

  • (E) do anarquismo

Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A

 

B

C

D

E

39

 

19

25

11

6

 

h1998

20

Comparar processos de formação socioeconômica, relacionando-os com seu contexto histórico e geográfico.

 

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo.

 
 

1a

3) Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem

PCN1999

3

específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico- tecnológica.

PCN+2002

II.1?

Autonomia e liberdade.

 

Ocem 2008

20?

O contratualismo.

C2009

C1?

Compreender os elementos culturais que constituem as identidades.

H2009

H1?

Interpretar historicamente e/ou geograficamente fontes documentais acerca de aspectos da cultura.

 

+

Texto-base: clássico.

 
 

-

Alternativas curtas.

 

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

49

I tem 53 Analisando o texto, podemos concluir que se trata de um pensamento: (A) do

Análise (2000.53)

Este item, que utiliza o mesmo texto-base do anterior, trabalha também os mesmos

conteúdos, enquadrando-se no tema II.1 dos PCN+, “Autonomia e liberdade”, e no con-

teúdo 20 das Ocem, “O contratualismo”. Ele prevê, porém, um exercício diferente, que é,

fundamentalmente, o de contextualizar o liberalismo. Esta tarefa provou-se mais difícil do

que a proposta pelo item anterior, de modo que o percentual de acertos foi de apenas 39%.

O enunciado é claro e conciso, assim como as alternativas. O texto-base é um clás-

sico da história da filosofia. O baixo nível de acerto deste item é indicativo, talvez, não de

problema estrutural do item, mas de trabalho insatisfatório do conteúdo nas escolas.

Na matriz antiga, ele aborda a h20, “Comparar processos de formação socioeconô-

mica, relacionando-os com seu contexto histórico e geográfico”, no caso, o contexto do li-

beralismo e sua relação com o absolutismo monárquico, comparação que os respondentes

tiveram dificuldade de traçar. Nos PCN, além da tarefa de 1a) “Ler textos filosóficos de

modo significativo”(o texto de Locke), o item também trabalha a tarefa 3) “Contextualizar

conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem específica, quanto em outros

planos: o pessoal-biográfico; o entorno sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da

sociedade científico-tecnológica”.

Na matriz atual, o item se enquadraria na H1, “Interpretar historicamente e/ou geo-

graficamente fontes documentais acerca de aspectos da cultura”, em se considerando a

origem do pensamento liberal como aspecto cultural abordado no item.

FILOSOFIA NO ENEM

  • 50 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

2001

Prova Amarela – Item 18

O franciscano Roger Bacon foi condenado, entre 1277 e 1279, por dirigir ataques aos

teólogos, por uma suposta crença na alquimia, na astrologia e no método experimental, e

também por introduzir, no ensino, as ideias de Aristóteles. Em 1260, Roger Bacon escreveu:

“Pode ser que se fabriquem máquinas graças às quais os maiores navios, dirigidos por um único homem, se desloquem mais depressa do que se fossem cheios de remadores; que se construam carros que avancem a uma velocidade incrível sem a ajuda de animais; que se fabriquem máquinas

voadoras nas quais um homem (

...

)

bata o ar com asas como um pássaro.(

...

)

Máquinas que per-

mitam ir ao fundo dos mares e dos rios”

(apud. BRAUDEL, Fernand. Civilização material, economia e capitalismo: séculos XV-XVIII, São Paulo: Martins Fontes, 1996, vol. 3.).

Considerando a dinâmica do processo histórico, pode-se afirmar que as ideias de

Roger Bacon

  • A) inseriam-se plenamente no espírito da Idade Média ao privilegiarem a crença em Deus como o principal meio para antecipar as descobertas da humanidade.

  • B) estavam em atraso com relação ao seu tempo ao desconsiderarem os instrumentos intelectuais oferecidos pela Igreja para o avanço científico da humanidade.

  • C) opunham-se ao desencadeamento da Primeira Revolução Industrial, ao rejeitarem a aplicação da matemática e do método experimental nas invenções industriais.

  • D) eram fundamentalmente voltadas para o passado, pois não apenas seguiam Aristóteles, como também baseavam-se na tradição e na teologia.

  • E) inseriam-se num movimento que convergiria mais tarde para o Renascimento, ao contemplarem a possibilidade de o ser humano controlar a natureza por meio das invenções.

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

51

2001 Prova Amarela – Item 18 O franciscano Roger Bacon foi condenado, entre 1277 e 1279,

Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A

 

B

C

D

E

8

 

6

12

13

60

 

h1998

18

Valorizar a diversidade dos patrimônios etnoculturais e artísticos, identificando-a em suas manifestações e representações em diferentes sociedades, épocas e lugares.

 

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo.

 
 

1a

3) Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua

PCN1999

3

origem específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico-tecnológica.

PCN+2002

III.2?

O que é Filosofia? Filosofia e ciência.

 
 

1

1) Filosofia e conhecimento; Filosofia e ciência; definição de Filosofia.

Ocem 2008

29?

29) Epistemologias contemporâneas; Filosofia da ciência; o problema da demarcação entre ciência e metafísica.

C2009

C1?

Compreender os elementos culturais que constituem as identidades.

H2009

H1?

Interpretar historicamente e/ou geograficamente fontes documentais acerca de aspectos da cultura.

 

+

Tema: filosofia da ciência.

 
 

Texto-base: citação dentro de citação.

 
 

-

Enunciado: “pode-se afirmar que”. Extensão das alternativas.

 

FILOSOFIA NO ENEM

  • 52 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

Análise (2001.18)

Este item retoma em parte o padrão dos itens de filosofia da prova de 1999, ao utilizar

um texto canônico para abordar questões de filosofia do conhecimento, apesar de o texto-

base trazer uma fonte original dentro de uma segunda fonte, o que não é recomendável. O

enunciado, baseado na fórmula “pode-se afirmar”, acaba por propor um exercício de “V ou

F”, em que cada item exige uma tarefa diferente, mas cuja resposta pode ser encontrada

mediante a interpretação do texto. A implausibilidade dos distratores, todos claramente

negados no texto, explica o alto índice de acertos (60%).

Trabalha a antiga h18, “Valorizar a diversidade dos patrimônios etnoculturais e

artísticos, identificando-a em suas manifestações e representações em diferentes sociedades,

épocas e lugares”. O aspecto a ser interpretado neste caso é a evolução da visão científica,

apesar de a interpretação, mais uma vez, ser mais filosófica do que histórica ou geográfica.

Quanto aos PCN, exige as seguintes tarefas: 1a) “Ler textos filosóficos de modo

significativo” – neste caso, o texto de Bacon; e 3) “Contextualizar conhecimentos filosóficos,

tanto no plano de sua origem específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o

entorno sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico-tecnológica” –

no item, as ideias de Bacon como precursor da revolução técnico-científica.

Em relação aos PCN+, poderia juntar-se ao terceiro eixo, “O que é filosofia?”,

tema “Filosofia e ciência”. Quanto às Ocem, visto que se identifica com filosofia da

ciência, seria mais um item que se enquadraria no tema 29 se não fosse a especificação

“Epistemologias contemporâneas”. Por não ter enfoque contemporâneo, o conteúdo

1) “Filosofia e conhecimento; filosofia e ciência; definição de filosofia” é o mais

adequado para descrevê-la.

Este item, na matriz atual, atende à H1, “Interpretar historicamente e/ou

geograficamente fontes documentais acerca de aspectos da cultura”. Mais uma vez, o

aspecto da cultura é a evolução técnico-científica, e a interpretação exigida é filosófica e

não histórica ou geográfica, no entanto, este é o espaço que a matriz atual oferece para

questões desse tipo.

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

53

Análise (2001.18) Este item retoma em parte o padrão dos itens de filosofia da prova de

2001

Prova Amarela – Itens 30 e 31

I - Para o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679), o estado de natureza é um estado de guerra universal e perpétua. Contraposto ao estado de natureza, entendido como estado de guerra, o es- tado de paz é a sociedade civilizada.

Dentre outras tendências que dialogam com as idéias de Hobbes, destaca-se a definida pelo texto abaixo.

II - Nem todas as guerras são injustas e correlativamente, nem toda paz é justa, razão pela qual a guerra nem sempre é um desvalor, e a paz nem sempre um valor.

BOBBIO, N. MATTEUCCI, N PASQUINO, G. Dicionário de Política, 5ª ed. Brasília: Universidade de Brasília; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2000.

Item 30

Comparando as ideias de Hobbes (texto I) com a tendência citada no texto II,

pode-se afirmar que

  • (A) em ambos, a guerra é entendida como inevitável e injusta.

  • (B) para Hobbes, a paz é inerente à civilização e, segundo o texto II, ela não é um valor absoluto.

  • (C) de acordo com Hobbes, a guerra é um valor absoluto e, segundo o texto II, a paz é sempre melhor que a guerra.

  • (D) em ambos, a guerra ou a paz são boas quando o fim é justo.

  • (E) para Hobbes, a paz liga-se à natureza e, de acordo com o texto II, à civilização.

FILOSOFIA NO ENEM

  • 54 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A

 

B

C

D

E

7

 

38

9

36

10

 

h1998

19

Confrontar interpretações diversas de situações ou fatos de natureza histórico-geográfica, técnico-científica, artístico-cultural ou do cotidiano, comparando diferentes pontos de vista, identificando os pressupostos de cada interpretação e analisando a validade dos argumentos utilizados.

 

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo.

 

PCN1999

1a

2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos

2

discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras produções culturais.

PCN+2002

II.3?

Ética e política.

 

Ocem 2008

20?

O contratualismo.

 

C2009

C3?

Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais.

H2009

H12?

Analisar o papel da justiça como instituição na organização das sociedades.

 

+

Proposta: comparação de um texto contemporâneo com um texto clássico.

 

Texto-base: extraído de dicionário de filosofia. Autoria do texto II não é clara.

 
 

-

Enunciado: “pode-se afirmar que”.

 
 

Alternativas sem paralelismo: “em ambos”, “para Hobbes”, “de acordo

com Hobbes

...

”.

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

55

Dados do item: PERCENTUAIS DE RESPOSTA A B C D E 7 38 9 36 10

Análise (2001.30)

Este item trabalha a antiga h19, “Confrontar interpretações diversas de situações ou

fatos de natureza histórico-geográfica, técnico-científica, artístico-cultural ou do cotidiano,

comparando diferentes pontos de vista, identificando os pressupostos de cada interpretação

e analisando a validade dos argumentos utilizados”. As situações a serem interpretadas são

a guerra e a paz na visão dos dois autores. Não é claro, porém, de quem é a autoria do

segundo texto, o que é um problema comum em textos extraídos de dicionários de filosofia

ou de fontes secundárias.

Uma vez que propõe ao respondente a comparação entre as ideias de um autor

clássico da filosofia e de outro, ao que tudo indica, mais contemporâneo, o item trabalha

as seguintes habilidades dos PCN: 1a) “Ler textos filosóficos de modo significativo” e 2)

“Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos nas

ciências naturais e humanas, nas artes e em outras produções culturais”. Na proposta

dos PCN+, ele se localiza no segundo eixo, no tema “Ética e política”. É um tema fácil de

enquadrar nas Ocem, no conteúdo 20) “O contratualismo”.

Na matriz atual, corresponderia à H12, “Analisar o papel da justiça como instituição

na organização das sociedades”, por examinar a justiça das guerras e à C3, “Compreender a

produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as

aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais”. No caso, o item examina conflitos.

Sob o aspecto formal, as alternativas não contêm termos absolutos, mas ficariam

menos cansativas se as expressões “Em ambos

...

”,

“para Hobbes

...

”,

“de acordo com

Hobbes

....

tivessem sido dispostas de maneira mais sucinta.

Apesar de a diferença em

extensão não ser grande, as alternativas poderiam ter sido dispostas por ordem de extensão.

Mais uma vez, o enunciado, baseado na expressão “pode-se afirmar”, é muito aberto.

Temos também uma questão de interpretação de texto no formato “V ou F”. Foi um item

difícil, com apenas 38% de acertos, e com um distrator (D) altamente atrativo (36%). Este

parece ser um item em que três alternativas (A, C e E) são facilmente eliminadas por serem

explicitamente negadas no texto, restando ao respondente optar entre duas alternativas. A

FILOSOFIA NO ENEM

  • 56 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

segunda parte do gabarito é clara no segundo texto; é mais difícil, porém, extrair do texto

que “para Hobbes, a paz é inerente à civilização”. Algo semelhante acontece com o distrator

D, “em ambos, a guerra ou a paz são boas quando o fim é justo”: a informação pertinente

ao segundo texto é clara, mas não ao primeiro. A operação mental do aluno, portanto,

parece ter sido a de decidir qual afirmação era mais próxima do texto de Hobbes: “a paz é

inerente à civilização” ou “a guerra ou a paz são boas quando o fim é justo”. Apesar de a

segunda afirmação extrapolar o texto, ela pareceu quase tão plausível quanto a primeira.

Item 31

Tropas da Aliança do Tratado do Atlântico Norte (Otan) invadiram o Iraque em 1991

e atacaram a Sérvia em 1999. Para responder aos críticos dessas ações, a Otan usaria,

possivelmente, argumentos baseados

  • (A) na teoria da guerra perpétua de Hobbes.

  • (B) tanto na teoria de Hobbes como na tendência expressa no texto II.

  • (C) no fato de que as regiões atacadas não possuíam sociedades civilizadas.

  • (D) na teoria de que a guerra pode ser justa quando o fim é justo.

  • (E) na necessidade de pôr fim à guerra entre os dois países citados.

Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A

B

C

D

E

6

19

11

32

32

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

57

segunda parte do gabarito é clara no segundo texto; é mais difícil, porém, extrair do texto

h1998

21

Dado um conjunto de informações sobre uma realidade histórico- geográfica, contextualizar e ordenar os eventos registrados, compreendendo a importância dos fatores sociais, econômicos, políticos ou culturais.

 

1a

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo. 1b) Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros.

PCN1999

1b

2

2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras produções culturais.

PCN+2002

II.3

Ética e política.

Ocem 2008

20?

O contratualismo.

C2009

C3?

Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais.

H2009

H14?

Comparar diferentes pontos de vista, presentes em textos analíticos e interpretativos, sobre situação ou fatos de natureza histórico-geográfica acerca das instituições sociais, políticas e econômicas.

 

+

Proposta: comparação de um fato contemporâneo com um texto clássico.

 

Texto-base: extraído de dicionário de filosofia.

 

-

 

Autoria do texto II não é clara.

FILOSOFIA NO ENEM

  • 58 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

Análise (2001.31)

Este item trabalha a antiga h21, “Dado um conjunto de informações sobre uma realidade

histórico-geográfica, contextualizar e ordenar os eventos registrados, compreendendo a

importância dos fatores sociais, econômicos, políticos ou culturais”. A realidade, no caso, são

as invasões da Otan ao Iraque e à Sérvia na década de 1990. A tarefa, porém, não é tanto

de “contextualizar e ordenar eventos registrados”. Espera-se que o respondente extraia dos

textos-base argumentos em defesa da invasão da Otan a esses países.

Temos o pensamento de um autor clássico aplicado a contexto contemporâneo,

exercitando, portanto, as seguintes habilidades dos PCN: a) “Ler textos filosóficos de modo

significativo”; 1b) “Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros”; e

2) “Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos nas

ciências naturais e humanas, nas artes e em outras produções culturais”. A atratividade

da alternativa E mostra que a tarefa proposta não ficou clara, dado que a opção oferecida

por esse distrator não se refere aos textos. Um paralelismo maior das alternativas (sem

a alternância entre “teoria”, “fato” e “necessidade”) talvez pudesse ter deixado menos

confusa essa tarefa.

Como o item anterior, abordaria o tema “Ética e política” dos PCN+ e o conteúdo

20 das Ocem, “O contratualismo”. Na matriz atual, provavelmente se enquadraria na H14,

“Comparar diferentes pontos de vista, presentes em textos analíticos e interpretativos,

sobre situação ou fatos de natureza histórico-geográfica acerca das instituições sociais,

políticas e econômicas”; o fato de natureza histórico-geográfica seria a invasão da Otan à

Síria e ao Iraque na década de 1990.

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

59

Análise (2001.31) Este item trabalha a antiga h21, “Dado um conjunto de informações sobre uma realidade

2001

Prova Amarela – Item 57

O texto foi extraído da peça Tróilo e Créssida de William Shakespeare, escrita, prova-

velmente, em 1601.

“Os próprios céus, os planetas, e este centro reconhecem graus, prioridade, classe, constância, marcha, distância, estação, forma, função e regularidade, sempre iguais; eis porque o glorioso astro Sol está em nobre eminência entronizado e centralizado no meio dos outros, e o seu olhar benfazejo corrige os maus aspectos dos planetas malfazejos, e, qual rei que comanda, ordena sem entraves aos bons e aos maus.” (personagem Ulysses, Ato I, cena III). SHAKESPEARE, W. Tróilo e Créssida: Porto: Lello & Irmão, 1948.

A descrição feita pelo dramaturgo renascentista inglês se aproxima da teoria

  • (A) geocêntrica do grego Claudius Ptolomeu.

  • (B) da reflexão da luz do árabe Alhazen.

  • (C) heliocêntrica do polonês Nicolau Copérnico.

  • (D) da rotação terrestre do italiano Galileu Galilei.

  • (E) da gravitação universal do inglês Isaac Newton.

FILOSOFIA NO ENEM

  • 60 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A

B

C

D

E

12

12

26

32

18

 

h1998

18

Valorizar a diversidade dos patrimônios etnoculturais e artísticos, identificando-a em suas manifestações e representações em diferentes sociedades, épocas e lugares.

 

1b) Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros.

 

1b

2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras produções culturais.

PCN1999

2

3

3) Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico- tecnológica.

PCN+2002

III.2?

O que é Filosofia? Filosofia e Ciência

 

1

1) Filosofia e conhecimento; Filosofia e ciência; definição de Filosofia.

Ocem 2008

29?

29) Epistemologias contemporâneas; Filosofia da ciência; o problema da demarcação entre ciência e metafísica.

C2009

C1?

Compreender os elementos culturais que constituem as identidades.

H2009

H1?

Comparar pontos de vista expressos em diferentes fontes sobre determinado aspecto da cultura.

 

+

Proposta: comparação de um texto literário clássico com seu contexto filosófico-científico. Tema: filosofia da ciência.

 

-

Extensão e complexidade do texto-base.

 

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

61

Dados do item: PERCENTUAIS DE RESPOSTA A B C D E 12 12 26 32 18

Análise (2001.57)

Este item trabalha a antiga h18, “Valorizar a diversidade dos patrimônios

etnoculturais e artísticos, identificando-a em suas manifestações e representações em

diferentes sociedades, épocas e lugares”. É um item notável, que cumpre de maneira

excelente a função de valorizar a diversidade de patrimônios, identificando-a em diversas

manifestações: temos aqui um valioso patrimônio filosófico e técnico-científico manifesto

num dos maiores expoentes da dramaturgia ocidental. Na matriz atual, trabalharia a H1,

“Comparar pontos de vista expressos em diferentes fontes sobre determinado aspecto da

cultura” – no caso, a visão heliocêntrica do mundo.

A proposta feita pelo enunciado é clara, e as linhas 5-7, que versam sobre o “glorioso

astro Sol

...

centralizado no meio dos outros”, remetem diretamente ao conceito de

heliocentrismo. Ainda assim, um dos distratores foi mais atrativo que o próprio gabarito:

enquanto o gabarito teve 26% das respostas, o distrator D, que apresentava a teoria da

rotação terrestre de Galileu Galilei, teve 32%.

O Relatório Pedagógico de 2001 apresenta a seguinte hipótese para essa atratividade:

“Possivelmente, os participantes que optaram pela alternativa D (32%) confundiram a ideia

central do texto com os conceitos de translação e de rotação, ainda que este último não

seja tratado no texto” (RP, 2001). Mais do que essa confusão entre rotação e translação,

é possível que o mero nome de Galilei tenha exercido uma forte atração, sobretudo nos

respondentes com pouca familiaridade com o estilo poético do texto.

Nos PCN, trabalha de maneira exemplar as tarefas 1b) “Ler, de modo filosófico,

textos de diferentes estruturas e registros” e 2) “Articular conhecimentos filosóficos e

diferentes conteúdos e modos discursivos nas ciências naturais e humanas, nas artes e em

outras produções culturais”. Nos PCN+, corresponderia ao terceiro eixo, “O que é filosofia”,

segundo tema, “Filosofia e ciência”. Nas Ocem, por ser mais um item de filosofia da ciência,

se orientaria pelos conteúdos 1 e 29.

FILOSOFIA NO ENEM

  • 62 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

2003

Prova Amarela – Item 48

Observe as duas afirmações de Montesquieu (1689-1755), a respeito da escravidão:

A escravidão não é boa por natureza; não é útil nem ao senhor, nem ao escravo: a este porque nada pode fazer por virtude; àquele, porque contrai com seus escravos toda sorte de maus hábitos e se acostuma insensivelmente a faltar contra todas as virtudes morais: torna-se orgulhoso, brusco, duro,

colérico, voluptuoso, cruel.

Se eu tivesse que defender o direito que tivemos de tornar escravos os negros, eis o que eu diria:

tendo os povos da Europa exterminado os da América, tiveram que escravizar os da África para utilizá-los para abrir tantas terras. O açúcar seria muito caro se não fizéssemos que escravos culti- vassem a planta que o produz.

(Montesquieu. O espírito das leis.)

Com base nos textos, podemos afirmar que, para Montesquieu,

  • (A) o preconceito racial foi contido pela moral religiosa.

  • (B) a política econômica e a moral justificaram a escravidão.

  • (C) a escravidão era indefensável de um ponto de vista econômico.

  • (D) o convívio com os europeus foi benéfico para os escravos africanos.

  • (E) o fundamento moral do direito pode submeter-se às razões econômicas.

Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A

B

C

D

E

8

28

29

5

29

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

63

2003 Prova Amarela – Item 48 Observe as duas afirmações de Montesquieu (1689-1755), a respeito da

h1998

19

Confrontar interpretações diversas de situações ou fatos de natureza histórico-geográfica, técnico-científica, artístico-cultural ou do cotidiano, comparando diferentes pontos de vista, identificando os pressupostos de cada interpretação e analisando a validade dos argumentos utilizados.

 

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo.

 

1a

3) Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem

PCN1999

3

específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico- tecnológica.

PCN+2002

II.1?

Autonomia e liberdade.

Ocem 2008

22?

Éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do sujeito.

C2009

C3?

Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais.

H2009

H14?

Comparar diferentes pontos de vista, presentes em textos analíticos e interpretativos, sobre situação ou fatos de natureza histórico-geográfica acerca das instituições sociais, políticas e econômicas.

 

+

Texto-base: clássico.

 

-

Enunciado: “podemos afirmar que”.

FILOSOFIA NO ENEM

  • 64 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

Análise (2003.48)

Questão difícil: em termos de porcentagem de acerto, teve apenas 29%, ficando em

9° lugar de dificuldade entre os 63 itens da prova. Mais do que isso, dois distratores foram

praticamente tão atraentes quanto o gabarito: B, com 28%, e C, com 29%. Segundo o

Relatório Pedagógico de 2003:

Este era um item difícil de ser respondido (pois apresentava duas formulações contrárias a serem relacionadas), mas que discriminou adequadamente os participantes segundo a habilidade requerida. Assim, podemos deduzir das proporções de respostas que 57% dos participantes (os que assinalaram as respostas B, 28%, e C, 29%) só compreenderam um dos textos propostos para análise, e provavelmente se identificaram com um dos enunciados contidos nas alternativas (justificativa econômica da escravidão ou condenação da escravidão), não percebendo a contrariedade existente entre os textos e, também, não relacionando os textos entre si.

No entanto, parte da dificuldade da questão deve-se ao vago enunciado “podemos

afirmar que

...

”,

que não deixa claro ao respondente qual é a tarefa pedida. O item torna-se,

então, uma questão de interpretação em formato “V ou F”, em que cada alternativa tem

que ser individualmente comparada aos textos. É compreensível, portanto, que uma

porcentagem tão alta dos respondentes se desse por satisfeita ao validar um dos distratores

com base em um dos textos, já que o enunciado não deixava claro que a tarefa pedida era

a comparação entre os dois textos.

Este item atende à antiga h19, “Confrontar interpretações diversas de situações

ou fatos de natureza histórico-geográfica, técnico-científica, artístico-cultural ou do

cotidiano, comparando diferentes pontos de vista, identificando os pressupostos de cada

interpretação e analisando a validade dos argumentos utilizados”. O fato ou a situação que

se deve interpretar é a escravidão. O que torna o item peculiar é que as “interpretações

diversas” neste caso são do mesmo autor: os aspectos moral e econômico da escravidão.

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

65

Análise (2003.48) Questão difícil: em termos de porcentagem de acerto, teve apenas 29%, ficando em 9°

Transpondo para a matriz atual, a habilidade mais próxima para esse tipo de questão

seria a H14, que consiste em “Comparar diferentes pontos de vista, presentes em textos

analíticos e interpretativos, sobre situação ou fatos de natureza histórico-geográfica

acerca das instituições sociais, políticas e econômicas”. Aqui, mais uma vez, estaríamos

comparando Montesquieu consigo mesmo. Outra habilidade da matriz nova relevante a

este item seria a H12, “Analisar o papel da justiça como instituição na organização das

sociedades”. Neste caso, é evidente, no raciocínio de Montesquieu, o papel submisso da

justiça em face de questões econômicas.

Em termos das competências e habilidades dos PCN, esse item exige as tarefas de

leitura significativa de textos filosóficos (1a) e de contextualização no plano sociopolítico

e histórico (3). Quanto aos PCN+, ele se insere no segundo eixo, “A construção moral do

sujeito”, tema 1, “Autonomia e liberdade”, subtema que trata das “Várias dimensões da

liberdade (ética, econômica, política)”. Quanto às Ocem, ele atenderia ao conteúdo 22)

“Éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do sujeito”.

FILOSOFIA NO ENEM

  • 66 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

3 ANÁlISE DOS ITENS DE FIlOSOFIA

(2009-2011)

3 ANÁlISE DOS ITENS DE FIlOSOFIA (2009-2011) O segundo grupo de itens de filosofia, referente às

O segundo grupo de itens de filosofia, referente às provas do Enem de 2009 a 2011,

é bem diferente do primeiro. Os seis anos entre os dois grupos trouxeram algumas mu-

danças importantes, em particular a publicação das Ocem em 2008, da nova Matriz de

Referência em 2009 e mesmo dos PCN+ em 2002.

Embora a publicação desses documentos possa ter sido, em parte, causa do retorno

da filosofia ao Enem, eles não significaram uma melhora na qualidade desses itens. De fato,

a matriz de 2009 contempla habilidades mais especificamente relacionadas com a filosofia

do que a de 1998, e isso é um avanço importante. Ainda assim, os itens de filosofia da pri-

meira fase do Enem em geral têm uma proposta melhor do que itens mais recentes, em

termos de texto-base e tarefa pedida ao aluno.

São duas as principais diferenças entre os dois grupos: as fontes dos textos-base e

a temática mais recorrente. Temos somente três questões com texto-base de autoria de

filósofos: Maquiavel, em 2010a.27, Foucault, em 2010a.34, e Habermas, em 2010b.34. Dos

doze itens publicados nos três anos, cinco tiveram seu texto-base extraído de antologia ou

manual de filosofia (2009.82, 2010a.28, 38 e 44 e 2010b27), todos abordando o tema de

ética e política.

A análise que se segue levará em consideração o fato de que não haviam sido publi-

cados à época de conclusão deste estudo os Relatórios Pedagógicos relativos às provas de

2009 a 2011. Assim, não apresentamos as estatísticas oficiais sobre o padrão de respostas

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

67

3 ANÁlISE DOS ITENS DE FIlOSOFIA (2009-2011) O segundo grupo de itens de filosofia, referente às

e de acerto das questões, como tínhamos nas questões anteriores. A análise seguirá, por-

tanto, o seguinte modelo:

Dados do item:

PCN1999

1b

1b) Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros. 2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos

2

discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras produções culturais.

PCN+2002

II.3

Ética e política.

 

Ocem 2008

22

Éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do sujeito.

C2009

C3

Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais.

H2009

H12

Analisar o papel da justiça como instituição na organização das sociedades.

 

+

Alternativas com extensão equivalente e sem termos absolutos.

 

Texto-base: extraído de uma Antologia de Textos Históricos. Autoria do texto II não é clara.

 

-

 

Enunciado: “pode-se afirmar que”. Alternativas sem paralelismo: “em ambos”, “para Hobbes”, “de acordo

com Hobbes

...

”.

Como todos os itens deste bloco são posteriores às Ocem e foram elaborados de

acordo com a matriz de 2009, essas informações agora aparecem em destaque. O campo

dedicado à matriz antiga foi excluído, assim como os pontos de interrogação. Nos demais

aspectos, o quadro segue as mesmas características do modelo anterior.

FILOSOFIA NO ENEM

  • 68 Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

2009 (Anulada) Prova branca – Item 82

A lei dos lombardos (Edictus Rothari), povo que se instalou na Itália no século VII e era considerado bárbaro pelos romanos, estabelecia uma série de reparações pecuniárias (composições) para punir aqueles que matassem, ferissem ou aleijassem os homens livres. A lei dizia: para todas estas chagas e feridas estabelecemos uma composição maior do que a de nossos antepassados, para que a vin- gança que é inimizade seja relegada depois de aceita a dita composição e não seja mais exigida nem permaneça o desgosto, mas dê-se a causa por terminada e mantenha-se a amizade. Espinosa, F. Antologia de textos históricos medievais. Lisboa: Sá da Costa, 1976 (adaptado).

A justificativa da lei evidencia que

  • (A) se procurava acabar com o flagelo das guerras e dos mutilados.

  • (B) se pretendia reparar as injustiças causadas por seus antepassados.

  • (C) se pretendia transformar velhas práticas que perturbavam a coesão social.

  • (D) havia um desejo dos lombardos de se civilizarem, igualando-se aos romanos.

  • (E) se instituía uma organização social baseada na classificação de justos e injustos.

FILOSOFIA NO ENEM

Um estUdo analítico dos conteúdos relativos à FilosoFia ao longo das edições do enem entre 1998 e 2011

69

2009 (Anulada) Prova branca – Item 82 A lei dos lombardos (Edictus Rothari), povo que se

Dados do item:

 

1b) Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros.

PCN1999

1b

2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos

2

discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras produções culturais.

PCN+2002

II.3

Ética e política

Ocem 2008

22

Éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do sujeito;

C2009