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Intelectuais e libertarianismo: Thomas Sowell e Robert Nisbet

No livro Knowledge and Decisions (1980), Thomas Sowell alega que “delegar
o processo decisório a ‘especialistas’ tem se tornado uma característica
central… da visão intelectual do processo decisório político-social”.
Economistas e outros cientistas sociais frequentemente se retratam como
conselheiros imparciais –na verdade, como peritos no assunto – cujo conselho
deveria ser seguido por aqueles que detêm o poder político.

Por que as pessoas estão dispostas a conceder tanto poder a economistas,


sociólogos, psicólogos, educadores e outros autoproclamados especialistas no
campo da ação humana? Sowell faz algumas observações interessantes sobre
esse tema.

Dificilmente se explica tal fato por sucessos comprovados. As taxas de


criminalidade aumentaram quando teorias de criminologistas foram colocadas
em prática; resultados de testes educacionais caíram quando novas teorias
educacionais foram colocadas em prática. Realmente, o grande feito dos
intelectuais tem sido manter a verificação empírica fora da discussão. Além
disso, aqueles com perfil mais intelectual em sua ocupação – principalmente,
os produtores de ideias – tem sido mais ávidos e mais favorecidos em termos
de poder do que aqueles que produzem benefícios tangíveis abertos à
verificação empírica. Não foram os agrônomos, médicos ou engenheiro que
obtiveram poder, mas os sociólogos, psicólogos e teóricos do direito.
É o segundo grupo que transformou o cenário político e social nos Estados
Unidos e em grande parte do mundo ocidental. Não é somente grande parte de
sua produção cognitiva inerentemente inverificável empiricamente; eles têm,
por meio de várias definições e procedimento axiomáticos tornado sua
produção menos suscetível à autenticação do que acontecia anteriormente. Os
jargões desses campos por si só já tornam sua essência em grande parte
inacessível aos leigos. O transicionismo explica minimizando todas as
consequências desastrosas como o preço de curto prazo para o triunfo de
longo prazo. Eles chegaram até o poder mais por fé do que obras. Isso não é
surpreendente à luz de conquistas similares por parte de intelectuais religiosos
que os precederam. O que quer que tenha feito os seres humanos ansiosos por
ouvir aqueles que clamam conhecer o futuro funciona tanto para os
intelectuais contemporâneos quanto funcionou os antigos.

Os especialistas nas ciências sociais, de acordo com Sowell, são os


equivalentes contemporâneos e seculares da classe sacerdotal com a seguinte
diferença: os cientistas sociais, aproveitando-se do prestígio das ciências
físicas, alegam apresentam julgamentos objetivos, livres de valores ou vieses
pessoais, sobre o que promoverá o bem da sociedade ou, às vezes, o bem da
humanidade. Intelectuais que se associam aos governos normalmente se
orgulham de sua objetividade, especialmente quando se opõe ao que
caracterizam como grupos de interesses especiais. No entanto, esses
intelectuais meramente ocultaram seus valores pessoais sob o manto da
ciência; na verdade, eles são somente outro grupo de interesses especiais com
uma agenda política.
Robert Nisbet (um conhecido sociólogo que, embora normalmente seja
chamado de “conservador”, tinha fortes tendências libertárias) tinha algumas
coisas terríveis a dizer sobre seus colegas que disfarçavam seus valores
políticos como ciência objetiva, e que buscavam se esconder em posições de
poder.

Em 1982, Nisbet publicou um comentário elegante (no seu livro Prejudices)


sobre as ciências sociais e seu papel na sociedade americana contemporânea.
A economia, por muito tempo considerada a mais exitosa das ciências sociais,
foi alçada a um nível quase aristocrático na década de 1930, devido à grande
influência de John Maynard Keynes. No entanto, nos anos 1950, quando a
economia alcançou a reputação prestigiada de uma ciência matemática exata,
que os serviços de economistas profissionais foram ansiosamente procurados
pelos políticos.

Ao final dos anos 1950, outras ciências sociais, além da economia,


desfrutavam de grande prestígio, e o dinheiro rolava solto tanto do governo
como de fontes privadas (tais como a Fundação Ford) com bilhões em ativos.

Outras fundações se fortaleceram, e na metade dos anos 1950, era raro um


cientista social conhecido que não tinha os pré-requisitos de status que os
cientistas do ramo da física tinham conhecido no início da 2ª Guerra Mundial.
Muitos institutos de pesquisa focados nas ciências sociais surgiram; escritórios
se tornaram cada vez mais luxuosos e seus ocupantes cada vez mais engajados
em pesquisas, conferências, consultoria a governos entre outros serviços,
viajando por várias partes do mundo – preocupados com tudo, exceto com o
ensino dos universitários, uma responsabilidade progressivamente repassada à
recém-formados ou técnicos.

O prestígio de algumas ciências sociais começou a diminuir abruptamente na


década de 1960, alcançando o ponto mais baixo na década seguinte.

Na década de 1970, o que um sociólogo, um cientista político, um psicólogo


social ou um antropólogo dissesse o que fosse sobre um assunto, para a
maioria da população norte-americana, não teria importância. A credibilidade
da qual tinham disfrutado por cerca de duas décadas depois da 2ª Guerra
Mundial estava despedaçada, seus números reduzidos, e seu capital
praticamente zerado. Agora que a economia tinha se juntado a elas, o drama
chegava ao fim, o auge e a queda das ciências sociais era uma realidade.

Por que o prestígio público das ciências sociais sofreu um revés dramático em
meados de 1982, o ano que Nisbet publicou seus comentários? Nisbet notou e
rebateu as três razões padrão dadas pelos cientistas sociais:

Razão 1: Os cientistas sociais reclamavam de fundos insuficientes. Nisbet


rebateu dizendo que verbas abundantes nunca tinham sido uma condição para
o progresso das ciências físicas no decorrer da história.
Razão 2: Foi-nos dito que as ciências sociais, ao contrário das ciências físicas,
estão ainda na sua infância, de forma que devemos perder seus muitos erros. A
isto, Nisbet rebateu dizendo que as ciências sociais não estão na sua infância,
tendo se originado (assim como as ciências físicas), ainda na Grécia Antiga.
Razão 3: Os cientistas sociais normalmente justificavam seus erros apontando
para a complexidade dos dados sociais. A isso, Nisbet destacou que os
cientistas físicos também se deparam com fenômenos altamente complexos.
No entanto, eles tem obtido cada vez mais sucesso na superação desse
obstáculo.
“Um pouco demais para auto-piedade”, diz Nisbet, quem então sugere razões
mais convincentes para o prestígio paulatinamente reduzido das ciências
sociais.

Há, em primeiro lugar, o cientificismo pomposo que dominou as diversas


disciplinas na década de 1950. A crença era que, se seus praticantes imitassem
o comportamento dos cientistas, o mundo acreditaria que eles eram cientistas.
Mais e mais ensaios nas ciências sociais vieram a se parecer como se tivessem
sido feitos por um químico ou geólogo medíocre.

A segunda razão para o estado deplorável das ciências sócias é a megalomania


que se estabeleceu em conjunto com a sua postura científica. Tão cedo quanto
a década de 1950, somente alguns anos depois que as ciências sociais tinham
começado a se fantasiar de ciência, iniciou-se um movimento em prol de
monstruosidade como uma academia nacional de ciências sociais, fundos para
as ciências sociais e uma fundação nacional de ciências sociais. Mais pedidos
foram feitos em prol de posições como “Conselheiro Presidencial de Ciências
Sociais” em Washington. O país inundado com a complacência dos cientistas
sociais. Tudo o que era necessário para a erradicação instantânea da pobreza,
crime, racismo, más condições de habitação e guerras era um governo
corretamente aconselhado por cientistas sociais. Arrogância: orgulho
virtualmente demandando a queda.
A terceira razão é o que Nisbet chama de “politização das ciências sociais”. A
palavra “social” originalmente representava as instituições voluntárias, tais
como a família, vilas, paróquias, cidades e assim por diante. A esfera social da
interação voluntária foi contrastada com a esfera política do governo coercivo,
então, quando os primeiros teoristas sociais falavam de “problemas sociais”,
eles não estavam, necessariamente, reivindicando ações políticas.

Esse não é mais o caso; os cientistas sociais contemporâneos apagaram a linha


que separava a esfera social da esfera política, tornando-as virtualmente
indistinguíveis. Assim, quando um cientista social contemporâneo identifica
algo como um “problema social”, é seguro apostar que ele está buscando uma
solução política, que deveria ser implementada por meio dos mecanismos
coercivos do governo. Dessa forma, o cientista social esconde seus valores e
aspirações pessoas atrás de um véu de objetividade.

Esse mascaramento das agendas políticas como ciência objetiva nos leva à
quarta explicação de Nisbet sobre a reputação pública negativa das ciências
sociais. Desde a 2ª Guerra Mundial, os cientistas sociais (com a notável
exceção de muitos economistas) tem sido quase unanime na sua defesa do
liberalismo político (por “liberalismo”, Nisbet fala do “novo liberalismo” do
século XX (progressivismo) nos Estados Unidos, a ideologia do “estado
assistencialista”, não o significado da antiga tradição do liberalismo clássico, o
qual defendia o estado mínimo e a liberdade individual). Como Nisbet explica:

Seria difícil encontrar em toda história uma cena mais flagrante de hipocrisia
do que aquela apresentada pelos cientistas sociais, fingindo-se cientistas
físicos, assegurando ao mundo que a objetividade era possível no estudo dos
seres humanos (assim como o era no estudo dos átomos), mas, ao mesmo
tempo, assegurando que suas hipóteses, princípios e conclusões fossem
demonstrados de forma simples em qualquer apresentação nas primárias dos
progressistas.. A ladainha do progressivismo era a ladainha da ciência social,
com possível exceção do campo econômico… qualquer conclusão de um
cientista social que não terminasse com um apelo ao governo nacional por
ação imediata, adequadamente financiada por impostos, era puramente
acidental…aqueles que participavam dos encontros dessas várias associações
nas décadas de 1960 e 1970 poderiam ser perdoados por não saberem
exatamente se eram encontros profissionais ou comícios em nome de
progressistas e outros radicais.

O prestígio público das ciências sociais provavelmente aumentou depois dos


comentários de Nisbet em 1982, mas pouco mudou intrinsecamente nas
ciências sociais. Na verdade, elas se tornaram ainda mais politizadas. Hoje, é
pouco provável abrir um jornal ou uma revista séria, ou assistir a um
telejornal, sem encontrar algum especialista psicológico, social ou político
oferecendo sua ou sua opinião – “científica”, é claro – sobre a última crise
social que está na moda. Além disso, os resultados de um estudo ou pesquisa
“científico” frequentemente será citado e aceito como um evangelho, como se
a aprovação de uma universidade prestigiada, think tank ou agência
governamental automaticamente garantisse sua precisão.

Especialmente relevante para os libertários é a observação de Nisbet que a


linha divisória entre o “social” e o “político” virtualmente desapareceu no
discurso contemporâneo. Essa tinha sido por muito tempo a distinção crucial
para pensadores individualistas, tais como John Locke, Thomas Paine e
Thomas Jefferson, que claramente diferenciavam a esfera voluntária da
sociedade da esfera coerciva do governo. Dada essa distinção, engajar-se na
ciência social ou discutir problemas sociais não necessariamente carrega
implicações políticas. Jefferson, por exemplo, acreditava que a vida noturna
tendia a enfraquecer os valores morais, mas não demandou que o governo
resolvesse esse problema social. Um problema social era somente esse – uma
consequência indesejada da interação voluntária. E um problema social
demandava uma solução social, por exemplo, um esforço voluntário e
cooperativo das partes em questão de forma a melhorar essa situação.

Hoje, é claro, a situação é muito diferente. Para muitas pessoas, especialmente


os políticos, meramente identificar algo como um “problema social” é
implicitamente sugerir que o governo deveriam impor uma “solução”
coerciva.

Convicção na eficácia dos métodos coercivos – uma forte crença daqueles


chamados pelo sociólogo Roberton Merton de “intelectuais burocráticos” – foi
caracterizada por Herbert Spencer (um dos fundadores da sociologia
contemporânea) como “a maior superstição política”. Essa é a crença mágica
de que um grupo de indivíduos que se chama “governo” pode gerar resultados
supostamente impossíveis para aqueles meros mortais que agem, individual ou
em grupo, por meios voluntários. Com pouca ou nenhuma demanda por seus
serviços no mercado, os intelectuais burocráticos servem como conselheiros
da corte que podem aplicar seus valores morais, não pela persuasão, mas por
meio dos mecanismos coercivos da legislação, decisões jurídicas e decretos
administrativos.
// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo
Original