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Apologia da Lei de Deus

Jean-Marc Berthoud
Copyright © 2018 de Felipe Sabino de Araújo Neto
Publicado originalmente em francês sob o título
Apologie pour la loi de Dieu
pela L’Age D’Homme em 1995.

Tradução: Samara Geske


Revisão: Felipe Sabino de Araújo Neto e Rogério Portella
Aos nossos cinco filhos:
Natacha, Micael, Valérie, Marie-Madeleine, Marc-Olivier,
uma aljava bem cheia!
Sumário
Prólogo
Prefácio
I. Amor e obediência à Lei de Deus são dissociáveis?
II. A Lei de Deus é contrária à nossa liberdade?
III. Assim, o que é a Lei de Deus?
IV. O salmo 119: hino à Lei de Deus
V. Os dez mandamentos podem ser separados da obra da salvação, da graça?
VI. A Lei de Deus é uma figura de Jesus Cristo
VII. Existe um limite no tempo e no espaço para a aplicação da Lei de Deus?
VIII. A Lei de Deus, revelação da lei natural, lei da criação
IX. A Lei de Deus, fundamento da ordem legislativa
X. Algumas aplicações práticas atuais da Lei de Deus
XI. A Lei de Deus e a consciência do homem
XII. Os dez mandamentos são a expressão da aliança de Deus
XIII. Os dez mandamentos são a expressão da aliança de graça ou da aliança
das obras?
XIV. Os dez mandamentos são confirmados ou revogados pela nova aliança?
XV. Legalismo e espiritualismo: abuso e esquecimento da Lei de Deus
XVI. O lugar das obras na vida cristã para a fé viva e eficaz
XVII. Sobre o bom uso da Lei de Deus
XVIII. Aforismos cristãos sobre a lei, os costumes, a moral e o direito
XIX. Questões práticas relacionadas à ética cristã dirigidas a um grupo de
pastores
XX. A oposição antiga e moderna à Lei de Deus
XXI. Os fundamentos bíblicos da moral e do direito abalados
XXII. Jacques Ellul e a impossível dialética entre Marx e Calvino
Conclusão
Anexo A — J. Gresham Machen: A majestade da Lei de Deus
Anexo B — Philip Mauro: A lei e o evangelho
Anexo C — Robert L. Dabney: The Law [A lei]
Bibliografia
Sobre o autor
Prólogo
Os estudos que compõem este livro são fruto de um longo trabalho. Iniciado
no verão de 1979, retomado no inverno de 1983, depois em agosto de 1991 e
finalizado em junho de 1995. Alguns dos textos deste livro foram publicados
antes em um formato um pouco diferente, nas revistas Promesses
[Promessas] e La Revue Réformée [A Revista Reformada] como nas
publicações da Association Vaudoise de Parents Chrétiens [Associação de
Pais Cristãos de Vaud]. Agradecemos a essas publicações pela acolhida dada
a nosso trabalho.
Quero agradecer de modo muito particular às seguintes pessoas:
▪ Anne Charlet, digitadora do texto no computador.
▪ Henri-Jean Faber e Christophe Demierre, que corrigiram o manuscrito.
▪ Jean de la Harpe, Paul-André Dubois, Stuart Olyott e Olivier Favre,
que foram para mim pastores fiéis à Palavra de Deus.
▪ Pierre Courthial, deão honorário da Faculté Libre de Théologie
Réformée d’Aix-en-Provence [Faculdade Livre de Teologia Reformada
de Aix-en-Provence], a quem agradeço de todo o coração. Ele leu a
totalidade deste texto e escreveu o prefácio. O livro tem uma dívida para
com o exemplo, o ensino e o estímulo sempre oferecidos por ele com
gentileza.
▪ Frédéric Buhler, Aaron Kayayan e John Marshall, pastores, pelo
encorajamento constante.
▪ Vladimir Dimitrijévic, diretor das Edições l’Age d’Homme, cuja
vocação de editor livre tornou possível a publicação deste texto.
▪ Rousas John Rushdoony, pastor e fundador da Chalcedon Foundation
[Fundação Calcedônia], na Califórnia (EUA), a quem reconheço aqui de
modo especial minha dívida. Sua extensa reflexão sobre a Lei de Deus
foi sempre para mim um poderoso auxílio, bem como a de Olivier
Delacrétaz, da Ligue Vaudoise [Liga de Vaud], em Lausanne (Suíça),
que, ao longo de um diálogo mantido com fidelidade durante muitos
anos, me permitiu nuançar e tornar mais preciso meu pensamento sobre
essas difíceis questões.
É evidente que a responsabilidade pelos erros subsistentes é toda minha.
Não posso mensurar minha dívida para com minha mulher, Rose-Marie. Sem
sua ajuda, seu incentivo, suas críticas e seu apoio constante, este texto nunca
teria sido publicado.
— Jean-Marc Berthoud,
Lausanne, verão de 1995
Prefácio
Uma heresia mortal percorre toda a história da igreja e hoje, em particular, a
destrói. Seu nome é antinomismo (do grego anti = contra, nomos = lei):
desprezo à lei divina, a rejeição da Lei de Deus.
A Palavra de Deus, de Gênesis a Apocalipse, é de modo inseparável a
Palavra-lei e a Palavra-evangelho. A lei, como o evangelho, nos revela em
conjunto a santidade de Deus e sua misericórdia, a graça e a justiça divinas.
À semelhança dos fariseus — que gostam de exaltar mais a lei (a qual
deformam, adicionam ou substituem pelas tradições humanas) em detrimento
do evangelho que anulam —, os antinomistas colocam em proeminência o
evangelho (que diminuem e tornam “superficial” sob o pretexto de exaltá-lo)
em detrimento da lei preterida.
Hoje, mais do que nunca, muitos pastores e teólogos de todas as “confissões”
— lobos que buscam devorar os fiéis — são antinomistas (de acordo com o
espírito da época). Contra esses maus pastores e teólogos, a quem por
infelicidade foram confiados púlpitos em nome da igreja, se levanta com
valentia Jean-Marc Berthoud, teólogo franco-atirador que o Senhor chama
quando julga necessário.
Num momento em que a Lei de Deus, revelada no Antigo e Novo
Testamentos, e que trata sobre a vida pessoal, conjugal, familiar, econômica,
social, científica, política, etc., dos homens, é violada, ridicularizada e
relegada — mesmo por quem Deus convocou para ser “sal da terra”, “luz do
mundo” e “coluna e sustentáculo da Verdade” —, Jean-Marc Berthoud nos
traz, nas páginas que se seguem, as razões cristãs, bíblicas, para retomar,
ensinar e colocar em prática a Lei dada por Deus, para que os homens andem
nela.
É evidente que não somos salvos pela lei, mas também não somos salvos sem
a lei, fora dela. A graça soberana de Deus, por si só, tem o poder de salvar
por meio da fé. A verdadeira fé, que une Jesus Cristo, o Salvador, só existe
acompanhada da obediência — pelo verdadeiro princípio de obediência — à
Lei de Deus, a lei “santa, justa e boa” que nos dá a direção e as orientações
para todos os aspectos da existência; lei que com o evangelho, seu
inseparável companheiro, é também sempre graça.
Agradeço a Jean-Marc Berthoud por nos lembrar tão bem disso, com vigor e
clareza.
— Pierre Courthial
Deão honorário, Faculté Libre de Théologie Réformée d’Aix-en-Provence
[Faculdade Livre de Teologia Reformada de Aix-en-Provence]
Primeira Parte

Fundamentos
I. Amor e obediência à Lei de Deus são dissociáveis?
Em nossos dias, infelizmente, muitos cristãos separam a lei do amor de Deus.
Segundo as ideias pré-concebidas românticas e existencialistas de nosso
tempo, o amor é espontâneo, instintivo e inspirado; em uma palavra, criador.
Todas essas qualidades são necessariamente opostas, digamos, à lei rígida, ao
mandamento formal, à ordem estrita. Como diz a expressão popular: “O amor
não se ordena”. Nada poderia ser mais falso e contrário ao ensino claro e
indubitável da Bíblia, do AT e do NT. O simples fato de Deus nos ordenar
amar, e amar o próximo, deveria nos fazer compreender a impossibilidade de
separar o amor de Deus de seus mandamentos, o amor ao próximo da lei
divina. Afastemos desde o início a objeção. É desnecessário dizer que a lei,
por si mesma, não poderia produzir o amor ao próximo e do próximo a nós.
Só o Espírito Santo pode fazê-lo:
Ora, a esperança não nos deixa decepcionados, porque o amor de Deus é derramado
em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi dado. (Rm 5.5)
A Lei de Deus, resumida no Decálogo, não é nada mais que o molde que dá
forma e substância ao amor. Deus é amor. Mas Deus é também, desde o
princípio, palavra e lei; esta Palavra-Lei de Deus define a natureza do amor
verdadeiro. O amor procedente de Deus se opõe ao amor dissoluto dos
homens desejosos de amar de acordo com suas fantasias sem levar Deus e sua
Palavra em consideração.
Moisés não separou o amor da lei nem a lei do amor. Vejamos como o
Deuteronômio resume a primeira tábua da lei:
Escute, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR. Portanto, ame o SENHOR, seu
Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e com toda a sua força. Estas palavras
que hoje lhe ordeno estarão no seu coração. Você as inculcará a seus filhos, e delas
falará quando estiver sentado em sua casa, andando pelo caminho, ao deitar-se e ao
levantar-se. Também deve amarrá-las como sinal na sua mão, e elas lhe serão por
frontal entre os olhos. E você as escreverá nos umbrais de sua casa e nas suas portas.
(Dt 6.4-9)
Pode-se ver por meio do texto que a expressão de amor de Israel a seu Deus
consistia na prática dos mandamentos, incuti-los nos pensamentos — “por
frontal entre os olhos” —, torná-los a motivação de todos os seus atos —
“como sinal na sua mão” — e inspiração de suas instituições — “nos umbrais
de sua casa e nas suas portas”. Os mandamentos deviam inspirar a atmosfera
intelectual, espiritual, moral e política do povo de Deus de tal forma que a
nova geração se alimentasse dela. Mais à frente, em Deuteronômio, lê-se a
seguinte exortação que dá mais destaque ao elo indissolúvel entre o amor a
Deus e o cumprimento do mandamentos.
E agora, Israel, o que é que o SENHOR requer de vocês? Não é que vocês temam o
SENHOR, seu Deus, andem em todos os seus caminhos, amem e sirvam o SENHOR, seu
Deus, de todo o coração e de toda a alma, para guardarem os mandamentos do SENHOR
e os seus estatutos que hoje lhes ordeno, para o bem de vocês? (Dt 10.12,13)
Ao falar ao povo de Israel do tempo ainda quando, por consequência de sua
infidelidade, idolatria e desobediência obstinada aos mandamentos divinos,
ele seria expulso da terra outorgada por Deus, Moisés declarou:
O SENHOR, seu Deus, circuncidará o coração de vocês e o coração dos seus
descendentes, para que vocês amem o SENHOR, seu Deus, de todo o coração e de toda
a alma, para que vocês tenham vida. O SENHOR, seu Deus, porá todas estas maldições
sobre os inimigos de vocês e sobre aqueles que os odeiam e os perseguiram. De novo
vocês darão ouvidos à voz do SENHOR e cumprirão todos os seus mandamentos que
hoje lhes ordeno. [...] Mas, se o coração de vocês se desviar, e não quiserem ouvir,
mas forem seduzidos, se inclinarem diante de outros deuses e os servirem, então hoje
lhes declaro que, certamente, perecerão; não permanecerão muito tempo na terra na
qual, passando o Jordão, vocês vão entrar para dela tomar posse. (Dt 30.6-8,17,18)
Podemos observar, assim, que o objetivo do ministério profético em Israel era
conduzir o povo de volta a Deus, a fim de que ele o amasse de todo o coração
e de toda a alma, e obedecesse de novo a “seus mandamentos e seus
estatutos, escritos neste livro da lei” (Dt 30.10).
E sobre o amor ao próximo, objeto da segunda tábua da lei? No AT, o amor
ao próximo é concebido como algo separado, desassociado da obediência aos
mandamentos de Deus? Eis é o que lemos no livro de Levítico:
Não seja injusto ao julgar uma causa, nem favorecendo o pobre, nem agradando o
rico; julgue o seu próximo com justiça. Não ande como mexeriqueiro no meio do seu
povo, nem atente contra a vida do seu próximo. Eu sou o SENHOR. Não guarde ódio no
coração contra o seu próximo, mas repreenda-o e não incorra em pecado por causa
dele. Não procure vingança, nem guarde ira contra os filhos do seu povo, mas ame o
seu próximo como você ama a si mesmo. Eu sou o SENHOR. (Lv 19.15-18)
Nas palavras de Deus transmitidas por Moisés, como nas outras, análogas,
ouvidas da boca do próprio autor da lei, Jesus Cristo, Filho de Deus feito
homem, o grande mandamento de amar a Deus de todo o coração e o
próximo como a si mesmo, resume toda a lei. O mandamento do amor ao
próximo surge como a conclusão que engloba a enumeração de toda uma
série de mandamentos precisos: julgar com imparcialidade, não caluniar o
próximo, não procurar a morte dele mesmo por vias jurídicas, não o odiar,
não se vingar. Amar o próximo como a si mesmo não pode, portanto, estar
separado do cumprimento concreto desses mandamentos bíblicos (entre
muitos outros). Contudo, se o cumprimento da lei é indissociável de todo o
amor verdadeiro, é evidente que a obediência apenas formal da Lei de Deus
(não a obediência do coração) pode ser desprovida de amor. Torna-se claro
que as palavras de Cristo nesse sentido não têm nada de particularmente
original, uma vez que ele só retomou esse ensino palavra por palavra,
outorgado por ele mesmo a Moisés, quando respondeu ao doutor da lei que
havia lhe perguntado:
“Mestre, qual é o grande mandamento na Lei?” Jesus respondeu: ‘Ame o Senhor, seu
Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento’. Este é
o grande e primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: ‘Ame o seu
próximo como você ama a si mesmo’”. (Mt 22.36-39)
O ensino do Mestre no sermão da Montanha partiu da lei mosaica para
aprofundar e interiorizar as exigências, levando também seu campo de
aplicação às motivações interiores dos homens.
Paulo, longe de expressar uma teologia própria, retomou também, por conta
própria, com muita simplicidade, o ensino de Moisés e de Jesus quando
escreveu aos romanos:
Não fiquem devendo nada a ninguém, exceto o amor de uns para com os outros. Pois
quem ama o próximo cumpre a lei. Pois estes mandamentos: “Não cometa adultério”,
“não mate”, “não furte”, “não cobice”, e qualquer outro mandamento que houver,
todos se resumem nesta palavra: “Ame o seu próximo como você ama a si mesmo.” O
amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o cumprimento da lei é o amor.
(Rm 13.8-10)
Paulo declarou também que todos os mandamentos da segunda tábua se
resumem nesta expressão: “Ame o seu próximo como você ama a si mesmo”
(Rm 13.10). É o que ele escreve ainda na epístola aos gálatas:
Porque vocês, irmãos, foram chamados à liberdade. Mas não usem a liberdade para
dar ocasião à carne; pelo contrário, sejam servos uns dos outros, pelo amor. Porque
toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: “Ame o seu próximo como a você
mesmo”. (Gl 5.13,14)
Todos sabem que as cores do arco-íris, vermelho — laranja, amarelo, verde,
azul, anil e violeta — estão contidas na luz proveniente do sol. O mesmo
ocorre com o mandamento de amar a Deus e o próximo. Ele contém em
germe todas as leis particulares decretadas por Deus para o bem dos homens.
Para concluir as citações do NT, examinemos com brevidade uma passagem
da Primeira epístola de João:
E nisto sabemos que o temos conhecido: se guardamos os seus mandamentos. Aquele
que diz: “Eu o conheço”, mas não guarda os seus mandamentos, esse é mentiroso, e a
verdade não está nele. Mas quem guarda a sua palavra, nele verdadeiramente tem sido
aperfeiçoado o amor de Deus. Nisto sabemos que estamos nele: quem diz que
permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou. Amados, não lhes
escrevo um mandamento novo, mas um mandamento antigo, que vocês tiveram desde
o princípio. Esse mandamento antigo é a palavra que vocês ouviram. Por outro lado, o
que lhes escrevo é um mandamento novo, aquilo que é verdadeiro nele e em vocês,
porque as trevas vão se dissipando, e a verdadeira luz já brilha. (1Jo 2.3-8)
Constatamos com clareza aqui que o fato de guardar os mandamentos é a
prova visível de que conhecemos a Deus. Mais ainda, a própria perfeição do
amor divino em nós consiste em nossa fidelidade perseverante na guarda dos
mandamentos. Não se trata aqui de um mandamento novo, mas de um
mandamento antigo, a lei divina, a Palavra eterna de Deus. De outra forma,
entretanto, ele é novo, pois com a vinda do Senhor Jesus Cristo à terra, “a
verdadeira luz, que [...] ilumina toda humanidade” (Jo 1.9), começou a
resplandecer no mundo. A luz que brilha em nosso coração — pois, pela
graça de Deus, somos filhos da luz (1Ts 5.5) — é a luz do mundo (Mt 5.14),
“o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos
foi dado” (Rm 5.5), as primícias do Reino de Deus sobre a terra.
Podemos constatar que no ensino de Moisés, de Jesus e dos apóstolos, o amor
a Deus e ao próximo estão indissoluvelmente ligados à obediência fiel e
perseverante do cristão aos diversos mandamentos divinos. A razão é
simples. O objetivo de Deus, tanto em sua criação quanto na obra da
redenção, é estabelecer, restabelecer, o homem — e todas as coisas com ele
— à vida, ao pensamento e à ação próprias para glorificar o Senhor e
Salvador. Na Bíblia, o conhecimento e o amor não são fins em si mesmos,
como ocorria no pensamento grego antigo, ou no da Europa renascentista,
fonte das idolatrias intelectuais e sentimentais modernas. Conhecimento e
amor, como todas as coisas, aliás, devem conduzir, de acordo com a
Escritura, à obediência da fé, a fim de que a vida inteira do homem e todas as
suas obras sejam conformadas, pelo Espírito e pela graça de Deus, aos
pensamentos, à vontade — em suma —, à lei de nosso Deus em Jesus Cristo.
Pois, na obediência perfeita à lei divina, Jesus Cristo é a revelação suprema
do amor de Deus. Assim, em Jesus Cristo, o homem poderia chegar ao
objetivo para o qual ele foi criado: glorificar seu Criador de forma plena
mediante a obediência à Palavra. Assim, não separemos pensamentos unidos
pelo próprio Deus.
II. A Lei de Deus é contrária à nossa liberdade?
Uma falsa noção da liberdade cristã é popular em muitos meios cristãos. Para
eles, a liberdade se opõe à lei divina; ela é concebida como uma emancipação
— e isso em nome da graça e do Espírito! — da submissão à lei. “Nem Deus
e nem lei”, eis o moto do mundo ímpio. A Revolução Francesa, nesse mesmo
espírito, afirmou isso com clareza quando proclamou: “Liberdade, igualdade,
fraternidade... ou MORTE!”. A liberdade, assim reivindicada, serve para
realizar só os próprios desejos. A rejeição da lei divina, regra externa
insuportável, se torna a norma dos cristãos libertados. Esse problema não é
novo na igreja de Jesus Cristo.
As Escrituras sagradas reverberam debates semelhantes no tempo dos
apóstolos. Ao falar dos falsos apóstolos de sua época — e de todos os tempos
—, Pedro evocou a liberdade enganosa ao escrever:
Porque, falando com arrogância palavras sem conteúdo, enganam com desejos
libertinos de natureza carnal aqueles que de fato estavam se afastando dos que vivem
no erro. Prometem-lhes a liberdade, quando eles mesmos são escravos da corrupção,
pois aquele que é vencido fica escravo do vencedor. (2Pe 2.18,19)
Assim, para Pedro, a suposta liberdade para se entregar sem freios aos
desejos libertinos da natureza pecaminosa, para desobedecer à Lei de Deus
com a consciência tranquila e para rejeitar livremente a regra imutável
estabelecida pelo Criador para nós, suas criaturas, nada mais é que
escravidão, escravidão da corrupção. Pedro apenas retoma o ensino de seu
Senhor, de nosso Senhor, o próprio Jesus Cristo:
Em verdade, em verdade lhes digo que todo o que comete pecado é escravo do
pecado. (Jo 8.34)
Paulo também alertou os cristãos da Galácia sobre o perigo da entregar a essa
famosa liberdade:
Porque vocês, irmãos, foram chamados à liberdade. Mas não usem a liberdade para
dar ocasião à carne; pelo contrário, sejam servos uns dos outros, pelo amor. Porque
toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: “Ame o seu próximo como a você
mesmo.” (Gl 5.13,14)
A liberdade se torna o pretexto, afirmou Paulo, para viver como queremos.
Aqui, a liberdade, isto é, a liberdade do homem, está separada da vontade
precisa de Deus. Ela é considerada em si mesma, por ela mesma. Trata-se de
uma forma de idolatria. A liberdade — como o amor, aliás — não é um valor
que existe em si mesmo, por si mesmo. Ele existe em função de outra coisa.
Podemos ver isso com nitidez na noção do amor. Amor a quê? De quem? —
podemos nos perguntar. O amor a si mesmo às expensas de outra pessoa? Ou
o amor da criatura em vez do Criador? O amor ao bem ou o amor ao mal?
Vemos aqui que o objeto do amor é de importância capital. Trata-se, de fato,
da diferença de objetivo dados ao amor que o torna idolatria, adoração,
pecado, justiça. O pecado de Adão consistiu em idolatrar o amor como valor
absoluto, sem defini-lo em relação à Lei de Deus: decidir por si mesmo, com
arbitrariedade, o que é bom, digno de ser amado e o que não é. Equivale a
colocar-se no lugar de Deus, misturar todos os valores, colocar o bem e o mal
em pé de igualdade. Nesse sentido, a igualdade — ídolo do nosso tempo —
abole a diferença entre Deus e homem, entre bem e mal, entre as criaturas —
todas feitas por Deus para respeitarem o lugar que nosso Senhor e Rei lhes
destinou. O apóstolo Paulo empregou uma linguagem muito diferente em na
epístola aos cristãos de Roma:
O amor seja sem hipocrisia. Odeiem o mal e apeguem-se ao bem. (Rm 12.9)
Assim, o “apego ao bem” é recomendado ao lado do “ódio ao mal”. Não
pode haver um sem o outro. A força do amor ao bem será medida pela
energia com que odiamos o mal. Não é o amor que é bom e o ódio que é mal.
Os dois, amor e ódio, podem ser virtudes ou vícios de acordo com os objetos
de seu relacionamento. Afinal, o diferencial entre bem e mal consiste no
próprio Deus: sua natureza eterna, seu caráter santo. E a santidade se reflete
com fidelidade na lei divina, pois nos diz a Escritura: “pela lei vem o pleno
conhecimento do pecado” (Rm 3.20).
O mesmo ocorre com a liberdade. A liberdade, a inclinação da vontade,
segue em direção a Deus, ou não? O movimento é da carne para o mal, ou do
Espírito para o bem? Toda a questão é esta, como nos diz com tanta clareza o
Senhor Jesus Cristo:
Então Jesus disse aos judeus que haviam crido nele: “Se vocês permanecerem na
minha palavra, são verdadeiramente meus discípulos, conhecerão a verdade, e a
verdade os libertará”. (Jo 8.31,32)
Aqui se observa a continuidade entre o fato de permanecer na palavra de
Cristo — e veremos que sua palavra não é separável de seus mandamentos —
e a liberdade outorgadora da verdade. Pela fé, o discípulo obedece à Palavra
de Deus, à Lei de Deus, e ao fazê-lo se mantém na liberdade do Espírito pois,
“onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2Co 3.17). “Para a
liberdade foi que Cristo nos libertou” (Gl 5.1): ela não consiste em nada mais
que “a lei perfeita, a lei da liberdade” (Tg 1.25), a lei única de Deus à qual
obedecemos com alegria no Espírito Santo. Se “Deus é amor” (1Jo 4.5), o
mesmo ocorre com a verdadeira liberdade, que não é outra coisa além da
realização da vontade de quem é a liberdade.
O apóstolo nos explica muito bem as palavras de Jesus, quando
escreveu:
Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, livrou você da lei do pecado e da
morte. (Rm 8.2)
Assim, estamos livres do pecado e da morte pela lei do Espírito da vida, para
sermos livres em Deus, para termos liberdade — a possibilidade de cumprir
os mandamentos divinos em Jesus Cristo e pelo Espírito Santo. Paulo
retomou de maneira ainda mais explícita tudo isso no capítulo 6 de Romanos:
E então? Havemos de pecar porque não estamos debaixo da lei, e sim da graça? De
modo nenhum! (Rm 6.15)
Agora que a graça nos libertou do pecado, agora que a lei divina não condena
mais, por Jesus ter levado sobre si nossa condenação, deveríamos pecar à
vontade, com a consciência tranquila, e viver como quisermos, seguindo as
fantasias de nossa carne?
Será que vocês não sabem que, ao se oferecerem como servos para obediência, vocês
são servos daquele a quem obedecem, seja do pecado, que leva à morte, ou da
obediência, que conduz à justiça? Mas graças a Deus que, tendo sido escravos do
pecado, vocês vieram a obedecer de coração à forma de doutrina a que foram
entregues. E, uma vez libertados do pecado, foram feitos servos da justiça. Falo em
termos humanos, por causa das limitações de vocês. Assim como ofereceram os seus
membros para que fossem escravos da impureza e da maldade que leva à maldade,
assim ofereçam agora os seus membros para que sejam servos da justiça para a
santificação. Porque, quando vocês eram escravos do pecado, estavam livres em
relação à justiça. Naquele tempo, que frutos vocês colheram? Somente as coisas de
que agora vocês se envergonham. Porque o fim delas é morte. Agora, porém,
libertados do pecado, transformados em servos de Deus, o fruto que vocês colhem é
para a santificação. E o fim, neste caso, é a vida eterna. Porque o salário do pecado é a
morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.
(Rm 6.16-23)
Assim, a verdadeira liberdade objetiva a obediência e conduz à justiça
(v. 16), à conformidade da vida do cristão à regra de doutrina (v. 17), o que
leva à santificação (v. 19), cujo resultado é a vida eterna em Jesus Cristo
(v. 22). Como consequência, qualquer oposição entre lei e liberdade não
equivale a nada mais que a idolatria da falsa liberdade sem limites, a
liberdade de pecar. Essa liberdade sem lei é a doutrina de quem a Escritura
designa
... o homem da iniquidade, o filho da perdição, qual se opõe e se levanta contra tudo o
que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus,
apresentando-se como se fosse o próprio Deus. (2Ts 2.3,4)
Observa-se que opor a liberdade à lei, separar a liberdade do cristão em
Cristo da obediência à lei divina, não consiste apenas no contrário do ensino
da Escritura, mas conduz ao sufocamento da consciência de quem se submete
à escravidão da liberdade sem lei. Essas pessoas não discernem com clareza a
diferença radical entre bem e mal, e chegam a aceitar todos os impulsos da
carne como coisas boas. A complacência em relação a si mesmos conduz ao
culto, tão popular hoje, do “eu sacrossanto”, ao culto do homem, e no plano
político, ao reino daquele que a Bíblia designa “o iníquo”
... a quem o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca e destruirá pela
manifestação de sua vinda. (2Ts 2.8)

Nota
É útil destacar a absurdidade de imaginar, no plano natural apenas, uma
liberdade qualquer sem a disciplina de uma lei. A liberdade de circular de
carro se dá em função ao respeito a todas das regras de circulação. A
liberdade de tocar um instrumento depende em primeiro lugar da submissão
às leis determinantes do bom uso do instrumento e do respeito às regras
musicais. O mesmo ocorre com a prática de todas as artes e profissões. A
negação estúpida dessa evidência conduz a pintura e a música erudita e
popular aos impasses e à insignificância experimentadas. A vida moral e
social dos homens também deve se submeter às regras do bom senso. O bom
senso é, no fundo, apenas o reflexo, mais ou menos fiel, da mentalidade e da
forma da obediência humana à lei divina.
III. Assim, o que é a Lei de Deus?
Nós fomos acostumados a dar um alcance restrito à noção da lei de “Moisés”,
de legislação dada por Deus ao povo de Israel. De modo geral, ela foi
aplicada apenas à teocracia judaica. Veremos que o emprego bíblico da
expressão é bem mais amplo que imaginamos.
Em primeiro lugar, a lei de Moisés não pode se opor à Lei de Deus, a lei do
Senhor. No tempo do rei Josias foi encontrado o livro da lei, isto é, o
Pentateuco, e o registro foi feito assim:
... Hilquias, o sacerdote, achou o Livro da Lei do SENHOR, dada por meio de Moisés.
(2Cr 34.14)
Assim, “a lei [...] dada por meio de Moisés” é a “lei do Senhor”. Estes são os
termos do juramento pelo qual Neemias e seus companheiros, no retorno do
exílio em Babilônia, renovaram a aliança de Israel com Deus:
... firmemente aderiram aos seus compatriotas, os nobres, e prometeram, com
juramento e sob pena de maldição, que andariam na Lei de Deus, que foi dada por
meio de Moisés, servo de Deus; que guardariam e cumpririam todos os mandamentos
do SENHOR, nosso Deus, e os seus juízos e os seus estatutos. (Ne 10.29)
Portanto, é evidente que “a Lei de Deus” e a lei “dada por meio de Moisés”
são expressões que abarcam a mesma realidade. Se a lei dada a Moisés é de
fato a Lei de Deus, por consequência se trata da lei cuja aplicação ultrapassa
o povo de Israel. Se foi transmitida por Moisés a Israel, ela objetivava todos
os homens, todas as nações, pois, ao provir Deus, a lei revela o próprio
pensamento divino, e estabelece a ordem e o verdadeiro sentido de todas as
coisas, de toda criação de Deus. Quando escreve aos romanos, o apóstolo
Paulo nos fala sobre a universalidade da lei divina:
Quando, pois, os gentios, que não têm a lei, fazem, por natureza, o que a lei ordena,
eles se tornam lei para si mesmos, embora não tenham a lei. Estes mostram a obra da
lei gravada no seu coração, o que é confirmado pela consciência deles e pelos seus
pensamentos conflitantes, que às vezes os acusam e às vezes os
defendem, (Rm 2.14,15)
Assim, podemos concluir que todos os homens — e não só os judeus — estão
submetidos ao poder e à legislação soberana de Deus, o Criador, o único
capaz de dar às criaturas a lei concorde com sua natureza.
Alguns fazem a distinção sutil entre “a Lei de Deus” e “os mandamentos de
Deus”, dando preferência ao termo “mandamento” como se fosse menos
coercivo que “lei”. As Escrituras sagradas não dizem isso. No texto de
Neemias, já citado, vimos que “andar na a lei Deus” equivale exatamente ao
mesmo que “guardar e cumprir todos os mandamentos” de Deus (Ne 10.29).
Para Paulo também, que menciona os “mandamentos da lei”, as duas
expressões são equivalentes. Podemos apenas afirmar que a lei divina contém
os mandamentos, os preceitos e as ordenanças do Senhor.
Alguns desejam distinguir a lei ou os mandamentos de Deus da Palavra ou
das palavras de Deus. Jesus Cristo não tinha essa opinião, e ele disse ao final
do sermão da Montanha: “Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras
e as põe em prática, será comparado a um homem prudente, que edificou a
casa sobre a rocha” (Mt 7.24), confirmando o que declarava no início do
mesmo sermão quando afirmou:
... até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que
tudo se cumpra.
e declarando: quem
... desrespeitar um destes mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a
fazer o mesmo, será considerado mínimo no Reino dos Céus; aquele, porém, que os
observar e ensinar, esse será considerado grande no Reino dos Céus. (Mt 5.18,19)
Há, portanto, nas palavras de Jesus, identidade entre lei, mandamento e
palavra. Dirigindo-se aos fariseus com respeito aos subterfúgios legalistas
empregados por eles para não socorrer seus pais, Jesus declarou:
Por que também vocês transgridem o mandamento de Deus, por causa da tradição de
vocês? [...] E, assim, vocês invalidam a palavra de Deus, por causa da tradição de
vocês. (Mt 15.3,6)
Fica, assim, evidente que a “palavra de Deus”, as “palavras de Cristo”, a “Lei
de Deus” e o “mandamento do Senhor” são expressões diferentes,
empregadas muitas vezes na Bíblia para abarcar aspectos variados da
realidade única, a revelação conceitual escrita e normativa de Deus. O que há
de impressionante nisso, uma vez que Jesus Cristo é Deus e que a lei dada
por Moisés vem de Deus, o Criador, Legislador e Salvador?
Alguns querem diferenciar a Escritura da Lei de Deus. É verdade que às
vezes, para designar o AT, a Escritura fala da “Lei e dos Profetas”. Não nos
esqueçamos, porém, que a profecia tem sempre como tarefa primária,
essencial, relembrar a lei, explicitá-la. Isso é o contrário da crítica bíblica que,
dominada pela teoria do conhecimento existencialista e evolucionista, situa a
revelação depois da atividade supostamente criadora do profeta. Da mesma
forma, o cristianismo em que a atividade carismática desempenha o papel
predominante situará também a lei no plano secundário em relação às
revelações proféticas. O mesmo não ocorre na Bíblia; nela, a lei reveladora
do pensamento divino tem sempre o primeiro lugar. A expressão Escritura
também compreende a lei. Quando Jesus disse aos judeus: “Vocês examinam
as Escrituras, porque julgam ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que
testificam de mim” (Jo 5.39), ele se referiu à lei e aos profetas. Podemos
encontrar a unidade significativa entre a lei mosaica, os escritos e a palavra
no que Jesus declarou aos judeus incrédulos:
Não pensem que eu os acusarei diante do Pai; quem acusa vocês é Moisés, em quem
puseram a sua esperança. Porque, se vocês, de fato, cressem em Moisés, também
creriam em mim; pois ele escreveu a meu respeito. Se, porém, não creem nos escritos
dele, como crerão nas minhas palavras? (Jo 5.45-47)
Como consequência, devemos constatar que não existe oposição entre as
Escrituras, a lei dada por Moisés e as palavras de Cristo. A Lei de Deus é a
Escritura sagrada, a própria Palavra de Deus: AT e NT.
Outros ainda opõem a “verdade” à Lei de Deus. Para isso, baseiam-se em um
texto célebre do prólogo de João:
Porque a lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de
Jesus Cristo. (Jo 1.17)
Nada no texto implica a oposição entre lei e verdade, entre Moisés e Jesus
Cristo. Também não entre lei e graça. Um desenvolvimento na revelação e na
eficácia da graça não implica de forma alguma contradição ou oposição.
Aliás, a Escritura prova isso de modo admirável quando o apóstolo Paulo
afirma que a lei não é nada mais que “a forma da sabedoria e da verdade”
(Rm 2.20).
Senhor Jesus, tua Palavra é a verdade; santifica-nos pela verdade! A lei, os
mandamentos, a Escritura, a Palavra de Deus, a verdade, tudo isso forma “a
regra de nossa fé”, pela graça de Deus, para repreender e corrigir todos os que
se opõem à santa doutrina (2Tm 3.16,17).
Quem se permite atacar a lei divina opondo-a à fé e graça, atenta contra a
verdade, a Palavra de Deus e a Escritura sagrada. De fato, ataca a Deus.
Sobre gente assim também fala o salmo 2:
Os reis da terra se levantam, e as autoridades conspiram contra o SENHOR e contra o
seu Ungido, dizendo: “Vamos romper os seus laços e sacudir de nós as suas algemas”.
(Sl 2.2,3)
Esses laços e nós, que repugnam tanto nosso século sem Deus e sem lei são
precisamente os santos mandamentos da lei divina. As últimas exortações da
Bíblia se dirigem, entre outros, a esses antinomistas.
E, se alguém tirar qualquer coisa das palavras do livro desta profecia, Deus tirará a
sua parte da árvore da vida, da cidade santa e das coisas que estão escritas neste
livro. (Ap 22.19)
Simples eco das palavras de Moisés em Deuteronômio:
Não acrescentem nada à palavra que eu lhes ordeno, nem diminuam nada dela, para
que vocês guardem os mandamentos do SENHOR, o Deus de vocês, que eu lhes
ordeno. (Dt 4.2)
Sob essa perspectiva da identidade dos mandamentos divinos e da Palavra de
Deus compreendemos melhor o que Jesus quis dizer quando afirmou:
“Aquele, pois, que desrespeitar um destes mandamentos, ainda que dos
menores, e ensinar os outros a fazer o mesmo, será considerado mínimo no
Reino dos Céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será
considerado grande no Reino dos Céus” (Mt 5.19).
E não será em relação ao Reino de Deus que iremos nos contentar com
ambições medíocres!
IV. O salmo 119: hino à Lei de Deus
O salmo 119 contém uma ampla confirmação do que tentamos demonstrar. O
salmo é consagrado por inteiro ao elogio da Palavra de Deus, da lei divina.
Sua construção formal é rigorosa. Ele conta com 22 estrofes correspondentes
às 22 letras do alfabeto hebraico. Cada estrofe comporta 8 versículos e a
primeira letra de cada versículo da estrofe é a letra do alfabeto
correspondente ao lugar da estrofe no conjunto do poema. É como se Deus
quisesse nos dizer que toda a sua revelação estava contida nos limites
constituídos pelo alfabeto hebraico! Mas o rigor da organização literária do
salmo é levada mais longe. Em cada um desses 176 versículos, encontramos
ao menos uma palavra referente à Lei de Deus. Na primeira estrofe podemos
notar os seguintes termos:
derekh: caminho traçado, via (v. 1, 3)
torah: lei, ensino (v. 1)
ʿedah: ordem, preceito, sinal, testemunho (v. 2)
piqudim: preceitos, ordenanças (v. 4)
ḥoq: estatuto, decreto (v. 5, 8)
mitswah: mandamento, preceito (v. 6)
mishpaṭ : regras, leis, julgamentos (v. 7)
davar: palavra, matéria, coisa (v. 9)
No versículo 30, encontramos no mesmo versículo a aproximação das noções
de “caminho”, “verdade” e “lei”:
Escolhi o caminho [derekh] da fidelidade [ʾemunah]; diante de mim pus as tuas
ordenanças [mishpaṭ].
No versículo 142 encontramos a identificação entre “lei” e “verdade”:
A tua justiça é justiça eterna, e a tua lei [torah] é a verdade [ʾemet].[1]
E no versículo 151, encontramos semelhante identificação entre
“mandamentos” e “verdade”:
Tu estás perto, Senhor, e todos os teus mandamentos [mitswah] são verdade
[ʾemet].
Observamos aqui um procedimento frequente nas Escritura, o emprego de
expressões diversas para manifestar vários aspectos da mesma realidade.
Podemos ver Jesus Cristo fazer o mesmo uso dessas palavras, quando
afirmou: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão
por mim” (Jo 14.6) ou quando orou ao Pai por nós, seus discípulos:
“Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). Ele estava
apenas retomando os termos observados no salmista, pois estabeleceu entre
esses termos as mesmas relações. As diversas expressões do AT e do NT,
indicam, sob um aspecto ou outro, a única lei-palavra de Deus, figura
profética escrita da Palavra de vida que é ele próprio.
Torna-se evidente que cada uma dessas expressões apresenta um aspecto
particular da revelação da lei divina. Além disso, é preciso acrescentar que as
expressões nem sempre são empregadas na Escritura com um único sentido.
A Escritura não possui a rigidez semântica de um tratado de lógica ou de uma
demonstração matemática e é necessário, evidentemente, sempre julgar o
sentido preciso da palavra de acordo com o contexto. A palavra “lei”, por
exemplo, é empregada na Escritura com sentidos e conotações bastante
diferentes. O sentido ao qual estamos aqui mais apegados é o referente ao
conjunto dos mandamentos pelos quais Deus expressa sua vontade ao longo
de toda a Escritura sagrada. No entanto, a palavra designa às vezes, de modo
mais particular, a Torá, os cinco livros de Moisés (Lc 24.44). É o que
encontramos na expressão corrente “a Lei e os Profetas” utilizada para
designar todo o AT. Todavia, a palavra “lei” pode também se referir também
a todo o AT (Jo 10.34). É assim que o apóstolo Paulo, no capítulo 3 de
Romanos, cita textos de Eclesiastes, dos Salmos e de Isaías como
provenientes da lei. Às vezes, a “lei” designa apenas o código cerimonial
(Hb 10.1) ou os Dez Mandamentos (Mt 22.36).
Precisamos prestar atenção também aos outros sentidos que a palavra pode
possuir. “Lei” se refere às vezes à lei positiva, ao direito de um estado, com
ou sem conformidade à lei divina (Rm 2.14; 7.2). Outras vezes, significa o
princípio ativo próprio de determinada realidade, como na expressão a “lei do
pecado” (Rm 8.2), que significa o “princípio de ação do pecado”. É
importante considerar o sentido preciso do emprego da palavra pela Escritura.
O racionalismo literalista que não leva em conta essas nuanças na
interpretação dos textos tem, sem dúvida, parte da responsabilidade quanto ao
desprezo no qual caiu a Lei de Deus.
Abusa-se muito comumente das expressões “legalismo” e “espiritualismo”,
utilizadas com erro para caracterizar comportamentos estranhos ao ensino da
lei-palavra de Deus. Deus não reprova o “legalismo” nem o “espiritualismo”,
pois esses termos não figuram na Escritura, e seu uso pejorativo faz cair
opróbrio sobre realidades em si mesma irrepreensíveis, boas, santas e
perfeitas: a Lei de Deus — a própria Palavra de Deus —, e o Espírito de Deus
em ação na alma humana. A Escritura não condena a Lei de Deus nem o
Espírito de Deus, mas a ação carnal, pecadora dos homens que, não agindo,
em sua fraqueza, pela força do Espírito Santo, não podem nem mesmo
começar a conformar a vida às exigências da lei divina. Quando se usa o
termo “legalismo” de forma abusiva, permitimos que a lei divina seja
maculada. Ao mencionar o “espiritualismo”, negamos de maneira implícita,
muitas vezes, o papel primordial desempenhado pelo Espírito Santo de agir
no cristão. Querer cumprir a lei sem o Espírito dado pela lei é apenas um
esforço vão, fútil. Imaginar que a vida espiritual pode abrir mão da
conformidade à Lei de Deus é só a ilusão mortal da carne.
Nosso objetivo é restabelecer a lei divina ao lugar destinado a ela pela
Escritura sagrada. Um sinal eloquente ao máximo do estado em que se
encontra hoje o cristianismo é o fato de o vocábulo “lei” ter se tornado uma
palavra muito pejorativa para muitos cristãos. Devemos reencontrar o
caminho do respeito à Lei de Deus:
Assim diz o SENHOR, o seu Redentor, o Santo de Israel: “Eu sou o SENHOR, o seu Deus,
que lhe ensina o que é útil e o guia pelo caminho em que você deve andar. Ah! Se
você tivesse dado ouvidos aos meus mandamentos! Então a sua paz seria como um
rio, e a sua justiça, como as ondas do mar. Também a sua posteridade seria como a
areia, e os seus descendentes, como os grãos da areia; o seu nome nunca seria
eliminado nem destruído de diante de mim.” (Is 48.17-19)
V. Os dez mandamentos podem ser separados da obra
da salvação, da graça?
Na narrativa do Êxodo, em que a lei foi dada por Deus à Moisés, e na
evocação da lei ao povo, quarenta anos mais tarde, relatada no livro do
Deuteronômio, os dez mandamentos são prefaciados por palavras que
impedem de forma absoluta a leitura sua separção da obra da salvação.
Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.
(Êx 20.2; Dt 5.6)
Qual é o povo a que Deus se dirige? É a seu povo que ele fala. O povo que
ele escolheu, que chama seu povo, com que estabeleceu sua aliança. É este
povo que ele fez sair com sua mão todo-poderosa da terra do Egito, em que
era mantido escravo e que livrou da casa da servidão. Assim, o prefácio de
Deus aos dez mandamentos é uma proclamação do Deus Salvador, e as “dez
palavras” da lei divina são a constituição do povo salvo. A Lei de Deus é
outorgada ao povo com que o Senhor fez aliança.
Isso é ainda mais verdadeiro no caso do povo da nova aliança selada pelo
sangue do cordeiro de Deus, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Ninguém
tratou melhor que João Calvino, em suas pregações sobre o decálogo, da
analogia entre a libertação do povo de Israel da servidão do Egito e da nossa
libertação, por Jesus Cristo, do reino de Satanás, do pecado, do inferno e da
morte. Ei-lo:
Como fora dito outrora ao povo de Israel: Eu o resgatei da terra do Egito, sabemos de
onde é que nosso Senhor nos tirou, quando ele quiz nos conduzir à sua casa e igreja,
pois somos filhos de Adão, malditos por natureza, e herdeiros da morte, temos
somente pecado em nós e, por isso, é necessário que sejamos execráveis a nosso
Deus.
Os homens podem se comprazer e se glorificar o quanto quiserem, mas eis sua
origem, sua nobreza: eles possuem um abismo de pecado e de corrupção em si, e são
dignos de que só a ira e a maldição divinas recaiam sobre sua cabeça. Enfim, tendo
sido banidos do reino dos céus, foram abandonados à desgraça. Porém, nosso Senhor
nos retirou de lá, pela mão de seu Filho; não só nos enviou um Moisés como ao povo
antigo: ele não poupou seu Filho único, ele o entregou à morte por nós.
Portanto, sendo comprados por um preço tão alto e tão inestimável — como é o
sangue sagrado do Filho de Deus —, não devemos nos dedicar totalmente a ele? E
quanto ao resto, se foi dito que o Egito era a casa de servidão, quanto mais quando o
seria se o diabo quisesse nos manter em suas cadeias e em sua tirania, de maneira tão
forte que não teríamos meios de escapar à morte para sermos privados qualquer
esperança de salvação, com Deus nos sendo contrário? Para sermos livres de tudo
isso, não haveria uma redenção bem maior e excelente que aquela sobre a qual nos
fala aqui Moisés? Assim, em vez de dizer como ao povo antigo: “Seu Deus o
comprou da terra do Egito”, agora é dito: “Estamos no Senhor”.[2]
Assim, nosso Deus nos libertou da servidão a Satanás e ao pecado, a fim de
que sejamos seu povo, que realizemos sua vontade e nos submetamos com
alegria, pelo Espírito, a seus mandamentos — aos dez mandamentos, resumo
completo de sua santa vontade para nós.
VI. A Lei de Deus é uma figura de Jesus Cristo
Um dos títulos de Cristo nas Escritura é o justo:
Porque também Cristo morreu uma só vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para
levar-nos a Deus. (1Pe 3.18)
Sabemos que a justiça de Deus não é nada mais que o cumprimento perfeito
de sua lei. Os dez mandamentos, resumo perfeito de toda a lei divina, são a
expressão exata de sua santidade e justiça. Ao cumpri-la perfeitamente, Jesus
Cristo manifestou aos homens a imagem de Deus, imagem inscrita no homem
na criação, mas obscurecida pelo pecado. Para que Jesus permanecesse sem
pecado, foi-lhe necessário observar a lei divina com perfeição:
Pois qualquer que guardar toda a lei, mas tropeçar em um só ponto, tem-se tornado
culpado de todos. (Tg 2.10)
Ao cumprir toda a justiça de Deus, ele manifestou ao mundo a imagem divina
no homem e por isso demonstrou o que era o verdadeiro homem: aquele que
cumpre perfeitamente os mandamentos de Deus. Qualquer humanismo fora
da fidelidade à lei divina pela fé em Jesus Cristo é apenas uma diminuição,
um enfraquecimento do homem. Há séculos, o humanismo trabalha com
obstinação para esvaziar nossa sociedade de qualquer traço da Lei de Deus.
Infelizmente as igrejas, por seu antinomianismo cristão, lhe dão forte apoio
em nome de um evangelho sem lei que, por consequência, se tornou
publicamente insignificante. Elas deixam o humanismo sem Deus cumprir de
modo satisfatório sua triste necessidade de descristianização da sociedade.
Todavia, a culminação de todos os esforços para colocar os pensamentos
humanos sobre o trono de Deus é só a desumanização que se vê cada vez
mais em todos os lugares.
Trabalhar para a defesa dos direitos do homem sem fundamentá-los na lei
divina — que define os deveres do homem em relação a Deus e ao próximo
— culmina no atrofiamento do homem.[3]
Ao adorar o homem acaba-se por aboli-lo!
Este é o fim do discurso; tudo já foi ouvido: Teme a Deus, e guarda os seus
mandamentos; porque isto é todo o dever do homem. (Ec 12.13)
VII. Existe um limite no tempo e no espaço para a
aplicação da Lei de Deus?
Os dez mandamentos são eternos, pois consistem na própria expressão da
personalidade divina. Nosso Deus reina para sempre (Sl 146.10) e a lei do
reino, lei que ele revelou a Moisés no Sinai, não é outra além da que Cristo
afirmou no sermão da montanha:
Em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da
lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido. (Mt 5.18)
Da palavra eterna de Deus, Cristo declarou mais tarde com solenidade:
Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras jamais passarão. (Mt 24.35; Mc 13.31)
Repitamos com o salmista:
A tua justiça é justiça eterna, e a tua lei é a verdade. Tribulação e angústia se
apoderaram de mim; mas os teus mandamentos são o meu prazer. Justos são os teus
testemunhos para sempre; dá-me entendimento, para que eu viva. (Sl 119.142-144)
Assim, os dez mandamentos, por participarem da própria natureza de Deus,
são eternos. Como escreveu de forma muito justa Taylor G. Bunch:
A lei é uma revelação da própria natureza de Deus, uma transcrição de seu caráter. Ao
longo de toda a Escritura, as mesmas expressões são empregadas para descrever Deus
e sua lei, o que mostra claramente que eles possuem natureza inseparável. Ambos são
proclamados perfeitos, santos, justos, bons, eternos e imutáveis. O decálogo é, como
consequência, a expressão dos princípios imutáveis e eternos da justiça pertencente à
natureza e ao próprio caráter de Deus. Como os princípios da justiça nunca podem
mudar, a lei moral que os proclama também não pode mudar ou envelhecer.[4]
Segue-se de forma evidente que a lei divina existe antes de sua expressão nos
dez mandamentos. Ainda que sua revelação aos homens, pelas Escrituras
sagradas, seja progressiva, ela permanece eternamente. Os mandamentos
revelados a Moisés no Sinai consistiam na lei dos patriarcas, do próprio
Adão, dos profetas, de Jesus Cristo, dos apóstolos, e também de todos nós
que fazemos parte do Israel de Deus, a igreja. Contudo, mais ainda: a lei tem
autoridade sobre todos os homens, crentes ou não, qualquer que seja o estado
de sua cultura, época de sua existência, ódio ou apego ao Deus vivo. A lei
divina representa a própria estrutura do ser humano, criado e sustentado por
Deus. Como afirmou Paulo aos filósofos do Areópago:
Pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas; [...] porque
nele vivemos, e nos movemos, e existimos. (At 17.25,28)
Pela obediência da fé aos mandamentos de Deus, o homem sem pecado —
Adão antes da queda — obtém, pela graça de Deus, vida e felicidade. Pois as
leis divinas são a expressão de sua verdadeira natureza humana. Assim, nos
diz a Palavra, por elas o homem viverá; infringindo-as, morrerá. A obediência
aos mandamentos divinos conduz à felicidade. A desobediência leva à
desgraça. Mas a desgraça extrema dos homens advém da impossibilidade
dessa obediência por causa da queda. A boa natureza originária do homem é
agora distorcida pelo pecado, o que torna impossível a obediência perfeita
conducente à vida. Só a obediência perfeita de Cristo poderá dar a vida a
quem crê nele. Entretanto, apesar dos efeitos nefastos do pecado, é
impossível ao homem destruir sua natureza, arrancar-se de si mesmo,
aniquilar totalmente nele a imagem divina.
Deus é o Criador de todas as coisas, a ele pertencem os céus e a terra, nada
escapa de sua soberania. Como consequência, as leis divinas se aplicam à
criação inteira, à vida toda, a todos os pensamentos e a todos os atos dos
homens:
A toda perfeição vi limite, mas o teu mandamento é ilimitado. (Sl 119.96)
Os dez mandamentos devem ser o fundamento de nossa ação em todas as
áreas de sua extensão. A Bíblia não conhece nossas divisões tão cômodas
entre vida particular e pública, entre religioso e secular, entre santo e profano,
entre numenal e fenomenal, para usarmos no jargão dos filósofos. Se a igreja
e o cristão não sendo do mundo estão, entretanto, no mundo, é a fim de
permitir que o reino de Deus se estenda ao mundo inteiro. Evidentemente,
antes do retorno de Jesus Cristo, o reino manifesto de Deus sobre a criação
será parcial — ele se manifestará plenamente só com os novos céus e a nova
terra quando Cristo entrará em seu reino (Ap 11.15-18) — mas já agora, aqui
embaixo, devemos proclamar e manifestar o reino de Jesus Cristo e de sua lei
sobre todas as coisas. Aqui se manifestam a infidelidade e a incredulidade
dos cristãos que desejam, para se acomodar ao mundo, subtrair as ciências, as
artes, a história, a técnica, a economia, a política etc., da autoridade soberana
da lei divina. Assim, são profanados o nome e a glória de nosso Deus por
quem deveria santificá-lo e lhe render toda a honra e a glória devidas.
VIII. A Lei de Deus, revelação da lei natural, lei da
criação
Desde a matematização da física, no início da época moderna, e a influência
cada vez maior da matemática na mente e na nossa apreensão da realidade,
tornou-se corrente considerar que o mundo da natureza funciona de modo
independente do Criador e que a Lei de Deus não tem nada a dizer sobre a
área da natureza. Nada seria mais falso. A lei espiritual e moral de Deus é,
com efeito, a palavra divina pela qual o mundo foi criado (Jo 1.1-4). É por ela
que Jesus, hoje ainda, sustenta toda a criação:
Porque nele foram criadas todas as coisas [...] Ele é antes de todas as coisas, e nele
subsistem todas as coisas. (Cl 1.16,17)
Sendo ele o resplendor da sua glória e a expressa imagem do seu Ser, e sustentando
todas as coisas pela palavra do seu poder... (Hb 1.3)
Nós não poderíamos enfatizar suficientemente bem que os dez mandamentos,
o resumo de toda a lei divina, se originam não só no Deus criador, pessoal e
todo-poderoso. Eles são o próprio fundamento da criação, a raiz que dá
estabilidade a tudo que Deus criou. A criação foi estabelecida, é mantida a
cada instante e será perfeitamente renovada pela Palavra-Lei de Deus
revelada pela Escritura sagrada.
Devemos, no entanto, distinguir o que se pode designar lei natural — a Lei
de Deus revelada em toda a Bíblia, em seu caráter de ordem da natureza e,
portanto, lei normativa da criação — leis da natureza — leis puramente
descritivas do estado atual da criação, o estado que sabemos ser corrupto, isto
é, distorcido.
As leis naturais, cujo conhecimento se desenvolveu com tanta força desde a
união da ciências naturais e matemáticas no século XVII, participam da
ordem criacional que Deus mantém por sua Palavra, e da corrupção a que a
natureza está submetida desde a queda. Por essa razão, se o universo em que
vivemos e as leis naturais que o regem forem um dia abolidas, o mesmo não
ocorrerá com a Palavra de Deus, sustentáculo da natureza, que permanecerá
eternamente.
Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras jamais passarão. (Mt 24.35)
Somente ela formará por inteiro os novos céus e a nova terra em que habitará
a justiça:
Nós, porém, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e uma nova terra, nos
quais habita a justiça. (2Pe 3.13)
Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já
não existe. (Ap 21.1)
Assim, a Palavra-Lei de Deus, fundamento do universo atual, durará para
sempre e ocupará inteiramente o novo universo, enquanto as leis da natureza,
fruto das pesquisas do homem decaído sobre o universo corrompido, que
Paulo chama rudimentos do mundo (Cl 2.20), não durarão mais que o próprio
universo. Elas desaparecerão com o fim do mundo quando Deus destruir os
céus impuros. Pois o livro de Jó nos diz: “os céus são puros aos seus olhos”
(Jó 15.15), e mais à frente:
Eis que até a lua não tem brilho, e as estrelas não são puras aos olhos dele.
(Jó 25.5)
e esta terra maldita (Gn 3.17). Então Deus renovará todas as coisas. Jesus
Cristo é não somente o Salvador dos homens e cabeça da igreja. Lembremo-
nos de que “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1).
Ele continua para sempre o Mestre de nosso universo que pertence somente a
ele:
O SENHOR é Deus em cima no céu e embaixo na terra; nenhum outro há. (Dt 4.39)
No universo tudo lhe pertence:
Teu, SENHOR, é o poder, a grandeza, a honra, a vitória e a majestade; porque teu é tudo
quanto há nos céus e na terra; teu, SENHOR, é o reino, e tu te exaltaste por chefe sobre
todos. Riquezas e glória vêm de ti, tu dominas sobre tudo, na tua mão há força e
poder; contigo está o engrandecer e a tudo dar força. (1Cr 29.11,12).
Ele exerce sua soberania sobre toda a criação. A Lei de Deus não se aplica de
forma alguma apenas à área religiosa e moral, deixando de lado a criação, a
natureza, o universo observável cientificamente, como leis naturais que
funcionariam sozinhas, sem o auxílio contínuo de Deus.
Tudo quanto aprouve ao SENHOR, ele o fez, nos céus e na terra, no mar e em todos os
abismos. Faz subir as nuvens dos confins da terra, faz os relâmpagos para a chuva, faz
sair o vento dos seus reservatórios. (Sl 135.6,7).
Nosso Deus trabalha constantemente por meio do curso ordinário das causas
secundárias. As chamadas leis da natureza não escapam nunca, em nenhum
instante, do controle, da soberana autoridade do Criador. Jeremias nos diz
que a própria ordem do universo nos vem da mão todo-poderosa de Deus. Ele
Deus estabeleceu uma aliança com o dia e a noite, as estações, o curso regular
dos astros e a reprodução, cada uma segundo a espécie de suas criaturas, pois
é ele quem “estabeleceu as leis dos céus e da terra” (Jr 33.25).
Por isso a ordem do universo não é de forma alguma como a descrição das
ciências matemáticas: fria e impessoal, sem significado em relação à vida
humana. Para quem tem olhos para ver e inteligência para compreender, o
Deus pessoal, Criador e Sustentador todo-poderoso de suas obras, se
manifesta de maneira retumbante por meio de todas elas. O progresso da
ciência deveria conduzir logicamente ao reconhecimento geral da inteligência
e do poder infinitos de quem está na origem do universo que pode ser
reconhecido cada vez mais como maravilhosamente ordenado. Todavia, a
cegueira dos homens os leva a não reconhecer o que lhes é demonstrado de
maneira tão evidente.
A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que
detêm a verdade pela injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer é
manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de
Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se
reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que
foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis. (Rm 1.18-20)
Uma ciência sem Deus e sem o auxílio iluminador de sua lei é
completamente cega diante da evidência mais manifesta de todo o universo:
sua necessária origem no Criador todo-poderoso e infinitamente sábio. Os
eruditos modernos que se recusam a enxergar o que demonstram cada vez
com mais clareza suas descobertas impressionantes — a origem
necessariamente divina de tudo o que observam, do infinitamente pequeno ao
infinitamente grande — apenas colocaram a criatura, o universo e suas leis no
lugar do Criador. A idolatria científica é um dos pecados mais profundamente
enraizados do mundo moderno.[5]
Nossa ciência se manifesta aqui fortemente reducionista, ao privar o universo
de sentido e glória. Assim as leis da ciência substituem a providência divina
e, pela aplicação sistemática das leis, os homens sem Deus procuram
construir um mundo completamente planificado e autossuficiente do qual
qualquer vestígio de Deus será excluído. Apoiados no estado-provedor, que
procura fornecer segurança total aos homens, e na técnica científica todo-
poderosa e onipresente, que necessidade os homens teriam do amor e da
bondade de Deus? É apenas por causa da justiça que Deus entrega o mundo
ao mal sob todas as suas formas: desordem, caos, ataques contra a natureza e
morte.
Por causa disso, os entregou Deus a paixões infames; porque até as mulheres
mudaram o modo natural de suas relações íntimas por outro, contrário à
natureza;semelhantemente, os homens também, deixando o contato natural da mulher,
se inflamaram mutuamente em sua sensualidade, cometendo torpeza, homens com
homens, e recebendo, em si mesmos, a merecida punição do seu erro. E, por haverem
desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição
mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes. (Rm 1.26-28)
É necessário que nos desviemos resolutamente das vãs concepções científicas
que retiram Deus da própria criação e não querem saber nada da sabedoria da
lei divina. É necessário que
... destas coisas vãs vos convertais ao Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo o
que há neles; o qual, nas gerações passadas, permitiu que todos os povos andassem
nos seus próprios caminhos; contudo, não se deixou ficar sem testemunho de si
mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo o
vosso coração de fartura e de alegria. (At 14.15b-17)
Toda a revelação bíblica nos mostra o Deus soberano, Senhor do homem e de
sua história, mas mestre também do universo e de suas leis. Como
consequência, a separação operada pelo mundo acadêmico entre a ciência e a
Lei de Deus é um atentado inadmissível e funesto ao Deus criador.
No princípio, Deus criou os céus e a terra, e uma vez que sua obra foi
realizada, ele estabeleceu o homem, Adão, como vice-rei de todas as suas
criaturas.
Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa
semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre
os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela
terra. (Gn 1.26)
O homem, pela confiança em Deus e de sua vida aos mandamentos divinos,
deveria ser o instrumento escolhidos pelo Criador para exercer sua autoridade
benevolente sobre toda a natureza. E pela comunhão perfeita com Deus,
Adão deveria ter sido o instrumento das bênçãos divinas sobre todas as
criaturas sujeitas a si. Mas quando o homem, ao dar ouvidos ao tentador, se
desviou da vocação real ao comer do fruto proibido da árvore do
conhecimento autônomo do bem e do mal que o tornaria — como ele pensava
— igual a Deus, ele foi entregue à força da mentira e da morte. Mais que isso,
por sua culpa, o solo foi amaldiçoado, e a natureza inteira, abandonada à
vaidade e à corrupção, foi entregue à maldição divina.
Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que
a sujeitou, [...] Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta
angústias até agora. (Rm 8.20,22)
No entanto, o cosmo continua a existir, apesar da maldição da queda, por
causa da expectativa da manifestação dos filhos de Deus, primícias da nova
criação:
A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. [...] na
esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a
liberdade da glória dos filhos de Deus. (Rm 8.19,21)
A maldição que aflige o cosmo persiste pela desobediência contínua dos
homens à lei divina. De instrumento de bênção para a criação, o homem se
tornou o meio de sua maldição, de sua destruição. Em nossos dias, a poluição
da natureza pela culpa dos homens demonstra de forma empírica a verdade
revelada. Assim, o homem está na origem da destruição de várias espécies, da
poluição dos continentes, dos mares e da atmosfera, das manchas e das
chagas da terra inteira. Sem dúvida, se aproxima o tempo em que o Senhor
retornará para
... destruir os que destroem a terra. (Ap 11.18)
Existe, como consequência, uma relação essencial entre o pecado humano,
suas injustiças e sua desobediência à Lei de Deus e o sofrimento da natureza.
Entretanto, a Escritura nos mostra que a relação é não somente exterior,
material, mas também interior e orgânica. Isto é, a corrupção entrou na
constituição do universo criado perfeito por Deus por culpa do pecado do
homem. Mas sabemos também que a restauração de todas as coisas e da
criação mortificada em si mesma está ligada ao retorno do homem à realeza
perdida, à obediência em Jesus Cristo a toda a Lei de Deus, ao
restabelecimento da justiça e à constituição perfeita do que é o corpo místico
do próprio Cristo, a comunidade dos remidos. Pois, quando o último eleito
entrar na nova arca de Deus, a igreja:
... a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória
dos filhos de Deus. (Rm 8.21)
E neste feliz dia se manifestarão
... segundo a sua promessa [...] novos céus e nova terra, nos quais habita justiça.
(2Pe 3.13)
Esperemos ardentemente por este dia e trabalhemos para nossa santificação,
obedecendo cada vez mais, pela força que nos é comunicada pelo Espírito
Santo, a todos os mandamentos que nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo nos
deu, em todos os aspectos de nossa vida no mundo.
Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para
destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o
conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo.
(2Co 10.4,5)
É nesta semelhante perspectiva que o apóstolo nos exorta a nos unirmos:
... para que o coração deles seja confortado e vinculado juntamente em amor, e eles
tenham toda a riqueza da forte convicção do entendimento, para compreenderem
plenamente o mistério de Deus, Cristo, em quem todos os tesouros da sabedoria e do
conhecimento estão ocultos. (Cl 2.2,3)
Mas Paulo nos adverte de maneira mais clara contra os perigos que acabamos
de examinar:
Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme
a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo;
porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade.Também, nele,
estais aperfeiçoados. Ele é o cabeça de todo principado e potestade. (Cl 2.8-10)
IX. A Lei de Deus, fundamento da ordem legislativa
As leis que governam nossas sociedades secularizadas, isto é, emancipadas
de qualquer referência à lei transcendente e absoluta, de origem divina, são
muitas vezes arbitrárias, leis positivas e sem referência a qualquer justiça.
Esta não é a vontade de Deus para o governo humano. A Lei de Deus
manifesta a ordem desejada por ele para os homens, para a criação inteira. Se
os dez mandamentos são a condensação da ordem estabelecida pelo Criador,
o Legislador divino, para os homens de forma individual, eles também são
para os homens na sociedade. É impossível separar o homem individual do
homem social. O homem foi criado por Deus para viver em sociedade. A
sociedade, de fato, não é nada mais que a reunião de indivíduos que vivem
sob certa ordem. A base de toda sociedade digna é evidentemente o núcleo
familiar de instituição divina.[6] Sendo Deus o Criador do homem e da
sociedade e quem lhe formulou o ordenamento fundamental, segue-se
necessariamente que esta é a ordem divina, definida de uma vez por todas
pela Lei de Deus, que constitui a base de toda a justiça individual e pública.
Para o povo de Deus, a condição da felicidade e da prosperidade se
encontrava na fé em Deus e na obediência a seus mandamentos. Isso não
pode ser diferente para os outros homens, para as nações do mundo. As
palavras dirigidas por Deus ao povo de Israel são também às nações:
O SENHOR nos ordenou cumpríssemos todos estes estatutos e temêssemos o SENHOR,
nosso Deus, para o nosso perpétuo bem, para nos guardar em vida, como tem feito até
hoje. Será por nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes
mandamentos perante o SENHOR, nosso Deus, como nos tem ordenado. (Dt 6.24,25)
O magistrado deve, em todo tempo e lugar, glorificar a Deus no exercício de
sua função, pois foi estabelecido em seu cargo de juiz por Deus, a fim de
fazer justiça. Para agradar a Deus e trabalhar para o bem do povo sobre o qual
exerce autoridade, será preciso efetivamente que faça justiça, isto é, puna os
malfeitores e proteja quem faz o bem, segundo os critérios imutáveis da lei
divina. Pois, para o magistrado no exercício de suas funções, assim como
para qualquer homem, aliás, a distinção entre bem e mal não pode ignorar o
critério da lei divina. Se o magistrado não reprime quem a lei divina designa
malfeitor, ele se torna carrasco do povo sob sua autoridade, pois em razão de
sua negligência as pessoas de bem são entregues sem proteção aos delitos
criminais não punidos pela lei.[7]
Para tomarmos um exemplo preciso, a recusa dos magistrados, nas
democracias contemporâneas, de punir os pais, médicos e enfermeiros
abortistas, como exige a Lei de Deus por serem homicidas voluntários, não
pode ter outro efeito além de estimular os desejosos de se livrar de seus
filhos, uma vez que podem cometer esse terrível crime sem punição. O
direito, ao não aplicar mais as penas previstas pela lei divina, deixa a criança,
antes do nascimento, desprotegida dos desígnios funestos de pais ou médicos.
Assim, na opinião das massas, o ato horrível do aborto é banalizado,
asseptizado; a consciência dos cidadãos é cauterizada sobre a questão. Não é
impunemente que a sociedade infringe assim a lei divina. Se os magistrados
não aplicam o julgamento divino ao indivíduo pelos crimes públicos, é
inevitável que Deus se encarregará disso, por juízos de caráter coletivo. A
taxa de natalidade decrescente que atinge todos os nossos países, que se
recusam a punir o aborto como merece, é sem dúvida um dos juízos divinos.
Veremos ainda muitos outros se não nos desviarmos deste caminho
abominável.
Mas o que fazer quando a iniquidade de um povo se desenvolve a ponto de se
tornar, de fato, impossível fazer internar as exigências da Lei de Deus no
sistema judiciário, no direito? Seria então útil, como proporão alguns,
inscrever, por exemplo, os dez mandamentos no preâmbulo da constituição
do país? O respeito apenas formal à Lei de Deus marcaria de modo ainda
mais forte a contradição jurídica radical existente entre as exigências divinas
e o direito efetivamente praticado no país. Isso apenas tomaria o nome de
Deus em vão publicamente. Isso desonraria sua lei, faria o decálogo presidir
um direito que não passaria de zombaria sistemática dos mandamentos
divinos. À iniquidade flagrante, poderíamos acrescentar um pecado a mais: a
hipocrisia. Ao longo do tempo, o procedimento apenas formal poderia
estimular o povo a desprezar as leis. A instituição de leis severas, mais ou
menos em conformidade às exigências da Lei de Deus, e jamais aplicadas,
também serviria de estímulo ao desprezo das leis formalmente exigentes, mas
que os magistrados jamais aplicariam ao povo.
Além disso, a mania moderna de mudar muito a legislação chega a esvaziar
por completo, na mente dos cidadãos, o respeito devido às leis, respeito que
constitui o fundamento da força de aplicação do direito. O comichão
legislative, ao qual assistimos, só produz efeitos nocivos. Assim, a lei perde
toda a gravidade e força — devida em grande parte ao respeito e temor que
sua relativa imutabilidade deveria inspirar. Na realidade, toda mudança nas
leis deveria ser feita com muita prudência e apenas quando as necessidades
obrigassem, pois a eficácia social do direito depende, em larga medida, do
hábito dos homens de obedecer à legislação em vigor. De resto, a obsessão
legislativa dos parlamentos vem essencialmente da usurpação da soberania
divina, afinal, só Deus detém o poder legislador. Parlamentos e tribunais
usurpam o lugar de Deus como fonte última do direito e buscam, com o
ativismo político e jurídico, transformar a ação do poder temporal em meio
de salvação social.
Notemos também que ao separar o direito positivo, que nomeamos estado de
direito, de toda lei transcendente, imutável e justa, enfraquecemos o respeito
devido às leis. Isso não é verdadeiro apenas sobre quem se sujeita a elas, até
mesmo sobre quem tem como tarefa de fazê-las respeitadas. Se não há mais
sanção divina, propriamente religiosa, às leis, o respeito a elas perde muita
força. Assim o direito puramente positivo (sem referência à lei transcendente)
não será, ao longo do tempo, mais aplicado por magistrados que se recusam a
dar valor jurídico mais alto que o estado atual do direito. Nessas
circunstâncias, os juízes não contam mais com os meios nem razões
suficientes para resistir às pressões sociais, econômicas, políticas e
ideológicas que pesam sobre a aplicação efetiva do direito. A lei, o estado de
direito efetivamente aplicado, se tornará então o brinquedo arbitrário da
fantasia dos juízes, de acontecimentos, grupos de pressão, movimentos de
opinião, para resumir: os interesses de quem detém de fato o poder. Ele
sofrerá também as mutações de nossa democracia absoluta. O direito
puramente positivo resulta, de modo paradoxal, em degeneração do direito,
cujo formalismo objetiva camuflar o arbitrariedade.[8]
Seria necessário então, como outros sugerem, seguir a opinião popular e se
contentar apenas com o direito aplicável sem incorrer em oposição séria da
população? Assim, recusaríamos sistematicamente a introdução no código
penal de leis inaplicáveis. Não podemos imaginar uma atitude mais
demagógica, mais democrática, como se o juiz tivesse a obrigação de
solicitar a aprovação de quem deveria julgar! O desejo de manter na cidade a
paz exterior demonstra nenhuma preocupação para com a honra divina nem
com o bem verdadeiro dos concidadãos. Trata-se também, evidentemente, de
fazer prova de pouca fé na força divina para transformar o mundo a fim de
que ele se conforme ao desígnio de Deus. Significa admitir que a criação de
Deus pertence de fato a Satanás. É negar o duplo pertencimento do universo,
e da sociedade humana que faz parte dele, a Jesus Cristo, em primeiro lugar
por causa criação e, em seguida, como consequência da redenção. Equivale a
ignorar, enfim, o verdadeiro alcance da obra de Cristo na cruz e da vitória da
fé do cristão sobre o mundo.
Bem diferente é a ótica do cristão verdadeiro. Com a fé inabalável em Deus,
ele deve trabalhar para o restabelecimento da Lei de Deus na mente dos
cristãos sem descanso e com perseverança. Em seguida, a lei deve ser
proclamada a norma de toda a moral e de todo o direito, não só para os
cristãos, mas para todos os homens e todas as instituições humanas. Somente
essa via permitirá a nossos países o reencontro do caminho da justiça e o
afastamento das temíveis ameaças de juízo que pesam sobre nós em razão da
impiedade e iniquidade públicas. Assim o evangelho se tornará de novo a
força viva capaz de realizar a transformação na vida individual e o
restabelecimento das nações.
Contudo, uma nova questão espera por nós aqui. As leis jurídicas inscritas
nos cinco livros de Moisés e comentadas e explicadas no restante da Bíblia,
podem sem qualquer qualificação ser aplicadas às nações que, desde o
Pentecostes, recebem a pregação do evangelho do reino de Deus? Ou ainda:
algumas leis jurídicas não se aplicariam apenas ao povo de Israel com o
objetivo de prepará-lo para a manifestação do Messias? Sabemos que
Calvino, seguindo aqui muito estritamente o ensino de Tomás de Aquino,
defendia que as leis jurídicas bíblicas estavam agora revogadas e que os
povos que recebiam o evangelho deveriam ser governados pelo que ele
designava lei das nações.[9]
Devemos notar que, contrariamente a seu costume, Calvino não apresenta
nenhuma prova bíblica para uma afirmação tão importante. Sobre este ponto
preciso, reformadores tão eminentes como Martin Bucer e Pierre Viret não
opinavam da mesma forma que seu colega de Genebra.[10] Para eles, toda a
Lei de Deus constitui o fundamento, não só do que chamamos moral, mas do
próprio direito. Aliás, está claro que a separação entre moralidade e direito
não pode operar no todo fortemente integrado que constitui a lei divina. Esta
é também a opinião dos puritanos fundadores da Nova Inglaterra e, bem antes
deles, da igreja dos primeiros séculos, cuja fé transformou as instituições do
Império Romano e a da Alta Idade Média que conseguiu, em grande medida,
impregnar o direito comum das nações do Ocidente cristão com os ensinos da
lei divina.
Depois de séculos em que as implicações da Lei de Deus para a salutar
elaboração do direito foram amplamente esquecidas por líderes eclesiásticos
e juristas, estas questões foram estudadas mais uma vez por toda uma série de
pensadores americanos que reatavam assim com essa corrente de pensamento
cristão tão importante. Devemos citar aqui os nomes de Frederick Nymeyer,
Robert Ingram, Francis Nigel Lee, Greg Bahnsen, John Whitehead, Walter
Kaiser, Francis Schaeffer e Rousas John Rushdoony.[11] Nos países
francófonos, Pierre Courthial reivindica explicitamente essa escola de
pensamento calvinista.[12] Seria indispensável que vários intelectuais cristãos
se dedicassem hoje à tradição jurídica das leis mosaicas no contexto de nossa
civilização. A transposição mecânica das leis bíblicas não é desejável nem
possível, dadas as mudanças culturais e técnicas que nos separam do antigo
Israel. Certos rigores da lei mosaica não seriam também mais aplicáveis hoje.
Mas as leis antigas conservam todo o sentido e são negligenciadas para nossa
perda. Um imenso canteiro se abre diante de quem quer descobrir a ordem
ética que Deus deseja ver instaurada na vida pessoal, familiar e pública.
Construir o que quer que seja fora do plano e da ordem de Deus, revelados
em sua santa lei, equivale a construir sobre a areia. Que Deus nos ajude a
sondar sua Palavra, a meditar sobre sua lei dia e noite, para que possamos
começar a reconstruir famílias, empresas, escolas e toda a sociedade, de
maneira a dar glória a Deus em tudo o que fizermos. Assim colocaremos em
prática as últimas ordens de nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo:
Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de
todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;
ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou
convosco todos os dias até à consumação do século. (Mt 28.18-20)
X. Algumas aplicações práticas atuais da Lei de Deus
Notemos rapidamente alguns elementos das leis jurídicas de Israel
normativos para as leis e os tribunais de todos os povos, de todos os tempos.
a. A responsabilidade pessoal pelas transgressões das leis. Oposta à
irresponsabilidade médica ou à responsabilidade da sociedade. A natureza
punitiva das leis em oposição à penitenciária que reabilita o criminoso.
b. A necessidade de punição para toda transgressão das leis.
c. A punição deve ser proporcional ao crime. Lei de talião.
d. O acusado é considerado inocente até a comprovação do crime. A
igualdade dos testemunhos, a confirmação necessária do testemunho, a falsa
testemunha passível da pena que faria o acusado incorrer.
e. Ausência de prisão. Substituída pela pena de morte, as penas corporais
(particularmente na família) e sobretudo pelo princípio de reparação.
f. A reparação não consistia no pagmento de multa ao Estado — uma
injustiça flagrante — mas a reparação paga à pessoa lesada e proporcional ao
dano incorrido.
g. As leis devem se fundamentar sobre a mesma ética que a da religião de
Israel.
h. Proibição de fraudar medidas, pesos e moedas. Isso tornava obrigatória a
estabilidade da moeda, como ocorria, até muito recentemente, com a garantia
universal do ouro.
i. Desemprego e miséria mitigados pela instituição da respiga, que resolve de
modo admirável esses problemas sem humilhar os pobres ou estimular a
preguiça.
j. As necessidades das pessoas idosas asseguradas pelo mandamento de
honrar pai e mãe.
k. Propriedade privada familiar assegurada.
l. A integridade da família mais importante que a do Estado. Pena de morte
para o adultério e não por traição ao Estado.
m. Impossibilidade de promulgar leis positivas contrárias à Lei de Deus.
Aqui, é preciso acrescentar que o poder judiciário pode julgar só as infrações
públicas à lei. O homem, que não poderia sondar corações e rins, é capaz de
julgar apenas as aparências, as consequências visíveis das inclinações más do
coração humano, seus atos e suas provas. As intenções do coração só podem
ser julgadas por Deus. Assim, na “dez palavras” inscritas por Deus sobre as
tábuas da lei, o décimo mandamento, que proíbe a cobiça de bens do
próximo, não pode ser julgada pelo magistrado. A cobiça do coração mau é
pecado e, assim, incorre no juízo divino. Contudo, enquanto ela não se
exterioriza em ações criminosas, não é do campo da competência jurídica do
magistrado. A cobiça se torna crime punível pelo magistrado quando se
exterioriza em roubo, adultério, assassinato, calúnia e blasfêmia. Tem-se,
nessa distinção fundamental, o meio que permite discernir um dos limites da
aplicação da lei divina na área pública. A Lei de Deus não tem nenhum
alcance jurídico sobre os pecados puramente interiors: blasfêmia, idolatria,
profanação do nome divino, desprezo aos pais. Quando o ultraje se torna
público, então o magistrado pode e deve agir para punir, não quen teve um
mau pensamento, mas os malfeitores. Sob a perspectiva bíblica não existem
leis, como leis antirracistas atualmente em vigor em diversos países, que
combatem a opinião dos acusados e não seus atos. A célebre lei dos
suspeitos, editada pela Revolução Francesa, ou o moralismo jurídico da moda
do politicamente correto, são impensáveis no contexto da lei mosaica. Assim,
ao limitar a extensão pública do mal, ela permite o estabelecimento de uma
área de tranquilidade e de paz a favor de quem busca o bem.
Além disso, biblicamente, é impossível aceitar a aplicação mecânica da
legislação civil mosaica à vida pública. A situação particular de Israel no
plano da salvação deve ser levada em consideração com seriedade. Existem,
em particular, um rigor — como, por exemplo, a pena de morte por infrações,
a nossos olhos pequenas, do sabbat — que não podem mais ser aplicadas
desde que Cristo manifestou seu reino.
A solução para este problema difícil nos parece estar na consideração da
posição particular e temporária do povo de Israel sob a antiga aliança. Deus
escolheu para si Israel a fim de manifestar a esse povo o Messias, seu Filho
único bem-amado, Jesus Cristo, a fim de levar a salvação a todas as nações
da terra. Esse objetivo preciso estava já explicitamente proclamado na aliança
estabelecida por Deus com Abraão:
Então, do céu bradou pela segunda vez o Anjo do SENHOR a Abraão e disse: Jurei, por
mim mesmo, diz o SENHOR, porquanto fizeste isso e não me negaste o teu único
filho,que deveras te abençoarei e certamente multiplicarei a tua descendência como as
estrelas dos céus e como a areia na praia do mar; a tua descendência possuirá a cidade
dos seus inimigos,nela serão benditas todas as nações da terra, porquanto obedeceste à
minha voz. (Gn 22.15-18)
Todas as nações da terra foram abençoadas em Jesus Cristo, filho de Abraão
e Filho de Deus. A salvação veio de fato dos judeus, pois a salvação é o
próprio Jesus Cristo; e para a primeira igreja, inteiramente judia, a salvação
começou a ser transmitida, segundo a promessa, a todas as nações. Mas a
existência política de Israel era da mais alta importância para que o Messias
pudesse se manifestar aos homens. As leis litúrgicas, detalhadas e explicadas,
e a legislação jurídica muito severa de Israel, objetivavam preservar a
santidade e a identidade do povo, a fim de que o Messias pudesse se
manifestar.
Mas é necessário reconhecer que a situação espiritual de Israel sob a antiga
aliança era bem mais fraca que a da igreja da nova aliança, pois o Filho de
Deus ainda não se fizera homem, Cristo não viera levar nossos pecados,
vencer Satanás e nos libertar da justa condenação divina. O Espírito Santo
também não estava presente para o povo de Israel sob a antiga aliança, como
ele está agora desde o Pentecostes para a igreja. A situação espiritual do povo
de Israel era muito mais frágil que a da igreja hoje. Isso explica a necessidade
de maior rigor exterior formal no plano cerimonial e jurídico, litúrgico e
legal. Contra a fraqueza moral e espiritual, o homem da antiga aliança estava
guardado, protegido pela lei litúrgica e jurídica mais rígida, mais detalhada e
principalmente bem mais severa sobre o plano penal, do que ocorre hoje com
o cristão e as nações em que o evangelho é proclamado. Graças à encarnação,
expiação, ressurreição e ascensão em glória de nosso Senhor Jesus Cristo, e
graças também à vinda do Espírito Santo com toda a sua força, a posição
espiritual e moral do cristão — se ele exerce a fé para obter a vitória
adquirida para ele, por Cristo, sobre o mundo e as forças do mal — é
incomparavelmente mais forte que a do antigo Israel. As leis civis e militares
terríveis da antiga aliança consistiam na proteção estabelecida por Deus por
um tempo, com vistas à preservação de seu povo, a fim de que, quando o
momento chegasse, ele manifestasse o Messias. Por isso cremos, em oposição
ao ritualismo judaizante da igreja romana, por um lado, que a verdadeira
adoração a Deus ocorre agora só em Espírito e em Verdade (Jo 4.23), sem
sacerdote, mediação terrestre nem renovação do sacrifício como no antigo
judaísmo, e, por outro lado, que não temos mais necessidade do terror da
espada para continuarmos fiéis à aliança do nosso Deus.
O que afirmamos aqui é certamente verdadeiro no campo dos princípios. Mas
o que ocorre, de fato, na realidade? A apostasia cristã é bem mais culpada
diante de Deus que a apostasia judaica que negou o Messias e que crucificou
seu Rei, pois recebemos infinitamente mais que nossos antepassados
espirituais da antiga aliança. Não nos esqueçamos disto: a quem muito foi
dado, muito lhe será exigido (Lc 12.48)! Que Deus, em sua misericordia,
tenha piedade de sua igreja! Mas estas considerações não retiram o fato de
que a maioria das leis jurídicas da antiga aliança tenha validade universal,
tendo sido dadas por Deus ao povo judeu visando ao bem temporal de todas
as nações. Deveríamos nos dedicar ao estudo aprofundado das leis bíblicas a
fim de descobrir toda a sabedoria colocada por Deus ali para o bem de quem
medita nelas dia e noite (Sl 1.2) e, compreendendo-as, envide todos os
esforços para colocá-las em prática (Mt 5.19). Uma das tarefas mais urgentes
no momento atual seria definir, segundo o ensino da Escritura, tudo o que, na
lei divinas, conserva hoje força obrigatória para vida cristã na igreja e no
mundo e para o exercício público do poder. Pois a bênção do Senhor vem é
da obediência total à Palavra de Deus (Ml 3.10).
Assim, a igreja de Deus poderia retornar ao caminho que a restabeleceria
como sal da terra e luz do mundo para as autoridades do mundo.
Ele mesmo julga o mundo com justiça; administra os povos com retidão.O SENHOR é
também alto refúgio para o oprimido, refúgio nas horas de tribulação. […] Faz-se
conhecido o SENHOR, pelo juízo que executa; enlaçado está o ímpio nas obras de suas
próprias mãos. Os perversos serão lançados no inferno, e todas as nações que se
esquecem de Deus. Pois o necessitado não será para sempre esquecido, e a esperança
dos aflitos não se há de frustrar perpetuamente. Levanta-te, SENHOR; não prevaleça o
mortal. Sejam as nações julgadas na tua presença.Infunde-lhes, SENHOR, o medo;
saibam as nações que não passam de mortais. (Sl 9.8,9,16-21)
XI. A Lei de Deus e a consciência do homem
Visto que a ordem definida pelos mandamentos de Deus é a da própria
criação e que ela constitui um reflexo fiel da sabedoria divina; visto também
que o homem foi criado à imagem divina e que essa imagem, ainda que agora
deformada pelo pecado, não foi anulada pela queda, devemos afirmar que o
testemunho da Lei de Deus está inscrito na consciência de todos os homens.
Todos os homens, de todas as épocas, jazem sob a jurisdição divina e são
responsáveis por seu atos diante do tribunal de Deus e terão que dar conta
diante da lei dele.
E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a
uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes,cheios de
toda injustiça, malícia, avareza e maldade; possuídos de inveja, homicídio, contenda,
dolo e malignidade; sendo difamadores, caluniadores, aborrecidos de Deus,
insolentes, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais,
insensatos, pérfidos, sem afeição natural e sem misericórdia. Ora, conhecendo eles a
sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não
somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem. (Rm 1.28-32)
O justo juízo de Deus será aplicado às obras dos homens, pois todos os
homens são responsáveis por suas ações diante dele — a consciência que
Deus inscreveu em sua natureza lhes permite distinguir o bem do mal com
clareza.
Desde a queda, a consciência do bem e do mal no homem está parcialmente
obscurecida pelo pecado original, pois falseia o exercício de todas as
faculdades humanas. Todavia, o testemunho da consciência humana sobre a
autoridade normativa da lei divina permanece. Pelos efeitos nefastos de seus
numerosos pecados pessoais sobre sua consciência, o homem trabalha
sempre, e de forma progressiva, para sufocar o testemunho. Quanto mais
peca, mais se obscurece a luz nele. Todavia, repitamos, o testemunho não
pode ser abolido, mesmo pela pior dureza. A dureza do coração dos
pecadores é variável, como indicam os diferentes solos da parábola do
semeador.
Todos são pecadores, mas nem todos cometem os mesmos pecados com a
mesma perseverança. Assim, depois do pecado original e dos pecados
pessoais dos homens, a consciência humana não pode ser considerada um
testemunho infalível para estabelecer a diferença verdadeira entre o bem e o
mal. Ela precisa de uma regra objetiva, exterior a si mesma. O imperativo
moral categórico subjetivo de Kant nunca é suficiente para definir o bem e o
mal.
A vontade humana também sofreu as consequências do pecado. Desde a
queda, todos os homens separados de Deus são escravos de Satanás. Eles
pertencem a seu reino. Mas isso não quer dizer que o homem seja
inteiramente incapaz do mínimo bem. Jesus não disse aos discípulos:
Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos... (Mt 7.11)?
Ele não negava a maldade profunda dos homens, nem sua capacidade de
realizar boas ações. Contudo, as boas obras que podemos realizar não são
suficientes para nos tornar justos diante de Deus. Só um é bom, perfeitamente
bom: Deus (Mt 19.17). E só um é justo, Jesus Cristo. Filho de Deus desde
sempre, na encarnação tornou-se plenamente homem, excetuando-se o
pecado (2Co 5.21). O menor pecado nos torna impuros diante da santidade de
Deus.
Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de
todos. (Tg 2.10)

Mais uma vez, devemos evitar afirmar que este homem pecador,
irregenerado, sob a condenação divina seja incapaz de qualquer bem. Paulo,
que insiste tantas vezes na culpa de todos os homens diante de Deus, afirma o
contrário de maneira muito clara na carta aos cristãos de Roma:
Quando, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por natureza, de conformidade
com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes mostram a norma da
lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus
pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se. (Rm 2.14,15)
Todos pecaram, todas as faculdades do homem estão corrompidas, mas a
corrupção não faz desaparecer sua humanidade. Se a corrupção é total no
sentido extensivo (ela atinge todos os aspectos do homem), ela não o é em
sentido intensivo (Deus a limita em sua graça comum). A criatura está
viciada pela queda, suas faculdades estão falseadas, mas permanecem nele.
Em sua bondade, Deus faz ainda chover sobre bons e maus (Mt 5.45). Por sua
palavra poderosa, Jesus Cristo ainda sustenta todas as coisas (Hb 1.3). Deus
assegura a todos vida, movimento e ser (At 17.27). Toda a criação está, de
fato, nas mãos do Senhor do céu e da terra. Por isso o salmista pode cantar:
Eis o mar vasto, imenso, no qual se movem seres sem conta, animais pequenos e
grandes. Por ele transitam os navios e o monstro marinho que formaste para nele
folgar.Todos esperam de ti que lhes dês de comer a seu tempo. Se lhes dás, eles o
recolhem; se abres a mão, eles se fartam de bens. Se ocultas o rosto, eles se
perturbam; se lhes cortas a respiração, morrem e voltam ao seu pó. Envias o teu
Espírito, eles são criados, e, assim, renovas a face da terra. (Sl 104.25-30)
Entretanto, o conhecimento natural da lei divina, próprio a todos os homens,
é por si mesmo de todo incapaz de conduzi-los à salvação. A vontade de
Deus para nós é que sejamos perfeitos como ele (Lv 19.2; Mt 5.48;
1Pe 1.15,16). A perfeição é totalmente inacessível ao homem pecador.
Em Cristo, ela nos é acessível pela fé — que permite o depósito da perfeição
do Senhor gratuitamente em nossa conta. Pela fé, temos acesso à obediência
sem falha do Filho de Deus feito homem para nossa salvação. Pela fé
vivemos dia após dia a justiça encontrada em Cristo.
Se o homem pecador não pode escapar ao testemunho dado por sua
consciência sobre a diferença absoluta entre o bem e mal, e quanto ao cristão?
Todo filho de Deus recebeu o Espírito Santo (Rm 8.9; At 5.32) que tem a
tarefa de conduzi-lo em toda a verdade (Jo 16.13). Como consequência, a
consciência do cristão lhe falará com mais clareza que a do pagão sobre a
diferença entre o bem e o mal. Para quem está em Jesus Cristo, a profecia de
Jeremias foi plenamente cumprida:
Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o
SENHOR: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas
inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. (Hb 8.10; Jr 31.33)
Ainda mais: a vontade do homem pecador, escrava do pecado e de Satanás,
está agora renovada, restaurada, liberada, e o filho de Deus pode daí em
diante andar na justiça de Deus e lhe obedecer à lei.
Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da
morte.Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne, isso
fez Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no
tocante ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado, a fim de que o
preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo
o Espírito. (Rm 8.2-4)
O cristão não será nunca sem pecado aqui (1Jo 1.8-10); deverá sempre voltar
aos pés da cruz para pedir a Cristo o perdão de seus pecados (1Jo 1.9). A
perfeição será de sua alçada quando ocorrer a ressurreição do corpo. A partir
de sua morte, o cristão é inteiramente despojado do poder da carne, da velha
natureza que continuamente o incita a pecar. Pela fé em Cristo, pelo poder do
Espírito de Deus que habita nele, o cristão se tornou capaz de andar de
progresso em progresso. Avançando no caminho da santificação, ele pode
cumprir a justiça divina e entrar nas obras preparadas para ele por Deus antes
da criação do mundo.
XII. Os dez mandamentos são a expressão da aliança de
Deus
Seria completamente falso considerar os dez mandamentos um código de lei
abstrato e impessoal. Trata-se, ao contrário, do tratado da aliança estabelecida
pelo Deus vivo, todo-poderoso, pessoal, com o povo que ele escolheu para si
dentre todas as nações, Israel. Os dez mandamentos são chamados também as
“dez palavras” da aliança:
E, ali, esteve com o SENHOR quarenta dias e quarenta noites; não comeu pão, nem
bebeu água; e escreveu nas tábuas as palavras da aliança, as dez palavras. (Êx 34.28)
Em Deuteronômio, lemos:
Então, o SENHOR vos falou do meio do fogo; a voz das palavras ouvistes; porém, além
da voz, não vistes aparência nenhuma. Então, vos anunciou ele a sua aliança, que vos
prescreveu, os dez mandamentos, e os escreveu em duas tábuas de pedra. (Dt 4.12,13)
Quando examinamos com atenção as dez palavras de Deus como estão
inscritas nos livros do Êxodo e do Deuteronômio, percebemos traços
particulares que revelam com nitidez que se trata de um resumo do tratado da
aliança estabelecido por Deus com seu povo no Sinai, por meio de Moisés,
seu porta-voz. Examinemos os elementos componentes da constituição da
aliança.
Encontramos primeiramente a afirmação da autoridade de quem estabeleceu a
aliança, de seu direito a legislar enquanto suserano sobre o povo que toma
sob sua proteção. “Eu sou o SENHOR” (Êx 20.2), nos relembra a revelação por
Deus a Moisés de seu santo nome no mesmo monte Horebe: “Eu sou o que
sou” (Êx 3.14).
Por sua autoridade soberana, Deus, em quem se encontra a única fonte de
tudo o que existe, ordena, comanda, legisla para o homem. De forma
contrária a todo contrato social, não se trata de um acordo entre duas partes
iguais, mas de uma ordem estabelecida pelo próprio Deus para o povo com
que estabelece aliança. A aliança é agora nossa, como afirma o apóstolo
Pedro:
Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade
exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das
trevas para a sua maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora,
sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes
misericórdia. (1Pe 2.9,10)
Com efeito, a libertação efetuada pelo Deus soberano a favor do povo com o
qual ele estabeleceu aliança é claramente evocada na constituição divina:
Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.
(Êx 20.2)
É a aliança da graça. Não se trata aqui de um soberano distante, longínquo,
estranho às necessidades e aos sofrimentos do povo dominado. Não, trata-se
do “teu Deus”, do Deus que mostrou amor e misericórdia ao libertar seu povo
escolhido em Abraão, da escravidão do Egito. Já vimos que a libertação
política prefigurava a libertação do príncipe deste mundo, do pecado e da
morte.
Seguem-se os mandamento precisos do Deus que, por sua soberania absoluta
e seu amor infinito, comanda legitimamente seus súditos. Em primeiro lugar,
figuram os mandamentos relacionados aos deveres dos súditos para com o
Suserano divino, a adoração do único Deus, a proibição de construir imagens
e estátuas para serem adoradas, a honra do nome santo e perfeito de Deus e o
estabelecimento, pelo respeito ao sábado, da ordem do culto que lhe é devido.
Seguem-se os mandamentos sobre as relações entre os súditos, o respeito
devido aos pais, a figura terrestre de Deus para os filhos, a proibição de
assassinato, adultério, roubo, mentira e, por fim, a aplicação espiritual dos
últimos mandamentos na proibição da cobiça. Pois Deus é Espírito e quer ser
adorado não só por meio de atos exteriores, mas em Espírito e em verdade.
Todavia, repitamos, não se trata aqui de uma simples lista de regras morais e
políticas definidoras das relações entre o suserano e os súditos. Trata-se de
uma aliança, e quem diz aliança diz possibilidade de ruptura ou possibilidade
de confirmação desta. Vemos no segundo mandamento as ameaças, as
maldições que acompanham necessariamente a ruptura por parte do povo que
entrou na aliança de seu Deus, desta aliança:
Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus
zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração
daqueles que me aborrecem. (Êx 20.5)
E, no versículo seguinte, lemos sobre aqueles que tomam o nome do Senhor
em vão:
...o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão. (Êx 20.7)
Deus é justo e não pode tolerar a injustiça entre o povo que tomou sob sua
proteção. Mas ele também é justo no que faz de bom aos súditos que andam
com fidelidade em seus caminhos e sua graça sobrepuja em muito a ira. Ele é
um suserano que faz “misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e
guardam os meus mandamentos” (Êx 20.6). Encontramos as mesmas
promessas de bênçãos para quem mantém a atitude de amor e de obediência
filial para com o Pai celeste e a manifesta igualmente aos pais terrestres:
Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR,
teu Deus, te dá. (Êx 20.12)
A aliança não está reservada só ao povo com o qual foi feita, mas aos
descendentes fiéis deles. Isso já havia ocorrido com Abraão. Depois da
vitória sobre os reis na planície do Jordão e do encontro com Melquisedeque,
Deus renovou a aliança com ele nestes termos:
Olha para os céus e conta as estrelas, se é que o podes. E lhe disse: Será assim a tua
posteridade.Ele creu no SENHOR, e isso lhe foi imputado para justiça. (Gn 15.5,6)
A obra do Senhor a favor de Abraão não era uma obra que concernia apenas a
ele. A promessa divina a seu favor dizia respeito a toda a sua descendência:
Então, lhe foi dito: Sabe, com certeza, que a tua posteridade será peregrina em terra
alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos. Mas
também eu julgarei a gente a que têm de sujeitar-se; e depois sairão com grandes
riquezas.E tu irás para os teus pais em paz; serás sepultado em ditosa velhice. Na
quarta geração, tornarão para aqui; porque não se encheu ainda a medida da
iniquidade dos amorreus. E sucedeu que, posto o sol, houve densas trevas; e eis um
fogareiro fumegante e uma tocha de fogo que passou entre aqueles pedaços.Naquele
mesmo dia, fez o SENHOR aliança com Abrão, dizendo: À tua descendência dei esta
terra, desde o rio do Egito até ao grande rio Eufrates. (Gn 15.13-18)
Mais à frente, lemos as palavras dirigidas por Deus a Abraão:
Estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência no decurso das suas
gerações, aliança perpétua, para ser o teu Deus e da tua descendência. Dar-te-ei e à tua
descendência a terra das tuas peregrinações, toda a terra de Canaã, em possessão
perpétua, e serei o seu Deus. Disse mais Deus a Abraão: Guardarás a minha aliança,
tu e a tua descendência no decurso das suas gerações. (Gn 17.7-9)
Por isso a bênção da aliança estabelecida por Deus com o povo de Israel
sobre o monte Sinai repousa não só sobre esse povo — se ele guardar as
condições da aliança — mas se estende “até mil gerações daqueles que me
amam e guardam os meus mandamentos” (Êx 20.6). A continuidade da
aliança no tempo, a promessa de bênção não só aos crentes, aos fiéis, mas a
seus filhos “que me amam e que guardam os meus mandamentos”, é
retomada pela nova aliança pois, “se sois de Cristo, também sois
descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa” (Gl 3.29).
A promessa era, de fato, uma aliança eterna. Vemos sua renovação no
Pentecostes, a favor da igreja, nas palavras do apóstolo Pedro:
Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos e para todos os que ainda estão
longe, isto é, para quantos o Senhor, nosso Deus, chamar. (At 2.39)
Por essa razão os filhos dos cristãos, talvez ainda não convertidos, não podem
ser colocados de forma absoluta na mesma posição dos filhos dos pagãos.
Eles gozam — contrariamente ao que ensinam muitos evangélicos — das
promessas dirigidas por Deus de modo específico ao povo de sua aliança,
“doutra sorte, os vossos filhos seriam impuros; porém, agora, são santos”
(1Co 7.14). Sua santidade, a separação do mal por Deus, provém da santidade
dos pais, pelos quais Cristo morreu e com os quais Deus estabeleceu a
aliança. Não poderíamos definir a aliança melhor que William Hendriksen:
É aquele pacto entre o Deus Trino e seu povo pelo qual Deus promete sua amizade e
portanto salvação completa e livre a seu povo sobre a base da expiação vicária de
Cristo o Mediador da aliança e eles em gratidão prometem viver para ele.[13]
Portanto, observamos que os chamamos dez mandamentos não são nada além
do resumo do texto da aliança que Deus, em seu amor soberano, estabelece
com o povo que escolheu para si. Em Êxodo, o texto completo da aliança de
Deus com Israel, seu povo, vai do versículo 1 do capítulo 20 ao versículo 8
do capítulo 24, onde lemos como a aliança foi aprovada unanimemente pelo
povo, depois da leitura do livro da aliança, e foi selada com o sangue de
touros imolados em sacrifício de comunhão ao Senhor. Metade do sangue foi
derramada sobre o altar, figurando a obra do perdão realizada pelo sangue de
Jesus Cristo para quem se volta para ele em arrependimento, fé e obediência.
Então, tomou Moisés aquele sangue, e o aspergiu sobre o povo, e disse: Eis aqui o
sangue da aliança que o SENHOR fez convosco a respeito de todas estas palavras.
(Êx 24.8)
Vemos, assim, as verdadeiras dimensões da lei divina, a lei como expressão
da aliança de Deus com seu povo, que ele manifesta a quem escolheu seu
desígnios de justiça e graça em Jesus Cristo:
A seguir, tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei
dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em
favor de muitos, para remissão de pecados. (Mt 26.27,28)
XIII. Os dez mandamentos são a expressão da aliança
de graça ou da aliança das obras?
A teologia reformada distingue tradicionalmente o que chama de aliança da
graça da aliança das obras. A aliança das obras, estabelecida com Adão antes
da queda, prometia a bênção divina como consequência da obediência
perfeita à vontade divina. A aliança das obras é também identificada por
alguns com a estabelecida por Moisés no Sinai. A aliança da graça é para
quem, por pura graça, crê na pessoa e na obra perfeita de Jesus Cristo. Ele
oferece vida eterna, perdão de pecados e justificação a quem tem fé em Cristo
Salvador. Não é em consequência de nossas boas obras que somos
justificados — elas são, infelizmente, más —, mas gratuitamente, por graça.
Não se trata da recompensa de nossas obras, mas do dom gratuito de Deus.
Porque, se Abraão foi justificado por obras, tem de que se gloriar, porém não diante
de Deus. Pois que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado
para justiça. Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim
como dívida. Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a
sua fé lhe é atribuída como justiça. (Rm 4.2-5)
No que concerne a Adão antes da queda, ele não tinha necessidade de ser
justificado, sendo, por seu estado de criatura, bom, justo, sem pecado. Nada
impedia seu acesso à graça de Deus e, por sua graça, andava perfeitamente na
vontade do Pai celeste. Sua situação era bem diferente da nossa, pois não
tinha necessidade da graça própria à salvação no estado de inocência. Além
disso, ele dependia, como todas as criaturas de Deus, da graça divina
vivificante. Por sua obediência, permanecia nela. Podemos até mesmo dizer
que sua comunhão com Deus era a consequência das obras fiéis por ele
realizadas. Nisso se veem as consequências da desobediência de Adão; a
graça divina lhe foi retirada e Deus o entregou ao pecado, à corrupção e à
morte. A criação também sofreu os efeitos da privação da graça divina.
Vemos pelo texto de Romanos, citado acima, que a aliança estabelecida por
Deus com Abraão era uma aliança graciosa e gratuita, uma dádiva concedida
a Abraão por Deus em consequência de sua fé na promessa. Assim, a aliança
com Abraão não era fruto de uma obra, o salário merecido pelo trabalho
realizado. O que nós, pecadores, merecemos, não é nada mais que o
julgamento divino, a morte eterna, pois
Todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por
sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus. (Rm 3.23,24)
Mas aqui se coloca uma nova questão. Abraão foi justificado sem as obras da
fé? Se entramos na aliança com Deus, com Abraão, sem mérito, por pura
graça, atingimos o objetivo pelo qual Deus nos elegeu sem obediência às
condições desta aliança?
Queres, pois, ficar certo, ó homem insensato, de que a fé sem as obras é inoperante?
Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o
altar o próprio filho, Isaque? Vês como a fé operava juntamente com as suas obras;
com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou, e se cumpriu a Escritura, a qual
diz: Ora, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça; e: Foi chamado
amigo de Deus. Verificais que uma pessoa é justificada por obras e não por fé
somente. (Tg 2.20-24)
Assim, vemos que se a aliança estabelecida por Deus com Abraão foi a
aliança da graça, ela foi também de obras, não das obras que provocam a
graça, mas das obras provocadas pela graça. O próprio objetivo da salvação é
entrarmos nas obras preparadas por Deus nós, antes da criação do mundo,
para nos tornar participantes da edificação de seu reino.
O profeta Habacuque nos diz: “O justo viverá pela fé” (Hb 2.4), afirmação
encontrada nas epístolas de Paulo aos Romanos (Rm 1.7,10.5) e aos Gálatas
(Gl 3.11) e na epístola aos Hebreus (Hb 10.38). O texto de Gálatas opõe
claramente lei e fé:
Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está
escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro
da lei, para praticá-las. E é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de
Deus, porque o justo viverá pela fé. Ora, a lei não procede de fé, mas: Aquele que
observar os seus preceitos por eles viverá. (Gl 3.10-12)
Assim, viver pela fé e viver pela prática da lei parece contraditório. Apesar
disso, lemos no livro de Levítico estas palavras:
Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; cumprindo-os, o homem
viverá por eles. Eu sou o SENHOR. (Lv 18.5)
E na profecia de Ezequiel, Deus confirma que a prática dos mandamentos de
Deus produz a vida:
Tirei-os da terra do Egito e os levei para o deserto. Dei-lhes os meus estatutos e lhes
fiz conhecer os meus juízos, os quais, cumprindo-os o homem, viverá por eles.
(Ez 20.10,11)
E no capítulo 18 do mesmo livro, a palavra do Senhor insiste na relação
necessária entre as obras justas e a vida:
Sendo, pois, o homem justo e fazendo juízo e justiça, não comendo carne sacrificada
nos altos, nem levantando os olhos para os ídolos da casa de Israel, nem
contaminando a mulher do seu próximo, nem se chegando à mulher na sua
menstruação; não oprimindo a ninguém, tornando ao devedor a coisa penhorada, não
roubando, dando o seu pão ao faminto e cobrindo ao nu com vestes; não dando o seu
dinheiro à usura, não recebendo juros, desviando a sua mão da injustiça e fazendo
verdadeiro juízo entre homem e homem; andando nos meus estatutos, guardando os
meus juízos e procedendo retamente, o tal justo, certamente, viverá, diz o SENHOR
Deus. (Ez 18.5-9)
O texto faz com que nos lembremos do apelo de Moisés ao povo, no
momento da renovação da aliança, apelo a seguir seu Deus:
Vê que proponho, hoje, a vida e o bem, a morte e o mal;se guardares o mandamento
que hoje te ordeno, que ames o SENHOR, teu Deus, andes nos seus caminhos, e
guardes os seus mandamentos, e os seus estatutos, e os seus juízos, então, viverás e
te multiplicarás, e o SENHOR, teu Deus, te abençoará na terra à qual passas para
possuí-la. Porém, se o teu coração se desviar, e não quiseres dar ouvidos, e fores
seduzido, e te inclinares a outros deuses, e os servires, então, hoje, te declaro que,
certamente, perecerás; não permanecerás longo tempo na terra à qual vais, passando
o Jordão, para a possuíres. Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti,
que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que
vivas, tu e a tua descendência, amando o SENHOR, teu Deus, dando ouvidos à sua voz
e apegando-te a ele; pois disto depende a tua vida e a tua longevidade; para que
habites na terra que o SENHOR, sob juramento, prometeu dar a teus pais, Abraão,
Isaque e Jacó. (Dt 30.15-20)
A relação obrigatória entre as obras da lei e a vida não poderia estar mais
claramente definida. Quem obedece aos mandamentos de Deus viverá. E o
próprio Jesus Cristo respondeu ao reponder ao doutor da lei que lhe
perguntou o que deveria fazer para herdar a vida eterna:
Então, Jesus lhe perguntou: Que está escrito na lei? Como interpretas? A isto ele
respondeu: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de
todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e: Amarás o teu próximo como a
ti mesmo. Então, Jesus lhe disse: Respondeste corretamente; faze isto e viverás.
(Lc 10.26-28)
À primeira vista, uma afirmação como esta parece estar em flagrante
contradição com as declarações de Paulo (retomando aqui um ensino do
Antigo Testamento): “o justo viverá pela fé”.
Façamos aqui algumas observações que esclarecerão, espero, essa questão
bastante difícil. Para amar a Deus de todo o seu coração e o próximo como a
si mesmo, é preciso, em primeiro lugar, conhecer a Deus, e não é possível
conhecê-lo sem fé.
De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que
se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o
buscam. (Hb 11.6)
Assim, para que nossas obras sejam agradáveis a Deus e produzam em nós a
vida, é necessário que sejam precedidas pela fé. Com efeito, “tudo o que não
provém de fé é pecado” (Rm 14.23).
O erro dos judeus, que buscavam fundamentar sua justificação na justiça
obtida pela lei, era primeiramente não compreender a incapacidade do
homem pecador (mesmo religioso) para cumprir a vontade divina e esquecer
a obra essencial: a fé em Deus e em sua obra redentora em Jesus Cristo.
Como Jesus declarou aos judeus:
Dirigiram-se, pois, a ele, perguntando: Que faremos para realizar as obras de Deus?
Respondeu-lhes Jesus: A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi
enviado. (Jo 6.28,29)
As obras de vida não podem preceder a fé em quem concede a vida. As obras
devem proceder da fé, e não o inverso, como afirmavam os judeus. Os judeus
desejavam, falsamente, cumprir a lei sem crer no Filho de Deus, e isso
fundamentando-se, de maneira abusiva, na promessa: “Ora, Moisés escreveu
que o homem que praticar a justiça decorrente da lei viverá por ela”.
(Rm 10.5). O apóstolo Paulo lhes respondeu dirigindo-os à passagem de
Deuteronômio que precede a que acabamos de citar sobra a escolha do bem e
da vida e a rejeição do mal e da morte. O que diz, portanto, a palavra da fé
que permite colocar em prática a lei?
Porém que se diz? A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração; isto é, a
palavra da fé que pregamos. Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e,
em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque
com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação.
Porquanto a Escritura diz: Todo aquele que nele crê não será confundido. (Rm 10.8-
11)
Apenas a fé — indesejada pelos judeus — permite, com efeito, realizar as
obras da lei que são a consequência natural disso. Pela fé nós nos revestimos
de Jesus Cristo que cumpriu toda a justiça divina a fim de que possamos, pela
força que se encontra nele, entrar na justiça.
As proposições “o justo viverá pela fé e que o homem que praticar a justiça
decorrente da lei viverá por ela”, não estão de forma alguma em contradição.
Pela fé e as obras da fé, que devem proceder dela, se esta fé é verdadeira, o
crente tem a vida e a tem em abundância. O prólogo do decálogo não
contradiz de forma alguma as exigências de Deus, nem as promessas se
opõem à lei. As promessas são feitas para que a justiça da lei se cumpra em
nós. Não existe divisão da obra de Deus entre a aliança da graça e a aliança
das obras. A aliança de Deus com os homens é uma aliança na qual a graça é
dada para que coloquemos em prática os mandamentos divinos, a fim de
trabalharmos para a edificação do reino de Deus. A graça divina não é
concedida, com efeito, a quem, por incredulidade, se recusa a andar nas obras
que Deus requer, pois é a quem lhe obedece — mais que aos homens
incrédulos e infiéis — que Deus concede o Espírito Santo (At 5.32). Não
pode haver ali aliança das obras sem que a graça seja o princípio. Toda
suposta aliança da graça, sem o cumprimento das obras preparadas por Deus
para nós antes da criação do mundo, é apenas fraude e imitação ilusória.
Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só na minha presença,
porém, muito mais agora, na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com
temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar,
segundo a sua boa vontade.Fazei tudo sem murmurações nem contendas, para que
vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma
geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo,
preservando a palavra da vida, para que, no Dia de Cristo, eu me glorie de que não
corri em vão, nem me esforcei inutilmente. (Fp 2.12-16)
Pela graça de Deus não abandonemos a fé nem as obras da fé. Permaneçamos
firmes na única aliança de nosso Deus, proclamada a Abraão, Moisés, Davi,
cumprida em nosso Senhor Jesus Cristo, e trabalhemos com perseverança e
zelo para o reino de Deus e sua justiça.
Com efeito, tendes necessidade de perseverança, para que, havendo feito a vontade
de Deus, alcanceis a promessa. (Hb 10.36)
XIV. Os dez mandamentos são confirmados ou
revogados pela nova aliança?
Colocar a questão de forma tão abrupta produzirá um choque no espírito do
leitor cristão. Mas um choque como este é salutar, pois o pouco caso que
fazemos da Lei de Deus na igreja de hoje mostra o estado de espírito em que,
inconscientemente, afirmamos por seus pensamentos e atos que os
mandamentos da antiga aliança foram revogados na nova. Vejamos o que nos
diz o Novo Testamento, e primeiramente nosso Senhor Jesus Cristo, a este
respeito:
Não penseis que vim revogar a lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para
cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou
um til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra. Aquele, pois, que violar um
destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será
considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar,
esse será considerado grande no reino dos céus. (Mt 5.17-19)
Assim, Cristo não veio abolir a Lei de Deus, sua lei, uma vez que ele é Deus
e seu autor, legislador, mas cumpri-la com perfeição e colocá-la em prática.
Ele afirma que a lei continuará imutável até o fim do mundo e o dever dos
discípulos é colocá-la em prática e ensiná-las às nações.
Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do
Filho, e do Espírito Santo. (Mt 28.19)
Contudo, de forma geral, Jesus Cristo confirmou verdadeiramente o
decálogo?
Vejamos de novo as próprias palavras de nosso Senhor e Salvador. O que ele
respondeu ao moço rico que o inquiriu a respeito do caminho para a vida
eterna?
Respondeu-lhe Jesus: Por que me perguntas acerca do que é bom? Bom só existe
um. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos. E ele lhe perguntou:
Quais? Respondeu Jesus: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso
testemunho; honra a teu pai e a tua mãe e amarás o teu próximo como a ti mesmo.
(Mt 19.17-19)
Assim, para nosso Senhor Jesus Cristo os mandamentos estão resumidos no
decálogo. Veremos mais à frente como, nos Evangelhos, Jesus explicita e
revela com mais clareza o sentido das revelações que ele mesmo concedera a
seu povo sob a antiga aliança.
Alguns dirão que Jesus se dirigiu apenas aos judeus e que, então, ela é normal
para os judeus — pois não ele não foi enviado apenas para as ovelhas
perdidas de Israel? — que ele lhes fale nos termos próprios da lei judaica.
Outros poderiam acrescentar que tudo se dá de forma diferente para a nova
dispensação da igreja. O que dizem então os apóstolos — os legisladores da
nova aliança? Leiamos primeiramente Paulo. Aos cristãos de Roma, judeus e
gentios, ele escreveu:
A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos
outros; pois quem ama o próximo tem cumprido a lei. Pois isto: Não adulterarás, não
matarás, não furtarás, não cobiçarás, e, se há qualquer outro mandamento, tudo nesta
palavra se resume: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. O amor não pratica o
mal contra o próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor. (Rm 13.8-10)
Assim, para o apóstolo Paulo, o objetivo da nova aliança, o amor a Deus e ao
próximo se resume, como para nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, no
cumprimento do decálogo pelo cristão. Com o apóstolo Tiago, encontramos a
mesma evocação aos dez mandamentos (Tg 2.8-11) e no Apocalipse, vemos
que os lançados fora da nova Jerusalém, dos novos céus e da nova terra, são
os infratores da santa lei divina:
Quanto, porém, aos covardes, aos incrédulos, aos abomináveis, aos assassinos, aos
impuros, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os mentirosos, a parte que lhes cabe
será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte... Fora ficam os
cães, os feiticeiros, os impuros, os assassinos, os idólatras e todo aquele que ama e
pratica a mentira. (Ap 21.8; 22.15)
Nisso não há surpresa, pois quem pronunciou s palavras é o mesmo que
proclamou no Sinai as “dez palavras”, o fundamento de toda a justiça, o
mesmo que proferiu o Sermão da Montanha, Jesus Cristo nosso Senhor,
nosso Rei, nosso Emanuel, aquele em quem “não há mudança nem sombra de
variação” (Tg 1.17), aquele que é “o mesmo ontem, hoje e eternamente”
(Hb 13.8). O mesmo ocorre com a palavra viva e permanente de Deus
(1Pe 1.23).
Uma voz diz: Clama; e alguém pergunta: Que hei de clamar? Toda a carne é erva, e
toda a sua glória, como a flor da erva; seca-se a erva, e caem as flores, soprando
nelas o hálito do SENHOR. Na verdade, o povo é erva; seca-se a erva, e cai a sua flor,
mas a palavra de nosso Deus permanece eternamente. (Is 40.6-8)
XV. Legalismo e espiritualismo: abuso e esquecimento
da Lei de Deus
A busca da salvação por vias legais — obras morais ou legislação — é um
fenômeno bem mais comum do que pensamos. A legislação da social-
democracia, do socialismo e comunismo, que preconiza a solução estatal para
os problemas da sociedade, está fundada sobre a crença de que as leis
salvarão os homens. Podemos observar a mesma pretensão salvadora, a
mesma religião profana, entre educadores, psiquiatras e assistentes sociais
que imaginam curar o homem por seu ativismo. O pastor Rushdoony
esclarece excelentemente a atualidade do ensino bíblico sobre a questão:
As leis baseadas na Bíblia não buscam salvar o homem ou instaurar o melhor dos
mundos, a grande sociedade, a paz mundial ou um mundo livre da pobreza ou outra
utopia semelhante. O objetivo da lei bíblica é punir o mal, restringi-lo, proteger a
vida e os bens dos homens e promover a justiça para todos. Não é função do Estado
e de sua leis mudar os homens, reformá-los. Essa é uma questão espiritual, da
religião. O homem pode mudar apenas pela graça de Deus, pelo ministério da
Palavra. A legislação pública é incapaz de mudar os homens; não é possível lhes dar
novo caráter e transformar sua personalidade por meio de leis. A lei pode conter,
limitar a vontade má, o coração mau do homem fazendo com que tema as
consequências de seus atos. Em uma estrada, diminuímos a velocidade um pouco
quando vemos uma viatura da polícia e então prestamos mais atenção aos limites de
velocidade. A existência da lei e sua aplicação estrita restringem as tendências
pecaminosas do homem. Ainda que a inclinação do homem para o mal seja freada
pela aplicação estrita da lei, sua natureza nunca é mudada por ela; ele não pode ser
salvo pela lei. Só a graça de Deus em Jesus Cristo assegura sua salvação.[14]
Assim, os legisladores democratas e totalitários que pensam poder
transformar o homem com leis são irmãos dos legalistas judeus e dos
legalistas da Galácia. A pretensão do comunismo, por exemplo, de mudar o
homem e renová-lo por meio da legislação e da ação constrangedora do
Estado é pura utopia legalista. A salvação pelas obras de caráter religioso se
transformou em salvação laica, política. Ela não é menos fútil.
Se o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o SENHOR
não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela. (Sl 127.1)
Afinal, fora de Jesus Cristo, o homem é incapaz de fazer algo de útil, sólido e
durável (Jo 15.5). O objetivo da lei divina é tornar conhecida a diferença
absoluta entre o bem e o mal a fim de dirigir o homem ao bem e conduzi-lo
no caminho da verdade. A graça recria o homem à imagem de Cristo. A lei é
a forma da vida nova dada por Deus ao homem regenerado, a fim de torná-lo
conforme a Deus.
Eis a essência do que chamamos legalismo: procurar obter a salvação
religiosa, social ou política pelas obras da lei. Definamos brevemente alguns
aspectos do legalismo segundo a Bíblia.
▪ Em primeiro lugar, é legalismo qualquer pretensão de nos reconciliar com
Deus, de nos salvar por nós mesmos, por nossos próprios esforços,
procurando obedecer à lei divina fora da fé em Jesus Cristo e de sua obra
perfeita, fora da imputação gratuita de sua justiça ao crente.
▪ Em segundo lugar, qualquer acréscimo de tradições humanas, ou de
mandamentos humanos às exigências obrigatórias da Lei de Deus é
legalismo.
▪ Em terceiro lugar, querer manter as leis do Antigo Testamento
explicitamente revogadas pelo Novo Testamento (a circuncisão, as festas
judaicas, o ritual dos sacrifícios do templo, as abluções purificadoras etc.)
também é legalismo.[15]
Seriam necessários estudos detalhados que nos permitissem discernir
exatamente como o Novo Testamento compreende a aliança. Afirmar que os
mandamentos divinos foram revogados sem que a Bíblia ateste isso é uma
posição antinomiana — oposição aberta à Palavra de Deus. Tal atitude
conduz à destruição do indivíduo, da igreja e de todas as instituições
estabelecidas por Deus para pôr sociedade em ordem, a fim de permitir aos
homens viver e viver felizes.
Assim, a consequência do legalismo laico, a saber: a salvação profana feita
por obras sociais, econômicas, educativas, psicológicas, políticas, técnicas e
científicas, sem Deus e fora do contexto da lei divina, significa de fato a
constituição da providência estatal em que a a providência divina é
substituída pela planificação do homem, e a redenção operada por Jesus
Cristo na cruz é substituída pela obra humana autossalvadora. O
antinomianismo, marca do cristianismo apóstata, muito colaborou para abrir
essa via. O Estado provedor cresceu com a rejeição cristã da obediência
devida às leis divinas — a obediência que deveria tê-los conduzido às
inumeráveis obras sociais e educativas abandonadas ao Estado.
Assim, o Estado, ao assumir toda sorte de funções sociais e econômicas que
não lhe são próprias, apenas obedece à sua tarefa fundamental: exercer a
justiça. Pois a função do Estado não é recriar o homem em sentido social ou
individual, apenas punir os malfeitores e, assim, permitir às pessoas de bem
que cuidem com tranquilidade de suas coisas. O Estado fiel à função
designada por Deus não deve em nenhum caso substituir as instituições
estabelecidas pelo Criador: a família, a igreja e todas as associações que o
homem cria em conformidade com a lei divina.[16] Qual foi o efeito do
antinomianismo cristão na elaboração do mundo em que nos vivemos hoje?
A questão da restauração e do desenvolvimento na sociedade moderna dos
princípios da lei bíblica foi, há mais de um século, ignorada no ocidente cristão. Para
muitos aspectos dessa questão isso é verdadeiro há pelo menos três séculos. As
implicações práticas da lei bíblica, como sua aplicação a todas as áreas da vida da
sociedade — incluindo a vida do Estado —, são desconhecidas dos pesquisadores
cristãos e por quem trabalha sob a perspectiva puramente laica. A consequência é
que a falência das estruturas legais positivistas (que nomeamos estado de direito) no
mundo inteiro, falência que se tornou também evidente para eleitores, políticos e
pesquisadores não cristãos, não provocou a reação cristã indispensável [...] Na
verdade, só o restabelecimento da lei bíblica como fundamento do direito tem a
chance de resolver essa crise jurídica em caráter duradouro. Em mais de três séculos,
os cristãos apenas adaptaram as estruturas legais dos respectivos países às normas
humanistas. A consequência é que nos encontramos agora em uma cultura
secularizada em vias de dissolução. Como o sal que perdeu seu sabor, os cristãos, de
fato, perderam toda a capacidade de construir instituições baseadas de forma
explícita sobre os princípios bíblicos.
O ênfase cristã na piedade pessoal e santidade vividas apenas no contexto estrito da
família e da igreja resultou no abandono do mundo às forças demoníacas. Agora que
o mundo está aparentemente nas mãos do diabo, os cristãos se dão conta, de repente,
que as suas igrejas e famílias não estão protegidas da infecção cultural ambiente, que
toma com velocidade a forma de uma epidemia.[17]
O pastor Rousas J. Rushdoony, por sua vez, repara que a inevitável
consequência do esquecimento e do abandono da lei divina como norma de
todas as instituições sociais é a desintegração da sociedade.
À medida que o humanismo espalha seu câncer no mundo inteiro, podemos observar
o desprezo crescente à lei sob todas as formas. O cristianismo evangélico, como a
maioria das manifestações da fé neste século, testemunham o desprezo à lei
decorrente do antinomianismo e humanismo implícitos. Assim eles são afetados pela
doença mortal do humanismo.
A característica da religião antinomiana é sua impotência. Isso implica, na realidade,
na morte da religião, pois renunciar à lei significa rejeitar Deus e a fé, a pretensão da
autoridade final e a soberania absoluta.
É impossível aos homens viver sem lei. O clamor dos antigos persas: somos
homens, dê-nos leis! tornou-se necessidade vital, a fome crescente dos homens do
século XX. E à necessidade da lei, só a lei bíblica pode responder. Todos os outros
sistemas estão completamente derrotados.[18]
O mundo chegou a esse estado de confusão e injustiça por conta do que se
podemos designar demissão da lei nas igrejas.
A Palavra-Lei de Deus, a luz, não brilha mais nas trevas do mundo. A igreja
colocou sua lâmpada sob o alqueire. Não se vê mais a cidade de Deus sobre a
montanha. O mundo, por isso, não possui mais bússola e os homens estão
entregues à anarquia, ao niilismo e às reações arbitrárias do autoritarismo.
Como diz muito bem Jean Brun: na falta de referência verdadeira, absoluta,
passamos diretamente da podridão à ditadura [...] O antinomianismo cristão é
o levedo que corrompe toda a massa. O legalismo arbitrário o imobiliza em
massa totalitária. Estejamos entre quem continua faminto e sedento da justiça
divina. Seremos satisfeitos e nossa sede saciada (Mt 5.6). Então Deus fará de
seus filhos, mais uma vez, a luz do mundo e o sal da terra.
XVI. O lugar das obras na vida cristã para a fé viva e
eficaz
Com a ajuda de Deus, eu gostaria de examinar, de forma breve,
evidentemente, o ensino da Bíblia sobre a questão do papel das obras em
nossa vida de discípulo de Jesus Cristo. Para fazê-lo, meditarei sobre dois
textos do Novo Testamento. O primeiro provém da epístola aos Gálatas, o
segundo, da epístola de Tiago. Os dois textos muitas vezes foram
contrapostos entre si. Veremos que os dois são essenciais para o
florescimento da fé e o progresso da vida cristã. Escolher um dos dois, como
Lutero havia proposto, e rejeitar por um momento a epístola de Tiago como
se não fosse canônica — não é nada além de uma tentação herética, pois a
heresia começa sempre pela valorização exagerada de afirmações bíblicas.
Que Deus nos conceda a graça de pregar integralmente Sua palavra, de não
escolher na Bíblia o que nos convém e evitar, dessa forma, o desequilíbrio
que abre a porta para a heresia, e a todos os desvarios do pensamento e da
ação.
1. Paulo
Aos Gálatas, Paulo dirigie estas palavras capitais:
É o caso de Abraão, que creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça. Sabei,
pois, que os da fé é que são filhos de Abraão. Ora, tendo a Escritura previsto que
Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão
abençoados todos os povos. De modo que os da fé são abençoados com o crente
Abraão. Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque
está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no
Livro da lei, para praticá-las. E é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante
de Deus, porque o justo viverá pela fé. Ora, a lei não procede de fé, mas: Aquele que
observar os seus preceitos por eles viverá. Cristo nos resgatou da maldição da lei,
fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo
aquele que for pendurado em madeiro), para que a bênção de Abraão chegasse aos
gentios, em Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos, pela fé, o Espírito prometido.
(Gl 3.6-14)
O estudo aprofundado do texto nos levará muito longe. É, no entanto, útil
chamar a atenção do leitor para alguns pontos:
Paulo se dirige aqui a um problema específico que atrapalhava e arriscava
corromper a fé dos cristãos da Galácia. O problema era o seguinte:
Como seremos considerados justos diante de Deus?
A resposta carnal, humana, terrestre que escutamos muitas vezes, ainda em
nossos dias, é que o justo diante de Deus é quem obedece aos mandamentos
divinos, o praticante da lei. Essa era a posição dos fariseus que acreditavam
ser justos porque imaginavam colocar em prática, com cuidado, a lei e a
tradição rabínica. Na história da igreja, esse ensino foi retomado por Pelágio
que, em oposição a Agostinho, afirmava a capacidade natural do homem
pecador de agradar a Deus. Mais tarde, o semipelagianismo de Tomás de
Aquino desenvolveu a posição teológica segundo a qual o homem, por suas
obras, com o auxílio da graça, poderia agradar a Deus.
O arminianismo reformado e evangélico se encontra também diante da
mesma tradição quando enfatiza a decisão humana na obra da salvação. Em
nossos dias, na vida do mundo moderno, encontramos, de forma secularizada,
este ensino da salvação pelas obras da lei ou pela vontade do homem.
Citemos alguns exemplos:
▪ a solução de todos os nossos problemas por meio de técnicas;
▪ a transformação do mundo pela varinha mágica das leis do Estado;
▪ o restabelecimento da personalidade humana pela manipulação psicológica,
psicanálise etc.;
▪ o desenvolvimento das crianças por métodos pedagógicos;
▪ toda a ideologia do progresso repousa sobre a salvação puramente humana.
No plano religioso, todas as religiões esotéricas inspiradas pela mística
natural do homem pecador são dessa ordem. Seus símbolos não são a cruz de
Cristo, mas a roda dentada do Rotary, o esquadro e o compasso dos maçons e
o martelo e a foice do império anticristão.
O homem imagina poder alcançar a Deus ao desenvolver o que chama
centelha divina e deixar de lado a ruptura necessária com o pecado e com o
homem natural. A cruz, em que o velho homem foi crucificado com Jesus
Cristo, é assim esvaziada de sentido, e om florescimento do eu é preconizado
sem arrependimento, vida nova e regeneração.
Para Paulo isso é completamente diferente: “Abraão creu em Deus, e isso lhe
foi imputado para justiça” (v. 6). Só “os da fé é que são filhos de Abraão”
(v. 7). “Em ti, serão abençoados todos os povos” (v. 9), porque “o justo
viverá pela fé” (v. 11). Cristo é maldito para nós “a fim que a bênção de
Abraão chegasse aos gentios, em Jesus Cristo”. Assim, pela fé — dom de
Deus e pura graça, sem o acréscimo de nossas obras — somos considerados
justos diante de Deus.
Nossa justiça não está em nós, mas em Cristo. Cristo nos foi dado como
justiça perfeita e olhando para a perfeição do Filho o Pai nos vê justos diante
dele. Quando Jesus Cristo toma nosso pecado sobre si, transfere para nós sua
justiça perfeita! É a doutrina da substituição.
Todos os que confiam no homem e aderem, de uma forma ou outra, à
salvação pela vontade humana e pelas obras carnais, são malditos: “Cristo
nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso
lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em
madeiro)” (v. 10).
Só um homem, nosso Senhor Jesus Cristo, cumpriu perfeitamente a lei, e
nossa justiça só pode se encontrar nessa perfeita identificação — pela fé, dom
de Deus — com Jesus Cristo.
Assim, tornamo-nos a mesma planta com ele. Ele é a videira, nós os brotos.
Ele é o tronco, nós os galhos. Ele é o cabeça, nós somos os membros do
corpo. Ele é o fundamento, nós somos as pedras com as quais Deus edificou
sua casa. A salvação pelas obras da lei, defendida pelos gálatas, regulava a
passagem necessária do reino de Satanás ao reino de Deus, da escravidão do
pecado à liberdade gloriosa dos filhos de Deus. É o que Paulo chama ser
escravo do Jesus Cristo.
2. Tiago
O apóstolo Tiago nos fala das realidades da vida cristã prática e ativa. Esta é
a segunda passagem sobre a qual gostaríamos de meditar:
Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras?
Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos
de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide
em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo,
qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta.
Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem as obras, e
eu, com as obras, te mostrarei a minha fé. Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem.
Até os demônios creem e tremem. Queres, pois, ficar certo, ó homem insensato, de
que a fé sem as obras é inoperante? Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi
justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque? Vês como a fé
operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se
consumou, e se cumpriu a Escritura, a qual diz: Ora, Abraão creu em Deus, e isso
lhe foi imputado para justiça; e: Foi chamado amigo de Deus. Verificais que uma
pessoa é justificada por obras e não por fé somente. De igual modo, não foi também
justificada por obras a meretriz Raabe, quando acolheu os emissários e os fez partir
por outro caminho? Porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim
também a fé sem obras é morta. (Tg 2.14-26)
No final do texto nos é dito que o fruto da bênção de Abraão encontra a
realização em Jesus Cristo na recepção pela fé do Espírito que nos foi
prometido.
Porque, então, Deus nos concede seu Espírito? Paulo nos diz isso claramente
no início do capítulo 8 de Romanos:
Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da
morte. Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne, isso
fez Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no
tocante ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado, a fim de que o
preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo
o Espírito. (Rm 8.2-4)
O apóstolo Tiago lida com a questão do cumprimento da justiça da lei em nós
no texto sobre o qual iremos meditar em breve. Se nossas obras e até mesmo,
e principalmente, nossas boas obras, não nos tornam justos diante de Deus,
somos então justos diante de Deus sem as obras de justiça provenientes da fé?
O que fizemos do talento recebido gratuitamente do qual nos fala a Palavra?
Nossos brotos produzem frutos ou são estéreis, prontos para serem
arrancados e queimados? Onde estão então as obras preparadas por Deus para
nós antes da fundação do mundo a fim que as pratiquemos? Somos um sal
sem sabor, pronto para ser lançado fora? No último dia, seremos encontrados
nus ou vestidos de fino linho? Estaremos entre as virgens insensatas na porta
do palácio do rei ou com as virgens sábias que se reúnem ao esposo no salão
de festas?
Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe a glória, porque são chegadas as bodas do
Cordeiro, cuja esposa a si mesma já se ataviou, pois lhe foi dado vestir-se de linho
finíssimo, resplandecente e puro. Porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos
santos. (Ap 19.7,8)
Alguns têm aparência de piedade mas não possuem o que realmente a move.
O que faz a força da piedade? A verdadeira fé se manifesta na obediência aos
mandamentos divinos. A vida cristã pode ser resumida em dois pontos: A
“perseverança e a fé” (Ap 13.10), ou ainda: “guardar os mandamentos de
Deus e o testemunho de Jesus” (Ap 12.17).
Pela fé, recebemos o Espírito de Deus que nos dá a força para vivermos em
novidade de vida. A novidade de vida se caracteriza pela capacidade,
proveniente do Espírito, de guardar os mandamentos de Deus, de perseverar
até o fim na verdadeira fé. Calvino não dizia que a prova da eleição se
encontrava na perseverança dos santos? O Espírito Santo produz em nós o
querer e o fazer, a fim de trabalharmos cada vez mais, com temor e tremor,
para nossa salvação e a vinda do reino de nosso Senhor Jesus Cristo. Assim,
as obras justas dos santos, o progresso em direção ao cumprimento dos
mandamentos divinos — não significam nada além eo amor a Deus e ao
próximo — são a manifestação visível, tangível, mensurável, pode-se dizer,
da justificação. À justificação se soma a santificação e, lembremo-nos, sem
santificação ninguém verá a Deus. É da santificação, pela obediência à
verdade, pela prática em Cristo e pelo Espírito dos mandamentos de Deus, da
qual nos fala o apóstolo Tiago.
O que ele nos diz? Não serve para nada ter fé sem as obras advindas
necessariamente dela. Como imaginar o recebimento do Espírito Santo sem a
manifestação de seus frutos? Da fé que salva vem o amor que age no mundo
— amor capaz de socorrer o aflito. A fé em si mesma é invisível, mas os não
crentes e os crentes podem ver o fruto nas obras produzidas pela fé ao
inspirar o amor fraternal, o amor ao próximo — ou a ausência dele. Ao
observar as obras, testemunhas da verdade, que os homens se voltam para o
Deus vivo e verdadeiro. Jesus nos diz:
Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto; e assim vos tornareis meus
discípulos. (João 15.8)
E a seus discípulos:
Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas
obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus. (Mt 5.16; Pe 2.12)
Não basta ser cristão só por profissão de fé; é necessário sê-lo de fato, por
atos e em verdade. Assim, Tiago nos diz: “A fé, se não tiver obras, por si só
está morta” (v. 17). A fé sem obras é inexistente — trata-se da
superespiritualidade pietista da ortodoxia aparente e sem substância, ou a
excitação carismática sem futuro — mas as obras testemunham bem alto, de
forma perfeitamente clara, da fé (v. 18). O próprio diabo tem essa fé-crença
em Deus, mas o que lhe falta — que Deus nos livre de sermos como ele — é
a fé-obediência (v. 19). A fé, sem as obras que produzem a verdadeira fé, é
inútil. A justificação de Abraão pela fé na promessa de Deus foi manifestada
de forma clara quando ele ofereceu Isaque em sacrifício (v. 21). “A fé
operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se
consumou” (v. 22). Por meio da obediência da fé Abraão entrou na amizade
de Deus, amizade que Deus queria também compartilhar conosco! Assim o
“homem é justificado” — no sentido completo da palavra, justificação que se
prolonga na santificação — “pelas obras, e não somente pela fé” (v. 24).
Assim, como o “corpo sem alma está morto, da mesma forma, a fé sem obras
é morta” (v. 26).
Conclusão
Aonde chegamos? Examinemo-nos, portanto, segundo a exortação do
apóstolo Paulo para ver se estamos na fé! Nossos atos falarão por nós ou
contra nós.
De minha parte, devo confessar e constatar que, nos meios que reivindicam a
Reforma, a ênfase muito exclusiva colocada apenas na justificação pela fé
conduziu o cristianismo evangélico, e a mim mesmo em primeiro lugar, a
ignorar o ensino bíblico concernente às obras que devem necessariamente
provir da fé verdadeira, da fé santa. Onde estão então as obras cristãs de
nossa época?
Vamos apresentar alguns exemplos:
1. A assistência obrigatória aos idosos substitui o amor filial, o auxílio
concreto e o respeito aos pais idosos que se tornaram incapaz de arcar com
suas necessidades.
2. A escola pública humanista, ímpia, frequentemente imoral e ineficaz como
meio de instrução, substitui as obras pedagógicas cristãs em que as crianças
deveriam ser instruídas segundo a Lei de Deus e educadas no Senhor.
3. O cuidado dos doentes é deixado para instituições sem Deus, e os hospitais
humanistas se tornaram centros de aborto e eutanásia, fornos crematórios em
todas as cidades, aceitos tacitamente por todos. Além disso, alguns sábios se
tomam por pequenos deuses de roupas brancas, entraram na aventura
faustiana da manipulação genética da vida humana.
4. Nos sanatórios psiquiátricos, o amor cristão e o poder da oração foram
substituídos pela manipulação psicológica, os eletrochoques e as drogas para
o tratamento dos doentes mentais. Sabemos que a fonte primária de seus
males se encontra no pecado, e que a cura vem primeiramente do
arrependimento e da fé em Jesus Cristo.
5. Aparentemente, agora a família desaparecerá com o novo código de
matrimônio de nosso país. As igrejas evangélicas suíças assistiram, sem se
mover, à adoção por nosso povo da legislação que institucionaliza o domínio
do Estado sobre a família.
O exemplos dos efeitos nefastos dessa fé, ao mesmo tempo inútil e vã sem as
obras da fé, poderiam ser multiplicados. Compreendemos melhor hoje porque
Jesus se perguntava se em seu retorno haveria fé sobre a terra! Assim, a
renúncia da igreja da responsabilidade de obedecer ao Senhor, sob o pretexto
de espiritualidade, entrega nosso mundo a Satanás e prepara o caminho para o
anticristo.
Entretanto, a igreja pode ainda se arrepender e voltar à fé verdadeira que
consiste em fidelidade e obediência. Que o Senhor — que em sua
misericórdia fala ainda às igrejas — conduza seu povo a examinar seus
caminhos com cuidado e a voltar à porta estreita, a fé em Jesus Cristo, Filho
de Deus feito homem para nossa justificação, e ao caminho estreito — o da
verdadeira santificação — da obediência aos mandamentos divinos em todas
as áreas. A igreja fiel verá de novo que as portas do inferno não prevalecerão
contra si, pois em seu meio está o Senhor, o Criador do céu e da terra, nosso
Rei e Salvador Jesus Cristo.
Ao vencedor, que guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei autoridade sobre
as nações, e com cetro de ferro as regerá e as reduzirá a pedaços como se fossem
objetos de barro; assim como também eu recebi de meu Pai, dar-lhe-ei ainda a
estrela da manhã. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. (Ap 2.26-
29)
XVII. Sobre o bom uso da Lei de Deus
Podemos agora nos perguntar sobre o uso da Lei de Deus. Eis o que nos diz
Paulo, no capítulo 7 da epístola aos Romanos:
Por conseguinte, a lei é santa; e o mandamento, santo, e justo, e bom. (v. 12)
Porque bem sabemos que a lei é espiritual. (v. 14)
Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. (v. 16)
Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na Lei de Deus. (v. 22)
Em um único capítulo, não menos de 4 vezes, Paulo dá a sua aprovação à Lei
de Deus, segundo ele, santa, justa e boa, lei que nomeia espiritual e na qual,
afirma, seu homem interior[19] tem prazer. Não, Paulo, da mesma forma que
Jesus Cristo, não quer aniquilar ou desprezar a lei. O próprio Jesus Cristo
afirma:
Não penseis que vim revogar a lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para
cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou
um til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra. (Mt 5.15.18)
O pastor Rushdoony comenta estes versículos e, em particular, as duas
palavras gregas que traduzimos como cumprir:
A palavra traduzida como cumprir no versículo 17 é plerosai, ligada à pleroma; ela
significa encher até as bordas, fazer com que algo se torne cheio, transbordar,
sobejar, penetrar em todos os lugares. Diz-se que os cristãos devem ser plerousthai,
cheios do poder do Espírito (Cl 2.10; Ef 3.19), Cristo enche o universo de seu poder
e de sua ação (Ef 4.10, pleroun). A palavra quer dizer encher e conservar cheio, isto
é, realizar algo de forma constante. Assim, nosso Senhor declarou que tinha vindo
cumprir a lei e manter o cumprimento.
No versículo 18, a palavra utilizada (que traduzimos também como cumprir) é
genetai de ginomai que significa se tornar, chegar a, se produzir, acontecer.
Consequentemente, a lei se tornará a realidade da vida do mundo até o fim do
mundo. Isso nos oferece uma perspectiva sobre o sentido da expressão cumprir de
modo muito diferente das interpretações que a traduzem pelas palavras terminar ou
pôr fim. Segundo esta tradução, o cumprimento da lei estaria terminado.[20]
O apóstolo Paulo, por sua vez, exclama em Romanos: “Anulamos, pois, a lei
pela fé? Não, de maneira nenhuma! Antes, confirmamos a lei” (Rm 3.31).
Frédéric Godet comenta aqui a palavra que traduzimos como confirmamos.
Leiamos sua explicação:
O verbo istanomen não significa conservar, manter, mas erigir, estabelecer. É o que
faz Paulo em relação à lei; ele a estabelece como algo novo pela justiça da fé, que se
harmoniza tão bem com a condenação universal, consequência da lei, quanto com o
monoteísmo que está na sua base.[21]
Assim, a justiça da fé ensinada por Paulo é atestada pela lei, pois se conforma
com a condenação universal sob a qual a lei coloca o mundo inteiro;
porquanto, se houvesse uma exceção à justiça oferecida gratuitamente — o
corolário da condenação —, a unidade de Deus, princípio fundamental da lei,
estaria comprometida.[22]
Assim, em vez de abolir a lei, a fé lhe dá força, mantém e estabelece. A fé
não se opõe à lei, ela alcança o objetivo estabelecido pela lei. O professor
Pierre Courthial mostra isso de forma muito clara no estudo intitulado Le
fondement et les rôles de la loi morale [O fundamento e os papéis da lei
moral]:
Cristo Jesus, em sua dupla obediência: passiva — sob a condenação da lei que
tomou sobre si — e ativa — na fidelidade à lei — é o nó vivo da lei e do evangelho,
do evangelho e da lei. Cristo Jesus revela, assim, o conjunto lei-evangelho-lei em
plenitude e magnitude. Em Jesus Cristo, Salvador e Senhor, o evangelho é
verdadeiramente uma boa-nova para o homem e a lei é de fato uma boa-nova. Jesus
disse: “Novo mandamento vos dou” (Jo 13.34), o que João comenta de maneira
paradoxal dizendo: “Amados, não vos escrevo mandamento novo, senão
mandamento antigo, o qual, desde o princípio, tivestes. Esse mandamento antigo é a
palavra que ouvistes. Todavia, vos escrevo novo mandamento, aquilo que é
verdadeiro nele e em vós, porque as trevas se vão dissipando, e a verdadeira luz já
brilha” (1Jo 2.7,8). Em Cristo e por ele, a lei antiga de Deus se torna completamente
nova, apenas porque alguém a cumpriu por nós, em verdade e pela vitória da graça
redentora do Senhor — vitória que é nossa fé atuante pelo amor de Deus e de sua
vontade e por nosso amor ao próximo (1Jo 5.3,4; Gl 5.6; Tg 2.14).[23]
Podemos agora fazer a pergunta fundamental: Se a fé e a graça não anulam a
lei, mas a cumprem, a confirmam, qual é então o papel preciso da lei divina
na vida cristã? É ainda o apóstolo Paulo que esclarece esta questão. Ele
escreve a Timóteo:
Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela se utiliza de modo legítimo, tendo
em vista que não se promulga lei para quem é justo, mas para transgressores e
rebeldes, irreverentes e pecadores, ímpios e profanos, parricidas e matricidas,
homicidas, impuros, sodomitas, raptores de homens, mentirosos, perjuros e para
tudo quanto se opõe à sã doutrina, segundo o evangelho da glória do Deus bendito,
do qual fui encarregado. (1Tm 1.8-11)
A lei, nos diz Paulo, é para os pecadores. Acompanhemos sua argumentação:
Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale
toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus, visto que ninguém será
justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno
conhecimento do pecado. (Rm 3.19,20)
Que diremos, pois? É a lei pecado? De modo nenhum! Mas eu não teria conhecido o
pecado, senão por intermédio da lei. (Rm 7.7)
Eis a utilidade da lei: tornar conhecido ao homem seu pecado.[24] A lei, dada
por Deus, nos permite distinguir o bem do mal. Quem então, sem ser
mentiroso, pode pretender ser isentp de pecado enquanto vive na terra? Quem
ousará pensar que pode dispensar a lei para conhecer seu erro? O cristão que
afirma não ter mais necessidade do ministério da lei incorre no angelismo.
Ele pensa já ser perfeito, sem pecado. A Escritura nos diz que tal cristão não
passa de um mentiroso:
Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a
verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para
nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. Se dissermos que não temos
cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós. (1Jo 1.8-10)
Como Cristo pode perdoar nossos pecados e nos purificar se não os
confessamos a ele? E como os confessaremos a ele, se não os reconhecemos?
E como reconhecê-los se a lei que dá o conhecimento do pecado não
esclarece nossa consciência pela ação do Santo Espírito que aplica em nós a
Lei de Deus? Entretanto, a lei não pode nos justificar, não é seu papel. Cristo
justifica, imputa sua justiça ao crente. A lei não pode nos tornar justos diante
de Deus nem nos dar a capacidade de cumprir as obras de justiça que ela
exige de nós. Ao contrário, ela nos declara culpados e nos cala (Rm 3.19).
Por seu ministério, o mundo inteiro é declarado culpado diante de Deus.
Assim, é impossível ao pecador ser justificado pelas obras da lei. O que ela
oferece é a medida, a regra imutável que define de uma vez por todas a
diferença que separa o bem do mal; e esta regra condena o homem pecador.
Paulo afirma isso com clareza:
Todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado. (Rm 3.9)
Portanto, assim como por um só homem (Adão) entrou o pecado no mundo, e pelo
pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos
pecaram. (Rm 5.12)
Porque Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para
com todos. (Rm 11.32)
O ministério da lei, afirma Paulo ao escrever ao Coríntios, é o “ministério da
morte” (2Co 3.7). O ministério da condenação (v. 9) que deveria passar
(v. 11) é o da letra que mata (v. 6). A obra indispensável da lei, a letra letal, é
na verdade, nos matar, matar o velho homem, o pecado, a força que habita
em nós, enfim, nossa carne. A morte de nossa carne se efetuou na pessoa de
Jesus Cristo “feito pecado por nós” (2Co 5.21) na cruz do Calvário. Este
ministério não pode nos dar a vida, mas sem ele, este pedagogo que nos
conduz a Cristo (Gl 3.24), sem o ministério do regime ultrapassado que nos
mantinha cativos ao pecado (Rm 7.6), não pode haver arrependimento,
conversão, cumprimento das promessas, justificação, justiça efetiva,
regeneração, adoção, santificação e ministério do Espírito de vida que, por
Cristo em nós, cumpre a obra de obediência à Lei de Deus, que permanecerá
eternamente para a glória do Pai.[25]
A lei revela nosso pecado. Ela nos leva ao arrependimento e nos abre o
caminho da justificação em Cristo. Mas uma vez justificados, a lei nos revela
ainda nosso pecado. Ele nos leva sempre ao arrependimento e abre o caminho
da justiça efetiva, da santificação em Cristo. Sem a pregação da lei, não pode
haver justificação nem santificação. Isto é, sem a lei, não há salvação! Pois,
como nos diz Paulo: “Porque os simples ouvidores da lei não são justos
diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados” (Rm 2.13).
Uma vez justificados pela fé em Cristo, tornamo-nos efetivamente justos, isto
é, capazes de, pelo Espírito, colocar em prática os mandamentos de Deus.
Mas a pregação da lei revela também a força terrível no homem pecador.
Porque, quando vivíamos segundo a carne, as paixões pecaminosas postas em realce
pela lei operavam em nossos membros, a fim de frutificarem para a morte. (Rm 7.5)
o pecado, para revelar-se como pecado, por meio de uma coisa boa, causou-me a
morte, a fim de que, pelo mandamento, se mostrasse sobremaneira maligno.
(Rm 7.13)
Assim desvelamos a incapacidade profunda do homem pecador — do velho
homem atual — de cumprir a justiça requerida pela lei divina, porque isso era
impossível para a lei, “no que estava enferma pela carne” (Rm 7.18). Assim,
contrariamente ao que ensinam muitos antinomianas, a lei não é maldita, nós,
homens fora da justiça de Cristo, jazemos sob a maldição justa, santa, boa e
espiritual da lei divina. Paulo não escreve que fomos comprados da lei
maldita, mas que “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele
próprio maldição em nosso lugar” (Gl 3.13).
Mais à frente, na carta aos Gálatas, acrescenta: “É, porventura, a lei contrária
às promessas de Deus? De modo nenhum! Porque, se fosse promulgada uma
lei que pudesse dar vida, a justiça, na verdade, seria procedente de lei”
(Gl 3.21).
Não, a justiça não vem da lei. Ela não foi dada para isso. A justiça provém da
fé em Jesus Cristo. É necessária a justificação antes de cumprir as obras de
justiça. A justificação só pode ser cumprida na fé em Cristo; ele carregou a
completa maldição que merecíamos. E Cristo nos imputa gratuitamente, sem
nenhuma obra de nossa parte, sua perfeita justiça, sua prática perfeita da Lei
de Deus. Os gálatas queriam ser justificados pela própria obediência às
prescrições rituais da lei divina. Paulo afirmou exatamente isso aos cristãos
da Galácia:
De Cristo vos desligastes, vós que procurais justificar-vos na lei; da graça decaístes.
Porque nós, pelo Espírito, aguardamos a esperança da justiça que provém da fé.
(Gl 5.4,5)
sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a
fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos
justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém
será justificado. (Gl 2.16)
À vista disso, o que é a justiça da qual nos revestimos em Jesus Cristo? Nada
mais que a obediência à lei prescrita por Deus, o que não podíamos cumprir
outrora:
Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne, isso fez
Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante
ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado, a fim de que o
preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo
o Espírito. (Rm 8.3,4)
Desse modo, o objetivo da obra expiatória de Cristo na cruz é simplesmente
que a justiça prescrita pela lei se cumprisse em nós. Isto é, que o reino de
Deus viesse, porque sua vontade é feita por nós sobre a terra como nos céus.
O que a carne não pôde cumprir, Cristo cumpriu. Ele nos enviou o Espírito
Santo para terminar a obra em nós. Fica evidente, assim, que a ordem do
reino de Deus não é outra além da ordem da Lei de Deus. Portanto, quem
opõe lei e fé, lei e graça, lei e amor, combate a própria obra de Cristo na cruz.
Se não estamos mais sob a lei (Rm 3.19; 6.14; 1Co 9.20; Gl 4.5), como Paulo
afirma tanta vezes, é porque agora, em Cristo, não vivemos mais sob a
condenação exterior de uma lei que nos é exterior: “Agora, pois, já nenhuma
condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1).
Tudo o que, em nós, não está ainda em Jesus Cristo, é pecado, carne, velho
homem, homem carnal. Tudo isso está ainda sob a lei, sob a condenação da
lei, enquanto não passar pela cruz e a ressureição, pela condenação da lei e a
justificação da graça pela fé em Jesus Cristo. Enquanto o pecado não for
confessado a Deus e purificado pelo sangue de Cristo, ele continua sob a lei.
O mesmo ocorre com o velho homem, se não o fizermos morrer a morte de
Cristo todos os dias: “Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem
na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante
Deus” (Rm 3.19).
Mas para todo o que está em Cristo, não há mais condenação. Isso não
significa que agora, sob a graça, sejamos “sem lei” (anomos, 2Ts 2.3,8), mas
porque a lei, antes acima de nós como um tribunal divino, para nos condenar
por suas exigências santas, espirituais e justas, está agora, pelo Espírito, pela
fé em Jesus Cristo, em nós!
A Lei de Deus agora age e vive em nós, pois a carne que a tornava impotente
foi crucificada com Cristo. É esta mesma lei que Paulo chama a lei do
espírito de vida (Rm 8.2), a lei de Cristo (Gl 6.2) e que Tiago nomeia, por
sua vez, a lei feita, a lei da liberdade (Tg 1.25) e a lei real (Tg 2.8). Trata-se
sempre da mesma Lei de Deus, mas que agora age e vive em nós: “estando já
manifestos como carta de Cristo, produzida pelo nosso ministério, escrita não
com tinta, mas pelo Espírito do Deus vivente, não em tábuas de pedra, mas
em tábuas de carne, isto é, nos corações” (2Co 3.3).
E, para explicar o sentido do texto, o autor da epístola aos Hebreus, cita
Jeremias 31.33, 34, passagem que nos fala da nova aliança que Deus
estabelecerá com seu povo:
Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o
Senhor: na sua mente imprimirei as minhas leis, também sobre o seu coração as
inscreverei; e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. E não ensinará jamais
cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor;
porque todos me conhecerão, desde o menor deles até ao maior. Pois, para com as
suas iniquidades, usarei de misericórdia e dos seus pecados jamais me lembrarei.
Quando ele diz Nova, torna antiquada a primeira. Ora, aquilo que se torna antiquado
e envelhecido está prestes a desaparecer. (Hb 8.10-13; 10.16; Jr 31.31-34)
E lemos ainda em Romanos as palavras de Paulo a citar a lei — no caso,
Deuteronômio — para definir a justiça da fé:
Mas a justiça decorrente da fé assim diz: Não perguntes em teu coração: Quem
subirá ao céu?, isto é, para trazer do alto a Cristo; ou: Quem descerá ao abismo?, isto
é, para levantar Cristo dentre os mortos. Porém que se diz? A palavra está perto de
ti, na tua boca e no teu coração; isto é, a palavra da fé que pregamos. (Rm 10.6-8)
Em Deuteronômio podemos ler:
Porque este mandamento que, hoje, te ordeno não é demasiado difícil, nem está
longe de ti. Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo
traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Nem está além do mar, para
dizeres: Quem passará por nós além do mar que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para
que o cumpramos? Pois esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu
coração, para a cumprires. (Dt 30.11-14)
Notemos particularmente que, para definir a justiça que vem da fé, Paulo cita
um texto da lei divina dada por Moisés! Paulo fala assim com respeito aos
judeus: “E Israel, que buscava a lei de justiça, não chegou a atingir essa lei.
Por quê? Porque não decorreu da fé, e sim como que das obras”
(Rm 9.31,32).
Por procurarem a justificação nas obras da lei, esqueceram-se que a lei divina
fora dada como luz para seu caminho e não como meio de salvação. Paulo
não condena de forma alguma a lei da justiça buscada pelos israelitas, mas a
forma pela qual buscavam alcançá-la, pelas obras carnais e pecadoras, e não
pela fé em Jesus Cristo — a imputação gratuita da obra perfeita de Jesus:
“Porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua
própria, não se sujeitaram à que vem de Deus. Porque o fim da lei é Cristo,
para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.3,4).
Todavia, a justificação real implica a renovação da inteligência, vontade, das
emoções, do ser todo: corpo, alma e espírito, e também o fato de fazermos
todas as coisas para a glória de Deus. Para o cristão justificado, toda a Lei de
Deus se torna a luz sobre seu caminho da qual nos fala o salmista, luz para
todas as circunstâncias da vida, para todas as áreas de ação. Por isso Paulo
exorta os cristãos de Roma: “E não vos conformeis com este século, mas
transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual
seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2).
A vontade boa e perfeita de Deus nos é revelada na Escritura sagrada e
sabemos que foi (incluindo-se obviamente a lei) “inspirada por Deus e útil
para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça,
a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para
toda boa obra” (2Tm 3.16,17).
Como afirma tão claramente a epístola aos Hebreus, só pelo exercício assíduo
e meditação dia e noite da lei divina (Sl 1.2) conseguiremos nos tornar
adultos na fé: “Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que,
pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o
bem, mas também o mal” (Hb 5.14).
Assim, o conhecimento da lei, pelo qual se inicia a fé cristã, é também o sinal
da maturidade do cristão que sabe, em todas as circunstâncias da vida,
distinguir o bem do mal. Ele conhece a fundo o instrumento inspirado por
Deus para discernir o bem do mal: a lei divina. Assim, poderá ser útil à
edificação do reino de Deus: armado com a espada do Espírito da Palavra
divina, poderá andar como o maior dos apóstolos que escreveu estas palavras
tão atuais e penetrantes à igreja de Corinto:
Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas
da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas,
anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus,
e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo. (2Co 10.3-5)
A restauração da pregação da lei divina nas igrejas os levará ao
restabelecimento da visão combativa e vitoriosa de Paulo, a fim de levar ao
mundo a boa-nova do reino de Deus, o bom perfume de Cristo, odor de vida
para alguns e de morte para outros — sem o qual nossos contemporâneos
perecem em seus pecados, sem o qual todas as nações se dirigem para a
ruína.
Conclusão
“Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a
fé em Jesus”. (Ap 14.12)
Estes são os dois elementos fundamentais da obra de Deus. Separá-los
significaria destruir os desígnios divinos. A fé em Jesus produz como fruto a
obediência aos mandamentos de Deus. A fé em Jesus sem a obediência aos
mandamentos divinos não passa de mentira e hipocrisia. A observação dos
mandamentos de Deus sem a fé em Jesus não passa de engano e ilusão. A
verdadeira fé em Jesus conduz necessariamente às obras da fé: “Assim,
também a fé, se não tiver obras, por si só está morta” (Tg 2.17,26).
As obras da fé não são nada além d a obediência pela fé aos mandamentos de
Deus. A fé foi dada para isso e nisso consiste o reino de Deus: “justiça, e paz,
e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). É o que nos mostra o apóstolo Paulo
quando escreve: “Pois nem a circuncisão é coisa alguma, nem a
incircuncisão, mas o ser nova criatura” (Gl 6.15).
Mas ele escreve, além disso, um paralelo impressionante: “A circuncisão, em
si, não é nada; a incircuncisão também nada é, mas o que vale é guardar as
ordenanças de Deus” (1Co 7.19).
E ainda em Gálatas, ele reúne a fé e a observação da lei neste resumo
extraordinário: “Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a
incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor” (Gl 5.6).
Lembremos-nos bem: o amor, segundo a Palavra de Deus, não é nada além
do cumprimento dos mandamentos da lei divina: “Porque este é o amor de
Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1Jo 5.3).
A ligação estabelecida por Paulo entre a fé e a lei é imediatamente
confirmada por João, quando escreve:
Os seus mandamentos não são penosos, porque todo o que é nascido de Deus vence
o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. Quem é o que vence o
mundo, senão aquele que crê ser Jesus o Filho de Deus? (1Jo 5.4,5)
Foi pela obra da lei, sem a qual nenhuma santificação é possível, que se deu o
arrependimento dos pagãos. Se sabemos que sem justificação nenhum
homem pode escapar da ira divina, também temos conhecimento que sem a
santificação ninguém verá a Deus, pois Deus é santo e nos diz: “Eu sou o
SENHOR, vosso Deus; portanto, vós vos consagrareis e sereis santos, porque eu
sou santo” (Lv 11.44).
O Novo Testamento confirma uma vez mais o Antigo, o evangelho, a lei,
quando Pedro escreve: “Pelo contrário, segundo é santo aquele que vos
chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso
procedimento, porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo”
(1Pe 1.15,16).
Devemos confessar a Deus, nos humilharmos e nos arrependermos disso: a
obra da evangelização tem problemas porque a igreja negligencia os
mandamentos de Deus e não prega mais sua lei. Se a igreja não prega mais a
lei, sem a qual ninguém pode ser levado a Jesus Cristo, é também porque
negligenciou o ensino dos mandamentos divinos: retirar o mal do meio dela.
Assim, ela rejeita a própria santificação. Devemos ouvir aqui o salmista
quando exclama: “Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos
ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos
escarnecedores. Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita
de dia e de noite” (Sl 1.1,2).
A beatitude é retomada pelo apóstolo Tiago:
Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a
vós mesmos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não praticante, assemelha-se
ao homem que contempla, num espelho, o seu rosto natural; pois a si mesmo se
contempla, e se retira, e para logo se esquece de como era a sua aparência. Mas
aquele que considera, atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera,
não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante, esse será bem-aventurado no
que realizar. (Tg 1.22-25)
Nós não negligenciamos apenas “os preceitos mais importantes da lei: a
justiça, a misericórdia e a fé” (Mt 23.23) segundo Jesus, também omitimos o
restante, esquecendo que, na verdade, “até que o céu e a terra passem, nem
um i ou um til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra” (Mt 5.18).
Preferimos ser os menores no reino de Deus, quem ensina aos homens — e
aos cristãos — a violar os mandamentos de Deus, grandes ou pequenos, ou
desejamos ser como homens feitos, cristãos adultos, que observam e ensinam
a igreja e a todas as nações a obedecer toda a Lei de Deus, toda a Palavra
divina? Com a inteligência treinada para ver com clareza e rapidez o abismo
que separa o bem do mal, eles ensinarão a justiça aos homens e estarão entre
os importantes no reino de Deus. Pois, para eles, o temor e o amor a Deus
caminham de mãos dadas com o respeito e o amor à sua Palavra, lei e
mandamentos — toda a Escritura sagrada e inspirada por Deus.
XVIII. Aforismos cristãos sobre a lei, os costumes, a
[26]
moral e o direito
I. A fonte última de toda lei
Nos planos moral e jurídico, a fonte última de toda lei justa é a lei divina
infalivelmente revelada nas Escrituras sagradas. Ela reflete o caráter santo e
justo de Deus, expressa a ordem desejada pelo Criador para a existência de
suas criaturas.
II. A lei e a graça
Moral ou jurídica, a lei divina não pode, sem a ação da graça, aperfeiçoar o
homem, torná-lo melhor ou mais justo. A lei divina, a lei moral e o direito
não são capazes de salvar o homem. Nos planos individual e social, só a
graça de Deus é salvadora.
III. A tarefa educativa da lei divina
Estabelecer com exatidão a diferença entre o bem e o mal, nos planos
espiritual e pessoal, social e jurídico, esta é a tarefa educativa da lei.
IV. A função repressiva da lei divina
A lei divina é a norma da moral e do direito. Na aplicação social pelas
autoridades estabelecidas por Deus, a função essencial é reprimir, restringir e
limitar pela força a expressão pública do mal, em todos os grupos que
compõe a sociedade: da família ao Estado. A ação repressiva justa estimula
os praticantes do bem: só a repressão eficaz do mal garantirá a liberdade
social.
V. A função ordenadora da lei divina
Para além da vida moral individual e da ação jurídica dos tribunais, a lei
divina ordena toda a vida da sociedade e das coletividades que a compõe, do
indivíduo ao Estado: família, trabalho, empresa, escola, igreja etc. Da mesma
forma que a família, como uma pequena república,[27] deve exercer os
poderes jurídico, legislativo, executivo, educativo e repressivo nos limites de
suas prerrogativas.
VI. Toda a lei se refere à noção de bem e mal
Sendo impossível legislar a vida moral dos homens — pois a virtude não é
criada por imposições jurídicas — é também impossível retirar de qualquer
lei o caráter moral intrínseco, a necessária e inevitável referência à noção de
bem e mal. Escrita ou não, toda lei que se aplica a qualquer de nossas esferas
de atividade se refere obrigatoriamente à distinção entre bem e mal.
Portanto, se a noção de bem e de mal, que orienta as leis da sociedade, não
corresponde mais aos critérios bíblicos e, em consequência, divinos, o
exercício de todo direito injusto assim instituído terá consequências
inevitavelmente nefastas. Leis ruins estimularão os malfeitores e dificultarão
a prática do bem. A institucionalização — ou legalização — do mal conduz à
decomposição da sociedade. Nenhuma civilização sobreviveu à generalização
do aborto, à legalização da eutanásia e ao extermínio sistemático da parte da
população mais inocente e menos favorecida.
VII. Reprimir o mal é função específica do Estado
A função específica do Estado é reprimir o mal, procedente do exterior (uma
agressão, por seu exército) ou do interior (magistratura e polícia).
O governo civil se distingue de todos os outros governos quee compõem a
sociedade, pois ele é o regulador jurídico final das instituições sociais, caso
infrinjam as leis em vigor.
Ele também deve estar sujeito ao olhar crítico da lei divina e levar em conta
as admoestações biblicamente fundamentadas do poder espiritual. É seu
dever rejeitar sistematicamente as fantasias utópicas antinomianas do poder
espiritual apóstata.
VIII. Nenhuma moral está fundamentada na observação dos costumes
Um fato não tem nenhum valor normativo. As leis descritivas da natureza,
mesmo sociais, não podem ser confundidas com as leis normativas de Deus
para o bem de suas criaturas. É, portanto, logicamente impossível,
fundamentar o direito ou a moral na observação dos costumes bons ou ruins.
No paraíso, Adão não podia, pela simples observação e sem indicação precisa
de Deus, saber que uma das árvores da criação perfeita lhe era proibida.
Além disso, o conhecimento originário e fundador da distinção entre o bem e
o mal era proibido a Adão e a todos os homens. Ele está separado da
definição precisa dada por Deus ao bem e ao mal. Ele é a autonomia
epistemológica, ética e jurídica do homem.
IX. O justo exercício da função de juiz exige um conhecimento profundo
da lei divina e dos desígnios de Deus.
O erro jurídico não se limita à condenação injusta do inocente nem à
inocência do culpado de um delito ou crime.
A recusa sistemática de condenar uma categoria de malfeitores (p. ex.,
médicos abortistas ou eruditos que com suas experiências sacrificam a vida
de muitos seres humanos) é uma forte incitação ao crime.
O justo exercício da função de juiz em todos os níveis da sociedade, desde a
dos pais, na família, até a magistratura suprema, exige, entre outros
conhecimentos e qualidades, a ciência profunda da Lei de Deus, a coragem
para se opor ao mal e a confiança que o Deus justo apoiará a ação de quem
exerce a justiça com fidelidade.
X. Justiça objetiva e sentimento subjetivo de justiça
É preciso distinguir claramente entre a justiça verdadeira — a conformidade
de um ato a uma norma objetiva justa e o sentimento subjetivo de justiça.
Ligada à consciência humana falível e instável, a última é variável.
XI. Sem a assistência do Criador, o homem não pode definir o bem
comum
O homem é suficientemente esclarecido pela consciência para ser responsável
por seus atos, por isso é inescusável diante de Deus. Contudo, tendo a
consciência falível, o raciocínio formulado a partir dessa consciência e da
observação da vida social não lhe permite estabelecer a norma objetiva justa
do direito nem da moral. A incapacidade se deve à natureza limitada, que o
torna inapto a levar em consideração todos os aspectos da situação em que se
encontra e, mais ainda, ao pecado que descaminha a consciência humana do
mal que comete. Assim, o homem não pode, por si mesmo e sem a assistência
do Criador, definir com exatidão o bem comum. O pecado consiste sempre
em definir o bem de modo diferente de Deus. Ao se estabelecer como fonte
do conhecimento do bem e do mal, o homem se considera seu próprio deus.
XII. A fonte de nossa moral e de nosso direito é nosso verdadeiro deus
Se aceitamos que o Deus criador dos céus e da terra — e de toda sociedade
humana, — o Deus perfeito em sabedoria, santidade, justiça, define os
critérios normativos da moral e do direito, então somos seus discípulos. Se
aceitarmos outra fonte do direito e da moral além do Criador da ordem ética e
jurídica, esta fonte, que se quer autônoma em relação a Deus e Sua lei, será
nosso ídolo e seremos seus escravos.
XIII. O decálogo e a lei das nações
Tomás de Aquino estabeleceu a distinção entre a moral fundada sobre o
decálogo e, o direito estabelecido sobre a lei das nações: uma distinção em
contradição com a soberania do Deus criador de todas as coisas, fonte única
de toda ordem verdadeira, e com o decálogo; de fato, dos mandamentos Não
matarás (o sexto), e Não darás falso testemunho contra teu próximo (o
nono), tê uma forma mais jurídica que moral.
A distinção entre moral e direito é uma característica do pensamento de
Aristóteles e do direito romano. Foi adotada por Tomás de Aquino e por João
Calvino na Instituição da religião cristã. Mas ela não parece ter base na
revelação das Escrituras e, além disso, parece contrária à unidade da natureza
humana não dividida em compartimentos políticos e jurídicos de um lado, e
morais e espirituais, de outro.
A distinção verdadeira seria, na verdade, não entre a moral e o direito, mas
entre o que concerne ao foro interior do homem: pensamentos, intenções e
motivações, e é responsabilidade das esferas da sociedade, fora de qualquer
influência do Estado. E tudo que diz respeito à justiça pública. Crimes
públicos, como o aborto — cometido supostamente na esfera privada da
família, ou a unicamente pessoal do seio materno, — dizem respeito
necessariamente à justiça. Um crime em família permanece crime.
XVI. Direito imperativo e moral livremente consentida
É falso, como faz Kant, distinguir o imperativo categórico subjetivo
puramente individual, isento de qualquer imposição, das leis públicas
imperativas do Estado. Não existe direito sem força impositiva; assim,
qualquer deontologia necessita do recurso possível ao uso da força. O mesmo
ocorre com a moral social. A moral social sem disciplina precisa se torna
fumaça. Para empregarmos apenas dois exemplos: vimos desaparecer toda
forma de disciplina familiar ou eclesiástica. A falsa distinção entre direito
imperativo e moral livremente consentida tem como consequência o
enfraquecimento de todas as instituições da sociedade, com exceção do
Estado centralizador.
XV. Nenhuma justiça perfeita é possível aqui
Devido à natureza limitada e pecadora do homem, e o respeito que o Estado
deve ter em relação aos corpos sociais dependentes dele, é impossível realizar
a justiça perfeita aqui. Mais ainda: a vontade de estabelecer sobre a terra a
justiça conduziria inevitavelmente às piores injustiças! A vontade jurídica de
extirpar totalmente o mal pela força da espada levaria inevitavelmente à
destruição da autonomia das instituições naturais da sociedade e ao
desaparecimento da liberdade individual.
XVI. Inspiração bíblica ou racionalismo do direito
A teologia e a moral podem ser a simples dedução lógica de um sistema a
partir de premissas retiradas da revelação. A revelação escrita deve
constantemente ser apresentada ao pensamento do teólogo e do moralista nos
pormenores. Em outras palavras, a exegese tem prioridade sobre a dogmática
e a ética. Da mesma forma, o direito de inspiração bíblica não poderia ser o
simples desenvolvimento lógico de um sistema jurídico puramente racional,
construído a partir de algumas premissas bíblicas. A teologia, a ética e o
direito cristãos não são sistemas racionalistas bíblicos. Eis um exemplo:
Não matarás. A partir do mandamento Não matarás (tradução, aliás falsa),
construímos um sistema moral e jurídico abstrato, a partir do qual
acreditamos erroneamente abolir a pena de morte; nos opomos à defesa
armada do país e lançamos o descrédito sobre toda espécie de violência, até
incutir culpa em quem exerce o direito à legítima defesa. Comprometemos
assim o sentimento de legitimidade que deve mover as forças da ordem no
exercício necessário de sua função. Culpamos, da mesma maneira, os pais
que ousam ainda castigar fisicamente os filhos desobedientes.
Traduzido de forma correta, o mandamento bíblico significa Não
assassinarás. Na Bíblia, de fato, o mandamento não está separado de outros
textos que definem e limitam seu escopo. Assim, o direito bíblico explica o
escopo o mandamento ordenando a pena de morte para alguns crimes; sob
certas condições, ele legitima a guerra; distingue o homicídio voluntário, o
assassinato, do homicídio involuntário cometido, por exemplo, quando se
resiste a um agressor.
É necessário distinguir com atenção o direito de inspiração bíblica — o
direito consuetudinário da Alta Idade Média — do direito natural racionalista
dos séculos XVII e XVIII. O primeiro tem um caráter mais propriamente
jurídico que o segundo — que, no fundo, não passa de um sistema filosófico
racionalista com tons jurídicos. É deste que decorre a doutrina abstrata dos
direitos dos homens.
XVII. Os crimes punidos nos dão a imagem de uma sociedade
O crimes punidos por uma sociedade expressam indiretamente — mas com
exatidão — os valores defendidos pela sociedade. Assim, a lei bíblica e o
direito consuetudinário medieval puniam com pena de morte a violação da
ordem familiar pelo adultério. O mesmo ocorria com a homossexualidade.
Nessas sociedades, a família tinha grande valor; uma das funções importantes
da justiça era preservá-la de quem a buscava destruir. Já a traição militar em
tempo de guerra era considerada um ato criminoso, pois o Estado nacional
não tinha então o valor que lhe damos hoje.
De modo inverso, na Suíça, e na maioria dos países do mundo hoje, o
adultério é considerado um ato insignificante no plano criminal; na melhor
hipótese, em caso de divórcio, é passível apenas de algumas sanções
financeiras pela parte culpada. Todavia, para a traição em tempo de guerra,
manteve-se a pena de morte, pois o valor supremo é ainda aparentemente a
pátria. No mundo moderno, a família é um valor negligenciável. Outro
exemplo: nos países comunistas tudo pertence ao Estado. O Estado socialista
é um valor supremo da sociedade: o roubo da propriedade do Estado é, em
alguns casos, punível com morte.
XVIII. Como as exigências da lei divina se aplicam hoje?
Para ser justo, afirmamos, o direito deve levar em conta as exigências da lei
divina; mas, para ser aplicável, deve-se também levar em conta as condições
particulares próprias à tradição jurídica de sua expressão, e as circunstâncias
de tempo e de lugar. É evidente que, nas circunstâncias atuais, é impossível
transpor o direito bíblico sem nenhuma mudança. Muitos elementos que não
dizem respeito aos fundamentos da justiça mudaram; os princípios bíblicos
do direito hebraico (encontrados nos pormenores da legislação bíblica)
devem ser transpostos para nossa sociedade. A questão se coloca: Onde estão
os limites do relativismo jurídico legítimo? Como exemplo, qual pode ser a
solução bíblica para o problema do desemprego?
O problema do desemprego
Na Bíblia, os pobres, os desempregados, tinham o direito de respigar para
assegurar sua sobrevivência; os camponeses não deveriam colher
inteiramente seus campos e permitir aos pobres a respiga dos restos da
colheita. Esse direito jurídico dos pobres evitava que eles fossem humilhados,
como ocorreria no caso da caridade. O trabalho dos respigadores era ainda
mais difícil que o dos ceifeiros; assim, os desempregados tinha interesse em
fazer todo o possível para encontrar rapidamente um emprego. Os
proprietários dos campos, como Boaz (livro de Rute), podiam exercer a
caridade com discrição, sem humilhar os miseráveis, deixando um pouco a
mais em seu campo. O direito de respigar existia ainda em nossas plantações
[na Suíça] há apenas um século, mas ele não é mais possível hoje! Isso fala,
talvez, muito sobre nossa obsessão com a eficiência e o desprezo aos pobres.
Entretanto, os princípios bíblicos poderiam nos oferecer a estrutura para a
solução do problema do desemprego que não desmoralizaria os trabalhadores
sem trabalho, e os estimularia a encontrar um emprego o mais rapidamente
possível: também a caridade poderia ser exercida discretamente.
XIX. Aplicação das leis: diversidades dos costumes
Existe na Suíça uma diferenciação cantonal, e mesmo profissional do direito
federal: ela é legítima e até mesmo desejável. Mas oes direitos, por mais
diferentes que sejam, devem ter a mesma finalidade justa e, para serem
instrumentos do bem e não a causa de desgraças, devem provir diretamente
da lei divina.
Assim, por exemplo, a cantonalização do direito à vida poderia implicar a
punição do assassinato em alguns cantões e não em outros? Essa afirmação é
impensável. No entanto, em outras questões de importância relativa (como a
organização dos tribunais e dos trâmites legais, as modalidades de aplicação
do direito e os pormenores da legislação etc.), o direito deve levar em conta a
realidade dos costumes locais. Portanto, devemos afirmar ao mesmo tempo a
unidade das leis — todas fundadas na lei transcendente, única e normativa de
todos os direitos — e a necessária e inevitável diversidades dos costumes,
isto é, a diversidade na forma de aplicar as leis, sem derrogar, por isso, a
exigência primordial de justiça. É necessário, portanto, a unidade no que
concerne aos universais jurídicos (a justiça) e a diversidade no que concerne
aos acidentes (os costumes), a unidade essencial e a diversidade existencial.
No plano familiar, haveria assim unidade das leis que estruturam a família de
forma benéfica: por exemplo, a necessidade do chefe, o respeito aos pais, a
submissão da esposa ao marido, a direção colegial do esposo, a divisão
necessária dos deveres, o respeito à individualidade própria de cada membro
etc. — e diversidade muito grande das famílias concretas.
XX. O aborto é apenas uma ablação cirúrgica?
O debate sobre o aborto nos mostra de maneira muito clara o ponto em que a
razão humana é incapaz de definir por si mesma o que é justo e verdadeiro.
Coloquemos aqui algumas questões muito simples.
O aborto é um assassinato, um homícidio voluntário? Trata-se de um ato de
guerra, de legítima defesa? Uma execução capital ou uma simples ablação
cirúrgica? Já está provado que a vida humana começa na fecundação: isso é
provado pelas recentes fecundações fora do ventre materno. A partir daí, todo
aborto é assassinato — um homicídio voluntário premeditado — que deve ser
julgado como tal pelos tribunais. Pouco importa o meio empregado: a pílula
abortiva do dia seguinte, D.I.U, meio supostamente contraceptivo;
manipulação in vitro da vida humana, que conduz inevitavelmente a muitos
óvulos humanos fecundados jogados fora, isto é, pequeninas crianças. O que
será da sociedade que, sem outra forma de julgamento, absolve os piores
assassinos?
Segundo a Bíblia, é indiscutível que, desde a fecundação no ventre materno, a
criança é um ser humano completo, criado à imagem de Deus. Jeremias
recebeu no ventre materno a vocação espiritual; João Batista foi encheu-se
com o Espírito Santo; quanto a Cristo, ele foi desde o ventre da virgem Maria
plenamente Deus e plenamente homem. Em geral, a Escritura emprega os
mesmos termos para designar as pessoas no interior do corpo da mãe e as já
nascidas.
Como consequência do ensino bíblico, quem se opõe à extensão da legislação
contra o homicídio a toda a vida humana, da fecundação à morte natural,
aprova e apoia, com a Fédération des Églises Protestantes de Suisse
[Federação das Igrejas Protestantes da Suíça], o assassinato sistemático de
grande número de crianças de nosso país. Essas pessoas ousam dizer que
amam a Deus e declaram sem nenhuma vergonha que, sem vida biológica, é
possível haver aqui um diálogo com Deus! Afirmam amar seu país mas se
recusam a levantar um dedo para que a tomada de qualquer iniciativa, no
plano jurídico, para defender as criancinhas! O que pensar do homem que
dissesse amar a mulher e os filhos e que, dispondo dos meios para defendê-
los, permitiria que criminosos os assassinassem diante de seus olhos?
O perfeccionismo deve ser evitado
Alguns expressam a vontade de perfeição jurídica que parece pouco política.
Desnecessário lembrar que a política é sempre a arte do possível: às vezes é
preciso escolher entre duas possibilidades, ambas insatisfatórias. Na política,
o perfeccionismo é o meio infalícel de não fazer nada! Ou, para retomar a
questão do aborto evocada acima, a expressão da vontade política de nada
fazer no plano jurídico para dificultar a morte de tantas criancinhas,
massacradas em nosso país antes de nascer? Quando o barco afunda, é o
momento de esfregar o convés? Quando o casa pega fogo, é o momento de
discutir a cor para repintar as persianas? Assim, no plano cívico, a
mentalidade perfeccionista leva à negligência de suas responsabilidades.
Tal é a escolha diante da qual todos nos encontramos; ela é ainda mais grave
que a de muitos alemães da época nazista. Se muitos deles aprovaram o
massacre de ciganos, eslavos, judeus, deficientes mentais, nós, ao menos,
sabemos exatamente o que se passa e contamos com os meios para agir.
Que Deus tenha piedade e que nos permita escolher a vida e não a morte!
Declaração da Associação dos Pais cristãos de Vaud, 1985.
XIX. Questões práticas relacionadas à ética cristã
dirigidas a um grupo de pastores
1. Qual foi a última ocasião em que, na sua igreja, foi feita a exposição
prática e sistemática do ensino moral e espiritual contido nos dez
mandamentos?
2. Quais são, em sua biblioteca, as obras dedicadas, em parte ou inteiramente,
à exposição sistemática da Lei de Deus?
3. Quando ocorre um problema moral ou eclesiástico em sua igreja, os
presbíteros costumam procurar a solução no ensino preciso do Bíblia a fim de
responder de acordo com a direção divina?
4. Na pregação regular, você une, como sempre faz o apóstolo Paulo, o
evangelho e a lei, a doutrina e a aplicação prática?
5. Em sua igreja, você busca oferecer o ensino que dará não só a direção
doutrinária aos membros, mas também a orientação cristã prática em relação
com os problemas enfrentados, no dia a dia, na família, no trabalho, no lazer,
na sociedade etc.?
6. Qual é o lugar dado ao Antigo Testamento no ensino de sua igreja? O
caráter moral e jurídico, próprio de Levítico, por exemplo, cede lugar à
exposição puramente tipológica e alegórica?
7. Você ensinam aos membros, não só a justificação pela graça, por meio da
fé, mas também a natureza precisa das obras de fé que devem
necessariamente decorrer da ação da graça de Deus? Qual é o lugar dessas
obras nas reuniões de oração da igreja?
8. Que obras concretas de caridade, educação, socorro — a doentes e pessoas
idosas, a desempregados e famílias sobrecarregadas —, ajuda prática, jurídica
e moral às mulheres tentadas pelo aborto etc. fazem parte da atividade normal
e regular de sua igreja?
9. Em relação às ideologias científicas, tecnocráticas e políticas que nos
circundam, como você compreende a instrução de Paulo ao nos exortar a
levar todos os pensamentos cativos à obediência de Cristo? O que sua igreja
faz para proteger a juventude das influências contrárias à fé cristã que atacam
por todos os lados: relativismo, evolucionismo, idealismo filosófico,
marxismo, panteísmo e animismo, esoterismo etc.?
10. Você não crê que a aplicação prática do ensino da lei divina pelos cristãos
concederia à piedade cristã a força que muitas vezes lhe falta, e faria o
cristianismo perder a insignificância pública que em nossa época é uma de
suas características mais marcantes?
SEGUNDA PARTE

COMBATES
XX. A oposição antiga e moderna à Lei de Deus
O antinomianismo — literalmente oposição à lei — que opõe na Escritura a
lei ao evangelho é, na verdade, apenas uma das formas da qual se reveste o
liberalismo teológico de quem não ousa aberta e conscientemente negar a
inspiração divina das Escrituras mas se permite, entretanto, escolher o que lhe
convém na Escritura, rejeitando o que não agrada. Os antinomianos,
infelizmente muito numerosos nos meios evangélicos são, na verdade,
neomodernistas sem o saber. O pai do neomodernismo, o professor Karl
Barth, afirmava que a Bíblia continha, mas que não é a Palavra de Deus.[28]
Ele nunca teria aceitado que afirmássemos que ela é a Palavra de Deus.
Porém, a própria Bíblia o ensina. Ao afirmar que a Bíblia contém a Palavra
de Deus, Barth deixa, na verdade, para cada um a liberdade de escolher por si
mesmo o que, na Bíblia, é Palavra de Deus. Na perspectiva desses eticistas,
constatamos muitas vezes a oposição entre a ética do Novo Testamento e a do
Antigo. Os antinomianos, ao oporem evangelho e lei na Escritura sagrada,
fazem o mesmo. Eles se permitem escolher o que, na Escritura, requer nossa
obediência, e rejeitar o restante como algo agora ultrapassado. Nossa regra é
antes ler a Escritura pela própria Escritura; ler o Antigo Testamento à luz do
Novo, e compreender o Novo Testamento por meio do Antigo. A igreja infiel
— em todas as denominações — rejeitou a Palavra de Deus ao se declarar
livre da obediência devida à lei divina. Ao recusar seu rei Jesus Cristo, ela se
encontra em uma situação muito semelhante à de Israel revoltado no final do
livro de Juízes. Está escrito sobre o povo de Deus nesta época de sua história:
“Não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto” (Jz 21.25).
A realeza de Deus foi claramente abolida na igreja de hoje, pois sua lei é
ignorada, desprezada.
A consequência é que cada um faz o que lhe parece bom. Os chefes não
valem mais que o povo, pois ensinaram as pessoas a desprezar a lei do
Senhor em vez de amá-la e a colocar em prática: “Assim diz o SENHOR: Por
três transgressões de Judá e por quatro, não sustarei o castigo, porque
rejeitaram a lei do SENHOR e não guardaram os seus estatutos; antes, as suas
próprias mentiras os enganaram, e após elas andaram seus pais” (Am 2.4).
Estas são as palavras que Deus dirige ainda hoje à igreja e a seus dirigentes:
Como, pois, dizeis: Somos sábios, e a lei do SENHOR está conosco? Pois, com efeito,
a falsa pena dos escribas a converteu em mentira. Os sábios serão envergonhados,
aterrorizados e presos; eis que rejeitaram a palavra do SENHOR; que sabedoria é essa
que eles têm? (Jr 8.8,9)
Na verdade, sem a mediação da lei, sem ser periodicamente alimentado pelos
mandamentos de Deus, das Escrituras sagradas, que sabedoria poderíamos
possuir? Por ter se esquecido da lei de seu Deus, o povo de Deus, a igreja,
perece por falta de conhecimento. Estas são ainda as palavras que Deus dirige
hoje às igrejas:
O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porque tu,
sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas
sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me
esquecerei de teus filhos. (Os 4.6)
O Senhor se dirige assim a Israel que, nessa época de sua história, tipifica a
igreja infiel. Mas a Judá, que representa o restante dos crentes, sem dúvida
distantes de Deus pelo pecado, mas buscando ainda a fidelidade, Deus fala
assim: “Ainda que tu, ó Israel, queres prostituir-te, contudo, não se faça
culpado Judá; nem venhais a Gilgal e não subais a Bete-Áven, nem jureis,
dizendo: Vive o SENHOR” (Os 4.15).
Sim, que Deus nos leve de volta à fé verdadeira resultante em fidelidade. Que
nossa justificação produza em nós a justiça de Cristo, e que a graça que Deus
nos deu produza o fruto abundante da obediência à lei divina. Que nossa fé
em Jesus não seja nunca separada da obediência aos mandamentos de Deus
(Ap 12.17; 14.12).
A. Não devemos opor a graça de Deus à sua lei
Os antinomianos, conscientes ou não — pouco importa, afirmam com
frequência que a lei divina está agora abolida e que vivemos hoje na época da
graça.[29] A graça divina é concebida como algo contrário à lei, como se a
excluísse. A moral, a ética do período de graça não é, segundo eles, nada
mais que a ética do amor — amor concebido como algo de todo estranho à
lei. O amor deve se expressar na liberdade — também concebida como se
não tivesse nenhuma relação com a lei. Trata-se, de fato, de um sistema ético
rigorosamente liberal. Sabemos que o liberalismo teológico, sob todas as
formas, mesmo o evangélico, não passa da recusa de submissão à autoridade
inspirada da Palavra divina. Significa a autonomia do homem em detrimento
da Lei de Deus, de sua declaração de independência e dos direitos de Deus
sobre as criaturas. É a revolta do homem contra Deus. O homem se torna a
fonte da própria lei e, ao fazer isso, se diviniza.
Uma graça tão barata — não prevê a economia do sacrifício da própria
vontade pecaminosa e a necessária renúncia ao pecado e de tudo que implica
a obediência aos mandamentos de Deus — é um simulacro do amor, sem a
forma e o conteúdo concedidos pela lei divina à vida fiel do cristão.[30] Trata-
se da liberdade sem disciplina, que recusa a se conformar à liberdade divina
expressa na lei. Não passa de um liberalismo anticristão à imagem do homem
da iniquidade — literalmente anomos, sem lei — do qual nos fala a profecia
de Paulo em 2 Tessalonicenses.
A Escritura está muito longe de afirmar uma oposição semelhante entre a
graça, o amor e a liberdade de um lado, e a Lei de Deus, do outro. A Bíblia
nos ensina que a lei é primeiramente um pedagogo que Deus nos deu para
nos conduzir a Cristo. A graça, longe de se opor à lei, torna seu cumprimento
possível; o amor não é nada sem o cumprimento dos mandamentos de Deus,
e a liberdade real é a liberdade para o bem. Trata-se da liberdade de Jesus —
e não a da serpente, — do Cristo que se conformou inteiramente à vontade do
Pai. A graça, o amor e a liberdade existem apenas para o bem, não para o
mal. Em consequência disso, a liberdade do cristão, a liberdade dos filhos de
Deus, não pode ser nada mais que sua livre obediência, pela força do Espírito
Santo nele, aos mandamentos de Deus, à Palavra divina, à vontade santa,
agradável e perfeita de seu Senhor e Salvador: “Porque em verdade vos digo:
até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da lei, até
que tudo se cumpra” (Mt 5.18).
E o evangelista Lucas nos transcreve estas palavras de Jesus: “E é mais fácil
passar o céu e a terra do que cair um til sequer da lei” (Lc 16.17).
B. A lei, sombras das coisas por vir
O que devemos fazer quanto à distinção encontrada no prólogo de João:
“Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram
por meio de Jesus Cristo” (Jo 1.17)?
Encontramos essa distinção em Lucas, onde Jesus diz: “A lei e os Profetas
vigoraram até João; desde esse tempo, vem sendo anunciado o evangelho do
reino de Deus, e todo homem se esforça por entrar nele” (Lc 16.16).
A lei é a sombra das coisas por vir, a realidade está em Cristo (Cl 2.17). Mas
quem alguma vez viu a realidade guerrear contra a sombra? Muito pelo
contrário, a sombra é o fiel reflexo da realidade da qual se origina: “Ora, visto
que a lei tem sombra dos bens vindouros, não a imagem real das coisas”
(Hb 10.1).
A lei é apenas a imagem e a sombra de um modelo celeste (Hb 8.5). E que
solidez devemos reconhecer aos objetos que não possuem sombra? São
fantasmas puramente imaginários, irreais! Não, Jesus não é uma personagem
imaginária. Não o tomemos, como os discípulos que o viram andar sobre o
mar por um fantasma. Sua sombra é a lei dada a nós por intermédio de
Moisés, lei que ele nos explicitou pelos profetas, enquanto esperava que a
realidade refletida pela lei, Jesus Cristo, Filho único de Deus, tomasse a
natureza humana para falar conosco (Hb 1.1) e nos desse acesso vivo a Deus
por sua morte e ressurreição. Ao passar pela violência feita a Cristo na cruz
entramos no reino de Deus. Quem opõe a sombra à realidade, a lei a Jesus
Cristo, prega um evangelho diferente do evangelho do reino de Deus. Quem
opõe a lei à graça, a lei à verdade, coloca em contradição as Escrituras
sagradas e Jesus Cristo. Da lei e os profetas à graça e à verdade, há somente
uma progressão de clareza.
Seria absurdo opor a semente ao carvalho magnífico ao qual ela deu origem.
Disso resulta que todo antinomianismo conduz ao mais puro modernismo que
separa a Palavra viva de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, da Palavra escrita
de Deus. Essa atitude, que separa a sombra da realidade, não possui de fato, a
sombra nem a realidade. Assim, quem opõe a lei e os profetas à graça e à
verdade, se priva de todos esses inestimáveis benefícios. Que Deus nos
guarde de distorcer e de destruir a Palavra divina!
C. A liberdade do Espírito não deve se opor à Lei de Deus
Oporíamos então, como outros fazem, a Lei de Deus à liberdade do Espírito
sob o pretexto de que, onde há o Espírito do Senhor, ali há liberdade
(2Co 3.17)? Com que objetivo o Espírito foi dado àqueles que creem em
Jesus Cristo?
Quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque
não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas
que hão de vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de
anunciar. (Jo 16.13,14)
A espada do Espírito é a Palavra de Deus (Ef 6.17), e foi exatamente a espada
usada por Jesus Cristo quando respondeu a Satanás, no momento da tentação
no deserto, por palavras extraídas exclusivamente da lei, do livro de
Deuteronômio (Mt 4.1-11). Trata-se exatamente da Palavra espiritual de
Deus, da lei divina à qual se refere a epístola aos Hebreus: “Porque a palavra
de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois
gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é
apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hb 4.12).
Paulo explica que o Espírito “a todas as coisas perscruta, até mesmo as
profundezas de Deus” (1Co 2.10). Assim, o Espírito Santo pode nos dar só o
que é de Cristo. Ele nos conduz apenas ao crescimento em conformidade com
Jesus Cristo. E acabamos de ver que é impossível, a menos que nos
separemos de Cristo, opor Jesus Cristo à lei inspirada por ele. Não é possível
separar a Palavra escrita da Palavra encarnada sem sair do cristianismo. Por
isso, a oposição antinomiana entre o Espírito, que nos daria a liberdade, e a
lei, que nos manteria na escravidão, é de todo contrária ao ensino de Cristo.
A posição dos antinomianos mais uma vez separa o Espírito Santo da
Escritura. Trata-se de negar a inspiração divina das Escrituras sagradas. O
antinomianismo espiritualista culmina no modernismo, no liberalismo e na
neo-ortodoxia barthiana. Pois, para levar a termo essa posição ética, é preciso
retirar algumas partes da Escritura, fundado, para tal, no próprio julgamento
subjetivo e, evidentemente, sem pedir autorização à Palavra de Deus.
D. A antiga aliança não deve se opor à nova
Colocar em contradição a lei e a graça, a lei de Moisés e a verdade que é
Cristo, a lei e a liberdade do Espírito, conduz necessariamente à oposição
entre a antiga e a nova aliança, entre o Antigo e o Novo Testamento. A
oposição à lei divina, em nome da graça de Deus, leva a ignorar duas grandes
partes da Escritura santa. A oposição de uma parte da Escritura a outra
produz problemas de interpretação insolúveis, para os quais alguns
procuraram a solução em um sistema de interpretação da revelação chamado
dispensacionalimo.[31] Essa teoria divide a Escritura sagrada em sete
dispensações ou épocas hermeticamente fechadas. Interessamo-nos aque pelo
aspecto hermenêutico e ético da questão, deixando de lado qualquer aspecto
profético, porém muito importante, do sistema.
A palavra dispensação existe efetivamente em nossas traduções da Bíblia,
mas não no sentido que lhe dá esse sistema de interpretação, que é o de uma
época particular, ou uma época, mas no sentido de repartir, distribuir. Paulo
fala aos efésios “sobre a dispensação (isto é, a repartição, distribuição) da
graça de Deus a mim confiada para vós outros” (Ef 3.2). E escreve a
Timóteo: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem
de que se envergonhar, que maneja [que distribui] bem a palavra da verdade”
(2Tm 2.15).
Não podemos temer em dizê-lo: o dispensacionalimo antinomiano não
dispensa corretamente a Palavra de Deus; na verdade, ele dispensa (segundo
sentido da palavra, isentar-se, ter a permissão de não fazer) seus adeptos de
obedecer à Lei de Deus. Dizer que Deus se revelou primeiramente como lei,
depois como graça, e opor, em seguida, as duas dispensações como se fossem
incompatíveis, culmina, na verdade, na dividisão do Deus de graça e da
justiça contra si mesmo. Assim, dois deuses teriam presidido a inspiração da
Bíblia: o deus da lei primeiramente, depois o deus da graça. Sem dúvida não
era nisso a que queriam chegar nossos dispensacionalistas!
E. O dualismo antinomiano de Marcião
Os judeus ainda hoje recusam, assim como recusaram a revelação do Filho de
Deus, Jesus Cristo, e rejeitam a nova aliança em nome de seu deus único.
Marcião, o famigerado herege do século II (excomungado por seus erros em
144), desenvolveu um sistema muito semelhante ao dos antinomianoos
modernos. Podemos resumir seu ensino da seguinte forma:
A tese central de Marcião (morto em 160): o evangelho cristão é exclusivamente um
evangelho de amor à exclusão absoluta da lei. Essa doutrina, desenvolvida em
particular em Antíteses, o conduziu a rejeitar por inteiro o Antigo Testamento. O
Deus Criador, ou Demiurgo, revelado no Antigo Testamento, a partir de Gênesis 1,
era o Deus da lei e não tinha nada em comum com Jesus Cristo.[32]
Além disso, sua estratégia espiritual pode ser descrita desta forma:
Marcião tinha a pretensão não de inovar, apenas de reformar, reencontrar a fé cristã
tal existente antes de ter sido alterada pelo legalismo judeu. Ao interpretar o
cristianismo à luz da epístola aos Gálatas, ele acreditava poder discernir no ensino
da igreja de seu tempo a contaminação da graça pela lei. Porém, os dois motivos lhe
pareciam não só distintos, mas incompatíveis, estranhos um ao outro. Em sua obra
fundamental, as Antíteses, ele se propõe a provar que o espírito do Antigo
Testamento é tão inconciliável com o do Novo, que se torna necessário não só
separá-los totalmente, mas atribui-los a deuses diferentes.[33]
Marcião era um antinomiano coerente que teve a audácia de ir até às
conclusões lógicas de suas falsas doutrinas, chegando a afirmar que dois
deuses presidiram a inspiração da Bíblia. Com a preocupação de defender,
como os judeus, o monoteísmo racionalista, ele se apegava apenas a uma das
pessoas divinas, o Filho. Seria bom se os antinomianos modernos se dessem
conta das implicações, no que concerne à doutrina de Deus, de suas falsas
oposições.
Os judeus negam a origem divina do Novo Testamento, que nos revela tão
claramente a divindade do Filho de Deus, e pensam manter o Deus único,
Jeová. Marcião negava a inspiração divina do Antigo Testamento e
acreditava manter o Deus único, Jesus Cristo. Como então manter a doutrina
da inspiração de toda a Bíblia, e afirmar ao mesmo tempo a
incompatibilidade dos elementos que a compõem? Seria um politeísmo
inadvertido?[34] É sempre útil levar o sistema doutrinário ao qual aderimos às
últimas consequências, pois então aparecem com clareza os erros que ele
poderia esconder. Como aderir a sistemas que nos conduzem a desprezar a
Lei de Deus e, ao mesmo tempo, gozar das bênçãos de quem encontra “o seu
prazer na lei do SENHOR”(Sl 1.2)?
Mas o coração humano é — felizmente por vezes — de uma inconsequência
lógica surpreendente. Muitos cristãos sinceros ficam presos ao caminho
perigoso pelo amor que o Senhor lhes deu por toda a sua Palavra. Eles a
respeitam, poderíamos dizer, apesar das falsas doutrinas. Mas o
desconhecimento da lei divina e de sua utilidade atual tem um efeito
debilitante sobre a vida de santificação e de obediência, e leva sempre ao
enfraquecimento, muitas vezes catastrófico, do ensino ético, prático, da igreja
de Deus.
F. Unidade da revelação de Deus
Deus é um: Pai, Filho e Espírito Santo. A verdade é, também, una, e a
revelação da verdade — que é a Bíblia — também é una, apesar da
diversidade de seus autores, dos estilos de escrita e das épocas diferentes em
que foi composta. Maldito seja quem retira ou acrescenta uma só palavra a
ela (Ap 22.18-20; Dt 4.2).
A regra que devemos seguir na igreja de Deus é receber toda a Bíblia da mão
de seu divino Autor e ler o Antigo Testamento pela luz mais forte dada pelo
Novo, e compreender o Novo dando inteira atenção a todos os ensinamentos
do Antigo. Nosso Deus não é uma casa dividida contra si mesma (Mt 12.25);
maldito seja quem separa o que Deus uniu. O que Deus pede a seus filhos por
meio de sua Palavra, por meio de sua lei, é a fé em Jesus Cristo e a
obediência aos mandamentos divinos naturalmente decorrentes dela.
Irou-se o dragão contra a mulher e foi pelejar com os restantes da sua descendência,
os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus. (Ap 12.17)
Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a
fé em Jesus. (Ap 14.12)
Trata-se do eco das últimas palavras de Jesus a seus discípulos, transcritas no
Evangelho de Mateus:
Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de
todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;
ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou
convosco todos os dias até à consumação do século. (Mt 28.19,20)
Assim, o que chamamos grande comissão de evangelizar comporta a fé em
Jesus e a obediência a tudo o que Jesus nos ordenou, a toda a Palavra de
Deus, a toda a Lei de Deus, uma vez que Jesus Cristo, por intermédio do
Espírito Santo, é seu Autor.
Com a ajuda de Deus, sejamos os santos que, tendo recebido o dom da fé em
Jesus, o guardam obedecendo a toda a Palavra de Deus; não estejamos entre
os que, com o objetivo de evangelizar, recusam e rejeitam a fidelidade a todo
o conselho de Deus, mediante a rejeição de sua lei.
G. Agrícola: falso apóstolo da graça sem a lei
Pensamos muitas vezes que o apóstolo Paulo era um ferrenho adversário da
lei. Alguns interpretam as palavras de Paulo não estamos mais debaixo da lei,
e sim da graça; porque a letra mata, mas o espírito vivifica; não estamos
mais debaixo da maldição da lei como se fossem indicações claras da
oposição de Paulo à Lei de Deus. Os antinomianos nos apresentam um Paulo,
apóstolo da salvação pela graça, somente pela fé, que destrói o ensino judaico
da Lei de Deus.
Vejamos ainda o exemplo de um famoso antinomiano da época da Reforma
com quem Lutero teve sérias dificuldades. João Agrícola [Johannes Agricola]
(1492-1566),
insistia na justificação pela fé, a ponto de afirmar que a lei era inútil para ser salvo, e
demos a estes sectários o nome antinomianos. Ele ensinava que sob a nova aliança a
lei não deveria mais ser pregada [...] e quando, em 1527, escutou os dois
reformadores (Lutero e Melâncton) nas visitas às igrejas recomendar aos pastores a
leitura, a explicação e a obediência aos dez mandamentos, protestou contra o que
considerava uma queda.[35]
H. O antinomianismo freudiano e marxista destruidor do psiquismo e da
vida social
Em nossos dias, o relativismo ético permissivo, fruto de uma filosofia
idealista subjetivista, produz várias formas de antinomianismo. No domínio
profano, dois movimentos importantes se lançaram particularmente contra a
Lei de Deus: o marxismo e a psicanálise.
O marxismo atacou principalmente a aplicação da lei divina à área pública.
Uma leitura, mesmo superficial, do Manifesto comunista de Marx e de Engels
de 1848, permite constatar que se trata de um verdadeiro antidecálogo. A
doutrina de Lenin, sistematicamente aplicada pelo comunismo sob todas as
suas formas, é explícita quanto à questão:
Em que sentido negamos a moral, a ética? No sentido pregado pela burguesia que
deduz a moral dos mandamentos de Deus [...] Repudiamos toda a moralidade
proveniente de um impulso estranho à humanidade, estranho às classes sociais [...]
Afirmamos que nossa moralidade está completamente subordinada aos interesses da
luta de classes do proletariado [...] Por isso afirmamos: a moral considerada algo
fora da sociedade não existe para nós; é uma mentira.[36]
Assim, para os comunistas, um dos maiores obstáculos ao surgimento do
paraíso comunista — sabemos agora que se trata do paraíso para a classe
dirigente, a nomenklatura, e o gulag, para os outros — era a herança moral
cristã tradicional identificada com a ideologia capitalista e burguesa.
Freud, por sua vez, considerava-se um antiMoisés.[37] A psicanálise atacou
principalmente a Lei de Deus como estrutura da personalidade humana criada
à imagem divina. Para Freud, o superego impedia o florescimento da
personalidade, do eu. O superego consiste nas proibições morais impeditivas
do desenvolvimento normal do eu ao reprimir as pulsões do subconsciente,
nomeado id.
Na base de todos os sistemas se encontram as ideias de Jean-Jacques
Rousseau, segundo as quais o homem, nascido bom, é corrompido,
desvirtuado, alienado por situações nas quais se encontra e por estruturas
éticas e sociais impostas de fora. Sabemos agora, de maneira clara, que Marx
e Freud estavam intimamente ligados a movimentos esotéricos — para Freud,
a Cabala judaica — e ocultos. O inimigo, para eles, como para seu mestre,
Satanás, era Deus e a ordem de sua lei.
I. O antinomianismo moderno de caráter supostamente cristão
O antinomianismo, infelizmente, não se limita hoje só aos pensadores
profanos. Toda a teologia liberal e neo-ortodoxa de nossos dias é
sistematicamente antinomiana. A tentativa de desmitologização do Novo
Testamento por Rudolf Bultmann conduziu ao pior subjetivismo, pois o
conteúdo da Escritura é então completamente determinado pela especulação
da exegese crítica.[38] A negação, por parte de Karl Barth, da inspiração
infalível da Bíblia, o conduziu ao antinomianismo radical.[39] Emil Brunner,
por sua vez, com a pretensão de renovar a ética cristã, chegou a atacar
diretamente o valor normativo atual da Lei de Deus.[40] Sob aparência
ortodoxa e evangélica, chega-se a oferecer um ensino completamente
diferente do contido nas Escrituras. O espiritualismo existencialista substitui
o ensino moral objetivo da Escritura. A influência nociva desse ensino se vê
claramente em um barthiano como Jacques Ellul. Em seu pensamento social e
político, as normas éticas bíblicas, uma vez esvaziadas pelo existencialismo,
são substituídas pela dialética de ordem marxista.[41]
Encontramos o fruto do antinomianismo na suposta teologia da libertação e
no irracionalismo e na impulsividade doentia de muitos aspectos do
movimento carismático, também, em seu conjunto, radicalmente
antinomiano. Vemos o resultado da recusa à lei divina na revista La vie
spirituellei [A vida espiritual] (setembro 1984), em que se juntam o
carismatismo católico, a apologia da teologia da libertação marxista e a
diatribe feroz e exagerada do pastor Georges Casalis contra uma caricatura,
de sua própria invenção, que nomeia fundamentalismo.
Mas o antinomianismo, como vimos, não se limita aos meios infectados pelo
modernismo, o liberalismo e a neo-ortodoxia. O iluminismo carismático tem,
também, um caráter profundamente antinomiano. Aqui as impulsões
subjetivas do espírito substituem as normas precisas e conceitualmente
acessíveis da lei bíblica. Por meio do dispensacionalimo, a tendência ao
antinomianismo dos meios evangélicos se encontra fortemente reforçada.
Mesmo os meios que se denominam particularmente fiéis à Bíblia foram
amplamente afetados. Citaremos alguns exemplos de formulações
evangélicas antinomianas que se devem a influência, no plano ético, do
dispensacionalismo:
É urgente que vocês compreendam que a lei e a graça são dois sistemas
independentes que se bastam a si mesmos. Misturá-los retira da lei o temor salutar
que inspira e à graça sua força de libertação.[42]
Diante da lei, o mundo inteiro é culpado e, como consequência necessária, a lei tem
um ministério de condenação, de morte e de maldição divina. [...] A lei não justifica
o pecador, nem o santifica [...] o crente está morto para a lei e remido pela lei [...]
para o crente a nova lei de Cristo é seu prazer.[43]
O caráter cristão não é só uma correção moral ou legal, mas a posse e a manifestação
das graças.[44]
Os mandamentos da lei de Moisés e os que estarão em vigor durante o reino do
Messias não podem servir de linha de conduta para o cristão...[45]
Os termos lei e graça representam duas maneiras de agir diferentes da parte de Deus
em relação aos homens. Por isso que faremos bem se os considerarmos
primeiramente de forma separada.[46] Como a lei comportava a linha de conduta
completa para Israel, Deus proveu uma regra de vida menos completa para o cristão.
Todas as regras de conduta propostas pela Bíblia são completas em si mesmas e não
é necessário combiná-las ou misturá-las. Por isso o filho de Deus não está mais
sujeito à lei, mas é beneficiário da graça divina.[47]
O homem é tão decaído que pensa poder fazer o que Deus demandou a Israel, e
comete o pecado do orgulho que atrai sobre si a ira de Deus. Hoje, quem tem essa
pretensão faz exatamente o que fez Israel quando, diante da montanha fumegante da
santidade de Deus, ousou dizer: “Faremos tudo o que o Senhor ordenou” (Êx 19.18).
E foi neste momento que Israel escolheu a lei e selou a sua condenação.[48]
Paulo não trata como algo permanente o Decálogo gravado sobre tábuas de pedra
(2Co 3.11) assim como os sacrifícios da antiga aliança.[49]
Os dez mandamentos, como Lutero afirmou, não se dirigem aos pagãos nem aos
cristãos, apenas aos judeus.[50]
Cristo, que está acima de todas as coisas, Deus bendito eternamente (Rm 9.5),
Criador de tudo (Jo 1.1-3), Inspirador de todos os escritores do Antigo e do Novo
Testamento (1Pe 1.10-12) está acima da lei; ele é maior que Moisés, o legislador; ele
trouxe ao mundo a graça e a verdade, algo novo, escondido no Antigo Testamento,
mas revelado no Novo Testamento.
Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos
profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, introduzindo um novo plano de
salvação pela graça...[51]
Por sua encarnação e submissão absoluta ao Pai celeste, antes de libertar o homem
da lei, antes de o véu rompido dar fim a todo sistema mosaico, ele satisfez
plenamente as exigências da lei. Ele é o único Homem que a cumpriu perfeitamente,
e ao cumpri-la, pôs fim a ela.[52]
O ensino da Bíblia é claro e evidente. Nenhuma confusão é possível. A Palavra de
Deus não tolera nenhuma mistura entre a lei e a graça.[53]
Hugh E. Alexander, que citamos aqui, retoma o ensino de Cyrus I. Scofield,
quando este escreve: “Em muitas passagens a Escritura nos apresenta a lei e a
graça em contraste absoluto, agudo. Misturá-las, como o faz um ensino
frequente hoje, altera a ambas; pois da lei é retirado seu terror e da graça sua
gratuidade”.[54]
Dr. Scofield condena com veemência o que chama galacianismo, “ou mistura
da lei e da graça, ensinando que a justificação se obtém em parte pela graça,
em parte pela lei ou, em outros termos, que a graça é dada a fim de tornar o
pecador capaz de guardar a lei”.[28]
O apóstolo Paulo possui claramente uma opinião diferente de todos os
doutores dispensacionalistas, quando escreve aos cristãos de Roma:
Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne, isso fez
Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante
ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado, a fim de que o
preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo
o Espírito. (Rm 8.3,4)
Examinaremos de forma aprofundada o verdadeiro ensino da Bíblia com
respeito a lei e a graça em um próximo capítulo.
J. Reações teológicas proveitosas
A tendência ao antinomianismo foi a base do dispensacionalismo desde o
início. Desde sua implantação no cantão de Vaud houve reações de pastores
mais ortodoxos:
Uma doutrina que parece ter sido pregada nesta região pelos discípulos de Darby foi o
antinomianismo. Fui obrigado a combater esta doutrina abominável no púlpito e em
algumas conversas particulares. Dois jovens da minha igreja vieram me consultar
sobre o sentido de várias passagens que acreditavam embasar esta doutrina:
Romanos 10.4, “Cristo é o fim da lei”, e eles acreditavam que isso queria dizer que
Cristo tinha abolido a lei. Para responder, entre outros argumentos, lhes perguntei
porque Paulo, Pedro e Tiago etc... terminavam todas as suas epístolas por preceitos e
detalhes sobre a moral. Eles não souberam me responder e partiram, espero eu,
convencidos de que estavam errados sobre o sentido das passagens que eles me
citavam.[55]
Diante desses erros é bom ler as palavras vigorosas do pastor Rousas John
Rushdoony:
Trata-se de uma heresia moderna que afirma que a Lei de Deus não tem significado
nem força de lei para o homem de nossa época. É um aspecto da influência do
pensamento evolucionista sobre a igreja. É uma posição que pressupõe um deus em
evolução, um deus em vias de desenvolvimento. O deus das dispensações se
expressou só por meio da graça, e talvez agora ele se expresse de outra maneira
ainda. Mas este não é o Deus da Escritura, cuja lei e a graça permanecem as mesmas
em todas as épocas, pois ele, Senhor soberano e absoluto, não muda, e também não
tem nenhuma necessidade de mudar, pois a força do homem se encontra na natureza
absoluta de Deus.[56]
J. Gresham Machen, por sua vez, afirmava o mesmo sobre este assunto tão
importante:
Pensem um instante no lugar acordado à Lei de Deus no Antigo Testamento, à lei
como nos foi dada por meio de Moisés. Vocês acham que isso ocorreu por acaso?
De forma alguma. Isso se deu porque a lei está na base de tudo o que a Bíblia tem a
dizer. Através de todo o Antigo Testamento nos é apresentado um grande
pensamento central: Deus é o legislador e o homem que lhe deve obediência. E o
que dizer do Novo Testamento? O Novo Testamento ofuscará essa ideia? O Novo
Testamento depreciará de alguma maneira a Lei de Deus? Alguns pensaram assim.
Este erro, que é dos antinomianas, afirma que a graça introduzida por Cristo revogou
a Lei de Deus para os crentes. Trata-se de um erro verdadeiramente assustador.[57]
E o grande especialista reformado do Antigo Testamento, Oswald T. Allis,
escreveu:
O dispensacionalismo compartilha o erro fundamental alta crítica. Possui um caráter
divisor e defende uma doutrina da Escritura que tende, sob muitos aspectos, a ser tão
destrutiva quanto a crítica bíblica da visão elevada da Escritura defendida por seus
protagonistas, além de subverter algumas das doutrinas cristãs particularmente caras
ao coração dos defensores deste sistema. Em uma palavra, apesar de tudo o que os
separa, a alta crírica e o dispensacionalismo são aqui muito parecidos. A alta crítica
divide a Bíblia em documentos que diferem entre si e até mesmo se contradizem. O
dispensacionalismo, da mesma forma, divide a Bíblia em dispensações que diferem
entre si e até mesmo se contradizem.[58]
Finalmente, Philip Mauro, depois de ter se convertido em meios darbistas, se
desviou de todo o sistema dispensacionalista ao qual tinha primeiramente
aderido, e concluiu sua demonstração magnífica do erro antinomiana tão
nocivo à vida cristã, demonstração extraída inteiramente da epístola aos
Gálatas, pelas seguintes palavra que nos servirão de conclusão:
Observamos que mesmo os textos empregados hoje para incitar sentimentos de
aversão em relação à Lei de Deus e fazê-la parecer algo totalmente contrário ao
evangelho, ensinam exatamente o contrário: a saber: [...] a lei e o evangelho são
etapas complementares do mesmo grandioso trabalho de Deus. Pois, com respeito a
esta questão, a verdade, tal como foi ensinada através de todos os séculos do
cristianismo, é que a lei era uma parte necessária, assim como o evangelho, no
imenso plano de redenção de Deus.[59]
XXI. Os fundamentos bíblicos da moral e do direito
abalados
Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo? (Sl 11.3)
As tuas palavras são em tudo verdade desde o princípio, e cada um dos teus justos
juízos dura para sempre. (Sl 119.160)
Admiráveis são os teus testemunhos; por isso, a minha alma os observa. A revelação
das tuas palavras esclarece e dá entendimento aos simples. Abro a boca e aspiro,
porque anelo os teus mandamentos. Volta-te para mim e tem piedade de mim,
segundo costumas fazer aos que amam o teu nome. Firma os meus passos na tua
palavra, e não me domine iniquidade alguma. Livra-me da opressão do homem, e
guardarei os teus preceitos. Faze resplandecer o rosto sobre o teu servo e ensina-me
os teus decretos. Torrentes de água nascem dos meus olhos, porque os homens não
guardam a tua lei. Justo és, SENHOR, e retos, os teus juízos. Os teus testemunhos, tu
os impuseste com retidão e com suma fidelidade. O meu zelo me consome, porque
os meus adversários se esquecem da tua palavra. Puríssima é a tua palavra; por isso,
o teu servo a estima. Pequeno sou e desprezado; contudo, não me esqueço dos teus
preceitos. A tua justiça é justiça eterna, e a tua lei é a própria verdade. Sobre mim
vieram tribulação e angústia; todavia, os teus mandamentos são o meu prazer. Eterna
é a justiça dos teus testemunhos; dá-me a inteligência deles, e viverei. De todo o
coração eu te invoco; ouve-me, SENHOR; observo os teus decretos. Clamo a ti; salva-
me, e guardarei os teus testemunhos. Antecipo-me ao alvorecer do dia e clamo; na
tua palavra, espero confiante. Os meus olhos antecipam-se às vigílias noturnas, para
que eu medite nas tuas palavras. Ouve, SENHOR, a minha voz, segundo a tua
bondade; vivifica-me, segundo os teus juízos. Aproximam-se de mim os que andam
após a maldade; eles se afastam da tua lei. Tu estás perto, SENHOR, e todos os teus
mandamentos são verdade. Quanto às tuas prescrições, há muito sei que as
estabeleceste para sempre. (Sl 119.129-152)
I. Fraqueza da igreja de Deus
A. Preâmbulo histórico
Gostaria de situar historicamente neste estudo como os fundamentos
estabelecidos por Deus, da moral e do direito, foram abalados na civilização
ocidental. Veremos que o desenvolvimento do humanismo secularizado, ateu,
deplorado tão vivamente no final do século XX, provém, em primeiro lugar,
do abandono por parte das igrejas da lei divina como norma absoluta do bem
e do mal.
O século XVIII, com homens de Deus como George Whitefield (1714-1770),
John Wesley (1703-1791) e Jonathan Edwards (1703-1758), entre muitos
outros na Inglaterra e nos EUA, viveu uma renovação evangélica
significativa. O avivamento se prolongou na Inglaterra com o ministério
poderoso de Charles Spurgeon (1834-1892). No continente, o movimento dos
irmãos morávios despertou muitos cristãos adormecidos, a partir do final do
século XVIII, e preparou o caminho para os diferentes avivamentos na
França e na Suíça românica que marcaram toda a primeira metade do
século XIX. Eles foram caracterizados pelo grande esforço de evangelização
e pela expansão magnífica do trabalho missionário no mundo inteiro.
Lembremo-nos de homens como César Malan, Adolphe Monod, Félix Neff,
Jean-Henri Merle d’Aubigné, Alexandre Vinet e Louis Gassen, entre muitos
outros, que testemunham a amplitude desse movimento do Espírito de Deus
em nossas regiões. A obra inspirada por Ruben Saillens no início do século se
inscreve em uma linha semelhante, como o famoso avivamento de Drôme das
décadas de 1920 e 1930 com seus quatro mosqueteiros, Cadier, Eberhart,
Champendal e Caron. No mesmo sentido, devemos citar a obra imensa
realizada pelo Exército de Salvação.
Entretanto, olhando de mais perto, devemos constatar que os avivamentos,
frutuosos no plano das conversões individuais, surtiu pouquíssimo efeito nos
planos políticos e sociais. Estamos exagerando, claro, mas é inegável que,
apesar dos avivamentos que marcaram nossa história nos últimos séculos, a
influência da fé cristã sobre a sociedade ocidental não parou de diminuir em
extensão e profundidade. Em todos os lugares se instalou a secularização do
ateísmo humanista dominante que hoje tanto nos impressiona.
Talvez alguns possam dizer: “Não é tarefa do cristianismo exercer influência
direta sobre a sociedade, marcar a vida política e social das nações em que
Deus plantou sua igreja”. Essa afirmação é verdadeira? Trata-se de um ensino
verdadeiro da Palavra de Deus? A fé cristã sempre foi tão insignificante na
influência pública quanto é hoje? Examinemos primeiramente o testemunho
da história ao observar os efeitos públicos da pregação do evangelho em dois
momentos decisivos do desenvolvimento da igreja: no início do cristianismo
e na época da Reforma.
Ninguém pode duvidar da força e do dinamismo da igreja primitiva. Os
cristãos dos primeiros séculos apresentaram uma eficácia na evangelização
do mundo pagão absolutamente impressionante. Em uma geração, os
apóstolos de Cristo haviam levado o evangelho e fundado igrejas desde a
Índia até os confins do Atlântico, da Etiópia até o mar Negro. E isso não foi
tudo. Em três séculos — atravessando, sem dúvidas, períodos de duras
perseguições — a igreja apostólica e pós-apostólica virou de cabeça para
baixo a maioria das instituições pagãs do Império Romano. O impacto do
cristianismo sobre a sociedade de seu tempo foi imensa. Citemos rapidamente
alguns exemplos desta influência.
A pregação cristã teve como efeito:
▪ o desaparecimento da escravidão;
▪ o fins dos jogos sangrentos dos circos;
▪ a transformação radical do casamento e da família;
▪ a eliminação da prática do aborto e do infanticídio;
▪ a absorção dos princípios da lei bíblica no direito romano;
▪ a transformação de algumas instituições políticas do Império etc.
A fé cristã manifestou um forte poder de infiltração semelhante quando se
confrontou, mais tarde, com as nações germânicas que invadiram o Império.
Os eslavos e a Rússia experimentaram os benefícios da cristianização de toda
a sociedade.
O resultado da influência tão profunda do cristianismo foi a chamada
cristandade medieval — muitas vezes desconhecida nos meios protestantes e
evangélicos que, com muita frequência e de modo inconsciente, adotaram a
interpretação laica da história imposta pelo espírito humanista do
Renascimento e do Século das Luzes. Os historiadores paganizadores viam
na Antiguidade grega e romana os modelos da verdadeira civilização. A
dominação cristã da Idade Média era considerada um período de superstição
e trevas, situando o renascimento da luz sem Deus no período moderno que
aprendeu a viver sem o Criador e sua lei-Palavra. A Idade Média — meio
termo entre as duas épocas civilizadas do Império Romano e do
Renascimento — foi o das catedrais edificadas pelo zelo popular para a glória
de Deus, das instituições e leis profundamente marcadas pelo cristianismo.
Sobre este plano cultural, social e político, devemos constatar que a Reforma
manifesta a real continuidade da cristandade medieval.
Mas a igreja ocidental, em particular, se desviou da Palavra de Deus,
estabelecendo, como haviam feito os judeus da época de Jesus Cristo, suas
tradições humanas no lugar e acima da Palavra de Deus. Assim, o
cristianismo apóstata escancarou a porta para o renascimento dos falsos
ensinos e dos ídolos da Antiguidade pagã. A resposta de Deus à onda de
impiedade, imoralidade, anarquia e desespero que se abateu sobre a Europa
dos séculos XIV e XVI foi um dos mais fortes avivamentos que o Espírito
Santo suscitou na história da igreja. Foi a Reforma. Ela que, de modo
contrário aos vários avivamentos mais recentes, não se limitou às áreas
espirituais ou religiosas.
Os reformadores reencontraram os pontos de vista da Bíblia e da soberania
divina que engloba toda a realidade. Eles criam na Palavra divina outorgada
para ser o meio da salvação para todo homem que crê no Filho de Deus, mas
a Palavra era também para eles a ordem estabelecida por Deus para toda a
criação.
o conceito do Deus soberano e mestre da criação, do Deus providente, mestre
da história, era partilhada por todos os reformadores. Eis o ponto forte da
visão de João Calvino que, na exposição da Bíblia, nunca deixava de aplicar
toda a Palavra de Deus a todos os aspectos da criação.[60] O reformador
Martin Bucer (de Estrasburgo), compartilhava o zelo de Calvino pela
aplicação da Palavra-Lei de Deus a todas as áreas da realidade.[61] Esta atitude
era também a do mais importante eticista e apologista da Reforma, Pierre
Viret (de Vaud). Por que, então, podemos nos perguntar, as grandes obras
deste eminente doutor da Palavra de Deus, entre as quais, em particular, uma
que expõe de forma detalhada o ensino resumido do que chamamos dez
mandamentos, nunca foram reeditadas em francês desde sua publicação no
século XVI?[62] Esta falha da literatura protestante indica já o pouco interesse
que nossos meios manifestaram desde a Reforma ao pensamento ético e
moral verdadeiramente bíblico.
Viret iniciou sua exposição magistral dos dez mandamentos nos seguintes
termos:
Por ter proposto proclamar a Lei de Deus, que deve ser considerada a regra de todas
as outras regras pelas quais os homens devem ser conduzidos e governados, direi,
antes de entrar em sua exposição, algumas palavras sobre as grandes dificuldades
encontradas em todos os tempos para governar bem os homens e contê-los nos
limites da razão, integridade e justiça e sobre as causas das dificuldades. Faço isso
para mostrar, em seguida, o único e verdadeiro modo para remediar esses grandes
males e chegar à verdadeira união em Deus requisitada na sociedade humana, sem a
qual os homens não podem nunca ser algo diferente do que mais temem, a saber,
miseráveis e desgraçados, neste mundo e no outro. Pois isso pode servir a muitos
para fazê-los considerar a lei divina com grande valor e com estima, como dever ser.
[63]

Um pouco mais à frente, no prefácio sobre a Lei de Deus, Viret acrescentou:


Deus quis conceder uma lei que servisse como regra para todos os homens da terra e
lhes guiar a mente, o entendimento, a vontade e as afeições dos que devem governar
os outros e dos que devem ser governados por eles. E fez isso para que todos juntos
reconhecessem um único Deus como seu soberano Príncipe e Senhor e que se
reconhecessem como seus servos e ministros. Todos eles deverão dar conta diante
do trono de sua majestade. Contudo, ele colocou na lei toda a doutrina moral
necessária para que os homens vivessem bem. O que fez de forma muito melhor e
sem comparação que todas as filosofias de todos os livros — tanto éticas quanto
políticas e econômicas e que todos os legisladores que existiram, existem ou
existirão, em todas as suas leis e ordenanças. De sorte que, somados todos, jamais
acrescentam nada de bom, que não estivesse compreendido nela, ou de mau, que ela
já não tivesse incluído. Portanto, se quisermos ser bem instruídos, para saber como
nos conduzirmos e governar-nos a nós mesmos, segundo o direito, a razão e a
justiça, ou como governar nossas casas e famílias, ou como governar o bem público;
a lei nos poderá servir de verdadeiras políticas cristãs éticas e econômicas, se for
bem compreendida.[64]
Os efeitos do poderoso avivamento poderiam, assim, se manifestar em todas
as áreas da vida, influenciando a economia, a política, o direito, a vida
familiar, a educação, as artes, as ciências e a linguagem, algo que se deve
muito mais à ação formadora da Bíblia do que imaginamos comumente. A
consequência foi que um dos maiores avivamentos de toda a história da igreja
de Deus, que não só transformou a vida de um grande número de homens,
mas reformou a sociedade das nações que receberam a pregação do
evangelho.
Não deveríamos, de fato, esperar essas consequências da ação, neste mundo
perdido, do Deus a quem pertencem os céus e a terra, o Mestre soberano das
nações e o Rei dos reis do mundo?
Ele não nos deu a ordem, não só para evangelizar almas, mas também — pela
força daquele a quem todo o poder já foi dado no céu e na terra — para fazer
discípulos de todas as nações, batizá-los em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo, e ensiná-los a guardar tudo o que Jesus ordenou.
E nós, que cremos na inspiração inerrante das Escrituras sagradas,
acreditamos que Jesus Cristo fala aos homens pela lei, pelos profetas da
antiga aliança e pelos Evangelhos — que nos trazem as próprias palavras do
Filho de Deus feito homem — e pelo ensino dos apóstolos. John Knox,
movido por uma visão bíblica semelhante a esta, do fundo de seu banco de
remador — remador de uma galé pela recusa a orar para à “rainha dos céus”
— pôde lançar uma oração fervorosa a Deus: “Dê-me a Escócia, ou eu
morrerei!”. E Deus, que dos altos céus ouve e atende as orações dos filhos,
deu-lhe a Escócia. Ele não pode nos dar hoje a Suíça, a França, a Inglaterra, a
Rússia se lhe pedirmos com fé?
Faltaram à maioria dos avivamentos evangélicos dos três últimos séculos a
visão do Deus soberano, o mestre de todas as coisas, e da lei divina, a medida
de toda a realidade criada. Esta fraqueza levou a igreja de Deus a se tornar
um gueto espiritual insignificante que conhecemos tão bem, a igreja, que, por
sua própria falha, entregou o mundo sem batalha ao reino do mal, às trevas, a
Satanás. Por nossa culpa — cristãos sem envergadura, pois nos esquecemos
da grandeza e do poder de nosso Deus — Satanás quase se tornou hoje o
mestre do planeta terra! O sal da terra perdeu o sabor. Aquela que deveria ser
a luz do mundo não ilumina mais a cidade dos homens, pois a igreja não
cumpre mais sua tarefa plena: ser a luz das nações.
II. Como chegamos aqui?
Por que então, desde do final do século XVII, assistimos a semelhante
desvanecimento, a tal enfraquecimento, a tão lamentável colapso da
influência do cristianismo sobre a cidade, a vida da sociedade e, para
terminar, sobre as almas?
A. Erros filosóficos
A primeira resposta a essa questão dolorosa deve ser buscada na forma pela
qual uma filosofia perniciosa passou a exercer crescente domínio sobre uma
parte cada vez maior do cristianismo. É muito proveitoso ler ainda hoje o
diagnóstico do advogado e pastor Claude Brousson, destinado ao clero
reformado refugiado fora da França depois da Revogação do Édito de Nantes.
Ele afirmou:
Quantos — isto é, pastores franceses — não procuravam por novidades para se
diferenciar? Em todos os tempos, a filosofia — a sapiência humana e carnal —
causou prejuízos à religião. Entretanto, não era a filosofia que muitos pastores
acreditavam tirá-los do comum? Mas de que filosofia falamos? Da filosofia cujas
máximas são claramente perigosas e perniciosas. (Trata-se da filosofia de Descartes e
de todo o idealismo subjetivista decorrente dela). De fato, ainda que nos princípios
apresentados pelos novos filósofos, eles se distanciem talvez mais do senso comum,
da razão correta e da verdade que nenhuma outra seita precedente de filósofos, estes
senhores pensam ter compreendido melhor os segredos da natureza que todos os que
nunca fizeram profissão da filosofia, tornando-se extremamente presunçosos. Eles
possuem o soberano desprezo a outros homens e pensam, ao mesmo tempo, não haver
nada que esteja acima do alcance de seu espírito. Seria pouco se eles se contentassem
em alegar a necessidade de desafiar tudo que os antigos nos ensinaram e fazer um
novo exame. Contudo, ao mesmo tempo, insinuam que o espírito do homem é
naturalmente tão esclarecido que quando ele se aplica com atenção à procura de
alguma verdade e se persuade da concepção de uma ideia clara e distinta, não pode
estar enganado. Ocorre, no entanto, o tempo todo com os mais preocupados e os mais
engajados no erro, considerar as próprias ideias claras e distintas. Mas eles não
deixam de se enganar. Entretanto, quando estes senhores creem ter concebido alguma
coisa de modo claro e distinto, persuadem a si mesmos de sua infalibilidade e rejeitam
como absolutamente falso tudo que contraria suas ideias. A desgraça não seria grande
se aplicássemos a máxima nociva só às matérias indiferentes. Todavia, a partir do
momento em que a mente humana está cheia da boa opinião sobre si mesma, não há
nada que não queira submeter à sua razão.
De fato, meus honrados irmãos, não podemos ver sem dor que os novos filósofos,
pastores ou não, consideram a Escritura sem conformidade com suas pretensas ideias
claras e distintas, tentam distorcê-la de forma vergonhosa para acomodá-la a seus
sentimentos. Eles se contentam em dizer que o desígnio da Escritura não é nos tornar
filósofos (isto é, eruditos), e que podemos observar que em vários lugares, ela
discorre sobre muitas coisas, não segundo a verdade, mas segundo a aparência do
julgamento comum. Por isso, não sentem dificuldade em contradizê-la todas as vezes
que seu testemunho não concorda com seus pensamentos vãos.[65]
Assim foi cavado o fosso do subjetivismo idealista em que foi enterrado mais
tarde grande parte do protestantismo. O formalismo ortodoxo da época de
Brousson não estava preparado para combater uma filosofia tão perigosa
como a de Descartes.
A incapacidade provinha da falta ao pensamento cristão da época da
aplicação mordaz — isto é que “morde” a realidade — da Palavra de Deus
aos erros de seu tempo. Trata-se de uma falha de ordem lógica e filosófica,
pois não sabiam mais como tirar da Bíblia a aplicação lógica a todos os
aspectos da reflexão contemporânea. Cornelius Van Til expressou de forma
muito correta a atitude intelectual cristã necessária a todas as épocas quando
escreveu:
Cristo espalhou sua luz sobre todos os aspectos da vida toda [...] Se alguém objeta
que a Bíblia não nos fala com clareza sobre muitos problemas atuais, respondemos
que, na verdade, isso não é justo. A Bíblia tem efetivamente algo a dizer a respeito
de todos os problemas que se colocam diante de nós quando se aprende a arte de
aplicar o que a Escritura nos oferece como princípios ou exemplos às nossas
circunstâncias precisas.[66]
No início do século XVII, Agrippa d’Aubigné já percebera o enorme perigo à
fé cristã representado por certo simplismo bíblico que se recusava a refinar o
pensamento escriturístico quando combatia os erros da época, levando a
guerra intelectual e espiritual para o terreno do inimigo. D’Aubigné
comentou o ensino fornecido nas academias reformadas de seu tempo da
seguinte forma:
Formam-se aqui com solidez bons gramáticos que não se baseiam em bravatas como
os jesuítas. As disciplinas morais, a física e a teologia se encontram bem servidas, e
nada falta para que se façam ali bons pastores para interpretar e analisar as
Escrituras fielmente, e para lutar contra os maus costumes. Eu apontaria só para algo
que noto faltar ali: que demos a nossos pastores, além do cajado para as ovelhas,
uma funda contra os lobos. Alguns doutores (trata-se, sem dúvida, da Academia de
Saumur), cansados das complexidades da lógica, eximem-se do labor pela
consciência e, pensando ter dito o suficiente contra um sofisma agudo por tê-lo
designado sofisma, não se dão ao trabalho de analisá-lo e refutá-lo [...] Eu não pude
dar minha opinião aos mestres que me responderam para se livrar logo de mim, e
ficaram calados; e quando ousei lhes falar da metafísica, sem a qual não é possível
penetrar os meandros das distinções, nem discernir as falsas das legítimas, eu
mesmo ousei desejar que um aluno fosse ensinado a desmantelar as armadilhas de
Tomás de Aquino, Scotus e seus companheiros, a tudo isso me responderam com
enaltecimentos, a pureza da Escritura e a simplicidade de quem a professa; de modo
que essas boas pessoas se atêm à simplicidade da pomba e não querem a prudência
da serpente. Rogo que nossa juventude seja instruída a se defender mais que a
ensinar os outros no século em que os adversários não pecam por falta de
conhecimento, mas defendem sua glória e riquezas com o aço da sutilidade. Sejamos
semelhantes a nossos adversários na arte da disputa e o assunto de nossas
controvérsias será tão vantajoso para nós que eles cederão infalivelmente.[67]
D’Aubigné não foi ouvido, e a consequência da falta de prudência filosófica,
acuidade lógica e verdadeira apologética bíblica, isto é, crítica precisa
fundamentada na Palavra de Deus, do pensamento, bem estudado, dos
adversários da fé reformada, não se fez ouvida. Por não destruir os falsos
raciocínios do momento e não refutar os argumentos capciosos de eruditos,
filósofos e teólogos, a fim de levar à obediência de Cristo todos os
pensamentos dos homens, os pensamentos dos cristãos se tornaram
prisioneiros dos erros de seu tempo. Como constatava com dor Brousson, isso
se deveu à falta de defesa intelectual dos próprios pastores infectados pelo
subjetivismo filosófico de Descartes.
Como consequência das fraquezas intelectuais, morais e, para resumir, das
falhas de discernimento espiritual, o protestantismo foi entregue a uma falsa
filosofia, o idealismo. De Descartes a Marcuse e Foucault, todos os filósofos
idealistas, isto é, os filósofos que recusam a verdade objetiva na criação e na
Bíblia, se tornaram os novos pilares do protestantismo. Assim foi renegado o
verdadeiro fundamento do cristianismo por quem se vangloriava de defender
a Bíblia dos erros romanos. Assim foi destruído o fundamento da verdade, a
Palavra escrita de Deus, revelação conceitual infalível do pensamento divino,
pensamento normativo para todas as coisas, toda a criação e o discernimento
do sentido da história humana. O fruto do abandono foi a eclosão da crítica
bíblica. Em vez de criticar os pensamentos errôneos dos homens à luz do
pensamento verdadeiro, imutável e justo de Deus, os homens se lançaram a
criticar a Bíblia em nome de ideias efêmeras do momento. Como seria ainda
possível resistir aos ventos e às marés destas falsas doutrinas da Antiguidade
que, desde seu renascimento nos séculos XV e XVI, para nossa tristeza,
submergiram nossa velha Europa?
Nota: Cartesianismo e catolicismo
Os erros filosóficos e teológicos que acabamos de analisar no protestantismo
do século XVII se manifestaram no catolicismo da mesma época. Eis o que
escreve o historiador Emmanuel Beau de Loménie:
Aceita-se comumente que, durante o longo período que abrange a maior parte dos
séculos XVII e XVIII, a França intelectual foi dominada pelas ideias do chamado
racionalismo cartesiano. Aceita-se que sob a inspiração de fórmulas enunciadas por
Descartes no Discurso do método, desde a grande época literária do século de
Luís XIV, tinha se estabelecido a convicção de que a razão, isto é, a “a força de bem
julgar e distinguir o verdadeiro do falso”, é “naturalmente igual em todos os
homens”, e deveria, se fosse conduzida pelo método correto, permitir não só o
alcance do encadeamento das verdades universais, mas, além disso, inspirar as
verdadeiras obras de arte. [...]
Aceita-se que, depois disso, no século XVIII, sob a inspiração dos filósofos
enciclopédicos, o culto à razão universal ganhou adeptos e se desenvolveu; de modo
que os primeiros doutrinários da revolução de 1789 pretendiam, ao proclamar a
Declaração dos direitos do homem, levar e espalhar pelo mundo, sob a invocação da
deusa Razão, princípios válidos para toda a humanidade.[68]
Loménie nos lembra que Descartes foi educado pelos jesuítas. Seu método
havia servido em primeiro lugar para dar uma base supostamente científica à
fé cristã “demonstrando que a razão trazia uma justificativa para os princípios
da religião”. Todavia, se o objetivo buscado pelos filósofos era diferente do
de Descartes, o método puramente racional é o mesmo.
Étienne Couvert, por sua vez, em um excelente livro, dedica um capítulo
importante a Descartes e à fé católica.[69] Seguindo os passos de Jacques
Maritain e do padre Raymond Léopold Bruckberger,[70] ele demonstra o
caráter iluminista e gnóstico do racionalismo cartesiano. Bossuet, como
Brousson, estava muito consciente do perigo que o cartesianismo
representava para a fé:
Observo uma grande luta sendo preparada contra a igreja sob o nome de filosofia
cartesiana. Vejo nascer de seu seio e de seus princípios mais de uma heresia e
prevejo que as consequências contra os dogmas defendidos por nossos pais vão
torná-la odiosa e farão a igreja perder todo o fruto esperado para estabelecer no
espírito dos filósofos a divindade e a imortalidade da alma [...] Dos mesmos
princípios, outro inconveniente terrível ganha insensivelmente as mentes. Pois, sob o
pretexto do dever de aceitar só o que se entende com clareza, o que, guardadas as
proporções é verdade, todos se dão a liberdade de dizer: entendo isso e não aquilo, e
sobre esse único fundamento, aprova-se ou rejeita-se tudo que se deseja, sem pensar
que além das ideias claras e distintas, há também as confusas e gerais que não
deixam de encerrar verdades tão essenciais que destruiríamos tudo ao negá-las [...]
Eles introduzem com esse pretexto a liberdade de julgar que torna, sem atenção à
tradição, temerário aceitar tudo que pensamos. Nunca o excesso apareceu mais que
no novo sistema, pois encontro nele os inconvenientes de todas as seitas...[71]
Apesar das condenações reiteradas da Igreja Católica desde o final do
século XVII, o cartesianismo se tornou a filosofia dominante, mesmo nos
seminários. No século XVIII, todo o ensino é cartesiano. O Deus Criador de
todas as coisas e sustentador de todo o universo foi substituído pelo deísmo
que se esforça para distanciar cada vez mais Deus do mundo. Fontenelle
escreveu: “O cristianismo é uma fábula. Não devemos detestar as fábulas.
Precisamos nos livrar delas lentamente para a eficácia da razão”.[13]
Couvert citou o Journal de Trévoux, de junho de 1705, que corrobora as
preocupações de Agrippa d’Aubigné:
Tememos aprofundar com elas (as crianças) as matérias da religião. Contentamo-nos
em lhes dar ideias superficiais e exigir delas o apego à fé como se fosse necessário
persuadi-las [...] Como não colocamos nenhum fundamento sólido em sua mente, as
exortações à virtude com as quais as cansamos só lhes causam alguma impressão
quanto o temor e a vigilância os tornam eficazes. Elas entram no mundo em um
campo de batalha em que a religião é atacada por todos os lados e elas entram sem
armas, sendo empurradas. Como as crianças poderiam resistir?[72]
B. Erros morais
Chegamos à segunda causa da fraqueza das igrejas protestantes a partir do
final do século XVII. Com o Concílio Vaticano II, a Igreja Católica se juntou
à grande corrente do idealismo protestante que examinamos aqui. A
renovação evangélica de piedade pessoal da qual falamos era uma reação à
esclerose da religião que se tornara em essência formalista e racionalista que
não conseguiu romper o esquema filosófico idealista surgido ao mesmo
tempo que ela. Na verdade, o pietismo adotou de forma geral a distinção
kantiana típica do idealismo — distinção entre o que Kant chama numenal —
o que concerne a Deus — e o fenomenal — o que concerne ao mundo
diretamente observável. O pietismo apenas transpôs o numenal para o
espiritual e o fenomenal para a área material, social, política etc. Trata-se de
um erro de tipo platônico que valoriza as ideias em detrimento da matéria.
Assim, uma corrente gnóstica atuou na igreja de Deus para desvalorizar a
doutrina bíblica da bondade da criação divina, a bondade de tudo o que Deus
tinha feito: nosso corpo e a própria matéria. Essa corrente, com o pietismo,
inventou uma religião angélica centrada apenas no domínio celeste, no amor,
esquecendo-se de que o reino dos céus tem algo muito real a fazer já hoje
sobre a terra.
Sob essa perspectiva, o reino de Deus, cuja vontade deve se realizar já sobre
a terra como no céu — e isso na proporção da santificação pessoal do nome
de Deus, — é preterido em troca da versão distorcida da única necessidade: a
salvação pessoal. O cristão se retira do mundo para a igreja e trabalha para
atrair o maior número de homens — esperando com impaciência um reino de
Deus que será apenas futuro. O aspecto combativo e dominante do
cristianismo foi esvaziado.
O espírito combativo cristão movia profundamente João Calvino. No tratado
Contre la secte fantastique et furieuse des libertins qui se nomment spirituels
[Contra a seita fantástica e furiosa dos libertinos que se nomeiam espirituais],
[73]
texto de atualidade surpreendente, que poderia ter sido escrito em nossa
época, Calvino define a tarefa do pastor diante dos semeadores de erros na
igreja:
Quando alguma seita perversa e maliciosa começa a pulular e principalmente
quando cresce, a tarefa de quem nosso Senhor estabeleceu para a edificação da
igreja é ir diante dela e rejeitá-la vivamente, antes que se fortaleça para perverter e
corromper ainda mais. De fato, uma vez que são pastores da igreja, não basta que se
proponham e administrem bom pasto ao rebanho de Jesus Cristo, se não vigiam
contra os lobos e os ladrões, a fim de gritar quando aparecem e expulsá-los para
longe do rebanho se quiserem se aproximar. Falando de forma específica dos
hereges: eles não são só ladrões ou lobos; são muito piores pelo fato de
corromperem a santa Palavra de Deus; são como envenenadores: matam as pobres
almas sob o pretexto de alimentá-las e lhes dar boa carne.[74]
Os libertinos do século XVI, que Calvino ataca tão rudemente, eram os
antepassados dos erros que tentamos combater aqui. Calvino escreveu a eles:
Pois eles fazem crer que o homem se atormenta em vão se é escrupuloso, e que cada
um deve se deixar levar por sua cabeça. Assim, confundem a ordem, zombando do
temor de Deus e de seu julgamento que possuem os fiéis, e o de toda a consideração
da honestidade humana. A liberdade que prometem consiste em ser um homem tão
viciado em tudo que seu coração deseja e cobiça, que ele não terá nenhuma
dificuldade se não estiver sujeito à lei nem à razão.[75]
A vontade de se libertar dos limites objetivos — isto é, exteriores a nós
mesmos — da lei e da razão caracterizou o pensamento filosófico idealista
que exerceu uma influência tão nefasta na teologia protestante moderna e na
situação em que se encontra a maioria dos avivamentos evangélicos dos
últimos séculos.
Um exemplo particularmente impressionante do fenômeno procede dos
escritos de Agenor de Gasparin. De Gasparin foi um importante apologista do
avivamento evangélico que marcou a primeira metade do século XIX na
Suíça românica e na França. Ele fez, entre outras coisas, uma defesa vigorosa
da inspiração das Escrituras contra os ataques dos liberais de seu tempo.[76]
Além disso, escreveu várias obras de moral prática, em particular sobre a
família, de interesse sempre atual.[77] Mas podemos descobrir nos estudos
morais uma fraqueza doutrinária e intelectual devida ao desconhecimento da
maneira pela qual Calvino ou Viret aplicavam de maneira prática os
ensinamentos precisos da Palavra de Deus às questões éticas. O defeito se
torna flagrante na súmula de ética geral: a ausência de fundamento preciso de
sua reflexão ética na Lei de Deus falseia por completo sua perspectiva. Em
sua obra monumental — são quase mil páginas — a Lei de Deus quase não
aparece.[78] Ela quase nunca é citada, nem mesmo mencionada.
No espírito do século XIX, a liberdade se torna o fundamento e o objetivo da
moral cristã. A moral está inteiramente fundada sobre normas subjetivas: a
consciência, o sentimento de dever, o senso inato do bem e do mal. Critérios
subjetivos são, assim, transformados em absolutos. Na parte de seu livro
dedicada aos fundamentos da ética cristã intitulada “Les causes de la liberté”
[As causas da liberdade], De Gasparin nem mesmo menciona a Lei de Deus.
Os assuntos abordados na seção são particularmente eloquentes. Trata-se de
Deus (8 páginas), do dever, da convicção, da luta interior, do respeito a si
mesmo, das seduções da derrota, da família, das afeições eternas, da bondade,
do trabalho, do recolhimento, da liberdade na educação. É preciso lembrar
que Agenor de Gasparin não era de forma alguma um liberal (no sentido
teológico da palavra), mas um dos guerreiros mais intrépidos do que
chamaríamos hoje uma linha fundamentalista dura apegada à manutenção
absoluta da liberdade das igrejas contra qualquer ingerência do Estado. Ele
era, além disso, um filantropo esclarecido, fundador do Hospital da Fonte em
Lausanne. Mas sua Bíblia infalível lhe era de pequena utilidade no plano
prático, moral e político. Uma vez que esvaziou a lei divina da doutrina
bíblica, ele não sabia mais como utilizar a Palavra de Deus como luz para seu
caminho. Se ele era um dos melhores dirigentes do avivamento, como
deveriam ser os outros? Mesmo homens mais estritamente calvinistas — e
que muito injustamente caíram no esquecimento — como César Malan, Jean-
Henri Merle d’Aubigné ou Louis Gassen, também não sabiam aplicar a lei
bíblica à vida social como fonte divina da moral e do direito. A Palavra de
Deus tão corajosamente defendida por cristãos destemidos não parecia mais
poder servir como luz do mundo e sal da terra.
A única exceção — ainda que bastante parcial — a essa cegueira e paralisia
ética evangélica é a de Alexandre Vinet que, graças à sua imensa cultura e fé
inteligente e combativa, reatou com a tradição real de reflexão cristã realista
sobre a moral e política. No fim da vida, e às vésperas do último combate
contra as pretensões totalitárias de um Estado de Vaud submisso às
influências conjugadas do hegelianismo e da maçonaria laicista e mística de
Henri Druey, Vinet escreveu:
O direito, mesmo com o cortejo de sanções penais, não é uma arma carnal: é só
justiça armada, e, por ser armada, é menos justiça? É sua culpa ser armada?
Queremos que permaneça em estado de simples ideia para manter a pureza? Manter
a lei e subtrair a pena equivale a negar que o governo civil seja uma instituição
divina, pois ele abarca indissoluvelmente a lei e a pena.[79]
Encontramos semelhantes fraquezas éticas evangélicas nas publicações
provenientes do avivamento da Drôme no início do século. Pierre Caron, por
exemplo, em uma crítica fundamentada ao cristianismo social, datada de
1931, não via como responder biblicamente às questões sociais, políticas e
econômicas levantadas pelos adversários liberais.[80] Os cristãos focados nas
questões sociais, mesmo sem razão ao tratar das questões segundo o espírito
do tempo — fortemente oposto ao pensamento bíblico — tinham o mérito de
ao menos colocá-las. Vemos também em Caron a defesa judiciosa da
inspiração da Bíblia e das doutrinas centrais da salvação não servirem para
oferecer o esclarecimento verdadeiro das questões econômicas, sociais e
políticas, muito importantes, da década de 1930. Ele nunca aprendera a
manejar a espada do Espírito, a Palavra-lei divina, como instrumento de
discernimento entre o verdadeiro e o falso em todas as áreas do pensamento
humano. A espada temível, nos diz a Bíblia, poderia ser usada apenas por
homens feitos, experientes na prática de separar o bem do mal (Hb 4.12;
5.11-14).
É necessário, de fato, insistir no ponto. Desde o século das luzes — e já em
certa medida antes, — o conjunto dos evangélicos adotara o esquema
fundamental de Emmanuel Kant. Lembremo-nos brevemente: para Kant
existe o dualismo radical entre Deus e a criação, não no plano
Criador/criatura, mas no do conhecimento. Para ele, Deus não pode ser
conhecido, mas pode ser acessível à comunhão mística incomunicável pela
razão, incompreensível em sentido intelectual e perfeitamente irracional. A
criação faz parte da área do conhecível. No entanto, se a razão domina o
mundo dos fenômenos, o conhecimento obtido dela jamais poderia ser
verdadeiro, isto é, se relacionar à verdade incognoscível do numenal, de
Deus. Para empregar os termos de Kant, os fenômenos não revelam nunca o
númeno e o númeno não pode comunicar nada inteligível sobre os
fenômenos. Isto é, Deus nunca se revela: nem na criação, nem na Bíblia, nem
mesmo o Filho de Deus feito homem pode nos dizer algo verdadeiro, em
sentido absoluto, sobre Deus nem, na verdade, sobre qualquer outra coisa.
Sem dúvida, os evangélicos provenientes dos avivamentos não teriam
aceitado um sistema dualista apresentado desse modo. Para eles, a Bíblia
oferece o conhecimento verdadeiro de Deus e de sua obra redentora.
Podemos estar seguros do que a Bíblia diz sobre a salvação eterna. Essas
certezas permitem a segurança real quanto à salvação. Mas a certeza se limita
apenas ao domínio religioso. Os evangélicos aceitaram inconscientemente a
separação kantiana entre o númeno e os fenômenos, separação transposta aos
planos espiritual e temporal, opondo religioso e profano, igreja e todo o
mundo político, social, cultural, artístico, científico etc. O pintor cristão René
Eugène Burnand resume muito bem esse ponto de vista em uma carta
endereçada ao pastor R. Guisan:
Permita-me dizer, querido amigo: sinto muita dificuldade para aceitar esse
subjetivismo, o evolucionismo religioso que ganha os espíritos. Não posso conceber
algo verdadeiro um dia não mais dois mil anos depois. Essa noção, que destrói
completamente o passado, não me oferece nenhuma confiança no presente. Preciso
encontrar o absoluto no domínio religioso, deixando para a ciência humana, política
e arte as noções vacilantes do relativo.[81]
Nada poderia ser mais evangélico; nada poderia negar com mais clareza a
autoridade divina sobre toda a criação, negar que a verdade bíblica nos
oferece o entendimento seguro de todas as atividades humanas. Ao identificar
o sentido da palavra cosmo, que traduzimos mundo, com o sistema maléfico
do reino de Satanás, esquecemo-nos de que a palavra indica muitas vezes na
Bíblia a noção de universo, criação de Deus, terra — todas as coisas
pertencentes por direito a Deus, o Criador, chamadas para serem santificadas
com vistas à restauração de todo o universo no final dos tempos.
Sob essa perspectiva evangélica e fundamentalista fortemente marcada pela
filosofia kantiana, os domínios religioso e profano se tornam impermeáveis.
O pietismo dualista dos cristãos dos séculos XIX e XX foi uma das causas
fundamentais do sucesso assustador das ondas sucessivas, aparentemente
irresistíveis, do humanismo cada vez mais secularizado, ateu, hostil a Deus e
a todos os aspectos da ordem de sua lei para a criação. O cristianismo pietista
não se saiu bem contra inimigos como a maçonaria, o socialismo humanista
ou o comunismo ateu. A força desses movimentos cada vez mais
explicitamente anticristãos provém, sobretudo, do fato de os cristãos
enfeitiçados pelo dualismo kantiano abandonarem o terreno do mundo
supostamente mau sem luta.
O cristão pietista se fazia assim aliado objetivo do príncipe deste mundo, ao
se esquecer das verdades elementares: a fé é vitoriosa sobre o mundo e todo o
poder já foi dado a Cristo, sobre a terra como no céu. Não podemos também
nos esquecer de que a criação pertence duplamente a Jesus Cristo: como
Criador e Redentor.
Conclusão
Todos esses malefícios provêm da atitude em relação a única base possível da
moral e do direito: a lei divina. Não é o conhecimento, mesmo das coisas de
Deus, que nos salvará, mas a fé em Jesus Cristo, a fé na verdade que ele é e
nos revela para todas as coisas; esta fé que nos libertará, e conosco toda a
criação que geme nas cadeias forjadas pela iniquidade humana. A fé é
inseparável da fidelidade, da obediência ao pensamento, às palavras, às
ordens de Jesus Cristo, à lei do nosso Deus. A verdadeira fé implica sempre
obediência, e obediência em todas as áreas tratadas por Deus. Onde não há
obediência às ordens divinas — isto é, onde faltam as obras da fé em
conformidade à Lei de Deus — ali, nos diz Tiago, não há nenhuma fé. O
conhecimento infla, ensina a Escritura, mas o amor edifica. O que é o amor,
senão, em primeiro lugar, obediência aos mandamentos de Deus? A
verdadeira fé produz frutos. Ela produz o fruto triunfante da obediência fiel e
sempre mais completa à lei divina, em todos os aspectos da vida. A lei é uma
lâmpada para nossos pés. Ela define, na verdade, o caminho estreito
conducente à vida. Alexandre Vinet percebeu bem isso quando criticou nos
avivamentos de seu tempo o desconhecimento da lei divina. A fé prática
destruiu o paganismo dominante no Império Romano, que modificou a
corrente humanista que levou o século XVI nascente à anarquia da sociedade
permissiva. Deus quer empregar hoje a mesma fé, exercida na vida cotidiana,
como alavanca nas mãos de sua igreja confessante e combatente para destruir
o poder humanista maléfico reinante em todas as nossas nações como o
usurpador ilegítimo nocivo, e para manifestar de maneira clara as primícias
do reino de Deus sobre a terra.
Pierre Marcel escreveu do ponto de vista das implicações do dualismo sobre
nossa atitude em relação à atividade cristã na área científica e, mais
especificamente, em relação ao cosmo criado por Deus e destinado à
restauração plena no retorno de Cristo:
A concepção dualista da regeneração foi e continua a ser causa de ruptura entre a
vida da natureza e da graça. Quem concentra seu esforço na contemplação das coisas
celestes e da única graça salvadora, negligencia a atenção requerida pelo mundo
criado. A superestimação das coisas eternas conduz à subestimação das coisas
temporais e da graça comum. A adoração mística só de Cristo culmina quase na
exclusão de Deus, o Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra. Muitas seitas se
enganam e concebem Cristo exclusivamente como o Salvador da alma ou de nossa
pessoa, despojando-o de qualquer significação cósmica. A redenção não se limita à
salvação dos pecadores individuais: ela visa, na verdade, ao mundo inteiro, à reunião
orgânica, à recapitulação de todas as coisas nos céus e na terra sob a autoridade do
Chefe, Cristo (Ef 1.1) que anunciou a regeneração de todo o cosmo, a renovação de
todas as coisas, quando o Filho do homem se assentar no trono de sua glória
(Mt 19.28).
A criação espera a revelação dos filhos de Deus com desejo ardente, declara o
apóstolo Paulo (Rm 8.19-21), para a liberdade gloriosa em que deseja participar. No
Apocalipse, é Aquele que criou o céu e tudo o que nele há, a terra e tudo o que existe
sobre ela, o mar e as coisas que ele contém (10.6), que, com o Cordeiro, recebe o
louvor, a honra, a glória e a força pelo século dos séculos (5.13). O Apocalipse
retorna ao ponto de partida de Gênesis: “No começo Deus criou o céu e a terra”
(Gn 1.1). A redenção em Cristo, realizada e profetizada na Escritura, não visa só à
inauguração de um reino espiritual para recolher ali as almas salvas, mas à
restauração de todo o cosmo, quando Deus será tudo em todos, sob novos céus e
nova terra.[82]
O Cordeiro é julgado digno de abrir o livro e os sete selos por ter sido
imolado e comprado com seu sangue homens de toda tribo, raça e nação a
fim de constituir um reino e sacerdotes para Deus com quem eles reinarão
sobre a terra (Ap 5.9,10). Ao vencedor, àquele que guarda as obras de Cristo
até o fim, será dada a autoridade sobre as nações (Ap 2.26). Se as nações se
levantaram contra Deus e por isso devem ser julgadas por ele (Ap 11.18), não
é de forma alguma em vista de seu aniquilamento total, de sua simples
destruição. Será necessário, sem dúvida, que o Filho de Deus e seus filhos
rejam as nações com vara de ferro (Ap 12.15), pois a besta exercerá o poder
maléfico de Satanás sobre toda tribo, todo povo, toda língua e toda nação
(Ap 13.7; 17.15; 20.3,8), seduzidos pelos sortilégios de Babilônia, a grande
prostituta, cujo destino é fazer com que bebam do vinho da ira de sua
fornicação (Ap 14.8; 18.3,23). Essa perversão universal levará as nações a
beber de outra taça — da ira divina ardente. Da mesma forma que o juízo
fogo pelo qual deve passar a criação material não é de forma alguma seu
objetivo derradeiro, o mesmo ocorre com as nações — que, lembremo-nos,
fazem parte da criação divina — o juízo necessário não é o fim de sua
história.[83]
Por meio dos remidos, todas as nações virão se prostrar diante de Deus, pois
sua justiça terá se manifestado (Ap 15.4). Todas as nações farão parte dos
novos céus e da nova terra; as folhas da árvore da vida que se encontra na
nova Jerusalém servirão para a cura de todas as nações (Ap 22.2). Ali, não
haverá mais anátema (Ap 22.3), pois não entrará na cidade santa, onde se
encontrará o trono de Deus e do Cordeiro, nada contaminado, nem ninguém
que se entregue à abominação e à mentira, apenas os inscritos no livro da
vida (Ap 21.27).
E a cidade não necessita de sol nem de lua, para que nela resplandeçam, porque a
glória de Deus a tem iluminado, e o Cordeiro é a sua lâmpada. E as nações dos
salvos andarão à sua luz; e os reis da terra trarão para ela a sua glória e honra. E as
suas portas não se fecharão de dia, porque ali não haverá noite. E a ela trarão a glória
e honra das nações. (Ap 21.23-26)
Assim se realizará a restauração de todas as coisas e as nações participarão
desta recapitulação final! Cristo será então efetivamente tudo em todos e a
criação, restabelecida de forma completa, proclamará a glória de seu Criador
e Salvador, Pai, Filho e o Espírito Santo, a quem pertencem a força, a honra e
a glória pelos séculos dos séculos. Amém.
XXII. Jacques Ellul e a impossível dialética entre Marx
e Calvino[84]
Depois de quarenta anos, o protestantismo francófono foi marcado por
grandes personalidades laicas, cuja importância recebeu menos atenção
apreciativa que a merecida nos meios evangélicos e reformados. Refiro-me,
em particular, à obra de escritores como Denis de Rougement e Marcel
Regamey, na Suíça,[85] e, na França, Jean Brun, Pierre Chaunu e Jacques
Ellul.
Este último publicou em 1981 pelas edições Le Centurion uma série de
entrevistas autobiográficas significativamente conduzidas pela jornalista
católica Madeleine Garrigou-Lagrange. O livro resultante esclareceu de
maneira excepcional não só a obra imensa de Jacques Ellul, mas também
todo o seu itinerário espiritual. Ele constitui também um importante
comentário sobre os acontecimentos políticos dos últimos cinquenta anos. O
livro, apesar de algumas repetições, é muito bem escrito e se lê com paixão,
provocando no leitor uma boa reflexão.
Para tratar em primeiro dos antecedentes de Jacques Ellul, sabemos que do
lado de seu pai — um homem de negócios arruinado pela grande crise — ele
é de origem servo-italiana, e que do lado de sua mãe — pintora — suas
origens são francesas e portuguesas. De ambos os lados, Ellul — nome de um
mês do calendário judeu — tem antepassados judeus, ainda que sua mãe
fosse protestante não praticante, e seu pai livre-pensador, superficialmente
ligado à igreja ortodoxa sérvia. Ellul nos oferece alguns vislumbres de sua
infância que nos fazem desejar que ele utilize o tempo livre para nos oferecer
uma verdadeira autobiografia.
I. Iniciação marxista
Aluno brilhante e com uma forte capacidade de assimilação de
conhecimentos nos mais diversos domínios, faltava ao jovem Jacques Ellul
um enquadramento que pudesse dar um sentido a todas as suas ideias. A
primeira explicação do mundo, que aliás nunca abandonou, lhe foi fornecida
pela leitura de Karl Marx. Era 1931. Estudante, pai desempregado, pai e mãe
doentes, ele deveria prover a casa dando aulas ao mesmo tempo que
prosseguia com seus estudos:
Quando nosso professor de economia política nos falou de Marx, pedi emprestado à
biblioteca O capital e comecei a lê-lo; vocês compreenderão facilmente que o efeito
produzido por esta leitura não foi puro acaso. Eu contava 18 anos. Acabara de
descobrir uma interpretação total do mundo, a explicação do drama da miséria e
decadência que havíamos vivido. A excelência do pensamento de Marx no plano da
explicação econômica me convenceu.[86]
A essa convicção Ellul, na verdade, nunca mais retornou. Depois disso, ele se
distanciou do comunismo e do marxismo dogmático. Ele afirmará, por
exemplo: “Não me é mais possível crer que o marxismo represente o última
palavra da ciência, a última palavra da verdade. Nestas áreas, eu diria que o
marxismo tornado dogmático representa uma mentira”.[4]
Também sobre o comunismo, ele é claro:
E, hoje ainda, aceita-se entre os intelectuais a crítica do comunismo sobre o plano
econômico ou institucional! Mas não no essencial. O comunismo é antes de tudo a
corrupção interna radical do homem. Foi o que a experiência me ensinou. O que
torna, nessa ordem de ideias, os cristãos comunistas os piores! Eu me oponho,
portanto, definitivamente ao comunismo.[87]
Entretanto, ele sempre aceitou, e aceita ainda, o marxismo como explicação
global da realidade social:
Todavia, concordo com o marxismo como método de interpretação — um dos
melhores, na minha opinião, o melhor — do mundo dos séculos XIX e XX; com o
marxismo que oferece também certa possibilidade de ação política.[88]
E acrescenta: “O marxismo, como estudo sociológico do capitalismo, não
implica nenhuma crença”.[89]
Assim, sua interpretação do mundo, interpretação perfeitamente objetiva,
uma vez que não implica nenhuma crença, lhe foi fornecida pelo pensador
cujo sistema de pensamento era profundamente oposto à fé cristã! O
pensamento social, econômico e político de Ellul tem, desde o início,
fundamentos radicalmente ateus. Este é um ponto capital que não pode ser
esquecido ao lê-lo. Sua análise da sociedade não é cristã, mas marxista.
Mas o que é então seu cristianismo? Apesar dos antecedentes familiares
formalmente cristãos, Ellul não recebeu de fato nenhuma educação cristã. Seu
cristianismo parte de um encontro dramático com Deus:
E depois houve em minha vida um evento que podemos chamar de conversão e
sobre o qual não quero falar. Gosta-se bastante de falar sobre conversões. Eu citarei
apenas duas coisas a respeito. A primeira, foi tão brutal quanto a conversão mais
brutal de que já se teve notícia. A segunda, fugi loucamente de quem se revelara a
mim. Não foi uma conversão positiva, a que leva a pessoa a ler a Bíblia, a entrar na
igreja. Ocorreu o contrário: reconheci que Deus falara, mas eu não tinha o desejo de
que ele colocasse sua mão sobre mim. Fugi. O debate durou seis anos. [...] Digamos
que eu queria continuar mestre da minha vida e tinha a impressão que cedendo à
pressão divina eu não seria mais o chefe. Isso explica o fato que, ao descobrir Marx
e sua explicação do mundo, preferi seguir essa via em lugar do cristianismo.[90]
Mas em Ellul, tratava-se de um cristianismo puramente pessoal, que não
ultrapassava a devoção privada:
De fato, o cristianismo não me parecia uma explicação do mundo. Não podemos nos
esquecer de que na época o debate essencial dos cristãos girava em torno da
salvação individual. Tratava-se de uma questão puramente pessoal. Mas foi no nível
dessa questão pessoal que Marx me pareceu falho. Ele podia explicar minha
situação, mas não a condição humana, minha condição de homem moral, de homem
que sofre e ama, minhas relações com os outros.[91]
Citemos ainda esta passagem decisiva:
À medida que levava muito a sério o pensamento de Marx, quando insistia na
inutilidade de colocar a questão de Deus e recusava qualquer dimensão que não
fosse a dimensão econômica e política, eu não via conciliação possível. Aliás, eu
não conseguia ver nenhuma sistematização possível do cristianismo nas áreas
econômicas e políticas. As teorias sociais da igreja me pareciam antigas, e o
socialismo cristão, o cristianismo social [...] me parecia muito superficial e não
entrava a fundo no problema. Ademais, a revelação que eu recebera de Deus era
sistematizável? Eu percebia claramente a possiblidade da comunicação no plano
individual, devoção, oração [...] mas nada além. Sou, portanto, incapaz de eliminar
Marx, a revelação bíblica, e incapaz de fundir os dois. Para mim, não era possível
somar um ao outro. Comecei então a me dividir entre os dois e continuei assim por
toda a minha vida. O desenvolvimento de meu pensamento se explica a partir desta
contradição.[92]
II. Marx e Calvino
O dilaceramento foi ainda mais acentuado por sua adesão, nesta mesma
época, a alguns aspectos do pensamento de Calvino. Foi a leitura de Instituição
da religião cristã que o conduziu a se ligar à igreja reformada. O que ele
apreciava muito particularmente em Calvino era sua referência constante aos
textos da Bíblia e sua leitura bastante direta da Escritura. Mas a adesão a
Calvino não ajudava a tornar posição de Ellul mais fácil. Eis como ele definia
a posição espiritual do reformador: “Calvino é um escritor de combate. Sua
teologia é extremamente fechada. Para ele, existe só uma verdade, todo o
resto é erro. Em outras palavras, nenhum pluralismo é compatível com seu
pensamento”.[11]
Como então conciliar a adesão a dois sistemas de pensamento tão exclusivos
e contraditórios? “... o mais desconfortável era estar diante de dois
pensamento tão exclusivos, tão totalitários. Porém, eu não podia abandonar
nenhum dos dois”.[93]
Como Ellul afirma muito bem: se o dilaceramento não fosse superado, ele o
levaria a se tornar literalmente esquizofrênico (p. 20). Ele resume a situação de
maneira impressionante:
Em meu caso, não era impossível ser rigoroso intelectualmente com o pensamento
de Marx em tudo o que concerne à interpretação do mundo. Aliás, eu estava
convencido, desde o início, de que não pode haver política, economia nem
sociedade cristãs,[94] e sim que a revelação traz uma verdade existencial
fundamental. Eu deveria encontrar uma forma de fazer essas duas verdade serem
vividas em conjunto. Digo bem vividas, e não conciliadas intelectualmente em um
sistema. O aspecto econômico e político do pensamento de Marx [...] se tornava para
mim um bom quadro de compreensão da sociedade em que eu vivia, mas a revelação
[...] não me permitia viver ali, continuar a viver ali.[95]
Nas passagens, Ellul apresenta de forma muito clara os fundamentos de todo
o seu sistema intelectual. Resta-nos ver como ele evitou a esquizofrenia
intelectual tão característica de seu dualismo fundamental: liberdade
existencial e determinismo sociológico. A conciliação ocorre primeiramente
pela dialética prática, de ação. A resolução das dificuldades teóricas pela ação
domina toda a civilização moderna, ao mesmo tempo pragmática e ativista.
Segundo a famosa frase de Goethe, um dos mestres de Ellul: “No início havia a
ação” e não o Logos, o Verbo, a Palavra de Deus.
Nessas condições, o progresso do meu pensamento poderia ser apenas dialético: ou
eu me fixava no ponto do dilaceramento ou me tornaria literalmente esquizofrênico,
ou ainda ultrapassaria a contradição andando, como dizia Mao, sobre minhas duas
pernas, conseguindo a cada vez responder a uma ou a outra situação existencial, a
uma ou outra situação histórica ou política. Feito isso, eu encontrava a contradição e
precisava avançar de novo.[96]
Encontramos a solução de seus problemas intelectuais e espirituais na ação
dialética ao longo de toda a carreira de Jacques Ellul. Quer se trate da criação
de pequenos grupos na década de 1930 com o objetivo de preparar a mudança
da sociedade, da resistência na guerra, da participação na liberação da cidade
de Bordeaux, da ação na igreja Reformada da França e no interior do
conselho ecumênico das igrejas, do combate ecológico ao qual se lançou para
salvar o litoral da Aquitânia, ou da obra de auxílio aos jovens perdidos —
todas as ações integravam a dialética capaz de apaziguar temporariamente a
tensão provocada por sua adesão a dois sistemas contrários.
III. Marx, Calvino... e Barth!
Entretanto, a tensão intelectual e espiritual entre Marx e Calvino era muito
violenta para durar. A dialética entre a tese marxista e a antítese calvinista
deveria culminar em uma síntese capaz de resolver ou, ao mesmo, acalmar o
conflito. Seu amigo Jean Bosc lhe forneceu a solução para a tensão
insuportável. Ele lhe apresentou o pensamento de Karl Barth.
Jean Bosc me fez encontrar Barth que possui uma dimensão completamente
diferente. Eu me lembro do choque provocado em 1936 — ou talvez em 1935 —
pela leitura de Parole de Dieu, parole humaine [Palavra de Deus, palavra do
homem][...] foi uma libertação inacreditável.
Com ele, descobri primeiramente uma compreensão flexível da Escritura. Barth era
muito menos sistemático que Calvino e completamente existencial.[97]
Para Ellul, o encontro com Barth foi decisivo e lhe permitiu o desvio da
interpretação rígida, isto é, sistematicamente lógica, gramatical e histórica,
que Calvino oferecia da Bíblia. Ele afirma isso com muita clareza:
À medida que conheci melhor o pensamento protestante, afastei-me de Calvino para
me aproximar de Kierkegaard e de Karl Barth.[98]
Antes de mais nada, não sou calvinista e, se a leitura de Calvino me influenciou em
certa época, daí em diante, e de forma muito ampla, eu me distanciei dele.[99]
E acrescenta estas palavras particularmente significativas:
... evoluí ainda mais do ponto de vista teológico que do ponto de vista sociológico.
Ao menos expliquei e aprofundei meu conhecimento intuitivo da sociedade. Nada
do que aconteceu em 35 anos me levou a mudar algo essencial do meu pensamento.
As chaves da compreensão e meu método de trabalho continuaram os mesmos, e a
nova produção se limitou a confirmar o que eu havia escrito.[100]
Não nos esqueçamos de que sua intuição primária do sentido da sociedade
provinha de Marx e que o marxismo lhe forneceu a chave! Em todo
procedimento dialético, uma das duas teses acaba por dominar a outra. Como
nos adverte Jesus Cristo, não é possível servir a dois senhores. Para Ellul, a
interpretação marxista da sociedade é o elemento dominante do pensamento
dialético, a base sobre a qual se desenha o contraponto do pensamento
bíblico. Vejamos como ele comenta o grande mandamento: “Amarás o
Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu
entendimento” (Mt 22.37):
Eu pensei que poderia haver um modo de relação dialética (entre a Bíblia e a análise
da sociedade). Não que para um problema colocado em termos sociológicos exista
uma resposta cristã, mas um contraponto dialético. [...] Então tentei, em 1943,
estabelecer um plano do que poderia ser uma obra de conhecimento da sociedade
atual com, em paralelo, o contraponto teológico. [...] Mais uma vez, não se trata de
oferecer respostas cristãs — nem soluções (o que seria absurdo).[101]
Afinal, como em uma fuga, o baixo contínuo marxista determinará para Ellul
a natureza do contraponto teológico. Na boa doutrina marxista, o cristianismo
de Jacques Ellul é o epifenômeno do fenômeno fundamental, evidentemente
econômico e político.
Mas o encontro com Barth surtiu muitos outros efeitos. Para Ellul, como para
um grande número de intelectuais protestantes, permitiu a reconciliação do
respeito à Bíblia e a aceitação da crítica bíblica moderna. Aqui ainda a análise
de Ellul é tão lúcida que merece ser citada in extenso:
Barth fez algo que me pareceu prodigioso. Existia então, no seio do protestantismo,
uma corrente muito forte dita liberal, um pouco correspondente ao antigo
modernismo católico, cuja tendência era retirar do cristianismo e da teologia os
elementos racional e cientificamente inaceitáveis. De minha parte, eu não era
completamente liberal, pois concedia um lugar de proeminência à palavra bíblica em
que tudo, incluindo o irracional, o não científico, me parecia importante. Isso não
impedia que a crítica dos liberais me parecesse séria (principalmente a crítica
história). Barth ultrapassou o conflito entre ortodoxos e liberais e o ultrapassou
graças à dialética, integrando à sua teologia tudo que os liberais haviam descoberto e
formulado. Ele reintegrou principalmente o mito como meio de compreensão do
texto bíblico [...] Enfim, tornou-se possível percorrer a via da pesquisa científica,
histórica, exegética, crítica, mantendo ao mesmo tempo a plenitude do texto bíblico.
[102]

Isso teve implicações evidentes na área da ética:


Trata-se de um fator muito importante do pensamento de Barth mostrar a liberdade
como algo central e Deus como o libertador. A partir do pensamento de Barth, posso
dizer que tudo muda. Os mandamentos divinos não são mais imperativos, apenas
promessas. Não precisamos mais ler no decálogo: “Faças isto, mas: podes viver
assim”. [...] Portanto, não é uma pesada obrigação que nos faz ultrapassar os limites,
mas uma possibilidade de vida.[103]
Em outro lugar, ele afirma que, apesar da paixão pelo direito romano “eu
contestava sem cessar o jurídico em nome da vida.[104]
E sobre a ética, afirma ainda: “Uma ética, sim, como queiramos, mas não
uma ética do mandamento que se exprima com “Faças isto”. Em lugar da
ética de ordem espiritual [...] um imperativo de liberdade a partir da
libertação de Cristo”.[105]
A função da lei se encontra aqui apagada pela do evangelho e estamos diante
do cristianismo antinomiano profundamente distorcido. As regras do jogo são
apagadas e não causa surpresa que no sistema religioso de Ellul todos possam
ganhar. Ele chega até mesmo a defender o caráter universal da salvação.
Ninguém se perderá. Essa visão o conduziu a não se conformar à vontade de
Cristo e obedecer aos santos mandamentos dele, e sim à realização da própria
vontade de Ellul, a levar sua vida como desejava: “Eu realizei minha
invenção e meu trajeto pessoal. De qualquer forma, me parecia impossível
viver sem que isso tivesse sentido. Precisei encontrar um mesmo que ele não
existisse”.[106]
Todavia, a impressão final das confissões de Jacques Ellul é que seu trajeto
pessoal consistiu em, como ele mesmo confessou, um fracasso:
Eu diria facilmente que fracassei sob todos os aspectos e que não sinto nenhuma
amargura quanto a isso [...] Uma vez que minha experiência não deu em nada, não
era o que precisava ser feito. Não perdemos nosso tempo, tentemos outra coisa...
Se isso não é animador, então lamento: é tudo que posso dizer antes de tentar algo
diferente. Toda a minha vida eu tentei fazer outra coisa.
Sem ela (a certeza da revelação bíblica), eu teria caído no desespero vendo a
inutilidade de meus esforços e o fracasso de todas as revoluções. O fracasso sempre
teve grande importância na minha vida.[107]
IV. O defeito metafísico na armadura de Ellul
Assim, de onde pode provir semelhante sentimento de impotência e ineficácia
em um homem de ação tão capaz e enérgico? Existe algo de verdadeiramente
trágico no destino descrito por Jacques Ellul. Temos a impressão de um
imenso talento desperdiçado, uma riqueza prodigiosa arruinada, uma vida
frustrada. Há nela a aparência de piedade, mas onde está a força que move
montanhas? A fraqueza crucial de Ellul está — e é ainda ele quem nos revela
— em sua incompetência e, por isso, em sua inocência metafísica. Falando de
suas primeiras leituras cristãs, ele diz:
Eu li na mesma época (na qual descobriu a Instituição cristã de Calvino) Agostinho,
de quem estava muito próximo, um pouco de Tomás de Aquino, com quem não me
identifiquei nem um pouco. Mas isso se deve a um defeito intelectual perene: não
sou filósofo; assim, continuei completamente fechado ao pensamento de Aquino,
que me parecia filosófico. Li Duns Scotus e alguns outros grandes teólogos da Idade
Média, pelos quais não senti mais interesse que por Aristóteles e Platão.[108]
Existe em Ellul a oposição entre o existencial e o filosófico, característica de
todo pensamento proveniente da neo-ortodoxia kantiana de Barth. Cristo não
nos diz apenas: “Eu sou a vida” — o que equivaleria ao cristianismo
unicamente existencial — nem “Eu sou a verdade” — o que levaria ao
cristianismo puramente conceitual. Mas ele declara: “Eu sou o caminho, a
verdade e a vida”. Assim, ele afirma o aspecto existencial e o conceitual da fé
cristã. Assim a fé, nossa relação com Deus, e a regra de fé, a doutrina cristã,
não podem se opor no cristianismo. Calvino tem o dom de manter em seus
escritos os dois aspectos dos cristianismo sempre juntos. Este é também o
caso, em diversos graus, de todos os verdadeiros pensadores cristãos. A
perigosa inocência conduz Jacques Ellul a afirmar: “O marxismo como
estudo sociológico do capitalismo não implica nenhuma crença”.[109] Ou que
existe hoje “... um conhecimento bíblico mais profundo e cada vez mais livre
de pressupostos filosóficos ou teológicos”.[110]
O que a reflexão filosófica calvinista pode concluir cada vez mais clareza
depois de um século é que não podemos dispensar os pressupostos — pré-
julgamentos — filosóficos e teológicos, de motivos de base religiosos, como
afirma o grande mestre nesta área, Herman Dooyeweerd. Para quem tem um
pouco de conhecimento e de perspicácia filosófica, salta aos olhos que todo o
pensamento de Jacques Ellul está fundado sobre o dualismo kantiano da
oposição absoluta entre a liberdade e a necessidade, a oposição do numenal
aos fenomenal. De um lado, encontramos Deus e a religião, cujo fundamento
é a liberdade. A liberdade é concebida não só como algo além do bem e do
mal pois, como afirma Ellul: “O bem, do qual nos fala a Escritura, não é o
equivalente do bem moral, mas a identidade com a vontade de Deus”,[111]
além também dos limites da razão. Além disso, temos toda a vida terrestre,
técnica, econômica, política, científica etc. Entre os dois há uma ruptura
absoluta. Encontramos esse esquema nas diferentes obras de Ellul: para o
direito (Le fondement théologique du droit [O fundamento teológico do direito]);
para a vida econômica (L’homme et l’argent [O homem e o dinheiro]); para a
técnica (La technique et l’enjeu du siècle [A técnica e a questão do século]) etc.
Todas as atividades humanas, diz ele, desembocam em nada, pois “Não há
continuidade possível entre a ação conduzida pelo homem sobre a terra e o
estabelecimento do reino de Deus”.[112]
Ellul chega assim ao que podemos justamente chamar demonização do
mundo, da política, da guerra, da administração, da técnica etc., e, no final, da
própria criação. “Eu considerava o mundo separado de Deus, portanto, mau.
E ainda creio nisso”.[113]
Por essa razão que Ellul se opõe com tanta força à revelação geral de Deus
para a criação, a toda lei moral que reflete fielmente o pensamento ético
preciso de Deus: “A moral do ‘Faças’ — ‘Não faças’ que é um
anticristianismo”,[114] e a qualquer manifestação presente do reino de Deus na
vida real do mundo: negócios, economia, política, técnica etc.
Todas as áreas são da ordem dos fenômenos irremediavelmente separados pelo
decreto eterno de Immanuel Kant do númeno de Deus, do pensamento de
Deus, do sentido que Deus dá a todas as suas criaturas. Isso não é nada mais
que o esvaziamento completo de toda a herança cristã de nossa civilização e,
mais ainda, torna impossível a descoberta de qualquer sentido no mundo que
nos cerca. A análise marxista, sobre qual Ellul pensa tão bem, é uma análise
da sociedade sem a consideração de nenhum dos elementos da criação.
Assim, surpreende que perspectiva semelhante chegue, por um lado, à
incapacidade de ir ao encontro da realidade social por meio de uma ação
eficaz, pois deixa escapar seu objeto, e por outro, ofereça uma descrição
infernal da realidade por ela imaginada? A obra de Ellul é, de certo modo, a
justificação teórica e um prolongamento ideológico da secularização
humanista do mundo moderno.
Podemos perceber isso nas entrevistas com Jacques Ellul, bem mais que uma
simples autobiografia fragmentária: o testemunho lúcido sobre o meio século
que se passou. O livro nos oferece a descrição de um caso típico.
Encontramos ali a evocação da trajetória da vida que resume o itinerário fútil
do cristianismo moderno e de toda a civilização perdida. A vida de Jacques
Ellul é como o resumo encarnado das consequências intelectuais, morais e
espirituais do dualismo kantiano. O kantismo, poderíamos dizer,
institucionalizou a mentira, pois a verdade divina e a realidade perceptível
são colocadas em diferentes planos, o que impede qualquer comunicação
entre elas.
Encontramos em Kant a separação fundamental entre o ser (o em-si e o
númeno) e a aparência das coisas (os fenômenos). O primeiro pertence à fé, o
segundo à razão. A fé em Deus não pode consistir em conhecimento
conceitual; o conhecimento sensível e racional dos fenômenos não pode dar
testemunho de seu ser, de seu sentido verdadeiro, de Deus. De um lado, a
religião; de outro, a ciência. De um lado, os homens e suas necessidades
existenciais fundamentais; de outro, a técnica que nega o homem. Essa
dicotomia inconciliável se manifestou de modo fundamental na oposição
entre Hegel e Kierkegaard. Cada um mantinha um dos elementos do sistema
kantiano e o levava às últimas consequências. Para Hegel, era o sistema
lógico absolutizado; para Kierkegaard, era a fé, o indivíduo, o instante
existencial divinizado. É necessário compreendermos com clareza que no
combate contra Hegel, Kierkegaard não soube ultrapassar verdadeiramente o
quadro do sistema kantiano. Toda a sua oposição a Hegel apoiava-se no
númeno de Kant, no instante existencial totalmente inapropriado à
conceitualização.
O que revela de forma vívida as confidências de Jacques Ellul a Madeleine
Garrigou-Lagrange é como ele encarnou essa divisão — que ele mesmo
chama esquizofrênica — em toda sua vida, em todo o seu pensamento. Para
Ellul, os dois polos do kantismo vivido e refletido são, para os fenômenos,
Karl Marx; e para o númeno, Karl Barth. Barth desempenha aqui o papel do
instante existencialista kierkegaardiano; Marx, o dos fenômenos —
principalmente políticos e econômicos racionalizados do hegelianismo. É a
oposição característica do pensamento moderno entre liberdade e
necessidade, oposição que Dooyeweerd, Van Til e Schaeffer souberam tão
bem apontar: o homem livre contra a técnica totalitária.
E se Kant estivesse errado? Se, na realidade, o problema não se colocasse
dessa forma? Se técnica e ciência não fossem adversárias irredutíveis da vida e
da liberdade humanas? Se fé e razão não fossem inconciliáveis? Se o sistema não
fosse de forma alguma, em si, o adversário mortal do instante vivido? Se o
númeno, Deus, não estivesse irremediavelmente separado dos fenômenos, da
criação? Se, de fato, os fenômenos manifestassem todos, nos mínimos
detalhes, o ser, e que toda a criação — técnica, ciência, razão, economia,
política etc. — desse um testemunho claro do ser, do númeno, do instante
existencial, da fé, de Deus? Apesar da vaidade e da corrupção às quais todas
as criaturas estão sujeitas desde a queda, o nome do Senhor é magnífico em
todo o universo. A terra e os céus lhe dão glória, e a criação inteira
testemunha seu poder eterno e divindade. Das estrelas mais distantes à
estrutura ínfima dos átomos, tudo dá glória de modo estrondoso ao Criador.
A esquizofrenia kantiana não passa de um espírito de cegueira com que Deus
beneficia liberalmente os “sábios” — os que se consideram sábios e se
recusam a ver a manifestação da glória divina em toda a criação. Ao negar a
evidência, tão fulgurante quanto o sol ao meio-dia, eles se tornam totalmente
indesculpáveis diante de Deus.
O mal não está na técnica, na razão, no sistema nem na ciência. Ele também
não está no determinismo criado por Deus, os fenômenos. O bem não está na
vida, na liberdade, na fé, no instante existencial e muito menos na comunhão
irracional mística com o númeno. Todas essas coisas podem ser boas ou más,
fonte de bem e de vida. Elas são fontes de vida se as usamos em Cristo, no
objetivo para qual foram criadas, de acordo com as leis imutáveis de Deus
reveladas em sua Palavra escrita. Mas são todas fontes de morte e destruição,
de mil males, se seu uso se desvia do Deus vivo, de sua boa lei, fora de
Cristo, quando se sujeitam sobretudo às loucas fantasias dos homens
revoltados contra o Autor da vida, o Artífice do universo e o Ordenador
divino da sociedade humana.
Dessa forma, não devemos considerar o instante bom e o sistema mau. O
instante sem Deus, o instante fora de Deus, fora da fé e da obediência às
palavras de Cristo, o instante nietzschiano, o instante drogado ou sádico só
pode ser ruim. O sistema em si mesmo não é mau nem bom. Tudo depende
do que ele ordena. Todo sistema autônomo em relação a Deus e a sua
Palavra, isto é, fora de seu sistema — no sentido da verdade providencial,
sistemática, coerente e completa, que ultrapassa todo sistema imaginável por
nós — se desvia do próprio fim e, por isso mesmo, se corrompe.
O marxismo, por causa do ateísmo sistemático e da negação radical e
sistemática da lei divina — veja o antidecálogo em que consiste o Manifesto
comunista — é o pior sistema econômico e político possível. No plano do
psiquismo, o mesmo ocorre com o freudismo, também antidivino,
antimosaico e anti-humano.
O quadro da análise marxista composto por Ellul para analisar a sociedade
chegaria inevitavelmente, como consequência de seus pressupostos religiosos
e filosóficos de base, à descrição da sociedade totalmente fechada sobre si
mesma contra Deus — sociedade infernal, no sentido próprio do termo.
Como seu quadro de análise está fundado na mentira, o modelo político,
econômico e técnico de Ellul só pode ser deformado. A realidade deveria
então ser rejeitada em bloco, pois não poderia ser modificada para o bem pela
obediência da fé dos cristãos à Palavra de Deus. Como Freud escolheu uma
das piores neuroses — o complexo de Édipo — como norma absoluta das
estruturas de todo o psiquismo, da mesma forma, Ellul escolheu a descrição
marxista falsa da sociedade radicalmente alienada como modelo tipológico de
sua análise social.
Quaisquer que sejam os estragos do mal sobre o psiquismo e a sociedade, um
momento de reflexão nos fará compreender a aberração desse procedimento.
Não é o pecado que estrutura a boa criação divina. A ordem da criação boa
vem em primeiro lugar; a corrupção e a vaidade, que a fazem suspirar pela
manifestação completa do reino de Deus, vem depois. A técnica tem seus
fundamentos na criação: o psiquismo humano não é estruturado por sua
doenças, mas pela ordem dos mandamentos de Deus; a sociedade não está
fundada sobre a injustiça, mas sobre a ordem eterna da lei divina. Não são as
patologias médicas, psíquicas, técnicas, políticas, econômicas e sociais que
estruturam o real. Não nos seria necessário apenas olhar para o Criador do
homem e do universo para discernir a ordem criada por Deus para a vida e a
alegria, em resumo: para a salvação dos homens e de toda a criação?
Conclusão
Podemos agora mensurar a que ponto a tragédia do dilaceramento da vida e
do pensamento de Jacques Ellul, revelada de forma tão pungente nas páginas
de confidências, oferece ao mundo um exemplo. Na tragédia pessoal — Deus
queira que ele retorne deste caminho de perdição! — está resumido o dilema
de toda a nossa civilização. Os limites do bem e do mal, do verdadeiro e do
falso, da verdade e da mentira foram deslocados, e o homem, crendo assim se
tornar o senhor de seu destino, estabeleceu por si mesmo novos limites e se
perdeu. Todavia, os limites antigos permanecem na realidade da ordem
criada, não importa o que digam os homens. Devemos retornar aos limites
antigos, à ordem da criação, cuja configuração precisa é revelada na Escritura
pela lei divina. A luz da Palavra de Deus iluminará todas as coisas em nosso
caminho e poderemos trabalhar de novo, com confiança e eficácia, para a
reconstrução do mundo dilapidado pelos falsos pensamentos dos homens
revoltados contra o Senhor Jesus Cristo. Assim, veremos nosso trabalho dar
frutos visíveis na esperança da completa manifestação do reino de Deus,
quando nosso Senhor e Rei Jesus Cristo entrará em seu reino.
Anexos
A. O realismo de Jacques Ellul
A essas observações, convém acrescentar o complemento que se segue.
Nosso objetivo era descrever a orientação de sua obra. Mas os homens não
são, graças a Deus, inteiramente lógicos com os princípios errôneos e sua
obra pode conter algo além do que implica a orientação fundamental de seu
pensamento. É sem dúvida o caso de Jacques Ellul. Sua grande virtude
intelectual é o que ele mesmo designa realismo ao nível do solo que recusa
impiedosamente os mitos e fraudes dos homens que procuram trapacear a
realidade. Se apenas a acuidade crítica tivesse se virado contra seus próprios
pré-conceitos inquestionáveis: o mito da destruição criadora em Marx, a
pobreza intelectual e a frouxidão espiritual da crítica relativista da Bíblia e,
principalmente, o dualismo anticristão de Immanuel Kant. Mas talvez Deus
queria nos mostrar a quais aberrações conduzem a vontade do homem de se
libertar do jugo da verdade revelada e da lei divina, como as delimitações da
ordem da criação. De qualquer forma, a perspicácia excepcional que
transparece em toda a obra de Jacques Ellul nos faz mensurar a perda que foi
para a igreja de Jesus Cristo sua recusa orgulhosa de capitular diante de Deus
e seu desvio kantiano para o barthismo. Citemos alguns exemplos desse
veemente realismo. Falando sobre a época de Munique, ele escreve:
Eu diria que o período intermediário foi marcado pela aquisição de algo que, daí em
diante, não mais me deixou: o realismo político ao nível do solo. Em Munique, por
exemplo, muito tolamente considerei a situação da seguinte forma: eu não era de
Munique mas, contrariamente à quase totalidade dos intelectuais protestantes da
época, não fui contrário a Munique por uma razão puramente realista. Via com
muita clareza que Munique deixava livres as mãos de Hitler e destruiria a confiança
de nossos aliados em nós. Todavia ser oposto a Munique me parecia de um
irrealismo político completo. Eu dizia então (e escrevia!): Para entrar no combate, é
muito tarde ou muito cedo. É muito tarde porque, se tivéssemos desejado ganhar a
guerra contra Hitler, ela deveria ter sido iniciada em 1935, no momento da ocupação
do Ruhr. É muito cedo porque, se quisermos fazer guerra a Hitler de fato, é
necessário nos armarmos: não somos mais capazes de responder militarmente. Eu
apresentava um julgamento apreciativo concreto que influenciaria muitas vezes o
que escrevo e raras vezes é compreendido.[115]
Neste ponto preciso não é surpreendente que a análise de Ellul seja
exatamente igual à formulada por Charles Maurras na mesma época no
movimento Action Française [Ação Francesa]? Ele acrescenta:
Considerava então que os opositores a Munique eram sonhadores idealistas, cheios
de bons sentimentos, mas que não entendiam que declarar a guerra significava ser
derrotado por causa da desproporção das forças em 1938; era necessário um tempo
para se armar fortemente.[116]
Para citar um exemplo do realismo, ele afirma sobre a homossexualidade:
Conheço o discurso sobre a homofilia inconsciente, eles são absurdos em função de
uma pedante psicanálise ilusória; na realidade, trata-se, por um lado, de esvaziar a
amizade (que possui uma substância independente do eros que é hoje suspeito), por
outro, de reabilitar a homossexualidade na grande corrente que consiste em
demonstrar que esse desvio é perfeitamente normal, que todos são homossexuais;
assim, a amizade deve também ser aqui incluída.[117]
Para terminar, citemos estas palavras revigorantes sobre as besteiras da
pedagogia dita moderna:
Os defensores da pedagogia moderna consideram que o conhecimento não tem em si
mesmo nenhum interesse, que a memorização não tem valor. Mesmo nas classes
primárias, considera-se despertar a inteligência sem passar pelas disciplinas de
aquisição de conhecimentos — é um absurdo: da mesma forma, não nos tornamos
pintores juntando cores ao acaso, mas aprendendo rigorosamente a desenhar. Para
que Picasso chegue ao “último Picasso” foi necessário que ele fosse antes um
admirável desenhista. Não existe inspiração ou inteligência sem disciplina [...] A
inteligência não se desenvolve no vazio, mas a partir de certo número de dados. São
necessários conhecimentos adquiridos e memorizados para inovar, raciocinar,
progredir.[118]
A qualidade dessa reflexão realista nos faz lamentar ainda mais que toda a
obra de Jacques Ellul tenha caído na armadilha do idealismo filosófico.
b. A suposta excelência do pensamento econômico de Karl Marx
O valor do pensamento econômico de Marx não é tão evidente quanto supõe
Ellul. Para tomarmos um aspecto fundamental de toda a reflexão econômica,
o do valor econômico dos bens, é perfeitamente falso afirmar, como faz
Marx, que o valor do trabalho seja determinante para o estabelecimento dos
preços. Jean Daujat explica com clareza as razões disso:
Assinalemos ainda sobre esta questão um erro capital de Karl Marx que é basear o
valor econômico no trabalho em lugar da necessidade a ser satisfeita. Para Karl
Marx, e um grande número de economistas modernos que o seguem nesse campo, o
valor de um produto se mede pela soma de trabalho ali incorporado; está claro que
isso é falso se refletimos que podemos dedicar tanto trabalho quanto quisermos à
produção de alguma coisa, se esta coisa não satisfaz nenhuma necessidade, se não
ela não serve a ninguém, se ninguém a quer, ela não tem nenhum valor econômico;
ao contrário, os homens buscarão algo que necessitam ou desejam e lhe darão um
valor econômico mesmo que não seja necessário quase nenhum trabalho para obtê-
lo. Assim, tenhamos por certo que as necessidades e os desejos imprimem valor às
coisas.[119]
Aqui Jean Daujat, defensor da doutrina social católica, corrobora a refutação
das teorias econômicas de Marx, desenvolvida pela Escola Neoaustríaca de
Carl Meyer e Eugen von Böhm-Bawerk. Este último, em um estudo de 1896
intitulado La contradiction non-résolue du système économique marxiste [A
contradição não-resolvida do sistema econômico marxista],[120] pulverizou o
pensamento econômico de Marx. Ela nunca foi aparentemente refutada pelos
economistas marxistas. Ludwig von Mises, também desta Escola austríaca,
demonstrou de maneira definitiva — este estudo também nunca foi refutado
pelos marxistas — que na economia inteiramente planificada, cujo
mecanismo de mercado não tivesse mais nenhum papel, seria impossível
estabelecer o valor de um bem econômico. A ideia se encontra no estudo de
1920 intitulado, Economic Calculation in a Socialist Commonwealth [O cálculo
econômico em uma república socialista].[121] Mais recentemente, o economista Gary
North desmontou também os fundamentos do pensamento econômico de Karl
Marx.[122] Todos esses trabalhos são aparentemente ignorados por Jacques
Ellul.
Entretanto, o erro fundamental da visão marxista da economia, sociedade e
política é excluir da análise qualquer elemento teológico e ético. Esta
exclusão de Deus e da lei divina se encontra também no pensamento
econômico liberal pretensamente científico. O erro fundamental das duas
grandes correntes predominantes no pensamento econômico moderno foi
muito criticado pelos defensores do pensamento social cristão católico e
reformado.
XXIII. Uma impostura teológica: a moral segundo
Calvino de Éric Fuchs[123]
O professor Éric Fuchs, com seu colega Paul-André Stucki, após ter
procurado inutilmente recuperar a Lei de Deus — este código revelado dos
direitos de Deus e dos deveres dos homens — a favor da ideologia humanitária
dos direitos do homem, verdadeira religião de substituição,[124] reincidia em uma
nova operação de casuística teológica. Aproveitando as celebrações muito
curiosas do 450.o aniversário da Reforma organizadas por aqueles mesmos
que enterraram tão efetivamente a obra dos reformadores, Fuchs publicou nas
Edições do Cerf — nosso ecumenismo teológico obriga! — uma moral segundo
Calvino em que tenta um golpe de força espetacular: anexar a essência da ética
do reformador genebrino, e depois dele o próprio movimento calvinista, à
guerra santa declarada pelos cristãos progressistas a favor da libertação
exclusivamente política dos oprimidos.
Essa reviravolta calvinista do professor Fuchs causa surpresa, ainda mais pelo
fato de que as duas Faculdades de Teologia nas quais ele teve o privilégio de
ensinar ética, as Faculdades de Genebra e Lausanne travavam, havia muitos
anos, uma guerra inflexível contra a única faculdade verdadeiramente
reformada de nossos países francófonos, a Faculté Libre de Théologie
Réformée, de Aix-en-Provence, impondo sua interdição a qualquer
reconhecimento pelos diversas comissões dos ministérios dos cantões
românicos das qualificações acadêmicas dos estudantes que saem da
Faculdade de Aix. Como tolerância pluralista não poderíamos fazer melhor, o
pecado de recusa ao pluralismo parece imperdoável.
Lendo a obra de Fuchs, nossa surpresa aumenta. As 186 páginas deste livro
que seria, de alguma forma, a apologia de uma certa ética calvinista, não nos
apresentam o nome de nenhum destes tantos eticistas e teólogos calvinistas
confessantes que honraram nosso século. Do lado francófono, a ausência de
nomes como os de Auguste Lecerf, de Pierre Marcel, de Roger e de Jules-
Marcel Nicole, de Aaron Kayayan ou de Pierre Courthial, mostra existir no
autor um espírito sectário que imaginávamos, muito inocentemente, pertencer
a um tempo mais intolerante que o nosso. Depois disso, não devemos nos
surpreender com o fato de não encontrarmos nenhuma menção à falange de
teólogos verdadeiramente calvinistas, como Benjamin Warfield, Gresham
Machen, Martyn Lloyd-Jones, James Packer, Francis Schaeffer, John Murray,
Cornelius Van Til, Abraham Kuyper, Herman Bavinck, Herman
Dooyeweerd, Klass Schilder, Jochem Douma, Rousas Rushdoony, Greg
Bahnsen, e tantos outros que ilustraram de forma exemplar não só a ortodoxia
reformada, mas cristianismo do nosso século. Deveríamos esperar que a
heresia honrasse a ortodoxia?
Passemos à obra de Fuchs. Seu objetivo é triplo. Depois da descrição
relativamente detalhada do pensamento ético de Calvino, Fuchs procura fazer
sua crítica a partir de algumas supostas infidelidades do reformador em
relação a seus próprios princípios. Isto é, Calvino teria se colocado em
contradição com o ensino da Escritura que anularia algumas de suas
construções dogmáticas não muito lógicas. Como bom kantiano, Fuchs opõe
constantemente a fé e a confissão de fé puramente subjetivas à sua suposta
perversão, um saber teológico e histórico de conteúdo racional e doutrinário
preciso. O procedimento crítico chega a demonstrar que os verdadeiros
reformados ao redor do mundo que, pela ação política e revolucionária direta
buscam corrigir injustiças a fim de restabelecer um mundo mais justo, estão
na linha correta da ética verdadeiramente calvinista. O obra termina com um
elogio sem reservas dirigido a eclesiásticos reformados como Beyers Naude e
Alan Boesak na África do Sul e Park Hyung Kim na Coreia do Sul, que se
engajaram na ação política direta em nome do evangelho. Evidentemente,
nenhuma menção é feita às ações levadas a cabo por reformados como o dr.
Joseph Savimbi em Angola, contra a injustiça que se instalou em seu país.
Mas, sem dúvida, ele comete um erro ao lutar, não pelo pseudoevangelho
político, mas pela libertação militar de seu país contra um invasor que teria
para ele, aparentemente, o sentido da história.[125]
Eis como Fuchs ataca as posições de Calvino. Ele o ataca na fidelidade à
Bíblia, um procedimento muito engraçado para um partidário da crítica
dissolvente das Escrituras sagradas, crítica que reduz o texto sagrado a uma
resposta bem falível dos homens à interpelação divina. Trata-se de ser mais
calvinista que o próprio Calvino. Fuchs considera não bíblico e, como
consequência, menos calvinista, as seguintes afirmações que encontramos na
famosa Instituição da religião cristã do reformador:
▪ a onipotência divina que conduz todos os eventos deste mundo, bons e ruins;
▪ a obrigação imposta por Deus ao poder temporal do Estado, o do
magistrado, de se conformar à lei divina no exercício de suas funções;
▪ a constatação evidente feita pelo reformador das graves e numerosas
infrações a esta lei que são a realidade de quase todos os governos humanos;
▪ e, por fim, a proibição feita aos cristãos de se revoltar contra os poderes
iníquos que, na época da Reforma, martirizavam muitas vezes os infiéis. Os
cristãos deveriam fugir da perseguição ou aceitar o sofrimento na convicção
de que o Deus soberano poderia facilmente transformar o mal em bem.[126]
Uma primeira observação se impõe. Na argumentação de Fuchs, a crítica
pseudobíblica das posições de Calvino não repousa na exposição alternativa
dos textos em litígio. A crítica bíblica não passa de falso pretexto para refutar,
com aparência de fidelidade à Escritura, posições calvinistas consideradas
inaceitáveis. Para Fuchs, haveria uma contradição entre a exigência de
justiça, imposta pela lei divina às autoridades políticas, e a obrigação feita aos
cristãos sujeitos à injustiça de suportá-la com paciência. A atitude passiva
diante do mal comportaria uma espécie de renúncia à responsabilidade moral
no cristão que deve lutar até se sacrificar pela justiça. Para Fuchs, a antinomia
equivocada provinha da falsa doutrina de Calvino sobre a soberania divina,
doutrina de fé evidentemente, mas sem nenhuma influência compreensível
para o homem sobre os acontecimentos na terra. De acordo com a ideologia
kantiana, e a de nossos teólogos atuais, o espiritual não pode influenciar de
modo direto e consciente o temporal entregue à ação humana, uma vez que a
ação é racional e moral.
Para citar Fuchs, em Calvino haveria a perversão da confissão de fé no saber
explicativo. O númeno não deve de nenhuma forma intervir nos fenômenos.
Segundo Fuchs, a explicação não bíblica da providência divina — crítica não
corroborada por nenhuma prova bíblica — conduziria à passividade humana
diante das injustiças do poder temporal. Mas a simples leitura da Bíblia nos
mostra que, nesse ponto, Calvino tem completa razão. Deus, testemunha da
Escritura, é efetivamente onisciente, todo-poderoso e controla com eficácia
hoje tudo que se passa no mundo, conduzindo todas as coisas, por vias muitas
vezes incompreensíveis para nós, a fins justos e bons que ele fixou desde a
eternidade. A simples leitura de um salmo, como o 88, demonstra isso com a
maior clareza. Mas para nossos novos teólogos políticos, é necessário a
qualquer preço dar lugar à ação direta cristã na sociedade, a vontade de
instaurar por si mesmos um mundo de justiça que evitaria passar pela cruz de
Cristo. O homem deve se tornar o mestre do próprio destino. A providência
divina deve ser substituída pela planificação humana, pela ação do homem.
Estamos longe de Paulo que afirmava que quando a morte agia nele — por
todas as misérias e sofrimentos que Deus lhe enviava — então a vida agia em
seus discípulos (2Co 4.12).
Estamos longe do espírito dos mártires cristãos que, por sua fidelidade,
preferiam obedecer a Deus até a morte em lugar da revolta contra o
imperador e, assim, desobedecer a seu Senhor. Tertuliano dizia de forma
muito justa que o sangue dos mártires era a semente da igreja. A semente
suplantou o Império mais poderoso da terra. Os métodos de Deus, hoje, não
mudaram. É pelo testemunho fiel do cristão e sua obediência à lei divina (em
lugar das ordens iníquas dos homens), até o martírio se necessário, mas sem
contestação nem revolta, que são destruídas estas forças espirituais maléficas
que levam povos e governos ao mal e a injustiça. É necessário que a ação
política do cristão não se prive da cruz de Cristo. A ação cristã direta contra a
injustiça e o mal pela revolta e a contestação só aumenta o mal, sem dúvida
sobre outras formas, pois nada será resolvido sobre a submissão humana ao
mal na própria vida.[127] Assim, a crítica de Fuchs diminui a soberania divina
na história para aumentar a humana. O culto ao Deus soberano é substituído
pelo do homem soberano que deve agir na história para lhe impor seus direitos.
Tudo isso não passa de distorção da fé cristã. Fuchs se situa, dessa maneira,
na linha reta do voluntarismo utópico inaugurado pela Revolução Francesa.
Fuchs se esquece — uma leitura superficial do evangelho teria lhe lembrado
— de que sem mudar o coração humano, isto é, sua orientação fundamental,
a forma de pensar e de agir, nada poderá ser de fato alterado. Sem
transformação espiritual, sem a mudança do coração, nada de substancial
mudará no domínio político. A alteração que o Senhor Jesus Cristo veio
trazer sobre esta terra é uma mudança espiritual e não carnal, uma mudança
de espírito e não uma simples mudança técnica. Não se trata de agir em
primeiro lugar no mundo, mas no coração, na inteligência e na vontade. Os
homens, uma vez renovados, agirão em todos os pontos da sociedade em que
se encontrarão. Salvar as almas ou o mundo por uma ação simplesmente
humana, religiosa ou profana, pouco importa, tudo isso não passa de salvação
pelas obras, combatida com tanto vigor pela Reforma. Trata-se de um
trabalho estéril que não poderia transformar o mal social em bem. É a obra de
Cristo na cruz que Fuchs pretere no apelo à ação direta cristã para mudar o
mundo. É a obediência pessoal e comunitária dos cristãos regenerados,
justificados e transformados pela ação do Espírito Santo — aplicada neles
pela obra perfeita de Jesus Cristo em sua encarnação, sua morte e sua
ressurreição — que poderá mudar as famílias, comunidades, nações e até o
funcionamento dos governos, para melhor e não para pior. A obediência à lei
divina implica uma visão política e social especificamente cristã —
perspectiva sem nenhuma ligação com o humanitarismo em que Fuchs se
comprazia.[128] O cristianismo enxerga na autoridade política uma instituição
de origem divina que não se pode atacar, mas que deve ser corrigida por
meios cristãos próprios. Todavia, o entusiasmo cristão por cruzadas
humanitárias, ecológicas ou políticas — como a luta contra o racismo ou o
apartheid, sem combater o pecado em nós e nos outros, pecado encontrado na
origem dos flagelos sociais — oferece apenas a justificação e o auxílio cristão
às obras estéreis em sentido moral e espiritual que culminam em revoluções
das quais esperamos ainda ver os benefícios. Poderíamos sem dúvida fazer
melhor.
XXIV. Algumas considerações sobre a bioética
protestante emanada das igrejas oficiais[129]
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e
do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a
misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas! Guias
cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo! (Mt 23.23,24)
Sabemos as posições oficias defendidas pela Igreja Católica Romana em
matéria de bioética. Com efeito, na Instrução da congregação para a doutrina da fé
intitulada Le don de la vie – Respect de la vie humaine naissante et dignité de
la procréation [O dom da vida — Respeito a vida humana nascente e dignidade da
procriação],[130] pudemos constatar que, apesar do desacordo de muitos
teólogos católicos (a maioria dos seminários francófonos não foi consultada,
sem dúvida tendo sido logo de início considerados muito modernistas), a
Igreja Romana mantém duas de suas posições tradicionais: o respeito
absoluto à vida humana nascente desde a concepção, e o respeito do quadro
criacional para toda a concepção legítima, isto é, pelo ato sexual entre um
homem e uma mulher na unidade completa do casamento monogâmico
duradouro. A posição é apoiada por uma argumentação científica, filosófica e
teológica muito forte e se junta, em grande medida, à posição evangélica e
calvinista expressada no número especial da Revue Reformée [Revista
Reformada] intitulada “Réflexions sur l’éthique médicale” [“Reflexões sobre a ética
médica”][131] ou, mais recentemente ainda, no Congresso Eurovie 1987 de Paris.
Gostaríamos de examinar aqui outro ponto de vista completamente diferente,
emanado dos meios protestantes oficiais na França e na Suíça românica.
Estudaremos dois textos de jovens teólogos, mesmo que não expressem uma
posição eclesiástica sobre as questões bioéticas, gozam de reconhecimento
por parte das autoridades de suas denominações, e falam, por isso, com certa
autoridade. O primeiro texto analisado é sintomático da atitude ética
geralmente aceita nos meios reformados franceses, enquanto a segunda trata de
modo mais particular de uma questão específica: o estatuto ontológico do
embrião, e ilustra muito bem as consequências precisas dos princípios éticos
aceitos no protestantismo oficial que pretende falar em nome da tradição
protestante, e que nossas autoridades, e seus mestres as mídias, aceitam como
tal.
Olivier Abel: Biologie et éthique [Biologia e ética][132]
No artigo, Olivier Abel apresenta suas reflexões sobre o tema Biologia e ética,
reflexões que consistem, como podemos ler em uma nota, em Un rapport de
synthèse présenté au Conseil de la Fédération Protestante de France [Um
relatório de síntese apresentado ao Conselho da Federação Protestante da França]. Trata-
se, assim, de um texto que traz, ao menos em certa medida, o selo da
oficialidade eclesiástica. Examinemos as bases das reflexões de Abel.
Logo de início, Abel afasta a pretensão a qualquer normatividade para suas
reflexões. Como ocorria com os fariseus do tempo de Jesus, ele tem a
pretensão de falar sem autoridade. Vejamos o motivo:
A ética não é para nós o objeto que poderia ser confiado a alguns eruditos isolados
ou a alguns representantes livres para legislar em nome dos silenciosos
representados (não mais, aliás, que em nome qualquer maioria moral). Por isso não
existe opinião, nem de uma comissão especial da Fédération Protestante de France
[Federação Protestante da França], nem do Comité National d’Éthique [Comitê
Nacional de Ética], que possa ser imposto a todos.[133]
Eis o fruto muito lógico do abandono da inspiração, infalibilidade, inerrância,
clareza, caráter compreensível e, como consequência, da autoridade das
Escrituras sagradas. Se não existem normas éticas reveladas, cada um segue as
variações da consciência pessoal e da sociedade abandonada às fantasias
morais de maiorias variáveis. Em situação semelhante, as opções se
equivalem, e não é da técnica democrática que sairá necessariamente a
verdade. Por ter abandonado as normas reveladas, a consciência protestante
está entregue a todas as variações da liberdade dos homens decaídos.
Os teólogos protestantes que cederam em relação ao fundamento da verdade,
a revelação imutável de Deus que é a Bíblia, não podiam mais, como
consequência, crer em uma norma moral que deteria a autoridade universal
restritiva. Essa ética não pode, portanto, servir de base para a moral prática, a
deontologia profissional nem para nenhuma legislação qualquer, pois as
diversas aplicações concretas da ética têm sentido apenas se implicam
obrigações e se podem ser apoiadas por métodos disciplinares diversos.
Mas esta é a força dos enunciados éticos, uma simples palavra, que nada impõe. É
própria dos enunciados éticos nunca se confundir com enunciados legais: a
ética não é o direito.[134]
Estamos aqui bem longe da ética bíblica que nunca é um simples
conhecimento, uma gnose. Ela é sempre o conhecimento conducente à
obediência — mesmo no que concerne ao conhecimento natural, falível, sem
dúvida, porém, muito real do bem e do mal — sob pena de sanções temporais
e eternas. O cristão não deve apenas levar todos o pensamento ao conhecimento
de Cristo e de seus pensamentos revelados na Escritura; deve levar os
próprios pensamentos e os de seus contemporâneos à obediência de Jesus
Cristo. Por isso a moral bíblica está ligada ao direito — do qual é
rigorosamente inseparável. Não é possível separar o homem individual, como
faz certa tradição individualista protestante, de suas dimensões sociais,
jurídicas e políticas. O homem é um ser espiritual e social inserido em uma
ordem criacional que engloba toda a sua natureza.
O pluralismo democrático, uma vez estabelecido como absoluto, nos coloca
diante do novo politeísmo, da pluralidade de deuses, que conduz não mais à
visão da natureza como se formasse o universo, mas à visão de diferentes
naturezas, do mundo pluriverso ou multiverso. Nessa perspectiva pluralista,
torna-se impossível, e mesmo herético, definir uma única posição verdadeira
sobre a questão que nos preocupa, a do estatuto ontológico do embrião. Abel
afirma isso com muita clareza: “Sobre a procriação artificial e a pré-
natalidade, sobre o estatuto dos embriões e o diagnóstico pré-natal, as
divergências logo surgem”.[135]
A pluralidade de pontos de vistas, inevitável por não existir nenhuma norma
transcendente conhecível, conduz ao verdadeiro agnosticismo ético, à
incapacidade metódica, à impossibilidade epistemológica de se expressar com
transparência sobre as nuanças exigidas pelo respeito à realidade e com a
autoridade exigida do respeito à verdade. Deixemos ainda aqui a palavra de
Abel: “Não podemos, enfim, nos esquecer de que, divergindo das opiniões
majoritárias, o juízo especificamente ético é não raro um julgamento em
suspenso, porque compreendeu a coerência própria de cada uma das opções e
não consegue separá-las”.[136]
Se é legítimo estabelecer em certa medida distinções entre ética e direito por
um lado, e ética e ciência por outro, é de todo errôneo pensar que haja entre
eles uma oposição. Como vimos, a ética é, sob alguns aspectos,
obrigatoriamente restritiva; aliás, a ética conta também com um aspecto
objetivo necessário que a aproxima do conhecimento científico. Mas Abel
não pensa dessa forma: “Como não devemos confundir o enunciado ético
com o enunciado legal, também não devemos confundir a ética e o saber,
biológico ou outro”.[137]
Encontramos aqui de novo a epistemologia kantiana — o veneno mortal de
toda nossa civilização. A verdade ética absoluta é própria só ao númeno. Ela
não é de forma alguma transponível ao domínio real dos fenômenos. O
imperativo categórico é apenas aquele, subjetivo e variável, do homem. Não
nos é possível obter nenhum conhecimento do imperativo categórico do
Criador. O abismo intransponível entre Deus e as criaturas não pode ser
preenchido nem pela revelação geral de Deus em suas obras, nem pela
consciência natural e parcial do bem e do mal no homem; muito menos por
qualquer intrusão do transcendente no imanente: Bíblia, encarnação,
sacramento, milagres. O kantismo ambiente faz Abel afirmar:
As categorias do saber, semelhantes no ponto às categorias do direito, terminaram;
são conceitos definidos, que dizem respeito às generalidades. A exigência ética é
infinita; ela diz respeito aos casos singulares que as categorias não podem jamais
compreender totalmente. [...] A ética começa ali onde sabemos que decidimos sem
saber, sem tudo dominar.[138]
Evidentemente, só Deus sabe tudo e domina todas as coisas. Por isso
necessitamos conhecer de maneira segura as normas de quem compreende
tudo, que predestina tudo, para agir com a certeza de que fazemos o bem, não
o mal. Por causa da natureza limitada do homem — ele é criatura e não
Criador — que, mesmo antes da queda, antes de toda a deformação da
consciência humana, Deus revelou a Adão e Eva os limites precisos de sua
liberdade. É evidente que, em grande medida, Abel teria razão se não
houvesse a revelação. Mesmo aqui, a separação kantiana ultrapassa a
realidade da vida no mundo decaído. É claro que não sabemos tudo, mas
mesmo os não crentes podem tomar decisões relativamente acertadas, e até
mesmo, por vezes, muito acertadas. Nenhum cirurgião cometeria a
temeridade de pegar o bisturi e decidir sem saber, se o ceticismo de Abel fosse
verdadeiro. Pelo fato de o cirurgião saber, com grau muito elevado de
certeza, ele corta a carne humana com segurança e eficiência. O mesmo
ocorre, em níveis diferentes, em todas as áreas de nossa atividade prática.
Compreendemos agora melhor porque Abel condena com tanta força a moral
católica fundada no realismo filosófico e no respeito à lei revelada que
manifesta “... uma tendência desagradável a confundir moral e direito”.[139]
Ele poderia ter acrescentado também a moral e a ciência pois, ao menos nesse
ponto, o magistério da Igreja Romana ainda não foi abandonado, nem as
normas da revelação bíblica, nem a relação realista, encontrada na Bíblia,
entre os conceitos bíblicos e a realidade criada pelo Deus inteligente, que
pode ser conhecida pelo homem, criado à imagem desse Deus.
Por ser protestante, Abel não pode evitar se referir à Bíblia. Todavia, trata-se
de uma Bíblia bem diferente da que conhecemos. Trata-se de uma Bíblia
incognoscível, que não revela de nenhuma forma normas absolutas, com
conceitos compreensíveis para nós e moral e juridicamente aplicáveis hoje às
circunstâncias precisas da vida das sociedades do final do século XX. Ele
começa por uma afirmação a qual podemos aparentemente subscrever: “A
ética protestante [...] mostra os limites do domínio jurídico e do domínio
científico porque obedece em última instância a uma referência específica: as
Escrituras”.[140]
Podemos encontrar aqui nossa posição bíblica? Nós, que cremos que a
Palavra divina, a lei moral e jurídica infalível de Deus, não só é normativa:
apenas com a ajuda do Espírito Santo é possível conhecê-la e dela receber
conhecimento seguro, por causa da imagem divina com que estamos
marcados. Longe disso! Aqui ainda, caímos no mesmo agnosticismo
epistemológico, no mesmo pluralismo já mencionado. Sobre a questão, Abel
é ainda mais claro: “Não existe referência às Escrituras que contenha apenas
as Escrituras”.[141]
Isso significa que a Bíblia não é de forma alguma a referência absoluta,
suficiente em si mesma. Trata-se da negação do sola Scriptura e da
interpretação da Escritura por si mesma segundo a analogia da fé. Como
consequência, é impossível dizer com certeza o que afirma a Bíblia sobre
qualquer assunto. As interpretações humanas falíveis e subjetivas da
Escritura nos tornam, assim, incapazes de conhecer a verdade. Para Abel a
Escritura nos abre a um diálogo dialético com outros: “(A Escritura) tem
sentido apenas se oferece a palavra a outros”.[142]
E acrescenta, seguindo a linha de todo o protestantismo pluralista e agnóstico
moderno: “... por meio do diálogo estabelecido com outros o enunciado ético
se reveste de valor, pois esclarece a si mesmo ao dar a palavra a outros”.[143]
Notemos ainda a outros e não a Deus, a infalível Palavra de Deus. Abel acrescenta
a afirmação dogmática fundamental que contradiz completamente o realismo
epistemológico de toda a Bíblia: “Não existe para nós uma interpretação
única e infalível da Bíblia”.[144]
Isto é, não existe regra de fé nem regra de moral a partir das quais possamos
saber com certeza em que devemos crer e o que devemos fazer para sermos
salvos. Ele repete isso com mais clareza: “Aliás, a interpretação ética do
evangelho, para os protestantes e desde a Reforma, não é uma questão de
doutrina que poderia ser objeto de especialistas ou de um magistério da
igreja”.[145]
Assim são apagadas com um traço de pena todas as Confissões de fé e todos
os Catecismos da Reforma, todo o imenso esforço dos reformadores e de seus
sucessores para definir a fé verdadeira em oposição às aberrações da tradição
católica, às elucubrações dos anabatistas e às impiedade dos libertinos,
antepassados avant la lettre dos protestantes modernos. Abel afirma aqui algo
verdadeiro sobre o protestantismo moderno, minado pelo subjetivismo de
Descartes nos séculos XVII e XVIII, e pelo dualismo idealista ainda mais
nocivo de Kant desde o final do XVIII, sem falar da progenitura pouco
ortodoxa da nova tradição nos discípulos pseudocristãos de Hegel, Marx,
Freud, Keynes, Heidegger etc. Ele conclui:
A interpretação ética do evangelho se faz na existência; ela se individualiza e é feita,
por fim, “na consciência” de cada um. “Na consciência” não significa aqui diante de
si mesmo, mas diante de Deus. Sabemos, todavia, que “na consciência” pode ter
interpretações diferentes...[146]
Assim, o pluralismo agnóstico é levado até mesmo a Deus em quem haveria
o SIM e o NÃO. O homem está entregue às fantasias subjetivas do imperativo
categórico da consciência individual, ou, no plano político, à “vontade geral”
das maiorias democráticas oscilantes. O impasse provém da dupla recusa: a) Dos
limites fixados pela Palavra divina; e b) Dos impostos pela realidade criada,
limites discerníveis pelo uso sóbrio da razão — criada por Deus para que
possamos conhecer a verdade. Dessa forma, são restabelecidos os
fundamentos do livre exame subjetivo, a glória da teologia moderna, que
nada tem em comum com o pensamento dos reformadores, cuja liberdade se
submetia aos limites estabelecidos pela Bíblia. Sob essa perspectiva, cada
protestante se torna seu papa, o próprio deus, ao fixar para si mesmo, de
acordo com sua situação e experiência existencial particular, os limites
infinitamente variáveis do bem e do mal. O fruto da árvore proibida, do
conhecimento divino autônomo do bem e do mal é sempre o mesmo: a
divinização do homem que decide por si mesmo, prerrogativa pertencente só
ao Criador do universo. O fim do livro de Juízes expressa muito bem a
atitude, constantemente renovada, do homem revoltado: “Naqueles dias, não
havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto” (Jz 21.25).
A ética bíblica possui bases muito diferentes no que concerne a quem não
conhece a Cristo e aos filhos de Deus. Para os primeiros, os textos de Paulo
em Romanos (Rm 1.18-21; 2.14,15) que falam da revelação divina geral para
a criação e da manifestação natural da lei no coração de todos os homens, o
que nos torna inescusáveis diante de Deus, são perfeitamente claras. Para o
cristão que tem agora a lei escrita no coração, a luz é ainda mais forte. Paulo,
em 1 Coríntios, descreve a luz usufruída pelos cristãos (2.6-16).
Evidentemente, estamos aqui muito distantes do agnosticismo epistemológico
e ético, característico do pensamento liberal e neo-ortodoxo típico,
exemplificado pela exposição de Abel.
Consequências práticas do pluralismo agnóstico de Olivier Abel
Notemos primeiramente que a posição filosófica e teológica agnóstica e
pluralista de Olivier Abel não o priva de bom senso, do exercício normal de
suas faculdades. Uma vez que o homem foi criado à imagem divina, quer ele
reconheça ou não, pouco importa, a tendência natural da razão em direção à
verdade — apesar de todos as perturbações trazidas pelas consequências do
pecado — o levará a reconhecer a verdade em algumas áreas.
Assim, Abel chama nossa atenção para as orientações tomadas pela pesquisa
científica relativa à reprodução humana e à sexualidade. Esta pesquisa
culminará na
... dissociação entre sexualidade e procriação (contracepção, inseminação artificial),
depois dissociação entre procriação e corpo (fecundação in vitro), dissociação
possível, enfim, entre genética e nascimento ou maternidade (com a possibilidade de
duplicar o embrião, congelar esperma, óvulo ou embrião, utilizáveis depois da morte
do pai, da mãe ou mesmo sem ambos).[147]
Mais à frente, ele acrescenta uma observação muito pertinente: “De que serve
a inseminação artificial de barrigas de aluguel se podemos reparar a
dissociação entre sexualidade e procriação (esterilidade) por outra
dissociação, sem dúvida mais grave, entre gestação e afetividade?”.[148]
Ele observa também, de forma muito justa, que o caráter faustiano da
empreitada biológica atual: “... age diretamente sobre o mistério organizado
que é o cérebro, ou a geração, e não passa de taumaturgia; o sonho humano é
fabricar à imagem de Deus, fabricar o homem [...]; é a loucura do poder, a
pretensão de tudo dominar”.[149]
E conclui: “Longe de diminuir as exigências éticas, os progressos técnicos
devem ser acompanhados de progressos morais correspondentes”.[150]
Quais seriam, portanto, os progressos morais decorrentes dessa posição ética
agnóstica, pluralista e subjetiva? Tomemos em primeiro lugar as implicações
da ética sobre o direito, segundo a posição defendida por Abel.
Com muita lógica, ele ataca primeiramente a função da lei como pedagoga.
Se devemos criar leis que ultrapassam em suas exigências o estado atual dos
modos, “não podemos tomar a lei como instrumento pedagógico, porque ela é
o pedagogo”.[151]
Uma vez que igreja renegou a Escritura, ela não tem mais nada a dizer à
sociedade! Ao contrário, “precisamos tomar cuidado para que uma grande
ausência jurídica arrisque favorecer os grupos de pressão ideológicos ou
comerciais mais poderosos”.[152]
Ele conclui, entretanto, não a favor de uma legislação normativa e repressiva
do mal, mas de uma legislação mínima que favoreça diferentes pontos de
vista: “Diante da diversidade de éticas, o direito deve apenas estabelecer a
regulação mínima tal que elas possam ser, ao mesmo tempo, o máximo”.[153]
A ambiguidade e a impotência do agnosticismo pluralista vem à tona quando
se trata de definir o estatuto ontológico e jurídico do ser humano antes do
nascimento. Abel coloca a seguinte pergunta: “Mas o embrião é uma pessoa?
Ninguém pode decidir isso, e não gostamos de dizer que ele é uma pessoa
possível, o embrião é uma pessoa e ele não é uma pessoa”.[154]
Abel aqui é quase também afirmativo quanto os habitantes de Vaud, quando
respondem “nem sim nem não, ao contrário” a uma questão constrangedora.
Ao lidar com a questão da filiação, quebra-cabeça jurídico dos novos
métodos de reprodução humana, ele chega a essa afirmação extraordinária:
“É necessário cuidar para que a filiação não seja muito materializada, pois a
continuidade é primeiramente afetiva”.[155]
Por fim, o sociólogo que se sobressai ao teólogo: “O legislador, quanto a si,
pode fundar o consenso do que deve ser proibido, e do que deve ser
retribuído a todos, nos limites da antropologia aceita pelas diversas
tendências éticas”.[156]
E cita como prova a definição da liberdade inventada por Rousseau, a
liberdade é não fazer o que não queremos fazer. Seu nominalismo, que concebe
apenas indivíduos e nunca conjuntos reais ou categorias gerais, se afirma
como um dos mais categóricos: “Eticamente não há dois casos idênticos [...]
A desproporção é inevitável entre a regra e o caso singular”.[157]
Esse ponto de vista torna vigorosamente impossível qualquer pensamento
coerente, pois, para existir, o pensamento precisa de categorias reais
(realismo filosófico). Esta atitude intelectual torna, de fato, inconcebível a
moral e o direito. Abel reconhece isso com facilidade quando escreve:
“Assim como em outras áreas, não podemos afirmar a existência da ética
cristã sobre o tema da bioética”.[158]
E acrescenta de imediato, para provar que como nominalista coerente ele não
disse nada, na verdade: “Também não se pode afirmar a inexistência da ética
cristã”.[159]
Sua ética situacionista existencial e não normativa transparece claramente:
“Entretanto, somos os intérpretes dos Evangelhos em nossa existência; ao
menos às vezes”.[160]
Por isso, “não existe nesse sentido ordem natural que o homem não tenha o
direito de modificar”.[161]
Essa atitude conduz à afirmação de que tudo é possível e leva aos mais
absurdos raciocínios: até mesmo à comparação entre o sacrifício que
representaria o aborto (não há existência que não suponha o sacrifício de outras
existências possíveis e reais),[162] e o sacrifício de Jesus Cristo, que na cruz levou
essa condição trágica, essa impossibilidade, essa impotência do homem.[163]
Assim, a recusa da realidade, razão e revelação culmina apenas em blasfêmia.
A posição de Jean-Marie Thévoz: Um estatuto moral para o embrião.
Pesquisa protestante
Do lado românico, um jovem teólogo de Vaud, Jean-Marie Thévoz, se
debruçou com muita atenção sobre a questão que Olivier Abel apenas tocou:
Qual estatuto moral devemos dar ao embrião?[164]Examinaremos brevemente a
resposta oferecida por ele à questão mais importante. Como Thévoz parece
compartilhar o pluralismo agnóstico de Abel, será interessante ver como ele
responde à questão.
Nos diversos trabalhos de Jean-Marie Thévoz, constatamos o mesmo erro que
caracteriza o conjunto das contribuições da brochura publicada pelo Institut
d’Éthique Sociale [Instituto de Ética Social] para a Fédération des Églises
Protestantes de Suisse [Federação das Igrejas Protestantes da Suíça] (FEPS) sob o
nome de Fécondation in vitro: possibilités techniques et perspectives éthiques
[Fecundação in vitro: possibilidade técnicas e perspectivas éticas].[165] Como disse
Jesus na passagem que citamos na epígrafe deste trabalho, são doutores que
coam um mosquito e engolem um camelo! Negligenciamos constantemente o
crime da destruição da vida humana e o fato de os métodos serem já
corrompidos no alicerce pelo homicídio voluntário realizado por médicos,
pais e biólogos para nos dedicarmos a todas as forma de questões éticas, sem
dúvida importantes, que decorrem inevitavelmente do primeiro ato
monstruoso nas áreas jurídicas, médicas, comerciais etc.
Todavia, consideremos em primeiro lugar o que diz Jean-Marie Thévoz sobre
o estatuto do embrião. Qual é, portanto, o estatuto ontológico das células que
começaram a se multiplicar e a se organizar como ser autônomo em relação
aos genitores?
Thévoz começa pelo reconhecimento da perfeita continuidade da vida
biológica entre o zigoto, o óvulo fecundado, o embrião, o feto e o bebê nos
braços da mãe. A fecundação in vitro foi, como observa o professor Lejeune, a
prova experimental incontestável da continuidade de vida entre o zigoto
invisível a olho nu e o homem adulto. Em relação aos debates das décadas de
1970 e 1980, encontramo-nos diante de um incontestável progresso. Mesmo
os teólogos protestantes acabam por se dobrar diante das conclusões
inevitáveis da ciência. Leiamos Thévoz:
O primeiro fato a ser constatado é que o desenvolvimento do óvulo desde a
fecundação e até o nascimento da criança é um processo contínuo de divisões
celulares, diferenciações de tecidos, crescimento e complexidade do organismo. Do
ponto de vista fisiológico, a vida corporal, da primeira célula até a morte do corpo
desgastado pelo tempo, não passa do longo desenvolvimento de um conjunto de
fases que se encadeiam em uma extraordinária continuidade. É claro que alguns
eventos, como a perda dos dentes de leite ou o nascimento da barba, fazem marcas
no desenvolvimento da pessoa, mas podem também ser considerados mais como
balizas do espírito que rupturas reais da continuidade do crescimento. O mesmo
ocorre ao longo da gestação.[166]
No desenvolvimento contínuo do embrião, Thévoz percebe três etapas
importantes: a) A passagem muito perigosa do óvulo fecundado das trompas
à implantação no útero, isso por volta do sexto dia; b) Entre a 24.a e a 28.a
semanas, o embrião atinge o estado de autonomia em relação à mãe; c) O
nascimento como fim. Thévoz destaca o número importante (20%) de óvulos
que entram em contato com o espermatozoide e não são fecundados, óvulos
fecundados que não chegam à implantação (40%) ou são abortados (10%). Só
50 óvulos em 100 chegam ao nascimento. Por um lado, Thévoz não apresenta
nenhuma indicação de suas fontes para esses números; por outro, estatísticas
como essas parecem difíceis, talvez impossíveis, de serem estabelecidas.
Temos a impressão de estar diante de números exagerados, impostos no
momento da campanha pela liberação do aborto para evitar os abortos
clandestinos. O número elevado de não implantações de óvulos fecundados
deveria tornar banal a destruição dos óvulos em laboratório. Entretanto, em
sentido mais básico, a sobrevida ou a morte natural de embrião não nos diz
nada sobre sua verdadeira natureza, sobre seu estatuto ontológico. A morte
acidental de muitos adultos não diminui em nada sua inteira humanidade.
Nunca veio ao espírito de alguém que taxas elevadas de mortalidade infantil
afetavam o estatuto ontológico de bebês que morreram dessa forma. A
simples constatação torna nula qualquer pretensão de instaurar o que Thévoz
designa a proteção progressiva[167] do embrião em função do decréscimo do
risco de morte natural, que permitiria experiências de observação (que) não
deveriam ultrapassar a fase de implantação.[168] E acrescenta este princípio bastante
curioso: “A prioridade ética aqui, não é evitar a qualquer preço a morte destes
embriões (são embriões fecundados in vitro e congelados, o “excedente”), e
sim assumir o respeito de sua integridade, até a morte”.[169]
Como faríamos, aparentemente, com o prisioneiro condenado à morte por um
crime particularmente grave, o que não autorizaria de forma alguma as
autoridades penitenciárias a abusar dele de nenhuma maneira! Estamos aqui
diante de uma argumentação estranha. O importante não é a morte do
embrião (de qualquer forma isso é normal em 50% das fecundações
naturais!), mas assegurar que a morte possa ocorrer em boas condições, com
respeito — mesmo que se trate de uma execução sumária em laboratório. No
outro extremo da vida, fala-se em morrer com dignidade para caracterizar a
eutanásia ativa. Thévoz afirma o princípio de modo muito explícito: “Se o
respeito (ao embrião morto e à pessoa deixada viva) deve ser o mesmo, a
proteção deve ser graduada”.[170]
Encontramo-nos aqui diante de um caso extraordinário de discriminação de
classe diante do qual a discriminação racial sul-africana parece muito branda.
O respeito a alguns embriões leva a deixá-los vivos, o mesmo respeito a
outras pessoas leva-as à morte. De qualquer forma, a maneira de se expressar
manifesta pouquíssimo respeito pelo uso das palavras, o que é grave: as
injustiças e o crimes começam muitas vezes com desvios de linguagem que
dão origem às mais terríveis repercussões. Assim, Thévoz estabelece a
existência, na realidade, de duas classes de embriões: a que deve viver e a que
não deve viver. No seio materno de outra época, só Deus decidia se o óvulo
fecundado viria à maturidade ou se morreria no estágio pré-infantil. Agora, os
homens decidem com a consciência tranquila e todo o respeito devido (e
mesmo, digamos, com “compaixão”), o destino dos embriões, os
homenzinhos que condenam com frieza à morte. Que Deus nos proteja desse
respeito!
Como Thévoz chegou a raciocínios tão monstruosos, tão letais?
Acompanhemos de mais perto sua argumentação.
Já vimos que ele admite com a ciência unânime a continuidade ininterrupta
do desenvolvimento da vida humana do instante do encontro do
espermatozoide e do óvulo até a morte do organismo. Se existe continuidade
de vida biológica, existe continuidade de vida individual? Se sim, então a
fecundação in vitro e técnicas análogas que levam à morte de embriões são
métodos intrinsicamente homicidas.
Mas essa não é de forma alguma a opinião de Thévoz. Para ele, “a ética
protestante não está fundada na moral natural ou biológica, a ética médica
também não, uma vez que combate a natureza quando esta agride ou corre o
risco de destruir a pessoa”.[171]
Neste ponto, ele se junta com perfeição a Olivier Abel na negação existencial
e nominalista da natureza humana. O argumento da agressão da natureza
contra a pessoa já foi utilizado para justificar a destruição do feto pela mãe
que sofria a agressão. A medicina, na realidade, não luta de forma alguma
contra a “natureza”, mas procura defender o organismo contra as doenças que
o agridem. E o cristianismo ensina que as doenças não fazem parte da boa
criação de Deus: elas não estão fundamentalmente ligadas à natureza
concebida por Deus, provêm de uma agressão estranha à criação: o pecado
humano. Para Thévoz: “O homem é um ser mais cultural que biológico”.[172]
O que facilita evidentemente a modificação do homem. Isso implica que a
vida biológica humana não constitui uma pessoa. Ele afirma:
Sobre a continuidade do processo de crescimento do embrião, podemos afirmar que,
desde a concepção, a vida está presente nele como o caráter humano está quase
inscrito (não por natureza, pois aqui a natureza não é primária, ela se torna,
originando-se na cultura) em seu patrimônio genético. [...] A potencialidade não o
qualifica como pessoa humana.[173]
E continua: “O aumento da potencialidade de sobrevida do embrião e do feto
em função do tempo é um fator importante para determinar um estatuto para
o embrião”.[174]
A ciência pode apenas determinar a continuidade do organismo biológico que
chamamos homem. Ela não poderia determinar seu valor. Já a Bíblia,
fundamentada na realidade e estabilidade da criação, partindo da
continuidade do ser simultaneamente biológico e pessoal, afirma o valor
supremo do homem na criação divina, pois ele foi feito por Deus à sua
própria imagem. A imagem divina está inscrita em todo o seu ser biológico e
espiritual. A imagem de Deus é coextensiva ao corpo do homem, o que
explica a necessidade da ressurreição corporal. As doutrinas cristãs da criação
e a da encarnação manifestam de forma poderosa a presença da imagem
divina no homem desde a concepção, e a presença divina de Cristo no ser
concebido no ventre de Maria. Por isso podemos afirmar o que a ciência
nunca poderia: o homem é criado à imagem divina desde a concepção e,
enquanto tal, é sagrado. Quem que toca na vida do homem para assassiná-lo
toca na pessoa de Deus. Por essa razão, de forma muito clara, Deus instituiu a
pena de morte depois do dilúvio, a fim de proteger os homens contra a
tendência ao homicídio.
Mas este não é o ponto de vista de Thévoz. Seguindo o dualismo corpo-
espírito de origem grega, do qual não poderíamos encontrar nenhum indício
na Bíblia, ele distingue a pessoa (alma) da vida biológica (corpo) e afirma que
o feto só possui o estatuto de pessoa em função das relações estabelecidas com
o entorno, em particular com os pais. Leiamos o que ele afirma:
A relação dos pais com a criança constitui seu porvir, ele não existe humanamente
fora desse projeto. [...] a questão da humanidade do embrião é verdadeira, pois a
escolha da resposta determina as relações que o homem estabelecerá com ele.
Assim, quando damos um estatuto ao embrião, trata-se menos de definir sua
realidade, que sabemos ser objetivamente indecifrável, do que nos definirmos,
enquanto pessoas: pais, médicos ou pesquisadores diante dele. Dar uma resposta
significa apenas uma escolha, uma tomada de posição.[175]
Thévoz cai aqui no pior dos subjetivismos. A existência do embrião depende
ontologicamente da atitude, das escolhas, respostas e decisões do entorno.
Por si mesmo, como Deus o criou, ele não é nada. Como dizia Sartre, um dos
pais desse tipo de loucura: a natureza humana não existe, nós a criamos,
ecoando Marx que afirmava que o homem cria a si mesmo pelo trabalho.
Thévoz será coerente para afirmar que sua pessoa, ou a de uma classe social
particular, como o povo judeu, existe em função do projeto de sociedade que
a cerca? Esquecemos de verdade que os nazistas decretaram os judeus como
não-pessoas? Thévoz atribui ao homem poderes pertencentes só a Deus. Eis os
direitos concedidos por Thévoz concede aos pais acerca de seus filhos ainda
embriões, à semelhança do direito de vida e de morte do pater familias romano
sobre seus descendentes:
O ser humano recebe sua dignidade a partir do momento em que é reconhecido por
Deus e/ou pelo homem, independentemente de suas qualidades, portanto, de sua
idade.
O embrião, primícias da criança futura, recebe o estatuto de pessoa do
reconhecimento pelos pais. O desejo de lhe dar vida e a intenção de deixá-lo viver,
substituindo a palavra do criador, assegura a dignidade do ser futuro.[176]
No estudo publicado em abril de 1987, na brochura editada pelo Institut
d’Éthique Sociale para a FEPS, Thévoz expõe seu pensamento ainda mais
claramente:
O que o torna humano é o contato com outros portadores da cultura; portanto, outros
meios de viver. [...] Os genes e a biologia cumprem o papel de suporte de base,
indispensável, mas governável, do ser cultural.
Assim, a virtualidade genética contida no embrião não garante o desenvolvimento
do ser humano. Só a relação, parental, fraternal, social, pode lhe assegurar o porvir
humano.[177]
E falando dos embriões excedentes, ele acrescenta:
A questão dos embriões excedentes deve ser colocada no contexto relacional, onde
jaz a verdadeira dimensão humana. A existência humana do embrião se dá na esfera
da comunicação e das mudanças de significado. O embrião existe quando é pensado,
quando se fala dele como o assunto de um projeto. No entanto, o embrião excedente
parece perder de fato a finalidade do processo de fecundação in vitro, a menos que,
interrogando-nos sobre seu destino, possamos tomar a decisão concorde com a
finalidade global. A finalidade só pode ser determinada por quem definiu o projeto
da criança.[178]
Esta é exatamente a opinião de Sacha Geller, do Centre d’Exploration
Fonctionnelle et d’Étude de la Reproduction [Centro de Exploração Funcional e de
Estudo da Reprodução] (CEFER) de Marselha, que mostra com muita clareza
aonde nos conduz a ética subjetiva e relacional de Jean-Marie Thévoz.
No passado, a criança era um dom de Deus. Hoje, devemos mencionar, a criança é o
fruto do projeto do casal. [...] É de conhecimento geral que o embrião suscita certo
número de questões controversas. Ele deveria ser usado para pesquisas? Até que
estágio do desenvolvimento? O que fazer com os embriões excedentes? Em que
instante preciso o embrião se torna um indivíduo com direitos próprios? Na
comunidade científica encontramos grande variedade de opiniões sobre estas
questões.
A natureza da criança-embrião, resultado do projeto do casal, pode também nos
ajudar a responder as questões. Se o embrião pertence efetivamente ao casal, parece
decorrer logicamente disso que os pais tenham plenamente o direito de destruí-lo se
não querem ficar com ele. Este ponto de vista parece ser amplamente admitido se
levarmos em conta a aceitação muito comum do aborto e da contracepção.
Agora, se o embrião pode ser destruído, por que não poderia ser utilizado em
pesquisas, com a mesma condição, isto é, segundo o desejo do casal, o que implica
seu consentimento, condição geralmente aceita. E se, como cremos, o embrião
pertence de fato ao casal, todas as discussões sobre o momento preciso em que ele se
torna um indivíduo com direitos respeitados parecem sem a menor pertinência e o
domínio da mais pura especulação filosófica. Ou o casal concebeu o projeto de ter a
criança, e o embrião se torna uma pessoa desde o momento da fertilização, ou o
casal não concebeu tal projeto, e o embrião não se tornará jamais uma pessoa —
opinião aparentemente compartilhada por Testart, segundo quem o embrião pode ser
aceito como pessoa em potencial, no entanto, só ocorre se foi concebido com o
projeto de se tornar uma pessoa.[179]
Enfim, alguma lucidez. Afinal, cabe à sociedade definir quem é humano ou
não. Este pensamento, longe de ser uma invenção de Jean-Marie Thévoz e
Olivier Abel, tem razão em nos provocar arrepios. Marc Dem, sem dúvida no
livro mais importante e lúcido publicado nos últimos anos sobre essas
questões, nos faz entender isso ainda melhor. Terminarei a análise citando-o:
Há uma revista muito intelectual fundada em 1856 pelos padres da Companhia de
Jesus, que não sei se ainda pertence a eles, uma vez que seu corpo editorial
compreende apenas nomes e sobrenomes sem indicação de filiação a determinada
ordem. Ela conservou o título prestigioso Études [Estudos]. Em janeiro de 1973,
podíamos ler esta explicação inesperada:
“Pensamos que deve haver uma distinção entre vida humana e vida humanizada: se
o indivíduo é verdadeiramente humanizado apenas em relação a outro, por e para os
outros, a relação de reconhecimento é reveladora, senão instauradora, do caráter
plenamente humano do ser em gestação”.
Traduzindo em linguagem corrente: se o casal Dupont concede ao feto que
está no ventre da senhora Dupont o caráter de ser humano, o feto é um ser
humano. Caso contrário, ele é só um amontoado de células desprovido de
identidade, do qual é possível se livrar sem danos em caso de necessidade. O
reconhecimento da criança funciona como reconhecimento de um Estado em
direito internacional: se um número suficiente de outras nações não se
colocarem de acordo a seu respeito, ele não existe.
A casuística jamais chegara tão longe. Houve um debate acalorado sobre a
proposição. O padre Martelet, jesuíta, declarou-a monstruosa. E monstruosa
ela é o sob todos os aspetos. É a negação de toda a realidade substancial, a
passagem obrigatória e exclusiva ao plano das relações sociais, ao plano
sociológico que substituiu, no coração dos novos clérigos, o decálogo, a
revelação, o evangelho, que substituiu o pecado mortal pelo pecado social e a
vida espiritual pela inserção do cristão em um movimento político-
humanitário ou sindicato. Esse procedimento perverso, em um dia próximo,
se não tomarmos cuidado, fará um conselho de família ou, melhor ainda, a
administração, decidir sobre a utilidade de deixar viver o enfermo ou a pessoa
idosa. Sr. Fulano, é triste dizer, mas estes barbudos decidiram de forma douta
a questão mediante o envio ao massacre, todos os dias do ano — apenas na
França —, de mil seres humanos não humanizados. Eles só entenderão a
situação quando a sociedade cuidar do caso deles, e julgar que eles se
beneficiaram o suficiente de sua humanização e que é hora de deixarem o
espaço para as gerações seguintes.[180]
Lausanne, 12 de junho de 1987.
XXV. Criação, biologia e lei divina: teses sobre os
fundamentos do bem biológico e político
I. O homem, a sociedade e o universo não contêm em si mesmos a própria
finalidade, sua razão de existir. Todas as criaturas contidas no universo são
contingentes e limitadas; sua finalidade e razão de ser estão no Deus Criador.
Ele é sua origem e fim, nele que tem origem seu movimento, sua existência e
seu ser.
II. O quadro em que se encontra a felicidade humana, o bem da sociedade e o
equilíbrio da natureza foi fixado pelo Criador de todas as coisas.
III. O quadro, da própria criação, se torna conhecido pela revelação de Deus,
a Bíblia. As normas morais, sociais e políticas contidas nas Escrituras
sagradas, na lei divina, foram dadas pelo Criador ao homem, à sociedade
formada por ele com os semelhantes, e a toda a natureza sobre a qual ele deve
exercer domínio, para que possam existir na ordem harmoniosa requerida
pelo Criador.
A justa compreensão da lei bíblica e de sua aplicação apropriada às
circunstâncias presentes requer, além do uso correto da razão, o auxílio do
Espírito Santo.
IV. Destas considerações, decorre que os limites das ações dos homens em
todas as áreas, incluindo sua ação política e biológica, são fixadas no
contexto preciso definido por seus mandamentos. Deus revelou sua lei aos
homens a fim de exercerem influência benéfica sobre a criação quando
aplicadas a todas as áreas. É no retorno a Deus, mediante o arrependimento
verdadeiro, pela fé, na expiação redentora de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e
verdadeiro homem, que poderemos obedecer à boa lei, com o auxílio do
Espírito Santo. Sua aplicação aos problemas aparentemente insolúveis de
nosso tempo poderia nos permitir encontrar saídas boas e razoáveis para
todos os impasses nem que nos enganamos quando nos opomos ao Criador e
desprezamos com orgulho seus planos para a criação. Toda ação política,
legislativa ou científica que ignore ou se oponha a esta lei portadora de saúde
física, social e política, apenas agrava as dificuldades confrontadas hoje.
V. Segue-se necessariamente que toda ação do legislador político e do
pesquisador científico objetivando o bem humano e da natureza, deve
obrigatoriamente obedecer às prescrições da lei divina e criacional benéfica.
VI. As Escrituras sagradas nos lembram da existência de diversas ordens na
criação. As distinções são corroboradas de forma exata pelas grandes divisões
operadas pela pesquisa científica no estudo do universo — ordens cujo
respeito é indispensável se quisermos que a ação não seja inexpressiva ou
nociva. As ordens são as seguintes:
a) O mundo material: da natureza inorgânica e das leis químicas e físicas;
b) O mundo da vida biológica orgânica, cujos componentes moleculares são
de complexidade maior que a da simples matéria;
c) Por fim, o domínio do próprio homem, chamado a dominar as duas ordens
anteriores. O caráter específico do homem, marcado pelos traços únicos de
sua capacidade de comunhão com Deus, uso da palavra e do pensamento, da
consciência e liberdade etc., o situa em separado das outras ordens, apesar
dos fundamentos bioquímicos partilhados com o restante do universo e as
várias semelhanças fisiológicas com o mundo animal. A Bíblia caracteriza a
particularidade humana, constatada pela observação empírica das ciências, ao
afirmar sua criação à imagem e semelhança de Deus.
VIII. É assim impossível tratar a natureza inanimada de qualquer maneira
sem incorrer nas mais graves consequências: destruição do solo, desequilíbrio
de sua composição química, poluição química e atômica de terra, água e ar.
Assim, não podemos abusar da vida vegetal sem consequências catastróficas.
O que chamamos morte das florestas é uma indicação clara. No que concerne
aos animais, as consequências dos abusos científicos (crueldade e maus-tratos
derivados de experiências) e comerciais (criação em gaiolas, crescimento
hormonal forçado etc.), não podem ser subestimados. A lei divina exige de
nós o respeito às criaturas. Elas não são apenas objetos entregues às nossas
fantasias, mesmo que possamos nos servir delas com legitimidade.
As considerações são ainda mais pertinentes no que concerne aos homens. O
homem não deve ser tratado como objeto, nem como um legume ou animal.
A pornografia e algumas formas de publicidade, por exemplo, fazem dele um
simples objeto. A negação da vontade e da inteligência das crianças por
algumas formas de educação, reduzem-nas quase ao nível vegetativo. A
utilização corrente, nas escolas, de métodos de ensino baseados na
manipulação de reflexos condicionados dos alunos, reduzem-nos ao estado de
animais manipulados em experiências.
Nas diversas ordens da criação, a especificidade própria ao homem é a de ser
criado à imagem e semelhança de Deus. É, em particular, a semelhança de
todo homem com o Criador que o distingue dos animais.
A lei divina busca proteger os animais e o mundo vegetal da rapacidade
humana; ela condena os destruidores da terra; mas ela é bem mais severa com
quem destrói homens: ela exige a destruição de quem se arroga o direito de
assassinar o próximo.
VIII. Ainda que a Escritura sagrada não se dirija de maneira explícita a
questão precisa do estatuto próprio do zigoto, embrião ou feto, seu ensino
implícito constante é que o ser vivo encontrado em gestação no ventre da mãe
humana é um ser plenamente humano desde a fecundação e em todos os
estágios do desenvolvimento. O ensino retirado da Escritura sagrada é
corroborado pelas descobertas mais recentes da biologia humana. Desde a
fecundação — com exceção dos gêmeos idênticos que podem às vezes se
formar alguns dias mais tarde — o zigoto, o óvulo da mulher fecundado pelo
esperma masculino, é um ser humano completo. Todas as características de
sua natureza biológica própria estão já inscritas na memória do código
genético. O desenvolvimento desde o óvulo fecundado (o zigoto) ao embrião,
ao feto, ao recém-nascido, ao bebê, à criança, ao adolescente, ao adulto, e
para terminar, ao idoso, não se interrompe. Salvo a interrupção consistente
em nada menos que a morte, o desenvolvimento que acabamos de descrever,
mediante a citação das palavras utilizadas em português para se referir ao ser
humano nos diferentes estágios de seu desenvolvimento, ocorrerá
inevitavelmente. A destruição homicida voluntária desse ser, em qualquer
estágio, constitui assassinato e deveria, em todos os casos, ser reprimido
pelas leis em vigor para tais crimes.
IX. O dado fundamental da unicidade do percurso do ser humano da
concepção à morte simplifica muito todas as questões morais relativas à
manipulação laboratorial da vida humana que se inicia, no que concerne à
fecundação in vitro e às manipulações genéticas propriamente ditas
(substituição de genes no DNA). Pelo fato de o óvulo fecundado consistir em
um ser humano, ele deve ser assim tratado. Como a criança, o adolescente, o
adulto ou o idoso, o zigoto, o embrião e o feto devem ser objeto da proteção
normal acordada pelas leis aos homens e às mulheres depois do nascimento.
Segue-se que, como qualquer experiência científica é ilícita com seres
humanos, sem levar em conta a idade, o mesmo ocorre com o ser humano
antes do nascimento. Assim, fica excluída rigorosamente qualquer
experimento com óvulos fecundados, em zigotos, embriões e fetos que levem
à malformação e outras consequências nefastas. Aliás, a ciência médica
proíbe qualquer tratamento que acarrete necessariamente a morte do paciente.
Assim, fica excluída qualquer terapia com óvulos fecundados, zigotos,
embriões e fetos que conduzissem à morte dos seres humanos que eles são.
Como consequência, ficam rigorosamente proibidas, a fecundação in vitro e
as diversas manipulações genéticas culminantes sempre na morte de vários
óvulos humanos fecundados, isto é, seres humanos como você e eu. Essas
práticas devem ser totalmente proscritas pois elas levam voluntariamente à morte
em laboratório de seres plenamente humanos, imagens do Deus vivo.
Nossa indiferença relativa ao assassinato científico e médico de um número
incalculável desses pequeninos irmãos deve levar aos mais severos e
frequentes juízos do Criador.
X. Para concluir, devemos requerer que a definição de ser humano, objeto de
lei, por nosso sistema jurídico, parta não do nascimento, como hoje é o caso,
mas da concepção. A modificação da definição legal do ser humano pela lei
concederia ao óvulo fecundado, zigoto, embrião e feto o mesmo estatuto legal
e a mesma proteção concedidas agora pelas leis aos irmãos mais velhos:
bebês, crianças, adolescentes, adultos e idosos, e isso sem precisar
acrescentar nenhuma lei aos códigos já sobrecarregados.
Lausanne, 15 de abril de 1987.
Associação de Pais Cristãos de Vaud
Conclusão
Vinte anos mais tarde
A oposição “evangélica” entre graça e lei e suas consequências

Reflexões suscitadas pela discussão com um líder evangélico que se dedica à


relação do evangelho com a política destinadas principalmente a Florent
Vark, Guillaume Bourin e Pascal Denault.

Em gratidão a Irineu de Lião (130-202) por seus ensinamentos antignósticos


sobre os relatos da Lei e do Evangelho.

1) Existe um pensamento, muito corrente em alguns meios “evangélicos” a


respeito do testemunho de Jesus Cristo relativo à política que contradiz todo
o ensino bíblico sobre o tema. Apocalipse 19.10 diz: “O testemunho de Jesus
é o espírito da profecia”. Portanto, o que é o “espírito da profecia”? O espírito
da profecia, nos mostra Apocalipse 11, ao mencionar o testemunho profético
das duas testemunhas, não é outro além da proclamação da lei divina pela
igreja fiel a fim de condenar publicamente os pecados comumente praticados
na sociedade, mesmo que isso leve — como ocorreu muitas vezes na história
— ao martírio do pregador. Em seguida, depois da convicção dos pecados
suscitada pela proclamação celeste da lei divina, virá o anúncio da mensagem
do evangelho da salvação. A separação — bem mais frequente — da
proclamação da lei e do evangelho foi, há quase três séculos, é uma das
fraquezas mais terríveis do protestantismo.
2) Designamos aqui com o termo “evangélico” uma tendência espiritual atual
no protestantismo (mas que se manifesta também em diversos outros meios)
que, em contradição com a herança verdadeira do cristianismo — a do
protestantismo reformado e a do evangelicalismo verdadeiramente bíblico —,
conseguiu opor o evangelho eterno de Deus, a boa-nova da salvação em Jesus
Cristo, às exigências da lei-Palavra divina, como figura na Bíblia toda. Seria
necessário falar aqui de uma tendência “neoevangélica”?
3) A corrente autoproclamada “evangélica” ensina que a igreja não deve
buscar exercer influência política no mundo; ela deve se limitar à pregação do
evangelho a fim de suscitar a salvação individual do maior número de almas
perdidas. A atitude que separa o evangelho do seu segundo uso, designado
“pedagógico”, da lei — suscitar a convicção do pecado em quem o escuta —
faz a igreja renunciar a seu papel plenamente bíblico de ser a luz divina que
ilumina as trevas do mundo e o sal de Deus que preserva a terra da podridão
espiritual, moral, cultural e política proveniente da queda humana e dos
incontáveis pecados que se seguiram a ela.
4) Ignorante do testemunho da história da igreja cristã sobre a ação, ao
mesmo tempo prática e pública, dos cristãos de todos os tempos que
trabalharam a favor de diversas formas de engajamentos sociais, políticos e
culturais de acordo com a Bíblia, a corrente autoproclamada “evangélica”
manifesta uma miopia histórica impressionante. Existe certo número de
declarações evangélicas que buscaram definir biblicamente o papel das
igrejas no que concerne às suas responsabilidades na esfera pública.
Pensamos aqui no parágrafo 5 do Pacto de Lausanne (1974). Nele se busca
esclarecer a relação entre evangelização e responsabilidade social da mesma
forma que, mais recentemente, o fez o Manifesto de Manila (1989). Não
devemos nos esquecer da ação, ao mesmo tempo espiritual e social, tão
importante do Exército de Salvação — para mencionar aqui apenas uma obra
evangélica bem conhecida que assumiu as responsabilidades caritativas
públicas da fé cristã.[181] O testemunho público cristão deveria consistir na
primeira responsabilidade de cada cristão coerente; em seguida, das famílias
cristãs; enfim, de cada igreja local (ou de diversas associações de igrejas).
Esse testemunho social e cultural não deveria ser relegado apenas à
responsabilidade de organizações paraeclesiásticas, mesmo que as obras
sejam úteis pela ação específica, suplementando, assim, as fraquezas das
igrejas em certa área. Está claro que as obras cristãs independentes das igrejas
— como escolas, hospitais, centros de acolhimento — desempenham seu
papel, mas elas deveriam sempre manter a relação orgânica e espiritual com
as igrejas locais.
5) A tendência autoproclamada “evangélica” afirma a impossibilidade do
cristianismo sem a ação do Espírito Santo. Isso é verdade. Mas os irmãos de
tendência “evangélica” esquecem-se, em benefício da insistência unilateral
sobre as realidades espirituais últimas, de que as coisas penúltimas, do mundo
terreno, devem ser também todas levadas à obediência do evangelho, isto é, à
submissão aos mandamentos de Deus e à ordem estável da criação. Eis a
proclamação do evangelho completo, o do espírito da profecia. A lei divina
no uso primário — ao definir a ordem da justiça a fim de armar a espada do
magistrado — fornece também o modelo verdadeiro do que é bom, direito e
justo no que se refere a todos os aspectos da vida pública: religiosa, política,
econômica, social e cultural dos homens entre os quais devemos incluir os
cristãos. De tanto darem ênfase apenas ao evangelho, os irmãos
“evangélicos” se esquecem da santa, justa e boa Lei de Deus (Rm 7.12) e se
privam, pela mesma razão, da verdadeira força na proclamação do evangelho
de Jesus Cristo (2Tm 3.5).
6) Essa atitude, que se apropria falsamente da designação “evangélica”,
separa a lei da graça quando afasta a relação concreta real entre a justiça e a
misericórdia de Deus. Precisamos nos lembrar de que a lei divina não é outra
coisa além do quadro criacional em que a graça é exercida! Os “evangélicos”
se esquecem da relação estabelecida pelo ensino do evangelho entre verdade
e vida. Jesus declarou: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14.6). A
verdade diz respeito à salvação, sem dúvida, mas a salvação se relaciona
também com o quadro da criação, ou seja: ele é também o da vida humana,
pessoal, física e social. Portanto, a salvação é estruturada por normas
imutáveis da lei divina. Que o homem não separe o que Deus uniu! (Gn 2.24;
Mt 19.5).
7) Esse discurso, que se autoproclama “evangélico” contém apenas um único
polo: o do evangelho privado de toda a sua força! Em grego, a palavra heresia
significa escolha. Aqui escolhemos graça contra a lei; o evangelho da vida
eterna contra a vida humana no mundo, vida humana que o evangelho vem, de
fato, restaurar e santificar! Não podemos nos esquecer de que a mensagem do
evangelho, recebido pela fé, culmina em uma realidade ao mesmo tempo
humana e divina, terrestre e celeste, física e espiritual. A realidade se
expressa, afirmemos com força, em termos políticos: basilea tou Theou, o reino
de Deus! Dois reinos estão aqui em conflito: o reino das trevas e o reino de
Deus. Portanto, pode haver sobre a terra um magistrado justo, submisso à Lei
de Deus, mas também um magistrado iníquo, besta totalitária oposta à Lei de
Deus (o anomos, o “sem lei” de 2Ts 2.1-12), animal político anormal que é
submisso ao dragão, o diabo ou Satanás (Ap 12 e 13).
8) Essa ideologia exclusivamente religiosa conseguiu apresentar o lobby
político como a única opção do testemunho “evangélico”. Trata-se, aos olhos
desses doutores, do falso debate “evangelho ou política”, da única opção
“política” possível para a proclamação do evangelho. Não há, portanto,
nenhum lugar na perspectiva “evangélica” para a apologética, isto é, para a
lei divina corretora do pensamento humano deformado pelos efeitos do
pecado. Para tomar um exemplo bem conhecido, trata-se da mesma
apologética praticada por Jesus na conversa em Sicar com a mulher
samaritana.
9) Procura-se, sob essa perspectiva, testemunhar sobre Jesus Cristo! Sim, o
evangelho muda o coração! Mas em qual direção? Da luz que é a Palavra-Lei
de Deus? Ou então na direção destas trevas do mundo que rejeitam Jesus e
seus mandamentos? Cristo, a luz do mundo, é a luz divina que ilumina
primeiramente, é claro, a igreja, mas também a criação e (em certa medida) o
mundo, em particular, o da política.
10) Nas ideias pretensamente “evangélicas” consideradas aqui, trata-se
também do apelo à vocação cristã. Na perspectiva “evangélica”, a vocação
pública do cristão limita-se a uma única opção: a entrada na política
partidária com todos os compromissos e todas as canalhices aos quais a
prática da ação “política” leva muitas vezes. Essa forma de considerar a
escolha entre o testemunho cristão e o engajamento em uma política
exclusivamente profana não deixa nenhum lugar para a influência na vida
pública verdadeiramente cristã, isto é, decorrente da proclamação da lei
divina que ilumina e purifica a vida política das nações. Essa forma de ver,
que se afirma sempre “evangélica” não tem a menor ideia de que as boas
normas bíblicas, os limites imutáveis e vivificantes da Lei de Deus, devem —
e podem — oferecer um enquadramento para a atividade política humana. A
rejeição “evangélica” da lei divina torna sem força qualquer ação política
pactual a favor do bem comum. Pois a visão que se quer “evangélica” não
pode considerar uma vocação política cristã qualquer, a menos que seja laica
e profana — separada de Deus Criador e separada de toda verdade, isto é, da
lei e do evangelho. A perspectiva “evangélica” não pode dizer nada sobre o
que poderia ser a posição cristã verdadeira na política, pois em seu
pensamento, que afirma ser cristão, não existe lugar para a lei divina!
11) É certo que temos o dever de orar por todas as autoridades a fim de
vivermos em paz e tranquilidade, mesmo no mundo muitas vezes hostil à fé
cristã. Mas a vida tranquila e pacífica só é possível para nós, cristãos, se as
autoridades respeitarem, ao menos em certa medida, a regra para da justiça
que é a Lei de Deus; seria melhor ainda se os governantes fossem movidos
pelo temor a Deus e trabalhassem para favorecer a verdadeira fé. Dito de
outra forma, os cristãos virão inevitavelmente a ser assimilados ou muito
perseguidos pelo mundo. Na orientação das opiniões “evangélicas” que
ouvimos muitas vezes não se encontra quase nenhum pensamento
concernente à ordem política justa, possível e mesmo necessária, isso por
causa do desconhecimento:
a) Da ordem criacional (da qual faz parte a ordem política); e
b) Do ensino da Bíblia que, inteira, nos fala da ordem e do perigo que
representa sua ausência.[182]
12) É preciso também retornar à visão, ao mesmo tempo criacional e bíblica,
da diferenciação das ordens (ou esferas) da sociedade e trabalhar para
restabelecê-las segundo sua própria ordem. A igreja não engloba em seu seio
a família — que detém uma esfera de autoridade e de liberdade que lhe é
própria. O mesmo ocorre com o Estado-nação, qualquer que seja: ele deve
respeitar as ordens políticas que lhe são subordinadas, como províncias,
cantões, departamentos e comunas (que devem ser respeitadas segundo a
ordem que lhes são historicamente próprias). Lembremo-nos de que na
Confederação Helvética a entidade política verdadeiramente “nacional” é a
dos cantões que, em momentos diferentes da história, delegou algumas
funções ao poder “central” da Confederação. O mesmo ocorre com as áreas
econômicas e culturais que não devem ser assimiladas pelo Estado
centralizador. As esferas de liberdade da ação jurídica, legislativa e
executivas do poder político não devem também estar subordinadas umas às
outras. Enfim, deve-se manter (ou restabelecer) a relação distinta e sadia
entre a autoridade espiritual e temporal, entre a igreja e o Estado. Mas acima
de todas as instituições que constituem a sociedade, devem reinar os diversos
aspectos normativos — ao mesmo tempo transcendentes e imanentes — da
Lei de Deus.
13) A questão central aqui não é de forma alguma a da pretensa liberdade de
consciência (que não deve ser confundida com liberdade de culto), mas a da
glória de Deus, de sua verdade, soberania, justiça e misericórdia. Não parece
que nos pensadores “evangélicos” haja a menor noção das exigências,
promessas e ameaças contidas na aliança divina que castiga os maus e
estimula as pessoas de bem. Esta tarefa na terra, como ensina Paulo, pertence
ao magistrado justo.
14) O conceito de “liberdade de consciência” reivindicada pela ideologia
examinada, não é outra além do que chamamos “noção bastarda”: a mistura
de duas noções contraditórias, unidas de maneira ilegítima em uma só, a fim
de fazer aceitar o erro veiculado pela união. São conceitos opostos à
liberdade absoluta e de consciência variável. Contudo, a consciência
verdadeira do homem não é de forma alguma livre nem variável: ela está
sempre ligada, para ser justa, à regra divina imutável, a lei-Palavra infalível e
permanente de Deus, que reflete a ordem da criação, a ordem da natureza. O
que ensinou de forma muito correta Lutero ao exclamar na Dieta de Worms,
diante de Carlos V, imperador de quase toda a terra: “Não posso me retratar,
pois minha consciência está submissa à Palavra de Deus”. A doutrina dita
“evangélica” o evangelho único (um evangelho sem lei) abandona o mundo
ao diabo!
15) A história nos mostra que a sociedade é muitas vezes transformada pela
fidelidade dos cristãos cheios do Espírito — até mesmo (e principalmente!)
sob a espada da perseguição — cristãos que obedecem às exigências públicas
e privadas da lei divina. O major Davel, como cristão no cadafalso de Vidy,
bradou em 24 de abril de 1723 movido pela liberdade maravilhosa dos filhos
de Deus, mesmo sob o machado do carrasco: “Este é o mais belo dia da
minha vida!”.
16) O bordão “liberdade de consciência” representa a condenação à morte da
consciência verdadeira, de qualquer consciência cristã que se submete, não às
modas flutuantes da liberdade baseada em opiniões profundamente instáveis
e em costumes que, sob a pressão de influências deletérias, são também
capazes de se desnaturar,[183] mas às normas imutáveis da lei divina e da
ordem criacional. A “liberdade de consciência” é o bordão destruidor que
move o ídolo maior da modernidade: a liberdade sem limites. De fato, o
primeiro dever aqui é atacar o ídolo da liberdade sem lei que origina a
consciência informe.
17) Se a lei não existe, é impossível discernir de forma justa o caminho a ser
seguido, em sentido individual, eclesiástico ou político! De fato, a noção de
liberdade é mais forte para a nova mentalidade “evangélica” que a verdade. A
verdadeira bandeira cristã não é a consciência liberada de todas as normas,
mas a consciência submissa à verdade (que é nosso Senhor Jesus Cristo) no
amor aos mandamentos divinos. Exatamente isso ensina toda a lei divina,
tanto no Novo e no Antigo Testamento. A liberdade de consciência neopagã
pode ser resumida assim: “Faça o que sua consciência manda, seja livre como
o vento!”. A liberdade cristã significa: “Faça tudo o que Deus lhe pede, em
Jesus Cristo e pela ação do Espírito Santo, submetendo-se com alegria à
Palavra-lei divina”.
18) Como a liberdade de consciência — bordão revolucionário, caso exista
algum — pode se manter onde reinam hoje os “jacobinos”[184] (de direita ou
esquerda) ou, amanhã, os muçulmanos, que sem dúvida logo ocuparão a parte
superior do estrato social, cultural, religioso e político de nossas nações tão
livres e tolerantes? A ausência da lei divina suscita um cristianismo
complacente, tolerante, invertebrado, emasculado, castrado, sem nenhuma
força!
19) O consenso cristão (eis outra nova ideia bastarda!) se relaciona, por
exemplo, à justiça, procura se dirigir pela harmonia das opiniões
“evangélicas” divergentes, advindas da multiplicidade de comunidades
cristãs, ou se fundar democraticamente (de maneira consensual ou
majoritária) sobre a soma vitoriosa dos sufrágios. Nesses casos, Deus e sua
Palavra, como a ordem criacional e moral estável instaurada por ele, são
completamente esquecidos. O evangelismo verdadeiro baseará seu
pensamento e sua ação no que diz a lei divina. Ela defende ao mesmo tempo
o rigor da justiça e o espírito de humanidade, mesmo em relação aos piores
criminosos que devem necessariamente sofrer sua pena — mesmo capital,
como foi o caso do ladrão convertido na cruz — à qual foram justamente
condenados.
20) A mentalidade “evangélica” examinada aqui esvazia por completo o
primeiro uso da lei, isto é, a lei divina serve como norma última do
magistrado, o fundamento da filosofia política cristã criacional, fonte da
ordem benéfica para o mundo! Entretanto, a mentalidade “evangélica”
informe recusa a dimensão ordenadora da Lei de Deus! Lembremo-nos de
que, se o segundo uso “pedagógico” da lei lembra ao homem o pecado com
vistas à conversão, o terceiro uso concerne à lei divina enquanto luz
normativa celeste que ilumina o caminho de cada cristão.
21) Com a dominação da mentalidade antinomiana dita “evangélica” não
existe mais para a igreja a possibilidade de convocar a sociedade a se
submeter às ordens divinas relativas à política. A razão é simples. Os meios
espirituais não desejam nem mesmo mais conhecer para seu próprio bem com
as normas de Lei de Deus. Como poderiam então aplicá-las aos pecados do
mundo? É assim que a ideologia democrática torna-se um deus, pois o
“povo” define o bem e o mal, pela maioria moralmente suficiente de uma
única voz, voto expresso livremente fora de qualquer referência à norma
estável, imanente (natural) e transcendente (divina). Entretanto, os limites
fixados pelos direitos divino e criacional dirigem objetivamente a consciência
de todo homem, pois ele foi criado à imagem divina. Não existe, portanto,
liberdade absoluta! O exercício da liberdade para ser justo deve se submeter à
regra fixada pela lei divina. A liberdade de consciência que se coloca fora das
normas divinas e naturais torna o homem pecador justo a seus olhos. Ele se
estabelece como seu próprio deus, determinando por si mesmo o bem e o
mal, como fez Adão, nosso pai comum, quando comeu o fruto proibido. O
justo (mas variável de acordo com as maiorias) é, portanto, decidido apenas
pelos homens! Muçulmano ou comunista, “evangélico” ou ímpio, pouco
importa!
22) A igreja, de acordo com esse ponto de vista, ao mesmo tempo evangélico
e antinomiano, deixa de ser a coluna e o apoio da verdade. Fiel, a igreja de
Deus enraizada em Jesus Cristo e em sua palavra-lei se torna a coluna e o
apoio da verdade no mundo que perdeu o norte. A Palavra-lei suscita assim,
pela ação vivificante do Espírito de Deus, a igreja, o corpo vivo e fecundo de
Jesus Cristo, corpo institucionalizado — isto é, estruturado — pela lei-
Palavra de Deus! Já a liberdade de consciência, individual ou comunitária, é a
via que conduz invariavelmente ao ceticismo. A forma “evangélica” de
considerar a liberdade de consciência se esquece do terceiro uso da lei — a
luz da lei divina sobre o caminho do crente e da igreja fiel. (Consulte, entre
muitas outras passagens bíblicas, o Sl 119 todo.)
23) A forma “evangélica” de considerar as relações entre o cristianismo e a
política conduz à ideia de que podemos apenas viver com modelos
imperfeitos que escolhemos para nós, modelos mancos — e nunca
normativos — os quais devemos fazer força para aceitar. Diante do impasse,
é necessária a resposta resoluta “não!”. Por que deveríamos nos entregar a
uma restrição mental semelhante a essa — marca da impotência que nos
condena a sofrer a mediocridade permanente da vida política revoltada contra
o Criador — enquanto dispomos, na lei divina, do modelo perfeito? A lei
divina imutável nos foi revelada para ordenar, em vista do bem comum
verdadeiro das nações da terra e de maneira adaptada às circunstâncias do
tempo, toda a nossa vida política, econômica e social. O modelo divino foi
encarnado de maneira perfeita por Aquele que é nosso modelo supremo, o
Senhor Jesus Cristo. A norma política não será encontrada de modo apenas
empírico, ao comparar os diversos modelos políticos sempre imperfeitos, se
não conseguirmos avaliar os exemplos, sem dúvida úteis a serem conhecidos,
à luz da lei divina.
24) As reflexões dos meios chamados “evangélicos” manifestam uma
confusão completa entre o fim último do homem — a salvação da alma aqui
na terra e o do corpo no último dia — e o fim penúltimo dos homens e do
mundo: a ordem da criação, da qual faz parte a ordem da política. De forma
gnóstica, essa forma de ver “evangélica” consegue opor a criação antiga à
criação nova, a ordem da criação presente — ordenada para o bem, à graça
salvífica de Deus em Jesus Cristo. O evangelho se encontra aqui, de maneira
dualista e marcionita, oposto à criação, como se a graça redentora não tivesse
também por objetivo o restabelecimento da criação antiga, agora submissa à
vaidade pela queda e corrompida ainda mais pelo pecado humano. A
renovação de todas as coisas manifestará, no lugar da ordem política
imperfeita tão necessária ao tempo presente, a ordem perfeita da nova terra e
dos novos céus. Até a chegada desse momento, nós que, ao mesmo tempo em
que aspiramos às realidade celestes, vivemos na terra, devemos também
trabalhar para o restabelecimento atual das realidade penúltimas, o que inclui
a restauração da ordem política temporal que busca o bem comum dos
homens e das nações.
25) A única coisa que parece de fato importar para os partidários da ideologia
que veicula essa estranha visão “evangélica” da sociedade e da política é o
destino eterno do homem: até mesmo a recusa em considerar a influência do
evangelho sobre as realidades terrestres poderia bem ser uma tentação
espiritualista de tipo gnóstico.
26) A atitude dualista desse tipo, de tendência gnóstica, opera uma
deformação da doutrina da unidade de Deus e sua soberania. Ao separar
assim o domínio da piedade e da vida cristã no mundo, retornamos à
oposição antiga e errônea de profano e sagrado. Como podemos sugerir a
separação como modelo de vida cristã se “ao SENHOR pertence a terra”
(Sl 24.1)? De qual Deus estaríamos falando? Nosso Deus, Criador e
Redentor, teria autoridade limitada? Não devemos trabalhar para levar todos
os pensamentos, orgulhosos (e falsos) do homem revoltado contra a Lei de
Deus e a ordem estável da criação, cativos à obediência de nosso Senhor
Jesus Cristo? (2Co 10.3-6).
27) Segundo o ponto de vista apresentado pela perspectiva “evangélica”
sobre a vida social e política, Jesus é comumente descrito como alguém
movido pela rejeição de todos os que pretendem viver a vida moralmente
justa. Os novos “evangélicos” atribuem os atos de verdadeira “justiça” à seita
dos próprios justos, os fariseus! Segundo essa maneira de pensar, quem busca
obedecer à lei seria justo à própria vista; portanto, de fato, o pior injusto.
Todavia, na realidade dos fatos confrontados por Cristo, os fariseus justos
eram, ao mesmo tempo em que reivindicam adesão a Moisés, os homens
mais hostis ao espírito e à verdadeira letra da Lei de Deus! Segundo essa
maneira estranha de ver, os pagãos que buscam viver com moralidade, ainda
que imperfeita — e que tem também necessidade de serem salvos — teriam
mais ainda necessidade de Jesus Cristo que quem persiste na perversidade
observável da vida iníqua. A Escritura não diz que Deus ama os praticantes
da justiça? “Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos
filhos, quanto mais o Pai celestial dará o Espírito Santo àqueles que lho
pedirem?” (Lc 11.13). Segundo essa argumentação, os cristãos que se
tornaram “justos” por si mesmos — encontram-se justificados com perfeição
em Cristo e andam nele em santificação progressiva — teriam também mais
necessidade de Jesus Cristo que os pagãos abandonados às suas paixões e
impiedade! A Bíblia não nos ensina, em vez disso, que o amor cristão a Deus
se manifesta no respeito à lei, como demonstram vários salmos e a Bíblia
toda?
28) Assim, a salvação da alma não acarreta consequências éticas positivas
para a sociedade por causa da visão antinomiana que a acompanha! Não há,
portanto, na perspectiva autoproclamada “evangélica”, regras aplicáveis à
vida cristã em sociedade, ou principalmente regras que dizem respeito, no
melhor dos casos, apenas à ética cristã individual, sem consequências para a
vida da cidade dos homens.
29) O monasticismo dos monges do deserto do Egito é também
incompreendido pelo ensino “evangélico”. O monasticismo egípcio
objetivava permitir que alguns monges se afastassem da sociedade e da
igreja, muitas vezes corrompida em parte, a fim de melhor estudar e entender
a Bíblia, e viver em comunhão mais profunda com Deus e lhe obedecer mais.
Entre os visitantes dos monges, a fim de estudar a Bíblia e se recarregar
espiritualmente, encontramos cristãos de grande envergadura como Atanásio
ou Cirilo, ambos de Alexandria. Ali, no deserto, suas forças eram renovadas,
o que lhes permitia combater as heresias de sua épocas, muitas vezes
favorecidas pelo poder imperial. O imperador fiel vale, no entanto, mais para
a igreja que o ímpio!
30) Quem não faz o bem (isto é, estimula o bem e se opõe ao mal) comete
pecado. A política espiritual do avestruz preconizada pelos doutores
“evangélicos” não torna a igreja luz do mundo nem sal da terra. A igreja se
torna luz do mundo cada vez que a lei-Palavra de Deus é vivida ali, em Cristo
e pela ação do Santo Espírito, e a vida nova se traduz em ações justas,
visíveis ao mundo pagão. Para que isso ocorra se faz necessário,
evidentemente, haver na igreja a presença das normas da lei divina e
criacional, contexto em que se proclama o evangelho da salvação. O
evangelho se torna, quando acompanhado do espírito da profecia, o sal da
terra pela força espiritual da proclamação fiel das exigências da lei divina que
cauteriza o pecado do mundo e retém, assim, a liberdade do crescimento da
podridão social sem nenhum impedimento.
31) O ensino “evangélico” trata então de alguns deveres cívicos, em
particular o do voto. Não votar já é uma escolha política! O ensino
“evangélico” preconiza não lidar com essas questões. Assim, como escolher
em termos políticos, se ninguém fala dos problemas representados pelas
diversas escolhas políticas possíveis? A visão quietista, que guarda
abusivamente a verdade pública no fundo do coração, não deveria ser do
marido e pai de família. Muito menos, do pastor! Como a esposa, as crianças,
os membros da igreja poderão se posicionar diante de questões públicas
difíceis se quem tem a tarefa de ensinar à família e à igreja se cala? Com
certeza, é necessário haver aqui prudência e discrição, mas buscar ensinar as
exigências da Lei de Deus nas diversas áreas da vida pública não significa, de
forma alguma, realizar política partidária ou politicagem! Representa a
iluminação da consciência prática da esposa, dos filhos e das ovelhas a fim de
suscitar a capacidade de tomar decisões justas e benéficas. Ninguém na
família ou na igreja deveria ignorar as razões bíblicas relacionadas a algumas
escolhas políticas de importância nacional vital![185]
32) Sem dúvida é uma boa decisão o pastor nunca promover a política
partidária do púlpito; aliás, em nenhum outro lugar. Mas a reflexão sobre
todos os aspectos da vida do mundo, entre os quais se inclui a política,
integra a tarefa do doutor da Palavra de Deus, do ensino e da pregação.
Heinrich Bullinger em Zurique, Pierre Viret em Lausanne (e mais tarde na
França) e João Calvino em Genebra (e em Estrasburgo) não hesitaram em
utilizar o púlpito de onde era proclamada a Palavra divina para aplicá-la,
como os antigos profetas, com sabedoria e força, às realidades boas e más de
seu tempo.
33) Para os cristãos dos dias de Paulo e João não havia dúvida de que o ato
político de adorar César era também religioso. Por isso os cristãos eram
chamados “ateus”: rejeitavam os deuses de seu tempo e por causa do ateísmo
em relação a Kaiser Kyrios, César Augusto, eram levados à morte os
adoradores do único Senhor, Cristo. Toda autoridade que não se submete à lei
divina se torna um ídolo: ela encontra em si a própria fonte de lei e justiça.
Assim o poder público faz de si mesmo o próprio deus. A questão essencial
não se encontra no fato de o regime ser monárquico, aristocrático, oligárquico
(o do poder atual em grande parte do mundo revestido com sua máscara
humanitária) ou democrático. A escolha entre o bordão da monarquia
absoluta, o Estado sou eu ou a democracia absoluta: vox populi, vox dei, (a voz do
povo é a voz de Deus!) não tem muita importância. A questão decisiva é
sempre: Deus está sendo servido em primeiro lugar? A lei divina, norma da
ordem criacional, é também a norma da ação política? Como no momento da
queda, é o homem — o pretenso pequeno deus — que hoje se torna Deus de
novo, ao determinar por si mesmo, para a área pública quanto particular, o
bom e o mal. Mas é preciso acrescentar aqui que se os diversos tipos de
regimes existiram com legitimidade em alguns países, em dado país, certa
forma de Estado, ligado aos eu surgimento, se impõe e deveria se impor. Por
isso a forma “monárquica” de Estado convém tão bem à Federação Russa,
como a forma republicana e confederada à Suíça.
34) De acordo com muitos representantes da orientação autoproclamada
“evangélica”, que procuramos descrever, seria terrível não viver em
democracia! Essa não é a opinião dos cristãos siríacos (semitas de origem) da
Síria e do Iraque que, com a vinda da “democracia” morrem como mártires
ou que, com dor, tomam o caminho do exílio. Eles vivam outrora como
cristãos sob tiranos sanguinários! Na democracia, a maioria decide a verdade
e o bem, e isso parece reconfortar um bom número dos doutores
“evangélicos” que participam da divinização do “povo”!
35) A bela democracia abole a pena de morte para o estupro, assassinato,
tráfico de drogas ou traição à pátria; mas reforça a pena homicida de quem,
dentre todos os concidadãos, tem a infelicidade de ser o mais fraco! Para o
incapaz de se defender pela própria condição — no final da vida ou por ainda
não ter nascido — o Estado cobre, autoriza e reforça o assassinato! Na
democracia, por exemplo — como em todos os regimes baseados em
ideologias, o pensamento virtual e utópico e “especulativo”, separado de
qualquer realidade — o Estado torna-se Deus; ele pode fazer o que quiser!
Para os “doutores evangélicos”, para os “pastores” do rebanho seria, portanto,
algo terrível não estar entre os carniceiros n uma sociedade idólatra,
mentirosa e assassina!
36) O mais importante para os doutores “evangélicos” é poder exercer a
“liberdade de consciência” da consciência não mais apegada, como a de
Lutero, à verdade da Palavra divina. A consciência de Lutero se apegava às
Escrituras divinas e ele utilizou a espada do Espírito, ao colocar a vida em
risco extremo, diante das instâncias mais poderosas e cruéis de seu tempo.
Como proclamar o evangelho se a liberdade de consciência pretensamente
“evangélica” afirma que é um direito imprescritível pensar, crer e dizer tudo
o que se deseja, todos os disparates, as vilanias, calúnias e barbaridades que
nos passam pela cabeça, mas recusa ao mesmo tempo aos homens a liberdade
de proclamar as verdades mais polêmicas da lei-Palavra de Deus? Estamos
diante da falsa doutrina “evangélica” que mata a alma. Como poderá se
arrepender e crer no Filho de Deus quem diz: “Eu decido o que é bom e mau.
Ao seguir minha liberdade de consciência, o único juiz genuíno do bem e do
mal, como poderia eu me arrepender de pecados cujo erro minha consciência
livre não reconhece?”. O argumento apresentado pelos doutores
“evangélicos” consiste em considerar desnecessário que o poder contrarie de
nenhuma maneira a consciência livre do homem. Todavia, eles se esquecem
de afirmar que, se a consciência do não crente não é livre (por causa de sua
revolta) para ir em direção a Deus, a do cristão permanece livre, mesmo sob
as mais impressionantes restrições físicas (Mt 10.24-31), para confessar a
verdade. A consciência de cada um permanece submissa à lei divina, como
mostra Romanos 1. Orar pelas autoridades não significa rogar às autoridades!
Procurar o todo tempo o socorro diante do Estado-Deus — a religião social e
política, idolátrica atual — não passa do culto ao poder político, que se
tornou a providência terrestre!
37) Para os doutores “evangélicos”, o único bem público que consideram se
reduz à liberdade de pregar o evangelho! Que narcisismo eclesiástico!
38) Em uma perspectiva espiritualista semelhante, acaba-se por opor a
cidadania do céu à condição terrestre de cidadãos de diversas pátrias. Trata-
se, repitamos, do dualismo gnóstico em que só o céu conta. Ora, Deus nos
chama a obedecer às pequenas coisas do mundo terreno, antes de nos
conceder, mais tarde e em outro lugar, as grandes riquezas que nos confiará
apenas para sua glória!
39) A única questão política que parece interessar os defensores das posições
“evangélicas” é não tomar a posição de nenhum partido. Mas que tristeza é
limitar de maneira tão lamentável a reflexão cristã sobre uma questão tão
ampla e importante!
40) Sob todos os aspectos é formidável (e espantoso!) que a discussão
originária de nossas reflexões sobre a teologia “evangélica” — ao mesmo
tempo tão estranha e lamentável — termine entoando um dos cânticos mais
anticristãos — e politicamente mais carregados do mundo: a Marselhesa
sanguinária! Isso não é gratuito: revela a falta de discernimento espiritual da
parte dos responsáveis ditos “evangélicos” que espalham, com inconsciência
tão perigosa, a imprudência espiritual que os orienta diante de questões tão
graves e cujas consequências não podem ser mensuradas.
14-21 de março, 3 de abril 2017
Anexos
Anexo A

J. Gresham Machen: A majestade da Lei de Deus[186]

À questão fundamental O que é o pecado? a única resposta é a do Catecismo: O


pecado é toda não conformidade com a Lei de Deus (ou toda transgressão dela).
A importância da definição ficará mais clara, espero, quando tratarmos das
consequências do pecado de Adão para toda a raça humana.
Agora, examinaremos o tema no aspecto mais simples e mais evidente. O que
está na base do pecado é a oposição à lei divina. Não se pode crer na
existência do pecado caso não se creia na existência da Lei de Deus. A ideia
do pecado e a ideia da lei caminham juntas. Se pensarmos no pecado no
sentido bíblico da palavra, pensaremos na lei; se pensarmos na lei, e — ao
menos para a humanidade como ela se apresenta — pensaremos no pecado.
Assim, peço que percorra a Bíblia com o pensamento e considere em que
ponto ela está impregnada do ensino da Lei de Deus.
Já observamos o ponto em que o ensino é claro na narrativa do primeiro
pecado humano. Deus disse: “Não comerás do fruto da árvore”. Era a lei
divina, uma ordem precisa. O homem desobedeceu à ordem; fez o que Deus
lhe proibira: isto é o pecado.
Todavia, a Lei de Deus está em toda a Escritura e não só em algumas
passagens. Esse é o pano de fundo das relações entre Deus e o homem.
Pense um instante no lugar dado à lei no Antigo Testamento — a lei dada por
Moisés. Você imagina tratar-se de produto do acaso? De forma alguma. Isso
ocorreu porque ela é a base da Palavra de Deus.
Todo o Antigo Testamento apresenta um pensamento central: Deus é o
legislador e o homem lhe deve obediência.
E o Novo Testamento? Ele obscurece esse pensamento? Deprecia de alguma
forma a Lei de Deus?
Alguns creem assim. O erro, designado antinomianismo, afirma que a
dispensação da graça introduzida por Cristo revogou a lei divina para os
cristãos.
Esse erro é assustador de fato! Sem dúvida, ele é verdadeiro em um sentido,
pois segundo Paulo os cristãos não estão mais sob a lei, mas sob a graça. Ele
não estão mais sujeitos à maldição proferida pela lei contra o pecado; Cristo
os libertou ao levar o pecado na cruz em lugar deles. Eles não estão de forma
alguma sob a dispensação em que aceitação por Deus depende da própria
obediência à lei. Ao contrário, a aceitação depende apenas da obediência de
Cristo a favor deles. Mas isso significa a Lei de Deus não é mais a expressão
da vontade divina que os cristãos são solenemente obrigados a obedecer? Isso
quer dizer que eles estão agora livres para agir como lhes parece bem e não se
sujeitam mais às ordens de Deus?
Vejamos a resposta dada pela Bíblia, e mais precisamente pelo Novo
Testamento.
Não penseis que vim revogar a lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para
cumprir. (Mt 5.17)
Jesus continua a opor sua justiça à dos escribas e fariseus. Ela é mais simples
que a sua? Não, ele nos diz que é mais difícil:
Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e
fariseus, jamais entrareis no reino dos céus. (Mt 5.20)
Sua justiça participa menos da natureza da lei que as regras estabelecidas por
escribas e fariseus? Ela é algo que o homem pode encarar com leviandade?
Ele pode escolher obedecê-la ou não, como lhe parecer bom?
Bem, se você lê assim as palavras de Jesus nos Evangelhos, não as entendeu:
Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se
perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno.
(Mt 5.29)
Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no
Dia do Juízo; (Mt 12.36)
As palavras são de alguém que substitui o reino da Lei de Deus por outro
reino qualquer, ou de alguém que considera possível brincar com a lei divina?
Algumas pessoas persistem em dizer — e isso me parece aberrante — que as
palavras de Jesus pertencem à dispensação da lei findada com sua morte e
ressurreição; por exemplo, o ensino do sermão do Monte não se aplica à
dispensação da graça sob a qual vivemos hoje.
Que eles se voltem para o apóstolo Paulo, que nos declarou não estarmos
mais sob a lei, mas sob a graça. O que ele diz sobre o assunto? Ele afirma que
a lei divina não tem mais validade nesta dispensação da graça divina?
Nada disso. Em Romanos 2, como em todas as outras epístolas (por
implicação), ele insiste no valor universal da lei divina. Mesmo os gentios,
embora não conheçam a manifestação clara da Lei de Deus encontrada no
Antigo Testamento, contam com a lei escrita no coração, e quando
desobedecem, tornam-se indesculpáveis. Paulo insiste no fato de os cristãos,
em particular, não estrem livres da obediência às ordens de Deus. O apóstolo
considera esse pensamento como o mais perigoso para os costumes.
Ora, as obras da carne são conhecidas e são: prostituição, impureza, lascívia,
idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões,
facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a respeito das
quais eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o reino de
Deus os que tais coisas praticam. (Gl 5.19-21)
De fato, a vantagem do cristão, de acordo com Paulo, é imensa. Para ele,
como para os salvos antes da vinda de Cristo, a salvação é alcançada pelo
mérito do sacrifício de Jesus na cruz. Todos eram salvos, antes, como hoje,
pela graça de Deus que age pela fé. Os cristãos não jazem sob a maldição de
lei; nesse sentido extraordinário, não se encontram mais sob a lei, mas sob a
graça. Cristo levou por eles a condenação justa da lei. Além disso, eles
possuem uma nova força: o poder de Espírito Santo que a lei nunca poderia
oferecer.
Contudo, a nova força não os dispensa da obediência devida aos santos
mandamentos de Deus. Não, ao contrário, ela os torna capazes de obedecer
como eles jamais poderiam ter feito antes.
Considerem por um instante, meus amigos, a majestade da lei divina
apresentada na Bíblia. A lei acima de todas — válida para cristãos, não
cristãos, agora e para sempre. De que maneira grandiosa a lei é proclamada
com os trovões do Sinai! Mais impressionante ainda, mesmo a mais
assustadora, é sua manifestação no ensino de Jesus — suas palavras e
exemplo! Com que temor diríamos como Pedro: “Senhor, retira-te de mim, porque
sou pecador”. (Lc 5.8). Em nenhum lugar na Bíblia, em nenhum lugar no
ensino de Jesus, o Salvador, escapamos da majestade temível da lei divina —
escrita nas próprias estruturas do universo, atinge os recantos mais
escondidos da alma, julga toda palavra vã, toda ação e todo pensamento
secreto do coração, — lei inevitável, compreensível, santa, terrível. Deus, o
legislador; o homem, súdito; Deus, o governante; o homem, governado!
Servir a Deus é um serviço que consiste na liberdade perfeita, o dever que é a
maior alegria; mas não deixa de ser um serviço. Não nos esquecemos disso
nunca. Deus sempre foi e é o Rei soberano para sempre: o universo inteiro jaz
sob sua lei santa.
Eis a dimensão em que toda a Bíblia se encontra: o valor sobre o qual está
fundamentada. A lei divina abarca tudo! E de que tipo de lei falamos? Das
promulgações arbitrárias de um tirano cruel, o jogo absurdo de um ser cujo
poder ultrapassa a sabedoria e a bondade? Não, a lei está fundada na
perfeição infinita do ser de Deus. “Sejam portanto perfeitos, diz Jesus, como vosso
Pai celeste é perfeito” (Mt 5.48). Eis a norma. A lei divina não é arbitrária e
vazia de sentido. É a lei santa, como o próprio Deus é santo.
Se ela consiste na Lei de Deus, que coisa assustadora é o pecado! Que língua
pode proclamar o horror? Não, não é apenas a ofensa contra uma regra
temporária e injusta, proveniente de uma autoridade temporal e aplicada por
punições temporais, mas a ofensa contra o Deus infinito e eterno! Quando
contemplamos a culpa de verdade, que terror inexprimível nos invade!
Entretanto, nós a contemplamos de verdade? Precisamos nos fazer essa
pergunta. Sei que alguns consideram o que acabo de afirmar como algo
merecedor de pouca atenção — como duendes e espantalhos que as amas
utilizavam antigamente para assustar as crianças malcomportadas. Uma das
características típicas da época em que vivemos é o estado de incredulidade
em relação a tudo que se pode designar lei divina e, mais especialmente, a
recusa de crer em tudo que poderíamos designar pecado. O fato evidente é
que os homens de nosso tempo vivem no mundo de sentimentos e
pensamentos totalmente diferentes do mundo do cristão. Não são apenas
detalhes diferentes: a própria base da vida diverge. É o ambiente em que
vivem, se movem e fundamentam a existência. No cerne de tudo o que diz a
Bíblia, encontramos duas grandes verdades totalmente inseparáveis: a
majestade da lei divina e o pecado como transgressão dessa lei. Essas duas
verdades fundamentais são negadas pela sociedade moderna e a negação
define o âmago da natureza de nossa época.
Em que época vivemos? Qual pode ser, portanto, a época em que a lei divina
se tornou antiquada e não há mais consciência do pecado? Direi: é a época
em que se vê a desintegração maciça da sociedade. Olhe em torno de si, o que
você vê? Em todos os lugares se vê a rejeição de todas as obrigações, o
abandono das normas, o retorno à selvageria.
Mas você responde: Ao menos não alcançamos a liberdade? Agora que a
moral foi abandonada — todas essas convenções antiquadas — a liberdade
não encontrará mais empecilhos. É mesmo assim, meus amigos? Um homem
deve estar completamente cego para afirmar isso. Ao contrário, a liberdade é
aniquilada na Rússia comunista, na Alemanha nazista, na Itália fascista e em
muitos outros povos sobre esta terra. [...]
O que faremos com tudo isso? Muitos não cristãos também concordam que é
necessário fazer alguma coisa. Mesmo os materialistas e o outros ateus
constatam isso. É evidente que alguma coisa deve ser feita nem que seja
apenas para conservar este animal, o homem, com saúde relativamente boa
sobre a terra, e impedi-lo de se destruir totalmente, em uma nova guerra
mundial, por exemplo.[187] Assim, ouvimos todos os tipos de prescrições para
frear os estragos do crime. Alguns sugerem que tiremos as impressões
digitais de todos os cidadãos que, assim tratados como criminosos em
liberdade condicional, seriam obrigados a mostrar a carteira de identidade em
todos os lugares aonde fossem, de acordo com a vontade dos agentes de
polícia. Não poderíamos mais cuidar com tranquilidade de nossas coisas sem
sermos importunados, como ocorre hoje, pois seríamos suspeitos de ter
cometido um crime. Outra proposta é que todos os professores, mesmo nas
escolas particulares e cristãs, sejam considerados empregados do Estado e ser
obrigados a jurar fidelidade como na Alemanha hitlerista. Mil remédios nos
são propostos, muitas vezes com detalhes bastante diverso, mas todos ligados
pelo mesmo efeito — a destruição das liberdades civis e religiosas adquiridas
para nós, a grande preço, por nossos antepassados.
Nunca as ameaças cumprirão seu propósito. Não podemos plantar o
patriotismo no coração das pessoas pela violência. Tentar fazê-lo acabará
destruindo o patriotismo que poderia já haver ali. O avanço do comunismo ou
de outras formas de escravidão, jamais poderia ser freado pela supressão da
liberdade de expressão. Essa supressão resultaria apenas em tornar mais
perigoso ainda o avanço das ideias destrutivas.
Qual é, portanto, o remédio para a ameaça de colapso da sociedade e da
decomposição progressiva da liberdade?
Há somente uma solução. A redescoberta da Lei de Deus.
Se quisermos restabelecer o respeito às leis humanas, temos que nos livrar da
ideia de que os tribunais existem só com o objetivo utilitário de proteger a
sociedade. Será necessário restaurar o conceito de que seu objetivo é a
justiça. Sem dúvida eles são apenas uma expressão bem imperfeita dela.
Existem imensas áreas da vida em que eles não devem ter nenhum poder.
Ultrapassam a função estabelecida por Deus quando buscam impor a pureza
interior, ou a pureza da vida individual. Seu papel é apenas, e de modo
imperfeito — impor a porção de justiça concernente às relações entre os
homens. Entretanto, eles são instrumentos de justiça, e quando não se
reconhece mais esse aspecto, ocorre uma catástrofe no Estado. Promulgar
punições ferozes para faltas insignificantes porque o interesse utilitário da
sociedade as reivindica jamais preservará a sociedade. A sociedade jamais
será preservada da prática desonesta — seguida por alguns juízes — de fazer
de algumas pessoas exemplos, de forma esporádica e injusta, imaginado que os
exemplos poderiam desencorajar futuros criminosos. Não, o que queremos
dizer é: não percamos nunca de vista a justiça — justiça santa, abstrata,
transcendente — sem nos importarmos com as consequências imediatas que
podem acarretar. É a única maneira de restabelecer na nação o respeito aos
juízes e pôr fim aos danos da decadência.
Mas tudo isso não toca na questão importante. O que subjaz a toda as
considerações sobre a sociedade e as nações é a grande questão da relação da
alma com Deus. A menos que os homens sejam justos na relação com Deus,
jamais serão justos uns com os outros.
Como serão justos com Deus? Vocês dizem: existe o evangelho! Existe o
ensino doce e reconfortante de Jesus Cristo. Sim, mas os homens vêm a Jesus
Cristo? Eles vêm a ele para a salvação da alma? Não, eles o tratam com
condescendência como um mestre religioso, depois o ignoram. Como serão
levados a ele? A Bíblia oferece a resposta: “De maneira que a lei nos serviu
de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé”
(Gl 3.24).
Isso era verdadeiro para os hebreus do Antigo Testamento e para os que
viviam na época da nova aliança, mencionada por Paulo na passagem.
Contudo, isso é também verdade sobre quem se aproxima de verdade e
realmente de Jesus Cristo, seu Salvador, que os livra das consequências do
pecado. Só a consciência do pecado conduz os homens ao desvio dele, à
procura do Salvador. Ela é despertada quando os homens são confrontados
com a Lei de Deus.
Todavia, os homens hoje não têm mais consciência do pecado. Que faremos?
Lembro-me de ter ouvido a apresentação desse problema de modo
emocionante por um pastor muito triste e preocupado. Ele me disse:
“Vivemos no século XX, devemos tomar as coisas como são. Agrade-nos ou
não, se falarmos aos jovens hoje sobre o pecado e a culpa, eles não têm a
menor do que falamos. Com profundo desinteresse, ele fogem de nós e do
Cristo que pregamos”.
E prosseguiu: “Não se trata de algo triste de fato? Não entristece vê-los
preterir a bênção que Cristo tem para eles se desejassem vir a ele? Então, se
não querem vir a Cristo, não deveríamos convidá-los a vir a ele de sua
maneira? Se eles não querem vir a Cristo pela consciência do pecado,
produzida pelo terror da lei divina, não deveríamos atraí-los pela ética amável
de Cristo e a utilidade de seu ensino para resolver os problemas da
sociedade?”.
Receio que a sejamos obrigados a responder apenas: Não. Temo que sejamos
obrigados a responder que ser cristão é algo muito mais trágico do que essas
pessoas imaginam. Receio que devêssemos lhes dizer da impossibilidade de
pular o muro para encontrar o caminho cristão. Temo que devamos apenas
lhes indicar a porta estreita e dizer que devem procurar o Salvador enquanto
podem fazê-lo, a fim de que eles os salve no dia terrível da ira futura.
Mas isso tudo não é desesperador? Não é tentar o impossível buscar que as
pessoas do século XX comecem a levar sério a lei divina para se sentirem
aterrorizadas por seus pecados?
Respondo que se trata de uma tentativa desesperada, completamente
desesperada. Tão impossível quanto um camelo tentar passar pelo buraco de
uma agulha.
Mas, vejam só, existe alguém que pode fazer coisas impossíveis: o Espírito
do Deus vivo.
Não temam, cristãos! O Espírito de Deus não perdeu seu poder. No tempo
escolhido por ele, enviará seus mensageiros mesmo a esta geração má e
adúltera. Ele suscitará novos sinais de onde sairá um raio aterrador. Ele
convencerá os homens do pecado, quebrará o orgulho deles, fundirá seu
coração de pedra. Ele os conduzirá ao Salvador de sua alma.
Anexo B
Philip Mauro: A lei e o evangelho[188]

A lei, uma bênção incomparável para Israel


No que concerne ao caráter das relações de Deus com quem jazia sob a lei, e o
caráter da própria lei, é muito difícil explicar — e talvez mais difícil ainda
falar sobre isso com calma — as expressões, empregadas pelos líderes dos
dispensacionalistas, que maculam e mostram violenta aversão à Lei de Deus.
Profetizou-se sobre nosso Senhor que ele tornaria sua lei grande e magnífica
(Is 42.21). Em nossos dias, entretanto, parece que o objetivo de muito de seus
servos é abrandá-la e torná-la odiável.
Tomemos alguns exemplos entre os escritos dos dispensacionalistas
proeminentes: “A lei possui um ministério de condenação, de morte e de maldição
divina”. Assim se lê na Bíblia Scofield (nota sobre Gl 3.24). Mas a Bíblia de
Deus fala dessa maneira? Analisemos com calma. Outro dispensacionalista
eminente declara: “A lei era um instrumento de condenação e nada mais”. De fato,
parece que esses dirigentes sentem prazer — não na lei do Senhor (Sl 1.2) como
o salmista — mas em se levantar contra ela com a expressão da mais forte
condenação.
Para defender essa forma de considerar a lei são citadas normalmente
algumas passagens de Gálatas e Romanos 7, às quais se dá uma interpretação
errônea que concede aparência de verdade a esse ponto de vista. Contudo,
antes de examinarmos as passagens, procuremos o testemunho claro e sem
ambiguidade da Escritura sobre o caráter da lei divina.
Já citamos o testemunho de Moisés, segundo o qual a lei dada no Sinai era o
dom de amor de Deus a seu povo: “Na verdade, amas os povos; todos os teus
santos estão na tua mão; eles se colocam a teus pés e aprendem das tuas
palavras. Moisés nos prescreveu a lei por herança da congregação de Jacó”
(Dt 33.3,4).
Trata-se aqui da “bênção que Moisés, homem de Deus, deu aos filhos de
Israel, antes da sua morte” (Dt 33.1); que “se colocam a teus pés e aprendem
das tuas palavras” (Dt 33.3). E ele continua com a afirmação: “Moisés nos
prescreveu a lei”, e esta lei era “por herança da congregação de Jacó”
(Dt 33.4).
Em várias passagens precedentes nos livros de Moisés, revela-se que a lei foi
outorgada como meio de vida. Assim, em Deuteronômio, Moisés exorta Israel
a escutar as leis e os preceitos que lhes ensina: “para que vivais” (Dt 4.1). Em
Levítico, lê-se algo parecido: “Portanto, os meus estatutos e os meus juízos
guardareis; cumprindo-os, o homem viverá por eles” (Lv 18.5).
E no que concerne à Lei de Deus, Moisés nos diz:
Guardai-os, pois, e cumpri-os, porque isto será a vossa sabedoria e o vosso
entendimento perante os olhos dos povos que, ouvindo todos estes estatutos, dirão:
Certamente, este grande povo é gente sábia e inteligente. Pois que grande nação há
que tenha deuses tão chegados a si como o SENHOR, nosso Deus, todas as vezes que
o invocamos? E que grande nação há que tenha estatutos e juízos tão justos como
toda esta lei que eu hoje vos proponho? (Dt 4.6-8)
Assim, a Lei de Deus foi concedida ao povo de Israel para sua vida; foi
estabelecida para ser sua sabedoria, inteligência e grandeza à vista dos outros
povos. Um pouco mais à frente, Moisés declarou:
O SENHOR nos ordenou que cumpríssemos todos estes estatutos e temêssemos o
SENHOR, nosso Deus, para o nosso perpétuo bem, para nos guardar em vida, como
tem feito até hoje. Será por nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos
estes mandamentos perante o SENHOR, nosso Deus, como nos tem ordenado.
(Dt 6.24,25)
mas porque o SENHOR vos amava e, para guardar o juramento que fizera a vossos
pais, o SENHOR vos tirou com mão poderosa e vos resgatou da casa da servidão, do
poder de Faraó, rei do Egito. Saberás, pois, que o SENHOR, teu Deus, é Deus, o Deus
fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e
cumprem os seus mandamentos; (Dt 7.8,9)
Assim, eles deviam amar porque ele os tinha amado primeiro e eles deveriam
mostrar seu amor guardando seus mandamentos. Em que isso difere hoje? Não
está escrito: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19). E
nosso Senhor não nos diz, como dissera antes: “Se me amais, guardareis os
meus mandamentos” (Jo 14.15)?
Antes de deixar Moisés, gostaríamos de chamar a atenção para
Deuteronômio 30.11-20, onde ele declara ao povo: o mandamento que era sua
vida não estava escondido (pois Deus o revelara a eles) e não estava longe
deles. Não se encontrava no céu nem no mar; ele o trouxera para perto deles a
fim de que pudessem escutá-lo e colocá-lo em prática. “Ora, os seus
mandamentos não são penosos para nós hoje” (1Jo 5.4); também não eram para
eles naquele tempo. Na ocasião, Moisés deu como o grande mandamento da
lei: “Ames o SENHOR, teu Deus, andes nos seus caminhos, e guardes os seus
mandamentos, e os seus estatutos, e os seus juízos” (Dt 30.16), (cf. Mt 22.37-
40). Ele repete, no versículo 20, a exortação de amar “o SENHOR, teu Deus,
dando ouvidos à sua voz e apegando-te a ele pois disto depende a tua vida e a
tua longevidade”. Segundo Paulo, a mesma palavra que Moisés declarara
estar próxima deles e não distante (no céu ou além do mar) era “a mesma
palavra da fé que pregamos”. E para mostrar isso, cita como prova dois textos do
Antigo Testamento:
E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque, no
monte Sião e em Jerusalém, estarão os que forem salvos, como o SENHOR prometeu;
e, entre os sobreviventes, aqueles que o SENHOR chamar. (Jl 2.32)
Da mesma forma, Pedro testemunha que as coisas descritas pelos profetas
(Is 28.16) no período da lei são os mesmas proclamadas pelos pregadores do
evangelho (1Pe 1.12).
É evidente que não afirmamos não ser melhor estar sob a graça que sob a lei;
na verdade, Deus “prov[eu] coisa superior a nosso respeito” (Hb 11.40).
Entretanto, buscamos o testemunho de Deus na Bíblia sobre o caráter de sua
lei, a lei que a Bíblia Scofield calunia tão cruelmente. Procuramos o testemunho
da Escritura sobre o significado, para os israelitas, de jazer sob a Lei de Deus,
em vez de serem abandonados a seus próprios caminhos, como ocorria com
os pagãos ao redor deles. Vimos que Moisés, o mediador da antiga aliança,
repetiu com insistência que, com a recepção da lei divina, eles eram
indescritivelmente abençoados, sobretudo por ela oferecer um caminho de vida a
todos os que firmavam obediência a ela no coração.
Se examinamos a questão de mais perto, veremos que o livro de Salmos se
abre para uma forte afirmação da natureza bendita do homem cujo “prazer
está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite” (Sl 1.2). Várias
passagens afirmam que a lei divina é algo em que o coração do homem pode
(e, como consequência, deve) ter prazer. Ele deve continuamente se dedicar à
meditação da lei para se beneficiar dela (Jó 23.12; Sl 119.70,77,92,174).
Agora, no que concerne aos efeitos da lei, está longe de ser verdade que ela
tenha sido “apenas um instrumento de condenação e nada mais, ou somente um
ministério de condenação, de morte e de maldição divina”.
O testemunho do Espírito Santo: “Os preceitos do SENHOR são retos e alegram
o coração”; “O mandamento do SENHOR é puro e ilumina os olhos” (Sl 19.8).
A mesma pessoa declara em relação ao valor dos mandamentos e dos juízos
do Senhor: “São mais desejáveis do que ouro depurado” (Sl 19.10) — que
tem por natureza maior valor que os tesouros mais ricos da terra — e que
longe de ser desagradáveis e detestáveis, são “mais doces do que o mel e o
destilar dos favos” (Sl 19.10).
O autor do salmo 119 acrescenta seu testemunho: maravilhas podem ser
encontradas na lei (v. 18); ela lhe é mais preciosa que “milhares de ouro ou
de prata”; ele a ama mais do que pode expressar (v. 97); por meio do
mandamento ele “obtém instrução e aprende assim a ver qualquer caminho
enganoso” (v. 104); e “Grande paz têm os que amam a tua lei; para eles não
há tropeço”.
Salomão também declara: “O mandamento é lâmpada, e a instrução, luz”
(Pv 6.23); “O homem sábio apazigua” (Pv 16.14). Não podemos duvidar que
a luz e a vida não estejam acessíveis a todos os que as buscam; muitos
procuraram e encontraram. Salomão escreveu as palavras: “Guarda os meus
mandamentos e vive; e a minha lei, como a menina dos teus olhos” (Pv 7.2).
Isaías, ao predizer algumas coisas gloriosas que Cristo — chamado por Deus
nesta passagem de meu Servo — cumprirá, diz que Deus a estabeleceu “como
luz para os gentios” (Is 49.6); e que ele a faria “gloriosa” (Is 42.21). Não se
trata de uma repreensão de Deus a quem trai e torna desprezível a lei divina?
Da mesma forma, no Cativeiro Babilônico, Deus, lembrando as grandes
coisas feitas por Israel e os vários atos de misericórdia demonstrados, afirma
que o dom da lei foi um dos maiores: “Dei-lhes os meus estatutos e lhes fiz
conhecer os meus juízos, os quais, cumprindo-os o homem, viverá por eles”
(Ez 20.11).
Também ao falar por meio do profeta Oseias, Deus se lembra de todas as
ofensas de Israel e diz: “Embora eu lhe escreva a minha lei em dez mil
preceitos, estes seriam tidos como coisa estranha” (Os 8.12). Por meio de
Malaquias, o último profeta de Israel, e quase que nas últimas palavras de sua
mensagem, Deus exorta dizendo: “Lembrai-vos da lei de Moisés, meu servo,
a qual lhe prescrevi em Horebe para todo o Israel, a saber, estatutos e juízos”
(Ml 4.4).
É possível ainda, diante dessas declarações, afirmar que a lei foi imposta a
Israel como consequência de sua escolha imprudente, que no Sinai “eles
trocaram a graça pelo lei; que aceitaram a lei inadvertidamente”? (Notas da Bíblia
Scofield, 1 ed., Êx 19.3 e Gn 12.7). Que “a lei seja um ministério de condenação, de
morte e de maldição divina, um instrumento de severidade implacável”? Não sendo assim,
toleraremos ainda essas falsas afirmações a respeito da lei divina?
Continuaremos a aceitar a pregação e o ensino que maculam a santa e
vivificante Lei de Deus sem protestar com mais vigor?
Na verdade, eis uma questão bastante grave. Por isso, espero que meus
leitores se associem ao protesto mais solene contra as novas edições e a
venda de um livro que muitos filhos de Deus imprudentes aceitam como
Bíblia e que contém uma desnaturação tão dolorosa — um verdadeiro
aviltamento — do caráter da santa Lei de Deus.
O que diz o Novo Testamento em relação à lei
Pergunta-se então se os servos de Deus sob a nova aliança, os apóstolos de
nosso Senhor, instruídos pela graça, não dão à lei um caráter diferente do
acordado pelos escritores do Antigo Testamento. Citamos as palavras de
Cristo que afirmam não ter vindo ele destruir a lei e os profetas, mas cumpri-
la (Mt 5.17); também a palavra de Paulo, no mesmo sentido, afirma que o
objetivo do evangelho é confirmar a lei (Rm 3.31). Além disso, o Senhor
declarou o mais importante na lei, que os fariseus não cumpriam, era o julgamento,
a misericórdia e a fé. (Mt 23.23).
O apóstolo Paulo, cujas palavras são citadas como fonte de ensino que
examinamos, se expressa também com clareza e força no mesmo sentido.
Afirma que a justiça de Deus que é agora manifestada fora da lei (isto é, pelo
evangelho), é aquela sobre a qual a lei e os profetas testemunham (Rm 3.31). Além
disso, declara que o mandamento devia dar vida; que a lei é, portanto, santa, e o
mandamento é santo, justo e bom; e que a lei é espiritual (Rm 7.10,12,14). O
testemunho é ainda mais impressionante pelo fato de se encontrar na mesma
passagem que muitos pensam ensinar coisas desfavoráveis à lei.
O apóstolo Paulo não diz que a lei leva à morte e maldição? Que quem jaz
sob a lei é maldito? Que ninguém pode ser justificado pela lei? A resposta é
que, na verdade, a lei é uma espada de dois gumes: concede vida a quem a
recebe com submissão e decide obedecê-la; e também conduz à morte,
condenação e maldição quem a despreza, ou lhe professa apenas um respeito
teórico, enquanto o coração permanece o mesmo com os caminhos
inalterados. Isso é verdadeiro também sobre o evangelho. Seu ministério,
como o da lei, é de vida para a vida em relação a quem a recebe com humildade
e se submete a ela, obedecendo ao evangelho. Ela é também cheiro de morte que
leva à morte quem a recusa, ou ainda quem a negligencia ou a confunde com
simples livros e continua com o coração inalterado (2Co 2.16). A palavra de
Cristo é salvação e vida para quem a recebe. Ele mesmo declarou a quem não
recebe suas palavras: “Quem me rejeita e não recebe as minhas palavras tem
quem o julgue; a própria palavra que tenho proferido, essa o julgará no
último dia” (Jo 12.48).
O mesmo ocorre com o mandamento divino, pois Jesus declara na mesma
passagem: “E sei que o seu mandamento é a vida eterna” (Jo 12.50). De fato,
as consequências das ameaças a quem não obedece ao evangelho são indicadas
como mais severas que as ameaças contra quem se recusa a obedecer à lei
(2Ts 1.7-10). E na epístola aos Hebreus, a questão se expressa da seguinte
forma:
Sem misericórdia morre pelo depoimento de duas ou três testemunhas quem tiver
rejeitado a lei de Moisés. De quanto mais severo castigo julgais vós será
considerado digno aquele que calcou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue
da aliança com o qual foi santificado, e ultrajou o Espírito da graça? (Hb 10.28,29)
Voltemos a Paulo. Observemos que logo após ter dito que o mandamento devia
dar a vida, ele acrescenta que o mandamento o conduziu à morte (Rm 7.10).
Qual a razão disso? Paulo era fariseu. Ele havia sido profundamente doutrinado
no rabinismo, cuja principal doutrina era o mesmo ensino concernente ao
caráter terreno e judeu do reino que se tornou a pedra angular do
dispensacionalismo moderno. Ele fora instruído na ortodoxia estéril. Ele levava o
nome judeu e se vangloriava da lei (Rm 2.17,18,23), mas precisava aprender que
não é judeu aquele que o é por fora — ainda que chamado de judeu — mas aquele que o é
em seu foro íntimo (Rm 2.28,29). Naturalmente, para esses judeus, a lei se
revelará para a morte, e o mesmo se dará com o evangelho. Mas quem se
parece com Esdras, de quem se diz que aplicara seu coração a estudar a lei do
Senhor e colocá-la em prática (Ed 7.10), acha que ela era verdadeiramente
ordenada para a vida. Paulo expressa com clareza o princípio tratado aqui:
“Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela se utiliza de modo
legítimo” (1Tm 1.8). A mesma coisa é também verdadeira sobre o evangelho.
Depois, no que concerne à afirmação que escutamos muitas vezes em nossa
época: quem jazia sob a lei estava sob maldição, Paulo diz de fato: “Todos
quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição” (Gl 3.10).
Isso é algo completamente diferente. Paulo voltar a tratar aqui de quem, para
ser salvo, se firma em ritos e cerimônias (as obras) da lei, sobre a circuncisão, o
respeito dos dias e outras coisas semelhantes: “... o homem não é justificado
pelas obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido
em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por
obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado” (Gl 2.16).
Assim, sob a lei, as coisas não eram tão diferentes do que são agora sob a
graça. E não deveria ser mais necessário dizer que o homem não pode ser
salvo por ritos e cerimônias cristãs (batismo, santa ceia, respeito aos dias
santos etc.) como não poderia ser pelo judaísmo. O apóstolo reafirma isso em
outra passagem: “... e Israel, que buscava a lei de justiça, não chegou a atingir
essa lei. Por quê? Porque não decorreu da fé, e sim como que das obras”
(Rm 9.31,32).
Como vimos, segundo as palavras do próprio Jesus, a fé é uma das coisas mais
importantes contidas na lei. Obras em grande quantidade nunca poderão
substituir a fé.
Ao continuar a exposição aos Gálatas, Paulo lhes pergunta se receberam o
Espírito “pelas obras da lei [...] ou pela pregação da fé?” (Gl 3.2); e se aquele
que dispensa o Espírito e opera milagres entres eles “o faz pelas obras da lei
ou pela pregação da fé?” (Gl 3.5). Então ele declara que Deus age agora
exatamente segundo os mesmos princípios da antiga aliança. Isso é o
contrário ensino dispensacionalista, que pensa ter ocorrido a mudança
completa dos princípios na ação divina em relação aos homens. Paulo afirma:
“É o caso de Abraão, que creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça.
Sabei, pois, que os da fé é que são filhos de Abraão” (Gl 3.6,7). O versículo
indica com clareza os herdeiros das promessas feitas a Abraão e sua
descendência (Gl 3.16) e exclui por completo quem se fundamenta só na
descendência física de Abraão. O último versículo do capítulo confirma isso,
pois lemos: “E, se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão e
herdeiros segundo a promessa” (Gl 3.29).
Além disso, em Gálatas 3, Paulo levanta a questão de saber se a lei é contrária
às promessas de Deus (v. 21). Segundo os dispensacionalistas, a resposta deveria
ser sim. Pois, como vimos, para eles, a suposta dispensação da promessa, que
engloba a vida de Abraão, de Isaque, de Jacó e de seus descendentes por
várias gerações, terminou no monte Sinai. Ali, Israel teria aceitado a lei por
imprudência. E no momento uma nova dispensação (a da lei, com seu ministério
de condenação, de morte e de maldição, de caráter e de princípios totalmente
diferentes) teria sido inaugurada. Assim, o ensino muito claro da Bíblia
Scofield afirma que a lei é contrária às promessas divinas. Paulo, no entanto,
rejeita com indignação a ideia ao exclamar: “De modo nenhum!” (Gl 3.21). E
demonstra que a lei objetivava preparar o povo para a vinda de quem
cumpriria toda a justiça e seria fonte de vida eterna para o mundo inteiro, pois
acrescenta: “De maneira que a lei nos serviu de aio para nos conduzir a
Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé” (Gl 3.24).
E ainda: “Mas, tendo vindo a fé, já não permanecemos subordinados ao aio”
(Gl 3.25).
Como consequência, longe de mencionar com desprezo o pedagogo dado por
Deus, ou declarar inútil seu ministério, mostra que ele era ao mesmo tempo
muito necessário e imperfeito. A lei não anulava de forma alguma as
promessas acordadas antes. Ela não introduzia a nova etapa caracterizada por
princípios contrários; ela foi somada ao que Deus realizara antes, “por causa das
transgressões, até que viesse o descendente a quem se fez a promessa”
(Gl 3.19). O outro objetivo da lei na obra de preparar a recepção do
evangelho era agir “para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável
perante Deus” (Rm 3.19).
Se continuarmos a seguir o ensino de Gálatas, descobriremos que a lei
outorgada no monte Sinai sobre tábuas de pedra correspondia à etapa prévia e
incompleta da relações de Deus com o mundo (Gl 4.1-4); o dom ulterior da lei
pelo Espírito Santo no coração do povo lavado pelo sangue de Jesus, marca a
etapa da maturidade, da idade adulta (se assim podemos dizer) da relação de
Deus com os homens (Gl 4.5-7). A partir disso aprendemos que o evangelho,
longe de se opor à lei, estabelece com ela uma relação como o estado adulto
da vida de um homem estabelece com sua infância.
A lição precisa que podemos tirar de tudo isso é que as obras da lei — sobre as
quais Paulo advertiu os gálatas — a observância de dias, meses, tempos e anos
(Gl 4.10) e a circuncisão (Gl 5.2,6) pertenciam à etapa da infância da relação
de Deus com seu povo. Ainda que houvesse servido a um objetivo útil por
algum tempo, elas devem ser colocadas de lado como algo ultrapassado agora
que chegou a “plenitude do tempo” (Gl 4.4). Como Paulo afirmou: “Quando
eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como
menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino”
(1Co 13.11).
Não que, notemos bem, estas coisas tenha sido odiáveis ou repreensíveis,
estavam apenas ultrapassadas, e teriam sido um impedimento ao
cumprimento dos deveres da etapa adulta.
Por isso, vemos que os mesmos textos empregados em nossos dias para
incitar sentimentos de aversão à lei divina, e que tentam fazê-la parecer algo
totalmente contrário ao evangelho, ensinam de fato o oposto: na obra de
Deus, a lei era a etapa prévia ao evangelho; ou, em outros termos: a lei e o
evangelho são etapas complementares do mesmo trabalho grandioso de Deus.
A verdade, ensinada ao longo de todos os séculos do cristianismo, é: a lei era
necessária, como o evangelho, no imenso plano de redenção provido por
Deus.
Anexo C
Robert L. Dabney: The Law [A lei][189]

A palavra “lei” (torah — hebraico e nomos — grego) é utilizada na Escritura


com alguma variedade de sentido. Ela contém, porém, sempre a noção geral
de um princípio regulador.
▪ Em primeiro lugar, a palavra exprime por vezes o conjunto da revelação,
como ocorre em Salmos 1.2: “Bem-aventurado o homem [...] cujo prazer está
na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite”.
▪ Segundo lugar, a palavra lei se aplica ao Antigo Testamento, como em
João 10.34. “Replicou-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: sois
deuses?” (Sl 82.6).
▪ Terceiro lugar, e este é o caso frequente: a palavra lei se refere ao
Pentateuco, como vemos em Lucas 24.44: “A seguir, Jesus lhes disse: São
estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se
cumprisse tudo o que de mim está escrito na lei de Moisés, nos Profetas e nos
Salmos”.
▪ Quarto lugar, a palavra pode significar a lei moral que ordena, como em
Provérbios 28.4: “Os que desamparam a lei louvam o perverso, mas os que
guardam a lei se indignam contra ele”. Encontramos a mesma coisa em
Romanos 2.14: “Quando, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por
natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si
mesmos”.
▪ Quinto, a palavra pode significar apenas as ordenanças cerimoniais. Esse
uso se encontra em Hebreus 10.1: “Ora, visto que a lei tem sombra dos bens
vindouros, não a imagem real das coisas, nunca jamais pode tornar perfeitos
os ofertantes, com os mesmos sacrifícios que, ano após ano, perpetuamente,
eles oferecem”.
▪ Sexto, pode se tratar do decálogo, como em Mateus 22.35-40: “E um deles,
intérprete da lei, experimentando-o, lhe perguntou: Mestre, qual é o grande
mandamento na lei?”.
▪ Sétimo, a palavra lei pode se referir à força que domina nossa natureza,
como vemos em Romanos 7.23: “mas vejo, nos meus membros, outra lei que,
guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado
que está nos meus membros”.
▪ Oitavo, a lei pode significar a aliança das obras, como em Romanos 6.14:
“Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei,
e sim da graça”.
Nas discussões que se seguirão, utilizaremos a palavra lei apenas no sentido
da lei moral que ordena, como se encontra resumida no decálogo.
Como consequência do que ensinamos antes sobre o caráter eterno das
distinções morais, o leitor será preparado a compreender a resposta sobre a
questão de saber se a Lei de Deus está inscrita na consciência natural do
homem de maneira intuitiva. Afirmamos que as distinções morais são
intrínsecas, inerentes a essa categoria de atos. Elas não são estabelecidas só
pela vontade positiva e arbitrária de Deus. Elas procedem naturalmente de
sua vontade porque, pela inteligência divina infinita, elas têm um caráter
intrínseco e eterno. Em uma palavra: nossos deveres não são obrigatórios e
justos apenas porque Deus os ordena, não! Ele os ordena porque são
intrínseca e eternamente justos! Assim, podemos esperar que, com confiança,
descobriremos que os poderes naturais da razão e da consciência do homem
possuem a marca indelével da distinção moral entre o bem e o mal que
afirmam por intuição.
A) A conclusão decorre do fato de as Escrituras descreverem Deus, ao menos
em um aspecto de sua natureza, ligado por essa distinção inalterável entre o
bem e o mal. Pois elas nos dizem que Deus não pode mentir (Nm 23.19;
Hb 6.18). Isto é, as perfeições eternas do pensamento divino dirigem de tal
maneira seus atos voluntários que a vontade divina se recusa a praticar
qualquer erro, e isso da maneira mais precisa, sem, no entanto, se desfazer
sob nenhum aspecto de sua liberdade. A passagem de 2 Timóteo 2.13 é aqui
muito clara: “Se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma
pode negar-se a si mesmo”.
B) Nossa natureza de criatura implica sujeição ao Criador; a negação dessa
obrigação contradiz de maneira radical o próprio ser da criatura. Assim, a lei
da razão nos ensina que nosso estado de criatura implica necessariamente a
existência dessas relações morais. Que Deus as tenha expressado em ordens
pontuais precisas ou que elas estejam implícitas não muda em nada a questão.
C) Se as distinções morais se originassem só na vontade positiva (arbitrária)
de Deus, seria impossível estabelecer a mínima distinção essencial entre
princípios de caráter moral e outros princípios apenas positivos. Para
tomarmos um exemplo: se a distinção não existisse, a proibição “Não dirás
falso testemunho contra o teu próximo” (Êx 20.16) se encontraria
necessariamente no mesmo plano que “Não cozerás o cabrito no leite da sua
própria mãe” (Êx 23.19). Sabemos existir, porém, a distinção entre as duas
categorias de proibições. Ela é reconhecida por Deus pela própria razão: a
justiça, a misericórdia e a fidelidade, nos diz o Salvador, são questões de maior
peso que o pagamento (porém, necessário) do dízimo da hortelã, do endro e
do cominho.
D) Se, fora da única boa vontade arbitrária de Deus, não houvesse causa para
a existência das distinções morais que conhecemos, Deus teria facilmente
decretado ser a perfídia uma virtude e a veracidade uma ação criminosa etc.
Toda a nossa intuição moral se revolta contra essas afirmações. O que
poderia ter impedido Deus de fazer isso se a existência do bem moral não
dependesse apenas de sua vontade tida por arbitrária? A única resposta se
encontra no fato de o caráter imutável de sua própria perfeição moral tornar
para ele esses atos impossíveis. Deve-se reconhecer aqui o fundamento da
distinção moral existente antes ao ato da volição divina. Eis a substância do
que procuro provar.
E) Por fim, devemos afirmar o seguinte: Se apenas a decisão positiva de Deus
deveria tornar o ato da criatura moralmente justo, segue-se que Deus deve ser
moralmente justo para tomar essa decisão. Afinal, o caráter moral das
decisões da vontade depende de todo da moralidade dos princípios
subjacentes às mesmas decisões. Como consequência, vemos que se não
existissem distinções morais, cuja existência antecederia os atos da vontade
de Deus, os atos da própria vontade divina não poderiam possuir o menor
caráter moral.
Uma vez que o caráter intrínseco e eterno da distinção moral entre o bem e o
mal foi estabelecido, segue-se que sua intuição no homem e o sentimento do
caráter obrigatório dessa intuição moral devem constituir características
naturais de uma criatura racional feita à imagem de Deus. É necessário que a
obrigação seja reconhecida pela consciência humana ao mesmo tempo natural
e moral, não só positiva. O que afirmamos aqui é muito claramente
confirmado pela Escritura:
Porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus
lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder,
como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o
princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais
homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus, não
o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus
próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. (Rm 1.19-21)
Da mesma forma, em Romanos 2.14, 15, podemos ler:
Quando, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por natureza, de
conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes
mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a
consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se.
O texto de Atos 14.17 nos diz que Deus: “contudo, não se deixou ficar sem
testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações
frutíferas, enchendo o vosso coração de fartura e de alegria”.
Todas essas declarações da Escritura são amplamente confirmadas pelo
consensus populi no que concerne à existência da obrigação moral; no que
concerne à configuração essencial dessa obrigação, ela é também confirmada
pelos inumeráveis fatos testemunhados por nossa consciência e pelo
consentimento unânime pagão. Todavia, devemos fazer uma distinção muito
clara entre os princípios morais dos quais falamos e as conclusões tiradas dos
primeiros princípios. Em alguns casos de obrigação moral, a percepção dos
princípios e o veredito da consciência são imediatos. Mas em outros, devem
ser deduzidos. A criatura deve obedecer ao Criador? A essa questão a razão
sã pode responder apenas afirmativamente. Mas se perguntarmos: quem
empresta tem a obrigação de pagar um aluguel pelo dinheiro emprestado? A
este tipo de questão a inteligência pode apenas responder de maneira
dedutiva; ela dever poder dispor de algumas premissas a partir das quais a
resposta moral será deduzida com lógica.
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Spirituelle et de ses Caractères. (Reprint, Ulan Press, San Bernardino, 2018
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Weingort, Abraham. Droit talmudique et droit des nations. Deux volumes.
Éditions Lichma, 2010, 486 p.

Obras em outros idiomas


Abma, H. G. Tien Woorden Ethiek. J. H. Kok, Kampen, s. d., 168 p.
Douma, J. De Tien Geboden. Trois volumes, Van Den Berg, Kampen, 1990,
540 p.
Douma, J. Natuurrecht—Een Betrouwbare Gids? Vuurbaak, Groningen,
1978, 96 p.
Geesink, W. Van´s Heeren Ordinatiën. Four volumes. J. H. Kok, Kampen.
Geesink, W. Zedelijkheid en Recht, Bottenburg, Amsterdam, 1909, 114 p.
Schirrmacher, Thomas. Ethik Lektionen zum Selbststudium. Deux volumes,
Hänssler. Neuhausen bei Stuttgart, 1994, 1780 p.
Van Ruler, A. A. De vervulling van de Wet. Een dogmatische studie over de
verhouding van Openbaring en Existentie, Callenbach, Nijkerk, 1974, 540 p.
Sobre o autor
Jean-Marc Berthoud nasceu em 1939 na África do Sul, de pais
missionários, e vive em Lausanne, Suíça. Ele é casado com Rose-Marie
Berthoud, pai de cinco filhos e avô de seis netos. Possui bacharelado em
Artes e bacharelado em Artes com distinção em História e Literatura Inglesa
pela Universidade de Witwatersrand (Joanesburgo, África do Sul). Ele é autor
de muitos artigos e livros editados pela L’Age d’Homme, entre eles: Uma
religião sem Deus: os direitos humanos e a Palavra de Deus; Pierre Viret: o
gigante esquecido da Reforma; João Amós Comênio e as origens da
ideologia pedagógica; O combate central da Reforma; Calvino, Genebra e a
propagação da Reforma na França do século XVI.

[1]
Mais à frente, nos v. 125, 142, 144, 172, aparece a palavra tsedeq que significa a virtude
da justiça ou o hábito de ser justo e de agir justamente. É assim que falamos do homem
justo (tsadiq) em todos os seus caminhos.
[2]
Sermons de Jean Calvin sur les dix commandements. Genève: Conrad Badius, 1557,
p. 19-20.
[3]
Jean-Marc Berthoud, Uma religião sem Deus: os direitos humanos e a Palavra de Deus
(Brasília: Monergismo, 2018).
[4]
The Then Commandments, Washington: Review and Herald, 1944, p. 12-3.
[5]
Veja sobre o assunto nosso estudo sobre o sentido da empreitada científica moderna:
L’idole de notre temps, em Résister et Construire, n. 32-33, mars-juillet 1995, p. 3-13. Veja
também as publicações da Association Création, Bible et Science, Caixa postal 4m CH-
1001, Lausanne.
[6]
Consulte nosso estudo La Famille dans la Bible et aujourd'hui, Lausanne: Association
Vaudoise de Parents Chrétiens 1988, 36 p.
[7]
Para a descrição do que ocorre quando o Estado defende o mal comum, em lugar do bem
comum, consulte as seguintes obras: Jean-Philippe Chenaux, La drogue et l'État dealer
(Lausanne: Centre Patronal, 1995), 280 p.; Stanislav Govoroukhine, La grande révolution
criminelle: où va la Russie? (Lausanne: L’Age d’Homme, 1995), 208 p.; Edward Luttwak,
Le rêve américain en danger (Paris: Odile Jacob).
[8]
A propósito dessas questões, consultar as seguintes obras: Michel de Preux, Une Suisse
totalitaire (Lausanne: L’Age d’Homme, 1984). John W. Whitehead, The Second American
Revolution (Elgin: David C. Cook, 1982).
[9]
“Deixaria de lado esse problema se não visse perigosos erros serem cometidos nessa
matéria. Alguns, de fato, negam que um Estado possa ser bem governado se, abandonando
as disposições políticas de Moisés, for regido pelas leis comuns das demais nações. Deixo à
consideração de outros quão perigosa e sediciosa é esta opinião; basta-me prova que é
falsa”. (João Calvino, A instituição da religião cristã, IV. XX.14. São Paulo: UNESP,
2009, p. 888-9).
[10]
“Podemos reconhecer nisso a grande miséria que Deus nos infligiu. Ela provém do fato
de que nos nomeamos cristãos, consideramo-nos povo de Deus e, no entanto, chegamos a
este ponto: nossos líderes e senhores caíram no erro de crer que o direito divino não lhes
diz respeito, e que devem julgar e compor suas ordenanças de acordo com o direito
imperial e pagão e outras regras de homens, e não as de Deus, pois governam seus
subordinados segundo a lei humana e não a lei divina”. (Martin Bucer, Traité de l'amor du
prochain [1523], Revue d’histoire et de Philosophie religieuses [1947], p. 187). “Pois os
príncipes e os magistrados devem se sujeitar às leis e moderar seu governo de acordo com
elas, pois não são mestres da lei, apenas ministros delas, como são ministros de Deus, do
qual toda boa lei procede”. (Pierre Viret, Le monde à l’empire, Genève [1561], p. 91-2).
Consulte principalmente: Instruction chrétienne en la loi et l’évangile (Genève, 1564) e a
obra clássica de Martin Du royaume de Jésus-Christ, (1558; Paris: P.U.F., 1954).
[11]
F. Nymeye r, First Principles in Morality and Economics (South Holland: Libertarian,
1955-1961), 6 vol. R. Ingram, The World Under God’s Law (Houston: St Thomas, 1962).
F. N. Lee, Are the Mosaic Laws for Today? – Christocracy and the Divine Saviour’Law
and Society (1982). Walter Kaiser, Toward Old Testament Ethics (Grand Rapids:
Zondervan, 1983). Greg Bahnsen, No other Standard. Theonomy and its Critics (Tyler:
Institute for Christian Economics, 1991). R. J. Rushdoony, The Institutes of Biblical Law
(The Craig, 1973); Law and Society (Vallecito: Ross House Books, 1982) etc.
[12]
Jean Madigan (com Arnaud de Lassus) é um dos raros autores católicos atuais que
considera o decálogo o único fundamento possível à doutrina social da Igreja Católica,
juntando-se, assim, ao ensino católico tradicional até o pontificado de Pio XII. Jean
Madiran, L’Hérésie du XXème siècle (Paris: Nouvelles Editions Latines, 1968). Ele se
refere à tradição que remonta ao século XIX, a homens da envergadura do cardeal Pio e de
Frédéric Le Play. Veja principalmente M. B., Institutions du droit naturel et public et droit
des gens (Paris, 1876), 2 vols.
[13]
A aliança da graça (Editora Monergismo).
[14]
Com respeito à educação, veja: R. J. Rushdoony, The Messianic Character of American
Education (Vallecito: Ross House Books, 1995 [1963]). Psicologia: W. K. Kilpatrick,
Séduction psychologique (Lausanne: Centre Biblique Européen, 1985); R. J. Rushdoony,
Revolt against Maturity (Vallecito: Ross House Books). Ciências: Jean-Marc Berthoud,
L’idole de notre temps, Résister et Construire, n. 32-33 (Mars-Juillet 1995). Política: Jean-
Marc Berthoud, Social Contract Tradition and the Autonomy of Politics, Calvinism Today,
n. 1 (January 1991), vol. I.
[15]
Veja sobre a mudança da lei (Hb 7.12): “Pois, quando se muda o sacerdócio,
necessariamente há também mudança de lei” (tb Hb 7.19 e Ef 2.16). O muro que separava
caiu, toda a parte da lei que separava judeus e gentios está “abolida”. Um novo sacerdote
implica o “desaparecimento” dos antigos sacrifícios. Por isso, o dispensacionalismo, que
restabelece a distinção entre judeus e gentios, não é nada mais que uma forma de
legalismo.
[16]
Sobre este assunto, vejar nosso artigo: Jean-Marc Berthoud, Du Pouvoir,
Documentation Chrétienne, n. XVII (Septembre 1977), Case postale 468, 1001 Lausanne,
Suisse.
[17]
Gary North, Editor’s Introduction, The Journal of Christian Reconstruction,
Symposium on Biblical Law, n. 2 (1976), vol. II, p. 1. (P. O. Box 158, Vallecito, 95251,
USA).
[18]
Biblical Law and Western Civilisation, Ibid., p. 1.
[19]
O homem interior, i.e., Jesus Cristo que vive em nós (Cl 1.27; Ef 3.16; Ef 3.17;
Gl 4.19; 2Co 4.16; Ef 3.16; etc.)
[20]
Institutes of Biblical Law. Nutley: The Craig, 1973, p. 698.
[21]
Frédéric Commentaire sur l'épître aux Romains. Paris, 1883, Tomo I, p. 386.
[22]
Ibid., p. 384.
[23]
Études évangéliques, n. 4. 1975, p. 138.
[24]
O filósofo estóico Epíteto — século I — afirmava: “A lei quer tornar feliz a vida dos
homens; mas ela não pode, porque eles não podem suportá-la e porque ela faz sentir a sua
virtude sobre aqueles que a obedecem”. E em outro lugar, ele exclama: “O que podemos
fazer então? É possível existir sem pecado? Nunca poderíamos conseguir viver sem ele! Na
realidade, devemos ficar satisfeitos se, sem nunca esmorecer, conseguirmos nos libertar de
alguns poucos pecados”.
[25]
É o que constata Alexandre Vinet, em carta datada de 7 de março de 1847, apena dois
meses antes de sua morte. Tendo afirmado que o arrependimento é uma graça, pois tudo é
graça, ele continua: “O antinomismo, umas das fraquezas do avivamento e um dos defeitos
da pregação do avivamento, relegou, sem querer, e sem perceber, ao segundo plano e quase
lançou à sombra, o dogma do arrependimento, considerado condição para a salvação”
(Liberté religieuse et questions ecclésiastiques. Paris, 1854, p. 672-3). Temos aqui, sem
dúvida, uma das causas da tepidez, da falta de comunhão com Deus e de amor fraternal do
qual reclamava Adolphe Monod nos beneficiários do avivamento. São nossos pecados não
reconhecidos, inconfessados e não perdoados que entristecem e extinguem o Espírito Santo
em nós.
[26] O texto foi objeto de correções de estilo feitas pelo pastor Pierre Marcel. Somos muito
gratos.
[27]
Sociedade que possui independência própria.
[28]
Pierre Courthial, La conception barthienne de l'Écriture Sainte, point de vue réformé,
dans: Fondements pour l'avenir (Aix-en-Provence: Kerygma, 1981), p. 17-41.
[29]
Do ponto de vista católico, o conceito foi muitas vezes defendido pelos trabalhos, na
maior parte das vezes excelentes, de Cesla Spicq, Agape dans le Nouveau Testament (Paris:
Gabalda, 1958-1959), 3 vols.; Théologie morale du Nouveau Testament (Paris: Gabalda,
1970), 2 vols.; Connaissance et Morale dans la Bible (Fribourg: Editions Universitaires,
1985).
[30]
Veja as obras fundamentais de Dietrich Bonhoeffer, Le prix de la grâce (Genève: Labor
et Fides); Éthique, (Genève: Labor et Fides, 1965), 320 p. Sobre o significado, para nosso
tempo, da obra ignorada e desnaturada de Bonhoeffer, consultar: Georg Huntemann, The
Other Bonhoeffer. An Evangelical Reassessment of Dietrich Bonhoeffer (Baker Books,
1993), 342 p.
[31]
As refutações do sistema dispensacionalista são inúmeras. Veja, entre muitas outras:
Oswald T. Allis, Prophecy and the Church, Presbyterian and Reformed (Philadelphia,
1974), 340 p.; Curtis I. Crenshaw; Grover E. Gunn, Dispensationalism Today, Yesterday
and Tomorrow (Memphis: Footstool Publications, 1987), 432 p.; Ernest R. Sandeen, The
Roots of Fundamentalism. British and American Millenarism, 1800-1930 (Baker, 1978),
320 p.; Philip Mauro, The Hope of Israel. What is it? (Swengel: Reiner, 1970), 261 p.; The
Gospel of the Kingdom with an Examination of Dispensationalism (Swengel: Reiner,
1974), 258 p.
[32]
The Oxford Dictionary oft he Church. Oxford: O.U.P., 1966, p. 854.
[33]
R. F. Refoulé. Introduction au De praescriptione de Tertullien. Paris: Cerf, 1957, p. 15.
[34]
Existe, de fato, nos EUA, uma versão bíblica dispensacionalista, The Millenium Bible,
editada por E. Bierderhoef que, como Marcião, retirou dela todos os elementos
supostamente “judaicos” para “cristãos sob a graça”.
[35]
Dictionnaire d’histoire ecclésiastique. Paris: Fischbacher, 1884, p. 19, 48.
[36]
Citado por Léon de Poncins, Histoire du communisme de 1917 à la deuxième guerre
mondiale, Diffusion de la Pensée française (Vouillé, 1973), p. 90-1. Francis Nigel Lee,
Communist Eschatology. A Christian Appraisal of the Post-Capitalist views of Marx,
Engels and Lenin (Nutley: Craig, 1974); James H. Billington, Fire in the Minds of Men
(New York: Basic Books, 1980), 677 p.; Jean Ousset, Marxisme et Révolution (Paris:
Montalza, 1970), 284 p.; Gary North, Marx's Religion of Revolution. The Doctrine of
Creative Destruction (Nutley: Craig, 1968), 254 p.
[37]
Henri Baruk, La Psychanalyse devant la Médecine et l’Idolâtrie (Paris: Zikarone,
1978), 93 p.; Humanisme psychiatrique et histoire de la neuro-psychiatrie (Paris: Colbo,
1983), 144 p.; etc. ; Jacques Van Rillaer: Les illusions de la psychanalyse (Bruxelles:
Pierre Mardaga, 1980), 415 p.; Rousas J. Rushdoony, Freud (Brasília: Monergismo, 2010),
110 p.
[38]
Eta Linnemann, Historical Criticism of the Bible. Methodology or Ideology?
Reflections of a Bultmanian Turned Evangelical (Grand Rapids: Baker Book House, 1990),
169 p.; Is there a Synoptic Problem? Rethinking the Literary Dependance of the First
Three Gospels (Grand Rapids: Baker Book House, 1992), 219 p.
[39]
Cornelius Van Til, Christianity and Barthianism (Philadelphia: Presbyterian and
Reformed, 1974); The New Modernism. An Appraisal of the Theology of Barth and
Brunner (Philadelphia: Presbyterian and Reformed, 1973); Pierre Courthial, Fondements
pour l’avenir (Aix-en-Provence: Kerygma, 1981), 202 p.
[40]
Paul G. Schroetenboer, A New Apologetics: an Analysis and Appraisal of the Eristic
Theology of Emil Brunner (Kampen: J. H. Kok, 1955), 226 p.
[41]
Jacques Ellul chegava mesmo a considerar que os defensores da lei divina
manifestavam o espírito do Anticristo. Veja as seguintes obras: Le vouloir et le faire
(Genève: Labor et Fides, 1964), 220 p.; Ethique de la liberté (Genève: Labor et Fides,
1973-1984), 3 vols.
[42]
Hal Lindsay; C. C. Carson, Salaire gratuit? Strasbourg, 1974, p. 28.
[43]
The New Scofield Bible. Oxford: Oxford University Press, 1967, p. 1268.
[44]
Ibid., p. 1270.
[45]
L. S. Chafer, Les grandes doctrines de la Bible. Bruxelles, s.d., p. 148.
[46]
Ibid. p. 147.
[47]
Ibid.
[48]
Ibid.
[49]
René Pache, Les Adventistes du Septième jour. Polycopié, s.d., Emmaüs, p. 7.
[50]
Ibid.
[51]
H. E. Alexander, op. cit., p. 12-3.
[52]
Ibid. p. 14-5.
[53]
Ibid. p. 17.
[54]
C. I. Scofield, Dispensant correctement la Parole de Vérité. Bruxelles, s.d., p. 34.
Sobre a vida bem estranha e pouco edificante do dr. C. I. Scolfield (ele colocava em prática
o seu antinomismo!) consultar a biografia fundamental de Joseph M. Canfield, The
Incredible Scofield and His Book (Vallecito: Ross House Books, 1988), 314 p.
[28]
Ibid. p. 34-5.
[55]
J-J. Herzog, Les Frères de Plymouth et John Darby; leur doctrine et leur histoire en
particulier dans le Canton de Vaud (Lausanne, 1845), p. 55.
[56]
The Institutes of Biblical Law. Nutley: The Craig, 1973, p. 2.
[57]
The Christian View of Man. London: The Banner of Truth, 1965, p. 185.
[58]
Dispensationalism, Evangelical Quarterly. January 1936.
[59]
The Gospel of the Kingdom with an examination of Modern Dispensationalism. Reiner
Publications, 1974, p. 55.
[60]
Sermons de M. Jean Calvin sur les Dix Commandements de la Loi, donnée de Dieu par
Moïse, autrement appelée le Décalogue (Genève: Conrad Badius, 1557), 237 p.
[61]
Du Royaume de Jésus-Christ (Paris: P.U.F., 1954 [1558]), 304 p.
[62]
Instruction chrétienne en la doctrine de la Loi et de l’Évangile (Genève: Jean Rivery,
1564), p. 249-674.
[63]
Op. cit., p. 249. Nossa citação foi levemente adaptada a fim de facilitar a leitura. É
urgente reeditar esta obra, adaptando-a ao francês moderno, como já foi feito com os
comentários de Calvino.
[64]
Op. cit., p. 255. Este aspecto do pensamento da Reforma vive hoje um ressurgimento
significativo nos EUA entre os discípulos do grande teólogo e filósofo calvinista americano
Cornelius Van Til. Trata-se, em particular, da obra realizada pela fundação Chalcedon na
Califórnia, dirigida pelo pastor Rousas J. Rushdoony. Seus dois volumes Institutes of
Biblical Law (Vallecito: Ross House Books), são um monumento à glória divina e uma
verdadeira restituição à igreja do ensino da lei esquecido há muito. O professor Pierre
Courthial, antigo deão da Faculté Libre de Théologie Réformée (Aix-en-Provence),
identifica-se explicitamente com esta tradição que também defendemos.
O pensamento de Pierre Viret foi objeto de um excelente estudo da parte do professor
Robert Dean Linder, The Political Ideas of Pierre Viret (Genève: Droz, 1964), e que quase
passou desapercebido nos meios cristãos. Foi um teólogo progressista, André Biéler, que,
com sua obra muito bem documentada, mas infelizmente cuja interpretação do pensamento
do grande reformador genebrino é deformada, La pensée économique et sociale de Calvin
(Genève: Georg, 1959), chamou a atenção para esse aspecto esquecido de seu ensino.
[65]
Lettre aux Pasteurs de France réfugiés dans les États protestants, sur la désolation de
leurs Églises et sur leur propre exil, in: Lettres et opuscules de feu Monsieur Brousson
(Utrecht: Guillaume van de Water, 1701), p. 9-10.
[66]
Christian Theistic Ethics. Philadelphia: Den Dulk Foundation, 1974, p. 26.
[67]
“Letrre à M. Thomson, précepteur de mes enfants”, Œuvres Pléiade. Paris: Gallimard,
1969, p. 834-5.
[68]
Maurras et son système. Paris: Centre d’Etudes Nationales, 1965, (1953), p. 13-5.
[69]
De la gnose à l’oecuménisme (Vouillé: Editions de Chiré, 1983), p. 57-78.
[70]
Maritain: Le songe de Descartes (Paris: Buchet Castel, s.d.), Bruckberger: Ce que je
crois (Paris: Grasset, 1981).
[71]
Couvert, op. cit. p. 68-9.
[13]
Ibid., p. 73.
[72]
Ibid.
[73]
Genève: Jean Girard, 1545.
[74]
Opera omnia, vol. VII, colonne 150.
[75]
Op. cit., colonnes 155-6.
[76]
Les écoles du doute et l’école de la foi, Michel Lévy (Paris, 1855), p. 431; La Bible
(Paris: Calman Lévy, 1880), 2 vol.
[77]
La famille, ses devoirs, ses joies et ses douleurs (Calman Lévy, 1865), 2 vol.; L’ennemi
de la famille (Paris: Michel Lévy, 1874).
[78]
La liberté morale (Paris: Michel Lévy, 1875), 2 vol.
[79]
La persécution et le droit (1844), in: Nouvelles études évangéliques. Paris, 1851,
p. 393.
[80]
“La prophétie devant l’eglise et la société”, in: Le prophétisme du réveil. Dieulefit: Le
Matin Vient, 1931.
[81]
Burnand — L’homme, l’artiste et son oeuvre. Paris: Berger Levrault, 1926, p. 81.
[82]
“Calvin et Copernic. La légende et les faits. La science et l’astronomie chez Calvin”,
La Revue Réformée. Saint-Germain-en-Laye, n. 121 (1980), p. 47-8.
[83]
Veja Jean-Marc Berthoud, “The Bible and the Nations”, Calvinism Today (1993-1994),
vol. III, n. 4, vol. IV, n. 1 et 2.
[84] Artigo publicado na Revue réformée, n. 132 (1982). “Considérations sur l’ouvrage de
Jacques Ellul”, À temps et à contretemps (Paris: Le Centurion, 1981), 211 p.
[85]
Veja: Jean-Marc Berthoud, Marcel Regamey et la vérité au sein de la cité, dans: des
actes de l'église. Le christianisme en Suisse romande (Lausanne: L’Age d’Homme, 1993).
[86]
À temps et à contretemps, p. 14.
[4]
Ibid., p. 57.
[87]
Ibid., p. 58.
[88]
Ibid., p. 57.
[89]
Ibid.
[90]
Ibid., p. 16.
[91]
Ibid., p. 17-8.
[92]
Ibid., p. 18-9.
[11]
Ibid., p. 20.
[93]
Ibid.
[94]
Grifo nosso.
[95]
Jacques Ellul, À temps et à contretemps, p. 21.
[96]
Ibid.
[97]
Ibid., p. 72-3
[98]
Ibid., p. 19-20.
[99]
Ibid., p. 54.
[100]
Ibid., p. 70.
[101]
Ibid., p. 68.
[102]
Ibid., p. 73.
[103]
Ibid., p. 74-5.
[104]
Ibid., p. 44.
[105]
Ibid., p. 60.
[106]
Ibid., p. 77.
[107]
Ibid., p. 62, 63, 66.
[108]
Ibid., p. 15.
[109]
Ibid., p. 57.
[110]
Ibid., p. 70.
[111]
Ibid., p. 56.
[112]
Ibid.
[113]
Ibid., p. 55.
[114]
Ibid., p. 60.
[115]
Ibid., p. 42-3.
[116]
Ibid., p. 43.
[117]
Ibid., p. 29.
[118]
Ibid., p. 146.
[119]
L'ordre social chrétien. Paris: Beauchesne, 1970, p. 317.
[120]
Shorter Classics (South Holland: Libertarian, 1962), vol. I, p. 210-310.
[121]
In: F. A. von Hayek, Collectivist Economic Planning. (London: Routeledge 1963).
[122]
Marx's Religion of Revolution (Nutley: Craig, 1968).
[123] La morale selon Calvin (Paris: Cerf, 1986).
[124]
Veja P. A. Stucki; E. Fuchs, Au nom de l’autre. Essai sur les fondement des Droits de
l’Homme (Genève: Labor et Fides, 1985). Para a refutação cabal da ideologia dos direitos
humanos, veja: Jean-Marc Berthoud, Une religion sans Dieu: les droits de l'homme contre
Évangile. Lausanne: L'Age d'Homme, 1993. [Em português: Uma religião sem Deus: os
direitos humanos e a Palavra de Deus (Brasília: Monergismo, 2018).]
[125]
Nosso texto data de 1986. O vento da história depois mudou, ao menos como alguns
supõem, e a história terminou!
[126]
Trata-se de uma simplificação da posição de Calvino. Sobre esta questão, os
reformados estão divididos, no passado assim como hoje. Veja as diferentes posições de
teólogos como Teodoro de Beza, Duplessis-Mornay, F. Hotman, S. Rutherford,
G. Gillespie etc. que preconizavam a possibilidade da resistência pelo cristão à tirana em
limites estritamente definidos. Sobre o assunto, veja a obra muito esclarecedora de Douglas
F. Kelly, The Emergence of Liberty in the Modern World. The Influence of Calvin on Five
Governments from the 16th Through 18th Centuries. Calvin's Geneva — Huguenot France
— Knox's Scotland — Puritan England — Colonial America (Philipsburg: Presbyterian and
Reformed, 1992), 156 p.
[127]
Sobre este assunto, veja nosso estudo: Jean-Marc Berthoud, Du pouvoir dans la vie
chrétienne (Lausanne: Documentation Chrétienne, 1977), n. 17.
[128]
Veja a obra de Eric et Aaron Kayayan, Le chrétien dans la cité (Lausanne: L’Age
d’Homme, 1995), 205 p.
[129] Estudo ministrado em 13 de junho para o Cercle de Réflexion Évangélique et d’Action
(CREA) à Vennes-sur-Lausanne.
[130]
Cardinal Ratzinger, Le don de la vie (Paris: Cerf, 1987).
[131]
N. 149 (1987), Tome XXXVIII, Aix-en-Provence. V. tb.: Les enjeux de la bioéthique,
Revue Réformée, n. 187 (1995), Tome XLVI.
[132]
Montpellier: Études théologiques et religieuses, 1987/2, p. 199-206.
[133]
Ibid., p. 199.
[134]
Ibid.
[135]
Ibid.
[136]
Ibid.
[137]
Ibid.
[138]
Ibid., p. 200.
[139]
Ibid.
[140]
Ibid., p. 200-201.
[141]
Ibid., p. 201.
[142]
Ibid.
[143]
Ibid.
[144]
Ibid.
[145]
Ibid.
[146]
Ibid.
[147]
Ibid., p. 202.
[148]
Ibid.
[149]
Ibid., p. 203.
[150]
Ibid.
[151]
Ibid., p. 204.
[152]
Ibid.
[153]
Ibid.
[154]
Ibid.
[155]
Ibid., p. 205.
[156]
Ibid.
[157]
Ibid., p. 206.
[158]
Ibid.
[159]
Ibid.
[160]
Ibid.
[161]
Ibid.
[162]
Ibid. p. 207.
[163]
Ibid.
[164]
Cahier pour l’éthique, Supplément n. 153 (Lausanne, juin 1986), p. 113-24.
[165]
Lausanne et Berne, avril 1987.
[166]
Un statut moral pour l’embryon, op. cit., p. 115.
[167]
Ibid., p. 121.
[168]
Ibid., p. 122.
[169]
Ibid.
[170]
Ibid., p. 120.
[171]
Ibid., p. 116-7.
[172]
Ibid., p. 117.
[173]
Ibid.
[174]
Ibid.
[175]
Ibid., p. 118-9.
[176]
Ibid., p. 119.
[177]
Le statut de l’embryon. Berne et Lausanne: I.E.S. Fécondation in vitro, 1987, p. 61.
[178]
Ibid., p. 68-9.
[179]
The child and — or the embryo. To whom does it belong? Human Reproduction, n. 8
(1986), vol. 1, p. 561-2.
[180]
Marc Dem, Lettre à M. Quelconque sur les enfants artificiels (Paris: Dismas, 1987),
p. 31-2.
[181]
É necessário mencionar aqui também, entre muitos outros, os nomes de William
Wilberforce (1759- 1833) e de Thomas Chalmers (1780-1847) na Grã-Bretanha do
séc. XIX e os de Francis Schaeffer (1912-1984) e de Rousas John Rushdoony (1916-2001)
no séc. XX nos Estados Unidos e de John Stott (1921-2011) no contexto anglófono
mundial.
[182]
No Antigo Testamento, Dt 17.14-20 e 1Sm 8.11-16; no Novo, Rm 13.1-7 e Ap 13.1-
18.
[183]
Alguns afirmam que um costume vale por sua estabilidade. Um costume que muda
não é simplesmente um costume. Os costumes dizem respeito à história e ao bem comum.
Portanto, não é absurdo submeter-se a ele por princípio — contanto que, acrescentaríamos,
sejam justos, isto é, em conformidade aos mandamentos de Deus — ainda que se deva que
trabalhar para corrigi-los ou refiná-los.
[184]
Veja a obra de Claes G. Ryn, The New Jacobinism. America as Revolutionary State
(Bowie: National Humanities Institute, 2011).
[185]
Um dos leitores deste texto nos escreve: “O melhor é provavelmente intervir antes da
confusão, durante as consultas, encontrar pessoalmente os políticos, esforçar-se para
influenciá-los antes dos grandes debates públicos e, sobretudo, antes das campanhas de
voto. Nesse momento, qualquer intervenção da igreja engendra primeiramente a suspeição.
Entretanto, quando a igreja ou os interesses fundamentais por ela representados são direta e
explicitamente ameaçados, ela deve intervir até o fim da decisão parlamentar ou popular
segundo sua eficácia. Dirigir-se de forma direta aos políticos, como fazem Calvino ou
Viret, é mais fácil e justificado quando o poder político reconhece o lugar da igreja”.
[186]
“The Majesty of God’s Law”, The Christian View of Man (Edinburgh: Banner of
Truth, 1965 [1937]), cap. 16, p. 184-95. O professor J. Gresham Machen, fundador do
Westminster Theological Seminary (Filadélfia) é autor de várias obras entre as quais um
bom número ainda disponíveis.
[187]
Escrito em 1937.
[188]
“The Law and the Gospel”, The Gospel of the Kingdom (Swengel: Reiner
Publications, 1974 [1910?]), cap. III, p. 42-55. Philip Mauro, eminente jurista, trabalhava
em Washington antes da Primeira Guerra Mundial, converteu-se a Cristo entre os “irmãos”
darbistas e aderiu ao sistema dispensacionalista. Abandonou a toga no momento da
conversão, por volta dos 40 anos, para se dedicar ao estudo aprofundado da Bíblia. O
estudo sistemático das Escrituras o conduziu a deixar o sistema criticado pela Bíblia
Scofield.
[189]
In: Lectures in Systematic Theology (Grand Rapids: Zondervan, 1972 [1878]), 903 p.,
Lecture XXX, p. 351-7. É particularmente surpreendente constatar que se João Calvino em
sua Instituição da religião cristã (1564) e François Turretini em seu Compêndio de
teologia apologética (São Paulo: Cultura Cristã, 2011), 3 vols.; incorporam seções
importantes consagradas ao estudo da Lei de Deus em seus tratados de teologia sistemática,
o que não é de forma alguma o caso (com exceção da de Dabney que citamos e de
Rushdoony muito recentemente) dos dogmáticos reformados posteriores. Nem John Owen,
Biblical Theology (Pittsburg: Soli Deo Gloria, 1994 [1661]); nem Charles Hodge, Teologia
sistemática (Hagnos, 2003 [1871-1873]), 3 vols.; nem Herman Bavinck, Dogmática
reformada (Cultura Cristã, 2012 [1895]), 4 vols.; nem Louis Berkhof: Teologia sistemática
(Cultura Cristã, 2012 [1939]); nem Herman Hoeksema, Reformed Dogmatics (Grand
Rapids: Reformed Free Publishing Association, 1985 [1966]); nem ainda Gordon J.
Spykman, Reformational Theology (Grand Rapids: Eerdmans, 1992), não pensaram em
incluir em seus sistemas de teologia reformada uma seção consagrada ao estudo do papel
da lei no plano de Deus. Rousas Rushdoony (cujo procedimento rompe claramente com o
da maioria de seus predecessores) começou, por sua vez (como fizeram Pierre Viret no
séc. XVI e Bénédict Pictet no início do XVIII), seu trabalho de reflexão sistemática por
uma exposição detalhada da Lei de Deus, The Institues of Biblical Law (1973) e Law and
Society (1982). Ele publicou sua Systematic Theology (Vallecito: Ross House Books,
1995), 2 vols., somente mais tarde, fincando, assim, seu edifício dogmático sobre a sólida
fundação da autoridade infalível sobre todas as coisas da lei-Palavra de Deus.
[190] É óbvio que o vasto compêndio presente nesta bibliografia sobre a Lei de Deus em
seus multifacetados aspectos não implica a aprovação do autor deste livro de todo conteúdo
dos livros aqui indicados.