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Referências durante a PrimeiraRepública Portuguesa !

Francisco Martinho

A construção da nostalgia:
apontamentos sobre
tradição e referências
nacionais durante a Primeira
República Portuguesa
Francisco Carlos Palomanes Martinho*

Resumo
O presente artigo pretende analisar as principais matrizes
ideológicas formadoras do Estado Novo em Portugal. O
modelo corporativo implementado nos anos 30 se utilizou
de referências desenhadas ao longo da Primeira República,
em oposição à democracia liberal. Nacionalismo,
Cor porativismo, Autoritarismo e Colonialismo,
Foto em destaque: ancoravam-se em uma permanente relação com o passado,
o primeiro sorriso
de Oliveira Salazar em datas e personagens simbólicos que impuseram ao
Estado Novo um caráter marcadamente nostálgico.

*Doutor em História Social pela UFRJ, Professor


Adjunto do Departamento de História da UERJ,
Bolsista de Produtividade do CNPq
Autor de A Bem da Nação: o sindicalismo português
entre a tradição e a modernidade (1933-1947). Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.
franciscomartinho@dh.com.br

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Introdução estaria integrado, de forma submissa, o indivíduo. 1


D. Sebastião, jovem rei
Ressalta também o autor o papel que a religião de Portugal, morreu

É
em 1578 na batalha
sabido, como diz o historiador Arno Mayer desempenhou junto ao pensamento político de Alcácer-Quibir. Como
(1987), que o desenvolvimento da moder- medieval ancorado na idéia de cosmos, orientando não deixou herdeiros,
nidade liberal durante a segunda metade do todos os homens para um objetivo único, ascendeu ao trono seu tio,
o cardeal d. Henrique,
século XIX, na Europa que se industrializava, não identificado com o criador (Hespanha, 1994, p. que veio a falecer dois
impediu a permanência de valores da tradição que, 298-299). E foi exatamente esta tradição católica anos depois. A crise
sucessória deixou abertas
em tese, declinava. Desta forma, a república e coletivista a mola mestra que impulsionou o as portas para a união
parlamentar, a sociedade de mercado e a indústria nacionalismo anti-liberal português. Na medida, ibérica. Felipe II, da
conviveram com o poder aristocrático, a portanto, que o modelo político implementado em Espanha, foi aclamado
pelas cortes de Tomar, rei
corporação e o pequeno universo agrário. Passado Portugal após a queda da Primeira República de Portugal em 1581sob
e futuro encontravam-se em permanentes enlaces. opunha-se ao individualismo liberal, o Portugal o nome de Felipe I. A
crescente insatisfação com
Se, para alguns países, a primeira guerra mundial sebastinista e o Portugal restaurador trans- a administração
foi um “divisor de águas”, no sentido de uma formavam-se nos pilares básicos de referencia para espanhola, principalmente
ruptura mais profunda para com o passado, o a (re)construção da “Nação Portuguesa” 1. a partir do reinado de
Felipe IV, em 1621,
mesmo não se pode dizer de outros, onde a força Para os opositores da Revolução Liberal de quando adotou uma
da tradição resistiu mais firmemente ao advento 19102, que depôs a Monarquia, aquele movimento política de maior
integração dos territórios
da democracia, do liberalismo e mesmo da representou o abandono de todas as grandes ibéricos, fez crescer o mito
industrialização. Este, por certo, é o caso tradições que fundamentaram a formação da de que d. Sebastião, cujo
português, cujo regime do Estado Novo (1933- nacionalidade portuguesa. Tratava-se, portanto, da corpo não havia sido
encontrado, retornaria
1974) ancorava-se em um eficiente discurso que traição a uma linhagem constituída desde a para reconquistar a
se remetia, a todo instante, ao passado. Ao mesmo formação do Estado Nacional a começar pela independência portuguesa.
O sebastianismo
tempo, tratava-se de um regime que se afirmava figura inconteste de d. Nuno Álvares Pereira, correspondeu, portanto,
novo, com uma reinstitucionalização que ia além passando por d. Sebastião, d. João IV e que, no à idéia mítica de salvação
de uma mera cópia do passado. Esta relação entre Século XIX, tinha como referência mais ancional. A restauração,
ou seja, a separação
tradição e modernidade, se teve contornos nítidos importante a figura de d. Miguel, o monarca de Portugal da Espanha
durante o Estado Novo, foi originada durante a absolutista derrotado por d. Pedro. Assim é que se deu, por fim em 1640
com a ascensão de d. João,
Primeira República (1910-1926), quando a estes mesmos opositores do liberalismo triunfante duque de Bragança,
oposição entre liberalismo e conservadorismo de 1910 contribuíram, decisivamente, para os após uma conspiração
cindia o país em projetos inconciliáveis no que sucessivos fracassos da primeira experiência de nobres e letrados
contra a presença dos
diz respeito à identidade nacional. No encontro republicana portuguesa. Para eles, tratava-se de representantes da
de passado e futuro, é possível afirmar que a um compromisso com Portugal, com sua história. Espanha em Lisboa.
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Movimento político
realização da modernidade portuguesa constituída Com suas referências. Com suas tradições. liderado por Afonso
no salazarismo se deu sob o peso e as marcas da A consolidação do Regime do Estado Novo, Costa, um dos mais
nostalgia. Em outras palavras, o projeto de futuro após o fracasso republicano, impôs a construção representativos expoentes
do republicanismo
tinha, como fonte inspiradora um tempo passado, de uma memória portuguesa que ajudou na difícil português, a Revolução
quando Portugal teria sido moderno. unidade de uma ditadura que começou militar e de 1910 contou com
a participação de amplos
terminou civil. Portugal havia sido grande e segmentos de oposição
moderno quando atravessou os mares e, em nome à monarquia, incluindo
O horizonte utópico do Antigo Regime da inabalável fé católica, descobriu e conquistou não só liberais, como
socialistas e maçônicos.
novas terras. Ao mesmo tempo, era o lugar do A Constituição
Segundo Hespanha, no século XVIII, o “pequeno mundo”, do camponês da pequena Republicana de 1911
individualismo propôs uma imagem de sociedade foi, sem dúvida, uma
aldeia e da pequena propriedade. Não por acaso das mais progressistas
centrada no homem, sendo que seus objetivos Salazar3, futuro chefe inconteste do Estado Novo, da história de Portugal,
nada mais eram que a “soma dos fins de seus já em 1916, quando apresentou provas para representando mesmo
uma tentativa de ruptura
membros e a utilidade geral confundia-se com a assistente da Universidade de Coimbra, criticou o para com um passado
que resultava da soma das utilidades de cada latifúndio alentejano do “dono ausente” e enaltecia que representava, para
indivíduo”. Ao contrário, o pensamento social os articulistas do
a terra “fecundada pelo capital e o trabalho” movimento, o atraso.
medieval concebia o primado do “corpo”, ao qual (Salazar, 1916, p. 8). Assim, era conservar, seja no

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António Oliveira “além-mar” seja no seu próprio território, o seu Segundo Leal, o que se convencionou chamar de
Salazar (1889-1970), mundo pequeno, católico e camponês. Sua missão, sidonismo inaugurou um modelo de representação
professor de economia
da Universidade de portanto, era ser grande para continuar a ser corporativa que seria, depois, seguido pelos
Coimbra (1916-1928), pequeno. Não se tratava de negar a modernidade diversos opositores do sistema democrático-liberal
ministro das Finanças em si, mas de pensar em uma modernidade (Leal, 1994, p. 97). Entretanto, no ano seguinte,
(1928 –1932), chefe de
governo (1932 a 1968), propriamente “portuguesa”. Este era o momento Sidónio Pais morreria assassinado por um membro
foi o principal ideólogo então, de reinventar, reconstruir uma nova da Maçonaria. Sua breve passagem pela
do Estado Novo, a mais
longa ditadura da memória para a história de Portugal. A necessidade presidência da República, porém, permitiu a
Europa Ocidental desta “nova memória” era evidenciada pela criação de referências que, em larga medida,
no século XX (1933- presença de valores “exógenos” à tradição serviram como balizadores da militância anti-
1974). De formação
católica, estudou no portuguesa. Nomeadamente, os valores laicos do liberal. Para a jovem República, por seu turno, a
Seminário do Viseu iluminismo nas suas mais variadas vertentes estabilidade sonhada não viria com a morte do
antes de ingressar na
Universidade de (liberalismo, jacobinismo, socialismo, comunismo,...). ditador. Ao contrário, aprofundava-se.
Coimbra, como Estes, deveriam ser sucumbidos em nome de um Uma característica marcante deste
estudante, em 1910. valor propriamente nacional. A vocação movimento de oposição à “nova República Velha”,
Convicto da falência dos
regimes de representação portuguesa para a modernidade deveria ser, então, ou seja, à República Liberal novamente em cena
democrática, Salazar construída a partir de valores predominantemente após a morte de Sidónio Pais foi, exatamente, a
sempre defendeu, para
Portugal, uma “endógenos”. E, portanto, procurada em sua tentativa de manter viva a memória do ditador
alternativa corporativa, própria história. assassinado. O sidonismo serviu assim, como um
ditatorial, nacionalista Os memorandos, cartas, pedidos e despachos núcleo de referência para a oposição anti-liberal.
e colonialista, que ele
entendia como expressões encerrados com os dizeres “A Bem da Nação!” Os projetos de construção de partidos políticos
mais profundas da durante o Estado Novo, representavam o conservadores demonstravam, apesar de sua frágil
identidade nacional
portuguesa. compromisso com uma longa tradição portuguesa. representatividade, a articulação permanente dos
4
Major de Artilharia Tradição esta fundada na ordem e na obediência, grupos anti-liberais (Leal, 1994, p. 97-98).
e professor de cálculo no Estado forte e na família. No pequeno mundo Contribui também para o aprofundamento da
integral e diferencial da
Universidade de camponês e na vocação ultramarina. O Antigo crise republicana, o desfecho do conflito mundial,
Coimbra, Sidónio Pais Regime, realizador da “vocação” portuguesa, tanto ao nível mais amplo, da nova configuração
(1872-1918) sempre
esteve em oposição ao torvava-se o horizonte utópico do Estado Novo. adquirida pelas sociedades contemporâneas a partir
liberalismo e à Ser moderno era voltar no tempo. de 1918, quanto no nível interno, no que diz respeito
democracia parlamentar à situação portuguesa pós-Guerra. Quanto ao
em Portugal.
Responsável pelo golpe primeiro aspecto, do novo quadro mundial, a
de Estado de 1917, Sidónio Pais – a referência mobilizadora Europa assistiu a um primeiro momento de sua
governou Portugal sob
um regime de ditadura lenta decadência e perda de importância frente aos
militar por um ano, até Como dissemos, a ditadura corporativa sob Estados Unidos, detentor, a partir daquele
que, em dezembro de a liderança de Salazar foi uma alternativa a uma momento, da hegemonia no mundo capitalista. Os
1918, um militante da
maçonaria o assassinou República em permanente desgaste. As sucessivas modelos autoritários que se ampliam nos anos 20
com um tiro na estação crises do republicanismo liberal português foram, portanto, reações à vitória do americanismo.
de Comboios do Rossio.
punham em questão a sua capacidade de Como diz Leal, consolida-se uma idéia de renascimento
implementar um projeto político de maior vulto. vinculada a movimentos políticos detentores de
Neste quadro, diversos opositores se articularam projetos de tipo autoritário. Movimentos de força
no sentido de enfrentar o sistema liberal contra os regimes democráticos e liberais (p. 157).
representativo e apresentar à sociedade portuguesa Por projeto autoritário entende-se como a oposição
uma nova alternativa. Na maioria dos casos, a ao sistema de representação partidária e parlamentar
oposição se realizava sob um perfil marcadamente e à ausência de um chefe dotado de poderes acima
autoritário, embora não houvesse unidade quanto das instituições. É neste sentido que se fortalecem
a alguns pontos importantes, como por exemplo, as imagens de d. Sebastião, d. João e d. Miguel,
a natureza do novo regime a ser constituído. O cujas figuras representavam ao mesmo tempo o
primeiro coroamento de tal processo se deu através Estado e a Nação. Figuras inspiradoras do
do golpe liderado por Sidónio Pais4, em 1917. renascimento de Portugal.

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Mas, para além das condições internacionais, que não conseguiu hegemonizar um “sentimento
favoráveis à vitória de movimentos autoritário- nacional democrático”, o acelerado avanço do
nacionalistas em quase toda a Europa, havia uma sentimento conservador e anti-liberal que apoiou
série de fatores de ordem interna que induziram e participou do golpe militar de 1926.
Portugal a uma gradativa adesão a movimentos e
projetos políticos anti-liberais. O primeiro destes
fatores, de caráter mais longo, é a própria tradição Uma alternativa portuguesa
portuguesa. Na história do Estado português,
momento marcante foi o seu papel, ao lado da Mais importante ainda que as tentativas de
Espanha, na construção de um extenso mundo organização de espaços políticos, era a própria
colonial que se realizou em nome dos interesses do evolução do pensamento conservador português
Estado Nacional. Portugal e Espanha tinham, como durante os anos 20. Neste campo, além do
sabemos, características muito próximas. Tanto na conservadorismo de matriz sidonista, várias outras
natureza de seu Estado Absolutista Católico, como correntes autoritárias se apresentaram como
também nos projetos do ultramar. A manutenção de alternativa política à crise portuguesa. Do fascismo
um Estado forte e interventor significava a ao nacionalismo conservador católico, tendeu a
permanência dos interesses tradicionais do Antigo prevalecer, entre as correntes autoritárias em
Regime: a terra, a autoridade suprema do Monarca Portugal, a idéia de uma saída “tipicamente
e, sobretudo, a pouca importância
atribuída às possibilidades de
organização em caráter individual.
O segundo problema, de
caráter também endógeno,
embora conjuntural, merece
referência. Trata-se do “mal-
estar” provocado na sociedade
portuguesa do pós-I Guerra.
Vivia Portugal, de fato, uma
situação no mínimo paradoxal.
Apesar de, em virtude de suas
alianças históricas com a
Inglaterra, ter participado ao
lado dos vencedores no conflito,
nenhuma vantagem material foi
concedida aos portugueses
(Gómez, 1985, p. 27). Deste
modo, Portugal encontrava-se
na constrangedora situação de
país vencedor que saíra
perdendo na Guerra e, em
virtude dos resultados do
conflito, sem condições de pedir
reparações por sua participação.
Natural, portanto, que o
Notícia sobre
sentimento anti-liberal aflorasse atentado contra
neste período de frustrados Oliveira Salazar
sentimentos e mal estar coletivo. no jornal O
Século (Portugal,
Merece nota, portanto, dada a 5 de julho, 1937).
crise permanente de um regime

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António Joaquim portuguesa”. Desta forma, apesar da simpatia aos em Salazar. Segundo suas próprias palavras: “Aqui
Tavares Ferro (1895- diversos modelos corporativos como o fascismo, não há uma Ditadura, uma situação: há um ditador
1956). Um dos nomes surgidos na Europa como conseqüência da falência de si próprio, o grande chefe moral de uma nação! E
mais importantes da
política cultural do liberal, eles foram entendidos como importantes agora que já o ouvimos, vamos cada qual para a
Estado Novo, tendo referências, mas não como modelos a serem nossa vida... Não façamos barulho... Deixemo-lo
sido diretor do
Secretariado de copiados. Portugal haveria de ter sua feição própria, trabalhar.” (Ferro, 1933, p. 169).
Propaganda Nacional uma vez que o nacionalismo, para ser genuíno, não Três características foram marcadamente
(SPN). Jornalista por poderia copiar um modelo que lhe fosse externo. importantes, tanto na concepção de António Ferro,
vocação, jamais concluiu
o curso de Direito, Nos anos 20, em particular a partir de 1922, um dos principais ideólogos do salazarismo, como
iniciado em 1913. Portugal assistiu a uma “descoberta” do fascismo na de Rolão Preto. A primeira delas era o fascínio
Era também poeta
e ensaísta. Antes italiano. Rolão Preto, o mais destacado líder fascista pela autoridade do chefe de Estado, que, tanto se
do Estado Novo, Ferro em Portugal, entretanto, era pessimista quanto à manifestava no resgate da figura de d. Miguel,
já era um dos mais possibilidade de se organizar um movimento idêntico como na atração por Mussolini. Restava aqui, a
importantes personagens
das letras portuguesas. àquele liderado por Benito Mussolini. Prevaleciam, necessidade de se encontrar um “verdadeiro” líder
Modernista, ativo e como quer a ideologia nacionalista, as necessidades nacionalista para Portugal. O declínio da República
brilhante intelectual,
defendia um Estado de compreensão da realidade específica de Portugal. liberal possibilitou a lenta ascensão de Oliveira
Intervencionista protetor Mas, desde a “Marcha sobre Roma”, em 1922, que a Salazar ao poder, o líder tipicamente português, no
das artes. Adversário direita portuguesa teve seus olhos voltados com dizer de Antonio Ferro (Martinho, 1998, p. 16).
da democracia, destacou-
se como propagador do entusiasmo e otimismo para o fascismo italiano. A segunda, era a busca da tradição e do passado
pensamento anti-liberal Rolão Preto, enaltecendo o caráter legitimamente legitimador. Neste caso, o elemento que coesionava
nos anos 20. Antes, já
havia se entusiasmado subversivo e fora da lei deste movimento, afirmava, e justificava a ação política, era uma história
com o breve período do desta forma, seu perfil de novidade e particular. O ódio ao liberalismo e ao bolchevismo
sidonismo em Portugal. revolucionarismo (Pinto, 1994, p. 49-51). se explicavam, assim, pela herança de ambos frente
Apesar da frustração
com o assassinato de Mas não era apenas aos declaradamente fascistas ao iluminismo e seus valores “universalistas”.
Sidónio Pais, Ferrro que o movimento liderado por Mussolini encantava. Durante toda a construção da ideologia Salazarista,
nunca deixou arrefecer
o seu entusiasmo pelo António Ferro5, jornalista e futuro responsável pela ver-se-á a o resgate da “verdadeira” história de
autoritarismo. Assim, política de propaganda do Estado Novo, em suas Portugal. História essa que, dado o peso da Igreja
na década de 20, famosas viagens a entrevistar líderes autoritários Católica, em nada tem a ver com a tradição liberal.
entrevistou diversos
expoentes do autorita- durante os anos 20, também se sentiu fortemente A terceira, era a defesa da violência, desde
rismo e anti-liberalismo atraído pela “obra” mussoliniana. Em 1923, ano II que para fins “positivos”. A subversão da ordem
europeu: Gabrielle
D’Anunzio, primo de da “era Mussolini”, Ferro entrevistou pela primeira liberal seria, nesta concepção, a última das
Rivera, Mustapha vez o Duce. Além desta, houve outras duas, violências. A partir daí, o tempo dos conflitos e
Kemal, Benito respectivamente em 1926 e em 1934. Para Ferro, da luta de terminaria em favor do “interesse
MussoliniI e outros.
Em 1932 publica, Mussolini apresentava projetos definidos: “expressão nacional”, o único a dar coesão a todos.
no jornal Diário de original italiana, restituição das tradições perdidas,
Notícias uma longa
entrevista com governo de ditadura, hierarquia, esvaziamento do
Salazar, publicada parlamento, corporativismo, latinidade”. Em todas A Igreja Católica e a Nação como fé
logo a seguir em livro as entrevistas, a intenção de Ferro era apontar para
e utilizada como fonte
de propaganda do necessidade de um líder com as mesmas No entanto, a mais importante contribuição no
regime. No SPN, características que as de Mussolini: chefe severo, sentido de uma institucionalização do novo regime
constituiu-se no
principal elaborador da lacônico e autoritário, com perfil dominador e firme veio do conservadorismo católico. Se a oposição dos
política de propaganda (Leal, 1994, p. 55). Entretanto, Ferro estava convicto católicos ao liberalismo republicano era forte, dada
do Estado Novo. de que, tais características, formais, não eram à profunda laicização da República, a formação de
suficientes, posto que faltavam aquelasque diziam um pensamento católico deve-se ao surgimento e
respeito à alma portuguesa. Mussolini, apesar de propagação de um pensamento social organizado a
incontestáveis qualidades, era por demais falante, de partir da própria hierarquia da Igreja. No final do
expressões exageradas. Além disso, o caráter de século XIX, a Encíclica Rerum Novarum surgia como
mobilização do “de baixo” apregoado pelo fascismo a primeira intervenção da Igreja nas questões de
causava estranheza. A alma portuguesa se encarnaria ordem social e do trabalho. O conhecido documento

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papal propunha um modelo de organização social as de Coimbra e do Porto constituíram-se em centros


que se apresentava, ao mesmo tempo, como uma divulgadores do pensamento católico, com revistas,
alternativa tanto à tradição liberal, quanto à tradição jornais e também uma forte intervenção política.
socialista. As duas, propagadoras do conflito. Uma, Ponto de convergência entre vários segmentos
a defender os interesses particulares da classe de oposição à República, a Cruzada Nacional D.
proprietária. Outra a defender os interesses do Nuno Álvares Pereira, fundada em 1918, exatamente
proletariado. Ambas perigosamente e rigorosamente o ano do término da Guerra e do assassinato de
“racionalistas”. O caminho a ser adotado seria o do Sidónio Pais, merece referência particular.
resgate dos valores medievais. Da organização por Organização cívico-religiosa, sua história se insere
ofícios, em caráter familiar. De proteção e de tanto na história política como na história das
autoridade ao mesmo tempo. O “ponto final” desta religiões. Nuno Álvares Pereira, beatificado em 1918,
ordem seria o Estado, dotado de poderes para intervir foi a grande referência mítica na construção da
em nome do “bem comum”. nacionalidade portuguesa. A escolha de seu nome
A encíclica Rerum Novarum teve, por razões como patrono da Cruzada não foi casual. A mesma,
evidentes, uma forte repercussão em Portugal. Sua tornou-se por um lado, uma espécie de “liga patriótica
influência ultrapassou a data de sua publicação, de elites”. Por outro, obteve desde o seu nascedouro
permanecendo como forte referência para o a função simbólica de, difundindo o papel ético-
pensamento católico ao longo das primeiras décadas militar de Nuno Álvares Pereira, ritualizar a relação
do século XX. É forçoso lembrar que, até 1910, de seus membros para com o Estado. Os diversos
Portugal era ainda monarquia com fortes ligações com símbolos do catolicismo reverenciados pela Cruzada,
o Vaticano. Monarquia que, por exemplo, durante boa assim como seu arcabouço doutrinal, serviram como
parte do século XIX, mantinha o sistema eleitoral referências inspiradoras do Estado Novo português.
ancorado na figura do chefe de família, e cuja Referências, assim, dotadas de matriz evidentemente
documentação comprobatória era a certidão de religioso e de um caráter profun-damente nostálgico
casamento (Cruz, 1986, p. 183-213). Assim, razões (Leal, 1999, p. 323-335).
não faltavam para que, durante as décadas de 10 e 20, Além das Universidades e da Cruzada, vale
a Igreja Católica em Portugal se batesse contra dois destacar as intervenções no movimento operário,
“inimigos”, o liberalismo e a República, embora a através, das APOs. (Associações Protectoras dos
última com menor ênfase, devido a presença de Operários) e dos CCOs. (Círculos Católicos de
conservadores católicos favoráveis ao republicanismo. Operários). Entretanto, estas duas entidades
Aos valores “universalistas” do liberalismo, o demonstram “tensões” importantes no movimento
pensamento católico português produziu, a seu social católico. As primeiras nunca ultrapassaram o
modo, um “nacionalismo católico” reagente tanto universo do mutualismo e do assistencialismo (Cruz,
ao internacionalismo imperialista quanto ao p. 525-531). Os Círculos Católicos, ao contrário, além
internacionalismo proletário. Porém, conforme de terem conseguido uma implantação nacional
aponta Cruz, os católicos portugueses não tiveram maior que as APOs, constituíam-se em um
grande representatividade do ponto de vista movimento de católicos operários e não para católicos
organizativo, limitando-se ao “âmbito operários. Evidencia-se aqui o embrião de um
eminentemente doutrinal” (Cruz, 1978, 267-269). importante veio do sindicalismo português, que foi
Em se tratando de um movimento de elites políticas o sindicalismo católico (Rezola, 1999). As
que visavam alternativas sobretudo a partir de cima, preocupações sociais dos católicos conviveram
a mobilização social era, é bem possível, o lado menos sempre com a repulsa à democracia e ao liberalismo.
importante da questão. Mais importante talvez tenha
sido a consolidação de um corpo doutrinal católico
que se definia como opositor do liberalismo. Em Conclusão
conseqüência de seu caráter elitista, uma das
principais bases de sustentação do catolicismo A queda da monarquia em Portugal não foi
português foi o meio acadêmico, em particular no suficiente para a plena consolidação de um sistema
ensino universitário. Sem dúvida, universidades como liberal. Ao contrário, a chamada primeira República

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Referências durante a PrimeiraRepública Portuguesa !
Francisco Martinho

assistiu a sucessivas crises, demonstrando sua Referências bibliográficas


incapacidade de implementar um projeto político
de mais longo prazo. Cruz, Manuel Braga da. Monárquicos e republicanos no
Uma das razões para o fracasso da primeira Estado Novo. Lisboa: Dom Quixote, 1986.
experiência republicana foi, sem dúvida, a “As origens da democracia cristã em Portugal e o
continuada oposição de saudosos da monarquia Salazarismo (I)”. In: Análise Social. Revista do
e diversos segmentos anti-liberais e anti- Gabinete de Investigações Sociais da Universidade
democráticos. Dentre estes setores, destaca-se, de Lisboa. V: XIV. 1978/2°, p. 265-278.
com importância especial, a Igreja Católica, que “As origens da democracia cristã em Portugal e o
recusava-se, sistematicamente, a aceitar o modelo Salazarismo (II)”. In: Análise Social. Revista do
laico e democrático que se impôs com a Gabinete de Investigação Social da Universidade
república. Além disso, deve-se lembrar da de Lisboa. V: XIV, N° 55, 1978/3°, p. 525-607.
importância do catolicismo em um país como Ferro, António. Salazar: o homem e sua obra. Portugal,
Portugal, com peso direto na formação civil da Empresa Nacional de Publicidade, 3ª Ed, 1933.
própria sociedade portuguesa. Gómez, Hipólito de la Torre. Do “perigo espanhol” à
Esta oposição, apesar de importantes amizade insular. Portugal-Espanha (1919-1930).
diferenças em seus propósitos, acabou por Lisboa: Estampa, 1985.
comprometer-se com determinados símbolos que Hespanha, António Manuel. As vésperas do Leviathan:
a mantiveram unida até a queda da Primeira Instituições e poder político em Portugal - séc.
República em 1926 e a ascensão posterior do XVII. Coimbra: Almedina, 1994.
salazarismo. Estes ícones foram o nacionalismo, Leal, Ernesto Castro. Nação e nacionalismos: a Cruzada
o autoritarismo, o corporativismo e, por fim, o Nacional D. Nuno Álvares Pereira e as Origens do
colonialismo. E foram exatamente estes quatro Estado Novo (1918-1938). Lisboa: Cosmos, 1999.
valores os pilares de sustentação do Estado Novo, António Ferro: Espaço Político e Imaginário Social (1918-
até sua queda em 1974. Ao longo da República 1932). Lisboa: Cosmos, 1994.
Liberal e, posteriormente, durante o próprio Martinho, Francisco Carlos Palomanes. Um tempo
Estado Novo, crescia na oposição o sentimento histórico português sob enfoque brasileiro: bases
de que um mero retorno ao passado era para a compreensão dos antecedentes do Estado
impossível, embora desejável, de se realizar. Ao Novo. In: Brasil e Portugal: 500 Anos de Enlaces
menos para aqueles mais comprometidos com um e Desenlaces. Convergência Lusíada, 17. Número
olhar mítico diante da história portuguesa. A Especial. Rio de Janeiro: Real Gabinete Português
própria legislação social, por exemplo, largamente de Leitura, 2000, p. 139-150.
modificada durante o Estado Novo, expressava O modernismo ibérico de António Ferro. In: [Syn]tesis.
uma diferença significativa em relação ao passado, Cadernos do Centro de Ciências Sociais. Vol. II,
tanto da República Liberal, como da monarquia. n° 2, Rio de Janeiro: UERJ/CCS, 1998, p. 11/17.
Era, portanto, inevitável uma adesão à Mayer, Arno. A força da tradição: a persistência do Antigo Regime
modernidade que se impunha com o século XX. - Europa (1848-1914). SP, Companhia das Letras, 1987.
A questão principal passava a ser, portanto, como Pinto, António Costa.. Os camisas azuis. Ideologia, Elites
esta modernidade poderia se combinar com o e Movimentos Fascistas em Portugal • 1914-1945.
passado português, com suas tradições. Assim, o Lisboa: Estampa, 1994.
resgate dos ícones nacionais, dos grandes feitos Rezola, Maria Inácia. O sindicalismo católico no Estado
do Estado português, como as grandes Novo, 1931-1948. Lisboa: Estampa, 1999.
navegações, a restauração, e de seus personagens, Salazar, António Oliveira. A questão cerealífera. Provas
como d. Nuno Álvares Pereira, d. Sebastião e d. apresentadas para o ingresso como Assistente
Miguel, procuravam resgatar um tempo passado na Universidade de Coimbra. Coimbra, 1916.
quando Portugal era, em nome da fé católica, Soares, Mário. Constituição. In: SERRÃO, Joel (Org).
moderno. E assim, construiu-se uma modernidade Dicionário de história de Portugal e do Brasil. Porto:
profundamente constrangida pela nostalgia. Iniciativas Editoriais, s/d, vol 3, C-D, p. 672-682.

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