You are on page 1of 13

Maio 2017 Revista Adusp

Fraudes e plágios na
ciência: a epidemia, o
tratamento moralizador
e seu fracasso1
Marcos Barbosa de Oliveira
Professor da Faculdade de Educação (FE-USP)2
mbdolive@usp.br

66
Revista Adusp Maio 2017

Os três tipos principais de má conduta na ciência são a fabricação


e a falsificação de dados e o plágio (designados pela sigla FFP). Há
vários outros tipos: auto-plágio, atribuição indevida de autoria (em
artigos com vários autores) etc. A proliferação de desvios éticos que se
observa nas últimas décadas já é frequentemente caracterizada como
uma epidemia. Dada a ineficácia dos tratamentos disciplinares ou
moralizadores, resta, para combater a epidemia, atacar as suas causas.
Ou seja: suprimir ou amenizar as pressões produtivistas

Em dois de seus artigos, publica- observando nas últimas décadas, fre- para não destoar da literatura, se-
dos pela primeira vez respectivamen- quentemente caracterizada como uma rá utilizado também neste artigo.
te em 1942 e 1957, Robert Merton, o epidemia. No que se segue, vou me Mais precisamente, “más condutas”
pai da Sociologia da Ciência, trata da referir a tal proliferação simplesmente designam as violações apenas das
ocorrência de fraudes e outras moda- como “a epidemia”. normas específicas do domínio das
lidades de violação das normas que Antes de justificar esse diagnós- ciências, correspondentes ao ethos
regem as práticas científicas. Sua tese tico, é necessário um esclarecimen- científico conceituado por Merton,
é a de que tais ocorrências são extre- to terminológico. Em fins da déca- não as normas da bioética, válidas
mamente raras: no texto de 1942, ele da de 1970, quando vem à tona nos para toda a sociedade. Os três ti-
menciona “a virtual ausência de frau- Estados Unidos o problema das vio- pos principais de má conduta são a
des nos anais da ciência”; no de 1957, lações das normas da prática cientí- fabricação e a falsificação de dados
sustenta que “os anais da ciência in- fica, o termo usado para designá-las e o plágio (comumente designados
cluem pouquíssimos casos inequívo- era “fraude” (fraud). “Fraude” en- pela sigla FFP). Há vários outros
cos de fraudes” e, referindo-se a plá- tretanto tem conotações éticas mui- tipos, como o auto-plágio, a atribui-
gios, que “o registro histórico mostra to negativas, evoca a ideia de crime, ção indevida de autoria (em artigos
relativamente poucos casos (...) em a ser combatido pela polícia. Houve com vários autores), etc., bem como
que um cientista tenha efetivamente então um consenso na comunida- variedades menos graves de viola-
furtado as ideias de outro”3. Estivesse de científica de que o termo deve- ções das normas, chamadas “prá-
escrevendo nos dias de hoje, Mer- ria ser evitado, para não prejudicar ticas de pesquisa questionáveis”.
ton certamente não poderia fazer tais a imagem pública da ciência. Em “Integridade da pesquisa” (research
afirmações, dada a proliferação de seu lugar, adotou-se o eufemismo integrity) é o termo usado para de-
desvios éticos na ciência que vem se “má conduta” (misconduct) – que, signar a observância das normas.

67
Maio 2017 Revista Adusp
As evidências an L-amino acid oxidase from the tras práticas de pesquisa questio-
que chegam à mídia Snake Bothrops jararaca”, assinado náveis. Em sondagens em que se
Um primeiro indício de que es- pela reitora e mais dez co-autores. perguntava sobre o comportamento
tá em curso uma epidemia de más Em 2009 houve uma denúncia de dos colegas, a fabricação e falsifica-
condutas na ciência são os casos es- plágio e, em seguida, o que é ainda ção de dados teve resposta positiva,
candalosos, amplamente divulgados mais grave, a constatação de que em média, de 14%, e, quanto a ou-
na grande mídia. O mais rumoroso o artigo incorria também no que tras práticas questionáveis, de 72%.
nos últimos tempos foi o do pesqui- pode ser considerado um tipo de O segundo estudo, de Fang, Ste-
sador sul-coreano Hwang Woo-Suk, fabricação de dados, a saber, a atri- en & Casadevall (2012) usa uma
que em 2004 e 2005 ganhou as man- buição de um significado diferente metodologia diferente, baseada na
chetes por dois artigos publicados do verdadeiro a uma imagem — no análise do número de artigos cien-
na revista Science, em que alegava caso, plagiada. Uma Comissão Pro- tíficos despublicados (retracted).
ter tido sucesso na criação de célu- cessante Disciplinar da USP tra- A despublicação pode decorrer da
las-tronco embrionárias humanas a tou do caso, e em 2010 concluiu constatação de alguma forma de
partir de um embrião humano clo- ser procedente a denúncia, porém má conduta na pesquisa, ou então
nado, com base em pesquisas que apenas dois dos co-autores foram de algum erro ou falha não inten-
depois se revelaram fraudulentas. punidos. A reitora afirmou não ter cional, isenta de má fé. O estudo
Um escândalo mais recente, o sido responsável pelas partes do constatou um aumento significativo
da pesquisadora japonesa Haruko artigo que envolviam más condutas. não apenas no número global de
Obokata, também diz respeito a (ADUSP, 2009; Pasqualino, 2011; retratações, mas também na por-
métodos de obtenção de células- FAPESP, 2012) centagem das decorrentes de más
tronco. O método de Obokata, de- Os casos rumorosos são impor- condutas. De acordo com as inves-
nominado STAP (stimulus-triggered tantes não tanto como evidência da tigações dos autores, apenas 21,3%
acquisition of pluripotency), surgiu epidemia mas porque, na medida das despublicações foram devidas a
como revolucionário, por sua sim- em que atingem o grande públi- erros; 67,4% a más condutas, sendo
plicidade: consistia meramente co, afetam o prestígio da ciência e a fabricação ou falsificação de da-
em submeter células adultas a um a confiabilidade do conhecimento dos responsáveis por 43,4%, o au-
banho de ácido. A suposta desco- científico aos olhos da sociedade. toplágio por 14,2% e o plágio por
berta foi divulgada em dois artigos Evidências mais decisivas provêm 9,8%. A porcentagem de artigos
publicados na Nature em janeiro de estudos empíricos, dos quais há despublicados devido a fraudes au-
de 2014, mas logo levantaram-se um grande número. Na impossibi- mentou cerca de 10 vezes de 1975
suspeitas sobre a integridade da lidade de resenhar todos, vou me até a data de realização do estudo.
pesquisa, que foram a seguir con- limitar, também a título de ilustra- Um desdobramento importante
firmadas. Num desdobramento trá- ção, a expor sumariamente dois de- da epidemia é a criação de sistemas
gico, Yoshiki Sasai — orientador de les, dentre os que tiveram maior digitais de detecção de plágios e
Obokata e co-autor dos artigos — repercussão. auto-plágios. Os sistemas consis-
cometeu suicídio no dia 5 de agosto O primeiro é de autoria de D. tem em um programa detector de
do mesmo ano. Fanelli (2009), e consiste numa similaridades entre textos operando
Como terceiro exemplo ilustra- meta-análise de dezoito sondagens sobre uma base de dados composta
tivo, selecionamos um caso muito (surveys). Na média ponderada dos de uma quantidade enorme de arti-
comentado na região de São Pau- resultados das sondagens, 2% dos gos publicados. O sistema mais usa-
lo, por envolver a então reitora da cientistas admitiram ter, pelo me- do pelas editoras de revistas cien-
USP, professora Suely Vilela. Em nos uma vez, fabricado, falsificado tíficas é o CrossCheck, que utiliza
2008 foi publicado o artigo “Anti- ou alterado dados, e cerca de um o programa iThenticate – também
viral and antiparasite properties of terço admitiu uma variedade de ou- utilizado no Turnitin. (Butler, 2010)

68
Revista Adusp Maio 2017
Há também o Déjà Vu, uma base tre duas posições. A primeira — é sustentada pelas alegações de que
de dados formada por pares de tex- que vou denominar moralizadora é relativamente rara a ocorrência
tos com passagens em comum de- — consiste em reconhecer a exis- de más condutas na ciência. E is-
tectadas pelo programa eTBLAST. tência e a gravidade da epidemia, so não por acaso, mas devido aos
Uma sondagem feita com base no promover ou apoiar a tomada de procedimentos de controle — prin-
Déjà Vu identificou 79.300 artigos medidas para combatê-la. As me- cipalmente a revisão por pares —
indexados pela Medline com trechos didas tomadas pelos moralizadores que são parte integrante das prá-
repetidos. Desse conjunto, apenas visando conter a epidemia cons- ticas científicas e, num plano mais
2.100 artigos foram investigados, e tituem o tratamento moralizador, geral, à postura crítica própria da
1.900 despublicados. Mais de 74.000 que envolve duas modalidades de ciência. Sendo assim, não haveria
ainda não foram examinados. (Mar- atuação. Uma delas é de natureza necessidade de mudanças ou, no
ques, 2014, p. 41) jurídico-policial. Consiste na pro- máximo, podem ser aconselháveis
O campo do plágio e do autoplá- mulgação de códigos de integridade alguns ajustes nos procedimentos
gio é marcado por vários problemas da pesquisa, que definem as moda- de controle.
não-resolvidos; crucialmente, quais lidades de más condutas, e estabe- Nos últimos tempos, diante do
devem ser os critérios para a carac- lecem punições para os culpados, acúmulo de evidências da epidemia,
terização desse tipo de má conduta. bem como no estabelecimento, em os negacionistas têm recorrido a um
Um dos problemas mais difíceis é o universidades, institutos de pesqui- outro argumento, o de que tais evi-
que se refere à repetição de trechos sa e agências de fomento, de órgãos dências refletem não um aumento na
de um artigo em outros de mesma e comissões com funções, análogas ocorrência de más condutas, mas sim
autoria, uma vez que em muitos às dos juízes na justiça comum, de a maior atenção dada ao problema, e
casos a repetição se justifica ple- decidir sobre a culpabilidade dos ao consequente aperfeiçoamento dos
namente com base nos valores da acusados e, em casos positivos, es- procedimentos de controle e fiscaliza-
integridade científica, não sendo tipular a pena. A outra modalidade ção. Uma decorrência do argumento,
motivada pelo intuito condenável é a educativa, e envolve palestras, na hipótese de ser válido, é a de que
de inflar o número de publicações seminários, oficinas, cursos, presen- teria ocorrido no passado um número
dos autores. (Akst, 2010) ciais e à distância, etc., com o obje- considerável de más condutas nunca
tivo de incutir nos pesquisadores os detectadas. O argumento tem portan-
As reações à epidemia: valores e normas da integridade. to uma implicação perturbadora, na
comunidade científica, A segunda posição é a posição medida em que lança uma sombra de
Estado e opinião pública dos negacionistas, de vários matizes, dúvida sobre a confiabilidade de todo
Como um todo, a reação à epi- que negam a existência da epide- o corpus do conhecimento científico
demia teve início, desenvolveu-se mia, ou minimizam sua importân- estabelecido nos últimos séculos4.
e continua a se desenvolver, num cia, resistindo às iniciativas dos mo- Ao longo das últimas décadas,
processo marcado pelo conflito en- ralizadores. A posição negacionista a disputa entre as duas posições

O campo do plágio e do autoplágio é marcado por vários problemas não-resolvidos.


Um dos mais difíceis é o que se refere à repetição de trechos de um artigo em outros de
mesma autoria, uma vez que em muitos casos a repetição se justifica plenamente com
base nos valores da integridade científica, não sendo motivada pelo intuito condenável
de inflar o número de publicações dos autores

69
Maio 2017 Revista Adusp

vem se manifestando de várias for- história da ciência como no- existência (mas não a gravidade) do
mas. O problema veio à tona em tas de rodapé, ou se estamos problema, propunha apenas a auto-
primeiro lugar nos Estados Uni- criando situações e incentivos regulação, não havendo entretanto
dos, na virada da década de 1970 nas ciências biomédicas, e em avanços significativos nesse sentido.
para a década de 1980, na estei- toda a Big Science, que torna- Diante do impasse, o Congresso
ra de vários casos escandalosos de rão casos como esses a ponta foi levado a criar órgãos regula-
fraudes, cometidas em instituições de um iceberg. (LaFollette, dores federais. Dois marcos nesse
de grande prestígio. A reação veio 2000, p. 213) processo foram a promulgação, em
principalmente da parte do Estado. 1985, do Health Research Extension
A primeira medida importante to- Durante a década de 1980, o Act, que obrigou as universidades a
mada foram as audiências públicas Congresso promoveu várias outras tomar medidas de combate à epide-
no Congresso, realizadas em 1981, audiências, e desenrolou-se um mia, e a consolidação, em 1992, do
sob a direção do então deputado Al prolongado e intenso debate públi- Office of Research Integrity (ORI),
Gore Jr. Numa intervenção pres- co, envolvendo editoriais em revis- subordinado ao Department of He-
ciente, reveladora de um bom en- tas científicas, mesas-redondas em alth and Human Services.
tendimento das raízes do problema, diversos fóruns, matérias na grande Em outros países, a reação à epi-
disse Gore: mídia etc., alimentado pelo surgi- demia começou bem mais tarde. Na
mento de novos casos rumorosos de Europa, o primeiro episódio mar-
Precisamos descobrir se os má conduta. Na comunidade cien- cante foi a publicação, no ano 2000,
casos recentes são meramen- tífica, prevalecia a posição negacio- do documento Good scientific prac-
te episódios que entrarão na nista que, embora reconhecendo a tice in research and scholarship, pela

70
Revista Adusp Maio 2017

1980s • Questão das más condutas emerge nos Estados Unidos.

1985 • Também nos Estados Unidos, promulgação do Health Research Extension Act.

1993 • Idem, criação do Office of Research Integrity (ORI).

1997 • Criação do Committee on Publication Ethics (COPE).

• Office of Science and Technology Policy dos Estados Unidos: Federal policy on research misconduct.
2000
• European Science Foundation: Good scientific practice in research and scholarship.

2006 • Criação do United Kingdom Research Integrity Office (UKRIO).

• 1st World Conference on Research Integrity (WCRI, Lisboa, 16-19/9).


2007
• OCDE: Best practices for ensuring scientific integrity and preventing misconduct.

• 2nd WCRI. (Cingapura 21-24/7).


• European Science Foundation: Fostering Research Integrity in Europe.
2010
• I Brazilian Meeting on Research Integrity, Science and Publication Ethics (BRISPE, 10, 13, 14, 15,
16/12. Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre).

• European Science Foundation e ALL European Academies: The European code of conduct for
research integrity.
2011 • Fapesp institui o Código de Boas Práticas Científicas.
• CNPq publica o relatório da Comissão de Integridade de Pesquisa, Ética e Integridade na Prática
Científica.

• Universities UK: The concordat to support research integrity.


2012
• II BRISPE (28/5 a 1/6. Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre).

• UK Research Councils: RCUK policy and guidelines on governance of good research conduct.
2013
• 3rd WCRI (Montreal 5-8/5).

2014 • III BRISPE (14-15/8, São Paulo, sede da Fapesp).

2015 • 4th WCRI (Rio de Janeiro, 31/5 a 3/6).

Fundação Europeia de Ciência (na bilização não decorreu de ações do iniciativa de dois órgãos da UFRJ, o
sigla em inglês, ESF). Nos anos se- Estado, nem de pressões da opinião Instituto Alberto Luiz Coimbra de
guintes o movimento começa a glo- pública, mas sim de medidas tomadas Pós-Graduação e Pesquisa de Enge-
balizar-se, e em 2007 tem lugar, em por grupos da própria comunidade nharia (Coppe) e o Instituto de Bio-
Lisboa, a primeira World Conference científica — influenciados, sem dúvi- química Médica (IBqM). O II BRIS-
on Research Integrity (WCRI), orga- da, pelos desenvolvimentos em escala PE teve lugar nas mesmas cidades,
nizada conjuntamente pelo ORI e global. Começou em fins da década em 2012, e o III em São Paulo, na
a ESF. A segunda, terceira e quarta de 2000, na Universidade Federal sede da Fapesp, em 2014.
conferências aconteceram respecti- do Rio de Janeiro (UFRJ). Em 2010 Dissemos que a reação à epi-
vamente em 2010 (Cingapura), 2013 realizou-se no Rio de Janeiro, São demia no Brasil foi assumida por
(Montreal), e 2015 (Rio de Janeiro). Paulo e Porto Alegre, o I Brazilian grupos da comunidade científica
No Brasil — em nítido contras- Meeting on Research Integrity, Science porque, de maneira geral, a postura
te com os Estados Unidos — a mo- and Publication Ethics (BRISPE), por da comunidade tem sido, majorita-

71
Maio 2017 Revista Adusp
riamente, de resistência às medidas impondo nas últimas décadas. “Pro- (colocando entre parênteses o juí-
moralizadoras. Não uma resistência dutivismo” entretanto é um termo zo sobre sua qualidade, ou seja: se
ativa, apoiada em argumentos con- essencialmente crítico, dotado de constitui ou não um produtivismo).
testadores da necessidade de tais forte carga pejorativa. Utilizá-lo en- Apesar de sua plausibilidade, a
medidas, mas uma resistência pas- tão desde o início no estudo do fe- hipótese de uma relação causal en-
siva, um “fazer corpo mole” diante nômeno envolve um pré-julgamento tre o producionismo e a ocorrên-
das pressões. que pode dificultar um debate fran- cia de más condutas tem sido pou-
Concluindo esta seção, apresen- co sobre o problema. quíssimo investigada. Há contudo
tamos um quadro cronológico, cujo Para superar essa dificuldade uma pesquisa muito significativa,
principal objetivo é dar uma ideia propomos a introdução do termo apresentada em Anderson et al.
das dimensões da reação à epidemia, producionismo, a ser utilizado em (2007). A pesquisa fez parte de um
como um sintoma de sua gravidade. dois sentidos, um geral, outro res- estudo de âmbito nacional nos Es-
trito. Considerada abstratamente, a tados Unidos sobre a integridade da
Causas da epidemia: valorização do aumento de produ- pesquisa, financiado pelo Office of
produtivismo e tividade nada tem de condenável: Research Integrity (ORI) e pelos Na-
producionismo em princípio, é sempre bom conse- tional Institutes of Health (NHI). Seu
Em termos abstratos, dada a guir maior produção com igual, ou tema central consiste no impacto
ocorrência de um fenômeno inde- menor uso de recursos. “Producio- da competitividade fomentada pelo
sejável, a estratégia padrão para re- nismo”, no sentido geral, designa producionismo em vários aspectos
solver o problema é a que consiste políticas visando o aumento da pro- das práticas científicas. Foi adotada
em identificar as causas do fenôme- dutividade, com fundamento nesse uma metodologia qualitativa, base-
no, e achar um meio de eliminá-las. princípio. ada em discussões de grupos focais
Eliminando-se as causas, elimina-se O producionismo pode se reali- (focus-groups); mais precisamente,
o efeito. O princípio também vale zar de várias formas; quando se rea- seis sessões de discussão, das quais
para a medicina. Sendo caracte- liza de uma forma inadequada — p. participaram 51 pesquisadores de
rizada uma doença, ou epidemia, ex., por ter consequências nefastas, várias áreas, em início ou meio da
procuram-se as causas, e os trata- não compensadas pela vantagem do carreira. Os resultados da pesquisa
mentos capazes de neutralizá-las. aumento de produtividade — en- constituem evidência de que, em-
A qualquer pessoa minimamente tão constitui um produtivismo. No bora a competição entre cientistas
familiarizada com a vida acadêmica sentido restrito, em que será usado por financiamento, posições e pres-
nos dias de hoje, o aspecto que mais nas considerações a seguir, “pro- tígio seja em geral considerada uma
naturalmente ocorre como causa ducionismo” designa a forma que saudável força motora, ela tem um
da epidemia é o produtivismo e a o producionismo (no sentido geral) lado escuro — uma série de conse-
competição exacerbada que vêm se tem assumido nas últimas décadas quências nefastas. De acordo com

“Produtivismo” é um termo essencialmente crítico, dotado de forte carga pejorativa.


Utilizá-lo desde o início no estudo do fenômeno envolve um pré-julgamento
que pode dificultar um debate franco do problema. Propomos a introdução
do termo “producionismo”, que no seu sentido geral designa políticas visando
aumentar a produtividade; e no sentido restrito designa a forma
que o producionismo (no sentido geral) tem assumido nas últimas décadas

72
Revista Adusp Maio 2017
a análise das discussões, a competi- soa constitui uma barreira que se amigos, os colegas de escola, profes-
ção contribui para “[1] o carreirismo interpõe entre o impulso de cometer sores de todas a disciplinas, e assim
(strategic game-playing) na ciência, a violação de uma norma moral e por diante. Nos diálogos, Sócrates
[2] o declínio do compartilhamento sua realização. No domínio da ciên- intervém alegando que a virtude não
livre e aberto de informações e mé- cia, a causa facilitadora recebe esse pode ser ensinada. Faz isso pressu-
todos, [3] a sabotagem, por parte nome porque provoca a corrosão pondo o modo disciplinar, e argu-
de um cientista, da possibilidade de da consciência moral dos cientistas, mentando que existem professores
uso de seu trabalho por outros, [4] enquanto cientistas. A explicação de geometria, de astronomia etc.,
a interferência nos processos de re- de como isso acontece requer uma mas não professores de virtude. Em
visão por pares, [5] a deformação de exposição mais longa, que remete, sua réplica, diz Protágoras:
relacionamentos e [6] as condutas de por um lado, à faceta educativa do
pesquisa descuidadas ou questioná- tratamento moralizador, por outro Desde que ela [a criança]
veis”. (Anderson et al. 2007, p. 443) lado a uma questão filosófica muito compreende o que se lhe diz,
Admitido o papel causal do pro- antiga, discutida em dois diálogos de a mãe, a ama, o preceptor e o
ducionismo na ocorrência de más Platão, o Protágoras e o Mênon. próprio pai conjugam esforços
condutas, convém examinar as ma- A questão em pauta — “Pode para que o menino se desen-
neiras como se dá essa causalidade. a virtude ser ensinada?” — é co- volva da melhor maneira pos-
De acordo com a análise que pro- locada de uma maneira muito di- sível. Toda palavra, todo ato
pomos, as pressões producionistas reta logo na abertura do Mênon, lhes enseja oportunidade para
fomentam as más condutas de duas mas as respostas mais relevantes, ensinar-lhe o que é justo ou o
maneiras, a que vamos nos refe- no presente contexto, são expostas que é injusto, o que é honesto
rir com os termos causa indutora e por Protágoras, no diálogo que leva e o que é vergonhoso, o que é
causa facilitadora. seu nome. Sem pretender acompa- santo e o que é ímpio, o que
A causa indutora — que induz o nhar o raciocínio do sofista, vamos pode ou o que não pode ser
pesquisador a incorrer em más con- considerar, simplificadamente, duas feito. [...] Depois, o enviam
dutas — é bastante fácil de enten- respostas à pergunta, ambas afir- para a escola e recomendam
der. Dada a pressão producionis- mativas, mas diferindo quanto à aos professores que cuidem
ta, especialmente pela exacerbação maneira de ensinar a virtude. A pri- com mais rigor dos costumes
da competitividade que envolve, e meira sustenta que a virtude pode do menino do que do apren-
por outro lado a aspiração de su- ser ensinada do mesmo modo como dizado das letras e da cítara.
bir — ou mesmo, em muitos casos, se ensinam os conhecimentos de (Platão, 1970, 325c-d, p. 244)
apenas permanecer — na carreira, áreas do saber, p. ex. a geometria,
não é de surpreender que pesquisa- ou a astronomia. Vamos chamar es- Concluindo o argumento, Protá-
dores recorram ao atalho das más se modo pedagogia disciplinar. goras sustenta que Sócrates não per-
condutas, mesmo correndo o risco A segunda resposta, defendida cebe a existência de professores de
de serem apanhados. A deliberação por Protágoras, corresponde à pe- virtude porque todo o mundo o é.
assume o caráter de uma análise de dagogia formativa. Diferentemente No que se refere à ciência, a pri-
custo/benefício: uma comparação do que acontece na disciplinar, na meira tese é a de que, com as devidas
das consequências negativas de ser pedagogia formativa a tarefa de en- adaptações, a caracterização da peda-
apanhado, moduladas pela proba- sinar cabe não a um professor es- gogia formativa feita por Protágoras
bilidade de isso acontecer, com o pecializado na matéria, mas a todas aplica-se perfeitamente ao processo
esperado avanço na carreira. as pessoas com que um indivíduo tradicional de formação de cientistas,
Num plano mais geral, a consci- interage ao longo de sua formação, no que se refere ao desenvolvimento
ência moral — ou, em termos freu- começando com os membros da fa- de sua consciência moral. Em Olivei-
dianos, o superego — de uma pes- mília, na primeira infância, depois os ra (2014) tratei extensamente desse

73
Maio 2017 Revista Adusp
processo, entendendo o desenvolvi- seja “treinamento” (training), em vez Caráter sintomático do
mento da consciência moral como a de “educação”, ou “formação”. tratamento moralizador
internalização das normas do ethos Ainda sobre o tópico em pauta, Mencionamos acima a estratégia
científico mertoniano, e procurando convém observar que nos Estados padrão para evitar a ocorrência de
mostrar, com base em ideias de Ha- Unidos, tanto os National Institutes of um fenômeno indesejável, que con-
gstrom (1965), o papel crucial nele Health (desde 1990) quanto a Natio- siste em identificar e neutralizar su-
desempenhado pela dádiva enquanto nal Science Foundation (desde 2010) as causas. Na medicina a estratégia
princípio organizador da ciência. Na exigem a realização de programas de nem sempre é viável, pois muitas
terminologia aqui adotada, podemos treinamento em integridade da pes- vezes não se consegue descobrir as
dizer que, para Merton e Hagstrom, quisa como condição formal para a causas de uma doença ou epide-
o desenvolvimento da consciência concessão de bolsas e verbas para pes- mia ou, feita a descoberta, não se
moral dos cientistas se dá pela peda- quisas. Tal determinação é a principal encontram meios de neutralizá-las.
gogia formativa. causa do extraordinário desenvolvi- Nesses casos, a alternativa é atacar
A componente educativa do tra- mento, nos últimos tempos, do apara- os sintomas, procurando minorar os
tamento moralizador, por sua vez, to voltado para a componente educa- sofrimentos que provocam nos pa-
segue predominantemente a peda- tiva do tratamento, naquele país. cientes. Trata-se de um “Plano B”,
gogia disciplinar. Envolve cursos, Aceita a existência da epidemia — o chamado tratamento sintomático.
palestras, oficinas, etc., muito seme- isto é, a tese segundo a qual em certo Na literatura sobre a integridade
lhantes, institucionalmente, aos uti- momento histórico, ao encerrar-se a da pesquisa, há pouquíssimas mani-
lizados no ensino de disciplinas. Em década de 1970 e iniciar-se a de 1980, festações de interesse pelas causas
muitos casos, os condutores dessas as más condutas na ciência come- da epidemia. Dada sua amplidão, um
atividades tornam-se especialistas çaram a proliferar, sendo anterior- exame exaustivo dessa literatura é
na matéria, professores de integrida- mente um fenômeno relativamente praticamente inviável. Para contornar
de na pesquisa (em outras palavras, raro — é razoável inferir que a peda- tal problema, adotamos a estratégia
de virtude). Nos Estados Unidos, gogia formativa era eficaz, promovia de concentrar o foco nos documentos
já está consolidada a profissão — de fato a internalização das normas, oficiais, ou semi-oficiais, represen-
ou, pelo menos, o cargo — de Re- mantendo baixa a ocorrência de más tativos da reação do establishment
search Integrity Officer (RIO). Outra condutas. Deste ponto de vista, a pe- científico à epidemia. A lista de do-
característica típica da pedagogia dagogia disciplinar surge como uma cumentos selecionados para exame
disciplinar é a utilização de manuais reação ao solapamento da formativa. consta do Apêndice deste trabalho.
(textbooks) de integridade na pesqui- A seguir mostraremos — como parte Em todo esse conjunto de textos,
sa (p. ex. Shamoo & Resnick, 2009; de um questionamento do tratamen- encontra-se apenas uma menção às
D’Angelo, 2012; Macrina, 2014). to moralizador como um todo — que causas da epidemia. Trata-se de uma
Também é significativo que o termo a pedagogia disciplinar não está se passagem do documento da Europe-
usado para designar tais atividades revelando eficaz. an Science Foundation (2000, p.4)

Não resta dúvida de que o tratamento moralizador da epidemia de más condutas


na ciência não passa de sintomático. A relutância em enfrentar o problema do
produtivismo como causa da epidemia deve-se, a nosso ver, ao conflito
que adviria com elementos do ideário neoliberal, incorporados
às novas formas de administração das atividades científicas

74
Revista Adusp Maio 2017

em que se constata o impacto do do ideário neoliberal, incorporados to moralizador, não há indícios de


produtivismo enquanto causa in- às novas formas de administração que a epidemia esteja regredindo,
dutora das más condutas. Apesar das atividades científicas. antes pelo contrário. Levando em
dessa constatação, entretanto, não conta que vem sendo aplicado há
se encontra no documento propos- Ineficácia, custo, décadas, particularmente nos Es-
ta ou sugestão alguma de atacar as judicialização tados Unidos, as pesquisas mais
causas como estratégia para conter Ser sintomático não é suficien- recentes que comprovam a epide-
a epidemia. O mesmo vale, natural- te para que um tratamento seja mia constituem também evidên-
mente, para os documentos em que desaconselhável. Na medicina, em cias do fracasso do tratamento. A
a constatação não figura. Não resta muitos casos, é o melhor que se própria intensificação das medidas
dúvida, portanto, que o tratamento pode fazer. O tratamento morali- moralizadoras, bem como a frequ-
moralizador não passa de sintomáti- zador em pauta, entretanto, tem ência crescente de realização de
co. A relutância em enfrentar o pro- pelo menos três outras deficiên- congressos e similares, apontam na
blema do produtivismo como causa cias. A mais séria, naturalmente, é mesma direção.
da epidemia deve-se, a nosso ver, ao sua ineficácia. Apesar de todos os Para reforçar essa tese, vale a
conflito que adviria com elementos esforços e iniciativas do movimen- pena mencionar a avaliação de N.

75
Maio 2017 Revista Adusp
Steneck, um dos principais líderes Um outro defeito do tratamento ação prevalecente antes do advento
mundiais do movimento moraliza- moralizador é seu custo. A ques- da epidemia. No que se refere à di-
dor, com mais de trinta anos de- tão é importante o suficiente para mensão educativa, o contraste se dá
dicados ao problema. Num artigo motivar estudos visando estimar os entre a pedagogia disciplinar e a for-
recente, ao tratar da componente recursos mobilizados, uns referentes mativa. Nesta, todos os fatores que
educativa do tratamento, diz ele: à componente jurídico-policial de contribuem para o desenvolvimento
atuação, outros à educativa, e outros da consciência moral dos cientistas,
Apesar desses desenvolvimen- simultaneamente às duas compo- enquanto cientistas, são tão intima-
tos encorajadores, o futuro do nentes. Entre os dessa última cate- mente ligados à sua formação como
treinamento em conduta res- goria, encontram-se (principalmente um todo que é praticamente impos-
ponsável na pesquisa está lon- nos Estados Unidos, mas também na sível separá-los, e fazer uma estima-
ge de estar assegurado. Os es- Europa) os salários dos Research In- tiva de seu custo. Quanto aos outros
tudos de efetividade foram até tegrity Officers (RIOs), cujo trabalho tipos de custos, sendo a frequên-
agora majoritariamente incon- diz respeito às duas modalidades. cia de más condutas muito menor,
clusivos. Os estudantes res- O mesmo vale, de maneira geral, eram também proporcionalmente
pondem favoravelmente e po- para os congressos, seminários, e menores as despesas na dimensão
dem desenvolver habilidades congêneres. Quanto às atividades jurídico-policial e os prejuízos cau-
tais como resolução racional educativas, há que se considerar o sados pelas más condutas. Com um
de problemas, mas impactos a tempo de trabalho dos professores e pouco de exagero, pode-se afirmar
longo prazo no comportamen- funcionários que a elas se dedicam, que, no período anterior à eclosão
to não foram demonstrados. mesmo quando não remunerados da epidemia, a maneira de lidar com
(Steneck, 2013, p. 552) especificamente por essa dedicação, o problema das más condutas tinha
os recursos empregados na elabora- um custo nulo. No que se refere aos
E, numa outra passagem do arti- ção de manuais e outros materiais custos, portanto, o tratamento mo-
go, fazendo uma avaliação mais ge- didáticos, as despesas com instala- ralizador fica também em clara des-
ral da mobilização da comunidade ções e equipamentos etc. vantagem na comparação com as
científica: Para dar uma ideia dos valores práticas tradicionais.
envolvidos, convém citar os resul- Diante da necessidade percebida
Más condutas na pesquisa per- tados de algumas investigações. Mi- de controlar as práticas de pesquisa
manecem um problema não chalek et al. (2010), com base num de modo a evitar as más condutas, a
resolvido apesar de 30 ou mais estudo de caso, estimam em US$ comunidade científica — nisso não
anos de esforços locais, nacio- 110 milhões o custo de 527 casos diferindo de outras associações pro-
nais, e globais para reduzi-las informados ao ORI em um ano. fissionais — tem marcada preferên-
ou eliminá-las. Para cada ca- Gammon & Franzini (2013), con- cia pela autorregulação, ou autocon-
so confirmado de sério mau siderando 17 casos de má conduta trole. O ideal para ela é que a for-
comportamento ou má condu- registrados no ORI no período de mulação dos códigos de integridade,
ta, 10 ou mais podem existir, 2000 a 2005, chegaram a um va- as investigações dos casos suspeitos,
além de muitas ocorrências de lor médio de US$ 170.000. Numa a imposição de punições etc. fiquem
práticas pouco profissionais de outra amostragem, de 149 artigos, sob sua inteira responsabilidade, não
menor gravidade. Por baixo da também com base nos dados do envolvendo a justiça comum.
superfície dos casos visíveis, a ORI, a média calculada foi de US$ Não obstante, observa-se na li-
estrutura subjacente que apoia 390.000. (Stern et al., 2014) teratura mais recente certo enfra-
a conduta responsável na pes- Para completar essas observa- quecimento da reivindicação de au-
quisa tem falhas significativas. ções, convém comparar os custos do tocontrole. A novidade é o apareci-
(Steneck, 2013, p. 552) tratamento moralizador com a situ- mento de vozes, umas mais, outras

76
Revista Adusp Maio 2017
menos diretamente representativas pesquisa provenientes de fundos pú- máximo que posso fazer é remeter
da comunidade científica que, mo- blicos, a cassação de títulos de mes- o leitor ao artigo mencionado aci-
tivadas pelo fracasso do tratamento trado, doutorado, etc. Obviamente, ma: Oliveira (2014). Nesse ensaio,
moralizador, defendem o recurso à penas de prisão só podem ser impos- exponho um contraste entre a forma
justiça comum, ou seja, a judiciali- tas pela justiça comum. A frequência mercadoria e a forma dádiva como
zação, para lidar com o problema. cada vez maior de casos, como vem princípios organizadores da ciên-
Uma das intervenções mais signifi- ocorrendo, em que o pesquisador cia, bem como entre as modalidades
cativas nessa linha foi o editorial da condenado por má conduta vai para a de avaliação próprias de cada uma.
revista Nature (2013), provocativa- cadeia é, portanto, clara evidência de Na forma mercadoria (que vem se
mente intitulado “Call the cops”. judicialização. (Maslen, 2013; Marcus impondo na ciência como faceta
Não importando a posição, pró & Oransky, 2014; Tuffani, 2014) do processo de ascensão do neoli-
ou contra, que se adote nessa dispu- beralismo), a avaliação é predomi-
ta, o fato é que não está ao alcance Conclusão: nantemente quantitativa (enquanto
da comunidade científica impedir a em busca da sensatez reflexo da natureza essencialmente
passagem de processos para a justiça Dado o fracasso, e demais ina- quantitativa da mercadoria), e cons-
comum, por iniciativa ou dos pesqui- dequações do tratamento moraliza- titui a peça-chave do modo produti-
sadores investigados, ou de promo- dor sintomático, não havendo uma vista de administração. O combate
tores públicos. E nos últimos tempos terceira alternativa, só resta, para ao produtivismo requer portanto o
tem nitidamente aumentado o nú- combater a epidemia, um tratamen- desenvolvimento e promoção de no-
mero de vezes em que isso acontece. to com foco nas causas. Ou seja, em vas modalidades de avaliação. Nas
No âmbito do autocontrole, são limi- vista do exposto, um tratamento vi- seções finais do artigo proponho
tados os tipos de punição aplicáveis a sando idealmente suprimir ou, mais um esquema conceitual como fun-
perpetradores de má condutas, uma realisticamente, amenizar progres- damento para a transição do quan-
vez que incluem apenas penalidades sivamente as pressões produtivistas. titativo para o qualitativo na avalia-
administrativas, como a demissão da Mas quais seriam os princípios nor- ção, e sugiro algumas balizas para o
universidade ou instituto de pesqui- teadores dessa estratégia? movimento em prol de formas mais
sa em que o pesquisador trabalha, a A limitação do espaço me impe- sensatas de organização das práticas
proibição de receber novos auxílios à de de tratar dessa questão aqui. O acadêmicas.

Apêndice: lista de documentos oficiais e semioficiais representativos da reação à epidemia


de más condutas na ciência
• Office of Science and Technology Policy: Federal policy on research misconduct. OSTP 2000.
• European Science Foundation Policy Briefing: Good Scientific Practice in Research and Scholarship. European Science
Foundation 2000.
• OECD / Global Science Forum: Best Practices for Ensuring Scientific Integrity and Preventing Misconduct. OECD 2007.
• N. Steneck: ORI Introduction to the responsible conduct of research. Revised edition. Steneck 2007.
• 1st WCRI (World Conference on Research Integrity): Final report to ESF and ORI. 1st WCRI 2007.
• 2nd WCRI: Singapore Statement on Research Integrity. 2nd WCRI 2010.
• European Science Foundation: Fostering Research Integrity in Europe. European Science Foundation 2010.
• I BRISPE (Brazilian Meeting on Research Integrity, Science and Publication Ethics): Final report. I BRISPE 2011.
• II BRISPE: Joint statement on research integrity. II BRISPE 2012.
• Universities UK: Concordat to support research integrity. Universities UK 2012.
• Research Councils United Kingdom: RCUK policy and guidelines on governance of good research conduct. RCUK 2013.
• 3rd WCRI: Montreal statement on research integrity in cross-boundary research collaborations. 3rd WCRI 2013.

77
Maio 2017 Revista Adusp

Notas
1 Este artigo é uma versão resumida e adaptada de “A epidemia de más condutas na ciência: o fracasso do tratamento
moralizador”, publicado na revista Scientiae Studia (Oliveira, 2015).
2 Aposentado. Professor-colaborador do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas (FFLCH-USP). Membro do Conselho Editorial da Revista Adusp.
3 Cf. Merton, 1973a, p. 276; 1973b, p. 309 e 312.
4 A nosso ver, não foi o fortalecimento da fiscalização que levou ao aumento no número de ocorrências detectadas:
foi o aumento, indistintamente percebido, no número real de ocorrências, que levou ao fortalecimento da fiscalização.
De acordo com essa interpretação, o aumento no número de ocorrências detectadas reflete tanto o fortalecimento da
fiscalização quanto o aumento no número real de ocorrências.

Referências bibliográficas
Adusp. Denúncia de plágio contra grupo de pesquisa da reitora. Informativo Adusp 296, p. 3, 3/11/2009.
Akst, Jef. When is self-plagiarism ok? The Scientist, 9/9/2010.
Anderson, M. S. et al. The perverse effects of competition on scientists work and relationships. Science and Engineering Ethics 13, 2007.
Butler, D. Journals step up plagiarism policing. Nature 466(167), 5/7/2010.
D’Angelo, J. Ethics in science: ethical misconduct in scientific research. Boca Raton (Fl): CRC Press, 2012.
Fanelli, D. How many scientists fabricate and falsify research? A systematic review and meta-analysis of survey data. PLoS ONE 4(5), 2009.
Fang, F. C.; Steen, R. G. & Casadevall, A. Misconduct accounts for the majority of retracted scientific publications. PNAS, 109 (42), 2012.
Fapesp. Processo 09/343, 2012. Disponível em: <http://www.fapesp.br/8576>. Acesso em 9 Dez. 2014.
Gammon, E. & Franzini, L. Research conduct oversight: defining case costs. Journal of Health Care Finance, 40, 2013.
Hagstrom, W. O. The scientific community. Nova York: Basic Books, 1965.
LaFollette, M. C. The evolution of the “scientific misconduct” issue: an historical overview. Proceedings of the Society for Experimental Biology and
Medicine 224(4), 2000.
Macrina, F. L. Scientific integrity. Washington: ASM Press, 2014.
Marcus, A. & Oransky, I. Commit fraud, go to jail? The case for criminalising scientific conduct. Lab Times 1, 2014.
Marques, F. Do compromisso à ação. Pesquisa FAPESP 223, 2014.
Maslen, G. Scientists sent to prison for fraudulent conduct. University World News, 269, 2013.
Merton, R. K. The normative structure of science. In Merton, The sociology of science: theoretical and empirical investigations. Chicago: University
of Chicago Press, 1973a.
Merton, R. K. Priorities in scientific discovery. In Merton, The sociology of science: theoretical and empirical investigations. Chicago: University of
Chicago Press, 1973b.
Michalek, A. M. et al. The costs and underappreciated consequences of research misconduct: a case study. PLoS Medicine (7)8, 2010.
Nature. Editorial. Call the cops. Nature (584)7478, 5/12/2013.
Oliveira, M. B. A dádiva como princípio organizador da ciência. Estudos Avançados, 28(82), 2014.
Oliveira, M. B. A epidemia de más condutas na ciência: o fracasso do tratamento moralizador. Scientiae Studia 13(4), 2015.
Pasqualino, B. Exoneração de professor reaviva polêmica na USP. Revista Adusp, nº 50, junho 2011.
Platão. Protágoras. In Platão, Diálogos. São Paulo: Melhoramentos, 1970.
Shamoo, A. E. & Resnick, D. B. Responsible conduct of research. Nova York: Oxford University Press, 2009.
Steneck, N. Global research integrity training. Science 340(6133), 2013.
Stern, A. M. et al. Financial costs and personal consequences of research misconduct resulting in retracted publications. eLife, 2014.
Tuffani, M. EUA prendem cientista que admitiu fraude em pesquisa. Folha de S. Paulo, p. C7, 25/6/2014.

78