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A CRISE NO SISTEMA PENITENCIÁRIO DO PAÍS QUE NÃO APRENDE

PRENDER

José Erigutemberg Meneses de Lima


Advogado Criminalista

Os dados do levantamento nacional de informações penitenciárias referentes à


população carcerária do Brasil divulgados pelo Infopen cotejados com informações do
Centro Internacional para Estudos Prisionais1 sobre os índices de outros países apontam
o Brasil ocupa a quarta posição entre os dez países com maior população carcerária do
mundo. O México, a sétima e os Estados Unidos destacam-se no top do ranking.2
Os dados revelam ainda que em números absolutos, o Brasil superou a marca de
600.000 presos, atrás apenas da Rússia, China e Estados Unidos 3. Quando se compara o
número de presos com o total da população, o Brasil também está em quarto lugar, atrás
da Tailândia (3º), Rússia (2º) e Estados Unidos (1º). No decênio entre 2004 e 2014, a
população carcerária brasileira aumentou 80% em números absolutos, saindo de pouco
mais de trezentos e trinta mil presos para mais de seiscentos mil. O Brasil tinha
aproximadamente trezentos presos para cada grupo de cem mil habitantes e tomando-se
o índice da taxa de encarceramento o crescimento do número de presos por grupo de
cem mil habitantes, entre 2004 e 2014, aumentou 61,8%. 4
O marco inicial do surto de superpopulação carcerária surgiu com nitidez, nos
anos 90, com a ascensão da ideologia da Tolerância Zero, movimento conservador
utilizado no enfrentamento da criminalidade em Nova York, durante o mandato do
prefeito Rudolph Giuliani. 5
Segundo a teoria a reconquista do espaço público e a disseminação da sensação
de insegurança passaria pela adoção de respostas rápidas e eficazes para banir a
criminalidade a partir da intolerância aos pequenos delitos dos quais derivavam os
demais modos da criminalidade.6 Este movimento, que ao lado do Direito Penal do
Inimigo e do Movimento de Lei e Ordem foi uma das maneiras utilizadas para
incrementar a punição está baseado no Darwinismo Social, 7 teoria que prega a ideia de
que os indivíduos que não se encaixarem na sociedade de consumo são os responsáveis
pela própria desgraça e que o estado deles não deve cuidar, apenas como móveis sem
uso abandoná-los em depósitos entregues à própria indigência.
1
Disponível em: http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:wY4Iq_de-
CQJ:www.ufjf.br/ladem/2015/06/24/brasil-tem-4a-maior-populacao-carceraria-do-mundo-diz-estudo-do-
ministerio-da-justica/+&cd=4&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br. Acesso em: 31 dez. 2015.
2
Disponível em: http://www.ufjf.br/ladem/2015/06/24/brasil-tem-4a-maior-populacao-carceraria-do-
mundo-diz-estudo-do-ministerio-da-justica/. Acesso em: 31 dez. 2015.
3
CORREIO BRASILIENSE. DF tem uma das piores taxas de encarceramento do país, diz estudo
O país tem 375.892 vagas no sistema prisional, no entanto, há 607.700 presos. Em números absolutos, o
Brasil alcançou a marca de 607.700 presos, atrás apenas da Rússia (673.800), China (1,6 milhão) e
Estados Unidos (2,2 milhões).
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2015/06/23/internas_polbraeco,487650/brasil-
tem-a-quarta-maior-populacao-carceraria-do-mundo-diz-estudo.shtml
4
Ministério da Justiça. Dados do Infopen.
5
WENDEL, Travis; CURT, Ric. TOLERÂNCIA ZERO – A MÁ INTERPRETAÇÃO DOS
RESULTADOS. Horizontes Antropológicos. , Porto Alegre, ano 8, n. 18, p. 267-278, dezembro de 2002.
6
WACQUANT, Loïc. As prisões da miséria. Trad. André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
7
O darwinismo social na concepção de Célia Maria Marinho de Azevedo ingressou simultaneamente nas
sociedades brasileira e americana através da difusão das ideias de Herbert Spencer, o qual sistematizou as
implicações do evolucionismo de Charles Darwin para além da biologia. AZEVEDO. Célia Maria
Marinho de. Abolicionismo: Estados Unidos e Brasil, uma história comparada (século XIX). São Paulo>
Annablume, 2003.
A guerra contra as drogas constituiu o slogan da política criminal
neoconservadora que equiparou o consumidor ao traficante, taxando todos de
criminosos. Em 1986, os Estados Unidos aprovaram uma lei que aumentou em 100% as
condenações por posse de crack. A posse de cinco gramas de crack já significava cinco
anos de cadeia. Em 1980, cinco mil pessoas estavam presas por posse de drogas. Em
2009 já passavam de cem mil por esse motivo. No total, os EUA contam hoje com mais
de 2 milhões e 200 mil presos.8
No Brasil que adota as diretrizes da política criminal americana as prisões por
tráfico de drogas tornaram-se comum e atualmente 27% das pessoas presas respondem
por tráfico de substâncias entorpecentes, seguindo-se o crime de roubo. A curiosidade
revelada pelo estudo está em que “o alvo da criminalização é muito claro: jovens entre
dezoito e vinte e nove anos, negros, com escolaridade até o primeiro grau e sem
antecedentes criminais” 9 e que a incidência do tráfico de drogas é diferente entre
homens e mulheres. Entre os homens, 25% dos homens foram presos por tráfico,
enquanto entre as mulheres, o percentual sobe para 63%.
Engajado na revisão da política criminal, o presidente Barack Obama “baseado”
no bom senso, parece querer o fim da guerra às drogas. Em agosto de 2010, cerca de
doze mil presos foram liberados, em razão de leis mais brandas. Em 2012, a Casa
Branca apresentou um Plano Nacional de Drogas que, pela primeira vez, priorizou o
tratamento e a prevenção e jogou para segundo plano a prisão e a condenação dos
consumidores de drogas. A mudança radical proporcionará à receita americana
economia de bilhões de dólares que passarão a ser gastos com a recuperação dos
drogados, que passarão a não mais serem vistos como criminosos.10
Para americanos e mexicanos, a dosagem do medicamento vem parecendo forte
demais provocando como efeitos colaterais o aumento da violência, da criminalidade e
o previsível inchaço na população carcerária. Ao contrário desses países que
reconhecem a ineficácia da política criminal baseada na tolerância zero e marcada pela
agenda midiática, o Brasil insiste na produção e aplicação destas leis, por imposição da
ala conservadora de doutrinadores, juristas e tribunais.
O Departamento de Justiça dos Estados Unidos se prepara para libertar cerca de
seis detentos de presídios federais como parte de uma medida para reduzir a
superlotação e as penas elevadas dadas a traficantes de drogas entre 1980 e 2000. 11
Com a medida o governo pretende conceder liberdade a um número elevado de presos
que serão encaminhados para o regime semiaberto.
Para além do muro fronteiriço que separa os Estados Unidos do México, e
impede a imigração ilegal e o tráfico de drogas, o México, país que convive desde a
muitos anos com alarmantes índices de traficância e consumo de drogas, passará a
utilizar a não violência produzida por parte do Estado como forma de combater a
violência e a criminalidade. Apoia-se a iniciativa, na percepção de que não se pode
pensar em soluções para a violência e criminalidade com forças policiais mal

8
GOMES, Luiz Flávio. Drogas: eua perderam mais uma guerra. Disponível em:
http://professorlfg.jusbrasil.com.br/artigos/121928677/drogas-eua-perderam-mais-uma-guerra. Acesso
em: 31 dez. 2015.
9
BBC Brasil. Porte de drogas para uso pessoal deve ser crime? Conheça argumentos a favor e contra.
Disponível em:
<ttp://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/08/150819_stf_julgamento_porte_drogas_rb>. Acesso em:
31 dez. 2015.
10
Disponível em: http://institutoavantebrasil.com.br/drogas-eua-perderam-mais-uma-guerra/. Acesso em:
31 dez. 2015.
11
Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/10/1690964-eua-deverao-soltar-6000-
presos-apos-reducao-de-pena-para-crimes-de-drogas.shtml>. Acesso em: 31 dez. 2015.
preparadas, mal remuneradas e administradas por cúpulas infestada por autoridades
corruptas. Não se descreve aqui situação peculiar ao México. Descreve-se a realidade
brasileira que muito se assemelha à mexicana.
A partir de 2016, pelas inovações introduzidas no novo sistema de justiça penal
adotado pelo México, os suspeitos por crimes de homicídio, roubo ou furto simples
responderão ao processo em liberdade, sem se submeterem à prática abusiva das prisões
cautelares.
Estudo realizado pelo Instituto de Processo Penal, no México revela que 42% da
população carcerária são pessoas presas arbitrariamente. 12 Este número é bem próximo
do que reflete a situação das prisões cautelares brasileiras. Aqui, onde a prisão de
acordo com a Constituição Federal deverá ser exceção e na prática é a regra, 41% do
total de pessoas privadas de liberdade estão presas em situação cautelar aguardando
julgamento. 13 Nesse sentido, grupo de trabalho enviado pela Organização das Nações
Unidas (ONU), no ano de 2013 para verificar a situação das prisões arbitrárias no
Brasil, detectou que de uma população penitenciaria de aproximadamente mais de meio
milhão de pessoas, uma das maiores do mundo, duzentos e dezessete mil estavam presas
preventivamente aguardando julgamento. 14
Dois países de situações socioeconômicas e criminais similares e de soluções tão
dispares. O novo sistema penal mexicano propõe-se a eliminar as práticas prejudiciais
que comprometem o sistema jurídico penal, garantindo aos presos o devido processo
legal, o acesso à justiça, a proteção às vítimas, a presunção de inocência e as reparações
por prisões arbitrárias. Os crimes a serem apreciados sob a norma estatuída na nova lei
são todos os de menor potencial ofensivo como as contravenções, incluindo-se mais o
furto e roubo simples, homicídio culposo, ameaças, discriminação, abandono pessoas,
lesões corporais, furto, danos à propriedade, aborto, entre outros. São mais de mais de
quatrocentos e vinte infrações não consideradas graves que poderão ser punidas de
acordo com os critérios da legislação mais benevolente. 15
Não se pense que o novo sistema penal mexicano venha unicamente em
benefício do estado com a redução da lotação carcerária, nem para proteger corruptos e
organizações criminosas. O novo sistema de justiça ignora tanto os crimes praticados
por integrantes de organizações criminosas quanto os crimes de colarinho branco. Tais
condutas permanecerão julgadas pelas normas do antigo sistema processual-penal.
Do lado de cá da linha do Equador, mesmo que o percurso de criminalização do
tráfico e do consumo de drogas não tenha produzido qualquer resultado positivo, tendo
pelo contrário, elevado a taxa de superlotação de presídios brasileiros, a exorbitância
dos números não faz a cabeça das autoridades. Mesmo que se saiba estar o aumento da
taxa de encarceramento no Brasil indo na contramão da tendência dos países que
possuem as maiores populações carcerárias do mundo. A taxa brasileira aumentou 33%
entre 2008 e 2013, a dos Estados Unidos caiu 8%, a da China caiu 9% e a da Rússia,
24%. 16 Ao invés de defenderem também a reestruturação da pena de prisão, no sentido

12
Disponível em: https://es-us.noticias.yahoo.com/adi%C3%B3s-prisi%C3%B3n-preventiva-m
%C3%A9xico-060000585.html. Acesso em: 31 dez. 2015.
13
Ministério da Justiça. DEPEN. Departamento Penitenciário Nacional. Levantamento Nacional
De informações penitenciárias INFOPEN. Junho de 2014
14
ONU, Grupo de Trabajo sobre Detenciones Arbitrarias, Comunicado de prensa sobre conclusión de la
visita a Brasil, 28 de marzo de 2013, disponible en inglés) en:
http://www.ohchr.org/EN/NewsEvents/Pages/DisplayNews.aspx?NewsID=13197&LangID=E
15
VELAZQUE, Rogélio. Adiós a la prisión preventiva en México [El Universal].29 de diciembre de 2015
Disponivel em: http://www.eluniversal.com.mx/articulo/periodismo-de-investigacion/2015/12/29/adios-
la-prision-preventiva-en-mexico
16
Ministério da Justiça. DEPEN. Departamento Penitenciário Nacional. Levantamento Nacional
de minimizar o efeito negativo do cárcere, os brasileiros lutam pela maximização do
tempo da pena privativa de liberdade.
Oxalá que os formadores de opinião e os legisladores brasileiros, em 2016,
fumem o “baseado” norte americano e que a fumaça siga em direção ao Brasil que pelo
menos nesse ponto poderia adotar o slogan tão prejudicial no campo econômico e social
“o que é bom para os Estados Unidos é para o Brasil”.

De informações penitenciárias INFOPEN. Junho de 2014