Dayanna da Silva Nunes

MAYSA:
Análise da construção do mito Maysa nas revistas O Cruzeiro e Manchete

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2010

Dayanna da Silva Nunes

MAYSA:
Análise da construção do mito Maysa nas revistas O Cruzeiro e Manchete

Monografia apresentada ao curso de Jornalismo do Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Jornalismo. Orientador(a): Prof. Maria Cristina Leite Peixoto

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2010

Agradeço a DEUS por ter dado está oportunidade a mim. À minha orientadora Maria Cristina Leite Peixoto, pela sua paciência, pelas inúmeras ajudas, correções, respeito e incentivos. À minha mãe Maria e ao meu Pai Claudinei que mesmo diante das dificuldades me incentivaram, apoiaram e orientaram. Às minhas amigas pela paciência. E em especial à Daisy e à Euza, pelo apoio e companheirismo durante quatros anos. Agradeço a todos por tudo.

RESUMO

A presente monografia “ANÁLISE DA CONSTRUÇÃO DO MITO MAYSA NAS REVISTAS O CRUZEIRO E MANCHETE” procura mostrar como a imprensa construiu o mito Maysa, nas décadas de 50 a 70 do século passado, nas revistas consideradas. O estudo foi desenvolvido mediante pesquisa bibliográfica em livros e artigos e análise de reportagens e matérias. A cantora Maysa Matarazzo Monjardim foi uma das cantoras de maior sucesso e polêmica (na mídia) no Brasil.

Maysa foi uma pessoa que não tinha medo de expor os seus pensamentos, medos, verdades e opiniões. Por esse motivo, permaneceu durante todo o ano de 1958 na mídia do Rio de Janeiro e São Paulo.

A pesquisa foi realidade em duas etapas. Na primeira foi feita a leitura de autores que trataram de temas relacionados à comunicação de massa, ao mito e ao sensacionalismo na mídia. Na segunda, foi feita a análise das matérias. Este estudo nos revelou que a cantora Maysa transformou-se em mito com a colaboração da mídia, mas também contribuiu para sua própria mitificação, expondo sua vida e encarando a imprensa sem medo.

Palavras-chave: cultura de massa; mito; revista; Maysa.

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 07

2 CULTURA DE MASSA ..................................................................................................... 11 2.1 Cultura de Massa: a construção do produto....................................................................... 11 2.2 Modelos Mitológicos ........................................................................................................ 14 2.3 O que é Mito…………………………………………………………………...................17 2.4 O Mito e o artista ............................................................................................................... 19 2.5 O mito e os meios de comunicação ................................................................................... 20

3 OS CRITÉRIOS DE NOTICIABILIDADE .................................................................... 23 3.1 Escolha da notícia .............................................................................................................. 23 3.2 Jornalismo de magazine .................................................................................................... 25 3.2 A Linguagem das revistas ................................................................................................. 29 3.2 Sensacionalismo na mídia ................................................................................................. 29

4 ANÁLISE DA CONSTRUÇÃO DO MITO MAYSA DENTRO DAS REVISTAS O CRUZEIRO E MANCHETE, NAS DÉCADAS DE 50 A 70 DO SECÚLO PASSADO .. 33 4.1 Metodologia de pesquisa ................................................................................................... 33 4.2 A revista O Cruzeiro ......................................................................................................... 33 4.3 A revista Manchete ............................................................................................................ 34 4.4 Biografia de Maysa ............................................................................................................ 35 4.5 O início de um grande sucesso .......................................................................................... 39 4.6 O auge da carreira e sua morte .......................................................................................... 40 4.7 Mitificação nas páginas das revistas O Cruzeiro e Manchete ........................................... 46

5 CONCLUSÃO..................................................................................................................... 52

REFERÊNCIAS .................................................................................................................... 54

ANEXOS ................................................................................................................................ 56 Anexo A – Renato Sergio escreveu “cinco anos sem Maísa ................................................... 56 Anexo B – 10 anos sem Maísa ............................................................................................... 61 Anexo C – Maysa Muitas Biografias e uma vida .................................................................... 65 Anexo D – M M É A MESMA COM 1,2 OU 3 M ................................................................. 69 Anexo E – Foto de Maysa Monjardim .................................................................................... 70

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1 INTRODUÇÃO

A cultura de massa pode ser entendida como o processo mundializado de produção e difusão de bens simbólicos1 Para Morin (1997), uma cultura de massa orienta, desenvolve, domestica certas virtualidades humanas e veta outras. O autor explica que a cultura de massa liga consumo, espetáculos e imaginário, para assim penetrar cada vez mais na vida das pessoas.

Morin (1997) observa que a cultura de massa é uma cultura que se constitui de um corpo de símbolos e imagens. Ela se integra e reintrega ao mesmo tempo em uma realidade policultural, buscando influenciar o pensamento e o comportamento humano e assim atrair cada vez mais um maior público possível. Logo no início do século XX, os meios de comunicação de massa, fundamentais no processo de massificação cultural, ganham destaque e espaço entre os povos e seus produtos são disponibilizados a um público indeterminado.

Os meios de comunicação de massa têm o poder de manipular as mensagens, fazendo, por exemplo, com que o simpático torne-se mau e o mau facilmente torne-se herói, transformando pessoas em mitos e celebridades. Esses meios tornam-se importantes fontes de referência para a ação social do mundo moderno.

Mauro Wolf (1999) explica que os meios de comunicação não determinam a vida humana, mas influenciam na hora do ser humano organizar seus pensamentos. Com relação ao jornalismo, o autor reflete sobre o processo de construção de notícias conduzido pelas instituições de comunicação e pelos jornalistas, as quais ajudam a orientar a conduta em sociedade.

Os mass media têm o papel de manter a relevância de um tema ajudar a estruturar a imagem da realidade social e organizar novos elementos que farão parte dela. Mas algumas vezes, os mass media distorcem e manipulam um fato.

De acordo com Wolf (1999), entender o processo de noticiabilidade dos fatos é fundamental para entender o papel social da mídia. O autor esclarece que critérios estabelecidos para os valores notícias servem para identificar um acontecimento e transformá-lo em notícia.
1

SERRO, Mª das Graças J. A particularidade do processo de socialização contemporânea. Tempo social V. 17, nº 2, São Paulo, Nov 2005

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Wolf (1999) ainda relembra a função dos gatekeepers como selecionadores de notícias. Eles fazem com que o acontecimento destaque-se pelo seu caráter notável, fazendo assim o fato imprevisível ser considerado notícia. A noticiabilidade é como um conjunto de elementos pelos quais o órgão informativo controla e gera a quantidade e o tipo de acontecimentos que merece ser divulgado nos veículos de comunicação. (MORIN, 1999, p.195)

As notícias, ao serem veiculadas nos meios de comunicação, recebem um tratamento prévio. Para o texto de revista, esse tratamento ganha um diferencial, pois o texto é construído com mais detalhes, tornando-se assim mais atraente e interessante.

Vilas Boas (1996) se refere à questão dos vazios deixados pelos jornais, ao passo que a revista é diferente, ela preenche os vazios informativos. O autor observa que a notícia nos magazines é tudo aquilo que ainda se encontra em pauta na semana. Para Scalzo (2004), a revista tem como objetivo aprofundar suas matérias devido ao tempo maior para sua produção. A autora finaliza seu livro dizendo que um bom texto jornalístico depende muito de uma boa apuração e não somente de uma boa escritura.

Conforme Vilas Boas (1996), a escolha das revistas pelos leitores se dá pelo fato das reportagens nelas contidas possuírem características investigativas mostrando não apenas a apuração do fato, mas também dando relevância à construção de um texto escrito. Já Scalzo (2004) mostra que há também na revista um encontro entre um editor e um leitor, um fio invisível que une um grupo de pessoas, ajudando a construir identidades, criando identificações e sensações.

Esse trabalho tem como objetivo analisar textos produzidos por revistas. As matérias escolhidas para análise têm como tema central a cantora brasileira Maysa. Os textos dedicados a ela são carregados de situações que mexem com o estado emocional dos leitores e até mesmo de quem escreve o texto.

Será analisada a construção do mito Maysa nas revistas O Cruzeiro e Manchete nas décadas de 50 a 70 do século passado. A cantora Maysa Matarazzo era uma das artistas mais procuradas pela mídia e um dos nomes mais importantes da música brasileira. Lira Neto (2007) observa que todos os meios de comunicação queriam colocar ao menos uma nota a seu

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respeito nos jornais, pois, na época, o nome Maysa representava dinheiro para os meios de comunicação.

Nas décadas de 50 a 70, do século passado, a cantora Maysa Figueira Monjardim Matarazzo teve uma grande presença na comunicação. Em sua biografia, Maysa só numa multidão de amores, produzida por Lira Neto (2007), consta que se consultarmos os jornais do Rio de Janeiro e São Paulo, no ano de 1958, vamos chegar a uma assombrosa comprovação: entre o dia 1º de janeiro a 31 de dezembro, não houve um único dia em que Maysa não tenha sido citada em pelo menos um meio de comunicação carioca ou paulista. Quando não estava sendo mencionada nas páginas de críticas musicais ou citada nas colunas de fofoca, Maysa rendia assunto até mesmo para os noticiários políticos.

Lira Neto (2007) conta que Maysa mudou os meios de comunicação em sua época por ser uma pessoa que não tinha medo de falar o que pensava e por não se esconder da mídia. “Um mito”, como os jornais da época a denominavam, teve uma vida bastante tumultuada, com vários erros e acertos. Não tinha vergonha de se expor, era autêntica em tudo que fazia, sem demonstrar medo do que os outros podiam falar ao seu respeito. Maysa possui várias biografias e apenas uma única vida. Ronaldo Bôscoli escreveu que “um pedaço, pequeno e profundo eu conheci de Maysa. É certo, que, como todo mito que se preza e se despreza também, Maysa viveu várias vidas. Cumpriu os diversos scripts que lhe foram destinados”. (NETO, 2007. p.48).

Neto (2007) explica que Maysa aceitou a imagem imposta ao seu respeito, e se defendeu, conforme a situação. Daí os encontros e desencontros, as contradições, as amarguras sufocantes, os caminhos e descaminhos, as culpas e as desculpas. Talvez, por isso, sua famosa tristeza.

Em seu depoimento dado ao programa Domingo Sem Futebol, no dia 10 de dezembro de 1962, produzido por Aramis Millarch, Maysa desabafa: “Para aparecer eu fazia qualquer negócio, fazia teatro no colégio... tudo que se organizava em termos de arte, era eu sempre que estava com o dedinho par fora”. Com isso, Maysa sempre desafiou a época em que viveu e fez história (LIRA NETO, p. 26, 2007).

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Neto (2007) conta que, em 1958, os jornais e revistas tentaram reviver a polêmica da década anterior, protagonizada pelas cantoras Emilinha Borba e Marlene, uma espécie de Fla-Flu musical, em que a primeira fazia o papel de boa moça e a outra de rebelde. Pelo fato de Maysa ter uma personalidade bastante forte, os meios de comunicação tentaram fazer o mesmo com ela e Elizeth Cardoso, o que não deu certo.

Segundo Lira Neto (2007), o mito Maysa viveu uma vida cheia de altos e baixos, sua carreira foi encerrada por conta de um acidente. Podemos dizer que o “mundo caiu” para a cantora no dia 22 de Janeiro de 1977. Nascida no Rio de Janeiro, em 1936, Maysa Figueira Monjardim Matarazzo, filha de pais da classe média alta, estudou no tradicional colégio paulistano Assunção e, em Paris, no Sacré-Coeur de Marie. Casou-se aos dezoito anos com o empresário André Matarazzo, dezessete anos mais velho e membro da família Matarazzo. Dessa união, nasceu seu único filho Jayme Monjardim Matarazzo, que atualmente trabalha como diretor de telenovelas e cinema.

Maysa tinha o costume de sempre cantar em festas familiares e em uma dessas ocasiões um empresário a viu e a convidou para gravar um CD. Em 1959, Maysa resolve se divorciar de seu marido, que foi contra a sua carreira musical. Mas teve vários relacionamentos amorosos: com o compositor Ronaldo Bôscoli, o empresário Miguel Azanza, o ator Carlos Alberto, o maestro Julio Medaglia, entre outros.

Maysa cantava músicas da Bossa Nova (música de fossa) e teve muito sucesso em sua carreira, tanto nacional como internacionalmente. Era intérprete, cantora e compositora. No dia 22 de Janeiro de 1977 morre no Rio de Janeiro, vítima de um acidente na Ponte RioNiterói, deixando para trás sua carreira e seu único filho.

Esta monografia tem como objetivo analisar a construção do mito Maysa nas revistas Manchete e O Cruzeiro. As matérias escolhidas para análise contém trechos tais como: “Muito simplesmente, quero pedir a vocês que me ouçam” “Minha gente sabe de mim pelos meus olhos, não pelos jornais”. Pela presença constante da cantora na mídia, durante um período considerável, o trabalho pode contribuir para o entendimento do processo de construção da notícia, no caso, a vida de Maysa.

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2 CULTURA DE MASSA 2.1 Cultura de Massa: a construção do produto

Edgar Morin discute a cultura de massa como uma nova forma de cultura que se inicia no mundo moderno. O autor também nos mostra que essa cultura reapresenta uma nova democratização de bens simbólicos, (manifestações artísticas, culturais e até mesmo a informação) que antes eram acessíveis apenas à elite.

Morin reflete sobre as mudanças que ocorreram no começo do século XX e a expansão do poder industrial que ocasionou a segunda industrialização, processada no campo das imagens e dos sonhos.

Essa segunda industrialização significa a industrialização do espírito e a colonização da alma, pois tem o poder de penetrar no interior do homem através de bens culturais. Isto é feito basicamente pelos meios de comunicação.
Através delas, opera-se esse progresso ininterrupto da técnica, não mais unicamente votada à organização exterior, mas penetrando no domínio interior do homem e aí derramando mercadorias culturais. Não há dúvida de que já o livro, o jornal, eram mercadorias, mas a cultura e a vida privada nunca haviam entrado a tal ponto circuito comercial e industrial, nunca os murmúrios do mundo – antigamente suspiros de fantasmas, cochichos de fadas, anões e duendes, palavras de gênios e de deuses, hoje em dia músicas, palavras, filmes levados através de ondas – não haviam sido ao mesmo tempo fabricados industrialmente e vendidos comercialmente. (MORIN, 1997, p.13)

Morin (1997) mostra que essas mercadorias são as mais humanas de todos os tempos, pois vendem aspectos da vida pessoal como o amor, medos, tristeza, aflições e outras coisas relacionadas à alma. O autor ressalta que a cultura de massa não desfigura outras culturas, mas estabelece uma concorrência entre elas.

De acordo com Morin, a cultura de massa desenvolve e domestica certas virtualidades humanas, mas pode inibir e proibir outras; é ela quem vai atuar decisivamente para definir as necessidades do homem moderno/contemporâneo.

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Para o autor, a cultura moderna se constitui através de um corpo complexo de normas, símbolos, mitos e imagens que penetram no indivíduo em sua intimidade.
Esta penetração se efetua segundo trocas mentais de projeção e de identificação polarizadas nos símbolos, mitos e imagens da cultura como nas personalidades míticas ou reais que encarnam os valores (os ancestrais, os heróis os deuses). (MORIN, 1997, p. 15)

Os elementos da cultura de massa são “concernentes à vida prática e à vida imaginária, um sistema de projeções e de identificações específicas, ela se acrescenta à cultura nacional, humanista e religiosa”. (MORIN, 1997, p.16). A cultura se integra e desintegra ao mesmo tempo, pois ela possui o papel de controlar, censurar e simultaneamente tende a desagregar valores e comportamentos.

Essa cultura pode fundamentar a alienação da população e atingir não apenas o trabalho humano, mas o consumo e lazer. Desse modo, “[...] na falsa cultura, a falsa alienação do homem não se restringe apenas ao trabalho, mas atinge o consumo e os lazeres”. (MORIN, 1997, p.17).

Morin lembra que os meios de comunicação como o jornal, rádio e televisão são burocraticamente organizados. A organização filtra a idéia criadora, que é submetida à chefia, e essa chefia decide o assunto a ser veiculado. Em seguida essa idéia é tecnicamente manipulada. A indústria cultural supera contradições e se auto organiza, para assim decidir sobre o produto que deve se produzido para a massa.

O autor ressalta que a indústria cultural está sempre em busca de lucros, por meio de dois sistemas: o estatal e o privado. O estatal é um sistema censurado, cheio de regras e controles; já o privado se estrutura de modo a tentar vender tudo aquilo que a sociedade deseja. Procurando atingir sempre um público mais amplo, a indústria cultural busca inovações, variedades nas informações e o aperfeiçoamento das tecnologias. O objetivo é atingir o imaginário social para chamar a atenção das pessoas, utilizando-se sempre de uma linguagem direcionada a cada tipo de público, dando-lhes as informações necessárias e desejadas. A partir disso, o autor lembra que a indústria cultural precisa de um “elétrodo negativo para funcionar positivamente. Esse elétrodo negativo vem a ser uma certa liberdade no seio de estruturas rígidas”. (MORIN, 1997, p.29).

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Em seguida, o autor discute o assunto do público da cultura de massa. Ele mostra que, por ser algo cosmopolita e planetário, a cultura de massa vai ser sempre voltada para um público indeterminado. Por isso, quando ela for se dedicar a temas específicos, ela vai buscar sempre padronizar os assuntos trabalhados. O autor mostra outra estratégia, a de integrar o campo de informação e do romanesco, produzindo certo sincretismo.
O sincretismo tende a unificar numa certa medida os dois setores da cultura industrial: o setor da informação e o setor do romanesco. No setor da informação, é muito procurado o sensacionalismo (isto é, essa faixa de real onde o inesperado, o bizarro, o homicídio, o acidente, a aventura irrompem na vida quotidiana) e as vedetes, que parecem viver abaixo da realidade quotidiana. Tudo que na vida real se assemelha ao romance ou ao sonho é privilegiado. Mais que isso, a informação se reveste de elementos romanescos, freqüentemente inventados, ou imaginados pelos jornalistas (amores de vedetes e de princesas). (MORIN, 1997, p.36)

Outro ponto destacado pelo autor é a procura eficiente de novos públicos, de modo a colocar um fim nas barreiras entre as classes sociais. De acordo com Morin, através da cultura industrial é possível suspender os conflitos entre as classes sociais. Através da TV, dos programas e das publicações, o pobre tem acesso aos bens de consumo, mesmo que somente no plano imaginário.

Ao buscar esse grande público, a cultura de massa gera uma homogeneização. Morin mostra que, por ser cosmopolita, ela cria uma tendência a enfraquecer as diferenciações culturais. “A cultura industrial se desenvolve no plano de mercado mundial. Daí sua formidável tendência ao sincretismo-ecletismo e à homogeneização, seu fluxo imaginário, lúdico, estético, atenta contra as barreiras locais, [...] ela inventa temas imediatamente universais” (MORIN, 1997, p.44).

Sobre a produção artística, Morin, ao discutir como funciona a indústria cultural, analisa também, de um lado, o impulso em direção ao conformismo e ao produto padrão; do outro, a criação propriamente artística. Constatando o que foi dito pelo autor, as manifestações verdadeiramente artísticas são um antídoto para a padronização da indústria, mas isso, de certa forma, ajuda a fortalecer e legitimar o sistema. A indústria cultural não produz apenas monstros e clichês, e Morin afirma que nela ainda resta espaço para a arte.

O autor também aponta que a democratização cultural promovida pela cultura de massa, uma vez que bens culturais eram restritos apenas à elite e se tornaram possíveis para um maior

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número de pessoas, se deu pelo fato de haver possibilidade de reprodução desses bens por ela produzidos. Ele ressalta que boa parte desta democratização se justifica pela vulgarização que acontece nos meios de comunicação, como o caso da televisão.

Morin (1997) cita os elementos de vulgarização presentes na cultura de massa que são: simplificação, modernização, maniqueísmo e atualização. Para ele, a simplificação implica na eliminação daquilo que não foi compreendido pelo público, enquanto a modernização promove a transferência do passado para o presente. Já o maniqueísmo acarreta na popularização da dicotomia entre o bem e o mal e, por fim, a atualização é a introdução de uma forte carga dramática nos bens simbólicos produzidos pela indústria cultural.

2.2 Modelos Mitológicos As características da cultura de massa desenvolveram-se a partir de 1930, e se deram, em sua maior parte, nos Estados Unidos. Morin (1997) informa que as massas populares tiveram acesso aos novos padrões de vida, entrando no mundo do bem estar, lazer e consumo que antes era possível apenas para a classe burguesa. Essa cultura vai criar necessidades individuais e sociais que fornecerão às pessoas um novo modelo de vida, aproximando a imagem do real. Ela tende a propor mitos e heróis como modelos para a vida privada. Com isso, a cultura de massa se torna o grande fornecedor dos mitos ligados ao lazer, à felicidade, ao amor, entre outros. Os produtos da cultura de massa passam a estimular também a identificação do espectador, podendo fazer com que ele confunda o imaginário com o real.

Com o objetivo de prender o espectador, a cultura de massa passa a trabalhar com a idéia de happy end. Portanto, Morin (1997) observa que “o herói simpático, tão diferente do herói trágico ou do herói lastimável, e que desabrocha em detrimento deles, é o herói ligado identificativamente ao espectador” (MORIN, 1997, p.96), podendo ser admirado e amado no final.

Para o autor, o happy end é a felicidade do herói simpático, em substituição a um final trágico ou fracassado. Em seguida, o autor afirma que o happy end rompe com a tradição não só ocidental, mas universal, que ainda era mantida nos filmes americanos, nos quais eram mostradas pessoas que sofriam durante toda a trama e que no final se davam mal. Com a

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cultura de massa tudo muda, inclusive o fim de uma história que antes era trágico, passa a não ser mais. O autor ainda ressalta que o happy end é a irrupção da felicidade e não a reparação dela. Diante disso, a idéia de felicidade torna-se o centro afetivo do novo imaginário, implicando assim um apego maior com o herói que sempre a alcança.

Porém, é no começo do século XX que este imaginário se destaca, formando uma imprensa diária e romanesca, na qual haverá uma mistura de realidade com ficção. Conforme Morin,

a cultura de massa extravasa o imaginário e ganha a informaçãoA dramatização tende a preponderar sobre a informação propriamente dita. A imprensa se apropria da espera de chessman para poder fazer um suspense com a morte; o homem que vive os dias de sua morte é seguido de hora em hora pelo voyeurismo coletivo; uma montagem paralela faz alternar a corrida da morte (o mecanismo implacável do sistema judiciário) e a corrida contra a morte (recursos dos advogados, petições, intervenções da opinião internacional). (MORIN, 1997, p.98 e 99).

O autor salienta que “fazendo vedete de tudo que pode ser comovente, sensacional, excepcional, a imprensa de massa faz vedete de tudo que diz respeito às suas próprias vedetes”. (MORIN, 1997, p. 99). E lembra que, com isso, a mídia tende a tornar mais realista o ficcional, como ocorre nas telenovelas, por exemplo.

Por conseguinte, Morin afirma que a mídia se vê obrigada a criar personagens para prender o espectador, o que faz com que a imprensa crie os chamados olimpianos modernos, que são considerados vedetes da comunicação. O autor argumenta que a cultura de massa precisa de vedetes, exaltando a grandeza olimpiana, criando modelos atrativos para o grande público. Os olimpianos são considerados “não apenas os astros de cinema, mas também os campeões, príncipes, reis, playboys, exploradores, artistas célebres, Picasso, Cocteau, Dali, Sagan”. (MORIN, 1997, p. 105). Com isso, Morin mostra que o olimpianismo de algumas pessoas nasce no imaginário, de papéis encarnados nos filmes, da sua função sagrada, de trabalhos heróicos, eróticos ou de notícias de jornais. “A imprensa de massa, ao mesmo tempo em que investe os olimpianos de um papel mitológico, mergulha em suas vidas privadas a fim de extrair delas a substância humana que permite a identificação”. (MORIN, 1997, p.106 e 107).

Os olimpianos estão presentes tanto nos produtos da cultura de massa, quanto no próprio público. Eles são perseguidos por fotógrafos, entrevistadores, mexeriqueiros, que fazem de tudo para entrar em suas vidas privadas. Com isso, os olimpianos fazem os espectadores

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criarem dois mecanismos: o de identificação e o da projeção. O da identificação faz o espectador se achar parecido com o personagem, com isso, ele vai sofrer e torcer pelo seu final feliz no contexto da história. Após essa identificação, ele busca se assemelhar mais com o personagem, ele muda seu modo de vestir, conversar, pensar, se tornando uma pessoa igual ao seu “ídolo”. Isso é o mecanismo da projeção que faz com que o espectador passe a sonhar em ser igual ao seu ídolo, mesmo que ele seja totalmente diferente. A pessoa vai se projetar para ficar igual ao ídolo, mais sempre vai acabar frustrado, pois o olimpiano está isento de qualquer sofrimento na mídia.

Morin observa que toda cultura de massa vai produzir seus deuses, heróis, semideuses, embora ela se fundamente naquilo que é exatamente a decomposição do sagrado: o espetáculo e a estética.

Oscilando entre dois pólos, a cultura de massa promove os valores do gênero feminino que são o erotismo, o amor, a felicidade de um lado, e do outro a agressão, o homicídio e a aventura, valores associados ao masculino, ao viril. Isso desperta fascínio no telespectador. Morin constata que “Há uma plenitude, uma superabundância, uma exuberância devastadora e proliferadora de vida, nos jornais e nas telas, que compensa a hipotensão, a regulação, a pobreza da vida real”. (MORIN, 1997, p. 110 e 111).
A vida não é apenas mais intensa na cultura de massa. Ela é outra. Nossas vidas quotidianas estão submetidas à lei. Nossos medos são reprimidos. Nossos desejos são censurados. Nossos medos são camuflados, adormecidos. Mas a vida dos filmes, dos romances, do sensacionalismo é aquela em que a lei é enfrentada, dominada ou ignorada, em que o desejo logo se torna amor, vitorioso, em que os instintos se tornam violência, golpes, homicídios, em que os medos se tornam suspenses, angústias. (MORIN, 1997. p.111).

O mundo da noite é citado por Morin como algo importante na cultura de massa. Nele, os ladrões, vagabundos e gangsters criam um submundo. Eles exercem certo encanto, pois respondem às estruturas afetivas do espírito humano. “A gang é como o clã arcaico, mas purificada de todo e qualquer sistema tradicional de prescrições e de interdições, é um clã em estado nascente”. (MORIN, 1997, p.113). Ela é como um sonho maldito que representa a alma escura e fascinante do homem.

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Morin ressalta ainda que a cultura de massa é diferenciada das outras culturas, é a exteriorização multiforme, maciça e permanente de elementos da humanidade nem sempre assumidos e pelos quais o espectador fica fascinado. Temas como a violência aparecem com freqüência na televisão, no cinema e nos jornais. O sensacionalismo passa a ser visto, então, como um desejo da massa, pois, a imprensa seleciona aquilo que choca o público.
No sensacionalismo, as balaustras da vida normal são rompidas pelo acidente, a catástrofe, o crime a paixão, o ciúme, o sadismo. O universo do sensacionalismo tem isso em comum com imaginário (o sonho, o romance, o filme): infringe a ordem das coisas, viola os tabus, compele ao extremo a lógica das paixões. Tem em comum com a tragédia o fato de se sujeitar à implacável fatalidade. É esse universo de sonho vivido, de tragédias vividas e de fatalidade que valorizam os jornais modernos do mundo ocidental. (MORIN, 1997, p. 100).

Nesse ponto, Morin salienta que o sensacionalismo é a busca pelo horrível, pois a fatalidade se abate sobre os inocentes, a morte se apropria dos bons como também dos maus. “em certo sentido, o sensacionalismo ressuscita a tragédia, o sensacionalismo vai até ao extremo da morte ou da mutilação, com a lógica irreparável da fatalidade. Transcreve as paradas e os jogos do destino”. (MORIN, 1997, p. 115). O autor finaliza dizendo que a cultura de massa nos envolve de tal maneira que nos embebeda e vicia em notícias sensacionalistas.

2.3 O que é Mito

As antigas religiões foram grandes reguladoras do sagrado, pois, constantemente, estavam em contato com as forças invisíveis através de sacrifícios e oferendas realizados por meio de ritualização própria. A função desses rituais é atualizar e concretizar os mitos.

Os mitos são narrativas que possuem um forte componente simbólico. Como os povos da antiguidade não conseguiam explicar os fenômenos da natureza através de explicações científicas, criavam mitos com este objetivo: dar sentido às coisas do mundo. Os mitos também serviam como uma forma de passar conhecimentos e alertar as pessoas sobre perigos ou defeitos e qualidades do ser humano. Neles, deuses, heróis e personagens sobrenaturais se misturam com fatos da realidade para dar sentido à vida e ao mundo.

Segundo o autor Everardo Rocha (1985) o mito é uma narrativa, um discurso, uma fala. É uma forma de a sociedade refletir suas contradições, exprimir seus paradoxos, dúvidas e

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contradições. Pode ser visto como uma possibilidade de se pensar na existência, no bem estar do mundo e nas suas relações. Everardo Rocha observa que o mito vai sempre carregar uma mensagem não propriamente dita, explicitada. Ele vai sempre esconder algo. O que ele diz não é declarado literalmente, não fica claro, por não ser objetivo. O autor destaca alguns aspectos que devem ser lembrados:
1-O mito está localizado num tempo muito antigo, “fabuloso”. Nos tempos da “aurora” do homem; ou, pelo menos, os homens o colocam nos seus tempos da “aurora”, fora da história; 2- o mito não fala diretamente, ele esconde alguma coisa. Guarda uma mensagem cifrada. O mito precisa ser interpretado. Finalmente, 3- o mito não é verdadeiro no seu conteúdo manifesto, literal, expresso, dado. No entanto, possui um valor e, mais que isto, uma eficácia na vida social. (EVERARDO ROCHA, 1985, p.10 e 11).

O mito nos transmite diversos tipos de sensações. Para Everardo Rocha os mitos são: uma estória próxima, mas diferente, podendo ser tão bela quanto direta, de uma simplicidade que se torna complexa. É nítida e cheia de significados, abstrata e concreta, pode ser familiar e ao mesmo tempo estranha.

Em um segundo ponto analisado por Everardo Rocha é observado o fato de um mito possuir uma mensagem cifrada, atraindo assim uma interpretação. A antropologia, por exemplo, possui diversas interpretações dos significados do mito. Uma delas é quando o mito assume uma relação com o contexto social. O mito é capaz de revelar o pensamento de uma sociedade, a sua concepção de existência e indicar relações que o homem deve manter entre si e com o mundo.

A psicanálise também fez uma interpretação do que seriam os mitos, tanto que Freud fez uma brilhante interpretação do famoso mito de Édipo2. O autor ressalta que o mito está na existência humana, ele resiste a tudo, fazendo com que seus comentários se tornem matériaprima para novos mitos. De acordo com o dicionário Aurélio, o mito é: “Fato, passagem dos tempos fabulosos; tradição que, sob forma de alegoria, deixa entrever um fato natural, histórico ou filosófico; (sentido figurado) coisa inacreditável, sem realidade”. (EVERARDO ROCHA, 1985, p.12).
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Para Freud, o mito do rei que mata o pai e casa com a própria mãe simboliza e manifesta a atração de caráter sexual que o filho, na primeira infância, sente pela mãe e o desejo de suplantar o pai. http://psicoforum.br.tripod.com/index/artigos/mito1.htm. Acessado em 20/05/2010.

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Na definição que consta no artigo3 O mito, o herói, o artista, (2008) escrito por Luciane Ruschel Nascimento Garcez, o mito será sempre uma narrativa carregada de significados, e pode-se “desfragmentar” esta narrativa para que se possam identificar os mitologemas e mitemas. O mitologema pode ser entendido como uma pequena parte da narrativa onde se pode identificar um acontecimento importante do mito, que vai ajudar na compreensão de sua formação. Já o mitema cria sentido pela repetição, como algo que volta diversas vezes no seu discurso, e sua redundância agrega sentido ao mito.

No livro Mito e Realidade, de Mircea Eliade (1972), o autor faz referência ao mito como sendo uma realidade cultural completamente complexa, que pode ser vista, abordada e interpretada, por meio de várias perspectivas. Para ele, a definição de mito que chega ser a mais completa é a seguinte:
“O mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do “princípio”. Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre, portanto, a narrativa de uma “criação”: ele relata de que modo algo foi produzido ou começou a ser. O mito fala apenas do que realmente ocorreu, do que se manifestou plenamente. Os personagens dos mitos são os Entes sobrenaturais. Eles são conhecidos sobretudo pelo que fizeram no tempo prestigioso dos “primórdios”. Os mitos revelam, portanto, sua atividade criadora e desvendam a sacralidade (ou simplesmente a “sobrenaturalildade”) de suas obras. Em suma, os mitos descrevem as diversas, e alguns vezes dramáticas, irrupção do sagrado (ou “sobrenatural”) no mundo”. (MIRCEA ELIADE, 1972. p. 11).

Mircea Eliade explica que a principal função do mito consiste em desvendar os modelos exemplares de todos os ritos e atividades humanas significativas; “tanto a alimentação ou o casamento, quanto o trabalho, a educação, a arte ou a sabedoria”. (MIRCEA ELIADE, 1972, p. 13). Por isso, o mito persiste nas sociedades moderno-contemporâneas.

2.4 O Mito e o artista

De acordo com o artigo O mito, o herói, o artista, três discursos são identificados para identificar a mitologia que envolve as artes e os artistas: a biografia do artista, o discurso do contexto histórico-social no qual ele se insere e o discurso do próprio artista. “Mas a obra de

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arte é atemporal. Por isso se diz que o mito não fala da história e da cultura e sim que dá sentido à história e à cultura”. (RUSCHEL, 2008. P. 2). A autora mostra que a fala sobre o mito é sempre poética, por isso, será sempre ela que vai dar sentido para o mito, que por sinal tem sempre a razão. O mito encontra na categoria do “não falar” e do “não pensar”, e quando alguém tenta explicá-lo ele deixa de ser mito e passa a ser visto como uma fábula ou lenda. Ele vai resistir ao tempo, podendo se transformar, mas sempre será mantido nas narrativas. Com isso, Ruschel (2008) ressalta que:

... o discurso artístico geralmente vem carregado de mitologia, basta estar atento e procurar para que se possa identificá-lo. Uma das principais funções do mito é ligar o homem ao mundo simbólico, transcendental, sem esta vivência espiritual a sociedade sofreria de graves distúrbios emocionais. A figura do artista é constituída em cima do “mito do herói” e a obra de arte pode ser vista como o elemento mediador, ela não pode ser concebida unicamente pela vontade do artista, ela necessita do olhar do outro, do espectador, ela é o resultado da tensão entre o artista e o público. (RUSCHEL, 2008. P. 4).

Segundo Ruschel, o mito do artista serve para lhe entregar o título de “artista”, e transformálo em um personagem heróico, permitindo que ele atue como um símbolo de transcendência. “É alguém especial, predestinado a um destino diferente, excepcional, que enriquece seu coletivo através de suas ações, no caso, a obra de arte. É o ser dotado de habilidades especiais onde o cidadão comum pode se espelhar e dar algum colorido à sua existência”. (RUSCHEL, 2008. P. 4).

Ruschel coloca que a idéia de arte é diferente para cada pessoa, uma vez que é atividade simbólica. A idéia de artista também é de natureza simbólica. Esse simbolismo deriva da própria relação vivida, já que “o símbolo não tem objetividade em si e tampouco é puramente subjetivo, não depende da vontade de uma pessoa, ele é simplesmente, ou se entende ele (sic) ou não, ou nos encontramos neles ou não, não existe meio termo”. (RUSCHEL, 2008. P. 5).

2.5 O mito e os meios de comunicação

Mircea Eliade (2000) ressalta as recentes pesquisas que trataram da imagem mítica das imagens e dos comportamentos impostos para a coletividade através dos meios de comunicação.

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http://www.revistaohun.ufba.br/omito_oheroi_oartista.pdf. Acessado em 05 de abril de 2010.

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Com isso, começam a aparecer os personagens folclóricos e heróis mitológicos nas histórias em quadrinhos. O autor enfatiza que os mitos encarnam os ideais de uma boa parte da sociedade, fazendo com que “qualquer mudança em sua conduta típica ou, pior ainda, sua morte, provocam verdadeiras crises entre os leitores; estes reagem violentamente e protestam, enviando milhares de telegramas aos autores das comic strips e aos diretores dos jornais” (ELIADE, 2000, p. 159). Através desse processo se criaram os famosos personagens heróicos e midiáticos, que até hoje se encontram presentes na nossa história, como o caso do Superman que, de acordo com Eliade se tornou “popular graças, sobretudo, à sua dupla identidade”. (ELIADE, 2000. p. 159).

Por outro lado, o autor ressalta que o leitor participa desse processo de produção de identidade, entrando assim dentro da vida, do mistério que gira em torno do personagem, gerando a sensação de estar vivendo a história juntamente com o personagem. Conforme Mircea Eliade, os mass media têm o poder de transformar a imagem de uma pessoa, tal como feito no livro de Lloyd Warner4, em que o autor analisa um processo de mitificação de personalidade.
Biggy Muldoon, um político da Yankee City, que se transformou numa figura nacional em virtude de sua oposição pitoresca à aristocratica de Hill Street, teve uma imagem pública demagógica construída pela imprensa e pelo rádio. Ele era apresentado como um cruzamento do povo, atacando a riqueza usurpadora. Mais tarde, quando o público se cansou dessa imagem, Biggy foi condescendentemente transformado pelos mass media num vilão, um político corrupto que explorava em seu próprio benefício a miséria pública. Warner assinala que o verdadeiro Biggy diferia consideravelmente de qualquer das suas imagens, mas que era forçado a modificar o seu estilo de ação a fim de amoldar-se a uma das imagens e combater a outra. (MIRCEA ELIADE, 2000. p. 160).

Na criação de mitos da elite, estes passam a cristalizar um referencial de criação artística, por exemplo, com repercussão cultural e social. Esses mitos passam a impor “muito além dos círculos fechados dos iniciados, graças, sobretudo, ao complexo de inferioridade do público e dos círculos artísticos oficiais”. (MIRCEA ELIADE, 2000. p. 161).

O autor ressalta que o artista nunca esteve tão no centro da história como hoje e quanto mais audacioso, iconoclasta, absurdo e inacessível ele for, será tanto mais reconhecido, amado, louvado, glorificado e idolatrado.

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Lloyd Warner é um autor/antropólogo que fez um estudo sobre Biggy Muldoon

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O mito do artista maldito, que obsedou o século XIX, está hoje obsoleto. Especialmente nos Estados Unidos, mas também na Europa Ocidental, a audácia e a provocação há muito deixaram de ser prejudiciais ao artista. Ao contrário, pede-se que ele se molde à sua imagem mítica, que seja estranho, irredutível e que “produza algo de novo”. É o triunfo absoluto da revolução permanente na arte. “Tudo é permitido” deixou e ser uma formulação adequada: qualquer inovação é considerada genial de antemão, equiparada às inovações de um Van Gogh ou de um Picasso, mesmo que se trate de um cartaz mutilado ou de uma lata de sardinhas assinada pelo artista. (MIRCEA ELIADE, 2000.p. 161).

Com isso, o artista passa a moldar o seu estilo, criando e inovando sempre, com coisas que muitas das vezes chegam a chocar a sociedade.

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3 OS CRITÉRIOS DE NOTICIABILIDADE 3.1 Escolha da notícia

Wolf (1999) mostra que os meios de comunicação não manipulam o comportamento humano, mas influenciam no modo como o destinatário dos bens simbólicos divulgados organiza suas idéias no ambiente em que vive.

O autor explica que os mass media exercem influência social na medida em que são mais do que um simples canal. Ao filtrar, estruturar e realçar determinadas atividades públicas, eles contribuem para a criação de fatos. Em seu livro, Wolf, citando Lang–Lang, afirma que “[...] não só durante a campanha, mas também nos períodos intermédios, os mass media fornecem perspectivas, modelam as imagens dos candidatos e dos partidos, ajudando a promover temas [...]”. (WOLF, 1999, P.142).

O autor afirma também a influência dos mass media na medida em que ao estruturar a imagem da realidade, em longo prazo, e ao organizar elementos novos sobre um acontecimento, ajudam a formar opiniões e crenças novas.

Para Wolf (1999), os mass media possuem três características importantes: a acumulação, a consonância e a onipresença. A acumulação está ligada à capacidade que os mass media possuem para criar notícias, e ao modo como funciona a construção da matéria/notícia no sistema de comunicação de massa. A consonância é associada aos fatos comuns que

acontecem no dia a dia de um repórter ao fazer suas reportagens. Por fim, a onipresença diz respeito ao saber público, com opiniões e atitudes difundidas a um público indeterminado pela comunicação de massa.

A agenda-setting pode ser definida como "... a hipótese segundo a qual a mídia, pela seleção, disposição e incidência de suas notícias, vem determinar os temas sobre os quais o público

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falará e discutirá" (BARROS FILHO, 2001, p. 169)5. Essa hipótese defende que o público, em conseqüência de tudo que é transmitido nos meios de informação, em geral sabe o que se passa no cenário em que vive, mas muitas coisas são ignoradas. O autor ressalta que as pessoas fazem uma seleção das informações incluindo ou excluindo dos seus conhecimentos aquilo que os mass media incluem no seu conteúdo. De acordo com Shaw, citado por Wolf (199)
Em conseqüência da acção dos jornais, da televisão e dos outros meios de informação, o público sabe ou ignora, presta atenção ou descura, realça ou negligencia elementos específicos dos cenários públicos. As pessoas têm tendência para incluir ou excluir dos seus próprios conhecimentos aquilo que os mass media incluem ou excluem do seu próprio conteúdo. Além disso, o público tende a atribuir àquilo que esse conteúdo inclui uma importância que reflecte de perto a ênfase atribuída pelos mass media aos acontecimentos, aos problemas, às pessoas (SHAW apud WOLF, 1999, p. 144).

De acordo com Wolf (1999) essa hipótese realça a diversidade existente entre a informação, conhecimento e interpretações da realidade social, apreendidas através do mass media, e as experiências pessoais vividas diretamente ou indiretamente pelos indivíduos. Essa hipótese do agenda setting mostra a ação direta, mesmo que ainda não imediata, da mídia sobre os seus destinatários, na medida em que ordena quais são os temas, assuntos e problemas relevantes, estabelecendo uma hierarquia de importância e prioridade de informação. Shaw destaca que a agenda setting não defende que os mass media querem persuadir “[...] mas sim que os mass media apresentam ao público uma lista daquilo sobre o que é necessário ter para assim criar uma opinião. [...]”. (SHAW apud WOLF, 1999, P.130).

Os mass media têm o papel de apresentar ao público aquilo que ele deve criticar, discutir e opinar. A agenda setting para Wolf (1999) é uma hipótese de conhecimentos parciais que são organizados e integrados em uma teoria sobre as mediações simbólicas e os efeitos da realidade produzidos pelos mass media.

Também é destacado por Wolf (1999) que o destinatário não consegue controlar a realidade social criada pela mídia, pois a imagem, que já é produto da representação, muitas vezes assume forma distorcida e manipulada.

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<http://www.razonypalabra.org.mx/anteriores/n35/jbrum.html>. Acessado em: 14 de Abril de 2010.

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Para Wolf, os mass media têm uma capacidade diferenciada de estabelecer a ordem de seus assuntos. Porém, a televisão é tão influente quanto a imprensa escrita. Os mass media provocam o efeito do agendamento. A hipótese do agenda-setting defende que os mass media são eficazes na construção da imagem da realidade que o sujeito vem estruturando. (WOLF, 1999, p. 152). Já Elcias Lustosa (1996) diferencia a notícia do acontecimento e informações jornalísticas. Segundo o autor, a notícia é a realidade de um acontecimento social. Então a notícia não será um fato em si nem a realidade propriamente dita. O autor conclui que a notícia é o um

produto gerador de informação, mediante a uma técnica de redação jornalística. Segundo Fraser Bond (apud LUSTOSA, 1996, p.17) cita que a informação jornalista ocorre a partir de “principais fatores que determinam o valor da notícia: oportunidade, proximidade, tamanho e importância”.

Em consequência, Lustosa afirma que objetividade jornalística, clareza, concisão e precisão, são fatores principais para a criação de um bom texto de notícia. Por isso, o autor analisa que o fato/acontecimento principal deve ser priorizado pelo jornalista.

3.2 Jornalismo de magazine

O principal objetivo de uma revista é acrescentar maior profundidade ao fato enfocado superficialmente por outras mídias. Sérgio Vilas Boas (1996) explica que a revista semanal preenche os vazios informativos deixados pelas coberturas dos jornais, rádios e televisão. Visivelmente mais sofisticada, a revista tem outro fator a diferenciar-se sobretudo do jornal: o texto.

São sempre noticiados nas revistas os assuntos mais discutidos na semana ou até mesmo no mês. Para Vilas Boas, isso possibilita construir um texto prazeroso de ler, ou seja, distante das amarras da padronização cotidiana, e de maior tamanho.

A intenção do jornalista ao produzir um texto jornalístico para revista é conseguir prender a atenção do leitor, utilizando elementos que conquistem e despertem a sua curiosidade, do começo ao fim da leitura.

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Felizmente, nem sempre o texto desorganizado, pouco fluente, sem unidade, pode significar, por exemplo, que a apuração de dados para a matéria deixou a desejar. Às vezes, nem se trata mesmo do desconhecimento de regras gramaticais ou de sintaxe. Nem por isso estes fatores devem ser postos em último plano. Um bom começo é pensar. Pensar, porque escrever é fazer funcionar de modo organizado a lógica do pensamento. Sem isso, dificilmente um texto mais longo alcançaria seu objetivo maior: prender a atenção do leitor do início ao fim. (VILAS BOAS, 1996, p. 13).

Vilas Boas (1996) analisa que na revista as palavras podem ser usadas não apenas com o sentido exposto nos dicionários. Assim, elementos metafóricos, entre outros, podem ser empregados ao longo da matéria.

O autor destaca ainda que toda reportagem necessita ter um ponto de vista, por isso ela será sempre diferenciada em termos de opinião.

O texto de revista seguirá sempre formas mais simples, livres, fugindo assim do tradicional lead encontrado nos jornais, optando, por exemplo, por contar a história iniciando-se pelo seu fim, revelando logo ao leitor o desfecho do fato. Garcia esclarece a forma e o estilo de uma obra bem redigida e discursa sobre a liberdade de expressão.

O estilo é tudo aquilo que idealiza uma obra criada pelo homem, como resultado de um esforço mental, de uma elaboração de espírito, traduzindo em imagens, idéias ou formas concretas. A rigor a natureza não tem um estilo; mas tem-no o quadro em que o pintor a retrata, ou a página em que o escritor descreve (VILAS BOAS, 1973, p.85).

De acordo com Cremilda Medina6 “a reportagem amplia uma simples notícia de poucas linhas, aprofundando o fato no espaço e no tempo, e esse aprofundamento do conteúdo informativo se faz numa abordagem estilística”. Boas (1996) lembra que a reportagem ocupa e sempre ocupou o primeiro lugar na cobertura jornalística. Toda reportagem é notícia, mas nem toda notícia é uma reportagem, pois a reportagem vai além da notícia, trazendo detalhamentos do fato e o aprofundamento sobre os impactos do acontecido. A notícia muda de caráter quando demanda uma reportagem. O autor salienta ainda que o objeto da reportagem necessita de uma cobertura envolvente e fácil de ser compreendida para satisfazer o leitor, estimulando-o a ler toda a notícia.

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COIMBRA, Oswaldo. O texto da reportagem impressa. Ática S.A., São Paulo, 1993.

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Segundo Sodré (citado por VILAS BOAS, 1996, p. 59), o estilo de um bom profissional de revista poderá ser definido pela técnica da isenção e do encantamento. “Um estilo que fica a meio caminho entre o discurso denotativo e a literatura, (...)”. (BOAS, 1975, p. 44).

Sodré (citado por VILAS BOAS, 1996, p.81), considera as sensações, o sucesso e o relaxamento como chaves para o entendimento dos padrões editoriais do jornalismo de revista. Esses pontos atingem diretamente o leitor em suas emoções, sensações. Segundo Sodré, nesse sentido o sensacionalismo promove a valorização do texto de magazine.

O sucesso do indivíduo, grupo, instituição é um dos fatores importantes para indicar o clima de satisfação e prazer possibilitados pela ordem social. Esses temas são recorrentes nas revistas.

Sobre a revista Veja, por exemplo, Vilas Boas afirma que:
Luxo, alta posição social, feitos extraordinários, beleza física e outros fatores enquadram-se no padrão Veja de valorização do sucesso. Dentro de sua proposta, Veja se mantém fiel ao seu leitor, à medida que busca sofisticação visual na escolha dos personagens de uma determinada notícia. Em outras palavras, Veja tem uma espécie de “filosofia agradável”. (VILAS BOAS, 1996, p. 82).

As revistas buscam se diferenciar de outros meios impressos. Na década de 50 do século passado, mais especificamente em 1957, as revistas como O Cruzeiro e Manchete passaram a inserir cor em seus magazines pelo fato da TV ser algo preto-e-branco, para assim se diferenciarem e não perderem os seus seguidores. Diante disso, Vilas Boas lembra que, independentemente do estilo adotado, o texto de revista deve conter sempre clareza, objetividade e apuração. O autor ressalta que o redator de revista deve se adaptar aos seus leitores, mas nunca fugir dos elementos básicos de um texto jornalístico.

Marília Scalzo (2004) detalhou o processo de conhecer e fazer uma revista de boa qualidade. “Uma revista é um veículo de comunicação, um produto, um negócio, uma marca, um objeto, um conjunto de serviços, uma mistura de jornalismo e entretenimento”. (SCALZO, 2004, p. 11).

A autora procura destacar o formato da revista, que por ser algo simples e pequeno facilita o armazenamento, e, em geral, é de fácil transporte, cabendo até mesmo debaixo do braço de

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uma pessoa. A revista também tem uma forte ligação com o leitor, ela facilita a comunicação entre editor/jornalista e leitor, criando assim uma relação íntima.
Revista é também um encontro entre um editor e um leitor, um contato que se estabelece, um fio invisível que une um grupo de pessoas e, nesse sentido, ajuda a construir identidade, ou seja, cria identificações, dá sensação de pertencer a um determinado grupo. (SCALZO, 2004, p. 12).

A revista é um meio de comunicação que se diferencia dos jornais, na medida em que há um aprofundamento de informações nas suas matérias devido à sua periodicidade ser semanal, mensal ou até mesmo quinzenal. Por esse motivo ela deve estar sempre inovando e buscando novas abordagens.

A primeira revista brasileira, As variedades ou Ensaios de Literatura, surgiu na Bahia, tendo como objetivo publicar discursos e costumes morais e sociais. A segunda revista no Brasil a aparecer foi O Patriota, que publicava autores e temas da terra. Em 1827, as revistas começam a se segmentar por tema. Com isso, começam a surgir os fenômenos editoriais brasileiros: O Cruzeiro (1928), Manchete (1952), Realidade (1965) e Veja (1962).

Criada pelo empresário Assis Chateaubriand, O Cruzeiro passa a estabelecer uma nova linha de linguagem com grandes reportagens e fotojornalismo, mas a publicação morre na década de 70, do século passado. Manchete, criada pela Editora Bloch, aparece com bastantes ilustrações, novos aspectos gráficos e fotográficos. Ela sobrevive até a década de 90. Realidade fecha em 1976, e é considerada uma das revistas brasileiras mais conceituadas de todos os tempos. Veja é a revista mais vendida e lida no Brasil desde 1968.

Segundo Scalzo (2004), o texto bem redigido não se reduz a uma questão de estilo, mas sim depende de uma boa apuração. O jornalista não deve escrever para si mesmo, já que no jornalismo de revista o leitor é específico, com nome, cara e necessidades próprias. O repórter tem que se imaginar como uma pessoa prestadora de serviços, alguém que dá informações corretas. O jornalista de revista tem que se preocupar sempre em prestar serviço mais do que em dar furos de reportagem.
[...] quem tem o maior número de informações qualificadas na mão tem muito mais chances de escrever uma boa reportagem, um bom artigo ou mesmo uma boa notícia do que aquele que simplesmente “escreve bonito”. Não adianta querer ficar “bordando” um texto vazio de informação. Jornalismo não é literatura. (SCALZO, 2004, p. 57).

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Para Scalzo (2004), uma vantagem muito relevante para as revistas, é que elas oferecem recursos gráficos para se contar uma história. Por isso, o jornalista tem que conseguir ver a matéria editada na página, dominando assim a linguagem visual. A autora analisa cada aspecto que forma uma boa revista, capa, pauta, design, fotografia “[...] é a fotografia que vai prendê-lo àquela página ou não”. (SCALZO, 2004, p. 69).

Scalzo mostra que, além de contar informações de qualidade, exclusivas e bem apuradas, o texto precisa de um tempero a mais, algo prazeroso, sendo totalmente diferente de uma leitura de jornal. O leitor da revista quer informações corretas, claras e simples, mas que não sejam secas. O bom texto de revista é aquele que deixa o leitor feliz, além de suprir suas necessidades de informações culturais e entretenimento. A autora afirma que o texto tem que estar bem encadeado, com as melhores palavras, frases, buscando assim fugir do comum, para que não haja a sensação de estar lendo um texto velho. Ela observa ainda que o título é que atrai primeiramente a atenção do leitor, por isso o jornalista deve procurar fazê-lo de forma criativa, direta e clara.

3.3 A Linguagem das revistas

De acordo com Elcias Lustosa (1996) a revista possui a característica de produzir um texto interpretativo, que difere dos jornais e emissoras de televisão, que têm o lead a ser seguido. O texto de revista é recuperativo, o texto é construído através de um processo de recuperação dos fatos. A reportagem da revista geralmente é descompromissada com factual e com os acontecimentos do dia-a-dia, por isso sua estrutura e conteúdos vão procurar oferecer uma matéria mais rica de detalhes e informações.

O autor Elcias Lustosa (1996) observa que a TV, o rádio e os jornais, oferecem fatos isolados, enquanto a revista semanal
oferece detalhes de toda intriga, inclusive dados sobre as divergências na tomada de decisão e as consequências que poderão se verificar a partir de experiências anteriores, quando foram adotadas providências idênticas ou muito semelhantes. No texto de abertura de uma matéria para revista utilizada como exemplo, para efeito de análise, exageramos propositalmente na contextualização, em detrimento das medidas governamentais, o que deveria ocorrer caso se tratasse de uma matéria para uma revista semanal realmente existente. (LUSTOSA, 1996. p. 105).

3.4 Sensacionalismo na mídia

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A palavra sensacionalismo possui diversos significados: remete à sensação, admiração, entusiasmo, ao espetacular, formidável, sensacional, espalhafatoso, algo capaz de emocionar ou escandalizar um fato. No entanto, sempre que um meio de comunicação for acusado por conta de algo na publicação, a palavra “sensacionalismo” será usada para condená-lo. Danilo Angrimani (1995) explica que quando um veículo de comunicação é denominado sensacionalista há certo interesse de afastá-lo das mídias sérias. Assim ele passa a ser visto pelo público como um meio não confiável, abrindo espaços para a criação de interpretações como: erro de apuração, irreverência, distorção dos fatos, deturpação, editorial agressivo, entre outras. Isso levaria o público a perder a credibilidade e confiança que antes era depositada no veículo.

Angrimani (1995, p.14) faz referências a citações de outros autores que também explicam o termo sensacionalismo. Para Mott, o sensacionalismo pode ser usado para tratamento de um jornal específico que aborda constantemente assuntos como o crime, desastres, sexo, escândalos e monstruosidade. Já Pedrosa defende o gênero como modo de produção discursiva da informação de atualidades.
Intensificação, exagero e heterogeneidade gráfica: ambivalência lingüístico-semântica, que produz o efeito de informar através da não-identificação imediata da mensagem; valorização da emoção em detrimento da informação; exploração do extraordinário e do vulgar, de forma espetacular e desproporcional; (...) (ANGRIMANI, 1995, P. 14).

De acordo com Marcondes Filho (citado por Angrimani, 1995, p.15) o método sensacionalista é como um nutriente que causas pulsões mais intensas. Para o autor, tudo o que ele vende é aparência, e vende-se aquilo que a informação interna não desenvolverá melhor do que a manchete. O jornalismo sensacionalista extrai do fato a emoção apelativa, e a partir dessa notícia produz uma nova para apenas vendê-la. Ele acrescenta que grande parte do que compõe a imprensa atual são escândalos, sexo e sangue, as histórias e sua essência estão fora.
O termo “sensacionalista” é pejorativo e convoca a uma visão negativa do meio adotado. Um noticiário sensacionalista tem credibilidade discutível. A inadequação entre manchete e texto – ou ainda, manchete e foto; texto e foto; manchete, foto e texto – é outra característica da publicação sensacionalista, o que pode reforçar a posição de descrédito do leitor perante o veículo. Isso porque a manchete, dentro da estratégia de venda de uma publicação adotou o gênero sensacionalista, adquire uma importância acentuada. A manchete deve provocar comoção chocar, despertar a carga pulsional dos leitores. São elementos que nem sempre estão presentes na notícia e dependem da “criatividade” editorial. (ANGRIMANI, 1995, P. 16).

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Tornar sensacional um fato ou explorar a notícia de forma indevida toma um rumo que nos leva muitas vezes para a ficção. Outros nutrientes que podem colaborar para que o fato seja escândalos são fait divers, lendas, crenças, personagens olimpianos, pessoas ou animais com algum tipo de deformação e deficiências.
O fait divers, como informação auto-suficiente, traz em sua estrutura imanente uma carga suficiente de interesse humano, curiosidade, fantasia, impacto, raridade, humor, espetáculo, para causar uma tênue sensação de algo vivido no crime, no sexo e na morte. Conseqüentemente, provoca impressões, efeitos e imagens (...) (ANGRIMANI, 1995, p.26)

O fait divers se adequa à linguagem sensacionalista por apresentar frequentemente um campo aberto, onde o leitor é convidado a fantasiar, a colocar seus sentimentos, ou até mesmo a expor indignações sobre o fato abordado. Monestier (citado por Angrimani, 1995, p.30), reconhece que a leitura de uma reportagem nunca é feita com inocência. Por isso, a utilização da linguagem sensacionalista, composta por signos e clichês, não é feita apenas na imprensa escrita, mas também nos telejornais e no rádio jornal, em forma de depoimentos, narração com interpretação e aparição de imagens fortes, levando o telespectador à emoção. Angrimani (1995) descreve que o jornalismo impresso sensacionalista teve um início incerto, apesar de ter se enraizado na imprensa desde os seus primórdios. Merecem referência dois jornais franceses, “Nouvelles Ordinaires” e “Gazette de France” que surgem em 1631. Segundo Seguin (1995) esses jornais se assemelhavam aos jornais sensacionalistas feitos atualmente, com bastante exagero e imprecisão dos noticiários.

No século XIX, os jornais populares de apenas uma página com ilustrações e textos faziam sucessos relatando mortes, grandes catástrofes, queimadas, cadáveres cortados em pedaços e outros fatos chocantes para as pessoas mais sensíveis. Já no fim do século XIX, surgem os jornais que moldam o gênero sensacionalista com características que até hoje marcam a “imprensa amarela” composta por manchetes escandalosas, impressão preta ou vermelha e falsidade sobre o fato. Já a “imprensa marrom” é o meio de comunicação não confiável, ilegal.

Por outro lado, Lustosa considera que a notíca necessita de um tratamento sensacionalista para assim criar um interesse naquela pessoa que vai comprá-la. Segundo Virgínia Bicudo (apud LUSTOSA, 1996, p.32) é “uma forma de comunicação que apela às emoções primitivas por meio de apresentações de fatos que têm características incomuns, místicas ou sádicas,

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idealísticas ou monstruosas, fatos que são ao mesmo tempo desejados, temidos e repelidos”. Portanto, a autora considera que os jornalistas não escrevem apenas um texto com elementos de emoção e sensação, mas escolhem acontecimentos que podem ser sensacionalistas, emocionantes e extraordinários, para que assim sejam transformados em notícia. Lustosa considera que “os noticiosos são produzidos como verdadeiro espetáculos, de modo a produzir o mesmo interesse e emoção proporcionados pelas obras de ficção ao espectador”. (LUSTOSA, 1996, p.134). Segundo o autor, a informação pode ser comprada como um produto que pertence à indústria de cultura, por isso, cria-se a necessidade de dotá-la de um caráter mais universal capaz de ser entendido por qualquer tipo de pessoa.

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4 ANÁLISE DA CONSTRUÇÃO DO MITO MAYSA DENTRO DAS REVISTAS O CRUZEIRO E MANCHETE, NAS DÉCADAS DE 50 A 70 DO SECÚLO PASSADO

4.1 Metodologia de pesquisa

Para a elaboração do trabalho, foi escolhido um objeto de pesquisa, que no caso é a cantora Maysa; a partir deste ponto houve a seleção das referências bibliográficas que têm relação com os temas: cultura de massa, sensacionalismo, critérios de noticiabilidade, revista, biografia da cantora e mito. Para a construção do referencial teórico, foram examinados e consultados, livros, artigos e monografias.

O método aplicado no primeiro momento foi a análise de conteúdo do material empírico (reportagens) a partir das matérias vinculadas nas revistas O Cruzeiro e Manchete. No primeiro momento foi feito uma leitura do conteúdo das matérias, uma quantificação dos temas trabalhados nas reportagens, o tipo de linguagem utilizado, a relação entre as fotos, o texto, olho gráfico, a utilização dos critérios de noticiabilidade, os pontos que remetem ao sensacionalismo e se as matérias apresentam uma postura mais crítica pelos jornalistas. Para essa análise de conteúdo, foi selecionados reportagens/matérias que ilustram as diferentes trajetórias da vida da cantora Maysa, com os seguintes títulos: M M É A MESMA COM 1, 2 OU 3 M, publicada em 5/12/1959 10 ANOS SEM MAYSA, publicada em

10/05/1987, MAYSA MUITAS BIOGRAFIAS E UMA VIDA, publicada em 20/02/1988, Renato Sergio escreve CINCO ANOS SEM MAÍSA, entre outras, disponíveis nas revistas O Cruzeiro e Manchete. Foi necessária a delimitação do problema devido o difícil acesso para com as revistas, pelo fato de não haver mais publicação das mesmas.

Outro método utilizado foi a análise de discurso em que, foram estabelecidas relações entre o espaço e páginas com o objetivo de saber como foi construída a então imagem da cantora.

4.2 A revista O Cruzeiro

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A revista O Cruzeiro surgiu no início do século XX, em 10 de novembro de 1928 e teve sua reformulação em 1945. Produzida pelo grupo dos diários associados, O Cruzeiro foi a primeira revista brasileira de circulação nacional e introduziu a linguagem da fotorreportagem. De acordo com o artigo de Marialva Barbosa, publicado em 2002, O Cruzeiro era uma revista semanal de entretenimento com formato diferenciado, com o emprego de “[..] muitas fotografias e títulos, representava a possibilidade de mais pessoas de uma mesma família, principalmente as mulheres, lerem ou folhearem as suas páginas de diversas maneiras”. (BARBOSA, 2001).

A revista era para todos os tipos de público, tanto que procurava abordar temas gerais, desde fatos do cotidiano até fenômenos científicos.
Por isso, a pauta entremeava fatos verossímeis entre trivialidades de aceitação garantida. As fotografias imprimiam o realismo. De inegável qualidade técnica, as fotografias não se limitavam a uma página; estendiam-se à página do lado, deixando o leitor embevecido pela imagem. (BARBOSA, 2001)

O Cruzeiro tinha editorias que englobavam esportes, saúde, charges, política, culinária e moda e utilizava uma linguagem popular. A revista também contava fatos sobre a vida dos artistas. Nos anos 60, com o surgimento da revista Manchete, O Cruzeiro entra em declínio, chegando o seu fim em julho de 1975. 4.3 A revista Manchete De acordo com o artigo “Aconteceu, virou manchete” de Ana Maria Ribeiro de Andrade e José Leandro Rocha Cardoso, publicado em 2001 na Revista Brasileira de História7, a revista Manchete iniciou sua circulação em abril de 1952, após Adolpho Bloch apresentar o projeto da revista a seus amigos Henrique Pongetti, Raimundo Magalhães Júnior, e Pedro Bloch. Conforme citado no artigo, Adolpho Bloch, imigrante russo, chegou ao Brasil em 1922 com sua família, onde foi naturalizado brasileiro. “Adolpho Bloch apostava que havia lugar no mercado para mais uma revista de circulação nacional, ou seja, que poderia concorrer com O Cruzeiro”. (RIBEIRO DE ANDRADE e ROCHA CARDOSO, 2001). Os autores citam que, com o desafio de concorrer com a revista O Cruzeiro, Adolpho Bloch se aperfeiçoou nas

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Ana Maria Ribeiro de Andrade, José Leandro Rocha Cardoso. Aconteceu Virou Manchete.<http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S010201882001000200013&script=sci_arttext>. Acessado em: 05 de Abril de 2010.

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tipografias da família, onde introduziu em sua revista Manchete inovações editoriais e aprimoramento no projeto gráfico. Conforme o artigo, logo no início o investimento foi pequeno com uma produção baixa “as máquinas da tipografia da família, ficando ociosas três dias na semana, podiam imprimir edições semanais da Manchete de 200 mil exemplares. Ainda assim, a revista custava o mesmo preço da principal concorrente”. (RIBEIRO DE ANDRADE e ROCHA CARDOSO, 2001). Com a chegada de máquinas inovadoras por volta de 1956, como é apontado no artigo, a revista ganhou maior qualidade. “Nahum Sirotsky, que sucedeu a Henrique Pongetti no cargo de editor geral, foi o responsável pelas mudanças”. (RIBEIRO DE ANDRADE e ROCHA CARDOSO, 2001). Pode-se verificar que a revista Manchete teve seu maior sucesso logo que a revista O Cruzeiro começou a entrar em crise, o que fez com que cerca de 17 jornalistas se transferissem em 1958 para Manchete, devido ao declínio da revista. De acordo com o site traça 8, a revista foi considerada a segunda maior revista brasileira na época. O que mais se destacava em suas edições eram a linguagem utilizada e o fotojornalismo. Em 2006, foi relançada pela Editora Manchete, passando a ser editada apenas em edições especiais sem periodicidade fixa. 4.4 Biografia de Maysa Os dados biográficos de Maysa constam no livro de Lira Neto, Maysa só numa multidão de amores (2007). Maysa Figueira Monjardim nasceu no Rio de Janeiro, em 6 de junho de 1936, quando faltava apenas dez minutos para o meio-dia, na casa de seu avô paterno, o ex-senador Manoel Silvino Monjardim, um conceituado médico da capital federal, que fez o parto. Era filha de Alcebíades Guaraná Monjardim, boêmio formado em Direito e deputado no Espírito Santo, que vinha de uma família tradicional italiana, e Inah Figueira, uma bela moça de olhos claros, que havia sido coroada Miss Vitória, pertencente também a uma tradicional família do Espírito Santo.

Com apenas três anos de idade, Maysa se mudou para a cidade de São Paulo. Segundo Lira Neto, Maysa e seus pais viviam como ciganos, sempre mudando de casa e Estado, devido ao trabalho de seu pai.

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http://www.traca.com.br/?tema=padrao&pag=revistamanchete&mod=inicial. Acessado em 05 de abril de 2010.

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Os pais de Maysa a matricularam em dois colégios tradicionais de São Paulo: o Colégio Assunção e o Sacre Coeur de Marie, em regime de internato. As duas escolas eram dirigidas por freiras e tinham uma rígida disciplina tanto de comportamento, quanto de religião, ética e moral. De acordo com sua biografia, Maysa nunca foi boa aluna e na adolescência o problema se agravou. Ela se sentia dona de seu nariz e de suas vontades e seu comportamento provocou várias queixas e notas ruins. Maysa foi reprovada no 2º ano ginasial, porém não ficou amargurada. No ano seguinte, sendo a garota mais velha da classe, Maysa tornou-se uma líder do grupo, chamando a atenção por seu modo de vestir e agir.

O envolvimento de Maysa com a música veio em sua adolescência. Desde jovem ela já cantava em festas da família, escrevia músicas e tocava piano. Maysa estudou piano clássico cerca de oito anos, porém nunca teve interesse genuíno pelo instrumento, gostava mesmo era de violão, não muito recomendável para as meninas naquela época. Aos doze anos compôs o samba-canção "Adeus" depois de um grande desentendimento que teve com os seus pais. ”Naquele dia, posta de castigo por meu pai e minha mãe, entrei na banheira, peguei um pedaço de papel e comecei a escrever”. (LIRA NETO, 2007, p. 45). Oito anos depois a música foi incluída em sua álbum de estréia, e se transformaria em sua primeiro grande sucesso:
Adeus palavra tão corriqueira Que diz-se a semana inteira A alguém que se conhece Adeus logo mais eu telefono Eu agora estou com sono Vou dormir, pois amanhece Adeus uma amiga diz à outra Vou trocar a minha roupa Logo mais eu vou voltar Mas quando Este adeus tem outro gosto Que só nos causa desgosto Este adeus você não dá. (LIRA NETO, 2007, p. 46)

Lira Netto (2007) conta que no segundo semestre de 1950, com seus 14 anos, Maysa media 1,62 metros e pesava 66 quilos, isso mostra o começo de seu desentendimento com a balança. O autor ressalta ainda que em seus exames médicos já constava sua tendência a ganhar peso.

Mesmo quando o ponteiro da balança apontava para as alturas, Maysa tinha uma arma infalível para fisgar os pobres e juvenis corações masculinos: os olhos irresistivelmente verdes. “Ninguém podia com eles”, entregaria Cariê Lindenberg, futuro empresário de comunicação, filho do então governador do estado - Carlos Lindeberg - e um dos amigos da turma dessa época no Espírito Santo. “Eu era uma

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assanhadinha dessas que não têm explicação”, confessaria a própria Maysa. (LIRA NETO, 2007. p. 41).

Nesta mesma época Maysa começou a cultivar um hábito cotidiano de escrever em diários, o que durou a sua vida toda.

Com 15 anos, Maysa mostrava-se cada dia mais rebelde. Um dia, resolveu não vestir o uniforme para ir à escola e colocou uma blusa de seda cor da pele e uma saia preta acima dos joelhos e aberta nas laterais, na qual apenas um broche impedia que suas coxas ficassem à mostra, calçou também sandálias de salto alto e pintou o rosto com maquiagem. De acordo com o sua biografia, “Maysa entrou no ônibus e sentou no último banco, onde abriu a bolsa e tirou um cigarro, ao chegar na escola foi barrada” (LIRA NETO, 2007, p. 44). A diretora deulhe uma advertência e disse que só entraria na escola com a presença de seus pais. Lira Netto (2007) ressalta que Maysa ficou três dias sem ir à aula, pois devido à vida boêmia de seus pais, ela não conseguiu falar com eles para explicar o ocorrido.

Cada vez mais a música encontrava-se presente na vida de Maysa. Nas noites em sua casa, patrocinadas pelo seu pai, os convidados acostumavam escutá-la cantando ao violão. Já quando ficava em São Paulo, Elizeth Cardoso não perdia a chance de ir rever sua amiga Inah Monjardim e de falar que percebia um grande talento em sua filha. Lira Neto conta que Maysa diria. “Aprendi tudo com Elizeth, ela foi minha mestra”. (LIRA NETO, 2007, p. 48).

Conforme Lira Neta (2007) em 1952, ela deixava em uma das páginas de seu caderno, uma canção sem título, composta por ela aos dezesseis anos, que permaneceu inédita, e que expressa o sofrimento vivido e a inutilidade do dinheiro para compensar esse sentimento:

Esquece que já sofreste um dia põe de lado a fantasia e vem comigo amar. Esquece que já sofreste um dia põe de parte o teu sofrer e tanto dinheiro para gastar. (LIRA NETO, 2007, p. 86).

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Certo dia voltando da escola encostou seu nariz no vidro do ônibus escolar, e ficou admirando uma mansão na Avenida Paulista e ainda falou com suas amigas que um dia ainda iria morra naquela casa, a famosa mansão dos Matarazzo9.

Andrea Matarazzo, o homem mais rico do país, foi amigo de Monja e freqüentava a casa dos Monjardim para noitadas habituais de baralho e uísque. Maysa e André, filho de Andrea, se conheceram em Poços de Caldas. Maysa posava para uma foto em uma charrete, com vestido curto e trancinhas, quando André se aproximou e deu-lhe um beliscão em suas bochechas. Ela tinha 5 anos e ele 22 anos. Maysa cresceu vendo André sentado na sala de sua casa. Os pais de Maysa não viram com bons olhos o interesse de André por Maysa, e mandaram-na para a casa da tia em Vitória. Mas de nada adiantou, pois Maysa recebia ligações de André. Maysa já estava caidinha por André. Com a segunda reprovação consecutiva do 2o ano ginasial no Ofélia Fonseca, os pais tentaram transferi-la para o tradicional Colégio Mackenzie, porém o colégio a recusou devido ao seu histórico escolar. Diante disso Maysa desistiu dos estudos não concluindo o ginásio. (BIOGRAFIA, AUTOR DESCONHECIDO) 10

Esse sonho veio a se realizar quando conheceu o milionário André Matarazzo, dezessete anos mais velho, que falou sobre os seus verdadeiros sentimentos por Maysa e propôs casamento à jovem.

Segundo a biografia considerada, mesmo após firmar um relacionamento com André, Maysa não deixava de paquerar outros rapazes, o que provocava brigas entre os dois. Em seu diário, Maysa acusava André de ser egoísta. De acordo com Lira Neto (2007) o namoro de Maysa com o então empresário André Matarazzo, durou cerca de um ano e meio, e ela pressionou o rapaz para que logo marcasse a cerimônia. No dia 24 de janeiro de 1955 eles se casam na Catedral de Sé, em São Paulo. Nesta época Maysa tinha apenas 17 anos, o que fez com que seus pais tivessem que autorizar seu casamento.

Maysa era uma mulher que conquistava todos os seus objetivos, tanto que ao voltar de sua viagem de lua-de-mel, foi morar na então famosa “Mansão dos Matarazzo, na Avenida Paulista, como Maysa havia sonhado anos atrás” (BIOGRAFIA, AUTOR

DESCONHECIDO)

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Tradicional família ítalo-brasileira, donos das indústrias de mesmo nome, que fez fortuna no Brasil. Cf. <http://bloginstitucional.fmu.br/site/graduacao/psicologia/arquivos/biografia_maysa_07.pdf >. Acessado em: 15 Janeiro de 2010.
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Lira Neto (2007) conta que em 1955 Maysa ficou grávida de seu único filho, Jayme Monjardim11, e que no meio da gestação já se encontrava pesando cerca de 90 quilos. No período em que se encontrou grávida, Maysa participava de festas sempre com seu violão e cantava para seus convidados. E em uma dessas festas, Maysa foi convidada por Roberto Corte-Real, da gravadora RGE, para gravar um disco. Seu marido não concordou com a idéia na ocasião, mas logo em seguida acaba cedendo, para ver sua mulher feliz. Contudo, fez algumas exigências a ela, tais como nunca se apresentar como uma cantora profissional, doar a renda do disco para o Hospital do Câncer, não colocar sua imagem na capa do LP e, por fim, que ela esperasse seu filho nascer. Em 19 de maio de 1956 nasce Jayme. Devido às complicações do parto, ela não pôde mais engravidar.

4.5 O início de um grande sucesso

Lira Neto (2007) conta que o lançamento de seu primeiro disco Convite para ouvir Maysa aconteceu em 1956, quando seu filho já se encontrava com seis anos de idade. Em 1957 Maysa resolve ser uma cantora profissional, o que acaba gerando desentendimentos entre ela e seu marido, pois ele alegava que sua carreira iria manchar o nome da família.

Maysa conseguiu novamente convencer seu marido e então começou a divulgar as músicas de seu disco nas rádios. Ela iniciou a sua carreira cantando na Radio Mayrink no Rio de Janeiro e em seguida na Record em São Paulo. Conforme Lira Neto (2007) aponta, em 1957, a TV Record faz uma proposta à Maysa para apresentar um programa semanal, onde receberia 100 mil cruzeiros mensais. Por exigências de Maysa, o programa foi ao ar no dia 13 de março, que ela considerava seu dia de sorte. Com isso, seu marido perdeu o domínio sobre ela, impondolhe um ultimato: ela deveria decidir entre ele ou sua carreira. A resposta veio em forma de canção “Ouça”, que logo virou uma faixa de seu novo disco.
Ouça, vá viver a sua vida com outro bem, hoje eu já cansei de prá você não ser não ser ninguém. O passado não foi o bastante prá lhe convencer que o futuro seria bem grande só eu e você. Quando a lembrança com você for morar e bem baixinho de saudade você chorar, vai lembrar que um dia existiu um alguém
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Diretor de cinema e Rede Globo de Televisão.

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que só carinho pediu e você fez questão de não dar, fez questão de negar. (LIRA NETO, 2007, p. 71).

No mesmo período de 1957, Maysa recebera outra proposta de televisão, e desta vez seria no Rio der Janeiro, a TV Rio, canal 13, seu numero da sorte. Diante disso ela não teve alternativa a não ser aceitar. Com a aceitação do novo programa, seu casamento a cada dia se arruinava. O casal decidiu então se separar e a guarda do filho Jayme, de três anos, ficou com ela. Na prática, porém, quem cuidava dele eram os avós maternos.

Na primeira viagem que fez para o Rio de Janeiro, pediu que seu pai falasse com seu exmarido, informando-o de que nunca mais iria voltar para São Paulo. O artigo que revela sua biografia12 aponta que nesta época Maysa começou a se envolver com a bebida, “antes de enfrentar os microfones sempre tomava uma ou duas doses de uísque. Na infância Maysa tinha o hábito de beber os restinhos de licores que ficavam nas taças depois que as visitas dos pais iam embora”. (BIOGRAFIA, AUTOR DESCONHECIDO)

Lira neto (2007) aponta que em 1957 Maysa passou a ser criticada pela mídia por tudo que fazia, desde o modo de vestir até as suas canções. A mídia passou a persegui-la, qualquer coisa que fizesse aparecia no dia seguinte nas manchetes dos jornais. Com a separação enfrentou seguidas crises de depressão, levando-a a comer e beber excessivamente, chegando muitas vezes a ir trabalhar bêbada.

Separada de André Matarazzo, Maysa tentou buscar a felicidade, porém enfrentou seguidas crises de depressão. Diante das câmeras, chegou a cambalear “... quando era preciso cumprir alguns compromissos, bastava aliviar a tensão com alguns drinques”, dizia a cantora. (BIOGRAFIA, AUTOR DESCONHECIDO)

4.6 O auge da carreira e sua morte

Com a renovação de seu contrato com a RGE, Maysa tornou-se mais rebelde, gerando assim grandes escândalos, não comparecendo aos shows em algumas cidades, e em suas férias no

12

<http://fmu.br/site/graduacao/psicologia/arquivos/biografia_maysa_07.pdf>. Acessado em: 15 Janeiro de 2010.

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Rio de Janeiro, depois de beber, foi desfilar em um carro conversível e nadar nua no rio Paraíba. Em 1957,
em pouco mais de um ano de carreira, ela atingira o topo do sucesso. Gravara até de dez polegadas (com oito músicas cada) e quatro discos de 78 rpm (com duas canções cada um). Foi o suficiente para ganhar o disputado troféu Roquette Pinto – a mais importante premiação do rádio e da televisão brasileira à época [..]. (LIRA NETO, 2007, p. 18).

Neste período, a cantora foi capa de várias revistas e jornais como: Radiolândia, Jornal o Globo, Jornal Última Hora, Jornal Imprensa Popular, Revista de Rádio, O Cruzeiro, entre outras. Em 1958, Maysa lançou o disco “Convite para ouvir Maysa No 2”, no qual estava incluída a música “Meu mundo Caiu”, de sua autoria.

Meu mundo caiu E me fez ficar assim Você conseguiu E agora diz que tem pena de mim... (LIRA NETO, 2007, p. 89).

Lira Neto (2007) conta que na década de 50 o Brasil não admitia que uma mulher separada pudesse tomar conta de sua própria vida, tanto que de queridinha do país Maysa se transformou em saco de pancada da mídia. Em 1958 ela era a cantora mais jovem e mais bem paga de todo o Brasil.
Quem se debruçar sobre a coleção de jornais do Rio de Janeiro e São Paulo naquela ano de 1958 vai chegar a uma sombrosa constatação: entre 1 de janeiro e 31 de dezembro não houve um único dia - e isso, acredite-se, não é força de expressão – em que Maysa não tenha sido notícia em pelo menos um órgão da imprensa carioca e paulista. (LIRA NETO, 2007, p. 22).

Conta o autor que quando ia fazer shows em boates ou churrascarias, caso alguém começasse a conversar ela parava o show e atirava na platéia o que estava à sua frente. Ela também perdia a paciência com os jornalistas e fotógrafos que tanto infernizavam sua vida. Neste período Maysa iniciou um rápido romance com o produtor de programas Carlos Alberto Loffler. “Em uma terça-feira, 11 de fevereiro de 1958, os vizinhos foram acordados por um grito de mulher no meio da noite (Maysa). Nos dias seguintes, a notícia estava no rádio e nos jornais “Maysa tentara se matar cortando o pulso esquerdo com gilete.” (LIRA NETO, 2007, p. 102).

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Depois de receber alta do Hospital, Maysa foi até a imprensa negar que teria atentado contra a sua vida, dizendo que cortou o pulso no vidro da janela. Outro fato marcante ocorreu em 1958, quando Maysa bateu seu carro em um caminhão, o que lhe rendeu uma cicatriz no rosto, o que garantiu mais uma vez sua presença na mídia.

Lira Neto (2007) conta que Maysa atentou contra sua própria vida duas vezes, ambas por ter terminado relacionamentos. Devido à procura estressante da imprensa, Maysa resolve tirar férias fora do país. Em uma dessas viagens, recebeu uma proposta de um famoso empresário português, iniciando assim uma temporada no Casino Estoril. Após meses ela retorna ao Brasil 10 quilos mais gorda, e com os dentes estragados.

Durante essa viagem, um fotógrafo brasileiro localizou Maysa e fez uma entrevista para a revista O Cruzeiro. Nessa matéria surgiu que Maysa tentara o suicídio por 28 vezes, fato não comprovado e que uma dessas vezes teria sido no Rio Sena. Durante a entrevista Maysa disse “Esta revolta íntima contra tudo, esta insatisfação, esta fuga de mim e, ao mesmo tempo, esta eterna procura de meu eu é que me torna infelicíssima.” (sic) Enquanto esteve fora do país, André Matarazzo, seu ex-marido, casou-se com uma estrangeira, Miss Israel de 1954, Vivi Matarazzo. Maysa disse que André se atrasou e que ela já tinha um novo amor, o lusitano e jornalista Vitor da Cunha Rego, porém o romance como todos os outros não foi longe. (BIOGRAFIA, AUTOR DESCONHECIDO)

Lira Neto (2007) conta que, em 1959, com a morte de sua amiga Dolores Duran, Maysa desaparece. “Sua última aparição foi no baile de Carnaval Municipal de 1960, estava de maiô e quando a foto foi publicada Maysa viu que seu corpo estava deformado e chorou dias seguidos, dizendo que ela própria não mais se reconhecia”. (BIOGRAFIA, AUTOR DESCONHECIDO). Tanto que em Paris confessou ao jornalista da revista O Cruzeiro que, depois de ter visto sua imagem no espelho e se deparar com uma mulher feia e arruinada, reavivou a vontade de se matar.

Em 1960, lança mais um álbum, intitulado Maysa canta sucessos. Nele havia composições de sua mãe, Inah Monjardim. Maysa novamente vai para os Estados Unidos, só que agora para fazer apresentações. Com duas semanas de estadia no país, Maysa escreveu um texto, para uma coluna brasileira, contando o grande sucesso que estava fazendo, o que a faz novamente voltar a ser o centro dos meios de comunicação.

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Depois de meses Maysa começa a beber e a fumar além normal, o que acaba gerando preocupação em seu filho. Jayme vai em busca de sua mãe, mas não consegue convencê-la de voltar para o Brasil.

Ainda em 1961, Maysa, assinou contrato com a Columbia Norte–Americana, gravando um LP Maysa sings songs before dawn nos estúdios da produtora. Tudo indicava que a produtora estava disposta a investir na cantora brasileira. Mas ela voltou para o Brasil, porque nem o Blue Angel nem a produtora Associated Booking Corporation quiseram renovar seu contrato, pois ela deixava as platéias e os donos das boates a ver navios. Em certas apresentações Maysa ameaçou os clientes que estavam conversando, os norte americanos não aceitaram tal atitude de Maysa. Ao voltar, a cantora disse: “Os americanos são muito rigorosos nessas coisas de contrato artístico. É tudo muito certinho e organizado. Não me acostumaria a ter uma vidinha toda regrada como eles exigem”. (BIOGRAFIA, AUTOR DESCONHECIDO). E disse que era ela que decidira dar um tempo na relação com os Estados Unidos. Voltou gorda devido ao abuso de álcool.

Em 1961, ela retorna ao Brasil. Lira Neto (2007) relata que Maysa se apaixonou pelo jornalista Ronaldo Bôscoli. Mas Bôscoli na época era noivo da cantora Nara Leão, e o que ele queria mesmo era introduzir a cantora mais famosa da época na Bossa-Nova.

Lira Neto (2007) observa que Bôscoli e Maysa iniciaram um romance. Com isso, a revista Manchete propõe um desafio a Maysa: fazer uma auto–entrevista, perguntando a si mesma tudo o que nenhum jornalista jamais teria perguntado e sem censura. O seu companheiro Bôscoli aconselhou a realização da auto-entrevista e como ela estava apaixonada não hesitou em acatar a ideia. A matéria então foi publicada na revista Manchete (data não publicada), conforme a transcrição seguinte:

Maysa enfrenta Maysa Você é masoquista? - Às vezes. Considero masoquismo aturar sem queixas uma porção de pessoas. Detesto gente burra e vivo me encontrando com elas. Se é só este o seu masoquismo, por que você vive atritando fitas de papel com os dedos, até fazê-los sangrar? -Até sangrar é exagero. Tenho este hábito desde menina. Acho que é uma preparação inconsciente para enfrentar as dores que o destino sempre me reserva. Dor física, aliás, jamais me fez medo. Tenho medo apenas do que não depende de mim: amar e não ser amada, por exemplo.

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Seu êxito dependeu apenas de seu talento? - Já fiz muitas concessões para obter sucesso e hoje estou profundamente arrependida. Agora não há fabricante de discos que me faça gravar o que eu não sinta. Caso fosse possível você deixaria de cantar imediatamente? - Não, para a gente deixar de fazer qualquer coisa que nos afirme é preciso substituíla, sempre, por algo melhor. Para mim, a única coisa melhor do que cantar seria... cantar só para quem eu amasse. Eu sei que você não “ama” seu atual público no Copacabana. Mas pelo menos gosta dele? - Por enquanto, não. Grã-fino, geralmente, não gosta de música e muito menos de artista brasileiro. É por isso que você bebe minutos antes de cantar? - A bebida é a bengala de um velhinho que mora em minha personalidade. Mas tenho certeza de que uma criança que existia em mim, antes de tantas coisas acontecerem, um dia voltará. Só então saberei quem sou. Mas você não bebe somente antes de entrar em cena, não é? Por que você bebe de modo geral? - Primeiro porque quero. Depois porque trabalho para pagar o que eu bebo. Finalmente, porque tenho senso de autocrítica. Muitas vezes reconheço-me insuportável e eu só suporto os insuportáveis bebendo. Você acredita que um dia deixará o álcool? - Deixarei a bebida quando encontrar o amor. Mas para amar é preciso estar preparada. Quero, preciso e ainda amarei. Você se sente sozinha? Tem medo de ficar sozinha? - Pavor. Quando estou só, tenho certeza de que sou maior do que eu mesma e isto me apavora. Ninguém deve conhecer a sua própria dimensão. Você já tentou se matar algumas vezes. Em qual delas foi sincera? - Em todas. Mas nenhuma eu queria morrer imediatamente. Por isso morria pouco. Só uma coisa me faria morrer até o fim: o amor. (LIRA NETO, 2007, p. 165 e 166).

Depois desta entrevista Maysa e Bôscoli foram para fora do país, onde fez diversos shows, cantando Bossa Nova. Bôscoli era noivo e em um descuido no telefone com sua namorada, foi pego por Maysa falando que já não aguentava mais ficar na companhia daquela “gorda”. Maysa ouvindo aquilo, tratou de combinar uma entrevista com a imprensa e quando Bôscoli menos esperava divulgou que estavam noivos, gerando assim a separação de sua noiva. Com esse episódio, Maysa e Bôscoli assumem um compromisso, que teve pouquíssima duração, pois,
Bôscoli não iria agüentar a tempestade que estaria por vir e saiu à francesa deixando Maysa para trás, por não conseguir encarar uma despedida, temendo a reação da cantora. Ao acordar, Maysa quis esganá-lo ao perceber a fuga do namorado e que nunca perdoaria o fato de alguém sair da sua vida assim, de uma hora para outra.

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Maysa convocou um amigo influente e fez com ele trouxesse Bôscoli de volta antes mesmo que o coitado saísse da cidade. (BIOGRAFIA, AUTOR DESCONHECIDO).

Em 1962, ela retorna para o Brasil. Maysa desaparece novamente, mas desta vez, para se desintoxicar de bebidas, com a ajuda da sonoterapia, tal como já ocorrera anteriormente no Brasil.

Lira (2007) conta que no final de 1964, Maysa recebe a notícia de que seu ex-marido, André Matarazzo, falecera, vítima de um infarto fulminante aos 45 anos. Com isso, resolve levar seu filho de oito anos para a Europa, onde o matriculou em um colégio interno. No período de 1964 a 1968 Maysa permaneceu fora do país fazendo shows.

Em 1969, ao retornar para o Brasil, recebe a proposta de fazer um programa na TV Tupi do Rio de Janeiro, o programa tinha o nome de “Maysa Especial” e era exibido aos sábados às 20h 15, com direção de Carlos Alberto Loffler. Em agosto de 1970, Maysa aceita ser repórter no programa “Dia D” na TV Record, o que foi um fiasco.

Lira (2007) ressalta que a relação de Maysa com seu filho não era das melhores, pois ela deixara o menino até seus 14 anos no internato. Ao retornar para o Brasil, Jayme vai até sua mãe que o despreza. O dia em que mãe e filho se viram pela última vez foi após o casamento de Jayme Monjardim.

Na década de 70, Maysa recebe um convite da Rede Globo, para cantar no programa Som Livre. Depois de criticar o convite, impôs uma condição:
só aceitaria se tivesse um papel na próxima telenovela”. Falou de brincadeira e o pedido tornou-se real. A personagem de Maysa chamava-se Simone e tinha uma história semelhante a sua, era casada com um industrial, estava cansada da vida de socialite e abandona o marido, trocando São Paulo pelo Rio. Essa novela passava às 22 horas, chamou-se “ O Cafona”, ficou em cartaz entre março e outubro de 1971, com direção de Daniel Filho e Walter Campos. Maysa também descobriu um novo mundo para ela, o teatro, e tornou-se protagonista do espetáculo Woyzeck, onde era Maria, a mulher de Franz Woyzeck, um barbeiro e soldado atormentado pela miséria e pela loucura. A peça foi encenada no teatro Casa Grande e a própria Maysa bancou o espetáculo do autor alemão Georg Büchner, vindo a ser seu segundo fracasso como produtora. O espetáculo não seguiu em frente, porque não daria o retorno financeiro a altura do investimento e da história contada. O insucesso de Woyzeck abriu um rombo irrecuperável em sua conta bancária, mas ela não desistiu da carreira de atriz. Em

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junho, a TV Tupi a chamou para fazer a telenovela “ Bel-Ami”. Nessa novela, Maysa fez o papel de Maricá, uma mulher caprichosa e endinheirada que ajudava o protagonista a subir na vida, um alpinista social e mau-caráter, que se torna colunista de jornal. (BIOGRAFIA, AUTOR DESCONHECIDO)

Neste mesmo período ela resolveu construir uma casa em Maricá no Rio de janeiro, que durante o resto de sua vida se tornou seu grande refúgio. Em 1972, quis voltar a estudar, o que não se concretizou. Abriu um brechó no Rio de Janeiro e escreveu a peça “Entre quatro paredes”, baseada em texto do francês Jean Paul Sartre. Neste mesmo período ela começa a namorar o galão de novelas Carlos Alberto e partem para Maricá, onde acabam ficando por um bom tempo.

Lira Neto (2007) informa que no sábado, dia 22 de janeiro de 1977, Maysa tinha decido que iria ficar uns dias em Maricá. Tanto que levanta pela última vez de sua cama, vai até a casa de seus pais, almoça com eles, deita no ombro de seu pai, dá-lhe um beijo e diz: “Monja eu te amo.” repetindo assim o mesmo gesto com sua mãe. Seu pai pede a ela que fique, mas ela não o escuta, entrando na sua Brasília, correndo a mais de cem quilômetros por hora às 17h50, na ponte Rio-Niterói, quando o carro se choca na parede de concreto.
O capô do carro invadiu a cabine e o veículo ainda rodopiou pela pista, batendo os dois lados no muro de proteção. A frente da Brasília azul transformou-se em um amontoado de ferros retorcidos. Com a intensidade da batida, o volante foi parar na altura do banco traseiro. Maysa sofreu afundamento de tórax, costelas quebradas, lesões na cabeça e múltiplas fraturas expostas espalhadas pelas pernas e pelos braços, morrendo antes da chegada do resgate. Seu caixão foi lacrado e seu corpo coberto inteiramente por rosas vermelhas. Maysa foi enterrada no jazigo perpétuo 245-c na quadra 30 do São João Batista, às 13h30. (LIRA NETO, 2007, p. 331, 332)

Lira conta que Jayme Monjardim recebeu a notícia do falecimento de sua mãe enquanto ouvia uma música dela e o locutor fez uma interrupção, anunciando o falecimento. 4.7 Mitificação nas páginas das revistas O Cruzeiro e Manchete

A carreira da cantora Maysa foi marcada por diversos altos e baixos. Maysa era uma mulher considerada além do tempo em que vivia, (décadas de 1950, 60 e 70). Em geral, as mulheres nesta época viviam apenas para a família e, caso fugissem disto, eram mal vistas pela sociedade, o que aconteceu com Maysa.

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As matérias retiradas das revistas Manchete (duas matérias) e O Cruzeiro (uma matéria) possuem traços do estilo magazine. Vilas Boas (1996) explica que a revista semanal preenche os vazios informativos deixados pelas coberturas dos outros meios de comunicação e que a revista carrega consigo um diferencial em seu texto.

A matéria da revista O Cruzeiro do dia 05-12-1959, expõe uma imagem em tamanho A3 da cantora Maysa, que exibe tristeza em sua expressão, apontando assim o interesse dos veículos de comunicação em construir e divulgar sua imagem atrelada à tristeza e à angústia existencial. O fotógrafo focou no olhar triste da cantora de modo a reforçar esses sentimentos. À sua frente foi colocada uma figura com o mesmo semblante que ela.

De acordo com Morin (1997) os sentimentos transformam-se em mercadorias com a cultura de massa. No caso de Maysa, os meios de comunicação venderam aspectos da sua vida pessoal como o amor, tristeza, aflições e outras coisas relacionadas à alma.

O conteúdo textual da matéria comprova a preocupação do jornalista em causar sensações nos leitores e instigar sua curiosidade ao ler o texto. No título “M M É A MESMA COM 1, 2 OU 3 M”, gera-se uma certa curiosidade que vem carregada de perguntas como, por exemplo, “M M M o que será isso”? “Uma espécie de código”?. Gerando essa curiosidade o leitor provavelmente iria se interessar pelo texto, para então descobrir que se tratava apenas do sobrenome de Maysa que tinha mudado de Maysa Matarazzo Monjardim (3 M) para simplesmente Maysa Monjardim ( 2 M), após um episódio de sua vida pessoa, a separação do primeiro marido.

Como foi escrito, Maysa vivia um período conturbado, no tocante às questões afetivas, pois tinha acabado de separar de seu marido, o empresário André Matarazzo. Por isso, a revista O Cruzeiro colocou o assunto como tema central da revista.

De acordo com Mott (citado por Angrimani, 1995, p.14), podemos observar que o sensacionalismo é usado muitas das vezes em casos de personagens. Os textos sensacionalistas vão abordar a atualidade vivida pela pessoa, no caso a cantora Maysa, expondo momentos privados de sua vida. Com relação à matéria, houve uma “valorização da emoção em detrimento da informação (...) (ANGRIMANI, 1995, P. 14). No trecho onde foi

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escrito que a cantora às vezes, como intérprete emotiva, sofria “tanto quanto um violoncelo”, não há informações relevantes sobre a carreira da cantora naquele momento.

Outro ponto que deixa explícito mais uma vez o sensacionalismo encontra-se na parte do texto em que aparecem os seguintes dizeres: “Maysa Monjardim ex-Matarazzo”. Nesse trecho é feita uma piada sobre a situação da cantora naquele momento. Em sequência, o texto faz um elogio à cantora. “Em geral, diante dela, o nome Maísa se impõe na qualidade de superlativo de mais – que dizer mais dessa artista imensa e tão nossa? Quatro “estrelas” em uma só. Compositora, poetisa, cantora e intérprete.”. Ao mesmo tempo, os autores “garantem que a cantora está deixando de ser “uisquisita” e já se alimenta até de maizena”, sendo irônicos e debochados. Mircea Eliade (2000), ao refletir sobre o mito como algo construído, faz pensar em como Maysa transformou-se, por meio da mídia, numa mulher ambígua, talentosa e desequilibrada ao mesmo tempo. Por fim a matéria é finalizada com “possui os olhos tão antigamente verdes e os mais implacavelmente belos da TV – de tão fixos que a imagem de TV pisca e ela não. A nossa MMM é tão singular que consegue ser a única talentosa que canta também com os olhos”. O jornalista procurou enfatizar uma pessoa firme, bonita, sincera e de opinião. O que nos mostra mais uma vez a ambigüidade com a qual era construída a personalidade da cantora, pois ao mesmo tempo a revista tinha um posicionamento positivo e negativo com relação à cantora. Assim, de acordo com Eliade (2000), o mito é uma narrativa e, por isso, gera diversas interpretações. [...] o mito (...). É sempre, portanto, a narrativa de uma “criação”: ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser (ELIADE, 2000, p. 11).

A reportagem publicada na revista Manchete no dia 23 de março de 1978, dá também elementos para pensar sobre como o mito Maysa foi construído. O título da matéria, “Ronaldo Bôscoli escreve: Maysa Muitas biografias e uma vida” indica que a reportagem vai retratar da vida da cantora Maysa Matarazzo, já falecida, assim como apresenta indícios de que a reportagem foi construída através de relatos de familiares e amigos. O título possui a função de informar o leitor sobre o assunto que será tratado, e também gera certa curiosidade no leitor fazendo assim ele ter interesse pela notícia do início ao fim.

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A matéria tem como principal característica relatar as situações vividas pela cantora durante sua vida. Ela é iniciada com a afirmação de Maysa como mito: “Maysa é um mito”, o que se sustenta no segundo parágrafo da matéria quando é colocado “É certo, que, como um mito que se preze e se despreze também -, Maysa viveu várias vidas. Cumpriu os diversos scripts que lhe foram destinados. Maysa aceitou a imagem que lhe plasmaram, conforme o caso”. No decorrer da matéria o autor deixa claro sua amizade e expõe situações que viveu junto à cantora.

A matéria dá destaque em um único olho gráfico, logo no início da segunda página, à seguinte frase: “Deixei uma carta e fugi. Maysa jamais me perdoou esta fuga e me preparou uma grande cilada”, dita por Ronaldo Bôscoli. A matéria é composta por vários intertítulos como: um assalto frente às câmeras, Galetos para o senhor Matarazzo, O susto de Nat King Cole e Pot-pourri de humor, que são situações vividas por Maysa junto de Bôscoli. No texto é dada ênfase nos episódios dramáticos da sua vida.

Na construção da reportagem nota-se que o jornalista teve certa preocupação em colocar declarações ditas pela cantora e também retiradas de sua biografia. Outro recurso bastante utilizado no texto são as conversas e lembranças que Bôscoli teve junto à cantora. No decorrer da reportagem podemos perceber a construção de um texto bastante formal e rico, tornando assim a reportagem mais interessante. O texto, de autoria de Ronaldo Bôscoli, não utilizou outras fontes de informação.

Ao todo são quatro paginas de matéria e oito fotos, nas quais é mostrada a onipresença de Maysa na mídia da época. Os títulos remetem aos critérios de noticiabilidade. Maysa se reforça como notícia na medida do aumento do interesse do público pela vida privada da artista, como é mostrado nas fotos: momentos íntimos, no seu casamento, sendo servida pelo seu marido, André Matarazzo, com um pedaço de bolo. Na mesma página aparece outra foto de Maysa junto de seus amigos Ronaldo Bôscoli, Élcio Milito e Roberto Menescal, partindo para Argentina, em 1961, para lançar a bossa nova. Na segunda página, a foto é de um tamanho bastante significativo (23,5cm 11,5 cm), mostrando a vida dela em sua casa em Maricá, com uma expressão muito forte em seu rosto, com as mãos na cintura e um cigarro na mão. Na terceira página foram mostrados momentos que marcaram sua vida, como ela brincando com seu único filho em um parque de diversões, e cantando na TV Rio. Na quarta e

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última página a foto é de Maysa com seus amigos, no king’s clube, em Buenos Aires; à direita, foto de sua casa em Maricá.

No final da matéria foi feito um box, em duas páginas, contendo informações adicionais e trechos de uma entrevista de Jaime Monjardim, único filho de Maysa Matarazzo, dando declarações sobre sua mãe, como por exemplo “Peguei meu carro e fugi para São Paulo, disposto a embarcar no primeiro avião para o Rio e saber o que estava acontecendo com mamãe [...]”. No box há duas fotos, uma de Jaime e sua mulher e outra de Maysa com o seu filho. No texto de Renato Sérgio publicada na revista Manchete 10/05/1987, 10 nos sem Maísa. É uma matéria que se inicia com a frase, onde Maysa declara seu amor para com seu filho Monja “Monja, eu ter adoro, Monja!”, isso mostra o interesse apelativo de expor os sentimentos da cantora. O autor em seguia procurou relembrar o acidente que tirou a sua vida, com bastante detalhe, o que prova novamente a presença de elementos sensacionalismo na matéria. O texto traz frases e expressões dita pela cantora como “tenho muitos machucados, pelo corpo inteiro” “Tenho uma profunda necessidade de dizer que amo as pessoas, mas só tenho coragem de fazer isso com a ajuda da bebida” “porque só bêbada assumo essa responsabilidade de relacionamento que não devo ter tido, quando criança” entre outras, tiveram destaque na cobertura jornalística da revista, e possivelmente contribuíram para que Maysa se tornasse um mito, passando assim a então imagem de pessoa firme que era para os leitores.

Renato Sérgio explorou bastante a história de vida da cantora e colocou também uma música que Maysa escreveu mas não teve tempo de gravar. No meio da reportagem o autor afirma que Maysa uma semana antes de morrer encontrou a felicidade o que comprova o que foi dito no capítulo anterior que fala sobre o happy end que é a felicidade do herói simpático, em substituição a um final trágico ou fracassado.

A matéria é composta por quatro páginas e em todas elas aparece um pedaço falando a respeito da cantora. Além do texto, a matéria conta também com uma foto com a expressão feliz, que retrata a sua busca pela felicidade, e um único olho gráfico, (“Há no ar um imenso

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desejo de adeus. Não há a menor dúvida” Maísa) e uma foto no formato 3/4, que transmite uma informação visualmente.

Na matéria Renato Sérgio escreve Cinco anos sem Maísa, publicada no dia 28/01/1978 na revista Manchete. A publicação é iniciada com uma história vivida por Maysa junto ao autor do texto em um bar no Rio de janeiro. A matéria como todas as outras tem frases ditas pela a cantora como; “tenho muitos conhecimentos e poucos amigos” “não tive tempo nem de ser criança, como já aconteceu duas vezes, em março do ano que vem terei outro filho” entre outras frases, mostra a sua personalidade.

A reportagem é composta por cinco páginas, sendo que a última é produzida apenas com frases ditas pela cantora. Outro ponto em destaque no texto são os sete olhos gráficos afirmando mais uma vez a personalidade de Maysa. Ilustrações de seus quadros e fotos de aparições em programa de TVs dão uma leveza ao texto, sendo que na segunda página a foto é de um tamanho bastante significativo, pois ocupa a página quase em sua totalidade, deixando apenas uma coluna contendo texto. Essa foto nós faz retornar ao capítulo anterior que fala que os olimpianos são perseguidos por fotógrafos, onde fazem de tudo para entrar em suas vidas privada.

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5 CONCLUSÃO

O fato de a cantora Maysa ter sido notícia durante todos os dias do ano de 1958, na imprensa do Rio de Janeiro e São Paulo, foi a motivação inicial para a realização dessa monografia. Maysa foi uma pessoa polêmica que despertou o interesse dos meios de comunicação da época, por não ter medo de expor, fazer e falar o que pensava.

Durante a análise, buscamos evidenciar se as revistas O Cruzeiro e Manchete atuaram realmente como instrumentos na construção do mito Maysa. Para isso, selecionamos como material de estudo as matérias, das revistas O Cruzeiro e Manchete. Foram selecionadas três matérias da revista Manchete e uma da Revista O Cruzeiro.

A partir da análise de conteúdo feita, portanto, pôde ser verificado que as revistas referidas contribuíram para reforçar a imagem polêmica da cantora, criando o que foi chamado por Lyra Neto (2007) de “o mito Maysa”.

Ao analisar as matérias vimos que os mitos contemporâneos são em grande parte construídos pela mídia, através de imagens e textos. Se, como escreveu Mircea Eliade (1972), o mito é a narrativa de uma realidade, a mídia é hoje o veículo principal de transmissão da mesma. No material avaliado, observou-se que as revistas O cruzeiro e Manchete, procuraram construir a imagem da cantora Maysa como uma pessoa problemática e que sempre buscou a felicidade. Muitas das vezes Maysa foi exposta na mídia como doente, impulsiva, alcoólatra e até mesmo louca. Conforme Lira Neto, Maysa sempre aceitou a imagem que lhe foi imposta.

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A vida da cantora foi construída dentro da mídia desde o início de sua carreira até o fim de sua vida. Maysa Matarazzo teve sua vida totalmente exposta em todos os meios de comunicação, principalmente nas revistas, onde virou notícia constante. Outro ponto que não podemos deixar de destacar é a busca incansável dos jornalistas em colocar citações ditas pela a cantora.

As revistas, ao mesmo tempo em que glorificavam a cantora, colocavam-na na ruína, criando um personagem ambíguo e instigando assim a curiosidade popular. Ao mesmo tempo, podemos observar também que Maysa contribuiu para a sua própria mitificação, na medida em que se expunha e dava declarações polêmicas. Maysa é um mito até hoje, deixou um pouco de sua história e de seu exemplo. Como mito, deu sentido a uma parte relevante da história e da cultura brasileiras.

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REFERÊNCIAS

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NAVES, Santuza Cambraia. Da Bossa Nova à Tropicália; contenção e excesso na música popular. Rev. bras. Ci. Soc, v.15, n. 43, p.35-44. Jun. 2000. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbcsoc/v15n43/003.pdf>. Acesso em: 20/9/2009 NUNES, Valentina silva. Maysa, entre a espetacularização e a sacralização: Do particular, íntimo e transitório para o público e erudito. A migração dos arquivos pessoais da artista popular para o universo do livro, 2008. Disponível em: <http://www.livroehistoriaeditorial.pro.br/ii_pdf/Valentina_Silva_Nunes.pdf>. Acesso em: 20 Outubro de 2009. LIRA NETO. Maysa só numa multidão de amores. São Paulo Globo, 2007. LUSTOSA, Elcias. O sensacionalismo. In: O texto da notícia. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1996. Cap. 4, p.31-35. ROCHA, Everardo P. Guimarães. O que é mito. São Paulo: Brasiliense, 1985. RUSCHEL, Luciane. O mito o herói o artista, 2008. Disponível em: <http://www.revistaohun.ufba.br/04_O_Mito_o_heroi_o_artista_Luciane_Ruschel.pdf>. Acesso em 05 de abril de 2010. Site Wikipédia Revista Manchete. Disponível <http://pt.wikipedia.org/wiki/Revista_Manchete>. Acessado em: 05 de Abril de 2010. em:

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ANEXOS Anexo A – Reportagens Título: Renato Sérgio escreve Cinco anos sem Maísa

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Anexo B: Reportagem revista Manchete Título: 10 Anos se Maísa

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Anexo C: Reportagem revista Manchete Título: Maysa Muitas Biografias e uma vida

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Anexo D: Reportagem revista O Cruzeiro Título: M M É A MESMA COM 1,2 OU 3 M

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Anexo E: Foto de Maysa

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