INTRODUÇÃO AO ESTUDO BÍBLICO

de Bryan Jay Bost e Álvaro César Pestana
Um estudo bíblico inaugurou o ministério terrestre de Jesus, e com um estudo bíblico ele o encerrou. Esta é a ênfase do evangelho segundo Lucas (Lc 4.14-22; 24.27,32,44). Lucas é o livro bíblico que chama Jesus de Mestre o maior número de vezes. Jesus pressupunha que o homem só pode aproximar-se de Deus por meio da sua revelação. O estudo bíblico é o modo de conhecer a revelação de Deus. O estudo bíblico foi um meio utilizado pela igreja primitiva na divulgação do evangelho e no fortalecimento da fé dos convertidos (At 8.35; 17.2-3,11; 18.27-28). Eles seguiam os passos de Jesus e acreditavam, como ele, que a pesquisa das Escrituras levaria os homens ao encontro de Deus. O próprio evangelho de Lucas é o resultado do estudo bíblico de evangelhos anteriormente escritos, conforme declara o autor no prefácio da obra (Lc 1.1-4). A leitura do Novo Testamento certamente confirma a tese de que o estudo bíblico era uma das principais atividades desenvolvidas pela igreja nascente e missionária, no primeiro século. Estas poucas observações bastam para ressaltar nosso dever de estudar a Bíblia. É um dever e não uma opção, visto que este era o proceder de nosso Mestre, da igreja antiga e dos próprios escritores inspirados. O que conhecemos de Jesus está na forma de um livro que necessita ser estudado para obter dele uma plena compreensão da sua obra e pessoa.

Metodologia e estudo bíblico. Este livro pressupõe que os cristãos irão estudar a Bíblia, e procura dar uma orientação metodológica a este trabalho. Todos os que se aproximam da Bíblia, utilizam-se de um método de estudo da mesma, consciente ou inconscientemente. Não há problema em ter um método de estudo bíblico, desde que ele seja válido e nos conduza a resultados verdadeiros. É necessário verificar se o método que utilizamos para estudar a Bíblia é bom. Mesmo aqueles grupos que afirmam não estudar a Bíblia, têm seu modo especial de basear nela os seus pensamentos. Outros, mais conscientes da necessidade de estudo, utilizam-se de comentários, livros de estudo dirigido e de outras obras, para obter maior compreensão do texto bíblico. Ouvir palestras, aulas e pregações é para a maior parte das pessoas o único método de estudar a Bíblia que conhecem. Esta obra quer incentivar o estudo independente da Bíblia. Esta independência não diz respeito a Deus, e sim ao homem. Grande parte do povo de Deus tem-se tornado erradamente dependente de outros para compreender a Bíblia. Acreditamos que o conhecimento e divulgação de um bom método de estudar independentemente a Bíblia é o melhor modo de promover um retorno sadio aos ensinamentos da Escritura. A razão de estudar a Bíblia por si mesmo Alguém pode perguntar: Porque devo estudar a Bíblia por mim mesmo? Uma infinidade de pessoas já não fez esse estudo? Qual a razão de tentar fazer isto de novo? 1. A primeira razão para estudar a Bíblia por si mesmo é simples: não devemos absorver a "teologia" dos que nos rodeiam. Esta sempre foi a causa da apostasia e idolatria de Israel. Usaremos, porém, um exemplo moderno para ilustrar esse ponto: Os primeiros missionários de determinada denominação batizavam para a remissão de pecados. Hoje em dia, porém, a prática mais comum desta denominação não é esta. Qual a razão? Simples: como os primeiros obreiros diziam não ter necessidade de estudar a Bíblia (mas pregavam "inspirados" pelo Espírito, sem preparo prévio), com o tempo, esta denominação foi absorvendo a teologia evangélica mais forte no país que ensinava a não essencialidade do batismo. Moral da história: quem não estuda para aprender o que é certo, vai aprender de muitos modos o que é errado. 2. Outra razão para fazer um estudo bíblico independente é a má exegese encontrada na literatura sobre a Bíblia. Se um professor da escola dominical preparar suas aulas

Deus quer que nos apropriemos da sua vontade. Quando um católico lê a palavra "batismo". Um estudo sério e independente mos que este sentido tra comum está errado. estaremos blasfemando contra a sabedoria de Deus. e o melhor meio de fazê-lo é estudar sem influência alheia. Um estudo bíblico renovado impede aquela tendência de ser eclético e dar ao texto bíblico vários sentidos. Assim. Um motivo importante para o estudo bíblico é o fato de não possuirmos um "intérprete oficial" da Bíblia como a Igreja Romana. 5. então temos a certeza de que é possível compreender a vontade dele pelo estudo deste livro. fazendo uma avaliação acurada (crítica) de todas as relações desta informação com o sentido do texto. 6. deixou sua vontade revelada em um livro. Um estudo honesto e independente das Escrituras ajuda a tirar os textos bíblicos do seu "sentido comum". caso contrário seremos induzidos a pensar como o comentarista que r que pensemos. a parábola do fermento é alegorizada e a lição que o autor procura transmitir é que a "a falsa doutrina se infiltra em todas as partes do reino". Deus é eternamente sábio. Se não o fizermos ou desistirmos da tarefa. mas o ponto é que não podemos ensinar opinião humana. Usaremos este método orientados pela fé que já temos na absoluta inspiração e autoridade das Escrituras. Logo. O método histórico-crítico.consultando comentários. Por exemplo: num conceituado comentário. O próprio texto bíblico no geral contém elemento . A Bíblia é a palavra de Deus dada através das palavras de pessoas históricas (Hb 1. Muitos exemplos deste tipo poderiam ser usados. Iremos neste curso estudar o texto sagrado usando o método histórico-crítico! O que chamamos de método histórico-crítico é o método de estudo e pesquisa bíblica que procura levar em conta o contexto histórico que envolve o texto. Como saber se ele está certo? Precisamos fazer um estudo próprio. que avalia um documento antigo com o alvo de compreendê Isto -lo. que substitui as Escrituras como critério da verdade. o sentido comum associado a esta palavra evoca a imagem de um sacerdote jogando água na testa de um nenê. Chamamos de sentido comum aquele sentido que sempre demos ao texto até o dia em que aprendemos o que realmente o texto queria dizer. Se ele. Apesar do mau uso do método por alguns. estamos endossando alguma forma de "credo oral". queremos empregar o método histórico-crítico na exegese por acreditarmos que ele fornece o significado original do texto. Não adianta somar tudo o que se diz sobre um texto. O estudo bíblico independente faz com que tiremos os "óculos" que sempre nos faziam ver as coisas com uma determinada cor: a cor das idéias preconcebidas ou pré-conhecidas. 4. vai acabar ensinando mentiras em nome de Deus. revela pouco sobre como vamos trabalhar. e busquemos a mensagem íntegra que o Espírito Santo quis transmitir através do escritor do texto sagrado. É um método histórico porque leva em conta a época e a situação original em que o texto foi escrito. A história é uma ferramenta de trabalho. o trabalho de entender a Bíblia é o trabalho de um historiador. 7. direta e indiretamente. Não existe conselho mais repetido nas Escrituras. é essencial que estudemos a palavra de Deus e procuremos compreendê-la. precisamos determinar o que o texto diz. Realiza-se a tarefa de um historiador. já que esta metodologia é largamente empregada por "teólogos" que não crêem na inspiração plena das Escrituras.1-2). Se não fizermos isto. Por último. Estudar a Bíblia faz com que deixemos de usar os textos como "textos-prova" de doutrinas. Cada cristão e cada geração cristã tem o dever de estudar e determinar o que a Bíblia está dizendo. nesta sabedoria. Um estudo sério leva em conta o fato do escritor original ter tido em mente algo que precisamos saber. ou como os Russelitas. Temos a obrigação de verificar tudo. A Bíblia é o registro dela. O autor usa muitas referências e parece ter avaliado a opinião contrária. Uma ênfase quanto ao sentido gramatical e histórico do relato bíblico é o alvo deste método. 3. cremos que a razão mais importante para um estudo bíblico sério é a vontade de Deus. Também acreditamos ser a humildade a maior virtude de um exegeta.

A particularidade histórica diz respeito ao que estava acontecendo na situação original. julgamentos. A eterna inteligência e bom senso de Deus estão refletidos no seu livro. Nossa tarefa é dupla: Primeiro. A hermenêutica é necessária para a exegese. o logos eterno (logos: palavra grega que pode significar razão). usaremos o método histórico na tentativa de entender cada texto da Bíblia na situação. Em último lugar. Nosso método também é um método crítico porque requer o uso de nossas faculdades mentais em raciocínios. tomadas as devidas precauções. sendo composta da preposição EK (de) e da forma substantiva do verbo HEGEOMAI (ir. Pressuposições são idéias. ou auditório. O exegeta é primeiramente um historiador que analisa os documentos. Deus é quem chega a nós com a revelação de sua razão. Paulo escreveu o livro de Gálatas para combater doutrinas judaizantes que se infiltravam na igreja. Para nós. E necessário ser prudente ao utilizar "ajudas" externas. estudos e esforços. pensamento e época da própria Bíblia. Em definições clássicas a hermenêutica abrange ambas as tarefas. dispensando-nos do uso de muito material estranho. O método é crítico em avaliar os resultados obtidos e em pesá-los. A exegese é um trabalho literário-espiritual. Exegese é uma palavra que vem da língua grega. esta tarefa é chamada exegese. Um exemplo prático ajuda a ver a importância das pressuposições. A relevância eterna leva em conta que mesmo em uma situação diferente. Esta é uma pressuposição básica para entender o Novo Testamento. que Jesus Cristo é o filho de Deus. Na exegese procuramos entrar no texto (EIS). O uso da razão deve ser subordinado à fé na revelação. exegese é ler e explicar os textos em empatia (e simpatia) com os escritores bíblicos. para então sairmos dele (EK) tirando lições para nós. conduzir) e significa "conduzir para fora" o sentido original de um texto. Quando as nossas pressuposições são iguais às pressuposições dos escritores do Texto Sagrado. A pressuposição cristológica é válida para sempre. Pressuposições. Nunca deve tornar-se crítico contra a Bíblia. Se um exegeta pressupõe que "milagres não podem acontecer". ignorância do povo. As pressuposições vão guiar nossa capacidade de entender e explicar o texto. É necessário que usemos a inteligência que ele nos deu para compreendê-lo. tornando-a relevante para o leitor. mas em tratados recentes a tendência tem sido separar as duas. descobrir o que o texto significava originalmente. em segundo lugar. Tod avia. devemos aprender a discernir esse mesmo significado na variedade de contextos novos ou diferentes dos nossos próprios dias. a mensagem de Gálatas tem importância para cada geração de cristãos. Não queremos usá-la desta forma. ele tem de ir além da análise impessoal: é necessário assumir a fé que o escritor possuía para entender seus escritos. todo seu estudo dos evangelhos e de Atos vai revelar ceticismo quanto aos fatos narrados e vai procurar explicá -los por meio de causas naturais. Não podemos chegar a Deus com a razão. as pressuposições existem e sempre existirão. A palavra crítico tem geralmente uma coloração negativa. O critério da validade de uma pressuposição é a sua base cristológica. erro do escritor. Dois elementos precisam ser levados em conta quanto tratamos da Palavra de Deus: sua particularidade histórica contrabalançada por sua validade eterna. etc. e até mesmo o Velho. esta é a tarefa da hermenêutica.histórico suficiente para dar uma idéia da situação original. hipóteses ou fatos que aceitamos ou carregamos conosco antes de iniciar nossa análise de um texto. Por outro lado. guiar. O que importa é a sua validade. temos as melhores condições possíveis para entender o que eles estão falando e . Exegese e hermenêutica. Devemos ler a história do Novo Testamento com a pressuposição cristológica revelada pelos escritores. Jesus Cristo. O bom exegeta procura libertar-se ao máximo deles para que a sua compreensão do texto não seja distorcida pela sua pré -compreensão. e ficar nele (EN). Hermenêutica é a síntese dos resultados da exegese. Por exemplo.

A fé em Cristo. Não há um raciocínio em círculo aqui. não entraremos em choque com ele. Logo. Encontrar as pressuposições do escritor pode ser a chave para não introduzir nossas idéias no texto. . Ver o texto como o autor o viu é o nosso alvo. mantida pelos escritores do Novo Testamento. precedeu a obra escrita que produziram sob a influência do Espírito Santo. para que possamos acompanhar o pensamento desses homens. Buscando as pressuposições do autor.escrevendo. Cristo é o princípio de unidade e da verdade na interpretação da Bíblia. precisamos participar da fé que tiveram.

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