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Nelson Rodrigues

LÍDER DA PRÓPRIA
NAMORADA
Certa vez, houve um grave almoço literário. Estavam presentes o
Guimarães Rosa, o Antônio Callado e o Otto Lara Resende. O velho
Rosa era, se assim posso dizer, um santo do estilo. E, como estilista
fanático, achava uma frase mais importante do que o destino do
Vietnã. Em tal almoço, fez ele tremenda pressão sobre o Callado. E
dizia-lhe: – “Faça literatura! Faça literatura!”. O Otto ao lado,
repetia: – “Literatura! Literatura!”.
Mas o Callado, como a maioria dos nossos intelectuais, tem a
ilusão de que carrega, nas costas, a responsabilidade do mundo
subdesenvolvido.
Tem tido insônias políticas, ideológicas, libertárias. Até o fim do
almoço, que se alongou por três horas fecundas, o Rosa e o Otto
malharam o amigo: – “Faça literatura! Faça literatura!”. Deixo o
romance e passo à arte dramática.
Se almoçasse com a classe teatral, diria eu: – “Façam teatro!
Façam teatro!”.
Tão fácil de dizer e tão duro de fazer. Sim, em nosso tempo é
quase impossível fazer apenas romance ou apenas teatro. Há dois ou
três dias, escrevi, aqui mesmo, que não há nada mais antigo, mais
obsoleto, do que “o artista”. O puro “artista” seria algo de inusitado,
como uma girafa. A arte passou a ser uma atividade secundária,
subalterna e até comprometedora.
E, no entanto, na minha infância, os valores, os usos, os tipos,
eram tão mais nítidos e precisos. O pintor era “o pintor” e só “o
pintor”. Tinha a forte singularidade da gravata. Imaginem um repolho

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despetalado e cromático. E essa gravata ululante era como que um
uniforme inconfundível, inalienável, eterno. E quando “o pintor”
entrava, não havia dúvida sobre o seu métier. As senhoras diziam por
trás do leque: – “Olha o pintor!”.
Hoje tudo mudou. Vou falar da minha classe. Um ator devia ser
um ator. De igual sorte, uma atriz devia ser uma atriz. É o seu métier, a
sua arte, a sua vida ou, na mais prosaica das hipóteses, o seu ganha-
pão. Mas ai do artista que quiser ser apenas artista. A toda hora e em
toda parte, estão a exigir-lhe o atestado de ideologia. Ele precisa ter
poses de esquerda, frases de esquerda, paixões de esquerda,
palavrões de esquerda. Lembro-me de um contra-regra que foi
chamado a assinar um manifesto pelo Vietnã. Coçou a cabeça e
gaguejou: – “Eu não sou político!”. Três ou quatro o acuaram: – “Se
não é político, é uma besta!”. O pobre-diabo, espavorido, acabou
assinando.
E, no entanto, desde João Caetano ou, mais longe ainda, desde
Anchieta, o teatro brasileiro está por fazer. É a nossa tarefa. Mas há o
Vietnã, e há Cuba, e há a questão racial norte-americana, e há a
mortalidade infantil na Índia. Nós, de teatro, devíamos perceber a
modéstia de nossos meios.
Não temos recursos nem para consertar uma bica, para tapar
um cano furado. E, de vez em quando, fazemos reuniões gravíssimas.
Bem me lembro de um seminário de teatro que houve em São Paulo.
Eram atores, atrizes, diretores, dramaturgos, cenógrafos; cada qual
tinha lá a sua função nítida, exata. E, súbito, um autor comete a

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asneira suicida de falar nos problemas plásticos, dramáticos, poéticos
da arte cênica. Um rapaz ergue-se e toma-lhe a palavra: – “Não
estamos aqui para discutir teatro!”. Era um seminário de teatro em que
não se falava absolutamente de teatro.
De outra feita houve, aqui no Rio, uma assembléia da classe.
(Quando a classe se reúne, eu tremo.) Decidia-se uma greve. E, de
repente, um empresário se levanta. Apavorado com as reações
possíveis, gaguejou uns dez minutos. A classe não estava diretamente
atingida e apenas faria uma greve de solidariedade. Justamente, era a
“solidariedade” que engasgava o pobre empresário. Ele perguntou: –
“E, se houver uma greve de alfaiates, ou de camelôs, ou de
veterinários, ou de químicos, ou de táxis, nós também somos
solidários?”. Pode parecer estranho, mas éramos, sim, solidários com
todas as greves possíveis e imagináveis.
Todavia, simultaneamente com a assembléia, houve um episódio
patético. Enquanto fazíamos a nossa briosa retórica, estava a sra. Eva
Todor no seu teatrinho, representando não sei o quê. E assim ganhava
o pão suado, sofrido, abnegado de cada dia. Pois foi despachado um
piquete para lá.
Nada descreve o horror da atriz, quando seu teatro foi
invadido. Dizia a santa senhora: – “Mas eu quero representar!”. Os
outros a arrasaram: – “Estamos em greve. Suspenso o espetáculo!”. O
público, indignado, quase pôs fogo no teatro.
Vejam bem: – o nosso ator está tão desinteressado de ser ator
que chega ao ponto de impedir que os colegas representem. Mas volto

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à assembléia. Às três da manhã, houve um episódio que chegou ao
patético, raiando pelo sublime. Eis o caso: – na tribuna, um orador
falava não sei de que ou contra quem. No seu fervor, babava
fisicamente. E, súbito, soluça: – “Quem for brasileiro que me siga!”.
Pulou do palco para a platéia. Imaginei que, no mínimo, ia assaltar o
Poder ou decapitar pessoalmente Maria Antonieta. Mas ninguém se
mexia. Fez-se um silêncio de rebentar os tímpanos. E o orador
avançava em passadas épicas. Ele presumia que hordas ululantes iriam
acompanhá-lo. E repito: – ninguém se mexia. Minto.
Uma menina se levantou. Em passos rápidos e miúdos,
caminhou para a saída. O rapaz ouviu o trotinho tão familiar. Não
estava só, nem falhara a sua liderança. A garota o seguia, para a
cadeia ou para o exílio. Enfim, estava realizado. Era líder da própria
namorada.
Pelo amor de Deus, não pensem que nós, do teatro, sejamos
pessoas frívolas, inconseqüentes, irresponsáveis. Somos profundos,
somos transcendentes. E mais: – só ventilamos problemas
inenarráveis. Um deles é a fome dos povos subdesenvolvidos. A fome!
Imaginem que nem Cristo, nem Buda, nem Maomé, nem Alá, nem os
santos, nem Marx, Engels, Freud e outros, resolveram as questões que
tanto atribulam a classe teatral. Mas nós, com o nosso otimismo, vamos
salvar povos, raças, continentes. E para isso é que fazemos as nossas
assembléias e impedimos a sra. Eva Todor de ganhar o seu
dinheirinho. Nem tem sido vão o nosso esforço. Quando aqui se junta
a classe teatral, lá nos Estados Unidos o Pentágono treme.

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Dizia Machado de Assis, erradamente: – suporta-se com
paciência a cólica alheia. Mentira. Nem sentimos as nossas. Está aí o
Nordeste. É uma boa cólica. Nós a ignoramos. Há também o
Amazonas. Outra cólica razoabilíssima. Nem a percebemos. E há a
nossa mortalidade infantil. Outra e considerável cólica. Não nos
preocupa. Mas gememos pelo Vietnã, por Cuba, por todos os povos
subdesenvolvidos. É a cólica alheia que torce e retorce as nossas
entranhas.

[O GLOBO, 11/5/1968]