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Trabalho doméstico:

inatividade econômica ou
trabalho não-remunerado?

Cristina Bruschini*

Abrigado sob a rubrica afazeres domésticos nos levantamentos do IBGE, o


trabalho doméstico realizado por donas de casas sempre foi considerado
inatividade econômica, igualando-o à condição de estudantes, aposentados,
inválidos e aqueles que vivem de renda. Permanece assim na invisibilidade nas
estatísticas oficiais, apesar da reformulação ocorrida no começo da década de
90. O artigo pretende oferecer contribuição ao tema, analisando o número médio
de horas semanais dedicadas à realização de “afazeres domésticos”, segundo
variáveis consideradas relevantes, e defende a tese que, sendo elevado o número
de horas que as pessoas, em sua maioria mulheres, se dedicam a estas tarefas,
seria legítimo incluir esta categoria como um trabalho não-remunerado em vez
de inatividade econômica.

Palavras-chaves: Gênero. Trabalho doméstico. Trabalho não-remunerado. Uso


do tempo. Estatísticas oficiais.

Introdução introdução, nos questionários da PNAD, de


duas perguntas sobre afazeres domésticos,
O presente artigo pretende oferecer que passaram a constituir quesitos especí-
uma contribuição ao tema do trabalho ficos sobre o tema. A primeira, introduzida
doméstico e, com base nos resultados de em 1992, refere-se à questão 121 (“realizou
um estudo sobre o tempo semanal médio afazeres domésticos na semana de refe-
gasto na realização de afazeres domés- rência?”), sendo apresentada a todos os
ticos, elaborado com dados da Pesquisa respondentes, independentemente de sua
Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD condição de atividade. Assim, a categoria
de 2002,1 do IBGE, defender o argumento “afazeres domésticos” deixou de ser apenas
de que, considerando o elevado número uma alternativa de resposta para aqueles
de horas que os indivíduos, em sua maioria que afirmavam “não trabalhar”, como ocorria
mulheres, se ocupam com a realização anteriormente, e passou a ser um quesito
desses afazeres, seria legítimo considerar específico. A segunda, incluída em 2001
esta categoria um trabalho não-remunerado (questão 121-a, “quantas horas dedica
e não mais inatividade econômica, como normalmente por semana aos afazeres
tem sido feito. O estudo foi viabilizado pela domésticos?”), é aplicada para aqueles que

*
Pesquisadora sênior e coordenadora do grupo de estudos de Gênero e Raça, da Fundação Carlos Chagas (FCC), São Paulo.
Colaboração: Arlene Ricoldi e Cristiano M. Mercado, assistentes de pesquisa, FCC-SP. Tabelas e gráficos: Miriam
Bizzochi, estatística da FCC-SP e Cristiano M. Mercado.
1
Apesar da recente divulgação dos resultados da PNAD 2003, optou-se por realizar o estudo com a de 2002, a fim de dar continuidade
a trabalho que está sendo realizado para o Banco de Dados sobre o Trabalho das Mulheres, de autoria de nossa equipe, disponível
no site da Fundação Carlos Chagas (FCC, 2005).

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Bruschini, C. Trabalho doméstico

responderam “sim” à pergunta anterior, o leira. No final da década de 60 e início da de


que possibilita um estudo sobre o uso do 70, pesquisas que se tornaram clássicas na
tempo no trabalho doméstico, antiga literatura sobre o trabalho da mulher, como
demanda de pesquisadoras feministas. a de Saffioti (1969) e a de Blay (1978),
O texto compõe-se de três partes. Na abordaram essa questão, rapidamente tor-
primeira, é traçada uma breve retrospectiva, nando-se leitura obrigatória nas universi-
a partir dos estudos, sobre o trabalho dades. O Ano Internacional da Mulher –
feminino, a questão do trabalho doméstico 1975 – constituiu um marco a partir do qual
e a demanda dessas pesquisadoras, desde a produção sobre o tema ganhou maior
os anos de 70, para que fossem incorpo- fôlego. A emergência do feminismo como
rados, nos órgãos oficiais de levantamento movimento social criou as condições ne-
de dados, conceitos e perguntas mais cessárias para a legitimação da condição
adequados para tornarem-se visíveis as feminina como objeto de estudo.
atividades realizadas pelas mulheres. Na Uma breve análise dos principais ru-
segunda parte, é apresentado um breve mos tomados pelo debate teórico sobre o
histórico a respeito dos estudos baseados trabalho da mulher no Brasil revela que, de
no uso do tempo para mensuração das uma preocupação inicialmente centrada na
atividades dos indivíduos para produção e incorporação ou expulsão da força de
reprodução. Finalmente, na terceira, é trabalho feminina do mercado sob os efeitos
oferecida uma nova contribuição ao tema, do capital, a produção teórica foi pouco a
apresentando resultados de um estudo pouco mostrando maior sensibilidade tanto
sobre o tempo semanal médio gasto por para fatores culturais e simbólicos, que
mulheres e homens, no Brasil, em 2002, também explicam a subordinação feminina,
segundo variáveis consideradas relevantes, quanto para a inserção das mulheres no
a partir dos estudos de gênero. espaço da reprodução familiar.
O acesso a informações sobre a categoria A primeira geração de estudos foca-
afazeres domésticos só se tornou possível a lizou exclusivamente a ótica da produção,
partir do momento em que as pesquisas do sem levar em conta o fato de que o lugar
IBGE passaram a ser divulgadas sob a forma ocupado pela mulher na sociedade também
de microdados. Antes disso, tais informações está determinado por seu papel na repro-
não costumavam ser disponibilizadas, man- dução social. Mais tarde, a análise da
tendo os que respondiam que se dedicavam condição da mulher a partir de seu papel
a esses afazeres na vala comum de todos os na reprodução da força de trabalho teria
inativos. Vale lembrar também que essa é peso considerável na produção sobre o
uma categoria ampla e diversificada, que tema, dando origem às primeiras dis-
inclui um leque extremamente heterogêneo cussões sobre o trabalho doméstico.
de tarefas, sejam estas manuais, como limpar Mas as pesquisas sobre o trabalho
a casa, lavar e passar roupa, cozinhar, etc., feminino tomaram realmente um novo rumo
sejam não-manuais, como cuidar dos filhos, quando passaram a focalizar a articulação
dos idosos e dos doentes, administrar a casa entre o espaço produtivo e o reprodutivo,
e o cotidiano doméstico e familiar, fazer as ou a família, pois, para as mulheres, a
compras, entre outras, que só podem ser dis- vivência do trabalho implica sempre a
criminadas através de pesquisas específicas combinação dessas duas esferas, seja pelo
sobre o tema, em surveys, entrevistas, etc. entrosamento, seja pela superposição. Hoje
é possível afirmar que qualquer análise
Um pouco de história dos estudos sobre sobre o trabalho feminino, procurando
o trabalho feminino romper velhas dicotomias, estará atenta à
articulação entre produção e reprodução,
Como afirmado em textos anteriores assim como às relações sociais de gênero.
(Bruschini, 1992, 1994, 1998), o tema do Ao longo dos anos 70 e 80, paralelamen-
trabalho feminino foi a porta de entrada dos te a esse debate teórico, foi se desenrolando
estudos sobre mulher na academia brasi- um processo de desvendamento e de crítica

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às estatísticas oficiais disponíveis para e metodológicas sobre o trabalho feminino


pesquisar a atividade econômica feminina, foram introduzidas, merecendo destaque,
consideradas inadequadas para mostrar a neste texto, aquelas que dizem respeito ao
real contribuição das mulheres à sociedade. conceito de atividade/inatividade econô-
A maior parte das críticas refere-se ao nível mica. Nos levantamentos censitários, a
pouco adequado de mensuração da ativi- categoria inativos abriga indivíduos que não
dade das mulheres. trabalham, seja porque vivem de renda, seja
A influência de organismos interna- porque são aposentados, pensionistas,
cionais na elaboração das pesquisas doentes ou inválidos, estudantes e os/as que
oficiais sempre induziu ao uso de categorias realizam afazeres domésticos. Ou seja, ape-
adequadas a países desenvolvidos e pouco sar do considerável volume de atividades
próprias aos da América Latina e a outros que se escondem sob a rubrica afazeres
países em desenvolvimento, nos quais o domésticos e que mantêm ocupadas mulhe-
capitalismo convive com outras formas de res de todas as camadas sociais, o trabalho
atividade econômica. doméstico não é contabilizado como ativida-
Assim, os censos latino-americanos to- de econômica nesse tipo de levantamento.
mavam como referência a produção capitalista Além disso, em virtude da maior difusão
industrial, escondendo o contexto doméstico, e aceitação social da função reprodutiva das
a pequena produção mercantil ou o trabalho mulheres, a atividade de dona-de-casa
familiar não-remunerado, especialmente vá- costuma ser declarada como a principal
lido para as mulheres. O trabalho a domicílio ocupação da respondente, a não ser que
destinado à produção de alimentos ou de ela exerça outras atividades claramente
roupas, por exemplo, esconde-se nas identificadas como profissionais, seja porque
atividades domésticas, sendo omitido. Com são remuneradas, seja porque consomem a
isso, as formas mediante as quais são maior parte de seu tempo. Este viés poderá
elaboradas perguntas sobre a atividade ser agravado conforme a formulação das
feminina provocam a sub-representação do perguntas e a postura do entrevistador que,
trabalho da mulher. O período de tempo usa- imbuído também de preconceitos em relação
do como referência para saber se a pessoa é ao papel da mulher na sociedade, tende a
ou não economicamente ativa afeta o volume classificá-la prioritariamente na função de
de atividade encontrado. Quanto mais amplo dona-de-casa e, portanto, inativa.
o período, maior será o componente rural No Censo de 1970, a má formulação do
feminino, pois este contingente exerce muita quesito sobre trabalho contribuiu ainda mais
atividade sazonal. para intensificar a subenumeração da
O número de horas também afeta o atividade feminina. Começando com uma
cômputo do trabalho feminino, tendo dupla negativa, a pergunta (Se não trabalha,
partido de estudiosas do tema a sugestão nem procura trabalho, qual a ocupação ou
de que o tempo parcial e as atividades situação que tem e considera principal?)
secundárias passassem a ser considerados apresentava, como primeira alternativa de
nos levantamentos. A identificação das resposta, a categoria afazeres domésticos, o
atividades realizadas no domicílio, através que pode ter induzido muitas respondentes
de análises com o uso da metodologia de a se declararem inativas, pois para a mulher,
orçamento-tempo, também foi defendida sobretudo se for casada e mãe, a função
por algumas pesquisadoras do trabalho reprodutiva é percebida como prioritária.
feminino, nos anos 70 e 80 como de grande Já no Recenseamento de 1980, a
utilidade para detectar o volume de trabalho reformulação da pergunta, ampliando o
familiar, principalmente das mulheres. tempo de referência e mudando a ordem
No Recenseamento de 1980, contri- das alternativas, 2 teve um efeito signi-
buições importantes das reflexões teóricas ficativo no aumento do número daquelas
que se declararam trabalhadoras nessa data.
2
Trabalhou nos últimos 12 meses, de 1/9/79 a 31/8/1980?, pergunta 28. Se respondeu Sim, assinale o retângulo 0 (trabalhou) e passe
para o quesito 30 (qual a ocupação que exerceu habitualmente). Se respondeu Não, indique a situação ou ocupação que tem,
obedecida a ordem enumerada (a alternativa afazeres domésticos passa a constar como a oitava alternativa).

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No caso da PNAD – levantamento anual considerado ocupação passou a pelo me-


implantado gradativamente pelo IBGE nos uma hora por semana. Foi incorporado
desde 1967, com o objetivo de obter o conceito de trabalho para autoconsumo e
informações básicas sobre a população no autoconstrução, desde que realizados com
período intercensitário, assim como jornada superior a uma hora por semana.
aprofundar alguns temas não contemplados Estas alterações, além de darem conta das
ou tratados superficialmente nos Censos novas condições de funcionamento do
Demográficos –, não eram menores os mercado de trabalho, visavam se adequar
problemas relativos à subestimação da às recomendações da 13 a Conferência
atividade econômica feminina. Isto porque Internacional sobre Estatísticas do Trabalho,
tal pesquisa sempre se pautou também por da OIT. O novo questionário mantém, porém,
uma concepção de trabalho associada ao a maior parte dos quesitos dos questionários
emprego capitalista, não sendo, portanto, anteriores, acrescentando novas variáveis,
um instrumento sensível para captar outras como tipo de emprego público e outras,
formas de organização do trabalho, seja em além de questões sobre o trabalho de
áreas rurais – como pequenas propriedades crianças de 5 a 9 anos de idade.
rurais de base familiar – seja em áreas Para Dedecca, a mudança metodo-
urbanas – pequena produção independente lógica trouxe vantagens, entre as quais uma
e trabalho doméstico. Ao serem adotados análise mais precisa das mudanças em
critérios sugeridos pela OIT – Organização curso no mercado de trabalho e uma melhor
Internacional do Trabalho para definir a mensuração do desemprego. Entretanto,
condição de ocupação e critérios das afirma ele, os novos critérios também são
Nações Unidas sobre contas nacionais, na passíveis de controvérsia, como a jornada
PNAD, “a noção de ocupação estava de uma hora ou mais para autoconsumo e
associada à realização de um trabalho com autoconstrução, ou ainda o desprezo em
remuneração, e excepcionalmente, a uma relação a uma forma de atividade muito
situação de trabalho não remunerado, mas mais recorrente em nossa sociedade: o
com uma jornada de trabalho mínima (15 trabalho das mulheres dedicado à repro-
horas)” (DEDECCA, 1998, p.105). dução de suas famílias. “Cabe, portanto, a
Procurando incorporar as críticas dos pergunta”, diz ele, “sobre porque considerar
estudiosos, assim como as demandas dos relevante o autoconsumo e a autocons-
movimentos sociais, entre eles o das mulhe- trução e irrelevante o trabalho voltado para
res, a PNAD passou, desde o início dos anos a família” (DEDECCA, 2004, p.111).
90, por uma profunda reformulação, que, Por outro lado, o anteprojeto de revisão
segundo Dedecca (1998), teve por objetivo da PNAD de 1990 menciona, em relação
captar uma nova e complexa dinâmica ao trabalho feminino, as recomendações da
socioeconômica, que vinha se forjando 13ª Conferência da OIT e da Conferência
desde o início da década de 80 e que a Internacional de Nairobi sobre Mulher, de
PNAD não se mostrava capaz de captar, isto 1985, para que sejam elaboradas estatís-
é, uma maior heterogeneidade produtiva e ticas mais precisas sobre a participação
social que “se reflete em uma organização econômica das mulheres e seja dada
do mercado de trabalho ainda mais distante atenção à sua contribuição não-econômica
da dicotomia emprego/desemprego e cada (BRUSCHINI, 1998). Entre as inúmeras
vez mais próxima de um caleidoscópio recomendações, figura a de investigar, atra-
ocupacional” (DEDECCA, 1998, p. 109). vés do domicílio, a produção da empresa
Na nova PNAD, as principais alterações familiar, as fontes de renda e os gastos, além
se deram em relação ao conceito de traba- do tempo despendido por cada membro da
lho e desemprego. A definição de trabalho família em diferentes atividades. A
passou a ser a de ocupação econômica amostragem domiciliar permite o estudo da
remunerada em dinheiro, produtos ou atividade, da inatividade econômica e do
mercadorias, ou somente benefícios. A trabalho doméstico, no caso do trabalho
jornada de trabalho não-remunerado feminino.

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Tendo em vista todas essas conside- texto, que visa também sugerir, com base em
rações, as PNADs dos anos 90 passaram a seus resultados, uma nova reformu-lação e
incorporar a fundo a revisão do conceito a consideração do trabalho domés-tico como
de trabalho. No novo conceito carac- trabalho não-remunerado, retirando-o da vala
terizam-se as condições de trabalho comum da inatividade econômica.
remunerado, sem remuneração e a
produção para o próprio consumo e o da Alguns estudos sobre o tempo
família. O maior refina-mento do conceito
favoreceu a mensuração mais adequada Os estudos sobre o uso do tempo não
das atividades econômicas desem- constituem grande novidade. Ao contrário,
penhadas por mulheres, à medida que estão presentes desde a primeira metade do
também reduziu o número mínimo de horas século XX, principalmente nos países de-
trabalhadas no período anterior à pesquisa senvolvidos, como os da Europa ou nos
e incluiu atividades assistenciais e para o Estados Unidos. Em estudo clássico sobre
autoconsumo, entre outras alterações. o tema, Szalai (1972) discorre sobre concei-
Ao longo da década, outras modifi- tos e práticas das pesquisas de orçamento-
cações foram sendo introduzidas, muitas tempo, a partir de estudo em 12 países.
delas em resposta às demandas de grupos Muitos aspectos interessantes da vida social,
e movimentos sociais. Na PNAD de 1992 segundo esse autor, estão associados com
foi criada – a partir do desmembramento da distribuição temporal das atividades
categoria ocupados/as segundo tipo de humanas, regularidades de ritmo, duração,
vínculo com o trabalho – a categoria traba- freqüência e ordem seqüencial. Isto é, certas
lhador doméstico, ao lado dos empregados, técnicas de coleta de dados, tais como
autônomos ou conta própria, não-remune- observação direta, entrevista e exame de
rados e empregadores. Esta nova categoria registros, permitem um cômputo razoa-
refere-se ao emprego ou serviço doméstico velmente itemizado e mensurado de como
remunerado, realizado em geral no domicí- as pessoas gastam seu tempo dentro dos
lio do empregador e não ao trabalho do- limites de um dia de trabalho, um fim-de-
méstico de reprodução social, o qual, semana, uma semana de sete dias ou
realizado sem remuneração no espaço da qualquer outro período relevante.
reprodução social, continua a ser captado Segundo Szalai, a designação
através da categoria “afazeres domésticos”. orçamen-to-tempo tem uma justificativa
Esta, no entanto, a partir de 1992, deixou metafórica, uma vez que, a exemplo do que
de ser somente uma alternativa de resposta acontece em um orçamento financeiro, os
apresentada apenas aos que declararam estudos desse tipo estão preocupados com
não trabalhar e torna-se uma pergunta es- as proporções de tempo alocado nas 24
pecífica, aplicada a todos os respondentes, horas do dia, em várias atividades. O tempo
independentemente de sua condição de apurado nesses estudos, ainda segundo
trabalho.3 esse autor, serve apenas de referência
A partir de 2001, a PNAD introduziu estruturante das proporções do enga-
novo quesito sobre o tema, desta feita sobre jamento das pessoas em toda a gama de
o tempo consumido na realização de afa- suas atividades diárias. Não é, portanto, o
zeres domésticos, apresentado aos que tempo, em si mesmo, mas sim o uso que
responderam afirmativamente à pergunta as pessoas fazem dele o real assunto dos
anterior.4 estudos de orçamento-tempo. Dados assim
Assim, foram dadas as condições para obtidos podem se mostrar bastante úteis,
um estudo sobre o tempo gasto na realiza- como, por exemplo, para o planejamento
ção de afazeres domésticos, objetivo deste de serviços e equipamentos comunitários,

3
A pergunta número 121 é: na semana de(período de referência anterior à pesquisa), o/a sr./a cuidava dos afazeres domésticos?
4
A pergunta 121a é: quantas horas....dedicava normalmente por semana aos afazeres domésticos?

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a partir de certos parâmetros gerais de metodologia. Figueiredo (1980), in-


necessidades da população. vestigando chefes de família em uma comu-
A abordagem do orçamento-tempo foi nidade pesqueira da Bahia, mostrou que,
primeiramente desenvolvida em surveys, somando suas atividades remuneradas e
reportando condições de vida da classe tra- não-remuneradas, essas mulheres traba-
balhadora e as longas horas de trabalho nos lhavam, em média, 95 horas por semana.
primeiros tempos do desenvolvimento in- Machado Neto e Britto (1982) cronome-
dustrial, reduzidas graças às lutas dos traba- traram as tarefas domésticas de mulheres
lhadores organizados, em prol da redução entre 30 e 45 anos, em diferentes ciclos da
da jornada de trabalho. A luta pelo “3 x 8” (8 vida, todas pertencentes às camadas popu-
horas de trabalho, 8 horas de lazer e 8 horas lares da Bahia e constataram que o trabalho
de sono) enquanto agenda correta para a doméstico “recorta por sobre a vida”, inva-
jornada diária dos trabalhadores “expressa- dindo todos os outros espaços temporais,
va, na verdade, uma demanda social na sobretudo o do lazer e o do descanso, que
forma de um lacônico orçamento-tempo.” algumas tarefas são centralizadas, inadiá-
(SZALAI, 1972, p. 6). A maior parte dos veis, e outras não podem ser delegadas.
estudos de orçamento-tempo anteriores à 2ª Em pesquisa com mulheres de famílias das
Guerra Mundial foi realizada na Grã- camadas médias paulistanas, constatou-se,
Bretanha, União Soviética e Estados Unidos, através do registro das atividades realiza-
alguns na França e na Alemanha e em outros das por elas no dia anterior a uma segunda
países, esporadicamente. Em geral, estes entrevista, que o tempo diário gasto nas
primeiros estudos foram focados nos seguin- tarefas domésticas variava de 7 a 9 horas.
tes tópicos: distribuição entre categorias O registro do tempo, apesar de apenas apro-
amplas de atividade, como trabalho pago, ximado, foi útil para mostrar que as tarefas
afazeres domésticos, cuidado pessoal, tare- domésticas, também nas camadas médias,
fas familiares, sono e recreação; caracterís- se caracterizam pela simultaneidade, multi-
ticas de gasto de tempo por grupo ou estrato plicidade e fragmentação e por consumir
social (trabalhadores industriais, estudantes, grande parte do tempo feminino (BRUSCHINI,
homens, desempregados, etc.); e uso do 1990).
tempo livre, especialmente lazer. Entretanto, apesar de sua importância
No Brasil, estudos que adotam essa para o desvendamento da contribuição
metodologia foram incorporados àqueles global das mulheres para as famílias e toda
sobre o trabalho feminino, nos anos 70, com a sociedade, os estudos de orçamento-
o intuito de tornar visível e valorizar a ativi- tempo pouco avançaram no Brasil, em parte
dade doméstica, assim como outras formas devido a um certo ceticismo de algumas
de atividade sem remuneração, desempe- pesquisadoras em relação à sua utilidade,
nhadas sobretudo por mulheres. Aguiar em parte devido às dificuldades metodoló-
(1984, p.22), uma das pioneiras na defesa gicas inerentes a essa forma de levanta-
do uso da metodologia de orçamento-tempo mento de dados. Relegado durante muitos
nos estudos sobre o trabalho feminino como anos a um relativo esquecimento, o critério
a mais adequada para tornar visíveis as do tempo gasto em atividades mercantis e
inúmeras atividades realizadas pelas mulhe- não-mercantis começou a ser novamente
res, no meio urbano e no rural, comenta, em utilizado para analisar o trabalho das mulhe-
um dos seus textos, que o número de horas res, em documentos internacionais, como o
de trabalho afeta o cômputo de mulheres Relatório de Desenvolvimento Humano –
como participantes da população economi- Human Development Report/HDR (UNDP,
camente ativa, e sugere que sejam elabo- 1995). Realizado anualmente, desde 1990,
radas questões sobre o tempo de trabalho pelo Fundo das Nações Unidas para o De-
de cada um dos membros do domicílio nos senvolvimento/UNDP, o Relatório define o
levantamentos censitários. desenvolvimento como um conceito global,
Nos anos 80, estudos antropológicos que tem como componentes essenciais a
sobre a atividade feminina fizeram uso dessa igualdade de oportunidades, a sustentabili-

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dade dessas oportunidades de uma geração no mercado de trabalho, em vez do método


para outra e o fortalecimento das mulheres. tradicional de contar o número de partici-
Ao contrário do paradigma do cresci- pantes na força de trabalho (UNDP, 1995).
mento, que leva em conta apenas a renda Já estudo recente da Unifem (2000)
(Produto Nacional Bruto) para avaliar a chama a atenção para a ambigüidade e a
situação socioeconômica de um país, o con- variedade de termos utilizados para tornar
ceito de desenvolvimento humano consi- visíveis todos os serviços prestados e/ou
dera uma ampla gama de questões sociais, trabalhos realizados pelas mulheres – traba-
como a educação, valores culturais e políti- lho doméstico, trabalho não-remunerado,
cos. Com esta perspectiva teórica, o HDR trabalho reprodutivo, trabalho na unidade
constrói um índice de desenvolvimento hu- doméstica, trabalho de cuidado não-remu-
mano (IDH) que combina os indicadores de nerado aos membros da família – e retoma
esperança de vida, nível educacional e a proposta de computar o valor desses servi-
renda nacional. ços ou trabalhos através da mensuração
A partir da consideração de que a eqüi- do tempo gasto para realizá-los (UNIFEM,
dade de gênero é um dos aspectos centrais 2000, p. 23-24).
deste novo conceito de desenvolvimento, o Mais recentemente, Dedecca, em artigo
Relatório passou a incorporar, desde 1992, sobre o tempo, trabalho e gênero, chama a
as diferenças sexuais na composição do atenção para a importância da questão do
índice. Preparado especialmente para a IV tempo e para a escassez de informações no
Conferência da Mulher em Pequim, o Rela- Brasil, até a introdução, na PNAD de 2001,
tório de 1995 avançou significativamente de um quesito sobre o tempo gasto na
neste tema: focaliza o gênero como questão realização de afazeres domésticos, como foi
central; analisa o processo de exclusão das mencionado em tópico anterior. O autor faz
mulheres do desenvolvimento; mede a uma análise teórica sobre o tempo no
igualdade de gênero; e oferece uma estra- capitalismo, propõe a articulação do uso do
tégia concreta para buscar a eqüidade nas tempo para a reprodução econômica e para
oportunidades entre homens e mulheres. a reprodução social e defende a tese que:
Dentro deste novo modelo de desenvol- se trate o tempo do chamado trabalho
vimento, segundo os autores do Relatório, não doméstico como tempo para a reprodução
há nenhuma razão para que atividades como social, entendendo-o como fundamental
criar filhos, cozinhar, cuidar da casa e outras para resolver alguns problemas da acu-
não sejam valorizadas. Por isso, é feita uma mulação capitalista que não se equacionam
no sistema generalizado de trocas realizado
estimativa desta contribuição invisível à renda através da moeda (DEDECCA, 2004, p. 25).
nacional, por meio de uma pesquisa sobre o
tempo gasto por homens e mulheres em O autor expõe resultados de estudos
atividades mercantis e não-mercantis, em 31 sobre o uso do tempo em países desen-
países industrializados e não-industriali-zados. volvidos e chama atenção para inúmeras
Os resultados mostram que, nos países questões que têm sido objeto de interesse de
industrializados, 66% do total do tempo do feministas e estudiosas das relações de
trabalho dos homens é gasto em atividades gênero, entre as quais é possível destacar: o
remuneradas e 34% em não-remuneradas, tempo econômico masculino é maior do que
enquanto nos países em desenvolvimento o feminino, enquanto o tempo feminino na
essa relação é de 76% para 24%. Enquanto reprodução social é maior do que o masculino;
isso as mulheres, tanto nos países em desen- o aumento da jornada do tempo econômico
volvimento como nos industrializados, conso- prejudica mais as mulheres, uma vez que o
mem 34% do tempo de trabalho em atividades tempo dedicado por elas à reprodução social
remuneradas e 66% em trabalho não pago. A e à família não tende a diminuir, apesar do
partir desses e de outros resultados, o Rela- avanço tecnológico da aparelhagem domés-
tório propõe que a mensuração da categoria tica; isso reduz o tempo livre das mulheres,
trabalho passe a considerar o número de que adicionam o tempo econômico ao da
horas que as mulheres e os homens gastam reprodução social.

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De fato, o menor tempo livre encontrado lise, articulando a esfera da produção eco-
nas pesquisas mencionadas pelo autor foi nômica e da reprodução social, permitiu
o das mulheres, em especial o daquelas com observar as conseqüências das obrigações
filhos menores de 15 anos. Analisando domésticas na vida das mulheres, limitando
resultados desses estudos em países seu desenvolvimento profissional. Com car-
desenvolvidos, Dedecca levanta um ponto reiras descontínuas, salários mais baixos e
importante a ser considerado: o de que, até empregos de menor qualidade, as mulheres
mesmo nos países que possuem políticas muitas vezes acabam por priorizar seu
sociais de caráter abrangente, como horário investimento pessoal na esfera privada.
integral em escolas e creches, persiste a
desigualdade no uso do tempo para a repro- Uma contribuição empírica: tempo
dução social, de homens e de mulheres. semanal em afazeres domésticos
Discorrendo sobre o tema da relação
entre produção e reprodução, Sorj lembra Nesta parte do texto são apresentados
que o trabalho remunerado e o não-remune- os resultados de um estudo realizado com
rado são duas dimensões do trabalho social dados da PNAD/2002, sobre o tempo sema-
que estão intimamente ligadas. Constatar esse nal médio de dedicação aos afazeres do-
fato, revendo as categorias que tratavam do mésticos. Foram utilizadas informações obti-
tema, foi uma das contribuições dos estudos das a partir das perguntas 121 “na semana
feministas e de gênero, já que o trabalho não- de 23 a 29 de setembro de 2001, cuidava
remunerado é realizado, em grande parte, dos afazeres domésticos?” e 121-a (para
pelas mulheres, na esfera privada. Até então, os que responderam sim) “quantas horas
prevalecia a noção de que a produção para dedicava normalmente por semana aos afa-
o mercado e o trabalho doméstico eram zeres domésticos?”, introduzidas a partir das
regidos por diferentes princípios, em que as PNADs de 1992 e 2001, respectivamente.
regras do mercado aplicar-se-iam à Entende-se por afazeres domésticos,
produção, enquanto o trabalho doméstico na PNAD, a realização, no domicílio de resi-
seria “um dote natural que as mulheres dência, de tarefas (que não se enquadravam
aportam ao casamento em troca do seu no conceito de trabalho) de: arrumar ou
sustento” (SORJ, 2004, p.107). limpar toda ou parte da moradia; cozinhar
Devido à ausência de um conceito que ou preparar alimentos, passar roupa, lavar
lhe desse visibilidade, o trabalho doméstico roupa ou louça, utilizando, ou não, aparelhos
permaneceu, por muito tempo, ignorado nos eletrodomésticos para executar estas tarefas
estudos sobre o trabalho. Os estudos sobre para si ou para outro(s) morador(es); orientar
a divisão sexual do trabalho, porém, não ou dirigir trabalhadores domésticos na
tiveram dificuldade em mostrar o estreito execução das tarefas domésticas; cuidar de
vínculo entre trabalho remunerado e não- filhos ou menores moradores; limpar o
remunerado. Esta nova perspectiva de aná- quintal ou terreno que circunda a residência.

TABELA 1
Pessoas de dez anos ou mais, por dedicação aos afazeres domésticos, e tempo de dedicação (número médio de
horas semanais), segundo sexo
Brasil – 2002

Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.


(1) Pergunta 121 “cuidava dos afazeres domésticos na semana anterior à pesquisa?”

338 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 23, n. 2, p. 331-353, jul./dez. 2006
Bruschini, C. Trabalho doméstico

Consideraram-se na pesquisa as pessoas de ao se desagregarem as informações por


dez anos ou mais de idade, indepen- sexo, saltam aos olhos as desigualdades
dentemente da sua condição de atividade e de gênero, pois, enquanto quase 90% das
ocupação na semana de referência (IBGE, mulheres responderam SIM à pergunta,
2003, p. 36-37). pouco menos de 45% dos homens deram
As informações sobre número médio resposta semelhante. A mesma desigual-
de horas semanais dedicadas aos afazeres dade se verifica ao considerar, de outro
domésticos, por pessoas de dez anos ou ângulo, o total dos que cuidam de afazeres
mais, foram relacionadas às variáveis sexo, domésticos (95,5 milhões), segundo o sexo:
idade, escolaridade, rendimento, situação 68,3% são mulheres e 31,7% homens. O
do domicílio (urbano/rural), região do país, diferencial de gênero se apresenta também
condição na família, presença de filhos, com clareza quando se examina o tempo
idade do último filho vivo, raça/cor e condi- de dedicação aos afazeres domésticos,
ção de ocupação.5 No total, 140.338.544 segundo o número médio de horas sema-
pessoas responderam à pergunta, sendo nais: enquanto na população total este
67.675.933 homens (48,2% da população) número foi de 21,9 horas, o das mulheres
e 72.662.611 mulheres (51,8%). correspondeu a cerca de 27 horas e o dos
Os dados revelam, em primeiro lugar, homens a pouco mais de 10 horas.6
que 68% dos investigados responderam Os resultados do estudo, apresentados
afirmativamente à pergunta sobre o cuidado a seguir, referem-se apenas à parcela da
com os afazeres domésticos. No entanto, população que declarou cuidar de afazeres

GRÁFICO 1
Pessoas que cuidavam de afazeres domésticos na semana da pesquisa, segundo sexo
Brasil – 2002

Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.

5
Este estudo teve por inspiração a PPV-Pesquisa de Padrões de Vida da População 1996/97 – IBGE. Realizada com
o apoio do Banco Mundial, a PPV levantou informações sobre determinantes do bem-estar social e níveis de pobreza
da população e abrangeu temas variados, como domicílios, famílias, anticoncepção, saúde, antropometria, educação,
trabalho, mobilidade ocupacional e incluiu entre eles o uso do tempo. Utilizou a metodologia de longa permanência
dos pesquisadores no campo e seguidas visitas aos domicílios, o que viabilizou o levantamento acurado de informações
sobre a alocação do tempo. Ateve-se ao tempo gasto com trabalho produtivo, afazeres domésticos, trabalho comunitário,
permanência em estabelecimento de ensino e tempo gasto com transporte. Abrangeu pessoas de cinco anos e mais
(IBGE, 1999).
6
Esse resultado difere daquele encontrado pela PPV-IBGE 1996/97, que constatou que as mulheres dedicam em média 36 horas
semanais, e os homens 14 horas, aos afazeres domésticos. Essa discrepância, no entanto, não é surpreendente quando se considera
a diferente metodologia adotada por essa pesquisa, como descrito na nota anterior.

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 23, n. 1, p. 331-353, jul./dez. 2006 339
Bruschini, C. Trabalho doméstico

GRÁFICO 2
Distribuição das pessoas que cuidavam de afazeres domésticos na semana da pesquisa, por sexo
Brasil – 2002
Mulheres
68,3%

Homens
31,7%
Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.

GRÁFICO 3
Média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos, por sexo
Brasil – 2002
27,2

21,9

10,6

Mulheres Homens Total


Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.

domésticos na PNAD/2002 (ou seja, res- número de horas dedicadas aos afazeres
pondeu SIM, cuidou de afazeres domésticos domésticos entre meninos e meninas (faixa
na semana da pesquisa). etária de 10 a 14 anos): enquanto elas
Foi constatado que o tempo gasto com trabalham mais de 14 horas por semana
tarefas domésticas aumenta com a idade. em afazeres domésticos, eles dedicam a
Entre as mulheres, esse crescimento é signi- essas tarefas menos de nove horas. Quando
ficativo até os 60 anos, passando a declinar ficam mais velhos – a partir dos 60 anos –,
a partir de então. O número de horas os homens aumentam sua dedicação ao
aumenta, entre elas, a partir dos 25 anos – trabalho doméstico, mas não atingem
28,7 horas semanais – e atinge seu pico – sequer a metade do tempo gasto pelas
32,9 horas – na faixa de 50 a 59 anos. Entre mulheres da mesma faixa etária: 14 horas
os homens, não há diferenças relevantes eles, 30,6 elas.
segundo a faixa etária, exceto na primeira, Observa-se também que o número de
10 a 14 anos, na qual a média de horas é horas de dedicação aos afazeres
mais baixa, e na última, 60 anos ou mais, domésticos diminui à medida que aumenta
na qual, ao contrário, o número de horas o nível de escolaridade. Enquanto mulheres
dedicadas às tarefas domésticas aumenta. com 12 anos ou mais de estudo (ou nível
Vale ressaltar a acentuada diferença do superior) trabalham em média 20 horas por

340 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 23, n. 2, p. 331-353, jul./dez. 2006
Bruschini, C. Trabalho doméstico

TABELA 2
Média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos e pessoas que realizavam estas atividades, segundo
sexo e faixa etária
Brasil – 2002

Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.

GRÁFICO 4
Média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos, segundo sexo e faixa etária
Brasil – 2002

Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 23, n. 1, p. 331-353, jul./dez. 2006 341
Bruschini, C. Trabalho doméstico

TABELA 3
Média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos e pessoas que realizavam estas atividades, segundo
sexo e faixa de anos de estudo
Brasil – 2002

Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.

GRÁFICO 5
Média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos, segundo sexo e faixa de anos de estudo
Brasil – 2002

Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.

semana em afazeres domésticos, aquelas efeito da escolaridade também está


com apenas 1 a 4 anos de estudo dedicam presente, mantendo, porém, em todas as
quase 29 horas e aquelas com 5 a 8 anos faixas, número de horas muito inferior ao
de estudo 27,2 horas. Entre os homens, o das mulheres.

342 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 23, n. 2, p. 331-353, jul./dez. 2006
Bruschini, C. Trabalho doméstico

O tempo de dedicação aos afazeres ticos durante 17,5 horas e aquelas com mais
domésticos também se reduz com o aumento de 10 SM apenas 16,7 horas, enquanto o total,
do nível de rendimento, para homens e mulhe- para todas as mulheres, é de 27,2 horas. Foi
res. Ao se analisarem as respostas dos infor- possível observar também que 84% das
mantes segundo sexo e faixa de rendimento mulheres na faixa de 5 a 10 SM e 77% na fai-
no trabalho principal, constatou-se que as mu- xa de mais de 10 SM declararam na pesquisa
lheres que se situavam na faixa de 5 a 10 sa- que cuidavam de tarefas domésticas, percen-
lários mínimos cuidavam de afazeres domés- tual inferior ao de 90% do total das mulheres.

TABELA 4
Média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos e pessoas que realizavam estas atividades,
segundo sexo e faixa de rendimento do trabalho principal
Brasil – 2002

Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.

GRÁFICO 6
Média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos, segundo sexo e faixa de rendimento do trabalho
principal
Brasil – 2002

Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 23, n. 1, p. 331-353, jul./dez. 2006 343
Bruschini, C. Trabalho doméstico

Não foram observadas diferenças Não foram constatadas também dife-


relevantes de número de horas em afazeres renças relevantes no número de horas que
domésticos, segundo a localização do as mulheres dedicam aos afazeres domés-
domicílio. Nos domicílios rurais as mulheres ticos, segundo as regiões do país, exceto
gastam 1,2 hora a mais. É preciso considerar, no caso do Norte e do Centro-Oeste, onde
entretanto, que no meio rural os afazeres do- elas gastam um número menor de horas,
mésticos, para as mulheres, se confundem em comparação à média geral de 27,2 ho-
com a atividade econômica, mais do que no ras. Entretanto, na Região Sudeste, o per-
meio urbano. No que se refere aos homens, centual de mulheres que declararam cuidar
o número de horas é o mesmo, tanto nos de afazeres domésticos (89%) é inferior ao
domicílios urbanos quanto nos rurais. da demais regiões. No caso dos homens, o

TABELA 5
Média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos e pessoas que realizavam estas atividades, segundo
sexo situação domiciliar (1)
Brasil – 2002

Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.


(1) De acordo com a PNAD, a classificação da situação do domicílio é realizada segundo a área de localização do mesmo, e tem
por base a legislação vigente por ocasião da realização do Censo Demográfico de 2000. Como situação urbana consideram-se as
áreas correspondentes às cidades (sedes municipais), às vilas (sedes distritais) ou às áreas urbanas isoladas. A situação rural
abrange toda a área situada fora desses limites. Este critério é, também, utilizado na classificação da população urbana e rural.

GRÁFICO 7
Média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos, segundo sexo e situação domiciliar
Brasil – 2002

Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.

344 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 23, n. 2, p. 331-353, jul./dez. 2006
Bruschini, C. Trabalho doméstico

TABELA 6
Média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos e pessoas que realizavam estas atividades, segundo
regiões geográficas
Brasil – 2002

Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.

GRÁFICO 8
Média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos, segundo regiões
Brasil – 2002

Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 23, n. 1, p. 331-353, jul./dez. 2006 345
Bruschini, C. Trabalho doméstico

TABELA 7
Média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos e pessoas que realizavam estas atividades,
segundo sexo e posição na família (1)
Brasil – 2002

Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.


(1) Dentro de cada família as pessoas foram classificadas, na PNAD, em função da relação com a pessoa de referência ou com o
seu cônjuge, de acordo com as seguintes definições: Pessoa de referência – pessoa responsável pela família ou que assim fosse
considerada pelos demais membros; Cônjuge – pessoa que vivia conjugalmente com a pessoa de referência da família, existindo
ou não o vínculo matrimonial; Filho – pessoa que era filho, enteado, filho adotivo ou de criação da pessoa de referência da família
ou do seu cônjuge; Outro parente – pessoa que tinha qualquer outro grau de parentesco com a pessoa de referência da família
ou com o seu cônjuge; Agregado – pessoa que não era parente da pessoa de referência da família nem do seu cônjuge e não
pagava hospedagem nem alimentação; Pensionista – pessoa que não era parente da pessoa de referência da família nem do seu
cônjuge e pagava hospedagem ou alimentação; Empregado doméstico – pessoa que prestava serviço doméstico remunerado
em dinheiro ou somente em benefícios a membro(s) da família; Parente do empregado doméstico – pessoa que era parente do
empregado doméstico e não prestava serviço doméstico remunerado a membro(s) da família.

GRÁFICO 9
Média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos, segundo sexo e posição na família
Brasil – 2002

Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.

346 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 23, n. 2, p. 331-353, jul./dez. 2006
Bruschini, C. Trabalho doméstico

Sul é a região na qual o tempo semanal se encontra em franca reprodução no inte-


gasto em afazeres domésticos é menor. rior das famílias.
Em relação à posição na família,7 as Quando se analisa o tempo gasto nas
cônjuges8 são as mulheres que trabalham tarefas domésticas segundo a presença de
o número mais elevado de horas (33,4) em filhos, é possível confirmar o que os estudos
afazeres domésticos, seguidas pelas de gênero vêm seguidamente afirmando: o
chefes de família,9 com um número de horas cuidado com os filhos é uma das atividades
mais próximo ao da média geral da que mais consome o tempo de trabalho do-
população feminina. Note-se que mais de méstico das mulheres, mesmo que as mais
97% das cônjuges declararam cuidar de velhas, casadas e mães sejam precisamente
afazeres domésticos e mais de 90% das aquelas que estão adentrando com mais
chefes (categoria “pessoa de referência”). vigor no mercado de trabalho e nele perma-
Ao se analisar o uso do tempo no trabalho necendo10 (BRUSCHINI, 2000; BRUSCHINI
doméstico, segundo posição na família e e LOMBARDI, 2003). Segundo os dados des-
sexo do informante, chama a atenção ainda ta pesquisa, as mães dedicam aos afazeres
o número muito mais elevado de horas que domésticos quase 32 horas do seu tempo
as filhas trabalham em afazeres domésticos semanal, um número muito superior ao da
– quase 17 horas – em comparação aos média geral e mais ainda ao das mulheres
filhos – pouco mais de 9. Além disso, na que não tiveram filhos. Note-se também que,
população investigada, 80% das filhas e enquanto 95% das mulheres que tiveram
apenas 38% dos filhos declararam cuidar filhos responderam que cuidavam de
desses afazeres, o que pode ser conside- afazeres domésticos, 82% das que não
rado um sinal de que a assimetria de gênero tiveram filhos deram resposta semelhante.

TABELA 8
Média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos e mulheres que realizavam estas atividades, segundo
a presença de filhos
Brasil – 2002

Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.

7
Na PNAD, as pessoas são classificadas, dentro de cada família, em função da relação com a pessoa de referência
ou com seu cônjuge, segundo as seguintes definições: pessoa de referência – responsável pela família ou que assim
é considerada pelos demais membros; cônjuge – pessoa que vivia conjugalmente com a pessoa de referência da
família, com ou sem vínculo matrimonial; filho – filho, enteado, filho adotivo ou de criação da pessoa de referência da
família ou do seu cônjuge; outro parente – pessoa que tinha qualquer outro grau de parentesco com a pessoa de
referência da família ou com o seu cônjuge; agregado – pessoa que não era parente da pessoa de referência da
família nem do seu cônjuge e não pagava hospedagem nem alimentação; pensionista – pessoa que não era parente
da pessoa de referência da família nem do seu cônjuge e pagava hospedagem ou alimentação; empregado doméstico
– pessoa que prestava serviço doméstico remunerado em dinheiro ou somente em benefícios a membro(s) da
família; parente do empregado doméstico – pessoa que era parente do empregado doméstico e não prestava serviço
doméstico remunerado a membro(s) da família.
8
Segundo definição do IBGE, cônjuge é a pessoa que vivia conjugalmente com a pessoa de referência da família, com ou sem
vínculo matrimonial, na ocasião da pesquisa.
9
Vale a pena mencionar que o número de famílias chefiadas por mulheres cresceu significativamente entre 1992 e 2002, passando
de 22% para 28,4% das famílias brasileiras, segundo dados da PNAD.
10
Dados da PNAD de 2002 revelam que 70% das mulheres entre 30 e 49 anos e 67% daquelas de 40 a 49 anos são ativas; revelam

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 23, n. 1, p. 331-353, jul./dez. 2006 347
Bruschini, C. Trabalho doméstico

GRÁFICO 10
Média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos por mulheres, segundo a existência ou não de filhos
Brasil – 2002

Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.

TABELA 9
Média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos e mulheres com filhos que realizavam estas
atividades, segundo faixa etária do último filho vivo
Brasil – 2002

Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.

Ao introduzir na análise a idade dos quando estes estão na idade de 2 a 4 anos,


filhos, os dados confirmam o que os estudos cifras muito superiores à encontrada para a
de gênero têm apontado seguidamente: os população feminina em geral.
filhos pequenos são aqueles que conso- Ao contrário o que foi constatado na PPV,
mem o maior número de horas de dedica- mencionada anteriormente (ver nota 5), não
ção aos afazeres domésticos.11 Ao conside- foram observadas diferenças relevantes no
rar a idade do último filho vivo no domicílio, número de horas de dedicação aos afazeres
constatou-se que as mães dedicavam aos domésticos, segundo raça/cor, tanto entre as
afazeres domésticos – aí incluído o cuidado mulheres como entre os homens: brancas e
com os filhos pequenos e outros menores, pretas/pardas trabalham o mesmo número de
conforme a definição da PNAD – quase 35 horas em afazeres domésticos, assim como
horas semanais, quando os filhos têm brancos e pretos/pardos, mantendo-se,
menos de 2 anos, e pouco mais de 32 horas porém, o diferencial de gênero já constatado.

também que 55% das cônjuges são ativas. Ver Banco de Dados sobre o Trabalho da Mulher (FCC, 2005).
11
São ainda dados da PNAD/2002 que mostram que são ativas 54% das mães, porém 51,9% das mães de filhos de
menos de dois anos e 68% das mães de filhos de mais de seis anos. Ver Banco de Dados sobre o Trabalho da Mulher
(FCC, 2005).

348 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 23, n. 2, p. 331-353, jul./dez. 2006
Bruschini, C. Trabalho doméstico

GRÁFICO 11
Média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos por mulheres que tiveram filhos, segundo faixa etária
do último filho vivo
Brasil – 2002

Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.

TABELA 10
Média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos e pessoas que realizavam estas atividades,
segundo sexo e raça/cor
Brasil – 2002

Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.

Finalmente, ao analisar o número de estavam trabalhando fora do domicílio. Em


horas de dedicação aos afazeres relação aos homens, uma boa surpresa:
domésticos, segundo atividade remunerada, constatou-se que os desempregados
foi possível constatar que as mulheres que (categoria desocupados) dedicaram quase
tinham ocupação remunerada fora do quatro horas a mais do seu tempo semanal
domicílio, na ocasião da pesquisa, aos afazeres domésticos, em comparação
dedicavam aos afazeres domésticos quase aos ocupados e três horas em relação à
oito horas a menos do que aquelas que não população masculina total.

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 23, n. 1, p. 331-353, jul./dez. 2006 349
Bruschini, C. Trabalho doméstico

GRÁFICO 12
Média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos, segundo sexo e raça/cor
Brasil – 2002

Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.

TABELA 11
Média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos e pessoas que realizavam estas atividades,
segundo sexo e condição de ocupação (1)
Brasil – 2002

Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.


(1) Quanto à condição de ocupação, as pessoas estão classificadas, na PNAD, em ocupadas e desocupadas. Por ocupadas, entende-
se as pessoas que tinham trabalho durante todo ou parte do período de referência especificado pela pesquisa (semana de referência
ou período de referência de 365 dias). Incluem-se, ainda, como ocupadas as pessoas que não exerceram trabalho remunerado por
motivo de férias, licença, greve, etc. Por sua vez, as pessoas desocupadas são caracterizadas como sendo aquelas que não estavam
trabalhando no período de referência especificado, mas que haviam procurado trabalho no decorrer deste período.

GRÁFICO 13
Média de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos, segundo sexo e condição de ocupação
Brasil – 2002
30,8

23,0

13,6
9,7

Ocupados Desocupados
Condição de ocupação
Homens Mulheres
Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. Microdados.

350 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 23, n. 2, p. 331-353, jul./dez. 2006
Bruschini, C. Trabalho doméstico

Considerações Finais A análise dos dados revelou também,


entre outras constatações, que a idade, a
Ao finalizar este texto, duas conside- escolaridade e o trabalho remunerado têm
rações merecem ser feitas. A primeira é a de efeito relevante sobre o tempo dedicado ao
que os dados analisados comprovam trabalho doméstico, principalmente pelas
inúmeras afirmações que têm sido feitas nos mulheres.
estudos de gênero: as mulheres, muito mais A segunda consideração que deve ser
do que os homens, dedicam parte signifi- feita, ao concluir o artigo, é a do avanço
cativa de seu tempo ao trabalho para a significativo do órgão oficial responsável
reprodução social; entre elas, são as cônju- pelo levantamento de dados, dando
ges e, principalmente, as mães as que dedi- continuidade àqueles mencionados na
cam número mais elevado de horas sema- primeira parte do texto. Ao se desagregar a
nais aos afazeres domésticos; e, entre as categoria “afazeres domésticos” de uma
que tiveram filhos, são as mães de filhos pergunta feita apenas aos que não
pequenos aquelas cujo tempo semanal de trabalham e introduzir questão específica
dedicação aos afazeres domésticos é o mais sobre esse tema, ao considerar, na definição
elevado. Esta constatação torna-se mais desses afazeres, uma ampla gama de
relevante ao se considerar o fato de que são atividades realizadas para a reprodução e,
justamente essas as mulheres – as cônjuges finalmente, ao considerar o tempo dedicado
e as mães de filhos pequenos – que estão a esse conjunto de atividades, a PNAD
adentrando com mais vigor no mercado de viabiliza este e outros estudos sobre o
trabalho e nele permanecendo desde os trabalho de reprodução e o tempo a ele
anos 80, como constatado em trabalhos dedicado. Não seria ilusório, portanto,
anteriores (BRUSCHINI, 2000; BRUSCHINI, levando-se em conta todas as reformu-
LOMBARDI, UNBEHAUM, 2006). Ou seja, lações já realizadas na PNAD desde o co-
são aquelas que mais trabalham atualmente meço dos anos 90, defender, para concluir
na atividade produtiva as que mais conso- o texto, a proposta de que o trabalho domés-
mem seu tempo, no domicílio, na atividade tico, que consome parte considerável do
reprodutiva, enfrentando enorme sobrecarga tempo dos que dele se ocupam – em sua
de trabalho e dificuldades de conciliação maioria mulheres, donas de casa e mães
entre as responsabilidades familiares e as de filhos pequenos –, passe a ser consi-
profissionais. É forçoso reconhecer, por isso, derado um trabalho não-remunerado, e não
a necessidade de políticas sociais de apoio mais inatividade econômica.
a essas trabalhadoras, sobretudo àquelas
de mais baixa renda.

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Abstract

Domestic labor: economic inactivity or unpaid labor?

Classified in the category of household tasks in the surveys carried out by the Brazilian Census
Office (IBGE), domestic labor performed by housewives has always been considered economic
inactivity, similar to that of students, pensioners, the disabled and those who live on unearned
income. Such work remains invisible in official statistics, although the early 1990s saw changes.
This article has the aim of shedding some light on the topic by analyzing the average number
of hours spent on household tasks according to a number of variables. The author holds that,

352 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 23, n. 2, p. 331-353, jul./dez. 2006
Bruschini, C. Trabalho doméstico

due to the high number of hours dedicated to domestic tasks (usually by women), it would be
legitimate to consider this category as one that performs unpaid labor, and never as one with
economic inactivity.
Key words: Gender. Household tasks. Unpaid labor. Use of time. Official statistics.

Recebido para publicação em 30/08/2006.


Aceito para publicação em 06/11/2006.

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 23, n. 1, p. 331-353, jul./dez. 2006 353