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XIII Encontro Nacional Turismo de Base Local


10 a 13 de novembro de 2014 - Universidade Federal de Juiz de Fora
Departamento de Turismo
FICHA CATALOGRÁFICA

Encontro Nacional de Turismo de Base Local (13.: 2014: Juiz


de Fora, MG).
Anais do XIII Encontro Nacional de Turismo de Base Local
Juiz de Fora, MG, 10 a 13 de novembro de 2014. – Juiz de
Fora:
[s.n.]., 2014.
1.502 p. : il.

ISSN 1808-9755
Tema: “Economia e Criatividade: arranjos e práticas sociais
do Turismo.”
Disponível também em: < http://www.ufjf.br/entbl2014/
anais>

1. Turismo - Base local. 2. Turismo - Brasil. 3. Economia


criativa. I. Universidade Federal de Juiz de Fora. II. Instituto
de Ciências Humanas. Curso de Turismo.

CDU 379.85

APOIO:
REALIZAÇÃO

UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA - UFJF


Reitor
Júlio Maria Fonseca Chebli

Vice Reitor
Marcos Vinício Chein Feres.

INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS


Diretor
Prof. Dr. Altemir José Gonçalves Barbosa

Vice-diretor
Prof. Dr. Ricardo Tavares Zaidan

DEPARTAMENTO DE TURISMO
Chefe de Departamento
Prof. Alice Gonçalves Arcuri

Vice-chefe de Departamento
Prof. Sandro Campos Neves

Coordenador
Prof. Edwaldo Sérgio dos Anjos Júnior

Vice-Coordenadora
Prof. Miriane Sigiliano Frossard

APOIO
Capes
CNPQ
FAPEMIG
Pró-Reitoria de Extensão da UFJF
Pró-Reitoria de Pesquisa da UFJF
Instituto de Ciências Humanas
Universidade Federal de Juiz de Fora
Instituto de Ciências Humanas
Departamento de Turismo

ORGANIZAÇÃO

Comissão Científica Lonnie Menezes Rocha


Prof. Sandro Campos Neves Michele Araújo Machado
Prof. André Barcelos Damasceno Daibert Nayara Titoneli
Prof. Edwaldo Sérgio dos Anjos Júnior Stela Freesz
Prof. João Alcântara de Freitas
Giselle Aparecida Campos da Silva Comissão de Secretaria
Mayara Cristina Paiva Profª. Luciana Bittencourt Villela
Gislaine Cristina de Oliveira
Comissão de Comunicação Jéssica Martins (Comissão das bolsas)
Prof. Humberto Fois Braga Marcélia Castaldeli Fantini
Profª. Alice Gonçalves Arcuri Rayla de Paiva Reis
Prof. Lucas Gamonal Barra de Almeida
Profª. Tatiana Martins Montenegro Comissão de Infraestrutura
Aline Marques dos Santos Prof. Marcelo Trezza Knop
Camila Castro Nunes Prof. Edwaldo Sérgio dos Anjos Júnior
Glaucia Soldati Dias
Paulo Henrique Arruda Silveira Comissão de Produção Cultural
Pedro Luiz Fraga Profª. Luciana Bittencourt Villela
Tainah Curcio Prof. Edwaldo Sérgio dos Anjos Júnior
Tomás Lopes de Freitas Profª. Edilaine Albertino de Moraes
Profª. Tatiana Martins Montenegro
Comissão de Receptivo Profª. Raquel Fernandes Rezende
Profª. Miriane Sigiliano Frossard Nicolas Guimarães Teodoro
Profª. Anne Bastos Martins Rosa
Profª. Thais Lima Comissão de Alimentos e Bebidas
Prof. Kairo Ribeiro Profª. Alice Gonçalves Arcuri
Eliza Feres Profª. Raphaela Corrêa
Gracielly Amorim Rocha Profª. Thaís Da Dalt
Jéssica Costa Martins Flávio Menzer
Juliane dos Santos Machado Lívia Arcuri
Lina Lomeu Pereira Gouvêa Paola Frizero
Stela Freesz
XIII Encontro Nacional de Turismo de Base Local

Em 2014 o XIII ENTBL, com o tema central “Economia e Criatividade: arranjos


e práticas sociais do Turismo”, será organizado pelo Departamento de Turismo da
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), e acontecere em Juiz de Fora – MG.
O evento será realizado nas dependências do Instituto de Ciências Humanas e, além
de 13 docentes do Departamento de Turismo envolvidos, alguns deles ligados a
programas de pós-graduação do próprio instituto, o evento contará com o apoio de
membros do Departamento de Geografia da UFJF.

Ressalta-se que a opção pela construção desse tema se deu mediante três
razões: a primeira se deve ao ineditismo da proposta, tomado como parâmetro os
temas das edições anteriores do evento; em segundo lugar, devido à influência dos
debates em torno das Economias Criativa e Solidária, sem, entretanto, circunscrever a
discussão apenas a essas duas modalidades econômicas; por último, pela possibilidade
de promover a reflexão e a investigação em torno de formas e articulações singulares
de coletividades em torno do Turismo.

Importa considerar que a proposição por esse tema foi impulsionada pela
tentativa de se criar um fórum de discussão entre pesquisadores, comunidades,
agentes públicos e privados ligados ao turismo de base local, de maneira a lançar luz
sobre práticas e pesquisas do Turismo capazes de se pautar em outros paradigmas
que não a lógica economicista de cunho massivo, que, por vez, perpassa setores
do Turismo. Lógica essa que privilegia a competitividade, o liberalismo, a dimensão
individual dos seres humanos e que entende ser a desigualdade socioeconômica
algo decorrente quase que exclusivamente dos méritos de cada sujeito. Ou seja, a
busca por discutir “Economia e Criatividade: arranjos e práticas sociais do Turismo” se
justificaria pelo fato de, embora o turismo seja, também, uma prática econômica, ele
não se restringe a essa dimensão e, tampouco, a esse paradigma econômico vigente
em boa parte do mundo contemporâneo.

Pelo contrário, acredita-se que outros paradigmas e práticas são possíveis e


que elas, mediante um olhar científico, podem colaborar para a instauração de novas
dinâmicas em torno do turismo. Dinâmicas essas mais equânimes, menos desiguais,
pautadas na pluralidade cultural, no envolvimento e na crescente autonomia das
comunidades ligadas ao turismo. Acredita-se que, da forma como é proposta, a
discussão sobre as categorias “Economia” e “Criatividade” propicie pensar na atividade
turística e, no limite em qualquer atividade econômica, como instrumento de atuação
dos coletivos que com ela se envolvem antes que como instrumento de sua supressão
ou sujeição.

Opta-se com essa proposta por problematizar e desnaturalizar (na esteira da


tradição do ENTBL) categorias operantes para a reflexão e atuação turística, tais como
a própria noção de economia, submetendo-as ao jogo de elaboração e reelaboração
incessantes do fazer humano. Ao partir do pressuposto de que o turismo de base
local não se atém apenas à sua feição econômica, embora seja ela constituinte desse
fenômeno, busca-se, a partir do evento, lançar luz sobre modalidades e práticas
de turismo afinizados com uma proposta que valoriza os saberes, as práticas e os
arranjos socioculturais locais e, ao fazer isso, pensa e efetiva outros arranjos sociais,
muitas vezes decorrentes de outras formas próprias e singulares de se pensar a
Economia. Ou seja, como conciliar a dimensão econômica no turismo de base local
sem cair em um reducionismo de associar ao turismo apenas cifras? Como, ao ter o
turismo uma dimensão econômica, contemplar arranjos diferentes em sua efetivação
sem o paradigma mercantil-capitalista levado às últimas consequências? Como
pensar a economia sob prismas mais equânimes e singulares, como, por exemplo,
a Economia Criativa e a Economia Solidária? E como outras formas de organização
social e relação com os territórios possibilitam formas diferentes de se pensar a
dimensão econômica no Turismo?

Posto isso, o desafio de discutir o turismo de base local contemplando (e não


descartando) a Economia visa dissipar o eventual reducionismo de que o Turismo de
Base Local minimizaria a dimensão econômica. Parece-nos, antes disso, que o foco
deve ser os termos da relação neste tipo de turismo, isto é, como essas comunidades
ligadas ao turismo de base local pensam o turismo sob lógicas econômicas diferentes
daquele arranjo de cunho massivo? E como a Economia, nessas comunidades e
junto a essas experiências de base local, se correlaciona a outras categorias centrais
daquelas culturas, como a religião, a educação e o trabalho?
Editorial
O Encontro Nacional Turismo de Base Local, em sua 13ª edição, traz à luz, em
2014, uma proposta temática instigante: o turismo com foco na Economia e na Criatividade,
tomando como escopo os diferentes arranjos e práticas sociais existentes nas práticas
turísticas no Brasil. Posto isso, natural seria que significativo número de pesquisadores do
Turismo de Base Local acorressem à essa temática central, porém sob prismas diversos,
aparatos metodológicos singulares e objetos particulares.
Como se sabe, um evento científico é uma construção coletiva. Nesse sentido, a
Comissão Organizadora do XIII ENTBL tentou levar tal postulado à uma dimensão radical,
ao permitir que mesas-redondas fossem propostas. Não só: franqueou aos acadêmicos
a oportunidade de sugerir grupos de trabalho, estimulando, assim, novas abordagens
sobre o Turismo de Base Local. Além disso, procurou resgatar o sentido original da palavra
“encontro” que pressupõe, naturalmente, a convivência. Eis a justificativa para um evento
com 4 noites e 3 dias.
Em uma contemporaneidade célere, cuja impressão da falta de tempo acomete a
todos, inclusive ao fazer científico, o debate e a concretização dos resultados das pesquisas
se torna importante para amadurecer perspectivas, conhecer metodologias, revisar o
arcabouço teórico...
Sendo assim, entregamos à comunidade acadêmica do turismo, bem como aos
demais interessados, essa coletânea, constituída por 100 trabalhos, dentre os quais, 15 de
graduação e 85 de pós-graduação, dos mais diferentes níveis, subdivididos em oito grupos
de trabalho.
Percebe-se, ao longo dos Anais do XIII Encontro Nacional de Turismo de Base Local,
que temas, como a sustentabilidade, as diferentes formas de participação das comunidades
locais nos arranjos dos turismos em seus territórios, bem como a questão dos impactos
negativos do turismo tendem a ser predominantes nos debates.
Ademais, foi oportunizado que os saberes oriundos de diferentes formações viessem
à tona nesse encontro. Não por acaso, Ailton Krenak, militante da causa indígena, abre
o evento, bem como um representante do Ministério do Turismo, Ítalo Mendes, fecha o
congresso, a partir de sua conferência de encerramento.
Nos parece ser chegada a hora de agregar conhecimentos de diferentes atores, como
acadêmicos, profissionais, representantes da sociedade civil, entes públicos do Turismo em
torno do tema do Turismo de Base Local.
E, se há uma dimensão privilegiada do quinhão de contribuições dos pesquisadores,
certamente a publicação deste documento concretiza um esforço epistemológico de meses,
quiçá anos, nesse movimento permanente de perquirirmos a realidade.
Aos leitores, nosso fraternal abraço.
Comissão Científica do XIII ENTBL

PROGRAMAÇÃO

10/11/2014 (Segunda-feira)

15h: Credenciamento
Local: Sala A-I-12 (Secretaria do evento) - Instituto de Ciências Humanas.

19h30min às 21h: Conferência de Abertura

Os desafios do Turismo com Base Local: olhares indígenas sobre a


economia e a criatividade.

Conferencista: Ailton Krenak.


Local: Auditório 1 - Instituto de Ciências Humanas.
Mediador: Prof. Dr. Sandro Campos Neves.

21h: Apresentação Artística


Local: Auditório 1 - Instituto de Ciências Humanas.

11/11/2014 (Terça-feira)

09h às 11h: Mesa redonda

01 - ECONOMIA E CRIATIVIDADE NA PERSPECTIVA DA RELAÇÃO ENTRE OS


TRANSPORTES E O DESENVOLVIMENTO DE DESTINOS TURÍSTICOS.

Participantes: Carla Fraga (Coordenadora); José Augusto Sá Fortes; Elisangela Machado;

Local: Auditório 2 - Instituto de Ciências Humanas.

02 - INCLUSÃO E INOVAÇÃO: CAMINHOS DO FUTURO DO TURISMO


BRASILEIRO.

Participantes: Elimar Pinheiro do Nascimento (Coordenador); Helena Araújo Costa;


Daniela Fantoni Álvares; João Paulo Faria Tasso; Daniela Maria Rocco Carneiro.

Local: Auditório 3 - Instituto de Ciências Humanas.

11h às 12h: Apresentação artística


Local: Auditório 1 - Instituto de Ciências Humanas.
12h às 14h: Almoço
14h às 16h: Mesa redonda

03 - ELEMENTOS PARA AVALIAÇÃO DA SUSTENTABILIDADE DE PROJETOS


DE TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA.

Participantes: Magnus Luiz Emmendoerfer (Coordenador); Werter Valentim De Moraes;


Eduardo Jorge Costa Mielke; Marcela Pimenta Campos Coutinho.

Local: Auditório 1 - Instituto de Ciências Humanas.

04- O PATRIMÔNIO E O TURISMO FACE AOS NOVOS MOVIMENTOS DE VALORIZAÇÃO


E AUTO-AFIRMAÇÃO IDENTITÁRIA: DESAFIOS E PERSPECTIVAS NA ERA DA
GLOBALIZAÇÃO.

Participantes: Euler David de Siqueira (Coordenador); Vera Maria Guimarães; Sandro


Campos Neves; Susana Gastal.

Local: Auditório 2 - Instituto de Ciências Humanas.

05 - TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA E A GESTÃO DE ÁREAS NATURAIS – ESTUDO

DE CASOS NO ESTADO DE SÃO PAULO.

Participantes: Sidnei Raimundo (Coordenador); Alessandra Blenjini Mastrocinque Martins;

Fabrício Scarpeta Matheus; Juliana Ferreira De Castro; Paulo Tácio Aires Ferreira.

Local: Auditório 3 - Instituto de Ciências Humanas.

16h às 18h: Lançamento de Livros e Sessão de Pôsteres (Mostra Acadêmica)

Local: Foyer dos auditórios - Instituto de Ciências Humanas.

Observação: Durante o lançamento de livros e a sessão de pôsteres, serão exibidos os


documentários “Circuito Três Picos” e “Borel Tour” no Auditório 1.
A) São Luiz e seus lugares memória pelo olhar dos moradores da terceira idade do centro
histórico. Autora: Hanna Coelho Rocha.

B) Empreendedorismo cultural: perspectivas para o desenvolvimento do turismo cultural no


bairro da Madre Deus em São Luís, MA. Autora: Sâmya Cristini Pereira Mendonça.

C) Participação comunitária e políticas públicas do turismo estudo de caso cidade de


Xambioá –TO. Autores: Ana Claudia Macedo Sampaio, Leonardo Lima Lemos Salcides e
Aclésio dos Santos Moreira.
D) O patrimônio cultural do Quilombo Mocambo: aportes para o turismo étnico. Autoras:
Viviane Castro e Rosana Eduardo da Silva Leal.

E) Impactos e legados de megaeventos esportivos uma análise junto às empresas


organizadoras de eventos no Rio de Janeiro. Autoras: Desireé Souza e Márcia Barbosa.

F) A percepção da população de Currais Novos/RN em relação aos aspectos do


desenvolvimento da atividade turística no município. Autores: Fernanda Raphaela Alves
Dantas, Fernando Arthur Alves Dantas e Wellington Alysson De Araújo.

G) Roteirização turística a valorização histórica e cultural da cidade do Natal com enfoque


na zona administrativa leste. Autor: Carlos Jefferson Rodrigues do Amaral.

H) Elementos para a construção do mapa turístico do centro histórico de Porto Nacional -


TO. Autoras: Thalyta de Cássia da Silva Feitosa e Rosane Balsan.

I) Perfil do turista e sua relação com os elementos astrológicos: Autores: Bárbara Helenni
Gebara Santin e Eduardo Jorge Costa Mielke.

J) Turismo pra quem? Considerações acerca do turismo desenvolvido na comunidade


Barra Grande, Município de Cajueiro da Praia - PI. Autores: José Maria Alves da Cunha,
Inês de Carvalho Mélo e Heidi Gracielle Kanitz.

K) Voluntariado e hospitalidade como promotores da cidadania. Autoras: Manoela Carrillo


Valduga e Lydia Villela Mattos.

L) Turismo em favela: uma análise da relação visitante e visitados no museu favela. Autores:
Giovanna Machado, Juliana Nunes e Yuri Carvalho.

M) “Esse rio é minha casa”: Percepções acerca dos impactos gerados pelas chuvas na
atividade turística do centro histórico de Belém (PA). Autores: Jéssica da Silva Soares,
Flavio Henrique Souza Lobato e Ana Paula Melo de Morais

N) Turismo e infraestrutura: uma análise dos transportes na Ilha do Cambú - Belém (PA).

Autores: Flavio Henrique Souza Lobato, Jamyle Cristine Abreu Aires e Renata Carneiro
Lopes da Silva.

O) Acolhida da Serra: Responsabilidade turística e social na mesa do consumidor brasileiro.


Autores: Juliana Aparecida dos Santos e Eduardo Mielke

P) Turismo pra quem? Considerações acerca do turismo desenvolvido na Comuninade


Barra Grande, município de Cajueiro da Praia - PI

18h às 19h: Apresentação Artística


Local: Auditório 1 - Instituto de Ciências Humanas.
12/11/2014 (Quarta-feira)

08h às 12h: Grupos de Trabalho

01 - EPISTEMOLOGIA DO TURISMO: CONSTRUÇÃO POSSÍVEL?

Coordenadores: Alexandre Panosso Netto (USP); Christian Dennys De Oliveira (UFC).

Local: Sala B-I-07.

02 - TURISMO E MEIO AMBIENTE

Coordenadores: Luiz Afonso Vaz De Figueiredo (FSA); Sidnei Raimundo (USP).

Local: Sala A-II-01.

03 - TURISMO, PATRIMÔNIO E IDENTIDADES I


Coordenadores: Teresa Cristina de Miranda Mendonça (UFRRJ); Maria Geralda de
Almeida (UFG).

Local: Sala A-II-03.

03 - TURISMO, PATRIMÔNIO E IDENTIDADES II


Coordenadores: Euler David de Siqueira (UFRRJ); Vera Maria Guimarães (UNIPAMPA).
Local: Sala A-II-04.

04 - TURISMO E URBANIZAÇÃO I

Coordenadores: Marcello Tomé (UFF); André Damasceno Daibert (UFJF).

Local: Sala C-I-03.

04 - TURISMO E URBANIZAÇÃO II
Coordenadores: José Manoel Gonçalves Gândara (UFPR); Carlos Eduardo Pimentel
(UFPE).
Local: Sala C-I-04.

05 - TURISMO EM ESPAÇO RURAL

Coordenadores: Marlene Huebes Novaes (UNIVALI); Odaléia Telles (USP).

Local: Sala C-III-11.

06 - TURISMO COMUNITÁRIO E INCLUSÃO SOCIAL I

Coordenadores: Claudia Fragelli (CEFET/RJ); Eloise Botelho (UNIRIO).

Local: Auditório 1 - Instituto de Ciências Humanas.


06 - TURISMO COMUNITÁRIO E INCLUSÃO SOCIAL II
Coordenadores: Luzia Neide Coriolano (UECE); Edilaine Albertino de Moraes (UFJF).
Local: Auditório 2 - Instituto de Ciências Humanas.

07 - PLANEJAMENTO E GESTÃO DO TURISMO I

Coordenadores: Marcos Aurélio Tarlombani da Silveira (UFPR); Vanice Santiago Fragoso


Selva (UFPE); Milton Augusto Pasquotto Mariani (UFMS).

Local: Sala C-II-01.

07 - PLANEJAMENTO E GESTÃO DO TURISMO II


Coordenadores: Nadja Maria Castilho da Costa (UERJ); Vivian Castilho da Costa (UERJ).
Local: Sala C-I-06.

08 - GÊNERO E SEXUALIDADES NO MERCADO TURÍSTICO


Coordenador: Ricardo Lanzarini (USP LESTE).

Local: Auditório 3 - Instituto de Ciências Humanas.

12h às 14h: Almoço

14h às 17h: Minicursos

01- MAPEAMENTO TURÍSTICO DE JUIZ DE FORA ATRAVÉS DA PERCEPÇÃO DO


USUÁRIO

Ministrantes: Aline Martins da Silva; Fernanda Costa da Silva.

Local: Sala A-II-02.

02 - TRANSPORTES E DESTINOS TURÍSTICOS: ATUALIZAÇÕES E

INSTRUMENTALIZAÇÕES

Ministrantes: Carla Fraga.

Local: Sala A-II-03.

03 - METODOLOGIAS, CUIDADOS E CONTRIBUIÇÕES DA PESQUISA COM CRIANÇAS

PARA O TURISMO DE BASE LOCAL

Ministrantes: Edwaldo Sérgio dos Anjos Júnior; Romilda Aparecida Lopes.

Local: Sala A-II-01.


04 - UTILIZAÇÃO DE GPS PARA CRIAÇÃO DE TRILHAS VOLTADAS PARA O TURISMO

Ministrantes: André Luiz Lopes De Faria; Saymon Felipe Eugênio Bittencourt.

Local: Sala C-I-04.

05 - O PAPEL DA PSICOLOGIA COMUNITÁRIA NO DESENVOLVIMENTO DO TURISMO

DE BASE LOCAL

Ministrante: Monalisa Barbosa Alves.

Local: Sala C-I-06.

06 - TURISMO COMUNITÁRIO, ARRANJOS PRODUTIVOS LOCAIS E

DESENVOLVIMENTO EM ESCALA HUMANA

Ministrantes: Luzia Neide Menezes Teixeira Coriolano.

Local: Sala A-II-04.

07 - A GEOWEB COMO FERRAMENTA DE MARKETING TURÍSTICO DOS LUGARES:

APLICAÇÕES E ESTUDOS DE CASO

Ministrante: Marcos Aurélio Tarlombani da Silveira.

Local: Sala A-I-11.

08 - TÉCNICAS NA PESQUISA FENOMENOLÓGICA DO TURISMO

Ministrante: Christian Dennys Monteiro de Oliveira.

Local: Sala B-I-07.

17h às 18h: Apresentação Artística


Local: Auditório 1 - Instituto de Ciências Humanas.

18h às 19h: Mercado de Trocas


Local: Auditório 2 - Instituto de Ciências Humanas.

19h às 20h: Reunião Comissão Nacional (reservada)


Local: Auditório 3 - Instituto de Ciências Humanas.
13/11/2014 (Quinta-feira)

08h30min às 10h: Sessão de Experiências I

Projeto Reinventando o Ensino Médio


Responsável: Prof. Allaoua Saadi (Instituto de Geociências/UFMG).

Local: Auditório 1 - Instituto de Ciências Humanas.

10h às 10h30min: Intervalo

10h30min às 12h: Sessão de Experiências II

Rede de Turismo, Áreas Protegidas e Inclusão Social (REDE TAPIS)


Responsável: Prof.ª Claudia Fragelli (CEFET/RJ).

Local: Auditório 1 - Instituto de Ciências Humanas.

12h - 14h: Almoço

14h - 17h: Minicursos

01 - MAPEAMENTO TURÍSTICO DE JUIZ DE FORA ATRAVÉS DA PERCEPÇÃO DO


USUÁRIO
Ministrantes: Aline Martins da Silva; Fernanda Costa da Silva.
Local: Sala A-II-02.

02 - TRANSPORTES E DESTINOS TURÍSTICOS: ATUALIZAÇÕES E


INSTRUMENTALIZAÇÕES
Ministrantes: Carla Fraga.
Local: Sala A-II-03.

03 - METODOLOGIAS, CUIDADOS E CONTRIBUIÇÕES DA PESQUISA COM CRIANÇAS


PARA O TURISMO DE BASE LOCAL
Ministrantes: Edwaldo Sérgio dos Anjos Júnior; Romilda Aparecida Lopes.
Local: Sala A-II-01.

04 - UTILIZAÇÃO DE GPS PARA CRIAÇÃO DE TRILHAS VOLTADAS PARA O TURISMO


Ministrantes: André Luiz Lopes De Faria; Saymon Felipe Eugênio Bittencourt.
Local: Sala C-I-04.
05 - O PAPEL DA PSICOLOGIA COMUNITÁRIA NO DESENVOLVIMENTO DO TURISMO
DE BASE LOCAL
Ministrante: Monalisa Barbosa Alves.
Local: Sala C-I-06.

06 - TURISMO COMUNITÁRIO, ARRANJOS PRODUTIVOS LOCAIS E


DESENVOLVIMENTO EM ESCALA HUMANA
Ministrantes: Luzia Neide Menezes Teixeira Coriolano.Local: Sala A-II-04.

07 - A GEOWEB COMO FERRAMENTA DE MARKETING TURÍSTICO DOS LUGARES:


APLICAÇÕES E ESTUDOS DE CASO
Ministrante: Marcos Aurélio Tarlombani da Silveira.
Local: Sala A-I-11.

08 - TÉCNICAS NA PESQUISA FENOMENOLÓGICA DO TURISMO


Ministrante: Christian Dennys Monteiro de Oliveira.
Local: Sala B-II-07.

17h às 18h: Conferência de Encerramento

Economia e criatividade: as políticas públicas de turismo do Brasil


Conferencista: Ítalo Oliveira Mendes, Diretor de Gestão Estratégia do Ministério do
Turismo (MTUR).
Mediador: Prof. Dr. José Manoel Gonçalves Gândara (UFPR).

Local: Auditório 1 - Instituto de Ciências Humanas

18h às 19h: Plenária Final

Síntese do Encontro e Definição de Próximo local.


Coordenação: Prof. Edwaldo Sérgio dos Anjos Júnior.

Local: Auditorio 2 - Instituto de Ciências Humanas.

19h: Apresentação Artística


Local: Auditório 1 - Instituto de Ciências Humanas.

20h: Coquetel e Confraternização de Encerramento


Local: Foyer dos auditórios - Instituto de Ciências Humanas.
Sumário - grupos de trabalho

01 – Epistemologia do Turismo: Construção Possível? 28

Analise da produção acadêmica em turismo na Universidade


Federal de Pelotas a partir das monografias do curso
bacharelado em turismo Pelotas. 2000-2013.

Laura Rudzewicz ................................................................................................... 29

Notas para um estudo compreensivo da história e do turismo.

Solange Lopes Alencar ......................................................................................... 47

A prática do turismo e seu processo de aprendizado


interdisciplinar: uma reflexão sobre o turismo criativo.

Danielle Mesquita da Costa Silva e Maria Gilca Pinto Xavier ............................... 55

Uma proposta de análise da mercantilização da tradição


musical na véspera diamantinense: um contraponto aos
modelos analíticos de descaracterização e hibridismo
cultural.

Mariana da Conceição Alves e Alan Faber do Nascimento .................................. 65

O ESPAÇO TURÍSTICO A PARTIR DA MULTIESCALARIDADE TERRITORIAL:

COMPLEXIDADE E SISTEMATIZAÇÃO CONCEITUAL

Daniel Hauer Queiroz Telles e Vander Valduga ..................................................... 81

02 – Turismo e Meio Ambiente 97

Percepção ambiental E narrativas visuais da transformação


da paisagem e suas relações com o turismo na Ilha Comprida
(SP).

Izaias Carmacio Jr., Diogo Fernando Rodrigues e Luiz Afonso V. Figueiredo........ 98

Turismo em área de proteção ambiental: possibilidade de


turismo na Resex Caeté-Taperaçu/Bragança

Thiliane Regina Barbosa Meguis .......................................................................... 117


Unidades de Conservação: Ecoturismo e Hospitalidade

Érica Fonseca Afonso. .......................................................................................... 132

turismo em comunidades: experiências no mosaico de Áreas


protegidas do baixo rio negro - am.

Susy Rodrigues Simonetti, Nailza Pereira Porto e Alcilene de Araújo Paula......... 149

geo-food: uma nova perspectiva de preservação do patrimônio


geológico.

Tatiane Ferrari do Vale, Jasmine Cardozo Moreira e Graziela Scalise Horodyski 167

Processo participativo no planejamento de sistema de trilhas


de base comunitária no Amazonas

Ronisley da Silva Martins ...................................................................................... 180

Formação de Condutores e Educação Ambiental – Estratégias


de Desenvolvimento do Turismo Sustentável nas UCS do RS

Aline Moraes Cunha e Leandro dos Santos Bazotti ............................................. 195

A educação ambiental e sua importância no turismo

Vânia Lucia de Oliveira .......................................................................................... 211

Ecoturismo e Representações no Município de Barra do


Garças - MT

Valcilene Rosa Barbosa e Rita Maria de Paula Garcia .......................................... 219

03 – Turismo, Patrimônio e Identidades 231

Gestão do Patrimônio Museológico: a educação como aliada


na preservação do Museu Mariano Procópio

Aline Viana Vidigal Santana .................................................................................. 232

Cittaslow: valorização da identidade na perspectiva do


turismo comunitário, solidário e sustentável. Modelo
aplicado em Levanto - Itália

Carlota Vieira Mendonça e Grazielle Ueno Macoppi ............................................ 247


a festa do Santo Expedito: espaço sagrado e construção do
território E TURISMO

Claudemira Azevedo Ito ........................................................................................ 264

TURISMO CRIATIVO: UM FOCO NOS EVENTOS

Raquel Ribeiro de Souza Silva e Marcos Aurélio Tarlombani da Silveira .............. 274

Os discursos turísticos e a construção das identidades: o


plano aquarela e seus dizeres sobre o patrimônio natural

Fernanda Lodi Trevisan e Aline Vieira de Carvalho .............................................. 286

Turismo, comunidades indígenas e tolerância cultural: uma


relação possível?

Sandra Dalila Corbari, Bruno Martins Augusto Gomes e Miguel Bahl................... 297

As fazendas históricas em barra do Piraí: percepções sobre


o papel do turismo na valorização local

Marlem Maria Cabral Ramalho .............................................................................. 314

Hospitalidade e interpretação turística: relações com a


comunidade local

Lélio Galdino Rosa e Isabela de Fátima Fogaça ................................................... 331

Turismo, tradicionalidade e conquista do território nativo


- parque estadual da Serra da Tiririca- Peset/RJ
Helena Catão Henriques Ferreira e Ari da Silva Fonseca Filho ............................ 345

Reflexões sobre o conceito de interpretação patrimonial e


suas interfaces com o patrimônio natural, cultural e o
turismo.

Rita Gabriela Araujo Carvalho, Pedro de Alcântara Bittencourt Cesar e Renan


de Lima da Silva .................................................................................................... 362

Desenvolvimento local, artesanato e turismo: uma análise


de dois municípios de Minas Gerais

Thiago de Sousa Santos, Cleber Carvalho de Castro e Raquel da Silva Pereira .. 377
Pensando em uma antropologia do consumo do turismo

João Alcântara de Freitas ..................................................................................... 393

Etnodesenvolvimento e turismo nos Kalunga do nordeste


de Goiás

Maria Geralda de Almeida ..................................................................................... 408

IDENTIDADE CULTURAL E GESTÃO PARTICIPATIVA NA ATIVIDADE


TURÍSTICA
Camila Benatti e Karoline Teixeira da Silva .......................................................... 425

PATRIMÔNIO IMATERIAL EVANGÉLICO EM FORTALEZA-CE


Luiz Raphael Teizeira da Silva .................................................................... 443

04 – Turismo e Urbanização 454

Planejamento participativo como instrumento de


desenvolvimento local em EspaçoS públicoS de lazer e
turismo

Pablo Vitor Viana Pereira ...................................................................................... 455

Urbanização e desenvolvimento do turismo: uma análise


sobre as ações e práticas adotadas pelo poder público em
nova Xavantina - MT

Judite de Azevedo do Carmo, Regiane Caldeira e Marcio José Celeri................. 466

ANÁLISE DA GESTÃO PÚBLICA PARA O TURISMO E O LAZER NO PARQUE


ESTADUAL SUMAÚMA (MANAUS-AM)

Alcilene de Araújo Paula, Adriano Saldanha Rodrigues e Susy Rodrigues


Simonetti ............................................................................................................... 484

Turismo, a cidade e o urbano: uma analise das tendências


contemporâneas.

Maurício Ragagnin Pimentel, Antonio Carlos Castrogiovanni ............................... 500


Cinema, representações do urbano e identidades: um olhar
sobre o marketing de destinos em Vicky Cristina Barcelona

Lucas Gamonal Barra de Almeida ......................................................................... 517

PAISAGEM URBANA E TURISMO NO CENTRO HISTÓRICO DE SÃO LUÍS,


MARANHÃO: O CASO DA RUA PORTUGAL

Saulo Ribeiro dos Santos, Letícia Peret Antunes Hardt e Carlos Hardt................. 531

A gestão democrática de orlas urbanas e o turismo: o caso


do complexo ver-o-rio na cidade de Belém (PA)

Márcia Josefa Bevone Costa e Maria Lúcia da Silva Soares ................................ 549

Megaeventos esportivos e manifestações populares no


Brasil.

William Cléber Domingues Silva, Miguel Bahl e Luís Mundet i Cerdan................. 567

AS INFLUÊNCIAS DOS PLANOS DIRETORES NA DINÂMICA DOS DESTINOS


TURÍSTICOS: O CASO DO PLANO DIRETOR DE CURITIBA DE 2004.

Diogo Luders Fernandes e José Manoel Gonçalves Gândara .............................. 581

PLANOS DIRETORES DE CURITIBA E SUA INFLUÊNCIA NA EXPERIÊNCIA


TURÍSTICA URBANA

Diogo Luders Fernandes, Graziela Scalise Horodyski e José Manoel Gonçalves

Gândara ................................................................................................................ 603

O impacto da sinalização turística do setor histórico de

Curitiba durante a copa do mundo de futebol 2014.

Thiago Alves de Souza e José Manoel Gonçalves Gândara ................................ 624

05 – Turismo em Espaço Rural 641

Experiências com o turismo na comunidade quilombola da


Mubunca. Jalapão, TO, Brasil

Denise Scótolo ...................................................................................................... 642


Revisão bibliográfica sistemática preliminar sobre o campo
de estudos do turismo rural

Helga Cristina Carvalho de Andrade, Valderí de Castro Alcântara e Juliana


Soares Gonçalves ................................................................................................ 654

Pesquisa e extensão no espaço rural: uma experiência na


região serrana do Rio de Janeiro

Clara Carvalho de Lemos ...................................................................................... 671

Relações locais: descompasso do turismo no campo

Juliana Carolina Teixeira ........................................................................................ 687

A representatividade do turismo no espaço rural da região


metropolitana de Curitiba: reflexões a partir do censo
agropecuário e da cadeia produtiva do turismo

Marino Castillo Lacay ........................................................................................... 704

06 – Turismo Comunitário e Inclusão Social 726

A Ilha de Itamaracá/PE e seu turismo náutico: anÁlise


dos efeitos multiplicadores e seus contributos para o
desenvolvimento local

Mariana Amaral Falcão, Luís Henrique de Souza e Maria Helena Cavalcanti da


Silva Belchior ......................................................................................................... 727

Turismo de experiência na favela da Rocinha: entre o fetiche


pela pobreza e a busca pela inclusão social

Paulo Henrique Arruda Silveira ............................................................................. 746

Participação social e cidadania na comunicação

Aline Viana Vidigal Santana .................................................................................. 763

Contribuições da Hospedagem domiciliar ao município de


lagoa do carro/PE: oportunidades para o desenvolvimento
local

Maria Helena Cavalcanti da Silva Belchior e Narayna de Albuquerque Ferreira... 774


Turismo de base comunitária: um olhar sobre a participação
social

Karla Maria Rios de Macedo e Eduardo Gomes .................................................... 791

Turismo e participação: trazendo empresários para a agenda


dos pesquisadores

Bruno Martins Augusto Gomes e Leticia Bartoszeck Nitsche ............................... 808

Análise dos impactos socioambientais motivados pela


atividade turística na praia de Ajuruteua/PA

Diogo Rodrigo Lisboa Silva e Kelly Ribeiro Souza ................................................ 823

Turismo de base comunitária: uma análise sobre a Ilha de


Cotijuba - Belem do Pará

Thiliane Regina Barbosa Meguis ........................................................................... 840

Vale dos Vinhedos(RS): Compreendendo a participação local

Charlene Brum Del Puerto, Pedro de Alcântara Bittencourt Cesar ....................... 853

Turismo comunitário em terras indígenas: a experiência do


festival de cultura indígena YawanawÁ

Demerson de Souza Lima e Luzia Neide Menezes Teixeira Coriolano ................. 865

A importância do festival de comidas típicas de Cuiabá-Gouveia/


MG parA o desenvolvimento do turismo de base local

Claudete Maria Souza e Costa, Fernanda Alencar Machado Albuquerque e


Raquel Faria Scalco .............................................................................................. 882

Turismo como vetor de ascensão sociocultural e econÔmiCa:


estudo de caso sobre o roteiro de visitação ao projeto
“ateliê arte nas costas”, em Cubatão, São Paulo, Brasil

Aristides Faria Lopes dos Santos, Renato Marchesini e Renata Antunes da Cruz 900

Turismo criativo: uma proposta para o desenvolvimento do


turismo local no município de Inhambane em Moçambique

Pelágio Julião Maxlhaieie, Antônio Carlos Castrogiovanni .................................... 917


Turismo Rural comunitário em Itaqueri da Serra (SP)

Renata Salgado Rayel e Solange Terezinha de Lima Guimarães ........................ 935

AnÁlise do roteiro turístico de base comunitária do projeto


boas práticas na serra do Brigadeiro. MG - Brasil

Werter Valentim de Moraes e Magnus Luiz Emmendoerfer ................................. 951

O Turismo de base comunitaria como alternativa de


desenolvimento local: o caso de CuruçÁ - Pará

Liana Souza Freire e Helena Catão Henriques Ferreira ....................................... 968

Turismo de experiência em Marechal Deodoro: o filé como


produto turístico

Patrícia Lins de Arroxelas Galvão e Roberta Cajaseiras de Carvalho .................. 986

Capital Social e percepção ecoturistica na comunidade de


base de João Fernandes (Armação dos Buzios-RJ)
Milena Manhães Rodrigues ................................................................................... 999

Turismo de base comunitária em favelas cariocas


Camila Maria dos Santos Moraes ......................................................................... 1017

07 – Planejamento e Gestão do Turismo 1034

Sociedade Civil: anÁlise da representatividade nos conselhos


MUNICIPAIS DE TURISMO
Adriana Gomes de Moraes ................................................................................... 1035

ANÁLISE DE CONTEÚDO DAS POLÍTICAS DE USO PÚBLICO EM ÁREAS


PROTEGIDAS NO ESTADO DE SÃO PAULO
Fabricio Scarpeta Matheus e Sidnei Raimundo .................................................... 1051

A REGULAMENTAÇÃO DA PROFISSÃO DE GUIA DE TURISMO NO BRASIL:


UMA AVALIAÇÃO DOS SERVIÇOS PRESTADOS EM PORTO SEGURO-BA
Gustavo Aveiro Araújo ........................................................................................... 1070
Analise da satisfação dos turistas como estratégia de
gerenciamento turístico da área de proteção ambiental dos
recifes de corais, nordeste do Brasil
Clebia Bezerra da Silva ......................................................................................... 1081

Diagnóstico da área de proteção ambiental doS recifes de


corais (APARC)-RN, com base na análise SWOT
Wagner Araújo Oliveira e Clébia Bezerra da Silva ................................................. 1099

O conselho de turismo de Brotas: construindo novas


práticas de cidadania
Cintia Moller de Araújo .......................................................................................... 1110

(RE)Conhecendo o mercado turístico: o perfil dos guias de


turismo atuantes no estado de Alagoas
Roberta Cajaseiras de Carvalho ........................................................................... 1125

Os desafios enfrentados pelo setor de hospedagem no


destino periférico Urubici/SC
Kleber de Oliveira da Silva .................................................................................... 1142

Desastres naturais em destino turísticos: o caso do município


de Nova Friburgo
Laís Erthal Corbiceiro ............................................................................................ 1162

A RELAÇÃO ENTRE OS ATORES DA REDE TURÍSTICA DE JUIZ DE FORA-MG:


MÚLTIPLOS OLHARES SOBRE DA REALIDADE DO TURISMO NO MUNICÍPIO
Tatiana Martins Montenegro .................................................................................. 1181

Estudo para implantação de cooperativa de turismo na Vila


de Barra do Una
Paulo Tácio Aires Ferreira e Ana Paula Vieira Freire ............................................ 1199

O TURISMO DE NEGÓCIOS COMO INDUTOR DO PROCESSO DE ASCENSÃO


SOCIOCULTURAL E ECONÔMICA DE COMUNIDADES RECEPTORAS POR
MEIO DO INCREMENTO DE FLUXOS.

Alan Aparecido Guizi, Airton José Cavenaghi e Aristides Faria Lopes dos Santos 1217
O envolvimento das agências de turismo no planeja -mento do
uso público do Parque Nacional do Pau Brasil, Porto Seguro-
BA.
Gustavo Aveiro Araújo ........................................................................................... 1228

Planejamento e desenvolvimento local do turismo: um estudo


sobre ferrovia, turismo e meio ambiente no estado do Rio de
Janeiro.
Eloise Silveira Botelho e Carla Fraga .................................................................... 1239

A gestão turística nas áreas de desastres.


Marcelo Mariano Rocha ........................................................................................ 1255

Contributo à governância no ordenamento do turismo em


ambientes insulares.
Vanilce Selva ......................................................................................................... 1273

08 – Gênero e sexualidade no mercado turístico 1288

Relações entre gênero e mercado de trabalho de


turismólogos em Minas Gerais

Juliana Medaglia Silveira e Carlos Eduardo Silveira ............................................. 1289

Rumo ao festival da diversidade sexual

Diogo Aparecido Cafola ........................................................................................ 1306

Homossexualidade, consumo e imprensa Gay no Brasil, os


roteiros turísticos na revista Junior (2007)

Diogo Aparecido Cafola ......................................................................................... 1322

Gênero e turismo de base comunitária: anÁlise sobre a


promoção da resiliência no movimento de mulheres das Ilhas
do Belém – MMIB
Neila Waldomira Cabral, Maria Lúcia da Silva Soares e Geisa Costa Coelho ...... 1340

Análise da prática de prostituição nos espaços turísticos em


orla de Atalaia – Aracaju- SE.
Laura Almeida de Calasans Alves ......................................................................... 1356
Sumário - Mostra acadêmica/
Sessão de pôsters

São Luiz e seus lugares memória pelo olhar dos moradores


da terceira idade do centro histórico.

Hanna Coelho Rocha ........................................................................................ 1375

Empreendedorismo cultural: perpectivas para o


desenvolvimento do turismo cultural no bairro da Madre
Deus em São Luis - MA
Sâmya Cristini Pereira Mendonça ...................................................................... 1391

Participação comunitária e políticas públicas do turismo


estudo de caso cidade de Xambioá –TO

Ana Claudia Macedo Sampaio, Leonardo Lima Lemos Salcides e Aclésio dos
Santos Moreira .................................................................................................. 1403

O patrimônio cultural do quilombo do Mocambo: aportes


para o turismo étnico

Viviane Castro e Rosana Eduardo da Silva Leal ................................................ 1420

Impactos e legados de megaeventos esportivos: uma


análise junto as empresas organizadoras de eventos no
Rio de Janeiro.

Desireé Souza e Márcia Barbosa ....................................................................... 1437

A percepção da população de Currais Novos/RN em relação


aos aspectos do desenvolvimento da atividade turística no
município

Fernanda Raphaela Alves Dantas, Fernando Arthur Alves Dantas e Wellington


Alysson De Araújo ............................................................................................. 1453

Roteirização turística: a valorização histórica e cultural


da cidade do Natal com enfoque na zona administrativa leste

Carlos Jefferson Rodrigues do Amaral .............................................................. 1471


ELEMENTOS PARA A CONSTRUÇÃO DO MAPA TURÍSTICO DO CENTRO
HISTÓRICO DE PORTO NACIONAL-TO
Thalyta de Cássia da Silva Feitosa e Rosane Balsan .......................................... 1487

PERFIL DO TURISTA E SUA RELAÇÃO COM OS ELEMENTOS


ASTROLÓGICOS
Bárbara Helenni Gebara Santin e Eduardo Jorge Costa Mielke ........................... 1503

VOLUNTARIADO E HOSPITALIDADE COMO PROMOTORES DA CIDADANIA


Manoela Carrillo Valduga e Lydia Villela Mattos ................................................... 1518

Turismo em favela: uma análise da relação visitantes e


visitados no Museu de Favela
Giovanna Machado, Juliana Nunes e Yuri Carvalho ............................................ 1531

“ESSE RIO É MINHA RUA”: PERCEPÇÕES ACERCA DOS IMPACTOS


GERADOS PELAS CHUVAS NA ATIVIDADE TURÍSTICA DO CENTRO
HISTÓRICO DE BELÉM (PA).
Jéssica da Silva Soares, Flavio Henrique Souza Lobato e Ana Paula Melo de
Morais ................................................................................................................... 1542

TURISMO E INFRAESTRUTURA: UMA ANÁLISE DOS TRANSPORTES NA


ILHA DO COMBÚ – BELÉM (PA).

Flavio Henrique Souza Lobato, Jamyle Cristine Abreu Aires e Renata Carneiro
Lopes da Silva ...................................................................................................... 1561

Acolhida da Serra: Responsabilidade turística e social na mesa


do consumidor brasileiro
Juliana Aparecida dos Santos ............................................................................... 1580

TURISMO PRA QUEM? CONSIDERAÇÕES ACERCA DO TURISMO


DESENVOLVIDO NA COMUNIDADE BARRA GRANDE, MUNICÍPIO DE
CAJUEIRO DA PRAIA - PI
José Maria Alves da Cunha, Inês de Carvalho Mélo e Heidi Gracielle Kanitz ....... 1583
Grupo de Trabalho 01
Epistemologia do Turismo: Construção Possível?

Coordenadores: Alexandre Panosso Netto (USP); Christian Dennys De Oliveira (UFC).

Turismo e produção científica: paradigmas científicos, métodos e metodologias


possíveis. Dialógica e dialética dos sujeitos, agentes e objetos do fenômeno
socioespacial do turismo. O paradigma da complexidade como opção para a
reflexão sobre o turismo atual. Campos disciplinares de estudo do turismo: inter e/
ou transdisciplinaridade? Saber-fazer X saber-saber: o ensino do turismo nos cursos
técnicos, tecnológicos e nas universidades.
29
XIII Encontro Nacional Turismo de Base Local
10 a 13 de novembro de 2014 - Universidade Federal de Juiz de Fora
Departamento de Turismo

ANÁLISE DA PRODUÇÃO ACADÊMICA EM TURISMO NA UNIVERSIDADE


FEDERAL DE PELOTAS A PARTIR DAS MONOGRAFIAS DO CURSO DE
BACHARELADO EM TURISMO – PERÍODO 2000-2013
Laura Rudzewicz1

RESUMO: Neste artigo busca-se refletir sobre a importância do acompanhamento


da produção das pesquisas em Turismo e sua contribuição ao aprofundamento dos
conhecimentos científicos e à consolidação do campo. O objetivo é apresentar os
principais resultados da investigação sobre quantos são, quais são os temas e onde
foram realizados os estudos nas monografias do Curso de Bacharelado em Turismo
da Universidade Federal de Pelotas. Também se discute aspectos prioritários, lacunas
e desafios da pesquisa acadêmica em turismo. Este trabalho tem caráter exploratório-
descritivo, quali-quantitativo, de base documental a partir de 161 monografias, de
um total de 188 produzidas (período entre 2000 - 2013). Os principais resultados
alcançados refletem que os temas prioritários nas monografias foram planejamento e
gestão do turismo e segmentos do turismo, e os subtemas mais expressivos: turismo e
patrimônio, desenvolvimento do turismo, atrativos turísticos e meios de hospedagem.
Esse também surgiu entre as organizações mais estudadas. Os estudos priorizam
o estado do Rio Grande do Sul, principalmente a região turística Costa Doce e o
município de Pelotas. As lacunas da pesquisa nas monografias foram os temas turismo
e educação e pesquisa em turismo, bem como administração de empresas de eventos
e de entretenimento e lazer. Os desafios propostos são a necessidade de elaboração
de um Tesauro Brasileiro do Turismo e de estudos que analisem a contribuição das
pesquisas no nível da Graduação.
PALAVRAS-CHAVE: Produção acadêmica. Pesquisa em Turismo. Monografias.
Curso de Bacharelado em Turismo. Universidade Federal de Pelotas.

ABSTRACT: This paper reflect on the importance of monitoring the production of


research in tourism and its contribution to the scientific knowledge. The objective is
to present how many, what are the subjects and where were located the studies in
the monographs of the Bachelor on Tourism Course at the “Universidade Federal
de Pelotas”. It also discuss priority subjects, gaps and challenges on the academic
tourism research. This study is exploratory and descriptive, qualitative and quantitative,
based on the analysis of 161 monographs, from a total of 188 produced (2000-2013).
The main results reflect that priority subjects are on planning and management of
tourism and types of tourism, and the most significant secondary subjects: tourism
and heritage, tourism development, tourist attractions and hotels. This also is the most
studied organization. The priority on these studies are on the state of Rio Grande
do Sul, mainly tourist region of Costa Doce and the city of Pelotas. The gaps in the
research are tourism and education and tourism research, and also management the
business on events and entertainment. The challenges are the need to standardize a
Brazilian Tesauro Tourism and developing studies which analyze the contribution of
research on the level of Undergraduate.
KEYWORDS: Academic production. Research in Tourism. Monographs. Bachelor of
Tourism. Universidade Federal de Pelotas.
1 Doutoranda em Geografia (Instituto de Geociência, Programa de Pós-Graduação em Geografia,
Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS), Mestre em Turismo (Universidade de Caxias do Sul - UCS),
Bacharel em Turismo (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS). Docente do Departamento
de Turismo, Faculdade de Administração e de Turismo, Universidade Federal de Pelotas (UFPel). E-mail: laurar.
turismo@gmail.com
30
XIII Encontro Nacional Turismo de Base Local
10 a 13 de novembro de 2014 - Universidade Federal de Juiz de Fora
Departamento de Turismo

INTRODUÇÃO

A reflexão sobre as contribuições que a produção científica tem trazido ao


aprofundamento do conhecimento em Turismo e à consolidação desse campo
é pertinente ao debate sobre a epistemologia do Turismo. Nisso, inclui-se o
acompanhamento da produção também nos cursos de graduação na área, e, ainda,
a interação entre investigação acadêmica – conhecimentos científicos, buscando
compreender as possibilidades e desafios da pesquisa em seus múltiplos aspectos.

Para contribuir com essa reflexão, apresentam-se neste artigo os principais


resultados do projeto de pesquisa intitulado “Produção Acadêmica das Monografias
do Curso de Bacharelado em Turismo da Universidade Federal de Pelotas – UFPel
(2000-2013)”. Neste projeto, iniciado em 2011, tratou-se de mapear, caracterizar e
discutir a produção acadêmica sobre turismo na UFPel através das monografias do
Curso de Bacharelado em Turismo, no período de 2000-2013; e ainda, sistematizar
e disponibilizar um banco de dados para consulta pública, incentivando o
acompanhamento contínuo dessas informações.

Os objetivos neste artigo compreendem: a) apresentar a evolução da produção


acadêmica de monografias do referido Curso; b) analisar a caracterização das
monografias quanto aos temas e subtemas, locais/organizações ou grupos estudados
e localização geográfica foco dessas pesquisas; e c) discutir aspectos prioritários,
lacunas e desafios da pesquisa acadêmica em turismo.

A pesquisa caracteriza-se como exploratório-descritiva, documental e de corte


quali-quantitativo, acerca das monografias no ensino superior em Turismo na UFPel.
Foram utilizados como base diversos estudos sobre a produção científica em Turismo,
seja através da análise de teses, dissertações ou artigos, como em Rejowski (1996),
Lima et al. (2005), Baccon, Figueiredo e Rejowski (2007), Momm e Santos (2010),
Lima e Rejowski (2011), e Marfil e Valiente (2013).

A IMPORTÂNCIA DOS ESTUDOS SOBRE A PESQUISA EM TURISMO NO


BRASIL

O desenvolvimento dos estudos sobre Turismo tem início no Brasil na década


de 1970, com o surgimento do primeiro curso de graduação específico, seguido dos
primeiros cursos de pós-graduação que contemplavam a área, no final da década
de 1980 (MOMM, SANTOS, 2010). Já os programas de pós-graduação stricto sensu
específicos em Turismo, em nível de Mestrado, surgiram somente a partir da década
de 1990 (LIMA, REJOWSKI, 2011), e em nível de doutorado, a partir de 2012.
31
XIII Encontro Nacional Turismo de Base Local
10 a 13 de novembro de 2014 - Universidade Federal de Juiz de Fora
Departamento de Turismo

Com isso, a formação de uma comunidade científica engajada com a


consolidação do campo do Turismo foi crescente, possibilitando um aumento
expressivo da pesquisa científica, a qual, segundo Rejowski (1996), funciona como
“‘mola propulsora’ do sistema técnico-científico, estabelecendo um fluxo contínuo de
conhecimento (...) provocando um processo de ‘maturação’ e delineando um corpo de
conhecimento sistemático e cumulativo” (REJOWSKI, 1996, p. 13).

Para exemplificar, Santos, Possamai e Marinho (2009) encontraram 105


teses de doutorado sobre turismo, cadastradas no Banco de Teses e Dissertações
da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), entre
os anos 2005-2007, obtendo crescimento de 5.203% ano, quando comparado ao
resultado encontrado por Rejowski (1996), de 12 teses em 18 anos (1975-1992).

As pesquisas sobre a produção científica em turismo intensificaram-se ao


longo dos anos, tendo início na década de 1980 com Jafari e Aaser (1988), através de
um levantamento sobre as teses de doutorado em Turismo nos Estados Unidos, no
período de 1951 a 1987. No Brasil, esses estudos iniciaram com a tese de doutorado
de Rejowski em 1993, sobre dissertações e teses no período de 1975 a 1992 (LIMA,
REJOWSKI, 2011).

Momm e Santos (2010) também realizaram um mapeamento da produção do


conhecimento científico sobre a área no Brasil, considerando as dissertações dos
programas de pós-graduação stricto sensu em Turismo e áreas correlatas (entre 2000-
2006), trazendo uma análise sobre as temáticas dos estudos, o conteúdo, evolução e
as lacunas do conhecimento científico sobre Turismo. Elas justificam a importância de
mapear, categorizar e analisar as informações provenientes das pesquisas científicas
em Turismo pois:
Os resultados das pesquisas científicas podem converter-se em
conhecimento científico a ser disseminado entre a comunidade científica
da área e entre aqueles que buscarem soluções para as atividades que
desempenham. Além disso, a produção científica pode subsidiar a tomada de
decisões e os pesquisadores podem encontrar, no conjunto de representações
do conhecimento científico, as respostas para seus questionamentos,
identificando também lacunas que requeiram maior atenção. (MOMM,
SANTOS, 2010, p. 68).

Marfil e Valiente (2013) também justificam a importância de contribuir com o


desenvolvimento das “pesquisas sobre a pesquisa” científica em turismo, ou seja, a
“metainvestigação turística”, argumentando as possibilidades da análise bibliométrica,
capaz de oferecer um aporte de conhecimentos a gestores, políticos, empresas e
destinos turísticos. Realizando um estudo aplicado as revistas científicas turísticas
e não turísticas da Catalunha (Espanha), os autores descrevem algumas vantagens
políticas e acadêmicas da pesquisa sobre a produção científica:
32
XIII Encontro Nacional Turismo de Base Local
10 a 13 de novembro de 2014 - Universidade Federal de Juiz de Fora
Departamento de Turismo

Desde o ponto de vista político, os resultados podem ajudar a avaliar o ajuste


entre o conhecimento criado pela universidade e o conhecimento requerido
pelo setor turístico, por exemplo, ao estabelecer agendas de investigação
ou ao tratar de fomentar a transferência de conhecimento. Desde o ponto
de vista acadêmico, o interesse do estudo reside sobre o que analisa a
investigação desde múltiplos ângulos (temas, regiões, disciplinas, autores...)
e o que contempla a investigação publicada tanto nas revistas turísticas como
nas não turísticas. (MARFIL, VALIENTE, 2013, p. 56) (tradução da autora).

O referencial teórico acerca deste tema aponta para a existência de uma


ampla diversidade de análises qualitativas, quantitativas ou mistas, que buscam
retratar a contribuição da produção do conhecimento científico em Turismo no nível
acadêmico, no Brasil e em diversos outros países. A necessidade de compreender
o conteúdo e desenvolvimento da investigação turística também deve estar atrelada
a toda diversidade de produtos que contribuem para esta reflexão. Esses podem
ser denominados de comunicação científica, pois abrange “o conjunto de atividades
associadas à produção e uso da informação, desde o momento em que o cientista
concebe a ideia de uma pesquisa, até aquele em que a informação acerca dos
resultados é aceita como constituinte do conhecimento científico” (GARVEY, 1979
apud MINOZZO, REJOWSKI, 2004). Conforme identificados por Rejowski (1996) e
Momm e Santos (2010), devem incluir: livros, revistas científicas, teses, dissertações,
monografias, comunicações em eventos e outras obras de referência, impressas,
digitais ou eletrônicas.

Marfil e Valiente (2013) abordam uma classificação proposta por Tsang y Hsu
(2011) quanto aos diferentes tipos de estudos que tem analisado quantitativamente,
principalmente as revistas científicas, sendo eles: 1) os que se baseiam em indicadores
de produtividade para verificar a contribuição de autores, instituições ou regiões do
mundo, a partir da elaboração de rankings comparativos; 2) os que analisam as
metodologias e técnicas empregadas na investigação turística; e 3) os de “análise de
perfil”, que abordam os trabalhos publicados pelo seu conteúdo, estrutura e evolução,
a partir de múltiplas perspectivas.

A presente pesquisa pode então ser classificada pela terceira corrente, no


sentido de pretender contribuir com o desenvolvimento das “pesquisas sobre a
pesquisa” acadêmica através das monografias dos discentes dos Cursos Superiores
de Turismo nas Instituições de Ensino Superior do Brasil.

Bernardinello (2012) retrata a importância das monografias em Turismo,


ou trabalhos de conclusão de curso (TCCs), como “[..] um processo inclusivo de
aprendizagem científica [...]”, pois representam a possibilidade do aluno consolidar
os conhecimentos construídos ao longo do curso a partir do desenvolvimento do seu
projeto de pesquisa, além de ser um momento integrador dos elementos ensino e
33
XIII Encontro Nacional Turismo de Base Local
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Departamento de Turismo

pesquisa, a partir da articulação entre teoria e prática (BERNARDINELLO, 2012, p.


89). Portanto, além do cumprimento de exigências formais, a elaboração dos TCCs
no meio acadêmico deve ser compreendida como uma possibilidade importante de
análise da produção dos conhecimentos e da formação profissional em Turismo.

CONTEXTUALIZAÇÃO SOBRE O CURSO DE BACHARELADO EM


TURISMO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS

O Curso de Bacharelado em Turismo da UFPel foi aprovado pelo Conselho


Coordenador de Ensino, Pesquisa e Extensão (COCEPE) em 13 de junho de 2000,
iniciando suas atividades no segundo semestre do mesmo ano. O Ato de Autorização
ocorreu pela Resolução nº 03/2001, de 24 de março de 2001, do Conselho Universitário
e o Ato de Reconhecimento, a partir da Portaria do Ministério da Educação nº 52,
de 26 de maio de 2006. Em julho de 2012, o Curso obteve a renovação do seu
reconhecimento através da Portaria nº 124, de 09 de julho de 2012. O Curso passou
por algumas reformulações curriculares, nos anos de 2006, 2009 e 2013, buscando
atender as exigências das Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação
em Turismo (Ministério da Educação, Resolução nº 13, de 24 de novembro de 2006)
e o Regulamento do Ensino de Graduação na UFPel (Resolução nº 14, de 28 de
outubro de 2010) (PROJETO PEDAGÓGICO..., 2013).

A abertura do Curso de Turismo da UFPel acompanhou o movimento ocorrido


na primeira metade da década de 2000, denominado “boom” dos cursos de graduação
em Turismo no Brasil, caracterizado pela ascensão e explosão da oferta de cursos,
conforme consta em Lima e Rejowski (2011). No entanto, segundo as autoras, a
expansão dos cursos superiores de Turismo nas universidades públicas brasileiras
ocorreu mais tardiamente, a partir da segunda metade dos anos 2000.

Esse Curso caracteriza-se por regime acadêmico semestral, modalidade


presencial, turno noturno, sendo oferecidas 44 vagas anuais com ingresso no primeiro
semestre do ano letivo, com previsão de nove semestres para sua integralização.
O objetivo geral é “formar profissionais com conhecimento para analisar e intervir
no fenômeno turístico a partir dos princípios de responsabilidade socioambiental,
justiça e ética profissional” (PROJETO PEDAGÓGICO..., 2013, p. 8). Quanto ao
perfil do egresso, consta um profissional apto a atuar como gestor e/ou pesquisador
nos diferentes setores, de compreender a complexidade e a interdisciplinaridade do
fenômeno turístico, e de contribuir para o crescimento e desenvolvimento da atividade
turística e na melhoria da qualidade de vida das sociedades.

No que se refere a questão da pesquisa, no Projeto Pedagógico de 2009 (ainda


em fase de transição para a nova proposta curricular de 2013), constam na estrutura
34
XIII Encontro Nacional Turismo de Base Local
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curricular do Curso as disciplinas de Pesquisa em Turismo I, Pesquisa em Turismo II


e Monografia em Turismo como atividades obrigatórias (PROJETO PEDAGÓGICO...,
2009), as quais permaneceram na reformulação curricular de 2013. É principalmente
nessas disciplinas que o discente é incentivado a refletir sobre conhecimento científico
e a importância da pesquisa para a área do Turismo, além de desenvolver e defender
uma monografia mediante banca examinadora, como um trabalho de iniciação
científica. No Projeto Pedagógico de 2013, a pesquisa científica ganhou ênfase diante
da nova proposta de organizar o Curso permeado por dois grandes eixos: Pesquisa e
Educação e Planejamento e Gestão. Além disso, a disciplina de Monografia vem nessa
nova proposta, vinculada a disciplina de Estágio II no que tange a escolha do discente
por umas das quatro linhas de pesquisa disponíveis, de forma a garantir uma integração
entre a prática profissional e o trabalho científico (PROJETO PEDAGÓGICO..., 2013).

METODOLOGIA

A pesquisa caracterizou-se como exploratório-descritiva, de corte quali-


quantitativo. O estudo teve caráter documental a partir do levantamento das
monografias, no formato impresso ou digital, e documentos oficiais da Faculdade de
Administração e de Turismo (FAT/UFPel) tais como: lista dos egressos, portarias das
bancas de defesa e Projetos Pedagógicos do Curso. As etapas da pesquisa foram:

1) Coleta do material documental: a busca das monografias teve início no


segundo semestre de 2011 até março de 2014, de forma a abranger a totalidade dessa
produção acadêmica gerada pelo Curso de Bacharelado em Turismo da UFPel desde
sua criação (ano de 2000). O universo encontrado foi de 188 monografias produzidas
em 11 anos, sendo as primeiras produções iniciadas em 2004. No entanto, a amostra
desta pesquisa é representada por 161 monografias (86%), pois 27 trabalhos foram
extraviados, impossibilitando sua inclusão na análise;

2) Instrumentos de pesquisa: permitiram a caracterização e sistematização


dos dados, sendo elaborados a partir das variáveis pretendidas:

a) ficha de cadastro das monografias, elaborada no programa Microsoft Office


Word, preenchida uma para cada trabalho, a partir dos seguintes campos: número de
registro, autor, data e hora da defesa, componentes da banca, título, resumo, palavras-
chaves, tema e subtema primário, tema e subtema secundário, locais/organizações/
grupos, localização geográfica e referência;

b) quadro de classificação de temas e subtemas das monografias, construído


com base em Lima et. al. (2005) e Baccon, Fiqueiredo e Rejowski (2007), serviu como
modelo referencial, sendo elaborado no programa Microsoft Office Word;
35
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c) planilha geral de classificação das monografias elaborada no programa


Microsoft Office Excell, cujos campos compreenderam: número de registro, nome do
autor, semestre letivo da defesa, tema e subtema primário, tema e subtema secundário,
locais/organizações/grupos, localização geográfica e referência;

3) Análise das variáveis do estudo:

a) evolução da produção de monografias: considerados os anos letivos


concernentes a defesa das monografias, incluindo dois semestres letivos para cada
ano, com exceção de 2004, quando as primeiras monografias foram apresentadas
no semestre letivo 2004/2. Os dados foram analisados tomando-se a totalidade das
monografias e o período total das produções acadêmicas (2000-2013), por anos, por
triênios (quatro) e pela média de monografias apresentada pelo Curso;

b) análise temática: identificou-se onze temas, cada um apresentando entre


três e nove subtemas respectivos (totalizando 55 subtemas), informados no quadro
referencial. Foram classificados em tema e subtema primário (um único descritivo para
cada monografia) e tema e subtema secundário (apenas aquelas que apresentaram
temática complementar, aceitando-se igualmente um único descritivo para cada ou
inexistente). A caracterização temática ocorreu a partir da leitura do título, palavras-
chaves e resumo, respectivamente;

c) análise dos locais, organizações ou grupos estudados: foi realizado um


agrupamento em categorias de análise que apresentassem semelhanças (Ex: diversos
tipos de meios de hospedagem agrupados sob o descritivo “Meios de hospedagem/
Redes de meios de hospedagem”), sendo preservados apenas algumas denominações
específicas que foram mais recorrentes (Ex: “Fenadoce” – Feira Nacional do Doce
de Pelotas/RS). Algumas monografias apresentaram mais de um descritivo nesta
questão, e em outras esse não foi identificado;

d) análise das áreas geográficas: foi realizado um agrupamento em


categorias que abrangeram três dimensões: âmbito nacional classificado por países
(Brasil, outros países, não identificado), âmbito estadual/regional por estados/regiões
(do Brasil e do exterior), e âmbito local por municípios pesquisados;

4) Interpretação e discussão dos resultados: os dados foram apresentados


por representação (número de ocorrências) ou percentualmente, sintetizados por meio
de gráficos, tabelas e quadros, elaborados através do Microsoft Office Excell ou Word.
Em algumas variáveis, optou-se por categorizar os resultados por nível de interesse
que surgem nas monografias (grande, médio e pouco), decorrente do parcelamento
equilibrado dos valores de ocorrência total. Os resultados aqui apresentados
compreendem uma revisão e atualização dos dados contidos em publicação anterior
(2012), bem como uma tentativa de aproximação com outras pesquisas que abordam
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o tema da produção científica em turismo.

EVOLUÇÃO DA PRODUÇÃO DE MONOGRAFIAS E ANÁLISE TEMÁTICA

De forma geral, a produção de monografias no Curso de Turismo da UFPel


demonstrou uma média de 19 monografias/ano letivo, sendo que o ano de 2006 foi o de
maior produção (33) e o ano de 2004, o de menor produção (7) (Figura 1). Esse dado
é justificado pelo fato das primeiras monografias terem sido defendidas no semestre
letivo de 2004/2, sendo nos demais anos contabilizados dois semestres letivos. Ao
realizar uma análise comparativa em triênios, verificou-se que a maior produção de
monografias aconteceu nos últimos anos (2006, 2009 e 2012) em relação aos demais,
principalmente no segundo triênio (2007-2009), com 65 trabalhos acadêmicos, em
relação ao primeiro (48) e ao terceiro (57) triênio. No ano de 2013 houveram 18
monografias defendidas, o que demonstra que o índice tem se mantido próximo a
média geral, dando início a um novo triênio para análises futuras.
FIGURA 1: EVOLUÇÃO DA PRODUÇÃO DE MONOGRAFIAS (2000-2013)

O somatório dos dados referentes ao ano (2006) e ao triênio (2007-2009) de


maior produtividade de monografias corresponde a mais da metade dos trabalhos ao
longo da trajetória deste Curso (52,2%) (Figura 8). Isso vem a retratar o período que foi
denominado de “boom” dos cursos de graduação em Turismo no Brasil, caracterizado
por Lima e Rejowski (2011) como a primeira metade da década de 2000. De forma
geral, os discentes que defenderam nesse período (2006-2009) tiveram ingresso
no Curso entre os anos 2002-2005, tendo em vista sua estrutura curricular de nove
semestres letivos, mantida ao longo dos Projetos Pedagógicos.

No que se refere a análise temática, apresentou a seguinte ordem decrescente


nos temas principais (Figura 2): turismo e comunicação (16,1%), turismo e cultura
(15,5%), planejamento e gestão do turismo (14,9%), segmentos do turismo (11,8%),
turismo e administração (9,3%), turismo e meio ambiente (8,7% cada), turismo e lazer
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e oferta turística (6,2% cada), demanda turística (5,6%), e, por último, pesquisa em
turismo (3,7%) e turismo e educação (1,9%).
FIGURA 2: CLASSIFICAÇÃO DOS TEMAS PRINCIPAIS DAS MONOGRAFIAS

Já os temas secundários (Figura 3) foram identificados em 90,7% das


monografias, entre as quais segmentos do turismo (16,8%), planejamento e gestão
do turismo (13,7%), turismo e administração (11,2%), oferta turística (10,6%) e turismo
e cultura (9,9%), foram os mais expressivos. Pesquisa em turismo (1,2%) e turismo
e educação (3,1%) seguem sendo os menos expressivos, bem como na análise dos
temas primários, incluindo aqui o tema turismo e meio ambiente (3,1%).
FIGURA 3: CLASSIFICAÇÃO DOS TEMAS SECUNDÁRIOS DAS MONOGRAFIAS

Ao realizar uma análise integrada entre os temas primários e secundários,


pode-se classificar o nível de interesse conforme o número de ocorrências totais
(Figura 4). Dessa forma, cinco temas evidenciaram-se como os mais recorrentes,
correspondendo a 63,3% das monografias (Figura 8) classificadas entre os de grande
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interesse: planejamento e gestão do turismo e segmentos do turismo (46 ocorrências


cada), seguido de turismo e cultura (41), turismo e comunicação (38) e turismo e
administração (33). Os temas de médio interesse aparecem como: oferta turística
(27), demanda turística (21), turismo e lazer (20) e turismo e meio ambiente (19).
Os temas sob o critério de menor interesse nessas monografias foram identificados
como: pesquisa em turismo e turismo e educação (8 ocorrências cada).

FIGURA 4: CLASSIFICAÇÃO POR NÍVEL DE INTERESSE NOS TEMAS


Divisão
Ocorrências Ocorrências
por Total de
Temas entre temas entre temas
nível de ocorrências
principais secundários
interesse
1. 1. Planejamento e gestão do 24 22 46
turismo
Grande 8. Segmentos do turismo 19 27 46
interesse 6. Turismo e cultura 25 16 41
5. Turismo e comunicação 26 12 38
2. 2. Turismo e administração 15 18 33
3. 3. Oferta turística 10 17 27
Médio 4. 4. Demanda turística 9 12 21
interesse 10. Turismo e lazer 10 10 20
14 5 19
7. Turismo e meio ambiente
9. Turismo e educação 3 5 8
Pouco
interesse 11. Pesquisa em turismo 6 2 8

*Não identificado 0 15 15

Total 161 161 322


*Não identificado corresponde as monografias que não apresentavam tema e subtema secundário,
sendo classificadas apenas com um tema e subtema primário.

Entre os subtemas (Figura 5), quando analisadas de forma integrada as


ocorrências entre os subtemas primários e secundários, identificou-se que os de
maior interesse foram: turismo e patrimônio (22), desenvolvimento do turismo
e atrativos turísticos (19 ocorrências cada) e meios de hospedagem (18). Já os
subtemas de médio interesse foram: imagem e imaginário no turismo (14), turismo
de negócios e eventos (13), outros segmentos do turismo e atividades e espaços de
lazer (12 ocorrências cada), estudo de perfil do turista (11), turismo e identidade (10),
planejamento turístico e marketing turístico (9 ocorrências cada). Ressalta-se o dado
de que 52% das monografias concentram-se nesses primeiros 12 subtemas entre os
de grande e médio interesse (Figura 8). Os demais 43 subtemas propostos para este
estudo foram classificados como de pouco interesse, apresentando menos de sete
ocorrências cada. Também ficou evidente a inexistência de estudos sobre turismo e
administração em empresas organizadoras de eventos e de entretenimento e lazer,
além de outros subtemas referentes à oferta turística que não estejam relacionados
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aos atrativos, serviços ou equipamentos turísticos.

FIGURA 5: CLASSIFICAÇÃO POR NÍVEL DE INTERESSE NOS SUBTEMAS

Total de
ocorrências
Divisão por
(subtemas
nível de Subtemas
principais
interesse
+ subtemas
secundários)
6.1. Turismo e patrimônio 22
Grande
1.4. Desenvolvimento do turismo; 3.1. Atrativos turísticos 19
interesse
2.2. Meios de hospedagem 18
5.2. Imagem e imaginário no turismo 14
8.1. Turismo de negócios e eventos 13
Médio 8.9. Outros; 10.2. Atividades e espaços de lazer
interesse 12
4.1. Estudo de perfil do turista 11
6.2. Turismo e identidade 10
1.1. Planejamento turístico; 5.1. Marketing turístico 9
1.3. Políticas em turismo; 5.4. Utilização da tecnologia no turismo; 6.3.
História e memórias; 8.2. Turismo Rural 7
1.5. Acessibilidade; 2.7. Outros; 3.3. Serviços turísticos 6
5.5. Outros; 7.4. Impactos do/no Turismo; 8.7. Ecoturismo; 10.1 Turismo
e sociabilidade 5
2.1. Agências de viagens e turismo; 4.3. Motivação turística; 4.4.
Outros; 7.1. Gestão ambiental; 7.3. Planejamento ambiental e turístico;
9.2. Turismo no ensino 4
Pouco 1.2. Gestão em turismo; 2.3. Transportes turísticos; 5.3. Meios de
interesse comunicação; 7.6. Outros; 8.3. Turismo Religioso; 9.3. Outros; 10.3.
Outros; 11.1. História do turismo; 11.3. Produção científica em turismo 3
1.6. Outros; 2.5. Restaurantes, bares e similares; 3.2. Equipamentos
turísticos; 4.2. Comportamento do turista; 6.4. Outros; 7.2. Educação
ambiental; 8.5. Turismo Urbano; 8.6. Turismo de intercâmbio 2
7.5. Responsabilidade Socioambiental; 8.4. Turismo de Cruzeiros
Marítimos; 8.8. LGBT; 9.1. Sensibilização turística; 11.2. Epistemologia
do turismo; 11.4 Outros 1
2.4. Organizadoras de eventos; 2.6. Empresas de entretenimento e
lazer; 3.4. Outros 0
*Não identificado 15
Total 322

Na tentativa de aproximar os resultados com outras pesquisas sobre o tema,


identificou-se que os autores empregam diferentes formas de classificação temática,
o que torna difícil essa comparação. Alguns aspectos coincidiram no que tange aos
temas mais recorrentes, como em Marfil e Valiente (2013), que usaram a proposta
temática do Tesauro do Centro de Documentação Turística da Espanha (CDTE),
dividido em nove campos semânticos. Segue esses temas mais investigados em
ordem decrescente, comparativamente a pesquisa sobre as monografias:

a) patrimônio turístico: principalmente no que se refere ao patrimônio


natural – turismo sustentável, impacto ambiental, costas, espaços protegidos, outros;
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nas monografias o subtema mais expressivo também reflete a questão do patrimônio


(Figura 5), porém aqui considerados na sua relação com turismo e cultura, tendo em
vista que a maioria dos estudos versaram sobre o município de Pelotas (Figura 7),
onde o assunto apresenta grande relevância;

b) política turística: modalidades turísticas (turismo cultural, rural, urbano


e de sol e praia), marketing e promoção, desenvolvimento e planejamento turístico,
outros; os segmentos do turismo e o planejamento e gestão do turismo também
foram os temas mais recorrentes nas monografias (Figura 4). Entre os segmentos
surgiram negócios e eventos (13), rural (7), ecoturismo (5), religioso (3), urbano, de
intercâmbio, sustentável e para melhor idade (2 cada), e outras modalidades com
apenas uma ocorrência cada (10) como: de cruzeiros marítimos, LGBT, sexual,
cultural, arqueológico, de saúde, virtual, de aventura, de compras e geoturismo; nessa
relação, outros subtemas que se destacaram entre os de grande e médio interesse
nas monografias foram desenvolvimento do turismo (19), planejamento turístico e
marketing turístico (9 cada) (Figura 5);

c) aspectos econômicos: estudos econômicos (impacto econômico,


demanda turística, outros), gestão e controle de qualidade em empresas privadas,
contas nacionais de turismo, outros; considerou-se uma aproximação no que tange ao
tema turismo e administração (Figura 4), imponente nas monografias vinculado aos
meios de hospedagem (20) e aos bares, restaurantes e similares (7) (Figura 6);

d) aspectos sociais: sociologia do turismo (impacto sociológico,


comportamento do turista, turismo juvenil e escolar), investigação turística (dados
estatísticos e metodologias), psicologia do turismo (nível de satisfação e motivação
turística), outros; o que mais se aproximou foi o tema da demanda turística (Figura 4),
como de interesse mediano, principalmente quanto ao perfil do turista (Figura 5).

e) organizações turísticas (públicas, privadas, internacionais), a educação


e a formação turística (profissional, empresarial ou pós-graduação, centros docentes,
titulações, currículos educativos), atividades desportivas e recreativas, direito do
turismo e serviços turísticos foram os temas de menor peso em Marfil e Valiente (2013);
também nas monografias identificou-se os temas pesquisa em turismo e turismo
e educação como os de menor atenção, juntamente com os subtemas turismo no
ensino (4), história do turismo e produção científica em turismo (3 cada), sensibilização
turística e epistemologia do turismo (1 cada).

Momm e Santos (2010) encontraram praticamente a mesma ordem de


relevância das classes temáticas propostas no Tesauro do CDTE: Patrimônio Turístico,
Política Turística, Economia do Turismo e Serviços Turísticos; em relação às classes
Organização Turística, Atividade Esportiva e Recreativa, Direito, Turismo e Meio Social
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e Educação e Formação Turística. Já os temas gestão do turismo, desenvolvimento


do turismo e turismo e cultura apareceram em Baccon, Figueiredo e Rejowski (2007),
como sendo os principais assuntos retratados nas dissertações do Mestrado em
Turismo da UCS entre 2002 e 2006.

Aspectos temáticos diferenciados neste estudo das monografias em Turismo


dizem respeito à atrativos turísticos (19) como um subtema de grande de interesse,
bem como imagem e imaginário no turismo (14), atividades e espaços de lazer (12) e
turismo e identidade (10) como subtemas de médio interesse (Figura 5).

Porém, essa dificuldade de comparar os resultados coloca em debate a proposta


de Rejowski e Kobashi (2011), sobre a necessidade de utilização de Tesauros como
instrumento terminológico para padronizar as formas de representar os conteúdos dos
trabalhos acadêmicos em Turismo por meio de um vocabulário controlado sistêmico. As
autoras propõem a necessidade de elaboração de um Tesauro Brasileiro de Turismo.
Dessa forma, diversos autores tem defendido possibilidades de uso de tesauros de
modo a padronizar a classificação temática desses estudos, como em Lima e Rejowski
(2011). Momm e Santos (2010) também defendem a importância da aplicação de um
Tesauro específico do Turismo, bem como de métodos e técnicas bibliométricas, o
que, segundo elas, reforçaria “[...] o estado da arte da área, sinalizando as lacunas
representadas pela dispersão e desequilíbrio no desenvolvimento do conhecimento
científico na área.” (MOMM, SANTOS, 2010, p. 80). Portanto, a organização e estrutura
de um futuro Tesauro Brasileiro de Turismo poderia trazer um novo panorama a essa
pesquisa, com a possibilidade de revisão dos resultados a partir de uma categorização
padronizada e institucionalizada em nível de Brasil, assim como Marfil e Valiente
(2013) e Momm e Santos (2010) fizeram uso do Tesauro do CDTE.

Outras dificuldades encontradas na classificação temática dizem respeito aos


títulos e palavras-chaves nem sempre expressarem com exatidão o conteúdo das
pesquisas, bem como a falta de consistência e ordenação das palavras-chaves e de
informação precisa dos objetivos, métodos, resultados e conclusões nos resumos.
Também encontrou-se dificuldades na identificação temática, devido ao fato de muitos
trabalhos mesclarem grande variedade de assuntos, faltando precisão no delineamento
dos temas. A fragilidade das palavras-chaves e dos resumos também foram relatadas
por Momm e Santos (2010) e Lima e Rejowski (2011). Isso gerou impossibilidade de se
avançar e aprofundar a análise para outras variáveis, como métodos e procedimentos
metodológicos empregados nessas monografias.

ANÁLISE DOS LOCAIS, ORGANIZAÇOES OU GRUPOS E LOCALIZAÇÃO


GEOGRÁFICA DAS ÁREAS ESTUDADAS
42
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Através do agrupamento em categorias dos locais, organizações ou grupos


estudados nessas monografias (Figura 6), foi possível verificar que as redes de/ou
meios de hospedagem prevaleceram significativamente, sendo foco de estudos em 20
monografias (11,6%). Na sequência, foram classificados como locais/organizações/
grupos de interesse mediano: prédios e espaços históricos (10), órgãos públicos
municipais/de turismo e trade turístico (8 ocorrências cada), além de museus e bares,
restaurantes e similares (7 ocorrências cada). Essas seis classes mais investigadas
apareceram em 34,6% das monografias analisadas (Figura 8). Outros diversos locais,
organizações ou grupos apresentaram de 1 à 6 ocorrências cada nas monografias,
compreendendo 59,5% que foram classificados como de pouco interesse, além da
inexistência dessa informação em 10 monografias (5,8%).

FIGURA 6: CLASSIFICAÇÃO POR NÍVEL DE INTERESSE DOS LOCAIS/ORGANIZAÇÕES/GRUPOS


ESTUDADOS

Divisão por
Total de
nível de Locais/organizações/grupos estudados
ocorrências
interesse
Grande
interesse Meios de hospedagem/Redes de meios de hospedagem 20
Médio Prédios e Espaços Históricos 10
interesse Órgãos públicos municipais / de turismo; Trade turístico 8
Museus; Bares, Restaurantes e Similares 7
Agências de viagens e turismo 6
Eventos municipais; Distritos de Pelotas; Projetos/Programas em
Universidades 5
Fenadoce; Parques estaduais e nacionais; Cursos Superiores de Turismo;
Rotas/Circuitos/Caminhos turísticos; Estabelecimentos comerciais 4
Turistas; Ilhas; Gassetur; Balneário Cassino; Bairros, Vilas e Avenidas
de Pelotas 3
Cemitério; Jornal Diário Popular; Empreendimentos/ moradores rurais;
População local; Programas governamentais; Doçarias; Ferrovias; Sites;
Pouco Bancos; Parques; Consórcio de rota turística; Aeroporto/Transporte
interesse aéreo
Redes sociais; Hidrelétrica; Grafiteiros; Periódicos nacionais em Turismo;
2
Escola de Samba; Catedral; Escolas; Carnaval de rua; Geoparques;
Mercado Público Municipal; Pelotas Convention & Visitors Bureau;
Família Antunes Maciel; Rio Camaquã; Aldeia Tekoá Kóáju; Porto de Rio
Grande; Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN); Balneário
Hidromineral de Iraí; Grupo Capoeira Abadá; Centro de Informações
Turísticas; Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs); Centro
Budista Tibetano Khadro Ling; Gastronomia campeira; Infraestrutura
Esportiva 1
*Não identificado 10
Total 173
*Não identificado corresponde as monografias que não possuem delimitação de local, organização ou
grupo estudado.

Em Marfil e Valiente (2013), a investigação sobre os meios de hospedagem


também se destacou em relação aos demais serviços turísticos, principalmente no
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que se refere a hotéis, casas rurais e segundas residências. Os autores também


encontraram pesquisas sobre transportes, novas tecnologias e agências de viagens,
porém, pouca investigação sobre casas de diversão, gastronomia e enologia.

Quanto à localização geográfica (Figura 7), a análise em âmbito nacional apontou


para a concentração de 93,2% dos trabalhos realizados especificamente sobre o Brasil,
além de surgir um único para cada um dos países: Estados Unidos, Espanha e Uruguai
(os dois últimos de forma comparada ao Brasil). Oito monografias não apresentaram
localização geográfica definida. No âmbito estadual/regional, identificou-se que a
grande maioria das monografias (86,3%) retrataram especificamente o estado do Rio
Grande do Sul. Outros dois trabalhos enfocaram o estado de Santa Catarina, e ainda,
com apenas uma ocorrência cada: Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso do Sul e
Montana (Estados Unidos). Além desses, retoma-se os dois estudos que compararam
as regiões da Fronteira Brasil-Uruguai (Jaguarão - Rio Branco) e Espanha-Brasil
(Santiago de Compostela – Missões), e seis estudos que retrataram o Brasil de forma
abrangente.

FIGURA 7: LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA DAS ÁREAS ESTUDADAS

Total de
Subdivisões Localização geográfica dos estudos %
ocorrências
Brasil 150 93,2
Países Estados Unidos 1 0,6
Estudos comparativos: Brasil/Uruguai; Brasil/Espanha *2 1,2
Não identificado 8 5
Subtotal 161 100
Rio Grande do Sul 139 86,3
Santa Catarina 2 1,2
Outros estados: Rio de Janeiro; São Paulo; Mato Grosso do
Estados/ Sul; Montana - Estados Unidos *4 2,5
Regiões Estudos comparativos: Jaguarão (Brasil)/Rio Branco (Uruguai);
Missões (Brasil)/Santiago de Compostela (Espanha) *2 1,2
“Brasil” 6 3,8
Não identificado 8 5
Subtotal 161 100
***Pelotas 89 63,1
***Rio Grande 13 9,3
***São Lourenço do Sul 6 4,3
***Jaguarão 3 2,2
***Piratini; Porto Alegre; “Rio Grande do Sul”; Três Coroas;
Viamão **10 7
Municípios/ ***Arroio do Padre; ***Cristal; ***Pedro Osório; ***São José
Regiões do do Norte; ***Pelotas/***Santa Vitória do Palmar/***Jaguarão;
RS Bagé/***Jaguarão;
Bagé; Derrubadas; Igrejinha; Iraí; Mostardas/Tavares; Quinze
de Novembro; Rodeio Bonito; São João do Polêsine; São
Miguel das Missões; Veranópolis *16 11,3
Outras regiões: Litoral norte do Rio Grande do Sul; Região
noroeste do RS; Jaguarão*** (Brasil)/Rio Branco (Uruguai);
Missões (Brasil)/Santiago de Compostela (Espanha) *4 2,8
Subtotal 141 ( 88%) 100
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*As áreas correspondentes tiveram uma ocorrência cada


*As áreas correspondentes tiveram duas ocorrências cada
***Municípios pertencentes a Região Turística Costa Doce (SETUR, 2014)

A partir do recorte espacial sobre o estado do Rio Grande do Sul, analisado


em 88% dos trabalhos (141), os resultados demonstraram maior preocupação em
investigar questões voltadas especificamente ao município de Pelotas (objeto de
estudo de 89 monografias, 63,1% dos trabalhos que versam sobre o Rio Grande do
Sul, e 55,3% do total de monografias), o qual sedia o Curso de Bacharelado em Turismo
da UFPel. Além disso, o foco de análise dos trabalhos está nos municípios da Região
Turística Costa Doce, presente em 75% das monografias analisadas (120) (Figura 8),
englobando além de Pelotas, os municípios de: Rio Grande (13), São Lourenço do
Sul (6), Jaguarão (3), Piratini (2), Arroio do Padre, Cristal, Pedro Osório e São José do
Norte (1 cada), e outros três estudos comparativos que apreciaram municípios dessa
região, incluindo Santa Vitória do Palmar.

A Figura 8 apresenta o resumo dos resultados mais significativos encontrados


em cada uma das variáveis analisadas, já discutidos em seus aspectos específicos.

FIGURA 8: PRINCIPAIS RESULTADOS DA ANÁLISE DAS MONOGRAFIAS


Variáveis analisadas Principais resultados da pesquisa %
Evolução da Total de monografias = 188 100%
Total de monografias analisadas = 161 86%
produção de Média de monografias (19/ano) -
monografias Triênio 2007-2009 (65) 34,6%
Ano 2006 (33) 17,6%
Subtotal 52,2%
1. Planejamento e gestão do turismo (46) 14,3%
Temas de grande 8. Segmentos do turismo (46) 14,3%
6. Turismo e cultura (41) 12,7%
interesse 5. Turismo e comunicação (38) 11,8%
2. Turismo e administração (33) 10,2%
Subtotal 63,3%
6.1. Turismo e patrimônio (22) 6,8%
1.4. Desenvolvimento do turismo (19) 5,9%
3.1. Atrativos turísticos (19) 5,9%
2.2. Meios de hospedagem (18) 5,6%
5.2. Imagem e imaginário no turismo (14) 4,3%
Subtemas de grande 8.1. Turismo de negócios e eventos (13) 4,0%
e médio interesse 8.9. Outros segmentos do turismo (12) 3,7%
10.2. Atividades e espaços de lazer (12) 3,7%
4.1. Estudo de perfil do turista (11) 3,4%
6.2. Turismo e identidade (10) 3,1%
1.1. Planejamento turístico (9) 2,8%
5.1. Marketing turístico (9) 2,8%
Subtotal 52%
Locais, organizações Meios de hospedagem/Redes de meios de hospedagem (20) 11,6%
Prédios e Espaços Históricos (10) 5,8%
ou grupos de estudo Órgãos públicos municipais / de turismo (8) 4,6%
de grande e médio Trade turístico (8) 4,6%
Museus (7) 4%
interesse Bares, Restaurantes e Similares (7) 4%
Subtotal 34,6%
Localização Âmbito nacional: Brasil (150) 93,2%
Âmbito regional: Rio Grande do Sul (139) 86,3%
geográfica conforme
Região Turística Costa Doce (120) 75%
critérios Âmbito local: Pelotas (89) 55,3%
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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Através da análise da produção acadêmica em Turismo na Universidade Federal


de Pelotas foi possível verificar as questões referentes a quantos são, quais são os
temas e onde foram realizados os estudos monográficos pelos discentes do Curso de
Bacharelado em Turismo, analisando a pesquisa através de múltiplos ângulos (temas e
subtemas; locais, organizações ou grupos; localização geográfica). Assim, identificou-
se uma produção média de 19 monografias/ano no decorrer da trajetória deste Curso
(2000-2013), com maior produtividade decorrente dos alunos ingressados na primeira
metade dos anos 2000. A análise temática permitiu a visualização de que planejamento
e gestão do turismo e segmentos do turismo foram os temas mais recorrentes, com
destaque para a ascensão desse nos últimos anos, refletindo a grande diversidade
dos tipos de turismo. Entre os subtemas mais expressivos estão turismo e patrimônio,
atrativos turísticos, desenvolvimento do turismo e meios de hospedagem, este último
também apontado como sendo as organizações mais estudadas, seguido dos prédios
e espaços históricos, órgãos públicos municipais/de turismo e trade turístico. A análise
da localização geográfica das áreas estudadas levou ao resultado de priorização do
recorte espacial sobre o Rio Grande do Sul, com especial enfoque para os municípios
da Região Turística Costa Doce e, com mais da metade dos estudos refletindo sobre
questões do município de Pelotas/RS, onde está sediado o referido Curso de Turismo.

As principais lacunas das pesquisas contidas nas monografias analisadas


dizem respeito a interação entre turismo e educação e a pesquisa em turismo, onde
foi encontrado apenas um estudo que procurou discutir a questão da epistemologia do
turismo. Ainda foi apontada a inexistência de estudos sobre turismo e administração
em empresas organizadoras de eventos e de entretenimento e lazer, além de outros
subtemas referentes à oferta turística.

A inexistência dos levantamentos sobre a produção do conhecimento no âmbito


da graduação no Brasil foi um fator limitante para a análise deste estudo, trazendo a
necessidade de buscar dados referentes as demais formas de produção científica.
Além disso, ficou evidente a necessidade de elaboração de um vocabulário controlado
sistêmico do Turismo, que possa abranger as especificidades da investigação brasileira
na área, para subsidiar uma análise aprofundada sobre a produção do conhecimento
científico em turismo.

REFERÊNCIAS
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dissertações do mestrado em turismo da Universidade de Caxias do Sul - 2002 -
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PROJETO PEDAGÓGICO DO CURSO DE BACHARELADO EM TURISMO DA
UFPEL. Revisão Curricular aprovado pelo Conselho Universitário em 2009, Pelotas
– RS: Universidade Federal de Pelotas, 2009.
PROJETO PEDAGÓGICO DO CURSO DE BACHARELADO EM TURISMO DA
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SETUR. SECRETARIA DO TURISMO DO RIO GRANDE DO SUL. Disponível em:
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em: 12 jun. 2014.
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NOTAS PARA UM ESTUDO COMPREENSIVO DA HISTORIA E DO TURISMO

RESUMO: Estudar o fenômeno do turismo tem sido, cada vez mais, uma apropriação de
variadas disciplinas científicas. Ao longo de tantas pesquisas e publicações, trabalhos
cada vez mais profícuos têm mostrado que o domínio de conceitos, categorias e
ferramentas de análises diversas forneceu uma gama de contribuições para o
entendimento do turismo enquanto fenômeno social, político e econômico. Saindo
de estudos puramente descritivos em suas narrativas, além de apologéticos em seus
discursos, os estudos sobre o Turismo têm construído problemáticas cada vez mais
pertinentes a uma compreensão desse fenômeno contemporâneo. É neste âmbito
que este trabalho procura contribuir para uma leitura que se aproxima de um estudo
do conhecimento possível entre o Turismo e uma disciplina significativa para seus
problemas: a História. Objetivando contribuir para o entendimento da relação entre
História e Turismo, voltamo-nos para a compreensão da formação das duas áreas de
conhecimento ao longo do processo histórico do século XIX, de forma a compreender
que a História como disciplina e a negação do Turismo enquanto tal, fazem parte de
um processo histórico maior, mas que não elimina ou esconde suas positividades.
Ambos, quanto conhecimento, se constroem para a análise da sociedade.

PALAVRAS CHAVES: TURISMO – HISTÓRIA - INTERDISCIPLINARIDADE

ABSTRACT: Studying the phenomenon of tourism has been increasingly, an appropriation


of various scientific disciplines. Throughout many research and publications increasingly
fruitful studies have shown that the appropriation of concepts, categories and various
analysis tools provided a range of contributions to the understanding of tourism as,
political and economic social phenomenon. Departing from purely descriptive studies
in their narratives, and apologetic in his speeches, studies on tourism issues have built
increasingly relevant to a contemporary understanding of this phenomenon. It is in this
context that this paper seeks to contribute to a reading approaching a study of possible
knowledge between tourism and a significant discipline to their problems: a History.
To contribute to the understanding of the relationship between history and tourism, we
turn to understanding the formation of two knowledge along the historical process of
the nineteenth centurie, in order to understand that history as a discipline and denial
while Tourism such part of a larger historical process, but do not delete or hide your
positivity. Both, as knowledge is constructed for the analysis of society.

KEYWORDS: HISTORY – TOURISM - INTERDISCIPLINARITY


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NOTAS PARA UM ESTUDO COMPREENSIVO DA HISTORIA E DO TURISMO

INTRODUÇÃO

A relação entre a História e o Turismo tem tido um longo processo de formação,


o qual, como uma característica dos processos históricos, não se encontra de maneira
alguma inconcluso. É sempre importante “lembrar o longo percurso das elaborações
humanas, nem por isso fixas e nem tampouco definitivas (RESENDE 2010, p. 25),
para se proceder a estudos que visam as relações humanas. Nesse sentido é possível
perceber que tanto a História quanto o Turismo, enquanto disciplinas ou linhas de
estudos1, produziram ou estão ainda construindo, seus próprios espaços de afirmação
científica e estão em constantes transformações para produzir um conhecimento cada
vez mais próximo de seus objetos de pesquisas.

Nessa perspectiva buscamos identificar, por meio de uma compreensão da


formação de ambas as linhas de estudos disciplinares, como a História e o Turismo
se movimentaram para se firmarem no meio acadêmico. Fato que gera ainda grandes
discussões e, num contexto maior das ciências, expressam posições por vezes
dicotômicas.

É importante, contudo, perceber que os lentos processos de transformações


nos seios de ambas as disciplinas, possibilitaram o crescimento e o fortalecimento de
posturas científicas, as quais foram estabelecendo práticas metodológicas, enquanto
que, ao mesmo tempo, o relacionamento entre ambas, possibilitou ainda, as constantes
críticas criativas para esses crescimentos.

PENSANDO A HISTÓRICIDADE DAS PRÁTICAS

Durante um tempo significativo a História foi vista pelos pesquisadores do Turismo,


como uma disciplina a partir da qual podia ser utilizada sem maiores preocupações
metodológicas, e usada apenas como uma ferramenta por seus aspectos factuais.
Tendo sido inicialmente usada pelos estudos do Turismo para elencar dados, narrar
fatos, apontar acontecimentos, além de ditar cronologias, a História era vista como
“um simples suceder linear de acontecimentos que se vão acumulando” (CAMARGO
2007, p. 9), e considerada significante para entender a importância do Turismo como
parte de um sistema produtivo2. Partindo desta compreensão, o uso das categorias
1 Não há, até o momento, consenso acadêmico para se pensar o Turismo como uma disciplina
científica.
2 É interessante como a grande maioria das obras sobre o Turismo, iniciam com uma subrepití-
cia frase de efeito e, discursivamente, justificadora: “Nos últimos anos o turismo conquistou o status de
uma dos maiores setores da economia no mundo e cresce no Brasil...” (THEOBALD (org) 2002, p.09);
“Enquanto uma atividade econômica que se constitui, na atualidade, no principal setor em termos de
geração de renda e emprego...” (IGNARRA 2003, p. VII)
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históricas permitiu ser constituinte da formulação de um discurso economicista e


produtivista oficial do Turismo, compartilhado por vários pesquisadores e organismos
que atuam com o Turismo(PANOSSO NETO, e NECHAR, 2014, pp. 122-128).

Por outro lado o Turismo, como parte de um processo de relações sociais,


temporalmente marcadas e espacialmente delimitadas, é também um elemento
questionador, produtor e positivador destas mesmas relações; sendo, contudo, visto
pela disciplina História como um tema menor, considerado como uma conseqüência
a partir das transformações das atividades econômicas (CAMARGO 2007, pp. 10-11).

Estas formas de visualizações mútuas das disciplinas não estão


descontextualizadas de seus processos de formações enquanto campos de saberes.
Fazem parte de posturas construídas ao longo do tempo e das linhas de força pelas
quais elas foram se impondo frente a outras disciplinas.

Todavia, neste lento processo de formação, o Turismo se utilizou das ferramentas


de outras disciplinas. Esta característica foi, e continua sendo, sua marca principal
desde seu início em meados do século XIX, momento a partir do qual se consolidou
como uma prática econômica, mas que se embasava em ritos de viagens nem sempre
geradoras de alguma forma de economia lucrativa3. Para tanto as viagens eram e
continuam sendo uma prática social (CAMARGO 2007; GUIMARÃES 2011), as quais
foram apropriadas pelo sistema produtivo industrial do século XIX e englobadas na
forma sistemática do modelo Capitalista de produção e acumulação de riquezas.
(KONDER 2013, pp. 99-105). O que resultou dessa imbricação entre viagem-lucro-
capitalismo foi sendo construída ao longo do século XX e continua em processo de
consolidação na aurora do século XXI.

A prática de exploração produtiva/lucrativa das viagens se encontra, assim,


a partir dos Oitocentos dentro de um contexto histórico maior, o qual nos possibilita
entender o processo pelo qual se formou o Turismo e suas discursividades (ARAÚJO,
2007; GUIMARÃES, 2011; O´DONNEL, 2013), além das ferramentas para seu estudo.
E é a partir destas leituras que entendemos os usos das categorias da disciplina
História. Todavia é importante perceber que a discussão presente acima, conforme
apontou significativos estudos (PANOSSO NETO E LOHMANN, 2012; PANOSSO
NETO, E NECHAR, 2014) tem se tornado freqüente muito recentemente nos estudos
das Ciências Sociais.

É relevante entender esta formação uma vez que a Ciência, enquanto forma

3 Numa concepção marxista, o turismo só existe a partir da consolidação do sistema capitalista.


De acordo com Karl Marx a “... teoria de valor-trabalho: a idéia de que o trabalho exigido pela produção
das mercadorias mede o valor de troca entre elas e constitui o eixo em torno do qual oscilam os preços
expressos em dinheiro...” (MARX 1996, p. 27); Da mesma forma entende Camargo que o Turismo se
estabelece “por meio da exploração capitalista, implicando em mercantilização desses espaços [turís-
ticos]...” (CAMARGO 2007, pp. 18-19)
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de conhecimento e intervenção no mundo e entre os seres humanos, foi concebida,


enquanto campo disciplinar, também ao longo do século XIX, ao mesmo tempo em
que nascia a prática turística. É importante também perceber duas relações diretas
desse longo processo formacional, qual seja um primeiro positivo e positivador e que
chega até 1848, quando um pensamento calcado no movimento Iluminista, mesmo
tendo diferenças internas, possibilita o entender de uma linearidade para leituras e
conhecimentos sobre o mundo, isto é, a natureza e o ser humano; e um segundo, entre
1850-19104, embasado nas rápidas transformações do processo produtivo industrial
e suas tecnologias visivelmente responsáveis pelo assombroso tom de sucesso que
assumiu o mundo científico a partir de então (HARVEY 2012, pp. 36-37).

Ainda segundo Harvey (2012) e, da mesma forma Santos (2010), não se podia
mais representar o mundo por uma linguagem simples porque o conhecimento se
desenvolveu, criou complexidades, acumulou processos. Logo nem as perguntas e
muito menos as respostas podiam ser ainda simples. A compartimentalização científica
materializou essa compreensão a partir de disciplinas que produziam ciência, sem
contudo, dialogar entre si; o objeto da pesquisa podia ser obtido no mundo social,
independente da forma como as pessoas os interpretavam; e como não havia
interpretação também não havia necessidade de teorias, e/ou metodologias diversas
para amparar objetos diversos (MAY 2004).

A DISCIPLINA HISTÓRIA

É a partir deste contexto histórico e científico que se coloca a História e o


Turismo. A primeira como uma área disciplinar, tendo, todavia, uma historicidade
ligada aos primórdios do pensamento crítico da sociedade ocidental, embasados nos
postulados greco-romanos, onde se apresentava como uma forma de pensamento e
não estando contida no círculo esquemático de uma disciplina independente e com
pretensões científicas (TURIN 2014, p. 84).

De Heródoto a Tucídides, a História construiu seus alicerces bem antes do


enquadramento dos Oitocentos, acontecendo, todavia, neste período, um forte
controle na sua forma de produzir, o que de resto a colocou apenas como mais uma
disciplina científica. Além de que, numa hierarquia de saberes, abaixo das ciências da
natureza5. Certeau (1982) fala de uma separação entre História e escrita da História,
isto é, Historiografia; Febvre (1989) fala de uma

4 Santos estende esse processo até um pouco após a Primeira Guerra Mundial. (SANTOS,
2010)
5 Santos (2010, p. 10) fala que o modelo de racionalidade do século XIX é guiado pelas Ciências
Naturais, as quais criam uma confrontação ostensiva de conhecimento não científico e não racional,
como são vistos o senso comum e as humanidades.
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“vitória [pois a História] estava nos liceus, povoados e agregados


de História, nas Universidades providas de cadeiras de História,
nas escolas especiais reservadas ao seu culto. Transbordava
daí para as direçções de ensino, as reitorias, todos os grandes
postos da Instrução Pública. Orgulhosa e poderosa (...) [mas
e] a sua filosofia? Feita de qualquer maneira, com fórmulas
tiradas do Auguste Comte, do Taine, do Claude Bernard que
se ensinavam nos liceus. (...) A História sentia-se à vontade na
corrente destes pensamentos fáceis; aliás (...) os historiadores
não têm necessidades filosóficas muito grandes.” (FEBVRE
1989, p.16)

Apesar desse quadro, a História não perde sua característica maior que é a
análise das relações sociais, isto é, a perspectiva entre os próprios seres humanos,
seus interrelacionamentos e com o mundo físico que os cercam. Este aspecto,
encoberto mas não perdido, será retomado após os anos 1940, num novo movimento
de reconstrução ou releitura da ciência6, o qual continua em discussão até o presente
momento.

Sendo assim, a História saída do XIX se construiu numa perspectiva apologética


e não analítica. Possibilitando o acúmulo de um arsenal de argumentos, usados como
ferramentas para explicar como os fatos aconteceram, mas se eximindo de entender
o porquê aconteceram (ARIÈS, 2013). A busca para responder a primeira questão
se resumia em coletar informações, dados, datas, nomes, locais espaciais, isto é, no
linguajar científico, recolher provas e evidências em quantidade suficiente para não
deixar dúvidas. Nas palavras de Ariès,

... livros compactos, onde todos os acontecimentos e os


personagens de certo período histórico estavam registrados,
onde não faltava o nome de uma operação, de um poderoso, de
uma instituição política ou social sequer, onde se tinha realmente
reunido, sem exceção, tudo o que os documentos conservam
ainda dos fatos e ações do passo. (ARIÈS, 2013, p. 270)

O CONHECER DO TURISMO

Enquanto a História se (re)construía sob a nova luz do conhecimento disciplinar,


o Turismo, por sua vez, era considerado como uma prática econômica. Dessa forma,
durante a segunda metade do século XIX, não se constituiu enquanto corpo científico.

Ligado ao desenvolvimento tecnológico dos Oitocentos, o Turismo nascia

6 Do pensamento científico ocidental, atingindo, desta forma, todas as disciplinas científicas.


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junto com a consolidação da burguesia europeia, enquanto grupo de poder social e


econômico, e, a partir do qual, buscavam-se elementos para explorar o novo fenômeno
de produção capitalista, desconsiderando a busca pelo entendimento científico do
mesmo. Dessa burguesia, Pires (2001, pp. 14-20) destaca os funcionários públicos,
profissionais liberais, comerciantes, os gerenciadores, que partilhavam um poder de
compra significativo e que constituíram a base da hotelaria, do lazer, do ordenamento
do prazer, orientando-se por uma ótica incisivamente capitalista sobre as viagens.
Segundo O´Donnel (O´DONNEL 2013, p. 192), voltaram-se não só para a exploração
do espaço geográfico, da natureza enfim, mas para um pensar e agir dentro de
aceitação de que “sem atrações que não sejam as naturais o turista sairia (...) com a
carteira intacta.”

O contexto histórico do século XIX é o mesmo tanto para a História quanto para
o Turismo e, no entanto, seu reflexo sobre cada uma das áreas citadas se deu de forma
bastante distinta. Especificamente para o segundo se procedeu a uma absorção de
discursos vários, sendo estes considerados de caráter bastante científico e utilizados,
não para a ereção de um Turismo ciência, mas como formas de construção das práticas
das viagens pelos, a partir daquele momento, chamados de turistas, praticantes de
uma atividade chama de Turismo. (PIRES 2001, p. 23)

É neste entender que as obras médicas sobre as práticas dos banhos em


águas minerais, termalismo; ou ainda em água salgada, talassoterapia, por exemplo,
são apropriadas e reproduzidas para a constituição do Turismo economia, não
sendo apontadas por uma visão da Lógica. Neste caso desligou-se de uma base
epistemológica ao deixar de refletir sobre em quais condições os saberes humanos
podem ser considerados válidos (FOUREZ 1995). A prática subordinou a práxis, uma
vez que apenas aquilo aparentemente pronto e acabado superou o pensamento
metafísico, qualidade intrínseca dos seres humanos. Nesta visão marxiana,o autor
exemplifica mostrando que

“uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão,


e a abelha envergonha mais de um arquiteto humano com a
construção dos favos de suas colméias. Mas o que distingue,
de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele
construiu o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera.
No fim do processo de trabalho obtém-se um resultado que já
no início deste existiu na imaginação do trabalhador, e portanto
idealmente.” (MARX 1996, p. 298)

Para Marx é o trabalho que media a relação homem-natureza. Para o Turismo


em seu nascimento nos Oitocentos, essa relação não é apresentada como um pensar
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sobre, mas um agir sobre.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

História e Turismo se desenvolveram, da forma como as entendemos hoje, a


partir das transformações econômicas, políticas e sociais do século XIX europeu. É
importante perceber nesta construção histórica, as bases para entender o porquê da
apropriação pelo Turismo da História apologia, da História fato, da História calendário.
Contextualizado na forma apresentada neste artigo, podemos entender também
que estas perspectivas não são pertinentes apenas ao Turismo, mas as demais
disciplinas, as quais, da mesma forma, se cercaram das categorias históricas sem se
preocuparem, inicialmente, no entendimento das mesmas.

Por outro lado, também a partir deste contexto, podemos entender os motivos que
levaram a História a considerar o Turismo como um conhecimento menor, como uma
conseqüência de atos e fatos mais importantes para o desenrolar da trama histórica.
Como uma prática, não é visto como ciência, não tendo, portanto, a importância dada
a uma disciplina. Sendo esta vista como ciência porque com metodologia para a
pesquisa.

A disciplinarização do conhecimento, sua compartimentalização estanque de


forma a não se comunicar com outras áreas, acabou por distanciar e, mesmo, isolar
o conhecimento que tanto a História quanto o Turismo estavam produzindo. Ambos
lidam com sujeitos, espaços e tempo (cronológico, social, do lazer ou do não-trabalho).

Enquanto as formas de conhecimento buscavam se individualizar, só ao longo


da segunda metade do século XX é que buscaram se aproximar, se entenderem,
apropriarem-se das categorias de análise que ambas construíram ao longo de seu
percurso de formação.

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LIVROS IMPRESSOS
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A PRÁTICA DO TURISMO E SEU PROCESSO DE APRENDIZADO


INTERDISCIPLINAR: UMA REFLEXÃO SOBRE O TURISMO CRIATIVO

Danielle Mesquita da Costa Silva 11


Maria Gilca Pinto Xavier2

RESUMO: Este artigo trata da análise do turismo criativo como estratégia de


ampliação do conhecimento da atividade turística. O turismo criativo, sendo uma nova
tendência mundial que se caracteriza pela relação intrínseca das expressões culturais
(arquitetura, artes cênicas e visuais, design, gastronomia, música, espetáculos,
festivais, entre outros) como amplo cenário de atuação no setor turístico, é uma ótima
oportunidade de criar e impulsionar atividades econômicas, requerendo, para isso, um
conhecimento amplo do turismo. Este trabalho adotou como metodologia a questão
discursiva, com a abordagem interdisciplinar, visando facilitar o entendimento da
relação do turismo criativo atrelado á educação. Com o decorrer do estudo, observou-
se que é indispensável trabalhar o contexto amplo e interdisciplinar do turismo, com
vistas ao desenvolvimento de atividades econômicas que valorizem as potencialidades
locais, proporcionando, sobretudo, melhorias para a qualidade de vida da população
autóctone.

PALAVRAS-CHAVE: Turismo Criativo. Educação. Interdisciplinaridade

ABSTRACT: This paper is about the analysis of creative tourism as a strategy to expand
the knowledge of tourist activity. The tourism creative, being a new worldwide trend that
is characterized by intrinsic relationship of cultural expressions (architecture, performing
arts and visual design, gastronomy, music, concerts, festivals, others) as ample set
of actuation in tourism sector, it is a great opportunity to create and boost economic
activities, requiring, for this, a ample knowledge of tourism. This study adopted the
discursive methodology with the interdisciplinary approach, to facilitate understanding
of the relationship between creative tourism and education . In the course of the study,
it was observed that it is essential to spread the broad and interdisciplinary context of
tourism, with the goal of developing economic activities that value local potential, to
improve the quality of life of the population.

KEYWORDS: Tourism Creative. Education. Interdisciplinarity

INTRODUÇÃO

O turismo consiste em uma atividade relativamente antiga, no que se refere a


sua ocorrência, já que incide no deslocamento de pessoas, motivadas por inúmeras

1 Mestre em Administração e Desenvolvimento Rural – UFRPE. E-mail: Danielle.ufrpe@gmail.


com
2 Docente do Curso de Pós Graduação em Administração e Desenvolvimento Rural – UFRPE
E-mail: gilca.xavier@gmail.com
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razões para locais diferentes do seu habitual. No entanto, em relação a estudos e


aprofundamentos técnico-científicos, caracteriza-se por ser uma área relativamente
nova, sobretudo na relação de pesquisas atreladas a áreas correlatas, como
administração, economia, geografia, entre outros, onde esta combinação proporciona
uma vasta visão do turismo, ampliando o seu conceito e conhecimento, não se
limitando a uma atividade voltada e relacionada exclusivamente a viagens.
Nesse contexto, o turismo, a partir da sua atuação na economia, pode relacionar-
se com as características locais de um destino turístico, sendo o turismo criativo
a denominação para esta adesão. Bastante presente nos países desenvolvidos, o
turismo criativo tem sido introduzido no Brasil como uma forma de ampliar a atuação
econômica do turismo baseado nas potencialidades locais (design, artes, arquitetura,
gastronomia, moda, entre outros) com a transformação dos conhecimentos tradicionais
em produtos e serviços, que reflitam os seus valores culturais, proporcionando o
impulsionamento de seus setores econômicos.
Dessa forma, o turismo criativo contribui para a construção da visão holística
do turismo, a partir da análise ampla da possibilidade da sua atuação na economia,
aliada a cultura, por exemplo. É importante que este conhecimento seja introduzido
e impulsionado, inicialmente, no contexto educacional, onde o aprendizado da sua
caracterização, por parte dos discentes de cursos de turismo e áreas afins, torna-se
bastante necessário, proporcionando a ampliação do conhecimento da atividade, bem
como a conscientização de sua importância como propulsora de desenvolvimento, a
partir da criação de novas alternativas econômicas gerando emprego, renda e inclusão
social.
Nesse sentido, o objetivo deste trabalho é refletir sobre a importância de
se pensar no turismo no ponto de vista interdisciplinar, inicialmente incentivado no
contexto educacional, proporcionando assim, uma visão ampla acerca da atuação
da atividade, tomando como exemplo o turismo criativo, que, na sua prática, alia o
turismo, economia e cultura.

METODOLOGIA
Para o desenvolvimento deste trabalho, procedeu-se a pesquisa bibliográfica
com uma revisão de literatura sobre o assunto proposto, para a obtenção de um
conhecimento científico entre as questões basilares dos temas envolvidos, com
vistas a discussão destes temas devido a respectiva relevância para a construção do
conhecimento:
-Sobre o processo de aprendizagem, buscou-se autores que abordam e
incentivam o contexto interdisciplinar no ensino
-A respeito da caracterização do turismo, utilizou-se como referência autores
renomados na área que debatem o turismo como uma área multisetorial
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-Por último, sobre o turismo criativo, houve a construção da discussão da relação do


turismo com as potencialidades locais, visando o desenvolvimento de novas atividades
e impulsionamento das existentes, requerendo, assim, dos profissionais do turismo,
uma visão ampla a cerca da sua atuação, visando um conhecimento interdisciplinar
da atividade.
Nesse sentido, buscou-se, como referência, autores nacionais e internacionais,
pelo fato de ser um tema bastante discutido em outros países e ainda em consolidação
no Brasil.

O PROCESSO DE APRENDIZAGEM E SEU CONTEXTO INTERDISCIPLINAR: A


IMPORTÂNCIA DA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO AMPLO DO DISCENTE
COMO DIFERENCIAL EM SUA ATUAÇÃO NO MERCADO
A interdisciplinaridade “compreende um processo de integração interna
e conceitual que rompe a estrutura de cada disciplina para constituir um conjunto
axiomático novo e comum a todas elas, com a finalidade de dar uma visão unitária de
um setor do saber” PIAGET (apud DENCKER, 1998, p.32). Consiste na construção de
um conhecimento não fragmentado, possibilitando ao aluno a compreensão de fatos
de maneira holística, a partir do olhar em diferentes prismas, dos temas tratados nas
diversas disciplinas.
O conhecimento adquirido, através da interdisciplinaridade, resulta em um
saber multifacetado e inovador, o que incentiva o discente, como profissional e
cidadão, a ser um agente engajado na formação de mudanças na sociedade e o
auxilia a sua compreensão enquanto parte dela. Além disso, incentiva a construção
de uma formação mais questionadora, de maneira que o ajude a contextualizar os
assuntos abordados na reflexão de suas práticas e valores. Por isso, é importante que
o conhecimento apresentado seja absorvido pelo aluno. LIBÂNEO (2003).
Atualmente, o contexto educacional tem sido diversificado levando em
consideração, geralmente, o perfil almejado do discente e futuro profissional na sua
área de atuação. Dependendo do objetivo final, um aluno pode escolher entre um
curso profissionalizante, técnico, tecnológico e superior, onde cada tipologia possui
a sua característica específica e finalidade. Independente do curso, no tocante da
formação do aluno, os conhecimentos práticos e teóricos precisam ser aliados de
forma que aconteçam conjuntamente, levando a um aprendizado interdisciplinar, uma
visão ampla acerca da sua área profissional pretendida.
Neste contexto, a formação do aluno deve proporcionar uma visão generalizada
da sua área de atuação almejada, mesmo que seja em áreas específicas do mercado de
trabalho, de forma que no término do seu curso, o discente obtenha um conhecimento
aprofundado, bem como o desenvolvimento das suas competências e habilidades,
proporcionado uma garantia de uma carreira de sucesso.
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O incentivo na interdisciplinaridade é de suma importância para a construção


do aprendizado do indivíduo. Neste pensamento, acerca dos saberes necessários á
educação, Morim (2001) afirma a existência de “buracos negros” , devido a existência
de uma deficiência na educação, sendo necessária a atenção destes aspectos na
formação dos jovens e futuros cidadãos:
Sobre o Conhecimento, não há o ensino do seu significado. Muitas vezes,
comete-se os erros pelo fato da percepção ser uma alucinação, exclusivamente
influenciada por ideias e diferenças. O conhecimento é de responsabilidade de todas
as pessoas, sendo necessário compreendê-lo incluindo a possibilidade de erro,
possibilitando a visualização da realidade. Além disso, o conhecimento precisa ser
pertinente, proporcionando a compreensão de todo o conteúdo do conhecimento
e seus diversos aspectos, contextualizando-o o sem fragmentá-lo, evitando a sua
aprendizagem de forma isolada. As futuras decisões devem considerar o erro, através
dos imprevistos, com o estabelecimento de estratégias, sendo corrigidas no processo
de ação.
Sobre a Identidade e Compreensão Humana, todas as ciências podem convergir
sobre a identidade humana, identificando a realidade, singularidade e diversidade do
humano, a exemplo da literatura e não apenas analisar alguns aspectos relacionados
ao campo de estudo.
Da mesma forma, há o incentivo no desenvolvimento da autonomia pessoal,
participação social e gênero humano, ligado a democracia e no desenvolvimento da
ética, bem como a necessidade da auto examinação e auto justificação, de forma
que diminua a incompreensão, sentimento que destrói relacionamentos interpessoais,
diminuindo o sentimento de individualismo que leva a auto- justificação e a rejeição ao
próximo
- Outra questão importante é a condição planetária, onde todas as coisas
possuem conexões: problemas comuns existentes no planeta, bem como o destino
para todos os seres humanos. É difícil a compreensão de todos os problemas que
acontecem em nosso planeta, sendo evitada a restrição destes problemas.
Da mesma forma, Gadotti (2000), fazendo menção a construção Freireana,
afirma que a interdisciplinaridade resulta de um trabalho coletivo e na vivência
da realidade global do professor e do aluno, levando em consideração o perfil,
necessidade e problemas das pessoas:
 Investigação Temática: Procura, pelo professor e aluno, de palavras e temas ge-
radores relacionadas ao cotidiano dos alfabetizandos.
 Tematização: Codificação e decodificação dos temas, buscando o seu significado
social, resultando no surgimento de novos temas, relacionados aos escolhidos
anteriormente.
 Problematização: Busca da transformação do abstrato para o real, resultando na
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identificação de limites e possibilidades visando a sua superação.


Nesse sentido, a interdisciplinaridade tem sido utilizada no contexto educacional
com o objetivo de trabalhar assuntos interligados e importantes nas disciplinas contidas
nos diversos cursos existentes. Uma de suas contribuições deve-se ao posicionamento
crítico dos discentes em temas pertinentes ao seu campo de estudo, bem como na
sua atuação no mercado de trabalho, estando preparado para lidar com as distintas
situações de sua profissão.

A REFLEXÃO DO TURISMO ENQUANTO ATIVIDADE MULTISETORIAL


O turismo, por ser uma atividade social, política, espacial, ambiental, cultural e,
sobretudo econômica possui forte relação com o local onde é desenvolvido, [OLIVEIRA
(2008); CUNHA e CUNHA (2005) e FERNANDEZ (1974)]. Segundo Herman Von
Schullern, o turismo consiste na “soma das operações, principalmente de natureza
econômica, que estão diretamente relacionadas com a entrada, permanência e
deslocamento de estrangeiros para dentro e para fora de um país, cidade ou região”.
W. Hunziker e K. Krapf, conceituaram o turismo como: “a soma de fenômenos e de
relações que surgem das viagens e das estâncias dos não residentes, desde que não
estejam ligados a um domicílio permanente nem a uma atividade remunerada”. Jafar
Jafari, definiu turismo como “o estudo do homem longe de seu local de residência, que
satisfaz as suas necessidades; e dos impactos que ambos, ele e a indústria, geram
sobre os ambientes físico, econômico e sociocultural da área receptora” e Oscar de
La Torre, definiu o turismo como um “fenômeno social que consiste no deslocamento
voluntário e temporário de indivíduos ou grupos de pessoas que, fundamentalmente
por motivos de recreação, descanso, cultura ou saúde, saem de seu local de
residência habitual para outro, no qual não exercem nenhuma atividade lucrativa
nem remunerada, gerando múltiplas interrelações de importância social, econômica e
cultural” (apud IGNARRA 2003, p.13).
Em todas as definições apresentadas, é possível identificar características
essenciais do turismo como uma atividade ampla em relação a sua atuação no destino
turístico. Ademais, pode-se afirmar que, por consequência, consiste em uma atividade
complexa, que influencia e é influenciada por diversos fatores, levando a dificuldades
na identificação, em sua totalidade, do seu efeito em um local. Nesse contexto, Barreto
(2000) confirma que, no ponto de vista social, o turismo constitui-se um fenômeno
de interação, incluindo o turista e o núcleo receptor, bem como todas as atividades
decorrentes desse processo.
Na economia, o turismo sempre apresenta destaque, sendo considerado como
uma das principais atividades econômicas na atualidade e, por muitos autores, como
uma indústria [Barretto (2007); Gastal (2000); Serrano et al, (2000)] por impulsionar o
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desenvolvimento de outras atividades econômicas, devido a possibilidade de envolver


cerca de 50 setores da economia (Ministério do Turismo - MTUR, s.d.). Desse modo, a
atuação do turismo na cadeia produtiva local torna-se bastante diversificada, pelo seu
efeito multiplicador3, levando a empregabilidade de pessoas que trabalham tanto direta,
como indiretamente na atividade, com diferentes níveis de qualificação, incentivando
o desenvolvimento de iniciativas baseadas em sinergias locais, envolvendo diversos
segmentos e gerando benefícios de forma mais equânime (RODRIGUES, 2007).
Neste contexto, observa-se que o turismo possui, como característica a sua
relação com a economia. No entanto, também é fruto de uma série de fatores, que
ocorrem como consequência das atividades dos estrangeiros, quando estes visitam
um local fora do seu habitual, podendo ser a nível cultural, social, ambiental, entre
outros.

PARA SE PENSAR ALEM DO TURISMO: O TURISMO CRIATIVO COMO UM FRUTO


DE UM CONTEXTO INTERDISCIPLINAR
No decorrer do tempo, há o surgimento de novos conceitos de estratégias que
proporcionem o crescimento econômico aliado a melhorias, no ponto de vista social para
a população residente. A partir disso, surge a economia criativa, sendo a dinamização
dos setores econômicos locais, a partir do desenvolvimento de atividades com base
na produção de bens imateriais e intangíveis com alta relação com a inovação.
A Economia Criativa é um conceito baseado no potencial dos recursos que
se constituem criativos e que proporcionem a geração de crescimento econômico,
aliado ao aumento da qualidade de vida para as populações envolvidas. Consiste na
organização de indústrias originadas, a partir da criatividade individual, habilidade e
talento, detendo um potencial de riqueza e criação de emprego, através da geração
e exploração da propriedade intelectual (DEPARTAMENTO DE CULTURA, MÍDIA E
ESPORTE, 2001).
A exploração do valor econômico dá-se pela imaginação dos indivíduos e
os principais recursos produtivos consistem no conhecimento, criatividade e capital
intelectual no processo de criação, produção e distribuição de produtos ou serviços
(Howkins, 2001). Diversos setores encontram inseridos na economia criativa, como
artesanato, moda e design, compondo o ciclo de criação, produção e distribuição de
bens e serviços, utilizadores do capital intelectual (CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES
UNIDAS SOBRE COMÉRCIO E DESENVOLVIMENTO, 2008).
Na economia criativa, existe um vínculo de dependência, no que se refere a
economia, em relação ao talento das pessoas e sua aplicação na introdução de novas
estratégias para a economia, com possibilidade de alteração da estrutura econômica,
3 Definição de Efeito multiplicador - Criação de riquezas (multiplicador de rendas) ou criação de
empregos (multiplicador de empregos) gerada pelos gastos diretos da atividade turística em um deter-
minado destino (OMT, 2005, p. 215).
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originado de uma economia voltada para o conhecimento, baseado em ideias e


inovação, resultando na produção de bens. Há o estímulo na geração de renda,
promovendo a inclusão social, diversidade cultural e desenvolvimento humano, já que
se caracteriza por valorizar a importância dessa diversidade no país, tendo a inovação
como uma estratégia para favorecer as especificidades locais, inclusão produtiva
baseada na economia cooperativa e solidária, além da presença da sustentabilidade
na sua execução, sendo necessária para a promoção do desenvolvimento local e
regional (SEBRAE, 2012).
Nesse contexto, também surge o turismo criativo, tornando a atividade turística
como propulsora desses setores econômicos, já que visa o desenvolvimento da
atividade no contexto inovador, proporcionando a promoção e comercialização do
destino turístico, através do contato e conhecimento das características locais e
singulares por parte dos turistas, proporcionando uma experiência única e inesquecível,
além da organização inovadora da regiões com fins de promoção, desenvolvimento
e comercialização da oferta turística. Essa relação com o turismo torna-se existente,
já que o contexto criativo baseia-se nas diversas formas de expressão do país como
destino turístico (canções, danças, poesias, histórias, imagens e os símbolos) sendo
patrimônio singular da terra e do povo. O patrimônio local torna-se o suporte para o
desenvolvimento do turismo, através do desenvolvimento de atividades baseadas em
sinergias locais, que, mesmo sendo projetos modestos, são criativos e inovadores,
dando oportunidades de envolvimento em diversos segmentos das comunidades
hospedeiras, gerando benefícios de forma mais equânime e localmente apropriados
(RODRIGUES, op. cit.).
Considerado como uma das estratégias de desenvolver setores econômicos
locais, o turismo criativo, bastante desenvolvido nos países desenvolvidos, tem sido
introduzida no Brasil como uma forma de ampliar a atuação econômica do turismo
baseado nas potencialidades locais. Nesse sentido, o turismo criativo contribui para
a construção da visão holística do turismo, com a noção da atuação do turismo e
economia aliado a cultura.
Pode-se afirmar que a turismo criativo surge como uma estratégia com grande
viabilidade a longo prazo, pois a utilização do capital humano e do conhecimento tente
a evitar os retornos decrescentes na economia, já que a utilização de capital natural,
pode levar a uma estagnação do crescimento econômico (SOLOW, 1956), atuando
de forma vinculada as potencialidades locais, associando-se a outros segmentos
produtivos.
A partir do investimento na prática do turismo criativo, surge novos modelos
de consumo baseados no desenvolvimento de tecnologias participativas resultando
uma combinação “multidisciplinar” de aspectos novos e tradicionais, no que se refere
a conteúdos e formas artísticos, de modo que haja uma complementação no que
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se refere a métodos de experimentar a cultura. Nesse sentido, torna-se bastante


importante a utilização da criatividade, investindo na bem como a sua pesquisa e o
desenvolvimento atividades de atividades que utilizem recursos naturais e culturais,
viando a revitalização e crescimento das econômicas locais de maneira sustentável
(COMISSÃO EUROPEIA, 2010). Além disso, o conhecimento amplo da atividade
turística resulta no aumento das possibilidades de se investir no turismo, no ponto de
vista criativo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A visão ampla do turismo, enquanto uma atividade intersetorial, pode
proporcionar a um conhecimento a acerca da sua atuação no destino a ser visitado,
tanto no cunho econômico, como no social, cultural, entre outros. Nesse sentido, o
turismo não deve ser pensado apenas como um aspecto ligado apenas as viagens,
mas como uma atividade que exerce influência no destino turístico de uma maneira
bastante ampla e diversa.
A partir disso, a interdisciplinaridade, quando utilizada na educação, auxilia tanto
na formação acadêmica, por possibilitar um aprendizado com amplo conhecimento,
evitando uma unilateralidade como no profissional, já que este conhecimento
abrangente auxilia no desenvolvimento de habilidades e competências, baseados em
um vasto contexto.
Independente de seu nível de formação, a escola, possui um papel fundamental
na construção da capacidade crítica dos alunos, através da discussão de assuntos
indispensáveis ao conhecimento dos mesmos, pois a bagagem teórica serve como
orientação de aspectos importantes para a prática profissional de forma a capacitar o
colaborador. Espera-se que o ensino esteja inserido neste contexto e trabalhando junto
para embasar o conhecimento do futuro profissional. Visto o exposto, independente
das disciplinas, deve-se desenvolver conhecimentos relevantes para a atuação em
qualquer setor.
A cerca do turismo, percebe-se a incipiência no que concerne a extensa
formação dos seus discentes, fato que compromete a visão do turismo enquanto
atividade multisetorial. Este fato pode ser exemplificado pela atual posição e atuação
do turismo no Brasil, pois mesmo com tantos profissionais no mercado e até no poder
público, não há um investimento adequado da atividade, mesmo com todo o potencial
existente. A visão do turismo em países desenvolvidos, enquanto uma atividade que
pode gerar diversas relações, é bem superior ao Brasil, mesmo com todo o potencial
existente no nosso país. Neste contexto, o turismo criativo sendo uma estratégia
inovadora propicia o desenvolvimento e inclusão social ao mesmo tempo que trabalha
e divulga as potencialidades locais, sendo um destino altamente competitivo. Mesmo
sendo uma opção para expandir os setores econômicos locais, No Brasil, ainda está
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bem principiante o desenvolvimento desta estratégia, sendo também, resultado da


educação turística.
O ideal é que haja integração/articulação das disciplinas no curso de turismo,
visando o conhecimento amplo e visualização da realidade, resultando na visualização
dos problemas que permanecem invisíveis. Nesse contexto, a visão ampla do turismo
construída a partir da academia, favorece o desenvolvimento do turismo, aumentando
possibilidade de potencializar o turismo como atividade propulsora de diversas
atividades econômicas aliando os benefícios da economia com melhorias para a
população local.

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UMA PROPOSTA DE ANÁLISE DA MERCANTILIZAÇÃO DA TRADIÇÃO


MUSICAL NA VESPERATA DIAMANTINENSE: UM CONTRAPONTO AOS
MODELOS ANALÍTICOS DE DESCARACTERIZAÇÃO E HIBRIDISMO CULTURAL
Mariana da Conceição Alves1
Alan Faber do Nascimento2

Resumo
O presente artigo busca, por meio de um modelo teórico-metodológico
materialista, histórico e dialético analisar a mercantilização da tradição musical
diamantinense expressa na produção das vesperatas - principal produto turístico
do município mineiro de Diamantina. Para tanto, o estudo inicia-se problematizando
os modelos analíticos que versam sobre as noções de descaracterização cultural e
hibridismo. A ideia é mostrar como tais análises efetuam uma leitura formal e não-
dialética das vesperatas, ao estabelecer uma relação de continuidade com as antigas
serenatas e retretas públicas, ainda que mediada por processos de homogeneização
ou hibridação. Ao contrário disso, procuramos mostrar que a vesperata é uma
mercadoria, cuja reprodução necessita da tradição como forma de tornar legível um
produto turístico para o consumo.

Palavras-chave: Vesperata. Mercadoria. Dialética. Hibridismo.


Descaracterização cultural.

Abstract

This article seeks, through a materialist, dialectical and historical theoretical


and methodological model to analyze the commodification of diamantinense musical
tradition expressed in the production of vesperatas - main tourism product of the town
of Diamantina. For both, the study begins questioning the analytical models that
deal with notions of mischaracterization and cultural hybridity. The idea is to show
how such analyzes perform a formal and non-dialectical reading of vesperatas, to
establish a relationship of continuity with the old serenades and public retretas, even if
mediated processes of homogenization or hybridization. In contrast, aim to show that
the Vesperata is a commodity whose reproduction need of the tradition as a way to
make  readable a tourist product for consumption.

Keywords: Vesperata. Merchandise. Dialectics. Hybridity. Cultural


1 Bacharel em Humanidades e bolsista do projeto de pesquisa “As vesperatas como um produto
turístico: uma proposta de análise de sua pauta musical” - Universidade Federal dos Vales do Jequiti-
nhonha e Mucuri. E-mail:mariana.sp15@hotmail.com
2 Doutor em Geografia Humana e Professor do curso de Turismo. Coordenador do projeto de
pesquisa “As vesperatas como um produto turístico: uma proposta de análise de sua pauta musical” -
Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. E-mail: alan.faber@ufvjm.edu.br
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mischaracterization

INTRODUÇÃO

Além do conjunto arquitetônico setecentista e das belezas naturais que compõem


a paisagem da cidade de Diamantina, localizada no Alto Jequitinhonha, no estado
de Minas Gerais, encontra-se um elemento inerente à sua história, a musicalidade.
Enraizada na cultura diamantinense, a efervescência musical está presente de tal
modo que é usual o comentário de que em cada família moradora da cidade há pelo
menos um músico. Não por acaso, a tradição de execução de serestas e serenatas
tornou Diamantina mundialmente conhecida como a “terra nacional da serenata” –
título que, frequentemente, permeia os noticiários, apresentando o município, também,
como a “Cidade Musical de Minas Gerais”.

São muitos os fatores sociais e históricos que explicam a musicalidade


diamantinense. Uma hipótese plausível para o surgimento dessa expressão cultural
está relacionada com aquilo que a historiadora Laura de Mello e Souza (1997) chamou
de “sociedade movediça”. Grosso modo, o argumento gira em torno da ideia de que
nos arraiais auríferos não houve, de imediato, uma estrutura social hierarquizada
como ocorreu, por exemplo, no nordeste açucareiro. Os arraiais eram constituídos
e desconstituídos ao sabor das descobertas de novas jazidas, de modo que, num
contexto assim, era difícil uma tradição se manter. Prova disso é o descrédito dos
formalismos expresso nos hábitos e costumes de homens e mulheres: era comum,
durante as missas, as mulheres cruzarem as pernas, algo impensável em sociedades
mais rígidas, bem como o fato de os homens não usarem perucas e sapatos de
saltos. Contudo, a ausência de uma tradição não significou que ela não tenha surgido,
posteriormente, como tarefa a ser cumprida. E são justamente os letrados, classe
ociosa enriquecida pela mineração e a quem se começa a atribuir foros de nobreza,
que se encarrega de tal empreendimento, seja, por exemplo, pela dedicação às letras
e viagens ao exterior, notadamente à cidade portuguesa de Coimbra, ou por meio de
grandes somas de dinheiro destinadas à contratação de músicos e composição de
peças musicais3.

Para além das hipóteses teóricas sobre sua formação, o fato é que a tradição
musical diamantinense persiste até os dias de hoje, a ponto de ser apropriada pelo

3 Sem excluir a anterior, outra interpretação possível sobre a floração artístico-musical das Mi-
nas Setecentistas está relacionada à atuação das Irmandades e Ordens Terceiras e seus múltiplos
papéis desenvolvidos no território mineiro.
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turismo. Dessa apropriação, a chamada Vesperata4 é, sem dúvida, a que mais chama
atenção, tanto que é apresentada pelas agências e operadoras turísticas como
o principal atrativo local. É interessante notar que, embora as vesperatas sejam
apresentadas pela mídia como uma tradição que remonta às antigas tardes vesperais
e retretas públicas de fins do século XIX, a pauta do evento é, paradoxalmente,
dominada por músicas do repertório mundial e nacional. Alguns autores têm interpretado
esse paradoxo com base na ideia de descaracterização cultural, isto é, em razão
da turistificação das apresentações musicais e dos processos de homogeneização
induzidos pelo mercado, estaria ocorrendo a perda de identidade das vesperatas. Já
outros entendem que se trata de um fenômeno de hibridismo cultural, uma vez que a
cultura nunca permanece a mesma, porquanto se modifica, se transforma, em uma
palavra, se hibridiza nos diferentes contextos históricos e sociais.

Consideramos, contudo, que tais análises efetuam uma leitura formal e não-
dialética das vesperatas, ao estabelecer uma relação de continuidade com as antigas
serenatas e retretas públicas, ainda que mediada por processos de homogeneização
ou aculturação. Nossa hipótese é, portanto, outra. A nosso ver, as vesperatas se
originaram e são formadas enquanto um produto turístico5, cuja produção, se, por um
lado, se apropria de referências tradicionais; por outro, faz do tradicional algo para ser
visto, e não vivido, isto é, como citação que serve para familiarizar o consumidor a uma
determinada mercadoria. Aprofundando nesse debate, este artigo tem como objetivo
efetuar uma leitura dialética6 dos termos entre turismo e tradição, tomando como
4 A título de descrição, a Vesperata ocorre entre os meses de março e outubro, período em que a
estação seca permite as apresentações feitas ao ar livre na rua da Quitanda, situada no centro histórico
da cidade. O evento fica por conta da banda do 3º Batalhão da Polícia Militar e da Banda Mirim Munici-
pal Prefeito Antônio de Carvalho Cruz. Os músicos, trombonistas, trompetistas, flautistas, saxofonistas
e clarinetistas, se apresentam no alto das varandas de casarões históricos, enquanto o maestro, posi-
cionado ao nível da rua, comanda a orquestra rodeado pelo público que comprou uma mesa servida
pelos bares e restaurantes da rua da Quitanda. Isolando esse público do restante dos espectadores,
há uma corda suspensa por pedestais, que segue da parte baixa da rua até a sua porção mais alta, na
altura do antigo Grande Hotel, formando uma espécie de quadrilátero.

5 O nosso entendimento a respeito do conceito de produto turístico não se limita apenas a


visão técnico-administrativa do turismo que a define como um produto formatado para ser oferecido
aos turistas que inclui os atrativos, equipamentos e serviços. A utilização do termo neste artigo vai um
pouco mais além: refere-se a produto turístico no sentido de uma mercadoria que está ligada a lógica
da mercantilização dos conteúdos populares e da abstração de seus contextos sociais em razão de sua
comercialização.

6 No caso desse estudo, acreditamos que o materialismo-histórico dialético nos permite


fundamentar materialmente os processos culturais, buscando desse modo, as determinações históricas
e materiais da cultura e das mudanças culturais engendradas pela atividade turística. Segundo Alves
(2011), o materialismo histórico-dialético é apontado como um dos procedimentos metodológicos do
campo das ciências sociais utilizados nos estudos em turismo. Afinal, “o método dialético crítico, ou
materialismo histórico dialético, proposto por Marx, auxilia no desvendamento do fenômeno social,
a partir de uma análise que parte da estrutura e busca, na história, sua gênese, contemplando a
articulação dos múltiplos fatores sociais” (ALVES, p.604,2011).
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referência o caso das vesperatas. A ideia é problematizar dois modelos analíticos- a


descaracterização cultural e o hibridismo, que têm sido, constantemente, utilizados
nas produções acadêmicas para discutir as contradições existentes no evento. Mais
precisamente, o objetivo é demonstrar a Vesperata como um evento que já nasce como
um produto turístico e que apresenta contradições em seu repertório mundializado, no
seu esforço em transmitir uma ideia de autenticidade e na quantidade de citações que
permeiam a sua realização presentes nos signos de consumo e no uso de formas
sígnicas ligadas ao imaginário das cidades históricas.

Para discutir o modelo analítico pautado na ideia de descaracterização,


realizou-se uma pesquisa bibliográfica com base em autores que sustentam esse tipo
de interpretação, a exemplo das discussões realizadas por Antônio Carlos Fernandes
e Vander Conceição (2007) e Carlos Fortuna (1995). Já para analisar o segundo
modelo interpretativo, a metodologia utilizada se baseou nas reflexões de Néstor
Canclini (2008), autor que discute a hibridação no contexto contemporâneo da cultura
latino-americana, principalmente no México, e no trabalho desenvolvido por Leila
Amaral (2012) – autora que discute como que se dá o processo de hibridação nas
vesperatas. E para analisar as vesperatas como um produto turístico, os procedimentos
metodológicos compreenderam: pesquisa de campo de caráter observativo, realizada
durante a execução das vesperatas; pesquisa documental nos arquivos cedidos pela
Secretaria de Cultura, Turismo e Patrimônio de Diamantina; as pautas musicais das
vesperatas feitas entre os anos de 2012 e 2013; uma pesquisa de opinião realizada pela
prefeitura municipal no ano de 2013; as pautas dos anos de 2003 e 2009 cedidas pela
Banda do 3° Batalhão da Polícia Militar de Minas Gerais7, mais pesquisa bibliográfica
focada nos textos de Eric Hobsbawn (2013), e Renato Ortiz (1994).

A DESCARACTERIZAÇÃO CULTURAL: UM DEBATE SOBRE PERDA DE


IDENTIDADE E AUTENTICIDADE

A problemática da descaracterização das festas populares e das manifestações


culturais, comumente, está vinculada ao desenvolvimento da atividade turística.
Este argumento por sua vez, se desenvolve em um embate dualista entre tradição e
modernização, autenticidade e inautêntico, diversidade e homogeneização. Contudo,
por mais que o alcance explicativo da noção de descaraterização cultural tenha
sido reduzido, devido às revisões teórico-metodológicas ocorridas no campo da

7 O motivo da escolha em se trabalhar com pautas dos anos de 2003,2009,2012 e 2013 foi a ne-
cessidade de observar a evolução do repertório musical ao longo dos anos, algo que só seria possível
através da análise de pautas mais antigas e de pautas mais recentes. Porém, a intenção era trabalhar
com pautas anteriores a 2003, mais precisamente dos anos iniciais do evento, mas, uma das dificul-
dades desta pesquisa foi encontrar as pautas musicais da vesperata, já que muitas delas não foram
conservadas nem tão pouco guardadas.
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antropologia, as análises sobre a perda de autenticidade de formas culturais continuam


subjacentes no meio acadêmico.

Em particular, um dos autores que trabalhou o conceito de descaracterização


cultural no campo do turismo é Carlos Fortuna. Baseando-se em Boorstin(1961),
Fortuna(1995) introduz sua discussão através do relato de uma situação corriqueira
em que uma mãe andava, tranquilamente, com seu filho quando, em dado momento,
se encontra com uma velha amiga. Além dos assuntos costumeiros, a mãe recebe um
elogio devido à beleza de seu filho e, orgulhosa, ela responde de maneira categórica:
“isto não é nada...Devias de ver a fotografia!” Desnecessário dizer que essa situação
não se limita, portanto, apenas a um simples encontro casual, seguido de um elogio.
Por trás do pitoresco, existe todo um contexto de “desrealização do mundo” (termo
utilizado pelo autor), que muitas vezes, é atribuído à imprensa e à televisão. O que
se infere do caso é um contexto em que a representação se tornou mais real que a
realidade. É nesse sentido, também, que o autor irá afirmar que o turismo e o turista são
sinais da “arte perdida de viajar”, porque a experiência real se diluiu, transformando-
se em um objeto de descaracterização sociocultural: “instrumentalizados à medida
que o consumo se apoia na cultura visual, o espetáculo e a imagem tornaram-se o
ingrediente por excelência do ato turístico” (FORTUNA,1995, p. 20).

Outro autor que trabalha no âmbito desse modelo interpretativo é John Urry
(1990). A título de ilustração, o autor salienta que o turismo de massa promove o
deslocamento de pessoas que buscam sua satisfação em atrações com pouca
autenticidade. Nesse processo, a “realidade” não é levada em consideração, o que
provoca a produção de exibições excêntricas que seduzem o turista, mas que, ao
mesmo tempo, provocam um afastamento da comunidade.

(...) Isolado de um ambiente acolhedor e das pessoas locais, o turismo de


massa promove viagens em grupos guiados e seus participantes encontram
prazer em atrações inventadas com pouca autenticidade, gozam com
credulidade “pseudo-acontecimentos” e não levam em consideração o
mundo “real” em torno deles. Em consequência, os promotores do turismo
e as populações nativas são induzidos a produzir exibições cada vez mais
extravagantes para o observador de boa-fé que, por sua vez, se afasta cada
vez mais da população local. (URRY, 2001, p.23).

Tomando como referência, agora, o nosso objeto de estudo, Fernandes e


Conceição (2007) irão pautar suas análises sobre as transformações pelas quais as
vesperatas passaram ao longo dos anos como base na ideia de descaracterização
cultural. Vale dizer que, em sua análise, os autores fazem um resgate histórico das
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diversas apresentações musicais realizadas no século XIX na cidade Diamantina.


Chamam a atenção para as apresentações musicais do “Anjo da Meia Noite”, época
em que João Batista de Macedo, o maestro Piruruca, começou a reger as retretas
executadas pela banda militar de uma maneira diferente, cuja principal característica
era a distribuição de grupos de músicos e solistas nas sacadas dos sobrados:

(…) É uma fantasia muito bem elaborada, cuja melodia oferece aos
instrumentistas a possibilidade de executarem os solos em uma situação
bastante parecida com um sistema de pergunta e resposta, como se os
músicos estivessem praticando uma provocação musical, com destaque,
sobretudo, para os trompetes, trombones e bombardinos. Oferece uma
execução especial para o prato, destacando doze badaladas, as quais, nos
tempos da Sé antiga, algumas vezes ganharam a participação do bimbalhar
do sino da igreja, numa feliz inovação. O nome registrado nos frontispícios dos
manuscritos da partitura é italiano: La Mezza Notte. Sua autoria é atribuída
ao maestro D. Carlini. (FERNANDES, CONCEIÇÃO,2007, p.103)

No que aqui nos concerne, o importante é que, em vários momentos da análise,


os autores desenvolvem a ideia de que a Vesperata é um evento que já ocorria desde
o século XIX e que foi retomado no dia 16 de agosto de 1997:

(...) quando em 16 de agosto de 1997, durante o lançamento do Programa


Nacional de Turismo Cultural do Ministério da Cultura, foi retomada a secular
tradição musical diamantinense, idealizada pelo maestro João Batista de
Macedo, o grande maestro Piruruca, em suas apresentações com a Banda
Militar: os grupamentos de músicos eram destacados nas sacadas dos
sobrados, sendo regidos pelo maestro no centro da praça, ladeado pelo
público ouvinte. (FERNANDES e CONCEIÇÃO, 2007, p.176).

O que se infere de tais análises é que teríamos dois momentos de uma mesma
unidade. Num primeiro momento, teríamos as antigas serenatas e retretas públicas,
conduzidas pelo maestro Piruruca, à época, responsável por uma inovação nas
apresentações, ao organizar os músicos nas sacadas dos casarões; e num segundo
momento, caracterizado pela turistificação das apresentações a partir de 1997,
estaria ocorrendo a perda de identidade das vesperatas, devido à homogeneização
induzida pelo mercado. Assim, segundo esse modelo de análise, há um processo de
descaracterização de uma festa – que, todavia, guarda significados oriundos de seus
primórdios, quando, ainda, era designada como “O Anjo da Meia Noite” – cujo sentido
é sua transformação numa mercadoria qualquer.

Exposto, portanto, esse modelo analítico sobre as vesperatas, passemos agora


para as interpretações que as compreendem em termos de hibridação cultural.
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ENTENDENDO A VESPERATA EM TERMOS DE HIBRIDAÇÃO

O conceito de hibridismo cultural foi desenvolvido sistematicamente pelo


antropólogo Néstor Canclini. Em sua obra paradigmática “Culturas Híbridas”, Canclini
(2008) define a hibridação como um processo em que práticas ou estruturas que,
inicialmente, tinham sua existência independente se combinam gerando novas
práticas, objetos e estruturas. É o que se passa, por exemplo, com uma rua que, em
razão de seu desenvolvimento, abriga diferentes épocas e estilos ou com a própria
gastronomia de um local que incorpora diferentes elementos tornando-se híbrida8.

É importante sublinhar que a noção de hibridismo é apontada por Barreto e


Santos (2006) como uma das mais recentes contribuições nos estudos antropológicos
para discutir as transformações ocorridas no campo da cultura. Tal modelo analítico
tem sido utilizado para superar as análises baseadas em termos de descaracterizações
sociais, impactos e autenticidades que nortearam o debate acerca do tema até a
década de 19909. Mais ainda, para esses autores, o hibridismo permite enxergar a
cultura como algo dinâmico, e não como um sistema fechado, tal como ocorre com
a noção de aculturação. Isso porque o hibridismo parte do pressuposto de que a
cultura se hibridiza nos diferentes contextos históricos e sociais, não permanecendo
estática. É o que se passa com as manifestações culturais dos jovens balineses.
Apoiando-se em McKean(1989), Santos e Barreto(2006) ressaltam que as mudanças
ocorridas no artesanato, nas danças e nas demais manifestações culturais da região
em função da comercialização turística representou um verdadeiro processo de
convívio entre o tradicional e o moderno. Uma vez que, a comercialização de sua arte
é uma forma de manter viva uma tradição e uma identidade que se hibridizam com as
habilidades valorizadas pelos turistas, não representando dessa forma, o resultado de
descaracterização cultural tampouco de aculturação.

No tocante à questão das vesperatas, Amaral (2012) é uma das autoras


que se apoiam nas ideias de Nestor Canclini. Chamando a atenção para algumas
tensões existentes, ela identifica no campo econômico, a exploração entre público e
privado, além da tensão existente na relação com o patrimônio. Na primeira tensão,
a economia é vista como um campo de lutas e posicionamentos entre os agentes.

8 Alguns trabalhos foram desenvolvidos para discutir a hibridismo existente na gastronomia.


Como exemplo da utilização deste modelo teórico analítico temos a discussão levantada por Santos et
al. (2007) sobre o hibridismo gastronômico na rua Coberta em Gramado. No caso estudado, os auto-
res verificaram que a gastronomia local comumente conhecida como uma demonstração da culinária
alemã não pode ser entendida apenas dessa forma, afinal é fruto de uma interculturalidade em razão
da combinação de diferentes elementos e práticas que torna os pratos híbridos.
9 É importante destacar que o próprio Canclini já apontava essa necessidade no campo da cul-
tura em sua obra “Culturas híbridas”, isso porque a ideia de hibridação “serviu para sair dos discursos
biologísticos e essencialistas da identidade, da autenticidade e da pureza cultural” (CANCLINI,2003,
s/p.).
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Nesse sentido, cada indivíduo tem uma posição diferenciada dentro dessa estrutura
e por isso defende seus interesses e posicionamentos, criando um campo de lutas.
A segunda tensão é a contradição presente na exploração privada e econômica de
bandas públicas como a do Terceiro Batalhão da Polícia Militar e a Banda Municipal
Mirim Prefeito Antônio de Carvalho Cruz. E a terceira tensão se traduz nos anúncios
presentes no sítio eletrônico da agência responsável pelo evento, a agência Minhas
Gerais: “A Vesperata, por seus elementos culturais riquíssimos e fortíssimos sendo
um deles a musicalidade diamantinense é considerada um Patrimônio Imaterial da
cidade.” Ora, afirma a autora, o único bem intangível patrimonializado diamantinense
é o toque dos sinos das cidades mineiras, ainda que Diamantina seja Patrimônio
Histórico Cultural desde 1938 e da Humanidade desde 1999. Assim, na sua visão,
a utilização desse discurso existe para legitimar e reforçar a exploração de uma
manifestação cultural: “tal uso encobre uma série de questões como, por, exemplo,
para quem são as vesperatas de fato, bem como a relações de poder que estão
implícitas no uso do discurso do patrimônio para referenciar os usos que delas se faz”
(AMARAL, 2012, p.19).

Mas Amaral (2012) não se limita a problematizar os paradoxos existentes nas


vesperatas, posto que recorre a ideia de hibridação para discutir suas transformações.
Segundo a autora, o modelo teórico pautado na noção de hibridismo cultural
proporciona sair dos discursos biológicos e existencialistas, permitindo a explicação e
identificação de alianças fecundas existentes, já que é necessário entender como as
práticas históricas se misturaram e se constituíram. Assim, a autora se depara com
o seguinte questionamento: como se dão os processos de hibridação no caso das
vesperatas? A resposta encontra-se na reconversão do patrimônio:

(...) percebendo as Vesperatas como reconvertidas em um novo contexto,


desloca-se o estudo da identidade para a heterogeneidade e a hibridação.
Temos então dois momentos fundamentais: o das práticas discretas- o Anjo
da Meia Noite - e a hibridação - As Vesperatas. Não se trata de definir uma
identidade musical para, a partir dela, reafirmar a relevância e a importância
das práticas exercidas nessa manifestação cultural, mas sim de tentar
percebê-la em toda a sua heterogeneidade na reconversão (AMARAL, 2012,
p. 20).

Tomando como ponto de partida a própria etimologia da palavra tradição, que


vem do latim traditio e significa algo que uma geração entrega para outra, a Vesperata
é entendida como fruto de uma tradição musical que foi sendo, ao longo do tempo,
transformada por elementos culturais oriundos de diferentes contextos históricos. É
evidente que o argumento é plausível, no entanto, tal como no caso do modelo analítico
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fundado na ideia de descaracterização cultural, permanece a ideia de “continuidade”


com o passado, ainda que mediada por processos de hibridação ou aculturação. Ora,
o problema de noções como de hibridação e aculturação é que parecem operar uma
separação entre cultura e realidade socioeconômica, em parte porque abstraem as
determinações histórico-materiais da cultura, em parte porque não atentam para as
mediações culturais sobre os processos sociais e econômicos. Ora, é preciso situar
sócia e historicamente o campo simbólico-cultural, já que não se trata de mera questão
de encontro de universos simbólicos.

A VESPERATA ENQUANTO UM PRODUTO TURÍSTICO

Quantas vezes ao vermos imagens das cidades históricas mineiras nos meios
de comunicação de massa imaginamos construções históricas e elementos da vida
colonial permeando a vida cotidiana? E o que dizer dos pacotes de férias em que
as operadoras e agências exploram o turismo de sol e praia alimentando nossa
imaginação com referências ao bom tempo e a felicidade? Ou ainda, como afirma
Baudrillard (1972), o sol das férias já não guarda o significado de relação de vida e
morte que os astecas e os egípcios compartilhavam coletivamente, pois agora, é um
signo positivo que se opõe ao mau tempo e a chuva. Essas experiências que, muitas
vezes, passam despercebidas nos revelam a forte presença dos signos em nosso
cotidiano.

De fato, segundo Ortiz (1994), a principal novidade trazida pelo movimento


de mundialização da cultura foi a criação de um imaginário coletivo internacional
composto por um sem-número de referências sígnicas produzidas pelos meios de
comunicação de massa. Tal como um filme-global, produzido, dirigido e financiado
por agentes de diferentes nacionalidades, a formação desse imaginário sintetiza
signos e referências culturais mundialmente reconhecidos. Desse modo, semelhante
a um texto semiológico, o que tais espaços oferecem ao transeunte é um conjunto
de signos encarnados em objetos que tornam a abstração legível, reconhecível.
Dito de outra maneira, podemos dizer que a mundialização da cultura engendra dois
momentos: o da desterritorialização pelo signo e o da reterritorialização por um objeto
de consumo (ORTIZ, 1994). No primeiro momento, cria-se o signo que, ao contrário
das formas simbólicas, não se realiza enquanto representação do real, porquanto se
trata de forma autonomizada, podendo, portanto, circular livremente, independente do
território e do tempo histórico: “retirados do contexto original, uma cornija egípcia ou
um panteão ao ar livre podem coabitar ao lado de arcos clássicos ou góticos” (ORTIZ,
1994, p. 110). E num segundo momento, o signo se reterritorializa em objetos de
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consumo, isto é, em mercadorias cuja abstração demanda uma citação que as tornem
legíveis para o consumo. Assim, a nosso ver, o uso desses signos na realização das
vesperatas corresponde ao momento de reterritorialização das abstrações realizadas
pela forma-mercadoria, expressas, por exemplo, no cordão de isolamento que abstrai
os conteúdos populares das vesperatas ou no próprio nome que o evento leva (ele
mesmo uma citação, pois deriva de Vênus, o planeta que, na astrologia, simboliza a
paixão e o amor romântico), convertido em marca e objeto, inclusive, de contendas
por direitos de propriedade.

É interessante notar a quantidade de citações que permeiam a realização de uma


vesperata. Elas estão presentes no repertório povoado por referências fonográficas
mundializadas, nos signos de consumo (marcas) de uma lata de refrigerante, e no uso
de formas sígnicas ligadas ao imaginário das cidades históricas, a exemplo da luminária
e do clarinete, eleitos pelo marketing turístico como os carros-chefes da identidade
musical da cidade. Em relação à primeira classe de signos, cumpre destacar que a
pauta do evento contém músicas de diversos estilos, oriundas de diferentes épocas
e partes do mundo como a valsa “Ondas do Danúbio” de Ivan Invanovici, a seleção
de músicas do filme “Nos tempos da brilhantina”, a opereta demonstrada na música
“Cavalaria Ligeira” de Franz Von Suppé, o rock de Los Bravos em “Black is Black”, a
peça sinfônica “La Mer” de Charles Trenet, além de composições internacionais como,
“Granada”, “New York, New York”, “Can’t take my eyes off you”, “Besame Mucho”
e “How deep is your love”, bem como composições nacionais como “Aquarela do
Brasil”, “Carinhoso”, “Sampa”, “Canção da América” e “Borbulhas de Amor”. Por outro
lado, é pequeno o espaço dedicado às músicas propriamente locais e regionais, a
exemplo dos “Coretos de Diamantina”, compostos por músicas como “Diamantina em
Serenata”, “As Ruas e a Seresta”, “Peixe Vivo” e “Joia Rara”.

Assim, contrariando as discussões que entendem a Vesperata em termos de


descaracterização ou hibridismo, vários elementos nos indicam o seu caráter abstrato
e mercadológico, cuja presença não é apenas atual, posto que permeiam o evento já
há alguns anos. Desse modo, cumpre citar algumas músicas presentes no repertório
da Vesperata do dia 17 de maio de 2003, quando o evento possuía apenas seis anos de
existência. O repertório foi iniciado com a composição de Franz Von Suppé “Cavalaria
ligeira”, que costumeiramente aparece nas vesperatas mais recentes realizadas nos
anos de 2012 e 2013. Porém, a presença de músicas que são conhecidas por qualquer
frequentador atual do evento não se limita apenas a essa canção. No mesmo dia,
também, foi executado “Aquarela do Brasil” de Ary Barroso e canções que recordam
os anos 1960. Do mesmo modo, a Vesperata realizada no dia 26 de abril de 2003,
igualmente, mostrou um repertório mundializado, sendo composto por músicas como
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“Tributo a Lupício”, “Love is All”, “Ibiza Dance” e “Dime”. A título de ilustração sobre
esses diversos estilos presentes no evento, vale citar que em uma das vesperatas do
ano de 2013 foi introduzida uma música do estilo sertanejo, intitulada “Apaziguar” de
Bruno e Marrone, com a utilização de referências sígnicas como: “vivemos um tempo
de guerra, por vezes velada, não declarada, mas ainda assim, guerra. Nos lares, nas
ruas, nas empresas, há sempre uma luta pelo poder, pelo dinheiro, pelo status social”.
Além disso, na Vesperata desse mesmo dia, foi acrescentada uma das músicas tema
de uma telenovela global no repertório: “Esse cara sou eu”, de Roberto Carlos.

Relacionada à observação anterior, é interessante observar o esforço, por parte


dos organizadores, em transmitir uma ideia de autenticidade. Razão por que abundam
referências ao passado de Minas Gerais, à tradição musical diamantinense e aos
personagens históricos da cidade. É pela mesma razão que Baudrillard (1972) afirma
que o gosto pelo antigo é uma maneira de consagrar o signo simbólico em uma busca
por legitimidade. É evidente que essas alusões não remetem a uma historicidade
concreta. Veja-se, por exemplo, o caso da ex-escrava Chica da Silva e do contratador
de diamantes João Fernandes. Esses personagens representam um dos pontos
altos de uma Vesperata. Eles atraem os olhares dos turistas, que, por sua vez, ficam
ansiosos por uma foto com o casal. No caso destes dois personagens, desnecessário
dizer que tudo se passa como se fosse mais uma das grandes histórias de amor da
literatura mundial. Poderíamos muito bem tomá-los por “Romeu e Julieta” ou “Tristão e
Isolda”. Trata- se, portanto, de uma história mitificada (no sentido atemporal do termo),
porquanto descolada do contexto das minas setecentistas e, por essa razão, sob a
forma de signo, passível de qualquer tipo de combinação.

Efetivamente, o turismo é constantemente divulgado como uma atividade ligada


à busca de experiências diferentes e ao desligamento da rotina ou até mesmo, no caso
das divulgações mais românticas e utilizadoras de certa nostalgia como uma atividade
que trabalha com os sonhos dos outros. Esse pensamento é utilizado principalmente
quando o turismo é entendido enquanto um fenômeno, baseado essencialmente na ideia
do filósofo Edmund Husserl, que entendia a viagem com base na ideia de experiências
vividas, na busca daquilo que se manifesta nas sensações e nos sentidos, ou seja,
naquilo que não se vê. Porém, em nosso entendimento, é importante, no entanto, não
considerar essa questão em termos de uma “autenticidade encenada”, isto é, como se
o turista fosse fraudado em sua busca por autenticidade porque lhe é oferecido pelo
mercado uma região de fachada. O uso de referências sígnicas para a montagem de
um produto parecem deslegitimar esse tipo de argumentação. Apoiando-nos, mais
uma vez, em Ortiz (1994), afirmamos que essas referências funcionam como um meio
de reconhecimento e comunicação, já que, por meio delas, é possível “sentir-se em
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casa” em qualquer lugar e situação vivida. Dito de outra forma, não se trata de fuga ou
mergulho numa realidade fantástica e feérica; pelo contrário, na experiência turística
tudo é costumeiro, não existem surpresas. Aliás, o que é fachada nessa experiência é
a pretensa demanda pelo autêntico, uma vez que o prazer está no reconhecimento,
na identificação daquilo que já se sabe. Sob esse ponto de vista, como definem
Crawshaw e Urry (1995), o turismo é a mercantilização das recordações do outro.

Prova do que estamos argumentando são as reações do público durante


as apresentações nas vesperatas: todos se alegram, cantam em voz alta, erguem
e balançam os braços. Uma das músicas preferidas é “Amigos para Sempre”,
normalmente, cantada no final de uma Vesperata. Por meio das pesquisas de
campo de caráter observativo, constatou-se que os organizadores do evento até
já tentaram trocar essa música por uma outra, mas não conseguiram devido aos
recorrentes pedidos do público. Sobre isso, cumpre observar que, nas pesquisas de
opinião realizadas pela organização, as avaliações do público sobre o repertório são,
majoritariamente, positivas. É o caso de uma pesquisa realizada em 05 de Outubro
de 2013, na qual foram entrevistadas 81 pessoas. Desse total, 79% dos espectadores
avaliaram o repertório do evento como ótimo; 17% como bom; 3% como regular; e
apenas 1% como ruim10.

Por fim, um outro argumento favorável à nossa hipótese está relacionado com a
própria criação da Vesperata. Ainda que, no discurso oficial, o evento seja anunciado
como uma retomada das antigas serestas e retretas públicas realizadas em fins do
século XIX e nas primeiras décadas do século XX, é interessante notar que a primeira
Vesperata feita remonta à campanha para tornar a cidade de Diamantina Patrimônio
Cultural da Humanidade, título concebido pela UNESCO – muito embora, na ocasião,
o nome “Vesperata” ainda não fosse utilizado. A esse propósito, uma situação que
nos leva a refletir sobre o surgimento da Vesperata é um diálogo presenciado em uma
roda de amigos. Nesse cenário, uma garota afirmava não ser diamantinense, mas que
se mostrava fortemente encantada com a tradição existente no município, e prova
disso era a existência da Vesperata. Incomodado com essa fala, um rapaz questionou
o comentário, afirmando que não entendia a constante relação que as pessoas faziam
entre a Vesperata e a tradição musical diamantinense, pois divulgam o evento como

10 Nessas pesquisas, além dos questionários, vale citar as sugestões feitas para a organização
e a montagem de novos repertórios, entre as quais destacam-se: o pedido de entrega das letras das
músicas aos turistas; a inclusão de cantores no evento e corais acompanhando as bandas, bem
como a valorização de músicos jovens; executar apenas músicas nacionais, tocar mais músicas de
compositores mineiros; incluir músicas folclóricas regionais, tocar músicas populares atuais e melhorar
a qualidade do som e das músicas de seresta; e incluir músicas do Clube da Esquina, de Carlos Gomes
e Tom Jobim, além de marchinhas, valsas e dobrados. Vale citar, ainda, a sugestão de que o evento
deveria providenciar um ator vestido de Juscelino Kubitschek para tirar fotos com o público.
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algo antigo, histórico e tradicional, como se acontecesse há vários anos, mas, ele que
mora na cidade desde a década de 1980, só viu o evento acontecer no final dos anos
1990.

O fato é que que as citações ao passado criam a ilusão do hibridismo cultural,


principalmente porque a produção da mercadoria-Vesperata envolve signos do
passado. A esse respeito, importa lembrar que, segundo Hobsbawn (2013), desde
a década de 1970, o número de festivais não cessou de crescer – na Grã-Bretanha,
por exemplo, em 2003, havia 120 festivais de música por ano; em 2006, o número
saltou para 221 apresentações. Todavia, para além das estatísticas, o curioso é que
os festivais floresceram, particularmente, em cidades pequenas e de porte médio
(como é o caso de Diamantina), porque, na visão do autor, requerem certo espírito
comunal que somente em situações excepcionais existe nas grandes metrópoles. Dito
de outra forma, buscamos na cultura aquilo que o processo histórico liquidou, ou,
melhor, informe e poluído, o tecido urbano-industrial, ao mesmo tempo em que nega
a cidade, reivindica a medida dos antigos núcleos e centros históricos, portadores não
mais de uma historicidade concreta, mas sim fictícia e, o mais das vezes, mitificada
(no sentido atemporal do termo), porquanto descolada do seu contexto social.

Desse modo, em nosso entendimento, acreditamos que a produção das


Vesperatas nos remete à problemática das “tradições inventadas”, tal como discutida
por Hobsbawn (2012). Dito de outra maneira, é possível que a Vesperata não tenha
sido criada apenas para reforçar a candidatura da cidade, ao lhe fornecer mais um
“chancela” histórica (ao lado, por exemplo, do calçamento pé de moleque de suas
ruas, que, segundo sugerem algumas fotos tiradas na década de 1970, não são tão
antigos como se diz), mas, também, para aumentar o fluxo turístico de “consumidores
conspícuos”, em razão da sazonalidade da atividade.

Enfim, ao contrário da ideia de descaracterização cultural ou hibridismo, todos


esses argumentos parecem confirmar que as vesperatas são e se formaram enquanto
um produto turístico, isto é, trata-se de um fenômeno histórica e socialmente datado
e determinado (particularmente, por exemplo, num contexto de disputa da cidade
de Diamantina pelo título de patrimônio da humanidade; e, estruturalmente, num
contexto de avanço do capitalismo sobre todos os domínios da vida, a exemplo da
própria cultura, transformada em uma nova mercadoria). De modo que as referências
ao passado utilizadas no evento são apenas formas sígnicas utilizadas para tornar
legíveis uma mercadoria lançada ao público consumidor.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Apesar da crítica desenvolvida neste trabalho, o fenômeno turístico é demasiado


complexo para ser esgotado em seus múltiplos significados e implicações. Daí que
nossa intenção não é rotular a atividade turística como um fator tão somente de
mercantilização de culturas, muito embora o seu desenvolvimento tem sido associado à
perda de laços temporais e territoriais de tradições, conforme procuramos demonstrar.
Assim, se, por um lado, a relação entre turismo e cultura no contexto contemporâneo
pode ser interpretada e criticada em termos de transformação da tradição em formas
sígnicas para o consumo de mercadorias; por outro, é preciso reconhecer que a
atividade, também, tem contribuído para o fortalecimento e resistência cultural num
processo em que o moderno e o tradicional estão em permanente comunicação e
renovação. A título de ilustração, note-se o caso das relações entre turismo e a cultura
dos índios Pataxó, num processo em que o artesanato tradicional local foi reelaborado
pelo desenvolvimento turístico, uma vez que a fabricação de gamelas para os turistas
manteve preservados os significados ligados ao antigo modo de vida indígena, ao
mesmo tempo em que ela ganhou uma nova significação expressa na sua moderna
configuração comercial (GRUNEWALD, 2003).

Em nosso entender, essas observações justificam a necessidade de se


repensar a relação entre turismo e cultura segundo os mais diversos modelos teóricos,
apontando os limites e as possibilidades de cada modelo teórico empregado. No
caso do materialismo histórico-dialético, devemos enfatizar que tal modelo analítico
nos permite, por meio das contradições entre turismo e cultura, identificar sínteses
possíveis. Afinal, como atesta a máxima segundo a qual o capital somente consegue
contornar as barreiras que lhe são inerentes empregando meios que, novamente
e numa escala mais imponente, fazem erguer diante dele as mesmas barreiras, a
reprodução do existente por meio da generalização da forma-mercadoria acaba,
contraditoriamente, potencializando conteúdos adversos, resistentes e irredutíveis.
Desse modo, se, por um lado, a forma (enquanto lógica) dissimula conteúdos, agindo
seletivamente, na tentativa de se autonomizar em relação a eles; por outro, ela pode
antecipar e potencializar aquilo que é do âmbito dos conteúdos (DAMIANI, 2001).
Dito de outro modo, ao se apropriar/expropriar de tradições e celebrações locais, o
turismo coloca em evidência resíduos de sociabilidade direta, ainda, não totalmente
subsumidos pela lógica do valor, tornando, desse modo, a apropriação (no sentido
agora do uso, e não da troca) uma virtualidade possível. Daí a importância de se pensar
(no caso deste estudo, a apropriação turística da tradição musical diamantinense)
segundo uma perspectiva histórica, material e dialética.
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GERAIS - PAUTAS DA VESPERATA: 2009 E 2013.
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O ESPAÇO TURÍSTICO A PARTIR DA MULTIESCALARIDADE TERRITORIAL:


COMPLEXIDADE E SISTEMATIZAÇÃO CONCEITUAL

Daniel Hauer Queiroz Telles1


Vander Valduga2

Resumo: Há algumas décadas o espaço turístico conforma-se como um conceito


integrador de abordagens científicas. Ao avançar como área de conhecimento autônoma, o
turismo passa a deixar lacunas para a sua abordagem espacial, uma vez que desconsidera sua
concepção ontológica - desde a geografia – em detrimento de sustentações metodológicas,
não raro, insuficientes. Próprio de uma época em que os fluxos se densificam, o turismo
como expressão social de relevância econômica permite à geografia o lançamento de
um olhar múltiplo sobre as relações entre sociedade e espaço. O território em que o
turismo estabelece-se, de modo relevante, está munido de desafios metodológicos para
sua análise. Buscando avançar, a partir de perspectiva multiescalar sobre o turismo, em
dois momentos distintos da discussão – antes e depois da o espaço turístico -, o presente
trabalho de cunho teórico sugere parâmetros integrados à abordagem geográfica do
turismo. Entende-se que, alinhando-se aos desafios do paradigma da complexidade e de
correntes do pensamento geográfico contemporâneo, esta discussão possa redimensionar
as discussões sobre o espaço turístico enquanto categoria de análise da abordagem
geográfica do turismo. Desta forma, apresenta elementos para discussão teórico-
metodológica que possam somar esforços no estabelecimento de superação epistemológica.

Palavras-chave: Espaço turístico. Multiescalaridade. Epistemologia.


Interdisciplinaridade.

Abstract: Touristic space has been proposed as a integrative concept in scientifical analysis for
few decades. To emerge as an autonomous area of k​​ nowledge Tourism create gaps in geographic
perspective of space. Typical of a time when flows grow, tourism as a social expression of economic
relevance to geography allows the release of a multiple look on relations between society and
space. The territory in which tourism is established in a relevant way methodological challenges is
provided for your review. Seeking forward from multiscale perspective on tourism in two distinct
moments of discussion - before and after the deconstruction of space tourism -, this work suggests
a theoretical slant integrated approach to tourism geographical parameters. It is understood
that, by aligning the challenges the paradigm of complexity and streams of contemporary
geographical thought, this thread can resize discussions on space tourism as a category of
analysis of the geographical approach to tourism. Thus presents evidence that theoretical and
methodological discussion that may combine efforts in establishing epistemological overcome.
Key words: Touristic space. Multiscalarity. Complexity. Epistemology. Interdisciplinarity.

1 Bacharel, mestre e doutor em Geografia. Professor Adjunto da Universidade Federal do


Pampa. danieltelles@unipampa.edu.br.
2 Bacharel e mestre em Turismo, doutor em Geografia. Professor Adjunto da Universidade
Federal do Paraná. vandervalduga@gmail.com.
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Introdução

Cada campo do saber tem buscado respostas às suas problemáticas em cada


tempo. No campo científico, os avanços têm ocorrido por rupturas e continuidades,
chamadas por Kuhn (1991) de revoluções científicas, quando os paradigmas são
transformados. Num cenário de diminuição de espaços e adensamento de fluxos,
conceber conhecimentos e interpretações mais abrangentes se torna imperativo. Para
tanto, parte-se do pressuposto de que a natureza de todo o conhecimento consiste
na constituição de uma relação entre o sujeito e o objeto (PIAGET, 1967). O turismo,
enquanto objeto de conhecimento – sem adentrar na definição de campo científico,
ciência e disciplina- avança a passos lentos, configurando-se continuamente como
um campo descritivo, em que metodologias são aplicadas e reaplicadas em diferentes
contextos, a margem do real avanço científico. No entanto, “o conhecimento científico
e a percepção direta não coincidem em absoluto” (VIGOTSKI, 2004, p. 277- 278),
sendo o conhecimento científico, antes de tudo, fruto de abstração.
Para Bachelard (1996, p. 18), diante do mistério do real, a alma não pode,
por decreto, tornar-se ingênua. “É impossível anular, de um golpe só, todos os
conhecimentos habituais. Diante do real, aquilo que cremos saber com clareza ofusca
o que deveríamos saber”. A partir desse “espírito científico” é que este artigo foi
motivado, na interpretação de que esse espírito é essencialmente uma retificação do
saber, um alargamento dos quadros do conhecimento e julga seu passado histórico a
partir da consciência de suas faltas históricas (BACHELARD, 1995).
Parece ser, portanto, uma problemática inerente a abordagem espacial do
turismo a constante investida descritiva de fenômenos, simplificando a complexidade
real do fenômeno sob discursos técnicos cômodos orquestrados por organismos oficiais
e sem a devida crítica acadêmica. Dados esses pressupostos iniciais, reconhece-se
como desafio ao presente trabalho uma reinterpretação da abordagem espacial do
turismo que avance em relação ao paradigma das abordagens tradicionais do espaço
turístico que concorrem à interpretação a partir do fluxo origem-ligação-destino. Essas
interpretações clássicas têm conduzido à interpretação ferramental-funcional do
turismo enquanto setor de serviços da economia, impossibilitando que seus estudos
fossem compreendidos a partir de outras bases (VALDUGA, 2012; TELLES, 2013).
Do ponto de vista de geografia, o espaço turístico é tratado de maneira sectária
e comumente sem uma interpretação ampliada do fenômeno turístico. De modo
semelhante à pouca apreciação por parte das ciências sociais, o turismo recebe
da geografia certa displicência, uma vez que esta se redime em dar sequência a
discussões profícuas já iniciadas, e acabar acomodando-se em apropriações
intelectuais como uma especialidade de alguns interessados. Isto se dá por motivos
que variam desde a impopularidade embutida em um suposto elitismo com relação
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ao assunto, até a dificuldade da própria geografia em estabelecer métodos frente


à condição pós-moderna e complexa do mundo do presente. Na primeira variável,
observa-se prática confortável, uma vez que pode se adequar facilmente à “sedução
do discurso fácil e do consenso imediato”, explicada e acusada por P. C. C. Gomes
(2009), como a “reprodução da banalidade” na geografia (p.27-29). Na segunda,
encontra-se a própria dificuldade desta disciplina em superar suas matrizes diversas
que acabam por obstruir a necessária interação com outras áreas.
A atual relevância do fenômeno turístico nas mudanças territoriais em todo o
mundo é um fato a ser destacado, sem sofrer diminuições por quaisquer que sejam as
razões. Tema em evidência e que tende a se estabelecer em diferentes localidades.
Fato que assola grande desafio ao conhecimento, antes de tudo, sob o ponto de vista
teórico-metodológico, do que catalográfico. Trata-se, neste sentido, de constituir um
raciocínio geográfico (LACOSTE, 2010) que conste em “distinguir e articular diferentes
níveis de análise espacial, que correspondem a levar em consideração conjuntos
espaciais de grande ou pequena dimensão [esta] dimensão metódica dos diferentes
níveis de análise” (p.231) atribui ao desafio em revigorar as abordagens geográficas
do turismo.
A elaboração teórica proposta tem como parâmetros aspectos inerentes ao
espaço geográfico: a multidimensionalidade que abrange o cultural, o político e
o econômico em coexistência, sendo a totalidade do território como expressão
não setorial de uma realidade em transformação, que conduz a discutir, por fim, a
turistificação. E a multiescalaridade enquanto concepção de abertura analítica para a
análise espacial de um fenômeno ou objeto, e recurso epistemológico de apreensão
da realidade.
Pela escala geográfica, em uma definição apenas introdutória, entende-se a
“pertinência do fenômeno observado” (CASTRO, 2009) e do “real como representação”
(Idem. 2002), abrindo a perspectiva de estudos sobre o espaço para uma perspectiva
existencial (SILVEIRA, 2006), ou seja, que verse, não apenas para os fatores de
medição, mas de conteúdo do espaço (HAESBAERT, 2004).
A perspectiva da complexidade a partir do princípio dialógico de
complementaridade, antagonismo e interdependência, somada à perspectiva
analítica da multiescalaridade/multidimensionalidade é apresentada como proposição
de um itinerário metodológico na abordagem espacial do turismo. Nesse contexto,
uma perspectiva territorial do turismo foi proposta considerando a simultaneidade de
ações, o território em relação, de maneira que as fronteiras sejam tomadas apenas
como ponto de partida para a compreensão. Essa perspectiva visa compreender e
ampliar o debate no que se refere ao espaço turístico e a sua noção mais empírica: a
turistificação.
O presente trabalho possui três etapas fundamentais: (i) a utilização das
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noções de multidimensionalidade territorial e multiescalaridade como abertura de


abordagem sobre o turismo no espaço; (ii) a sistematização e desconstrução do
espaço turístico, desde abordagens hipotéticas representativas sobre o turismo no
espaço; (ii) a multiescalaridade como abordagem e reconstrução da noção de espaço
turístico, apontando para um caminho epistemológico a servir de debate comum
na revisitação do espaço turístico. Como resultado, traz-se proposta preliminar de
reconstrução da noção de espaço turístico, no intuito de integrar as vertentes gerais
de base conceitual verificadas na sistematização do objeto, quais sejam: o espaço
geográfico do turismo e o espaço aplicado do turismo. Estas duas perspectivas não
se excluem, tampouco estão em total desavença, mas respondem por uma questão
de embasamento ontológico da própria noção de espaço turístico.
A multiescalaridade é tida como recurso analítico complexo, no intuito de revelar
a complementaridade, o antagonismo e a interdependência de perspectivas sobre
o turismo a partir do espaço. Esse recurso possui duas fases de incorporação na
discussão: a primeira como caminho metodológico que possibilita a desconstrução do
espaço turístico, ao pluralizar as perspectivas de abordagem utilizadas pelo mesmo; a
segunda como caminho epistemológico na qual a própria síntese do espaço turístico,
depois de sistematizada, seja considerada etapa axiomática no esforço de lançar
inteligibilidade não reducionista de base ao turismo.
Após constatar a necessidade de se repensar o espaço turístico, como resultado
da acomodação e divergências de uso que este conceito recebe, a multiescalaridade
pode ser entendida como opção metodológica e epistemológica relevante para
avanços em termos teóricos de abordagens interdisciplinares entre Geografia e
Turismo. Assumindo a incipiência desta proposição, contudo, é necessário abrir o tema
à discussão e testes de aplicação para que fortaleça sua validade ou não, suscitando,
por fim, o porquê dessa constatação. O presente trabalho apresenta como discussão
inicial a problemática do espaço turístico na abordagem geográfica do turismo; num
segundo momento apresenta uma abordagem multidimensional do território no turismo
considerando os preceitos da complexidade e dialógica; no terceiro momento se
propõe a desconstruir, analisar e reconstruir uma sistematização do espaço turístico.

Espaço turístico: a pertinência do conceito para a abordagem geográfica do


turismo

O turismo é um dentre um rol de outros usos na configuração territorial. Por


esta razão, propõe-se entendê-lo não somente como uma camada técnica sobreposta
ao espaço, mas como abertura interpretativa de uma realidade. Atua como uma lente
à procura de conteúdos e que resulte em uma imagem difundida nas diferentes
territorialidades coexistentes, o que não deixa de ser um elemento totalizante na
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identificação espacial. Nesta perspectiva, a sistematização do turismo para o território


se mune de menor pragmatismo como comumente estabelece-se em leituras, por
mais abrangentes que sejam.
Servindo, assim, como um caminho metodológico à procura de conteúdos e que
resulte em uma análise fundamentada de uma realidade espacial complexa. Lidar com
este fenômeno é um desafio científico, não somente pela recente institucionalização
acadêmica da área, mas pela tendência à apropriação de discursos legitimadores
de uma realidade imposta, ao invés de um modo de desvendar a realidade. Por
este fenômeno, em concepções não lineares se pode promover ampliação de novas
relações e perspectivas para este fenômeno.
O tipo, ou tipos predominantes de turismo que se verifica em cada local é
questão subjacente à sugestão anteriormente referida, sendo que os usos turísticos
adquirem particularidades em cada lugar e podem atender a interesses de acordo com
um desencadeamento de ações. É o que se entende por turistificação. Há diferentes
tipos de turistificação e, é sobre isto que a integração das categorias espaço, tempo
e sociedade podem intervir no conhecimento espacial geográfico, de modo que, hoje,
lidar com este fenômeno – o turismo - é um desafio geográfico em aberto não apenas
do ponto de vista epistemológico, mas também ontológico, importância crescente
como indicador de reconfigurações locais e regionais no atual estágio civilizatório do
mundo.
O arcabouço tipológico do turismo adquire particularidades em cada lugar
por conta da integração/desintegração ao processo histórico. É a turistificação como
totalidade, e não como reducionismo analítico, tal como oferecem leituras sobre
produção, aplicação ou promoção do espaço. Não foge a este panorama complexo a
capacidade de tornar inteligível o próprio turismo, uma vez que na noção de território
estão implícitas as relações de poder socialmente instituídas (RAFFESTIN, 1993) que
atendem a interesses de acordo com um desencadeamento de ações multidimensionais,
ou seja, econômicas, políticas e culturais em interdependência (CORRÊA, 2010). Há,
tal qual diferentes tipos3 de espaços, diferentes tipos de turistificação e, é sobre isso
que o território, enquanto totalidade pronta e em construção (SANTOS, 2008), deve
estar apto a embasar uma abordagem geográfica do turismo.
Expostas os variáveis gerais em questão, a preocupação em discutir a relação
interdisciplinar entre Geografia e Turismo, dada a relativa consagração epistemológica
da mesma, evidencia a importância de uma categoria de análise não menos consagrada
em níveis didáticos e de pesquisa. Tal consagração, por sua vez, não se reconhece
sem constatar a diferente natureza ontológica dessas duas áreas do conhecimento,

3 Apesar de reconhecer na tipologia weberiana um exercício analítico passível de


reducionismos, entende-se a tipificação de realidades como uma delimitação introdutória às
abordagens específicas, não excluindo-se a existência de outros caminhos metodológicos sobre os
fenômenos no espaço geográfico.
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o que em termos contextuais possui grande diferença conceptiva. No entanto, a partir


do desafio contemporâneo de superação de paradigmas, não compete à ciência firmar
ranços, mas sim suprir lacunas e vias interpretativas para aberturas da sociedade
do presente. Neste intuito, a pertinência do espaço turístico como categoria central
na formação de uma base notadamente consagrada para a condução de diferentes
metodologias de pesquisa é tida como condição para o tecer da presente discussão.
O espaço turístico constitui-se na categoria de base para as abordagens que se
apoiam em metodologias embasadas em outros conceitos de grande relevância nas
pesquisas em turismo, tais como: paisagem, lugar, região, planejamento territorial,
governança, entre outros. Estas, por sua vez, abrem-se para abordagens ainda mais
específicas, não lhe tirando o mérito científico pela possível superespecialização
conceitual. Independentemente do nível de abstração tomado como base para a
pesquisa, a negligência sobre a natureza dos conceitos e suas proposições mais
consagradas, mesmo que variem para autores e escolas diferentes, é uma atitude
pouco profícua na busca por teorizações ou mesmo análises aprofundadas.
A importância do espaço turístico é tamanha que oferece uma condição
preliminar para as pesquisas interdisciplinares em Geografia e Turismo, oferecendo
uma plataforma cuja base está no espaço geográfico e os caminhos no que seria o
objeto de estudos do Turismo, seja ele o sujeito turístico, o produto, o tempo turístico, o
destino, etc. Não sendo esta a preocupação da discussão, afirma-se pela necessidade
de se repensar o espaço turístico como categoria específica de análise de abordagens
geográficas do turismo, ou abordagens turísticas do espaço.

Abordagem Multidimensional do Território

O tecido epistemológico da construção em curso leva em consideração


os princípios da complexidade e da dialógica como caminho metodológico, na
possibilidade da interdependência, do antagonismo e da complementaridade entre
os elementos de análise e os fenômenos sociais (MORIN, 2003, 2007, 2008). A
abordagem complexa não é, a priori, excludente, contudo nasce como resposta à
visão não complexa das ciências humanas e das ciências sociais, que conceberam
que há uma realidade econômica por um lado, uma realidade psicológica, de outro,
uma realidade demográfica, de outro e assim por diante (MORIN, 1990).
O principio dialógico pressupõe a reintrodução do conhecimento em todo o
conhecimento e permite a compreensão do movimento, das inter-retroações do
sistema, a união de opostos ou a ordem/desordem/interações/organização. Não se
trata de opor um holismo global e vazio ao reducionismo mutilante. Trata-se de ligar as
partes à totalidade, pois o paradigma da complexidade permite reunir e distinguir. É o
pensamento apto a reunir, contextualizar, globalizar, mas ao mesmo tempo reconhecer
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o singular, o individual, o concreto (MORIN e LE MOIGNE, 2000).


Nesse sentido, a proposta teórica tem como parâmetro aspectos inerentes
ao espaço geográfico: multiescalaridade enquanto simultaneidade de ações e a
multidimensionalidade que abrange o cultural, o político e o econômico em coexistência
e enquanto totalidade do território como expressão não setorial de uma realidade em
transformação.
A partir do exposto, a noção de território pode ser apreendida não mais por
si mesmo ou por seus limites e fronteiras. A noção de fronteira, domínio e poder
são válidos enquanto ponto de partida na interpretação territorial, no entanto, as
especificidades do território resultam muito mais do contato do que do isolamento
espacial, isto é, ele também deve ser pensado como produto de inter-relações, de forma
que não há um ponto de partida original a ser recuperado ou uma posição anterior à
relação (MASSEY, 2008). Essa perspectiva de concepção integrada do território leva
em consideração a ideia de totalidade e abarca a vertente política, simbólico-cultural
e econômica. “Muito mais do que uma coisa ou objeto, o território é um ato, uma ação,
uma rel-ação, um movimento (de territorialização e desterritorialização), um ritmo, um
movimento que se repete e sobre o qual se exerce um controle” (HAESBAERT, 2004,
p. 127)4.
A vertente territorial é particularmente complexa e apresenta oportunidades do
ponto de vista da abordagem espacial do turismo, uma vez que espaços são produtos
de simultaneidades e coexistências (MASSEY, 2008, VALDUGA, 2011), e o turismo
apresenta-se como evento, fluxo, variável e imprevisível, impactando na territorialidade,
assumida como um conjunto de relações oriundas do sistema tridimensional:
sociedade-espaço-tempo, em vias de atingir a maior autonomia possível, compatível
com os recursos do sistema (RAFFESTIN, 1980).
Entender o turismo enquanto possibilidade é não torná-lo panaceia, mas sim,
ocasião de rearranjar um contexto socioespacial, afinal “o turismo só será justo quando
a sociedade for justa” (KANITZ et al., 2009, p.10). Há divergências sobre a pertinência
e o posicionamento do turismo dentro das abordagens geográficas. É fato que este
fenômeno tem recebido certo destaque nos estudos sobre o espaço, em que pese
“a dificuldade de se firmar e enquadrar-se a uma perspectiva única de investigação
científica, fato que tradicionalmente tem causado fortes embates entre os geógrafos”
(SANTANA; AZEVEDO, 2005, s/p).
As abordagens do turismo incorrem, frequentemente, na leitura de seu modus
operandi tomado como verdade, fato que, do ponto de vista da abordagem espacial,
pode ser considerada como sectária, pois o homem, ancorado no coração de um território

4 Atrelada à noção territorial emerge o problema das identidades e da autenticidade, campo


em aberto na interpretação social do turismo e comumente levado a interpretações de reificação de
espaços e a certa nostalgia de um espaço vivido. A esse respeito sugere-se o trabalho de Brubaker
(2001) e Yázigi (2009).
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apropriado na sua complexidade, não é necessariamente consumidor (ROUX, 2004).


O território se materializa enquanto probabilidade, isto é, de manutenção e exclusão
dos vetores que o definem, entre eles a existência do turismo como vetor territorial.
Como produto da sociedade de consumo onde “segmentar nossas existências em
objetos que são necessários adquirir imperativamente, como causas da felicidade a
vir” (ROUX, 2004, p. 54), a abordagem espacial do turismo não pode negligenciar os
diferentes projetos em curso, como o dos seus habitantes, quando da abordagem do
planejamento turístico.
Algumas perspectivas críticas do turismo, por outro lado, consideram este
fenômeno de modo apenas condenável, o que para a busca do entendimento sobre
a realidade, que visa novas relações na organização do território, é insuficiente. Há
de se ter a noção dos verdadeiros vetores da configuração territorial, dos fatos do
presente, não desconsiderando o movimento enquanto processo incessante. Sob
este entendimento estão as possibilidades, pelo que se torna imperioso qualificar o
território pelas lentes de interpretação do espaço turístico enquanto uma expressão
complexa do espaço geográfico, que é total.
É necessário, todavia, considerar que não é possível analisar o turismo desde
uma perspectiva unicamente espacial. Apesar de esta perspectiva constituir-se, talvez,
em uma das principais perspectivas sobre o fenômeno, existem abordagens que fogem
do âmbito geográfico para compreensão do turismo. Neste interim, a especificação
do objeto geográfico em uma derivação para aproximação interdisciplinar àquelas
disciplinas que também oferecem perspectivas analíticas importantes ao turismo se
torna necessária. Por isso o espaço turístico tem sido um conceito discutido e proposto
dentro de diversas abordagens que unem as áreas em tela (geografia e turismo).
O turismo enquanto fenômeno permite uma sistematização da realidade
expressa no espaço geográfico. O que não quer dizer que se torne selecionado de
uma dada configuração territorial para a descrição das espacialidades dos elementos
considerados turísticos. O recorte de um território é fundamental para que seja
considerada a sua historicidade que interfere na realidade (TELLES, 2012).
A possibilidade de se atribuir ao território uma trama de relações entre homens,
firmas e instituições implica em explicar a perspectiva de abordagem que se pretende
realizar. Sendo uma abordagem sobre o espaço turístico, tem-se a possibilidade de
atribuir-lhe conceitos. Desta forma, as abordagens que penderão entre a já sabida
dimensão cultural, política e econômica, evidenciarão seus próprios contornos; coloca-
se, neste ponto de vista, o turismo como um subsistema territorializado (TELLES,
2012). Evidentemente, estes e os elementos em relação no território estarão fortemente
imbuídos de relações de força, as quais a história se encarrega de tornar herança.
Em síntese e como um caminho metodológico preliminar, propõe-se uma
sistematização de compreensões-chave no que se refere à abordagem territorial do
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turismo. O quadro 01 sintetiza algumas proposições debatidas previamente.

Quadro 01: Síntese metodológica preliminar


Espaço Turístico Complexidade da abordagem
(território)

Noção dialógica dos vetores territoriais e


convergência das noções de espaço e tempo.
Multiescalaridade
Sistemas de ideias e ações, fluxos temporais e
diferentes temporalidades e espacialidades.

Interdependência entre os fenômenos espaciais.


Abordagem não sectária do espaço turístico.
Multidimensionalidade
Totalidade dialógica. Possibilidade de análise integral
da relação espaço/temporal no turismo.

Fonte: organizado pelo autores (2014)

Desconstrução e análise sobre o espaço turístico

A elaboração teórica das diferentes abordagens geográficas sobre o turismo


apresenta um leque de variações considerável, ou seja, não há uma proposta
metodológica única para as pesquisas que tenham como preocupação o turismo
em seu contexto espacial. A superação dos reducionismos comuns percebidos na
confluência interdisciplinar em tela repousa sobre o espaço turístico como conceito
conjugado de fundamental importância.
Isso não se constitui em algo excepcional ao fenômeno turístico, uma vez que a
geografia perfaz seu caminho sob outras áreas e correntes, com maior ou menor nível
de convergência . Isto varia e depende da própria ontologia e evolução paradigmática
próprias de cada área do conhecimento. Além da discutida pertinência de classificação
da Geografia em física e humana, como forma de enfatizar as especializações
metodológicas que ocorrem na práxis disciplinar, é, sobretudo, na utilização de uma
ou mais categorias de análise geográficas, que torna-se visível tal diversidade de
abordagens geográficas dentro da disciplina. Fato este que sugere a colocação de
diferentes geografias como atual panorama desta disciplina.
Em meio a essa problematização interdisciplinar entre turismo e geografia, nada
simples e meritória de pesquisas de estado da arte cada vez mais aprofundadas, a
proliferação de estudos acompanha a quantificação dos títulos na carreira acadêmica.
Estes, por sua vez, não raro, apoiam-se em convenientes caminhos metodológicos de
frágil base conceitual. Diante deste quadro, o espaço turístico estabelece-se menos
como constructo epistemológico do que metáfora facilitadora de aplicação de modelos,
mas não contribuindo com geração de conhecimento para a área intersecta (ao qual
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tem-se denominado abordagem geográfica do turismo, em sentido amplo).


Ocorre que o conceito de espaço turístico adquire função aplicada para a
compreensão do fenômeno turístico, o que implica em um distanciamento, quando
não, desamparo acadêmico no seu entendimento, em detrimento de sua priorização
operacional. A conveniência pela utilização de propostas em replicação de análises
empíricas de diferentes contextos históricos e escalares reflete o descaminho
científico que as abordagens geográficas do turismo têm passado. O turismo, tanto
quanto outras áreas contemporâneas, não sai desse embate sem perdas, justificando
a necessidade de novos paradigmas e a superação de metanarrativas. Alinha-se a
um desafio pós-moderno pelo qual as ciências devem incorrer novas abordagens
(JAMESON, 2003).
O turismo apresenta seus fundamentos geográficos, e estes não se restringem
apenas a apontar potencialidades, identificar fluxos e quantificar a oferta das localidades
(TELES, 2009). Debater acerca de parâmetros nos tratamentos conceituais ligados ao
espaço turístico – paisagem, região, lugar - incorre em considerar “que há tratamentos
setoriais e tratamentos integrados, que por vezes se confundem na utilização desses
conceitos” (TELLES, 2012, p.55). Diante disto, é necessário avançar na sistematização
da matéria. Para este autor, isto pode ser atingido, “primeiro, na consideração de que o
espaço turístico contemple um arcabouço teórico-metodológico do espaço geográfico.
Segundo, no reconhecimento da importância de saberes oriundos de outras disciplinas
na complementaridade do que, por fim, compõe a turistificação dos territórios” (p.55).
A turistificação, por sua vez requer uma abordagem multiescalar que dê conta de
considerar aspectos de diferentes origens, periodicidades, dimensões e magnitudes
em seu estabelecimento.
Nota-se um viés em surgimento que não se encerra apenas na constatação
da complexidade, mas a incorpora enquanto crise paradigmática. Bastaria não
desconsiderar-se categorias de ampla abstração, tais como espaço, tempo e
sociedade, na abordagem do espaço turístico.

Os diferentes espaços turísticos: proposta preliminar de sistematização

Considerando-se os diferentes tratamentos existentes sobre o espaço turístico,


foi necessário sistematizar as perspectivas, ainda que de modo não absoluto, pois
entende-se existirem diferentes concepções espaciais na abordagem geográfica do
turismo (Figura 1). Ressalta-se que a proposta a seguir pretende suscitar debates
na área e, sobretudo, pormenorizar reducionismos nas propostas analíticas,
especialmente nas pesquisas dentro da geografia que se fazem valer do espaço como
ponto de partida de suas discussões, e não como categoria de análise nuclear de
estudos geográficos.
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O tratamento dado ao espaço turístico separa-se em duas concepções gerais


que, por sua vez, agrupam concepções mais próximas da praticidade empírica em
pesquisas sobre o turismo desde um viés geográfico. Na primeira classe o espaço é
avaliado desde seu caráter inerentemente social e varia de acordo com correntes do
pensamento geográfico que atendam à sua característica eminentemente social. Na
segunda classe estão perspectivas que apenas tangenciam o espaço, eximindo-se de
seu teor conceitual, e das superações paradigmáticas da própria geografia.
Pode-se considerar a presente abordagem como um novo desafio epistemológico
à abordagem espacial do turismo e um constructo à abordagem geográfica do turismo.
Com todas as limitações que podem ser assumidas nesse contexto, pode-se inferir
que a presente abordagem remete a uma nova fronteira na interseção disciplinar do
turismo e da geografia, requerendo avanços ulteriores.

Figura 1 - Diferentes concepções do espaço turístico - desconstrução

Fonte: elaborado pelos autores

Dentre as diferentes utilizações metodológicas sobre o espaço turístico, num


primeiro recorte, estabelecem-se duas vias de análise: a primeira em que o mesmo
constitui-se em subsistema autônomo, desde que suportado pelo método geográfico
de espaço social e, finalmente, em que o espaço é um mero fator locacional, já não
suportado pelo entendimento contemporâneo de espaço pela geografia. Espaço
geográfico do turismo e espaço aplicado do turismo, portanto, constituem-se na
primeira sistematização necessária para a desconstrução do espaço turístico, visando
de modo posterior, sua reconstrução como contribuição epistemológica interdisciplinar.

Multiescalaridade na abordagem territorial do turismo: proposição metodológica


preliminar
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Avançar no entendimento sobre o espaço turístico numa perspectiva não estática/


inerte requer enfrentamento da complexidade inerente ao processo de turistificação
das sociedades em diferentes escalas e dimensões. Não apenas acomodar-se diante
da constatação de que vive-se em uma sociedade complexa, próprio de uma época
em que os fluxos se densificam. O turismo como expressão social de relevância
econômica permite à geografia o lançamento de um olhar múltiplo sobre as relações
entre sociedade e espaço. Tem-se como meta subsidiária a este fim, mecanismos
analíticos abstratos, ciente da dificuldade de realizar discussões neste âmbito da
produção do conhecimento, desde que reconhecida a insuficiência paradigmática a
que está-se diante. Para tanto, apoia-se na assertiva de que a natureza multiescalar
dos fenômenos decorre da complexidade dos mesmos e da natureza multidimensional
do território.
Inicialmente, é importante estabelecer a superação axiomática conferida
à geografia no entendimento do conceito de escala. Este debate não se faz sem
problemas, uma vez que é um debate, ainda pouco desenvolvido na geografia
(CASTRO, 1992). Considerando a mediação escalar entre uma abordagem e o
seu objeto, presume-se que um caminho não negligenciável deva ser conduzido
em pesquisas contextualizadas espacialmente sobre o turismo, ou qualquer outro
fenômeno social no espaço. Neste intuito, a multiescalaridade pretende ser uma
alternativa supostamente irredutível para tal condução argumentativa. Ainda que isto
incorra em uma forte semelhança com a constatação complexa de fenômenos na
ciência contemporânea, está-se diante de um impulso epistemológico entre diferentes
áreas do conhecimento pela sua superação axiomática. Dito isto, propõe-se a
multiescalaridade na abordagem territorial do turismo como um passo essencial para
o avanço de uma categoria demasiadamente importante e prévia a tantas abordagens
subsequentes em torno de outras categorias geográficas – paisagem, lugar, região - e
suas respectivas importâncias nos estudos do turismo. Passo, portanto, que impele
um retrocesso e, a partir disto pretende avançar na superação de reducionismos nos
estudos geográficos sobre o turismo.
Se constatada a preocupação de que “a própria escala, enquanto fenômeno
consubstanciada de toda análise, merece ser estudada de modo particular” por mediar
uma ação (RACINE; RAFFESTIN; RUFFY, 1983, p. 124), a relação entre o fenômeno
observado e sua abordagem requer consideração suficientemente clara sobre esta
mediação metodológica. Eis que uma abordagem sobre algo, em se tratando do
território, possui uma mediação escalar múltipla.
A escala se constitui numa preocupação metodológica fundamental às análises
espaciais. Através de seus diferentes, porém convergentes, enfoques, (a escala)
“não existe como medida, porque ela não fragmenta, mas, pelo contrário, integra”
(CASTRO, 1993, p. 59), de modo que a escala geográfica é considerada a pertinência
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de um fenômeno observado (Idem). Por essa via de embasamento conceitual, o objeto


ou fenômeno em questão visa receber um tratamento que “dê conta da multiplicidade
e da diversidade de situações e de processos” (SANTOS, 2008, p.64). Nesse sentido,
regional e local se interpenetram como abstrações da organização do território, mas
as escalas de análise adquirem vias próprias, dando especificidade a essas duas
expressões gerais de abordagem.
Lidar com a coexistência e com a multiplicidade de escalas é concordar que
são as diversas perspectivas que permitem a análise de um fenômeno espacial. Nas
palavras de Machado (1995):

Se a visão microscópica – que nos permite entrever os detalhes da organização


local através dos tempos – é essencial para captar a complexidade da
vida social e territorial, essa organização só pode ser entendida quando
complementada por uma visão macroscópica, isto é, pelo estudo das relações
do lugar com o espaço geográfico bem mais amplo onde está inserido
(MACHADO, 1995, s/p).

Para Corrêa (2010), “a operação escalar não introduz uma visão deformada,
geradora de dicotomias, mas ao contrário, ressalta as ricas possibilidades de se analisar
o mundo real [...] em níveis conceituais complementares” (p.136). A convergência
entre escalas de abordagem caracteriza a apreensão do objeto investigado. São as
conexões que se fazem possíveis identificar entre as escalas, sejam conceituais ou
espaciais, e que “contribuem para dar unidade à análise geográfica” (Ibid., p.136).
Reforça-se às preocupações anteriores “a perspectiva das escalas dos fenômenos
[que] permite organizar os campos da geografia, ampliando seu escopo” (SANTOS et
al. 2000, p.40).

Considerações finais

O que difere o espaço geográfico do turismo do espaço aplicado do turismo


é o posicionamento conceptivo. Essa diferença, entretanto, não significa separação.
Ou seja, uma abordagem que incorpore ambas as concepções, independente de sua
priorização e contexto, ou de sua base conceitual e seu encaminhamento metodológico
posterior, tende a superar insuficiências que se expressam, ora pelo lado da abstração,
ora do pragmatismo.
As categorias ligadas ao espaço que o desconsideram enquanto instância social
correm o risco de tornar a compreensão do turismo seletiva. Esse espaço sectário
opta por que elementos considerar em suas análises, fazendo uso de categorias
geográficas como muletas, pois reproduzem a seletividade da análise. A história se
faz ausente em tais abordagens, num tratamento aplicado de espaço que não se
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sustenta dentro da geografia desde sua renovação epistêmica.


O espaço turístico constitui-se num subsistema do espaço geográfico (TELLES,
2012; 2013). Sem esta compreensão, corre o risco de esbarrar nas limitações e
proposições de um espaço sectário, também cunhado como “espaço especial,
particular, adjetivado” (SANTOS, 1999, p.17). Há, muitas vezes, a equivocada
compreensão do espaço turístico sem a consideração de que a realidade vivida por
turistas seja sazonal, pois não se é turista. Ainda tendo este esclarecimento resolvido,
se estar turista apenas retrata um tipo social que não está imune em envolver-se
com intempéries sociais ou naturais ao longo de sua viagem e estada, ainda que
involuntariamente, é, no mínimo, estranho considerar que a experiência do turista não
se ocupe de acasos, dentre os quais se veem os reveses de salubridade, criminalidade,
abusos, entre outros.
Sobre o espaço aplicado ao turismo. Ele pode ter uma finalidade acadêmica:
planejamento. O planejamento permite que o espaço turístico não seja visto sob
uma ótica epistemológica geográfica e sim como um ente direcionado e sectário
da realidade (configuração territorial), tenha seu posicionamento conceitual de
importância acadêmica. O que não torna o espaço aplicado do turismo um objeto
exclusivo do Turismo. Ainda assim, este conceito vê-se dependente de apreensões
interdisciplinares, seja pela cartografia, arquitetura, urbanismo, desenvolvimento
regional, ecologia, educação, etc.
Estaria uma teoria crítica, no porvir do turismo, nascendo da união das
perspectivas do espaço geográfico e do espaço aplicado pela via da multiescalaridade?

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Grupo de Trabalho 02
Turismo e Meio Ambiente

Coordenadores: Luiz Afonso Vaz De Figueiredo (FSA); Sidnei Raimundo (USP)

O ecoturismo é uma atividade relativamente nova, sendo a sua normatização


também recente, tanto no Brasil quanto no exterior. Muitos ambientalistas o consideram
como uma atividade de baixo impacto, mas se for desenvolvido sem levar em conta
seus princípios básicos, uma série de danos ambientais poderão ser desencadeados.
Esse eixo pretende discutir sobre as políticas e práticas relacionadas o turismo na
natureza e sobre a dinamização da economia de regiões que apresentem recursos
naturais com elevado potencial procurando, paralelamente, promover a conservação
do meio ambiente e a inserção das comunidades locais.
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XIII Encontro Nacional Turismo de Base Local
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PERCEPÇÃO AMBIENTAL E NARRATIVAS VISUAIS DA TRANSFORMAÇÃO DA


PAISAGEM E SUAS RELAÇÕES COM O TURISMO NA ILHA COMPRIDA (SP)

Izaias Carmacio Jr.


Diogo Fernando Rodrigues1
Luiz Afonso V. Figueiredo

RESUMO: O município de Ilha Comprida está localizado na região do baixo Vale do


Ribeira e Litoral Sul do estado de São Paulo, sendo emancipado politicamente em 1992.
Possui vegetação nativa de Mata Atlântica, associada com manguezais, restingas e
dunas, além de extensa faixa litorânea, incluído em 1987 em uma Área de Proteção
Ambiental (APA). A localidade está sujeita às atividades de turismo e segunda residência,
sofrendo problemas socioambientais com o processo de urbanização e construção da
ponte de interligação com o continente. O presente artigo tem por objetivo analisar a
percepção ambiental e os processos de transformação da paisagem, vivenciados por
moradores locais, tendo como estudo de caso o trecho entre o Bairro Boqueirão e a
Ponta da Praia na parte norte de Ilha Comprida. Os dados foram coletados por meio
de depoimentos orais com 10 moradores que tinham mais de 10 anos de residência
ou contato com a Ilha, identificando as relações homem-natureza e modificações do
meio físico. Para a composição das narrativas visuais foram escaneadas fotografias
antigas do município obtidas com os entrevistados e realizado um levantamento
fotogeográfico nos anos de 2012-2013, além de imagens coletadas em meio eletrônico
ou disponibilizadas pela Prefeitura Municipal da Ilha Comprida. Observou-se que os
moradores perceberam forte processo de transformação da paisagem, com destaque
para a influência após a construção da ponte em 2001. As imagens antigas quando
comparadas com as fotos recentes demonstraram as modificações da paisagem
principalmente no que se refere à construção civil, impermeabilização do solo, presença
de resíduos sólidos, avanço do mar destruindo habitações e introdução de espécies
vegetais exóticas. Ressalta-se a necessidade de se provocar discussões e subsidiar
ações de educação ambiental e ecoturismo, visando a melhoria da qualidade de vida
nessa região do complexo estuarino-lagunar paulista.

PALAVRAS-CHAVE: Percepção Ambiental. Narrativas Visuais. Transformação da


Paisagem. Ilha Comprida (SP).

ABSTRACT: The municipality of Ilha Comprida is located at the region of Vale do


Ribeira and South coast of the state of São Paulo, it has been politically emancipated
in 1992. There is Atlantic Forest vegetation related to mangroves, sandbank and
dunes, besides the stretch of coast, incluted in 1987 in a Environmental Protected
Area (EPA). The location is associated with touristic activities and second residences,

1 Biólogos (Centro Universitário Fundação Santo André). Professores da rede pública e privada do
estado de São Paulo. E-mail: izaias-carmacio@hotmail.com.
2 Professor Doutor da área de Educação e Ciências Ambientais do Centro Universitário Fundação
Santo André (FAFIL/CUFSA). E-mail: lafonso.figueiredo@gmail.com.
the region suffers environmental problems related to the process of urbanization and
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the construction of the bridge with the continent. The goal of this article is to analyze
the environmental perception and the process of landscape transformation, felt by the
residents located on the stretch between Boqueirão and Ponta da Praia neighborhood
on the North part of Ilha Comprida. The datas were collected by oral testimonies with
10 residents who lived over 10 years or are associated with island, it was possible to
identify the relationship human-nature and the modifications of the physical environment.
It was possible to make the composition of the visual narratives thanks to antique
photographs obtained with the residents, and accomplished a photogeographic survey
produced between 2012 and 2013, besides the images collected from the city hall of
Ilha Comprida. The results demonstrated that the residents noticed a strong process
of landscape transformation, they highlighted a great influence after the building of the
bridge in 2001. The antique images compared to the current photographs demonstrated
that the mainly modifications on the landscape was related to the asphalt, increasing
numbers of residences, soil sealing, huge presence of solid waste, advance of sea
level and destroyed houses, introduction of exotic species and destruction of local
vegetation along the coastline. The study emphasized the necessity to induce and
subsidize actions of environmental education and ecotourism, in order to improve the
quality of life on the region of the lagoon-estuarine complex in São Paulo.

KEYWORDS: Environmental perception. Visual narratives. Landscape transformation.


Ilha Comprida (SP).

1. INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVA

O município de Ilha Comprida está localizado na região do baixo Vale do Ribeira


e Litoral Sul do estado de São Paulo, sendo emancipado politicamente em 1992.
Possui vegetação nativa de Mata Atlântica, associada com manguezais, restingas e
dunas, além de extensa faixa litorânea, incluído em 1987 em uma Área de Proteção
Ambiental (APA), caracterizada regionalmente no Complexo Estuarino-Lagunar de
Iguape-Cananéia-Ilha Comprida. (COSTA-PINTO; SORRENTINO, 2002; BEU, 2008).

Com a conclusão da ponte Laércio Ribeiro em 2001, o acesso à Ilha Comprida


foi facilitado, de um lado aumentando as atividades econômicas associadas ao turismo,
por outro lado, esse processo vem ocasionando transformações na paisagem em um
período de menos de 20 anos.

O modo tradicional de turismo em São Paulo se baseia no modelo sol e praia,


conseqüentemente, a Baixada Santista tornou-se um local de muita procura durante o
período de férias por ser de mais fácil acesso da metrópole paulista, no entanto, não
tem suportado o grande número de frequentadores. Sendo assim, novas alternativas
de lazer foram procuradas, como as praias do litoral sul, onde se localiza Ilha Comprida.

A questão relativa à forma como ocorre o turismo é fundamental para o


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entendimento dos processos de transformação da paisagem, principalmente nesses


municípios em que a atividade turística ganha um status de principal atividade
econômica. Por outro, Domiciano e Oliveira (2012, p.180), pondera que:

O turismo muito além de ser uma atividade- econômica apresenta-se como


um processo de produção social que interfere em vários setores da sociedade,
como o setor econômico, o social, o cultural e o ambiental.

O objetivo da pesquisa foi identificar e analisar os processos de transformação


da paisagem da Ilha Comprida (SP) por meio de depoimentos orais, narrativas visuais
e levantamento fotogeográfico, avaliando a influência do turismo e a ocupação humana
em relação à transformação da paisagem, tais como a presença de resíduos sólidos,
a supressão e alteração da vegetação nativa e contaminação do lençol freático e
cursos d água.

2 REFERENCIAL CONCEITUAL

2.1 Percepção Ambiental

A percepção ambiental de cada indivíduo está relacionada com suas funções


sensoriais, destacando-se a visão e podendo ser limitada por laços afetivos vivenciados
com sua cultura. Segundo Tuan (1980):

Um ser humano percebe o mundo simultaneamente através de todos os seus


sentidos. A informação potencialmente disponível é imensa. No entanto, no
dia a dia do homem, é utilizado somente uma pequena porção do seu poder
inato para experienciar. (TUAN, 1980, p. 12).

Os estudos de percepção ambiental são adequados para entender a relação


que ocorre entre pessoas que tenham contato duradouro com uma região, a partir da
ligação topofílica que ocorre com a paisagem.

Topofilia estaria relacionada com o sentimento, a relação de alegria e laços


afetivos que o ser humano tem com o seu ambiente. (TUAN, 1980, p. 129). O autor
pondera, entretanto, dizendo que “O meio ambiente pode não ser a causa direta da
topofilia, mas fornece o estímulo sensorial que, ao agir como imagem percebida, dá
forma às nossas alegrias e ideais”. (TUAN, 1980, p. 12).

A percepção ambiental permite a busca de informações essenciais, baseadas


na memória, que podem ser descritas e hierarquizadas. Conforme sugerido por
Amorim Filho (1992), os estudos podem focar os seguintes temas.

qualidade ambiental; paisagens valorizadas; riscos ambientais; representações


do mundo; imagens de lugares distantes; história das paisagens; relações
entre as artes, as paisagens e os lugares; espaços pessoais; construção
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de mapas mentais; percepção ambiental e planejamento. (AMORIM FILHO,


1992).

2.2 Narrativas visuais

As narrativas visuais demonstram o sentimento estimulado ao descrever uma


imagem, determinando diversas interpretações epistemológicas, destacando aspectos
históricos, expressões faciais e transformações do ambiente ou algo pessoal em um
determinado período de tempo ou ainda em longo prazo.

Nobre (2011, p. 114) em seu trabalho de fundamentação sobre o papel das


imagens como narrativas visuais destaca que “Ao concebermos a imagem como
narrativa visual, admitimos que o cenário retratado é determinante do universo
sociocultural analisado”. O autor discorda do uso da fotografia como material
secundário, complementar ou meramente ilustrativo, posto como mera oposição à
linguagem literária. A imagem ganhou destaque como forma de narrativa que antes
era exclusividade da palavra. (NOBRE, 2009, 2011).

De acordo com Nobre (2011) a riqueza do uso da narrativa visual não está
relacionada com a qualidade da imagem, mas com a cultura ou vivência de quem as
interpreta. As imagens ajudam a compor interpretações da realidade analisada.
A fotografia pode ultrapassar esses limites e permitir ao imaginário transpor
códigos lineares, penetrar a polissemia da narrativa visual, sendo um signo
cuja indicialidade representa, de forma mais próxima, as particularidades do
seu referente. Através da fotografia, podemos perceber a singularidade de
uma representação que indica informações referentes ao meio sociocultural
onde foi concebida. [...] Assim, a imagem fotográfica pode ser relida e revivida,
trazida de volta à lembrança para estimular a memória. (NOBRE, 2011, p.
114).

O trabalho de referência sobre uso de narrativas visuais para compreender a


paisagem do ponto de vista sociocultural foi desenvolvido por Nobre (2003, 2005),
fundamentando e aplicando a metodologia no interior do Rio Grande do Norte.

Alguns estudos têm sido realizados aplicando as narrativas visuais como


caminho para identificar a percepção ambiental e representações de meio ambiente,
muitas vezes, também, vêm associadas a depoimentos orais, ou mesmo traçando
contraposições com outras diversas imagens de épocas diferentes, propiciando
reflexões sobre a transformação da paisagem.

Araújo (2006) utiliza imagens e depoimentos para compor um mapeamento


da transformação da paisagem em áreas urbanas da região metropolitana de São
Paulo. Outro autor que utiliza a metodologia e realiza uma discussão do potencial
das narrativas visuais é Figueiredo (2010), que em seu trabalho de doutorado buscou
entender as cavernas como paisagens racionais e simbólicas, para isso as imagens
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foram fundamentais para a construção do discurso investigado.

O uso das imagens fotográficas no contexto de análise para a produção


do discurso das atividades espeleológicas e do turismo em cavernas, com
destaque para Alto Ribeira, foi fundamental para compreender a dinâmica do
fenômeno, assim como para avaliarmos de que modo as fotografias poderiam
demonstrar o potencial investigativo das narrativas visuais. (FIGUEIREDO,
2010, p. 98).

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

3.1 Área de Estudo

Ilha Comprida está Localizada na Planície Litorânea, na região sul do litoral


paulista, sendo uma longa e estreita restinga da Região Estuarino-Lagunar Cananéia/
Iguape/Paranaguá, conhecida como Lagamar. Está situada a poucos metros de altura
acima do nível do mar, possuindo cerca de 70 km de comprimento por 3 km de largura.
(Figura 1).

A região está localizada a 200 km da cidade de São Paulo e 260 km de Curitiba,


que são dois grandes centros emissores turísticos. A Ilha Comprida possui uma área
total de 189 km2 e uma população total de 9.025 habitantes, de acordo com o Censo
IBGE de 2010. (apud BEU, 2013).

A limitação da área de estudo foi da região do Boqueirão até a Ponta da


Praia, localizado no lado norte da Ilha, como mostra a Figura 1. Essa escolha foi
determinada devido à facilidade de acesso ressaltando a área mais sujeita a processo
de urbanização e degradação do meio ambiente.

Figura 1- Mapa da Ilha Comprida e região do entorno e destaque em vermelho


para a área de estudo. Centro e Boqueirão norte.
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(Fonte: http://www.ilhabela.net/praias/ilhacomprida.htm, 2014).

3.2 Trabalho de Campo

A execução da pesquisa ocorreu entre 2012 e 2013. Durante as visitas de


campo foram feitas observações gerais da situação da área de estudo, foi também
o momento em que se conseguiu contato com os moradores locais, com os quais
foram coletadas informações, documentos e fotos que caracterizaram os processos
vivenciados de transformação da paisagem na área de estudo.

O reconhecimento geral preliminar foi realizado em julho de 2012, quando


ocorreu o primeiro levantamento fotográfico e contatos com moradores. Na etapa de
coleta de dados optou-se por realizar o trabalho em dois momentos distintos, janeiro
de 2013, momento de alta temporada e julho de 2013, época de baixa temporada,
período esse que se mostrou mais adequado para realizar os depoimentos orais, pois
os entrevistados mostraram mais disponibilidade e tranquilidade, principalmente na
Prefeitura, quando os funcionários puderam dar maior atenção às entrevistas.

3.3 Depoimentos orais

Os estudos de percepção ambiental e transformação da paisagem foram


realizados na Ilha Comprida (SP), com pessoas que moram ou tenham contato
duradouro na região entre o Bairro do Boqueirão (norte) e a Ponta da Praia. Para isso,
foram selecionados moradores que tinham contato com a região por mais de 10 anos
e que trafegavam pela antiga balsa do município antes da conclusão da ponte Laércio
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Ribeiro em 2001, testemunhando o desenvolvimento turístico influenciado pela obra


que interliga o município de Iguape à Ilha Comprida.

As entrevistas foram realizadas por meio de depoimentos orais gravados em


I-Phone Apple (Modelo 4S) e posteriormente transcritos em editor de texto Word.

Os depoimentos permitiram analisar a diferenciação da percepção que cada


um possuía, tendo em vista que duas pessoas não iram assimilar a realidade da
mesma maneira ou mesmo grupos sociais diferentes não fazem exatamente a mesma
avaliação do meio ambiente, tal como descrito por Tuan (1980, p.6).

Foram entrevistadas 10 pessoas, conforme possibilidades e disponibilidades.


Não houve um tempo estimado à priori, uma vez que cada entrevistado teve a
oportunidade de se expressar livremente com o tempo necessário, de acordo com
cada temática solicitada. O tempo médio das entrevistas foi de 11 minutos.

As entrevistas foram feitas utilizando um roteiro semiestruturado, visando coletar


dados sobre os seguintes aspectos: Dados pessoais, relação com a Ilha Comprida e
tempo de contato; aspectos históricos da Ilha; percepção para a transformação da
paisagem; sensações e sentimentos em relação à Ilha; além de fotos históricas da
região.
3.4 Levantamento fotográfico e composição de narrativas visuais

As fotos foram produzidas utilizando câmera fotográfica digital Nikon D5000 e


Apple Iphone 4S, durante o ano de 2012 e 2013. Esse material imagético foi digitalizado
de modo a compor um corpus fotográfico, complementado pelas fotos feitas em
outras épocas pelos responsáveis da pesquisa e outras cedidas pelos entrevistados
a respeito dos processos de transformação da paisagem na Ilha Comprida, sendo
posteriormente selecionadas para a compor narrativa visual.

As narrativas visuais foram construídas a partir do levantamento fotográfico


que em conjunto com os depoimentos orais, pode compor um visão mais ampla do
processo, tal como desenvolvido no estudo realizado por Araújo (2006).

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1 Percepção ambiental dos moradores da Ilha Comprida

Um aspecto muito citado pelos moradores em relação à paisagem foi a


preservação na região Sul, por ser um local com maior quantidade de vegetação nativa
e devido ao difícil acesso. Segundo a opinião de um entrevistado: “O Boqueirão Sul,
para mim é o top porque o Boqueirão Sul representa o que era aqui [Boqueirão Norte]
há 20 anos atrás” (D-6, funcionário público, ensino superior). Os relatos reforçam
como a paisagem mudou consideravelmente na região do Boqueirão Norte, onde se
vê a introdução de plantas exóticas, como pinheiros, eucaliptos e ornamentais.
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Durante as entrevistas, houve queixa dos moradores em relação à segurança


do município, isso ocorre durante a alta e mesmo na baixa temporada, grande
influência está relacionada com a construção da ponte. Segundo um dos entrevistados:
“Dependíamos do progresso, ele veio com a ponte, e saindo a ponte acabou a segurança”
(D-6, funcionário público, ensino superior) e completa dizendo que “o pessoal entra
sem fiscalização e o pessoal sai sem fiscalização”, isso mostra a insegurança não só
dele, mas de muitos outros moradores, inclusive outros entrevistados que vivenciam
esses acontecimentos.

Existe também outro ponto de vista relacionado ao comércio e/ou fator


econômico, de acordo com as épocas, ou seja, baixa e alta temporada, durante quatro
meses, quando o numero de turistas está elevado, o movimento econômico aumenta,
porém no decorrer dos oito meses restantes o número de turistas é muito baixo,
afetando assim os comerciantes. Segundo constata o entrevistado D-9 (comerciante,
ensino médio):

(...) “falta de dinheiro, a parte econômica realmente é complicada, a gente


passa aqui durante 4 meses em pé, depois você fica meio derrubado, vejam
vocês mesmo, o tempo que estão aqui e ninguém entrou ainda, quer dizer, é
praticamente o dia todo, então nós somos uns guerreiros.”

Tendo em vista a ocupação humana muito próxima da linha litorânea, tais como
construções de residências, observou-se em aproximadamente 10 anos que diversas
casas foram destruídas pelo mar. De acordo com o entrevistado D-6:

“A Ponta da Praia Norte mudou muito, pois quem observa a Praia do Leste
na região de Icapara não imagina que existia um pico com casas e pousadas,
que atualmente esta inundada pela ação das marés.”

O processo de urbanização é também destacado nos depoimentos. Como


exemplo temos o entrevistado D-5 (funcionário público, ensino superior): “tem muitas
construções aqui, hoje a cada dia a Ilha ganha novas casas, e isso com o passar dos
anos vai mudando as características da cidade”. Destaca-se aqui uma visão focada no
processo de urbanização, em contraposição, o entrevistado D-7 (funcionário público,
ensino superior) diz; “a própria Ponta da Praia, uma das coisas que eu gosto é que ela
sempre está modificando”.

“O desenvolvimento... aqui só tinha areia, não tinha rua, não tinha nada,
mas agora tá urbanizada, é uma cidade urbanizada, isso começou depois da
emancipação, antes não, porque Iguape não fazia nada aqui, por isso que
nós emancipamos, para poder desenvolver”. (D-8, funcionário público, ensino
superior).

4.2 Narrativas visuais da transformação da paisagem


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4.2.1 O boqueirão

A atividade turística cresceu depois que a ponte Laércio Ribeiro que interliga
o município de Iguape com Ilha comprida passou a funcionar, facilitando o acesso ao
município. No caso da foto 1, observa-se grande numero de freqüentadores na alta
temporada, maior número de residências e o asfaltamento.

Essa parte da Ilha é considerada a área que sofreu maior urbanização, diferente
do Boqueirão Sul, que está próxima a Cananéia, onde a paisagem permanece mais
preservada com maior incidência de dunas e uma faixa litorânea mais larga, porém
é uma área com maior dificuldade de acesso, por isso a concentração de turistas se
restringe muitas vezes mais no Boqueirão Norte.

Foto 1: Boqueirão norte, evidenciando Av. Beira Mar.

(Fonte: Prefeitura Municipal Ilha Comprida, 2007).

Foto 2 e 3: Boqueirão norte em 1990 e 2013, vista em direção à Cananeia.


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(Luiz Afonso V. Figueiredo, 1990, Diogo F. Rodrigues, jul. 2013)

4.2.2 O desenvolvimento urbano da Ilha e a ponte

A ponte foi implantada em 2001, sendo a principal via de acesso à Ilha Comprida
e proporciona facilidade para quem visita e mora, trazendo também o desenvolvimento
para o município segundo a percepção dos entrevistados, que enfrentavam problemas
como falta de água, esgoto, iluminação e transporte segundo os moradores.

“Depois da saída da ponte, quando tínhamos a balsa aqui. O desenvolvimento


estava parado, não tinha progresso com a balsa. Precisávamos que algo
acontecesse, porque quem vivia aqui em 1996, como meu caso, aqui era
intransitável.” (D-6, funcionário público, ens. sup.)

Foto 4 e 5: Ponte Laércio Ribeiro em construção e depois a obra finalizada.

(Luiz Afonso V. Figueiredo, 1990; Diogo F. Rodrigues, 2013)

Ao discutir com os moradores sobre a mudança da paisagem na Ilha Comprida,


foi apontado o desenvolvimento na questão do saneamento básico. Antes de 2001,
o município sofria com problemas de esgoto, acesso á água potável e energia
elétrica. Devido ao difícil acesso causado pelo transporte via balsa que resultava em
filas enormes de carros para poder atravessar, ou seja, as pessoas muitas vezes
necessitavam de um pouco de paciência para conseguir chegar até o outro lado, mas
hoje não é mais necessário se preocupar com esse detalhe, já que o acesso é pela
ponte, e a balsa ficou apenas na memória.

Depois da implantação da ponte, que além de abrir um novo acesso para


novos visitantes, também facilitou o transporte para implantação de serviços básicos
para os munícipes. Com o desenvolvimento e crescimento urbano, também houve
novos problemas, como a falta de segurança devido ao aumento dos frequentadores,
ocasionando um insuficiente abastecimento de água no município e queda frequente
de energia.

A falta de fiscalização implicou também no crescimento de lotes irregulares,


gerando conflitos fundiários, tendo em vista que toda a Ilha Comprida está inserida em
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uma Área de Proteção Ambiental (APA).

O processo de desenvolvimento da Ilha Comprida continua em andamento e


cresce a cada ano, e os moradores podem contar com maiores recursos como o
desenvolvimento da orla junto à praia, o tratamento de esgoto junto com a expansão
do asfalto que esta chegando a outros balneários que antes não tinham.
“Ah, com certeza ta mudando, mudanças em casas, residências, locomoção
porque antes não tinha asfalto, ruas, muitos loteamentos existem ainda,
então 70% da Ilha tem acesso e os outros 30% está em área verde.”. (D-3,
corretor de imóveis, ensino médio).

Foto 6 e 7: Boqueirão norte, setas indicam como referencia o restaurante Boi da


Ilha em 1981 e 2007 respectivamente.

(Fonte: Imagens da Prefeitura Municipal da Ilha Comprida, 1981 e 2007)

Foto 8 e 9: Pontos de referência onde ocorria o embarque e desembarque da


antiga balsa, respectivamente em Iguape e Ilha Comprida.

(Diogo F. Rodrigues, 2013).

4.2.3 Transformação da paisagem na Ponta da Praia

Nesse local é onde ocorre o mar recebe muitos sedimentos devido ao Rio
Ribeira, por isso a característica da água na região norte é diferente em comparação
com a região sul da Ilha, pois o rio traz sedimentos que deixa o mar com uma
coloração mais barrenta, consequentemente a água fica turva. De outro lado, um
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grande problema para os moradores, segundo eles é que “a Ilha está afunilando”,
ou seja, uma extremidade está sendo engolida pelo mar enquanto a outra está se
expandindo, correspondendo norte e sul, respectivamente.

“Pelo lado norte, observei com o passar do tempo tinha algumas casas que
o mar avançou e acabou derrubando essas casas, e interessante no lado sul
aumentou. Então esse é um fenômeno que acredito que seja natural que vem
decorrendo, mas eu também acredito que seja pela influência pela abertura
da barragem aqui do Ribeira de Iguape.” (D-5).

O processo de transformação continua a cada ano sendo mais visível devido


ao avanço anual do nível do mar, isso foi observado em Janeiro de 2013 a Julho de
2013 pelos pesquisadores, proporcionando uma analise comparativa do local.

Foto 10 e 11: Destruição de casas e exposição de sistema radicular de árvores


na Ponta da Praia.

(Diogo F. Rodrigues, jan. 2013)

Foto 12 e 13. Avanço do mar na Ponta da Praia, usando a boia como referencia.

(Diogo F. Rodrigues, jan. e jul. 2013)

“A Ponta da Praia Norte mudou muito, pois quem observa a Praia do Leste na
região de Icapara não imagina que existia um pico com casas e pousadas, que
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atualmente está inundada pela ação das marés. Para a gente que navega pra
poder entrar no canal da Juréia era obrigado contornar pelo mar e ter acesso
ao canal da Juréia, atualmente entra-se direto pelo canal do mar pequeno.”
(D-6, funcionário público, ens. sup.)

Foto 13: Avanço do nível do mar no período de ressaca já próximo à Avenida


Beira Mar

(Diogo F. Rodrigues, jul 2013).

4.2.4 Acúmulo de resíduos sólidos


Com o número elevado de frequentadores, o município sofre com o grande
acúmulo de lixo. Um dos entrevistados (D-6) afirma que isso é decorrente da “falta
eficiente na fiscalização”, devido ao acesso facilitado. Outra fala que pode confirmar
essa questão foi citada pelo entrevistado (D-3), “o cara vem aqui, acampa na praia e
sabe que não pode, e deixa 300 toneladas de lixo”.
“Que me incomoda? Quando o próprio turista ou o morador que fica jogando
lixo! Me incomoda demais! E os urubus que pegam o lixo para sobreviver,
mas acabam espalhando tudo.” (D-10, funcionário público, ensino médio).

A prefeitura desenvolve projetos para tentar controlar o descarte dos resíduos


sólidos, como o Cidade Limpa, no entanto, não é isso que se observa na paisagem.

“Depende da educação das pessoas. Olha, recentemente teve um concurso


nas escolas do ensino fundamental com frases da cidade na parte de limpeza,
e as melhores frases estão espalhadas nas cidades, nos pontos de ônibus e
com fotografias da parte bonita da Ilha, pra chamar a atenção das pessoas
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pra preservar. Tem sim um trabalho de conscientização, começando pelas


crianças. Aí acho que depende muito das pessoas, esse lado de educação
ambiental começa no berço, não só nas escolas, dentro de casa, acho que
a maioria dos brasileiros não tem essa conscientização.” (D-7, funcionário
público, ensino superior).

Foto 14: Avanço do mar destacando o acúmulo de resíduos

(Diogo F. Rodrigues, jul. 2013).


Foto 15 e 16: Concentração de resíduos sólidos na faixa litorânea devido à
ressaca do mar e campanha da prefeitura no Projeto Cidade Limpa

(Diogo F. Rodrigues, jul. 2013)

4.2.5 A beleza da paisagem

Mesmo que a transformação venha ocorrendo na Ilha Comprida devido à


urbanização e desenvolvimento, ela continua demonstrando uma infinidade de belezas
naturais na fauna, flora e suas interações ecológicas presente no bioma associado
á vegetação de dunas, restinga, mata atlântica e mangue, ainda sim proporcionam
prazer, conforto e paz.

A opinião dos moradores entrou em consenso, como reforça o entrevistado


D-6: “(...) porque a cidade que nós nascemos não pode escolher, mas sim a cidade
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que vivemos. Nasci em São Paulo por falta de opção, eu escolhi a Ilha Comprida para
viver. Não mudaria nunca.”

Com o modelo de turismo sol e praia, resulta no acúmulo de frequentadores


nas regiões litorâneas mais próximas das regiões metropolitanas, a procura da
Ilha Comprida vem aumentando a cada ano, mas ações de ecoturismo são poucos
exploradas, concentrando quase toda a atividade turística na praia, como relatado
pelo entrevistado D-6 (funcionário público, ensino superior):
“Acho que teria mais coisas que poderíamos fazer. Como passeios ecológicos,
explorar mais as dunas com responsabilidade, lógico, porque dá medo colocar
o turismo na mão de qualquer pessoa e simplesmente devastar o ambiente.
Eu acho que o turismo deveria ser mais explorado com profissionais. Preparar
o povo, tanto os profissionais, como orientar os turistas. Precisa ser mais
fiscalizado.”

Foto 17: Dunas associada à vegetação rasteira

(Diogo Rodrigues, 2013).

“O que mudou muito assim foi o pessoal ter conhecimento desses picos,
como hoje a prefeitura faz passeios ecológicos, leva o pessoal para conhecer
umas trilhas em Pedrinhas, então saiu uma parte da educação da população
para não jogar lixo, evitar o máximo possível. Essa mudança veio com a
população mesmo né, o pessoal começou a procurar mais aqui, devido às
outras praias com muitos problemas como falta de água e superlotação.” (D-
1, comerciante, ensino médio)

Foto 18 e 19: Beleza ao caminho do Boqueirão Sul.


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(Diogo Rodrigues, 2013; Izaias Carmacio Jr., 2012).

“Então o lugar que eu mais adoro na Ilha Comprida é o Boqueirão Sul. E


sem contar o caminho até o Boqueirão sul, que é muito bonito, nas dunas de
Juruauva.” (D-6, funcionário público, ensino superior)

Foto 20: Amanhecer no horizonte da Ilha Comprida.

(Diogo F. Rodrigues, 2012)

Quando os entrevistados foram questionados sobre a possibilidade de residir


em outro local, todos afirmaram que não abandonariam a Ilha, com exceção de
alguns que eventualmente tenham motivos financeiros, mas pelo menos metade dos
entrevistados afirmou que por motivo algum deixariam o “seu paraíso”.

“Eu moro no paraíso, e nunca pensei em sair daqui, conheço quase todo
o Brasil, mas nenhum lugar me chamou a atenção. Como disse antes, no
meu bairro se não construir nenhuma casa mais, é melhor.” (D-4, funcionário
público, ensino médio).
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4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao ser convidado ao mundo de cada entrevistado, constatou o respeito


e contemplação com o ambiente, nas entrevistas foram citadas muitas vezes a
tranqüilidade que faz parte da rotina dos moradores em época de baixa temporada,
não havendo problemas com congestionamento, como no exemplo descrito no
depoimento D-6:
(...) na Ilha Comprida o que é legal no caminho de casa até o trabalho você
cumprimenta todo mundo, você conhece todo mundo, sabe quem são, aqui
tem paz e não tem trânsito.

Os moradores apontaram que o boqueirão Sul da Ilha Comprida tem um


destaque na paisagem, justamente pelo atual estado de conservação influenciado
pelo seu difícil acesso. Mencionam, inclusive, locais que somente eles tiveram a
oportunidade de conhecer e guardam em suas memórias.

Com relação aos estudos sobre o imaginário e a relação com imagens, observa-
se em Figueiredo (2010), que:
O estudo sobre o imaginário permite decifrar o sistema de imagens
articuladas e a estrutura que se definem de modo a facilitar a compreensão
do funcionamento e das dinâmicas pelas quais as imagens são incorporadas
como conteúdo coletivo, implicando em visualizações, representações
sociais, resistências, pré-conceitos, que podem, inclusive, comprometer a
visão correta de um determinado conjunto de símbolos.

Observou-se que os moradores relacionaram a construção da ponte em 2001


como responsável pela ampliação da atividade turística e urbanização, trazendo
benefícios e dinamização para a economia do município, por outro lado, trouxe
problemas associados que antes não aconteciam, como delitos, interferências na
paisagem natural e falta de segurança, uma vez que não há fiscalização eficiente. Em
decorrência disso, ocorre também um aumento no acúmulo de resíduos sólidos.

Nas imagens coletadas observou-se o aumento da mancha urbana com


construções de vias de acesso, crescimento nos locais comerciais, alteração da fauna
local, aterramento de áreas de manguezais, supressão da vegetação nativa e das
dunas, impermeabilização do solo com construções e vias de acesso, locais com
grandes concentrações de segundas residências, terraplanagem das dunas para as
construções civis e o acúmulo de resíduos sólidos. Problemas com a qualidade da
água, condições de vida, contaminação ambiental.

O Balneário Ponta da Praia é o local de maior destaque na percepção dos


entrevistados, justamente por ser mais visível a alteração da paisagem, devido ao
avanço do nível do mar. Resultando na perda gradativa de residências ano a ano. O
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turista, ao visitar o local onde foram realizadas as fotografias, não imaginará que neste
local havia urbanização, porque atualmente é um local inundado, existindo no máximo
alguns escombros, como marcas desse processo.

O município está enfrentando ameaças de novas destruições na avenida principal


por conta da força marítima. As imagens relataram o processo de transformação na
paisagem da Ilha Comprida que ocorreu até o ano de 2013, mas a pesquisa deduz que
ainda haverá mais transformações no município se não for realizado uma intervenção
para tentar controlar, ou até mesmo transferir os moradores que atualmente estão
com suas residências próximas do mar, pois o que pode se observar é que o processo
de transformação indica que seu processo de transformação não esta concluído.

Ressalta-se, ainda, a necessidade de se provocar discussões e subsidiar ações


de educação ambiental e ecoturismo, visando a melhoria da qualidade de vida e a
conservação da paisagem natural nessa região do litoral Sul de São Paulo.

REFERÊNCIAS

AMORIM FILHO, O. B. Os estudos da percepção como a última fronteira da gestão


ambiental. SIMPÓSIO SITUAÇÃO AMBIENTAL E QUALIDADE DE VIDA NA REGIÃO
METROPOLITANA DE BELO HORIZONTE E MINAS GERAIS, 2, 1992, Belo Horizonte.
Anais... Belo Horizonte, ABGE, 16-20, 1992. Disponível em http://sigcursos.tripod.
com/percepcao_ultima_fronteira.pdf. Acesso em 04 out. 2013.

ARAUJO, G. K. T. M. Percepção ambiental, memória e transformação da paisagem:


estudo de caso no sítio Tangará e bairros da região oeste de Santo André (SP).
Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharel em Ciências Biológicas) – Faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras, Centro Universitário Fundação Santo André, Santo André,
2006.

BEU, S. E. Análise socioambiental do complexo estuarino-lagunar de Cananéia-


Iguape e Ilha Comprida (SP): subsídios para o planejamento ambiental da região.
2008. 133f. Dissertação (Mestrado em Ciência Ambiental) – Programa Interdisciplinar
de Ciência Ambiental, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.

COSTA-PINTO, A, B.; SORRENTINO, M. Trabalhos coletivos e educação ambiental


para a participação: uma parceria com moradores de Pedrinhas, Ilha Comprida/SP.
Revista Eletrônica do Mestrado em Educação Ambiental, v. 8, p. 21-34, jan./jun.
2002. Disponível em http://www.ambiente.sp.gov.br/wp-content/uploads/cea/Texto_
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DOMICIANO, C. S.; OLIVEIRA, I. J. Cartografia dos impactos ambientais no Parque


Nacional da Chapada dos Veadeiros. Mercator, Fortaleza, v. 11, n. 25, p. 179-199,
mai./ago. 2012

FIGUEIREDO, L. A. V. Cavernas como paisagens racionais e simbólicas:


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Departamento de Turismo

imaginário coletivo, narrativas visuais e representações da paisagem e das práticas


espeleológicas. 2010, 466f. Tese (Doutorado em Ciências, área de Geografia Física) –
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, universidade de São Paulo, São
Paulo, 2010.

NOBRE, I. M. A fotografia como narrativa visual. Dissertação (Mestrado) -


Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal, 2003.

NOBRE, I. M. Revelando os modos de vida da Ponta do Tubarão. Tese (Doutorado


em Ciências Sociais) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal, 2005.

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TURISMO EM ÁREA DE PROTEÇÃO AMBIENTAL: POSSIBILIDADE DE


TURISMO NA RESEX CAETÉ-TAPERAÇU/BRAGANÇA

RESUMO

O presente artigo tem como principal assunto o Turismo em área de proteção ambiental, tendo como
estudo de caso a RESEX Caeté-Taperaçu/Bragança que objetiva traçar estratégias conservacionistas
de proteção da biodiversidade, em que se faz necessária a regulação do uso e o acesso dos recursos
naturais da RESEX para afirmação da qualidade de vida dos próprios atores sociais, e principalmente
da comunidade que faz parte direta ou indiretamente da mesma, isto posto que, se faz necessário para
o direcionamento dos objetivos, a gestão participativa dos recursos naturais que caracteriza-se como
um modelo alternativo de participação da sociedade bragantina nos processos de tomada de decisão
de políticas, inclusive, na instituição de programas e projetos com caráter ambiental, para que, assim, a
comunidade se desenvolva de forma igualitária e minimize os impactos que, possivelmente, a atividade
turística poderia ocasionar na região.A metodologia de pesquisa envolveu a pesquisa bibliográfica que
deu subsidio teórico para a segunda etapa da metodologia, a pesquisa de campo.

Palavras-chave:Turismo, Área de proteção ambiental, Gestão, Participação.

ABSTRACT:

This paper has as its main subject the tourism area of environmental protection, taking as a case study
that aims to RESEX Caeté-Taperaçu/Bragança strategize conservation of biodiversity protection, where
it is necessary to regulate the use and access of resources natural RESEX for affirmation of the quality
of life of social actors themselves, and especially the community that directly or indirectly part of it, since
this, it is necessary for the targeting of objectives, participatory management of natural resources that
characterized as an alternative model of bragantina society participation in the processes of decision-
making policies, including the establishment of programs and projects with environmental character, so
therefore the community to develop equally and minimize the impacts that possibly tourism activity in
the region could cause.The research methodology involved the theoretical literature that gave subsidies
to the second step of the methodology, field research.

Keywords:Tourism, Area of Environmental Protection, Management, Participation.

INTRODUÇÃO

Verifica-se que desde o final do século XIX, a preocupação ambiental começou


a ser aborda por diversos paradigmas que conseguiram mobilizar fortemente
uma grande parte da sociedade industrial. Tal mobilização afetou não somente os
ambientalistas, biólogos e outros, como também diversas atividades econômicas,
dentre elas o turismo.

Para chegar à formulação do conhecimento ambiental, inicialmentebuscou-se


repensar os conceitos sobre a relação entre o meio ambiente e sociedade. A visão
de natureza passou por diversas transformações, como por exemplo: o conceito de
natureza selvagem, que surgiu no início do século XIX e era considerado como algo
ameaçador; outro conceito surgiu no final do século XIX, sendo ele o de natureza
inalterada, onde os locais naturais intocados tinham um significado muito especial
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por parte da sociedade, entre outros conceitos que foram de fundamental importância
para que o conceito de natureza fosse recapitulado.

Entre os conceitos formulados ao longo dos anos, ressalta-se a importância do


meio ambiente para a atividade turística, uma vez que há uma grande relação entre
o meio ambiente e a mesma. Contudo, observa-se que esta relação pode ocasionar
sérios impactos ambientais e sociais.

O turismo enquanto atividade ligada à prestação de serviços e as questões


capitalistas, vem buscando alternativas coerentes para firmar-se a esse modelo de
gestão ambiental, propondo novos paradigmas para uma relação sustentável entre o
local visitado, a cultura e suas tradições, dessa forma, surgem algumas alternativas
da atividade turística, que visam sobre tudo, à valorização cultural da localidade e a
sustentabilidade.

A preocupação com o novo modelo de desenvolvimento propõe novas formas


de pensar e agir dentro de um local, modifica a ideia de que a produção turística é
somente uma das produções econômicas que o mercado induz, despreocupadas com
a sociedade, com as condições de vida da população local bem como as problemáticas
produzidas em tais localidades. Atualmente, os impactos sobre a cultura e as paisagens
dos locais visitados passaram a ser estudado em nível científicoo que tem causado
a grande sensibilização do poder público para as questões ambientais nas viagens
turísticas (RUSHMANN, 2010).

Ressalta-se, também a importância do planejamento para esta atividade,


que deverá ser adequado de acordo com as especificidades do local, deve-se ter
a sensibilidade de que cada local tem as suas características peculiares, não
podendo generalizar a forma de planejamento. Essa atenção redobra-se às áreas
de preservação, que quando bem planejada possibilita o desenvolvimento de turismo
consciente com as questões ambientais e em áreas de uso sustentável permite aos
visitantes, o reconhecimento social e cultural do local.

Porém, este quadro vem se modificando fundamentalmente com a evolução


na prática desta atividade que vem tentando se consolidar não apenas através do
viés econômico como também na tentativa de englobar a cultura e a vida social da
localidade e de seus residentes. Essa perspectiva pode ser visualizada nas Áreas de
Proteção Ambiental.

Em torno a este contexto o presente artigo utiliza a determinada metodologia:


levantamento de referencial bibliográfico acerca do assunto; Trabalhos de campo na
localidade, para melhor compreensão do tema; entrevistas com os integrantes diretos
da comunidade e palestra com o integrante do ICMBIO.
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1. A NOVA CONCEPÇÃO DE TURISMO: ALTERNATIVO/ SUSTENTÁVEL

A busca pelo “verde” e a “fuga” do estresse dos grandes conglomerados urbanos


(RUSCHANN, 2010) vem se tornando cada vez mais difundida na nova concepção
de turismo. Busca-se um equilíbrio sustentável entre o homem e o meio ambiente, um
olhar diferente para aquela viajem, que antes, parecia sem muito diferencial para a
vida do turista e principalmente da comunidade receptora. Verifica-se a importância da
valorização do ambiente, dos hábitos e costumes da população visitada. Essa nova
proposta vem sendo discutida desde o inicio do século XX.

Esse turismo consciente com o meio ambiente e com as pessoas, tem


se configurado com base nos paradigmas da sustentabilidade e do ecoturismo
(QUARESMA, 2003) busca-se a tranquilidade, as aventuras, o conhecimento
profundo das regiões visitadas, bem como a peculiaridade cultural, natural e social.
Tal concepção vem atrelada diretamente ao discurso ambientalista, que desde o final
do século XX, “tornaram-se o foco de debates, em função ao esgotamento crescente
da capacidade de suporte dos recursos naturais” (McGRATH, 1993; ERICKSON,
1994 apud QUARESMA, 2003, p. 28), além do “vazio” ambiental deixado pela
industrialização crescente, também vem sendo discutidos os impactos sociais desse
esgotamento, pois tem afetado intensamente a existência de populações que veem
na natureza, a sua principal fonte de reprodução social.

No final do século XIX Jean-Jacques Rousseau (1985 apud QUARESMA 2003,


p. 44) já “ressaltava a importância do encontro do homem com o seu estado mais
puro”, contrariando a intensa busca pelo consumismo e a degradação ambiental
provocada pela industrialização. O autor ainda ressaltava que a natureza seria o
estado primitivo da humanidade, o que caracteriza a liberdade e espontaneidade,
inexistente na sociedade industrializada.

Nesse contexto de valorização da natureza, as áreas de proteções naturais


ganharam força nos últimos anos e tem sensibilizado a opinião pública. Constata-
se que o então turismo de massa caracterizada, pelo grande fluxo de pessoas em
um mesmo local e na mesma época do ano contribui de forma significativa para
as “agressões socioculturais nas comunidades receptoras além de causar danos,
às vezes irreversíveis aos recursos naturais” (RUSCHMANN 2010, p.23).Atrelado
ao desenvolvimento sustentável, o turismo vêm procurando respeitar os limites da
capacidade de carga dos ecossistemas como também, procura melhorar as condições
de vida das comunidades, a partir de planejamentos compatíveis e integrados entre o
poder público, privado e sociedade civil.

Conforme, a Organização mundial de Turismo (OMT, 2012) esse segmento tem


se configurado como um forte aliado no desafio da sustentabilidade, mostrando-se
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capaz de ser uma atividade que consiga compatibilizar o crescimento econômico com
uma sociedade mais justa e uma natureza mais protegida. De modo geral, desde o
final da década de 1980 surgiu uma nova demanda de turismo que busca um tipo
alternativo/sustentável, ao então predominante turismo de “sol e praia” (DIAS, 2003,
p.16).

Esse “novo” turismo recebe diversas denominações: ora “alternativo”,


“responsável”, “ecológico” e o tradicional turismo Sustentável ou Ecoturismo. Apesar
de vários termos, verifica-se uma única preocupação: constituir uma harmoniosa
relação entre o Estado, a sociedade civil e os empresários (operadores e agentes de
turismo), que necessitam se adequar as propostasde sustentabilidade- natural, social,
política e econômica- desse novo segmento.

Levando em consideração que o maior produto desse modelo é a “venda”


do próprio ambiente das localidades e que, a estrutura deve se adequar ao tipo de
atividade desenvolvida e a vulnerabilidade do ecossistema “pergunta-se, até que
ponto os empresários seriam capazes de investir nesse turismo “ultrassensível”
que requer o dobro de atenção e planejamento que dificilmente gera lucro imediato”
(RUSCHMANN, 2010, p. 24) da mesma forma pergunta-se ao Estado, se terá um
compromisso maior na elaboração de leis que garantam o planejamento e a gestão
adequados do turismo nas áreas de proteção ambiental.

O Estado como possuidor de instrumentos legais para a elaboração de políticas


públicas tem a obrigação de proporcionar um “desenvolvimento ordenado dessa
atividade, a fim de evitar seus impactos negativos nas comunidades e no meio natural”
(RUSCHMANN,2010, p. 29), porém, dificilmente, as ações desses instrumentos legais
chegam de forma completa aos diversos destinos turísticos, inclusive as áreas de
proteção ambiental, que requerem o dobro de cuidado e atenção do Estado.

2. UNIDADES DE CONSEVAÇÕES E TURISMO

Pensar em fazer turismo de qualidade em locais que sejam legalmente


preservados é dar a possibilidade para que as gerações futuras possam conhecer
a natureza, espaços esses, que inevitavelmente são diferentes e autênticos, o que
possibilita um diferencial social e ambiental tanto para quem visita quanto para quem
é visitado.

Em se tratando do turismo em área de proteção ambiental, a consequência


do grande fluxo de pessoas é ainda pior que outras práticas de turismo, pois nesses
ambientes- ultrassensíveis-, torna-se necessário um planejamento de gestão do
turismo adequado, sendo capaz de monitorar a sua evolução e aprimorar a sua
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eficácia. A melhoria da qualidade de vida da população receptora, a preservação dos


recursos naturais, assim como o equilíbrio da capacidade de carga do lugar turístico
são os principais obstáculos a serem encontrados ao se planejar. Uma inovação no
segmento turístico, que busca a construção de novos valores e uma nova interação
entre o homem e a natureza.

Para entender a relação entre o turismo e essa área de conservação ambiental,


vale ressaltar a criação de áreas protegidas. No fim do século XIX, em meio a aceleradas
mudanças nas grandes cidades urbanas- sociais, econômico, político e ambiental-
quebram-se alguns valores e símbolos constituídos durantes toda a existência humana
entre a natureza e a sociedade. Ao perceber esse distanciamento acelerado, surge a
necessidade de criar áreas que pudessem efetivar o retorno do homem à natureza.
Segundo Quaresma (2003, p. 45) esse processo de retorno intensificou-se na década
de 1960, onde “aumenta a procura de casas de campo e de praia por parte das famílias
mais abastadas, que buscam um refúgio para os finais de semana e férias”.

Inicialmente pensar em áreas protegidas era pensar em áreas completamente


vazias ou intocáveis, verdadeiros- corredores ecológicos-, do qual pessoas que viviam
em seu interior não participavam das decisões que o Estado os impunha. Um caso
extremo citado por Diegues (1996 apud ARRUDA, 1997, p.9) foi o plano de manejo
da ilha de Cardoso, produzido em 1976, que proibiu as atividades de subsistência
praticada por seus moradores, obrigando-os a migrar para a cidade da Cananéia,
aumentando consequentemente, a segregação espacial deste local.

Haesbaert (2006, p. 124) ao abordar a dialética da des-re-territorialização e do


processo que a sociedade contemporânea vive, aponta que a todo instante, múltiplas
transformações (econômicas, políticas, cultural ou “natural”) ocorrem no mundo inteiro,
e ressalta que essas áreas naturais são consideradas “intocáveis”:

Não basta criar territórios fechados, para a sobrevivência de animais e plantas.


Torna-se imprescindível construir também, entre as reservas descontínuas,
elos e continuidades que permitam intercâmbios e fluxos, pois o próprio
ecossistemas não pode funcionar como uma constelação de enclaves de
desconectados.

Nessa perspectiva de criação de “áreas intocáveis”, criam-se os Parques Nacionais


“PN”, que com o tempo tornou-se motivo de grandes discursões entre os biólogos
conservacionistas e os preservacionistas.

Publicado oficialmente em 1866 sob o nome de ecologie por Ernest Haecler


a ecologia foi conceituada como a ciência da relação entre os organismos e o seu
meio ambiente que ao longo dos anos foi sendo constantemente redefinida pelos
cientistas ecológicos. Hannigan (1995) ressalta que na década de 1970 a ecologia
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foi, transformada num modelo cientifico para compreensão das comunidades da


fauna e flora, entretanto e recentemente os ativistas do povo, propuseram uma
nova perspectiva ecológica que considerasse as interpelações do ecossistema e o
conhecimento popular.

Começa-se a pensar o mundo natural em várias vertentes, em que de um lado


estão aqueles que acreditam que as comunidades humanas têm um efeito destrutivo
e devastador sobre o meio ambiente, valoriza a apreciação estética e espiritual da vida
selvagem (wilderness) - preservacionistas– em oposição, estão aqueles que começam
a verificar a grande importância do manejo humano sobre a natureza, assegurados
pelo manejo sustentável do meio - conservacionistas. (DIEGUES, 1994, p. 24-25)

Em meio a essas opiniões divergentes, hoje o turismo contribui de forma


significativa para conservação dos recursos naturais e culturais desse meio visitado.
Como exemplo, verifica-se que desde a criação do PN de Yellowstone o parque
recebe aproximadamente três milhões de visitantes-ano e o PN de Iguaçu, no Brasil,
recebe aproximadamente 1,5 milhão de visitante-ano (AREAS, 2003, p. 4 apud
QUARESMA, 2008, p. 7) assim o turismo, recreação ou lazer, são as principais
atividades de uso público nas UC de proteção integral e de uso sustentável, de
acordo com Dourojeanni&Padua (apud MAGRO, 2003), as atividades turísticas são
vistas como uma grande oportunidade para a sustentabilidade econômica das UC
brasileiras, mas reconhece também que, tanto o turismo tradicional como essa nova
proposta de ecoturismo, pode representar uma ameaça para a preservação do meio
ambiente caso não seja devidamente planejado (RUSCHANN 2010; QUARESMA,
2008).Nesse prisma, é de extrema importância ter-se um planejamento voltado para
o desenvolvimento sustentável do turismo nessas Unidades de Conservações.Uma
série de estratégias deve ser bem definida para que de fato o turismo seja sustentável
e ofereçam benefícios para o meio ambiente, visitante, e comunidades receptoras.

No Brasil a conservação de florestas em áreas públicas se dá através do


Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), instituído pela lei 9.985, de
julho de 2000, o qual definiu as UC’s como sendo “espaço territorial e seus recursos
ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características naturais relevantes,
legalmente instituído pelo Poder Público, com objetivos de conservação [...]” Segundo
o artigo 7º desta lei, as UC’S Dividem-se em dois grupos: Unidades de proteção
Integral, que tem o objetivo de “preservar a natureza, sendo admitido apenas o uso
indireto dos seus recursos naturais, com exceção dos casos previstos nesta Lei” e
as Unidades de Uso Sustentável, cujo objetivo é “compatibilizar a conservação da
natureza com o uso sustentável de parcela dos seus recursos naturais”

As áreas de Proteção Integral são as áreas destinadas à preservação da


natureza, com apenas uma restrição- permissão do uso da terra, respeitando as suas
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devidas exceções. As unidades inseridas nessa Categoria são: Estação Ecológica


(ESEC); a Reserva Biológica (REBIO); os Parques Nacionais (PN), Monumento
Natural e Refúgio da Vida Silvestre.

Já as unidades de Uso Sustentáveis dividem-se em: Área de Proteção Ambiental


(APA) as Floresta Nacionais (FLONA) e as Reserva Extrativistas (RESEX). No geral
essa categoria de UC, tem por objetivo conciliar a preservação ambiental, com a
integração das comunidades locais, ou seja, tanto a natureza quanto a população
local estão inseridos no modelo de preservação destinado ao local. (BRASIL, 2000).
As Reservas Extrativistas- RESEX, que será o caso de estudo deste artigo, conforme
aponta Cunha e Guerra (2009) foram criadas em 1990 pelo decreto 98.897 e passaram
a integrar o programa Nacional de Meio Ambiente como resposta as demanda dos
seringueiros reunidos a partir de 1985 em torno do Conselho Nacional de Reforma
Agrária. Conforme o decreto 98.897, as RESEX são espaços territoriais destinados à
exploração autossustentável e à conservação dos recursos naturais renováveis.

Ainda segundo o autor, o processo de formulação e implementação da RESEX


suscitou diversas contradições, pois a necessidade de promover a melhoria do padrão
de vida daqueles da comunidade muitas vezes camufla-se na regularização fundiária,
desvalorizando o ideal da preservação natural e social pregado pelas leis brasileiras.

Não se pode negar é claro, que nem todos aqueles que se beneficiam das
concessões de terra nas reservas extrativistas fazem o mau uso do seu benefício.
Verificou-se nas comunidades da RESEX marinha de Caeté- taperuçu – Vila do
Bonifácio; dos Pescadores e a Comunidade do Castelo- que muitas famílias realmente
usufruem daquele local para a sua própria sobrevivência, porém como não há o apoio
do poder público acabam abandonando ou vendendo.

Quanto às “políticas de manejo e de proteção das UC têm deixado muito a


desejar” (QUARESMA, 2003, p.58), pois além de criarem as unidades de conservação
sem o consentimento da população que constituiu por muitos anos uma relação de
extrema dependência com aquela área natural, não há uma articulação dos indivíduos
e de sua comunidade com o poder público, de forma que a mesma participe nas
decisões do Estado, ou seja, se a comunidade não conseguir unir forças e contrariar
as decisões do Estado, dificilmente elas serão mencionadas nas políticas do local.

3. POSSIBILIDADE DE TURISMO NA RESEX CAETÉ-TAPERAÇÚ

Bragança, situada no Pólo Amazônia Atlântica do Estado do Pará, mais


precisamente na região Nordeste do Pará, possui um legado histórico e cultural
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vasto e valoroso para oferecer ao turista, devido suas tradições que atravessam
os séculos e encantam aos visitantes que por ali passam. Este município, as-
sim como Vigia de Nazaré - segundo relato de historiadores – foi liderado pelo
francês Daniel de La Touche, senhor de La Lavandiere, que foram os primeiros
europeus a conhecer a região do Caeté em 08 de Julho de 1613. Porém, inicial-
mente, Bragança era habitada pelos índios da nação dos tupinambás.

Tendo como produtos turísticos a natureza, as paisagens das praias


como Ajuruteua com uma paisagem rodeada de manguezais e povoada de
garças, guarás e outras aves, a natureza do lugar ainda oferece iguarias consi-
deradas atrativos importantes para os visitantes como caranguejo, sururu, pei-
xes, camarão, ostras e frutas regionais. A Reserva Extrativista (Resex) Marinha
de Caeté-Taperaçu localiza-se no município de Bragança, a 210 quilômetros de
Belém. Nesta região, predominam extensos manguezais e rica fauna.

FIGURA 1: MAPA MOSTRANDO MOSAICO DE UNIDADE DE CONSERVAÇÃO


NO LITORAL BRAGANTINO

Fonte: Ministério do Meio Ambiente/ MMA.

Na atividade de campo a RESEX Caeté-Taperaçu, visitaram-se três comunidades,


sendo que duas estão no entorno da RESEX – Vila Bonifacio e Vila Que era, e uma
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está dentro da mesma - Tamatateua. Percebeu-se que existe a má distribuição de


recursos o qual influi diretamente em cada uma das comunidades fazendo com que
uma detenha de mais infraestrutura física que as outras, dessa forma, as relações
desiguais de poder influenciam o uso e acesso a recursos naturais e fazem da noção
de território categoria fundamental na discussão da questão ambiental.

Seu Conselho Deliberativo da RESEX analisada foi criado em 2007 e reativado


em janeiro de 2010, que foi instituído com o objetivo de democratizar os processos de
decisão e ampliação da participação da sociedade civil bragantina, para assim, poder
amenizar os problemas ambientais e ocasionar a descentralização das atividades de
monitoramento, passando a fundamentar modelos alternativos de gestão ambiental.
O mesmo, já realizou diversas reuniões ordinárias, extraordinárias e dos Grupos de
Trabalhos criados com vários instrumentos, entre eles: Cadastramento dos Usuários;
Projeto Manguezais do Brasil; Planejamento e Elaboração do Plano de Manejo,
Sinalização e Demarcação, Organização Social das Comunidades, Contrato da
Concessão do Direito Real do Uso e Capacitações.

Esses instrumentos serão de fundamental importância para que a comunidade


tenha o direito de usar e usufruir o espaço com consciência, possuindo também uma
associação dos usuários da RESEX, que reuni os usuários que se disponham a cuidar
e contribuir para a conservação do espaço, que será um método para que a mesma
possa participar de forma direta do planejamento e da gestão.Um dos itens do plano
de manejo, o qual ainda se encontra em fase de finalização, é fornecer infraestrutura e
serviços de apoio ao turismo, sendo a comunidade a indicadora das áreas com maior
potencial para o desenvolvimento da atividade.

Segundo Cunha e Coelho (2009), até meados da década de 1980, o Estado ditou,
de forma centralizada, a política ambiental a ser seguida no Brasil, porém, percebe-
se que na RESEX visitada, o processo de formulação e implementação da política
ambiental ocorre de forma interativa entre o Instituto Chico Mendes de Conservação
da Biodiversidade (ICMBIO), a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SEMA) e
a comunidade, onde os mesmos traçam estratégias de ações, para que todos os
interesses sejam levados em consideração e a proteção do meio ambiente aconteça
de forma articulada entre esses três atores sociais, contudo, o Estado continua sendo,
o órgão em que se negociam decisões e em que conceitos são instrumentalizados em
políticas públicas para o setor.

A partir da iniciativa do Governo Federal e embasando-se no decreto lei 9.985


de 18 de julho de 2000 - Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC)
- em consonância com a comunidade local, o ICMBIO fez o mapeamento da área
de Bragança e instituiu os limites de abrangência da reserva extrativista (corredores
ecológicos e zonas de amortecimento). Conforme Cunha e Coelho (2009, p.44), tal
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acontecimento justifica: “a incapacidade do Estado brasileiro de implementar políticas


integradas de transformação socioespacial e de regulação dos comportamentos
individuais e coletivos.” Todavia, faz-se necessário a criação do documento técnico
que mediará os objetivos gerais da Unidade de Conservação (UC), estabelecendo o
seu zoneamento e as normas que irão nortear o uso da área e o manejo dos recursos
naturais, bem como a implantação das estruturas fiscais necessárias à gestão da
unidade (Plano de Manejo).

Conforme, Repinaldo (2013), Alguns dos principais focos da gestão ambiental


da RESEX Marinha de Caeté-Taperaçu, são: educação ambiental, divulgação e
mobilização, esses métodos tem como objetivos a sensibilização e o entendimento
para que as pessoas saibam a importância da conservação da biodiversidade da
natureza, essa gestão visa principalmente informar as pessoas sobre uma ótica mais
próxima da sua realidade.
Ainda segundo, o entrevistado (pesquisa de campo, 2013):
Existe uma forma de identificar as pessoas que fazem parte e que estão
diretamente relacionados com a RESEX Caeté-Taperaçu ou com a área de
amortecimento da mesma, os quais são beneficiados e afetados pelo uso dos
recursos que são encontrados na região, para que ocorra essa identificação,
foi necessário o cadastramento, que segundo Fernando Repinaldo Filho
(integrante do ICMBIO), é um método para saber quem são os usuários e
onde os mesmos se encontram, a pesquisa terminou em Março de 2012
e comprovou, que na área da RESEX e no seu entorno, possui nove mil
e quarenta e cincofamílias que se declaram dependentes das áreas de
manguezais para a sua sobrevivência, conforme o IBGE cada família possui
uma média de cinco pessoas, somando um total de 45 mil, quase a metade
do município de Bragança. As comunidades que se inserem nessa RESEX
são: Vila do Bonifácio; Vila dos Pescadores e Comunidade do Castelo.

Ainda segundo Repinaldo (2013), os usuários dessas áreas são: pescadores, tiradores
de caranguejo, organização comunitária, famílias dependentes da agricultura,
produções alternativas (ex: mel e farinha), pescadores de campo, pesquisadores, as
pessoas que desenvolvem a atividade turística, mesmo que não seja dentro da área,
mas, no entorno, entre outros.

Cada comunidade se organiza em um comitê comunitário, quando as mesmas


fazem parte de uma área geográfica parecida, elas se organizam em um grupo
chamado de polo, esses polos possuem acesso ao conselho, podendo assim tomar
decisões e participarem das reuniões, muitas das decisões que são tomadas em
relação a RESEX saem diretamente por esses comitês comunitários, os polos são:
treme, caratateua, cidade, campos, tamatateua, aracajó, bacuriteua e ajuruteua. Vale
ressaltar que o único polo que atrai o turismo fica em torno da RESEX, sendo o polo
ajuruteua.

Essa atividade refere-se aos mais variados tipos de captura (rede puçá,
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matapi, curral, espinhel, tarrafa, coleta de mariscos, tiração de caranguejo);


confecção/ conserto de equipamentos; preparo do produto. Não se restringe
somente à pesca de fora, ou no mar, mas também às feitas nos mangues,
nos rios nos igarapés, nas quais é possível uma presença mais constante de
mulheres, além das tarefas pré e pós-captura. (ALMEIDA, 2002, p. 95)

A importância dessas atividades é revelada também, para sobrevivência da cultura


local. Modos de vida que oscilam entre a sobrevivência e a criação de símbolos com
o meio ambiente. Um dos objetivos para a criação da Reserva Extrativista Marinha de
Caeté-Taperaçu- é assegurar a sobrevivência da cultura dessas populações.

Algumas problemáticas são encontradas dentro das três comunidades que


foram visitadas, como por exemplo: o processo de formulação e execução de políticas
públicas, com o propósito de dar qualidade de vida para essas comunidades, o lixo
é uma problemática aparentemente causada pelas enchentes do rio e por falta de
uma política ambiental que faça a coleta seletiva, causando assim muitos problemas
sociais e não desenvolvendo de certa forma a atividade turística nas mesmas, já que
para acontecer à atividade turística é necessário que, primeiramente, a comunidade
tenha qualidade de vida para oferecê-la também ao turista que entrará em contato
com a realidade local, dessa forma, segundo Cunha e Coelho (2009, p.44)

O processo de formulação e execução destas políticas é abordado a partir de


uma perspectiva histórica, em que se apresenta uma proposta de periodização
das políticas ambientais no país, e por meio de estudos de caso, em que
são analisadas duas iniciativas recentes de regulação do uso e acesso aos
recursos naturais: a) a legislação dos recursos hídricos e a instituição dos
comitês de bacia e b) a criação de reservas extrativistas como unidades de
conservação de uso direto.

Cada comunidade possui a sua forma subsistência, sendo que, na vila Bonifacio
a economia é diversificada e as atividades preponderantes referem-se ao uso dos
recursos hídricos e a agricultura familiar de subsistência: pesca do camarão, peixe,
mexilhão, turu, e caranguejo, extração do mel e a produção da farinha, sendo que,
alguns são para uso comercial, como por exemplo: a extração do mel, a pesca do
peixe, caranguejo e mexilhão, já o camarão é para consumo e para o uso comercial,
os outros são para consumo da própria comunidade.

Já a vila Que Era possui como principais formas de subsistência, a agricultura,


a pesca, a roça, a produção da farinha e a cerâmica, contudo, não há o interesse
por parte das gerações posteriores em aprender as técnicas de manipulação para
a criação do artesanato, esse é um dos grandes problemas a serem frisados, pois
percebe-se que a cultura irá se perder, pelo fato de não existir uma disseminação
desses conhecimentos para as gerações futuras e a mínima de iniciativas que
despertem os interesses dos jovens e das crianças com relação a continuação da
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criação do artesanato, valorizando de uma certa forma a cultura existente.Por fim,


Tamatateua possui como principais formas de subsistência, a pesca do camarão,
peixe, a produção do açaí e da farinha.

A comunidade Vila do Bonifácio apresentou uma séria problemática de


saúde pública - a falta de água potável. Conforme entrevistas com a Dona Socorro
(Representante da comunidade) houve uma verba de mais de R$170.000 destinados
a perfuração de poço, porém ao perfurar 60 metros de profundidade encontrou-se uma
área rochosa, o que impossibilitou a continuação do serviço. Cerca de quatro anos o
poço continua incompleto e enquanto não há a solução para esse grave problema, as
famílias quando tem condições, compram a sua água, porém a grande parte depende
de poços improvisados em sua casa cuja qualidade é completamente insalubre.

Segundo a Dona Marly (2013), a qual faz parte Vila Taperaçu, um dos grandes
problemas encontrados na comunidade é a falta de um modulo universitário, que dificulta
de certa forma a formação dos jovens e adultos que vivem na mesma, impedindo
assim, a dinamização dos saberes empíricos, uma outra dificuldade a ser abordada, e
que traz transtornos para educação, é o transporte que poderia facilitar o acesso dos
mesmos a universidade que existe na cidade de Bragança. Conforme a mesma, as
escolas possuem uma grande problemática, sendo ela a falta de infraestrutura para
que os estudantes possam estudar com o seu devido conforto, um exemplo disso, é,
a falta de climatização, o uso de telhas brasilites, sabendo-se que o clima é quente e
que prejudica o ensino.

A deficiência de transporte é latente nessa comunidade, pois só tem um


horário de ônibus e os jovens ficam impossibilitados de fazer um curso na cidade,
prejudicando a educação de diversos jovens. Outro problema grave é a falta de escola
de ensino médio, os jovens têm que se deslocar até a cidade de Bragança, com
horários estabelecidos pelo transporte escolar. Além disso, tudo, diversos relatos da
própria comunidade apontam para a falta segurança, e o aumento de consumos de
drogas pelos adolescentes que ali vivem.

Os conflitos interinstitucionais também são evidenciados na comunidade,


lideres comunitários são mal interpretados pela população local o que acaba gerando
diferentes posições e percepções.

Observou-se que, as pessoas não estão preparadas para administrar e


conservar uma Unidade de Conservação, mas que a criação de uma UC é uma ótima
iniciativa para ocorrer à mudança com relação, a valorização do meio ambiente e
da cultura existente, isso só irá acontecer com criação de políticas diferenciadas e a
iniciativa assídua dos órgãos responsáveis pela administração, sendo a comunidade
parte integrante dessa administração.
A única ajuda que as famílias possuem, é a bolsa família. Já existe um centro
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comunitário que funciona através da ajuda de pessoas do INCRA, apesar de


ter também gerado um sério conflito entre católicos e evangélicos. Pois não
queriam o centro lá, queriam derrubar o centro, uns diziam que pertencia
aos evangélicos, outros lutaram, pois independente de crenças o centro é da
comunidade. (PESQUISA DE CAMPO, 2013)

Quando a discussão sobre as Unidades de Conservação começam acontecer, os olhares


em torno de uma UC mudam, facilitando assim, o entendimento e proporcionando
alguns benefícios, uma delas foi proporcionada pela UEPA (Universidade Estadual
do Pará), com a criação de um projeto que tem como objetivo principal a saúde, esse
projeto visa fazer o pré-natal das grávidas, identificar as causas das pessoas adquirirem
os vermes, identificar a viabilidade da água que é consumida, entre outros objetivos,
conforme a Dona Marly, o projeto terá seis meses para observar a sua funcionalidade
na prática, depois disso o projeto será expandido para as outras comunidades.

Segundo os relatos da moradora da Vila do Bonifácio apesar das várias


dificuldades enfrentadas pelos moradores da RESEX, a presença do ICMBIO trouxe
grandes benefícios para a comunidade como maiores informações e participações
no que diz aos direitos e deveres dos moradores da UC, mas, percebeu-se que não
adianta em nada criar uma Unidade de Conservação se não existe a mínima estrutura
(física) para a manutenção da mesma e para suprir as necessidades das pessoas
que a habitam, um exemplo disso é inexistência de uma base do ICMBIO dentro das
comunidades, para terem o acesso direto com as dificuldades encontradas, facilitando
de certa forma o dialogo entre Instituto e comunidade.

Assim, a grande problemática verificada em campo foi em geral a latente falta do


poder público (Municipal e Estadual) na RESEX Marinha de Caeté- Taperaçú. Casos
que conforme a leitura do livro de Cunha e Guerra (2009) é preciso “uma análise mais
profunda das políticas ambientais e de sua integração com outras políticas públicas e
com as transformações sociais necessárias ao país”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O turismo em área de proteção ambiental pode apresentar-se como importante


gerador de divisas capaz de produzir oportunidades de trabalho e renda com o intuito
de contribuir para a redução das desigualdades regionais e sociais nas mais diversas
localidades do país, também como para estruturação e ordenamento da atividade
turística, baseando-se nos princípios da participação, valorização cultural e social.

No entanto observou-se que há a tentativa de uma gestão participativa eficaz,


porém, alguns problemas ainda são visíveis na Unidade de Conservação que poderão
ser minimizados através da conclusão e prática do plano de manejo e da iniciativa
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assídua da comunidade, buscando sempre comunicar-se com as esferas que estão


envolvidas na administração da RESEX Marinha Caeté-Taperaçú, dessa forma,
todos os interesses envolvidos serão atingidos, direcionando assim, para a inclusão
da sociedade, com o objetivo de desenvolver a atividade turística de uma maneira
sustentável e comunitária onde todos estejam inclusos tanto no planejamento quanto
na execução da mesma.

Portanto, percebeu-se durante a visita naRESEX Caeté-Taperaçu/Bragança a


tentativa de se estabelecer a atividade turística nas comunidades que fazem parte ou
que estão no entorno da mesma, podendo assim, servir futuramente, como exemplo
para práticas desse segmento do turismo em outras localidades, objetivando não
apenas a geração de renda a partir desta atividade, como também a geração de
emprego, valorização cultural e inserção da comunidade em todas as etapas da
prática da atividade turística, porém, observou-se a necessidade de infraestrutura,
planejamento, transporte e outros fatores que são fundamentais para tal prática e
principalmente para suprir as necessidades da própria comunidade.

REFERÊNCIAS

Almeida, Fernando- O bom negócio da sustentabilidade- Rio de Janeiro: Nova


Fronteira, 2002.

ARRUDA, Rinaldo. Populações tradicionais e a Proteção dos recursos naturais em


Unidades de Conservação”. In Anais do Primeiro Congresso Brasileiro de Unidades
de Conservação. Vol. 1 Conferência e palestra, pp. 262-276. Curitiba. Brasil, 1997.

BRASIL. Planalto. Lei nº 9.985, de 18.07.2000. Disponível em: <http://www.planalto.


gov.br/ccivil_03/leis/L9985.htm> Acesso em 20 de fev. 2012.

COELHO. Lígia Martha C. da Costa. História(s) da educação integral. Em aberto,


Brasília, v.22, n.80, p.83- 96, abr.2009.

CUNHA, L. H.; COELHO, M. C. N. Política e Gestão Ambiental. In: CUNHA, S. B.


da.; GUERRA, A. J. T. (Orgs.). A questão ambiental: diferentes abordagens. Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 2009. (p. 43-79).

DIAS, G.F. Educação Ambiental: princípios e prática. 8. ed. São Paulo: Gaia,
2003.

DIEGUES, O mito moderno da natureza intocada. São Paulo: Núcleo de Apoio à


Pesquisa sobre Populações Humanas e Áreas Úmidas do Brasil – NUPAUB/USP,
1994
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HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização– Do “fim dos territórios” à


multiterritorialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006, 2a.ed.

HANNIGAN, J. A. Natureza, ecologia e ambientalismo: formulação do


conhecimento ambiental. In: HANNIGAN, J. A. Sociologia ambiental: a formação de
uma perspectiva social. Lisboa: Instituto Piaget, 1995. (p. 145-168).

MAGRO, T. C. Percepções do Uso Público em UCs de Proteção Integral. In: Alex


Barger. (Org.). Áreas Protegidas: Conservacao no Ambito do Cone Sul. Pelotas. 1
ed. Pelotas: edicao do editor, 2003, v. 1, p. 87-98.

RUSCHMANN, Doris. Turismo e planejamento sustentável: A proteção do meio
ambiente. Campinas, SP: Papirus, 2010. (Coleção Turismo)

Site das Unidades de Conservação no Brasil, disposto em: http://uc.socioambiental.


org/uc/4342 acesso em: 30/jan/2013 às 15:30 h.

QUARESMA, Helena Doris. O desencanto da princesa: Pescadores tradicionais


e turismo na área de proteção ambientais de Algodoal/Maiandeua. Belém: NAEA,
2003.

História de Bragança: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=883026


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UNIDADES DE CONSERVAÇÃO: ECOTURISMO E HOSPITALIDADE

RESUMO:
As unidades de conservação, principalmente os parques nacionais, são um dos
principais ambientes para a prática do ecoturismo, sendo este amplamente incentivado
pelos órgãos governamentais sobre o meio ambiente e entendido como uma forma de
incentivo à conservação ambiental. Dessa forma os gestores dos parques nacionais
precisam se organizar e planejar de que forma vão permitir que os objetivos de tais
unidades de conservação, enquanto parque, sejam entendidos e percebidos pelos
visitantes que serão os agentes que perpetuarão o trabalho de conservação. Por isso,
os objetivos deste trabalho é perceber, baseado nos conceitos da hospitalidade, como
é feita a recepção aos visitantes no Parque Estadual da Serra da Tiririca (PESET),
localizado no Estado do Rio de Janeiro e apresentar ao parque um diagnóstico que
possa auxiliar o processo de recepção e acolhimento dos visitantes do parque. Na
metodologia, desenvolvemos indicadores de hospitalidade que foram verificados a
partir de visitas ao parque, fotografias e um questionário que enviamos por e-mail
e fomos respondidos. Observamos que o Parque Estadual Serra da Tiririca é um
importante atrativo de ecoturismo na cidade e de beleza irrefutáveis, mas que precisa
organizar e melhorar o processo de recepção e acolhimento aos visitantes a fim
de atingir o seu principal objetivo que se refere à sua própria conservação e outros
objetivos que o constituem.
PALAVRAS-CHAVE: Ecoturismo. Hospitalidade. Parque Estadual Serra da Tiririca

ABSTRACT / RESUMEN:
Las áreas protegidas, especialmente los parques nacionales son uno de los principales
espacios para el ecoturismo, que es ampliamente fomentado por las agencias
gubernamentales sobre el medio ambiente que la entienden como una forma de
fomentar la conservación del medio ambiente. Así, los administradores de los parques
nacionales deben organizar y planificar como van a permitir que los objetivos de las
áreas protegidas, como los parques, sean entendidos y percibidos por los visitantes
para que estos sean agentes que perpetúan el trabajo de conservación. Por lo tanto,
los objetivos de este trabajo es realizar, en base a los conceptos de hospitalidad, como
se hace la recepción de visitantes en el Parque Estadual Serra da Tiririca (PESET),
ubicado en el Estado de Río de Janeiro y hacer un diagnóstico que pueda ayudar
el proceso de recepción de los visitantes del parque. En la metodología, hemos
desarrollado indicadores de hospitalidad que se verificaron desde visitas al parque,
fotografías y un cuestionario enviado por correo electrónico. Tomamos nota de que
el Parque Estadual Serra Tiririca es una gran atracción del ecoturismo en la ciudad
y la belleza irresistible, pero necesita la organización y el proceso de recibir a los
visitantes a mejorar con el fin de alcanzar su objetivo principal a respecto de su propia
conservación y otros objetivos que lo constituye.
PALABRAS-CLAVES: Ecoturismo. Hospitalidad. Parque Estadual Serra da Tiririca
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INTRODUÇÃO

As áreas naturais nem sempre tiveram importância como opção de lazer


na sociedade, mas principalmente a partir do século XX, tais áreas tem sido muito
frequentadas. Atualmente, o ecoturismo é a modalidade do turismo que mais cresce
no mundo sendo responsável por 10% da motivação dos turistas segundo o MTur
(2014), assim, não há dúvidas de que o turismo é uma das razões de valorização
desses espaços.

As áreas naturais nem sempre tiveram importância como opção de lazer


na sociedade, mas principalmente a partir do século XX, tais áreas tem sido muito
frequentadas. Atualmente, o ecoturismo é a modalidade do turismo que mais cresce
no mundo sendo responsável por 10% da motivação dos turistas segundo o MTur
(2014), assim não há dúvidas de que o turismo é uma das razões de valorização
desses espaços.

O turismo como um fenômeno econômico, social, cultural e  ambiental  tem se


apropriado dos espaços naturais e urge a necessidade de que esses espaços sejam
organizados  e planejados de forma a garantir sustentabilidade e a conservação
ambiental sendo estes os princípios que fundamentam uma unidade de conservação.

Toda atividade realizada em uma unidade de conservação deve,


obrigatoriamente, considerar os princípios da sustentabilidade e da conservação
ambiental e esses pontos devem ser ampliados e perpetuados por todos aqueles que
praticam o ecoturismo.

Por esse motivo inserimos a hospitalidade no contexto do planejamento


do ecoturismo no Parque Estadual da Serra da Tiririca, pois, acreditarmos que a
hospitalidade possui valores e elementos que podem auxiliar na ratificação do turismo
sustentável e nos princípios que fundamentam a existência dos parques naturais.
Este artigo foi retirado do Trabalho de Conclusão de Curso apresentado no curso de
Turismo da Universidade Federal Fluminense no segundo semestre de 2013 intitulado
“As possíveis relações entre a hospitalidade e a prática do turismo nos espaços
naturais” tendo obtido nota máxima.

UNIDADES DE CONSERVAÇÃO: ECOTURISMO E HOSPITALIDADE

O Brasil possui 346 unidades de conservação na categoria parque e destes, 42


estão localizadas no Estado do Rio de Janeiro, sendo este, o terceiro estado com a
maior quantidade de parques, divididos entre as três esferas administrativas, ficando
atrás de Minas Gerais e São Paulo com 51 e 48 respectivamente.

Os parques naturais, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação


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(ICMBio), órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente (MMA),  são a categoria


mais antiga e popular de unidade de conservação e possui o principal objetivo de
conservar ambientes ecologicamente relevantes e que também possuem beleza
cênica.

Nos parques há a possibilidade de realização de diversas atividades de interesse


público como pesquisas, educação ambiental, ecoturismo, atividades esportivas e
outras, obviamente levando em consideração a conservação ambiental.

Dentre as atividades mencionadas anteriormente, destacamos o ecoturismo que


é o seguimento do setor turístico que mais cresce no mundo segundo a Organização
Mundial de Turismo (OMT). De acordo com o Ministério do Turismo (MTur) o ecoturismo:

é um seguimento da atividade turística que utiliza de forma sustentável,


o patrimônio natural e cultural, e incentiva  a sua conservação e busca a
formação de uma consciência ambientalista por meio da interpretação do
ambiente, promovendo o bem-estar das populações. (Ministério do Turismo,
Ecoturismo: orientações básicas, p. 2010)

O dado apresentado pela OMT e a definição de ecoturismo do MTur mostram


a importância do ecoturismo e traz juntamente uma reflexão sobre a forma como os
parques têm sido organizados para que a partir do ecoturismo, consiga promover uma
prática sustentável em todos os sentidos.

Essa reflexão torna-se importante uma vez que na própria definição do


ecoturismo, essa atividade, está intrinsecamente relacionada a uma preocupação
com a sustentabilidade e com a formação de uma consciência ambiental, que envolve
e deve envolver todos aqueles que o praticam. Assim, a forma de organização dos
espaços onde há a realização do ecoturismo deve ser motivo de atenção e discussão.

Para esse assunto apontamos a hospitalidade como uma opção e um caminho


a ser percorrido para o alcance dos objetivos para os quais o ecoturismo se propõe.
A hospitalidade pode auxiliar e oferecer importantes benefícios ao planejamento das
atividades realizadas nos parques naturais.

Sobre essa questão, citamos Grinover (2007) ao apontar que aliado à


hospitalidade há outros fatores importantes como a educação, a gestão participativa e
o diálogo com os steakholders que se tornam os principais fatores para o planejamento
de qualquer atividade que busca um modelo sustentável de operação.

Grinover (2007) reforça que é necessário despertar em toda a sociedade essa


responsabilidade a fim de que a busca dos objetivos sejam melhores alcançados e de
forma coletiva. Ele complementa ao declarar que a hospitalidade torna-se a base para
o desenvolvimento sustentável sejam nos espaços urbanos ou naturais.
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Ao conceito da hospitalidade estão inseridos diversos sentidos e para Gidra


e Dias (p.119, 2004), a hospitalidade, é rica em significados e interpretações não
possuindo, muitas vezes, um sentido único e imperativo.

Para este trabalho concordamos com Batista (2002, p.157) que entende
a hospitalidade como um modo privilegiado de encontro interpessoal marcado
pela atitude de acolhimento em relação ao outro e apresenta-se como experiência
fundamental constitutiva da própria subjetividade, devendo, como tal, ser potenciada
em todas as suas modalidades e em todos os contextos de vida.

Destacamos no ponto de vista de Batista (2002), o fato de que a hospitalidade


deve ser compreendida em todas as suas modalidades e em todos os contextos de vida
e, sendo as áreas naturais espaços de interação social que fazem parte do contexto
de vida do turismo, que reafirmamos a importância de se analisar o ecoturismo sob a
ótica da hospitalidade.

Vale comentar, porém, que os valores da hospitalidade aproximam os diversos


sentidos, pois, em qualquer que seja a percepção da hospitalidade entre os diversos
grupos sociais, a ideia do bom acolhimento está inserida ao termo juntamente com o
espaço aonde essa ação de desenrola.

A ideia da hospitalidade, a partir do acolhimento, é estabelecer um ambiente


em que o respeito, a reciprocidade, o amor, a cortesia, a solidariedade, a empatia,
dentre outros valores sejam imperativos predominantes nas relações humanas. Torna-
se importante apontar que esses valores não se referem apenas às pessoas, mas aos
espaços e principalmente à natureza enquanto organismo vivo.

Acreditamos que o acolhimento pressupõe uma melhor forma de conhecimento


do outro através do respeito às particularidades, necessidades, exigências e diferenças.
O relacionamento deve ser um momento de agregação de valores, do despertar de
uma sensibilidade capaz de transformar pessoal e coletivamente todos os envolvidos
na relação.

É necessário que os imperativos da hospitalidade sejam mantidos para que


se consiga o bom acolhimento em todas as relações e espaços sociais, pois, o seu
principal objetivo é promover o (re) conhecimento e aproximação entre os seres
humanos e estes com a natureza e produzir um momento de construção ética, moral,
social e espiritual.

Ao voltarmos à definição de ecoturismo percebemos que ela vai de encontro


com o sentido da hospitalidade, pois, o (re) conhecimento e aproximação com os
parques naturais permitirão que os visitantes respeitem, cuidem e preservem o espaço
visitado, não apenas como um espaço turístico como se esse fosse o único significado
dado a esses locais, mas como um ambiente vivo e dinâmico que permite diversas
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formas e vivências.

Desse modo, torna-se necessário que os parques naturais sejam organizados


de forma a permitir o encontro do homem consigo mesmo, com o próximo e com a
natureza, afim de que, possam permitir a criação de vínculos humanos conscientes,
duradouros e transformadores.

Podemos dizer que as práticas sustentáveis nos espaços naturais são realizadas
a partir da apropriação, da identificação e do entendimento de que essa é uma meta
coletiva que envolve os planejadores e aqueles quem esse planejamento se destina.

ESPAÇOS SOCIAIS DA HOSPITALIDADE

Diversos são os estudos a cerca da hospitalidade e os espaços aonde ela


se desenrola. Existem duas escolas clássicas sobre o estudo da hospitalidade que
são a escola americana e a escola francesa que possuem orientações divergentes a
respeito do tema, mas essa discussão será realizada em outro trabalho, pois este não
é o foco deste estudo.

É importante destacar que essas escolas iniciaram à discussão do tema e,


atualmente, outros grupos de estudo de referência se formaram e têm produzido
importantes trabalhos. Citamos o grupo britânico representado pelos estudiosos
Conrad Lashley e Alison Morrison, e no grupo brasileiro destacamos a participação
de Luiz Otávio de Lima Camargo, cuja contribuição é a que fundamenta este trabalho.

Camargo (2004) desenvolveu um trabalho intitulado Hospitalidade e neste, ele


afirma que inúmeras circunstâncias da globalização fizeram da hospitalidade um tema
recorrente na discussão filosófica e científica atual. Neste trabalho ele ainda propõe
uma definição analitico-operacional em que o mesmo considera ser mais abrangente
que as encontradas em manuais de turismo.

O autor afirma que a hospitalidade possui um caráter ético e é considerada


um ato humano que pode ser exercida no contexto doméstico, público e
profissional de recepcionar, hospedar, alimentar e entreter pessoas que estão
temporariamente  deslocadas de seus locais de permanência efetiva.

A partir dessa definição Camargo (2004) cria dois eixos que são os tempos
e espaços sociais da hospitalidade. Os tempos sociais se referem à recepção e
acolhimento de pessoas, o ato de hospedar, entreter e alimentá-las; o segundo são
os espaços sociais que se referem aos locais onde o processo anterior se desenrola,
nesse sentido, o autor aponta os espaços domésticos, públicos, comerciais e virtuais.

Na tabela da figura 1 podemos ver os eixos criados por Camargo (2004).


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DOMÍNIOS DA HOSPITALIDADE

  Recepcionar Hospedar Alimentar Entreter

Doméstica Receber pessoas Abrigar pessoas Receber pessoas Receber pessoas para
em casa. em casa. em casa para momentos especiais
refeições. ou festas.

Pública Recepção em Hospedagem A gastronomia Espaços públicos de


espaços públicos proporcionada local. lazer e eventos.
de livre acesso. pelo lugar.

Comercial Serviços Meios de Restauração. Espaços privados de


profissionais de hospedagem lazer e eventos.
recepção. comercial.

Virtual Folhetos, cartazes, Sites e Programas na Jogos e


folderes, internet, hospedeiros de mídia e sites de entretenimentos na
telefone, e-mail. sites. gastronomia. mídia eletrônica.
Figura1: Os domínios da hospitalidade
Fonte: Adaptado de Camargo (2004)

O próprio autor destaca que a criação desses eixos são uma tentativa e um
desafio pessoal para responder quais seriam os locais e práticas sociais que poderiam
ser inseridas no contexto da hospitalidade. E a partir dessa questão que incluímos o
PESET nessa proposta, pois entendemos que este é um local de interação social
onde as melhores práticas de acolhimento resultarão em impactos mais positivos.

PARQUE ESTADUAL SERRA DA TIRIRICA

O Parque Estadual da Serra da Tiririca está localizado nas cidades de Niterói e


Maricá e foi criado no dia 29 de novembro de 1991 pela Lei Estadual nº 1.901. Nesta
década, havia intensas discussões sobre a proteção ambiental e as formas como esta
deveria ser feita, assim, grupos de ambientalistas, representantes de setores públicos
e comunitários lutaram para a formação do PESET.

Este parque conserva uma fauna e flora originais da Mata Atlântica e,


segundo o World Wildlife Fund (WWF) – Brasil, esse bioma é recordista mundial em
biodiversidade e também um dos mais ameaçados do planeta. Como reconhecimento
da importância ecológica desse bioma, o PESET, foi declarado como Reserva da
Biosfera da Mata Atlântica pela UNESCO no ano de 1992.

A criação do parque surgiu da necessidade de proteger o que restava de


mata atlântica, pois havia um processo de poluição, desmatamento e outros tipos de
degradação ambiental com a presença de mineradoras, saibreiras e a especulação
imobiliária.

Uma característica relevante é que o PESET é o único Parque Estadual criado


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por movimentação popular (INEA, 2009). A primeira delimitação do PESET é datada


de 1993; em 2007 foram definidos novos limites ao parque e, finalmente, no ano de
2012, a partir do Decreto Estadual 43.913, novas áreas foram anexadas à unidade.

No processo de formação do PESET além da critica às atividades econômicas


os grupos de ambientalistas e comunitários também criticavam a presença das
comunidades tradicionais que viviam naquele local desde o século XIX sendo
consideradas prejudiciais à conservação da natureza e, muitas vezes, eram vistos
como favelados (SIMON, 2003).

Vale destacar que uma das características das áreas naturais protegidas
brasileiras, como em grande parte da América Latina, é a presença de populações
tradicionais como os indígenas, caiçaras, ribeirinhos e quilombolas vivendo nesses
locais.

Esse fato torna-se pertinente uma vez que o modelo de unidades de conservação
do Brasil foi importado do modelo norte-americano que possuía a ideia de área natural
sem a ocupação humana. Essa situação causou muitos conflitos entre grupos contra
e a favor da permanência das comunidades tradicionais no ambiente que lhes era
natural.

O Ministério do Meio Ambiente ao criar a Lei que institui o Sistema Nacional


de Unidades de Conservação (SNUC) de nº 9.985, de 18 de julho de 2000, corrobora
com o entendimento de parques sem moradores “O Parque Nacional é de posse e
domínio públicos, sendo que as áreas particulares incluídas em seus limites serão
desapropriadas, de acordo com o que dispõe a lei”.

As vivências, as experiências e a moradia dos povos tradicionais foram


totalmente desconsideradas, embora a conservação dos espaços naturais tenha sido
possível devido ao desenvolvimento de um processo de utilização consciente dos
recursos da natureza.

A partir da luta dessas comunidades e de muitos outros atores sociais que se


aliaram a causa, o direito dos povos tradicionais à terra  foi percebido e entendido
como legítimo mesmo que ainda hoje, haja alguns conflitos nesse sentido. Sobre esses
conflitos na formação do PESET, a Universidade Federal Fluminense – UFF, através
do curso de Antropologia foi um importante aliados das comunidades tradicionais.

Essa luta foi garantiu a permanência das comunidades tradicionais nos


limites do parque através de uma lei datada 1995 e, além de assegurar este direito
às comunidades, também impõe que elas cumpram exigências que mantenham
a conservação do espaço. Atualmente existem quatro comunidades tradicionais
organizadas que vivem nos limites do parque.
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Embora o PESET tenha sido criado em 1991, somente dezessete anos depois,
em 2008, tomou posse o primeiro gestor do parque e, juntamente à posse, o desafio
de gerir um parque com muitos problemas desde a época que fora criado. Não havia
planejamento, organização e fiscalização das atividades que poderiam ser realizadas
no local. Na figura 2 podemos ver a um mapa da delimitação atual do parque:
MAPA DE AMPLIAÇÃO DO PESET – 2012

Figura 6: Delimitação PESET


Fonte RC Ambiental, 2013

Atualmente o parque conta com uma sede que possui um centro de visitantes,
um auditório, um laboratório para pesquisadores e um núcleo de prevenção de
incêndios de incêndios florestais; uma sub-sede com um pequeno espaço onde ficam
geralmente três guarda-parques que oferecem suporte aos visitantes.

O parque possui uma equipe de funcionários formados por um administrador,


uma subchefe, uma coordenadora de uso público, um agente administrativo, um
agente do serviço de proteção, guarda-parques e agentes de vigilância patrimonial. O
PESET possui um conselho consultivo atuante formado por 38 instituições, inclusive
com representantes da comunidade tradicional.

A gestão do parque, ainda que tenha seis anos de atuação, tem tentado organizar
o PESET e assim tem alcançado algumas conquistas. Um exemplo dessas conquistas
foi uma parceria com o curso de Turismo da Universidade Federal Fluminense que
montou um grupo de pesquisa, Grupo de Trabalho de Turismo em Áreas Protegidas -
GTTAP em 2009, com o objetivo principal de conhecer o perfil dos visitantes do parque.
Em 2012 e 2013 a pesquisa foi realizada pela equipe de uso público de parque.
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Uma deficiência encontradas no PESET é a falta de um plano de manejo que


de acordo com o  MMA (2014) “é um documento consistente, elaborado a partir de
diversos estudos, incluindo diagnósticos do meio físico, biológico e social” que deve
ficar pronto no período de cinco anos após a criação do parque de acordo com o
SNUC.

O plano de manejo é um documento é essencial, pois ele auxilia no


planejamento e organização das atividades que poderão ser realizadas no parque e
visa, principalmente, a conservação e diminuição dos impactos negativos.  

ECOTURISMO NO PESET

Como mencionamos anteriormente, o PESET é um pólo de ecoturismo das


cidades de Niterói e Maricá e de acordo com o próprio parque, eles recebem cerca de
85 mil visitas por ano. Dado a importância que o parque possui, ele foi contemplado
com o projeto de “Fortalecimento e implantação da gestão de uso público para o
incremento da visitação nos parques estaduais do Rio de Janeiro” que prevê a
organização destes para os megaeventos de 2014 a 2016.

Diversas atividades podem ser realizadas no parque como escalada, pesca,


canoagem, passeios de barco, mas a principal delas são as caminhadas nas trilhas.
As trilhas disponíveis para visitação são Morro das Andorinhas, Morro do Tucum, mais
conhecido como ”Costão de Itacoatiara”, Enseada do Bananal, Alto Mourão ou “Pedra
do Elefante”, Córrego dos Colibris, Caminho Darwin e o Mirante de Maricá (INEA,
2009).

Após a expansão do parque em 2012 novas áreas de interesse turístico foram


anexadas ao PESET, porém a gestão do parque não faz a divulgação desses espaços
porque eles ainda não possuem um planejamento e um acompanhamento pela equipe
de uso público do parque. Assim que as áreas forem organizadas, o acesso aos locais
será disponibilizado.

Na figura 3 podemos ver um mapa das trilhas do PESET que são disponíveis
para visitação e depois faremos uma apresentação das trilhas.
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MAPA DAS TRILHAS DO PESET

Figura 3: Trilhas PESET1


Fonte PESET, 2012

Morro das Andorinhas – Esta trilha está localizada no bairro de Itaipu sendo
a única fora do bairro de Itacoatiara e representa um importante espaço do PESET,
pois além da belíssima vista e vegetação, abriga a comunidade tradicional do Sítio da
Jaqueira.

Morro do Tucum ou ”Costão de Itacoatiara” – Esta é a trilha mais visitada do


PESET e por estar próxima à praia, torna se um atrativo a mais para quem não conhecia
a trilha. Possui uma vista panorâmica das praias de Itacoatiara, Itaipu e Maricá. Esta
trilha é considerada moderada e é o setor que abriga a subsede do parque.

Enseada do Bananal – Localizada também em Itacoatiara e com acesso na


subsede do parque esta trilha é considerada leve e a caminhada pode ser feita em
30 minutos. Possui também beleza singular e além da caminhada podem ser feitos
mergulhos, escaladas e rapel em suas formações rochosas.

Alto mourão ou “Pedra do Elefante” – O acesso à Pedra do Elefante é feito


pelo Mirante de Maricá e é o ponto mais alto de Niterói. A caminhada desta trilha é
considerada pesada, possui cerca de 2km e pode ser feita em aproximadamente 1h30.
1 Na ordem de acordo com o mapa da figura 3: (1) Morro das Andorinhas, (2) Morro do Tucum
– Costão de Itacoatiara, (3) Enseada do Bananal, (4) Pedra do Elefante, (5) Sede PESET, (6) Mirante
Itaipuaçu, (7) Córrego dos Colibris, (8) Mirante Alto Mourão, (9) Sub-sede PESET, (10) Caminho Darwin
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Antigamente o acesso à trilha podia ser feito em Itacoatiara, na subsede do parque,


porém o grande número de pessoas que passava pela trilha causou muitos impactos
negativos como a degradação do espaço, forçando a sua interdição.

Córrego dos Colibris – É mais uma bela área do PESET. A caminhada pode ser
feita em 10 minutos, possui uma trilha plana e o acesso é feito pelo Engenho do Mato.
Esta trilha é muito visitada pelos colégios da região.   

Caminho Darwin - De grande importância mundial esta trilha recebeu a visita


de Charles Darwin no ano de 1832 quando o mesmo passava pelo Rio de Janeiro.
Esta trilha possui 2km de extensão e são feitas caminhadas, passeios de bicicleta e
cavalgada. O acesso ao Caminho Darwin é feito pelo Engenho do Mato, em Niterói, e
chega até Itaoca em Maricá  

Mirante de Maricá – Localizado no caminho entre os bairros de Itaipuaçu


(Marica) e Itacoatiara, este mirante possui uma belíssima vista do PESET e das praias
de Itaipuaçu. Como o acesso é feito por carro, muitos que passam por esse caminho,
aproveitam para tirar fotos e apreciar a vista.

CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO DA HOSPITALIDADE NO PESET

Os critérios de avaliação da hospitalidade no PESET foram baseados no quadro


dos domínios sociais da hospitalidade de Camargo (2009), apresentados anteriormente
e essa avaliação tem a finalidade de auxiliar o processo de acolhimento dos visitantes
no parque.

Entendemos que a forma como o parque acolhe, recepciona os seus visitantes


influi diretamente no alcance dos objetivos de conservação e da sustentabilidade
que fundamentam a existência do parque. Na figura 4 apresentamos os critérios de
avaliação desenvolvidos.

AVALIAÇÃO DA HOSPITALIDADE NO PESET


Receber Hospedar Entreter Alimentar

Centro de visitantes Conservação do parque Placas interativas Bebedouros


(plantas, trilhas)
Equipe de apoio Limpeza Eventos Oferta de alimentação
no entorno
Atendimento aos Lixeiras Atividades  
PNE’s esportivas
Atendimento bilíngue Placas informativas Atividades  
educativas
Equipe de primeiros Segurança Atividades para os  
socorros PNE’s1
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Sinalização interna Telefone público    

Sinalização externa Visita guiada    

Sinalização adaptada Sanitários     

Site      

Figura 4: Critérios de Avaliação da hospitalidade PESET


Fonte: Adaptado de Camargo

O receber da hospitalidade faz parte do primeiro contato entre hóspede e


anfitrião, entre visitante e visitado seja frente a frente ou no espaço virtual. Desse
modo, os critérios que propusemos no receber, acreditamos que poderão oferecer
um acolhimento de qualidade ao visitante e influenciará também no desejo de se
hospedar ou ser acolhido no ambiente do parque.

O hospedar é o momento de permanência do visitante no espaço e a organização


deste, precisa oferecer ao visitante todo o conforto necessário, obviamente, de
acordo com as características do local e permitir a aproximação entre este visitante
e o espaço visitado. O hospedar precisa reforçar essa necessidade de aproximação,
conhecimento, reconhecimento e renovação de laços entre homem e natureza.

O entreter, inserido no contexto do hospedar, está relacionado às atividades


desenvolvidas pelo anfitrião com o intuito de envolver o visitante nas dinâmicas do
parque. As atividades desenvolvidas neste, devem contribuir para que o momento
de permanência do visitante contribua para a interpretação e educação ambiental a
fim de promover e impulsionar atitudes conscientes em todos os espaços sociais de
convivência desse visitante.

No alimentar consideramos se o parque dispõe da água para os visitantes ao


longo da trilha ou no centro de visitantes, a oferta de alimentação no entorno e se há
algum tipo de integração e envolvimento com as comunidades tradicionais locais que
oferecem esse serviço.

RESULTADOS DA AVALIAÇÃO

Para a avaliação da hospitalidade no PESET realizamos quatro visitas ao


parque em dois finais de semanas do mês de novembro de 2013 e além destas visitas
montamos um questionário com algumas perguntas à turismóloga do parque que nos
foi respondido por email e telefone.

A hospitalidade do PESET está inserida no contexto de espaço público. As visitas


foram feitas nas trilhas do Morro das Andorinhas, Costão de Itacoatiara, Enseada do
Bananal, Córrego dos Colibris, Caminho Darwin e Mirante Itaipuaçu. Ficaram de fora
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da análise a trilha da Pedra do Elefante, a Reserva Ecológica Darcy Ribeiro e as Ilhas


do Pai, da Mãe e da Menina.

A trilha da Pedra do Elefante ficou de fora porque além de possuir um nível


pesado o seu acesso é pelo mirante de Maricá e o caminho para chegar a este mirante
não é seguro para uma caminhada, pois não possui calçada de pedestres e os carros
geralmente estão em alta velocidade. Ademais, segundo a responsável pelo setor de
uso público do parque, o mirante não é um bom local para estacionar o veículo.

As outras trilhas, como já comentamos, não constam como atrativos de


ecoturismo do PESET, pois ainda não foram organizadas para tal atividade e uma
visitação intensa gerariam muitos impactos negativos na região. Além do mais não
há funcionários suficientes no parque para que seja feita uma fiscalização completa.

No contexto do receber, apenas duas trilhas possuem postos de visitantes


que são a Enseada do Bananal e o Costão de Itacoatiara, sendo esta a trilha que
mais recebe visitantes do parque. Este posto serve apenas de abrigo para os guarda-
parques e/ou para os funcionários e não há contato com os visitantes salvo se forem
solicitados e nesse caso, são bastante atenciosos.

A equipe de apoio do PESET é pequena dada a sua dimensão, mas o parque


disponibiliza os números de telefone da sede e da sub-sede caso alguém necessite
de informação ou ajuda além de ter uma parceria com o corpo de bombeiros e com a
polícia militar local.

Alguns funcionários do parque são bilíngues. Sobre os PNE’s, ainda não há


nenhum tipo atendimento e atividades organizadas para este público, mas segundo
a turismóloga do parque que conversou conosco alguns projetos estão sendo
desenvolvidos.

Umas das nossas principais críticas ao parque se referem à sinalização que


está ruim principalmente no estado de conservação, pois grande parte delas sofreram
ação de vandalismo como pichações. Outra ponto negativo se refere à localização
das placas nas trilhas uma vez que algumas são impossíveis de serem observadas ou
nas trilhas os nos locais de acesso ao parque.

Na época em que realizamos este trabalho o parque possuía uma página oficial
na internet, era bastante organizado e trazia informações importantes sobre o horário
de funcionamento do parque, localização das trilhas e grau de dificuldade, dicas de
uma caminhada consciente, opção de visita guiada, telefones e e-mails de contato.

Um problema que encontramos neste site foi a falta de atualização da página


que trazia apenas informações de 2012. Quando questionamos isso por telefone
a responsável pelo parque, no momento, disse realmente que a página estava
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desatualizada, mas que as informações de contato e informações das trilhas estavam


corretas.

Porém não fomos informados sobre uma página oficial do parque no facebook,
criada naquele mesmo ano (2013) que é muito organizada, atualizada e possui
diversas informações sobre as atividades que o parque tem organizado como mutirões
de limpeza, atividades culturais e atividades realizadas com escolas relacionadas ao
meio ambiente, informações a fauna e flora, sobre serviços de primeiros socorros, e
muitas fotos.

No que se refere ao hospedar, de forma geral a conservação da trilha é boa,


embora seja possível encontrar traços de vandalismos como pichações nas rochas e
nas árvores, principalmente no Costão de Itacoatiara e enseada do Bananal. A limpeza
do parque também é boa, mas encontramos alguns lixos no chão, especificamente no
Costão de Itacoatiara e no Mirante.

As trilhas do Caminho Darwin e Morro das Andorinhas não possuem lixeiras ao


longo do percurso, porém não encontramos nenhum lixo. Todas as outras trilhas, com
exceção do Mirante, possuem lixeiras somente no início da trilha e é possível solicitar
sacolas plásticas para os guarda-parques se os visitantes estiverem na sub-sede do
parque que também é o único local com lixeiras seletivas.

Das trilhas visitadas as únicas que possuem placas de informações adicionais


sobre o espaço é o Caminho de Darwin e o Morro das Andorinhas, todas as outras
apontam apenas o nome das trilhas, ou as proibições impostas aos visitantes, desse
modo, não é possível que o visitante tenha informações sobre a fauna e a flora locais,
naturais da Mata Atlântica que, como comentamos anteriormente, é o bioma mais
importante do mundo.

Sobre a segurança na trilha a única que não prosseguimos até o final foi no
Caminho de Darwin porque além do lugar estar deserto, havia um carro queimado no
percurso. Quando informamos o fato ao parque, nos foi dito que a trilha era segura e
que aquele carro estava lá há algum tempo e que a trilha era segura.

Porém, para aqueles que não conhecem o local, essa situação não lhes
transmite segurança, motivo pelo qual não prosseguimos a caminhada. Durante o
percurso não encontramos telefones públicos e sanitários disponíveis aos visitantes,
e mesmo que tenha banheiro público na sub-sede do parque, ele é de uso exclusivo
dos funcionários.

Sobre a visita guiada, o parque tem uma parceria com uma empresa privada
que faz o serviço para grupos entre 10 e 20 pessoas de acordo com a capacidade da
trilha e é cobrado um valor entre 45 e 60 reais por pessoa. Os guarda-parques também
podem fazer o serviço, mas segundo informações do próprio parque, é preferível que
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a empresa faça esse serviço para não descaracterizar a função principal daqueles
que é a fiscalização.

Outra opção de visita guiada é oferecida pelos moradores tradicionais da trilha


do Morro das Andorinhas, porém nenhum responsável pelo parque nos deu essa
alternativa. Descobrimos essa alternativa quando estivemos na trilha e avistamos
uma placa não oficial informado sobre esse serviço, colocada pelos moradores na
entrada da comunidade.

Sobre o entreter o parque tem realizado diversos eventos culturais, obviamente


com uma proposta de cunho ambiental, como teatro de fantoches, roda cultural, PESET
itinerante com informações sobre o parque em algumas praças. Afirmamos que os
eventos são uma importante estratégia fortalecimento da relação com os visitantes,
com a comunidade local e do entorno.

Como placas interativas consideramos àquelas que chamam a atenção dos


visitantes a partir de brincadeiras, curiosidades do parque sobre a sua fauna e flora e
outras dinâmicas chamem a atenção dos visitantes e que agreguem valor à visitação
e estejam focadas na educação ambiental e conservação do ambiente. As únicas
placas que se aproximam dessa proposta foram encontradas no Morro das Andorinhas
e Caminho de Darwin.

As atividades de educação ambiental devem ser uma das principais ações a


serem desenvolvidas por uma unidade de conservação, pois são essas atividades
que ensinam as atitudes ecologicamente corretas tanto no ambiente natural quanto
no ambiente urbano que é o espaço de moradia da maior parte das pessoas e ajudam
da formação social do indivíduo.  

A educação ambiental que o parque realiza geralmente é feita nas escolas da


região, com os eventos, com informações no facebook e no momento da visita guiada,
quando o serviço é solicitado. Acreditamos que as placas informativas e interativas,
expostas anteriormente, podem auxiliar na educação ambiental daqueles visitantes
que não são alcançados de outras formas.

Como já comentamos anteriormente, diversas atividades esportivas podem ser


realizadas no parque, porém aquelas atividades mais complexas como mergulho e
escalada precisam ser autorizadas pelo parque.

O parque ainda não possui atividades específicas para o publico de PNE’s,


mas segundo a turismóloga do parque alguns projetos estão sendo desenvolvidos
afim de alcançá-los e inserí-los na temática ambiental. Em âmbito nacional, citamos o
Parque Nacional da Tijuca que possui atividades para os PNE’S, entendendo também
a importância de envolvimento desse grupo social.
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Para finalizar, no que se refere ao alimentar, a disponibilidade de água aos


visitantes é encontrado apenas na sub-sede do parque; sobre a oferta de alimentação,
no entorno do parque é possível encontrar alguns restaurantes mais simples e outros
mais formais, algumas pensões e lanchonetes.

Algumas comunidades tradicionais do parque também oferecem esse tipo de


serviço. No site oficial que o parque possuía, apontava sobre essa possibilidade, mas
não dizia qual comunidade e sobre como o visitante poderia obter esse serviço ou
contato. Atualmente a página do facebook não traz essa informação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

De acordo com o que apresentamos neste trabalho, acreditamos que a


hospitalidade pode auxiliar no processo de planejamento e organização das atividades
que os gestores do parque venham a organizar e potencializar a ratificação do turismo
sustentável.

Um ponto importante que precisamos ressaltar se refere aos parques naturais


como locais que possuem uma importância e uma responsabilidade social  ao
ajudar na formação de uma consciência ambiental, pois a prática do ecoturismo de
forma isolada não resulta na conservação da natureza e não gera uma mudança na
mentalidade dos visitantes.

Os elementos e estruturas que propomos para avaliar a hospitalidade no parque


não expressam sozinhos a hospitalidade, mas fazem parte de um contexto que tem por
objetivo proporcionar um bom acolhimento aos visitantes e, por conseguinte, alcançar
a sustentabilidade, a conservação do espaço e a mudança na mentalidade de todos.

Os eventos e trabalhos que o parque tem realizado fortalecem a sua relação com
o público que podem se tornar agentes fiscalizadores de forma a impedir atividades e
ações irregulares. Desse modo, o parque também precisa ser visto como um local de
aprendizagem e incentivador das boas práticas para além do espaço natural.

Entendemos que o PESET, como muitas outras unidades de conservação do


país de mesma categoria ou não, sofre com a falta de recursos, falta de estrutura, falta
de planejamento turístico, e depredação de muitos visitantes que embora estejam
praticando o ecoturismo não são de fato ecoturistas. Assim esse trabalho torna-se
relevante e um auxiliador do planejamento desta atividade.
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REFERÊNCIAS

Baptista, Isabel. In Hospitalidade reflexões e perspectivas. Barueri, São Paulo,


Manole, 2002.
CAMARGO, Luiz O. L. Hospitalidade. São Paulo, Aleph, 2009
GRINOVER, Lucio. A cidade a hospitalidade e o turismo. São Paulo: Aleph, 2007.
SIMON, Alba. Conflitos na conservação da natureza: o caso do Parque Estadual da
Serra da Tiririca.
PARQUE Estadual da Serra da Tiririca. Disponível em: <http://www.meioambiente.
uerj.br/destaque/tiririca_def_parque.htm>. Acesso em 18 de jun de 2014.
MATA Atlântica. Disponível em<http://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/areas_
prioritarias/mata_atlantica/> Acesso em 10 de jun de 2014.
PLANO de Manejo. Disponível em: <http://www.mma.gov.br/areas-protegidas/
unidades-de-conservacao/plano-de-manejo>. Acesso em 15 de jun de 2014.
TRILHAS Especiais. Disponível em <http:/www/.terrabrasil.org.br/SGA/deficientes/def.htm>.
Acesso em 06 de jun de 2013
Turismo de lazer é o preferido do visitante estrangeiro. Disponível em: <http://www.
dadosefatos.turismo.gov.br/dadosefatos/geral_interna/noticias/detalhe/20111013-1.html>. Acesso
em 15 de jun de 2014.
Unidades de Conservação. Disponível em<http://www.mma.gov.br/areas-protegidas/
unidades-de-conservacao> Acesso em 06/06/2014.
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TURISMO EM COMUNIDADES: experiências no Mosaico de Áreas Protegidas do


Baixo Rio Negro – AM

Susy Rodrigues Simonetti1


Nailza Pereira Porto2
Alcilene de Araújo Paula3

RESUMO: Este artigo tem como objetivo analisar o trabalho conjunto de instituições
e comunidades em prol do turismo de base comunitária no Baixo Rio Negro. A
visitação turística nas áreas protegidas da Região do Baixo Rio Negro, surge como
uma possibilidade de aproveitar o potencial turístico da região e, ao mesmo tempo,
como uma forma conservar a biodiversidade local por meio de uma atividade de baixo
impacto. Entretanto, sem planejamento e o devido envolvimento das comunidades
locais, o turismo nessa área precisou ser repensado e alinhado de modo que
contribuísse para a dinamização da economia local e promovesse a conservação
das espécies, ou seja, o ordenamento da atividade tornou-se indispensável. Para
mostrar como foi esse processo no rio Negro, utilizou-se da pesquisa de campo, da
entrevista semiestruturada e da observação participante. Os resultados sinalizam que
a gestão compartilhada é fundamental para apoiar a atividade turística da região,
ou seja, o apoio aos projetos de turismo nas comunidades é indispensável, porém
deve-se estimular que as iniciativas comunitárias deem continuidade no processo
de gestão e sustentabilidade das atividades em longo prazo, uma vez que a gestão
dos empreendimentos turísticos é realizada por famílias que são protagonistas nas
comunidades locais.

PALAVRAS-CHAVE: Turismo. Meio Ambiente. Comunidades Locais. Unidades de


Conservação.

ABSTRACT: This article aims to analyze the combined efforts of communities and
institutions in favor of community-based tourism in the Lower Rio Negro. The touristic
visitation in protected areas of the Lower Rio Negro region, appears as a possibility
to harness the tourism potential of the region and at the same time, as a way to
conserve local biodiversity through a low-impact activity. However, without planning
and proper involvement of local communities, the tourism in this area needed to be
rethought and aligned so as to contribute to the revitalization of the local economy
and promote the conservation of the species, ie, the ordering activity has become
indispensable. To show how this process was the Black River, we used field research,
semi-structured interviews and participant observation. The results indicate that the
shared management is fundamental to support tourism in the region, ie, support for
tourism projects in communities is essential, but should be encouraged that initiatives
giving the continuity management process and sustainability of activities in the long
term, since the management of tourism enterprises is carried out by families who are
protagonists in local communities.
1 Mestre e Doutoranda em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia (PPGCASA/UFAM);
Bacharel em Turismo; Bolsista Fapeam. Professora da Universidade do Estado do Amazonas – UEA. E-mail:
susysimonetti@hotmail.com
2 Mestre em Gestão de Áreas Protegidas. Pesquisadora do Instituto de Pesquisas Ecológicas – IPÊ.
E-mail: nailza@ipe.org.br.
3 Engenheira de Pesca; Especialista em Turismo e Desenvolvimento Local. Chefe de Unidade de
Conservação da Secretaria de Desenvolvimento Sustentável – SDS. E-mail: lene_paula@yahoo.com.br.
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KEYWORDS: Tourism. Environment. Local Communities. Conservation Units.

1 INTRODUÇÃO

O turismo, como qualquer outra atividade humana, pode gerar inúmeros


impactos, sejam eles positivos ou negativos. Na região do Mosaico do Baixo Rio
Negro – MBRN, no Estado do Amazonas, comunidades ribeirinhas e indígenas vem
desenvolvendo um turismo que se mostra promissor.

No entanto, essa situação já foi bastante diferente, a extração ilegal de


madeira e a caça ilegal ameaçavam a região. Mas com as discussões entre diversos
representantes dos segmentos sociais, dentre eles instituições governamentais e
não governamentais de turismo e meio ambiente, o trade turístico, guias de turismo,
proprietários de barcos, operadores, as comunidades locais, iniciou-se um trabalho
de sensibilização e capacitação para o turismo, o que possibilitou a correção do rumo
que a atividade vinha tomando.

Na região do MBRN pesquisas sobre turismo começaram principalmente a partir


dos anos 2000, por meio dos pesquisadores do Instituto de Pesquisas Ecológicas – IPÊ.
Souza et al (2010) realizaram um consistente relato de como ocorreu o ordenamento
da atividade turística nessa região; Coda et al (2011) fizeram uma avaliação do Projeto
de TBC do IPÊ, que estava em andamento, e constataram muitos resultados positivos
e encaminharam alguns direcionamentos. Em 2010 o governo brasileiro na Série
Áreas Protegidas, afirma que o Baixo Rio Negro apresenta grande potencial para
o turismo, especialmente por sua diversidade sociocultural e pela conservação dos
seus recursos nos limites de Unidades de Conservação e Terras Indígenas (JESUS
e TINTO, 2010). Mais recentemente, Neves e Lima (2013) fizeram um breve relato
sobre o TBC no Mosaico, bem como Costa Novo (2011) e Porto (2014) em suas
dissertações de mestrado fizeram uma análise crítica do TBC, abrangendo a Região
Metropolitana da Cidade Manaus, e uma análise socioeconômica do TBC envolvendo
duas das comunidades do MBRN, respectivamente.

Diante desses fatos, o seguinte questionamento deu início a este estudo: qual
o papel das instituições de apoio ao turismo nas comunidades do Mosaico do Baixo
Rio Negro? Quais as experiências promissoras dessa área? O artigo é o resultado
do envolvimento das pesquisadoras há mais de dois anos no Fórum de Turismo de
Base Comunitária - TBC, cujo intuito é promover a consolidação do TBC na região
do Baixo Rio Negro e diante dessa experiência, registraram-se imagens e anotações
diversas, utilizou-se da observação, das visitas às comunidades in loco e realizaram-
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se entrevistas semiestruturadas com consulta às fontes secundárias.

Assim, o objetivo do artigo é analisar o papel do Fórum de TBC que apoia o


turismo na região do MBRN, especificamente nas comunidades envolvidas no Roteiro
Tucorin (Turismo Comunitário no Rio Negro). Nas suas especificidades, o trabalho
busca discutir como funciona a articulação entre os diversos atores sociais nessa
região da Amazônia e apresentar a experiência do Roteiro Tucorin. É neste contexto
que várias instituições e comunidades do estudo estão inseridas e, de forma integrada,
buscam apoiar um turismo sustentável com bases locais.

2 A GESTÃO DAS ÁREAS PROTEGIDAS NO AMAZONAS

Relatórios técnico-científicos e publicações diversas apontam que o


desenvolvimento da atividade turística em Unidades de Conservação - UCs tem
aumentado nos últimos anos. Seja em busca de lazer, recreação, observação da
natureza, aproximação com o ambiente natural ou mesmo uma experiência espiritual,
a demanda por parques e comunidades localizados nos limites de áreas protegidas tem
se destacado nos últimos anos. Santos e Pires (2008) consideram que, principalmente,
a partir da década de 1980, com o aumento da preocupação com relação às questões
ambientais, a demanda em busca das áreas naturais se intensificou.

Observa-se no Brasil, um crescimento significativo da demanda, por exemplo,


por diversas formas de lazer e esporte em contato com a natureza. Os gestores de
UCs têm a difícil tarefa de conciliar o uso público com a conservação dos recursos
naturais e culturais. Para compatibilizar objetivos tão distintos como a conservação
da biodiversidade, a recreação e a interpretação da natureza, na visão de Takahashi
(2004) é essencial pesquisar tanto sobre as características dos visitantes e os tipos de
usos praticados, bem como conhecer as condições ambientais do local.

No Estado do Amazonas, de acordo com o Sistema Estadual de Unidades


de Conservação – SEUC, todas as UCs aceitam visitação, entretanto, cada uma
limita de que forma ela deve ser feita. Se o uso público for bem planejado, permite
o cumprimento dos objetivos de criação de muitas UCs, favorece o entendimento e
a apropriação desses espaços pelos indivíduos e, assim, os laços afetivos entre a
sociedade e o ambiente natural são estreitados. O uso público é uma alternativa de
utilização sustentável dos recursos naturais e culturais e contribui para a promoção
do desenvolvimento econômico e social das comunidades locais (TAKAHASHI, 2004;
MMA, 2006).

A gestão das Unidades de Conservação Estaduais é realizada pelo Centro


Estadual de Unidades de Conservação – CEUC, instituído pela Lei no. 3.244 de 04
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de abril de 2008, como parte da Unidade Gestora do Centro Estadual de Mudanças


Climáticas e do Centro Estadual de Unidades de Conservação – UGMUC, vinculado à
Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas
– SDS. Dentre os objetivos do Sistema Estadual de Unidades de Conservação -
SEUC, está o favorecimento de condições para o desenvolvimento de atividades de
educação e interpretação ambiental, de recreação em contato com a natureza e o
turismo sustentável (AMAZONAS, 2007). De forma ideal, planejamento e normatização
devem se dar anteriormente ao início do fluxo de visitação e devem estar associados
às estratégias de controle e monitoramento das atividades. Mas, na atualidade, nas
UCs estaduais do Amazonas, a visitação começa a se desenvolver por força da
demanda turística local antes da Unidade estar implantada e preparada para tal uso.

3 UNIDADES DE CONSERVAÇÃO E O TURISMO

A conservação da diversidade biológica depende do uso sustentável dos


diversos habitats, e a criação de áreas protegidas, especificamente as UCs no
Amazonas, tem se mostrado uma ferramenta indispensável para se alcançar este
objetivo, na medida em que contribui para a gestão ambiental do território protegendo
os patrimônios natural e cultural e com os diversos serviços e produtos ambientais.
Passold e Kinker (2010) acreditam que, para que essas áreas sejam implementadas
de fato e alcancem os objetivos para os quais foram criadas, muitos desafios devem
ser superados, dentre eles aproximar a sociedade das UCs. É fundamental que a
sociedade perceba a importância desses espaços e seus inúmeros benefícios, mas é
igualmente importante garantir a sustentabilidade econômica das áreas protegidas por
lei, de modo que os recursos financeiros sejam revistos e aplicados adequadamente.
Mesmo diante dos vários mecanismos, alguns deles instituídos por lei visando
garantir recursos financeiros para a manutenção dessas áreas, como a compensação
ambiental e a concessão de serviços, a dependência financeira do setor público ainda
é muito forte.
Na esfera federal, no ano de 2006, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) em
parceria com a Secretaria de Biodiversidade e Florestas (SBF) e o Departamento de
Áreas Protegidas (DAP), lançou a Portaria n. 120 de 12 de abril de 2006, que aprovou
o documento denominado Diretrizes para Visitação em Unidades de Conservação.
Este documento sinaliza que devido ao crescimento expressivo da visitação em áreas
naturais no Brasil, com destaque para as atividades de turismo como um segmento
promissor nestes ambientes, houve a necessidade de prever a visitação no SNUC
de modo a permitir o cumprimento dos objetivos da sua criação, bem como utilizar
uma ferramenta de sensibilização para visitantes sobre a importância da conservação
de tais espaços e sua biodiversidade, além de possibilitar o desenvolvimento local e
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regional por meio dos recursos obtidos pelo acesso do visitante (BRASIL, 2006):

O turismo, ao mesmo tempo em que fortalece a apropriação das Unidades de


Conservação pela sociedade, incrementa a economia e promove a geração
de emprego e renda para as populações locais. Por outro lado, o desafio
consiste em fazer com que o turismo seja desenvolvido de maneira harmônica
e integrada para que a atividade não prejudique a manutenção dos processos
ecológicos, a diversidade sócio-cultural e conhecimentos tradicionais e a
conservação da biodiversidade. (BRASIL, 2006, p.9).

O referido documento é bastante significativo do ponto de vista legal, pois “tem


como objetivo apresentar um conjunto de princípios, recomendações e diretrizes
práticas, com vistas a ordenar a visitação em Unidades de Conservação, desenvolvendo
e adotando regras e medidas que assegurem a sustentabilidade do turismo” (BRASIL,
2006, p.9). No entanto, não aponta qualquer segmento turístico como prioritário, não
obstante, considera as características da visitação realizada nas áreas protegidas em
consonância com os objetivos do SNUC em unidades onde a visitação é permitida,
levando-se em conta os princípios da sustentabilidade.

A própria Lei Geral do Turismo n.º 11.771, de 17 de setembro de 2008, que


dispõe sobre a Política Nacional de Turismo (BRASIL/MTur, 2011), estabelece no Art.
5º que um dos seus objetivos é “propiciar a prática de turismo sustentável nas áreas
naturais, promovendo a atividade como veículo de educação e interpretação ambiental
e incentivando a adoção de condutas e práticas de mínimo impacto compatíveis com
a conservação do meio ambiente natural”. A Lei Geral esclarece ainda no parágrafo
único do mesmo artigo que “quando se tratar de unidades de conservação, o turismo
será desenvolvido em consonância com seus objetivos de criação e com o disposto no
plano de manejo da unidade”. No entanto, sabe-se que a implantação dos planos de
manejo nas UCs, especialmente na Amazônia, ainda é um desafio a ser transposto.

A visitação em UCs é conhecida pelo termo uso público, considerando os


pesquisadores, estudantes, professores, turistas, voluntários e a própria população
local como usuários da área protegida. No Brasil são adotadas várias terminologias
referentes à realização de atividades nas UCs, seja com fins educacionais, recreativos,
culturais ou outros: ecoturismo, turismo ecológico, visitação em Unidades de
Conservação, uso público em Unidades de Conservação, turismo em áreas naturais
etc. Estes são os termos mais usuais e presentes em instrumentos legais nas três
esferas de governo (PASSOLD e KINKER, 2010).

Visitação, visitação turística ou turismo, termos usados nesse estudo como


sinônimos no intuito de facilitar a compreensão do leitor, de forma geral, deveriam ser
sempre precedidos de plano de manejo ou gestão, que inclui o adequado zoneamento
da área, o plano de uso público e define os objetivos da área protegida. No entanto,
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como são documentos de difícil confecção - por serem muito caros e exigirem pesquisa
detalhada da área, com inventário preciso, dentre outros elementos -, na maioria das
vezes a visitação é permitida sem que esses documentos tenham sido elaborados, o
que pode gerar consequências bastante graves para a Unidade, como a degradação
do ambiente, a perda de ecossistemas, alteração nas paisagens, diversos tipos de
poluição, morte de indivíduos, alterações nos modos de vida e a dependência dos
recursos financeiros oriundos do turismo, transformando-o em atividade principal e
não complementar.

Mas há os aspectos positivos da visitação e para Passold e Kinker (2010, p.385)


ela pode levar ao desenvolvimento do turismo local, regional e até do nacional
(...) com a participação de uma diversidade de atores e forte envolvimento
das comunidades locais, é uma das principais atividades geradoras de
recursos para as UCs e para fora delas, e deve ser estimulada de maneira
a potencializar os benefícios, sem interferir na implementação de outros
programas e atividades de manejo e sem ocasionar impacto negativo aos
recursos naturais e valores histórico-culturais.

Diante desse contexto pode-se inferir que o turismo representado por seus
segmentos mais brandos, como o ecoturismo de gestão comunitária, que traz em seus
conceitos a minimização de impactos ambientais e sociais, a conservação ambiental,
a geração de renda e o elemento educativo (educação ambiental), é o mais indicado
para ser desenvolvidos em áreas protegidas. Nesse sentido, o poder público da região
amazônica passa a efetivar o planejamento ambiental incluindo o turismo como um
fator de desenvolvimento local. Mas a forma de fazer a gestão desse turismo, ou seja,
a base comunitária, vem se destacando nos últimos anos e ganhando espaço para
debates.

4 TURISMO E COMUNIDADE

Independente da existência do plano de manejo ou de gestão, a visitação


em UCs tem aumentado muito nos últimos anos em virtude da popularidade que
o ecoturismo tem alcançado. Isso não significa que se deva proibir a visitação nas
áreas protegidas pois, muito embora ela gere impactos negativos, também oferece
diversas vantagens, tais como: proteção da flora, fauna e habitats nativos, aumento
do conhecimento sobre a distribuição e condição das espécies, benefícios diretos para
a conservação da natureza, educação ambiental, lazer em contato com a natureza,
geração de receitas para a Unidade, geração de renda para população dos limites e
do entorno das áreas protegidas.

O turismo acontece em muitas áreas protegidas na região amazônica, mas a


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região do Baixo Rio Negro possui várias características que propiciam um intenso fluxo
de visitação, quais sejam: a beleza cênica, a proximidades das Unidades conectadas
espacialmente e do centro urbano de Manaus, a formação das praias durante a seca
dos rios, os hotéis, lodges e pousadas que oferecem hospedagem aos mais diversos
públicos, as comunidades locais e sua riqueza cultural entre outros. Por outro lado,
a participação das comunidades, compartilhando as decisões, oferecendo soluções,
envolvendo-se com a concepção, a implantação e avaliação de um determinado
empreendimento turístico, “é um caminho e um pressuposto para a busca da qualidade
de vida e constitui a prática dos princípios da sustentabilidade ambiental propagados
e perseguidos pelos atores sociais e políticos interessados no manejo das UCs,
incluindo aí as organizações não governamentais (ONGs)”. (GIRALDELLA e NEIMAN,
2010, p.131).

Entre os anos de 1960 e o início de 1980, tornaram-se muito populares os


projetos de desenvolvimento comunitário e a participação comunitária no processo
de desenvolvimento, bem como aumentou, gradativamente, o foco dos estudos de
turismo com a participação da comunidade no processo de desenvolvimento da
atividade (TOSUN, 1999). Cada vez mais utilizado, o termo comunidade ainda gera
inúmeras discussões. Seu significado varia de acordo com a área disciplinar que o
utiliza ou com as instituições políticas que o adotam. (CHAVES, 2001; BEENTON,
2006).

Salazar (2012) aponta que comunidade é um termo vago e evasivo,


usado amplamente na literatura do turismo e entendido, muitas vezes, com o
sentido de unidade, isto é, uma noção obsoleta de coletividade. No entanto, “não
surpreendentemente, a imprecisão da noção é habilmente explorada em marketing
turístico” (2012, p.9). O que não se pode negar é que a participação da comunidade
no processo de desenvolvimento do turismo é extremamente desejável e que ela deve
se beneficiar para que a atividade seja viável e sustentável ao longo do tempo, ainda
que encontre condições desfavoráveis (SALAZAR, 2012; TOSUN, 1999).

O termo comunidade, usado como referência nesse artigo, é entendido como


o local onde se institui um modelo singular de gestão dos recursos naturais e de
organização social, onde os indivíduos constroem sua identidade social fazendo
emergir um conjunto de saberes que são transmitidos de geração em geração. As
visitas em comunidades na Amazônia são bastante comuns, em geral, os visitantes
são ávidos por conhecer a cultura, o ambiente natural e o saber-fazer dos seus
moradores, muitas delas são compostas por populações tradicionais e indígenas que
vivem há gerações em seus espaços. Esse passa ser o local de encontro entre o
turismo e a comunidade.
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Sampaio (2008) assegura que o turismo comunitário ou turismo de base


comunitária surge como um desdobramento do diálogo científico no Brasil a partir do I
Encontro Nacional de Turismo de Base Local (ENBTL), realizado no ano de 1997 em
São Paulo. Mas nas últimas duas décadas a importância do TBC foi reconhecida no
contexto da discussão de turismo sustentável e pretende, pelo menos em termos de
discurso, desenvolver um turismo mais sustentável, com enfoque nas comunidades
que planejam o desenvolvimento da atividade (SALAZAR, 2012).

De acordo com Coelho (2013), o que vem se expandindo nos últimos anos
é o uso turístico de áreas protegidas que permite a permanência de populações
locais e o TBC é um protagonista neste processo, pois é “nesta lógica de encontros,
vivências, hospitalidade e trocas entre visitante e anfitriões que se dá a essência do
TBC” (2013, p.316). Para Salazar (2012) essa discussão iniciou na década de 1990,
com Pearce (1992), sugerindo que o TBC representaria uma forma de beneficiar todos
os envolvidos com o turismo mediante um consenso baseado em tomada de decisão
e controle local do desenvolvimento.

Rozemeijer (2001) lista três benefícios esperados pelo TBC:

1 - TBC gera emprego e renda e contribui para o desenvolvimento rural,


beneficiando especialmente áreas remotas; 2 - os benefícios derivados do uso dos
recursos naturais pelo turismo pode sensibilizar a comunidade para que utilize tais
recursos de uma forma sustentável; 3 - TBC agrega valor ao produto turístico nacional
através da diversificação do turismo, aumentando o volume e as economias de escala.

Este estudo corrobora com as considerações de Coelho (2013), quando afirma


que na Amazônia, são as populações tradicionais, ribeirinhas, seringueiros entre outros,
que se agrupam em comunidades no interior de áreas protegidas como Reservas
de Desenvolvimento Sustentável, Reservas Extrativistas e buscam se organizar para
desenvolver o turismo de base comunitária. Sansolo e Burztin (2009) entendem que
é uma opção de desenvolvimento para comunidades de pescadores, agricultores
familiares e extrativistas, ampliando as práticas cotidianas dessas populações,
especialmente no espaço rural.

A bibliografia sobre esse assunto é vasta, mas o que deve ser compreendido é
que o turismo de base comunitária se configura como um modelo de desenvolvimento
turístico endógeno, e não um segmento, cujo protagonismo das comunidades é notório,
visando a proteção do seu patrimônio cultural e natural. Apresenta-se a
seguir a metodologia do estudo que aponta a caracterização da pesquisa e o caminho
que as pesquisadoras seguiram com o intuito de apresentar como o Fórum de TBC e
o Roteiro Tucorin estão estruturados no Amazonas.
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5 METODOLOGIA

A região do Mosaico de Áreas Protegidas do Baixo Rio Negro – MBRN inclui os


municípios de Manaus, Novo Airão, Iranduba, Barcelos e Manacapuru. A portaria Nr.
483 de 14 de dezembro de 2010, do Ministério do Meio Ambiente, reconheceu o MBRN
e deixou sob a gestão do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade -
ICMBio onze UCs, aproximadamente 8 milhões de hectares de ecossistemas de água
preta e floresta tropical (CARDOSO, 2010).

O Mosaico está inserido na Reserva da Biosfera4 da Amazônia Central e no


Corredor Ecológico5 Central da Amazônia, maior área de proteção ambiental contínua
do mundo. Segundo o Relatório da Biodiversidade Brasileira, a importância ecológica
e social dos ecossistemas do Baixo Rio Negro é evidenciada pela alta diversidade
biológica o que lhe confere a classe de área de extrema importância para a conservação.
(BRASIL/MMA, 2002).

De acordo com o artigo 26 do SNUC,


Quando existir um conjunto de unidades de conservação de categorias
diferentes ou não, próximas, justapostas ou sobrepostas, e outras áreas
protegidas públicas ou privadas, constituindo um mosaico, a gestão do
conjunto deverá ser feita de forma integrada e participativa, considerando-
se os seus distintos objetivos de conservação, de forma a compatibilizar
a presença da biodiversidade, a valorização da sociodiversidade e o
desenvolvimento sustentável no contexto regional. (SNUC, LEI 9985/2000).

Assim, em 2006 iniciou o processo de fortalecimento e a proposta de criação


do MBRN (Figura 1), submetido ao fundo Nacional de Meio Ambiente – FNMA. Para
as instituições que construíram a proposta, a região apresentaria um importante
componente biológico, abrigando ecossistemas florestais muito significativos para a
conservação mas também para o uso sustentável dos recursos, a possibilidade de
fortalecer as políticas públicas e promover ações integradas dos mais diversos atores
sociais. (CARDOSO, 2010).

Figura 1 - MAPA DO MOSAICO DO BAIXO RIO NEGRO

4 SNUC (Lei 9985 de 18 de julho de 2.000), em seu capítulo XI, reconhece a Reserva da Biosfera como
“um modelo, adotado internacionalmente, de gestão integrada, participativa e sustentável dos recursos naturais”.
5 SNUC (Lei 9985 de 18 de julho de 2.000), XIX - corredores ecológicos: porções de ecossistemas naturais
ou seminaturais, ligando unidades de conservação, que possibilitam entre elas o fluxo de genes e o movimento
da biota, facilitando a dispersão de espécies e a recolonização de áreas degradadas, bem como a manutenção
de populações que demandam para sua sobrevivência áreas com extensão maior do que aquela das unidades
individuais.
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Fonte: SDS, 2010.

O artigo é o resultado da experiência de mais de dois anos participando do Fórum


de Turismo de Base Comunitária - TBC, formado por representantes de instituições
governamentais, não governamentais, trade turístico, academia, sociedade civil,
lideranças comunitárias. O Fórum objetiva promover a consolidação do TBC na região
do Baixo Rio Negro e isso fortalece a cada dia os trabalhos na região. Mas, há ainda
parte de trabalhos de doutorado e de mestrado em andamento nessa região que
possibilitam a aproximação com as comunidades e com as instituições que atuam no
mosaico.

A abordagem multimétodo, triangulação metodológica ou mixed methods é


indicada para este estudo, por aplicar ferramentas diferenciadas e, ao final, buscar
apresentar e discutir os resultados oriundos de cada tipo de coleta de informações
integrando-os (GÜNTHER et al, 2011), uma vez que abordar o turismo necessita-
se de uma abordagem múltipla. Quanto à perspectiva adotada, ela tem um caráter
qualitativo. A pesquisa qualitativa foi eleita para este estudo por buscar introduzir
um rigor que não envolve precisão numérica aos fenômenos a serem investigados,
mas dimensões pessoais do senso comum, como ideias, imagens, concepções e
experiências, neste caso dos comunitários e das instituições na gestão do turismo.

Ao realizar as devidas aproximações metodológicas, este estudo integrou a


observação (participante, sistemática e assistemática) e a entrevista semiestruturada
(individual). A observação se constituiu em elemento fundamental para a pesquisa
em face de sua flexibilidade. Neste estudo a observação foi participante, pois as
pesquisadoras atuaram nas comunidades e junto às instituições como espectadoras
atentas, procurando ver e registrar o máximo de ocorrências que eram de interesse
do trabalho, tomando parte nos conhecimentos objetos de estudo, participando das
discussões, atuando junto às comunidades e instituições.

As observações passaram da mais assistemática até estruturas mais


sistemáticas. Quanto às observações assistemáticas, foram registrados e recolhidos
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os fatos da realidade sem um controle rigoroso, entendendo que o objeto de pesquisa


encontrava-se definido, o que permitiu às pesquisadoras chegar a resultados válidos
pois, adquiriu-se uma postura de prontidão. Por outro lado, a observação sistemática
possibilitou o registro de elementos significativos na comunidade, tais como: a chegada
e a saída de visitantes, a aquisição de artesanato pelos visitantes, a relação entre
visitante e visitado, o uso do espaço da comunidade pelos visitantes, a atuação das
instituições e a relação delas com as comunidades.

Com relação às entrevistas semiestruturadas, foram necessárias várias horas


de gravação entrevistando comunitários que estão diretamente envolvidos com as
atividades de turismo, lazer e produção do artesanato nas comunidades e pernoites
na área de estudo. Os registros de campo também foram utilizados para dar suporte
ao trabalho. Além das observações sistemáticas e assistemáticas, foram utilizados
artigos, publicações diversas, teses de doutorado, dissertações de mestrado
relacionadas com o tema e atas das vinte e nove reuniões do Fórum ocorridas desde
a sua formação.

Como membros do fórum e pertencentes à diferentes instituições, as


pesquisadoras tiveram contato e reuniram-se com os mais diversos atores sociais no
intuito de buscar e consolidar informações para o artigo. O acesso aos informantes
residentes nas comunidades e aos membros das instituições deu-se por conveniência
ou acessibilidade, permitindo que se fizesse a seleção de alguns deles, de forma
aleatória, considerando-os sujeitos da pesquisa, admitindo-se que estes indivíduos
pudessem representar, de alguma forma, o universo (GIL, 2010).

6 RESULTADOS E DISCUSSÕES

Devido à proximidade com a cidade de Manaus, o fluxo de visitantes na região


do rio Negro sempre foi intenso. Turistas e moradores da cidade aumentavam esse
fluxo, especialmente nos finais de semana, gerando problemas ambientais e sociais
associados às visitas, o agravante era que não se observava qualquer benefício às
comunidades visitadas. Ao observar essa problemática, o Instituto de Pesquisas
Ecológicas – IPÊ iniciou em 2000 trabalhos de pesquisa tentando minimizar os conflitos
de interesse dos diversos atores sociais entre aquela área protegida e o turismo,
partindo do pressuposto que turismo e meio ambiente precisam ser trabalhados de
maneira integrada (SOUZA et al, 2010).

Uma década após o início das atividades no Mosaico, foram identificadas e


mapeadas (Figura 2) pelo IPÊ em 2010, quinze iniciativas comunitárias que trabalhavam
de forma isoladas com grande potencial para o desenvolvimento da cadeia do turismo
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comunitário, muitas delas sem qualquer apoio institucional. São comunidades que
estão nos limites de áreas protegidas e, por meio do turismo, buscam dinamizar sua
economia. Algumas delas na margem direita, como Nossa Senhora do Perpétuo
Socorro, produzem artesanato e há quase trinta anos recebem visitantes em seu
espaço.

FIGURA 2 - MAPA DAS INICIATIVAS DE TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA - TBC

FONTE: INSTITUTO DE PESQUISAS ECOLÓGICAS – IPÊ, 2010.

A decisão também de outras instituições que atuavam na região, como ICEI6 em


2012, foi apoiar a organização comunitária de modo que o turismo fosse reordenado
na região. O resultado foi o fortalecimento das comunidades e a demanda por um
turismo de baixo impacto: o TBC surge nessa região com o intuito de oferecer melhores
produtos e serviços turísticos e contribuir para melhorar as condições de vida daqueles
que estavam envolvidos com a atividade nas comunidades locais.

O turismo nas comunidades do Baixo Rio Negro tem vários apoiadores que se
reúnem mensalmente por meio de um fórum: há organizações não governamentais,
fundações, órgãos do governo federal, estadual e municipal, academias e a Central
de TBC, sendo em média dezoito (18) instituições atuantes. Os comunitários também
são protagonistas da atividade, seus representantes participam do Fórum e das
quinze comunidades mapeadas, todas oferecem algum produto ou serviço ao turismo
da região. Neste estudo serão apresentadas seis (06) iniciativas que se destacam por
6 ICEI - Instituto de Cooperação Econômico Internacional
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meio de um roteiro de turismo integrado apoiadas pelo Fórum de TBC. Nesse sentido,
é importante esclarecer o surgimento desse Fórum para que se possa entender como
ele vem atuando e seu papel na região da área do estudo.

Como resultado de ações previstas no Plano de Desenvolvimento do Turismo


de Base Comunitária da Região Sul do Parque Nacional de Anavilhanas, elaborado
em 2010, a partir do convênio celebrado entre o IPÊ e o Ministério do Turismo, e no
intuito de dar continuidade e fortalecer espaços para discutir o ordenamento do turismo
na região, criou-se em 2011, um Grupo de Trabalho de Turismo de Base Comunitária,
que posteriormente ganha a denominação de Fórum de Turismo de Base Comunitária
do Baixo Rio Negro. O Fórum é um dos resultados do Plano citado, mais precisamente
da oficina de elaboração do Diagnóstico e Plano de Ação para o desenvolvimento
do TBC na região do entorno sul do Parque Nacional de Anavilhanas. O Fórum,
como já foi citado, é formado por representantes de instituições governamentais, não
governamentais, trade turístico, academia e lideranças comunitárias e seu papel é
incentivar e apoiar diretamente a implantação do Plano de Ação, viabilizando o diálogo
entre os diferentes grupos de interesse.

Desde 2011, já foram realizadas atividades conjuntas, como a participação


de seus membros em uma oficina para o desenvolvimento de capacidades para a
difusão de boas práticas voltadas para o turismo sustentável, mediante uma parceria
com a Rainforest Alliance. Os agentes institucionais e as lideranças locais estão,
gradativamente, replicando as boas práticas para comunidades que tem alguma
iniciativa de turismo em andamento, até o momento quatro oficinas de multiplicação
já foram realizadas. Foram realizadas ainda duas outras oficinas, uma na margem
direita e outra na margem esquerda do rio Negro visando a construção e elaboração
das diretrizes para o TBC na região.

Outras ações são intercâmbios, visitas técnicas em várias comunidades com


iniciativas de TBC e vinte e nove reuniões regulares para a definição de estratégias
de melhoria da atuação do Fórum na região do Baixo Rio Negro. Recentemente
organizou-se uma visita com um grupo de jornalistas, repórteres e a mídia de forma
geral em três das seis comunidades do Roteiro Tucorin, que será melhor descrito a
seguir. O planejamento das atividades relacionadas ao Fórum acontece durante uma
reunião mensal com todos os atores sociais envolvidos e essas reuniões também
ocorrem nas comunidades, para que os seus representantes tenham a possibilidade
de acompanhar as ações do Fórum de forma mais ativa e regular.

Durante a reunião, apresentam-se as demandas, discutem-se os problemas do


turismo em cada comunidade, dividem-se as tarefas das instituições e estabelecem-
se os prazos para cada uma executá-las. Para divulgar suas atividades o Fórum
participa de eventos diversos, como encontros, seminários, congressos que ocorrem
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anualmente; busca apoio para capacitação de seus membros e de comunitários;


estabelece novas parcerias; incentiva a participação de seus membros em intercâmbios
para o conhecimento de experiências de TBC em outras regiões do país e se prepara
para participar de editais.

Com relação ao roteiro integrado citado anteriormente, trata-se de uma


iniciativa que tem apoio de diversas organizações atuante do Fórum, que há anos vem
desenvolvendo um trabalho basilar na região, com o intuito de promover a capacitação
dos atores envolvidos na atividade de turismo nas comunidades localizadas dentro de
UCs. O Roteiro surgiu há aproximadamente três anos em face de toda a articulação e
demanda das próprias comunidades.

O Roteiro Tucorin (Turismo Comunitário no Rio Negro) integra comunidades


ribeirinhas, rurais e indígenas localizadas na margem esquerda do rio Negro. Os
visitantes podem chegar às comunidades com itinerários que variam de 30 minutos
a 1 hora e 30 minutos, por via fluvial, partindo de Manaus. As seis comunidades
pertencentes ao roteiro estão localizadas na margem esquerda do MBRN.

Três comunidades do Roteiro Tucorin estão nos limites da Reserva de


Desenvolvimento Sustentável (RDS) Tupé: São João do Tupé, Julião e Colônia Central.
O visitante tem a possibilidade de desfrutar das praias na vazante do rio (julho a
dezembro); fazer passeios em trilhas, lagos, igarapés; hospedar-se e utilizar serviços
de alimentação; e a oportunidade de assistir a uma apresentação de fragmentos
de rituais dos indígenas que moram na comunidade (eles são das etnias Dessana,
Tukano, Tuyuka, Tatuia e Unano), perpetuando suas tradições após saírem da região
do Alto Rio Negro. Nessa área, atuam mais frequentemente a Secretaria Municipal de
Meio Ambiente e Sustentabilidade (SEMMAS), por se tratar de uma RDS municipal,
instituições de ensino e a ONG Nymuendaju.

No Parque Estadual Rio Negro Setor Sul, recentemente recategorizado para


RDS Puranga Conquista, estão as comunidades Nova Esperança e Bela Vista e na
Área de Proteção Ambiental Estadual Aturiá–Apuauzinho a comunidade São Sebastião.
Nessas áreas atuam o órgão gestor (CEUC/SDS), instituições de ensino e a ONG
IPÊ, responsável pelo trabalho inicial na área junto aos comunitários. Os comunitários
oferecem aos seus visitantes alimentação, artesanato, caminhadas, banho de rio,
doces, compotas e vivências em atividades diárias como a farinhada e a confecção
de artesanato. A comunidade Bela Vista oferece acampamento e na comunidade
Nova Esperança, além do artesanato, há uma família que recebe visitantes em sua
residência.

Para Rabinovici (2009 apud PESSOA e RABINOVICI, 2010), os projetos de


turismo nem sempre respeitam as comunidades e seus aspectos culturais, o que
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leva ao descrédito e à desilusão com esses projetos e com quem os propôs. Nas
seis experiências do MBRN, percebe-se que as comunidades são protagonistas do
turismo: os comunitários tomam suas decisões que são respeitadas pelas instituições
atuantes, fato este que contribui para fortalecer as relações entre comunidades e
instituições.

O TBC está gerando principalmente renda direta para os atores sociais


envolvidos; a comunidade está utilizando seus recursos de uma forma sustentável,
pois há plano de manejo para a exploração da madeira na região; e por fim, o TBC
vem agregando valor ao produto turístico do Amazonas, o que corrobora, ainda que
em parte, com a lista de benefícios esperados do TBC (ROZEMEIJER, 2001).

Constatou-se que há um significativo grau de controle da atividade turística,


pois existem as parcerias e negociações para receber visitantes e articulações
constantes nesse sentido, com iniciativa das comunidades. Por outro lado, não se
percebeu o envolvimento ativo de todos os membros da comunidade no planejamento,
desenvolvimento e gestão da iniciativa, e sim apenas de grupos, que participam ou
se envolvem se assim desejarem. Esses grupos mantém estreita relação com as
instituições que constituem o Fórum, as quais respeitam e apoiam as suas decisões
quanto a participação ou não no turismo. As diretrizes do SEUC e o artigo 26 do
SNUC vem sendo cumpridos nessa região, pois o primeiro sugere que haja apoio,
cooperação, parcerias e o SNUC pede que a gestão do mosaico seja feita de forma
integrada e participativa, o que de fato vem acontecendo por meio das articulações do
Fórum de TBC.

Sansolo e Burztin (2009) entendem que o TBC é uma opção de desenvolvimento


para as comunidades de pescadores, agricultores familiares e extrativistas, ampliando
as práticas cotidianas dessas populações, especialmente no espaço rural. Essa é a
realidade constatada na área do estudo, os comunitários são pescadores, agricultores,
artesãos - todos de áreas rurais - que buscam desenvolver um turismo trocando
experiências e vivências com visitantes que desejam ser bem recebidos em suas
comunidades.

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O papel do Fórum de TBC, ainda que pesem seus limites, vem sendo cumprido,
que é o de apoiar a implementação de ações de TBC na região. No entanto, é necessário
ampliar suas ações, buscar recursos, estabelecer mais parcerias. Não obstante,
hoje existe um espaço para se discutir sobre esta temática em diferentes níveis de
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governança e, devido sua participação em diferentes fóruns, pode-se considerar que


há um início de um trabalho regional visando influenciar políticas públicas voltadas
para o turismo em Unidades de Conservação.

O fato de que são várias instituições governamentais e não governamentais,


pesquisadores, academias, entre outros, envolvidos e articulados ao Fórum de
TBC, possibilita uma gestão compartilhada com a realização de ações em conjunto,
propiciando uma melhor comunicação e interação entre os atores sociais. Ainda que
os interesses sejam diversos, os objetivos são comuns e o consenso é de que o mais
importante é transformar as iniciativas comunitárias num roteiro de turismo de base
comunitária consolidada no Amazonas.

As iniciativas de turismo no MBRN tem se mostrado promissoras, ainda que


as comunidades não façam a gestão plena da atividade. Percebe-se que a gestão
participativa, seja por meio dos conselhos ou das reuniões do Fórum, fortalece
gradativamente o empreendedorismo social, a auto estima e o sentimento de
pertencimento dos comunitários, nota-se ainda uma valorização dos hábitos e
cultura local. O apoio à projetos de sensibilização e capacitação para a melhoria no
desenvolvimento da prática do turismo é indispensável, porém deve-se estimular
um trabalho de base contínuo e sólido para que as iniciativas comunitárias deem
continuidade no processo de gestão.

A valorização das iniciativas existentes de práticas de turismo em UCs que


colocam em evidencia o envolvimento e o protagonismo das populações locais, é uma
alternativa para se buscar de fato a consolidação dos objetivos de proteção e visitação
propostos à estas áreas por meio de instrumentos legais, já previstos dentro de suas
categorias de manejo. Sinaliza-se como ponto fundamental desenvolver pesquisas
sobre as características dos visitantes e os tipos de usos praticados na área do MBRN
(TAKAHASHI, 2004), o que ainda é pouco explorado.

8 REFERÊNCIAS

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Estadual de Unidades de Conservação. Diário Oficial do Amazonas. 2007.

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GEO-FOOD: UMA NOVA PERSPECTIVA DE PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO


GEOLÓGICO

Tatiane Ferrari do Vale1


Jasmine Cardozo Moreira2
Graziela Scalise Horodyski3

RESUMO: A experiência de um turista em um destino vai muito além de visitar um


atrativo, pois as pessoas desejam levar consigo uma lembrança que materialize
a viagem após seu regresso. Uma das formas mais comuns de adquirir essas
lembranças são os souvenirs. Um dos tipos de souvenirs consumidos pelos turistas
durante uma viagem é o souvenir gastronômico, que advém dos alimentos e bebidas
e são objetos dotados de significados. Na perspectiva de comercializar produtos
alimentícios valorizando principalmente os aspectos geológicos e gastronômicos, o
Geopark Magma (Noruega) idealizou a utilização de souvenirs gastronômicos através
do Projeto Geo-food. O Projeto possui parceiros na Europa e na América do Norte, o
Grupo de Trabalho do Projeto Geopark Fernando de Noronha (PE) é o único parceiro
do Projeto na América do Sul. O objetivo desse trabalho foi apresentar o geo-food
como um souvenir gastronômico e geo-produto, apresentando exemplos de Geoparks
que já o utilizam como ferramenta de geoconservação e o potencial de Fernando
de Noronha para sua realização. A metodologia utilizada foi à pesquisa descritiva e
como aporte teórico a pesquisa bibliográfica. Como principais resultados, verificou-
se que o geo-food potencializa e valoriza os elementos da bio e da geodiversidade,
agrega valor e confere diferencial aos Geoparks, e no caso específico de Fernando de
Noronha constata-se que há potencial para o desenvolvimento do Projeto Geo-food,
que como consequência irá gerar novas alternativas de renda para a comunidade
local e proporcionará experiências únicas para os visitantes.

PALAVRAS-CHAVE: Souvenir Gastronômico. Geoparks. Geoconservação.

ABSTRACT / RESUMEN: The tourist’s experience in a destination goes beyond viewing


an attractive, because people want to carry a reminder that materialize the trip after
his return. One of the most common ways to acquire these memories are souvenirs.
One kind of souvenir consumed by tourists during a trip is the gastronomic souvenir,
which comes from food and beverages and objects that are full of meanings. From
the perspective of marketing some food products mainly valuing the geological and
gastronomic aspects, Magma Geopark (Norway) envisioned the use of gastronomic
souvenirs through Geo-food Project. The project has partners in Europe and North
America, the Project Geopark Fernando de Noronha (PE) Working Group is the only

1 Graduada em Turismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. tathy_ferrari@hotmail.


com
2 Pós-doutora pela Universidad de Zaragoza. Professora do Departamento de Turismo da Uni-
versidade Estadual de Ponta Grossa. jasminecardozo@gmail.com
3 Doutora em Geografia pela Universidade Federal do Paraná. Professora do Departamento de
Turismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa. grazitur@hotmail.com
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partner of the project in South America. The aim of this study was to present the geo-
food as a foodie souvenir and geo-product, presenting examples of Geoparks that
already use it as a tool of geoconservation and potential of Fernando de Noronha for
your realization. The methodology used was the descriptive and theoretical contribution
to literature. As main results, it was found that the geo-food strengthens and enhances
the elements of bio and geodiversity, adds value and makes the differential Geoparks,
and in the Fernando de Noronha’s case is observed that there is potential for the
development of the Project Geo-food, which as a result will generate new sources of
income for the local community and provide unique experiences for visitors.

KEYWORDS / PALABRAS-CLAVES: Gastronomic Souvenir. Geoparks.


Geoconservation.

INTRODUÇÃO

Uma viagem envolve muito mais que a visita a determinados atrativos, ela é a
soma de experiências e inter-relações de diversos outros fatores que permitem que os
turistas tenham uma percepção do produto turístico que estão consumindo. A ideia de
materializar a viagem após seu regresso faz com que muitos desses turistas adquiram
uma ‘lembrancinha’ do local que visitaram, e uma das formas frequentemente utilizadas
para isso é o consumo de souvenir.

Os souvenirs são objetos repletos de significados, tangíveis e intangíveis,


podendo representar o imaginário de uma comunidade produtora sobre o lugar em
que vive, bem como corresponder à lembrança do visitante sobre a imagem turística
do lugar visitado (HORODYSKI; MANOSSO; GÂNDARA, 2013), ou seja, eles são tão
importantes para os turistas, quanto para a comunidade. O ato de trazer e guardar
um souvenir suscita nas pessoas sensações memoráveis à medida que proporciona
a materialização dessa lembrança. (MEDEIROS; CASTRO, 2007 apud HORODYSKI;
MANOSSO, GÂNDARA, 2013).

O consumo de souvenir acontece na maior parte dos países do mundo e seus


significados dependerão das experiências que as pessoas atribuíram a eles durante a
viagem. Esse consumo e seus significados estão relacionados com o tipo de viajante
que adquire esses objetos (LOVE e SHELDON,1998). Um dos tipos de souvenir
adquiridos durante uma viagem é o souvenir gastronômico, que está relacionado aos
alimentos e bebidas e servem também como ‘lembrancinhas’.
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Esses objetos são capazes de despertar inúmeros significados e buscando


valorizar o patrimônio geológico e a gastronomia local, o Geopark Magma (Noruega)
propôs o Projeto Geo-food. Por meio dessa iniciativa é gerado emprego e renda para
as comunidades locais, além de ser uma ferramenta de geoconservação. O Projeto
possui vários parceiros que desenvolvem ou tem interesse em implementar essa
iniciativa. No entanto, outros destinos, não necessariamente vinculados ao Projeto já
comercializam o geo-food.

O Projeto Geo-food tem como parceiros Geoparks de países da Escócia,


Canadá, Finlândia e Espanha, universidades, experts em gastronomia e projetos
de Geoparks da Dinamarca e Islândia. Na América do Sul o único parceiro dessa
iniciativa é o Grupo de Trabalho que está realizando a Proposta de Geopark Fernando
de Noronha.

Assim, esse trabalho tem como objetivo apresentar o geo-food como um


souvenir gastronômico e geo-produto, bem como exemplos de Geoparks pelo mundo
que já o utilizam como ferramenta de geração de renda e geoconservação. Também,
buscou-se apresentar o potencial de Fernando de Noronha, no que se refere aos
aspectos da bio e da geodiversidade do arquipélago para realização do geo-food.

Esse trabalho foi estruturado em quatro partes, a primeira busca contextualizar


e diferenciar os souvenirs dos souvenirs gastronômicos, a segunda visa apresentar
os conceitos de Geopark, geoconservação e geodiversidade, a terceira apresenta o
Projeto Geo-food e o potencial de Fernando de Noronha para realização do Projeto,
e a quarta e última parte apresenta exemplos de Geoparks pelo mundo que utilizam o
geo-food e as considerações finais.

A metodologia utilizada foi à pesquisa descritiva, e como aporte teórico, foi


utilizada a pesquisa bibliográfica, que possibilitou o entendimento de conceitos a cerca
do tema em questão. Também houve a consulta a sites da internet como complemento
bibliográfico.

SOUVENIRS GASTRONÔMICOS

Um souvenir é um objeto adquirido pelo turista durante a viagem, como uma


recordação dos locais visitados. Da mesma maneira que existem diferentes tipos de
turistas (explorador, elite, alternativo, etc.), há também diferentes tipos de souvenir,
que Gordon (1996) apud Horodyski et al. (2012) classifica como:
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• produtos como marca,

• réplicas de ícones,

• produtos pictóricos

• objetos ‘piece of the rock’,4

• e produtos locais.

A subcategoria produtos locais, abrange ainda outros elementos, como: arte,


artesanato, arte folclórica, produtos alimentícios, vestuário.

Horodyski et al. (2012) abordam os produtos alimentícios como souvenir


gastronômico, e esses advém dos alimentos e bebidas e seus diferentes consumidores.
De acordo com Shen (2011) apud Horodyski et al. (2012) os consumidores podem ser
classificados como culturais e comerciais. Segundo o autor os consumidores culturais
dizem respeito àqueles que se preocupam com o significado e autenticidade do objeto
e os comerciais estariam desinteressados a esses fatores.

Souvenir gastronômico pode ser conceituado como: (Horodyski et al 2012, p.


5) :

“um produto derivado de alimentos ou bebidas, com identidade diferenciadora,


identificação da origem, embalagem adequada e transporte facilitado; que
seja capaz tanto de materializar a experiência da visitação e prolongar as
sensações vividas pelas pessoas após o retorno de suas viagens turísticas
quanto permita compartilhar lembranças com outras pessoas e motivar novas
viagens”.

Os autores ainda propõem que esse tipo de souvenir deve necessariamente


considerar cinco elementos: alimentos e bebidas, identificação, embalagem, identidade
e transporte.

Os geo-produtos são conceituados segundo a UNESCO (1999, a p. 2) como “a


produção sustentável de artesanatos inovadores que tem a conotação geológica, por
exemplo, comercialização de fósseis e souvenirs”.

Sugere-se aqui uma subclassificação do souvenir gastronômico, que seriam

4  “objetos de caráter natural em seu estado bruto, ou manufaturados, como conchas, rochas,
areia, flores, sementes, animais empalhados, etc”. (HORODYSKI; MANOSSO; GÂNDARA, 2013).
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os geo-produtos, que são objetos que tem sua conotação voltada aos aspectos
geológicos dos locais visitados.

Entende-se então que o souvenir gastronômico pode ser qualquer produto


alimentício que tenha os elementos: alimentos e bebidas, identificação, embalagem,
identidade e transporte. Já os geo-produtos são sempre voltados aos aspectos
geológicos do local, e o geo-food seria um tipo de geo-produto e também um souvenir
gastronômico. Na figura abaixo se evidenciam as categorias que antecedem o geo-
food:

FIGURA 1: TIPOS DE SOUVENIR

Fonte: Adaptado de Horodyski et al (2012)

Como ressaltam Farsani et al. (2012, p.43), “os produtos turísticos não devem
seguir somente os princípios da sustentabilidade, mas também devem promover o
desenvolvimento do geoturismo como uma nova ramificação do turismo”, ou seja,
o souvenir gastronômico, também pode ser analisado como um elemento à parte,
mas ele depende necessariamente da atividade turística para ser comercializado.
No caso do geo-food há toda uma estrutura que antecede sua comercialização,
desde o planejamento de seu designer até o momento que será consumido nos
estabelecimentos.
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GEOCONSERVAÇÃO E TURISMO

Durante anos se discutiu a importância de preservar o patrimônio geológico,


mas nada de efetivo foi feito até a criação da Rede Europeia de Geoparks (2000) e
da Rede Global de Geoparks (2004). Desde a criação das redes muito se avançou no
que tange os princípios da geoconservação, evidenciando-se no número crescente de
membros inscritos e nas estratégias utilizadas para sensibilizar as pessoas a respeito
da importância de preservar o patrimônio geológico. Inicialmente as redes contavam
com apenas quatro membros: Geopark Maestrazgo (Espanha), Geoapark Vulkaneifel
(Alemanha), Geopark da Reserva Geológica de Haute-Provence (Romênia) e o
Geopark da Floresta Petrificada de Lesvos (Grécia), no entanto contam atualmente
com 100 Geoparks em 29 países. O Brasil possui somente um Geopark nessa Rede,
o Geopark Araripe no Ceará.

Um Geopark é um selo atribuído pela UNESCO, para áreas que combinam a


proteção do patrimônio geológico com o desenvolvimento sustentável. Um Geopark
não trata somente de geologia, engloba também aspectos ligados à biodiversidade,
arqueologia, história, cultura entre outros. A UNESCO (2006, b) conceitua um Geopark
como:

“Um  geopark é um território de limites bem definidos, com uma área


suficientemente grande para servir de apoio ao desenvolvimento
socioeconômico local. Deve abranger um determinado número de sítios
geológicos relevantes ou um mosaico de aspectos geológicos de especial
importância científica, raridade e beleza, que seja representativo de uma
região e da sua história geológica, eventos e processos. Além do significado
geológico, deve também possuir outros significados à ecologia, arqueologia,
história e cultura.”

Os objetivos de um Geopark são proteger e promover o patrimônio através


de iniciativas sustentáveis e atividades educativas. Geoparks buscam estimular a
geração de emprego e renda para as comunidades locais, através da valorização da
sua história, cultura e patrimônio. Esses aspectos incluem, entre outros, a promoção
e o incentivo de artesanato típico e a gastronomia local. A principal atividade turística
realizada em um Geopark é o turismo sustentável, que propicie a adequada proteção
e interpretação do seu patrimônio. Nesse contexto, insere-se a geoconservação
que pode ser definida como “ação feita com a intenção de preservar e melhorar
as características geomorfológicas e geológicas, processos, locais e exemplares”
(BUREK; PROSSER, 2008).
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Um conceito que está relacionado à geoconservação é o da geodiversidade,


que segundo Moreira (2011, a p.39) é: “a variedade de ambientes geológicos,
fenômenos e processos ativos, que dão lugar a paisagens, rochas, minerais, fósseis,
solos e outros depósitos superficiais que constituem a estrutura para a vida na Terra”.
Segundo a autora é importante que a Terra seja entendida como um todo, tanto no
que se refere aos aspectos da biodiversidade, quanto de geodiversidade; e uma
problemática existente é o termo geodiversidade ser pouco divulgado se comparado
a biodiversidade.

A falta de divulgação e até mesmo valorização desses aspectos, é um dos


motivos que faz com que muitos lugares tenham buscado novas alternativas para
uma maior proteção do patrimônio geológico, como criação dos Geoparks. Da mesma
forma que é necessário que sejam criadas medidas em prol da conservação, como
por exemplo, as Unidades de Conservação Federais e os Geoparks, também devem
ser criados mecanismos de divulgação e valorização do patrimônio geológico, como o
geo-produtos e o geo-food.

O PROJETO GEO-FOOD E FERNANDO DE NORONHA

Na perspectiva de desenvolvimento sustentável e geoconservação o Geopark


Magma (Noruega) desenvolveu a ideia de valorizar a gastronomia local com enfoque
nos elementos do patrimônio geológico e da biodiversidade, através do Projeto
Geo-food. Os parceiros desse Projeto são Geoparks da Escócia, Canadá, Finlândia
e Espanha, universidades, experts em gastronomia e projetos de Geoparks da
Dinamarca e Islândia. Na América do Sul o único parceiro dessa iniciativa é o Grupo
de Trabalho que está realizando a proposta de Geopark Fernando de Noronha.

No Brasil, o Projeto visa capacitar às comunidades para que sejam propostos


“geo-menus” e “geo-food” (incluindo também souvenirs gastronômicos) a serem
oferecidos por estabelecimentos selecionados e preparados pela comunidade local.
A valorização dos aspectos geológicos, culturais e naturais através desses produtos
tem como intuito gerar renda para as comunidades locais.

O arquipélago de Fernando de Noronha é composto por duas Unidades de


Conservação Federais, o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha e
a Área de Proteção Ambiental Fernando de Noronha – Rocas – São Pedro e São
Paulo, no entanto, verificou-se que há necessidade de medidas mais efetivas para
a conservação do seu patrimônio geológico. Assim, após estudos e levantamentos
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sobre o patrimônio geológico (MOREIRA, 2008, b e CPRM, 2012), identificou-se que


Fernando de Noronha tem condições de se tornar um Geopark e um dossiê está
sendo preparado para ser enviado para a UNESCO. A ilha possui geodiversidade
única e excepcional e pesquisas e projetos vêm sendo realizados na ilha sobre esse
tema desde 2007. Em 2013 foi criado um Grupo de Trabalho com representantes
de diversas entidades e da comunidade local, e o Grupo vem trabalhando em ações
visando propor a candidatura de Fernando de Noronha à Rede Global de Geoparks.

Para integrar a Rede, é fundamental que os Geoparks possuam atividades


educativas e interpretativas, destinadas não só para os visitantes, mas também
para a comunidade. Além disso, um Geopark deve trazer benefícios a todos os seus
envolvidos, sem a comunidade, não há um Geopark. Esta não é uma iniciativa “imposta
de cima para baixo”. O apoio da comunidade e o seu envolvimento é absolutamente
imprescindível para o sucesso de um Geopark, seja no seu processo de planejamento
ou na execução de suas atividades e desenvolvimento de novos produtos.

Deste modo, destaca-se que Fernando de Noronha tem potencial para o


desenvolvimento do Projeto Geo-food, pois possui atrativos muito conhecidos como
o Morro do Pico e as ilhas Dois Irmãos, bem como aspectos da flora e da fauna
em geral que podem servir de inspiração para a criação de geo-menus e geo-foods,
podendo ser oferecidos para os visitantes, preparados pela comunidade, gerando
novas alternativas de renda e proporcionando experiências únicas para os visitantes.

EXEMPLOS DE GEO-FOOD EM GEOPARKS PELO MUNDO

Existem casos já consolidados de Geoparks que desenvolvem os geo-foods


como ferramenta de valorização e promoção da geologia, cultura e patrimônio natural.
Alguns exemplos são: Geopark Unzen (Japão), Geopark Vulkaneifel (Alemenha),
Geopark Jeju (Coréia), Geopark Hong Kong (China), Geopark Naturtejo (Portugal),
Geopark Açores (Portugal) e Geopark Arouca (Portugal).

No Geopark Unzen, no Japão, as bolachas possuem desenhos que remetem


a flora local e também ao vulcão da região. A embalagem apresenta a história das
ultimas erupções (Figura 2). Na Alemanha, no Geopark Vulkaneifel as bombas
vulcânicas integram a geodiversidade local, divulgando esse aspecto do patrimônio,
as confeitarias da região oferecem a “torta da bomba vulcânica”, em que a bomba é
retratada como um confeito na torta (Figura 3).
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FIGURA 02: BOLACHAS COM DESENHOS QUE REMETEM A FLORA LOCAL E


A UM VULCÃO DA REGIÃO NO GEOPARK UNZEN (JAPÃO)
FIGURA 03: TORTA DE BOMBA VULCÂNICA, REPRESENTANDO AS BOMBAS
VULCÂNICAS DO GEOPARK VULKANEIFEL (ALEMANHA)

Fonte: Os autores
Fonte: Gilson Guimarães

No Geopark Jeju (Coréia), seus gestores também aplicaram a ideia do geo-


food, e em 2014 desenvolveram a “Exibição de ideias de receitas de geo-foods” com
base nos recursos geológicos do Geopark. Esse evento teve a participação de vários
setores, como estudantes, cozinheiros e donas de casa. O Geopark visa comercializar
essas receitas de geo-foods em restaurantes, cafés, empresas e casas de hóspedes,
onde os lucros provenientes desse projeto podem ser devolvidos à comunidade local
através da atividade empresarial, e também ajudará a desenvolver a economia local
(GLOBAL NETWORK OF NATIONAL GEOPARKS, 2014).

FIGURA 04: EXEMPLOS DE GEO-FOODS PRODUZIDOS PARA UM FESTIVAL


GEOLÓGICO LOCAL NO GEOPARK JEJU, NA CORÉIA.

Fonte: http://www.globalgeopark.org/News/News/8616.htm

Há também o Geo-Menu, que é oferecido em restaurantes do Geopark


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Hong Kong (China), onde foram criados pratos em que sua apresentação remete
aos elementos do patrimônio local. Ele é um elemento que compõem os geo-foods
oferecidos em restaurantes, para que as pessoas possam escolher os produtos
alimentícios oferecidos. No caso do Geopark Hong Kong, o geo-menu é um cardápio
composto pelo nome e descrição dos pratos oferecidos, bem como uma foto da
característica geológica e do prato, e sua descrição geológica.

FIGURA 05: EXEMPLO DE UM PRATO DE UM GEO-MENU, SERVIDO NO


GEOPARK HONG KONG, QUE PROCURA IMITAR A FORMA DO GEOSSÍTIO

Fonte: Internet

O Geopark Naturtejo (Portugal) é um exemplo de Geopark que confecciona


geo-produtos. O estabelecimento de um geo-restaurante e uma geo-padaria foi uma
estratégia para criação de geo-produtos, que foram inspirados na paisagem e revivem
o passado das civilizações e tradições ancestrais. A geo-padaria é administrada por um
casal de geólogos, que confeccionam bolachas de trilobitas5 e granulitos6 (FARSANI,
et. al, 2012).

No Geopark Açores (Portugal), são produzidos licores artesanalmente (Figura


6), que possuem rótulos que destacam elementos da geodiversidade, como o Vulcão
da Ilha do Pico. No Geopark Arouca (Portugal), como citado anteriormente, os fósseis
de trilobitas são elementos expressivos de visitação turística, portanto, as padarias
locais oferecem biscoitos com o formato de trilobitas (Figura 7).

FIGURA 6: LICORES PRODUZIDOS NO GEOPARK AÇORES


FIGURA 7: BISCOITOS DE TRILOBITAS PRODUZIDOS NO GEOPARK AROUCA
(PORTUGAL)

5 Os trilobitas são membros extintos de um grupo animal muito grande, o filo Arthropoda, ao qual
pertencem os insetos modernos. Estão bem representados num grande e detalhado registro fóssil que
começa no Cambriano Inferior, há 550 milhões de anos radiométricos, e termina no Permiano, há 250
milhões de anos radiométricos. Encontram-se universalmente nos limites entre as rochas relativamente
desprovidas de vida metazoária e outras com abundante evidência de tal vida. (CHADWICK; DEHAAN,
2014)
6 Granulitos é uma rocha metamórfica equigranular, sem minerais micáceos ou anfibólios e,
portanto, sem xistosidade nítida. Produto de metamor-fismo regional do mais alto grau. (MINERO-
PAR, 2014).
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Fonte: Os autores

Produzir alimentos e bebidas são ações que promovem a valorização dos


aspectos da bio e da geodiversidade dos Geoparks. A criação de pratos diferenciados
faz com que os turistas associem os elementos já observados no Geopark ao souvenir
gastronômico, e ao regressarem de suas viagens, presenteando ou não um amigo
ou familiar estarão disseminando a importância da geoconservação. Se o souvenir
gastronômico apresentar adequadamente seus elementos, com informações a respeito
do geo-produto, a pessoa que até então poderia não conhecer nada a respeito das
características geológicos desses locais estará mais suscetível a entender os preceitos
e a importância da geoconservação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Projeto Geo-food foi uma ideia inovadora para a disseminação dos preceitos
da geoconservação nos Geoparks, agrega valor a esses locais, sendo um diferencial,
pois seus elementos são explorados a partir de uma nova perspectiva. A realização
desse projeto em Fernando de Noronha pode ser uma ferramenta de valorização
das características locais que permite que os turistas tenham acesso a uma
informação sobre a biodiversidade e a geodiversidade de uma forma diferenciada e
criativa. A valorização dos elementos que compõem a paisagem através do souvenir
gastronômico promovem renda e geração de empregos a comunidades, criando
também um sentimento de valorização do patrimônio na própria comunidade.

Há diferentes tipos de consumidores de souvenir, os culturais e os comerciais,


estando os segundos desinteressados à cultura local. No entanto, como consideram
Horodyski et al (2012), “o consumo de produtos alheios à identidade local não deve ser
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considerado uma atitude negativa”. No entanto, entende-se que, segundo os objetivos


de um Geopark e do próprio desenvolvimento sustentável, as ações realizadas nesses
locais devem propiciar a adequada proteção e interpretação do seu patrimônio, ou seja,
é importante que os turistas tenham consciência da importância desses locais, e para
isso o souvenir gastronômico, através do geo-food podem auxiliar nesse processo. A
geração de renda é um dos fatores primordiais para a comunidade, mas será muito
mais benéfico para a geoconservação se os consumidores comerciais passarem a
serem consumidores culturais.

Fernando de Noronha é considerado um lugar de beleza rara e excepcional,


tendo suas áreas protegidas por Unidades de Conservação. No entanto, apesar do
arquipélago ter a devida proteção no que se refere aos aspectos da biodiversidade,
é importante que medidas mais específicas para a proteção do patrimônio geológico
sejam tomadas, como a criação de um Geopark. A criação de um Geopark irá beneficiar
primeiramente a comunidade local, e será uma catalizadora de emprego e renda.
No entanto, o Projeto Geo-food no arquipélago não depende necessariamente da
inscrição de Fernando de Noronha como membro da GGN, mas sim da comunidade
local e entidades parceiras aderirem à ideia, bem como a captação de recursos por
meio de projetos de financiamento.

Estudos sobre a importância do souvenir gastronômico como ferramenta de


valorização do patrimônio geológico são praticamente inexistentes, contando com
uma bibliografia limitada. É importante que novos trabalhos surjam abordando as
diferentes faces da utilização desses objetos, principalmente estudos de caso, para
que o conhecimento avance e análises mais amplas sejam possíveis.

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of London, 2008.

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PROCESSO PARTICIPATIVO NO PLANEJAMENTO DE SISTEMA DE TRILHAS


DE BASE COMUNITÁRIA NO AMAZONAS

RESUMO
O turismo no meio rural é expressivo no Estado do Amazonas, e na maioria das
atividades ocorre nos territórios de base comunitária, com utilização de equipamentos
integrados ao ambiente natural e as relações tradicionais das populações envolvidas.
Com isso este trabalho indica metodologias participativas no planejamento para
implantação de trilhas ambientais, objetivando envolver os comunitários no processo
para minimizar e controlar os impactos decorrentes da implantação e utilização dos
espaços estabelecidos para condução dos visitantes nas trilhas.
Palavras – Chaves: Planejamento Participativo, Comunidade, Sistema de Trilha

ABSTRACT
Tourism in rural areas is significant in the state of Amazonas, and most of the
activity occurs in the territories, community-based, with integrated use of the natural
environment equipment and the traditional relationships of the populations involved.
Thus this study indicates participatory methodologies in planning for deployment of
environmental tracks, aiming to involve the community in the process to minimize and
control the impacts of deployment and use of areas established for the conduct of
visitors on the trails.
Key - Words: Participatory Planning, Community Trail System

INTRODUÇÃO

Desde os primórdios da história da humanidade, o homem, para suprir a


necessidade de deslocamentos explora e se apropria da natureza abrindo nela
picadas, caminhos ou trilhas abertas.
No entanto, ao longo dos anos, atendendo a demanda do mercado do turismo,
as trilhas assumem um novo conceito. De deslocamentos, passam a configurar-se
como importante instrumento para o segmento do turismo de natureza, proporcionando,
ao turista, por meio da caminhada telúrica uma oportunidade de integração homem-
natureza, tão difícil nos dias atuais, em que as cidades, tomadas por concretos,
dificultam ao ser humano o uso desta prática.
Objeto de estudo em diferentes áreas do conhecimento, as trilhas classificam-
se em: interpretativas, botânicas, mitológicas, lendárias, históricas ou ecomedicinais.
Enquanto produto de elevado valor agregado para o segmento do ecoturismo, as
trilhas devem ser planejadas com base nas políticas de sustentabilidade visando um
equilíbrio socioambiental no qual esta inserida. Embora classificada como prática
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direcionada ao turismo alternativo há necessidade de estudos de impacto, visando a


conservação e preservação da flora, fauna e demais recursos existentes na estrutura
do ecossistema que passa, com a função adquirida, com a freqüência de uso, a
necessitar um monitoramento.
Com este enfoque, o texto a seguir remete a reflexão à realidade da Comunidade
Nossa Senhora do Perpétuo Socorro do Lago Acajatuba no Município de Iranduba,
no Estado do Amazonas, onde, através do uso da metodologia Metaplan para o
planejamento participativo, identificou-se o uso de trilhas tradicionais em atividades
cotidianas, como potencial atrativo em roteiros turísticos de base comunitária. Pratica
que no contexto da área de estudo torna-se pertinente considerando a demanda
turística do entorno, tomada por empreendimentos hoteleiros no segmento “hotéis
de selva”. Potencial capaz de promover a geração de emprego e renda, visando, em
paralelo, potencializar entre os envolvidos os aspectos de conservação e preservação
dos recursos naturais e valorização dos elementos simbólicos do lugar.

O PLANEJAMENTO DE TRILHAS COMO ATRATIVO TURÍSTICO

Para Griffith e Valente (1979:9), “o planejamento e implantação de um sistema


de trilhas devem considerar a seqüência paisagística de cada percurso, devendo variar
entre diferentes classes de paisagem”. Já Lechner (2006:14), define o planejamento
de trilhas como um instrumento de suporte para a conservação ambiental

Um planejamento de trilhas deve considerar os objetivos da área protegida,


assim como os aspectos sociais e biofísicos da área destinada a receber
a trilha. Isto é necessário tanto para a implantação de novas trilhas como
para o melhoramento das já existentes. [...] podem potencialmente auxiliar a
alcançar objetivos conservacionistas e aumentar oportunidades sociais com
baixo impacto sobre o ambiente biofísico cortado pela trilha.

No que diz respeito à sustentabilidade, o sistema de trilha deve adotar técnicas


de manejo e monitoramento constante, conforme afirma Lechner (2006:14):

A sustentabilidade das trilhas, particularmente no que diz respeito a sistemas


de trilhas, é mais facilmente alcançável mediante uma abordagem integrada
no seu manejo. Este tipo de abordagem integra o planejamento, a construção,
a manutenção, o monitoramento e a avaliação, vinculados cada uma dessas
atividades por intermédio de retorno e interação contínuos.

Os itens descritos devem ser levados em consideração no processo de


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elaboração do planejamento de trilha de base comunitária. No entanto, os padrões de


designs devem ser tomados como fio condutor de todo o processo, pois definido de
acordo com a realidade local, tem como propósito inserir no roteiro da trilha a prática
cotidiana dos comunitários. E, neste contexto, o planejamento deve também levar em
conta os diferentes níveis de dificuldade exigidos, como observa Machado (2005), no
quadro abaixo.
GRAU DE DIFICULDADES EM ROTEIROS DE TRILHAS
DIFÍCIL MÉDIO FÁCIL
Trilhas com declividade acima Trilhas com declividade Trilhas com declividade
de 20%. entre 12% e 20%. inferior a 12%.
Trilhas com mais de dez Trilhas com cinco a nove Trilhas com, no máximo,
obstáculos a cada 500 m. obstáculos a cada 500m. quatro obstáculos a cada
500 m.
Trilhas com subidas em morros Trilhas com subidas em Trilhas em áreas sem
altos. morros de porte médio. alterações representativas.
Trechos muito longos de Caminhadas curtas dentro Acesso com pouco esforço
caminhada. da mata nativa. físico.

Requer alguma experiência em Não requer experiência. Não requer experiência.


caminhada.

Requer bom condicionamento Requer bom Requer bom


físico. condicionamento físico. condicionamento físico.

Em complemento às contribuições de Machado (2005), no planejamento de


trilhas, ainda se faz necessário: levantamento geral do sítio onde será implantada a trilha,
considerando aspectos legais da área, limitações territoriais, localização geográfica,
tipologia e morfologia do solo, vegetação, fauna, hidrografia e acessibilidade. Para
definição do traçado da trilha e, por conseguinte de intervenções com infra-estruturas
deve-se, previamente, identificar:

1. Pontos potenciais de atração, como cachoeiras ou cascatas, vistas


cênicas, afloramentos rochosos, desfiladeiros, fendas, áreas de expressividade
vegetal, áreas de expressividade animal.

2. Pontos estruturais, como solos frágeis, espécies representativas e


ameaçadas, desvios necessários, áreas de inundação.

3. Pontos estratégicos que contribuam para definir o traçado da trilha.


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Para a prática desta etapa técnica de trabalho de campo, Cavalcanti (2004:55)


indica alguns instrumentos de uso básico:

Os instrumentos auxiliares para estudo do caminho no mapa são: clinômetro,


bússola, bandeirinha de cores diferentes, marcador à prova d’água para fazer
anotações nas bandeirinhas, livro de campo, trado para verificar profundidade
de solo e as camadas de rochas, mapas e se possível um GPS (Sistema de
Posicionamento Global).

CLASSIFICAÇÃO, TIPOS, FORMAS E TRAÇADO DE TRILHAS

De acordo com (SALVATI, 2003), as trilhas classificam-se em:

a) Guiadas: são aquelas que exigem a presença de um monitor


especializado para conduzir o visitante em seu percurso. Nela são estabelecidos
pontos de parada para a abordagem de alguns temas. Logo, utiliza-se da caminhada
conduzida, que é um meio interpretativo pessoal.
b) Auto-guiadas: independem da presença de um condutor de visitantes
para ser interpretada. Deve possuir um bom sistema de sinalização e material
interpretativo de fácil manuseio/ atendimento para o visitante.

TIPOS

Na ausência de uma publicação que conceitue os diferentes tipos de trilhas


existentes, se fez com as diferentes contribuições uma coletânea onde, valorizando
as potencialidade e especificidades do Amazonas, se classificou os seguintes tipos
de trilhas:

Trilha Interpretativa
É um instrumento de base para as atividades de educação ambiental, que
visa contribuir para desenvolver no ser humano a conscientização à preservação,
conservação e a percepção ambiental, por meio de atividades dinâmicas e
participativas que relevam os significados do ambiente natural, principalmente por
meio de experiência direta (HOROWITZ, 2001).

Trilha Botânica
Tem o propósito de interpretar a paisagem da flora onde as espécies botânicas,
são identificadas com pequenas placas de alumínio contendo uma numeração, que
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catalogada produz um guia explicativo com informações das espécies mapeadas


(BASER, A.C.et al., 2003) .

Trilha ecológica
Caracteriza-se por ser implantada com fins de observação do meio ambiente,
onde não possui muita infra-estrutura para não modificar o meio (VIEIRA, 2003).


Ao se realizar o planejamento de trilhas, tanto as comerciais como as de base
comunitária, deve-se considerar toda a diversidade de ecossistemas existentes na área
de intervenção. Por este motivo, o inventário da área se caracteriza como importante
instrumento para auxiliar na definição do formato da trilha, que deve contemplar
pontos estratégicos de: paradas para descanso; sinalizações com placas; seqüências
paisagísticas; benfeitorias; extensão; capacidade de carga e interpretação ambiental
com a identificação dos atrativos. Com estas informações, se terá dados para mapear
por onde cada percurso deverá passar com objetivo de causar o mínimo impacto às
belezas cênicas, mantendo as características da vegetação.

FORMAS

Segundo Andrade (2003) e Vieira (2003), os diferentes formatos para um


sistema de trilhas estão, diretamente, associados à sua função. Sendo que forma
e função se caracterizam como categorias de análise para identificação e definição
do grau de dificuldades estabelecido para a trilha. Referente à função, os autores
classificam as trilhas, como por exemplo, as utilizadas por guardas ou vigilantes em
atividades de patrulhamento de parques ou áreas verdes, ou para uso público em
atividades educativas ou recreativas. Quanto à forma há cinco tipos de classificação:

1. Trilha circular - onde se estabelece uma trilha que passa por diferentes
lugares sem repetir o percurso voltando ao mesmo ponto de partida.
2. Trilha em oito - utilizadas em áreas limitadas para aproveitar bem todo
o espaço.
3. Trilha linear - um formato simples com o objetivo de interligar a um
atrativo.
4. Trilha em atalho – com objetivo de mostrar outras áreas como
alternativas para o visitante.

TRAÇADO

Os traçados de trilhas são trechos curtos que determinam uma virada abrupta
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no percurso, ou seja, as trilhas podem ser uma sequência de traçados contínuos. Um


dos objetivos de trilhas de uso público em áreas naturais é suprir as necessidades
recreativas de maneira a manter o ambiente estável e permitir ao visitante a devida
segurança e conforto. As trilhas devem sutilmente encorajar o visitante a permanecer
nelas por serem facilmente reconhecidas como caminho mais fácil, que evita obstáculos
e minimiza a energia dispensada. Para tanto, devem manter uma regularidade e
continuidade de seu caminho de acordo com suas formas, evitando mudanças bruscas
de direção e sinalização. Obstáculos como pedras, árvores caídas e poças de lama
devem ser evitadas, pois provocam a abertura de desvio.

Segundo Schelhas (1986), grande parte do impacto ambiental em trilhas é


devido ao abandono das mesmas por diferentes motivos como: tentativa de evitar
necessários ziguezagues, obstáculos e trilhas com superfície formada somente por
pedras, ou ainda, a procura pela sensação de “aventura”.

A alta qualidade do desenho de uma trilha depende primariamente do


balanço entre beleza e objetivo. As características naturais e cênicas devem ser
combinadas de forma criativa com os apelos culturais do local. De acordo com Agate
(1983) o planejamento de trilhas deve levar em consideração alguns fatores como:
1) variação das condições da região em decorrência das estações do ano; 2) quais
são as informações técnicas (mapas, fotografias, etc.) já existentes sobre a região;
3) a probabilidade de volume de uso futuro; 4) as características de drenagem, solo,
vegetação, habitat, topografia, uso e exeqüibilidade do projeto.

Quanto possível, as áreas atravessadas por trilhas devem conter grande


diversidade biológica, climática e topográfica. Tanto que um dos problemas do desenho
de trilhas está relacionado às variações de curvas de nível, onde a necessidade de
ascensão é contraposta pela erosão causada pela água. Por isso, evitar que a direção
da água seja a mesma da trilha ou que ao menos haja um sistema de drenagem
correto para que ela corra “pela” e não “ao longo” da superfície da trilha.
Para Martins (2003) e Lachner (2006) uma forma de ascensão moderada em
áreas de declive são os “ziguezagues”. Estes autores fundamentados em Proudman
(1977) definem que sua construção deve levar em consideração os seguintes fatores:
elas são difíceis de construir; sua repetição é monótona; devem dar a sensação de
avanço para quem sobe; deve ter curva espaçada para que uma não seja visível de
outra a fim de evitar que as pessoas cortem caminho; e, a distância entre elas deve
ser longa.
A concepção e desenho das trilhas também dependem do ambiente em que
a trilha se encontra, do acesso e volume de público que ela suportará. Existência ou
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não e tamanho de estacionamentos, também são fatores importantes que devem ser
levados em consideração.

METODOLOGIA METAPLAN PARA PLANEJAMENTO DE TRILHAS

Como descrito, a reflexão acerca do planejamento e gestão de trilhas de base


comunitária, esta embasada em resultados obtidos por meio de oficinas moderadas
pelo método METAPLAN, desenvolvida com os comunitários da comunidade de
Nossa Senhora Perpétuo Socorro no Largo do Acajatuba, município de Iranduba no
Amazonas, onde se implantou a Trilha da Súcuba.
O método Metaplan garante por meio de visualização e exploração de idéias,
experiências presenciais possibilitando a interação moderador-comunitário-objeto do
conhecimento, através do uso do diálogo ou exposição dialogada, de forma a estimular
o saber ouvir, o pensar, o senso crítico e a participação do comunitário envolvido nos
debates apresentados. Através da seleção e organização dos conteúdos das oficinas,
se estimulou a identificação de questões vivenciadas pelos comunitários em seu
cotidiano, inseridos temas transversais relacionados com ambiente natural, social,
territorial e econômico.

Detalhadas a seguir, as oficinas, dividas em cinco temáticas, garantiram


através das técnicas de aprendizagem em grupo, a construção do conhecimento
estimulando o trabalho em equipe.
a) Oficina de Sensibilização para a Educação Ambiental – focada na proposta de
estimular a percepção dos comunitários para entender a dinâmica do espaço e a
influencia da paisagem no cotidiano. Como meta esta oficina pretendia agregar
conhecimento quanto aos valores socioambientais nos aspectos de cuidados e
conservação do ambiente para garantir a sustentabilidade da trilha.

b) Oficina de Sensibilização para o Tratamento de Resíduos Sólidos – o objetivo


era o de sensibilizar a comunidade para a necessidade de manter o ambiente
limpo, evitando acúmulo de lixo em locais impróprios. Como meta a oficina
pretendia capacitar os comunitários envolvidos para em suas práticas cotidianas
tornarem-se multiplicadores de novas informações visando garantir o ambiente
limpo e saudável.

c) Oficina de Planejamento para Implantação de Sistema de Trilhas – baseado


nos resultados obtidos com as oficinas anteriores, nesta, definiu-se como objetivo
envolver os comunitários para a elaboração do planejamento e implantação da
trilha, discutindo todos os passos e ações a serem desenvolvidas.
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d) Oficina de Análise de Impacto Ambiental na Implantação de Trilha – nesta


prática avançou-se introduzindo atividades com conteúdos teóricos, com objetivo
favorecer que os comunitários identificassem as formas de impactos e os
indicadores para mensurar alguns impactos que virão a ocorrer com a implantação
da trilha comunitária. E, neste caso, já trabalhando no sentido de identificar medidas
mitigadoras para possíveis situações.

e) Curso Formação de Monitores de Trilha- mediante o desenvolvimento das oficinas


anteriores, esta oficina definiu como meta viabilizar técnicas de monitoramento,
manejo e manutenção de sistema de trilha para uma utilização economicamente
viável, ambientalmente justa e socialmente correta.

PRÁTICAS DESENVOLVIDAS NAS OFICINAS REALIZADAS PARA O


PLANEJAMENTO DE TRILHAS

Na organização das oficinas foram elaboradas perguntas orientadas para


estimular a discussão e a busca de solução para os problemas identificados. Como
parâmetro inicial do processo foi elaborado o questionamento (QUEM SOMOS?) para
identificar os participantes presentes. A partir daí se determinou a divisão do pessoal
em três equipes de trabalho para todas as oficinas realizadas.

Primeira Oficina - Sensibilização para a Educação Ambiental

A oficina teve como parâmetro para aplicação na trilha, o uso do conhecimento


tradicional e a apreciação da natureza através do esclarecimento de fenômenos
e características dos recursos naturais e culturais, proporcionando um melhor
entendimento, da função, vantagem e implantação de uma trilha para a comunidade.
Ação focada na preservação e conservação dos recursos, locais de forma sustentável.
Ao estímulo do entendimento dos conceitos ambientais em relação à educação
ambiental, foram elaboradas as seguintes perguntas orientadoras: O que é educação
doméstica? O que é educação escolar? O que é educação Ambiental? O que é
meio ambiente? Para interagir entre o conhecimento tradicional e científico voltado à
manutenção socioambiental.
Para aprofundar o conhecimento, a oficina com auxílio de painéis explicativos,
tratou sobre os princípios objetivos e fatores da temática - educação ambiental, de
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forma a estimular a percepção com foco em orientar a população local e, futuros


visitantes atraídos para o uso da trilha, para o mínimo impacto na utilização dos
recursos.
Com as atividades práticas, foram identificados os impactos ambientais na
comunidade e por meio de um mapa mental, traçado pelas equipes de trabalho, se
obteve, acerca dos fundamentos da educação ambiental, segundo o uso do espaço
cotidiano das equipes a seguinte exposição:
Com relação à oficina de educação ambiental, no que se refere ao que é
educação doméstica? As equipes definiram: Equipe – 01 Manter o ambiente que
vivemos sempre limpo é a educação que aprendemos em casa; Equipe – 02
Educações que aprendemos com os nossos pais. Exemplo: cuidar da casa e respeitar
as pessoas; e Equipe – 03 Respeitar os pais e os mais velhos, saber se comportar,
compartilhar e ser solidário.
No quesito educação escolar, as equipes enfatizaram: Equipe - 01 Ensino
que adquirimos através dos professores, Equipe – 02 É tudo que aprendemos na
escola. Ex: formação técnica e cursos profissionalizantes e Equipe - 03 Aprender ler
e escrever, preparação para o mercado de trabalho, saber as regras da escola e do
mundo.
Quanto ao entendimento do que foi tratado: Equipe – 01 É o que aprendemos
a tratar o meio ambiente para que depois ele não venha sofrer grandes impactos;
Equipe – 02 É algo que não venha prejudicar o nosso meio ambiente. Ex: poluição
dos rios, desmatamento e queimadas; e Equipe - 03 Preservar a natureza, não fazer
queimadas, não poluir os rios, lagos e igarapés e não jogar lixos nas ruas.
Quanto ao conhecimento de meio ambiente, responderam: Equipe - 01 É
tudo aquilo que nos rodeia, ou seja, o ambiente em que vivemos: a natureza, o ar
que respiramos e os rios; Equipe - 02 É o lugar onde vivemos: terra, rios, animais e
árvores; e Equipe - 03 É o lugar em que vivemos, é tudo que nos rodeia. Ex: ar, água,
solo, floresta e animais.
As atividades práticas de fixação do entendimento ocorreram com o
mapeamento mental para identificar pontos de impactos ambientais na comunidade,
tendo como finalidade expressa o mapeamento dos impactos ocorridos na comunidade
Nossa Senhora do Perpétuo Socorro do Lago do Acajatuba. A apresentação do
resultado final da oficina se deu por meio de trabalhos escritos com uso do recurso
de cartazes e encenação, além de uma mobilização voluntária para sensibilização do
projeto comunitário de educação ambiental.

Segunda Oficina - Sensibilização para o Tratamento de Resíduos Sólidos


Neste ponto do trabalho os grupos se fundiram em dois, para discutir melhor
o tratamento de resíduos sólidos, a serem identificadas as soluções por parte dos
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comunitários para destinação, redução do consumo, reutilização e reciclagem dos


resíduos produzidos no local. Bem como a sensibilização do coletivo para a orientação
geral dos visitantes e comunitários locais em tratar os resíduos.
As características da importância do ambiente limpo na visão dos comunitários
esta em: prevenir doenças e, também, para evitar que os visitantes vejam a comunidade
suja, além de fatores realizados à higiene e saúde. Em síntese, todos visaram o bem
da comunidade.
As atividades desenvolvidas em grupo, nas oficinas apontaram como impactos
negativos, relacionados à falta de tratamento dos resíduos voltados aos aspectos
social, econômico e ambiental, os seguintes resultados:
• Equipe- 01 - Social- é quando consumimos produtos não reciclados
causando prejuízo para nossa saúde e dos demais. Ambiental- consumo de plástico
causa o uso exagerado do petróleo e a poluição do solo. Econômico- ao consumir
produtos que poluem o meio ambiente prejudicando a comunidade.
• Equipe - 02 - Social- o grande consumo de embalagem não reciclável.
Ambiental- queimadas, derrubadas e lixos ofendendo o bem estar da comunidade.
Econômico – com o lixo na comunidade os turistas não retornam.

Baseado na mesma atividade, na visão dos comunitários para os aspectos


dos impactos positivos, os resultados foram:
• Equipe – 01 – Social- é quando orientamos as pessoas sobre a
importância de consumirmos produtos recicláveis e termos um ambiente limpo.
Ambiental- produtos recicláveis que não prejudicam o meio ambiente. Econômicos-
é quando compramos produtos que podemos reciclar.

• Equipe – 02 - Social – consumo de mercadorias com embalagem


reciclável. Ambiental- evitar queimadas de lixo doméstico e fazer arborização.
Econômico- uma comunidade bem organizada para receber a demanda de turista.
Oficina de Planejamento para Implantação de Sistema de Trilhas
O planejamento para implantação de um sistema de trilha de base comunitária,
em uma área de floresta deve levar em consideração entre outros aspectos, o trabalho
de conscientização da comunidade local levando-a a fazer parte do processo de
planejamento. Com a participação dos comunitários é possível dar à comunidade
oportunidades de desempenhar uma efetiva ação de ecodesenvolvimento. Mobilizadas
elas desenvolvem seu próprio potencial tomando para si o dever de manter o
meio ambiente preservado das ações predatórias do homem, visando garantir a
sustentabilidade local para o desenvolvimento das atividades turísticas (VIEIRA,
2003).

De acordo com o resultado das oficinas, pode-se identificar que para os


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comunitários, as trilhas têm valor como instrumento para a educação ambiental


e recreativa, desenvolvendo através de um contato direto com a natureza, a
conscientização para o valor do meio natural, fonte da existência humana. Pautado
na experiência vivida, define-se, dentro do planejamento e gestão de trilhas de base
comunitárias o conceito de trilhas como um caminho aberto ou já estabelecido em
uma ambiente onde ocorrem atributos naturais e/ou culturais, dotados ou não de
equipamentos facilitadores, com o objetivo de permitir um contato direto com os
valores existentes.

Nessa abordagem estratégica para o planejamento e implantação da Trilha da


Súcuba, se seguiu passos fundamentais, onde, baseado nos trabalhados das equipes,
se destaca para o entendimento dos conceitos de caminho, trilha e picada em área de
floresta, o seguinte:
• Equipe – 01 - Caminho – Percurso que fazemos todos os dias. Trilha
– É um lugar onde segue muitas pessoas ou animais em sentido variado. Picada -
Pequena demarcação feita na mata.
• Equipe - 02 - Caminho- Ë algo que nós usamos diariamente. Trilha –
Um local organizado com riquezas naturais que são atrativos turísticos. Picada - É
uma demarcação na mata para abrir caminho.
O entendimento dos conceitos associados a forma de uso tradicional das
trilhas foram fundamentais para valorização cultural, no processo de planejamento.
Sobretudo, porque a definição de uso da trilha deve também estar associada às
práticas cotidianas desenvolvidas pelos comunitários. Aspectos fundamentais tanto
para estimulá-los à participar do processo, bem como facilitar a partir do projeto
implementado a manutenção e manejo da trilha. Desta forma, baseado em suas
necessidades eles identificaram como função da trilha:
• Equipe - 01- É estabelecida para roça e extração de madeiras e caça.
• Equipe – 02 - Para irmos à roça, para tirar madeira e extração de
sementes e frutas.
Identificada, a partir das oficinas, a trilha como potencial turístico favorável
ao desenvolvimento local, em grupo desenvolveu-se atividades para enumerar os
atrativos e as atividades potenciais conforme apontado:
• Equipe -01 - Madeira de lei, Plantas medicinais, pássaros e animais
• Equipe – 02 - o meio ambiente, paisagem, a fauna e a flora.
A relação de atividades tradicionais e turísticas foram identificadas como
fundamentos e razão de utilização das trilhas:
• Equipe – 01 - Tradicional- Caça, pesca, roça e tirada de tucumã.
Turística – Caminhada, pernoite, observação de animais, focagem.
• Equipe -02 - Tradicional- Para o nosso trabalho diário, roça, caça e
extrair alimentos. Turística- Caminhadas mostrando riquezas naturais, nossa cultura.
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Com todos os embasamentos teóricos a respeito de trilha e conservação dos


recursos, foi apontado pelos comunitários de forma participativa o local ideal, para
implantação da trilha, conforme figura abaixo.
• Encaminhamento indicado pelos comunitários - em uma área atrás
da comunidade, onde tem varias diversidade. Ex: Capoeira, igapó e floresta virgem.
Nas margens do Igarapé do Calado.
Após a escolha do local, motivados com o desempenho das atividades
desenvolvidas tiveram que escolher o nome adequado para trilha. Em uma visita
técnica com as equipes, mediante uma análise das características e peculiaridades da
paisagem local, identificou-se quantidade expressiva da espécie de valores fitoterápicos
Himatanthus sucuuba da família da Apocynaceae, popularmente conhecida como
Súcuba. Identificação determinante, para as equipes acordarem adotar para a trilha
sustentável da comunidade de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, o nome de
TRILHA DA SUCUBA.
Posteriormente, as discussões direcionaram para os objetivos pertinentes ao
uso e comportamentos no uso da Trilha da Súcuba:
• Equipe – 01 - apresentar a importância dos recursos naturais e divulgar
a cultura local, criando um ambiente de troca de experiências, valorizando o ambiente
natural e cultural.
• Equipe – 02 - Promover o desenvolvimento sustentável, a apreciação
dos recursos naturais e culturais.
Com os objetivos estabelecidos as equipes identificaram as demandas para
uso da trilha:
• Equipe 01- Turistas Nacionais, Internacionais, alunos da comunidade.
• Equipe 02 – Visitantes alunos da escola local e comunitários.
Para garantir a manutenção e sustentabilidade da Trilha da Sucuba foram
abalizadas diretrizes básicas de gerenciamento:
• Equipe 01 - Formar grupos de pessoas da comunidade onde cada um
tenha uma tarefa para realizar.
• Equipe - 02 - gerenciar de maneira organizada, criativa, informando
orientando os visitantes para que isso possa atrair mais pessoas, capacitando os
comunitários para praticas de primeiros socorros aos usuários.

Oficina de Análise de Impacto Ambiental na Implantação de Trilha

Para que pudessem ter um parâmetro sobre a minimização de impactos


negativos na implantação de uma trilha foi direcionadas atividades para identificar as
ações de maiores impactos, tanto negativos como positivos. E através, do moderador,
192
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buscou-se motivar os comunitários e identificar soluções adequadas para a realidade


local.
Os trabalhos foram abordados de forma participativa à formação de dois
grupos influentes de pessoas. Foram apontados como impactos relevantes: social
– centralização do poder, divisão do grupo e desavença; no item econômico
foi identificado – concentração dos recursos e desvio de verbas; e no elemento
ambiental foi levantado – solo, desmatamento, ação predatória e retirada de plantas
inadequadamente.
O grupo salientou no campo social: a organização da comunidade na recepção
de visitantes, no econômico ressaltou a geração para os comunitários; e no ambiental
destacou a conservação e/ou preservação da natureza, bem como o reflorestamento
das áreas degradadas e a melhor interação com a natureza.
Foram apontados pelo grupo os tratamentos e controles para os impactos
causados nos campos sociais, econômicos e ambientais. No âmbito social,
propuseram criar um grupo de monitores para que a centralização não ocorra, formar
uma equipe para controlar invasores. No econômico: sugeriram criar junto a tesouraria
da associação uma comissão de administração de recursos, que ficaria responsável
por fazer o controle de entrada de visitantes por meio de taxas de uso da trilha. No
ambiental: a idéia foi trabalhar a educação ambiental e a interpretação da paisagem,
através de monitoria e acompanhamento dos visitantes na trilha.
Como forma de compensar as ações impactantes da implantação da trilha, o
grupo adotou medidas mitigadoras. No aspecto social a criação de uma equipe de
monitores para descentralizar os trabalhos de condução na trilha, a organização de
grupos. No econômico: a criação de uma comissão junto à tesouraria da associação
para administrar e planejar os recursos financeiros. Na área ambiental propõe o
trabalho de educação ambiental e interpretação da paisagem e o reflorestamento das
áreas degrada.
As práticas voltadas para minimização dos impactos ambientais na implantação
de trilha consistiu na retirada de espécies botânicas de 30 cm da linha central e
replantio em áreas degradadas, utilizando técnicas de escavação nas proximidades,
envolvendo todos os participantes da oficina no manuseio.
Conforme referencial acima citado, os impactos ambientais no uso de trilhas,
são provocados nos ambientes bióticos e abióticos, com efeitos diretos e indiretos nos
fatores solo, vegetação e fauna. No entanto, estes impactos podem ser minimizados se
o sistema de trilha for devidamente planejado antes de ser estabelecido, caracterizando
cada trecho e estabelecendo forma de manejos e controle de visitas ao local.
193
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CONSIDERAÇÕES

Buscou-se com a reflexão pautada na prática do planejamento participativo


para a implantação e gestão de trilha, desenvolvida junto à comunidade Nossa Senhora
do Perpétuo Socorro no município de Iranduba no Amazonas, uma amostragem de
como é possível inserir o homem da floresta na estrutura do processo produtivo da
região, potencializando valores socioculturais, produzidos a partir do cotidiano do
lugar.

Considerando a potencial hoteleiro, estruturado no entorno da comunidade do


Lago do Acajatuba, foi identificada a demanda para o uso das trilhas, como produto de
valor agregado para o segmento de hotéis de selva. Cenário que valoriza a necessidade
de viabilizar projetos de natureza participativa, capazes de simultaneamente ao
valorizar os atrativos do lugar, gerar a sustentabilidade, proporcionando simetria entre
o mercado e a sociedade local.

A Trilha da Súcuba, empreendimento endógeno, implementada pelos


comunitários da comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, ao proporcionar
aos turistas uma atividade no segmento turismo de natureza, paralelamente, favorece
o resgate e a valorização dos valores cotidianos do lugar, uma vez que a trilha em
seu traçado lúdico tem como objetivo proporcionar aos usuários o sentimento e a
experiências do modo de vida Amazônico.
No cenário atual em que a Amazônia mercantilizada pelo mercado do
turismo, é uma das principais responsáveis por ações predatórias registradas em
trilhas é urgente a produção de novas alternativas de preservação que efetivamente,
contemplem de forma holística e integradora as necessidades locais, garantindo a
sustentabilidade da floresta por meio da inserção do homem da floresta no mercado
do turismo, com oportunidades iguais de geração de renda.

O estudo em questão, como dito, é apenas uma amostragem do que,


pretende-se, seja reproduzido em outras comunidades, envolvendo planejamento,
implementação, gestão e manejo participativo, como forma de garantir a floresta em
pé para uso dos que nela habitam e a quem deve servir.
.
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FORMAÇÃO DE CONDUTORES E EDUCAÇÃO AMBIENTAL – ESTRATÉGIAS


DE DESENVOLVIMENTO DO TURISMO SUSTENTAVEL NAS UCS DO RS

CUNHA, Aline Moraes1

BAZOTTI, Leandro dos Santos2

RESUMO:

O presente artigo, surge da reflexão teórica dos autores, sobre a sistematização


da experiência na realização dos cursos de formação de Condutores Ambientais
Locais, ofertados a partir de 2012 pelo IFRS - Instituto Federal de Educação Ciência
e Tecnologia do Rio Grande do Sul, Campus Porto Alegre, através do PRONATEC
– Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego. Para a correta
compreensão da construção teórica e prática realizada o artigo inicia pelo resgate
histórico quanto à Educação Ambiental, passando à abordagem quanto à vinculação
das Unidades de Conservação e Atividades Ecoturísticas, ao Turismo Sustentável e ao
necessário esclarecimento quanto aos profissionais que atuam em ambientes naturais
destacando do Guia ao Condutor Ambiental. Da mesma forma traz o esclarecimento
quanto à metodologia empregada e os resultados alcançados. Com esta configuração
busca compartilhar esta experiência exitosa, vivenciada no Rio Grande do Sul, de
forma a colaborar na construção de novas alternativas de estruturação do Turismo
Sustentável que promovam a educação ambiental e a conservação da natureza,
agregando as comunidades de entorno de Unidades de Conservação de todo o país.

PALAVRAS-CHAVE: Educação Ambiental. Condutores Ambientais. Turismo


Sustentável.

ABSTRACT

This article arises from the authors’ theoretical reflection on the systematization of
experience in conducting training courses on Local Conductors , offered from 2012
by IFRS - Federal Institute of Science and Technology Education of Rio Grande do
Sul, Porto Alegre Campus, through PRONATEC - National Program for Access to
1 Mestre em Desenvolvimento Rural (PGDR/UFRGS); Especialista em Agricultura Orgânica
(UCS); Bacharel em Turismo (PUCRS). Docente do curso de Bacharelado em Turismo do Centro
Universitário Metodista do IPA; Professora/Tutora dos Cursos de Condutor Ambiental Local do Instituto
Federal de Educação Ciências e Tecnologia do Rio Grande do Sul – IFRS/PRONATEC; Presidente
do Conselho de Administração (gestão 2013/2014) da COODESTUR – Cooperativa de Formação
e Desenvolvimento do Produto Turístico - Ltda. Sócia Diretora da PLANTUR – Consultoria em
Planejamento Turístico. E-mail: alinetur@yahoo.com.br

2 Mestrando em Turismo e Desenvolvimento Regional (UCS); Especialista em Docência para


Educação Profissional (SENAC), Bacharel em Turismo (IPA); Técnico em Guia de Turismo (SENAC);
Professor/Tutor dos Cursos de Condutor Ambiental Local do Instituto Federal de Educação Ciências e
Tecnologia do Rio Grande do Sul – IFRS/PRONATEC; Instrutor de Turismo de Aventura (SETUR RS);
Educador ao ar livre (OBB); Sócio diretor da Atlas Alpinismo; Diretor de Meio Ambiente da Associação
Porto Alegrense de Escalada Canionismo e Alta Montanha (APECAM); Servidor da SETUR RS;
Consultor da MINAS Outdoor Sports; E-mail: atlasalpinismo@terra.com.br

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Technical Education and Employment. For proper understanding of the theoretical and
practical construction held the paper begins by historical recovery as the Environmental
Education , from the approach to linkage of Conservation and ecotourism activities ,
the Sustainable Tourism Units and needed clarification as to professionals in natural
environments highlighting the Guide to Environmental Lead . Likewise brings clarification
on the methodology employed and results achieved . With this configuration seeks to
share this successful experience , lived in Rio Grande do Sul, in order to collaborate in
the construction of new alternatives for structuring the Sustainable Tourism to promote
environmental education and nature conservation, adding the surrounding communities
of Conservation Units nationwide.

KEYWORDS: Environmental Education. Conductors. Sustainable Tourism.

EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Desde os primórdios diversas culturas utilizavam a natureza como elemento


educativo e referencial. Entre as religiões orientais elementos e fenômenos da natureza
eram mais comumente tratados e aceitos, chegando ao Cristianismo somente em
1209, na Itália através da figura de São Francisco de Assis, que passou a questionar
a relação do homem com a natureza, ressaltando suas belezas e benefícios.

A partir do século XX na década de 1950, Conforme SENAC (2005, p.25):

[...] movimentos civis do pós-guerra a favor da paz e da vida, ao lado da


tradição protecionista que já havia despontado na Europa no século XIX,
forneceram as bases para o surgimento do preservacionismo, primeira
manifestação do movimento ambiental.

Nas décadas seguintes, cientistas começam a fazer a relação entre as alterações


provocadas nos Ecossistemas e a qualidade de vida do homem, constituindo a
necessidade de equilíbrio entre ambas. (CUNHA, 2005)

Na década de 1970 os movimentos de descontentamento com os rumos tomados


nas décadas anteriores, a preocupação com os futuros a serem tomados, levam à
efervescência de movimentos sociais que começam a questionar os modos de vida e
desenvolvimento adotados. Atendendo a estas demandas por soluções alternativas,
a ONU – Organização das Nações Unidas, convoca em 1972, a “I Conferência das
Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano”, em Estocolmo – Suécia, que
gerou a “Declaração de Estocolmo”, considerada um avanço ambientalista na época.
(CARVALHO, 2002)

Em 1975, a UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação,


Ciência e Cultura e o PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente,
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promovem a primeira reunião mundial dedicada à Educação Ambiental, sendo o


“I Encontro Internacional de Belgrado”. Este encontro reuniu profissionais da área
incumbidos de criar os princípios básicos para um programa Internacional de Educação
Ambiental, criando então a Carta de Belgrado. Esta por sua vez, apontou a Educação
Ambiental como elemento vital para a solução da crise ambiental vigente, passando
a defender uma nova “ética global”, questionando tanto as formas de exploração dos
seres humanos quanto dos recursos naturais, vinculando problemas mundiais como a
fome, o analfabetismo e a degradação do meio ambiente.

Em 1977, a UNESCO convoca o evento que ficou referenciado como o “marco


teórico da Educação Ambiental”, a primeira Conferência Intergovernamental sobre
Educação Ambiental, em Tbilisi, antiga URSS – União Soviética, ou “Conferência de
Tbilisi”, como ficou conhecida.

A Conferência de Tbilisi, gerou a “Declaração de Tbilisi”, contendo 41


recomendações que pela primeira vez apresentou a necessidade de abordar a Educação
Ambiental dentro de um contexto integral que considera as conexões existentes entre
os meios natural e social, ampliando também a visão sobre as fronteiras, visto que pela
primeira vez se tomou consciência das interferências e repercussões internacionais
que as atividades de diversos países poderiam ter. SENAC (2005).

Dentre estas recomendações, uma destaca-se pela defesa da


interdisciplinaridade, uma vez que defende a Educação Ambiental não como uma
disciplina, mais que deve representar as diversas disciplinas, para que se possibilite o
estudo das inter-relações no meio e se possa chegar à resolução dos problemas e á
compreensão do meio ambiente integralmente.

Depois de Tbilisi, outras conferências ocorreram, porém todas destacando a


importância de adoção das recomendações da Declaração de Tbilisi, o que indica o
tamanho da sua importância naquele momento histórico.

No Brasil, ainda na década de 70 (setenta), acontecimentos isolados começam


a chamar a atenção da sociedade para a questão ambiental, destacando nomes que
hoje figuram no histórico do ambientalismo brasileiro, como Miguel Abellá, Fernando
Gabeira, Augusto Ruschi e José Lutzemberger.

Neste cenário conforme Carvalho (2002), em 1971, a AGAPAN – Associação


Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, surge como a “primeira organização
combativa da década”, puxada por ambientalistas gaúchos, liderados por José
Lutzemberger.

O movimento ambientalista começa a ganhar força em todo o país na década de


80, com o surgimento de novos movimentos sociais e das ONGs – Organizações Não
Governamentais – ambientalistas. Este movimento chegou até mesmo à Constituição
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Brasileira de 1988, que garantiu que:


Todos têm direito ao meio ambiente equilibrado, bem de uso comum do povo
e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à
coletividade o dever de defendê-lo e preserva-lo para as presentes e futuras
gerações.

Incumbindo o Poder Público de “promover a educação ambiental em todos os


níveis de ensino”.

Na década de 1990, no Rio de Janeiro, ocorreu a Conferência da ONU sobre


Meio Ambiente e Desenvolvimento, que ficou conhecida como Rio 92 ou Eco 92.
Paralelamente à conferência ocorreu a “I Jornada de Educação Ambiental” que gerou
o Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis. Também deste
momento surgiram a Rede Nacional de Educação Ambiental e a Agenda 21, marcos
importantes para a ampliação da consciência ecológica no Brasil.

Em 1996, o MEC - Ministério da Educação e Cultura inclui a educação ambiental


nos novos Parâmetros Curriculares (PNC) na Lei de Diretrizes e Bases (LDB), e define:
O tema meio ambiente trata das questões relativas ao meio ambiente em
que vivem os seres humanos e as demais espécies do nosso planeta, o que
envolve não só os elementos físicos e biológicos, mas também os modos
como a humanidade interage com esses elementos, enquanto parte dessa
natureza, através dos processos vitais, do trabalho, da ciência, da arte, da
tecnologia. Esse tema trata em especial da busca de caminhos pessoais e
coletivos que levem ao estabelecimento de relações econômicas, sociais e
culturais, cada vez mais adequadas à promoção de uma boa qualidade de
vida para todos, tanto no presente quanto no futuro.

Conforme Carvalho (2002, p.37):

Na perspectiva de uma ética ambiental, o respeito aos processos vitais e


aos limites da capacidade de regeneração e suporte da natureza deveria
ser balizador das decisões sociais e reorientador dos estilos de vida e
hábitos coletivos e individuais. Aqui juntamente com uma ética, se delineiam
também uma racionalidade ambiental e um sujeito ecológico que se afirmam
contra uma ética dos benefícios imediatos e uma racionalidade instrumental
utilitarista que rege o homo economicus e a acumulação nas sociedades
capitalistas.

A partir desta busca por um “sujeito ecológico” capaz de trazer para o


cotidiano das pessoas esta chamada “ética ambiental” é que se tem buscado cada
vez mais atividades que promovam a desejada educação ambiental a partir de uma
sensibilização para a sua importância levando estes agentes envolvidos que podem
ser de públicos variados e em situações e locais dos mais diversos a uma real
mudança de comportamento visando a preservação e conservação do meio ambiente.
(CARVALHO, 2002)
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No momento atual, vivemos uma demanda cada vez maior por contato com
a natureza, e com o ganho de espaço na mídia sobre problemas ambientais e a
importância da construção de uma “Educação Ambiental” para as próximas gerações
que também já atue junto às atuais. Desta forma, diversas atividades e conhecimentos
tradicionais denominados durante muito tempo como alternativos, ganham espaço e
se perpetuam como ciência, o que ocorre com a Agroecologia, que agrega também
a possibilidade de atender á outra demanda atual, a por alimentos saudáveis, que
reflitam um meio ambiente saudável.
UNIDADES DE CONSERVAÇÃO E AS ATIVIDADES ECOTURÍSTICAS

De acordo com o Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC


(BRASIL, 2000), as Unidades de Conservação são:

[...] espaços territoriais e seus recursos ambientais, incluindo as águas


jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente instituídos
pelo Poder Publico, com objetivos de conservação e limites definidos, sob
regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas
de proteção. (BRASIL, 2000).

Machado (2005), ressalva que as Unidades de Conservação são áreas


protegidas para manter espaços naturais de valor, evitando assim, a destruição de
seus ecossistemas. Essas unidades buscam, entre outras coisas, meios que tornem
propícia a interação do homem com o meio ambiente.

Conforme Costa (2002), as Unidades de Conservação que integram o SNUC,


estão divididas em dois grupos com características próprias, sendo as Unidades de
Proteção Integral e Unidades de Uso Sustentável.

As Unidades de Proteção Integral têm o objetivo de preservar a natureza de


forma a assegurar a manutenção dos ecossistemas, sendo permitido apenas o uso
indireto de seus recursos naturais, exceto os casos previstos na lei. São elas: Estação
Ecológica, Reserva Biológica, Parque Nacional, Monumento Natural, e Refúgio de
Vida Silvestre (COSTA, 2002). Irving (2002) acrescenta que a visitação é permitida
apenas nas três últimas tipologias, porém precisa estar sujeita às normas do Plano de
Manejo3.

Já as Unidades de Conservação de Uso Sustentável têm o objetivo de


conservação da natureza, compatibilizado com o uso sustentável de uma parcela dos
seus recursos naturais. São elas: Área de Proteção Ambiental, Área de Relevante
Interesse Ecológico, Floresta Nacional, Reserva Extrativista, Reserva de Fauna,
3 “O Plano de Manejo deve abranger a área da unidade de conservação, sua zona de
amortecimento e os corredores ecológicos, incluindo medidas com o fim de promover sua integração à
vida econômica e social das comunidades vizinhas” (IRVING, 2002, p. 55).
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Reserva de Desenvolvimento Sustentável, e Reserva Particular do Patrimônio Natural,


categoria que permite visitação para recreação e lazer. (COSTA, 2002)

Segundo Pires (2002), a Unidade de Conservação que serviu de exemplo para


o Brasil e para o mundo foi o Parque Nacional de Yellowstone, criado em 1872 nos
Estados Unidos, pois este foi o primeiro espaço legalmente protegido destinado à
utilização pública no mundo.

No Brasil, segundo Machado (2005), o primeiro parque a ser criado em 1937


no Rio de Janeiro, foi o Parque Nacional de Itatiaia, com objetivos de atender as
finalidades de caráter científico e turístico.

Em se tratando dos destinos de Ecoturismo4 no estado do Rio Grande do Sul,


Machado (2005) afirma que as iniciativas concretas de projetos ecológicos para o
Turismo tiveram início em 1991, com a criação da Comissão Estadual de Turismo
Ecológico (CETE), que era integrada pela Companhia Rio-grandense de Turismo
(CRTUR), IBAMA (RS), Departamento de Recursos Naturais Renováveis, Secretaria
Estadual da Agricultura, e a Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul (FZB).

Ainda de acordo com Machado (2005), um dos pontos mais expressivos da


região metropolitana de Porto Alegre, é o Parque Estadual de Itapuã, área de estudo
deste trabalho, localizado no município de Viamão, pois “protege a última amostra
dos ambientes originais da região metropolitana, sendo considerada área núcleo da
Reserva da Biosfera da Mata Atlântica.” (MACHADO, 2005, p. 151).

Considerando a relevância das Unidades de Conservação como importantes


ferramentas de conservação e manutenção da integridade da biodiversidade e dos
processos naturais, elas têm se firmado como espaço ideal para as práticas de
Ecoturismo e suas diversificadas atividades.

Segundo o Ministério do Turismo (BRASIL, 2010), observa-se a possibilidade


de desenvolvimento de uma grande variedade de atividades no âmbito do Ecoturismo,
porém:

[...] as atividades ecoturísticas devem seguir premissas conservacionistas


e ser estruturadas e ofertadas de acordo com normas e certificações de
qualidade e de segurança de padrões reconhecidos internacionalmente
(BRASIL, 2010, p. 26).

Ainda de acordo com o Ministério do Turismo (BRASIL, 2010), as atividades

4 O Ministério do Turismo (BRASIL, 2010, p.17) conceitua oficialmente o Ecoturismo no Brasil


como: “[...] um segmento da atividade turística que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e
cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista por meio da
interpretação do ambiente, promovendo o bem-estar das populações.”
201
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ecoturísticas mais frequentes e permitidas em Unidades de Conservação são:


Observação de Fauna e Flora; Observação de formações geológicas: Consiste
geralmente em caminhada por área com características geológicas peculiares e que
oferecem condições para discussão da origem dos ambientes, sua idade e outros
fatores; Mergulho livre no mar, rios, lagos ou cavernas; Caminhadas de um ou mais
dias; Safáris fotográficos organizados para fotografar paisagens singulares ou animais;
Trilhas Interpretativas, com percursos autoguiados ou com acompanhamento de
profissionais qualificados.
Como o Ecoturismo e suas atividades utilizam os recursos naturais e culturais
do local, é essencial que ele se desenvolva com base nos princípios sustentáveis,
estimulando o desenvolvimento em longo prazo, a preservação permanente da
biodiversidade local e a justiça social para com a população. Com este entendimento,
passamos a tratar da somatória do ecoturismo ao desenvolvimento sustentável.

TURISMO SUSTENTÁVEL

Na busca por um turismo que valorize a diversidade e proporcione experiências


individualizadas, através da diferenciação de atrativos, produtos e serviços, valorizando
e preservando os patrimônios naturais e culturais dos destinos, se reconhece ser o
turismo, um conjunto de relações humanas, que amparado por um sistema, ultrapassa
as fronteiras econômicas, financeiras e industriais, situando-se numa dimensão que
sintetiza o conhecimento científico e as aspirações dos indivíduos. (MOLINA, 2005)

Segundo Steil (2002), o turismo figura o campo das ciências sociais, através da
sociologia e antropologia, sendo que a primeira constrói um olhar externo, através de
seu papel na organização e no processo social como um todo, enquanto a segunda
tenta avaliar a sua dinâmica interna considerando suas dimensões culturais e
interculturais.

Conforme Steil (2002), a formação de uma área de estudos sobre o turismo nas
ciências sociais é antecedida por Veblen, com o livro The theory of the leisure class
lançado em 1889, considerado primeiro trabalho sociológico sobre o turismo, onde
o autor trata da evolução do lazer no processo de constituição das classes sociais,
estabelecendo uma associação entre turismo e lazer. O autor constata que o lazer,
que caracterizou a elite aristocrática pré-capitalista, também passa a ser assumido
pela nova elite, que também passa, em um mundo fundado sobre o valor absoluto do
trabalho a ostentar como meio de distinção, a sua inatividade em forma de lazer.

Na França em 1950, segundo Steil, o sociólogo Friedmann, destacou o lazer


como uma experiência de recomposição da personalidade do trabalhador, fragmentada
202
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pelo trabalho mecânico que se generalizou após a Segunda Guerra Mundial, através
do modelo fordista de produção industrial. Esta análise, em contraposição à tese do
lazer alienado e ostentatório, apresenta pela primeira vez o lazer compensatório,
tendo as férias como “cano de escape para as tensões produzidas pela atividade
produtiva.” (STEIL, 2002, p.54)

Seguindo na interpretação do turismo no campo da sociologia, Steil (2002),


aponta três correntes, de relevante importância, sendo a primeira o “simulacro do real”,
a segunda “os estudos da religião através da teoria dos rituais” e a terceira o “turismo
e consumo”. Tomamos aqui apenas a terceira corrente, que passa a considerar a
relação entre turismo e consumo.

Com o fato das atividades de lazer e turismo se tornarem objeto de status


social, também Campbell (1987) e Urry (1995), passam a considerar o turismo como
“objeto de consumo” da sociedade moderna.

De acordo com Campbell (1987, apud STEIL, 2002, p.65), inseridos no espírito
do capitalismo, “os indivíduos não procuram a satisfação nos produtos, mas através
deles. A satisfação nasce da expectativa, da procura do prazer, que se situa na
imaginação”. Assim os turistas não consomem os lugares, mas através destes buscam
a “realização de um desejo que povoa a sua imaginação”.

Urry (1996) considera que é difícil entender a natureza do turismo contemporâneo,


sem avaliar como suas atividades são construídas em nossa imaginação pela mídia.
Desta forma o autor, considera o “velho turismo” e o “novo turismo”. O primeiro
estaria ligado ao “consumo de massa fordista” que “reflete, sobretudo o interesse dos
produtores” e o segundo estaria relacionado ao “consumo diferenciado pós-fordista”,
que “caracteriza-se pela prevalência dos consumidores”. Desta forma o velho turismo
trabalhava com base em “empacotamentos e padronizações”, enquanto o novo
turismo passa a trabalhar de forma mais flexível buscando melhor atender a demanda
do mercado consumidor.

Desta forma, Molina (2004), avalia que com a pós-modernidade, as


descontinuidades do entorno, a mudança, a transformação e o estilo dinâmico,
passaram a ser estruturais da cultura e da sociedade de forma geral, assim
impactando de forma particular no turismo. Bem como, a instalação de sistemas mais
personalizados tanto de produção como de consumo, reconhecendo a mobilidade e a
mudança na busca pelo único.

No turismo, tratando de destinos e de suas ofertas, o autor adverte quanto


à “busca de identidade - de uma ou várias identidades simultâneas – através das
expectativas de demanda.” E que esta “é altamente mutante, dinâmica e volátil.”
(MOLINA, 2004, p.27)
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Molina (2004) aponta o surgimento de um novo turista a partir dos novos modelos
de consumo e destaca uma mudança na atitude do turista, de passiva, que aceita o
que lhe vendem, para uma atitude ativa, onde passa a selecionar as atividades de
seu interesse. Este novo turista quer mais do que belas paisagens e descanso, quer
experiências únicas, quer o contato com os saberes e fazeres típicos de cada lugar.

Cavaco (2011), abordando a construção de um novo turismo que seja de base


local, trata também do novo turista e nos traz uma boa descrição quanto à suas
expectativas. Para a autora, “o turista de hoje procura o novo, no sentido do diferente,
do único, básicos na atractividade turística.” (CAVACO, 2011, p.147)

Porém Reis (2008, p.127), tratando do consumo turístico, destaca que “para
viajar, é necessária uma renda excedente, devido aos custos que o turismo acarreta”.
Afirmando assim que o turismo se efetiva a partir do momento em que o “turista em
potencial” se dispõe a realizar o consumo de todos os bens e serviços envolvidos na
viagem.

Assim, o autor define consumo turístico como a “aquisição de bens e serviços


que atendem às necessidades do turista” (REIS, 2008, p.129). Tais necessidades,
podem surgir antes mesmo da viagem, assim “tudo o que for consumido antes, durante
e depois da viagem, e que a ela estiver relacionado, é considerado consumo turístico”.
Sendo bens e serviços diretamente relacionados ao turismo, transporte, hospedagem
e atividades recreativas (consumo primário), ou bens e serviços consumidos tanto
pelos visitantes quanto por qualquer outra pessoa, como protetores solares, pilhas e
cartões telefônicos (consumo secundário) (DIAS, 2005)

Com estas reflexões Reis (2008), destaca também a importância econômica


deste consumo para as comunidades receptoras, afirmando que “as trocas em dinheiro
determinam, em parte, a dinâmica entre demanda e oferta turística. Isso porque, quanto
mais turistas visitam uma cidade, maiores são as receitas das empresas turísticas”
(REIS, 2008, p. 127).

Assim aponta que uma estratégia empregada pelos gestores do turismo


é tentar elevar o nível de gastos dos turistas que frequentam uma localidade.
Entendendo que quanto mais se consome produtos locais, mais lucrativa será a
atividade turística e mais chances de que esta se torne economicamente viável e com
menos impactos ambientais negativos. Ideia que surge dos resultados observados
em destinos caracterizados pelo Turismo de Massa, em que os gastos diários dos
turistas com produtos locais nas comunidades, são menores em comparação com
outras modalidades de turismo. (REIS, 2008)

Da mesma forma o Ministério do Turismo, reconhece a geração e aumento das


compras locais, o aumento da renda local e a melhoria dos padrões de conservação
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do ambiente natural como impactos econômicos positivos do turismo, visto que este
estimula a economia local e com a consequente melhoria da qualidade de vida das
comunidades receptoras, estas tendem a colaborar com a preservação e conservação
dos espaços naturais, cada vez mais procurados pelos turistas. (BRASIL, 2007)

Assim, buscando um novo turismo, que considere as demandas e motivações


trazidas pelo consumidor, ou pelo novo turista que apresenta e reflete uma mudança de
comportamento e hábitos de consumo dos atores envolvidos na atividade turística como
um todo, passa-se a planejar no Brasil estratégias para o desenvolvimento do setor
de forma sustentável. Desta forma, o Ministério do Turismo (MTUR), destacou como
elemento norteador de suas ações, que a relação entre o turismo e a sustentabilidade
deveria seguir os princípios da sustentabilidade ambiental, econômica, sociocultural e
político-institucional. (BRASIL, 2010b)

De tal modo, com o intuito de desenvolver produtos turísticos sustentáveis em


harmonia com o meio ambiente e a cultura local, fazendo com que as comunidades
deixem de ser apenas espectadoras do processo de estruturação do setor, foi adotado
também no Brasil o conceito de turismo sustentável, elaborado pela Organização
Mundial do Turismo (OMT), que define:
Turismo sustentável é a atividade que satisfaz as necessidades dos turistas
e as necessidades socioeconômicas das regiões receptoras, enquanto a
integridade cultural, a integridade dos ambientes naturais, e a diversidade
biológica são mantidas para o futuro. (BRASIL, 2010, p.30)

Com esta reflexão quanto ao turismo, suas interfaces conceituais, e a delimitação


de novos paradigmas na busca de um “novo turismo” que o seja sustentável, passamos
a considerar na próxima seção estratégias de aproximação entre visitantes e visitados,
que buscam proporcionar maior interação e valorização dos saberes e fazeres locais,
ao mesmo tempo que gere renda, melhoria de auto estima, oportunidades de equidade
e autonomia.

DO GUIA AO CONDUTOR AMBIENTAL

No sentido de desenvolver o turismo sustentável em todas as suas vertentes,


colaborar na educação ambiental dos visitantes e na busca da efetivação da quebra
de paradigmas excludentes, adotou-se a estratégia de agregar os saberes e fazeres
dos moradores das áreas de entorno das Unidades de Conservação, gerando
oportunidades de trabalho e renda, colaborando no afastamento dos autóctones da
vulnerabilidade social em que geralmente se encontram.

De acordo com (BRASIL 2009), dentro das possibilidades de atuação para


condução, ligadas a ambientes naturais, formalizadas institucionalmente, existem
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os profissionais, guia de turismo especializado em atrativos naturais; o condutor de


turismo de aventura; e o condutor ambiental local.

Dentre estes, na atividade turística, a atuação do guia de turismo foi a primeira a


ser reconhecida, através da Lei nº. 8.623/935, que em seu Art. 5º constitui atribuições
do Guia de Turismo, como:
a) acompanhar, orientar e transmitir informações a pessoas ou grupos em visitas,
excursões urbanas, municipais, estaduais, interestaduais ou especializadas
dentro do território nacional;

b) acompanhar ao exterior pessoas ou grupos organizados no Brasil;

c) promover e orientar despachos e liberação de passageiros e respectivas


bagagens, em terminais de embarque e desembarque aéreos, marítimos,
fluviais, rodoviários e ferroviários;

d) ter acesso a todos os veículos de transporte, durante o embarque ou


desembarque, para orientar as pessoas ou grupos sob sua responsabilidade,
observadas as normas específicas do respectivo terminal;

e) ter acesso gratuito a museus, galerias de arte, exposições, feiras, bibliotecas


e pontos de interesse turístico, quando estiver conduzindo ou não pessoas
ou grupos, observadas as normas de cada estabelecimento, desde que
devidamente credenciado como Guia de Turismo;

f) portar, privativamente, o crachá de Guia de Turismo emitido pela Embratur.


(BRASIL,1993)

Ao Condutor de Turismo de Aventura, foram atribuídas responsabilidades


através de normas técnicas criadas através de parceria firmada entre o Ministério
do Turismo e a ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, através do PAS
- Programa Aventura Segura, que deu direcionamento ao segmento no Brasil, sendo
reconhecido internacionalmente por esta iniciativa. (ABETA, 2009c).

De acordo com o SEBRAE – Serviço de Apoio á Micro e pequena Empresa


(2014) “é apropriado que se estabeleçam requisitos focalizados nas competências
mínimas consideradas essenciais e necessárias aos profissionais que atuam como
condutores de Turismo de Aventura” Neste sentido o MTUR, também colaborou
ao lançar o manual de boas práticas do condutor, que aponta as competências e
responsabilidades necessárias à atuação profissional destes.

Apesar da NBR 13285 “Competências Pessoal”, que diz respeito às competências


mínimas para o condutor de turismo de aventura, não fazer parte do arcabouço legal
brasileiro, assim como o condutor ambiental e o guia de turismo especializado em
atrativos naturais, ou ainda conforme a NBR 15331 referente ao sistema de gestão
da segurança, que tornou-se obrigatória quando promulgado o decreto de 2010 que
regulamenta a Lei Geral do turismo nº 11.771 de 2008, é oportuno os condutores
5 Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8623.htm>. Acesso em 08 de maio
de 2014.
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ambientais se apropriarem dos procedimentos descritos neste manual, pois ele


aborda relevantes competências pertinentes a todo o profissional que atua em meio a
natureza pois no caso de algum sinistro, não havendo lei especifica, o aparato jurídico
pode fazer valer as normas técnicas existentes em áreas correlatas, ou seja, é de sua
responsabilidade estar informado sobre as recomendações presentes nas NBRs.

Sousa (2004), a este respeito, classifica a participação e a conduta emocional


do condutor como facilitador na decodificação das informações fornecidas pelo
ambiente.

A formalização do condutor ambiental propriamente dita, ocorreu através


da Instrução Normativa nº 08 do ICMBIO (2009), que estabelece “normas e
procedimentos para a prestação de serviços vinculados à visitação e ao turismo em
Unidades de Conservação Federais por condutores de visitantes”, de forma a dar
acesso às comunidades de entorno para que atuem nestas UCs, desde que atendam
as demandas de qualificação estipuladas na normativa.

METODOLOGIA

Para que se promova o desenvolvimento do turismo sustentável, e através de


condutores ambientais ocorram as ações de educação ambiental, aqui propostas, e
consequentemente o fomento ao desenvolvimento do turismo sustentável, o IFRS -
Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, Campus
Porto Alegre, através do PRONATEC – Programa Nacional de Acesso ao Ensino
Técnico e Emprego, ofertou a partir de 2012 o curso de Condutor Ambiental Local,
experiência aqui apresentada.

Em conformidade com a Instrução Normativa nº08 do ICMBIO (2009), que


estabelece “normas e procedimentos para a prestação de serviços vinculados à
visitação e ao turismo em Unidades de Conservação Federais por condutores de
visitantes”, o curso ofertado pelo IFRS, foi estruturado com 200 horas, divididas em
5 módulos, sendo: Orientação Profissional e Cidadania; Técnicas de Observação
e Identificação da Fauna e Flora Regionais; Turismo e Sustentabilidade; Trabalho
do Condutor Ambiental Local; Segurança e Primeiros Socorros. Ministrados por
professores Especialistas, Mestres e Doutores. Com aulas teórico-práticas, baseadas
na aplicação de metodologias e ferramentas participativas vivenciais em Unidades de
Conservação.

Desta forma, complementarmente às atividades em sala de aula, que faziam


uso de ferramentas e equipamentos multimídia e também de dinâmicas e atividades
integrativas e cooperativas, também foram proporcionadas saídas de campo, para
visitas em Unidades de Conservação – UCs, do estado do Rio Grande do Sul e de Santa
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Catarina, onde também se realizou uma atividade de integração com a Associação de


Condutores UATAPI, formada a partir de um curso de Condutores Ambientais ofertado
pelo PRONATEC/IFSC – Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de Santa
Catarina, de forma a fomentar e colaborar na fundação de uma associação para os
condutores de Porto Alegre.

Como forma de apoio e fomento à organização solidária de um espaço de


trabalho, para os condutores formados em Porto Alegre, a Incubadora Social do IFRS,
passou a apoiar a formação da Associação Porto Alegrense de Condutores Ambientais
– APACA. Que se propõe a organizar, concentrar e direcionar a geração de trabalho e
renda para estes condutores.

RESULTADOS

Como principais resultados alcançados desta experiência inovadora no Rio


Grande do Sul, até o momento podemos destacar a formação da APACA - Associação
Porto Alegrense de Condutores Ambientais; a abertura de duas turmas em Porto
Alegre; a abertura de uma turma em Itapuã – Viamão/RS, para atuar no parque
Estadual de Itapuã; a promulgação da Instrução Normativa Nº 01 (03/01/2014) da
SEMA/RS, que “estabelece normas e procedimentos para a prestação de serviços
em Unidades de Conservação do Estado do Rio Grande do Sul, por condutores
ambientais autônomos; a formação de 60 Condutores Ambientais em Porto Alegre e
Região Metropolitana.

A realização das duas primeiras turmas que não tinham a sua formação
direcionada a atuação em nenhuma Unidade de Conservação especificamente,
proporcionou a agregação de diferentes públicos, porém não com menos entusiasmo,
visto que se organizaram e formaram a APACA, que atuou na construção e proposição
da Normativa Estadual, que acabou por beneficiar todas Unidades de Conservação
e comunidades de entorno do Rio Grande do Sul e estando atualmente atuando na
construção da Normativa Municipal junto à Secretaria de Meio Ambiente de Porto
Alegre.

Na turma aberta especificamente para os moradores da comunidade de Itapuã


no município de Viamão, para formar condutores ambientais que atuem no Parque
Estadual de Itapuã, a adesão comunitária tem apontado como benefícios iniciais a
articulação e ordenamento dos serviços turísticos na comunidade, como a retomada
da ACLEI – Associação dos Condutores Locais de Ecoturismo de Itapuã, que apesar
de formada em 2000, estava desativada e a aproximação com o poder público estadual
e municipal, inicialmente em vistas à Realização da Copa do Mundo FIFA 2014, já que
o Parque Estadual de Itapuã é uma das UCs do RS eleita como “Parque da Copa”.
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Desta forma, se almeja como legado da Copa, nesta comunidade a formação


de uma nova turma de condutores locais, a retomada da vinculação harmoniosa
da comunidade com o Parque, já que esta que foi traumática desde a formação do
Parque à 40 anos, atualmente desponta como a mais real e sustentável alternativa de
desenvolvimento local.

Com estes resultados, que consideramos iniciais, visto as articulações municipais


e regionais realizadas e os espaços já conquistados, apontamos como exitosa, esta
experiência de através da “Formação de Condutores e Educação Ambiental” buscar
a construção de estratégias de desenvolvimento do turismo sustentável nas UCs do
RS e suas áreas de entorno.

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A EDUCAÇÃO AMBIENTAL E A SUA IMPORTÂNCIA NO TURISMO

RESUMO: A Educação Ambiental se apresenta como uma grande aliada à preservação


do Meio Ambiente, pois busca uma relação de equilíbrio entre a natureza e o homem,
que a explora economicamente e que a usa para sobreviver ou para conviver. A
prática do turismo se dá a partir da apropriação da natureza pelo homem, que a
transforma em mercadoria e a vende como um produto turístico. Neste contexto, a
Educação Ambiental ganha importância significativa para que a prática do turismo se
dê em conformidade com a preservação da natureza e com a manutenção do espaço
turisticamente transformado. Este trabalho tem o objetivo de analisar a importância
da Educação Ambiental para o turismo, a partir de uma percepção critica da atividade
turística. Uma breve revisão bibliográfica e algumas considerações sobre a ética e
a cidadania; temas tão importantes na formação de uma sociedade, comprometida
com a preservação ambiental, nortearam a metodologia utilizada. Percebeu-se que
quanto mais se compreende os efeitos causados pela transformação da natureza
em produtos turísticos, mais importância a Educação Ambiental ganha na prática do
turismo.

Palavras-chave: Educação Ambiental. Educação e Turismo. Meio Ambiente. Natureza.


Produto Turístico.

ABSTRACT: The Environmental Education is presented as a great ally to the


preservation of the Environment; as it searches a balanced relationship between nature
and man, that economically explores it and the man that uses it to survive or to live.
The practice of tourism starts from the appropriation of the nature by man, which turns
it into goods and sells as a tourism product. In this context Environmental Education
has a significant importance for the tourism practice be given in accordance with the
nature conservation and the maintenance of the spaces transformed by tourism. This
work aims to analyze the importance of Environmental Education for tourism through its
critical perception by the population. A brief literature review and some considerations
about ethics and citizenship, important issues in forming a society committed to
environmental preservation, guided the used methodology. It was noticed that the
more people understand the effects of the transformation of nature into spaces and
tourist products, the more committed in the diffusion of the Environmental Education
they remain.

Keywords: Environmental Education. Education and Tourism. Environment. Nature.


Tourist Product.

INTRODUÇÃO

A Educação Ambiental aparece no cenário brasileiro a partir da segunda metade


do século XX e evolui no século XXI com toda a roupagem ideológica necessária para
que seja percebida como a solução de muitos problemas ambientais; problemas estes
causados pela ação do homem sobre a natureza; pois como coloca Costa e Rocha
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(2010, p. 33) “O homem deve ser compreendido como ser ativo que sofre a influência
do meio, porém atua sobre este, transformando-o”.

O meio ambiente começa a ser ameaçado e evidencia-se a questão da crise


ambiental, mas poucos realmente compreendem o que isso representa; e os que têm
o poder para buscar as soluções, só atuam em função de interessantes particulares.
Assim, se constrói uma das formas de se propagar o poder de manipulação de poucos
sobre muitos; além da propagação do “não saber”, instrumento político muito usado
no discurso, com objetivos ideológicos bem definidos.

Cardoso (1998, p. 4.), afirma que se estabelece o “[...] progresso infinito, visando
ao enriquecimento cada vez maior de uma parcela cada vez menor da humanidade,
por meio da dominação da natureza e do outro ser humano a qualquer custo [...]”.
Neste contexto, a natureza passa a ser objeto de disputa em todas as esferas do
poder, inclusive turisticamente; pois:
Toda relação é o ponto de surgimento do poder, e isso fundamenta a
sua multidimensionalidade. A intencionalidade revela a importância das
finalidades, e a resistência exprime o caráter dissimétrico que quase sempre
caracteriza as relações (RAFFESTIN, 1993, p. 53).

Perceber as relações de disputas: econômica, política e social pode parecer


fácil, mas perceber esta relação na educação e na prática do turismo, não parece
ser muito claro. No entanto, é na educação que se instalou um dos territórios de
disputa do poder sobre a natureza, pois é nela que se pode abordar o tema a partir de
diferentes pontos de vista.

Assim, começa na Educação Ambiental um trabalho de transformação do ser


humano. Porém, as transformações que os seres humanos vivenciam são resultados
da construção social que é definida pela sociedade, com sua cultura, política e
interesses particulares e disputas de poder, tal qual ocorre na atividade turística.

Propaga-se o turismo como uma atividade que pode gerar renda e melhorar
a qualidade de vida da população residente, inclusive considerando-o sustentável.
Cabe a Educação Ambiental apresentar outras análises do desenvolvido turístico, tais
como:
As ideias de preservação ambiental e de desenvolvimento local parecem
não estar presentes no crescimento econômico da atividade; no entanto, a
apropriação da paisagem se mostra constante, pois para cada novo tipo de
interesse do ecoturista, uma nova paisagem, com seus atributos naturais e
culturais é apresentada, satisfazendo a todos os interesses dos ecoturistas e
do mercado turístico. (OLIVEIRA, CASTRO e LERMONTOV, 2012, p. 1815).

A Educação Ambiental se apresenta como um tema transversal, às vezes


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de ampla compreensão por parte de alunos e professores e outras vezes, um tema


incompreendido por todos, inclusive por aqueles que praticam o turismo. Assim,
questiona-se a necessidade da Educação Ambiental para a solução dos problemas
ambientais ou se ela é um mecanismo de controle sobre a população.

Uma população educada ambientalmente é uma população sob o controle do


Estado, tal qual ocorreu com o paradigma do determinismo ambiental, que foi usado
para legitimar o expansionismo europeu (COSTA e ROCHA, 2010).

O objetivo do trabalho é analisar a importância da Educação Ambiental no


turismo, considerando as questões de cidadania e de ética, a partir de uma breve
revisão bibliográfica.

EDUCAÇÃO AMBIENTAL, TURISMO E MEIO AMBIENTE

A necessidade de preservação do meio ambiente se dá a partir de um amplo


conjunto de acontecimentos que incluem, entre tantos outros, a Revolução Industrial,
o Capitalismo e a Segunda Guerra Mundial; tendo o seu ápice, no processo de
Globalização. Todos esses acontecimentos se resumem á manifestações de poder do
homem sobre a natureza e sobre o próprio homem, não havendo uma preocupação
com a ética, muito menos com os interesses dos cidadãos; no entanto, a ideologia
pregada para a sociedade é a do desenvolvimento, com melhorias para todos.

O ensino da Educação Ambiental é iniciado com o conceito de desenvolvimento


sustentável que “é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer
a possibilidade de as gerações futuras atenderem as suas próprias necessidades”
(CMMAD, 1991, p. 46); mas não foi explicado como a natureza chegou ao estado
atual de degradação. Se for mesmo assim, cada um precisa fazer a sua parte,
pensando não só no seu bem estar, mas também no bem estar do outro; ou seja, não
há interesses individuais e sim coletivos.

A Educação Ambiental para o turismo continua sendo desenvolvida


ideologicamente, onde “[...] A destruição maníaca é paga simetricamente por uma
conservação também maníaca (LATOUR, 1994, p. 68)”; logo, se foi destruído, precisa
ser conservado. No entanto, esta é uma tarefa processual que depende não somente
de ações humanas, mas também dos organismos vivos se reestruturarem. Por
exemplo, um mangue que foi devastado por atividades humanas, pode contar com
o apoio e o trabalho de especialistas para restauração, mas o desenvolvimento do
bioma depende de um tempo próprio.
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Desta forma, a Educação Ambiental não discute como o processo de degradação


chegou ao que se vê hoje, mas transfere a todos, a responsabilidade de salvar o
mundo, onde cada ação local (individual) é importante para o global (coletividade). É
fácil perceber como se dá essa incorporação no ensino da Educação Ambiental, pois
se criou uma lei para isso. Assim, de acordo com a Lei 9.795, de 27 de abril de 1999,
no Art. 1º:
Entendem-se por educação ambiental os processos por meio dos quais
o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos,
habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio
ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida
e sua sustentabilidade.

O que se entende por Educação Ambiental está muito alinhado com a prática da
atividade turística que também prega: a conservação do meio ambiente, a qualidade de
vida da população e a sustentabilidade do local visitado. Swarbrooke e Horner (2002,
p. 268) colocam que “[...] o interesse pelas questões ambientais surge quando as
necessidades básicas do indivíduo – moradia, alimentação e emprego – tiverem sido
satisfeitas”. Em países em desenvolvimento, a questão ambiental não é prioridade,
pois as questões sociais e econômicas ainda precisam ser resolvidas.

A Educação Ambiental que deveria oferecer conhecimentos necessários à vida


do cidadão crítico e ético, se mostra como mecanismo de poder e dominação, tal qual
nos coloca Cardoso (1998, p. 4) quando fala que “a ciência sofre um processo de
ideologização a serviço da sociedade capitalista.” Não é isso que se espera de uma
Educação Ambiental comprometida com as questões ambientais, preocupada com
a preservação do meio ambiente e principalmente, responsável pela formação da
cidadania conscientemente crítica.

Cabe, então, a Educação Ambiental formar cidadãos éticos e críticos, a partir


de um ensino que questione o consumismo capitalista, que aponte os responsáveis
pelo processo de degradação do meio ambiente e que mostre que os pobres são
sempre os que mais sofrem (BOMFIM; PICOLLO, 2009).

A Educação Ambiental não deve relegar a compreensão de como toda


degração ambiental aconteceu no mundo, de que o capitalismo continua sendo o
sistema econômico vigente, que as grandes coorporações internacionais e as
potências econômicas continuam explorando os países pobres, que o processo de
globalização continua crescendo e cada vez mais levando a exclusão de países
inteiros; e desmitificar a ideia de que tudo o que resta ao mundo, para salvar o meio
ambiente, é que cada um faça a sua parte.

O turismo não está isento neste processo de degradação ambiental, pois é a


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partir dele que áreas naturais são transformadas em produtos turísticos por interesses
econômicos. De acordo com Gaeta (2005, p. 194), “No entanto, com o passar dos
anos foram se acumulando evidências que as metas econômicas perseguidas por
muitos podem causar sérios danos ao meio ambiente”.

Desta forma, é preciso que a Educação Ambiental atue no sentido de minimizar


o impacto negativo causado ao meio ambiente pela prática do turismo, contribuindo
para um maior conhecimento sobre as questões ambientais. Pois Ruschmann (2002,
p.110) considera “(...) como impacto ambiental todas as alterações que ocorrem nas
propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente natural, causadas por
qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas”; inclusive
as atividades turísticas.

HOMEM E NATUREZA: EDUCAÇÃO AMBIENTAL E TURISMO

Desde o momento em que o homem deixou de fazer parte da natureza, ele


se acha no direito de explorá-la continuamente. Para Mariano et. al. (2011, p.161)
“[...] o colonialismo foi o senhor e possuidor do mundo, consagrando a capacidade
humana de dominar a natureza.”; isso ocorreu a partir de uma construção social que
se perpetuou e que não mais se pode desconstruir, ou se está muito longe disso. Tal
situação faz com que o homem realmente acredite que tem poder sobre a natureza.
Para Drew (2005, p. 4):
O homem já deixou de ser mero aspecto da biogeografia (simples unidade
de um ecossistema), para se tornar cada vez mais um elemento afastado do
meio físico e biológico em que vive. Quando se tornar capaz de fabricar ou
sintetizar alimentos de matéria inorgânica – perspectiva que não é improvável
-, um vínculo basilar, o homem com a terra viva, estará rompido.

A Educação Ambiental, apesar de criada pelo homem para uma melhor relação
com a natureza, aborda a preservação ambiental de uma maneira bem ampla, plural ou
holística. Exatamente por isso, faz com que seja, muitas vezes, apenas uma vontade
e pouquíssimas vezes, uma ação. Tal fato se dá porque alguns valores são invertidos,
levando a população a entendimentos contrários a sua realidade.

No turismo pode-se identificar tal situação quando elementos da natureza são


transformados em produtos turísticos e para serem desfrutados, torna-se necessário
pagar por eles. Como exemplos, pode-se citar: parte de praias que alguns resorts
delimitam e a usam como particular, deixando de lado a população local, apesar da
praia ser pública; a classificação do mais lindo pôr do sol, apesar de só existir um sol
e é sempre o mesmo que se põe; a também classificação dos melhores climas do
mundo, sendo que determinado tipo de clima é igual em qualquer lugar; entre tantas
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outras possibilidades.

Mesmo não ocorrendo a retirada de matéria-prima da natureza, como ocorre


com o processo de extrativismo; a apropriação dos elementos naturais pela atividade
turística, caracteriza uma exploração do ambiente natural em nome do lucro e cria a
ideologia de que o turismo contribui para a preservação do meio ambiente. Mendonça
(2006, p. 160) reafirma esta ideia, quando diz: “A natureza é vista como um recurso,
algo que está à nossa disposição para qualquer tipo de uso: desde o direto, como as
extrações, até os indiretos, com as apreciações da paisagem e o gozo do ar puro e do
silêncio.”

Isso significa que a natureza oferta gratuitamente seus elementos e o homem os


explora economicamente, tornando-os mercadorias, inclusive para a população local;
mas com o forte discurso de que, com o turismo na cidade, haverá mais qualidade
de vida e preservação do meio ambiente. Fato que não se confirma, pois com o
aumento do fluxo de turistas, torna-se necessário um planejamento urbano e turístico
adequado para atender a demanda; quando isso não ocorre, diminui a qualidade de
vida e as áreas naturais tendem a ser degradadas. Para Swarbrooke e Horner (2005,
p. 266):
Na maior parte dos casos, ou os turistas parecem não ter consciência dessas
questões, ou então demonstram alguma consciência, sem que isso pareça
resultar em mudanças em seu comportamento ou em suas exigências. Ao
que tudo indica, em geral não são muitas as evidências de consumidores
boicotando certas atividades turísticas com base em preocupações
ambientais.

Desta forma, necessita-se de uma Educação Ambiente onde todos possam


participar e obter uma visão crítica de que há muito a ser feito para que o meio ambiente
realmente seja preservado.

Com tal Educação Ambiental, o cidadão poderá tornar-se crítico ao ponto de


perceber que somente a reciclagem e a reutulização, por exemplo, não são suficientes
para melhorias significativas no meio ambiente. Isso se confirma na fala da Praia, Gil-
Perez e Vilcher (2007), quando colocam que os cidadãos precisam ser preparados
para enfrentar devidamente as questões de ordem mundial e ser capazes de irem ao
encontro de decisões significativas para superar os problemas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Educação Ambiental não é a salvação do meio ambiente e isso precisa ser


propagado para todos os cantos do mundo. O que se percebe hoje, com o ensino
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da Educação Ambiental é que, mesmo sabendo-se que ela não resolve os problemas
ambientais, ela é importante para minimizar o processo de degradação da natureza
e para despertar uma análise crítica das ações dos homens em relação ao meio
ambiente.

É preciso que a Educação Ambiental ofereça diferentes saberes, que permitam


uma visão crítica da atividade turística em relação a preservação da natureza e da
qualidade de vida das pessoas residentes no local visitado. No entanto, não há uma
preocupação significativa em oferecer todos esses saberes, e mesmo se houvesse,
não seriam partilhados; pois o saber significa poder e quem tem o poder também tem
o domínio sobre todas as outras coisas.

Tal poder se expressa quando o homem se apropria da natureza e a partir daí,


obtém lucro, como ocorre continuamente na atividade turística. O problema encontra-
se na ausência da criticidade necessária para avaliar que suas ações precisam de um
mínimo de preservação, para que se consiga manter aquele espaço natural com os
atrativos turísticos em condições de atender a demanda turística e de contribuir com
a melhoria da qualidade de vida da população. Mas enquanto os problemas sociais e
econômicos continuarem existindo, mais distante fica o alcance desta criticidade.

Não há um caminho definido para a Educação Ambiental que permita uma


compreensão, aos envolvidos na atividade turística, do seu papel de agente
transformador do espaço visitado; mas mesmo assim pode haver muitos caminhos para
a Educação Ambiental permitir uma desaceleração no impacto causado pelo turismo,
a partir de uma visão crítica e ética sobre as ações sofridas pelo meio ambiente.

Vive-se um momento de mudanças e só podem gerar as mudanças, os mesmo


que as fizeram necessárias. Apesar disso, nada garante que elas possam atender, de
forma imparcial, a todos os envolvidos. De qualquer maneira, para torná-las possíveis,
primeiro, é preciso querer; segundo, é preciso saber; e terceiro, é preciso segui-la com
ética.

REFERÊNCIAS

BRASIL. LEI DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL. Lei nº 9.795. Brasília, 27 de abril de 1999.

BOMFIM, A.; PICCOLO, F. D. Educação Ambiental Crítica: para além do positivismo e


aquém da metafísica. In: VII ENPEC. Anais. Florianópolis: ABRAPEC, 2009.
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CARDOSO, C. M. Ciência e Ética: Alguns Aspectos. Revista Ciência e Educação, v.


5, n. 1, p. 1-6. 1998.

CMMAD. Nosso Futuro Comum. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio
Vargas, 1991.

COSTA, F. R.; ROCHA, M. M. Geografia e Paradigmas – Apontamentos Preliminares.


In: Revista GEOMAE, v. 1, n. 2, Campo Mourão, pp. 25-56, 2010.

DREW, D. Processos Interativos Homem-Meio Ambiente. Rio de Janeiro: Bertrand


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GAETA, C. Novos Desafios na Formação do Profissional de Ecoturismo. In: NEIMAN,


Z.; MENDONÇA, R. Ecoturismo no Brasil. Barueri, SP: Manole, pp. 187-200, 2005.

LATOUR, B. Jamais Fomos Modernos. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994.

MARIANO, Z. F.; SCOPED, I.; PEIXINHO, D. M,; SOUZA, M. B. A Relação Homem-


Natureza e os Discursos Ambientais. Revista do Departamento de Geografia da
USP. v. 22, pp. 158-170, 2011.

MENDONÇA, R. Educação Ambiental e Turismo. In: NEIMAN, Z.; MENDONÇA, R.


Ecoturismo no Brasil. Barueri, SP: Manole, pp. 160-169, 2005.

OLIVEIRA, V. L. de; CASTRO, R. T.; LERMONTOV, A. A Paisagem no Ecoturismo. In:


Comunidades, Natureza e Cultura no Turismo. Org. SEABRA, G. João Pessoa: Ed.
Universitária da UFPB, pp. 1309-1315, 2012.

PRAIA, J.; GIL-PEREZ, D.; VILCHES, A. O Papel da Natureza da Ciência na Educação


para a Cidadania. Revista Ciência & Educação, v. 13, n. 2, p. 141-156, 2007.

RAFFESTIN, C. Por uma Geografia do Poder. Ed. Ática: Rio de Janeiro, 1993.

RUSCHMANN, D. Turismo no Brasil: Análise e Tendências. Ed. Manole: Barueri, SP.


2002.

SWARBROOKE, J.; HORNER, S. O Comportamento do Consumidor no Turismo.


São Paulo: Aleph, 2002.
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ECOTURISMO E REPRESENTAÇÕES NO MUNICÍPIO DE


BARRA DO GARÇAS – MT

Valcilene Rosa Barbosa1


Rita Maria de Paula Garcia2

RESUMO: O ecoturismo é um segmento do turismo que cresce consideravelmente,


já que possui suas bases na ideia da sustentabilidade, é considerado uma forma de
turismo alternativo ao turismo de massa e atrai por sua proposta de interação com o
meio ambiente natural. Essa interação acontece carregada de subjetividade, já que o
indivíduo interage com o meio ambiente de acordo com as representações que tem
dele. Esse trabalho objetiva identificar as representações da experiência turística no
Município de Barra do Garças-MT e, foi desenvolvido a partir dos resultados parciais
do projeto de iniciação científica “A territorialidade turística da Região Encontro das
Águas”. A partir de entrevistas coletadas nos atrativos Cachoeira Pé da Serra, Cachoeira
da Usina, Discoporto, Mirante do Cristo, Pousada Cachoeira Cristal e Portal da Serra
do Roncador no município de Barras do Garças, foram identificadas representações
que vão desde liberdade, descanso, peregrinação à fuga do cotidiano. A viagem com
tais representações pode ser considerada turismo romântico, pois revela o contato do
ser humano com a natureza numa relação de “veneração” e “pureza”.

PALAVRAS-CHAVE: Turismo. Ecoturismo. Subjetividade. Representação.

ABSTRACT: Ecotourism is a tourism segment that grows considerably, as it has its


foundations on the idea of sustainability, it is considered a form of alternative tourism into
mass tourism and attracts by its proposal of interaction with the natural environment.
This interaction happens full of subjectivity, since the individual interacts with the
environment in accordance with the representations he have of it. This research intends
to identify the representations of the tourist experience in the municipality of Barra do
Garças-MT and was developed from the partial results of the scientific research project
“A territorialidade turística da Região Encontro das Águas”. From interviews collected
in the attractives Cachoeira Pé da Serra, Cachoeira da Usina, Discoporto, Mirante
do Cristo, Pousada Cachoeira Cristal and the Portal da Serra do Roncador in the
municipality of Barras do Garças, representations were identified ranging from freedom,
rest, pilgrimage to escape from everyday life. The travel with such representations can
be considered romantic tourism, because it reveals the human contact with nature in a
relationship of “veneration” and “purity”.

KEYWORDS: Tourism. Ecotourism. Subjectivity. Representation.

1 Graduanda em Turismo. Acadêmica e bolsista de Iniciação Científica - Uni-


versidade do Estado de Mato Grosso/ UNEMAT. E-mail: valcilene.turismo@gmail.
com
2 Doutora em Geografia. Docente do Curso de Turismo - Universidade do Esta-
do de Mato Grosso/ UNEMAT. E-mail: rita_turismo@hotmail.com
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INTRODUÇÃO

O ecoturismo é o segmento de turismo que mais cresce e ganha seguidores,


apresentando taxas entre 15% e 25% ao ano segundo o Ministério do Turismo (2014).
Uma de suas características fundamentais é oferecer o acesso aos atrativos prezando
pela sustentabilidade e se destacando aos olhos da sociedade.

Pensar o ecoturismo a partir do viés prático, voltado ao seu papel frente à


sustentabilidade, tem se mostrado uma tarefa complexa e em frequente discussão, o
que em parte se pode atribuir ao conflito de interesses entre o mercado da atividade
ecoturística e as entidades de proteção ambiental.

O ecoturismo é um segmento muito particular do turismo, que além da busca


pela conservação de áreas naturais, promove o contato do homem com a natureza.
Essa relação acontece com uma grande carga de subjetividade, o que torna cada
experiência única, já que se baseia não somente no contexto natural, mas no contexto
social da localidade e do turista.

Busca-se mostrar quais são as representações do ecoturista do município


de Barra do Garças em relação aos atrativos turísticos estudados e como aquelas
influenciam na forma de pensar e agir sobre estes.

A pesquisa se justifica no fato de o município de Barra do Garças - MT,


local do estudo, possuir um considerável fluxo de turistas e esse movimento não é
frequentemente estudado, já que há uma escassez de trabalhos acerca do turismo
na região. A opção pelo ecoturismo se deu a partir dos resultados da pesquisa de
demanda turística realizada por Garcia (2014) que constatou que as representações
do município e da região são voltadas, em sua maioria, aos elementos da natureza,
tais como rios, cachoeiras, matas, etc.

Pesquisas sobre representações sociais e sua relação com o turismo são


reduzidas no Brasil, além de ser um trabalho inédito no local pesquisado. Este estudo
abre caminho para futuras pesquisas relacionadas ao tema na região e em outras
localidades.

O trabalho está estruturado em introdução, revisão teórica com abordagem


de ecoturismo e representações sociais, metodologia da pesquisa, resultados e
discussões, e conclusão.

ECOTURISMO E REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

O turismo pode ser considerado um fenômeno fortalecido pelo capitalismo


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que vem se modificando ao longo do tempo influenciado por uma série de fatores
econômicos, ambientais, sociais, dentre outros.

Para Panosso Netto (apud LOHMANN; PANOSSO NETTO, 2012) o turismo


pode ser entendido como o fenômeno de saída e retorno do ser humano do seu local
habitual de residência, por motivos revelados ou ocultos, pressupondo hospitalidade,
encontro e comunicação com outras pessoas e utilização de tecnologia, entre inúmeras
outras condições, o que vai gerar experiências variadas e impactos.

Influenciado tanto pelos fatores externos quanto internos à atividade, o


turismo muda e se adapta às tendências e novas realidades. Um exemplo disso é o
desenvolvimento sustentável, discutido por diversos segmentos da sociedade, que
para o turismo resultou no surgimento de novas formas de pensar e fazer turismo.

Dentre estas tendências está o turismo alternativo, que como o próprio nome
diz, se constitui em formas alternativas ao turismo de massa considerado de grande
impacto.

Segundo Pires (2002) essas formas de turismo tendem a apresentar


características que as diferenciem do turismo de massa, tais como:

• Desenvolvimento moderado do turismo;

• valorização dos costumes e estilos de vida locais;

• geração de benefícios locais e aumento de oportunidades de


renda para as comunidades receptoras;

• poucos efeitos sociais e culturais negativos e maior receptividade


pelas populações residentes;

• pequena alteração da paisagem natural e cultural dos destinos;

• preservação e proteção dos recursos turísticos e incremento de


sua qualidade;

• motivação dos turistas para uma experiência social.

Baseado em discussões acerca de um turismo menos predatório ao meio


ambiente natural e mais benéfico às localidades receptoras, o turismo alternativo se
constitui no que se pode chamar o “turismo desejado”.

Não por acaso, essas características se identificavam com a nova


ética que se idealizava para o turismo, fundamentada em princípios
tais como o respeito às populações autóctones e valorização da sua
cultura, a proteção do ambiente e das paisagens naturais e a realização
de experiências turísticas multissensoriais enriquecedoras da condição
humana. (PIRES, 2002, p.81)
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Turismo rural, turismo étnico, turismo cultural, turismo de estudo, turismo de


aventura e ecoturismo são alguns exemplos de turismo alternativo. Dentre estes
segmentos, será abordado o ecoturismo, buscando mostrar a subjetividade da
experiência da relação “homem–natureza”.

Segundo a Embratur, o ecoturismo pode ser definido como:

Segmento da atividade turística que utiliza de forma sustentável, o


patrimônio natural e cultural, incentiva a sua conservação e busca a
formação de uma consciência ambientalista por meio da interpretação
do ambiente, promovendo o bem-estar das populações envolvidas.
(apud COSTA, 2002, p.30)

O patrimônio cultural é constituído pelas obras materiais e imateriais que


expressam a identidade de um povo, enquanto o patrimônio natural é formado por
áreas de importância ambiental e histórica.

O que se percebe é que o conceito de ecoturismo gira em torno das características


propostas pelo turismo alternativo, que busca promover sustentabilidade ambiental,
econômica social e cultural à localidade envolvida na atividade turística.

A relação do homem com a natureza acontece pautada em representações,


já que segundo Godelier (apud DIEGUES, 2001, p. 63) “nenhuma ação intencional
do homem sobre a natureza pode começar sem a existência de representações [...]”.
Ainda segundo o autor é necessário entender o sistema de representações que cada
indivíduo ou grupo faz de seu meio ambiente para entender como age em relação ao
meio ambiente.

De acordo com Abbagnano (2003, p. 853):

[...] Representar tem vários sentidos. Em primeiro lugar, designa-se com este
termo aquilo por meio do qual se conhece algo; nesse sentido, o conhecimento
é representativo, e representar significa ser aquilo com que se conhece alguma
coisa. Em segundo lugar, por representar entende-se conhecer alguma coisa,
após cujo conhecimento conhece-se outra coisa; nesse sentido, a imagem
representa aquilo de que é imagem, no ato de lembrar. Em terceiro lugar,
por representar entende-se causar o conhecimento do mesmo modo como o
objeto causa o conhecimento [...].

Nesse sentido, pode-se dizer que a representação com qual se propõe trabalhar
é aquela do terceiro sentido acima citado, no qual o indivíduo leva consigo uma
representação e a investe no local que está sendo visitado. Tais representações são
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desenvolvidas pela sociedade “[...] são uma mistura das ideias das elites, das grandes
massas e também das filosofias correntes, e expressão das contradições vividas no
plano das relações sociais de produção.” (MINAYO, 2011, p. 91).

As representações influenciam na formação de pensamentos e comportamentos,


“são uma estratégia desenvolvida por atores sociais para enfrentar a diversidade e
a mobilidade de um mundo que, embora pertença a todos, transcende a cada um
individualmente”. (JOVCHELOVITCH, 2011, p. 68-69).

A necessidade de apreciar a natureza vem sendo amplamente difundida como


escape da vida conturbada dos centros urbanos. Essa ideia parte principalmente da
oposição trabalho versus lazer, segundo a qual o indivíduo deve se afastar de seu
ambiente habitual a fim de descansar e se recompor para novamente voltar às suas
atividades (SANTOS, 2002).

A viagem à natureza torna-se a fuga do cotidiano, o retorno à condição sagrada


ou edênica, representada pela paz, pela pureza do homem. Santos (2002) a denomina
“viagem romântica” ou “turismo romântico”, que segundo o autor:

Não se deduz de uma soma de viagens e serviços, mas de um conjunto


de práticas fundadas em crenças, apresentações e representações,
que operam a reconversão dos lugares, em torno de uma subjetividade
que projeta “o país das maravilhas, como o outro lado do espelho,
[...] horizontes de sonho onde o imaginário se oferece a realidade”.
(SANTOS, 2002, p.225)

O turismo romântico tem características que podem ser encontradas em


diversas formas de turismo alternativo, mas com mais frequência e intensidade no
ecoturismo.

METODOLOGIA

O locus da pesquisa é o município de Barra do Garças, localizado no extremo


leste do Estado de Mato Grosso, faz limite ao norte com Nova Xavantina – MT, ao sul
com Pontal do Araguaia – MT, ao leste com Aragarças – GO e Araguaiana – MT e a
oeste com General Carneiro – MT e Novo São Joaquim – MT (GIUGNI, 2010).

FIGURA 1: BARRA DO GARÇAS NO MAPA DE MATO GROSSO


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Fonte: Google, 2014

Segundo o IBGE (2014) o município possuía uma população estimada em


57.791 habitantes em 2013. A economia é baseada principalmente na agropecuária,
mas o turismo caminha rumo à consolidação.

A origem de Barra do Garças data de 13 de junho de 1924 com o nome de


Barra Cuiabana em decorrência de atividades de garimpeiros que buscavam por
ouro e diamante. O município foi criado em 15 de setembro de 1948, incorporando o
município de Araguaiana na condição de distrito, sendo considerado o maior município
do mundo (GIUGNI, 2010).

Barra do Garças possui uma série de atrativos naturais, dentre os quais se


destacam as praias e cachoeiras, mas também possui atrativos de origem antrópica,
os quais compõem a história do município e da região na qual se insere. O município
conta também com uma unidade de conservação, o Parque Estadual da Serra Azul,
que tem seus limites no perímetro urbano do município.

A pesquisa foi desenvolvida como parte do projeto “Viagem à Região Encontro


das Águas: investigando a territorialidade do turista” aprovado pelo Edital Universal
005/2012 da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (FAPEMAT),
através do subprojeto de iniciação científica “A territorialidade turística da Região
Encontro das Águas”.

A pesquisa se divide em duas etapas, bibliográfica e de campo. A pesquisa


bibliográfica abordou os temas turismo, representações e experiência turística,
servindo também como subsídio para a realização da pesquisa de campo.

A primeira etapa da pesquisa de campo do projeto acima citado é caracterizada


como quantitativa do tipo levantamento. Foram aplicados 1140 formulários junto aos
turistas em 5 pontos estratégicos dos municípios de Barra do Garças-MT, Pontal do
Araguaia-MT e Aragarças-GO, que formam a Região Encontro das Águas durante 12
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meses (abril de 2012 a março de 2013). Nessa etapa os turistas indicaram atrativos
turísticos de seu interesse.

Dentre os atrativos mencionados foram selecionados os pontos para coleta


de entrevistas, ou seja, segunda etapa da pesquisa caracterizada como qualitativa.
Desta forma, a pesquisa pretende identificar as representações da natureza através
da investigação dos atrativos turísticos naturais e da prática ecoturística.

A pesquisa bibliográfica realizada foi baseada nos temas: turismo alternativo,


ecoturismo, representações sociais, relação entre homem e natureza, tendo como
principais norteadores: Pires (2002), Santos (2002) e Diegues (2001).

Foram coletadas 20 entrevistas semiestruturadas junto aos turistas com o


objetivo de conhecer sua experiência nos seguintes atrativos turísticos do município
de Barra do Garças: Cachoeira Pé da Serra, Cachoeira da Usina, Discoporto, Mirante
do Cristo, Pousada Cachoeira Cristal e Portal da Serra do Roncador.

PARQUE ESTADUAL DA SERRA AZUL

O Parque Estadual da Serra Azul possui extensão territorial de 8.730 Km² e


possui uma série de cachoeiras que compõe sua atratividade, dentre as quais estão a
Cachoeira Pé da Serra e a Cachoeira da Usina. Dentro do parque há ainda atrativos
como o Discoporto e o Mirante do Cristo.

MIRANTE DO CRISTO

O mirante está localizado no alto da Serra Azul, de onde se pode avistar tanto
a cidade de Barra do Garças - MT, quanto as vizinhas Pontal do Araguaia - MT e
Aragarças - GO e o encontro dos rios Araguaia e das Garças.

DISCOPORTO

O local representa o misticismo da região, foi idealizado pelo vereador Valdon


Varjão e está localizado no Parque Estadual da Serra Azul. Uma nave feita com
chapas de aço e um painel de placa galvanizada em forma de extraterrestre permitem
ao visitante interagir com o ambiente e registrar fotos.
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POUSADA CACHOEIRA CRISTAL

Está localizada a aproximadamente 50 quilômetros do núcleo urbano de Barra


do Garças, às margens da BR 070, Km 40. A pousada conta com nove apartamentos
e oferece atividades como banhos de cachoeira e trilhas autoguiadas. As principais
cachoeiras são Cachoeira Cristal e Cachoeira João Poção.

PORTAL DA SERRA DO RONCADOR

Localizado a aproximadamente 70 quilômetros do núcleo urbano de Barra


do Garças às margens da BR 158 Km 732, atrai pela paisagem diferenciada e pelo
misticismo que o envolve.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Os municípios de origem dos 20 entrevistados são: Goiânia - GO (4


respondentes), Várzea Grande - MT (2 respondentes), Ribeirão Cascalheira - MT,
Londrina - PR, Campo Verde - MT, Primavera do Leste - MT, Maringá - PR, Campinas -
SP, Nova Xavantina - MT, Cuiabá - MT, Guapó - GO, São Paulo - SP, Espigão do Leste
- MT, Querência - MT, Blumenau - SC e São Felix do Araguaia - MT (1 respondente
cada município).

FIGURA 2: ATRATIVOS TURÍSTICOS E REPRESENTAÇÕES


Atrativos Turísticos Representações
Cachoeira Pé da Serra • Fuga do cotidiano
• Pureza
• Beleza
• Tranquilidade

Cachoeira da Usina • Sentimento de liberdade


• Relaxamento
• Calma
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Discoporto • Tranquilidade
• Pureza
• Fuga do cotidiano
• Beleza da paisagem
• Descanso
• Estranheza
• Misticismo
Pousada Cachoeira Cristal • Descanso
• Renovação
Portal da Serra do Roncador • Liberdade
• Peregrinação
• Viver o momento
• Tranquilidade
• Fuga do cotidiano
• Descanso
Mirante do Cristo • Beleza da paisagem
• Superação
• Paz
• Beleza e diversificação da
paisagem
Trilha das Cachoeiras • Liberdade
• Positividade
• Superação
Fonte: Dados da pesquisa.

A experiência do turista em um atrativo é determinada pelas representações


que este tem do meio ambiente no qual se insere, da viagem e do atrativo turístico em
si.

No caso dos atrativos turísticos de Barra do Garças não é diferente, como


pode-se observar a partir das representações que os turistas têm de cada atrativo.
Durante a prática do ecoturismo o turista cria um vínculo muito particular, o qual difere
do turismo de massa.

Para Santos (2002) o turismo com tais características é romântico, marcado


pela subjetividade e o individualismo com os quais o turista se apropria do local
visitado. Nesse sentido o turista vê a natureza como símbolo de pureza e resgate da
condição pura do ser humano, o que muitos autores chamam de condição edênica.

O sentimento de fuga do cotidiano foi incorporado ao discurso da “agressividade”


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dos grandes centros urbanos e no retorno à natureza como reencontro com a identidade.
Baseado na dicotomia trabalho-lazer o indivíduo considera como “prisão” as atividades
do dia a dia, consequentemente fazendo com que as atividades realizadas no tempo
livre despertem um sentimento de liberdade e tranquilidade. Santos (2002) denomina
condição “sagrada” ou “edênica” aquela em que o ser humano busca o “retorno ao
Éden” num tempo em que havia apenas o homem (sem obrigações) e a natureza
numa relação harmoniosa e suficiente para manter a sobrevivência.

Na maioria das representações identificadas nos atrativos turísticos estudados


a natureza possui uma condição positiva e “pura”, digna de cuidado e “veneração”,
proporcionadora de experiências libertadoras e renovadoras, cujo discurso pode ser
atribuído, dentre outros, aos movimentos ambientalistas, tanto preservacionistas
quanto conservacionistas, difundidos dentre todas as classes da sociedade. Esses
discursos influenciam na formação das representações, já que são criados e difundidos
por agentes sociais de grande influência.

A origem, a idade, a ocupação são fatores que influenciam na formação das


representações que o indivíduo tem do meio ambiente e estas consequentemente
determinam a experiência turística, através das diferentes formas de apropriação do
meio ambiente.

A construção de imagens de atrativos a partir da representação, para o turista


significa uma forma de dotar de significado o espaço com o qual está interagindo,
enquanto para os atores do planejamento local pode significar uma forma de planejar
e melhorar os atrativos turísticos em questão, a partir da visão e das representações
do principal agente do turismo, o turista, buscando criar e reforçar imagens positivas
e modificar as imagens negativas.

CONCLUSÃO

A experiência turística é subjetiva, pois parte do contexto e das representações


da sociedade na qual o turista e o atrativo turístico se inserem.

No caso do ecoturismo, isso acontece com mais intensidade, já que desde


os tempos mais remotos a relação do homem com a natureza é pautada em uma
série de representações sociais. Cada sociedade age na natureza de acordo com a
representação que tem do meio ambiente natural.

No caso do município de Barra do Garças – MT, notou-se que a grande maioria


das representações é positiva, devido a subjetiva relação do turista com a natureza,
principal atrativo do município.

O estudo das representações permite conhecer as percepções e apropriações


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do espaço pelo turista, logo, pode subsidiar o planejamento local e o mercado através
das “construções” dos atrativos turísticos por meio da estruturação e divulgação dos
mesmos.

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Departamento de Turismo

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Grupo de Trabalho 03
Turismo, Patrimônio e Identidades

Morro do Imperador - Juiz de Fora | MG

Coordenadores: Teresa Cristina de Miranda Mendonça (UFRRJ); Maria Geralda de


Almeida (UFG); Euler David de Siqueira (UFRRJ); Vera Maria Guimarães (UNIPAMPA).

Este eixo propõe discutir a questão do patrimônio cultural como suporte de


identidades sob a perspectiva da imaterialidade e materialidade da cultura, assim
como, a valorização turística do patrimônio sob a perspectiva de gerenciamento do
universo simbólico da sociedade. Propõe também, a reflexão sobre a problemática
do agenciamento do patrimônio cultural como suporte de processos identitários de
base local, associado a uma sociedade de consumo, na qual, este se realiza como
mercadoria e, por conseguinte fonte de divisas para as localidades.
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GESTÃO DO PATRIMÔNIO MUSEOLÓGICO: A EDUCAÇÃO COMO ALIADA NA


PRESERVAÇÃO DO MUSEU MARIANO PROCÓPIO

Aline Viana Vidigal Santana1

RESUMO: O presente artigo apresenta como a gestão de museus aliada à educação


contribui para preservação do patrimônio cultural musealizado. Através da análise de
um dos principais atrativos turísticos de Juiz de Fora-MG, o Museu Mariano Procópio,
é possível observar que as ações educativas são essenciais para as relações de
identidade e pertencimento da população com o espaço e, consequentemente, para
sua preservação, mesmo com os prédios históricos fechados ao público.

PALAVRAS-CHAVE: Patrimônio Cultural. Gestão. Museu Mariano Procópio. Turismo.

ABSTRACT / RESUMEN: This paper presents the management of museums allied


to education contributes to preservation of musealized cultural heritage. Through
analysis of one of the main tourist attractions of Juiz de Fora, Minas Gerais, the Mariano
Procopio Museum, you can see that education is essential for relations of identity and
belonging of the population with space and, consequently, for its preservation, even
with the historical buildings closed to the public.

KEYWORDS / PALABRAS-CLAVES: Cultural Heritage. Management. Museu Mariano


Procópio. Tourism.

INTRODUÇÃO

Os bens materiais e imateriais de um município podem se tornar elementos


atrativos para atividades de lazer e turismo, recuperando e/ou recriando novos
valores e significados locais. Para isso, a educação tem sido vista como processo
fundamental para a tomada de consciência no que se refere à preservação do
patrimônio cultural sendo a tríade museu, educação e preservação necessária para
um turismo responsável.

Neste artigo, levantaremos questões acerca do turismo e da gestão do


patrimônio, especificamente o museológico, com o objetivo de analisar a educação
em museus como aliada à preservação do patrimônio cultural. Como objeto de estudo,

1 Bacharel em Turismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Especialista em Gestão do


Patrimônio Cultural pelo Instituto Granbery. E-mail: alinesantana888@gmail.com
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apontaremos o setor educativo do Museu Mariano Procópio, localizado em Juiz de


Fora-MG. Destacamos que não pretendemos, neste trabalho, aprofundar um estudo
sobre os projetos educativos do Museu, mas analisá-los de forma geral dentro do
contexto aqui proposto.

Com os prédios históricos fechados para revitalização desde 2008, o desafio


de gerir o Museu Mariano Procópio se acentuou, não apenas pela complexidade de
realização de obras de restauração, mas, também, pela necessidade de não deixar
que se perca a relação de identidade e pertencimento da população com o Museu.
Justifica-se, portanto, a intensificação de realização dos projetos culturais, educativos
e científicos na instituição.

2.2 GESTÃO DO PATRIMÔNIO MUSEOLÓGICO

A trajetória brasileira das instituições museológicas marca os diferentes


significados que estes espaços foram estabelecendo no decorrer dos anos como
museu de ciências, arqueologia, de arte e de história, por exemplo. A maioria dos
museus brasileiros foi fundada no século XX, como o Museu Mariano Procópio,
localizado em Juiz de Fora-MG, oficialmente aberto à visitação pública em 1915.

De acordo com o Sistema Brasileiro de Museus, até agosto de 2008, havia


2.501 museus presenciais e 19 museus virtuais, sendo que desses, 944 encontravam-
se no Sudeste, ou seja, 37,46% localizam-se nessa região (PNC, 2008). Em 2006, o
IBGE aponta que os museus localizam-se em apenas 21,9% dos municípios. Esses
dados apontam para uma realidade discrepante entre as regiões brasileiras (idem).
Entretanto, a cidade de Juiz de Fora se destaca dentro do setor cultural, uma vez que
possui 10 museus e 3 centros culturais, além 26 escolas de artes e galerias, de acordo
com dados da Prefeitura Municipal (PJF, 2013).

Diante dessa realidade, o governo vem implementando ações voltadas para o


campo museal brasileiro como a criação do Sistema Brasileiro de Museus que tem por
finalidade promover, entre outras, a valorização e disseminação de conhecimentos
do campo da museologia, desenvolvimento de ações nas áreas de aquisição de
bens, capacitação de pessoal, documentação, pesquisa, conservação, restauração,
comunicação e difusão. Com o objetivo de criar normas reguladoras, foi criada a Lei
Federal 11.904/2009 que institui o Estatuto de Museus, regulamentado através do
Decreto no 8.124/2013, que busca orientar e auxiliar instituições museais no que se
refere às normas de preservação, conservação e segurança do acervo.
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De acordo com o Estatuto de Museus, Art. 1º, consideram-se museus aquelas


“instituições sem fins lucrativos que conservam, investigam, comunicam, interpretam
e expõem, para fins de preservação, estudo, pesquisa, educação, contemplação e
turismo (...) abertas ao público, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento”
(BRASIL, 2009a). De acordo com o Estatuto de Museus, são princípios fundamentais
dos museus:
I - a valorização da dignidade humana;
II - a promoção da cidadania;
III - o cumprimento da função social;
IV - a valorização e preservação do patrimônio cultural e ambiental;
V - a universalidade do acesso, o respeito e a valorização à diversidade
cultural;
VI - o intercâmbio institucional.
(BRASIL, 2009a)

O Ministério da Cultura, através da Superintendência de Museus do Estado


de Minas Gerais (SUM), vem produzindo oficinas de treinamento e capacitação
profissional, debates na área museológica por meio de seminários e fóruns, entre
outras ações que têm contribuído para seu aprimoramento e desenvolvimento. Em
Juiz de Fora, a Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage – Funalfa, é responsável pela
política cultural do município, promovendo grandes eventos, administrando alguns
centros culturais e o Museu Ferroviário. Vinculado à Funalfa, o Conselho Municipal de
Preservação do Patrimônio Cultural (Comppac) estruturado através da Lei no. 10.777,
de 15 de julho de 2004 visa proteger o patrimônio cultural da cidade, entre eles o
Museu Mariano Procópio, que em janeiro de 1983 teve suas edificações e parque
tombados, em nível municipal.

As instituições museológicas devem ser geridas como um recurso mercadológico,


mas não de forma a tratá-las apenas como mercadorias, pois além de seu caráter social
e cultural, os museus possuem importantes funções de comunicação, investigação,
pesquisa, preservação e educação. Isto acarreta em grande responsabilidade
dos gestores responsáveis em aliar a preservação destes bens a um uso público
responsável, prolongando a vida útil para usufruto das gerações futuras de forma a
transformá-los em espaços de educação, difusão da democracia e cidadania.

O Estado Brasileiro é a instância responsável por formular, programar, avaliar


e monitorar as políticas públicas de cultura, sendo representado pelo Ministério da
Cultura que deve, também, estabelecer estratégias e prioridades no investimento
dos recursos públicos para o setor. O Ministério da Cultura foi criado em 1985, num
processo de redemocratização da cultura sendo a área cultural reconhecida como
elemento insubstituível na construção da identidade nacional além de se destacar
como fonte de geração de empregos e renda.
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As décadas de 80 e 90 do século XX tiveram discussões acentuadas relativas


à economia no setor cultural, sendo a produção cultural vista como forte potencial
econômico. Nesse sentido, Teixeira Coelho (2012) lembra que houve um debate acerca
do desenvolvimento econômico promovido pela cultura e, portanto, desenvolvimento
humano, a paz e a diversidade. Já com a virada do século o destaque vai para o
campo museológico com o desmembramento do Departamento de Museus do IPHAN
com a criação do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), autarquia federal vinculada
ao MinC, criada em 2009. Instituído através da Lei no. 11.906, o Ibram tem como
finalidades:
I – promover e assegurar a implementação de políticas públicas para o
setor museológico, com vistas em contribuir para a organização, gestão e
desenvolvimento de instituições museológicas e seus acervos;
II – estimular a participação de instituições museológicas e centros culturais
nas políticas públicas para o setor museológico e nas ações de preservação,
investigação e gestão do patrimônio cultural musealizado;
III – incentivar programas e ações que viabilizem a preservação, a promoção
e a sustentabilidade do patrimônio museológico brasileiro;
IV – estimular e apoiar a criação e o fortalecimento de instituições
museológicas;
V – promover o estudo, a preservação, a valorização e a divulgação do
patrimônio cultural sob a guarda das instituições museológicas, como
fundamento de memória e identidade social, fonte de investigação científica
e de fruição estética e simbólica;
VI – contribuir para a divulgação e difusão, em âmbito nacional e internacional,
dos acervos museológicos brasileiros;
VII – promover a permanente qualificação e a valorização de recursos
humanos do setor;
VIII – desenvolver processos de comunicação, educação e ação cultural,
relativos ao patrimônio cultural sob a guarda das instituições museológicas
para o reconhecimento dos diferentes processos identitários, sejam eles de
caráter nacional, regional ou local, e o respeito à diferença e à diversidade
cultural do povo brasileiro; e
IX – garantir os direitos das comunidades organizadas de opinar sobre os
processos de identificação e definição do patrimônio a ser musealizado.
(BRASIL, 2009b)

Tais medidas supracitadas, além de apontarem para uma coletiva construção


de políticas públicas, vêm contribuindo para o desenvolvimento e fomento dos museus
brasileiros bem como para uma eficiente gestão museológica. Entretanto, Carvalho
(2008) afirma que uma gestão não comprometida prejudica a comunicação entre o
acervo e a sociedade. Este diálogo é fundamental, pois pode interferir na percepção
de valor do usuário. Para Carvalho, a percepção de valor do museu para o usuário
pode ser dividida em: valor funcional, simbólico e emocional. O valor funcional pode
ser “decorativo, para entretenimento ou educativo”. O simbólico pode ser “patriótico,
social ou artístico”. Já o valor emocional “inclui os aspectos catártico, rememorativo,
passional e sensorial”. (CARVALHO, 2008, p. 37).
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Logo, pensar na percepção de valor do usuário nos leva a discorrer sobre a


gestão no âmbito do turismo e como é possível, através da educação, aliar o uso do
espaço para a preservação do patrimônio cultural musealizado, ação fundamental
para a prática do turismo sustentável.

TURISMO E PATRIMÖNIO MUSEOLÓGICO: EDUCAÇÃO ALIADA À PRESERVAÇÃO

Em seu aspecto global e totalizante, Teixeira Coelho coloca que cultura se


“remete à ideia de uma forma que caracteriza o modo de vida de uma comunidade”
(2012, p. 114). Já em sentido estrito o autor cita Raymond Williams que a cultura
“designa o processo de cultivo da mente, nos termos de uma terminologia moderna e
cientificista, ou do espírito, para adotar-se um ângulo mais tradicional” (idem). Coelho
explica ainda que
A cultura não se caracteriza apenas pela gama de atividades ou objetos
tradicionalmente chamados culturais, de natureza espiritual ou abstrata,
mas apresenta-se sob a forma de diferentes manifestações. Assim, o termo
“cultura” continua apontando para atividades determinadas do ser humano
que, no entanto, não se restringem às tradicionais (literatura, pintura, cinema –
em suma, as que se apresentam sob uma forma estética) mas se abrem para
uma rede de significações ou linguagens incluindo tanto a cultura popular
(carnaval) como a publicidade, a moda, o comportamento (ou atitude), a
festa, o consumo, o estar-junto etc. (COELHO, 2012, p. 115)

O turismo cultural muitas vezes tem se ancorado em um consumo superficial


dos bens culturais que comumente se soma a um inadequado planejamento. Cabe
destacarmos que a relação entre consumo e cultura é delicada e complexa. Levando
em consideração que a cultura é elemento fundamental no desenvolvimento do
turismo, é de suma importância que profissionais da área busquem estratégias que
aliem a conservação dos bens culturais ao retorno social, cultural e econômico que o
usufruto destes pode fornecer.

As diferentes tipologias de turismo praticadas mostram que esta atividade é


uma importante opção de desenvolvimento local ao mesmo tempo em que desenvolve
importantes aspectos sócio-culturais que podem promover qualidade de vida para a
comunidade residente. Buscamos, então, destacar a importância da relação entre
patrimônio cultural e a atividade turística, tipologia traduzida pelo turismo cultural que
compreende “as atividades turísticas relacionadas à vivência do conjunto de elementos
significativos do patrimônio histórico e cultural e dos eventos culturais, valorizando e
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promovendo os bens materiais e imateriais da cultura” (BRASIL, 2006, p.10)

Aprofundando este conceito, Dias esclarece que, mesmo aqueles turistas que
se deslocam, por outro motivo que não especificamente o cultural, praticam o turismo
cultural quando participam “de eventos musicais, ao assistir[em] a uma peça de teatro,
ao visitar[em] museus, (...) adquirir[em] peças de artesanato, ao procurar[em] conhecer
hábitos e os costumes da população local freqüentando feiras e mercados populares”
(DIAS, 2006, p.40), entre inúmeras outras atividades que a cultura pode proporcionar.

Entretanto, cabe enfatizar que, como exposto por Mancini, nem toda atividade turística
que envolve aspectos culturais pode se caracterizar como turismo cultural, visto que este se
assinala não apenas pelo que se vê, mas, principalmente, pela forma como se vê. O turismo
cultural “exige contato com a população, uma interação do turista com a localidade e seus
aspectos culturais. Não é possível caracterizar como turismo cultural a realização de uma
visita superficial, em que o turista não vivencie o que está visitando” (MANCINI, 2007, p. 129).
Essas características acima mencionadas já eram evidentes nos grand tours que, firmemente
estruturados no século XVII com o auge em meados do século XVIII, tinham como objetivo
maior “a aprendizagem com base na vivência e na experimentação de situações e objetos
reais, com forte apelo cultural” (COSTA, 2009, p.24).

Dias afirma que o patrimônio constitui “um diferencial para as cidades que competem
para atrair visitantes, cuja demanda gerará a multiplicação das atividades produtivas e dos
serviços e, conseqüentemente, o aumento de renda e de trabalho” (2006, p.vii). Daí Lima
assegurar que o turismo cultural integra a cultura enquanto processo e, também, enquanto
produto:

Enquanto processo, pelo qual um povo se identifica consigo próprio e a sua


forma de vida: a autenticidade. Enquanto produto, pela operacionalização
de um conjunto de recursos, infra-estruturas, serviços e criações culturais,
oferecidos de forma organizada e regular num determinado tempo e lugar.
(LIMA, 2003, p.62)

Considerando, como exposto por Carvalho, que o museu, desempenhando


o papel de mediador cultural, “pode gerar benefícios sócio-econômicos para a
comunidade, se aliado a um turismo cultural responsável e sustentável, estimulando
também o conhecimento e a preservação do patrimônio pela população” (2008,
p. 104). Desta forma, defendemos as ações educativas e culturais em instituições
museológicas fundamentais para o turismo cultural se agregar como processo e,
também, como produto, conforme elucidado por Lima (2003).

A promoção de atividades educativas está prevista no Estatuto de Museus, art.


29, e devem ser “fundamentadas no respeito à diversidade cultural e na participação
comunitária, contribuindo para ampliar o acesso da sociedade às manifestações culturais
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XIII Encontro Nacional Turismo de Base Local
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e ao patrimônio material e imaterial” (ESTATUTO DE MUSEUS, 2009). Entendendo os


museus como espaço educativo fundamental, Castro esclarece que podem “até ser
utilizado para a concretização de um processo de educação compartilhada que inclua
a cultura e a memória como parte de seu processo” (CASTRO, 2013, p. 20). A autora
acrescenta que:

Os museus, assim como outras instituições culturais, podem desempenhar


um papel fundamental na educação coletiva, criando identidades, memórias
e legados, que, integrados à educação escolar, poderiam ampliar o escopo
do conhecimento socializado na escola, possibilitando, desse modo, novos
prismas no processo de formação das crianças e jovens provenientes das
classes trabalhadoras. (CASTRO, 2013, p. 20-21)

Defendendo a educação como aliada para a preservação, Soto afirma que essa
prática é a mais eficaz para “assegurar a defesa do patrimônio do país [e] sustenta-
se nas premissas de que é necessário conhecer para preservar e que a preservação
é fruto de uma tomada de consciência, de uma decisão e de uma vontade política”.
(2008, p. 24-25). Vale esclarecer que, como elucida Chagas, não é necessário a
imaginação de algum perigo que virá no futuro “é preciso, e esse não é um ponto sem
importância, que o sujeito da ação identifique no objeto a ser preservado algum valor”
(CHAGAS, 2003, p. 33).

Outra questão importante é que a ação educativa está inserida dentro de


um processo mais amplo conhecido como ação cultural, “uma vez que os museus
da atualidade realizam diversas outras ações, como (...) concertos musicais, entre
outros, todos contendo conteúdos educativos não-formais” (FRONZA-MARTINS,
2004, p.50). Para Dias (2006, p. 69), os bens patrimoniais constituem uma ferramenta
educacional importante “pois permitem que os jovens conheçam seu passado como
forma de compreender melhor o presente e, ao mesmo tempo, consolidem-se valores
e se fortaleça o processo de construção de uma identidade cultural”

Bemvenuti (2007, p. 619) esclarece que não é suficiente os museus estarem


abertos a todos “é preciso possibilitar o acesso aos bens culturais e provocar,
primeiramente, uma aproximação e uma relação mais íntima com este espaço,
envolvendo atividades de mediação dos objetos”. Como então, gerir um museu
fechado com o acervo quase indisponível ao público?

MUSEU MARIANO PROCÓPIO E A ATUAÇÃO DO SETOR EDUCATIVO

O Museu Marino Procópio, localizado em Juiz de Fora-MG, é formado por dois


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edifícios inseridos em um jardim. A Villa Ferreira Lage foi construída pelo empreendedor
Mariano Procópio na década de 1860, para hospedar a família imperial em visita à
cidade em virtude da inauguração da União e Indústria, primeira estrada de rodagem,
que ligava Petrópolis a Juiz de Fora. Entretanto, a estadia não ocorreu naquela
ocasião, pois a obra não foi finalizada. Marcada pelo imaginário da população como
“castelinho” a Villa foi transformada em museu-casa em 1915 pelo colecionador Alfredo
Ferreira Lage, filho de Mariano Procópio, após a morte de sua mãe. As características
de residência foram preservadas com a presença da coleção de Alfredo.

Com sua coleção em expansão, Alfredo constrói um edifício anexo à Villa,


“primeiro edifício da América Latina construído com a intenção de comportar uma
coleção, logo no início da década de 20 do século XX” (ANDREOLA, 2012, p. 5).
O acervo do Museu Mariano Procópio possui mais de 50 mil itens abrangendo
história natural, numismática, cerâmica, mobiliário, pinturas, documentos, desenhos,
fotografias e outros. Apesar de seu ecletismo é considerado acervo de referência do
Brasil Império.

O Parque Mariano Procópio teve sua história iniciada juntamente com a


construção da Villa, em 1861, constituindo-se, atualmente, uma área verde de 78.240
m2 em pleno espaço urbano de Juiz de Fora, de autoria atribuída ao paisagista francês
Auguste François Marie Glaziou. Para Cunha (2007, p. 52) “as paisagens criadas
artificialmente por Glaziou são consideradas pelos órgãos de defesa do patrimônio,
como IPHAN, como perfeitas manifestações do gênio humano. São portanto, parte da
paisagem cultural brasileira”.

Glaziou contribuiu não apenas para a configuração da paisagem do espaço


urbano em Juiz de Fora. Seu trabalho se desenvolveu principalmente na cidade do
Rio de Janeiro, entre eles a reforma do Passeio Público, Parque do Palácio do Catete,
Parque São Clemente, 1º. Plano para a Quinta da Boa Vista, entre outros.

Em Juiz de Fora, o jardim que compõe a área da Villa Ferreira Lage foi aberto
à visitação em 1934, sendo recoberto por uma vegetação arbórea, além de possuir
cinco ilhas, parquinho infantil, gruta ornamental e monumentos. Em 1936, os prédios
do Museu Mariano Procópio, todo o acervo e o Parque foram doados, pelo Alfredo
Lage, ao município de Juiz de Fora. Destaca-se que na escritura de doação consta a
exigência da perpetuidade de “Mariano Procópio” para nomear o Museu e o Parque,
além de não poder ser alterada a finalidade cultural dos mesmos. Assim é apontado
que “enquanto o pai investe na vinda de imigrantes alemães e italianos para a cidade,
o filho dedica-se à instrução do povo, por meio do Museu e sua coleção” (COSTA,
2006, p. 13).
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Importante destacar que o Parque do Museu Mariano Procópio é considerado


um jardim histórico que de acordo com a Carta de Florença, de maio de 1981, Art. 1, é
“uma composição arquitetônica e vegetal que, do ponto de vista da história ou da arte,
apresenta um interesse público. Como tal é considerado monumento” (CURY, 2004,
p. 253). Já no Art. 5, o jardim histórico é definido como:

Expressão de relações estreitas entre a civilização e a natureza, lugar de


deleite, apropriado à meditação e ao devaneio, o jardim toma assim o sentido
cósmico de uma imagem idealizada do mundo, um paraíso no sentido
etimológico do termo, mas que dá testemunho de uma cultura, de um estilo,
de uma época, eventualmente da originalidade de um criador. (CURY, 2004,
p. 254)

Acrescenta ainda que todo o complexo do Museu Mariano Procópio é um


patrimônio cultural nacional, sendo que as edificações e o Parque são tombados em
nível municipal e estadual. Ao se falar em patrimônio, nos remetemos aos bens culturais
que possuem uma homogeneidade de valor que se refere à sua disposição de guardar e
preservar lembranças da história, permitindo-nos constituir a identidade entre as pessoas
e os lugares. De acordo com Constituição Federal de 1988, Art. 216, o patrimônio
cultural brasileiro é constituído por “bens de natureza material e imaterial, tomados
individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à nação, à
memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira” (BRASIL, 1988)

Com os prédios históricos fechados para revitalização desde 2008, o desafio


de gerir o Museu Mariano Procópio se acentuou, não apenas pela complexidade de
realização de obras de restauração, mas, também, pela necessidade de não deixar
que se perca a relação de identidade e pertencimento da população com o Museu e,
consequentemente, o envolvimento para sua preservação.

A arquiteta Milena Andreola, em seu artigo “O Museu Mariano Procópio e a


reconstrução da sua relação identitária com a comunidade de Juiz de Fora”, afirma
que desde o fechamento dos edifícios históricos “os funcionários do Museu Mariano
Procópio convivem com o dilema de gerenciar um museu sem público” (2012, p. 11).
Entretanto, a aclamação pública pela sua reabertura e acesso ao acervo mostra o
contrário também, que os gestores da MAPRO estão com o desafio de “gerir” um
público sem o museu, sendo as ações educativas, culturais e científicas realizadas
(tanto no espaço do Parque quanto extramuros) uma forma de estreitar os laços
identitários. Claro que essas ações não preenchem a lacuna de 5 anos sem acesso
aos prédios e parte do acervo, mas tem sido uma forma de ampliar o contato do
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público com um patrimônio que lhes pertence.

A realização das atividades educativas, culturais e científicas são competências


do Departamento de Difusão Cultural, entre outras ações, conforme Decreto no 8.756
de 2005:
I – propor a formulação conceitual da MAPRO, em consonância com o
Departamento de Acervo Técnico;
II – propor e auxiliar na elaboração de planos, programas e projetos nas
áreas de Museografia, Educação Patrimonial e Ambiental, de Divulgação e
de atendimento;
III – promover a disponibilização do Museu e Parque para a fruição cultural,
lazer e eventos;
IV – promover, organizar e executar atividades de caráter cultural, visando
atender ou suscitar o interesse de diferentes setores sociais;
V – promover e monitorar, em conjunto com a Assessoria de Programação
Acompanhamento e demais Departamentos, eventos da MAPRO, cuidando
de todos os detalhes de sua execução;
VI – estabelecer, em conjunto com a Assessoria de Programação e
Acompanhamento e demais Departamentos, as regras para realização
de eventos promovidos por terceiros na MAPRO, assim como o devido
monitoramento e avaliação dessas atividades;
VII – realizar trabalhos de difusão cultural sob a forma de publicações,
exposições, conferências, cursos e seminários e outros, considerando as
orientações do Departamento de Acervo Técnico, quando for o caso;
VIII – proporcionar a profissionais, estudantes e instituições, orientação em
métodos e técnicas desenvolvidas em suas áreas de atuação;
IX – orientar e supervisionar a adequação e dinamização dos espaços para
desenvolvimento das atividades fins da instituição;
(...)
XIV – coordenar, controlar e avaliar as atividades museográficas, educativas
e de difusão cultural da MAPRO;
(...) (DECRETO 8756/05)

Com os prédios e parte do jardim fechados, o Departamento de Difusão Cultural


não está com as ações voltadas para o espaço expositivo. Novos projetos foram
criados, assim como aqueles antigos tiveram que sofrer adaptações.

O projeto “Oficinas Temáticas”, criado no início de 2011, tem por objetivo


aproximar o público do Parque, do Museu e de seu acervo através de atividades
dinâmicas e lúdicas (PJF, 2013)2. As vagas são limitadas e são para crianças de 7 a 10
anos, com inscrições realizadas por telefone. O projeto acontece aos sábados, uma
vez por mês de fevereiro a dezembro, com exceção de julho, férias escolares, ocasião
em que acontece o projeto Férias no Museu. Realizadas, geralmente, no Parque do
2 Disponível em: http://www.pjf.mg.gov.br/noticias/imprimir_noticia.php?idnoticia=37769. Acesso em:
10 de junho de 2014.
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Museu, as oficinas buscam apresentar para as crianças temas que envolvem o acervo.
Em algumas edições, as crianças têm acesso ao bosque e entorno dos casarões,
tornando as atividades ainda mais dinâmicas. Em 2013, algumas das Oficinas foram:
“Telefone: uma maravilhosa invenção”, “Uma divertida viagem pela estrada União e
Indústria”, “Aniversário de 92 anos do Museu Mariano Procópio”, “Brincando de Artista”,
“Na trilha da arte afro-brasileira”, “Um imperador que já foi criança”, “Esculturas no
Jardim”, “O tesouro da Viscondessa”, entre outros.

Já o Clube Ecológico, criado na década de 80, desenvolve atividades relativas


à educação ambiental. Com formato diferente das “Oficinas Temáticas”, o Clube busca
ser um trabalho mais contínuo. A inscrição é realizada através de cadastro prévio, na
sede administrativa, com apresentação de comprovante de residência, documento da
criança e uma fotografia 3x4. Após o cadastro, as crianças recebem uma carta todo
mês antes de cada encontro. Até 2013, o Clube possuía vagas ilimitadas e tinha como
público-alvo crianças de 6 a 12 anos. As atividades acontecem uma vez ao mês, aos
sábados, com exceção dos meses de janeiro e julho. (PJF, 2013)3

Nos períodos de férias escolares acontece o projeto Férias no Museu que


visa oferecer às crianças momentos de aprendizado e de brincadeira, possibilitando
criar um elo entre os participantes, o jardim histórico, o Museu, e os demais projetos
educativos da instituição como Oficina Temática e Clube Ecológico.

As visitas mediadas são segmentadas em 3 categorias: visitas guiadas,


realizadas no Parque do Museu; Visitas interativas que consistem de uma visita
guiada seguida de atividades de arte educação desenvolvidas pela equipe educativa
do Museu e visitas técnicas, destinadas à públicos acadêmicos. Estas são realizadas
pelos técnicos da instituição (arquitetos, museólogos, biólogos entre outros) na área
do Parque, bosque, prédios históricos e acervo.

O projeto Encontro de Educadores acontece desde maio de 2012. A cada


encontro um mediador é convidado a apresentar possibilidades de ações educativas
em sala de aula, pesquisas acadêmicas entre outros. O projeto é voltado para
profissionais da área de educação, principalmente professores e acontece uma vez
ao mês, com exceção dos meses de férias escolares.

O “Museu vai à Escola” teve início em setembro de 2012. O projeto que leva
exposições com reproduções de obras do acervo do Museu para escolas públicas
e particulares tem por objetivo motivar e sensibilizar os diferentes públicos para as
temáticas da arte, da cidadania, integrando momentos de formação e conhecimento,
3 Disponível em: http://www.pjf.mg.gov.br/noticias/imprimir_noticia.php?idnoticia=36980. Acesso em:
10 de junho de 2014.
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que estimula uma aproximação com a cultura, a relação com a comunidade e o


incentivo a criação de hábitos culturais (PJF, 2013).

Os projetos supracitados, além de outros como exposições, Baú de Leituras,


Música no Parque, Caça ao Saci, entre outros, levam ao Parque do Museu Mariano
Procópio milhares de visitantes. Em 2013, 200.116 visitantes foram registrados, sendo
684 visitantes de outras cidades, apenas em visitas guiadas. Como a instituição não
possui um estudo de público, não é possível quantificar os visitantes espontâneos de
outras cidades e países.

Observa-se, portanto que a atual gestão do Museu Mariano Procópio tem


investido nos projetos educativos, culturais e científicos, promovendo maior interação
entre o visitante, o acervo e o próprio espaço.

CONSIDERAÇOES FINAIS

O turismo cultural pode gerar benefícios através da recuperação, manutenção


e difusão de espaços culturais como os museus, compartilhando valores locais,
fortalecendo, e até mesmo restabelecendo, a memória e a identidade social da
comunidade local. Na batalha para atrair turistas, o patrimônio cultural, material ou
imaterial, representa um diferencial e, neste estudo, apontamos as potencialidades
do Museu Mariano Procópio: enquanto “processo” no pertencimento da população
com o bem e enquanto “produto” na operacionalização de vários recursos, serviços e
criações culturais.

A ênfase dada por Soto (2008) em “conhecer para preservar” mostra o


direcionamento que apresentamos neste trabalho: a importância do setor educativo
de museus para a sua preservação. Apontamos que enquanto todo o complexo do
Museu Mariano Procópio não for reaberto ao público os gestores devem proporcionar
o maior contato possível do visitante com o acervo e o espaço museológico. A atuação
do setor educativo do Museu, em momento que os prédios e acervo não estão
disponíveis ao público em sua totalidade, é fundamental para o incentivo de vínculos
identitários entre a comunidade local e seu patrimônio.

Entretanto, destaca-se que a instituição não possui um estudo de público


qualitativo. Com dados apenas quantitativos não é possível diagnosticar a participação
e motivação dos visitantes. É preciso conhecer as necessidades dos visitantes
que são as bases das motivações e estas exercem uma expressiva influência na
escolha do serviço oferecido pelo museu. De toda forma, o Museu Mariano Procópio
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possui ampla programação cultural, científica e educativa que abrange a população


autóctone e turistas em toda sua heterogeneidade. Essas atividades contribuem para
a percepção do museu pelo valor funcional, simbólico e/ou emocional, como proposto
por Carvalho (2008).

Atualmente, no setor educativo do Museu, percebe-se uma linha de atuação


voltada para o lúdico, no aprender de forma prazerosa e divertida, trazendo
possibilidades de olhares para os mais diferentes assuntos relacionados ao acervo,
às artes e cultura em geral ao mesmo tempo privilegiando o entretenimento, como
o projeto Oficinas Temáticas. Com atividades dinâmicas e lúdicas, que envolvem o
aprendizado com naturalidade e encanto, o museu deixa de ser um espaço inatingível
de guarda do antigo, para ser um território de pertencimento e deleite.

Com isso, os gestores estão formando novos atores aliados à preservação


do patrimônio Museu Mariano Procópio. Além da preservação, tais ações contribuem
para a promoção da cidadania, valorização da dignidade humana, o cumprimento
da função social e, também, para a valorização e o reconhecimento dos diferentes
processos identitários vinculados ao patrimônio museológico brasileiro, conforme
previsto na lei federal 11.904.

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identitária com a comunidade de Juiz de Fora. Juiz de Fora, 2012.

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CITTASLOW: VALORIZAÇÃO DA IDENTIDADE NA PERSPECTIVA DO TURISMO


COMUNITÁRIO, SOLIDÁRIO E SUSTENTÁVEL. MODELO APLICADO EM
LEVANTO – ITÁLIA

Carlota Vieira Mendonça1


Grazielle Ueno Macoppi2

Resumo:
Entende-se como turismo comunitário, solidário e sustentável um modelo de turismo
alternativo pautado na valorização e resgate da identidade e no desenvolvimento
sustentável. A iniciativa cittaslow se aproxima ao turismo comunitário, solidário
e sustentável no sentido de que ambos não são modalidades, mas um projeto em
desenvolvimento que atua como alternativa ao modelo convencional praticado. Neste
contexto surge à indagação que norteia este artigo, como conciliar a valorização dos
modos de vida locais com desenvolvimento e atividade turística? Para tanto objetiva-
se descrever e analisar o município de Levanto (Região Ligúria, Itália), cidade que
desenvolve um modelo de planejamento diferenciado baseado na recuperação e
valorização da identidade através dos fundamentos do cittaslow. Para isso, utilizou-
se pesquisa exploratória, a qual se baseia em análise documental, em um formulário
de coleta de dados qualitativos e em entrevistas semi-estruturadas (10 atores locais),
que analisam dados secundários, tomando como base a identidade, os modos de vida
locais e o território. Considera-se que o modelo cittaslow almeja potencializar o capital
social e cultural, aproximando-se ao turismo comunitário, solidário e sustentável,
no qual, se prioriza as pessoas, a conservação de modos de vidas tradicionais e
a preservação da biodiversidade por meio da utilização de medidas práticas que
beneficiam tanto os atores locais como os visitantes.
Palavras–chave: cittaslow. Levanto. turismo comunitário, solidário e sustentável.
Identidade.Território.

Abstract:
It is understood as a community, solidarity and sustainable tourism an alternative model
of tourism founded on the recovery and rescue of identity and sustainable development.
The cittaslow initiative approaches to community, solidarity and sustainable tourism in
the sense that both are not modalities, but an ongoing project that acts as an alternative
to the conventional model practiced. In this context the question that guides this article,
how to harmonize the exploitation of local ways of life with development and tourist
activity arises? To achieve the objective the municipality of Levanto (Liguria Region,
Italy) was described and analyzed, city that develops a model of differentiated planning
based on recovery of identity through the basics of cittaslow. For which it was used
1 Bacharel em Turismo, Pós-Graduada em Gestão do Patrimônio (UA, Universidade de Alicante, Espanha),
Máster em Desenvolvimento Integral de Destinos Turísticos (ULPGC, Las Palmas de Gran Canária, Espanha,
bolsista Ministério Turismo de Espanha, TURESPAÑA), Máster em Investigação em Ciências Sociais (UPV,
Bilbao, Espanha, bolsista do governo do País Vasco), mestranda em turismo (UFPR) e cursando licenciatura em
pedagogia (UFPR). Professora da área de Turismo – SENAC–PR e do curso em Gestão em Turismo - UNINTER.
Email: carturismo@gmail.com

2 Bacharel em Turismo, Pós Graduada em Educação para o Meio Ambiente (UFPR). Professora e
Coordenadora do Curso Superior de Tecnologia em Gestão do Turismo – Centro Universitário Internacional –
UNINTER. Email: grazielle_ueno@yahoo.com.br
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exploratory research, which is based on document analysis, in a form of qualitative data


and semi-structured (10 local actors), that analyze secondary data interviews, based
on the identity, modes local life and territory. It is considered the cittaslow model aims
to enhance the social and cultural capital, approaching the community, solidarity and
sustainable tourism that prioritize the people, the preservation of traditional ways of life
and the preservation of biodiversity through the use of practical measures that benefit
each other local stakeholders and visitors. Keywords: Cittaslow. Levanto. Community,
solidarity and sustainable tourism. Identity. Territory.

INTRODUÇÃO

Atualmente o turismo, sem sombra de dúvida, é uma das atividades mais


importantes da economia mundial. Contudo, o turismo possui um caráter transversal
que não o resume somente ao cunho econômico, sua relevância envolve uma dinâmica
que engloba as relações sociais, culturais e ambientais de um território e de seus
autóctones. Neste cenário, o turismo comunitário, solidário e sustentável apresenta-
se como um novo eixo da atividade turística no qual o protagonista é a comunidade
local (CORIOLANO, 2009).

Segundo Krippendorf (2000) para que o turismo tenha futuro deve caminhar na
orientação de um humanismo maior. E complementa indagando que o importante é
reconhecer que o turismo deve servir ao homem, e não o contrário. Nesta orientação
o conceito slow, sugere um modelo de gestão articulada que visa resistir à vertiginosa
aceleração do ritmo de vida moderno e suas conseqüências.

Neste contexto a definição de cittaslow surge como uma ampliação do


movimento italiano slow food, nascido em Roma durante um manifesto liderado pelo
jornalista Carlo Petrini e que logro desenvolver uma filosofia que almeja resistir à
homogeneização, apoiando a diversidade e a cultura autóctone. Simples na concepção
e complexo na sua abrangência, o cittaslow propõe o protagonismo comunitário a
partir de propostas vinculadas ao território, ao meio ambiente, ao respeito cultural e
ao uso de novas tecnologias (RUSCHE, 2012).

Ainda que apresente um vertiginoso crescimento o cittaslow é um movimento


recente (15 anos), o que justifica sua escassez bibliográfica. Contudo a amplitude da
temática é expressiva na cadeia produtiva do turismo e confirma a relevância deste
estudo. Também se acredita na efetividade da iniciativa cittaslow para localidades com
baixa densidade demográfica (inferior a 50.000 habitantes).

Deste modo surge a indagação que norteia este artigo, como conciliar a
valorização dos modos de vida locais com desenvolvimento e atividade turística? A
fundamentação teórica esta organizada em três seções. A primeira apresenta um
desdobramento do conceito de turismo comunitário, solidário e sustentável. A segunda
aborda um aclaramento a respeito do modelo cittaslow desde seu principio até os dias
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atuais. E na terceira parte descreve e analisa o modelo cittaslow, praticado na cidade


de Levanto, na Itália.

Assim sendo o artigo pretende através de um estudo exploratório descrever


o movimento cittaslow, desenvolvido em Levanto e sua aproximação ao turismo
comunitário, solidário e sustentável. Para tanto, o estudo esta pautado em uma
pesquisa de cunho qualitativo de abordagem exploratória (CRESWELL, 2007;
VEAL, 2011). A análise esta baseada em artigos e livros relacionados ao tema. Para
a contextualização do município de Levanto, Itália, foi empregado um formulário de
coleta de dados qualitativo completado com base na entrevista com seu principal
protagonista, ademais da aplicação de entrevistas semi-estruturadas, concretizadas
através de correio eletrônico com uma amostra de dez atores locais, entre eles,
o fundador do movimento cittaslow, representantes de diversas associações,
comerciantes, moradores e autoridades locais. O roteiro da entrevista foi estruturado
em quatro eixos temáticos: percepções dos atores locais sobre o cittaslow, surgimento
e desenvolvimento do projeto cittaslow em Levanto, projetos e expectativas futuras e
compreensão da vida cotidiana em uma cidade titulada cittaslow.

Em seguida os dados foram analisados e interpretados propondo uma maior


compreensão sobre o movimento cittaslow, seus fundamentos e o papel do movimento
no contexto econômico e social do município. Com o intuito de manter a fidelidade e
o direito a privacidade este artigo se reserva ao anonimato dos entrevistados, que
serão citados como entrevistado 1, 2, 3 e assim sucessivamente. Em síntese esse
estudo não está esgotado, visto que é abrangente e abre oportunidades para novas
pesquisas sobre a temática no meio acadêmico.

1. TURISMO COMUNITÁRIO, SOLIDÁRIO E SUSTENTÁVEL (TCSS)

A preocupação pela sustentabilidade e pela preservação do bem comum por


vezes é vista de modo critico no contexto turístico, já que o meio ambiente e as relações
sociais com as comunidades autóctones sempre são citados como zonas de conflitos
da atividade turística. No entanto existe uma visão alternativa que compreende o
turismo como comunitário, solidário e sustentável.

Contudo existe uma tendência a relacionar o turismo comunitário, solidário e


sustentável com atividades desenvolvidas em espaços naturais, rurais e segmentos
populares em situação de vulnerabilidade. Entretanto, este artigo busca aclarar que o
espaço urbano também é propicio a este projeto alternativo de turismo. Neste sentido
Henríquez et al (2009) aponta três elementos essenciais ao turismo comunitário, são
eles: a comunidade, a convivencialidade e a cotidianidade.

O termo comunidade assegura o sentido de vínculo, pertencimento e


hospitalidade (BAUMAN, 2003). A compreensão de convivencialidade se entende
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pelo interesse de um individuo pelo outro, pela alteridade e autenticidade. Em outras


palavras significa a relação estabelecida entre visitantes e autóctones que vai além
do cunho comercial e estabelece o diálogo intercultural, resgata, constrói e promove
interação (ILLICH, 1976; IRVING; AZEVEDO, 2002; CORIOLANO; LIMA 2007;
SAMPAIO, 2005). E a cotidianidade que remete ao uso do tempo e do espaço e ao
entendimento das culturas no contexto do território (LIMA, 2004).

Segundo Sampaio (2011) o conceito de turismo comunitário, solidário e


sustentável está em construção e aflora a partir de debates sobre o turismo de base
local, priorizando os modos de vida, os saberes e fazeres locais e a preservação da
biodiversidade. Perspectivas que possibilitam uma nova economia, um desdobramento
da economia solidária denominada ecossocioeconomia (SAMPAIO, 2011).

A ecossocioeconomia favorece as experimentações e as complexidades do


cotidiano (SAMPAIO, 2011). É o contraposto a massificação do “ter” pela valorização
do “ser” (BAUMAN, 2003). Portanto o turismo comunitário, solidário e sustentável
não é uma modalidade, mas sim, um projeto em desenvolvimento que não visa
romantizar um cenário perfeito, porém realça uma nova mirada (URRY,1995) atrelada
a um modelo de desenvolvimento territorial que não se resume a atividade turística.
A vista disso, o turismo comunitário, solidário e sustentável não é ilusão e apresenta
limitações, até porque o turismo não deixa de ser atividade econômica, não obstante
se apresenta como uma atividade humana repleta de expectativas e uma possibilidade
de se desenvolver de modo justo (SAMPAIO, 2004).

Assim sendo, o enfoque adotado no turismo comunitário, solidário e sustentável


e no cittaslow remete aos pilares: comunidade, convivencialidade, cotidianilidade,
identidade, diálogo, social, modos de vida, biodiversidade e a ecossocioeconomia.

Contudo o cittaslow se desenvolve em núcleos urbanos e se faz necessário a


compreensão do conceito de capital social e cultural, o qual é composto pelo saber-
fazer local e a capacidade dos atores locais de promover um desenvolvimento com
características endógenas (OSTROM, 1995) e se torna essencial para o movimento
cittaslow, pois esse capital é que estabelece o potencial do desenvolvimento do
território (FLORES, 2006).

2. O CONCEITO CITTASLOW

Temos vivido um processo constante de aceleração nos últimos 100 anos.


A partir dos anos 80 as novas tecnologias e as comunicações começaram uma
verdadeira carreira de inovação. Com esta tendência mundial nos vemos imersos na
rapidez das comunicações onde até as relações pessoais se tornam efêmeras.
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Toda essa rapidez tem efeitos nocivos para a vida das pessoas. Neste contexto
nasce o movimento slow food (1989), na cidade de Roma por iniciativa do critico
gastronômico Carlo Petrini, em protesto a um empreendimento do McDonald´s,
alimentação sinônimo de fast food. O manifesto reivindicava a valorização dos produtos
e alimentos tradicionais da Itália. Do desdobrado deste movimento originam várias
iniciativas entre elas: a slow leitura, o slow café, a slow bibliotecas, a slow medicina, a
slow escola, a slow vivenda e o cittaslow.

A idéia do cittaslow surge em 1999, logo após o Congresso Mundial do Slow


Food em Orvieto, na Itália. Nesta ocasião o então prefeito de Greve in Chianti, Paolo
Saturnini buscava uma solução para o dilema de como permitir que a cidade continue
a receber cada vez mais turistas sem perder a identidade e seus valores culturais,
parte fundamental do que atraía os turistas, e ao mesmo tempo compartilhar os
benefícios para toda a comunidade, e não apenas para alguns poucos? Estavam
presentes nesta reunião as cidades e seus respectivos prefeitos: de Greve in Chianti
(Paolo Saturnini), de Bra (Francesco Guida), de Orvieto (Stefano Cimicchi) e Positano
(Domenico Marrone) e o posteriormente teve o apoio do presidente da slow food,
Carlo Petrini (RUSCHEL, 2012).

Nesta oportunidade e em conjunto com os demais representantes foi assinado


um acordo com o objetivo de aplicar os fundamentos do slow food na abrangência do
território, criando assim, o conceito cittaslow. Também estabeleceram que o objetivo
principal estivesse pautado na ampliação da filosofia do slow food às comunidades
locais e ao governo das cidades, aplicando os conceitos da sustentabilidade3 e da eco
gastronomia4 a prática da vida cotidiana (MAYER, 2006).

Assim se inicia o cittaslow propondo a melhora da qualidade de vida dos atores


locais a partir de propostas vinculadas ao turismo, ao território, ao meio ambiente,
ao respeito cultural, utilizando como protagonista a comunidade. Esta concepção se
aproxima da dimensão conceitual de turismo comunitário, solidário e sustentável, o
qual acentua a importância da autonomia das comunidades através da composição
de redes e dos princípios do turismo sustentável, da qualidade de vida, da valorização
do legado autóctone e principalmente da interação e do câmbio de experiências entre
visitantes e comunidade (GARCIA, FIGUEIRÓ & DEGRANDI, 2013).

Considerando que a grande fortaleza das pequenas comunidades esta na

3 Entende-se sustentabilidade como sinônimo de planejamento, boa gestão, consciência política,


participação, economia responsável, compromisso com valores humanos, cuidado com a natureza e as
pessoas e ação local com visão global.
4 É um conceito criado pelo movimento Slow Food e representa a união entre a ética e o prazer
da alimentação. Restitui ao alimento sua dignidade cultural, favorece a sensibilidade do gosto e luta
pela preservação e uso sustentável da biodiversidade. Protege espécies vegetais e raças animais,
contribuindo com a defesa do meio ambiente, da cozinha típica regional, dos produtos saborosos e do
prazer da alimentação.
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sua forte vinculação com o território: elas nascem, crescem, moram e trabalham em
fazendas, casas, ruas e bairros. O cittaslow parte do principio de valorizar o território
e não apenas ocupá-lo.

Assim a definição de território merece uma reflexão, a princípio o conceito


estava relacionada às ciências naturais, posteriormente se incorporo a geografia
através das noções de espaço, recursos naturais, sociedade e poder. E a partir disso,
várias disciplinas passaram a incorporar o debate.

Na percepção antropológica Tizon (1995) aponta que o território é o “ambiente


de vida, de ação, e de pensamento de uma comunidade, associado a processos
de construção de identidade”. Já em uma abordagem mais próxima da sociologia
do desenvolvimento, Abramovay (1998) indaga que “um território representa uma
trama de relações com raízes históricas, configurações políticas e identidades
que desempenham um papel ainda pouco conhecido no próprio desenvolvimento
econômico” (FLORES, 2006).

Deste modo agregando as visões antropológicas, sociológicas e geográficas


se entende o território como um espaço de relações sociais, onde há o sentimento de
pertencimento dos atores locais à identidade construída, e associada ao espaço de
ação coletiva e de apropriação, onde são criados laços de solidariedade entre esses
atores (FLORES, 2006). Ainda segundo Milton Santos (2005) o território compreende:

“O território é o chão e mais a população, isto é uma identidade, o fato e o


sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O território é à base do
trabalho, da residência, das trocas materiais e espirituais e da vida, sobre as
quais ele influiu. Quando se fala em território deve-se, pois, de logo, entender
que está falando em território usado, utilizado por uma população”.

A partir das referências podemos indagar que o território é um lugar privilegiado.


Assim sendo o cittaslow parte da premissa de desenvolver o território de modo integral,
sustentável e privilegiando a identidade. Na atualidade a rede cittaslow esta presente
a nível mundial e para aderir a ela entre outros critérios os municípios candidatos
devem ter até no máximo 50.000 habitantes e atender a diversos compromissos, entre
os quais:

• Política de planejamento, a qual deve servir para melhorar o território, e não


apenas para ocupá-lo.

• Programar uma política ambiental baseada na promoção da recuperação e


reciclagem de resíduos, quando não for possível evitá-los.

• Utilizar os avanços tecnológicos para melhorar a qualidade ambiental e de


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áreas urbanas.

• Promover a produção e utilização de produtos alimentícios obtidos de maneira


natural e ambientalmente respeitosos, excluindo os produtos transgênicos.

• Entender que o fortalecimento da produção local deve estar relacionado ao


território: agricultores e moradores tradicionais devem preservar suas mais antigas
tradições.

• Programar, quando necessário, políticas e serviços públicos de defesa de


grupos geralmente excluídos.

• Promover a hospitalidade respeitosa e a convivência harmoniosa entre os


moradores e turistas, sem exploração, mas com valorização.

• Mobilizar e educar a consciência dos residentes e dos operadores turísticos


sobre o que significa viver em uma cittaslow e suas implicações, com especial atenção
para a sensibilização dos jovens, através de planos de formação específica.

De acordo com o estatuto cittaslow, o modelo é mais viável a cidades com baixa
densidade demográfica, visto que, o objetivo é evitar que estes municípios cometam
os mesmos erros das cidades que crescem sem controle. Segundo o idealizador do
cittaslow o modelo é mais adequado:

Para cidades pequenas, para evitar que cometam os  mesmos erros das
cidades que cresceram sem controle. Cidades pequenas devem preservar;
cidades grandes precisam revolucionar – e não sabem como. Cidades
grandes têm mais de uma alma: de culinária, de transporte, de energia, etc
e por isso têm que fazer mudanças por bairros, por setores. Quem mora
em cidades grandes, pode perder a noção de território, de pertinência e de
tempo. Atualmente os estatutos da Cittaslow só aceitam cidades associadas
com até 50.000 habitantes. Talvez este limite seja revisado na medida em que
o movimento se amplie.

Ademais de atender os requisitos do estatuto que se dividem em sete categorias


(políticas ambientais, políticas de infra-estrutura, promoção do uso de tecnologia,
fomentar a produção e consumos de alimentos naturais, valorização da cultura
autóctone, promover a qualidade de hospitalidade e promover a cultura cittaslow),
destas desmembram outros critérios que são adaptáveis a cada município de acordo
com suas peculiaridades (CITTASLOW, 2014).

A cidade candidata também deve pagar uma taxa de inscrição, receber a visita
de auditores e promover uma reunião da qual participem pelo menos três municípios
associados da rede. Posteriormente deve aceitar os termos do estatuto da associação
e se comprometer com políticas públicas que ajudem a criar um ambiente propício
para atingir os objetivos (CITTASLOW, 2014).
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É interessante mencionar que a maioria dos municípios participantes do


cittaslow também faz parte de outras associações como, por exemplo, associações
de “identidade da cidade” (cidade do vinho da cidade, cidade Querida, cidades
floridas, etc.) que realizam políticas e objetivos similares ao cittaslow. No Brasil outros
movimentos similares são Cidades Sustentáveis e Transition Towns – de âmbito
nacional – e movimentos do Nossa Cidade e Observatório da Cidade (RUSCHEL,
2012).

Em síntese o cittaslow é um projeto em desenvolvimento no sentido de que


se aprimora por etapas. Quando uma cidade se torna uma cittaslow tem que atender
certos requisitos; com o tempo estes devem ser mantidos e na medida do possível
melhorados e também deve viabilizar outras exigências que ainda não apresentava
no momento de reconhecimento (RUSCHEL, 2012). Portanto o cittaslow sustenta
a capacidade de estimular a convivencialidade entre os visitantes e atores locais,
estabelecendo uma relação social em que prevalece o interesse de um sujeito pelo
outro (ILLICH, 1976).

Atualmente existem 182 cidades distribuídas em 28 países certificadas como


cittaslow. Destas, o país com maior número é a Itália (75 cidades), também está
presente em vários países com culturas diferentes da européia, como China, Estados
Unidos, Nova Zelândia, Coréia do Sul e África do Sul. Pode ser proposto por políticos,
mas na maioria das vezes é um movimento que nasce na base, liderado ou proposto
por intelectuais da comunidade. Outro aspecto relevante esta em que a proposta
logra sucesso se tiver o apoio do poder público (CITTASLOW, 2014). Até a presente
data nenhum país da América Latina esta certificada, existem algumas candidaturas
da Colômbia, da Argentina e duas do Brasil, as cidades de Antônio Prado, RS e
Tiradentes, MG, ambas com processo interrompido devido a trâmites burocrático
(CASTILHO; CASTRO, 2010).

3. MODELO CITTASLOW APLICADO EM LEVANTO – ITÁLIA

Fundada em 1797, Levanto pertence à região da Ligúria, província da Spezia e


possui aproximadamente 5.574 habitantes (Censo 2010). Seu relevo é montanhoso,
característica aproveitada para o cultivo das olivas e das vinhas. Está a 47 km a oeste
de La Spezia e a 80 km a leste de Gênova, seu território faz parte do Parque Nacional
de Cinque Terre e da área marinha protegida Cinque Terre.

O Parque Nacional Cinque Terre é um parque Nacional de 3.868 hectares,


tombado como Patrimônio Natural da Humanidade e abrange cinco aldeias:
Riomaggiore, Manarola, Corniglia, Vernazza e Monterosso al Mar. Ademais inclui uma
parte das cidades de Levanto (Punta Masco) e de La Spezia (Campiglia Tramonti).
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FIGURA 1: MAPA DE LEVANTO

Fonte: https://www.google.com.br/search?q=levanto&source

Levanto esta em uma região compreendida entre montanha e mar. As


montanhas desde seus primórdios estavam representada pelos feudos pastoris e o
mar pelo comércio naval. Ainda em época romana surge a primeira aldeia denominada
Ceula, localizada nas montanhas. Após a queda do Império Romano do Ocidente (476
dC), o vilarejo se tornou parte do Império Bizantino. Em 1229 passa a ser parte da
República de Gênova. Na Idade Média, a vida econômica de Levanto era caracterizada
principalmente pela fabricação de mármore colorido chamado de vermelho Levanto.

Na configuração atual grande parte da população de Levanto dependia da


indústria de armas, mas com a queda do muro de Berlim (1989) e o fim da guerra fria
a cidade se viu sem perspectiva. A crise das indústrias de pequeno porte relacionada
com a indústria da guerra havia devastado a pequena economia local.

Era evidente e necessário pensar em um renascimento através de um novo


modelo de desenvolvimento, que buscasse preservar a identidade e as tradições.
Nesta época os campos montanhosos praticamente haviam sido abandonados pela
falta de infra-estrutura. A falta de trabalho levou os jovens a abandonar o campo. A
situação necessitava uma rápida uma intervenção, para tanto uma integração entre
o vale e o continente era fundamental. Nesta nova estratégia se devia aproveitar a
vocação natural para o turismo (Levanto esta na Costa Mediterrânea e se encontra
nas imediações do Cinque Terre, patrimônio da humanidade). Desse modo o desafio
era criar um modelo de desenvolvimento direcionado a um turismo sustentável.

Diante da situação a primeira iniciativa do então prefeito Marcello Eugenio


Schiaffino (1996 a 2000/ 2000 a 2005) foi enviar uma carta às 2500 famílias residentes
no município, explicando que apoiaria as idéia das pessoas que tivesse a vontade
de investir no município. Esta ação de suporte aos projetos locais mobilizou o
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empreendedorismo, a valorização de produtos e a identidade local.

Assim sendo, o trabalho começou na consciência: na comunidade como um


todo, na valorização dos modos de vida através do autoconhecimento de seu legado e
de estímulos a iniciativas e práticas locais. Neste sentido o cittaslow surge para Levanto
como modalidade alternativa para o desenvolvimento urbano, no qual se baseia na
identidade local, nos modos de vida, produção, conhecimento e na própria paisagem
tradicional do território. Na figura 2 é possível observar uma breve perspectiva histórica
das modificações da função econômica em Levanto:

FIGURA 2: BREVE PERSPECTIVA HISTÓRICA DAS MODIFICAÇÕES DA


FUNÇÃO ECONÔMICA EM LEVANTO

Períodos e acontecimentos marcantes em Levanto e na Itália:

Na época O vilarejo se Na Idade Média Em 1229 passa a Ocorre grande O então prefeito Diversifica a
romana surge a tornou parte do (Inicia-se com ser parte da abandono do Marcello Eugenio oferta turística
primeira aldeia Império Bizantino. a Queda do República de campo para o Schiaffino (1996 a baseando em seus
denominada O declínio do Império Romano Gênova benefício de 2000 /2000 a 2005) patrimônios
Ceula. velho mundo rural do Ocidente e (um Estado centros costeiros. Envia uma carta a naturais e
Predomínio da resultou na termina durante a independente Parte da 2500 famílias culturais
agricultura nas alienação transição para a situado na população de explicando que (materiais e
zonas altas e progressiva de Idade Moderna), Ligúria). Levanto apoiaria as idéia das imateriais).
feudos pastoris. habitações nas predomínio da Construção da dependia até pessoas que tivesse Atrelar a
aldeias, volta se fabricação de nova alteia na então da a vontade de diversidade da
para atividades mármore colorido zona baixa. indústria de investir no oferta com o
marítimas. chamado de armas, mas com município. Marca o Cittaslow e com a
vermelho Levanto, a queda do muro retorno as origens, a identidade local.
que origina o nome de Berlim (1989) busca pela O trabalho
da cidade. e o fim da guerra recuperação das realizado em
Produção de fria a cidade se tradições e a Levanto ganhou
vinhos, azeites e viu sem valorização do o prêmio da
ampliação das perspectiva. campo. Em 2001 se associação slow
rotas marítimas. torna oficialmente cities como
Cittaslow. cidade modelo
em 2003.

Fonte: Elaboração própria


Oficialmente Levanto tornou-se parte do cittaslow, em 2001. A admissão para a
associação teve lugar após uma revisão dos requisitos do Estatuto sobre a qualidade
de vida. Graças à associação ao cittaslow, Levanto teve a oportunidade de fazer se
conhecer por sua excelência histórico, artístico, ambiental, mas também humano. O
trabalho de excelência realizado em Levanto ganhou o prêmio da associação cittaslow
como cidade modelo “cittaslow 2003”, sob a seguinte justificativa:
Por ter sido capaz de explorar o potencial de aspectos culturais e ambientais,
o valor humano através da proposta e a aplicação de projeto original para o
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desenvolvimento de todo o território. Levanto tem sido capaz de atingir os


propósitos do movimento “Cittaslow”, transformando em poucos anos, todos
os aspectos sociais, econômicos e culturais da cidade e atingindo assim um
novo ambiente sócio- econômico mais favorável que é proposto hoje como um
piloto para um modelo de desenvolvimento de qualidade. (Tradução própria).

Atualmente Levanto possui política substantiva de planejamento territorial.


Também apresenta representativa gastronomia, baseada na produção e utilização
de produtos alimentícios obtidos de maneira natural e ambientalmente respeitosos,
o que desestimula o uso de produtos transgênicos. O azeite produzido em Levanto
é considerado um dos melhores do mundo e a oliva é considerada patrimônio do
município. Também se privilegia a hospitalidade respeitosa e convivência harmoniosa
entre os moradores e visitantes, adotando a politica de preço justo, sem elevação
artificial de preços por ser uma destinação turística. A maioria das hospedarias é em
casas das famílias locais.

Em Levanto não existem fábricas. A única atividade que aporta para a economia
do lugar é o turismo: através dos serviços de alojamento, restauração, instalações
e serviços. Desta forma o que se pode identificar através das entrevistas é que a
filosofia slow, esta impregnada na vida da comunidade e daqueles que a visitam. Em
função do turismo, Levanto acelerou o processo de modernização, hospitalidade e
serviços o que proporcionou reverter uma situação que até quinze anos atrás estava
restrita ao período de verão ou de alta temporada, atualmente a sazonalidade esta
praticamente eliminada.

FIGURA 3 – VISTA DE LEVANTO NA TRILHA PARA CINQUE TERRE

Fonte: Comune di Levanto


No que diz respeito às atividades em Levanto, a filosofia slow é aplicada através
de informação e sensibilização sobre as “melhores práticas” a serem implementadas
no território. Na cidade surgiram inúmeras associações voluntárias que atuam
efetivamente em parceria com a prefeitura, em diversas áreas: organização de
eventos, promoção do turismo, controle e manutenção das trilhas, assistência às
pessoas necessitadas, emergência, proteção civil, cultura, esporte, folclore, etc.
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Graças a esta colaboração se criou uma rede funcional de pessoas, em grupos


ou individualmente, que dão suporte ao organismo público em atividades gerenciadas
pela própria comunidade. Consequentemente a economia em Levanto parte do
principio de servir os atores locais, caracteristica elementar do desenvolvimento
territorial sustentável.

Entre os vários projetos implementados em Levanto estão a construçao da


depuradora consórcio Levanto-Bonassola, a obtenção da certificação ambiental
“ISO 14001”, o regulamento para as emissões acústicas, a utilização de pesticidas
na agricultura, a separação de resíduos, o monitoramento da qualidade do ar e a
utilização da energia fotovoltaica para as escolas.

O l’hotel paese, também foi um dos elementos decisivos para permitir a integração
do turismo, entre o litoral e o vale, o projeto levou à recuperação dos edifícios das
aldeias medievais do vale e do centro histórico da capital, sem aumento de volumes
existentes, estão proibidas novas construções, o que incentiva a transformação de
pequenas estruturas em espaços dedicadas à hospitalidade.

Este novo modelo de hospitalidade, espalhados por todo o território dentro


das estruturas de pequeno e médio porte também permitiu a criação de pequenas
empresas, composta de famílias residentes, fortemente ligadas ao território, oferecendo
produtos locais, bem como o desenvolvimento do comércio de alimentos locais. Este
projeto levou um novo impulso à agricultura, cujos produtos encontram-se no mercado
local, e criou-se um círculo virtuoso que permite alimentar a produção típica, elevar
a qualidade, e oferecê-lo para o visitante, convidando-o para apreciá-la no mesmo
ambiente onde foi produzido. Atualmente a cooperativa agrícola local desenvolve
a produção de azeite, vinho, mel, geléias, molho pesto e legumes em conserva, e
é responsável por conferir o produto a ser processado e comercializado. A cidade
também mantém um vasto calendário anual de eventos que enaltece a cultura local.

As questões de conservação e uso sustentável da região também produziram


prêmios, que não só têm atribuído visibilidade a nível internacional, mas também
garantiu que o projeto fosse integrado. Um estudo sobre a percepção da identidade da
comunidade foi realizado pela Universidade de Urbino e publicado pela editora Franco
Angeli e constatou que os atores locais entendem o cittaslow e o modo “lento” de viver
não como um slogan promocional, mas um elemento importante da identidade local
Levanto (ANTONIONI, GEMINI & MAZZOLI 2010).

No âmbito da UNESCO, Levanto participa do grupo de cidades que programam


o desenvolvimento sustentável e a promoção do patrimônio cultural intangível. O
“modelo Levanto” esta continuamente sendo estudado por especialistas, professores
e técnicos que desejam reproduzir as condições de aplicação em regiões que tenham
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a necessidade de uma idéia qualitativamente válida para estimular o crescimento.


As visitas de delegações estrangeiras são constantes (principalmente chineses e
japoneses), de universitários e diversas reportagens voltadas para a qualidade de
vida.

A política administrativa adotada pelo poder público também promove a


promoção e o patrocínio de eventos (aproximadamente 14 ao ano), ações que
estimulam a qualidade de vida, a identidade, a expressão artística e as tradições
locais. Em conseqüência a história de Levanto é marcada por sua vasta trajetória que
engloba sua nata vocação paisagística para o turismo e diversas culturas estabelecidas
no território em diferentes épocas que caracterizam sua rica identidade. O conjunto
proposto em Levanto, que aperfeiçoa sua vocação natural favorece a valorização
local e a política participativa o que se aproxima dos preceitos básicos do turismo
comunitário, solidário e sustentável.

4. CONSIDERAÇÕES

Em síntese o modelo cittaslow preconiza desfrutar sem pressa de cada


minuto e através de pequenas atitudes promove uma nova escala de valores, a qual
considera os modos de vida, o conhecimento e a própria paisagem tradicional do
território. Importante aclarar que o cittaslow se associa a zonas urbanas, municípios
de até 50.000 habitantes e se apresenta como uma alternativa de desenvolvimento
promovido por comunidades que valorizam a identidade cultural e os princípios da
sustentabilidade. Não se trata de uma moda ou uma tendência, o cittaslow é um
movimento real que possibilita aos atores locais e aos visitantes uma maximização
consciente da experiência turística (ARAUJO & GELBCKE, 2008; SAMPAIO, 2005).

Através das narrações dos entrevistados foi possivel perceber um sentimento


de pertencimento e um modo de agir que reconhece a identidade deste território,
revelando seu carácter autêntico e sua necessidade de refletir sobre o desenvolvimento
econômico sem abandonar sua natureza, o que leva a compreender que o movimento
cittaslow é um importante elemento da identidade de Levanto (ANTONIONI, GEMINI
& MAZZOLI 2010).

Entre os entrevistados houve unanimidade dos atores locais ao contestarem


que não possuem o desejo de trocar de cidade, também alegam estar satisfeitos com
a vida em Levanto e confirmam que o modo “lento” de viver permite ser mais produtivo
e desfrutar das coisas simples da vida, como poder estar cercado pela família e pelos
amigos.

A questão da valorização autóctone é outro fator importante e relevante, uma vez


que, através da capacidade de reconhecer e identificar valores locais a comunidade
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se fortalece, se conhece e se respeita. Portanto os atores locais de Levanto se


reconhecem através de sua identidade. Conforme cita o entrevistado 1: “os turistas
gostam das mesmas coisas que eu gosto”.

Também é possivel afirmar que o cittaslow propõe um olhar de desenvolvimento


local, visto desde dentro, o qual prioriza a identidade e o território. Neste sentido
o cittaslow pode resumir-se em uma palavra, equilíbrio, viver com a velocidade
apropriada (HONORÉ, 2012). Portanto os valores vinculados ao cittaslow sugerem à
escala humana (MAX-NEEF, 2012), ou seja, relaciona o cotidiano, a simplicidade, a
tranqüilidade, a identidade e a convivencialidade (ILLICH, 1976), relações humanas
estabelecidas pelo respeito ao que é próprio de cada cultura.

Assim sendo, cada cittaslow possue elementos distintos, não obstante em


comum se tem o desafio de manter e resgatar as características ecossocioculturais
de suas comunidades, como alternativa de desenvolvimento territorial sustentável
(SAMPAIO, 2011).

O entrevistado 3 indaga que “Viver em Levanto significa fazer continuamente


parte de um tecido social humano, vivenciar ritmos de vida sustentáveis e ter uma boa
qualidade de vida, o que pode significar atingir níveis de conhecimentos comuns”. Em
síntese o entrevistado 6 complementa que “cittaslow é a capacidade de guardar se
dentro”.

Logo, o modelo adotado em Levanto desperto a autoestima da comunidade


através do respeito a tradição, da proteçao da natureza e ao amor pela própria história.
Deve-se atentar para o fato de que não se trata de uma cidade ideal, mas sim de
uma localidade onde o turismo ocorre de modo planejado e através de uma gestão
participativa, na qual existe sensibilidade para o sujeito do turismo, o homem, seja na
figura de autoctone ou do visitante. (BAHL, 2003).

Através da análise exploratória e das entrevistas podemos considerar que


Levanto reflete os preceitos do cittaslow, os quais buscam através da valorização
da identidade, dos modos de vidas e do território desenvolve um turismo alternativo.
Contudo este modelo depende de uma forte vinculação entre todos os setores e
consequentemente uma junção de ações em prol do bem viver.

Deste modo as percepções dos atores locais sobre o cittaslow reflete um novo
olhar sobre o desenvolvimento, o território e o turismo. Conforme o entrevistado 9:
“viver em Levanto não é ser lento. É ter uma filosofia de vida com ritmos adequados,
onde se respeita a natureza, as estações do ano, é viver cada momento de modo
adequado”.

Quanto ao surgimento e desenvolvimento do projeto cittaslow em Levanto


todos entrevistados coincidem e afirmam que a adesão ao cittaslow trouxe mudanças
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significativas e positivas em um contexto geral, também argumentam que a consciência


sobre a valorização local foi uma das vertentes mais positivas da iniciativa. Do mesmo
modo as expectativas futuras são em torno da constante preocupação com a qualidade
de vida e com a preservação da filosofia slow.

Em seguida o entrevistado 3 menciona: “o estado de consciência individual


e coletivo cresceu, atualmente respeitamos mais a natureza, portanto Levanto não
mudou sua maneira de ser, não existe antes ou depois do cittaslow, o que existe
é uma percepção do estado de consciência e de valorização do local”. Segundo o
entrevistado 1 um município cittaslow deve seguir o ditado “chi va piano va sano e va
lontano” (devagar se vai ao longe).

Quanto a problemática abordada neste artigo: como conciliar a valorização dos


modos de vida locais com desenvolvimento territorial e atividade turística? Podemos
indagar que a partir da pesquisa exploratória sobre o movimento cittaslow e da
experiência descrita é factível um equilíbrio entre capital social e cultural que privilegia
o saber-fazer local e a capacidade dos atores locais de promover um desenvolvimento
com características endógenas desde que se parta de princípios predeterminados e
exista um trabalho de consciência autóctone que atribua significado aos atores locais
e aos visitantes.

Por conseguinte o cittaslow se aproxima ao turismo comunitário, solidário e


sustentável, não no sentido de ser um território perfeito, romantizado, mas no aspecto
de ser um projeto em desenvolvimento que possui como base um pensamento
ecossocioeconomista (SAMPAIO, 2011) na percepção de fortalecer e valorizar os
modos de vida, a comunidade, o diálogo, a confiança, a reciprocidade, a cooperação,
a convivialidade, a cotidianidade, o manejo sustentável do território, ou seja, como
menciona Max-Neef (2012) um desenvolvimento a escala humana.
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TURISMO, PATRIMÔNIO E IDENTIDADES

A FESTA DE SANTO EXPEDITO: ESPAÇO SAGRADO E CONSTRUÇÃO DO


TERRITÓRIO E TURISMO

Claudemira Azevedo Ito1

RESUMO
Este trabalho tem como objetivo o estudo da transformação do espaço
do Município de Santo Expedito/SP, considerando os conceitos de hierópolis e a
classificação entre espaço profano e sagrado. Santo Expedito/SP tem sua história
marcada pela devoção ao Santo Expedito. Na década de 1940, com a chegada de uma
família do Maranhão que trouxe em sua bagagem a imagem do Santo e a promessa
de construir uma capela. A devoção da comunidade local a Santo Expedito ocorre
desde a colonização do Municipio. O inicio da visitação de devotos provenientes de
outras localidades é incerto. Entretanto, considera-se como marco inicial da visitação
em massa, o dia 19 de abril de 1997, com a vinda de romeiros, a cavalo de São
Paulo. Desde então, o número de visitantes cresce ano a ano, chegando a receber
sessenta mil pessoas no dia do Santo. Isto se deve à agregação do diversos atrativos
na Festa de Santo Expedito, tais como a Cavalgada, a Festa do Milho, a feira de
artesanato e alimentação, o Leilão de Gado, sorteio de prêmios e shows. A construção
do Santuário com cerca de dez mil metros quadrados e alguns investimentos em
restaurante, lanchonetes e lojas para atender ao visitante contribuem para uma
nova territorialidade. Sendo que as manifestações ligadas aos ritos de devoção ao
Santo transformam-se em espetáculos. Os atos de fé dos peregrinos e romeiros se
transfiguram como atrativo turístico, atraindo o turista, que se move para a observação
do espetáculo. Dessa forma, o espaço da Missa campal, por exemplo, tempo e lugar
sagrado para o romeiro e peregrino, simultaneamente, é o mesmo do consumo de
alimentos e bebidas e ainda a contemplação do espetáculo pelo turista.
PALAVRAS-CHAVE: Geografia. Sagrado. Espaço. Território.

ABSTRACT
The Municipality of Santo Expedito / SP has a history marked by devotion to Santo
Expedito. In the 1940s, with the arrival of a family of Maranhão who brought in his
luggage and the image of the Holy promise to build a chapel. The devotion of the local
community to Saint Expedit occurs since the colonization of the City. The beginning
of the visitation of devotees from other places is uncertain. However, it is considered
as a landmark for the mass visitation, on April 19, 1997, with the coming of pilgrims
riding of São Paulo. Since then, the number of visitors grows each year, reaching
sixty thousand people receive on the day of the Holy.This is due to the aggregation of
several attractions at the Feast of St. Expedite, such as Cavalcade, the Feast of Corn,
a craft fair and food, Livestock Auction, raffle prizes and concerts. The construction of
the Shrine of about ten thousand square meters and some investments in restaurant,
snack bars and shops to suit the visitor contribute to a new territoriality. Since the events
connected with the rites of devotion to the Holy transformed into spectacles. The acts
1 Doutora em Geografia, Docente da Faculdade de Ciencias e Tecnologia, Campus de Presi-
dente Prudente-SP, Universidade Estadual Paulista- UNESP. ito@fct.unesp.br
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of faith of the pilgrims and pilgrims are transfigured as a tourist attraction, attracting
tourists, who moves to the observation of the show. Thus, the space of the outdoor
Mass, for example, time and sacred place for the pilgrim pilgrim and simultaneously is
the same as the consumption of food and beverages and even the contemplation of
the spectacle for tourists.
KEYWORDS: Geography. Sacred. Space. Territory.

INTRODUÇÃO

A Ciência Geografia interessa-se pelo estudo dos espaços e territórios, suas


características, conflitos e transformações. Nesse contexto o geógrafo depara-se com
as marcas espaciais produzidas pelas manifestações e práticas religiosas, ou seja, o
contexto espacial da religião. Em Santo Expedito-SP a presença religiosa na história
do Município é expressa desde a escolha de seu nome. A malha urbana cresceu
no entorno da Capela de Santo Expedito, que após diversas reformas e ampliações
determina a centralidade da Cidade. Hoje, o principal marco urbano ainda é a Igreja de
Santo Expedito, os principais festejos do Município são os organizados pela Paróquia
de Santo Expedito e ampliam a cada ano o número de visitantes e devotos.

Por volta de 1940, com a chegada família do Sr. Arnóbio Guimarães Tenório,
migrante vinda do sul do Maranhão, iniciou efetivamente a história do Município de
Santo Expedito-SP. Conta-se que na bagagem desta família foi trazida a imagem de
Santo Expedito, ao qual era devota, com a promessa de que, ao chegar ao Estado de
São Paulo e encontrasse trabalho e um lugar para morar, construiria uma capelinha a
Santo Expedito. A graça foi alcançada e Sr. Tenório cumpriu a promessa de construir a
Capela, inicialmente denominada “Capelinha da Vila Braga”, em alusão à Companhia
de Colonização instalada no local. Mas, predominou a utilização da denominação
“Capelinha”; e aos poucos, por conta da imagem de Santo Expedito existente na
Capela, o povo denominou a localidade de Santo Expedito.

Da Capela simples, construída de pau a pique, coberta por tabuinhas de cedro


e piso de terra batida, hoje, está em construção o Santuário de Santo Expedito com
dez mil metros quadrados. Das celebrações das missas dominicais para os poucos
habitantes locais, hoje, há missas campais para milhares de visitantes.

A Igreja de Santo Expedito tornou-se a maior referência da Cidade, polariza


e centraliza os serviços e o comercio, ou seja, foi o elemento determinante para a
hierarquização do “espaço homogêneo” encontrado pelos pioneiros da região,
importante na superação do “caos” e transformou-se no “centro” ou ponto fixo a partir
do qual foi edificado o Município.
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Estas transformações em Santo Expedito-SP instigam o estudo da Geografia


do Turismo, das relações entre o sagrado e o profano e suas manifestações espaciais,
o convívio do turista e peregrino, as manifestações religiosas e o poder político local.

SANTO EXPEDITO: O ESPAÇO SAGRADO

O processo de formação do espaço sagrado do município de Santo Expedito,


localizado no oeste do estado de São Paulo, está associado à devoção trazida pelos
migrantes que se instalaram na região na década de 1940. A imagem de Santo
Expedito e a promessa de construção da Capela em sua homenagem foram os marcos
iniciais das manifestações religiosas. Singelas e espontâneas se transformaram em
celebrações que ganham contornos de espetáculos.

A cidade de Santo Expedito apresenta em sua história fatos que ao serem


analisados à luz das pesquisas de Eliade (2002) apontam para o conceito de “espaço
não homogêneo”, o qual se apresenta em porções com características diferentes,
qualificando-se em sagrado e todo o resto.

Rosendahl (2002) ao analisar a relação de religião e necessidade de


espacialização do mundo sagrado afirma:

A ideia de que existem espaços sagrados e que pode existir um mundo


no qual as imperfeições estarão ausentes, conduz o homem a suportar as
dificuldades diárias. O homem não somente suporta as infelicidades da vida,
como também é conduzido a imaginar realidades mais profundas, realidades
mais autênticas que aquelas que seus sentidos revelam. O homem consagra
o espaço porque ele sente necessidade de viver em um mundo sagrado, de
mover-se em um espaço sagrado. O homem religioso, dessa maneira, se
exprime sob formas simbólicas que se relacionam no espaço: cada vez que
se ergue uma nova igreja, o grupo religioso tem a impressão de que cresce
e se consolida. Apesar da onipresença de Deus, existem espaços que são
mais sagrados que outros. Seja no budismo, no islamismo ou no catolicismo,
a hierarquização do sagrado está presente. É nos espaços sagrados de
peregrinação que essa diferenciação é mais nítida. (ROSENDAHL, 2002,
p.16).

Dessa forma, a qualificação de um espaço sagrado depende de um processo


de segregação espacial, ou seja, da não homogeneidade do espaço. Nesse sentido,
os conceitos de sagrado e profano são fundamentais para o entendimento dessa
heterogeneidade do espaço, em Santo Expedito-SP o sagrado é fundamental para
entender o processo de produção do espaço. Eliade (2002) utiliza o conceito de
“hierofania” para designar o “ponto fixo” ou um “centro”:
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É preciso dizer, desde já, que a experiência religiosa da não homogeneidade


do espaço constitui uma experiência primordial, que corresponde a uma
“fundação do mundo”. Não se trata de uma especulação teórica, mas de
uma experiência religiosa primária, que precede toda a reflexão sobre o
mundo. É a rotura operada no espaço que permite a constituição do mundo,
porque é ela que descobre o “ponto fixo”, o eixo central de toda a orientação
futura. Quando o sagrado se manifesta por uma hierofania qualquer, não
só há rotura na homogeneidade do espaço, como também revelação de
uma realidade absoluta, que se opõe à não realidade da imensa extensão
envolvente. A manifestação do sagrado funda ontologicamente o mundo.
Na extensão homogênea e infinita onde não é possível nenhum ponto
de referência, e onde, portanto, nenhuma orientação pode efetuar-se, a
hierofania revela um “ponto fixo” absoluto, um “Centro”.
Vemos, portanto, em que medida a descoberta – ou seja, a revelação – do
espaço sagrado tem um valor existencial para o homem religioso; porque
nada pode começar, nada se pode fazer sem uma orientação prévia – e
toda orientação implica a aquisição de um ponto fixo. É por essa razão que
o homem religioso sempre se esforçou por estabelecer se no “Centro do
Mundo”. Para viver no Mundo é preciso fundá-lo – e nenhum mundo pode
nascer no “caos” da homogeneidade e da relatividade do espaço profano. A
descoberta ou a projeção de um ponto fixo – o “Centro” – equivale à Criação
do Mundo. (ELIADE, 2002,p.17)

Este “Centro”, no Município de Santo Expedito-SP, sempre foi representado


pela Capela ou Igreja de Santo Expedito, a qual representa a orientação do “ponto fixo”
que estabelece o espaço sagrado do homem religioso. Na década de 1940, a região
do oeste Paulista, onde se localiza o Município de Santo Expedito contava com rede
urbana pouco densa e com população reduzida que vivia, sobretudo, na zona rural. A
Igreja na maioria das localidades se constituía o principal marco arquitetônico, assim
como, a manifestação do espaço sagrado, organizando o “caos” da homogeneidade
do espaço profano.

A Igreja de Santo Expedito representa a não homogeneidade do espaço


na leitura cotidiana, mesmo para os não crentes, estes lugares são considerados
especiais, únicos, ou espaços sagrados, os quais são qualificados como se abrisse
possibilidade de vivenciar uma outra realidade, diferente desta da existência cotidiana.

A fim de pôr em evidência a não homogeneidade do espaço, tal qual ela


é vivida pelo homem religioso, pode-se fazer apelo a qualquer religião.
Escolhamos um exemplo ao alcance de todos: uma igreja, numa cidade
moderna. Para um crente, essa igreja faz parte de um espaço diferente
da rua onde ela se encontra. A porta que se abre para o interior da igreja
significa, de fato, uma solução de continuidade. O limiar que separa os dois
espaços indica ao mesmo tempo a distância entre os dois modos de ser,
profano e religioso. O limiar é ao mesmo tempo o limite, a baliza, a fronteira
que distinguem e opõem dois mundos – e o lugar paradoxal onde esses
dois mundos se comunicam, onde se pode efetuar a passagem do mundo
profano para o mundo sagrado. (ELIADE, 2002,p.18)
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Nos dias de grande visitação em Santo Expedito-SP são observadas grandes


filas para adentrar a Igreja, os devotos esperam, às vezes, por mais de quatro horas,
sob sol forte e altas temperaturas, mas seguem resignados e respeitosos para tocar a
imagem de Santo Expedito e beijar sua mão. Alguns depositam flores e cartas aos pés
da imagem, além de deixar donativos nas caixas de coleta da Igreja. Isso tudo após
enfrentar a viagem, que algumas vezes dura a noite inteira. Há relatos de excursões
provenientes de até 800 km de distância de Santo Expedito-SP.

No interior da Igreja, as orações realizadas sob a imagem de Santo Expedito,


assim como os bilhetes e cartas mostram que o mundo profano é superado, abre-se a
possibilidade de comunicação com o Santo Expedito, como se existisse uma abertura
que levasse o devoto ao mundo dos deuses ou que trouxesse Deus e os Santos para
a Terra.

Pode-se refletir que a Capela e posterior Igreja de Santo Expedito, surgiram


com a necessidade do homem em romper a homogeneidade do espaço, qualificando-o
em sagrado e profano. A sacralização da Capela correspondeu ao imperativo de dar
segurança às famílias de migrantes, que viviam sob a ansiedade própria produzida
pela condição de migrantes em busca sobrevivência. Provavelmente, a escolha do
terreno não importava muito, algumas vezes está associada a fatores naturais, outras
vezes são frutos de visões e interpretações de sonhos, ou na busca de poder político
local.

Entretanto, o estabelecimento e criação do espaço sagrado é a expressão da


validação da posse do território pelos colonos/pioneiros que ocuparam o oeste paulista
nas primeiras décadas do Século XX. As extensas glebas de terras cobertas por
vegetação nativa eram entendidas como o Caos, era necessária, na visão dos pioneiros,
“a transformação do Caos em Cosmos, pelo ato divino da Criação. Trabalhando a
terra desértica, repetiam de fato o ato dos deuses que haviam organizado o Caos,
dando-lhe uma estrutura, formas e normas”. Eliade (2002,p22).

Quando se trata de arrotear uma terra inculta ou de conquistas e ocupar um


território já habitado por “outros” seres humanos, a tomada de posse ritual
deve, de qualquer modo, repetir a cosmogonia. Porque, da perspectiva das
sociedades arcaicas, tudo o que não é “o nosso mundo” não é ainda um
“mundo”. Não se faz “nosso” um território senão “criando-o” de novo, quer
dizer, consagrando o. Esse comportamento religioso em relação a terras
desconhecidas prolongou se, mesmo no Ocidente, até a aurora dos tempos
modernos. Os “conquistadores” espanhóis e portugueses tomavam posse, em
nome de Jesus Cristo, dos territórios que haviam descoberto e conquistado.
A ereção da Cruz equivalia à consagração da região e, portanto, de certo
modo, a um “novo nascimento”. Porque, pelo Cristo, “passaram as coisas
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velhas; eis que tudo se fez novo” (II Coríntios, 5:17). A terra recentemente
descoberta era “renovada”, “recriada” pela Cruz. (ELIADE, 2002,p.22)

Dessa forma, constata-se que a construção da Capela de Santo Expedito foi


a consagração do lugar em repetição à cosmogonia, equivale à afirmação de que a
estadia não é temporária, a família determinou a escolha daquele lugar para a sua
instalação permanente. Tratava-se da decisão vital para a família e a comunidade,
pois a partir da construção da Capela, estava indicada a necessidade de organizar e
ocupar, numa alusão de superação do “caos”, com a construção da vila, das vias de
circulação, organização da vida social e politica.

Ainda, a Capela de Santo Expedito, a partir de sua construção, na década


de 1940 , representou o “Centro do Mundo” para os habitantes do Município. Ao
apresentar o conceito de “Centro do Mundo”, Eliade (2002) faz a analogia de diversos
povos que constroem totens ou colunas como forma de ligação entre o Mundo dos
Deuses e a Terra. Estes construções dão origem à ideia de que o mundo se organiza
em torno delas, dai o simbolismo que todo deve ser planejado num “sistema” a
partir deste marco. É comum em algumas comunidades o “centro do Mundo” pode
ser representado por um fato geográfico, como uma montanha, pois representaria a
abertura ou passagem entre os mundos: sagrado e profano e vice versa.

Um grande número de mitos, ritos e crenças diversas deriva desse “sistema


do Mundo” tradicional. Não é o caso de citá-los aqui. Parece-nos mais útil
limitar-nos a alguns exemplos, escolhidos entre civilizações diferentes, e
que podem nos fazer compreender o papel do espaço sagrado na vida das
sociedades tradicionais – qualquer que seja, aliás, o aspecto particular sob
o qual se apresente esse espaço: lugar santo, casa cultual, cidade, “Mundo”.
Encontramos por toda a parte o simbolismo do Centro do Mundo, e é ele que,
na maior parte dos casos, nos permite entender o comportamento religioso
em relação ao “espaço em que se vive”. (ELIADE, 2002,p.24)

Dessa forma, em torno deste simbolismo organizou-se o Município de Santo


Expedito-SP, o espaço sagrado da Capela, e posteriormente a Igreja de Santo
Expedito, representou o “Centro do Mundo” para os primeiros habitantes (não índios)
da região, tornou-se o principal ponto de referência para o planejamento e crescimento
urbano. Até hoje, a Igreja de Santo Expedito está centro da Cidade, ao lado da sede
dos poderes constituídos: A Prefeitura Municipal e a Câmara de Vereadores. Assim
como centraliza os serviços e o comercio: Está ao lado da rodoviária, os bancos e o
centro comercial.

A importância exercida pela Igreja de Santo Expedito na História do lugar está


na determinação do nome do Município, assim como a inscrição do Brasão Municipal:
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“FID ET LABORE DUCO” – ou seja, com fé e trabalho tudo venço.

SAGRADO E PROFANO NA FESTA DE SANTO EXPEDITO

Desde a década de 1950 a Cidade de Santo Expedito-SP recebe devotos de


Santo Expedito, o número de visitantes cresce a cada ano, de algumas dezenas passa
de sessenta mil por dia no período de festa. Santo Expedito é invocado nos casos em
que é necessária intervenção imediata. Também é considerado protetor da juventude,
os estudantes recorrem a ele para ter êxito nos exames. Seus devotos confiam que
Santo Expedito não adia seu auxílio, atende na mesma hora ou dia aos que a ele
recorrem.

A Festa em louvor a Santo Expedito tem atraído um numero cada vez maior de
visitantes por diversos motivos: São poucas as Igrejas consagradas a Santo Expedito;
Divulgação de Santo Expedito promovida por fieis; Organização de festejos em vários
dias; Variedade de atrativos – feiras, shows, gastronomia, cavalgada.

A devoção a Santo Expedito se multiplica, pois os fieis que alcançam suas


graças geralmente promovem a distribuição “santinhos”- panfletos contendo a oração
de Santo Expedito, e ainda os dizeres: Em agradecimento, encomende e distribua um
milheiro desta oração. Dessa forma, os “santinhos” são distribuídos no comércio, nas
ruas, entre os amigos de tal forma que ampliam as possibilidades de convencimento
de novos devotos ao Santo.

A Festa de Santo Expedito se repete ano a ano, com alguns rituais que seguem
inalterados, com as Missas e visitação da imagem do Santo. Eliade (2002) analisa
esta necessidade em rememorar o ou reatualizar periódica do “tempo original” onde
o homem religioso tem um comportamento distinto daquele do tempo comum do
dia a dia, mesmo que sejam repetidas as mesmas atividades, este homem crê que
vivencia outra atmosfera impregnada do sagrado. É como se explica a importância da
participação da Missa de Santo Expedito, no dia 19 de abril, de cada ano, não vale
outra Missa, em outro lugar.

As múltiplas cerimônias que constituem as festas periódicas e que, repetimos,


não são mais do que a reiteração dos gestos exemplares dos deuses,
não se distinguem, aparentemente, das atividades normais: trata se, em
suma, de reparos rituais das barcas, de ritos relativos ao cultivo de plantas
alimentares (yam, taro etc.), da restauração de santuários. Na realidade,
porém, todas essas atividades cerimoniais se diferenciam dos trabalhos
similares executados no tempo comum pelo fato de só incidirem sobre alguns
objetos – que constituem, de certo modo, os arquétipos de suas respectivas
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classes – e também porque as cerimônias são realizadas numa atmosfera


imp regnada de sagrado. Com efeito, os indígenas têm consciência de que
reproduzem, nos mais ínfimos pormenores, os atos exemplares dos deuses,
tais como foram executados in illo tempore.
Assim, periodicamente, o homem religioso torna-se contemporâneo dos
deuses, na medida em que reatualiza o Tempo primordial no qual se
realizaram as obras divinas. Ao nível das civilizações primitivas, tudo o que
o homem faz tem um modelo trans humano; portanto, mesmo fora do tempo
festivo, seus gestos imitam os modelos exemplares fixados pelos deuses e
pelos Antepassados míticos. (Eliade, 2002,p46)

As entrevistas realizadas apresentam dados importantes que reforçam essa


ideia de reviver periodicamente este tempo do sagrado, não são raros relatos de
pessoas que participam das Festividades de Santo Expedito por décadas, repetindo o
ritual ano após ano. E ao serem questionadas justificam que são reabastecidas pela
fé, se sentem renovadas, por isso fazem todos os esforços de participar todos os anos.

Entretanto, a anual de Festa de Santo apresenta novos elementos ou atrativos


a cada reedição. A Cavalgada de Santo Expedito começou em 1997, se repete
todos os anos, com a adesão crescente de participantes, hoje congrega cerca de
1.500 cavaleiros da região de Presidente Prudente, de outras regiões de São Paulo
e de Mato Grosso do Sul. A Cavalgada composta de eqüinos, muares e bovinos,
tradicionalmente, inicia-se às 12:00 hs e, ao passar diante da Igreja, quando os
cavaleiros são aspergidos com água benta e recebem a benção do Padre.

Este é um ponto de grande atração de público, pois é uma rara oportunidade de


presenciar os animais e seus cavaleiros, com suas bandeiras, berrantes e indumentária
típica de tropeiro. Também é interessante notar a heterogeneidade entre os cavaleiros,
desde trabalhadores rurais, pequenos, médios e grandes proprietários de terras,
trabalhadores autônomos, servidores públicos, sendo ainda importante salientar a
grande presença de mulheres e crianças. Percebe-se a presença de famílias inteiras,
com elementos de várias gerações.

No período festivo, ao redor da Igreja de Santo Expedito, é organizada uma


feira, com ambulantes que apregoam todo tipo de mercadoria, de imagens de Santos
Católicos, terços, medalhas, calçados, bijuterias, confecções, utensílios domésticos,
ferramentas, brinquedos, além de artesanatos e barracas de alimentos e bebidas.

SILVA & SOUZA (2012) ao analisarem Trindade-GO e a Festa do Divino Espirito


Santo apontam que nas “cidades-santuário, as funções urbanas são fortemente
espacializadas associadas à natureza religiosa” p.360.

Ao lado das manifestações religiosas comparece o comércio, o que é muito bem


recebido pelos moradores locais, pois trata-se de ocasião de aumentar sua renda com
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a comércio, o serviço de estacionamento e até mesmo de cobrança de taxa de uso do


banheiro de sua residência. A Prefeitura Municipal é a responsável pela emissão dos
alvarás dos ambulantes, reserva área para os moradores locais e disponibiliza outras
para os comerciantes provenientes de outras localidades.

Ainda, as entrevistas realizadas entre os visitantes, apontam que a grande


maioria apoia a realização desta feira, não se incomodando com a convivência
do profano e o mundano na Festa Anual de Santo Expedito. A feira se tornou uma
componente da Festa e hoje já faz parte de sua tradição.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Município de Santo Expedito tem sua história intimamente ligada à devoção ao


Santo Expedito, desde a sua fundação a partir da primeira Capela, estava determinado
o centro, não somente da Cidade, mas de um ponto de peregrinação, de milhares de
pessoas que viajam durante horas para participar de rituais religiosos ou profanos.

A escolha do nome do Município corroborou com a continuidade da importância


da Igreja de Santo Expedito no crescimento da Cidade, ao mesmo tempo em que
colaborou com o aumento da visitação e devoção, pois facilita a localização do
Município, e ainda ressalta a identificação dele com o Santo Padroeiro, dessa forma,
foi benéfica confusão entre a denominação do Município e o Santo, não restando
dúvida de quem visita o Município vem em função da devoção a Santo Expedito.

Ainda hoje, a Paroquia de Santo Expedito é o elemento mais importante


da paisagem urbana, além disso, se destaca na organização socioeconômica
do Município. Suas atividades, especialmente no período de Festas é o principal
dinamizador da economia local. O grande fluxo de visitantes movimenta o comércio
local, atrai ambulantes de diversas partes do Estado de São Paulo, do Paraná e Mato
Grosso do Sul.

Durante as Festas de Santo Expedito os ritos religiosos são acompanhados por


manifestações culturais, com destaque à cavalgada, que rememora antigos hábitos
da região.

Os visitantes compostos por peregrinos ou turistas, participantes dos rituais


religiosos ou profanos compõem uma dualidade que se expressa na paisagem urbana.
Espaços e lugares são resignificados, são criados territórios para as manifestações
de fé e do mundo sagrado. Enquanto, acontece a turistificação do território, com a
manifestação de atividades para o turismo, onde o profano vende e compra mercadorias
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e serviços. Compreender esta dualidade é o grande desafio, sagrado e profano e


suas relações de complementaridade. Afinal de contas o turismo religioso movimenta
cerca de 15 milhões de reais por ano no Brasil. Os visitantes, homens religiosos ou
não, a população local o poder público e os gestores religiosos atuam como agentes
modeladores do espaço.

Santo Expedito-SP exerce a função de cidade religiosa, atraindo visitantes que


buscam a proximidade com o sagrado. A Igreja é o centro desta busca e a partir
dela novamente se revela a dualidade, de polarizar o “mundo sagrado” e o “mundo
profano”, pois também vai determinar a hierarquização do comercio e serviços no seu
entorno. É o espaço sagrado interagindo com o profano.

BIBLIOGRAFIA

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TURISMO CRIATIVO: UM FOCO NOS EVENTOS

Raquel Ribeiro de Souza Silva1


Marcos Aurélio Tarlombani da Silveira2

RESUMO: O turismo criativo é um conceito que prioriza a experiência turística e tem


por finalidade fazer com que as pessoas não sejam apenas espectadoras, mas sim
protagonistas de sua viagem, neste contexto os eventos surgem como estratégias de
comunicação que trazem nova vida às cidades, movimentam a economia em períodos
de baixa temporada e, além disso, são espaços de entretenimento que conduzem as
pessoas para a experimentação de emoções e tradições. Neste sentido, este artigo
apresenta e discute a importância social, econômica e cultural de dois eventos sob
a ótica da criatividade e da experiência turística, a Festa de Nossa Senhora do Pilar
e o Festival Sabores do Litoral, os quais são realizados anualmente no município de
Antonina, Estado do Paraná, utilizando-se da metodologia qualitativa, e apoiando-se
na pesquisa bibliográfica. Foi observado que os dois eventos podem ser considerados
criativos e de experiência, pois ambos proporcionam a oportunidade de envolvimento
entre a comunidade local e os visitantes, e contam ainda com os aspectos econômicos,
os quais favorecem o município em estudo, e os aspectos culturais e sociais que
valorizam os elementos tradicionais, fortalecendo a identidade local. Desta forma, ao
participar das atividades religiosas o visitante entra em sintonia com a fé e com os rituais
religiosos, experienciando algo de místico, enquanto que no festival gastronômico
há a possibilidade de absorção dos conhecimentos sobre os saberes e fazeres
dos pratos tradicionais do litoral paranaense. Estas análises indicam que ambos os
eventos trazem benefícios para o município e oferecem atividades diferenciadas e
enriquecedoras tanto para os visitantes como para os visitados.

PALAVRAS-CHAVE: Festas. Religião. Gastronomia. Turismo. Antonina.

ABSTRACT: The creative tourism is a concept that prioritizes the tourist experience
and aims to make people not only viewer, but protagonist of their trip. In this context,
creative events are communication strategies that bring new life to cities, move the
economy in periods of low season and, moreover, are entertaining spaces that lead
people to experiment emotions and traditions. Thus, this paper presents and discusses
the social, economic and cultural importance of two events, from the perspective of
creativity and experience tourism, The Feast of Our Lady of Pilar and The Coastal
Flavours Festival, which are held annually in the city of Antonina, at Paraná State,
by using qualitative methods, and relying on the literature research. It was observed
that the two events can be considered creative and of experience, as both provide
the opportunity to visitors engage themselves with the local community, besides that
there is the economic aspects which supports the municipality studied, and the social
and cultural aspects that give value to the traditional elements, by strengthening the
1 Bacharel em Turismo. Doutoranda em Geografia na Universidade Federal do Paraná. E-mail:
unesp2004@yahoo.com.br
2 Pós-Doutor pela Université de Paris 1 (IREST). Professor do Departamento de Geografia da
Universidade Federal do Paraná. E-mail: marcos.ufpr@yahoo.com.br
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local identity. Thus, by participate in religious activities the visitor can connect with
the faith and religious rituals, experiencing something mystical and by participate in
the gastronomic festival there is the possibility of absorption of knowledge about the
traditional dishes from the coast of Paraná. These analyzes indicate that both events
bring benefits to the county by offer a differentiated and enriching activities as much for
the visitors as much for the community.

KEYWORDS: Feast. Religion. Gastronomy. Tourism. Antonina.

INTRODUÇÃO

A Organização Mundial do Turismo (2011), um organismo das Nações Unidas,


com sede em Madri, na Espanha, afirma que o turismo mundial alcançará 1,8 bilhões
de viajantes até 2030 e por movimentar diversos setores da economia, atualmente a
atividade turística já corresponde por 9% do PIB mundial.

Neste cenário, o turismo possui diversas segmentações para o atendimento


das preferências e expectativas destes viajantes. O turismo criativo é um destes
segmentos, cujo conceito baseia-se na oferta de experiências e aprendizagem de
conteúdos locais, singulares e autênticos, proporcionando um encontro entre a
comunidade local e o turista.

Este segmento começou a ser implantado e comercializado em meados do


ano 2000, inicialmente em alguns destinos da Europa, Estados Unidos, e hoje está
presente na Ásia, na América Central e Oceania e mais recentemente na cidade de
Porto Alegre, na América do Sul (PORTO ALEGRE, 2013).

Alguns exemplos das atividades integrantes deste segmento são a participação


em oficinas de artes visuais ou artesanato regional, tocar em um concerto de um grupo
musical da cidade, realizar uma oficina de gastronomia regional, assistir a palestras
sobre temas de referência do destino, participar de movimentos e festivais criativos,
de manifestações culturais, entre vários outros.

Com base nesta conceituação de criatividade no turismo e sob a ótica da


experiência turística, este artigo tem como objetivo apresentar e discutir a importância
social, econômica e cultural de dois eventos anuais que ocorrem no município de
Antonina (PR) o Festival Sabores do Litoral e a Festa de Nossa Senhora do Pilar. Para
tal será empregada a metodologia qualitativa, tendo como base a pesquisa empírica
e bibliográfica.

OS EVENTOS SOB A ÓTICA DA CRIATIVIDADE E DA EXPERIÊNCIA


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Os eventos possuem características inerentes a prática do lazer, por exemplo,


o caráter lúdico e hedonístico destes acontecimentos, além disso, há que se
considerar os desdobramentos culturais promovidos nas localidades que os realizam
(DUMAZEDIER, 2008).

Bahl (2004) define o termo evento como um acontecimento que ocorre a partir
de um motivo e de atividades programadas para serem desenvolvidas em um local
e tempo determinados, congregando indivíduos com interesses e objetivos comuns.
Alguns destes motivos podem ser comemorar ou registrar algum fato, acontecimento
ou celebração, estabelecer formas de interação social, comercializar e divulgar
produtos, promover e divulgar localidades, bem como estimular a criação de fluxos
turísticos.

Segundo Meirelles (1999) os eventos podem ser classificados como artísticos,


científicos, cívicos, culturais, desportivos, educativos, empresariais, informativos,
turístico, folclóricos, governamentais, de lazer, políticos e religiosos.

Independentemente de sua modalidade os eventos são estratégias de


comunicação que trazem nova vida às cidades, além de serem espaços de
entretenimento que conduzem as pessoas para a experimentação de emoções. No
entanto, para tal faz-se necessário o uso da criatividade, que significa inventar coisas
novas ou inventar novas maneiras de se fazer coisas que já se está acostumado a
fazer (MELO NETO, 2008).

São diversos os estudos acadêmicos que versam sobre o tema eventos


inseridos tanto no segmento do turismo criativo como no turismo de experiência (MELO
NETO, 1999; MEIRELLES, 1999; BRITO; RICHARDS; RAYMOND, 2000; FONTES,
2002, BAHL, 2004; NETTO; GAETA, 2010), analisando os tipos de impactos que esta
modalidade de turismo causa nos visitantes e nas comunidades receptoras.

Os eventos criativos são uma parcela de um segmento turístico de mesmo


nome, estabelecido no ano 2000 por Greg Richards e Crispim Raymond, cujo conceito
baseia-se em oferecer aos visitantes a oportunidade de desenvolver o seu potencial
criativo por meio de experiências e aprendizados relacionados com as características
locais dos destinos (RICHARDS; RAYMOND, 2000).

De acordo com Richards (2003), o turismo criativo está pautado nas


necessidades e desejos das pessoas e não apenas nos ciclos de mercado, por
essa razão, os destinos com grande efervescência cultural e com grande oferta de
atividades de aprendizado são os que têm maiores vantagens sobre os demais, uma
vez que possuem melhores chances de atender às necessidades e aos desejos de
uma maior quantidade de turistas.

Desta forma, tratando especificamente dos eventos, a criatividade consiste


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basicamente em fugir dos velhos padrões quebrando-os com a imaginação, tendo em


vista sempre a interatividade dos participantes.

Melo Neto (2008) sugere algumas estratégias para eventos criativos tais como
a criação de eventos em dias especiais ou temáticos; a realização de parcerias com
órgãos públicos e entidades culturais; o incentivo ao envolvimento da comunidade
nos festivais de folclore, de cultura popular, artísticos, religiosos, entre outras
manifestações, para assim preservar a autenticidade local.

Ao se considerar as novas necessidades e valores do mercado, onde o


componente emocional e os sentimentos adquirem maior relevância que o componente
racional (GILMORE; PINNE, 1999), os eventos criativos apresentam-se também como
uma modalidade de turismo de experiência despontando como elementos impactantes
que se converterão em um futuro próximo no mais memorável de todos os setores da
economia.

Netto e Gaeta (2010) e Beni (2004) afirmam que o turismo de experiência não é
uma construção informe, mas uma tendência no mercado turístico que se dedica não
apenas em ofertar serviços, mas também experiências diferenciadas, tendo em vista
que atualmente o turista não se contenta em ser um mero expectador passivo ele quer
vivenciar sensações e tornar-se personagem de sua própria viagem.

Os produtos serviços ofertados a este novo turista devem contar com quatro
fatores: educação, entretenimento, estética, e evasão, assim devem permitir o
aprendizado de algo, oferecer diversão e acuidade visual, ao mesmo tempo em que
conduzem a perda da noção do tempo por ser uma atividade prazerosa, pois conforme
Dumazedier (2008) o lazer não é sinônimo de ociosidade.

De forma geral, os eventos criativos são uma modalidade de turismo de


experiência, os quais representam uma alternativa para o crescimento e a consolidação
do turismo local devido à dinamicidade com que movimenta a economia, amenizando
os efeitos da sazonalidade ao mesmo tempo em que se constitui em ferramenta de
marketing para o destino, estimulando a divulgação e a permanência da visitação
turística.

A POTENCIALIDADE DOS EVENTOS CRIATIVOS COMO UMA EXPERIÊNCIA


TURÍSTICA NO MUNICIPIO DE ANTONINA (PR)

Antonina é um município do estado do Paraná que está situado na mesorregião


metropolitana da capital Curitiba, entre a Baixada Paranaense e a Serra do Mar
(FIGURA 1).
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FIGURA 1: LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA MUNICÍPIO DE ANTONINA

Fonte: Abreu (2006)

Possui uma extensão territorial de 882 km² que corresponde a 0.4427% da


área total do Estado. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(2010), a população local é de 18.981 habitantes e a densidade demográfica é de
21,41 hab./km².

A economia local esteve ligada inicialmente a fase de exploração do ouro,


sendo seguido pelo ciclo da erva-mate, passando pelas atividades portuárias, pela
implantação das Indústrias Matarazzo, o seu apogeu e culminando com o declínio
econômico da indústria e conseqüentemente do município ocasionando um processo
de abandono local devido à ausência de empregos (IPHAN, 2012).

Desde então conforme observados nos arquivos de notícias sobre o município,


disponíveis na Biblioteca Pública do Paraná, a atividade turística é tida como a
“salvação” para a economia local:
“Antonina: só o turismo poderá salvá-la” (O ANTONIENSE, 1970).
“Construções, templos e monumentos históricos” (O ANTONIENSE, 1974).
“Turismo vai dinamizar Antonina” (VIVER BRASIL, 1982).
“Antonina pólo turístico do Estado” (O ESTADO DO PARANÁ, 1983).
“Antonina quer ser a Parati do Paraná” (O ESTADO DO PARANÁ, 1990).
“Prefeito quer transformar a cidade em capital do turismo” (O ESTADO DO
PARANÁ, 1993).
“História de Antonina atrai turista do mundo todo” (O ESTADO DO PARANÁ,
2004)
“Unidos para atrair o turista pelo paladar” (GAZETA DO POVO, 2011).
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“Turismo que resgata a cidade” (GAZETA DO POVO, 2013).

Atualmente, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e


Estatística (IBGE) a base da atividade econômica de Antonina concentra-se no setor de
serviços, sendo que o turismo de eventos, classificados como religioso e gastronômico
destacam-se neste cenário, com os dois eventos anuais, o Festival Sabores do Litoral
e a Festa de Nossa Senhora do Pilar.

A FESTA NOSSA SENHORA DO PILAR

Conta a história (PARANÁ, 2006) que no período da colonização portuguesa,


entre os anos de 1648 e 1654, Antonio Leão, Pedro de Uzeda e Manoel Duarte
receberam de Gabriel de Lara, que era Capitão Povoador e Sesmeiro de Nova Vila
(Paranaguá), três sesmarias no litoral do município de Antonina, e foram seus primeiros
povoadores.

Nos arredores destas sesmarias algumas mulheres devotas consagravam culto


em louvor a Nossa Senhora do Pilar e celebravam todos os anos, em 15 de agosto,
festividades em sua homenagem. Devido à popularidade destas festas, em 1714 D.
Frei Francisco de São Jerônimo, bispo do Rio de Janeiro, autorizou a construção de
uma capela em homenagem a esta santa.

A construção da capela marcou a fundação oficial do município em 12 de


setembro de 1714, mas sua autonomia municipal veio apenas em 29 de agosto de
1797. Assim, em 6 de novembro de 1797, no decorrer da festa de Nossa Senhora do
Pilar, o povoado recebeu o nome de Vila Antonina, e em 21 de janeiro de 1857, pela
lei nº14, a Vila de Antonina foi elevada à categoria de Comarca.

Observa-se que a história do município está intimamente ligada com a Igreja


Nossa Senhora do Pilar e a tradicional festa em sua homenagem, que acontece até
os dias atuais sempre no início do mês de agosto, tendo duração de treze dias com
a participação da comunidade local e dos visitantes que praticam o turismo religioso
movidos pela fé e pela emoção (SILVA, 2014).

Andrade (2006) define o turismo religioso como o conjunto de atividades com


utilização parcial ou total de equipamentos e a realização de visitas às localidades que
expressam sentimentos místicos ou suscitam a fé, esperança e caridade aos crentes
ou pessoas vinculadas a religião.

O fato de esta festa ter resistido ao tempo e continuar a existir na atualidade,


pode ser considerado um exemplo de evento criativo, pois sem deixar de lado os
valores espirituais, conseguiu agregar elementos inovadores e atrativos, tais como a
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queima de fogos, e a comercialização de produtos da gastronomia local e souvenires


da festa, capazes de agradar o público participante e ao mesmo tempo gerar lucro e
renda.

A participação nesta festa pode também ser considerada uma prática de


turismo de experiência, pela oportunidade de envolvimento entre a comunidade local
e os visitantes no evento, pois durante a festa as missas são realizadas durante o
dia na Igreja e no período da noite há uma procissão luminosa pelas ruas centrais do
município, momentos estes onde o visitante entra em sintonia com a fé religiosa local
experienciando algo de místico.

Cabe ressaltar que além do fluxo de pessoas durante a festa, nos outros
períodos do ano, de acordo com o pároco da Igreja Nossa Senhora do Pilar, padre
Marcos José de Albuquerque, há cerca de três mil pessoas provenientes de diferentes
regiões do país e também do exterior, que visitam o templo (GAZETA DO POVO,
2012), e conseqüentemente outros atrativos do município, movimentando assim a
economia local.

O FESTIVAL SABORES DO LITORAL

O vocábulo gastronomie, de origem francesa, traz consigo os preceitos de


comer e beber bem junto à arte de preparar os alimentos com o objetivo de obter
deles o máximo de satisfação, desta forma a relação entre o turismo e a gastronomia
é notória em diversos destinos nacionais e internacionais pelo fato de transformar a
culinária local, o modo de preparo de pratos tradicionais e o ato de se alimentar em
uma motivação turística (FAGLIARI, 2005).

No litoral do Estado do Paraná, a idéia de fomentar o turismo na baixa temporada


fez com que os sete municípios litorâneos, dos quais Antonina faz parte, se unissem
desde 2011 para a realização do Festival Sabores do Litoral, o qual neste ano de 2014
está em sua quarta edição, e conta com a participação de 34 restaurantes, que no
período de 06 junho à 06 de julho oferecerão cardápio tradicional do litoral composto
pelo barreado, peixes e frutos do mar (PARANÁ ONLINE, 2014).

O Festival Sabores do Litoral é um exemplo de evento criativo criado


estrategicamente para movimentar a economia dos municípios litorâneos, por meio
do turismo gastronômico, pois para o turismo a gastronomia apresentam potencial de
atratividade, sendo que o desenvolvimento de tais atrativos gera inúmeros benefícios
que podem ser de ordem econômica, social e cultural (FAGLIARI, 2005; RUSCHMANN,
2001).

Os benefícios econômicos e sociais são notáveis na geração de lucro e renda


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para os locais onde ocorre o Festival, por meio do preparo e comercialização dos
alimentos, enquanto que os benefícios culturais são estendidos também aos visitantes
por meio da experiência, a partir da divulgação dos conhecimentos dos saberes e
fazeres dos pratos tradicionais.

Em 2012, conforme divulgado no balanço final da segunda edição do festival,


27 estabelecimentos participaram do evento e comercializaram 1.994 pratos, o que
representou 19% a mais que a primeira edição realizada em 2011 (GAZETA DO
POVO, 2012).

Em 2013, de acordo com o divulgado pela Associação Brasileira de Bares


e Restaurantes do Paraná, o Festival Sabores do Litoral, em sua terceira edição,
atraiu milhares de turistas para o litoral paranaense, e aumentou para 31 o número
de restaurantes participantes do evento, o que representa 55 % a mais que a primeira
edição do mesmo, sendo que nas duas últimas edições os restaurantes venderam
mais de 3,5 pratos (ABRASEL, 2013).

Com relação aos benefícios culturais dos eventos gastronômicos, Morais (2011)
afirma que a culinária local representa uma referência de identidade, capaz de gerar
a aproximação entre turistas e comunidade local, pois a comida típica evidencia as
experiências vividas, ao mesmo tempo em que reverência o passado colocando-o em
relação com os que vivenciam o presente.

Mascarenha e Ramos (2008) complementam esta ideia afirmando que a de-


gustação de pratos regionais e típicos é uma das maneiras de experimentar a cultura,
assim o conhecimento dos elementos que compõem a refeição e o que o prato sig-
nifica para a comunidade local é um fato importante para o entendimento da refeição
como um item representante da cultura local.

Observa-se, portanto, que o ato de comer durante uma viagem é tão importan-
te, quanto o conforto dos transportes ou a qualidade dos meios de hospedagem, po-
dendo até mesmo ser fator determinante na escolha de determinado destino (POLÀ-
CEK, 1986).

Fagliari (2005) afirma que a busca por experiências gastronômicas e a satisfa-


ção que elas podem trazer ajuda a criar impressões favoráveis ou desfavoráveis da
viagem em sua totalidade, já que a alimentação é ao mesmo tempo forma de lazer e
prazer e um dos elementos essenciais da experiência turística, mais marcante que um
simples souvenir.

Dentro deste contexto, o Festival Sabores do Litoral vem consolidando-se como


um evento importante para região litorânea do Paraná, por meio de investimentos na
divulgação do mesmo, buscando estimular a visitação e a valorização da culinária
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regional.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Festival Sabores do Litoral e a Festa de Nossa Senhora do Pilar demons-


tram, ainda que timidamente, a aplicabilidade prática dos conceitos do turismo criativo
e do turismo de experiência desenvolvidos principalmente por Richard e Raymond
(2000) e Netto e Gaeta (2010).

Estes eventos são exemplos tanto de uma prática de turismo de experiência,


como do turismo criativo, pois no Festival de Sabores é possível experimentar a cultu-
ra local, a partir da divulgação e da criatividade no preparo dos pratos já consagrados
como tradicionais e na Festa de Nossa Senhora do Pilar, há a oportunidade de viven-
ciar momentos de sintonia com a fé, uma experiência religiosa.

Os benefícios culturais destes eventos são visíveis a partir do conhecimento


dos saberes e fazeres culinários transmitidos as novas gerações, fato este que para
Morais (2011) representa uma referência de identidade, bem como a continuidade da
tradição religiosa católica, que também possui traços identitários.

Os benefícios econômicos e sociais são igualmente notáveis na geração de


lucro e renda para os locais participantes do Festival Sabores do Litoral, por meio
do preparo e comercialização dos alimentos, e no aumento do fluxo de pessoas
provenientes de diferentes regiões do país e também do exterior, no período da Festa
de Nossa Senhora do Pilar.

Assim, os dois eventos apresentados neste artigo demonstram a capacidade


dos municípios se reinventarem com o intuito de manter as tradições ao mesmo tempo
em que agregam valor econômico e criatividade às atividades propostas.

Ambos os eventos possuem características de inovação e capacidade de


proporcionar experiências interessantes aos participantes, fazendo valer as palavras
de Pine e Golmore (1999), de que bens são tangíveis e serviços intangíveis, mas
experiências são memoráveis.

Por fim, observou-se que além dos aspectos econômicos, sociais e culturais
serem contemplados nos dois eventos apresentados, os benefícios gerados são
estendidos tanto à comunidade do município de Antonina como aos visitantes que
deles participam.
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Os discursos turísticos e a construção das identidades: o Plano


Aquarela e seus dizeres sobre o patrimônio natural

Fernanda Lodi Trevisan1


Aline Vieira de Carvalho2

RESUMO: Este trabalho tem como objetivo discutir as práticas discursivas (FOUCAULT, 1999)
que produzem identidades territoriais para o Brasil e que são destinadas a divulgação do Brasil
no exterior; almejamos entender como esses discursos são associados ao marketing turístico em
áreas naturais, e, em especial, vinculadas aos Patrimônios Mundiais Naturais (áreas, paisagens
ou monumentos naturais reconhecidos pela UNESCO como áreas de valor universal). Entende-
se que mudanças nos discursos institucionais podem representar novas formas de vontade de
verdade, substitutas das antigas verdades que se tornaram ineficazes; por isso, analisaremos os
discursos produzidos pela EMBRATUR e pelo Ministério do Turismo, entre os anos de 2003
a 2009. Neste contexto, nos centraremos no Plano Aquarela (EMBRATUR, 2005, 2009), que
objetiva consolidar a imagem do país, na tentativa de apresentá-lo como um país emergente e
moderno, mas ainda ressaltando antigos estereótipos como as belezas cênicas e a miscigenação.

Palavras-chave: Patrimônios Naturais, Identidade Territorial, Turismo, Plano Aquarela.

Abstract: This paper aims to discuss the discursive practices (FOUCAULT, 1999) that
produce territorial identities to Brazil and intended for the dissemination of Brazil abroad; we
aim to understand how these discourses are linked to tourism marketing in natural areas, and in
particular linked to the Natural World Heritage Sites (areas, landscapes or natural monuments
recognized by UNESCO as a universal value areas). It is understood that changes in institutional
discourses may represent new forms of will to truth, replacement of old truths that have become
ineffective; therefore we will analyze the discourses produced by EMBRATUR and the Ministry
of Tourism, between the years 2003-2009. In this context, we will focus on the Aquarela Plan
(EMBRATUR, 2005, 2009), which aims to consolidate the image of the country in an attempt
to presents it as an emerging and modern country, but also emphasizing old stereotypes as the
scenic beauty and miscegenation.

Key-Word: Natural Heritage, Territorial Identity, Tourism, Aquarela Plan.

1. INTRODUÇÃO

Este trabalho tem como objetivo discutir as práticas discursivas (FOUCAULT, 1999)

1 Geógrafa. Doutoranda em Geografia, UNICAMP. E-mail: fer.lodi@gmail.com.


2 Historiadora. Pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais da Unicamp (NEPAM), UNI-
CAMP. E-mail: alinev81@gmail.com.
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produzidas pela EMBRATUR e pelo Ministério do Turismo, entre os anos de 2003 a 2009 na
construção de identidades territoriais para o Brasil no exterior, associadas ao marketing turístico
em áreas naturais, e em especial sobre os Patrimônios Mundiais Naturais. Os sítios, paisagens
e monumentos naturais passaram a ser qualificados internacionalmente como Patrimônios
Mundiais Naturais após a Conferência para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural
e Natural, promovida pela UNESCO em 1972, cujo resultado foi o tratado internacional,
conhecido como Convenção de Paris. Almejamos entender como esses Patrimônios Naturais
são articulados e representados no exterior para compor um Brasil. E, claro, queremos refletir
sobre quais as consequências desses discursos nas práticas cotidianas dos turismos brasileiros.

Em linhas gerais, o Patrimônio Cultural e Natural foi definido como “a nossa herança
do passado, o que vivemos hoje, e o que nós transmitiremos para as gerações futuras”
(UNESCO, 2008, p. 05). De acordo com a proposta da Unesco, eles fornecem elementos
para a construção de nossa identidade. Como são componentes da configuração do espaço
geográfico, os patrimônios naturais (paisagens, território) podem ser formadores da identidade
territorial, conceito definido por Haesbaert (1999) e discutido na seção 3 deste texto. Além disso,
configurar-se como Patrimônio Mundial aufere destaque no contexto da indústria turística, pois
este atributo lhe confere status e distinção simbólica (PEIXOTO, 2000).

Atualmente, o turismo representa uma importante porcentagem do PIB de muitos países,


e em 2008 o turismo passou a representar 30% das exportações de serviços do mundo (MTur,
2009). O Ministério do Turismo divulgou que trabalha em projetos de valorização turística
de Parques Nacionais (MTUR, 2010) e aposta no melhor aproveitamento do potencial dos
recursos naturais para impulsionar o turismo (MTUR, 2014).

A análise do Plano Aquarela (EMBRATUR, 2005 e 2009) permite identificar a


transformação na ordem discursiva política sobre os elementos formadores da imagem do
país, na tentativa de apresentá-lo como um país emergente e moderno, mas ainda ressaltando
antigos estereótipos como as belezas cênicas, a hospitalidade e a miscigenação. Essa foi
uma contrapartida às propagandas turísticas principalmente das décadas de 1970 e 1980 que
exploravam as paisagens da cidade do Rio de Janeiro, o futebol, o carnaval (destacando a
mulata e o samba), as paisagens de sol e praia, a miscigenação cultural, e a Floresta Amazônica
(ALFONSO, 2006).

2. O Patrimônio Mundial Natural

A definição das áreas com características naturais relevantes como Unidades de


Conservação ou Patrimônios Naturais vai além das necessidades ecológicas de proteção
sustentável dos ecossistemas, da saúde e do bem estar da população ou como reservas
de informação genética. As áreas naturais são parte do universo da cultura, pois quando
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delimitadas, reguladas e intencionalmente conservadas cumprem a função de amostras da


natureza (SERRANO, 2007). Uma vez que boa parte dos ambientes naturais foi transformada
em urbano foi necessário criar espaços para abrigar seus remanescentes (SERRANO, 2007).
Essas áreas naturais possibilitam o entendimento da história natural e revelam as consequências
das interferências humanas sobre o Planeta (ZANIRATO e RIBEIRO, 2006).

A transformação conceitual do patrimônio no decorrer do século XX pode ser entendida


como o resultado das mudanças das concepções de história e cultura. Segundo Choay (2001,
p. 207-210), nesse período a noção de patrimônio se expandiu no campo cronológico (com a
incorporação de bens cada vez mais próximos do presente), no tipológico (com a incorporação
de edifícios modestos, centros históricos, plantas industriais abandonadas), no público (como
resultado do projeto de democratização do saber, da sociedade do lazer e turismo cultural) no
campo geográfico, pois houve a difusão da noção de monumento histórico para áreas fora da
Europa, onde teve origem e por tempos ficou restrita, e a “mundialização dos valores e das
referências ocidentais” (CHOAY, 2001, p. 207).

Choay (2001, p. 211) identificou que a partir da década de 1960, os patrimônios passaram
a ser valorizados por duas principais funções: como obras que propiciam o saber – valor de
uso; mas também como “produtos culturais, fabricados, empacotados e distribuídos para serem
consumidos” principalmente pela indústria turística, ao explorar seu valor econômico “por
todos os meios, a fim de multiplicar indefinidamente o número de visitantes”.

Assim, a noção de patrimônio passou dos monumentos históricos para a noção


de Patrimônio Cultural, este “entendido como um conjunto de bens culturais, referentes às
identidades coletivas” (ZANIRATO e RIBEIRO, 2006, p 251.). Deste modo, a natureza também
pode ser incorporada à noção de patrimônio cultural.

A concepção da natureza como patrimônio cultural foi oficializada internacionalmente


pela UNESCO com a Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural
de 1972, que definiu o património natural como as “formações físicas, geológicas e biológicas
excepcionais, habitats de espécies animais e vegetais ameaçados e áreas de valor científico, de
conservação ou estético” (UNESCO, 1972). Para Zanirato e Ribeiro (2006, p. 258) a adição da
natureza ao patrimônio cultural, “foi resultante da compreensão de que a identidade cultural
de um povo é forjada no meio em que este vive, e de que as obras humanas mais significativas
obtém parte de sua beleza do lugar onde se encontram instaladas”.
Por outro lado, a preocupação com a expansão urbana-industrial e a consciência da
incapacidade de alguns países conservarem seus patrimônios fomentou o surgimento da ideia de
um patrimônio universal e a criação de um espaço de cooperação internacional para a proteção
do mesmo. Essa ideia revela certa continuidade com pensamentos colonialistas dos séculos
passados, pois se mostra como uma forma de assegurar a proteção dos ambientes naturais nos
territórios dos países (agora) em desenvolvimento, ao legitimar sua propriedade soberana e,
entretanto, restringir sua exploração em virtude da conservação e transmissão para gerações
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futuras (LABROT, 1996).


A Convenção obriga os países-parte a estabelecer planos de gestão para os patrimônios
e incentiva sua candidatura na Lista do Patrimônio Mundial. Para isso, os sítios naturais devem
corresponder ao menos um dos critérios estabelecidos (estético, ecológico ou científico3) e
conservarem sua integridade (SCIFONI, 2003). É um processo complexo e rigoroso, o que
pode explicar a maior parte das inclusões pertencerem aos países desenvolvidos.
O Brasil está hoje entre os países considerados megadiversos. São cinco importantes
biomas, áreas marinhas e costeiras que configuram um mosaico das principais paisagens da
região tropical. Para proteção dessas áreas na escala nacional, foram criadas diversas Unidades
de Conservação ou ocorreram seus tombamentos através do Instituo do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional (IPHAN).
Atualmente a UNESCO reconhece 193 sítios como Patrimônios Mundiais Naturais e
sete deles estão no Brasil, conforme está apresentado na Tabela 01 com os respectivos anos que
receberam o título.
Tabela 01 - Patrimônio Mundial Natural no Brasil
Parque Nacional do Iguaçu (1986)
Mata Atlântica: Reservas do Sudeste (1999)
Costa do Descobrimento: Reservas da Mata Atlântica (1999)
Área de Conservação do Pantanal (2000)
Área de Conservação do Cerrado (2001)
Ilhas Atlânticas Brasileiras: Fernando de Noronha e Atol das
Rocas (2001)
Complexo de Conservação da Amazônia Central (2003)
Fonte: UNESCO, 2014, sítio.
Mas qual a importância do título de patrimônio da humanidade para a valorização
turística de um bem cultural? Luc Florent (2011), em pesquisa realizada com turistas na França,
concluiu que a imagem de um país desempenha um papel importante na escolha de um destino, e
que título de Patrimônio Mundial destaca alguns bens e oferece uma visão positiva do território;
mas, não necessariamente é determinante para que o turista escolha um destino. Em outras
palavras, os turistas veem o título da UNESCO como uma garantia de qualidade para o lugar,
mas, no caso dos patrimônios culturais menos conhecidos, a marca da UNESCO é maciçamente
usada para sua divulgação e, portanto, como atrativo turístico. Todavia, no caso dos patrimônios
já consolidados no mercado e mais conhecidos, a chancela da UNESCO, quando existente, é
pouco utilizada, pois com ou sem o título há intenso fluxo turístico. Assim, o autor conclui que
3 Os critérios para Promoção dos Sítios de Valor Excepcional são: (Vii) conter fenômenos naturais super-
lativos ou áreas de excepcional beleza natural e importância estética; (Viii) ser exemplos notáveis ​​que representam
grandes etapas da história da Terra, incluindo o registro da vida, significativa processos geológicos em curso no
desenvolvimento das formas terrestres ou de elementos geomórficos ou fisiográficos significativos; (Ix) ser exem-
plos notáveis ​​representando processos significativos ecológicos e biológicos na evolução e desenvolvimento de
água, ecossistemas terrestres, costeiros e marinhos e comunidades de plantas e animais; (X) conter os habitats
naturais mais importantes e significativos para a conservação in situ da diversidade biológica, incluindo aqueles
que contenham espécies ameaçadas de valor universal excepcional do ponto de vista da ciência ou da conservação.
(UNESCO, 2014, sítio).
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o título da UNESCO pode ser um real fator de atração; inserindo patrimônios desconhecidos
em rotas turísticas.

3. Marketing turístico e a identidade territorial

As identidades são elaboradas a partir das práticas discursivas. Os discursos são


construídos fundamentalmente pelas instituições, que são as responsáveis por selecionar o que
será silenciado ou destacado, e por difundir e naturalizá-los. Grandes mutações nos discursos
podem ser resultados de novas descobertas científicas, mas podem ser uma nova forma de
vontade de verdade, quem detém a verdade, detém o poder de coerção sobre os demais discursos
(FOUCAULT, 1999).

Castells (2010, p. 22-3) concebe a identidade coletiva como “a fonte de significado e


experiência de um povo”, é socialmente construída, sempre se dá em um contexto marcado pelas
relações de poder e os produtores de identidades e suas finalidades “são em grande medida os
determinantes do conteúdo simbólico dessas identidades”. A matéria-prima de sua construção
são os elementos fornecidos pela história, geografia, biologia, instituições produtivas, memória
coletiva, aparatos de poder, entre outros (CASTELLS, 2010).

Mesmo que os povos criem uma identidade que lhe faça sentido e lhe seja representativa,
esta pode ter uma significação diferente quando interpretadas por outras sociedades. A visão
hegemônica sobre o Brasil que predominou no exterior por muito tempo estava relacionada
ao exótico-erótico. Até mesmo instituições nacionais, como a Embratur, foram responsáveis
por manter e replicar esta representação do Brasil em propagandas turísticas que divulgavam
imagens eróticas das mulheres brasileiras entre 1970-1990 (GOMES, 2012). É possível verificar
essa postura no material publicado pela EMBRATUR na década de 1970 e analisado na pesquisa
de mestrado de Alfonso (2006).

FIGURA 01 – MATERIAL PUBLICITÁRIO


DA EMBRATUR NA DÉCADA DE 1970
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Fonte: ALFONSO, 2006.

O Plano Aquarela20204 (2009) – Marketing Turístico Internacional do Brasil (MTUR


e EMBRATUR, 2009) surge com a necessidade de atualizar da imagem do país no mundo,
distanciando-o da imagem de exótico-erótico, e o torne mais visitado por estrangeiros e garanta
“que o turismo seja uma atividade econômica cada vez mais importante para a geração de
divisas e empregos” (EMBRATUR, 2009, p. 22). Além da tentativa de diversificar os destinos
turísticos, essa mudança estratégica foi resultou da pressão dos movimentos sociais que, ao
longo da década de 1990, denunciaram a relação entre a exploração sexual no turismo e o uso
de fotos de mulheres sensualizadas nas campanhas publicitárias (GOMES, 2009 e 2012).
O Plano Aquarela tem como meta até 2020 passar do 6º maior PIB para o 3º maior PIB
turístico mundial. As expectativas são de que até 2020 haja um aumento de 113% no turismo
internacional e 304% da entrada de divisas com gastos estrangeiros no país (EMBRATUR,
2009). Para tal, a estratégia de promoção turística está alicerçada no Decálogo (Figura 02),
um conjunto de argumentos e valores, que individualizam o país frente aos demais destinos,
e despertam o interesse de potenciais turistas em conhecer o Brasil. Entre os argumentos,
encontram-se os patrimônios da humanidade.

Figura 02 – Argumentos e valores do Decálogo Brasil

4 O Plano Aquarela foi criado em 2003 e passa desde então anualmente por atualizações.
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Fonte: EMBRATUR, 2009.

Dessa forma, pode-se perceber que o cenário da política turística brasileira aponta para
investimentos em campanhas de marketing para valorização do território e das paisagens
naturais, incluindo os Patrimônios da Humanidade a fim de torna-los atrativos num contexto
concorrencial. Os dois Patrimônios Mundiais Naturais mais visitados por estrangeiros e também
mais divulgados no exterior são o Parque Nacional do Iguaçu (Figura 03) e o Parque Nacional
Marinho de Fernando de Noronha, ambos estão sob a gestão turística da concessionária
Cataratas do Iguaçu A.S. e sua filial, a EcoNoronha. A Cataratas do Iguaçu S.A. foi criada em
1999, com sede em Foz do Iguaçu com o objetivo de implantar, operacionalizar, administrar e
o aproveitamento econômico das áreas concedidas pelo ICMBio. Além dos dois Parques acima
mencionados, a Cataratas do Iguaçu S.A. também é responsável pela administração do Parque
Nacional da Tijuca, o Parque mais visitado do Brasil.

Figura 03 - Peça publicitária da campanha “Vire fã” (2005-2008)


veiculada no chile
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Fonte: <http://www.h2foz.com.br/noticia/foz-do-iguacu-ilustra-campanha-no-exterior>. Acesso em


16/05/2014.

A peça publicitária acima faz parte da campanha “Vire Fã”, realizada entre 2005 e 2008
na Argentina, Chile, Estados Unidos, Portugal, Alemanha e Reino Unido. Pode-se perceber a
intenção em mostrar o patrimônio natural junto à infraestrutura instalada para ampliar o contato
entre turista e a paisagem. A campanha “Vire Fã” e também a “Brasil Sensacional” (2008 a
2010) foram vinculadas exclusivamente no exterior.

Grande parte das peças publicitárias dessas campanhas faz uso de cenários constituídos
a partir das paisagens naturais. As paisagens, fragmentos do espaço geográfico, são portadoras
de sentido e carregam uma intencionalidade, pois elas são intencionalmente selecionadas, a fim
de dar maior eficácia ao aproveitamento turístico dos lugares,

Os patrimônios culturais e naturais traduzidos visualmente em paisagens são


transformados em símbolos que podem concorrer para a formação da identidade territorial. A
identidade territorial é uma identidade coletiva definida através do território, ou seja, nesse caso
o espaço geográfico é a dimensão real e concreta para sua operacionalização (HAESBAERT,
1999). Isso amplia seu poder simbólico e torna as identidades ainda mais efetivas. Uma vez
que as campanhas publicitárias visam o turista estrangeiro, pode-se falar na construção da
identidade transterritorial (HAESBAERT, 1999), caracterizada pelo pluriculturalismo, neste
caso e produto do relacionamento entre o universal (Patrimônios da Humanidade) e o particular
(especificidades do território brasileiro). Essas identidades transterritoriais estruturam-se pela
lógica do mercado e transformam patrimônios culturais e naturaiss em bens de valor econômico,
através do turismo.

4. Considerações sobre o trabalho

Esta pesquisa encontra-se em fase inicial, apresentaram-se aqui algumas ideias prelimi-
nares que fundamentaram o tema, a hipótese e objetivos da mesma.
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Mudanças nos discursos institucionais podem representar novas formas de vontade de


verdade, coercitivas e substitutas das antigas verdades que se tornaram ineficazes. Destaca-se
a elaboração de uma nova identidade territorial para o país no exterior, ancorada (não só, mas
também) nas áreas naturais - Patrimônios Naturais e Unidades de Conservação - com efeitos
práticos para a valorização turística do território brasileiro. Os Patrimônios Mundiais Naturais
contam com a certificação da UNESCO, o que representa simbolicamente, a garantia da excep-
cionalidade e integridade do bem. A prática do ecoturismo nos patrimônios naturais justifica-se
como uma estratégia para maximizar o acesso ao patrimônio e ao mesmo tempo gerar recursos
econômicos para sua preservação (BERTONCELLO, 2004).

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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TURISMO, COMUNIDADES INDÍGENAS E TOLERÂNCIA CULTURAL: UMA


RELAÇÃO POSSÍVEL?

TOURISM, INDIGENOUS COMMUNITIES AND CULTURAL TOLERANCE: IS THAT


A POSSIBLE RELATION?

Sandra Dalila Corbari1


Bruno Martins Augusto Gomes2
Miguel Bahl3

RESUMO
O turismo é um fenômeno que pode impactar negativamente as comunidades
receptoras, entretanto, a atividade turística também é vista como um instrumento para
a aproximação de comunidades, propiciando melhor compreensão entre os povos
e promovendo a tolerância cultural. Desse modo, esse trabalho teve por objetivo
abordar as contribuições do turismo para o fortalecimento da tolerância cultural entre
indígenas e não indígenas, no estado do Paraná (Brasil). Para isso, se apresentará
um marco teórico sobre o tema de estudo e em seguida os resultados alcançados
por meio de entrevistas qualitativas com pesquisadores e técnicos envolvidos com os
temas “povos indígenas” e “turismo”. Através da pesquisa foi possível compreender
que o turismo pode se configurar como uma importante via para o fortalecimento da
compreensão e tolerância cultural, contudo, antes do desenvolvimento da atividade
turística envolvendo comunidades indígenas é preciso promover a cultura dos povos
indígenas através da sua divulgação e educação cultural.

PALAVRAS-CHAVE: Turismo e sociedade. Cultura. Turismo étnico. Comunidades


indígenas. Tolerância cultural.

ABSTRACT
Tourism is a phenomenon that can negatively impact the host communities, however,
the tourism activity is also seen as an instrument for approaching communities, providing
a better understanding among the people and promoting the cultural tolerance. Thus,
this paper aims to address the contribution of tourism to the strengthening of cultural
tolerance in the state of Paraná (Brazil). For this, it will present a theoretical framework
about the topic and then the results obtained through qualitative interviews with
researchers and experts involved with the themes “indigenous peoples” and “tourism”.
Through the research it was possible to understand that tourism can be configured
as an important means for strengthening the understanding and cultural tolerance,
however, before the development of tourism involving indigenous communities is
necessary to promote the culture of indigenous peoples through the dissemination and
education cultural.
1 Graduação em Turismo (UFPR). Mestranda e Bolsista CNPQ do Programa de Pós-
Graduação em Turismo (UFPR). Email: corbari91@hotmail.com
2 Graduação em Turismo (UFOP). Mestre em Administração (UFLA). Doutorando em
Políticas Públicas (UFPR). Professor da UFPR junto ao curso de graduação em turismo. E-mail:
gomesbma@ufpr.br
3 Graduação em Turismo (UFPR) e Mestrado e Doutorado em Ciências da Comunicação
(USP). Professor da UFPR junto ao curso de graduação e mestrado em Turismo e nos de mestrado e
doutorado em Geografia. Email: migbahl@ufpr.br
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KEYWORDS: Tourism and society. Culture. Ethnic tourism. Indigenous communities.


Cultural tolerance.

INTRODUÇÃO

Desde os primeiros estudos referentes à sociedade, foi abordado que, a


segurança, o bem-estar e a igualdade entre os homens somente seria assegurada
com um “contrato social”. Apesar dos estudos nessa vertente contratualista como os
de Hobbes (1984), Locke (2010) e Rousseau (2003), tomando por modelo o primeiro,
o homem continua sendo “lobo do homem”. Nas palavras de Marconi e Presotto (1987)
os conflitos continuaram existindo, muitas vezes relacionados ao etnocentrismo,
supervalorização da cultura própria em comparação às demais.

Se por um lado há os conflitos, de outro a aproximação de culturas contribui


para o fortalecimento da etnicidade e da tolerância cultural. A tolerância cultural é
sinônimo de respeito, aceitação e apreço à diversidade e riqueza cultural, aos modos
de expressão e de manifestar a qualidade de humano, segundo a Organização das
Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO, 1995). Nesse sentido,
o turismo surge como um fenômeno sociocultural que promove a aproximação de
comunidades, um tipo de turismo que visa essa interação é o turismo étnico indígena.

O presente trabalho se caracterizou como um estudo exploratório, que visou


e teve como problema de pesquisa o seguinte questionamento: “O turismo étnico
indígena representa um meio de fortalecimento da tolerância cultural?”. O objetivo
geral da pesquisa foi analisar se o turismo