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N LIVROS

" Não há assunto proibi-

afligiam ouvintes e internautas. Agora,

versas são compartilhadas com todos n


CBNLIVROS

Flávio Gikovate NO DIVÃ DO GIKOVATE


Aos queridos amigos
Maria Célia e Silvio de Abreu,
pelas três décadas de intimidade
e lealdade - isso sem falar
das gargalhadas.
SUMÁRIO

Apresentação 9

O ciúme alimenta a imaginação 13

Inveja ou vaidade? Nenhuma das duas 25

Quando o sexo não vai bem 33

Paixão e amor são uma coisa só? 65

Traição: perdoar, sim; esquecer, jamais 75

Afetos em erupção 83

A mente doente 95

Desencontros na relação a dois 127

Contatos intrincados 169


APRESENTAÇÃO

Sempre achei que psicolo-


gia era tema de interesse geral, que devia ser tratado
em linguagem coloquial e ser acessível ao maior nú-
mero de pessoas. Assim, além da clínica, tenho feito
de tudo, desde 1977, para contribuir na divulgação
dessa ciência: escrevi para jornais e revistas, tornei-
-me âncora de programas de televisão, fui entrevis-
tado por incontáveis veículos, viajei o país inteiro
partilhando o que aprendi.
Há cerca de vinte anos participei de um famoso
programa de rádio em Nova York, pioneiro no trato
de assuntos relativos à sexualidade. Fiquei encanta-
do com a adequação do veículo a respeito de temas
tão delicados à nossa alma. foram criadas condições
para a livre manifestação de sentimentos e, o que
era melhor, em um contexto de sigilo absoluto. Des- que poderia receber. Agradeço também aos produto-
de então, alimentei a vontade de fazer algo pareci- res, aos técnicos e a todos que me ajudam, e muito,
do aqui. Esse sonho se realizou em agosto de 2007, na plena concretização de meu sonho.
graças ao gentil convite de Mariza Tavares. Sob sua Agradeço e parabenizo de modo particular ao
delicada, cautelosa e firme orientação, aprendi os pessoal da Editora Globo pelo belíssimo trabalho. Es-
primeiros passos, já que não é nada fácil falar a uma pero que ele possa ser útil ao maior número possível
plateia virtual e controlar o tempo, além de se po- de leitores de todas as idades.
sicionar diante de imprevistos de um programa "ao
vivo" e interativo. Flávio Gikovate
Com o passar dos meses, tenho me apaixona-
do cada vez mais por esse trabalho, que é mesmo
de uma riqueza extraordinária. De repente, recebi a
notícia de que a Editora Globo estava interessada
em transformar em livros alguns programas da CBN,
10 inclusive o Divã. Fiquei deslumbrado e preocupado 11

em proporções idênticas: qual será o resultado de


um empenho de sintetizar tantos programas, tantas
participações?
Mais uma agradável surpresa positiva. O resul-
tado do trabalho superou em muito minhas mais oti-
mistas expectativas. Ao ler o material que me foi en-
viado para a revisão, fui me encantando cada vez mais
com o projeto, agora também editorial. Trata-se de
um retrato fidedigno do que tem acontecido ao lon-
go desses mais de dois anos de encontros semanais
que tenho tido com ouvintes. Aliás, quero registrar
meu débito a eles, pelo carinho com que têm me dis-
tinguido. O público que me tem acompanhado com
regularidade só cresce, e essa é a maior recompensa
O CIÚME ALIMENTA
A IMAGINAÇÃO
O ciúme é parte integrante
do nosso modo de ser. Certamente tem bases bioló-
gicas, porque se manifesta de forma espontânea nas
crianças -especialmente quando nascem os irmãos -
e também nos animais domésticos. Pode ser estimu-
lado ou não por uma dada cultura, e a brasileira o in-
centiva, já que está entre as chamadas provas de amor.
Mas isso não é verdade absoluta. Pessoas que amam
menos e são essencialmente egoístas costumam ser tão
ou mais ciumentas do que aquelas bem apaixonadas.
O ciúme pode ser sentimental e, nesse caso,
envolve o relacionamento, por exemplo, da mulher
casada com a mãe (ou os filhos), algo que deixa o ma-
rido muito incomodado. Pode ser, mais do que tudo,
sexual - medo d~ que o parceiro venha a partilhar
intimidades físicas com outra pessoa. O ciúme se- Você parece ser uma pessoa que tem confiança
xual tende a ser mais intenso entre os homens, que em si mesma e talvez tenha a capacidade de acre-
não querem ser objeto de comparação com outros do ditar naquilo que simplesmente vê. Seu namorado
mesmo sexo e não suportam a ideia de ficar malfala- demonstra gostar mesmo de você e tem interesse em
dos por colegas e conhecidos. Até porque eles sabem agradá-la. Mas o ciúme é fruto da insegurança dele.
que as mulheres raramente partilham intimidades Quando a desconfiança tem razão de ser, o ciúme não
físicas com o sexo oposto sem algum tipo de envolvi- é patológico; quando é exacerbada e sem razão, está-
mento sentimental. -se diante de um ciúme que deve ser tratado como
O ciúme pode ser infundado ou ter base na reali- doentio. O ciumento inventa, fantasia, vê histórias
dade. Pessoas casadas com parceiros pouco confiáveis onde não existe. Seu namorado não tem propriamen-
têm ciúme calcado em possibilidades reais de traição, te ciúme patológico, mas enxerga em possibilidades
ao passo que aqueles que mantêm parceiros confiá- remotas algum tipo de correspondência de sua par-
veis são ciumentos porque sofrem de forte inseguran- te. Pode ser que os rapazes no teatro tenham mesmo
ça pessoal. O ciúme tem justificado inúmeras atitu- olhado para você, mas isso não é problema seu, nem
16 des autoritárias, ou violentas, o que considero, mais deveria ser dele. Deveria, sim, ser motivo de alegria 17

do que tudo, manifestação de descontrole emocional por ele ter uma namorada bonita e atraente.
e excessiva condescendência social com essa emoção.

* Minha parceira é ciumenta e possessiva. Acredita que ser


simpático é indício de que estou dando em cima das pes-
Como lidar com um namorado ciumento? Namoramos há soas. Se não atendo o telefone, é porque estou aprontando.
mais de um ano, nos amamos muito, mas ele imagina coi- Ela acha que é promíscuo eu sair com meus amigos. Já
sas que não têm o menor cabimento. Na primeira vez que fizemos terapia juntos, mas não rendeu bons resultados.
fomos ao teatro, cismou que eu estava roçando o braço no Essa situação me irrita muito. Como lidar com o ciúme?
rapaz sentado ao meu lado. Na segunda vez, disse que ha- (Henrique)
via dois homens de olho em mim e que um deles parecia
me conhecer. Nem havia percebido. Na época, ele morava Se você é, de fato, um homem leal, que não men-
na casa da ex-namorada e, mesmo assim, eu confiava nele. te, o problema está vinculado à insegurança de sua
Ociúme pode ser considerado doentio? (Marcela) parceira. Mas é preciso tomar um pouco de cuidado
com essa sua simpatia, já que pode ser um jeito se- precisará trabalhar com o ciúme. Mas, se tiver uma
dutor de lidar com as pessoas, ativando ainda mais o filha, talvez lá pelos dezesseis anos você goste do na-
ciúme e a possessividade de sua mulher. Ela parece morado que ela encontrar. Na prática, a vida é mui-
ter um medo muito grande de que você possa escapar to diferente daquilo que imaginamos. Ao imaginar,
do controle. Estamos, portanto, diante da imaturida- amplificamos tanto as coisas boas quanto as ruins.
de emocional dela, que deveria buscar ajuda psicoló- Aquilo que vai acontecer na vida real, daqui a dezoito
gica para que pudesse aprender a ter mais confiança anos, pode ser completamente diferente do que está
em si mesma e respeitar a individualidade do outro. passando pela sua cabeça hoje.
O melhor remédio para o ciúme é tratar muitíssimo
bem o companheiro, porque essa atitude diminui na-
turalmente o risco de você querer se afastar. Tenho 35 anos e namoro, há quatro, uma mulher de sessen-
ta. Somos divorciados, temos filhos de casamentos ante-
riores. Embora ela não goste de falar em casamento, já me
Tenho trinta anos e sempre acreditei na igualdade entre apresentou a muitos familiares e até ao ex-marido. Enfren-
18 homens e mulheres, principalmente na liberdade sexual. tamos uma crise por causa de meu ciúme. Ela comentou 19

Porém, quando converso com minha noiva sobre a possibi- que o professor de ioga tem um ar de conquistador. Notei
lidade de termos uma filha, meu lado racional é superado que ela olha para ele com um jeito diferente. Discutimos
por um sentimento absurdo de ciúme e possessividade ao por causa disso e ela pediu para terminar o namoro, já que
imaginar minha filha iniciando a vida sexual. Não consigo não aguentava mais meu ciúme exagerado. Decidimos dar
me sentir confortável com a ideia. Não gostaria de ser um um tempo. Eu a amo muito e não gostaria de me separar.
pai à moda antiga, moralista, mas tenho receio de que o É possível uma mulher voltar a amar um homem? Ou será
ciúme se concretize. Como trabalhar esse sentimento? que tudo isso está acontecendo para que ela fique com o
professor? (José)
Seu posicionamento é incompatível com a reali-
dade do mundo atual. E é interessante você ter trans- Aquilo que você notou como sinal de grande en-
ferido toda a cota de ciúme para uma filha que ainda tusiasmo dela em relação ao professor não me parece
não nasceu. Quer um conselho? Faça uma coisa de suficiente. Acho que você está imaginando coisas,
cada vez. Case, entenda-se bem com sua noiva, te- que o jeito de olhar dela é tão peculiar, e tão dife-
nha filhos. Quem sabe, você terá só meninos e não rente, que envolve um risco efetivo de que esteja en-
tusiasmadíssima pelo professor. Embora impossível de que será bem cuidado é uma irresponsabilidade.
não existir em intensidade nenhuma, o ciúme é uma Não é o caso de você ficar cerceando a liberdade de
inadequação, e não uma prova de amor: ele é prova sua namorada - ela é menina ainda, tem o direito
de insegurança de quem ama. Se o relacionamen- de ser do jeito que é. Mas, se você achar que essa
to de vocês já tem quatro anos, se ela já apresentou situação é muito aflitiva, que o deixa inseguro, mes-
você a muitos familiares e amigos, se vocês não le- mo gostando de sua namorada, deve tentar se afastar
vam em conta a diferença de idade, que poderia vir a dela, porque você sofre e faz sofrer. Pense duas vezes
ser um problema que a deixaria mais enciumada do antes de voltar.
que você, sua desconfiança está fora de propósito.
Não acredito que ela tenha deixado de amar você,
mas que esteja enjoada de atitudes que cerceiam o Tenho 41 anos e estou no segundo casamento. Meu filho
comportamento dela. adolescente, da minha primeira união, mora comigo. Estou
enfrentando dificuldades, porque minha mulher não aprova
a forma como educo meu filho. Antes, era rígido e brigava
20 Quero pedir um conselho. Tenho 52 anos e namoro uma me- constantemente com o garoto; agora, procuro orientá-lo, 21

nina de 22. Moramos por um ano juntos e agora ela cismou mostrando onde ele erra, e nosso relacionamento mudou
de voltar para a casa do pai. Morria de ciúme dela, não sei para melhor. Minha mulher me critica, diz que sou culpado
se pela diferença de idade, trinta anos, e, acho, a sufocava. por meu filho não me obedecer às vezes. Mas a desobe-
Ela é realmente muito bonita, chama muito a atenção. Vale diência não é tão frequente assim. Ela fica irritada com o
a pena tentar levar a relação à frente? (Antônio Carlos) garoto e isso acaba gerando discussões entre os dois, es-
tragando nossa convivência. Penso até em separação.
Não acho que seja diferença de idade, mas o jeito
de ser, o temperamento de sua namorada - talvez o Não é nada impossível que sua mulher esteja so-
fato de ela não passar a confiabilidade que você gos- frendo de um problema relacionado ao ciúme. Ela
taria, você tem lá suas inseguranças. Para as relações pode estar incomodada com a relação que passou a
funcionarem, é preciso criar duas mágicas: a mágica existir entre você e seu filho. Com sua mudança de
do encantamento amoroso, que deve ser bilateral, e atitude, você ficou mais generoso e carinhoso, o que
a mágica da confiança recíproca. Entregar o coração fez o relacionamento de vocês ter se tornado mais
na mão de alguém que não se tem certeza absoluta íntimo, mais graúficante, mais feliz. Essa convivência
pacífica pode ter aumentado o ciúme de sua mulher vezes, mesmo com uma mente clara e um pensamen-
e desencadeado essa crise de irritabilidade sobre as to racional que nos permitem aceitar tudo, um fato
pequenas malcriações de seu filho, que não têm gra- com carga emotiva acaba nos tornando mais apreen-
vidade efetiva. Você precisa deixar claro que não so- sivos com a virgindade, algo que não deveria ter a
brará outra alternativa senão a separação, se ela não menor importância em seu relacionamento. Cabe a
aceitar a intimidade saudável que existe entre você você ficar muito atento às crenças e tentar se livrar
e seu filho. Ela deve tomar consciência da gravidade daquelas que chegaram prontas, que não têm mais pé
do comportamento dela e do risco que está correndo nem cabeça, especialmente as ligadas à virgindade.
ao ser intolerante. Em algum momento, o menino vai
cuidar da vida dele, irá embora. Mas, até chegar esse
momento, é fundamental que você ajude a comple- Sofro de um ciúme perturbador, que me destrói lenta e con-
tar a formação dele. E sua mulher terá que ser com- tinuamente. Já pesquisei bastante sobre o assunto e creio
preensiva, companheira e condescendente. que o grande problema seja a baixa autoestima. Sofro o
tempo todo com a possibilidade de ver ou saber que a pes-
22 soa que gostaria de ter ao meu lado possa se interessar por 23

Mesmo depois de vinte anos de casamento, ainda sofro ao alguém. Claro que o fato consumado de uma traição doe-
encontrar o ex-namorado da minha atual mulher. Ele foi o ria, mas o que mais me incomoda é imaginar isso sempre.
homem com quem ela teve o primeiro relacionamento se- Como posso ter um sentimento tão negativo? (Eliane)
xual. Queria entender melhor meu ciúme.
Existem dois tipos de ciúme: o sentimental e o
Ainda que você estivesse absolutamente conven- sexual. O ciúme sentimental tem como característica
cido de que a virgindade é irrelevante, ao cruzar com o desejo de ser exclusivo ou o único objeto de aten-
aquele outro, com quem sua mulher teve a primeira ção, de interesse, de afeto. Exatamente como no caso
relação sexual, percebeu que uma crença antiga vol- de um bebê, que, ao nascer, provoca a primeira crise
tou a vigorar com força total: a de que a mulher só de ciúme no irmão mais velho, já que a mãe será,
pode ter um parceiro sexual. Crenças são pensamen- a partir daquele momento, compartilhada. Como as
tos que invadem nossa cabeça e vão tomando forma- relações afetivas adultas guardam semelhanças com
não são ideias próprias, mas normas pré-moldadas. E as infantis, mesmo pessoas mais amadurecidas têm
temos grande dificuldade de nos livrarmos delas. Às enorme dificuldade de se sentirem em segundo ou
terceiro lugar. Então, o ciúme provoca esse desejo de
ser o número um, a prioridade. No ciúme sexual, há o
medo terrível de ser trocada por outra parceira- situ-
ação extremamente sofrida. Assim, existem o ciúme
que deriva de a pessoa se achar incapaz ou incom-
petente de manter a outra ao seu lado e aquele que
deriva de ela ter escolhido um parceiro não muito
confiável e que, a qualquer momento, pode deixá-la.

INVEJA OU VAIDADE?
NENHUMA DAS DUAS
24
Quando se faz uma compa-
ração, é inevitável que surja um subproduto dela: a
inveja. Ninguém consegue comparar sem deixar de
hierarquizar - compara e não enxerga que duas pes-
soas, ou duas situações, são diferentes. Acha sempre
que existe uma melhor e uma pior, uma superior e
uma inferior. Quem se sente desprivilegiado quase
sempre se incomoda com a diversidade. E essa diver-
sidade pode ser notada em questões reversíveis, como
condição financeira, posição profissional e compe-
tência para agir com habilidade, e irreversíveis, como
beleza, altura, rapidez de raciocínio, inteligência.
Aquele que se sente diminuído pode ter dois
tipos de reação: a primeira é ficar entristecido em
relação às diferenças irreversíveis, mas pensar que
pode lutar e se esforçar para conseguir reverter a po- melhor do que os outros, e isso cria condições difíceis
sição nas situações reversíveis. A segunda, o que não para uma sociedade mais igualitária. É claro que, em
é raro, é reagir em ambos os casos com hostilidade um mundo onde as pessoas buscam destaque, haja
por sentir-se humilhado, como se fosse agredido pela também o inverso. Aquele que não se destaca pode
competência, pela virtude, pela sociabilidade maior, morrer de inveja. Inveja é uma sensação de humi-
pelo privilégio do outro. lhação que deriva da ideia de que o outro consegue
O ideal é que não se façam comparações com os mais coisas do que ele. É muito difícil imaginar a vida
outros, porque esse hábito pode deixar o indivíduo sofisticada sem vaidade, porque ela também estimula
muito envaidecido-e objeto de inveja das pessoas -ou ações construtivas. As pessoas, para se destacar, fa-
incomodado - ocupando o lugar do próprio invejoso. zem coisas muito interessantes. No entanto, a vaida-
de deveria ser mais controlada, para que tivéssemos

* apenas o lado positivo dela, e não o destrutivo.

No final do século XIX, o poeta parnasiano Raimundo


28 Correia, no poema "Mal secreto", diz: "Se se pudesse o Se a vaidade tem finalidade sexual, não é verdade, então, 29
espírito que chora/ Ver através da máscara da face,/ Quanta que as pessoas se arrumam para elas mesmas. (Marina)
gente, talvez, que inveja agora/ Nos causa, então piedade
nos causasse!". Parece que a relação entre vaidade e Todo mundo se arruma para se mostrar aos ou-
inveja tem atrapalhado a vida desde tempos imemoriais. tros, para ser bacana aos olhos das outras pessoas.
O quanto a vaidade e a inveja no mundo atual têm servido E não obrigatoriamente no sentido de sedução, de
como bloqueio e entrave para a felicidade se estabelecer? conquista erótica. É o prazer de se exibir em boa
forma. Ninguém usa suas melhores roupas em casa.
A vaidade é um problema para a felicidade, sem- Para saber quem é o cidadão verdadeiro, talvez terí-
pre. A vaidade corresponde a um prazer erótico de se amos de filmá-lo em casa. E a humanidade em casa
exibir, se destacar, chamar a atenção, ser diferente é certamente muito diferente daquela que aparece
para as outras pessoas. Evidentemente, podemos vi- circulando. Vaidade implica, além de gasto financei-
ver em uma cultura que estimula isso, mas não quer ro, tempo para se embelezar. Sabe-se que, desde os
dizer que temos de ser escravos do impulso. A vaida- tempos mais primitivos, o indivíduo pintava o rosto
de estimula aspectos competitivos, a vontade de ser e o corpo, coloca'va adereços e enfeites, fazia tatua-
gens, investia em penduricalhos e joias. É da nature- te decepcionante. Pode diminuir a motivação para a
za humana. Só varia conforme a cultura. vida acadêmica e foi, em boa parte, o que aconteceu
comigo. Prefiro ouvir o que os pacientes têm a me
dizer do que estar envolvido no ambiente acadêmico,
Tenho 27 anos e estudo veterinária. Meu pai foi servente conversando sobre coisas que envolvam disputa de
de pedreiro e boia-fria, eu não tinha dinheiro para fazer sabedoria - para ver quem é mais inteligente, mais
cursinho, precisei dedicar quatro anos da minha vida para culto, quem leu mais artigos. Só acho que não pode-
passar no vestibular. Queria me tornar pesquisadora cien- mos fugir muito de nossos sonhos quando nos depa-
tífica e, assim que cheguei à universidade, fui atrás dos ramos com certas dificuldades. O mundo encantado
professores. Ouvi mais de dez vezes "não" até que alguém não existe - o que há é o mundo das ciências, em
pudesse me dar uma chance. Ao longo dos últimos dois que pessoas de boa vontade trabalham e produzem.
anos, conheci dificuldades financeiras, materiais, ideológi- Mesmo no ambiente acadêmico existem as exceções,
cas e, principalmente, a relativa à vaidade humana. Estou indivíduos que estão lá realmente vinculados pelo
decepcionada com essa vaidade no mundo acadêmico, de gosto do saber. A carreira científica não é muito bem
30 modo que a pesquisa não é mais o reino encantado que remunerada. Já que você faz veterinária, pense na 31

um dia foi. Não vejo perspectiva de retorno financeiro, sinto possibilidade de trabalhar em indústria farmacêuti-
vontade de abandonar a carreira científica e partir para ou- ca onde também existe atividade científica, embora
'
tra área, como a empresarial. O que devo fazer para tomar não da forma como você imaginou. Talvez você tenha
essa decisão? (Maria) pela frente ainda alguns anos de estudos, quem sabe
uma pós-graduação, um mestrado, para depois se di-
Não passei por dificuldades financeiras nem so- rigir à atividade privada. Tudo em nome do respeito a
ciais para entrar na universidade, mas vivi com muito seu sonho, que é a pesquisa.
desgosto o ambiente universitário, porque tinha essa
mesma ingenuidade sua: achava que o ambiente aca-
dêmico, o ambiente do saber, era desprovido de vai-
dade. E é um dos lugares em que a vaidade humana
se manifesta de forma mais desvairada, tanto quan-
to no meio artístico, no das grandes fortunas ou dos
grandes negócios. A vaidade intelectual é realmen-
QUANDO OSEXO
NÃO VAI BEM
Há ainda quem duvide que
as fantasias eróticas durante a excitação sexual sejam
normais. Tudo, ou quase tudo, que acontece no sexo
consentido é normal. Mas, quando um indivíduo está
com uma mulher e pensa sempre em outra, ele pode
estar infeliz no casamento e se sentir "obrigado" a
manter relações sexuais. Para solucionar esse dilema,
inventa que está na cama com outra parceira.
O sexo é, antes de tudo, um fenômeno da ima-
ginação. Tanto que qualquer um consegue se excitar
apenas por meio do pensamento. Quando essas fan-
tasias não são compartilhadas, podem sinalizar que
há um distanciamento entre o par. O inverso também
é verdadeiro: ao dividir as fantasias, está-se diante de
um clima de comunhão envolvendo também o sexo.
Minha mulher tem quarenta anos e perdeu o desejo sexual. meu comportamento normal. Tenho alguma doença? Devo
Diz ela que é por causa da menopausa. Qual a influência da procurar ajuda? (Luciana)
menopausa no desejo sexual? Ele desaparece ou apenas
diminui por um tempo? (Hildo) Se for de sua vontade buscar realmente ajuda
psicológica para tentar entender o que se passa com
você, creio que sim. Desejo muito intenso e ativo é
Quarenta anos não é idade para menopausa, em-
muito mais da natureza masculina do que da femini-
bora hajam exceções. Em média, as mulheres come-
na. Mas mulheres que estão bem com seus maridos
çam a ter irregularidades menstruais por volta de cin-
têm prazer nas trocas de carícias eróticas. E sentem
quenta anos. A queda na concentração de estrógenos
prazer também em agradar seus parceiros. Parece
determina a dificuldade na ovulação e parece que,
que você não tem vontade de manter nenhum tipo
em um primeiro momento, baixa do desejo sexual.
ele intimidade sexual com seu marido. Acho que é
Alguns autores acham que o homem se torna sensível
mais um sinal de má vontade no convívio elo que efe-
à queda do estrógeno e acaba perdendo um pouco
tivamente falta de vontade sexual. Você não alimenta
o desejo pela mulher. Não creio que, nessa idade, a
36 nenhuma revolta ou raiva contra seu marido para que 37
diminuição elo desejo tenha a ver com a menopausa.
a falta de desejo seja justificada. Prefere terceirizar
Sua mulher pode usar esse fenômeno como descul-
esse cuidado, e isso pode deixá-lo perturbado ou
pa. Pode ser que existam desgastes na relação. Que
fazê-lo se sentir rejeitado e desprestigiado. Aparen-
você não seja tão"bonzinho" quanto parece, que sua
temente. você quer, mais elo que tudo, livrar-se dele
mulher esteja um pouco enjoada de malcria(;ôes c
c não dar liberdade para que ele busque fora o que
outros descompassos que podem contrihuir para a
não tem em casa.
diminui<.,·;'io do desejo se\.ual. ,\tribuir muita coisa à
\ ariação hormonal é sempre hem perigoso.

Tenho 54 anos e, há seis anos, já separada, conheci um ho-


mem pelo qual me apaixonei perdidamente. Não estamos
Sou casada há sete anos e não tenho vontade de fazer sexo. mais juntos, mas, curiosamente, desde que nos separamos
Meu marido tem total liberdade de se relacionar com ou- não sinto desejo sexual. Antes até me autossatisfazia; hoje,
tras mulheres, mas sente-se perturbado por causa disso. nem isso. Sinto um vazio profundo e não consigo pensar em
Pessoas mais próximas com quem converso não acham ter outra pessoa. Será que estou com algum tipo de bloqueio?
Evidentemente que, aos 54 anos, podem existir di- reza religiosa, dizia-se que a masturbação fazia mal
ficuldades ligadas a questões hormonais. Nessa fase, à saúde. A masturbação não tem nenhum malefício
como a quantidade de estrógeno cai, tende a ocorrer conhecido. É o modo pelo qual o indivíduo conse-
uma diminuição do interesse sexual. Mas, como você gue perfeitamente se satisfazer, talvez até de forma
estava perdidamente apaixonada e desde a separação mais intensa do que com uma mulher que não tenha
não teve mais vontade, nem mesmo de se masturbar, nada a ver com ele. Nesse caso, você poderia sair
é sinal de que ficou um tanto decepcionada com sua frustrado em vez de ter uma experiência agradável.
vida sentimental, talvez com os homens, e perdeu a Meninos que não cresceram nesse clima de pre-
condição de ter algum tipo de fantasia erótica, capaz conceito masturbam-se com frequência e se valem
de ativar a masturbação. Acho que você deveria, em de material pornográfico da internet. Ou você tem
primeiro lugar, buscar aconselhamento com um gi- relação sexual com alguém que possa compartilhar
necologista, até para ver se há alguma razão orgânica sentimentos, amizade e intimidade ou você busca
- alteração no ovário ou na tireoide - que imponha na fantasia algo mais gratificante para satisfazer seu
a diminuição do entusiasmo sexual. Caso fique pro- desejo sexual. Masturbação não tem limite. Garanto
38 vado que não há, você pode estar muito magoada e que não faz mal à saúde e faz bem à cabeça. 39
traumatizada com a ruptura do relacionamento. Se
não quiser decretar sua aposentadoria definitiva aos
54 anos, deveria buscar ajuda psicológica. Porque, Tenho 51 anos, estou casado há 25. Nos últimos tempos,
afinal, ainda é bastante moça, e muita água pode ro- enfrentei uma fase de abstinência sexual por causa de um
lar embaixo de sua ponte. problema de saúde de minha mulher. Busquei uma solução
extraconjugal: comecei a me relacionar com uma amiga,
mas os encontros se tornaram mais intensos e percebi que
Minha mulher não pode ter relações sexuais no momento, o fim de meu casamento era o melhor caminho. Porém,
então comecei a me masturbar. Tenho 69 anos. Queria saber não vejo com bons olhos a ideia de ter que dividir tudo o
se é perigoso duas ou três vezes por semana. (Manoel) que construí e os bens que conquistei com tanto sacrifício.
Teria também que pagar pensão aos meus dois filhos e,
Imagine! Se fizesse mal, você e todos os homens, portanto, minha situação financeira ficaria limitada para
desde a puberdade, já teriam ficado doentes. Anti- que pudesse reconstruir minha vida. Tenho dúvidas se a re-
gamente, por puro preconceito, inclusive de natu- lação com minha amiga vai progredir ou se é apenas uma
aventura. Gostaria de conversar com minha mulher sobre Sei o quanto um homem pode se sentir diminuí-
terminar o casamento, mas temo machucá-la, porque ela é do e humilhado em virtude desse aspecto do corpo.
depressiva. (Luís) Em nossa cultura, dá-se muita ênfase ao tamanho
do pênis. E esse assunto é mais relevante entre os
Seria muito bom que você conversasse com ela, homens do que entre as mulheres. Você diz que tem
porque, se tiver medo de falar, talvez termine uma um pênis muito pequeno, mas ele está muito pou-
história que poderia ser solucionada de melhor for- co abaixo da média, de doze a catorze centímetros
ma. Quando houve essa dificuldade com sua mulher, quando ereto. Não é nenhuma diferença monumen-
você foi buscar uma alternativa fora de casa e, natu- tal, nada que seja efetivamente problemático, a não
ralmente, criou um impasse, já que passou a fazer ser em sua cabeça. Quem sabe, na construção de
comparações entre o que é sua vida conjugal, já des- sua história você tenha sido objeto de deboche ou
gastada, com a relação nova. Existe uma vantagem de brincadeira de outros meninos. Coisas assim dei-
no novo relacionamento, que pode não se sustentar xam a gente com sensação de inferioridade, enver-
depois da separação. É preciso levar em conta ainda gonham, constrangem e fazem perder a coragem de
as desvantagens que você mesmo registrou, como seu abordar uma mulher. A pornografia ajuda a alimen- 41
40
patrimônio e provável afastamento dos filhos. Con- tar a propaganda da indústria de produtos e equi-
verse com firmeza com sua mulher, sem aflição. Se pamentos que têm por objetivo o alongamento do
ela é depressiva, vai ficar muito pior caso você caia pênis. Que eu saiba, não existem técnicas seguras e
fora, sem que tenha discutido seriamente a possibili- comprovadas com esse objetivo. Não sei se é mito-
dade de reconstruir o casamento. talvez seja oportunismo, algo de caráter mais comer-
cial. Mas tenho uma boa notícia para você: a grande
maioria das mulheres não liga para o tamanho do
Tenho 25 anos e sou virgem, porque meu pênis é muito pe- pênis. Aliás, liga, mas no sentido inverso: detesta
queno - dez centímetros quando ereto. Eu me sentiria en- pênis muito grande, porque machuca, atrapalha a
vergonhado se arrumasse uma namorada, pois não gostaria relação sexual. Se você tiver coragem de encontrar
de manter relações sexuais com ela em razão dos traumas uma namorada, pode explicar a ela seus conflitos e
que tenho. Até evito usar calças coladas ou sungas. Preci- suas inseguranças. Se ela for uma criatura legal, será
so de uma solução. Os tratamentos para aumento de pênis uma parceira solidária. E todos os seus problemas
funcionam? Ou são apenas um mito? (Marcelo) vão se resolver com muito mais eficiência do que
por intermédio de um recurso cirúrgico arriscado e Há três anos conheci um homem pela internet. Demorou
absolutamente desnecessário. muito até que eu soubesse a verdadeira identidade dele
e nos conhecêssemos pessoalmente. Estou com 48 anos e
ele com 63. Temos muitas afinidades e conversamos qua-
Tenho 24 anos e namoro um homem de 32. Temos ótimo se todos os dias, mas são poucas as oportunidades de nos
relacionamento, mas estamos com dificuldades na área relacionarmos mais intimamente. Uma vez, tivemos uma
sexual. Ele diz sentir atração por mim, porém não quer relação sexual, porém ele não chegou a ejacular. Fazemos
manter relações. Afirma que me respeita muito e, por isso, o chamado sexo virtual, mas parece que ele tem medo e
não consegue me ver como mulher para fazer sexo. No iní- não quer manter uma relação mais próxima comigo. Ele
cio de nosso namoro, criei dificuldades para que ele não é separado e mantém fotos da ex-mulher por toda a casa.
achasse que eu era uma qualquer. Como fazer para rever- Com a enteada, que é casada, tem uma relação de amizade,
ter essa situação? contudo vive dizendo que ela é a cara da mãe quando mais
jovem. Nossa relação tem futuro? (Maria)
Quando uma moça tem muitas qualidades, é
42 vista pelo homem como alguém que pode ser es- Há coisas mais ou menos evidentes nessa histó- 43

posa e mãe de seus filhos. Isso acaba gerando um ria. Uma delas é que esse senhor não tem a menor in-
clima um pouco menos erótico do que o ideal. O ho- tenção de assumir um compromisso ou compor uma
mem fica sempre um pouco constrangido de chegar, relação de futuro sólido, como talvez você gostaria
como se fala na gíria, com uma pegada mais forte. que acontecesse. A impressão é que ele também tem
Então, acho que só há uma maneira de sair desse certa limitação na área sexual, de maneira que o sexo
impasse: você precisa criar, muito lentamente, um virtual parece ser mais conveniente e menos indig-
clima erótico. Porque esse respeito e essa admiração no. Porque, você sabe, os homens se sentem às vezes
tão grandes que ele sente por você são ótimos nas humilhados, diminuídos, quando têm algum proble-
23 horas e meia do dia, mas, no momento da intimi- ma na área sexual. Aparentemente, ele está contente
dade física, é mais interessante que você seja vis- com a situação atual: gosta de conversar com você e
ta, digamos, como uma mulher qualquer, para usar do tipo de sexo que fazem. O fato de haver resíduos
sua expressão. É nesse contexto que ele vai sentir o da relação anterior não é nada muito significativo, a
fascínio erótico por você e ter coragem de se soltar não ser que não exista o intuito de desfazer o passado,
sexualmente. em deixar espaço ·aberto para uma nova relação. Essa
situação em que vocês estão só vai mudar se você mais gratificante se compõe quando existe uma vida
pressioná-lo, condição que poderá fazer com que ele sexual rica. Às vezes, as pessoas me perguntam qual é
rompa a relação. Parece que o futuro não será muito a importância do sexo no casamento e respondo sem-
diferente do presente. pre: o sexo não tem importância nenhuma, desde que
vá bem! Quando vai mal, aborrece, porque o indiví-
duo fica se sentindo humilhado, tendo que implorar
Tenho 52 anos e sou casado há 27 com uma mulher de 54. carinho, que se masturbar o tempo todo. Na idade
Nossa vida sexual nunca foi satisfatória. Não desconfio de de sua mulher, podem existir problemas na tireoide e
traição, mas ela nunca teve grande interesse sexual por até mesmo alterações hormonais por causa da meno-
mim. Não toma a iniciativa, nem fala abertamente sobre o pausa. No entanto, isso não justifica a atitude atual,
assunto. Desconfio de que tenha algum trauma de infância. já que desde sempre ela não foi muito interessada em
Já sugeri procurarmos um terapeuta, porém não adiantou. sexo. Nunca é tarde, Nelson. Não é tarde até mesmo
Ela diz que a explicação está nos problemas de tireoide para você conversar claramente com sua mulher. Va-
e na depressão. Estou cansado de implorar carinho e me mos ver se ela reage positivamente.
44 masturbar. Penso em dar um basta no casamento, mas não 45

sei se é tarde para isso. (Nelson)


Como reagir quando se contrai uma doença sexualmente
Talvez você tenha sido, ao longo desses 27 anos, transmissível do parceiro? Como superar essa dor senti-
condescendente, tolerante além da conta. Não acho mental? (Maria)
que as mulheres tenham desejo sexual pelos homens
da mesma forma que os homens têm por elas. Não É muito desagradável passar por esse tipo de
acredito que olhem para eles e sintam aquele dese- experiência. Mas não sei se estamos falando efetiva-
jo parecido com o que os homens sentem quando mente de uma dor que possa ser chamada de senti-
olham para o corpó jovem e bonito de uma mulher. mental. Acho que as mulheres têm dificuldade de en-
Mas acho que o que faltou à sua mulher foi uma ati- tender como funcionam a psicologia e a sexualidade
tude positiva, quase generosa de querer dar prazer. masculinas, e é absolutamente essencial que se con-
Ainda que não sentisse grande desejo visual, ao tro- siga separar infidelidade sexual de infidelidade senti-
car carícias com você, ela poderia se excitar e sentir mental. A infidelidade que pode trazer para dentro de
satisfação. Todo mundo sabe que uma intimidade casa doenças sex~almente transmissíveis é praticada
com prostitutas ou com mulheres com as quais o ho- a palavra certa seja vício, mas tendência de o casal
mem não tem nenhum envolvimento afetivo. Não são se fixar nesse tipo de procedimento. Ocorre que, em
pessoas que fazem parte da vida dele, com as quais algum momento, essa prática pode ficar cansativa, e
ele compartilhe intimidades. Portanto, não estamos aí, sim, vocês teriam de passar por um período sexual
diante de uma relação sentimental. O envolvimento mais morno. Mas, se vocês tiverem bastante solidez,
extraconjugal feminino, ao contrário, é quase sempre irão superar essa fase com relativa facilidade. Vocês
de natureza emotiva. É preciso entender essa dife- já entraram no jogo - agora têm que arrumar um jeito
rença para não sofrer mais do que o inevitável. de ficar bem e depois sair com calma e habilidade
para não se machucarem.

Tenho 38 anos, sou casado há quinze, e eu e minha mu-


lher brigávamos frequentemente. Há cerca de um ano, Namoro desde os dezesseis, hoje tenho vinte, com o mesmo
acabamos colocando em prática alguns sonhos eróticos e homem. Somos felizes, eu o amo muito, mas ele é o único
ingressamos no chamado swing. Isso nos ajudou a dar fim parceiro sexual que já tive. Estou com muita vontade de ca-
46 àquelas brigas por ciúmes, mas esse tipo de sexo se tornou sar com ele, porém tenho medo de não resistir às tentações 47

praticamente um vício. A cada uma, duas semanas, nos en- de experimentar o sexo com outro rapaz e acabar traindo
contramos com outros casais. Agora, quando discutimos, as meu namorado. Sou jovem, não sei se vou conseguir passar
brigas são mais sérias, e eu não tenho a mesma afetividade a vida inteira com apenas um homem, como minha avó. O
que tinha pela minha mulher. Apesar disso, a vida sexual que devo fazer? (Jéssica)
melhorou. (Alexandre)
A vida não é escrita exatamente com gostaría-
Muitas vezes, os casais compartilham fantasias mos. Talvez o ideal seria mesmo que uma pessoa se
e tendem a colocá-las em prática juntos. Principal- casasse com um pouco mais de experiência, tido vá-
mente gente jovem, que se casa muito cedo, tem rios namorados e mantido, com eles, intimidade se-
experiência pobre antes do casamento e acha que xual. Mas isso é a teoria. Na prática, se você tem um
precisa de mais vivências sexuais com outros par- namorado ótimo, não vai deixar de se casar com ele
ceiros. Acredita que isso é emocionante. Evidente- por causa disso. O que define a qualidade da relação
mente, existe um nível de excitação maior do que é justamente a intimidade, o aspecto sentimental. Se
aquele que há entre um único casal. Não diria que ele for carinhoso· e compreensivo, se vocês firmaram
uma parceria bacana, não há motivo para terminar o a homossexualidade seja um fenômeno genético, até
namoro. Não é porque ele é o único homem de sua porque os homossexuais não se reproduzem, e uma
vida que você vai ficar frustrada sexualmente. Não peculiaridade genética tinha que implicar possibili-
sei se sua avó era infeliz ou muito mais feliz do que dade de transmissão de genes. No seu caso, o fato de
as moças de hoje, que têm dezenas de parceiros. O não sentir atração por moças não quer dizer que não
importante é a qualidade do relacionamento, e não possa vir a sentir. E a atração que tem por homens
a quantidade. mais velhos me parece muito mais uma questão de
sua psicologia do que algo que não possa ser alterado
com um trabalho psicológico e com a vontade de mu-
Tenho 21 anos e ainda não tive relações sexuais. Sinto dar o rumo de sua vida. Acho que o desejo homosse-
atração por homens mais velhos e maduros, mas não gosto xual pode ser revertido. Tenho vários pacientes que,
disso. Já beijei muitas mulheres, apesar de não me sentir com o tempo, envolveram-se em uma vida heterosse-
atraído por elas. Muitas gostam de mim, porque até que xual absolutamente gratificante. Mas não há motivo
sou bonito, embora tímido. Meu desejo é ter uma namora- para ficar forçando mudanças, porque não existe ne-
48 da, casar e ter filhos. Quero muito transar com uma mulher, nhum empecilho em se ter uma vida homossexual. É 49
mas não sei se vou conseguir. O que faço? (Júlio) o gosto de cada um.

Esse é um dos temas mais delicados e compli-


cados da psicologia, porque trata da questão de fan- Desde o início de minha vida sexual, sofro de disfunção
tasias sexuais ou desejos como algo absolutamente erétil. Estou com 26 anos, namoro uma garota que, apesar
irreversível. Minha experiência como psicoterapeu- de saber do problema, me pressiona, o que me deixa ain-
ta me fez acompanhar rapazes que, como você, não da pior. Fico excitado, mas, no momento da penetração, as
querem esse tipo de vida: querem sentir desejo por dificuldades aparecem. Já tomei remédios para a ereção,
mulheres e construir uma vida tradicional. Não com- porém não ajudaram muito. Como minha namorada está
partilho da ideia de que a homossexualidade seja um viajando há cinco meses, fui aconselhado a fazer uma es-
fenômeno biológico, inato, irreversível. É um desvio pécie de tratamento: dezesseis visitas a uma mesma garota
de rota usual, algo que acontece na vida das pessoas de programa. Não sei se vai adiantar. Estou à beira do de-
e pode perfeitamente ser revertido, desde que seja sespero. Devo começar a tomar alguma droga específica?
essa a vontade. Não acho que se possa concluir que (Ricardo)
A maior dificuldade do homem está relacionada Sou bissexual, mas queria definir um tipo único de rela-
justamente à preocupação exagerada com o desempe- cionamento. Gostaria de casar com uma mulher, apesar de
nho. Cada vez que vai para uma nova relação sexual, não conseguir ficar sem ter relações com homem. Minha
em vez de curtir a situação e estar ali inteiramente, primeira relação sexual foi aos treze anos com uma me-
ele se preocupa com a ereção de seu pênis. Esse te- nina. Até os sete anos, tinha brincadeiras com um menino
mor, obviamente, aumenta muito o risco de ele não da minha idade. Depois dos dez, com um homem. Meus
funcionar na hora H. Para se livrar de suas inquietu- romances sempre foram com mulheres, enquanto com os
des, o indivíduo tem de se sentir desobrigado da boa homens era desejo sexual- acontecia e acabava. (Leandro)
performance. Quando a dificuldade maior é na hora
da penetração, é importante criar uma condição para Você tem desejo sexual bastante intenso e pre-
que haja trocas de carícias orais ou manuais, de ma- cisaria aceitar que uma parte dele é por homens. Se
neira que a penetração aconteça somente quando o você resolver casar e ter filhos com uma mulher, vai
homem estiver bastante excitado e sereno. Trabalhar ter outros desejos que não poderá cumprir. Claro que
com uma substituta profissional, como se fosse fisio- todo indivíduo que se fixa sentimentalmente a um
50 terapeuta sexual, foi uma estratégia montada no fim parceiro, tanto faz se homem ou mulher, continua 51

dos anos 1970 pelo casal de pesquisadores america- tendo desejos por outros. Sempre vai ter uma priva-
nos Masters e Johnson. Essa estratégia, porém, está ção e precisará arcar com essa renúncia. Não é fácil,
completamente fora de moda. Acho que você teria nem mesmo para os heterossexuais, manter a sexuali-
de conversar com sua namorada, deixar claro que ela dade sob domínio, porque o homem é um animal que
precisa cooperar para criar esse clima de total des- tem desejo visual, é estimulado para além da mulher
contração e serenidade. Você pode até conseguir ficar amada. Quem não tiver essa força e não for capaz de
bem com a "terapeuta sexual", mas não vai conseguir renunciar encontrará dificuldades de se relacionar.
transferir bons resultados para o relacionamento ín- Mas pense que as delícias maiores do sexo são tam-
timo com sua namorada. Com ela, você sofre uma bém quando você quer continuar com aquela pessoa
forte exigência de penetração, e essa pressão pode ser depois de a transa acabar.
fatal. Não fique desesperado, porque não é por esse
aspecto que se mede a honra, a dignidade e a autoes-
tima de um homem. Drogas não funcionam bem em Namoro há um ano e não consigo mais controlar alguns
muitos desses casos. pensamentos que me atormentam. Tudo começou depois
que descobri mentiras sobre a vida sexual de meu parceiro, de real confiabilidade. A mentira é algo muito mais
mentiras que me fizeram perder a confiança. Ele havia co- grave do que o passado sexual do parceiro. Você pode
mentado sobre um vídeo pornô que teria jogado fora, mas não concordar com o que ele fez sexualmente, mas
depois fiquei sabendo que ainda assiste ao filme. Estou pode muito bem perder a confiança pela deslealdade
com a sensação de que não o deixo satisfeito sexualmente. que está embutida na mentira. Então, o que define
Fico pensando se talvez ele esteja me traindo, se tem casos a longa vida das relações afetivas é a cumplicidade,
pela internet, se sai com a vizinha. Sofro por causa das infi- a amizade, a confiança recíproca. Confiança não é
nitas possibilidades. O que é preciso fazer para não perder coisa que se remende com facilidade.
o carinho, a confiança e a atração mútua? (Clara)

O principal aspecto das histórias amorosas é a Minha impotência sexual está ligada ao diabetes. Somado
confiabilidade. E o fato de as pessoas desenvolverem a ele, tive problemas psiquiátricos - afliç!io, desespero,
uma sólida relação de amizade. Imagino sempre que fobia, que venci. O que restou foi a ansiedade. Não paro
a pessoa com a qual a gente convive intimamente de comer. Quando fico um pouco nervoso, dá aquela an-
siedade e como, como, como. O urologista disse que, uma 53
52 precisa ser nossa melhor amiga. E nesse relaciona-
mento não cabe deslealdade de espécie alguma. En- vez lesionado o vaso sanguíneo, não há como reverter esse
tão, a mentira atrapalha muito. Ao mesmo tempo, é problema. Não há milagre. Minha dificuldade é na ereção:
preciso que haja compreensão e entendimento acer- mesmo tomando remédios, não tenho 100% de aproveita-
ca das diferenças entre o masculino e o feminino. Se mento. (Edson)
um homem gosta de assistir a um filme pornográfico,
não significa que não goste de você e que não esteja Se, ao se masturbar, você não tiver problemas de
satisfeito sexualmente. As fantasias eróticas masculi- ereção, fica provado que a razão é psicológica. Por-
nas são voltadas para o aspecto visual, e isso não quer que, se fosse orgânica, ligada ao diabetes, também
dizer que o homem não tenha fortes e bons senti- apareceria na masturbação. Você precisa aprender a
mentos em relação à sua parceira. As mulheres tam- não ficar tão preocupado com o desempenho e com
bém têm suas fantasias - gostam de se vestir, de se o diabetes, porque, por enquanto, a doença não é a
fazerem bonitas e atraentes para outros homens que causa de sua dificuldade sexual. Você deve tratar de
não seu parceiro sentimental fixo. Para um relaciona- reduzir a ansiedade e a aflição, pois elas atrapalham
mento dar certo, o par precisa construir uma história não só o processo. de emagrecimento como também,
obviamente, a função sexual. Calma e serenidade Sou bem-sucedido nos estudos e na vida profissional. Ja-
funcionam melhor do que qualquer medicação. mais namorei e minhas relações sexuais só foram com
prostitutas. Me masturbo frequentemente vendo revistas,
assistindo a filmes ou pensando em mulheres atraentes.
Aos dez anos, fui abusado sexualmente por alguns homens Mas, depois da ejaculação, sinto um grande vazio. Jogo
de minha rua. Na época, contei para a minha mãe, e a única a revista ou o filme fora, não vejo mais graça na "mulher
atitude dela foi querer bater em mim. Já na idade adulta, escolhida", parece que nunca mais vou fazer sexo. Se me
passei a ter interesse por meninas de catorze, quinze anos. masturbo por dois dias consecutivos, no segundo não há a
Aos 27 anos, cheguei a ter um caso com uma de quinze. menor sensação de prazer. Qual é o meu problema? (Aian)
Isso me preocupa, não é adequado. Faço psicoterapia há
três anos e, infelizmente, não vi mudanças. Tenho uma na- Depois da ejaculação, o homem entra em um
morada da minha idade, 35 anos, com quem me dou muito período chamado refratário, ou seja, de desinteresse
bem. Já fui casado por duas vezes, tive relacionamentos sexual. Curioso, porque a fisiologia feminina é dife-
absolutamente normais. Como sou professor, há muitas rente. Mesmo depois de atingir o orgasmo, a mulher
54 adolescentes em sala de aula, algumas dão em cima de tem uma excitação residual, que permite a ela sentir 55

mim e acabo ficando naquele dilema. Preciso ter muita for- orgasmos múltiplos. O tempo do período refratário
ça de vontade para resistir. (Luís) varia: pode durar algumas horas ou um dia. Preste
atenção no final dos filmes eróticos. Você verá que
Não acho que esse desconforto que você relata todos eles terminam quando o homem ejacula. Por
tenha a ver com o que lhe aconteceu na infância. Por- quê? Porque o desejo desaparece. Talvez, a única ca-
que não é preciso ter sido vítima de abuso sexual para racterística que difere você de outros homens seja seu
ter fascínio por meninas de catorze, quinze anos, es- período refratário, de desinteresse, um pouco maior
pecialmente hoje, quando essas garotas já estão com do que a média. Quando você tiver uma namorada,
o corpo totalmente formado e são bem mais espertas vai perceber que, depois do sexo, vêm o aconchego,
do que deveriam ser. A terapia deveria girar em torno o carinho, a vontade de continuar abraçadinho. São
da determinação, da capacidade de você se manter essas coisas que dão sentido e graça às relações. E
leal, de ter uma relação consistente com uma mulher que o sexo não produz mesmo tanto prazer quando
só, de ser mais firme e respeitoso em suas relações praticado como um simples ato, seja com prostitutas
afetivas. ou na masturbação.
Casei virgem aos dezessete anos. Na época do namoro, não fazer suas necessidades fisiológicas fora de casa.
não conseguia penetração porque minha namorada tinha E elas aprendem a contrair intensamente a muscula-
medo do tamanho do meu pênis. Depois de casados, des- tura da região. Mais tarde, têm rigidez desses mús-
cobrimos que ela sofria de vaginismo. Continuamos juntos culos, o que impede a penetração. Mas, no seu caso,
por oito anos. Por causa do problema, ela me autorizou a Fábio, sua primeira mulher podia ter também medo,
transar com outras mulheres, coisa que jamais consegui. já que o tamanho do pênis era grande. O fato de não
Na hora H, perdia a ereção. Não sei se por acúmulo de conseguir transar com outras mulheres é porque o
tesão, ou pelo fato de amar minha esposa demais. Aca- sexo e o amor estão intimamente vinculados. Será
bamos nos separando e, depois de cinco anos, encontrei preciso, então, esperar se encantar sentimentalmente
uma pessoa maravilhosa, com quem tive minha primeira outra vez. Sair com mulheres apenas por sair não vai
relação sexual. Estava com 38 anos. Foi um período in- funcionar. E não há defeito nenhum nisso.
crível, mas ela quis a separação. Faz mais de dois anos
que estou só e ainda amo essa pessoa. O maior problema
é que, quando aparece uma nova mulher, não consigo ter Tenho 49 anos, sou casada há 28. Meu marido me impôs
56 ereção. O que fazer? (Fábio) uma condição para continuarmos casados: aceitar que, nas 57

férias, outra mulher realizasse as fantasias sexuais dele.


Acho que a segunda história já tira a dúvida da Aceitei a princípio, mas, depois de pensar bastante, resolvi
primeira. Ou seja, o acúmulo de tesão não é a razão recusar a proposta. Ele deveria continuar casado comigo
da dificuldade de não conseguir ereção com outras por amor. O que o senhor acha dessa situação?
mulheres que não a primeira, de quem você gostava
muito. Você é um tipo incomum de homem, que tem Provavelmente, seu marido tem sonhos eróticos,
a sexualidade muito vinculada a elementos afetivos. acompanha a ,-ida de alguns colegas que trocaram de
Só consegue funcionar bem sexualmente quando parceira ao longo desses anos c fica tentando encon-
mantém uma ligação sentimental e não acha graça trar uma solução intcrmedüíria entre o fato de que-
em relacionamentos puramente sexuais ou ocasio- rer continuar casado c manter o sonho de liberdade.
nais. Vaginismo significa dor muito forte na hora da princip<llmentc de liberdade se'\ual. que a maior par-
penetração vaginal. Está ligado à contratura da mus- te elos homens dessa idade tem. Sonho meio tolo,
culatura do períneo, que pode acontecer ao longo da porque a liberdade sc'\ual parece ser mais di\erticla c
infância, já que muitas mães estimulam as filhas a interessante do qt.te efet i\ a mente l'. Seu 111<1rido l'St<Í
imbuído da vontade de ter uma vida em que possa você dominará melhor a situação e vai aprender a se
manter o casamento tradicional por onze meses e vi- relacionar com sua parceira mais tranquilamente.
ver, em um mês por ano, todas as suas fantasias eróti-
cas. Você não deve aceitar essas atitudes apenas para
manter o casamento, porque depois não vai conseguir Namoro há mais de sete anos. Nesse tempo, minha na-
sustentá-las. Mas, ao dizer não, você está impondo morada me deixou duas vezes, em 2005 e em 2006. Es-
uma condição mais rigorosa. Não estou dizendo que tamos com o casamento marcado. Antigamente, tínhamos
você esteja errada, mas pode ser que seu marido ache relações sexuais pelo menos uma vez por semana; de seis
que é uma exigência insuportável. De todo modo, meses para cá, não temos relações por até três semanas.
acredito que o amor ainda exista. Você pode perfeita- Já conversamos sobre o assunto e minha noiva sempre re-
mente se recusar a manter essa situação, pensar em pete a frase: sexo não é tudo em um relacionamento. Temos
se separar ou reavaliar seu casamento. entre 28 e trinta anos, meus amigos dizem que fazem sexo
pelo menos três vezes por semana, e eu faço o impossível
para que cheguemos ao fim de uma relação, porque, às ve-
58 Sofro de ejaculação precoce. Tenho 35 anos e estou casado zes, minha noiva para na metade. Gostaria de saber o que 59

há seis. Queria descobrir o motivo de ejacular rapidamente devo fazer. (Vinícius)


na hora da penetração. Como é questão de segundos, fica-
mos sem ter prazer. (Gildo) Sua noiva já deu sinais de ser intolerante, mima-
da e manipuladora, principalmente nessa questão do
Alguns homens respondem mais rapidamente sexo. Em vez de dizer que sexo não é tudo em uma
ao estímulo sexual. E, se ficarem ansiosos, ejaculam relação, é melhor se perguntar: qual é a importância
mais depressa ainda. Você pode se beneficiar de al- do sexo em um relacionamento? Como quase tudo,
guns tipos de remédios para quebrar esse círculo vi- diria que o sexo não tem importância nenhuma desde
cioso: antidepressivos, como os tricíclicos ou os mais que vá bem, ou seja, se todo mundo estiver contente
modernos, como a Auoxetina ou a paroxetina, cujo e satisfeito com aquilo que acontece. Não sei se duas
efeito secundário é retardar a ejaculação. Consulte ou três vezes por semana é uma quantidade razoável,
um clínico geral, um urologista ou até mesmo um psi- mas uma vez a cada 21 dias é sintoma de que o futuro
quiatra, porque um deles vai poder prescrever uma será catastrófico. Essa ideia de que com o casamento
medicação antidepressiva para você. Mais sereno, as coisas vão se ajeitando é absolutamente ingênua.
O casamento costuma provocar uma acomodação sem camisinha. por causa do atrito e dos pequenos
ainda maior nas pessoas e salientar os defeitos que sangramentos que provoca. As mulheres são conta-
têm. Ninguém "melhora" depois que casa. Isso é minadas, às vezes, por parceiros estáveis, que têm
mito. Sete anos de namoro, duas brigas no meio e práticas bissexuais e trazem o vírus depois de terem
vida sexual insossa: os riscos de o casamento dar er- relações anais fora de casa (onde agem como passi-
rado são quase I 00%. Pense bem para ter um futuro vos) e feitas sem camisinha. O uso do preservativo
brilhante. é fundamental sempre, a não ser em relações abso-
lutamente monogâmicas, nas quais os dois fizeram
exame de sangue para detectar se não houve conta-
É possível acontecer a transmissão do vírus HIV por meio minação prévia.
de sexo oral? Tenho 26 anos e perdi a virgindade com
uma garota de vinte, com quem me relacionei durante um
ano. Ela já havia praticado sexo em relacionamentos an- De cinco anos para cá, preciso pensar em outra pessoa
teriores. Sempre usei camisinha, mas fazíamos sexo oral para fazer sexo com a minha mulher. Sou casado há
60 sem nenhuma proteção. Passei a ficar preocupado com a 22 anos, tenho 44 e faço sexo todos os dias. Talvez seja 61
transmissão de alguma doença sexualmente transmissível essa a razão. Já tentei falar sobre essas fantasias com
depois do término do namoro. (Rogério) minha esposa, mas percebi que ela não gostou muito.
Não sei se isso é normal. (Carlos)
,'\ão héi um risco muito grande ele transmissão
do 1 írus pelo sexo oraL principalmente se For 1ocê É norm<JI ter f<mtasias durante a excitação sexual.
quem esti1cr praticando na moça. 1\o contdrio, ela i\ las, depois de .2.2 anos. tahc; sua mulher prefira sexo
(· que teoricamente poderia correr um risco maior. menos frequente c marido mais sincero. Ou seja. as
porque o cont<ígio acontece quando a mucosa da relal;õcs poderiam ser a metade do que são- dia sim.
boc<J. n;lo muito saudâ1 c!. entra em contato com dia não--. mas todas 1oltadas para a sua mulher. para
o t'SjWrma. '->c hou1cr um sangramento n<J gengi1 a. que IOCt' pudesse 1 cr as respostas e as IT<H,'iícs dci<J.
por L'\t'lllJllo, l'\Ístc o risc·o de conl<tmÍil<l<;'<lO. '\o Caso contrúrio. como 1 oc(· lt'lll rcLtc;;lo pcnsanJo
S('ll c;tso. ,~ muitCl impr<li,Íit'l que o clit•ít·i~ de ~li<I c·m outr<I jk'S~Od, <Ic,Jha !lc:llldo muito longe dc·Lt.
llcilll<ll'.lli.: l',[Í\1''''' lOill .d·.'lllll tipn tlc '-ill'"l'dllll'll- Potil'rl.t. j11•r t'\l'llll'l". '-l' 111.1'-lllrh;~t·." qtll' lt,lo l' !."to

tilltTtido. \t·l·i.: iiLII, 111l<'l'l'"·l'll1' '-llil. li 1 < , ..... 11111111'.


encontrassem uma forma de ativar a vida íntima, sem Sou separada, tenho 46 anos e percebo um novo fenôme-
a necessidade de manter essa frequência diária à no na paquera: os homens de minha geração quase não
custa de fantasias. Assim, haveria uma ligação mais se aproximam, enquanto os mais jovens se manifestam
intensa e mais verdadeira entre vocês dois. frequentemente. Será que os homens de cinquenta estão
acomodados ou temerosos em relação ao amor? (Denise)

Homens que gostam de se aventurar com travestis são hé- Paquera não se trata propriamente de amor, por-
teros ou homossexuais? que a maior parte das aproximações feitas pelos ho-
mens tem outra finalidade, que nada tem a ver com
O travesti é visto pelo homem de forma indefini- a palavra amor. A paquera tem uma natureza erótica
da, porque não é nem homem nem mulher- é como - o homem está buscando a aventura do momento.
se fosse um terceiro gênero. A maior parte dos ho- No consultório, ouço o contrário: que são os meninos
mens que fazem sexo com travestis é heterossexual, de dezesseis, dezessete anos, que estão muito calmi-
tem fascínio por esse personagem e mantém relações nhos na abordagem, ficaram muito passivos, espe-
62 sexuais não raramente em papel passivo. O travesti, ram tranquilamente serem abordados pelas meninas. 63

então, que não tiver virilidade suficiente para produ- Apesar de o desejo sexual masculino ser basicamente
zir penetração anal interessa pouco aos heterosse- visual- e a iniciativa viria desse desejo-, parece que
xuais. É bom deixar claro que a estimulação anal é os homens descobriram que podem sentir desejo e
prazerosa para 100% dos homens. Eles têm uma sen- não se mexer, podem esperar que as moças façam o
sibilidade muito grande no orifício externo do ânus, e movimento que antes eles faziam. Já os homens de
a penetração é bastante excitante até porque implica meia-idade sempre foram do tipo paquerador ativo, e
uma massagem na próstata, capaz de provocar a eja- acho que os de cinquenta, enquadrados nesse perfil,
culação. Toda a atmosfera que envolve o travesti e os fazem parte ainda do modelo antigo.
lugares que ele frequenta são de grande prazer erótico
para muitos homens. Não acredito que quem procura
travesti seja homossexual, porque, nesse último caso, Nunca namorei. Aos 23 anos, já tive vários relacionamen-
o desejo é focado diretamente na figura masculina. E tos sexuais, todos efêmeros. Sou poeta e muito introspecti-
o travesti não é uma figura masculina, mas uma figura vo. Gosto às vezes de dar voltinhas dentro de mim mesmo,
feminina com pênis. criar cenas no meu imaginário como se fossem novela -
ali, namoro belas mulheres, sou feliz profissionalmente.
Tenho disfunção erétil. Por que estou com essa dificuldade
de encontrar um amor? (Júlio)

Todo rapaz com dificuldade de ereção fica muito


ansioso e inseguro. Com isso, perde a coragem de ter
um envolvimento amoroso. Uma das características
do amor romântico é apaixonar-se por alguém, criar
fantasias e ficar sonhando. fazer viagens imaginárias,
e não viver o amor na vida real. A falta de coragem
pode ser reforçada pela própria disfunção erétil. Mas,
se você encontrar uma moça legal e conversar cla-
ramente sobre o assunto, disser que tem essa inse- PAIXÃO E AMOR SÃO
gurança sexual, pedir cooperação, aos poucos vai se
64 sentir mais tranquilo, e a disfunção erétil melhorará.
UMA COISA SÓ?
Existem alguns medicamentos que aumentam a com-
petência da ereção, ainda que haja preocupação com
o desempenho. Esses remédios ajudam o indivíduo a
recuperar a autoconfiança.
Muitos acham que paixão é
um sentimento maior, mais relevante do que o amor.
A paixão se caracteriza por um amor de grande in-
tensidade entre duas pessoas afins, um amor recípro-
co, não usual. Mas a paixão tem outra característica:
vem associada ao medo. Enorme medo. As causas? A
mais importante delas é que, ao se aproximar e ficar
muito íntimo, o par começa a temer a perda da indi-
vidualidade. E há também o medo de que o parceiro,
justamente por imaginar que pode vir a perder sua
privacidade, fuja da relação.
Outra característica da paixão: insegurança. O
casal está sempre inseguro. Cada um fica se pergun-
tando solitariamente: será que ele (ou ela) ainda me
quer? Ainda me ama? Surge, então, aquele conheci-
do clima aflitivo, que faz um correr atrás do outro. O depende da amizade que se estabelece, da troca inte-
coração bate forte na paixão, mas de medo. Nos casos lectual, do respeito à opinião do outro, do caráter de
em que essa paixão se transforma em uma relação ambos. O amor à primeira vista vem do encantamento
de qualidade, as pessoas pensam que, se o medo e a instantâneo, mas as boas relações afetivas têm conti-
taquicardia diminuírem, é sinal de que a paixão dimi- nuidade quando um conhece a alma do outro melhor.
nuiu também. Mas o que baixou foi apenas o temor
das perdas. A paixão pode ser o início de uma belíssi- *
ma história de amor.
E, por falar nele, amor à primeira vista tem lógi- Tenho 45 anos e, há seis meses, me apaixonei por uma moça
ca? Existe mesmo? A verdade é que todos nós temos dez anos mais jovem. Esse sentimento é puro e não pode
uma sensação de incompletude, de vazio. Parece que ser ignorado. Não envolve nem requer sexo. Épossível não
só nos completamos quando encontramos a outra concretizar essa relação e ainda assim ser feliz? (Luana)
metade. Pessoas muito insatisfeitas com seu destino
olham à volta e veem sua metade em qualquer parte, Entendo a situação complicada na qual você aca-
bou involuntariamente se colocando, porque você 69
68 nem sempre de maneira muito criteriosa. Quando um
homem olha uma moça e tem desejo intenso, pode se encantou por uma moça dez anos mais nova sem
confundir esse desejo com o encantamento inicial, o saber se ela tem a intenção de corresponder a esse
tal amor à primeira vista. A moça, ao olhar um rapaz, sentimento. E o fato de não ter sexo me parece co-
tem ideia de quem ele é e tende a se entusiasmar mum, uma vez que o envolvimento sentimental in-
ao perceber o interesse dele. No momento em que tenso o deixa em segundo plano - pelo menos nesse
os sinais são recíprocos, parece que finalmente a ou- primeiro momento da relação. Mas você pergunta se
tra metade foi encontrada. E tem-se a impressão de é possível conviver bem com esse sentimento, não
que houve um encantamento ilógico e irracional. Até concretizar a relação, e ainda ser feliz. Para ser since-
porque surge, rapidamente, a sensação de completu- ro, é complicado. Com o passar do tempo, você terá
de. Entretanto, quando se observa mais de perto esse vontade de transformar esse sentimento, que agora é
novo par que se forma, vê-se o quanto cada um está absolutamente unilateral e não passa de fantasia, em
carente e "necessitado'' de encontrar a outra metade. algo mais concreto. Falar em amor, na minha maneira
Embora o amor possa acontecer em um estalar de de pensar, significa falar em correspondência. Quer
dedos, a chance de um relacionamento ter vida longa dizer, tenho um sentimento, sinto-me aconchegado
pela presença de uma pessoa que sente mais ou me- diferente dessas paixões que você pode ter desperta-
nos o mesmo em relação a mim. Se não existir essa do nos relacionamentos extraconjugais. É um senti-
bilateralidade, é difícil que a relação amorosa seja mento que se tem por alguém cuja presença promove
estável, gratificante e feliz. A não correspondência, paz e aconchego. Exatamente isso que você sente por
aos 45 anos, deve ser vista como algo imaturo, equi- sua mulher. Você diz despertar mais a paixão, ser mais
vocado. O certo seria você conversar com a moça so- amado do que ama. Há mesmo quem tenha medo
bre seus sentimentos, deixar claro como você está e de amar de verdade e goste mais de ser amado. Por-
como a vê nesse momento. Precisa saber também se que, se você se coloca de maneira a provocar, além
ela está disposta a aceitar, ou não, esse tipo de con- de encantamento, insegurança, para deixar o outro
tato afetivo. Caso contrário, você ficará em um plano enciumado, naturalmente a pessoa vai ficar atrás de
puramente unilateral, que não corresponde efetiva- você. E, como corre atrás, você tem a sensação de
mente ao amor maduro, e inviabiliza a felicidade em estar apaixonado. Paixão é isso: amor + medo. Amor
médio e longo prazo. verdadeiro é o mais próximo de tudo aquilo que você
sente por sua mulher. Amor intenso, porém, implica
70
estar muito mais envolvido com ela e muito menos 71
Sou casado há 25 anos e confesso que, durante todo esse com experiências extraconjugais. Charmoso e simpá-
tempo, não me lembro de ter experimentado o amor ver- tico, você é capaz de despertar o encantamento nas
dadeiro. Sinto-me bem ao lado de minha mulher, que diz moças, e parece estar mais preocupado com isso do
me amar muito. Despertei paixões em muitas mulheres, que com amar realmente. Amar significa ser fonte de
tive vários casos extraconjugais. No entanto, não passa- serenidade para a outra pessoa. Essa serenidade você
vam de atração sexual. Gostaria de saber o que faço para não pode viver, pois significa não ter a necessidade de
amar verdadeiramente. provocar ciúme. Você acabou criando uma fórmula
em que é mais amado do que ama, mas sente-se frus-
Veja que coisa mais complexa: você sabe que não trado, porque fica nesse papel passivo.
experimentou um sentimento de amor verdadeiro, 0
que significa que, mesmo não tendo experimentado,
supõe que exista. Isso já é uma contradição, porque Por que uma paixão se torna obsessiva? Não consigo es-
você não pode se ressentir de não ter vivido aquilo quecer uma pessoa por quem fui apaixonado, que já se
que não conhece. O amor é uma sensação bastante desligou da emjlresa e não vejo mais. Vivi uma situação
impossível, porque ela também era casada. Nosso relacio- culpa é menor. Gostaria de amar meu marido, envelhecer
namento não chegou a acontecer, mas houve uma paixão ao lado dele, mas preciso viver essas paixões, e não neces-
muito forte. (Flávio) sariamente o sexo. (Sabrina)

Impedir que uma relação vá adiante em virtude A impressão que você passa é de que sua vida
de impedimentos externos, como ser casado, é difícil conjugal é muito boa. Marido fiel, bonzinho, é mui-
de digerir. Há todo um contexto de sofrimento, e as to chato. É engraçado pensar que as pessoas acham
pessoas ficam fantasiando como teria sido a convi- 0
amor um pouco tedioso. De brincadeira, sempre
vência. Mas não há outra saída para histórias de amor disse que amor se parece mesmo com uma estação
que não podem dar certo: o melhor é evitar pensar no de águas, onde não acontece nada de muito emocio-
assunto. Cada vez que vem a lembrança, não fique nante. As pessoas imaginam, e erram, ao acreditar
cultivando, não alimente a dor. Porque as pessoas que 0 amor deveria ser um lugar de grandes emo-
gostam de curtir a dor de amor. E têm esse hábito ções. Amor é paz, aconchego, sossego. Mas as pes-
porque dizem que, se há dor, é porque o amor valeu soas ficam esperando que seja aventura. E têm gran-
72 a pena. Coisa de poeta com a qual não concordo: se de decepção. Surgem, então, outros envolvimentos. 73
não podemos transformar a paixão em realidade, a Paixões quase sempre emergem de situações proibi-
melhor coisa a fazer é tentar se livrar desse sentimen- tivas. O indivíduo se apaixona por alguém que não
to. Caso contrário, fica-se padecendo, encompridan- está disponível, que não é possível. Há o risco de
do o sofrimento. Na vida, é preciso tentar sofrer o ser pego, de sofrer decepção, de ser abandonado. A
mínimo possível. paixão corresponde àquilo que o sociólogo milanês
Francesco Alberoni, autor do livro Enamoramento e
amor, chamava de "estado extraordinário", um esta-
Tenho quarenta anos, um casamento de 22, um filho de do de emoção muito grande em que existem impe-
dezoito. Meu marido é um homem bom, fiel, mas sem dimentos. O impedimento sempre faz a relação ser
perspectivas financeiras. Ao longo do casamento, eu o traí ainda mais emocionante, porque não sabemos como
várias vezes, sempre por paixões arrebatadoras. Depois vai evoluir, se é que vai evoluir. É uma história cheia
que acabavam, e mesmo me sentindo mal, eu retomava o de suspense, o oposto da calmaria e da estação de
casamento. Vivo uma nova paixão, mas à distância, porque águas que é 0 casamento. As pessoas dizem gostar de
ele mora em outro país. Como não tenho contato direto, a sossego, mas gost~m mesmo de filmes de suspense.
Então, você está evidentemente entediada com seu
cotidiano e acaba indo atrás de aventuras. Mas cada
um deveria procurar em sua vida pessoal, ou profis-
sional, aventuras emocionantes. Talvez aprender coi-
sas culturais diferentes, ter atividades esportivas, ir
atrás de emoções em outro lugar. Viver o amor como
aventura é ter que se apaixonar por situações de proi-
bição o tempo todo.

TRAIÇÃO: PERDOAR, SIM;


74 ESQUECER, JAMAIS
Há como identificar se o
parceiro sentimental será leal e fiel? As caracterís-
ticas da personalidade de uma pessoa dão pistas de
seu caráter, embora não haja garantia nenhuma sobre
sinceridade. Quem é egoísta, por exemplo, tem indi-
cadores de não ser uma pessoa l 00% confiável: ima-
turo, intolerante à frustração, superficial na conver-
sa, extrovertido, conta pouco de si mesmo e se gaba
de feitos que nem sempre são verdadeiros. Quem é
bem formado moralmente, rigoroso em seu jeito de
pensar e falar, mais dócil e menos agressivo, costuma
ser leal.
Quase sempre, pessoas calmas e generosas ten-
dem a se encantar por tipos mais extrovertidos e egoís-
tas. Ficam inseguras e têm. ciúme, com toda razão,
até porque o egoísta não é lá muito confiável. Curio-
ver com outra pessoa novamente. Acredite, é menos
samente, o egoísta também tem seu lado ciumento.
provável que isso aconteça, porque, ao se arrepender
Apesar de achar que vive com um parceiro leal, tem
e voltar atrás, o sujeito chegou à conclusão de que
consciência de que não é tão dedicado a ele quanto de-
havia consistência no relacionamento anterior. Achou
veria e sente medo de que o outro possa abandoná-lo.
que compensava dar marcha a ré, porque isso impli-
Como garantir lealdade e fidelidade? Tentando
cava uma tentativa de reconstruir uma história que
escolher parceiros estáveis e de bom caráter. Ainda
havia sido sólida, em vez de construir um novo proje-
assim, pequenos deslizes podem ocorrer, porque hu-
manos não são santos. to. Cabe, sim, batalhar para a recuperação da relação,
porém sem a ilusão de que será fácil esquecer. As pes-
soas conseguem perdoar, mas não esquecem jamais.
*
Depois de vinte anos de casada, fui traída. Oito meses após
fui casado durante quinze anos. Comecei a faculdade na
a separação, ele me procurou. Achei que tudo voltaria ao
78 mesma época que minha mulher. Nesse período, o compor-
normal, mas não consigo esquecer o que ele fez. O retorno
tamento dela mudou muito. Ela passou a querer ter mais 79
vai ser difícil, porque precisaria começar do zero. O que
devo fazer? (Rose) liberdade e acabou me traindo. Não consigo aceitar o fato
de ela ter mentido. Durante um ano, omitiu esse relacio-
namento para todo mundo, para os amigos e para as nos-
Não há como voltar ao zero. Depois de vinte anos
sas duas filhas. E ainda fez todos acreditarem que nosso
de casada, e uma experiência desagradável, é evidente
relacionamento havia simplesmente acabado. No passado,
que o relacionamento vai recomeçar do ponto em que
ela já havia me traído, mas disse que estava arrependida.
terminou. Se ele procurou você para voltar, e se você
Quando percebi que o comportamento dela estava mudan-
aceitou a volta dele, é porque achou que ainda havia
do, pedi que tomasse cuidado, mas ela dizia que eu era
coisas em comum. No entanto, ninguém consegue es-
uma pessoa extremamente ciumenta, que sufocava nosso
quecer tão facilmente uma infidelidade sentimental.
relacionamento. Agora, quando fico muito distante, ela vem
Imagino que tenha sido uma infidelidade sentimental,
atrás. Talvez se fizéssemos terapia de casal, eú recuperas-
e não uma simples "pulada de cerca", de caráter ex-
se a confiança nela. Talvez eu voltasse se ela demonstras-
clusivamente sexual. Então, é normal sentir medo de
se um arrependimento mais profundo e amadurecesse com
que o indivíduo possa ter uma recaída e vir a se envol-
tudo o que aconteceu. (Frank)
Você me parece um homem amoroso, dedica- não tolerar a frustração. Quem fica revoltado quando
do, fiel, leal. Sua mulher talvez seja um pouco me- as coisas não acontecem do jeito que gostaria vai ter
nos consistente do que você nesse aspecto. Já havia mais dificuldade em falar "não" às tentações. E, natu-
cometido uma pequena falha no passado, agora teve ralmente; não faltam oportunidades para os homens
um comportamento bastante duvidoso. Não contar usufruírem de experiências sexuais ou sentimentais
a você exatamente o que estava acontecendo, já que fora de seu relacionamento. Se o indivíduo tiver con-
não mantinha um casinho tão irrelevante assim, e sistência moral, for mais maduro e equilibrado, sen-
mentir para todas as pessoas mostra a personalidade tirá o impacto da presença de outras mulheres, mas
que tem. Essas tentativas de reaproximação, aparen- será perfeitamente competente para domesticar esse
temente amostras de arrependimento, podem ser si- impulso e se comportar dentro do que for combinado
nais de que ela está insegura ou que a história com o entre o casal.
outro não está evoluindo como ela gostaria. Seja um
pouco mais rigoroso em seu raciocínio e não tome
decisões apenas por razões sentimentais ou porque Ter uma aventura amorosa eventualmente, que niio prejudi-
que o relacionamento, é traiçiio? (Gustavo) 81
80 gosta da ideia de ter uma família unida. Não aceite
essa possível recuperação com facilidade. Também
não acredite tanto em terapia de casal, porque o que Posso dar uma resposta muito política, que agra-
houve foi uma falha grave de caráter. de a homens, mulheres, moralistas e não tão mora-
listas. Na tradição cultural brasileira, esse tipo de
traição parece ser um pecado menor - quando é o
Como posso saber se meu namorado está me enganando? homem que mantém essa "aventurinha", claro. As
Quais silo os sinais mais comuns? (Marcela) mulheres costumam aceitá-la com mais naturalida-
de. A aventura puramente erótica é sempre muito
Homens não confiáveis são mentirosos, contam mais palatável para o parceiro do que a história de en-
muita lorota. Contam hoje uma história de determi- volvimento sentimental. Aventura esporádica é uma
nado modo, amanhã de maneira completamente di- coisa, envolvimento sentimental é outra. O segundo
ferente. São pessoas que não têm coluna vertebral, é muito mais doloroso. A aventura sexual esporádica
quer dizer, muita consistência. Gostam de fazer char- é encarada pelos homens sem grandes pudores. Parti-
me o tempo todo. A principal característica, porém, é cularmente, acho que as pessoas deveriam dispensar
esse tipo de "esporte", até porque, se não houver en-
volvimento emocional intenso, a relação acaba sendo
meio sem graça; mas, se houver, entra em choque
com o relacionamento estável.

AFETOS EM
ERUPÇÃO
82
Não é fácil viver! Muitos
são os momentos em que nos vemos em estado de
sofrimento e dor em decorrência de desconfortos
e doenças físicas ou por força de perdas amorosas,
rejeições de pessoas que nos são relevantes, perda
por morte dos ancestrais que nos são caros. Ficamos
nos sentindo abandonados, desamparados e, muitas
vezes, desesperançados. Pessoas mais afortunadas e
em melhores condições para enfrentar adversidades
são as que aprenderam a tolerar melhor frustrações e
contrariedades que inevitavelmente irão nos alcançar
ao longo da vida.
Existem situações de sofrimento que são difíceis
de entender e até de gerar respostas e posicionamen-
tos corretos. Uma delas é quando há incapacidade de
encontrar parceiros sentimentais justamente por cau- que não tinha dinheiro. Acabamos discutindo e eu o mandei
sa de qualidades exuberantes. O fenômeno é mais embora. Fiz certo? (Adriana)
comum entre as mulheres, que, inteligentes, bonitas
e de ótimo caráter, intimidam e afastam aqueles ho- Não há nenhuma razão para você aceitar qual-
mens que poderiam ser seus parceiros ideais. Eles, quer tipo de relação que seja desequilibrada. Não há
inseguros e com baixa autoestima, não raramente se motivo para que seu companheiro se atribua direi-
unem a mulheres muito aquém de suas expectativas tos maiores do que aqueles que ele atribui a você.
- e assim estão formadas alianças frustrantes e de es- Não há razão para você ter que aguentar comporta-
tabilidade duvidosa. Não é de espantar, então, que o mentos arbitrários. Ele não abre mão de nada e, ao
número de pessoas sozinhas, quando poderiam estar mesmo tempo, não faz um agrado, mínimo que seja,
em boa companhia, seja tão grande. a você. Qual a lição a aprender? Não ser tolerante
Um dos requisitos da vida moderna é fazer com com esse tipo de comportamento. Fico surpreso de
que as pessoas aprendam a viver sós e a buscar distra- ver como as pessoas, em nome do amor, fazem con-
ção nos próprios trabalhos. Não há mais solidez nas cessões, aguentam desaforos, passam por cima de ar-
86 relações afetivas, assim como não há estabilidade na bitrariedades. Não há nada mais importante do que 87
maioria das atividades profissionais. Tudo pode acon- nosso orgulho, nossa dignidade, nossa estima. Não
tecer às pessoas, de bom e de ruim. Elas têm de estar há nenhum sentimento nem nenhuma emoção que
preparadas para tolerar qualquer tipo de adversidade valham mais do que isso. Qualquer comportamen-
e, da mesma forma, ser competentes para lidar com o to que ofenda, prejudique nossa dignidade, precisa
que acontece de bom- o que também não é nada fácil. ser cortado rapidamente. Não faz o menor sentido
aguentarmos qualquer coisa por receio de ficarmos

* sozinhos. Porque ser sozinho não é tão grave. Mui-


to mais grave é estar acompanhado de quem age de
Sou divorciada, tenho 38 anos. Meu companheiro mais re- modo ofensivo e humilhante.
cente, com quem fiquei por um ano e cinco meses, manti-
nha o hábito de sair do trabalho e tomar uma cerveja com
os amigos. Quando reclamei, ele me disse que não abriria Tenho dezoito anos e sofro muito por causa de minha timi-
mão disso e que os amigos eram muito importantes. Um dez. Jamais consegui me aproximar de qualquer mulher.
dia, pedi que ele comprasse uma pizza e ele me respondeu Sou sensível, 'componho músicas, faço poesias. Várias
Sou inteligente, chamo a atenção das pessoas, mas ultima-
pessoas já elogiaram meu trabalho e me dão moral, mas
mente não consigo ter um relacionamento afetivo. E, quan-
não consigo vencer essa barreira. Os poucos relaciona-
do consigo, não passa de dois meses. Um amigo disse que
mentos que tive terminaram cedo em razão dessa timidez
sou um "mulherão", mas completamente insegura. Isso
ou por meu amor não ter sido correspondido. O que faço?
pode ter a ver com o fato de eu nunca ter tido pai, ser filha
(Ricardo)
única e minha mãe ser fria? (Cláudia)

Você tem apenas dezoito anos e precisa esperar


Se existirem marcas que venham de nosso pas-
um pouquinho mais para que o tempo faça o serviço a
sado, é nosso dever conseguir superá-las, tentar ul-
seu favor. As características de sua personalidade ten-
trapassar essas limitações, ir adiante. A vida adulta
dem a melhorar com o passar dos anos e a fazer com
significa tentarmos de todo modo ser mais do que
que você seja bastante assediado. Acho apenas que
aquela dezena de marcas que a história de cada um
você teria de ser menos afoito antes de se envolver e
determinou. É preciso pensar: "Eu quero ser se-
saber se existe correspondência por parte da menina.
nhora de mim mesma". E, para ser senhora de· si
Se o seu amor não for correspondido, é porque você
mesma, é preciso se livrar das experiências traumá- 89
88 acabou se envolvendo sentimentalmente antes de sa-
ticas, perdoar pai e mãe, perdoar o passado. Ficar
ber se a garota estava na mesma frequência ou na
atribuindo as dificuldades atuais aos problemas da
mesma intensidade de encantamento. E isso sempre
infância e da adolescência não é evolutivo. Não le-
é muito perigoso, porque você fica sujeito a um sofri-
vam a lugar nenhum. Se a pessoa posa de vítima,
mento maior. O amor é como uma escadaria: a gente
não sai do buraco. É melhor encarar o problema
sobe um degrau e espera para ver se a outra pessoa
atual e tentar resolvê-lo.
subiu esse degrau também. Essa história de chegar
ao topo da escada e ficar lá esperando o outro não
é uma boa tática. Para vencer a barreira da timidez
Como lidar com a perda e não lançar mão de drogas?
ou a dificuldade de imaginar que a menina vai achá-
lo legal, você precisa se arriscar, aprender a cortejar,
Suportar a dor e o sofrimento é o maior obstáculo
a fazer elogios, a dizer como você gosta do jeitinho
que temos de experimentar ao longo da vida. É aquele
dela. Ir, aos pouquinhos, conversando, deixando que
momento em que precisamos demonstrar nossa po-
ela saiba quem você é, para que ache graça e queira
tência psíquica, a: fim de superar a infelicidade. Ficar
namorar você. Não desista!
encalhado na dor é muito fácil. Não há outra solução ga que, mesmo agora, com mais de cinquenta anos, e ape-
senão vivê-la e enfrentá-la. As pessoas não devem fa- sar de ter feito várias terapias, não consigo vencer. Acho
zer uso de nenhum recurso atenuador do sofrimento, que sou uma fracassada. Não consigo me realizar na car-
a não ser seu próprio psiquismo. Quando morre uma reira, não casei, não tive filhos. Não me imponho diante de
pessoa querida, de nada adianta ficar sentado, de colegas e chefes. As pessoas dizem que sou inteligente e
luto, por tempo indeterminado. É preciso se ocupar. culta, frequento concertos e óperas, discuto sobre qualquer
Quanto mais você conseguir ocupar seu pensamento, assunto, leio muito. Como faço para reverter esse quadro?
menos você sofrerá. Tente se entreter com o trabalho, (Maria José)
mantenha boa conversa com amigos queridos. Esteja
com pessoas com as quais você se sinta confortável Baixa autoestima não se resolve com facilidade.
para falar sobre o que está sentindo. Lance mão de Tem a ver, essencialmente, com o juízo que a pessoa
um tranquilizante, eventualmente, e, se for o caso, de forma a respeito de si mesma nos primeiros tempos
antidepressivos. Mas não do álcool, porque será mais de vida, juízo esse que deveria ser revisto depois. A
difícil, depois, libertar-se dele. No momento em que Maria José levou a sério demais o que ela chama de
90 estamos tristes, a dose nunca é controlada. praga rogada pelo pai. Às vezes, as pessoas têm uma 91
ideia tão negativa de si mesmas que já se sentem
menores diante dos outros. Obviamente, as relações
Sou terapeuta clínica na área comportamental. É muito co- serão prejudicadas, porque indivíduos assim che-
mum ouvir pacientes reclamarem de baixa autoestima de- gam em qualquer ambiente com um pé atrás, com
pois de terem sido rejeitados pelo parceiro. Essas pessoas a impressão de que vão ser rejeitados logo de cara.
se sentem incapazes de gostar de mais alguém. Elas têm E, se pensam dessa forma, têm uma postura meio
um deficit em suas habilidades sociais e vivem em função agressiva, estão sempre na defensiva. Não são nada
de regras que criaram, falsas evidentemente. É bastante cordiais. São inábeis no trato. Aí acumulam mais re-
difícil para o terapeuta mudar essas regras, tentar elevar sultados negativos em suas relações interpessoais e
a autoestima sem remédios. Como o senhor lida com esse têm a autoestima ainda mais afetada. Porque autoes-
tipo de queixa? (Andréa) tima depende de acontecimentos, de fatos, da inte-
ratividade com o outro, e não do exercício de se olhar
Sofro de baixa autoestima. Desde criança, meu pai dizia no espelho e dizer "eu me amo". Para reverter esse
que eu nunca ia ser nada. Incorporei de tal forma essa pra- quadro, é preciso paciência, determinação, e tam-
bém experimentar se colocar de modo diferente nas Historicamente, o papel da mãe sempre foi muito
relações para observar como as respostas dos outros relevante na educação dos filhos. As crianças sofriam
podem ser distintas. nos primeiros anos de vida a influência da mãe, do
pai, dos irmãos, dos avós, dos tios. A vida era quase
um clã, como é até hoje em certas áreas rurais. A par-
Há um ano, rompi um relacionamento de quinze anos, perdi tir de 1960, a influência de outras variáveis sobre a
o emprego, tive que me adaptar a uma rotina absolutamen· educação vem crescendo muito. As crianças vão para
te nova. Perdi meu pai, sou filha única, cuido de minha mãe a escola cada vez mais cedo. Antigamente, iam por
e de meus avós maternos. Estou apavorada com tantas per· volta dos seis anos. Hoje, a média está em torno de
das e ausências. Sei que não existe fórmula mágica, mas dois anos. Então, a criança começa a ter influência
como posso superar tudo isso? (Karina) de pais e professores, de pais de outras crianças, dos
meios de comunicação -por intermédio de desenhos
As adversidades mais difíceis de suportar são as animados, programas de televisão. Antigamente, a
relacionadas com rupturas, com perda de vínculos criança não tinha voz ativa. Agora, manda na casa a
92 afetivos, com mortes. São situações de sofrimen- partir dos três, quatro anos. É "chefe de família". Isso 93

to máximo. Pessoas mais maduras são as que lidam deve deixá-la extremamente insegura. Atualmente, a
melhor com esses momentos da vida. As mais ima- família conta muito menos em termos de educação.
turas não se conformam, insistem em agir de modo O papel dos pais é muito menor do que o dos ami-
a querer reverter o irreversível, a querer modificar o gos, da televisão. No caso das drogas, por exemplo, a
rumo das coisas, que têm seu ritmo natural. Perdas família não interfere obrigatoriamente nessa questão.
e sofrimentos acabam por definir a capacidade de Quinze anos atrás, o número de meninas com catorze
conseguirmos amadurecer. Por meio das superações, anos que bebiam uma vez por mês era 0,2 ou 0,3%.
vamos chegando mais perto da tolerância absoluta, Hoje, é de 35%. E o número de meninos era dez, doze
e tudo aquilo que vier a nos acontecer não será mais vezes maior do que o de meninas. Agora, é exatamen-
capaz de nos derrubar. te igual. E os pais não têm nada a ver com isso. Não é
porque os pais bebem mais do que bebiam, bebem a
mesma quantidade do que bebiam, mas a propagan-
Qual a importância da mãe em nossas mazelas emocionais da e a influência do ambiente e dos amigos contam
e na construção do ser humano? (Sonia) mais do que a família.
A MENTE
DOENTE
As fronteiras entre um de-
pendente efetivo de bebida e o sujeito que faz uso
regular de álcool, mas mantém as doses sob controle,
são bem frouxas. Estudiosos mais radicais apostam
que todo indivíduo que bebe diariamente é alcoólico.
Outros acreditam que só para quem o álcool prejudi-
car a vida social, profissional e familiar pode ser con-
siderado doente.
A frequência com que os adolescentes vêm con-
sumindo bebida é muito alarmante. Quinze anos
atrás, 2,3% dos meninos entre catorze e dezesseis
anos bebiam com alguma regularidade. Praticamen-
te zero por cento das meninas ingeriam álcool. Hoje,
ambos bebem na mesma quantidade, e 33o/r' deles fa-
zem isso regularmente.
Quanto mais cedo o indivíduo começar a beber, O que leva uma mulher a se tornar alcoólatra depois dos
maior o risco de se tornar dependente químico. É cinquenta anos? Trata-se de uma mulher bonita, mas
possível prever que, daqui a vinte anos, haverá um au- agressiva, que foi infeliz no casamento. Está divorciada
mento considerável do número de dependentes quí- há dezoito anos, é aposentada, tem boa renda. Atualmente
micos, pessoas que dormem mal sem álcool suficien- sem atividade, não aceita envelhecer. Os filhos, já adultos,
te circulando pelo organismo, acordam com tremores parecem ignorar a gravidade do problema. Como os irmãos
e só sossegam no momento em que bebem. Têm defi- podem ajudá-la, uma vez que ela não admite que a bebida
cit da função intelectual e da memória. Às vezes, são afeta seu comportamento e sua vida social?
tímidas e começaram a beber em função da vergo-
nha que sentiam socialmente; outras são reservadas É curioso, mas o alcoolismo costuma ser mais
demais e se tornam mais agressivas com a bebida. tardio nas mulheres do que nos homens. Não é rara a
O tratamento é sofrido. Toda dependência quí- história de a mulher se perder de si mesma e não ver
mica que se acopla à psicológica é sempre muito outro horizonte, a não ser se entreter com o álcool.
trabalhosa, difícil de obter bons resultados. A maior O uso começa a ser um pouco mais regular e, de re-
98 parte dos pacientes que procuram ajuda entra em clí- pente, mesmo que a pessoa não reconheça, torna-se 99
nicas e pensa em ali permanecer por poucas sema- dependente psicológica e, depois, química. Nos ho-
nas. Desintoxicam-se, mas têm recaídas com regula- mens, o uso excessivo costuma aparecer na puberda-
ridade quase absoluta. Os melhores resultados que se de e na adolescência, quando, por timidez, sentem-
conhecem sobre o alcoolismo proveem dos grupos de -se atrapalhados para abordar as moças. Ficam mais
ajuda formados pelos próprios alcoólicos, os Alcoóli- excitados, mais ousados com a bebida, e se apegam
cos Anônimos (AA). Foi o primeiro grupo de autoajuda a ela mais do que deveriam. Nos primeiros anos da
montado no mundo. Gente que conhece por dentro o vida adulta, não raramente o álcool está relacionado
problema, que é tolerante quando um paciente sofre aos revezes sentimentais. São as histórias das dores
reincidência. Nas reuniões, há um clima de cordia- de cotovelo, dos botecos, em que os homens afogam
lidade, de conversa franca. Os AA apresentam resul- suas mágoas em mesas de bar e acabam se tornando
tados muito bons, dos quais a medicina oficial não viciados em bebida. No caso das mulheres, o abuso
chegou nem perto até hoje. é claramente identificado na época do ninho vazio -
quando os filhos saem de casa-, durante a aposenta-

* doria, quando ocorre algum infortúnio pessoal ou há


grande dificuldade de envelhecer, como neste caso: recair. Quando tudo entra em ordem outra vez, é hora
uma pessoa aposentada, com filhos adultos e divor- de ressurgir a tendência destrutiva. Infelizmente, no
ciada pode ficar rancorosa com o fato de que os anos seu caso, você não pode considerar que está l 00%
estão passando e a beleza e a sensualidade não são livre do álcool. É melhor levar em conta que tem uma
mais atrativos sedutores. A agressividade significa não característica quase biológica de ser dependente.
saber lidar com as adversidades da vida. Se a família
tentar sinalizar que se trata de alcoolismo, a pessoa
nega, sente-se agredida e naturalmente se afasta de Tenho um relacionamento há sete anos e ele nunca me as-
quem a coloca na posição de alcoólatra. Internação sumiu como namorada. Mesmo assim, continuo na relação.
para desintoxicação só pode ser feita com a anuência Estamos juntos em praticamente todos os finais de semana.
do indivíduo doente. Muitas vezes, a família sente-se Quando saímos, ele bebe bastante -às vezes fica eufórico,
impotente e precisa aprender a ter humildade para às vezes, triste. Etambém às vezes diz que sou a mulher da
encontrar o momento oportuno de interferir. vida dele. Ele é bipolar, cada hora fala uma coisa diferente.
Tenho a esperança de que um dia ele vá me assumir. Não
100 cobro muito uma atitude dele. (Ana) 101

Aos vinte anos, tive um problema sério com bebida. Estou


com 33. Sempre que alcanço grandes objetivos, como na Não sei se ele é bipolar, porque o doente tem
empresa ou na minha vida pessoal, tenho uma recaída. oscilações entre tristeza e euforia não diariamente,
Bebo novamente e perco tudo. Preciso tomar medicamento mas durante semanas mantém um modelo e, em ou-
e recomeçar do zero. Então, quando consigo mais uma vez tras, o modelo oposto. Depois de sete anos, acho que
vencer, vem a recaída. (Elias) esse moço é indeciso demais e não acredito que vão
acontecer grandes mudanças nos próximos sete anos.
Parece que, sem perceber, você sabota sua felici- Você não deve cobrar nada mesmo - deve, sim, cui-
dade. E é na hora do sucesso que precisa ficar mais dar de sua vida. Se ele não corresponde às suas ex-
esperto. Deveria frequentar os Alcoólicos Anônimos, pectativas, você precisa tomar providências. Cobrar
porque lá iria aprender que, mesmo no momento em é sempre indevido, porque cada um tem o direito de
que para de beber, a pessoa precisa assumir que sofre fazer absolutamente o que quiser. Parece, porém, que
de uma compulsão e mantém uma relação compli- seu parceiro tripudia em cima de sua tolerância. Se
cada com a bebida, de maneira que pode facilmente você desse indícios de que está desistindo dessa vida
incerta, poderia detectar claramente se ele pretende de curtir a guloseima, é compulsivo. Não acho que
mudar de posição ou se vai tentar manter indefinida- precisa existir nenhum mecanismo inconsciente para
mente esse namorico sem compromisso. justificar esse mau hábito. É a construção de uma
associação que se faz por qualquer bobagem infantil.
Um menino gordinho pode mastigar o chocolate de-
Existe algum mecanismo que nos faça descobrir nossos pressa demais até por ter vergonha de comer essa gu-
traumas? Falo sobre a compulsão alimentar que me assal- loseima, porque gordo que é gordo não deveria con-
ta em algumas fases da vida. Nunca fui gorda o tempo todo, sumir chocolate. Então, ao comer rapidamente, ele
engordei agora pela terceira vez. Além da terapia, há algum se acostuma a comer cada vez mais ligeiro. No dia em
exercício de reflexão que eu possa fazer para entrar dentro que quiser lamber uma barra e ficar brincando com
de mim mesma? o chocolate na boca, vai se sentir incapaz, porque já
está condicionado a comer muito vorazmente. Para
Não sei se existe tal mecanismo. Tenho até um mudar, é preciso muito esforço, muita obstinação. E
pouco de dúvida sobre quanto esse processo é re- todos os recursos terapêuticos são válidos para che-
102 almente inconsciente. O fato de existir dificuldade gar a esse fim. 103
de mudar certos hábitos e comportamentos não de-
riva obrigatoriamente de fatos que nos prendam ao
passado. Mudar hábitos, ou qualquer coisa em nós Estou casado há catorze anos e minha mulher não tem o
mesmos, é um processo dificílimo. Para fabricar as- hábito de pagar as contas. Minha sogra também não cos-
sociações, basta um instante; para dissociar, demora tuma honrar seus compromissos, nem conta de água, luz e
um inferno de tempo. Difícil mesmo é transformar telefone. Como tive outro tipo de educação, esse costume
hábitos simples, como na questão alimentar: mas- está causando um transtorno sério em meu casamento.
tigar com calma, engolir primeiro antes de colocar (Nelson)
a porção seguinte na boca. É uma coisa óbvia, por-
que quanto mais devagar a pessoa come, mais prazer Existem dois modelos de pessoas: as que não
sente. O prazer está na comida passeando pela boca. pagam as contas e acham que não têm que pagar
Mas há quem torne a permanência do alimento na porque foram enganadas ou porque receberam uma
boca o menor tempo possível. Quando você engo- mercadoria não compatível com o que encomenda-
le uma barra de chocolate, perde a oportunidade ram, e outras qu'e usam esse tipo de desculpa sim-
plesmente para não pagar- e pronto. Sua mulher ar- duo passa por uma limitação física mais severa, uma
ruma uma encrenca para justificar o não pagamento. adversidade, padece, na recuperação, de medo, que
Parece que é uma pessoa sem valores e princípios. pode ser chamado de fóbico. É um medo indevido.
E você fica chocado porque seus princípios são feri- Comparativamente, uma pessoa que sofreu um in-
dos. O que mais caracteriza esse tipo de personali- farto e precisa viajar até Campinas, por exemplo, vai
dade que sua mulher tem é a ausência de qualquer tremer de medo por dirigir cem quilômetros sozinho.
sentimento de culpa, de vergonha. E, pelo jeito, ela Pensa: "Será que estou tão bem fisicamente como o
não tem medo de represália, nem de castigo. Acho médico afirmou?". É muito difícil recuperar a con-
que você deveria refletir sobre como é sua mulher fiança depois de uma doença grave, seja uma cirurgia
de fato, e não somente sobre esse traço do compor- na coluna ou um infarto. Até que o indivíduo possa
tamento dela. ficar forte o suficiente para enfrentar a nova vida, pa-
dece. Mas seu fisioterapeuta tem razão: você precisa
insistir para recuperar a autoconfiança. E deve mon-
Tive um problema de hérnia de disco e fiz três operações, tar uma estratégia comportamental, ir enfrentando
sucessivos e crescentes obstáculos até acreditar no- 105
104 pois estava perdendo os movimentos dos membros infe-
riores e superiores. Na última cirurgia, foram colocadas vamente em si mesmo. Às vezes, há a necessidade de
placas de titânio. Os movimentos voltaram, e o médico recursos medicamentosos, que ajudam a diminuir o
me disse que a recuperação será lenta e gradual. Voltei a medo. Quando se fala em síndrome do pânico, fala-
andar na rua com bengala e, às vezes, fico com medo. En- -se na conveniência de usar medicação antidepressi-
tro em pânico. Meu fisioterapeuta diz que devo insistir até va, que funciona como tranquilizante para o temor.
ganhar confiança, porque estou inseguro. Minha psicóloga
acha que sofro de síndrome do pânico. Quem tem razão?
(Carlos Roberto) Sou viúvo, tenho 74 anos e um filho de 44, que não trabalha
há sete. Ele é formado em direito e, desde que perdeu o
Não há antagonismo entre um diagnóstico e último emprego, entrou em depressão- passa os dias entre
outro. É somente uma questão de nomenclatura. a tevê e a internet. É muito tímido, nunca o vi com nenhuma
Síndrome do pânico é um nome mais pomposo. No namorada. Suas iniciativas se limitam a prestar concursos
fundo, você tem medo de perder a firmeza. No caso e, quando aprovado, arruma pretextos para não assumir o
do pânico, é medo de ter medo: depois que o indiví- cargo. O que faço para ajudá-lo? (Francisco)
Seu filho está com um problema psicológico bas- cos irritativos cerebrais, que provocam esse tipo de
tante sério. Além de muito tímido, e eventualmen- impulsividade, agressividade e descontrole. Essa
te ter dificuldades na área sexual, comporta-se mal hipótese teria que ser afastada por um neurologista
diante da vida. O fato de sempre arrumar um pretex- - talvez essa seja a primeira etapa. Depois disso, é
to para não assumir responsabilidades está ancorado preciso verificar se ele é do tipo que não tolera bem
na facilidade que encontra em casa. Além de acomo- contrariedades. Ou seja, se reage como se fosse uma
dado, parece ser portador de perfeccionismo, prova- criança mimada, que não pode ser contestada sem-
velmente por ter medo do fracasso. A única coisa que pre que as coisas não saem do jeito que quer. Portan-
você pode fazer é insistir para que ele busque ajuda to, ele reage explosivamente, e é agressivo, mesmo
psicológica, e talvez psiquiátrica, a fim de ganhar ener- que não haja qualquer fundamento para isso. Seu
gia, determinação e coragem para fazer o que deveria filho pode ter um foco irritativo cerebral na região
ser feito, ou seja, ir atrás de um caminho próprio. E temporal esquerda ou sofrer de imaturidade emocio-
não ter uma vida quase vegetativa e ser um parasita nal - neste caso, um tratamento psicológico é abso-
na vida do pai, já que não é mais nenhuma criança. lutamente necessário, embora não seja fácil cuidar
106 desse tipo de pessoa. Porque, quando contrariada 107

pelo médico ou psicólogo, costuma desistir do pró-


Tenho um filho de 35 anos que está sempre de mau humor. prio tratamento.
Ele é muito agressivo, xinga todos os familiares, pai, mãe,
irmã. Já quebrou coisas dentro de casa. Trabalha como se-
gurança em restaurante e em casa noturna, mas, no mo- Sofro de uma leve depressão, que atrapalha meu dia a
mento, está desempregado. É meio violento fora de casa. dia. Também tenho TOC (transtorno obsessivo compulsi-
Tem uma namorada há cinco anos- praticamente já estão vo): lavo as mãos três vezes antes de me alimentar, não
casados -, e ela é pacata e submissa, aguenta tudo o que como nada que os outros me dão. Se alguém me beija, te-
ele faz. Como ele não bebe, e acho que não usa drogas, nho que lavar o rosto. Ando com algumas manias ligadas
penso que deve ter um problema de saúde. Gostaria que o ao medo de doenças, como a AIDS. É um medo irracional.
senhor me indicasse um tratamento. (Roberto) Tenho parceiros mais ou menos fixos. Tomei um antide-
pressivo, a fluoxetina, e percebi que essa droga inibiu um
Existem duas possibilidades: seu filho pode ter pouco minha libido. Todos os medicamentos têm esse
alguma lesão ou dificuldade neurológica ligada a fo- efeite? (José)
Antidepressivos mexem com a função sexual tamente. Algumas fobias, causadas pelo pânico, ainda

masculina. Esse é um fato indiscutível. No seu caso, são remanescentes. Não consigo dirigir, pegar ônibus ou

a conduta ideal é associar algum tipo de medicação metrô sozinho. Se houver alguém ao meu lado, vou a qual-

com psicoterapia, para que você possa enfrentar esses quer lugar. Tenho medo de passar mal e não ter ninguém

medos e parar de sofrer tanto. Existem outros remé- para me socorrer. Gostaria de saber que tipo de terapia é

dios, mais antigos que a fluoxetina, como os tricícli- mais indicado para o meu caso. Há alguma específica para
cos, que são eficientes para TOC. São antidepressivos fobia? (André)
eficazes, que retardam a ejaculação, mas não costu-
mam diminuir o desejo. Identifique, primeiro, se o O uso de medicação antidepressiva ajuda a di-
desejo está diminuído por causa do medo de contrair minuir o pânico. E todo medo só é curado quando a
o HIV ou se você está sofrendo efeitos colaterais do pessoa resolve enfrentá-lo. A atividade física é funda-
remédio. Ou a soma das duas coisas. Cabe tentar ou- mental para ganhar confiança. Houve uma época em
tro tipo de remédio que diminua a ansiedade e reduza que eu sofria de fobia de avião. Meu medo não era
a depressão. Que melhore os sintomas relacionados que o avião caísse, mas que eu sofresse um infarto
108 ao transtorno obsessivo e mexa o mínimo possível causado pelo pânico de voar. Resolvi, então, começar 109

com a função sexual. Se o tricíclico não funcionar, a fazer exercícios físicos, como a corrida, para ganhar
é recomendável buscar outro medicamento, até que autoconfiança. Percebi que meu coração não estava
você consiga o máximo de resultado positivo com um tão fraquinho a ponto de pifar. E decidi encarar a
mínimo de efeito colateral desagradável. Mas, já es- situação. Naquela época, não se tinha ainda muito
clareço, que remédios eficazes para TOC e para uma conhecimento da ação dos antidepressivos para casos
depressão como a sua trazem algum prejuízo para a como o meu. Fiz uso de outros tipos de medicamento,
função sexual, como o retardo da ejaculação. A maior como tranquilizantes, e fui passando mal, sofrendo o
parte dos homens não costuma se queixar disso, por- diabo a quatro, até me recuperar. As técnicas com-
que acha que é uma grande conquista. portamentais, chamadas cognitivo-comportamentais,
são sempre boas estratégias. O terapeuta monta uma
escala de enfrentamento e você tem de ultrapassar a
Tenho 37 anos e síndrome do pânico há catorze. Faço situação de pânico. Minha sugestão é: entre no carro
tratamento medicamentoso e já passei por psicoterapia, e dirija ou pegue o metrô. Você não vai morrer. Vá em
que não gostei, embora não tenha me entregado comple- frente, porque é assim que se cura essa doença.
Tenho quarenta anos e passei a vida tomando remédios, Desde a época da faculdade, sentia que precisava de ses-
porque, quando criança, bati a cabeça ao ser atropelado. sões de psicoterapia. Nunca procurei tratamento por falta de
Sou uma pessoa muito violenta, já agredi meus pais e to- condições financeiras e por vergonha de falar sobre meus
das as mulheres com quem me relacionei. Perdi todos os problemas. Estou deprimido e me automedico com antide-
meus amigos e me envolvi com drogas. Hoje, moro sozinho. pressivos. Sou muito tímido, meu círculo de convivência é
Deixei de gostar de mulheres e passei a me interessar por restrito. Meus receios aumentaram depois de descobrir que
homens. O episódio da minha infância seria a explicação meu irmão é esquizofrênico. Do jeito que as coisas estão
para meu comportamento? (Carlos) caminhando, acho que, em breve, perderei meu emprego e
talvez até meu casamento. Sinto-me um incompetente. Sou
É provável que, ao ter batido a cabeça, você te- evangélico e venho questionando minha crença religiosa.
nha ficado com alterações de ritmo elétrico cerebral, Estou em uma situação ma qual quase não me reconheço.
que costumam ser as responsáveis por agressividade Como fazer para resolver meus conflitos? (Alexandre)
e violência, às vezes descontroladas. Toda essa agres-
sividade pode ter complicado muito a sua vida e ter O fato de ter um irmão esquizofrênico não signi-
110 levado você a um estado muito solitário. Você deveria fica que o mesmo venha a acontecer com você. Mas 111

buscar ajuda com um neurologista, já que existem re- automedicar-se é uma solução muito ruim, porque
médios que podem diminuir dramaticamente a agres- você não conhece os remédios e não sabe exatamente
sividade, deixando você em condições favoráveis de qual funciona para o seu caso. Ter vergonha de con-
manter uma vida social adequada. A impressão que tar seus problemas para um terapeuta não combina
tenho é de que o interesse por homens está relacio- com o nível de instrução - universitário - que você
nado ao fato de você achar que esse é o caminho mais tem. Existem clínicas em que o tratamento é pratica-
fácil, porque, no universo homossexual, tudo corre mente gratuito e onde você deveria buscar ajuda. Em
mais rapidamente, as paqueras são menos intensas, vez de ficar cheio de vergonha, ter pudor, medicar-se
a vida sexual é mais fugaz. O elemento erótico pode sozinho e esperar que todas as coisas ruins aconte-
aparecer sem nenhum envolvimento sentimental çam, sugiro que vá atrás de auxílio psicológico, algo
maior. O fato de você estar interessado por homens que você vem relutando em fazer ao longo de todos
parece ser uma solução prática e conveniente. E não esses anos. Provavelmente, vai gostar muito da expe-
vejo problema nenhum nisso. O problema é a sua riência de abrir seu coração para alguém experiente
agressividade, que precisa ser combatida. e confiável.
Sou corretor de imóveis, sempre gostei da adrenalina de Estou em tratamento psiquiátrico desde 2006, porque te-
conseguir fechar um negócio. Agora, o trabalho que me nho um quadro compatível com esquizofrenia. Sofria delí-
dava prazer tem me deixado esgotado e deprimido. Quase rios de perseguição, ouvia vozes. Elas diziam que a culpa
sempre saio de casa com a certeza de que não vou vender de tudo o que acontecia com a minha família era minha.
nada. Fico angustiado e com medo de não conseguir sus- Sentia policiais colocando a mão em mim, achava que
tentar minha família. Devo procurar um médico? (Tomás) meu telefone e meu computador estavam sendo monito-
rados. Fazia uso de remédios voltados para esse quadro.
O desânimo e a depressão chegaram em má Cheguei a pedir demissão dos empregos por achar que as
hora. Porque, hoje em dia, a situação para um cor- pessoas estavam conspirando contra mim. Tentei o sui-
retor de imóveis não é realmente muito boa. O mer- cídio. Depois de um ano e três meses de tratamento, os
cado em São Paulo está se estreitando. É pena que sintomas desapareceram. E deram lugar a um vazio, ou
você tenha perdido o estímulo para ir atrás desse à apatia, ao desânimo, à tristeza. Só tenho vontade de
jogo de fechar negócios, já que ele é parecido com ficar na cama, dormindo, e gostaria que Deus me levasse
um jogo de sedução: amarrar as duas pontas, fazer deste mundo. Sofro de depressão severa. Tomo antide-
112 com que o comprador e o vendedor achem um valor pressivos. O que faço para voltar a lutar por meus objeti- 113
que seja adequado para ambos, que fiquem satisfei- vos, para ser aquela pessoa que eu era antes? Desde os
tos com o resultado. Não é um trabalho tão simples quinze anos, sonhei que ia estudar, fazer faculdade, morar
quanto pode parecer. E, se você sempre gostou dis- sozinha. No decorrer da vida, conquistei todas essas coi-
so, tem toda a razão, pois é um trabalho instigante, sas. Hoje, tenho meu apartamento, sempre trabalhei em
que exige habilidade, inclusive psicológica, bastante multinacionais, fiz cursos de idiomas no exterior, cursei
requintada. Em épocas de crise financeira, a respon- pós-graduação. Agora, não tenho mais vontade de nada.
sabilidade do homem se torna muito mais penosa, {Eiaine)
mesmo quando ele e a mulher trabalham, porque se
pressupõe que o sustento principal tenha de vir dele. Você precisa ter um pouquinho de paciência e
Provavelmente, você está sofrendo de um quadro de- compreender que todos esses quadros fazem parte
pressivo, pois não há nenhuma razão· para ter ficado de um problema de ordem química. Não tem a ver
esgotado. E, se não for atrás de uma boa conduta com sua história de vida, nem com sua estrutura,
médica, vai acabar se prejudicando muito no traba- mas com um infortúnio biológico. Você é uma pessoa
lho. Vale procurar ajuda psicológica também. com predisposição orgânica à esquizofrenia- doen-
ça caracterizada por delírios, alucinações auditivas e Quando acontecem fatos concretos, essas osci-
um quadro bem típico que se chama paranoide (isto lações de humor são comuns. Como você está muito
é, persecutório) -, seguida de depressão. Você pre- fragilizada, deveria insistir na medicação e tentar um
cisa trabalhar junto com seu médico para superar tratamento psicológico, a fim de ficar um pouco mais
esses problemas, porque é provável que você possa forte para aguentar as adversidades da vida. Porque
voltar a ser aquela pessoa com determinação e garra elas vão continuar a existir. Sempre.
que luta por seus objetivos. Sua doença deve ser vis-
ta como um dramático acidente de percurso.
Minha mãe, que morreu aos 85 anos, sofria de mal de
Parkinson e era bipolar. Toda a minha família tem algum
Desde 2005, sofro de um quadro de depressão. Perdi meu transtorno mental. Estou com 63 anos. Gostaria de saber
irmão, que era esquizofrênico. Durante uma das altas, mi- se corro o risco de vir a ter alguma doença desse tipo.
nha casa pegou fogo e ele morreu asfixiado. Isso me abalou (Beatriz)
bastante. Casei muito nova, com dezenove anos, tive dois
114 abortos espontâneos, uma gravidez tubária, problemas de Não obrigatoriamente. Quando se fala em do- 115

relacionamento. Tomei a decisão de me separar. O em- ença familiar, significa predisposição a certos males,
prego era a minha motivação. Em 2006, perdi minha mãe. mas não são todos os integrantes da família que vêm
Depois de três meses da morte dela, descobri que meu a sofrer deles. Você tem muita lucidez sobre esses
namorado, com quem me relacionava já há um ano, usava problemas, tendo em vista o que aconteceu com a
drogas. Foi uma decepção muito grande. Acabei rompen- sua mãe, e saberá detectar se não estiver bem psi-
do esse relacionamento. A depressão ficou cada dia mais quicamente. Em caso de depressão, por exemplo, os
forte. Já tomei fluoxetina, parei, voltei a tomar em doses sintomas são facilmente identificáveis: você acorda
mais elevadas. Mudei de médico mais de uma vez. Passei tristíssima sem nenhum motivo aparente, vê tudo
a tomar sertralina três vezes ao dia. Já estive bem melhor. como se estivesse vestindo óculos negros, sofre de
Voltei a trabalhar, me sentia motivada na empresa. Mas um pessimismo danado, tem choro fácil e imotivado,
tive problemas com a chefia. Mudei de área, porque queria apresenta alterações de apetite e sono. No mal de
melhorar o trabalho que faço, mas essa vontade de mudar Parkinson, há um tremor evidente, uma dificuldade
não pegou muito bem na empresa, e acabei regredindo no grande para certas atividades com as mãos. Se até os
tratamento. (Eliana) 63 anos você não. teve nenhuma grande manifestação
de bipolaridade, pode ser que você sofra no futuro de Sinto muito desconforto ao viajar. Tenho medo de passar
alguma doença ligada somente à questão senil, mas mal e vomitar durante o trajeto. A fobia ligada à viagem
não acredito que a predisposição familiar tenha che- começou a piorar quando estava com 23 anos- agora tenho
gado até você. 36. Perdi muitas viagens profissionais por causa do medo.
Por volta dos trinta, estava tão mal que os sintomas pas·
saram a ocupar 24 horas do meu dia. Entrei em depressão
Gostaria de saber se transtorno bipolar tem cura. Estou com e fiquei dois anos afastado do trabalho. Hoje, faço terapia,
45 anos e a doença se manifestou aos 38. Fiquei internado tomo remédios e me sinto melhor. Com a terapia, consegui
durante um mês no Hospital das Clínicas (SP) por causa de resolver muitos problemas que nem imaginava ter. Mas o
depressão. Fiquei de cama e não me levantava mais. Tomei principal não foi resolvido. Não viajo há seis ou sete anos.
remédio e passei por psicólogo e psiquiatra. Já tive perío- Como tratar dessa fobia mais objetivamente? Devo conver·
dos em que me sentia muito eufórico e outras fases em que sar com minha terapeuta para que o tratamento seja mais
era normal - embora essas durassem pouco. Quando acho focado nessa questão? (Carlos)
que estou bem, sinto pânico. (Juarez)
116 Na medida em que você tem bons resultados em 117

O distúrbio bipolar é uma falha na química cere- muitos aspectos de sua vida pessoal, significa que a
bral. São alterações no metabolismo de uma substân- terapia tem sido eficaz. Seu medo acabou se gene-
cia neurotransmissora chamada serotonina. Em algu- ralizando para as questões sociais e para as viagens,
mas pessoas, a quantidade dela é meio irregular. Às mas sempre voltado ao medo de vomitar. Como não
vezes, a concentração é grande demais; outras vezes, conseguiu circunscrever isso, você está cada vez mais
baixa demais. Quando está alta, o indivíduo se torna impedido de viajar ou de sair dos limites de seu mu-
eufórico; quando está baixa, deprimido. Essa regula- nicípio. Isso merece um tratamento mais focado, di-
gem não é automática. A pessoa precisa tomar algum rigido especificamente para enfrentar essas situações
tipo de medicação estabilizadora do humor por um com sucesso, apesar do sofrimento. Porque é difícil
longo período para que a concentração de serotonina imaginar que você vai conseguir viajar sem ansiedade
possa se manter estável. Não há cura. Mas é possível e sem tensão. Você precisa estabelecer uma estraté-
viver, trabalhar, namorar, ter vida familiar. É um pro- gia progressiva e gradual, ir cada vez mais longe. São
blema como o diabetes, que pode ser administrado. estratégias comportamentais que, às vezes, passam
Em geral, as pessoas respondem bem aos remédios. por relaxamento muscular profundo ou pedem o uso
de medicação antidepressiva. Antidepressivos funcio- vangloriar de feitos que não fez. Em minha opinião, é
nam como calmantes para o medo e podem ser muito uma falha de caráter, e falha de caráter é um proble-
eficientes na resolução de quadros fóbicos. ma de personalidade, que é chamado hoje, em psi-
quiatria, de "distúrbio de personalidade". Não acho
que tenha cura fácil. Seu namorado, provavelmente,
Namoro há sete meses um rapaz que tem mania de men- agirá dessa forma sempre, porque é um manipulador
tir. Certa vez, a tia dele bateu o carro quando voltava do e tem um senso de oportunismo bastante perigoso.
trabalho e, no dia seguinte, ele me ligou para dizer que
teve de sair à noite para socorrê-la, que chegou em casa
por volta das cinco da manhã porque houve necessidade Ansiedade é doença? Como ajudar pessoas que falam sem
de fazer perícia, já que alguém no outro carro havia se fe- parar, que não nos escutam? Há ferramentas para alguém
rido. Fui tiràr a história a limpo com a mãe e a tia dele e aumentar o autocontrole? (Cláudia)
descobri que era tudo mentira, que ele não havia ajudado a
resolver nada. Quando fui questioná-lo, e ele continuou in- Existem pessoas que falam tão rápida e compul-
118 sistindo na história. Depois de muita confusão, confessou o sivamente que não sobra tempo para ouvir. Talvez 119

óbvio: disse que fez aquilo porque queria se sentir útil, que achem que, porque falam tanto, dizem coisas muito
ninguém nunca dava valor a ele. Continuamos juntos, mas sábias. Mas o pensar rápido não garante inteligência.
meu sentimento já não é mais o mesmo. Não confio nele, Então, é preciso que reflitam sobre a questão da inte-
fico impressionada com o "teatro", a frieza, a manipulação. ratividade. Falar muito significa que o outro não tem
Mentir pode ser uma patologia? Tem cura? (Mônica) a menor chance de contar nada. Quer dizer também
que o falante, difícil de ser interrompido em seu dis-
É preciso tomar cuidado com temas que estão na curso, não quer saber se o outro está com vontade de
fronteira da psicologia e da moral. É possível avaliar o ouvir. É uma relação unilateral. O ansioso tem que
problema não só pelo lado da doença mas também do dar espaço para que o outro possa participar do fil-
distúrbio de caráter. Se fosse realmente uma doença, me. Não percebe o quanto está sendo inconveniente
a mentira deveria, por vezes, prejudicar o mentiroso, e desagradável e o quanto está perdendo ao não inte-
e nunca é assim. O mentiroso sempre se sai bem das ragir com os demais indivíduos. Porque ouvir é uma
situações. O indivíduo mente para escapar de uma si- forma extraordinária de crescer. Quem não troca não
tuação inadequada, mente, como nesse caso, para se muda seu discur~o. Não progride. Quem não ouve
não aprende. A receita é aprender a ficar quieto. Às Não basta entender o mecanismo desse transtor-
vezes até com o uso, temporário, de medicação. Um no: é preciso tentar se livrar de maus hábitos que vão
tranquilizante pode levar o indivíduo a se tornar um se formando. Às vezes, antidepressivos ajudam a en-
pouco mais sereno. gordar, e a própria doença tende a provocar mudanças
no apetite. Depressões mais leves costumam aumen-
tar o apetite e dar a impressão de que há um buraco
Otratamento para depressão é necessariamente longo? Es- na boca do estômago. Assim, a pessoa tem a sensação
tou deprimido desde a morte de minha mãe, há três meses. permanente de fome. E a saída é comer, comer, co-
Já tive outras duas crises depressivas - uma aos dezenove mer. O problema não é alimentar, mas o desamparo,
anos, outra aos 43. Tomei medicação e melhorei significa- a incompletude. Comida não é remédio. Tire proveito
tivamente, mas parei por conta própria. Passei um longo da comida, sinta o gosto de cada alimento na boca,
período sem remédio e agora estou novamente deprimido. coma com prazer. A ansiedade precisa ser tratada.
(Sérgio) Você precisa de algum tipo de ajuda psicológica.

120 Você está deprimido por uma razão mais do que 121

justa, a perda de sua mãe. Os médicos costumam Minha filha tem compulsão por compras. Apesar do bom
recomendar antidepressivos de um a três anos. Essa salário, vive endividada. O noivo dela sofre desse mesmo
é a norma. Acredito que o período de uso para uma problema, em um nível talvez até mais alto. Como posso
situação como essa que você está vivendo pode ser ajudar minha filha? (Pedro)
mais modesta.
É difícil para um pai conseguir interferir. Hoje, a
sociedade pressiona terrivelmente na direção do con-
Como compulsivamente. Não consigo me controlar. Sou sumo e nem todas as pessoas ganham o suficiente
como aqueles fumantes que não param de fumar. Era muito para ter tudo o que gostariam. É tamanho o volume
magra e, por volta dos 25 anos, comecei a engordar- mais de coisas que surgem a cada dia - celulares novos,
de quarenta quilos. Tenho 1,80 me peso 114 kg. Estou com l\1P3, equipamentos eletroeletrônicos, automóveis
39 anos e já tive depressão. Tomei antidepressivo, mas não - que qualquer pessoa que não for comedida, mes-
adiantou absolutamente nada - o remédio me dava dor de mo tendo um bom salário, pode perfeitamente viver
cabeça. O que faço? (Márcia) endividada. Somente quem for disciplinado e firme
consegue não cometer esse tipo de desatino. É qua- fez algo inaceitável. É preciso ter consciência de que
se um vício, que exige tratamento psicológico. Difícil coisas muito ruins acontecem a qualquer um de nós.
ajudar por qualquer outro caminho. Ninguém está imune a esse tipo de sofrimento. Mas,
digo sempre, o sofrimento tem de ser o menor pos-
sível. E é justamente a atitude oposta que sua irmã
Minha irmã perdeu um filho de 22 anos há dois meses e adotou, já que ela "quer" continuar sofrendo, porque,
não está conseguindo lidar com essa situação. Desde o aparentemente, por meio da dor, confirma a presen-
dia da morte dele, ela ingere apenas líquidos, não come ça do filho. Se parasse de sofrer, ela pensa, é como
nada sólido. A intenção dela é ficar desnutrida para par- se estivesse se afastando do garoto, estivesse acei-
tir desta vida o mais breve possível. Chora o dia inteiro e tando esse fato inaceitável. Cada um de nós precisa
culpa Deus pela morte do filho. Isolou-se do mundo e não aprender a aguentar os fatos impactantes da vida. Ser
aceita nenhum tipo de ajuda, seja psiquiátrica ou psico- tolerantes à dor. Caso contrário, dificilmente conse-
lógica. Quando comentamos que precisa de apoio de um guiríamos viver. Quem sabe, daqui a pouco sua irmã
profissional, ela fez a seguinte pergunta: "Ele vai devolver aceita uma medicação, algo que possa amainar um
122 o meu filho?". Somos uma família muito unida e não esta- pouquinho o sofrimento. 123

mos sabendo o que fazer. (Sílvia)

Não há dor maior do que a perda de um filho, A mulher de um amigo tem transtorno bipolar. Atualmente,
especialmente de um jovem. O quadro depressivo está na fase de mania. Qual a atitude que ele deve adotar?
talvez não possa ser resolvido somente com remédios Ouvir e não falar nada, contradizer ou argumentar? Por que
- depende um pouquinho também de maturidade algumas das pessoas de convivência íntima são os alvos
emocional, de como sua irmã se colocava diante da preferidos, como o marido e um dos filhos, e outras são
vida antes desse acontecimento. Ela acabou se trans- poupadas das agressões, como a empregada doméstica e
formando em uma pessoa muito revoltada, até contra as amigas, que nem percebem que ela está doente? Essa
a figura de Deus, o que não ajuda em nada o proces- pessoa vem se tratando com psiquiatra, usa medicação e
so de recuperação. Ninguém pode pensar que Deus está, nesse quadro atual, talvez há seis meses. (.11lão Carlos)
existe e é bom enquanto faz as coisas acontecerem do
jeito que gostaríamos. Quando acontece uma tragé- Na fase de mania, a pessoa pode gastar dinhei-
dia igual a essa, a pessoa "demite" Deus, porque Ele ro mais do que deveria, às vezes é um pouco mais
exuberante na maneira de se vestir e de falar, tem sim, em um processo mais complexo, porque as ma-
humor exaltado e comportamentos que podem ser nias vão se ampliando. Os rituais, ainda que sirvam
inadequados socialmente. Pode ser que a medicação quase como amuletos para se livrar de tragédias ou
tivesse que ser administrada de modo mais intenso de coisas negativas, estão na raiz do pensamento ob-
'
porque, na dose correta, é possível manter o doen- sessivo. Você precisa de tratamento psicológico para
te em equilíbrio. Mas não me parece um quadro de poder parar com isso.
mania exagerado, já que, nesse último caso, a pessoa
não dorme, fica muito tempo arrumando coisas, fala
bastante, não consegue completar as frases porque Tenho catorze anos e passei por um momento difícil no
vem rapidamente outro pensamento. A medicação, ano passado: acabei recorrendo a um tratamento psiqui-
em geral, consegue "amansar" no fim de poucas se- átrico. Sofria de transtorno obsessivo compulsivo. Fiz uso
manas. Talvez fosse o caso de aumentar um pouco a de medicação - sertralina e resperidona -, que teve efeito
dose dos remédios, pois o tempo de crise está muito benéfico em mim. Mas as pessoas têm certo receio de to-
prolongado. mar esse tipo de remédio. Perguntam se continuarão sen-
124 do autênticas. Queria saber se é verdade que os remédios 125

mexem com as reações- algumas até prevalecem, mesmo


Tenho manias. Algumas delas, associo ao azar. Dou um com terapia cognitivo-comportamental, que ajuda a moldar
exemplo: não saio de casa sem deixar a toalha retinha a pessoa, a faz evoluir. (Fernanda)
no varal. Caso contrário, acho que vou bater o carro. As
chaves sempre têm que ficar na porta verticalmente, nun- Existe uma visão preconceituosa e equivocada
ca deixo latas de cabeça para baixo. Tenho medo de que acerca de tratamentos psicológicos. Sempre defendi
essas manias se tornem transtorno obsessivo compulsivo. que todos os recursos terapêuticos têm alguma efi-
Hoje, até consigo me controlar. São normais essas ma- cácia e devem ser usados com a finalidade de aju-
nias? (Rosário) dar as pessoas a melhorar. Alguns colegas são a favor
de remédios, outros de psicanálise, outros ainda de
Normais propriamente, não são, mas quase todo terapias comportamentais. A terapia cognitivo-com-
mundo tem algum tipo de pensamento supersticioso portamental é uma variante aprimorada de técnicas
de que, se fizer determinados rituais, irá se proteger mais antigas, e eu sempre trabalhei mesclando mé-
contra riscos. Esse tipo de reflexão pode desembocar, todos. Nunca achei que tivesse que tomar partido e
estou contente de saber que você está sendo tratada
de forma correta. Nenhum bom terapeuta trabalha
com uma técnica muito fechada, e é assim mesmo
que se faz. O que interessa é o benefício da pessoa, o
crescimento individual.

DESENCONTROS NA
126 RELAÇÃO A DOIS
É surpreendente que este
seja o tema que mais tem atormentado as pessoas.
Ao menos superficialmente, não deveria ser tão di-
fícil que indivíduos amadurecidos e de bom senso
viessem a conviver sem grandes atritos, sem ter que
vivenciar as chamadas "brigas normais" de casais. Se-
ria de se supor também que o convívio pudesse tornar
convergentes os pontos de vista dos que estão juntos
ao longo dos anos. Qual o quê! O que acontece é que
as diferenças se agravam com o passar do tempo, os
ressentimentos crescem e a tendência é que ocorram
separações, ainda que depois de um tempo relativa-
mente curto de convívio.
É enorme o número de pessoas, especialmente
mulheres. envolvidas com parceiros comprometidos.
Estes juram que irão se desvencilhar dos compro-
mos, pelos olhares, que há uma relação. Nem um nem outro
missos anteriores e acabam dando para trás. A insis-
toca no assunto. Ele é solteiro, não tem compromisso com
tência e a ingenuidade das mulheres em relação a
ninguém, mas viaja muito. Como conquistá-lo? (Mariana)
esses parceiros faz supor que elas querem é sonhar
com a felicidade sentimental, mas não querem que
Em situações como essa, é melhor tentar agir de
ela aconteça na realidade. O amor costuma estar em
maneira mais explícita, deixando claro verbalmente
forte antagonismo com os anseios de liberdade, de
seu interesse por ele, em vez de partir para qualquer
modo que a maior parte dos desencontros parecem
tipo de proximidade física. Se você esperar que a ini-
não ser tão inexplicáveis: estão a serviço da preserva-
ciativa seja dele, talvez vá demorar tempo demais.
ção da individualidade.
Todos os indicadores mostram que ele não toma esse
A felicidade sentimental provoca ainda um enor-
tipo de atitude. Você precisa ser objetiva e, ao mes-
me medo de alguma futura tragédia. Parece que, um
mo tempo, discreta, para deixá-lo bem à vontade, de
dia, estivemos em harmonia no útero materno - nosso
modo que não se sinta pressionado. Até porque a re-
primeiro registro cerebral. O segundo registro corres-
lação profissional precisa ser preservada, caso ele não
130 ponde à dramática ruptura desse equilíbrio, que acon-
tenha disposição para a intimidade ou esteja relutan- 131
tece ao nascermos. Então, parece que, sempre que
te. Você não sabe ao certo se ele tem vontade de se
chegamos perto de uma nova condição de equilíbrio (e
comprometer. Vá com calma, mas vá.
o encaixe amoroso provoca essa sensação), tememos
uma nova ruptura, agora associada à nossa morte - ou
à morte de alguém querido. Fugimos da felicidade sen-
Tive um relacionamento muito bom durante um ano. Um
timental para nos protegermos da tragédia que teme-
dia, meu namorado disse que tinha necessidade de ficar
mos que ela atraia. Tudo errado: felicidade não mata!
sozinho e que gostaria de terminar. Senti sinceridade quan-
do ele disse que estava só e que o problema não era eu.

* Existem pessoas que, às vezes, acabam abrindo mão de


uma relação por medo de serem felizes. Será que foi o que
Paquero há um ano. Durante esse período, não aconteceu
aconteceu? (Kátia)
nada entre nós, somente beijinhos. Ele é uma P.essoa tími-
da, eu também não sou do tipo que "ataca". Por ele ser meu
Não é impossível. A vontade de ficar sozinho era
cliente, estamos tomando certos cuidados. Mas percebe-
maior do que manter uma relação de boa qualidade.
Às vezes, não é só o medo da felicidade - é o medo Idade versus maternidade é um tema cada vez
de perder a individualidade quando se está diante mais recorrente na vida das mulheres. Ou por causa
de alguém que encanta muito. Tem quem decida ser do marido, ou pelas circunstâncias, ou pelo fato de
dono de seu próprio destino e queira também man- não ser casada, a mulher é obrigada a adiar o projeto
ter uma vida um pouco mais descontraída, mas, de de ter um filho. Seu parceiro não está de todo sem
repente, vê-se envolvido em uma história amorosa razão, porque os tempos não estão fáceis e, para o ho-
por força até das virtudes da namorada. Essa pessoa mem, a questão da responsabilidade financeira conta
pode ter tendência a se envolver mais do que gosta- muito. Ele fica muito aflito com a ideia de ter filhos
ria e ficar com vontade de casar, de se comprometer e depois não ter condições de arcar com o sustento
para valer, justamente em um momento em que não digno da criança. Entendo o seu ponto de vista, por-
estava preparada, que a vida pedia um pouco mais de que, aos 36 anos, você sente que mais tarde pode ter
autonomia e liberdade. Para preservar isso, há quem dificuldade de engravidar. Talvez você devesse dei-
fique dando marcha a ré. Se você não sofrer de an- xar tudo isso caminhar mais livremente, pois não é
siedade, se for serena, e se essa for verdadeiramen- o caso de perder uma relação de boa qualidade por
132 te a razão, não é impossível que seu ex-namorado, causa dessa insistência. Se passar o momento, existe 133

dentro de semanas ou meses, reverta a situação e a alternativa de adotar, uma opção absolutamente le-
volte. Você tem de compreender que o que ele fala gítima para a maternidade e tão gratificante quanto a
corresponde efetivamente à verdade e que, se essa de ter um filho gerado no próprio útero.
for mesmo a vontade dele, nada mais resta senão
respeitá-la.
Tenho 47 anos, sou viúva há quatro. Tive um relacionamento
que durou dois meses. Tudo aconteceu muito rapidamente.
Tenho 36 anos, sou casada há um com um homem de 37 e Conheci os filhos dele, frequentava a casa, ia ao mercado.
penso em ter filhos. Quando toco no assunto, meu marido Acabei me apaixonando. E, de repente, terminou tão rápido
sempre adia esse plano. Ele é dono de empresa e diz que, quanto começou. Até hoje, busco uma explicação, mas não
por causa da crise, não sabe se os negócios vão continuar consigo achá-la. Ele disse que não se apegou á mim. De
indo bem e que, por isso, deveríamos esperar um período vez em quando, conversamos por telefone ou, quando vou
de estabilidade. Já estou em uma idade que não posso es- trabalhar, pego uma carona com ele. Estou entrando em de-
perar muito. O que faço? pressão. (Vanda)
Talvez ele não esteja com a mesma disposição que na coisas que não têm nada a ver com o problema discutido

você para se comprometer, mesmo sendo viúvo. Ele e se faz de vítima para não aceitar que está errada. Ultima-

pode estar em um momento de vida e com projetos mente, ela me culpa por tudo o que acontece. Eu a amo e

pessoais diferentes dos seus. Você precisaria ser tole- a ajudei a superar alguns complexos que tinha. Agora, as

rante para aceitar o fato de que nem sempre quando coisas estão cada vez piores. Todos os dias há uma discus-

se quer um relacionamento, ele vai se transformar em são nova sobre questões banais. Estou tentando relevar o

realidade. Seu namorado pode não ter achado tanta que ela diz e ficar quieto para não criar problemas, mas não

graça em você quanto você achou nele ou não es- aguento mais essa situação. O que fazer? (Tiago)

tar disponível para um envolvimento mais intenso. A


impressão é que ele vinha aprofundando a relação, A minha posição é rigorosamente oposta à sua.
deixando a coisa andar, aproximando filhos, e, de re- Acho que não há nada mais errado do que você ficar

pente, a disposição para um compromisso mais sério quieto e tentar relevar. Quanto mais você fizer isso,

não era tão forte quanto o seu. Por mais triste que mais ela vai ficar irritada, mais vai criar problemas e
seja, você tem que aceitar, porque, afinal, quando um dificuldades. Ela sente que você a ama, que você tem
134 não quer, dois não brigam. E não namoram. Cabe a boa disposição para ajudá-la a superar os complexos, 135

você se afastar o mais radicalmente possível. Não ali- e parece que isso não está fazendo bem. Que tal ima-
mentar nenhum tipo de esperança, nem ilusão. E ir ginar o inverso? Essa atitude de tentar contribuir para
atrás de um caminho novo, que seja mais interessan- que ela progrida está causando uma sensação de hos-
te para você. Essa insistência que as pessoas têm em tilidade contra você, provocando sentimentos negati-
relação ao sentimento amoroso, de achar que porque vos nela. Quando tentamos ajudar alguém, às vezes
amam devem lutar para fazer valer esse sentimento causamos inveja, desconforto, humilhação, em vez de
não é válida. Se não há contrapartida, é preciso abdi~ produzir gratidão. A política adequada, então, é exata-
car desse amor o mais rapidamente possível, para que mente a oposta: não tolerar atitudes indevidas, não se
o sofrimento seja menor. preocupar com a questão da baixa autoestima como
sendo um problema que você tenha que resolver. Ela
é quem deve encontrar soluções para as angústias.
Namoro há dois anos e moro junto há um. Sempre houve E ficar mais consciente de que você pode acabar se
discussões, porque ambos são teimosos. Quando batemos separando dela. Nesse momento, você deveria fazer
de frente, minha namorada usa ataques pessoais, meneio- exatamente o movimento na direção contrária: avi-
sar que não vai mais ajudá-la. Se você continuar sen-
pensar na palavra perdão, que é muito forte. Agora,
do generoso e ela cada vez mais egoísta, irritadiça e
você precisa ter paciência, porque, por ter se envolvi-
agressiva, o relacionamento vai acabar terminando,
do com outra pessoa, seu marido não está totalmente
e mal. Então, sugiro que você pare de fazer rapida-
voltado para você. Vai ser um trabalho de reconstru-
mente o que vem fazendo. O resultado é a coisa mais
ção. E esse trabalho demora. Obviamente, há certa
importante nas ações e, se o resultado está sendo ne-
divisão dentro da alma dele, que vai levar tempo para
gativo, deve-se mudar o comportamento.
ser revertida. Você não deve ficar nessa posição de
quem foi traída, abandonada, vítima de um agres-
sor. Deveria aproveitar a oportunidade para progredir
Faz alguns meses, talvez dois, que meu marido ficou muito
emocionalmente.
diferente, estava distante. Insistia em saber o que estava
acontecendo e, às vezes, perguntava se ele ainda me ama-
va. Ele respondia que sim. Poucas semanas atrás, durante
Tenho 34 anos e namoro há nove um rapaz mais novo do
uma conversa, ele confessou ter se envolvido com outra
que eu. Os pais dele brigam muito, já houve traições, e a
136 mulher. Na hora explodi, fiquei péssima, pedi que fosse
mãe do meu namorado chegou a ser agredida fisicamente, 137
embora de casa. No outro dia, não sabia que atitude to-
porque saiu com outro homem. Meu namorado é uma pes-
mar. Mais calma, pensei no meu filho de quatro anos, fiquei
soa doce e sofre com essa situação. Às vezes, é agressivo
com medo de educá-lo sozinha e achei que devíamos tentar
comigo e não sabe conter as palavras. (Andréa)
manter nossa família acima de tudo. Falei para meu marido
que o perdoava. Ele ficou surpreso, mas disse que precisá-
Você quer saber se existe alguma ligação entre
vamos, pelo nosso filho, tentar reconstruir nossa família.
0 comportamento de seu namorado com a história
Gosto do meu marido, quero envelhecer com ele. Ele está
familiar que ele vive. Sempre tem. Todos nós somos
em casa e eu tenho feito de tudo para melhorar, mas ele
muito sensíveis e dependentes daquilo que vivemos
falou que não me ama mais. (Jô)
dentro de casa. Às vezes, o que vimos nos leva jus-
tamente na direção oposta. Quer dizer, não quere-
A palavra certa talvez não seja perdoar. Porque
mos para nós um clima de tensão, de briga, ou um
parece que você é superior e que ele cometeu um
parceiro (uma companheira) não confiável. É prová-
grande crime. Se você tivesse sido ótima o tempo
vel que seu namorado busque em você uma pessoa
todo, e ele a tivesse traído, realmente seria o caso de
equilibrada, bem- humorada, bastante diferente da
mento em que não tinha a menor expectativa. Então,
figura materna. Com isso, ele pretende criar uma
ele leva um susto positivo. Nas questões amorosas,
atmosfera de carinho, de ternura e de doçura que
o indivíduo, antes de estabelecer uma relação de-
não tem em casa. Periodicamente, porém, pode so-
finitiva e estável com quem combina bem, começa
frer algum tipo de estresse, ficar irritado, e ter até
a inventar problemas ou a identificar dificuldades,
mesmo uma reação mais agressiva, já que cresceu
justamente por pressentir a tal felicidade. E sente
em um ambiente em que essas atitudes são aceitas.
um medo enorme, como se as coisas boas atraíssem
Você deveria ser mais firme quando esses momentos
tragédias. Essa sensação existe em todos nós e está
acontecerem e ser categórica em dizer que não gos-
na raiz do pensamento supersticioso, que nos faz ba-
taria de viver essas experiências de violência. Pode
ter na madeira ou fazer figa diante de uma situação
também chamar a atenção para o fato de que ele
muito boa. Agora, o medo da felicidade tem que ser
não deve reproduzir os padrões de comportamento
enfrentado como qualquer medo irracional ou ilógico
que aprendeu dentro de casa. Na realidade, o que se
- medos que não se justificam, sem base na realida-
busca na vida conjugal é concórdia, harmonia , com-
de, que não constituem risco verdadeiro. A solução
panheirismo, lealdade, tranquilidade. Amor é paz, é
é enfrentar o medo, ou seja, ir subindo degrau por 139
138 ter harmonia do lado da pessoa que a gente escolheu
degrau, não deixando de ir adiante. Se você se sentir
para conviver.
superameaçada por causa da felicidade sentimental,
mas ficar com aquela pessoa que provoca felicidade,
o medo vai se atenuando. Conforme você avança, o
O medo de ser feliz pode impedir uma pessoa de se envol-
medo vai se transformando em algo sobre o qual se
ver com alguém com quem teria chance de manter um r.ela-
pode ter domínio. O medo irracional foi feito para ser
cionamento de qualidade? É possível superar esse medo?
enfrentado, e não para ser respeitado.
(lsadora)

O medo funciona como um freio que impede a


Fui casada durante 24 anos e sonhava terminar minha vida
pessoa de chegar à felicidade. Não se manifesta só
ao lado de meu marido, mas, há três anos, ele se apaixo-
quando já se é feliz. Às vezes, o indivíduo se vê as-
nou por uma funcionária e me deixou. Sofri muito nos dois
sustadíssimo diante de uma iminência de felicidade
anos seguintes, mas agora estou bem. Será que daqui a dez
que não era esperada. Por exemplo: o sujeito recebe
ou vinte anos ainda estarei assim? Continuarei interessada
uma notícia muito auspiciosa de trabalho num mo-
pelas coisas de que gosto, mesmo mantendo o hábito de Continuo presa a uma paixão platônica que pode nunca se
não sair de casa e sem me importar em conhecer novas realizar ou me deixo envolver por um homem que não admi-
pessoas? (Neide) ro tanto, mas que realmente deseja estar comigo? (Miriam)

É possível que uma pessoa aprenda, depois de Com esse rapaz que está prestes a ficar noivo, você
uma experiência traumática, a se entreter e a se di- não tem, se formos dar crédito à palavra dele, chan-
vertir bem com ela mesma. Agora, ter medo de co- ce nenhuma. Esse é um amor impossível, enquanto
nhecer novas pessoas é resquício do sofrimento o outro é um amor mais do que possível. E parece
anterior, porque a ferida não está bem cicatrizada. que, sempre que é muito possível, todo mundo tende
Você pode passar a vida sem nenhum outro grande a achar um pouco menos graça. Mas, com o passar
envolvimento sério, mas não deveria deixar fechada dos meses de convívio com esse que diz amá-la e que
a porta para que isso aconteça. O fato de você sen- declara que a quer exatamente como você é, há uma
tir-se bem em casa é uma grande sorte, pois muitas possibilidade real de compromisso. Se ele demons-
pessoas ficam tão desesperadas sozinhas que saem trar ser um parceiro amoroso, de repertório interes-
140 atrás de qualquer parceria e acabam errando muito, sante, você pode se encantar por ele. Se, ao contrário, 141

magoando-se ainda mais. Fazem escolhas inadequa- a graça for diminuindo no decorrer dos meses, você
das e sofrem mais do que aquelas que aprenderam a pode dar um fim a essa relação, mas, pelo menos,
gostar de estar em casa com seus livros, seus filmes, teve uma vivência real, rica, gratificante. Porque a
seu computador. Então, acho que você está em uma vida é para ser vivida na realidade, e não em fantasia.
situação muito confortável.

Reencontrei um rapaz que estudou comigo na época da


Enfrento um dilema: conheço um rapaz pelo qual sinto forte faculdade, dez anos atrás. Nunca tivemos oportunidade de
atração, mas ele está prestes a ficar noivo. Eu oadmiro muito nos conhecer. Agora, trocamos telefones e eu até já man-
por sua segurança e virilidade e fico paralisada sempre que dei algumas mensagens para ele, mas nunca tive retorno.
o encontro. Ele já me disse que não há nenhuma possibili- Resolvi insistir, e uma vez conversamos horas ao telefone,
dade de nos relacionarmos. Por outro lado, tenho um ami- porém depois ele voltou a se retrair. Sempre diz que não
go que já demonstrou interesse por mim, que diz me amar tem tempo para conversar. É bonito e interessante, no en-
muito, mas não me sinto tão atraída por ele. O que fazer? tanto parece complexado. Não terminou a faculdade, tem
um emprego medíocre, passou por dois relacionamentos,
um relacionamento sério comigo. Gostaria de me envolver,
ambos fracassados. Estou bem profissionalmente, apesar
mas tenho tanto medo que não me permito acreditar nas
de não falar sobre isso com ele, porque temo que fique ain-
palavras dele. O que faço? (Veridiana)
da mais arredio. Sinto-me rejeitada. Ele reconhece minhas
qualidades, mas talvez não me deseje. Devo insistir nesse
Medo de se relacionar novamente tem a ver com
relacionamento? (Ana)
a experiência anterior fracassada. Mas pode significar
também dúvida pelo fato de o moço ser ainda muito
Insistir quando não existe reciprocidade é uma
jovem e você não ter certeza da solidez dos projetos
atitude invasiva, quase agressiva, desrespeitosa. Por
dele. Em geral, quando um moço é sério, maduro e
força do complexo de inferioridade, talvez de alguma
responsável, ele já é assim aos 22 anos. Quando não,
dificuldade sexual, pelo fato de ter algum tipo de sen-
é mais moleque e brincalhão, provavelmente vai ser
timento por outra mulher, que está ocupando espaço
moleque também aos 28 ou trinta. Se ele der sinais
na cabeça dele, por querer ficar sozinho ou por não
de que pretende manter uma relação séria, você pode
achar graça suficiente em você, ele resolveu não dar
confiar nele. Basta perder o medo. E ter em mente
142 continuidade à relação. Você não pode querer que as
que esse menino de três anos faz sua relação ser mais 143
coisas caminhem na direção que gostaria só porque o
difícil, porque, aos 22 anos, é pouco provável que seu
rapaz é bonito e interessante. Ele precisaria ter inte-
pretendente esteja profissionalmente bem resolvido.
resse em você. Interesse esse que tende a estar inibi-
Dificuldades podem existir, mas não devem ser um
do em função das diferenças profissionais e econômi-
impedimento para que vocês fiquem juntos e se ar-
cas. Tenha humildade de reconhecer que nem tudo
risquem para valer. Saiba que certificado de garantia
acontece exatamente como gostaríamos, humildade
não existe. Se você cair do cavalo, já conhece o tama-
de aceitar que as coisas podem caminhar de acordo
nho do tombo. E não vai morrer por isso. Todos nós
com a vontade do outro. Quando não há coincidência
saímos mais fortes de experiências negativas e temos
de propósitos e projetos, é preciso ter a dignidade de
de partir para outra. Ou outras.
cair fora.

Sou divorciado, tenho 28 anos e namoro há três. Nosso re-


Tenho 25 anos, sou mãe de um garoto de três e estou sepa-
lacionamento é muito bom, temos planos de morar juntos.
rada. Recentemente, conheci um rapaz de 22 que quer ter
Mas há alguns po~tos que colocam em risco essa relação:
sou dependente de maconha, fumo quase diariamente, e é uma questão de egoísmo, mas o fato é que não há
esse hábito gera algumas discordâncias entre nós. Ela meio-termo para esses assuntos.
quer ter filhos e eu resisto a essa ideia. Não pretendo
mudar meus hábitos nem minhas opiniões. Estou sendo
egoísta? Há um meio-termo para essas divergências? Estudo com uma garota que deu a entender que está a
fim de um relacionamento comigo. Tenho quarenta anos,
Não há egoísmo nenhum em você se comportar e ela, 22. A diferença de idade é grande, mas esse não é o
de acordo com suas convicções, seus gostos, seus problema. A questão é que ela tem namorado. Sou muito
interesses. Sobre a questão de ter ou não filhos, introvertido e estou indeciso se devo tomar alguma ini-
cada pessoa pode sustentar um ponto de vista dife- ciativa ou não. No passado, tive um relacionamento muito
rente, mas, evidentemente, esse é um dos aspectos conturbado - a moça já morreu -, que dificulta novos na-
mais relevantes quando se pensa em casamento. moros. Faz mais de um ano que estou nesse clima só de
Sua namorada quer ter filhos, você não quer, e essa olhares com minha colega de faculdade. Ela me deu bas-
disparidade de opiniões pode se transformar em um tante expectativa, mas percebeu que fico meio desconfor-
144 obstáculo intransponível, um impedimento, porque tável. Acho que ela deveria falar comigo primeiro. (Mário) 145

não se trata de uma coisinha qualquer. Para quem


mantém o sonho de ter filhos, o fato de não tê-los Sua colega não deve pagar pelos problemas que
é muito triste; para quem não quer, tê-los é um pa- você teve no passado. Acho até que você está usan-
decimento, porque filhos dão trabalho, implicam do esses dissabores, que deixaram você naturalmente
responsabilidade, obrigações, sustento. No caso da muito assustado e intimidado, para fugir da possibi-
maconha, penso um pouquinho diferente de você, lidade de um relacionamento. Ou melhor, de uma
porque não sei se é hábito, mas dependência. De- tentativa de relacionamento. Porque, por enquanto,
pendência e hábito são palavras que não combinam. estamos diante de algo hipotético. Está tudo em sua
O indivíduo dependente é viciado. E a maconha cabeça, e eventualmente na dela, mas não há nada de
não é uma droga sem efeitos colaterais. É nociva, no concreto. Você usa seus problemas antigos para fugir
médio prazo, à memória, pode prejudicar o nível de do risco de uma relação que pode ser muiro atraente
concentração e a disciplina para atividades intelec- e acha que ela é quem tem de tomar a iniciativa. Mas,
tuais. Se você insiste em querer usar a droga, está se ela já deu sinais de que você vai ser bem recebido,
criando mais um impedimento para se casar. Não você precisa ir em frente. Não adianta ela dar mais
ges e pelos filhos. A filha de seu marido já é adulta e
sinais. Você deveria sentar e tentar se entender direi-
deveria ser mais compreensiva. O certo seria ele ter
tinho com ela. E até perguntar que tipo de namoro
uma postura mais radical em relação à filha, porque
ela mantém, porque, depois da experiência negativa
me parece sensível demais ao comportamento dela.
que você passou, não deveria se meter em outra fria.
O homem que tem boa competência para se apaixo-
Você tem maturidade e idade suficientes para não fi-
nar e para se deixar encantar geralmente é meio mole
car nessa posição de querer que ela faça o primeiro
para ser determinado nas horas em que deveria ser.
movimento e pode perfeitamente abrir o jogo.
Ex-cônjuges quase sempre são encrenca, porque, se
não fossem, não seriam ex. Então, é preciso paciência
e determinação. Quem sabe a história muda se você,
Meu marido e eu estamos juntos há mais de sete anos. Cada
com um pouco mais de lucidez, agir de maneira mais
um tem dois filhos do primeiro casamento, todos já adultos.
firme para ajudá-lo a responder mais corretamente às
Nossa vida em comum é muito boa, mas a ex-mulher e a
provocações da filha.
filha dele não me aceitam, me desrespeitam moralmente.
Tenho passado, nesses anos todos, por várias situações de
147
146 constrangimento. Esse desrespeito não me abalaria se eu
Meu relacionamento já tem quinze anos e minha mulher
sentisse que meu marido tem uma postura firme em rela-
está pensando em pedir um tempo. Ela acha que nosso
ção à ex-mulher e à filha, que fosse solidário a mim. Mas
casamento caiu em uma espécie de amizade entre ir-
me sinto desprestigiada por ele. Fomos ver um terapeuta
mãos. Em minha opinião, não é desgaste, acho até que é
de casais, porém infelizmente não passamos da primeira
uma evolução quase natural, porque, ao longo dos anos,
sessão. O terapeuta fez algumas observações muito opor-
o relacionamento vira amizade amorosa, e não vejo isso
tunas, mas meu marido não gostou nem um pouco e não
como negativo. Minha mulher diz que não se sente mais
quis voltar. Gostaria de fazer terapia de casal para resolver
especial dentro de nossa relação, que acredita ser apenas
esses conflitos e tentar salvar nossa relação. Como posso
uma peça de uma engrenagem. Caso fosse retirada e eu
convencê-lo? (Flávia)
colocasse outra mulher no lugar dela, seria exatamente a
mesma coisa. (Ricardo)
Não há problema mais complicado do que os ra-
bichos que sobram dos primeiros relacionamentos. É
Para ela, você é um marido muito frio, pouco en-
muito difícil para um indivíduo ficar dividido entre
tusiasmado, muito displicente. E ela se sente um tan-
pressões, até meio chantagistas, feitas por ex-cônju-
to desconsiderada. Não sei se o problema seria dar zia que um homem, quando via uma mulher, pensava
um tempo apenas. Ou se realmente você deveria dar em levá-la para a cama; e a mulher, em levá-lo para
um tratamento mais atencioso a ela. Reflita e ima- o altar. Então, há uma enorme diferença de projeto
gine se isso que você está chamando de "evolução inicial, e isso cria um problema do desencontro de
quase natural" não é deixar de fazer um agrado es- ideias. É preciso esperar sinais mais claros de inte-
pecial. Um pouco de ternura e de carinho não fazem resse por parte da outra pessoa para você se entu-
mal a ninguém. siasmar. Seja mais cautelosa e não avance tanto na
fantasia. Não coloque na cabeça do outro pensamen-
tos que são seus - ele precisa sempre ser consultado.
Tive um rel;reionamento há pouco tempo, mas não chegou Foi mais ou menos o que você fez nessa situação que
a ser um namoro. Ele me procurava de vez em quando, e eu viveu e, infelizmente, a resposta foi negativa.
me sentia muito mal por causa disso. Gostei muito dele e
resolvi falar o que estava sentindo. Não deu certo, acaba-
mos nos separando. Existe algum meio de buscar uma re- Estive casada por quase vinte anos com um sociopata. Sa-
148 lação saudável entre um homem e uma mulher? (Mariana) bia que existia algo que não era normal, mas levei quase 149

esse tempo para descobrir qual era o problema dele. Con-


Essa é urna queixa comum entre as mulheres, segui me separar, apesar de ter sido muito traumatizante
que manifestam claramente interesse pelos rapazes para todos nós. Tive de recorrer ao Judiciário, à polícia e
e eles titubeiam, dão para trás, não respondem tão tudo mais. Já estou separada há sete anos e fujo da feli-
positivamente quanto elas. Existem duas possibilida- cidade sentimental. Não consegui ter relacionamento com
des: uma é que as moças desenvolveram um pensa- mais ninguém. Tive pretendentes, mas sempre olho com
mento quase fantasioso, sonharam com a hipótese de muita desconfiança para eles. (Teresina)
uma relação mais intensa do que aquela que tinham.
Ou seja, o rapaz estava pronto mais para um flerte ou O que intriga é imaginar corno você conseguiu
para o que hoje se chama ficar, e a moça imaginou viver com um indivíduo corno esse, porque o sacio-
uma história romântica. Os homens, às vezes, pro- pata é quase um delinquente. Mente, bate, grita, é
curam uma abordagem mais erótica, e nem sempre intolerante, agressivo, malcriado, desinteressado,
as mulheres compreendem dessa maneira. Parecem pouco afetivo. Só quer receber e, diferentemente dos
buscar mais o romance. Um psicólogo americano di- "egoístazinhos", o· sociopata atingiu o ponto máximo
do egoísmo. Não tem limites. Independentemente de
va, equilibrada em suas emoções, competente para
você não saber o nome da doença de seu marido, di-
ficar sozinha e tiver boa situação financeira deveria
zer que o comportamento dele era "anormal" apenas é
pensar antes de se comprometer sentimentalmente.
inadequado, porque há uma falha de caráter mesmo.
A ideia de que todo mundo precisa casar e ter filhos,
Existe uma fronteira entre os problemas da psicologia
como se fosse um regulamento, é ultrapassada. O
e os da delinquência, e o do seu marido pode ser visto
indivíduo pode perfeitamente ficar bem sozinho. Ao
pelo ângulo moral - ele é moralmente uma pessoa
olhar em volta, percebe que a maior parte dos casais
muito duvidosa. Você diz que está sem coragem de
se dá mal, vive em conflito, passa por atritos repe-
se meter em outra empreitada sentimental, mas essa
titivos. E esse sujeito tem o direito de dizer: "Não
desconfiança inicial é até boa, porque, ao vencê-la,
quero isso para mim". Quando e se aparecer alguém
você tem boas chances de não se envolver com uma
que realmente valha a pena, pode se arriscar a ter
pessoa inconveniente. O que não tem cabimento é
um envolvimento mais consistente. Na mocidade,
manter esse medo para sempre. Você passou por uma
as pessoas casam porque todo mundo está casando.
experiência bastante intensa, aprendeu quase tudo o
150
Acontece que o indivíduo casa sem gostar muito, de-
que se pode aprender sobre falhas de caráter. Assim,
pois separa e se torna mais seletivo em um segundo 151
qualquer namorado que aparecer com algum sinal
casamento. Como já carimbou o "passaporte", pode
parecido com os que seu ex-marido tinha, você vai
escolher tranquilamente uma nova parceira. A vida,
ter facilidade para identificar e se afastar rapidamen-
hoje, das pessoas sozinhas costuma ser muito boa.
te. Não vai levar mais vinte anos para se livrar de um
E porque é boa, o casamento de má qualidade não
parceiro impróprio.
tem futuro. Ninguém mais casa por casar. E quem
quiser não precisa ter pressa.

Tenho visto muitos casos de insucesso nos relacionamen-


tos. Estou só, desimpedido, mas feliz com a vida. Às vezes
Tenho 37 anos. Sempre tive muita sorte de conhecer gran-
me pego pensando se não me baseio em casamentos que
des mulheres, no entanto não consigo ser fiel. Parece que
não deram certo para achar que estou bem. (Juan)
sofro de uma compulsão: traio com frequêncta e, no dia
seguinte, me sinto muito mal. Gostaria de saber se meu
Os casos de insucesso são a grande maioria das
caso tem tratamento, porque essa situação me incomoda
relações conjugais. Qualquer pessoa que for objeti-
bastante. (Pedro)
Gostaria de entender por que os homens traem. Meu ma- homem com muitas parceiras é alguém invejado por

rido é militar, está sempre viajando, mas às vezes pego todos os outros. Ninguém se lembra do quanto é de-

alguma escapada dele. Ele é carinhoso e caseiro, e nosso sagradável a vida desse homem que se relaciona com

relacionamento, superbom. Qual é a explicação para esse várias mulheres com as quais não tem nada a ver e
problema? (Patrícia) mantém relações medíocres.

O Pedro não tem nenhuma queixa de suas rela-


ções, nem das boas mulheres com as quais conviveu. Estou me relacionando há oito anos com um homem casa-

O marido da Patrícia, pelo jeito, também não pode do, que tem dois filhos adolescentes. O casamento é ape-

se queixar da vida doméstica. O que existe é uma es- nas de fachada. Nos vemos todos os dias, saímos juntos

pécie de pressão cultural em cima dos homens para inclusive aos sábados e domingos. Gostamos das mesmas

que não percam oportunidades eróticas de jeito ne- coisas. Mas ele não se decide a ficar comigo definitiva-

nhum. Macho que é macho, segundo essa teoria, não mente. Faço cobranças, ele sempre se esquiva. Quando

pode deixar passar nenhuma chance, sinal de esper- tento terminar o relacionamento, ele não leva a sério, con-

152 teza masculina. Quem é paquerador, bem-sucedido tinua me procurando e eu acabo cedendo. Tenho 34 anos, 153

e tem facilidade no trato com as mulheres provoca e ele, 54. Até quando esperar? (Adriane)

admiração em outros homens. Mas o indivíduo que


sai a toda a hora com moças diferentes não vive bem Você tem duas possibilidades: aceitar, e espe-
com ele mesmo, nem do ponto de vista sexual. Pe- rar o tempo que for necessário para que ele mude
dro, pense que, ao sair com mulheres variadas, você o comportamento, ou cair fora, e ir trabalhando o
está sempre "estreando". E todo mundo sabe que as sofrimento, que certamente virá. É evidente que seu
primeiras relações são as piores. Como o casal não namorado está acomodado nessa situação e não dá
se conhece, fica desajeitado, é algo meio constran- nenhum sinal de querer terminar o relacionamen-
gedor. A intimidade vai se construindo com o passar to, muito menos radicalizar a posição dele perante
do tempo, de maneira que suas traições me parecem a família. Ou porque não tem interesse em fazer a
muito mais uma "obrigação" ligada à vaidade do que divisão do patrimônio, ou porque não tem vontade
algo ligado ao prazer. É uma compulsão, sim, mas de se afastar totalmente dos filhos, ou porque tem
é uma compulsão estimulada, reforçada pela vaida- medo da intimidade muito intensa que possa vir a
de masculina, por uma cultura que estipula que um acontecer entre vocês, caso ele rompa com todos os
elos do passado. Apesar disso, ele não quer perder balho. Do ponto de vista da relação afetiva, vai ser
o convívio com você. Só não está, no momento, in- bastante difícil recuperar a intimidade entre vocês.
teressado em tomar uma decisão que envolva casa- A separação acaba sendo benéfica para todos. Até
mento. A situação está como ele quer. Não acho que para seu marido, que pode se dar conta do mal que
você tenha, obrigatoriamente, de cair fora, porque causa ao manter um humor intratável. Quem sabe
parece que há um relacionamento amoroso de boa essa atitude faça com que ele passe a agir de maneira
qualidade, ainda que incompleto. mais delicada.

Sou casada há vinte anos e, há cinco, não amo mais o meu Tenho 31 anos e nunca me relacionei com nenhuma mu-
marido. Ele é uma pessoa geniosa, antipática e grosseira. lher. Não me enquadro no padrão de beleza vigente, mas as
Nosso relacionamento ficou ainda mais difícil depois que pessoas geralmente me consideram alguem interessante.
montamos uma empresa juntos. Ele trata mal os funcioná- Apesar de confessar que sou muito criterioso na escolha
rios, grita na frente de todos, e eu não suporto esse tipo de de potenciais parceiras, quando encontro alguém que se
154 comportamento, que tem afetado a vida familiar. Nossas encaixa nesses critérios, me transformo em uma pessoa 155
filhas estão criando raiva pelo pai. Preciso me divorciar extremamente tímida e não consigo me aproximar. Não te-
com urgência, mas dependo financeiramente da empresa nho problema de autoestima, a não ser nessas situações. O
e receio me separar e depois ter de voltar atrás por causa que faço? (Jefferson)
disso. Como resolver a situação?

Todo homem, quando está diante de uma mulher


Seu marido deve ter sido sempre uma pessoa ge- particularmente interessante do ponto de vista físico
niosa, antipática e grosseira, mas parece que somente e intelectual, tende a ficar mais tímido e ter dificul-
agora você viu mais claramente essas características dade na aproximação. Primeiro porque supervaloriza
da personalidade dele. E talvez tenha se decepciona- essa mulher, vendo-a como uma deusa em uma espé-
do de modo radical. A separação se impõe, mesmo cie de pedestal -e ele pequenininho diante dela. Se-
que possa ter complicadas consequências profissio- gundo porque ela é efetivamente "perigosa". Perigosa
nalmente. Talvez, ao perceber que vai perder a es- porque o sujeito pode se envolver de maneira intensa
trutura familiar, ele crie juízo e tente, pelo menos, sentimentalmente e querer até mesmo casar com ela,
controlar-se, manter as aparências no âmbito do tra- mudar totalment~ o rumo de sua vida. Você, por ser
um indivíduo mais criterioso, quando se encanta por dele. Se você não se sente confortável e não é feliz
uma moça é porque ela tem muitas propriedades po- com ele, se experimentou no outro relacionamento
sitivas. Caso você não se "controle", digamos assim, intensidade sentimental bastante diferente da que já
vai acabar por se envolver mais do que gostaria. O viveu, você pôde ter uma visão clara do que é um ro-
fato de estar com 31 anos e nunca ter se relaciona- mance de qualidade. O fato de ele ter sido o primeiro
do intensamente com mulher nenhuma mostra que homem da sua vida não significa absolutamente que
sua vontade para compromissos corresponde apenas você deva ficar com ele para sempre. Não há razão
a uma parte de seu cérebro; a outra metade tem bas- para se acomodar nesse relacionamento nada interes-
tante freio, medo de um envolvimento maior. Não se sante. Tente resolver, primeiro, seu casamento, para
trata de um problema de autoestima, mas de medo de depois decidir se vai investir um pouco mais nesse
se comprometer para valer. relacionamento com o antigo amigo. Se ele vir que
você está livre e desimpedida, talvez tenha uma atitu-
de mais positiva em sua direção. Pode ser que ainda
Há seis anos vivo com um rapaz de classe social inferior à titubeie um pouco, indo e vindo com a ex-mulher,
156 minha. Ele não é bem aceito por minha família, mas estou mas em algum momento acabará se separando. 157

ao lado dele porque foi o primeiro homem da minha vida.


Temos um relacionamento frio, fazemos sexo quase por
obrigação. Agora estou sozinha, porque ele foi trabalhar Estou envolvido com uma mulher casada, que ficou grávida
no exterior. Nesse ínterim, me aproximei de um amigo que do marido. Isso está deixando minha cabeça meio atrapa-
está separado da mulher. Nossa relação é bastante calo- lhada, porque sei do sentimento dela por mim. Sinto muito
rosa, mas ele está se reaproximando da ex-mulher e meu ciúme. Estou perdido. (Rogério)
marido deve voltar para o Brasil em breve. Tenho receio de
ficar sozinha. Sei que o relacionamento com o meu marido O sentimento que une vocês deve ser muito forte,
não vai durar para sempre. Sei também que meu amigo não mas, mesmo assim, ela arrumou um jeito de pertur-
sente firmeza em mim. Não sei como minha família reagi- bar a possibilidade de vocês ficarem juntos. Acabou
ria a tudo isso. Como lidar com essa situação? estabelecendo um vínculo ainda maior com o marido
e impedindo a relação sentimental que poderia vir a
Como sua família não aceita bem seu marido, ser uma história de amor bem-sucedida. Não há dú-
provavelmente aceitaria muito bem a sua separação vida de que o sentimento predominante dela é em
mente. Vocês ainda não se encontraram ao vivo e é
relação a você, mas ela aceitou a gravidez quase para
natural que gostariam de ter esse contato para saber
dar um fim ao romance e, muito provavelmente, para
qual será o futuro da relação de vocês. Tudo leva a
fugir de você. Veja que absurdo: as pessoas morrem
crer que vocês têm mais afinidades do que diferen-
de vontade de se apaixonar, mas morrem de medo da
ças, o que é um bom prognóstico. Querer ter um bom
felicidade sentimental.
parceiro, caseiro, educado e carinhoso não é desespe-
ro de causa. Espero que você tenha boa sorte e viva
muito bem com seu namorado.
Há cerca de três meses conheci um rapaz pela internet e,
de lá para cá, nos falamos todos os dias. Ele mora em Por-
tugal, e eu, em São Paulo. Estou muito apaixonada e ele diz
Sou viúva, não tive filhos. Tenho 49 anos e um relaciona-
que também está. Ele parece ser tranquilo e trabalhador e
mento há mais de dez com um homem maravilhoso, que
já disse que quer casar comigo. Estou morrendo de medo,
tem mulher e duas filhas. Não quero comprometimento.
porque, às vezes, penso que estou apaixonada por ele por
Minhas amigas me criticam, dizem que estou perdendo
desespero de causa. Sou bem-sucedida profissionalmente,
tempo, mas sinceramente me sinto feliz. Preciso de orien- 159
158 tenho 37 anos, quero constituir família. Já perguntei se ele
tação. (Antonieta)
quer ficar comigo porque pretendo ter filhos ou se gosta
realmente de mim. Ele responde que gosta e pede para que
As pessoas vivem baseadas em normas, clichês.
eu deixe de ser tão insegura.
O bacana, para elas, é ser casada. A maior parte das
pessoas não aguenta a condição de ser a outra, por-
Ele tem razão, porque parece que o que não falta
que a outra é sempre a desprestigiada, tem a vaidade
em você é insegurança. Você insiste na possibilidade
ofendida, é humilhada. A mulher se sente desconsi-
de que ele está com você por alguma conveniência.
derada quando espera da relação mais do que tem
Os encantamentos que surgem pela internet dão, às
ou quer aparecer em público como se fosse a oficial.
vezes, a impressão de que são falsos, mas, na minha
Parece que nada disso é importante para você. Se o
experiência clínica, pude comprovar que os envolvi-
que quer é ser dona de seu nariz, ter sua liberdade,
mentos são de qualidade idêntica aos que acontecem
seu espaço pessoal, então está em uma situação pri-
na vida real. Talvez tenham até uma vantagem sobre
vilegiadíssima, porque leva o melhor da relação e não
os envolvimentos corriqueiros: um conhece 0 outro
tem aborrecimentos. Aparentemente, você é uma
intelectual e moralmente antes de conhecer fisica-
pessoa de bem com a vida, que sabe muito bem tocar mento para as relações íntimas, especialmente quan-
seu cotidiano a seu modo, talvez um pouquinho dife- do se pretende viver junto. Vocês têm uma diferença
rente do tradicional. Não vejo nada de errado nisso. de idade muito grande, diferença de nível cultural e
Suas amigas julgam seu comportamento, mas só você econômico, diferenças regionais. Ele é negro e tem lá
tem condições de fazer uma avaliação verdadeira. To- seus problemas com a cor- talvez sinta-se inseguro,
que a sua vida do jeito que quer. E, se você está feliz, diminuído, sem vontade de circular socialmente com
é o que interessa. você. Ainda que a vida íntima seja muito agradável,
qualquer possibilidade de futuro parece bastante di-
fícil, porque todos os outros fatores operam negativa-
Apesar de ter 39 anos, pareço mais jovem. Há quase um mente. O moço também dá claros sinais de que está
ano me relaciono com um rapaz de 21, que não mora na querendo se afastar, que esses obstáculos, para ele,
minha cidade e trabalha em uma empresa de viação inter- são intransponíveis. Ele não quer se envolver em uma
municipal. Foi em uma viagem dessas que nos conhece- relação que acredita não ter chance de evoluir para
mos. Nos encontramos a cada quinze, vinte dias, e, quando algo mais consistente. Apesar de você não querer ter-
160 estamos juntos, ficamos sempre na minha casa, nunca minar o namoro, ele está cada vez menos presente e, 161

saímos para outros lugares. Nosso relacionamento íntimo aparentemente, com vontade de cair fora.
é intenso. Nunca tivemos uma briga. O que tem me intri-
gado nos últimos três meses é que ele me liga com menos
frequência. Como nunca me deu o telefone da casa dele, Sou casado há 25 anos com uma mulher que não é cari-
alegando que não para lá, nos falamos apenas pelo celular. nhosa, não gosta de beijar e de fazer agrado. Há semanas
Temos diferenças também no nível social e cultural, que a em que ela demonstra carinho e, quando a elogio, diz que
mim não incomodam nem um pouco. Ele é negro e sinto é para eu não me empolgar muito. Será que a educação
que tem preconceito contra a própria cor. Já passei da ida- dela explica esse modo de ser? Minha sogra também não é
de de ficar alimentando uma relação insegura e aventurei- carinhosa com os filhos. (Ângelo)
ra. Gostaria de obter uma orientação quanto a que atitude
tomar. (Luísa) Sua mulher manipula sua sexualidade e, às ve-
zes, quando acha que a situação está interessante, se
As diferenças, no médio e no longo prazo, acabam solta. Depois, trava novamente, e solta, e trava. Brin-
se transformando em problema, obstáculo, impedi- ca de ioiô com você. Em alguns momentos, faz você
correr atrás dela, em outros, o rejeita. Usa o poder tem o hábito de ver televisão até tarde, outro gosta de
sensual feminino para abusar de seus sentimentos. dormir logo, um ronca muito. Antigamente, dormir
E acredito que não tenha muito a ver com a criação junto era prova clara de amor e de que o casamento ia
dela. Tentar explicar o comportamento atual por cau- bem. Isso é bobagem. Você está tomando como ofen-
sa do passado é psicologia um tanto superada, porque sa pessoal, como rejeição, como descaso, o fato de ele
retiramos a responsabilidade das pessoas e a transfe- dormir no sofá. Não tenho certeza de que seja isso.
rimos para a história de vida, para os traumas de in- Acredito que seu companheiro acabe adormecendo e
fância. Se você fincar o pé e disser que esse compor- fique com preguiça de ir para a cama. Isso não é sinal
tamento irregular não lhe interessa, vai ter resultados de desgaste da relação. Seria mais razoável que você
muito melhores. parasse de se sentir rejeitada por tão pouco.

Faz treze anos que estou com um rapaz e, há três, fomos Meu marido só pensa em ganhar dinheiro. Tornou-se mate-
morar juntos. Desde o começo, ele dormia no sofá de vez rialista a tal ponto que se esqueceu de mim, de sua famí-
162 em quando e, há um ano, praticamente não dorme na lia, dos amigos. Tudo isso fez com que nos afastássemos e 163

cama. Isso vem afetando o relacionamento, porque atra- que hábitos, como o álcool, se tornassem intensos. Creio
palha a comunicação e também o sexo. Conversei com ele que ele não me ame mais. Alguém ambicioso assim pode
sobre isso e a desculpa que deu é que fica muito cansado, mudar? Qual é a melhor forma de lutar contra a solidão?
assiste à televisão e dorme pesado. Pode ser carência da (Eiisane)
minha parte ou continuo insistindo para que ele volte para
a cama? (Júlia) O indivíduo que entra nesse ciclo de realizações
profissionais começa a ter sua vaidade alimentada
Você tem insistido e nem por isso ele voltou para pelos bons resultados, passa a se sentir importante
a cama. Talvez seja mais sábio não continuar repetin- e poderoso. Às vezes, é criado mesmo um distancia-
do essa atitude. Não acho que as boas relações amo- mento e o sujeito não leva mais em conta a mulher,
rosas dependam de o casal dormir na mesma cama ou os amigos. Vai se tornando uma criatura solitária.
no mesmo horário. A vida moderna tem de ser repen- Curiosamente, apesar de todo o sucesso, do dinheiro
sada em termos mais ecléticos. i\luitos casais dor- e da realização, tem frustrações e encontra alento no
nwm em quartos separados justamente porque um álcool. Não sei se· ele não ama mais você. Acho que
passou a ter um sentimento mais frouxo do que tinha fim de nenhum tipo de compromisso mais sério, com
porque o foco dele agora é outro: ganhar a vida, ter o passar das semanas, elas começam a insistir para
bastante sucesso e dinheiro. É difícil que uma pessoa que você assuma algo mais palpável. E, a partir desse
assim mude, pois, conforme alcança o sucesso, sen- instante, você tem a porta de saída aberta por causa
te-se mais e mais fortalecida. O sucesso reabastece da pressão que ela fez, como se tivesse sido engana-
a turbina de seu marido, e ele está se achando cada da. Você não tem outro jeito senão sair. E já entra sa-
vez mais competente, mais orgulhoso, mais viciado bendo que não vai assumir nada. Você deve ser sim-
nesse comportamento. Como lidar com a solidão? pático, charmoso, sedutor. A mulher vai ficando cada
Você pode montar uma vida paralela, o que obvia- vez mais encantada e espera ter um relacionamento
mente pode implicar o risco de se desinteressar com- mais consistente. Se estivesse namorando uma me-
pletamente por ele. Quanto mais competente você nina de sua faixa etária - imagino que a diferença de
for para ficar bem sozinha, maior a chance de querer interesses exista porque você tem gostos mais sofis-
terminar o casamento. ticados do que a média das pessoas de sua idade -,
ela certamente não iria querer mais compromisso do
164 que você. Estaria em uma situação bem mais pareci- 165

Sou estudante, tenho 22 anos e desisti de sair com mu- da com a sua. E os namoros poderiam andar natural-
lheres da minha idade. Os gostos não batem, logo perco a mente e terminar se fosse chegada a hora. Você pode
vontade de vê-las. Faz alguns meses, comecei a sair com dizer que não é canalhice e que a mulher mais velha
mulheres mais velhas. No começo até dá certo, mas depois deveria compreender e não pressionar. Isso é muito
elas querem compromisso, o que não condiz com o meu difícil, porque as pessoas sonham, sonham diferente-
momento. Há mais ou menos um mês e meio, comecei a mente do que gostaríamos que sonhassem.
namorar uma advogada de 37 anos, e estamos entrando
nesse impasse. Sempre acabo saindo da história como ca-
nalha, e não sou canalha. Oque fazer? (Guilherme) Comecei um namoro há seis meses e sempre tive dúvida de
o quanto minha namorada estava envolvida comigo. Ela di-
Não acho que seja canalha, mas você quer man- zia que me amava, mas o comportamento dela não era o de
ter uma porta de saída muito aberta em seus relacio- uma pessoa apaixonada. Marcamos uma viagem para Natal
namentos. Como se relaciona com mulheres cuja di- e eu disse que, se ela não gostasse de mim de verdade, não
ferença de idade é grande, e pessoalmente não está a adiantaria viaja·r. Ela me disse que era tudo o que queria.
Dois dias antes da viagem, ela terminou o namoro. Não fui que é generosidade. Quando você ajuda a igreja, ano-
viajar, mas ela foi. Na volta, insistiu em manter contato co- nimamente até, estamos falando de altruísmo. E é
migo. Falou que estava em dúvida, que sentia falta de mim. sempre uma coisa boa. Quando a pessoa participa de
Não sei o que fazer. (Fábio) uma ONG, auxilia instituições decentes de caridade
com dinheiro, tempo ou energia despendida. Na fa-
As palavras não combinam com as ações, e você mília, você pode ajudar com o intuito de dominar, de
tem que levar em conta as ações. Quem ama se dedi- ter poder sobre as pessoas, e, então, já não estamos
ca, é carinhoso, disponível, tem vontade de uma vida falando de ser bonzinho - vai depender da resposta
sexual intensa, sente prazer em estar junto, sonha de seus parentes. Se responderem com gratidão, quer
com a possibilidade de passar alguns dias viajando. dizer que você é mesmo uma pessoa legal; mas, caso
Fazer o que sua namorada fez indica, mais do que tenham ressentimentos decorrentes de sua ajuda, es-
confusão, certa falta de firmeza de caráter. Se você tamos diante de generosidade duvidosa. Na questão
for tolerante com isso, estará abrindo um precedente conjugal, toda vez que o indivíduo doa muito, reforça
para que ela faça o mesmo no futuro. Em seu lugar, o egoísmo do outro, faz o mal, e não o bem, porque,
não consideraria a tentativa de reaproximação. Daria para você poder exercer sua generosidade, tem de re- 167
166
um chega para lá de vez. Ela não é o último refrige- forçar a pior parte da alma do outro. Então, nesse
rante do deserto- há outras pessoas no mundo e você sentido, a generosidade deixa de ser virtude. Enfra-
não precisa ficar se submetendo, fazendo concessões quece a pessoa que está recebendo, e você não sabe
em nome de um sentimento duvidoso. mais se ela está com você por amor ou por necessida-
de crescente. Ajudar o outro a progredir c a se tornar
parecido com você é uma coisa boa, mas deixa de
Faço o bem para a minha família, ajudo na parte financeira, ser, caso você se beneficie de sua superioridade para
até porque sou mais estudado. Auxilio todo mundo na igre- deixar o outro carente, frágil e dependente.
ja. Minha dúvida é no casamento: dá para identificar se a
pessoa gosta realmente de mim ou fica comigo porque sou
bonzinho? (João)

Já deu para perceber que não é tão bom ser bon-


zinho, não? É preciso separar o que é altruísmo do
CONTATOS
INTRINCADOS
Os problemas de relaciona-
mento têm se complicado ao longo das últimas dé-
cadas. Sim, porque existem inúmeros divórcios, que
determinam complexas relações entre os filhos de
relacionamentos anteriores e os novos parceiros de
seus pais (e eventuais filhos desses parceiros, tam-
bém frutos de relacionamentos anteriores). No tra-
balho, as relações também têm se tornado mais frou-
xas. Já é um fato: as pessoas trocam de emprego com
uma frequência muito maior do que no passado, o
que gera instabilidade e competição e estimula certos
comportamentos desleais.
Muita gente boa acaba sendo prejudicada, já que
não raramente é vítima de pressões ou calúnias de
egoístas, competentes tão somente em defender com
unhas e dentes seus direitos e em tentar se apropriar soa mais rigorosa e um pouco menos generosa. Por-
daquilo que não lhes pertence. A cultura continua a que ele é filho, não tem que ser pai da mãe dele. Pre-
enaltecer a generosidade como uma grande virtude, cisa se preocupar com ele mesmo, e não ser babá do
o que incensa a vaidade de muitos desses que se dei- comportamento um tanto negligente e irresponsável
xam abusar pelos mais espertos. da mãe. Ela conseguiu uma coisa fantástica: arrumar
Nesse mundo dividido entre generosos e egoís- um namorado com todos os problemas do mundo e
tas, reforça-se a vocação para a dependência, que com filhos que não ajudam em nada. Seu namorado
pode ser dupla: entre pessoas ou por drogas. Em ou- tem uma atitude bastante ingênua ao imaginar que
tras palavras, nossa sociedade não estimula em nada pode contribuir para a melhoria da situação em que a
a independência de cada um de nós. Critica o uso de mãe está. Ele precisaria ter um pouco mais de bom-
drogas, mas estimula as condições emocionais para -senso e juízo para entender que não tem como as-
que sejam mais e mais procuradas. Não espanta, sumir responsabilidades desse porte. Não há como
pois, que os resultados obtidos até agora no combate ser provedor da mãe, a fonte de aconchego e atenção
à dependência química tenham sido ínfimos. dela. Esse papel não cabe a ele. Evidentemente, essa
172 encrenca familiar pode impedi-lo de construir uma 173

* história adequada para ele mesmo. E o namoro de


vocês pode não evoluir para um convívio mais defi-
Os pais de meu namorado estão separados e se relacionam nitivo. Generosidade em excesso é um defeito quase
com outras pessoas. A mãe dele namora um homem pobre, tão grave quanto egoísmo.
alcoólatra, fumante, que sofre de câncer e diabetes. Os fi-
lhos desse homem não têm recursos para ajudá-lo. Meu
namorado está preocupado com o bem-estar da mãe, que Minha mulher e eu dividimos o apartamento com meu
não sabe lidar com dinheiro. Receio que a preocupação cunhado. Ele tem 24 anos, é homossexual e não quer saber
com os problemas da mãe o impeça de crescer profissio- de trabalhar ou ajudar nas despesas da casa. Não procura
nalmente. O que posso fazer para ajudá-lo? (Carol) emprego e, quando conseguimos agendar alguma entrevis-
ta de trabalho, ele não comparece. Traz outros homossexu-
O problema não é crescer profissionalmente, mas ais para jantar em casa, relacionam-se no quarto. Às vezes,
conseguir crescer emocional e moralmente. Ou seja, são três ao mesmo tempo. Não sei mais o que fazer. Já
como ele vai conseguir se transformar em uma pes- pensei até em registrar um boletim de ocorrência.
Você e sua mulher deveriam tomar uma atitude os ascendentes- tios, pais, avós- já morreram. Os
radical e definitiva em relação a seu cunhado para filhos, muito frequentemente, afastam-se, vão vi-
que ele deixasse de morar com vocês. Finge que pro- ver a vida deles. O que salva uma pessoa depois de
cura trabalho, mas está acomodado nessa situação, certa idade é justamente ter interesses mais inte-
que precisa ser desfeita. Egoísta, irresponsável e até lectuais, porque esses são infinitos e implicam uma
inconveniente, perturba a harmonia da casa, onde é ocupação do tempo quase definitiva. Há sempre li-
apenas um dos integrantes. Se morasse sozinho, po- vros para ler, filmes para assistir, boa música para
deria fazer da vida tudo aquilo que a consciência e a ouvir. Esses são os maiores companheiros de toda a
vontade permitissem. E tudo aquilo que a condição vida. Evidentemente, você pode buscar algum tipo
financeira autorizasse. O que não tem cabimento é de atividade social, como participar de uma ONG,
ele fazer toda essa graça e ter esse comportamento ou fazer cursos que correspondam a seus interesses
desajustado, sendo dependente financeiramente de intelectuais. Nesses lugares, é mais fácil conhecer
vocês. Além de não cooperar com as despesas, é bem pessoas com quem possa dividir gostos mais apa-
provável que ele também não ajude nos cuidados da rentados com os seus. Ao longo da vida, os amigos,
174 casa. Quer dizer, é o que se pode chamar de folga- aqueles de que gostávamos porque gostávamos sim- 175

do. E folgados existem porque sempre há uma pessoa plesmente por causa de um aconchego histórico,
(ou mais de uma) que autoriza e permite esse tipo de vão embora mesmo. Em volta de nós ficam os par-
comportamento. É preciso dar um fim à mordomia. ceiros com afinidade. Em cada fase da vida, esses
parceiros são diferentes. E, se você tem interesses
intelectuais, está com a velhice garantida. Não se
Estou envelhecendo muito só. Não constituí família, os ami- aflija demais, porque a velhice tende a ser um perío-
gos que fiz ao longo da vida estão se afastando, alguns já do mais sossegado.
morreram. Parece que não há mais nada em comum com os
poucos que mantive contato, porque tenho interesses mais
intelectuais, ao contrário deles. Como fazer para não me Tenho 42 anos, um único filho, de seis, e uma dúvida: sou
sentir tão sozinha? (Nazaré) muito amoroso com esse menino. Gosto muito de abraçá-lo
e beijá-lo e tenho medo de incentivar o homossexualismo
Com o passar dos anos, mesmo quem consti- nele. Receio que, no futuro, ele venha a procurar carinho
tuiu família tem essa sensação de solidão. Porque em outros home·ns. (Aiaor)
Esse era um temor que existia no passado. Os e nas costas, imaginárias, provavelmente, já que goza de
pais não abraçavam e beijavam seus filhos justamen- plena saúde. Tenho me sentido um guichê de autoajuda,
te por medo de estarem contaminando as crianças porque procuro desviar o pensamento dela de toda essa ne-
com estímulos eróticos de natureza homossexual. gatividade. Mas isso tem me afetado. Cheguei a pensar em
Alimentavam a ideia de que ternura, carinho e tesão pedir para sair do setor apenas para não ter que conviver
eram coisas muito parecidas, faziam parte do mes- com ela durante essa maré de baixo astral. O que posso
mo pacote, do mesmo sentimento. Hoje, as pessoas fazer para tentar me proteger de tudo isso? (Renata)
conseguem separar ternura de interesse sexual. Are-
lação que você tem com seu filho parece ser muito Parece que você é aquele tipo de pessoa que,
boa. Então, é normal se apegar muito a ele. E há aí quando alguém está triste a seu lado, sente que tem
uma contrapartida amorosa, tudo puramente senti- a obrigação de ajudar, de dizer sempre uma palavra
mental. Um menino que cresce tendo uma relação de incentivo - você mesma disse que virou um com-
positiva com a figura paterna dificilmente será vítima pêndio de autoajuda. A primeira coisa a fazer é se
de qualquer tipo de dificuldade na vida sexual futura. desobrigar definitivamente de dar qualquer tipo de
176 Seu filho é um abençoado pelo bom temperamento amparo, auxílio ou colo. Parece que sua colega é 177
e favorecido por ter, no ambiente familiar, esse cli- uma pessoa que abusa da situação e é até um pouco
ma de carinho, de aconchego. Não tenha pudor em chantagista, porque se beneficia da boa vontade das
ser carinhoso. Carinho e ternura não estimulam a pessoas para se fazer de coitadinha. O jeito de você
vida erótica e não estão ligados à homossexualidade. se preservar é se distanciar mesmo, já que não é a
Homossexualidade pode ter algum vínculo com uma salvadora dessa moça. Você não é médico de UTI, não
figura paterna brava, grosseira, que mantém um cli- tem que cuidar da saúde mental dela. Precisa, sim,
ma de agressividade em casa. Relaxe e aproveite esse cuidar de seu trabalho e, principalmente, preservar
presente que é ter um filho legal como o seu. sua integridade.

Cerca de três meses atrás, uma funcionária foi admitida no Tenho 21 anos, faço terapia há três anos e a terapeuta des-
meu setor e passou a demonstrar ser uma pessoa extrema- cobriu que tenho uma dificuldade muito grande de manter
mente carente. Tenta chamar a atenção de todo mundo, é meus relacionamentos mais próximos. Meus melhores
negativa, reclama o tempo todo que sente dores de cabeça amigos são aqueles que moram longe ou aqueles que vejo
a cada três ou quatro meses. Nos relacionamentos amoro- Tenho minha vida organizada, sou viúva, e a presença dele
sos, quando terminavam, sempre achava que os homens vai dar uma virada em todo o meu esquema. Devo recebê-
eram cafajestes. Na terapia, descobri que eram minhas -lo de volta? (Maria Luísa)
atitudes que impediam meus relacionamentos de se man-
terem. Agora, estou gostando de um homem, flertando com Francamente, acho que não. As mães também
ele, e estou com muito medo. Medo de me aproximar. Com- "crescem", tornam-se mais independentes, criam seu
prei um presente, mandei uma mensagem e, quando ele sistema de vida. Mesmo tendo grande amor pelos fi-
me ligou de volta, não consegui atender o telefone. Minha lhos, que não devem agir como crianças, talvez não
insegurança acaba me atrapalhando. (Daniela) queiram ter esse tipo de turbulência dentro de casa,
o que é perfeitamente razoável. Não acho que você
Você precisa aprender a correr riscos. Não é pos- deva se sentir obrigada a receber seu filho só porque
sível ter relações de amizade sempre à distância ou é filho. Não há nenhuma razão para ele não encontrar
manter um pé atrás com todo mundo. O medo de cair outra solução para sua solteirice. A não ser que seja
do cavalo aumenta muito o risco de cair mesmo. E algo momentâneo, transitório. Se ele estiver em uma
178 estou fazendo uma comparação literal: em vez de se situação difícil financeiramente, você pode acolhê-lo. 179
botar aprumado, o cavaleiro segura a crina ou aperta Mas, se o cidadão resolveu se separar e se mudar para
demais o animal, atitudes que acabam irritando o ca- a casa da mamãe nessa altura da vida, a mamãe pode
valo, que dá um pinote e derruba quem está em seu não querer incorporar esse novo personagem em sua
lombo. Talvez, para você, falte apenas um pouco mais rotina. Porque ele é um novo filho, que estava viven-
de coragem para cair. Você é bem jovem ainda, somen- do outra vida. Acolher, sim, mas se for por um perío-
te 21 anos, tem muito o que aprender, muitos tombos do agudo apenas.
para levar. Quando caímos do cavalo e montamos de
novo, ganhamos experiência, formamos um conjunto
de ideias que vai nos deixando cada vez mais com- Tenho 43 anos e uma mãe de setenta, bem jovial, que é
petentes, cada vez mais habilitados para as relações. muito dominadora. Vivo em uma prisão. Se for até a porta-
ria do prédio para pegar correspondência, ela revira todas
as minhas coisas, joga no lixo o que bem entender. Tive
Tenho um filho que estava casado havia vinte anos. Agora, depressão, cheguei a ficar dois anos de cama. O que estou
o casal enfrenta problemas e ele quer ficar na minha casa. vivendo não é vida. Pretendo morar sozinha, até já com-
prei um apartamento, mas vou ter uma vida pobre. A única Nas separações, sempre existe um modo duplo de
coisa que queria era ter energia para trabalhar em algo operar. O maior problema educacional é exatamente
simples. Quando acordo, sei que é mais um dia perdido. esse: dois referenciais. É muito raro o casal gostar das
(Márcia) mesmas coisas, pensar do mesmo jeito, ter o mesmo
tipo de atitude diante dos dilemas da vida. Todo par
É melhor ter uma vida pobre e livre do que qual- tem diferenças, e elas se tornam até mais claras e
quer outra vida. Fico impressionado ao ver que você mais marcadas quando há o divórcio. A educação está
está sendo oprimida por sua mãe, que mexe em tudo, fundamentada em exemplos. Se o pai atuar de um
e não toma nenhuma providência para cair fora. Em jeito e a mãe de outro, o filho pode ficar passeando
vez de imaginar que sua liberdade vai acontecer no entre esses dois modelos, com valores diversos e li-
dia em que ela for para o céu, tome a atitude de ficar berdade difícil de ser controlada. Por mais que você
livre aqui na Terra. Sua depressão pode ter a ver com não queira colocar as coisas muito objetivamente a
essa situação complicada que você vive. Você precisa seu filho, para não indispô-lo com a mãe, precisará
se afastar de sua mãe, com todo o respeito, porque deixar claro que você funciona de um jeito e a mãe de
180 ela tem um temperamento que não combina com o outro. Seu filho terá que se definir pelo modo que es- 181

seu jeito de ser. Não planeje apenas a mudança- exe- tiver mais adequado à maneira dele de ser. Você não
cute-a. O mais rapidamente possível. deve fazer de conta que não prefere educá-lo a seu
modo, caso contrário criará um dilema para seu filho.
E, indiretamente, estará criticando a mãe dele. Mas
Meu filho de catorze anos tem uma relação muito difícil você não pode ser omisso. A saída para todos nós, por
com a mãe, que cobra dele comportamentos que ela pró- hora ainda pouco comum, seria casarmos com uma
pria não tem. Por exemplo: é bagunceira e exige que ele pessoa parecida conosco e vivermos junto sem dis-
seja ordeiro; ela fala palavrão dentro de casa e briga quan- córdia o restante da vida, para que os filhos tivessem
do ele diz qualquer um. Quando é cobrado sobre a maneira um único padrão educativo.
como trata a mãe, às vezes rudemente, e sobre o motivo
de não falar comigo do mesmo modo, responde que eu o
respeito. Será que posso tratar dessa questão diretamente Tenho um relacionamento homossexual há treze anos. Abri-
com meu filho? Não me parece muito ético fazer acusa- mos juntos uma empresa de contabilidade e começamos
ções à mãe, de quem estou separado há oito anos. a ter uma convivência diária intensa, de oito a dez horas
por dia no escritório, mais a vida em comum em casa. O velha do que eu. Recentemente, minha mãe passou a sentir
escritório não vai nada bem e nosso relacionamento de- prazer em expressar opiniões contrárias à minha. Cheguei
gringolou por causa da falta de dinheiro. Hoje, o que nos à conclusão de que a odeio, mas me sinto deprimido por
une é o ideal de salvar o negócio. Sei que ele vive outro isso. Como lidar com esse sentimento?
relacionamento. Não consigo sair desse emaranhado, me
sinto cada vez mais solitário, infeliz. O que me incomoda é Não vejo por que você está tão deprimido. Não
que eu teria de deixar a casa. Foi um patrimônio construído há necessidade de odiar tão intensamente sua mãe.
em conjunto. E não acho que o momento seja de dividir, É certo que ela comete um grande equívoco, mas não
mas de somar. (Carlos) de preferir sua irmã, porque é um direito dela ter uma
favorecida, ter mais identificação e empatia com sua
Acho que você deveria pensar se não é o caso irmã do que com você. Não é porque são dois filhos
de deixar de ser o "oficial" e cair fora dessa relação que os pais precisam obrigatoriamente gostar deles
de uma vez, até para ter mais motivação e energia de forma igual. Essa é uma visão equivocada e ingê-
para salvar o negócio. Seria uma tentativa de unir nua. Mas o fato de ela manter essa implicância com
182 forças em benefício de um bem. O fato de você sa- você, sempre se contrapondo às suas ideias, é algo 183
ber que ele está em outra história afetiva atrapalha irritante, perturbador. Claro que o fato de ela ter essa
você profissional e emocionalmente. E "estar junto" conduta faz com que não seja a mãe com que você
talvez seja humilhante para você, mais prejudicial do sonhou. E isso prejudicou sua autoestima. Como li-
que um afastamento. Não sei se é hora de dividir dar com esses fatos agora? A melhor saída é se afastar
patrimônio, mas acho que é hora de se distanciar dela, em vez de odiá-la.
fisicamente. Com isso, você criaria uma condição
menos desconfortável, que permitiria até que bus-
casse outra companhia. É sempre melhor se separar Desde muito cedo, meu filho único, hoje com 24 anos, dá
cordialmente. sinais de egoísmo. Eu o criei sozinha, sem a presença do
pai, e sempre fui muito generosa com ele. Será que foi esse
o meu erro? (Helena)
Estou com a minha autoestima muito fragilizada. Tenho
quarenta anos e minha mãe sempre me desprezou, sempre O egoísta é, basicamente, um tipo que recebe
manifestou uma ligação mais forte com minha irmã, mais mais do que dá, tanto afeto como benefícios. Quan-
do muito pequena, a criança não tem outra fonte de pode até dizer que concorda, que acha importante
satisfação que não aquilo que vem de fora. Mas, des- mudar etc. e tal, mas, depois, mantém seu jeito de
de cedo, deveria ser estimulada a começar a respon- ser. Ninguém muda com facilidade, ainda mais por
der às atenções e aos cuidados que recebe, porque o força de algo que tenha ouvido. Às vezes, algumas
egoísmo não se desfaz naturalmente. Crianças costu- palavras levam a um insight, a uma visão interna, e é
mam ser intolerantes, imediatistas, choram e esper- esse insight que pode ser fator de mudança. Porque,
neiam para ter as coisas na hora. Se o adulto cede, dá de repente, a pessoa consegue ter um clarão acer-
tudo o que ela quer, estimula o lado imaturo, e não a ca de algo importante que está acontecendo dentro
ajuda a crescer. Endurecer um pouco pode ser bom, dela mesma. Acredito mais nesses estados internos
mesmo com seu filho já crescido. Obviamente, ele do que no poder das palavras nos relacionamentos,
não vai gostar, porque está acostumado a mordomias. a não ser que o outro esteja mesmo muito disposto
No entanto, a tática mais sábia seria dar a ele apenas a nos ouvir e tenha pedido a nossa opinião. Quan-
o básico de atenção e deixar claro que, daqui para a do fazemos uma observação pertinente, sabemos o
frente, você espera que ele retribua o seu carinho. impacto que provoca. E, quando temos um insight,
184 Caso contrário, ele nunca sairá desse clima de achar acabamos tendo bons instantes de introspecção. 185

que tudo é para ele, para ele, para ele. Momentaneamente, podemos ficar mais tristes por
tomarmos consciência de nossos erros. Mas, depois,
temos a clara percepção de que novas oportunidades
As palavras não têm o poder de resolver problemas, mas para o futuro estão chegando.
podem causar um clarão que modifique o comportamento?
Pergunto isso por causa de questões individuais e também
de relacionamento, já que uma pessoa pode estar disposta Comecei a notar que o comportamento de minha sobri-
a ouvir a outra. (Daniel) nha, de quinze anos, estava muito estranho. Em um final
de semana em que ela ficou comigo, descobri maconha,
As pessoas imaginam que, com as palavras, vão alguns comprimidos, colírio nas coisas dela. levei esses
promover grandes mudanças no modo de ser do ou- comprimidos ao Denarc [Departamento de Investigações
tro. Acham que, ao fazer observações, às vezes muito sobre Narcóticos) e conversei com um delegado, que de-
ponderadas e inteligentes, seduzem e levam o outro tectou não ser ecstasy, mas uma droga perigosíssima,
a se modificar. Naquele momento preciso, o outro que vem do Paraguai, um vasodilatador. Tanto meu irmão
como minha ex-cunhada, iiUe estão separados, são relap- Sempre se fala que a razão se sobrepõe à emoção e que
sos nos cuidados com essa filha. Como poderia ajudá-la? temos de ser mais racionais do que emocionais. Observo
Parece que estou invadindo a vida da menina e dos pais, e que as pessoas racionais são mais diretas, às vezes frias.
meu excesso de preocupação está gerando ciúme familiar. As emocionais, às vezes, não se definem para resolver um
(Marcos) problema. Fala-se muito, hoje, em inteligência emocional.
Seria uma mistura da razão com a emoção? (Miriam)
Os pais são negligentes, e você, como tio, toma
as iniciativas que deveriam ser deles. Ao mesmo tem- A boa forma de operar talvez seja a favor da razão,
po, você não tem autoridade para dar um fim àqui- e não da emoção. A inteligência emocional significa
lo que vê e fica com as mãos amarradas. A conduta vitória da razão sobre as emoções. Não a vitória da-
correta, aqui, seria tomar uma atitude bastante enér- quele racionalismo do século XIX, que oprimia as emo-
gica com a menina, eventualmente impedindo que ções, mas a vitória de não se deixar escravizar e agir
sua sobrinha continue a ter companhias que possam de acordo apenas com aquilo que se sente. Porque, se
induzi-la a esse tipo de comportamento. Deveria ser a emoção implicar uma reação agressiva, violenta, em
186 tomada uma atitude mais ativa, mais agressiva até certas circunstâncias pode ser algo intolerável, prin- 187
em relação à menina, para que não tivesse acesso cipalmente se estiver ligado ao ambiente de traba-
às drogas. Seria uma reação intencional para mostrar lho. Ter reações explosivas não é sinal de sabedoria.
claramente que a família se opõe ao comportamento E manter o controle sobre si mesmo, ser o senhor de
dela. Porém, isso só pode ser feito pelo pai e pela si mesmo, não é ser frio, absolutamente. É apenas ter
mãe, dificilmente por um tio, que parece querer as- domínio de seus sentimentos. O indivíduo pode ser
sumir espaços que seriam, de direito, dos pais. Você perfeitamente emotivo e delicado, ter alma sutil, e, ao
dá mostras de ser um indivíduo que quer invadir um mesmo tempo, ser firme em suas decisões. Não tem
território que não é seu. E. de fato, tem muito pouco de ser escravo nem da agressividade, nem da inveja,
a fazer. Tahez, o melhor seja dizer à sua sobrinha que nem do ciúme, nem mesmo do amor ou do desejo
sabe o que está acontecendo e que acha tudo isso sexual. Neste caso específico, será que toda vez que
muito errado. E. se ela quiser. poderá contar com a uma pessoa tiver vontade de transar deve necessaria-
sua ajuda. Para os pais. '"bata'" mai~ tlrnw: diga que mente fazer isso? Vontade não quer dizer muita coisa.
sào irwspons,Í\ eis L' ahsolutalllL'Illl' negligentes didn- Se a vontade será executada ou não, é outro caso. Ser
tc Lk um pmhk·mél Uo gra\ c. mais racional e mais razoável é conveniente, sim.
Copyright © 2009 by Editora Globo S.A. para a presente edição
Copyright © 2009 by Flávio Gikovate

Edição e preparação
Ana Tereza Clemente
Revisão
Vivien Hermes
Capa, projeto gráfico e editoração eletrônica
Marina Mayumi Watanabe
Foto do autor
Paulo Guimarães
Transcrição de fitas
Adriana Oliveira

Editora Globo S.A.


Av. Jaguaré, 1.485
São Paulo, SP, Brasil
CEP 05346-902
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CIP- Brasil. Catalogação na Fonte


Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

G391n
Gikovate, Flávio
No divã do Gikovate I Flávio Gikovate.- São Paulo : Globo. 2009.
(C:HN Livros; 2)
ISBN 978-85-250-4780-9

I. Amor. 2. Casamento. 3. Ciúme. 4 Inveja. I. Título. 11. Série.


09-%32. CDD: 152.4 CDU: 159.942
28.10.09 04.11.09 01601)

I' edição, 2009

Te\.to fixado conforme as regras do :\mo Acordo Ortográfico da ~íngua Portu-


gucsd I, Decreto LcgislatÍHl n. S4, de l Y9=) ).
0

i(Jdn~ o\ direito<; rc~cnado~. ::'\cnhuma p<'~.rte desta ediçüo pode ser utililada
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de d.tclo~ V'lll d C\fHL'...,::-.d .Jutoritd(.,',lo LLt editord.
CBN LIVROS

1. Amigos ouvintes Flõivio Gikovate Médico formado

Arnaldo Jabor pela USP em 1966. Trabalha com psicotera-


pia breve, tendo atendido a mais de 8 mil

2. No divã do Gikovate pacientes. Autor de 27 livros sobre com·

Flávio Gikovate portamento humano, especialmente sobre


assuntos ligados ao amor e à sexualidade.

3. O sucesso passo a passo Desde agosto de 2007, comanda o talk

Max Gehringer show No divã do Gikovate, na Rádio CBN .