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C O L E Ç Ã O O N T E M E n O J E - Y o l .

N . O G N E V

O DIÁRIO DE

C O S T I A R I A B T S E V

N o v e l a r u s s a

Tradução e Prefácio de JORGE AMADO

E D I T O R A B R A S I L I E N S E L I M I T A D A
O D I Á R T O D E

COSTIA RIARTSEV

NOVELA RUSSA

por

N. OGNEV

Tradução e Prefácio de Jorge Amado

O DIÁRIO DE COSTIA RIABTSEV


é a n a r r a ç ã o da v i d a escolar na URSS
nos anos de 23 e 2 4 , n o início quasi
d a grande e x p e r i ê n c i a . S ã o as r e a ç õ e s
d e u m a c r i a n ç a s o v i é t i c a ante a v i d a
nova que se c o m e ç a v a a v i v e r . Atra-
v é s o d i á r i o vemos as figuras dos mes-
tres, de outros colegas, vemos as p e r i -
gosas sendas que se a b r i r a m nos restos
apodrecidos da burguesia tentando as
c r i a n ç a s p r o l e t á r i a s , vemos a luta dos
mestres contra esses desvios, vemos o
d i f í c i l caminho da r e v o l u ç ã o educando
as g e r a ç õ e s . É u m l i v r o p o r v ê z e s d o -
loroso, p o r vezes emocionante, mas u m
l i v r o de c o n f i a n ç a no destino do
h o m e m , de c o n f i a n ç a na r e v o l u ç ã o so-
cialista. Costia Riabtsev vence as d i -
ficuldades do seu caminho e m a r c h a
para ser u m h o m e m ú t i l à coletividade.

(Trecho do prefácio de Jorge Amado)

VoL 8 da Coleção
"ONTEM E HOJE"

EDIÇÃO DA

EDITORA BRASILIENSE LTDA.


Rua D . J o s é de Barros, 163 — S. Paulo
O D I Á R I O D E

C O S T I A R I A B T S E V
30LEÇÃ0 O N T E M E H O J E — V o u 8

N . O G N E V

O DIÁRIO DE

COSTIA RIABTSEV

Romance Soviético

PREFÁCIO E TRADUÇÃO DE

J O R G E A M A D O

1 9 4 5

E D I T O R A B R A S I L I E N S E L I M I T A D A

R. D o m J o s é de Barros, 163 SÃO PAULO


P r e f á c i o

"O Diário de Costüi Riabtsev", de N. Ognev, é


um dos mais celebres e discutidos romances soviéticos
dos anos que medearam entre 20 e 30, anos da constru-
ção socialista, antes da constituição stalinista que marca
o fim daquela época e o assentamento do estado socia-
lista. Foi uma época de construção, de pesquiza, de tra-
balho ardente, de marchas e também de recuos quando
a realidade provava que certas experiências não se adap-
tavam ás necessidades do meio-ambiente.

Uma das coisas mais levadas a serio, mais penosa-


mente experimentadas na União Soviética, foi a pedago-
gia. Os professores e as professoras se atiraram á tarefa
de educar as novas gerações com métodos novos. Muito
fracasso existiu, sem duvida, muito pequeno erro, imen-
sas dificuldades. As creanças deante de um tempo novo
reagiam das mais diversas maneiras. Mas os pedagogos
da União Soviética venceram a batalha e as novas gera-
ções russas são frutos deste esforço colossal, são resul-
tantes da vitoria da nova pedagogia, são gerações creadas
no humanismo socialista, com uma visão da vida e das
relações entre os homens mais bela e mais nobre do que
a de antes.
O "Diário de Costia Riabtsev' é a narração da vida
escolar na URSS nos anos de 23 e 24, no inicio quasi
da grande experiência. São as reações de uma creança
soviética ante a vida nova que se começava a viver.
Através o diário vemos as figuras dos mestres, de outros
colegas, vemos as perigosas sendas que se abriram nos
restos apodrecidos da burguesia tentando as creanças
proletárias, vemos a luta dos mestres contra esses des-
vios, vemos o dificil caminho da revolução educando as
gerações. E' um livro por vezes doloroso, por vezes emo-
cionante, mas um livro de confiança no destino do ho-
mem, de confiança na revolução socialista. Costia Riab-
tsev vence as dificuldades do seu caminho e marcha para
ser um homem util á coletividade.

Creio que este Uvro é bem um espelho daqueles


anos da vida russa, daquele tempo dificil em que se
começava a construir um novo mundo, quando tudo era
barro informe para ser trabalhado pelas mãos dos comu-
nistas saidos da guerra civil.

A coragem com que N. Ognev enfrenta o problema,


como o encara em todos os ângulos, e mais a sua rara
penetração psicológica, a capacidade de levantar os tipos,
a suavidade juvenil com que marca certas cenas e seu
profundo conhecimento da alma dos jovens, tornam o
''Diário de Costia Riabtsev M
um dos romances mais ad-
miráveis da literatura soviética. Livro que não esconde
as dificuldades mas que abre magníficas perspectivas.

JORGE AMADO

São Paulo, junho de 1945.


A N O E S C O L A R D E 1923-1924

P R I M E I R O T R I M E S T R E

P R I M E I R O C A D E R N O

Setembro 13, 1923.

E s t a m o s n a m e t a d e d e S e t e m b r o , m a s as a u l a s ainda
n ã o c o m e ç a r a m n e m n i n g u é m sabe q u a n d o v ã o c o m e ç a r .
Eu t i n b a o u v i d o dizer que i a m fazer uns concertos na
escola, mas h o j e d e i u m p u l o a t é l á , e n ã o v í n a d a disso.
Ao contrário, n ã o havia n i n g u é m e n i n g u é m soube me
dizer cousa alguma. As portas estão completamente
abertas. A escola é u m d e s e r t o . . . Quando voltei para
casa c o m p r e i o c a d e r n o d e u m m e n i n o p o r t r ê s l i m õ e s .

J á a q u i e m casa f i q u e i p e n s a n d o n u m j e i t o d e m a t a r
o t e m p o e r e s o l v i escrever u m d i á r i o . V o u anotar todos
os a c o n t e c i m e n t o s d e m i n h a v i d a .
I
E u gostaria m u i t o de m u d a r m e u n o m e Constantino
pelo de V l a d l e n ^ porque Costia é u m n o m e m u i t o
vulgar. A l e m disso, h o u v e u m t z a r t u r c o , C o n s t a n t i n o ,
q u e t o m o u C o n s t a n t i n o p l a ; e, a p e s a r d e ser u m t z a r m e

(1) A b r e v i a t u r a de V l a d i m l r L e n i n e .
8 N. O G N E V

deixa inteiramente indiferente. Ontem f u i a Comissária


e m e d i s s e r a m q u e era i m p o s s í v e l antes dos d e z o i t o anos.
V o u t e r de esperar d o i s anos e m e i o . Que pena!

Setembro 16, 1923.

Eu pensei que ía ter de inventar cousas para escre-


ver n o d i á r i o m a s h á cousas de sobra.

Hoje, de manhã, f u i ver Serioga Blinov. Serioga


me disse que as a u l a s vão começar no dia 20; mas, o
mais i m p o r t a n t e , f o i m e u d i á l o g o a respeito de L i n a A.
Serioga mc disse q u e e u n ã o devia perder tempo com
ela, p o r q u e ela é filha de um servidor do culto, e é
vergonhoso que cu, f i l h o da classe o p e r á r i a , chame a
a t e n ç ã o d e t o d o s c o m essa a m i z a d e . Respondi que, em
p r i m e i r o lugar, nunca tive i n t e n ç õ e s de chamar a a t e n ç ã o
de" q u e m q u e r q u e s e j a p a r a a m i n h a p e s s o a , e q u e Lina
era d o m e s m o g r u p o escolar q u e e u ; q u e s e n t á v a m o s na
mesma carteira na classe e p o r isso, e r a muito natural
que me desse c o m e l a . M a s Serioga respondeu que a
consciência proletária o proibia* c que, alem disso, a
j u l g a r p e l a o p i n i ã o dos m a e s c > e de*todos os
<2
Comesc
do ano anterior, eu exercia u m a influência nefasta so-
bre L i n a — que o p i n i ã o ! — Q u e ela, e m vez de estudar
í a p a s s e a r c o m i g o n a r u a e, e n f i m , se a c o u s a continua,
ela poderá se c o r r o m p e r n o sentido das idéias. Alem
d i s s o , S e r i o g a m e a d v e r t i u q u e sc c u q u i s e s s e ser admiti-
do no C o m s o m o l í 4 )
, t i n h a de, p a r a r d e m e i n t e r e s s a r por
moças.

(2) A b r e v i a t u r a de mewtre-escola.
(3) A b r e v i a t u r a de C o m i t ê s escolares.
(4) U n i ã o da j u v e n t u d e comunista.
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV

B r i g u e i c o m S e r i o g a , v o l t e i p a r a casa e v i m escrever
no diário o que não tinha tempo de dizer a Serioga.
L i n a para m i m n ã o é u m a f ê m e a , mas apenas u m a cama-
r a d a ; e, e m g e r a l , t e n h o u m c e r t o d e s p r e z o p e l a s nossas
jovens. E l a s g o s t a m d e m a i s das r o u p a s , d o s c i n t o s e —
a l e m disso — dos b a i l e s ; mas, s o b r e t u d o , dos mexericos.
Sc a l g u é m f o s s e p r e s o p o r c a u s a d e t a g a r e l i c e , n e n h u m a
m e n i n a d e nosso g r u p o f i c a r i a e m l i b e r d a d e . É verdade
q u e f u i ao c i n e m a c o m ela n o a n o passado, m a s f o i p o r -
que n ã o tinha com quem i r . N ó s d o i s gostamos de cine-
ma. S ó isso.
Espero ansiosamente o c o m e ç o das atilas. A escola
é p a r a m i m c o m o m i n h a casa, t a l v e z m a i s interessante
até.
Setembro 20, 1923.

Enfim começaram as a u l a s . Foi u m tumulto, uma


b a r a f u n d a e s p a n t o s a ; n o nosso g r u p o t o d o s os meninos
são os m e s m o s do ano passado. E , entre as meninas,
h á d u a s n o v a s : u m a delas é A l b i n a , usa u m a t r a n ç a e u m
l a ç o e m f o r m a de h é l i c e de a v i ã o . 0 nome dela é Sil-
f i d a , e m b o r a seja russa e n ã o estrangeira. As meninas
começaram logo a chamá-la Silva. O sobrenome é
Dubinina.
A o u t r a é m o r e n a , de cabelos curtos. E s t á de luto.
E m geral toda ela é l ú g u b r e e nunca r í . Q u a n d o a gente
lhe d i z a l g u m a cousa, começa a rcsfolegar como uma
locomotiva: f u ! fuu! fuuu!, está sempre curvada.
Parece a própria sombra. O nome dela é Zoia
Travnikova.
Setembro 27, 1923.

Vão introduzir o p l a n o de Dalton n a nossa escola.


É u m s i s t e m a d e e n s i n o n o q u a l os maesc n ã o fazem nada
e os a l u n o s t ê m d e t o m a r c o n h e c i m e n t o d a s c o u s a s p o r
í o N . O G N E V

si m e s m o s . Assim, pelo menos, é o qne eu entendi. Não


teremos aulas, c o m o agora. Os alunos terão material
no qual trabalhar, preparar-se na escola ou em casa
d u r a n t e u m m ê s , e, u m a v e z p r e p a r a d o , l e v a r o q u e t i v e r
f e i t o ao exanxinador, n o l a b o r a t ó r i o . E m l u g a r de clas-
ses vai haver laboratórios. E m cada laboratório, um
rnaesc especialista na matéria: por exemplo, no de
m a t e m á t i c a , A l m a k f i s c h ; n o de sociologia, N i c p e t o j . . . ,
etc. Eles, a r a n h a s ; n ó s , moscas.
R e s o l v e m o s , este a n o , abreviar os n o m e s de todos
os rnaesc para ganhar tempo. Alejo Maksimich Fischer
será Almakfisch, Nicolas Petrovich Ojegov, Nicpetoj.
Não falei mais com Lina. Ela quer mudar de
carteira.
Outubro I ,
o
1923.

Começamos a trabalhar no plano Dalton. Em todas


as c l a s s e s , m e n o s n u m a , as c a r t e i r a s d e s a p a r e c e r a m . Em
vez delas, temos mesas grandes e bancos. Com Vanka
P c t u j o v , v i s i t e i os l a b o r a t ó r i o s e m e s e n t i n u m a situação
de idiota. Os rnaesc também ainda n ã o sabem direito
como aplicar o Dalton. Nicpetoj, como sempre, foi o
mais astuto de todos. V e i o e nos deu aula. N ã o nota-
mos d i f e r e n ç a a l g u m a alem do f a t o de estarmos sentados
e m bancos, e m vez de carteiras.
S i l f i d a D u b i n i n a sentou-se ao m e u l a d o ; L i n a , sen-
tou-se d o l a d o o p o s t o . Que vá pro Diabo! N ã o me faz
falta nenhuma.
Outubro 2, 1923.

Zoia Travnikova nos fez dar boas gargalhadas.


Começou a contar para as m e n i n a s q u e os m o r t o s res-
s u s c i t a m d e n o i t e e se a p r e s e n t a m à s pessoas enquanto
estas d o r m e m . U n s r a p a z e s se a p r o x i m a r a m e ouviram
a história. Depois, Vanka Petujov perguntou a Zoia:
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 11

— B o m , c v o c ê v i u os m o r t o s ?
— Claro que sim.
— E c o m o é q u e eles s ã o ? — p e r g u n t o u V a n k a .
— P o i s s ã o a z u e s , e p á l i d o s , c o m o se e s t i v e s s e m l i a
m u i t o t e m p o sem comer. E uivam.
A o p r o f e r i r estas p a l a v r a s Z o i a f e z u m a c a r a horrível
e c o m e ç o u a m o v e r os b r a ç o s . Vanka então disse:
— I n v e n ç õ e s suas. Os m o r t o s s ã o cinzentos, pardos
e avermelhados... e grunhera assim: U h ! U u h ! Uuuhl
E grunhiu como u m baroquinho.
Zoia f i c o u m u i t o aborrecida e c o m e ç o u a resfolegar
como uma locomotiva enquanto o s r a p a z e s se punham
a rir.
Outubro 3, 1923.

0 Dalton n ã o leva a parte alguma. Ninguém com-


preende nada: n e m os rnaesc nem nós. Os rnaesc
p a s s a m as n o i t e s d i s c u t i n d o .
A ú n i c a i n o v a ç ã o s ã o os b a n c o s n o l u g a r d e c a r t e i r a s ,
s e m t e r o n d e g u a r d a r os l i v r o s . N i c p e t o j nos disse que
já não nos farão falta. Todos os livros estarão no
a r m á r i o especial, n o respectivo l a b o r a t ó r i o . E cada um
p e g a r á o que precisar. Mas, enquanto n ã o h á armários?
Os rapazes estiveram dizendo que h o u v e u m certo
l o r d D a l t o n , u m b u r g u ê s , que f o i o inventor do plano.
E eu d i g o : p a r a q u e q u e r e m o s n ó s esse p l a n o b u r g u ê s ?
Eles t a m b é m e s t i v e r a m d i z e n d o que e n q u a n t o ele i n v e n -
tava o p l a n o alimentava-se apenas c o m f i g a d o de ganso e
gelatina. Q u e r i a v e r se e l e , c o m o n ó s , se alimentasse
c o m u m o i t a v o d e p ã o e u m vobla. O u se t i v e s s e d e i r
p e d i r esmolas nas aldeias c o m o n ó s nas c o l ô n i a s . Por-
que comendo figado de ganso q u a l q u e r u m inventaria
planos!
S i l f i d a se m e x e m u i t o e é muito i n c o m o d o sentar
no mesmo banco que ela. J á m a n d e i - a passear muitas
N . O G N E V

vezes m a s ela m e c h a m o u de c a s m u r r ã o . Perguntei às


m e n i n a s sua o r i g e m s o c i a l e elas m e disseram q u e ela é
f i l h a de t i p ó g r a f o . Que pena que cia n ã o é uma bur-
guesa p o r q u e a í ela í a v e r q u e m e u sou!

Outubro 4, 1923.

-iuuve uma assembléia g e r a l p a r a d e c i d i r o caso d a


autonomia. Falou-se dos defeitos d o a n o a n t e r i o r e da
m e l h o r m a n e i r a de exterminá-los.
O principal defeito é o do registro de faltas. Todos
o s Comesc, m e s m o s os m e l h o r e s , a m e a ç a m c o m o r e g i s t r o
de_ f a l t a s . M a s isso n ã o a d i a n t a nada. Por f i m , ficou
decidido suprimir o registro por um m ê s para ver o
que acontece. Todos gostaram m u i t o da i d é i a e grita-
vam: Viva! viva! Zoia Travnikova armou uma cena,
quando se l e v a n t o u e d i s s e c o m v o z sepulcral:
— Sobretudo, segundo a m i n h a o p i n i ã o , principal-
m e n t e os m e n i n o s d e v e m ser c a s t i g a d o s c o m p r i s ã o . De
outra maneira, n i n g u é m poderá suportá-los.
Aí é que foi! Todos começaram a assobiar e a
gritar. N o princípio houve uma indignação geral, mas,
depois, Zoia p e d i u p e r d ã o , d i z e n d o que era brincadeira.
Tem graça! C o m o ela é negra dos p é s à c a b e ç a n ó s
a chamamos a "negra Zoia".
D e p o i s d a a s s e m b l é i a g e r a l h o u v e a d o Comesc, que
f o i eleito por u m m ê s .
Outubro 5, 1923.

H o j e , a i n d i g n a ç ã o f o i geral n o nosso g r u p o . Acon-


teceu o seguinte: A nova rnaesc de história natural
apareceu, Elena Nikitiehna Kaurova — ou, como nós a
chamamos: Elnikitka — , e começou a falar a respeito
dos t r a b a l h o s que vamos fazer. Dirigindo-se a todo o
nosso g r u p o , disse:
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 13

— Crianças!
Eu me levantei e retruquei:
— N ó s n ã o somos c r i a n ç a s .
E l — É claro que s ã o e lhes falarei como
a : sendo
tais.
Repliquei: — Queira ser mais cortês, porque nos
será facílimo mandá-la pro diabol
Foi tudo. T o d o o g r u p o ' f i c o u do m e u lado, mas
Elnikitka enrubesceu como u m tomate e disse:
— N e s s e c a s o , f a ç a o f a v o r d e se r e t i r a r d a c l a s s e .
Respondi-lhe: — Em primeiro lugar isto é um
l a b o r a t ó r i o , n ã o u m a classe. E m segundo, n ã o é costume
mandar ninguém embora.
E ela: — Você é u m grosseiro 1
Eu: V o c ê parece u m a professora do antigo regime.
S ó e l a s se a t r e v i a m a t a n t o .
Nada mais. T o d o o grupo aprova m i n h a conduta.
Elnikitka s a i u v o a n d o , c o m o se n ó s t i v é s s e m o s atirado
á g u a quente na cara dela.
Agora vamos ver no que vai d a r ! . . . O caso será
d i s c u t i d o a n t e s n o Comesc, d e p o i s n a Junmaesc — junta
dos mestre-escola —, e depois n o Conselho da escola.
T u d o isso m e p a r e c e u m a grande bobagem e Elnikitka
uma tonta. Na escola a n t i g a , os rnaesc faziam o que
q u e r i a m c o m os a l u n o s ; mas agora n ã o podemos per-
mití-lo.
N i c p e t o j nos l e u uns f r a g m e n t o s de " A n o t a ç õ e s de
S e m i n á r i o " , o n d e se c o n t a c o m o , n a p r ó p r i a classe,
a ç o i t a v a m o s s e m i n a r i s t a s , m e s m o os m a i s v e l h o s . Lí,
t a m b é m , e m outros livros como obrigavam a decorar tudo
e p u n h a m nos a l u n o s apelidos e q u a l i f i c a t i v o s r i d í c u l o s .
M a s as c r i a n ç a s dessa é p o c a n ã o t i n h a m i d é i a dos t e m -
pos e m q u e t e m o s de v i v e r agora. Passamos f o m e , f r i o ,
passamos pela catástrofe. Tivemos que manter nossas

8
14 N . O G N E V

famílias e percorrer milhares de verstas p a r a comprar


p ã o <K 5
Alguns tomaram parte na guerra civil. Ainda
n ã o faz t r ê s anos que a guerra acabou.
Depois do e s c â n d a l o com E l n i k i t k a , pensei e m tudo
isto, e f u i falar c o m N i c p e t o j , para v e r se e u t i n h a 011
n ã o t i n h a r a z ã o ; mas ele estava o c u p a d o c o m seu labo-
r a t ó r i o cheio de estudantes. F u i , então, para o labora-
tório de matemática, para ver Almakfisch c contei-lhe
t u d o o q u e eu a c h o a r e s p e i t o d e nossa v i d a . Almakfisch
me respondeu d e um modo incompreensível. Disse que
t u d o a q u i l o p o r q u e temos passado demonstra quantita-
tivamente a a b u n d â n c i a da é p o c a e, qualitativamente,
está alem do b e m e do m a l .
Eu nunca tinha pensado nisso. Queria apenas
demonstrar que n i n g u é m t e m d i r e i t o dc nos tratar como
crianças ou como peões de xadrês. Mas não houve
t e m p o , p o r q u e os r a p a z e s v i e r a m f a z e r - l h e p e r g u n t a s a
respeito de matemática.
Que história é essa d e b e m e de m a l ? Acho que
nem o bem nem o m a l existem: isto é, o que é mal
para um, pode ser bem para outro. Se o vendeiro
t i r a c e m p o r cento de l u c r o nas v e n d a s , é u m b e m para
e l e , m a s u m m a l p a r a os q u e c o m p r a m . Isso, pelo
m e n o s , é o q u e d i z o Aljpolit <*).

Outubro 6> 1923.

Que trabalheira!... Em um mèa — isto é, em


m e n o s , p a r a 1.° d e n o v e m b r o — t e m o s d e l e r u m monte
dc livros, escrever dez exposições, desenhar uns oito
diagramas e, a l e m disso, saber r e s p o n d e r verbalmente,

( 5 ) V e r " A Cidade da A b u n d â n c i a " ( E p o p é i a de u m m e n i n o


russo) de A . N e v i c r o f , — .
(6) Alfabeto político.
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 15

isto é , n ã o responder, mas f a l a r a respeito d o que apren-


demos. C a d a a l u n o t e m o seu m a t e r i a l . A l e m disso, é
preciso preparar-se, de u m a m a n e i r a p r á t i c a , e m física,
química e cltrctécnica. Isto significa ficar encerrado no
laboratório de física durante u m a semana.
Silfida e eu fomos chamados pelo Comesc, onde
estavam Serioga Blinov e alguns outros. Ela tinha s_
queixado que eu a insultara c o m palavras rudes como
nas filas. Mentirosa! Q u a n d o saimos, p u x e i - l h e o laço
das trancas e ela f u g i u chorar.
Não, essa história de se sentar com meninas na
mesma carteira é besteira. A m a n h ã eu m u d o .

Outubro 7, 1923.

A r e u n i ã o dos p r o f e s s o r e s d e l i b e r o u q u e o caso c o m
Elnikitka fosse e n t r e g u e ao C o n s e l h o d a escola, e pro-
puseram uma assembléia geral para examinar o assunto.
Será amanhã. N ã o sabemos o que v a i acontecer, maa
n ã o p e r m i t i r e m o s que nos c h a m e m de "crianças".
Apareceu h o j e o p r i m e i r o n ú m e r o do j o r n a l mural:
"0 aluno vermelho". N o principio todos f i c a r a m inte-
ressados, mas é u m a b o b a g e m : os a r t i g o s s ã o c a c e t e s ;
só f a l a m de estudo, que é preciso portar-se b e m . . . Os
redatores s ã o Serioga B l i n o v e outros.
Recebi u m bilhete. " É inútil — diz — que você
se f a ç a de superior. Nenhuma menina quer saber de
voce.
Nem s e i c o m o é q u e se f a z p a r a s e r " o superior".
É L i n a c o m certeza. A n d a m u i t o amiga da m e n i n a nova,
a Zoia. Estão sempre juntas, perto da estufa, falando
em voz baixa. Q u a n d o t o d o s e s t ã o b r i n c a n d o , elas c o n -
t i n u a m n o seu c a n t o , p e r t o da e s t u f a . Naturalmente, o
q u e elas g o s t a r i a m era q u e a l g u é m fosse p a r a p e r t o delas,
16 N . O G N E V

m a s o s r a p a z e s n e m s i q u e r as o l h a m . C o m o se f i z e s s e m
muita falta!

C h a m a m a n e g r a Z o i a d e f a s c i s t a p o r q u e os f a s c i s t a s
se v e s t e m de preto. M a s ela n ã o c o m p r e e n d e embora
f i n j a s a b e r d o q u e se t r a t a . Nossas m e n i n a s , e m geral,
entendem menos de p o l í t i c a d o q u e os meninos.

Outubro 8, 1923.

A c a b o de sair d a escola. H e u v e a assembléia geral


na qual examinaram a questão Elnikitka. Nicpetoj foi
o que falou com mais acerto. A c h o u q u e era u m a boba-
gem, que cada operário da escola devia procurar urn
p o n t o d e c o n t a c t o c o m os a l u n o s ; q u e E l e n a Nikitichna
ainda não o tinha encontrado, mas, com o tempo, o
encontraria.
Q u a n d o f a l a r a m d e m i m , os rnaesc disseram que eu
era u m m e n i n o grosseiro e q u e necessitava de certa influ-
ência moral. E Zin-Pahia — a administradora da nossa
escola — disse q u e e u e r a u m r a p a z p r o f u n d o , m a s que
não^gahia d o m i n a r os m e u s i n s t i n t o s . N ã o sei d e faio
como dominá-los, mas sei muito bem, que não me é
possível ouvir alguém me chamar de criança.
Mas é dificil discutir com Zin-Palna, porque pode
ocorrer-lhe levar a gente para o q u a r t o dos professores
e passar u m sermão... E depois de tanto sermão a
gente bobeia completamente.

C o n t i n u a n d o a falar da a s s e m b l é i a : sem saber p o r -


que, a fascista levantou-se — Z o i a T r a v n i k o v a — e disse
que eu n ã o tinha futuro, pois sempre tinha histórias c o m
as m e n i n a s , etc. A í eu me e n c o l e i "izeL Em primeiro
lugar, nunca troquei uma palavra com ela; e, em
segundo, ela n ã o pode demonstrar nada, p o r q u e n ã o t e m
provas.
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 17

Perpassou u m m u r m ú r i o p e l o nosso g r u p o , porque


acusar u m camarada e m assembléia geral está fora das
normas do grupo. A s o l u ç ã o aceite f o i a que me fazia
p e d i r p e r d ã o a E l n i k i t k a , m a s e u e x i g i que ela o fizesse
antes p o r ter-nos c h a m a d o de " c r i a n ç a s " . O assunto está
a g o r a nas m ã o s d o C o n s e l h o da Escola. A c h o que Elni-
kitka me suspenderá das a u l a s de h i s t ó r i a natural.

V o l t e i p a r a casa c o m V a n k a P e t u j o v c V a n k a insis-
tia em que eu não devo ceder porque se o fizer eu
perderei. V a n k a v e n d e c i g a r r o s sem t e r p a t e n t e — . O
guarda expulsou-o, u m a vez da esquina, mas V a n k a n ã o
cedeu, o guarda t e r m i n o u desistindo, e h o j e V a n k a vende
o que quer. N ã o pode viver sem se d e d i c a r a vender
alguma cousa p o r q u e t e m u m a tia doente e uma irmã,
e ele é o ú n i c o na f a m í l i a que pode trabalhar. Alem
disso tem de estudar. Tenho sorte de meu pai ser
alfaiate e eu f i l h o único, porque senão eu t a m b é m teria
de vender pela rua.

Outubro 10, 1923.

Hoje, na conferência, Elnikitka nos explicou o que


d e v í a m o s fazer. S i l v a estava p e r t o de m i m , n a carteira,
e n ã o podia ficar quieta. E u , sem querer, toquei seu
braço e ela soltou um gritinho. Elnikitka perguntou
o que tinha acontecido, e Silva, naturalmente, contou
tudo.
E l n i k i t k a m e disse e n t ã o q u e e u era u m " k o o l i g a n " .
E u p e r g u n t e i o q u e q u e r i a d i z e r c o m essa p a l a v r a e c o m o
devia tomá-la mas ela não me soube explicar. Mais
tarde indaguei de N i c p e t o j o significado de " k o o l i g a n "
è soube que " k o o l i g a n " é o h o m e m que p r e j u d i c a outro
sem p r o v e i t o próprio.
18 N . O G N E V *

Mas que foi que eu fiz para Silva? Cuspi no seu


prato de sopa?

Outubro 11, 1923.

Hoje apareceu, não se sabe donde, um jornal de


parede novo, c o m o título X . F a l a de t o d o s : dos rnaesc,
d e D a l t o n , das m e n i n a s que dansam escondidas..., e,
sobretudo, de " O A l u n o V e r m e l h o " .

Os l a b o r a t ó r i o s c o n t i n u a m vazios. É verdade que


p a r a o d e s o c i o l o g i a j á f o r a m t o d o s os l i v r o s q u e t r a t a m
d o alf polit e que para o de h i s t ó r i a n a t u r a l carregaram
o armário e as coleções. Mas também, é s ó isso. £
devia ser assim: em cada laboratório todos os livros
e manuais que lhe correspondem. S ó assim os alunos
poderiam escolher livremeBte e preparar devidamente
seus q u e s t i o n á r i o s .

Outubro 12, 1923.

Estávamos jogando lapot * > no recreio. Nós guar-


7

damos o lapot e m b a i x o da escada e o usamos quando


vamos jogar. T o d o s se j u n t a m e c o m e ç a m a chutar o
lapot. No meio fica quem deve pegá-lo. Se pega, o
lapot v a i f i c a r n o l u g a r o n d e estava a ú l t i m a pessoa que
o arremessou.
Pois b e m : e s t á v a m o s j o g a n d o , o lapot voava como
u m a v i ã o , q u a n d o , d e r e p e n t e , d e i u m c h u t e , o lapot saiu
d o q u a d r o e zas! f o i parar na cara de Z i n - P a l n a , que
e n t r a v a n a sala n a q u e l e m o m e n t o . Puxa! Como ficou

(7) Jogo de i n v e r n o parecido c o m o f u t e b o l . Lapot é uma


e s p é c i e de c a l ç a d o f a b r i c a d o c o m c o r t i ç a .
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 19

fera! Bateu com os pés no chão — é um costume lá


dela — , e gritou:
— Queiram parar! Quem fez isso?
Todos f i c a r a m quietos. Começou então a proferir
frases lastimosas: "Pensei que na nossa escola conser-
vava-se a tradição de que o culpado de uma falta a
confessasse, e, caso contrário, fosse considerado um
covarde!..." E cousas semelhantes.
N ã o p u d e resistir mais e p e r g u n t e i :
— Está claro que o culpado deve confessar sua
f a l t a , m a s , se n ã o h á f a l t a ?
— Mas h á — replicou Zin-Palna — p o r se p e r m i -
t i r movimentos demasiado bruscos, sem pensar nas pos-
síveis c o n s e q ü ê n c i a s .
Disse e n t ã o que t i n h a sido eu. Zin-Palna veio para
p e r t o de m i m , t o m o u - m e a m ã o e disse:
— Venha.
S e n t í - m e a t u r d i d o e f u i atrás dela para a sala dos
rnaesc. E l á v i e r a m os s e r m õ e s ! Isso s i m q u e e u não
podia suportar. Eu disse:
— P a r a q u e s e r v e a a u t o n o m i a se os rnaesc se m e t e m
em tudo e nos chamam a atenção a todo o instante?
D e v i a m d a r q u e i x a a o Comesc e e l e q u e se encarregue.
M a s ela respondeu:
— Você n ã o pode esquecer de uma cousa. Você
ainda n ã o é u m h o m e m , mas uma larva. N ã o pode ser
r e s p o n s á v e l pelos seus atos.
E os s e r m õ e s c o n t i n u a r a m .
Q u a n d o m e v í l i v r e , o lapot tinha terminado e o
recreio também. Se Serioga Blinov fosse m e u amigo,
como antes, eu t e r i a i d o ter c o m ele e falado sobre a
a u t o n o m i a e os rnaesc. M a s agora n ã o t e n h o mais c o m
quem falar. Talvez com Vanka Petujov. Faz tempo
que q u e r i a e n t r a r n o a l v é o l o , mas o nosso é m u i t o i n a -
20 N . O G N E V

t i v o : b e m q u e p o d i a p o r os rnaesc n o seu l u g a r ! m a s n ã o
q u e r se o c u p a r d a s c o u s a s d a e s c o l a . A s seções do al-
véolo estão abertas, mas s ã o t ã o tendenciosas que nin-
g u é m s e m p a r t i d o as a s s i s t e . S ó se f a l a o u d e política
o u de i n d u s t r i a . Parece u m a a u l a b e m cacete. E quando
algucm resolve dar informações, então a gente acaba
mesmo com sono.

Outubro 13, 1923.


#
Houve reunião do Conselho da escola. Estavam
e x a m i n a n d o m e u caso c o m E l n i k i t k a e Zin-Palna achou
o p o r t u n o c o n t a r o c a s o d o lapot. Ficou decretado que
era preciso exercer sobre m i m uma influência moral.
Nicpetoj levou-me para u m laboratório vazio e começou
a falar comigo. Mas nada sobre o meu caráter: só
falou do m é t o d o Dalton. Disse que os p r o f e s s o r e s de
agora t i n h a m u m conceito diferente do ensino. Antiga-
m e n t e p r o c u r a v a m , n o m e n o r p r a z o q u e l h e s fosse pos-
sivel, encher a cabeça dos alunos de toda espécie de
conhecimentos; mas, quando terminava o curso, essea
conhecimentos se evaporavam num abrir e fechar de
olhos. N u m a palavra: era preciso encher o r e c i p i e n t e
v a z i o ; o c o n t e ú d o n ã o os p r e o c u p a v a . Agora, porem, o
a l u n o era considerado c ó m o u m a t o c h a p o r acender, para
que e m seguida c o n t i n u e ardendo por si mesma. Para
isso é q u e , p r e c i s a m e n t e , f o i i n t r o d u z i d o o m é t o d o Dal-
t o n ; i s t o é , p a r a f a z e r os a l u n o s p e n s a r e t r a b a l h a r o m a i s
possível.
Eu disse q u e isso e r a m u i t o dificil, e que, natural-
m e n t e n i n g u é m estava p r e p a r a d o p a r a o 1.° d e n o v e m b r o .
M a s N i c p e t o j r e s p o n d e u q u e isso n ã o t i n h a importância;
e que todos c o m p r e e n d e r ã o , p o r f i m , o valor do plano
Dalton.
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 2 1

Eu, confesso, não compreendi até hoje. Perguntei


depois a e l e se e l e a c h a v a que e u era u m "kooligan''.
E ele r e s p o n d e u que n ã o , mas que, e u revelava j á agora
u m a a s p e r e z a d e c a r á t e r q u e se s u a v i z a r i a c o m o s anos.

Quando me despedi, eu estava m u i t o alegre e fui


cantando pedir desculpas a Elnikitka. Cheguei no
l a b o r a t ó r i o de h i s t ó r i a n a t u r a l q u a n d o ela s a í a gritando
p a r a m i m q u e e u n e m t r a b a l h a v a n e m d e i x a v a os o u t r o s
trabalharem. E o u t r a s cousas d o g ê n e r o . Fiquei furioso
e p ó s a lingua. Agora'ela vai tornar a se q u e i x a r ao
Conselho escolar; f a r ã o m e u p a i comparecer de n o v o . . .
C o m os diabos!

A meu ver, E l n i k i t k a , n ã o ajuda de jeito nenhum


a acender a tocha. E l a a a p a g a , isso s i m .

Recebi outro bilhete:

"Embora uma s. e s t e j a apaixonada por você não


pense que v o c ê é m u i t o interessante. V o c ê devia deixar
de usar u m v o c a b u l á r i o t ã o grosseiro porque ninguém
q u e r se d a r c o m v o c ê . "

D e v e m ser c o u s a s d e Lina.

Outubro 15, 1923.

Ontem era domingo e fui com Silva ao cinema.


P o r q u e precisamente c o m ela? P o r q u e acontece que ela
tem facilidade em conseguir vales para o cinema. A
fita era " A ilha dos navios n á u f r a g o s " . No vestibulo
eu v i Lina e a negra Zoia. S ã o m u i t o amigas e estão
sempre falando em voz baixa. Depois da f i t a L i n a veio
p e r t o de m i m e disse.

— Venha cá uma pouco.


22 N . O G N E V

F u i , m a s S i l v a f o i l o g o p a r a casa. Lina, então, me


disse:

— Embora você n ã o queira falar comigo quero di-


zer-te que talvez nunca mais me veja. E... diga à
Silva que eu a odeio.

Virei as costas e passei n a f r e n t e da negra Zoia.


Estava rígida, como uma estatua. Porque diabo essas
m e n i n a s t ê m d e se m e t e r na m i n h a vida!

Outubro 20, 1923.

Passamos o dia numa excursão. Hoje fomos às fá-


bricas, a m a n h ã iremos ao museu. Assim sempre. Não
sobra tempo para escrever.

Outubro 22, 1923.

O "X" continua aparecendo, mas ninguém conse-


g u i u saber q u e m é q u e o escreve. D e v e ser o g r u p o dos
maiores. Apareceu u m jornal novo "Aax," que circula
entre os alunos; mas com uma advertência para que
n ã o se deixe surpreender pelos rnaesc.

"Aax" significa: "Anexo ao X". Vem cheio de


obcenidades de todo jeito e muito divertidas.

Outubro 23, 1923.

Não sei como foi mas o Aax caiu na mão de Nic-


petoj. Nicpetoj então começou a falar longamente so-
bre o amor e as relações entre o homem e a mulher
c o m o se f o s s e u m a grande novidade. A p e s a r disso, ele
me surpreendeu q u a n d o disse q u e o a m o r é u m jardim
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 23

f l o r i d o ; q u e q u e m se e n t r e g a a c o u s a s o b c e n a s mancha
esse j a r d i m . Volodia Schmerz perguntou então:
— 0 amor é mesmo u m jardim florido?
Nicpetoj respondeu que s i m , e q u e , a l e m disso, era
resplandecente, luminoso, e ouro e prata. Os meninos
r i a m e as m e n i n a s c o c h i c h a v a m e n t r e s i , e a n e g r a Zoia,
a "fascista" levantou-se e disse:
— E , alem do mais, o a m o r dura até o túmulo.
Nicpetoj perguntou-lhe:
— Porque até o túmulo?
E ela:
— E n ã o s ó a t é o t ú m u l o , mas a l e m dele. E u co-
nheci u m jovem que amava uma moça morta.
E, ao dizê-lo, fez uma encenação tal que poderia
a s s u s t a r q u a l q u e r u m , c o m o se e l a f o s s e a d e f u n t a . Até
os meninos pararam de rir. Mas Nicpetoj disse que
i s s o n ã o e r a n a t u r a l , q u e o c o r p o m o r t o se decompunha
e se c o n v e r t i a c m p ó c o m t a n t a r a p i d e z q u e e r a inútil
f a l a r de a m o r aos mortos.

Outubro 24, 1923.

Daqui a pouco vamos ter de entregar os trabalhos


d o m ê s de o u t u b r o e e u n ã o f i z n a d a . Maldito Dalton!
M i n h a cabeça está ôca. N u n c a p e n s e i q u e fosse t ã o d i -
f i c i l estudar p o r si mesmo.

Outubro 25, 1923.

Apareceu outro jornal de parede, da coletividade


u n i d a dos g r u p o s menores, " A B o b i n a " . D e s p e r t o u u m
interesse geral pois anuncia u m a pesquisa: "Pode ha-
ver na nossa escola amizade entre jovens de sexo d i -
ferente?"
24 N . . O G N E V

Copiei as respostas expostas na parede perto do


jornal.

1. Pode, havendo compatibilidade de caracteres.


2 . Uma menina ii5o pode ser umiga de u n i m e n i n o
p o r q u e suas o p i n i õ e s e interesses síio diferentes
(Escrito p e í a " f a s c i s t a " ) .
3. C r e i o que s i m , mas n ã o entre todos. Na nossa
escola n ã o é p o s s í v e l p o r q u e logo que uma amizade
se iniciava e era conhecida, c o m e ç a v a m a chover de
todo3 os lados brincadeiras e c a ç o a d a s e a amizade
tinha de acabar. T u d o era interpretado n u m sentido
diferente.
4 . N ã o . As meninas s ã o o e s p i r i t o de c o n t r a d i ç ã o .
(Escrito por m i m . )
5. Poderia haver se algumas meninas tratassem c o m
menos desprezo os rapazes. Isso i n f l u e nas outras.
6 . É d i f i c i l responder. T e n h o dois conceitos de a m i -
zade: a) E n t r e meminos e meninas deve haver
uma amizade coletiva e c o m u m . E , segundo m e u
m o d o de pensar, asto é p o s s í v e l , b) M a s h á oulra
e s p é c i e de amizade, aqnebi que se p r o d u z entre
pessoas isoladas, que sentem uma simpatia m ú t u a .
Esta e s p é c i e de amizade pode existir entre u m m e n i -
no e uma m e n i n a ; mas, note-se b e m , n ã o entre
cada menino e cada m e n i n a . E m geral, a amizade
é algo de b o m , de f u n d a m e n t a l , que n ã o podemos
renegar.
7. N a m i n h a o p i n i ã o , n ã o pode haver, atualmente,
p o r q u e a amizade se t r a n s f o r m a , no f i m das contas
em algo mais f o r t e p o r parte de u m dos dois.
(Isto f o i escrito p o r L i n a . E u b e m q u e v i . )

Outubro 26 1923.
9

Aconteceu uma cousa grave.


A Zoia T r a v n i k o v a t i n h a sido hatisada de "Negra
Z o i a " e " f a s c i s t a " . N i n g u é m d a v a m a i o r a t e n ç ã o a o ca-
s o , a n ã o s e r e l a q u e se s e n t i a o f e n d i d a . M a s h o j e , na
aula, N i c p e t o j nos e x p l i c o u c o m detalhes o que vinha
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 25

s e r a o b r a d e M u s s o l i n i e d o 9 f a s c i s t a s ; c o m o as c a m i s a s
n e g r a s se a p o d e r a r a m d e R o m a e c o m o t r a t a r a m os c o -
munistas.

Durante o recreio do meio-dia, os meninos se puse-


ram de acordo, r o d e a r a m Zoia c c o m e ç a r a m a cantar:

"Os fascistas n ã o nos assustam. N ã o temos medo


das baionetas..."

No principio Zoia chorou, depois começou a ?e


queixar, mas só conseguia provocar gargalhadas.

De repente, Zoia caiu no chão. Paramos imedia-


tamente de cantar, chegamos p e r t o e v i m o s que ela es-
t a v a m u i t o p á l i d a , c o m o u m c a d á v e r , c o m o s d e n t e s a-
pertados. Ficamos assustadíssimos. Foram buscar a-
gua para jogar nela, mas ela c o n t i n u a v a sem sentidos.
E n t ã o apareceu Elnikitka — estava de p l a n t ã o — e co-
meçou a nos r e p r e e n d e r ; m a n d o u t r a z e r a m o n í a c o da
farmácia escolar, n ó s o t r o u x e m o s , E l n i k i t k a aproxí-
moü-o das narinas dc Zoia e esta começou a reagir.
Elnikitka t o r n o u a repreender-nos e nos despediu.

Nicpetoj, como guia d o nosso g r u p o , levou-nos ao


auditório c tivemos u m a discussão a respeito de apeli-
dos. P r i m e i r o contamos q u a l era o de cada u m . Ve-
rificamos que cada menina t i n h a v á r i o s , ao passo que
os dos m e n i n o s e r a m m a i s r e d u z i d o s e m n u m e r o . Uma
só menina era chamada de: "Cadela", "Tripa", "Pa-
lito", "Lingüiça".

A discussão demorou muito. Por f i m deliberou-


se q u e se a l g u é m protestasse c o n t r a o a p e l i d o era pre-
ciso p a r a r de chama-lo daquela maneira. As meninas
então começaram a fazer u m e s t a r d a l h a ç o dizendo que
n ã o q u e r i a m ser c h a m a d a s p e l o s apelidos. Tudo isto
foi tema para discussões.
26 N . O G N E V

T u d o isto para m i m é uma bobagem muito gran-


de. Eles m e c h a m a m de " C a b r ã o " mas e u n e m ligo.

Outubro 22, 1923

Organizou-se na nossa escola um destacamento de


jovens colonos. E ' preciso fazer u m j u r a m e n t o solene,
andar em volta da sala com passo militar, deixar de
fumar e o u t r a s cousas d o gênero. Todos aqueles que
gostam d e se e x i b i r se a l i s t a r a m l o g o , m a s a cousá me
soa a b r i n c a d e i r a c u j o ú n i c o f i m é u s a r g r a v a t a verme-
lha. E ' m e l h o r esperar m i n h a a d m i s s ã o n o Comsojnol.
Sou comunista por convicção.
Zoia e Lina n ã o se a l i s t a r a m p o r q u e essa história
de " c o l o n o s " t e m " a l g u m a cousa contra Deus". E' lin-
guagem delas. A s duas s ã o inconcientes e tontas, por-
q u e o m u n d o procede da c é l u l a — isto é f a c i l m e n t e de-
n i o n s t r a v e l — e n ã o de Deus.
Durante a explicação dos t e m a s de n o v e m b r o , v o u
fazer umas perguntas a Elnikitka a respeito de Deus.
E l a , q u e é especialista e m h i s t ó r i a n a t u r a l , deve enten-
der do a s s u n t o c o m t o d o s os detalhes.

Outubro 29, 1923.

Tive uma conversa com Serioga Blinov. Ele me


disse o seguinte:
— A p e s a r d e p e r t e n c e r a o Comesc, c o n s i d e r o nossa
autonomia muito deficiente. Que espécie de autono-
m i a é essa q u e se v ê t u t e l a d a p e l a s o r d e n s d o s "rnaesc"?
T e m o s a i n d a m u i t a cousa da escola a n t i g a : p o r exem-
plo: o cumprimento obrigatório. Todo aluno, quando
v ê o rnaesc a p r i m e i r a vez naquele dia t e m de desejar-
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 27

lhe "bons dias". I s s o n ã o é> j u s t o . E se o aluno n ã o


quiser cumprimentar? A l e m d i s s o essa h i s t ó r i a d o s a l u -
nos se levantarem quando o rnaesc entra na sala...
E ' verdade q u e isso n ã o t e m i m p o r t â n c i a , porque n ã o
h á m a i s c l a s s e s e a g e n t e se r e ú n e p o u c a s v e z e s n o au-
ditório.

Concordei com ele. Serioga então me perguntou


se o a p o i a r i a se e l e f a l a s s e c o n t r a essa f o r m a de auto-
nomia. R e s p o n d i que s i m .

Outubro 30, 1923.

Hoje Zoia tornou a desmaiar. Estava, como de


costume, sentada com Lina perto da estufa. Brigaram,
parece, e Zoia caiu desmaiada. Tornou-se a trazer ã-
gua e a m o n í a c o . Custou muito fazê-la voltar a si. Ziu-
P a l n a c h a m o u Z o i a p a r a a sala dos professores e f a l o u
d u r a n t e m u i t o t e m p o c o m ela.
Zoia é estranha. Acho que ela pensa muito nos
m o r t o s e p o r isso é q u e desmaia desse j e i t o .

Outubro 31, 1923.

Amanhã começa o prazo da entrega dos trabalhos.


O n t e m passei a n o i t e e s t u d a n d o e t e r e i de f a z e r o mes-
mo hoje.
O p i o r de t u d o é que n ã o h á livros. 0 pessoal t i -
rou todos dos l a b o r a t ó r i o s e das bibliotecas. E ' claro
q u e e s t ã o se p r e p a r a n d o . Onde é que vou a r r a n j á - l o s ?
INão t e n h o d i n h e i r o p a r a c o m p r á - l o s . V o u fazer hoje
os d i a g r a m a s d e s o c i o l o g i a .

D e q u a l q u e r m a n e i r a esse p l a n o D a l t o n , é a cousa
m a i s c a c e t e q u e j á se i n v e n t o u .
SEGUNDO C A D E R N O

Novembro 2, 1923.

É claro. Fui reprovado em matemática e fisica.


E, em história natural nem sequer m e atrevi a me a-
presentar. Parece que a isso se chama "estar em

dívida".
Dá no mesmo. Quando entregar os t r a b a l h o s te-
n h o de dar u m jeito. Mas até lá, n ã o porão uma cru-
zinha na f r e n t e de meu nome. De qualquer maneira
èstou envergonhado; a maior parte de nosso g r u p o a-
presentou todos os t r a b a l h o s . Com Nicpetoj, natural-
mente, fiz tudo; já entreguei os diagramas.
C o m e ç a m os p r e p a r a t i v o s p a r a os f e s t e j o s d e o u t u -
bro. Eu e Silva D . f o m o s eleitos m e m b r o s da comis-
s ã o de nosso g r u p o .

iVovemoro 3 1923.
9

Decidimos enfeitar todo o edifício da escola com


bandeiras e folhagens verdes. Os rnaesc disseram que
n ã o interfeririam e que n ó s d e v e r í a m o s fazer t u d o por
nós mesmos. Sem os rnaesc é muito melhor. Parece
que Silva n ã o é t ã o boba n e m t ã o burguesa quanto eu
pensei. N ã o gosta de bailes e quanto ao l a ç o e m for-
ma de h é l i c e é o r d e m da m ã e . Eu disse que ela não
d e v i a f a z e r caso d e t a l o r d e m , m a s ela respondeu que
gosta d e s u a m ã e e p o r isso obedece.
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 29

N ã o compreendo i s s o : u s a r u m l a ç o c o n t r a as con-
vicções. Eu nunca consentiria em usar um laço, em-
bora goste e respeite m u i t o o m e u p a i .
A m a n h ã vamos p r o c u r a r ramos de abeto fora da
cidade. Viva!

Novembro 5, 1923.

Já está quasi terminado. Em cima da entrada puse-


mos u m a estrela vermelha que será iluminada. Todos
os l a b o r a t ó r i o s e a sala e s t ã o e n f e i t a d o s c o m bandeiras
e abeto. T o d o s e l o g i a r a m nosso b o m gosto e estou mui-
to satisfeito.

Novembro 7, 1923.

Todos compareceram à manifestação, meu pai tam-


bém; m a s e u f i q u e i e m casa. Estou de cama c apenas
posso andar. S u b i o n t e m n o arco da encrada para pren-
der ura r ó t u l o , mas escorreguei e c a í , ficando c o m uma
distensão no nervo do tornozelo. Doeu feito n ã o sei
o que. A g o r a n ã o tanto mas n ã o posso encostar o pé
no chão. Silva, na mesma hora, na calçada, t i r o u o m e u
sapato e c o m e ç o u a m e fazer massagem. R e s i s t i n o co-
m e ç o , mas depois d e i x e i e l o g o a q u i l o se t o r n o u agra-
dável. Depois Silva chamou Vanka Petujov e outra;
p r o c u r a r a m u m a m a c a e m e t r o u x e r a m p a r a casa.
E n t ã o as m e n i n a s t a m b é m p o d e m ser b o a s c o m p a -
nheiras? Preciso f a l a r a este r e s p e i t o com Vanka Pe-
tujov. A g o r a , c o m o n ã o t e n h o n a d a a f a z e r v o u escre-
ver um pouquinho a respeito de todos.
Vanka Petujov é m u i t o astuto. No dia primeiro
de Novembro fizemos exame de matemática com A l -
makfisch — pode-se ser examinado quando se queira.
30 N . O G N E V

Vanka não foi. M a s q u a n d o s o u b e os t e o r e m a s q u e A l -


makfisch perguntava de p r e f e r ê n c i a apresentou-9e para
ser e x a m i n a d o e f o i a p r o v a d o . E assim nos outros exa-
mes. A g o r a V a n k a e s t á l i v r e das obrigações. Mas eu
n ã o posso f a z e r isso. E u acho que u m t a l procedimen-
to n ã o d á conibustivcl para acender a tocha. E' pre-
ciso estudar as cousas d i r e i t o para conservá-las no cé-
rebro. Em geral, todos ficam na porta dos laborató-
rios indagando: Que foi que ele perguntou? Que
pergunta? Tal qual antigamente. Uma verdadeira
escola a n t i g a .
V o u m a r c a r q u a i s os rnaesc que perseguem os alu-
n o s e q u a i s os a l u n o s perseguidos.
Elnikitka n ã o m e suporta e o m e s m o acoutece en-
tre Almakfisch e Silva. Suspendeu-a em física e ma-
t e m á t i c a e cia c o m e ç o u a chorar. O Almakfisch é mui-
to engraçado. S i l v a m e disse q u e s e g u r o u - l h e os cabe-
los pelo laço. "Você sabe usar laços mas não mate-
mática nem física." Creio que ele n ã o t e m o direito
de d i z e r cousas assim. Só na escola a n t i g a os rnaesc
t i n h a m esse d i r e i t o .
Z i n P a l n a persegue V a n k a P e t u j o v . Nós a chama-
mos assim p o r q u e ela é m u i t o alta. Quando atravessa
a sala p a r e c e a t o r r e d e S u j a r e v e n ó s , os mercadores.
Estamos brincando. Quando aparece Zin-Palna come-
çamos a berrar:
— Empadinhas! Empadinhas quentes!
— Tecidos ótimos! Compra, moça bonita!
— Roupa, roupa velha!
Mas Z i n - P a l n a atravessa a sala muito alegre, sor-
r i n d o , p o r q u e n ã o percebe a farsa. A b r e a boca enor-
m e de u m s ó d e n t e , e a m a r e l o . C o m certeza e s t á pen-
sando: C o m o b r i n c a m estas c r i a n ç a s ! Se a p a r e c e r al-
guém d o C e n t r o e os v ê c o m e s t a s b r i n c a d e i r a s v a i f i -
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 31

car satisfeito..." E nem suspeita que ela é que é a


t o r r e de Sujarev. A gente t e m u m p o u c o de m e d o de-
la porque quando nos quer dizer alguma cousa bate
com os p é s n o c h ã o e g r i t a : "Silêncio!" T o d o s se ca-
lam i m e d i a t a m e n t e , apesar de n ó s n ã o sermos soldados
e ninguém ter o d i r e i t o de nos dar ordens.

Não gosta dc V a n k a P e t u j o v p o r q u e ele v e n d e c i -


garros na rua. E l a o considera u m desamparado e acre-
dita que tudo o que ele faz é para se embriagar
c o m samogon, j o g a r cartas, t o m a r c o c a í n a , deitar-se c o m
mulheres... E diz sempre " P o d e c o n t a g i a r a escola
i n t e i r a " . M a s se V a n k a f u m a , e l e f u r n a c o m o e u , c o m o
Serioga B l i n o v , que para Zin-Palna é o aluno modelo.
O resto é boato. E ' verdade que t o d o s os desampara-
dos conhecem V a n k a , mas é porque e l e os a j u d a l e n -
d o - l h e s l i v r o s — p o r q u e eles s ã o a n a l f a b e t o s — e e s t o u
r e s o l v i d o a i r c o m ele u m d i a destes p a r a ver que es-
p é c i e d e g e n t e é essa. V i v e m n o p o r ã o , nos f u n d o s d e
uma c a s a ; a casa d e s a p a r e c e n o m e i o d e u m m o n t ã o de
escombros. Eles vivem ali e Vanka n ã o tem medo de-
les. D i z q u e e n t r e eles h á ó t i m o s rapazes, apenas s ã o
analfabetos. N o p r i n c í p i o faziam guerra contra V a n k a ,
a s s a l t a v a m - n o , j o g a v a m - n o ao c h ã o c o m seu t a b o l e i r o e
t u d o , r e p a r t i a m e n t r e s i as m e r c a d o r i a s q u e e l e v e n d e
e a t é p r o c u r a r a m dar-lhe uns bofetÕes. Então Vanka
f o i ao p o r ã o , I c v o u - l h c s l i v r o s , deu-lhes c i g a r r o s d c p r e -
sente e l e u p a r a eles. E eles g o s t a m de h i s t ó r i a s como
crianças. Desde então deixaram Vanka em paz. Mas
Z i n - P a l n a n ã o e s t á a o p a r dessas c o u s a s e s e m p r e passa
pitos e m V a n k a , Para dizer a verdade, u m dia V a n k a
e eu e x p e r i m e n t a m o s c h e i r a r o marafet — cocaína —
mas n ã o conseguimos nada de b o m . P r i m e i r o tivemos
u m a dor de cabeça e depois c o m e ç a m o s a vomitar. É
uma cousa nojenta e nada mais. M a s os desampara-
32 N . O G N E V

dos, se é verdade o que Vanka contou, não podem viver


sem marafet.
N i c p e t o j n ã o p e r s e g u e n i n g u é m e p o r isso t o d o s te-
mos c o n f i a n ç a nele. Alem disso, d i z q u e e s t á orgulho-
so d o g r u p o , p o r q u e v ê n e l e d e s e n v o l v i d a a c o n c i e n c i a
coletiva. E m b o r a eu n ã o esteja d e a c o r d o c o m ele, e
verdade que talvez entre os m e n i n o s e x i s t a a concien-
cia coletiva, mas entre as meninas... que sei eu!
Talvez... , ,
Bom, é preciso estudar. V o u r e s o l v e r os proble-
mas para Almakfisch.

Novembro 10, 1923.

Saí hoje pela primeira vez e fui diretamente para


a escola. D i z e m q u e a m a n i f e s t a ç ã o esteve ó t i m a e que
agora é m o d a a n d a r p e l a r u a de p e r n a s de f o r a , c m t r a -
j e de f i s c u l t u r a . . T o d o s a n d a m a s s i m , m e s m o as meni-
nas. A c h o i s s o ó t i m o p o r q u e as s a i a s l e v a n t a v a m mui-
to pó e gastam muita fazenda. De qualquer maneira
as mulheres usam também calças compridas. Dizem
que as meninas do Comsomol, que t o m a r a m parte na
m a n i f e s t a ç ã o , usavam todas calças compridas.
Logo que entrei na escola recebi u m bühetinho:
"Algucm esteve muito triste por n ã o vê-lo aqui.
Sabe quem?"
N ã o quero adivinhar.
Entreguei a Almakfisch os trabalhos de matemá-
tica. É a°vantagem de ter passado uns dias e m casa.

Novembro U , 1923.

Hoje é domingo. Houve uma reunião geral que


levou u m tempo enorme. N o começo, o antigo Comesc
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 33

prestou contas de sua atividade. Tudo continuava co-


mo sempre, mas de repente o presidente d o Comesc —
Serioga Blinov — declarou que éra a última vez que
faria parte d o Comesc, que nunca mais o faria, e que
retirava sua candidatura para sempre Os m o t i v o s dc
tal resolução s ã o os s e g u i n t e s : q u e o Comesc é u m in-
v á l i d o a p o i a d o nas m u l e t a s do rnaesc. Isto é, que não
pode fazer nada por si, e está sempre obrigado a aten-
der às vontades do rnaesc.
C o m o Serioga e m vez de d i z e r "mestres-eseola" dis-
sesse "rnaesc** u m g r u p o deles a p r e s e n t o u imediatamen-
te u m protesto.
Zin-Palna tomou a lavra e perguntou a Serioga a
opinião a respeito do f a t o dos a l u n o s n ã o d a r e m aten-
ç ã o a l g u m a aos m e s t r e s e t r a t a r e m - n o s a p e n a s C o m o h o -
mens. Serioga B l i n o v ofeiuleu-sc c negou-se a c o n t i n u a r
falando, mas os rapazes c o n s e g u i r a m c o n v e n c ê - l o . En-
t ã o d i s s e q u e c o n s i d e r a v a u m p r e c o n c e i t o essa m a n i a de
c u m p r i m e n t a r os p r o f e s s o r e s , e q u e ele, d e seu l a d o . n ã o
p o d e submeter-se a isso. Z i n - P a l n a , c m resposta, disse-
lhe que o considerava sempre u m aluno modelar e n ã o
podia compreender que mosca o tinha picado. Quis
também saber sc 1avar.se e pentear-se também eram
preconceitos. Serioga t o r n o u a ficar zangado c recusou-
se a responder.
Almakfisch afirmou "que n ã o estava surpreendido
e que, q u a n t i t a t i v a m e n t e , era um s i n a l de riqueza da
época, enquanto que, qualitativamente, a questão es-
tava alem do b e m e do m a l . " Era mais ou menos o
que ele dissera por ocasião do meu conflito com
Elnikitka.
A p e s a r dos pedidos dos rnaesc, Serioga B r i n o v não
se d e i x o u c o n v e n c e r e a m a i o r i a dos alunos colocou-se
do seu lado. Apenas umas meninas apoiavam os
34 N . O G N E V

maesc; e n t r e elas L i n a e a n e g r a Z o i a . Pelo menos,


c a d a v e z q u e S e r i o g a se p u n h a a f a l a r , Z o i a r e s f o l e g a -
va como uma locomotiva: f u ! f u ! f u !
H o u v e d e p o i s as e l e i ç õ e s d o n o v o Comesc. Com
grande assomhro, e contra minha vontade, f u i eleito
membro do Comesc. Alem de m i m , do nosso grupo,
Silva D u b i n i n a . Essa m e n i n a tem sorte! Até em ser
eleita c o m i g o . Isso n ã o . t e m i m p o r t â n c i a : c o m e l a e
p o s s í v e l t r a b a l h a r , n ã o é c o m o c o m as . o u t r a s m e n i n a s .
O Comesc é considerado como u m órgão superior
de autonomia. 0 comsan < > o Comcult
8
<» e o u t r o s es-
t ã o submetidos a ele. Isto é : parece que estão subme-
tidos, mas, r e a l m e n t e , f a z e m o q u e lhes convém.
Elnikitka me encontrou no corredor e perguntou:
Quando se m o s t r a r á disposto a revelar o que a-
prendeu, cidadão Riabtsev?
Respondi:
— Quando o tiver aprendido, cidadão Kauzova.
Replicou: — Todos já receberam material novo.
V o c ê está atrasado.
— Terei tempo para alcança-los, — retruquei.
E f u g i dela. N ã o posso c o m ela.

Novembro 13, 1923.

Mal fui eleito membro do Comesc e já surgiu um


assunto i m p o r t a n t e . Desde o início das aulas t e m ha-
vido roubos na escola. Há um mês atrás, roubaram
u m a caixa de desenho de u m rapaz d o g r u p o dos "maio-
res. Depois desapareceram dinheiro, almoces, e isso
v á r i a s vezes. Roubaram d e V a n k a P e t u j o v seis Umar-
dos. D e i x o u d e n t r o d o casaco, n o g u a r d a r o u p a e quan-

(8) Comilê Sanitário.


(9) C o m i t ê de Cultura.
O DIÁRIO D E COSTIA KIABTSEV 35

do voltou o dinheiro tinha desaparecido. Acontece que


Serioga Blinov, passando diante do guardaroupa, viu
A l i o j a C h i k i n m e x e n d o p o r a l i . N a t u r a l m e n t e , quise-
m o s i n t e r r o g a r A l i o j a C h i k i n , m a s este j á t i n h a desapa-
recido. Silfida Duhinina e eu tivemos que ir, na qua-
l i d a d e d e m e m b r o s d o Comesc do terceiro grupo, à ca-
sa de Chikin. Chegamos, entramos no lugar; Alioja
n ã o estava, seu p a i nos r e c e b e u — u m sapateiro:
— Que é que vocês querem?
Dissemos o que era. E ele disse:
— E* e l e ! f i l h o d a puta! E u sei. E' um ladrão.
Eu ainda arranco a pele daquele maldito!
Ficamos arrependidos de ter falado. 0 p a i ía ba-
ter n e l e ; mas, q u e m sabe! p o d i a ter sido u m o u t r o ! Fi-
camos no pátio com Silva, esperando Alioja, até
anoitecer.
Ele chegou então e eu aproximei-me dele:
— P o r q u e v o c ê s a i u d a escola antes d a hora?
— N ã o é da sua conta!
— Mas é. Porque roubaram o d i n h e i r o de um
menino!
A l i o j a m e deu u m e m p u r r ã o , para que o deixasse
passar, d i z e n d o :
— Saia! V o u para casa.
Respondi: E ' m e l h o r v o c ê n ã o i r a t é d e i x a r este
assunto perfeitamente claro; porque teu pai quer te
bater.
Alioja grifou:
— A h ! Então vocês contaram? Eu n ã o tirei oa
seis l i m a r d o s c o i s a nenhuma!
A t i r o u - s e c o n t r a m i m e d e u - m e u n s socos n a cara,
mas S i l f i d a segurou-o p o r d e t r á a e o colocamos contra
a parede. Perguntamos:
— Como é que você sabe que s ã o seis l i m a r d o s ?
Nós não dissemos!

4
N . O G N E V
36

Em vez de r e s p o n d e r c o m e ç o u a c h o r a r e dxzer pa-


l a v r õ e s , c u s p i n d o n o s nossos rostos. Vimos que Alioja
t r a n s c e n d i a a samogon. Conseguiu livrar-se de nos e f u -
giu. C o m o j á era noite, n ã o pudemos alcança-lo e v o l -
t a m o s p a r a a escola. O s m e m b r o s d o Comesc n o s espe-
ravam e contamos tudo. N a t u r a l m e n t e as s u s p e i t a s au-
mentavam, mas n ã o existiam provas diretas. Elniki-
tka estava de p l a n t ã o e nos p e r g u n t o u :
Porque n ã o o revistaram?
E x p l i c a m o s a r a z ã o , e m b o r a , s i n c e r a m e n t e , isso n a o
nos tivesse o c o r r i d o . Ficou resolvido deixar a discos-
s ã o d o assunto para a m a n h ã seguinte.

Novembro 14, 1923.

Alioja apareceu como se nada tivesse acontecido.


Foi chamado para o Comesc.
— Q u e é q u e v o c ê estava f a z e n d o n o guardaroupa.'
— Estava procurando p ã o no bolso do casaco —

disse. , ,
Porque f o i que você saiu da escola antes da

hora?
E u t i n h a d e v o l t a r p a r a casa.
— Mas Riabtsev e D u b i n i n a não encontraram

você lá.
— Tinha saído. 9

— Porque é que v o c ê estava cheirando samogonC


— E' mentira!
— C o m o é que v o c ê sabia q u e e r a m seis l i m a r d o s
precisamente?
— N e m sabia n e m sei.
E r a u m a m e n t i r a mas n ó s n ã o dissemos n a d a . T i -
n h a sido ele o p r i m e i r o a gritar q u e f o r a ele q u e n ã o
roubara os seis limardos. Dessa maneira, ninguém
mais tinha d ú v i d a s d e q u e ele era o l a d r ã o , e n ã o ha-
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 37

via mais nada o que dizer. Problema: como resolver


o assunto? Os rnaesc n ã o dizem nada. Melhor; mui-
to m e l h o r que n ã o se m e t a m . Mas n ã o podíamos dei-
xar o caso assim. Falamos longamente e nos separa-
mos sem ter tomado resolução alguma.
Sc a m a n h ã também n ã o resolver nada, a j u n t a ge-
r a l t e r á de e x a m i n a r a q u e s t ã o . Serioga B l i n o v m e dis-
se q u e , a o q u e parece, n ã o h a v i a s o l u ç ã o , e que Vanka
P e t u j o v é o culpado p o r ter deixado o d i n h e i r o no bol-
so d o c a p o t e . E s t á c e r t o , m a s é i n t o l e r á v e l q u e se rou-
be na escola. Alem disso, p a r a que existe o Comesc,
de todos assuntos a c a b a m desta maneira?

Novembro 15, 1923.

Zin-Palna resolveu interferir no caso de Chikin.


Passou-lhe u m sermão de duas horas. Chikin saiu da
sala dos professores c o m o rosto i n c h a d o de tanto cho-
rar e fugiu da escola. Nós, membros do Comesc, fo-
mos falar com Zin-Palna e pedir satisfação daquela in-
t r o m i s s ã o e m assuntos q u e s ó a n ó s d i z i a respeito. Zrn-
Palna disse q u e , e m primeiro 1
lugar, era seu dever ze-
lar pela o r d e m escolar; e, e m segundo, que n ã o t i n h a
se e n v o l v i d o d e m a n e i r a a l g u m a n o s n o s s o s a s s u n t o s , t i -
nha, apenas, q u e r i d o exercer uma influência m o r a l so-
bre Alioja. O assunto s e r á debatido na reunião geral.
Elnikitka reuniu-nos no seu laboratório para ex-
plicar-nos a multiplicação dos fetos. Aproveitando a
ocasião, perguntei:
— Q u a l é a sua o p i n i ã o s o b r e a o r i g e m d o homem
e, e m g e r a l , d o U n i v e r s o ?
Ela ruborizou-se, e respondeu:
— A o r i g e m , é, naturalmente, de c a r á t e r biológico.
— Que quer dizer c o m isso?
38 N . O G N E V

Elnikitka começou a dar-me uma explicação a res-


peito de células. M a s isso n ã o m e i m p o r t a v a e pergun-
tei de n o v o :
— H á ou n ã o h á Deus?
E n m h e c c u n o v a m e n t e e disse:
Para uns, sim, para outros, n ã o . E' uma ques-
tão individual.
E n t ã o a negra Zoia gritou, raivosar
N ã o sei p o r q u e p e r g u n t a . Será para demons-
trar que n ã o h á ? Pois eu creio e m Deus e nada pode-
rá m e p r o i b i r de fazê-lo.
Q u i s responder que n i n g u é m pensava fazer tal proi-
b i ç ã o , e q u e essa questão devia ser estudada de outro
ponto de vista, mais alta. Mas ela não deu ouvidos
e p e n s e i q u e fosse d e s m a i a r de n o v o .
E l n i k i t k a c o n t i n u o u nos explicando a questão dos
fetos. Zoia acalmou-se e eu d e c i d i esperar.
Quando t e r m i n o u a aula, Silva chegou perto de
mim e disse:
— Você sabia q u e elas v ã o h missa?
— Q u e m , elas?
— Zoia e Lina.
-— E v o c ê n ã o ?
— N ã o . N ã o creio em Deu9; embora minha mãe
insista m u i t o nisso — respondeu Silva. Minha mãe é
antiquada e m e u pai é moderno. Q u e r o m u i t o aos d o i s ,
mas estão sempre b r i g a n d o e a t é se a g r i d e m as vezes.
M e u p a i t i r o u as i m a g e n s , m a s m i n h a m ã e t o r n o u a c o -
loca-las l á e m casa. N o p r i n c í p i o e u estava do lado de
m a m ã e , mas meu pai conseguiu m e convencer.
— Seu p a i o que é ?
— Caixeiro. Imagine que antes ele era também
da oposição, estava com os grevistas e chegou a lutar
com os s o v i e t s ; m a s agora é um bom vermelho. M i -
O D I Á R I O D E COSTIA RIABTSEV 39

nha mãe sempre briga com ele por isso. Na nossa ca-
sa t o d a s as m u l h e r e s s ã o c o n t r a e l e . Q u a n d o estou es-
tendendo roupa no pátio, começa uma batalha dos
diabos.
— M a s antes, v o c ê t a m b é m ía à missa?
— S i m ; quando me chamavam Dunia, eu ía. De-
pois m e u p a i e e u d e c i d i m o s p e l o n o m e S i l f i d a e, d e s -
de então, deixei de i r à missa. Minha mãe não quer
ouvir f a l a r de Silfida. D i z que é n o m e de bruxa.
Refleti u m pouco e p e d i a Silva que m e chamasse
Vladlen. E l a disse que sim.

Novembro 16, 1923.

Hoje a negra Zoia estava entregando o material de


outubro para Almakfisch e de repente t o r n o u a cair no
chão num desmaio. Mas agora, n i n g u é m se i m p r e s s i o -
na m a i s . J o g a m o s agua e d e m o s a m o n í a c o p a r a ela res-
p i r a r e ela f i c o u boa.
M a s n a r e u n i ã o d o Comesc resolvemos dar u m jei-
to de acabar c o m essa m a n i a d e d e s m a i a r e e u m e en-
carreguei dc c o n s c g n í - l o . Estabeleceram uma condição:
evitar todo meio prejudicial à saúde. Eu também acho
q u e isso é lógico.
mf

Novembro 17, 1923.

Reunião do Comesc para tratar do caso de Alioja


Chikin q u e n ã o v e i o m a i s p a r a a escola, f u g i u d e casa,
sem deixar rastro.
D c l i b e r o u - s e c o m u n i c a r ao C o n s e l h o d a escola que
o Comesc n ã o t e m o b j e ç ã o a q u e se p r o c u r e C h i k i n por
i n t e r m é d i o da p o l í c i a ; estabelecendo a c o n d i ç ã o de n ã o
denunciar o roubo.
40 N . O G N E V

Novembro 23> 1923.

Disse a Necpetoj que eu queria entrar no Comso-


mol e ele a p r o v o u a idéia. Afirmou que se fosse da
minha idade faria o mesmo.

Novembro 24, 1923.

Logo que ouvi as meninas gritarem que Zoia tinha


desmaiado, saí correndo do pátio, peguei u m a cousa e
sempre correndo perguntei onde cia estava. Fui até
ela estava n o a u d i t ó r i o — c a ví. Estava estendida,
como sempre, muito pálida, com os dentes apertados.
Ordenei:
— Levantem u m pouco.
Os meninos levantaram-na e eu passei-lhe na nuca
um punhado de neve. Ela se levantou imediatamen-
te gritando c o m o u m a louca. Os m e n i n o s se puseram
a r i r e e n t ã o chegou E l n i k i t k a correndo c o m o a m o n í a c o .
— Que foi?
— Zoia desmaiou e Costia Riabtsev curou-a...
— Que história é essa?
— Com neve...
E l n i k i t k a veio para m i m , dizendo que era u m a cruel-
dade agir daquele modo, que eu sou u m companheiro
m a u e q u e í a se q u e i x a r d e m i m n a r e u n i ã o g e r a l . Mas
Zin-Palna aproximou-se, olhou-nos a Zoia e a mim,
e disse:
— Elena N i k i t c h a n a , acalma-te! Zoia não torna-
rá a desmaiar.
Z o i a estava c o m os o l h o s b r i l h a n t e s d e c ó l e r a e res-
folegava como uma locomotiva. Saiu correndo e Zin-
Palna me disse;
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 41

Mas de o u t r a vez n ã o f a ç a nada sem minha per-


missão.
E f o i embora. E essa história de permissão...
D e s d e q u e s o u m e m b r o d o Comesc era o m e u dever f a -
zer o que eu havia feito.
Está chegando a h o r a d e e n t r e g a r os t r a b a l h o s de
novembro e a i n d a n ã o e n t r e g u e i os d e outubro. Per-
t e n c e r a o Comesc r o u b a m u i t o t e m p o da gente. Alem
disso t e n h o de escrever p a r a " O a l u n o v e r m e l h o " e n ã o
tenho tempo para nada.

Novembro 26, 1923.

Abriram-se as inscrições para o Comsomol. Silva


e e u a p r e s e n t a m o s nossas p r o p o s t a s p a r a o a l v é o l o . Di^
zem que o nosso alvéolo será logo i n c o r p o r a d o ao i n -
dustrial. Isso é interessante, porque nossas reuniões
têm sido m u i t o cacetes.

Novembro 27, 1923.

Vanka e eu fomos visitar os meninos desampara-


dos e eis o q u e aconteceu:
E u g o s t o m u i t o de cousas m i s t e r i o s a s e isso p r e c i -
s a v a s e r f e i t o e s c o n d i d o p o r q u e se o s rnaesc s o u b e s s e m
poderíamos dar margem a um "precedente". Foi as-
sim. V a n k a v e i o m e b u s c a r à s n o v e , c o m o 9e f o s s e p a -
ra i r ao c i n e m a , c f o m o s . Fazia m u i t o f r i o — uns 20
graus abaixo de 0 — . Chegamos ao p o r ã o cercado de
escombros. De início n ã o q u e r i a m nos deixar entrar
mas por f i m entramos. O porão é enorme; faz frio
c o m o n a r u a , e e m b o r a h a j a f o g u e i r a s acesas a q u i e a l i ,
ficam dissimuladas atrás de algum traste velho para
não serem vistas da rua. — A o avançar por entre as
N . O G N E V
42

pedras amontoadas, sentimos um ligeiro tremor, como


num filme policial. Os desamparados nao nos agredi-
ram porque conhecem Vanka e consideram-no como
um dos seus. E s t a v a m t o d o s v e s t i d o s d e f a r r a p o s e, a-
pesar do frio, recendem à s cloacas. São muito nume-
r o s o s e se a q u e c e m nas fogueirinhas. Se fosse u m a so
n ã o seria suficiente para todos.
Logo que V a n k a entrou todos vieram para perto

dizendo:
— Queremos uma história!
V a n k a sentou-se p e r t o d e u m a f o g u e i r a e l e u para
eles a h i s t ó r i a d o p r a t i n h o de p r a t a e d a m a ç ã de o u r o .
Uma idiotice! Nunca suspeitei sequer que u m a cousa
assim pudesse estar escrita num livro. Depois os de-
samparados pediram mais mas Vanka recusou. Pega-
ram e n t ã o o samogon e nos ofereceram. Vanka bebeu
um pouco, mas eu recusei. Jogaram cartas e pensá-
vamos j á e m i r para casa, q u a n d o , d e r e p e n t e , alguém
me agarrou e quis m e arrastar para a fogueira. Re-
sisti, mas ele conseguiu a p r o x i m a r - m e da l u z e gritou:
— Olhem! E' u m espião!
V í e n t ã o q u e era A l i o j a C h i k i n , t o d o s u j o e f a r r a -
pento. Era dificil reconhecê-lo logo. Ele disse:
— Que f o i que você veio fazer? Espionar?
— Ora vá pro diabo! respondi me recompondo.
V a n k a , como era n a t u r a l veio e m m e u auxilio.
Fujimos. C o r r e r a m a t r á s de n ó s . Defendemo-nos.
Senti u m tremendo golpe no rosto. G r i l e i sem querer,
porque o golpe f o i mesmo muito doloroso. Na rua,
apertamos o passo, seguidos pelos perseguidores, mas
chegamos a uma rua bem iluminada, onde havia um
g u a r d a , e eles f i c a r a m p a r a t r á s . .
Meu olho inchado doía muito. Discutimos sobre
o q u e f a z e r e se valia a pena contar a verdade» por-
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 43

q u e a c a r r e t a r i a c o n s e q ü ê n c i a s graves p a r a A l i o j a . Alem
disso, era preferível que ele n ã o fosse p a r a casa, por-
q u e o p a i d e p o i s das o c o r r ê n c i a s p o d e r i a m a t á - l o . Van-
ka me contou que no porão morara os batedores de
carteira. A maneira de agir é a seguinte: um se es-
c o n d e na p o r t a de tras e o o u t r o passeia pela r u a como
um namorado. Quando passa uma senhora com uma
b o l s a , o " n a m o r a d o " se a t i r a a o s s e u s p é s e o d a porta
de trás sai depressa, pega a bolsa e os dois se põem
a correr. H á t a m b e m os q u e r o u b a m c a r t e i r a s de ho-
mens. Alguns apenas sabem falar russo; falam tãr-
taro, mas roubar, rOubam muito bem.

Quando voltei para casa, a e n t u m e c ê n c i a no rosto


estava enorme. Meu pai reparou logo e perguntou o
que t i n h a acontecido. Menti. Disse que c a i r á quando
estava d e s l i z a n d o na neve. M e u pai aplicou à entume-
cência uma velha moeda de cobre e o i n c h a ç o baixou
um pouco; mas, de qualquer maneira, a m a n h ã apare-
c e r e i na escola c o m u m l i n d o olho!
-

Novembro 28, 1923.

Naturalmente todos vieram me perguntar o que ti-


nha acontecido no meu olho. Silva foi tão insistente
que tive de mandá-la lamber sabão. Elnikitka olhou-
m e receosa; senti nela u m a grande i r o n i a , mas n ã o quis
mais histórias e fiquei quieto.

N o " O Aluno Vermelho" há u m artigo muito sen-


sato sobre o t r a b a l h o social. C o p i e i - o :
"Na nossa escola se trabalha pelo sistema Dalton.
Divide-se o m a t e r i a l para os t r a b a l h o s d o m ê s e temos
de faze-los sozinhos. O professor declara que para um
t a l t r a b a l h o é preciso u m t a l l i v r o , mas acontece que é
44 O G N É V

impossível adquiri-lo e comprar livros para cada tra-


balho é impossível! „
" A l e m dos t r a b a l h o s c i e n t í f i c o s t e m o s os trabalhos
sociais. Mas para estes s ã o e l e i t o s o s a l u n o s mais ca-
pacitados e, a c o n t e c e que, assim f i c a m sobrecarregados
d e l a b o r s o c i a l , e n q u a n t o os o u t r o s se d e s i n t e r e s s a m dele.
"E' p r e c i s o d i z e r q u e n o s nossos l a b o r a t ó r i o s cien-
tíficos h á constantemente muito barulho, tanto que e d i -
f i c i l c o n c e n i r a r a a t e n ç ã o , e, p o r isso, os a l u n o s sao obri-
«ados a estudar em casa. T e r m i n a r as aulas as sete,
e os que n ã o desempenham cargos sociais, v a o muito
tranqüilos, enquanto q u e os q u e estão sobrecarregados
de t r a b a l h o , t ê m de f i c a r a t é q u e este seja terminado.
A s s i m é que, de noite, n ã o temos t e m p o para nada,
e, de manhã, temos novamente de nos reunir para o
trabalho social. Quando trabalha o primeiro quadro,
quando sc reúne o segundo, ainda aqui é impossível
algo nos l a b o r a t ó r i o s p o r causa do b a r u l h o constante.
E a s s i m t o d o s os dias. O m ê s f i n d a , chega a hora de
e n t r e g a r os t r a b a l h o s c n ã o h á n a d a feito. A o contra-
r i o , os q u e e s t ã o l i v r e s d o t r a b a l h o s o c i a l , p o d e m fazer
suas cousas e m casa, t r a n q ü i l a m e n t e , e e n t r e g a Ias no
prazo convencionado."
H á o u t r a s cousas n o j o r n a l , m a s copiei o suticien-
t e p a r a m o s t r a r q u e os m e m b r o s dos C o m i t ê s escolares
n ã o t ê m tempo n e m para respirar. H á , a l e m disso u m a
c o m i s s ã o o r g a n i z a d o r a dos f e s t e j o s de o u t u b r o , p a r a ce-
lebrar o aniversário da revolução. E as conferência»
dos p r o f e s s o r e s , as r e p r e s e n t a ç õ e s d o g r u p o .
Ao diabo com Dalton! Que a terra o trague!

Novembro 30, 1923.

Amanhã é o dia da entrega dos trabalhos de no-


vembro; mas eu, naturalmente, não entregarei nada.
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 45

Quando farei? N ã o sei t a m b é m . . . A l g u n s dos rapa-


zes e s t ã o n a m e s m a situação. Ainda b e m que estamos
no f i m do mandato do C o m i t ê de que f a ç o parte. Do
contrário não saberia como sair do atoleiro. Minha
ú n i c a e s p e r a n ç a e s t á c o n c e n t r a d a nas f é r i a s do inverno.
Silva t a m b é m acha q u e n ã o v a i p o d e r e n t r e g a r os tra-
b a l h o s p o r causa do C o m i t ê . Bolas para Dalton!

T o d a s as n o i t e 3 , d e p o i s d a s a u l a s , p a s s e i o c o m Sil-
va pela rua. Ela me contou u m a porção de cousas
sobre a vida dela. Parece que seu p a i q u e r se divor-
ciar da mãe e Silva n ã o sabe com quem vai viver.
Na sua casa s e m p r e h á brigas e escândalos.
D e p o i s e l a m e p e r g u n t o u q u a i s os m e u s p r o j e t o s .
D e c l a r e i q u e p a r a m i m , o f i m da v i d a era v i v e r n o
p r ó p r i o p r o v e i t o e p a r a os o u t r o s e, p o r f i m l u t a r p e l o
comunismo mundial. E l a e n t ã o m e confessou que a v i -
da era tão amarga que chegou a querer se suicidar.
Respondi dizendo que tinha sido u m a bobagem e que
havia gente que vive m u i t o p i o r que n ó s , p o r e x e m p l o :
os g o l f o s . Alem d o m a i s , essa h i s t ó r i a de querer sui-
c i d a r é c o u s a d e intelectuais. N a escola a n t i g a os alu-
n o s se s u i c i d a v a m d e v i d o a o s m e s t r e s , m a s n ó s v i v e m o s
n u m a o r d e m d e c o u s a s e p o d e m o s l u t a r c o m os rnaesc.
E , s o b r e t u d o , t e m o s o Comsomol, onde seguramente se-
r e m o s a d m i t i d o s , s e n d o os d o i s d a m e s m a o r i g e m pro-
letária.

Silva se tranqüilizou então e eu a acompanhei a


sua casa.
T E R C E I R O C A D E R N O

Dezembro 3, 1923.

Silva e eu fomos designados candidatos parado


Comsomol. Bom. O mau é que obrigam a gente a
freqüentar as reuniões do alvéolo e não ha tempo
para isso.
D a r e i u m j e i t o nisso.

Dezembro 4 9 1923.

H o j e , d u r a n t e as a u l a s , a M i l i c i a se a p r e s e n t o u na
escola perguntando por Zin-Palna. Perguntaram:
— Alioja Chikin é seu aluno?
E l a disse q u e s i m .
— E n t ã o , queira aceitá-lo mediante recibo, porque
não nos quer dar o endereço e n ó s n ã o temos onde
alojá-lo. , ,.... - '
— P o r q u e é q u e e l e f o i p a r a r e n t r e os m i l i c i a n o s . '
— perguntou Zin-Palna.
— F o i d e t i d o n u m a b a t i d a c o n t r a os golfos.
Z i n - P a l n a disse:
— N ã o . N ã o posso aceitá-lo. Levem-no para o
coletor de desamparados.
Alguns meninos ouviram isso e imediatamente a
escola inteira sabia d o caso. A campainha soou con-
vocando uma r e u n i ã o geral. D e t o d o s os l a d o s vinham
meninos depois de t e r e m abandonado os l i v r o s ; os que
estavam no laboratório, dando a lição se puseram a
correr sem t e r m i n a r a f r a s e . . .
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 47

Os rnaesc a b r i r a m 03 o l h o s s u r p r e e n d i d o s . Porque,
normalmente, sabe-se da reunião com antecedência e
agora, a q u i l o de improviso, no meio da aula. Os j o -
vens reuniram-se na sala. Havia um murmúrio inten-
so. Zin-Palna apareceu toda pálida. Os outros rnaesc
estavam t a m b é m m u i t o t r ê m u l o s .
— Quem tocou a campainha convocando reunião
geral? — perguntou Zin-Palna.
— Eu — respondeu Serioga Blinov.
— Porque, durante as aulas?
— P o i s , p o r q u e t o d a a escola e s t á ao p a r d a gran-
de i n j u s t i ç a . E todos querem protestar.
Serioga f a l a v a aos a r r a n c o s , m u i t o pálido.
— D e que i n j u s t i ç a você está falando? — pergun-
tou Zin-Palna.
— A escola n ã o a c o l h e u C h i k i n . E ' nosso compa-
n h e i r o e e r a c l a r o q u e n ó s d e v e r í a m o s ser consultados.
• Todos vociferavam;
— Muito bem, Blinov! A b a i x o os rnaesc!
Z i n - P a l n a l e v a n t o u a m ã o e f i c o u assim m u i t o t e m -
po, porque havia u m barulho infernal.
— O assunto deve ser estudado detalhadamente.
V o c ê s d i z e m q u e é u m a i n j u s t i ç a , m a s n ã o posso a c e i t á -
lo. P r i m e i r o , p o r q u e isto n ã o é u m pensionato e não
temos lugar para ele viver. Depois, viveu c o m os de-
samparados e seguramente sofreu algum contágio que
poderia ser por demais nocivo. Depois de tudo, tem
um pai. Assim sendo deve ser levado à casa d o pai
e não à escola.
Levantei-me e protestei:
— L e v á - l o p a r a o p a i é i m p o s s í v e l p o r q u e seu p a i
vai matá-lo. E ' u m h o m e m f e r o z e se v ê q u e a v i d a
f a m i l i a r de A l i o j a n ã o é nada a g r a d á v e l , desde que
f u g i u para u m p o r ã o entre escombros.
48 N . O G N E V

— Que porão?
O mais conhecido — respondi.
— E como é que você sabe? Riabtsev?
P o r q u e estive l á e v í Chikin.
Os rapazes g r i t a r a m :
— Muito bem! Bravo!
Mas eu continuei:
— Peço que n ã o gritem. Sou membro do Comitê
e sou o b r i g a d o a isso.
— B o m — disse S e r i o g a Blinov — A escola pro-
t e s t a c o n t r a a a d m i n i s t r a d o r a q u e , s e m c o n s u l t a r os a l u -
nos, e n v i o u C h i k i n ao coletor. Alem disso, podíamos
t e r e n v i a d o a M i l i c i a ao p o r ã o p a r a t r a z e r C h i k i n para
a escola.
— Mas, que faremos com êle? perguntou Zm-Falna.
I r e m o s à sua casa c e x i g i r e m o s d o p a i q u e n ã o
o maltrate. ,A A

— E ele v a i obedecer. — disse E l n i k i t k a irônica.


— Nos obedecerá melhor que a vocês — respondeu
Serioga —. E e m t o d o o caso, p e d i m o s o parecer dos
professores. Tem a autonomia sua significação nesta
escola o u n ã o ?
Sim, sim! — gritaram todos os rapazes.
— Estou surpreendida com a má organização re-
velada neste momento — disse Zin-Palna — Classes
interrompidas, uma reunião geral convocada... Bom,
isto ainda p a s s a , p o r sc t r a t a r d e u m c a s o extraordiná-
rio. M a s nesta reunião geral n ã o h á nem presidente,
nem secretário, começa-se a d i s c u t i r as q u e s t õ e s d o ca-
s o C h i k i n , f a z e m - s e as c o u s a s a t r o p c l a d a m e n t e , sem ter
resolvido algo relativo ao assunto principal. Recuso-
me a toma> parte numa r e u n i ã o semelhante e me reti-
ro porque considero uma reunião deste g ê n e r o degra-
dante para a escola.
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 19

E f o i ee e m b o r a . A t r á s dela sairam E l n i k i t k a , A l -
makfisch e outros rnaesc. Apenas Nicpetoj ficou. Ca-
l a d o , c o m o se t i v e s s e a boca cheia dágua. Os rapazes
conservaram-se em silencio, mas começaram logo a fa-
zer novo alvoroço. Serioga bateu na mesa e disse:
— C o n s i d e r o esta q u e s t ã o de presidentes mais um
preconceito. Pode-se passar perfeitamente sem presi-
dente. E agora, rapazes, proponho que fiquem aqui
apenas aqueles que n ã o reconhecem a f o r m a de auto-
nomia regente nesta escola. Então decidiremos. A
p r o p o s t a é e x t e n s i v a aos p r o f e s s o r e s .
N i c p e t o j levantou-se e saiu. A l g u n s dos pequenos
sairam t a m b é m . Das meninas sairam Zoia, e L i n a . Fi-
caram os o u t r o s e e s t a b e l e c e u - s e a o r g a n i z a ç ã o de uma
"União". A "União" decretou n ã o reconhecer a auto-
nomia e elaborar um regulamento próprio, ao qual
todos nós devíamos nos submeter. S u p r i m i r os cum-
primentos obrigatórios; entrar nos l a b o r a t ó r i o s , no au-
ditório e na sala sem o u c o m c h a p é u , segundo o dese-
jo de cada um. Seguir, alem disso, um regulamento
que será dirigido p o r Serioga B l i n o v e outros rapazes.
De u m m o m e n t o para o u t r o a cidade me pareceu
mais alegre. J á t e r m i n e i , t a m b é m , m e u m a n d a t o co-
mo membro do Comitê.

Dezembro 5, 1923.

Temos dois partidos na escola: "A Escola" e "A


União". P a r e c e q u e os p r o f e s s o r e s têm muito partidá-
rios. Hoje os "escolares" t i v e r a m u m a reunião para
escolha do novo Comitê e a ela compareceu metade
dos alunos. Os "unionistas" t a m b é m se r e u n i r a m . O
regulamento f o i aceito, e segundo ele, n i n g u é m depen-
de de ninguém, apenas a autodisciplina é obrigatória.
50 N . O G N E V

Todas essas m i n ú c i a s como saudações, foram suprimi-


das; mas cada "unionista" tem o dever de zelar pela
própria conduta. Por exemplo: são proibidas lutas
e fazer b a r u l h o durante as aulas. Para manter rela-
ç õ e s c o m os rnaesc e os " e s c o l a r e s " f o i e l e i t o u m comis-
sário de negócios exteriores": Serioga B l i n o v .
A n t e s de mais nada encarregamos Serioga de con-
seguir dos rnaesc que A l i o j a C h i k i n fosse t r a z i d o para
a escola, t i r a n d o - o d o c o l e t o r . H o u v e depois u m me-
eting" e todos pronunciamos discursos.
S e r i o g a m e c h a m o u p a r a u m c a n t o e m e disse que,
como N i c p e t o j gostava de m i m , eu deveria i r indagar
sua opinião a respeito dos "unionistas" b e m como a
d e t o d o s os o u t r o s rnaesc. A c e i t e i , é c l a r o . M a s n ã o posso
c o m p r e e n d e r a necessidade da o p i n i ã o dos rnaesc. Eles
s ã o u m a cousa e n ó s o u t r a .
De qualquer maneira f u i . Nicpetoj mo disse o
seguinte:
— Acho a experiência deveras interessante. Acho
também que vocês descobrirão logo, q u ã o dificil é vi-
ver sem disciplina.
Contei que n ó s nos impunhamos uma auto-dis-
ciplina.
— A autodisciplina é uma espada de dois fios —
disse N i c p e t o j — . É boa por u m lado, porque exclue a
v i o l ê n c i a , m a s de o u t r o , c m u i t o m a i s penosa q u e a dis-
ciplina imposta. Pense b e m : é preciso estar constan-
t e m e n t e a t e n t o aos p r ó p r i o s a t o s p a r a n ã o c o m e t e r uma
falta... A g e n t e se c a n s a rapidamente.
Perguntei-lhe e n t ã o q u a l era a o p i n i ã o de Z i n - P a l n a .
— V o c ê s n ã o a a p r e c i a m c o m o d e v e m — disse Nic-
p e t o j — C r ê e m que ela é p a r t i d á r i a d o r e g i m e de opres-
s ã o n a escola, e q u e , p o r conseguinte, i n i m i g a de todos
os a l u n o s . Mas n ã o é verdade. Ela gosta muito de
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 51

vocês e, se se vê obrigada a manter a disciplina é porque


sobre ela pesa u m a g r a n d e responsabilidade. N o que se
r e f e r e à U n i ã o , a c h a q u e deve-se d e i x a r f a z e r e m o que
querem. Vocês mesmos se c o n v e n c e r ã o do absurdo de
sua conduta.
Contei tudo a Serioga. Ele ouviu, mas não fez
comentários. Na volta, acompanhei Silfida até a casa
dela. D e p o i s ela v e i o a t é a m i n h a e n o c a m i n h o f a l a -
mos sobre a "União". E l a n ã o c r ê que a cousa dure,
mas aderiu por companheirismo, e agora sente a vida
mais risonha. Contei-lhe que o mesmo acontecera
comigo.
A p e r t a m o - n o s as m ã o s a o n o s d e s p e d i r m o s . Nunca
tínhamos feito isso.

Dezembro 6, 1923.

Tudo parece acomodado. Oa rnaesc não tomam


conhecimento da União e nós não tomamos conheci-
m e n t o dos rnaesc. Tendo a U n i ã o resolvido n ã o caçoar
d o s " e s c o l a r e s " , n ó s os d e i x a m o s e m p a z . Bem, a maio-
ria deles s ã o c r i a n c i n h a s e se h á a l g u m m a i o r z i n h o é
porque, e m p r i n c í p i o , pensam de m o d o d i v e r s o d o nosso.
E s t o u f a z e n d o o p o s s í v e l p a r a e n t r e g a r os t r a b a l h o s
a t r a s a d o s e p o d e r m e d i v e r t i r d u r a n t e as f é r i a s de
inverno. Já entreguei a Nicpetoj o meu trabalho de
novembro. O mais difícil para m i m é história natural,
e matemática também.

Dezembro 7, 1923.

Vanka Petujov não foi à escola e eu fui à casa dele.


P a r e c e q u e e s t á d e c a m a p o r q u e os d e s a m p a r a d o s d e r a m -
lhe uma boa surra; eles p e n s a m que f u i eu quem os
52 N . O G N E V

denunciou e, como resultado da denúncia, assaltaram-no.


Tiraram-lhe as mercadorias. Ele quer entrar agora
numa fábrica porque estão admitindo adolescentes.
P e r g u n t e i c o m o é q u e ele ía f a z e r p a r a e s t u d a r e ele disse
que menores só trabalham seis h o r a s e t ê m toda es-
p é c i e de f a c i l i d a d e s p a r a o estudo.
T o d o s choravam p o r q u e c ele sozinho que mantém
a família. Fiquei muito impressionado. Não pude
resistir p o r m u i t o t e m p o á e m o ç ã o e f u i embora.

Dezembro 8, 1923.

Eu estava passando pela sala quando se estabeleceu


uma escaramuça e n t r e os " e s c o l a r e s " e os " u n i o n i s t a s .
Eles nos atacaram atropelando Volodka Schmerz. Os
nossos f o r a m a j u d á - l o e c o m e ç o u o b a r u l h o . Está claro
que n ã o e s t á v a m o s l u t a n d o a s é r i o ; era, p o r assim dizer,
uma diversão.
Mas Zin-Palna apareceu e c o m e ç o u a bater o p é n o
chão e a gritar como uma louca:
— Chega!
Acabamos c o m a história, naturalmente, e ela caiu
e m c i m a da gente, g r i t a n d o que e s t á v a m o s t r a n s f o r m a n d o
a escola n u m a r u a , q u e u m a t a l h o s t i l i d a d e n ã o era pos-
sível e que a famosa autodiseiplina dos "unionistas"
e s t a v a se r e v e l a n d o m u i t o p o u c o e f i c i e n t e .
E n t ã o n ã o p u d e r e s i s t i r e disse q u e a a u t o d i s e i p l i n a
n ã o t i n h a nada a ver c o m aquilo, p o r q u e nao estávamos
lutando a sério. M a s e l a n ã o m e d e i x o u t e r m i n a r e disse
que falaria comigo diante do Conselho da Escola.
V a m o s ver. E n f i m , entreguei m e u t r a b a l h o de mate-
mática correspondente a outubro. Falta-me pouco e
estou m e apressando o m a i s possível.
t

O DIÁRIO DE COSTIA RIABTSEV 53

Dezembro 10, 1923.

Que dia tão divertido! Durante o recreio grande,


n ó s , os u n i o n i s t a s , f o m o s p a r a o p á t i o , p a r a jogar fute-
bol. N ã o f a z m u i t o f r i o , a n e v e é d u r a e p o r isso é m a i s
fácil jogar.
Os "escolares" olhavam para n ó s cheios de i n v e j a .
T i n h a m m u i t a v o n t a d e de j o g a r , m a s , s e g u n d o suas n o r -
m a s escolares é p r o i b i d o j o g a r f u t e b o l a t é a p r i m a v e r a .
Pelo menos n o pátio da escola.
P o d e m jogar outros jogos que o professor de cultura
fisíca ensina, mas f u t e b o l n ã o , p o r q u e , segundo Z i n -
P a l n a , o f u t e b o l é n o c i v o aos estudos.
O recreio tinha terminado, mas n ó s continuamos
jogando. É u m a pena que a n o i t e caia t ã o depressa!
Seguiríamos jogando ainda. A principio as meninas
t a m b é m j o g a r a m , mas, mais tarde, quando organizamos
os " t i m e s " , n ó s p u s e m o - l a s para fora.

Dezembro 11, 1923.

Anteontem eu ví a negra Zoia e Lina saindo da


igreja e ontem houve uma reunião do alvéolo para
decretar a intensificação da propaganda anti-religiosa
na escola. Entrei no laboratório de história natural,
m u i t o c h e i o n a q u e l a h o r a , c o m o esse p r o p ó s i t o e p e r g u n -
tei a E l n i k i t k a :
— E l e n a N i k i t i c h n a , q u e i r a e x p l i c a r - m e essa histó-
ria dc Deus. Existe ou n ã o ?
— E u j á disse u m a v e z , R i a b s t e v , q u e existe para
uns e para outros nao — respondeu. É u m a cousa indi-
vidual.
— M a s , era geral?
— N ã o h á s o b r e isso u m a o p i n i ã o g e r a l .
54 N . O G N E V

— E a história natural que é que diz? Existe o u


não? _.
— A h i s t ó r i a n a t u r a l n ã o trata de p r o b l e m a s reli-
giosos. #

N ã o p u d e fazer nada, mas n ã o m e dei p o r ven-


cido. F u i andando pelo corredor quando a negra Zoia
veio para perto de m i m :
— Espere a í !
P a r e i e ela, curvando-se m e disse ao ouvido:
Odeio você. N ã o c r e i o q u e v o c ê seja u m h o m e m .
E m b o r a tenha c o m p a i x ã o , e avise q u e v o c ê p a g a r á por
tudo. Você terá de responder por tudo!
— Perante quem?
Você saberá. O s santos e os a n j o s a b a n d o n a r a m
você.
Pensei que í a rebentar de t a n t o r i r :
— L e v e aos b e n d i t o s a n j o s este p r e s e n t i n h o !
E dei-lhe u m beliscão. Ela saiu correndo como
uma locomotiva. E u n ã o a persegui, n ã o v o u c o m ela;
ela c h e i r a a i g r e j a , a azeite.
Hoje tive de m e despedir do m e u querido cama-
rada Vanka Petujov. Veio para a escola pela última
vez, j á e n t r o u na fábrica. Quis contar-lhe como estão
as c o u s a s a q u i n a escola, m a s aparentemente já não o
interessavam. Curou-se da surra. V a i ganhar vinte e
t r ê s r u b l o s e sessenta c o p e c k s .
— N ã o se g a n h a t a n t o v e n d e n d o cigarros — me
disse ele.
Sinto imensamente a saída dele; primeiro, porque
é um bom camarada, muito dificil de se substituir.
Depois, é inteligente e t e m u m grande coração. Acho
que a amizade comum rapaz é muito diferente que
c o m u m a m e n i n a , e m b o r a ela seja t ã o i n t e l i g e n t e c o m o
Silva. É verdade que f a l o c o m ela sobre m u i t a cousa,
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV

mas n ã o sobre todas: algumas ela n ã o compreenderia.


E d e p o i s , e u p o d e r i a i r c o m e l a ao s o t ã o dos desampa-
rados? Ela talvez fosse, m a i s p o d e r i a m b a t e r nela e
não pode defender-sc sozinha- As meninas n ã o podem,
embora queiram, jogar decentemente o futebol, choram
com freqüência... Enfim, por uma serie de razões,
n ã o é possível u m a amizade verdadeira. Com um rapaz
é o u t r a cousa.
É u m a pena V a n k a i r se e m b o r a ! É verdade que
nos veremos sempre, mas j á n ã o será a mesma cousa.

Dezembro 13 9 1923.

H o j e h o u v e o u t r o i n c i d e n t e p o r causa da "União".
Silfida f o i entregar seu trabalho de novembro para
Almakfisch e este suspendeu-a, embora ela t e n h a afir-
m a d o q u e t i n h a r e s p o n d i d o a t o d a s as p e r g u n t a s e r e s o l -
v i d o t o d o s os p r o b l e m a s . E l a a t i r o u - l h e e n t ã o esta f r a s e :
— É p o r q u e c u sou da União!
Almakfisch ficou muito i r r i t a d o e, chamando^T*de
i m p e r t i n e n t e , Cxpulsou-a do l a b o r a t ó r i o . Todo o grupo
f i c o u i n d i g n a d o e enviamos delegados a Z i n - P a l n a , exi-
gindo que Almakfisch peça perdão a Silfida. Tomei
p a r t e n a d e l e g a ç ã o , e, a o e n t r a r n a sala dos professores
encontramos Almakfisch. D e p o i s de ouvir a reclama-
ção contestou:
— Está bem! Estou disposto a p e d i r p e r d ã o ; mas
antes D u b i n i n a deverá p e d i r - m e desculpas por me ter
atribuído propósitos alheios ao ensino.
Tomei a palavra:
— N ã o s e i se h o u v e o u n ã o p r o p ó s i t o s alheios ao
e n s i n o , m a s t o d a a escola sabe q u e v o c ê n ã o p o d e ver
Dubinina e t e m sempre perseguido a menina.
56 N. O G N E T

Almakfisch ficou furioso. Gritou que eu era um


g r o s s e i r o , u m i n s o l e n t e , e, o u m e p u n h a m u m f r e i o ou
ele sairia da escola, p o r q u e n ã o era possível trabalhar
desse j e i t o . J o g o u o l i v r o sobre a mesa e saiu, enquanto
Zin-Palna pediu-me para ficar u m pouco para falar c o m
ela. E x p l i c o u - m e q u e se as c o u s a s t o m a v a m a q u e l e r u m o
que estavam tomando, n ã o era mais possivel estudar;
que nós, entusiasmados com a União, esquecíamos os
estudos.
R e s p o n d i estar de p l e n o acordo c o m ela, mas afir-
mei que n ã o apenas n ó s t í n h a m o s esquecido, mas tam-
bém os rnaesc. Que nós cramos jovens, com menos
e x p e r i ê n c i a q u e eles. A s s i m s e n d o n ã o se d e v e chamar-
nos de "crianças", "meninos insolenlcs e grosseiros",
" c r i a n ç a s i m p e r t i n e n t e s " , . . . p o r q u e isso o r i g i n a sempre
um precedente. Zin-Palna corrigiu-me dizendo que eu
queria dizer incidente e n ã o precedente. E m resumo:
decidimos que pedirei perdão a Almakfisch c conven-
c e r e i S i l v a de f a z e r o mesmo.
N a r e u n i ã o d o a l v é o l o d e l i b e r o u - s e p r o p o r aos rnaesc
e à União a c r i a ç ã o de u m a Comissão conciliadora que
liquidasse o conflito. Serioga Blinov protestou; mas o
d e l e g a d o d o C e n t r o p e r g u n t o u - l h e se q u e r i a q u e a e s c o l a
se d i v i d i s s e e m d o i s v e r d a d e i r o s partidos. A pergunta
f e z S e r i o g a calar-se.

Dezembro 14, 1923.

A Comissão conciliadora, com os representantes do


alvéolo, concordaram em suprimir os cumprimentos
obrigatórios. Os direitos do Comitê escolar foram
ampliados; por exemplo: os assuntos q u e s ó i n t e r e s s a m
aos alunos, serão a p a r t i r de h o j e examinados exclusi-
v a m e n t e p e l o C o m i t ê ; n a s r e u n i õ e s d e rnaesc e no Con-
* -
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 57

s e l h o d a e s c o l a s e r ã o d i s c u t i d o s os a s s u n t o s concernentes
aos rnaesc e aos a l u n o s . Será permitido jogar futebol.
A U n i ã o d e i x o u de existir.

Dezembro 16, 1923.

Sem nos dar tempo para pensar que tudo havia


passado, os rnaesc, dc i m p r o v i s o , antes das férias de
i n v e r n o , e s c r e v e r a m as c a r a c t e r í s t i c a s d o s a l u n o s , e q u e m
q u i s e s s e p o d i a l e r as s u a s . N ã o me l i m i t e i a ler, copiei:
"Riabtsev, Costia. Q u i n z e anos. Desenvolvimento
mental insuficiente para a idade. Precisa de grande
e s f o r ç o para estudar. G r a n d e c o n f i a n ç a e m sí. Realiza
as f u n ç õ e s sociais com grande calor e u m entusiasmo
exepcional, mas cansa-se logo. Vence penosamente a
idade crítica. É grosseiro, insolente e brusco ao
extremo. A excessiva a t i v i d a d e dos c e n t r o s sensoriais e
motrizes lhe dá um egocentrismo áspero e doentio.
U m a i d é i a s u b c o n c i e n t e de u m a v i d a f u t u r a f o m e n t a sua
l u t a c o n t r a os i n s t i n t o s . Essa l u t a p r o d u z a l g u n s f r u t o s ,
mas pouco visíveis a t é o momento. É um adolescente
d o t i p o dos d e S t e n l y Holl".

Quem será esse S t e n l y H o l l ? C o m certeza algum


burguês como D a l t o n . . . P e r g u n t e i o que era egocen-
t r i s m o p a r a N i c p e t o j e ele m e disse q u e era u m pouco
pior que egoísmo. Então eu sou egoísta. Mas estou
certo de que n ã o sou, ainda que, e s t á c l a r o q u e ninguém
consegue t i r a r u m a i d é i a que entra na c a b e ç a dos rnaesc!
O i m p o r t a n t e d o caso é q u e r e g i s t r a r a m q u e tenho
grande trabalho para estudar. É possível, mas não
deram explicação alguma. A c u l p a é de D a l t o n . Sem
Dalton meu esforço seria o mesmo que o dos outros
alunos. N o ano passado n ã o f u i p i o r o u m e l h o r que os
58 N . O G N E Y

outros. E ainda tinha tempo de ler. Mas agora, por


causa de D a l t o n , n ã o t e n h o t e m p o p a r a n a d a . O regis-
t r o de Silva é mais ou menos parecido. Falei com ela
e estamos de acordo que o c u l p a d o de t u d o é Dalton.

Dezembro 18, 1923.

Grandes festas porque trouxeram Alioja Chikin do


coletor. H o u v e enorme algazarra e depois f o r a m indi-
cados Serioga e eu para irmos conferenciar com o pai.
A l i o j a está fraco, p á l i d o e n ã o fala. Talvez a vida no
c o l e t o r , c o m os d e s a m p a r a d o s , n ã o seja das m a i s agradá-
veis.
T e r m i n a d a s as a u l a s , l e v a m o - l o à c a s a d o p a i . Ao
e n t r a r , v i m o s que o p a i n ã o estava b e b e d o ; b a t i a a sola
de um sapato. A mãe cosia. Apenas viram Alioja
puseram-se a gritar. S e r i o g a disse ao p a i :
— Cidadão Chikin: trouxemos o seu filho. A
escola g a r a n t e que ele e s t u d a r á d i r e i t o , e, e m g e r a l , se
p o r t a r á c o m o deve. M a s exige, que o senhor n ã o mal-
t r a t e seu filho.
0 p a i de C h i k i n d e i x o u o m a r t e l o e disse:
— Vocês n ã o têm direito a l g u m de se meter nos
meus negócios. Se eu quiser posso matá-lo. Ou, se
quiser, posso d e i x á - l o viver. Mas f o i na escola onde
começou a roubar, o que quer dizer que foram vocês
que o ensinaram.
— N a n o s s a e s c o l a n ã o se e n s i n a a roubar — res-
pondeu Serioga —. E, se cometeu alguma falta, não
reincidirá. E o senhor, cidadão Chikin, lembre-se de
q u e , se o t o c a r , n e m q u e s e j a c o m u m d e d o a p e n a s , t e r á
de prestar contas à escola i n t e i r a , e s e r á , a l e m d o mais,
perseguido pela justiça.
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV

D e p o i s de sair p a r a m o s p e r t o da j a n e l a e v i m o s a
m ã e dando de comer a A l i o j a , enquanto que o p a i falava,
amigavelmente, ao que parecia. Tranqüilos, fomos
embora.

Dezembro 19, 1923.


*
E n c o n t r e i c o m L i n a n o c a m i n h o p a r a a escola. Ela
se a p r o x i m o u e d i s s e :
— Pela ú l t i m a vez: Você falará comigo ou n ã o ?
— Pela ú l t i m a vez lhe respondo: Falarei com você
c o m o f a l o c o m t o d a s as o u t r a s meninas.
Ela afastou-se depressa. J á se v i u que bobagem!
N u n c a , na v i d a , m e p e r g u n t o u cousa a l g u m a e h o j e , de
repente, vem com essa: "Pela última vez".., Ela
mesma f o i q u e m t r o c o u de carteira e agora quer que eu
fale c o m ela. Isso é i n f l u ê n c i a d e Z o i a . Há meninas
completamente loucas.
C h e g u e i n a escola e e n c o n t r e i t o d o s e s t u d a n d o inten-
samente. Fui perguntando às meninas como iam de
trabalho. P a r e c e q u e q u a s i n i n g u é m t e r m i n o u os d e
d e z e m b r o , c o m o e u ! E p e l o m e n o s a m e t a d e dos a l u n o s
não entregou ainda os de novembro. Reuni, então,
a l g u n s e, f u m a n d o , f o m o s d i s c u t i r u m p r o j e t o n o pátio.

Dezembro 21, 1923

Mesmo que eu tivesse de escrever até às cinco da


m a d r u g a d a anotaria tudo o que m e aconteceu hoje.
Decidimos anteontem acabar com Dalton, e ontem
preparamo-nos o d i a t o d o p a r a isso. Q u a n d o os a l u n o s
chegaram hoje na escola encontraram pelas paredes
r ó t u l o s e papeletas que diziam:
— Abaixo Dalton!
60 N . O G N E V

— A o diabo com Dalton, o b u r g u ê s !


Todos ficaram alegríssimos, naturalmente. Fomos,
depois, para o piano aprender u m a nova canção, escrita
por mim:
"Esgotou-se a paciência.
Gritemos todos de vez
Morra, mil vezes morra,
Dalton, o maldito burguês!"

Ao chegar, foram os rnaesc recebidos com esta can-


ção. O s rnaesc, c o m o se n a d a t i v e s s e a c o n t e c i d o , entra-
ram, cada um no 6eu l a b o r a t ó r i o . Mas ninguém foi
e n t r e g a r os t r a b a l h o s d e d e z e m b r o e m b o r a a l g u n s j á os
tivessem t e r m i n a d o . E m vez de i r p a r a os laboratórios,
todos se precipitaram para o pátio. Havia ali um
boneco de palha c o m u m c h a p é u descambado. D o pes-
coço pendia o rótulo: "Lord Dalton!" Pusemos o
b o n e c o n o m e i o d o p a l i o p a r a ente p u d e s s e s e r v i s t o das
janelas. Começamos a dansar ao redor cantando "La
Carmanola".
Depois, pusemos fogo em L o r d Dalton, o b u r g u ê s .
O p o r t e i r o v e i o t o d o assustado; mas v e n d o que n ã o
h a v i a perigo tranquilizou-sc e regosijou-se conosco. O
espantalho ardia com grande estrepito e fulgor. Nós
continuávamos cantando. Começamos uma nova can-
ção:
" . . . Ao diabo
maldito burguês..."

E assim, cantando, avançamos pela escola a dentro.


T o d o s os rnaesc e s t a v a m à nossa e s p e r a c Z i n - P a l n a per-
g u n t o u se q u e r í a m o s o u n ã o f a z e r u m a r e u n i ã o g e r a l o u
se, d e v i d o à q u e l e e s t a d o d e e s p i r i t o r e i n a n t e , queríamos
i r p a r a casa. A l g u n s dos p e q u e n o s q u i s e r a m v o l t a r p a r a
c a s a , m a s os o u t r o s p r e f e r i r a m a r e u n i ã o g e r a l . Soou a
campainha de convocação.
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 61

A n t e s de c o m e ç a r f u i ao p á t i o e v í n o c o r r e d o r u m
papel caido no chão. Peguei e l i :

''Saibam vocês que nós, duas meninas, não queremos


mais c o n t i n u a r v i v e n d o . M o t i v o s de t a l d e c i s ã o : p r i -
m e i r o , todos nos ofendem e perseguem. Uma de n ó s
quer ver-se no outro m u n d o quanto antes e a outra quer
lá ter por causa do amor n ã o c o r r è s p o n d i d o . Perdoamos
a todos. Pedimos que nos sepultem segundo o r i l o da
I g r e j a . Lego o m e u a l m o ç o a Cosiia Raibslev e t a m b é m
o p e r d ô o . Quem encontrar este papel n ã o o mostre a
n i n g u é m . Que nos enterre a ambas n u m SÓ ataude. Se
aos suicidas n ã o se pode enterrar segundo os ritos ecle-
s i á s t i c o s , que sejam enlerradas pelos m é t o d o s leigos,
mas que celebrem uma missa c m nossa i n t e n ç ã o . A d e u s !
P . S. Se quiserem encontrar nossos c a d á v e r e s , eles
e s t ã o no l a b o r a t ó r i o de f í s i c a .

LINA e ZOIA.

Saí correndo para a sala. A reunião geral tinha


começado. Gritei:
— Depressa! Para o laboratório de física! Duas
meninas estão se suicidando! Depressa! Talvez che-
guemos tarde.
T o d a g e n t e se p r e c i p i t o u p a r a o l a b o r a t ó r i o d e f í s i c a ,
rnaesc e alunos. E n t r e i e n t r e os p r i m e i r o s m a s . . . não
havia n i n g u é m ali P r o c u r a m o s nas estantes e n o s armá-
r i o s c o m o se h o u v e s s e p o s s i b i l i d a d e d e se e s c o n d e r nesses
lugares. Dc repente ouvimos uma voz que vinha do
auditório:
-!— E s t ã o a q u i ! as duas!
Naturalmente todos correram para o auditório, e,
c o m e f e i t o elas e s t a v a m l á . A s duas, e vivas, sentadas
numa carteira e chorando como Madalenas; tiraram-nas
dali, e eu senti u m grande alívio porque só e n t ã o per-
cebi que enquanto procurávamos eu tinha a sensação
p e r f e i t a de q u e m e e s t a v a m e s t r a n g u l a n d o .
62 N . O G N E V

L i n a e Z o i a f o r a m levadas p a r a a sala dos professo-


res, tomaram um calmante e os rnaesc e alunos me
rodearam, perguntando c o m o eu t i n h a sabido da cousa.
Mostrei o papclsinho e contei como t i n h a achado. Zin-
P a l n a m e disse então:
— É uma vergonha! Esse b i l h e t e f o i d e i x a d o de
propósito! P a r a c o m e ç a r elas n ã o t i n h a m a m e n o r idéia
de suicidar-se. Tudo isso f o i apenas para chamar a
a t e n ç ã o d a escola. Serão expulsas.
A o o u v i r essas p a l a v r a s f i q u e i a l i v i a d o e r e p a r e i que
ninguém protestava contra as palavras de Zin-Palna.
Apareceu Nicpetoj e contou que tinha indagado o meio
que elas t i n h a m e s c o l h i d o para consumar o suicídio.
Elas lhe confessaram que queriam morrer asfixiadas.
Para isso f e c h a r a m a tampa da chaminé e abriram a
p o r t i n h a d a e s t u f a d o l a b o r a t ó r i o d e f i s i c a e se sentaram
ali. Efetivamente, havia u m débil cheiro de fumo no
laboratório de fisica.
— Mas, porque sairam do laboratório?
— De medo, respondeu Nicpetoj sorrindo.
Todos soltaram uma gargalhada. Mas Zin-Palna
perguntou:
— Digam-me: qual o suicida que semeia papeisi-
nhos p e l o c h ã o e os p r e g a nas paredes dando todas as
i n d i c a ç õ e s para serem salvas?
T o d o s a c h a r a m q u e ela t i n h a r a z ã o .
— I s s o s i g n i f i c a q u e se t r a t a d e u m a farsa. Alem
d o mais, cias s a b i a m p e r f e i t a m e n t e , q u e antes de m o r r e r
asfixiadas alguém entraria no laboratório de física —
continuou Zin-Palna — . T e r e i d e c h a m a r os p a i s .
Almakfisch que estava presente, disse:
— D o p o n t o de vista f i l o s ó f i c o , trata-se d e : quan-
titativamente de u m transbordamento da é p o c a e quali-
t a t i v a m e n t e , a l g o q u e se s i t u a a l e m d ò b e m e d o m a l .
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 63

J á o u v i isso u m a q u a n t i d a d e d e vezes. Ele o repete


como u m gramofone.

Neste ponto, Nicpetoj levantou o braço e pediu:

— Rogo-lhes que o u ç a m . Estamos edificando u m a


n o v a escola, u m a escola l i v r e . Vocês leram, ou ouviram
c o n t a r q u e a escola a n t i g a n ã o era c o m o a d e h o j e . Está
claro que, como e m qualquer construção p i o n e i r a , sur-
gem toda espccie de obstáculos. Hoje tivemos uma
m a n i f e s t a ç ã o de p r o t e s t o c o n t r a o p l a n o D a l t o n . O sis-
tema n ã o agrada. T a l v e z v o c ê s p r e f e r i s s e m ser empur-
r a d o s a f o r ç a c o m o na escola antiga. Que a instrução
fosse i m p o s t a ! É indiscutivel a d i f i c u l d a d e do plano
Dalton? talvez haja também de parte dos mestres
grandes erros sobre a m a n e i r a de aplicá-lo. Mas tudo
pode ser corrigido. Apenas aquele que não trabalha
n ã o se e n g a n a . A n o v a escola ganha vida no meio de
t r o p e ç õ e s , de u m m o d o t u r b u l e n t o . V o c ê s se declaram
contra a autonomia, contra o plano Dalton; tudo são
dificuldades... Pouco a pouco as v e n c e r e m o s . Estas
duas meninas quiseram colocar mais uma pedra no
caminho, por inconciencia, por estupidez, c alegro-me
que vocês tenham preferido perdôa-las. N ã o se podia
e s p e r a r o u t r a a t i t u d e d a p a r t e d e v o c ê s , os n o v o s homens
livres, nascidos da r e v o l u ç ã o , de u m a é p o c a tempestuosa,
mas j o v e m . P a r e c e q u e n o s s a a d m i n i s t r a d o r a se n e g a a
p e r d o a r as m e n i n a s . M a s estou c o m vocês e p e ç o : não
é preciso chamar os pais. E, sobretudo, não convém
e x p u l s á - l a s d a escola. Creio que saberemos convencê-las
de que devem abandonar suas i d é i a s s u i c i d a s , c o n v e n c ê -
las de q u e d e v e m t e n t a r c o m p r e e n d e r a escola l i v r e , q u e
d e v e m se e s q u e c e r d a s trevas, dos desesperos e dos sui-
cídios. Assim sendo, Zinaida P a v l o v n a , os m e n i n o s e
eu, pedimos-lhe que perdoe L i n a e Zoia.
64 N . O G N E V

Zin-Palna tentou dizer alguma cousa m a s nós gri-


tamos unânimes:
— P e r d o e as m e n i n a s ! perdão!
Z i n - P a l n a teve d c t a p a r os o u v i d o s .
— A s meninas d e v e m sen de i n í c i o , expulsas. Creio
q u e esta s e r á a r e s o l u ç ã o d o C o m i s s a r i a d o d e Instrução
Pública. Mas cu, de minha parte, preferiria n ã o dar
m a i o r i m p o r t â n c i a a o caso. C o m e ç a r i a p o r ser compas-
s i v a c o m e l a s , m a s os a l u n o s , d e v e m , p o r s u a v e z , a c e i t a r
uma condição minha.
A g u ç a m o s os o u v i d o s :
— Que condição?
— A s e g u i n t e — disse Z i n - P a l n a . — P r o c u r a r com-
preender com maior reflexão o plano Dalton, n ã o pro-
testar contra ele com manifestações absurdas. Vocês
reconhecem que é possível demonstrar a d i f i c u l d a d e do
s i s t e m a m a s n ã o sua i n u t i l i d a d e . D e o u t r o l a d o , se q u e -
rem demonstrá-lo, façam-no de u m a maneira razoável,
mas n ã o q u e i m a n d o espantalhos. E i s as m i n h a s c o n d i -
ções.
Calamo-nos. Nicpetoj tomou a palavra:
— B e m , rapazes. As condições parecem-me aceitá-
veis. Temos possibilidade dc discutir razoavelmente o
plano Dalton. Se até hoje tal discussão não foi bem
organizada, foi por falta de tempo e outras cousas.
Então, aceitamos?
V i t o d o s l e v a n t a r e m as m ã o s , e e u , d e m á vontade,
levantei a minha.
— A g o r a — disse Z i n - P a l n a — p e r d ô o Z o i a e Lina.
E me encarrego de conferenciar c o m o Comissariado de
Instrução Pública.
— Viva! — Viva! — gritamos todos e m u n í s s o n o e
com tal estrépito que os t i m p a n o s v i b r a r a m — Bravo
Nicpetoj! Bravo!
E N i c p e t o j f o i carregado em triunfo.
S E G U N D O T R I M E S T R E

P R I M E I R O C A D E R N O

Janeiro 1, 1924.

Durante as festas assisti com os outros meninos à


festa organizada p e l o c l u b e O p e r á r i o . N o s s o alvéolo se
l i g a r á c o m c e r t e z a a essa fábrica.
Silva e e u chegamos à s dez da n o i t e , mas a i n d a n ã o
tinha começado apesar da sala já estar cheia e fazer
m u i t o calor. À s onze chegou o conferencista c começou
a f a l a r dos d i f e r e n t e s deuses. Podia ter sido interes-
sante, mas o o r a d o r estava r o u c o e c a n s a d o e t o d o s fica-
vam prestando atenção no jeito c o m o ele b e b i a agua.
D e repente, no m e i o da c o n f e r ê n c i a , o l h o u p a r a o r e l ó g i o
e disse:
— Camaradas, perdoem-me, mas tenho de compa-
recer ainda a cinco reuniões!
E desapareceu. A conferência ficou por terminar.
Ele d e v i a n ã o t e r c o m e ç a d o , isso s i m . Depois, durante
um tempo enorme, n ã o houve nada e fiquei com sono.
A t é que o pano d o b o c a se l e v a n t o u c c o m e ç o u a farsa.
Na cena, dois padres de paises diferentes discutiam
sobre q u a l deus era m e l h o r . Entra depois u m o p e r á r i o
c o m u m a escova e v a r r e os dois. N ã o sei p a r a q u e , mas
entra em cena também um burguês, sem que a gente
66 N . O G N E V

saiba a t í t u l o de q u e ele e s t á a l i . Entretanto é o melhor,


o mais e n g r a ç a d o de todos. O mais gozado é que abai-
xam os c a l ç õ e s d e l e e a g e n t e v ê a r o u p a i n t e r n a d e b a i x o
d a c a l ç a e p o r m a i s q u e e l e as a r r u m e constantemente,
s e m p r e se a f r o u x a d e n o v o . A c h o q u e se p a r a f a z e r p r o -
p a g a n d a a n t i - r e l i g i o s a , se p o d e e m p r e g a r u m a c o u s a que
faça r i r , conseguiu-se tudo. Porque os informes e as
c o n f e r ê n c i a s , se s ã o c o m o a d e h o j e , r e s u l t a m s i m p l e s -
m e n t e odiosos.
Alem disso, assisti o n t e m , v é s p e r a de Ano Novo,
também c o m Silva, a um espetáculo organizado pelos
grupos primários da nossa escola. Representaram a
"Borralheira Vermelha". Era assim: h a v i a duas i r m ã s
burguesas e uma terceira lavadeira. N ã o sei n a d a a
respeito do autor, mas acho que n ã o s ã o possíveis tais
soluções, principalmente com três irmãs vivendo na
m e s m a casa. D e p o i s , as d u a s b u r g u e s a s v ã o a u m b a i l e
e a outra fica lavando a louça. Aparece então u m indi-
víduo de camisa vermelha que lhe entrega' u m folheto
de propaganda. A borralheira lê, p õ e uma roupa da
i r m ã e sai c o r r e n d o . N o segundo ato, vemos u m grande
baile. A s i r m ã s burguesas estão dansando e há muita
gente c o m umas roupas estranhas. A b o r r a l h e i r a apa-
rece e c o m e ç a a dansar. O P r í n c i p e a convida, mas ela
t e m m e d o dele, foge e p e r d e o s a p a t i n h o . . .
No terceiro ato o p r í n c i p e v a i à casa das irmãs e
se dispõe a e x p e r i m e n t a r os s a p a t i n h o s . E não serve
para ninguém... Só à b o r r a l h e i r a , c o m o se fosse um
anel no dedo. 0- p r í n c i p e e n t ã o a pede e m casamento;
aparece e n t ã o o i n d i v í d u o de camisa v e r m e l h a , anuncia a
revolução e d á uns bofetões no príncipe. O príncipe
foge atropeladamcnte e o de camisa vermelha o perse-
gue. Saem e n t ã o dos b a s t i d o r e s t o d o s os a t o r e s e can-
t a m c o m as i r m ã s a I n t e r n a c i o n a l .
O DIÁRIO D E COSTIA R I A B T S E V 67

H a v i a m n i t a cousa i n v e r o s s í m i l , mas, naturalmente,


nao era possível querer mais daquelas crianças. Todos
representaram muito bem. Fiquei com vontade também
representar. Poraue n ã o o r g a n i z a m o s , n o nosso g r u p o ,
espetáculos? V o u falar com Nicpetoj. Acho, em geral,
o cinema mais divertido, pois lá a gente não precisa
pensar; mas é mais interessante tomar narte como ator;
p e n a q u e n o c i n e m a s ó se p r o j e t e m s o m b r a s .
D e p o i s da f u n ç ã o as crianças dansaram. Cheguei
p e r t o d a rnaesc e disse:

— A camarada n ã o s a b e q u e os b a i l e s f o r a m proi-
bidos?

Mas ela respondeu:


— Em primeiro lugar, camarada Riabtsev, seria
melhor n ã o se meter onde não é chamado. Você já
caceteia b a s t a n t e o seu g r u p o , chega. N ã o é preciso v i r
se meter com o primário. E, se não gosta, pode ir
embora. N ã o compreendo porque é que veio aqui.
Fiquei furioso, mas me controlei e decidi redigir
u m a nota para a r e u n i ã o do alvéolo. O l h e i depois como
d a n s a v a m e p e r g u n t e i a S i l v a se e l a s a b i a d a n s a r . Disse
q u e s i m , mas que n ã o gostava. A p e s a r d i s s o , seus o l h o s
brilhavam! T i n h a o rosto i l u m i n a d o e o laço brincava
a o c o m p a s s o d a m ú s i c a . — C r e i o q u e se e u n ã o e s t i v e s s e
l á ela t e r i a dansado. Para falar a verdade, c u m e sen-
t i a o u t r o ; as l â m p a d a s e s t a v a m t o d a s acesas, c a m ú s i c a ,
e m b o r a houvesse apenas u m piano, comovia o suficiente
para d a r v o n t a d e de fazer a l g u m a cousa q u e n ã o fosse
normal; por exemplo: pronunciar um brilhiute dis-
curso, desfilar diante de todos com uma bandeira ou
fazer uma pirueta. M a s dos nossos, n ã o c o n t a n d o S i l v a ,
n ã o havia ninguém.
D e repente, Silva t o m o u a m i n h a m ã e e disse:
68 N . O G N E V

— Vladlen, n ã o fico aqui n e m mais u m minuto. —


T í n h a m o s c o m b i n a d o que ela m e chamasse de VJ*dlen.
Se v o c ê q u i s e r p o d e f i c a r , m a s c u v o u e m b o r a .
E s t á claro que f u i . Que podia fazer? N o caminho
Silva m e disse:
— S e a g e n t e f o r s a t i s f a z e r t o d o s os c a p r i c h o s o n d e
f i c a r ã o as idéias?
Não pude negar que ela t i n h a razão.

Janeiro 5, 1924.

Não tenho dormido quasi nada de noite. Quis


verificar qual a razão. P o d e r i a ser p o r c a u s a d o s estu-
d o s , m a s d u r a n t e as f é r i a s f i z m u i t o p o u c a c o u s a . Estou
a t r a s a d o , e n e m se f a l a d o s t r a b a l h o s d e D e z e m b r o ; n e m
siquer entreguei alguns de n o v e m b r o . Passeio e p a t i n o
m u i t o , de m o d o q u e n ã o posso c o m p r e e n d e r a r a z ã o da
minha insônia. Cheguei para Serioga B l i n o v e conver-
sei a este r e s p e i t o . Ele perguntou:
— Você lê muito?
— Sim.
Serioga disse que era por isso. Quando saí, quis
v e r i f i c a r se e r a v e r d a d e . A c o n t e c e q u e d u r a n t e as f é r i a s
lí m u i t o p o u c o ; mas alguns fragmentos do que l í ficaram
gravados na minha memória e dc n o i t e penso muito
neles. Por exemplo: lí u m conto chamado: "Encon-
tro". N e l a u m a instrutora francesa mostra a u m rapaz
a perna acima do joelho. É verdade que o rapaz foge
dela porque cia cheirava a suor; mas, de qualquer
m a n e i r a , a cena f i c o u f i x a na m i n h a c a b e ç a . Este conto
está num livro amarelo da Biblioteca Universal. A
gente estuda c o m as m e n i n a s , l u t a c o m e l a s , se encosta
nelas e n ã o sente n a d a ; m a s basta l e r u m a cena destas...
e adeus sono! Porque será?
O DIÁRIO D E COSTIA R I A B T S E V 69

O m a i s s u j o é q u e d e p o i s de t e r p e n s a d o nisso, sem
querer... zis, z á s ! p i m , p a m !

Janeiro 11, 1924.

No "A Bobina" veio uma coleção das palavras pre-


diletas dos a l u n o s :
"Animal, bruto, patife, canalha, maricás, idiota,
demônio, porco, filho da m ã e , oportunista, sacaninha,
tapcador ? sem-vergonha, ladrão..." c "tonto" e "estú-
p i d o " n e m é b o m falar.
E m c o n t i n u a ç ã o v e m u m a nota: " A l g u m a s palavras
n ã o p o d e m aparecer neste j o r n a l para n ã o r u b o r i z á - l o de
vergonha. Isso s e r á i n c u m b ê n c i a d o X . "
No corredor, perto de "A B o b i n a " falamos com
Nicpetoj. E l e acha a I m p r e n s a m o r a l de g r a n d e utili-
d a d e p a r a a escola e p e r g u n t o u :
— Q u e a c h a m v o c ê s q u e se p o d e f a z e r p a r a melho-
rar o vocabulário?
U m dos m e n i n o s a c h o u q u e n ã o h a v i a n e l e n a d a de
mais. Mas, pouco a pouco, a gente pode t o m a r cuidado
com o que diz. Q u e o C o m i t ê p r o i b a as p a l a v r a s mais
f o r t e s e p e r m i t a as m a i s f r a c a s a p a r t i r de diabo, por
exemplo.
N o m e i o d e r i s a d a s d e l i b e r a m o s s ó u s a r as seguintes
palavras: bobo, porco, tonto, estúpido, diabo. As
outras s e r ã o consideradas m u i t o fortes.
Veremos qual será o resultado. Como a reunião não
é o f i c i a l , m a s p a r t i c u l a r , n o c o r r e d o r , as c o n c l u s õ e s n ã o
são obrigatórias. •
N i c p e t o j c h a m o u alguns rapazes e entramos n o labo-
ratório de sociologia. N ã o havia meninas entre nós;
N i c p e t o j disse:
— T e n h o de f a l a r c o m vocês a respeito do costume
de p r o f e r i r obcenidades. Acho que é uma profanação
70 N . O G N E V

cio i d i o m a . Que é que v o c ê s a c h a r i a m se os meninos


viessem p a r a a escola s u j o s , c h e i o s d e e s t é r e o e v e r m e s ?
Respondemos que está claro que seria i n t o l e r á v e l .
— Pois é a mesma cousa c o m as obcenidades. É
a mesma infecção na o r d e m intelectual. A escola a n t i g a
não podia lutar c o n t r a isso p o r q u e os a l u n o s estavam
numa situação de oprimidos. Para protestar diziam
cousas oheenas. Mas vocês, contra o que querem protes-
tar?
Não pudemos responder nada. N o t e i q u e n ã o era
a p r i m e i r a vez q u e N i c p e t o j tocava neste assunto.

Janeiro 12, 1924.

Farras clandestinas! Devem ser divertidíssimas.


V â n i a P a l k i n c o n t o u - m e t u d o e m segredo, sob j u r a m e n t o .
É melhor eu n ã o descrever nada porque de repente
pegam este c a d e r n o . . . Mas estou inquieto... Eètas
farras são ou n ã o permitidas pelo Comsomol?

Janeiro 13, 1924.

Hoje, depois das aulas, uma das meninas se sentou


ao p i a n o e t o c o u u m a s p e ç a s de dansa. As meninas —
g r a n d e s e p e q u e n a s , c o m o se t i v e s s e m f e i t o u m acordo
— se p u s e r a m a d a n s a r .
O s b a i l e s s ã o p r o i b i d o s ; p o r isso, r e u n i a l g u n s m e n i -
n o s e c o m e ç a m o s a p o r os p é s p a r a q u e elas t r o p e ç a s s e m .
Está claro que logo começaram os gritinhos e risadi-
nhas. Os rnaesc apareceram logo c formou-se uma reu-
nião improvisada. Estas são muito melhores, porque
n a s o f i c i a i s a g e n t e se c a c e t e i a , e n q u a n t o q u e n a s impro-
visadas, todos gritam, ninguém fica quieto, porque ê
sempre e m t o r n o de u m assunto p a l p i t a n t e .
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 71

No c o m e ç o , Z i n - P a l n a p e r g u n t o u p o r q u e os r a p a z e s
e r a m c o n t r a os b a i l e s .
— Porque é uma f a l t a de d i s c i p l i n a i d e o l ó g i c a —
respondeu Serioga B l i n o v — . Os bailes n ã o t r a z e m em
si n a d a de e d u c a t i v o o u de sensato. N ã o produzem mais
q u e u m a a p r o x i m a ç ã o sexual dos dois corpos.
Elnikitka interpôs-se:
— C r e i o q u e o s r a p a z e s se o p õ e m a o s b a i l e s p o r q u e
n ã o sabem dansar. O futebol t a m b é m n ã o tem nada de
e d u c a t i v o o u de sensato. É apenas u m a d i v e r s ã o b r u t a l ,
e, e n t r e t a n t o , os r a p a z e s j o g a m e g o s t a m d e j o g a r o f u t e -
bol.
Alguns rapazes g r i t a r a m que o f u t e b o l f o m e n t a v a a
cultura física.
— M a s os b a i l e s t a m b é m — disse Z o i a .
— N ã o estou de a c o r d o . — r e p l i c o u Z i n - P a l n a . Não
se p o d e f a l a r d e c u l t u r a f í s i c a e m r e l a ç ã o a b a i l e s . Em
t o d o o caso, os b a i l e s s ã o u m a d i v e r s ã o m u i t o sugestiva
e , se f o s s e m s u p r i m i d o s , s e r i a preciso substitui-los por
outra. E c o m que? — Eu aconselharia a organização
de outros jogos, p o d i a dar-lhes u m m a n u a l .
Tomei a palavra:
— Em p r i m e i r o l u g a r n ã o se t r a t a de u m jardim
de infância, para que joguemos o j o g o de galinha cega
com as m e n i n a s . Alem disso h á o u t r a d i v e r s ã o muito
razoável à qual ninguém fará objeção. Estive durante
as f é r i a s n a s e ç ã o d o p r i m á r i o e v i os p e q u e n o s repre-
sentarem. F i q u e i c o m vontade de fazer o mesmo. Por-
que n ã o organizar f u n ç õ e s teatrais? A c h o que n i n g u é m
t i n h a p e n s a d o nisso.
— T e m toda a r a z ã o — respondeu Zin-Palna. Nin-
g u é m se o c u p o u d i s s o . Se u m d o s p r o f e s s o r e s q u i s e r se
encarregar disso, eu, por minha parte, não ponho
nenhum obstáculo.
72 N . O G N E V

Dirigimo-nos todos para Nicpetoj e ele aceitou.


Disse que í a p r o c u r a r u m a o b r a a d e q u a d a . D e p o i s nos
separamos, mas V e n i a P a l k i n m e c h a m o u e m e fez j u r a r
que eu n ã o diria a n i n g u é m . Depois me contou que por
ocasião do antigo A n o N o v o t i n h a u m a farra clandestina
e m e deu o endereço. É preciso i r às nove e j á s ã o oito.
Disse ao m e u p a i q u e í a ao c i n e m a , e ele m e deu um
limarão.

Janeiro 14, 1924.

É proibido falar e escrever sobre as farras noturnas.


Se n ã o c o n t a r i a u m a p o r ç ã o de cousas. Mas é segredo.
Lá encontrei Lina e fiquei espantadíssimo.

Janeiro 15, 1924.

As tarefas escolares continuam no mesmo andamento


e j á n ã o s ã o t ã o penosas p o r q u e n ã o f a ç o m a i s p a r t e do
Comitê. E n t r e g u e i os t r a b a l h o s de n o v e m b r o e parte
dos de d e z e m b r o .

Nicpetoj trouxe hoje um livro e nos reuniu a todos


no auditório.
— Riabtsev — disse e l e — p r o p ô s q u e n ó s fizesse-
mos teatro e f o i uma feliz idéia. Mas n ã o havendo obras
teatrais modernas, p r o p o n h o que representemos Sh&kes-
pcare. Precisamente o "Hamlet". Está claro que, à
p r i m e i r a v i s t a , esta o b r a n ã o t e m n a d a de revolucioná-
rio, eu sei d i s s o ; mas é apenas i m p r e s s ã o superficial.
Ao contrário, aos poucos se vai percebendo a grande
rebeldia latente e m suas entranhas.

E começou a ler-nos imediatamente. Ele lê admi-


r a v e l m e n t e e d á gosto o u v í - l o ; m a s h á m u i t a f a l s i d a d e
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 73

na obra. S ã o desculpaveis, pois f o i escrita a cerca de


quinhentos anos e Sbakespeare fê-la para a r a i n h a e n ã o
para o operariado.
V o u t r a n s c r e v e r as o b j e ç õ e s q u e f i z a o " H a m l e t " d e
Shakespeare:
"De i n í c i o , se f a l a d a g u a r d a da entrada. Aparece
ura espírito. Depois H a m l e t surge e o espírito o leva
para longe e começa a contar o modo pelo qual foi
envenenado. Acontece que o espírito é o do pai de
H a m l e t e, e f e t i v a m e n t e t i n h a s i d o e n v e n e n a d o pelo seu
i r m ã o , i s t o é , p e l o t i o de H a m l e t e r e i sucessor d o pai
desaparecido. Já aqui há dois erros. Primeiro: os
espíritos n ã o existem realmente; mas, j á que ele apa-
rece, e u , n o l u g a r de H a m l e t f u g i r i a c o r r e n d o e m vez de
f a l a r c o m ele, p o r q u e c o n t r a os e s p í r i t o s n ã o h á armas
que v a l h a i n se l h e s ocorrem estrangular alguém. Em
segundo lugar, o espírito conta que foi envenenado
enquanto dormia. Nunca ví falar dessa maneira de
matar. B o m , m a s isso p a s s a : talvez naquele t e m p o era
esse o costume.
"O maior erro de Sbakespeare é o seguinte: Há
u m velho chamado P o l o n i o m , que t e m u m a f i l h a , Ofélia
e u m filho, Laerte. H a m l e t corteja O f c l i a e parece estar
"enamorado dela, embora isso não esteja muito claro.
Laerte vive na França e o velho está constantemente
preocupado com o filho, temendo q u e e l e se t o r n e um
perdido. Depois, todos começam a notar que Hamlet
está transtornado e atribuem o f a t o ao seu amor por
O f é l i a ; mas, realmente, é o e s p í r i t o o que o inquieta,
e e l e se f i n g e d e l o u c o , d e p r o p ó s i t o , p o r q u e q u e r saber
se o e s p í r i t o d i s s e a v e r d a d e s o b r e o envenenamento.
" H a m l e t , já louco, organiza uma f u n ç ã o teatral na
qual representam como f o i envenenado o r e i , seu pai.
O n o v o r e i , i s t o é , o t i o d e H a m l e t , assiste a o espetáculo,
assim como a m ã e do p r í n c i p e . Eis aqui u m erro i m p o r -
74 N . O G N E V

tantc. A c h o que me3ino naquele t e m p o n ã o d e i x a r i a m


um louco organizar u m espetáculo, mas fechá-lo-iam,
sem mais e x p l i c a ç õ e s , n u m m a n i c ô m i o . Seja c o m o f o r ,
os r e i s se s e n t a m t r a n q ü i l a m e n t e para assistir a função
m a s a o v e r o q u e se t r a t a , d e s a n d a m a c o r r e r . Hamlet,
de p r o p ó s i t o , f a z alardes de l o u c u r a . P r i m e i r o senta-se
n o c h ã o e m vez de f a z ê - l o na c a d e i r a ; depois, i n t e r r o m p e
a f u n ç ã o dizendo disparates e grita desabaladamente: w

O veado f o i ferido pela flecha! " O r e i se e n f u r e c e u


e é isso m e s m o o q u e H a m l e t queria. Agora já sabe
q u e f o i r e a l m e n t e o r e i q u e m e n v e n e n o u seu p a i . Ape-
sar d a o r i g e m b u r g u e s a , H a m l e t á u m r a p a z d e b o m sen-
so; sustenta um diálogo com a r a i n h a , sua m ã e , o n d e
p a r e c e q u e esta l h e p e d e p e r d ã o , e n q u a n t o q u e o v e l h o -
te P o l ô n i o escuta atrás da cortina. Hamlet percebe e
com sua e s p a d a o m a t a a t r a v é s d a c o r t i n a , c o m o a um
animal. E, em conseqüência, Ofélia enlouquece, e Laer-
t e v o l t a da F r a n ç a e p r o c u r a m a t a r H a m l e t porque es-
te matou Polônio. C o m este f i m , L a e r t e e n v e n e n a a
espada c desafia H a m l e t . U m d u e l o — era o n o m e que
se d a v a n a q u e l e t e m p o a u m a l u t a e n t r e d o i s - . Para
acabar com Hamlet, com mais tino, o rei prepara uma
taça enevenenada. Acontece que H a m l e t mata Laerte e a
taça envenenada vai parar nas mãos da rainha, sendo
que depois, H a m l e t atravessa o rei t a m b é m c o m sua es-
pada. A n t e s d o f i m , h á u m a cena e m que H a m l e t fala
com umas caveiras m a s isso m e parece uma bobagem.
Só a u m louco ocorriria f a l a r c o m caveiras. Mas Ham-
let n ã o é louco, apenas f i n g e que é. "
A m a i o r i a v o t o u a f a v o r da o b r a . Eu me abstive.
C r e i o que seria m e l h o r u m a m o d e r n a , cora b a r r i c a d a s e
lutas r e v o l u c i o n á r i a s .
Zoia assistiu à l e i t u r a de H a m l e t c o m g r a n d e aten-
ção. _Xina n ã o apareceu, n ã o sei p o r q u e .
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 75

Janeiro 16, 1924.

Até hoje não falei a ninguém a respeito das farras


clandestinas. Segredo absoluto. Venia Palkin me disse
q u e , e m g e r a l , n i n g u é m f a l a sobre isso. É m u i t o impor-
tante.
Mas, de q u a l q u e r maneira, tenho u m a d ú v i d a : Cor-
r e s p o n d e r á à ideologia do Comsomol e à luta comunista
e m geral? N ã o q u e r o f a l a r c o m S i l v a a este respeito;
n ã o tenho confiança. P a l k i n , m e s m o m e disse q u e n ã o
devo f a l a r com Silva p o r q u e ela é diferente. N ã o te-
nho ninguém para me aconselhar. Venia Palkin n ã o é
do Comsomol. Perguntar a algum dos antigos mem-
bros do Comsomol é perigoso; poderia deitar tudo a
p e r d e r — N ã o sei o q u e fazer.

Janeiro 17, 1924.

Hoje acabou a nossa revolta contra Dalton. O ins-


trutor apareceu e houve uma reunião geral. Falou-se
da questão da organização da escola e dos estudos se-
gundo o sistema Dalton. Uma caceteação dos diabos.
Passei o t e m p o t o d o fazendo o e s b o ç o de u m cartaz de
propaganda. Zin-Palna contou que t í n h a m o s posto f o -
go n o e s p a n t a l h o de l o r d D a l t o n — N ã o h a v i a necessida-
de de f a z e r isso. Foi uma criancice: para que contar
ao i n s t r u t o r ? Este c o m e ç o u a r i r e disse:
— Vocês têm vivido sem precisar de n i n g u é m , e
agora n ã o souberam orientar-se. A culpa é de todos,
alunos e professores, e parece que é n e c e s s á r i o i n t r o -
d u z i r h o j e na escola u r a b i s t u r í , isto é , u m a i n t e r v e n ç ã o
minha. Creio que, depois, vocês p a s s a r ã o perfeitamen-
te sem o bisturí. Agora pergunto: Q u a i s os defeitos
q u e v o c ê s v ê e m n o sistema D a l t o n e q u a l a m a n e i r a de
eliminá-los?
76 N . O G N E V

Choveram acusações contra Dalton de todos os l a -


dos. . . N ã o havia manuais e m quantidade suficiente, n ã o
d a v a t e m p o , p r i n c i p a l m e n t e p a r a os q u e t i n h a m cargos
sociais... e outras cousas. Depois eu me levantei:
— E o p i o r d e t u d o — disse e u — é q u e o p l a n o D a l -
t o n f a z a c a b e ç a estalar e as m ã o s tremerem.
Gargalhadas de t o d o lado.
— D e que é que estão r i n d o ? — perguntei — . Tive
de passar noites i n t e i r a s sem d o r m i r , sobretudo quando
e r a m e m b r o d o C o m i t ê , e isso n ã o m e p a r e c e m o t i v o pa-
ra risadas . E todos estão na mesma situação. Alem
d i s s o , se e s t u d a m u i t o menos. Antes, no nosso grupo,
n ã o h a v i a n i n g u é m q u e se a r r a s t a s s e , e a g o r a s i m .
— Quem? — perguntou Zin-Palna.
— Eu — respondi, e todos t o r n a r a m a r i r . Acho
que também isso n ã o é m o t i v o para galhofa. — repli-
quei, incomodado — . D a l t o n me constrange como um
saco a o m e u r e d o r . N ã o posso f a z e r n a d a sem m e lem-
b r a r que n ã o entreguei tais e tais t r a b a l h o s ; os d e ma-
temática, os d e história n a t u r a l , os diagramas..* Não
há onde estudar, n ã o d á tempo. Não há horas vagas,
n e m para ler, n e m para patinar...
— Precisamente — interveio E l n i k i t k a , a víbora —
v o c ê , e u v í p a t i n a r d u r a n t e as f é r i a s , R a i b t s e v — .
— Então? Queria que e u ficasse e n c e r r a d o entre
quatro paredes?
Ái o instrutor me perguntou:
— E porque, Riabtsev, você n ã o entrega os traba-
lhos a tempo?
— Porque não dá; alem disso, f u i membro do
Comitê.
0 instrutor perguntou:
— Z i n o i d a P a i l o v n a : os O u t r o s t a m b é m estão atra-
sados?
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 77

— N ã o . A maioria avança normalmente.


Levei a pior. O plano Dalton n ã o f o i suprimido.
N e m o s e r i a , e m b o r a t o d o s os a l u n o s e s t i v e s s e m atrasa-
dos. Nossa escola c o n t i n u a sendo c o m a n d a d a pelos ma-
esc, e n ó s s o m o s c o m o esses s e r v o s q u e N i c p e t o j conta
que s ó e r a m livres depois dc terem trabalhado o diai n -
teiro para o senhor. O s i n s t r u t o r e s e os o u t r o s chefes
s e m p r e a p o i a m os rnaesc, embora e u tenha minhas dúvi-
d a s se n a s o u t r a s e s c o l a s se d á o m e s m o . O pior é que
nós, d o curso secundário, somos tratados ainda, como
crianças.
C o m o despedida, Z i n - P a l n a disse:
— A escola se estabeleceu definitivamente. A o
estudo! A o estudo! V o c ê s se l e m b r a m d e q u e m é i s -
so?
— De Lenine! De Lenine!
E assim t e r m i n o u a r e u n i ã o .

Janeiro 18, 1924.

Os papeis foram distribuídos c Serioga Blinov ga-


nhou o dc Hamlet. E u n ã o representaria p i o r q u e ele.
Mas terei de fazer Laerte. É verdade que v o u esgrimir,
mas mesmo assim, n ã o é o mesmo. Aos diabos c o m
todos! Tenho de me contentar c o m Laerte: sempre é
melhor que nada. Ensaiei h o j e a esgrima e a morte.
N ã o s a i u m a l , p r i n c i p a l m e n t e esse pedaço:
"Que acontece comigo? Estou ferido! Hamlet
tirou-me o florete. Estou perdido!"
— " A t i , e à r a i n h a , vos perdeu o r e i . . . o rei."

A última palavra "o rei!", é preciso dizer baixo,


c o m o q u a n d o a g e n t e f a l a d u r a n t e as a u l a s .

a
78 N . O C N E V

Com as m e n i n a s houve mais dificuldade. Na ver-


d a d e , s e m c o n t a r as s e r v e n t e s , n ã o h á s e n ã o d o i s papeis
f e m i n i n o s : o d a r a i n h a e o de O f é l i a . E, claro que todas
queriam fazer Ofélia. Vieram trinta e duas meninas
de v á r i o s grupos. N i c p e t o j esteve e n s a i a n d o com elas,
obrigando-as a ler, andar, se m o v e r . N ã o c o n s e g u i u se
decidir por nenhuma e deixou para amanhã.
N ò m o m e n t o q u e ele s a i u d o a u d i t ó r i o c o m e ç o u o
barulho. Todas começaram a gritar. Uma dizia: —•
Você está m u i t o mal, nem voz você tem! E outra:
Você é muito baixa para Ofclia! Outra: Sc o papel
n ã o f o r m e u eu n ã o farei parte do teatro! E entre tan-
t a g r i t a r i a n ã o se p o d i a f a z e r n a d a . Propus que tiras-
s e m a s o r t e m a s e l a s f i c a r a m i r r i t a d a s e e u c o n s e g u i es-
capulir. . .
L i n a n ã o apareceu. N ã o esteve t a m b é m na escola
1
e Z o i a n ã o e n s a i o u ; f i c o u a u m a certa d i s t â n c i a das ou-
tras. Em geral, depois daquele incidente — o dela e
d e L i n a , q u a n d o q u i s e r a m se s u i c i d a r , m a s t i v e r a m me-
d o — ela e s t á m u i t o reservada.
Silva n ã o assistiu à distribuição dos papeis pois
acha que n ã o tem jeito para o teatro. Quis convencê-
la, m a s ela n ã o c e d e u . . . Disse q u e j á t i n h a ensaiado
sem êxito a l g u m .

Janeiro 19, 1924.

Venia Palkin apeser de ser da praça Sujarev — o


pai dele t e m u m a loja l á — é o m e l h o r aluno do quarto
grupo. Os rnaesc d i z e m que ele t e m m u i t a capacidade,
e é v e r d a d e m e s m o ; t o d a s as v e z e s q u e l h e p e d i q u e nte
ajudasse a resolver problemas o u m e explicasse história,
sempre o fez de u m a m a n e i r a a d m i r á v e l . T e m u m a ima-
ginação fertilissima. No ano passado começou a me
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 79

contar a história da A m é r i c a e m e disse q u e c s t i v e r a l a .


Nao a c r e d i t e i p o r q u e p a r a isso é p r e c i s o f a l a r i n g l ê s , e
Venia não sabe, segundo ele mesmo confessa. Fingi
que acreditava e então me revelou confidencialmente
que quer voltar para a America e que talvez m e leve
c o m ele. F o i e n t ã o q u e e u v í q u e ele estava m e n t i n d o ,
m a s ele dissimulou.
Entretanto, quanto às farras clandestinas, disse a
verdade. Mas continuo com o pensamento firme que
elas n ã o c o r r e s p o n d e m à i d e o l o g i a c o m u n i s t a .
Houve ensaio de Hamlet, e de noite apareceu no
" A B o b i n a " u m a caricatura de Serioga B l i n o v ameaçan-
d o c o m os p u n h o s f e c h a d o s o s m e n i n o s q u e o r o d e a v a m
vivamente. E m b a i x o estava escrito:
— "Que foi, cidadãos? Assassinaram alguém?
P o r q u e esses g r i t o s ? "
— " N ã o é nada, estamos ensaiando Hamlet! "
Houve, de fato, grande alvoroço. Serioga t e m u m a
voz p r o f u n d a de b a i x o , e está s è m a t a n d o . Zoia ensaiou
o p a p e l d e O f c l i a e N i c p e t o j a f i r m o u q u e n ã o estava na-
da r u i m . E é v e r d a d e : está a t é m u i t o b e m , e m b o r a eu
c r e i a q u e p o d i a a i n d a ser m e l h o r . T r e n e i o m a n e j o d o
floretc — isto é — de u m a vara — e queria que todos
viessem v e r ; mas n ã o chegamos a ensaiar o ú l t i m o ato.
N ã o deu tempo.

Janeiro 22, 1924.

Parece que o mundo se afoga nas mais densas tre-


vas. S ã o t r ê s horas c d e n t r o da m a d r u g a d a e estou sen-
t a d o a u m a m e s a , s e m p o d e r c o o r d e n a r as i d é i a s . P e n s e i
que era u m a farsa, mas v e j o que n ã o , que é verdade
mesmo. O mundo escolar m e parece m e s q u i n h o , re-
p u g n a n t e c o m o se t o d o s n ó s f o s s e m o s i n s e t o s a p e n a s v i -
síveis através do microscópio...
80 N . O C N E V

Os cristais da janela e s t ã o gelados p e l o f r i o intenso


e os a r a b e s c o s s ã o os d e u m a t a u d e . Música t r i s t e res-
soa nos meus ouvidos e o n d u l a m no ar faixas negras.
S i n t o a c a b e ç a oca. N ã o posso o r d e n a r m i n h a s ideiae...
(As t r ê s p á g i n a s seguintes e s t ã o riscadas a tinta).

Janeiro 30, 1924.

Tentei fazer versos e descrever tudo aquilo que ví,


mas n ã o consegui nada q u e m e satisfizesse. N ã o havia
palavras suficientes. S i n t o t e r crescido dez anos neste
p o u c o s d i a s e as p a l a v r a s q u e , c o m o r a p a z , e u t e r i a , f o -
gem agora de m i m .

Janeiro 31, 1924.

Até agora, não foi retomada a vida normal na


escola.
A m o r t e de L e n i n e impressionou todos de t a l ma-
n e i r a e t r a n s t o r n o u t a n t o a n o r m a l i d a d e , q u e n e m os es-
tudos nem as diversões puderam começar. Os rnaesc
nem falam dos trabalhos. Todos compreendem que é
preciso estudar, mas, ao m e s m o t e m p o , n ã o é possível
exigir-se que comecemos j á a fazê-lo. Nicpetoj tem nos
lido m u i t o e m voz alta. As meninas choram.
O papel de Ofélia será desempenhado por Zoia.
Já é definitivo. T i v e m o s o u t r o ensaio h o j e mas esteve
desanimado: todos l i a m seus p a p e i s s e m i n t e r e s s e . N ã o
h á entusiasmo.
Zinaida Pavlovna declarou que agora, o principal
s ã o os estudos, e q u e d e v e m o s f a z e r o p o s s í v e l p a r a v e n -
cer t o d o s os o b s t á c u l o s .
Ela t e m t o d a a r a z ã o deste m u n d o .
SEGUNDO C A D E R N O

Fevereiro 3, 1924.

"A Bobina" abriu uma enquete, entre os primeiros


grupos, sobre o p r o b l e m a :

"QUAL O FIM DA VIDA?"

Nestes dias, estamos todos penetrados de idéias se-


rias e " A B o b i n a " recebeu m u i t a s respostas das quais
e u c o p i e i as m a i s interessantes:

PRIMEIRO GRUPO. A)

1. É preciso viver para o estudo, para conhecer o desconhecido.


(Que farsa; V . R i a b t s e v ) .

2. Vivemos para estudar, para sermos felizes, para sofrer e ajudar


o p r ó x i m o . E para muitas outras cousas!

PRIMEIRO GRUPO. B)

1. Vivemos e estudamos para criar um país forte e culto e para


a j u d a r o p r ó x i m o . Devemos saber que de g r ã o e m g r ã o a
galinha enche o papo e cada homem é u m g r ã o que vive e
trabalha e prndu/. obras grandes, pequenas e m é d i a s . Mas se
o g r ã o n ã o faz nada, deve saber que estorva, que n ã o está
alimentando a galiuha, que deve desaparecer. P o r isso, esfor-
cemo-nos por a d q u i r i r conhecimentos que nos p e r m i t a m
defender a R ú s s i a dos Soviets contra a m a l d i t a burguesia.

2. Vivemos para gozar. Estudamos para criar uma situação grata


onde repousaremos. Gozamos quando nos l ê m u m l i v r o inte-
ressante, quanto ouvimos uma conversa a g r a d á v e l . Sentimos
t a m b é m prazer ao entregar u m trabalho.
N . O G N E V

V i v o para estudar e ser no f u t u r o uma m u l h e r eulta. Não


quero ser ignorante porque s o f r e r i a a o p r e s s ã o de todos.

SEGUNDO GHUPO

É preciso estudar para ser útil ao país e a sí mesmo. Se não


o f o r para m i m mesmo, terei m o r r i d o sem t e r v i v i d o . É
preciso v i v e r com p r o v e i t o .
Creio que c preciso v i v e r pela p r ó p r i a vida.
O p o b r e vive, trabalha, perde seu tempo para p o d e r v i v e r ;
u m b u r g u ê s t a m b é m v i v e para v i v e r m e l h o r — naturalmente,
é u m inconciente. O h o m e m de r e p r e s e n t a ç ã o social trabalha
para que a vida do p r ó x i m o seja m e l h o r , embora isso lhe custe
à s vezes, a p r ó p r i a vida. E m resumo, vivemos p o r uma vida
melhor, se n ã o para n ó s , pelo menos para os demais. É o
exemplo de V l a d í m i r I H i c h , nosso mestre recem-faleeido.
É preciso v i v e r para satisfazer às necessidades. ( E u gostaria
de saber q u e m escreveu isso; mas os redatores do j o r n a l n ã o
querem dizer. Esta resposta revela uma i n c o n c i ê n c i a abso-
luta e se assemelha menos a u m h o m e m que a u m b r u t o .
V . R.)
O f i m da vida é a c r i a ç ã o do u m f u t u r o s ó l i d o para as g e r a ç õ e s
futuras.
É preciso viver, para defender de armas na m ã o , as conquistas
do p r o l e t a r i a d o .
Costuma-se dizer que o f i m da vida consiste na c r i a ç ã o de
u m a nova c u l t u r a para a nova g e r a ç ã o . Mas isso n ã o m s
satisfaz. C r e i o que o f i m da vida é o seguinte: v i v e r p a c i f i -
camente, salvo ligeiras e m o ç õ e s . ( D e onde s a i r ã o tantos
burgueses? V . R . )

TERCEIRO GRUPO (O nosso)

Naturalmente, não é ficar olhando estupidamente como os


outros l u t a m e conquistam, mas l u t a r e vencer p o r si mesmo.
N ã o dar s a t i s f a ç ã o a n i n g u é m de nada e p r o c u r a r saber de
t u d o p o r si mesmo. ( N ã o está m a l ! V . R . )
O redator de " A . B o b i n a " , ao fazer esta pergunta, pretendeu,
pelo que parece, a t i n g i r altitudes f i l o s ó f i c a s . O u e n t ã o , sen-
tiu-se atacado por u m medo h o r r í v e l diante do vazio da vida
h u m a n a . N o p r i m e i r o caso, está tudo b e m . N o segundo, n ã o .
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 83

E p o r q u e : " É preciso v i v e r pela p r ó p r i a v i d a " , é a ú n i c a


resposta à pergunta, apesar de estranho e u n i l a t e r a l . O f i m
e a s u b s t â n c i a da vida humana e s t ã o na p r ó p r i a v i d a , no
processo da vida. Para comoreender o f i m e a essência da
v i d a é preciso em p r i m e i r o lugar, amar a vida, p e n e t r á - l a
i n t e i r a m e n t e ; e s ó e n t ã o , seu sentido s e r á c l a r o , porque s ó
e n t ã o se e s t a r á v i v e n d o . A vida n ã o precisa de teorias, ao
c o n t r á r i o de t u d o a q u i l o que o h o m e m c r i o u .

É o que se sente, na inquietação da vida atual, quan-


do é fácil t o m a r parte na vida social e política, quando
se p o d e e s c o l h e r a p r o f i s s ã o q u e m a i s a g r a d a . Avançar,
alegres, p o r ter t o m a d o c o n h e c i m e n t o de u m a t e o r i a re-
novadora,'palpitante e cheia dc vida.
Antigamente, quando os a l u n o s , a b o r r e c i d o s c o m o
ensino estéril, por uma vida tediosa, o l h a v a m a l u a e
ouviam o rouxinol cantar, pesavam na inutilidade da
vida humana c chegavam a p e r d e r o gosto e a t é o ape-
t i t e p e l a v i d a . T e r m i n a v a m p o r s u i c i d a r - s e , d e i x a n d o es-
c r i t o q u e " n ã o v a l i a a p e n a v i v e r " . É o q u e se encontra
na l i t e r a t u r a a n t e r i o r à r e v o l u ç ã o . Por exemplo "His-
tória de u m a vida de tédio" de T c h e c o v , a " V i d a do
homem" de Andreiev. Podemos r i r e perguntar: "É
possível que realmente tenham existido estes t i p o s e
autores, e estes a u t o r e s t ã o alheios à vida, t ã o incom-
preensivos?"
Sim. H o u v e g e r a ç õ e s daqueles que n ã o viviam,
apenas pensavam viver. Mas fracassaram rotundamente.
Pertenciam à nossa p o b r e i n t e l e c t u a l i d a d e m o r t a . Por
i s s o , se e s t a p e r g u n t a t e m u m c a r á t e r p e s s i m i s t a , n ã o t e m
lugar no nosso m u n d o contemporâneo. Pertence ao
passado. M a s se a p e r g u n t a é s ã , s i n c e r a , n ã o é p o s s í v e l
evitar respondê-la. N ã o c i t a r e i c o m o e x e m p l o as r e f l e -
xões de Tolstoi, que a f i r m a v a que era i n ú t i l querer en-
tender o sentido da vida porque o h o m e m é semelhante
ao cavalo que nunca p e r c e b e r á a r a z ã o p o r q u e é chico-
84 N . O G N E V

teado. A o contrario, é preciso ter f é na e x p a n s ã o ilimi-


tada da inteligência. ( A c h o q u e f o i u m dos rnaesc que
escreveu esta resposta. V.IÇ..)

Fevereiro 5, 1924.

Houve ontem uma farra clandestina. Mas nao me


diverti. M e u pensamento estava n o f i m da vida. En-
contrei Lina. Perguntei p o r q u e nao aparecia na escola
e ela respondeu: Não é da sua conta! Chamei-a de
estúpida.

Ensaiamos Hamlet animadamente. Serioga Blinov


m u g i a c o m o u m b o i e se m o v i a n o c e n á r i o c o m o u m v e r -
dadeiro louco. Ocorreu-lhe fazer o seguinte: quando
fala c o m o coveiro,"em vez de j o g a r a caveira n o fosso,
arrojou-se na cabeça dele, para demonstrar que ele,
Hamlet, estava mesmo lottco. Ele dramatiza o papel
com veemência. E no duelo, f u i eu que f i z ele perder
o florete, até que Nicpetoj chamou a atenção dizendo
que estávamos em cena e era preciso obedecer a Sha-
kespeare. Ora, porque Serioga n ã o aprendeu a esgri-
m i r c o m o se d e v e ?

Zoia muda de roupa em cada ato. Não sei como


tem tempo. Disse que vai ser assim no dia e está
treinando. Quando fica louca e diz cousas absurdas,
e n f e i t a os c a b e l o s c o m f l o r e s d e p a p e l , c n l a n g u e s c e os
olhos e canta c o m voz baixa, provocando e m m i m u m
sentimento vago de i n q u i e t a ç ã o . Está ficando mais bo-
nita. Q u e s i g n i f i c a ç ã o t e r á essas m u d a n ç a s d e t r a j e ?

A r a i n h a t e m dez criadas e c o m o o c e n á r i o é mui-


to pequeno c as camareiras permanecem nele todo o
t e m p o , n ã o é p o s s í v e l a g e n t e se m e x e r . B r i g a m o s sem-
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 85

pre, dizemo-nos insultos, a ponto de á s vezes o ensaio


ter de ser interrompido.

Fevereiro 8, 1924.

Pedi há uns oito dias, a Nicpetoj, "Os colegiais", de


B a r i n , do q u a l ele nos t i n h a l i d o u m a cena onde apa-
reciam Kartachov e Korneva. Eu tinha ficado impres-
sionado pela cena e m q u e T i o m a K a r t a c h o v , ao regres-
sar a casa, v ê , n ú a a t é a c o x a , as p e r n a s d e uma don-
zela e...
Quasi n ã o d o r m i de noite. V e j o sempre a donze-
la. E , está claro, p i m , p a m ! zas, tras!. É desagradá-
vel. F i c o c o m a c a b e ç a pesada, sem poder estudar.

Fevereiro 10 1924.
9

Apareceu um número novo do "X", caçoando do


"A Bobina" e da enquete sobre o f i m da vida. Tem
um a r t i g o "Â respeito do fim da vida na nossa escola".
— Há pouco, " A Bobina" se dedicou a temas filosó-
ficos e p r o p ô s o problema de esclarecer o f i m da vida;
em geral, X , como j á se d e c l a r o u v á r i a s v e z e s , procura
fazer tudo pela escola e a p r o v e i t a a ocasião para falar
sobre o f i m da vida no mundo escolar. Empregare-
mos o método i n d u t i v o , isto é, p a r t i n d o do particular
para maior brevidade, enunciaremos em destaque as
tendências existentes sobre o problema. Os lemas se-
guidos são:

1. — Procure descobrir o que ate boje lhe é desconhecido. Por


exemplo, descubra o " m o t o c o n t í n u o " .
2 . — A i n s t r u ç ã o é l u z , a i g n o r â n c i a , treva!
3 . — V i v a a dansa!

V
86 N . O G N E V

4. — V i v a a vida t r a n q ü i l a com pequenas e m o ç õ e s !


5. — Satisfaz as necessidades: n ã o e s q u e ç a de assoar o nariz e
ir ao...
6 . — E n o c i v o estudar m u i t o na a d o l e s c ê n c i a ! v i v a a vagabunda-
g e m ! . . . e p a r t i n d o do p a r t i c u l a r para o geral, exclamare-
mos: Amarrota-o, eu o c o n h e ç o , m o r a na nossa r u a ! " .

Acho isso idiota, sem graça nenhuma. O fim da


vida é algo extremamente sério. E' uma situação crí-
tica saber o u n ã o o que fazer.

Fevereiro 11, 1924.

Ví ontem o camarada Vanka Petujov. Está agora


na fábrica. Ganha muito e sustenta toda a família.
Aconselhou-me a entrar na fábrica, mas respondi que
preferia terminar os estudos. Falei com ele a respei-
to do f i m da vida e ele disse c o m uma simplicidade
absoluta:
— Vivemos para edificar o novo regimen em subs-
t i t u i ç ã o ao v e l h o , j á podre.
E r a o que eu pensava, mas a enquete do " A Bobi-
na" me confundiu.
Falamos também do problema sexual. Ele me
disse:
— N ã o e x i s t e esse p r o b l e m a n a f á b r i c a . Se a gen-
te gosta de uma menina a gente se aproxima dela e
diz: "Eu gosto de você. Quer v i r passear comigo?"
Se e l a n ã o quer, vira as costas, s e n ã o ela vai com a
gente.
— Então — perguntei — v a i de f a t o passear?
— Claro. Como marido e mulher. Isso é t ã o ne-
cessário como o alimento. Sem comer não podemos
viver. S e m isso, t a m b é m n ã o .
— Bom, e se vem uma criança?
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 87

— Q u e m pensa nisso q u a n t o vai...


— E você, Vanka, t a m b é m f a z isso?
— Você achou que não?
— N ã o creio que você esteja dizendo a verdade
absoluta, ao m e n o s no q u e se r e f e r e a s u a pessoa.

Fevereiro 12, 1924.

Os ensaios continuam. Serioga Blinov está sem


voz, mas m e s m o assim d á m e d o . . . A l e m disso, i n v e n t a
truques novos. Por exemplo, hoje, quando o rei sai
do espetáculo e Hamlet grita: " O cervo f o i ferido c o m
a f l e c h a " , Serioga g r i t o u e a t i r o u sobre o r e i , agarrou-o
pela garganta e começou a estrangulá-lo. Parecia lou-
co de verdade. Nicpetoj pulou para o palco, segurou
Serioga pelos o m b r o s e disse:
— Que aconteceu?
— Quero demonstrar ao r e i que estou louco.
— E m Shakcspeare n ã o e s t á assim.
— E o que é que tem? E' uma criação do diretor
de cena.
— Acontece que o d i r e t o r de cena sou eu, e não
você. E aqui apenas um deve mandar. Alem disso,
se v a m o s p o r esse c a m i n h o , H a m l e t d e v e r i a p u l a r m u -
r o s e i n c e n d i a r casas.
O d i r e t o r d e v e d a r l i b e r d a d e aos a r t i s t a s — res-
pondeu Serioga. Senão n ã o seremos artistas, mas sim
marionetes.
— Deixo-lhe a liberdade que quiser, contanto que
nao recorra a estranffulaçao.
T a m b é m a q u i t e m o s de s u p o r t a r a o p r e s s ã o dos
rnaesc — resmungou Serioffa.
A c h o q u e os a r t i s t a s d e v e m t e r l i b e r d a d e . Eu,
por exemplo, represento Laerte e Hamlet me atira fora
88 N . O G N E V

o florete. Mas eu faria assim: primeiro arrancaria o


florete de Hamlot, deixá-lo-ía recolher generosamente
e depois ele atirar-se-ia sobre m i m .
H o j e , q u a n d o v o l t e i da escola f u i r e c e b i d o p o r m e u
pai que estava com um ar preocupado. Perguntei o
q u e e r a e, e m v e z d e r e s p o n d e r , e s t e n d e u - m e u m p a p e l .
Suas m ã o s t r e m i a m . Eu lí:

"Queira observar o comportamento de seu filho


Constantino. Recentemente tem m u d a d o m u i t o , n o p i o r
sentido. F r e q ü e n t a uma sociedade onde bebe a t é f i c a r
embriagado. A p r e n d e u a f u m a r tabaco f o r t e e esconde
tudo isso, enganando o senhor. Pagou de entrada dois
limardos e se a p r o x i m o u de rapazes e m o ç a s cuja com-
panhia n ã o pode fazer b e m a l g u m . Aos s á b a d o s , todos
os sócios se r e ú n e m no parque Ivanowsky, para passar
a noite na f a r r a . P o r isso, é p r o v á v e l que Costia, pre-
textando alguma cousa, n ã o tivesse d o r m i d o e m casa na
noite de s á b a d o .
"Esta carta p o d e r á parecer-lhe uma invenção
absurda, mas tenho meios de p r o v a r que contem a ver-
dade. Costia h á tempos que aprendeu a enganar astuta-
mente. O senhor é o ú n i c o que pode ter a l g u m a
i n f l u ê n c i a sobre e l e . "
Fiquei aturdido. Papai perguntou:
— E ' verdade?
— N ã o , papai, n ã o é.
Nuvens passaram s o b r e seus o l h o s .
— Alem do que — insisti — se fosse v e r d a d e , o
senhor j á teria n o t a d o . . J á voltei para casa cheirando
vinho? Diga sinceramente.
— Acho que n ã o , m a s . . . eu n ã o cheirei de perto.
— Mas papai, o senhor t e m olhos o u n ã o ? n ã o po-
deria perceber pela m í n h a cara? O senhor m e v ê to-
d o s os d i a s .

Mas o velho não acreditava. Como convencê-lo?


— V e j a o t e m p o que e u tenho para beber. O se-
nhor sabe q u e q u a s i t o d o s os d i a s n ó s t e m o s reuniões
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 89

C h e g o c m c a s a m o r t o d e c a n s a ç o e, d e p o i s , m e p o n h o a
estudar. Nem um minuto livre. A história do fumo
é verdade. N ã o quis contar para n ã o entristecê-lo; mas
a do vinho é mentira.
Enquanto falava m i n h a cabeça trabalhava sem pa-
rar procurando o canalha que teria escrito aquela car-
ta. E s t a v a e s c r i t a c o m l e t r a d e f o r m a p a r a n ã o ser re-
conhecida. E anônima. Será possível?...
Não pude adivinhar. M e u p a i passeava p e l o quar-
t o , , as m ã o s t r e m e n d o e e u s e n t i a n ã o p o d e r consolá-lo.
A p r o x i m e i - m e e o abracei.
— Acredite, papai. E' tudo mentira. Nunca en-
ganei o senhor. Porque iria começar agora? Pode f i -
car tranqüilo, coma um pouco e se deite. Amanhã,
se o s e n h o r q u i s e r , v á à escola e pergunte à nossa ad-
ministradora. . . Quer?
Ele f i t o u - m e nos olhos e declarou que n ã o iria a
parte alguma; que acreditava em m i m . Mas n ã o pude
ficar tranqüilo. Tenho d e e s c l a r e c e r esse c a s o . Quem
teria escrito u m a carta assim?
N ã o pude d o r m i r a t é agora. Pela primeira vez
n a m i n h a v i d a estou c o n v e n c i d o d a d i f i c u l d a d e de men-
tir a u m velho como o meu.

Fevereiro 13, 1924.

Que cousa! N ã o f o i só meu pai quem recebeu a


carta; outros pais e mães receberam-nas semelhantes.
Foram h o j e , uns seis p a i s falar com Zin-Palna. Esta
convocou imediatamente todos os filhos e falou com
eles l o n g a m e n t e . T o d o s saiam vermelhos como de ura
banho. Fiz uma porção de perguntas a eles, m a s cão
me responderam.
Venia Palkin está m u i t o p á l i d o c n ã o fala com nin-
guém. Acha que alguém descobriu a história das far-
90 N . O G N E V

ras e tem medo que exijam satisfações dele. Mas eu


acho que n ã o deve ter nada a temer. Se descobrirem,
o q u e se t e m a f a z e r é c o n t a r , s i m p l e s m e n t e as cousas
como são. De qualquer maneira, é preciso fazer com
q u e n ã o se d e s c u b r a .
Lina voltou para a escola. Deu como justificação
o f a t o dela t e r estado doente. Veio com os o l h o s i n -
chados de tanto chorar. O pai dela também recebeu
a carta. Chorou o dia todo. No f i m , eu não pude
mais, a p r o x i m e i - m e dela e disse:
— Você chorando nos c o m p r o m e t e a todos. Ain-
da n ã o sabem de nada. Tudo ficará em segredo.
M a s c i a se p ô s a chorar mais ainda e, soluçando
me atirou:
— E t u d o p o r sua c u l p a . V o c ê é que é o culpado!
você! você! Só v o c ê . . . Se n ã o f o s s e v o c ê , eu...
E se desfez em lágrimas.
M a s q u e t e n h o e u a v e r c o m isso? Q u e c u l p a te-
nho? D i z e m q u e e l a q u i s se s u i c i d a r p o r m i n h a c a u s a
mas n ã o é verdade. E se f o s s e , t e n h o c u l p a , p o r a c a s o ,
d e l a se t e r a p a i x o n a d o ? Sou r e s p o n s á v e l pelas farras?
Nisso tenho tanta culpa quanto ela. Eu freqüentava,
s ó isso.

Fevereiro 17 1924.
9

Hoje Zin-Palna convocou, com o consentimento do


Comitê, uma reunião geral. Era para f a l a r das cartas
anônimas.
— Rogo a todos aqueles que saibam alguma cou-
sa a r e s p e i t o d a o r i g e m d e s t a s c a r t a s , q u e o exponham.
H á muitos alunos preocupados c o m o assunto e dessa
maneira, n ã o é possivel estudar.
Em vez de responder, o s i l ê n c i o se estendeu pela
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 91

sala. Eu sentia alguma cousa de extremamente peno-


so. De u m lado, tinha u m j u r a m e n t o c o m os outros,
mas por outro, compreendia, perfeitamente, que esse
assunto precisava ter uma solução.
— Bem — disse Zin-Palna — vejo que ninguém
sabe de n a d a . N e s t e caso, r e l e g u e m o s o caso ao esque-
cimento. Acho que a culpada é a imaginação fértil
daquele que escreveu as cartas anônimas. De minha
p a r t e , e u a g r a d e c e r i a m u i t o ao a u t o r , q u e encaminhasse
sua f a n t a s i a n o u t r o s r u m o s e n ã o n a p r o v o c a ç ã o d e um
incidente nas tarefas escolares. E' preciso apressar a
estreia de Hamlet. Vamos ensaiar todos os dias. O
espetáculo pode, n u m grau considerável, esclarecer as
i d é i a s e descarregar a a t m o s f e r a tensa em que caimos.
Quasi todos se puseram a r i r , mas eu me sentia
cada vez m a i s esmagado por uma pressão interior. En-
vergonhei-me quando menti a meu p a i ; e agora, Z i n -
Palna, que crê realmente em n ó s todos, que está dis-
posta a nos defender, t a m b é m a ela estamos mentindo.
Deliberamos marcar o dia da estreia para o dia
20 de fevereiro, c o m a a p r o v a ç ã o de N i c p e t o j . E con-
v i d a r o alvéolo da f á b r i c a ao q u a l estamos filiados.

Fevereiro 18, 1924.

Tenho de encontrar uma solução para o problema


sexual, por que não posso continuar vivendo assim.
Cheguei a tal extremo hoje, durante o ensaio, quando
as meninas j á estavam c o m as roupas e os penteados
da peça, eu me apertei contra elas, aproveitando-me
do pouco e s p a ç o que temos n o palco e nos r o m p i m e n -
tos. N ã o f o i dc b r i n c a d e i r a , mas c o m o u t r a i n t e n ç ã o .
As meninas esquivavam-se e fugiam e Nicpetoj me a-
m e a ç o u de expulsar-me e substituir-me, mesmo c o m pre-
92 N . O G N E V

juízo do espetáculo. Ainda bem que ninguém adivi-


nhou a razão da minha maneira de agir. Ao contrá-
r i o , todos d i z i a m que eu t i n h a m e emendado mas que
aquele dia estava r e i n c i d i n d o .
Ah! se e l e s soubessem!

Fevereiro 19, 1924.

Parece que de hoje em diante n ã o poderei mais


falar c o m Silva. N ã o sei c o m o dizer. Fomos, todo es-
te t e m p o , bons camaradas, sem sentir p o r ela, mais que
u m a a m i z a d e d e c o m p a n h e i r o ; m a s , f o i c o m o se alguém
tivesse m e arrancado a língua e n ã o pude remediar...
Silva c o m e m b r o p r i n c i p a l da c o m i s s ã o do guarda-
r o u p a , p o r q u e os o u t r o s n ã o t r a b a l h a m e f o i e l a quem
f e z q u a s i t o d o s os t r a j e s . P o r isso assiste t o d o s os en-
saios e hoje compareceu ao ensaio geral. No labora-
tório de história natural, convertido em camarim dos
artistas, ela cosia o meu traje de Laerte, que eu já
vestira.
Enquanto cosia eu perguntei:
— V o c ê gostaria de passear c o m i g o , S i l v a ?
— Como passear? — N ó s n ã o passeamos sempre?
— N ã o assim. D e o u t r o j e i t o , passear de verdade.
Ela parou de costurar.
— Mas n ó s n ã o passeamos de verdade?
— Você não entende— — e calei-me envergonha-
do. Olhe, é, por exemplo, passear como marido e
mulher.
Pensei que ela se zangaria, mas não. Baixou os
olhos e perguntou:
— Você quer casar comigo? E' muito cedo pa-
ra nós.
— Mas você n ã o compreende, Silva — disse, pro-
curando um pretexto para fugir do camarim. Não é
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 93

isso.. N ã o estou falando de casamento... Eu quis


dizer q u e . . . O l h e . . . sair c o m i g o . . . a g o r a . . . estando
na escola.
— E o que é que você faria?
— Bom, você vai ver... Por exemplo, eu beija-
ria você.
Refletiu e respondeu:
— Acho que eu n ã o p e r m i t i r i a . . . B o m , e se eu
deixasse. E depois? Que é que você faria?
— Com o diabo! — gritei, e puxando com todas
as f o r ç a s o f i o q u e e s t a v a costurando, fugi.

Fevereiro 22, 1924.

Não tive tempo até hoje de contar como foi o


teatro porque estive averiguando o caso das cartas
anônimas.
Foi brilhante. Serioga Blinov rugia como o tro-
v ã o , se a g i t a v a e m c e n a como u m louco, atropelava to-
dos c o m t a l í m p e t o q u e o r e i t e v e d e d i z e r e m v o z bas-
tante alta: "Acalma-te, d e m ô n i o ! " O espírito — Ve-
nia Palkin — fez m u i t o bem a sua parte. Saiu, en-
volto n u m lençol, a cara branca, falando com voz se-
pulcral, sobretudo quando era p o r m e i o de u m altofa-
lante instalado sob o pavimento. Tinha de sair por
um b u r a c o , m a s este estava e n t u p i d o e teve d e s a i r pe-
los bastidores. Nicpetoj estava nervosíssimo. Ficou
n o s b a s t i d o r e s c o m o l i b r e t o e n t r e as m ã o s , e c o m o n ã o
havia concha, os m e n i n o s disseram que nas primeiras
f i l a s se o u v i a d o i s t e x t o s d e u m a v e z . N ã o c o n s e g u i
d e i x a r de a t i r a r f o r a o f l o r e t e de Serioga, p o r q u e ele
não sabe e s g r i m i r , mas ninguém notou que estávamos
falseando Sbakespeare.

7
94 N. O G N E V

Z o i a esteve m u i t o b e m , m e l h o r d e t o d o s . Ouvi di-


zer q u e h o u v e q u e m chorasse c o m a sua interpretação
de Ofélia.

Fevereiro 25, 1924.

Zoia me deixou hoje preocupado. Depois do es-


petáculo está m u i t o cheia de sí p o r q u e f o i chamada à
cena m u i t a s vezes. Está completamente mudada. Não
se v e s t e m a i s d e p r e t o , e s t á a l e g r e , e n ã o p a r e c e a Zoia
de antes. N ã o quer mais f a l a r da morte, embora al-
guns c o n t i n u e m , p o r f o r ç a d o h a b i t o , f a l a n d o - l h e a res-
peito. Chamou-me no corredor e disse:
— Sabe? V o u contar um segredo para você.
— Qual? Faça o favor de não me vir com se-
gredos.
— Mas é muito importante. Eu estou enamora-
da de você.
— O que?
— Deixe disso. Nada de orgulho. O amor não
depende de nós; e n ã o pense q u e por sua causa vou
fazer alguma loucura. Pensei muito no caso e decidi
q u e v o c ê d e v e r i a saber disso p a r a meu desafogo. Isso
n ã o lhe d á n e n h u m direito sobre m i m .
— V á pro inferno. — respondi. E f u i embora.

Fevereiro 26, 1924.

Que cousa estranha! As meninas começaram a co-


c h i c h a r e n t r e sí e c u soube q u e era a r e s p e i t o das far-
ras. O m a i s i m p o r t a n t e é q u e S i l v a e s t á c o m elas. Não
f a l e i mais c o m ela desde o dia da pergunta... Apa-
rentemente, ela n ã o m e quer.
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 95

Conversei c o m Venia P a l k i n e decidimos fazer um


c o n t r a-ata q u e .

Fevereiro 27, 1924.

Estou alegre e satisfeito comigo mesmo. Passei


quasi t o d o o m ê s de fevereiro preparando um registro
dos acontecimentos na C h i n a e N i c p e t o j elogiou-o mui-
to. Alem disso, e n c o n t r e i o a u t o r das cartas anônimas.
E' Gorojov, u m menino do segundo grupo, alto e es-
helto. Porque acho que é ele? Pois bem:
Meu único ponto de partida era a carta dirigida
a meu pai. Na escola, cada um tem sua tinta, e co-
m e c e i a a v e r i g u a r q u e e s p é c i e de t i n t a possuia cada u m .
E ' d i f i c i l p o r q u e todos, d e p o i s de escrever o que preci-
sam, guardam a tinta- Procurei averiguar... e hoje
tive uma idéia; entrei no laboratório de matemática
quando o segundo grupo estava trabalhando, sem A l -
makfisch c gritei:
— Depressa. Tinta! Almakfisch mandou pedir
tinta!
E p e g u e i a d o que estava mais p e r t o e q u e era Go-
rojov, que se senta perto da porta. Gorojov gritou:
— Espere aí! tenho de escrever!
M a s e u n ã o sou bobo. F u i para o auditório onde
j á t i n h a u m f r a s q u i n h o preparado, verti u m pouco da
tinta de Gorojov e voltei tranqüilamente para o labo-
ratório. V í Gorojov e devolví-lhe a tinta. Ele olhou-
me receoso mas não disse n a d a . Tenho observado e
noto que sempre que olho para ele, ele m u d a de cor.
Alem disso, é o ú n i c o a l u n o d o s e g u n d o grupo que fre-
q ü e n t o u as f a r r a s .
C o m p a r e i as t i n t a s e s ã o m u i t o semelhantes: são
b e m escuras. A g o r a preciso ver a letra e e n t ã o ! Mas
96 N . O G N E V

isso c mais dificil, porque as cartas foram escritas com


letra de forma.

Março 3, 1924.

Depois de muito esforço consegui um caderno de


Gorojov e comecei a comparar as letras. S ã o pareci-
das, a d a c a r t a e a d o c a d e r n o . F u i falar ç o m Gorojov
e c o m e c e i sem mais preâmbulos:
— F o i você quem e s c r e v e u as cartas?
Mudou de c o r e replicou:
— Você está louco?
Não cedi.
— Q u e é que v o c ê p o d e saber? que é que você po-
de saber?
C o m e ç o u a gesticular e eu, m u i t o sério, f u i embora.
Agora, segundo a lógica psicológica, ele d e v e r á vir ter
comigo, v o l u n t a r i a m e n t e , e confessar a falta.

Março 4, 1924.

Estou metido numa trama. E' o seguinte: Fui en-


tregar m e u t r a b a l h o de janeiro. A b r i o l i v r o de histó-
ria e v i dentro u m papel. Puxei e fiquei atônito. Di-
zia isso:
"Costia, e m consideração a um antigo sentimento,
venho avisá-lo que e s t á se preparando uma campanha
c o n t r a v o c ê e V e n i a P a l k i n , p o r causa das f a r r a s . Eles
sabem de t u d o . Cuidado."
Mas, muito mais que o texto, o que assombrou f o i
a letra do papel. Os caracteres de f o r m a e r a m idênti-
cos. N ã o p o d i a ser G o r o j o v . Depois de quasi ter bri-
gado c o m ele, ele n ã o m e iria avisar, ainda mais, "em
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 97

consideração a um antigo sentimento". Procurei Nic-


petoj e, em lugar de entregar o trabalho perguntei:
— Nicolas P e t r o v i c b , estarei agindo bem ou mal
em averiguar quem foi o autor das cartas anônimas?
— E como?
— Observando e tirando conclusões.
— E porque?
— Porque o a u t o r é u m t r a i d o r dos companheiros.
— O l h e a q u i , R i a b t s e v , isso é ser um agente poli-
cial voluntário, papel pouco digno, creia. Alem disso,
o assunto f o i relegado ao esquecimento, para que de-
senterrá-lo?
Por pouco ía dizendo que ele ía ressiíscitar, mas
mordi a lingua a tempo. Talvez seja mesmo melhor
parar c o m as averiguações.
Enganci-me com Gorojov. Mas quem será o autor?

Março 7, 1924.

Lí o "Sanin" de Arzibachev e não pude dormir a


noite inteira. De novo... pim, pam! zas, trás! Mi-
n h a c a b e ç a m e d o e h o r r i v e l m e n t e e n ã o sei o q u e fazer.
E se e u falasse c o m N i c p e t o j ? Tenho vergonha. Ele
dirá: " N ã o lhe explicaram em história natural? E ain-
da acha p o u c o ? " E depois, n ã o posso c o n t a r - l h e tudo.
O p i o r é q u e s i n t o r e p e r c u s s õ e s n o m e u estado m e n -
tal. F i z o seguinte: Peguei o caderno onde eu tinha
c o p i a d o as r e s p o s t a s s o b r e o f i m da v i d a e procurei o
que eu t i n h a escrito: "Que mentira!" — e rasguei o
que estava escrito, ao tratar da s a t i s f a ç ã o das necessi-
d a d e s . E f e t i v a m e n t e , se o h o m e m se v ê c o n s t r a n g i d o
a satisfazer suas necessidades d e u m a m a n e i r a d i v e r s a
dos outros, s o f r e r á , c o m certeza. Q u a n d o n ã o as pode
satisfazer, sofre t a m b é m ; vale a pena?
98 N . O G N E V

Chegando a este p o n t o n a s rainhas indagações eu


me perguntei: "Isto é digno de um membro do
Comsomol? De um homem colocado na vanguarda
juvenil? P o r q u e , e m b o r a e u seja apenas candidato do
Comsomol, cu me considero u m comunista convicto. V e -
jo que c o m e t i muitos erros: ter t o m a d o parte nas far-
ras e, e m c o n s e q ü ê n c i a , ter mentido muito; e o prin-
cipal: o problema do sexo. A burguesia e a intelec-
tualidade resolviam o p r o b l e m a da mesma maneira pe-
la qual eu o resolveria. Serei e n t ã o u m b u r g u ê s ? Sou
um intelectual? N ã o me considero nem um nem ou-
tro; por isso devo resolver o problema dc maneira
diversa.

Março 12, 1924.

Acabei de voltar da reunião do alvéolo, que foi no


clube da fábrica. Apesar d e ser tarde, eu devo escre-
ver tudo o que se passou, para n ã o esquecer. Havia
umas cento e cinqüenta pessoas, das quais umas vinte
e r a m a l u n o s d a escola e os o u t r o s o p e r á r i o s da fabrica.
De i n í c i o as c o u s a a c o r r e r a m c o m o n a s n o s s a s reuniões,
apenas u m pouco mais enfadonha: relatório do Comi-
tê local, relatório do escritório... Os operários cace-
' teados c o m e ç a i a m a inventar histórias e o presidente
tinha de chamar-lhes a atenção a cada instante. De-
poiá, passou-se a f a l a r dos temas do m o m e n t o e todos
a g u ç a r a m os o u v i d o s .
U m a operária, Gulkina, apresentou u m a petição pe-
dindo uma subvenção para atender a um aborto.
(Vou t e r d e p e r g u n t a r o q u e é isso a S e r i o g a Blinov).
Quando se leu a petição armou-se uma grande confu-
são. Alguns eram a favor da subvenção, outros não.
Ivanov, secretário do alvéolo, u m rapaz sério, disse:
O D I Á R I O D E COSTIA RIABTSEV 99

— Como podemos d i s p o r d e m e i o s se os 6 Ó c i o s se
atrasam três meses no pagamento das quotas? Com
que faremos a s u b v e n ç ã o ? T e m o s p o r acaso u m Banco?
Uma moça, muito irritada levantou-se. Ela iala
em todas as r e u n i õ e s c sempre se irrita:
— Se dermos subvenções a torto e a direito que
é que v a i acontecer? Todas v ã o querer, abortar e quem
vai dar à luz? Puschkin? E u p r o p o n b o algo concre-
to: que ela receba u m livro que trate de abortos para
que o leia.
Alguns ainda gritaram: -
— Dêem a subvenção! A subvenção!
Parecia brincadeira, pois o secretário tinha dito
claramente que n ã o havia dinheiro. Uma moça tomou
então a palavra e disse:
— Não se pode dar essa subvenção! Primeiro
porque não há dinheiro, segundo porque — como já
se d i s s e — alguém t e m que p a r i r ; e terceiro, e princi-
palmente, porque ela p o d e morrer do aborto. Ou en-
t ã o f i c a r m u t i l a d a para o resto da vida. O aborto nem
sempre dá certo.
Ouviram-se protestos contra a subvenção. Ivanov
tornou a tomar a palavra:
— Já expliquei que o alvéolo não pode dar di-
nheiro. Mas, "não dar" não é uma solução satisfató-
ria. Vocês devem estar l e m b r a d o s de u m a outra peti-
ç ã o d e G i d k i n a , o n d e e l a a f i r m a v a n ã o t e r o n d e se i n s -
talar. E ' p r e c i s o a v e r i g u a r esse c a s o . Ela vive no ou-
tro extremo da cidade. A do aborto será negada; ela
t e m de p a r i r mas t a m b é m n ã o podemos deixá-la nessa
situação. Precisamos ajudá-la, arranjar u m quarto.
Foi eleita u m a comissão para averiguar as condi-
ç õ e s e c o n ô m i c a s d c G u l k i n a , c t o d o s sc p u s e r a m a can-
tar " A nova guarda"... Tinha terminado a seção.
100 N . O G N E V

Quando voltei para casa, fiquei pensando que an-


tes eu achava q u e a v i d a o p e r á r i a , e a v i d a i n t e r i o r do
a l v c o l o e r a m a l g u m a cousa de e x t r a o r d i n á r i o , q u a l q u e r -
cousa c o m o u m a f á b r i c a q u e de n o i t e resplandece; mas
a c o n t e c e q u e os o p e r á r i o s b r i n c a m t a n t o q u a n t o as c r i a n -
ç a s , e é f á c i l c o m p r e e n d e r os a s s u n t o s q u e o s i n t e r e s s a m .
Pensei que precisaria de mais tempo para compreen-
der tudo.
Alegrei-me profundamente. Primeiro, porque n ã o
estava mais s o z i n h o ; e, s e g u n d o , porque já posso ser
útil à minha classe social. Pensei t a m b é m no proble-
ma do s e x o ; mas esta vez m i n h a s i d é i a s t i n h a m toma-
d o o u t r a d i r e ç ã o , p o r causa da h i s t ó r i a de G u l k i n a . Pe-
t u j o v disse q u e a q u i l o era m u i t o s i m p l e s , m a s n ã o me
parece q u e assim seja, desde q u e u m alvéolo de cento
e c i n q ü e n t a p e s s o a s se d e i x a f i c a r p e r p l e x o a n t e o pro-
blema. Creio que o sexo pode dar origem a muitos
padecimcntos. Por exemplo: o aborto. De que jeito
a mulher fica mutilada para o resto da vida?
F i z m a l e m n ã o f r e q ü e n t a r as r e u n i õ e s d a fábrica.
A gente a p r e n d e m u i t a cousa l á . Perguntarei a Ivanov
alguma cousa sobre isso.

Março 17, 1924.

Falei com Serioga sobre o aborto. Ele me expli-


cou detalhadamente a significação da palavra. Parece
q u e esses a b o r t o s p o d e m f a z e r m u i t o m a l a u m a moça,
é m e l h o r d a r á l u z f i l h o s fortes e sadios.

Março 19, 1924.

Já tinha notado que fazia tempo que Venia Falkin


deixou de aparecer na escola. Pensei que fosse por
O D I Á R I O D E COSTIA RIABTSEV 101

causa das f a r r a s m a s p a r e c e q u e h á o u t r a s causas. Mas


não quero mcter-me. Espionar os camaradas é muito
pouco digno.
Depois de brigar c o m Silva, n ã o tenho mais com
q u e m f a z e r a m i z a d e e passo o t e m p o c o m a negra Zoia.
E l a m e confessou que sempre me odiou porque eu ca-
çoava dela, mas mudou de opinião depois do espetá-
culo, quando f i z saltar distraidamente o f l o r e t e de B l i n o v .
Tenho estudado normalmente. As dores de cabe-
ç a p a s s a r a m e os p i m , p a m ! zas, t r a s ! t a m b é m . Todas
as m a n h ã s f a ç o u m a f r i c ç ã o e m t o d o o c o r p o c o m neve.

, Março 21, 1924.

Silva chegou perto^de mim e disse:


— Riabtsev, m i n h a o p i n i ã o sobre v o c ê m u d o u com-
pletamente. Eu acreditava que você era de fato um
verdadeiro comunista, f i e l à s ideias, mas v e j o que era
mentira. -
— Nunca! — respondi. Como é que voce pode
saber de f a t o m i n h a s ideias?
— V o c ê sabe p e r f e i t a m e n t e . Sei também o que
você organizou com Venia Palkin.
N ã o organizei cousa n e n h u m a ; m e l i m i t e i a fre-
qüentar. E n t ã o f o i v o c ê a a u t o r a das cartas?
— E ' o c ú m u l o ! disse S i l v a , f i t a n d o - m e n o s olhos.
C o m o é q u e v o c ê p o d e d i z e r u m a c o u s a dessas?
V o l t o u - m e as c o s t a s e q u i s i r e m b o r a .
— Epcre, Silva... V o c ê acha m e s m o q u e n ã o te-
nho ideias comunistas?
N ã o quero mais falar com você.
E f o i embora.
F i q u e i m u i t o mortificado, mas n ã o posso f a z e r na-
da para suavizar a q u e s t ã o . E m certo sentido ela tem
102 N. O G N E V

razão. Embora e u n ã o tivesse f i n g i d o . Preciso deixar


isso c l a r o .
tf

Março 23, 1924.

Grande escândalo, um tanto inexplicável. O pai


de Lina, que é padre, apareceu. Perguntou por Zin-
Palna e os d o i s e s t i v e r a m conversando por muito tem-
po. O padre, todo vermelho, pretendia explicar al-
guma cousa a Zin-Palna, e esta n ã o fazia outra cousa
s e n ã o gesticular. F o i n a sala dos p r o f e s s o r e s e por isso
n i n g u é m pode ouvir.
Depois Zin-Palna, m u i t o nervosa, saiu com o pai
de L i n a e v o l t o u q u a n d o as a u l a s j á e s t a v a m terminan-
do. D e p o i s os rnaesc fizeram uma reunião e nos dei-
x a r a m i r p a r a casa.

Março 25, 1924.

E' muito penoso escrever o que aconteceu; mas


vou fazê-lo. Apenas cheguei na escola Zin-Palna me
chamou:

— Quer me fazer o favor de ser inteiramente


sincero?

— S i m -— r e s p o n d i , f i t a n d o - a d i r e t a m e n t e nos o-
lhos. Estou j á f a r t o de m e n t i r .
— Você freqüentou as reuniões organizadas nor
Palkin? "
— Sim.
~ N ã o l h e o c o r r e u q u e c o m isso n ã o s o m e n t e pre-
judica seus e s t u d o s c o m o também toda a escola?
— P e l a m i n h a p a l a v r a d e c o m u n i s t a c o m o isso n ã o
me ocorreu.
O D I Á R I O D E COSTIA RIABTSEV 103

Que é que você pensava sobre a conveniência


desses f a t o s p a r a a e s c o l a ?
— Pensei q u e . . . , c o m o era f o r a . . . . n ã o t e r i a m re-
lações c o m ela. A

Suponhamos que assim fosse... Você sabe o


que aconteceu c o m L i n a ?
— R e p a r e i q u e ela n ã o v i n h a p a r a a escola e p e n -
sei q u e isso tivesse a l g u m a r e l a ç ã o c o m a s . . . farras...
mas, j u r o , q u e n ã o sei n a d a c o m certeza.
L i n a d e v e r á a b a n d o n a r a escola e ir para a
Ukrania. Espero q u e v o c ê seja t ã o discreto a respeito
desta conversa c o m o o f o i a r e s p e i t o das farras...
— Zinaida Pavlovna, está claro... — disse e me
senti afogado — Mas creio que as meninas sabem de
tudo m e l h o r do que eu.
— j á f a l e i c o m elas. Pode ir.
Espere u m pouco, Zinaida P a v l o v n a . . . Uma
pergunta. O que aconteceu com Lina, tem alguma re-
l a ç ã o c o m o p r o b l e m a sexual?
_ S i m — disse Z i n a i d a c o m f i r m e z a — p o d e i r .
Fui. M a s e m v e z d e e n t r a r n a escola f u i p a r a casa.
(Depois do dia 25 de M a r ç o , h á m u i t a s p á g i n a s man-
chadas de tinta).

Abril 5, 1924.

Recebi ontem uma caita de Lina. Diz o seguinte:

— "Costia Riabtsev: Não culpo você de nada e


compreendo que e u sou a ú n i c a culpada. Quando você
receber esta, estarei t ã o longe de você que n ã o ficarei
ruborisada. V o u i n i c i a r uma nova v i d a ; e todo o
passado, velho e sombrio, fica para t r á s , e será apagado
para sempre. Quero que v o c ê f i q u e sabendo que o
caso com V . P. f o i por sua causa, isto é , p o r raiva e
desespero de ver você t ã o grosseiro comigo e porque o
104 N . O G N E V

nosso suicídio teve um desenJace absurdo. Agora, tudo


acabou, para sempre, e sinto u m a l í v i o i m e n s o . . .
Aconselho você a n ã o continuar nessa vida, porque v o c ê
p e n e t r a r á n u m m u n d o dc trevas. Temos, os dois, toda
a beleza da vida à nossa f r e n t e .
-
" E u escrevi as cartas a n ô n i m a s , p o r q u e s o f r i a
e queria acabar com t u d o a q u i l o , sem saber d i r e i t o como.
Ocorreu-me e n t ã o escrever as cartas, mas n ã o senti a l í v i o
a l g u m ; ao c o n t r á r i o , f i q u e i mais abatida ainda pelo
s o f r i m e n t o . S ó agora, ao ver-me l i v r e , compreendi como
f u i idiota.
" V o c ê fez m a l em f a l a r sobre " a q u i l o " com S i l v a . . .
V o c ê l e m b r a . . . n o c a m a r i m . . . Silva n ã o é assim.
Enquanto eu sofria tanto, ela c u i d o u de m i m como uma
verdadeira i r m ã , embora eu a repudiasse com maus
modos.

"Adeus Riabtsev! Felicidades. Faça as pazes com


Silva. E me e s q u e ç a para todo o sempre!

Abril 10, 1924.

Encontrei na rua com Venia Palkin. Estava com


u m sobretudo muito elegante, um cigarro na boca e
u m a bengala.
— A h ! C o s t i a ! — disse ele. Você continua de-
f u m a n d o - s e nessa f á b r i c a d e c o n s e r v a s ?
- — Continuo estudando.
— Que gosto! — Olhe aqui... Venha amanhã
ate e m casa. M o r o no mesmo lugar. V a i haver mulhe-
res... N ã o c o m o as s u a s , t ã o i n s o s s a s , m a s meninas
estupendas. Fizemos u m vinho novo. Venha!
— Porque n ã o ? — respondi. Vou. Mais alguém
que eu c o n h e ç a ?

— Claro! É todos ótimos camaradas. Você vem


então, não é?
— Irei sim. Até amanhã.
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 105

Abril 12, 1924.

Foi assim:
C h e g u e i m a i s o u m e n o s à s n o v e n a casa d e Venia,
no Parque de Ivanowsky. J á havia ali umas doze pes-
soas, t o d a s sentadas à mesa. Os pais n ã o estavam em
casa; saiam s e m p r e q u a n d o V e n i a organizava u m a f a r r a .
A g o r a posso descrever t u d o . V o u contar direitinho
como são. T o d o s b e b e m e se e n t r e t ê m c o m as moças,
não como quando a g e n t e passeia, o u n a r u a , m a s de
outro jeito. Abraçando-se e beijando. No meio da
mesa, u m a travessa de r e p o l h o e m escabeche c o m azeite
de l i n h o muito gostoso; depois todos b e b e m o "samo-
gon" < > até ficar embriagados.
10
Nunca ví mais do que
a b r a ç o s , m a s c o m p r e e n d i q u e acontece m a i s d o q u e isso.
Pois b e m , quando cheguei, estavam todos sentados
à mesa. Havia três da nossa escola, mas não citarei
nomes. Rapazes, nenhuma menina. Apenas desconhe-
cidas e todas pintadas.
J á estavam u m tanto tocados. Apenas me viram,
puseram-se a g r i t a r :
— A h ! Costia chegou! U m copo! V e n h a a ale-
gria! t

— Venha! — disse; peguei o copo que m e ofere-


ciam e joguci-o ao c h ã o . Isto v a i m u d a r porque acabo
de c o m p r e e n d e r o que é b o m e o que n ã o é. Vocês,
meus q u e r i d o s c o m p a n h e i r o s de escola, v ã o sair agora
mesmo comigo e nunca mais aparecerão aqui. É uma
i n d e c ê n c i a o q u e v o c ê s f a z e m agora, e o q u e e u f i z antes.
M a s antes d c sair q u e r o d i z e r a t o d o s duas p a l a v r a s :
— Ficou louco! — gritou Palkin.
— N ã o estou l o u c o cousa n e n h u m a ! A o contlario,
r e c o b r e i a c o n c i e n c i a dos meus atos. Você já imaginou

(10) Aguardente feita com á l c o o l queimado.


106 N . O G N E V

as i n f â m i a s q u e i s t o p o d e p r o d u z i r ? N u n c a pensou que
a vida de u m a m e n i n a f i c o u d e s p e d a ç a d a — você sabe
p e r f e i t a m e n t e de q u e m estou f a l a n d o . E ainda que, por
sua c u l p a , nossa escola esteve a p o n t o d e ser fechada?
V o c ê n ã o diz nada? Embriague-se, faça todo tipo de
infâmias c o m seus a m i g o s , m a s d e i x e nossa escola em
paz!
Palkin se lançou sobre m i m , mas atirei-lhe uma
garrafa na cabeça e f u g i c o m meus companheiros.

Abril 15, 1924.

De tanto eu me esforçar por entregar os trabalhos,


sinto m e u pulso tremer. P o r causa dos acontecimentos
passados, e u t i n h a d e s l e i x a d o m u i t o os e s t u d o s e e s t a m o s
quasi no verão. Sc n ã o e n t r e g a r os t r a b a l h o s n ã o p o d e -
r e i descansar n o v e r ã o . Alem disso, e s t ã o d i z e n d o que
h a v e r á u m curso de v e r ã o . S e m p r e pensei q u e fosse s ó
para o primário, mas parece que n ã o ; de modo que
iniciaremos as excursões. Serioga Blinov afirma que
o curso de v e r ã o p o r á e m manifesto a incapacidade dos
rnaesc; ele a c h a q u e se n o i n v e r n o n ã o c o n s e g u e m cum-
p r i r sua m i s s ã o , a i n d a m a i s n o v e r ã o .
Tenho um amigo novo: Iuclika Gromov. Há
t e m p o q u e ele e s t á na escola e n o m e u g r u p o , m a s não
nos d á v a m o s u m c o m o o u t r o . É m u i t o risonho e gosta
de despertar a inteligência resolvendo problemas. Fiz-
lhe algumas c o n f i d ê n c i a s ; f a l e i das farras; mas ele me
a f i r m o u que e r a m criancices e o que havia a fazer era
esquecer disso q u a n t o antes.

Abril 17, 1924.

Aconteceu uma cousa muito exquisita. Ontem,


q u a n d o passei pelo l a b o r a t ó r i o de m a t e m á t i c a , o u v i uma
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV Í07

risada estrepitosa... Entrei e ví ISinka Fradkina e


Staska Velepolskaya, do quarto grupo, sentadas, uma
em frente à outra, r i n d o à s gargalhadas. O riso era
contagioso e perguntei:
— Que foi?
As gargalhadas cresceram e de repente, notei que
s a í a da garganta d e S t a s k a u m s o m g u t u r a l q u e se t r a n s -
f o r m o u e m estertor e f i q u e i amedrontado. F u i correndo
chamar o rnaesc de serviço — A l m a k f i s c h — , voltei c o m
e l e e v i m o s as d u a s se d e s f a z e r e m e m p r a n t o . Almakfisch
mc disse q u e se tratava de um ataque de histerismo.
F u i p r o c u r a r u m a toalha, agua c conseguimos acalmá-las.
O s m e n i n o s m e p e r g u n t a r a m l o g o se e u q u e r i a m e e n c a r -
regar de curá-las; mas recusei, porque n ã o sou mais
membro d o C o m i t ê e isso c o b r i g a ç ã o dos atuais com-
ponentes.
Estou m u i t o ocupado. H á u m m ê s , a S e ç ã o de I n s -
trução Pública Provincial propôs à nossa escola tomar
p a r t e n a l u t a c o n t r a os d e s a m p a r a d o s , i n c o r p o r a n d o - s c à
Proteção dc Menores. Lembrando do caso de Alioga
Chikin, que roubara seis limardos e se refugiara no
porão rodeado de e s c o m b r o s , a escola m c elegeu como
seu representante na Proteção. Tenho, pòis, ido lá,
constantemente. Muito trabalho e tudo inútil. Dizem
que depois de trabalhar c o m os d e s a m p a r a d o s durante
três m e s e s se v a i p a r a ura sanatório de neurastênicos.
Devia-se organizar partidas l i v r e s de m e n i n o s c o m o eu,
f a z e r l u t a s e m c a d a e s q u i n a c o m os d e s a m p a r a d o s , e d e -
pois, f u m a r e beber aguardante c o m eles. Deste modo
se c o n s e g u i r i a q u e e l e n o s a c e i t a s s e m de m e l h o r vonta-
d e e e n t ã o p o d e r i a m ser i n s t r u i d o s . O u e n t ã o ler con-
tos, como fazia V a n k a Petujov. Já não haveria ne-
cessidade dos s a n a t ó r i o s . H á , porem, u m obstáculo: a
f a l t a d e t e m p o p a r a f a z e r i s s o : nossos r a p a z e s n ã o p o d e -
riam estudar. F a l e i do m e u p r o j e t o ao secretário da
108 N . O G N E V

P r o t e ç ã o , m a s e l e se p ô s a r i r . E m vez de r i r cie deve-


ria examinar o meu projeto. N ã o posso suportar o
ridículo. D e q u a l q u e r m o d o , o sistema dele tampouco
é eficiente. E eu seguramente vou ter de deixar de
trabalhar para a P r o t e ç ã o .
O p a i de A l i o j a C h i k i n f o i atropelado por u m ca-
minhão do Comissariado de Economia, e Zin-Palna se
encarregou da e d u c a ç ã o de A l i o j a , tomando-o sob sua
tutela. T o d a a e s c o l a a p r o v o u esse a t o .

Abril 20, 1924.

Houve uma reunião do Comitê para tratar do caso


de h i s t e r i s m o das duas meninas e e u assisti c o m o figu-
rante. H á u m m ê s que h á m i l i c i a n o s para descarregar o
Comitê da parte administrativa. São dois. Passeiam
p e l a e s c o l a c o m o os p o l i c i a i s f r a n c e s e s n o c i n e m a . Pe-
l o menos, t ê m o mesmo ar de idiotas. Relatei o fato e
fui embora. Ao que parece não tomaram resolução
alguma.
F o m o s v á r i a s vezes à f á b r i c a de t e c i d o s a q u e esta-
mos filiados. Alem disso, o a l v é o l o e nosso Comsomol
apenas i n f l u e m na v i d a escolar e isso m e parece ideal.

Abril 21, 1924.

Houve no auditório uma batalha formidável e Vo-


lodia Schmerz saiu com a cara toda ensangüentada.
Ele apanha c o m tanta f r e q ü ê n c i a que l h e demos o nome
de "Saco de pancada". Está claro que os milicianos
n ã o p u d e r a m conosco e t i v e r a m de c h a m a r o rnaesc de
serviço.
Na reunião geral f o i e x a m i n a d o u m n o v o p r o j e t o
d e a u t o n o m i a , s e g u n d o o q u a l os C o m i t ê s e s c o l a r e s s e r ã o
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 109

e l e i t o s p o r t r ê s meses e m vez d e ser p o r u m . Dessa m a -


n e i r a o C o m i t ê e s t a r á m a i s f i r m e n o t r a t a r dos assuntos,
cousa dificil d e se c o n s e g u i r n u m mês. Serioga disse
que, quanto mais t e m p o atua o C o m i t ê , tanto mais au-
toritário se f o r m a e, a l e m d i s s o , q u e tudo dá no mes-
m o n u m C o m i t ê d o m i n a d o pelos rnaesc; m e s m o q u e fosse
eleito por u m ano nao conseguiria nada, por n ã o ter
p r e s t í g i o e n t r e os a l u n o s . Zin-Palna disse:
— Vejo que Blinov. retorna ao mesmo ponto.
Q u e r c o n s e g u i r q u e a e s c o l a se d i v i d a e m dois bandos,
precisamente em vésperas de férias. Espero que, sim-
p l e s m e n t e , i s s o se d e v a à aproximação da primavera.
Serioga respondeu que isso n ã o t i n h a n a d a a ver
com a p r i m a v e r a e que ele pretendia apenas e x p o r sua
opinião. M a s , c o m o todos estavam m u i t o nervosos, Se-
rioga acabou p o r ficar zangado e falar alto. De repen-
te Almakfisch gritou que B l i n o v j á devia estar na Esco-
la Superior h á m u i t o tempo e provocou u m escândalo.
Zin-Palna suspendeu a seção.
Depois disso, Serioga prometeu demonstrar aos
rnaesc q u e ele, antes de m a i s n a d a era u m revolucioná-
r i o , e depois, aluno e s ó depois o resto.

K -r- : , V' Âbrü 23ã924.

Veio no "X" o seguinte artigo:

0 N-A-B-O"

" A encarregada p l a n t o u u m nabo na aula de Auto-


n o m i a . O nabo cresceu m u i t o , m u i t o . A encarregada
se agarrou ao nabo, puxou-o, mas n ã o p ô d e a r r a n c ã - l o .
O C o m i t ê escolar r e f l e t i u , chamou o C o m i t ê de
i l

Economia, este se agarrou ao C o m i t ê escolar, este à


encarregada e esta ao nabo. Puxaram, puxaram e n ã o
conseguiram a r r a n c á - l o .

8
110 N . O C N È V

"Chamaram o C o m i t ê S a n i t á r i o . Este se agarrou ao


C o m i t ê de Economia, es.e ao C o m i t ê Escolar, este à
encarregada, esta ao nabo. Puxaram, p u x a r a m , e n ã o
conseguiram a r r a n c á - l o .
"Chamaram a j u n t a dos rnaesc. Esta se agarrou ao
C o m i t ê S a n i t á r i o , este ao de Economia, este ao Escolar,
es:e à encarregada, a encarregada ao nabo. Puxaram,
puxaram e n ã o conseguiram a r r a n c á - l o .
" N ã o podendo resistir, a j u n t a dos maese g r i t o u
com todas as f o r ç a s :
" M i l i . . . cia— no! .
" V e i o o m i l i c i a n o t ã o s é r i o como sempre. Agar-
rou-se à j u n t a dos rnaesc, este ao c o m i ê S a n i t á r i o , este
ao de Economia, este ao escolar, o escolar à encarregada
e a encarregada ao nabo. P u x a r a m , p u x a r a m , e n ã o
conseguiram a r r a n c á - l o .
" O m i l i c i a n o chamou o p r o j e t o t r i m e s t r a l . O p r o -
jeto se agarrou ao m i l i c i a n o , o m i l i c i a n o à j u n t a esta
ao C o m i i ê S a n i t á r i o , esto ao de Economia, este ao Escolar
o Escolar à encarregada, a encarregada ao nabo. Pu-
xaram, puxaram, e n ã o conseguiram a r r a n c á - l o .
" F i c a r a m perplexos, o suor escorrendo. E o nabo
c o n t í n u a na terra.
" — Quando, diabos, v ã o arrancar o nabo? — perguntou
u m espectador.
" O " X " acha q u e nunca."

Perto da parede onde "X" estava afixado, fez-se


uma reunião. Serioga Blinov pronunciou u m discurso
m u i t o vibrante e todos e n t r a r a m n u m acordo que uma
a u t o n o m i a incapaz, de r e a l i z a r a l g u m a cousa era i n ú t i l c,
de uma maneira geral, era m e l h o r p r e c i n d i r dela. Mas
deliberou-se que a discussão ficava adiada para depois
da entrega dos trabalhos. Entretanto, ficaríamos
calados.
Depois Serioga disse q u e os rnaesc n ã o estavam à
a l t u r a d a m i s s ã o c, p o r c o n s e g u i n t e , e r a p r e c i s o destituí-
lo. E que, por u m caminho rebelde era mais fácil v i -
ver e estudar. Muitos alunos estavam em desacordo.
E u , p o r e x e m p l o estou convencido p o r e x p e r i ê n c i a pró-
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 111

pria, que Zin-Palna e Nicpetoj c u m p r e m perfeitamente


sua missão.
M a i s tarde, N i c p e t o j e e u falamos enquanto passeá-
v a m o s d e c á p a r a l á n a sala d e g i n á s t i c a . Foi Nicpetoj
quem veio falar comigo. Perguntou-me porque eu n ã o
e r a m a i s a m i g o de S i l v a . E x p l i q u e i q u e , p o r causa do
caso d e L i n a , S i l v a s u s p e i t o u d e m i m , m a s q u e m e u er-
r o se l i m i t a v a a t e r f r e q ü e n t a d o as f a r r a s .
— E , e l a é m u i t o L o a — disse e u , m a s m u i t o i r r i t a -
vel. E você, o que é que você acha dela?
— É m u i t o s e v e r a c o m i g o e c o m t o d o s , m a s se en-
trega por completo àquilo que quer. Riabtsev, você
acha que e u sou feliz? — m e p e r g u n t o u de repente.
— É claro que sim.
— Você é u m m a u observador, Riabtsev.
— Olhe aqui, Nicolas Petrovich — disse eu —
A c h o q u e é i n f e l i z a q u e l e q u e e s t á s ó , e q u e p a r a se es-
q u e c e r d a s o l i d ã o se e n t r e g a à a t i v i d a d e s o c i a l . T a m b é m
é infeliz aquele que n ã o t e m a q u e m p e d i r u m conselho.
— E você, Riabtsev? Você é infeliz?
— Ninguém me compreende, Nicolas Petrovich.
R i m o s juntos e nos separamos.
Como pode ser q u e e l e s e j a infeliz quando todos
gostam dele? Serioga é o ú n i c o que o ataca. Mas Se-
rioga está c o n t r a t o d o s o s rnaesc sem exceção.

Abril 26,1924.

Fui à Proteção e cheguei quando a secretária esta-


va ausente. Para passar o t e m p o m e p u s a f o l h e a r os
papeis da mesa e v í u m a t i r a c o m p r i d a de p a p e l escrita
com u m a letra incerta, j u n t o a u m a copia a maquina.
Lí depressa e fiquei muito impressionada; mas, como
não tinha nenhuma c o m q u e m falar a respeito, decidi
112 N . O G N E V

copiá-la. Bem depressa, claro, com medo que me sur-


preendessem. T i v e t e m p o de guardar a copia n o bolso.
Á secretaria entrou, logo depois de eu ter posto o
p a p e l d e n t r o d a p a s t a , e m b o r a esta t i v e s s e f i c a d o a b e r t a .
A secretária olhou-me um tanto receosa e perguntou:
— Q u e é q u e v o s ê estava fazendo?
— Esperando.
— Porque é que a pasta está aberta?
— Estive vendo uns papeis.
— Pediria a v o c ê q u e n ã o se m e t e s s e c o m papeis
secretos.
— Se s ã o secretos p o r q u e é q u e e s t ã o esparramados
em cima da mesa?
Ela ficou ofendida e disse:
— Camarada Riabtsev, v o c ê t e m ideias estranhas a
respeito do trabalho. E, c m geral...
— E, em geral?... — respondi. N ã o tenho nada
o que fazer aqui. Comuniquei-lhe o m e u plano para a
p r o t e ç ã o aos d e s a m p a r a d o s e v o c ê r i u .
Soltei u m par de i m p e r t i n ê n c i a s c f u i m e embora.
Em casa r e l i a c ó p i a . O mais estranho para mim
é q u e os g r a n d e s t a m b e m padecem da t o r t u r a sexual e
q u e esta seja c a s t i g a d a p e l a l e i . A m a n h ã , sem falta, con-
sultarei Nicpetoj, porque é muito doloroso l e r tais pa-
peis e n ã o saber q u a n t o de verdade eles c o n t ê m . Nos
livros nunca ví nada disto.

H ' ; Ç í Abril 28, 1924.

Quando estávamos entregando os trabalhos de ma-


t e m á t i c a , S t a s k a V e l e p o l s k a y a , d o q u a r t o g r u p o , f o i sus-
pensa. A o sair do laboratório parou um momento e
caiu na gargalhada. Era t o r n o dela havia meninas que
iam entregar o trabalho. No princípio procuraram
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 113

tranqüilizar Staska, deram-lhe agua, mas depois fica-


ram contagiadas e começaram a rir e soluçar entrecor-
tadamente. S t a s k a se a r r o j o u a o c h ã o , e n t r e convulsões
e as outras imitavam-na. Vieram os rnaesc, impondo
calma. Quando conseguiram, Zin-Palna virou-se para
Almakfisch:
Histerismo em massa. É preciso t o m a r providên-
cias.
A cena t i n h a d u r a d o c e r c a d e 15 m i n u t o s . Depois
mostrei a Nicpetoj a cópia furtada. Aconselhou-me a
d e s t r u i r o p a p e l e d e d i c a r - m e ao p r e p a r o dos t r a b a l h o s ,
mas quando e u insisti, ele m e explicou q u e se tratava
de u m a aberração •sexual; q u e isso sucede apesar dos
S o v i e t s l u t a r e m m u i t o c o n t r a isso, o r g a n i z a n d o a c u l t u r a
física e elevando o nivel de vida. Suas e x p l i c a ç õ e s n ã o
se s a t i s f i z e r a m . E r a a p r i m e i r a vez q u e e u v i a N i c p e -
toj perturbado.

V ^ Abrü 30, 1924.

O n t e m , depois da entrega dos trabalhos de física,


h o u v e o u t r o caso d e h i s t e r i a e m massa. Hoje, no " X "
apareceu esta nota:

"O INSTITUTO DE HISTERIA

"Comunicamos aos nossos leitores que na nossa


escola inaugurou-se u m novo centro de ensino: o Instituto
de H i s t e r i a . Q u e m faz o enrso nesse I n s t i t u i o recebe
u m d i p l o m a de "meninas de b e m " . As m a t é r i a s s ã o :
bailes, f l i r t , dansa, ataques h i s t é r i c o s de todo g ê n e r o ,
c o m e ç a n d o pelo guincho do rato e terminando pela gar-
galhada s a r d ô n i c a . Nesse centro, as meninas que mais se
destacaram, f o r a m as seguintes: N . T.» S. v.., L . d . e C. r .
" O " X " para f a c i l i t a r o trabalho do i n s t i t u t o , p r o p õ e
as seguintes medidas:
" 1 . — I n s t a l a ç ã o de u m tonei de valeriana.
" 2 . —• I n s t a l a ç ã o de u m í d o l o na sala de ginástica
com a i n s c r i ç ã o : Estátua da Dor, para que as aspirantes.
1Í4 N . O G N E V

sem d i s t r a i r a a t e n ç ã o das amigas, possam r h o r a r n o


peito do í d o l o , qne d e v e r á ser de f e r r o para que as
lagrimas n ã o corroam. ^
" O " X " c r ê q » e estas medidas s e r ã o de grande e f i -
cácia para regularizar o f u n c i o n a m e n t o do I n s t i t u t o
Histérico."

Houve muita gargalhada diante do "X". As meni-


nas ficaram frenéticas e arrancaram o jornal no nariz
de Zin-Palna, que estava começando a ler. Zin-Palna
bateu o p é no chão e gritou:
— A q u e l e crue se a t r e v a a v i o l a r a l i b e r d a d e d e pa-
l a v r a d a e s c o l a t e r á d e se h a v e r c o m i g o ! Coloquem de
volta o papel, j á !
As meninas trouxeram umas taxinhas e cravaram
o X na parede. N ó s , n u m canto, riamos como loucos.
Soube e n t ã o dc u m a cousa. Perto do auditório pe-
guei u m p a p e l amassado e l í . C o m a l e t r a de Zin-Pal-
n a , estava escrito a s s i m : " O Instituto Histérico", c no
verso: " A R e d a ç ã o " . Sentí-me burlado.
Acontece que, por alguma razão desconhecida, há
assuntos de q u e apenas e u t e n h o c i ê n c i a . E, a medida
q u e o t e m p o p a s s a , e l e s v ã o se a c u m u l a n d o e n ã o t e n h o
mais q u e m m e aconselhe. N ã o f a l o c o m Silva, afastei-
m e de Serioga. N i c p e t o j iá é u m h o m e m m a d u r o e não
me compreenderia... C o m quem mais poderia eu fa-
lar? Com ninguém.
Restam-me os t r a b a l h o s e o "diário". A g o r a , este
caderno é u m í n t i m o amigo m e u , a q u e m confio absolu-
tamente tudo.

Maio 10, 1924.

Bravo! Entreguei a maior parte dos trabalhos.


Nicpetoj me felicitou e disse q u e , de agora em dian-
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 115

te, podia considerar-me u m membro do quarto grupo.


A m a i o r i a d o nosso g r u p o e n t r e g o u t a m b é m , e a negra
Zoia e Silva entre"eles. luehka Gromov está atrasado;
não entregou matemática e sociologia desde janeiro,
m a s d i z q u e s ã o b e s t e i r a s , e q u e t a n t o se l h e d á e s t a r n o
terceiro ou no quarto grupo. Acrescenta que n ã o quer
f i c a r n a escola e s i m e n t r a r p a r a a c a v a l a r i a . Sua atra-
ção pela Cavalaria vem do uniforme com calças ver-
melhas. Parece m e n t i r a : qual a vantagem de t e r ou
não calças vermelhas?

Maio 15, 1924.

Zin-Palna anunciou hoje que só tomarão parte no


curso de v e r ã o aqueles q u e f i c a r e m na c i d a d e . Os que
t i v e r e m o n d e i r passar o verão podem ir. Disse que
e l e i a se e n c a r r e g a r da direção, renunciando à licença.
O s t r a b a l h o s s e r ã o os seguintes:
1. — Fazer u m a pesquisa sobre a l g u m a aldeia das
redondezas e constituir uma diretoria dc investigações.
2. T o m a r p a r t e nas excavaçÕes dc antigüidades co-
l a b o r a n d o c o m os a u x i l i a r e s d o M u s e u Etnográfico.
3. — Realizar excursões de h i s t ó r i a natural.
4. — E x c u r s õ e s sociológicas, que c o n s i s t i r ã o e m v i -
s i t a s a m u s e u s e a n t i g a s casas s e n h o r i a i s . Os rnaesc di-
r i g i r ã o os t r a b a l h o s s e g u n d o a especialidade.
O curso de v e r ã o c o m e ç a r á a f u n c i o n a r a p a r t i r de
1.° de junho, quando se saiba exatamente quem fica
na cidade e q u e m passa p a r a os g r u p o s superiores.

Maio 20, 1924.

Meu sapato se desfez inteiramente jogando futebol,


e para n ã o fazer papai gastar, coso t o d a s as n o i t e s o
116 N . O G N E V

calçado com agulha e linha de sapateiro O sapateiro


m e assegurou que v o u ter de c o m p r a r o u t r o par. Por
causa dc t u d o isso q u a s i n ã o t e n h o t e m p o d e escrever.

Maio 31, 1924.

Iuchka Gromov tem uma irmã chamada Maria,


m a i o r de idade que anda sempre c o m meninos. Cheira
a perfume e t e m o nariz muito branco. Iuchka diz que
a b r a n c u r a v e m de p ó s q u e ela usa, q u e , r e a l m e n t e , o
nariz é azul. Quero verificar isso.
Seu p a i é esfolador de gatos. Compra gatos, tira
a p e l e c v e n d e c o m o se f o s s e d e r a p o s a . Papai conhe-
ce, mas diz que pele de gato não é prática porque
estraga muito depressa.
Essa M a r i a se desfaz e m amabilidades para mim.
Ela me chama de "orfãosinho", me dá chá e doces.
Iuchka pegou o costume de me chamar "o órfão de
Kazan". Isso m e m o r t i f i c a ao m e s m o t e m p o m e d á u m a
sensação agradável de conforto.
0 Comsomol interrompeu durante o verão suas
atividades n o club. E m b o r a eu tenha f r e q ü e n t a d o pou-
co o club da fábrica, tenho muita pena que acabe.
Alem disso, Serioga B l i n o v v a i passar o v e r ã o n a pro-
vincia de Tambov e Zoia v a i para a casa de uns pa-
rentes em Leningrado.
Às vezes f i c o pensando que estou completamente
só numa t e r r a deserta, que não tem ninguém ao meu
redor. Fico e n t ã o sentindo c o m p a i x ã o de m i m mesmo.
T R I M E S T R E D E V E R Ã O

C A D E R N O G E R A L

Junho 3> 1924.

Zin-Palna esteve nos explicando o programa de ve-


r ã o que teremos de realizar. Começaremos a explorar,
em todos os sentidos, a aldeia Golovkino, que fica a
c i n c o verstas da c i d a d e . Entraremos e m contacto com
os camponeses, sem jactar-se de que somos habitantes
da cidade. Pesquisar-se-á a vida que eles l e v a m , e se
dará explicações de t e m a s q u e lhes interessem. A al-
deia será medida em duas dimensões. E, em geral,
serviremos de ponte entre a cidade e o campo. Isto,
em primeiro lugar.

Segundo: recolher e anotar c a n ç õ e s , casos, lendas


e c r e n ç a s populares, e m b o r a isto esteja mais relacionado
com a v i d a e costumes. Para termos u m a idéia da l i -
teratura épica, Zin-Palna leu-nos uns fragmentos da
"Cavalgada", poema popular finlandês. H o u v e u m pes-
quisador de l e n d a s populares chamado Runeberg que
percorreu a pé toda a Finlândia e conseguiu juntar
uma serie de contos c o m os q u a i s o poeta L e n r o t fez
u m poema. F o i no s é c u l o passado. Talvez a Runeberg
f i z e s s e m f a l t a s essas c o u s a s , m a s que significação têm
118 N . O G N E V

elas p a r a nós? N a o consigo entender. A quem pode-


r á i n t e r e s s a r esses p r e c o n c e i t o s s e l v a g e n s , t a n t o s duentes
e demônios?
Creio que os c a m p o n e s e s t a m b é m nao têm grande
f é nessas f a r s a s . Alem do mais como fazer u m estudo
comparativo? Os finlandeses t i n h a m gigantes. Junta-
ram-se três para roubar ura tesouro, batalhando com
t o d o s os e s p í r i t o s malignos. Que comparação se pode
fazer com a nossa Baba-Yaga montada num cabo de
vassoura? T o d a s as n o s s a s b r u x a s e d e m ô n i o s , s ã o , e m
geral, terríveis e não têm nenhuma característica de
heróis. A l e m d i s s o : os f i n l a n d e s e s d i z e m q u e n ã o se d e -
ve matar rãs, porque estas, f o r a m , era outras épocas,
seres h u m a n o s ; e q u e d e v e m ser oferecidos dentes h u -
manos às aranhas. S ó c o n s i g o v e r e m t u d o isso o p r o -
duto da ignorância popular e não acho .que vale a
pena perder tempo.Seria muito melhor eletrificar as
aldeias e d i v u l g a r nelas a cooperação, modo de propa-
gar o socialismo. Mas Zin-Palna afirma que é preciso
anotar i s s o t a m b e m , p o r q u e essas c o u s a s e s t ã o a cami-
n h o de desaparecer diante da l u z elétrica, e e n t ã o não
será mais possivel desenterrá-las.
A c h o que n i n g u é m faria tal tentativa. D i s s e isso a
Z i n - P a l n a e ela r e s p o n d e u que eu n ã o amava o idioma
natal, a raiz de toda cultura. D i a n t e disto eu n ã o sou-
be mais o que dizer e tive de tomar notas a respeito
dc Ukko, o estrondoso, de Pciva — o sol — , e de
T i e r e m s , o d o m a r t e l o , q u e a n i q u i l a v a os g ê n i o s — que
medo, m ã e ! — . Teremos t a m b e m de fazer, e m colabo-
ração com o Museu Etnográfico exeavações de tumbas.
Zin-Palna diz que, a umas o i t o verstas da cidade, há
ruínas de u m a antiga v i l a , consistentes de v á r i a s tum-
bas. O Museu acha que a l i estão sepultados antigos
guerreiros, cora armas, cavalos e mulheres, Teremos
dc desenterrá-los e enviá-los para o Museu,
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 119

Vai ser m u i t o divertido, sobretudo quando encon-


trarmos armas. A l i mesmo, sobre a tumba, faremos
uma batalha em regra. N ã o creio que possamos fazer
tudo este v e r ã o , porque os rnaesc tambem nos darão
trabalho.
Agora então é que, definitivamente, n ã o tenho com
quem falar.

Junho 4, 1924.

Depois da reunião onde se explicou o programa


de v e r ã o , aconteceu u m incidente que me deixou mui-
to impressionado. Ao sair do laboratório vi Volodia
Schmcrz dar u m tapa nas costas de S i l v a . Ela estava
ressentida e eu quis passar indiferente diante deles,
quando ouvi Silva gritar seriamente:
— Costia Riabtsev, me a j u d e !
Quis continuar m e u caminho, mas Silva gritou de-
sesperada:
— V l a d l c n , defenda-me.
V o l ó d i a c o m e ç o u a r i r c o m f o r ç a , p a r o u de lutar
e perguntou:
— Q u e h i s t ó r i a é essa d e V l a d l c n ?
Enfrcntei-o e dei-lhe a " r a ç ã o do soldado verme-
l h o " que o deitou p o r terra. D e p o i s levantou-se c me
agrediu, mas dei-lhe a " e x p l o s ã o da granada de m ã o " ;
dei u m salto para t r á s , pois ele c u s p i u , m e m o s t r o u o
punho e f o i embora.
Silva m e disse:
— F u i injusta com você. Agora eu sei de tudo.
Você me desculpa?
Respondi:
— Você sempre soube de tudo. N ã o tenho nada
a perdoar.
120 N . O G N E V

— Nao, n ã o é verdade. Nicolas Petrovich acabou


de m e contar. Sejamos amigos de novo.
— N ã o p o d e ser — respondi secamente, e f u i em-
bora. Acho que ela ficou chorando.

Junho 7, 1924,

•Fomos pela primeira vez a Golovkino. Os campo-


neses estavam trabalhando nas hortas Eu estava en-
carregado da investigação de costumes. Aproximei-me
de u m a camponesa que plantava hortaliças e disse:
— Quer que eu ajude?
— Quem é você?
— Viemos fazer u m a e x c u r s ã o , v i e m o s da cidade.
— Vocês são alunos ou o que?
— Alunos.
— N o povoado vizinho t a m b e m teve alunos desses
que m e d e m a terra, mas acabaram roubando u m cesto
de r o u p a da tia A r i n a .
— N ã o somos ladrões.
— Q u e m sabe q u e m v o c ê s s ã o ? E' melhor que
você v á embora e n ã o atrapalhe.
— Escute: você acredita e m demônios?
Aí ela se levantou, l i m p o u a terra das mãos c
gritou:
— Pedroooo...! Pedrooooo...!
P o r trás de u m a moita apareceu u m camponês com
uma f o r q u i l h a na m ã o e veio direito para n ó s . A cam-
ponesa disse:
— O l h e , ele está dizendo que é aluno. Está fa-
lando de d e m ô n i o s , n ã o sei porque...
Enfurecí-me e disse:
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV Í 2 1
é

— Nao v i m para falar de demônios. Posso f a l a r -


lhe da eletrificação, do r á d i o . . . e a l e m de t u d o , posso
ajudá-los nalguma cousa.
— Ah! Então você é um agente de ligação. —
respondeu o camponês. Nesse caso n ã o h á o b j e ç ã o , se
é sério... Mas, olhe aqui, rapaz, é melhor você vir
domingo, no d o m i n g o n ó s estamos livres.
Fui embora sem ter conseguido «ousa alguma.
Andei atrás das casas. Em todas as hortas trabalha-
vam mulheres e crianças. De repente um cachorro
com o pelo todo e m b a r a ç a d o v e i o ao meu encontro e
começou a b r i n c a r ao m e u redor. Eu, como faço sem-
p r e nesses casos, f i z u m gesto d e p e g a r u m a p e d r a , mas
a manobra n ã o impressionou o cachorro. Ao contrá-
rio, atrás dele apareceram outros tantos, atirando-se
juntos sobre mim. Ouvi dizer que para afugenta-los
o m e l h o r é urinar-se neles. Como eram muitos, come-
cei a dar voltas para u r i n a r de f o r m a a a l c a n ç a r todos.
— Que é que você está fazendo? — perguntou
uma voz trás de mim. Virei a cabeça e ví o campo-
nês j á m e u conhecido.
E l e a f u g e n i p u os c a c h o r r o s e e u c o n t i n u e i a a n d a r .
Mas d o i s passos a d i a n t e , t o r n a r a m a me rodear e um
agarrou as minhas calças. Fiquei irritado, arranquei
u m a estaca da v a l a e c o m e c e i a d a r g o l p e s . Ouvi logo,
uma voz:
— Deixe esse pau! Deixe! Eles ainda despeda-
çam você.
J o g u e i a estaca f o r a . 0 camponês me perguntou:
— Mas que é que você está fazendo aqui?
— V i m explorar a aldeia.
— Engraçado — disse o camponês. Vêm... ex-
ploram. . . P o r q u e v o c ê está q u e b r a n d o a vala? E ' sua?
Apareceu uma mulher gritando entre os arbustos:
122 N . O G N E V

— Sai, d i a b o ! Andam, andam por aqui e depois


l e v a m u m b a ú , como da t i a A r i n a . . . Vanka! Vanka!
— gritou frenética — C o n t e as g a l i n h a s ! Veja bem as
galinhas!
N ã o sei c o m o consegui sair d a q u e l a aldeia e atin-
gir a estrada. Aos outros aconteceram cousas seme-
lhantes. Dois quasi ficam presos com correntes por-
que queriam medir o terreno.

Junho 10, 1924.

Tenho medo que vá me acontecer a mesma cousa


que no inverno, mas agora não tenho culpa. Estou,
tambem, mais "conciente" que no inverno. Primeiro,
p o r causa do que aconteceu c o m L i n a , e d e p o i s , porque,
segundo o papel roubado no escritório da Proteção,
a l g u m a s cousas destas s ã o castigadas p o r l e i .
O p i o r é que N i c p e t o j f o i veranear e I u c h k a Gro-
mov não é digno de crédito neste assunto, de modo
que n ã o tenho ninguém c o m q u e m f a l a r ; estou absolu-
tamente só. E' o seguinte (e a cousa já dura vários
dias):
Maria, a irmã de Iuchka resolveu organizar uma
f u n ç ã o teatral e dar a " A D e c l a r a ç ã o " de Tchecov, on-
de eu sou o n o i v o e ela a noiva. A obra não é mo-
derna e é mesmo u m tanto absurda, mas aceitei por-
que quero me c e r t i f i c a r se sirvo para ator. Segundo
o papel, tenho de b e i j a r M a r i a . N o ensaio, e u a abra-
cei e beijei, mas cia exclamou:
— Ora! V o c ê m o l h o u toda a m i n h a cara de sali-
va. V o c ê n ã o sabe beijar?
Todos — u m a s c i n c o pessoas — começaram a rir,
e Iuchka gritou:
— E l i ! está todo v e r m e l h o ! . . .
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 123

Fiquei furioso e nao queria mais fazer o papel.


Vim para casa. Todos me rodearam e me rogaram
que ficasse. Iuchka levou-me para um canto e disse:
— Mas você é t ã o bohinho! n ã o está vendo que
Maria quer conquistar você?
Não compreendi bem, mas então Maria veio ter
conosco, e m p u r r o u I u c h k a e m e disse:
— Você é um bobo! Não é nenhuma desgraça
não saber beijar. Eu ensino, quer? Quer? Venha
esta noite ao, jardim.
Eles têm um jardinsinho atrás da casa. Fiquei
pensando... Tanto faz. Eu tinha tempo dc sobra.
Fui de noite ao jardim dos Gromov. Ela estava
me esperando com uma roupa transparente e de saia
curta. E l a se a p e r t o u c o n t r a m i m e disse:
— Olhe, p r i m e i r o , aperte os l á b i o s e m e b e i j e nas
faces.
M a s e m vez da face b e i j e i o n a r i z . Ela sussurrou:
— Bobo! não é aí!
E n s i n o u - m e a b e i j a r n a b o c a , m a s isso n ã o era mui-
t o a g r a d á v e l , p o r q u e c h e i r a v a o* t a b a c o c p e r f u m e . Ela
fuma cigarros, u m atrás do outro. Depois, me levou
para u m canto, m e fez sentar n u m banco e se sentou
no meu colo.
Mas aí, c u senti um cheiro forte de cachorro e
disse:
— O n d e é que estamos m e t i d o s ? que c h e i r o !
Ela me abraçou e m e sussurrou ao ouvido:
— N ã o é nada. S ã o as p e l e s d e g a t o q u e m e u pai
pendura aqui.
C o m o é q u e e u í a n ã o f a z e r caso, q u a n d o m e pa-
recia estar n u m a cloaca o u a l g u m a cousa p i o r ? Tive
muito trabalho c m tira-la do meu colo e f u i embora,
mas ela n e m siquer f i c o u o f e n d i d a .
124 N . O G N E V

Desde então, tenho estado com ela várias vezes


e sempre nos beijamos, c o m o criancinhas. Não é mui-
to agradável.
E i s s o n ã o t e r i a i n t e r e s s e se d e p o i s d e c a d a encon-
tro n ã o viesse aquela sensação pim, pam! zas, traz!
Isso m e f a z s o f r e r m u i t o , a i n d a m a i s quando me lem-
b r o do papel da Proteção.

' ^ junho 15, 1924. *

Alioja Chikin mora na casa de Zin-Palna e mudou


por completo. É m u i t o c o m p r e e n s í v e l que durante sua
e s t a d a c o m os d e s a m p a r a d o s e l e t e n h a se a t r a s a d o . A-
gora, ele v a i ter de f i c a r mais u m ano n o terceiro gru-
po. Está magro, pálido e quasi nunca fala.

Zin-Palna conseguiu para a m ã e de A l i o j a u m a sub-


venção do Comissariado de Economia. A velha veio
agradecer e quis ajoelhar-se, mas Zin-Palna indignou-se
com aquilo. T e n t e i f a l a r c o m A l i o j a , m a s e l e se r e c u s a .

Junho 20, 1924.

Anteontem fizemos uma excursão com Elnikitka.


E r a dc história n a t u r a l mas acabamos falando tambem
de sociologia, e Elnikitka n ã o entende nada desta
matéria.
Surgiu u m incidente:
E r a quasi todo o terceiro g r u p o — agora j á é quar-
to — e alguns meninos do segundo. No caminho hou-
ve v á r i a s cenas de a m o r ; p o r e x e m p l o : V o l o d i a Schmerz
ficou todo tempo com Ninka Fradkina na plataforma
do carro. Os rapazes, de p r o p ó s i t o , passavam, u m por
um na f r e n t e deles, p a r a i r ao t o c a d o r . Naturalmente,
Ò ÍHARIO DE COSTIA RIABTSEV 125

V o l o d i a f i c o u enfurecido, mas ele m e r e c i a ; corteja to-


das as meninas, cada uma por sua vez, e se derrete
e m salamaleques como H a r r y X l o y d . N i n k a ficava ofe-
gante quando nos via e isso muito nos divertia. El-
nikitka mandou que cantássemos em coro: "Chega
depressa, anoitecer sereno!..." Começamos essa es-
túpida canção. O revisor apareceu, nos o l h o u c o m re-
ceio e disse:
— Pensei que os f r e i o s t i v e s s e m partido!
Em geral, a viagem f o i muito divertida.
Quando chegamos a Solnechnoye, Elnikitka foi
explicar história natural para as meninas, e nós nos
pusemos a jogar f u t e b o l . A t é q u e os m e n i n o s caçaram
uma minhoca. Todos sabem que ela n ã o morde, mas
com tudo, surgiu u m incidente; levaram-na para Elni-
kitka e perguntaram:
— E l e n a I N i k i t i c b a , q u e s e r p e n t e é esta?
— É uma cobrinha da familia das jibóias.
— Morde?
— Não. Sua boca é inofensiva.
E n t ã o Iuchka Gromov, que a t i n h a na m ã o , apro-
ximou-se de E l n i k i t k a e disse:
— Segure c o m a mão!
— Para que?
— Para nos demonstrar que n ã o morde.
E quis po-la na sua mão. A minhoca se retorcia
como se tivesse sido atravessada por alguma cousa.
Elnikitka deu um g r i t o e as m e n i n a s outro:
— T i r e depressa! — gritou Elnikitka—. Não a
deixe perto de m i m !
I u c h k a j o g o u a minhoca, n ã o n o c h ã o , mas na ca-
b e ç a de E l n i k i t k a . E l a soltou u m berro, como uma
l o u c a e n ó s nos pusemos a correr.
126 N . O G N E V

Vai se queixar de nós na reunião geral... Que se


queixe! Sempre está se queixando de alguma cousa
e já nem dão importância a ela. N ã o se pode fazer
nada engraçado na f r e n t e d e l a e as m e n i n a s ficam tap
s é r i a s q u e n ã o é p o s s í v e l a p r o x i m a r - s e delas c o m Elni-
kitka perto.
Fomos depois a uma fazenda. O c u r r a l esta o c u p a -
do p e l o soviet da E c o n o m i a . A casa p r i n c i p a l e os b a r -
racões estão intactos e declarados M u s e u P ú b l i c o . Toda
espécie de excursionista vai visitá-lo para ver c o m o v i -
viam antigamente os senhores, os proprietários e os
burgueses.
N ó s t a m b e m quisemos ver.
Posto que a e x c u r s ã o é de h i s t ó r i a n a t u r a l , n ã o
podemos nos desviar. V a m o s ao c u r r a l e a l i e x p l i c a r e i
t u d o o que interesse.
Q u e interesse p o d í a m o s n ó s t e r e m vacas e touros?
Sè n ó s fossemos criadores, pode ser. Por i s s o , os me-
ninos disseram:
— N ó s n ã o vamos ao curral.
Estávamos d i s c u t i n d o , q u a n d o s a i u u m h o m e m ves-
tido de marron, não muito velho, moreno. Elnikitka
perguntou:
— É o senhor o encarregado?
— Sou — disse ele.. Sou o diretor.
Tinha uma voz rouca, c o m o a de um gramofone
quebrado e parecia q u e estava gargarejando agua.
— Então será que poderá nos explicar tudo? —
perguntou Elnikitka.
— S i m senhora — respondeu ele.
— B o m , m e n i n o s , nesse caso, v a m o s — disse Elni-
kitka, desgoslosa. Aparentemente ela não queria en-
trar porque tinha medo de n ã o poder explicar tudo
o que quiséssemos.
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 127

O encarregado nos levou pelos aposentos.


— Aqui comia sua excelência, o proprietário, se-
n h o r U r o s o v . A q u i , S. E x c i a . tomava chá. Aqui, S.
E x c i a . descansava. E aqui...
Elnikitka n ã o pode conter-se.
— Porque tanta excelência? Estes são meninos
soviéticos — n ó s meninos! — que n ã o conhecem todos
esses t í t u l o s . Fale com mais simplicidade, camarada
encarregado.
— Porque não? — disse ele e s o l t o u u m s o l u ç o —
é que h á uma ordem no sentido de n ã o alterar o...
ambiente. Vejam estas p a r e d e s pintadas a fresco. E
os a n j o s q u e v o a m . S ã o c u p i d o s . Esta mesa é de
cristal. É p r o i b i d o tocar nela.
Deu u m novo soluço:
— Mas que diabo! É a cebola. J á volto. Espe-
rem aqui.
E saiu.
— Que encarregado idiota — disse Elnikitka.
— Seria m e l h o r que a senhora mesmo nos expli-
casse as c o u s a s , d i s s e e u .
— Você, Riabtsev, sempre se mete onde não ê
chamado.
O encarregado voltou, continuou explicando e eu
reparei que ele n ã o cheirava cebola, mas outra cousa.
— Que é aquilo ali, no teto? —- perguntaram
m e u s colegas.
— É a d e u s a V e n u s , e ao seu r e d o r , V u l c a n o pas-
seia n a sua carruagem. É pastor porque tem u m chi-
cote. Esse q u a d r o é de u m a c e l e b r i d a d e d a África.
— C o m o se c h a m a e s s è p i n t o r ?
— Esqueci. A g e n t e t a m b e m n ã o p o d e se l e m b r a r
de t u d o .
" H i p " ; o som vinha atrás do grupo; tinha sido
Iuchka Gromov.
128 N . O G N E V

O encarregado se sentou num banquinlio, fechou


os o l h o s e n o s d i s s e :
— Meus filhos, e você, professora de pedagogia
vermelha, m i n h a vista está um tanto turva. Mas não
tem importância. Já vou. Foi a cebola que me
fez m a l .
Efetivamente se levantou e nós o seguimos. Le-
vou-nos p a r a u m s a l ã o e n o r m e , c o m sacadas à v o l t a da
parede. N o c e n t r o h a v i a u m l u s t r e n o t á v e l e as janelas
eram quasi como u m campo dc f u t e b o l .
— Aqui, sua excelência, o senhor Urusov rasgou
a garganta.
— Porque f o i que e l e se m a t o u ? — perguntaram.
— Porque viu o fantasma.
— Que fantasma?
— " A Dama Branca"! — disse o e n c a r r e g a d o com
voz soturna. Essa " D a m a " e r a t ã o delicada, t ã o cora-
josa, que o senhor U r u s o v n ã o pode resistir.
— Senhor encarregado — disse Elnikitka. Supo-
nho que você compreende o absurdo de tudo isso.
Agora mesmo explicarei às crianças a falsidade des&es
fantasmas!
— "Hip!" — respondeu o encarregado. Maldita
cebola! Que culpa tenho eu se me deram ordem de
contar tudo tal qual aconteceu? Eu n ã o estava pre-
sente, n ã o p o d e m e x i g i r n a d a de mim. Mas o que eu
vi mesmo, f o i a aldeia inteirinha ardendo.
Apoiou-se na parede.
— Que aldeia — quis saber E l n i k i t k a , v i s i v e l m e n -
te aborrecida.
— Espirsija. Se v o c ê , c a m a r a d a , n ã o está gostan-
do das minhas explicações, porque é que n ã o explica
sozinha?
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 129

— Ele tem toda razão! Explique você — pedi-


r a m alguns, de brincadeira, naturalmente.
— Não! Deixe o encarregado — gritaram outros.
— Vamos por em votação! gritei. Os que quise-
rem que Elena N i k i t i c b a explique, levantem a m ã o .
A maioria levantou. Elnikitka ficou fera.
— N ã o e x p l i c o cousa alguma. Vamos embora já.
Porque? — fez o encarregado. É muito mais
d i v e r t i d o estar c o m vocês. V e n h a m à festa de P o k r o v ;
minha m u l h e r faz empadas c o m . . . carne.
M a s E l n i k i t k a n ã o se a c a l m a v a e o r d e n o u q u e f o s s e -
mos c o m ela à estação. Quando chegamos à porta do
Museu, começou a chover a cântaros e tínhamos de
p e r c o r r e r t r ê s verstas a t é a e s t a ç ã o .
— Que faremos? Temos de esperar — disse E l -
nikitka.
O l h e i p e l a p o r t a e v i c o m o o c e u estava carregado.
O g u a r d i ã o do museu disse:
— N ã o v ã o . D e p o i s v ã o f i c a r m o l h a d o s a t é o s os-
sos. F i q u e m , passem a n o i t e a q u i . N ó s traremos f e n o
p a r a os a p o s e n t o s . Trarei quanto leite eu quiser do
Soviet de E c o n o m i a .
— Poderíamos conseguir pão? — perguntou Elni-
k i t k a indecisa.
— D e z , se q u i s e r e m — r e s p o n d e u o e n c a r r e g a d o .
E u , m i n h a c a r a p r o f e s s o r a p o s s o , se q u i s e r , o r g a n i z a r
u m banquete. Vocês querem?
— N ã o e s t o u c o m p r e e n d e n d o — disse c o m r a i v a E l -
n i k i t k a . M a s e m v i s t a d a c h u v a e c o m o as c r i a n ç a s p o -
dem se resfriar, n ã o h á outro remédio; passaremos a
noite aqui. Queira dizer às crianças onde é que eles
p o d e r ã o recolher o feno, e traga o leite e o p ã o . Pa-
garemos tudo.
Enquanto o encarregado trazia o n ã o e o leite, E l -
n i k i t k a nos disse:
130 N . O G N E V

— Esse h o m e m é m u i t o e s t r a n h o e sua c a b e ç a n ã o
está funcionando bem. Não quero que vocês entrem
com ele e m nenhum gênero de conversação ou intimi-
dade. Vocês iriam imediatamente travar relações com
ele, mas e u n ã o o p e r m i t o .
E d i z e r q u e e l a se p e r m i t e p r o i b i r - n o s d e f a z e r a l -
guma cousa! Se e l a n ã o t i v e s s e d i t o isso, n ã o aconte-
ecria nada, mas depois dessas, r e s o l v e m o s pregar um
susto n e l a e nas m e n i n a s .
A chuva continuava e não podíamos correr pelo
jardim. Assim, tivemos de brincar na própria sala.
Escureceu, e como n ã o havia luz, tivemos de nos dei-
tar. Elnikitka, numa habitação e nós cm outra. As
meninas estavam com Elnikitka. Houve conversa* e
alvoroços sem f i m de maneira que Elnikitka teve de
nos r e p r e e n d e r v á r i a s vezes. Q u a n d o t o d o s se calaram,
Iuchka Gromov cochichou:
— Agora!
T í n h a m o s ficado com a toalha onde tinham vindo
embrulhados os v í v e r e s t r a z i d o s d a c i d a d e . Iuchka en-
rolou-se nela e f o m o s , nas pontas dos pés para a sala
para acabar de c o m b i n a r e ensaiar u m pouco. Apenas
entramos vimos no outro extremo uma luzinha apenas
perceptível. F o i t ã o inesperado que senti um ligeiro
mal-estar. Iuchka me agarrou a mão:
— Espere Costia! Que é aquilo?
— O encarregado, c o m certeza.
— A h ! que susto! Vamos ver o que ele está
fazendo.
Fomos chegando silenciosamente e vimos que a luz
brotava de uma portinha debaixo da galeria. A prin-
cípio tivemos u m certo medo. A porta estava aberta
e podíamos ver o interior. Espiei e ví:
Sobre a mesa u m fogareiro e no f o g a r e i r o u m a cha-
l e i r a c u j o f u n d o estava a j u s t a d o a u m t u b o g r a n d e ; de-
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 131

p o i s , u m a b a c i a e s o b esta u m a garrafa. A maquinasi-


n b a estava acesa e perto dela, num banco, estava o
encarregado.
— Está distilando — murmurou Iuchka. Eu sei.
M i n h a t i a faz assim t a m b e m . Olhe. A garrafa está
j á cheia pela metade.
Dei um passo p a r a ver melhor, a porta rangeu, o
encarregado estremeceu e abriu os olhos. Soltou um
p a l a v r ã o , d o s m a i s o b c c n o s , se i n c l i n o u s o b r e a g a r r a f a ,
e m p u r r o u a b a c i a c t o r n o u a se s e n t a r .
— V o u s o l t a r esse d i a b o d e t r a p o — disse Iuchka
— n ã o posso m a i s .
Eu tambem estava quasi rebentando de rir, até o
ponto de ter de tampar a boca e o nariz. De repen-
te I u c h k a e s t a l o u . O e n c a r r e g a d o se l e v a n t o u n u m p u l o
e veio a t é a porta. N ó s nos a p e r t a m o s c o n t r a a parede,
ele a b r i u a porta de par cm par e ficou olhando
a sala.
— Espionando outra vez! — r e s m u n g o u o encar-
regado. Bom, bom! Eu ainda te pegarei c p u x a r e i
as f r a n ç a s .
Senti uma vaga inquietação. A quem estava ele
se d i r i g i n d o ? Iuchka me cotucou. Mas cu n ã o estava
mais disposto a rir. O encarregado voltou as costas,
inclinou-se, pegou a garrafa e ía beber, quando Iuchka
deu u m a gargalhada t ã o estrepitosa que retumbou por
t o d a a sala.
— Q u e m é ? — g r i t o u o e n c a r r e g a d o e se p r e c i p i -
t o u p a r a a sala. O l h o u e m nossa d i r e ç ã o , d e u u m g r i -
to estridente e c o m e ç o u a correr para o a q u a r t e s ocupa-
dos pelos excursionistas.
Iuchka tirou a toalha e saimos tambem correndo.
para a galeria. E-condemo-nos atrás de uma sacada
e continuamos a olhar. N a s h a b i t a ç õ e s e m q u e os nos-
sos d o r m i a m se a r m o u u m a c o n f u s ã o m e d o n h a . Quem
132 N . O G N E V

gritava m a i s era Elnikitka. Vimos o encarregado en-


t r a r c o r r e n d o n a sala — t i n h a p a r a d o d e c h o v e r , e t u d o
p o d i a s e r v i s t o à l u z d a l u a — ; a t r á s d e l e , os m e n i o o s .
Por f i m v i n h a E l n i k i t k a , e n v o l t a n o casaco.
P o r a l i F o i p o r a l i ! — disse o e n c a r r e g a d o
apontando na nossa direção. Ela estava lá. Alta,
grande, tocando quasi o teto.
— M a s q u e m é ela? — q u i s e r a m saber os m e n i n o s .
— A "Dama Branca".
— Você a v i u claramente? — perguntou Volcdia
Schmerz (reconheci pela voz) — . Talvez tenha sonhado.
— Sonhar! V i , c o m o estou v e n d o você. — res-
pondeu ele. Mas agora já n ã o está mais; deve estar
em outras habitações.
— J á que ela n ã o está, v a m o s d o r m i r — disse E l -
nikitka c o m voz sonolenta. E se v o l t a r o s e n h o r pode
bancar o guarda e nos deixar em paz.
— Perdão, professora... D i a n t e de cousas como
estas a gente precisa despertar nem que seja o pró-
prio pai!
D e p o i s , os m e n i n o s e E l n i k i t k a foram embora e o
encarregado, lâmpada cm punho, e x a m i n o u os cantos
e voltou para o quarto.
Permanecemos ainda uns dez minutos na galeria
e depois descemos, muifo cautelosamente para a sala.
Na metade da escada, m a i s o u m e n o s , v i m o s , v i n d o de
outra porta — abaixo da galeria, mais à direita —
avançar u m a sombra. Por pouco eu gritei, mas I u c h k a
me apertou a m ã o :
— Q u e m será? — sussurrou n u m a voz t r ê m u l a re-
veladora do m e d o q u e estava sentindo.
A sombra deslisou pela parede, f o i a t é o centro e
avançou para nós. Parecia que meu coração ía parar
de susto! A sombra avançava tão silenciosamente!
O DIÁRIO D E J^OSTIA RIÀBTSEV 133

Mas, em lugar de subir as escadas, dirigiu-se ao quar-


tinho do encarregado. Ouvimos u m estrépito, u m ru-
gido, golpes e a sombra saiu do q u a r t o p a r a a sala.
— Cachaceiro! — gritava a sombra. Então você
se e s c o n d e para distilar? E ainda me bate! Espere,
q u e e u c o n t o t u d o ao e n c a r r e g a d o quando ele aparecer.
O n d e j á se v i u c o u s a a s s i m ? Meter-se na dispensa,
distilar e embebedar-se!
— Cala a boca, diaba! — rugiu o encarregado, se-
gurando a sombra pelo pescoço. Tem aí uns excur-
sionistas dormindo. Você vai acordá-los e depois eu
fico c o m a responsabilidade. Cala a boca, senão eu ar-
r a n c o essas t r a n c a s ! Palavra que arranco.
Descemos as escadas c corremos a largos passos
p a r a o nosso dormitório. A sombra calou-se.
— Está vendo! — os m e n i n o s s a i r a m u m p o u c o e
ouviram tudo. Você está me matando, bruxa odiosa!
Caimos n o feno, r i n d o como loucos, a t é que Elni-
k i t k a a b r i u a p o r t a d o q u a r t o dos m e n i n o s e disse c o m
u m t o m solene:
— N a t u r a l m e n t e s ó p o d i a ser R i a b t s e v . Mas pode
f i c a r sossegado q u e isto eu n ã o p e r d ô o . E ' uma infâ-
mia inominável!
— Pelo que me i m p o r t o ! — Respondi, mas a von-
t a d e de r i r t i n h a passado.
De manhã, um homem dc óculos azues v e i o nos
acordar e perguntar que t a l t í n h a m o s passado a noite.
Era o verdadeiro encarregado que acabara de chegar
da c i d a d e . O p r i m e i r o n ã o era mais que u m guarda,
e p o r isso d e r a a q u e l a s e x p l i c a ç õ e s a b s u r d a s . O ver-
d a d e i r o e n c a r r e g a d o disse q u e o g u a r d a t i n h a servido
n a casa d o p r o p r i e t á r i o U r u s o v . Parece que v a i ter de
ser d e s p e d i d o : n ã o foi a primeira vez que se fingiu
do v e r d a d e i r o encarregado.
134 N . O G N E V

Na volta rimos muito de Elnikitka por ter toma-


do u m guarda bêbado pelo encarregado e ter escutado
a s é r i o u m colosso de e x p l i c a ç õ e s absurdas. Se é espe-
cialista e m h i s t ó r i a n a t u r a l , p o r q u e h á d e se m e t e r em
sociologia?
Julho 6, 1924.

E m b o r a Zin-Palna esteja c o m unia a p a r ê n c i a abati-


da e preocupada — será que cia está doente? — fomos
ontem de novo a Golovkino. Essa excursão poderia
t e r t i d o u m f i n a l b e m t r i s t e se a s e r e n i d a d e d e espírito
de Z i n - P a l n a n ã o nos tivesse a j u d a d o . Antes da parti-
d a , f u i a o a l v é o l o d a f á b r i c a , e, e m b o r a n ã o e n c o n t r a s s e
o s e c r e t á r i o , consegui u m a o r d e m ao C o m s o m o l de Go-
l o v k i n o , a f i m d e q u e este n o s a u x i l i a s s e n a investigação
da vida e costumes populares.

Era domingo, e a aldeia estava e m festa. Muitos


já estavam tocados desde de manhã, e, por desgraça,
os m e m b r o s d o C o m s o m o l t i n h a m i d o a u m a r e u n i ã o do
Comitê Revolucionário, a umas vinte e cinco verstas.
Eis o que aconteceu:

Zin-Palna procurou o presidente e pediu auxílio


para nossos t r a b a l h o s dc pesquisas. O presidente não
veio pessoalmente e e n v i o u conosco seu f i l h o , u m meni-
n o de q u i n z e anos. C o m e ç a m o s a m e d i r o terreno, de-
senrolamos a fita, e fomos logo rodeados por mulheres,
m o ç a s , rapazes e c r i a n ç a s que ficavam olhando o que
fazíamos. Decidi aproveitar a ocasião e, enquanto os
outros mediam, comecei a indagar a respeito dos cos-
tumes. A p r o x i m e i - m e das j o v e n s e c o m e c e i a conversar.
Pedi-lhes que cantassem a l g u m a cousa, mas elas riam,
se e s c o n d i a m atrás das outras dizendo que n ã o conhe-
ciam nada.

— E q u a l de v o c ê s j á v i u u m gênio? — perguntei.
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 135

— O gênio está aqui — disse uma, apontando-me


com o dedo.
Um rapazinho aproximou-se de mim dizendo:
— Não se meta com nossas moças. Você veio
para isso?
Tirei a ordem e mostrei. Ele a olhou e disse:
— E l a n ã o nos está dirigida. Se v o c ê é do Com-
s o m o l , v á c o m o C o m s o m o l e d e i x e nossas m o ç a s e m paz.
Discuti c o m ele, mas observei que estavam m e em-
purrando e que os nossos e s t a v a m apreensivos.
Mediam por trás das casas, o n d e h a v i a as hortas,
e os r a p a z e s d a aldeia que r o d e a v a m os a l u n o s , pene-
t r a r a m n u m a horta, c o l h e r a m verduras e depois acusa-
ram os nossos de furto. Uma mulher veio gritando,
xingando Zin-Palna e ameaçando-a c o m os punhos.
— V o c ê t e m d e v i g i á - l o s : p a r a isso q u e é p r o f e s s o r a .
Zin-Palna respondeu secamente:
— N ã o posso responder pelos m e n i n o s da aldeia.
Q u a n t o aos a l u n o s e s t ã o t o d o s a q u i c o m i g o .
— Mas eu os vi. Olhe! F o i este quem roubou.
— E se meteu com as moças! — vociferaram
os moços.
Zin-Palna então, gritou c o m sua voz de b a i x o , es-
trondosa, deixando-me atônito porque nunca pensei
q u e ela pudesse gritar assim:
— C o m o é q u e v o c ê se a t r e v e , R i a b t s e v ? Como é
q u e se a t r e v e a m e t e r - s e c o m moças?
O a l v o r o ç o cessou, c o m o q u e p o r e n c a n t o e e u tirei
a o r d e m que apresentei a Zin-Palna.
— Bom, e daí? — perguntou.
— Desde que estou investigando costumes, tenho
ou n ã o o direito dc pedir que cantem u m a canção.
Aproximou-se então u m rapagão muito fornido de
carnes, q u e estava examinando-nos e m silêncio e disse:
136 N . O G N E V

Fora daqui! Vocês não têm nada a fazer na


nossa a l d e i a .
E as m o ç a s d e l o n g e :
— Boa viagem! — gritavam rindo.
Um b ê b a d o se a p r o x i m o u v o c i f e r a n d o :
— Conheço esses d i a b o s . V ê m por causa do im-
posto! São agri... men... so... res. Ao diabo
com eles!
— P õ e fora a ponta-pés! Ou com estacas! —
gritavam d e t o d o s os lados.
A camponesa roubada lançou-se sobre Zin-Palna,
mas Alioja Chikin agarrou-a pela mão e a impediu
de agredir.
— Hei! Camponeses! Venham! — vociferou a
m u l h e r e u m m o ç o segurou A l i o j a pelo o m b r o .
— U m momento! — gritou Zin-Palna com a mes-
ma voz estrondosa, enquanto seu ú n i c o dente amarelo
brilhava. Deixem-me explicar!
Fez-se s i l ê n c i o .
— V o c ê s q u e r e m nos espancar sem ao m e n o s saber
porque estamos aqui. Queremos apenas o seu bem.
Queremos ser seus a m i g o s n a cidade e para isso, pre-
cisamos ter um plano da aldeia.
— E depois? — p e r g u n t a r a m das ú l t i m a s filas.
— E m primeiro lugar, vocês terão uma m ã o prote-
tora na cidade; segundo, saberão a quem se dirigir;
terceiro, ajuda-lo-emos e m tudo; quarto, mandaremos
jornais; quinto, conseguiremos e m p r é s t i m o s de semen-
tes... Numa palavra, seremos bons amigos.
— M a s p o r q u e é q u e n ã o disse isso antes, camara-
da? — perguntou o rapaz f o r n i d o de carnes.
— Ninguém perguntou •— respondeu Zin-Palna.
Alem disso, d i r i g í - m e ao presidente e ele n e m si q u e r
quis f a l a r conosco.
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 137

— Sim, sim! E ' isso m e s m o — gritou alegremen-


te o b ê b a d o — . C o m ele é preciso cuidado: "Sou
uma autoridade soviética!"
— Bom, continuou, Zin-Palna. Vamos embora.
Agora tanto faz, o trabalho ficou perdido. A t é a vista.
V e n h a m à nossa escola. Deixaremos as s e n h a s . Vire-
mos outro dia. Vamos.
— E o meu roubo? — perguntou a camponesa.
— A o diabo cora cie! — replicou o b ê b a d o . Como
se f i z e s s e f a l t a . N ã o v i u q u e s ã o s á b i o s ? E quem é
você? E ' preciso ver a diferença.
Os m o ç o s f o r a m conosco uma boa parte do cami-
nho gritando:
— Amigos! Amigos!
Ao chegarmos na escola, Zin-Palna disse:
— Camaradas: o prometido é devido!
— Sim, sim! N ó s c u m p r i r e m o s ! — g r i t a r a m todos.

Julho 10, 1924.


Estou convencido agora, que D a l t o n t e m u m a certa
r a z ã o d e ser. E' verdade: é muito b o m inteirar-se
pessoalmente de t u d o e desconfiar do que os o u t r o s
dizem, porque sempre fica-se m u i t o l o n g e da realidade.
Foi ontem a função teatral na casa dos Gromov.
Representamos " A Declaração". Depois do espetáculo,
G r o m o v , p a i , c o n v i d o u todos para ceiar. D u r a n t e a*
ceia todos t o m a r a m v i n h o e eu t a m b e m . Q u a n d o aca-
bou, todos f i c a r a m a l i ainda m u i t o t e m p o e logo M a r i a
m e levou para o t e r r a ç o , m u i t o escuro. B a t i contra a
p o r t a e f i q u e i c o m u m g a l o n a testa, m a s n ã o disse n a d a .
T a l v e z e u estivesse m e i o t o c a d o j á . M a r i a m e l e v o u
até a dispensa...
Q u a n d o t u d o t e r m i n o u s e n t i de r e p e n t e um cheiro
f o r t © de p o d r i d ã o , q u e p r o v o c a v a n á u s e a s .
N . OG N E V
138 /

— Que nojo! — disse. Que é isso?


— M e u p a i g u a r d a a q u i as p e l e s . N ã o f a ç a caso —
sussurrou M a r i a , e n ã o fale t ã o alto.
M a s n ã o p u d e r e s i s t i r m a i s e f u i p a r a casa. JNo ca-
minho tive tonturas, sentia o coração palpitante e f i -
quei muito mal. Não gostaria que Silva soubesse
dessa v e n t u r a . V a i ser d i f i c i l e l a s a b e r . Iuchka quasi
n ã o fala. E ela a n d a agora quasi s e m p r e c o m S c h m e r z .
Que será que v i u nele? O mais estranho é que Silva
não vê que ele corteja todas as meninas e que ela é
u m a entre tantas. D e v e ser m o r t i f i c a n t e p a r a o orgu-
lho f e m i n i n o , ainda mais tratando-se de Silva. Porque
ela é m u i t o o r g u l h o s a , talvez a m a i s o r g u l h o s a de todas
as n o s s a s meninas.
Julho 13, 1924.

Fui hoje a Golovkino e, por precaução, levei comi-


go V a n k a P e t u j o v , que está de férias. Falamos no ca-
minho acerca do p r o b l e m a sexual. Repetí-lhe o con-
teúdo do papel que eu achara na Proteção e pergun-
tei a o p i n i ã o dele sobre aquilo.
— E* p o s s í v e l , disse, que ainda haja alguns que
façam essas infâmias, herança do antigo regimen.
Agora, não é preciso apelar para isso..., porque se
pode fazer t u d o de um modo simples e normal.
Disse-lhe que e u n ã o c o m p r e e n d i a alguns dos ter-
mos d o p a p e l , m a s a c r e d i t a v a q u e essa " s i m p l i c i d a d e "
tambem d e v i a ser repugnante e, s o b r e t u d o depois.
Não sei. T a l v e z seja por falta de costume —
disse V a n k a . Depende, t a m b e m , de c o m q u e m se f a z .
— Pois... por e x e m p l o . . . Se é c o m u m a mulher
de mais idade que eu...
Ah. S ã o repugnantes — respondeu Vanka —
e nunca se s a b e o que querem.
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 139

Falando de assunto t ã o palpitante, chegamos sem


perceber a Golovkino. A s m o ç a s estavam no c a m p o —
era s á b a d o e anoitecia. D a n s a v a m de u m a maneira di-
vertida: faziam uma corrente e davam muitas voltas.
E m r e d o r e s t a v a m os m o ç o s . Uns traziam o acordeon
e outros apenas olhavam.
— A gente pode ficar olhando? — perguntou
Vanka.
— T ê m tabaco? — perguntaram os moços.
— Como não?
Fumamos. Os mocos:
— Podem olhar quanto quiserem.
D e p o i s , t o d o s se a p r o x i m a r a m d e n ó s , o l h a n d o - n o s
atentamente. Fiquei u m pouco envergonhado.
— M e u a m i g o sabe c o n t a r h i s t ó r i a s — disse V a n k a .
D e u u m cotucão para que ele ficasse q u i e t o , mas
as m o ç a s m e c e r c a r a m .
— Conte, camarada. Conte u m a b e m interessante.
— M a s e u n ã o sei c o n t a r ! N ã o é verdade.
V a n k a o l h o u - m e c o m seriedade e disse:
— N u n c a m e n t i na m i n h a vida.
Pensei um pouco e respondi:
— Há um país chamado Finlândia onde existem
m u i t o s lagos e p e d r a s q u e e m o u t r a s eras era habitado
por gigantes...
E continuei narrando o poema Kalevala. A maio-
r i a se s e n t o u à m i n h a v o l t a , e s c u t a n d o . Naturalmente,
t i r e i t o d o s os n o m e s estranhos, c o m o V e y e m e i n e n e o u -
tros; mas c o n t e i as l e n d a s e tradições populares, como
por exemplo, a proibição de matar rãs. Apenas disse
que, segundo os f i n l a n d e s e s , as r ã s t i n h a m s i d o c m o u -
tras eras seres h u m a n o s , u m a m o ç a e x c l a m o u assustada:
— Senhor! E nós, que as enterramos no for-
migueiro.
140 N. Ò G N E V

— E porque? — perguntei.
— P a r a f a z e r e n f e i t e s c o m o osso — gritaram rin-
do os moços. Amiutka, quem foi que você quis
conquistar?
Depois cantamos e dansamos todos juntos — em-
bora eu nunca tivesse feito isso na minha vida. Ali,
com eles, achei muito divertido. Na volta, Vanka
me disse:
— Se tivéssemos querido, poderíamos ter ficado
e nos d i v e r t i r c o m elas a n o i t e toda. Qual foi a que
você gostou mais?
Mas eu n ã o quis falar disso. Vanka tem, para
esses a s s u n t o s , u m a simplicidade absolutamente canina.

Julho 18, 1924.

Hoje papai me perguntou:


— Escute, Costia, é verdade que a administradora
da escola f i c a c o m a s u b v e n ç ã o da m ã e de Chikin?
— T á louco? — respondi assombrado.
— E porque n ã o havia de fazê-lo? Ela mantém
o m e n i n o e d e v e c o b r a r os gastos.
— M a s seria u m a farsa, p a p a i ! Não. Seria ar-
rancar o sustento de uma pobre velha. E depois,
quanto será que lhe dão?
— D i z e m que uns vinte rublos e uns quebrados.
— Pode cuspir na cara de quem disse seme-
lhante cousa.
Julho 30, 1924.

Aceitando a proposta do Museu Etnográfico, fomos


o n t e m de m a d r u g a d a a u m ponto convencionado, perto
da aldeia Petuchkovo. Quando chegamos, os auxilia-
res do Museu j á estavam cavando; houve uma pausa,
t o m a m o s a l g u m a cousa e c o m e ç a m o s a cavar. O tempo
transcorria lento, o calor apertava, tiramos as blusas.
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 141

Uma hora depois a pá de Iuclika bateu contra um


objeto metálico. S a i u da t e r r a u m r e d o n d e l n e g r o . 0
auxiliar mais velho examinou o objeto e disse:
— E' um botão.
Ficamos com vontade de parar de cavar, quando
começamos a encontrar ossos. Eu tambem encontrei
u m , e o a u x i l i a r m e disse q u e era u m a t i b i a de cavalo.
Reunimos um considerável montão de ossos, quando
de repente apareceram uns rapazes que nos per-
guntaram:
— T ê m licença para a escavação?
— Claro, responderam os a u x i l i a r e s .
M o s t r a r a m a l i c e n ç a , m a s os c a m p o n e s e s i n s i s t i r a m :
— N ã o podemos deixar vocês continuarem, porque
v o c ê s se p r o p õ e m e x t r a i r t e r r a e o t e r r e n o é n o s s o , p e r -
tence à aldeia de Petuchkovo. O direito de cavar aqui
caducou.
Discutiram longamente, se i n s u l t a r a m a t é q u e en-
fim eles ameaçaram de juntar todos os vizinhos de
Petuchkovo para mandar-nos para fora. U m dos au-
xiliares declarou então:
— V a m o s cavar todos juntos. S o m o s dezessete e
temos p á s . Daremos t a m b e m umas a vocês. E dare-
m o s t a m b e m o o u r o c o u t r a s cousas q u e e n c o n t r a r m o s .
Se v o c ê s a i n d a a s s i m n ã o e s t ã o d e a c o r d o , e n t ã o c h a -
mem a aldeia inteira.
Houve uma conferência entre eles, mas, aparente-
mente, n ã o lhes agradava repartir o ouro entre todos.
Pegaram, p o r f i m , as p á s , e c o m e ç a r a m a cavar. Mas
notei que eles c a v a v a m sempre se a f a s t a n d o da gente.
Os a u x i l i a r e s a d v e r t i r a m - n o s mas eles n ã o obedeceram.
S ó se e n c o n t r a v a ossos e m a i s ossos.
— E ' e s t r a n h o — disse u m a u x i l i a r — n u n c a se
e n c o n t r o u n u m a t u m b a t a n t o s ossos d e a n i m a i s .

10
142 N . O G N E V

Os rapazes cavaram uma meia hora. Depois de-


sistiram e f o r a m embora. U m deles a i n d a perguntou:
P a r a q u e q u e r e m v o c ê s t a n t o s ossos?
— Eles nos interessam — respondeu-se-lhes, por-
que por meio deles pode-se saber a época em que se
construiu a t u m b a e muitas outras cousas.
— Então v ã o lá, naquele vale — disse o m o ç o —
Aqui só h á cavalos e l á h á t a m b e m vacas enterradas.
— Que cavalos? — perguntaram os a u x i l i a r e s .
— H á uns dez anos h o u v e uma epidemia de ani-
mais. Enterraram os c a d á v e r e s aqui e no vale. Mas
no vale t e m mais. '
T i v e m o s que nos m u d a r para outra t u m b a , por
mais que c a v á s s e m o s só encontramos u m a moeda do tzar.
Os a u x i l i a r e s d i z i a m q u e e r a u m e r r o d o p l a n o , i r a i
e q u í v o c o n o a s s e n t a m e n t o da s i t u a ç ã o das t u m b a s . Acho
q u e seria m e l h o r , antes de d a r i n í c i o à s e s c a v a ç õ e s , co-
m e ç a r p o r p e d i r i n f o r m a ç õ e s aos camponeses.

Julho 22, 1924.

A escola e s t á cada vez m a i s a n i m a d a . Cada vez te-


mos mais alunos. Serioga B l i n o v t a m b e m voltou. Tive
c o m ele u m d i á l o g o violento.
— D e c i d i , d e f i n i t i v a m e n t e — disse S e r i o g a — p r o v o -
car u m a r e v o l u ç ã o na escola. Todos sabemos que os
rnaesc n ã o c o r r e s p o n d e m às expectativas. Temos falta
de u m espírito são, cheio de v í d a , e n ã o essas c o u s a s
q u e nos a l i m e n t a m .
— N ã o sei — r e s p o n d i — mas creio que isso e
c o n t r a o q u e disse L e n i n e . O que é preciso é estudar e
entrar q u a n t o antes nas escolas s u p e r i o r e s .
O u v i d i z e r q u e v o c ê se f i l i o u a o p a r t i d o d o s m e -
ninos-modelos.
F i q u e i m u i t o irritado e acabamos por brigar.
O DIÁRIO D E CÒSTIA RIABTSEV 143

Meu pai falou de novo a respeito de Zin-Palna.


— A s a p a t e i r a C h i k i n a c o n t o u aos v i z i n h o s q u e n ã o
recehe a s u b v e n ç ã o ,
— Talvez seja a l g u m desconto, uma porcentagem.
— N ã o , replicou meu pai. E l a disse q u e u m a par-
te v a i para a administradora que está encarregada de
manter Alioja. E q u e se e l a t i v e s s e a s u b v e n ç ã o intei-
ra ela t a m b e m seria capaz de vestir, c a l ç a r e dar c o m i d a
a Alioja.

— M a s isso é u m a f a r s a , p a p a i . J á disse e t o r n o
a repetir. Z i n - P a l n a n ã o r e c e b e r i a u m Kopek da sub-
venção.
— P o d e ser, m a s e l a t e r á d e provar. A mulher
a m e a ç a d e l e v a r o caso a o t r i b u n a l .
— Que estupidez!
Julho 25, 1924.
Chegou o inspetor e sua chegada teve o e f e i t o de
uma bomba. Estamos nos fins de j u l h o e j á há. mais de
m e t a d e dos alunos. H o j e , precisamente, estávamos com
a idéia de fazer uma excursão ao bosque; mas, em
vez disso, h o u v e u m a r e u n i ã o g e r a l c o m o inspetor. Es-
te, e m p r i m e i r o lugar, a n u n c i o u u m a i n s p e ç ã o geral na
escola, na q u a l d e v i a t o m a r p a r t e u m delegado dos rnae-
sc e o u t r o d o s a l u n o s . H o u v e grande gritaria, mas por
f i m f o i eleito Serioga Blinov. O s maesc elegeram El-
nikitka.
C o r r e u u m b o a t o e n t r e os m e n i n o s — n ã o compre-
endo a o r i g e m — de que havia u m a denuncia contra a
nossa escola, d i z e n d o q u e nossa escola é de t e n d ê n c i a s
b u r g u e s a s e q u e os maesc n ã o s ã o à a l t u r a d e seus d e v e -
res. F i q u e i i n d i g n a d o , m a s u m a p a r t e dos a l u n o s co-
m e ç o u a m u r m u r a r e n t r e s í , e e n t r e eles G r i c h k a B l i n o v ,
irmão menor de Serioga. Depois, m a n d e i que u m dos
m e u s se a p r o x i m a s s e do grupo que cochichava e cinco
144 N . O G N E V

minutos mais tarde eu soube que, caso façam algumas


p e r g u n t a s a c i e s , p r e t e n d e m a c u s a r os maesc, acusando-
os d e p o r t a r - s e c o m o n a escola de outros tempos. Ba-
lei* e m v o z a l t a , c o n t r a u m t a l i n j u s t i ç a , mas a m a i o r i a
p e r m a n e c e u n a e x p e c t a t i v a , sem p e n d e r p a r a o l a d o de-
les n e m p a r a o m e u . .
G r i c b k a B l i n o v f o i suspenso em sociologia, mate-
m á t i c a e r u s s o ; p o r isso v a i f i c a r m a i s u m a n o n o segun-

do grupo. . i jt
A Comissão revisora f o i conferenciar na sala dos
professores. Naturalmente, ninguém nos disse n a d a , e
Serioga Blinov está inchadíssimo. 0 p a r t i d o dele re-
cebeu novas adesões. O m e u c o n t a c o m os m e s m o s ade-
rentes de antes. A o passar pelo auditório espiei para
dentro e v i Silva e V o l o d i a Schmerz, sozinhos lá dentro.
Quis perguntar-lhes qual a o p i n i ã o deles, m a s deixei-os
e m paz. E n q u a n t o m e afastava f u i m c l e m b r a n d o de Sil-
va, m e u a p o i o , m i n h a c o m p a n h e i r a f i e l e m todas as s i -
tuações dificeis. Agora eu não tinha ninguém com
quem contar. Fiquei aborrecido e aquilo m e doeu, por-
que nunca f u i c u l p a d o diante de Silva, n e m o sou ago-
ra. Passeio longamente no pátio da escola. Depois
f u i p a r a casa. M a s m e u estado de e s p í r i t o c o n t i n u a v a o
mesmo.
Q u e c que cia v ê nele?
Julho 28, 1924.
E s c r e v i u n s versos e m b o r a seja m u i t o p a u fazê-los:

Tuas palavras profundas ainda ressoam em mim,


Ainda vibra em mim teu elétrico contato
Em meio da confusão da escola.
Hoje, tua voz é para outro... Que fazer?
Minhalma perto de tí, está cheia...
Longe, fica vazia, completamente vazia.

Serão bons estes versos?


O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 145

Julho 29, 1924.

O inspetor c h a m o u alguns meninoa e interrogou-os


a respeito dos relatórios fornecidos pelos maesc. Os
maesc têm estado muito nervosos, estes últimos dias.
Nicpetoj começou a interrogar-me, mas n ã o pude res-
p o n d e r p o r q u e m i n h a c a b e ç a estava m u i t o longe.
— Mas é incrível! — exclamou N i c p e t o j — que o
i n s p e t o r p r o c e d a dessa m a n e i r a . A n t e s de mais nada de-
v e r i a , r e u n i r o C o n s e l h o da Escola.

Depois de t a l conversa, o inspetor m e chamou. En-


trei na sala o n d e , a l e m d o i n s p e t o r estavam Elnikitka,
extremamente pálida e Serioga B l i n o v de olhos baixos.
— B o m , companheiro Riabtsev — disse o i n s p e t o r
— c o n t e t u d o o q u e sabe a r e s p e i t o das r e l a ç õ e s da en-
carregada c o m alunos.
— Camarada: responderei n o Conselho da Escola.
— Tenho plenos poderes.
— P o i s apresente-os ao Conselho.
E f u i embora.
Procurei depois Zoia e disse:

— V o c ê se l e m b r a d o q u e m e d i s s e n a primavera?
— Sim — respondeu assombrada.
— E n t ã o posso c o n f i a r p l e n a m e n t e e m v o c ê . Leia
estes v e r s o s . N ã o se t r a t a d e v o c ê . . . Q u e é q u e você
acha deles?
. — Sei perfeitamente que n ã o se t r a t a de m i m
disse Z o i a l e n t a m e n t e , e c o m e ç o u a l e r OB v e r s o s . De-
m o r o u m u i t o . Pensava, a p a r e n t e m e n t e , e m cada palavra.
E u t i n h a interesse e m conhecer a o p i n i ã o dela, mas
cia continuava em silêncio. Por f i m , perguntei:
— Q u e é isso? Você quer decorá-los?
Vi então que chorava. E disse bruscamente:
146 N. O G N E V

— V o c ê n ã o t e m d i r e i t o d e m e m o s t r a r estes v e r s o s ,
se s ã o d e d i c a d o s a o u t r a . . .
T i r e i o p a p e l d c suas m ã o s e f u i e m b o r a . E enten-
da-se as m u l h e r e s !
N a sala d e g i n á s t i c a d e i d e c a r a c o m Silva e Volo-
dia Schmerz. Passei p o r eles e disse s o b r e o o m b r o :
— Os i n o c e n t e s p a g a m pelos culpados!
— N ã o se m e t a comigo, Riabtsev que eu não me
tenho metido com você.
— Mas eu tenho vontade — respondi, continuando
a andar.
Silva ficou m c olhando perplexa.

Julho 30, 1924.

A Comissão Revisora continua a agir e dizem que os


maesc mandaram u m protesto ao C o m i t ê Central. Pare-
ce que está havendo aí uma provocação. Falei com
alguns meninos e decidimos t o m a r providências.
A c o n t e c e u o s e g u i n t e : f u i à casa dos G r o n o v e e n c o n -
trei Maria s o z i n h a . A o m e a b r a ç a r disse q u e e u era um
bandido por ter demorado tanto em i r vê-la. Respondi:
— A c h o que isto é u m a a b e r r a ç ã o sexual.
— Porque? perguntou abrindo m u i t o os olhos.
— Venha cá. V o u l e r u m a cousa p a r a v o c ê — dis-
se e u e f o m o s p a r a o jardim.
Peguei o papel roubado na Proteção e lí em voz
alta. Maria ficou toda ruborizada e exclamou:
— Que nojo!
• E u t a m b e m t e n h o n o j o ao estar c o m v o c ê !
— Porque? — disse M a r i a , e apesar do p ó , conti-
nuou ruborizada — . P e n s e i ser agradável...
— Não! disse resoluto — . Não quero ser um.
— V o c ê è* u m m e n i n o b o b o e n a d a mais.
— Bom.
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 147

— Alem disso. V o c ê n ã o t e m d i r e i t o de m e aban-


donar. Os t e m p o s m u d a r a m . Posso a p r e s e n t a r u m a de-
n u n c i a c o n t r a v o c ê a f i m d e q u e v o c ê p a g u e os a l i m e n -
tos.
C o n t i n u o u g r i t a n d o , m a s s a í s e m f a z e r caso da his-
tória. Para exigir o pagamento dos a l i m e n t o s é p r e c i -
so t e r havido algum filho... N ã o sou nenhum bobo.
(Aqui no caderno geral de Riabtsev, está interca-
lada u m a f o l h a de papel, enrugada, escrita a máquina,
com o t i m b r e do Comissariado de I n s t r u ç ã o Pública.

CÓ-P-I-A

"Depois de ler a minha carta, vocês me chamaram


dc b o b o , a n o r m a l , i d i o t a . . . Mas n ã o é isso; soa nro
h o m e m absolutamente n o r m a l , como todos vocês, com a
ú n i c a d i f e r e n ç a dc eu ser u m o p e r á r i o e v o c ê s intelec-
tuais. Sou analfabeto e vocês letrados. E porque sou anal-
fabeto? Porque as c o n d i ç õ e s da vida o p e r á r i a eram
horriveis._ vivia-se numa i g n o r â n c i a completa, e, p o r isso,
a e d u c a ç ã o dos f i l h o s dos pobres era n ã o somente anor-
m a l , mas a t é repugnante, porque os pais, ou por tristeza
ou por alegria, organizavam f r e q ü e n t e s orgias q ú e ter-
m i n a v a m em lutas e d i s c u s s õ e s . 0 p a i batia na m ã e ,
jogava os f i l h o s , ou b ê b a d o s , nem tomavam conhecimento
da p r e s e n ç a destes, chamando as cousas pelos seus nomes.
B ê b a d o s o u s ó b r i o s , falavam sem p u d o r diante da p r o l e ;
n ã o davam de comer, mas maltratavam-na sem piedade.
F o i esta a _ e d u c a ç ã o que recebi. Sou u m m u t i l a d o
moral e fisicamente. Sou u m doente, mas sem culpa
alguma. O culpado é o ambiente onde m e c r i a r a m , a
sociedade que faz nascer uma vida t ã o a n o r m a l . É pre-
ciso tomar medidas contra esta enfermidade, n ã o na
f o r m a de r e c l u s ã o , mas de uma maneira mais justa e
r a z o á v e l . Tenham vergonha de castigar inocentes, már-
tires infelizes.
"Os Comissariados de I n s t r u ç ã o P ú b l i c a e de J u s t i ç a
condenam es»as cousas a cinco anos de p r i s ã o , mas eu POU
f i l h o de u m pobre o p e r á r i o , f u i criado em c o n d i ç õ e s
148 N . O G N E T

anormais, n ã o m e l e m b r o mais como, quando e p o r q u e


caí no ouanismo.
Sou u m d e s g r a ç a d o . Sou pederasta desde dez anos,
todos mc desprezam e as autoridades me a m e a ç a m com
a p r i s ã o . . . A q u e m p o d e r e i queixar-mc? Q u e m me
c o m p r e e n d e r á ? De qualquer maneira, r e s o l v i d i r i g i r - m e
ao nosso Governo do Proletariado, pedindo que se d ê
tratamento aos onanistas e aos pederastas, mas nunca
castigo. Quero curar-me. D ê e m - m e pois, possibilidade
de fazê-lo. N ã o tenho culpa. A l g u é m deve tê-la, n ã o
eu. Quero uma possibilidade de me curar. Salvem-me
o u e n t ã o me f u z i l e m , mas n ã o quero i r para a p r i s ã o !
T e m o o castigo e p o r isso n ã o assino, sei que prende-
r i a m . T e n h o trinta e cinco anos e v e j o os desamparados
se entregando a estas cousas, crescendo mutilados m o r a l
e fisicamente, como eu. E para o G o v e r n o P r o l e t á r i o
nada de b o m pode resultar disto, apenas u m e n o r m e
dano. Salvem-nos. salvem-nos!
"Seu d i s c í p u l o : onanista, pederasta, s á d i c o . . .
Sociedade, eis os tens f r u t o s ! Recolhe o que semeastes!
N ã o tendes d i r e i t o de nos castigar! Castiga a t i mesma:
26 de m a r . . .

• Julho 31, 1924.

Hoje foi um dia decisivo. De manhã mandei al-


guns c a m a r a d a s e à s q u a t r o da t a r d e f o i c o n v o c a d a uma
r e u n i ã o g e r a l c o n j u n t a , d o C o n s e l h o da escola e C o m i s -
são Revisora.
A l e m de E l n i k i t k a nenhum outro professor com-
pareceu.
Reuni m i n h a t u r m a e ocupamos as p r i m e i r a s f i l e i -
ras, b e m e m f r e n t e à mesa p r e s i d e n c i a l . Coloquei Iu-
c h k a G r o m o v a t r á s da mesa da C o m i s s ã o R e v i s o r a , por
causa de suas m a g n i f i c a s f a c u l d a d e s v o c a i s .
O inspetor abriu a seção:
— Camaradas. Estou aqui como representante do
Instituto de I n s p e ç ã o , n o m e a d o pelo Centro, para exa-
m i n a r a v i d a d o s c e n t r o s d e e n s i n o e, caso s e j a preciso,

0
O DÚBIO D E COSTIA RIABTSEV 149

intervir para liquidar qualquer questão. Não posso


a f i r m a r q u e nesta escola t e n h a h a v i d o abusos m a n i f e s t o s ;
mas, com t u d o constatei tendências indesejáveis... A
Comissão presidida por m i m , conclui o seguinte:
— Eu n ã o assinei! — exclamou subitamente El-
nikitka.
E m p a l i d e c e u , e teve de se r e c o s t a r no encosto da
cadeira. Trouxeram amoníaco, ela aspirou e voltou a
si.
— Chegamos à seguinte c o n c l u s ã o — prosseguiu o
i n s p e t o r — antes de m a i s n a d a q u e os p r o f e s s o r e s não
c o r r e s p o n d e m ao seu d e v e r . . .
Fiz u m sinal:
— Fo..ra! Embusteiro! Isso é mentira! — gri-
t a r a m d e t o d a sala os m e u s satélites.
— Abai...xo ! rugiu I u c h k a quasi nos auvidos
d o inspetor, que estremeceu. Staska Velepolskaya, que
era o presidente, começou a tocar a campainha, mas
n ã o conseguiu restabelecer o silêncio a t é que eu f i z ou-
tro sinal e o bando f i c o u quieto. Das ú l t i m a s filas che-
gou a voz isolada de G r i c h k a B l i n o v !
'— ... que frescura, Riabtsev!
— Peço q u e n ã o se t o r n e e s t a reunião uma cousa
p e r s o n a l i s t a , n ã o se d e v e r á a t a c a r i n d i v í d u o s isolados.
— Camaradas — continuou o inspetor — a Comi-
ssão resolveu trazer à reunião g e r a l , d e p o i s de esclare-
cer os f a t o s , é c l a r o , a s e g u i n t e pergunta: "Podem ou
n ã o permanecer na escolar os p r o f e s s o r e s que carecem
de p r e s t í g i o ?
T o r n e i a fazer u m sinal. Quando o estrépito f o i
d o m i n a d o , Serioga B l i n o v disse:
. — Estou agindo aqui c o m o c o m p a n h e i r o de vocês
e c o m o m e m b r o da C o m i s s ã o , eleito p o r todos...
— U m a águia bicéfala, n ã o é? — gritei eu.
150 N . O G N E T

— Em todo o caso, não sou uma víbora monocéfa-


la acalorada. ( N ã o sei o q u e ele q u i s d i z e r c o m isso).
Camaradas: Apoio a proposta da Comissão Revisora,
em vista das seguintes considerações: nossa autonomia
e s t á a l e i j a d a dos dois p é s e p e r d e u t o d a a importância;
O e n s i n o se r e a l i z a s e m s i s t e m a e n ã o está e m contacto
c o m a v i d a ; a escola n ã o e s t á f i l i a d a a n e n h u m r a m o da
industria...
— Porque n ã o falou antes, B l i n o v — assoprou E l -
nikitka — Você é membro do a l v é o l o . . .
— Se v o c ê s , c a m a r a d a s — p r o s s e g u i u agora o ins-
petor — querem ouvir-me com tranqüilidade, direi o
seguinte: A Comissão n ã o pretende tomar uma provi-
dência definitiva — isto depende do Centro — mas ape-
n a s d i s c u t i r as q u e s t õ e s j á m e n c i o n a d a s e dar f o r m a le-
gal à o p i n i ã o da escola.
— P e ç o a p a l a v r a — disse e u . T e m o s a q u i o secre-
t á r i o da fábrica à q u a l estamos filiados, mas ele pode
falar depois: egora falarei eu. Serioga Blinov: Pas-
sou você a noite em Solnechnoye, como o fez Elena
Nitikichna? Viu a "Dama Branca"? Teria você por
acaso nos defendido quando os camponeses quiseram
surrar-nos? Serioga B l i n o v : você desistiu das féria? e
passou conosco o verão como Zin-Palna? Você reco-
l h e u A l i o j a C h i k i n à sua casa, q u a n d o m o r r e u seu pai?
Teria você nos e x p l i c a d o t o d a s essas q u e s t õ e s que nos
preocupam grandemente, a t é o ponto de deixar-nos a
cabeça estalando como o fez Nicolas Petrovich? Você
a f i r m a q u e a escola n ã o e s t á e m c o n t a c t o c o m a vida...
E o n d e esteve v o c ê q u a n d o n ó s c o m p e r i g o de v i d a , f i -
zemos pesquisas na aldeia, recolhemos material para
história n a t u r a l e a j u d a m o s a cavar tumbas? Você es-
tava deitado, de b a r r i g a para o ar n o feno? Então vo-
cê, Serioga, corresponde às expectativas e Zinaida Pav-
lovna nao? É isso o q u e v o c ê q u e r i a dizer?
O DIAKIO D E COSTIA RIABTSEV 151

Nesse m o m e n t o , sem sinal algum, houve u m a con-


f u s ã o dos diabos. Uns a m e u favor, outros contra. 0
secretário disse:
— N ã o estou de acordo c o m o camarada inspetor
n o q u e se r e f e r e a a g i r i r r a c i o n a l m e n t e e e m desacordo
com o alvéolo. N ã o h á p r o v a s de q u e a escola n ã o c o n t e
com o alvéolo. Se o camarada sc tivesse dirigido ao
próprio alvéolo, diretamente, teríamos dito que a esco-
la, embora com pequenas restrições, trabalha normal-
mente. Seria estranho q u e n o a l v é o l o n ã o se tivesse
conhecimento de que os p r o f e s s o r e s n ã o correspondem
à m i s s ã o delegada. A o m e n o s , e u e s t o u o u v i n d o isso pe-
la primeira vez. O camarada Blinov agiu irracional-
mente p o r n ã o ter i n f o r m a d a o a l v é o l o sobre o assunto.
Disso deduzo q u e ele estava p o u c o f i r m e nas suas c o n -
vicções.
— Eu acreditava que se tratasse de um assunto
puramente escolar.
— N ã o , camarada Serioga; é u m assunto social —
replicou o secretário; e preciso declarar a q u i que, se
n ã o fosse p e l o c a m a r a d a Riabtsev, que, ao que parece,
compreende os deveres da juventude vermelha melhor
que m u i t o s , o assunto p o d e r i a t e r m i n a r de f o r m a l a m e n -
tável . . .
— V i v a Costia ! — gritou Iuchka Gromov.
Mas fiz-lhe u m s i n a l e ele calou-se. V í Zin-Palna
que entrava.
— Q u a n d o a filiar-se à industria, camarada inspe-
tor, é ao q u e estamos decididos antes de m a i s nada. —
continuou o secretário. Venha alvéolo e n ó s lhe faremos
um relatório. Q u a n t o a o caso d o ó r f ã o C h i k i n , a q u e m
a encarregada recolheu, o a l v é o l o agradece por meu in-
termédio a Zinaida Pavlona. E a i n d a p e l o s seus a b n e -
gados v i n t e anos de l a b o r s o c i a l . . .
152 N . O G N E V

Os aplausos explodiram. Pensei que o teto vinha


abaixo. O secretário sorriu, gesticulou e sc encami-
nhou para a saída. Gritei quasi na orelha, porque o
barulho era tremendo:
— Onde é que você vai?
R e s p o n d e u aos g r i t o s :
Vejo q u e v o c ê s se arrumam muito bem sem
mim!
Olhei em volta. E o inspetor? Tinha se eclip-
sado. A p a r e c e u E l n i k i t k a , q u e se p r e c i p i t o u p a r a num.
Quis escapar, m a s f o i i n ú t i l ; cia m e a l c a n ç o u e gritou:
— Mudei de o p i n i ã o a seu r e s p e i t o , R i a b t s e v . Es-
tou interessada no que você t e m e m mente.
Zoia agarrou a m i n h a m ã o :
— C o s t i a . . . V o c ê deve fazer definitivamente as
pazes c o m S i l v a . . . Veja, que quem diz sou eu.
V í Silva atrás dela. Olhou-me e disse:
— Vladlcn!
P e g u e i sua m ã o e a a p e r t e i .

Agosto 5, 1924.

Passo o d i a t o d o n o c a m p o d e f u t e b o l p o r q u e n ã o
temos tido nada o que f a z e r na escola. Papai resolveu
g a s t a r e m e c o m p r a r b o t a s e isso m c permite jogar no
segundo time, porque nele não são admitidos quem
n ã o as t e n h a . Sou o extrema direita e á s vezes s u b s t i -
tuo o centro-avante. T e n t e i fazer de goal-keeper, mas
o c a p i t ã o m e destituiu porque eu n ã o era m u i t o eficien-
te. M a s eu acho que o goal-keeper n ã o deve f i c a r pa-
rado esperando o goal. Fiquei muito raortificado, por-
que o posto de goal-keeper é o de mais responsabilida-
d e c, a l e m disso, d u r a n t e as partidas sempre o aplau-
dem, enquanto ninguém se l e m b r a dos extremos. Mas
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 153

tive de me submeter porque um lime de futebol é uma


coletividade que precisa manter uma disciplina rigoro-
sa, p o r q u e s e n ã o f r a c a s s a . Iuchka Gromov é esquerda-
avante, mas sempre perde a bola. J á dissemos a Iuch-
ka para t r o c a r d e m o d o p o r q u e se e l e c o n t i n u a r a s s i m ,
seremos sempre derrotados. Mas ele continua, c diz
que o c é l e b r e esquerda-avante Kukuchkin joga da ma-
neira dele e é mais fácil chegar assim ao g o a l i n i m i g o .
0 c a p i t ã o a m e a ç o u - o de rebaixa-lo para o terceiro time
e n ã o deixa-lo j o g a r nas partidas importantes. Iuchka
p r o m e t e u emendar-se, mas ontem treinamos com o ter-
c e i r o t i m e e ele fez a m e s m a cousa. O capitão passou
um pito. I u c h k a desculpou-se dizendo que não enten-
d i a b e m o j o g o e q u e ao passar n a f r e n t e d o g o a l i n i m i -
go, corre o risco de ouvir o apito. O capitão disse
q u e era b o b a g e m , c q u e devia passar c o m a " p a r t e tra-
seira". Todos c o m e ç a r a m a rir, mas eu, q u a n d o vclta-
va p a r a casa, disse a I u c h k a :

— A c h o que v ã o p o r voce n o terceiro t i m e .

Iuchka disse q u e n ã o se i m p o r t a v a . M a s se fosse


e u , d e i x a r i a d e j o g a r f u t e b o l , p e l o m e n o s nesse campo.

Agosto 6, 1924.

Quis demonstrar que o f u t e b o l desenvolvia o orga-


vocou uma r e u n i ã o geral e p r o p ô s que viéssemos todos
os dias para trabalhar regularmente com os maesc.
Quem n ã o quiser n ã o precisa, o u pode v i r só para to-
mar parte nas e x c u r s õ e s e passeios. 'Quem quiser tra-
b a l h a r n ã o d e v e r á f a l t a r n e m u m s ó d i a e, t e m d c p r o -
meter c u m p r i r a promessa. A grande maioria aceitou,
p o r q u e os e s t u d o s n ã o se r e a l i z a m p o r p r o g r a m a s , m a s
por grupos. U n s v ã o estudar r a d i o , isto é, i n s t a l a r ã o
um r e c e p t o r n a e s c o l a — estes t r a b a l h a r ã o c o m Almak-
154 N . O G N E V

fisch — outros organizarão com Nicpetoj uma função


teatral.
Zin-Palna propôs um curso Puchkin. Disse que
Puchkin foi tão genial que merecia ser decorado.
Volodia Schmerz perguntou porque tinha sido morto.
Zin-Palna explicou que havia u m t a l Dantes que corte-
j a v a a m u l h e r d e P u c h k i n , e e s t e se s e n t i u n a obrigação
de desafiar o rival. 0 duelo teve u m f i m trágico para
Puchkin. Se f o s e e u , n ã o t e r i a d e s a f i a d o D a n t e s , mas
levado para u m canto e l h e amassado a cara. E se nem
assim parava de cortejar m i n h a m u l h e r , teria l h e dado
uma facada em baixo do ventre. Esse D a n t e s , e r a pe-
l o q u e se v ê u m c a l h o r d a d o t i p o d o S c h m e r z , que ga-
l a n t e i a e m t u r n o s t o d a s as meninas.
H o u v e u n s r u m o r e s f a n t á s t i c o s n a escola, principal-
m e n t e e n t r e as m e n i n a s . F i c a v a m cochichando nos can-
tos e f a z e n d o caras m i s t e r i o s a s . . . No f i m é tudo uma
bobagem muito grande,
O caso é que no ano passado, aconteceu, em Mos-
cow o seguinte: Uma menina vestida de cor de rosa
compareceu ao consultório do dr. Sneguirev, dizendo
q u e sua m ã e estava d o e n t e e p e d i a ao m é d i c o q u e fosse
visitá-la. Deixou o endereço e foi-se e m b o r a . Mal a
menina saiu, o médico l a m e n t o u n ã o ter perguntado
m a i s alguns detalhes da d o e n ç a p a r a saber q u e remédios
levaria consigo. Chamou a enfermeira e ordenou que
fizesse a m e n i n a v o l t a r ; m a s esta a f i r m o u n ã o ler vteto
entrar menina alguma. 0 médico chamou o porteiro
que fez a mesma afirmação. Perplexo, o m é d i c o f o i à
casa d o e n d e r e ç o d e i x a d o p e l a m e n i n a e e n c o n t r o u , e f e -
tivamente, u m a m u l h e r doente. A t e n d e u - a e ela l h e per-
guntou q u e m tinha dado o endereço. Quando falou da
m e n i n a a m u l h e r se p ô s a c h o r a r , dizendo que sua f i -
lhinha t i n h a m o r r i d o t r ê s dias antes, e que o cadáver
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 155

estava n o q u a r t o ao l a d o , p o r q u e ela n ã o t i n h a coragem


de enterra-lo. O m é d i c o f o i na d i r e ç ã o apontada e viu
e f e t i v a m e n t e , s o b r e a mesa, a m e n i n a de c o r de rosa que
t i n h a i d o ao c o n s u l t ó r i o .

Segundo esta h i s t ó r i a , os defuntos podem agir de-


p o i s de m o r t o s . Quando me contaram n ã o pude deixar
de cuspir c o m desprezo.

Agosto 7, 1924.

Aconteceu uma cousa d e s a g r a d á v e l : uma discussão


com Zin-Palna. Eu, como os d e m a i s , p r o m e t i i r regu-
l a r m e n t e à e s c o l a , m a s h o j e p a s s e i t o d a s as h o r a s d e es-
t u d o j o g a n d o f u t e b o l e s ó f u i à escola d e p o i s das aulas
terem terminado. Encontrei Zin-Palna no caminho, e
ela m e declarou que nunca e s p e r a r a t a l cousa de m i m .
— O que que v o c ê n ã o esperava?
Respondeu:
— E s t a i n f r a ç ã o da d i s c i p l i n a , o q u e r e r desorganizar
os e s t u d o s .

Disse-lhe que era ainda v e r ã o e era m u i t o natural


passar m a i s t e m p o ao a r l i v r e q u e e m l u g a r e s fechados.
Que, e m geral, era preciso dedicar-se o m a i s possível à
cultura física.
M a s Zin-Palna r e p l i c o u que e m t u d o deveria haver
o r g a n i z a ç ã o , e q u e , u m a v e z d a d a a p a l a v r a , n ã o se po-
dia faltar. A l e m do que, o f u t e b o l n ã o é cultura física,
mas s i m p l e s m e n t e u m j o g o p r e j u d i c i a l , c o m p a r á v e l ao
vício do f u m o , ou da bebida.
Quis demonstrar que o f u t e b o l desenvolvia o orga-
n i s m o e o sentido da c o l e t i v i d a d e ; m a s ela acrescentou
q u e os r e s u l t a d o s desse j o g o s ã o j u s t a m e n t e o contrário.
S e n ã o v e j a m o s : q u e s e n t i d o d e c o l e t i v i d a d e t i n h a desen-
v o l v i d o e m m i m , desde q u e eu f a l t a v a ao estudo cole-
t i v o de m e u g r u p o , p r e c i s a m e n t e p o r causa do f u t e b o l ?
156 N . O G N E V

Em resumo: algo m u i t o desagradável. Era preci-


so l u t a r p e l o f u t e b o l .
Passei s o z i n h o p e l a escola e j á estava p e n s a n d o em
i r p a r a casa q u a n d o S i l v a m e c h a m o u . Scntamo-nos no
a u d i t ó r i o e conversamos. Contei a história do futebol
e Silva me disse, q u e , s e g u n d o sua m a n e i r a d e pensar,
Zin-Palna tinha razão, p o r q u e os m e n i n o s f i c a v a m en-
tusiasmados demais c o m o futebol. Discutimos o assun-
to, mas Zoia surgiu misteriosamente:
— Costia Riabtsev, preciso falar c o m você.
Levantei-me e f u i ter c o m ela. Levou-me para o
p á t i o , sentamos lá e ela começou:
— Quero contar a você uma história. Desculpe
t e r i n t e r r o m p i d o seu c o l ó q u i o a m o r o s o , m a s o . f a t o de v o -
cê f i c a r a s ó s c o m Silva p o d e despertar suspeitas, n ã o s ó
e n t r e o s m e n i n o s c o m o t a m b e m e n t r e os maesc. Quero
m u i t o a S i l v a , m a s sua c o n d u t a nestes ú l t i m o s d i a s n ã o
mc agrada...
Fiquei zangado e disse:
— Se você q u e r c o n t i n u a r f a l a n d o desse j e i t o , vá
para o diabo! N ã o tenho c o l ó q u i o s amorosos c o m Sil-
va e n ó s n o s t r a t a m o s c o m o c a m a r a d a s . A l e m disso n ã o
vejo nada de mais na conduta de Silva. Que suspeitas
ó que pode despertar? É tudo mentira, e n ã o compre-
e n d o a r a z ã o d o seu r e s s e n t i m e n t o p a r a c o m e l a .
— Calma... Sente-se disse Z o i a . Chamarei você
para contar u m a h i s t ó r i a . Escute: o n t e m m e u i r m ã o che-
g o u ao m e i o - d i a . E s t á c o m u m a m ã o v e n d a d a . C o n t o u - n o s
estas h i s t ó r i a s : ele é a v i a d o r e estava fazendo serviço
como tal em Sujum. U m d i a , nas redondezas de Sujum
ele b e b e u muito vodko num boteco de Sujum. E vol-
tou para casa. Como soldado, tinha o seu revolver.
Era de noite, e havia u m a e s c u r i d ã o c o m p l e t a . M e u ir-
O DÚBIO DE COSTIA RIABTSEV 157

mão disse que no Meio Dia as noites são mais escuras


que aqui. Pois b e m ; ía andando e se desviou do ca-
minho, talvez por causa dc ter bebido demais. Bom.
E s t a v a t ã o e s c u r o q u e n ã o se v i a n a d a . M e u i r m ã o con-
tinuou a andar quando de repente v i u ao longe umas
luzinhas brilhando. Pensou que fosse a l g u m a aldeia
t á r t a r a , e se e n c a m i n h o u p a r a e l a s . N a e n t r a d a da aldeia
u m h o m e m b a r r o u a passagem: "Onde vai?" M e u ir-
m ã o respondeu que ía a S u j u m . O h o m e m se oferèceu
para levá-lo para a estrada; m e u i r m ã o aceitou e come-
çou a andar atrás do desconhecido, c o m a m ã o no revol-
ver, por precaução. Foram andando, deixaram para
trás a aldeia, e m e u i r m ã o começou a tropeçar cm pe-
dras. " A o n d e estamos i n d o ? " p e r g u n t o u , t i r a n d o o re-
volver. Nesse i n s t a n t e o desconhecido pegou uma lan-
t e r n a e l é t r i c a e acendeu-a b e m nos olhos d o m e u irmão.
A mudança f o i t ã o brusca que meu irmão fechou os
olhos, sem querer, mas l e v a n t o u a m ã o c o m o revolver.
Nesse m o m e n t o alguém deu u m m u r r o na mão e o re-
volver caiu. O desconhecido trazia numa das mãos o
revolver e na outra a lanterna. Atrás havia u m indiví-
d u o , c o m o u t r o r e v ó l v e r e os d o i s o b r i g a r a m m e u irmão
a segui-los sem m a i s palavras. Meu irmão f o i obriga-
do a obedecer.

— Pois eu teria dado com a c a b e ç a n o ventre do


p r i m e i r o t i r a n d o o revolver e depois matado o o u t r o
com u m tiro.

— Sei! Prove... O outro teria disparado pelas


costas; B e m ; pois m e u i r m ã o seguiu o desconhecido no
m e i o das trevas. O que ía na frente levava a lanterna.
Iam p o r umas pedras de f o r m a t o estranho. A o chegar
e m c e r t o p o n t o , os desconhecidos, t o m a r a m de u m a p á e
ordenaram a meu irmão q u e cavasse. E l e pensou estar
cavando a p r ó p r i a s e p u l t u r a , m a s c o m o era a l v o de do-

11
158 N . O G N E V

is r e v ó l v e r e s , c o m e ç o u a cavar s e m m a i s protestos. Sen-


t i u q u e a t e r r a era f o f a e cedia f a c i l m e n t e . Abriu uma
fossa de m e i o m e t r o e s e n t i u que a p á tocava u m o b j e t o
sólido. D i s s e aos d e s c o n h e c i d o s : " N ã o posso c o n t i n u a r
cavando, porque a pá bateu numa cousa dura". U m
deles se i n c l i n o u e cravou o p u n h a l na massa dura e
t i r o u v á r i a s t á b u a s . A p a r e c e u u m a fossa p r o f u n d a e n e -
gra. Os i n d i v í d u o s m a n d a r a m m e u i r m ã o descer p o r ela,
m a s este p e r g u n t o u : "Para que?" "Se v o c ê f i z e r mais
uma pergunta nós mataremos você!" foi a resposta.
Q u e ele p o d i a f a z e r ? Desceu.
— E u n ã o desceria por nada deste m u n d o !
— Que é que você faria?
— Não sei... Agrediria os d o i s . . . Tudo é pre-
f e r í v e l a ser e n t e r r a d o v i v o .
— B o m , p o i s m e u i r m ã o desceu. A fossa era pro-
f u n d a , de uns três metros. Os desconhecidos ilumina-
vam o caminho. Quando meu irmão atingiu o fundo
eles gritaram: "Levante o ataude!" Que ataude?
"Olhe bem, está lá e m b a i x o ! " M e u irmão olhou à sua
v o l t a , eles l e v a n t a r a m a l â m p a d a e v i u p o r f i m o ataude,
envolto n u m a fazenda branca. Segurou-o, quis levantá-
lo, mas n ã o conseguiu. " E s t á m u i t o pesado, n ã o posso."
gritou para cima. " E n t ã o tire a fazenda!", m e u irmão
obedeceu e lhes entregou o caixão. "Abra o ataude."
E l e se p ô s a a b r i - l o . P o r p o u c o r e b e n t a os d e d o s , e n ã o
conseguiu: " N ã o posso, e s t á f e c h a d o c o m pregos o u t o r -
nos"! " T o m e este p u n h a l . " Deram-lhe o punhal. M e u
irmão agarrou-o, i n t r o d u z i u - o na fechadura apertou e
soltou a tampa. D e n t r o d o a t a u d e estava u m a l i n d a jo-
vem, toda envolta n u m a fazenda semelhante à que co-
bria o ataude. Os desconhecidos perguntaram: "A
mulher está aí?" "Está? Como está vestida?" "Está
com uma fazenda branca como a do c a i x ã o : " "Tire a
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 159

fazenda". N ã o havia outro remédio e ele t i r o u , eram


u n s 60 a r c h i n s . . .

— Quantos em metros?
— Se você começa a caçoar, eu paro de contar.
B o m , p o i s m e u i r m ã o t i r o u a f a z e n d a e deu-a aos d e c i -
ma. " A g o r a , disseram-lhe, traga a m u l h e r . " " M e u ir-
m ã o t o m o u o corpo, levantou-o c o m dificuldade e come-
çou a subir. Eles agarraram o cadáver; mas, ao que
p a r e c e , e s t e se e n g a n c h o u n a l g u m a c o u s a , o u c i e s pen-
saram que m e u i r m ã o o arrastava para sí o u talvez pen-
sassem e m usar o p u n h a l como talher... Enfim, em
vez de c r a v a - l o n o c a d á v e r , c r a v a r a m - n o n a m ã o d e m e u
irmão. Este gritou: "Porque você está gritando?"
"Como n ã o g r i t a r e i se me feriram a mão?" Dizendo
isso, s o l t o u o cadáver que caiu no fundo. " B o m , en-
tão tire os e n f e i t e s d o s dedos." Meu irmão vendou a
f e r i d a , m a l e m a l , c o m u m l e n ç o , e se a g a c h o u p a r a de-
sempenhar as ordens. Mas não conseguia e parecia
q u e o c a d á v e r p u x a v a as m ã o s p a r a t r á s . " N ã o posso!"
"Então c o r t e os d e d o s c o m o p u n h a l " . " N ã o , eu não
f a ç o isso!". "Porque n ã o ? " " N ã o faço!" repetiu meu
i r m ã o e p e r d e u o c o n h e c i m e n t o . N ã o sabe q u a n t o
t e m p o d u r o u o desmaio, mas quando voltou a sí v i u
u m c e u c o b e r t o d e e s t r e l a s , c o m o se f o r a d e n t r o d e uma
moldura, e n ã o c o n s e g u i u se lembrar de onde estava.
Ficou ali cinco minutos, quando de repente v i u surgir
no q u a d r a d o u m rosto de olhos ardentes. Assustado
deu u m grito t e r r í v e l e a c a b e ç a desapareceu. Meu ir-
m ã o t o r n o u a desmaiar. Q u a n d o r e c u p e r o u os s e n t i d o s ,
e n c o n t r o u - s e n u m a p e q u e n a h a b i t a ç ã o , e, j u n t o d e l e , u m
juiz instrutor. "Você é Travnikov?" perguntou o juiz.
"Sim". "Conte o que houve." M e u i r m ã o fez u m breve
relato. " T u d o parece verossímil, disse o j u i z , v o c ê es-
tá agora na casinhola do guarda do cemitério tárturo.
160 N . O G N E V

Mas explique algo i n c o n c e b í v e l : " C o m o é que isto está


n o seu b o l s o ? " E mostrou-lhe u m dedo mutilado com
u m anel posto. M e u i r m ã o o l h o u a q u i l o , disse q u e i ) ã o
p o d i a e x p l i c a r , e p e d i u ao j u i z q u e abrisse o inquérito.
O juiz respondeu que os desconhecidos eram ladrões
do cemitério, que, c o m a ajuda de m e u i r m ã o , tinham
saqueado a tumba de uma princesa recem-enterrada.
A c a b e ç a que t i n h a aparecido no alto da t u m b a , era a
dc um bandido, mas duma quadrilha extinta. Quan-
do meu irmão g r i t o u , o b a n d i d o assustou-se t a n t o que
se precipitou como um louco e partiu o crâneo no
mausoleo próximo.
— E e n c o n t r a r a m os d o i s p r i m e i r o s ?
— S i m , reconheceram-nos por causa da fazenda.
Foram vendê-la no mercado de S u j u m quando surpre-
enderam-nos. Depois, no interrogatório, confessaram
que t i n h a m posto o dedo no bolso de m e u i r m ã o para
despistar o juiz. D e p o i s disso concederam uma licen-
ç a a m e u i r m ã o e ele v e i o p a r a casa.
— Isso é tudo?
— E\
— O caso da m e n i n a m o r t a t a m b e m é i n v e n ç ã o &ua?
— Mas, você n ã o acredita? A menina morta po-
dia muito bem ter ido ao consultório do médico.
— J á sabia. T i n h a d e ser c o u s a sua.
Levantei-me e chamei:
— Silva! Silva!
A negra Z o i a ia a t r á s de m i m sussurrando:
— N ã o está! Não está!
E n ã o pude falar mais c o m Silva. Tinha ido em-
bora. Zoia m e seguia, instigando-me.
—• E l a n ã o í a f i c a r a í e s p e r a n d o v o c ê . . . Como se
você fizesse alguma falta.
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 161

Percebi então a manobra. Zoia tinha feito tudo


para m e separar de Silva. C o m que f i m ? Fiquei irri-
tado. Dei-lhe a " r a ç ã o de soldado v e r m e l h o " . Ela se
pôs a chorar c eu fui-me embora.

Agosto 8, 1924.
0 " X " apareceu inesperadamente depois de um
longo intervalo. Publicou uma balada enorme que
começa assim:

Já falamos todos telegraficamente.


Nossa divisa é : " C o n c i s ã o , r a p i d e z ! "
H o j e fica t ã o d i f i c i l
descrever l i r k a m c n t e uma n o i t e de l u a ! . . .
Aproximadamente
Seria assim:
A n o i de l u to l a n
dos c i n la r o en de ba b u r
do o v i do c o m i domes."

Quem teria escrito isso? Kolka Paltuscv e eu re-


solvemos f a l a r e m l i n g u a g e m t e l e g r á f i c a . É rápido, cô-
m o d o e i n i n t e l i g í v e l p a r a os outros.

Agosto 9, 192 í.

As meninas que p o d e m ser q u a l i f i c a d a s de bobas,


e que são a maioria, n ã o me agradam. Mas u m que
merece esse n o m e e n t r e os m e n i n o s é I u c h k a Gromov.
C o n t o u a toda a gente m i n h a aventura c o m M a r i a . Não
sei q u e m p u x o u - l h e a l í n g u a . Essa h i s t ó r i a d c f a l a r p o r
falar é u m a grande estupidez.

H o j e fez outra bobagem. Entrou como uma bala


n o l a b o r a t ó r i o d e f í s i c a q u a n d o o s maesc não estavam
e gritou como u m louco:

— N i c p e t o j e s t á e n a m o r a d o de Staska V e l e p o l s k a y a f
162 N . O G N E V
*

Todos rodearam-no, perguntando como é que ele


sabia. As meninas então, mostraram-se insaciáveis.
Iuchka contou que tinha visto Nicpetoj e Staska pas-
seando no p á t i o ; q u e se m e t e r a m a t r á s d a l e n h a e Nic-
p e t o j segurava a m ã o de Staska, falando com grande
entusiasmo.
Iuchka tinha se escondido do outro lado e ou-
vira tudo.
Se I u c h k a n ã o tivesse c o m a d r i a d o a n t e s s o b r e m i -
nha aventura c o m M a r i a , talvez eu n ã o m e importasse
com o que ele estava dizendo. M a s agora, percebi, o
q u a n t o ele gosta de m e x e r i c o s , e q u e é i m p o s s í v e l c o n -
fiar nele.
F o i iniciado o curso para estudo da obra de Pueh-
kin. Zin-Palna deu-nos a biografia e, de improviso,
Schmerz, querendo m o s t r a r sua c u l t u r a , p e r g u n t o u :
— Que sentia Pushkin quando sua mulher esta-
va prenhe?
— Se v o c ê estivesse f a z e n d o esta p e r g u n t a a sério,
eu responderia; mas como é para fazer u m gracejo, u m
de n ó s , o u você ou eu, d e v e r á se r e t i r a r d e s t a sala.
V o l o d k a negou estar f a z e n d o b r i n c a d e i r a , a f i r m a n -
d o q u e t i n h a l i d o as c a r t a s d e P u s h k i n , n u m a d a s quais
e l e c o m e n t a v a isso c o m s u a m u l h e r . T o d a s as meninas
gritaram, interrompendo maiores explicações:
— Fora, fora Schmerz! Isto aqui n ã o é u m a po-
cilga, é u m a aula!
V o l o d k a teve de sair, envergonhado.

Agosto 10, 1924.

Hoje, no futebol, Iuchka G r o m o v pôs-se a coma-


drear s o b r e o caso de N i c p e t o j e Staska. Uma verda-
deira infâmia, porque nem todos os futebolistas são
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 163

alunos de nossa escola. Por isso ordenei a Iuchka que


calasse a boca.
— E se e u não calar?
— Quebrarei sua cara!
— Q u e b r e , se f o r homem!
Não quis icntar; entrei num acordo com Kolka
Paltusov que jogava no centro avante do terceiro time
e dicidimos fazer Iuchka passar um mau bocado.
Quando os a v a n t e s d o t e r c e i r o t i m e e s t a v a m com a bo-
la, K o l k a P a l t u s o v se p r e c i p i t o u s o b r e Iuchka que, se-
gundo o costume, tomara a dianteira. Eu, com o pre-
texto de pegar a bola das mãos de Iuchka cortei-lhe
o passo, e n q u a n t o Kolka avançava por detrás, dando-
l h e u m golpe t r e m e n d o n o cogote. Iuchka caiu gritan-
do furioso:

— Isso é foul de Riabtsev! Grande valentão!


Sujo!
Todos v i r a m que n ã o l i n h a sido cu. A única cousa
que aconteceu f o i o capitão dar um pequeno pito em
Kolka p o r ter jogado u m pouco brutalmente. Quanto
a Iuchka nem podia andar, tão dolorido e inchado t i -
nha o pé. Os rapazes tiveram de levá-lo para casa
na maca.
Quando voltava c o m K o l k a , ele m e disse:
— E s c o n <»>
Segundo o combinado eram proibidas explicações
das f r a s e s t e l e g r á f i c a s . Cada u m deveria adivinhar p o r
sí mesmo. R e m e x i os m i o l o s mas n ã o consegui saber
de que se tratava.
— Estimado companheiro?
— Não!
— Estupendo comerciante?.

(11) T r a d u ç ã o i m p o s s í v e l p o r se tratar d a m j o g o de palavras.


164 N . O G N E V

— Tambem nao. Como é que não compreende.


Estou contente.
Resolvi vingar-me de Kolka e durante a volta in-
ventei u m a frase c o m p l i c a d í s s i m a . Chegando em casa,
disse, c o m o despedida:
-— E s f i d e v o c k o p a !
— Que copa? — perguntou distraído.
— N ã o t e m nada a v e r c o m copas. E u disse "Es-
fidevoc kopa". A t é logo. Adivinhe se puder.
Kolka pensou e disse logo:
— Esfinge de voz suave...
N ã o pude m e conter e caí na gargalhada.
— D e que esfinge você está falando? De que voz
suave? Que história é essa?
— Nada. E ' u m a cousa que e u l i . E' algum nome
próprio?
— Não. É uma palavra telegráfica.
Vendo que Kolka n ã o adivinhava mesmo, pus-lhe
a língua e quis entrar em casa. Mas Kolka, ansioso
p o r saber o sentido da frase, p e d i u tanto, c o m t a n t a i n -
sistência que por f i m me cansei e lancei-lhe ao rosto:
— Sou fiel às bandeiras de outubro, Kolka Pal-
tusov!
Eu estava vingado.
Agosto 11, 1924.

Temos na escola uma menina que todos chamam


de tamanco. É muito rechonchuda, e todos a empur-
ram, esmagam-na contra a parede e fazem-na gritar
como se fosse um peixe. Essa história de "peixe" é
m o d o d e d i z e r , p o r q u e , n a v e r d a d e , os p e i x e s n ã o p o -
dem gritar.
Hoje encurralamos Tamanco num canto, quando
apareceu E l n i k i t k a e pôs-se a gritar que a q u i l o era uma
i n f â m i a , e que ía denunciar-nos diante do Conselho da
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 165

Escola e mesmo diante do Soviet de Comissários


do Povo.
Perguntei:
— Mas, de uma forma concreta, que foi que
fizemos?
— Vocês sabem melhor que ninguém — gritou
ela —. Não venham com hipocrisia. A cousa está
bem clara!
Vieram então algumas meninas de mais idade e
t o d a s se p u s e r a m a g r i t a r atoa, q u e os m e n i n o s s ã o i n -
s u p o r t á v e i s , q u e j á se a t r e v e m a se m e t e r c o m as m e n i -
nas. N ã o pude me conter e afirmei que tudo aquilo
era mentira, que sempre tinhamos tratado Tamanco
daquele jeito e n i n g u é m tinha se incomodado. Como
eu já estivesse f o r a de m i m , acrescentei, que achava
que Elnikitka n ã o estava cora o j u i z o p e r f e i t o . Quan-
d o e l a o u v i u i s s o , j u n t o u a o s e u r e d o r t o d a s as meninas,
como uma g a l i n h a os pintos, e anunciou solenemente:
— Riabtsev torna a revelar-sc em todo o seu es-
plendor. P e n s e i q u e se t i v e s s e e m e n d a d o , mas esta i n -
fâmia que acabo de ouvir, demonstra suas verdadei-
ras ideias.
Todos rodeavam Tamanco c levaram-na pelo braço.
Ao que parece f o r a m m e denunciar.
Dez m i n u t o s depois apareceu N i c p e t o j , nos r e u n i u e
começou a ler u m a verdadeira conferência sobre.o pro-
blema do sexo. Depois, leu u m conto de Turgueniev.
"O primeiro amor", onde se d e s c r e v e a p a i x ã o de um
j o v e m p o r u m a m o ç a de m a i s idade. T o r c e m o - n o s de r i r .
Persmntci a N i c p e t o j :
— Q u a l o f i m desta leitura?
— Demonstrar-lhes como uma obra de arte descre-
ve u m a m o r i d e a l , v e r d a d e i r o .
Eu quis esclarecer o assunto e perguntei:
— O senhor acha que n ó s n ã o s a b í a m o s ?
166 N . O G N E V

Nicpetoj ficou um tanto desconcertado.


— O l h e a q u i , a l g u n s maesc acham que o conceito
que vocês t ê m do amor e do p r o b l e m a sexual desvia-se
do verdadeiro caminho.
— M a s e m q u e se b a s e i a m ?
— P o r exemplo, na m a n e i r a de vocês t r a t a r e m Le-
na O r l o v a ( é o n o m e dc T a m a n c o . ) A c h a m q u e as re-
l a ç õ e s de v o c ê c o m ela t o m a r a m u m m a u caráter.
— Opinião de Elena E l n i k i t k a — disse.
— N ã o ; infelizmente, n ã o é apenas ela que tem
essa o p i n i ã o . P a r t i c i p a m dela a encarregada, Fischer,
e Ludovica Carlovna (a professora de canto).
— Mas, sinceramente, que é que fazemos de mau?
— respondi indignado.
— Isso d e e n c u r r a l a r T a m a n c o . N ã o é cousa que
se f a ç a . . . Todos o fizeram sempre e nunca aconteceu
nada...
— N ã o é verdade. 0 caso d e L e n a O r l o v a sempre
p r e o c u p o u os m e s t r e s — d i s s e N i c p e t o j . E o mais grave
é q u e L e n a n ã o se o p õ e a i s s o . V o c ê , Riabtsev, deve sa-
b e r q u e se p o d e e s t a r c o m m e n i n a s q u e n a o se o p õ e m . . .
M a s , f i c o u d e c i d i d o a c a b a r c o m estas b r i n c a d e i r a s e f a -
lar-lhes da ética e moralidade marxistas.
Quando Nicpetoj ía saindo eu o alcancei n o cor-
redor.
— E você? A c h a que n ó s somos o u n ã o culpados?
— Não creio que você seja culpado. Mas acho
conveniente parar c o m tais brincadeiras. Elena Niki-
tichna teme que v o c ê seja capaz de perverter alguma
das m e n i n a s , p o r q u e — segundo ela — v o c ê teve, este
verão, uma aventura seria, c o m a i r m ã de G r o m o v .
— E c o m o é q u e ela sabe? — perguntei, sentindo
que estava ficando vermelho, extremamente envergo-
nhado.
O D I Á R I O D E COSTIA RIABTSEV Í67

— Mas, é verdade que houve alguma cousa? —


perguntou, muito serio.
— Q u e é que v o c ê quer de dizer c o m "de verdade"?
Resisti... A c h o q u e isso n ã o deve i n t e r e s s a r ninguém
... P o r e x e m p l o , s e r i a a g r a d á v e l p a r a v o c ê , se começas-
sem a dizer que está enamorado de Staska V e l e p o l s k a -
ya o u cousa parecida?

— O que? Quem f o i que disse? — interrogou


Nicpetoj precipitadamente, m u i t o surpreendido.

— Pois é. N ã o é agradável, não? S ã o mexericos


e há pessoa que se m e t e m onde não são chamadas.
Acho que isso está contra a ético e moralidade mar-
xistas.
— A q u i , você t e m toda a razão, Riabtsev. — disse
N i c p e t o j algo constrangido. Os mexericos s ã o u m a he-
rança do v e l h o regime, de u m passado m a l d i t o . Reve-
l a m u m conceito m e s q u i n h o da vida. Eu, por exemplo,
nunca lhe ocultei, Riabtsev, que Silfida Dubinina me
agrada; mas ao m e s m o t e m p o , eu gosto d e l a c o m o ser
h u m a n o e n ã o como m u l h e r . É o que acontece c o m Vele-
polskaya. Seria m u i t o estranho q u e e u viesse p r o c u r a r
aventuras a q u i na escola.

— Silva n ã o t e m nada a ver c o m isto — respondi.


Ninguém se a t r e v e r i a a dizer que entre Silva e eu há
a l g u m a cousa d o q u e amizade e c o m p a n h e i r i s m o . Alem
d o q u e , ela e eu, somos t ã o ardentes aspirantes a revo-
lução m u n d i a l que nossas r e l a ç õ e s pessoais caem num
segundo plano. Estão mesmo num terceiro, ou talvez
décimo lugar.
— N ã o d u v i d o — disse N i c p e t o j . Tenho tal ternu-
r a p o r D u b i n i n a q u e n ã o p o d e r i a c r e r ' q u e ela fosse c a p a z
de transpassar o l i m i t e . . . B e m , Riabtsev, você pode-
r i a m e d i z e r , c o m o c a m a r a d a , q u e m se d e d i c a a d i v u l g a r
168 N . O G N E V

esse m e x e r i c o a b s u r d o a r e s p e i t o d e m i m e d e V c l e p o l s -
kaya?
— Não. Não posso, porque você o suspenderia,
n e m q u e fosse s ó c m s o c i o l o g i a !
— Nunca! — exclamou Nicpetoj, e enrubecendo
muito, continuou: E u n ã o c o n f u n d o assuntos pessoais
com os s o c i a i s . Afinal de contas n ã o m e interessa sa-
ber o nome do c h a r l a t ã o , mas apenas isto: É aluno,
o u u m dos grandes? O u é u m professor?
— É um menino.
— Obrigado, Raibtsev — d i s s e N i c p e t o j , se despe-
dindo. E m t o d o caso, v o c ê p o d e estar c e r t o . N o caso d e
O r l o v a d e f e n d e r e i sua causa, p o r q u e estou c o n v e n c i d o d e
seus s e n t i m e n t o s a r e s p e i t o .
— Pois, esconconus — disse, c o m o despedida.
— Que foi? — perguntou Nicpetoj.
— Estou contente com você. É para não dizer
adeus, q u e é u m a p a l a v r a religiosa.
— Você está começando cedo a mutilar a língua
natal! — disse Nicpetoj um tanto desgoctoso. Já a
mutilaram mais do que deviam.
— N ã o estou m u t i l a n d o , mas i n v e n t a n d o .
— Homem! U m a invenção pior que o normal —
objetou.
Scparamo-nos.

SlÃ^ $ >' -í . • , Ugosto '12 1924. |


f

Representaram hoje a "Carmem", no jardim de Ve-


rão. F u i c o m Silva. Sempre-tive grande desprezo pelas
ó p e r a s , p o r q u e cantar e m vez de f a l a r é u m a r t i f i c i o e
fica muito dificil entender as palavras; mas esta \ez
chegou a m e interessar. Q u a n d o se a p a g a r a m as luzes
d a sala e acenderam-se as d o p a l c o , t i v e u m a sensação
O DIÁRIO DE COSTIA RIABTSEV Í69

estranha. O maestro da orquestra t o m o u o aspecto de


um mago. Começou a opera. Esta vez entendi o en-
redo, apesar de ser tão fantástico.. Um militar se
apaixona por uma operária. O militar se c h a m a Don
José. Depois, n ã o entendi d i r e i t o porque é que aparecia
uma moça chamada Micaela, que cantou durante muito
tempo. É assim nas ó p e r a s : de repente aparece a l g u é m
— n ã o sc s a b e p o r q u e , n e m p a r a q u e — e c o m e ç a a c a n -
t a r e a m o v e r os b r a ç o s . D e p o i s C a r m e m se e n a m o r a , por
s u a v e z , d o m i l i t a r ; m a s este d e v i a l e v á - l a p o r c a u s a de
um delito à comissária. Ele leva, mas Carmem dá um
e m p u r r ã o e foge. D e p o i s ela dansa n u m a taberna — n ã o
entendi isso direito: quem é ela, o p e r á r i a de uma fá-
brica ou simplesmente uma moça dessas —. Depois
v e m o t o u r e i r o e c a n t a s u a s f a ç a n h a s ; g o s t e i m u i t o desse
trecho; E o t o u r e i r o era um bonito rapaz; N ã o há ra-
pazes assim na vida. Depois, Carmem, de repente, se
enamora do t o u r e i r o — talvez p o r q u e ele é mais boni-
t o que D o n J o s é — e p r o m e t e a l g u m a cousa, mas n ã o en-
tendi direito o que. O t o u r e i r o sai e entra Don José.
Carmem dansa, q u a n d o aparece u m chefe gordo e põe
Don José para fora, porque t a m b e m ele ama Carmem.
D o n José desembainha o sabre e p o r pouco mata o che-
fe, mas nesse m o m e n t o entram uns sujeitos com um
p a n o e m v o l t a da c a b e ç a e s a l v a m o c h e f e . Depois dis-
s o , D o n J o s é se t o r n a b a n d o l e i r o .
N o t e r c e i r o a t o , os b a n d i d o s q u e r e m a t a c a r e s a q u e -
a r o t o u r e i r o , q u e t i n h a g a n h o m u i t o o u r o nas corridas.
Carmem e Don José vão tambem com eles. Os
bandidos se escondem e deixam Don José atacar
sozinho o toureiro. Aí aparece Micaela, mas Don
José a põe para fora. Silva disse que Micaela é
noiva de D o n José, mas acho que n ã o , p o r q u e ele gosta
é de Carmem e se fez bandido por causa dela. Por
170 N . O G N E V

f i m , aparece o toureiro, e D o n J o s é dispara mas erra o


alvo. Quer m a t á - l o c o m a faca, mas o toureiro tira a
sua e eles l u t a m . N ã o sabem esgrima e l u t a v a m de u m a
maneira muito feia. M a s nesse m o m e n t o e n t r a C a r m e m
e os b a n d i d o s e conseguem separá-los. Não entendi
t a m b e m p o r q u e é q u e d e i x a m o t o u r e i r o ir-se embora.
Talvez ele n ã o tivesse dinheiro. Silva disse que não
e r a isso, q u e eles n ã o q u e r i a m s a q u e a r , m a s e u entendi
que queriam e todos t ê m o direito de entender operas
como quiserem.
No quarto a t o , as corridas v ã o começar. N ã o sei
q u a n t o s t o u r o s d e v e m h a v e r , m a s d e v e m ser m u i t o s , p o r -
que a l e m d o b o n i t o , h á e m cena outros v i n t e c o m l a n ç a s
e capas. Todos mexem muito os b r a ç o s , porque que-
r e m v e r a c o r r i d a . Q u a n d o t o d o s saem, C a r m e m entra,
pois t a m b e m quer ver a festa; mas D o n J o s é n ã o deixa,
porque tem ciúmes do toureiro. Ela, n u m grande es-
f o r ç o , consegue se l i v r a r e v a i p a r a a p r a ç a ; mas então
Don José mata Carmem com punhal.
— Que cousa horrível, os c i ú m e s ! — disse Silva
quando voltamos. Você sabe que eu tive ciúmes de
você?
A b r i m u i t o os o l h o s , assombrado.
— Mas é q u e . . . — e não terminei.
— Que? J á sei o q u e v o c ê q u e r dizer. Mas lem-
bre-se — sei p o r e x p e r i ê n c i a — p a r a s e n t i r c i ú m e s , n ã o é
preciso e s t a r . . . E n f i m , n ã o é preciso estar enamorado.
A gente pode sentir ciúmes de pessoas i n o c e n t e s . Eu,
por exemplo, tinha ciúmes de Nicpetoj, e mesmo de
objetos, e sabe d o q u e t e n h o m a i s c i ú m e s ? D o seu diá-
rio. Se v o c ê q u i s e r q u e e u n ã o s o f r a , v o c ê p r e c i s a me
deixar ler.
D e p o i s disso, o s i l ê n c i o c a i u sobre n ó s . De u m la-
d o , n ã o . q u e r o q u e S i l v a s o f r a p o r causa d o m e u diário,
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 171

mas p o r outra, como é que posso d e i x á - l a ler? Seria


c o m o se e u c o m e ç a s s e a f a l a r d e c o u s a s í n t i m a s , a r e s p e i -
t o das q u a i s e u a t é t e n h o m e d o d e pensar.
Silva disse:
— Então você não sente por mim nenhuma...
consideração. Se v o c ê sentisse n ã o p r e c i s a r i a pensar
tanto e m me dar ou n ã o o diário.
— Escute, Silva — respondi. 0 diário é o mais
í n t i m o de u m h o m e m . Você quer ver o mais p r o f u n d o
do m e u espirito, mas h á l á cousas que você não deve
saber.
S i l v a e n t ã o se d e t e v e , e d i s s e secamente:
— B e m , adeus.
— C o m o adeus? Sua casa e s t á longe!
— M a s desde que entre n ó s n ã o h á nada c m c o m u m ,
porque precisamos estar j u n t o s ? — disse. Vá pelo
seu c a m i n h o q u e e u v o u p e l o m e u .
— Espere, Silva. Como você pode dizer entre n ó s
não h á nada em comum? É mentira. Ao contrário,
entre n ó s , h á m u i t o em c o m u m . Mas suponho que vo-
cê queira que e ü me dispa e f i q u e de cueiros na sua
frente.
— Se v o c ê q u i s e r f a l a r dessa m a n e i r a asquerosa é
melhor procurar outra companhia.
Fiquei profundamente magoado.
— N ã o disse n a d a de asqueroso. Nem compreen-
d o p o r q u e v o c ê sente asco. E c o m o é q u e v o c ê p o d e d i -
zer que n ã o tenho c o n s i d e r a ç ã o ? Escute:
E l í meus versos:

"Tuas palavras profundas, ainda ressoam em mim,


A i n d a vibra em m i m , teu e l é t r i c o contato
E m meio da c o n f u s ã o da escola.
IXoje, tua voz é para o u t r o . . . Que fazer?
M i n h ' a l m a perto de t í , está c h e i a . . .
Longe, fica vazia, completamente vazia."
172 N . O G N E V

— V o c ê n ã o d i z n a d a c o m esses v e r s o s . E eles s ã o
péssimos. O diário deve ser muito mais interessante.
V o c ê m e acha t ã o c r i a n ç a , que n ã o seja capaz de levar
as cousas a sério? Escute: se eu der a você o meu
d i á r i o v o c ê m e d á o seu?
— Você tem u m diário?
— Para você — a c e n t u o u Silva — eu posso d i z e r . . .
Tenho.
— E você m e d á para ler?
— Claro, porque considero você m e u amigo. Mas
a c o n d i ç ã o é l e r o seu.
— Posso p e n s a r a t é amanhã?
— Dc maneira alguma! Isso não se deixa para
amanhã. Pensei que v o c ê fosse um homem, e venho
ver que é apenas u m m e n i n o .
E m b o r a a s i t u a ç ã o fosse penosa, e u t i n h a g r a n d e
v o n t a d e de l e r o d i á r i o de S i l v a . Disse p o r f i m :
— Mas você precisa prometer que nunca falará a
ninguém a respeito. Compreendeu? Nem comigo.
C o m o se v o c ê n ã o t i v e s s e l i d o .
— D o u a m i n h a p a l a v r a — disse S i l v a solenemente.
E para provar que n ã o é só curiosidade, a m a n h ã mesmo
trarei o meu.

Agosto 13, 1924.

Muitos meninos da escola foram ver a Carmem, e


gostaram tanto que querem fazer u m a ópera na escola.
Eu p r o p u s que fosse a p r ó p r i a C a r m e m e q u e e u fizesse
o papel de toureiro — j á ensaiei. K o l k a Baltusov pode-
ria cantar a parte de D o m J o s é : t e m u m a voz de soprano
tão forte, que poderia passar p o r tenor.
Mas Iucovica Carlovna disse que tanto Carmem,
como outra opera q u a l q u e r n ã o e s t á n o nosso alcance,
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 173

e nunca poderíamos fazer nada que valesse a pena.


Tirou da bolsa u m a opera infantil, intitulada "Alarme
no país dos cogumelos" e propôs que a ensaiássemos.
D e p o i s ela t o c o u . J á ví representarem muita bobagem,
mas nunca pensei que se pudesse escrever — e com
musica! — tamanha asneira. Por exemplo: começa
com uma canção da rainha dos nabos, que diz:

Ai, ai, ai!


Rei
me ameaças
tão tunante!
Não me importa
nada, nada.

Que quer dizer? Não compreendo, nem creio que


ninguém compreenda. Ouvi um pedaço e f u i logo
embora.

Eu, escon...
Eu, era f . . .
Pim, pom...
Para casa!

Ludovica Carlovna perguntou o que queria dizer


a q u i l o , e e u r e s p o n d i que era m e l h o r ela e x p l i c a r antes
o " A l a r m e n o p a í s dos c o g u m e l o s " . Que naturalmente
v i r i a m n o e s p e t á c u l o m u i t o s s u b - c h e f e s , os c a m a r a d a s , e
nos d a r i a m u m a boa vaia, e b e m merecida. Carlovna
respondeu que, na sua opinião era uma opera encan-
t a d o r a , e , se e u n ã o q u e r i a t o m a r p a r t e , q u e a o menos
n ã o atrapalhasse. F u i e m b o r a , e c o m ela f i c a r a m ape-
nas os pequenos do primeiro grupo. Silva me disse
que t i n h a esquecido o diário, mas que traria no dia
seguinte.

12
174 N . O G N E V

Agosto 14, 1924.


* «
Lí o diário de Silva e fiquei com a impressão de
q u e ela esconde a l g u m a cousa. O diário é interessante,
não há dúvida, mas incompleto. Mas, n ã o é possivel
adivinhar o que é que falta, porque Silva n ã o p õ e as
datas, c o m o eu. Escreve tudo e m seguida.
E u tambem n ã o darei o m e u completo, mas apenas
o caderno do p r i m e i r o semestre.

(Aqui há intercalado no caderno de Riabtsev outro


caderninho de papel pautado, com a seguinte
inscrição) :

C-A-D-E-R-N-0

De Silfida (Eudoxia) Dubinina, aluna do quarto


grupo do ensino s e c u n d á r i o .

O caderno começa com uns versos de Yesenin:

"Não sinto, não chamo, não choro."

Depois, versos de Tiutchev, Balmont, Buin e "O


l o u c o " de A p u j t i n . E m seguida, o texto:
Quero e devo experimentar tudo, tudo.
A v i d a , na l i t e r a t u r a é u m a cousa, e o u t r a , c o m p l e -
tamente diversa, na realidade. É m u i t o mais fácil viver
na fantasia que na realidade. M a s é preciso lutar contra
essa t e n d ê n c i a .

Que é a vida? Uma novela.


Qua] o a u t o r ? Anônimo.
Que fazermos? Lemos — soletrando — ,
Rimos, choramos e d o r m i m o s .
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 175

É d i f i c i l a c r e d i t a r q u e K a r a m s i n escreveu n o século
XVIII... E, entretanto, foi Karamsin. A princípio
escrevia epigramas, e depois, história.

Z. P. disse que tenho um estilo literário. Pergun-


tei-lhe o valor disso na vida, e ela disse que é um
reflexo da cultura. U m homem culto tem horizontes
mais amplos.

Minhas relações com Stasia V., como antes com


Lina G., consistem no f a t o de eu servir de válvula de
escapamcnto para sua efusões. Não sinto nisso nem
prazer, n e m desgosto. É a mesma cousa. A amargura
d e Stasia n ã o é t ã o v i o l e n t a e suas l á g r i m a s são pouco
ardentes. Lina tinha motivos muito mais sérios para
se desesperar.

Contudo, nos momentos mais críticos, olhando


para mim mesma, me convencia de que nada é tão
querido à gente mesma que a própria pele e, que à
v i d a é m u i t o m a i s t e r r í v e l q u e as d e s g r a ç a s passageiras.
Já percebera isso h á t e m p o , h á u n s c i n c o anos, desde
o inicio de minha vida consciente.

Acho que todos os jovens do minha idade têm


consciência disso, c se não, pelo menos, sentem-no.
Mas isso não tem importância. Alem do que, ioda a
nossa g e r a ç ã o c o m p r e e n d e u que, apesar do terrível da
v i d a , é p o s s í v e l e é nosso d e v e r l u t a r c o m ela e v e n c ê - l a .
Então, n ã o será mais tão terrível, e nos oferece até
uma face risonha. Estas ideias n ã o são minhas, mas
m e d o u p o r satisfeita delas m e t e r e m p e n e t r a d o e lan-
çado raizes n o m a i s p r o f u n d o de m e u ser.
176 N . O G N E V

Isso d á f o r ç a e p o s s i b i l i d a d e d e l u t a r c o m a vida.
Eu, em todo o caso, n u n c a faria um disparate como
o de Z o i a e Lina. Foi uma bobagem enorme, e o
fato de n ã o conseguirem o que q u e r i a m t o r n o u a cousa
ridícula. E isso é o pior do mundo.

Quando estou só, minh alma se enche de sensa-


9

ções estranhas. U m a s e p a r a ç ã o absoluta da terra, c o m o


se eu flutuasse n o vácuo. E isso, acontece principal-
mente à luz da lua.

Faço falta a alguém? Creio, às vezes, que não.


Começo então a procurar febrilmente alguém que
precise de mim. É porisso que sirvo de válvula de
escapamento às efusÕcs alheias.
Sei ler p o r q u e m e u p a i é t i p ó g r a f o . Desde menina
só vejo livros e a p r e n d i a ler c o m cinco anos.
Reli tudo o que escrevi e fiquei pensando; tudo
depende de meu humor. Posso até chorar, embora
ninguém pudesse ter conhecimento disso. Ou, por
exemplo, r i r à s gargalhadas, sem conseguir m e d o m i n a r .
Faço o possível por me controlar, porque, senão, per-
deria completamente o meu freio particular.
Ontem Stasia V . veio me ver, para f a l a r de seus
amores. A c h o q u e f a z m u i t o m a l e m se t o r t u r a r . T a n t o
faz! Ela nunca s e r á a d m i t i d a na escola s u p e r i o r , por-
que é analfabeta e n ã o quer terminar o quinto grupo.
Seria m e l h o r q u e se casasse e ficasse e m paz.

Acabou de terminar o escândalo doméstico. Meu


pai chegou, u m tanto tocado e começou a ralhar com
mamãe. E se a g a r r a r a m p e l o s c a b e l o s . Mamãe gritou:
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 177

"Socorro, Dunika!" e papai "Silfida, não se meta.


Crianças não devem presenciar as diversões dos mais
velhos!" F o i r e p u g n a n t e e se m e u p a i n ã o t i v e s s e i d o
e m b o r a , e u i r i a , n ã o sei p o r q u e .
Terminei "Guerra e Paz". Eu gostaria de ser
Natacha Rostova, mas é impossível. Natacha tem uma
vida verdadeira, completa, mas ela n ã o é mais que uma
sombra. Acho que Natacha tinha aspirações ideológi-
cas, m a s T o l s t o i as e s c o n d i a , c o m o p r o p r i e t á r i o e c o n d e
— representante do feudalismo.

Costia R . parece c o m o N i c o l a s Rostov, mas não é


tão bobo. Zoia T. parece a princesa Maria Bolcons-
kaya, mas é mais linda. Apesar disso, a beleza de
Zoia n ã o me agrada: é muito estranha. D e p o i s , ela se
penteia de uma maneira m u i t o descuidada. Em geral,
a r e s p e i t o d e b e l e z a as o p i n i õ e s d i f e r e m m u i t o . Eu, por
exemplo, n ã o vejo o que certo i n d i v í d u o v ê e m Stasia
V. Tem o nariz chato falta um dente da direita, e
quando anda mexe os braços como u m militar. Mas
u r a h o m e m q u e eu sei, m o r r e r i a p o r ela.
Percebo perfeitamente, a v u l g a r i d a d e do que escrevi,
mas n ã o pude me impedir.

Se for sempre castigada, espero perder este costume


t ã o f e i o . Se, e m l u g a r d e e s t u d a r , e u t r a b a l h a s s e n a f á b r i c a
seria, talvez, m u i t o m a i s f á c i l ; mas p o d e ser que n ã o ,
porque conheço exemplos da vida da fábrica a qual
e s t á f i l i a d a nosso a l v é o l o de C o m s o m o l .
U m é e s t e : c e r t a m e n i n a d e d e z e s s e i s a n o s , se c a s o u
com u m jovem da m e s m a fábrica, e todos começaram
a caçoar dela. Acho isso inconcebível. Desde que o
Governo permite o casamento aos dezesseis anos, que
cada u m case q u a n d o queira.
178 N . O G N E V

Por minha parte, não me casaria agora. (E já


tenho direito, porque em julho fiz a idade legal.)
C o n h e ç o v á r i o s casais c a m a i o r p a r t e é i n f e l i z . Tenho
o e x e m p l o de meus pais. M e u p a i , antes, n ã o h e h i a ,
mas agora, desde que está contra ela, começou a
embriagar-se.
Mas, de o u t r o l a d o , q u e r o e x p e r i m e n t a r t u d o , t u d o .
Até conhecer tudo, n ã o ficarei sossegada.
Compreende, perfeitamente, a necessidade de se
d o m i n a r e se c o n t r o l a r . H á em m i m , duas forças em
l u t a e n ã o sei q u a l v e n c e r á . A que m e empurra para
todas as e x p e r i ê n c i a s se c h a m a D u n k a ; a que me con-
t e m , eu a c h a m o de S i l f i d a . Esta é m a i s f o r t e e D u o k a
é u m a t o n t a , sem ideias.

A respeito da ideologia. A ideologia ajuda a viver,


é verdade. Mas nem sempre a gente pode se orientar.
P o r e x e m p l o , n o caso d a d a n s a . Sempre achei que n ã o
se d e v i a d a n s a r , è o u t r o d i a , n o c l u b e d a f á b r i c a , e u os
ví dansando. Fui falar a respeito com o secretário
Ivanov, e perguntei:
— É p e r m i t i d o dansar?
— Mas, quando f o i proibido?
— E n t ã o , porque é que dizem que é u m a triviali-
d a d e , e, s e g u n d o uma expressão de u m colega, apenas
um roçadinho?
— É q u e t o d o s se t o r n a r a m d e m a s i a d a m e n t e sabidos.
Não impomos o baile a ninguém. Q u e m q u i s e r se d i v e r -
tir que se divirta, contanto que não prejudique os
demais.
Muito compreensível! Ã s v e z e s a i d e o l o g i a se t o r n a
inacessível; mas dela depende a o r i e n t a ç ã o da vida.
O D I Á R I O D E COSTIA RIABTSEV 179

É mais fácil compreender a l i t e r a t u r a q u e os atos


da vida diária. Ás obras literárias podem ser lidas
muitas vezes, e depois, a gente pode ficar pensando
sobre o que leu, enquanto q u e os a s s u n t o s q u o t i d i a n o s
têm de ser resolvidos imediatamente.
É n a escola o n d e a gente f i c a e m s i t u a ç õ e s d i f í c e i s ,
m a i s f r e q ü e n t e m e n t e , e p r e c i s a se o r i e n t a r p o r s i m e s m a ,
porque não há quem consultar, n e m tempo para isso.
Sobretudo, nos litígios entre professores e alunos. Tem
havido freqüentes motins. E o i n s p e t o r disse q u e nossa
escola é mais um bando de espadachins. Está claro
que n ã o é verdade. H á m u i t a s desordens, mas vivemos
n u m a é p o c a r e v o l u c i o n á r i a e as c o u s a s t ê m d e se p a s s a r
assim.

Zin-Palna nos fez estudar Pushkin e é muito inte-


ressante trabalhar com ela. Estamos analisando o
poema — Eugênio Oneguin. Precisamos notar, sobre-
tudo as ideias. Oneguin está completamente imbuído
da ideologia feudal-burgusa-naturalista-patronal. É m u i t o
comprido mas não há jeito de dizer de outra forma.
Isto n ã o é u m a deshonra para Pushkin, porque n ã o
viveu com a ditadura do proletariado e o regimen sovié-
tico. Viveu sob o t z a r i s m o , e seu r e p r e s e n t a n t e Nico-
lau I oprimia Pushkin, exilando-o para Kichinev e mais
tarde para sua t e r r a n a t a l .

Não posso c o m p r e e n d e r que P u s h k i n fosse árabe,


e é surpreendente c o m o , apesar de seu sangue ardente
meridional, tenha p o d i d o escrever uma obra tão fria
como Eugênio Oneguin. Zin-Palna contou que n o t e m p o
de Pushkin as jovens ficaram encantadas c o m o tipo
de Tatiana. N ã o posso entender como numa época de

-
130 N . O G N E V

tanta perversidade, T a t i a n a pudesse ter sido u m a ideal.


Talvez porque não houvesse mulheres semelhantes.
Pushkin, o romântico, inventou a figura de Tatiana,
como i n v e n t o u t a m b e m a de O n e g u i n .

É d i f i c i l explicar p o r q u e sinto que n ã o gostaria de


ser T a t i a n a , e p o r q u e j a m a i s s e r e i c o m o e l a : é preciso
e n t r e g a r - s e a o a m o r , se é l e a l , e n ã o a f o g á - l o . Em geral,
Tatiana não é meu tipo. Nunca p a r t i c i p o u das lutas
revolucionárias, e a vida sem elas é impossivel. Por
o u t r o lado, T a t i a n a m e agrada p o r q u e f o i capaz de diri-
g i r seus a t o s , s e g u n d o seus d e s e j o s , e isso é u m a grande
cousa.

Acho isto concebivel exteriormente, mas intima-


mente, a luta sempre existe. Está claro que isto era
mais fácil para T a t i a n a , p o r q u e n ã o era " o u t u b r i n a " e
S i l f i d a , e agia apenas segundo a m o r a l naturalista-patro-
nal. (É a opinião de Nicolas Petrovich).

A maioria das minhas colegas querem ser artistas


de cinema ou bailarinas. Não têm a preocupação de
estudar; o essencial é entregar os trabalhos, e não se
importam com o que fica, ou n ã o fica, na cabeça. É,
pois, m u i t o c o m p r e e n s í v e l q u e a m a i o r i a delas seja t ã o
ignorante quanto Stasia V. Uma menina do quinto
g r u p o m e disse o u t r o d i a : Logo que terminar a escola,
vou ser a r t i s t a de cinema e vou para a America, É O
m e u p r o g r a m a de v i d a . " Apenas u m a m i n o r i a quer se
e m p r e g a r nas f á b r i c a s depois da escola.

Zoia está me perseguindo. Onde vou, ela vai tam-


bem. Q u e s e r á que ela quer de mim?
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 181

Fui à reunião do alvéolo e falou-sc a respeito da


o r g a n i z a ç ã o d e f i c i e n t e d o t r a b a l h o s o c i a l n a nossa escola.
A culpa é dos próprios alunos, e n ã o dos maesc, é a
opinião deles. Serioga B l i n o v d e c l a r o u q u e era i r r e m e -
d i á v e l p o r q u e na escola t u d o é f e i t o segundo a vontade
d o s maesc, e a p r ó p r i a autonomia, n ã o é mais que "um
inválido apoiado nas muletas dos maesc". Responde-
ram que n ó s é que somos os c u l p a d o s , d e v i d o à nossa
pequena atividade. E que, a l e m disso, havia um pro-
g r a m a e n o r m e de t r a b a l h o s sociais. Serioga informou-os
a respeito dos j o r n a i s m u r a i s e circulantes. Objetaram
que n ó s n ã o t í n h a m o s organizado u m p l a n o de coloni-
z a ç ã o e q u e n o s s o s c o l o n o s — c o m o s ã o t o d o s os grupos
dos pequenos — se dedicavam a passear p e l a sala ao
som da m a r c h a militar e a brincar. Serioga quis pro-
testar, mas fecharam-lhe a boca dizendo que é muito
fácil falar para justificar a inatividade, mas que o tra-
balho prático nesse sentido é mais dificil. Enfim,
passaram-nos uma repreensão em regra. Precisamos
trabalhar a sério.

Agosto 17, 1924.

Disse a Silva que o diário não estava completo e


ela n ã o protestou. F o i correta. Disse ainda q u e queria
ficar com ele mais uns dias para ler com atenção, e
dei-lhe os três cadei-nos meus do primeiro semestre.
Antes, eu os l í , p a r a me certificar de que não havia
cousa alguma que cia n ã o pudesse ler. Vamos ver o
que ela d i z .
182 N . O G N E V

Agosto 18, 1924.

O incidente com Tamanco ameaça de ter um fim


desagradável. Parece que deu m a r g e m a várias confe-
r ê n c i a s e n t r e o s maesc — Nicpetoj me contou — c que
Zin-Palna insistiu em levar todos os culpados — a
maioria dos alunos — ao t r i b u n a l cscolar-social. Mas
Elnikitka d e c l a r o u q u e , se n ã o t i v e s s e s i d o R i a b t s e v , os
outros n ã o t e r i a m feito nada, e, consequentemente, só
eu d e v e r i a ser j u l g a d o . Tamanco passeia, v e r m e l h a e
mal humorada porque j á f o i chamada v á r i a s vezes p a r a
prestar declarações. Mas Silva, me assegurou que se
sente m u i t o o r g u l h o s a p o r ter p r o v o c a d o t a n t o reboliço.
I n d a g u e i de N i c p e t o j q u a l seria o castigo e ele me
disse que achava que n ã o passaria de u m a repreensão
pública. Ofereceu-se para me defender pessoalmente
diante do T r i b u n a l e m e aconselhou que elegesse um
defensor entre meus camaradas.
Pensei muito e disse a Silva que n ã o sabia quem
eleger. E l a e n t ã o p e r g u n t o u se e u f a z i a a l g u m a objeção
a que ela p r ó p r i a fosse o defensor.
— Mas como é que você vai me defender? —
perguntei.
— V o c ê v a i v e r , n ã o se p r e o c u p e . Você apenas
precisará dizer " s i m " o u " n ã o "
Aceitei.

Agosto 19, 1924

Recebi um golpe no pé e estou coxeando, mas con-


t i n u o i n d o à s aulas. Iuchka Gromov foi quem me aco-
meteu ilegalmente, porque estava jogando, como eu,
n o s e g u n d o t i m e e n ã o t i n h a n e n h u m d i r e i t o d e se j o g a r
sobre m i m . D e i x e m e u p é f i c a r b o m e ele v a i ver!
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 183

Agosto 20, 1924.

Houve, boje, um escândalo formidável na escola.


Vou escrever em ordem para depois entender facil-
mente.
Foi no auditório, durante as aulas sobre Pushkin.
Há dias, Z i n - P a l n a p e d i u que redigíssemos uma crítica
do Eugênio Oneguin. Todos f i z e r a m e entregamos três
dias a t r á s — o quarto e o quinto grupo tambem assistem
este curso. Hoje, apenas nos reunimos, Zin-Palna
entrou apressada, sentou-se c o m ar misterioso, colocou
s o b r e a m e ê a os n o s s o s c a d e r n o s e p a p e i s e f i c o u e m si-
lêncio. N ó s , c o m ela. Três m i n u t o s se p a s s a r a m c eu
comecei a tossir ligeiramente. Volodia Schmerz não
p ô d e conter o riso. E n t ã o Z i n - P a l n a disse, bruscamente:
"Se A l e j a n d r o S e r g u e y e v i c h P u s h k i n vivesse a i n d a , t e r i a
m o r r i d o agora ao ler, apenas d é c i m a parte dos dispa-
rates q u e vocês escreveram sobre a sua obra."
Ficamos u m tanto constrangidos, mas depois come-
çamos a rir. Zin-Palna prosseguiu:
— É claro que nem todos se distinguiram neste
sentido. Há alguma coisa boa; mas, c o m o exceção,
acentua apenas a regra geral. U m exemplo:

Pegou um caderno e leu em voz alta:

"Pushkin foi um marxista e um novelista. Por isso


escreveu toda uma novela com o t í t u l o de E u g ê n i o
Oneguin, onde se matizam as lutas de classe que houve
na sua é p o c a . Mas P u s h k i n era b u r g u ê s , e por isso n ã o
podia escrever nada a respeito do proletariado, e só
escreveu sobre a burguesia. Depois casou-se e escreveu
u m conto para os cursos p r i m á r i o s , entitulado " C o n t o do
tzar Saltan e seu j o r n a l e i r o B a l d a . " . Depois f o i m o r t o
n u m desafio e enterrado. Mas E u g ê n i o Oneguin pode
ser l i d o a t é h o j e . "
181 N . O G N E V

A gargalhada era geral, mas Zin-Palna olhava


gravemente, e p o r f i m , disse:
— De quem estão vocês rindo? De vocês mesmos?
Para que o s a i b a m . . . Isto é do Gogol, cujas obras
vocês devem ter l i d o com a mesma atenção com que
leram Pushkin.

— É possível que todos tenham escrito dessa ma-


neira?—perguntou Silva.

— Disse que há exceções. Mas estas não modificam


a impressão geral. Aqui está um resumo de Oneguin
q u e m e r e c e ser l i d o d o p r i n c í p i o a o f i m .

Tomou a folha e leu:

"Eugênio era filho de um cavalheiro libertino.


Tatiana f o i uma p r o p r i e t á r i a que l i a novelas, maltratava
os criados e usava espartilho. Estava fascinada p o r One-
g u i n , e o b r i g o u sua ama a escrever-lhe u m a carta. A
ama enviou o neto com a carta à casa de seu v i z i n h o .
Tatiana estava enamorada de O n e g u i n . Mas guardava
sempre sob a a i m o f a d a ; visitavam os pobres e s o f r i a m
de melancolia. M a s o poeta L e n s k y quis ^proteger
Tatiana. L e n s k y é o c o n t r á r i o de E u g ê n i o e b r i g a v a m
todos os dias. U m dia O n e g u i n disparou o r e v o l v e r e
deixou-o no l u g a r . Tatiana se casou depois c o m seu
amigo, o general, e chegou a v i v e r no m e i o de grande
o p u l ê n c i a . Dissipavam t u d o em b a n q u e t e s » e chamava a
a t e n ç ã o da p r ó p r i a corte. Mas seu m a r i d o era u m m u t i -
l a d o . E u g ê n i o t o r n o u a ver Tatiana e f i c o u fascinado.
mas t i n h a uma capa que o descobria. E u g ê n i o f o i à
casa de Tatiana, e declarou-lhe a m o r . E l a disse que
estava casada com u m general e queria ser f i e l . A s s i m
termina a h i s t ó r i a de E u g ê n i o . "

— Quem escreveu isso foi Staska Velepolskaya—


g r i t o u d o seu lugar Iuchka Gromov. V i ela escrever
, nessa f o l h a .
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 185

Esse g r i t o t e r m i n o u as gargalhadas . Staska se l e -


vantou de u m salto, ficou muito vermelha, quis dizer
alguma coisa; mas, p o r f i m c o m e ç o u a chorar, e fugiu
do auditório como u m hólido. M a s a cousa n ã o p a r o u
aí.
— Espero, Gromov, que você tenha apreciado os
efeitos da intetnperança no falar — disse Zin-Palna
depois de u m hreve silêncio. Q u e m m a n d o u dizer algu-
ma cousa? G r i t a n d o , n ã o conseguirei elevar o nivel cul-
tural de Velepolskaya, n e m f a r e i c o m que estude mais
A ú n i c a c o u s a q u e se p o d e r i a o b t e r , e r a q u e e l a deixas-
se d e f r e q ü e n t a r a escola.
S i l v a l e v a n t o u - s e e disse — o q u e m e d e i x o u assom-
brado:
— N ã o , Zinaida P a v l o v n a , estas cousas d e v e m ser
discutidas publicamente. Se f o r p a r a n ã o f a z e r c a s o , o u
d e i x a r passar, c o m i n d i f e r e n ç a n ã o h a v e r i a necessidade
do ensino secundário.
As meninas c o m e ç a r a m a m u r m u r a r entre si, mas
Silva c o n t i n u o u :
— N ã o agrada às meninas o que estou dizendo?
Pois não me atinge e continuarei falando. É muito
n a t u r a l que n ã o agrade. Se l h e s interessa m a i s a a c a d e -
mia de dansa, p o r q u e não vão para l á ? São muitos
aqueles que gostaria de estudar e n ã o puderam entrar
na escola. É preciso dar-lhes u m a oportunidade para
fazê-lo.
A m a i o r i a das m e n i n a s l e v a n t o u - s e e c o m e ç o u a g r i -
t a r , m a s o r u i d o i m p e d i a q u e se e n t e n d e s s e . Algumas,
com os o l h o s chamejantes, pretendiam agredir Silva.
Uma, f r e n é t i c a , a m e a ç o u - a c o m os p u n h o s fechados.
Não se acalmavam e Zin-Palna, com u m soco na
mesa e batendo o p é no chão, gritou:
186 N. O G N E V

— Silêncio! N ã o esqueçam que estamos na aula.


Estava vermelha de indignação. Mas já reparei
tpie cia t e m u m secreto p r a z e r nos e s c â n d a l o s , embora
finja indignação.
Quando fez-se novamente silêncio, Zin-Palna
propôs que se e l e g e s s e u m presidente e se f i z e s s e uma
apuração sobre a conduta de Iuchka Gromov. Tinha
ou n ã o o direito dc revelar o nome de Staska Vele-
polskaya?
Embora seja u m tema individual — disse Z i n - P a l -
na — proponho uma discussão ampla do assunto, isto
é : Pode-se t o l e r a r n o - q u i n t o g r u p o d o curso secundário
uma ignorância total, como a refletida na análise de
Eugênio Oneguin?
Serioga B l i n o v que n ã o falara a t é e n t ã o , disse:
— Vivemos a q u i estudar e n ã o discutir problemas.
— D e v o confessar que você, B l i n o v , m e surpreende.
Você — continuou Zin-Palna — partidário fervoroso
dos debates a m p l o s sobre t o d o s os assuntos, a g o r a vera
se m a n i f e s t a r c o n t r a e s t e ? E s t á c l a r o q u e se a m a i o r i a
não quiser, retirarei minha proposta, e estou disposta
a r e t o m a r o curso de P u s h k i n e suas obras. Como vocês
se l e m b r a m , n o c u r s o a n t e r i o r , d e d i c a m o s d o i s meses ao
e s t u d o desse p o e t a .

O a s s u n t o d e V e l e p o l s k a y a t e r á d e ser e x a m i n a d o
p e l o C o n s e l h o da Escola e p e l a A s s e m b l é i a G e r a l .
— Não! — t o m o u Silva. A o p i n i ã o de B l i n o v n ã o
é obrigatória. Eu, por exemplo, acho que o assunto
merece discussão imediata, e que seja dada u m a resolu-
ç ã o i n d i c a n d o as m e d i d a s que deverão ser t o m a d a s e
adotadas pela escola.
C o m e ç o u a v o t a ç ã o e a m e t a d e dos a l u n o s manifes-
tou-se a f a v o r do d e b a t e e a m e t a d e c o n t r a . Serioga
disse:
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 187

— E u saio. Foi aqui usada u m a medida que os


p r o f e s s o r e s a d o t a m e m casos c o m o este. A n t e s de votar
Zin-Palna nos ameaçou dizendo que levaria o assunto
a u m Conselho da Escola e à A s s e m b l é i a Geral. É lógi-
co q u e sua p r o p o s t a tenha j u n t a d o certo n u m e r o de vo-
t o s , c q u e o d e b a t e se e f e t u e c o n t r a a o p o s i ç ã o d a m a i o r i a .
E s t e g ê n e r o d e a m e a ç a s p o d e ser c h a m a d a de violência,
pressão moral. Por minha parte, renuncio à minha
faculdade de intervir numa "discussão organizada por
meios violentos.
— V o c ê n ã o deixa de ter certa r a z ã o , B l i n o v — res-
pondeu Zin-Palna; mas você t e m de concordar comigo
que fatos como a c o m p o s i ç ã o d e V e l e p o l s k a y a e o des-
p r o p ó s i t o de G r o m o v , n ã o p o d e m n e m d e v e m passar de-
sapercebidos, tanto pelos alunos como pelos mestres.
Q u e posso f a z e r ? P r o p o n h o u m a medida que pode aju-
dar uma orientação f u t u r a ; uma medida que a meu ver
é s e n s a t a c, p a r a uma parte dos presentes, aceitável.
Mas você me diz que veio estudar e n ã o discutir. E que-
r e r l e v a r o assunto ao C o n s e l h o o u à A s s e m b l é i a - G e r a l ,
você qualifica dc violência. Isso n o s l e v a a p e n s a r que
v o c ê , B l i n o v , q u e r escamotear o assunto, e p o r m o t i v o s
que eu ignoro.
— Q u e saia de u m a v e z ! — gritei. É m u i t o abor-
r e c i d o o u v i r estas d i s c u s s õ e s e n ã o l e v a c n a d a . D e duas
uma: discussão o u estudo. Essa h i s t ó r i a de falar pelo
gosto de falai*, n ã o traz c o n c l u s ã o alguma.
— Claro! É isso m e s m o ! — g r i t a r a m os m e n i n o s .
Ou u m ou outro!
A l g u n s s a i r a m a t r á s de B l i n o v , m a s a m a i o r i a f i c o u
e resolveu c o m e ç a r o debate. F u i eleito presidente.
Z i n a i d a P a v l o v n a f o i se s e n t a r n a m i n h a c a r t e i r a e
eu fiquei no lugar dela. Iuchka Gromov tomou a pa-
lavra :
188 N. O G N E V

— N ã o vejo delito algum na m i n h a conduta! Dis-


se q u e e r a S t a s k a e q u e m a l h á nisso? Q u e n ã o escre-
v a essas c o u s a s !
— N ã o grite! Ninguém perguntou nada. O que
você está dizendo n ã o t e m senlido. Sente-se. Quando
c h e g a r a sua v e z , v o c ê s e r á c h a m a d o . — disse e u .
I u c h k a protestou d i z e n d o que e u n ã o sabia p r e s i d i r ,
e q u e n ã o t i n h a d i r e i t o de f a z e r a d v e r t ê n c i a s . Mas to-
dos g r i t a r a m d i z e n d o p a r a ele f i c a r q u i e t o , e ele teve de
se r e t i r a r . Silva p e d i u a palavra:
— Sei que m i n h a s palavras p r o v o c a r a m certa a n i m o -
sidade e n t r e a l g u m a s m e n i n a s , m a s isso e r a inevitável.
M a s c p e l o b e m delas. D e n t r o de uns meses, o q u i n t o
g r u p o d e v e r á ingressar nas escolas s u p e r i o r e s e começar
a vida real. Q u a l a sua c o n t r i b u i ç ã o ? O que nos leu
Z i n a i d a P a v l o v n a , n ã o p o d e ser q u a l i f i c a d o c o m o falta
de c u l t u r a , m a s como ignorância absoluta. O p i o r ,de
t u d o é que Velepolskaya n ã o achou o p o r t u n o consultar
nem professores n e m alunos que possuem mais conhe-
cimentos que ela. Escreveu ao Deus dará... Minha
proposta concreta é a seguinte: Que o nosso quinto
g r u p o t o m e c u i d a d o e l i q u i d e sua ignorância ante3 de
entrar na Escola Superior.
V o l o d i a S c h m e r z ; — Z i n a i d a P a v l o v n a disse q u e ao
l e r nossas c o m p o s i ç õ e s P u c h k i n m o r r e r i a de n o v o . Mas
acho q u e era preciso d e i x á - l o m o r r e r , p o r q u e ele era de
origem burguesa e n ó s , segundo a c a n ç ã o , somos " A j o -
vem guarda de o p e r á r i o s e camponeses."
— " N ã o v e m o s e m q u e isso v e n h a ao caso, camara-
d a S c h m e r z — i n t e r r o m p i — F a ç a o f a v o r d e se r e s t r i n -
g i r ao assunto e n ã o d i z e r b o b a g e n s . S e n ã o , serei obri-
gado a retirar-lhe a palavra.
— B o m : vou me restringir ao assunto; Creio que
G r o m o v t i n h a o direito de revelar o n o m e do autor da
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 189

composição, porque o fato de Velepolskaya conversar


l o n g a m e n t e c o m o s maesc, mesmo a sós, n ã o demonstra
sua c u l t u r a . . .
— E s t á r e t i r a d a a p a l a v r a ao o r a d o r — disse e n t ã o .
N ã o faltava mais nada s e n ã o c o m e ç a r c o m mexericos.
Schmerz deu u m a gargalhada fingida e sentou-se.
Mas eu continuei:

— S e v o c ê n ã o se c o m p o r t a r m e l h o r t e r e i d e pedir
q u e se r e t i r e .

— Mas como ficou educado, Riabtsev! — tornou


Schmerz. V o c ê e s t á q u e r e n d o ser e l e i t o p e l o Conselho?
Irritei-me: — Por alusões à pessoa d o presidente,
p e ç o a S c h m e r z q u e se r e t i r e .
— N ã o sou n e n h u m p i m p o l h o e n ã o saio d a q u i sem
mais aquela.

— Que história é essa d e p i m p o l h o ? Vamos?


— B o m cu vou. E o " p i m p o l h o " é das cartas dê
Puchkin. Aconselho você a lê-las. Acabaria assim
c o m a sua i g n o r â n c i a , R i a b t s e v .
E foi-se. A c h o q u e f e z t u d o isso p a r a demonstrar
q u e e u n ã o t i n h a l i d o as c a r t a s d e P u c h k i n .
Uma das m e n i f l a s m a i o r e s p e d i u a p a l a v r a e falou
contra Silva. Disse que a c u l p a da i g n o r â n c i a n ã o era
dos alunos mas d o s maesc — ela t e m u m a certa razão
e q u e n ã o se d e v i a p e r m i t i r q u e a n a l f a b e t o s chegassem
a t é os g r u p o s s u p e r i o r e s . F a l a v a c o m u m t o m p a t é t i c o e
o debate teria t e r m i n a d o sem incidentes, quando, de re-
pente aconteceu o seguinte:
Nicpetoj entrou precipitadamente, olhou em torno
e v i u Z i n - P a l n a sentada na m i n h a carteira e sentando-
se ao lado dela, falou acaloradamente. Zin-Palna ne-
gava c o m u m m o v i m e n t o de c a b e ç a e r e s p o n d i a com o
mesmo t o m acalorado. F i c a m o s calados, o l h a n d o i n t e r -

13
190 N . O G N E V

roga ti v ã m e n t e na direção deles. Por f i m , N i c p e t o j le-


v a n t o u a v o z , e disse m u i t o e x c i t a d o :
— Q u e p r o c e d i m e n t o p e d a g ó g i c o é este d e d i f a m a r
u m a j o v e m , fazê-la c h o r a r e levá-la a u m ataque de his-
terismo?
Zin-Palna, m u i t o calma, respondeu em voz alta,
tambem:
— N ã o v a l e a p e n a f a l a r disso a q u i , N i c o l a s P e t r o -
vich, falaremos sobre o assunto n a sala dos professores.
— Não, você não tem razão! — disse Nicpe-
t o j e q u i s c o n t i n u a r ; m a s e u , f a z e n d o das t r i p a s c o r a ç ã o ,
disse:
— Nicolas P e t r o v i c h , apesar da consideração em
que o tenho, n ã o lhe dei licença para falar. Por con-
s e g u i n t e , se v o c ê q u e r f a l a r e m p a r t i c u l a r , v á p a r a o c o r -
redor. Estamos no m e i o de u m debate...
— A h . . . então h á u m debate? N ã o sabia. Des-
culpe. E saiu do recinto.
Zin-Palna saiu logo atrás. M a l haviam saido, to-
dos d e i x a r a m os seus l u g a r e s e p o r m a i s socos q u e eu
desse n a mesa, n ã o consegui restabelecer a ordem. As
m e n i n a s se a g r u p a r a m n u m c a n t o e c o m e ç a r a m a cochi-
char entre si. Silva veio para perto de m i m :
— Creio que todos vamos c o m rapidez para a tri-
vialidade. C o m o p o d e r í a m o s e v i t a r isso?
— Onde está a trivialidade?
— Pois, a i : o debate. Alem do que, acabo de me
surpreender comigo mesma: quando Nicpetoj entrou,
e u estava q u a s i c e r t a de q u e ele entraria...
— Eu tambem...
— Pois você v ê . T u d o de u m a grande trivialidade.
Vamos embora. -
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 191

Na sala dos rnaesc eles e s t a v a m discutindo com


grande v e e m ê n c i a . T o d o s se t i n h a m r e u n i d o e a v o z d e
N i c p e t o j d o m i n a v a t o d a s as o u t r a s . Soube pelos pecrue-
nos q u e Staska t i n h a t i d o u m a t a q u e de h i s t e r i s m o e t i -
n h a i d o p a r a casa.
Os meninos estavam constrangidos. Pensei que o
m e l h o r q u e e u t i n h a a f a z e r e r a i r ao f u t e b o l , e f u i .

Agosto 24, 1924.

Há rumores, cada vez mais insistentes de que o cor-


p o docente sofreu u m a cisão; dizem que Nicpetoj quer
deixar a escola; que o resto dos professores apoia Z i n -
Palna; que N i c p e t o j está s o z i n h o . . . M u i t o s rapazes f i -
caram c o m e l e , as m e n i n a s , q u a s i todas.
A confusão é geral. N ã o sei que atitude tomar.
S i l v a se d e c l a r o u p a r t i d á r i a i n c o n d i c i o n a l de Zin-Palna
porque, segundo ela, N i c p e t o j , n ã o obstante seus s e n t i -
mentos em relação a Staska, deveria ter defendido a
igualdade e reconhecido a falta de r a z ã o dela, que, a l e m
de t u d o , n ã o devia estar n o q u i n t o grupo.
D e pleno acordo r mas de o u t r o lado, e m p r i m e i r o
l u g a r , g o s t o m u i t o d e N i c p e t o j ; e, a l e m disso, sempre,
em principio, fico com a minoria. Embora a maioria
d o s í ü u n o s e s t e j a c o m N i c p e t o j , a m a i o r i a d o s maesc es-
t á c o n t r a c ele s e r á v e n c i d o , sem d u v i d a , p o r q u e eles
estão em maioria, e sempre vencem.
Para m i m , a q u e s t ã o é a seguinte: o u Silva o u Nic-
petoj. S i l v a d i z q u e , se e u ficar com Nicpetoj serei
u m h o m e m sem p r i n c í p i o s .
0 p r o b l e m a n ã o é assim t ã o f á c i l ; é preciso m e d i -
tar longamente, e enquanto n ã o encontrar uma solução,
não tomarei partido.
192 N . O G N E V

Agosto 26,1924.

Em vista da p r o x i m i d a d e d o n o v o ano escolar, Sil-


va e e u n o s d i r i g i m o s ao s e c r e t á r i o d o a l v é o l o , I v a n o v ,
p a r a q u e n o s dissesse q u a n d o s e r e m o s m e m b r o s d o C o m -
somol. Ivanov declarou n ã o ter inconvenientes e m fa-
zer a proposta á junta do alvéolo, e que era provável
q u e nossa a d m i s s ã o fosse s a n c i o n a d a , e m b o r a isso fosse
b e m ' p o u c o , porque, segundo a opinião dele, n ó s pode-
ríamos ser s ó c i o s a t i v o s , sc q u i s é s s e m o s , p o r t e r dispo-
sições para tanto. S e n t i u m g r a n d e p r a z e r ao o u v i r is-
&o. Depois, Ivanov, desenvolveu a i d é i a de que o t i t u l o ,
o f a t o de t e r o r ó t u l o de m e m b r o d o C o m s o m o l , c a r e c i a
de interesse; o que interessava, era ser, d e f a t o , u m
membro. P a r a isso, era p r e c i s o elevar a a ç ã o s o c i a l d a
escola à a l t u r a d e v i d a . Sugeri, que, segundo m i n h a o p i -
n i ã o , Serioga B l i n o v , ex-secretário de nosso a l v é o l o , era
o mais indicado para fazê-lo.
Pois, nisto eu n ã o estou de acordo c o m v o c ê —
retrucou Ivanov. Antes de mais nada Blinov é um ta-
garela. D e p o i s , se t o d o s os m e m b r o s d o C o m s o m o l d e s -
carregassem sua responsabilidade no secretário, por
m a i s resistente q u e este fosse, r e b e n t a r i a de trabalhar,
enquanto os demais ficavam ociosos. Não é razoável.
A l e m d o que, t ê m a p o s s i b i l i d a d e dc tornar-se gente cul-
ta, e v o c ê s t ê m de j u s t i f i c a r a c o n f i a n ç a q u e l h e é depo-
sitada sem p e r d a de t e m p o e demonstrar que vocês es-
tão na vanguarda. Para isso é preciso trabalbar com
t o d a s as f o r ç a s e n ã o p a s s a r a c a r g a p a r a os o m b r o s do
vizinho.
— Escute, camarada Ivanov, quero perguntar uma
cousa — disse S i l v a . Você m e n c i o n o u gente culta, d i -
zendo que temos a possibilidade dc ingressar nas filas.
M a j í h á o s e g u i n t e : nossas m o ç a s mais inteligentes que-
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 193

rem, ao t e r m i n a r a escola, e n t r a r nas f á b r i c a s . - Talvez


fosse m e l h o r q u e entrassem a n t e s , s e m t e r m i n a r os es-
tudos.
— Mas para que querem entrar nas fabricas? —-
Que querem fazer l á ?
— Trabalhar. E, alem do m a i s , crescer entre a
classe proletária.
— Para que?
— P a r a crescer e n t r e a classe, p a r a s e r m o s proletá-
rias.
— Mas é muito d i f i c i l , depois da escola, trabalhar
na fabrica. A l e m d o q u e , l á se c o m e ç a a t r a b a l h a r d e s -
de a adolescência.
— A s d i f i c u l d a d e s p o d e m ser v e n c i d a s .
— C o m e f e i t o ! E t a l v e z fosse b o m q u e nossa se-
n h o r i t a s suassem u m p o u c o — disse I v a n o v . M a s , seria
racional? I s t o é , seria u m c o n s u m o de energias racio-
nal? D c qualquer maneira, custaram ao p o v o a d o muito
dinheiro para que pudessem s e r - l h c ü l i l c o m seus c o n h e -
cimentos, e vocês querem a t i r a r isso f o r a , e converter-
se e m operárias da fábrica? Será preciso gastar uma
e n e r g i a suplementai* na a p r e n d i z a g e m da f á b r i c a . E o po-
voado n ã o d i s p õ e de energias s u p é r f l u a s . A l e m do que
temos m u i t o s desempregados. E , em lugar de dar trabalho
a eles, p e r d e r e m o s t e m p o e d i n h e i r o p a r a t o r n a r a e n s i -
n a r , e p e r d e r t u d o o q u e se g a s t o u c o m v o c ê s ? N ã o tem
sentido. T e m o s t a m b e m falta de m é d i c o s , professores,
engenheiros técnicos. C o m o você v ê , temos de desistir
da fábrica.
— Então, somos proibidas de entrar na fábrica?
— perguntou Silva.
— N ã o , n ã o são proibidas — respondeu Ivanov.
S e v o c ê i n s i s t i s s e m u i t o p o d e r i a ser a d m i t i d a n a nossa,
ou em outra qualquer. Mas vocês devem ver: É ra-
194 N . O G N E V

zoavel? V o c ê s s ã o c o n c i e n t e s e se d ã o c o n t a d a situa-
ção d i f i c i l do Soviet, e n ã o acrescentar obstáculos, mas,
procurar afastá-los.
P e r g u n t e i a I v a n o v q u a l d e v e r i a ser, n o s s o trabalho
n a escola e q u e d e v e r í a m o s f a z e r p a r a e l e v á - l a à d e v i d a
altura.
— N a escola, a a ç ã o de v o c ê s passa desapercebida
— respondeu ele, e e u f i q u e i m o r t i f i c a d o . A o ' menos
não se v ê e m os f r u t o s . Para frutificar, é preciso dei-
xar de f a l a r e encetar o trabalho.
— Que é que podemos fazer, Silva e cu? —
— Vocês já organizaram os colonos?
— Organizado! Os colonos p r o m e t e m solenemen-
t e ao d e s f i l a r ao s o m da m a r c h a m i l i t a r , u s a r gravatas,
tomar parte nas paradas...
— Vejo q u e se l i m i t a r a m a usar gravatas. Agora,
estão sendo organizados em todas as e s c o l a s , postos a-
v a n ç a d o s d e c o l o n o s , s e n d o r e c r u t a d o s p a r a isso, os alu-
nos n ã o ocupados nos destacamentos. Os postos avan-
ç a d o s d e v e m e m p u r r a r a escola n a d i r e ç ã o da vida so-
cial e política do país, organizar a autonomia, ajudar
os p r o f e s s o r e s , i n c l u s i v e n o e n s i n o , e a l e m d o m a i s , f o -
mentar a educação política, física, anti-religiosa dos
meninos. Há tanta cousa o que fazer! Seria ótimo
se v o c ê s se e n c a r r e g a s s e m do primeiro posto avançado
d a escola.
Despedimo-nos e fomos para casa.

Agosto 27, 1924.

Houve uma revisão do caso de Tamanco. A coisa


f o i solene. Serioga B l i n o v f o i eleito presidente do tri-
bunal. De início se negou mas depois aceitou, sem
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 195

grande entusiasmo. Os acusadores são dois: Almak-


fisch e Ninka Fradkina. Os defensores tambem são
dois: Nicpetoj e Silva.
Sentamo-nos, Tamanco e eu, um em cada banco.
Elegeram depois doze jurados, um de cada sexo.
Quando Volodka Sehmerz, I u c h k a G r o m o v e uns ami-
gos deles f o r a m e l e i t o s e u c o m e c e i a s e n t i r que n ã o ía
muito bem.
Serioga Blinov abriu a sessão dizendo:
— Costia Riabtsev é acusado de ter armado um
reboliço, absolutamente intolerável, na escola, contra
a vítima Elena Orlova. Costia Riabtsev, você reco-
nhece o delito?
— Que delito? — perguntei. Reconheço que me
diverti Mas quanto a delito n ã o percebo onde está.
Todos faziam o mesmo.
— Quem?
— Todos os meninos.
— Mas você f o i o iniciador.
— De modo algum. - *
— Quem foi, então?
— Ninguém. N ó s a e m p u r r á v a m o s e só. Era um
jogo, n ã o é ?
. — Em todo jogo h á u m chefe. Por exemplo, há
um c a p i t ã o no j o g o de futebol.
— O futebol é um jogo organizado e este é im-
provisado.
— B o m c h e g a p o r o r a . ' L e n a O r l o v a , v o c ê se r e c o -
nhece vítima de Riabtsev?
Ela ficou quieta.
— Orlova — p e r g u n t o u c m t o m oficial Serioga —
estamos esperando.
'— Ele me empurrava! — respondeu com uma voz
apenas a u d í v e l . .
196 N . O G N E V

Todos c o m e ç a r a m a r i r cstrepitosamente. Serioga


tocou a campainha.
— Q u e i r a m os p r e s e n t e s c o n d u z i r - s e c o m m a i s de-
c o r o , p o r q u e , caso c o n t r á r i o , f a r e i e v a c u a r a sala. En-
tão, Orlova reconhece-se como vítima?
— M a s q u e h i s t ó r i a é essa! — g r i t o u K o l k a Paltu-
sov d o seu l u g a r . Ela apenas reconheceu que a em-
p u r r a m , nada mais.
— Paltusov, u m grito mais e terá de abandonar a
sala! Orlova, o f a t o mencionado, era agradável?
— Não, desagradável! — piou.
— Então porque n ã o se q u e i x o u ao professor de
serviço?
— Tinha medo.
— De que?
— De que... me batessem.
Todos tornaram a r i r Serioga disse:
— Q u e b o b a g e m , O r l o v a ; q u a n d o , n a nossa escola,
os meninos bateram e m meninas?
— Muitas vezes!
— Quero fazer u m a pergunta: — disse Zin-Palna
— Orlova, responda; porque n ã o se prestaram contas
das b r i g a s e c o m o é q u e n u n c a n i n g u é m as percebeu?
— Porque é b r i n c a n d o . . . — respondeu. A s vezes
s ã o a t é as m e n i n a s q u e b a t e m neles.
— Bem. Basta, por ora. Queiram começar as
testemunhas. 0 tribunal chama uma testemunha, a
cidadã K a u r o v a , q u e estava d e s e r v i ç o nesse d i a . Ele-
na Nikitichna, que tem a nos dizer sobre o assunto?
— Posso dizer que Riabtsev, como é um menino
imoral, capitaneou o bando que atacou Orlova. Ele e
Orlova chamam a isso, j o g o , m a s n ã o é . É uma inde-
c ê n c i a , isso s i m . E n ã o é a d m i s s í v e l n u m a escola, c o m o
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 197

se fosse apenas uma travessura infantil. Mas, quanto a


Riabtsev, h á ainda outros dados...
-*- M a s desses, n ã o t r a t a r e m o s agora — interrom-
peu Serioga — Q u e m t e m algo a declarar?
— Eu — respondeu Paltusov.
— Que é que você pode dizer? F a l e , depressa.
Ouviu-se e n t ã o a voz de Silva.
— Protesto contra o presidente, por escolher as
testemunhas.
— Muito bem. Não é preciso que todos falem.
Pode falar, Paltusov.
— Pois b e m . . . — disse K o l k a — eu tambem to-
mei parte naquilo e n ã o compreendo porque estão
julgando o camarada Riabtsev. F o i u m a cousa cor-
rente, e, se vão julgá-lo só por isso, a escola inteira
terá de ir para o banco dos reus, várias vezes por
dia. Q u e i r a m , os professores se lembrar, fizeram ou
não fizeram estardalhaço quando eram pequenos e
mesmo no curso secundário? Nos livros a gente lê
que sim. M a s antes, eles t i n h a m um grande poder e
o s p r o f e s s o r e s m a l t r a t a v a m os a l u n o s p o r c a u s a d i s s o ; e
c o m o n ã o se p e - r n i t e i s s o h o j e , i n v e n t a m o tribunal...
— Ninguém inventou o tribunal! — interrompeu
Serioga severamente. O tribunal é uma instituição
organizada da sociedade soviética. Bem. O uso da
palavra e s t á c o m os a c u s a d o r e s . Alejo Maximisch,
queira fazer o f a v o r . . .
Mas Almakfisch declarou:
— R e n u n c i o ao uso da palavra, porque o assunto
está b e m claro.
Os olhares concentraram-se nele. Falou então
Ninka Fradkiua., o segundo acusador:
— P e ç o u m castigo severo p a r a Riabtsev. Q u e seja
e x p u l s o d a e s c o l a ; e i s s o p o r q u e t e m as m ã o s p r o n t a s e
198 N . O G N E V

é incapaz de passar p e r t o de uma menina sem tocar-


lhe as costas.
— Mas você mesma me puxou os cabelos na se-
mana passada — objetei.
— O acusado falará depois. Silêncio agora —
repreendeu Serioga.
— E u o f i z u m a vez, e você j á fez m u i t a s . Além
d o q u e , o r g a n i z a os m e n i n o s p a r a " j o g a r " c o m Orlova.
Dizem q u e g o s t a m d e o u v i r os g r i t i n h o s d e l a . Se lhes
agradasse o u v i r os m e u s , o u r e c e b e r n a s faces u m meu
sapato, fariam o mesmo comigo. É uma infâmia que
sc p o n h a m a a m o l a r as m e n i n a s . Por isso, i n s i s t o na
aplicação de u m castigo e x e m p l a r a Riabtsev. Se n ã o
f o r expulso, ao menos que tenha de resolver c e m pro-
blemas de matemática numa semana.
— Fazer estudar, não é castigo — disse Serioga.
Queiram falar os defensores. Dubinina, quer falar
primeiro?
— Porque não? exclamou Silva e se levantou
agilmente. Olhei p a r a ela e n ã o a r e c o n h e c i . Os olhos
brilhavam. O cabelo cm desordem.
— Se expulsarmos Riabtsev, teremos de fazer o'
mesmo com t o d o s os o u t r o s m e n i n o s . Ficarão apenas
as meninas. Porque tanto Fradkina, a acusadora de
Riabtsev, como todas as outras, sabem perfeitamente
que ele n ã o é o ú n i c o c u l p a d o . Nos corredores e nas
salas h á sempre reboliço, c nunca se sabe quem que
começou. M a s isso seria i r c o n t r a a i d e o l o g i a dos So-
viets, que i n s t i t u í r a m o ensino bisexual para libertar a
mulher, e instituir a igualdade. Talvez Riabtsev dê
m a i s socos, m a s é r a z ã o s u f i c i e n t e p a r a a l t e r a r m o s o esta-
b e l e c i d o e s e p a r a r m o s os s e x o s ? P o r q u e n i n g u é m sc m e t e
comigo sem que me a t i n g e m os g a l a n t e i o s e t a p a s nas
costas? P o r q u e n ã o q u e r o , n e m o t o l e r o . E o m e s m o se
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 199

d á c o m m u i t a s meninas. E m l u g a r de sentenciar Riabtsev,


proponho que sc s e n t e c i e os q u e gostam do r e b o l i ç o e
depois v e n h a m p r o p o r a e x p u l s ã o dos demais.
— Sua vez, N i c o l a s P e t r o v i c h ! — disse Serioga.
— Depois do que f o i dito, nada me resta dizer.
De qualquer maneira, quero acrescentar: em todo ho-
mem l u t a m dois p r i n c í p i o s : o do b e m e o do m a l . Os
homens são a incarnaçao de duas ideias contraditórias:
Deus e Diabo, Luz e Trevas, etc, que tiveram sua
repercussão na literatura. Há um drama de Shakes-
peare "King H e n r y " , onde se descreve a amizade de
Henrique por um canalha, Falstff; como este assalta
o s v i a j a n t e s e se e n t r e g a a uma vida de c r á p u l a . Mas
o p r í n c i p e se t o r n a r e i . F a l s t a f f v a i ao p a l á c i o , achan-
d o q u e agora H e n r i q u e o e n c h e r á de h o n r a s c p o d e r a m
r e t o r n a r à s a n t i g a s f a r r a s , m a s sc e n g a n a r e d o n d a m e n -
te. Falstaff é para Henrique como a recordação de
um pesadelo. A interpretaçãço disso é a seguinte: há
em cada homem um Falstaff e u m Henrique. Ás ve-
zes, p r i n c i p a l m e n t e , nos j o v e n s , F a l s t a f f se sobrepor;
mas basta que o homem perceba sua responsabilidade
d i a n t e d o s o u t r o s , p a r a q u e H e n r i q u e se i m p o n h a como
v e n c e d o r c o p a s s a d o se a p r e s e n t e c o m o u m pesadelo...
\ o c ê s querem condenar a conduta de R i a b t s e v , n a qual
segundo D u b i n i n a , n ã o h á nada de e x t r a o r d i n á r i o . Mas
suponhamos que é u m p e r í o d o onde Falstaff predomina,
m a s q u e a c a b a r á se d e s v a n e c e n d o c o m o a f u m a ç a . Uma
sentença condenatória provocaria em Riabtsev u m a re-
beldia e o levaria para o caminho do mal. Mas em
Riabtsev h á mais do príncipe que de Falstaff, isto é,
o princípio do b e m , nele, é mais f o r t e que o do mal.
Neste ponto A l m a k f i s c h se levantou:
— Peço a palavra. C o m o acusador, tenho algo a
objetar. Nicolas Petrovich fala do bem e do mal, e
diz que em Riabtsev o p r i m e i r o é o mais forte. Mas
200 N . O G N E V

insisto c a f i r m o que, qualificativamente, o proceder de


Riabtsev está além do b e m c do mal e, quantitativa-
mente, reflete o florescimento da é p o c a . Tcnbo dito.
Ninguém entendeu o que ele quis dizer. (Nicpe-
toj gosta m u i t o dc Sbakespeare! Ele o cita, constan-
temente !)
— O acusado t e m a p a l a v r a — disse S e r i o g a .
— Nao quero me desculpar. Todos sabem que
não sou culpado. Se o fizesse seria uma farsa. Mas
quero dizer o seguinte: primeiro Nicolas Petrovich e
depois Alejo Maximisch falaram do bem e do mal.
Na cultura política aprendemos que. o bem e o mal
não existem, (pie dependem das relações econômicas,
c que bem e mal s ã o apenas ideias. N ã o creio que
haja cm mim nem o bem nem o mal. Quando não
tenho f o m e , sou melhor, quando estou faminto, sou
p i o r , e, se n e s s e m o m e n t o mc amolam seria capaz de
dar uma surra cm qualquer um. Tenho dito.
Os jurados se retiraram e deliberaram durante
cinco minutos. Quando por f i m , apareceram, meu
coração parou. Teriam decretado minha expulsão?
Mas Schmerz leu o seguinte:

*' ... censurar a conduta de Riabtsev e que parem


de amolar O r l o v a . E que nenhuma menina deverá se
deixar a b r a ç a r e e m p u r r a r . . . "

E tudo decorreu conforme a vontade de Silva.

Agosto 28, 1924.

Apareceu um novo jornal mural sem número nem


assinaturas, c o m o título: pro-Nicpetoj. Em vista de
eu n ã o ter ainda decidido q u a l o p a r t i d o a que m e devo
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 201

filiar, n ã o somente n ã o t o m o parte n o j o r n a l , mas nem


siquer tenho idéia de quem serão os r e d a t o r e s . Silva
tambem os desconhece.
Tem o seguinte artigo:

REMÉDIO: L U T A CONTRA A LÍNGUA SARNENTA

"O professor Ivan Ivanovich Estúpido acaba de des-


c o b r i r u m processo para a cura da sarna l i n g u a l , que
t e m se propagado, nos ú l t i m o s tempos, de maneira
alarmante. O astro r u t i l a n t e da medicina, que acaba de
receber o p r ê m i o N o b e l , sob a f o r m a de dois pepinos
salgados, dedicou a metade dc sua vida à luta contra essa
enfermidade da sarna. I v . I v . E s t ú p i d o encontrou o
m i c r ó b i o sarnoso-lingual, que sc propaga p o r m e i o de
alfinetadas do diz-que-diz nos organismos atacados de
leviandade.
"Nosso eminente 6ábio i n j e t o u na p r ó p r i a carne o
m i c r ó b i o e, e m c o n s e q ü ê n c i a , c o m e ç o u a soltar 1.000 p o r
m i n u t o , dos quais vinte p o r cento, eram brincadeiras
idiotas. G r a ç a s à 6ua h e r ó i c a r e s i s t ê n c i a , conseguiu
encontrar u m r e m é d i o para a dita d o e n ç a .
" A c o m p o s i ç ã o é a seguinte: extratos de K a u t s k y e
outros autores marxistas, comentaristas da ética marxista,
e seu nome, dado p o r I v . I v E s t ú p i d o é A n t i p i l h e r i l .
Deve-se t o m a r nas horas de descanso e ao ditar-se.
" A l e m do A n t i p i l h e r i l , o camarada E s t ú p i d o i n i c i o u
u m regimen para o tratamento da h o r r í v e l enfermidade.
O paciente, para conseguir resultados positivos, isto é, a
d i m i n u i ç ã o da p r o d u ç ã o b a c í l i c a , ate 25 p i l h é r i a s p o r
m i n u t o , deve pensar constantemente a respeito dos temas
seguintes:
" 1 . — Comparar o i n c ê n d i o de Moscow em 1813
com a queimada dos prospectos dos maesc, realizada na
nossa escola.
" 2 . — Procurar as linhas diferenciais entre uma
lancha a m o t o r , uma levita, u m cravo e u m reposteiro.
" 3 . •— Resolver o problema de acender o cigarro
contra as calvas reluzentes — com uma d e m o n s t r a ç ã o
matemática.
202 N . O G N E V

" f a l a n d o c o m nosso redator, o c i d a d ã o EsrUpido


declarou que tomara pela p r i m e i r a vez, conciencia do
m i c r ó b i o sarnoso-lingual quando as notas de C u r z o n
ultrapassaram cm tamanho o " T i m e s " d o m i n i c a l . M a i s
tarde, quando a epidemia se propagou pela TJ. R . S. S n

o professor f o i fazer i n v e s t i g a ç õ e s na R ú s s i a , e veio parar


na nossa escola. E m breve, o professor E s t ú p i d o i n i -
c i a r á o tratamento de nossos doentes.
" O a g u a - r á s para empapar a í i n g u a dos pacientes já
está 6cndo preparado à s toneladas."

Está ótimo e estou de pleno acordo, mas no meu


íntimo se t r a v a u m a luta muito penosa. Que partido
tomar? Ficar pro ou contra Nicpetoj? Correm boa-
tos q u e N i c e p t o j pretende deixar a escola definitiva-
mente. Será u m vácuo.

Falei com Silva sobre minhas dúvidas. Ela me


confessou que tambem sofria, mas q u e as i d e i a s ultra-
passam em importância o sofrimento. Disse, ainda,
ser cousa sabida, que a individualidade n ã o tem im-
portância nenhuma na História.

É verdade, mas...

Agosto 29, 1924.

Por fim, decidí-me e me dirigi a Nicpetoj.


— Escute, Nicolas P e t r o v i c h , n o m o m e n t o e m que
o i n d i v i d u a l e o s o c i a l se c h o c a m , q u e a t i t u d e se deve
t o m a r ? q u a l se d e v e p r e f e r i r ?
— O social.
— É; por isso..., não posso ficar ao seu lado.
Embora isso me faça sofrer, devo apoiar o partido
oposto.
O DIÁRIO D E COSTIA RIABTSEV 203

— Não há partidos no caso — disse Nicpetoj, e


m e pareceu q u e l h e era e x t r e m a m e n t e penoso f a l a r — .
E u s e i . . . , que n ã o tenho razão. S a i r e i da escola. Por
algum tempo coloquei o indivíduo acima da coletivi-
dade.
Tive de fazer u m esforço para n ã o chorar. Ter-
minou aqui o diálogo.
*

Agosto 30, 1924.

Silva e eu somos membros do Comsomol. Fomos


encarregados de o r g a n i z a r u m p o s t o a v a n ç a d o de colo-
nos na escola. É o nosso primeiro trabalho para o
partido.
Hoje se s o u b e , d e f i n i t i v a m e n t e , q u e N . O . O j e g o v
sairá da escola. Irei à casa d e l e p a r a c o n t i n u a r estu-
dando c o m ele.

Setembro 2, 1924.

Entrei no Conselho da escola, como representante


do posto avançado. Os colonos homenagearam-me.
Os pequenos gostam de mim. N ã o sei p o r q u e . Viva
nosso p o s t o avançado!
•J^- Ê s t e l i v r o f o i composto e impresso
rias oficinas da Empresa Gráfica da
"Revista dos T r i b u n a i s " Ltda., à rua
Conde de Sarzedas, 38 — S ã o Paulo
para a E d i t o r a Brasiliense L t d a . em
agosto de 1945.
i
V E N T O

Novela russa

por

BOR1S LAVRENEV

Tradução c Prefácio de Jorge Amado

"VENTO" 6 uma novela da Guerra


C i v i l na n ó s s i a , novela que retrata
u m a época (te t r a n s i ç ã o nci H i s t ó r i a e
na L i t e r a t u r a russas. Esta é a sua
m a i o r qualidade. Basilio Guliavin, ma-
rinheiro, comandante de b a t a l h õ e s de
marinheiros, encarna a psicologia do
homem russo daquele momento e « o s
a j u d a a compreender mais raoidainente
e mais completamente a t r a n s f o r m a ç ã o
da R ú s s i a dos Tzares na R ú s s i a do
H o m e m " V E N T O " é uma narração
simples, discreta, aventurosa e que,
desde a p r i m e i r a p á g i n a , domina e
prende o leitor pelo seu realismo, sua
objetividade e pelo calor humano de
seus personagens. U m a novela sem
truques e sem l í l e r a t t c e s , p o r é m m u i t o
importante de certo p e r í o d o da l i t e r a -
t u r a russa porque marca, como j á disse
antes, u m p e r í o d o de t r a n s i ç ã o **ntre a
l i t e r a t u r a burguesa e a l i t e r a t u r a pro-
l e t á r i a de hoje. B o r i s Lavrencv, que
é t a m b é m autor de "O S É T I M O C A M A -
R A D A " 6 u m dos pathfinders, destes
pioneiros que, quando n á o v a l h a m pelo
valor de suas p r ó p r i a s conquistas, t é m
u m a i m p o r t â n c i a muito grande porque
mostram aos que lhes sucedem o ver-
dadeiro caminho a seguir. Sem I*avre-
nev e sem tantos outros novelistas seus
c o n t e m p o r â n e o s nao seria possível a rea-
lidade m a g n í f i c a de Alexey Tolstoy,
M i k h a i l Sholokov e Leonidas Leonov".
(Trecho do Prefácio .de Jorge Amado)
Vòl 7 da Coleção
"ONTEM E HOJE"

EDIÇÃO DA

EDITORA BRASILIENSE LTDA.


Rua D. José de Barros, 163 — S. Paulo
C O L E Ç Ã O O N T E M E H O J E

O plano da C O L E Ç Ã O O N T E M E H O J E é o de p ô r ao alcance c
leitor comum em f o r m a t o cômodo e leve, uma v a r i a d a e bem escolhida
coleção de obras nacionais e estrangeiras, antigas e modernas. Todos
os g ê n e r o s l i t e r á r i o s s e r ã o apresentados nesta coleção, sem que sua p u b l i -
c a ç ã o se subordine a qualquer esquema rígido. O ú n i c o c r i t é r i o que pre-
s i d i r á a entrada dum volume na C O L E Ç Ã O O N T E M E H O J E é o de seu
valor como c o n t r i b u i ç ã o ao pensamento moderno. Nesse sentido a nossa
seleção s e r á das mais rigorosas, ficando desde logo afastados os livros
medíocres, aqueles c u j a leitura reverte em perda de tempo, em passo
a t r á s " no caminho da c u l t u r a . Desejamos apresentar s ò m e n t e livros que
sirvam para i l u m i n a r e embelezar a inteligência. O leitor desta s é r i e en-
t r a r a em contacto, a t r a v é s de edições criteriosas, com os clássicos da l i t e -
r a t u r a de todos os tempos e p a í s e s ; c o n h e c e r á as melhores m a n i f e s t a ç õ e s do
espírito humano na ficção, na biografia, na poesia e no teatro e f i c a r á a
par de todos os a v a n ç o s realizados pela Ciência, pela H i s t ó r i a e pela
Piloaofla. Embora eclética a princípio, esta c o l e ç ã o a c a b a r á se t r a n s f o r -
mando num conjunto h a r m ô n i c o , s e n ã o na f o r m a , pelo menos no que se
refere ao valor b á s i c o e ao interesse permanente dos l i v r o s que a cons-
tituem.
Volumes publicados:
7°— HISTÓRIA DA TiOLSA DE NOVA YORÍC (Wall Street) — fiobert
írving Warshow — P r e f á c i o de Wlneton S. Churchill — T r a d u ç ã o
de Cássio Fonseca. • J
2 — N A S C E U U M A C R I A N Ç A — Charles Yale Harrison — Tradução
de Dom J o s é Paulo da C â m a r a .
3 — o P R E S I D E N T E N E G R O ou O C H O Q U E D A S R A Ç A S — Romance
americano do ano 2228 — Monteiro Lobato.
4 — M I N H A M A E — Cheng-Tcheng — T r a d u ç ã o de Jorge A m a d o —
P r e f á c i o de Paul Valery.
5 _ R T J A SEM SOL — Naoshi Tokunaga — T r a d u ç ã o e P r e f á c i o de
Jorge Amado.
fi — A C I D A D E D A F A R T U R A ( E p o p é i a de u m menino russo da g e r a ç ã o
a t u a l ) — Alexander Nevierof — T r a d u ç ã o e P r e f á c i o de Jorge
Amado.
7 — V E N T O — Borts Lavrenev — T r a d u ç ã o de Jorge Amado.
8 — O D I Á R I O D E COSTIA — (Romance s o v i é t i c o ) — N. Ognev —
T r a d u ç ã o e p r e f á c i o de Jorge Amado.
Próximas publicações
O S A N A T Ó R I O D O D R . K L E B E — Constantino Fedin — T r a d u ç ã o de
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