You are on page 1of 63

ISBN

(versão impressa) 978-85-69215-02-8


1a edição, 2017
Proibida a reprodução, gravação ou armazenamento total ou parcial desta obra, em sistemas eletrônicos, fotocopiada,
reproduzida por meios mecânicos e/ou outros quaisquer, sem autorização prévia, por escrito do autor. (Lei 9.610 de
19/02/1998).
Editor:
Rodrigo Bibo de Aquino
Transcrição:
Joaquim Avelino
Revisão:
Adalberto Nunes
João Guilherme S. dos Anjos (Box95)
Adaptação para e-book:
Josué de Oliveira
Capa:
Guilherme Gontijo (Box95)
Esta edição foi feita pela Box95, em parceria com a BTBooks, especialmente para você,
associado da Box95, com muito carinho.
SUMÁRIO
Apresentação
Introdução
1. O que Jesus exige de seus seguidores
2. Religiosidade e cristianismo
3. A impureza e o chamado para a santidade
4. Nossas palavras revelam quem nós somos
5. Um irmão em Cristo me deu prejuízo: e agora?
Epílogo
APRESENTAÇÃO
Uma das mensagens da Reforma Protestante é o retorno às Escrituras Sagradas.
Representada pelo sola scriptura, a mensagem é que somente a Bíblia é nosso guia de fé e
prática, infalível e inerrante. Neste ano em que se comemora os 500 anos desde que Lutero
pregou suas teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg e iniciou uma revolução,
essas informações já não são tão novas para muitas pessoas.
Porém, não basta aprender que não aceitamos qualquer outro texto como sendo
inspirado, não basta vociferar que nada que o homem diz, ontem ou hoje, tem mais peso
que a Palavra de Deus. É preciso mais. Deus nos chama a vivermos o que está registrado
no seu livro sagrado. Nosso padrão de comportamento ético não pode estar além nem
aquém do que Deus nos revela em sua Palavra. Qualquer rigidez moral que sobrepuja a
Bíblia redunda em legalismo, qualquer frouxidão redunda em liberalismo, senão
libertinagem.
Dizer sim ao chamado de Deus de sermos santos porque ele é santo é desafiador e, para
buscar a santidade de forma genuína, é imprescindível viver o sola scriptura, ou seja, não
basta negar outra autoridade que não a bíblica, é preciso olhar para ela e perceber que não
dá para ser como antes, não dá para viver segundo os padrões da nossa era.
Essencialmente, pregar o sola scriptura implica em nadar contra a corrente, remar contra a
maré, ir contra o fluxo.
Neste livro, Augustus Nicodemus expõe com maestria cinco temas para quem quer ser,
digamos, crente de verdade. E ser crente de verdade, hoje, na época de Jesus ou nos dias
da reforma, é caminhar no sentido contrário, é ir contra o fluxo. Afinal, amar Cristo sobre
todas as coisas importará em negação das próprias paixões, perda de amigos ou família,
poderá trazer sofrimento. Mas ser cristão sem amar Cristo não é ser cristão. E amar Cristo
sem ir contra o fluxo do mundo é impossível. Seja crente de verdade, entenda o que Jesus
exige de seus seguidores.
Cuidado! Entender errado o que é ser crente de verdade poderá te levar a um
comportamento farisaico, o qual é mais religiosidade do que cristianismo de verdade, por
isso, observe bem o segundo capítulo deste livro para não incorrer no mesmo erro dos
fariseus e dos clérigos católicos do século 16, que, apesar de bonitos por fora, tendo todas
as regras decoradas de trás para frente, eram, na verdade, podres por dentro. Isso não é
seguir Jesus. O verdadeiro seguidor de Cristo que anda contra o fluxo vê a si próprio como
o pior dos pecadores e clama incessantemente pela graça, para ter diariamente o coração
moldado ao caráter de Cristo.
Corações quebrantados buscam santidade invariavelmente. Não existe meio termo, não
existe desculpa, nem contexto. E santidade não caminha com imoralidade. E imoralidade é
mais ampla do que nossos corações pecaminosos querem interpretar. Como Nicodemus
expõe no capítulo três, Deus exige de nós um padrão de comportamento sexual. Conforme
nos ensina 1Ts 4.1-8, o viver que agrada a Deus envolve abstenção da imoralidade sexual,
o que significa qualquer comportamento que atenda “a paixão de desejos desenfreados,
como os pagãos que desconhecem a Deus” (v. 5).
Seja crente de verdade. Em meio a tantas notícias de corrupção, de mentiras e
dissimulações, ande contra o fluxo e deixe o Espírito Santo limpar seu coração para que
suas palavras não denunciem seu interior corrompido, mas exibam um coração
transformado pela graça de Deus.
Sabe o que é mais bonito neste livro? O autor não tirou nada da sua própria cabeça. Ele
simplesmente expôs a Palavra de Deus, nosso guia de fé e prática, pois uma importante
herança da Reforma Protestante é esta: não pregaremos nada que não seja a Palavra de
Deus, não pregaremos nada que não esteja na Palavra de Deus, não deixaremos nunca de
pregar a Palavra de Deus.
Que esta obra te inspire a buscar Jesus de todo o coração, a desenvolver seu caráter, a ir
contra o fluxo.
JOÃO GUILHERME E OLAVO BANDEIRA
Brasília, outubro de 2017
INTRODUÇÃO
Quando assumi o pastorado da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia em agosto de
2014, decidi iniciar meu ministério ali pregando sermões que fossem úteis e relevantes
para o maior número possível de pessoas que viessem a participar dos cultos da manhã e
da noite. Como eu ainda não estava familiarizado com a igreja e sua membresia, escolhi
temas que julguei que teriam uma aplicação prática para todos.
Assim, preguei sobre as demandas de Jesus aos seus seguidores, os perigos da
religiosidade, a necessidade de uma vida livre da imoralidade, o poder e o efeito das
nossas palavras, quer para o bem, quer para o mal, e obviamente, sobre irmãos que causam
prejuízo financeiro a outros.
Essas mensagens foram muito abençoadas por Deus na vida da igreja. Depois, elas
foram disponibilizadas na Internet e tiveram um alcance ainda maior. Agora, elas viraram
o livro que o leitor tem em mãos.
Acredito que a utilidade dessas mensagens é que elas tratam de assuntos que
representam áreas constantes de conflito e luta na vida dos crentes em Jesus Cristo.
Disciplina pessoal, piedade e vida devocional, santidade e pureza na área sexual, o
emprego certo das palavras e os problemas na área financeira são temas recorrentes na
vida da maioria dos cristãos. O objetivo deste livro é ajudá-los a encarar esses problemas e
lidar com eles de maneira cristã.
Acredito que a pregação expositiva é a melhor e mais eficaz maneira de pregar a
Palavra de Deus. O que você tem em mãos, portanto, são exposições bíblicas de textos que
considerei apropriados para tratar desses assuntos. Assim, leia este livro com sua Bíblia na
mão. Minha oração é que Deus o use para abençoar sua vida como usou para abençoar
aqueles que primeiro ouviram essas mensagens no templo da Primeira Igreja Presbiteriana
de Goiânia.
1
O QUE JESUS EXIGE
DE SEUS SEGUIDORES
Texto-base: Mateus 10.34-391
Introdução

Meu querido leitor, minha intenção neste capítulo, em primeiro lugar, é expor as demandas
que o Senhor Jesus Cristo faz nessa passagem com relação aos seus seguidores. Em
segundo, chamá-los à submissão plena e completa à pessoa de Jesus Cristo, o Filho de
Deus.
Acredito que nem sempre entendemos o que significa ser cristão. O pecado afetou toda
a raça humana e o indivíduo como um todo de tal maneira que não existe uma solução
parcial ou indolor, por assim dizer, para o problema causado por ele.
A solução de Deus é extremamente radical, e Cristo, aqui, apresenta-a de maneira clara.
As demandas que ele faz para as pessoas que se dizem cristãs ou que querem segui-lo são
demandas extremamente radicais.
Creio que, às vezes, não estamos entendendo isso. Pensamos, ocasionalmente, que ser
um cristão evangélico é uma opção que fazemos entre tantas tradições religiosas. E é bem
verdade que essa escolha é feita sem que nós tenhamos ideia do que representa, de fato,
ser um seguidor de Jesus Cristo.
Penso que, se entendêssemos o que Jesus requer de nós, o número de seus seguidores
seria bem menor. E é exatamente por existirem tantos conceitos errados a respeito do que
é ser cristão ou de quem é Jesus Cristo que precisamos sempre nos voltar a esses ensinos
básicos do Senhor, a fim de que nós estejamos seguros de que, de fato, queremos ser
cristãos e o que está envolvido nisso.
Jesus disse essas palavras aos seus discípulos quando os mandou em missão. Elas se
iniciam no capítulo 10, verso 1. Jesus chama seus doze discípulos, dá a eles autoridade
para expelir demônios e curar toda sorte de doenças e enfermidades. No verso 5, ele os
envia com uma série de instruções, dadas à medida que eles iam de cidade em cidade, de
vila em vila, pregando e anunciando o Evangelho. Ele ainda dá algumas admoestações
sobre como deveriam se comportar nas casas que os recebessem e os encoraja diante das
dificuldades.
No texto que encabeça esse primeiro capítulo, Jesus apresenta com clareza as
demandas que serão exigidas não só dos doze, os quais por ele estão sendo enviados, mas
também daqueles que quiserem ouvir a mensagem dos doze e se tornarem cristãos.
Jesus faz três demandas, que serão apresentadas a seguir.
Primeira demanda: sofrer por Cristo

Se quisermos nos tornar cristãos, temos que estar dispostos a sofrer por causa de Jesus. Se
nós estamos pensando que o cristianismo é uma religião que veio para nos livrar dos
nossos problemas, trazer-nos paz e tranquilidade, além de uma vida relativamente
tranquila, estamos muito enganados, porque a primeira demanda apresentada por Jesus nos
diz que nós temos que estar dispostos a sofrer por causa dele.
Ele apresenta a razão no verso 34: “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim
trazer paz, mas espada”.
Para entendermos o que Cristo quis dizer com “Não penseis que vim trazer paz à
terra”, é necessário entender o seu alvo nesse trecho. É bem verdade que ele trouxe, sim,
paz entre nós. Por meio de seu sacrifício na cruz, tendo pagado a nossa culpa e sofrido o
castigo que nos era merecido e justo, reconciliou-nos com Deus para que pudéssemos ter
paz com ele. Por causa disto, podemos também ter paz com outras pessoas. Porém ele quis
dizer que seu alvo, na sua primeira vinda, não era estabelecer aquele reino messiânico de
paz que os judeus tanto ansiavam e que os profetas prometeram no Antigo Testamento.
Não era seu propósito resolver todos os problemas do mundo. Quando ele veio a essa
terra, há mais de 2.000 anos, seu objetivo não era pregar paz e amor como pregavam os
falsos profetas naquela época e nos dias de hoje, os quais querem transformar Jesus em
um arauto da paz – tanto é que nas figuras que fazem de Jesus sempre o colocam com a
pombinha branca e com aquele rosto emaciado, olhos azuis e um aspecto sereno.
No entanto, ele não veio trazer paz. Esse Jesus que pintam não é o Jesus viril que o
Novo Testamento apresenta. Cristo diz: “Não pensem que eu vim trazer paz, eu não vim
resolver os problemas do mundo agora, eu não vim instalar um reino onde todos viverão
em harmonia, eu não vim acabar com as guerras e as polêmicas, não foi isso o que eu vim
fazer”.
Então, este é o primeiro esclarecimento a respeito de Cristo que precisa ser feito: ele
traz paz no sentido de que, pelo seu sacrifício, nós temos paz com Deus e, assim, podemos
ter paz com outras pessoas. Todavia, isso está longe de tornar Jesus uma espécie de
pacificador ou uma pessoa que veio ao mundo para resolver todos os seus problemas e
estabelecer um reino de paz. Pelo menos, não foi isso que ele veio fazer agora. Pelo
contrário! Ele diz que veio trazer espada. Mas o que ele não quis dizer com isso?
Quando Jesus disse que veio trazer espada, ele não disse que veio fundar uma religião
ancorada na violência, como existem algumas neste mundo. Quando ele declarou que veio
trazer espada, ele não quis dizer que nós deveríamos nos armar e lutar contra o resto do
mundo, muito menos que nós viríamos a usar espadas ou armarmo-nos para converter os
infiéis pela força. Jesus Cristo não está dizendo isso.
O que ele quis dizer com essa expressão é que, por causa dele, haveria muitos conflitos
entre pessoas, cidades e até países e que a sua pessoa seria motivo de discórdia, de
polêmicas e de inimizade. E a razão para isso é a apresentação radical que ele faz de si
mesmo.
Jesus se apresenta como sendo o Filho de Deus, aliás, o próprio Deus. Ele diz que é o
único caminho para Deus e que, sem ele, todos estão perdidos; expõe a perdição da
humanidade por causa dos seus pecados e diz que o ser humano sozinho não pode alcançar
a felicidade eterna; ele afirma ser o caminho, a verdade e a vida. Isso é colocar uma
espada na mão de quem não acredita. Por afirmar essas coisas, os seguidores de Jesus
despertam inimizade, hostilidade, ódio e perseguição por parte de quem não acredita em
Cristo.
A espada que Cristo trouxe não é para que seus seguidores firam o mundo. Por incrível
que pareça, a espada que ele trouxe é a mesma pela qual os seus seguidores são feridos.
A pessoa de Jesus provoca esse comportamento por causa das suas demandas radicais e
pela forma como ele se apresenta: o Filho de Deus, o único em quem existe salvação,
sendo que fora dele não há possibilidade de redenção ou felicidade eterna.
Essa espada, portanto, que é resultado de quem é Jesus, é tão profunda que corta,
inclusive, laços familiares, como ele diz no verso 35: “Pois vim causar divisão entre o
homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra”.
Existe uma relação mais querida do que a de pai e filho? Eu amo meu pai e eu amo
meus filhos. E eu sei que vocês sabem o que é isso. Mas Jesus está dizendo que essa
espada que foi trazida por ele corta, inclusive, esse tipo de laço. Do mesmo modo, a
relação de mãe e filha, que também é um laço terno, querido, profundo, é cortada por essa
espada. O terceiro laço pode parecer mais fácil, pois é entre a nora e sua sogra. Mas,
brincadeira à parte, sabemos que há sogras que são maravilhosas, como a minha.
Eu compreendo a dificuldade. O que o Senhor está dizendo é que a sua pessoa, quem
ele é, as suas demandas, o que ele representa, causam atrito e polêmica entre as pessoas a
ponto de separar, inclusive, familiares.
Veja como ele diz que haveria inimigos do homem até mesmo em sua família: “Assim,
os inimigos do homem serão os da sua própria casa”. Em outras palavras, algumas
pessoas odiarão Jesus e seus seguidores com tamanha ira que, se um filho se tornar
discípulo de Cristo, o amor do pai por esse filho será menor que o ódio sentido por Cristo.
Igualmente na relação entre irmãos ou de um filho para com seu pai.
E isso tem acontecido ao longo da história, especialmente em períodos de perseguição
aberta e oficial ao cristianismo. Durante o Império Romano, há muitas dessas histórias.
John Foxe, em O Livro dos Mártires, página 353, relata um caso de uma mulher que
entregou o marido às autoridades para ser morto, porque ele se tornou cristão; ou ainda
casos de pais que renegaram filhos, entregando-os para serem mortos, porque se tornaram
cristãos.
Nos países comunistas, onde há perseguição até hoje, há casos e casos de famílias que
entregaram seus membros que se tornaram cristãos para não serem mortas ou presas; em
países islâmicos, isso também ocorre ainda hoje. Enfim, famílias se fragmentam, dividem-
se, acabam-se, porque um membro entrega o outro que se tornou cristão.
Em resumo, Jesus é claro: quem quiser ser discípulo dele tem de estar disposto a
enfrentar a ira e a hostilidade do mundo e até mesmo a da esposa, do marido, dos pais ou
dos irmãos.
Veja como é esse cristianismo que nos é apresentado aqui. Essa demanda de Jesus torna
o cristianismo bíblico bem diferente daquele tipo que apresenta Cristo como uma espécie
de guru que prega paz e amor a todos. Esse não é o Jesus da Bíblia. Este é muito claro
com seus seguidores. Ele está dizendo que, na hora em que nos tornarmos seguidores dele,
devemos nos preparar, porque a espada poderá ir até a nossa casa, até o nosso casamento,
até o nosso relacionamento com nossos filhos, porque ele não veio trazer paz no presente
momento, mas a espada, e os inimigos do homem serão os da sua própria casa.
Esta é a primeira demanda de Jesus: vocês têm de estar dispostos a sofrer por ele,
inclusive dentro das suas próprias famílias.
Segunda demanda: amar Cristo acima de tudo e de todos

A segunda demanda é ainda mais radical. Jesus diz que ele é a pessoa que você deve dar
amor supremo. Ele exige isto, conforme os versos 37 e 38: “Quem ama seu pai ou sua
mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que
a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e vem após mim não é digno de
mim”.
Mas o que significa ser digno de Jesus? É ser, e eu uso essa palavra com cuidado,
merecedor. Mas do quê? Do amor, da graça, da misericórdia de Cristo. É poder ter o
direito de dizer que é, de fato, cristão. É ser digno de tal modo que Jesus não se
envergonhará de nós. Isso é ser digno dele. Mas, para isso, ele diz que temos que o amar
acima daquilo que nós temos de mais precioso, que é a família e a nossa própria vida.
Você tem que amá-lo acima de tudo. Mas o que significa isso? Preste atenção. Ele não
está dizendo que temos de deixar nossa família, nossos lares e irmos morar com nossos
irmãos em Cristo, como se eles fossem uma nova família. Algumas seitas fazem isso,
como, por exemplo, os Meninos de Deus. Essa seita é muito antiga e perigosa e tem seu
foco de atuação principalmente entre os jovens, nas universidades e escolas. Eles se
apresentam como irmãos em Cristo Jesus e tiram os jovens de seus lares para morar em
comunidades, em acampamentos. O moço e a moça largam suas famílias e seus estudos e
vão morar com outros jovens em retiros.
Não é isso que Jesus está dizendo. Ele não está nos incentivando a abandonarmos nossa
família, muito menos que negligenciemos nossas obrigações com os familiares. Ele não
está nos encorajando, por exemplo, a nos envolvermos nas atividades da igreja de tal
forma que nos esqueçamos de nossas obrigações como membros de uma família (esposo,
esposa, filho (a)). Não é isso que ele está dizendo. O que ele quer dizer é que o nosso amor
a ele deve superar o amor que nós temos por qualquer outra pessoa, inclusive familiares e
parentes. Isso porque o nosso relacionamento com Cristo é superior aos laços familiares e
terrenos. Isso é algo que nós precisamos entender claramente.
Os laços terrenos um dia acabarão. A relação entre pai e filho, mãe e filha, irmão, irmã
são pertencentes a essa vida. Um dia, isso tudo se acabará e no novo estado, no novo
mundo, na nova era que Deus está trazendo e que já foi inaugurada, essas relações
familiares desaparecerão. O que ficará é a nossa relação com Deus e com os seus demais
filhos. Então, aqueles que você hoje ama como familiares poderão não ser os mesmos que
estarão nesse reino celestial. Se forem, aleluia. Mas o que prevalecerá na eternidade é a
irmandade. É a família da fé.
Veja como Jesus, nesse mesmo Evangelho, explicou isso, no capítulo 12, versos 46 ao
50: “Falava ainda Jesus ao povo, e eis que sua mãe e seus irmãos estavam do lado de
fora, procurando falar-lhe. E alguém lhe disse: Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e
querem falar-te. Porém ele respondeu ao que lhe trouxera o aviso: Quem é minha mãe e
quem são meus irmãos? E, estendendo a mão para os discípulos, disse: Eis minha mãe e
meus irmãos. Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão,
irmã e mãe”.
O Senhor Jesus disse que quem fizer a vontade do Pai é, de fato, seu irmão, sua mãe e
sua irmã, colocando em segundo lugar o relacionamento familiar que ele tinha com a sua
mãe e os seus irmãos terrenos. Isso quer dizer que é esse o relacionamento que prevalecerá
na eternidade e é por isso que o Senhor Jesus Cristo disse que temos que amá-lo mais do
que amamos nosso pai, nossa mãe, nossos filhos e filhas, uma vez que essas relações
haverão de passar e a que permanecerá por toda a eternidade é a relação que temos com
ele.
Em outras palavras, o Senhor Jesus está dizendo que, se chegar uma ocasião em que
tivermos de escolher entre a nossa família e Jesus Cristo, a decisão deve ser a favor de
Jesus. Só assim nos tornaremos dignos dele.
Dou aqui alguns exemplos práticos: o marido de alguém cometeu um erro que está
sendo confrontado por algumas pessoas. A esposa dele é cristã, crente, discípula de Jesus.
Ela sabe que seu marido está errado, contra a verdade de Cristo, e que está sendo
confrontado. Porém, mesmo assim, ela toma partido dele. Quem ela está amando mais? O
marido ou Jesus Cristo? É claro que ela pode ficar ao lado do seu marido, mas com
sabedoria. Ela pode dizer: “Querido, você sabe que eu te amo de todo coração, mas nesse
ponto você está errado. Eu vou estar ao seu lado. Se você tiver que ir preso, eu vou para a
cadeia com você, mas eu vou dizendo que você está errado. A verdade é essa. Vamos
admitir, corrigir e resolver isso”.
Há pessoas que, nesse particular, preferem ofender Cristo e a verdade, ficando ao lado
do familiar. Algo bem comum que poderia ser citado como exemplo são casais que se
dizem crentes, mas - quando o filho faz algo errado na escola - defendem-no. Isso mostra
que eles não estão amando Jesus mais do que o seu filho, uma vez que a atitude correta é
deixar este ser corrigido. É preciso dizer: “Filho, você sabe que nós te amamos. Nós
vamos estar ao seu lado sempre, mas você está errado e precisa ser corrigido. Você vai
aceitar essa disciplina e essa correção”. Às vezes, nós defendemos os nossos por causa
desses laços.
Outra situação: alguém tem parentes que se envolvem em uma briga com os sócios da
empresa. Porém, mesmo sabendo que os parentes estão errados, a pessoa toma partido
deles.
Posso citar mais uma situação entre tantas possíveis: imaginemos os familiares de uma
pessoa lhe pedindo para fazer algo que, ao final, representa um ato errado ou até ilegal.
Por exemplo, o diretor de uma empresa está fazendo um exame de seleção, e o seu
sobrinho é um dos candidatos. De repente, a irmã desse diretor pede que ele dê um
jeitinho para que seu filho obtenha aquele emprego, dizendo a ele: “É o seu sobrinho, dê
uma forcinha”. É exatamente isso que as pessoas fazem. Às vezes, elas querem usar os
laços familiares para propor ações que vão contra Jesus.
Em resumo, o que ele está dizendo é que quem quiser segui-lo precisa estar disposto a
tomar a sua cruz, conforme o verso 38, que diz que quem não tomar a sua cruz e seguir
após ele não é digno dele.
A cruz era um instrumento de morte. Os condenados à morte de cruz, naquela época,
carregavam-na nas costas até o local de execução. Foi isso que obrigaram o Senhor Jesus a
fazer. Ele foi até uma parte do caminho, quando, então, Simão, o Cirineu, tomou a cruz de
Cristo e a levou.
A figura presente aqui é que, diariamente, temos que morrer para nós mesmos e para
nossa vontade e submetermo-nos a Jesus. Isso significa tomar a cruz. Às vezes, as pessoas
dizem: “Essa doença é minha cruz!”. Não, esse não é o sentido de tomar a cruz. Ela, aqui,
é instrumento de morte, representando que nós temos que mortificar nós mesmos e a nossa
vontade e morrermos para o nosso eu, para que então possamos seguir a Cristo. Nada
menos do que isso é exigido por ele. Jesus quer amor supremo, dedicação suprema maior
do que o amor que temos pela nossa família, maior do que o amor que temos por nós
mesmos.
Terceira demanda: perder a vida pelo Senhor

Esta, sem dúvida, é a demanda mais radical de todas. Jesus diz, no verso 39: “Quem acha
a sua vida perdê-la-á; quem, todavia, perde a vida por minha causa achá-la-á”.
Esse é um dos ensinamentos que Jesus mais repetiu. Ele aparece cerca de seis vezes nos
quatro Evangelhos. Ele significa que quem acha a sua vida a perderá.
Achar a vida significa alguém ser bem-sucedido, de acordo com os padrões desse
mundo, ser realizado profissionalmente, poder realizar todos os desejos, ter independência
financeira. E o pior: tudo isso alheio a Deus, sem lugar para Jesus Cristo. No fim de toda
essa dedicação aos próprios desejos, pensando que ganhou a vida, verá que, na verdade,
perdeu-a.
Então, achar a vida é entendido como lutar, procurar, esforçar-se, buscar as coisas que
as pessoas consideram como sendo as mais importantes em suas vidas. Mas o que
significa perder a vida?
A melhor resposta para isso é a parábola do Rico Insensato, contada por Jesus e
registrada em Lucas, capítulo 12, versos 16 a 21: “E lhes proferiu ainda uma parábola,
dizendo: O campo de um homem rico produziu com abundância. E arrazoava consigo
mesmo, dizendo: Que farei, pois não tenho onde recolher os meus frutos? E disse: Farei
isto: destruirei os meus celeiros, reconstrui-los-ei maiores e aí recolherei todo o meu
produto e todos os meus bens. Então, direi à minha alma: tens em depósito muitos bens
para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te […]”.
Vale comentar que aqui está um homem que achou sua vida: bem-sucedido, com boa
provisão, aposentadoria tranquila, possuidor de bens, sem medo do futuro, tinha de sobra,
possuía propriedades, enfim, alguém que achou sua vida. Mas ele a perdeu, como veremos
a seguir: “[…] Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens
preparado, para quem será? Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para
com Deus”. É isso que significa “Quem acha a sua vida perdê-la-á […]”.
Muitas coisas dessa vida são lícitas, legais, boas, necessárias, mas o problema é o
primeiro lugar dado a elas. Sendo assim, se você se dedicar, nesse mundo, no tempo
presente, a buscar incessantemente apenas essas coisas, aplicando nelas o coração e
fazendo de Cristo apenas uma nota de rodapé em sua vida ou, às vezes, nem dando
importância nenhuma a ele, você chegará ao fim de sua vida e verá que desperdiçou seu
tempo, sua juventude e suas forças correndo atrás daquilo que não lhe trará felicidade
eterna, que não resolverá seu problema de relacionamento com Deus.
Por isso, quem acha sua vida nesse mundo vai perdê-la, mas quem perde a sua vida
nesse mundo por causa de Jesus vai achá-la.
Você pode, sim, trabalhar, ganhar dinheiro, ter família, mas tudo isso precisa ser
secundário e por amor a Jesus, para de alguma forma promover o nome de Cristo e trazer
glória a ele, afinal, o Senhor é a razão de tudo que você faz.
Outrora você era o centro de tudo, mas agora você vive para ele. A diferença entre nós
e os outros é que os outros querem ganhar dinheiro para gastar consigo mesmos, mas nós,
da mesma forma, queremos ganhar dinheiro a fim de podermos abençoar os outros, para
poder ajudar outras pessoas. A diferença é a motivação.
Então, para os que perdem a vida aqui neste mundo, ou seja, para os que renunciam a
busca da sua própria glória, do seu próprio conforto; para os que abrem mão das coisas do
seu eu e vivem, de fato, para Cristo, ele promete, por meio de sua Palavra, que estes
acharão a vida.
Em resumo, quem quiser ser discípulo de Cristo deve estar disposto a renunciar a si
mesmo e a tudo quanto tem por amor a ele.
Conclusão

Mas com que direito Jesus Cristo exige isso? Quem é ele para prometer essas coisas?
Amado leitor, pensemos direito. Nós temos aqui um judeu, filho de Maria, chamado
Jesus, que viveu aqui há mais de 2.000 anos. De repente, ele se dirige para um grupo de
seguidores e diz: “Vocês têm que me amar mais do que vocês amam as suas famílias;
vocês têm que estar dispostos a morrer por minha causa; e digo mais, se vocês não
passarem a vida toda tendo a mim como a razão suprema de vocês serem, vocês estão
condenados”.
Notemos que estamos diante de um homem que só pode ser duas coisas: um louco ou
Deus! Não há opção. Ele ou é louco, megalomaníaco, esperto, porque enganou quase três
bilhões de pessoas, que é a quantidade de cristãos que existe hoje, ou ele é o que diz
realmente ser.
Sendo assim, você, leitor, precisa decidir: quem é Jesus para você? Pense no que ele
está reivindicando. Nenhum outro fundador de religião, se é que eu posso chamar Jesus de
um fundador de religião, fez demandas ao menos parecidas com essas. Ninguém. Nesse
sentido, de fato, ele é único.
Não há opção para nós. Jesus demanda isso porque ele é Deus. Ele é o Filho de Deus.
Ele é o Criador de todas as coisas e o Senhor de tudo e de todos, que morreu pelos nossos
pecados, ressuscitou dos mortos, subiu aos céus e tem todo poder no céu e na terra e em
todo o universo. Sendo assim, ele tem o direito de exigir de nós amor supremo, lealdade
absoluta e obediência total. Ninguém mais pode demandar isso se não for o próprio Deus.
Ninguém tem o direito de pedir essas coisas a não ser que ele seja Deus. Nenhum ser
humano tem o direito de pedir essas coisas a outro ser humano.
Todavia, se Deus, o Criador de todas as coisas, na Pessoa do seu Filho, veio até nós e
nos fez tais demandas, é nosso dever curvarmo-nos diante dele e obedecer-lhe.
O que isso representa para nós hoje (nós que nos dizemos crentes, cristãos,
evangélicos)? As perguntas são: nós somos dignos dele? Nós amamos o Senhor Jesus mais
do que nosso cônjuge, filhos, irmãos, pais? Estamos dispostos a renunciar a tudo que
temos e ao que somos por amor a Jesus? Valorizamos a vida eterna que ele nos promete
mais do que a vida nesse mundo? Ele tem o primeiro lugar na nossa vida?
Qual é a razão pela qual, às vezes, muitos cristãos são apáticos e descomprometidos?
Das duas uma: ou porque nunca entenderam de fato quem é Jesus Cristo ou porque
entenderam, mas, por alguma razão que vai desde a incredulidade até a covardia, eles não
têm a disposição de assumir o que significa de fato ser cristão. Espero que você não se
enquadre nesse caso.
Quero, então, convidá-lo a repensar sua vida e sua declaração de fé de que você é
cristão. É mesmo? Olhe o que ele exige de nós. Olhe para os seus atos, olhe para as suas
atitudes, para as suas escolhas, para os planos que você tem feito. Qual o lugar de Cristo
neles? Para que você quer ir para a universidade? Para que você quer um emprego? Para
que você quer constituir uma família? Por que você está correndo atrás dessas coisas?
Qual a razão? Qual o lugar de Cristo em sua vida? Se ele tem o primeiro lugar nela,
quanto tempo você dispõe para se dedicar a ele? Você lê a sua Palavra? Gasta tempo em
oração e em comunhão com ele? Porque se nós amamos uma pessoa, é claro que nós
queremos estar com ela.
Eu quero que você examine sua vida e tome uma decisão: ou você é, de fato, discípulo
de Cristo nos moldes ditados por ele ou então é melhor fazer como muitos: virar as costas
e ir embora. E eu espero que isso não seja necessário como aconteceu quando Jesus
ensinava na sinagoga de Cafarnaum. Quando disse quem ele era e o que queria, muitos,
entendendo a mensagem, viraram as costas e foram embora2.
Por isso, eu coloquei que, se nós entendêssemos quem é Jesus, o número de seus
seguidores seria bem menor, porque ele nunca esteve interessado em números. Somos nós
que ficamos interessados em encher a igreja. Jesus nunca esteve preocupado com isso,
pelo contrário, ele estava expulsando pessoas, pois só queria que ficasse quem realmente
era dele, quem de fato o amava, quem o entendia. Ele queria o verdadeiro adorador, não
um consumidor do evangelicalismo brasileiro (trazendo para nossos dias), mas um
discípulo de verdade.
Se você ainda não se dobrou diante de Jesus Cristo como Senhor e Salvador, eu te
convido para tal. Não deixe passar essa oportunidade que Deus te dá. Você acabou de ler
essa exposição da Palavra de Deus que apresenta as demandas de Cristo, as promessas que
ele fez. Não há salvação, de fato, em nenhum outro. Ele é o Filho de Deus e o salvador do
mundo. Ele te chama a se curvar diante dele.
Certamente, eu não estou pedindo para você dar uma chance a Jesus Cristo, como, às
vezes, as pessoas fazem: “Dê uma chance a Jesus”. Não, de jeito nenhum. É ele que está
dando a você a chance. Ele te chama pela leitura da sua Palavra, do Evangelho, e você
deveria dar atenção a ele porque nem sempre a porta estará aberta.
Que você possa tomar a decisão de se curvar diante dele e confessá-lo como Senhor.
Que possa se entregar a ele e que Cristo seja o amor maior em sua vida.
Amém!
Oração
Jesus, quem é digno do Senhor? Cristo, Filho de Deus, ressurreto dos mortos, entronizado à direita do Pai nas
alturas, o Senhor tem todo o poder no céu e na terra e pode fazer essas reivindicações sobre nossa vida, nossos bens,
nossos laços familiares, porque o Senhor é digno, nosso salvador e nosso Redentor.
Senhor, ensina a nós esse cristianismo radical que é ensinado na Bíblia. Que nós te amemos de coração mais do
que amamos qualquer outra coisa. Ajuda-nos a sermos fiéis ao Senhor mesmo que isso nos custe amizades
preciosas, laços preciosos e coisas preciosas neste mundo.
Ajuda-nos a amá-lo acima de tudo, com os olhos na glória, com os olhos na eternidade, quando então o reino de
paz será estabelecido, quando finalmente a paz reinará neste mundo, quando o Senhor vier pela segunda vez para
reinar com os seus.
Jesus, se o leitor ainda não havia compreendido o que é o Evangelho e quem é o Senhor, faça brilhar a sua luz no
seu coração para que discípulos verdadeiros sejam chamados para viver para sua glória.
Perdoa-nos, Deus, e recebe-nos por amor de Jesus.
Amém!

1 Sermão pregado em 26 de outubro de 2014.

2 Cf. João 6.60-69.


2
RELIGIOSIDADE
E CRISTIANISMO
Texto-base: Mateus 23.1-383
Introdução

Caro leitor, o meu alvo neste capítulo é refletir a respeito da diferença que existe entre
religião e cristianismo; entre religiosidade e a verdadeira prática espiritual. Para isso,
usarei esse sermão de Jesus contra os religiosos da sua época: os fariseus e os escribas.
Esse sermão aparece também em Lucas 11, um pouco resumido, o que mostra que Jesus,
em outro contexto, disse essas coisas várias vezes.
Ao falar sobre religiosidade e verdadeiro cristianismo, fazendo uso dessa passagem na
qual Jesus fala contra os fariseus, eu estou consciente de que eu não posso comparar os
cristãos verdadeiros com os fariseus e, de certo, essa não é a minha intenção, visto que
seria desonesto com você.
O que ocorre, porém, é que existem elementos da religiosidade dos fariseus que
percebo estarem presentes também no meio dos evangélicos. Por isso, mesmo que a
comparação esteja muito distante, ainda há pontos mencionados por Jesus, nos quais ele
critica os escribas e fariseus, que bem podem ser aplicados à nossa vida, pelo menos à
guisa de exame e de referência.
Eu creio que toda Escritura é proveitosa e se aplica a nós. Ela foi escrita para o nosso
benefício. Portanto, o capítulo 23 de Mateus não é uma exceção. E, com certeza, se essa
mensagem de Jesus contra os escribas e fariseus foi preservada no Evangelho, é porque
Deus, sem dúvida, deseja que ela seja lida, refletida e aplicada pela sua igreja durante
todas as suas épocas.
Meu alvo é que, ao examinarmos aquilo que Jesus criticou na religiosidade dos escribas
e fariseus, nós nos examinemos também, a fim de que possamos aprender e desejar o
cristianismo puro e simples que a Bíblia nos ensina. É isto que nós queremos ser: cristãos,
de acordo com o que o Evangelho nos ensina.
Mas deixe-me fazer outras observações à guisa de introdução. O ser humano é religioso
por natureza. Mesmo as pessoas que não nasceram de novo, que não foram regeneradas e
que não estão salvas, são capazes de orar, cantar, dar ofertas, fazer sacrifícios. A prova
disso é a quantidade de religiões falsas que existem no mundo, nas quais as pessoas fazem
praticamente tudo o que os cristãos fazem. Elas vão aos seus cultos, têm corais,
pregadores e pastores, dão ofertas, fazem sacrifícios, vão de porta em porta distribuindo
folhetos e espalhando aquilo em que elas creem, ou seja, a religião é algo que pertence ao
ser humano, mesmo que ele não seja salvo. Desse modo, um descrente pode ser religioso.
Por isso, nós não podemos medir a salvação de alguém simplesmente pelos atos
religiosos que ele pratica, porque um descrente também pode ser religioso.
Então, é preciso notar quais são esses elementos da religiosidade que, por vezes,
manifestam-se em nossa vida, para que nós os rejeitemos e vivamos um cristianismo
autêntico, puro e simples.
Quando Jesus disse essas palavras, ele estava na última semana da sua vida terrena, em
Jerusalém. Ele já tinha tido vários conflitos com os escribas e fariseus. Se você, depois,
quiser ler o capítulo 22, poderá notar que houve uma discussão entre Jesus, os escribas e
os fariseus com relação ao tributo – eles discutiam se era necessário pagar imposto a Cesar
ou não; depois, houve uma discussão a respeito da ressurreição; logo em seguida, um
debate sobre qual era o grande mandamento; e ainda sobre quem era aquele senhor sobre o
qual o rei Davi havia dito no Salmo 110, verso 1: “Disse o SENHOR ao meu senhor:
Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés”.
Aquela tinha sido uma semana extremamente conturbada, e Jesus estava envolvido em
polêmicas e discussões diretas com os escribas e fariseus, que eram os líderes religiosos
daquela época. E agora, no fim, como que já cansado de ver tanta cegueira, tanta
religiosidade, tantos conceitos errados, Jesus, então, pronuncia, no capítulo 23, esse
sermão, que é considerado um dos mais duros pronunciados por ele.
Contudo, é preciso lembrar que nem todos os fariseus eram como Jesus está dizendo
aqui. Havia fariseus como, por exemplo, Nicodemos e José de Arimateia, os quais
esperavam o Reino de Deus, eram sinceros, verdadeiros, tementes a Deus e portadores da
verdadeira fé.
Porém a grande liderança do farisaísmo daquela época era composta de pessoas
extremamente religiosas, mas que não conheciam a Deus. De qualquer forma, eles
praticavam a sua religião pensando que estavam fazendo o que era correto diante de Deus.
O que, então, Jesus censurou neles? Ao respondermos essa pergunta, nós estaremos
dando alguns dos elementos da religiosidade que nós queremos evitar.
Hipocrisia

A primeira censura de Jesus aos fariseus e escribas foi quanto à hipocrisia, como consta no
capítulo 23, versículos de 1 a 3: “Então, falou Jesus às multidões e aos seus discípulos:
Na cadeira de Moisés, se assentaram os escribas e os fariseus. Fazei e guardai, pois, tudo
quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não
fazem”.
Havia, literalmente, uma cadeira na sinagoga chamada “cadeira de Moisés”, na qual os
fariseus e os escribas se assentavam para ensinar todos os ditames da Lei ao povo. Eles
sabiam de cor o discurso ortodoxo a ponto de Jesus dizer que o problema com eles não era
seu ensino, pois eles eram ortodoxos e doutrinariamente corretos. O problema estava no
fato de eles não praticarem o que ensinavam.
Nesse ponto, você tem o primeiro elemento da religiosidade: um religioso é alguém que
se preocupa com a exatidão, a precisão doutrinária, o andamento das coisas de acordo com
as normas, todavia, ele não vive aquilo que prega e ensina.
Normas e regras

A segunda crítica de Jesus aos fariseus é que eles haviam criado normas e regras que Deus
nunca mandara, como consta no versículo 4: Atam fardos pesados [e difíceis de carregar]
e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem
movê-los.
Não satisfeitos com a Lei de Moisés, que já continha muitas normas e regras, os
fariseus do período anterior a Cristo, por volta de 200 a 150 a.C., começaram a elaborar
novas regras por meio dos rabinos. Como exemplo, podemos citar a questão do sábado.
Na Lei de Moisés, era dito que não se podia trabalhar nesse dia. Mas o que era trabalho? A
partir dessa pergunta, podemos imaginar a seguinte discussão entre os rabinos: trabalho é
andar um quilômetro, logo, andar um quilômetro é pecado; trabalho é levantar três quilos,
ou seja, se levantar até dois quilos não é pecado, mas se levantar três quilos ou mais, sim.
Claramente, aquilo que já era pesado, os rabinos tornaram mais pesado ainda, criando
normas que Deus nunca havia criado, impondo um fardo difícil sobre o povo de Deus.
Contudo, eles não queriam mover o fardo nem com um dedo. Então, esse é o segundo
aspecto da religiosidade: ela cria normas e regras que Deus nunca mandou.
Um exemplo óbvio são aquelas regras que proíbem as pessoas de ir ao cinema, de
cortar os cabelos, de usar calça comprida, de usar barba, entre outras. Há um legalismo no
meio evangélico pelo qual as pessoas criam normas, colocando-as sobre as pessoas, que,
por sua vez, vivem carregadas debaixo dessas regras e preceitos humanos nunca
ordenados por Deus. A religiosidade faz isso em nome de Deus.
Aprovação humana

A terceira crítica de Jesus aos fariseus é que eles buscavam a aprovação dos homens. O
versículo 5 diz: “Praticam, porém, todas as suas obras com o fim de serem vistos dos
homens; pois alargam os seus filactérios e alongam as suas franjas”.
Filactérios são caixinhas de couro, com trechos da Torá, que os judeus amarravam nas
mãos e na testa. Isso porque, em Deuteronômio 6.6-8, Moisés tinha dito ao povo para
guardar a Palavra de Deus no coração e atá-la à mão e à cabeça. É claro que Moisés estava
falando figuradamente, porque mão e cabeça significam, respectivamente, o que alguém
faz e pensa. Porém eles interpretaram aquilo literalmente.
Outro ponto é que o fariseu mandava fazer essas caixinhas, de certo modo, grandes
para que, quando ele as colocasse na testa e nas mãos e saísse andando pelas ruas, os
homens olhassem e comentassem o quanto ele era religioso e piedoso, até mesmo um
santo, tal era o tamanho dos filactérios do fariseu.
Já as franjas eram as borlas da veste. Elas funcionavam como o atual rosário católico,
que são aqueles nós (contas) usados para contar as orações e os pais-nossos. Os judeus
tinham, então, franjas, que eram penduradas na sua roupa a fim de contar as orações. O
problema é que os fariseus mandavam encher suas roupas de franjas. Desse modo, quando
eles andavam na rua com aqueles filactérios e com as franjas, as pessoas que os viam
poderiam, por certo, dizer o quanto aqueles homens eram santos, não querendo, assim,
nem chegar perto deles, para não serem fulminadas, tal era a santidade.
É isso o que a religião faz. Ela busca agradar e impressionar as pessoas. Um religioso
dos dias de hoje é alguém que pratica o cristianismo, faz as atividades relacionadas à vida
cristã, mas apenas por estar preocupado em se aparecer aos homens, em agradar-lhes, em
ostentar a sua religiosidade. Não é difícil dar exemplos disso.
Autoexaltação

O quarto item que Jesus condena nos fariseus é a autoexaltação. Os versículos 6 a 12 nos
dizem: “Amam o primeiro lugar nos banquetes e as primeiras cadeiras nas sinagogas, as
saudações nas praças e o serem chamados mestres pelos homens. Vós, porém, não sereis
chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos. A ninguém
sobre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus. Nem
sereis chamados guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo. Mas o maior dentre vós será
vosso servo. Quem a si mesmo se exaltar será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar
será exaltado”.
Os fariseus usavam a religião que eles praticavam para se promover diante dos homens.
Diz Jesus no versículo 6 que eles amavam o primeiro lugar nos banquetes. Quando os
judeus faziam os seus banquetes, eles reservavam lugares para as autoridades. Assim,
quando o judeu e o fariseu chegavam, gostavam de ser distinguidos e se sentarem na
frente, para que todos vissem que eles eram pessoas especiais.
Nas sinagogas, isso não era diferente. Quando não era na cadeira de Moisés, era nos
primeiros lugares das sinagogas – bancos reservados para as pessoas especiais. Logo, o
fariseu fazia questão de sentar-se ali para que todos pensassem que ele era uma pessoa
especial.
Do mesmo modo, quando ele andava nas praças, gostava que as pessoas o chamassem
pelos títulos que tinha, como mestre e rabi. Isso era extremamente apreciado por ele.
Jesus disse: “Vós, porém, não sereis chamados mestres […]”. Ele não está proibindo
esse título, mas está proibindo que usemos esse título para bajular alguém, ou que uma
pessoa o use para se autoglorificar.
Quando Jesus diz: “[…] porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos. A
ninguém sobre a terra chameis vosso pai […]”, é claro que não está proibindo que eu me
refira ao meu genitor como pai; o que ele está dizendo nesse ponto é que não façamos de
alguém nosso pai, que não usemos esse título para bajular alguém, ou que ninguém diga
sobre si mesmo: “Eu sou o pai dessa ideia, eu sou o pai dessa igreja, eu sou o mestre dessa
igreja”. Jesus completa dizendo que ninguém deveria usar esses títulos com esse objetivo
porque um só é o Pai, aquele que está nos céus; da mesma forma, ele proíbe o chamar-se
de guias, porque um só é o nosso guia: o Cristo. E afirma: “Mas o maior dentre vós será
vosso servo”.
Quer ser grande? Sirva. Você quer realmente ser grande? Então, o caminho do
cristianismo é o serviço. Na religião, para alguém ser grande, ele precisa buscar títulos,
posições nos primeiros lugares e ostentação, mas no cristianismo quem quiser ser grande
tem de começar sendo pequeno, servindo aos irmãos e não sendo servido por eles.
Ainda sobre isso, no versículo 12, Jesus diz: “Quem a si mesmo se exaltar será
humilhado; e quem a si mesmo se humilhar será exaltado”. Ou seja, quem hoje se exalta
em nome de Deus, no Dia do Juízo será humilhado diante dos homens e de Deus. A
religião busca exaltação humana, mas o cristianismo faz com que nós sejamos servos e
vivamos para servir a ele.
Mas por que Jesus condenou essas atitudes? Do versículo 13 em diante, ele muda a
direção do discurso. Até aqui Cristo vinha falando aos discípulos e alertando-os sobre ter
cuidado com os fariseus. Agora, no versículo 13, ele se volta diretamente aos fariseus, que
estavam naquela audiência. Imagine-nos ouvindo o que Jesus falava; pense em um sermão
duro. É fácil falar dos fariseus pelas costas, mas, no caso, eles estavam presentes naquela
audiência.
Os ais

A partir deste ponto, Jesus, voltando-se a eles, pronuncia oito ais. Esses ais são como
condenações por determinadas coisas. Mas que coisas são estas? Por que Jesus condenou
essa religiosidade farisaica? Nós as veremos em seguida.
Primeiro ai

Condena-se a religiosidade farisaica primeiramente porque esse tipo de atitude que Jesus
acabou de descrever acima impede não apenas que o próprio religioso seja salvo, mas que
outras pessoas sejam salvas. Como ele disse no verso 13: “Ai de vós, escribas e fariseus,
hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem
deixais entrar os que estão entrando!”.
Os escribas e fariseus deveriam estar abrindo o Reino de Deus para as pessoas, porque
eles conheciam a Lei; eles conheciam a Palavra de Deus e seus ensinamentos dados por
meio dos profetas, de Moisés, de Davi. Eles eram os conhecedores daquilo que Deus havia
dito no Antigo Testamento. Mas, por causa da sua religiosidade, eles não entraram no
Reino de Deus. Além disso, pelos seus ensinos e exemplos, eles também não deixavam as
outras pessoas entrarem.
Quando nós fazemos essa aplicação em nossa vida, percebemos como a religiosidade
tem consequências terríveis. Pessoas que são religiosas – mas que não são salvas –
terminam por dar um péssimo exemplo, pois elas não entram no Reino de Deus e acabam
sendo um tropeço para aqueles que querem entrar.
Segundo ai

A segunda razão pela qual Jesus condenou a religiosidade dos fariseus é que, por vezes,
ela é somente uma capa para esconder pecados. O versículo 14 diz: “[Ai de vós, escribas e
fariseus, hipócritas, porque devorais as casas das viúvas e, para o justificar, fazeis longas
orações; por isso, sofrereis juízo muito mais severo!]”.
O fariseu chegava à casa de alguma pobre viúva que estava sofrendo e dizia: “Irmã, eu
vou orar pela senhora, mas você sabe, minha oração é paga por tempo, se eu orar um
minuto é uma dracma, se eu orar dois minutos serão cobradas duas dracmas; a senhora
sabe como é, tenho que ganhar a vida”. Então, era como se ele ligasse seu taxímetro,
vamos chamar de oraçãozímetro, e começasse a fazer longas orações, porque na verdade
ele queria se valer da inocência e da ingenuidade da coitada da viúva, usando a religião
como meio de esconder e camuflar a sua ganância, o seu amor ao dinheiro.
Da mesma forma, a religiosidade é uma capa para pecados mais sérios. Eu já
acompanhei e conheço casos de gente que estava na igreja, era superzelosa, frequentava
todas as reuniões de oração, não perdia um culto, exercia várias atividades e ministérios,
era oficial da igreja, mas, de repente, descobre-se que tudo aquilo era uma capa e que, na
verdade, aquele homem era desonesto, ladrão, imoral, agredia a esposa, mas na igreja
ninguém suspeitava.
Às vezes, a religiosidade é uma capa apenas para esconder pecados graves e terríveis,
por isso, Jesus a condena, porque o religioso se justifica por meio dessas práticas listadas
acima.
Terceiro ai

O terceiro ai se encontra no versículo 15. Jesus condena a religiosidade porque ela leva as
pessoas ao inferno. “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque rodeais o mar e a
terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais
do que vós!”.
Os fariseus eram extremamente ativistas. Eram evangelistas, saíam de porta em porta
evangelizando, pois queriam que os que não eram judeus se tornassem judeus,
especialmente o prosélito, que era um gentil, um não judeu, que havia se convertido ao
judaísmo e se circuncidado, sendo agora um judeu. Então, os fariseus percorriam vários
lugares e faziam qualquer esforço para este fim. Jesus diz, neste ponto, que eles rodeavam
mar e terra a fim de conseguir seus adeptos. Todavia, no fim, esses coitados eram duas
vezes filhos do inferno.
Por isso, Jesus condenou os fariseus, porque a religiosidade leva as pessoas ao inferno,
visto que elas praticam aquilo que Deus não mandou ou praticam aquilo que Deus mandou
pelos motivos errados. Elas podem parecer religiosas, podem enganar os seus corações
com atos religiosos, mas, na verdade, nunca nasceram de novo, nunca foram regeneradas,
não conhecem a graça de Deus, nunca tiveram um encontro verdadeiro com ele.
É justamente por esses fatores que a religiosidade é tão perigosa e perniciosa e conduz
para o inferno, porque a pessoa considera que ser religiosa, ir à igreja, dar o dízimo, estar
no ministério, ser pastor e pregador, são evidências de que ela está salva. Porém ela pode
não ser. Por isso, Jesus adverte os escribas e fariseus, porque eles conduziam outras
pessoas à condenação.
Quarto e quinto ais

A quarta razão pela qual Jesus condenou a religiosidade dos fariseus é porque ela foca no
que é secundário e acaba se esquecendo do que é mais importante na vida cristã.
Há dois ais que tratam disso. Eles estão na sequência dos versículos 16 ao 24: “Ai de
vós, guias cegos, que dizeis: Quem jurar pelo santuário, isso é nada; mas, se alguém jurar
pelo ouro do santuário, fica obrigado pelo que jurou! Insensatos e cegos! Pois qual é
maior: o ouro ou o santuário que santifica o ouro? E dizeis: Quem jurar pelo altar, isso é
nada; quem, porém, jurar pela oferta que está sobre o altar fica obrigado pelo que jurou.
Cegos! Pois qual é maior: a oferta ou o altar que santifica a oferta? Portanto, quem jurar
pelo altar jura por ele e por tudo o que sobre ele está. Quem jurar pelo santuário jura por
ele e por aquele que nele habita; e quem jurar pelo céu jura pelo trono de Deus e por
aquele que no trono está sentado. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o
dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais
importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem
omitir aquelas! Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo!”.
O que esses dois ais têm em comum? É que em ambos os casos o que Jesus está
condenando é o foco dado pelos fariseus às coisas secundárias e miúdas, esquecendo-se do
quadro maior, do mais importante. É exatamente isso o que o religioso faz. Ele está
preocupado com as coisinhas pequenas, os detalhes, os arranjos aqui e acolá, e se esquece
das grandes coisas, das grandes virtudes, dos pontos centrais do cristianismo.
No caso dos fariseus, temos primeiro a questão do juramento. Era comum jurar entre os
judeus. Na verdade, a Bíblia não proíbe esse ato. Ela proíbe o juramento falso. Em
algumas ocasiões, como diz nossa confissão de fé4, o juramento é lícito. Mas os fariseus
faziam disso algo banal. Vejam como é que se manifestava a religiosidade. Eles diziam
que a ação de jurar pelo templo de Jerusalém e pelo santuário não significava nada, mas se
alguém fizesse um juramento pelo ouro trazido, ficaria devendo. Por que o judeu queria
pegar a consciência de quem jurava pelo ouro? Porque eles ficavam com o ouro. Eles
também diziam que jurar pelo altar não significava nada, mas se alguém jurasse pela
oferta trazida sobre o altar ficaria devendo. Por que eles faziam isso? Porque eles não
estavam preocupados com a oferta da pessoa, no sentido de que a pessoa fosse aceita por
Deus e perdoada, mas estavam de olho na própria oferta. Logo, eles inventaram todas
essas regras.
Então, Jesus os repreende dizendo: “Cegos, quem é maior? O que santifica o ouro? É o
templo. O que santifica a oferta? É o altar. Se você jura pelo céu, está jurando por Deus.
Tudo leva a Deus. Será que vocês não percebem?”. E acrescenta: “Vocês estão cegos,
estão torcendo a Palavra de Deus e focando nas coisas secundárias, por causa do interesse
mesquinho de vocês”.
Jesus, então, após repreendê-los chamando-os de cegos, questiona-os sobre quem era o
maior: o ouro ou o santuário que o santifica? A oferta ou o altar que a santifica?
Acrescenta dizendo que, se alguém jurar pelo céu, está jurando por Deus, porque tudo leva
a Deus. Diante disto, os escribas e fariseus, por causa de seus interesses mesquinhos,
estavam torcendo a Palavra de Deus e focando nas coisas secundárias.
O mesmo acontece no versículo 23, no qual ele diz: “[…] porque dais o dízimo da
hortelã, do endro e do cominho […]”. Os fariseus tinham roça em suas propriedades. Eles
davam 10% da alface, do tomate, do legume, do endro, do cominho etc. Eles mediam com
exatidão. Toda décima parte tinha de ser levada à igreja. Essa questão de líquido ou bruto
não interessava a eles. Tudo era calculado sempre pelo bruto. Eles eram meticulosos para
dar aquilo. Mas se esqueciam das coisas mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia
e a fé.
Alguém pode estar tão preocupado com as coisas da igreja, como a organização do
templo e o andamento dos serviços; pode estar tão mergulhado em atividades, cuidando de
um detalhe aqui, outro ali, que acaba se esquecendo de que o cristianismo não é isso. É
muito mais que isso.
Religião é tornar esses equipamentos, recursos, lugar e atividades em fins em si
mesmos. Estas coisas existem para nos levar a Deus, a seu filho Jesus Cristo; elas existem
para nos levar a viver vidas santas, retas e justas. Ou como disse Jesus: “[…] a justiça, a
misericórdia e a fé […]”.
Às vezes, as pessoas se dedicam aos acessórios da igreja, como se fossem a própria
religião verdadeira em si, e perdem de vista o mais importante, como Jesus disse: “[…]
coais o mosquito e engolis o camelo!”. Mosquito era um inseto considerado impuro,
então, o judeu, para não correr o risco de engolir um mosquito, colocava um coador por
cima de tudo o que ele fosse beber. Ele era muito cuidadoso nisso. Mas, ao mesmo tempo,
ele engolia um camelo, que também era um animal imundo, sendo o maior animal
conhecido pelo judeu. Então é óbvio o que Jesus está dizendo aqui. Ele está condenando
aquela atitude do religioso, porque ele é meticuloso com coisas secundárias e se esquece
de ser santo, de orar, de amar, de exercer misericórdia e de exercer e praticar a justiça.
Sexto e sétimo ais

A quinta razão pela qual Jesus condena aquela religiosidade é porque ela leva as pessoas a
se preocuparem com o que é externo, esquecendo-se, então, do que é interno. Mais uma
vez, temos dois ais sobre esse tema. Os versículos 25 a 28 dizem: “Ai de vós, escribas e
fariseus, hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, mas estes, por dentro,
estão cheios de rapina e intemperança! Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo,
para que também o seu exterior fique limpo! Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas,
porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas
interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia! Assim também vós
exteriormente pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e
de iniquidade”.
Jesus usa duas figuras para ilustrar esse ponto da religiosidade. Primeiro, a lei
cerimonial, que mandava que o judeu fizesse determinadas lavagens. O que acontecia era
o seguinte: o judeu, quando ia ao mercado comprar alimentos ou utensílios, poderia se
deparar com gentios, não judeus, ou com judeus não conservadores, que estivessem
manipulando estes itens; então, para evitar se contaminar, ele levava todos os itens
adquiridos para casa e os lavava, fossem copos, pratos ou alimentos, tudo era lavado, mas
não era por uma questão de higiene, era por uma questão de religião. Jesus condena o fato
de eles se preocuparem com o exterior e, por dentro, estarem cheios de rapina, iniquidade,
pecado e corrupção.
A religião se preocupa com o exterior da pessoa, com normas, com regras, mas acaba
se esquecendo da necessidade de intimamente esta pessoa ser convertida, da necessidade
de quebrantamento do coração, de fé verdadeira, de um amor que parte do coração. Não é
só não adulterar, mas também não pensar em adultério; não é só não matar, mas também
não querer que o seu irmão morra. Jesus explicou isso no Sermão do Monte (Mateus 5:27-
28), dizendo: “Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que
olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela”. A
religião se preocupa com o aspecto interno, mas o cristianismo diz que o Deus que fez o
exterior é o Deus que vê o interior também. Então, essa preocupação com a vida interior é
necessária.
A segunda ilustração que Jesus diz é a das sepulturas. No versículo 27, ele chama os
escribas e fariseus de sepulcros caiados. Eles gostavam de embelezar a sepultura dos
antigos, só que a sepultura pode ser bonita por fora, mas por dentro está cheia de podridão
e de ossos decompostos, de carne pútrida. E assim Jesus diz: “Vocês são sepulcros
caiados. Vocês estão preocupados em adornar o exterior para parecerem justos aos
homens, mas por dentro vocês estão completamente corrompidos”.
Oitavo ai

A última razão pela qual Jesus condena a religiosidade dos fariseus é porque ela impede
que os religiosos ouçam a Palavra de Deus. Do versículo 29 ao 32, Jesus diz: “Ai de vós,
escribas e fariseus, hipócritas, porque edificais os sepulcros dos profetas, adornais os
túmulos dos justos e dizeis: Se tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos
sido seus cúmplices no sangue dos profetas! Assim, contra vós mesmos, testificais que sois
filhos dos que mataram os profetas. Enchei vós, pois, a medida de vossos pais”.
O que Jesus está dizendo aqui? Na época do Antigo Testamento, Deus mandou profetas
como Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oseias, Joel, Amós para falar àquele povo religioso.
Foram homens a quem Deus revelou sua Palavra. Homens que ele levantou para dizer ao
povo, como consta no primeiro capítulo de Isaías, no verso 12: “Quando vindes para
comparecer perante mim, quem vos requereu o só pisardes os meus átrios?”. E continua
nos versos 16 a 18: “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos
meus olhos; cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei
ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa das viúvas. Vinde, pois, e
arrazoemos, diz o SENHOR; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se
tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão
como a lã”.
Todos conhecem essa passagem. Era isso que o profeta fazia no Antigo Testamento.
Deus levantava um profeta para trazer o povo religioso de volta à verdade. Mas o que o
povo de Israel fazia com os profetas? Ele os rejeitava, apedrejava-os, matava-os. Não os
queria ouvir. A história da Bíblia do Antigo Testamento é a história de Deus tentando
convencer aquele povo a voltar à verdade, mas este permanecia rejeitando, matando,
prendendo e apedrejando os enviados de Deus.
Agora, na época de Jesus, os escribas e os fariseus disseram: “Se tivéssemos vivido
naquela época, não teríamos feito o mesmo. Nós somos melhores que os nossos pais,
porque se tivéssemos vivido na época de Isaías, Jeremias, nós teríamos aceitado a Palavra
de Deus”. Jesus disse: “seus hipócritas, vocês estão prestes a me matar, estão tramando
planos, urdindo como vocês me pegarão e matarão; vocês estão enchendo a medida dos
seus pais. Vocês são iguais a eles, zelosos pela tradição e pela antiguidade, mas não
querem a Palavra de Deus”. A religião é assim, ela é muito tradicionalista, sempre
apelando para o passado, mas na verdade não quer ouvir a Palavra de Deus.
Jesus, então, termina condenando os escribas e fariseus do versículo 33 ao 36. Ele diz,
no versículo 33: “Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do
inferno?”. No versículo 34, Jesus diz que eles vão continuar fazendo o que sempre
fizeram: “Por isso, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matareis e
crucificareis; a outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em
cidade”. E foi exatamente o que fizeram com Jesus e com os seus discípulos. Depois, no
versículo 35, continua: “para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado sobre a
terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem
matastes entre o santuário e o altar”. Jesus está dizendo que isto iria acontecer para que a
medida do pecado deles se enchesse e Deus derramasse o juízo dele contra aqueles
homens.
No verso 36, Jesus afirma: “Em verdade vos digo que todas estas coisas hão de vir
sobre a presente geração”. E foi exatamente o que ocorreu. Trinta e cinco anos após Jesus
ter dito estas palavras, os romanos cercaram Jerusalém e, após um cerco de três anos,
entraram na cidade, matando mais de 500 mil judeus, que foram espalhados por toda a
parte; destruíram a cidade e o templo, arrasando-o no seu fundamento. Tudo isso para
cumprimento da Palavra de Jesus acerca dos juízos de Deus contra aquela geração.
Aplicação e conclusão

Leitor, como afirmei no início, eu seria desonesto em compará-lo aos escribas e fariseus,
mas preste atenção ao seguinte: você sabe que está se tornando religioso quando está mais
preocupado com o arranjo de flores, com o lugar do coral, com a roupa do pastor, do que
com a pregação; quando leva mais tempo se preparando diante do espelho antes do culto
do que se preparando espiritualmente para participar do culto; quando não consegue aturar
os erros dos outros, contudo, é muito tolerante com os seus e de seus familiares; quando
participa de todas as atividades da igreja, mas não tem mais tempo para sua família e para
estar a sós com Deus; quando é zeloso para dar dízimo e ofertas, mas trata mal seus
empregados, não perdoando quem te ofende e não pratica misericórdia para com os
pobres; quando sua vida cristã gira em torno de elementos da igreja que, embora
legítimos, não são essenciais.
Eu também corro esse risco, por exemplo, quando penso no ministério que tenho no
púlpito, na pregação, no ministério pastoral, no título de reverendo, doutor. Eu peço a
Deus que me livre dessas coisas, porque eu não posso girar a minha vida cristã e o meu
ministério em torno disto.
Eu quero concluir com o fim do capítulo. Veja como termina: Jesus lamentando. Os
versículos 37 a 39 são o lamento de Jesus: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e
apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a
galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! Eis que a vossa
casa vos ficará deserta. Declaro-vos, pois, que, desde agora, já não me vereis, até que
venhais a dizer: Bendito o que vem em nome do Senhor!”.
Notem que Jesus diz no versículo 37: “[…] Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos,
como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!”. Jesus
está se referindo a todas as tentativas de Deus durante a história de reunir o povo dele, o
povo da antiga aliança debaixo de si, a fim de ter um relacionamento verdadeiro, pessoal,
íntimo. Porém ele diz nesse trecho que o povo não queria.
A grande pergunta que nós queremos fazer é esta: nós somos o povo de Deus hoje, ele
continua nos chamando para debaixo das suas asas, ele quer ter um relacionamento
verdadeiro e íntimo conosco, pois é isso que é o verdadeiro cristianismo, mas nós
queremos isso? Porque Israel não queria. Queremos viver para Deus? Queremos deixar a
religiosidade? Queremos buscar a verdade? Queremos ser mudados? Queremos ser
usados? Essas são as perguntas que Deus nos faz. Queremos? Desejamos? Ansiamos por
isto?
Se nós não estivermos dispostos, se não quisermos, se não nos prontificarmos, as coisas
continuarão como sempre foram. Mas se nós queremos crescer, se queremos progredir, se
queremos servir a Deus mais e melhor, é preciso que nós queiramos nos deixar reunir
debaixo dele, das suas asas, em uma relação verdadeira, deixando de lado tudo que ele
nunca ordenou, para que nós vivamos sempre para sua glória.
Amém!
Oração
Ó Deus, livra-nos da justiça própria, da religião carnal, dessa religiosidade que nos atrapalha de ver o que é
essencial. Ajuda-nos a viver um cristianismo puro e simples, focado naquilo que sua Palavra nos diz. Ajuda-nos em
todas as coisas, pois o Senhor é o nosso Deus, queremos viver para sua glória, em nome de Jesus.
Amém!

3 Sermão pregado em 31 de agosto de 2014.

4 Confissão de Fé de Westminster, capítulo 22 (Dos juramentos legais e dos votos).


3
A IMPUREZA E O CHAMADO PARA
A SANTIDADE
Texto-base: I Tessalonicenses 4.1-85
Introdução

Boa parte dos problemas que nós enfrentamos como cristãos no relacionamento uns com
os outros e com Deus é na área da impureza sexual. Nós não podemos e não precisamos ir
muito longe para vermos que essa é uma área que foi tremendamente afetada pelo pecado.
No Novo Testamento, há várias listas de pecados, e quase todas começam com pecados
relacionados à área da sexualidade: a imoralidade, o adultério, a fornicação, a prostituição
etc.
Creio que todos nós, de uma forma ou de outra, lutamos para viver uma vida pura
diante de Deus no que diz respeito à sexualidade. Paulo escreveu essa carta, e mais
precisamente essa parte dela, com o objetivo de ajudar os crentes em Tessalônica a viver
uma vida pura diante de Deus nessa área da nossa vida que é tão importante.
Ele tinha fundado a igreja e passado pouco tempo com ela. De acordo com o livro de
Atos, capítulo 17, ele passou três semanas pregando nas sinagogas e, por meio da sua
pregação, Deus levantou uma igreja naquela cidade. Não demorou muito para que Paulo
fosse obrigado a fugir daquela localidade por conta da perseguição levantada pelos judeus
incrédulos. Ele saiu de lá deixando uma igreja jovem, talvez com um ou dois meses de
fundação; novos convertidos com um ou dois meses de conversão. Ele até tentou voltar
para continuar a discipular a igreja, mas não pôde. Então, mandou Timóteo, que conseguiu
chegar à igreja, reunir-se com os irmãos e retornar trazendo notícias a respeito daquela
comunidade. Essas notícias eram boas e más.
As notícias boas eram que a igreja estava firme, aqueles novos convertidos
permaneceram, apesar da perseguição que estavam passando, mas havia surgido
questionamentos a respeito da saída de Paulo da cidade, como por exemplo, por que ele
não ficou com o rebanho, mas saiu no meio da perseguição. Alguns estavam dizendo que
Paulo era um mercenário interessado apenas no dinheiro que receberia da igreja.
Também havia necessidade de Paulo completar o que havia começado a ensinar. Talvez
Timóteo tenha trazido alguns dos temas que a igreja gostaria que Paulo concluísse, visto
que não pôde por ter sido interrompido pelas perseguições.
Paulo, então, escreveu essa carta com o objetivo de explicar porque ele saiu, explicar
que suas motivações eram corretas e ainda responder a alguns questionamentos
doutrinários que tinham sido feitos, além de completar aquilo que ele não tinha podido
terminar quando estava com aqueles irmãos. E um dos assuntos que ele tratou foi a
questão da pureza sexual. E, por meio da leitura do texto que sustenta esse capítulo, fica
muito claro que ele já tinha falado a respeito disso. Estava, pois, completando o que havia
começado. Aqui, ele trata do assunto de maneira direta.
Com base nisso, eu quero destacar aqui os pontos do ensinamento de Paulo com o
objetivo de aplicá-los ao nosso coração, até porque nossa situação é bastante parecida com
a situação dos tessalonicenses.
A impureza na época de Paulo e hoje

O mundo greco-romano, no qual eles viviam, era um mundo erotizado, onde a imoralidade
sexual era vista como algo normal. Os homens casados tinham as suas amantes, e isso era
aceitável na sociedade. As escravas serviam como objeto sexual. Também as próprias
patroas e as senhoras tinham seus casos amorosos com jovens de aluguel. Não é muito
diferente dos escorts6 que existem hoje.
A prática da homossexualidade era bastante difundida e aceita no mundo greco-
romano, embora houvesse resistência por parte de alguns filósofos como, por exemplo, os
estoicos, que achavam que aquele comportamento era inadequado. Todavia, no geral, a
sociedade daquela época era bastante permissiva na área sexual.
Quando uma pessoa em Tessalônica aceitava o Evangelho e ingressava na igreja, ela
era desafiada a mudar completamente esses padrões. Ela era confrontada com um estilo de
vida completamente oposto a tudo o que ela, até então, experimentara durante sua vida.
Tudo isso não é muito diferente dos nossos dias. Vivemos uma época em que a
imoralidade ou a permissividade, a libertinagem na área sexual são largamente espalhadas
no mundo ocidental; em que relacionamentos sexuais casuais, traição, ter vários parceiros,
enfim, todo tipo de perversão sexual são comportamentos aceitos como se fossem normais
dentro da nossa sociedade. E a igreja, quando confrontada, parece que está na contramão
da cultura, porque ela é, por assim dizer, o último bastião de resistência.
Porém isso não se aplica a todas as igrejas, uma vez que muitas delas já adotaram
comportamentos estranhos às Sagradas Escrituras. Num português claro: liberaram geral
para a juventude e para os casais. Essas igrejas não abordam esses assuntos sexuais.
Preferem dizer que é uma questão pessoal e que solteiros e casados precisam resolver
entre si e Deus. Simplesmente essas lideranças não querem se envolver nesse assunto.
Mas o cristianismo bíblico rompe com o mundo, com a cultura, caminhando na
contramão, não porque ele é chato, mas porque a cultura se desviou dos caminhos de
Deus. A cultura foi contaminada, impregnada de valores contrários à Palavra de Deus, e o
cristão tem que fazer uma escolha: se ele vai seguir o que a Palavra de Deus diz ou se vai
seguir o caminho da cultura, da sociedade, da mídia, dos artistas, do que se propaga por
todos os meios.
O que vemos aqui é um confronto. Paulo escreve à igreja de Tessalônica e a chama
(chamado este que se estende a nós) a tomar uma posição naquela sociedade
completamente permissiva, estabelecendo uma separação muito clara entre a igreja e o
mundo nessa área da sexualidade.
Chamado à santidade

Ele começa dizendo que a santificação é a vontade de Deus para nós, como vemos nos
versos de um a três. Notemos que ele já havia ensinado isso quando estava com aquele
povo. No primeiro verso, Paulo diz: “Finalmente, irmãos, nós vos rogamos e exortamos
no Senhor Jesus que, como de nós recebestes, quanto à maneira por que deveis viver e
agradar a Deus, e efetivamente estais fazendo, continueis progredindo cada vez mais”.
Quando Paulo estava em Tessalônica, ele ensinava àquele povo a maneira pela qual
deveria viver e agradar a Deus, porque essa é a função do pastor. Nós não temos outra
função. É esse o nosso objetivo. É isso que significa a função pastoral e presbiteral.
Pastores e presbíteros são aqueles homens que Deus levantou na igreja para, por meio
deles, dizer a ela de que maneira deve viver e agradar a Deus, porque esse é o alvo da
nossa existência. Esse é o objetivo da minha vida: agradar a Deus e não a mim mesmo
nem às outras pessoas. É claro que se eu puder agradar a Deus e às outras pessoas será
ótimo, mas nem sempre isso é possível. Às vezes, temos que escolher a quem vamos
agradar. Isso Paulo havia ensinado. Ele diz: “Vocês continuem fazendo isso, eu sei o que
vocês estão fazendo, progridam, vão em frente, vocês começaram, mas têm a vida toda
pela frente para aprender a viver e agradar a Deus”.
No verso dois, Paulo diz: “porque estais inteirados de quantas instruções vos demos da
parte do Senhor Jesus”. Mais uma vez ele está se referindo ao templo. Paulo diz que,
quando estava com eles, havia dado muitas instruções. O apóstolo não era só um teórico,
não era alguém que falava de filosofia ou de aspectos teológicos profundos e misteriosos,
embora ele fale disso também, mas a função dele como pastor era ensinar, instruir, dar
orientações práticas à igreja sobre como ela deveria viver e agradar a Deus, e isso ele tinha
feito. Ele tinha dado essas instruções.
Quando ingressamos em uma igreja, tomando parte nela, estamos, claramente, dizendo:
“Estamos aqui com o objetivo de servir a Deus com essa comunidade! Queremos nos
tornar parte dela. Para tanto, ouviremos o que nos é instruído, o que nos é dito a respeito
de como viver e agradar a Deus”. Logo, se é parte do trabalho pastoral instruir a igreja
como ela deve viver e agradar a Deus, então faz parte da igreja escutar os seus pastores
enquanto eles estão dentro da Palavra de Deus. Enquanto assim eles fizerem, cumpre
ouvir, colocar no coração e pôr em prática.
Essa é a razão pela qual nós vamos à igreja. Não há outra razão. Nós temos tantas
coisas boas quando estamos congregados. Revemos os amigos, os familiares, enfim, é
muito agradável. Todavia, se fosse só para isso, poderíamos fazê-lo no clube, não é
verdade? Seria até mais agradável.
Porém, ao nos reunirmos, somos instruídos pela Palavra de Deus e prestamos culto a
ele; ouvimos sua voz e, ao fim do culto, saímos para servi-lo.
O mais importante da nossa vida não acontece na igreja, aos domingos, mas na
segunda-feira pela manhã até o sábado à noite. O momento que passamos no domingo na
igreja é para aprendermos o que devemos fazer de segunda até sábado à noite, quer seja no
nosso trabalho, na nossa família, na nossa escola, na nossa vizinhança, no nosso prédio, no
nosso negócio, enfim, em todas as áreas da vida. O ensino que temos no domingo, na
igreja, é o ponto de partida, entretanto, é na nossa vida de segunda até sábado à noite que
viveremos como cristãos. É nela que desenvolveremos e aplicaremos o que aprendemos.
Essa digressão que fizemos aqui também é feita pelo apóstolo Paulo e é, por meio dela,
que ele prepara o que dirá em seguida, no verso três, que tem relação com a vontade de
Deus: “Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, que vos abstenhais da
prostituição”.
Por que ele tinha feito tudo isso? Por que ele tinha ensinado a igreja dessa forma?
Porque a vontade de Deus para a igreja é a santificação. Santificação é uma palavra difícil
de traduzir, pois ela abarca muitas ideias. Uma delas é a ideia de separação do mundo ou
de consagração a Deus. Também tem a ver com os rituais de purificação no Antigo
Testamento, em que objetos e pessoas eram consagrados a Deus para o uso dele.
É uma palavra prenhe de significados, ou seja, não tem como traduzir por outra que a
expresse completamente ou esgote seu significado. Então, poderíamos dizer que
santificação significa nos separarmos das práticas contrárias a Deus, ou seja, da maneira
de viver contrária a Deus. Significa nos consagrarmos, entregarmo-nos inteiramente a
Deus para vivermos de acordo com a vontade dele, voluntariamente, sem reservas.
Entregarmo-nos completamente! É isso que a palavra santificação significa. É isso que
Paulo diz ser a vontade de Deus.
Porém, às vezes, a vontade de Deus nos parece misteriosa. Não sabemos por que
determinadas coisas acontecem. Às vezes, morre uma pessoa; um acidente acontece; uma
coisa trágica ocorre em uma família, e nós ficamos nos perguntando: “Por quê? Por que
isso aconteceu?”.
Provavelmente, não teremos resposta neste mundo. A providência de Deus é
frequentemente misteriosa, e ele não revela a razão pela qual faz determinadas coisas. O
que ele exige de nós é que confiemos que ele é justo, sábio, bom e verdadeiro e que ele
nunca fará o que é errado, o que é injusto. Ele nunca agirá de maneira injusta conosco. Ele
pede que nós confiemos nele, mesmo que nós não compreendamos.
Mas o meu ponto é que há uma vontade de Deus que nos é oculta. Nós não sabemos,
mas há uma vontade de Deus declarada, pública e conhecida de todos.
Encontraremos no Antigo e no Novo Testamentos vários pontos expressando o desejo,
o querer, a vontade e o propósito de Deus. Ele revelou na Bíblia sua vontade para conosco.
É claro que se você, leitor, perguntar a mim: “Augustus, qual a vontade dele para minha
vida? Deus quer que eu me case ou quer que eu fique solteiro?”, eu, certamente, não terei
resposta. É claro que torcerei para você se casar. Ou, se você perguntar: “Deus quer que eu
more em Goiânia ou em Brasília, pastor?”. Ora, se dependesse de mim, você moraria na
minha cidade, Goiânia, para que fique aqui com a nossa igreja. Você ainda poderia
questionar: “Deus quer que eu seja médico ou que eu seja jogador de futebol?”.
Sinceramente, eu direi que não sei se Deus quer que você seja médico ou jogador de
futebol – desde que você não jogue pelo Corinthians, para mim estará ótimo!
Brincadeiras à parte, há muita coisa relacionada com a vida, com as decisões para as
quais nós não temos uma resposta direta de Deus. Todavia, uma coisa eu sei: quer você
seja jogador de futebol ou médico, quer você vá para Brasília ou Goiânia, quer você case
ou fique solteiro, a vontade de Deus sempre vai ser que você seja santo, sempre, seja em
Brasília ou em Goiânia, em um consultório ou em um campo de futebol, solteiro ou
casado. A vontade de Deus para você será sempre a santificação.
Para isso não há questionamento. Não precisamos gastar nosso tempo perguntando:
“Será que posso fazer determinada coisa pecaminosa?”. A resposta é NÃO! Ou ainda:
“Será que Deus não abriria uma exceção por conhecer a minha situação? É só um
errinho!”. Novamente a resposta é NÃO! Ou então: “Deus não sabe meu estado? Eu sou
um pecador miserável, eu também tenho as minhas necessidades!”. De novo, a resposta é
NÃO!
A vontade de Deus é sempre a santificação. Sempre. Sempre. Em todas as
circunstâncias. Paulo detalha isso, porque a santificação abrange todas as áreas da nossa
vida.
Agora, o apóstolo trata de um assunto que ele não deixou terminado, mas em aberto
com aquela igreja, que era a questão da vida sexual. Como é possível notar, na segunda
parte do verso três, ele diz: “[…] que vos abstenhais da prostituição”.
Então, a partir desse ponto, ele se dedica à questão da santificação na área sexual.
Não é muito perceptível na tradução portuguesa, mas na língua original é possível notar
três pontos que Paulo pode ter colocado. Primeiro (verso 3b): “[…] que vos abstenhais da
prostituição”. Segundo (versos 4 e 5): “que cada um de vós saiba possuir o próprio corpo
em santificação e honra, não com o desejo de lascívia, como os gentios que não conhecem
a Deus”. Terceiro (verso 6): “e que, nesta matéria, ninguém ofenda nem defraude a seu
irmão; porque o Senhor, contra todas estas coisas, como antes vos avisamos e testificamos
claramente, é o vingador”.
Sendo assim, dentro da área de santificação, entrando na área sexual, Deus tem três
orientações: a primeira é abster-se da prostituição; a segunda é possuir o corpo da maneira
certa; e a terceira é não ofender ninguém nessa área.
Veremos cada uma dessas áreas abordadas por Paulo e, ao fim, receberemos quatro
encorajamentos e aplicações apresentados por ele.
Orientação 1

O primeiro ponto do apóstolo está no fim do verso 3: “[…] que vos abstenhais da
prostituição”. A palavra traduzida aqui como prostituição é a palavra grega porneia.
Trata-se de palavra ampla, utilizada na língua grega para se referir a todos os distúrbios e
problemas na área da sexualidade. Ela pode ser traduzida como imoralidade, impureza,
sendo, às vezes, até traduzida como adultério. Aqui, foi traduzida como prostituição, mas
é muito mais do que isso. Se traduzíssemos como imoralidade sexual, estaria correto.
A vontade de Deus, primeiro, é que você se abstenha da imoralidade sexual, ou seja,
abstenha-se da porneia. No Novo Testamento, ela significa sexo antes do casamento,
sendo, às vezes, traduzida como fornicação ou prostituição. Pode também significar sexo
fora do casamento. Então é traduzida como adultério, embora na língua grega haja uma
palavra específica para adultério.
Seja como for, esse comportamento era muito comum no mundo greco-romano.
Escravas amantes, adultérios, traições… Aquilo era absolutamente comum. Porneia era o
que caracterizava aquela sociedade assim como caracteriza a nossa.
Paulo orienta a igreja de Tessalônica a ir contra o costume da época, dizendo que ela
tinha que se abster da porneia, da imoralidade, refreando-a, não a consumindo, não se
envolvendo com ela. A comunidade tinha que ser livre daquela prática. Tinha que a
rejeitar. Não poderia se envolver na sua prática. E de igual modo, hoje, o nosso Deus nos
chama a nos abstermos de toda forma de imoralidade sexual, desde a prostituição até o
adultério.
Orientação 2

A segunda orientação está nos versos 4 e 5, que dizem: “que cada um de vós saiba possuir
o próprio corpo em santificação e honra, não com o desejo de lascívia, como os gentios
que não conhecem a Deus”. Aqui, nós temos uma dificuldade na tradução e vale abrir um
espaço para comentar sobre essa questão, uma vez que, na minha carreira, já me deparei
com gente que, após ouvir um comentário meu sobre um texto no grego e algum problema
de tradução, disse: “Então não posso mais confiar na Bíblia!”.
Primeiramente, uma tradução sempre é uma tradução. O que nós dizemos na teologia
reformada é que os originais grego, hebraico e aramaico foram inspirados por Deus.
Porém toda tradução terá que lidar com alguns fatos: nós não temos, às vezes, os
elementos suficientes para saber o que o autor quis dizer; nós não estávamos em
Tessalônica; a língua grega ainda é um assunto que está sendo discutido; há novas
descobertas arqueológicas que lançam luz sobre o idioma grego koiné, uma língua morta
utilizada no Novo Testamento. Igual problema se dá com o hebraico utilizado no Antigo
Testamento, que também é uma língua morta.
Então, com frequência, os tradutores têm que tomar alguma posição, alguma opinião
sobre. O melhor é sempre ter entre duas e quatro Bíblias com traduções diferentes. Basta
então conferir e, havendo uma diferença muito grande, é só ir aos comentários e procurar
ajuda.
Mas o fato de estarmos lidando com uma tradução não deve minar a nossa
confiabilidade nas Escrituras. É por isso que Deus colocou mestres na igreja, justamente
para nos ajudar a ler a Escritura e compreendê-la. Isso não quer dizer que o cristão não
possa ler a Bíblia sozinho. Podemos confiar nas nossas traduções, lermos nossas Bíblias
em português, que são traduções confiáveis, enfim, podemos ler à vontade e confiarmos
que estamos diante da própria Palavra de Deus.
Entretanto, há passagens que são difíceis, como, por exemplo, essa. A dificuldade toda
está na palavra “corpo”, que literalmente no grego é a palavra “vaso”. O que Paulo está
dizendo no original é que cada um de vocês saiba possuir o próprio vaso em santificação e
honra. E é nesse ponto que os estudiosos concordam que Paulo pode estar querendo dizer
duas coisas com a palavra vaso. Convém lembrar que Paulo está usando “vaso” no sentido
metafórico, ou seja, ele não está se referindo ao vaso de porcelana que decora uma casa.
Ele, na verdade, está falando figuradamente ou do corpo (homem ou mulher) ou da
esposa/esposo. É isso que a palavra “vaso” pode significar nesse contexto. O problema é
que o verbo “possuir” em: ”que cada um de vós saiba possuir o próprio corpo em
santificação e honra”, às vezes, significa “obter”.
Então, temos algumas possíveis combinações: 1) “que cada um de vós saiba controlar o
próprio corpo”; 2) “que cada um de vós saiba obter uma esposa”; ou ainda, 3) “que cada
um de vós saiba viver com a sua esposa de maneira santa”. Sobre essa terceira opção,
algumas traduções em português já a trazem, como por exemplo, a Nova Tradução na
Linguagem de Hoje: “Que cada um saiba viver com a sua esposa de um modo que agrade
a Deus, com todo o respeito”.
Todavia, a Almeida Revista e Atualizada parece estar mais correta, uma vez que a
tradução “que cada um de vós saiba possuir o próprio corpo em santificação e honra”
abrange, ao final, as demais opções, dando, assim, um sentido mais completo e dentro do
contexto. Mas, independentemente do que Paulo quis dizer, juntando os sentidos
possíveis, fica claro que a vontade de Deus é que o homem e a mulher se abstenham da
prostituição e saibam controlar seus corpos e viverem com sua esposa e seu marido de
maneira santa e respeitosa.
Aqui, ele traz a questão da pureza sexual para a vida do indivíduo: ele tem que saber
controlar o seu corpo; e para a vida de casado: ele tem que saber viver com a sua esposa
de maneira santa e agradável. Talvez esses dois sentidos tenham sido pretendidos pelo
apóstolo Paulo, por isso ele usou um termo amplo que poderia abarcar todos esses
sentidos.
E, mais uma vez, nós estamos na contramão da nossa cultura, a qual ensina que temos
que nos liberar e nos libertar. Se formos a um psicólogo ou a um psiquiatra que não tem
formação da Palavra de Deus, que não seja cristão, por certo ele vai dizer que os nossos
problemas e tristezas têm a ver com traumas, angústias e desejos que foram reprimidos.
Dirá que as neuroses foram criadas pela repressão que, às vezes, a própria igreja causou.
Concluirá dizendo que devemos nos liberar desses tabus e viver uma vida livre, deixando
as coisas acontecerem e cumprindo toda a nossa vontade, fazendo todos os nossos desejos.
Enquanto isso, Paulo está dizendo o contrário. Ele, tomado por um discurso que
certamente não é pós-moderno, diz que devemos controlar nosso corpo; que devemos
saber possuir nosso vaso em santificação e honra, não atendendo a esses desejos que
brotam do nosso coração.
Seria um erro se o meu leitor concluísse que eu estou dizendo que, para nós, o sexo é
uma coisa ruim, feia ou desagradável. Pelo contrário. Os cristãos creem que o sexo foi
criado por Deus como uma bênção que foi dada para nossa alegria, sendo uma forma de
comunicação física muito intensa que provoca sentimentos, emoções e regozijo. Só que
Deus o reservou ao ambiente em que essa comunicação física possa, de fato, ser feita.
Esse ambiente é o casamento. Ele não designou essa forma de comunicação para fora das
fronteiras do casamento exatamente para proteger a família, os filhos, a sociedade e a
igreja.
Então, não interpretemos mal quando a Bíblia nos manda controlarmos nosso corpo.
Ela não está dizendo que sexo é algo imprestável, algo feio. Não! Ela está dizendo que
devemos controlar nosso corpo a fim de que possamos usá-lo da maneira certa, com a
pessoa certa, após o casamento. E, uma vez casados, temos que controlar o nosso corpo,
nossas paixões, a fim de que não sejamos como os gentios, como diz o verso cinco: “não
com o desejo de lascívia, como os gentios que não conhecem a Deus”. Ou seja, não com
os desejos baixos dos pagãos que não conhecem a Deus.
Na época de Paulo, o mundo estava cheio de deuses. Os gregos e os romanos adoravam
muitos deles, mas não conheciam o verdadeiro Deus. Tanto é que, na religião greco-
romana, tudo era permitido. Os deuses desses povos não colocavam limites à libertinagem
humana. Pelo contrário, os deuses gregos, às vezes, desciam do Olimpo, tomavam forma
humana e se deitavam com as mulheres dos homens, mulheres casadas. Eram deuses
imorais.
“Os pagãos não conhecem a Deus”, Paulo diz, “por isso eles vivem com desejo de
lascívia”. Esse é um desejo pecaminoso, imoral, uma paixão baixa. “Eles vivem assim,
mas vocês não são assim”, diz o apóstolo Paulo. Há uma separação clara: não como os
gentios que não conhecem a Deus. Nós não somos como eles. Embora nós sejamos
cidadãos brasileiros, estejamos na cultura brasileira, moremos no Brasil, tenhamos
emprego, passaporte, identidade, CPF brasileiros, contudo há elementos da cultura
brasileira que são estranhos ao Deus santo que criou todas as coisas. Nós não somos como
os gentios, pois há uma diferença entre a igreja e o mundo, embora a igreja esteja no
mundo.
Todavia, o que acontece? Em vez de nós influenciarmos o mundo, o mundo está
entrando na igreja. Essas paixões entraram na comunidade cristã. São homens casados que
querem forçar as suas esposas a fazer coisas que eles veem em material pornográfico;
jovens que, em vez de lutarem para viver uma vida santa e pura, vão - por causa da
influência da escola e da universidade - aprender a ficar, ir ao motel com a namorada ou
com o namorado, ou ir para qualquer outro lugar, acabando completamente com a
distinção entre a igreja e o mundo.
Desculpem-me, mas quem disse que ser crente era algo que resolveria todos os seus
problemas mentiu. É a partir do momento em que seguimos Jesus que nossos problemas
começam. É quando decidimos ser um cristão que vamos ouvir do Mestre: “Se alguém
quer me seguir dia a dia, tome a sua cruz e siga-me; negue-se a si mesmo”. O Evangelho
diz que estreita é a porta que conduz à salvação e larga a que conduz à perdição.
Aos leitores jovens, não quero enganá-los. O caminho não é fácil. O caminho é estreito;
e a porta, também. Mas Deus nos chama para isso. O jovem que quiser viver uma vida
santa na escola e na universidade sofrerá bullying, zombaria e escárnio.
Certa feita, eu estava aconselhando um rapaz, e ele me disse que seu primeiro namoro
durou duas semanas, porque a moça olhou para ele e disse: “Eu estou há duas semanas
com você, mas vou embora, porque você não tentou pegar em mim, não tentou mexer em
mim, nada. Eu vou procurar um homem de verdade”. E ela achou um homem de verdade,
que a engravidou e deixou-a com um filho e foi embora. Então há muitos “homens de
verdade” por aí.
É difícil para o jovem crente permanecer firme, porque o que existe é essa falta de
padrão. A palavra virgem é quase um palavrão hoje. Se alguém diz: “Sou virgem!”, logo
quem escuta se espanta e diz: “Meu Deus, de que planeta você veio?”.
Mas eu escrevo tudo isso, porque eu não o estou enganando. Deus nos chama para isso.
O cristianismo é isso mesmo. Sexo é benção dentro do casamento. E tem que esperar até
lá. Porém, uma vez casado, o sexo é dentro do casamento, não é fora dele, porque são os
pagãos que vivem assim, são eles que não conhecem a Deus, mas nós O conhecemos.
Orientação 3

A terceira orientação de Paulo está no verso 6, que diz: “e que, nesta matéria, ninguém
ofenda nem defraude a seu irmão […]”.
Defraudar é tirar o direito de alguém. Essa palavra é mais uma daquelas que têm muitos
significados. Ela significa “se aproveitar de alguém, enganar alguém, quebrar a confiança
de alguém, prejudicar alguém, desrespeitar os direitos de outro, criar expectativa,
empenhar a palavra para fazer um acordo e depois quebrá-lo”. E, dentro do contexto do
que Paulo está dizendo, o sentido pode ser o de não defraudar fazendo referência
primeiramente ao casamento. Quando alguém se casa, faz votos e promessas; diz à outra
pessoa que viverá com ela e lhe será fiel até que a morte as separe. A imoralidade, então, é
uma defraudação, porque esse alguém está enganando a outra pessoa, indo além dos
limites, quebrando o contrato, sendo infiel. Já no caso do solteiro, talvez Paulo esteja
pensando na fornicação ou no ato de provocar desejos que não podem ser cumpridos.
Quantos namorados que, devido à intensidade de seus namoros, não precisam chegar às
vias de fato. Eles provocam desejos, criam expectativas que não podem ser realizadas e
cumpridas, a não ser dentro do casamento, mas eles não são casados. Isso seria enganar
alguém, criar expectativas que não podem ser cumpridas fora do casamento.
Paulo diz que não se deve fazer isso com um irmão. Ele está falando para os crentes,
quando defraudam um ao outro. Está falando de casais crentes. Não está falando
propriamente de namoro crente, porque - na época de Paulo - não havia namoro, mas,
supondo o relacionamento entre irmãos, há defraudação.
Aplicações

Então, ele termina com quatro aplicações. A primeira delas está logo no fim do verso seis:
“[…] porque o Senhor, contra todas estas coisas, como antes vos avisamos e testificamos
claramente, é o vingador. O Senhor castigará todas essas práticas, como já lhes dissemos
e asseguramos”.
Essa primeira aplicação de Paulo é para aqueles que estão na prática da imoralidade,
defraudando o seu irmão, a esposa ou alguém que está namorando nessa situação. Paulo
diz que Deus é vingador dessas coisas. Diz ainda que já havia falado aquilo aos
tessalonicenses, mas que voltaria a dizer: “Deus é vingador, Deus é juiz”.
Deus não vai deixar isso passar em branco. Cedo ou tarde, ele vai colocar a mão em
cima de você que está defraudando seu irmão. E graças a Deus se for nesse mundo, porque
significa que ele te ama e está te dando uma oportunidade para se arrepender, porque -
quando Deus não quer salvar uma pessoa - ele deixa que ela se afunde. Ela defraudará seu
irmão, trairá sua esposa ou esposo, será imoral, praticará a prostituição e nada lhe vai
acontecer, porque Deus está somando para o Dia do Juízo. Ele está só colocando em sua
conta. Naquele grande dia, você verá a conta.
Mas o problema do Dia do Juízo é que nele não haverá misericórdia nem perdão, por
isso temos que resolver nossas pendências com Deus agora, aqui, enquanto ele nos dá a
oportunidade de mudar de vida e ter uma conduta reta e santa diante dele, porque ele é
vingador. Tenhamos certeza de que nossos pecados não passarão em branco, seja aqui,
seja na eternidade. Deus é vingador dessas coisas.
A segunda aplicação encontra-se no verso 7, que diz: “porquanto Deus não nos
chamou para a impureza, e sim para a santificação”. A partir desse trecho, eu quero me
dirigir ao leitor que está em dúvida, tentado pelo chamado à impureza. Isso é tão comum,
especialmente entre os nossos adolescentes e jovens. A impureza chama, seja por meio da
escola, do WhatsApp ou de outras redes sociais da internet. Ela está ao nosso redor.
Vivemos em uma sociedade erotizada. A impureza chama o jovem, que, às vezes, fica em
dúvida se algo pode ou não pode.
Paulo está dizendo neste verso que Deus não nos chama para a impureza. Esse
chamado para a impureza que você está ouvindo não vem de Deus, mas sim do seu
próprio coração e vem do inimigo das nossas almas, a saber, Satanás, que quer destruir a
sua vida, que quer arrebentar a sua vida. Esse chamado pode vir por meio da pessoa que
você mais gosta, da pessoa que você considera legal, da pessoa com quem você gosta de
conversar. Em suma, ele pode vir por diversos meios, mas Deus nunca chama você para
fazer o que é errado, pelo contrário, como Paulo disse desde o começo: Deus nos chama
para a santificação. Tudo o que chamar você para a santificação é de Deus, assim como
estou fazendo neste livro, chamando você para a santificação.
Deus não chama você para a impureza. Quando seu casamento não vai bem e você vê
uma mulher da qual você se agrada e com a qual tem um bom relacionamento, afinal, ela o
compreende mais do que sua esposa, não pense no seu coração que é Deus que está te
dando uma nova oportunidade. Isso não é Deus.
Quando você encontra aquele jovem mundano ou aquela jovem mundana, atraente,
compreensivo/a – afinal, muitos/as, infelizmente, pensam que está faltando homem e
mulher na igreja, não é? – você pensa: “Será que é Deus?”. Eu não creio que é Deus que
está te preparando aquilo. Talvez, ele, de fato, esteja chamando você para ficar solteiro/a,
até porque a alternativa para não se casar com um crente não é casar-se com um descrente.
Deus nos chama para a santificação.
A terceira aplicação de Paulo encontra-se no verso 8, que diz: “Dessarte, quem rejeita
estas coisas não rejeita o homem, e sim a Deus, que também vos dá o seu Espírito Santo”.
Talvez, muitos leitores achem esse sermão muito duro, então, eu vou apenas repetir o que
Paulo está dizendo: “[…] quem rejeita estas coisas não rejeita o homem, e sim a Deus
[…]”, porque é Deus quem nos chama para a santidade. A vontade dele é a santificação. O
desejo dele é que você fuja da porneia. O desejo dele é que você controle o seu corpo, que
fique com sua esposa ou com seu esposo dentro dos limites impostos por ele. Se isso te
parece um discurso duro, é contra Deus que você está indo. Paulo diz que, se alguém
rejeita essa mensagem, o tal, na verdade, está rejeitando a Deus.
Para os que acham que a ética cristã é dura, inflexível e difícil e dizem que Deus é
duro, difícil e inflexível, saibam que estou apenas expondo a Palavra dele, a vontade
revelada por ele.
Como última aplicação, Paulo diz que quem rejeita essas coisas, não rejeita o homem,
mas a Deus, que também nos dá o seu Espírito Santo. Glória a Deus por isso. Acredito
que, diante dessa Palavra, uma pergunta que pode estar no coração de muitos leitores que
lutam com esses problemas de impureza é: “Onde vou arrumar o poder para viver esse
padrão de vida?”. A resposta é que Deus não nos deixou sozinhos. Deus só pede aquilo
que ele mesmo nos dá condição de fazer. O Deus que pede para sermos santos é o mesmo
Deus que dá o Espírito Santo, e é no poder do seu Espírito que vamos controlar nosso
corpo. É no poder do Espírito Santo que vamos nos abster da imoralidade. É nesse mesmo
poder que vamos honrar nossa esposa ou esposo, sendo-lhes fiel. É também nesse poder
que não seremos iguais o mundo.
Deus nos dá o Espírito Santo, logo, não temos desculpas para dizer que não temos força
ou condições de viver como ele exige. É claro que não temos condições. Mas o Deus que
nos chama à santidade é o mesmo Deus que nos dá o Espírito Santo e ele vem habitar em
nosso coração, fortalecendo-nos e ensinando-nos, guiando-nos, empoderando-nos,
capacitando-nos para que possamos obedecer ao que está escrito em sua Palavra.
Nota de encorajamento

Então, resta-nos perguntar se queremos cumprir sua vontade. Aqui estão as instruções da
Palavra de Deus para a igreja. É dessa forma que nós devemos viver e agradar a Deus. A
grande questão é o que faremos com esses ensinamentos; que decisão prática nós
tomaremos; qual será a nossa atitude diante disso. Enfim, que mudança de vida isso
ocasionará em todos nós?
Sugiro que o leitor se coloque diante de Deus, abra seu coração diante dele, sonde seu
coração à luz dessas palavras apresentadas neste capítulo e diga: Deus, eu quero viver para
o teu agrado, para viver uma vida santa e reta. Ensina-me a ser santo, porque essa é a tua
vontade. O Senhor me deu o Espírito Santo. Que ele, então, guie-me e capacite-me.
Talvez, para essa mudança, seja necessário falar com algumas pessoas, jogar fora o
smartphone etc. Qual o preço de uma vida com Deus? Talvez medidas radicais tenham
que ser tomadas, como romper com pessoas que ficam mandando fotos inapropriadas no
WhatsApp ou ainda terminar um namoro ou relação que está fora do padrão de Deus.
Enfim, algo terá de ser feito, pois é necessário ter uma vida santa diante de Deus, mas
para isso é preciso se abster de algumas coisas. Se você que está lendo esse texto tem
desejo disso, Deus vai orientá-lo. Ele ouvirá a sua oração, afinal, o Senhor não nos deu o
Espírito Santo à toa.
Mas tome essa decisão de viver uma vida reta e santa diante de Deus. A fim de ajudar,
eu estou à disposição; seu pastor, por certo, também está à disposição. Procure ajuda
enquanto é possível, porque quanto mais o tempo passa, a tendência é que as coisas se
tornem uma bola de neve. Quanto mais o problema fica pior, pior também fica o
tratamento.
Que Deus nos ajude a vivermos de acordo com sua vontade.
Amém!
Oração
Nosso Deus, nós queremos pedir que o Senhor nos abençoe. Que o Senhor nos guarde. Queremos pedir que essa
Palavra, Senhor, fale aos nossos corações. Somos agradecidos pelo Senhor nos ter dado teu Espírito Santo e,
mediante a tua presença em nós, podermos viver como o Senhor nos diz.
Oro, Senhor, pelos casais. Conceda pureza de vida. Conceda pureza, Senhor, em todas as áreas. Oro, ainda, pelos
jovens, pelos adolescentes, pelos solteiros/as, pelos/as jovens adultos/as, cuja tentação é maior. Guarde-os e
preserve-os. Abra as portas para o casamento, se for a tua vontade. Se não, dá a eles e elas a graça de permanecerem
solteiros/as e puros/as. Abençoe as viúvas e os viúvos e também os separados/as. Dá a todos a tua graça e
misericórdia.
Deus, cure e sare as nossas feridas. É isso que pedimos em nome do Senhor Jesus.
Amém!

5 Sermão pregado em 21 de setembro de 2014.

6
Hoje, escort designa alguém que é pago para acompanhar outra pessoa a eventos sociais, podendo envolver atividades
sexuais.
4
NOSSAS PALAVRAS REVELAM
QUEM NÓS SOMOS
Texto-base: Mateus 12:33-377
Introdução

Há tempos observo que alguns descuidos que as pessoas acabam cometendo no que elas
falam ou escrevem terminam por revelar fraquezas ou defeitos de caráter e de conduta por
vezes escondidos. As pessoas tentam ser politicamente corretas e controlar o que elas
dizem e escrevem, mas, de vez em quando, alguma coisa escapa, deixando entrever aquilo
que, de outra forma, não seria conhecido. Eu vejo isso há muito tempo.
As mídias sociais que surgiram nos últimos anos aumentaram essa possibilidade.
Penso, por exemplo, no Facebook, Twitter e outros meios de comunicação como diários.
Quando me converti aos 22 anos, eu tinha um diário, no qual costumava escrever as
minhas experiências cotidianas. Todo dia eu escrevia algo. “Hoje, eu senti isso. Hoje, eu
fiz isso. Hoje, eu tive tal experiência.” Mas aquele diário secreto era algo pessoal,
guardado dentro de uma gaveta. Ninguém sabia. Se alguém o pegasse, saberia tudo que
acontecia na minha vida, tudo de íntimo que acontecia entre mim e Deus.
Hoje em dia, os diários não são mais comuns. É no Facebook que as pessoas expõem
suas vidas. Elas contam tudo. Sendo assim, é possível dizer que as mídias sociais tornaram
mais evidente, mais claro, o princípio formulado por Jesus que diz: “as palavras revelam
quem nós somos”.
Conhecemos realmente o que uma pessoa é por aquilo que ela fala e por aquilo que ela
escreve. Inclusive essa será a base com a qual Deus vai nos julgar. Nós vamos dar conta
das nossas palavras e, por elas, nós seremos condenados ou julgados no Dia do Juízo.
Deixe-me, então, colocar em que situação Jesus proferiu essas palavras, a fim de que o
leitor não pense que eu o estou chamando de raça de víboras ou ninhada de cobras. Jesus
tinha acabado de curar um surdo-mudo, expelindo um demônio que estava nele, e os
fariseus, os religiosos da época, inimigos de Jesus, sem quererem admitir o poder evidente
de Deus na vida de Cristo, disseram que ele expulsava demônios pelo maioral dos
demônios, que é Belzebu. Jesus, então, volta-se para eles e diz que toda palavra, todo
pecado, toda blasfêmia preferidos contra o Filho do Homem serão perdoados, mas a
blasfêmia contra o Espírito Santo não terá perdão. Ou seja, Jesus queria revelar a verdade
a respeito daqueles líderes hipócritas. Eles pareciam santos aos homens. Eles se vestiam
de determinada maneira, faziam determinados rituais para dar a impressão de que eles
eram íntimos de Deus. Todavia, a blasfêmia dita por eles sobre Jesus Cristo revelou a
verdade a respeito deles. De fato, não conheciam a Deus e, na verdade, estavam
caminhando para a condenação. Haviam cometido o que Jesus chama de blasfêmia contra
o Espírito Santo.
Em seguida, Jesus nos diz três coisas, a saber: o estado espiritual de uma pessoa é
conhecido pelo que ela fala (versos 33 a 35, que é o momento em que Cristo se refere aos
fariseus como raça de víboras); depois Jesus diz que, no Dia do Juízo, daremos conta de
cada palavra dita por nós – ele chama de palavra frívola (verso 36); e termina dizendo que
há somente dois resultados no Dia do Juízo: pessoas que serão justificadas e pessoas que
serão condenadas.
É basicamente o que apresentarei neste capítulo na expectativa de que Deus use essa
Palavra do Senhor Jesus a fim de que nós conheçamos mais a respeito de nós mesmos,
façamos uma avaliação do nosso estado diante de Deus e possamos, de fato, voltarmo-nos
para ele, pedindo um coração de onde jorrem palavras abençoadoras.
As palavras revelam nosso caráter

Jesus afirma que o estado espiritual de uma pessoa é conhecido pelo que ela fala. Eu
acrescento: pelo que ela escreve também.
No verso 33, Jesus nos diz: “Ou fazei a árvore boa e o seu fruto bom ou a árvore má e
o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore”.
Tiago, no capítulo 3 de sua carta, no verso 11, diz algo semelhante: “Acaso, pode a
fonte jorrar do mesmo lugar o que é doce e o que é amargoso?”. Com isso, é visível a
existência desse princípio na natureza de que as coisas funcionam de acordo com a sua
origem. É um princípio estabelecido por Deus. Por meio do livro de Gênesis, sabemos que
- quando Deus criou o reino vegetal - ele fez árvores que davam semente e fruto de acordo
com a sua espécie, ou seja, conhecemos a natureza de uma árvore pela qualidade de sua
fruta.
Certa feita, as senhoras da congregação que pastoreio me presentearam com algo muito
interessante. Elas foram para uma fazenda chamada Jaboticabal e me trouxeram um
contêiner cheio de jabuticaba. Que coisa gostosa. O leitor deve saber como é comer
jabuticaba quando ela está docinha. É tão bom que não dá para comer apenas uma, de
modo que vai uma atrás da outra. Minka, minha esposa, olhou para mim e perguntou:
“Você está comendo com caroço?”, porque não dava tempo de tirar o caroço, já que eu
engolia com casca e tudo de tão boa que estava. Fato é que tempos depois, fomos a Jataí,
onde eu pregaria no aniversário do Instituto Presbiteriano Samuel Graham. Pela manhã, no
café servido pelo hotel onde estávamos hospedados, o que tinha na mesa? Jabuticaba!
Enchi meu prato. Porém, na primeira mordida, eu a cuspi fora. Nunca comi uma
jabuticaba tão azeda na minha vida, uma coisa horrorosa. Com isso, concluo: eu sei, pela
qualidade das jabuticabas trazidas pelas senhoras da igreja para mim, que as árvores de
onde elas foram colhidas são boas. Mas aquelas de Jataí, mesmo sem saber sua origem, eu
sei que a árvore de onde foram colhidas não presta. Conhecemos a árvore pela qualidade
da fruta. Esse é um princípio que não precisa de demonstração.
O que Jesus quer dizer é que, semelhantes à figura das árvores e seus frutos, também
são as pessoas. As ações e as palavras de alguém sem caráter também não terão caráter. As
pessoas podem envernizar o exterior, podem disfarçar por um tempo, todavia, mais cedo
ou mais tarde, a má qualidade do seu coração ficará evidente por aquilo que elas falam,
pelas palavras que elas dizem, por aquilo que elas digitam. Cedo ou tarde, as palavras
revelarão que tipo de árvore aquela pessoa é. Esse é o primeiro ponto colocado pelo
Senhor Jesus.
Ele traz, então, três ilustrações para reforçar o que está dizendo. A primeira ilustração é
da fruta e da árvore (verso 33 – já explicado acima). A segunda é das cobras venenosas.
Isso aparece quando ele, no verso 34, diz: “Raça de víboras […]”. A palavra víbora
também poderia ser traduzida como ninhada de cobras. Inclusive, ela é uma serpente
extremamente venenosa e tóxica. Esses animais destilam veneno e morte, sendo que não
podem produzir perfume, alimento, bebida ou qualquer coisa boa. Elas sempre produzirão
veneno. Da mesma forma, pessoas más nunca poderão dizer coisas que são
verdadeiramente boas, espirituais, salvadoras, cheias de graça e que abençoam. “[…]
como podeis falar coisas boas, sendo maus? […]”, diz Jesus, referindo-se aos fariseus.
“Vocês nunca poderão falar a verdade, vocês nunca poderão dizer coisas boas, que
abençoam, que edificam, porque o problema de vocês não são as palavras, mas o coração.
Vocês são como uma ninhada de cobras ou como uma árvore que não presta, que só
produz frutos imprestáveis”.
A razão para isso está no fim do verso 34, em que Jesus diz: ”Porque a boca fala do
que está cheio o coração”. Aqui, ele estabelece uma relação direta entre a boca e o
coração. Geralmente, estabelecemos uma relação entre a boca e o estômago, mas Jesus
altera a anatomia humana nesse trecho, dizendo que a boca fala daquilo que o coração está
cheio. O coração representa aquilo que nós somos de verdade, aquilo que somos no
íntimo, aquilo que está oculto, aquela verdadeira natureza que as pessoas não percebem e
que se torna conhecida dos outros por aquilo que nós falamos e escrevemos. Alguns -
como eu já coloquei - até tentam disfarçar o que está no coração, porém, mais cedo ou
mais tarde, aquilo que ele é transborda pelo teclado ou pelas palavras ditas por ele.
O que revela a verdadeira identidade de uma pessoa não é só a aparência física, não é o
seu status financeiro, mas é aquilo que ela diz. É também a sua conversa, aquilo que ela
escreve.
Certa vez, li a história de um artista muito famoso que resolveu pintar um cenário que
ele tinha descoberto em um passeio que havia feito num determinado país da Europa. Fato
é que ele foi para um parque maravilhoso com o qual ele havia se encantado, levou o seu
cavalete, a sua paleta de cores e os pincéis. Era um dia belíssimo. Ele escolheu um lugar
onde havia um laguinho com árvores frondosas, de modo que os raios do sol se
infiltravam através das plantas e das folhas, fazendo desenhos coloridos. Enfim, era muito
bonita a cena, e ele começou a pintar aquele cenário magnífico. De repente, começou um
incêndio no bosque por conta de algum turista descuidado. Devido ao fogo que se
alastrava, começaram a sair daquele lindo e maravilhoso bosque cobras, porcos-espinhos,
ratos e aranhas.
Geralmente, as pessoas são como aquele bosque, mas espere chegar o incêndio da
raiva. É nesse momento que você verá o que sairá da boca da pessoa. Espere chegarem a
contrariedade, o confronto, o desagrado. É nesse momento que você verá que daquele
bosque bonito (a boca que fala ou os dedos que escrevem) sairão cobras e lagartos. Elas
até tentam disfarçar, mas chega uma hora em que não há mais jeito, o que a pessoa é se
manifestará, sairá pela boca, pelos dedos.
É exatamente isso que ele quer dizer: cedo ou tarde, assim como víboras só produzem
venenos, pessoas que têm problemas no coração evidenciarão essas falhas por aquilo que
elas escrevem.
Por fim, há a terceira ilustração do Senhor Jesus para esse ponto: o tesouro de alguém,
como está no verso 35: “O homem bom tira do tesouro bom coisas boas; mas o homem
mau do mau tesouro tira coisas más”. Mais uma vez, o tesouro de um homem é o seu bem
mais precioso e se encontra em seu coração, em seu íntimo. Ele o esconde por causa do
seu valor. Assim como uma pessoa cuida com muito zelo do seu tesouro, ela cuida do seu
interior, do seu coração, escondendo-o. Mas assim como um homem revela que tipo de
tesouro ele tem escondido na sua casa, arrancando os objetos nele contidos e exibindo-os,
também nós mostramos o que está entesourado no nosso coração por meio das palavras
que arrancamos dele.
O verbo tirar, utilizado no verso 35, no grego, significa literalmente deixar jorrar. É
como alguém que espreme uma pasta de dentes. Essa é a ideia. O homem bom espreme do
tesouro do seu coração coisas boas. Já o homem mau espreme do tesouro do seu coração
coisas que não prestam. Os homens maus colecionam e guardam coisas más no coração
como emoções, memórias, mágoas de rancor, de vingança, de impurezas sexuais. Quando
eles espremem tudo isso, quando eles estouram em acessos de ira ou frustração, revelam o
que está dentro deles. Deus arranca de dentro do coração o que está oculto para que a
verdade seja conhecida.
Da mesma forma, pessoas boas, como diz o Senhor Jesus, colecionam e guardam como
um tesouro coisas boas dentro de si: perdão, alegria, paz, gozo, benevolência, bondade,
misericórdia, sendo que eles fazem isso sair do seu coração e abençoam outras pessoas.
Em resumo, o que Jesus quis dizer nesse primeiro ponto que está presente dos versos
33 ao 35 é que as palavras dos fariseus revelavam quem eles eram de fato, ou seja, que
eles não conheciam a Deus, não eram pessoas salvas, embora tivessem aparência de
pessoas santas.
A aplicação disto é óbvia: as nossas palavras, semelhantemente, podem revelar o nosso
verdadeiro estado diante de Deus, apesar da nossa religiosidade, da nossa frequência à
igreja, da nossa tradição ou de outros exercícios espirituais que façamos. O que revela
realmente o que nós somos é aquilo que nós dizemos.
O Dia do Juízo

No Dia do Juízo, as pessoas darão conta diante de Deus de tudo que falaram. O verso 36
diz: “Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no
Dia do Juízo”. E eu acrescento: não só a palavra proferida, mas também a palavra escrita.
O Senhor Jesus, por meio desse fragmento, adverte-nos que há um dia que Deus
reservou para julgar as pessoas. Esse dia não é agora, mas é um dia que se encontra ainda
no futuro, quando Deus haverá de trazer a juízo as obras e as palavras de todas as pessoas
diante dele. Esse será o dia da vinda de Cristo, o fim deste mundo como nós o
conhecemos. É o dia que Deus reservou para fazer a justiça que tanto nós queremos. Ele
reserva um grande dia em que finalmente fará a justiça definitiva e completa deste planeta.
Nesse dia, ele cobrará de cada pessoa o uso que fizeram das palavras.
Jesus diz que ele pedirá conta de toda palavra frívola. Essa palavra, literalmente, no
grego, significa inútil. Ou seja, ele pedirá conta da palavra inútil, da palavra que não serve
para nada. Palavras, portanto, que não abençoaram, não edificaram, não ajudaram. Todos
nós haveremos de dar conta das palavras ditas por nós. E esse ponto é interessante, porque
- na primeira parte - o Senhor Jesus foca nas palavras más, nas palavras destruidoras. Mas,
na segunda parte, ele diz que Deus cobrará também as palavras frívolas, ou seja, não há
meio termo. Se você diz que não fala palavras que destroem a vida dos outros, a resposta é
que também você não fala nada que a abençoe.
Essa é a palavra inútil, a palavra frívola. É como uma anemia, que não é agressiva por
si só, visto que ela é a falta de algum elemento no organismo: o ferro, o cálcio, o que pode
levar à morte. Este é o seu perigo. Do mesmo modo, as palavras frívolas podem não
agredir, mas o problema é que elas são inúteis e é aí que reside o seu perigo.
Deus julgará as pessoas, então, de acordo com as palavras que elas disseram. E eu mais
uma vez acrescento: escreveram. E, no Dia do Juízo, não haverá misericórdia. De nada
valerão as desculpas que nós costumamos usar aqui, como: “Eu sou uma pessoa muito
sincera, muito autêntica, eu digo o que me vem à cabeça”; “Eu sou muito espontâneo, eu
falo assim, eu sou extrovertido, é assim que eu sou”; “Não, eu não tinha intenção, eu
estava só brincando, era uma suposição”. Já vi até pessoas dizendo assim: “É bom eu ser
assim, pastor, eu estouro e logo passa”. Mas e o estrago que esse estouro faz? Todos
sabemos o estrago que uma explosão faz.
Então, naquele dia, as palavras revelarão o que nós somos. Alguns exemplos ilustram
isso.
O que pessoas que falam mal de outras, contam vantagem, falam o que não devem
falar, comparam-se e criticam tudo revelam sobre si mesmas? Arrogância!
O que revelam sobre si pessoas que falam sem parar, acabando por dizer o que não
devem, dizendo-se extrovertidas e espontâneas? Falta de domínio próprio! Essas pessoas
não têm controle, são descontroladas.
E o que revelam sobre si os que expõem, além da sua própria vida, a vida da família
(filhos, marido/mulher) no Facebook? Insensatez.
E as pessoas que se expõem por meio de selfies constantemente, revelam o quê?
Inocência? É claro que não. Na verdade, revelam vaidade. São vaidosas. Uma selfie é
aceitável, mas dez? É vaidade mesmo!
Agora, o que revelam pessoas que postam piadas sujas, falam palavrões, republicam ou
reenviam vídeos e fotos sensuais compartilhados pelos amigos? Impureza no coração!
Afinal, os que querem andar com Deus não compartilham vídeos sensuais, palavrões ou
coisas dessa natureza. Porém, infelizmente, o que mais vemos na internet é crente
compartilhando lixo.
Acusações, ironias, zombarias. O que tudo isso revela? Mágoa, ódio. Brincadeiras
inconvenientes com as coisas de Deus e chocarrices revelam o quê? Irreverência.
A lista é grande. No Dia do Juízo, as palavras dirão exatamente quem nós somos. Aliás,
elas já dizem agora. Afinal, conhecemos uma pessoa por aquilo que ela fala, tanto pela
palavra dita quanto pela palavra escrita. E também porque hoje estamos na época da
imagem, eu acrescentaria: nós conhecemos uma pessoa por aquilo que ela fala, digita e
posta (estou me referindo à imagem, vídeo, enfim, compartilhamentos desse tipo de
arquivo que revela realmente o estado da pessoa).
Como o Senhor Jesus disse, Deus tem um dia reservado em que nós daremos conta de
todas as nossas comunicações, mas, às vezes, Deus começa o julgamento aqui neste
mundo. Por exemplo: nós lemos no livro do profeta Isaías que o rei da Assíria escreveu
uma carta contendo ameaças contra os israelitas e blasfêmias contra o Deus de Israel e a
enviou para o rei Ezequias. Este, por sua vez, pegou aquela carta (hoje seria um e-mail,
uma postagem), entrou no templo, estendeu-a diante de Deus e disse: “Senhor, foi isso que
ele escreveu”. Deus, naquela noite, julgou o exército dos babilônios. Um anjo passou e
destruiu milhares de soldados, efetuando o juízo divino sobre as palavras ditas por
Senaqueribe.8
Algum tempo depois, o rei Nabucodonosor estava passeando nos Jardins Suspensos da
Babilônia, uma das sete maravilhas do mundo, dizendo: “Não é essa grande Babilônia que
eu construí para o meu louvor e para minha glória?”. Deus o julgou imediatamente, e ele
caiu vítima de uma doença que o fez se comportar como um animal.9
Muitos séculos depois, quando Jesus estava sendo julgado por Pilatos, os judeus
disseram: “Nós queremos Barrabás, queremos Barrabás, caia sobre nós o sangue de Jesus
e sobre os nossos filhos”.10 Trinta anos depois, os romanos invadiram Jerusalém e
mataram todos os judeus ao fio da espada. Mais de meio milhão de judeus pereceu. Deus
fez de acordo com as palavras deles.
Às vezes, Deus julga aqui as palavras, mas aquelas que ele não julgar aqui estarão
reservadas para o Dia do Juízo e nesse dia não haverá misericórdia.
Querido leitor, quero lembrá-lo que não são apenas as nossas palavras faladas ou
escritas, não é somente o conteúdo delas, mas o tom com que as falamos. De repente, você
pode estar dizendo palavras escolhidas, palavras que não são ofensivas, mas o tom com
que você diz faz a diferença.
Sobre isso, há uma história interessante. Havia um pai que mandou o filho para estudar
no exterior. Após um tempo, ele recebeu um e-mail, dizendo: “Papai, me manda dinheiro”.
Imediatamente, ficou enfurecido. Relia o e-mail em voz alta, indignado. Então, chamou
sua esposa e disse, rispidamente: “Mulher, é por isso que eu não queria mandá-lo, isso é
um absurdo! Leia!”. A mãe, calma, olhou e disse: “Não é isso que está escrito”. O pai,
exasperado, vociferou: “Como não? Olhe!”, e releu o e-mail para ela. A esposa,
extremamente em paz, insistiu que não e releu, em tom suave e terno: “Papai, me manda
dinheiro”. É claro que o modo como ela leu fez toda a diferença. Não é o tom que faz a
música? Às vezes, não é a palavra, é o tom com o qual nós falamos que revela o que está
em nosso coração. Certamente, no Dia do Juízo Deus haverá de cobrar esse item também.
Justificação ou condenação

Neste último ponto, veremos que serão possíveis apenas dois resultados no julgamento
pelas palavras ditas.
O verso 37 diz: “porque, pelas tuas palavras, serás justificado e, pelas tuas palavras,
serás condenado”. Basicamente, o que Jesus fala, nesse ponto, é que nesse julgamento
ninguém poderá argumentar nada, porque as palavras serão a evidência. É como um
flagrante. As palavras ditas por nós serão usadas para definir o veredito, e para este não há
apelação, não cabe recurso, porque a evidência é clara e óbvia, pois estará presente ali.
Deus não chamará ninguém para testemunhar contra você. Ele simplesmente tomará as
suas palavras. Ele não precisará chamar testemunha A, B, C ou D para acusação, porque
bastará ele tomar as suas palavras para chegar a um veredito, que poderá apenas ser:
justificado ou condenado.
Jesus diz: “[…] pelas tuas palavras, serás justificado […]”. Não entendamos, a partir
desse trecho, que nossas palavras nos salvam. O que o Senhor diz é que nossas palavras
mostram que fomos salvos, que tivemos um coração transformado, mudado, orientado
para Deus e para o próximo.
É verdade que, eventualmente, mesmo um crente pode dizer uma bobagem, mas ele,
por certo, arrepende-se daquela bobagem proferida, pois sabe que disse o que não devia.
As palavras de um regenerado, de alguém que nasceu de novo, tendem a ser palavras que
revelam um coração arrependido, quebrantado, pois esta pessoa é uma nova criatura.
Então, no Dia do Juízo, todas as palavras ditas por ela serão apenas a evidência de que ela
tem um coração que foi perdoado e regenerado, pois Deus mudou o seu coração.
Palavras de perdão, encorajamento, verdade; palavras justas, cheias de graça,
temperadas com amor; palavras de temor a Deus, amor a Cristo; palavras que refletem a
devoção a Deus e ao seu reino. Tudo isso é evidência da salvação. Essas palavras
evidenciam que, de fato, uma pessoa está salva e, por isso, no Dia do Juízo, ela será
justificada. Notemos que é uma declaração que Deus dará de que ela está perdoada e
justificada de todos os seus atos errados, porque as palavras mostraram que essa pessoa se
quebrantou diante de Deus, humilhou-se, pediu perdão e viveu em humildade diante do
Todo Poderoso.
Por sua vez, o segundo veredito, na parte final do verso 37, que diz: “e, pelas tuas
palavras, serás condenado”, não significa que as palavras de alguém o condenarão. Na
verdade, suas palavras revelarão o seu verdadeiro estado, a saber: que, de fato, nunca
conheceu a Deus, que o seu coração nunca foi mudado, que seu tesouro é mau, que a raiz
da árvore era má, que a seiva não prestava. E a prova disso são as palavras ditas por essa
pessoa: críticas, sujeira, malícia, mentira, calúnia, acusação, zombaria, escárnio, enfim, a
lista é grande.
Deus não precisará chamar ninguém para condená-lo. Ele apenas tomará as suas
palavras. É bom lembrar que condenação aqui representa o sofrimento eterno. A partir do
momento que a pessoa for declarada culpada, a sentença é o sofrimento eterno, longe de
Deus e da sua glória.
Aplicações

Querido leitor, quero terminar fazendo algumas aplicações.


Quando eu e minha família nos mudamos para São Paulo, alguns anos depois, Minka,
minha esposa, plantou um pé de uva, uma parreira em nossa casa. As primeiras uvas eram
muito ruins, amargas, azedas. Não serviam nem para suco. Mas, conforme os anos foram
passando, tudo melhorou. Hoje é uma das uvas mais doces que eu conheço. Quando
vamos para São Paulo, encontramos, logo na entrada da nossa casa, deliciosos cachos
pendurados. Conclusão: era uma árvore ruim, mas mudou, produzindo hoje frutos bons.
A mesma coisa pode acontecer com você. Deus pode mudar seu coração, sua vida, mas
para isso é preciso que, primeiramente, você seja honesto e se avalie. É preciso que você
pense nas mentiras que já disse e diz, na falta de controle, no ataque aos outros, nas
críticas, fofocas, palavrões, bobagens, palavras inúteis, exposições de si mesmo em
público, fotos e vídeos compartilhados.
Será que tudo isso não revela algo mais profundo? Será que não revela que o seu
relacionamento com Deus, na verdade, não existe ou, se existe, está precisando mudar
seriamente? Já pensou que talvez essas atitudes, que lhe parecem naturais e que brotam
naturalmente do seu coração, revelam que você nunca nasceu de novo e que, sendo assim,
é necessário que você se arrependa, converta-se? O problema não são as palavras, mas a
origem delas. O seu coração precisa ser mudado.
Só há um caminho para solucionar esse problema: o arrependimento sincero. É preciso
se achegar diante de Deus, reconhecer o seu estado e dizer: “Deus, eu reconheço que as
minhas palavras indicam o meu estado, o meu relacionamento com o Senhor, e hoje eu
quero pedir perdão, quero pedir que o Senhor me mude, que o Senhor conserte a minha
vida, que o Senhor me transforme”.
Após isso, dê evidência de arrependimento, como por exemplo, consertando o que for
possível. Talvez você tenha ofendido ou magoado alguém; destruído a reputação de uma
pessoa; mentido. Enfim, peça perdão. Talvez você tenha que apagar vídeos e fotos do seu
perfil ou até mesmo bloquear os que encaminham esse tipo de sujeira para você.
Ore a Deus por uma mudança profunda em sua vida, porque, se o seu coração for
regenerado, você nem precisará mais se preocupar com as palavras, pois elas brotarão
naturalmente.
A graça de Deus me alcançou aos 22 anos, porém, antes da minha conversão, a cada
seis palavras que eu dizia, cinco eram palavrões. Só com isso você pode imaginar como eu
era. Reunia-me para falar mal dos outros, para contar as aventuras emocionais que eu e
meus amigos tínhamos, enfim, contar vantagens. Para ilustrar o primeiro efeito que a
graça de Deus fez na minha vida quando me alcançou, cito uma cantiga infantil que
aprendi no jardim de infância. Ela dizia: “O sabão lava meu rostinho, lava meu pezinho,
lava minha mão”. Pois é. Jesus lavou minha boquinha, por assim dizer. Não deu uma
semana e todo palavrão, entre outras coisas, tinha ido embora. A questão não era o
palavrão, mas a fonte. Ela foi mudada. O coração foi mudado, logo, as palavras
acompanharam essa mudança. Peço a Deus que te dê um novo coração.
Você está procurando entrar num relacionamento amoroso? Não se impressione com a
aparência. Às vezes, a pessoa é extremamente bela, mas completamente vazia por dentro,
tendo apenas porcarias e bobagens na cabeça; ou pensa que é dona do mundo. Enfim,
converse por um tempo e você tirará suas conclusões. Mas não se impressione com a
aparência. Gaste tempo com conversa. É por isso que o namoro cristão diz tanto, porque
você tem que conversar. Sente-se na sala – não precisa que seus pais ou alguém estejam
juntos – e diga: “Vamos bater papo, vamos conversar, vamos falar sobre as coisas da
vida”. De repente, você perceberá o que a pessoa tem de bonito e também de tolo. Você
pode chegar a essa conclusão, uma vez que beleza não se põe à mesa e não faz casamento
feliz. Tenha certeza disto. Você, com certeza, preferirá alguém considerado feio pelos
padrões socialmente estabelecidos, porém sábio. É isso que fará você feliz e que manterá
você em um casamento.
Você está procurando amigos? Não se impressione com status. Está procurando
relacionamentos? Não se impressione com aparência. Antes, converse, ouça o que a
pessoa diz. Só assim você saberá o que está no coração dela de verdade.
Mas vou inverter o quadro. Até aqui expus considerações sobre você, leitor. Mas o que
fazer com o outro, com os que estão à sua volta? O que fazer quando você encontra
pessoas da igreja, da família, irmãos em Cristo cujas palavras revelam que alguma coisa
está errada no coração?
Primeiramente, você conversará com aquela pessoa em particular. Se for necessário,
imprima o que ela escreveu e, em oração, pedindo a Deus que lhe dê graça e sabedoria,
converse com ela. Jesus disse que, se nós fizermos isso e a pessoa nos ouvir, nós
ganhamos aquela pessoa. Você já pensou que privilégio ganhar uma pessoa para Cristo? E
lembre-se: quando você for conversar, o foco não é tanto as palavras que foram escritas
(as imagens, as fotos, os vídeos), mas o coração, porque as palavras apenas revelam o que
há no coração.
Se necessário, converse uma segunda vez, todavia leve consigo duas outras pessoas. Se
mesmo assim não houver mudança, finalmente, e se for o caso, busque ajuda pastoral para
essa pessoa, mas não desista dela. De repente, as palavras mostram que ela está
desesperadamente precisando de ajuda, não de condenação. É nosso dever ajudá-la.
Conclusão

O que faremos diante dessa exposição? Antes de preparar esse sermão, orei a Deus e
perguntei a ele como relacionaria essa mensagem com o Senhor Jesus. Disse que não
queria, por meio dessa exposição, levar as pessoas a serem legalistas, colocando estes
conselhos em prática à força da carne. Também não queria levá-las a se sentirem
inferiorizadas e desesperadas. Questionei que tipo de esperança eu poderia trazer.
Após um tempo, vieram-me as palavras do Senhor Jesus, registradas no Evangelho de
João, capítulo 15, versos 4 e 5: “permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como
não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira, assim, nem
vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem
permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer”.
É na união com nosso Salvador, unidos com o Senhor vivo e exaltado, que nós teremos
o poder de um coração regenerado, que produz bom fruto e que profere palavras que
abençoam, salvam, consolam, edificam, glorificam a Deus. Você quer isso?
Em oração, peçamos a Deus que nos ensine e nos dê arrependimento verdadeiro.
Também clamemos por coragem, a fim de enfrentarmos as consequências das nossas
palavras. E, por último, mas não menos importante, supliquemos que, unidos a Jesus,
possamos dar bons frutos.
Amém!
ORAÇÃO
Senhor Deus, pedimos que nos ajude a dar bons frutos e nos ensine a nos arrependermos verdadeiramente. Ajude-
nos, Senhor, a termos coragem para enfrentar as consequências das palavras que proferimos, e que pelas nossas
palavras sejamos reconhecidos como pessoas que foram transformadas e redimidas pelo sangue de Jesus Cristo.
Amém!

7
Sermão pregado em 28 de setembro de 2014.
8
Cf. 2 Reis 19:14-37
9 Cf. Daniel 4

10 Cf. Mateus 27:11-26


5
UM IRMÃO EM CRISTO
ME DEU PREJUÍZO: E AGORA?
Texto-base: I Coríntios 6:1-1111
Introdução

Uma das maiores causas de conflitos, brigas e questões entre irmãos em Cristo é
exatamente a divergência em assuntos que tratam de propriedades, bens, dinheiro,
sociedades, empréstimos, ser fiador. Eu vi isso durante toda minha vida. Poucas áreas são
tão poderosas para destruir relacionamentos entre cristãos como as que envolvem
dinheiro. E é diante de um caso desse, ocorrido na igreja de Corinto, que nós estamos.
Ao que parece, um membro da igreja havia prejudicado outro membro financeiramente.
O que fora prejudicado resolveu levar o irmão que o prejudicou à Justiça sem antes tentar
resolver a questão no âmbito da comunidade cristã.
O apóstolo Paulo diz que era uma queixa, como vemos na primeira parte do verso 1:
“Aventura-se algum de vós, tendo questão contra outro […]”. Ao que parece, não havia
acordo entre os dois. Existia uma queixa, uma questão entre eles. Paulo diz, no fim do
verso 2, que era algo mínimo: “ […] sois, acaso, indignos de julgar as coisas mínimas?”
(grifo meu). É importante, antes de prosseguir, chamar a atenção do leitor ao trecho
grifado. “Coisas mínimas” serve para estabelecer que, diante das coisas eternas, essas
questões eram pequenas. É sobre esse ponto que Paulo tratará.
No verso três, ele diz: “Não sabeis que havemos de julgar os próprios anjos? Quanto
mais as coisas desta vida!”. Portanto, percebemos que essa queixa estava relacionada a
algum bem material, algo a ver com dinheiro. Isso fica mais claro no verso 4: “Entretanto,
vós, quando tendes a julgar negócios terrenos, constituís um tribunal daqueles que não
têm nenhuma aceitação na igreja.” (grifo meu). O termo destacado evidencia ainda mais
que se trata de algo que envolve dinheiro, bens ou propriedades.
Nos versos 6 e 7, o apóstolo diz que um irmão havia cometido injustiça e dano contra
outro: “Mas irá um irmão a juízo contra outro irmão, e isto perante incrédulos! O só
existir entre vós demandas já é completa derrota para vós outros. Por que não sofreis,
antes, a injustiça? Por que não sofreis, antes, o dano?”.
Não sabemos exatamente do que se tratava, mas não é difícil imaginar. Talvez uma
sociedade. Dois irmãos em Cristo, da mesma igreja, resolveram começar um negócio que
não deu certo. Eles não conseguiram chegar a um acordo, e o caso foi parar nas barras do
tribunal.
Poderia ser também uma herança deixada por um pai que falecera. Isso é muito
comum. Irmãos que são amicíssimos durante toda a vida até que o pai morre e deixa uma
herança. A amizade acaba, e a irmandade se extingue. Cada um vai para o seu lado. Pode
ter sido também um caso desses que foi parar nas barras do tribunal.
Ainda poderia ser um empréstimo. Um irmão estava em aflição, outro generosamente
emprestou-lhe. Aquele não pagou. Ambos não conseguiram chegar a um acordo para
resolver, e o caso foi novamente para a Justiça.
Como apresentado, as possibilidades são muitas. Paulo não nos diz o que é, mas, com
certeza, era algo relacionado a algum desses pontos. Algo que parou nos tribunais da
cidade de Corinto.
O Império Romano mantinha, nas principais cidades dos países dominados, tribunais e
magistrados que julgavam de acordo com a lei romana – um direito muito bom por sinal.
Havia um sistema judiciário – que, inclusive, serviu de base para muitas democracias de
hoje –, ao qual pessoas se dirigiam a fim de dirimir as suas questões.
Mas a grande indignação de Paulo diz respeito ao fato de irmãos estarem, num bom
português, lavando roupa suja perante os tribunais da cidade. Os coríntios estavam
levando assuntos, como os apresentados acima, diante de tribunais compostos por pessoas
que não tinham nem a aceitação da igreja.
Não pensemos que Paulo está denegrindo o sistema judiciário, porque, no capítulo 13
de sua carta aos Romanos, ele fala que o magistrado e as autoridades civis são instituídos
por Deus.
A questão aqui é outra. Voltemos ao verso 1, que diz: “Aventura-se algum de vós, tendo
questão contra outro, a submetê-lo a juízo perante os injustos e não perante os santos?”.
Ou seja, “Você tem coragem, você se atreve a fazer isso?”. Paulo está indignado.
Essa indignação recai sobre quatro pontos: 1) Um irmão prejudicou outro
financeiramente. Isso, por si só, já havia gerado a indignação do apóstolo, pois algo assim
nem deveria ter acontecido; 2) Eles não conseguiram chegar a um acordo e, por isso,
foram para as vias de fato; 3) O prejudicado resolveu buscar a solução nos tribunais civis
em vez de procurar uma solução dentro da igreja com irmãos sábios que pudessem ajudá-
lo; e 4) A confusão estava feita, talvez pela igreja ter sido omissa ou por não ter percebido
e oferecido ajuda a tempo.
Paulo argumenta que casos de querelas entre irmãos, casos que envolvem patrimônios,
bens, negócios, dinheiro deveriam, primeiramente, ser resolvidos entre os irmãos e não
nas barras dos tribunais. Ele argumentará sobre isso. Mas é importante observar que essa
orientação que Paulo está dando tem a ver com disputas entre irmãos relacionadas a
propriedades, bens materiais, dinheiro, porque há casos em que é dever nosso acionar as
autoridades contra pessoas que se dizem cristãs, mas estão cometendo crimes.
Por exemplo, uma pessoa que frequenta a igreja e se diz crente, mas bate na esposa,
tem que ser denunciada, pois está cometendo um crime. Todavia, Paulo não está falando
sobre isso. Há assuntos diante dos quais, se você se mantiver calado, você se torna
cúmplice. Mas aqui é uma questão de disputa de dinheiro. Como resolver uma situação
como essa?
Paulo, então, apresenta cinco argumentos para que problemas como aquele fossem
resolvidos dentro da própria comunidade.
Os santos, junto a Deus, julgarão o mundo

O primeiro argumento (que vai do primeiro ao terceiro versos) é que disputas e questões
entre os crentes devem ser primeiramente submetidas aos santos. Quando ele diz
“Aventura-se algum de vós, tendo questão contra outro, a submetê-lo a juízo perante os
injustos e não perante os santos?”, precisamos entender que a palavra injustos, no Novo
Testamento, com frequência é usada apenas para descrever aqueles que não são justos
diante de Deus, que não foram perdoados, portanto os incrédulos em geral. Porém não
significa que os juízes de Corinto eram corruptos. A questão é que, diante de Deus, eles
não tinham justiça, pois não haviam sido justificados em Cristo Jesus. É como se Paulo
estivesse dizendo: “Vocês estão resolvendo isso perante os descrentes e não entre os
crentes”.
Quando ele chama os da igreja de santos, ele não quer dizer que estes são perfeitos, até
porque dois estavam brigando no tribunal. Então, é evidente que santo aqui não significa
que eles são perfeitos, mas santo significa que eles foram perdoados e separados por Deus.
É isso que essa palavra significa: separado do mundo para o serviço de Deus. Também não
significa que eles não têm pecado.
Então, as questões têm que ser resolvidas primeiramente na comunidade. Pensando
nisso, acrescento que esse é mais um argumento a favor da necessidade de o cristão viver
em comunidade, ainda mais hoje, quando o movimento dos desigrejados se fortalece no
Brasil e no mundo. Trata-se de um pessoal que quer Cristo, mas não quer a igreja. Eu não
sei como esse movimento entende esta passagem, porque ela pressupõe que Deus usa a
igreja como grupo, como comunidade, como ajuntamento de irmãos sob o senhorio de
Cristo para ser um lugar onde nós resolvemos nossos problemas. Como uma pessoa que
julga ser crente pode sê-lo em casa, sozinha? Como pode ser um crente na internet? Como
ela poderá usufruir desse privilégio de fazer parte de uma comunidade que restaura, que
cura, que abençoa e que ajuda? É bem verdade que fere, às vezes, mas a mesma mão que
fere é a que vai curar.
“Vocês têm que resolver primeiro entre vocês”, diz o apóstolo Paulo. Em seguida, ele
dá o seguinte argumento, presente nos versos dois e três: “Ou não sabeis que os santos
hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deverá ser julgado por vós, sois, acaso, indignos
de julgar as coisas mínimas? Não sabeis que havemos de julgar os próprios anjos?
Quanto mais as coisas desta vida!”.
Percebam que Paulo parte do maior para o menor. A lógica é a seguinte: no Dia do
Juízo, os crentes em Cristo Jesus estarão ao seu lado quando ele for julgar o mundo. Ou
seja, naquele grande Dia do Juízo que Deus tem reservado para nós, não sabemos quando
será, pode ser mais breve do que imaginamos, quando ele chamar a si toda a humanidade
para prestar contas, os que são de Cristo estarão ao lado dele para julgar o mundo. Nós
vamos julgar os ímpios, os idólatras, os imorais, os incrédulos, os aborrecedores de Deus,
os violentos, os assassinos, os traficantes, enfim, todos esses que nunca se arrependeram
de nada comparecerão diante de Cristo, e estaremos do lado de cá, com Jesus, para julgar
o mundo. E quando terminar o julgamento e o juiz bater o martelo e disser para entrar o
próximo, então o próprio Satanás acompanhado de seus anjos caídos e os demônios
aparecerão no tribunal e nós os julgaremos. Nós pronunciaremos o juízo sobre eles.
“Vocês não sabem disso?”, pergunta o apóstolo Paulo duas vezes. “Vocês que julgarão o
mundo e os anjos não são capazes de julgar as coisas dessa vida, coisas mínimas? Não são
capazes de resolver esse problema entre vocês?”.
Boa parte do problema da igreja é exatamente esse que Paulo está dizendo. É quase que
uma repreensão irônica. Não é que eles não sabiam. Eles sabiam, mas, como acontece com
frequência em nossa vida, não percebemos as implicações práticas. O que Paulo está
dizendo é: “Sejamos coerentes, irmãos, pois nós vamos julgar o mundo e os anjos. Será,
então, que não temos condições de julgar uma querela entre irmãos por questão de
dinheiro? Não é possível resolver isso?”. Com aquele comportamento, era como se a
igreja dissesse: “Nós somos incapazes de participar do julgamento do mundo e dos anjos,
porque não conseguimos nem resolver isso aqui”.
Este é o primeiro argumento do apóstolo Paulo: no Dia do Juízo, os que são de Cristo,
os chamados santos, santificados em Cristo Jesus, perdoados e aceitos por ele, estarão
julgando o mundo e os anjos. Por isso, mesmo eles deveriam ser capazes de julgar os
problemas entre os irmãos sem ter que levá-los às barras dos tribunais.
Expondo à vergonha a igreja e o Evangelho

O segundo argumento de Paulo está presente nos versos 4 a 6. Para Paulo, levar aos
incrédulos questões de irmãos era submeter a igreja, o Evangelho e o nome de Deus à
vergonha pública. Era, como já dito acima, lavar a roupa suja em público. Notemos o que
ele diz no verso 4: “Entretanto, vós, quando tendes a julgar negócios terrenos, constituís
um tribunal daqueles que não têm nenhuma aceitação na igreja”. O que ele quer dizer é o
seguinte: se algum daqueles juízes do tribunal de Corinto quisesse, um dia, ser membro da
igreja, ele não seria aceito, porque naturalmente ele teria que se arrepender da sua
imoralidade, dos seus pecados, da sua idolatria, ou seja, da adoração ao imperador
romano, caso contrário não seria aceito. Logo, como levar um problema entre irmãos
diante de uma pessoa que não seria nem aceita no seio da igreja, porque lhe falta
arrependimento dos seus pecados?
Às vezes, penso o que um juiz desse diria: “Olhe, esses crentes cantam na igreja ‘eu te
amo, meu irmão; eu te amo, meu irmão’, mas, quando o assunto é dinheiro, eles se
estapeiam”. Vocês, leitores, não acham que um juiz, quando recebe dois evangélicos que
buscam resolver um problema financeiro, não pensa assim? É exatamente isso que ele diz.
Falem com pessoas que trabalham nessa área e vocês verão a zombaria e o escárnio que
são feitos: “Olhem os dois irmãos brigando por dinheiro! Eles cantam ‘tudo entregarei,
tudo entregarei’, mas na hora de entregar o dinheiro eles se estapeiam”.
Que vergonha! Que vergonha! Por isso, Paulo diz: “Para vergonha vo-lo digo. Não há,
porventura, nem ao menos um sábio entre vós, que possa julgar no meio da irmandade?”.
O que eu acho interessante nessa passagem é que a igreja de Corinto julgava ser espiritual.
Se estudarmos toda a história da relação de Paulo com essa igreja, as duas cartas
enviadas por ele a essa comunidade, veremos que ela se achava realmente espiritual. Era
uma igreja que tinha a manifestação do dom de línguas, profecia, enfim, dons que eram
considerados essenciais e muito importantes no culto. Esses irmãos de Corinto se achavam
superespirituais, conforme Paulo diz em pelo menos duas passagens. O apóstolo, em
resposta, então diz: “Vocês acham que são espirituais, porque vocês têm todas essas
manifestações no meio de vocês, mas vocês não têm um irmão sábio para resolver esse
problema!”. Isso é espiritualidade?
Contextualizando para os nossos dias, de que adianta a ortodoxia, a firmeza doutrinária,
um culto excepcional, se nós não conseguimos resolver os nossos problemas relacionados
ao dinheiro entre irmãos? E evoco o apóstolo, que diz: “Para vergonha vo-lo digo […]”.
Será que nós não temos irmãos com discernimento que possam julgar e resolver esses
problemas sem expor a igreja, sem expor o nome do Evangelho, o nome de Deus nas
barras do tribunal?
Perder por amor ao Evangelho

Neste terceiro argumento, preciso que o leitor tenha paciência para receber as palavras do
apóstolo Paulo. Faço minhas as palavras de Jesus: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!”.
O que Paulo está dizendo é que é preferível sofrer o prejuízo a expor o nome de Cristo,
o Evangelho e a igreja ao escárnio e zombaria do mundo. No verso sete, ele começa
dizendo: “O só existir entre vós demandas já é completa derrota para vós outros. […]”. A
primeira derrota era eles viverem brigando. E não era uma derrota parcial. Era um
verdadeiro 7x1, Alemanha x Brasil, a derrota completa. Já a segunda pior derrota, por sua
vez, era a igreja levar os problemas internos para serem julgados pelo mundo.
A orientação de Paulo no verso sete diz: “Por que não sofreis, antes, a injustiça? Por
que não sofreis, antes, o dano?”. Em outras palavras, Paulo diz: “Por que, antes, vocês
não escolheram abrir mão, saírem prejudicados, perderem, saírem defraudados do que
levar o nome de Cristo no tribunal? É preferível vocês perderem a mancharem o nome de
Cristo”.
Paulo não está encorajando os crentes a serem enganados e ludibriados por outros
crentes sem reagir, porque, infelizmente, há pessoas nas igrejas que se aproveitam da
bondade dos irmãos. O que ele realmente quer dizer é que essas coisas nem deveriam
acontecer. Todavia, se acontecerem, ele diz que a igreja tem que resolver seus problemas
entre os domésticos na fé. O dano e o prejuízo precisam ser sanados. Enfim, a irmandade,
entre si, tem que resolver. No entanto, quando não for possível, restando apenas levar o
caso ao tribunal, Paulo apresenta uma terceira alternativa: abrir mão, perder! Mas jamais
um irmão deve processar o outro no tribunal para não expor o nome de Cristo.
No entanto, só terá essa atitude quem considera a igreja, o nome de Deus e o Evangelho
mais caros e preciosos do que os bens materiais. Porque se a pessoa não se importa com o
que o mundo pensará do nome de Cristo, do Evangelho, da igreja, tendo como única
preocupação o dinheiro, ela, certamente, recorrerá à Justiça terrena, não medindo as
consequências de seus atos na busca pelo que é seu.
Entretanto, se há amor pela glória de Deus, pelo nome de Jesus Cristo acima de
qualquer coisa, o cristão considerará a possibilidade de sair perdendo nesse sentido,
todavia ganhará de Deus aprovação, sabendo que ele haverá de recompensá-lo.
“Não se deixem enganar”

É interessante notar que Paulo, para iniciar esse argumento, novamente usa a expressão
“não sabeis?”. Nestes versos (9 e 10), ele adverte a igreja dizendo que os injustos não
herdarão o reino dos céus. Estes farão de tudo para terem herança nesta vida. Eles brigarão
a ferro e fogo para terem o que é seu e para terem dinheiro, mas uma coisa é certa: os
injustos podem até herdar algo nesse mundo, mas eles não herdarão nem entrarão no
Reino de Deus.
Veja como Paulo diz no verso 9: “Não vos enganeis”. Sejamos francos, a coisa mais
fácil do mundo é nos enganarmos a fim de fazermos o que não presta. E as desculpas são
muitas: “Deus perdoa; Deus não liga para isso; também tenho meus direitos; ele não vale
nada etc.”. Nós temos uma coleção enorme de mecanismos de defesa e autojustificação.
Por isso, Paulo, conhecendo a natureza humana, diz: “Não vos enganeis”. Ou seja, “Não
caia no autoengano de pensar que Deus não está vendo essas coisas e que, para ele, elas
não têm importância”.
E então, para deixar claro que não é apenas uma questão menor ou uma questão de
discordância de dinheiro, ele coloca uma lista de elementos para os quais todos olham e
dizem: “Não estou nessa lista!”, mas o injusto está exatamente qualificado e encaixado
nela. Eis a lista: nem os impuros (que cometem impurezas sexuais), nem os idólatras (que
adoram outros deuses que não o Deus único e verdadeiro), nem os adúlteros (que vivem
traindo seu cônjuge), nem os afeminados, nem os sodomitas (em uma relação
homossexual, os primeiros são passivos, os segundos, ativos).
O leitor poderia perguntar: “Mas alguém que prejudica seu irmão e é injusto estaria
enquadrado nessa lista?”. Eu respondo que está enquadrado exatamente nessa lista. Não se
enganem, pois os injustos não entrarão no reino de Deus, assim como também todos os
outros mencionados aqui.
Agora, obviamente, uma distinção importante precisa ser feita. Às vezes, você
prejudicou um irmão em Cristo, mas está ciente de sua ação, arrependido e procurando
meios para resolver o assunto. Se esse é o caso, essa mensagem não é para você.
É válido lembrar o exemplo de Davi, que adulterou cometendo um pecado contra Deus.
Porém, posteriormente, arrependeu-se e foi perdoado por ele. Se você, do mesmo modo,
arrependeu-se, essa mensagem não é para você.
A mensagem de Paulo é para aqueles que se dizem irmãos, mas que vivem na prática
da embriaguez, da mentira, da imoralidade, do adultério, da roubalheira, além da prática
da injustiça contra irmãos. Essa é a lista dos que vivem nestas práticas. Estes, certamente,
não entrarão no reino de Deus.
“Não se deixem enganar”, diz o apóstolo Paulo.
Nova vida debaixo da graça de Deus

O último argumento de Paulo (verso 11), com o qual ele termina, diz: “Tais fostes alguns
de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome
do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus”.
Que argumento maravilhoso! Ele diz: “Meus irmãos, alguns de vocês fizeram parte
dessa lista”. É importante dizer que essa lista reflete a sociedade de Corinto. Essa cidade
era extremamente corrompida. Escavações arqueológicas na antiga Corinto desenterraram
tabernas que possuíam um duto que trazia bebida alcoólica. Às vezes, achamo-nos tão
avançados, mas naquela época os coríntios já tinham uma espécie de conduíte que
transportava a bebida direto para o consumo do cidadão. Algo sofisticado.
Também foi descoberto que nas paredes dos templos onde ocorriam os cultos aos
deuses pagãos havia desenhos de órgãos genitais, devido a uma mistura de prostituição e
religião, algo muito antigo que perdura até os dias de hoje.
A cidade de Corinto era tão corrompida que na antiguidade se cunhou, em grego, o
verbo corintianizar, que significava corromper alguém. Se alguém dissesse a outro: “Você
é um coríntio”, seria o mesmo que dizer: “Você é um corrupto”.
Era essa a cidade onde Paulo foi pregar o Evangelho. Fato é que muitas daquelas
pessoas que tinham esse estilo de vida se converteram e creram no Senhor Jesus. Sobre
isso, Paulo diz: “Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes […]” (destaque meu). O
termo destacado está na linguagem figurada e remete à lavagem de purificação do Antigo
Testamento, em que o judeu, quando pecava, oferecia sacrifícios e era borrifado com
sangue ou com uma água especial, que era aspergida sobre ele, significando que ele estava
sendo lavado do seu pecado.
E continua: “[…] mas fostes santificados […]”. Em outras palavras, ele quer dizer que
eles foram separados do mundo e que o Espírito de Deus começou a trabalhar neles. Em
seguida, completa: “[…] mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no
Espírito do nosso Deus”. Ou seja, Deus perdoou todos os pecados cometidos. Todos os
que faziam parte da lista citada por Paulo e se converteram foram perdoados em nome do
Senhor Jesus. Não porque tinham merecimento, mas por causa do nome do Senhor Jesus e
do poder do Espírito do nosso Deus, para quem não existe caso difícil.
Olhem essa lista. Nela é citado o afeminado e o sodomita. Há pessoas que dizem que
não existe solução para isso. Mas é uma propaganda enganosa. O Evangelho pode mudar
qualquer pessoa. E a prova é que aquelas pessoas tinham mudado.
E agora o raciocínio é o seguinte: “Vocês já mudaram, já foram aceitos por Deus. Mas
isso que vocês estão fazendo um com outro, essas disputas entre vocês fazem parte da vida
antiga dos injustos, que não herdarão o Reino de Deus. Se alguém está em Cristo é uma
nova criatura e as coisas velhas passaram, tudo se fez novo. A vida é nova, os costumes
são novos, as atitudes são novas”.
Porém, hoje, a pessoa se declara evangélica, passa a frequentar uma igreja evangélica e
a seguir todo o ritual evangélico, mas ela continua como era antes. Ela continua a fazer
negócios como fazia antes, continua a se divertir como se divertia antes, a tratar a mulher
(ou o marido) como tratava antes.
Eu sei que, às vezes, quando nós nos convertemos, é necessário um tempo até que a
nossa cabeça se reajuste àquilo que o nosso coração já se reajustou. Gosto de estabelecer a
seguinte comparação: pense em um copo que você encheu com aquele caldinho de feijão
bem gostoso. Quando terminou de tomá-lo, o copo ficou todo sujo. Então, você o coloca
embaixo da torneira e deixa a água limpa entrar. Não é preciso fazer nada, apenas deixar a
água entrar. Após um tempo, o copo estará limpo.
A santificação é mais ou menos assim. Deus nos recebe como copos sujos, e a Palavra
dele nos vai limpando. Ela vai dizendo o que nós precisamos mudar e fazer, qual o alvo de
Deus para nossa vida. Dessa forma, vamos ouvindo, obedecendo e, consequentemente,
mudando. Isso é um processo que ocorre mais rápido em uns, mais lento em outros. Mas é
assim que funciona.
Então, eu entendo que alguns crentes estavam agindo como o mundo, porque eram
talvez novos convertidos, logo, imaturos. Todavia, esse comportamento, após anos e anos
de Evangelho e de igreja, não deve mais ser admitido.
Como disse Paulo: “Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes
santificados, mas fostes justificados […]”, portanto os cristãos precisam viver como tais.
Conclusão

Minha primeira palavra de conclusão e aplicação são algumas sugestões preventivas. Eu


queria que você lesse com atenção e entendesse que eu estou levando em consideração
algumas coisas: somos pecadores, falhos, corruptos, endurecidos. Estamos em um
processo de santificação. Além disso, há de se considerar que nem todos que estão no rol
da igreja estão no rol do Reino de Deus. Há muitos que estão na igreja, mas que nunca se
converteram de verdade.
Sendo assim, eu dou a você algumas orientações:

1. Seja extremamente cauteloso ao contratar um crente para o seu negócio,


especialmente se for da mesma igreja. Nunca contrate quem você não pode demitir. É
duro, mas é um conselho para uma situação real. A menos que você, após ele entrar
na justiça, esteja pronto para sofrer o dano. Salvo isso, pense bem!
2. Pense muito e ore mais ainda antes de fazer uma sociedade com algum irmão,
especialmente se for da mesma igreja, porque se a sociedade não der certo, isso
respingará na sua família, nos seus amigos, a igreja tomará partido de ambos os
lados. A não ser que você esteja disposto a sofrer o dano, não faça isso.
3. Se você emprestar dinheiro a um irmão, especialmente se for da mesma igreja, faça
isso sem esperar receber de volta, assim como Jesus ensinou. É a melhor coisa do
mundo. Eu tive um pastor que me ajudou muito quando eu era novo. Ele me contou o
que fazia. Se um irmão viesse até ele e, por conta de uma necessidade, pedisse, por
exemplo, R$ 1.000,00 emprestados, ele dizia: “Não, eu não vou emprestar R$
1.000,00, eu vou te dar R$ 500,00 e você não precisa me pagar. Você não me deve
nada”. Por que isso? Porque se o irmão não paga, você perde o dinheiro e o irmão,
entre outras coisas. Então, pense bem antes de emprestar dinheiro a um irmão,
especialmente se for da mesma igreja. Pode até parecer que eu estou sendo cruel, mas
a igreja tem outros mecanismos para ajudar irmãos que estão com problemas ou
endividados. Existe uma junta diaconal que, a partir dos dízimos e ofertas da
comunidade, tem recursos que podem ajudar se o caso pedir essa postura.
4. Reflita bastante antes de aceitar ser fiador de um irmão, especialmente se ele for da
mesma igreja, porque se o irmão, por algum motivo, não pagar, o problema
financeiro será o menor diante da crise que se estabelecerá na relação de vocês. Ela
nunca mais será a mesma.

Sendo assim, cuidado com o dinheiro que você possui, porque ele tem um poder
extraordinário para destruir família, relação, amizade e dividir a igreja.
Agora, quero orientar quem já está envolvido em uma situação complicada. Eu,
claramente, não posso colocar algo muito diferente do que o apóstolo Paulo já colocou,
porque a minha função como pastor é expor a Palavra e ela está dizendo o que deve ser
feito.
Primeiramente, se você prejudicou algum irmão em Cristo em algum negócio,
sociedade, herança, empréstimo, enfim, alguma coisa, confesse, admita e procure fazer um
acordo para acertar. Acordo sempre é possível. Peça a Deus que ele dê a você forças para
resolver esse problema. Certamente, se houver disposição e vontade, Deus te ajudará se
realmente você estiver disposto a cumprir a Palavra dele e saudar o débito que você
contraiu.
Segundo, se você se sente prejudicado, lesado ou fraudado por um irmão em Cristo,
procure acordo dentro do que é possível. Se necessário, recorra à liderança da igreja. Há
homens sábios e experientes na igreja, os quais já passaram por muitas situações e que,
por isso, conhecem mecanismos e formas de solucionar o problema. Pode ser que talvez
tenham uma palavra de reconciliação para ajudá-lo.
Esteja disposto a sofrer prejuízo se não houver acordo. Em alguns casos, para não
deixar a pessoa que está sofrendo com senso de injustiça, medidas são tomadas. Eu
conheço um caso, entre tantos semelhantes – e eu não estou sugerindo que esse seja o
caminho –, em que havia uma querela entre irmãos. O que havia, de fato, prejudicado o
outro não queria se arrepender e resolver o assunto, acusando, ainda por cima, a parte
ofendida. Esta, por sua vez, trouxe o assunto diante da liderança da igreja, que se reuniu
para procurar resolver a situação, e isso por duas vezes, mas aquele que prejudicou
permaneceu irredutível. Diante disso, a igreja não teve outra opção a não ser considerá-lo
gentil e publicano. Ele foi excluído da igreja pela dureza de coração. Uma vez excluído da
igreja, ele passou a ser considerado como descrente e, então, o prejudicado poderia entrar
na justiça contra ele, porque não estaria mais entrando contra um irmão. Todavia, note que
ele esperou o julgamento da igreja, por assim dizer, ou a ajuda da igreja para chegar a essa
situação.
O ponto central é que temos que amar Deus mais do que amamos os nossos bens.
A última parte eu quero dirigir aos jovens, muitos deles sonhadores, com planos,
muitos estudando, cursando uma universidade, com planos de seguir uma carreira, casar e
ter uma família, comprar um apartamento etc. Eu não quero que vocês pensem que não
devem fazer estas coisas que elenquei. É bom planejar, sonhar. Mas é bom que vocês
aprendam desde cedo o poder que o dinheiro tem de manipular as suas vidas, mudar seus
julgamentos, indispô-los, acabar com seus relacionamentos, casamentos, enfim, com suas
vidas com Deus. O dinheiro tem poder. Basta ler os Evangelhos, e vocês verão que Jesus
falou muito mais sobre o dinheiro do que sobre o amor, exatamente pelo poder que ele tem
de nos destruir.
Queira Deus, querido, dar-nos amor por ele, pelo Evangelho, pela igreja. Que ele
abençoe aqueles que, de alguma forma, estão envolvidos com esses problemas. Que essa
Palavra possa ajudá-lo e abençoá-lo. É esse o desejo do meu coração.
Oração
Deus, eu quero pedir que o Espírito Santo aplique esta Palavra aos corações que a lerem. Que relacionamentos sejam
curados, dívidas sejam pagas, situações sejam resolvidas, que amigos e irmãos que não se falam mais possam se
reconciliar e se reaproximar, casamentos desfeitos por conta de dinheiro possam ser reatados.
Pedimos tua graça, tua misericórdia e teu perdão. Ajuda-nos a empregar o dinheiro de maneira sábia e
construtiva.
Eu oro pelos que estão passando necessidades. Deus, que nós possamos ajudar da maneira correta.
Abençoa-nos em nome de Jesus.
Amém!

11
Sermão pregado em 12 de outubro de 2014.
EPÍLOGO
O autor de Hebreus, no capítulo 12, versículos 1 e 2, diz que somos rodeados por uma
grande nuvem de testemunhas e faz uma convocação para que deixemos o “pecado que
tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta,
olhando para Jesus, autor e consumador da fé”.
É interessante pensar que ele se refere a uma grande nuvem de TESTEMUNHAS. Isso
significa que todos os personagens citados no capítulo anterior viram o agir de Deus de
forma concreta em suas vidas. Eles não entregaram suas vidas a uma simples teoria ou a
uma filosofia na qual acreditavam muito. Eles experimentaram a presença divina de forma
efetiva, sentiram fortemente a providência sobre suas vidas e se entregaram por amor
àquele que nos sustenta.
O autor de Hebreus segue dizendo: já que temos tantas testemunhas do agir de Deus,
sejamos nós também enfileirados entre os que persistem e vão até o fim na carreira
proposta. Não porque somos fortes, mas porque também podemos experimentar o agir do
Espírito Santo em nós para nos ensinar a lutar, para nos fazer santos e nos dar força para
lutar contra o pecado.
Enfim, é exatamente disto que precisamos: o Espírito Santo a nos guiar na corrida que é
direcionada contra o fluxo do mundo. Ao terminar de ler este livro, lembre-se que o
desafio posto a você não é de conhecimento, de domínio do conteúdo teológico, de
capacidade argumentativa. Ao terminar este livro, sinta-se revigorado a seguir o chamado
de ser testemunha do poder do Espírito Santo em sua vida.
Deus te abençoe e te ajude a ir contra o fluxo, em fidelidade a Jesus Cristo.
O ministério Bibotalk está há mais de seis anos difundindo conhecimento teológico na
Internet. São mais de 200 programas falando desse rico universo. Por meio de nosso
podcast, milhares de pessoas têm se despertado para o estudo da Bíblia e da teologia. A
cada episódio postado, temos aquela sensação boa, uma certeza celestial de que estamos
glorificando a Deus e edificando a sua igreja.
Já entrevistamos grandes teólogos do nosso país como Augustus Nicodemus, Franklin
Ferreira e Jonas Madureira, para citar alguns.
Acesse nosso site e descubra mais uma ferramenta para você aprender mais sobre Deus e
sua obra no mundo!
www.bibotalk.com
Gostou deste livro? Pois é.
A Box95 é um clube de assinatura de livros cristãos reformados que tem como missão
difundir boa literatura teológica e proporcionar uma experiência única para cada
associado. Em menos de um ano de clube, sentimos que já estamos contribuindo
sobremaneira com o aumento do interesse por boa teologia e queremos continuar
crescendo e aperfeiçoando nossos serviços para contribuir ainda mais na pregação do
Evangelho.
Temos vários outros lançamentos planejados tão bons quanto este. Aguarde!
Além da assinatura, nós também temos uma loja virtual onde disponibilizamos a
possibilidade de aquisição de caixas avulsas e outros itens legais. Acesse e confira!
www.box95.com.br